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Para compreender SAUSSURE Castelar de Carvalho 9ª Edição Reformulada EDITORA VOZES O trabalho tem finalidades didáticas e destinase aos cursos dos cursos superior de Português e Comunicação A estrutura em é clara rigorosa lógica concisa e extensa do Curso de Linguística Geral nas suas linhas essenciais continua válida Em primeiro vez que em língua portuguesa se fez uma representação sistemática e coerente dos únicos princípios morfológicos da linguística saussuriana Prof Silvio Elia EDITORA VOZES Uma vida pelo bom livro wwwvozescombr ISBN 8532617840 Castelar de Carvalho Para compreender SAUSSURE Fundamentos e visão crítica 9ª edição reformulada EDIDORA VOZES Petropolis 2000 Gilmar Janeiro 3199131 94110277 In memoriam Prof Silvio Elia Gilmar Henrique 2000 Editora Vozes Ltda Rua Frei Luís 100 25689900 Petropolis RJ Internet httpwwwvozescombr Brasil Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma eou qualquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocopia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora ISBN 8532617840 Este livro foi impresso pela Editora Vozes Ltda No text detected SUMÁRIO Apresentação 9 Advertência da 1ª edição 11 Advertência da 2ª edição 12 Advertência da 3ª edição 13 Advertência da 9ª edição 14 I A Linguística PréSaussuriana 15 II A Linguística Saussuriana 21 A Teoria do Signo Linguístico 26 LínguaFala 49 SincroniaDiacronia 70 Relações Sintagmáticas e Paradigmáticas 86 A Noção de Valor 103 III Repercussões das Idéias de Saussure 113 Apêndice A Glossemática 127 Louis Hjelmslev 18991965 145 Bibliografia 146 Índice 149 APRESENTAÇÃO Os estudos saussurianos continuam na ordem do dia Podese até dizer que o livro póstumo de 1916 o tão famoso Cours de Linguistique Générale com o correr do tempo renova a sua atualidade O surto do movimento estruturalista data por exemplo da década de 30 retardado senão interrompido pelo desencadearse da Segunda Grande Guerra e no entanto as suas bases teóricas já estavam solidamente fincadas com os ensinamentos do mestre genebrino Do Cours deverseá falar como de uma obra aberta tais as perspectivas que oferece a quem costuma relêlo com visão reflexiva Facilmente então se imagina que outros caminhos iriam surgir e que se poderiam aprofundar os antigos depois que às páginas lúcida e escrupulosamente redigidas por Bally e Sechehaye foram acrescentados novos materiais da lavra do próprio Saussure Tal o que se deu em 1957 quando Godel publicou as Sources Manuscrites du Cours de Linguistique Générale Não creio que se possa afirmar que se tenha iniciado então um processo revisionista da doutrina delineada no Cours mas sem dúvida os manuscritos contribuíram para aclarar certos aspectos do pensamento lingüístico de Saussure insuficientemente ou obscuramente expostos nesse grande livro Também os Cahiers Ferdinand de Saussure têm trazido novos elementos para melhor compreensão da lingüística saussuriana como se deu com as Notas Inéditas publicadas pelo mesmo Godel ou com as cartas de Saussure a Meillet tornadas conhecidas por intervenção de Benveniste Em 1967 aparece em Bari a tradução italiana do Cours comentada por Tullio De Mauro Corso di Linguistica Generale há uma 3ª edição revista de 1970 Esse livro uma análise clarividente da obra de Saussure tornouse indispensável Tanto na Introdução como nos Comentários Tullio De Mauro procura atingir a coerência profunda da doutrina exposta no Cours reflexo infelizmente de um pensamento que não chegou ao seu termo E fálo com mestria inteligência e lucidez Nessa linha de captação das reais e profundas idéias do mestre suíço fundamental é a edição crítica de Rudolf Engler 1968 onde se faz um confronto do texto do CLG com as notas de estudantes que lhe serviram de base Do mesmo Engler é o Lexique de la Terminologie Saussurienne 1968 9 Mas a vitalidade do pensamento saussuriano parece estar sempre renascendo Outros estudos têm aparecido multiplicamse as pesquisas e os ensaios de interpretação Em 1970 sai em Roma da lavra de R Simone uma Introduzione al 2º Corso di Linguistica Generale 19081909 E é de 1975 o livro de René Amacker discípulo de De Mauro intitulado singelamente Linguistique Saussurienne Tratase na verdade de uma tentativa de revisão do CLG com base exatamente no material recolhido após a publicação póstuma do Cours na qual se procura revelar Saussure como um teórico avançado cujos princípios epistemológicos estariam bastante próximos de certos postulados da ciência moderna particularmente no seu aspecto hipotéticodedutivo Embora haja renunciado a apresentar no referido livro a doutrina saussuriana como uma formalização fraca por motivos de ordem prática p 12 Amacker demonstra particular predileção pela interpretação do saussurianismo contida nestas palavras de Saussure em carta de 1911 a ML Gautier Pour le moment la linguistique générale mapparait comme un système de géométrie On aboutit à des théorèmes quil faut démontrer p 14 Tudo isso mostra como sessenta anos depois continua vivo e fecundo o pensamento saussuriano Justificada está pois esta introdução do Prof Castelar de Carvalho ao estudo das basilares dicotomias saussurianas O trabalho tem finalidades didáticas e destinase aos alunos dos nossos cursos superiores de Letras e de Comunicação A linguagem é clara a ordenação lógica a doutrina extraída do CLG nas suas linhas essenciais continua válida É a primeira vez que em língua portuguesa se faz uma apresentação sistemática e coerente dos fundamentos metodológicos da linguística saussuriana Os nossos alunos de Letras geralmente entram em contato com a Linguística logo no primeiro ano de suas atividades universitárias O Curso de Linguística Geral que de início se lhes põe em mãos não é fácil de digerir Essa constatação pesou para que o Prof Castelar de Carvalho se abalancasse a esta introdução O livro portanto ao atingir a finalidade a que visou terá certamente e certeiramente cumprido o seu destino E generoso destino Porque a trajetória fascinante da Linguística moderna começa realmente quando se transpõem as portas iluminadas do Curso de Linguística Geral Por conseguinte os nossos parabéns não só ao Prof Castelar de Carvalho mas igualmente a todos os universitários dos cursos superiores de Letras e de Comunicação do país Rio de Janeiro março de 1976 Silvio Elia Presidente do Círculo Linguístico do Rio de Janeiro ADVERTÊNCIA DA 1ª EDIÇÃO Este trabalho pretende ser um manual de consulta permanente escrito em linguagem simples didática e prática porém sem empobrecimento da objetividade científica inerente a uma obra dessa natureza Especialmente preocupado em aclarar as dúvidas e responder às interrogações de quantos se iniciam nos estudos linguísticos em nossas Faculdades de Letras proporcionalhes ao mesmo tempo uma visão crítica sobre os pontos fundamentais da nossa ciência Nosso livrinho não inova em nada nem se arroga tal finalidade Sua originalidade se alguma existe consiste a nosso ver no tratamento sistematizante e eminentemente pedagógico que dispensamos a assuntos tão fugidios a alunos ainda não iniciados nas lides da ciência linguística A experiência da sala de aula esse insubstituível laboratório de Didática em vários anos de contato direto com as turmas feznos sentir a falta de uma obra que destrinçasse a teoria revolucionária exposta no Curso onde nem sempre ela se apresenta suficientemente clara e a reunisse em um compêndio único sintetizador É que a doutrina de Saussure teve repercussões extraordinárias imprevisíveis à época da primeira edição do Curso de Linguística Geral 1916 carreando para seu autor a consagração póstuma e o reconhecimento do meio universitário que hoje o considera sem favor o fundador da Linguística científica Por essa razão rica e díspar é a bibliografia sobre o assunto Rica e geralmente complexa nem sempre especificamente voltada para aquele aluno recémsaído do vestibular que jamais ouvira falar de Saussure e o mais grave não familiarizado com uma linguagem de natureza técnicocientífica É nesse sentido que pretendemos estar oferecendo uma modesta contribuição aos alunos de Letras aos estudiosos em geral e mesmo aos já iniciados e experientes colegas de magistério Destes esperamos que nos honrem com sua leitura e nos enriqueçam o saber com suas críticas Desde já nossos agradecimentos em especial ao Professor Silvio Elia incentivador e mestre cujas lições tivemos o privilégio de haurir Rio de Janeiro fevereiro de 1976 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 2ª EDIÇÃO Mais do que antes continua válida a advertência feita quando da 1ª edição O espírito da obra não mudou Na verdade consolidouse e enriqueceuse do que dá testemunho o esgotamento da edição anterior O presente volume além da revisão de praxe tem a mais uma breve notícia sobre as Escolas Estruturalistas um número relativamente grande de exercícios objetivos sobre cada unidade e um apêndice especial sobre a Glossemática Tratamola separada e detidamente pela magnitude de sua importância dentro da Linguística saussuriana Reiteramos nossos agradecimentos ao Professor Sílvio Elia paciente revisor crítico assim como aos alunos e aos colegas pela acolhida carinhosa dada a este trabalho Rio julho de 1979 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 3ª EDIÇÃO No presente volume procuramos enriquecer a noção de forma e os capítulos consagrados às dicotomias sintagmaparadigma e sincroniadiacronia Acrescentamos também algumas achegas à parte que trata da arbitrariedade do signo lingüístico No mais esta 3a edição conserva em espírito e em conteúdo a orientação dada às edições anteriores É com grande prazer que registramos mais uma vez nossos agradecimentos ao mestre e amigo Prof Silvio Elia por suas valiosas e perspicazes observações críticas Agradecemos igualmente aos alunos e aos colegas pela acolhida carinhosa que têm dado a este trabalho Rio janeiro de 1982 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 9ª EDIÇÃO A presente edição conserva o espírito e o conteúdo das anteriores em respeito ao público leitor que nos tem honrado com sua atenção nos vinte e quatro anos de sucessivas reedições deste livro Fizemos apenas a correção de gralhas tipográficas atualizamos e acrescentamos informações e incluímos algumas achegas relativas à Lingüística Textual Nesta oportunidade reverenciamos a memória do querido e saudoso mestre Prof Silvio Elia falecido em novembro de 1998 Suas imorredouras lições de vida e de saber lingüístico continuam a orientar a trajetória desta obra Agradecemos mais uma vez aos alunos e professores pela acolhida carinhosa que têm dispensado ao nosso trabalho Um agradecimento especial a Pedro e Mariza pela inestimável ajuda prestada no preparo desta edição Rio fevereiro de 2000 Castelar de Carvalho I A LINGÜÍSTICA PRÉSAUSSURIANA Gilmar Henrique de Silva Visão Geral da Lingüística antes de Saussure A Lingüística definida hoje como o estudo científico da linguagem humana é como diz Mounin 1972 25 um saber muito antigo e uma ciência muito jovem O Prof Mattoso Camara Jr em seu Dicionário de lingüística e gramática a define como o estudo científico e desinteressado dos fenômenos lingüísticos Mas nem sempre um estudo científico e muito menos desinteressado caracterizou sua trajetória secular Na verdade a Lingüística só foi adquirir status de ciência a partir do século XIX Até então o que havia era o estudo assistemático e irregular dos fatos da linguagem de caráter puramente normativo ou prescritivo ou ainda retrocedendo à Antigüidade grega especulações filosóficas sobre a origem da linguagem mescladas com estudos de Filologia Até chegar a delimitarse e definirse a si própria a Lingüística passou por três fases sucessivas 1a Fase Filosófica Os gregos foram os precursores com suas profundas reflexões em torno da origem da linguagem Seus estudos calcados na Filosofia abrangeram a Etimologia a Semântica a Retórica a Morfologia a Fonologia a Filologia e a Sintaxe Baseavamse na Lógica analogistas ou no uso corrente anomalistas Tinham de início finalidades eminentemente práticas era uma Gramática voltada para a práxis para a ação o fazer Dionísio da Trácia séc I aC a chamou de Tékhné Grammatiké expressão traduzida mais tarde pelos romanos como Ars Grammatica Desse modo a Gramática surgiu no Ocidente como arte de ler e escrever como disciplina normativa que por seu comprometimento filosófico estava desprovida de uma visão científica e desinteressada da língua em si mesma Dominada doutrinariamente pela corrente dos analogistas aristotélica ou pela dos anomalistas estóicos a Gramática grega será reproduzida pelos romanos que numa tentativa de conciliar aquelas duas posições fazem nascer a Gramática das regras e das exceções A influência grega se fez sentir durante muitos séculos Marcando toda a Idade Média chegou a motivar na França em 1660 a elaboração de uma Gramática 17 geral a famosa Grammaire de PortRoyal de base puramente lógica coincidindo com a fase do Racionalismo O mérito dos estudiosos gregos é imenso nesse sentido pelo seu caráter precursor Na verdade as raízes do pensamento linguístico ocidental mergulham profundamente na Grécia Antiga 2a Fase Filológica A Filologia se constitui numa segunda fase dos estudos linguísticos Surgida em Alexandria por volta do século II aC batiase pela autonomia dos referidos estudos Os alexandrinos queriamnos mais filológicos e menos filosóficos Definindose historicamente como o estudo da elucidação de textos a Filologia dos alexandrinos de preocupação marcadamente gramatical dedicouse à Morfologia à Sintaxe e à Fonética Tendo influenciado bastante a Idade Média os estudos filológicos encontraram mais tarde em Friedrich August Wolf um de seus maiores divulgadores A partir do final do século XVIII a escola alemã de Wolf veio estendendo consideravelmente o campo e o âmbito da Filologia Além de interpretar e comentar os textos a Filologia procura também estudar os costumes as instituições e a história literária de um povo Entretanto seu ponto de vista crítico tornase limitado pelo fato de ela aterse demasiadamente à língua escrita deixando de lado a língua falada Contudo é forçoso reconhecer que as pesquisas filológicas serviram de base para o surgimento e a consolidação da Lingüística históricocomparatista 3a fase Históricocomparatista A terceira fase da história da Lingüística começa com a descoberta do sânscrito entre 1786 e 1816 mostrando as relações de parentesco genético do latim do grego das línguas germânicas eslavas e célticas com aquela antiga língua da Índia A preocupação diacrônica em saber como as línguas evoluem e não como funcionam é que vai marcar toda essa fase Franz Bopp 17911867 o que melhor aproveitou o conhecimento do sânscrito é considerado o fundador da Lingüística Comparatista Seu livro Sobre o sistema de conjugação do sânscrito de 1816 abriu então novas perspectivas lingüísticas Para Bopp a fonte comum das flexões verbais do latim do grego do persa e do germânico era o sânscrito Para ele o sânscrito era o idioma que mais se aproximava por sua estrutura morfológica de uma espécie de protolíngua indoeuropéia Apesar de não ter sido o descobridor do sânscrito é para Bopp que converge o mérito de haver sido o primeiro a realizar o estudo sistemático de línguas afins como matéria de uma ciência autônoma Ao lado do nome de Bopp citamse também como pioneiros da Lingüística históricocientífica o dinamarquês Rasmus Rask 17871832 e o alemão Jacob Grimm 17851863 Rasmus Rask escreveu um trabalho sobre a origem do velho 18 nórdico 1818 Rask mostra aí os pontos de contato entre as principais línguas indoeuropécias e as línguas nórdicas Jacob Grimm foi o primeiro a escrever uma gramática comparada das línguas germânicas a Deutsche Grammatik publicada em 1819 Grimm é considerado o pai do que mais tarde se chamariam leis fonéticas Os termos metafonia Umlaut e apofonia Ablaut são criações de Grimm Com o desenvolvimento da Filologia Comparada a Lingüística indoeuropéia experimentou extraordinário impulso A tendência dessa fase inicial da Lingüística Comparatista era identificarse com as ciências da natureza consoante o espírito da segunda metade do século XIX Essa tendência deu às primeiras idéias lingüísticas desse século um enfoque naturalista a princípio de base biológica o biologismo lingüístico as línguas nascem crescem e morrem como os organismos biológicos e a seguir de base física leis da Lingüística se aproximam das leis físicas leis fonéticas Neste caso salientouse o papel dos neogramáticos pelo excessivo esquematismo que deram às suas postulações A Lingüística Histórica ainda se prolonga por mais algumas décadas desdobrandose em um segundo momento numa reação aos neogramáticos caracterizada como fase culturalista 18901930 O culturalismo lingüístico combatia o naturalismo então reinante era a oposição culturalnatura Os estudiosos dessa fase afirmavam não haver correspondência entre as chamadas leis fonéticas e as leis da natureza As leis fonéticas são cronológicas e circunstanciais têm validade apenas para um determinado período histórico sofrem limitação espacial e só se manifestam em condições particulares As leis naturais ao contrário são atemporais e o mais importante universais Ora se as leis fonéticas fossem de fato leis naturais argumentavam os culturalistas o latim teria resultado numa única língua na França na Itália na Espanha em Portugal e nos demais domínios do Império Romano Portanto para o culturalismo lingüístico não existem leis fonéticas no sentido fisicalista Há isto sim circunstâncias históricoculturais que condicionam as alterações fonéticas Segundo o pensamento culturalista as línguas não existem por si mesmas São instrumentos culturais condicionados por fatores sociais históricos geográficos psicológicos e por isso mesmo de previsibilidade relativa e comportamento inconstante justamente o oposto do que acontece no campo das ciências naturais Em síntese podemos esquematizar o quadro dos estudos lingüísticos no século XIX e parte do séc XX da seguinte maneira fase naturalista 18101890 preocupação com a história interna da língua fase culturalista 18901930 preocupação com fatores externos condicionadores da língua históricoculturais Blank page II A LINGUÍSTICA SAUSSURIANA Ferdinand de Saussure 18571913 Formação e obras À época em que Saussure recebeu sua formação acadêmica o Comparativismo indoeuropeu dominava os estudos lingüísticos Fase decisiva e cujos êxitos marcantes sobre pontos importantes e essenciais da nossa ciência se constituíram no principal legado do século XIX ao século XX Saussure não poderia ficar imune a essa atmosfera científica e dela participou brilhantemente Tendo vivido em Leipzig e Berlim de 1876 a 1878 aí manteve contato com os expoentes da Lingüística Comparatista de então dos quais recebeu sólido embasamento e decisiva influência Assim é que mais tarde durante os onze anos 18801891 em que foi diretor da École Pratique des Hautes Études em Paris passaram pelas suas mãos os mais importantes comparatistas franceses que dele receberam formação influência e continuidade É de 1879 a publicação da Mémoire sur le primitif système des voyelles dans les langues indoeuropéenes Apesar da orientação atomística própria da corrente neogramática Saussure inova em sua Mémoire situando o problema da reconstituição fonética do indoeuropeu sob uma perspectiva sistemática Sua tese de doutoramento um ano mais tarde intitulavase De lemploi du génitif absolu en sanskrit Além de artigos de Gramática comparada infelizmente nada mais nos legou em vida o genial mestre genebrino Seu Cours de linguistique générale CLG como sabemos resultou da compilação por dois discípulos seus dos três cursos de Lingüística Geral que ministrara de 1906 a 1911 na Universidade de Genebra onde era titular desde 1896 Esses dois alunos foram Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de outro discípulo Albert Riedlinger Tratase portanto de obra póstuma e inacabada calcada em anotações colhidas em aula por seus alunos e como tal explicamse as possíveis obscuridades e contradições das idéias de Saussure Nela se reconhecem fórmulas de aspecto por vezes paradoxal onde salta aos olhos o estilo de ensino oral Apesar desse fato as idéias motrizes de sua obra póstuma por oposição ao método históricocomparatista dominante até então vieram revolucionar completamente o pensamento lingüístico ocidental Na verdade Saussure foi um espírito mais projetado para o século XX do que voltado para o século XIX como sóia acontecer com os intelectuais de seu tempo 23 Hoje mais de meio século depois de seu desaparecimento Saussure é estudado com o respeito o cuidado e a atenção que merecem os gênios Todos quantos se aprofundam na pesquisa de suas postulações adquirem consciência da importância do Cours para a Lingüística moderna e passam a compreender por que Saussure é considerado um divisor de águas no estudo científico da linguagem A Doutrina de Saussure O grande mérito de Saussure está antes de tudo no seu caráter metodológico um prolongamento da sua personalidade perfeccionista Era preciso em primeiro lugar pôr ordem nos estudos lingüísticos Para poder criar e postular suas teorias com perfeição científica impunhaselhe antes um trabalho metodológico preliminar Os lingüistas até então tratavam de coisas diferentes com nomes iguais e viceversa A ausência de uma terminologia adequada precisa objetiva de alcance universal e sabemos desde os gregos que só há ciência do universal instrumento de trabalho imprescindível a qualquer ciência digna do nome tolhiálhes a expressão das idéias Por exemplo o termo lingua tinha para alguns lingüistas um determinado sentido para outros já adquiria conotação totalmente diversa A Lingüística ressentiase de uma linguagem equívoca verdadeira colcha de retalhos terminológica e Saussure necessitava de uma linguagem unívoca de um padrão lingüístico de uma metalinguagem isto é de uma nova linguagem para expressar suas elucubrações Sua primeira tarefa portanto foi limpar o terreno para poder depois trabalhar A Lingüística escreveu ele jamais se preocupou em determinar a natureza do seu objeto de estudo Ora sem essa operação elementar uma ciência é incapaz de estabelecer um método para si própria CLG 10 O esquema abaixo dá a idéia exata do que segundo Saussure é a forma racional que deve assumir o estudo lingüístico p 1154 linguagem língua fala sincronía relações associativas paradigmáticas relações sintagmáticas diacronia 24 Além disso inova também com sua famosa e polêmica Teoria do Signo Linguístico signo significante significado princípios do signo arbitrariedade linearidade A TEORIA DO SIGNO LINGÜÍSTICO Signo significado significante Introdução Tipos de Sinais Saussure considera a língua como um sistema de signos formados pela união do sentido e da imagem acústica Tentemos agora aprofundar essa noção formulada pelo mestre genebrino Comecemos antes esclarecendo sinteticamente alguns pontos básicos vestibulares à teoria do signo A Semiologia ou Semiótica distingue dois tipos de sinais os naturais e os convencionais O sinal natural manifestase em forma de indício físico como a fumaça a trovoada nuvens negras rastros o som o cheiro a luz etc ou em forma de sintoma fisiológico a pulsação a contração a dor a febre a fome o suor o espasmo etc O sinal convencional envolve maior complexidade e pressupõe a existência de uma cultura antropologicamente falando já estabelecida da qual ele é resultado e expressão produto e instrumento a um só tempo Pode apresentarse em forma de ícone símbolo ou signo O ícone do grego eikôn imagem é imagístico por exemplo uma foto uma estatueta um desenho de alguém ou de algum lugar e caracterizase também por ser nãoarbitrário v princípio da arbitrariedade o signo totalmente arbitrário é a própria palavra enquanto que o símbolo semiarbitrário é um tipo intermediário entre o ícone e o signo por 1 A Semiologia ou Semiótica difere da Lingüística por sua maior abrangência enquanto a Lingüística é o estudo científico da linguagem humana a Semiologia preocupase não apenas com a linguagem humana e verbal mas também com a linguagem dos animais e de todo e qualquer sistema de comunicação seja ele natural ou convencional Desse modo a Lingüística inserese como uma parte da Semiologia Semiologia e Semiótica são termos permutáveis A primeira surgiu na Europa com Saussure e a segunda nos Estados Unidos com o filósofo Charles Sanders Peirce 2 Além da concepção saussuriana signo palavra com que é empregado neste trabalho o termo signo comporta um sentido mais amplo Neste caso os signos seriam não só as palavras mas também os gestos as imagens os sons não estritamente linguísticos como o apito de um trem o repicar de um sino as batidas do telégrafo o tilintar de uma campainha Compreendese assim a definição de Peirce 1975 94 O signo ou seu representamem é algo que sob certo aspecto ou de algum modo representa alguma coisa para alguém 26 exemplo a balança é o símbolo da Justiça a espada símbolo do Exército a cruz simboliza o Cristianismo uma vez que seu fundador nela morreu etc Por que Signo e não Símbolo Voltando ao CLG p 82 convém lembrar antes de mais nada por que Saussure preferiu adotar o termo signe signo Utilizouse a palavra símbolo para designar o signo lingüístico ou mais exatamente o que chamamos de significante Há inconveniente em admitilo justamente por causa do nosso primeiro princípio o da arbitrariedade do signo O símbolo tem como característica não ser jamais completamente arbitrário ele não está vazio existe um rudimento de vínculo natural entre o significante e o significado O símbolo da justiça a balança não poderia ser substituído por um objeto qualquer um carro por exemplo A Natureza do Signo Retomando a definição inicial do signo como a união do sentido e da imagem acústica verificamos que o que Saussure chama de sentido é a mesma coisa que conceito ou idéia isto é a representação mental de um objeto ou da realidade social em que nos situamos representação essa condicionada plasmada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço Em outras palavras para Saussure conceito é sinônimo de significado algo como a parte espiritual da palavra sua contrapartee inteligível em oposição ao significante que é sua parte sensível Por outro lado a imagem acústica não é o som material coisa puramente física mas a impressão psíquica desse som CLG 80 Melhor dizendo a imagem acústica é o significante Com isso temos que o signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces CLG 80 semelhante a uma moeda e que Saussure representou pela seguinte figura conceito imagem acústica 3 Mais tarde Jacobson e a Escola Fonológica de Praga irão estabelecer definitivamente a distinção entre som material e imagem acústica Ao primeiro designaram de fone objeto de estudo da Fonética À imagem acústica denominaram de fonema conceito amplamente aceito e consagrado hoje na Fonologia 27 Os dois elementos significante e significado que constituem o signo estão intimamente unidos e um reclama o outro CLG 80 São interdependentes e inseparáveis Exemplificando diríamos que quando um falante de português recebe a impressão psíquica que lhe é transmitida pela imagem acústica ou significante kaza graças à qual se manifesta fonicamente o signo casa essa imagem acústica de imediato evocalhe psiquicamente a idéia de abrigo de lugar para viver estudar fazer suas refeições descansar etc Figurativamente diríamos que o falante associa o significante kaza ao significado domus tomandose o termo latino como ponto de referência para o conceito Fazendo uso da figura de Saussure teríamos neste caso casa domus kaza Podemos designar portanto o significante como a parte perceptível do signo e o significado como sua contraparte inteligível4 É importante advertir a esta altura que o signo une sempre um significante a um conceito a uma idéia a uma evocação psíquica e não a uma coisa pois segundo R Barthes 1972 46 o significado não é uma coisa mas uma representação psíquica da coisa O próprio Saussure teve o cuidado de chamar a atenção para o perigo de se supor que o signo une um objeto a um nome a um rótulo O lingüista deve ter sempre em mente que os termos implicados no signo lingüístico são ambos psíquicos e estão unidos em nosso cérebro por um vínculo de associação CLG 80 Desse modo o signo lingüístico resulta ser o produto concreto da união significante significado e nesse sentido Émile Benveniste 1971 142 sintetiza com feliz propriedade o pensamento de Saussure El significante y el significado la representación mental y la imagen acústica son por lo tanto las dos caras de una misma 4 Confrontase a propósito com o ponto de vista dos Estóicos os que mais aprofundaram os estudos lingüísticos na Grécia Antiga segundo os quais o sémeion signo era constituído pela relação existente entre o sémainon significante e o sémainomenon significado A posição de Saussure é uma salutar retomada de uma concepção de uma terminologia que já eram boas no século II aC o que vem corroborar o que afirmamos no início deste trabalho as raízes do pensamento lingüístico ocidental mergulham profundamente na Grécia Antiga 28 noción y se integran a título de incorporante e incorporado El signficante es la traducción fónica de un concepto el significado el correlato mental del significante Esta consustancialidad del significante y el significado asegura la unidad estructural del signo lingüístico Ao incluir o significado na formulação do signo lingüístico Saussure demonstrou ter consciência plena de que não podem existir conceitos ou representações sem a respectiva denominação correspondente e com isso lançou as bases da Semântica moderna Uma Crítica à Teoria do Signo Do mesmo modo que outras postulações saussurianas também esta tem sido alvo da crítica de alguns lingüistas contemporâneos A mais importante delas referese ao fato de Saussure em virtude de encarar o signo como uma entidade bifacial não ter incluído um terceiro termo a coisa significada na sua teoria No caso seu esquema seria corrigido ou completado segundo seus contraditores se se adotasse em substituição o famoso triângulo de Ogden e Richards que vêem o signo constituído por uma relação triádica da seguinte maneira pensamento ou referência símbolo referente ou coisa Como podemos verificar o triângulo inclui o referente ou coisa significada embora ressaltando por meio da linha pontilhada da base que não existe nenhum vínculo direto entre a coisa e o símbolo o que o leva por outro caminho à relação bipolar e de natureza psíquica formulada por Saussure 29 Numa adaptação ao esquema saussuriano teríamos o seguinte sdo domus OU ste coisa kaza De qualquer forma a crítica é pertinente pois o triângulo de Ogden e Richards reintroduz a coisa significada melhor dizendo a realidade sociocultural a qual quer seja considerada extralingüisticamente ou não não pode ser deixada de lado pela Semântica Princípios do Signo arbitrariedade linearidade A Arbitrariedade do Signo Lingüístico Como a soma do significante mais significado resulta num total denominado signo temos que o signo lingüístico é arbitrário CLG 81 Mas o que quer dizer Saussure com arbitrário Para ele arbitrário não deve dar a idéia de que o significado dependa da livre escolha do que fala porque não está ao alcance do indivíduo trocar coisa alguma num signo uma vez esteja ele estabelecido num grupo lingüístico queremos dizer que o significante é imotivado isto é arbitrário em relação ao significado com o qual não tem nenhum laço natural na realidade CLG 83 grifo nosso Desse modo compreendemos por que Saussure afirma que a idéia ou conceito ou significado de mar não tem nenhuma relação necessária e interior com a 30 sequência de sons ou imagem acústica ou significante mar Em outras palavras o significado mar poderia ser representado perfeitamente por qualquer outro significante E Saussure argumenta para provar seu ponto de vista com as diferenças entre as línguas Tanto assim que a idéia de mar é representada em inglês pelo significante si e em francês por mér Nesse sentido alega o autor do CLG p 82 que o significado da palavra francesa bœuf boi tem por significante böf de um lado da fronteira francogermânica e oks Ochs do outro O que pretendia Saussure é que digamos assim não existe o significante verdadeiro Qualquer um é válido No entanto apesar de se tratar do óbvio que a relação entre os dois constituintes do signo seja arbitrária esta tem sido a mais discutida e criticada postulação saussuriana reacendendo a famosa e milenar polêmica existente entre os antigos filósofos gregos os quais se preocupavam em saber se o laço entre significante e significado era natural ou produto da convenção humana a célebre discussão em torno da THÉSEI relação convencional e PHYSÉI relação natural Críticas ao Princípio da Arbitrariedade Alguns dos críticos de Saussure objetaram entre outras coisas que o signo na sua totalidade não é tão arbitrário como pretendia o mestre porque uma das suas duas faces o significante não poderia combinarse arbitrariamente com a sua segunda face o significado correspondente em outra língua Por exemplo o inglês titʃə teacher não poderia jamais tornarse o significante do significado português professor se é que é possível representarse visualmente um significado porque titʃə é parte inseparável e necessária assim pensam esses críticos de um signo cujo significado não é em todos os sentidos e nuances igual à idéia que nós falantes de português fazemos de professor Um outro crítico Émile Benveniste 1971141 chega inclusive a corrigir o mestre ao pretender que el nexo que une a ambos ste e sdo no es arbitrario es necesario El concepto significado buey es por fuerza idéntico en mi conciencia al conjunto fónico significante bwéi Cómo iba a ser de otra manera Uno y otro juntos se han impreso en mi mente y juntos se evocan en toda circunstancia 5 Em nossa língua tanto o indivíduo que ensina a fazer bolos sem desfazer nos mestrescucas como o que leciona em um colégio ou em uma Universidade do mais elevado gabarito é conhecido como professor em inglês teacher é reservado apenas para o professor de 1º e 2º graus enquanto que professor distingue o professor universitário 31 Ora somos levados a crer que os críticos do mestre de Genebra demonstram não terem aprendido o pensamento saussuriano em toda sua profundidade e coerência Saussure postulava isto sim que o signo como um todo só tem valor situado dentro de um determinado sistema lingüístico do qual é parte integrante E como que prevendo a posteridade crítica adverte CLG 132 que é uma grande ilusão considerar um termo simplesmente como a união de certo som com um certo conceito Definilo o valor linguístico do signo assim seria isolálo do sistema do qual faz parte E comprovando sua argumentação exemplifica p 134 O português carneiro na adaptação da tradução brasileira ou o francês mouton podem ter a mesma significação que o inglês sheep mas não o mesmo valor isso por várias razões em particular porque ao falar de uma porção de carne preparada e servida à mesa o inglês diz mutton e não sheep A diferença de valor entre sheep e mouton ou carneiro se deve a que o primeiro tem a seu lado um segundo termo o que não ocorre com a palavra portuguesa ou francesa cf com nosso ex ingl teacherprofessor e port professor Além do que foi exposto acima é muito importante lembrar que para Saussure a arbitrariedade do signo e nisso insistimos repousa no fato de que o falante não pode mudar aquilo que o seu grupo linguístico já consagrou Não poderíamos jamais chamar mesa de livro e viceversa Ele sentouse ao livro para jantar ele está lendo uma mesa sem correr o risco de passarmos por insano Nesse particular aliás a coerência da argumentação saussuriana tornase mesmo incomum CLG 8788 Uma língua constitui um sistema Se esse é o lado pelo qual a língua não é completamente arbitrária e onde impera uma razão relativa é também o ponto onde avulta a incompetência da massa para transformála Dizemos homem e cachorro porque antes de nós se disse homem e cachorro E concluindo p 88 Justamente porque o signo é arbitrário não conhece outra lei senão a da tradição e é por basearse na tradição que pode ser arbitrário 32 Na verdade há dois sentidos para arbitrário a o significante em relação ao significado livro book livre Buch biblion etc significantes diferentes para um mesmo significado b o significado como parcela semântica em oposição à totalidade de um campo semântico ingl teacherprofessor port professor ingl sheepmutton port carneiro Concluise daí como tão bem assinala o Prof Sílvio Elia que A argumentação saussuriana de fato não foi bem entendida por vários de seus críticos No sentido A por exemplo arbitrário significa simplesmente nãomotivado E aqui Saussure tem plena razão No sentido B que não está explícito no CLG o genebrino também é quem está com a razão O exemplo teacherprofessor mostra simplesmente que o corte semântico é arbitrário ao contrário do que pensam acontecer os seus contraditores Comentário em monografia do A A Questão das Onomatopeias e Interjeições O contraditor poderia se apoiar nas onomatopeias para dizer que a escolha do significante nem sempre é arbitrária CLG 83 Esta é outra objeção freqüente da crítica ao princípio da arbitrariedade do signo linguístico mas o próprio Saussure já a anulava por antecipação O problema é que os contraditores consideram as onomatopeias palavras motivadas ao contrário dos outros signos que são imotivados por não guardarem nenhuma relação natural e lógica entre significante e significado porque elas sugerem pela forma fônica uma realidade Por exemplo dizemos que o gato mia mas não podemos dizer que o gato muge a voz do gato não faz lembrar em nada a do boi muge não poderia ser aplicado para descrever o som emitido pelo gato ao passo que mia se aproxima de algum modo do miau de um bichano Porém alerta Saussure tais casos não chegam a constituir elementos orgânicos de um sistema lingüístico CLG 83 pois ocorrem em número mais reduzido do que se supõe e só em raríssimos casos se encontra uma ligação íntima entre significante e significado Do mesmo modo 33 as onomatopéias autênticas aquelas do tipo gluglu tictac etc não apenas são pouco numerosas mas sua escolha é já em certa medida arbitrária pois não passam de imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos comparese o francês ouaoua e o alemão wauwau Além disso uma vez introduzidas na língua elas se engrenam mais ou menos na evolução fonética morfológica etc que sofrem as outras palavras cf pigeon do latim vulgar pipio derivado também de outra onomatopéia prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para adquirir o do signo lingüístico em geral que é imotivado CLG 83 De fato o protótipo natural que motivou o surgimento desta ou daquela onomatopéia parece sugerir a existência de um motivo de um rudimento de vínculo natural entre esta e seu modelo original dando a impressão de que o significante é motivado em relação ao significado isto é nãoarbitrário Mas tal impressão é ilusória Ruídos e sons naturais ao entrarem para um sistema lingüístico através da reprodução aproximada sugerida pelas onomatopéias amoldamse ao material fônico da língua e transformamse numa imitação convencional por isso variam de língua para língua O grasnar de um pato por exemplo dificilmente será reproduzido da mesma maneira em duas línguas diferentes em português quáquá em francês couincouin em dinamarquês raprap em alemão gackgack em romeno macmac em italiano quaqua em russo kriak em inglês quack em catalão mechmech v Serafim S Neto 1938 82 Este é também o pensamento do Prof Mattoso Camara Jr 1978 182 que endossa o que já vimos em Saussure Para ele as onomatopéias são constituídas com os fonemas da língua que pelo efeito acústico dão melhor reimpressão desse ruído Não se trata portanto de imitação fiel e direta do ruído mas da sua interpretação aproximada com os meios que a língua fornece Quanto às interjeições como tal já fazem parte do sistema lingüístico já estão estruturadas convencionalmente dentro de cada língua variando enormemente de uma para outra ai em português aie em francês au em alemão ouch em inglês etc Como diz Saussure p 83 para a maior parte delas podese negar que haja um vínculo necessário entre o significado e o significante E para corroborar estas palavras de Saussure lembremos o exemplo da nossa interjeição aí espécie de cumprimento de saudação que aos ouvidos dos falantes de espanhol soa como o advérbio hoy hoje Concluímos portanto que a questão levantada em torno das onomatopéias e interjeições não abala de modo algum o princípio da arbitrariedade do signo lin güístico6 uma vez que estas são de importância secundária a sua origem simbólica é em parte contestável CLG 84 Arbitrário AbsolutoArbitrário Relativo Apesar de haver postulado que o signo lingüístico é em sua origem arbitrário Saussure não deixa de reconhecer a possibilidade da existência de certos graus de motivação entre significante e significado CLG 152 O princípio fundamental da arbitrariedade do signo não impede distinguir em cada língua o que é radicalmente arbitrário vale dizer imotivado daquilo que só o é relativamente Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária em outras intervêm um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimilo o signo pode ser relativamente motivado grifo no original Em coerência com seu ponto de vista dicotômico Saussure propõe a existência de um arbitrário absoluto e de um arbitrário relativo Como exemplo de arbitrário absoluto o mestre de Genebra cita os números dez e nove tomados individualmente e nos quais a relação entre o significante e o significado seria totalmente arbitrária isto é essa relação não é necessária é imotivada Já na combinação de dez com nove para formar um terceiro signo a dezena dezenove Saussure acha que a arbitrariedade absoluta original dos dois numerais se apresenta relativamente atenuada dando lugar àquilo que ele classificou como arbitrariedade relativa pois do conhecimento da significação das partes podese chegar à significação do todo O mesmo acontece no par perapereira em que pera enquanto palavra primitiva serviria como exemplo de arbitrário absoluto signo imotivado Por sua vez pereira forma derivada de pera seria um caso de arbitrário relativo signo motivado devido à relação sintagmática pera morfema lexical eira morfema sufixal e à relação paradigmática estabelecida a partir da associação de pereira a laranjeira bananeira etc uma vez que é conhecida a significação dos elementos formadores 6 Parecenos que a única possível exceção ao princípio geral da arbitrariedade darseia quando o signo lingüístico é usado literariamente com intenção estética A nosso ver neste caso o signo literário enquanto tal não deve ser considerado como imotivado ao contrário ele é totalmente motivado Fazer literatura implica uma seleção estéticovocabular havendo portanto motivo da parte do escritor para preferir tais e tais signos e rejeitar outros Se alguma arbitrariedade existe no caso ela reside na própria escolha do escritor mas não é a esse tipo de arbitrariedade que nos referimos e sim à do significante em relação ao significado Os signos que forem de fato empregados com intenção estética e unicamente estes ao longo de uma obradearte seja prosa ou poesia terão um motivo para estarem ali impressos isto é eles são motivados Mas alertamos referimonos ao signo literário o que não contradiz de forma alguma nossa posição quanto à arbitrariedade do signo lingüístico em geral Mais adiante Saussure p 154 esclarece que as línguas em que a imotivação atinge o máximo são mais lexicológicas e aquelas em que se reduz ao mínimo mais gramaticais grifos no original Línguas lexicológicas formadas por uma maioria de signos imotivados seriam o inglês e o chinês segundo Saussure Por outro lado como exemplos de línguas gramaticais cita o mestre o caso do latim do sânscrito e do alemão idiomas em que predominam os signos mais ou menos motivados isto é palavras formadas pelo relacionamento morfossintático entre os seus constituintes imediatos Motivação e Arbitrariedade Partindo da dicotomia arbitrário absolutoarbitrário relativo a Lingüística póssaussuriana deu conseqüência ao pensamento infelizmente inacabado do mestre de Genebra Pierre Guiraud por exemplo propõe a existência de dois tipos de motivação a interna e a externa A motivação interna ocorre dentro do próprio sistema lingüístico a partir das possibilidades de relacionamento existentes entre palavras ou entre unidades da língua Tratase portanto das relações internas sintagmáticas e paradigmáticas do sistema responsáveis pelo funcionamento desse mesmo sistema Diz Guiraud 1972 31 A motivação é interna quando tem a sua fonte no interior do sistema lingüístico A relação motivante não está mais aqui entre a coisa significada e a forma significante mas entre a palavra e outras palavras que já existem na língua A motivação interna ou intralingüística é de natureza morfológica e compreende a derivação e a composição Corresponde à arbitrariedade relativa de Saussure A derivação como instrumento de criação de palavras motivadas pode ser a prefixal in feliz b sufixal per eira c prefixal e sufixal in feliz mente d parassintética en tard ec e r e regressiva ou deverbal atraso atrasar A composição pode ocorrer por a justaposição televisão edificiogaragem minissaia b aglutinação planalto plano alto aguardente água ardente Além da derivação e da composição acrescentaríamos outros processos motivadores de natureza morfológica típicos das línguas modernas a saber a abreviação foto fotografia b siglas ONU MEC IBOPE As siglas expediente prático cada vez mais generalizado nas línguas modernas já existe até dicionário de siglas tiveram extraordinária expansão no século XX o século da pressa A necessidade de comunicação social técnica e administrativa cada vez mais direta e concisa fez com que surgissem as siglas as quais uma vez criadas criação motivada pelas letras ou sílabas iniciais das palavras que as compõem e socializadas linguisticamente passam a ser sentidas pela massa falante como verdadeiras palavras novas capazes inclusive de gerar derivados Por exemplo a sigla CLT Consolidação das Leis do Trabalho motivou o curioso neologismo celetista já difundido pela imprensa 51 dos funcionários da União são regidos pela CLT sendo por isso conhecidos como celetistas Revista IstoÉ nº 241 050881 p 66 Com relação à motivação externa ou extralinguística esclarece Guiraud 1972 30 a motivação é externa quando ela repousa sobre uma relação entre a coisa significada e a forma significante fora do sistema linguístico A motivação externa pode ser fonética ou metassêmica Motivação fonética é o caso das onomatopéias palavras etimologicamente motivadas na opinião de Guiraud Embora tendam a se desmotivar com o uso e em consequência a cair no arbitrário as onomatopéias desempenham importante papel na renovação do léxico e na valorização do texto poético vide por exemplo o poema Os Sinos de Manuel Bandeira Motivação metassêmica engloba os casos de transferências semânticas meta transformação sema significado Como exemplos típicos de metassemia podemos citar as metáforas O aluno encontrou a chave do problema as metonímias Gosto de ler Machado de Assis as catacreses pernas da mesa e os casos de conversão de palavras ou mudança de classe gramatical Terrível palavra é um não Confrontando os dois tipos de motivação do signo concluímos que a motivação interna por suas características específicas tornase mais importante para o funcionamento da língua do que a motivação externa A motivação externa é mais fortuita mais limitada realizandose de fora para dentro do sistema linguístico A motivação interna mais geral atua de dentro para fora do sistema oferecendo possibilidades teoricamente ilimitadas de renovação do léxico Para concluir acrescentaríamos o seguinte para Saussure o princípio da arbitrariedade do signo é um fenômeno geral resulta historicamente de uma convenção arbitrário convencional social e é ele que assegura o funcionamento ahistórico do sistema linguístico Para Saussure o signo é imotivado a priori isto é em suas origens ressalva feita unicamente para os casos que ele situou como arbitrariedade relativa estes surgidos a posteriori Pierre Guiraud entretanto considera que o signo nasce sempre motivado para se desmotivar posteriormente a partir do momento em que ele se socializa através do uso pela massa falante Afirma Guiraud 1972 29 Toda palavra é sempre motivada em sua origem e ela conserva tal motivação por maior ou menor tempo segundo os casos até o momento em que acaba por cair no arbitrário quando a motivação deixa de ser percebida Guiraud reconhece portanto o caráter arbitrário do signo linguístico mas o vê instaurarse ao contrário de Saussure a posteriori e não a priori Tentemos ilustrar o ponto de vista do linguista francês com um exemplo em nossa língua o substantivo romaria resultou da relação sintagmática entre Roma e o sufixo aria porque significava historicamente peregrinação a Roma para ver o Papa Um caso portanto de motivação a priori diria Guiraud O uso entretanto desgastoulhe o sentido original e hoje romaria significa qualquer tipo de peregrinação ou de procissão religiosa Quando o falante ouve o signo romaria não passa pela sua cabeça em momento algum a ideia de peregrinação a Roma a menos que venha explicitado romaria ao Vaticano Por exemplo entre nós são muito freqüentes as romarias a Aparecida do Norte em São Paulo O vocábulo romaria a seguirse o raciocínio de Guiraud teria portanto se desmotivado a posteriori assumindo em consequência o caráter arbitrário dos signos linguísticos em geral A Linearidade do Significante Esta segunda característica do signo é tão importante quanto a primeira conforme teremos oportunidade de constatar em Relações Sintagmáticas Aqui ampliaremos a noção deste segundo princípio do signo linguístico a partir daquilo que a Lingüística moderna tem chamado de unidades discretas O princípio da discreção neologismo referente às unidades discretas cf discrição qualidade de ser discreto reservado baseiase no fato de que toda unidade linguística tem valor único sem matizes intermediários como diz Borba 1971 58 Em outras palavras os elementos de um enunciado linguístico são diferentes entre si limitados independentes sem variações Ou pronunciamos faca ou vaca Não existe um meio termo entre f e v que são desse modo unidades discretas isto é separáveis descontínuas É o princípio do tudo ou nada digamos assim que caracteriza em síntese as unidades discretas Martinet 1971a 20 nos esclarece de vez com os exemplos de bata e pata Se um locutor articular mal se houver barulho no ambiente se a situação não me facilitar o papel de ouvinte poderei hesitar em interpretar o que ouvi como é uma linda bata ou como é uma linda pata mas sou obrigado a escolher uma ou outra das duas interpretações e não há evidentemente possibilidade de admitir uma mensagem intermediária Com isso concluímos que as unidades discretas têm de ser emitidas sucessivamente Elas não são concomitantes não são coexistentes não são simultâneas Ao contrário são sucessivas e por isso só podemos emitir um fonema de cada vez em linha ou melhor linearmente Muito menos podemos emitir duas palavras ao mesmo tempo A língua em seu funcionamento pode ser descrita portanto como uma sucessão de unidades discretas tanto no eixo paradigmático como no sintagmático Mas é necessário lembrar que a linearidade é do significante e não do significado Nesse sentido adverte Saussure CLG 84 O significante sendo de natureza auditiva desenvolvese no tempo unicamente e tem as características que toma do tempo a representa uma extensão e b essa extensão é mensurável numa só dimensão é uma linha Do enunciado saussuriano depreendemos que somente a parte material do signo o significante é linear e que o pensamento em si mesmo não tem partes não é sucessivo só o sendo quando se concretiza através das formas fônicas lineares do significante Aqui caberia compararmos o pensamento a uma tela em que todos os elementos aparecem simultaneamente formando um todo Tal fato a simultaneidade já não é possível numa poesia por exemplo seja ela declamada ou lida silenciosamente Aliás esse exemplo fundamenta com bastante clareza o princípio da linearidade do significante e torna oportuno citar o pensamento do próprio Saussure CLG 84 os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo seus elementos se apresentam um após outro formam uma cadeia Esse caráter aparece imediatamente quando os repre sentamos pela escrita e substituímos a sucessão do tempo pela linha espacial dos signos gráficos Poderíamos também caracterizar o significado como um bloco como um todo como uma unidade que só se decompõe quando falamos ou escrevemos quando materializamos nosso pensamento em ordem linear ordem essa que também é arbitrária de língua para língua uma vez que não existe ordem no pensamento e sim na língua Atentese a propósito para as palavras bastante esclarecedoras do lingüista dinamarquês Luís Hjelmslev 19684344 Al mirar un texto impreso o escrito vemos que se compone de signos y que éstos se componen a su vez de elementos que se desarrollan en una dirección determinada cuando se utiliza el alfabeto latino se extienden de izquierda a derecha cuando se utiliza el alfabeto hebreo se extienden de derecha a izquierda cuando se utiliza el alfabeto mongol se extienden de arriba abajo pero se desarrollan siempre en una dirección determinada y cuando oímos un texto hablado se compone para nosotros de signos y estos signos se componen a su vez de elementos que se desarrollan en el tiempo unos vienen antes otros después Los signos forman una cadena cadeia y los elementos de cada signo forman asimismo também una cadena O pensamento funciona desse modo com uma força estruturante da língua segundo o Prof Sílvio Elia o qual ao mesmo tempo se indaga se a estrutura profunda de Chomsky não será na verdade o próprio pensamento Se é então o pensamento não é uma estrutura ao contrário ele é uma força estruturante Nesse caso segundo o referido mestre não cabe falar em estrutura profunda e sim em estrutura subjacente Uma Crítica ao Princípio da Linearidade O lingüista Roman Jakobson contestou o princípio da linearidade do significante argumentando que num fonema qualquer por exemplo b há um feixe de traços fônicos simultâneos bilabial oral oclusivo e sonoro e nãosucessivos nãolineares Mas para Saussure esses traços fônicos não passam de elementos do significante que já está formado na língua como um todo Eis a resposta do próprio autor do CLG p 84 Em certos casos isso o princípio da linearidade não aparece com destaque Se por exemplo acentuo uma sílaba parece que acumulo num só ponto elementos significativos diferentes Mas tratase de uma ilusão a sílaba e seu acento constituem apenas um ato fonatório não existe dualidade no interior desse ato mas somente oposições diferentes com o que se acha a seu lado ver capítulo Relações Sintagmáticas e Paradigmáticas De fato uma palavra como cavalo também apresenta vários traços sêmicos ser vivo irracional quadrúpede animal macho todos contidos ao mesmo tempo mas isso em nada abala o princípio da linearidade do significante porquanto cavalo enquanto unidade discreta já formada já pronta na língua só se materializa fonicamente de forma linear Por fim cabe citar aqui a advertência do próprio Saussure CLG 84 sobre a relevância dessa segunda característica do signo lingüístico para uma teoria estruturalista enquanto categoria formal da linguagem Esse princípio é evidente mas parece que sempre se negligenciou enunciálo sem dúvida porque foi considerado demasiadamente simples todavia ele é fundamental e suas consequências são incalculáveis de fato na época o eram sua importância é igual à da primeira lei a da arbitrariedade do signo Todo mecanismo da língua depende dele Em resumo Tipos de Sinal Natural indício físico fumaça rastros sintoma fisiológico pulsaçâo febre Convencional ícone motivado estatueta foto símbolo intermédio balança justiça signo imotivado a palavra SIGNO Significante Significado imagem acústica conceito perceptível inteligível psicofísico psíquico impressão psíquica do som evocação psíquica provocada pelo som representante representado tradução fônica de um conceito correlato mental do significante presença ausência som pensamento matéria idéia incorporante incorporado sensorial conceitual sêmainon sêmainomenon signans signatum Características Arbitrariedade do ste em relação ao sdo Linearidade do ste Para Saussure Arbitário absoluto relativo Para Guiraud Motivação interna morfológica derivação composição externa fonética metassêmica Ambos de natureza psíquica Na terminologia de Santo Agostinho O Signo Lingüístico 1 A diferença entre Semiologia e Lingüística é a A Semiologia difere da Lingüística por sua maior abrangência A Lingüística é o estudo científico da linguagem humana Já a Semiologia estuda todo e qualquer tipo de código de comunicação b A Semiologia difere da Lingüística por ser arbitrária e a Lingüística semiarbitrária c A Semiologia e a Lingüística minimizam a linguagem humana 2 Saussure preferiu o termo Signo e não Símbolo porque a o símbolo é totalmente arbitrário e o signo é semiarbitrário b o símbolo e o signo são ambos semiarbitrários c o símbolo é semiarbitrário e o signo é totalmente arbitrário 3 Relacione as colunas 1 Signo Imagem psíquica conceito ou representação mental que a imagem acústica evoca no falante 2 Significante É semiarbitrário 3 Símbolo Imagem acústica representação sonora de natureza psicofísica do vocábulo 4 Significado Combinação arbitrária de um significante com um significado 4 Assinale a segunda coluna de acordo com a primeira 1 Língua Ciência que estuda as significações 2 Semântica Produto e instrumento de uma cultura 3 Semiologia Indícios de chuva de fogo etc 4 Lingüística Febre suor dor fome etc 5 Sinal convencional É a imagem acústica ou visual É a expressão da imagem mental 6 Sinal natural físico Rastros nuvens negras luz som etc 43 7 Sinal natural fisiológico É o conceito a idéia que fazemos de um objeto 8 Significado Signo 9 Significante Teoria geral dos signos 10 União do sdo ste Sistema de signos vocais Ciência que estuda os códigos e sinais de comunicação Estudo científico da linguagem humana 5 O signo lingüístico é arbitrário Isto quer dizer que a Não há uma relação natural entre o significante e o significado b Há uma ligação natural entre a imagem acústica e o conceito 6 Sobre as onomatopéias podemos afirmar a Imitações convencionais de sons e ruídos naturais e que variam de língua para língua b Imitação fiel e direta de um ruído ou som natural 7 Marque com V se for verdadeira e com F se for falsa Os enunciados vocais decorrem no tempo e são captados pelo ouvido como sucessões O caráter linear dos enunciados explica a sucessividade dos morfemas e fonemas Somente a parte material do signo o significante é linear 8 Relacione as duas colunas 1 Arbitrariedade absoluta dezoito 2 Arbitrariedade relativa dez oito 44 9 Numere a 1ª coluna de acordo com a 2ª Semiologia 1 Representação intelectual de um objeto Ícone 2 É semiarbitrário Significado 3 Estudo científico de todo e qualquer sistema de comunicação Significante 4 Não é som material e sim a impressão psíquica desse som Símbolo 5 Motivado 10 Não existe uma associação natural entre os sons vocais e os conceitos por eles expressos Estas palavras saussurianas explicam a A teoria do signo b A linearidade do signo c A arbitrariedade do signo d Crítica à arbitrariedade 11 Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária em outras intervém um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimilo o signo pode ser relativamente motivado Certo Errado 12 Valetransporte e passatempo são exemplos de motivação formados por 13 No interior de uma mesma língua todo o movimento da evolução não pode ser assinalado por uma passagem contínua do motivado ao arbitrário e do arbitrário ao motivado Esse vaivém tem amiúde como resultado alterar sensivelmente as proporções dessas duas categorias de signos Certo Errado 14 O Brasil por seus contrastes socioeconômicos tem sido considerado uma espécie de Belíndia Bélgica Índia O neologismo Belíndia é um exemplo de motivação formado por 45 15 Enxugar o texto tornálo mais sucinto e enxugar a máquina administrativa reduzir despesas são exemplos de motivação do tipo 16 A Morfologia pode constituir uma disciplina distinta da Sintaxe Certo Errado 17 A flexão é uma forma típica da associação das formas lingüísticas no espírito do falante Tratase de uma categoria gramatical da língua Certo Errado 18 Para se fazer a associação de duas unidades lingüísticas é necessário sentir que elas oferecem algo em comum e também distinguir a natureza das relações que regem as associações Certo Errado 19 Marque a alternativa correta Signo é I o resultado da soma do significante com o significado II a união do sentido com a imagem acústica III formado de duas faces significante e significado a Somente a alternativa I está correta b Somente a alternativa III está correta c As alternativas I II III estão corretas d Todas as alternativas acima estão erradas 20 Marque V ou F Para Saussure sentido não é a mesma coisa que conceito ou idéia O signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces 21 Marque a alternativa correta a Os contraditores consideram as onomatopéias palavras imotivadas 46 b Existem as onomatopéias autênticas tictac gluglu pouco numerosas c Mattoso Camara acha que as onomatopéias são imitações fiéis e diretas dos ruídos naturais 22 As entidades concretas da língua são os signos os conceitos as imagens acústicas as sílabas 23 A entidade linguística só existe pela associação do significante e do significado Certo Errado 24 Nos exemplos Vou tomar 1 a lição e Vou tomar 2 café tomar 1 e tomar 2 constituem a mesma unidade lingüística isto é têm o mesmo valor Certo Errado 25 O vínculo entre dois empregos da mesma palavra não se baseia nem na identidade material nem na exata semelhança de sentido Certo Errado 26 A espada vence mas não convence Espada força é um caso de metonímia Tratase de uma metassemia um exemplo de a motivação interna b motivação externa 27 Em guardaroupa temos um caso de motivação interna Justifique a afirmativa com suas palavras 47 LÍNGUAFALA As Dicotomias Saussurianas A doutrina de Saussure baseiase numa série de pares de distinções atribuídas por Georges Mounin 1973 54 à sua mania dicotômica Citando o próprio Saussure A linguagem é redutível a cinco ou seis dualidades ou pares de coisas Mounin nos revela que o mestre de Genebra estava bem consciente de sua perspectiva dicotômica o que aliás é confirmado logo nas primeiras páginas do Curso de lingüística geral Afirma Saussure CLG 15 o fenômeno lingüístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra Comecemos pela oposição fundamental línguafala LÍNGUAFALA Esta é sua dicotomia básica e juntamente com o par sincroniadiacronia constitui uma das mais fecundas Fundamentada na oposição socialindividual revelouse com o tempo extremamente profícua O que é fato da língua langue está no campo social o que é fato da fala ou discurso parole situase na esfera do individual Reposando sua dicotomia na Sociologia ciência nascente e já de grande prestígio então Saussure p 16 afirma e adverte ao mesmo tempo a linguagem tem um lado individual e um lado social sendo impossível conceber um sem o outro A língua Do exame exaustivo do Curso depreendemos três concepções para língua acervo lingüístico instituição social e realidade sistemática e funcional Analisemolas à luz do CLG A língua como acervo lingüístico A língua é uma realidade psíquica formada de significados e imagens acústicas constituise num sistema de signos onde de essencial só existe a união do 49 sentido e da imagem acústica onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas p 23 é um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou mais exatamente nos cérebros dum conjunto de indivíduos p 21 a língua é uma soma de sinais depositados em cada cérebro mais ou menos como um dicionário cujos exemplares todos idênticos fossem repartidos entre os indivíduos p 27 A língua como acervo linguístico é o conjunto de hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazerse compreender p 92 e as associações ratificadas pelo consentimento coletivo e cujo conjunto constitui a língua são realidades que têm sua sede no cérebro p 23 A língua enquanto acervo guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência Disso nos dá testemunho o Latim símbolo permanente da cultura e das instituições do povo romano A língua como instituição social Saussure considera da mesma forma que Whitney que a língua não está completa em nenhum indivíduo e só na massa ela existe de modo completo p 21 por isso ela é ao mesmo tempo realidade psíquica e instituição social Para Saussure a língua é ao mesmo tempo um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos p 17 é a parte social da linguagem exterior ao indivíduo que por si só não pode nem criála nem modificála ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade p 22 A língua como realidade sistemática e funcional Este é o conteúdo mais importante do conceito saussuriano a respeito da língua Para o mestre de Genebra a língua é antes de tudo um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas p 18 é um código um sistema onde de essencial só existe a união do sentido e da imagem acústica p 23 Saussure vê a língua como um objeto de natureza homogênea p 23 e que portanto se enquadra perfeitamente na sua definição basilar a língua é um sistema de signos que exprimem idéias p 24 A fala ao contrário da língua Saussure apresenta multifacetada e heterogênea Diz o mestre que a fala é um ato individual de vontade e inteligência no qual convém distinguir 1º as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal 2º o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações p 22 Saussure classifica a fala como o lado executivo da linguagem cuja execução jamais é feita pela massa é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor nós a chama 50 remos fala p 21 E complementaríamos fala em oposição à língua A fala é a própria língua em ação enérgeia atividade e não érgon produto Aprofundando a base teórica dessa dicotomia fundamental para a compreensão da obra de Saussure somos levados a reconhecer a influência incontestável e decisiva que o debate entre os dois expoentes da Sociologia de então Durkheim e Tarde exerceu sobre ele Sua dicotomia parece ter sido uma tentativa de conciliação entre as duas posições sociológicas vigentes Da idéia de fait social fato social de Durkheim procede a postulação da língua segundo Lepschy 1971 30 Porque ambas tanto a idéia de língua como a de fato social se referem a fatos psicossociais externos ao indivíduo sobre o qual exercem uma contrainte coerção e existentes na consciência coletiva do grupo social Por outro lado o reconhecimento do elemento individual a fala estaria em consonância com as idéias de Gabriel Tarde É oportuno lembrar também a concepção durkheimiana segundo a qual a sociedade prima sobre o indivíduo pois como afirma Giani sd 1957 o controle social existe em função da manutenção da organização social O homem não passa de uma parcela do pensamento coletivo ainda segundo Giani p 44 o indivíduo é em grande parte aquilo que a sociedade espera que ele seja Cada grupo social incute em seus membros um conjunto de maneiras de pensar sentir e agir Diante disso compreendese por que razão Saussure atribuiu papel destacado ao estudo da língua e minimizou a fala Para Saussure CLG 25 sendo a língua uma instituição social socialmente é que devem ser estudados os seus signos uma vez que o signo é social por natureza Considera ele que a língua como representação coletiva se impõe ao indivíduo inapelavelmente Nenhum indivíduo tem a faculdade de criar a língua nem de modificála conscientemente Ela é como uma armadura dentro da qual nos movimentamos no diaadia da interação humana Como qualquer outra instituição social a língua se impõe ao indivíduo coercitivamente Por isso ela constitui um elemento de coesão e organização social A fala A fala ao contrário da língua por se constituir de atos individuais tornase múltipla imprevisível irredutível a uma pauta sistemática Os atos linguísticos individuais são ilimitados não formam um sistema Os atos linguísticos sociais bem diferentemente formam um sistema pela sua própria natureza homogênea Ora a Lingüística como ciência só pode estudar aquilo que é recorrente constante sistemático Os elementos da língua podem ser quando muito variáveis mas jamais apresentam a inconstância a irreverência a heterogeneidade características da fala a qual por isso mesmo não se presta a um estudo sistemático 51 Diznos o mestre suíço à p 18 do CLG Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem podese enfim fazer valer o argumento de que a faculdade natural ou não e para Saussure o ser natural ou não é irrelevante preocupase unicamente com a língua em si mesma de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade não é então ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem E sustentando a autonomia dos estudos da língua afirma à p 22 a língua é uma coisa de tal modo distinta que um homem privado do uso da fala conserva a língua contanto que compreenda os signos vocais que ouve Não obstante Saussure p 27 insiste sempre na interdependência dos dois constituintes da linguagem esses dois objetos estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos mas esta é necessária para que a língua se estabeleça E adverte p 27 historicamente o fato da fala vem sempre antes É importante a propósito registrar a concessão feita por Saussure p 27 ao elemento individual com toda a certeza inspirada em Gabriel Tarde é a fala que faz evoluir a língua são impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos linguísticos É tal a interdependência entre a língua e a fala que Saussure considera a língua ao mesmo tempo instrumento e produto da fala O próprio mecanismo de funcionamento da linguagem repousa nessa interdependência como ressalta Saussure p 27 Como se imaginaria associar uma idéia a uma imagem verbal se não se surpreendesse de início esta associação num ato de fala Por outro lado é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências Depreendese do arrazoado saussuriano que tanto o funcionamento quanto a exploração das potencialidades da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua e fala A feliz dicotomia línguafala é o ponto de partida para Saussure postular uma Lingüística da língua e uma Lingüística da fala embora Mounin 1973 69 le 52 vante dúvida a respeito da autenticidade dessa postulação por parte do mestre Mounin prefere atribuíla a Bally e Sechehaye sendo que para o mestre genebrino a Linguística propriamente dita é aquela cujo único objeto é a língua Unicamente desta última é que cuidaremos CLG 28 ressalva Saussure Desse modo vemos que Saussure realmente tinha plena consciência da natureza opositiva dos fenômenos linguísticos Eis suas próprias palavras p 28 Esta é a primeira bifurcação que se encontra quando se procura estabelecer a teoria da linguagem SistemaNãoSistema A razão de Saussure haver preferido tomar o caminho da língua quando se viu diante de sua famosa bifurcação encontrase em outra oposição conseqüente sistemanãosistema isto é sistema língua nãosistema fala Sendo o sistema superior ao indivíduo supraindividual todo elemento linguístico deve ser estudado a partir de suas relações com os outros elementos do sistema e segundo sua função a língua é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica CLG 102 e não por suas características extralingüísticas físicas psicológicas etc O conhecido exemplo do jogo de xadrez esclarece cabalmente o pensamento saussuriano nesse particular As peças de um jogo de xadrez são definidas unicamente segundo suas funções e de acordo com as regras do jogo A forma a dimensão e a matéria de cada peça constituem propriedades puramente físicas e acidentais que podem variar extremamente sem comprometer a identidade da peça Essas características físicas são irrelevantes para o funcionamento do sistema o jogo de xadrez Uma peça até pode ser substituída por outra desde que a substituta venha a ser utilizada conforme as regras do jogo Levando para o sistema lingüístico o exemplo de Saussure temos que todo elemento lingüístico uma vogal uma consoante um acento um fonema um morfema etc deve ser definido linguisticamente apenas de acordo com suas relações sintagmáticas e paradigmáticas com os outros elementos ou por sua função no sistema e não levandose em conta suas acidentais propriedades modo de formação estrutura acústica variantes morfofonêmicas etc Aqui tornase pertinente introduzir outra postulação saussuriana segundo a qual A Língua é uma Forma e não uma Substância CLG 141 Forma para Saussure é usada no sentido filosófico isto é como essência e não no sentido estético como aparência A teia de relações entre os elementos lingüísticos é que constitui a forma Os elementos da rede constituem a substância Voltando ao exemplo do jogo de xadrez diríamos que as regras do jogo a teia de relações entre as peças estão para forma assim como as peças do jogo estão para substância Uma frase como Vô comprá dois pão apresenta alteração apenas na substância Sua estrutura apesar do fator extralingüístico erro desvio em relação à norma culta continua a ser a de uma frase da língua portuguesa Ela conserva toda a gramaticalidade sintática do sistema lingüístico português isto é da língua portuguesa e toda a coerência interna inerente aos elementos desse sistema sujeito verbo auxiliar verbo principal objeto determinante determinado Portanto sua forma o que é de fato relevante para o funcionamento do sistema não sofreu em nada com a mudança acidental das propriedades físicas de sua substância Dito de outro modo forma língua substância fala Mesmo tendo dado tanta ênfase ao estudo da língua Saussure não deixou de tratar também da substância fala reconhecendo que a sua função é fazer a ligação com a forma que é em última análise para ele a verdade total Reportandonos ao pensamento lingüístico da Grécia Antiga diríamos que Saussure admitiu tacitamente que a língua não é só analogia ela tem também as suas sólidas e saudáveis anomalias Cabenos entretanto chamar a atenção para o fato de que a nosso ver o conceito de forma estrutura não exclui o componente semântico Ao contrário o componente semântico é que dá sentido à noção de forma sem o quê forma corre o risco de tornarse letra morta concepção sem serventia para a ciência lingüística principalmente para a Linguística dita estrutural Como adverte o Prof Sílvio Elia 1978 120 linguagem é significação Desse modo concebemos forma como coerência sintática coerência semântica Coerência sintática espécie de sintaxe mental ou estruturação do pensamento existe por exemplo tanto em O menino chutou a bola como em A bola chutou o menino Em ambas as orações é inegável a realização sintaticamente coerente de um dos padrões frasais básicos da língua portuguesa isto é sujeito verbo objeto direto Só a primeira frase entretanto encontra correspondência conceitual feedback ou repercussão lingüística no espírito do falante justamente por ser a única que contém uma verdade semântica confiável uma coerência significativa que constitui juntamente com a coerência sintática da frase um todo individualizador e pertinente do ponto de vista da intercomunicação lingüística Uma Crítica à LínguaFala Não se pense que a dicotomia saussuriana tenha ficado ao abrigo de críticas nesse seu mais de meio século de existência A principal delas partiu do lingüista romeno Eugenio Coseriu 1973 70 que propôs uma divisão tripartida segundo o modelo abaixo por achar insuficiente a bipartição saussuriana fala uso norma intermediária língua sistema funcional A divisão de Coseriu 1973 97 vai do mais concreto fala ao mais abstrato língua passando por um grau intermediário a norma Segundo ele o sistema funcional língua es un conjunto de oposiciones funcionales la norma es la realización colectiva del sistema que contiene el sistema mismo y además los elementos funcionalmente nopertinentes pero normales en el hablar de una comunidad A fala por sua vez na concepção coseriana 1973 98 es la realización individualconcreta de la norma que contiene la norma misma y además la originalidad expresiva de los individuos hablantes Francisco da Silva Borba 1970 67 define a norma como um conjunto de realizações constantes e repetidas de caráter sociocultural e dependente de vários fatores operantes na comunidade idiomática Em outras palavras há realizações consagradas pelo uso e que portanto são normais em determinadas circunstâncias lingüísticas circunstâncias estas previsíveis pelo sistema funcional É à norma que nos prendemos de forma imediata conforme o grupo social de que fazemos parte e a região onde vivemos A norma seria assim um primeiro grau de abstração da fala Considerandose a língua o sistema um conjunto de possibilidades abstratas a norma seria então um conjunto de realizações concretas e de caráter coletivo da língua Segundo Coseriu 1973 90 a norma é o como se diz e não o como se deve dizer por isso los conceptos que con respecto a ella se oponen son normal y anormal y no correcto e incorrecto Em resumo em termos coserianos a fala é o real individual a norma é o real coletivo e a língua é o ideal coletivo nem sempre nor mal embora possível e disponível Vejamos alguns exemplos da oposição normasistema no português do Brasil O conhecido š chiante pósvocálica variante de s é norma no Rio de Janeiro em todas as classes sociais gás gàs mês mès basta basta Já no Sul a pronúncia sancionada pelo uso ou norma é marcadamente alveolar basta mès gás No campo da Morfologia o sistema dispõe dos sufixos ada e edo ambos com o sentido de coleção Enquanto para designar grande quantidade de bichos a norma culta prefere o primeiro bicharada a norma geral no falar gaúcho consagrou o segundo bicharedo O mesmo acontece com os sufixos diminutivos inho e ito ambos disponíveis no sistema funcional a norma fora do Rio Grande do Sul é dizerse salaminho já em terras gaúchas o uso sancionou salamito No plano sintático a língua sistema portuguesa dispõe dos advérbios já e mais que quando usados numa frase negativa indicam a cessação de um fato ou de uma ação A norma brasileira preferiu o segundo eu não vou mais não chove mais a portuguesa optou pelo primeiro eu já não vou já não chove O português do Brasil prefere descrever um fato em progressão dizendo estou estudando aux gerúndio já em Portugal a norma é usarse aux infinitivo estou a estudar Ainda com relação à norma brasileira não podemos deixar de mencionar o já consagradíssimo ter no lugar de haver com o sentido de existir uso inclusive já referenciado por vários autores nacionais de peso Drummond e Bandeira entre outros Como diz Santos 1979 19 norma é o conjunto das realizações lingüísticas constantes do sistema É ela que revela como o sistema funciona numa coletividade Por exemplo a língua portuguesa dispõe de dois prefixos com valor negativo in e des Ambos fazem parte além de outros do nosso sistema lingüístico e se encontram à disposição dos falantes de língua portuguesa isto é existem em potencial O uso de um ou de outro vai depender da comunidade lingüística esta é quem estabelece o que é normal o que se diz ou anormal o que se poderia dizer Assim sendo a norma coletiva consagrou infeliz e não desfeliz Inversamente preferiu descontente e rejeitou incontente Ao falante como parcela do pensamento coletivo só cabe aceitar inapelavelmente o que o seu grupo lingüístico consagrou v a propósito a arbitrariedade do signo lingüístico pois na língua não existe propriedade privada tudo é socializado Do exposto concluímos que a norma é a realização da língua e a fala por sua vez a realização da norma como o demonstra figuradamente o modelo coseriano 1973 95 abaixo ABCD fala realização individual do subcódigo abcd norma subcódigo abcd língua código Tipos de Norma As variantes coletivas ou subcódigos dentro de um mesmo domínio lingüístico dividemse em dois tipos principais diatópicas variantes regionais ou normas regionais diastráticas variantes culturais ou registros As variantes diatópicas caracterizam as diversas normas regionais existentes dentro de um mesmo país e até dentro de um mesmo Estado como o falar gaúcho o falar mineiro etc As variantes diastráticas intimamente ligadas à estratificação social evidenciam a variedade de diferenças culturais dentro de uma comunidade e podem subdividirse em norma culta padrão ou nacional norma coloquial tensa ou distensa e norma popular também chamada de vulgar Há também as variantes diafásicas que dizem respeito aos diversos tipos de modalidade expressiva familiar estilística de faixa etária etc Além das variantes citadas existem ainda as chamadas línguas especiais É o caso das gírias dos jargões das línguas técnicas das línguas religiosas e da língua literária esta pela sua especificidade de discurso eminentemente estético admite e revaloriza todas as demais variantes do sistema realizandose assim como uma espécie de supranorma Constatamos assim a pertinência da divisão tripartida de Coseriu Todos os exemplos acima quer caracterizando o falar de uma região quer identificando o próprio português do Brasil mostram a propriedade e a conveniência do fator intermediário norma entre a fala individual e a língua social fator este que convém observar não chega a comprometer o sistema funcional língua Ressalvese contudo que a concepção saussuriana de língua como instituição social se aproxima de certo modo da teoria da norma de Coseriu Invertendo o ponto de vista de Saussure que prioriza uma Lingüística da língua produto érgon Coseriu 1973 285 por sua vez privilegia uma Lingüística da fala ou discurso produção atividade enérgeia Ao priorizar a atividade lingüística hablar o linguista romeno lança os fundamentos da Lingüística Textual o que o aproxima das concepções humboldtiana e vossleriana da linguagem com suas inerentes implicações de ordem estilística Ouçamos os argumentos de Coseriu p 287 En primer término parece necesario un cambio radical de punto de vista no hay que explicar el hablar desde el punto de vista de la lengua sino viceversa Ello porque el lenguaje es concretamente hablar actividad y porque el hablar es más amplio que la lengua mientras que la lengua se halla toda contenida en el hablar el hablar no se halla todo contenido en la lengua Por conceber o exercício da linguagem como a integração de três aspectos o universal o histórico e o individual ressalta Coseriu p 285 que el lenguaje se da concretamente como actividad o sea como hablar Em coerência com seu ponto de vista o Autor propõe um lugar de destaque para a Lingüística do discurso ou do texto dizendo o seguinte p 289 Existe asimismo una lingüística del texto o sea del hablar en el nivel particular que es también estudio del discurso y del respectivo saber La llamada estilística del habla es justamente una lingüística del texto De qualquer forma é reconhecidamente incontestável o valor da famosa distinção saussuriana entre língua e fala para a Lingüística contemporânea Sua primeira dicotomia investida de verdadeiro valor epistemológico é e será sempre um fundamento da ciência linguística Concluindo o exame da dicotomia línguafala apresentamos abaixo um quadro comparativo o mais exaustivo possível de suas características principais LÍNGUA FALA social individual homogênea heterogênea sistemática assistemática abstrata concreta constante variável duradoura momentânea conservadora inovadora ideal real permanente ocasional supraindividual individual essencial acidental psíquica psicofísica instituição práxis ação essência existência potencialidade realidade fato social ato individual unidade diversidade forma substância produto produção indivíduo subordinado indivíduo senhor instrumento e produto da fala língua em ação sistema realização adotada pela comunidade surge no indivíduo potencialidade ativa de produzir a fala faz evoluir a língua necessária para a inteligibilidade e necessária para que a língua se estabelece execução da fala 1 1 1 I 1 1 1 competência desempenho FORMA SUBSTÂNCIA essência aparência psíquica psicofísica estrutura conjuntura constante circunstancial língua fala 59 NORMAS normas ou variantes diatópicas falares regionais diastráticas culta padrão tensa coloquial distensa popular diafásicas modalidades expressivas LINGUÍSTICAS a da língua funcional b da fala textual 60 LínguaFala Norma 1 Numere a 1ª coluna de acordo com a 2ª Estudo científico da linguagem humana 1 Signo É um conjunto de estruturas psíquicas que torna possível ao emissor traduzir a idéia que deseja expressar em um sinal manifesto e que capacita o receptor a reconstituir a idéia a partir desse sinal 2 Linguagem União do sentido mais a imagem acústica 3 Fala Conjunto de realizações constantes e repetidas de caráter sociocultural 4 Lingüística Sua aquisição não depende de maneira decisiva da expressão verbal 5 Língua Execução pelo indivíduo das potencialidades da língua 6 Norma 2 Assinale as letras cujo enunciado você considera incorreto a As crianças incapazes de usar seus órgãos da fonação para produzir sons vocais podem no entanto aprender uma língua sem dificuldades especiais b Uma criança pode inventar uma língua a partir do nada c Estar exposto ao uso de uma língua é o requisito mínimo para pôr em funcionamento o mecanismo da linguagem d Não existe uma interdependência da língua e da fala pois não é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna 3 Completar com um dos itens entre parênteses a A fala é um ato de vontade e de inteligência individualsocial b A língua é Constituise de um sistema de signos heterogêneahomogênea 61 Resenha crítica A obra Para compreender Saussure de Castelar de Carvalho apresentase como uma introdução didática voltada à compreensão dos fundamentos da teoria linguística de Ferdinand de Saussure O autor organiza o livro de maneira progressiva iniciando por uma contextualização histórica do surgimento das reflexões saussurianas e avançando capítulo a capítulo para as principais dicotomias formuladas pelo linguista genebrino que se tornaram centrais para o Estruturalismo e para a Linguística moderna Carvalho estrutura seu texto com o objetivo de tornar acessíveis noções que tradicionalmente são consideradas complexas para estudantes iniciantes como a arbitrariedade do signo a distinção entre língua e fala a separação entre sincronia e diacronia e as relações sintagmáticas e associativas Em sua abordagem evidenciase a intenção de expor com clareza e rigor a organização teórica que sustenta o pensamento de Saussure oferecendo ao leitor uma visão ampla e sistematizada da estrutura linguística Nos capítulos iniciais o autor introduz brevemente o contexto intelectual que antecede a formulação da teoria saussuriana explicando que Saussure rompe com a tradição comparatista ao propor que a língua deve ser estudada como sistema de valores e não apenas como conjunto de formas herdadas Carvalho mostra que essa ruptura epistemológica marca um ponto decisivo na história da Linguística pois desloca o objeto de estudo da evolução histórica das palavras para a estrutura abstrata e social que permite o funcionamento da língua Tal apresentação não apenas situa o leitor no panorama intelectual da época mas também prepara o terreno para a compreensão das dicotomias que constituem o núcleo da teoria do linguista suíço cuja formulação transformou profundamente o modo como se analisam os fenômenos linguísticos Ao abordar a dicotomia entre língua e fala Carvalho mostra que Saussure estabelece essa separação para definir com precisão o objeto científico da Linguística A língua é apresentada como um sistema social coletivo e relativamente estável que existe na memória dos falantes enquanto a fala corresponde à realização individual e momentânea desse sistema O autor explica que essa distinção é fundamental porque permite que a Linguística se concentre naquilo que possui regularidade e estrutura afastandose das variações individuais que caracterizam a fala Carvalho destaca ainda que embora a fala seja essencial para o funcionamento da língua seu caráter subjetivo impede que ela seja tratada como objeto central de uma ciência que busca identificar regularidades Assim ao estabelecer essa dicotomia Saussure delimita metodologicamente o campo da Linguística e inaugura uma perspectiva científica organizada e coerente Em seguida Carvalho discute a dicotomia entre significante e significado que constitui o pilar do signo linguístico O significante é definido como a imagem acústica enquanto o significado corresponde ao conceito ao qual essa imagem remete O autor reforça que a relação entre esses dois elementos é arbitrária o que significa que não há vínculo natural entre som e ideia Essa arbitrariedade enfatizada por Saussure é apresentada por Carvalho como um dos aspectos mais revolucionários da teoria pois revela que a língua é um sistema simbólico cujos valores dependem exclusivamente das relações internas que os signos estabelecem entre si Ao compreender essa relação o leitor percebe que para o Estruturalismo o significado não decorre de uma essência ou natureza intrínseca dos signos mas da posição que eles ocupam na estrutura Carvalho expõe esses conceitos com clareza tornando acessível ao leitor um dos fundamentos mais complexos da teoria linguística moderna A dicotomia entre sincronia e diacronia também recebe atenção detalhada Carvalho explica que Saussure estabelece essa separação para diferenciar duas formas de análise a observação da língua em um estado dado sincronia e o estudo de suas transformações ao longo do tempo diacronia O autor mostra que para Saussure a perspectiva sincrônica deve ser priorizada pois permite identificar o funcionamento estrutural da língua em um determinado momento Embora não descarte a importância da dimensão histórica Carvalho evidencia que a diacronia assume papel secundário na teoria uma vez que a prioridade do Estruturalismo é compreender a organização interna do sistema linguístico Essa exposição ajuda o leitor a perceber que a proposta saussuriana não elimina a história da língua mas reorganiza os métodos de análise de forma a dar centralidade ao estudo das relações estruturais Outro ponto desenvolvido é a distinção entre relações sintagmáticas e associativas Carvalho explica que as relações sintagmáticas são aquelas que se estabelecem na linearidade do enunciado ou seja entre os signos que se combinam sucessivamente na fala Já as relações associativas correspondem aos agrupamentos mentais formados pelos falantes com base em semelhanças contrários ou outras conexões subjetivas O autor demonstra que essas duas formas de relação atuam conjuntamente para determinar o valor dos signos reforçando que na teoria saussuriana o valor linguístico é sempre relacional Ao apresentar esse ponto de maneira clara e detalhada Carvalho permite ao leitor compreender por que para Saussure nenhum signo possui significado por si só mas apenas a partir das relações que mantém dentro do sistema Essa explicação contribui significativamente para a compreensão da estrutura linguística proposta pelo Estruturalismo Nos capítulos seguintes o autor aprofunda as implicações teóricas dessas dicotomias e argumenta que a contribuição de Saussure vai além da criação de conceitos isolados Para Carvalho o mais importante é o quadro teórico unificado que Saussure desenvolve capaz de explicar de forma abrangente o funcionamento da língua como estrutura O autor mostra ainda que essa contribuição influenciou profundamente não apenas o Estruturalismo europeu mas também outras escolas linguísticas que surgiram posteriormente como o Gerativismo Mesmo quando discordavam de algumas premissas do linguista genebrino essas correntes só puderam se desenvolver graças ao fundamento conceitual oferecido por Saussure Dessa forma Carvalho evidencia que a teoria saussuriana marcou de forma definitiva os estudos linguísticos modernos Ao final o autor destaca a relevância contínua da obra de Saussure defendendo que suas dicotomias são indispensáveis para qualquer estudo linguístico Carvalho afirma que compreender essas tensões teóricas é essencial para entender a organização da língua como fenômeno social Sua obra portanto cumpre com rigor o objetivo de introduzir o leitor ao pensamento saussuriano oferecendo uma visão clara e consistente dos fundamentos do Estruturalismo No entanto embora sua exposição seja extremamente didática Carvalho adota uma postura predominantemente explicativa com pouco espaço para questionamento crítico das limitações da teoria Uma discussão mais aprofundada acerca das críticas contemporâneas especialmente as oriundas da Pragmática e da Sociolinguística teria enriquecido ainda mais sua obra Mesmo assim essa ausência não diminui o valor do livro como introdução sólida e acessível para estudantes que desejam compreender os princípios estruturais que ainda influenciam de forma decisiva os estudos linguísticos atuais A obra de Castelar de Carvalho portanto revelase indispensável para quem busca compreender a importância e o impacto do pensamento saussuriano Ao apresentar de maneira clara e rigorosa as principais dicotomias formuladas por Saussure e ao contextualizálas dentro da organização teórica do Estruturalismo o autor oferece ao leitor um panorama completo da relevância da teoria para os estudos linguísticos modernos Sua exposição cuidadosa e acessível reafirma que a leitura de Saussure continua sendo essencial para a formação acadêmica pois permite entender a linguagem como fenômeno estruturado e simbólico Dessa forma Para compreender Saussure cumpre plenamente seu propósito e constitui uma contribuição valiosa para estudantes e pesquisadores das ciências da linguagem Ao visualizar os capítulos que tratam das dicotomias saussurianas percebese que o autor trabalha de forma minuciosa a intenção de Saussure em organizar o estudo da linguagem por meio de pares conceituais que se complementam Essa estratégia não surge como um artifício didático mas como um modo de revelar a complexidade do fenômeno linguístico que exige a observação simultânea de diferentes facetas Ao destacar essas categorias o livro evidencia que a proposta saussuriana não pretende simplificar a língua mas fornecer instrumentos que permitam ao pesquisador enxergar sua natureza dinâmica e sistemática Essa escolha metodológica também mostra por que o Estruturalismo se tornou uma referência tão sólida dentro dos estudos linguísticos Vale salientar que o que enriquece a leitura é a maneira como os capítulos demonstram que Saussure concebia a língua como um fato social profundamente enraizado na coletividade Essa perspectiva afasta a ideia de que a linguagem é apenas uma ferramenta individual de expressão e reforça seu papel como instituição compartilhada O livro explica que para Saussure aquilo que garante a estabilidade de um sistema linguístico não são os usos isolados dos falantes mas o conjunto de convenções sociais que permitem que o significado se mantenha relativamente fixo ao longo do tempo Esse entendimento é fundamental para compreender por que a linguística estrutural adota um olhar voltado para as relações internas do sistema e não para elementos externos a ele A discussão sobre o valor linguístico também aprofunda a compreensão do leitor sobre o pensamento saussuriano O autor do livro mostra que Saussure não tratava a língua como um repositório de palavras com significados estáveis mas como um sistema de diferenças Cada termo só adquire valor em oposição aos demais o que reforça a ideia de que a língua é essencialmente relacional Esse ponto é particularmente importante porque impacta diretamente em abordagens posteriores da Linguística que passam a considerar a análise das relações estruturais como mais relevante do que a simples descrição de palavras ou expressões Dessa forma o livro evidencia a modernidade e a atualidade das reflexões de Saussure Além disso nos capítulos finais que tratam das dicotomias percebese um esforço para relacionar cada par conceitual com exemplos concretos e com o desenvolvimento posterior da Linguística Isso ajuda o leitor a entender que a distinção entre langue e parole ou entre sincronia e diacronia não é apenas teórica mas tem implicações reais para qualquer estudo que busque analisar fenômenos linguísticos A clareza com que o livro expõe essas implicações proporciona uma leitura fluida e reforça a relevância desses conceitos para pesquisas contemporâneas seja na descrição de línguas na análise discursiva ou na reflexão sobre os processos de mudança linguística O autor também enfatiza que a obra de Saussure não se propõe a oferecer respostas definitivas mas abrir caminhos de investigação Essa postura teórica aparece com força nas dicotomias que funcionam como lentes de análise e não como categorias rígidas O livro mostra que compreender Saussure exige reconhecer que ele inaugurou uma nova forma de olhar para a língua baseada na observação do funcionamento interno do sistema Esse ponto amplia a percepção crítica do leitor e permite entender por que tantos estudiosos ao longo do século XX revisitaram e reinterpretaram suas ideias No entanto o livro ressalta que a importância histórica de Saussure vai muito além da Linguística Suas formulações influenciaram áreas como a Antropologia a Filosofia a Psicanálise e a Teoria Literária demonstrando que seu pensamento ultrapassa o campo da linguagem em sentido estrito A obra evidencia como a noção de estruturalidade forneceu bases para novas metodologias de pesquisa capazes de organizar comparar e interpretar sistemas simbólicos diversos Essa perspectiva ampliada reforça o alcance da contribuição saussuriana e mostra como suas reflexões continuam vivas e produtivas nos debates acadêmicos contemporâneos
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Texto de pré-visualização
Para compreender SAUSSURE Castelar de Carvalho 9ª Edição Reformulada EDITORA VOZES O trabalho tem finalidades didáticas e destinase aos cursos dos cursos superior de Português e Comunicação A estrutura em é clara rigorosa lógica concisa e extensa do Curso de Linguística Geral nas suas linhas essenciais continua válida Em primeiro vez que em língua portuguesa se fez uma representação sistemática e coerente dos únicos princípios morfológicos da linguística saussuriana Prof Silvio Elia EDITORA VOZES Uma vida pelo bom livro wwwvozescombr ISBN 8532617840 Castelar de Carvalho Para compreender SAUSSURE Fundamentos e visão crítica 9ª edição reformulada EDIDORA VOZES Petropolis 2000 Gilmar Janeiro 3199131 94110277 In memoriam Prof Silvio Elia Gilmar Henrique 2000 Editora Vozes Ltda Rua Frei Luís 100 25689900 Petropolis RJ Internet httpwwwvozescombr Brasil Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma eou qualquer meios eletrônico ou mecânico incluindo fotocopia e gravação ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da Editora ISBN 8532617840 Este livro foi impresso pela Editora Vozes Ltda No text detected SUMÁRIO Apresentação 9 Advertência da 1ª edição 11 Advertência da 2ª edição 12 Advertência da 3ª edição 13 Advertência da 9ª edição 14 I A Linguística PréSaussuriana 15 II A Linguística Saussuriana 21 A Teoria do Signo Linguístico 26 LínguaFala 49 SincroniaDiacronia 70 Relações Sintagmáticas e Paradigmáticas 86 A Noção de Valor 103 III Repercussões das Idéias de Saussure 113 Apêndice A Glossemática 127 Louis Hjelmslev 18991965 145 Bibliografia 146 Índice 149 APRESENTAÇÃO Os estudos saussurianos continuam na ordem do dia Podese até dizer que o livro póstumo de 1916 o tão famoso Cours de Linguistique Générale com o correr do tempo renova a sua atualidade O surto do movimento estruturalista data por exemplo da década de 30 retardado senão interrompido pelo desencadearse da Segunda Grande Guerra e no entanto as suas bases teóricas já estavam solidamente fincadas com os ensinamentos do mestre genebrino Do Cours deverseá falar como de uma obra aberta tais as perspectivas que oferece a quem costuma relêlo com visão reflexiva Facilmente então se imagina que outros caminhos iriam surgir e que se poderiam aprofundar os antigos depois que às páginas lúcida e escrupulosamente redigidas por Bally e Sechehaye foram acrescentados novos materiais da lavra do próprio Saussure Tal o que se deu em 1957 quando Godel publicou as Sources Manuscrites du Cours de Linguistique Générale Não creio que se possa afirmar que se tenha iniciado então um processo revisionista da doutrina delineada no Cours mas sem dúvida os manuscritos contribuíram para aclarar certos aspectos do pensamento lingüístico de Saussure insuficientemente ou obscuramente expostos nesse grande livro Também os Cahiers Ferdinand de Saussure têm trazido novos elementos para melhor compreensão da lingüística saussuriana como se deu com as Notas Inéditas publicadas pelo mesmo Godel ou com as cartas de Saussure a Meillet tornadas conhecidas por intervenção de Benveniste Em 1967 aparece em Bari a tradução italiana do Cours comentada por Tullio De Mauro Corso di Linguistica Generale há uma 3ª edição revista de 1970 Esse livro uma análise clarividente da obra de Saussure tornouse indispensável Tanto na Introdução como nos Comentários Tullio De Mauro procura atingir a coerência profunda da doutrina exposta no Cours reflexo infelizmente de um pensamento que não chegou ao seu termo E fálo com mestria inteligência e lucidez Nessa linha de captação das reais e profundas idéias do mestre suíço fundamental é a edição crítica de Rudolf Engler 1968 onde se faz um confronto do texto do CLG com as notas de estudantes que lhe serviram de base Do mesmo Engler é o Lexique de la Terminologie Saussurienne 1968 9 Mas a vitalidade do pensamento saussuriano parece estar sempre renascendo Outros estudos têm aparecido multiplicamse as pesquisas e os ensaios de interpretação Em 1970 sai em Roma da lavra de R Simone uma Introduzione al 2º Corso di Linguistica Generale 19081909 E é de 1975 o livro de René Amacker discípulo de De Mauro intitulado singelamente Linguistique Saussurienne Tratase na verdade de uma tentativa de revisão do CLG com base exatamente no material recolhido após a publicação póstuma do Cours na qual se procura revelar Saussure como um teórico avançado cujos princípios epistemológicos estariam bastante próximos de certos postulados da ciência moderna particularmente no seu aspecto hipotéticodedutivo Embora haja renunciado a apresentar no referido livro a doutrina saussuriana como uma formalização fraca por motivos de ordem prática p 12 Amacker demonstra particular predileção pela interpretação do saussurianismo contida nestas palavras de Saussure em carta de 1911 a ML Gautier Pour le moment la linguistique générale mapparait comme un système de géométrie On aboutit à des théorèmes quil faut démontrer p 14 Tudo isso mostra como sessenta anos depois continua vivo e fecundo o pensamento saussuriano Justificada está pois esta introdução do Prof Castelar de Carvalho ao estudo das basilares dicotomias saussurianas O trabalho tem finalidades didáticas e destinase aos alunos dos nossos cursos superiores de Letras e de Comunicação A linguagem é clara a ordenação lógica a doutrina extraída do CLG nas suas linhas essenciais continua válida É a primeira vez que em língua portuguesa se faz uma apresentação sistemática e coerente dos fundamentos metodológicos da linguística saussuriana Os nossos alunos de Letras geralmente entram em contato com a Linguística logo no primeiro ano de suas atividades universitárias O Curso de Linguística Geral que de início se lhes põe em mãos não é fácil de digerir Essa constatação pesou para que o Prof Castelar de Carvalho se abalancasse a esta introdução O livro portanto ao atingir a finalidade a que visou terá certamente e certeiramente cumprido o seu destino E generoso destino Porque a trajetória fascinante da Linguística moderna começa realmente quando se transpõem as portas iluminadas do Curso de Linguística Geral Por conseguinte os nossos parabéns não só ao Prof Castelar de Carvalho mas igualmente a todos os universitários dos cursos superiores de Letras e de Comunicação do país Rio de Janeiro março de 1976 Silvio Elia Presidente do Círculo Linguístico do Rio de Janeiro ADVERTÊNCIA DA 1ª EDIÇÃO Este trabalho pretende ser um manual de consulta permanente escrito em linguagem simples didática e prática porém sem empobrecimento da objetividade científica inerente a uma obra dessa natureza Especialmente preocupado em aclarar as dúvidas e responder às interrogações de quantos se iniciam nos estudos linguísticos em nossas Faculdades de Letras proporcionalhes ao mesmo tempo uma visão crítica sobre os pontos fundamentais da nossa ciência Nosso livrinho não inova em nada nem se arroga tal finalidade Sua originalidade se alguma existe consiste a nosso ver no tratamento sistematizante e eminentemente pedagógico que dispensamos a assuntos tão fugidios a alunos ainda não iniciados nas lides da ciência linguística A experiência da sala de aula esse insubstituível laboratório de Didática em vários anos de contato direto com as turmas feznos sentir a falta de uma obra que destrinçasse a teoria revolucionária exposta no Curso onde nem sempre ela se apresenta suficientemente clara e a reunisse em um compêndio único sintetizador É que a doutrina de Saussure teve repercussões extraordinárias imprevisíveis à época da primeira edição do Curso de Linguística Geral 1916 carreando para seu autor a consagração póstuma e o reconhecimento do meio universitário que hoje o considera sem favor o fundador da Linguística científica Por essa razão rica e díspar é a bibliografia sobre o assunto Rica e geralmente complexa nem sempre especificamente voltada para aquele aluno recémsaído do vestibular que jamais ouvira falar de Saussure e o mais grave não familiarizado com uma linguagem de natureza técnicocientífica É nesse sentido que pretendemos estar oferecendo uma modesta contribuição aos alunos de Letras aos estudiosos em geral e mesmo aos já iniciados e experientes colegas de magistério Destes esperamos que nos honrem com sua leitura e nos enriqueçam o saber com suas críticas Desde já nossos agradecimentos em especial ao Professor Silvio Elia incentivador e mestre cujas lições tivemos o privilégio de haurir Rio de Janeiro fevereiro de 1976 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 2ª EDIÇÃO Mais do que antes continua válida a advertência feita quando da 1ª edição O espírito da obra não mudou Na verdade consolidouse e enriqueceuse do que dá testemunho o esgotamento da edição anterior O presente volume além da revisão de praxe tem a mais uma breve notícia sobre as Escolas Estruturalistas um número relativamente grande de exercícios objetivos sobre cada unidade e um apêndice especial sobre a Glossemática Tratamola separada e detidamente pela magnitude de sua importância dentro da Linguística saussuriana Reiteramos nossos agradecimentos ao Professor Sílvio Elia paciente revisor crítico assim como aos alunos e aos colegas pela acolhida carinhosa dada a este trabalho Rio julho de 1979 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 3ª EDIÇÃO No presente volume procuramos enriquecer a noção de forma e os capítulos consagrados às dicotomias sintagmaparadigma e sincroniadiacronia Acrescentamos também algumas achegas à parte que trata da arbitrariedade do signo lingüístico No mais esta 3a edição conserva em espírito e em conteúdo a orientação dada às edições anteriores É com grande prazer que registramos mais uma vez nossos agradecimentos ao mestre e amigo Prof Silvio Elia por suas valiosas e perspicazes observações críticas Agradecemos igualmente aos alunos e aos colegas pela acolhida carinhosa que têm dado a este trabalho Rio janeiro de 1982 Castelar de Carvalho ADVERTÊNCIA DA 9ª EDIÇÃO A presente edição conserva o espírito e o conteúdo das anteriores em respeito ao público leitor que nos tem honrado com sua atenção nos vinte e quatro anos de sucessivas reedições deste livro Fizemos apenas a correção de gralhas tipográficas atualizamos e acrescentamos informações e incluímos algumas achegas relativas à Lingüística Textual Nesta oportunidade reverenciamos a memória do querido e saudoso mestre Prof Silvio Elia falecido em novembro de 1998 Suas imorredouras lições de vida e de saber lingüístico continuam a orientar a trajetória desta obra Agradecemos mais uma vez aos alunos e professores pela acolhida carinhosa que têm dispensado ao nosso trabalho Um agradecimento especial a Pedro e Mariza pela inestimável ajuda prestada no preparo desta edição Rio fevereiro de 2000 Castelar de Carvalho I A LINGÜÍSTICA PRÉSAUSSURIANA Gilmar Henrique de Silva Visão Geral da Lingüística antes de Saussure A Lingüística definida hoje como o estudo científico da linguagem humana é como diz Mounin 1972 25 um saber muito antigo e uma ciência muito jovem O Prof Mattoso Camara Jr em seu Dicionário de lingüística e gramática a define como o estudo científico e desinteressado dos fenômenos lingüísticos Mas nem sempre um estudo científico e muito menos desinteressado caracterizou sua trajetória secular Na verdade a Lingüística só foi adquirir status de ciência a partir do século XIX Até então o que havia era o estudo assistemático e irregular dos fatos da linguagem de caráter puramente normativo ou prescritivo ou ainda retrocedendo à Antigüidade grega especulações filosóficas sobre a origem da linguagem mescladas com estudos de Filologia Até chegar a delimitarse e definirse a si própria a Lingüística passou por três fases sucessivas 1a Fase Filosófica Os gregos foram os precursores com suas profundas reflexões em torno da origem da linguagem Seus estudos calcados na Filosofia abrangeram a Etimologia a Semântica a Retórica a Morfologia a Fonologia a Filologia e a Sintaxe Baseavamse na Lógica analogistas ou no uso corrente anomalistas Tinham de início finalidades eminentemente práticas era uma Gramática voltada para a práxis para a ação o fazer Dionísio da Trácia séc I aC a chamou de Tékhné Grammatiké expressão traduzida mais tarde pelos romanos como Ars Grammatica Desse modo a Gramática surgiu no Ocidente como arte de ler e escrever como disciplina normativa que por seu comprometimento filosófico estava desprovida de uma visão científica e desinteressada da língua em si mesma Dominada doutrinariamente pela corrente dos analogistas aristotélica ou pela dos anomalistas estóicos a Gramática grega será reproduzida pelos romanos que numa tentativa de conciliar aquelas duas posições fazem nascer a Gramática das regras e das exceções A influência grega se fez sentir durante muitos séculos Marcando toda a Idade Média chegou a motivar na França em 1660 a elaboração de uma Gramática 17 geral a famosa Grammaire de PortRoyal de base puramente lógica coincidindo com a fase do Racionalismo O mérito dos estudiosos gregos é imenso nesse sentido pelo seu caráter precursor Na verdade as raízes do pensamento linguístico ocidental mergulham profundamente na Grécia Antiga 2a Fase Filológica A Filologia se constitui numa segunda fase dos estudos linguísticos Surgida em Alexandria por volta do século II aC batiase pela autonomia dos referidos estudos Os alexandrinos queriamnos mais filológicos e menos filosóficos Definindose historicamente como o estudo da elucidação de textos a Filologia dos alexandrinos de preocupação marcadamente gramatical dedicouse à Morfologia à Sintaxe e à Fonética Tendo influenciado bastante a Idade Média os estudos filológicos encontraram mais tarde em Friedrich August Wolf um de seus maiores divulgadores A partir do final do século XVIII a escola alemã de Wolf veio estendendo consideravelmente o campo e o âmbito da Filologia Além de interpretar e comentar os textos a Filologia procura também estudar os costumes as instituições e a história literária de um povo Entretanto seu ponto de vista crítico tornase limitado pelo fato de ela aterse demasiadamente à língua escrita deixando de lado a língua falada Contudo é forçoso reconhecer que as pesquisas filológicas serviram de base para o surgimento e a consolidação da Lingüística históricocomparatista 3a fase Históricocomparatista A terceira fase da história da Lingüística começa com a descoberta do sânscrito entre 1786 e 1816 mostrando as relações de parentesco genético do latim do grego das línguas germânicas eslavas e célticas com aquela antiga língua da Índia A preocupação diacrônica em saber como as línguas evoluem e não como funcionam é que vai marcar toda essa fase Franz Bopp 17911867 o que melhor aproveitou o conhecimento do sânscrito é considerado o fundador da Lingüística Comparatista Seu livro Sobre o sistema de conjugação do sânscrito de 1816 abriu então novas perspectivas lingüísticas Para Bopp a fonte comum das flexões verbais do latim do grego do persa e do germânico era o sânscrito Para ele o sânscrito era o idioma que mais se aproximava por sua estrutura morfológica de uma espécie de protolíngua indoeuropéia Apesar de não ter sido o descobridor do sânscrito é para Bopp que converge o mérito de haver sido o primeiro a realizar o estudo sistemático de línguas afins como matéria de uma ciência autônoma Ao lado do nome de Bopp citamse também como pioneiros da Lingüística históricocientífica o dinamarquês Rasmus Rask 17871832 e o alemão Jacob Grimm 17851863 Rasmus Rask escreveu um trabalho sobre a origem do velho 18 nórdico 1818 Rask mostra aí os pontos de contato entre as principais línguas indoeuropécias e as línguas nórdicas Jacob Grimm foi o primeiro a escrever uma gramática comparada das línguas germânicas a Deutsche Grammatik publicada em 1819 Grimm é considerado o pai do que mais tarde se chamariam leis fonéticas Os termos metafonia Umlaut e apofonia Ablaut são criações de Grimm Com o desenvolvimento da Filologia Comparada a Lingüística indoeuropéia experimentou extraordinário impulso A tendência dessa fase inicial da Lingüística Comparatista era identificarse com as ciências da natureza consoante o espírito da segunda metade do século XIX Essa tendência deu às primeiras idéias lingüísticas desse século um enfoque naturalista a princípio de base biológica o biologismo lingüístico as línguas nascem crescem e morrem como os organismos biológicos e a seguir de base física leis da Lingüística se aproximam das leis físicas leis fonéticas Neste caso salientouse o papel dos neogramáticos pelo excessivo esquematismo que deram às suas postulações A Lingüística Histórica ainda se prolonga por mais algumas décadas desdobrandose em um segundo momento numa reação aos neogramáticos caracterizada como fase culturalista 18901930 O culturalismo lingüístico combatia o naturalismo então reinante era a oposição culturalnatura Os estudiosos dessa fase afirmavam não haver correspondência entre as chamadas leis fonéticas e as leis da natureza As leis fonéticas são cronológicas e circunstanciais têm validade apenas para um determinado período histórico sofrem limitação espacial e só se manifestam em condições particulares As leis naturais ao contrário são atemporais e o mais importante universais Ora se as leis fonéticas fossem de fato leis naturais argumentavam os culturalistas o latim teria resultado numa única língua na França na Itália na Espanha em Portugal e nos demais domínios do Império Romano Portanto para o culturalismo lingüístico não existem leis fonéticas no sentido fisicalista Há isto sim circunstâncias históricoculturais que condicionam as alterações fonéticas Segundo o pensamento culturalista as línguas não existem por si mesmas São instrumentos culturais condicionados por fatores sociais históricos geográficos psicológicos e por isso mesmo de previsibilidade relativa e comportamento inconstante justamente o oposto do que acontece no campo das ciências naturais Em síntese podemos esquematizar o quadro dos estudos lingüísticos no século XIX e parte do séc XX da seguinte maneira fase naturalista 18101890 preocupação com a história interna da língua fase culturalista 18901930 preocupação com fatores externos condicionadores da língua históricoculturais Blank page II A LINGUÍSTICA SAUSSURIANA Ferdinand de Saussure 18571913 Formação e obras À época em que Saussure recebeu sua formação acadêmica o Comparativismo indoeuropeu dominava os estudos lingüísticos Fase decisiva e cujos êxitos marcantes sobre pontos importantes e essenciais da nossa ciência se constituíram no principal legado do século XIX ao século XX Saussure não poderia ficar imune a essa atmosfera científica e dela participou brilhantemente Tendo vivido em Leipzig e Berlim de 1876 a 1878 aí manteve contato com os expoentes da Lingüística Comparatista de então dos quais recebeu sólido embasamento e decisiva influência Assim é que mais tarde durante os onze anos 18801891 em que foi diretor da École Pratique des Hautes Études em Paris passaram pelas suas mãos os mais importantes comparatistas franceses que dele receberam formação influência e continuidade É de 1879 a publicação da Mémoire sur le primitif système des voyelles dans les langues indoeuropéenes Apesar da orientação atomística própria da corrente neogramática Saussure inova em sua Mémoire situando o problema da reconstituição fonética do indoeuropeu sob uma perspectiva sistemática Sua tese de doutoramento um ano mais tarde intitulavase De lemploi du génitif absolu en sanskrit Além de artigos de Gramática comparada infelizmente nada mais nos legou em vida o genial mestre genebrino Seu Cours de linguistique générale CLG como sabemos resultou da compilação por dois discípulos seus dos três cursos de Lingüística Geral que ministrara de 1906 a 1911 na Universidade de Genebra onde era titular desde 1896 Esses dois alunos foram Charles Bally e Albert Sechehaye com a colaboração de outro discípulo Albert Riedlinger Tratase portanto de obra póstuma e inacabada calcada em anotações colhidas em aula por seus alunos e como tal explicamse as possíveis obscuridades e contradições das idéias de Saussure Nela se reconhecem fórmulas de aspecto por vezes paradoxal onde salta aos olhos o estilo de ensino oral Apesar desse fato as idéias motrizes de sua obra póstuma por oposição ao método históricocomparatista dominante até então vieram revolucionar completamente o pensamento lingüístico ocidental Na verdade Saussure foi um espírito mais projetado para o século XX do que voltado para o século XIX como sóia acontecer com os intelectuais de seu tempo 23 Hoje mais de meio século depois de seu desaparecimento Saussure é estudado com o respeito o cuidado e a atenção que merecem os gênios Todos quantos se aprofundam na pesquisa de suas postulações adquirem consciência da importância do Cours para a Lingüística moderna e passam a compreender por que Saussure é considerado um divisor de águas no estudo científico da linguagem A Doutrina de Saussure O grande mérito de Saussure está antes de tudo no seu caráter metodológico um prolongamento da sua personalidade perfeccionista Era preciso em primeiro lugar pôr ordem nos estudos lingüísticos Para poder criar e postular suas teorias com perfeição científica impunhaselhe antes um trabalho metodológico preliminar Os lingüistas até então tratavam de coisas diferentes com nomes iguais e viceversa A ausência de uma terminologia adequada precisa objetiva de alcance universal e sabemos desde os gregos que só há ciência do universal instrumento de trabalho imprescindível a qualquer ciência digna do nome tolhiálhes a expressão das idéias Por exemplo o termo lingua tinha para alguns lingüistas um determinado sentido para outros já adquiria conotação totalmente diversa A Lingüística ressentiase de uma linguagem equívoca verdadeira colcha de retalhos terminológica e Saussure necessitava de uma linguagem unívoca de um padrão lingüístico de uma metalinguagem isto é de uma nova linguagem para expressar suas elucubrações Sua primeira tarefa portanto foi limpar o terreno para poder depois trabalhar A Lingüística escreveu ele jamais se preocupou em determinar a natureza do seu objeto de estudo Ora sem essa operação elementar uma ciência é incapaz de estabelecer um método para si própria CLG 10 O esquema abaixo dá a idéia exata do que segundo Saussure é a forma racional que deve assumir o estudo lingüístico p 1154 linguagem língua fala sincronía relações associativas paradigmáticas relações sintagmáticas diacronia 24 Além disso inova também com sua famosa e polêmica Teoria do Signo Linguístico signo significante significado princípios do signo arbitrariedade linearidade A TEORIA DO SIGNO LINGÜÍSTICO Signo significado significante Introdução Tipos de Sinais Saussure considera a língua como um sistema de signos formados pela união do sentido e da imagem acústica Tentemos agora aprofundar essa noção formulada pelo mestre genebrino Comecemos antes esclarecendo sinteticamente alguns pontos básicos vestibulares à teoria do signo A Semiologia ou Semiótica distingue dois tipos de sinais os naturais e os convencionais O sinal natural manifestase em forma de indício físico como a fumaça a trovoada nuvens negras rastros o som o cheiro a luz etc ou em forma de sintoma fisiológico a pulsação a contração a dor a febre a fome o suor o espasmo etc O sinal convencional envolve maior complexidade e pressupõe a existência de uma cultura antropologicamente falando já estabelecida da qual ele é resultado e expressão produto e instrumento a um só tempo Pode apresentarse em forma de ícone símbolo ou signo O ícone do grego eikôn imagem é imagístico por exemplo uma foto uma estatueta um desenho de alguém ou de algum lugar e caracterizase também por ser nãoarbitrário v princípio da arbitrariedade o signo totalmente arbitrário é a própria palavra enquanto que o símbolo semiarbitrário é um tipo intermediário entre o ícone e o signo por 1 A Semiologia ou Semiótica difere da Lingüística por sua maior abrangência enquanto a Lingüística é o estudo científico da linguagem humana a Semiologia preocupase não apenas com a linguagem humana e verbal mas também com a linguagem dos animais e de todo e qualquer sistema de comunicação seja ele natural ou convencional Desse modo a Lingüística inserese como uma parte da Semiologia Semiologia e Semiótica são termos permutáveis A primeira surgiu na Europa com Saussure e a segunda nos Estados Unidos com o filósofo Charles Sanders Peirce 2 Além da concepção saussuriana signo palavra com que é empregado neste trabalho o termo signo comporta um sentido mais amplo Neste caso os signos seriam não só as palavras mas também os gestos as imagens os sons não estritamente linguísticos como o apito de um trem o repicar de um sino as batidas do telégrafo o tilintar de uma campainha Compreendese assim a definição de Peirce 1975 94 O signo ou seu representamem é algo que sob certo aspecto ou de algum modo representa alguma coisa para alguém 26 exemplo a balança é o símbolo da Justiça a espada símbolo do Exército a cruz simboliza o Cristianismo uma vez que seu fundador nela morreu etc Por que Signo e não Símbolo Voltando ao CLG p 82 convém lembrar antes de mais nada por que Saussure preferiu adotar o termo signe signo Utilizouse a palavra símbolo para designar o signo lingüístico ou mais exatamente o que chamamos de significante Há inconveniente em admitilo justamente por causa do nosso primeiro princípio o da arbitrariedade do signo O símbolo tem como característica não ser jamais completamente arbitrário ele não está vazio existe um rudimento de vínculo natural entre o significante e o significado O símbolo da justiça a balança não poderia ser substituído por um objeto qualquer um carro por exemplo A Natureza do Signo Retomando a definição inicial do signo como a união do sentido e da imagem acústica verificamos que o que Saussure chama de sentido é a mesma coisa que conceito ou idéia isto é a representação mental de um objeto ou da realidade social em que nos situamos representação essa condicionada plasmada pela formação sociocultural que nos cerca desde o berço Em outras palavras para Saussure conceito é sinônimo de significado algo como a parte espiritual da palavra sua contrapartee inteligível em oposição ao significante que é sua parte sensível Por outro lado a imagem acústica não é o som material coisa puramente física mas a impressão psíquica desse som CLG 80 Melhor dizendo a imagem acústica é o significante Com isso temos que o signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces CLG 80 semelhante a uma moeda e que Saussure representou pela seguinte figura conceito imagem acústica 3 Mais tarde Jacobson e a Escola Fonológica de Praga irão estabelecer definitivamente a distinção entre som material e imagem acústica Ao primeiro designaram de fone objeto de estudo da Fonética À imagem acústica denominaram de fonema conceito amplamente aceito e consagrado hoje na Fonologia 27 Os dois elementos significante e significado que constituem o signo estão intimamente unidos e um reclama o outro CLG 80 São interdependentes e inseparáveis Exemplificando diríamos que quando um falante de português recebe a impressão psíquica que lhe é transmitida pela imagem acústica ou significante kaza graças à qual se manifesta fonicamente o signo casa essa imagem acústica de imediato evocalhe psiquicamente a idéia de abrigo de lugar para viver estudar fazer suas refeições descansar etc Figurativamente diríamos que o falante associa o significante kaza ao significado domus tomandose o termo latino como ponto de referência para o conceito Fazendo uso da figura de Saussure teríamos neste caso casa domus kaza Podemos designar portanto o significante como a parte perceptível do signo e o significado como sua contraparte inteligível4 É importante advertir a esta altura que o signo une sempre um significante a um conceito a uma idéia a uma evocação psíquica e não a uma coisa pois segundo R Barthes 1972 46 o significado não é uma coisa mas uma representação psíquica da coisa O próprio Saussure teve o cuidado de chamar a atenção para o perigo de se supor que o signo une um objeto a um nome a um rótulo O lingüista deve ter sempre em mente que os termos implicados no signo lingüístico são ambos psíquicos e estão unidos em nosso cérebro por um vínculo de associação CLG 80 Desse modo o signo lingüístico resulta ser o produto concreto da união significante significado e nesse sentido Émile Benveniste 1971 142 sintetiza com feliz propriedade o pensamento de Saussure El significante y el significado la representación mental y la imagen acústica son por lo tanto las dos caras de una misma 4 Confrontase a propósito com o ponto de vista dos Estóicos os que mais aprofundaram os estudos lingüísticos na Grécia Antiga segundo os quais o sémeion signo era constituído pela relação existente entre o sémainon significante e o sémainomenon significado A posição de Saussure é uma salutar retomada de uma concepção de uma terminologia que já eram boas no século II aC o que vem corroborar o que afirmamos no início deste trabalho as raízes do pensamento lingüístico ocidental mergulham profundamente na Grécia Antiga 28 noción y se integran a título de incorporante e incorporado El signficante es la traducción fónica de un concepto el significado el correlato mental del significante Esta consustancialidad del significante y el significado asegura la unidad estructural del signo lingüístico Ao incluir o significado na formulação do signo lingüístico Saussure demonstrou ter consciência plena de que não podem existir conceitos ou representações sem a respectiva denominação correspondente e com isso lançou as bases da Semântica moderna Uma Crítica à Teoria do Signo Do mesmo modo que outras postulações saussurianas também esta tem sido alvo da crítica de alguns lingüistas contemporâneos A mais importante delas referese ao fato de Saussure em virtude de encarar o signo como uma entidade bifacial não ter incluído um terceiro termo a coisa significada na sua teoria No caso seu esquema seria corrigido ou completado segundo seus contraditores se se adotasse em substituição o famoso triângulo de Ogden e Richards que vêem o signo constituído por uma relação triádica da seguinte maneira pensamento ou referência símbolo referente ou coisa Como podemos verificar o triângulo inclui o referente ou coisa significada embora ressaltando por meio da linha pontilhada da base que não existe nenhum vínculo direto entre a coisa e o símbolo o que o leva por outro caminho à relação bipolar e de natureza psíquica formulada por Saussure 29 Numa adaptação ao esquema saussuriano teríamos o seguinte sdo domus OU ste coisa kaza De qualquer forma a crítica é pertinente pois o triângulo de Ogden e Richards reintroduz a coisa significada melhor dizendo a realidade sociocultural a qual quer seja considerada extralingüisticamente ou não não pode ser deixada de lado pela Semântica Princípios do Signo arbitrariedade linearidade A Arbitrariedade do Signo Lingüístico Como a soma do significante mais significado resulta num total denominado signo temos que o signo lingüístico é arbitrário CLG 81 Mas o que quer dizer Saussure com arbitrário Para ele arbitrário não deve dar a idéia de que o significado dependa da livre escolha do que fala porque não está ao alcance do indivíduo trocar coisa alguma num signo uma vez esteja ele estabelecido num grupo lingüístico queremos dizer que o significante é imotivado isto é arbitrário em relação ao significado com o qual não tem nenhum laço natural na realidade CLG 83 grifo nosso Desse modo compreendemos por que Saussure afirma que a idéia ou conceito ou significado de mar não tem nenhuma relação necessária e interior com a 30 sequência de sons ou imagem acústica ou significante mar Em outras palavras o significado mar poderia ser representado perfeitamente por qualquer outro significante E Saussure argumenta para provar seu ponto de vista com as diferenças entre as línguas Tanto assim que a idéia de mar é representada em inglês pelo significante si e em francês por mér Nesse sentido alega o autor do CLG p 82 que o significado da palavra francesa bœuf boi tem por significante böf de um lado da fronteira francogermânica e oks Ochs do outro O que pretendia Saussure é que digamos assim não existe o significante verdadeiro Qualquer um é válido No entanto apesar de se tratar do óbvio que a relação entre os dois constituintes do signo seja arbitrária esta tem sido a mais discutida e criticada postulação saussuriana reacendendo a famosa e milenar polêmica existente entre os antigos filósofos gregos os quais se preocupavam em saber se o laço entre significante e significado era natural ou produto da convenção humana a célebre discussão em torno da THÉSEI relação convencional e PHYSÉI relação natural Críticas ao Princípio da Arbitrariedade Alguns dos críticos de Saussure objetaram entre outras coisas que o signo na sua totalidade não é tão arbitrário como pretendia o mestre porque uma das suas duas faces o significante não poderia combinarse arbitrariamente com a sua segunda face o significado correspondente em outra língua Por exemplo o inglês titʃə teacher não poderia jamais tornarse o significante do significado português professor se é que é possível representarse visualmente um significado porque titʃə é parte inseparável e necessária assim pensam esses críticos de um signo cujo significado não é em todos os sentidos e nuances igual à idéia que nós falantes de português fazemos de professor Um outro crítico Émile Benveniste 1971141 chega inclusive a corrigir o mestre ao pretender que el nexo que une a ambos ste e sdo no es arbitrario es necesario El concepto significado buey es por fuerza idéntico en mi conciencia al conjunto fónico significante bwéi Cómo iba a ser de otra manera Uno y otro juntos se han impreso en mi mente y juntos se evocan en toda circunstancia 5 Em nossa língua tanto o indivíduo que ensina a fazer bolos sem desfazer nos mestrescucas como o que leciona em um colégio ou em uma Universidade do mais elevado gabarito é conhecido como professor em inglês teacher é reservado apenas para o professor de 1º e 2º graus enquanto que professor distingue o professor universitário 31 Ora somos levados a crer que os críticos do mestre de Genebra demonstram não terem aprendido o pensamento saussuriano em toda sua profundidade e coerência Saussure postulava isto sim que o signo como um todo só tem valor situado dentro de um determinado sistema lingüístico do qual é parte integrante E como que prevendo a posteridade crítica adverte CLG 132 que é uma grande ilusão considerar um termo simplesmente como a união de certo som com um certo conceito Definilo o valor linguístico do signo assim seria isolálo do sistema do qual faz parte E comprovando sua argumentação exemplifica p 134 O português carneiro na adaptação da tradução brasileira ou o francês mouton podem ter a mesma significação que o inglês sheep mas não o mesmo valor isso por várias razões em particular porque ao falar de uma porção de carne preparada e servida à mesa o inglês diz mutton e não sheep A diferença de valor entre sheep e mouton ou carneiro se deve a que o primeiro tem a seu lado um segundo termo o que não ocorre com a palavra portuguesa ou francesa cf com nosso ex ingl teacherprofessor e port professor Além do que foi exposto acima é muito importante lembrar que para Saussure a arbitrariedade do signo e nisso insistimos repousa no fato de que o falante não pode mudar aquilo que o seu grupo linguístico já consagrou Não poderíamos jamais chamar mesa de livro e viceversa Ele sentouse ao livro para jantar ele está lendo uma mesa sem correr o risco de passarmos por insano Nesse particular aliás a coerência da argumentação saussuriana tornase mesmo incomum CLG 8788 Uma língua constitui um sistema Se esse é o lado pelo qual a língua não é completamente arbitrária e onde impera uma razão relativa é também o ponto onde avulta a incompetência da massa para transformála Dizemos homem e cachorro porque antes de nós se disse homem e cachorro E concluindo p 88 Justamente porque o signo é arbitrário não conhece outra lei senão a da tradição e é por basearse na tradição que pode ser arbitrário 32 Na verdade há dois sentidos para arbitrário a o significante em relação ao significado livro book livre Buch biblion etc significantes diferentes para um mesmo significado b o significado como parcela semântica em oposição à totalidade de um campo semântico ingl teacherprofessor port professor ingl sheepmutton port carneiro Concluise daí como tão bem assinala o Prof Sílvio Elia que A argumentação saussuriana de fato não foi bem entendida por vários de seus críticos No sentido A por exemplo arbitrário significa simplesmente nãomotivado E aqui Saussure tem plena razão No sentido B que não está explícito no CLG o genebrino também é quem está com a razão O exemplo teacherprofessor mostra simplesmente que o corte semântico é arbitrário ao contrário do que pensam acontecer os seus contraditores Comentário em monografia do A A Questão das Onomatopeias e Interjeições O contraditor poderia se apoiar nas onomatopeias para dizer que a escolha do significante nem sempre é arbitrária CLG 83 Esta é outra objeção freqüente da crítica ao princípio da arbitrariedade do signo linguístico mas o próprio Saussure já a anulava por antecipação O problema é que os contraditores consideram as onomatopeias palavras motivadas ao contrário dos outros signos que são imotivados por não guardarem nenhuma relação natural e lógica entre significante e significado porque elas sugerem pela forma fônica uma realidade Por exemplo dizemos que o gato mia mas não podemos dizer que o gato muge a voz do gato não faz lembrar em nada a do boi muge não poderia ser aplicado para descrever o som emitido pelo gato ao passo que mia se aproxima de algum modo do miau de um bichano Porém alerta Saussure tais casos não chegam a constituir elementos orgânicos de um sistema lingüístico CLG 83 pois ocorrem em número mais reduzido do que se supõe e só em raríssimos casos se encontra uma ligação íntima entre significante e significado Do mesmo modo 33 as onomatopéias autênticas aquelas do tipo gluglu tictac etc não apenas são pouco numerosas mas sua escolha é já em certa medida arbitrária pois não passam de imitação aproximativa e já meio convencional de certos ruídos comparese o francês ouaoua e o alemão wauwau Além disso uma vez introduzidas na língua elas se engrenam mais ou menos na evolução fonética morfológica etc que sofrem as outras palavras cf pigeon do latim vulgar pipio derivado também de outra onomatopéia prova evidente de que perderam algo de seu caráter primeiro para adquirir o do signo lingüístico em geral que é imotivado CLG 83 De fato o protótipo natural que motivou o surgimento desta ou daquela onomatopéia parece sugerir a existência de um motivo de um rudimento de vínculo natural entre esta e seu modelo original dando a impressão de que o significante é motivado em relação ao significado isto é nãoarbitrário Mas tal impressão é ilusória Ruídos e sons naturais ao entrarem para um sistema lingüístico através da reprodução aproximada sugerida pelas onomatopéias amoldamse ao material fônico da língua e transformamse numa imitação convencional por isso variam de língua para língua O grasnar de um pato por exemplo dificilmente será reproduzido da mesma maneira em duas línguas diferentes em português quáquá em francês couincouin em dinamarquês raprap em alemão gackgack em romeno macmac em italiano quaqua em russo kriak em inglês quack em catalão mechmech v Serafim S Neto 1938 82 Este é também o pensamento do Prof Mattoso Camara Jr 1978 182 que endossa o que já vimos em Saussure Para ele as onomatopéias são constituídas com os fonemas da língua que pelo efeito acústico dão melhor reimpressão desse ruído Não se trata portanto de imitação fiel e direta do ruído mas da sua interpretação aproximada com os meios que a língua fornece Quanto às interjeições como tal já fazem parte do sistema lingüístico já estão estruturadas convencionalmente dentro de cada língua variando enormemente de uma para outra ai em português aie em francês au em alemão ouch em inglês etc Como diz Saussure p 83 para a maior parte delas podese negar que haja um vínculo necessário entre o significado e o significante E para corroborar estas palavras de Saussure lembremos o exemplo da nossa interjeição aí espécie de cumprimento de saudação que aos ouvidos dos falantes de espanhol soa como o advérbio hoy hoje Concluímos portanto que a questão levantada em torno das onomatopéias e interjeições não abala de modo algum o princípio da arbitrariedade do signo lin güístico6 uma vez que estas são de importância secundária a sua origem simbólica é em parte contestável CLG 84 Arbitrário AbsolutoArbitrário Relativo Apesar de haver postulado que o signo lingüístico é em sua origem arbitrário Saussure não deixa de reconhecer a possibilidade da existência de certos graus de motivação entre significante e significado CLG 152 O princípio fundamental da arbitrariedade do signo não impede distinguir em cada língua o que é radicalmente arbitrário vale dizer imotivado daquilo que só o é relativamente Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária em outras intervêm um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimilo o signo pode ser relativamente motivado grifo no original Em coerência com seu ponto de vista dicotômico Saussure propõe a existência de um arbitrário absoluto e de um arbitrário relativo Como exemplo de arbitrário absoluto o mestre de Genebra cita os números dez e nove tomados individualmente e nos quais a relação entre o significante e o significado seria totalmente arbitrária isto é essa relação não é necessária é imotivada Já na combinação de dez com nove para formar um terceiro signo a dezena dezenove Saussure acha que a arbitrariedade absoluta original dos dois numerais se apresenta relativamente atenuada dando lugar àquilo que ele classificou como arbitrariedade relativa pois do conhecimento da significação das partes podese chegar à significação do todo O mesmo acontece no par perapereira em que pera enquanto palavra primitiva serviria como exemplo de arbitrário absoluto signo imotivado Por sua vez pereira forma derivada de pera seria um caso de arbitrário relativo signo motivado devido à relação sintagmática pera morfema lexical eira morfema sufixal e à relação paradigmática estabelecida a partir da associação de pereira a laranjeira bananeira etc uma vez que é conhecida a significação dos elementos formadores 6 Parecenos que a única possível exceção ao princípio geral da arbitrariedade darseia quando o signo lingüístico é usado literariamente com intenção estética A nosso ver neste caso o signo literário enquanto tal não deve ser considerado como imotivado ao contrário ele é totalmente motivado Fazer literatura implica uma seleção estéticovocabular havendo portanto motivo da parte do escritor para preferir tais e tais signos e rejeitar outros Se alguma arbitrariedade existe no caso ela reside na própria escolha do escritor mas não é a esse tipo de arbitrariedade que nos referimos e sim à do significante em relação ao significado Os signos que forem de fato empregados com intenção estética e unicamente estes ao longo de uma obradearte seja prosa ou poesia terão um motivo para estarem ali impressos isto é eles são motivados Mas alertamos referimonos ao signo literário o que não contradiz de forma alguma nossa posição quanto à arbitrariedade do signo lingüístico em geral Mais adiante Saussure p 154 esclarece que as línguas em que a imotivação atinge o máximo são mais lexicológicas e aquelas em que se reduz ao mínimo mais gramaticais grifos no original Línguas lexicológicas formadas por uma maioria de signos imotivados seriam o inglês e o chinês segundo Saussure Por outro lado como exemplos de línguas gramaticais cita o mestre o caso do latim do sânscrito e do alemão idiomas em que predominam os signos mais ou menos motivados isto é palavras formadas pelo relacionamento morfossintático entre os seus constituintes imediatos Motivação e Arbitrariedade Partindo da dicotomia arbitrário absolutoarbitrário relativo a Lingüística póssaussuriana deu conseqüência ao pensamento infelizmente inacabado do mestre de Genebra Pierre Guiraud por exemplo propõe a existência de dois tipos de motivação a interna e a externa A motivação interna ocorre dentro do próprio sistema lingüístico a partir das possibilidades de relacionamento existentes entre palavras ou entre unidades da língua Tratase portanto das relações internas sintagmáticas e paradigmáticas do sistema responsáveis pelo funcionamento desse mesmo sistema Diz Guiraud 1972 31 A motivação é interna quando tem a sua fonte no interior do sistema lingüístico A relação motivante não está mais aqui entre a coisa significada e a forma significante mas entre a palavra e outras palavras que já existem na língua A motivação interna ou intralingüística é de natureza morfológica e compreende a derivação e a composição Corresponde à arbitrariedade relativa de Saussure A derivação como instrumento de criação de palavras motivadas pode ser a prefixal in feliz b sufixal per eira c prefixal e sufixal in feliz mente d parassintética en tard ec e r e regressiva ou deverbal atraso atrasar A composição pode ocorrer por a justaposição televisão edificiogaragem minissaia b aglutinação planalto plano alto aguardente água ardente Além da derivação e da composição acrescentaríamos outros processos motivadores de natureza morfológica típicos das línguas modernas a saber a abreviação foto fotografia b siglas ONU MEC IBOPE As siglas expediente prático cada vez mais generalizado nas línguas modernas já existe até dicionário de siglas tiveram extraordinária expansão no século XX o século da pressa A necessidade de comunicação social técnica e administrativa cada vez mais direta e concisa fez com que surgissem as siglas as quais uma vez criadas criação motivada pelas letras ou sílabas iniciais das palavras que as compõem e socializadas linguisticamente passam a ser sentidas pela massa falante como verdadeiras palavras novas capazes inclusive de gerar derivados Por exemplo a sigla CLT Consolidação das Leis do Trabalho motivou o curioso neologismo celetista já difundido pela imprensa 51 dos funcionários da União são regidos pela CLT sendo por isso conhecidos como celetistas Revista IstoÉ nº 241 050881 p 66 Com relação à motivação externa ou extralinguística esclarece Guiraud 1972 30 a motivação é externa quando ela repousa sobre uma relação entre a coisa significada e a forma significante fora do sistema linguístico A motivação externa pode ser fonética ou metassêmica Motivação fonética é o caso das onomatopéias palavras etimologicamente motivadas na opinião de Guiraud Embora tendam a se desmotivar com o uso e em consequência a cair no arbitrário as onomatopéias desempenham importante papel na renovação do léxico e na valorização do texto poético vide por exemplo o poema Os Sinos de Manuel Bandeira Motivação metassêmica engloba os casos de transferências semânticas meta transformação sema significado Como exemplos típicos de metassemia podemos citar as metáforas O aluno encontrou a chave do problema as metonímias Gosto de ler Machado de Assis as catacreses pernas da mesa e os casos de conversão de palavras ou mudança de classe gramatical Terrível palavra é um não Confrontando os dois tipos de motivação do signo concluímos que a motivação interna por suas características específicas tornase mais importante para o funcionamento da língua do que a motivação externa A motivação externa é mais fortuita mais limitada realizandose de fora para dentro do sistema linguístico A motivação interna mais geral atua de dentro para fora do sistema oferecendo possibilidades teoricamente ilimitadas de renovação do léxico Para concluir acrescentaríamos o seguinte para Saussure o princípio da arbitrariedade do signo é um fenômeno geral resulta historicamente de uma convenção arbitrário convencional social e é ele que assegura o funcionamento ahistórico do sistema linguístico Para Saussure o signo é imotivado a priori isto é em suas origens ressalva feita unicamente para os casos que ele situou como arbitrariedade relativa estes surgidos a posteriori Pierre Guiraud entretanto considera que o signo nasce sempre motivado para se desmotivar posteriormente a partir do momento em que ele se socializa através do uso pela massa falante Afirma Guiraud 1972 29 Toda palavra é sempre motivada em sua origem e ela conserva tal motivação por maior ou menor tempo segundo os casos até o momento em que acaba por cair no arbitrário quando a motivação deixa de ser percebida Guiraud reconhece portanto o caráter arbitrário do signo linguístico mas o vê instaurarse ao contrário de Saussure a posteriori e não a priori Tentemos ilustrar o ponto de vista do linguista francês com um exemplo em nossa língua o substantivo romaria resultou da relação sintagmática entre Roma e o sufixo aria porque significava historicamente peregrinação a Roma para ver o Papa Um caso portanto de motivação a priori diria Guiraud O uso entretanto desgastoulhe o sentido original e hoje romaria significa qualquer tipo de peregrinação ou de procissão religiosa Quando o falante ouve o signo romaria não passa pela sua cabeça em momento algum a ideia de peregrinação a Roma a menos que venha explicitado romaria ao Vaticano Por exemplo entre nós são muito freqüentes as romarias a Aparecida do Norte em São Paulo O vocábulo romaria a seguirse o raciocínio de Guiraud teria portanto se desmotivado a posteriori assumindo em consequência o caráter arbitrário dos signos linguísticos em geral A Linearidade do Significante Esta segunda característica do signo é tão importante quanto a primeira conforme teremos oportunidade de constatar em Relações Sintagmáticas Aqui ampliaremos a noção deste segundo princípio do signo linguístico a partir daquilo que a Lingüística moderna tem chamado de unidades discretas O princípio da discreção neologismo referente às unidades discretas cf discrição qualidade de ser discreto reservado baseiase no fato de que toda unidade linguística tem valor único sem matizes intermediários como diz Borba 1971 58 Em outras palavras os elementos de um enunciado linguístico são diferentes entre si limitados independentes sem variações Ou pronunciamos faca ou vaca Não existe um meio termo entre f e v que são desse modo unidades discretas isto é separáveis descontínuas É o princípio do tudo ou nada digamos assim que caracteriza em síntese as unidades discretas Martinet 1971a 20 nos esclarece de vez com os exemplos de bata e pata Se um locutor articular mal se houver barulho no ambiente se a situação não me facilitar o papel de ouvinte poderei hesitar em interpretar o que ouvi como é uma linda bata ou como é uma linda pata mas sou obrigado a escolher uma ou outra das duas interpretações e não há evidentemente possibilidade de admitir uma mensagem intermediária Com isso concluímos que as unidades discretas têm de ser emitidas sucessivamente Elas não são concomitantes não são coexistentes não são simultâneas Ao contrário são sucessivas e por isso só podemos emitir um fonema de cada vez em linha ou melhor linearmente Muito menos podemos emitir duas palavras ao mesmo tempo A língua em seu funcionamento pode ser descrita portanto como uma sucessão de unidades discretas tanto no eixo paradigmático como no sintagmático Mas é necessário lembrar que a linearidade é do significante e não do significado Nesse sentido adverte Saussure CLG 84 O significante sendo de natureza auditiva desenvolvese no tempo unicamente e tem as características que toma do tempo a representa uma extensão e b essa extensão é mensurável numa só dimensão é uma linha Do enunciado saussuriano depreendemos que somente a parte material do signo o significante é linear e que o pensamento em si mesmo não tem partes não é sucessivo só o sendo quando se concretiza através das formas fônicas lineares do significante Aqui caberia compararmos o pensamento a uma tela em que todos os elementos aparecem simultaneamente formando um todo Tal fato a simultaneidade já não é possível numa poesia por exemplo seja ela declamada ou lida silenciosamente Aliás esse exemplo fundamenta com bastante clareza o princípio da linearidade do significante e torna oportuno citar o pensamento do próprio Saussure CLG 84 os significantes acústicos dispõem apenas da linha do tempo seus elementos se apresentam um após outro formam uma cadeia Esse caráter aparece imediatamente quando os repre sentamos pela escrita e substituímos a sucessão do tempo pela linha espacial dos signos gráficos Poderíamos também caracterizar o significado como um bloco como um todo como uma unidade que só se decompõe quando falamos ou escrevemos quando materializamos nosso pensamento em ordem linear ordem essa que também é arbitrária de língua para língua uma vez que não existe ordem no pensamento e sim na língua Atentese a propósito para as palavras bastante esclarecedoras do lingüista dinamarquês Luís Hjelmslev 19684344 Al mirar un texto impreso o escrito vemos que se compone de signos y que éstos se componen a su vez de elementos que se desarrollan en una dirección determinada cuando se utiliza el alfabeto latino se extienden de izquierda a derecha cuando se utiliza el alfabeto hebreo se extienden de derecha a izquierda cuando se utiliza el alfabeto mongol se extienden de arriba abajo pero se desarrollan siempre en una dirección determinada y cuando oímos un texto hablado se compone para nosotros de signos y estos signos se componen a su vez de elementos que se desarrollan en el tiempo unos vienen antes otros después Los signos forman una cadena cadeia y los elementos de cada signo forman asimismo também una cadena O pensamento funciona desse modo com uma força estruturante da língua segundo o Prof Sílvio Elia o qual ao mesmo tempo se indaga se a estrutura profunda de Chomsky não será na verdade o próprio pensamento Se é então o pensamento não é uma estrutura ao contrário ele é uma força estruturante Nesse caso segundo o referido mestre não cabe falar em estrutura profunda e sim em estrutura subjacente Uma Crítica ao Princípio da Linearidade O lingüista Roman Jakobson contestou o princípio da linearidade do significante argumentando que num fonema qualquer por exemplo b há um feixe de traços fônicos simultâneos bilabial oral oclusivo e sonoro e nãosucessivos nãolineares Mas para Saussure esses traços fônicos não passam de elementos do significante que já está formado na língua como um todo Eis a resposta do próprio autor do CLG p 84 Em certos casos isso o princípio da linearidade não aparece com destaque Se por exemplo acentuo uma sílaba parece que acumulo num só ponto elementos significativos diferentes Mas tratase de uma ilusão a sílaba e seu acento constituem apenas um ato fonatório não existe dualidade no interior desse ato mas somente oposições diferentes com o que se acha a seu lado ver capítulo Relações Sintagmáticas e Paradigmáticas De fato uma palavra como cavalo também apresenta vários traços sêmicos ser vivo irracional quadrúpede animal macho todos contidos ao mesmo tempo mas isso em nada abala o princípio da linearidade do significante porquanto cavalo enquanto unidade discreta já formada já pronta na língua só se materializa fonicamente de forma linear Por fim cabe citar aqui a advertência do próprio Saussure CLG 84 sobre a relevância dessa segunda característica do signo lingüístico para uma teoria estruturalista enquanto categoria formal da linguagem Esse princípio é evidente mas parece que sempre se negligenciou enunciálo sem dúvida porque foi considerado demasiadamente simples todavia ele é fundamental e suas consequências são incalculáveis de fato na época o eram sua importância é igual à da primeira lei a da arbitrariedade do signo Todo mecanismo da língua depende dele Em resumo Tipos de Sinal Natural indício físico fumaça rastros sintoma fisiológico pulsaçâo febre Convencional ícone motivado estatueta foto símbolo intermédio balança justiça signo imotivado a palavra SIGNO Significante Significado imagem acústica conceito perceptível inteligível psicofísico psíquico impressão psíquica do som evocação psíquica provocada pelo som representante representado tradução fônica de um conceito correlato mental do significante presença ausência som pensamento matéria idéia incorporante incorporado sensorial conceitual sêmainon sêmainomenon signans signatum Características Arbitrariedade do ste em relação ao sdo Linearidade do ste Para Saussure Arbitário absoluto relativo Para Guiraud Motivação interna morfológica derivação composição externa fonética metassêmica Ambos de natureza psíquica Na terminologia de Santo Agostinho O Signo Lingüístico 1 A diferença entre Semiologia e Lingüística é a A Semiologia difere da Lingüística por sua maior abrangência A Lingüística é o estudo científico da linguagem humana Já a Semiologia estuda todo e qualquer tipo de código de comunicação b A Semiologia difere da Lingüística por ser arbitrária e a Lingüística semiarbitrária c A Semiologia e a Lingüística minimizam a linguagem humana 2 Saussure preferiu o termo Signo e não Símbolo porque a o símbolo é totalmente arbitrário e o signo é semiarbitrário b o símbolo e o signo são ambos semiarbitrários c o símbolo é semiarbitrário e o signo é totalmente arbitrário 3 Relacione as colunas 1 Signo Imagem psíquica conceito ou representação mental que a imagem acústica evoca no falante 2 Significante É semiarbitrário 3 Símbolo Imagem acústica representação sonora de natureza psicofísica do vocábulo 4 Significado Combinação arbitrária de um significante com um significado 4 Assinale a segunda coluna de acordo com a primeira 1 Língua Ciência que estuda as significações 2 Semântica Produto e instrumento de uma cultura 3 Semiologia Indícios de chuva de fogo etc 4 Lingüística Febre suor dor fome etc 5 Sinal convencional É a imagem acústica ou visual É a expressão da imagem mental 6 Sinal natural físico Rastros nuvens negras luz som etc 43 7 Sinal natural fisiológico É o conceito a idéia que fazemos de um objeto 8 Significado Signo 9 Significante Teoria geral dos signos 10 União do sdo ste Sistema de signos vocais Ciência que estuda os códigos e sinais de comunicação Estudo científico da linguagem humana 5 O signo lingüístico é arbitrário Isto quer dizer que a Não há uma relação natural entre o significante e o significado b Há uma ligação natural entre a imagem acústica e o conceito 6 Sobre as onomatopéias podemos afirmar a Imitações convencionais de sons e ruídos naturais e que variam de língua para língua b Imitação fiel e direta de um ruído ou som natural 7 Marque com V se for verdadeira e com F se for falsa Os enunciados vocais decorrem no tempo e são captados pelo ouvido como sucessões O caráter linear dos enunciados explica a sucessividade dos morfemas e fonemas Somente a parte material do signo o significante é linear 8 Relacione as duas colunas 1 Arbitrariedade absoluta dezoito 2 Arbitrariedade relativa dez oito 44 9 Numere a 1ª coluna de acordo com a 2ª Semiologia 1 Representação intelectual de um objeto Ícone 2 É semiarbitrário Significado 3 Estudo científico de todo e qualquer sistema de comunicação Significante 4 Não é som material e sim a impressão psíquica desse som Símbolo 5 Motivado 10 Não existe uma associação natural entre os sons vocais e os conceitos por eles expressos Estas palavras saussurianas explicam a A teoria do signo b A linearidade do signo c A arbitrariedade do signo d Crítica à arbitrariedade 11 Apenas uma parte dos signos é absolutamente arbitrária em outras intervém um fenômeno que permite reconhecer graus no arbitrário sem suprimilo o signo pode ser relativamente motivado Certo Errado 12 Valetransporte e passatempo são exemplos de motivação formados por 13 No interior de uma mesma língua todo o movimento da evolução não pode ser assinalado por uma passagem contínua do motivado ao arbitrário e do arbitrário ao motivado Esse vaivém tem amiúde como resultado alterar sensivelmente as proporções dessas duas categorias de signos Certo Errado 14 O Brasil por seus contrastes socioeconômicos tem sido considerado uma espécie de Belíndia Bélgica Índia O neologismo Belíndia é um exemplo de motivação formado por 45 15 Enxugar o texto tornálo mais sucinto e enxugar a máquina administrativa reduzir despesas são exemplos de motivação do tipo 16 A Morfologia pode constituir uma disciplina distinta da Sintaxe Certo Errado 17 A flexão é uma forma típica da associação das formas lingüísticas no espírito do falante Tratase de uma categoria gramatical da língua Certo Errado 18 Para se fazer a associação de duas unidades lingüísticas é necessário sentir que elas oferecem algo em comum e também distinguir a natureza das relações que regem as associações Certo Errado 19 Marque a alternativa correta Signo é I o resultado da soma do significante com o significado II a união do sentido com a imagem acústica III formado de duas faces significante e significado a Somente a alternativa I está correta b Somente a alternativa III está correta c As alternativas I II III estão corretas d Todas as alternativas acima estão erradas 20 Marque V ou F Para Saussure sentido não é a mesma coisa que conceito ou idéia O signo lingüístico é uma entidade psíquica de duas faces 21 Marque a alternativa correta a Os contraditores consideram as onomatopéias palavras imotivadas 46 b Existem as onomatopéias autênticas tictac gluglu pouco numerosas c Mattoso Camara acha que as onomatopéias são imitações fiéis e diretas dos ruídos naturais 22 As entidades concretas da língua são os signos os conceitos as imagens acústicas as sílabas 23 A entidade linguística só existe pela associação do significante e do significado Certo Errado 24 Nos exemplos Vou tomar 1 a lição e Vou tomar 2 café tomar 1 e tomar 2 constituem a mesma unidade lingüística isto é têm o mesmo valor Certo Errado 25 O vínculo entre dois empregos da mesma palavra não se baseia nem na identidade material nem na exata semelhança de sentido Certo Errado 26 A espada vence mas não convence Espada força é um caso de metonímia Tratase de uma metassemia um exemplo de a motivação interna b motivação externa 27 Em guardaroupa temos um caso de motivação interna Justifique a afirmativa com suas palavras 47 LÍNGUAFALA As Dicotomias Saussurianas A doutrina de Saussure baseiase numa série de pares de distinções atribuídas por Georges Mounin 1973 54 à sua mania dicotômica Citando o próprio Saussure A linguagem é redutível a cinco ou seis dualidades ou pares de coisas Mounin nos revela que o mestre de Genebra estava bem consciente de sua perspectiva dicotômica o que aliás é confirmado logo nas primeiras páginas do Curso de lingüística geral Afirma Saussure CLG 15 o fenômeno lingüístico apresenta perpetuamente duas faces que se correspondem e das quais uma não vale senão pela outra Comecemos pela oposição fundamental línguafala LÍNGUAFALA Esta é sua dicotomia básica e juntamente com o par sincroniadiacronia constitui uma das mais fecundas Fundamentada na oposição socialindividual revelouse com o tempo extremamente profícua O que é fato da língua langue está no campo social o que é fato da fala ou discurso parole situase na esfera do individual Reposando sua dicotomia na Sociologia ciência nascente e já de grande prestígio então Saussure p 16 afirma e adverte ao mesmo tempo a linguagem tem um lado individual e um lado social sendo impossível conceber um sem o outro A língua Do exame exaustivo do Curso depreendemos três concepções para língua acervo lingüístico instituição social e realidade sistemática e funcional Analisemolas à luz do CLG A língua como acervo lingüístico A língua é uma realidade psíquica formada de significados e imagens acústicas constituise num sistema de signos onde de essencial só existe a união do 49 sentido e da imagem acústica onde as duas partes do signo são igualmente psíquicas p 23 é um tesouro depositado pela prática da fala em todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou mais exatamente nos cérebros dum conjunto de indivíduos p 21 a língua é uma soma de sinais depositados em cada cérebro mais ou menos como um dicionário cujos exemplares todos idênticos fossem repartidos entre os indivíduos p 27 A língua como acervo linguístico é o conjunto de hábitos linguísticos que permitem a uma pessoa compreender e fazerse compreender p 92 e as associações ratificadas pelo consentimento coletivo e cujo conjunto constitui a língua são realidades que têm sua sede no cérebro p 23 A língua enquanto acervo guarda consigo toda a experiência histórica acumulada por um povo durante a sua existência Disso nos dá testemunho o Latim símbolo permanente da cultura e das instituições do povo romano A língua como instituição social Saussure considera da mesma forma que Whitney que a língua não está completa em nenhum indivíduo e só na massa ela existe de modo completo p 21 por isso ela é ao mesmo tempo realidade psíquica e instituição social Para Saussure a língua é ao mesmo tempo um produto social da faculdade da linguagem e um conjunto de convenções necessárias adotadas pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos p 17 é a parte social da linguagem exterior ao indivíduo que por si só não pode nem criála nem modificála ela não existe senão em virtude de uma espécie de contrato estabelecido entre os membros da comunidade p 22 A língua como realidade sistemática e funcional Este é o conteúdo mais importante do conceito saussuriano a respeito da língua Para o mestre de Genebra a língua é antes de tudo um sistema de signos distintos correspondentes a idéias distintas p 18 é um código um sistema onde de essencial só existe a união do sentido e da imagem acústica p 23 Saussure vê a língua como um objeto de natureza homogênea p 23 e que portanto se enquadra perfeitamente na sua definição basilar a língua é um sistema de signos que exprimem idéias p 24 A fala ao contrário da língua Saussure apresenta multifacetada e heterogênea Diz o mestre que a fala é um ato individual de vontade e inteligência no qual convém distinguir 1º as combinações pelas quais o falante realiza o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal 2º o mecanismo psicofísico que lhe permite exteriorizar essas combinações p 22 Saussure classifica a fala como o lado executivo da linguagem cuja execução jamais é feita pela massa é sempre individual e dela o indivíduo é sempre senhor nós a chama 50 remos fala p 21 E complementaríamos fala em oposição à língua A fala é a própria língua em ação enérgeia atividade e não érgon produto Aprofundando a base teórica dessa dicotomia fundamental para a compreensão da obra de Saussure somos levados a reconhecer a influência incontestável e decisiva que o debate entre os dois expoentes da Sociologia de então Durkheim e Tarde exerceu sobre ele Sua dicotomia parece ter sido uma tentativa de conciliação entre as duas posições sociológicas vigentes Da idéia de fait social fato social de Durkheim procede a postulação da língua segundo Lepschy 1971 30 Porque ambas tanto a idéia de língua como a de fato social se referem a fatos psicossociais externos ao indivíduo sobre o qual exercem uma contrainte coerção e existentes na consciência coletiva do grupo social Por outro lado o reconhecimento do elemento individual a fala estaria em consonância com as idéias de Gabriel Tarde É oportuno lembrar também a concepção durkheimiana segundo a qual a sociedade prima sobre o indivíduo pois como afirma Giani sd 1957 o controle social existe em função da manutenção da organização social O homem não passa de uma parcela do pensamento coletivo ainda segundo Giani p 44 o indivíduo é em grande parte aquilo que a sociedade espera que ele seja Cada grupo social incute em seus membros um conjunto de maneiras de pensar sentir e agir Diante disso compreendese por que razão Saussure atribuiu papel destacado ao estudo da língua e minimizou a fala Para Saussure CLG 25 sendo a língua uma instituição social socialmente é que devem ser estudados os seus signos uma vez que o signo é social por natureza Considera ele que a língua como representação coletiva se impõe ao indivíduo inapelavelmente Nenhum indivíduo tem a faculdade de criar a língua nem de modificála conscientemente Ela é como uma armadura dentro da qual nos movimentamos no diaadia da interação humana Como qualquer outra instituição social a língua se impõe ao indivíduo coercitivamente Por isso ela constitui um elemento de coesão e organização social A fala A fala ao contrário da língua por se constituir de atos individuais tornase múltipla imprevisível irredutível a uma pauta sistemática Os atos linguísticos individuais são ilimitados não formam um sistema Os atos linguísticos sociais bem diferentemente formam um sistema pela sua própria natureza homogênea Ora a Lingüística como ciência só pode estudar aquilo que é recorrente constante sistemático Os elementos da língua podem ser quando muito variáveis mas jamais apresentam a inconstância a irreverência a heterogeneidade características da fala a qual por isso mesmo não se presta a um estudo sistemático 51 Diznos o mestre suíço à p 18 do CLG Para atribuir à língua o primeiro lugar no estudo da linguagem podese enfim fazer valer o argumento de que a faculdade natural ou não e para Saussure o ser natural ou não é irrelevante preocupase unicamente com a língua em si mesma de articular palavras não se exerce senão com a ajuda de instrumento criado e fornecido pela coletividade não é então ilusório dizer que é a língua que faz a unidade da linguagem E sustentando a autonomia dos estudos da língua afirma à p 22 a língua é uma coisa de tal modo distinta que um homem privado do uso da fala conserva a língua contanto que compreenda os signos vocais que ouve Não obstante Saussure p 27 insiste sempre na interdependência dos dois constituintes da linguagem esses dois objetos estão estreitamente ligados e se implicam mutuamente a língua é necessária para que a fala seja inteligível e produza todos os seus efeitos mas esta é necessária para que a língua se estabeleça E adverte p 27 historicamente o fato da fala vem sempre antes É importante a propósito registrar a concessão feita por Saussure p 27 ao elemento individual com toda a certeza inspirada em Gabriel Tarde é a fala que faz evoluir a língua são impressões recebidas ao ouvir os outros que modificam nossos hábitos linguísticos É tal a interdependência entre a língua e a fala que Saussure considera a língua ao mesmo tempo instrumento e produto da fala O próprio mecanismo de funcionamento da linguagem repousa nessa interdependência como ressalta Saussure p 27 Como se imaginaria associar uma idéia a uma imagem verbal se não se surpreendesse de início esta associação num ato de fala Por outro lado é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna ela se deposita em nosso cérebro somente após inúmeras experiências Depreendese do arrazoado saussuriano que tanto o funcionamento quanto a exploração das potencialidades da linguagem estão intimamente ligados às implicações mútuas existentes entre os elementos língua e fala A feliz dicotomia línguafala é o ponto de partida para Saussure postular uma Lingüística da língua e uma Lingüística da fala embora Mounin 1973 69 le 52 vante dúvida a respeito da autenticidade dessa postulação por parte do mestre Mounin prefere atribuíla a Bally e Sechehaye sendo que para o mestre genebrino a Linguística propriamente dita é aquela cujo único objeto é a língua Unicamente desta última é que cuidaremos CLG 28 ressalva Saussure Desse modo vemos que Saussure realmente tinha plena consciência da natureza opositiva dos fenômenos linguísticos Eis suas próprias palavras p 28 Esta é a primeira bifurcação que se encontra quando se procura estabelecer a teoria da linguagem SistemaNãoSistema A razão de Saussure haver preferido tomar o caminho da língua quando se viu diante de sua famosa bifurcação encontrase em outra oposição conseqüente sistemanãosistema isto é sistema língua nãosistema fala Sendo o sistema superior ao indivíduo supraindividual todo elemento linguístico deve ser estudado a partir de suas relações com os outros elementos do sistema e segundo sua função a língua é um sistema do qual todas as partes podem e devem ser consideradas em sua solidariedade sincrônica CLG 102 e não por suas características extralingüísticas físicas psicológicas etc O conhecido exemplo do jogo de xadrez esclarece cabalmente o pensamento saussuriano nesse particular As peças de um jogo de xadrez são definidas unicamente segundo suas funções e de acordo com as regras do jogo A forma a dimensão e a matéria de cada peça constituem propriedades puramente físicas e acidentais que podem variar extremamente sem comprometer a identidade da peça Essas características físicas são irrelevantes para o funcionamento do sistema o jogo de xadrez Uma peça até pode ser substituída por outra desde que a substituta venha a ser utilizada conforme as regras do jogo Levando para o sistema lingüístico o exemplo de Saussure temos que todo elemento lingüístico uma vogal uma consoante um acento um fonema um morfema etc deve ser definido linguisticamente apenas de acordo com suas relações sintagmáticas e paradigmáticas com os outros elementos ou por sua função no sistema e não levandose em conta suas acidentais propriedades modo de formação estrutura acústica variantes morfofonêmicas etc Aqui tornase pertinente introduzir outra postulação saussuriana segundo a qual A Língua é uma Forma e não uma Substância CLG 141 Forma para Saussure é usada no sentido filosófico isto é como essência e não no sentido estético como aparência A teia de relações entre os elementos lingüísticos é que constitui a forma Os elementos da rede constituem a substância Voltando ao exemplo do jogo de xadrez diríamos que as regras do jogo a teia de relações entre as peças estão para forma assim como as peças do jogo estão para substância Uma frase como Vô comprá dois pão apresenta alteração apenas na substância Sua estrutura apesar do fator extralingüístico erro desvio em relação à norma culta continua a ser a de uma frase da língua portuguesa Ela conserva toda a gramaticalidade sintática do sistema lingüístico português isto é da língua portuguesa e toda a coerência interna inerente aos elementos desse sistema sujeito verbo auxiliar verbo principal objeto determinante determinado Portanto sua forma o que é de fato relevante para o funcionamento do sistema não sofreu em nada com a mudança acidental das propriedades físicas de sua substância Dito de outro modo forma língua substância fala Mesmo tendo dado tanta ênfase ao estudo da língua Saussure não deixou de tratar também da substância fala reconhecendo que a sua função é fazer a ligação com a forma que é em última análise para ele a verdade total Reportandonos ao pensamento lingüístico da Grécia Antiga diríamos que Saussure admitiu tacitamente que a língua não é só analogia ela tem também as suas sólidas e saudáveis anomalias Cabenos entretanto chamar a atenção para o fato de que a nosso ver o conceito de forma estrutura não exclui o componente semântico Ao contrário o componente semântico é que dá sentido à noção de forma sem o quê forma corre o risco de tornarse letra morta concepção sem serventia para a ciência lingüística principalmente para a Linguística dita estrutural Como adverte o Prof Sílvio Elia 1978 120 linguagem é significação Desse modo concebemos forma como coerência sintática coerência semântica Coerência sintática espécie de sintaxe mental ou estruturação do pensamento existe por exemplo tanto em O menino chutou a bola como em A bola chutou o menino Em ambas as orações é inegável a realização sintaticamente coerente de um dos padrões frasais básicos da língua portuguesa isto é sujeito verbo objeto direto Só a primeira frase entretanto encontra correspondência conceitual feedback ou repercussão lingüística no espírito do falante justamente por ser a única que contém uma verdade semântica confiável uma coerência significativa que constitui juntamente com a coerência sintática da frase um todo individualizador e pertinente do ponto de vista da intercomunicação lingüística Uma Crítica à LínguaFala Não se pense que a dicotomia saussuriana tenha ficado ao abrigo de críticas nesse seu mais de meio século de existência A principal delas partiu do lingüista romeno Eugenio Coseriu 1973 70 que propôs uma divisão tripartida segundo o modelo abaixo por achar insuficiente a bipartição saussuriana fala uso norma intermediária língua sistema funcional A divisão de Coseriu 1973 97 vai do mais concreto fala ao mais abstrato língua passando por um grau intermediário a norma Segundo ele o sistema funcional língua es un conjunto de oposiciones funcionales la norma es la realización colectiva del sistema que contiene el sistema mismo y además los elementos funcionalmente nopertinentes pero normales en el hablar de una comunidad A fala por sua vez na concepção coseriana 1973 98 es la realización individualconcreta de la norma que contiene la norma misma y además la originalidad expresiva de los individuos hablantes Francisco da Silva Borba 1970 67 define a norma como um conjunto de realizações constantes e repetidas de caráter sociocultural e dependente de vários fatores operantes na comunidade idiomática Em outras palavras há realizações consagradas pelo uso e que portanto são normais em determinadas circunstâncias lingüísticas circunstâncias estas previsíveis pelo sistema funcional É à norma que nos prendemos de forma imediata conforme o grupo social de que fazemos parte e a região onde vivemos A norma seria assim um primeiro grau de abstração da fala Considerandose a língua o sistema um conjunto de possibilidades abstratas a norma seria então um conjunto de realizações concretas e de caráter coletivo da língua Segundo Coseriu 1973 90 a norma é o como se diz e não o como se deve dizer por isso los conceptos que con respecto a ella se oponen son normal y anormal y no correcto e incorrecto Em resumo em termos coserianos a fala é o real individual a norma é o real coletivo e a língua é o ideal coletivo nem sempre nor mal embora possível e disponível Vejamos alguns exemplos da oposição normasistema no português do Brasil O conhecido š chiante pósvocálica variante de s é norma no Rio de Janeiro em todas as classes sociais gás gàs mês mès basta basta Já no Sul a pronúncia sancionada pelo uso ou norma é marcadamente alveolar basta mès gás No campo da Morfologia o sistema dispõe dos sufixos ada e edo ambos com o sentido de coleção Enquanto para designar grande quantidade de bichos a norma culta prefere o primeiro bicharada a norma geral no falar gaúcho consagrou o segundo bicharedo O mesmo acontece com os sufixos diminutivos inho e ito ambos disponíveis no sistema funcional a norma fora do Rio Grande do Sul é dizerse salaminho já em terras gaúchas o uso sancionou salamito No plano sintático a língua sistema portuguesa dispõe dos advérbios já e mais que quando usados numa frase negativa indicam a cessação de um fato ou de uma ação A norma brasileira preferiu o segundo eu não vou mais não chove mais a portuguesa optou pelo primeiro eu já não vou já não chove O português do Brasil prefere descrever um fato em progressão dizendo estou estudando aux gerúndio já em Portugal a norma é usarse aux infinitivo estou a estudar Ainda com relação à norma brasileira não podemos deixar de mencionar o já consagradíssimo ter no lugar de haver com o sentido de existir uso inclusive já referenciado por vários autores nacionais de peso Drummond e Bandeira entre outros Como diz Santos 1979 19 norma é o conjunto das realizações lingüísticas constantes do sistema É ela que revela como o sistema funciona numa coletividade Por exemplo a língua portuguesa dispõe de dois prefixos com valor negativo in e des Ambos fazem parte além de outros do nosso sistema lingüístico e se encontram à disposição dos falantes de língua portuguesa isto é existem em potencial O uso de um ou de outro vai depender da comunidade lingüística esta é quem estabelece o que é normal o que se diz ou anormal o que se poderia dizer Assim sendo a norma coletiva consagrou infeliz e não desfeliz Inversamente preferiu descontente e rejeitou incontente Ao falante como parcela do pensamento coletivo só cabe aceitar inapelavelmente o que o seu grupo lingüístico consagrou v a propósito a arbitrariedade do signo lingüístico pois na língua não existe propriedade privada tudo é socializado Do exposto concluímos que a norma é a realização da língua e a fala por sua vez a realização da norma como o demonstra figuradamente o modelo coseriano 1973 95 abaixo ABCD fala realização individual do subcódigo abcd norma subcódigo abcd língua código Tipos de Norma As variantes coletivas ou subcódigos dentro de um mesmo domínio lingüístico dividemse em dois tipos principais diatópicas variantes regionais ou normas regionais diastráticas variantes culturais ou registros As variantes diatópicas caracterizam as diversas normas regionais existentes dentro de um mesmo país e até dentro de um mesmo Estado como o falar gaúcho o falar mineiro etc As variantes diastráticas intimamente ligadas à estratificação social evidenciam a variedade de diferenças culturais dentro de uma comunidade e podem subdividirse em norma culta padrão ou nacional norma coloquial tensa ou distensa e norma popular também chamada de vulgar Há também as variantes diafásicas que dizem respeito aos diversos tipos de modalidade expressiva familiar estilística de faixa etária etc Além das variantes citadas existem ainda as chamadas línguas especiais É o caso das gírias dos jargões das línguas técnicas das línguas religiosas e da língua literária esta pela sua especificidade de discurso eminentemente estético admite e revaloriza todas as demais variantes do sistema realizandose assim como uma espécie de supranorma Constatamos assim a pertinência da divisão tripartida de Coseriu Todos os exemplos acima quer caracterizando o falar de uma região quer identificando o próprio português do Brasil mostram a propriedade e a conveniência do fator intermediário norma entre a fala individual e a língua social fator este que convém observar não chega a comprometer o sistema funcional língua Ressalvese contudo que a concepção saussuriana de língua como instituição social se aproxima de certo modo da teoria da norma de Coseriu Invertendo o ponto de vista de Saussure que prioriza uma Lingüística da língua produto érgon Coseriu 1973 285 por sua vez privilegia uma Lingüística da fala ou discurso produção atividade enérgeia Ao priorizar a atividade lingüística hablar o linguista romeno lança os fundamentos da Lingüística Textual o que o aproxima das concepções humboldtiana e vossleriana da linguagem com suas inerentes implicações de ordem estilística Ouçamos os argumentos de Coseriu p 287 En primer término parece necesario un cambio radical de punto de vista no hay que explicar el hablar desde el punto de vista de la lengua sino viceversa Ello porque el lenguaje es concretamente hablar actividad y porque el hablar es más amplio que la lengua mientras que la lengua se halla toda contenida en el hablar el hablar no se halla todo contenido en la lengua Por conceber o exercício da linguagem como a integração de três aspectos o universal o histórico e o individual ressalta Coseriu p 285 que el lenguaje se da concretamente como actividad o sea como hablar Em coerência com seu ponto de vista o Autor propõe um lugar de destaque para a Lingüística do discurso ou do texto dizendo o seguinte p 289 Existe asimismo una lingüística del texto o sea del hablar en el nivel particular que es también estudio del discurso y del respectivo saber La llamada estilística del habla es justamente una lingüística del texto De qualquer forma é reconhecidamente incontestável o valor da famosa distinção saussuriana entre língua e fala para a Lingüística contemporânea Sua primeira dicotomia investida de verdadeiro valor epistemológico é e será sempre um fundamento da ciência linguística Concluindo o exame da dicotomia línguafala apresentamos abaixo um quadro comparativo o mais exaustivo possível de suas características principais LÍNGUA FALA social individual homogênea heterogênea sistemática assistemática abstrata concreta constante variável duradoura momentânea conservadora inovadora ideal real permanente ocasional supraindividual individual essencial acidental psíquica psicofísica instituição práxis ação essência existência potencialidade realidade fato social ato individual unidade diversidade forma substância produto produção indivíduo subordinado indivíduo senhor instrumento e produto da fala língua em ação sistema realização adotada pela comunidade surge no indivíduo potencialidade ativa de produzir a fala faz evoluir a língua necessária para a inteligibilidade e necessária para que a língua se estabelece execução da fala 1 1 1 I 1 1 1 competência desempenho FORMA SUBSTÂNCIA essência aparência psíquica psicofísica estrutura conjuntura constante circunstancial língua fala 59 NORMAS normas ou variantes diatópicas falares regionais diastráticas culta padrão tensa coloquial distensa popular diafásicas modalidades expressivas LINGUÍSTICAS a da língua funcional b da fala textual 60 LínguaFala Norma 1 Numere a 1ª coluna de acordo com a 2ª Estudo científico da linguagem humana 1 Signo É um conjunto de estruturas psíquicas que torna possível ao emissor traduzir a idéia que deseja expressar em um sinal manifesto e que capacita o receptor a reconstituir a idéia a partir desse sinal 2 Linguagem União do sentido mais a imagem acústica 3 Fala Conjunto de realizações constantes e repetidas de caráter sociocultural 4 Lingüística Sua aquisição não depende de maneira decisiva da expressão verbal 5 Língua Execução pelo indivíduo das potencialidades da língua 6 Norma 2 Assinale as letras cujo enunciado você considera incorreto a As crianças incapazes de usar seus órgãos da fonação para produzir sons vocais podem no entanto aprender uma língua sem dificuldades especiais b Uma criança pode inventar uma língua a partir do nada c Estar exposto ao uso de uma língua é o requisito mínimo para pôr em funcionamento o mecanismo da linguagem d Não existe uma interdependência da língua e da fala pois não é ouvindo os outros que aprendemos a língua materna 3 Completar com um dos itens entre parênteses a A fala é um ato de vontade e de inteligência individualsocial b A língua é Constituise de um sistema de signos heterogêneahomogênea 61 Resenha crítica A obra Para compreender Saussure de Castelar de Carvalho apresentase como uma introdução didática voltada à compreensão dos fundamentos da teoria linguística de Ferdinand de Saussure O autor organiza o livro de maneira progressiva iniciando por uma contextualização histórica do surgimento das reflexões saussurianas e avançando capítulo a capítulo para as principais dicotomias formuladas pelo linguista genebrino que se tornaram centrais para o Estruturalismo e para a Linguística moderna Carvalho estrutura seu texto com o objetivo de tornar acessíveis noções que tradicionalmente são consideradas complexas para estudantes iniciantes como a arbitrariedade do signo a distinção entre língua e fala a separação entre sincronia e diacronia e as relações sintagmáticas e associativas Em sua abordagem evidenciase a intenção de expor com clareza e rigor a organização teórica que sustenta o pensamento de Saussure oferecendo ao leitor uma visão ampla e sistematizada da estrutura linguística Nos capítulos iniciais o autor introduz brevemente o contexto intelectual que antecede a formulação da teoria saussuriana explicando que Saussure rompe com a tradição comparatista ao propor que a língua deve ser estudada como sistema de valores e não apenas como conjunto de formas herdadas Carvalho mostra que essa ruptura epistemológica marca um ponto decisivo na história da Linguística pois desloca o objeto de estudo da evolução histórica das palavras para a estrutura abstrata e social que permite o funcionamento da língua Tal apresentação não apenas situa o leitor no panorama intelectual da época mas também prepara o terreno para a compreensão das dicotomias que constituem o núcleo da teoria do linguista suíço cuja formulação transformou profundamente o modo como se analisam os fenômenos linguísticos Ao abordar a dicotomia entre língua e fala Carvalho mostra que Saussure estabelece essa separação para definir com precisão o objeto científico da Linguística A língua é apresentada como um sistema social coletivo e relativamente estável que existe na memória dos falantes enquanto a fala corresponde à realização individual e momentânea desse sistema O autor explica que essa distinção é fundamental porque permite que a Linguística se concentre naquilo que possui regularidade e estrutura afastandose das variações individuais que caracterizam a fala Carvalho destaca ainda que embora a fala seja essencial para o funcionamento da língua seu caráter subjetivo impede que ela seja tratada como objeto central de uma ciência que busca identificar regularidades Assim ao estabelecer essa dicotomia Saussure delimita metodologicamente o campo da Linguística e inaugura uma perspectiva científica organizada e coerente Em seguida Carvalho discute a dicotomia entre significante e significado que constitui o pilar do signo linguístico O significante é definido como a imagem acústica enquanto o significado corresponde ao conceito ao qual essa imagem remete O autor reforça que a relação entre esses dois elementos é arbitrária o que significa que não há vínculo natural entre som e ideia Essa arbitrariedade enfatizada por Saussure é apresentada por Carvalho como um dos aspectos mais revolucionários da teoria pois revela que a língua é um sistema simbólico cujos valores dependem exclusivamente das relações internas que os signos estabelecem entre si Ao compreender essa relação o leitor percebe que para o Estruturalismo o significado não decorre de uma essência ou natureza intrínseca dos signos mas da posição que eles ocupam na estrutura Carvalho expõe esses conceitos com clareza tornando acessível ao leitor um dos fundamentos mais complexos da teoria linguística moderna A dicotomia entre sincronia e diacronia também recebe atenção detalhada Carvalho explica que Saussure estabelece essa separação para diferenciar duas formas de análise a observação da língua em um estado dado sincronia e o estudo de suas transformações ao longo do tempo diacronia O autor mostra que para Saussure a perspectiva sincrônica deve ser priorizada pois permite identificar o funcionamento estrutural da língua em um determinado momento Embora não descarte a importância da dimensão histórica Carvalho evidencia que a diacronia assume papel secundário na teoria uma vez que a prioridade do Estruturalismo é compreender a organização interna do sistema linguístico Essa exposição ajuda o leitor a perceber que a proposta saussuriana não elimina a história da língua mas reorganiza os métodos de análise de forma a dar centralidade ao estudo das relações estruturais Outro ponto desenvolvido é a distinção entre relações sintagmáticas e associativas Carvalho explica que as relações sintagmáticas são aquelas que se estabelecem na linearidade do enunciado ou seja entre os signos que se combinam sucessivamente na fala Já as relações associativas correspondem aos agrupamentos mentais formados pelos falantes com base em semelhanças contrários ou outras conexões subjetivas O autor demonstra que essas duas formas de relação atuam conjuntamente para determinar o valor dos signos reforçando que na teoria saussuriana o valor linguístico é sempre relacional Ao apresentar esse ponto de maneira clara e detalhada Carvalho permite ao leitor compreender por que para Saussure nenhum signo possui significado por si só mas apenas a partir das relações que mantém dentro do sistema Essa explicação contribui significativamente para a compreensão da estrutura linguística proposta pelo Estruturalismo Nos capítulos seguintes o autor aprofunda as implicações teóricas dessas dicotomias e argumenta que a contribuição de Saussure vai além da criação de conceitos isolados Para Carvalho o mais importante é o quadro teórico unificado que Saussure desenvolve capaz de explicar de forma abrangente o funcionamento da língua como estrutura O autor mostra ainda que essa contribuição influenciou profundamente não apenas o Estruturalismo europeu mas também outras escolas linguísticas que surgiram posteriormente como o Gerativismo Mesmo quando discordavam de algumas premissas do linguista genebrino essas correntes só puderam se desenvolver graças ao fundamento conceitual oferecido por Saussure Dessa forma Carvalho evidencia que a teoria saussuriana marcou de forma definitiva os estudos linguísticos modernos Ao final o autor destaca a relevância contínua da obra de Saussure defendendo que suas dicotomias são indispensáveis para qualquer estudo linguístico Carvalho afirma que compreender essas tensões teóricas é essencial para entender a organização da língua como fenômeno social Sua obra portanto cumpre com rigor o objetivo de introduzir o leitor ao pensamento saussuriano oferecendo uma visão clara e consistente dos fundamentos do Estruturalismo No entanto embora sua exposição seja extremamente didática Carvalho adota uma postura predominantemente explicativa com pouco espaço para questionamento crítico das limitações da teoria Uma discussão mais aprofundada acerca das críticas contemporâneas especialmente as oriundas da Pragmática e da Sociolinguística teria enriquecido ainda mais sua obra Mesmo assim essa ausência não diminui o valor do livro como introdução sólida e acessível para estudantes que desejam compreender os princípios estruturais que ainda influenciam de forma decisiva os estudos linguísticos atuais A obra de Castelar de Carvalho portanto revelase indispensável para quem busca compreender a importância e o impacto do pensamento saussuriano Ao apresentar de maneira clara e rigorosa as principais dicotomias formuladas por Saussure e ao contextualizálas dentro da organização teórica do Estruturalismo o autor oferece ao leitor um panorama completo da relevância da teoria para os estudos linguísticos modernos Sua exposição cuidadosa e acessível reafirma que a leitura de Saussure continua sendo essencial para a formação acadêmica pois permite entender a linguagem como fenômeno estruturado e simbólico Dessa forma Para compreender Saussure cumpre plenamente seu propósito e constitui uma contribuição valiosa para estudantes e pesquisadores das ciências da linguagem Ao visualizar os capítulos que tratam das dicotomias saussurianas percebese que o autor trabalha de forma minuciosa a intenção de Saussure em organizar o estudo da linguagem por meio de pares conceituais que se complementam Essa estratégia não surge como um artifício didático mas como um modo de revelar a complexidade do fenômeno linguístico que exige a observação simultânea de diferentes facetas Ao destacar essas categorias o livro evidencia que a proposta saussuriana não pretende simplificar a língua mas fornecer instrumentos que permitam ao pesquisador enxergar sua natureza dinâmica e sistemática Essa escolha metodológica também mostra por que o Estruturalismo se tornou uma referência tão sólida dentro dos estudos linguísticos Vale salientar que o que enriquece a leitura é a maneira como os capítulos demonstram que Saussure concebia a língua como um fato social profundamente enraizado na coletividade Essa perspectiva afasta a ideia de que a linguagem é apenas uma ferramenta individual de expressão e reforça seu papel como instituição compartilhada O livro explica que para Saussure aquilo que garante a estabilidade de um sistema linguístico não são os usos isolados dos falantes mas o conjunto de convenções sociais que permitem que o significado se mantenha relativamente fixo ao longo do tempo Esse entendimento é fundamental para compreender por que a linguística estrutural adota um olhar voltado para as relações internas do sistema e não para elementos externos a ele A discussão sobre o valor linguístico também aprofunda a compreensão do leitor sobre o pensamento saussuriano O autor do livro mostra que Saussure não tratava a língua como um repositório de palavras com significados estáveis mas como um sistema de diferenças Cada termo só adquire valor em oposição aos demais o que reforça a ideia de que a língua é essencialmente relacional Esse ponto é particularmente importante porque impacta diretamente em abordagens posteriores da Linguística que passam a considerar a análise das relações estruturais como mais relevante do que a simples descrição de palavras ou expressões Dessa forma o livro evidencia a modernidade e a atualidade das reflexões de Saussure Além disso nos capítulos finais que tratam das dicotomias percebese um esforço para relacionar cada par conceitual com exemplos concretos e com o desenvolvimento posterior da Linguística Isso ajuda o leitor a entender que a distinção entre langue e parole ou entre sincronia e diacronia não é apenas teórica mas tem implicações reais para qualquer estudo que busque analisar fenômenos linguísticos A clareza com que o livro expõe essas implicações proporciona uma leitura fluida e reforça a relevância desses conceitos para pesquisas contemporâneas seja na descrição de línguas na análise discursiva ou na reflexão sobre os processos de mudança linguística O autor também enfatiza que a obra de Saussure não se propõe a oferecer respostas definitivas mas abrir caminhos de investigação Essa postura teórica aparece com força nas dicotomias que funcionam como lentes de análise e não como categorias rígidas O livro mostra que compreender Saussure exige reconhecer que ele inaugurou uma nova forma de olhar para a língua baseada na observação do funcionamento interno do sistema Esse ponto amplia a percepção crítica do leitor e permite entender por que tantos estudiosos ao longo do século XX revisitaram e reinterpretaram suas ideias No entanto o livro ressalta que a importância histórica de Saussure vai muito além da Linguística Suas formulações influenciaram áreas como a Antropologia a Filosofia a Psicanálise e a Teoria Literária demonstrando que seu pensamento ultrapassa o campo da linguagem em sentido estrito A obra evidencia como a noção de estruturalidade forneceu bases para novas metodologias de pesquisa capazes de organizar comparar e interpretar sistemas simbólicos diversos Essa perspectiva ampliada reforça o alcance da contribuição saussuriana e mostra como suas reflexões continuam vivas e produtivas nos debates acadêmicos contemporâneos