• Home
  • Chat IA
  • Recursos
  • Guru IA
  • Professores
Home
Recursos
Chat IA
Professores

·

Cursos Gerais ·

Filosofia

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Tema do Trabalho

27

Tema do Trabalho

Filosofia

UMG

Atividade de Filosofia

1

Atividade de Filosofia

Filosofia

UMG

Colocar Trabalhos nas Normas Abnt

31

Colocar Trabalhos nas Normas Abnt

Filosofia

UMG

Teoria do Conhecimento

5

Teoria do Conhecimento

Filosofia

UMG

Atividade de Lógica filosofia

347

Atividade de Lógica filosofia

Filosofia

UMG

Anotações sobre a Adoração ao Sol e a Descoberta do Fogo na Pré-História

1

Anotações sobre a Adoração ao Sol e a Descoberta do Fogo na Pré-História

Filosofia

UMG

Seminário de Antropologia Filosófica

18

Seminário de Antropologia Filosófica

Filosofia

UMG

Filosofia da Arte

6

Filosofia da Arte

Filosofia

UMG

a Vida de Jonh Lock

11

a Vida de Jonh Lock

Filosofia

UMG

Filosofia

1

Filosofia

Filosofia

UMG

Texto de pré-visualização

PATRÍSTICA SANTO AGOSTINHO O livrearbítrio PAULUS SANTO AGOSTINHO O LIVREARBÍTRIO PAULUS Índice APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO 1 Dados e ocasião da obra 2 Evódio 3 Formação ideológica do livro 4 Breve síntese das idéias fundamentais 5 Análise do andamento dos três livros 6 O livrearbítrio e o maniqueísmo 7 A solução do problema do mal na interpretação de Agostinho 8 As Retractationes e a resposta aos pelagianos 9 A vontade a liberdade e a graça 10 Agostinho filósofo ou teólogo 11 Apreciação geral da obra 12 Influência exercida por Agostinho em particular através desta obra LIVRO I INTRODUÇÃO 1125 O problema do mal É Deus o autor do mal O mal vem por ter sido ensinado Por qual motivo agimos mal Pontos fundamentais da fé PRIMEIRA PARTE 36615 Essência do pecado submissão da razão às paixões Busca da origem do pecado Razões insuficientes da origem do mal O mal provém da paixão interior Objeção e os homicídios cometidos sem paixão Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil Poder matar um agressor não significa dever matálo As paixões desculpadas pela lei civil condenadas pela lei divina Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais Noção da lei eterna SEGUNDA PARTE 7161122 A causa do pecado o abuso da vontade livre O homem superior aos animais pela razão É melhor saber que se vive do que apenas viver O lugar do homem na escala da perfeição dos seres O homem sábio aquele que vive submisso à razão Nada força a razão a submeterse às paixões O Ser supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões O responsável pela submissão às paixões só pode ser o livrearbítrio O pecado porta em si muitos males TERCEIRA PARTE 11231635 A atuação da boa vontade prova que o pecado vem do livrearbítrio Dúvidas de Evódio Uma hipótese do platonismo O papel da boa vontade A boa vontade está em nossas mãos Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais Levar vida feliz ou infeliz depende de nossa boa vontade Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal Maneira como governa a lei temporal Conseqüência do apego ou desapego dos bens deste mundo Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio Transição ao livro II LIVRO II INTRODUÇÃO 1126 Por que nos deu Deus a liberdade de pecar O livrearbítrio vem de Deus Objeção já que o livrearbítrio foinos dado para fazer o bem como se volta ele para o mal Primeira condição para a solução do problema colocarse no ponto de vista de Deus Segunda condição não se limitar à fé mas procurar o seu entendimento PRIMEIRA PARTE 37719 Início da ascensão a Deus para chegarmos à prova de sua existência A Busca do que há de mais nobre no homem As primeiras intuições do espírito o existir o viver o entender O conhecimento advindo pelos sentidos externos pelo sentido comum e pela razão a Os sentidos exteriores b O nosso sentido interior c A nossa razão Os sentidos exteriores não se percebem a si mesmos Percebese o sentido interior a si mesmo O sentido interior juiz e guia dos sentidos exteriores O princípio de subordinação A razão transcende a tudo mais no homem Última etapa acima da razão só Deus B O QUE É INDIVIDUAL E O QUE É COMUM A TODOS 71519 Características de cada sentido exterior a Quanto ao sentido da vista b Quanto ao sentido da audição c Quanto aos sentidos do olfato e do paladar d Quanto ao sentido do tato SEGUNDA PARTE 8201438 A intuição de Deus acima da razão Os números e suas leis superiores à razão A constante ordem dos números A lei dos números é universal e acessível a todos os que raciocinam Manifestações de sabedoria natural Sabedoria Bem supremo e Verdade beatificante Sabedoria bem comum e supremo de todos Certezas imutáveis das leis da sabedoria A sabedoria e os números encontram sua fonte na Verdade imutável A Verdade imutável o próprio Deus Inferioridade da mente diante da verdade incapaz de julgála e susceptível de constante mutabilidade Exortação a abraçar a Verdade fonte única da felicidade A Verdade vive na mente humana A Verdade fonte de liberdade e segurança A transcendência da Verdade TERCEIRA PARTE 15392054 Tudo o que é bom e perfeito vem de Deus Conclusão de toda a argumentação anterior Deus existe O desejo de sabedoria é inerente a nosso espírito A sabedoria manifestase aos que a procuram graças aos números impressos em cada ser A sabedoria regula pelos números a harmoniosa evolução do universo Infelizes os que não reconhecem nos seres criados o reflexo da sabedoria de Deus A sabedoria comunicada a todos os seres O princípio de participação Todo bem e toda perfeição é recebida de Deus Conclusão O livrearbítrio é um bem em si mesmo Ainda que o homem possa usar mal da liberdade a sua vontade livre deve ser considerada como um bem Entre os três graus de bens a liberdade ocupa um grau médio Entre os grandes bens as virtudes cardeais O livrearbítrio não é o bem mais perfeito Digressão a vontade livre que se serve de tudo mais servese também de si mesma A vontade livre entre o Bem supremo e os bens mutáveis Conseqüências da aversão ou da conversão ao sumo Bem Conclusão o mal originase da deficiência do livrearbítrio LIVRO III INTRODUÇÃO 113 O movimento culpável da vontade que se afasta de Deus vem do livrearbítrio PRIMEIRA PARTE 24411 Conciliação entre o pecado e a presciência de Deus Objeção não acontece necessariamente o que Deus prevê Condições para o entendimento do problema crer na Providência e cultivar sentimentos de piedade A presciência divina longe de destruir o ato livre exige a sua existência Obscuridade da relação entre presciência divina e liberdade humana Resposta prever não é forçar SEGUNDA PARTE 5121646 Relações entre o pecado e a Providência divina A Regra fundamental louvar a Deus por ter dado o ser às criaturas racionais ainda que pecadoras Louvemos a Deus por todas as obras criadas as superiores como as inferiores A vontade mesmo pecadora é um bem A excelência das almas espirituais Julgamentos incorretos e o certo conforme a razão Não atribuir a Deus a causa do pecado B Objeção e o desejo da própria morte Ninguém quer deixar de existir Louvar a Deus por sua bondade e justiça A existência é amada porque vem do sumo Ser Resolução Amar mais e mais a vida e aspirar ao amor das coisas eternas Nem mesmo aqueles que se suicidam preferem o nãoser No fundo o suicida procura encontrar a própria tranqüilidade C O pecado e a ordem do universo É indevido censurar a Deus pela criação de seres menos perfeitos Deus é digno de louvores pela criação da variedade dos seres O pecado nada tira da ordem do universo A penalidade sofrida pelas almas pecadoras contribui para a perfeição do universo Aplicação do que foi dito à punição do pecado original e à redenção Conseqüências do pecado original A obra da redenção A submissão ao Senhor livranos do poder do demônio Toda criatura justa ou pecadora contribui para a ordem universal Função dos seres angélicos e dos homens Ação dos anjos e das almas sobre os seres inferiores Nada pode perturbar o governo de Deus sobre o universo D O pecado e a bondade das criaturas Contemplação da beleza da criação Princípio fundamental todo ser é bom O mal é uma privação A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza Dois complementos 1º Natureza alguma corrompese sem já estar viciada 2º Nem toda corrupção é digna de ser censurada Louvar os seres é louvar a Deus criador das naturezas E O pecado e a justiça Motivos de louvar a Deus As criaturas inferiores ao perecerem não faltam ao que devem A razão levanos a reprovar o mal e praticar o bem como uma dívida para com Deus Caso a vontade livre não devolver a Deus o que lhe deve pela prática da virtude dará glória a Deus por um justo castigo Deus nada nos deve nós tudo lhe devemos Conclusão o pecado é causado pela vontade livre Deus não é a causa do pecado Louvor ao Criador em todas as circunstâncias TERCEIRA PARTE 17472577 Problemas diversos A A vontade livre causa primeira do pecado Posição do problema sem liberdade não há pecado A raiz de todos os males é a vontade desregrada O que motiva a vontade Pode alguém pecar em coisas que não pôde evitar B A nossa situação atual devida ao pecado original Se foram Adão e Eva que pecaram que culpa temos nós A negligência é culpável As fraquezas humanas não são verdadeiros pecados mas penalidades pelo primeiro pecado Justiça e bondade de Deus na condição atual de fraqueza dos homens Em qualquer hipótese a respeito da origem das almas Deus é sempre justo O que é preciso crer e que tipos de erros prejudicam a nossa felicidade O problema de nossa origem é menos importante do que o de nosso destino Os pecados são atribuíveis à própria vontade não a Deus Hipótese e se o estado atual do homem fosse conforme à sua natureza sem que tenha havido o pecado original Conclusão é preciso louvar a Deus em qualquer hipótese C Problemas acerca das crianças A morte prematura das crianças e o sofrimento que padecem não são contrários à ordem universal E as crianças que morrem sem batismo As dores das criancinhas são compatíveis com a bondade divina Razões providenciais das dores dos animais Conclusão toda criatura canta a unidade suprema de Deus D Questões sobre o primeiro pecado do homem e o do demônio Foi o homem criado em estado de sabedoria ou de insensatez O primeiro pecado não pode ser imputado a Deus mas sim ao orgulho do homem Como se dá a passagem da insensatez à sabedoria Confronto entre o orgulho e a sabedoria O que moveu a vontade do demônio para se voltar para o mal O orgulho principal fonte de toda má opção Conclusão a excelência da sabedoria Curta conclusão geral BIBLIOGRAFIA APRESENTAÇÃO Surgiu pelos anos 40 na Europa especialmente na França um movimento de interesse voltado para os antigos escritores cristãos e suas obras conhecidos tradicionalmente como Padres da Igreja ou Santos Padres Esse movimento liderado por Henri de Lubac e Jean Daniélou deu origem à coleção Sources Chrétiennes hoje com mais de 300 títulos alguns dos quais com várias edições Com o Concílio Vaticano II ativouse em toda a Igreja o desejo e a necessidade de renovação da liturgia da exegese da espiritualidade e da teologia a partir das fontes primitivas Surgiu a necessidade de voltar às fontes do cristianismo No Brasil em termos de publicação das obras destes autores antigos pouco se fez Paulus Editora procura agora preencher este vazio existente em língua portuguesa Nunca é tarde ou fora de época para rever as fontes da fé cristã os fundamentos da doutrina da Igreja especialmente no sentido de buscar nelas a inspiração atuante transformadora do presente Não se propõe uma volta ao passado através da leitura e estudo dos textos primitivos como remédio ao saudosismo Ao contrário procurase oferecer aquilo que constitui as fontes do cristianismo para que o leitor as examine as avalie e colha o essencial o espírito que as produziu Cabe ao leitor portanto a tarefa do discernimento Paulus Editora quer assim oferecer ao público de língua portuguesa leigos clérigos religiosos aos estudiosos do cristianismo primevo uma série de títulos não exaustiva cuidadosamente traduzidos e preparados dessa vasta literatura cristã do período patrístico Para não sobrecarregar o texto e retardar a leitura procurouse evitar anotações excessivas as longas introduções estabelecendo paralelismos de versões diferentes com referências aos empréstimos da literatura pagã filosófica religiosa jurídica às infindas controvérsias sobre determinados textos e sua autenticidade Procurouse fazer com que o resultado desta pesquisa original se traduzisse numa edição despojada porém séria Cada autor e cada obra terão uma introdução breve com os dados biográficos essenciais do autor e um comentário sucinto dos aspectos literários e do conteúdo da obra suficientes para uma boa compreensão do texto O que interessa é colocar o leitor diretamente em contato com o texto O leitor deverá ter em mente as enormes diferenças de gêneros literários de estilos em que estas obras foram redigidas cartas sermões comentários bíblicos paráfrases exortações disputas com os heréticos tratados teológicos vazados em esquemas e categorias filosóficas de tendências diversas hinos litúrgicos Tudo isso inclui necessariamente uma disparidade de tratamento e de esforço de compreensão a um mesmo tema As constantes e por vezes longas citações bíblicas ou simples transcrições de textos escriturísticos devemse ao fato de que os padres escreviam suas reflexões sempre com a Bíblia numa das mãos Julgamos necessário um esclarecimento a respeito dos termos patrologia patrística e padres ou pais da Igreja O termo patrologia designa propriamente o estudo sobre a vida as obras e a doutrina dos pais da Igreja Ela se interessa mais pela história antiga incluindo também obras de escritores leigos Por patrística se entende o estudo da doutrina as origens dessa doutrina suas dependências e empréstimos do meio cultural filosófico e pela evolução do pensamento teológico dos pais da Igreja Foi no século XVII que se criou a expressão teologia patrística para indicar a doutrina dos padres da Igreja distinguindoa da teologia bíblica da teologia escolástica da teologia simbólica e da teologia especulativa Finalmente Padre ou Pai da Igreja se refere a um leigo sacerdote ou bispo da antiguidade cristã considerado pela tradição posterior como testemunho particularmente autorizado da fé Na tentativa de eliminar as ambigüidades em torno desta expressão os estudiosos convencionaram em receber como Pai da Igreja quem tivesse estas qualificações ortodoxia de doutrina santidade de vida aprovação eclesiástica e antiguidade Mas os próprios conceitos de ortodoxia santidade e antiguidade são ambíguos Não se espere encontrar neles doutrinas acabadas buriladas irrefutáveis Tudo estava ainda em ebulição fermentando O conceito de ortodoxia é portanto bastante largo O mesmo vale para o conceito de santidade Para o conceito de antiguidade podemos admitir sem prejuízo para a compreensão a opinião de muitos especialistas que estabelece para o Ocidente Igreja latina o período que a partir da geração apostólica se estende até Isidoro de Sevilha 560636 Para o Oriente Igreja grega a antiguidade se estende um pouco mais até a morte de s João Damasceno 675749 Os Pais da Igreja são portanto aqueles que ao longo dos sete primeiros séculos foram forjando construindo e defendendo a fé a liturgia a disciplina os costumes e os dogmas cristãos decidindo assim os rumos da Igreja Seus textos se tornaram fontes de discussões de inspirações de referências obrigatórias ao longo de toda a tradição posterior O valor dessas obras que agora Paulus Editora oferece ao público pode ser avaliado neste texto Além de sua importância no ambiente eclesiástico os Padres da Igreja ocupam lugar preeminente na literatura e particularmente na literatura grecoromana São eles os últimos representantes da Antiguidade cuja arte literária não raras vezes brilha nitidamente em suas obras tendo influenciado todas as literaturas posteriores Formados pelos melhores mestres da Antiguidade clássica põem suas palavras e seus escritos a serviço do pensamento cristão Se excetuarmos algumas obras retóricas de caráter apologético oratório ou apuradamente epistolar os Padres por certo não queriam ser em primeira linha literatos e sim arautos da doutrina e moral cristãs A arte adquirida não obstante vem a ser para eles meio para alcançar este fim Há de se lhes aproximar o leitor com o coração aberto cheio de boa vontade e bem disposto à verdade cristã As obras dos Padres se lhe reverterão assim em fonte de luz alegria e edificação espiritual B Altaner A Stuiber Patrologia S Paulo Paulus 1988 pp 2122 A Editora Prometi mostrarte que há um Ser muito mais sublime do que o nosso espírito e a nossa razão Eilo é a própria Verdade II1335 Será a sabedoria outra coisa a não ser a Verdade na qual se contempla e se possui o sumo Bem II926 Ó Sabedoria Luz suavíssima da mente purificada II1335 INTRODUÇÃO 1 Dados e ocasião da obra Após sua conversão em Milão no ano 386 Agostinho viveu alguns meses na feliz tranqüilidade da chácara de Cassicíaco com sua mãe familiares e diminuto número de discípulos Dedicavamse aí aos trabalhos campestres à contemplação e à reflexão filosófica Colhemos os frutos de seus colóquios nos famosos diálogos Contra os Acadêmicos A vida feliz A Ordem e nos Solilóquios Na Páscoa de 387 ele recebeu a graça do batismo das mãos do bispo de Milão santo Ambrósio Propunhase retornar à sua terra natal em Tagaste na África do Norte para aí consagrarse com seus amigos a uma vida de oração e estudo como monges Enquanto aguardavam a partida da embarcação em Óstia porto de Roma no mês de outubro sua santa mãe Mônica falece após breve enfermidade Passada a comoção do desenlace Agostinho decide permanecer em Roma o inverno de 387 e todo o ano de 388 Preocupado como estava de defenderse do maniqueísmo e alertar a seus amigos compôs diversos tratados entre outros De moribus Ecclesiae Catholicae e De moribus maniquaeorum e a presente obra De libero arbitrio A redação desta última porém iniciada em 388 não pôde ser terminada Após o regresso a Tagaste continuoua mas não havia ainda sido concluída quando em 391 foi constrangido a ser ordenado padre por insistência do povo de Hipona Somente aí como presbítero Agostinho conseguiu pôr termo ao trabalho entre 394 e 395 Como prova dessa data temos uma carta sua ao amigo Paulino bispo de Nola carta 317 do início do ano 396 Junto à missiva enviava um exemplar dos três livros de O livrearbítrio recém terminado 2 Evódio A obra em forma dialogada é em grande parte o relato das conversas de Agostinho com Evódio seu amigo e conterrâneo Era este já homem formado quando conheceu Agostinho Fora a princípio militar tendo depois se dedicado às Letras Convertido em Milão recebeu o batismo pouco antes de Agostinho Ficou a seu lado após a morte de Mônica em Roma e em seguida foi para Tagaste participar da primeira comunidade de monges Mais tarde em 396 tornouse bispo de Upsala perto de Útica na África proconsular Neste diálogo como em outro igualmente mantido com Agostinho o De quantitate animae Sobre a grandeza da alma vemolo sempre ser tratado com muita deferência e respeito Suas insistências contribuem a trazer aos diálogos mais vida mais rigor nas provas e por vezes mais complexidade e desenvolvimento Acontece que no livro II da presente obra Evódio a partir do cap 512 aparece apenas brevemente uma única vez no cap 1246 Devese essa ausência pelo fato de ele não ter acompanhado seu amigo até Hipona Entre as epístolas agostinianas conservamse 4 cartas por ele dirigidas a Agostinho A essas devese acrescentar uma descoberta há apenas alguns anos por Dom Bruyne São as de números 158 160 161 e 163 E do bispo de Hipona a ele conservaramse apenas três cartas números 159 162 e 164 Morreu Evódio seis anos antes de seu mestre e amigo em 424 3 Formação ideológica do livro Esta importante obra tem como tema o problema da liberdade humana e o da origem do mal moral Desde a sua adolescência Agostinho preocupavase com tais questões e uma das causas de sua adesão ao maniqueísmo foi a esperança de aí encontrar uma solução para as suas dúvidas Contudo as fábulas heréticas não o satisfizeram por muito tempo Teve que prosseguir a angustiante busca da verdade Essa fase é bem descrita em suas Confissões Leiase o l III caps 3 e 7 Não podia Agostinho suportar a idéia de que Deus fosse a causa do mal Enfim em Milão enquanto a eloqüência de Ambrósio traziao de volta ao catolicismo a leitura do neoplatônico Plotino trouxelhe a luz tão desejada Todavia ainda não uma resposta definitiva e plena É em direção a Deus que Plotino conduziu Agostinho para leválo à certeza de um Criador bom e poderoso fonte de toda realidade Desse modo o mal não podia ter lugar entre os seres nem prejudicar a excelência da obra divina Tampouco poderia o mal impedir ao homem que o quisesse encontrar em Deus a paz e a felicidade O problema já fora por Agostinho tratado em seu diálogo A Ordem Mas a temível dificuldade que em Cassicíaco ele não ousara enfrentar consistia na existência do pecado Com efeito é bastante fácil demonstrar que o mal físico resolvese com a Providência divina Isso porque o mal visto no conjunto não é mais um malefício mas sim uma contribuição ao bem comum e à beleza da ordem Até esse ponto a tese neoplatônica o satisfazia Mas poderia ser dito o mesmo do mal moral que se opõe diretamente à vontade de Deus Plotino dava resposta inadmissível a essa questão perturbadora Alegava ser a matéria essencialmente má e a responsável pelo mal Agostinho não levou em consideração tal resposta Mas guiado por seu gênio e graças às preciosas retificações que a fé católica lhe proporcionava ele propõe com coragem uma solução racional O intento geral de O livrearbítrio aparece assim com clareza desse ponto de vista Segundo os dados da fé Deus todopoderoso e Bem supremo criou todas as coisas por meio de seu Verbo e nada pode escapar à ordem de sua Providência Todas as suas obras são boas O pecado não pode lhe ser imputado nem ficar fora da ordem providencial Diz Agostinho É preciso compreender aquilo em que cremos I24 II26 Ele procura explicar pela razão a origem do pecado e seu papel na obra de Deus Em conclusão chega a afirmar em síntese a fonte do mal moral o pecado está no abuso da liberdade mas esta é um bem Insiste nisso com tamanha força que os pelagianos mais tarde invocarão sem razão suas afirmações para sustentar as próprias teses 4 Breve síntese das idéias fundamentais Antes de tudo para descobrir a origem do pecado é preciso saber qual a sua essência Ora cometer o mal não é nada mais do que submeter sua vontade às paixões ou preferir aos bens propostos pela fé eterna uma satisfação pessoal E isso só é possível pela livre opção de nossa vontade livro I O livro II é o coração da obra Num método ascensional Agostinho prova a existência de Deus autor de todo bem E à vontade livre mesmo fraca não se pode recusar um lugar honroso entre os bens criados O livro III é complemento e esclarecimento dos livros anteriores Trata da Providência de Deus em face ao seres livres Portanto sempre louvar a Deus por ter criado a vontade livre mesmo pecadora como um elemento da ordem universal Por certo o pecado não depende da presciência divina e não é necessário à ordem Sua presença porém não consegue tornar a ordem atual indigna de Deus A última palavra a respeito do pecado como do mal físico será sempre Louvores a Deus Tal é a trama essencial simples e poderosa de O livrearbítrio 5 Análise do andamento dos três livros Notese que a divisão em capítulos e números está conforme o original latino Todavia as divisões em partes e secções assim como os títulos dados para melhor compreensão da leitura é de autoria da tradutora Nas Notas complementares encontrarseão sínteses dos assuntos tratados à medida do decorrer dos temas 6 O livrearbítrio e o maniqueísmo Sem dúvida alguma este diálogo foi especialmente escrito contra os erros dos maniqueus sem todavia constituir uma obra polêmica Tendose convertido e sentindose no caminho da verdade Agostinho sentia necessidade de recuperarse a si e aos amigos Eis uma breve síntese da teoria maniquéia Para os maniqueus havia duas divindades supremas a presidir o universo o princípio do Bem e o do Mal a luz e as trevas Como conseqüência moral afirmavam ter o homem duas almas Cada uma presidida por um desses dois princípios Logo o mal é metafísico e ontológico A pessoa não é livre nem responsável pelo mal que faz Este lhe é imposto 7 A solução do problema do mal na interpretação de Agostinho Ao grande problema do mal conseguiu Agostinho apresentar uma explicação que se tornou ponto de referência durante séculos e ainda hoje conserva a sua validade Se tudo provém de Deus que é o Bem de onde provém o mal Depois de ter sido vítima da explicação dualista maniquéia como vimos ele encontra em Plotino a chave para resolver a questão o mal não é um ser mas deficiência e privação de ser E ele aprofunda ainda mais a questão Examina o problema do mal em três níveis a metafísico ontológico b moral c físico a Do ponto de vista metafísicoontológico não existe mal no cosmos mas apenas graus inferiores de ser em relação a Deus graus esses que dependem da finitude do ser criado e dos diferentes níveis dessa finitude Mas mesmo aquilo que numa consideração superficial parece defeito e portanto poderia parecer mal na realidade na ótica do universo visto em seu conjunto desaparece As coisas as mais ínfimas revelamse momentos articulados de um grande conjunto harmônico b O mal moral é o pecado Esse depende de nossa má vontade E a má vontade não tem causa eficiente e sim muito mais causa deficiente Por sua natureza a vontade deveria tender para o Bem supremo Mas como existem muitos bens criados e finitos a vontade pode vir a tender a eles e subvertendo a ordem hierárquica preferir a criatura a Deus optando por bens inferiores em vez dos bens superiores Sendo assim o mal deriva do fato de que não há um único bem e sim muitos bens consistindo precisamente o pecado na escolha incorreta entre esses bens O mal moral portando é aversio a Deo e conversio ad creaturam O fato de se ter recebido de Deus uma vontade livre é para nós grande bem O mal é o mau uso desse grande bem c O mal físico como as doenças os sofrimentos e a morte tem significado bem preciso para quem reflete na fé é a conseqüência do pecado original ou seja é conseqüência do mal moral A corrupção do corpo que pesa sobre a alma não é a causa mas a pena do primeiro pecado cf G Reale D Antiseri Hist da Filosofia I Paulus pp 455 456 8 As Retractationes e a resposta aos pelagianos No precioso livro de revisão de suas obras tão conscienciosamente elaborado pelo bispo de Hipona no final de sua vida a notícia a respeito de O livrearbítrio é das mais longas e importantes Encontramola no l I 916 A posição de Agostinho é muito clara Explica ele que se tratava então naquela ocasião de refutar os maniqueus os quais negam o livrearbítrio da vontade e pretendem fazer recair em Deus a responsabilidade pelo mal e pelo pecado É contra eles que o tratado insiste valorizando grandemente o papel da liberdade humana A tal ponto que na controvérsia pelagiana advinda anos após Pelágio não hesitou em se servir do De libero arbitrio para atacar a doutrina católica do pecado original Pretendeu até tirar da obra argumentos de certas fórmulas antimaniquéias de Agostinho O doutor de Hipona assinala 13 passagens das quais os pelagianos poderiam abusar contra ele Mas em vez de responder sucessivamente às dificuldades apresentadas por essas passagens ele prefere lembrálas em bloco No final toma resolutamente a ofensiva para explicar em que sentido falou sobre a liberdade E lembra vitoriosamente que pelo menos em quatro lugares fez menção da ação indispensável da graça de Deus Na verdade não se pode argumentar do mesmo modo contra a doutrina dos maniqueus e a dos pelagianos Leiamse as notas complementares desta edição no l I n 2812 26 301328 331430 no l II n 212 601847 no l III n 321850 341852 402058 Em conclusão constatamos que se é certo que Agostinho no presente diálogo não fala com insistência sobre a graça como medicina e socorro do livrearbítrio porém insinuaa várias vezes Numa delas expressamente II2054 O que ele repete uma e mil vezes é que o homem é livre para fazer o bem e que não é forçado a cometer o mal por nenhuma necessidade Se o homem peca a culpa é sua Agostinho insiste fortemente na bondade essencial e infinita de Deus Sem o livre arbítrio não haveria mérito nem desmérito glória nem vitupério responsabilidade nem irresponsabilidade virtude nem vício cf BAC III Introdução p 246 Santo Agostinho na verdade constituiuse o defensor de nossa liberdade e da graça divina ao mesmo tempo 9 A vontade a liberdade e a graça Etienne Gilson resumiu de modo muito eficaz o pensamento agostiniano sobre as relações entre a liberdade a vontade e a graça da seguinte forma Duas condições são exigidas para fazer o bem um dom de Deus que é a graça e o livrearbítrio Sem o livrearbítrio não haveria problemas sem a graça o livrearbítrio após o pecado original não quereria o bem ou se o quisesse não conseguiria realizálo A graça portanto não tem o efeito de suprimir a vontade mas sim de tornála boa pois ela se transformara em má Esse poder de usar bem o livrearbítrio é precisamente a liberdade A possibilidade de fazer o mal é inseparável do livrearbítrio mas o poder de não fazêlo é a marca da liberdade E o fato de alguém se encontrar confirmado na graça a ponto de não poder mais fazer o mal é o grau supremo da liberdade Assim o homem que estiver mais completamente dominado pela graça de Cristo será também o mais livre libertas vera est Christo servire cf Gilson Introduction à létude de Saint Augustin pp 202ss 10 Agostinho filósofo ou teólogo A presente obra é considerada como uma das que melhor apresenta o pensamento filosófico de Agostinho Mas sabemos que para ele o estudo da filosofia sempre foi caminhada para Deus e não pura ocupação intelectual E a sabedoria certa posse beatificante de Deus Dessa maneira Agostinho foi sobretudo teólogo e até os seus trabalhos filosóficos são dirigidos para a teologia O livre arbítrio é exemplo típico disso Não obstante em suas pesquisas racionais a Revelação não intervém diretamente Mostrase apenas como um ponto de apoio indireto O teocentrismo agostiniano é fundante Será pela idéia de Deus que se estabelece a comunicação entre filosofia e teologia Inclusive a idéia de Deus em plano natural encontrase necessariamente enriquecida por toda uma contribuição sobrenatural Repousa sobre ela como em sua base normal As principais passagens em que Agostinho referese expressamente ao plano teológico nesta obra são as seguintes l I 25 614 l II 26 824 1130 1437 1539 2054 l III 928 1031 e quase toda a 3ª Parte 1747 a 2576 11 Apreciação geral da obra Este livro é realmente um grande tratado de porte e duração Obra extensa profunda e decisiva de importância excepcional pelos múltiplos e graves problemas estudados sobretudo aquele fundamental a respeito da natureza origem e causa do pecado assim como a responsabilidade humana por seus atos livres cf Pe E Seijas BAC III p 240 Apresenta Agostinho uma demonstração racional da moral fundamentandoa Não seria suficiente para ele uma explicação psicológica do livrearbítrio Tampouco contentase com a contribuição da fé pois recorre expressamente à razão II256 O que há de mais valioso na obra é a prova da existência de Deus É ela original de Agostinho Já fora exposta de modo abreviado em A verdadeira religião 305456 3157 todavia encontrase aqui exposta de maneira mais extensa É denominada a prova pela verdade pelas idéias eternas ou melhor prova pela via do espírito Só a razão argumenta Outro ponto de particular valor é a doutrina exposta sobre a Providência no l III Já foi dito ser esse um dos mais possantes faróis a iluminarem constantemente o pensamento do genial Agostinho Essa tese que dominou toda sua vida dominou também toda a Idade Média 12 Influência exercida por Agostinho em particular através desta obra Agostinho é considerado sem contestação um dos maiores gênios de todos os tempos Diz B Altaner na sua Patrologia Agostinho é o mais exímio filósofo dentre os Padres da Igreja e sem dúvida o mais insigne teólogo de toda a Igreja Já em vida suas obras lhe granjearam numerosos admiradores Exerceu profunda influência na vida da Igreja ocidental e que perdura até à época moderna Isso não só na filosofia dogmática na teologia moral e mística mas ainda na vida social e caritativa e também na formação da cultura medieval cf op cit p 415 Em particular foi imensa a influência operada por meio deste diálogo filosófico no transcurso dos séculos Não há escritor em toda a Idade Média que fale ou trate da questão do livrearbítrio e do pecado que não tenha ido beber nesta fonte agostiniana E até os nossos dias os temas debatidos na presente obra permanecem de real atualidade A leitura refletida e degustada será muito enriquecedora a todos os que buscam conhecimento mais aprofundado sobre as temáticas expostas LIVRO I O PECADO PROVÉM DO LIVREARBÍTRIO INTRODUÇÃO 1125 O PROBLEMA DO MAL Capítulo 1 É Deus o autor do mal 1 Evódio Peçote que me digas será Deus o autor do mal1 Agostinho Dirteei se antes me explicares a que mal te referes Pois habitualmente tomamos o termo mal em dois sentidos um ao dizer que alguém praticou o mal outro ao dizer que sofreu algum mal Ev Quero saber a respeito de um e de outro Ag Pois bem se sabes ou acreditas que Deus é bom e não nos é permitido pensar de outro modo Deus não pode praticar o mal Por outro lado se proclamamos ser ele justo e negálo seria blasfêmia Deus deve distribuir recompensas aos bons assim como castigos aos maus E por certo tais castigos parecem males àqueles que os padecem É porque visto ninguém ser punido injustamente como devemos acreditar já que de acordo com a nossa fé é a divina Providência que dirige o universo Deus de modo algum será o autor daquele primeiro gênero de males a que nos referimos só do segundo Ev Haverá então algum outro autor do primeiro gênero de mal uma vez estar claro não ser Deus Ag Certamente pois o mal não poderia ser cometido sem ter algum autor Mas caso me perguntes quem seja o autor não o poderia dizer Com efeito não existe um só e único autor Pois cada pessoa ao cometêlo é o autor de sua má ação Se duvidas reflete no que já dissemos acima as más ações são punidas pela justiça de Deus Ora elas não seriam punidas com justiça se não tivessem sido praticadas de modo voluntário2 O mal vem por ter sido ensinado 2 Ev Ignoro se existe alguém que chegue a pecar sem antes o ter aprendido Mas caso isso seja verdade pergunto De quem aprendemos a pecar Ag Julgas a instrução disciplinam ser algo de bom Ev Quem se atreveria a dizer que a instrução é um mal Ag E caso não for nem um bem nem um mal Ev A mim pareceme que é um bem Ag Por certo Com efeito a instrução comunicanos ou desperta em nós a ciência e ninguém aprende algo se não for por meio da instrução Acaso tens outra opinião Ev Penso que por meio da instrução não se pode aprender a não ser coisas boas Ag Vês então que as coisas más não se aprendem posto que o termo instrução deriva precisamente do fato de alguém se instruir Ev De onde hão de vir então as más ações praticadas pelos homens se elas não são aprendidas Ag Talvez porque as pessoas se desinteressam e se afastam do verdadeiro ensino isto é dos meios de instrução Mas isso vem a ser outra questão O que porém mostrase evidente é que a instrução sempre é um bem visto que tal termo deriva do verbo instruir Assim será impossível o mal ser objeto de instrução Caso fosse ensinado estaria contido no ensino e desse modo a instrução não seria um bem Ora a instrução é um bem como tu mesmo já o reconheceste Logo o mal não se aprende É em vão que procuras quem nos teria ensinado a praticálo Logo se a instrução falar sobre o mal será para nos ensinar a evitálo e não para nos levar a cometêlo De onde se segue que fazer o mal não seria outra coisa do que renunciar à instrução Pois a verdadeira instrução só pode ser para o bem 3 Ev Não obstante julgo que há duas espécies de instrução uma que nos ensina a praticar o bem e outra a praticar o mal Mas ao me perguntares se a instrução era um bem o amor mesmo do bem absorveume a atenção de tal modo a me fazer considerar unicamente o ensino relativo às boas ações motivo pelo qual respondi que ele era sempre um bem Mas doume conta agora que existe um outro ensino que reconheço seguramente ser mau e de cujo autor indago Ag Vejamos Admites pelo menos o seguinte será a inteligência integralmente um bem Ev A ela com efeito considero de tal modo ser um bem que nada vejo poder existir de melhor no homem De maneira alguma posso considerar a inteligência como um mal Ag Mas quando alguém for ensinado e não se servir da inteligência para entender poderá ser ele considerado como alguém que fica instruído O que te parece Ev Pareceme que ele não o pode de modo algum Ag Logo se toda a inteligência é boa e quem não usa da inteligência não aprende seguese que todo aquele que aprende procede bem Com efeito todo aquele que aprende usa da inteligência e todo aquele que usa da inteligência procede bem Assim procurar o autor de nossa instrução sem dúvida é procurar o autor de nossas boas ações Deixa pois de pretender descobrir não sei que mau ensinante Pois se na verdade for mau ele não será mestre E caso seja mestre não poderá ser mau3 Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal 4 Ev Seja como dizes já que tão fortemente me obrigas a reconhecer que não aprendemos a fazer o mal Dizeme entretanto qual a causa de praticarmos o mal Ag Ah Suscitas precisamente uma questão que me atormentou por demais desde quando era ainda muito jovem Após terme cansado inutilmente de resolvêla levou a precipitarme na heresia dos maniqueus com tal violência que fiquei prostrado Tão ferido sob o peso de tamanhas e tão inconsistentes fábulas que se não fosse meu ardente desejo de encontrar a verdade e senão tivesse conseguido o auxílio divino não teria podido emergir de lá nem aspirar à primeira das liberdades a de poder buscar a verdade4 Visto que a ordem seguida então atuou em mim com tanta eficácia para resolver satisfatoriamente essa questão seguirei igualmente contigo aquela mesma ordem pela qual fui libertado Sejanos pois Deus propício e façanos chegar a entender aquilo em que acreditamos Estamos assim bem certos de estar seguindo o caminho traçado pelo profeta que diz Se não acreditardes não entendereis5 Ora nós cremos em um só Deus de quem procede tudo aquilo que existe Não obstante Deus não é o autor do pecado Todavia perturbanos o espírito uma consideração se o pecado procede dos seres criados por Deus como não atribuir a Deus os pecados sendo tão imediata a relação entre ambos Pontos fundamentais da fé 5 Ev Acabas de formular com toda clareza e precisão a dúvida que cruelmente me atormentou o pensamento e que justamente me levou a me empenhar nesta reflexão contigo Ag Tem coragem e conserva a fé naquilo que crês Nada é mais recomendável do que crer até no caso de estar oculta a razão de por que isso ser assim e não de outro modo Com efeito conceber de Deus a opinião mais excelente possível é o começo mais autêntico da piedade6 E ninguém terá de Deus um alto conceito se não crer que ele é todopoderoso e que não possui parte alguma de sua natureza submissa a qualquer mudança Crer ainda que ele é o Criador de todos os bens aos quais é infinitamente superior assim como ser ele aquele que governa com perfeita justiça tudo quanto criou sem sentir necessidade de criar qualquer ser que seja como se não fosse autosuficiente Isso porque tirou tudo do nada Entretanto ele gerou não o criou de sua própria essência aquele que lhe é igual o qual é como professamos o Filho único de Deus É aquele a quem nós denominamos procurando as expressões mais acessíveis Força de Deus e Sabedoria de Deus 1Cor 124 Por meio dele Deus fez tudo o que tirou do nada Tudo isso tendo sido estabelecido contando com a ajuda de Deus procuremos agora com empenho compreender a questão por ti proposta seguindo a ordem que se segue PRIMEIRA PARTE 36615 ESSÊNCIA DO PECADO SUBMISSÃO DA RAZÃO ÀS PAIXÕES Capítulo 3 Busca da origem do pecado 6 Ag Tu me perguntas Qual a causa de procedermos mal É preciso examinarmos primeiramente o que seja proceder mal Dizeme o que pensas a esse respeito Ou se não podes resumir todo o teu pensamento em poucas palavras pelo menos dáme a conhecer tua opinião mencionando algumas más ações em especial Ev Os adultérios os homicídios e os sacrilégios7 sem falar de outros maus procedimentos os quais não posso enumerar por me faltar tempo e memória Quem não considera aquelas ações como más Ag Dizeme primeiro por que consideras o adultério como má ação Não será porque a lei o proíbe de ser cometido Ev Por certo que não Ele não é um mal precisamente por ser proibido pela lei mas ao contrário é proibido pela lei por ser mal Ag Pois bem Mas se alguém insistir junto a nós exagerando os prazeres do adultério e perguntandonos por que o julgamos mau e condenável Seria preciso na tua opinião recorrer à autoridade da lei junto àqueles que desejam não somente crer mas também entender Pois eu também como tu creio inabalavelmente e até proclamo que todas as nações e povos devem admitir ser o adultério um mal Agora porém a respeito dessas verdades confiadas à nossa fé esforçamo nos de ter igualmente um conhecimento pela razão mantendoas com certeza plena8 Reflete pois o quanto puderes e dizeme por quais motivos crês que o adultério é um mal Ev Sei que é um mal porque não quisera ser eu mesmo vítima dele na pessoa de minha esposa Ora quem quer que faça um mal o qual não quer que lhe façam procede mal Ag Então E se a paixão inspirasse a alguém de entregar sua própria esposa a outro e de aceitar voluntariamente que ela fosse violentada desejando ele por sua vez obter a mesma permissão em relação à esposa do outro Conforme tua opinião não faria ele mal nenhum Ev Ao contrário ele agiria muito mal Ag Mas conforme a regra proposta há pouco por ti esse homem não peca porque não faz o que não gostaria de suportar Procura por conseguinte outra razão para me convenceres de que o adultério é mal Razões insuficientes da origem do mal 7 Ev Pareceme ser o adultério ato mau porque muitas vezes tenho visto homens serem condenados por esse crime Ag Ora Não se tem condenado também com freqüência a muitos homens por suas boas ações Recorda aquela história e já não te envio a outros livros profanos mas à história que é mais excelente que todas as outras por gozar da autoridade divina os Atos dos Apóstolos Encontrarás aí o quanto deveríamos ter em má opinião os apóstolos e todos os mártires se aceitássemos ser a condenação de um homem por outros o sinal certo de má ação Pois todos aqueles cristãos foram julgados dignos de condenação por terem confessado a sua fé De modo que se for mal tudo o que os homens condenam seguese que naquele tempo era crime crer em Cristo e confessar a própria fé Mas se nem tudo o que é condenado pelos homens é mal será preciso que procures outra razão que te permita me garantir que o adultério é mal Ev Nada encontro para te responder O mal provém da paixão interior 8 Ag Talvez seja na paixão que esteja a malícia do adultério Pois ao procurares o mal num ato exterior visível caíste em impasse Para te fazer compreender que a paixão é bem aquilo que é mal no adultério considera um homem que está impossibilitado de abusar da mulher de seu próximo Todavia se for demonstrado de um modo ou de outro qual o seu intento e que o teria realizado se o pudesse seguese que ele não é menos culpado por aí do que se tivesse sido apanhado em flagrante delito Mt 528 Ev Nada é tão evidente Vejo já não ser mais preciso longos discursos para me convenceres do mesmo a respeito do homicídio do sacrilégio e enfim de todos os outros pecados Com efeito é claro que em todas as espécies de ações más é a paixão que domina9 Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão 9 Ag Sabes que essa paixão é também denominada concupiscência10 Ev Sei Ag E o que pensas Entre essa concupiscência e o medo há alguma diferença ou nenhuma Ev Pareceme haver grande diferença entre eles Ag Acho que és dessa opinião porque a concupiscência tende para o objeto e que o medo o foge Ev É bem como dizes Ag Pois bem Se um homem matar a outro não pelo desejo de conseguir alguma coisa mas pelo temor de que lhe suceda algum mal Não seria esse homem homicida Ev Certamente o seria Mas nem por isso sua ação deixaria de ser dominada pela concupiscência Pois aquele que mata um homem levado pelo medo deseja sem dúvida viver sem medo Ag E parecete que viver sem medo é algum bem de somenos Ev Ao contrário pareceme ser um bem muito grande Mas de modo algum esse bem deve chegar ao homicida por meio de crime Ag Não pergunto o que pode chegar a esse homem mas o que deseja Pois por certo visa a um bem quem deseja uma vida isenta de medo Por isso não podemos condenar tal desejo Caso contrário deveríamos declarar culposos todos aqueles que desejam algum bem Logo somos forçados a reconhecer que há uma espécie de homicídio no qual não se pode encontrar a primazia de mau desejo Portanto não será exato dizer que todo pecado para que seja mal nele a paixão deve dominar Ou em outras palavras haveria uma espécie de homicídio que poderia não ser pecado Ev De fato Se o homicídio consiste no ato de matar um homem pode acontecer que isso seja por vezes sem pecado Pois o soldado mata o inimigo o juiz ou seu mandante executa o criminoso e também talvez o lançador de flechas quando uma delas escapa de suas mãos sem o querer ou por inadvertência Todas essas pessoas não me parecem pecar ao matar um homem Ag Concordo Mas comumente essas pessoas sequer são chamadas homicidas Assim responde agora se algum escravo temendo graves tormentos mata o seu senhor pensas que ele deve ser incluído ou não entre aqueles que matam nessas circunstâncias que não merecem o nome de homicídio Ev Vejo uma grande diferença entre esse último homem o escravo e os outros Pois estes ou bem atuam conforme a lei ou então nada fazem contra ela Ao passo que o crime desse último não tem a aprovação de lei alguma 10 Ag Outra vez tu me conduzes à autoridade como razão última Não deves esquecer porém o que nós nos propusemos neste momento compreender aquilo a que damos crédito Ora quanto à lei nós cremos nela mas é preciso tentar na medida do possível compreender este ponto a lei ao punir tal ato se assim o faz ou não com razão Ev De modo algum a lei pune sem razão neste caso Pois ela pune o escravo que sabendo e querendo matou o seu senhor O que não acontece nos outros casos supracitados Ag Como Não te lembras teres dito há um instante que a paixão domina em toda má ação e que essa se torna má por isso mesmo Ev Recordome perfeitamente Ag E ainda não concedeste igualmente que se alguém deseja viver sem medo não possui mau desejo Ev Também me recordo disso Ag Logo quando aquele senhor é morto pelo escravo levado este pelo desejo de viver sem temor não o mata por desejo culpável Por conseqüência ainda não compreendemos qual o motivo de essa ação ser criminosa Posto que estamos concordes em que todas as ações más unicamente são más por causa da paixão pela qual são praticadas isto é por desejo culpável Ev Agora aquele escravo pareceme ser condenado injustamente Mas na verdade não ousaria afirmar isso se pudesse encontrar alguma outra razão a apresentar Ag Será possível que te tenhas convencido de se dever declarar impune crime tão grande antes de examinares com cuidado se acaso esse escravo não desejava no fundo libertarse do temor de seu senhor unicamente para satisfazer as suas paixões Com efeito desejar vida sem temor não só é próprio de homens bons como também dos maus Com esta diferença porém os bons o desejam renunciando ao amor daquelas coisas que não se podem possuir sem perigo de perdêlas Os maus ao contrário desejam uma vida sem temor para gozar plena e seguramente de tais coisas e para isso esforçamse de qualquer modo para afastar todos os obstáculos que o impeçam Levam então vida criminosa e perversa vida que deveria antes ser chamada de morte Ev Confesso meu erro e alegrome muito de haver compreendido claramente a natureza desse desejo culpável que se chama paixão Agora vejo com evidência em que consiste esse amor desordenado por aquelas coisas terrenas que se podem perder contra a própria vontade Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil 11 Ev Procuremos pois agora caso te agrade se é a paixão que também domina nos sacrilégios os quais vemos muitas vezes serem cometidos por superstição Ag Considera se não é prematura tal questão A mim pareceme ser preciso examinar primeiramente se acaso podese matar sem nenhuma espécie de paixão a um inimigo que violentamente nos ataca ou a um assaltante que se lança contra nós de modo traiçoeiro Isso em defesa seja da própria vida seja da liberdade ou do pudor Ev Com poderia pensar que estejam sem paixão aqueles que lutam para salvaguardar essas coisas as quais só poderiam vir a perder contra a própria vontade Ou então caso não as percam desse modo qual seria a necessidade de as defender a ponto de causar a morte de um homem Ag Não serão então justas as leis que permitem a um viajante matar a seu assaltante para que ele mesmo não seja morto Ou ainda o fato de ser permitido a um homem ou a uma mulher cuja virtude querem violentar de exterminarem o seu agressor antes de serem estuprados Ora a própria lei ordena ao soldado de matar o inimigo E no caso de ele se recusar a isso teria punição por parte de seus chefes Porventura ousaríamos afirmar que tais leis são injustas e mesmo não serem leis Porque a mim me parece que uma lei que não seja justa não é lei11 Poder matar um agressor não significa dever matálo 12 Ev Quanto à lei eu a vejo suficientemente defendida dessa acusação pelo fato de ela permitir ao povo ao qual rege delitos menores para impedir que se cometam outros piores Com efeito a morte de agressor injusto é mal menor do que a de um homem que mata em legítima defesa E que um homem seja violentado em seu corpo contra sua vontade é coisa bem mais horrível do que o fato de o autor de tamanha violência ser morto por aquele a quem intentava agredir Quanto ao soldado ao matar o inimigo é ele mesmo o ministro da lei Razão pela qual lhe é fácil cumprir seu dever sem qualquer paixão Além do mais a própria lei que foi promulgada para a defesa do povo não merece acusação alguma de ser portadora de qualquer paixão Porque se aquele que fez a lei a decretou para proteger o povo conforme a ordem de Deus isto é de acordo com as prescrições da justiça eterna ele a decretou sem se sentir movido pela paixão Mas mesmo se tivesse sido movido por alguma paixão ao legislar não se segue daí que se deva ceder à paixão ao observála Pois uma boa lei pode ser dada por mau legislador Por exemplo se um tirano tendo chegado ao poder recebe uma soma de dinheiro de certo cidadão a quem isso interessa para ser decretado que a ninguém seja lícito raptar uma mulher nem mesmo para se casar com ela acaso será má essa lei pelo fato de ter sido dada por injusto e corrompido tirano Podese portanto sem paixão conformarse à lei a qual para proteger os cidadãos manda repelir com força o assalto violento do inimigo E podese dizer a mesma coisa acerca de todos aqueles que estão jurídica e hierarquicamente sob as ordens de qualquer autoridade Entretanto em relação àquelas outras pessoas de que falávamos não vejo como após termos justificado a lei possam elas mesmas serem desculpadas Visto que a lei não as obriga a matar Deixalhes somente a possibilidade de o fazer Ficam elas assim livres de não matar a ninguém em defesa daqueles bens que poderiam perder contra a própria vontade e que devido a isso não deveriam amar com tanto apego Assim quanto à vida alguém se poderá perguntar talvez se ela é ou não tirada com a morte do corpo Caso ela possa ser tirada então é um bem menos apreciável Caso não possa nada há para se temer Quanto ao pudor quem duvida que ele reside na própria alma visto ser uma virtude De onde se segue que não poderá ser arrebatado pela profanação involuntária do corpo Por conseguinte não está em nosso poder conservar tudo o que aquele injusto agressor poderia nos arrebatar ele a quem se pode infligir a morte Assim não compreendo em que sentido podemos dizer que esse bem a vida do corpo é chamado nosso Malgrado isso não condeno a lei que autoriza matar os agressores Mas não encontro como justificar aos que de fato os matam As paixões desculpadas pela lei civil condenadas pela lei divina 13 Ag E eu encontro menos motivo ainda por qual razão procuras defender esses homens aos quais nenhuma lei considera como culpados Ev Talvez não os condene nenhuma dessas leis exteriores que os homens podem ler Mas não sei se eles mesmos não estão sujeitos a outra lei muito mais rigorosa e bem secreta já que a divina Providênca nada deixa de governar neste mundo Diante dessa lei divina com efeito como poderiam estar isentos de pecado aqueles que se mancham com sangue humano para defender coisas dignas de menos apreço Pareceme pois que a lei escrita para governar os povos autoriza com razão atos que a Providência divina pune Isso porque a lei humana está encarregada de reprimir crimes em vista de manter a paz entre homens carentes de experiência e o quanto estiver ao alcance do governo constituído de homens mortais Quanto às outras faltas é certo que existem para elas penalidades adequadas as quais a meu parecer só mesmo a sabedoria pode libertar12 Ag Louvo e aprovo esta distinção que propões ainda que apenas esboçada e imperfeita É ela entretanto promissora em vista de reger a sociedade civil Parece tolerar e deixar impunes muitas ações que não obstante serão punidas pela Providência divina com razão Isso é verdade mas se a lei humana não faz tudo não será por isso motivo de reprovação pelo que faz13 Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais 14 Ag Se te agrada procuremos agora com cuidado até que ponto as más ações devem ser castigadas pela lei humana que modera os povos nesta vida Em seguida vejamos o que cabe à ação punitiva da Providência divina de certo modo oculto mas inevitável Ev O meu desejo caso seja possível é atingir os limites dessa questão Pois a mim pareceme que estamos roçando algo sem fim Ag Pois bem coragem Envereda nos caminhos da razão confiandote na piedade Na verdade nada existe que seja tão árduo e difícil que não se torne com a ajuda divina bem simples e fácil E assim orientados para Deus e implorandolhe o auxílio havemos de investigar o tema que nos propusemos14 Respondeme primeiramente essa lei que se promulga nos códigos é ela na verdade útil aos homens que vivem aqui na terra Ev Evidentemente que sim pois os povos e as cidades são constituídos por homens Ag E esses mesmos homens e povos pertencem eles à categoria das coisas que não podem perecer nem mudar por serem eternos ou ao contrário são eles mutáveis e sujeitos ao fluxo do tempo Ev Quem duvida que a espécie humana seja mutável e sujeita às vicissitudes do tempo Ag Logo quando um povo for de costumes moderados e dignos guardião diligente da utilidade pública a ponto de cada um preferir o bem comum ao seu interesse particular não seria justo ao dito povo poder promulgar uma lei que lhe permitisse nomear para si magistrados encarregados de administrar os seus negócios isto é os negócios públicos Ev Seria muito justo sem dúvida Ag Contudo no caso de esse mesmo povo ir caindo aos poucos depravandose e caso ponha o seu interesse particular acima do interesse público e vier a vender o seu sufrágio livre por dinheiro Além do mais corrompido por aqueles que ambicionam as honras confiar o governo a homens malvados e criminosos não seria justo caso ainda se encontrasse um só homem de bem revestido de influência excepcional que esse homem tirasse do povo a faculdade de poder distribuir as honras para depositar a decisão15 nas mãos de alguns poucos cidadãos honestos ou mesmo de um só que fosse16 Ev Isso também seria muito justo Ag Eis pois duas leis que parecem estar em contradição entre si Uma delas confere ao povo o poder de eleger os seus magistrados a outra recusalhe essa prerrogativa E a segunda lei mostrase expressa em tais moldes que as duas não podem de modo algum coexistir juntas na mesma cidade Assim sendo haveríamos de dizer que uma delas é injusta e não deveria ter sido promulgada Ev De modo algum Ag Denominemos pois se o quiseres de temporal a essa lei que a princípio é justa entretanto conforme as circunstâncias dos tempos pode ser mudada sem injustiça Ev Assim seja Noção da lei eterna 15 Ag Mas quanto àquela lei que é chamada a Razão suprema de tudo17 à qual é preciso obedecer sempre e em virtude da qual os bons merecem vida feliz18 e os maus vida infeliz é ela o fundamento da retidão e das modificações daquela outra lei que justamente denominamos temporal como já explicamos Poderá a lei eterna parecer a quem quer que reflita a esse respeito não ser imutável e eterna ou em outros termos poderá ela ser alguma vez considerada injusta quando os maus tornam se desaventurados e os bons bemaventurados Ou então que a um povo de costumes pacíficos seja dado o direito de eleger os seus próprios magistrados ao passo que a um povo dissoluto e pervertido sejalhe retirado esse direito Ev Reconheço que tal lei é eterna e imutável Ag Reconhecerás também espero que na lei temporal dos homens nada existe de justo e legítimo que não tenha sido tirado da lei eterna Assim no mencionado exemplo do povo que às vezes tem justamente o direito de eleger seus magistrados e às vezes não menos justamente não goza mais desse direito a justiça dessas diversidades temporais procede da lei eterna conforme a qual é sempre justo que um povo sensato eleja seus governantes e que um povo irresponsável não o possa Acaso és de opinião diferente Ev Sou dessa mesma opinião Ag Então para exprimir em poucas palavras o quanto possível a noção impressa em nosso espírito dessa lei eterna direi que ela é aquela lei em virtude da qual é justo que todas as coisas estejam perfeitamente ordenadas19 Se tens porém outra opinião apresentaa Ev Nada tenho a te contradizer pois dizes a verdade Ag E como tal lei superior é a única sobre a qual todas as leis temporais regulam as mudanças a serem introduzidas no governo dos homens poderá ela por causa disso variar em si mesma de algum modo Ev Compreendo que não o possa de modo algum Com efeito nenhuma força nenhum acontecimento nenhuma catástrofe nunca conseguirá fazer com que não seja justo que todas as coisas estejam conformes a uma ordem perfeita SEGUNDA PARTE 7161122 A CAUSA DO PECADO O ABUSO DA VONTADE LIVRE Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão 16 Ag Prossigamos e vejamos agora como o homem está perfeitamente ordenado em si mesmo Pois já vimos que uma nação constituise de homens unidos entre si sob uma única lei que é como foi dito a lei temporal Mas dizeme primeiramente se para ti é certeza absoluta o fato de viveres Ev E o que haveria de mais evidente do que isso Ag Pois bem E poderias distinguir o seguinte uma coisa é viver e outra coisa saber que se vive Ev Por certo sei que ninguém pode saber que vive sem estar vivo Mas se todo ser vivo sabe que vive eu o ignoro Ag Como quisera que entendesses isso tal como acreditas que os animais carecem de razão20 Nossa reflexão então haveria de passar rapidamente acima dessa dificuldade Entretanto como afirmas ignorálo devemos nos estender em longo desenvolvimento Isso porque não se trata de assunto cuja omissão pudesse nos permitir adiantar na obtenção do objeto proposto com a conexão de raciocínio que sinto ser necessária Respondeme pois o seguinte muitas vezes temos visto animais domados pelos homens isto é dominados não somente em relação ao corpo mas também quanto a seu princípio vital de tal forma que obedecem à vontade dos homens por uma espécie de instinto ou hábito Ora o que te parece Poderia acontecer jamais o caso de um animal feroz tivesse ele grande corpulência e uma prodigiosa força ou os sentidos mais penetrantes a ponto de tentar por sua vez dominar o homem esforçando se por subjugálo Digo isso porque muitos animais seriam capazes por sua ferocidade ou por sua astúcia de esquartejar o corpo de qualquer homem Ev Estou seguro de que tal possibilidade é inteiramente impossível de acontecer Ag Muito bem Mas dizeme ainda Não é evidente que quanto à força e outras habilidades corporais o homem é facilmente ultrapassdo por certo número de animais Assim sendo qual é pois o princípio que constitui a excelência do homem de modo que animal algum consiga exercer sobre ele sua força ao passo que o homem exerce seu poder sobre muitos deles Não será por aquilo que se costuma denominar razão ou inteligência21 Ev Não encontro outra coisa Pois é no espírito que reside a faculdade pela qual nós somos superiores aos animais E se eles fossem seres inanimados eu diria que nossa superioridade vem do fato de que possuímos uma alma e eles não Mas acontece que também eles são animados Contudo existe alguma coisa que não existindo na alma deles existe na nossa e por isso acham se submetidos a nós Ora é claro para todos que essa faculdade não é um puro nada nem pouca coisa E que outro nome lhe daríamos mais correto do que o de razão Ag Eis pois com que facilidade obtivemos com a ajuda de Deus o que podíamos considerar como muito difícil Pois quanto a mim eu te confesso que essa questão agora está resolvida E pensara eu haver de nos reter por muito tempo nela talvez mais do que tudo o que já dissemos desde o início de nossa reflexão Assim pois retém esta verdade com cuidado para continuarmos o encadeamento das idéias Com efeito creio que já não ignoras o que denominamos saber não vem a ser nada mais do que se perceber pela razão Ev Assim é com efeito Ag Por conseguinte aquele que sabe que vive não está privado da razão Ev Isso se segue Ag Ora os animais vivem como já nos apareceu com clareza mas não são dotados de razão Ev Evidente Ag Eis então que agora entendes o que me respondeste ignorar nem todo ser vivo sabe que vive ainda que todo aquele que sabe que vive seja necessariamente ser vivo É melhor saber que se vive do que apenas viver 17 Ev Não tenho mais dúvidas Prossegue no que tens em vista Com efeito uma coisa é viver e outra coisa saber que se vive Já o aprendi suficientemente Ag E qual dessas duas coisas te parece ser a melhor Ev A qual pensas senão a consciência scientia da vida Ag A consciência da vida parecete melhor do que a própria vida Ou talvez queiras dizer que o conhecimento é uma vida mais alta e mais pura a qual ninguém pode alcançar a não ser que seja dotado de inteligência Ora o que é ter inteligência a não ser viver com mais perfeição e esplendor graças à luz mesma da mente É porque se não me engano tu não preferiste algo distinto da própria vida mas sim uma vida melhor do que uma vida qualquer Ev Compreendeste e expuseste meu pensamento de maneira correta Visto que o conhecimento nunca pode ser mal Ag Na minha opinião não o pode ser de modo algum a não ser quando por metáfora falamos de conhecimento para significar experiência Porque experimentar nem sempre é bem como por exemplo experimentar suplícios Mas aquela ciência que se denomina pura e propriamente conhecimento tendo sido adquirida pela razão e pela inteligência como poderia ser ela mal Ev Percebo também essa distinção Passa a outro ponto Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres 18 Ag Eis o que eu quero te explicar agora o que põe o homem acima dos animais seja qual for o nome com que designemos tal faculdade seja mente ou espírito ou com mais propriedade um e outro indistintamente porque encontramos esses dois vocábulos também nos Livros Sagrados quando pois esse elemento superior domina no homem e comanda a todos os outros elementos que o constituem ele encontrase perfeitamente ordenado Com efeito vemos que temos muitos elementos comuns não somente com os animais mas também com as árvores e plantas tais como ingerir alimento crescer gerar fortificarse Vemos que todas essas propriedades são concedidas igualmente às árvores as quais pertencem a um grau bem ínfimo entre os seres vivos Constatamos ainda e devemos reconhecer que os animais podem ver entender e sentir os objetos corporais por meio do olfato do gosto do tato e freqüentemente com mais penetração do que nós Além do que há neles força vigor solidez dos membros rapidez e grande agilidade de movimentos corporais Em tudo isso nós somos superiores a alguns deles iguais a outros e a vários dentre eles inferiores Sem dúvida possuímos natureza genérica comum com os animais Entretanto a busca dos prazeres do corpo e a fuga dos dissabores constituem atividade da vida animal Há ainda outras propriedades que não parecem convir aos animais sem que todavia sejam no homem as mais perfeitas como por exemplo divertirse e rir Por certo são expressões características do homem mas as menos importantes no julgamento de quem julga a natureza humana Vêm a seguir o amor aos elogios e à glória e o desejo de dominar tendências essas que também não pertencem aos animais Contudo não devemos nos julgar melhores do que eles por possuirmos essas paixões Pois tais inclinações ao se revoltarem contra a razão nos tornam infortunados Ora ninguém jamais se pretendeu superior a outros por sua miséria Por conseguinte só quando a razão domina a todos os movimentos da alma o homem deve se dizer perfeitamente ordenado Porque não se pode falar de ordem justa sequer simplesmente de ordem onde as coisas melhores estão subordinadas às menos boas Acaso não te parece ser assim Ev É evidente que é dessa maneira Ag Então quando a razão a mente ou o espírito governa os movimentos irracionais da alma é que está a dominar na verdade no homem aquilo que precisamente deve dominar em virtude daquela lei que reconhecemos como sendo a lei eterna Ev Compreendo e sigo teu raciocínio Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão 19 Ag Quando um homem está assim constituído e ordenado não te parece ser ele sábio Ev Não concebo outro tipo de homem que poderia parecerme sábio se esse não o for Ag Sabes também eu o penso que a maioria dos homens é formada de insensatos stultos Ev Isso é fato bastante comprovado Ag Pois bem o insensato é o oposto do homem sábio conforme a idéia que adquirimos a respeito de um sábio Compreendes agora o que seja o insensato Ev A quem não será evidente que o insensato é aquele em quem a mente não reina como autoridade suprema Ag O que dizer então quando um homem se encontra nessa situação É a mente que lhe falta ou então apesar de ela estar presente faltalhe o domínio que lhe corresponde Ev É antes o que acabas de dizer por último Ag Gostaria de ouvir de ti por quais indícios constatas num homem a presença da mente mesmo quando não exerce o seu domínio Ex Oxalá queiras tu mesmo assumir esse encargo porque não me é fácil apresentar o que propões Ag Podes pelo menos te lembrar facilmente do que dissemos há pouco cf 71617 a saber que os animais domados e domesticados pelos homens os dominariam por sua vez como nos demonstrou a razão se os homens não possuíssem sobre eles alguma superioridade Ora essa superioridade não a descobrimos nos corpos Assim como nos pareceu reside na alma E não encontramos para ela outro nome mais adequado do que o de razão Ainda que a seguir nós nos lembramos de que ela também pode ser denominada mente ou espírito Mas se é verdade que a mente é uma coisa e a razão outra em todo caso é certo que somente a mente pode se servir da razão Donde a conseqüência aquele que é dotado de razão não pode estar privado da mente Ev Lembrome perfeitamente dessas conclusões e as admito Ag Pois bem É tua opinião que os domadores de animais ferozes não podem ser encontrados a não ser entre homens sábios E denomino sábio a quem a verdade manda assim ser chamado Isto é aquele cuja vida está pacificada pela total submissão das paixões ao domínio da mente Ev Seria ridículo considerar como sábio a todos os que comumente são chamados domadores Ou ainda os pastores vaqueiros ou cocheiros e todos os que vemos dominar os animais domesticados ou os que logram submeter a si por sua habilidade os animais indômitos Ag Agora tens por aí um sinal certíssimo para reconhecer claramente a existência no homem de uma mente ainda que essa mente não exerça o seu domínio Os homens a que te referiste possuem de fato a mente pois não realizariam ações que executam se não a tivessem Mas essa mente não exerce o domínio sobre eles mesmos e assim são uns insensatos E é sabido que o reino da mente não pertence a não ser aos sábios Ev É espantoso que esse assunto já tendo sido refletido acima não me tenha ocorrido nenhuma resposta conveniente ao me perguntares a esse respeito22 Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões 20 Ev Mas passemos agora a outros aspectos Já demonstramos que no homem o senhorio da mente constitui a sabedoria entretanto a mente pode não exercer de fato esse seu senhorio Ag Julgas que a paixão seja mais poderosa do que a mente à qual sabemos que por lei eterna foi lhe dado o domínio sobre todas as paixões Quanto a mim não o creio de modo algum pois caso o fosse seria a negação daquela ordem muito perfeita de que o mais forte mande no menos forte Por isso é necessário a meu entender que a mente seja mais poderosa do que a paixão e pelo fato mes mo será totalmente justo e correto que a mente a domine Ev Também sou do mesmo parecer Ag Então Haverás de hesitar em pôr toda e cada virtude acima de qualquer espécie de vício de tal forma que quanto mais uma virtude for nobre e sublime mais ela será forte e invencível Ev Quem o poderia duvidar Ag Logo nenhuma alma viciada pode dominar outra munida de virtudes Ev É bem verdade Ag E ainda qualquer espírito há de ser mais nobre e poderoso do que qualquer ser corporal Isso tampouco o negarás espero Ev Ninguém o negará O que é fácil verificar ao ver que se deve preferir um ser vivo a um ser não vivo e que a substância que dá vida vale mais do que aquela que a recebe Ag Com mais forte razão por conseguinte um corpo seja ele qual for não poderia vencer um espírito dotado de virtude Ev Evidentíssimo que não Ag Então O espírito justo e a mente firme em seu direito e conservando seu domínio poderá afastarse de sua força e submeter à paixão outra mente que reina com igual eqüidade e virtude Ev De modo algum Não somente porque a excelência é igual em uma e outra mas também a primeira mente não poderia obrigar a outra a se tornar viciada sem ela mesma decair de sua justiça e tornarse viciada ficando por isso mesmo mais fraca 21a Ag Compreendesteme bem É porque não te resta agora senão responder a esta questão se puderes Existe na tua opinião algo mais nobre do que a mente dotada de razão e sabedoria Ev A meu ver nada existe exceto Deus Ag Essa é igualmente a minha opinião Mas por ser o assunto difícil e o momento ainda não haver chegado para plena compreensão ainda que aí esteja uma das verdades que precisamos crer com fé firmíssima reservemos para esse tema uma exposição completa diligente e cautelosa em outro tempo Capítulo 11a O Ser supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões 21b AgCom efeito por enquanto bastenos saber que esse Ser seja ele qual for capaz de ultrapassar em excelência a mente dotada de virtude não poderia de modo algum ser um Ser injusto Tampouco ainda que tivesse esse poder ele não forçaria a mente a submeterse às paixões Ev Não há ninguém que deixe de admitir essa afirmação sem hesitação alguma O responsável pela submissão às paixões só pode ser o livrearbítrio 21c Ag Logo só me resta concluir se de um lado tudo o que é igual ou superior à mente que exerce seu natural senhorio e achase dotada de virtude não pode fazer dela escrava da paixão por causa da justiça por outro lado tudo o que lhe é inferior tampouco o pode por causa dessa mesma inferioridade como demonstram as constatações precedentes Portanto não há nenhuma outra realidade que torne a mente cúmplice da paixão a não ser a própria vontade e o livrearbítrio23 Ev Não vejo conclusão nenhuma tão necessária quanto essa O pecado porta em si muitos males 22 Ag Logo deve te parecer também lógico que a mente seja punida por tão grande pecado Ev Não o posso negar Ag Julgaremos que para a mente poderá ser um pequeno castigo ser dominada pela paixão e despojada das riquezas da virtude tornarse pobre e desgraçada ser puxada por ela em todos os sentidos Às vezes aprovar a falsidade em vez da verdade outras vezes parecer mesmo defender o erro outras condenar o que até então aprovava e não obstante precipitarse em novos erros Numa hora suspender o seu julgamento até temer as razões que a esclareceriam noutra desesperar de jamais encontrar a verdade e mergulhar totalmente nas trevas da loucura Amanhã esforçarse por abrirse na direção da luz da inteligência para de novo recair extenuada Ao mesmo tempo o império das paixões ao lhe impor sua tirania perturba todo o espírito e a vida desse homem pela variedade e oposição de mil tempestades que tem de enfrentar Ir do temor ao desejo da ansiedade mortal à vã e falsa alegria dos tormentos por ter perdido um objeto que amava ao ardor de adquirir outro que ainda não possui das irritações de uma injúria recebida ao insaciável desejo de vingança E de todo lado a que se volta a avareza cerca esse homem a luxúria o consome a ambição o escraviza o orgulho o incha a inveja o tortura a ociosidade o aniquila a obstinação o excita a humilhação o abate E finalmente quantas outras inumeráveis perturbações são o cortejo habitual das paixões quando elas exercem o seu reinado Enfim poderemos considerar como pouca coisa essas penas que necessariamente suportam todos aqueles que não aderem à verdadeira sabedoria assim como bem o percebes24 TERCEIRA PARTE 11231635 A ATUAÇÃO DA BOA VONTADE PROVA QUE O PECADO VEM DO LIVRE ARBÍTRIO Capítulo 11b Dúvidas de Evódio 23 Ev Por certo considero que é de fato grande essa punição e muito justa no caso de ser aplicada a alguém que já se achando estabelecido nas alturas da sabedoria resolvesse descer de lá para se pôr ao serviço das paixões Mas será possível encontrar alguém que tenha querido ou que queira realizar tal coisa É bem incerto Na verdade cremos pela fé que o homem foi criado por Deus e formado de modo perfeito e que foi por si mesmo e por sua própria vontade que se precipitou de lá nas misérias desta vida mortal Entretanto mesmo guardando essas verdades com uma fé muito firme eu ainda não consigo entender tudo isso muito bem Assim se julgas por enquanto ser preciso retardar um exame sério acerca dessa questão tu o farás mas muito contra a minha vontade25 Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo 24 Ev Mas eis o que me preocupa ainda mais Por qual motivo padecemos nós todos essas espécies de penas tão cruéis nós que certamente estamos entre os insensatos sem que nunca tenhamos sido sábios Ora isso seria preciso para que se diga que tais males nos afligem com justiça pelo fato de havermos desertados da fortaleza da virtude e termonos entregues à escravidão da paixão Se podes me esclarecer esse ponto por algum argumento não deixarei de modo algum que isso seja remetido para mais tarde Ag Falas como se tivesses a clara convicção de nunca termos sido sábios Isso por não levares em conta a não ser o tempo a partir do qual nascemos para esta vida Entretanto como a sabedoria reside na alma perguntome se acaso não terá esta vivido outra vida antes de se unir a este corpo E assim terá desfrutado antes algum tempo de posse da sabedoria Eis uma grande questão um pro fundo mistério o qual será preciso considerarmos a seu tempo26 Apesar disso aliás nada impede de esclarecermos o quanto possível a questão que no momento nos ocupa O papel da boa vontade 25 Ag E assim perguntote Existe em nós alguma vontade Ev Não o sei dizer Ag E queres sabêlo Ev Também o ignoro Ag Então nada mais me perguntes de agora em diante Ev Por quê Ag Porque não devo responder às tuas perguntas a não ser que queiras conhecer as respostas Além do mais se não queres chegar à sabedoria é inútil conversar contido sobre tais questões Enfim não mais poderá ser meu amigo se não me quiseres bem Pelo menos considera o seguinte em relação a ti mesmo não tens vontade alguma de levar vida feliz Ev Vejo que não se pode negar que todos tenhamos desejo disso Continua vejamos o que queres concluir por aí Ag Eu o farei Mas antes dizeme ainda tens consciência de possuir boa vontade Ev O que vem a ser a boa vontade27 Ag É a vontade pela qual desejamos viver com retidão e honestidade para atingirmos o cume da sabedoria Considera agora se não desejas levar uma vida reta e honesta ou se não queres ardentemente te tornar sábio Ou pelo menos se ousarias negar que temos a boa vontade ao querermos essas coisas Ev Nada disso eu nego porque admito que não somente tenho uma vontade mas ainda uma boa vontade Ag E que apreço dás a essa boa vontade Achas que se possa comparála de algum modo com as riquezas com as honras ou com os prazeres do corpo ou ainda com todas essas coisas reunidas Ev Deus me livre de loucura tão perniciosa Ag Sernosá preciso então alegrarnos só um pouco por possuirmos em nosso espírito esse tesouro quero dizer essa boa vontade Em comparação a ela seria preciso julgar dignos de desprezo todos aqueles outros bens sobre os quais nos referimos No entanto para a sua posse vemos multidão de homens não recuar diante de nenhum cansaço de perigo algum Ev É preciso alegrarnos e muito por possuirmos a boa vontade Ag Pois bem E aqueles que não desfrutam dessa alegria sofrerão apenas pouco dano pela privação de tão grande bem Ev Ao contrário seria para eles o maior de todos os danos A boa vontade está em nossas mãos 26 Ag Portanto penso que agora já vês depende de nossa vontade gozarmos ou sermos privados de tão grande e verdadeiro bem Com efeito haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a própria vontade28 Ora quem quer que seja que tenha esta boa vontade possui certamente um tesouro bem mais preferível do que os reinos da terra e todos os prazeres do corpo E ao contrário a quem não a possui faltalhe sem dúvida algo que ultrapassa em excelência todos os bens que escapam a nosso poder Bens esses que se escapam a nosso poder ela a vontade sozinha traria por si mesma Por certo um homem não se considerará muito infeliz se vier a perder sua boa reputação riquezas consideráveis ou bens corporais de toda espécie Mas não o julgarás antes muito mais infeliz caso tendo em abundância todos esses bens venha ele a se apegar demasiadamente a tudo isso coisas essas que podem ser perdidas bem facilmente e que não são conquistadas quando se quer Ao passo que sendo privado da boa vontade bem incomparavelmente superior para reaver tão grande bem a única exigência é que o queira Ev Nada há de mais verdadeiro Ag É pois com toda justiça que os homens insensatos padeçam aquela miséria de que falamos E isso mesmo sem nunca terem sido sábios é questão problemática e bem obscura Ev Concordo Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais 27 AgConsidera agora se a prudência não te parece o conhecimento daquelas coisas que precisam ser desejadas e das que devem ser evitadas29 Ev Pareceme que assim é Ag Pois bem E a força não é ela aquela disposição da alma pela qual nós desprezamos todos os dissabores e a perda das coisas que não estão sob nosso poder Ev Assim o penso Ag E quanto à temperança é ela a disposição que reprime e retém o nosso apetite longe daquelas coisas que constituem uma vergonha o ser desejadas Ou acaso és de outra opinião Ev Pelo contrário penso como dizes Ag E finalmente sobre a justiça o que diremos ser ela senão a virtude pela qual damos a cada um o que é seu Ev Conforme minha opinião é essa a definição da justiça e nenhuma outra Ag Consideremos pois uma pessoa que possua essa boa vontade de que nossas palavras vêm proclamando a excelência já há algum tempo Ela abraçaa a ela somente com verdadeiro amor nada possuindo de melhor Goza de seus encantos Põe enfim seu prazer e sua alegria em meditar sobre ela considerandoa quanto é excelente e o quanto é impossível ela lhe ser arrebatada Isto é serlhe subtraída sem seu consentimento Poderemos duvidar de que tal pessoa se oporá a todas as coisas que sejam contrárias a esse único bem Ev É absolutamente necessário que assim seja Ag Podemos deixar de crer que essa pessoa não esteja também dotada de prudência ela que vê a obrigação de desejar esse bem acima de tudo e de evitar o que lhe é oposto Ev De modo algum pareceme alguém ser capaz disso sem a prudência Ag Bem Mas por que não atribuiríamos também a força a essa pessoa Com efeito ela não poderia amar nem estimar em alto preço todas aquelas coisas que não estão sob o nosso poder Porque tais coisas só são amadas pela má vontade à qual ela deve resistir por serem inimigas de seu maior bem Ora já que tal pessoa não ama essas coisas perecíveis não se entristecerá de as perder posto que as despreza totalmente E é essa a obra de força como foi dito e aceito por nós Ev Demos pois a virtude da força a essa pessoa porque não compreendo que se possa denominar a alguém de forte com mais acerto do que aquele que suporta com igualdade e tranqüilidade de ânimo a privação desses bens cuja aquisição ou conservação não estão em nosso poder Ora que aquela pessoa age assim é um fato evidente Ag Considera ainda se acaso poderás recusarlhe a temperança sendo essa a virtude que reprime as paixões Ora o que há de mais oposto à boa vontade do que a concupiscência Compreenderás que por ela certamente quem ama a boa vontade resiste por todos os modos a essas paixões e opõe se a elas Por isso tal pessoa é designada com razão de temperante Ev Prossegue Sou de tua opinião Ag Resta a justiça Mas como poderá ela faltar a essa pessoa por certo não o vejo Porque quem possui e ama a boa vontade e resiste como dissemos ao que lhe é contrário não pode querer mal a ninguém Donde se segue que ela não causa dano a ninguém Mas na verdade pessoa alguma pode praticar a justiça sem dar a cada um o que é seu Ora ao dizer o que constitui a justiça tu já o provaste Lembraste disso acho eu Ev Sim eu o lembro e confesso que encontramos facilmente naquela pessoa que tanto estima e ama a sua boa vontade todas essas quatro virtudes as quais há pouco descreveste de acordo comigo Levar vida feliz ou infeliz depende de nossa boa vontade 28 Ag O que pode nos impedir então de reconhecermos como louvável a vida dessa pessoa Ev Nada absolutamente Ao contrário tudo nos convida e até nos obriga a isso Ag Pois bem E podes de algum modo deixar de julgar que é preciso evitar a vida infeliz Ev Julgo com convicção que assim seja E penso que nada senão isso deve ser feito e com grande empenho Ag Mas não achas com certeza que a vida louvável deva ser evitada Ev Considero antes que é preciso procurála com afinco Ag Portanto não é a vida infeliz que deve ser louvada Ev É bem isso que se segue Ag Agora penso que não te será nada difícil admitires que a vida feliz é precisamente aquela que não é infeliz Ev É mais do que evidente Ag Aceitemos portanto isto é feliz o homem realmente amante de sua boa vontade e que despreza por causa dela tudo o que se estima como bem cuja perda pode acontecer ainda que permaneça a vontade de ser conservado Ev Como não aceitarmos as conclusões a que nos levam as premissas admitidas anteriormente Ag Compreendeste muito bem Mas dizeme eu te peço amar a sua boa vontade e têla em tão grande preço como antes dissemos não é isso justamente a própria boa vontade Ev Dizes a verdade Ag Mas se julgamos com razão ser feliz o homem de boa vontade não se deveria também com boa razão declarar ser infeliz aquele que possui vontade contrária a essa Ev Com muito boa razão Ag Logo que motivo existe para crer que devemos duvidar mesmo se até o presente nunca tenhamos possuído aquela sabedoria que é pela vontade que merecemos e levamos uma vida louvável e feliz e pela mesma vontade que levamos uma vida vergonhosa e infeliz30 Ev Constato que chegamos a essa conclusão fundamentandonos em razões certas e inegáveis 29 Ag Ainda outra coisa Retiveste penso eu a definição dada por nós a respeito da boa vontade Dissemos ser ela a vontade pela qual desejamos viver justa e honestamente Ev Sim eu me recordo Ag Portanto se por nossa boa vontade amamos e abraçamos essa mesma boa vontade preferindo a a todas as outras coisas cuja conservação não depende de nosso querer a conseqüência será como nos indica a razão que nossa alma esteja dotada de todas aquelas virtudes cuja posse constitui precisamente a vida conforme a retidão e a honestidade De onde se segue esta conclusão todo aquele que quer viver conforme a retidão e honestidade se quiser pôr esse bem acima de todos os bens passageiros da vida realiza conquista tão grande com tanta facilidade que para ele o querer e o possuir serão um só e mesmo ato Ev Digote com toda verdade posso dificilmente conter uma exclamação de alegria vendo de repente surgir diante de mim tão grande bem e de maneira tão fácil de ser adquirido31 Ag Pois bem essa mesma alegria gerada pela aquisição de tão grande bem ao elevar a alma na tranqüilidade na calma e constância constitui a vida que é dita feliz A não ser que não consideres a vida feliz como gozo de bens verdadeiros e seguros Ev Consideroa tal como tu mesmo Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade 30 Ag Perfeitamente Mas na tua opinião haverá um só homem sequer que não queira e deseje de todos os modos viver vida feliz32 Ev Todo homem a deseja Quem pode duvidar disso Ag Por qual motivo então nem todos eles a obtêm Porque como nós o dissemos e concordamos é voluntariamente que os homens a merecem E acontece que voluntariamente também chegam a uma vida de infortúnios E assim recebem o que merecem Mas eis que surge não sei qual contradição a tentar derrubar se não fizermos um exame atento e minucioso as nossas conclusões de há pouco tão bem elaboradas e tão fortemente apoiadas Com efeito como se explica que os homens sofram voluntariamente uma vida infeliz se de modo algum ninguém quer viver no infortúnio E como se explica que sendo por sua própria vontade que o homem obtém vida feliz quando acontece que tantos são infelizes apesar de todos quererem ser felizes Será que isso não vem do fato de que uma coisa é querer viver bem ou mal e outra coisa muito distinta é merecer o resultado por uma boa ou má vontade Com efeito aqueles que são felizes para isso é preciso que sejam também bons não se tornaram tais só por terem querido viver vida feliz visto que os maus também o querem Mas sim porque os justos o quiseram com retitude o que os maus não o quiseram Nada de estranhar então que os homens desventurados não obtenham o que querem isto é vida feliz Com efeito o essencial o que acompanha a felicidade e sem o que ninguém é digno de obtêla o fato de viver retamente eles não o querem Ora a lei eterna em consideração da qual já é tempo de voltar a nossa atenção decretou com firmeza irremovível o seguinte o merecimento está na vontade33 Assim a recompensa ou o castigo serão a beatitude ou a desventura É porque ao afirmarmos que os homens são voluntariamente infelizes não dizemos por aí que eles queiram ser infelizes mas que possuem tal vontade que a desgraça se segue necessariamente mesmo contra o desejo de felicidade Não há pois nada de contraditório ao raciocínio precedente todos querem ser felizes mas sem poder sêlo Pois nem todos querem viver com retidão e é só com essa boa vontade que têm o direito à vida feliz A menos que tenhas alguma objeção a fazer Ev Não nada tenho a opor Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal 31 Ev Vejamos agora sem mais demora que relação existe em tudo isso com a questão das duas leis já colocadas anteriormente a lei eterna e a temporal Ag Seja Antes porém respondeme aquele que ama viver retamente tem certamente prazer nisso de tal modo que encontra não apenas o bem verdadeiro mas ainda real doçura e alegria Essa pessoa não há de apreciar também sobre todas as coisas com dileção especial essa lei em virtude da qual a vida feliz é atribuída à boa vontade e a vida infeliz à má vontade34 Ev Sem dúvida amaa e com veemência porque é observandoa que ele vive como o faz Ag Pois bem Ao amála será que ama a algo varíavel e temporal ou a algo estável e eterno Ev Certamente a algo que é eterno e imutável Ag E o que dizes daqueles que perseveram em sua má vontade e desejam apesar disso ser felizes Podem eles amar essa lei que lhes determina o infortúnio como justo salário Ev De modo algum penso eu Ag E a nada mais amam Ev Pelo contrário amam muitas outras coisas precisamente aquelas a cuja aquisição e conservação sua má vontade persiste em procurar Ag Queres te referir penso eu às riquezas às honras aos prazeres à beleza do corpo e a todas as demais coisas que podem não ser obtidas mesmo quando desejadas ou então perdidas contra a própria vontade Ev Refirome precisamente a tais coisas Ag E julgas que esses bens sejam eternos quando tu os vês sujeitos à mobilidade do tempo Ev Quem poderia pensar assim a não ser um louco Ag Logo é evidente que há duas espécies de homens uns amigos das coisas eternas e outros amigos das coisas temporais E já concordamos que há também duas leis uma eterna outra temporal Dizeme caso tenhas o senso da justiça quais desses homens devem estar colocados entre os submissos à lei eterna e quais à lei temporal Ev A resposta penso eu é bem fácil Aqueles a quem o amor dos bens eternos torna felizes devem a meu ver viver sob os ditames da lei eterna Ao passo que aos insensatos está imposto o jugo de lei temporal Ag Julgaste bem contanto que tenhas como certo o que aliás a razão já demonstrou claramente isto é os que se submetem à lei temporal não podem entretanto se isentar da lei eterna da qual deriva como dissemos tudo o que é justo e tudo o que pode ser mudado com justiça Quanto àqueles cuja boa vontade se submete à lei eterna eles não têm necessidade da lei temporal Compreendestes isso suficientemente ao que me parece Ev Compreendi tudo o que disseste Maneira como governa a lei temporal 32 Ag Logo a lei eterna ordena desapegarnos do amor das coisas temporais e voltarnos purificados para as coisas eternas Ev Realmente ela ordena Ag E por seu lado a lei temporal o que ordena ela a teu parecer senão que esses bens que os homens desejam e podem ter por algum tempo e considerálos como seus de tal forma que os possuam a fim de que a paz e a ordem na sociedade sejam salvaguardadas Isso o quanto for possível tratandose dessa classe de bens Ora eis quais são eles em primeiro lugar o corpo e os bens denominados corporais tais como uma boa saúde a integridade dos sentidos a força a beleza e outras qualidades das quais umas são inerentes às artes liberais e por aí mais desejáveis que outras de menor apreço Em seguida está o bem da liberdade Sem dúvida não existe verdadeira liberdade a não ser entre pessoas felizes as quais seguem a lei eterna Neste momento eu refirome àquela liberdade dos que se julgam livres por não ter ninguém como senhores seus ou aquela que é desejada por todos os que aspiram a ser libertados de seus senhores Consideramos ainda como bens os pais os irmãos o cônjuge os filhos os parentes os próximos os aliados os servos e todos os que nos estão unidos por algum laço de convivência E também a pátria a qual habitualmente apreciamos como mãe E ainda as honras os louvores e o que chamamos de glória popular Em último lugar vem o dinheiro compreendendo sob essa designação todos os bens dos quais somos os donos legítimos ou de que julgamos ter o poder de vender ou doar O modo como a lei temporal distribui esses bens a cada um o que é seu seria difícil e muito longo de explicar Aliás é claro ser inútil para a finalidade a que nos propusemos Bastenos constatar que o poder dessa lei temporal em aplicar seus castigos limitase a interditar e a privar desses mesmos bens ou de uma parte deles aqueles a quem pune É pois pelo temor que ela reprime e assim dobra e faz inclinar o ânimo dos desafortunados ao que ela manda ou proíbe Foi justamente para o governo dessas pessoas que ela foi feita Com efeito pelo fato de temerem de perder os seus bens elas observam as normas necessárias para a sociedade ser constituída e mantida Isso o quanto é possível ser feito entre homens desse tipo Entretanto essa lei não pune o pecado cometido por serem amados com apego demasiado esses bens mas unicamente aquela falta que consiste em subtraílos injustamente de outro Dito isso vê agora se não cumprimos o programa que tu julgavas ser uma questão sem fim cf I614 Pois na verdade nós nos havíamos proposto procurar até onde se estende o direito da lei temporal de punir ela que rege os povos e as nações da terra Ev Sim vejo que chegamos a nosso objetivo Conseqüência do apego ou desapego dos bens deste mundo 33 Ag Portanto vês igualmente que não existiria a penalidade seja a que é infligida aos homens de modo injusto seja a que é de modo justificável pela aplicação da lei caso eles não amassem aquelas coisas que podem lhes ser tiradas contra a própria vontade Ev Vejoo muito bem Ag Assim pois as mesmas coisas podem ser usadas diferentemente de modo bom ou mal E quem se serve mal é aquele que se apega a tais bens de maneira a se embaraçar com eles amandoos demasiadamente Com efeito submetese àqueles mesmos bens que lhe deveriam estar submissos Faz dessas coisas bens aos quais ele mesmo deveria ser um bem ordenandoas e fazendo delas bom uso Assim quem se serve dessas coisas de modo ordenado mostra que elas são boas não para si pois elas não o tornam nem bom nem melhor mas antes é ele mesmo que as torna melhores Por isso ele não as ama até se deixar prender e não faz delas como se fossem membros de sua própria alma o que seria feito caso as amasse a ponto de recear que elas vindo a lhe faltar lhe fossem como cruéis e dolorosos ferimentos Mas se ele se mantiver acima dessas coisas pronto a possuílas e governá las caso seja preciso e mais ainda pronto a perdêlas ou a se passar delas Visto que assim é crês que seria preciso condenar o ouro e a prata por causa dos avarentos ou o vinho por causa dos que se embriagam ou o encanto das mulheres por causa dos libertinos e dos adúlteros e assim em relação a tudo mais Especialmente quando podes ver um médico fazer bom uso do fogo e um envenenador uso criminoso até do pão Ev Isso é bem verdade não se pode considerar as coisas por elas mesmas mas sim os homens que podem fazer mau uso delas Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio 34 Ag Muito bem35 Nós já começamos a compreender penso eu qual seja o valor de lei eterna E reconhecemos também até onde pode ir a lei temporal em sua repressão com castigos Distinguimos também com clareza suficiente as duas espécies de realidades umas eternas e outras temporais E as duas classes de homens uns seguindo e amando as coisas eternas e outros as coisas temporais Estabelecemos ainda que é próprio da vontade escolher o que cada um pode optar e abraçar E nada a não ser a vontade poderá destronar a alma das alturas de onde domina e afastála do caminho reto Do mesmo modo é evidente ser preciso não censurar o objeto do qual se usa mal mas sim a pessoa que dele mal se serviu Voltemos agora se concordares àquela questão proposta no começo deste diálogo e vejamos se ela já está resolvida Tínhamonos proposto de procurar a definição do que seja cometer o mal malefacere cf I36 Foi nesse intento que dissemos tudo o que precede até aqui Em conseqüência agora é o momento de examinarmos com cuidado se cometer o mal é outra coisa do que menosprezar e considerarmos os bens eternos bens dos quais a alma goza por si mesma e atinge também por si mesma e aos quais não pode perder caso os ame de verdade e ir em busca dos bens temporais como se fossem grandes e admiráveis Bens esses experimentados com o corpo a parte menos nobre do homem e que nada têm de seguro Para mim todas as más ações isto é nossos pecados podem estar incluídos nessa única categoria Espero que me dês a conhecer o teu parecer a esse respeito 35a Ev É bem como dizes e eu concordo em que todos os pecados encontremse nessa única categoria a saber cada um ao pecar afastase das coisas divinas e realmente duráveis para se apegar às coisas mutáveis e incertas ainda que estas se encontrem perfeitamente dispostas cada uma em sua ordem e realizem a beleza que lhes corresponde Contudo é próprio de uma alma pervertida e desordenada escravizarse a elas A razão é que por ordem e direito divinos foi a alma posta à frente das coisas inferiores para as conduzir conforme o seu beneplácito Ao mesmo tempo o outro problema que nós nos tínhamos proposto após a primeira questão O que é proceder mal pareceme já termos resolvido com clareza a saber De onde vem praticarmos o mal cf I24 Se não me engano tal como a nossa argumentação mostrou o mal moral tem sua origem no livrearbítrio de nossa vontade cf I11a21c Transição ao livro II 35b Ev Mas quanto a esse mesmo livrearbítrio o qual estamos convencidos de ter o poder de nos levar ao pecado perguntome se Aquele que nos criou fez bem de nolo ter dado Na verdade pareceme que não pecaríamos se estivéssemos privados dele e é para se temer que nesse caso Deus mesmo venha a ser considerado o autor de nossas más ações36 Ag Não tenhas receio algum a esse respeito Mas para fazermos um exame mais atento reservaremos outro momento Pois este nosso diálogo já pede limite e fim Quisera te ver persuadido de que nós por assim dizer estamos batendo à porta de grandes e profundas questões Mas quando sob a guia de Deus tivermos começado a penetrar nesses segredos tu julgarás certamente que existe grande distância entre o atual discurso e os seguintes E o quanto esses últimos vão se revelar mais excelentes não somente pela penetração da investigação mas também pela sublimidade do assunto e pela esplêndida luz da verdade Peçamos que a piedade seja a nossa única companheira a fim de que a Providência divina nos permita perseverar até o fim na caminhada encetada Ev Aceito tua vontade com gosto e bons votos Com prazer associo a minha vontade à tua 1 11 Deus e o mal Deus e o mal tal é o grave problema proposto desde a pergunta inicial de Evódio o interlocutor de Agostinho O exórdio aparece ex abrupto Dic mihi quaeso te utrum Deus non sit auctor mali A resposta de Agostinho neste livro I será clara e incisiva Deus não é o autor do mal porque é o autor de todo bem Sendo Deus bom é evidente que não pode fazer mal algum À segunda pergunta de Evódio sobre a origem do mal após sérias reflexões a conclusão será igualmente firme a concupiscência levando ao abuso do livrearbítrio é que dá origem ao mal 2 11 A responsabilidade do ato livre Afirma aqui Agostinho As más ações não seriam punidas em plena justiça se não tivessem sido praticadas de modo voluntário O autor visa aos maniqueus quando declara assim a existência do ato livre Havia ele há pouco tempo se desligado da heresia maniquéia que ensinava não ser o homem livre em suas ações Diziam que a responsabilidade humana é ilusão pois todo coração humano é habitado por uma mistura de elementos luminosos e tenebrosos Em conseqüência todo mal que fazemos não somos nós que o praticamos mas o princípio do mal cativo em nós A consciência desse modo ficava liberta de todo complexo de culpa Cf Confissões livro V 1018 Desde as suas primeiras obras Agostinho afirma que a vontade do homem é a fonte do pecado e não existe assim fonte alguma secreta do mal que o exoneraria de qualquer responsabilidade Nos Solilóquios I14 lemos Ó Deus cujas leis garantem à alma o seu livrearbítrio a recompensa aos bons e o castigo aos maus 3 13 Pode o mal ter sido ensinado Observamos nesta passagem o otimismo agostiniano tanto no plano metafísico como no moral Posicionase aqui Agostinho no plano ideal Deus o sumo Ser é bom e só pode criar coisas boas A inteligência é um bem o maior que o homem possui na ordem natural E tudo o que visar ao desenvolvimento da inteligência o ensino a instrução a reflexão só pode ser um bem Observemos a declaração de Agostinho Todo mestre por levar o discípulo a entender só pode ser bom Caso contrário não poderá ser denominado mestre E no final do cap 717 ele insistirá ainda Como o conhecimento adquirido pela inteligência e a razão poderão ser um mal 4 24 Comovente confissão pessoal À pergunta de Evódio sobre a origem do mal Agostinho responde com comoventes palavras de reflexão sobre o próprio passado Expõe o seu problema pessoal com clareza e precisão No fundo essa é a razão de ser da presente obra Releiamse em As Confissões as passagens do l III610 a 1018 a esse respeito A solução do problema do mal constituía para os maniqueus o ponto central de seus ensinamentos A proposta dualista dada por eles os dois Princípios eternos em oposição o do bem e o do mal era cômoda mas metafisicamente insustentável 5 24 Se não crerdes não entendereis Encontramos aqui a afirmação Nisi credideritis non intelligetis invocada freqüentemente por Agostinho por toda a sua vida Já a havíamos encontrado no diálogo De Magistro 1137 Na presente obra além do que vem posto de passagem neste item encontraremos um mais amplo desenvolvimento da temática no próximo l II26 cf ainda a nota 5 É preciso observar que o texto bíblico ao qual Agostinho sempre relaciona a sua doutrina sobre o entendimento da verdade e da fé é o célebre versículo de Isaías 79 acima expresso Sabese que esse texto assim formulado é incorreto e achase somente na versão grega Setenta A Vulgata mais conforme neste caso ao original hebraico traz Si non credideritis non permanebis Se não crerdes não subsistireis Agostinho conhecia as duas versões e aceitavaas a ambas Ou antes interpretava a segunda versão pela primeira resumindo uma e outra na unidade superior de sentido místico Cf em A Doutrina Cristã II1217 e a nota correspondente à p 319 O axioma citado é sem dúvida uma expressão fundamental na doutrina agostiniana E ainda que se fundamente sem veracidade sobre Isaías não deixa de ter por outro lado sólido apoio nas Escrituras Lembremos a famosa frase agostiniana Intellige ut credas crede ut intelligas aceita por toda a escolástica 6 25 Profissão básica de fé O ponto de partida de Agostinho é propositadamente a verdade da fé da qual faz aqui solene profissão Vemolo admoestar Evódio a crer no que crê Crede quod credis A finalidade visada porém não é defender a fé contra alguma heresia ou esclarecêla pela Palavra revelada É sim chegar a compreendêla propor uma explicação que satisfaça a razão Afirma Agostinho aqui com muita convicção Ter uma alta idéia de Deus é o mais verdadeiro início da piedade Em outras ocasiões nesta obra nós o veremos recorrer à expressão de sua fé de maneira muito incisiva Cf em particular no l II 25 1437 1539 e no l III 928 1031 e quase toda a III parte visto ser essa de ordem teológica 7 36 O mal moral as más ações Para serem mais bem compreendidas as reflexões de Agostinho a respeito do problema do mal é necessário lembrarmos a distinção entre o mal físico e o mal moral O primeiro pertence à ordem corporal e se traduz pelo sofrimento O segundo é essencialmente a violação voluntária e livre de ordem desejada por Deus é o que chamamos de falta ou pecado Um e outro mal são não apenas simples ausência de um bem superior à natureza mas privação de um bem que é próprio dessa mesma natureza Neste l I36 lemos no original Unde mala faciamus De onde vem que pratiquemos o mal As malefacta apresentadas sem hesitação por Evódio são os adultérios os homicídios e os sacrilégios Naquela época eram esses os três pecados considerados como especialmente graves pela Igreja 8 36 Não apenas crer mas procurar entender as razões de fé Agostinho sempre considerou fundamental distinguir fé e ciência e o correspondente autoridade e razão A fides fé é a certeza introduzida por via da autoridade e a scientia o entendimento provém do ato de intelecção Julga ele ser progresso espiritual poder se passar de um plano para outro Mais adiante no cap 49 ele repetirá a Evódio Não deves esquecer o que nos propusemos compreender aquilo em que cremos Tal necessidade deve se estender tanto no campo profano como no da fé E se nesse último a autoridade é a regra da fé nunca será esta empecilho para o fiel refletir sobre o conteúdo de suas crenças Releiase no I24 nota 5 as observações aí colocadas a respeito do aforismo Nisi credideritis non intelligetis E maiores desenvolvimentos no l II26 9 37 Síntese das idéias desta I parte 36615 Vejamos em síntese as idéias a serem apresentadas nesta I parte do diálogo Tema geral A natureza do pecado C368 O mal está no fato de a paixão dominar a razão 4910 1º problema Há atos maus cometidos sem paixão condenável 51113 2º problema Há paixões que não parecem ser pecado visto que toleradas pelas leis civis 61415 Reflexões sobre as leis temporais e a lei eterna Notemos como desde o Preâmbulo grandes questões estão sendo propostas É Deus o autor do mal Qual a origem do mal Em que consiste o mal moral ou pecado É ou não o homem livre Conseqüentemente é ele responsável por seus desmandos É lícito defenderse de agressor injusto É condenável a lei temporal Que vem a ser a lei temporal Como pode a existência do mal conciliarse com a bondade de Deus 10 49 Significado dos termos libido concupiscência paixão Lemos no original latino Scisne etiam istam libidinem alii nomine cupiditatem vocari Por nós aqui traduzido Sabes que essa paixão é também denominada concupiscência Esse último vocábulo possui o sentido de mau desejo Esclarecemos que o termo latino libido inis no sentido primitivo e genérico significava impulsividade sensitiva desregrada ou qualquer paixão Mais tarde passou a se referir mais explicitamente ao desejo sexual como acontece até hoje em nosso idioma O termo cupiditas atis aqui é traduzido por concupiscência porque cupidez ou cobiça palavras etimologicamente derivadas de cupiditas também não correspondem propriamente ao sentido dado nesta passagem por Agostinho O vocábulo concupiscência corresponde melhor ao significado de grande desejo de bens ou gozos materiais isto é as paixões descomedidas a que Agostinho quer se referir A posição do bispo de Hipona de considerar a concupiscência ou paixão como origem do mal moral exercerá profunda influência na teologia moral medieval 11 511 Uma lei que não seja justa não é lei Para cumprir sua função social a autoridade goza do poder de emitir leis Mas todo o valor obrigatório dessas leis positivas humanas só pode decorrer de justiça inerente Num discurso no Augustinianum por ocasião do 16º Centenário da Conversão de Agostinho João Paulo II referese a esta passagem do Livrearbítrio dizendo A justiça está na base de toda verdadeira lei São de Agostinho estas fortes palavras Nam mihi lex esse non videtur quae iusta non fuerit A mim não parece ser lei a que não for lei justa Com a justiça vêse surgir a paz paz eterna que o Estado deve promover e defender 12 513 Só a sabedoria liberta Afirma aqui Evódio de maneira muito oportuna recebendo forte elogio de Agostinho que unicamente a sabedoria liberta o homem das paixões condenáveis pela lei divina Paixões essas que freqüentemente as leis civis ignoram Sabedoria está aí tomada no sentido de domínio da ciência humana conhecimento e vivência das leis supremas da moralidade 13 513 A política socialagostiniana Pelo fato de a lei civil não fazer tudo nem por isso o que ela faz deve ser condenado Essa afirmação é de grande alcance Agostinho não chegou a compor um tratado completo acerca de suas concepções sociais e políticas Mas sendo ele fiel cultor da lógica concluímos que sua doutrina exposta ainda que em fragmentos em ocasiões e tempos diversos possa ser condensada em um todo homogêneo solidamente constituído Na verdade na obra agostiniana podemos encontrar doutrina firme sobre a autoridade o fundamento da sociedade a lei que a dirige e a justiça que dela decorre sobre a pátria fundamento dos Estados a guerra destinada a defendêla e até sobre o relacionamento entre Igreja e Estado 14 614 A permanente piedade de Agostinho Este diálogo de nítido cunho filosófico revela entretanto o profundo espírito contemplativo de Agostinho Sua piedade assoma a cada passo Em especial a humilde confiança na Providência divina como constatamos na presente passagem É claro que ele não se dirige a Deus em seus escritos filosóficos e teológicos utilizando aquele estilo tão direto como o faz nas Confissões Mas as invocações amorosas testemunham a mesma profunda piedade e sentimento de filial dependência para com o Senhor Citemos algumas passagens já encontradas neste l I No cap 24 Nisi opem divinam impetravisset Se não tivesse conseguido o auxílio divino Aderit enim Deus Sejanonos pois Deus propício No cap 25 opitulante Deo contando com a ajuda de Deus No cap 716 De adiuvante Com a ajuda de Deus Cf sobretudo o último cap deste l I Cum Deo duce Sob a conduta de Deus pietas tantum adsit que a piedade seja a nossa única companheira 1635b 15 614 O emprego do termo arbitrium Não seria justo um homem de bem entregar a decisão arbitrium a um pequeno número de pessoas Deparamos aí o emprego do termo arbitrium pela primeira vez neste diálogo O vocábulo foi por nós traduzido por decisão Na verdade essa palavra desligada do adjetivo liberum livre apresenta melhor o sentido originário de decisão autoritária consciente No correr da obra encontraremos a locução liberum arbitrium umas quinze vezes além de figurar no título O vocábulo vai adquirindo o sentido de determinação da vontade o ato de liberdade psicológica Sentido esse que não era usual na época 16 614 A moral socialagostiniana Na delicada questão da autoridade do chefe da nação e da obediência devida às leis civis Agostinho é admirado com razão por sua sabedoria e moderação Proclama ele para as sociedades a grande lei da justiça É famosa a sua sentença em A Cidade de Deus IV4 Desterrada a justiça o que é todo reino senão uma grande pirataria Afirma ainda entre outras verdades que o príncipe deve governar para o bem público Nenhuma lei obriga se não decorrer da lei eterna O bem social é a lei suprema Tanto Agostinho insiste nesse ponto que o vemos na presente passagem declarar que caso o bem público o exigir é permitido trocar o governo estabelecido e derrubar uma democracia injusta e violenta a fim de implantar um poder de poucos ou até uma monarquia Cf Portalié Dict de Théol Cathol col 2440 17 615 Lei temporal e lei eterna As noções de lei temporal e lei eterna são aprofundadas de modo ocasional neste livro I de O livrearbítrio Constituem um dos elementos essenciais da doutrina moral e social de Agostinho É possível constatar que nosso autor inspirase mais de uma vez em Cícero cujas fórmulas no De Legibus voltam espontaneamente em sua pena Vejamos no início deste capítulo Illa lex quae summa ratio nominatur comparandoa com a fórmula ciceroniana Lex est ratio summa I6 Mas Agostinho não se contenta em recopiar Cícero Ele o repensa Quanto ao relacionamento entre a lei eterna e a temporal esta tira toda sua força da participação daquela Mas por precisar se adaptar às realidades mutáveis ela pode mudar em termos Pois a lei temporal não procura senão um bem relativo e permite por vezes o que a lei eterna condena Definitivamente a ordem que Deus quer que reine na natureza humana está fundamentada na lei eterna e exige a subordinação das paixões à razão 18 615 Sentido amplo de beata vita Devido à lei eterna os bons merecem vida feliz e os maus vida infeliz per quam mali miseram boni beatam vitam merentur Convém lembrar que o sentido de beata vita é muito mais amplo do que o nosso habitual vida feliz Há uma densidade de conteúdo maior do que o emprego vago e trivial dessa expressão Na filosofia antiga a aspiração máxima e o objetivo último era o encontro do segredo de uma vida que viesse realizar a plenitude estável e serena da felicidade com a superação de todo erro vicissitude e sofrimento Leiase a esse respeito todo o diálogo A vida feliz em que Agostinho afirma a verdadeira vida feliz consistir na posse da sabedoria de Deus A beata vita contrapunhase à misera vita em tudo inversa à primeira Cf A S Pinheiro O livrearbítrio p 39 n 14 19 615 A suprema ordem do universo O problema do mal atormentava em demasia Agostinho porque entrava em conflito com suas altas concepções da ordem suprema do mundo e da divina Providência A ordem a que ele se refere por certo não é a simples disposição local nem mesmo cósmica mas o princípio metafísico extensivo a todos os seres Lemos aqui em virtude da lei eterna é justo que todas as coisas estejam perfeitamente conformes a uma ordem perfeitíssima Emprega ele o termo ordinadissima Vocábulo esse retomado por Evódio no final do presente capítulo Nos capítulos seguintes esse termo voltará ainda várias vezes Traduzimolo aí por ordem perfeitíssima Com efeito a ordem admirável e ideal do universo só pode realizarse pela atuação da Providência Atuação essa que se estende igualmente ao plano do progresso moral visto que nada há no universo que a Providência não governe I513 A temática da ordem do universo já fora tratada por Agostinho em seu diálogo filosófico De ordine realizado em Cassicíaco em 386 Mas não pudera aí dar o desenvolvimento desejado devido à imaturidade de seus discípulos de então 20 716 A linha do pensamento seguido Para preparar Evódio a compreender o lugar primordial da razão no homem Agostinho vai demonstrar em longo argumento como esta faculdade de raciocínio falta nos animais Almeja ele atingir o tema capital só a má escolha do livrearbítrio no homem pode ser a causa do pecado Unicamente essa má decisão pode afastar o homem da lei eterna a qual o coloca numa ordem superior perfeitíssima capaz de eliminar o pecado Notemos como Agostinho nesta passagem insiste na necessidade de se entender aquilo em que se crê com facilidade 21 716 Sentido dos termos alma espírito mente razão e inteligência Santo Agostinho distingue além do princípio vital que nos é comum com as plantas o qual chamamos simplesmente vida duas espécies de alma anima e animus A primeira é a alma em geral que se encontra também nos animais A segunda é a alma que pensa e raciocina própria ao homem Enfim nessa alma humana animus está a parte superior que é a sede da sabedoria também chamada espírito spiritus ou mente mens Cf A Trindade XI711 Ao se pôr no ponto de vista das funções ou faculdades da alma na ordem do conhecimento Agostinho referese à razão superior ratio chamada propriamente inteligência intellectus ou intelligentia Por ela a alma é capaz de intuir e contemplar as razões eternas e o próprio Deus É preciso lembrar que no vocabulário agostiniano o termo spiritus não possui sentido muito fixo Pode porém ser traduzido comumente por mente Cf Thonnard B A 16 nota 12 pp 493495 22 919 Síntese das idéias expostas nesta II parte Neste livro I Agostinho vem demonstrando que para descobrir a origem do pecado é necessário chegar a conhecer a sua natureza interior Assim cometer o mal não é nada mais do que submeter a própria vontade às paixões ou seja preferir aos bens propostos pela lei eterna uma satisfação pessoal inferior Ora isso só é possível por uma livre e má escolha da vontade pessoal visto que a ordem querida por Deus não poderia ser destruída pelo próprio Deus Tampouco poderia ser destruída pela própria paixão que nos é inferior nem por outros homens que não nos sejam superiores 1020 Eis as idéias propostas em referência aos capítulos desta segunda parte a Do cap 716 a 818 Agostinho prova que o homem é superior aos animais por possuir a razão b No cap 919 mostra que a razão deve governar também a própria alma E é isso que torna o homem sábio não estulto c No cap 102021 ab demonstra que nada existe que possa submeter a razão às paixões d No curto cap 11 21c conclui que o pecado só pode vir do livrearbítrio de cada um e No cap 1122 será exposto como o pecado traz consigo a própria punição 23 1121c O livrearbítrio o grande responsável pelo pecado Eis uma afirmação fundamental da presente obra Nenhuma outra realidade torna a mente escrava das paixões senão a própria vontade e o seu livrearbítrio Logo a concupiscência isto é o mau desejo é ocasião de pecado mas não a causa do pecado que se enraíza no livrearbítrio Agostinho demonstrou no cap 10 que nada existe que possa forçar fatalmente o homem e seu livrearbítrio a obedecer às paixões estas podem tentálo seduzilo fazerlhe violência mas não o violentar irresistivelmente para que sejam seguidas Em outras palavras a liberdade é uma propriedade da vontade esclarecida pela razão É um arbítrio isto é uma decisão soberana o poder de agir como queremos a capacidade de produzirmos como senhores os nossos próprios atos 24 1122 Conseqüências da culpa Em que consiste o pecado Já foi dito em submeterse a razão humana à paixão em desobedecer às leis divinas em afastarse do Bem supremo Eis agora algumas das conseqüências dessa má escolha o homem fica cheio de temores de desejos de angústias Atormentase quando perde algo que para ele era fonte de alegria afadigase para conseguir o que não possui encolerizase quando ofendido e incitase a buscar vingança E fica ainda atormentado pela ambição pela inveja por sua infinidade de paixões Tudo isso por ter abandonado a sabedoria e assim não ter respeitado a ordem da lei eterna impressa por Deus em sua alma A causa do mal moral nesta mundo vem pois do pecado e de suas conseqüências 25 11b23 Problemas conexos Nesta passagem Evódio propõe diversos problemas deixandoos entretanto Agostinho sem solução 1º A questão a respeito da justiça do castigo aplicado Em geral para que o castigo de alguém entregue às paixões seja justo é preciso admitir que esse alguém tenha sido criado na posse da sabedoria E essa é a base do ensino da fé católica Conforme esta Adão foi criado na justiça original Evódio porém reclama aqui uma demonstração racional se possível 2º Sem esperar uma resposta eis que Evódio vai passar a um caso pessoal seu 1224 Possui ela a consciência de nunca ter alcançado a sabedoria e contudo sofre os mesmos tormentos mencionados por Agostinho como punição daqueles que a abandonaram 1022 Surge então um novo problema Como explicar as desordens da concupiscência 26 1224 A hipótese da preexistência da alma Em resposta à dúvida levantada por Evódio Agostinho lembra a hipótese platônica de preexistência da alma a qual tenha vivido na posse da sabedoria Seria pois justo que agora padecesse por sua eventual derrocada É sabido que Plotino apelava a uma teoria semelhante para explicar os infortúnios dos justos Agostinho porém é muito mais reser vado sobre o valor dessa hipótese Acaba por abandonála definitivamente Mais adiante essa questão será retomada no l III 2055 a 2263 No momento Agostinho responde à dificuldade de Evódio muito habilmente E é o problema mais geral da origem do pecado que é esclarecido Apresenta resolutamente a teoria da boa vontade Essa teoria será o ponto central de toda a terceira parte 27 1225 O papel da boa vontade Para Agostinho a boa vontade é a que nos faz viver com retidão e honestidade estimulandonos a alcançar o cume da sabedoria Tal sabedoria é o reino da lei eterna em nós É por ela que nossa razão domina plenamente todas as tendências inferiores Nossa inteligência ao demonstrar a existência de Deus o que será feito no próximo l II é capaz de ultrapassarse graças à ilu minação divina A vontade humana é boa porque pode vir a participar da sabedoria de Deus 28 1226 Os pelagianos e o livrearbítrio Na ocasião em que Agostinho escrevia a presente obra a heresia pelagiana ainda não havia nascido pois Pelágio e seu discípulo Celéstio só começaram a difundir os seus erros em 409 na Sicília e em 410 na África A doutrina que defendiam tinha certamente bastante relação com a que está sendo tratada por Agostinho neste diálogo Assim não deixaram de buscar aí um apoio para as suas teses Eis o princípio fundamental da heresia pelagiana afirmar a onipotência moral da vontade livre O homem sempre pode sozinho e por si mesmo querer e realizar o bem O querer e o fazer dependem unicamente da própria vontade Daí deduziam outros erros negação do pecado original inutilidade da graça interior atuando sobre a vontade falsa idéia da redenção etc Ora vemos nesta obra Agostinho defender mais de uma vez os privilégios do livrearbítrio da vontade em termos bastante parecidos com os dos pelagianos A presente passagem é uma delas 29 1327 As virtudes cardeais A boa vontade envolve a vivência das virtudes É a virtude o hábito do bem isto é a disposição estável para agir bem o que toca a vontade do agente moral As virtudes podem ser classificadas de diferentes pontos de vista Um dos princípios de classificação já adotado por Platão é o de tirar o critério da importância das virtudes Daí o nome de cardeais dado a estas consideradas como as principais de todas e fonte das outras São elas a prudência a força a temperança e a justiça Essas quatro virtudes formam a síntese de todas as virtudes morais Agostinho utiliza freqüentemente essa classificação tradicional Admitia ele a existência de virtudes puramente naturais entre os pagãos Mas afirmava que para a alma ser conduzida até o seu fim último são necessárias as virtudes teologais Em De musica VI 1549 Agostinho demonstra de modo muito belo como o papel da alma é o de estabelecer a ordem no corpo por meio das quatro virtudes cardeais 30 1328 Agostinho justificase perante os pelagianos Esta passagem parecia particularmente capaz de favorecer o pelagianismo Agostinho citaa em seu Retractationes no l I916 em que faz a revisão de O livrearbítrio Justificase aí nestes termos A finalidade desse diálogo não obrigava a tratar da graça e de sua necessidade Foi ele entabulado por causa dos maniqueus que recusavam ver a origem do mal no livrearbítrio da vontade e que pretendiam assim pôr a culpa em Deus que é o criador de todas as substâncias Queriam eles conforme o erro de sua impiedade introduzir uma natureza má imutável e coeterna a Deus Quanto à graça de Deus que predestina seus eleitos de forma a preparar a vontade mesma daqueles que já se servem do livrearbítrio não há nesses livros discussões a esse respeito devido à particularidade da questão que nós não nos tínhamos proposto a tratar Mas quando a ocasião se apresentou de mencionarmos a graça ela foi lembrada de passagem se bem que não defendida com argumentos laboriosos como se tratássemos dela em especial Com efeito uma coisa é procurar a origem do mal e outra coisa procurar o meio de volta a seu estado primitivo ou mesmo chegar a um estado melhor Nada de se admirar pois se Agostinho não fala senão de leve sobre a graça e insiste tanto sobre o poder do livrearbítrio O papel deste é incontestável e Agostinho se manterá fiel a seu ponto de vista por toda a vida 31 1329 Possui a vontade uma autodeterminação absoluta A solução dada ao problema do mal pelos maniqueus é certamente determinista com a negação do poder da vontade humana A crítica aqui feita por Agostinho é tipicamente filosófica Os argumentos por ele aduzidos pelo menos em teoria apelam para uma autodeterminação absoluta da vontade Desse modo a ação se seguiria sem dificuldade alguma e com grande facilidade tam in facili constituto bono Entretanto os observadores da vida comum sentem que as coisas não se passam assim tão facilmente Sobretudo os maniqueus tão profundamente pessimistas a respeito da condição humana não aceitavam tais exposições Na verdade nessa época Agostinho aparecenos no papel pelo menos tão pelagiano quanto Pelágio De fato Agostinho não conseguia ainda explicar como na prática a vontade humana não goza de uma liberdade tão completa Via como todo homem encontrase prisioneiro de linhas de conduta que lhe parecem irreversíveis Está sujeito a impulsos a que não consegue resistir e que o levam a agir de modo contrário às suas boas intenções E é tristemente incapaz de romper os hábitos tornados nele uma segunda natureza E são Paulo lá estava para confirmar tudo isso Cf Gl 517 e Rm 723 Todas essas considerações constituíam para Agostinho um real desafio E ele o incansável pesquisador da verdade lançase continuamente a novas aproximações do problema do mal Em seus primeiros sermões como padre vemolo esforçarse por explicar a permanência do mal na vontade humana em termos puramente psicológicos Apela para a força irresistível do hábito consuetudo Tirando este o seu poder do funcionamento da memória humana Cf O sermão da montanha I123435 Cf Peter Brown La vie de saint Augustin p 174 32 1430 O desejo universal da felicidade A busca da felicidade é para o homem uma necessidade natural Ele não pode subtrairse a isso É o que move toda sua atividade A felicidade é de fato o transcendental mais arraigado na natureza humana Tais idéias são bem atuantes na filosofia agostiniana e fundamentam toda a sua moral Encontramos reflexões análogas em inúmeras de suas obras Apontemos algumas além do presente diálogo todo o A vida feliz Os costumes da Igreja católica I34 O Mestre 1446 Confissões III47 X2029 2131 A Trindade XIII478112025 Carta 130 a Proba 510 Cartas 104412 118 a Dióscoro Sermões 150 4 23145 etc e A Cidade de Deus lXIX11 33 1430 Afirmações agostinianas exploradas pelos pelagianos O merecimento está na vontade Tal sentença está entre as que os pelagianos consideravam como favoráveis a seu sistema O próprio Agostinho anotou todas as afirmações que em O livrearbítrio poderiam servir a tal interpretação Eis as passagens neste livro I 11 As más ações não seriam punidas com plena justiça se não tivessem sido cometidas voluntariamente 1226 Depende de nossa vontade gozar ou ser privado de tão grande e verdadeiro bem O que há que dependa tanto da vontade quanto a própria vontade 1329 Com muita facilidade pelo simples fato de o querer aquele que quer viver de modo reto e honesto já possui o que quer 1634 Cada um opta pelo que pode fazer e abraçar e é certo que essa escolha pertence à vontade As referências nos livros II e III serão assinaladas em seus respectivos lugares 34 1531 A origem do verdadeiro mal não é a matéria Agostinho atribui de maneira firme a origem do mal moral ou pecado à vontade livre E aponta com insistência essa possibilidade perigosa do livrearbítrio Separase assim claramente de Plotino Para os neoplatônicos é a matéria somente a responsável De fato nós vemos a alma nas presentes exposições bem subtraída à matéria ficando submissa só à lei eterna que marca os liames estreitos com Deus Tal dependência essencial do livrearbítrio em referência a Deus vem largamente desenvolvida neste livro I No próximo item 32 Agostinho desenvolverá a idéia de que a lei temporal governa os homens de má vontade sem todavia reprimir os seus pecados 35 1534 Síntese do que foi visto nesta terceira parte Passou Agostinho para esta terceira parte partindo de uma dúvida de Evódio 11b23 Em resposta a ele levantou a hipótese da possibilidade da preexistência da alma Deixou porém o problema para ser resolvido mais tarde 11b231224 Apresentou com convicção a teoria da boa vontade no homem Está esta totalmente em seu poder 122526 A boa vontade envolve a vivência das quatro virtudes cardeais prudência força temperança e justiça 1327 Fica assim a nossa felicidade assegurada sob a condição de praticarmos livremente o bem 13281430 A boa e a má vontade relacionamse com a lei eterna e a temporal Foi visto o valor e a jurisdição dessas duas leis 153133 Em capítulo final Agostinho enfatiza a conclusão a que chegara O pecado tem sua origem no livrearbítrio E prevê o estudo de problemas mais profundos e sublimes no próximo livro 36 1635b Será um mal para o homem o livrearbítrio Perguntase Evódio se não seria melhor para o homem carecer do livrearbítrio essa tão triste prerrogativa Ao que Agostinho replica em síntese Será preciso refletir com mais esforço e tempo para ver se chegamos a resolver a questão com claridade e acerto Afirmará no l II 1847 O livrearbítrio é um bem em si mesmo não mal O abuso do bem não implica que esse bem se converta em mal No l III vêloemos ainda empregar bons capítulos na intenção do esclarecimento da questão Em todas as circunstâncias Agostinho encontrará motivos para colocar a ação da Providência divina digna de inefáveis louvores LIVRO II A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS REVELAO COMO FONTE DE TODO BEM DEUS NÃO É O AUTOR DO MAL MAS DO LIVREARBÍTRIO QUE É UM BEM INTRODUÇÃO 1126 POR QUE NOS DEU DEUS A LIBERDADE DE PECAR Capítulo 1 O livrearbítrio vem de Deus 1 Ev Se possível explicame agora a razão pela qual Deus concedeu ao homem o livrearbítrio da vontade já que caso não o houvesse recebido o homem certamente não teria podido pecar Ag Logo já é para ti uma certeza bem definida haver Deus concedido ao homem esse dom o qual supões não dever ter sido dado Ev O quanto me parece ter compreendido no livro anterior é que nós não só possuímos o livre arbítrio da vontade mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos Ag Também me recordo de termos chegado à evidência a respeito desse ponto Mas no momento eu te pergunto o seguinte esse dom que certamente possuímos e pelo qual pecamos sabes37 que foi Deus quem nolo concedeu Ev Na minha opinião ninguém senão ele pois é por ele que existimos E é dele que merecemos receber o castigo ou a recompensa ao pecar ou ao proceder bem Ag Mas o que eu desejo saber é se compreendes com evidência esse último ponto Ou se levado pelo argumento da autoridade crês de bom grado ainda que sem claro entendimento Ev Na verdade devo afirmar que sobre esse ponto eu aceiteio primeiramente dócil à autoridade Mas o que poderia haver de mais verdadeiro do que as seguintes asserções tudo o que é bom procede de Deus E tudo o que é justo é bom Ora existe algo mais justo do que o castigo advir aos pecadores e a recompensa aos que procedem bem Donde a conclusão é Deus que atribui o infortúnio aos pecadores e a felicidade aos que praticam o bem 2 Ag Nada tenho a opor Mas apresentote esta outra questão Como sabes que existimos por virmos de Deus Isso de fato não é o que acabas de explicar mas sim que dele nos vem o merecer seja o castigo seja a recompensa Ev Pareceme ser isso igualmente evidente visto que não por outra razão a não ser porque temos já por certo que Deus castiga os pecados visto que toda justiça dele procede Ora se é próprio da bondade fazer o bem a pessoas estranhas não é próprio da mesma justiça infligir castigos a quem não são devidos Por onde ser evidente que nós lhe pertencemos posto que ele é para conosco não somente cheio de bondade concedendonos seus dons mas ainda justíssimo ao castigarnos Além de que já o afirmei antes e tu o aprovaste todo bem procede de Deus Isso nos faz compreender que o homem também procede de Deus Porque o próprio homem enquanto homem é certo bem pois tem a possibilidade quando o quer de viver retamente38 3 Ag Realmente e se é essa a questão por ti proposta já está claramente resolvida Pois se é verdade que o homem em si seja certo bem e que não poderia agir bem a não ser querendo seria preciso que gozasse de vontade livre sem a qual não poderia proceder dessa maneira Com efeito não é pelo fato de uma pessoa poder se servir da vontade também para pecar que é preciso supor que Deus nola tenha concedido nessa intenção Há pois uma razão suficiente para ter sido dada já que sem ela o homem não poderia viver retamente Ora que ela tenha sido concedida para esse fim podese compreender logo pela única consideração que se alguém se servir dela para pecar recairão sobre ele os castigos da parte de Deus Ora seria isso um injustiça se a vontade livre fosse dada não somente para se viver retamente mas igualmente para se pecar Na verdade como poderia ser castigado com justiça aquele que se servisse de sua vontade para o fim mesmo para o qual ela lhe fora dada Assim quando Deus castiga o pecador o que te parece que ele diz senão estas palavras Eu te castigo porque não usaste de tua vontade livre para aquilo a que eu a concedi a ti Isto é para agires com retidão Por outro lado se o homem carecesse do livrearbítrio da vontade como poderia existir esse bem que consiste em manifestar a justiça condenando os pecados e premiando as boas ações Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação caso não fosse voluntária Igualmente o castigo como a recompensa seria injusto se o homem não fosse dotado de vontade livre Ora era preciso que a justiça estivesse presente no castigo e na recompensa porque aí está um dos bens cuja fonte é Deus Conclusão era necessário que Deus desse ao homem vontade livre Capítulo 2 Objeção já que o livrearbítrio foinos dado para fazer o bem como se volta ele para o mal 4 Ev Eu já admito que Deus nos concedeu a vontade livre Mas não te parece perguntote que se ela nos foi dada para fazermos o bem não deveria poder levarnos a pecar É o que acontece com a própria justiça dada ao homem para viver bem Acaso alguém poderia viver mal em virtude da sua retitude Do mesmo modo ninguém deveria poder pecar por meio de sua vontade caso esta lhe tivesse sido dada para viver de modo honesto Primeira condição para a solução do problema colocarse no ponto de vista de Deus Ag Deus há de me conceder como o espero que consiga te responder Ou melhor de conceder que tu mesmo te respondas instruindote interiormente por aquela Verdade Mestra soberana e universal39 Mas antes dizeme um pouco eu te peço uma vez que tens como evidente e certo o que já te perguntei a saber que foi Deus que nos concedeu a vontade livre nesse caso poderíamos afirmar que Deus não nos deveria ter dado tal dom Isso já que reconhecemos ser ele mesmo que o deu a nós Com efeito se fosse incerto que Deus nos tenha concedido a vontade livre nós teríamos o direito de indagar se foi bom ela nos ter sido dada Desse modo se descobríssemos que foi bom igualmente reconheceríamos o doador naquele que deu ao homem todos os bens Ao contrário se descobríssemos que foi mal teríamos de compreender que o doador não é Aquele a quem não é permitido incriminar algo que seja Mas sendo certo que o próprio Deus nos deu essa vontade livre qualquer seja a forma como recebemos esse dom devemos confessar que Deus não estava obrigado de nolo dar como foi dado nem de modo diferente Na verdade quem nolo deu foi Aquele a quem de modo algum podemos criticar com justiça as ações Segunda condição não se limitar à fé mas procurar o seu entendimento 5 Ev Apesar de crer em tudo isso com fé inabalável todavia como não possuo ainda pleno entendimento continuemos procurando como se tudo fosse incerto Com efeito pelo fato de ser incerto a vontade livre nos ter sido dada para com ela agirmos bem já que podemos também pecar decorre esta outra incerteza se foi um bem ou não ela nos ter sido dada Porque se é incerto ela nos ter sido dada para agirmos corretamente tampouco é certo que seja um bem ela nos ter sido dada Por aí não é igualmente certo que seja Deus o doador Com efeito a incerteza sobre a conveniência do dom torna incerta a origem isto é o fato de ser Aquele a quem não nos é permitido crer que conceda algo que não deveria ter concedido Ag Pelo menos uma coisa é certa para ti Deus existe Ev Isso também considero como verdade incontestável mas pela fé e não pelo entendimento Ag Pois bem supõe que um desses homens néscios sobre os quais está escrito Diz o insensato em seu coração Deus não existe Sl 521 viesse te dizer isso Supõe por hipótese que ele se recuse a crer no que tu crês pela fé contudo desejasse conhecer se o objeto de tua crença é verdadeiro Abandonarias esse homem à sua incredulidade ou acharias ser teu dever lhe demonstrar de alguma forma aquilo em que crês firmemente Sobretudo no caso de ele pretender não discutir com obstinação mas sim procurar com sinceridade conhecer a verdade Ev O que acabas de dizer me sugere suficientemente o que lhe deveria responder Pois ainda que fosse ele uma pessoa muito insensata seguramente concordaria comigo que nada se deve discutir principalmente a respeito de assunto tão sério como alguém de má fé e obstinação Uma vez admitido isso ele seria o primeiro a me levar a crer que se dispunha em busca com boa intenção a de querer ser alguém que nada esconde em seu interior e assim nada haver nele de falso ou de obstinado Então eu lhe demonstraria o seguinte coisa muito fácil para qualquer na minha opinião se acaso ele não fazia questão de ser acreditado por outro por testemunho quando revelasse algo sobre os sentimentos ocultos de seu espírito a respeito dos quais ele unicamente conhecia Se assim fosse quanto mais justificado seria que ele também acreditasse por testemunho alheio que Deus existe em razão dos escritos de homens tão notáveis que deixaram testemunhado em livros haverem convivido com o Filho de Deus Com efeito essas testemunhas atestam por escrito ter presenciado coisas que nunca poderiam ter acontecido se Deus não existisse E esse homem o meu interlocutor seria por demais estulto se me recriminasse por crer em tais testemunhas quando pretendia que eu acreditasse em seu testemunho pessoal Ora assim como não poderia me condenar com razão de modo nenhum encontraria desculpa para não querer me imitar Ag Mas então se a respeito do problema da existência de Deus a teu parecer julgas bastar crer sem temeridade alguma em homens dignos de fé porque perguntote sobre os presentes pontos que estão sendo investigados por nós como incertos e manifestamente desconhecidos pela intelecção não pensas do mesmo modo isto é que devíamos crer firmemente na autoridade desses mesmos homens tão ilustres e assim não mais nos cansarmos a investigar esses problemas Ev Sim mas é que pretendemos saber e entender aquilo em que cremos40 6 Ag Vejo que tens boa memória Foi na verdade isso que decidimos no início de nosso diálogo precedente e não o podemos negar Com efeito se crer não fosse uma coisa e compreender outra41 e se não devêssemos primeiramente crer nas sublimes e divinas verdades que desejamos compreender seria em vão que o profeta teria dito Se não o crerdes não entendereis Is 79 na LXX42 O próprio nosso Senhor tanto por suas palavras quanto por seus atos primeiramente exortou a crer àqueles a quem chamou à salvação Mas em seguida no momento de falar sobre esse dom precioso que havia de oferecer aos fiéis ele não disse A vida eterna consiste em crer mas sim A vida eterna é esta que eles te conheçam a ti único Deus verdadeiro e aquele que tu enviaste Jesus Cristo Jo 173 Depois disse àqueles que já eram crentes Procurai e encontrareis Mt 77 Pois não se pode considerar como encontrado aquilo em que se acredita sem entender43 E ninguém se torna capaz de encontrar a Deus se antes não crer no que há de compreender44 É porque dóceis aos preceitos do Senhor sejamos constantes na busca Porque aquilo que procuramos sob a divina exortação nós o encontraremos graças a ele Isso o quanto podem ser encontradas essas maravilhas nesta vida e por homens como somos nós Com efeito é preciso que creiamos nós mesmos e as melhores pessoas enquanto vivem neste mundo E certamente depois desta vida todos os homens bons e piedosos possuirão e contemplarão essas coisas com mais evidência e perfeição Quanto a nós podemos esperar que assim também será conosco Nessa esperança desprezando os bens terrestres humanos desejemos e amemos com todas as forças as verdades divinas PRIMEIRA PARTE 37719 INÍCIO DA ASCENSÃO A DEUS PARA CHEGARMOS À PROVA DE SUA EXISTÊNCIA A BUSCA DO QUE HÁ DE MAIS NOBRE NO HOMEM 37614 Capítulo 3 As primeiras intuições do espírito o existir o viver o entender 7 Ag Se o quiseres investiguemos na seguinte ordem45 1º procuremos como provar com evidência a existência de Deus 2º se na verdade tudo o que é bem enquanto bem vem de Deus 3º enfim se será preciso contar entre os bens a vontade livre do homem Uma vez essas questões esclarecidas aparecerá suficientemente eu o penso se essa vontade foi dada aos homens com justeza Assim pois para partirmos de uma verdade evidente eu te perguntaria primeiramente se existes46 Ou talvez temas ser vítima de engano ao responder a essa questão Todavia não te poderias enganar de modo algum se não existisses Ev É melhor passares logo adiante às demais questões Ag Então visto ser claro que existes e disso não poderias ter certeza tão manifesta caso não vivesses é também coisa clara que vives Compreendes bem que há aí duas realidades muito verdadeiras Ev Compreendoo perfeitamente Ag Logo é também manifesta terceira verdade a saber que tu entendes Ev É claro Ag Qual dessas três realidades existir viver e entender parece a ti a mais excelente Ev O entender47 Ag Por que te parece assim Ev Por serem três as realidades o ser o viver e o entender É verdade que a pedra existe e o animal vive Contudo ao que me parece a pedra não vive Nem o animal entende Entretanto estou certíssimo de que o ser que entende possui também a existência e a vida É porque não hesito em dizer o ser que possui essas três realidades é melhor do que aquele que não possui senão uma ou duas delas Porque com efeito o ser vivo por certo também existe mas não se segue daí que entenda Tal é como penso a vida dos animais Por outro lado o que existe não possui necessariamente a vida e a inteligência Posso afirmar por exemplo que um cadáver existe Ninguém porém dirá que vive Ora o que não vive muito menos entende Ag Então admitimos que dessas três perfeições faltam duas ao cadáver uma ao animal e nenhuma ao homem Ev É verdade Ag E admitimos igualmente que a melhor das três é a que só o homem possui juntamente com as duas outras isto é a inteligência que supõe nele o existir e o viver Ev Com efeito nós admitimos isso sem dúvida alguma48 O conhecimento advindo pelos sentidos externos pelo sentido comum e pela razão49 a Os sentidos exteriores 8 Ag Dizeme agora se sabes com certeza que possuis os tão bem conhecidos sentidos corporais a vista o ouvido o olfato o gosto e o tato Ev Sim eu os conheço com certeza Ag Conforme o teu parecer o que pertence ao sentido da vista Em outros termos temos a sensação do quê ao enxergar Ev De todos os objetos corporais Ag Temos também pela vista a sensação de dureza e de moleza dos corpos Ev Não Ag Qual é pois o objeto próprio da vista pela sensação de enxergar Ev A cor Ag E o que pertence aos ouvidos Ev O som Ag E ao olfato Ev Os odores Ag E ao paladar Ev Os sabores Ag E ao tato Ev A moleza e a dureza o liso e o áspero e muitas outras qualidades similares Ag Pois bem E a respeito das formas corporais enquanto grandes ou pequenas quadradas ou redondas e de outras propriedades semelhantes não temos também a sensação delas pelo tato como pela vista de modo a não podermos atribuir como próprio a um único desses sentidos mas a ambos Ev Entendo que seja assim Ag Compreendes pois igualmente que cada sentido tem certos objetos próprios sobre os quais nos informam e que alguns dentre eles percebem objetos de modo comum Ev Compreendo também isso b O nosso sentido interior Ag E podemos por acaso discernir por alguns desses cinco sentidos o que pertence a cada um em particular e o que lhes seja comum a todos ou a alguns dentre eles Ev De modo algum pois é por meio de certo sentido interior que nós o distinguimos Ag Não seria talvez pela razão da qual os animais estão privados Pois na minha opinião se nós percebemos essas distinções e se sabemos que tudo se passa assim é por meio da razão Ev Eu penso antes que seria pela razão que nós compreendemos a existência desse certo sentido interior ao qual os cinco sentidos externos transmitem todos os seus conhecimentos a respeito dos objetos Pois por um sentido é que o animal vê e por outro que ele evita ou busca aquilo que viu Com efeito o primeiro sentido tem sua sede nos olhos Ao contrário o segundo no íntimo mesmo da alma Graças a esse sentido interior todos os objetos não somente os apreendidos pela vista mas também pelo ouvido e pelos outros sentidos corporais são procurados e apossados pelos animais no caso de isso lhes causar agrado ou bem evitados e rejeitados no caso de lhes serem nocivos Mas esse sentido interior não se pode dizer que seja nem a vista nem o ouvido nem o olfato nem o gosto nem o tato Ele é não sei que outra faculdade diferente que governa universalmente a todos os sentidos exteriores por igual A razão é que nos faz compreender isso como já disse Não posso porém identificar essa faculdade com a razão porque está também manifestamente nos animais e estes não possuem a razão c A nossa razão 9 Ag Admito a existência dessa faculdade seja ela qual for e sem hesitação denominoa sentido interior Pois a não ser ultrapassando esse mesmo sentido interior o objeto transmitido pelos sentidos corporais poderá chegar a ser objeto de ciência Porque tudo o que nós sabemos só entendemos pela razão aquilo que será considerado ciência Ora sabemos entre outras coisas que não se pode ter a sensação das cores pela audição nem a sensação do som pela vista E esse conhecimento racional nós não o temos pelos olhos nem pelos ouvidos e tampouco por esse sentido interior do qual os animais não estão desprovidos Por outro lado não podemos crer que os animais conheçam a impossibilidade de sentir seja a luz pelos ouvidos seja os sons pelos olhos visto que nós mesmos só o discernimos pela observação racional e pelo pensamento Ev Não posso dizer que tenha compreendido o que acabas de dizer O que se seguiria com efeito se mediante o sentido interior do qual os animais não estão desprovidos conforme o admites chegassem a perceber também como nós a impossibilidade de sentir as cores pelo ouvido ou os sons pela vista Ag Mas acaso crês que eles possam mesmo distinguir entre si um sentido do outro a cor da qual têm a sensação o sentido que tem sua sede nos olhos aquele outro o interior que está na alma e até a razão que define e classifica tão bem cada uma dessas coisas Ev De modo algum Ag O que te parece Poderia a própria razão distinguir esses quatro fatores entre si e determiná los definindoos se ela não percebesse por comunicação a cor pelo sentido da vista esse mesmo sentido pelo sentido interior que o comanda e esse último enfim por si mesmo se é que não haja outros intermediários Ev Não vejo como poderia ser de outra forma Ag E o que pensar Percebes que o sentido da vista percebe a cor sem se perceber a si mesmo Porque pelo sentido que vê a cor com efeito não vês o ato mesmo da visão Ev Não não o vejo de modo algum Ag Empenhate ainda em distinguir bem o seguinte pois não o negarás penso eu uma coisa é a cor e outra o ato de ver a cor Outra coisa enfim muito distinta na ausência da cor a posse de um sentido capaz de a ver caso ela lá estivesse Ev Distingo também essas três coisas e concordo que diferem entre si Ag Agora dessas três coisas a qual vês pelos olhos senão a cor Ev Nada mais Ag Dizeme então por qual faculdade vês as duas outras Pois não poderias distinguilas sem as ver Ev Ignoro Sei apenas que elas existem nada mais Ag Ignoras pois se é a própria razão que exerce essa função vital que chamamos de sentido interior bem superior aos sentidos corporais ou então algum outro princípio Ev Ignoro Ag Sabes pelo menos que somente a razão pode definir essas coisas e que ela unicamente pode agir sobre objetos submetidos a seu exame Ev É certo Ag Logo qualquer seja essa outra faculdade capaz de ter o sentimento de tudo o que sabemos ela está ao serviço da razão à qual apresenta e traz tudo o que apreende De maneira que os objetos percebidos possam ser diferenciados entre si e conhecidos não somente pelo sentidos mas ainda por conhecimento racional Ev É bem verdade Ag Pois bem Mas essa mesma razão que distingue entre um e outro isto é os sentidos seus servidores e os objetos que eles lhe apresentam e que reconhece ainda a diferença existente entre eles e ela afirmando sua preeminência sobre eles acaso essa razão compreendese a si mesma por meio de outra faculdade que não seja ela mesma Saberias que possuis a razão caso não percebesses a mesma razão Ev Isso é bem verdadeiro Os sentidos exteriores não se percebem a si mesmos Ag Por conseguinte já que percebendo a cor pelo sentido da vista nós não percebemos a nossa própria sensação se ouvindo um som não ouvimos nossa própria audição se cheirando uma rosa nosso olfato não inala em si nenhum perfume se degustando algo nosso paladar não sente na boca o próprio paladar se apalpando um objeto não podemos tocar o sentido mesmo do tato é evidente que esses cinco sentidos não podem ser sentidos por si mesmos ainda que por eles todos os objetos corporais sejam sentidos por nós Ev É evidente Capítulo 4 Percebese o sentido interior a si mesmo 10 Ag Creio ser também evidente que esse sentido interior não somente sente as impressões que recebe dos cinco sentidos externos mas percebe igualmente os mesmos sentidos Se assim não fosse o animal não se moveria de seu lugar para apoderarse de algo ou para fugir de alguma coisa Mas não o sente de modo a ter conhecimento ordenado à ciência porque isso é próprio da razão Contudo percebeo suficientemente para se mover Ora até isso ultrapassa a simples percepção dos cinco sentidos externos Todavia se a coisa ainda te resta obscura ela haverá de se esclarecer ao considerares o que se passa por exemplo em um desses cinco sentidos em particular Por exemplo o da vista Com efeito um animal não poderia de modo algum abrir os olhos nem os mover em direção ao que deseja ver se não sentisse que não vê o tal objeto ao ter os olhos fechados ou sem dirigir seu olhar naquela direção Ora se ele percebe em si a ausência da visão quando não está olhando para aquele determinado objeto é necessário também que ele perceba sua visão quando está a enxergar de fato Já que não é da mesma maneira que ele move os olhos ao ver o objeto cobiçado e os mantém fixos quando não o enxerga Isso mostra bem que o animal sente diferentemente uma coisa e outra Mas por outro lado essa vida interior que percebe assim as próprias sensações de objetos corporais terá ela também consciência de si mesma A questão é menos clara a não ser que se diga que cada um ao se observar a fundo interiormente constate que todo ser vivo foge da morte Ora sendo essa o oposto da vida é preciso ao que parece que também a vida tome consciência de si mesma para fugir desse modo a seu oposto Todavia se a questão ainda não está bastante evidente passemos adiante a fim de avançarmos unicamente apoiados em provas certas e evidentes Ora o evidente até o presente é o seguinte que os sentidos corporais percebem os objetos corporais que esses mesmos sentidos não podem ter a sensação de si mesmos que o sentido interior percebe não só os objetos corporais por intermédio dos exteriores mas percebe até mesmo esses sentidos enfim que a razão conhece tudo isso e conhecese a si mesma visto que todos esses conhecimentos tornamse objeto de ciência Aí estão evidências não te parece assim Ev Com efeito assim me parece Ag Pois bem vejamos agora Qual a questão cuja ambicionada solução nos fez percorrer tão longa caminhada Capítulo 5 O sentido interior juiz e guia dos sentidos exteriores 11 Ev Pelo que me recordo das três questões que nos propusemos no início do atual diálogo II37 ao traçarmos o plano desta nossa discussão a primeira é justamente esta da qual tratamos agora a saber como poderíamos chegar sem deixarmos de aderir com fé muito firme e inquebrável à prova racional da existência de Deus Ag Tu o relembras com exatidão Mas desejo que te recordes também com diligência que ao te perguntar eu se conhecias com certeza a tua própria existência pareceute que conhecias não apenas isso mas ainda mais duas outras realidades o viver e o pensar Ev Recordome igualmente disso Ag Pois bem considera no momento a qual dessas três realidades podem pertencer os objetos dos sentidos corporais isto é em que categoria de realidades na tua opinião é preciso classificar toda ordem de conhecimentos adquiridos pelos sentidos seja o da vista seja o de qualquer outro órgão corporal Porventura na categoria das coisas que unicamente existem ou mesmo nas que existem vivem e além disso são inteligentes Ev Na categoria das coisas que somente existem Ag E o próprio sentido em qual das três categorias está ele no teu parecer Ev Na dos seres vivos Ag Assim sendo qual dos dois por conseguinte julgas ser melhor o sentido ou o objeto que o sentido percebe Ev Evidentemente o sentido Ag E por qual motivo Ev Porque o ser que também goza da vida é melhor do que aquele que só existe O princípio de subordinação 12 Ag Pois bem E aquele sentido interior que conforme nossas buscas anteriores está abaixo da razão e nos é também comum com os animais será que hesitarias a antepôlo ao sentido pelo qual percebemos os corpos e que já reconheceste ser preferível ao corpo ele mesmo Ev Não hesitaria de forma alguma Ag Mas quisera também ouvir de ti por qual motivo não o hesitarias Posto que não poderás pretender classificar esse sentido interior no gênero dos que possuem a inteligência mas unicamente classificálo entre as coisas que existem e vivem embora privadas de inteligência Isso porque ele também encontrase entre os animais que são carentes de inteligência Assim sendo desejo saber por que antepões o sentido interior aos sentidos exteriores visto que ambos pertencem ao simples gênero de seres que vivem Por outro lado antepuseste os sentidos exteriores que atingem os corpos a esses mesmos corpos porque estes classificamse entre as coisas que somente existem e os sentidos entre as que vivem Mas como o sentido interior pertence também a esse último gênero isto é dos que vivem dizeme por que os consideras melhor do que os sentidos exteriores Caso respondas é porque um sente os outros creio que não terias encontrado uma norma que nos permita proclamar Todo ser dotado de sensação é melhor do que o objeto de sua sensação posto que seríamos talvez forçados a conceder também que Todo ser dotado de inteligência é melhor do que o objeto de sua intelecção o que é falso Com efeito o homem compreende o que seja a sabedoria e contudo não é superior à sabedoria Considera pois por qual motivo na tua opinião é preciso antepor o sentido interior aos exteriores pelos quais sentimos os corpos Ev É porque eu reconheço no sentido interior um guia e um juiz dos sentidos exteriores De fato quando estes faltam em algo de suas funções o sentido interior reclama os seus serviços como junto a um servidor conforme dissemos em nossa conversa anterior Na verdade o sentido da vista por exemplo não vê a presença ou a ausência de sua visão E porque não vê não pode julgar sobre o que lhe falta ou lhe basta Esse é o papel do sentido interior É esse que no próprio animal adverteo a abrir o olho fechado e a suprir a falta que percebe haver Ora ninguém duvida desta regra Quem julga é superior àquele sobre o que julga50 Ag Parecete pois que os sentidos exteriores fazem igualmente certo julgamento sobre os corpos Porque lhes pertence com efeito o prazer ou a dor conforme eles impressionam o corpo com doçura ou aspereza E do mesmo modo como o sentido interior julga que falta ou basta algo do sentido da vista para ter por exemplo uma visão clara e perfeita Igualmente o sentido próprio da vista julga ao que falta ou basta quanto às cores De modo semelhante assim como o sentido interior julga a nossa audição considerandoa deficiente ou suficientemente atenta também o próprio ouvido por sua vez julga os sons distinguindo os que o impressionam com doçura daqueles que ressoam com estrépito Inútil prosseguirmos examinando em relação aos outros sentidos exteriores pois já percebeste eu penso o que quero dizer a saber que o sentido interior julga os sentidos corporais aprovando um bom funcionamento ou exigindo um mau serviço Do mesmo modo os próprios sentidos externos eles mesmos julgam os objetos corporais aceitando seu contato caso seja agradável ou rejeitando o caso contrário51 Ev Eu percebo por certo e concordo ser tudo isso bem verdadeiro Capítulo 6 A razão transcende a tudo mais no homem 13 Ag Considera agora se a mesma razão também julga o sentido interior Pois já não te pergunto se o julgas melhor do que os sentidos exteriores pois não duvido que penses assim Tampouco te pergunto se é para investigarmos se a razão julga o sentido interior Com efeito para todas as realidades inferiores a ela os corpos os sentidos exteriores e o próprio sentido interior quem pois a não ser a mesma razão nos declara como um é melhor do que outro e o quanto ela mesma ultrapassaos a todos E quem nos informará sobre isso a não ser a mesma razão De nenhum modo poderia fazêlo se tudo não estivesse submetido a seu juízo Ev É evidente Ag Portanto acima da natureza que apenas existe sem viver nem compreender como acontece com os corpos inanimados vem a natureza que não somente existe mas que também vive sem contudo ter a inteligência como acontece com a alma dos animais e por sua vez acima dessa última vem aquela natureza que ao mesmo tempo existe vive e entende aquela que é a alma racional do homem Sendo assim crês que em nós isto é entre esses elementos constitutivos de nossa natureza humana podese encontrar algum elemento mais nobre do que aquele que enumeramos em terceiro lugar Porque manifestamente nós possuímos um corpo e também uma alma que anima o corpo e é causa de seu desenvolvimento Dois elementos que também vimos nos animais Enfim a mais temos um terceiro elemento que por assim dizer é como a cabeça ou o olho de nossa alma A menos que se encontre um nome mais adequado para designar a nossa razão ou inteligência faculdade que a natureza dos animais não possui Vê pois eu te peço se podes encontrar na natureza do homem algo mais excelente do que a razão52 Ev Não encontro absolutamente nada que possa ser melhor Última etapa acima da razão só Deus 14 Ag Pois bem O que dirias se pudéssemos encontrar alguma realidade cuja existência não só se conhecesse mas também fosse superior à nossa razão Hesitarias qualquer que fosse essa realidade afirmar ser ela Deus Ev Não de imediato Se eu pudesse descobrir algo superior à parte mais excelente de minha natureza eu não a chamaria logo Deus Porque a mim não agrada chamar de Deus aquele a quem minha razão é inferior mas sim aquele a quem ser algum é superior Ag É justamente assim E é Deus mesmo que deu à tua razão tão piedoso e verdadeiro sentimento a respeito dele Perguntote porém se não encontrasses nada acima de nossa razão a não ser o que é eterno e imutável hesitarias chamálo de Deus Pois os corpos são mutáveis tu o sabes e a vida pela qual os corpos são animados em meio à variedade de seus estados mostra com evidência que essa vida está sujeita a mutações E até a própria razão por seu lado que por vezes se esforça por chegar à verdade por vezes não por vezes a atinge e por vezes não mostrase seguramente estar sujeita a mutações Se pois sem a ajuda de órgão algum corporal nem do tato nem do paladar nem do olfato do ouvido ou dos olhos nem por sentido algum que seja inferior a essa dita razão mas por si mesma ela percebe algo de eterno e imutável é necessário que a dita razão se reconheça ao mesmo tempo inferior a essa realidade e que esse Ser seja o seu Deus53 Ev Quanto a mim certamente reconheceria como Deus esse ser do qual se teria provado que nada existe de superior Ag Está entendido Pois bastarmeá então mostrar a existência de tal realidade que ou bem aceitarás como Deus ou bem caso haja outro ser acima dela concordarás que esse mesmo ser é verdadeiramente Deus Assim haja ou não algum ser superior a essa realidade será evidente que Deus existe desde que com a ajuda desse mesmo Deus eu tiver conseguido demonstrar como o prometi a existência de uma realidade superior à razão54 Ev Demonstra pois o que me prometeste B O QUE É INDIVIDUAL E O QUE É COMUM A TODOS 71519 Capítulo 7 Características de cada sentido exterior a Quanto ao sentido da vista 15 Ag Assim o farei Mas primeiramente eu te pergunto Meus sentidos corporais são os mesmos que os teus ou pelo contrário os meus só pertencem a mim e os teus somente a ti Porque se assim não fosse não poderia ver com meus olhos um objeto que tu não visses igualmente Ev Concordo plenamente ainda que todos nós tenhamos sentidos da mesma natureza entretanto cada um possui os seus próprios sentidos o da vista o da audição e todos os outros Pois qualquer homem pode não somente ver mas também ouvir o que outro não vê nem escuta E o mesmo acontece com todos os outros sentidos qualquer pode perceber o que outra pessoa não percebe É manifesto por aí que teus sentidos são só teus e os meus só meus Ag E quanto ao sentido interior será que essa mesma resposta seria dada ou outra diferente Ev Sem dúvida nenhuma outra Porque os meus sentidos interiores percebem as minhas próprias sensações e os teus as tuas É por isso que freqüentemente alguém ao ver determinado objeto perguntame se também eu o vejo porque sou só eu mesmo que percebo se enxerguei ou não e não o meu interlocutor Ag E quanto à razão Não pensas que cada um de nós possui também a sua própria Pois com efeito pode acontecer que eu compreenda alguma realidade que tu não tenhas compreendido E nem possas saber se eu a compreendi ao passo que eu mesmo o sei muito bem Ev Evidentemente quanto à mente racional cada um de nós também possui a sua própria55 b Quanto ao sentido da audição 16 Ag Acaso poderias também dizer que cada um de nós possui seu próprio sol ou sua própria lua estrelas ou outras coisas semelhantes posto que os contemplamos cada um com os próprios sentidos Ev De modo algum eu diria isso Ag Podemos por conseguinte muitos de nós juntos e ao mesmo tempo ver um único objeto embora possuindo cada um os seus próprios sentidos Permitemnos eles ver juntamente e ao mesmo tempo um objeto único Assim ainda que meus sentidos sejam uns e outros os teus pode acontecer que o objeto de nossa visão não seja distinto para ti da que é para mim mesmo Que um único objeto porém esteja presente a nós dois e que o vejamos igualmente e ao mesmo tempo Ev Isso é bem evidente Ag Podemos de igual modo ouvir ao mesmo tempo uma mesma voz e assim ainda que meu ouvido seja um e outro o teu contudo a voz que ouvimos não será uma para ti e outra para mim Tampouco uma parte dessa voz vai a teu ouvido e outra ao meu Mas pelo contrário o som tal como foi emitido em sua identidade e totalidade fazse ouvir igualmente e ao mesmo tempo a cada um de nós Ev Isso também é evidente c Quanto aos sentidos do olfato e do paladar 17 Ag Agora convém também notar em relação aos demais sentidos corporais que o que se refere à questão presente não dizemos que eles se comportam de maneira totalmente semelhante à dos dois sentidos referidos o da vista e o do ouvido nem de maneira totalmente diferente Com efeito podemos eu e tu encher nossas narinas com o mesmo ar ou perceber pelo odor a qualidade deste ar E do mesmo modo um e outro podemos degustar um mesmo mel ou qualquer outro alimento ou bebida e perceber seu gosto pelo paladar ainda que esse mel seja único e que nossos sentidos nos pertençam a cada um em particular o teu a ti e o meu a mim Destarte enquanto ambos sintamos um e mesmo odor ou um só e mesmo sabor não é contudo nem por meu sentido que tu o percebes nem eu pelo teu nem por um órgão único que nos poderia pertencer em comum a cada um de nós Mas o meu sentido pertence totalmente a mim e o teu a ti ainda que nós dois sintamos um único odor ou sabor Donde se segue que esses dois sentidos o do olfato e o do paladar possuem algumas propriedades semelhantes às que possuem os dois outros sentidos o da vista e o da audição Quanto ao que se refere a nosso presente assunto porém eles diferem nisto se bem que inspiremos um e outro pelo nariz um único ar ou que degustemos um mesmo alimento contudo eu não inspiro a mesma porção de ar que tu e tampouco ingiro a mesma porção de alimento que tu Mas eu tomo uma e tu outra E assim ao respirar eu inspiro uma parte de toda a massa de ar o quanto me é suficiente Igualmente tu da massa total de ar inspiras outra parte o quanto te convém E quanto ao alimento ainda que um único em sua totalidade seja absorvido por um e outro de nós ele não pode entretanto ser absorvido totalmente por mim nem totalmente por ti da mesma maneira uma única palavra é ouvida inteiramente por mim e por ti ao mesmo tempo É tal como acontece quanto a qualquer imagem visual Ela é visível tanto por mim quanto por ti e ao mesmo tempo Quanto ao alimento e à bebida porém necessariamente será uma a parte que eu recebo e outra a que tu recebes Talvez não compreendas bastante tudo isso Ev Muito bem pelo contrário Convenho que tudo está inteiramente claro e certo d Quanto ao sentido do tato 18 Ag Acaso não te parece que se pode comparar o sentido do tato ao dos olhos e dos ouvidos do ponto de vista que ora tratamos Pois não somente podemos nós dois perceber pelo tato um mesmo corpo mas que poderás também tocar a mesma parte que eu tiver tocado De sorte que não seria somente o mesmo corpo mas também a mesma parte desse corpo que nós percebemos ambos pelo tato Porque não sucede com o sentido do tato o mesmo que acontece com o alimento que nos é apresentado Pois este não pode ser tomado todo inteiro por mim e por ti quando o ingerimos Pelo contrário para o tato o objeto que eu tocar tu podes também o tocar o mesmo e todo inteiro de modo que nós o tocamos ambos e não cada um apenas uma parte mas cada um tocao em sua tota lidade Ev Confesso que sob esse aspecto o sentido do tato tem muita semelhança com os dois outros sentidos precedentes o da vista e o da audição Vejo porém uma diferença nisto simultaneamente isto é num só e mesmo tempo é que podemos um e outro ver e ouvir totalmente uma só e mesma coisa Ao passo que quanto ao tato não podemos certamente um e outro tocar no mesmo objeto por inteiro ao mesmo tempo apenas em partes distintas Quanto à mesma parte seria somente cada um em tempos diversos Isso porque em parte alguma onde tu tocas eu posso aplicar o meu tato a não ser que tenhas retirado o teu56 19 Ag Respondeste com bastante tino Mas deves ainda considerar o seguinte como explicar que entre todos os objetos que nós sentimos há alguns que sentimos ao mesmo tempo que outros e há outros que sentimos cada um separadamente E por outro lado quanto a nossos sentidos eles mesmos como cada um de nós percebe sozinho os seus de maneira que de minha parte não percebo os teus nem tu os meus Uma vez isso estabelecido convém que advirtas ainda outro fato entre as coisas que percebemos pelos sentidos externos isto é entre os objetos corpóreos aquilo que não podemos perceber juntos mas cada um à parte é unicamente o que se torna nosso a tal ponto que podemos convertêlo e transformálo em nossa própria substância Está nesse caso por exemplo o alimento e a bebida Nenhuma das partes por mim absorvidas poderá sêlo também por ti Com efeito ainda que seja verdade que as amas tenham mastigado os alimentos antes de os servirem às crianças entretanto o que o paladar assimilou e transformou em sua própria carne não poderá de forma alguma ser devolvido para servir de alimento à criança alguma Porque quando a boca degusta com prazer algum alimento ela reserva para si uma parte por mínima que seja e de modo irreversível Isso acontece conforme as exigências da natureza do corpo Se assim não fosse não teria sabor algum na boca depois de os alimentos terem sido mastigados e dados a outros E podese dizer com igual razão quanto às partes do ar que inspiramos pelas narinas Porque ainda que possas também inspirar alguma porção do ar que eu expirei não poderás entretanto inspirar também aquilo que foi convertido em algo que me é próprio e que não pode ser devolvido Com efeito os médicos ensinam que nós também nos alimentamos ao respirar E não posso devolver o mesmo ar expirando para que possas por tua vez recebêlo aspirando por tuas narinas Quanto porém aos outros objetos sensíveis que percebemos mas sem entrentato os mudar em nossa substância corporal alterandoos nós podemos eu e tu sentilos ou ao mesmo tempo ou então alternadamente um depois do outro de modo que podes também sentir seja a totalidade do objeto seja a mesma parte do que eu sinto Tais são por exemplo a luz o som ou os corpos que tocamos sem entretanto alterálos Ev Compreendo Ag Está pois claro que os objetos percebidos por nossos sentidos corporais sem entretanto os transformarmos ficam entretanto estranhos à natureza de nossos sentidos E assim são eles um bem comum porque não são convertidos nem transformados em algo próprio nosso e por assim dizer naquilo que é de nosso uso privativo Ev Concordo perfeitamente Ag Portanto é preciso entender como sendo coisa própria e de ordem privada o que pertence a cada um de nós em particular e assim somente cada um percebe em si mesmo como pertencente propriamente à sua natureza E por sua vez é preciso entender como coisa comum e de ordem pública o que sem nenhuma alteração nem mudança é percebido por todos57 Ev Assim acontece SEGUNDA PARTE 8201438 A INTUIÇÃO DE DEUS ACIMA DA RAZÃO Capítulo 8 Os números e suas leis superiores à razão 20 Ag Coragem Atende agora e dizeme se há alguma coisa que possa ser objeto comum de visão a todos os seres capazes de raciocinar Todavia que a veja cada um com sua própria razão e espírito Alguma coisa visível a todos e que estando à disposição geral entretanto não sofre alteração pelo uso dos que dela se servem à vontade o que não acontece com o alimento e a bebida Mas que permanecem inalteráveis em sua integridade seja ela vista ou não Em tua opinião talvez nada exista com tais propriedades Ev Ao contrário Eu vejo muitas coisas dessa natureza Basta lembrar a razão e a verdade dos números Apresentamse elas a todos os que raciocinam de tal forma que aqueles que fazem cálculos cada um baseado em sua própria razão e inteligência esforçamse para adquirila Uns conseguemno mais facilmente outros mais dificilmente outros ainda não o conseguem de modo algum Todavia ela mostrase igualmente a todos os que são capazes de captála E quando alguém a percebe ninguém a transforma nem a converte em si mesmo como se fosse algum alimento E caso alguém se engane a seu respeito ela não fica desvirtuada Permanece em toda sua verdade e integridade Apenas a pessoa que se engana afunda tanto mais no erro quanto menos consegue vêla perfeitamente58 21 Ag Sem dúvida isso é bem exato Vejo que como homem bem informado nessa matéria soubeste encontrar pronta resposta Entretanto se te fosse dito que esses números estão impressos em nosso espírito não em virtude de alguma propriedade de sua natureza mas por efeito das coisas sensíveis percebidas sendo portanto como imagens dos objetos visíveis o que responderias Ou acaso és também desse parecer Ev De modo algum penso dessa maneira Pois se é pelos sentidos que percebo os números não se segue que também possa perceber por esses mesmos sentidos a lei da divisão e da adição dos ditos números É pela luz de meu espírito que corrigirei o indivíduo seja ele quem for que numa adição ou subtração me apresentar um resultado errôneo Do mesmo modo de tudo o que percebo pelos sentidos corporais como o céu esta terra e os diversos corpos que aqui se encontram eu ignoro a sua duração futura Mas ao contrário sei com certeza que sete mais três são dez E isso não somente agora mas para sempre E que nunca de modo algum sete mais três cessaram no passado e não cessarão no futuro de ser dez Tal é pois uma verdade inalterável dos números que é como disse possuída em comum por mim e por qualquer ser dotado de razão59 22 Ag Nada tenho a objetar às tuas respostas tão cheias de verdade e de certeza Mas verás igualmente que os próprios números não são percebidos por meio dos sentidos corporais E isso com facilidade quando consideramos que qualquer número recebe sua designação de número em virtude das vezes que contém a unidade Por exemplo se contém duas vezes a unidade é chamado dois Se três vezes chamase três E caso possua dez vezes a unidade então denominase dez E assim todo número sem exceção é denominado pelo número de vezes que contém a unidade Ora todo aquele que reflete sobre a verdadeira noção da unidade constata que ela não pode ser captada pelos sentidos corporais Porque todo objeto atingido por um de nossos sentidos seja ele qual for não é constituído pela unidade mas sim pela pluralidade que o forma Com efeito por ser um corpo por aí mesmo possui inúmeras partes Assim sem falar de todos os corpos do menor e dos menos distintos um corpúsculo por exemplo por menor que seja possui sem dúvida ao menos uma parte à direita e outra à esquerda uma parte superior e outra inferior uma anterior e outra posterior extremidades e uma parte do meio Devemos admitir que todas essas partes encontramse na exigüidade da menor massa corpórea que seja É porque não podemos admitir que corpo algum seja pura e realmente uma unidade Se bem que não se possa contar nele tal infinidade de partes senão quando as distinguimos pelo conceito da mesma unidade Com efeito quando procuro a unidade num corpo e que estou certo de não a encontrar por certo eu sei o que aí procurava e que não encontraria nem poderia encontrar Ou melhor dito o que não existe de forma alguma Sabendo pois que não existe um corpo uno eu sei entretanto o que seja a unidade Porque se ignorasse não poderia contar no corpo essa pluralidade e diversidade de partes Em todo lugar porém onde conheço a unidade por certo nunca será por meio dos sentidos corporais pois que eles me informam unicamente sobre os corpos nos quais a unidade pura e verdadeira está ausente como já o provamos Por outro lado se nós não percebemos a unidade pelos sentidos corporais tampouco percebemos por meio deles o número pelo menos nenhum daqueles números que nós intuímos pela inteligência Porque não há nenhum que exista a não ser por quantas vezes contém a unidade Ora essa percepção escapa aos sentidos corporais Tomemos por exemplo a metade da menor partícula corpórea seja qual for a massa dessas duas metades cada uma delas possui ainda a sua metade Essas duas partes estão no corpo sem serem elas mesmas simplesmente duas partes indivisíveis Ao contrário o número denominado dois porque possui duas vezes o que é simplesmente um vê sua metade que é precisamente o um puro e simples incapaz de ter ele mesmo uma metade ou um terço ou uma outra fração por ser simples e realmente um uno e único60 A constante ordem dos números 23 Ag Além do mais seguindo a série dos números vemos que depois de um vem o dois e esse número comparado ao precedente é o seu dobro Contudo o dobro de dois não vem logo depois dele mas sim o três por meio do qual se chega ao quatro que é o dobro de dois E essa relação estende se a toda série dos outros números conforme uma lei absolutamente certa e imutável De maneira que depois de um isto é depois do primeiro de todos os números e prescindindo deste o primeiro a seguir é o que realizará o seu duplo o dois Por sua vez depois do dois imediatamente após esse segundo número e este descontado só será o segundo número que realizará o seu dobro Porque depois de dois vem primeiramente o número três e só em segundo lugar o quatro que é o dobro de dois Depois do terceiro número isto é do três e sendo este descontado será o terceiro número que realizará o dobro Porque depois de três vem primeiramente o quatro e em seguida o cinco e só em terceiro lugar o seis que é o dobro de três E do mesmo modo depois do quatro e prescindindo deste o quarto número que é o dobro dele Porque vem primeiramente o cinco em segundo lugar o seis e em terceiro o sete e só em quarto o oito que é o dobro do quatro Assim pois vai acontecer com todos os outros o que foi verificado com o primeiro par de números isto é com o um e o dois a saber acrescentando a um número qualquer a série de unidades que ele conta a totalidade obtida é o seu dobro Pois bem essa lei da qual constatamos a imutabilidade a estabilidade e a inalterabilidade que vemos cumprida em toda série de números por meio de qual faculdade e de onde temos seu conhecimento61 Com efeito pessoa alguma por nenhum de seus sentidos corporais pode abraçar o conhecimento de todos os números por serem eles inumeráveis E como sabemos ser essa relação a mesma para todos eles Por meio de que imaginação ou em que imagem essa verdade tão certa a da série indefinida dos números mostrase a nós com tanta constância em casos inumeráveis a não ser por uma luz interior ignorada pelos sentidos corporais62 A lei dos números é universal e acessível a todos os que raciocinam 24 Ag Por essas provas e muitas outras semelhantes todos aqueles que raciocinam e a quem Deus concedeu o espírito mas igualmente a quem a teimosia não envolveu nas trevas são forçados a reconhecer que a lei e a verdade dos números escapam ao domínio dos sentidos corporais e que essas leis são invariáveis e puras oferecendose universalmente aos olhos de todos aqueles que são capazes de raciocínio63 É certo que muitas outras verdades podem ser encontradas que se apresentam por assim dizer pública e universalmente a todos os que refletem E cada um em seu espírito e sua razão e não com os sentidos corporais deixamnas invioláveis e imutáveis Foi pois por algum motivo que eu te permiti com boa vontade quando ao responderes àquela minha questão II821 de abordares principalmente estas leis e esta verdade dos números Pois de fato não é em vão que os nossos Livros Santos uniram intimamente o número à sabedoria ao escreverem Explorei igualmente o meu próprio coração para conhecer examinar e escrutar a sabedoria e o número Eclo 72664 Capítulo 9 Manifestações de sabedoria natural 25 Ag Todavia peço que me digas o que te parece precisarmos pensar a respeito da sabedoria Julgas que cada um dos homens sábios possui uma sabedoria particular Ou então crês que haja uma única sabedoria à disposição de todos como um bem comum ao qual quanto mais uma pessoa participa mais tornase sábia Ev Mas ainda não sei de que sabedoria queres falar65 Pois vejo os homens opinarem de modo diferente sobre o que seja agir ou falar com sabedoria Por exemplo Aqueles que abraçam o serviço militar crêem estar agindo de maneira sábia Ao contrário os que menosprezam esse estado e empenhamse a trabalhar na agricultura louvam de preferência essa ocupação atribuindoa à sabedoria Por outro lado aqueles que são hábeis em cogitar meios de se enriquecer crêem por aí serem sábios Em contradição os que desprezando ou repelindo todas essas coisas e qualquer espécie de bens temporais aplicam todos os seus esforços na busca da verdade a fim de adquirir o conhecimento de Deus e de si mesmos e julgam que tal seja a grande função da sabedoria E por sua vez existem aqueles que se recusam a entregarse ao lazer da busca da contemplação da verdade para dedicaremse antes a cuidados e ocupações bem penosas tornandose úteis aos homens e consagrandose à ocupação de governar e organizar com justiça as tarefas humanas Esses também consideramse como sábios Finalmente há aqueles que fazem uma coisa e outra vivendo em parte na busca da contemplação da verdade e em parte nas tarefas do serviço que julgam dever à sociedade humana Pensam eles levar a palma da sabedoria Isso omitindo aquelas inumeráveis agremiações das quais não existe nenhuma que pondo seus seguidores acima de todos não pretenda que só elas possuem o título de sábios Desse modo como se trata agora entre nós de responder não conforme ao que cremos mas conforme ao que admitimos com compreensão clara sermeá impossível responder à tua questão antes de saber não só pela fé mas também pela luz da razão em que consiste a sabedoria ela mesma66 Sabedoria Bem supremo e Verdade beatificante 26 Ag Acaso em tua opinião será a sabedoria outra coisa a não ser a verdade na qual se contempla e se possui o sumo Bem67 ao qual todos desejamos chegar sem dúvida alguma Com efeito todos aqueles de quem acabas de citar as opiniões divergentes na busca da sabedoria desejam o bem e fogem do mal Mas a razão da divergência de seus sentimentos encontrase nas diversas acepções que têm do bem Ora quem quer que conseqüentemente deseja aquilo que não deveria desejar não deixa de estar no erro ainda que não desejasse a não ser o que lhe parecia como bem Pelo contrário é impossível o erro no caso de alguém não ter desejo algum ou desejar apenas o que devia desejar Na medida pois em que todos os homens desejam a vida feliz não erram Mas na medida em que alguém abandona o caminho da vida que leva à beatitude mesmo quando declara e proclama não querer senão chegar até à beatitude nessa mesma medida erra Com efeito há erro quando seguimos um caminho que não pode nos conduzir aonde pretendemos chegar E quanto mais uma pessoa erra no caminho da vida menos ela é sábia porque tanto mais afastase da verdade na qual se contempla e se possui o Bem supremo Ora uma vez alcançado o sumo Bem cada um tornase feliz o que sem contestação todos nós queremos68 Portanto como é certo que todos queremos ser felizes é também certo que queremos possuir a sabedoria Pois ninguém é feliz sem a posse do sumo Bem cuja contemplação e posse encontramse nessa verdade que denominamos sabedoria Desse modo assim como antes de sermos felizes possuímos impressa em nossa mente a noção da felicidade visto ser por ela com efeito que sabemos com firmeza sem nenhuma hesitação afirmamos que queremos ser felizes Assim também antes de sermos sábios nós temos impressa em nossa mente a noção da sabedoria69 Em virtude da qual cada um de nós ao ser questionado se quer ser sábio responde sem sombra de hesitação que o quer Sabedoria bem comum e supremo de todos 27 Ag Logo estamos agora de acordo sobre a natureza da sabedoria Talvez as tuas palavras não puderam exprimir essa definição mas se teu espírito não o tivesse percebido de algum modo ignorarias totalmente que queres ser sábio e que tens a obrigação de o querer o que não negarás eu o penso Nessas condições quisera que me dissesses agora se és da opinião que a sabedoria oferecese ela também tal as leis e a verdade dos números como um bem comum para todos os que gozam do uso da razão Ou então que existem tantas sabedorias quanto se possa contar de sábios porque há tantas inteligências humanas quantos homens o que faz com que nada possa eu ver da tua mente nem tu da minha Ev Se o Bem supremo é único e o mesmo para todos é preciso também que a verdade o seja Pois é nela que é visto e adquirido esse bem isto é a sabedoria Ag Mas tens acaso alguma dúvida de que o Bem supremo seja ele qual for venha a ser o mesmo para todos os homens Ev Sim tenho certas dúvidas porque vejo umas pessoas pondo o seu deleite em coisas muito diversas como se essas fossem o seu Bem supremo Ag Na verdade quisera que ninguém tivesse dúvida sobre o Bem supremo assim como ninguém tem sobre a necessidade de se possuir esse Bem supremo seja ele qual for para ser feliz Mas essa é uma grande questão que talvez exija outra longa exposição Portanto suponhamos que haja com efeito tantos bens supremos quantos os objetos distintos procurados por pessoas diversas como sendo o seu bem supremo Talvez deverá seguirse daí que a própria sabedoria não seja única e comum a todos pelo fato de os bens que os homens vêm e escolhem nela serem múltiplos e diversos Se crês isso podes também duvidar de que a luz do sol seja única pelo fato de os objetos vistos por ela serem múltiplos e diversos E entre essa multiplicidade de seres cada um escolhe a seu gosto Por exemplo aquilo que alguém desejar pelo sentido da vista Um olha com agrado a altura de um monte e goza desse espetáculo Outro prefere a regularidade da planície Este a profundidade dos vales Aquele outro o verde das florestas Outro a mobilidade da superfície do mar E outro finalmente reúne todas essas belezas ou algumas delas simultaneamente para a alegria de sua vista Dessa maneira assim como apesar da diversidade e multiplicidade dos objetos que os homens vêem à luz do sol entre os quais escolhem para deleite de sua contemplação não há entretanto senão uma só e mesma luz na qual o olhar atento de cada um descobre e abraça como objeto de seu especial deleite Do mesmo modo apesar da multiplicidade e diversidade dos bens entre os quais cada um escolhe o que prefere para dele gozar contemplandoo e possuindoo e para fazer dele o seu real e verdadeiro Bem supremo não obstante é bem possível que a luz mesma da sabedoria mediante a qual se pode contemplar e possuir esses bens seja ela mesma única e comum para todos os sábios70 Ev Concordo que seja possível e nada impede que haja sabedoria única e comum a todos apesar da diversidade e multiplicidade dos bens Mas quisera saber se assim é de fato Pois admitir a possibilidade de alguma coisa ser de certa maneira não constitui que ela o seja na realidade Ag Sabemos pois por agora que existe a sabedoria mas não sabemos ainda se ela é única e comum a todos ou se cada um dos sábios possui a sua sabedoria própria como cada um possui a sua alma e a sua inteligência própria Ev É bem assim Capítulo 10 Certezas imutáveis das leis da sabedoria 28 Ag Pois bem O que te parece Quando afirmamos com segurança que existe a sabedoria e que existem homens sábios e que todos nós queremos ser felizes de onde vêm essas verdades Pois não ousarias duvidar de que sabes isso e que é essa de fato a verdade71 Ora tais verdades tu as vês como vês o pensamento que tens o qual eu ignoro totalmente a não ser que tu mo comuniques Ou então tu as vês compreendendo que eu também possa vêlas embora tu não o comuniques a mim Ev Não duvido de que tu também possas ver tais verdades mesmo que eu não as queira comunicar a ti Ag Então uma verdade única que ambos vemos cada um por sua própria inteligência não será ela algo de comum a nós dois Ev Evidentemente Ag Do mesmo modo não negarás suponho eu que devemos aplicarnos ao estudo da sabedoria e concordarás que aí está também uma verdade Ev Disso não duvido de forma alguma Ag Poderíamos além disso negar que essa verdade seja uma e ao mesmo tempo comum aos olhos de todos aqueles que a percebem não obstante cada um a perceber pela própria inteligência e não pela minha ou a tua ou de quem quer que seja Pois finalmente o objeto dessa percepção apresentase universalmente à disposião de quantos a contemplam Ev De modo algum podemos negar isso Ag E se for dito igualmente é preciso viver conforme a justiça subordinar as coisas menos boas às melhores comparar entre si as semelhantes e dar a cada um o que lhe é devido Não concordarás que tudo isso é muito verdadeiro e apresentase universalmente à minha disposição como à tua e a todos aqueles que o considerarem Ev Estou de acordo Ag Bem E se for dito o que não é corrompido isto é o íntegro é melhor do que o corrompido o eterno vale mais do que o temporal o ser inviolado mais do que aquele sujeito à violação Poderás negar isso Ev Quem o poderia Ag Logo cada um pode apropriarse dizendo serem só suas essas verdades quando elas se apresentam de maneira imutável à contemplação de todos aqueles que as podem considerar Ev Ninguém poderia sem erro declarar essas verdades serem de sua propriedade particular visto serem igualmente únicas e comuns a todos enquanto verdadeiras Ag Do mesmo modo é preciso afastar sua alma da corrupção e a dirigir para a pureza isto é urge amar não a corrupção mas a integridade Quem o negará E uma vez admitida a existência dessa verdade como não compreender que ela seja imutável e possa ser entendida por todas as inteligências capazes de a perceber Ev Isso é muito exato Ag E se for dito uma vida que adversidade alguma desvia do caminho certo e honesto é melhor do que outra vida facilmente dividida e sacudida pelas provações temporais Poderá alguém duvidar disso72 Ev Quem o duvidaria 29 Ag Já não procurarei exemplos desse gênero Basta que reconheças comigo e que me concedas como algo muito certo que essas verdades são como regras e espécie de luminares das virtudes73 e ainda que essas máximas são verdadeiras e imutáveis prestandose seja isolada seja conjuntamente como um objeto comum de compreensão a todos aqueles que as podem perceber cada um por meio de sua própria inteligência e razão Mas eu te pediria ainda se essa regra e luzeiro das virtudes conforme teu julgamento pertencem à sabedoria Pois julgarás penso eu que todo homem tendo alcançado a sabedoria é sábio Ev Assim me parece de fato Ag E que dizes Aquele que vive conforme à justiça poderia fazêlo se não visse quais são as coisas inferiores a serem subordinadas às superiores e quais as iguais a serem postas no mesmo plano e quais as coisas particulares que devem ser devolvidas a cada um Ev Uma pessoa sem a sabedoria não saberia agir assim Ag Negarás pois que uma pessoa que vê essas coisas contemplaas como sábio Ev Não o nego Ag E o que dizer daquele que vive com prudência Não escolhe ele a incorruptibilidade julgando ser preciso preferila à corrupção Ev É claro Ag Assim pois quando uma pessoa escolhe para dirigir o seu espírito aquelas coisas que na opinião de todos devem ser escolhidas podese negar que sua escolha seja feita com sabedoria Ev Não o negarei de modo algum Ag Por conseguinte uma pessoa ao digirir seu espírito na direção de quem escolhe sabiamente é indubitável que está agindo com sabedoria Ev Sim é indubitável Ag Dessa maneira aquele que nem por medo nem por ameaças afastase do fim escolhido e para o qual dirigese sabiamente age ele sem dúvida com sabedoria Ev Com efeito sem dúvida alguma Ag Por conseguinte é manifesto que tudo o que chamamos de regras e luminares das virtudes pertencem à sabedoria Com efeito quanto mais alguém acomoda sua vida a elas e vive e age desse modo tanto mais vive com sabedoria Ora nenhuma ação feita com sabedoria podese dizer que esteja desligada da sabedoria Ev É bem assim Ag Portanto quanto verdadeiras e imutáveis são aquelas leis dos números das quais como dizias anteriormente apresentamse de modo imutável e universal a todos os que as consideram e tanto são igualmente verdadeiras e imutáveis as regras de sabedoria Algumas delas eu as submeti especialmente à tua apreciação e te pareceram verdadeiras e evidentes Concordaste serem elas comuns a todas as inteligências capazes de as perceber Capítulo 11 A sabedoria e os números encontram sua fonte na Verdade imutável 30 Ev Não posso ter dúvidas acerca disso Mas bem quisera saber se essas duas realidades a saber a sabedoria e o número pertencem a um só e mesmo gênero já que as próprias santas Escrituras como lembraste reúnemas num mesmo plano ao mencionálas74 Ou acaso procederia uma da outra ou ainda uma subsistiria na outra Será que o número procede da sabedoria ou subsiste nela75 Com efeito se a sabedoria procede do número ou subsiste nela eu não ousaria afirmálo Na verdade não sei como explicar o fato de conhecendo um grande número de estudiosos de aritmética e calculadores ou sejam eles designados de modo diferente esses que sabem perfeita e admiravelmente calcular e por outro lado conhecendo eu bem pouco sábios ou mesmo nenhum a sabedoria pareceme um bem mais venerável do que o número Ag Dizes algo que eu costumo estranhar Pois quando considero em mim mesmo a verdade imutável dos números e por assim dizer as moradas ou o santuário ou região sublime onde habitam ou se conseguirmos encontrar qualquer outro nome mais conveniente para designar essa espécie de habitação e sede dos números nesse caso eu me sinto bem longe do mundo corpóreo76 E se nessa região sublime descubro alguma realidade na qual talvez me seja possível pensar nada encontro que possa ser traduzido em palavras Caio então no cansaço e volto aos objetos que nos cercam a fim de conseguir me exprimir E falo de coisas que estão diante de nossos olhos como de costume Aconteceme isso igualmente quando me aplico a pensar na sabedoria com toda atenção que posso e muito esforço Fico assim muito perplexo visto que essas duas realidades a sabedoria e o número pertencem à verdade indubitável a mais secreta e certa E acrescento ainda o testemunho das Escrituras onde essas duas coisas como lembrei acima estão mencionadas conjuntamente Portanto muito me admiro de que o número seja tido como sem valor para a imensa multidão dos homens ao passo que a sabedoria lhes seja de muito apreço Pois incontestavelmente são uma só e mesma realidade Não obstante nos Livros Sagrados é dito também sobre a sabedoria que ela atinge com força desde uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade Sb 81 Esse poder pelo qual ela atinge com força de uma extremidade à outra designa talvez o número E aquele em virtude do qual ela dispõe tudo com suavidade denominaria já em sentido próprio a sabedoria Já que uma e outra coisa pertencem a uma só e mesma sabedoria 31 Ag Mas por que Deus deu o número a todos os seres até mesmo aos menores e àqueles que se encontram no limite das coisas Pois os corpos também possuem seus números ainda que estejam no último lugar na escada dos seres Ao contrário Deus não deu a sabedoria aos corpos nem a todos os seres vivos mas somente às almas racionais É como se estabelecesse nelas como em seu trono para de lá dispor sobre todas as coisas até as mais ínfimas as quais são certamente dotadas de números Assim como nós julgamos facilmente os corpos como objetos ordenados inferiores a nós e que neles vemos impressos números supomos que estes também estejam abaixo de nós e por isso serem de menor valia do que a sabedoria Contudo se nos dispusermos a voltar por assim dizer em direção ao alto descobriremos que os mesmos números ultrapassam as nossas mentes e permanecem imutáveis na verdade ela mesma É por isso que bem poucas pessoas podem ser sábias ao passo que a possibilidade de fazer contas é concedida até aos néscios É também porque os homens admiram a sabedoria e apreciam menos os números Mas aqueles que são instruídos e os verdadeiros estudiosos quanto mais se afastam das impurezas terrestres tanto melhor contemplam na própria verdade o número como a sabedoria e a ambos atribuem grande estima Em comparação a essa verdade não somente o ouro e a prata mas todos os outros bens para a obtenção dos quais os homens se disputam e até a si mesmos são julgados como vis77 32 Ag Não te admires pois se os homens fazem pouco caso dos números e apreciam a sabedoria como muito preciosa É precisamente porque é mais fácil para eles fazer contas do que ser sábio Não vês que eles também estimam mais o ouro do que a luz de uma lâmpada em comparação da qual o ouro possui apenas um valor irrisível Dáse assim mais apreço a uma coisa bem inferior porque até um mendigo pode acender para si uma lâmpada ao passo que ao ouro bem poucos o possuem Quanto à sabedoria longe de mim considerála inferior em comparação ao número visto que ela lhe é idêntica Requer porém olhos capazes de a contemplar Do mesmo modo como no fogo percebese a luz e o calor que são por assim dizer consubstanciais sem poderem ser separados um do outro contudo o calor atinge somente os objetos que se colocam perto dele A luz entretanto difundese também nos lugares mais distantes e espaçados De igual maneira o poder da inteligência inerente à sabedoria inflama com seu calor os seres mais próximos a ela como são as almas racionais Quanto aos seres mais afastados como os corpos esses não são tão atingidos pelo calor da sabedoria também se inundados pela luz dos números Tudo isso pode talvez ser obscuro para ti pois não se pode de modo adequado adaptar alguma comparação de coisas visíveis a algo invisível Observa somente um ponto que aliás bastaria como conclusão para a questão em pauta Será ele evidente até para espíritos humildes como os nossos Se não podemos saber claramente se o número está contido na sabedoria ou se procede dela ou ainda se a própria sabedoria vem do número ou existe nele finalmente se é possível ver uma mesma realidade sob nome duplo o que é evidente em qualquer caso é que a sabedoria como o número é verdadeira e imutavelmente verdadeira78 Capítulo 12 A Verdade imutável o próprio Deus 33 Ag Conseqüentemente de modo algum poderias negar a existência de uma verdade imutável que contém em si todas as coisas mutáveis e verdadeiras79 E não as poderás considerar como sendo tua ou como exclusivamente minha nem de ninguém Pelo contrário apresentase ela e oferecese universalmente a todos os que são capazes de contemplar realidades invariavelmente verdadeiras É ela semelhante a uma luz admiravelmente secreta e pública ao mesmo tempo Ora a respeito de algo que pertence assim universalmente a todos os que raciocinam e compreendem poderseia dizer que pertence como própria à natureza particular de alguém Tu te lembras penso eu de nossas considerações precedentes II71519 sobre os sentidos corporais80 A respeito daqueles objetos que percebemos em comum pelos sentidos da vista ou do ouvido tal como as cores e os sons nós os vemos ou entendemos conjuntamente tanto eu como tu E contudo esses objetos não pertencem à natureza de nossos olhos ou ouvidos mas nos são comuns enquanto objetos de percepção Assim não dirias sobre esses objetos que nós percebemos um e outro em comum cada um com sua própria mente que eles constituam a natureza individual da mente de qualquer de nós Porque se os olhos de duas pessoas vêem juntos ao mesmo tempo um objeto será impossível esse objeto ser identificado com os olhos desta ou daquela Será esse objeto terceira coisa para a qual se dirigem os olhares de uma pessoa e outra Ev Nada de mais claro e verdadeiro Inferioridade da mente diante da verdade incapaz de julgála e susceptível de constante mutabilidade 34 Ag Portanto esta verdade sobre a qual estamos falando há tanto tempo e a qual mesmo sendo uma só nos faz perceber tantas coisas será ela no teu parecer mais excelente do que nossa mente Igual a ela Ou até inferior Se fosse inferior nossos julgamentos longe de se regulamentarem sobre ela julgariam a ela mesma tal como nós julgamos os corpos E acontece isso porque estes são inferiores à mente humana Dizemos dos corpos muitas vezes não somente que são ou não assim que deviam ser ou não de tal modo E igualmente sobre nossa alma sabemos não apenas que ela possui tal ou tal maneira de ser mas que talvez deveria possuir tal ou tal outro modo de ser De fato a respeito dos corpos é desse modo que julgamos ao dizer este é menos branco do que deveria ser ou é menos quadrado e ainda a respeito de muitas outras propriedades Sobre nossa alma dizemos ela é menos capaz do que deveria ser ou menos condescendente ou menos corajosa conforme a modalidade com que se apresenta nosso estado moral E nós formamos esses julgamentos de acordo com aquelas regras interiores da verdade que todos possuímos em comum E de modo algum ninguém vem a julgar essas mesmas regras Com efeito quando alguém afirma as coisas eternas são superiores às temporais ou então sete e três são dez ninguém diz isso deveria ser assim Pelo contrário cada um apenas constata ser assim Ninguém corrige como se fosse algum censor mas registra com alegria como uma descoberta Por outro lado se a verdade fosse igual às nossas mentes ela se tornaria mutável como elas são já que nosso entendimento às vezes vê de modo mais claro outras vezes menos E por aí revela ser mutável Ao passo que a verdade permanecendo a mesma em si mesma não ganha nada quando a vemos mais claramente nem nada perde quando a vemos menos bem Ela guarda sempre sua integridade e sua inalterabilidade81 Aqueles que mantêm seu olhar voltado para ela alegramse pois são iluminados E ficam cegos os que se recusam olhar em sua direção E que dizer ainda Não é também em conformidade com a verdade que emitimos juízos sobre a nossa própria mente sem que ninguém possa proferir de modo algum juízos a respeito da verdade ela mesma Com efeito afirmamos fulano compreende menos do que devia ou compreende tanto quanto devia Ora a medida conforme a qual a mente humana deve compreender é a medida mesma com que consegue aplicarse e unirse à verdade imutável Assim pois se a verdade não é nem inferior nem igual a nossa mente seguese que ela só pode ser superior e mais excelente do que ela82 Capítulo 13 Exortação a abraçar a Verdade fonte única da felicidade 35 Ag Eu te havia prometido se te lembras de haver de provar que existe uma realidade muito mais sublime do que a nossa mente e nossa razão cf II614 Eila diante de ti é a própria Verdade Abraçaa se o podes Que ela seja o teu gozo Põe tuas delícias no Senhor e ele concederá o que teu coração deseja Sl 364 Pois o que desejas senão ser feliz E haverá alguém mais feliz do que aquele que goza da inabalável imutável e muito excelente Verdade83 Por certo os homens dizemse felizes quando abraçam belos corpos objetos de seus ardentes desejos sejam os de suas esposas sejam os de suas amantes E duvidaríamos nós de nossa felicidade quando abraçamos a Verdade Proclamamse felizes os homens quando para refrescar a garganta ressequida pelo calor chegam até uma fonte abundante e pura Ou quando famintos encontram para saciar a fome a refeição do meiodia ou a da noite abundante e esmerada E negaríamos nós que somos felizes quando a mesma Verdade sacia nossa sede e nossa fome Muitas vezes ouvimos a voz daqueles que se dizem felizes porque descansam em leito de rosas e flores variadas Ou ainda deleitamse com os mais delicados perfumes Mas existe algo mais perfumado algo mais agradável do que o sopro da Verdade E duvidaríamos nós de nos dizer felizes quando a aspiramos Muitos põem a felicidade de sua vida em ouvir cantos de vozes humanas e o som de instrumentos musicais Se lhes faltam tais prazeres consideramse infelizes Mas caso lhes sejam devolvidos transbordam de alegria E nós Quando certo silêncio eloqüente e harmonioso da Verdade penetra por assim dizer sem qualquer ruído em nossa mente haveríamos de procurar outra vida feliz em vez de gozarmos desta tão presente e segura em nós Os homens crêemse felizes quando deleitados com o brilho do ouro ou da prata com o brilho das pedras preciosas ou de outros objetos coloridos ou com o esplendor e encanto da própria lua destinada a iluminar nossos olhos corporais venha ela do fogo da terra das estrelas da luz ou do sol não são afastados desse deleite por desgosto nem necessidade alguma sentemse deveras felizes e desejariam viver para sempre desse modo a fim de gozar de tais prazeres E nós temeríamos pôr a felicidade de nossa vida na contemplação da luz da Verdade A Verdade vive na mente humana 36 Ag Muito pelo contrário já que é na verdade que conhecemos e possuímos o Bem supremo e já que essa Verdade é a Sabedoria fixemos nela nossa mente para captarmos esse Bem e gozarmos dele Pois é feliz aquele que desfruta do sumo Bem Com efeito essa verdade contém em si todos os bens verdadeiros entre os quais os homens conforme o grau de sua inteligência escolhem para si um só ou diversos deles para seu gozo Ora há homens que à luz do sol fixam com agrado seus olhos sobre certo objeto para o contemplar com deleite Talvez haja entre esses homens alguns cujos olhos sejam mais vigorosos mais sadios e potentes Esses nada olham com maior prazer do que o próprio sol pelo qual são iluminados todos os outros objetos E é justamente nesses objetos que os olhos dos mais fracos encontram o seu deleite A mesma coisa acontece quanto a uma inteligência mais vigorosa e forte depois de ter considerado com certeza racional um bom número de verdades imutáveis seu olhar dirigese para a Verdade mesma da qual toda verdade recebe sua luz Aderindo a ela eles como que esquecem tudo mais gozando nela só e ao mesmo tempo de todas as outras coisas Pois tudo o que agrada nas verdades particulares tira evidentemente o seu encanto da própria Verdade84 Capítulo 14 A Verdade fonte de liberdade e segurança 37 Ag Eis no que consiste a nossa liberdade estarmos submetidos a essa Verdade É ela o nosso Deus mesmo o qual nos liberta da morte isto é da condição de pecado Pois a própria Verdade que se fez homem conversando com os homens disse àqueles que nela acreditavam Se permanecerdes na minha palavra sereis em verdade meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará Jo 8313285 Com efeito nossa alma de nada goza com liberdade se não o gozar com segurança Ora ninguém pode viver com segurança no meio de bens que pode vir a perder contra a sua vontade A verdade e a sabedoria ninguém as pode perder contra a própria vontade Pois ninguém pode ficar separado delas por distâncias de lugar O que se pode entender por ficar separado da verdade e da sabedoria será o amor dos bens inferiores Aliás ninguém quer alguma coisa sem de fato o querer Logo nós possuímos na verdade um bem do qual todos podemos gozar igualmente e em comum Nesse gozo não existe estreiteza alguma nem defeito nenhum A Verdade acolhe todos aqueles que a amam sem suscitar qualquer inveja Ela dáse a todos do mesmo modo e permanece pura em relação a cada um Nunca alguém virá a dizer a um outro que está junto da verdade Retirate para que eu possa também me aproximar dela Afasta teus braços para que eu também a abrace Não Todos lhe estão estreitamente unidos todos a retêm ao mesmo tempo Oferecese em alimento a todos sem ter de se repartir em diversas partes Tu nada bebes dela sem que eu não possa também beber Pois nada que dela recebes tornase tua propriedade exclusiva Pelo contrário o que dela recebes permanece também para mim em toda sua integridade O que dela inspiras não espero que o tenhas exalado para que venha a inspirar por minha vez Pois nada da verdade tornase propriedade de um só ou apenas de alguns mas simultaneamente ela é toda inteira e comum a todos86 A transcendência da Verdade 38 Ag Conseqüentemente esta verdade possui menos analogia com os objetos dos sentidos do tato do gosto e do olfato do que com os objetos atingidos pelos sentidos do ouvido e da vista Pois toda palavra escutada é ouvida ao mesmo tempo totalmente por todos e cada um E assim também quanto aos objetos postos diante dos olhos Tanto vê uma pessoa quanto outra ao mesmo tempo Mas essas semelhanças são ainda sem dúvida muito imperfeitas De fato cada palavra seja qual for não soa inteiramente ao mesmo tempo Ela estendese no espaço por intervalos e prolongase no tempo Uma de suas partes soa primeiro outra só depois Do mesmo modo toda imagem visual ocupa certo campo no espaço e não é vista totalmente em toda parte Além do mais todas essas coisas podem nos ser arrebatadas sem que o queiramos e muitas são as dificuldades que podem nos impedir a possibilidade de gozar delas Realmente se um cantor pudesse ter uma voz muitíssimo melodiosa e prolongar indefinidamente os amantes do canto apressarseiam à porfia para escutálo Empurrarseiam mutuamente e disputariam os lugares Isso tanto mais quanto mais numerosos fossem a fim de cada um poder ficar mais perto do dito cantor Mesmo assim da melodia ouvida não poderiam reter nada que pudessem conservar consigo Pelo contrário não haveriam de perceber senão sons esparsos Do mesmo modo se quiséssemos contemplar o sol e se o pudéssemos fazer sem interrupção ele não só nos deixaria no momento do poente mas também poderia ficar oculto à nossa vista devido às nuvens Além do mais muitos outros obstáculos nos fariam perder o prazer de o contemplar contra nossa vontade Enfim ainda que eu tivesse sempre presente o encanto da luz para minha vista e o do canto para os meus ouvidos o que retiraria eu de glorioso de tudo isso sendo essas coisas comuns a mim e aos animais Pelo contrário aquela beleza da Verdade e da Sabedoria enquanto persistir a vontade de gozar dela de modo perseverante nem a multidão de ouvintes amontoados em sua volta exclui os recém chegados Tampouco o tempo lhe põe um fim nem ela muda de lugar para lugar A noite não a interrompe Nem as trevas a podem esconder E ela não está subordinada aos sentidos corporais Está perto de todos aqueles que a amam e voltamse para ela em qualquer parte do mundo Para todos ela está sempre próxima e para todos dura eternamente Não está em lugar nenhum e apesar disso nunca está ausente de parte alguma Advertenos do exterior e ensinanos interiormente87 Torna melhores todos os que a contemplam e ninguém a pode tornar pior ou a deteriorar Pessoa al guma é seu juiz mas sem ela ninguém pode ser julgado com retidão A verdade é pois sem contestação superior e mais excelente do que nós porque ela é una e ao mesmo tempo torna sábia separadamente cada uma de nossas mentes e as faz juízes das outras coisas todas Jamais porém a mente é juiz em relação à Verdade transcendente TERCEIRA PARTE 15392054 TUDO O QUE É BOM E PERFEITO VEM DE DEUS Capítulo 15 Conclusão de toda a argumentação anterior Deus existe 39 Ag Ora Evódio tu admitiste que se te eu demonstrasse a existência de uma realidade superior à nossa mente reconhecerias ser Deus essa realidade Mas só no caso de nada existir acima dessa realidade E ao aceitar essa concessão disse eu que me bastaria com efeito fazer tal demonstração Pois se houvesse alguma realidade mais excelente essa precisamente seria Deus E se não houvesse nada mais excelente do que ela então imediatamente essa mesma verdade seria Deus Em ambos os casos todavia não poderias negar que Deus existe E precisamente era esta a questão que nós nos tínhamos proposto debater e discutir88 Agora se em vista disso estás perplexo recorda aquilo em que cremos conforme o ensino sagrado de Cristo ou seja que existe o Pai da Sabedoria Lembrate desta outra doutrina pertencente também à nossa fé que a Sabedoria gerada pelo Pai eterno lhe é perfeitamente igual É porque nada há mais a discutir no momento a respeito desse ponto mas somente guardarmos esse ensino com fé inabalável Deus pois existe Ele é a realidade verdadeira e suma acima de tudo E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de nossa fé mas que nós chegamos a ela pela razão como sendo uma verdade certíssima ainda que sua visão não nos seja muito profunda pelo conhecimento89 Mas bastanos isso para podermos explicar os outros aspectos de nosso assunto A não ser que tenhas alguma objeção a opor a essas conclusões Ev Quanto a mim sintome inundado por uma alegria realmente incrível Minhas palavras não conseguem exprimila Aceito estas tuas conclusões proclamandoas certíssimas Exclamo pois com minha voz interior a qual exprime o desejo de ser atendido pela Verdade mesma e de unirme a ela E essa união eu o confesso não somente é um bem mas o sumo Bem fonte de beatitude90 O desejo de sabedoria é inerente a nosso espírito 40 Ag Muito bem Igualmente alegrome profundamente Mas dizeme Somos nós porventura desde agora sábios e felizes ou estamos ainda a caminho desse estado a ser atingido Ev Penso que ainda tendemos a isso Ag De onde pois tiras a compreensão dessas verdades e certezas das quais dizes te alegrar Pois concedes que elas pertencem à sabedoria Poderá um ignorante insipiens conhecer a sabedoria Ev Enquanto for ignorante não o poderá Ag Portanto ou já te tornaste sábio ou então ainda és ignorante Ev Na verdade ainda não sou sábio Mas tampouco me considero como ignorante posto que conheço a sabedoria Com efeito as conclusões a que cheguei são certas E não posso negar que elas pertençam à sabedoria Ag Peçote de me dizer não concordas que aquele que não é justo é injusto E quem não é prudente é imprudente E quem não é temperante é intemperante Podese duvidar de alguma dessas afirmações Ev Concordo que um homem quando não é justo é injusto E responderia o mesmo a respeito do prudente e do temperante Ag Agora por que então quando alguém não é sábio deixará de ser ignorante Ev Aceito também que aquele que não é sábio é ignorante Ag Pois bem E tu qual dessas coisas és Ev Qualquer que seja a maneira como me denominar não me atrevo ainda a me considerar sábio Por outro lado pelo que concordei seguese eu o constato que não devo hesitar em me ter como ignorante Ag Logo o ignorante conhece a sabedoria Com efeito como dissemos ele não estaria certo de desejar ser sábio nem que isso seja de fato algo irrecusável caso a idéia de sabedoria não estivesse inerente a seu espírito Assim está em ti a idéia dessas realidades obtidas e sobre as quais respondeste muito bem quando te propus questões Essas coisas pertencem de fato à sabedoria cujo conhecimento te causou tanta alegria Ev É bem como dizes Capítulo 16 A sabedoria manifestase aos que a procuram graças aos números impressos em cada ser 41 Ag Quando nós nos esforçamos para nos tornar sábios o que fazemos a não ser concentrar toda nossa alma com o maior zelo possível ao que contemplamos com a mente colocandoa aí de modo estável Ela assim não se compraz mais com seu eu particular ligado às coisas transitórias mas despojada de toda afeição às coisas sujeitas ao tempo e ao espaço procura abraçar o Ser que é uno e sempre idêntico a si mesmo Pois na verdade assim como a alma é toda a vida do corpo do mesmo modo toda vida bemaventurada da alma é Deus Enquanto vamos executando esse trabalho até o levarmos à sua hora de perfeita realização estamos ainda a caminho E já que nos é concedido gozar desses bens verdadeiros e seguros embora sejam como espécie de lampejos em nossa viagem ainda tenebrosa observa se não seria o que a Escritura diz sobre a Sabedoria referindose à sua conduta em relação àqueles que a amam que vêm a seu encontro e a procuram Com efeito está dito Ela se mostrará a eles jubilosamente nos caminhos e irá a seu encontro com toda a solicitude Sb 616 Efetivamente em qualquer lugar onde olhares a sabedoria te fala pelos vestígios que imprimiu em todas as suas obras E quando recais de novo no amor às coisas exteriores é valendose da própria beleza dos seres exteriores que ela te chama a teu interior E isso a fim de que vendo tudo quanto te encanta nos corpos e te seduz através dos sentidos corporais reconheças que está repleto de números Ao indagares de onde vem isso entra em ti mesmo e compreende tua impotência de julgar para o bem ou para o mal os objetos percebidos por teus sentidos Pois não poderias aprovar ou desaproválos se não tivesses dentro de ti certas leis estéticas às quais confrontas todas as belezas sensíveis do mundo exterior A sabedoria regula pelos números a harmoniosa evolução do universo 42 Contempla o céu a terra o mar e todos os seres neles contidos brilhando nas alturas ou rastejando a teus pés voando ou nadando Todos possuem beleza porque têm seus números Suprimaos e eles nada mais serão91 Logo de onde vêm eles a não ser daquele de onde procede todo número Visto que o ser que neles está não existe a não ser na medida que realiza os números que possui Até os artistas humanos possuem em sua própria mente números de todas as belezas corporais para conformar a eles as suas obras Com as mãos e os instrumentos eles trabalham até que o objeto que modelam exteriormente seja relacionado com a luz interior que possuem dos seus números Isso para que sua obra possa adquirir toda a perfeição possível Será ela expressa pelos sentidos de modo a agradar o juiz interior o qual intui os números transcendentes Indaga depois quem move os membros do próprio artista Não será também pelo número que eles são movidos com regularidade conforme as leis dos números E se tiras das mãos a obra que o artista modela e de sua alma a intenção de a elaborar e se não houver outra finalidade a não ser dar prazer ao movimento de seus membros não será isso o que se denomina dança Verifica o que agrada na dança e o número responderteá ainda Sou eu Contempla agora a beleza de um corpo bem formado são os números a ocupar o seu lugar Observa a beleza dos movimentos corporais são os números atuando no tempo Penetra na região de onde procedem os números Examina aí o tempo e o espaço a arte não está em nenhum lugar e em tempo algum Contudo aí reina o número Sua mansão não está no espaço nem sua duração nos dias Contudo os aprendizes dobrandose às regras da arte a que estão a aprender com o desejo de se tornarem artistas movem seu corpo no tempo e no espaço Ao passo que a alma só se move no tempo pois é com o andar do tempo que a arte é aperfeiçoada Ultrapassa agora a mesma alma do artista e fixate até vislumbrar o número sempiterno A sabedoria então resplandecerá diante de ti vinda de seu trono mais secreto e do próprio santuário da Verdade E se teu olhar ainda muito fraco ficar ofuscado à sua vista reconduz o olhar de teu espírito na direção daquele caminho onde ela se revelava tão amigavelmente Lembrate porém apenas que deixaste para mais tarde essa contemplação para a retomares quando ficares mais robusto e mais vigoroso Infelizes os que não reconhecem nos seres criados o reflexo da sabedoria de Deus 43 Ó Sabedoria luz suavíssima da mente purificada Infelizes os que te abandonam A ti que és o seu guia e assim extraviamse entre teus vestígios Ai dos que amam teus sinais em vez de amar a ti esquecendose do que ensinas Pois tu não cessas de nos dar a entender quem és e quão grande és São acenos teus todas as belezas das criaturas Já que até o artista insinua por assim dizer a quem contempla a sua obra para que contemplando a beleza que elaborou não se retenha totalmente nela mas ao percorrer com os olhos a beleza da obra criada não seja de tal maneira que suscite apenas seu afeto e admiração para com aquele que a executou A quem se parecem os que amam as tuas obras em vez de te amar a ti Assemelhamse a homens que ao ouvirem um sábio falar com eloqüência escutamno avidamente a suavidade de sua voz é a cadência de seus períodos Isso a tal ponto que perdem de vista o principal isto é o conteúdo do pensamento do orador Ora as palavras são apenas um sinal Infelizes daqueles que se afastam de tua luz e mergulham com delícia na própria obscuridade Será como se voltassem as costas para ti ó Sabedoria e precipitassem em suas obras carnais como na própria sombra Entretanto isso mesmo que lhes causa prazer é apenas irradiação de tua luz Mas essas sombras que amam tornam o olhar da alma mais débil e incapaz de gozar de tua vista É porque o homem afunda mais e mais nas trevas à medida que abraça com mais gosto aquilo a que a sua fraqueza adaptase com maior facilidade Começa assim a menosprezar o Ser supremo e a não mais julgar como mal tudo o que engana sua imprevidência seduz sua indigência ou atormenta a sua escravidão Ora esses sofrimentos são a justa punição por tua perversão pois nada do que é conforme a justiça pode ser mal A sabedoria comunicada a todos os seres 44 Portanto sejam quais forem os seres mutáveis que vês não os podes perceber nem pelos sentidos corporais nem pela aplicação do espírito a não ser que eles recebam certa perfeição própria dos números sem a qual recairiam no nada Logo não duvides que existe uma forma eterna e imutável em virtude da qual esses seres mutáveis não se desfazem mas antes com seus movimentos compassados e grande variedade de formas compõem uma espécie de poemas temporais Esse Ser eterno e imutável não está contido nem se difunde por lugares nem se prolonga e varia no correr dos tempos Mas é por sua Perfeição Forma que puderam se formar todas as coisas que nos rodeiam ajustaremse e serem produzidas conforme os números próprios de acordo com o seu gênero no tempo e no espaço92 Capítulo 17 O princípio de participação Todo bem e toda perfeição é recebida de Deus 45 Todo ser mutável é necessariamente também susceptível de perfeição formabilis est Pois assim como denominamos mutável o que pode ser mudado do mesmo modo chamamos perfectível o que pode receber uma perfeição Ora coisa alguma pode se aperfeiçoar a si mesma porque coisa alguma pode se dar a si aquilo que não possui E por certo é para receber uma perfeição que o ser é aperfeiçoável Se pois todo ser que já possui uma perfeição não precisa receber o que já possui e pelo contrário se todo ser que não possui a perfeição não pode se dar o que não tem em conseqüência nenhuma realidade pode se aperfeiçoar a si mesma como dissemos93 E o que direi a mais sobre a mutabilidade da alma e do corpo Por certo o que afirmamos anteriormente é suficiente O que já ficou estabelecido pois se impõe a alma e o corpo devem receber sua perfeição de outro ser a Perfeição imutável e eterna Aquela da qual foi dito Tu os mudarás e eles ficarão mudados mas tu permaneces sempre o mesmo e os teus anos jamais findarão Sl 1012728 Esses anos que jamais findarão estão postos por eternidade nessa expressão do profeta Igualmente dessa Perfeição ainda está dito que permanece em si mesma sem nada mudar ela tudo renova Sb 727 Isso é para que se compreenda também que todas as coisas são governadas por uma Providência Visto que todas as realidades que existem recairiam completamente no nada caso fossem privadas de sua perfeição própria É porque aquela imutável Perfeição pela qual todos os seres mutantes subsistem é ela mesma uma Providência Esses seres realizamse movemse conforme os números de suas próprias perfeições Realmente essas realidades não teriam existência se aquela Suma Perfeição não existisse Assim todo aquele que se dirige para a sabedoria constata olhando e considerando as criaturas do universo que essa sabedoria revelase a ele no caminho Ela vem a seu encontro com um semblante alegre plena de toda solicitude e providência É porque o seu ardor em percorrer esse caminho inflamase tanto melhor quanto mais o próprio caminho recebe sua beleza daquela sabedoria junto a qual deseja ardentemente chegar Conclusão 46 Mas ó Evódio se acaso encontras além dos seres que têm a existência mas não a vida dos que têm a existência e a vida mas esta sem a inteligência e dos que têm a existência a vida e a mais a inteligência digo se encontras além desses algum outro gênero de seres então não receies afirmar que existe algum bem que não procede de Deus94 Esses três gêneros de seres com efeito podem ainda ser designados simplesmente por dois nomes corpo e vida Pois esse termo vida convém muito bem seja aos seres não tendo senão a vida sem inteligência tais os animais seja aos que possuem a inteligência como os homens Ora esses dois princípios a saber o corpo e a vida são evidentemente tomados aqui enquanto pertencentes às criaturas porque o Criador também possui a vida e essa ao supremo grau Ora aquelas duas criaturas o corpo e a vida sendo perfectíveis como dissemos acima e podendo recair no nada pela perda total de suas perfeições mostramnos bastante que elas tiram sua existência daquela Perfeição que é sempre idêntica a si mesma É porque todos os bens sejam eles quais forem do maior ao menor não podem proceder senão de Deus Com efeito o que há de mais excelente entre as criaturas do que a vida da inteligência E o que há de mais inferior do que o corpo Ora sejam quais forem as deficiências a qual estão sujeitos e mesmo se tenderem muito de perto para o nãoser todavia restalhes certa perfeição que lhes dá de algum modo a existência Pois bem esse pouco de perfeição que sobra ao ser seja qual for procede daquela Perfeição a qual desconhece a mutabilidade e a deficiência e que não permite aos próprios movimentos dos seres que estão em decadência ou em progresso saírem das leis de seus respectivos números Por essa razão tudo o que se observa de admirável na natureza das coisas no universo e que julgamos dignos de admiração intensa ou fraca deve ser referido com incomparável e inefável louvor ao Criador A menos que tenhas alguma objeção a fazer Capítulo 18 O livrearbítrio é um bem em si mesmo 47 Ev Declaro estar suficientemente convicto de que existe um modo o quanto é possível nesta vida para homens como nós de tornar evidente estes dois princípios primários que Deus existe e que todos os bens procedem de Deus Isso porque todos os seres existentes os que têm a inteligência a vida e a existência os que somente possuem a vida e a existência como os que possuem somente a existência todos vêm de Deus Vejamos agora se é possível esclarecer a terceira questão proposta a saber convém considerar a vontade livre do homem entre os bens Uma vez esse ponto demonstrado concederei sem hesitação que Deus nola deu e que convinha nola ter dado95 Ag Tu te lembraste com exatidão dos assuntos propostos Notaste perfeitamente que a segunda questão Que todo bem procede de Deus está explicada Mas deverias ter notado que também esta a terceira está resolvida Pois parecia a ti como dizias que o livrearbítrio da vontade não devia nos ter sido dado visto que as pessoas servemse dele para pecar Eu opunha à tua opinião que não podemos agir com retidão a não ser pelo livrearbítiro da vontade96 E afirmava que Deus nolo deu sobretudo em vista desse bem Tu me respondeste que a vontade livre devia nos ter sido dada do mesmo modo como nos foi dada a justiça da qual ninguém pode se servir a não ser com retidão Essa resposta lançounos a entrar em múltiplos rodeios neste diálogo com a finalidade de te provar que todos os bens os menores como os maiores chegamnos unicamente por meio de Deus Mas tal conclusão não teria sido posta com clareza se não tivéssemos antes refutado o sentimento ímpio do insensato que diz em seu coração Deus não existe Sl 131 Empenhamonos então em uma discussão capaz de nos trazer alguma evidência certos da proteção do mesmo Deus em tão arriscada viagem Ora essas duas verdades que Deus existe e que todos os bens vêm dele nós já admitimos com fé inabalável Entretanto nós as expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente a saber que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus Ainda que o homem possa usar mal da liberdade a sua vontade livre deve ser considerada como um bem 48 Ag Com efeito a discussão precedente já demonstra e nós o admitimos a natureza corpórea ser de grau inferior à natureza espiritual E daí se seguir que o espírito é um bem maior do que o corpo Ora entre os bens corpóreos encontrase no homem alguns de que ele pode abusar sem que por isso digamos que esses bens não lhes deveriam ter sido dados pois reconhecemos serem eles um bem Sendo assim o que há de espantoso que exista no espírito também abusos de alguns bens mas que por serem bens não puderam ter sido dados a não ser por Aquele de quem procedem todos os bens Com efeito vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos e contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos Realizam com elas ações cruéis ou vergonhosas Se visses uma pessoa sem pés afirmarias que lhe falta à integridade do corpo um bem muito valioso Entretanto aquele que se serve de seus pés para prejudicar ao próximo ou se avilta a si mesmo estaria usando mal de seus pés Negarias isso Com os olhos vemos esta luz do dia e distinguimos as diversas formas corporais São eles elementos de máxima beleza em nosso corpo Assim estão eles colocados como no ápice em tributo à sua dignidade Seu uso contribui para salvaguardar o homem e trazem eles à nossa vida muitas vantagens Entretanto muitos se servem deles para praticarem grande número de ações vergonhosas e obrigamnos a servir às suas paixões Ora compreendes quão precioso bem falta ao rosto quando lhe faltam os olhos Todavia se eles existem quem nolos deu a não ser Deus o dispensador de todos os bens Por conseguinte do mesmo modo como aprovas a presença desses bens no corpo e que sem considerar os que deles abusam louvas o doador de igual modo deve ser quanto à vontade livre sem a qual ninguém pode viver com retidão Deves reconhecer que ela é um bem e um dom de Deus e que é preciso condenar aqueles que abusam desse bem em vez de dizer que o doador não deveria têlo dado a nós Entre os três graus de bens a liberdade ocupa um grau médio 49 Ev Primeiramente desejo que me proves que a vontade livre é um bem Concederei logo em seguida que ela é um dom de Deus porque reconheço que todos os bens procedem de Deus Ag Mas enfim já te provei não sem grande esforço em nossa discussão precedente e tu reconheceste que toda beleza e toda perfeição corporal decorrem da Perfeição Forma suprema de todas as coisas isto é da Verdade E tu concedeste todas elas serem um bem De fato até os nossos cabelos são contados Mt 1030 como nos diz no Evangelho a própria Verdade Ou será que esqueceste o que dissemos sobre a sublimidade do número de seu poder que se estende de uma extremidade a outra Logo podes julgar extravagância considerar nossos cabelos entre os bens sem dúvida diminutos dos mais desprezíveis mas enfim bens sem encontrarmos outro doador senão Deus criador de todos os bens Porque todos os bens tanto os maiores como os menores são dados por Aquele de quem procede todo bem E assim por outro lado como duvidar ainda a respeito da vontade livre do homem sem a qual conforme o parecer daqueles mesmos que levam vida perversa ninguém poderia viver Agora respondeme eu te peço o que te parece melhor em nós aquilo sem o que se pode viver com retidão ou alguma coisa sem a qual não se pode viver retamente Ev Perdoame eu te rogo Sinto vergonha de minha cegueira Quem hesitaria de achar muito melhor um bem sem o qual não há vida honesta Ag Assim sendo negarás agora que um cego possa viver honestamente Ev Longe de mim uma demência tão grande Ag Se pois concedes que os olhos são no corpo um bem cuja carência contudo não impede de se viver honestamente a vontade livre poderá te parecer não ser um bem quando sem ela ninguém pode viver honestamente Capítulo 19 Entre os grandes bens as virtudes cardeais 50 Ag Considera agora a justiça da qual ninguém pode abusar Ela é contada entre os maiores bens que existem no homem Como também o são todas as virtudes da alma com as quais se pode levar vida boa e honesta Tampouco ninguém poderá abusar da prudência nem da força nem da temperança Com efeito nelas como na justiça a qual te referiste reina a reta razão sem a qual virtude alguma pode existir Por certo pessoa alguma pode abusar dessa reta razão O livrearbítrio não é o bem mais perfeito Ag Aí estão pois bens muito excelentes Convém porém te lembrares de que não somente os grandes bens mas também os pequenos só podem provir daquele por quem existem todos os bens isto é de Deus Tal foi a conclusão da qual ficamos convencidos na discussão precedente cf II1745 à qual destes com freqüência e com alegria o teu consentimento Portanto as virtudes pelas quais as pessoas vivem honestamente pertencem à categoria de grandes bens As diversas espécies de corpos sem os quais podese viver com honestidade contamse entre os bens mínimos E por sua vez as forças do espírito sem as quais não se pode viver de modo honesto são bens médios Das virtudes ninguém usa mal todavia dos outros bens isto é dos médios e dos inferiores pode se fazer seja bom seja mau uso O motivo pelo qual ninguém usa mal das virtudes é que a obra virtuosa consiste precisamente no bom uso daquelas coisas das quais podemos também abusar Ora o bom uso nunca pode ser um abuso Assim Deus na superabundância e na grandeza de sua bondade pôs à nossa disposição não somente grandes bens mas também bens médios e outros inferiores Essa bondade divina deve ser glorificada de preferência pelos grandes bens doados mais do que pelos médios Da mesma forma mais pelos bens médios do que pelos pequenos Todavia por todos eles Deus deve ser glorificado Pois isso é melhor do que se eles não nos tivessem sido concedidos Digressão a vontade livre que se serve de tudo mais servese também de si mesma 51 Ev De acordo Um ponto porém me preocupa ainda Com efeito estamos tratando agora a respeito da vontade livre Verificamos que ela mesma pode servirse ora bem ora mal das coisas Assim como poderemos nós contála entre as coisas das quais nos servimos Ag Da mesma maneira como os conhecimentos requeridos pela ciência nos são conhecidos pela razão e entretanto a própria razão está posta no número dos objetos conhecidos por ela mesma Porventura esqueceste isso Quando procurávamos quais os objetos que se conhecem pela razão tu afirmaste que se conhece a razão por meio da mesma razão cf II613 Não te admires pois se usando das outras coisas por meio da vontade livre nós possamos também usar da mesma vontade livre servindonos dela por meio dela mesma De modo que de certa forma a vontade que se serve de tudo mais servese de si mesma tal como a razão que conhecendo o restante conhecese a si mesma Sucede igualmente o mesmo com a memória que não só percebe todos os outros objetos dos quais nós nos lembramos Pois assim como não nos esquecemos que temos uma memória esta retém em nosso modo de viver a si mesma em nós Pois ela não se lembra unicamente das outras coisas mas também de si mesma Ou melhor somos nós mesmos por seu intermédio que nos lembramos das outras coisas e dela mesma A vontade livre entre o Bem supremo e os bens mutáveis 52 Conseqüentemente quando a vontade esse bem médio adere ao Bem imutável o qual pertence a todos em comum e não é privativo de ninguém do mesmo modo aquela Verdade da qual temos dito tantas coisas sem nada termos podido falar dignamente quando a vontade adere ao Sumo Bem então o homem possui a vida feliz Ora essa vida feliz mesma é o que o espírito sente quando adere ao Bem imutável Este tornase para o homem como um bem privativo o principal de todos Ele possui então além do mais todas as virtudes das quais não é possível usar mal Por outro lado acontece que se todos esses bens estão entre os maiores e principais no homem entretanto eles são o que se compreende facilmente privativos a cada um e não comuns a todos Com efeito é graças à mesma Verdade e Sabedoria que são comuns a todos os homens que todos aqueles que aderem a ela tornamse sábios e felizes Mas não é graças à felicidade de outrem que alguém adquire a felicidade pois mesmo quando este para vir a ser feliz imita o primeiro aspira a tornarse feliz pelos meios os quais vê que ele assim se tornou a saber pela verdade comum e imutável Do mesmo modo ninguém tornase prudente pela prudência de determinada pessoa Nem forte nem temperante nem justo pela força pela temperança ou pela justiça de outro homem Mas sim conformando seu espírtio àquelas regras imutáveis aqueles luzeiros de virtudes que subsistem inalterados numa vida incorruptível no seio mesmo da Verdade e da Sabedoria comum a todos Regras às quais ele mesmo se conformou e uniu seu espírito isto é aquelas virtudes às quais se propôs imitar97 Conseqüências da aversão ou da conversão ao sumo Bem 53 Assim pois a vontade obtém no aderir ao Bem imutável e universal os primeiros e maiores bens do homem embora ela mesma não seja senão um bem médio Em contraposição ela peca ao se afastar do Bem imutável e comum para se voltar para o seu próprio bem particular seja exterior seja inferior Ela voltase para seu bem particular quando quer ser senhora de si mesma para um bem exterior quando se aplica a apropriarse de coisas alheias ou de tudo o que não lhe diz respeito e voltase para um bem inferior quando ama os prazeres do corpo Desse modo o homem tornase orgulhoso curioso e dissoluto e fica sujeito a um tipo de vida a qual em comparação à vida superior anteriormente descrita é antes morte Apesar de tudo é claro que sua vida continua submissa ao governo da Providência divina que põe todas as coisas em seu lugar e retribui a cada um conforme os seus méritos Acontece que aqueles bens desejados pelos pecadores não são maus de modo algum Tampouco é má a vontade livre do homem a qual como averiguamos é preciso ser contada entre os bens médios Mas o mal consiste na aversão da vontade ao Bem imutável para se converter aos bens transitórios Por sua vez essa aversão e essa conversão não sendo forçadas mas voluntárias o infortúnio que se segue será um castigo justo e merecido98 Capítulo 20 Conclusão o mal originase da deficiência do livrearbítrio 54 Ag Talvez tu me perguntas Já que a vontade movese afastandose do Bem imutável para procurar um bem mutável de onde lhe vem esse impulso Por certo tal movimento é mal ainda que a vontade livre sem a qual não se pode viver bem deva ser contada entre os bens E esse movimento isto é o ato de vontade de afastarse de Deus seu Senhor constitui sem dúvida pecado Poderemos porém designar a Deus como autor do pecado Não E assim esse movimento não vem de Deus Mas de onde vem ele A tal questão eu te contristaria talvez se te respondesse que não o sei Contudo não diria senão a verdade Pois não se pode conhecer o que é simplesmente nada99 Quanto a ti contentate por enquanto de conservar inabalável esse sentimento irremovível de piedade de modo a professar não ser possível apresentarse a teus sentidos nem à tua inteligência nem em geral a teu pensamento bem algum que não venha de Deus Com efeito não pode existir realidade alguma que não venha de Deus De fato em todas as coisas nas quais notares que há medida número e ordem não hesites em atribuílas a Deus como seu autor Aliás a um ser ao qual tiveres retirado completamente esses três elementos nele nada restará absolutamente Porque mesmo se nele permanecesse um começo qualquer de perfeição desde que aí não encontres mais a medida nem o número nem a ordem visto que em toda parte onde se encontrarem esses três elementos existe a perfeição plenamente realizada tu deverias retirar mesmo um início de perfeição que parecesse até ser apenas certa matéria oferecida ao artífice para que trabalhe com ela e a aperfeiçoe Porque se a perfeição em sua realização completa é um bem o começo dessa perfeição já é certo bem Assim se acontecesse a supressão total do bem o que restaria não é um quase nada mas sim um absoluto nada Ora todo bem procede de Deus Não há de fato realidade alguma que não proceda de Deus Considera agora de onde pode proceder aquele movimento de aversão que nós reconhecemos constituir o pecado sendo ele movimento defeituoso e todo defeito vindo do nãoser não duvides de afirmar sem hesitação que ele não procede de Deus Tal defeito porém sendo voluntário está posto sob nosso poder Porque se de fato o temeres é preciso não o querer e se não o quiseres ele não existirá Haverá pois segurança maior do que te encontrares em uma vida onde nada pode te acontecer quando não o queiras Mas é verdade que o homem que cai por si mesmo não pode igualmente se reerguer por si mesmo tão espontaneamente100 É porque do céu Deus nos estende sua mão direita isto é nosso Senhor Jesus Cristo Peguemos essa mão com fé firme esperemos sua ajuda com esperança confiante e desejemola com ardente caridade Mas se na tua opinião falta ainda alguma coisa a pesquisar com mais diligência sobre a origem do pecado quanto a mim penso não ser de modo algum necessário entretanto se julgas o contrário nós o deixaremos para outro diálogo Ev Seja concordo com teu desejo de diferir para outro momento o que me preocupa ainda Mas não concordo com que a questão esteja como pensas suficientemente elucidada 37 12 O sentido do saber para Agostinho Nesta passagem Agostinho pergunta a Evódio se ele sabe scias que o livrearbítrio nos foi dado por Deus Importa avaliar o sentido desse verbo scire nos escritos filosóficos agostinianos Significa conhecer com certeza racional Tal como é o conhecimento das ciências matemáticas Opõese ao conhecimento da fé adquirido por via da aceitação da autoridade Na obra A verdadeira religião Agostinho insiste bastante nessa dupla via A fé e a razão cf cap 814 Em Solilóquios o scire é evocado diversas vezes Cf I49 Scire autem aliud est Saber porém é outra coisa Leiase a nota 23 38 12 Reivindicação pelagiana Já observamos como os pelagianos esforçavamse para encontrar nas afirmações de Agostinho textos favoráveis a seu ponto de vista isto é do poder da vontade natural que prescinde da graça Esta passagem é uma delas O próprio Agostinho fez o levantamento dessas proposições em suas Retractationes Cf a nota 33 relativa a I1430 39 24 Alusão à teoria da iluminação Diz Agostinho a Evódio Deus há de te conceder que sejas instruído interiormente por aquela Verdade Mestra soberana e universal Encontramos aí uma clara alusão à sua teoria da iluminação tal como foi explanada no diálogo O Mestre A finalidade de Agostinho é de explicar o fato fundamental de possuirmos no interior da mente a mesma verdade eterna pela qual a inteligência tem o poder de tomar consciência pessoal dessa verdade Explicase isso por uma especial intervenção de Deus ao dotar o espírito humano da possibilidade de julgar com certeza que ultrapassa as nossas capacidades naturais Tal como acontece com a graça agindo sobre a nossa vontade Agostinho põe assim o acento sobre a luz divina que se manifesta em nós Donde o nome de iluminação corretamente dado a esta doutrina Cf a mais II823 nota 26 40 25 O método filosófico agostiniano Neste início do l II Agostinho torna a insistir como já o fizera no começo de l I 36 sobre o seu método de discussão Isso nos leva a compreender melhor o teor de sua filosofia Seria ela uma sabedoria puramente racional Não porque Agostinho concebe apenas uma única verdadeira sabedoria a que seja ao mesmo tempo racional e sobrenatural O seu real objetivo é chegar à verdade plena isto é Deus Só assim poderemos adquirir por participação a beatitude já neste mundo Lembremos o seu gaudium de ritate Ora a aquisição dessa sabedoria para Agostinho deve sempre começar pela fé sobrenatural Assim o seu método consiste em recebermos primeiramente a verdade pela fé antes de a penetrarmos pela inteligência Já no l I25 ele se fundamentara numa magnífica profissão de fé nas verdades mais fundamentais da teodicéia cristã Só então em resposta à questão de Evódio de onde vem o mal é que inicia a argumentação filosófica para provar a existência de Deus No I24 como neste II26 ele apela para o Nisi credideritis non intelligetis E afirma a seguir que não quer se limitar à fé mas aplicarse ao esforço intelectual para entender Agostinho não criou de modo formal um sistema filosófico ainda assim constituiu uma filosofia agostiniana separável de sua teologia Isso mesmo se tal separação não tenha sido elaborada expressamente por ele Cf F J Thonnard n 15 B A 6 pp 497 500 41 26 O crede ut intelligas nas obras agostinianas Se é para se desejar entender o que cremos é básico crer no que queremos entender Há um entender que é necessário antecipar ao crer o qual não só está ordenado à fé mas já em si anuncia a fé A melhor intelecção acontece pelo método do desenvolvimento da fé O famoso Sermão nº 43 é todo inteiro consagrado ao estudo do relacionamento da fé com a inteligência Agostinho explica aí muito bem como a fórmula Intellige ut credas corresponde anteticamente ao Crede ut intelligas A fé precede mas a inteligência a segue Leiase ainda no Tratado sobre o Ev de são João 296 assim como no Costumes da Igreja católica I23 É bom sublinharmos como Agostinho insiste que o progresso na fé e na inteligência dos mistérios divinos corresponde à vontade mesma de Deus que chama os homens à sua visão 42 26 Agostinho criador da teologia no Ocidente P Batiffol em sua obra Le catholicisme de saint Augustin declara com muita verdade O amor de Agostinho pela inteligência inteligência essa entendida como esforço do crente para pensar a sua fé transportanos a uma atmosfera nova Ele crê na legitimidade e na eficácia do esforço intelectual E associa toda a Igreja nesse trabalho tendo confiança no progresso da inteligência da fé Graças a esse intento e pelo magnífico uso por ele mesmo feito tornouse o verdadeiro criador da teologia no Ocidente principalmente em relação a tal método e espírito assim como Orígenes o fora no Oriente Cf op cit p 73 do t I 43 26 A constante busca de esclarecimento da fé Aqui como nas Confissões X68 Agostinho não tem em mira conduzir propriamente à fé em Deus esta já é pressuposta Ele quer sim aperfeiçoar a fé Declarao no presente capítulo A fé deve levar à perfeita compreensão aquele que crê deve procurar compreender Todavia por certo o primeiro ato que se supõe naquele que quer sem muita dificuldade e com fruto seguir a Agostinho em suas elevações é de renovar explicitamente sua fé em Deus criador princípio de toda verdade e Bem soberano Em seguida com o coração purificado chegará a conhecer melhor a Deus e a amálo plenamente 44 26 Sem a fé seria possível provar a existência de Deus Diz aqui o texto Não se pode considerar como tendo sido encontrado aquilo em que se acredita sem ser entendido e ninguém se torna capaz idoneus de encontrar a Deus se antes não crer o que deverá compreender depois Seria exagerado retirar daí a conclusão de que a razão é impotente para provar sozinha a existência de Deus Nesse caso o próprio Agostinho estaria desdizendose a si mesmo Pois ele dava muita importância por exemplo ao consenso universal e à doutrina dos filósofos antigos os quais evidentemente não possuíam a fé No texto acima ele visa particularmente as disposições morais requeridas para tornar fecunda a busca da prova da existência de Deus No último item deste capítulo acabamos de vêlo assinalar expressamente o valor da fé Ora a fé em Deus mesmo natural incluise nessa espécie de disposição moral e facilita o esforço do espírito Por certo a fé sobrenatural contribuirá com mais forte razão nesse sentido O termo idoneus capaz inserido no texto citado acima não indica pois um condição metafísica mas sim uma aptidão moral que trará mais facilidade para encontrar a Deus Tal disposição é possível a todos Agostinho distinguea das luzes superiores reservadas não somente aos santos no céu mas já aos melhores melioribus nesta terra 26 Cf F Cayré Dieu présent dans la vie de lEsprit pp 4041 45 37 O plano do livro II A divisão do l II apresentada logo no início do presente cap 3 revela uma clareza didática que surpreende aqueles que afirmam ser as exposições de Agostinho desordenadas e à mercê do capricho Propõese ele aqui de modo decidido atingir três metas a primeiramente como a existência de Deus é evidente b em seguida que todo bem provém dele c finalmente que a vontade livre está nesse caso logo é um bem Agostinho desenvolve a sua demonstração da existência de Deus com um rigor impecável nestes capítulos de diálogo com Evódio sem nenhum desvio em seu plano Distingamos três partes A 1ª de 37 a 719 é toda ordenada à apresentação da tese que só será formulada no cap 6 Deus existe já que há algo superior à razão E esta é a realidade mais nobre no homem A 2ª parte de 820 a 1438 é o coração mesmo da prova agostiniana Deus é intuído como a perfeição acima da razão A 3ª parte de 1539 a 2054 das mais belas demonstra como tudo o que é bom vem de Deus O livrearbítrio sendo um bem para o homem vem de Deus O mal originase de uma deficiência do livrearbítrio 46 37 O ponto de partida da reflexão Agostinho lançase ao desenvolvimento da prova da existência de Deus Nesta primeira parte coloca como fundamento a observação da realidade na constituição dos seres criados Essas realidades percebidas diretamente por todo homem são três o fato da existência dos seres a vida sensível e a capacidade de entendimento no homem Em síntese o ser a vida e a razão São três graus de perfeição nos seres bem distintos e hierarquizados A razão é o que há de mais elevado na natureza humana Os dois primeiros graus ser e vida encontramse também fora do eu Acima da razão só pode estar o próprio Deus fonte de todo ser criado 47 37 Passagens paralelas em outras obras de Agostinho Vemos aqui nosso autor tomar como ponto de partida absolutamente indubitável a intuição da existência do eu pensante Tal criteriologia agostiniana já se encontra bem formulada nos Diálogos filosóficos os seus primeiros escritos Os três livros de Contra os Acadêmicos esboçam de passagem a fórmula do cógito agostiniano Em A vida feliz 27 supõe com força que a ordem do pensamento parte da certeza de nossa própria existência E conforme os Solilóquios II11 essa certeza está bem fundada em nosso próprio pensamento Recordemos a famosa questão Scis esse te Scio Sabes que existes Sei No presente diálogo O livrearbítrio esta passagem do 37 é elucitativa de seu pensamento Em A verdadeira religião 3973 encontramos a explicitação de que a verdade de existir encontrase na certeza mesma que a dúvida pode existir Leiase ainda em As Confissões VII1016 o belo texto sobre a busca da verdade no próprio íntimo Mais tarde em A Trindade XV1221 as fórmulas sobre a questão do Cogito adquirem novo vigor No l X1014 dessa obra afirma Agostinho Se eu não existisse seria impossível a dúvida Citemos ainda uma outra passagem em A Cidade de Deus XI26 Se me engano existo 48 37 Influência da doutrina agostiniana sobre a certeza do eu pensante A doutrina agostiniana dá absoluta primazia à certeza e à preeminência metafísica do eu pensante Tal tese tornouse profundamente revolucionária para toda filosofia posterior e deu a nota aos grandes movimentos da Idade Média Eu penso eu vivo eu quero Vemos sempre invocada a realidade da alma absolutamente certa e imediatamente garantida pela evidência interior com toda a sua força probatória 49 38 Os três graus de conhecimento no homem Está em jogo agora o dinamismo da alma Agostinho mostrase assim mais preocupado com a vida vivere do que com o existir esse Especialmente com aquela vida superior que pertence ao espírito intelligere nesse ser complexo que é o homem Analisa no momento algumas de suas atividades para tirar daí uma lei de preeminência vital Começa por observar o fato de haver três graus de conhecimento e estabelece uma hierarquia 1º Os cinco sentidos corporais Entretanto não possuem o conhecimento direto da própria operação 389 2º O sentido comum interior Este percebe os sentidos externos com os seus objetos Mas Agostinho não chega à certeza de que o sentido interior tenha consciência de si mesmo 410512 3º A razão Esta ao contrário conhece a operação dos cinco sentidos corporais e seus objetos e também o sentido interior Além do mais reconhecese e pode chegar à ciência 61314 50 512 O princípio de subordinação ou regulação O princípio de subordinação ou de regulação como também é chamado constitui parte significativa da metafísica agostiniana Consiste em evocar a subordinação prática de cada atividade da alma dentro de sua hierarquia a um elemento que lhe seja superior Eis como Agostinho considera este princípio psicológico mas que possui um fundo metafísico a respeito das relações existentes entre os sentidos exteriores e o sentido interior Aquele que julga se antepõe ao que é julgado Notese que o termo julgar aí não possui o sentido comum de veredicto racional Marca simplesmente a influência ativa de um ser sobre outro que lhe esteja ordenado Implica isso a dependência de um em relação a outro em seu agir O princípio de subordinação sendo também de ordem ontológica Agostinho vai utilizálo a seguir sempre no plano metafísico a propósito da vida do espírito Daí a sua importância Será essa uma das peças mestras da dialética agostiniana Leiase mais adiante neste mesmo II1641 como será evocada esta doutrina O princípio vital do corpo é a alma e o da alma é Deus Cf também o cap 1746 com a nota 58 Ascensões agostinianas 51 512 O valor dos canais do conhecimento São canais de conhecimento os sentidos exteriores o sentido interior e a razão Agostinho examina aqui o valor de cada um Os sentidos exteriores antepõemse aos objetos observados por serem seres vivos O sentido interior sobrepõese aos sentidos exteriores porque os julga No homem a razão tem a primazia sobre os sentidos e mesmo sobre o sentido interior porque julga a eles todos Fica assim estabelecida a hierarquia dos valores o corpo a alma animal e enfim a razão que é como a cabeça ou o olho de nossa alma Manifestamente nada existe de mais excelente na natureza da alma do que a razão 52 613 A grande superioridade do homem poder julgar O julgamento é obra exclusiva da inteligência Reproduzimos aqui uma nota complementar esclarecedora que se encontra no volume A verdadeira religião relativa ao cap 2953 sobre A superioridade do espírito é a capacidade de julgar A fim de conduzir o leitor à descoberta do espírito Agostinho levao a constatar a superioridade da vida reflexiva sobre a vida sensitiva e a fortiori sobre os corpos inorgânicos pelo fato de que a mente julga o sensível e a sensação É a razão a faculdade de julgar por excelência 53 614 O início da grande prova Eis o momento da tomada de impulso para a ascensão desejada As demonstrações fornecidas até aqui foram apenas um preâmbulo Agora os elementos de base já mencionados vão ser cuidadosamente recolocados em vista da ascensão O caminho a ser percorrido pela prova encontrase fixado com clareza A grande argumentação será desenvolvida a seguir dos caps 1233 a 1539 Apoiarseá na constatação de haver uma verdade eterna e imutável superior ao homem à qual ser algum é superior 54 614 A existência de Deus para Agostinho Em toda a sua vida santo Agostinho nunca duvidou da existência de Deus e da Providência Julgava mesmo não poder ser contestado haver um Criador Não podia acreditar poder existir ateus convictos Para ele a existência de Deus é dessas verdades às quais a Providência de Deus deu tal clareza que é difícil furtarse a ela Ninguém será capaz de ignorar totalmente a Deus Contudo ele reconhece não ser Deus objeto de intuição direta e de vista imediata Não se contentava porém com fé ingênua Procurava estabelecer demonstração mais científica Recorre na ocasião a argumentos clássicos tais o consenso universal a finalidade e a ordem do mundo a contingência dos seres A prova desenvolvida ex professo nesta obra é bem criação sua Achase em conexão estreita com a demonstração da existência da verdade Podese todavia reconhecer nela uma adaptação da dialética de Plotino no esforço de subir em direção à Fonte criadora O tom místico e por vezes o teor apaixonado de seus argumentos nada tiram do valor filosófico de sua argumentação 55 715 Análise deste capítulo 7 Serão estudadas no presente capítulo as atividades do espírito em si mesmo e as dos sentidos externos em relação a seu objeto e ao objeto dos mesmos Não se trata porém unicamente de dados psicológicos Agostinho elevase além até o plano metafísico A princípio porém limitase a observações sobre o conhecimento sensível Por isso alguns críticos quiseram ver nestas páginas apenas digressões Na verdade por enquanto Agostinho não se ergue até à verdade intelectual propriamente dita Da observação dos sentidos entretanto tirará uma conclusão que há de ter boa aplicação em relação ao conhecimento da verdade Começa por comparar as faculdades e seu objeto para chegar a demonstrar quanto este é independente da mente que o percebe Eis a seqüência das idéias expostas 715 característica de nossas faculdades cognitivas os sentidos externos São eles individuais próprios a cada pessoa 16 os objetos atingidos são bem distintos uns dos outros 17 comparação dos cinco sentidos entre si sob diversos pontos de vista 18 Conclusão se o sentido corporal é individual o objeto é bem distinto dele e muitas vezes comum a todos Isso prova a sua realidade Em próximos capítulos encontraremos uma analogia do mesmo realismo objetivo num plano superior isto é no da vida intelectual propriamente dita Cf Cayré op cit pp 124125 56 718 Capítulo desnecessário Na presente argumentação cada parte possui o seu valor e não se tem o direito se quisermos reproduzir exatamente o pensamento de Agostinho de suprimir tal ou tal elemento supostamente sem importância Isso seria enfraquecer o conjunto Tudo na verdade tem seu papel sem dúvida acessório mas real Esta primeira parte portanto não pode ser ignorada como o fazem por vezes sem se correr o risco de deformação É ela que vai situar o argumento agostiniano em seu verdadeiro quadro o de uma realidade viva o espírito humano considerado em suas atividades Sem isso o silogismo ficaria apoiado num plano unicamente ideal e não no real Ao contrário com tudo o que foi apresentado temos como base um realismo muito característico em perfeita relação com a primeira afirmação da tese Se há um ser superior ao espírito esse ser é Deus Cf Cayré op cit p 149 57 719 Motivos das longas considerações A finalidade de Agostinho ao entregarse a estas copiosas considerações é o desejo de preparar a visão de que a intuição de Deus está acima dos sentidos e da razão Termina as observações deste cap 7 insistindo no que seja próprio ou individual e no que seja comum público ou universal Passo a passo foi ele expondo sua teoria sobre o conhecimento Iniciou pelas sensações dos sentidos corporais até chegar ao conhecimento puramente intelectual e abstrato Os presentes capítulos revestem assim um especial interesse na revelação da noética agostiniana Encontramos aqui um bom exemplo do que seja o método ascensional de Agostinho dos objetos externos aos sentidos dos sentidos exteriores ao sentido interno deste à razão e da razão às verdades eternas e imutáveis ou mundo inteligível e enfim deste a Deus 58 820 Sumário das idéias expostas do cap 8 Vemos agora ser introduzida por Evódio a famosa razão e verdade dos números ratio et veritas numeri Neste capítulo vem desenvolvida a teoria dos números sob um ângulo muito elevado o da verdade Tal verdade dos números é manifesta e inalterável 820 Não vem pelos sentidos mas de certa forma está impressa no espírito 21 De fato os números não nos vêm pelos sentidos a unidade que é a base deles não nos é sensível 22 As propriedades da unidade confirmamnos essa conclusão Consideremos as três propriedades mais características a imutabilidade a certeza e a inalterabilidade as quais não podem ser percebidas a não ser por uma luz interior Ora de tal luz os sentidos corporais são incapazes 23 Em conclusão Agostinho mostra que esse conhecimento puramente intelectual certo objetivo indiscutível é possuído por todo espírito realmente sadio Cf Cayré op cit pp 125126 59 821 As verdades comuns e universais As verdades eternas brilham por sua universalidade Os céticos insistem na falsidade do ponto de vista individual o que dá lugar a opiniões infindas e contraditórias Para eles não existe a verdade porque esta é carente da garantia da comunidade pensante Entretanto por certo há uma categoria de verdades comuns que resplandecem aos olhos de todos num plano superior ao individual Todos dizem o mesmo com pleno consenso Agostinho não se cansa de ponderar a respeito dessas veritates communes desse acordo do pensamento nas verdades comuns a todos Para ele cada indivíduo tem sua razão e seu olho próprio Ora os objetos de ordem inteligível e comum achamse à vista de todos os espíritos Não se consomem nunca se destroem por assimilação como os manjares e as bebidas Não são produtos das impressões sensoriais Por exemplo os teoremas de matemática só são percebidos pela inteligência E por essa razão gozam de uma essência incorruptível Ao passo que tudo o que é percebido pelos sentidos corporais está sujeito à corrupção e não sabemos por quanto tempo durará As verdades matemáticas são um patrimônio comum de todos os que pensam e são incorruptíveis 60 822 Os números acesso ao mundo do espírito Nesta passagem como em diversos tratados compostos logo após a sua conversão a geometria e os números estão apresentados como fornecendo a prova decisiva de que há uma verdade imutável e como tal capaz de abrir acesso ao mundo inteligível e espiritual Leiase em Solilóquios I4910 A espécie de conhecimento que Agostinho deseja ter de Deus semelhante ao da geometria E no diálogo A Ordem II184748 e 194950 A razão ao observar atentamente verá o valor e o poder dos números Em A Música VI123536 Agostinho apóiase igualmente sobre as leis dos números para se elevar até Deus Em Confissões VI46 diz Desejava eu ter em relação a fatos não demonstráveis a mesma certeza com que digo 7 mais 3 dão 10 Lembremos que Agostinho recebeu sua primeira iluminação racional graças à matemática Esta foi a primeira ciência elaborada no Ocidente e vulgarizada sobretudo pela escola pitagórica De fato a matemática serve não somente para construir uma ordem de conhecimentos seguros mas também para educar o espírito na dialética da ascensão e no manejo das idéias puras Cf maior desenvolvimento da questão mais adiante no cap 1130 61 823 As propriedades da verdade Neste item Agostinho convidanos a meditar melhor sobre as eminentes propriedades da verdade que se manifestam na lei dos números Sua transcendência revelase à razão a qual chega a conhecer suas propriedades A verdade é porém em nós algo muito mais alto do que a própria razão Desse modo pouco a pouco Agostinho nos levará a concluir a respeito da existência de uma realidade tão grande que não pode ser outra coisa senão o mesmo Deus Cf H I Marrou S Augustin et la fin de la culture antique p 288 62 823 Nova alusão à teoria da iluminação Vemos aqui Agostinho referirse novamente à sua teoria da iluminação A luz interior mencionada não é a da simples inteligência contraposta à dos sentidos Fala ele sobre um influxo especial de Deus sobre a inteligência para iluminála Para maiores esclarecimentos releiase a nota n 3 referente ao l II24 E Agostinho irá ainda se referir ao tema com maior precisão no l III513 cf nota 11 63 824 A intuição luz acima da razão Uma simples reflexão sobre o conteúdo de nossos pensamentos nos leva a constatar a existência imutável de grande número de verdades em nossa mente Agostinho apela para o testemunho da consciência a qual atesta em nós a intuição do inteligível As noções e leis dos números revelamse com real independência do sensível pois possuem propriedades muito diferentes dos objetos sensíveis Não possuem por exemplo nem cor nem odor Em particular a unidade princípio dos números possui em si simplicidade E esta nunca está realizada em um corpo 822 Necessariamente convém aos corpos a distinção e portanto a pluralidade de partes Concluise pois que a inteligência percebe leis independentemente dos sentidos Cf Thonnard Précis dHistoire de la philosophie p 206 64 824 Citação do Eclesiástico 726 Agostinho no próximo capítulo 113032 associará as regras da sabedoria percebidas por intuição independentemente de realidades concretas com as noções e leis dos números Estes como já foi visto estão acima do sensível e impõemse a todos Em apoio a seu ponto de vista cita aqui uma passagem do Eclesiástico na versão grega Setenta Esta assim vem no original Circuivi ego et cor meum ut scirem et considerarem et quaererem sapientiam et numerum 726 65 925 Diversos sentidos do termo sabedoria O termo sabedoria sapientia oferece na linguagem agostiniana múltiplos sentidos Neste item a sabedoria é evocada conforme o seu uso corrente no sentido de prudência arte de bem viver opção de vida No próximo item 26 veremos Agostinho empenharse em definir a sabedoria como a Verdade na qual se vê e se possui o sumo Bem No item 27 ele considera a sabedoria de outro ponto de vista a universalidade É ela a mesma para todos tal como a luz do sol 66 925 Saber pela razão Sobre o método aqui lembrado por Evódio cf a nota 8 no l I 36 Não apenas crer mas entender as razões de sua crença Amiúde Agostinho relembra o que se propusera com Evódio Compreender aquilo em que cremos 67 926 Implicação dos conceitos verdade sabedoria sumo Bem e felicidade A sabedoria não é senão a verdade em que se contempla e se possui o sumo Bem A sofia sabedoria para os gregos como para os cristãos entranha sempre uma conexão necessária com a verdade Pois uma sabedoria esvaziada do conhecimento da verdade seria uma contradição nos termos E a sabedoria não só implica uma conexão com a verdade mas também com o Bem supremo o summum bonum Notese que não é apenas a percepção mas ainda a posse da verdade que é o sumo Bem o que nos traz a felicidade Felicidade à qual todos nós tendemos sem contestação alguma Feliz é aquele que goza do sumo Bem até o seu pleno desfrute A verdade é pois um deleite O bonum é beatificum pois a verdade beatificante é o próprio Deus 68 926 A felicidade está em Deus Viver feliz significa viver na posse da verdade Viver na luz e conforme a arte da sabedoria Possuir a verdade como sumo Bem é o elemento formal da felicidade Lemos na obra Costumes da Igreja católica I34 A felicidade consiste em amar e possuir o que há de mais excelente para o homem Com efeito desfrutar é ter à disposição aquilo que se ama O bem é alguma coisa de que se gosta É o que cumula o nosso mais profundo desejo O que pode o homem amar em vista de seu único fim vital a não ser um bem que ultrapassa todos os outros bens e que se apresenta como o Bem supremo A vida feliz é pois a posse amorosa do sumo Bem Leiase mais adiante neste l II sobre a mesma temática o cap 133536 e a nota 47 A verdade beatificante 69 926 Outras alusões à teoria da iluminação Antes de sermos felizes levamos gravada em nossa mente a noção da felicidade Já indicamos outras referências à doutrina da iluminação Releiase no l II24 a nota 3 E o texto do l III513 e 2472 onde Agostinho tornará a se referir a essa sua tão querida doutrina Dirá ele A sabedoria não procede daquele que é iluminado por ela mas sim daquele que ilumina 70 927 Patrimônio das verdades comuns A comunhão universal das inteligências na mesma verdade tem sido um fenômeno atraente para os grandes pensadores Há uma maravilhosa concórdia mental nos seres racionais Esse fato das veritates communes patrimônio do pensamento também atraiu poderosamente a atenção e a admiração de Agostinho Os espíritos formam sociedade entre si para a compreensão das mesmas verdades axiológicas isto é em relação aos valores Para explicálo Agostinho não apela para a teoria do entendimento único antes a exclui Porque cada homem tem sua própria mente seu próprio olho espiritual para intuir os axiomas a saber as verdades evidentes Mas a mente criada achase em conexão com uma fonte de luz superior que ilumina a todo homem assim como os olhos corporais são tocados pela luz do mesmo sol A presente passagem é uma das premissas do processo dialético de demonstração da existência de Deus como fundamento último do mundo das verdades É tendência profunda do pensamento moderno relativista reduzir a validade das verdades a um círculo temporal e cultural Para ele só há verdade em relação a uma humanidade determinada Cf V Capánaga San Agustin p 148 nota 2 71 1028 Noção fundamental de verdade A noção da verdade é central constitui o fundamento da doutrina da sabedoria uma das bases essenciais da filosofia agostiniana Em seu diálogo Contra os Acadêmicos Agostinho refutara o ceticismo mostrando como essa posição é contraditória Agora ele quer estabelecer de modo positivo que existem muitas verdades absolutamente certas as quais o homem é capaz de atingir e das quais não pode duvidar Tais verdades nos são fornecidas por exemplo pelo estudo da matemática da geometria da lógica da música da estética e da moral natural Neste capítulo Agostinho convidanos a meditar sobre as propriedades eminentes da verdade Leiase ainda mais adiante a nota 45 relativa ao cap 1234 72 1028 A sabedoria no plano da Moral A sabedoria coloca no plano moral alguns princípios gerais que todos devem aceitar Por exemplo é preciso viver conforme a justiça o eterno está acima do temporário a verdade é imutável a vida reta e honesta é mais digna do que a vida perturbada moralmente 73 1029 Lumina virtutum Essas verdades são como regras e espécie de luminares das virtudes Agostinho compara aqui a sabedoria a luminares ou focos das virtudes Significam eles as regras morais que são rão inflexíveis e certos quanto às leis dos números 74 1130 Insistência sobre a citação bíblica a respeito da sabedoria e do número Agostinho lembra aqui de novo a passagem já citada no l II 824 em que se referiu a Eclo 726 Explorei igualmente o meu próprio coração para conhecer examinar e escrutar a sabedoria e o número Cf a nota 28 correspondente 75 1130 A temática do capítulo 11 Podemos sintetizar toda a problemática deste cap 11 nas seguintes questões São a sabedoria e os números uma só coisa Ou existem independentemente um do outro Ou então dependem um do outro Agostinho mostra com interesse a excelência relativa da sabedoria e dos números sempre confrontandoos com a verdade Convém insistir em que para Agostinho os números estavam bem longe de ser meros algarismos Constituíam princípios reais e dinâmicos inseparáveis de qualquer ser já que nenhum pode ser concebido senão como ativo A atividade é um atributo transcendental que tendo origem no número compenetra tudo o que existe Essa noção da natureza dos números originária de Pitágoras recebeua Agostinho de Platão que por sua vez a tinha adotado e ampliado Cf A S Pinheiro op cit p 141 n 31 76 1130 A matemática eleva os espíritos Afirma Agostinho nesta passagem que a matemática serve não apenas para construir uma ordem de conhecimentos seguros mas também para formar os espíritos na dialética da ascensão e no manejo das idéias puras Todo o orbe ontológico iluminase com a luz dos números Lemos no item 32 Os corpos são inundados pela luz dos números Procura Agostinho nos números um reflexo de Deus Considera porém que esse reflexo é mais distante do que o da sabedoria 77 1131 Diferença fundamental entre sabedoria e números Não pode ser minimizada a diferença entre sabedoria e números Estes são realizados nos corpos ao passo que a sabedoria apenas nos espíritos Enquanto estão nos corpos eles nos são inferiores Mas enquanto são imutáveis na verdade eles nos ultrapassam Quanto mais alguém se torna apto a contemplálos na pura verdade mais serão eles estimáveis e julgados superiores aos corpos e a si mesmo 78 1132 Relações entre sabedoria e números A estima que se tem pelos números ou pela sabedoria não é a mesma porque nem sempre julgamos conforme o valor verdadeiro Por exemplo o ouro por ser raro é preferido pelos homens à luz que em si é muito mais preciosa O número e a sabedoria são iguais de um ponto de vista mas desiguais de outro Assim como a luz e o calir do fogo projetamse distintamente em distânciais desiguais do mesmo modo acontece com o número que é possuído por todos os corpos Ora a sabedoria é percebida apenas pelo espírito Tal comparação é grosseira para se dizer que o número possui mais extensão mas que a sabedoria possui mais compreensão sendo portanto mais rica Um e outro porém estão em dependência expressa da verdade que é sempre imutável Mas seja como for as relações de dignidade que se estabeleçam entre sabedoria e número ambas não verdadeiras implicam a verdade contêmna de algum modo Cf Cayré op cit p 128ss 79 1233 As provas da existência de Deus em santo Agostinho Em parte alguma Agostinho tratou em conjunto ou sistematicamente das provas da existência de Deus Menciona porém a prova deduzida da aspiração dos homens à felicidade cf A vida feliz bem como a prova histórica da existência de Deus In Io 1064 Além da prova teológica Sermão 1412 élhe familiar a idéia de que a consideração da mutabilidade das coisas deste mundo há de levar o homem ao conhecimento de sua natureza de criatura Conf 1146 Com particular predileção e de modo mais pormenorizado usa no Livrearbítrio o argumento derivado da existência das mais sublimes verdades objetivas imutáveis e universalmente válidas de ordem lógica matemática ética e estética que repousam no espírito humano A existência dessas verdades seria inexplicável se não se admitisse uma verdade essencial idêntica com o próprio Deus que contém todas as verdades particulares Cf Altaner Stuiber Patrologia p 434 80 1233 Os objetos exteriores possuídos em comum pelos sentidos humanos Nesta passagem Agostinho faz referência ao que já foi dito acima no l II71519 A mesma coisa é percebida por muitas pessoas e ao mesmo tempo por cada uma em particular seja em sua totalidade seja somente em algumas de suas partes Quer ele mostrar a dependência da mente diante da verdade perfeita De fato será pela inferioridade de nosso espírito diante da verdade em geral que ele demonstrará a existência de uma verdade perfeita E Agostinho mostra essa inferioridade pela incapacidade de cada um em fazer sua uma verdade que pertence a todos Ela é uma verdade comum e universal a todos 81 1234 As verdades reinantes no espírito do homem Na mente humana estão presentes verdades eternas absolutas necessárias que nossa mente contingente e mutável não seria capaz de produzir Logo concluirá Agostinho existe Deus razão suficiente dessas verdades Eis alguns de seus argumentos Alguém ao constatar uma verdade não a corrige como se fosse um censor mas alegrase como diante de uma descoberta feita As verdades eternas não estão sujeitas aos vaivéns do temperamento ou do humor resplandecem íntegras e invioladas e isso numa mente mutável como é a nossa São verdades que permanecem em si Cf A verdadeira religião 3973 e a nota correspondente Onde habita a verdade Elas são constantes do espírito e evidenciam o realismo do conhecimento Contra elas nada vale a sofística dos céticos São verdades em si mesmas in se ipsa vera não um produto da consciência pensante 82 1234 Em busca da Verdade absoluta Após os longos encaminhamentos que marcaram as pesquisas sobre a vida do espírito humano poderíamos pensar em deparar agora uma passagem direta da verdade interior à Verdade transcendente Mas neste cap 12 Agostinho parece ter sustado essa tendência intuitiva Ora teria ido por uma via direta do pensamento humano à Verdade divina Vemos porém aqui uma insistência sua em frisar a inferioridade de nossa mente perante a Verdade absoluta É claro que a natureza da mente não pode ser a razão de ser da verdade A Verdade perfeita ultrapassa a capacidade dos espíritos particulares E Agostinho constata a evidência de existir uma realidade superior e mais excelente do que a nossa mente humana Cf A verdadeira religião 3056 Acima de nossos juízos a Lei imutável com a nota correspondente O salto para a trans cendência 83 1335 A Verdade beatificante Agostinho não se contenta de provar a existência de uma realidade suprema o sumo Ser Ele leva seus discípulos a estabelecer com ele uma verdadeira união que é a posse fruitiva da verdade pela sabedoria sobrenatural Compara o conhecimento da verdade a um abraço à verdade amplexus veritatis O conhecimento se matiza nesse abraço com uma intensa e rica afetividade poderosa irradiação que banha e transforma as potências da alma A verdade e o amor formam como uma só chama Mas o conhecimento saboroso e experimental de Deus não supõe uma visão imediata da divindade esta é apenas vislumbrada no espelho das criaturas 84 1336 Sumário das idéias expostas nos caps 13 e 14 Os caps 1335 a 14 38 apresentam a conclusão da prova da existência de Deus Agostinho visa aí levar a mente a se unir à Verdade descoberta No cap 133536 ele mostra a excelência da Verdade sob dois aspectos diferentes 1º do ponto de vista sobretudo subjetivo atento à comparação com a própria mente 2º cap 143738 do ponto de vista objetivo donde sobressai a perfeita transcendência da Verdade Analisando melhor No n 35 Agostinho compara a verdade aos objetos percebidos pelos cinco sentidos exteriores É como um aspecto negativo da Verdade No n 36 Elevase ao aspecto positivo a Verdade vive na mente humana A Verdade é identificada com a Sabedoria a Beatitude e a Luz Ela é como o sol dos espíritos conforme a fórmula dos Solilóquios I815 No n 37a É na posse da Verdade que o homem encontra a verdadeira liberdade No n 37b Agostinho assinala o caráter universal da Verdade ela pertence a todos e a cada um No n 38 A transcendência da Verdade é apontada 85 1337 A nossa liberdade consiste na posse da Verdade Nesta passagem vemos Agostinho declarar bem expressamente que é mediante o dom da fé que a alma fica submetida à verdade E é pela percepção e a posse da verdade que nossa liberdade se constitui Pois o homem não pode gozar de nada com a liberdade se não a gozar com toda segurança Para Agostinho a liberdade não se define como a faculdade de escolha arbitrária entre o bem e o mal mas como o poder de se determinar pelo bem e por Deus Assim não seremos realmente livres senão no momento em que Deus nos tomar em suas mãos e nos justificar isto é nos santificar 86 1437 A verdade bem comum e universal A verdade é para todos nós um tesouro comum Todos podemos dela desfrutar sem que sua torrente diminua O tema voltará no final do item 38 E sobre a mesma temática leiase Confissões XII2534 A Trindade VIII12 23 In l Jo III6 e a Carta 144 a Nebrídio 87 1438 O apelo de Deus Diz belamente Agostinho nesta passagem que a Verdade o mesmo Deus o Verbo feito carne nos atinge porque nos fala no exterior e também se faz ouvir no interior Lemos no original Foris admonet intus docet Agostinho é um especialista nessa escuta do apelo de Deus Diz ele nas Confissões VII1016 Tu me gritaste de longe e ouvi como se ouve no coração É a escuta dessa voz que nos introduz na verdadeira felicidade 88 1539 Sentido da objeção de Evódio Este texto está em relação com o II614 em que Agostinho apresentava as grandes linhas da questão em debate Naquela passagem Evódio apresentou uma reserva ao argumento de Agostinho Seria preciso provar não somente que existe alguma coisa acima da razão mas que não existe nada que esteja acima dessa realidade Agostinho respondeulhe então que se houvesse um ser acima esse é que seria Deus Mas o que poderia haver acima O presente n 39 retoma a questão e mostra que na realidade a hesitação de Evódio então era inspirada pela fé cristã a qual denomina o Verbo de Sabedoria de Deus e reconhecelhe um Pai Assim Agostinho vai mostrar agora que a Sabedoria é em todos os pontos igual ao Pai e que de qualquer modo Deus existe Ele responde apoiandose na fé porque a objeção fora feita apoiada na fé Mas está bem entendido aí que é uma objeção e não a tese que possui unicamente uma base racional Cf Cayré op cit p 140 89 1539 Apreciação da prova agostiniana da existência de Deus O que dá originalidade e unidade à solução agostiniana ao problema da existência de Deus é a perspectiva em que é considerada Esta é essencialmente interior Com efeito seu princípio inspirador é Noli foras ire in teipsum redi in interiore homine habitat veritas Não saias de ti volta para ti mesmo a verdade habita no homem interior Cf A verdadeira religião 3972 Em conformidade com este princípio Agostinho não procura a solução dos problemas filosóficos no estudo da realidade externa como fizera Aristóteles mas no estudo do mundo interior da mente Sem dúvida o bispo de Hipona como os filósofos gregos concorda que se possa chegar a Deus mediante os indícios cosmológicos Mas ele encontra indícios muito sugestivos da realidade divina no homem mais do que no mundo Na mente humana estão presentes verdades eternas absolutas verdadeiras que nossa mente contingente e mutável não poderia produzir Logo existe Deus razão suficiente dessas verdades Cf B Mondin Curso de filosofia I p 140141 90 1539 Na espiritualidade agostiniana bases de um misticismo natural Agostinho nesta sua obra lança base de autêntico misticismo natural o mais puro e único válido que existe O essencial encontra se nesta afirmação Deus está presente na vida da mente Tal conclusão foi estabelecida através da observação da atividade da mente Nas Confissões Agostinho fala da imanência de Deus em nós associada à sua transcendência Leiase como ele afirma com vigor em formas ricas e enriquecedoras Entrei na sede da própria alma Intravi ad ipsius animis mei sedem X2536 E ainda Onde te encontrei para conhecerte senão em ti mesmo acima de mim In te supra me X2637 No final da presente obra vemos Evódio rezar com fervor à Verdade Quer ele unirse a Deus em sua beatitude Reconhece que a sua própria mente que descobriu a Verdade é impotente para manter essa descoberta de modo estável É necessário o recurso à religião A fé virá ajudar a razão para se ultrapassar Cf Cayré op cit p 141 91 1642 Um pouco de estética agostiniana Já observamos que em Agostinho encontramos a influência da especulação pitagórica sobre os números a sua essência e conexão com o mundo Todos os seres possuem uma estrutura matemática e racional São obra de uma maravilhosa engenharia onde reinam as proporções e a harmonia As coisas todas foram criadas em ordem número e harmonia Por isso o universo é contemplado por Agostinho em suas conexões metafísicas sendo os números um dos mais importantes laços das coisas com a Mente Criadora na qual está o fundamento lógico e primordial do Cosmos Os números isto é as formas proporcionadas das coisas tão ajustadas a seus fins revelam uma estrutura racional e guiam até ao Número eterno à Forma das Formas ou Sabedoria incriada do Criador Cf V Capánaga op cit p 153 É de interesse ler em A verdadeira religião o texto do cap 4074 com a nota correspondente Todo ser tem seus números secretos 92 1644 A doutrina da participação e do exemplarismo A participação tem papel muito universal no agostianismo Mostra estar em Deus o princípio de todas as coisas Tudo vive em sua dependência Assim tudo o que não é Deus ele mesmo participa de Deus seja no plano da existência seja no do conhecimento ou do bem Duas outras doutrinas possuem ainda para Agostinho o valor de princípio pois unem o pensamento humano a Deus de modo muito próximo Uma dessas doutrinas é o exemplarismo No fundo sustenta ela a mesma teoria que a participação mas considerada nas relações de semelhança existente entre as criaturas e o Criador Este é o Exemplar as criaturas as cópias Cf a nota 11 do III513 A outra doutrina célebre na escola agostiniana é a da iluminação Constitui uma particular aplicação da prova de Deus Tratase agora da exemplaridade realizada no espírito que pensa e que conhece a verdade Implica uma intervenção divina especial dotando o espírito da capacidade de conhecer e julgar com certeza que ultrapassa as nossas possibilidades naturais como seres inferiores que somos É uma participação criada à Verdade Perfeita que é Deus Releiase a nota 3 II24 93 1745 Capítulo particularmente rico Vemos aparecer aqui um aspecto novo da grande tese Depois de ter provado a existência de Deus Agostinho nos assinala a presença divina em todas as coisas Deduz uma série de corolários do princípio Deus existe e é o autor de todo o bem Temos neste item páginas de densidade e luminosidade extremas Tais colocações fizeram as delícias dos grandes filósofos escolásticos Eis alguns princípios deduzidos Todo ser mutável é também necessariamente perfectível formabilis isto é capaz de receber o ser uma essência existente Nada pode se aperfeiçoar a si mesmo Ninguém pode se dar a si mesmo o que não possui Todo ser mutável deve receber sua perfeição de uma Perfeição imutável Esta fórmula é uma explícita demonstração do princípio de participação Os seres existentes privados de toda perfeição cairão no nada Agostinho conclui desses princípios expressamente a ação do Deus Criador e da Providência que conserva sua obra Tanto mais que os seres criados não existiriam se a Providência não existisse Cf Cayré op cit pp 143145 94 1746 As ascensões agostinianas Agostinho poderia terse contentado de comprovar sua demonstração da existência de Deus pelo princípio posto acima Tudo o que existe vem de Deus e também pela aplicação dos princípios complementares deduzidos Vemolo porém aqui ir mais longe Distingue três tipos de seres existentes os corpos sem vida os vivos sem razão e os espíritos dotados de vida racional Mostra assim que quer apoiar a sua demonstração não em qualquer ser mas no tipo de ser mais perfeito o espírito Por essa razão a prova agostiniana da existência de Deus é denominada prova da presença de Deus na vida do espírito Na realidade a sua prova é uma ascensão fundamentada no esquema esse vivere intelligere Nós o vimos passar da observação dos sentidos exteriores para o sentido interior deste para a razão para chegar enfim à sabedoria Dito de outro modo pelo que é inferior à razão infra rationem cf II512 613 até atingir a verdade que lhe é superior Notese que Agostinho não procede por abstração mas por graus subindo na observação da hierarquia dos seres De modo tal que o grau superior não suprime os outros Ao contrário supõeos pois se apóia neles O que é menos sustenta o que é mais De outro lado porém o mais contém o que é menos O homem todo encontrase unido na busca do Ser supremo E é essa a sua teoria da subordinação 95 1847 Colocada a 3ª questão É o livrearbítrio um bem No início deste l II 37 Agostinho indicava com clareza as três metas a que se propunha 1º demonstrar a evidência da existência de Deus 2º mostrar que todo bem provém dele 3º que a vontade livre é um bem porque procede de Deus Observa agora que a terceira questão já se encontra resolvida nas conclusões das duas precedentes No fundo tratavase de afastar o escândalo de a vontade livre poder vir a escolher o mal Pois teria sido possível a Deus ter suprimido essa possibilidade e fixado a alma no bem dizia Evódio Responde nosso doutor que tal possibilidade do abuso da liberdade não implica que a vontade livre deixe de ser um bem em si 1848 assim como o mau uso que se possa fazer dos seres corporais não impede que os corpos sejam um bem em si mesmos 96 1847 Passagem reivindicada pelos pelagianos Não se pode agir corretamente a não ser pelo livrearbítrio da vontade Essa passagem é uma daquelas reivindicadas pelos pelagianos em apoio de suas teses Cf na Introdução deste livro o item 8 As Retractationes e o De libero arbitrio onde vêm selecionadas as passagens levantadas por Agostinho como algo das reivindicações pelagianas E como ele as refuta 97 1952 Benefícios da vontade livre É bem manifesto a vontade livre ser um bem 1950 Para nós é o meio de vivermos honestamente praticando as virtudes das quais é ela o sustento imediato O livrearbítrio foi concedido ao homem para que conquistasse méritos afirma Agostinho no Contra Fortunatum maniquaeum 15 É ele o suporte de toda ordem moral o princípio essencial de um mundo de valores superiores A vontade livre leva a unirnos ao Bem imutável Encontramos neste a felicidade conformandonos à luz das virtudes No próximo item Agostinho explicará como a vontade livre obtém os melhores bens ao se voltar para o Bem imutável e pelo contrário como se prejudica quando seu amor é privativo e parcial uma real privação A comunhão com Deus e os outros homens é a nossa autêntica riqueza É só a comunhão na unidade que nos traz a felicidade Nessas explanações podemos constatar mais uma vez o otimismo agostiniano Que se releia o cap 1641 deste l II A Sabedoria revelase em toda parte aos que a procuram 98 1953 O pecado aversão do sumo Bem conversão aos bens inferiores O livrearbítrio é um bem médio pois o seu bom ou mau uso está na dependência da vontade Se a vontade livre adere ao Bem imutável e universal isto é à Verdade para dela gozar então a vontade chega a possuir a vida bemaventurada o que é o Bem supremo do homem Mas a vontade livre pode se afastar desse Bem supremo para gozar de si mesma e das coisas inferiores É isso o que constitui o mal moral e o pecado Aversão do sumo Bem conversão para os bens inferiores Tais são os dois atos livres que decidem nossa felicidade ou infelicidade eternas Cf E Gilson op cit p 190 Ao descrever psicologicamente o mal Agostinho inclui esses dois elementos a aversão da vontade livre do Bem imutável e a conversão aos bens mutáveis Aversio a Deo et conversio ad creaturam No próximo l III cap 2472 ele se referirá às conseqüências da aversão a Deus O Criador deixa à criatura a liberdade de se decidir contra ele Quão grande é a sua onipotência Observemos como neste item Agostinho aborda o tema do particular e do universal A alma que ama só o que lhe é particular cai do universal que é comum a todos ao particular que lhe é próprio Apegase a esses bens como se fossem o todo Ora o universal vem de Deus Identificase com ele Quando o homem não está mais aberto para Deus enfrenta sua própria limitação Depois de se ter afastado de Deus a vontade separatista termina seu percurso caindo no nada Sermo 1423 O pecado tem ligação com o nada Cf Marcel Neusch Augustin un chemin de conversion p 69ss 99 2054 A solução platônica do problema do mal e Agostinho Agostinho expõe nas Confissões VII caps 1012 em que consistia a solução platônica do problema do mal Visão essa que viera a se impor a seu espírito Ensinavam os platônicos que o mal não é um ser mas uma privação um limite ou deficiência E por aí vinha a se tornar até mesmo uma condição para a harmonia universal Mas no ponto de vista moral o mal tinha sua origem na liberdade humana Plotino também explicava assim o mal na sua 3ª Enéades II e III e na 4ª Enéades II 26 Agostinho que foi um adepto da teoria platônica do bem igualmente faz consistir todo o mal na carência do bem Dessa maneira um ser existe tanto menos quanto mais carece de bem Logo o pecado que é uma carência da bondade do livrearbítrio não pode vir de Deus mas de um defeito de ser e do operar É ele verdadeiro nãoser A liberdade de que goza o homem vem a ser a única fonte do mal O mal moral tem pois sua origem numa deficiência da vontade livre porque todo bem por mínimo que seja vem de Deus No início do próximo l III nos caps 1 e 9 Agostinho voltará a desenvolver essas idéias Cf ainda no De Ordine II4 e nas De diversis quaestionibus q 24 e 27 E ainda numa carta a s Jerônimo carta 166513 Aí a ordem estética do universo é posta em plena luz 100 2054 Sem a graça divina ninguém fica livre do mal Agostinho indica este texto em suas Retractationes 96 como sendo uma resposta antecipada aos pelagianos sobre a necessidade da graça Acrescenta ter insistido sobre essa questão nas seguintes passagens além da presente II1950 e no livro II5052 Ensina ele que o próprio livrearbítrio e suas boas ações são o fruto da graça divina Essas afirmações possuem especial interesse também no ponto de vista filosófico Fazemnos penetrar até o cerne na doutrina agostiniana na qual tudo no universo está explicado por sua dependência de Deus Desse modo quanto mais nós dependermos de Deus pela graça tanto mais seremos livres Em outras palavras tanto mais livre é o homem quanto mais opta pelo bem e aproximase dele A verdadeira liberdade não consiste na faculdade de escolher entre o bem e o mal e sim no poder voltarse para o bem e renunciar ao mal No De correptione et gratia 32 diz Agostinho Pois não é o livrearbítrio ainda mais livre quando não pode servir ao pecado LIVRO III LOUVOR A DEUS PELA ORDEM UNIVERSAL DA QUAL O LIVRE ARBÍTRIO É UM ELEMENTO POSITIVO AINDA QUE SUJEITO AO PECADO INTRODUÇÃO 113 Capítulo 1 O movimento culpável da vontade que se afasta de Deus vem do livrearbítrio 1 Ev Vejo já claramente que é preciso contar a vontade livre entre os bens e não dos menores Portanto precisamos reconhecer a vontade como dom de Deus e quanto foi conveniente ela nos ter sido dada Nessas condições desejo agora saber de ti caso o julgues oportuno de onde procede a inclinação pela qual a mesma vontade afastase daquele Bem universal e imutável para se voltar em direção a bens particulares alheios e inferiores todos aliás sujeitos a mutações Ag E o que te parece necessário saber Ev O seguinte uma vez que a vontade nos foi dada de tal forma que essa inclinação aos bens inferiores lhe seja natural então ela tem necessariamente de se voltar para tais bens Ora não se pode descobrir culpa alguma onde a necessidade e a natureza dominam Ag Julgas que esse movimento é bom ou não Ev Acho mal Ag Então tu o condenas Ev Por certo eu o condeno Ag Logo condenas um movimento que não é culpável para a alma Ev Não condeno um movimento não culpável para a alma mas ignoro se não existe alguma culpa no fato de alguém abandonar o Bem imutável para se voltar para as coisas mutáveis Ag Condenas então o que ignoras Ev Não me impugnes com palavras Eu disse Ignoro se não existe alguma culpa para dar a entender que sem dúvida há uma culpa Com efeito pela palavra dita Ignoro por certo declarei suficientemente ridícula uma dúvida a respeito de coisa tão evidente Ag Considera pois que verdade tão certa será essa que te levou a esquecer assim rapidamente o que afirmaste há pouco Com efeito se esse movimento de se voltar para os bens mutáveis existe vindo da natureza ou devido à necessidade ele não pode de modo algum ser culpável Ora tu o consideras agora como culpável com firmeza tão absoluta que crês até ser digno de zombaria qualquer dúvida a respeito de coisa tão certa Por que então pareceu a ti que era preciso afirmar ou pelo menos exprimir sob forma duvidosa o que tu mesmo estás convencido de ser manifestamente falso Na realidade disseste se a vontade livre nos foi dada de tal forma que esse movimento lhe é natural então voltase ele necessariamente para tais bens mutáveis e não se pode reconhecer falta alguma onde a natureza e a necessidade dominam Entretanto a vontade não nos foi dada dessa forma e disso não deverias duvidar de modo algum já que não duvidas que tal movimento é culpável Ev Eu disse considerar esse mesmo movimento culpável e ser por isso que ele me desagradava Não posso duvidar que não seja repreensível Mas nego que a alma levada por qualquer movimento que a distancie do Bem imutável em direção às coisas mutáveis possa ser culpada caso seja ela impulsionada necessariamente por sua própria natureza101 2 Ag Pertence a quem esse movimento que concordas certamente deve ser culpável Ev Vejo que o sinto na alma mas não sei a quem hei de o atribuir Ag Negas porventura ser a alma movida por esse movimento Ev Não o nego Ag Negas portanto que o movimento pelo qual uma pedra é movida pertence à mesma pedra Pois não falo é claro daquele movimento pelo qual movemos uma pedra ou daquele que ela recebe de alguma força estranha como por exemplo quando é lançada ao ar Mas sim daquele outro movimento pelo qual ela volta para a terra em virtude de seu próprio peso e aí cai Ev Não nego é verdade que o movimento pelo qual a pedra é impelida como o dizes e cai para baixo não lhe pertença mas isso lhe é natural Se a alma possuir dessa mesma forma seu movimento para as coisas inferiores evidentemente este também lhe será natural e não se poderá censurar com razão o fato de ela seguir um movimento próprio à sua natureza Porque mesmo se ela o seguisse para sua própria perda seria constrangida pela necessidade da natureza Assim pois se não hesitamos de declarar culpável esse movimento na alma para isso é preciso que neguemos absolutamente que ele lhe seja natural Por conseguinte tal movimento não se assemelha àquele que move a pedra que cai naturalmente Ag Pergunto acaso teremos chegado a algo conclusivo nos dois diálogos precedentes Ev Evidentemente Ag Penso portanto que tu te lembras como em nosso primeiro diálogo I1121 ficou suficientemente estabelecido que nada pode sujeitar o espírito à paixão a não ser a própria vontade Porque nem um agente superior nem um igual podem constrangêla a esse vexame visto que seria injustiça Tampouco um agente inferior porque esse não possui poder para tal Resta portanto que seja próprio da vontade aquele movimento pelo qual ela se afasta do Criador e dirigese às criaturas para usufruir delas Se pois ao declarar esse movimento culpável e para ti apenas duvidar disso parecia irrisório certamente ele não é natural mas voluntário Aliás assemelhase de fato ao movimento que arrasta a pedra para baixo sob este aspecto que assim como tal movimento é próprio da pedra assim também é próprio da alma Mas diferenciase nisto que a pedra não possui o poder de reter o movimento que a arrasta e ela pode não o querer Ela não é arrastada ao abandono dos bens superiores para escolher os inferiores Assim o movimento da pedra é natural e o da alma voluntário102 Tanto assim que se fosse dito a pedra cometer pecado porque por seu próprio peso ela tende para baixo seríamos julgados não digo mais estúpidos do que uma pedra mas indiscutivelmente uns loucos Ao contrário podemos acusar a alma de pecado quando verificamos que claramente ela prefere os bens inferiores em abandono dos superiores Ainda nos será necessário investigar de onde procede esse movimento que desvia a vontade do Bem imutável para os bens mutáveis já que reconhecemos que ele procede da própria alma e é ademais voluntário e por aí culpável Assim todo ensinamento a esse respeito deve ter como meta condenar e reprimir tal movimento da queda para os bens mutáveis e orientar nossa vontade a escolher os bens eternos conduzindoa ao gozo do Bem imutável 3 Ev Vejo e por assim dizer toco e percebo a verdade do que dizes Pois não sinto nada de mais firme e mais íntimo do que o sentimento de possuir uma vontade própria e de ser por ela levado a gozar de alguma coisa Ora não encontro realmente o que chamaríamos de meu a não ser a vontade pela qual quero e não quero E já que por seu intermédio eu cometo o mal a quem atribuir a não ser a mim mesmo Certamente quem me fez é um Deus bom e como não posso praticar nenhuma boa ação a não ser por minha vontade fica pois bastante claro que é acima de tudo para fazer o bem que a vontade me foi dada por esse Deus tão bom Quanto ao movimento pelo qual a vontade se inclina de um lado e de outro se não fosse voluntário e posto em nosso poder o homem não seria digno de ser louvado quando sua vontade se orienta para os bens superiores tampouco ser inculpado quando girando por assim dizer sobre si mesmo inclinase para os bens inferiores Nesse sentido não se deveria exortar a desprezar os bens transitórios para adquirir os bens eternos E a renunciar à má vida para viver honestamente Ora quem quer que estime não haver motivo para serem dadas aos homens essas espécies de advertência merece ser excluído do número dos viventes PRIMEIRA PARTE 24411 CONCILIAÇÃO ENTRE O PECADO E A PRESCIÊNCIA DE DEUS Capítulo 2 Objeção não acontece necessariamente o que Deus prevê 4 Ev Assim sendo sintome sumamente preocupado com uma questão como pode ser que pelo fato de Deus conhecer antecipadamente todas as coisas futuras não venhamos nós a pecar sem que isso seja necessariamente De fato afirmar que qualquer acontecimento possa se realizar sem que Deus o tenha previsto seria tentar destruir a presciência divina com desvairada impiedade É porque se Deus sabia que o primeiro homem havia de pecar o que deve concordar comigo todo aquele que admite a presciência divina em relação aos acontecimentos futuros se assim se deu eu não digo que por isso ele não devesse ter criado o homem pois o criou bom e o pecado em nada pode prejudicar a Deus Além do que depois de Deus ter manifestado toda a sua bondade criandoo manifestou sua justiça punindo o pecado e ainda sua grande misericórdia salvandoo Desse modo não digo que ele não devia ter criado o homem mas já que previra seu pecado como futuro afirmo que isso devia inevitavelmente realizarse Como pois pode existir uma vontade livre onde é evidente uma necessidade tão inevitável Condições para o entendimento do problema crer na Providência e cultivar sentimentos de piedade 5 Ag Insististe com veemência Que a misericórdia de Deus nos venha em ajuda e abra a porta a nós que nela batemos Contudo eu acreditaria facilmente que se os homens em sua maioria são atormentados por essa questão o único motivo é que eles não procuram a solução com piedade E estão mais prontos a se desculparem do que a se acusarem de seus pecados Com efeito alguns admitem de bom grado que nenhuma Providência divina preside as coisas humanas E assim abandonando ao destino sua alma e corpo entregamse a toda espécie de vícios que os golpeiam e despedaçam Negando os julgamentos de Deus e menosprezando os dos homens crêem livrarse dos que os acusam apelando para a proteção da sorte Acostumaramse a representar essa sorte pintandoa como pessoa cega Assim pensam ter eles mesmos mais valor do que ela pela qual se crêem governados Ou então confessam partilhar sua cegueira ao sentir e falar dessa maneira Poderseia sem absurdo conceder a tais pessoas que todas as suas atividades são uma seqüência de acasos visto que caem em cada uma de suas ações103 Contra essa opinião porém cheia de erros loucos e insensatos creio que já tratamos suficientemente em nosso segundo diálogo cf II1745 Há outras pessoas que sem ousar negar que a Providência de Deus governa a vida humana preferem crer entretanto por erro ímpio que essa Providência é impotente injusta até mesmo má Isso ao invés de confessarem os seus próprios pecados com piedade suplicante Não obstante se todas essas pessoas se deixassem persuadir pensando no melhor dos Seres o mais justo e poderoso creriam que a bondade a justiça e o poder de Deus são bem maiores e mais elevados do que todas as concepções do próprio espírito Caso se vissem obrigadas a considerarse a si mesmas entenderiam que deveriam render graças a Deus mesmo se ele tivesse querido lhes dar uma natureza inferior àquela que possuem Exclamariam elas no mais íntimo de sua consciência Eu dizia Senhor tende piedade de mim curai minha alma porque pequei contra vós Sl 405 Essas pessoas seriam então conduzidas ao templo da sabedoria pelos caminhos seguros da misericórdia divina E sem conceber orgulho algum por suas descobertas nem perturbação alguma diante do que lhes falta entender tornarseiam pela ciência mais aptas à contemplação E reconhecendo sua ignorância mais pacientes para tentar novas investigações Quanto a ti porém Evódio não duvido de estares persuadido de tudo isso Considera com quanta facilidade poderei agora te responder sobre problema tão grande depois de me teres respondido a algumas poucas questões Capítulo 3 A presciência divina longe de destruir o ato livre exige a sua existência 6 Ag Com efeito eis o que é causa de preocupação e admiração como não admitir contradição e repugnância no fato de Deus por um lado prever todos os acontecimentos futuros e por outro nós pecarmos por livre vontade e não por necessidade Tu dizes realmente se Deus prevê o pecado do homem este há de pecar necessariamente Ora se isso é necessário não há portanto decisão voluntária no pecado mas sim irrecusável e imutável necessidade E desse raciocínio receias precisamente chegarmos a uma das duas seguintes conclusões ou negar em Deus impiamente a presciência de todos os acontecimentos futuros ou bem caso não possamos negálo de admitir que pecamos não voluntária mas necessariamente Mas haverá outro motivo de tua perplexidade Ev Não nada mais no momento Ag Então tudo o que Deus prevê acontece ao teu parecer necessariamente e não de modo voluntário ao homem Ev É bem essa a minha opinião Ag Desperta enfim e após refletir um pouco dentro de ti dizeme se puderes que tipo de atos de vontade terás amanhã o de pecar ou de agir corretamente Ev Não o sei Ag O que dizes E Deus mesmo pensarás que também o ignora Ev Nunca pensaria isso Ag Logo se ele conhece qual deve ser a tua vontade de amanhã igualmente prevê qual a vontade de todos os homens quer os existentes quer os que virão a existir Com maior razão prevê sua própria conduta em relação aos justos e aos ímpios Ev Certamente se digo que Deus tem a presciência de minhas ações direi com maior segurança que ele também tem a presciência das suas próprias e assim prevê com absoluta certeza o que fará Ag Ora acaso tu não temes dizer que Deus fará também todas as suas obras por necessidade e não voluntariamente visto haver de acontecer tudo o que Deus prevê necessária e não livremente Ev Ao dizer que todos os acontecimentos previstos por Deus acontecem necessariamente eu tinha só em mente aqueles que acontecem com os seres criados e não os que acontecem com ele mesmo Com efeito esses na realidade não acontecem pois são eternos Ag Então Deus não atua sobre as suas criaturas Ev Ele estabeleceu uma vez por todas como deve decorrer a ordem do universo que criou e nada dispõe com novo querer Ag Acaso não cria o Criador ninguém feliz Ev Certamente o cria Ag E ele o faz por certo no momento em que essa pessoa se torna feliz Ev Assim é Ag Se pois por exemplo tu deves te tornar feliz daqui a um ano só será daqui a um ano que serás feliz Ev Sim Ag Nesse caso Deus prevê hoje o que farás daqui a um ano Ev Sempre o previu e ainda agora o prevê E admito que assim deve suceder no futuro 7 Ag Peçote que me digas não és tu uma criatura de Deus e a tua felicidade não há de se realizar em ti Ev Por certo eu sou não só sua criatura como é em mim mesmo que se realizará a minha felicidade Ag Mas então não será voluntária mas necessariamente que a tua felicidade realizarseá em ti por disposição de Deus Ev A vontade de Deus constitui para mim uma necessidade Ag Então serás feliz contra tua vontade Ev Ah Se estivesse em meu poder o ser feliz sem dúvida alguma eu o seria desde agora E se não o sou é porque não sou eu mas ele que me torna feliz Ag De modo maravilhoso a verdade se manifestou por tua voz Pois não poderias de fato encontrar nada que esteja em nosso poder senão aquilo que fazemos quando o queremos Eis por que nada se encontra tão plenamente em nosso poder do que a própria vontade Pois esta desde que o queiramos sem demora estará disposta à execução104 Assim podemos muito bem dizer não envelhecemos voluntariamente mas por necessidade Ou não morremos voluntariamente mas por necessidade E outras coisas semelhantes Contudo que não queiramos voluntariamente aquilo que queremos quem mesmo em delírio ousaria afirmar tal coisa É porque ainda que Deus preveja as nossas vontades futuras não se segue que não queiramos algo sem vontade livre Pois ao dizer a respeito da felicidade que tu não te tornas feliz por ti mesmo disseste isso como se talvez o tivesse negado Ora o que eu disse foi quando chegares a ser feliz tu não o serás contra a tua vontade mas sim querendoo livremente Pois se Deus prevê tua felicidade futura e nada te pode acontecer senão o que ele previu visto que caso contrário não haveria presciência Todavia não estamos obrigados a admitir a opinião totalmente absurda e muito afastada da verdade que tu poderás ser feliz sem o querer Ora a vontade de ser feliz que terás quando começares a sêlo certamente não te é tirada pela presciência de Deus que já desde hoje voltase com certeza sobre tua felicidade futura Assim também a vontade culpável se acaso estiver em ti não deixará de ser vontade livre pelo fato de ter Deus previsto a existência futura dela105 8 Ag Considera agora eu te rogo com quanta cegueira dizem Se Deus previu minha vontade futura visto que nada pode acontecer senão o que ele previu é necessário que eu queira o que ele previu Ora se isso fosse necessário não seria mais voluntariamente que eu quis forçoso é reconhecêlo mas por necessidade Ó insólita loucura Pois como não pode acontecer nada se não o que foi previsto por Deus a vontade da qual ele previu a existência futura é vontade livre Desprezo igualmente outra afirmação monstruosa como a que acabo de atribuir àquele mesmo opositor que diz É necessário que eu queira de determinado modo Pois por aí pelo fato de essa pessoa supor a necessidade de querer de certo modo ela tenta eliminar a mesma vontade livre Já que lhe é inevitável querer dessa maneira de onde tirará ela o seu querer visto que não haverá mais o ato livre da vontade E se esse homem afirmar que não quis dizer isso contudo ao dizer que visto haver necessidade de querer a vontade não possui mais aquele seu poder de liberdade então poderá ele ser refutado com o que tu mesmo respondeste quando te perguntei se era contra tua vontade que havias de te tornar feliz Com efeito respondesteme que serias logo feliz se tivesse tal poder porque tinhas a vontade mas não a possibilidade conforme disseste Ao que eu acrescentei que essa era a exclamação mesma da verdade provinda de tua voz cf 37 Realmente não podemos negar que algo não está em nosso poder quando aquilo que queremos não se encontra à nossa disposição Entretanto quando queremos se a própria vontade nos faltasse evidentemente não o quereríamos Mas se por impossível acontecer que queiramos sem o querer está claro que a vontade não falta a quem quer E nada mais está tanto em nosso poder quanto termos à nossa disposição o que queremos Conseqüentemente nossa vontade sequer seria mais vontade se não estivesse em nosso poder106 Ora por isso mesmo por ela estar em nosso poder é que ela é livre para nós Pois é claro que aquilo que não é livre para nós é o que não está em nosso poder ou que não se encontra à nossa disposição Eis por que sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros entretanto nós queremos livremente aquilo que queremos Porque se o objeto da presciência divina é a nossa vontade é essa mesma vontade assim prevista que se realizará Haverá pois um ato de vontade livre já que Deus vê esse ato livre com antecedência E por outro lado não seria ato de nossa vontade se ele não devesse estar em nosso poder Portanto Deus também previu esse poder Logo essa presciência não me tira o poder Poder que me pertencerá tanto mais seguramente quanto mais a presciência daquele que não pode se enganar previu que me pertenceria Ev Eis que agora não nego mais antes admito que tudo o que Deus previu acontece necessariamente Mas se ele previu os nossos pecados foi de tal forma que haveríamos de guardar nossa vontade E esta não deixa de ser livre e estar sempre posta sob nosso poder107 Capítulo 4 Obscuridade da relação entre presciência divina e liberdade humana 9 Ag O que então te embaraça ainda Talvez esqueceste as conclusões de nosso primeiro diálogo cf III 123 e por isso negas que sem sermos forçados por ninguém nem por agente superior nem por inferior nem por igual não pecamos senão por nossa própria vontade Ev Não ouso negar nenhuma dessas verdades Entretanto confesso que não vejo ainda como não se contradizem estes dois fatos a presciência divina de nossos pecados e a nossa liberdade de pecar Porque enfim Deus é justo É preciso reconhecêlo E ele prevê tudo Mas quisera saber em virtude de que justiça ele castiga os pecados que não podem deixar de acontecer Ora como o que ele previu não pode deixar de acontecer necessariamente como não se há de atribuir ao Criador o que em suas criaturas inevitavelmente acontece Resposta prever não é forçar 10 Ag Conforme teu aparecer de onde vem a oposição a nosso livrearbítrio em face à presciência de Deus Da presciência ou do caráter divino dessa presciência Ev Sobretudo por ser presciência de Deus Ag Então se fosses tu a prever com alguma certeza que alguém haveria de pecar não seria necessariamente que ele haveria de pecar Ev Ao contrário seria necessário que ele viesse a pecar De outra maneira minha previsão não seria uma presciência por não se referir a fatos verídicos Ag Nesse caso se as coisas previstas acontecem necessariamente não é porque a presciência é de Deus mas somente porque há uma presciência Porque se a coisa prevista não fosse certa não haveria presciência Ev De acordo mas aonde tudo isso nos levará Ag Se não me engano não se segue da tua previsão que tu forçarias a pecar aquele de quem previste que haveria de pecar nem a tua presciência mesma o forçaria a pecar Ainda que sem dúvida ele houvesse de pecar pois de outra forma não terias tido a presciência desse acontecimento futuro Assim também não há contradição a que saibas por tua presciência o que outro realizará por sua própria vontade Assim Deus sem forçar ninguém a pecar prevê contudo os que hão de pecar por própria vontade 11 Ag Por que pois como justo juiz não puniria ele os atos que sua presciência não forçou a cometer Porque assim como tu ao lembrares os acontecimentos passados não os força a se realizarem assim Deus ao prever os acontecimentos futuros não os força E assim como tens lembrança de certas coisas que fizeste todavia não fizeste todas as coisas de que te lembras do mesmo modo Deus prevê tudo de que ele mesmo é o autor sem contudo ser o autor de tudo o que prevê Mas dos atos maus de que não é o autor ele é o justo punidor Compreende destarte com que justiça Deus pune os pecados pois ainda que os sabendo futuros ele não é quem os faz Porque se não tivesse de castigar os pecadores porque prevê os seus pecados ele não teria tampouco de recompensar os que procedem bem Visto que não deixa de prever tampouco as suas boas ações Reconheçamos pois pertencer à sua presciência o fato de nada ignorar dos acontecimentos futuros E também visto o pecado ser cometido voluntariamente ser próprio de sua justiça julgálo e não deixar que seja cometido impunemente já que a sua presciência não os forçou a serem cometidos SEGUNDA PARTE 5121646 RELAÇÕES ENTRE O PECADO E A PROVIDÊNCIA DIVINA A REGRA FUNDAMENTAL LOUVAR A DEUS POR TER DADO O SER ÀS CRIATURAS RACIONAIS AINDA QUE PECADORAS Capítulo 5 Louvemos a Deus por todas as obras criadas as superiores como as inferiores 12 Ag Quanto à tua terceira pergunta Como é possível não atribuir ao Criador tudo o que em suas criaturas acontece necessariamente108 Temos um esclarecimento fácil nesta regra de piedade a qual convém lembrarmos É para nós um dever de sempre darmos graças a nosso Criador Certamente será muito justo louválo por sua bondade tão generosa mesmo no caso de ele nos criar entre seres de alguma forma inferiores Pois nossa alma mesmo corrompida por pecados será contudo sempre mais nobre e melhor do que se fosse por exemplo esta luz material visível Entretanto tu mesmo vês quantos louvores são atribuídos a Deus pela excelência da luz até pelos que vivem entregues aos sentidos do corpo Logo pelo fato de serem as almas pecadoras censuradas não fiques perturbado a ponto de dizeres em teu coração Seria melhor para elas que não existissem Pois saibas que é comparando a elas mesmas que as condenas pensando no que seriam se não tivessem cometido pecado algum Todavia Deus seu Criador não é menos digno dos mais magníficos louvores de que o homem é capaz de lhe atribuir E isso não somente por têlas mantido na ordem por ele estabelecida em toda justiça mesmo sendo pecadoras mas também por têlas criado em tal dignidade que ainda manchadas pelo pecado elas não cedem em nobreza de modo algum à luz material pela qual justamente o louvamos109 13 Eis aqui ainda outro conselho toma cuidado para não dizeres Seria melhor se estas coisas não existissem mas de preferência Elas poderiam ter sido constituídas de outro modo Pois tudo o que a razão apresenta com verdade como sendo melhor saiba que Deus o fez sendo ele o autor de todos os bens110 Ora não é mais uma razão verdadeira mas uma mesquinha inveja o fato de não se querer admitir que tendo pensado que uma coisa melhor deveria ter sido produzida nada de menos bom seja feito Como por exemplo se tendo visto o céu não quisesses que a terra fosse criada Ora isso seria uma total iniqüidade Tua censura sem dúvida seria justa caso visses que o céu tendo sido omitido na série de seres a terra tenha sido produzida Pois poderias dizer que ela deveria ter sido feita conforme a idéia que pudeste conceber do céu Então quando tivesses visto realizado o céu naquele grau de perfeição ao qual querias levar a terra ele te pareceria claramente produzido sob o nome de céu e não sob o de terra Julgo que tu não estando privado de algo melhor de modo algum deverias achar mal a produção de outra realidade inferior neste caso a existência da terra Por sua vez esta mesma terra apresenta em todas as suas partes tal variedade que nada pode se oferecer a quem reflete sobre os elementos de sua beleza que não seja em toda a sua totalidade produzida por Deus autor de todas as coisas Com efeito da parte mais fértil e aprazível da terra até à mais árida e estéril passase por graus tão bem dispostos que não ousarias dizer que nenhuma dessas partes é má a não ser comparada a outra melhor E assim sobes no louvor por todos os degraus Entretanto isso de maneira que ao se encontrar no ápice na melhor espécie de terra não possas querer que ela seja a única Ora entre toda a terra e o céu qual não é a distância Entre eles com efeito interpõemse os corpos úmidos e os gasosos E a partir desses quatro elementos terra céu água e ar resulta outra infinita variedade de formas e espécies que só Deus pode enumerar Pode pois conforme isso existir na natureza certas coisas que tua razão não consegue conceber Mas que algo concebido por tua razão dotado de verdadeira idéia não exista isso não é possível Pois tu não podes conceber uma coisa melhor entre os seres criados que tenha escapado ao autor da criação Com efeito a alma humana está em união natural com os exemplares divinos111 dos quais ela depende Assim quando afirma Seria melhor ter sido feito isto em vez daquilo diz uma verdade e a alma vê o que diz Ela a vê nesses exemplares aos quais está ligada Logo que creia que Deus fez tudo o que ela por sua razão dotada de verdade mostrar que ele deveria ter feito mesmo se ela não o vê como uma realidade entre as coisas realizadas Porque mesmo se ela não pudesse ver o céu com os seus olhos e entretanto concluísse por sua razão dotada de verdade que tal coisa deveria ter sido feita ela deveria crer em sua existência Onde veria ela com efeito por seu pensamento que essa criatura deveria ter sido feita a não ser nesses exemplares conforme os quais tudo foi feito Quanto às coisas que não se encontram nesses exemplares ninguém pode concebêlo como verídico na medida mesma em que estão desprovidas de verdadeira realidade A vontade mesmo pecadora é um bem 14 Constitui um erro comum à maioria dos homens quando ao conceber em seu espírito a existência de realidades melhores não as procura com os olhos corporais em seus lugares próprios Seria por exemplo como se alguém percebendo pela razão a perfeita redondeza do círculo se irritasse por não o encontrar em uma noz caso ainda não tivesse visto nenhum outro corpo redondo além dessa fruta Semelhantes a esse homem são aqueles que vêem em sua mente por uma idéia verdadeira que uma criatura seria melhor se mesmo dotada de vontade livre ficasse sempre fixa em Deus sem nunca haver de pecar E de outro lado ao constatar os pecados dos homens se contristassem não de que eles continuem a pecar mas de que tenham sido criados em condição de poder pecar Dizem Deus deveria nos ter criado de tal modo que sempre quiséssemos gozar de sua imutábel verdade sem jamais aceitar o pecado Que cessem esses lamentos e não censurem ao Criador Pois criandoos Deus não os forçou a pecar visto que lhes deu o poder de os cometer ou não caso o quisessem E por outro lado não existem os anjos que nunca pecaram nem pecarão jamais Na verdade se te comprazes com uma criatura cuja vontade persevera até o fim sem pecar certamente tens razão de a preferir àquela que peca Mas assim como tu a preferes em teu pensamento assim também Deus seu Criador a prefere na ordem das coisas Crês na existência de tal criatura a qual se encontra no grau supremo dos seres e no mais alto dos céus Porque se o Criador manifestou sua bondade produzindo uma criatura de quem previa os pecados futuros como não teria podido manifestar também sua bondade produzindo aquela de quem previa igualmente não dever jamais pecar112 15 Essa tão sublime criatura a mais elevada de todas está na posse definitiva de sua felicidade Pois goza para sempre de seu Criador como o merece por sua vontade indefectível de se manter sempre unida à justiça Mas abaixo dela a criatura pecadora possui o lugar que lhe compete pelo princípio da ordem Ela perdeu a bemaventurança pecando mas não pôde perder a possibilidade de a recuperar Essa criatura está acima certamente daquela outra que permanece para sempre obstinada em sua vontade de pecar Entre esta última e aquela primeira que permanece fixa em sua vontade de não se separar da justiça a segunda representa uma espécie de meio termo pois pode recobrar sua grandeza pela humildade da penitência Ora mesmo quanto àquela criatura sobre a qual Deus previu não somente que ela pecaria mas ainda que perseveraria em sua vontade de pecar nem dela Deus afastou a efusão de sua bondade deixandoa de criar Pois do mesmo modo que um cavalo que se extravia é melhor do que uma pedra que não pode se extraviar ficando sempre em seu lugar próprio por faltarlhe movimento e sensibilidade assim uma criatura que peca por sua vontade livre é melhor do que aquela outra que é incapaz de pecar por carecer dessa mesma vontade livre De igual maneira eu louvarei o vinho coisa boa em seu gênero e censuraria o homem que tivesse se embriagado com esse mesmo vinho E contudo esse homem que eu censurei e que se encontra embriagado eu o preferiria ao vinho que enalteci e com o qual ele se embriagara Acontece o mesmo com as criaturas materiais Cada ser com todo direito é digno de louvor conforme seu grau de perfeição enquanto se deve censurar os que abusam e assim afastam seu olhar da percepção da verdade E contudo esse seres mesmo corrompidos e como que em estado de embriaguez não por motivo de seus vícios mas devido ao que conservam da dignidade de sua natureza permanecem preferíveis àqueles outros simplesmente materiais A excelência das almas espirituais 16 Assim pois qualquer alma vale mais do que todo ser corporal e nenhuma alma pecadora seja qual for a profundidade de sua queda por mudança alguma tornase jamais um corpo Nem se pode retirarlhe nada da perfeição que faz dela uma alma Portanto ela conservará sempre sua superioridade sobre o corpo Ora entre os corpos materiais a luz ocupa o lugar mais excelente Seguese que a última das almas deve ser colocada acima desse principal ser entre os corpos materiais Pode acontecer que certo corpo prevaleça sobre outro naturalmente unido a uma alma mas ele de modo algum pode estar acima de alma alguma Por que motivo então não se há de bendizer a Deus e glorificálo com inefáveis louvores quando tendo criado almas destinadas a perseverar na observância das leis da justiça nosso Criador deu a vida também a outras almas que ele previu haver de pecar e mesmo perseverar em seu pecado Visto que estas últimas almas são ainda superiores em bondade aos seres animados que são incapazes de pecar seja por falta de razão seja por carecer do livrearbítrio da vontade E além disso as almas mesmo impenitentes são ainda mais nobres e excelentes do que qualquer brilho esplêndido dos corpos luminosos Esses que muitos homens cometem o erro grosseiro de venerar como sendo a substância própria de Deus altíssimo113 Ora no mundo dos seres corpóreos desde a harmonia das constelações siderais até ao número de nossos cabelos encontrase a bondade e a perfeição de todas as coisas ordenadas de modo tão gradual e maravilhoso que seria grande ignorância perguntar O que é isto Para que serve aquilo Porque cada ser foi criado dentro de sua ordem correspondente Sendo assim quanto mais dará prova de ignorância quem perguntar o mesmo em relação a qualquer alma Pois esta por mais que se tenha degenerado da beleza a que chegara e tenha caído em algum defeito estará sempre sem dúvida alguma em dignidade muito acima do que todos os corpos materiais Julgamentos incorretos e o certo conforme a razão 17 Com efeito um é o julgamento da razão e outro bem diferente o do próprio interesse pessoal A razão aprecia segundo a luz da verdade e assim subordina as coisas inferiores às superiores conforme um julgamento correto Mas o interesse pessoal inclinase mais freqüentemente a julgar conforme a vantagem que lhe proporcionam as coisas a ponto de fazer maior caso de coisas que a razão demonstra serem de menor valor Por exemplo enquanto a razão coloca os corpos celestes bem acima dos corpos terrestres não obstante acontece que o homem carnal prefira ver até mesmo o céu privado de diversos astros a ter o seu campo privado de um só arbusto ou o seu rebanho de uma única vaca Vemos as pessoas adultas desprezarem por completo ou pelo menos esperarem pacientemente que o tempo corrija os julgamentos das crianças Pois estas exetuando algumas pessoas em cujo amor se comprazem preferem que morra qualquer homem mais do que um passarinho seu E muito mais se esse tal homem lhes causa medo e o seu passarinho for belo e canoro Semelhantemente as pessoas em cuja alma já surgiu a sabedoria encontramse habitualmente com homens que não sabendo julgar as coisas conforme a razão louvam a Deus pelas criaturas ínfimas por serem estas mais adaptadas a seus sentidos carnais enquanto abstêmse de louválo ou louvam pouco pelas criaturas superiores e portanto mais excelentes Encontramse também com outras certas pessoas que ousam até censurar a Deus e corrigilo e até mesmo recusamse de crer que ele seja o autor dos seres inferiores Devem os sábios habituaremse a desprezar totalmente os julgamento de tais indivíduos Mas caso não consigam corrigilos enquanto esperam sua correção toleremnos e suportemnos pacientemente Capítulo 6 Não atribuir a Deus a causa do pecado 18a Nessas condições as pessoas afastamse muito da verdade ao supor que têm direito de atribuir ao Criador os pecados das criaturas dizendo que aquilo que Deus previu como futuro deva acontecer necessariamente Longe da verdade também estavas tu ó Evódio114 ao dizeres que não compreendias como não atribuir ao Criador o que em sua criatura acontece necessariamente Eu pelo contrário não encontro e mesmo certifico de que não existe nem pode existir meio de atribuir a Deus o que em suas criaturas acontece necessariamente Ao contrário que tudo se realiza de tal forma que sempre fica intacta a vontade livre do pecador B OBJEÇÃO E O DESEJO DA PRÓPRIA MORTE Ninguém quer deixar de existir 18b Realmente se alguém me dissesse Gostaria mais de não existir do que de ser infeliz na vida responderlheia Mentes Pois neste mesmo momento és infeliz e entretanto não queres morrer senão em vista de existires Assim sem quereres ser infeliz queres apesar disso viver Dá portanto graças a Deus de que existes conforme o teu querer a fim de seres libertado daquilo que és contra a tua vontade Pois existes voluntariamente e és infeliz contra tua própria vontade Ora se és ingrato pelo que és voluntariamente com razão serás forçado a ser o que não queres isto é infeliz Pois bem eu louvo a bondade do Criador de que mesmo ingrato tu possuis o que queres e louvo a justiça do divino Ordenador pelo fato de que possuis os dissabores mesmo sem o quereres devido à tua ingratidão115 Louvar a Deus por sua bondade e justiça 19 E se essa mesma pessoa me replicasse dizendo Se eu não quero morrer não é precisamente por amar mais ser infeliz do que não existir em absoluto Mas é por recear ser mais infeliz ainda depois da morte Então eu haveria de responder Se tal estado fosse injusto esse não seria o teu Se porém fosse justo louvemos Aquele cujas leis te são impostas E caso ela insistisse ainda E como poderei pensar que se tal estado fosse injusto não seria o meu Eu explicarlheia Pelo seguinte caso dependa de teu próprio poder ou não serás infeliz ou então por te comportares sem justiça serás justamente infeliz Se ao contrário querendo te comportar com justiça e não o conseguindo então não dependerias de ti mesmo Estarias assim ou sob o poder de outra pessoa ou mesmo não dependendo de ninguém Ora isso seria voluntariamente ou contra tua vontade porque não podes estar assim contra teu querer a não ser que estejas vencido por alguma força exterior e superior Ora aquele que não está sob o poder de ninguém não pode ser vencido por força estranha alguma Mas se é voluntariamente que não estás sob o poder de ninguém isso quer dizer que estás sob o teu próprio poder Então se te comportas sem probidade serás com razão infeliz E então o que for que te aconteça será por tua vontade Encontrarás nisso ainda motivos para dar graças à bondade de teu Criador E no caso de não te sentires sob teu próprio poder será um ser mais fraco que tu ou um mais forte que te manterá sob sua dependência Se for um ser mais fraco isso será por tua culpa e assim tua infelicidade será justa porque poderias vencer algo mais fraco caso o quisesses Mas se for alguém mais forte que retém tua fraqueza sob seu poder essa situação é tão razoável que não terias motivo algum para considerála injusta Portanto é plena verdade o que te dizia Se esse teu estado fosse injusto não seria o teu Se porém fosse justo louvemos Aquele por cujas leis tu te encontras nesse estado Capítulo 7 A existência é amada porque vem do sumo Ser 20 Se todavia alguém me disser Se embora sendo infeliz prefiro existir a não existir de modo algum é porque acontece que atualmente eu existo Entretanto se tivesse podido ter sido consultado antes de existir teria escolhido não existir a viver de um modo infeliz Com efeito agora este meu receio de perder a existência apesar de ser infeliz é efeito da minha miséria que me impede de querer o que na verdade deveria pretender Pois na presente condição deveria preferir o nãoser a uma existência infeliz Agora confesso que prefiro a existência mesmo infeliz ao nãoser Mas essa vontade é tanto mais insensata quanto mais miserável e é tanto mais miserável quanto vejo com maior verdade que não a deveria querer Responderia a essa pessoa Toma cuidado em não te enganares lá mesmo onde julgas estar com a verdade Pois se fosses feliz gostarias certamente antes existir do que não existir E agora que existes mesmo infeliz preferes ainda existir infeliz que sejas a não existir em absoluto embora recusandote a ser infeliz Considera pois o quanto podes quão excelente bem é a existência em si mesma objeto do querer dos felizes e dos infelizes Pois se prestares bastante atenção verás primeiramente que és infeliz na medida mesma em que não te aproxima do Ser supremo Por outro lado crês preferível o nãoser a uma existência miserável na mesma medida em que perdes de vista esse sumo Ser Entretanto tu te apegas à existência porque recebeste o ser dAquele que é o Ser supremo Resolução Amar mais e mais a vida e aspirar ao amor das coisas eternas 21 Logo se queres fugir da infelicidade ama em ti esse mesmo quererser Com efeito quanto mais quiseres ser mais aproximate dAquele que existe acima de tudo E dá graças a Deus desde já por existires Pois mesmo sendo inferior aos bemaventurados contudo és superior aos seres que não possuem sequer o desejo da felicidade Entretanto apesar disso muitos desses seres inferiores são exaltados pelos próprios desafortunados Todavia todos os seres pelo fato de existirem são com todo direito dignos de serem apreciados Porque pelo simples fato de existirem são bons Assim pois quanto mais amares a existência tanto mais desejarás a vida eterna e aspirarás a te transformar de tal maneira que tuas disposições não sejam transitoriamente impressas em ti como que gravadas pelo amor das realidades efêmeras Pois as coisas temporais nada são antes de existirem ao existirem passam e tendo passado voltam ao nada Logo quando são futuras ainda não existem ao terem passado não existirão mais Como pois retêlas a fim de que permaneçam essas realidades para as quais iniciar a existir é idêntico a caminhar para o nada Mas quem ama a exis tência aprova e utiliza essas coisas caducas enquanto existem mas dá o seu grande amor ao Ser que permanece sempre E se o amor daquelas realidades o tornava inconstante fortificarseá por esse amor ao Ser que sempre é E caso se desesperar amando coisas passageiras firmarseá amando o Ser que é permanente Fixarseá e obterá aquele mesmo Ser que desejava quando temia deixar de existir e não podia se fixar arrastado pelo amor das coisas fugazes116 Logo não te entristeças mas ao contrário te alegres e muito pelo fato de que prefiras existir mesmo infeliz deixar de ser infeliz por não mais existires Com efeito se a partir desse quererser inicial cresces mais e mais no amor ao ser elevarás o templo de tua alma em direção ao Ser supremo Assim tu te preservarás de toda queda pela qual passam à não existência os seres inferiores os quais existem apenas para voltar ao nada levando em sua ruína as forças e o ser de quem ama tais coisas Quanto àquele que prefere não ser para escapar da miséria como isso não pode se dar ele não tem outra alternativa do que suportar de ser infeliz Pelo contrário aquele que possui maior amor à existência do que aversão a viver infeliz que aumente esse amor à existência e assim se afastará daquilo a que tem tanta aversão Pois logo que conseguir possuir perfeitamente aquela existência que convém à sua condição não será mais infeliz Capítulo 8 Nem mesmo aqueles que se suicidam preferem o nãoser 22 Efetivamente considera o absurdo e a contradição desta declaração Gostaria mais de não existir do que de ser infeliz Pois ao se dizer gosto mais disto do que daquilo escolhese alguma coisa Ora o nãoser não é coisa alguma mas um simples nada e por conseguinte é absolutamente impossível que se faça uma escolha conveniente quando nada há a ser escolhido Sem dúvida dizes ainda Eu queria existir mesmo sendo infeliz mas não deveria ter querido isso O que deverias então ter querido De preferência não existir respondeste Se tivesses tido de querer isso então tal havia de ser o melhor Ora o nada não pode ser o melhor Logo não é isso que deverias ter querido E o sentimento que te leva a não querer o nada é mais conforme à verdade do que o parecer pelo qual crês que deverias ter querido tal coisa Além disso quando alguém faz uma boa escolha é preciso que o objeto desejado uma vez obtido torne melhor aquele que optou por ele Ora é impossível tornarse melhor alguém que já não existe Logo ninguém pode escolher de modo conveniente não mais existir Nem nós devemos nos deixar impressionar pelo julgamento daqueles que sob o peso da miséria se deram à morte Com efeito ou bem eles procuraram refúgio lá onde julgavam estar melhor e isso não parece contrário a nosso raciocínio seja da maneira que for como o supuseram ou bem menos ainda caso tenham acreditado em seu total desaparecimento essa escolha absurda das pessoas em escolher o nada deve nos inquietar Realmente como posso seguir um homem a quem se eu lhe perguntasse o que escolhe ele me respondesse Nada Pois aquele que escolhe nãoser certamente fixa sua opção sobre o nada ainda que se negue a admitir essa resposta No fundo o suicida procura encontrar a própria tranqüilidade 23 Não obstante para exprimir o meu pensamento sobre toda essa questão se isso for possível direi pareceme que ninguém que se suicida ou que deseja a morte de qualquer maneira possui o sentimento de que não será nada depois da morte Ainda que isso entre um pouco em sua idéia Com efeito o parecer racional reside no erro ou na verdade obtidos por via do raciocínio ou da fé em testemunhos dados Pelo contrário o sentimento tira seu valor da própria natureza ou do hábito Ora pode acontecer que o parecer lógico diga uma coisa e o sentimento íntimo outra Constatase isso facilmente pelo fato de que em muitos casos cremos que deveríamos fazer uma coisa mas agrada nos na realidade fazer outra Por vezes o sentimento íntimo é mais verdadeiro do que o parecer formalizado Isso quando esse vem do erro e o sentimento da natureza Por exemplo freqüentemente um doente encontra prazer em tomar água gelada e isso com proveito ainda que acreditando que lhe será nocivo Outras vezes o parecer formalizado é mais verdadeiro do que o sentimento íntimo Por exemplo no caso de o doente crer conforme a recomendação competente do médico que a água fria lhe será nociva posto que com efeito ela realmente o seja ainda que o dito doente tenha prazer de bebêla Por vezes o parecer lógico e o sentimento são igualmente verdadeiros como acontece quando uma coisa útil não somente é tida como tal mas ainda ocasiona prazer Enfim há vezes em que existe erro de um lado e doutro quando uma coisa nociva é julgada benéfica e causa prazer Habitualmente porém um parecer certo corrige um mau hábito e um mau parecer costuma corromper uma natureza correta Isso por ser muito forte o domínio e a supremacia da razão Assim acontece quando uma pessoa crê que após a morte não mais existirá e que entretanto levada por tristezas intoleráveis inclinase com todo seu desejo em direção à morte resolva abraçála e com efeito se suicida Há em seu parecer a crença errônea de completo aniquilamento Não obstante existe pelo contrário em seu sentimento o desejo natural do repouso117 Ora o que permanece na tranqüilidade não pode ser um puro nada Bem ao contrário possui mais realidade do que aquilo que é instável Posto que a instabilidade é causa de afetos tão opostos que mutuamente um destrói o outro Pelo contrário o repouso implica a permanência a qual se tem em vista quando se diz de algo Isto existe é Desse modo todo desejo daquele que quer morrer é dirigido não para cessar de existir pela morte mas para encontrar a tranqüilidade E assim enquanto crê por engano obter o nãoser sua natureza está a aspirar pela tranqüilidade isto é deseja possuir uma realidade mais perfeita Logo assim como não pode absolutamente ser crível que alguém goste de não existir não se pode de modo algum admitir que alguém seja ingrato para com a bondade de seu Criador pelo ser do qual frui C O PECADO E A ORDEM DO UNIVERSO Capítulo 9 É indevido censurar a Deus pela criação de seres menos perfeitos 24 Se fosse dito Entretanto não seria difícil nem laborioso para a onipotência de Deus proporcionar a cada uma de suas obras o que lhe convém dentro de sua ordem de maneira que nenhuma viesse a ser infeliz Pois sua onipotência não poderia ser incapaz disso nem sua bondade haveria de ser avara desse dom Responderia a essa objeção a ordem hierárquica das criaturas desde a mais elevada até a mais ínfima decorre em graus tão bem proporionados que só a inveja poderia levar a dizer Esta realidade não deveria existir assim Ou ainda Aquela deveria ser de outro modo Com efeito caso se pretendesse que uma criatura se assemelhasse a tal outra que lhe fosse superior essa já deveria existir e com excelência suficiente para que nada pudesse lhe ser acrescentado por ser perfeita Então alguém ao afirmar Gostaria que esta realidade fosse como aquela outra caso pretendesse acrescentar perfeição à criatura superior já perfeita por aí seria exagerado e injusto Ou ainda se alguém pretender suprimir a realidade mais imperfeita seria mau e iníquo E aquele que dissesse Esta aqui não deveria existir seria igualmente mau e invejoso visto que ao recusarlhe a existência verseia forçado a considerar tal outra menos perfeita Seria por exemplo como se dissesse A lua não deveria existir Ora a claridade de uma candeia que seja ainda que bem inferior continua bela em seu gênero e agradável quando as trevas cobrem a terra e assim mostrase ela bem apropriada aos afazeres noturnos Devido a tudo isso meu interlocutor deve bem confessar que a referida candeia é digna de ser louvada em sua humilde limitação Negálo seria próprio de um doido ou de um obstinado Como pois ousar dizer convenientemente A lua não deveria existir entre os seres quando ao dizer A candeia não deveria existir essa pessoa já é digna de zombaria E caso não afirmasse A lua não deveria existir mas sim Deveria ser semelhante ao sol ela não se daria conta de que esse desejo reduzse a A lua não deveria existir mas deveria haver dois sóis Nisso enganase duplamente porque acrescentar ao mesmo tempo nova perfeição às coisas que já são perfeitas em sua natureza é desejar como que outro sol E diminuir a sua perfeição é como desejar eliminar a lua Deus é digno de louvores pela criação da variedade dos seres 25 Talvez meu interlocutor dirá a propósito desse exemplo que ele não se lamenta de modo algum a respeito da lua porque o esplendor menor que ela possui não é de natureza a tornála infeliz Mas que é a respeito das almas que ele se contrista Não devido à obscuridade delas mas precisamente por causa do seu estado de desgraça Seja mas que ele considere então atentamente que se a lua não é infeliz por sua opacidade do mesmo modo o sol não é feliz por seu brilho Pois ainda que sendo corpos celestes são contudo corpos e pelo que diz respeito à luz são capazes de serem percebidos por nossos olhos corporais nunca porém os corpos como corpos podem sentir felicidade ou desdita ainda que possam ser corpos de seres felizes ou infelizes Mas a comparação tirada desses corpos luminosos ensinanos o seguinte contemplando a diversidade dos corpos vês uns mais brilhantes do que outros mas estarias no erro ao pedir a supressão dos mais obscuros ou o nivelamento com os mais brilhantes Pois se os consideras a todos em sua relação com a perfeição do universo quanto mais eles diferem de brilho entre si mais te é fácil constatar que todos eles existem Aliás o conjunto não te parece perfeito senão porque coexistem corpos mais nobres com outros mais humildes Considera por aí igualmente a diversidade existente nas almas e encontrarás como compreender que essa miséria da qual te lamentas também possui seu papel na perfeição do universo Essa perfeição faz com que nada falte sequer essas almas que tiveram de se tornar infelizes por terem querido livremente ser pecadoras E não se pode dizer que Deus não devia ter dado a existência a essas almas Igualmente é erro afirmar que ele não seja digno de louvor por ter dado o ser a outras criaturas ainda bem inferiores do que essas almas infortunadas O pecado nada tira da ordem do universo 26 Entretanto parecendo não compreender bem o que foi dito meu interlocutor apresenta ainda outra objeção Com efeito argumenta ele se nossa miséria completa a perfeição do universo viria então a faltar algo a essa perfeição caso todos nós sempre fôssemos felizes Por conseguinte se a alma não se torna infeliz a não ser pecando seguese que até os nossos próprios pecados são necessários à perfeição do universo criado por Deus118 Como então pune Deus com justiça os pecados sem os quais a sua criação não teria nem a sua plenitude nem a sua perfeição A isso se responde não são os pecados mesmos nem as desgraças mesmas que são necessários à perfeição do universo mas as almas enquanto almas as quais se não quiserem pecar não pecam mas tendo pecado tornamse infelizes Se absolvidos os seus pecados a sua miséria continuasse ou mesmo se esta precedesse qualquer pecado com razão seria dito que uma brecha foi introduzida na ordem e no governo do universo Por outro lado caso se cometam pecados mas não exista a pena a ordem ficaria igualmente abalada pela injustiça Inversamente quando os justos encontram a felicidade então aparece perfeita a ordem do universo E porque não faltam almas pecadoras que encontram o castigo nem almas a cujas boas obras seguese a felicidade o universo não deixa de conservar a sua perfeição Porque na verdade nem o pecado nem o castigo do pecado são seres à parte mas estados acidentais dos seres O pecado voluntário leva a um estado acidental de desordem vergonhosa ao qual se segue o estado penal precisamente para o colocar no lugar que lhe corresponde para não haver uma desordem dentro da ordem universal Força o castigo a harmonizarse o pecado com a ordem do universo Assim a pena do pecado vem a reparar a ignomínia do mesmo119 A penalidade sofrida pelas almas pecadoras contribui para a perfeição do universo 27 Daí provém que se uma criatura superior pecar será punida por criaturas inferiores Porque ainda que estas estejam em condição bem mais baixa podem ser de certo modo elevadas pelas almas pecadoras Ajustamse assim à ordem e harmonia do universo Com efeito o que há numa casa de mais nobre do que a pessoa humana e o que há de mais baixo e abjeto do que o esgoto da casa Contudo um escravo preso por uma falta que o faz ser encarregado de limpar o esgoto dignifica aquele lugar por meio de sua mesma ignomínia E essas duas coisas a indignidade do escravo e o ato de limpar o esgoto reunidas e formando agora uma só espécie de unidade contribuem para a boa disposição da casa Inseremse tão bem uma na outra que concorrem ao arranjo daquela residência numa ordem cheia de harmonia Contudo se esse escravo não tivesse querido pecar nem por isso à administração doméstica teria faltado outro meio para fazer executar as limpezas necessárias De modo semelhante haverá algo de mais ínfimo entre os seres do que um corpo formado da terra E entretanto a alma mesmo pecadora dignifica tão bem essa carne corruptível que lhe dá uma forma admiravelmente constituída assim como o movimento vital Por isso se não é conveniente que uma alma pecadora habite o céu devido a seu pecado não obstante convémlhe habitar a terra como castigo Assim seja qual for a opção da alma permanecerá sempre a beleza deste universo do qual Deus é o criador e administrador e cuja ordem consiste na harmoniosa conveniência de suas partes Quanto às almas nobres ao habitarem em seres de baixa condição elas os dignificam não por suas misérias pois não as possuem mas pelo bom uso que fazem dessas criaturas Todavia se fosse permitido às almas pecadoras habitarem em lugares mais elevados haveria por certo desordem porque elas não se adaptariam a tais lugares não podendo usar deles de modo conveniente nem lhes trazer esplendor algum 28 É porque nosso mundo terrestre ainda que destinado às coisas corruptíveis conserva entretanto o quanto lhe é possível a imagem de seres superiores e não cessa de oferecer exemplos e sinais disso Com efeito se virmos um homem bom e de caráter nobre levado pelo dever e a honra a deixar que seu corpo se consuma pelas chamas não classificamos esse fato como castigo infligido ao pecado mas como prova de força e paciência E nós muito o admiramos caso uma terrível destruição dizimar seus membros corporais mais do que se não tivesse tido de sofrer nada semelhante Pois reconhecemos com admiração que a natureza da alma é tal que não sofre alteração pela modificação do corpo Por outro lado se acontecer serem consumidos os membros do corpo de um bandido que observamos pelo mesmo suplício caso seja dentro da ordem e da lei nós admitimos o fato Logo esses dois tipos de homens dignificam seus tormentos mas um demonstrando o que vale a sua virtude e outro o que merece o seu pecado Ora se após essa prova do fogo ou mesmo antes dela víssemos aquele homem santo de que falamos em primeiro lugar tornarse digno das moradas celestes ser transportado para os céus por certo alegrarnosíamos Pelo contrário se fosse o bandido que víssemos seja antes de seu suplício seja depois conservando ele a malícia de sua vontade elevarse aos céus para ser colocado num trono de eterna glória quem não ficaria chocado Concluise pois que um e outro puderam dignificar os seres inferiores mas só um deles os seres superiores Aplicação do que foi dito à punição do pecado original e à redenção Isso levanos a observar que a mortalidade de nosso corpo foi dignificada pelo primeiro homem de modo que o pecado encontrou aí seu castigo proporcionado E também foi o corpo humano dignificado por nosso Senhor de modo que a sua misericórdia fez dele o meio de nos libertar do pecado120 Por outro lado o justo podia permanecendo justo possuir um corpo mortal mas inversamente o pecador enquanto se mantiver pecador não pode atingir a imortalidade dos anjos Não me refiro à imortalidade sublime dos anjos daqueles dos quais o Apóstolo diz Não sabeis que julgaremos os mesmos anjos 1Cor 63 Mas sim daqueles de quem o Senhor diz Eles serão semelhantes aos anjos de Deus Lc 2036 Com efeito aqueles que desejam a igualdade com os anjos movidos por própria vanglória não querem por aí elevarse a uma medida igual à dos anjos mas sim rebaixarem os anjos à sua própria condição É porque perseverando em tal pretensão serão igualados ao castigo dos anjos prevaricadores que amam o seu próprio poder mais do que o de Deus todopoderoso Realmente tais homens encontrarseão do lado esquerdo no juízo final porque não terão procurado a Deus pela porta da humildade a qual o Senhor Jesus Cristo mostrounos em si mesmo Viveram eles cheios de orgulho sem nenhuma misericórdia Então serlhesá dito Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos Mt 2541 Capítulo 10 Conseqüências do pecado original 29 São duas as fontes do pecado uma o pensamento espontâneo outra a persuasão de outrem Penso que é a isso que se refere a palavra do profeta De meus pecados ocultos purificaime Senhor e das faltas alheias preservai vosso servo Sl 181314 Todavia num e noutro caso o pecado é sem dúvida voluntário Isso porque assim como ninguém ao pensar espontaneamente vem a pecar contra a própria vontade do mesmo modo ao consentir a uma má sugestão certamente não consente sem ser por vontade própria Entretanto pecar por si mesmo sem ser induzido a isso por ninguém e persuadir a outrem a cometer pecado por inveja e dolo é certamente mais grave do que ser levado ao pecado por persuasão alheia Deus observou plenamente a justiça punindo um e outro pecado o do demônio e o dos homens Pois foi tudo pesado na balança da eqüidade Assim o fato de não ser recusado ao demônio o possuir de certa forma o homem sob seu poder posto que lhe fora submetido por haver aceito as suas más sugestões Com efeito não seria justo impedilo de dominar sobre aquele a quem havia capturado Por outro lado absolutamente não podia acontecer que a justiça perfeita de Deus soberano e verdadeiro que se estende por toda parte se omitisse sem remeter em ordem os estragos dos pecadores É porque ao homem sendo menos culpado do que o demônio foi encontrado um meio de restauração e salvação pelo fato mesmo de estar sujeito ao demônio até na própria mortalidade de sua carne Pois o demônio é o príncipe deste mundo quero dizer da parte mortal e ínfima da criação isto é ele é o chefe de todos os pecados e senhor da morte O homem tornandose menos seguro pela consciência de ser mortal temendo a ferocidade da parte dos animais os mais vis e abjetos e até mesmo dos menores em meio a mil incômodos acha se por outro lado incerto do futuro Habituouse então a reprimir as alegrias culpáveis e sobretudo a dominar o seu orgulho cujas más sugestões levaramno a perderse Tal orgulho afasta por ele só o remédio preparado pela misericórdia divina Quem há com efeito que tenha mais necessidade de misericórdia do que o mísero E também o que há de mais indigno de misericórdia do que o orgulhoso infortunado A obra da redenção 30 Aconteceu então que o Verbo de Deus por quem tudo foi feito e cujo gozo constitui toda a bemaventurança dos anjos estendeu sua clemência até a nossa miséria e o Verbo fezse carne e habitou entre nós Jo 1314 Poderia assim o homem chegar a comer o pão dos anjos sem ainda ser igualado aos anjos já que Ele mesmo o Pão dos anjos se dignava igualarse aos homens E desceu Ele até nós sem contudo abandonar os anjos Ele está ao mesmo tempo inteiramente junto a eles e inteiramente junto a nós Nutre a eles aos anjos interiormente por seu ser de Deus E ensinanos a nós por fora por tudo o que somos121 Tornanos capazes pela fé de participarmos com os anjos do alimento da visão beatífica Na verdade a criatura racional nutrese desse Verbo como de seu melhor alimento Ora a alma humana é racional Está porém retida por castigo de seu pecado em liames mortais Ela é reduzida assim a um estado de grande debilidade Deve esforçarse para perceber as realidades invisíveis por conjecturas através das realidades visíveis É porque o alimento da criatura racional tornouse visível Sem nada mudar em sua natureza revestiuse da nossa a fim de levar a Ele que é invisível aqueles que só procuram as coisas visíveis Desse modo Aquele que a alma por seu orgulho abandonara em seu interior ela reencontrao fora dela na humildade E só será imitando essa humildade visível que voltará à sua elevação invisível A submissão ao Senhor livranos do poder do demônio 31 É porque o Verbo de Deus o Filho único de Deus que sempre teve e sempre terá o demônio submetido às suas leis tendo se revestido de nossa humanidade submeteu igualmente o demônio ao homem Para isso nada lhe exigiu com violência Mas venceuo pela lei da justiça Posto que o demônio tendo enganado a mulher e feito cair o homem por meio dela certamente animado pelo desejo perverso de causar dano entretanto com todo direito pretendia submeter à lei da morte todos os descendentes do primeiro homem a título de pecadores Em conseqüência esse poder não deveria perdurar senão até o dia em que o demônio poria o Justo à morte Àquele em quem nada podia encontrar digno de morte E Ele não somente foi condenado à morte sem crime algum como também nasceu sem concupiscência alguma pela qual o demônio subjugava a todos os seus cativos como frutos de sua árvore Isso sem dúvida levado por um desejo muito perverso Não obstante sem lhe ter faltado certo direito de propriedade122 Por conseguinte é com toda justiça que o demônio está constrangido a libertar aqueles que crêem naquele a quem submeteu à morte injustamente Desse modo se os homens morrem de morte temporal que essa morte seja para liquidar sua dívida e se vivem da vida eterna que seja para viver naquele que pagou por eles uma dívida que ele próprio não tinha Para aqueles porém a quem o demônio tiver persuadido de perseverar na infidelidade com direito ele os terá como companheiros na danação eterna Assim pois aconteceu que o homem não foi arrancado por violência ao demônio tal como este não havia se apropriado por violência do homem mas por persuasão Dessa maneira foi submetido o homem que com direito havia sido humilhado a ponto de se tornar escravo daquele a quem dera o consentimento para o mal Com direito também foi libertado por Aquele a quem dera o consentimento para o bem Isso porque o homem fora menos culpado consentindo ao mal do que o demônio a persuadir a fazêlo Capítulo 11 Toda criatura justa ou pecadora contribui para a ordem universal 32 Deus é pois o Criador de todas as naturezas não somente daquelas que haviam de perseverar na virtude e na justiça como daquelas que haveriam de pecar Estas Deus as criou não para que pecassem mas para que acrescentassem algo à beleza do universo quer consentindo quer não ao pecado Se aqueles seres espirituais que ocupam o cume da ordem universal tivessem falhado e aceitado pecar o universo terseia enfraquecido e deteriorado e algo de grande teria faltado à criação Pois faltaria aquilo cuja ruína perturbaria o equilíbrio e a harmonia dos seres Tais são aquelas criaturas tão excelentes santas e sublimes potestades celestes ou supracelestes das quais só Deus é o Senhor e ao qual o mundo inteiro está submetido Sem a função delas cheia de justiça e de perfeição nosso universo não subsistiria Do mesmo modo aquelas outras criaturas que podem pecar ou não no caso de não existirem a ordem do universo não se alteraria Nesse caso entretanto muito de considerável teria faltado Posto que com efeito são almas racionais por certo dessemelhantes por suas funções daqueles espíritos superiores mas igualandoos em sua natureza E abaixo delas há ainda muitos outros graus de ser que sendo obras do Deus supremo permanecem dignas de louvor123 Função dos seres angélicos e dos homens 33 Logo possui uma função sublime essa natureza a qual não somente se não existisse mas ainda se pecasse diminuiria a ordem do universo Função menos sublime exerce aquela outra natureza cuja inexistência somente e não seu pecado diminuiria essa perfeição universal Aos primeiros seres os angélicos foi dado o poder de suster todas as coisas como função própria Deles a ordem universal não se poderia passar Aliás a razão de sua perseverança na vontade do bem não vem da nobre função que receberam mas eles a receberam porque sua perseverança foi prevista por Aquele que confiou neles Ademais não é por sua própria autoridade que eles mantêm todas as coisas na ordem mas por aderirem à autoridade e obedecerem com total dedicação às ordens dAquele de quem por quem e em quem124 todas as coisas foram feitas Por sua parte aquela segunda natureza a humana quando não peca recebe também a função e o grandíssimo poder de sustentar todas as coisas na ordem Não porém como próprias mas em união com os primeiros seres por ter sido previsto que ele seria capaz de pecar Os seres espirituais podem unirse entre si sem nada ganhar com isso e separaremse também sem se diminuírem em nada Assim os seres superiores nada ganham em facilidade nas suas ações se os inferiores uniremse a eles Tampouco sua ação tornase mais difícil se os inferiores abandonarem sua função pecando Pois mesmo que os seres espirituais tivessem um corpo não é pelos lugares ou volumes corporais que essas criaturas espirituais podem unirse ou separarse mas pela semelhança ou dessemelhança de suas disposições Ação dos anjos e das almas sobre os seres inferiores 34 Ora a alma humana que desde o pecado encontrase em seu lugar em corpos frágeis e mortais governa cada uma o seu corpo não totalmente conforme sua própria vontade mas como o permitem as leis universais Contudo não se segue que essa alma seja inferior aos corpos celestes125 aos quais estão submissos os corpos terrestres Pois até as roupas esfarrapadas de um escravo condenado estão longe de valer o mesmo que as vestes de um servo fiel estabelecido com honra junto a seu senhor Mas o próprio escravo vale muito mais do que não importa que veste preciosa pelo fato de ser homem Portanto aquele espírito angélico superior unido a Deus e num corpo celeste pode por seu poder angélico embelezar e governar os mesmos corpos terrestres conforme lhes ordena Aquele de quem compreende inefavelmente a vontade Quanto à alma humana inferior por sua vez morando em corpo mortal governa com dificuldade interiormente esse mesmo corpo que a oprime Contudo ela o embeleza o quanto pode Quanto aos corpos exteriores que a circundam ela influenciaos conforme sua possibilidade com uma ação ainda que muito mais fraca Capítulo 12a Nada pode perturbar o governo de Deus sobre o universo 35 Donde se segue esta conclusão a criatura corpórea até a de condição mais ínfima não estaria privada de beleza singularíssima mesmo no caso de o homem não ter querido pecar Com efeito quem pode governar o todo pode também governar uma parte Não se segue porém que aquele que pode menos possa algo mais Assim por exemplo um médico pode ser competente para curar eficazmente qualquer doença da pele Entretanto não se segue que aquele médico que trata com sucesso tais males necessariamente cure toda espécie de doenças no homem Na verdade a razão pode perceber uma idéia certa que faça ver com evidência que deve existir uma criatura que nunca tenha pecado e nunca houvesse de pecar jamais e essa mesma razão pode mostrar também outra verdade que essa criatura abstémse de pecar por sua livre vontade e isso sem ser forçada por necessidade alguma mas por si mesma E mesmo se ela pecasse ainda que de fato não o tenha feito como Deus o previu apesar de tudo bastaria a autoridade divina cujo poder é inefável para governar todo este universo de modo que dando a cada um o que lhe convém e é devido Ele não haveria de tolerar em todo seu domínio nada de disforme ou indecoroso Porque supondo que se Deus se passasse de todo poder criado para esse mesmo fim como seria o caso de os seres angélicos todos eles virem a falhar pecando contra os seus mandamentos Deus governaria todas as coisas por sua ação cheia de bondade e de ordem em sua suprema majestade Entretanto nem sequer por inveja deixaria de querer a existência de seres espirituais Ele que também criou com muita bondade os seres corporais ainda que bem abaixo dos espirituais É assim que ninguém pode contemplar com inteligência o céu a terra e todos os seres visíveis com suas proporções e sua ordem conforme seu gênero próprio sem reconhecer que Deus somente é o autor de todas as coisas e sem admitir que é preciso lhe tributar inefáveis louvores Todavia até na hipótese de melhor disposição das coisas não poder ser obtida sem que o poder angélico pela excelência de sua natureza e bondade de sua vontade esteja no plano supremo da organização universal ainda assim a defecção de todos os anjos não teria desprovido o Criador do governo de seu império Com efeito nem essa bondade como decorrente de qualquer desgosto nem seu poder devido a qualquer dificuldade faltarlheiam para criar outros seres angélicos e colocálos nos tronos abandonados pelos prevaricadores Enfim se as criaturas espirituais fossem condenadas por seus pecados tal como mereciam no maior número que se suponha isso não poderia prejudicar a ordem Porque se prestariam com toda eqüidade e conveniência à ordem a qual leva ao castigo todos aqueles que fossem dignos de serem condenados Assim pois de qualquer lado que se dirija a nossa reflexão ela encontra a Deus digno de louvores inefáveis Ele o Criador excelente e o governador muito justo de todos os seres D O PECADO E A BONDADE DAS CRIATURAS Capítulo 12b Contemplação da beleza da criação 36a Enfim deixemos a visão da beleza das coisas para serem contempladas por aqueles que a podem ver graças ao auxílio de Deus Quanto àqueles que são incapazes de a ver não tentemos levá los a contemplar o inefável mistério por palavras Não obstante por causa de certos homens palradores ignorantes ou sofistas examinemos tão grande questão com a maior brevidade que nos seja possível126 Capítulo 13 Princípio fundamental todo ser é bom O mal é uma privação 36b Toda natureza natura que pode tornarse menos boa todavia é boa De fato ou bem a corrupção não lhe é nociva e nesse caso ela é incorruptível ou bem a corrupção atingea e então ela é corruptível Vem a perder a sua perfeição e tornase menos boa Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem o que dela restará não poderá mais se corromper não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e assim prejudicála Por outro lado aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper e assim esse ser será incorruptível Pois eis algo totalmente absurdo uma natureza tornarse incorruptível por sua própria corrupção Por isso se diz com absoluta verdade que toda natureza enquanto tal é boa Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível E se ela for corruptível já que a corrupção não pode atingila senão tornandoa menos boa ela é indubitavelmente boa Ora toda natureza ou é corruptível ou incorruptível Portanto toda natureza é boa Denomino natureza o que habitualmente se designa pela palavra substância Conseqüentemente posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo 37 Uma vez essas verdades tendo sido firmemente estabelecidas como ponto de partida de nosso raciocínio atende ó Evódio ao que vou dizer toda natureza racional tendo sido criada com o livrearbítrio da vontade é sem dúvida alguma digna de louvor caso se mantenha fixa no gozo do Bem supremo e imutável A mesma coisa quanto à natureza racional que se esforça por se fixar nele permanentemente deve ela igualmente ser louvada Pelo contrário toda natureza que não esteja fixa naquele Bem supremo e recusarse a trabalhar para aí se manter é digna de ser censurada vituperanda est na medida em que aí não estiver e não fizer o necessário para isso Logo se é digna de louvor uma natureza racional que não é senão criatura não há dúvida que também deve ser louvado Aquele que a criou E caso ela seja censurada ninguém duvida que seu Criador vem a ser igualmente louvado por essa censura Com efeito se o que reprovamos nessa criatura é precisamente o fato de não querer gozar do Bem supremo e imutável isto é de seu Criador é bem este a quem louvamos sem dúvida alguma Ó quão grande é pois a bondade divina e de quantos inefáveis louvores todas as línguas e todos os pensamentos devem celebrar e honrar o Deus criador de todas as coisas Visto que não podemos sem o louvar a ele mesmo ver dirigidos a nós louvores ou censuras Com efeito não podemos ser reprovados por não permanecermos unidos a ele a não ser porque essa união constitui o nosso grande supremo e primeiro bem E donde procede tudo isso senão porque Deus é o Bem inefável Como pois poderseia encontrar em nossos pecados algo de censura em referência a Ele quando não podemos condenar tais pecados sem proclamarmos os seus louvores Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza 38 Pois bem Nas mesmas coisas que reprovamos não é unicamente o defeito ou vício vitium que reprovamos127 Ora não se pode reprovar o vício de natureza alguma sem louvar implicitamente a essa natureza Com efeito ou bem aquele que censuras é conforme à natureza do seu ser e então não é um defeito e é a ti que convém corrigir o julgamento errôneo para que saibas censurar a propósito e assim o teor de tua reprovação não seja indevido Ou então caso se trate de um vício para ser justamente reprovado tem forçosamente de ser contrário à mesma natureza Porque todo vício pelo fato mesmo de ser vício é contrário à natureza Efetivamente se não prejudicar a natureza não será tampouco vício Inversamente se for vício por afetar a natureza de modo nocivo é claro ser também vício pelo fato de ser contrário à natureza Agora se uma natureza for corrompida não por seus próprios vícios mas pelos de outra natureza então ela será censurada injustamente Devemos antes procurar se a outra natureza da qual o vício a pôde corromper não está ela mesma corrompida por seus próprios vícios Mas o que é ser viciado a não ser estar corrompido pelo vício Ora uma natureza que não está viciada não possui vício algum Ao passo que a natureza cujo vício pôde corromper outra natureza certamente está viciada Logo a primeira está corrompida por seu próprio vício Ela cujo vício pôde corromper as outras naturezas Donde se segue esta conclusão todo vício é contrário à natureza exatamente daquela mesma natureza da qual vem tal vício É porque se conclui que em todas as coisas não se reprova a não ser o vício e este não vem a ser constituído vício senão por sua oposição à natureza do ser onde se encontra E não se pode reprovar com justeza o vício de coisa alguma a não ser que se louve a natureza dessa mesma coisa Com efeito nada pode com razão te desagradar no vício a não ser o fato de que ele vicia o que te agrada na natureza Capítulo 14 Dois complementos 1º Natureza alguma corrompese sem já estar viciada 39 É preciso considerar igualmente este outro aspecto será verdade dizer que uma natureza se corrompe pela influência do vício de outra natureza sem que ela mesmo não tenha vício algum Realmente se uma natureza ao aproximarse de outra com intenção de corrompêla com seus próprios vícios caso não encontre nela algo de corruptível não pode corrompêla E caso o encontre ela não realiza a corrupção de sua natureza a não ser pela influência dos vícios que ali encontra Porque em primeiro lugar se for uma natureza mais forte em face de outra mais fraca que a influencia evidentemente ela não será corrompida a não ser que o queira E caso queira ela começa a ser corrompida por seu próprio vício antes de o ser por um vício alheio Em segundo lugar caso se trate de uma natureza diante de outra de igual força tampouco poderá ser corrompida no caso de se recusar a isso Porque desde que qualquer natureza atingida por um vício aproximarse de outra isenta de vício para a corromper pelo fato mesmo não se apresenta mais com igualdade de força mas como menos forte devido a já estar viciada Finalmente se uma natureza mais forte corrompe outra mais fraca essa corrupção dáse ou bem pelo vício das duas se for o fruto das paixões depravadas de ambas ou bem pela influência do vício da mais forte caso esta goze de tal superioridade que mesmo viciada guarde a prioridade sobre a natureza inferior à qual corrompe Assim quem com razão poderia reprovar os frutos da terra pelo fato de não se servirem bem deles os homens que já estão corrompidos por seus próprios vícios e que corromperam aqueles bons frutos abusando deles para satisfazerem sua própria luxúria Entretanto seria de louco duvidar de que a natureza humana mesmo viciada não possua excelência e força maior do que não importa qual fruto da terra mesmo isento de qualquer defeito 2º Nem toda corrupção é digna de ser censurada 40 Pode ainda acontecer que uma natureza mais forte corrompa outra mais fraca e isso sem que haja vício algum nem de um lado nem de outro Porque só chamamos vício ao que é digno de reprovação vituperatio Quem por exemplo ousaria censurar algum homem frugal que nos frutos da terra não procure nada mais do que o sustento para a sua natureza Ou ainda censurar esses mesmos frutos pelo fato de se corromperem ao serem consumidos como alimento pelo homem Nesse caso nem é mesmo costume de se falar em corrupção porque habitualmente esse termo corrupção designa sobretudo vício Por outro lado facilmente podese observar em referência às coisas comuns que freqüentemente não é senão para se servir em vista de satisfazer a sua própria indigência que uma natureza mais forte corrompe outra mais fraca Ou ainda por vezes para manter em ordem quanto à justiça ao punir alguma falta Temos conforme esse princípio as palavras do Apóstolo Se alguém destrói o templo de Deus Deus o destruirá 1Cor 312 Por vezes a vituperação é em vista de guardar a ordem própria das coisas mutáveis que estão sujeitas umas às outras conforme a leis cheias de sabedoria muito adequadas as quais regem o universo segundo o grau de força dado a cada um Por exemplo se os olhos de alguém por causa de sua pouca força natural são incapazes de suportar a luz e por isso padecem corrupção pelo brilho direto do sol não seria para supor que o sol produza essa transformação para suprir o que falta à sua própria luz Ou que o faz por algum vício que tenha Tampouco seria preciso recriminar os próprios olhos por terem obedecido seja a seu dono abrindose àquela luz tão forte seja à mesma luz e serem por isso queimados Conseqüentemente de todas as corrupções só a viciosa é reprovável com justeza Quanto às outras ou bem não devem sequer ser designadas como currupção Ou então não sendo viciadas não podem por certo serem dignas de reprovação Desse modo presumese que a mesma palavra reprovação vituperatio tirou esse nome por ser uma preparação para a reprovação ou seja por estar apta e ser devida com justiça somente ao vício Por isso foi chamada em latim virtuperatio isto é vitio paratio Louvar os seres é louvar a Deus criador das naturezas 41 Como eu dizia no começo o vício não é um mal senão por sua oposição à natureza daquela mesma coisa à qual ele atinge Por isso será evidente que a natureza de alguma coisa da qual se reprova o vício é uma natureza digna de louvor Devemos pois declarar absolutamente que reprovar os vícios é sempre louvar a natureza a saber a natureza da qual reprovamos os vícios Com efeito estes se opondo à natureza o mal deles cresce tanto mais quanto mais diminui a bondade integral dessa natureza Portanto quando reprovas um vício certamente louvas a coisa da qual desejas a integridade E que integridade senão a da natureza Uma natureza perfeita não somente não merece nenhuma reprovação mas dentro de sua condição é digna de louvor Logo o que vês faltar à perfeição de uma natureza eis o que chamas de vício testemunhando bastante por aí que essa natureza te agrada visto que não acusas a sua imperfeição senão porque gostarias de a ver perfeita128 E O PECADO E A JUSTIÇA Capítulo 15 Motivos de louvar a Deus 42 Se pois reprovar os vícios é proclamar a beleza e a dignidade das naturezas mesmo atingidas de vícios quanto mais deve Deus ser louvado como Criador de todas as naturezas até por motivo dos vícios dessas naturezas A razão é que dele elas recebem essa natureza que possuem e não se tornam viciadas senão na medida que se afastam daquela arte divina conforme a qual foram produzidas E não são elas com justeza dignas de reprovação senão na medida em que a pessoa que as reprova tem a visão dessa arte conforme a qual foram formadas Poderia ele reprovar nas criaturas algo que não fosse o fato de não estarem seguindo o seu modelo E se essa mesma arte pela qual todas as coisas foram feitas isto é a suprema e imutável sabedoria de Deus possui uma existência verdadeira e suma como de fato a possui considera para onde se dirigem as naturezas que dela se desviam isto é dessa arte divina129 Esse defeito do desvio da idéia de Deus entretanto não seria censurável se não fosse voluntário Peçote de considerar se com razão censurarias uma coisa que fosse tal como deve ser Penso que não mas pelo contrário censurarias aquilo que não fosse como devia ser Ora ninguém deve o que não recebeu e aquele que é devedor a quem deve ele a não ser Àquele de quem recebeu algo com obrigação de devolver Pois aquilo mesmo que se devolve entregase Àquele de quem se havia recebido E o que se devolve aos legítimos herdeiros dos credores é certamente devolvido aos mesmos credores aos quais os herdeiros sucederam legitimamente De outra forma deverseia falar não de restituição mas de simples entrega de dons ou como se queira denominar As criaturas inferiores ao perecerem não faltam ao que devem Seria portanto absurdo dizer que nenhum ser temporal deveria desaparecer A razão é porque essa ordem de seres está disposta de tal forma que se não desaparecessem as coisas futuras não poderiam suceder às passadas nem portanto permitir que a beleza dos tempos pudesse se desenvolver em sua espécie Com efeito o quanto tais seres inferiores recebem assim executam e devolvem Àquele a quem são devedores por tudo o que são e enquanto são Portanto se alguém se lamenta pelo desaparecimento de tais seres que faça atenção à forma de se exprimir em seu próprio discurso no qual expressa o seu pensamento e examine se o considera justo e inspirado pela prudência Porque nessa sua alocução caso ele se limitasse ao som das palavras se viesse a preferir o som de uma única palavra ou sílaba não querendo que cessasse mais e cedesse o lugar às sílabas seguintes que por sua vez ao terminar houvessem de suceder a outras formando a trama de todo o discurso no caso de alguém assim fazer não seria ele taxado como um grande demente Visto que a linguagem compõese de sílabas e palavras que se sucedem ininterruptamente 43 É porque em referência aos seres que perecem por não lhes ter sido dado existir mais longamente a fim de permitir a todas as coisas de se realizarem a seu tempo ninguém tem motivo de censurar o seu desaparecimento Pois ninguém pode afirmar esse ser deveria permanecer na existência já que ele não poderia ultrapassar os limites que lhe foram assinalados130 A razão levanos a reprovar o mal e praticar o bem como uma dívida para com Deus Entretanto quando se trata de criaturas racionais pecadoras ou não as quais concorrem de certo modo maravilhoso à beleza do universo o fato de alguém desejar Sejam essas criaturas isentas de pecado é absurdo porque peca até mesmo aquele que condena como pecado o que não é Ou ainda supor que os pecados não devam ser reprovados não seria menos absurdo porque assim se chegaria até a não se louvar mais as boas ações e sim as más Nesse caso é a direção total do espírito humano que estaria perturbada e a vida transformada Ou supor ainda que uma boa ação praticada como devia ser deva ser reprovada resultaria disso uma abominável loucura ou para dizêlo em termos mais suaves um erro muito deplorável Por outro lado resta enfim a verdadeira razão da censura condenar tudo o que é pecado e tudo o que com justiça é censurável por não existir como deveria sêlo Procura pois de que uma natureza pecadora está em dívida e reconhecerás das boas ações Procura também em relação a quem ela está em dívida e reconhecerás em relação a Deus Porque dAquele de quem ela recebeu o poder de agir bem querendoo livremente recebeu também o poder de ser infeliz caso não o fizer Entretanto será feliz se praticar o bem Caso a vontade livre não devolver a Deus o que lhe deve pela prática da virtude dará glória a Deus por um justo castigo 44 Como ninguém passa por cima das leis do Criador todopoderoso a alma não tem outra saída senão pagar a sua dívida Ora pagaa seja usando bem o dom que recebeu seja perdendo aquilo que não quis empregar corretamente É porque se ela não devolver cumprindo a justiça ela o devolverá padecendo o castigo Num e noutro caso empregase a seguinte idéia devolver o que é devido O que se acaba de dizer poderia também se exprimir desta maneira se a criatura racional não devolver o que deve cumprindo o que deve ela o devolverá padecendo o devido castigo E não há nenhum intervalo de tempo entre os termos dessa alternativa como se um fosse o tempo onde o culpado não faz o que devia fazer e outro no qual padece o que merece Isso está assim disposto a fim de que a beleza do universo não seja alterada um só instante caso a desordem do pecado se manifestasse sem ter uma reparação por um justo castigo Fica porém reservado ao julgamento futuro a manifestação clara de tudo o que agora está sendo executado em grande segredo E será então levado à maior intensidade o sentimento de infortúnio do pecador Com efeito assim como o fato de não estar desperto é dormir assim também quem quer que não faça o que deve padece sem tardança o que merece Pois tão grande é a felicidade que se encontra na justiça que ninguém pode se afastar dela sem se voltar logo em direção à infelicidade Portanto em resumo em todos os casos em que haja defeitos na natureza ou aconteça de muitas coisas se extinguirem por não ter recebido o poder de existir por mais tempo aí não há culpa Como também não há culpa no ser que durante sua existência não recebeu a capacidade de ser mais perfeito do que foi Enfim só há culpa no caso de um ser recusarse a ser o que tinha o poder de ser se o quisesse E porque aí se trata de recusar um bem que lhe foi dado a alma se torna culpada Capítulo 16 Deus nada nos deve nós tudo lhe devemos 45 Ora Deus nada deve a ninguém porque tudo dá gratuitamente E se alguém afirmasse que algo lhe é devido por seus méritos ao menos é certo que a própria existência não lhe é devida visto que a quem ainda não existia nada lhe é devido Mas embora supondo um pretendido mérito o qual haveria de ser pelo fato de te voltares Àquele de quem recebeste a existência a fim de que ele mesmo te torne melhor após te haver dado o ser Que vantages tens para que possas reclamar dele com justiça sendo que no caso de te recusares a voltar para Deus ele nada perde com isso Ao passo que tu perderás Aquele mesmo sem quem nada serias e só por quem és alguma coisa A tal ponto que se não te voltares para Ele e não lhe devolveres o que dele recebeste virás a cair não no nada certamente mas na infelicidade Logo todos os seres lhe devem primeiramente tudo o que são enquanto natureza existente Em seguida aqueles seres que receberam a capacidade de querer devemlhe tudo o que lhes é possível para progredir se o quiserem Devem assim tudo o que têm a obrigação de ser Em conseqüência ninguém é responsável pelo que não recebeu Contudo é culpado com justiça se não fizer o que devia Ora é dever fazêlo quem recebeu uma vontade livre e uma capacidade suficientemente grande para isso Conclusão o pecado é causado pela vontade livre Deus não é a causa do pecado Louvor ao Criador em todas as circunstâncias 46 Dessa forma quando alguém não faz o que deve o Criador fica a tal ponto isento de culpa que é preciso na verdade louválo Isso porque o culpado padece o que deve e ainda porque nessa mesma reprovação que merece por não ter feito o que deve existe um louvor prestado Àquele a quem o pecador é devedor Posto que se te louvam quando vês o que deves fazer ainda que não o vejas senão naquele que é a Verdade imutável quanto mais é preciso louvar Aquele que de antemão também determinou quereres isso e deute o poder para tanto E Ele não deixará impune a tua desobediência Cada um é responsável pelo que recebeu Portanto se o homem tivesse sido criado de tal modo que pecasse inevitavelmente seu dever seria pecar E ao pecar portanto faria o que devia e não faria senão seguir a lei da natureza Mas já que seria crime falar dessa maneira seguese que ninguém é obrigado por sua natureza a pecar Tampouco é obrigado a ser levado por uma natureza alheia porque ninguém peca sujeitandose ao que não quer por própria vontade Com efeito caso se sujeitar justamente a isso seu pecado não está em que se sujeitou contra sua vontade Mas só peca quando age voluntariamente de maneira a dever padecer com toda justiça o que não teria querido sofrer Pois por outro lado se o aceitasse injustamente como pecaria Efetivamente o pecado não consiste em suportar alguma coisa injustamente mas sim em praticar algo injustamente Posto que ninguém está forçado a pecar nem por sua própria natureza nem pela natureza de outro logo só vem a pecar por sua própria vontade Enfim se quisesses atribuir o pecado ao Criador desculparias o pecador que nada teria cumprido fora dos desígnios de seu Criador E então poderias desculpálo com justiça pois não haveria pecado algum Logo se não houver pecado nada mais existe que possas atribuir à responsabilidade do Criador Louvemos pois o Criador se o pecador puder ser desculpado E caso não o possa louvemos ainda o Criador Pois se o pecador é defendido conforme a justiça ele não será mais pecador E caso ele não possa ser defendido será pecador na medida em que se afasta voluntariamente de seu Criador Nesse caso tampouco há razão para não louvar o Criador Conseqüentemente na verdade eu não encontro o meio e certifico absolutamente não haver nenhum que possa levar a atribuir nossos pecados a Deus nosso Criador Pelo contrário encontro ocasião para louválo nesses mesmos pecados não somente porque Ele os pune mas mais ainda porque não são cometidos senão quando alguém se afasta de sua verdade Ev Aceito tudo isso e o aprovo com boa vontade Creio ser tudo absolutamente verdadeiro e concordo contigo que não se pode de modo algum atribuir com razão nossos pecados ao Criador TERCEIRA PARTE 17472577 PROBLEMAS DIVERSOS A A VONTADE LIVRE CAUSA PRIMEIRA DO PECADO Capítulo 17 Posição do problema sem liberdade não há pecado 47 Ev Não obstante quisera saber se possível por que aquelas criaturas que Deus previu não haverem de pecar não pecam e por que pecam aquelas outras que Ele previu haverem de pecar Na verdade não creio mais que a presciência divina força estas últimas a pecar e aquelas outras a não pecar Sem dúvida se não houvesse alguma causa não haveria entre as criaturas racionais tal divisão de modo que umas nunca venham a pecar e outras persistam pecando E ainda outros seres de natureza racional fiquem de certa forma como no meio entre os dois grupos Por vezes cometem pecados e por vezes convertemse para o bem Por qual razão estão eles assim divididos em três grupos Não quero porém que me respondas simplesmente É devido à própria vontade porque eu procuro a causa determinante dessa vontade Com efeito não é sem alguma causa que uma criatura nunca queira pecar e que outra não queira jamais abandonar o pecado E enfim que uma terceira por vezes o queira e por vezes não uma vez que todas elas são dotadas de uma mesma natureza racional Eis a única coisa penso eu estar a ver claramente que tal tríplice divisão da vontade entre as criaturas racionais não pode existir sem alguma causa Ignoro porém qual seja ela131 A raiz de todos os males é a vontade desregrada 48 Ag Entretanto sendo a vontade a causa do pecado como indagas a causa do mesmo ato da vontade Caso eu pudesse encontrála não irias perguntar ainda qual a causa dessa causa E assim onde haveríamos de terminar a busca Onde estaria o final da investigação e da discussão Não obstante nada podes investigar além da mesma raiz da questão Com efeito não penses que se possa dizer nada de mais verdadeiro do que esta máxima A raiz de todos os males é a cobiça 1Tm 610 isto é a disposição de querer além daquilo que é suficiente e que cada natureza exige conforme sua própria condição a fim de se conservar De fato a cobiça ou amor ao dinheiro é denominada em grego filarguria isto é amor da prata termo esse que não é dito somente a respeito desse metal mas da moeda da qual foi tirado o seu nome porque as moedas entre os antigos eram feitas o mais freqüentemente de prata pura ou de alguma mistura à base da prata O termo deve ser entendido de todas as coisas desejadas com imoderação Enfim encontrase a cobiça em tudo o que alguém quer além do que lhe é suficiente Tal cobiça é cupidez e a cupidez é uma vontade desregrada improba Logo é a vontade desregrada a causa de todos os males Se essa vontade estivesse em harmonia com a natureza certamente esta a salvaguardaria e não lhe seria nociva Por conseguinte não seria desregrada De onde se segue que a raiz de todos os males não está na natureza E isso basta por enquanto para refutarmos todos aqueles que pretendem responsabilizar a natureza dos seres pelos pecados Quanto a ti se pretendes ainda investigar qual seja a causa dessa raiz como poderia ser a vontade a raiz de todos os males Com efeito essa raiz seria a causa da cobiça mas essa uma vez tendo sido encontrada como eu dizia acima seria preciso procurar ainda a causa dessa primeira causa e não haveria limite algum para as tuas buscas O que motiva a vontade 49 Ag Mas enfim anteriormente à vontade qual poderia ser a causa determinante da vontade Realmente ou bem é a vontade ela mesma e não se sai dessa raiz da vontade ou bem não é a vontade e então não há pecado algum Logo ou a vontade é a causa primeira do pecado e nenhum pecado será causa primeira do pecado e a nada se pode imputar o pecado senão ao próprio pecador Logo não se pode imputar justamente o pecado a não ser a quem seja dono da vontade Ou afinal a vontade não será mais a causa do pecado e assim não haverá mais pecado algum Desse modo não sei por que tu te empenhas tanto em procurar outra causa fora da vontade Além do mais qualquer seja a causa da vontade ou ela será justa ou injusta Se for justa quem quer que lhe obedeça o impulso não pode pecar Se for injusta que cada um resista a ela e não mais pecará Capítulo 18 Pode alguém pecar em coisas que não pôde evitar 50 Será talvez que essa causa leva ao pecado a agir com tanta violência a ponto de forçar a quem não quer Ora será preciso que tenhamos de repetir tantas vezes as mesmas idéias Recorda os nossos longos desenvolvimentos anteriores sobre a questão do pecado e da vontade livre cf III caps 3 e 4 Mas se é difícil para ti tudo conservar na memória retém ao menos esta breve sentença qualquer seja a causa que move a vontade se acontecer lhe ser impossível resistir e vier a cair sob a violência não haverá pecado Mas caso possa resistir que não ceda e então certamente não haverá pecado Todavia talvez essa tentação venha a induzir ao erro no caso de estar alguém desprevenido Então que tome suas precauções para não se deixar enganar Entretanto será que esse engano é tão astucioso que contra ele nada valem as cautelas tomadas Se assim for admito não poder haver pecado algum Quem poderia ser culpado num ato inevitável Em todo caso ninguém pode negar que o pecado existe Logo será possível ao homem evitálo132 B A NOSSA SITUAÇÃO ATUAL DEVIDA AO PECADO ORIGINAL 51 Apesar de tudo acontecem certas ações que mesmo cometidas por ignorância foram condenadas com obrigação de serem reparadas Lemos nas Sagradas Escrituras o Apóstolo dizer Obtive misericórdia porque agi por ignorâcia 1Tm 113 E o reiprofeta Não recordes ó Senhor meus desvios da juventude e os meus pecados por ignorância Sl 247 Existem também ações condenáveis ainda que praticadas por necessidade Isso quando o homem pretende agir bem e não o consegue Pois de onde viriam estas palavras Não faço o bem que eu quero mas pratico o mal que não quero E estas outras Pois o querer o bem está ao meu alcance não porém o praticálo Rm 71918 E ainda A carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias às da carne Opõemse reciprocamente de sorte que não fazeis o que quereis Gl 517 Mas tudo isso pertence aos homens enquanto suas ações são derivadas da primitiva condenação à morte Pois se não existisse aí uma punião dada ao homem mas apenas uma conseqüência de sua natureza não haveria nesses atos pecado algum Na verdade se o homem não se afasta nisso da condição conforme à qual foi criado naturalmente de modo que não pode se encontrar num estado melhor ele está executando o que deve ao fazer essas coisas Todavia se o homem fosse bom agiria de outra forma Agora porém porque está nesse estado ele não é bom nem possui o poder de se tornar bom Seja porque não vê em que estado deve se colocar seja porque embora o vendo não tem a força de se alçar a esse estado melhor no qual sabe que teria o dever de se pôr Assim sendo quem duvidaria que haja aí uma penalidade133 Ora toda penalidade se for justa é a punição do pecado e denominase castigo Se nossa condição fosse injusta visto que ninguém hesita a ver aí uma penalidade é bem evidente que teria sido imposta ao homem por algum dominador injusto Ora só um louco duvidaria da onipotência e da justiça de Deus Logo a penalidade é justa e está destinada a punir algum pecado Posto que nenhum dominador injusto poderia subtrair o homem ao poder de Deus sem que ele o percebesse Tampouco arrebatálo desse mesmo Deus contra a sua verdade como se fosse algum adversário menos forte empregando ameaças ou violência para depois vir a atormentar os homens com punições injustas Resta portanto que essa justa penalidade é o fruto da condenação do homem 52 Nada de espantoso aliás se o homem em conseqüência da ignorância não goze do livrearbítrio de sua vontade na escolha do bem que deve praticar Ou ainda se diante da violência de seus maus hábitos carnais tornados de certo modo disposições naturais por efeito do que há de brutal na geração da vida mortal o homem veja perfeitamente o bem a ser feito e o queira sem contudo poder realizálo De fato essa é a punição muito justa do pecado fazer perder aquilo que não foi bem usado quando seria possível têlo feito sem dificuldade alguma caso o quisesse Em outras palavras é muito justo que quem sabendo mas não querendo agir bem seja privado de perceber o que é bom E quem não querendo agir bem quando o podia perca o poder de praticálo quando o quer de novo Na verdade tais são as duas reais penalidades para toda alma pecadora a ignorância e a dificuldade Da ignorância provém o vexame do erro e da dificuldade o tormento que aflige134 Ora aprovar o falso como se fosse a verdade e assim enganarse sem o querer tornandose incapaz de se abster de atos libidinosos em conseqüência das resistências e dos dolorosos tormentos dos vínculos carnais essa não é a natureza primitiva do homem mas sim o seu castigo depois de ter sido condenado135 Mas quando falamos da vontade livre para agir bem evidentemente falamos daquela vontade com a qual o homem foi criado Capítulo 19 Se foram Adão e Eva que pecaram que culpa temos nós 53 Apresentase aqui aquela questão que algumas pessoas costumam comentar entre si Ao pecar estão prontas a acusar seja o que for exceto a si mesmas Declaram elas Se foram Adão e Eva que pecaram que fizemos nós pobres infelizes para nascermos na cegueira da ignorância e nos tormentos da dificuldade Vagamos primeiramente no erro ignorando o que devemos fazer Em seguida quando os preceitos da justiça começam a nos ser manifestos e quereríamos cumprilos não sei por qual resistência da concupiscência carnal e por qual necessidade tornamonos incapazes de fazêlo A negligência é culpável Dirijo uma breve resposta a essas pessoas para que se tranqüilizem e deixem de murmurar contra Deus Pois poderiam talvez se lamentar com razão se homem algum houvesse existido que não tenha podido triunfar do erro e da concupiscência Uma vez porém que Deus se acha em tudo presente e que de tantas maneiras se serve das criaturas para chamar a si a ele que é o Senhor esse seu servo que dele se desviou a fim de instruílo caso creia consolálo caso espere encorajálo caso ame ajudálo caso faça esforço e escutálo caso implore Não te recriminam pelo fato de ignorares contra tua própria vontade mas de negligenciares procurar saber o que ignoras Tampouco te é imputado como culpa não poderes curar teus membros feridos mas de menosprezares Aquele que te quer curar Enfim são esses os teus verdadeiros pecados136 Visto que não existe homem tão desprovido de inteligência que não conheça a utilidade de procurar aquilo que não traz vantagem alguma de ser ignorado e o dever de confessar humildemente suas fraquezas a fim de obter para quem procura com humildade a ajuda dAquele que não está sujeito ao erro nem à fraqueza alguma quando vem trazer socorro As fraquezas humanas não são verdadeiros pecados mas penalidades pelo primeiro pecado 54 As más ações que cometemos por ignorância e as boas que não conseguimos praticar apesar da boa vontade denominamse pecados visto tirarem sua origem daquele primeiro pecado cometido por livre vontade Esse com efeito como antecedente mereceu os outros pecados como conseqüentes Assim de modo semelhante costumamos denominar língua não apenas o órgão que pomos em movimento na boca ao falarmos mas também aquilo que resulta desses movimentos isto é a forma e a seqüência sonora das palavras Nesse sentido dizemos uma é a língua grega outra a latina Da mesma maneira denominamos pecado não apenas o que em sentido próprio é pecado por ter sido cometido conscientemente e por livre vontade mas também o que é a conseqüência necessária do mesmo pecado como castigo do mesmo Igualmente quanto ao termo natureza Entendemos de um jeito quando falamos em sentido próprio isto é a respeito da natureza específica na qual o homem foi primeiramente criado no estado de inocência De modo diferente entendemos o termo natureza quando tratamos dessa natureza na qual como conseqüência do castigo imposto ao primeiro homem após sua condenação nascemos mortais ignorantes e escravos da carne tal como disse o Apóstolo Como eles os pagãos nós os judeus também andávamos outrora nos desejos de nossa carne satisfazendo as vontades da carne e os seus impulsos e éramos por natureza como os demais filhos da ira Ef 23 Capítulo 20 Justiça e bondade de Deus na condição atual de fraqueza dos homens 55 Dessa maneira aprouve muito justamente a Deus que governa soberanamente todas as coisas que nascêssemos daquele primeiro casal com ignorância e dificuldade no esforço e na mortalidade Isso porque ao pecarem eles foram precipitados no erro na dor e na morte Assim na origem do homem devia se manifestar a justiça daquele que pune e no decorrer de sua vida a misericórdia daquele que liberta Posto que se os primeiros homens desde a sua condenação perderam a sua felicidade não perderam por aí a sua fecundidade Logo a sua descendência mesmo carnal e mortal poderia tornar se em seu gênero certo elemento de honra e ornamento para o universo Na verdade não era justo que o primeiro homem gerasse filhos melhores do que ele mesmo era Por outro lado convinha ao se converter para Deus que qualquer pudesse triunfar do castigo que havia merecido ao nascer no afastamento de Deus Outrossim não convinha que essa boa vontade de regresso a Deus fosse impedida Pelo contrário que fosse ajudada O Criador de todas as coisas mostrava além do mais por esse meio com quanta facilidade o primeiro homem teria podido se o quisesse manterse no estado no qual havia sido criado visto que sua descendência pôde vir a triunfar do estado em que nascera Em qualquer hipótese a respeito da origem das almas Deus é sempre justo 56 Em seguida se supusermos que Deus criou uma só alma da qual tiraram sua origem as almas de todos os homens que nascem quem poderia negar não ter cada homem pecado ao pecar o primeiro homem137 No caso porém de as almas serem criadas separadamente uma a uma na ocasião do nascimento de cada homem138 não se pode achar ser contra a razão mas ao contrário perfeitamente conveniente e bem conforme a ordem que os desméritos da primeira alma sejam conaturais à alma seguinte e que o mérito da segunda seja conatural à antecedente Com efeito o que há de indigno para o Criador se ainda assim ter ele querido demonstrar a dignidade da alma natureza espiritual ultrapassar de muito os seres corporais e que o grau de profundidade ao qual uma alma chegou em sua degradação possa ser o ponto de origem de outra alma Eis por que quando a alma ao pecar cai na ignorância e nas dificuldades falase então com razão de castigo visto que certamente ela foi melhor antes de tal castigo Logo em conseqüência não apenas antes de pecar mas desde o começo de sua vida se uma alma começa por encontrarse em estado semelhante àquele em que outra tornouse após toda uma vida de pecado ela possui entretanto um bem considerável do qual deve dar graças a seu Criador Visto que desde o seu nascimento e seu próprio começo ela é superior a não importa qual ser apenas corporal em sua total perfeição Com efeito não é um bem de pouco valor não apenas o fato de ser uma alma cuja natureza já ultrapassa qualquer corpo mas também de ser capaz com a ajuda do Criador de aperfeiçoarse a si mesma e por um piedoso empenho poder adquirir e possuir as virtudes por meio das quais poderá vir a libertarse dos tormentos da dificuldade e da cegueira do erro Se assim é a ignorância e a dificuldade dessas almas no momento de nascer não serão para elas o castigo do pecado mas sim um estímulo ao progresso e um início de perfeição Pois não é pouca coisa antes mesmo de qualquer boa obra meritória ter a alma recebido a capacidade de um julgamento natural por meio do qual prefere a sabedoria ao erro e o repouso à dificuldade Assim pode ela chegar àquela Sabedoria e repouso não por seu nascimento mas pela constância nos esforços E caso a alma recusarse de agir com razão será considerada culpada de pecado por não ter usado bem da possibilidade que recebeu Pois se bem que tenha nascido na ignorância e nas dificuldades contudo necessidade alguma a obrigava a permanecer nesse estado em que nascera Afinal ninguém de modo algum a não ser Deus onipotente pode ser o Criador de tais almas de darlhes a existência antes mesmo de ter sido amado por elas E reformálas amandoas e aperfeiçoálas quando por elas amado É Ele que dá o ser às almas que não existem ainda E àquelas que o amam como autor de sua existência concedelhes o poder de serem felizes139 57 Por outro lado ao admitirmos que talvez as almas já tenham preexistido em algum lugar secreto disposto por Deus e serem elas enviadas para animar e governar os corpos de cada uma das pessoas que for nascendo nesse caso estão elas destinadas a esse ofício para dar uma boa direção ao corpo em que nascem sujeito à penalidade do pecado isto é padecendo a mortalidade devida ao pecado do primeiro homem Fazem isso dominando o corpo por meio das virtudes para submetêlo a uma servidão perfeitamente legítima e conveniente para lhe fazer adquirir assim progressivamente conforme a ordem em tempo oportuno um lugar na morada incorruptível do céu Essas almas ao entrarem na vida presente sujeitandose ao encargo de reger membros mortais devem também submeterse ao esquecimento da vida precedente assim como aceitar os trabalhos desta vida Aí está a explicação daquela ignorância e dificuldades que foram para o primeiro homem o castigo de sua queda mortal é para assim ser expiada a miséria da própria alma Mas para as outras almas elas encontram desse modo acesso à sua função de recuperar para o corpo a incorruptibilidade Assim tampouco são denominados pecados a ignorância e a fraqueza a não ser no sentido de que o corpo provindo da geração de pecador comunica às almas que vêm a unirse a elas aquela mesma ignorância e dificuldade Mas nem essas almas nem o Criador devem ser julgados responsáveis como de uma falta Pois Deus deulhes a capacidade de agir bem nos deveres penosos e também ensinoulhes o caminho da fé em meio à cegueira da ignorância E acima de tudo deulhes esse reto julgamento pelo qual toda alma reconhece que é preciso procurar tudo o que não lhe traz utilidade alguma em ignorar Deulhes ainda o poder de fazer esforços perseverantes no cumprimento de seus deveres para vencerem a dificuldade de agir bem Implorarem assim a ajuda do Criador para a obtenção de auxílio divino nos seus esforços Deus mesmo ordena que se façam esforços seja de modo exterior por intermédio da lei seja por convites pessoais no íntimo do coração E ao mesmo tempo prepara a glória daquela cidade bem aventurada para os vencedores do demônio que arrastou o primeiro homem a tal miséria tendoo vencido por uma pérfida persuasão E é precisamente aceitando essas misérias que os homens triunfam do demônio pela excelência de sua fé Não é um fato de pouca glória o de vencerem o demônio tomando sobre si aquele mesmo suplício pelo qual o espírito das trevas glorificavase de ter vencido os homens Ora quem quer que negligencie esse combate seduzido pelo amor desta vida não terá o direito de atribuir o castigo de sua deserção a uma ordem do grande Rei Pelo contrário verseá submetido ao Senhor de todas as coisas relegado por ele ao lugar que lhe corresponde nos domínios do mesmo demônio sob cujas ordens aprouve militar tendo traído a sua bandeira 58 Finalmente se admitirmos a suposição de que as almas antes de sua união com o corpo encontravamse em algum outro lugar e não foram enviadas pelo Senhor nosso Deus mas ao contrário vieram espontaneamente unirse aos corpos a conseqüência é então fácil de ser compreendida Tudo o que elas experimentam de ignorância e dificuldades sendo conseqüência de sua própria vontade não há aí de modo algum nada que se possa incriminar ao Criador Aliás mesmo se o próprio Senhor Deus tivesse enviado essas almas uma vez que não as privou até em meio da ignorância e das dificuldades da vontade livre nem da faculdade de pedir de procurar e de esforçarse propondose Ele a dar às que lhe pedissem de mostrarse às que procurassem e de abrirse às que batessem Ele seria totalmente isento de qualquer culpa Ele consentiria assim a essas almas zelosas e de boa vontade poderem obter triunfo sobre a ignorância as dificuldades e darlhesia um meio de adquirir a coroa de glória Quanto às almas negligentes que pretendem desculpar seus pecados por meio de suas fraquezas o Senhor Deus não consideraria como crime essa mesma ignorância ou dificuldade Entretanto por terem preferido permanecer envoltas nelas em vez de chegar à verdade e à facilidade procurando e esforçandose com zelo confessando com humildade suas faltas e orando Ele as haveria de punir com justo castigo140 Capítulo 21 O que é preciso crer e que tipos de erros prejudicam a nossa felicidade 59 Há pois quatro opiniões sobre a origem da alma ou todas elas provêm de uma só transmitidas por geração 2055 ou bem a cada nascimento humano uma nova alma é criada 56 ou então as almas já existentes em qualquer outro lugar são enviadas por Deus aos corpos daqueles que nascem 57 ou enfim elas descem por sua própria vontade para os corpos dos que nascem 58 Dessas quatro opiniões nenhuma deveria ser adotada afirmativamente de modo temerário Pois essa questão ainda não foi desenvolvida e esclarecida pelos intérpretes católicos dos Livros Sagrados o quanto exigiriam sua obscuridade e complexidade Ou caso já o tenham feito tais obras ainda não nos chegaram às mãos Contentemonos por enquanto de estarmos firmes na fé para não aceitar opinião falsa alguma ou que seja indigna da natureza do Criador Pois em direção a Ele é que tendemos pelo caminho da piedade Pois se nossa opinião a respeito de Deus não for conforme ao que Ele é nosso esforço nos levará forçosamente não para a bemaventurança mas em direção à vacuidade Quanto aos seres criados caso adotemos uma opinião que não corresponda à realidade não há perigo algum contanto que não consideremos essas idéias como algo certo e evidente Pois não é em direção aos seres criados que somos ensinados a nos dirigir para nos tornar felizes mas sim em direção ao próprio Criador Logo se em relação a Ele persuademnos de crer o que não é certo e conforme à realidade abusam de nossa confiança com erro muito pernicioso Porque caminhando na direção de meta que não existe ou que se existe não nos torna felizes ninguém pode chegar à vida bemaventurada 60 Mas para podermos chegar à contemplação da eterna Verdade e sermos capazes de gozar dela e a ela aderirmos foinos proporcionado um meio vindo das coisas temporais e preparado de modo adaptado à nossa fraqueza Consiste quanto às coisas futuras e passadas em crer apenas o suficiente para aqueles que como nós caminham em direção às realidades da eternidade Ora tal ensino de fé possui a mais alta autoridade sendo dirigido pela misericórdia de Deus Quanto às coisas presentes relacionadas às criaturas nossos sentidos percebemnas através da mobilidade e mutabilidade do corpo e da alma como objetos transitórios Nesse domínio a respeito de tudo o que escapa à nossa experiência não podemos ter nenhuma espécie de conhecimento direto Por conseguinte é preciso crer sem hesitação alguma em tudo o que nos afirmam sobre os seres criados em relação ao passado ou ao futuro uma vez sendo garantido pela autoridade do testemunho divino Uma parte desses relatos na verdade já se passou sem que tenhamos podido nos dar conta Outra parte ainda não foi posta ao alcance de nossos sentidos Contudo possuem todos eles uma grande eficácia para fortalecer nossa esperança e excitar nosso amor exortandonos a atenção sobre o quanto Deus cuida de nossa libertação através da sucessão perfeitamente ordenada dos tempos Mas seja qual for o erro mesmo servindose este da máscara da autoridade divina será refutado sobretudo se constatarmos seja a existência de qualquer natureza mutável além dos seres criados por Deus seja afirmar a existência de uma beleza mutável na própria natureza de Deus ou ainda caso se pretenda que essa divina natureza é algo a mais ou algo a menos do que a Trindade Pois é em vista de compreender com piedade e discrição a Trindade que se aplica toda a vigilância cristã e a esse fim é que tendem todos os seus progressos Entretanto quanto a tratarmos da unidade e da igualdade das Pessoas dessa Trindade e do que nela é próprio a cada uma das pessoas divinas não é este o lugar de fazêlo Com facilidade poderíamos apresentar outras considerações sobre o Senhor nosso Deus autor formador e ordenador de todas as coisas e sobre certas verdades que pertencem a nossa fé muito salutar É com elas que se nutre como de leite aquele que começa a se elevar das coisas da terra para as do céu encontrando um útil apoio para esse intento Seria na verdade muito fácil fazer essas considerações e muitos já o realizaram Não obstante aprofundar tudo o que é relativo à Trindade por completo e desenvolver de tal modo que toda inteligência humana o quanto é possível nesta vida fique conquistada pela evidência da argumentação quer se trate de realizálo com palavras ou simplesmente pelo pensamento sem dúvida é um empreendimento muito difícil e pouco acessível seja para qualquer homem seja certamente para mim Logo conforme nosso propósito cheguemos a termo na medida em que para isso temos força e o quanto formos ajudados por Deus Primeiramente sem sombra de dúvida creiamos tudo o que nos é proposto em relação aos seres criados seja a respeito das coisas do passado seja como predição do futuro para nos servir a melhor estimar a nossa religião em sua pureza excitandonos a um amor muito sincero para com Deus e o próximo Por outro lado é preciso nos precaver contra os incrédulos o suficiente para esmagarmos sua infidelidade ao peso da autoridade divina Ou então para lhes demonstrar o quanto possível em primeiro lugar que não há insensatez alguma em crer tais afirmações Em seguida que pelo contrário existe grande loucura em não crer nelas Todavia são as falsas doutrinas concernentes não tanto ao passado e ao futuro quanto às relativas ao presente e sobretudo às realidades imutáveis que é preciso refutar e sobre as quais urge triunfar o quanto possível por demonstrações evidentes O problema de nossa origem é menos importante do que o de nosso destino 61 Na verdade na série das realidades temporais é preciso preferir a expectativa das coisas futuras à verificação das passadas Pois mesmo nos Livros Sagrados o relato das coisas passadas encerra em si uma prefiguração uma promessa ou ainda um testemunho das que devem acontecer Além do mais até a respeito dos acontecimentos desta vida na prosperidade ou adversidade poucos se preocupam tanto com o estado em que se encontravam anteriormente fosse ele próspero ou adverso mas todo o ardor de suas preocupações concentrase de preferência sobre o que esperam do futuro Porque devido a não sei que sentimento íntimo e natural as coisas que nos aconteceram por serem passadas são consideradas apenas como um instante de felicidade ou infortúnio ou como se nunca tivessem acontecido Que inconveniente haveria pois para mim o fato de ignorar quando comecei a existir se constato que agora existo e não desespero de continuar a existir no futuro Porque não é em direção ao passado que me dirijo e não será para temer como um erro pernicioso o fato de possuir uma opinião contrária ao que as coisas foram na realidade Mas é em direção ao meu estado futuro que dirijo o meu caminhar sob a conduta da misericórdia de meu Criador Portanto se em relação à minha situação futura e sobre Aquele junto a quem hei de estar o fato de ter crenças ou idéias não conformes à verdade isso sim seria um erro a respeito do qual devo acautelarme a todo custo Pois é para temer que não me prepare o suficiente ou que não possa atingir o fim mesmo de minhas aspirações caso tome uma coisa por outra Assim por exemplo como nenhum inconveniente seguirseia na compra de uma veste caso não me lembrasse mais do inverno passado mas haveria um real inconveniente se não cresse na iminência do frio a vir Do mesmo modo não haveria inconveniente algum para minha alma o fato de ter esquecido o que talvez tenha suportado outrora Isso se ela considera agora com cuidado e mantém bem presente o fim para o qual doravante deve se preparar E ainda por exemplo não haveria prejuízo algum para um navegante que se dirigisse a Roma se viesse a esquecer de que porto seu navio desatracou Contanto que não ignorasse para onde deva dirigir a proa de sua embarcação a partir de onde se encontra presentemente Por outro lado não haveria vantagem alguma em se lembrar de onde teve lugar sua partida se tendo uma falsa indicação sobre o porto de Roma viesse a se chocar contra os recifes De igual maneira se não me recordo mais do início de minha vida não se seguirá daí para mim inconveniente algum Contanto que saiba onde encontrar o repouso final De modo semelhante não haveria utilidade nenhuma para mim em me lembrar ou conjecturar de que maneira minha vida se iniciou se tendo a respeito de Deus única meta dos trabalhos da alma convicções indignas dele eu me arremetesse contra os arrecifes do erro 62 Ao falar assim essas palavras não devem fazer crer a ninguém que queiramos impedir aos pesquisadores competentes de examinar conforme as Escrituras divinamente inspiradas se a alma provém uma de outra por geração ou se são elas criadas uma a uma em cada corpo que vivifica ou ainda se elas são enviadas de algum lugar por ordem divina para animar e governar os corpos ou enfim se elas introduzemse nele por própria vontade cf III2159 Isso caso a razão exija serem considerados e discutidos tais problemas em vista de resolver alguma questão muito necessária Ou então caso alguém encontre tempo deixando outras questões mais necessárias e prefira abordar essas pesquisas e exposições Na verdade eu disse tudo o que precede sobretudo a fim de que ninguém nessa questão a respeito da origem da alma se irrite temerariamente contra outro que talvez por hesitação muito humana não opine exatamente como ele próprio E também para que se alguém tiver podido perceber nessa questão alguma evidência e certeza não creia que os demais tenham perdido a esperança dos bens futuros por não se recordar dos inícios de sua existência Capítulo 22 Os pecados são atribuíveis à própria vontade não a Deus 63 Seja como for a respeito desse problema quer o deixemos definitivamente quer o suspendamos por certo tempo para examinarmos melhor mais tarde nada impede constatarmos claramente esta conclusão as almas estão sujeitas a um castigo merecido por seus próprios pecados sem que seja atingida em nada a integridade a justiça e a irredutível firmeza e imutabilidade do Criador em sua natureza e majestade Porque os pecados como já expusemos longamente não devem ser atribuídos senão à própria vontade E não é para se buscar outra causa além dessa Hipótese e se o estado atual do homem fosse conforme à sua natureza sem que tenha havido o pecado original 64 Suponhamos que a ignorância e as dificuldades na luta sejam naturais à alma sendo a partir daí que ela progrida e elevese ao conhecimento e ao repouso até conseguir a plena realização da vida bemaventurada141 Ora para esse progresso empregando os mais nobres esforços e piedade os meios não lhe são recusados Mas caso ela for negligente por sua própria vontade será justo que seja relegada a uma ignorância mais ampla e a dificuldades mais graves onde encontrará então sua punição E conforme a ordem e a harmonia reinantes no governo das coisas ficará ela colocada num plano inferior Não é sua ignorância natural nem sua incapacidade natural que lhe seriam imputadas como pecado mas o fato de sua falta de aplicação em relação ao saber e seu pouco esforço para adquirir a facilidade de proceder bem De modo análogo por exemplo não saber nem poder falar vemos ser algo natural às crianças pequeninas E essa ignorância e dificuldade de expressão não apenas estão isentas de censura dos professores mas até parecem ser agradáveis e encantadoras para o coração humano Com efeito não se pode dizer que a criança tenha negligenciado de adquirir sua capacidade de falar por qualquer maldade nem mesmo ter perdido o hábito por sua falta É porque se nossa felicidade consistisse na eloqüência e se fossem consideradas como crime as faltas cometidas nas ações da vida por certo não se poderia censurar a ninguém de ter cometido pecado com seu defeito natural de pronúncia É fato próprio da vida infantil pois partimos dela para a aquisição da eloqüência Contudo seria censurado com razão se alguém por sua má vontade tivesse recaído no defeito da infância e tivesse querido nele permanecer Agora da mesma maneira se a ignorância da verdade e a dificuldade de tender para o bem fossem naturais ao homem como sendo o ponto de onde parte para alcançar a felicidade e portanto elevar se até à posse da sabedoria e da paz ninguém poderia sem injustiça censurar à alma como sendo pecado esse começo natural Mas caso ela não queira progredir ou se o quiser após certo progresso retroceder ao começo padeceria o castigo com toda razão Conclusão é preciso louvar a Deus em qualquer hipótese 65 O Criador da alma merece pois em tudo louvores seja por ter posto na alma desde a sua origem um começo de aptidão para ascender até o sumo Bem seja porque Ele a ajuda a progredir seja porque dá a esses progressos contínuos um complemento e coroamento ou seja enfim porque por uma muito justa e merecida condenação ele a faz entrar na ordem conforme os seus deméritos quando ela peca isto é quando recusa desde os seus primeiros passos se elevar para a perfeição ou que retroceda após alguns progressos Pois é certo que a alma não foi criada má pelo fato de não ser ainda tão perfeita quanto a capacidade que recebeu de vir a sêlo ao progredir Visto que bem abaixo de sua perfeição inicial encontramse todas as perfeições dos corpos Entretanto apesar da inferioridade esses corpos são em seu gênero dignos de louvor conforme o bom julgamento de todo aquele que julga as coisas com sanidade Logo se a alma ignora o que há de fazer é porque isso provém de uma perfeição ainda não obtida Ela a obterá porém se usar bem o que lhe foi já dado Ora o que lhe foi dado é a capacidade de procurar com cuidado e piedade caso o queira Assim também quando a alma conhecendo o que deve fazer fica ainda incapaz de o realizar isso provém de uma perfeição ainda não adquirida Pois existe nela uma parte mais sublime essa que toma a dianteira para perceber o bem que lhe convém fazer Outra parte porém é mais preguiçosa e carnal e não se deixa dirigir logo como deveria por tal caminho E essa resistência é para advertir a alma de implorar a fim de conseguir seu acabamento o auxílio dAquele que ela sabe ser o autor de seus inícios Assim deve Ele se tornar para ela mais amado visto não ser por suas próprias forças mas graças à bondade divina que ela tem a sua existência Assim também deverá ela à sua misericórdia o fato de ser elevada à beatitude Ora quanto mais for amado Aquele que a fez mais lhe está assegurado o repouso que ela possuirá nele e mais abundante será a alegria que ela há de gozar em sua eternidade Pois de modo semelhante se só um primeiro rebento brota de um pequeno arbusto uma árvore não merece de modo algum ser denominada estéril ainda que tenha de atravessar muitos verões sem fruto à espera do tempo oportuno para manifestar a sua fecundidade Desse modo por que não havemos nós de dirigir nossos louvores como um dever de piedade ao Criador da alma se Ele lhe deu não só um início mas o tempo de se preparar pela aplicação e progresso moral para chegar ao fruto da sabedoria e da justiça E ainda mais por lhe ter consentido essa grande dignidade de ter em seu poder o tender caso o queira até à beatitude C PROBLEMAS ACERCA DAS CRIANÇAS Capítulo 23 A morte prematura das crianças e o sofrimento que padecem não são contrários à ordem universal 66 Alguns ignorantes costumam objetar a tais argumentos uma objeção caluniosa concernente à morte das crianças e acerca dos sofrimentos corporais pelos quais nós as vemos freqüentemente serem afligidas Dizem eles Que necessidade tinha essa criança de nascer pois se antes mesmo de ter realizado qualquer obra meritória deixa a vida E em que categoria será preciso colocar no momento do julgamento final aquele pequeno ser cujo lugar não está nem entre os justos pois não praticou nenhuma boa ação nem entre os maus posto que não cometeu pecado algum Respondemos a isso considerando o conjunto do universo e a ordem perfeita que une todas as criaturas através do espaço e tempo chegase à conclusão da impossibilidade de homem algum ser criado inutilmente visto que nenhuma folha de árvore tenha sido criada sem motivo Entretanto é por certo supérfluo interrogar sobre os méritos de alguém que nada mereceu Porquanto não é para temer que não possa haver uma espécie de vida média entre a virtuosa e a pecaminosa E em referência a um juiz pode ser que ele tome uma decisão média entre a recompensa e o castigo E as crianças que morrem sem batismo 67 Nesse sentido há ainda o costume entre aquelas mesmas pessoas de indagarem para que pode servir às criancinhas o sacramento do batismo de Cristo quando muitas delas após têlo recebido morrem antes de ser capazes de nada entender Quanto a esse problema conforme uma crença sólida piedosa e razoável o que é de fato útil à mesma criança batizada é a fé daqueles que a oferecem para ser consagrada a Deus Essa opinião é recomendada pela autoridade muito salutar da Igreja Por aí cada um pode aquilatar quanta utilidade constitui para si a própria fé pessoal já que a de uma pessoa estranha pode ser comunicada com benefício a outros que não a possuem ainda Nesse sentido qual o proveito que o filho daquela viúva encontrou com sua própria fé visto que uma vez estando morto já não a possuía mais Entretanto a fé de sua mãe lhe foi de tanta utilidade que lhe obteve a ressurreição Lc 711ss Logo com quanta mais forte razão a fé de uma outra pessoa pode aproveitar a uma criança à qual certamente não se pode inculpar de falta de fé142 As dores das criancinhas são compatíveis com a bondade divina 68 Reflitamos agora sobre o caso dos sofrimentos corporais com os quais as crianças pequenas são atormentadas as quais devido à sua idade estão isentas de qualquer pecado Na suposição de as almas que vivificam as crianças não terem já começado a existir antes costumam alguns erguer lamentações maiores como se tivessem pena e dizem Que mal fizeram para sofrer assim Falam como se pudesse haver algum mérito devido à inocência antes de alguém poder cometer algum mal E no caso de Deus pretender obter alguma coisa de bom para a correção dos adultos quando os prova pelas dores e morte das crianças que lhe são queridas por qual razão não haveria de fazêlo Posto que uma vez tendo passado esses sofrimentos tudo será como se não tivessem existido para aqueles a quem aconteceram E quanto àqueles em cuja intenção tais coisas terão acontecido ou eles se tornarão melhores no caso de se corrigirem por meio dessas aflições temporais e assim terem optado por viver com mais retidão ou no caso contrário não terão desculpa alguma diante da punição no julgamento futuro pois recusaram apesar das angústias da vida presente a voltarem os seus desejos em direção da vida eterna Aliás quem é que pode saber o quanto a essas crianças cujos tormentos visaram abalar a dureza do coração dos mais velhos ou pôr em prova sua fé ou ainda manifestar a sua piedade quem pois poderá saber qual será a feliz compensação que Deus reserva a essas crianças no segredo de seus julgamentos Porquanto se elas não praticaram ainda bem algum foi também sem haver pecado em nada que suportaram tais sofrimentos Assim lembremos aquelas crianças postas à morte quando Herodes procurava o Senhor Jesus Cristo para o matar Mt 26 Não é em vão que a Igreja as apresenta à nossa veneração reconhecendoas no número glorioso dos mártires Razões providenciais das dores dos animais 69 Além disso aqueles homens caluniadores desprovidos do zelo necessário para examinar tais problemas e na verdade perturbadores muito loquazes tentam ainda abalar a fé dos fléis menos instruídos a propósito das dores e cansaço dos animais Dizem Que mal cometeram os animais para sofrerem tão grandes penas ou que bem esperam em troca para serem provados com padecimentos tão excessivos Mas se falam e sentem assim é porque julgam as coisas de modo muito iníquo São eles incapazes de contemplar a natureza e a grandeza do sumo Bem Pretendem que tudo seja semelhante ao que pensam Eles não podem conceber o sumo Bem acima daqueles corpos colocados no plano supremo que são os corpos celestes e por essa razão menos sujeitos à corrupção Reclamam assim de maneira totalmente contrária à lei da ordem universal de que os corpos dos animais sofram a morte e qualquer corrupção como se eles não fossem mortais Ora na verdade eles encontramse na ínfima categoria dos seres Ou consideramnos como se fossem maus pelo fato de valerem menos do que os corpos celestes Todavia a dor sentida pelos animais põe em relevo na alma desses mesmos animais um poder admirável e digno de estima em seu gênero Por aí aparece suficientemente o quanto a alma aspira à unidade ao vivificar e governar os respectivos corpos Pois o que é a dor a não ser uma sensação de resistência à divisão e à corrupção Graças a isso aparece mais claramente do que a luz o quanto a alma desses animais está ávida de unidade no conjunto do corpo e o quanto deseja isso Pois não é com prazer nem indiferença mas antes com esforço e resistência que ela reage contra o sofrimento de seu corpo não aceitando a não ser com penas de ver assim a sua unidade e integridade serem abaladas Se não fosse a dor dos animais não se poderia ver suficientemente quão grande é a aspiração à unidade até na ordem inferior das criaturas denominadas animais E sem isso nós não estaríamos bastante advertidos o quanto todas as coisas são feitas pela soberana sublime e inefável unidade do Criador Conclusão toda criatura canta a unidade suprema de Deus 70 Na verdade tu o verás se atenderes piedosa e diligentemente como toda a beleza e o movimento das critauras submetidos às reflexões do espírito humano estabelecem uma linguagem apta a nos instruir E esses diversos movimentos e disposições são como línguas variadas que clamam em todos os lugares e nos conjuram ao conhecimento do Criador Não há coisa alguma entre as criaturas que não possua o sentimento da dor ou do prazer que não chegue à perfeição própria de seu gênero ou não consiga em absoluto a estabilidade devida à sua natureza a não ser em virtude de certa unidade De modo semelhante nenhuma criatura existe entre as que sentem quer os incômodos da dor quer a satisfação do prazer que ao fugir da dor ou buscando o prazer não ateste por aí suficientemente que está a fugir da desagregação e à procura da unidade Também entre as almas dotadas de razão há todo um desejo de conhecimento no qual a sua natureza se deleita e que conduz à unidade tudo aquilo que percebem Igualmente quanto ao desejo de evitar o erro não fazem outra coisa senão evitar a confusão inexplicável gerada por equívocos Ora de onde nos vem o malestar provocado por tudo o que é equívoco a não se porque lhe falta a exata unidade Uma coisa pois se segue daí todos os seres quer eles causem dano ou sofram dano quer causem agrado ou recebam agrado insinuam e proclamam a unidade do Criador Mas caso a ignorância e as dificuldades pelas quais esta vida deve necessariamente ter o seu começo não são próprias da natureza das almas resta que ou bem foram impostas como uma obrigação ou bem infligidas como uma punição Sobre esses assuntos julgo que a presente argumentação tenha sido suficiente D QUESTÕES SOBRE O PRIMEIRO PECADO DO HOMEM E O DO DEMÔNIO Capítulo 24 Foi o homem criado em estado de sabedoria ou de insensatez 71 Mas vamos agora de preferência procurar saber em que estado foi criado o primeiro homem mais do que indagar como se propagou a sua descendência Ora alguns imaginam propor a dificuldade com habilidade ao indagar Se o primeiro homem foi criado sábio como se explica ter sido ele seduzido E caso tenha sido criado insensato como não há de ser Deus o autor dos defeitos dele visto que a insensatez stultitia é o maior de todos143 Como se a criatura humana não fosse suscetível entre os dois extremos insensatez e sabedoria de conhecer um estado intermédio o qual não possa ser denominado nem uma coisa nem outra Pois o homem não começa a ser insensato ou sábio de maneira a ser chamado necessariamente por uma das duas denominações a não ser no momento em que esteja em condições de possuir a sabedoria caso não seja negligente e sua vontade não se torne responsável pela insensatez Assim ele poderá possuir a sabedoria sendo sua vontade a culpada pelo defeito da insensatez De fato ninguém perde o juízo a ponto de chamar insensato uma criança ainda que haja absurdo maior chamála de sábia Por conseguinte uma criança não pode ser denominada nem insensata nem sábia embora já possua a natureza humana Por aí se vê que a natureza do homem nasce em um estado intermédio que não é nem a estultice nem a sabedoria Assim também se alguém estivesse alienado por um estado de espírito em sua constituição natural semelhante ao das pessoas que carecem de sabedoria e não por negligência em adquirila ninguém teria razão de o chamar de insensato visto estar nesse estado por natureza e não em conseqüência de sua culpa A insensatez é efetivamente a ignorância não qualquer uma mas a acarretada por vício das coisas que devem ser desejadas ou evitadas Daí não chamarmos tampouco insensato o animal desprovido de razão por não ter recebido a capacidade de se tornar sábio Entretanto muitas vezes nossa maneira de falar é freqüentemente analógica e não tomada em sentido próprio Assim por exemplo a cegueira que é o mal supremo dos olhos não é contudo um defeito para os cachorrinhos recémnascidos Nem nesse caso pode ser chamada propriamente de cegueira O primeiro pecado não pode ser imputado a Deus mas sim ao orgulho do homem 72 Em conseqüência o homem foi criado em um estado tal que sem ainda ser sábio era capaz entretanto de receber um preceito com o evidente dever de obedecer a ele Não é pois para se estranhar que pudesse ter sido seduzido Nem é injusto que tenha sido castigado por não haver obedecido a tal preceito Por outro lado resulta que o seu Criador não é o autor dos defeitos porque a ausência de sabedoria ainda não era um defeito para o homem uma vez que ele não tinha ainda recebido a capacidade de a possuir Não obstante o homem tinha o meio se o quisesse de se servir dela convenientemente Elevarse assim até aquela sabedoria que ainda não desfrutava Pois uma coisa é gozar da razão outra coisa ser sábio A razão torna todo homem capaz de receber um preceito ao qual deve fidelidade na execução do que é prescrito Ora assim como a natureza racional é capaz de perceber um preceito assim também a observância deste conduz à sabedoria Dessa maneira o que a natureza faz para a compreensão do preceito a vontade o faz para a observância do mesmo E de modo semelhante assim como para a natureza racional é como um mérito receber um preceito assim a observação deste pela vontade é como o fundamento para a recepção da sabedoria Todavia no momento em que o homem começa a ser capaz de compreender um preceito começa por aí mesmo a poder pecar Ora antes de chegar a ser sábio é de duas maneiras que ele peca ou não se sujeitando a aceitar o preceito ou então não o observando após o ter aceito Quanto ao sábio ele peca ao afastarse da sabedoria Com efeito assim como o preceito não procede daquele que o recebe mas daquele que o impõe do mesmo modo a sabedoria não procede daquele que é iluminado por ela mas daquele que ilumina Conseqüentemente de que não deve ser louvado o Criador do homem Pois o homem é um bem superior ao animal em virtude de ser capaz de receber um preceito E ele tornase ainda melhor depois de o ter aceito E muito mais ainda após ter obedecido a ele Enfim é ainda muitíssimo melhor do que tudo isso quando a luz da sabedoria eterna o torna bemaventurado Por outro lado o pecado é um mal que consiste em negligenciar seja o aceitar um preceito seja de observálo seja de perseverar na contemplação da sabedoria De onde se pode compreender como o primeiro homem mesmo tendo sido criado sábio podia no entanto ser seduzido E como a esse pecado cometido livremente seguiuse justamente o castigo por disposicão divina Assim fala o apóstolo Paulo Jactandose de possuir a sabedoria tornaramse néscios Rm 122 Pois o orgulho com efeito afasta sabedoria e a insensatez é uma conseqüência dessa aversão144 A insensatez é uma espécie de cegueira como diz o mesmo Apóstolo Seu coração insensato obscureceuse Rm 121 Ora de onde vem esse obscurecimento a não ser porque o homem se afasta da luz da sabedoria E de onde vem esse afastamento a não ser de que o homem do qual Deus é o único bem quer se tornar ele mesmo o seu próprio bem como Deus o é para si É porque está dito No dia em que comerdes o fruto os vossos olhos vão se abrir e sereis como deuses Gn 35 Como se dá a passagem da insensatez à sabedoria 73 O que perturba os que refletem sobre essas questões é o seguinte Será por insensatez que o primeiro homem afastouse de Deus ou será que foi ao se afastar que ele se tornou insensato Pois se responderes Foi por insensatez que ele se afastou da sabedoria pareceria que o homem tinha sido insensato já antes de se afastar da sabedoria visto essa insensatez ter sido a causa de seu afastamento Do mesmo modo se responderes Foi ao se retirar que ele se tornou insensato perguntarse ia Caso ao se retirar comportouse ele com insensatez ou com sabedoria Pois se foi com sabedoria agiu bem não tendo cometido pecado algum Se foi com insensatez ele já devia ter dentro de si essa insensatez pela qual se produziu o seu afastamento Pois nada poderia ele ter feito com insensatez sem ser antes um estulto De onde fica claro que existe um certo meio termo por onde se passa da insensatez para a sabedoria E essa passagem não pode ser chamada nem um ato de insensatez nem um ato de sabedoria Acontece que os homens enquanto vivem nesta vida presente não chegam a compreender a não ser por termos opostos Com efeito nenhum mortal tornase sábio senão passando da insensatez à sabedoria Ora essa passagem fazse néscia ou sabiamente Caso se realize com insensatez por certo não é uma boa ação o que não pode ser dito sem grande absurdo E caso se efetue com sabedoria esta já se encontra no homem antes de sua passagem para a sabedoria o que não é menos absurdo De onde se vê que existe realmente um termo intermédio do qual não se pode dizer que seja nem uma coisa nem outra E quando o primeiro homem passou do santuário da sabedoria para a insensatez essa passagem não pertencia nem à sabedoria nem à insensatez Acontece o mesmo no caso da passagem do sono para o estado de vigília Estar prestes a pegar no sono não é precisamente a mesma coisa do que estar acordado mas sim uma certa transição de um estado para outro Há porém uma diferença esses últimos atos do dormir e acordar acontecem o mais freqüentemente de modo involuntário Ao contrário aqueles primeiros atos concernentes à sabedoria e à insensatez não se realizam nunca a não ser voluntariamente É porque sanções muito justas são a conseqüência Capítulo 25 Confronto entre o orgulho e a sabedoria 74 O que pôde mover a vontade de nossos primeiros pais Mas a vontade não flca solicitada a um determinado ato a não ser por meio de algum objeto o qual vem a perceber E se cada pessoa tem o poder de escolher o que aceita ou rejeita ninguém possui o poder de escolher o que vai aceitar ou rejeitar Ninguém pode determinar qual o objeto cuja vista o impressionará145 Ora é preciso reconhecer a alma fica impressionada pela vista de objetos sejam superiores sejam inferiores de tal modo que a vontade racional pode escolher entre os dois lados o que prefere E será conforme o mérito dessa escolha que se seguirá para ela o infortúnio ou a felicidade Assim no paraíso terrestre havia como objeto percebido vindo do lado superior o preceito divino e vindo do lado inferior a sugestão da serpente Pois nem o que o Senhor ia prescrever nem o que a serpente ia sugerir foi deixado ao poder do homem Contudo ele estava certamente livre de resistir à vista das seduções inferiores pois o homem tendo sido criado na sanidade da sabedoria achavase isento de todos os liames que dificultavam a sua escolha Podemos compreender isso pelo fato de os próprios insensatos chegarem a vencerse e se elevarem até à sabedoria ainda que lhes seja penoso renunciar às doçuras envenenadas de seus hábitos funestos146 O que moveu a vontade do demônio para se voltar para o mal 75 Aqui pode ser colocada uma questão uma vez que o primeiro homem encontrouse na presença de dois objetos percebidos de ordem oposta de um lado o preceito vindo de Deus e de outro a sugestão da serpente perguntase de onde teria vindo ao próprio demônio o desígnio de preferir a impiedade que o precipitou do alto de seu trono Na verdade se não tivesse sido impressionado pela vista de objeto algum ele não teria escolhido de fazer o que fez Pois se nada lhe tivesse ocorrido ao espírito não teria voltado de modo algum sua intenção para o mal Logo de onde lhe veio ao espírito o pensamento fosse qual fosse o conteúdo dessa sugestão de formar esse projeto que o levou a passar do estado de anjo bom que era ao de demônio147 Pois realmente aquele que quer por certo quer alguma coisa E ele não poderia querer esse intento se não lhe fosse assinalado exteriormente pelos sentidos ou se não tivesse sido apresentado a seu espírito de alguma maneira secreta É preciso distinguirmos duas espécies de objeto de conhecimento uma provindo de uma sugestão exterior premeditada como foi o caso da tentação do demônio a quem o homem cedeu tornandose pecador outra provindo das realidades que estão submetidas à atenção de nosso espírito148 ou à percepção de nossos sentidos corporais O que poderia vir a cair sob o pensamento direto do espírito por certo não seria a imutável Trindade que não somente escapa ao domínio de nosso entendimento mas ainda ultrapassa de muito a alma Cai sob a ação do espírito precisamente o próprio espírito pelo qual temos consciência de viver Em seguida o corpo ao qual o espírito governa É porque em cada ação ele move os membros que devem ser postos em movimento quando preciso Enfim também os sentidos corporais que têm por objeto direto o conhecimento dos seres corpóreos O orgulho principal fonte de toda má opção 76 Que a alma mutável possa se contemplar comprazerse de certa maneira em si mesma na contemplação da suprema sabedoria a qual sendo imensa não é a própria alma isso vem de que ela por não ser igual a Deus possui entretanto belezas que depois de Deus podem encantála Sua beleza tornase perfeita quando perdendose de vista no amor de Deus imutável esquecese totalmente em sua presença149 Mas se ao contrário indo por assim dizer a seu próprio encontro ela se compraz em si mesma como por uma espécie de arremedo perverso de Deus até pretender encontrar o seu gozo na própria independência então se faz tanto menor quanto mais deseja se engrandecer Esse é o sentido das palavras O orgulho é o começo de todo pecado Eclo 1013 E destas outras O início do orgulho humano é afastarse de Deus Eclo 1012150 Foi esse o pecado do demônio que acrescentou a inveja a mais odiosa até persuadir ao homem esse mesmo orgulho em razão do qual ele tinha consciência de ter sido condenado Mas aconteceu que a punição infligida ao homem foi destinada a corrigilo mais do que a dar ao mesmo homem a morte Visto que o demônio apresentouse ao homem como exemplo de orgulho o Senhor apresentouse a nós como exemplo de humildade e com a promessa de vida eterna Em seu amor infinito Deus quis que resgatados pelo sangue de Cristo derramado após trabalhos e sofrimentos inexprimíveis nós nos uníssemos a nosso Libertador com uma caridade ardente para deixarnos arrebatar até ele por luzes tão brilhantes que a vista de realidade inferior alguma possa nos afastar da contemplação do Bem supremo Outrossim se alguma sugestão procedente do apetite de bens inferiores vier a solicitar nossa atenção deveríamos ser reconduzidos ao bem pelo exemplo da condenação e dos tormentos eternos do demônio Conclusão a excelência da sabedoria 77 Tão grande é a beleza da justica tão grande o encanto da luz eterna isto é da Verdade e da Sabedoria imutável que mesmo se não nos fosse permitido gozar delas a não ser pelo espaço de um único dia em troca terseia plenamente razão em menosprezar por elas inumeráveis anos desta vida embora repletos de delícias e transbordantes de bens temporais Pois o salmista não se enganou ao dizer com tanto fervor Um só dia em teu santuário vale mais do que mil anos longe de ti Sl 8311151 Ainda que se possam interpretar essas palavras em outro sentido compreendendo por mil dias a mutabilidade dos tempos e designando por um só dia a imutabilidade da eternidade Curta conclusão geral Ignoro se ao responder às tuas questões ó Evódio o quanto o Senhor dignouse me conceder não haver eu omitido alguns pontos dos quais constatarás a ausência Contudo mesmo se os encontrares a extensão deste livro obriganos a finalizálo suspendendo as presentes argumentações 101 11 Vista geral do livro III O livro III estuda o livrearbítrio relacionandoo com a ordem reinante no universo Agostinho sempre se esmerou em exaltar a ordem universal da criação da qual o livrearbítrio ainda que sujeito ao pecado é um dos elementos constituintes Na Introdução deste livro III 113 é tratada a questão da origem da inclinação da alma para os bens transitórios em detrimento da busca dos bens imutáveis Esse movimento que afasta a vontade de Deus é certamente culpável e provém da debilidade humana para agir bem No correr do livro serão tratadas questões relativas às dificuldades e fraquezas do livrearbítrio da vontade Mas em todas as situações Agostinho encontrará motivos para louvar a Providência divina Podemos distinguir neste livro III as seguintes partes 1º de 24 a 411 o problema de se conciliar a liberdade humana com a prescência divina 2º de 512 a 1646 a parte mais extensa Desenvolvimento de uma série de considerações a respeito das relações entre o pecado e a Providência 3º de 1747 a 2577 problemas diversos Sobretudo o da origem de nossas almas individuais e a busca de uma explicação psicológica do primeiro pecado de Adão e o do demônio A obra termina com um magnífico elogio da sabedoria o oposto do orgulho 102 12 Qual a causa do mal no homem Etienne Gilson explica muito bem estas proposições Afirma Agostinho todo bem vem de Deus Na natureza tudo é um bem pois tudo vem de Deus Se um esboço de ser já é certo bem a supressão total de bem equivale por definição a uma supressão total de ser Tornase contraditório imaginarse uma causa positiva como é Deus estar na origem do movimento de aversão pela qual a vontade livre afastase dele Sem dúvida Deus criou a vontade senhora de si mesma e capaz de se apegar ao sumo Bem e também capaz de se afastar dele Contudo a vontade assim criada poderia desprenderse de Deus mas não deveria fazêlo necessariamente Sua queda visto que foi de fato uma queda não é natural e fatal como a de uma pedra que cai mas a queda livre de uma vontade que consente Podemos ler tais questões desenvolvidas de modo mais pleno em outra obra de Agostinho De diversis quaestionibus 83 nn 1 a 4 Cf E Gilson Introduction à létude de saint Augustin pp 190191 103 25 Será o destino o responsável por nossas ações Observa Agostinho serem muitos aqueles que não crêem a divina Providência dirigir com bondade os acontecimentos humanos Também não crêem serem as próprias ações o resultado de uma livre opção Daí julgaremse isentos de responsabilidade por seus atos Dizem eles Se pecam é porque foram forçados a isso Abandonamse assim ao destino de corpo e alma entregandose a toda sorte de vícios Negam a justiça divina e fazem pouco caso da humana procurando desculparse responsabilizando por suas más ações a sorte a fortuna ou o destino cego Ora Agostinho demonstra nos capítulos que se seguem que a presciência divina não retira a liberdade de nossos atos e sua conseqüente responsabilidade Nessas famosas passagens coloca ele todos os recursos de sua poderosa e sutil dialética para anular qualquer oposição entre presciência e liberdade 104 37 O poder da vontade Nada está tanto em nosso poder quanto a vontade pois está ela disposta à execução sem demora alguma no instante mesmo em que o queremos Tal colocação parecese muito com as do sistema pelagiano que apregoava a independência absoluta da liberdade e seu poder ilimitado para o bem como para o mal Assim a virtude só viria a depender de nós Já comentamos longamente sobre essa questão problemática da autodeterminação absoluta da verdade na nota 31 correspondente ao texto do l I1329 Todavia é preciso relevarmos as afirmações de Agostinho no final do l II 2054 em que ensina o livrearbítrio e suas boas ações serem o fruto da ajuda divina O homem não pode se reerguer por si mesmo 105 37 Plano da exposição sobre a presciência de Deus e nossos pecados Deus conhece de antemão nossos atos mas nossa vontade é livre Essas duas verdades são incontestáveis tanto uma como outra E Agostinho empenhase em conciliálas nestes capítulos No cap 24 Evódio propusera a questão preocupante Como pode existir uma vontade livre onde é evidente e inevitável certa ação No cap 36 Agostinho apresenta a mesma questão com maior precisão Como não há contradição e incompatibilidade entre o fato de Deus saber com antecedência todos os acontecimentos futuros e o fato de nós pecarmos livre e não necessariamente No cap 38 encontramos a resposta explicativa No cap 49 Evódio insiste novamente porque confessa ainda não ter conseguido entender como os dois termos não se contradizem No item 410 Agostinho explicalhe que é preciso não confundir presciência e causalidade E dá como exemplo a experiência da própria presciência humana No item 411 Agostinho apresenta a conclusão final Deus por sua presciência não força os acontecimentos futuros a se realizarem 106 38 Deus prevê os nossos atos livres Nossa vontade sequer seria vontade se não estivesse em nosso poder Ora por isso mesmo que está em nosso poder é livre para nós A presciência de Deus tem por objeto precisamente os nossos atos livres O fato de Deus os conhecer não é necessariamente a condição de forçálos a que se realizem Deus sabe que eu farei livremente tal ação Assim a presciência não age mais sobre o futuro do que a memória sobre o passado 107 38 Agostinho pertinaz defensor da liberdade Santo Agostinho sempre sustentou que a liberdade é um fundamento de antropologia cristã Defendeua contra os maniqueus seus antigos correligionários contra o determinismo dos astrólogos de que ele mesmo tinha sido vítima e contra toda forma de fatalismo João Paulo II Augsutinum Hipponensem nota 160 Leiase ainda o que o bispo de Hipona afirma a respeito dessa temática em A Cidade de Deus nos caps 8910 do livro V Na polêmica contra o pelagianismo demonstrará com insistência como a liberdade e o auxílio da graça divina não se opõem É verdade que nos últimos anos de sua vida justamente em reação à superemancipação da independência absoluta de vontade em relação a Deus defendida pelos pelagianos dará ele mais e mais espaço à ação da graça divina Chegará mesmo a afirmar a predestinação e a perseverança dos santos ser devida totalmente à ação gratuita de Deus Contudo é considerada como a opinião mais correta de Agostinho a que se encontra na resposta dada a Simpliciano no De diversis quaestionibus ad Simplicianum I q 2 no ano 397 Cf Dict Théol Catholique col 2378ss 108 512 As questões de Evódio Evódio revelase neste diálogo como discípulo muito respeitoso fornecendo a Agostinho em freqüentes interrupções a ocasião de aprofundar os seus pensamentos Nesta passagem Agostinho alude às questões feitas por ele neste l III a saber A primeira relacionase com a presciência de Deus 24 A segunda com a justiça de Deus 49 E agora a terceira que introduz o problema mais longo da Providência no mundo 512 109 512 O otimismo agostiniano No presente capítulo Agostinho dános a marca de verdadeiro otimismo Faznos lembrar Leibniz e Plotino É preciso notar porém que o otimismo agostiniano não é absoluto Por aí distinguese essencialmente do otimismo daqueles dois outros filósofos Para esses o mundo atual é o melhor possível absolutamente falando Ao contrário Agostinho reconhece francamente os limites de nossa razão em face de Deus Confessa humildemente o mistério da liberdade divina Leiase no De genesi contra manichaeos o esclarecedor cap 24 do l I e em De diversis quaestionibus 83 q 28 Por que quis Deus criar o mundo Para Agostinho Deus sendo infinitamente bom e sábio produz sempre o que é melhor mas isso no plano atual de sua Providência por ele livremente fixado O que não exclui a possibilidade de um outro plano onde poderia ter sido criado um mundo melhor do que o nosso Cf Thonnard B A VI nota 27 p 514 110 513 Uma fórmula ousada Se nós concebermos algo melhor conforme a razão dotada de verdade graças à iluminação divina mesmo se não a verificarmos pela experiência devemos afirmar que isso existe Haverá certa ousadia nessa afirmação Todavia tal fórmula pode ser legitimada pela teoria do exemplarismo e da iluminação A teoria do exemplarismo concebida como exercício da causalidade perfeita pertence à essência mais íntima do agostinismo É por influência das Idéias divinas que todas as coisas são o que são Cf Thonnard op cit nota 28 p 515 111 513 A doutrina do exemplarismo Encontramos aqui nova e clara referência à teoria do exemplarismo Pode esta doutrina ser expressa nestes termos Todo ser é uma realização de uma idéia de Deus e todo conhecimento uma participação e seu pensamento que é o perfeito exemplar das coisas Interessa reler a nota 56 do l II1644 sobre a relação entre a teoria da participação do exemplarismo e do iluminismo 112 514 A Providência conforme Plotino e Agostinho Comparando a teoria de Plotino com a teoria agostiniana sobre a Providência desenvolvida neste l III e igualmente no De Ordine e no De Musica VI constatase a inegável influência do pensador pagão na filosofia cristã assim como as preciosas retificações que a fé católica ofereceu ao bispo de Hipona Plotino consagra especialmente à Providência os tratados II e III da 3ª Enéades Diz ele entre outras coisas As partes devem ser examinadas em sua relação com o conjunto Ora tal princípio é constantemente lembrado por Agostinho Essa é mesmo uma das idéias centrais da presente obra Idéia que inspira em particular o famoso otimismo agostiniano Afirma Plotino ainda Os seres que chamamos maus têm também seu papel e sua beleza São mais fracos mas a beleza do universo não fica diminuída por isso Esse tema é retomado com gosto neste capítulo e no 1235 para mostrar que as almas mesmo as pecadoras embelezam em seu plano e a seu modo a obra de Deus Cf Thonnard op cit nota 26 pp 511512 113 616 Clara referência aos maniqueus Agostinho referese aqui explicitamente ao erro maniqueu de conceber a essência de Deus como algo corpóreo como já observamos na Introdução deste livro Em seu conjunto o De libero arbitrio é uma refutação da solução dada pelos maniqueus ao problema que atormentava tanto ao jovem Agostinho Havia ele encontrado no dualismo maniqueu uma solução fácil e aparentemente satisfatória naquela época Não lhe desgostava considerar sua alma como uma parcela de Deus e lançar sobre o princípio do mal localizado no corpo a responsabilidade preocupante de suas fraquezas morais Procurese em Confissões V1018 e VII11 o que ele diz a esse respeito 114 618a A ausência da participação de Evódio Encontramos aqui uma interpelação a Evódio o interlocutor de Agostinho neste diálogo Entretanto desde a segunda parte deste l III 512 havíamos deixado de encontrar qualquer interferência sua E daqui por diante ele não mais será lembrado A não ser muito rapidamente no final do cap 1646 e no 1747 A razão é que Evódio não mais se encontrava ao lado de Agostinho em Tagaste tampouco em Hipona no ano 395 quando esta obra foi terminada 115 618b É compreensível o desejo da morte Numa série de considerações Agostinho demonstra que não se pode de modo algum censurar a Deus por haver criado a vontade livre mesmo sendo ela falível e pecadora Nesse intuito desenvolve algumas observações inspiradas em profunda psicologia da qual é mestre Encontramse pecadores que se tornaram infelizes por um justo castigo e que declaram preferir ser nada a sofrer Mentem a si pró prios afirma Agostinho O que eles procuram ao desejar o nada é o reflexo de profunda aspiração pelo descanso isto é por um estado melhor para seu ser Porque nenhum desejo sincero pode tender ao nada sem se destruir É porque no fundo todo desejo ao procurar o ser testemunha seu gosto pelo Ser supremo Deus e manifesta que a natureza humana é boa Cf Thonnard op cit introd pp 132133 116 721 A aspiração ao verdadeiro ser Esta é uma das mais belas passagens desta obra Agostinho sempre gostou de refletir sobre a fugacidade das coisas temporais Encontramos magníficas passagens sobre essa temática em diversas obras suas Por exemplo nos Comentários aos Salmos 10920 387 768 E nas Confissões IV1015 podemos ler com proveito o que ele comenta sobre O destino efêmero das criaturas Diz Erich Przywara Toda experiência das criaturas manifesta que elas não são mas somente que foram e serão E por certo toda nossa busca dirigese a um genuíno é no qual e em virtude do qual todas as coisas são Esse ser é Deus Cf San Agustin Perfil humano y religioso p 175 117 823 O significado do quies agostiniano Quies etis que neste lugar traduzimos por respouso ou tranqüilidade e em outros por calma quietude serenidade possui significado muito denso que é preciso não perder de vista No seguimento do estoicismo Agostinho deixanos aqui vislumbrar o que entende por esse vocábulo A tranqüilidade não se confunde com o nada Constitui pelo contrário um modo superior de existência O espírito tranqüilo tem a permanência do que em toda verdade pode ser dito a existência em plenitude Cf Braga op cit p 196 n 15 Assim para Agostinho o quietus esse equivale a magis esse Possui mais riqueza de ser aquele que está tranqüilo do que aquele que está irrequieto 118 926 Etiam peccata até mesmo os pecados Paul Claudel na sua obra Soulier de Satan colocou como epígrafe esta expressão de Agostinho Etiam peccata no sentido de que até mesmo os pecados glorificam a Deus Ora nesta passagem de livrearbítrio o sentido da expressão é outro Pelo contexto constatamos que Agostinho a emprega como uma objeção à qual se opõe Diz ele Objetamme se a nossa própria miséria completa a perfeição do universo teria faltado alguma coisa a essa perfeição no caso de sermos sempre felizes Logo a alma ao cair na desgraça ao pecar até nossos pecados seriam necessários à perfeição do universo eis a minha resposta a tal objeção Não são os pecados nem a própria miséria que são necessários à perfeição do universo mas as almas como almas No Enchiridion 2496 Agostinho apresenta com clareza o seu pensamento A existência dos pecadores contribui à perfeição do universo Contudo eles não contribuem enquanto pecadores mas como vontades livres tendo a capacidade de pecar ou não Mais adiante no cap 1132 leremos uma interessante referência à capacidade de pecar dos anjos e das criaturas humanas com a respectiva repercussão na ordem universal 119 926 A ordem do universo transcende os pecados individuais Tudo vem de Deus tudo conduz a Deus O mundo está sabiamente dirigido conforme regras e medidas harmoniosas Pode acontecer que certos detalhes pareçam apontar alguma desproporção e assim parecer perturbado o equilíbrio do conjunto Mas tudo é belo e bom tudo está em seu lugar no vasto universo O importante não são casos particulares e fatos individuais mas a harmonia do todo tanto no mundo moral como no mundo físico Cf Bardy Saint Augustin p 503 120 928 A admirável conveniência da redenção No pensamento de Agostinho a Providência divina aparece em poderosa originalidade e incontestável superioridade sobre o pensamento neoplatônico de Plotino cf nota 12 do l III514 Longe de comprometer a liberdade humana é nela que o santo doutor encontra a explicação do pecado Mas isso nada diminui a bondade sabedoria e poder do Criador que após ter tirado o mundo do nada governao a cada instante Merece Deus nossos louvores em tudo mesmo permitindo o pecado Agostinho ainda que raciocinando o mais freqüentemente como puro filósofo mostrase penetrado pela conveniência da redenção cf 9281031 E esta terceira parte do livro III é na verdade mais de ordem teológica do que filosófica No cap 2576 concluirá Resgatados pelo sangue de Cristo devemos aderir a nosso Salvador por uma tão grande caridade que objeto exterior algum possa nos separar dele Realça Agostinho a perfeita harmonia entre a bondade imutável de Deus que não pode senão irradiar o bem e o drama do pecado e o da redenção obraprima da Providência Cf Thonnard op cit nota 26 pp 513514 121 1030 Deus exortanos no íntimo pelo exterior Esta é uma das belas passagens teológicas da obra Deus nos forinsecus admonens Agostinho com freqüência emprega os verbos monet e admonet no sentido de Deus nos admoestar exortar advertir chamar a atenção Existe uma advertência para a interioridade no próprio regime da exterioridade Notese a presente passagem Cristo pão dos anjos fazse homem para nos levar ao regime da interioridade isto é para dispornos e participar dele com os anjos pela fé No l II 1438 já encontramos a bela expressão Deus foris admonet intus docet Deus advertenos por fora ensinanos no interior Cf a nota 51 O apelo de Deus 122 1031 Os direitos do demônio e a redenção É da tradição patrística a exposição do dogma que apresnta Jesus Cristo mediador entre Deus e os homens vindo nos resgatar do pecado pelo sacrifício expiatório da cruz Agostinho em particular no correr de suas controvérsias pelagianas ensina claramente essa doutrina como oriunda das próprias Sagradas Escrituras Quanto à teoria dos direitos do demônio que é apenas um tema secundário não significa ela de modo algum que Jesus Cristo veio pagar um penhor ao demônio para obter a libertação do homem Neste capítulo Agostinho mostra que o pecado sem ser necessário nada tira da perfeição da ordem do universo Mas por certo o papel do demônio na redenção ainda que muito secundário interessava bastante a nosso santo doutor Via ele aí um exemplo expressivo dos métodos da divina Providência pondo um remédio ao lado do mal para obter um bem maior do conjunto Podemos encontrar outra boa exposição da doutrina da redenção em A Trindade XIII12161519 Consultemse na edição em português as notas complementares correspondentes 123 1132 Contribuição de toda criatura à beleza do universo Agostinho continua a insistir todo ser criado angelical ou humano material que seja justo ou pecedor contribui para a beleza universal A criatura racional contribui à ordem do universo quer persevere ou não na justiça Leiase o que já foi dito atrás no cap 926 com a nota 19 correspondente 124 1133 Fórmula trinitária Na fórmula latina ex quo per quem in quo há clara alusão às Pessoas da SSma Trindade Agostinho servese dessas expressões para caracterizar a ação de Deus na criação Ex quo a partir de quem indica a causa eficiente e designa o Pai eterno primeiro Princípio ao qual é atribuída a criação por apropriação Per quem por quem indica o meio da ação o Verbo de Deus cujas idéias exemplares são a luz que dirige o Criador Cf Omnia per ipsum facta sunt Jo 13 e Cl 116 In quo em quem indica a união isto é o próprio Espírito Santo vivificador 125 1234 A doutrina da matéria espiritual Agostinho aceita como verossímil sem o afirmar de modo absoluto a famosa doutrina da Idade Média de uma matéria espiritual ou de um corpo celeste A influência do Criador esclarece e enriquece primeiramente o mundo dos espíritos mais próximos de Deus Vemos nesta passagem Agostinho refletir sobre os anjos aplicandolhes por analogia a nossa psicologia Mais adiante nos caps 2369 e 2575 ele tornará a fazer alusões aos corpos celestes 126 1236a Nova aplicação a erros dos maniqueus Em refutação à doutrina dualista dos maniqueus Agostinho afirma aqui ser totalmente inútil imaginar uma substância má a fim de salvaguardar a bondade de Deus Toda substância é boa Ao desaprovar o vício ou corrupção que se encontra no mundo por esse mesmo fato estamos louvando a natureza assim atacada e mais ainda ao Criador 127 1338 Sentido dos termos vício e corrupção Para melhor compreensão do texto lembremos que o termo latino vitium ii não possui unicamente o sentido moral de algo oposto à virtude Significa igualmente defeito deformidade desaprovação ou alguma imperfeição do ser Ora qualquer seja o termo empregado é preciso ter bem clara a idéia de Agostinho todo vício ou defeito supõe o bem O mesmo se diga do termo corrupção corruptio onis Cf III 1336b 128 1441 A matéria é boa refutação a maniqueus e neoplatônicos Toda esta argumentação em função de declarar a bondade de todos os seres é uma contestação aos maniqueus que consideravam a matéria como sendo má em si Ao mesmo tempo Agostinho refuta eficazmente a doutrina neoplatônica de Plotino sobre a matéria ainda que não se refira a isso A matéria longe de ser fonte do mal é para o bispo de Hipona uma realidade boa visto vir de Deus É o último e menor reflexo de Deus sendo pura capacidade Ora poder ser já é participar do ser e portanto capaz da bondade do ser Essa tese fundamental distingue radicalmente o agostianismo do neoplatonismo apesar de haver alhures um evidente parentesco de espírito entre as duas filosofias 129 1542 A arte divina A palavra arte ars artis aparece três vezes neste parágrafo Referese à Sabedoria de Deus isto é às idéias existentes na mente divina e que constituem o exemplar dos seres criados E é essa a teoria do exemplarismo como já vimos na nota 11 deste l III Por influência destas idéias divinas todas as coisas são o que são possuindo a existência e a sua forma ou perfeição específica Só pela iluminação divina poderemos compreender algo das idéias de Deus 130 1543 Um capítulo de transição Todo este capítulo 15 gira em torno do que é devido debuit a Deus Serve assim de transição para uma nova razão de se louvar a Deus a justiça Três idéias se encadeiam 1ª A criatura inferior por não possuir um ser que permaneça nada deve à Providência ao se extinguir 42 2ª A vontade livre por ter recebido um ser mais perfeito ao fazer o que deve isto é ao realizar o bem glorifica a Deus 43 3ª Se não o fizer a justiça será restabelecida pela punição A glória de Deus será assim salvaguardada 44 Agostinho distanciase agora das objeções aos maniqueus para se voltar a um tema mais fundamental o das relações entre pecado e Providência Chega assim por uma transição bastante natural à conclusão geral desta parte a divina Providência é digna de louvores em todas as suas obras mesmo ao criar vontades livres que podem vir a pecar por culpa própria Cf Thonnard op cit n 34 p 532 131 1747 Esquema da terceira parte do livro III Problemas diversos Esta última parte do livro III é dedicada a responder às dificuldades que naquela ocasião apresentavamse muito atuais Quase todas elas referentes a questões propostas pelos maniqueus Para maior clareza distingamos quatro séries de problemas A de 174750 A vontade livre causa primeira do pecado B de 18512265 A situação atual da humanidade devida ao pecado original C de 236670 A morte e sofrimento das crianças D de 24712577 O primeiro pecado de Adão e o do demônio O orgulho causa do pecado impedimento à passagem para a sabedoria Elogio da sabedoria 132 1850 Defesa de Agostinho perante os pelagianos Pelágio ao abusar desta passagem foi assim literalmente refutado por Agostinho nas Retractationes 93 Reconheço que essas palavras são minhas mas Pelágio precisa reconhecer tudo mais que vai escrito acima desse texto Os pelagianos afirmam de tal modo o livrearbítrio da vontade a não deixar mais lugar para a graça de Deus Asseguram que a graça nos é dada conforme nossos méritos Mas que eles não se glorifiquem de me terem como advogado sob o pretexto de que nos meus livros sobre O livrearbítrio eu tenha dito muita coisa em favor da liberdade como exigia a nossa discussão de então O bispo de Hipona voltará ainda a fazer expressa menção das suas posições no De libero arbitrio defendendoas dos pelagianos em seu De dono perseverantiae 1126 a 1230 Leiase nova nota sobre esta temática mais adiante a n 40 referente ao cap 2058 133 1851 A natureza humana foi criada boa A presente resposta de Agostinho aos maniqueus é considerada excelente Lutando contra a heresia maniquéia ele não precisava demonstrar na ocasião o papel de graça na vida humana Nem mesmo pôr em relevo a importância do pecado original ou de suas conseqüências Devia sim como o fez insistir sobre a excelência da natureza humana a qual vinda de Deus foi criada boa e que não se teria afastado do Criador sem as debilidades voluntárias de seu livrearbítrio Cf G Bardy Les Révisions B A VIII p 187 134 1852 O estado primitivo de nossos primeiros pais Esta passagem vem citada por Agostinho nas Retractationes 95 para demonstrar aos pelagianos como ele já ensinava o pecado original antes da controvérsia pelagiana Deus não criou o homem num estado de ignorância e dificuldades Essa situação atual é o castigo pelo pecado A nossos primeiros pais Deus concedeu a sabedoria a retidão no exercício do livrearbítrio a imortalidade e dom ainda mais precioso a graça santificantes Todos esses dons conforme Agostinho formam parte da natureza humana Mas pelo pecado original a natureza ficou profundamente transformada De boa tornouse inclinada para o mal Santo Tomás distingue a natureza humana pura sem os dons preternaturais que foram perdidos e os dons sobrenaturais como o da graça divina não devidos à natureza do homem Agostinho não faz essa distinção mas insiste que a nossa natureza ficou deteriorada Nos próximos capítulos em especial de 1953 a 2265 Agostinho voltará muitas vezes à idéia dos males atuais de nossa natureza sintetizados por ele na ignorância e nas dificuldades ignorantia et difficultas Devem essas deficiências ser superadas na busca da virtude Os dois males apontados são relativos às duas faculdades humanas a inteligência e a vontade A plena superação deles só será quando atingirmos a meta final na beatitude da sabedoria e no pleno gozo do repouso de Deus Cf 2264 135 1852 A pena do pecado original Agostinho foi o primeiro a elucidar com clareza e precisão o caráter da culpa inerente ao pecado de Adão transmitido a todos os homens É o pecado original um peccatum e ao mesmo tempo a poena peccati Está comprovado principalmente por Rm 5 12 Pertence à essência do pecado original o ser réu da concupiscência reatus concupiscentiae que consiste na carência hereditária da união espiritual vital com Deus Essa pena é apagada no batismo Cf B Altaner A Stuiber Patrologia p 436 136 1953 A consoladora mensagem desta obra Deus está conosco O pecador não pode queixarse a não ser de si mesmo se vier a ser infeliz No fundo o único pecado é o desprezo da graça De modo algum o pecado se dá necessariamente no homem Caso ele queira voltarse para Deus e pôr em ação a própria vontade a ajuda do Criador infinitamente bom não lhe há de faltar Realiza assim Deus a ordem da divina Sabedoria levando o homem sua criatura à felicidade Sem dúvida essa insistência de Agostinho a nos fazer retornar para Deus a fim de solucionar o problema do mal sob todos os aspectos faz a unidade da presente obra E que grande lição para nós É esse o único método eficaz para obtermos o apaziguamento interior Com efeito como não nos abandonarmos com plena confiança à bondade onipotente de Deus quando compreendemos com Agostinho que Ele é a bondade incapaz de querer para nós outra coisa senão o bem Não se trata porém de abandono preguiçoso como o dos quietistas ou fatalistas O presente diálogo põe especialmente em destaque o papel do livrearbítrio Sem ainda falar muito da graça Agostinho a supõe constantemente Vemos assim quanto o agostinismo bem compreendido é essencialmente otimista Cf Thonnard Introdução ao B A VI p 134 137 2056 Um grande problema para Agostinho a origem da alma A origem da alma foi problema que sempre preocupou e atormentou Agostinho durante toda a sua vida Conhecia ele perfeitamente graças às luzes da fé e da filosofia neoplatônica que a alma é superior ao corpo Conhecia também os seus atributos simplicidade imortalidade e sua capacidade de ser elevada à ordem sobrenatural da graça Mas sempre de algum modo direta ou indiretamente ao referirse à sua origem o seu espírito flutuava entre soluções opostas permanecendo em dúvidas e vacilações Parecialhe estar diante de um mistério profundo Para nosso melhor esclarecimento da questão é preciso distinguir entre a origem das almas de Adão e Eva e a origem das almas de seus descendentes As de Adão e Eva foram sem dúvida criadas diretamente por Deus como as Sagradas Escrituras dizem expressamente Gn 27 Agostinho defende isso com rigor e repele qualquer outro modo de aparição da primeira alma Suas inquietações correspondem acerca da origem das almas dos descendentes de Adão e Eva Parte ele do princípio que nega e refuta expressamente o fato e a possibilidade de que as almas provenham por emanação da substância divina Isso contra os gnósticos e os maniqueus Igualmente repele o traducianismo materialista de Tertuliano Exclui também e combate a metempsicose e não admite a preexistência das almas doutrina de Platão e Orígenes Nessa hipótese as almas capazes de pecar tornavamse culpadas recebendo como castigo serem encerradas em corpos mortais Cf M Lanseros OSA Introdução ao De anima et eius originae BAC III p 763 138 2056 Diversas hipóteses a respeito da origem da alma Para Agostinho como surge a alma em um novo ser racional Quatro hipóteses apresentavamse a ele como possíveis Leiase a boa síntese que ele faz no início do cap 2159 1º As almas transmitemse por geração da alma dos pais à dos filhos É o tradiciunismo espiritualista 2055 2º Deus cria uma alma para cada indivíduo no momento de começar a viver É a tese do creacionismo Agostinho gostaria de que assim fosse Mas sentia dificuldade de explicar a transmissão do pecado original 2056 3º As almas criadas por Deus existem em algum lugar sem possuir falta alguma precedente São enviadas por Ele em tempo oportuno para reger os corpos 2057 4º Elas baixam por própria vontade para virem habitar os corpos 2058 Sem fixar sua escolha Agostinho neste cap 20 justifica sob qualquer hipótese a divina Providência Pretende explicar o estado de nossa miséria diante de todas essas situações E como a bondade do Criador pode ser justificada e continuar a ser digna de inefáveis louvores Encontramos explicitações sobre essa temática em várias outras obras de Agostinho Cf em De Genesi ad litteram no cap X E a carta a s Jerônimo n 166 que leva como título geral De origine animae hominis Essa carta é um verdadeiro tratado sobre a questão Cf ainda De anima et ejus origine e as Cartas 164 a Evódio e 190 a Optato 139 2056 A misericórdia de Deus sempre presente Neste cap 20 vemos como Agostinho demonstra que seja qual for a verdadeira doutrina acerca da origem das almas não será uma injustiça que as conseqüências penais do pecado de nossos primeiros pais tenham passado a seus descendentes O doutor de Hipona sempre insiste na superabundância da graça e em tudo encontra motivo para louvar a misericórdia de Deus 140 2058 Novas refutações de Agostinho a Pelágio o homem sem a graça não consegue se reerguer Já temos observado como Pelágio queria provar Agostinho haver reconhecido a soberania do livrearbítrio e portanto o reconhecimento da inutilidade da graça Nas suas Retratações I96 Agostinho afirma expressamente Eis como bem antes da aparição da heresia pelagiana nós já nos exprimíamos como se discutíssemos contra ela Dissemos claramente de que condição miserável a graça de Deus libertanos Situação essa mui justamente infligida aos pecadores Com efeito por si mesmo isto é livremente o homem pode cair mas não consegue levantarse por si mesmo No l II20 54 já foi dito Sem a ajuda de Deus ninguém é libertado de seus males Essa situação os pelagianos não querem que provenha de uma justa condenação porque negam o pecado original Não obstante a ignorância e a incapacidade mesmo se pertencessem à natureza primitiva do homem não se deveria por isso acusar a Deus mas louválo como já explicamos suficientemente nesse mesmo livro III 141 2264 Uma hipótese o homem ter sido criado no estado atual sem ter havido o pecado Até aqui temos visto Agostinho sustentar que a ignorância e o erro assim como as dificuldades na conquista do autodomínio então ligados em nossos primeiros pais não a um estado natural mas serem o castigo do pecado Neste capítulo ele apresenta a suposição de um mundo sem pecado o homem criado sem os privilégios acima expostos submetido entretanto às mesmas dificuldades que enfrenta hoje para chegar à sabedoria Toda a sua obrigação estaria então em se esfoçar para se vencer e tender à bemaventuraça contando com a graça de Deus E Agostinho apressase a mostrar que ainda assim Deus seria digno de louvores E Gilson comenta esta passagem do seguinte modo Sendo absolutamente livre em seu ato criador Deus poderia se o quisesse ter criado o homem nesse estado em que o vemos presentemente Não haveria nada de indigno ao fazer almas tais como são as nossas atualmente ignorantes por certo mas dotadas de uma luz natural que lhes permite libertarse progressivamente das trevas da ignorância e agraciadas com uma vontade capaz de adquirir todas as virtudes Mas Deus não o quis Gilson op cit p 192 142 2366 O problema do sofrimento e morte das crianças Nesta seção C da terceira parte do livro III do cap 2366 a 70 Agostinho ao tratar das crianças preocupase também com a utilidade do batismo que lhes é conferido 67 Igualmente com a morte prematura delas e seus sofrimentos 68 Isso o leva a refletir ademais sobre o sofrimento dos animais 69 Significativa a definição de dor por ele proposta O que é a dor a não ser uma sensação de resistência à divisão e à corrupção 69 Conclui que todo ser criado canta a unidade inefável de Deuse por aí demonstra a utilidade de sua existência 70 Particularmente bela é a sua reflexão de como os seres aspiram pela unidade em Deus 143 2471 O sentido do termo stultitia Traduzimos o termo stultitia empregado freqüentemente por Agostinho nesta obra por insensatez Poderíamos ainda ter traduzido por estultícia loucura ignorância insciência incapacidade Stultitia porém não é qualquer ignorância mas aquela referente às coisas que devem ser estimadas ou evitadas 1342 O stultus é pois um insensato louco ignorante tolo imprudente néscio ou insciente Stultitia para Agostinho é o oposto de sabedoria ou sapiência E stultus o oposto de sapiens sábio Neste item lemos que o primeiro homem não foi criado insensato mas com capacidade a se tornar sábio 144 2472 Males derivados do orgulho O orgulho pelo qual o homem atribuise a sabedoria afastao da verdadeira sabedoria leva à corrupção de sua inteligência Assim não saberia conduzilo a não ser ao erro em matéria de religião Está clara aí a alusão aos neoplatônicos Cf o que está dito nesse sentido nas Confissões VII91314 e In Io 24 145 2574 A psicologia da atuação da vontade A liberdade humana sempre foi bem salvaguardada por Agostinho Já temos insistido o quanto ele a defendeu contra os maniqueus E igualmente na luta pelagiana sob o risco de comprometer a mesma liberdade ao exaltar sobremaneira a ação da graça ele nunca se retratou de suas primeiras teorias acerca da capacidade do livrearbítrio Neste capítulo vemos Agostinho desenvolver sua teoria sobre a psicologia da vontade Esta não se decide nunca sem ter um motivo sem haver percebido algum bem de qualquer modo que seja Ainda que a vontade seja livre diante dos motivos no fundo ela toma resoluções diferentes conforme as diversas motivações apresentadas 146 2574 Distinção entre liberdade e livrearbítrio Enquanto para nós esses dois termos são quase sinônimos existe para Agostinho clara distinção entre o sentido de liberum arbitrium e o de libertas O livrearbítrio existia no primeiro homem É por ele que Adão escolheu a via do mal Mas ao agir assim ele perdeu a liberdade de agir bem Seguese que os seus descendentes deixados a si mesmos conservaram intacto seu livrearbítrio para querer livremente o mal Mas não mais estavam livres no sentido completo da palavra porque não possuíam desde então a verdadeira e plena liberdade aquela que Adão possuía a de usar bem de seu livrearbítrio Portanto só há liberdade libertas para Agostinho quando a graça vem se enxertar no livrearbítrio e este se torna liberdade Esta pois vem a ser o bom uso do livrearbítrio o qual subsiste no homem atual mas com um poder mais restrito Donde segue que a diferença entre o homem decaído e aquele que se restaura pela graça não está de modo algum na posse ou não do livrearbítrio mas sim em sua eficácia A incapacidade de cumprir o bem conhecido querido e escolhido é uma penalidade do pecado original Deus por meio de sua graça suscita em nós a boa vontade Nesta vida mortal resta ao livrearbítrio não o poder de cumprir por si mesmo a justiça caso o queira mas o de se voltar com confiança suplicante para Aquele que lhe pode obter a graça de praticar a virtude Cf J Rivière Enchiridion B A 9 nota 18 p 351ss e E Gilson op cit p 202ss 147 2575 A psicologia do pecado dos anjos Agostinho estuda aqui a situação dos anjos maus ao pecar aplicandolhes por analogia a nossa própria psicologia A presente reflexão baseada sobretudo na fé é antes de tudo um tratado de teologia Notemos como o autor aceita como verossimilhança sem o afirmar categoricamente a possibilidade de uma matéria espiritual Releiase o que já foi dito no cap 1234 e as observações da n 25 148 2575 A atenção do espírito A expressão acima no original é a seguinte intentio animi a qual poderia também ser traduzida por pensamento do espírito O termo intentio é muito empregado por Agostinho Neste capítulo final do l III vemolo mencionado cinco vezes Significa propriamente os objetos conhecidos pela aplicação do espírito ou pela atividade do pensamento em contraposição aos objetos conhecidos pelos sentidos corporais É pois o conhecimento próprio da inteligência logo o próprio pensamento Cf A S Pinheiro op cit n 59 p 264 149 2576 Pontos fundamentais da espiritualidade agostiniana Nesta importante passagem Agostinho diz em síntese a alma que em Deus renuncia a tudo e a seu próprio ser recobra a si mesma e a tudo mais Encontramos aí a clara fundamentação da espiritualidade agostiniana fonte das ascensões no processo de interiorização ad extra ad intra ad supra Diz ele nas Confissões VII1016 Após redire ad memet ipsum intravi in intima mea Abrese ele em seu interior no zênite da alma buscando o transcendente Lembremos o famoso aforismo de A verdadeira religião Noli foras ire in teipsum redi transcende te ipsum 3972 Não saias fora de ti mas volta para dentro de ti mesmo a Verdade habita no coração do homem Encontramos as mesmas advertências em outros escritos seus No Sermão 15379 Não fiques em ti transcendete nAquele que te fez Noli remanere in te transcende et te No S 169911 Sai sai de ti mesmo eu digo Tolle te tolle inquan te a te E no S 3303 Não fiques em ti mesmo Noli remanere in te 150 6576 O sentido das citações do Eclesiástico 101415 Estas duas passagens do Eclesiástico estão citadas conforme a Setenta em latim assim transcritas Initium peccati superbia 1015 e Initium superbiae hominis apostatare a Deo 1014 Observese que é raro encontrarmos em Agostinho esses dois versículos apresentados como máximas de ordem geral Para ele é clara a referência à falta de Adão isto é a seu pecado de orgulho Sendo esse também o ponto de partida para toda falta humana o afastamento de Deus e a conseqüente imersão nas trevas 151 2577 O elogio final da Sabedoria Este belo elogio final da Sabedoria apresentase como um fecho brilhante à presente obra sobre o livrearbítrio Terminemos nossas notas evocando a significativa oração oficial da festa litúrgica de santo Agostinho a 28 de agosto Senhor despertai na vossa Igreja o espírito que animou santo Agostinho para que todos nós sedentos da verdadeira Sabedoria não cansemos de vos procurar a vós fonte viva do amor eterno Amém BIBLIOGRAFIA NB O texto original completo encontrase em Patrologia de Migne patres Latini edição Maurina tomo 32 col 1221 1310 TEXTOS BILÍNGÜES Agustín San De libero arbitrio in Biblioteca de Autores Cristianos BAC tomo III versão em espanhol introdução e notas por P Evaristo Seijas OSA Madri 1951 pp 237521 Augustin Saint De Libero arbitrio in Bibliothèque Augustinienne BA vol VI Dialogues philosophiques versão em francês introdução e notas por FJThonnard AA Desclée de Brouwer Paris1941 Augustin Saint De libero arbitrio in Oeuvres Complètes de Saint Augustin tomo 3 versão em francês introdução e notas por Péronne Vincent Écalle Ed Vivès Paris 1873 pp 292421 TEXTO COMPLETO EM PORTUGUÊS Agostinho Santo O livre arbítrio trad com introdução e notas por António Soares Pinheiro Faculdade de Filosofia Braga 1986 OUTRAS OBRAS DE SANTO AGOSTINHO Augustin Saint Retractationes texto introdução trad e notas por Gustave Bardy Desclée de Brouwer Paris 1951 Confissões trad de M Luiza Jardim Amarante Paulus S Paulo 5ª edição 1993 A Cidade de Deus contra os pagãos 2 tomos 2ª ed trad por Oscar Paes Lems Vozes Petrópolis 1990 Enchiridion trad e notas por J Rivière in B A tomo 9 Desclée de Brouwer Paris 1947 A verdadeira religião trad introd e notas por N A Oliveira Paulus S Paulo 1987 Solilóquios idem ibidem 1993 A Vida feliz idem ibidem 1993 A doutrina cristã idem ibidem 1991 A Trindade idem ibidem no prelo De Ordine trad introd e notas por P V Capánaga ORSA in BAC I Madri 1957 Le maître trad e notas por F J Thonnard in Bibl Augustinienne Dialogues philosophiques Desclée de Brouwer 1955 De natura boni trad intr e notas por M Lanseros in BAC III MAdri 1951 De gratia et libero arbitrio trad por PGEVega in BAC VI Madri 1956 OBRAS DE ESTUDO SOBRE SANTO AGOSTINHO Bardy Gustave Saint Augustin lhomme et loeuvre Desclé de Brouwer 6ª edição 1946 Brown Peter La vie de Saint Augustin traduzido do inglês Ed du Seuil Paris 1985 Capánaga Victor ORSA Introducción general in Obras de san Agustín in Biblioteca de Autores Cristianos BAC I Madri 1957 Pensamientos de San Agustín in BAC I Minor Madri 1979 San Agustín Clássicos Labor XI Barcelona 1954 Cayré Fulbert AA La contemplation augustienne Desclée de Bouwer Paris 1954 Dieu présent dans la vie de lesprit Desclée de Brouwer Paris 1951 Patrologie et Histoire de la Théologie tomo I Desclée et Cias Paris Tournai Roma 1947 Folch Gomes Cirilo OSB Antologia dos Santos Padre Paulus S Paulo 1985 Gilson Etienne Introduction à létude de saint Augustin Libr Philos 2ª ed Vrin Paris 1929 João Paulo II Carta Apostólica Augustinum Hipponensem pelo 16º centenário da conversão de santo Agostinho Ed Loyola 1987 Marrou HenriIréné Saint Augustin et la fin de la culture antique Ed de Boccard Paris 1ª edição 1938 Saint Augustim et laugustinisme Ed du Seuil Paris 1951 PortaliéE Augustin Saint artigo in Dictionnaire de Théologie Catholique tomo I 2 col 2268 2472 Paris 1931 Przywara E San Agustín perfil humano y religioso ed Cristiandad 2ª ed Madri 1984 Rocha Frei Hylton Miranda OAR Pelos caminhos de santo Agostinho Ed Loyola S Paulo 1989 Thonnard FJAA Précis de lhistoire de la philosophie Desclée de Brouwer Paris Tournai Roma 1937 Trapé Agostinho Saint Augustin lhomme le pasteur le mystique trad do italiano Fayard Paris 19088 NB Outras indicações bibliográficas estão dadas nas notas complementares Esta é uma obra extensa profunda e decisiva de importância excepcional pelos múltiplos e graves problemas estudados sobretudo aquele fundamental a respeito da origem e causa do pecado assim como a responsabilidade humana por seus atos livres O tema principal é pois o da liberdade do ser humano e a origem do mal moral Para Agostinho a fonte do pecado está no abuso da liberdade sendo entretanto o livrearbítrio um grande dom de Deus O que há de mais famoso nesta obra é a argumentação da prova da existência de Deus no livro II Prova reconhecidamente original do doutor de Hipona e denominada prova pela verdade pelas idéias eternas ou pela via do espírito Ponto de particular valor é a doutrina da Providência de Deus em face aos seres livres e que se encontra no livro III Até os dias de hoje os temas aqui debatidos permanecem de real atualidade A leitura refletida e degustada será muito enriquecedora a todos os que buscam um conhecimento mais aprofundado sobre as temáticas expostas 76929 Coleção PATRÍSTICA 1 Padres Apostólicos Clemente Romano Inácio de Antioquia Policarpo de Esmirna PseudoBarnabé Hermas Pápias Didaqué 2 Padres Apologistas Carta a Diogneto Aristides Taciano Atenágoras Teófilo Hérmias 3 Apologias e Diálogo com Trifão Justino de Roma 4 Contra as heresias Ireneu de Lião 5 Explicação dos símbolos da fé Sobre os sacramentos Sobre os mistérios Sobre a penitência Ambrósio de Milão 6 Sermões Leão Magno 7 A Trindade S Agostinho 8 O livrearbítrio S Agostinho 91 Comentário aos Salmos Salmos 150 S Agostinho 92 Comentário aos Salmos Salmos 51100 S Agostinho 93 Comentário aos Salmos Salmos 101150 S Agostinho 10 Confissões S Agostinho 11 Solilóquios A vida feliz S Agostinho 12 A Graça I S Agostinho 13 A Graça II S Agostinho 14 Homilia sobre Lucas 12 Homilias sobre a imagem do homem Tratado sobre o Espírito Santo Basílio de Cesareia 15 História eclesiástica Eusébio de Cesareia 16 Os bens do matrimônio A santa virgindade consagrada Os bens da viuvez Cartas a Proba e a Juliana S Agostinho 17 A doutrina cristã S Agostinho 18 Contra os pagãos A encarnação do Verbo Apologia ao imperador Constâncio Apologia de sua fuga Vida e conduta de S Antão S Atanásio 19 A verdadeira religião O cuidado devido aos mortos S Agostinho 20 Contra Celso Orígenes 21 Comentário ao Gênesis S Agostinho 22 Tratado sobre a Santíssima Trindade S Hilário de Poitiers 23 Da incompreensibilidade de Deus Da Providência de Deus Cartas a Olímpia S João Crisóstomo 24 Contra os Acadêmicos A Ordem A grandeza da Alma O Mestre S Agostinho 25 Explicação de algumas proposições da Carta aos Romanos Explicação da Carta aos Gálatas Explicação incoada da Carta aos Romanos S Agostinho 26 Examerão os seis dias da criação S Ambrósio 271 Comentário às Cartas de São Paulo1 Homilias sobre a Carta aos Romanos Comentário sobre a Carta aos Gálatas Homilias sobre a Carta aos Efésios S João Crisóstomo 272 Comentário às Cartas de São Paulo2 Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios S João Crisóstomo 273 Comentário às Cartas de São Paulo3 Homilias sobre as cartas Primeira e Segunda a Timóteo a Tito aos Filipenses aos Colossenses Primeira e Segunda aos Tessalonicenses a Filemon aos Hebreus S João Crisóstomo 28 Regra Pastoral S Gregório Magno 29 A criação do homem A alma e a ressurreição A grande catequese S Gregório de Nissa 30 Tratado sobre os Princípios Orígenes 31 Apologia contra os livros de Rufino S Jerônimo 32 A fé e o símbolo Primeira catequese aos não cristãos A disciplina cristã A continência S Agostinho Direção Editorial Claudiano Avelino dos Santos Coordenação de desenvolvimento digital Erivaldo Dantas Título original De libero arbitrio Tradução do original latino cotejada com versões em francês e em espanhol Tradução organização introdução e notas Ir Nair de Assis Oliveira Revisão Honório Dalbosco Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Agostinho Santo Bispo de Hipona 354430 O livrearbítrio Santo Agostinho tradução organização introdução e notas Nair de Assis Oliveira revisão Honório Dalbosco São Paulo Paulus 1995 Patrística eISBN 9788534938822 1 Livrearbítrio e determinismo 2 Livrearbítrio e determinismo Ensinamentos bíblicos I Oliveira Nair de Assis II Título III Série 942314 CDD2337 Índices para catálogo sistemático 1 Liberdade Ensino bíblico Doutrina cristã 2337 2 Livrearbítrio Ensino bíblico Doutrina cristã 2337 PAULUS 2014 Rua Francisco Cruz 229 04117091 São Paulo Brasil Fax 11 55793627 Tel 11 50843066 wwwpauluscombr editorialpauluscombr eISBN 9788534938822 História da Filosofia Medieval Livro 8 Patrística Livrearbítrio LIVRO I O PECADO PROVÉM DO LIVRE ARBÍTRIO Aluno Capítulo 1 É Deus o autor do mal Deus não é o autor do mal O livrearbítrio A responsabilidade humana Conclusão do livro estabelece a base para a discussão sobre o problema do mal defendendo a ideia de que Deus não é o autor do mal e que a origem do mal reside na liberdade de escolha das criaturas Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal Concupiscência Orgulho Ignorância Fraqueza da vontade Influências externas Paixões desordenadas Conclusão O mal não é visto como uma característica intrínseca do universo mas sim como uma consequência da liberdade humana A responsabilidade por nossas ações é individual e a compreensão dos motivos que nos levam a agir mal é fundamental para o processo de conversão e santificação Capítulo 3 Busca da origem do pecado A razão como guia As paixões como obstáculo A vontade livre Conclusão A principal tese apresentada é que o pecado se origina da submissão da razão às paixões O capítulo estabelece uma conexão entre a razão as paixões e o pecado A submissão da razão às paixões é identificada como a raiz do mal uma vez que leva o indivíduo a agir de forma contrária à sua própria natureza e à vontade divina Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão Paixões sutis A razão corrompida A ausência de paixão não implica em ausência de pecado O capítulo busca refutar a ideia de que a ausência de paixões intensas em um ato de maldade o exclui da categoria do pecado O autor provavelmente argumenta que a paixão pode se manifestar de formas mais sutis e que a razão quando corrompida pode justificar atos de violência mesmo na ausência de emoções fortes Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil Lei divina vs lei humana Bem menor vs mal maior Intenção e circunstâncias Paixões e virtudes Conclusão O autor busca conciliar a tese de que o pecado é resultado da submissão da razão às paixões com a existência de atos de violência que são moralmente justificáveis como a legítima defesa A distinção entre lei divina e lei humana a análise da intenção e das circunstâncias e o papel das virtudes são elementoschave para essa conciliação Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais Lei eterna Leis temporais A importância da distinção A razão iluminada pela fé Conclusão O capítulo oferece uma solução para as questões levantadas nos capítulos anteriores propondo que a origem do pecado está na transgressão da lei eterna Ao distinguir entre a lei eterna e as leis temporais o indivíduo pode tomar decisões morais mais acertadas e evitar a submissão da razão às paixões Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão A razão como distinção A razão como guia O livrearbítrio Conclusão O capítulo estabelece a base para a discussão sobre a causa do pecado enfatizando o papel da razão na natureza humana A razão ao mesmo tempo em que eleva o homem acima dos animais também o torna responsável por suas escolhas e o expõe à possibilidade do pecado Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres A hierarquia dos seres A natureza dual do homem O pecado original A imagem e semelhança de Deus Conclusão O capítulo 8 aprofunda a discussão sobre a natureza humana e sua relação com o pecado Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão O homem sábio como ideal A submissão da vontade à razão A importância da educação A felicidade como consequência da virtude Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta um ideal a ser perseguido o homem sábio Ao explorar a relação entre a razão e a vontade livre o autor busca mostrar como a submissão da vontade à razão pode levar à felicidade e à virtude afastando o indivíduo do pecado Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões A razão como guia O livrearbítrio e a responsabilidade A importância da educação A força da vontade Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão otimista da natureza humana enfatizando o poder da razão para controlar as paixões Ao defender a ideia de que a submissão da razão às paixões não é inevitável o autor busca fortalecer a responsabilidade individual pelas escolhas e incentivar a busca pela virtude Capítulo 11a O Ser Supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões A bondade divina A justiça divina O livrearbítrio como dom divino A graça divina Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão teológica da liberdade humana e da responsabilidade individual Ao afirmar que Deus não força o homem a pecar o autor busca conciliar a onipotência divina com a liberdade humana e a justiça divina Capítulo 11b Dúvidas de Evódio A origem do mal A predestinação A compatibilidade da liberdade com a onisciência divina A natureza do pecado Conclusão O capítulo serve como um ponto de partida para a terceira parte da obra apresentando um conjunto de desafios à tese central Ao explorar as dúvidas de Evódio o autor prepara o terreno para uma discussão mais aprofundada sobre a natureza do pecado a liberdade humana e a relação entre Deus e o homem Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo A teoria das Formas A matéria como princípio do mal A alma humana como prisioneira do corpo O papel da razão Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão alternativa sobre a origem do mal baseada na filosofia platônica Ao explorar a teoria das Formas e a natureza da alma humana o autor busca oferecer uma explicação para o pecado que não se baseia no livre arbítrio Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais As quatro virtudes cardeais A virtude como hábito A boa vontade como disposição para o bem O livrearbítrio e a virtude Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo aprofunda a discussão sobre a boa vontade conectandoa com a prática das virtudes cardeais Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através das ações virtuosas o autor reforça a ideia de que o pecado é resultado de uma escolha livre e não de uma força externa Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade A felicidade como fim último Os obstáculos à felicidade A importância da escolha O papel da graça divina Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo explora a relação entre a felicidade e a virtude mostrando como as escolhas que fazemos moldam nossa experiência da vida Ao enfatizar a importância da boa vontade e da prática das virtudes o autor busca mostrar que a felicidade é um fruto do exercício do livrearbítrio Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal A lei eterna A lei natural A lei positiva A boa vontade e a lei Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo busca situar a boa vontade dentro de um contexto mais amplo relacionandoa com a ordem cósmica estabelecida por Deus Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através da conformidade com a lei eterna e a lei natural o autor reforça a ideia de que a escolha de fazer o bem é uma decisão racional e livre Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio Revisão dos argumentos Definição precisa de pecado O pecado como uma violação da lei mora A liberdade como condição essencial para o pecado A responsabilidade individual Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo encerra a terceira parte com uma afirmação contundente o pecado é resultado do livrearbítrio humano Ao definir o pecado e mostrar como ele se relaciona com a lei moral e a liberdade o autor oferece uma visão clara e coerente sobre a natureza do mal Introdução O autor introduz a questão fundamental do problema do mal questionando se Deus sendo bom e onipotente poderia ser o autor do mal que existe no mundo Essa questão milenar tem desafiado filósofos e teólogos ao longo da história e busca uma explicação coerente para a coexistência do mal em um universo criado por um Deus bom Capítulo 1 É Deus o autor do mal Neste capítulo o autor aprofunda a discussão sobre a origem do mal propondo que o mal não é uma criação direta de Deus mas sim uma consequência do livrearbítrio concedido às criaturas A ideia central é que a liberdade de escolha embora seja um dom divino permite que os seres humanos se desviem do caminho do bem e cometam atos de maldade Deus não é o autor do mal A tese central é que Deus sendo infinitamente bom não pode ser a causa do mal O mal é visto como uma perversão da ordem divina e uma consequência das escolhas livres das criaturas O livrearbítrio A liberdade de escolher entre o bem e o mal é apresentada como um componente essencial da natureza humana Essa liberdade embora possa levar ao mal é considerada um dom precioso que permite o verdadeiro amor e a relação autêntica com Deus A responsabilidade humana O autor enfatiza que os seres humanos são responsáveis por suas ações tanto as boas quanto as más O mal não é uma fatalidade mas sim uma escolha Conclusão O primeiro capítulo do livro estabelece a base para a discussão sobre o problema do mal defendendo a ideia de que Deus não é o autor do mal e que a origem do mal reside na liberdade de escolha das criaturas Essa perspectiva teológica busca conciliar a existência do mal com a bondade de Deus e a responsabilidade humana Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal O segundo capítulo aprofunda a discussão sobre as razões que levam os seres humanos a cometerem o mal Embora não tenhamos o texto exato do capítulo podemos inferir alguns possíveis motivos com base na discussão teológica sobre o pecado Concupiscência A inclinação natural do ser humano para o pecado um desejo desordenado que afasta a pessoa de Deus Orgulho A busca excessiva pela própria glória que leva à desobediência a Deus e à exploração dos outros Ignorância A falta de conhecimento sobre o bem e o mal pode levar a escolhas equivocadas Fraqueza da vontade A dificuldade em resistir às tentações e seguir a razão Influências externas O ambiente a sociedade e as relações interpessoais podem influenciar negativamente as escolhas individuais Paixões desordenadas Emoções como a ira a inveja e o ódio podem levar a ações prejudiciais Conclusão O mal não é visto como uma característica intrínseca do universo mas sim como uma consequência da liberdade humana A responsabilidade por nossas ações é individual e a compreensão dos motivos que nos levam a agir mal é fundamental para o processo de conversão e santificação Capítulo 3 Busca da origem do pecado Neste capítulo o autor aprofunda a investigação sobre a natureza do pecado buscando identificar sua origem A principal tese apresentada é que o pecado se origina da submissão da razão às paixões A razão como guia A razão é apresentada como a faculdade humana responsável por guiar a vontade e as ações Ela tem a capacidade de discernir o bem do mal e de tomar decisões racionais As paixões como obstáculo As paixões por outro lado são forças internas que podem desviar a razão de seu objetivo Quando a razão se submete às paixões o indivíduo é levado a agir de forma contrária à sua própria natureza racional e à vontade de Deus A vontade livre O livrearbítrio é fundamental para a compreensão do pecado Ao escolher seguir as paixões em vez da razão o indivíduo exerce sua liberdade de forma equivocada optando pelo mal em vez do bem Em resumo o capítulo 3 estabelece uma conexão entre a razão as paixões e o pecado A submissão da razão às paixões é identificada como a raiz do mal uma vez que leva o indivíduo a agir de forma contrária à sua própria natureza e à vontade divina Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão A questão central No capítulo 4 o autor se propõe a responder a uma possível objeção à tese central da obra ou seja que o pecado se origina da submissão da razão às paixões A objeção levanta a seguinte questão se o pecado é resultado da dominação das paixões sobre a razão como explicar os atos de maldade como os homicídios que parecem ser cometidos sem a influência de paixões intensas A resposta do autor Para responder a essa objeção o autor provavelmente desenvolve uma análise mais profunda da natureza da paixão e da razão Ele pode argumentar que Paixões sutis Nem todas as paixões são manifestações aparentes e intensas Há paixões mais sutis como o ódio latente a inveja disfarçada ou o desejo de poder que podem motivar ações cruéis mesmo que não sejam acompanhadas de emoções fortes no momento do ato A razão corrompida A razão por sua vez pode estar corrompida pelo pecado original ou por más influências levando o indivíduo a justificar atos de violência mesmo que não sejam motivados por paixões imediatas A ausência de paixão não implica em ausência de pecado A falta de paixão intensa no momento do ato não significa que o pecado não tenha ocorrido A intenção de causar mal mesmo que fria e calculada é suficiente para caracterizar um ato pecaminoso Em resumo O capítulo 4 busca refutar a ideia de que a ausência de paixões intensas em um ato de maldade o exclui da categoria do pecado O autor provavelmente argumenta que a paixão pode se manifestar de formas mais sutis e que a razão quando corrompida pode justificar atos de violência mesmo na ausência de emoções fortes Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil A questão central No capítulo anterior o autor abordou a objeção de que nem todos os pecados são motivados por paixões intensas Neste capítulo a objeção se aprofunda se o pecado é resultado da submissão da razão às paixões como classificar atos de violência como a legítima defesa que são permitidos pela lei civil A resposta do autor O autor provavelmente busca diferenciar entre a lei divina e a lei humana argumentando que Lei divina vs lei humana A lei divina que é imutável e universal estabelece um padrão moral mais elevado do que a lei humana A lei humana por sua vez é contingente e adaptável às circunstâncias históricas e sociais Bem menor vs mal maior Em situações de legítima defesa a ação de matar pode ser considerada um mal menor em comparação com o mal maior de perder a própria vida ou a vida de outra pessoa inocente A lei humana ao permitir a legítima defesa reconhece essa distinção Intenção e circunstâncias A intenção do agente também é crucial Em um ato de legítima defesa a intenção não é causar mal mas sim preservar a própria vida ou a vida de outrem As circunstâncias do ato como a iminência do perigo também são relevantes para a avaliação moral Paixões e virtudes Mesmo em situações de legítima defesa as paixões podem estar presentes mas não são necessariamente o motor principal da ação A virtude da prudência por exemplo pode guiar a decisão de usar a força para se defender Em resumo O autor busca conciliar a tese de que o pecado é resultado da submissão da razão às paixões com a existência de atos de violência que são moralmente justificáveis como a legítima defesa A distinção entre lei divina e lei humana a análise da intenção e das circunstâncias e o papel das virtudes são elementoschave para essa conciliação Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais A questão central Após explorar as objeções à tese central da obra o capítulo 6 provavelmente apresenta uma solução mais abrangente para a questão da origem do pecado e da moralidade das ações humanas A chave para essa solução reside na distinção entre a lei eterna e as leis temporais A resposta do autor O autor argumenta que a raiz do pecado está na transgressão da lei eterna que é imutável e universal expressando a vontade de Deus para todas as criaturas racionais Ao contrário da lei eterna as leis temporais como as leis civis são contingentes e podem variar de sociedade para sociedade Pontoschave Lei eterna É a lei divina imutável e universal que expressa a ordem natural das coisas e a vontade de Deus para todas as criaturas racionais Leis temporais São as leis humanas contingentes e variáveis que visam regular a vida em sociedade e podem entrar em conflito com a lei eterna A importância da distinção Saber distinguir entre a lei eterna e as leis temporais é fundamental para tomar decisões morais corretas Ao agir de acordo com a lei eterna o indivíduo se alinha com a vontade de Deus e evita o pecado A razão iluminada pela fé A razão humana por si só pode ter dificuldade em discernir a lei eterna em todas as situações A fé que ilumina a razão é essencial para compreender a vontade de Deus e agir de acordo com ela Em resumo O capítulo 6 oferece uma solução para as questões levantadas nos capítulos anteriores propondo que a origem do pecado está na transgressão da lei eterna Ao distinguir entre a lei eterna e as leis temporais o indivíduo pode tomar decisões morais mais acertadas e evitar a submissão da razão às paixões Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão Neste capítulo o autor provavelmente inicia uma exploração mais profunda da natureza humana e de como a razão que distingue o homem dos animais pode ser tanto fonte de bem quanto de mal Pontoschave A razão como distinção A razão é apresentada como a principal característica que diferencia o ser humano dos animais Ela permite ao homem conhecer a verdade tomar decisões conscientes e viver em sociedade A razão como guia A razão é vista como o guia da conduta humana indicando o caminho do bem e do mal No entanto a razão humana é falível e pode ser corrompida pelo pecado O livrearbítrio O livrearbítrio aliado à razão permite ao homem escolher entre o bem e o mal Essa liberdade é um dom divino mas também a fonte do pecado Em resumo O capítulo 7 estabelece a base para a discussão sobre a causa do pecado enfatizando o papel da razão na natureza humana A razão ao mesmo tempo em que eleva o homem acima dos animais também o torna responsável por suas escolhas e o expõe à possibilidade do pecado Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres O que esperar deste capítulo No capítulo 8 o autor propõe a discussão iniciada no capítulo anterior explorando com mais detalhes a posição única do ser humano no universo Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Tópicos abordados A hierarquia dos seres O autor pode apresentar uma visão hierárquica dos seres situando o homem em um lugar de destaque porém não absoluto Essa hierarquia pode ser baseada em critérios como a racionalidade a espiritualidade e a capacidade de amar A natureza dual do homem A natureza humana é frequentemente descrita como uma dualidade entre corpo e alma ou entre matéria e espírito O autor pode explorar essa dualidade para explicar as tendências do homem para o bem e para o mal O pecado original A doutrina do pecado original pode ser apresentada como uma explicação para a inclinação do homem para o pecado mesmo antes de cometer qualquer ação concreta A imagem e semelhança de Deus O homem é frequentemente descrito como criado à imagem e semelhança de Deus O autor pode explorar as implicações dessa afirmação para a compreensão da natureza humana e do pecado Em resumo O capítulo 8 aprofunda a discussão sobre a natureza humana e sua relação com o pecado Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão No capítulo 9 o autor propõe discussão sobre a relação entre a razão e a vontade livre explorando o conceito do homem sábio Este capítulo deve servir como um contraponto ao capítulo anterior onde a natureza dual do homem e a possibilidade do pecado foram exploradas Tópicos abordados O homem sábio como ideal O autor pode apresentar o homem sábio como um ideal a ser perseguido alguém que utiliza sua razão de forma plena e consistente para tomar decisões justas e virtuosas A submissão da vontade à razão A submissão da vontade à razão é apresentada como a marca distintiva do homem sábio Ao agir de acordo com a razão o indivíduo se afasta da impulsividade e do pecado A importância da educação A educação é vista como um instrumento fundamental para o desenvolvimento da razão e para a formação do homem sábio A felicidade como consequência da virtude A felicidade é apresentada como o resultado natural da prática da virtude e da vida segundo a razão Como o livrearbítrio se encaixa O livrearbítrio continua sendo um tema central neste capítulo No entanto a ênfase se desloca do abuso da liberdade para o seu uso correto O homem sábio é aquele que ao exercer sua liberdade escolhe viver de acordo com a razão e a virtude Em resumo O capítulo 9 apresenta um ideal a ser perseguido o homem sábio Ao explorar a relação entre a razão e a vontade livre o autor busca mostrar como a submissão da vontade à razão pode levar à felicidade e à virtude afastando o indivíduo do pecado Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões O que esperar deste capítulo No capítulo 10 o autor provavelmente aprofunda a discussão sobre a relação entre razão e paixões defendendo a tese de que a submissão da razão às paixões não é uma inevitabilidade mas sim uma escolha Tópicos abordados A razão como guia O autor reafirma o papel da razão como guia da conduta humana capaz de controlar as paixões e direcionar as ações para o bem O livrearbítrio e a responsabilidade A responsabilidade individual pelas escolhas é enfatizada O livrearbítrio permite que o homem escolha entre seguir a razão ou ceder às paixões A importância da educação A educação é apresentada como um instrumento fundamental para fortalecer a razão e permitir que o indivíduo resista às tentações das paixões A força da vontade A vontade é vista como um poder interior que quando fortalecida pela razão permite ao indivíduo superar as paixões Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é apresentado como a chave para a liberdade humana Ao afirmar que nada força a razão a se submeter às paixões o autor está defendendo a ideia de que o indivíduo sempre tem a possibilidade de escolher o bem mesmo diante das tentações Em resumo O capítulo 10 apresenta uma visão otimista da natureza humana enfatizando o poder da razão para controlar as paixões Ao defender a ideia de que a submissão da razão às paixões não é inevitável o autor busca fortalecer a responsabilidade individual pelas escolhas e incentivar a busca pela virtude Capítulo 11a O Ser Supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões O que esperar deste capítulo No capítulo 11a o autor aprofunda a discussão sobre a liberdade humana e a responsabilidade individual pelas escolhas com um foco especial no papel de Deus nesse processo Tópicos abordados A bondade divina O autor defende a ideia de que Deus sendo perfeitamente bom não força o homem a pecar A escolha de pecar é uma decisão livre do indivíduo A justiça divina A justiça divina é apresentada como compatível com a liberdade humana Deus não pune o homem por atos que não estão sob seu controle O livrearbítrio como dom divino O livrearbítrio é visto como um dom precioso concedido por Deus que permite ao homem crescer em santidade e se aproximar de Deus por meio de suas escolhas livres A graça divina A graça divina é apresentada como um auxílio para superar as tentações e viver uma vida virtuosa mas não como uma força que anula a liberdade humana Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é defendido como um aspecto essencial da natureza humana e como um dom divino A tese central é que Deus em sua bondade infinita não força o homem a pecar mas lhe concede a liberdade de escolher entre o bem e o mal Em resumo O capítulo 11a apresenta uma visão teológica da liberdade humana e da responsabilidade individual Ao afirmar que Deus não força o homem a pecar o autor busca conciliar a onipotência divina com a liberdade humana e a justiça divina Capítulo 11b Dúvidas de Evódio O que esperar deste capítulo O capítulo 11b introduz a terceira parte da obra ao apresentar uma série de dúvidas ou objeções muitas vezes atribuídas a um personagem fictício chamado Evódio Essas dúvidas visam desafiar a tese central da obra ou seja que o pecado é resultado do livre arbítrio humano Tópicos abordados A origem do mal Evódio pode questionar como o mal pode existir em um mundo criado por um Deus bom e onipotente A predestinação O personagem pode apresentar argumentos a favor da predestinação sugerindo que o destino de cada indivíduo já está predeterminado e que o livrearbítrio é uma ilusão A compatibilidade da liberdade com a onisciência divina Evódio pode questionar como a liberdade humana se concilia com a onisciência divina Se Deus sabe tudo o que acontecerá como podemos ser realmente livres para escolher A natureza do pecado O personagem pode apresentar diferentes concepções de pecado questionando a ideia de que o pecado é simplesmente uma má escolha O objetivo do autor Ao apresentar as dúvidas de Evódio o autor busca criar um diálogo com o leitor e explorar as diferentes perspectivas sobre a questão do pecado e da liberdade humana Ao refutar as objeções de Evódio nos capítulos seguintes o autor fortalecerá sua tese central Em resumo O capítulo 11b serve como um ponto de partida para a terceira parte da obra apresentando um conjunto de desafios à tese central Ao explorar as dúvidas de Evódio o autor prepara o terreno para uma discussão mais aprofundada sobre a natureza do pecado a liberdade humana e a relação entre Deus e o homem Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo O que esperar deste capítulo No capítulo 12 o autor se aprofunda na discussão sobre a origem do mal confrontando a perspectiva que atribui o pecado ao livrearbítrio humano com uma visão platônica da realidade Tópicos abordados A teoria das Formas O autor pode apresentar a teoria das Formas de Platão segundo a qual o mundo material é uma mera sombra de um mundo ideal onde residem as Formas perfeitas do bem da beleza e da justiça A matéria como princípio do mal A matéria pode ser apresentada como o princípio do mal uma força que corrompe as Formas perfeitas e leva à imperfeição A alma humana como prisioneira do corpo A alma humana pode ser descrita como uma partícula do mundo das Formas aprisionada em um corpo material O pecado seria então resultado dessa prisão e da influência da matéria sobre a alma O papel da razão A razão seria a ferramenta que permite à alma lembrarse de suas origens divinas e buscar a libertação da matéria Como o livrearbítrio se encaixa A teoria platônica pode ser apresentada como uma alternativa à ideia de que o pecado é resultado do livrearbítrio Nessa perspectiva o mal não é uma escolha mas sim uma condição inerente à existência material Em resumo O capítulo 12 provavelmente apresenta uma visão alternativa sobre a origem do mal baseada na filosofia platônica Ao explorar a teoria das Formas e a natureza da alma humana o autor busca oferecer uma explicação para o pecado que não se baseia no livrearbítrio Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais O que esperar deste capítulo No capítulo 13 o autor provavelmente aprofunda a discussão sobre a boa vontade estabelecendo uma conexão entre a prática da virtude e o exercício do livrearbítrio Tópicos abordados As quatro virtudes cardeais O autor deve apresentar as quatro virtudes cardeais prudência justiça fortaleza e temperança e explicar como elas se relacionam com a boa vontade A virtude como hábito A virtude é apresentada como um hábito adquirido através da prática constante que leva à excelência moral A boa vontade como disposição para o bem A boa vontade é vista como uma disposição interior que inclina o indivíduo a praticar o bem e a evitar o mal O livrearbítrio e a virtude O exercício das virtudes cardeais é apresentado como uma expressão do livrearbítrio pois exige uma escolha consciente e deliberada Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher praticar o bem através das virtudes A boa vontade portanto não é apenas um desejo de fazer o bem mas sim a capacidade de agir de acordo com esse desejo escolhendo a virtude em cada situação Em resumo O capítulo 13 aprofunda a discussão sobre a boa vontade conectandoa com a prática das virtudes cardeais Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através das ações virtuosas o autor reforça a ideia de que o pecado é resultado de uma escolha livre e não de uma força externa Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade O que esperar deste capítulo No capítulo 14 o autor aprofunda a discussão sobre a busca da felicidade e a importância da virtude para alcançála Ele pode explorar as razões pelas quais nem todos conseguem atingir a felicidade desejada relacionando isso com a questão do livrearbítrio e da prática das virtudes Possíveis tópicos abordados A felicidade como fim último O autor pode reafirmar a ideia de que a felicidade é o fim último de todas as ações humanas e que a virtude é o meio para alcançála Os obstáculos à felicidade Serão explorados os obstáculos que impedem as pessoas de alcançar a felicidade como as paixões desordenadas os vícios a ignorância e as más escolhas A importância da escolha O autor pode enfatizar que a felicidade não é algo que se adquire passivamente mas sim algo que se conquista através de escolhas conscientes e deliberadas O papel da graça divina A graça divina pode ser apresentada como um auxílio indispensável para superar os obstáculos e alcançar a felicidade Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher o caminho da felicidade através da prática da virtude A incapacidade de alcançar a felicidade é atribuída portanto à má utilização do livrearbítrio ou seja à escolha de caminhos que levam ao sofrimento e à infelicidade Em resumo O capítulo 14 explora a relação entre a felicidade e a virtude mostrando como as escolhas que fazemos moldam nossa experiência da vida Ao enfatizar a importância da boa vontade e da prática das virtudes o autor busca mostrar que a felicidade é um fruto do exercício do livrearbítrio Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal O que esperar deste capítulo No capítulo 15 o autor aprofunda a discussão sobre a natureza da boa vontade relacionandoa com os conceitos de lei eterna e lei temporal Essa conexão busca explicar como a boa vontade se encaixa na ordem cósmica estabelecida por Deus e como ela se manifesta nas ações humanas Tópicos abordados A lei eterna O autor pode apresentar a lei eterna como a ordem racional e imutável estabelecida por Deus que rege todo o universo A lei natural A lei natural é apresentada como a participação da lei eterna na natureza humana manifestandose como a inclinação natural do homem para o bem e a verdade A lei positiva A lei positiva é a lei criada pelos homens para regular a vida em sociedade que deve estar em conformidade com a lei natural e a lei eterna A boa vontade e a lei A boa vontade é apresentada como a conformidade da vontade humana com a lei eterna e a lei natural A pessoa de boa vontade é aquela que age de acordo com a ordem racional estabelecida por Deus Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher agir de acordo com a lei eterna e a lei natural A boa vontade portanto é o exercício livre e consciente da conformidade com a ordem divina Em resumo O capítulo 15 busca situar a boa vontade dentro de um contexto mais amplo relacionandoa com a ordem cósmica estabelecida por Deus Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através da conformidade com a lei eterna e a lei natural o autor reforça a ideia de que a escolha de fazer o bem é uma decisão racional e livre Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio O que esperar deste capítulo O capítulo 16 sendo o último da terceira parte serve como uma síntese dos argumentos apresentados anteriormente O autor provavelmente reúne todas as ideias e evidências para apresentar uma conclusão sólida sobre a natureza do pecado e a sua relação com o livrearbítrio Tópicos abordados Revisão dos argumentos O autor pode fazer uma breve revisão dos argumentos apresentados nos capítulos anteriores destacando os pontos mais importantes Definição precisa de pecado Será apresentada uma definição clara e concisa do que é o pecado enfatizando o seu caráter moral e voluntário O pecado como uma violação da lei moral O pecado será caracterizado como uma transgressão da lei moral tanto da lei natural inscrita no coração do homem quanto da lei divina revelada A liberdade como condição essencial para o pecado O autor reafirmará que o pecado só é possível graças ao livrearbítrio pois exige uma escolha consciente contra o bem A responsabilidade individual A conclusão enfatizará a responsabilidade individual por cada pecado cometido uma vez que o pecado é fruto de uma escolha livre Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é apresentado como a raiz de todo o pecado Ao definir o pecado como uma violação voluntária da lei moral o autor demonstra que o pecado é uma escolha pessoal e que o indivíduo é responsável por suas ações Em resumo O capítulo 16 encerra a terceira parte com uma afirmação contundente o pecado é resultado do livrearbítrio humano Ao definir o pecado e mostrar como ele se relaciona com a lei moral e a liberdade o autor oferece uma visão clara e coerente sobre a natureza do mal

Envie sua pergunta para a IA e receba a resposta na hora

Recomendado para você

Tema do Trabalho

27

Tema do Trabalho

Filosofia

UMG

Atividade de Filosofia

1

Atividade de Filosofia

Filosofia

UMG

Colocar Trabalhos nas Normas Abnt

31

Colocar Trabalhos nas Normas Abnt

Filosofia

UMG

Teoria do Conhecimento

5

Teoria do Conhecimento

Filosofia

UMG

Atividade de Lógica filosofia

347

Atividade de Lógica filosofia

Filosofia

UMG

Anotações sobre a Adoração ao Sol e a Descoberta do Fogo na Pré-História

1

Anotações sobre a Adoração ao Sol e a Descoberta do Fogo na Pré-História

Filosofia

UMG

Seminário de Antropologia Filosófica

18

Seminário de Antropologia Filosófica

Filosofia

UMG

Filosofia da Arte

6

Filosofia da Arte

Filosofia

UMG

a Vida de Jonh Lock

11

a Vida de Jonh Lock

Filosofia

UMG

Filosofia

1

Filosofia

Filosofia

UMG

Texto de pré-visualização

PATRÍSTICA SANTO AGOSTINHO O livrearbítrio PAULUS SANTO AGOSTINHO O LIVREARBÍTRIO PAULUS Índice APRESENTAÇÃO INTRODUÇÃO 1 Dados e ocasião da obra 2 Evódio 3 Formação ideológica do livro 4 Breve síntese das idéias fundamentais 5 Análise do andamento dos três livros 6 O livrearbítrio e o maniqueísmo 7 A solução do problema do mal na interpretação de Agostinho 8 As Retractationes e a resposta aos pelagianos 9 A vontade a liberdade e a graça 10 Agostinho filósofo ou teólogo 11 Apreciação geral da obra 12 Influência exercida por Agostinho em particular através desta obra LIVRO I INTRODUÇÃO 1125 O problema do mal É Deus o autor do mal O mal vem por ter sido ensinado Por qual motivo agimos mal Pontos fundamentais da fé PRIMEIRA PARTE 36615 Essência do pecado submissão da razão às paixões Busca da origem do pecado Razões insuficientes da origem do mal O mal provém da paixão interior Objeção e os homicídios cometidos sem paixão Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil Poder matar um agressor não significa dever matálo As paixões desculpadas pela lei civil condenadas pela lei divina Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais Noção da lei eterna SEGUNDA PARTE 7161122 A causa do pecado o abuso da vontade livre O homem superior aos animais pela razão É melhor saber que se vive do que apenas viver O lugar do homem na escala da perfeição dos seres O homem sábio aquele que vive submisso à razão Nada força a razão a submeterse às paixões O Ser supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões O responsável pela submissão às paixões só pode ser o livrearbítrio O pecado porta em si muitos males TERCEIRA PARTE 11231635 A atuação da boa vontade prova que o pecado vem do livrearbítrio Dúvidas de Evódio Uma hipótese do platonismo O papel da boa vontade A boa vontade está em nossas mãos Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais Levar vida feliz ou infeliz depende de nossa boa vontade Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal Maneira como governa a lei temporal Conseqüência do apego ou desapego dos bens deste mundo Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio Transição ao livro II LIVRO II INTRODUÇÃO 1126 Por que nos deu Deus a liberdade de pecar O livrearbítrio vem de Deus Objeção já que o livrearbítrio foinos dado para fazer o bem como se volta ele para o mal Primeira condição para a solução do problema colocarse no ponto de vista de Deus Segunda condição não se limitar à fé mas procurar o seu entendimento PRIMEIRA PARTE 37719 Início da ascensão a Deus para chegarmos à prova de sua existência A Busca do que há de mais nobre no homem As primeiras intuições do espírito o existir o viver o entender O conhecimento advindo pelos sentidos externos pelo sentido comum e pela razão a Os sentidos exteriores b O nosso sentido interior c A nossa razão Os sentidos exteriores não se percebem a si mesmos Percebese o sentido interior a si mesmo O sentido interior juiz e guia dos sentidos exteriores O princípio de subordinação A razão transcende a tudo mais no homem Última etapa acima da razão só Deus B O QUE É INDIVIDUAL E O QUE É COMUM A TODOS 71519 Características de cada sentido exterior a Quanto ao sentido da vista b Quanto ao sentido da audição c Quanto aos sentidos do olfato e do paladar d Quanto ao sentido do tato SEGUNDA PARTE 8201438 A intuição de Deus acima da razão Os números e suas leis superiores à razão A constante ordem dos números A lei dos números é universal e acessível a todos os que raciocinam Manifestações de sabedoria natural Sabedoria Bem supremo e Verdade beatificante Sabedoria bem comum e supremo de todos Certezas imutáveis das leis da sabedoria A sabedoria e os números encontram sua fonte na Verdade imutável A Verdade imutável o próprio Deus Inferioridade da mente diante da verdade incapaz de julgála e susceptível de constante mutabilidade Exortação a abraçar a Verdade fonte única da felicidade A Verdade vive na mente humana A Verdade fonte de liberdade e segurança A transcendência da Verdade TERCEIRA PARTE 15392054 Tudo o que é bom e perfeito vem de Deus Conclusão de toda a argumentação anterior Deus existe O desejo de sabedoria é inerente a nosso espírito A sabedoria manifestase aos que a procuram graças aos números impressos em cada ser A sabedoria regula pelos números a harmoniosa evolução do universo Infelizes os que não reconhecem nos seres criados o reflexo da sabedoria de Deus A sabedoria comunicada a todos os seres O princípio de participação Todo bem e toda perfeição é recebida de Deus Conclusão O livrearbítrio é um bem em si mesmo Ainda que o homem possa usar mal da liberdade a sua vontade livre deve ser considerada como um bem Entre os três graus de bens a liberdade ocupa um grau médio Entre os grandes bens as virtudes cardeais O livrearbítrio não é o bem mais perfeito Digressão a vontade livre que se serve de tudo mais servese também de si mesma A vontade livre entre o Bem supremo e os bens mutáveis Conseqüências da aversão ou da conversão ao sumo Bem Conclusão o mal originase da deficiência do livrearbítrio LIVRO III INTRODUÇÃO 113 O movimento culpável da vontade que se afasta de Deus vem do livrearbítrio PRIMEIRA PARTE 24411 Conciliação entre o pecado e a presciência de Deus Objeção não acontece necessariamente o que Deus prevê Condições para o entendimento do problema crer na Providência e cultivar sentimentos de piedade A presciência divina longe de destruir o ato livre exige a sua existência Obscuridade da relação entre presciência divina e liberdade humana Resposta prever não é forçar SEGUNDA PARTE 5121646 Relações entre o pecado e a Providência divina A Regra fundamental louvar a Deus por ter dado o ser às criaturas racionais ainda que pecadoras Louvemos a Deus por todas as obras criadas as superiores como as inferiores A vontade mesmo pecadora é um bem A excelência das almas espirituais Julgamentos incorretos e o certo conforme a razão Não atribuir a Deus a causa do pecado B Objeção e o desejo da própria morte Ninguém quer deixar de existir Louvar a Deus por sua bondade e justiça A existência é amada porque vem do sumo Ser Resolução Amar mais e mais a vida e aspirar ao amor das coisas eternas Nem mesmo aqueles que se suicidam preferem o nãoser No fundo o suicida procura encontrar a própria tranqüilidade C O pecado e a ordem do universo É indevido censurar a Deus pela criação de seres menos perfeitos Deus é digno de louvores pela criação da variedade dos seres O pecado nada tira da ordem do universo A penalidade sofrida pelas almas pecadoras contribui para a perfeição do universo Aplicação do que foi dito à punição do pecado original e à redenção Conseqüências do pecado original A obra da redenção A submissão ao Senhor livranos do poder do demônio Toda criatura justa ou pecadora contribui para a ordem universal Função dos seres angélicos e dos homens Ação dos anjos e das almas sobre os seres inferiores Nada pode perturbar o governo de Deus sobre o universo D O pecado e a bondade das criaturas Contemplação da beleza da criação Princípio fundamental todo ser é bom O mal é uma privação A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza Dois complementos 1º Natureza alguma corrompese sem já estar viciada 2º Nem toda corrupção é digna de ser censurada Louvar os seres é louvar a Deus criador das naturezas E O pecado e a justiça Motivos de louvar a Deus As criaturas inferiores ao perecerem não faltam ao que devem A razão levanos a reprovar o mal e praticar o bem como uma dívida para com Deus Caso a vontade livre não devolver a Deus o que lhe deve pela prática da virtude dará glória a Deus por um justo castigo Deus nada nos deve nós tudo lhe devemos Conclusão o pecado é causado pela vontade livre Deus não é a causa do pecado Louvor ao Criador em todas as circunstâncias TERCEIRA PARTE 17472577 Problemas diversos A A vontade livre causa primeira do pecado Posição do problema sem liberdade não há pecado A raiz de todos os males é a vontade desregrada O que motiva a vontade Pode alguém pecar em coisas que não pôde evitar B A nossa situação atual devida ao pecado original Se foram Adão e Eva que pecaram que culpa temos nós A negligência é culpável As fraquezas humanas não são verdadeiros pecados mas penalidades pelo primeiro pecado Justiça e bondade de Deus na condição atual de fraqueza dos homens Em qualquer hipótese a respeito da origem das almas Deus é sempre justo O que é preciso crer e que tipos de erros prejudicam a nossa felicidade O problema de nossa origem é menos importante do que o de nosso destino Os pecados são atribuíveis à própria vontade não a Deus Hipótese e se o estado atual do homem fosse conforme à sua natureza sem que tenha havido o pecado original Conclusão é preciso louvar a Deus em qualquer hipótese C Problemas acerca das crianças A morte prematura das crianças e o sofrimento que padecem não são contrários à ordem universal E as crianças que morrem sem batismo As dores das criancinhas são compatíveis com a bondade divina Razões providenciais das dores dos animais Conclusão toda criatura canta a unidade suprema de Deus D Questões sobre o primeiro pecado do homem e o do demônio Foi o homem criado em estado de sabedoria ou de insensatez O primeiro pecado não pode ser imputado a Deus mas sim ao orgulho do homem Como se dá a passagem da insensatez à sabedoria Confronto entre o orgulho e a sabedoria O que moveu a vontade do demônio para se voltar para o mal O orgulho principal fonte de toda má opção Conclusão a excelência da sabedoria Curta conclusão geral BIBLIOGRAFIA APRESENTAÇÃO Surgiu pelos anos 40 na Europa especialmente na França um movimento de interesse voltado para os antigos escritores cristãos e suas obras conhecidos tradicionalmente como Padres da Igreja ou Santos Padres Esse movimento liderado por Henri de Lubac e Jean Daniélou deu origem à coleção Sources Chrétiennes hoje com mais de 300 títulos alguns dos quais com várias edições Com o Concílio Vaticano II ativouse em toda a Igreja o desejo e a necessidade de renovação da liturgia da exegese da espiritualidade e da teologia a partir das fontes primitivas Surgiu a necessidade de voltar às fontes do cristianismo No Brasil em termos de publicação das obras destes autores antigos pouco se fez Paulus Editora procura agora preencher este vazio existente em língua portuguesa Nunca é tarde ou fora de época para rever as fontes da fé cristã os fundamentos da doutrina da Igreja especialmente no sentido de buscar nelas a inspiração atuante transformadora do presente Não se propõe uma volta ao passado através da leitura e estudo dos textos primitivos como remédio ao saudosismo Ao contrário procurase oferecer aquilo que constitui as fontes do cristianismo para que o leitor as examine as avalie e colha o essencial o espírito que as produziu Cabe ao leitor portanto a tarefa do discernimento Paulus Editora quer assim oferecer ao público de língua portuguesa leigos clérigos religiosos aos estudiosos do cristianismo primevo uma série de títulos não exaustiva cuidadosamente traduzidos e preparados dessa vasta literatura cristã do período patrístico Para não sobrecarregar o texto e retardar a leitura procurouse evitar anotações excessivas as longas introduções estabelecendo paralelismos de versões diferentes com referências aos empréstimos da literatura pagã filosófica religiosa jurídica às infindas controvérsias sobre determinados textos e sua autenticidade Procurouse fazer com que o resultado desta pesquisa original se traduzisse numa edição despojada porém séria Cada autor e cada obra terão uma introdução breve com os dados biográficos essenciais do autor e um comentário sucinto dos aspectos literários e do conteúdo da obra suficientes para uma boa compreensão do texto O que interessa é colocar o leitor diretamente em contato com o texto O leitor deverá ter em mente as enormes diferenças de gêneros literários de estilos em que estas obras foram redigidas cartas sermões comentários bíblicos paráfrases exortações disputas com os heréticos tratados teológicos vazados em esquemas e categorias filosóficas de tendências diversas hinos litúrgicos Tudo isso inclui necessariamente uma disparidade de tratamento e de esforço de compreensão a um mesmo tema As constantes e por vezes longas citações bíblicas ou simples transcrições de textos escriturísticos devemse ao fato de que os padres escreviam suas reflexões sempre com a Bíblia numa das mãos Julgamos necessário um esclarecimento a respeito dos termos patrologia patrística e padres ou pais da Igreja O termo patrologia designa propriamente o estudo sobre a vida as obras e a doutrina dos pais da Igreja Ela se interessa mais pela história antiga incluindo também obras de escritores leigos Por patrística se entende o estudo da doutrina as origens dessa doutrina suas dependências e empréstimos do meio cultural filosófico e pela evolução do pensamento teológico dos pais da Igreja Foi no século XVII que se criou a expressão teologia patrística para indicar a doutrina dos padres da Igreja distinguindoa da teologia bíblica da teologia escolástica da teologia simbólica e da teologia especulativa Finalmente Padre ou Pai da Igreja se refere a um leigo sacerdote ou bispo da antiguidade cristã considerado pela tradição posterior como testemunho particularmente autorizado da fé Na tentativa de eliminar as ambigüidades em torno desta expressão os estudiosos convencionaram em receber como Pai da Igreja quem tivesse estas qualificações ortodoxia de doutrina santidade de vida aprovação eclesiástica e antiguidade Mas os próprios conceitos de ortodoxia santidade e antiguidade são ambíguos Não se espere encontrar neles doutrinas acabadas buriladas irrefutáveis Tudo estava ainda em ebulição fermentando O conceito de ortodoxia é portanto bastante largo O mesmo vale para o conceito de santidade Para o conceito de antiguidade podemos admitir sem prejuízo para a compreensão a opinião de muitos especialistas que estabelece para o Ocidente Igreja latina o período que a partir da geração apostólica se estende até Isidoro de Sevilha 560636 Para o Oriente Igreja grega a antiguidade se estende um pouco mais até a morte de s João Damasceno 675749 Os Pais da Igreja são portanto aqueles que ao longo dos sete primeiros séculos foram forjando construindo e defendendo a fé a liturgia a disciplina os costumes e os dogmas cristãos decidindo assim os rumos da Igreja Seus textos se tornaram fontes de discussões de inspirações de referências obrigatórias ao longo de toda a tradição posterior O valor dessas obras que agora Paulus Editora oferece ao público pode ser avaliado neste texto Além de sua importância no ambiente eclesiástico os Padres da Igreja ocupam lugar preeminente na literatura e particularmente na literatura grecoromana São eles os últimos representantes da Antiguidade cuja arte literária não raras vezes brilha nitidamente em suas obras tendo influenciado todas as literaturas posteriores Formados pelos melhores mestres da Antiguidade clássica põem suas palavras e seus escritos a serviço do pensamento cristão Se excetuarmos algumas obras retóricas de caráter apologético oratório ou apuradamente epistolar os Padres por certo não queriam ser em primeira linha literatos e sim arautos da doutrina e moral cristãs A arte adquirida não obstante vem a ser para eles meio para alcançar este fim Há de se lhes aproximar o leitor com o coração aberto cheio de boa vontade e bem disposto à verdade cristã As obras dos Padres se lhe reverterão assim em fonte de luz alegria e edificação espiritual B Altaner A Stuiber Patrologia S Paulo Paulus 1988 pp 2122 A Editora Prometi mostrarte que há um Ser muito mais sublime do que o nosso espírito e a nossa razão Eilo é a própria Verdade II1335 Será a sabedoria outra coisa a não ser a Verdade na qual se contempla e se possui o sumo Bem II926 Ó Sabedoria Luz suavíssima da mente purificada II1335 INTRODUÇÃO 1 Dados e ocasião da obra Após sua conversão em Milão no ano 386 Agostinho viveu alguns meses na feliz tranqüilidade da chácara de Cassicíaco com sua mãe familiares e diminuto número de discípulos Dedicavamse aí aos trabalhos campestres à contemplação e à reflexão filosófica Colhemos os frutos de seus colóquios nos famosos diálogos Contra os Acadêmicos A vida feliz A Ordem e nos Solilóquios Na Páscoa de 387 ele recebeu a graça do batismo das mãos do bispo de Milão santo Ambrósio Propunhase retornar à sua terra natal em Tagaste na África do Norte para aí consagrarse com seus amigos a uma vida de oração e estudo como monges Enquanto aguardavam a partida da embarcação em Óstia porto de Roma no mês de outubro sua santa mãe Mônica falece após breve enfermidade Passada a comoção do desenlace Agostinho decide permanecer em Roma o inverno de 387 e todo o ano de 388 Preocupado como estava de defenderse do maniqueísmo e alertar a seus amigos compôs diversos tratados entre outros De moribus Ecclesiae Catholicae e De moribus maniquaeorum e a presente obra De libero arbitrio A redação desta última porém iniciada em 388 não pôde ser terminada Após o regresso a Tagaste continuoua mas não havia ainda sido concluída quando em 391 foi constrangido a ser ordenado padre por insistência do povo de Hipona Somente aí como presbítero Agostinho conseguiu pôr termo ao trabalho entre 394 e 395 Como prova dessa data temos uma carta sua ao amigo Paulino bispo de Nola carta 317 do início do ano 396 Junto à missiva enviava um exemplar dos três livros de O livrearbítrio recém terminado 2 Evódio A obra em forma dialogada é em grande parte o relato das conversas de Agostinho com Evódio seu amigo e conterrâneo Era este já homem formado quando conheceu Agostinho Fora a princípio militar tendo depois se dedicado às Letras Convertido em Milão recebeu o batismo pouco antes de Agostinho Ficou a seu lado após a morte de Mônica em Roma e em seguida foi para Tagaste participar da primeira comunidade de monges Mais tarde em 396 tornouse bispo de Upsala perto de Útica na África proconsular Neste diálogo como em outro igualmente mantido com Agostinho o De quantitate animae Sobre a grandeza da alma vemolo sempre ser tratado com muita deferência e respeito Suas insistências contribuem a trazer aos diálogos mais vida mais rigor nas provas e por vezes mais complexidade e desenvolvimento Acontece que no livro II da presente obra Evódio a partir do cap 512 aparece apenas brevemente uma única vez no cap 1246 Devese essa ausência pelo fato de ele não ter acompanhado seu amigo até Hipona Entre as epístolas agostinianas conservamse 4 cartas por ele dirigidas a Agostinho A essas devese acrescentar uma descoberta há apenas alguns anos por Dom Bruyne São as de números 158 160 161 e 163 E do bispo de Hipona a ele conservaramse apenas três cartas números 159 162 e 164 Morreu Evódio seis anos antes de seu mestre e amigo em 424 3 Formação ideológica do livro Esta importante obra tem como tema o problema da liberdade humana e o da origem do mal moral Desde a sua adolescência Agostinho preocupavase com tais questões e uma das causas de sua adesão ao maniqueísmo foi a esperança de aí encontrar uma solução para as suas dúvidas Contudo as fábulas heréticas não o satisfizeram por muito tempo Teve que prosseguir a angustiante busca da verdade Essa fase é bem descrita em suas Confissões Leiase o l III caps 3 e 7 Não podia Agostinho suportar a idéia de que Deus fosse a causa do mal Enfim em Milão enquanto a eloqüência de Ambrósio traziao de volta ao catolicismo a leitura do neoplatônico Plotino trouxelhe a luz tão desejada Todavia ainda não uma resposta definitiva e plena É em direção a Deus que Plotino conduziu Agostinho para leválo à certeza de um Criador bom e poderoso fonte de toda realidade Desse modo o mal não podia ter lugar entre os seres nem prejudicar a excelência da obra divina Tampouco poderia o mal impedir ao homem que o quisesse encontrar em Deus a paz e a felicidade O problema já fora por Agostinho tratado em seu diálogo A Ordem Mas a temível dificuldade que em Cassicíaco ele não ousara enfrentar consistia na existência do pecado Com efeito é bastante fácil demonstrar que o mal físico resolvese com a Providência divina Isso porque o mal visto no conjunto não é mais um malefício mas sim uma contribuição ao bem comum e à beleza da ordem Até esse ponto a tese neoplatônica o satisfazia Mas poderia ser dito o mesmo do mal moral que se opõe diretamente à vontade de Deus Plotino dava resposta inadmissível a essa questão perturbadora Alegava ser a matéria essencialmente má e a responsável pelo mal Agostinho não levou em consideração tal resposta Mas guiado por seu gênio e graças às preciosas retificações que a fé católica lhe proporcionava ele propõe com coragem uma solução racional O intento geral de O livrearbítrio aparece assim com clareza desse ponto de vista Segundo os dados da fé Deus todopoderoso e Bem supremo criou todas as coisas por meio de seu Verbo e nada pode escapar à ordem de sua Providência Todas as suas obras são boas O pecado não pode lhe ser imputado nem ficar fora da ordem providencial Diz Agostinho É preciso compreender aquilo em que cremos I24 II26 Ele procura explicar pela razão a origem do pecado e seu papel na obra de Deus Em conclusão chega a afirmar em síntese a fonte do mal moral o pecado está no abuso da liberdade mas esta é um bem Insiste nisso com tamanha força que os pelagianos mais tarde invocarão sem razão suas afirmações para sustentar as próprias teses 4 Breve síntese das idéias fundamentais Antes de tudo para descobrir a origem do pecado é preciso saber qual a sua essência Ora cometer o mal não é nada mais do que submeter sua vontade às paixões ou preferir aos bens propostos pela fé eterna uma satisfação pessoal E isso só é possível pela livre opção de nossa vontade livro I O livro II é o coração da obra Num método ascensional Agostinho prova a existência de Deus autor de todo bem E à vontade livre mesmo fraca não se pode recusar um lugar honroso entre os bens criados O livro III é complemento e esclarecimento dos livros anteriores Trata da Providência de Deus em face ao seres livres Portanto sempre louvar a Deus por ter criado a vontade livre mesmo pecadora como um elemento da ordem universal Por certo o pecado não depende da presciência divina e não é necessário à ordem Sua presença porém não consegue tornar a ordem atual indigna de Deus A última palavra a respeito do pecado como do mal físico será sempre Louvores a Deus Tal é a trama essencial simples e poderosa de O livrearbítrio 5 Análise do andamento dos três livros Notese que a divisão em capítulos e números está conforme o original latino Todavia as divisões em partes e secções assim como os títulos dados para melhor compreensão da leitura é de autoria da tradutora Nas Notas complementares encontrarseão sínteses dos assuntos tratados à medida do decorrer dos temas 6 O livrearbítrio e o maniqueísmo Sem dúvida alguma este diálogo foi especialmente escrito contra os erros dos maniqueus sem todavia constituir uma obra polêmica Tendose convertido e sentindose no caminho da verdade Agostinho sentia necessidade de recuperarse a si e aos amigos Eis uma breve síntese da teoria maniquéia Para os maniqueus havia duas divindades supremas a presidir o universo o princípio do Bem e o do Mal a luz e as trevas Como conseqüência moral afirmavam ter o homem duas almas Cada uma presidida por um desses dois princípios Logo o mal é metafísico e ontológico A pessoa não é livre nem responsável pelo mal que faz Este lhe é imposto 7 A solução do problema do mal na interpretação de Agostinho Ao grande problema do mal conseguiu Agostinho apresentar uma explicação que se tornou ponto de referência durante séculos e ainda hoje conserva a sua validade Se tudo provém de Deus que é o Bem de onde provém o mal Depois de ter sido vítima da explicação dualista maniquéia como vimos ele encontra em Plotino a chave para resolver a questão o mal não é um ser mas deficiência e privação de ser E ele aprofunda ainda mais a questão Examina o problema do mal em três níveis a metafísico ontológico b moral c físico a Do ponto de vista metafísicoontológico não existe mal no cosmos mas apenas graus inferiores de ser em relação a Deus graus esses que dependem da finitude do ser criado e dos diferentes níveis dessa finitude Mas mesmo aquilo que numa consideração superficial parece defeito e portanto poderia parecer mal na realidade na ótica do universo visto em seu conjunto desaparece As coisas as mais ínfimas revelamse momentos articulados de um grande conjunto harmônico b O mal moral é o pecado Esse depende de nossa má vontade E a má vontade não tem causa eficiente e sim muito mais causa deficiente Por sua natureza a vontade deveria tender para o Bem supremo Mas como existem muitos bens criados e finitos a vontade pode vir a tender a eles e subvertendo a ordem hierárquica preferir a criatura a Deus optando por bens inferiores em vez dos bens superiores Sendo assim o mal deriva do fato de que não há um único bem e sim muitos bens consistindo precisamente o pecado na escolha incorreta entre esses bens O mal moral portando é aversio a Deo e conversio ad creaturam O fato de se ter recebido de Deus uma vontade livre é para nós grande bem O mal é o mau uso desse grande bem c O mal físico como as doenças os sofrimentos e a morte tem significado bem preciso para quem reflete na fé é a conseqüência do pecado original ou seja é conseqüência do mal moral A corrupção do corpo que pesa sobre a alma não é a causa mas a pena do primeiro pecado cf G Reale D Antiseri Hist da Filosofia I Paulus pp 455 456 8 As Retractationes e a resposta aos pelagianos No precioso livro de revisão de suas obras tão conscienciosamente elaborado pelo bispo de Hipona no final de sua vida a notícia a respeito de O livrearbítrio é das mais longas e importantes Encontramola no l I 916 A posição de Agostinho é muito clara Explica ele que se tratava então naquela ocasião de refutar os maniqueus os quais negam o livrearbítrio da vontade e pretendem fazer recair em Deus a responsabilidade pelo mal e pelo pecado É contra eles que o tratado insiste valorizando grandemente o papel da liberdade humana A tal ponto que na controvérsia pelagiana advinda anos após Pelágio não hesitou em se servir do De libero arbitrio para atacar a doutrina católica do pecado original Pretendeu até tirar da obra argumentos de certas fórmulas antimaniquéias de Agostinho O doutor de Hipona assinala 13 passagens das quais os pelagianos poderiam abusar contra ele Mas em vez de responder sucessivamente às dificuldades apresentadas por essas passagens ele prefere lembrálas em bloco No final toma resolutamente a ofensiva para explicar em que sentido falou sobre a liberdade E lembra vitoriosamente que pelo menos em quatro lugares fez menção da ação indispensável da graça de Deus Na verdade não se pode argumentar do mesmo modo contra a doutrina dos maniqueus e a dos pelagianos Leiamse as notas complementares desta edição no l I n 2812 26 301328 331430 no l II n 212 601847 no l III n 321850 341852 402058 Em conclusão constatamos que se é certo que Agostinho no presente diálogo não fala com insistência sobre a graça como medicina e socorro do livrearbítrio porém insinuaa várias vezes Numa delas expressamente II2054 O que ele repete uma e mil vezes é que o homem é livre para fazer o bem e que não é forçado a cometer o mal por nenhuma necessidade Se o homem peca a culpa é sua Agostinho insiste fortemente na bondade essencial e infinita de Deus Sem o livre arbítrio não haveria mérito nem desmérito glória nem vitupério responsabilidade nem irresponsabilidade virtude nem vício cf BAC III Introdução p 246 Santo Agostinho na verdade constituiuse o defensor de nossa liberdade e da graça divina ao mesmo tempo 9 A vontade a liberdade e a graça Etienne Gilson resumiu de modo muito eficaz o pensamento agostiniano sobre as relações entre a liberdade a vontade e a graça da seguinte forma Duas condições são exigidas para fazer o bem um dom de Deus que é a graça e o livrearbítrio Sem o livrearbítrio não haveria problemas sem a graça o livrearbítrio após o pecado original não quereria o bem ou se o quisesse não conseguiria realizálo A graça portanto não tem o efeito de suprimir a vontade mas sim de tornála boa pois ela se transformara em má Esse poder de usar bem o livrearbítrio é precisamente a liberdade A possibilidade de fazer o mal é inseparável do livrearbítrio mas o poder de não fazêlo é a marca da liberdade E o fato de alguém se encontrar confirmado na graça a ponto de não poder mais fazer o mal é o grau supremo da liberdade Assim o homem que estiver mais completamente dominado pela graça de Cristo será também o mais livre libertas vera est Christo servire cf Gilson Introduction à létude de Saint Augustin pp 202ss 10 Agostinho filósofo ou teólogo A presente obra é considerada como uma das que melhor apresenta o pensamento filosófico de Agostinho Mas sabemos que para ele o estudo da filosofia sempre foi caminhada para Deus e não pura ocupação intelectual E a sabedoria certa posse beatificante de Deus Dessa maneira Agostinho foi sobretudo teólogo e até os seus trabalhos filosóficos são dirigidos para a teologia O livre arbítrio é exemplo típico disso Não obstante em suas pesquisas racionais a Revelação não intervém diretamente Mostrase apenas como um ponto de apoio indireto O teocentrismo agostiniano é fundante Será pela idéia de Deus que se estabelece a comunicação entre filosofia e teologia Inclusive a idéia de Deus em plano natural encontrase necessariamente enriquecida por toda uma contribuição sobrenatural Repousa sobre ela como em sua base normal As principais passagens em que Agostinho referese expressamente ao plano teológico nesta obra são as seguintes l I 25 614 l II 26 824 1130 1437 1539 2054 l III 928 1031 e quase toda a 3ª Parte 1747 a 2576 11 Apreciação geral da obra Este livro é realmente um grande tratado de porte e duração Obra extensa profunda e decisiva de importância excepcional pelos múltiplos e graves problemas estudados sobretudo aquele fundamental a respeito da natureza origem e causa do pecado assim como a responsabilidade humana por seus atos livres cf Pe E Seijas BAC III p 240 Apresenta Agostinho uma demonstração racional da moral fundamentandoa Não seria suficiente para ele uma explicação psicológica do livrearbítrio Tampouco contentase com a contribuição da fé pois recorre expressamente à razão II256 O que há de mais valioso na obra é a prova da existência de Deus É ela original de Agostinho Já fora exposta de modo abreviado em A verdadeira religião 305456 3157 todavia encontrase aqui exposta de maneira mais extensa É denominada a prova pela verdade pelas idéias eternas ou melhor prova pela via do espírito Só a razão argumenta Outro ponto de particular valor é a doutrina exposta sobre a Providência no l III Já foi dito ser esse um dos mais possantes faróis a iluminarem constantemente o pensamento do genial Agostinho Essa tese que dominou toda sua vida dominou também toda a Idade Média 12 Influência exercida por Agostinho em particular através desta obra Agostinho é considerado sem contestação um dos maiores gênios de todos os tempos Diz B Altaner na sua Patrologia Agostinho é o mais exímio filósofo dentre os Padres da Igreja e sem dúvida o mais insigne teólogo de toda a Igreja Já em vida suas obras lhe granjearam numerosos admiradores Exerceu profunda influência na vida da Igreja ocidental e que perdura até à época moderna Isso não só na filosofia dogmática na teologia moral e mística mas ainda na vida social e caritativa e também na formação da cultura medieval cf op cit p 415 Em particular foi imensa a influência operada por meio deste diálogo filosófico no transcurso dos séculos Não há escritor em toda a Idade Média que fale ou trate da questão do livrearbítrio e do pecado que não tenha ido beber nesta fonte agostiniana E até os nossos dias os temas debatidos na presente obra permanecem de real atualidade A leitura refletida e degustada será muito enriquecedora a todos os que buscam conhecimento mais aprofundado sobre as temáticas expostas LIVRO I O PECADO PROVÉM DO LIVREARBÍTRIO INTRODUÇÃO 1125 O PROBLEMA DO MAL Capítulo 1 É Deus o autor do mal 1 Evódio Peçote que me digas será Deus o autor do mal1 Agostinho Dirteei se antes me explicares a que mal te referes Pois habitualmente tomamos o termo mal em dois sentidos um ao dizer que alguém praticou o mal outro ao dizer que sofreu algum mal Ev Quero saber a respeito de um e de outro Ag Pois bem se sabes ou acreditas que Deus é bom e não nos é permitido pensar de outro modo Deus não pode praticar o mal Por outro lado se proclamamos ser ele justo e negálo seria blasfêmia Deus deve distribuir recompensas aos bons assim como castigos aos maus E por certo tais castigos parecem males àqueles que os padecem É porque visto ninguém ser punido injustamente como devemos acreditar já que de acordo com a nossa fé é a divina Providência que dirige o universo Deus de modo algum será o autor daquele primeiro gênero de males a que nos referimos só do segundo Ev Haverá então algum outro autor do primeiro gênero de mal uma vez estar claro não ser Deus Ag Certamente pois o mal não poderia ser cometido sem ter algum autor Mas caso me perguntes quem seja o autor não o poderia dizer Com efeito não existe um só e único autor Pois cada pessoa ao cometêlo é o autor de sua má ação Se duvidas reflete no que já dissemos acima as más ações são punidas pela justiça de Deus Ora elas não seriam punidas com justiça se não tivessem sido praticadas de modo voluntário2 O mal vem por ter sido ensinado 2 Ev Ignoro se existe alguém que chegue a pecar sem antes o ter aprendido Mas caso isso seja verdade pergunto De quem aprendemos a pecar Ag Julgas a instrução disciplinam ser algo de bom Ev Quem se atreveria a dizer que a instrução é um mal Ag E caso não for nem um bem nem um mal Ev A mim pareceme que é um bem Ag Por certo Com efeito a instrução comunicanos ou desperta em nós a ciência e ninguém aprende algo se não for por meio da instrução Acaso tens outra opinião Ev Penso que por meio da instrução não se pode aprender a não ser coisas boas Ag Vês então que as coisas más não se aprendem posto que o termo instrução deriva precisamente do fato de alguém se instruir Ev De onde hão de vir então as más ações praticadas pelos homens se elas não são aprendidas Ag Talvez porque as pessoas se desinteressam e se afastam do verdadeiro ensino isto é dos meios de instrução Mas isso vem a ser outra questão O que porém mostrase evidente é que a instrução sempre é um bem visto que tal termo deriva do verbo instruir Assim será impossível o mal ser objeto de instrução Caso fosse ensinado estaria contido no ensino e desse modo a instrução não seria um bem Ora a instrução é um bem como tu mesmo já o reconheceste Logo o mal não se aprende É em vão que procuras quem nos teria ensinado a praticálo Logo se a instrução falar sobre o mal será para nos ensinar a evitálo e não para nos levar a cometêlo De onde se segue que fazer o mal não seria outra coisa do que renunciar à instrução Pois a verdadeira instrução só pode ser para o bem 3 Ev Não obstante julgo que há duas espécies de instrução uma que nos ensina a praticar o bem e outra a praticar o mal Mas ao me perguntares se a instrução era um bem o amor mesmo do bem absorveume a atenção de tal modo a me fazer considerar unicamente o ensino relativo às boas ações motivo pelo qual respondi que ele era sempre um bem Mas doume conta agora que existe um outro ensino que reconheço seguramente ser mau e de cujo autor indago Ag Vejamos Admites pelo menos o seguinte será a inteligência integralmente um bem Ev A ela com efeito considero de tal modo ser um bem que nada vejo poder existir de melhor no homem De maneira alguma posso considerar a inteligência como um mal Ag Mas quando alguém for ensinado e não se servir da inteligência para entender poderá ser ele considerado como alguém que fica instruído O que te parece Ev Pareceme que ele não o pode de modo algum Ag Logo se toda a inteligência é boa e quem não usa da inteligência não aprende seguese que todo aquele que aprende procede bem Com efeito todo aquele que aprende usa da inteligência e todo aquele que usa da inteligência procede bem Assim procurar o autor de nossa instrução sem dúvida é procurar o autor de nossas boas ações Deixa pois de pretender descobrir não sei que mau ensinante Pois se na verdade for mau ele não será mestre E caso seja mestre não poderá ser mau3 Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal 4 Ev Seja como dizes já que tão fortemente me obrigas a reconhecer que não aprendemos a fazer o mal Dizeme entretanto qual a causa de praticarmos o mal Ag Ah Suscitas precisamente uma questão que me atormentou por demais desde quando era ainda muito jovem Após terme cansado inutilmente de resolvêla levou a precipitarme na heresia dos maniqueus com tal violência que fiquei prostrado Tão ferido sob o peso de tamanhas e tão inconsistentes fábulas que se não fosse meu ardente desejo de encontrar a verdade e senão tivesse conseguido o auxílio divino não teria podido emergir de lá nem aspirar à primeira das liberdades a de poder buscar a verdade4 Visto que a ordem seguida então atuou em mim com tanta eficácia para resolver satisfatoriamente essa questão seguirei igualmente contigo aquela mesma ordem pela qual fui libertado Sejanos pois Deus propício e façanos chegar a entender aquilo em que acreditamos Estamos assim bem certos de estar seguindo o caminho traçado pelo profeta que diz Se não acreditardes não entendereis5 Ora nós cremos em um só Deus de quem procede tudo aquilo que existe Não obstante Deus não é o autor do pecado Todavia perturbanos o espírito uma consideração se o pecado procede dos seres criados por Deus como não atribuir a Deus os pecados sendo tão imediata a relação entre ambos Pontos fundamentais da fé 5 Ev Acabas de formular com toda clareza e precisão a dúvida que cruelmente me atormentou o pensamento e que justamente me levou a me empenhar nesta reflexão contigo Ag Tem coragem e conserva a fé naquilo que crês Nada é mais recomendável do que crer até no caso de estar oculta a razão de por que isso ser assim e não de outro modo Com efeito conceber de Deus a opinião mais excelente possível é o começo mais autêntico da piedade6 E ninguém terá de Deus um alto conceito se não crer que ele é todopoderoso e que não possui parte alguma de sua natureza submissa a qualquer mudança Crer ainda que ele é o Criador de todos os bens aos quais é infinitamente superior assim como ser ele aquele que governa com perfeita justiça tudo quanto criou sem sentir necessidade de criar qualquer ser que seja como se não fosse autosuficiente Isso porque tirou tudo do nada Entretanto ele gerou não o criou de sua própria essência aquele que lhe é igual o qual é como professamos o Filho único de Deus É aquele a quem nós denominamos procurando as expressões mais acessíveis Força de Deus e Sabedoria de Deus 1Cor 124 Por meio dele Deus fez tudo o que tirou do nada Tudo isso tendo sido estabelecido contando com a ajuda de Deus procuremos agora com empenho compreender a questão por ti proposta seguindo a ordem que se segue PRIMEIRA PARTE 36615 ESSÊNCIA DO PECADO SUBMISSÃO DA RAZÃO ÀS PAIXÕES Capítulo 3 Busca da origem do pecado 6 Ag Tu me perguntas Qual a causa de procedermos mal É preciso examinarmos primeiramente o que seja proceder mal Dizeme o que pensas a esse respeito Ou se não podes resumir todo o teu pensamento em poucas palavras pelo menos dáme a conhecer tua opinião mencionando algumas más ações em especial Ev Os adultérios os homicídios e os sacrilégios7 sem falar de outros maus procedimentos os quais não posso enumerar por me faltar tempo e memória Quem não considera aquelas ações como más Ag Dizeme primeiro por que consideras o adultério como má ação Não será porque a lei o proíbe de ser cometido Ev Por certo que não Ele não é um mal precisamente por ser proibido pela lei mas ao contrário é proibido pela lei por ser mal Ag Pois bem Mas se alguém insistir junto a nós exagerando os prazeres do adultério e perguntandonos por que o julgamos mau e condenável Seria preciso na tua opinião recorrer à autoridade da lei junto àqueles que desejam não somente crer mas também entender Pois eu também como tu creio inabalavelmente e até proclamo que todas as nações e povos devem admitir ser o adultério um mal Agora porém a respeito dessas verdades confiadas à nossa fé esforçamo nos de ter igualmente um conhecimento pela razão mantendoas com certeza plena8 Reflete pois o quanto puderes e dizeme por quais motivos crês que o adultério é um mal Ev Sei que é um mal porque não quisera ser eu mesmo vítima dele na pessoa de minha esposa Ora quem quer que faça um mal o qual não quer que lhe façam procede mal Ag Então E se a paixão inspirasse a alguém de entregar sua própria esposa a outro e de aceitar voluntariamente que ela fosse violentada desejando ele por sua vez obter a mesma permissão em relação à esposa do outro Conforme tua opinião não faria ele mal nenhum Ev Ao contrário ele agiria muito mal Ag Mas conforme a regra proposta há pouco por ti esse homem não peca porque não faz o que não gostaria de suportar Procura por conseguinte outra razão para me convenceres de que o adultério é mal Razões insuficientes da origem do mal 7 Ev Pareceme ser o adultério ato mau porque muitas vezes tenho visto homens serem condenados por esse crime Ag Ora Não se tem condenado também com freqüência a muitos homens por suas boas ações Recorda aquela história e já não te envio a outros livros profanos mas à história que é mais excelente que todas as outras por gozar da autoridade divina os Atos dos Apóstolos Encontrarás aí o quanto deveríamos ter em má opinião os apóstolos e todos os mártires se aceitássemos ser a condenação de um homem por outros o sinal certo de má ação Pois todos aqueles cristãos foram julgados dignos de condenação por terem confessado a sua fé De modo que se for mal tudo o que os homens condenam seguese que naquele tempo era crime crer em Cristo e confessar a própria fé Mas se nem tudo o que é condenado pelos homens é mal será preciso que procures outra razão que te permita me garantir que o adultério é mal Ev Nada encontro para te responder O mal provém da paixão interior 8 Ag Talvez seja na paixão que esteja a malícia do adultério Pois ao procurares o mal num ato exterior visível caíste em impasse Para te fazer compreender que a paixão é bem aquilo que é mal no adultério considera um homem que está impossibilitado de abusar da mulher de seu próximo Todavia se for demonstrado de um modo ou de outro qual o seu intento e que o teria realizado se o pudesse seguese que ele não é menos culpado por aí do que se tivesse sido apanhado em flagrante delito Mt 528 Ev Nada é tão evidente Vejo já não ser mais preciso longos discursos para me convenceres do mesmo a respeito do homicídio do sacrilégio e enfim de todos os outros pecados Com efeito é claro que em todas as espécies de ações más é a paixão que domina9 Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão 9 Ag Sabes que essa paixão é também denominada concupiscência10 Ev Sei Ag E o que pensas Entre essa concupiscência e o medo há alguma diferença ou nenhuma Ev Pareceme haver grande diferença entre eles Ag Acho que és dessa opinião porque a concupiscência tende para o objeto e que o medo o foge Ev É bem como dizes Ag Pois bem Se um homem matar a outro não pelo desejo de conseguir alguma coisa mas pelo temor de que lhe suceda algum mal Não seria esse homem homicida Ev Certamente o seria Mas nem por isso sua ação deixaria de ser dominada pela concupiscência Pois aquele que mata um homem levado pelo medo deseja sem dúvida viver sem medo Ag E parecete que viver sem medo é algum bem de somenos Ev Ao contrário pareceme ser um bem muito grande Mas de modo algum esse bem deve chegar ao homicida por meio de crime Ag Não pergunto o que pode chegar a esse homem mas o que deseja Pois por certo visa a um bem quem deseja uma vida isenta de medo Por isso não podemos condenar tal desejo Caso contrário deveríamos declarar culposos todos aqueles que desejam algum bem Logo somos forçados a reconhecer que há uma espécie de homicídio no qual não se pode encontrar a primazia de mau desejo Portanto não será exato dizer que todo pecado para que seja mal nele a paixão deve dominar Ou em outras palavras haveria uma espécie de homicídio que poderia não ser pecado Ev De fato Se o homicídio consiste no ato de matar um homem pode acontecer que isso seja por vezes sem pecado Pois o soldado mata o inimigo o juiz ou seu mandante executa o criminoso e também talvez o lançador de flechas quando uma delas escapa de suas mãos sem o querer ou por inadvertência Todas essas pessoas não me parecem pecar ao matar um homem Ag Concordo Mas comumente essas pessoas sequer são chamadas homicidas Assim responde agora se algum escravo temendo graves tormentos mata o seu senhor pensas que ele deve ser incluído ou não entre aqueles que matam nessas circunstâncias que não merecem o nome de homicídio Ev Vejo uma grande diferença entre esse último homem o escravo e os outros Pois estes ou bem atuam conforme a lei ou então nada fazem contra ela Ao passo que o crime desse último não tem a aprovação de lei alguma 10 Ag Outra vez tu me conduzes à autoridade como razão última Não deves esquecer porém o que nós nos propusemos neste momento compreender aquilo a que damos crédito Ora quanto à lei nós cremos nela mas é preciso tentar na medida do possível compreender este ponto a lei ao punir tal ato se assim o faz ou não com razão Ev De modo algum a lei pune sem razão neste caso Pois ela pune o escravo que sabendo e querendo matou o seu senhor O que não acontece nos outros casos supracitados Ag Como Não te lembras teres dito há um instante que a paixão domina em toda má ação e que essa se torna má por isso mesmo Ev Recordome perfeitamente Ag E ainda não concedeste igualmente que se alguém deseja viver sem medo não possui mau desejo Ev Também me recordo disso Ag Logo quando aquele senhor é morto pelo escravo levado este pelo desejo de viver sem temor não o mata por desejo culpável Por conseqüência ainda não compreendemos qual o motivo de essa ação ser criminosa Posto que estamos concordes em que todas as ações más unicamente são más por causa da paixão pela qual são praticadas isto é por desejo culpável Ev Agora aquele escravo pareceme ser condenado injustamente Mas na verdade não ousaria afirmar isso se pudesse encontrar alguma outra razão a apresentar Ag Será possível que te tenhas convencido de se dever declarar impune crime tão grande antes de examinares com cuidado se acaso esse escravo não desejava no fundo libertarse do temor de seu senhor unicamente para satisfazer as suas paixões Com efeito desejar vida sem temor não só é próprio de homens bons como também dos maus Com esta diferença porém os bons o desejam renunciando ao amor daquelas coisas que não se podem possuir sem perigo de perdêlas Os maus ao contrário desejam uma vida sem temor para gozar plena e seguramente de tais coisas e para isso esforçamse de qualquer modo para afastar todos os obstáculos que o impeçam Levam então vida criminosa e perversa vida que deveria antes ser chamada de morte Ev Confesso meu erro e alegrome muito de haver compreendido claramente a natureza desse desejo culpável que se chama paixão Agora vejo com evidência em que consiste esse amor desordenado por aquelas coisas terrenas que se podem perder contra a própria vontade Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil 11 Ev Procuremos pois agora caso te agrade se é a paixão que também domina nos sacrilégios os quais vemos muitas vezes serem cometidos por superstição Ag Considera se não é prematura tal questão A mim pareceme ser preciso examinar primeiramente se acaso podese matar sem nenhuma espécie de paixão a um inimigo que violentamente nos ataca ou a um assaltante que se lança contra nós de modo traiçoeiro Isso em defesa seja da própria vida seja da liberdade ou do pudor Ev Com poderia pensar que estejam sem paixão aqueles que lutam para salvaguardar essas coisas as quais só poderiam vir a perder contra a própria vontade Ou então caso não as percam desse modo qual seria a necessidade de as defender a ponto de causar a morte de um homem Ag Não serão então justas as leis que permitem a um viajante matar a seu assaltante para que ele mesmo não seja morto Ou ainda o fato de ser permitido a um homem ou a uma mulher cuja virtude querem violentar de exterminarem o seu agressor antes de serem estuprados Ora a própria lei ordena ao soldado de matar o inimigo E no caso de ele se recusar a isso teria punição por parte de seus chefes Porventura ousaríamos afirmar que tais leis são injustas e mesmo não serem leis Porque a mim me parece que uma lei que não seja justa não é lei11 Poder matar um agressor não significa dever matálo 12 Ev Quanto à lei eu a vejo suficientemente defendida dessa acusação pelo fato de ela permitir ao povo ao qual rege delitos menores para impedir que se cometam outros piores Com efeito a morte de agressor injusto é mal menor do que a de um homem que mata em legítima defesa E que um homem seja violentado em seu corpo contra sua vontade é coisa bem mais horrível do que o fato de o autor de tamanha violência ser morto por aquele a quem intentava agredir Quanto ao soldado ao matar o inimigo é ele mesmo o ministro da lei Razão pela qual lhe é fácil cumprir seu dever sem qualquer paixão Além do mais a própria lei que foi promulgada para a defesa do povo não merece acusação alguma de ser portadora de qualquer paixão Porque se aquele que fez a lei a decretou para proteger o povo conforme a ordem de Deus isto é de acordo com as prescrições da justiça eterna ele a decretou sem se sentir movido pela paixão Mas mesmo se tivesse sido movido por alguma paixão ao legislar não se segue daí que se deva ceder à paixão ao observála Pois uma boa lei pode ser dada por mau legislador Por exemplo se um tirano tendo chegado ao poder recebe uma soma de dinheiro de certo cidadão a quem isso interessa para ser decretado que a ninguém seja lícito raptar uma mulher nem mesmo para se casar com ela acaso será má essa lei pelo fato de ter sido dada por injusto e corrompido tirano Podese portanto sem paixão conformarse à lei a qual para proteger os cidadãos manda repelir com força o assalto violento do inimigo E podese dizer a mesma coisa acerca de todos aqueles que estão jurídica e hierarquicamente sob as ordens de qualquer autoridade Entretanto em relação àquelas outras pessoas de que falávamos não vejo como após termos justificado a lei possam elas mesmas serem desculpadas Visto que a lei não as obriga a matar Deixalhes somente a possibilidade de o fazer Ficam elas assim livres de não matar a ninguém em defesa daqueles bens que poderiam perder contra a própria vontade e que devido a isso não deveriam amar com tanto apego Assim quanto à vida alguém se poderá perguntar talvez se ela é ou não tirada com a morte do corpo Caso ela possa ser tirada então é um bem menos apreciável Caso não possa nada há para se temer Quanto ao pudor quem duvida que ele reside na própria alma visto ser uma virtude De onde se segue que não poderá ser arrebatado pela profanação involuntária do corpo Por conseguinte não está em nosso poder conservar tudo o que aquele injusto agressor poderia nos arrebatar ele a quem se pode infligir a morte Assim não compreendo em que sentido podemos dizer que esse bem a vida do corpo é chamado nosso Malgrado isso não condeno a lei que autoriza matar os agressores Mas não encontro como justificar aos que de fato os matam As paixões desculpadas pela lei civil condenadas pela lei divina 13 Ag E eu encontro menos motivo ainda por qual razão procuras defender esses homens aos quais nenhuma lei considera como culpados Ev Talvez não os condene nenhuma dessas leis exteriores que os homens podem ler Mas não sei se eles mesmos não estão sujeitos a outra lei muito mais rigorosa e bem secreta já que a divina Providênca nada deixa de governar neste mundo Diante dessa lei divina com efeito como poderiam estar isentos de pecado aqueles que se mancham com sangue humano para defender coisas dignas de menos apreço Pareceme pois que a lei escrita para governar os povos autoriza com razão atos que a Providência divina pune Isso porque a lei humana está encarregada de reprimir crimes em vista de manter a paz entre homens carentes de experiência e o quanto estiver ao alcance do governo constituído de homens mortais Quanto às outras faltas é certo que existem para elas penalidades adequadas as quais a meu parecer só mesmo a sabedoria pode libertar12 Ag Louvo e aprovo esta distinção que propões ainda que apenas esboçada e imperfeita É ela entretanto promissora em vista de reger a sociedade civil Parece tolerar e deixar impunes muitas ações que não obstante serão punidas pela Providência divina com razão Isso é verdade mas se a lei humana não faz tudo não será por isso motivo de reprovação pelo que faz13 Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais 14 Ag Se te agrada procuremos agora com cuidado até que ponto as más ações devem ser castigadas pela lei humana que modera os povos nesta vida Em seguida vejamos o que cabe à ação punitiva da Providência divina de certo modo oculto mas inevitável Ev O meu desejo caso seja possível é atingir os limites dessa questão Pois a mim pareceme que estamos roçando algo sem fim Ag Pois bem coragem Envereda nos caminhos da razão confiandote na piedade Na verdade nada existe que seja tão árduo e difícil que não se torne com a ajuda divina bem simples e fácil E assim orientados para Deus e implorandolhe o auxílio havemos de investigar o tema que nos propusemos14 Respondeme primeiramente essa lei que se promulga nos códigos é ela na verdade útil aos homens que vivem aqui na terra Ev Evidentemente que sim pois os povos e as cidades são constituídos por homens Ag E esses mesmos homens e povos pertencem eles à categoria das coisas que não podem perecer nem mudar por serem eternos ou ao contrário são eles mutáveis e sujeitos ao fluxo do tempo Ev Quem duvida que a espécie humana seja mutável e sujeita às vicissitudes do tempo Ag Logo quando um povo for de costumes moderados e dignos guardião diligente da utilidade pública a ponto de cada um preferir o bem comum ao seu interesse particular não seria justo ao dito povo poder promulgar uma lei que lhe permitisse nomear para si magistrados encarregados de administrar os seus negócios isto é os negócios públicos Ev Seria muito justo sem dúvida Ag Contudo no caso de esse mesmo povo ir caindo aos poucos depravandose e caso ponha o seu interesse particular acima do interesse público e vier a vender o seu sufrágio livre por dinheiro Além do mais corrompido por aqueles que ambicionam as honras confiar o governo a homens malvados e criminosos não seria justo caso ainda se encontrasse um só homem de bem revestido de influência excepcional que esse homem tirasse do povo a faculdade de poder distribuir as honras para depositar a decisão15 nas mãos de alguns poucos cidadãos honestos ou mesmo de um só que fosse16 Ev Isso também seria muito justo Ag Eis pois duas leis que parecem estar em contradição entre si Uma delas confere ao povo o poder de eleger os seus magistrados a outra recusalhe essa prerrogativa E a segunda lei mostrase expressa em tais moldes que as duas não podem de modo algum coexistir juntas na mesma cidade Assim sendo haveríamos de dizer que uma delas é injusta e não deveria ter sido promulgada Ev De modo algum Ag Denominemos pois se o quiseres de temporal a essa lei que a princípio é justa entretanto conforme as circunstâncias dos tempos pode ser mudada sem injustiça Ev Assim seja Noção da lei eterna 15 Ag Mas quanto àquela lei que é chamada a Razão suprema de tudo17 à qual é preciso obedecer sempre e em virtude da qual os bons merecem vida feliz18 e os maus vida infeliz é ela o fundamento da retidão e das modificações daquela outra lei que justamente denominamos temporal como já explicamos Poderá a lei eterna parecer a quem quer que reflita a esse respeito não ser imutável e eterna ou em outros termos poderá ela ser alguma vez considerada injusta quando os maus tornam se desaventurados e os bons bemaventurados Ou então que a um povo de costumes pacíficos seja dado o direito de eleger os seus próprios magistrados ao passo que a um povo dissoluto e pervertido sejalhe retirado esse direito Ev Reconheço que tal lei é eterna e imutável Ag Reconhecerás também espero que na lei temporal dos homens nada existe de justo e legítimo que não tenha sido tirado da lei eterna Assim no mencionado exemplo do povo que às vezes tem justamente o direito de eleger seus magistrados e às vezes não menos justamente não goza mais desse direito a justiça dessas diversidades temporais procede da lei eterna conforme a qual é sempre justo que um povo sensato eleja seus governantes e que um povo irresponsável não o possa Acaso és de opinião diferente Ev Sou dessa mesma opinião Ag Então para exprimir em poucas palavras o quanto possível a noção impressa em nosso espírito dessa lei eterna direi que ela é aquela lei em virtude da qual é justo que todas as coisas estejam perfeitamente ordenadas19 Se tens porém outra opinião apresentaa Ev Nada tenho a te contradizer pois dizes a verdade Ag E como tal lei superior é a única sobre a qual todas as leis temporais regulam as mudanças a serem introduzidas no governo dos homens poderá ela por causa disso variar em si mesma de algum modo Ev Compreendo que não o possa de modo algum Com efeito nenhuma força nenhum acontecimento nenhuma catástrofe nunca conseguirá fazer com que não seja justo que todas as coisas estejam conformes a uma ordem perfeita SEGUNDA PARTE 7161122 A CAUSA DO PECADO O ABUSO DA VONTADE LIVRE Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão 16 Ag Prossigamos e vejamos agora como o homem está perfeitamente ordenado em si mesmo Pois já vimos que uma nação constituise de homens unidos entre si sob uma única lei que é como foi dito a lei temporal Mas dizeme primeiramente se para ti é certeza absoluta o fato de viveres Ev E o que haveria de mais evidente do que isso Ag Pois bem E poderias distinguir o seguinte uma coisa é viver e outra coisa saber que se vive Ev Por certo sei que ninguém pode saber que vive sem estar vivo Mas se todo ser vivo sabe que vive eu o ignoro Ag Como quisera que entendesses isso tal como acreditas que os animais carecem de razão20 Nossa reflexão então haveria de passar rapidamente acima dessa dificuldade Entretanto como afirmas ignorálo devemos nos estender em longo desenvolvimento Isso porque não se trata de assunto cuja omissão pudesse nos permitir adiantar na obtenção do objeto proposto com a conexão de raciocínio que sinto ser necessária Respondeme pois o seguinte muitas vezes temos visto animais domados pelos homens isto é dominados não somente em relação ao corpo mas também quanto a seu princípio vital de tal forma que obedecem à vontade dos homens por uma espécie de instinto ou hábito Ora o que te parece Poderia acontecer jamais o caso de um animal feroz tivesse ele grande corpulência e uma prodigiosa força ou os sentidos mais penetrantes a ponto de tentar por sua vez dominar o homem esforçando se por subjugálo Digo isso porque muitos animais seriam capazes por sua ferocidade ou por sua astúcia de esquartejar o corpo de qualquer homem Ev Estou seguro de que tal possibilidade é inteiramente impossível de acontecer Ag Muito bem Mas dizeme ainda Não é evidente que quanto à força e outras habilidades corporais o homem é facilmente ultrapassdo por certo número de animais Assim sendo qual é pois o princípio que constitui a excelência do homem de modo que animal algum consiga exercer sobre ele sua força ao passo que o homem exerce seu poder sobre muitos deles Não será por aquilo que se costuma denominar razão ou inteligência21 Ev Não encontro outra coisa Pois é no espírito que reside a faculdade pela qual nós somos superiores aos animais E se eles fossem seres inanimados eu diria que nossa superioridade vem do fato de que possuímos uma alma e eles não Mas acontece que também eles são animados Contudo existe alguma coisa que não existindo na alma deles existe na nossa e por isso acham se submetidos a nós Ora é claro para todos que essa faculdade não é um puro nada nem pouca coisa E que outro nome lhe daríamos mais correto do que o de razão Ag Eis pois com que facilidade obtivemos com a ajuda de Deus o que podíamos considerar como muito difícil Pois quanto a mim eu te confesso que essa questão agora está resolvida E pensara eu haver de nos reter por muito tempo nela talvez mais do que tudo o que já dissemos desde o início de nossa reflexão Assim pois retém esta verdade com cuidado para continuarmos o encadeamento das idéias Com efeito creio que já não ignoras o que denominamos saber não vem a ser nada mais do que se perceber pela razão Ev Assim é com efeito Ag Por conseguinte aquele que sabe que vive não está privado da razão Ev Isso se segue Ag Ora os animais vivem como já nos apareceu com clareza mas não são dotados de razão Ev Evidente Ag Eis então que agora entendes o que me respondeste ignorar nem todo ser vivo sabe que vive ainda que todo aquele que sabe que vive seja necessariamente ser vivo É melhor saber que se vive do que apenas viver 17 Ev Não tenho mais dúvidas Prossegue no que tens em vista Com efeito uma coisa é viver e outra coisa saber que se vive Já o aprendi suficientemente Ag E qual dessas duas coisas te parece ser a melhor Ev A qual pensas senão a consciência scientia da vida Ag A consciência da vida parecete melhor do que a própria vida Ou talvez queiras dizer que o conhecimento é uma vida mais alta e mais pura a qual ninguém pode alcançar a não ser que seja dotado de inteligência Ora o que é ter inteligência a não ser viver com mais perfeição e esplendor graças à luz mesma da mente É porque se não me engano tu não preferiste algo distinto da própria vida mas sim uma vida melhor do que uma vida qualquer Ev Compreendeste e expuseste meu pensamento de maneira correta Visto que o conhecimento nunca pode ser mal Ag Na minha opinião não o pode ser de modo algum a não ser quando por metáfora falamos de conhecimento para significar experiência Porque experimentar nem sempre é bem como por exemplo experimentar suplícios Mas aquela ciência que se denomina pura e propriamente conhecimento tendo sido adquirida pela razão e pela inteligência como poderia ser ela mal Ev Percebo também essa distinção Passa a outro ponto Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres 18 Ag Eis o que eu quero te explicar agora o que põe o homem acima dos animais seja qual for o nome com que designemos tal faculdade seja mente ou espírito ou com mais propriedade um e outro indistintamente porque encontramos esses dois vocábulos também nos Livros Sagrados quando pois esse elemento superior domina no homem e comanda a todos os outros elementos que o constituem ele encontrase perfeitamente ordenado Com efeito vemos que temos muitos elementos comuns não somente com os animais mas também com as árvores e plantas tais como ingerir alimento crescer gerar fortificarse Vemos que todas essas propriedades são concedidas igualmente às árvores as quais pertencem a um grau bem ínfimo entre os seres vivos Constatamos ainda e devemos reconhecer que os animais podem ver entender e sentir os objetos corporais por meio do olfato do gosto do tato e freqüentemente com mais penetração do que nós Além do que há neles força vigor solidez dos membros rapidez e grande agilidade de movimentos corporais Em tudo isso nós somos superiores a alguns deles iguais a outros e a vários dentre eles inferiores Sem dúvida possuímos natureza genérica comum com os animais Entretanto a busca dos prazeres do corpo e a fuga dos dissabores constituem atividade da vida animal Há ainda outras propriedades que não parecem convir aos animais sem que todavia sejam no homem as mais perfeitas como por exemplo divertirse e rir Por certo são expressões características do homem mas as menos importantes no julgamento de quem julga a natureza humana Vêm a seguir o amor aos elogios e à glória e o desejo de dominar tendências essas que também não pertencem aos animais Contudo não devemos nos julgar melhores do que eles por possuirmos essas paixões Pois tais inclinações ao se revoltarem contra a razão nos tornam infortunados Ora ninguém jamais se pretendeu superior a outros por sua miséria Por conseguinte só quando a razão domina a todos os movimentos da alma o homem deve se dizer perfeitamente ordenado Porque não se pode falar de ordem justa sequer simplesmente de ordem onde as coisas melhores estão subordinadas às menos boas Acaso não te parece ser assim Ev É evidente que é dessa maneira Ag Então quando a razão a mente ou o espírito governa os movimentos irracionais da alma é que está a dominar na verdade no homem aquilo que precisamente deve dominar em virtude daquela lei que reconhecemos como sendo a lei eterna Ev Compreendo e sigo teu raciocínio Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão 19 Ag Quando um homem está assim constituído e ordenado não te parece ser ele sábio Ev Não concebo outro tipo de homem que poderia parecerme sábio se esse não o for Ag Sabes também eu o penso que a maioria dos homens é formada de insensatos stultos Ev Isso é fato bastante comprovado Ag Pois bem o insensato é o oposto do homem sábio conforme a idéia que adquirimos a respeito de um sábio Compreendes agora o que seja o insensato Ev A quem não será evidente que o insensato é aquele em quem a mente não reina como autoridade suprema Ag O que dizer então quando um homem se encontra nessa situação É a mente que lhe falta ou então apesar de ela estar presente faltalhe o domínio que lhe corresponde Ev É antes o que acabas de dizer por último Ag Gostaria de ouvir de ti por quais indícios constatas num homem a presença da mente mesmo quando não exerce o seu domínio Ex Oxalá queiras tu mesmo assumir esse encargo porque não me é fácil apresentar o que propões Ag Podes pelo menos te lembrar facilmente do que dissemos há pouco cf 71617 a saber que os animais domados e domesticados pelos homens os dominariam por sua vez como nos demonstrou a razão se os homens não possuíssem sobre eles alguma superioridade Ora essa superioridade não a descobrimos nos corpos Assim como nos pareceu reside na alma E não encontramos para ela outro nome mais adequado do que o de razão Ainda que a seguir nós nos lembramos de que ela também pode ser denominada mente ou espírito Mas se é verdade que a mente é uma coisa e a razão outra em todo caso é certo que somente a mente pode se servir da razão Donde a conseqüência aquele que é dotado de razão não pode estar privado da mente Ev Lembrome perfeitamente dessas conclusões e as admito Ag Pois bem É tua opinião que os domadores de animais ferozes não podem ser encontrados a não ser entre homens sábios E denomino sábio a quem a verdade manda assim ser chamado Isto é aquele cuja vida está pacificada pela total submissão das paixões ao domínio da mente Ev Seria ridículo considerar como sábio a todos os que comumente são chamados domadores Ou ainda os pastores vaqueiros ou cocheiros e todos os que vemos dominar os animais domesticados ou os que logram submeter a si por sua habilidade os animais indômitos Ag Agora tens por aí um sinal certíssimo para reconhecer claramente a existência no homem de uma mente ainda que essa mente não exerça o seu domínio Os homens a que te referiste possuem de fato a mente pois não realizariam ações que executam se não a tivessem Mas essa mente não exerce o domínio sobre eles mesmos e assim são uns insensatos E é sabido que o reino da mente não pertence a não ser aos sábios Ev É espantoso que esse assunto já tendo sido refletido acima não me tenha ocorrido nenhuma resposta conveniente ao me perguntares a esse respeito22 Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões 20 Ev Mas passemos agora a outros aspectos Já demonstramos que no homem o senhorio da mente constitui a sabedoria entretanto a mente pode não exercer de fato esse seu senhorio Ag Julgas que a paixão seja mais poderosa do que a mente à qual sabemos que por lei eterna foi lhe dado o domínio sobre todas as paixões Quanto a mim não o creio de modo algum pois caso o fosse seria a negação daquela ordem muito perfeita de que o mais forte mande no menos forte Por isso é necessário a meu entender que a mente seja mais poderosa do que a paixão e pelo fato mes mo será totalmente justo e correto que a mente a domine Ev Também sou do mesmo parecer Ag Então Haverás de hesitar em pôr toda e cada virtude acima de qualquer espécie de vício de tal forma que quanto mais uma virtude for nobre e sublime mais ela será forte e invencível Ev Quem o poderia duvidar Ag Logo nenhuma alma viciada pode dominar outra munida de virtudes Ev É bem verdade Ag E ainda qualquer espírito há de ser mais nobre e poderoso do que qualquer ser corporal Isso tampouco o negarás espero Ev Ninguém o negará O que é fácil verificar ao ver que se deve preferir um ser vivo a um ser não vivo e que a substância que dá vida vale mais do que aquela que a recebe Ag Com mais forte razão por conseguinte um corpo seja ele qual for não poderia vencer um espírito dotado de virtude Ev Evidentíssimo que não Ag Então O espírito justo e a mente firme em seu direito e conservando seu domínio poderá afastarse de sua força e submeter à paixão outra mente que reina com igual eqüidade e virtude Ev De modo algum Não somente porque a excelência é igual em uma e outra mas também a primeira mente não poderia obrigar a outra a se tornar viciada sem ela mesma decair de sua justiça e tornarse viciada ficando por isso mesmo mais fraca 21a Ag Compreendesteme bem É porque não te resta agora senão responder a esta questão se puderes Existe na tua opinião algo mais nobre do que a mente dotada de razão e sabedoria Ev A meu ver nada existe exceto Deus Ag Essa é igualmente a minha opinião Mas por ser o assunto difícil e o momento ainda não haver chegado para plena compreensão ainda que aí esteja uma das verdades que precisamos crer com fé firmíssima reservemos para esse tema uma exposição completa diligente e cautelosa em outro tempo Capítulo 11a O Ser supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões 21b AgCom efeito por enquanto bastenos saber que esse Ser seja ele qual for capaz de ultrapassar em excelência a mente dotada de virtude não poderia de modo algum ser um Ser injusto Tampouco ainda que tivesse esse poder ele não forçaria a mente a submeterse às paixões Ev Não há ninguém que deixe de admitir essa afirmação sem hesitação alguma O responsável pela submissão às paixões só pode ser o livrearbítrio 21c Ag Logo só me resta concluir se de um lado tudo o que é igual ou superior à mente que exerce seu natural senhorio e achase dotada de virtude não pode fazer dela escrava da paixão por causa da justiça por outro lado tudo o que lhe é inferior tampouco o pode por causa dessa mesma inferioridade como demonstram as constatações precedentes Portanto não há nenhuma outra realidade que torne a mente cúmplice da paixão a não ser a própria vontade e o livrearbítrio23 Ev Não vejo conclusão nenhuma tão necessária quanto essa O pecado porta em si muitos males 22 Ag Logo deve te parecer também lógico que a mente seja punida por tão grande pecado Ev Não o posso negar Ag Julgaremos que para a mente poderá ser um pequeno castigo ser dominada pela paixão e despojada das riquezas da virtude tornarse pobre e desgraçada ser puxada por ela em todos os sentidos Às vezes aprovar a falsidade em vez da verdade outras vezes parecer mesmo defender o erro outras condenar o que até então aprovava e não obstante precipitarse em novos erros Numa hora suspender o seu julgamento até temer as razões que a esclareceriam noutra desesperar de jamais encontrar a verdade e mergulhar totalmente nas trevas da loucura Amanhã esforçarse por abrirse na direção da luz da inteligência para de novo recair extenuada Ao mesmo tempo o império das paixões ao lhe impor sua tirania perturba todo o espírito e a vida desse homem pela variedade e oposição de mil tempestades que tem de enfrentar Ir do temor ao desejo da ansiedade mortal à vã e falsa alegria dos tormentos por ter perdido um objeto que amava ao ardor de adquirir outro que ainda não possui das irritações de uma injúria recebida ao insaciável desejo de vingança E de todo lado a que se volta a avareza cerca esse homem a luxúria o consome a ambição o escraviza o orgulho o incha a inveja o tortura a ociosidade o aniquila a obstinação o excita a humilhação o abate E finalmente quantas outras inumeráveis perturbações são o cortejo habitual das paixões quando elas exercem o seu reinado Enfim poderemos considerar como pouca coisa essas penas que necessariamente suportam todos aqueles que não aderem à verdadeira sabedoria assim como bem o percebes24 TERCEIRA PARTE 11231635 A ATUAÇÃO DA BOA VONTADE PROVA QUE O PECADO VEM DO LIVRE ARBÍTRIO Capítulo 11b Dúvidas de Evódio 23 Ev Por certo considero que é de fato grande essa punição e muito justa no caso de ser aplicada a alguém que já se achando estabelecido nas alturas da sabedoria resolvesse descer de lá para se pôr ao serviço das paixões Mas será possível encontrar alguém que tenha querido ou que queira realizar tal coisa É bem incerto Na verdade cremos pela fé que o homem foi criado por Deus e formado de modo perfeito e que foi por si mesmo e por sua própria vontade que se precipitou de lá nas misérias desta vida mortal Entretanto mesmo guardando essas verdades com uma fé muito firme eu ainda não consigo entender tudo isso muito bem Assim se julgas por enquanto ser preciso retardar um exame sério acerca dessa questão tu o farás mas muito contra a minha vontade25 Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo 24 Ev Mas eis o que me preocupa ainda mais Por qual motivo padecemos nós todos essas espécies de penas tão cruéis nós que certamente estamos entre os insensatos sem que nunca tenhamos sido sábios Ora isso seria preciso para que se diga que tais males nos afligem com justiça pelo fato de havermos desertados da fortaleza da virtude e termonos entregues à escravidão da paixão Se podes me esclarecer esse ponto por algum argumento não deixarei de modo algum que isso seja remetido para mais tarde Ag Falas como se tivesses a clara convicção de nunca termos sido sábios Isso por não levares em conta a não ser o tempo a partir do qual nascemos para esta vida Entretanto como a sabedoria reside na alma perguntome se acaso não terá esta vivido outra vida antes de se unir a este corpo E assim terá desfrutado antes algum tempo de posse da sabedoria Eis uma grande questão um pro fundo mistério o qual será preciso considerarmos a seu tempo26 Apesar disso aliás nada impede de esclarecermos o quanto possível a questão que no momento nos ocupa O papel da boa vontade 25 Ag E assim perguntote Existe em nós alguma vontade Ev Não o sei dizer Ag E queres sabêlo Ev Também o ignoro Ag Então nada mais me perguntes de agora em diante Ev Por quê Ag Porque não devo responder às tuas perguntas a não ser que queiras conhecer as respostas Além do mais se não queres chegar à sabedoria é inútil conversar contido sobre tais questões Enfim não mais poderá ser meu amigo se não me quiseres bem Pelo menos considera o seguinte em relação a ti mesmo não tens vontade alguma de levar vida feliz Ev Vejo que não se pode negar que todos tenhamos desejo disso Continua vejamos o que queres concluir por aí Ag Eu o farei Mas antes dizeme ainda tens consciência de possuir boa vontade Ev O que vem a ser a boa vontade27 Ag É a vontade pela qual desejamos viver com retidão e honestidade para atingirmos o cume da sabedoria Considera agora se não desejas levar uma vida reta e honesta ou se não queres ardentemente te tornar sábio Ou pelo menos se ousarias negar que temos a boa vontade ao querermos essas coisas Ev Nada disso eu nego porque admito que não somente tenho uma vontade mas ainda uma boa vontade Ag E que apreço dás a essa boa vontade Achas que se possa comparála de algum modo com as riquezas com as honras ou com os prazeres do corpo ou ainda com todas essas coisas reunidas Ev Deus me livre de loucura tão perniciosa Ag Sernosá preciso então alegrarnos só um pouco por possuirmos em nosso espírito esse tesouro quero dizer essa boa vontade Em comparação a ela seria preciso julgar dignos de desprezo todos aqueles outros bens sobre os quais nos referimos No entanto para a sua posse vemos multidão de homens não recuar diante de nenhum cansaço de perigo algum Ev É preciso alegrarnos e muito por possuirmos a boa vontade Ag Pois bem E aqueles que não desfrutam dessa alegria sofrerão apenas pouco dano pela privação de tão grande bem Ev Ao contrário seria para eles o maior de todos os danos A boa vontade está em nossas mãos 26 Ag Portanto penso que agora já vês depende de nossa vontade gozarmos ou sermos privados de tão grande e verdadeiro bem Com efeito haveria alguma coisa que dependa mais de nossa vontade do que a própria vontade28 Ora quem quer que seja que tenha esta boa vontade possui certamente um tesouro bem mais preferível do que os reinos da terra e todos os prazeres do corpo E ao contrário a quem não a possui faltalhe sem dúvida algo que ultrapassa em excelência todos os bens que escapam a nosso poder Bens esses que se escapam a nosso poder ela a vontade sozinha traria por si mesma Por certo um homem não se considerará muito infeliz se vier a perder sua boa reputação riquezas consideráveis ou bens corporais de toda espécie Mas não o julgarás antes muito mais infeliz caso tendo em abundância todos esses bens venha ele a se apegar demasiadamente a tudo isso coisas essas que podem ser perdidas bem facilmente e que não são conquistadas quando se quer Ao passo que sendo privado da boa vontade bem incomparavelmente superior para reaver tão grande bem a única exigência é que o queira Ev Nada há de mais verdadeiro Ag É pois com toda justiça que os homens insensatos padeçam aquela miséria de que falamos E isso mesmo sem nunca terem sido sábios é questão problemática e bem obscura Ev Concordo Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais 27 AgConsidera agora se a prudência não te parece o conhecimento daquelas coisas que precisam ser desejadas e das que devem ser evitadas29 Ev Pareceme que assim é Ag Pois bem E a força não é ela aquela disposição da alma pela qual nós desprezamos todos os dissabores e a perda das coisas que não estão sob nosso poder Ev Assim o penso Ag E quanto à temperança é ela a disposição que reprime e retém o nosso apetite longe daquelas coisas que constituem uma vergonha o ser desejadas Ou acaso és de outra opinião Ev Pelo contrário penso como dizes Ag E finalmente sobre a justiça o que diremos ser ela senão a virtude pela qual damos a cada um o que é seu Ev Conforme minha opinião é essa a definição da justiça e nenhuma outra Ag Consideremos pois uma pessoa que possua essa boa vontade de que nossas palavras vêm proclamando a excelência já há algum tempo Ela abraçaa a ela somente com verdadeiro amor nada possuindo de melhor Goza de seus encantos Põe enfim seu prazer e sua alegria em meditar sobre ela considerandoa quanto é excelente e o quanto é impossível ela lhe ser arrebatada Isto é serlhe subtraída sem seu consentimento Poderemos duvidar de que tal pessoa se oporá a todas as coisas que sejam contrárias a esse único bem Ev É absolutamente necessário que assim seja Ag Podemos deixar de crer que essa pessoa não esteja também dotada de prudência ela que vê a obrigação de desejar esse bem acima de tudo e de evitar o que lhe é oposto Ev De modo algum pareceme alguém ser capaz disso sem a prudência Ag Bem Mas por que não atribuiríamos também a força a essa pessoa Com efeito ela não poderia amar nem estimar em alto preço todas aquelas coisas que não estão sob o nosso poder Porque tais coisas só são amadas pela má vontade à qual ela deve resistir por serem inimigas de seu maior bem Ora já que tal pessoa não ama essas coisas perecíveis não se entristecerá de as perder posto que as despreza totalmente E é essa a obra de força como foi dito e aceito por nós Ev Demos pois a virtude da força a essa pessoa porque não compreendo que se possa denominar a alguém de forte com mais acerto do que aquele que suporta com igualdade e tranqüilidade de ânimo a privação desses bens cuja aquisição ou conservação não estão em nosso poder Ora que aquela pessoa age assim é um fato evidente Ag Considera ainda se acaso poderás recusarlhe a temperança sendo essa a virtude que reprime as paixões Ora o que há de mais oposto à boa vontade do que a concupiscência Compreenderás que por ela certamente quem ama a boa vontade resiste por todos os modos a essas paixões e opõe se a elas Por isso tal pessoa é designada com razão de temperante Ev Prossegue Sou de tua opinião Ag Resta a justiça Mas como poderá ela faltar a essa pessoa por certo não o vejo Porque quem possui e ama a boa vontade e resiste como dissemos ao que lhe é contrário não pode querer mal a ninguém Donde se segue que ela não causa dano a ninguém Mas na verdade pessoa alguma pode praticar a justiça sem dar a cada um o que é seu Ora ao dizer o que constitui a justiça tu já o provaste Lembraste disso acho eu Ev Sim eu o lembro e confesso que encontramos facilmente naquela pessoa que tanto estima e ama a sua boa vontade todas essas quatro virtudes as quais há pouco descreveste de acordo comigo Levar vida feliz ou infeliz depende de nossa boa vontade 28 Ag O que pode nos impedir então de reconhecermos como louvável a vida dessa pessoa Ev Nada absolutamente Ao contrário tudo nos convida e até nos obriga a isso Ag Pois bem E podes de algum modo deixar de julgar que é preciso evitar a vida infeliz Ev Julgo com convicção que assim seja E penso que nada senão isso deve ser feito e com grande empenho Ag Mas não achas com certeza que a vida louvável deva ser evitada Ev Considero antes que é preciso procurála com afinco Ag Portanto não é a vida infeliz que deve ser louvada Ev É bem isso que se segue Ag Agora penso que não te será nada difícil admitires que a vida feliz é precisamente aquela que não é infeliz Ev É mais do que evidente Ag Aceitemos portanto isto é feliz o homem realmente amante de sua boa vontade e que despreza por causa dela tudo o que se estima como bem cuja perda pode acontecer ainda que permaneça a vontade de ser conservado Ev Como não aceitarmos as conclusões a que nos levam as premissas admitidas anteriormente Ag Compreendeste muito bem Mas dizeme eu te peço amar a sua boa vontade e têla em tão grande preço como antes dissemos não é isso justamente a própria boa vontade Ev Dizes a verdade Ag Mas se julgamos com razão ser feliz o homem de boa vontade não se deveria também com boa razão declarar ser infeliz aquele que possui vontade contrária a essa Ev Com muito boa razão Ag Logo que motivo existe para crer que devemos duvidar mesmo se até o presente nunca tenhamos possuído aquela sabedoria que é pela vontade que merecemos e levamos uma vida louvável e feliz e pela mesma vontade que levamos uma vida vergonhosa e infeliz30 Ev Constato que chegamos a essa conclusão fundamentandonos em razões certas e inegáveis 29 Ag Ainda outra coisa Retiveste penso eu a definição dada por nós a respeito da boa vontade Dissemos ser ela a vontade pela qual desejamos viver justa e honestamente Ev Sim eu me recordo Ag Portanto se por nossa boa vontade amamos e abraçamos essa mesma boa vontade preferindo a a todas as outras coisas cuja conservação não depende de nosso querer a conseqüência será como nos indica a razão que nossa alma esteja dotada de todas aquelas virtudes cuja posse constitui precisamente a vida conforme a retidão e a honestidade De onde se segue esta conclusão todo aquele que quer viver conforme a retidão e honestidade se quiser pôr esse bem acima de todos os bens passageiros da vida realiza conquista tão grande com tanta facilidade que para ele o querer e o possuir serão um só e mesmo ato Ev Digote com toda verdade posso dificilmente conter uma exclamação de alegria vendo de repente surgir diante de mim tão grande bem e de maneira tão fácil de ser adquirido31 Ag Pois bem essa mesma alegria gerada pela aquisição de tão grande bem ao elevar a alma na tranqüilidade na calma e constância constitui a vida que é dita feliz A não ser que não consideres a vida feliz como gozo de bens verdadeiros e seguros Ev Consideroa tal como tu mesmo Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade 30 Ag Perfeitamente Mas na tua opinião haverá um só homem sequer que não queira e deseje de todos os modos viver vida feliz32 Ev Todo homem a deseja Quem pode duvidar disso Ag Por qual motivo então nem todos eles a obtêm Porque como nós o dissemos e concordamos é voluntariamente que os homens a merecem E acontece que voluntariamente também chegam a uma vida de infortúnios E assim recebem o que merecem Mas eis que surge não sei qual contradição a tentar derrubar se não fizermos um exame atento e minucioso as nossas conclusões de há pouco tão bem elaboradas e tão fortemente apoiadas Com efeito como se explica que os homens sofram voluntariamente uma vida infeliz se de modo algum ninguém quer viver no infortúnio E como se explica que sendo por sua própria vontade que o homem obtém vida feliz quando acontece que tantos são infelizes apesar de todos quererem ser felizes Será que isso não vem do fato de que uma coisa é querer viver bem ou mal e outra coisa muito distinta é merecer o resultado por uma boa ou má vontade Com efeito aqueles que são felizes para isso é preciso que sejam também bons não se tornaram tais só por terem querido viver vida feliz visto que os maus também o querem Mas sim porque os justos o quiseram com retitude o que os maus não o quiseram Nada de estranhar então que os homens desventurados não obtenham o que querem isto é vida feliz Com efeito o essencial o que acompanha a felicidade e sem o que ninguém é digno de obtêla o fato de viver retamente eles não o querem Ora a lei eterna em consideração da qual já é tempo de voltar a nossa atenção decretou com firmeza irremovível o seguinte o merecimento está na vontade33 Assim a recompensa ou o castigo serão a beatitude ou a desventura É porque ao afirmarmos que os homens são voluntariamente infelizes não dizemos por aí que eles queiram ser infelizes mas que possuem tal vontade que a desgraça se segue necessariamente mesmo contra o desejo de felicidade Não há pois nada de contraditório ao raciocínio precedente todos querem ser felizes mas sem poder sêlo Pois nem todos querem viver com retidão e é só com essa boa vontade que têm o direito à vida feliz A menos que tenhas alguma objeção a fazer Ev Não nada tenho a opor Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal 31 Ev Vejamos agora sem mais demora que relação existe em tudo isso com a questão das duas leis já colocadas anteriormente a lei eterna e a temporal Ag Seja Antes porém respondeme aquele que ama viver retamente tem certamente prazer nisso de tal modo que encontra não apenas o bem verdadeiro mas ainda real doçura e alegria Essa pessoa não há de apreciar também sobre todas as coisas com dileção especial essa lei em virtude da qual a vida feliz é atribuída à boa vontade e a vida infeliz à má vontade34 Ev Sem dúvida amaa e com veemência porque é observandoa que ele vive como o faz Ag Pois bem Ao amála será que ama a algo varíavel e temporal ou a algo estável e eterno Ev Certamente a algo que é eterno e imutável Ag E o que dizes daqueles que perseveram em sua má vontade e desejam apesar disso ser felizes Podem eles amar essa lei que lhes determina o infortúnio como justo salário Ev De modo algum penso eu Ag E a nada mais amam Ev Pelo contrário amam muitas outras coisas precisamente aquelas a cuja aquisição e conservação sua má vontade persiste em procurar Ag Queres te referir penso eu às riquezas às honras aos prazeres à beleza do corpo e a todas as demais coisas que podem não ser obtidas mesmo quando desejadas ou então perdidas contra a própria vontade Ev Refirome precisamente a tais coisas Ag E julgas que esses bens sejam eternos quando tu os vês sujeitos à mobilidade do tempo Ev Quem poderia pensar assim a não ser um louco Ag Logo é evidente que há duas espécies de homens uns amigos das coisas eternas e outros amigos das coisas temporais E já concordamos que há também duas leis uma eterna outra temporal Dizeme caso tenhas o senso da justiça quais desses homens devem estar colocados entre os submissos à lei eterna e quais à lei temporal Ev A resposta penso eu é bem fácil Aqueles a quem o amor dos bens eternos torna felizes devem a meu ver viver sob os ditames da lei eterna Ao passo que aos insensatos está imposto o jugo de lei temporal Ag Julgaste bem contanto que tenhas como certo o que aliás a razão já demonstrou claramente isto é os que se submetem à lei temporal não podem entretanto se isentar da lei eterna da qual deriva como dissemos tudo o que é justo e tudo o que pode ser mudado com justiça Quanto àqueles cuja boa vontade se submete à lei eterna eles não têm necessidade da lei temporal Compreendestes isso suficientemente ao que me parece Ev Compreendi tudo o que disseste Maneira como governa a lei temporal 32 Ag Logo a lei eterna ordena desapegarnos do amor das coisas temporais e voltarnos purificados para as coisas eternas Ev Realmente ela ordena Ag E por seu lado a lei temporal o que ordena ela a teu parecer senão que esses bens que os homens desejam e podem ter por algum tempo e considerálos como seus de tal forma que os possuam a fim de que a paz e a ordem na sociedade sejam salvaguardadas Isso o quanto for possível tratandose dessa classe de bens Ora eis quais são eles em primeiro lugar o corpo e os bens denominados corporais tais como uma boa saúde a integridade dos sentidos a força a beleza e outras qualidades das quais umas são inerentes às artes liberais e por aí mais desejáveis que outras de menor apreço Em seguida está o bem da liberdade Sem dúvida não existe verdadeira liberdade a não ser entre pessoas felizes as quais seguem a lei eterna Neste momento eu refirome àquela liberdade dos que se julgam livres por não ter ninguém como senhores seus ou aquela que é desejada por todos os que aspiram a ser libertados de seus senhores Consideramos ainda como bens os pais os irmãos o cônjuge os filhos os parentes os próximos os aliados os servos e todos os que nos estão unidos por algum laço de convivência E também a pátria a qual habitualmente apreciamos como mãe E ainda as honras os louvores e o que chamamos de glória popular Em último lugar vem o dinheiro compreendendo sob essa designação todos os bens dos quais somos os donos legítimos ou de que julgamos ter o poder de vender ou doar O modo como a lei temporal distribui esses bens a cada um o que é seu seria difícil e muito longo de explicar Aliás é claro ser inútil para a finalidade a que nos propusemos Bastenos constatar que o poder dessa lei temporal em aplicar seus castigos limitase a interditar e a privar desses mesmos bens ou de uma parte deles aqueles a quem pune É pois pelo temor que ela reprime e assim dobra e faz inclinar o ânimo dos desafortunados ao que ela manda ou proíbe Foi justamente para o governo dessas pessoas que ela foi feita Com efeito pelo fato de temerem de perder os seus bens elas observam as normas necessárias para a sociedade ser constituída e mantida Isso o quanto é possível ser feito entre homens desse tipo Entretanto essa lei não pune o pecado cometido por serem amados com apego demasiado esses bens mas unicamente aquela falta que consiste em subtraílos injustamente de outro Dito isso vê agora se não cumprimos o programa que tu julgavas ser uma questão sem fim cf I614 Pois na verdade nós nos havíamos proposto procurar até onde se estende o direito da lei temporal de punir ela que rege os povos e as nações da terra Ev Sim vejo que chegamos a nosso objetivo Conseqüência do apego ou desapego dos bens deste mundo 33 Ag Portanto vês igualmente que não existiria a penalidade seja a que é infligida aos homens de modo injusto seja a que é de modo justificável pela aplicação da lei caso eles não amassem aquelas coisas que podem lhes ser tiradas contra a própria vontade Ev Vejoo muito bem Ag Assim pois as mesmas coisas podem ser usadas diferentemente de modo bom ou mal E quem se serve mal é aquele que se apega a tais bens de maneira a se embaraçar com eles amandoos demasiadamente Com efeito submetese àqueles mesmos bens que lhe deveriam estar submissos Faz dessas coisas bens aos quais ele mesmo deveria ser um bem ordenandoas e fazendo delas bom uso Assim quem se serve dessas coisas de modo ordenado mostra que elas são boas não para si pois elas não o tornam nem bom nem melhor mas antes é ele mesmo que as torna melhores Por isso ele não as ama até se deixar prender e não faz delas como se fossem membros de sua própria alma o que seria feito caso as amasse a ponto de recear que elas vindo a lhe faltar lhe fossem como cruéis e dolorosos ferimentos Mas se ele se mantiver acima dessas coisas pronto a possuílas e governá las caso seja preciso e mais ainda pronto a perdêlas ou a se passar delas Visto que assim é crês que seria preciso condenar o ouro e a prata por causa dos avarentos ou o vinho por causa dos que se embriagam ou o encanto das mulheres por causa dos libertinos e dos adúlteros e assim em relação a tudo mais Especialmente quando podes ver um médico fazer bom uso do fogo e um envenenador uso criminoso até do pão Ev Isso é bem verdade não se pode considerar as coisas por elas mesmas mas sim os homens que podem fazer mau uso delas Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio 34 Ag Muito bem35 Nós já começamos a compreender penso eu qual seja o valor de lei eterna E reconhecemos também até onde pode ir a lei temporal em sua repressão com castigos Distinguimos também com clareza suficiente as duas espécies de realidades umas eternas e outras temporais E as duas classes de homens uns seguindo e amando as coisas eternas e outros as coisas temporais Estabelecemos ainda que é próprio da vontade escolher o que cada um pode optar e abraçar E nada a não ser a vontade poderá destronar a alma das alturas de onde domina e afastála do caminho reto Do mesmo modo é evidente ser preciso não censurar o objeto do qual se usa mal mas sim a pessoa que dele mal se serviu Voltemos agora se concordares àquela questão proposta no começo deste diálogo e vejamos se ela já está resolvida Tínhamonos proposto de procurar a definição do que seja cometer o mal malefacere cf I36 Foi nesse intento que dissemos tudo o que precede até aqui Em conseqüência agora é o momento de examinarmos com cuidado se cometer o mal é outra coisa do que menosprezar e considerarmos os bens eternos bens dos quais a alma goza por si mesma e atinge também por si mesma e aos quais não pode perder caso os ame de verdade e ir em busca dos bens temporais como se fossem grandes e admiráveis Bens esses experimentados com o corpo a parte menos nobre do homem e que nada têm de seguro Para mim todas as más ações isto é nossos pecados podem estar incluídos nessa única categoria Espero que me dês a conhecer o teu parecer a esse respeito 35a Ev É bem como dizes e eu concordo em que todos os pecados encontremse nessa única categoria a saber cada um ao pecar afastase das coisas divinas e realmente duráveis para se apegar às coisas mutáveis e incertas ainda que estas se encontrem perfeitamente dispostas cada uma em sua ordem e realizem a beleza que lhes corresponde Contudo é próprio de uma alma pervertida e desordenada escravizarse a elas A razão é que por ordem e direito divinos foi a alma posta à frente das coisas inferiores para as conduzir conforme o seu beneplácito Ao mesmo tempo o outro problema que nós nos tínhamos proposto após a primeira questão O que é proceder mal pareceme já termos resolvido com clareza a saber De onde vem praticarmos o mal cf I24 Se não me engano tal como a nossa argumentação mostrou o mal moral tem sua origem no livrearbítrio de nossa vontade cf I11a21c Transição ao livro II 35b Ev Mas quanto a esse mesmo livrearbítrio o qual estamos convencidos de ter o poder de nos levar ao pecado perguntome se Aquele que nos criou fez bem de nolo ter dado Na verdade pareceme que não pecaríamos se estivéssemos privados dele e é para se temer que nesse caso Deus mesmo venha a ser considerado o autor de nossas más ações36 Ag Não tenhas receio algum a esse respeito Mas para fazermos um exame mais atento reservaremos outro momento Pois este nosso diálogo já pede limite e fim Quisera te ver persuadido de que nós por assim dizer estamos batendo à porta de grandes e profundas questões Mas quando sob a guia de Deus tivermos começado a penetrar nesses segredos tu julgarás certamente que existe grande distância entre o atual discurso e os seguintes E o quanto esses últimos vão se revelar mais excelentes não somente pela penetração da investigação mas também pela sublimidade do assunto e pela esplêndida luz da verdade Peçamos que a piedade seja a nossa única companheira a fim de que a Providência divina nos permita perseverar até o fim na caminhada encetada Ev Aceito tua vontade com gosto e bons votos Com prazer associo a minha vontade à tua 1 11 Deus e o mal Deus e o mal tal é o grave problema proposto desde a pergunta inicial de Evódio o interlocutor de Agostinho O exórdio aparece ex abrupto Dic mihi quaeso te utrum Deus non sit auctor mali A resposta de Agostinho neste livro I será clara e incisiva Deus não é o autor do mal porque é o autor de todo bem Sendo Deus bom é evidente que não pode fazer mal algum À segunda pergunta de Evódio sobre a origem do mal após sérias reflexões a conclusão será igualmente firme a concupiscência levando ao abuso do livrearbítrio é que dá origem ao mal 2 11 A responsabilidade do ato livre Afirma aqui Agostinho As más ações não seriam punidas em plena justiça se não tivessem sido praticadas de modo voluntário O autor visa aos maniqueus quando declara assim a existência do ato livre Havia ele há pouco tempo se desligado da heresia maniquéia que ensinava não ser o homem livre em suas ações Diziam que a responsabilidade humana é ilusão pois todo coração humano é habitado por uma mistura de elementos luminosos e tenebrosos Em conseqüência todo mal que fazemos não somos nós que o praticamos mas o princípio do mal cativo em nós A consciência desse modo ficava liberta de todo complexo de culpa Cf Confissões livro V 1018 Desde as suas primeiras obras Agostinho afirma que a vontade do homem é a fonte do pecado e não existe assim fonte alguma secreta do mal que o exoneraria de qualquer responsabilidade Nos Solilóquios I14 lemos Ó Deus cujas leis garantem à alma o seu livrearbítrio a recompensa aos bons e o castigo aos maus 3 13 Pode o mal ter sido ensinado Observamos nesta passagem o otimismo agostiniano tanto no plano metafísico como no moral Posicionase aqui Agostinho no plano ideal Deus o sumo Ser é bom e só pode criar coisas boas A inteligência é um bem o maior que o homem possui na ordem natural E tudo o que visar ao desenvolvimento da inteligência o ensino a instrução a reflexão só pode ser um bem Observemos a declaração de Agostinho Todo mestre por levar o discípulo a entender só pode ser bom Caso contrário não poderá ser denominado mestre E no final do cap 717 ele insistirá ainda Como o conhecimento adquirido pela inteligência e a razão poderão ser um mal 4 24 Comovente confissão pessoal À pergunta de Evódio sobre a origem do mal Agostinho responde com comoventes palavras de reflexão sobre o próprio passado Expõe o seu problema pessoal com clareza e precisão No fundo essa é a razão de ser da presente obra Releiamse em As Confissões as passagens do l III610 a 1018 a esse respeito A solução do problema do mal constituía para os maniqueus o ponto central de seus ensinamentos A proposta dualista dada por eles os dois Princípios eternos em oposição o do bem e o do mal era cômoda mas metafisicamente insustentável 5 24 Se não crerdes não entendereis Encontramos aqui a afirmação Nisi credideritis non intelligetis invocada freqüentemente por Agostinho por toda a sua vida Já a havíamos encontrado no diálogo De Magistro 1137 Na presente obra além do que vem posto de passagem neste item encontraremos um mais amplo desenvolvimento da temática no próximo l II26 cf ainda a nota 5 É preciso observar que o texto bíblico ao qual Agostinho sempre relaciona a sua doutrina sobre o entendimento da verdade e da fé é o célebre versículo de Isaías 79 acima expresso Sabese que esse texto assim formulado é incorreto e achase somente na versão grega Setenta A Vulgata mais conforme neste caso ao original hebraico traz Si non credideritis non permanebis Se não crerdes não subsistireis Agostinho conhecia as duas versões e aceitavaas a ambas Ou antes interpretava a segunda versão pela primeira resumindo uma e outra na unidade superior de sentido místico Cf em A Doutrina Cristã II1217 e a nota correspondente à p 319 O axioma citado é sem dúvida uma expressão fundamental na doutrina agostiniana E ainda que se fundamente sem veracidade sobre Isaías não deixa de ter por outro lado sólido apoio nas Escrituras Lembremos a famosa frase agostiniana Intellige ut credas crede ut intelligas aceita por toda a escolástica 6 25 Profissão básica de fé O ponto de partida de Agostinho é propositadamente a verdade da fé da qual faz aqui solene profissão Vemolo admoestar Evódio a crer no que crê Crede quod credis A finalidade visada porém não é defender a fé contra alguma heresia ou esclarecêla pela Palavra revelada É sim chegar a compreendêla propor uma explicação que satisfaça a razão Afirma Agostinho aqui com muita convicção Ter uma alta idéia de Deus é o mais verdadeiro início da piedade Em outras ocasiões nesta obra nós o veremos recorrer à expressão de sua fé de maneira muito incisiva Cf em particular no l II 25 1437 1539 e no l III 928 1031 e quase toda a III parte visto ser essa de ordem teológica 7 36 O mal moral as más ações Para serem mais bem compreendidas as reflexões de Agostinho a respeito do problema do mal é necessário lembrarmos a distinção entre o mal físico e o mal moral O primeiro pertence à ordem corporal e se traduz pelo sofrimento O segundo é essencialmente a violação voluntária e livre de ordem desejada por Deus é o que chamamos de falta ou pecado Um e outro mal são não apenas simples ausência de um bem superior à natureza mas privação de um bem que é próprio dessa mesma natureza Neste l I36 lemos no original Unde mala faciamus De onde vem que pratiquemos o mal As malefacta apresentadas sem hesitação por Evódio são os adultérios os homicídios e os sacrilégios Naquela época eram esses os três pecados considerados como especialmente graves pela Igreja 8 36 Não apenas crer mas procurar entender as razões de fé Agostinho sempre considerou fundamental distinguir fé e ciência e o correspondente autoridade e razão A fides fé é a certeza introduzida por via da autoridade e a scientia o entendimento provém do ato de intelecção Julga ele ser progresso espiritual poder se passar de um plano para outro Mais adiante no cap 49 ele repetirá a Evódio Não deves esquecer o que nos propusemos compreender aquilo em que cremos Tal necessidade deve se estender tanto no campo profano como no da fé E se nesse último a autoridade é a regra da fé nunca será esta empecilho para o fiel refletir sobre o conteúdo de suas crenças Releiase no I24 nota 5 as observações aí colocadas a respeito do aforismo Nisi credideritis non intelligetis E maiores desenvolvimentos no l II26 9 37 Síntese das idéias desta I parte 36615 Vejamos em síntese as idéias a serem apresentadas nesta I parte do diálogo Tema geral A natureza do pecado C368 O mal está no fato de a paixão dominar a razão 4910 1º problema Há atos maus cometidos sem paixão condenável 51113 2º problema Há paixões que não parecem ser pecado visto que toleradas pelas leis civis 61415 Reflexões sobre as leis temporais e a lei eterna Notemos como desde o Preâmbulo grandes questões estão sendo propostas É Deus o autor do mal Qual a origem do mal Em que consiste o mal moral ou pecado É ou não o homem livre Conseqüentemente é ele responsável por seus desmandos É lícito defenderse de agressor injusto É condenável a lei temporal Que vem a ser a lei temporal Como pode a existência do mal conciliarse com a bondade de Deus 10 49 Significado dos termos libido concupiscência paixão Lemos no original latino Scisne etiam istam libidinem alii nomine cupiditatem vocari Por nós aqui traduzido Sabes que essa paixão é também denominada concupiscência Esse último vocábulo possui o sentido de mau desejo Esclarecemos que o termo latino libido inis no sentido primitivo e genérico significava impulsividade sensitiva desregrada ou qualquer paixão Mais tarde passou a se referir mais explicitamente ao desejo sexual como acontece até hoje em nosso idioma O termo cupiditas atis aqui é traduzido por concupiscência porque cupidez ou cobiça palavras etimologicamente derivadas de cupiditas também não correspondem propriamente ao sentido dado nesta passagem por Agostinho O vocábulo concupiscência corresponde melhor ao significado de grande desejo de bens ou gozos materiais isto é as paixões descomedidas a que Agostinho quer se referir A posição do bispo de Hipona de considerar a concupiscência ou paixão como origem do mal moral exercerá profunda influência na teologia moral medieval 11 511 Uma lei que não seja justa não é lei Para cumprir sua função social a autoridade goza do poder de emitir leis Mas todo o valor obrigatório dessas leis positivas humanas só pode decorrer de justiça inerente Num discurso no Augustinianum por ocasião do 16º Centenário da Conversão de Agostinho João Paulo II referese a esta passagem do Livrearbítrio dizendo A justiça está na base de toda verdadeira lei São de Agostinho estas fortes palavras Nam mihi lex esse non videtur quae iusta non fuerit A mim não parece ser lei a que não for lei justa Com a justiça vêse surgir a paz paz eterna que o Estado deve promover e defender 12 513 Só a sabedoria liberta Afirma aqui Evódio de maneira muito oportuna recebendo forte elogio de Agostinho que unicamente a sabedoria liberta o homem das paixões condenáveis pela lei divina Paixões essas que freqüentemente as leis civis ignoram Sabedoria está aí tomada no sentido de domínio da ciência humana conhecimento e vivência das leis supremas da moralidade 13 513 A política socialagostiniana Pelo fato de a lei civil não fazer tudo nem por isso o que ela faz deve ser condenado Essa afirmação é de grande alcance Agostinho não chegou a compor um tratado completo acerca de suas concepções sociais e políticas Mas sendo ele fiel cultor da lógica concluímos que sua doutrina exposta ainda que em fragmentos em ocasiões e tempos diversos possa ser condensada em um todo homogêneo solidamente constituído Na verdade na obra agostiniana podemos encontrar doutrina firme sobre a autoridade o fundamento da sociedade a lei que a dirige e a justiça que dela decorre sobre a pátria fundamento dos Estados a guerra destinada a defendêla e até sobre o relacionamento entre Igreja e Estado 14 614 A permanente piedade de Agostinho Este diálogo de nítido cunho filosófico revela entretanto o profundo espírito contemplativo de Agostinho Sua piedade assoma a cada passo Em especial a humilde confiança na Providência divina como constatamos na presente passagem É claro que ele não se dirige a Deus em seus escritos filosóficos e teológicos utilizando aquele estilo tão direto como o faz nas Confissões Mas as invocações amorosas testemunham a mesma profunda piedade e sentimento de filial dependência para com o Senhor Citemos algumas passagens já encontradas neste l I No cap 24 Nisi opem divinam impetravisset Se não tivesse conseguido o auxílio divino Aderit enim Deus Sejanonos pois Deus propício No cap 25 opitulante Deo contando com a ajuda de Deus No cap 716 De adiuvante Com a ajuda de Deus Cf sobretudo o último cap deste l I Cum Deo duce Sob a conduta de Deus pietas tantum adsit que a piedade seja a nossa única companheira 1635b 15 614 O emprego do termo arbitrium Não seria justo um homem de bem entregar a decisão arbitrium a um pequeno número de pessoas Deparamos aí o emprego do termo arbitrium pela primeira vez neste diálogo O vocábulo foi por nós traduzido por decisão Na verdade essa palavra desligada do adjetivo liberum livre apresenta melhor o sentido originário de decisão autoritária consciente No correr da obra encontraremos a locução liberum arbitrium umas quinze vezes além de figurar no título O vocábulo vai adquirindo o sentido de determinação da vontade o ato de liberdade psicológica Sentido esse que não era usual na época 16 614 A moral socialagostiniana Na delicada questão da autoridade do chefe da nação e da obediência devida às leis civis Agostinho é admirado com razão por sua sabedoria e moderação Proclama ele para as sociedades a grande lei da justiça É famosa a sua sentença em A Cidade de Deus IV4 Desterrada a justiça o que é todo reino senão uma grande pirataria Afirma ainda entre outras verdades que o príncipe deve governar para o bem público Nenhuma lei obriga se não decorrer da lei eterna O bem social é a lei suprema Tanto Agostinho insiste nesse ponto que o vemos na presente passagem declarar que caso o bem público o exigir é permitido trocar o governo estabelecido e derrubar uma democracia injusta e violenta a fim de implantar um poder de poucos ou até uma monarquia Cf Portalié Dict de Théol Cathol col 2440 17 615 Lei temporal e lei eterna As noções de lei temporal e lei eterna são aprofundadas de modo ocasional neste livro I de O livrearbítrio Constituem um dos elementos essenciais da doutrina moral e social de Agostinho É possível constatar que nosso autor inspirase mais de uma vez em Cícero cujas fórmulas no De Legibus voltam espontaneamente em sua pena Vejamos no início deste capítulo Illa lex quae summa ratio nominatur comparandoa com a fórmula ciceroniana Lex est ratio summa I6 Mas Agostinho não se contenta em recopiar Cícero Ele o repensa Quanto ao relacionamento entre a lei eterna e a temporal esta tira toda sua força da participação daquela Mas por precisar se adaptar às realidades mutáveis ela pode mudar em termos Pois a lei temporal não procura senão um bem relativo e permite por vezes o que a lei eterna condena Definitivamente a ordem que Deus quer que reine na natureza humana está fundamentada na lei eterna e exige a subordinação das paixões à razão 18 615 Sentido amplo de beata vita Devido à lei eterna os bons merecem vida feliz e os maus vida infeliz per quam mali miseram boni beatam vitam merentur Convém lembrar que o sentido de beata vita é muito mais amplo do que o nosso habitual vida feliz Há uma densidade de conteúdo maior do que o emprego vago e trivial dessa expressão Na filosofia antiga a aspiração máxima e o objetivo último era o encontro do segredo de uma vida que viesse realizar a plenitude estável e serena da felicidade com a superação de todo erro vicissitude e sofrimento Leiase a esse respeito todo o diálogo A vida feliz em que Agostinho afirma a verdadeira vida feliz consistir na posse da sabedoria de Deus A beata vita contrapunhase à misera vita em tudo inversa à primeira Cf A S Pinheiro O livrearbítrio p 39 n 14 19 615 A suprema ordem do universo O problema do mal atormentava em demasia Agostinho porque entrava em conflito com suas altas concepções da ordem suprema do mundo e da divina Providência A ordem a que ele se refere por certo não é a simples disposição local nem mesmo cósmica mas o princípio metafísico extensivo a todos os seres Lemos aqui em virtude da lei eterna é justo que todas as coisas estejam perfeitamente conformes a uma ordem perfeitíssima Emprega ele o termo ordinadissima Vocábulo esse retomado por Evódio no final do presente capítulo Nos capítulos seguintes esse termo voltará ainda várias vezes Traduzimolo aí por ordem perfeitíssima Com efeito a ordem admirável e ideal do universo só pode realizarse pela atuação da Providência Atuação essa que se estende igualmente ao plano do progresso moral visto que nada há no universo que a Providência não governe I513 A temática da ordem do universo já fora tratada por Agostinho em seu diálogo filosófico De ordine realizado em Cassicíaco em 386 Mas não pudera aí dar o desenvolvimento desejado devido à imaturidade de seus discípulos de então 20 716 A linha do pensamento seguido Para preparar Evódio a compreender o lugar primordial da razão no homem Agostinho vai demonstrar em longo argumento como esta faculdade de raciocínio falta nos animais Almeja ele atingir o tema capital só a má escolha do livrearbítrio no homem pode ser a causa do pecado Unicamente essa má decisão pode afastar o homem da lei eterna a qual o coloca numa ordem superior perfeitíssima capaz de eliminar o pecado Notemos como Agostinho nesta passagem insiste na necessidade de se entender aquilo em que se crê com facilidade 21 716 Sentido dos termos alma espírito mente razão e inteligência Santo Agostinho distingue além do princípio vital que nos é comum com as plantas o qual chamamos simplesmente vida duas espécies de alma anima e animus A primeira é a alma em geral que se encontra também nos animais A segunda é a alma que pensa e raciocina própria ao homem Enfim nessa alma humana animus está a parte superior que é a sede da sabedoria também chamada espírito spiritus ou mente mens Cf A Trindade XI711 Ao se pôr no ponto de vista das funções ou faculdades da alma na ordem do conhecimento Agostinho referese à razão superior ratio chamada propriamente inteligência intellectus ou intelligentia Por ela a alma é capaz de intuir e contemplar as razões eternas e o próprio Deus É preciso lembrar que no vocabulário agostiniano o termo spiritus não possui sentido muito fixo Pode porém ser traduzido comumente por mente Cf Thonnard B A 16 nota 12 pp 493495 22 919 Síntese das idéias expostas nesta II parte Neste livro I Agostinho vem demonstrando que para descobrir a origem do pecado é necessário chegar a conhecer a sua natureza interior Assim cometer o mal não é nada mais do que submeter a própria vontade às paixões ou seja preferir aos bens propostos pela lei eterna uma satisfação pessoal inferior Ora isso só é possível por uma livre e má escolha da vontade pessoal visto que a ordem querida por Deus não poderia ser destruída pelo próprio Deus Tampouco poderia ser destruída pela própria paixão que nos é inferior nem por outros homens que não nos sejam superiores 1020 Eis as idéias propostas em referência aos capítulos desta segunda parte a Do cap 716 a 818 Agostinho prova que o homem é superior aos animais por possuir a razão b No cap 919 mostra que a razão deve governar também a própria alma E é isso que torna o homem sábio não estulto c No cap 102021 ab demonstra que nada existe que possa submeter a razão às paixões d No curto cap 11 21c conclui que o pecado só pode vir do livrearbítrio de cada um e No cap 1122 será exposto como o pecado traz consigo a própria punição 23 1121c O livrearbítrio o grande responsável pelo pecado Eis uma afirmação fundamental da presente obra Nenhuma outra realidade torna a mente escrava das paixões senão a própria vontade e o seu livrearbítrio Logo a concupiscência isto é o mau desejo é ocasião de pecado mas não a causa do pecado que se enraíza no livrearbítrio Agostinho demonstrou no cap 10 que nada existe que possa forçar fatalmente o homem e seu livrearbítrio a obedecer às paixões estas podem tentálo seduzilo fazerlhe violência mas não o violentar irresistivelmente para que sejam seguidas Em outras palavras a liberdade é uma propriedade da vontade esclarecida pela razão É um arbítrio isto é uma decisão soberana o poder de agir como queremos a capacidade de produzirmos como senhores os nossos próprios atos 24 1122 Conseqüências da culpa Em que consiste o pecado Já foi dito em submeterse a razão humana à paixão em desobedecer às leis divinas em afastarse do Bem supremo Eis agora algumas das conseqüências dessa má escolha o homem fica cheio de temores de desejos de angústias Atormentase quando perde algo que para ele era fonte de alegria afadigase para conseguir o que não possui encolerizase quando ofendido e incitase a buscar vingança E fica ainda atormentado pela ambição pela inveja por sua infinidade de paixões Tudo isso por ter abandonado a sabedoria e assim não ter respeitado a ordem da lei eterna impressa por Deus em sua alma A causa do mal moral nesta mundo vem pois do pecado e de suas conseqüências 25 11b23 Problemas conexos Nesta passagem Evódio propõe diversos problemas deixandoos entretanto Agostinho sem solução 1º A questão a respeito da justiça do castigo aplicado Em geral para que o castigo de alguém entregue às paixões seja justo é preciso admitir que esse alguém tenha sido criado na posse da sabedoria E essa é a base do ensino da fé católica Conforme esta Adão foi criado na justiça original Evódio porém reclama aqui uma demonstração racional se possível 2º Sem esperar uma resposta eis que Evódio vai passar a um caso pessoal seu 1224 Possui ela a consciência de nunca ter alcançado a sabedoria e contudo sofre os mesmos tormentos mencionados por Agostinho como punição daqueles que a abandonaram 1022 Surge então um novo problema Como explicar as desordens da concupiscência 26 1224 A hipótese da preexistência da alma Em resposta à dúvida levantada por Evódio Agostinho lembra a hipótese platônica de preexistência da alma a qual tenha vivido na posse da sabedoria Seria pois justo que agora padecesse por sua eventual derrocada É sabido que Plotino apelava a uma teoria semelhante para explicar os infortúnios dos justos Agostinho porém é muito mais reser vado sobre o valor dessa hipótese Acaba por abandonála definitivamente Mais adiante essa questão será retomada no l III 2055 a 2263 No momento Agostinho responde à dificuldade de Evódio muito habilmente E é o problema mais geral da origem do pecado que é esclarecido Apresenta resolutamente a teoria da boa vontade Essa teoria será o ponto central de toda a terceira parte 27 1225 O papel da boa vontade Para Agostinho a boa vontade é a que nos faz viver com retidão e honestidade estimulandonos a alcançar o cume da sabedoria Tal sabedoria é o reino da lei eterna em nós É por ela que nossa razão domina plenamente todas as tendências inferiores Nossa inteligência ao demonstrar a existência de Deus o que será feito no próximo l II é capaz de ultrapassarse graças à ilu minação divina A vontade humana é boa porque pode vir a participar da sabedoria de Deus 28 1226 Os pelagianos e o livrearbítrio Na ocasião em que Agostinho escrevia a presente obra a heresia pelagiana ainda não havia nascido pois Pelágio e seu discípulo Celéstio só começaram a difundir os seus erros em 409 na Sicília e em 410 na África A doutrina que defendiam tinha certamente bastante relação com a que está sendo tratada por Agostinho neste diálogo Assim não deixaram de buscar aí um apoio para as suas teses Eis o princípio fundamental da heresia pelagiana afirmar a onipotência moral da vontade livre O homem sempre pode sozinho e por si mesmo querer e realizar o bem O querer e o fazer dependem unicamente da própria vontade Daí deduziam outros erros negação do pecado original inutilidade da graça interior atuando sobre a vontade falsa idéia da redenção etc Ora vemos nesta obra Agostinho defender mais de uma vez os privilégios do livrearbítrio da vontade em termos bastante parecidos com os dos pelagianos A presente passagem é uma delas 29 1327 As virtudes cardeais A boa vontade envolve a vivência das virtudes É a virtude o hábito do bem isto é a disposição estável para agir bem o que toca a vontade do agente moral As virtudes podem ser classificadas de diferentes pontos de vista Um dos princípios de classificação já adotado por Platão é o de tirar o critério da importância das virtudes Daí o nome de cardeais dado a estas consideradas como as principais de todas e fonte das outras São elas a prudência a força a temperança e a justiça Essas quatro virtudes formam a síntese de todas as virtudes morais Agostinho utiliza freqüentemente essa classificação tradicional Admitia ele a existência de virtudes puramente naturais entre os pagãos Mas afirmava que para a alma ser conduzida até o seu fim último são necessárias as virtudes teologais Em De musica VI 1549 Agostinho demonstra de modo muito belo como o papel da alma é o de estabelecer a ordem no corpo por meio das quatro virtudes cardeais 30 1328 Agostinho justificase perante os pelagianos Esta passagem parecia particularmente capaz de favorecer o pelagianismo Agostinho citaa em seu Retractationes no l I916 em que faz a revisão de O livrearbítrio Justificase aí nestes termos A finalidade desse diálogo não obrigava a tratar da graça e de sua necessidade Foi ele entabulado por causa dos maniqueus que recusavam ver a origem do mal no livrearbítrio da vontade e que pretendiam assim pôr a culpa em Deus que é o criador de todas as substâncias Queriam eles conforme o erro de sua impiedade introduzir uma natureza má imutável e coeterna a Deus Quanto à graça de Deus que predestina seus eleitos de forma a preparar a vontade mesma daqueles que já se servem do livrearbítrio não há nesses livros discussões a esse respeito devido à particularidade da questão que nós não nos tínhamos proposto a tratar Mas quando a ocasião se apresentou de mencionarmos a graça ela foi lembrada de passagem se bem que não defendida com argumentos laboriosos como se tratássemos dela em especial Com efeito uma coisa é procurar a origem do mal e outra coisa procurar o meio de volta a seu estado primitivo ou mesmo chegar a um estado melhor Nada de se admirar pois se Agostinho não fala senão de leve sobre a graça e insiste tanto sobre o poder do livrearbítrio O papel deste é incontestável e Agostinho se manterá fiel a seu ponto de vista por toda a vida 31 1329 Possui a vontade uma autodeterminação absoluta A solução dada ao problema do mal pelos maniqueus é certamente determinista com a negação do poder da vontade humana A crítica aqui feita por Agostinho é tipicamente filosófica Os argumentos por ele aduzidos pelo menos em teoria apelam para uma autodeterminação absoluta da vontade Desse modo a ação se seguiria sem dificuldade alguma e com grande facilidade tam in facili constituto bono Entretanto os observadores da vida comum sentem que as coisas não se passam assim tão facilmente Sobretudo os maniqueus tão profundamente pessimistas a respeito da condição humana não aceitavam tais exposições Na verdade nessa época Agostinho aparecenos no papel pelo menos tão pelagiano quanto Pelágio De fato Agostinho não conseguia ainda explicar como na prática a vontade humana não goza de uma liberdade tão completa Via como todo homem encontrase prisioneiro de linhas de conduta que lhe parecem irreversíveis Está sujeito a impulsos a que não consegue resistir e que o levam a agir de modo contrário às suas boas intenções E é tristemente incapaz de romper os hábitos tornados nele uma segunda natureza E são Paulo lá estava para confirmar tudo isso Cf Gl 517 e Rm 723 Todas essas considerações constituíam para Agostinho um real desafio E ele o incansável pesquisador da verdade lançase continuamente a novas aproximações do problema do mal Em seus primeiros sermões como padre vemolo esforçarse por explicar a permanência do mal na vontade humana em termos puramente psicológicos Apela para a força irresistível do hábito consuetudo Tirando este o seu poder do funcionamento da memória humana Cf O sermão da montanha I123435 Cf Peter Brown La vie de saint Augustin p 174 32 1430 O desejo universal da felicidade A busca da felicidade é para o homem uma necessidade natural Ele não pode subtrairse a isso É o que move toda sua atividade A felicidade é de fato o transcendental mais arraigado na natureza humana Tais idéias são bem atuantes na filosofia agostiniana e fundamentam toda a sua moral Encontramos reflexões análogas em inúmeras de suas obras Apontemos algumas além do presente diálogo todo o A vida feliz Os costumes da Igreja católica I34 O Mestre 1446 Confissões III47 X2029 2131 A Trindade XIII478112025 Carta 130 a Proba 510 Cartas 104412 118 a Dióscoro Sermões 150 4 23145 etc e A Cidade de Deus lXIX11 33 1430 Afirmações agostinianas exploradas pelos pelagianos O merecimento está na vontade Tal sentença está entre as que os pelagianos consideravam como favoráveis a seu sistema O próprio Agostinho anotou todas as afirmações que em O livrearbítrio poderiam servir a tal interpretação Eis as passagens neste livro I 11 As más ações não seriam punidas com plena justiça se não tivessem sido cometidas voluntariamente 1226 Depende de nossa vontade gozar ou ser privado de tão grande e verdadeiro bem O que há que dependa tanto da vontade quanto a própria vontade 1329 Com muita facilidade pelo simples fato de o querer aquele que quer viver de modo reto e honesto já possui o que quer 1634 Cada um opta pelo que pode fazer e abraçar e é certo que essa escolha pertence à vontade As referências nos livros II e III serão assinaladas em seus respectivos lugares 34 1531 A origem do verdadeiro mal não é a matéria Agostinho atribui de maneira firme a origem do mal moral ou pecado à vontade livre E aponta com insistência essa possibilidade perigosa do livrearbítrio Separase assim claramente de Plotino Para os neoplatônicos é a matéria somente a responsável De fato nós vemos a alma nas presentes exposições bem subtraída à matéria ficando submissa só à lei eterna que marca os liames estreitos com Deus Tal dependência essencial do livrearbítrio em referência a Deus vem largamente desenvolvida neste livro I No próximo item 32 Agostinho desenvolverá a idéia de que a lei temporal governa os homens de má vontade sem todavia reprimir os seus pecados 35 1534 Síntese do que foi visto nesta terceira parte Passou Agostinho para esta terceira parte partindo de uma dúvida de Evódio 11b23 Em resposta a ele levantou a hipótese da possibilidade da preexistência da alma Deixou porém o problema para ser resolvido mais tarde 11b231224 Apresentou com convicção a teoria da boa vontade no homem Está esta totalmente em seu poder 122526 A boa vontade envolve a vivência das quatro virtudes cardeais prudência força temperança e justiça 1327 Fica assim a nossa felicidade assegurada sob a condição de praticarmos livremente o bem 13281430 A boa e a má vontade relacionamse com a lei eterna e a temporal Foi visto o valor e a jurisdição dessas duas leis 153133 Em capítulo final Agostinho enfatiza a conclusão a que chegara O pecado tem sua origem no livrearbítrio E prevê o estudo de problemas mais profundos e sublimes no próximo livro 36 1635b Será um mal para o homem o livrearbítrio Perguntase Evódio se não seria melhor para o homem carecer do livrearbítrio essa tão triste prerrogativa Ao que Agostinho replica em síntese Será preciso refletir com mais esforço e tempo para ver se chegamos a resolver a questão com claridade e acerto Afirmará no l II 1847 O livrearbítrio é um bem em si mesmo não mal O abuso do bem não implica que esse bem se converta em mal No l III vêloemos ainda empregar bons capítulos na intenção do esclarecimento da questão Em todas as circunstâncias Agostinho encontrará motivos para colocar a ação da Providência divina digna de inefáveis louvores LIVRO II A PROVA DA EXISTÊNCIA DE DEUS REVELAO COMO FONTE DE TODO BEM DEUS NÃO É O AUTOR DO MAL MAS DO LIVREARBÍTRIO QUE É UM BEM INTRODUÇÃO 1126 POR QUE NOS DEU DEUS A LIBERDADE DE PECAR Capítulo 1 O livrearbítrio vem de Deus 1 Ev Se possível explicame agora a razão pela qual Deus concedeu ao homem o livrearbítrio da vontade já que caso não o houvesse recebido o homem certamente não teria podido pecar Ag Logo já é para ti uma certeza bem definida haver Deus concedido ao homem esse dom o qual supões não dever ter sido dado Ev O quanto me parece ter compreendido no livro anterior é que nós não só possuímos o livre arbítrio da vontade mas acontece ainda que é unicamente por ele que pecamos Ag Também me recordo de termos chegado à evidência a respeito desse ponto Mas no momento eu te pergunto o seguinte esse dom que certamente possuímos e pelo qual pecamos sabes37 que foi Deus quem nolo concedeu Ev Na minha opinião ninguém senão ele pois é por ele que existimos E é dele que merecemos receber o castigo ou a recompensa ao pecar ou ao proceder bem Ag Mas o que eu desejo saber é se compreendes com evidência esse último ponto Ou se levado pelo argumento da autoridade crês de bom grado ainda que sem claro entendimento Ev Na verdade devo afirmar que sobre esse ponto eu aceiteio primeiramente dócil à autoridade Mas o que poderia haver de mais verdadeiro do que as seguintes asserções tudo o que é bom procede de Deus E tudo o que é justo é bom Ora existe algo mais justo do que o castigo advir aos pecadores e a recompensa aos que procedem bem Donde a conclusão é Deus que atribui o infortúnio aos pecadores e a felicidade aos que praticam o bem 2 Ag Nada tenho a opor Mas apresentote esta outra questão Como sabes que existimos por virmos de Deus Isso de fato não é o que acabas de explicar mas sim que dele nos vem o merecer seja o castigo seja a recompensa Ev Pareceme ser isso igualmente evidente visto que não por outra razão a não ser porque temos já por certo que Deus castiga os pecados visto que toda justiça dele procede Ora se é próprio da bondade fazer o bem a pessoas estranhas não é próprio da mesma justiça infligir castigos a quem não são devidos Por onde ser evidente que nós lhe pertencemos posto que ele é para conosco não somente cheio de bondade concedendonos seus dons mas ainda justíssimo ao castigarnos Além de que já o afirmei antes e tu o aprovaste todo bem procede de Deus Isso nos faz compreender que o homem também procede de Deus Porque o próprio homem enquanto homem é certo bem pois tem a possibilidade quando o quer de viver retamente38 3 Ag Realmente e se é essa a questão por ti proposta já está claramente resolvida Pois se é verdade que o homem em si seja certo bem e que não poderia agir bem a não ser querendo seria preciso que gozasse de vontade livre sem a qual não poderia proceder dessa maneira Com efeito não é pelo fato de uma pessoa poder se servir da vontade também para pecar que é preciso supor que Deus nola tenha concedido nessa intenção Há pois uma razão suficiente para ter sido dada já que sem ela o homem não poderia viver retamente Ora que ela tenha sido concedida para esse fim podese compreender logo pela única consideração que se alguém se servir dela para pecar recairão sobre ele os castigos da parte de Deus Ora seria isso um injustiça se a vontade livre fosse dada não somente para se viver retamente mas igualmente para se pecar Na verdade como poderia ser castigado com justiça aquele que se servisse de sua vontade para o fim mesmo para o qual ela lhe fora dada Assim quando Deus castiga o pecador o que te parece que ele diz senão estas palavras Eu te castigo porque não usaste de tua vontade livre para aquilo a que eu a concedi a ti Isto é para agires com retidão Por outro lado se o homem carecesse do livrearbítrio da vontade como poderia existir esse bem que consiste em manifestar a justiça condenando os pecados e premiando as boas ações Visto que a conduta desse homem não seria pecado nem boa ação caso não fosse voluntária Igualmente o castigo como a recompensa seria injusto se o homem não fosse dotado de vontade livre Ora era preciso que a justiça estivesse presente no castigo e na recompensa porque aí está um dos bens cuja fonte é Deus Conclusão era necessário que Deus desse ao homem vontade livre Capítulo 2 Objeção já que o livrearbítrio foinos dado para fazer o bem como se volta ele para o mal 4 Ev Eu já admito que Deus nos concedeu a vontade livre Mas não te parece perguntote que se ela nos foi dada para fazermos o bem não deveria poder levarnos a pecar É o que acontece com a própria justiça dada ao homem para viver bem Acaso alguém poderia viver mal em virtude da sua retitude Do mesmo modo ninguém deveria poder pecar por meio de sua vontade caso esta lhe tivesse sido dada para viver de modo honesto Primeira condição para a solução do problema colocarse no ponto de vista de Deus Ag Deus há de me conceder como o espero que consiga te responder Ou melhor de conceder que tu mesmo te respondas instruindote interiormente por aquela Verdade Mestra soberana e universal39 Mas antes dizeme um pouco eu te peço uma vez que tens como evidente e certo o que já te perguntei a saber que foi Deus que nos concedeu a vontade livre nesse caso poderíamos afirmar que Deus não nos deveria ter dado tal dom Isso já que reconhecemos ser ele mesmo que o deu a nós Com efeito se fosse incerto que Deus nos tenha concedido a vontade livre nós teríamos o direito de indagar se foi bom ela nos ter sido dada Desse modo se descobríssemos que foi bom igualmente reconheceríamos o doador naquele que deu ao homem todos os bens Ao contrário se descobríssemos que foi mal teríamos de compreender que o doador não é Aquele a quem não é permitido incriminar algo que seja Mas sendo certo que o próprio Deus nos deu essa vontade livre qualquer seja a forma como recebemos esse dom devemos confessar que Deus não estava obrigado de nolo dar como foi dado nem de modo diferente Na verdade quem nolo deu foi Aquele a quem de modo algum podemos criticar com justiça as ações Segunda condição não se limitar à fé mas procurar o seu entendimento 5 Ev Apesar de crer em tudo isso com fé inabalável todavia como não possuo ainda pleno entendimento continuemos procurando como se tudo fosse incerto Com efeito pelo fato de ser incerto a vontade livre nos ter sido dada para com ela agirmos bem já que podemos também pecar decorre esta outra incerteza se foi um bem ou não ela nos ter sido dada Porque se é incerto ela nos ter sido dada para agirmos corretamente tampouco é certo que seja um bem ela nos ter sido dada Por aí não é igualmente certo que seja Deus o doador Com efeito a incerteza sobre a conveniência do dom torna incerta a origem isto é o fato de ser Aquele a quem não nos é permitido crer que conceda algo que não deveria ter concedido Ag Pelo menos uma coisa é certa para ti Deus existe Ev Isso também considero como verdade incontestável mas pela fé e não pelo entendimento Ag Pois bem supõe que um desses homens néscios sobre os quais está escrito Diz o insensato em seu coração Deus não existe Sl 521 viesse te dizer isso Supõe por hipótese que ele se recuse a crer no que tu crês pela fé contudo desejasse conhecer se o objeto de tua crença é verdadeiro Abandonarias esse homem à sua incredulidade ou acharias ser teu dever lhe demonstrar de alguma forma aquilo em que crês firmemente Sobretudo no caso de ele pretender não discutir com obstinação mas sim procurar com sinceridade conhecer a verdade Ev O que acabas de dizer me sugere suficientemente o que lhe deveria responder Pois ainda que fosse ele uma pessoa muito insensata seguramente concordaria comigo que nada se deve discutir principalmente a respeito de assunto tão sério como alguém de má fé e obstinação Uma vez admitido isso ele seria o primeiro a me levar a crer que se dispunha em busca com boa intenção a de querer ser alguém que nada esconde em seu interior e assim nada haver nele de falso ou de obstinado Então eu lhe demonstraria o seguinte coisa muito fácil para qualquer na minha opinião se acaso ele não fazia questão de ser acreditado por outro por testemunho quando revelasse algo sobre os sentimentos ocultos de seu espírito a respeito dos quais ele unicamente conhecia Se assim fosse quanto mais justificado seria que ele também acreditasse por testemunho alheio que Deus existe em razão dos escritos de homens tão notáveis que deixaram testemunhado em livros haverem convivido com o Filho de Deus Com efeito essas testemunhas atestam por escrito ter presenciado coisas que nunca poderiam ter acontecido se Deus não existisse E esse homem o meu interlocutor seria por demais estulto se me recriminasse por crer em tais testemunhas quando pretendia que eu acreditasse em seu testemunho pessoal Ora assim como não poderia me condenar com razão de modo nenhum encontraria desculpa para não querer me imitar Ag Mas então se a respeito do problema da existência de Deus a teu parecer julgas bastar crer sem temeridade alguma em homens dignos de fé porque perguntote sobre os presentes pontos que estão sendo investigados por nós como incertos e manifestamente desconhecidos pela intelecção não pensas do mesmo modo isto é que devíamos crer firmemente na autoridade desses mesmos homens tão ilustres e assim não mais nos cansarmos a investigar esses problemas Ev Sim mas é que pretendemos saber e entender aquilo em que cremos40 6 Ag Vejo que tens boa memória Foi na verdade isso que decidimos no início de nosso diálogo precedente e não o podemos negar Com efeito se crer não fosse uma coisa e compreender outra41 e se não devêssemos primeiramente crer nas sublimes e divinas verdades que desejamos compreender seria em vão que o profeta teria dito Se não o crerdes não entendereis Is 79 na LXX42 O próprio nosso Senhor tanto por suas palavras quanto por seus atos primeiramente exortou a crer àqueles a quem chamou à salvação Mas em seguida no momento de falar sobre esse dom precioso que havia de oferecer aos fiéis ele não disse A vida eterna consiste em crer mas sim A vida eterna é esta que eles te conheçam a ti único Deus verdadeiro e aquele que tu enviaste Jesus Cristo Jo 173 Depois disse àqueles que já eram crentes Procurai e encontrareis Mt 77 Pois não se pode considerar como encontrado aquilo em que se acredita sem entender43 E ninguém se torna capaz de encontrar a Deus se antes não crer no que há de compreender44 É porque dóceis aos preceitos do Senhor sejamos constantes na busca Porque aquilo que procuramos sob a divina exortação nós o encontraremos graças a ele Isso o quanto podem ser encontradas essas maravilhas nesta vida e por homens como somos nós Com efeito é preciso que creiamos nós mesmos e as melhores pessoas enquanto vivem neste mundo E certamente depois desta vida todos os homens bons e piedosos possuirão e contemplarão essas coisas com mais evidência e perfeição Quanto a nós podemos esperar que assim também será conosco Nessa esperança desprezando os bens terrestres humanos desejemos e amemos com todas as forças as verdades divinas PRIMEIRA PARTE 37719 INÍCIO DA ASCENSÃO A DEUS PARA CHEGARMOS À PROVA DE SUA EXISTÊNCIA A BUSCA DO QUE HÁ DE MAIS NOBRE NO HOMEM 37614 Capítulo 3 As primeiras intuições do espírito o existir o viver o entender 7 Ag Se o quiseres investiguemos na seguinte ordem45 1º procuremos como provar com evidência a existência de Deus 2º se na verdade tudo o que é bem enquanto bem vem de Deus 3º enfim se será preciso contar entre os bens a vontade livre do homem Uma vez essas questões esclarecidas aparecerá suficientemente eu o penso se essa vontade foi dada aos homens com justeza Assim pois para partirmos de uma verdade evidente eu te perguntaria primeiramente se existes46 Ou talvez temas ser vítima de engano ao responder a essa questão Todavia não te poderias enganar de modo algum se não existisses Ev É melhor passares logo adiante às demais questões Ag Então visto ser claro que existes e disso não poderias ter certeza tão manifesta caso não vivesses é também coisa clara que vives Compreendes bem que há aí duas realidades muito verdadeiras Ev Compreendoo perfeitamente Ag Logo é também manifesta terceira verdade a saber que tu entendes Ev É claro Ag Qual dessas três realidades existir viver e entender parece a ti a mais excelente Ev O entender47 Ag Por que te parece assim Ev Por serem três as realidades o ser o viver e o entender É verdade que a pedra existe e o animal vive Contudo ao que me parece a pedra não vive Nem o animal entende Entretanto estou certíssimo de que o ser que entende possui também a existência e a vida É porque não hesito em dizer o ser que possui essas três realidades é melhor do que aquele que não possui senão uma ou duas delas Porque com efeito o ser vivo por certo também existe mas não se segue daí que entenda Tal é como penso a vida dos animais Por outro lado o que existe não possui necessariamente a vida e a inteligência Posso afirmar por exemplo que um cadáver existe Ninguém porém dirá que vive Ora o que não vive muito menos entende Ag Então admitimos que dessas três perfeições faltam duas ao cadáver uma ao animal e nenhuma ao homem Ev É verdade Ag E admitimos igualmente que a melhor das três é a que só o homem possui juntamente com as duas outras isto é a inteligência que supõe nele o existir e o viver Ev Com efeito nós admitimos isso sem dúvida alguma48 O conhecimento advindo pelos sentidos externos pelo sentido comum e pela razão49 a Os sentidos exteriores 8 Ag Dizeme agora se sabes com certeza que possuis os tão bem conhecidos sentidos corporais a vista o ouvido o olfato o gosto e o tato Ev Sim eu os conheço com certeza Ag Conforme o teu parecer o que pertence ao sentido da vista Em outros termos temos a sensação do quê ao enxergar Ev De todos os objetos corporais Ag Temos também pela vista a sensação de dureza e de moleza dos corpos Ev Não Ag Qual é pois o objeto próprio da vista pela sensação de enxergar Ev A cor Ag E o que pertence aos ouvidos Ev O som Ag E ao olfato Ev Os odores Ag E ao paladar Ev Os sabores Ag E ao tato Ev A moleza e a dureza o liso e o áspero e muitas outras qualidades similares Ag Pois bem E a respeito das formas corporais enquanto grandes ou pequenas quadradas ou redondas e de outras propriedades semelhantes não temos também a sensação delas pelo tato como pela vista de modo a não podermos atribuir como próprio a um único desses sentidos mas a ambos Ev Entendo que seja assim Ag Compreendes pois igualmente que cada sentido tem certos objetos próprios sobre os quais nos informam e que alguns dentre eles percebem objetos de modo comum Ev Compreendo também isso b O nosso sentido interior Ag E podemos por acaso discernir por alguns desses cinco sentidos o que pertence a cada um em particular e o que lhes seja comum a todos ou a alguns dentre eles Ev De modo algum pois é por meio de certo sentido interior que nós o distinguimos Ag Não seria talvez pela razão da qual os animais estão privados Pois na minha opinião se nós percebemos essas distinções e se sabemos que tudo se passa assim é por meio da razão Ev Eu penso antes que seria pela razão que nós compreendemos a existência desse certo sentido interior ao qual os cinco sentidos externos transmitem todos os seus conhecimentos a respeito dos objetos Pois por um sentido é que o animal vê e por outro que ele evita ou busca aquilo que viu Com efeito o primeiro sentido tem sua sede nos olhos Ao contrário o segundo no íntimo mesmo da alma Graças a esse sentido interior todos os objetos não somente os apreendidos pela vista mas também pelo ouvido e pelos outros sentidos corporais são procurados e apossados pelos animais no caso de isso lhes causar agrado ou bem evitados e rejeitados no caso de lhes serem nocivos Mas esse sentido interior não se pode dizer que seja nem a vista nem o ouvido nem o olfato nem o gosto nem o tato Ele é não sei que outra faculdade diferente que governa universalmente a todos os sentidos exteriores por igual A razão é que nos faz compreender isso como já disse Não posso porém identificar essa faculdade com a razão porque está também manifestamente nos animais e estes não possuem a razão c A nossa razão 9 Ag Admito a existência dessa faculdade seja ela qual for e sem hesitação denominoa sentido interior Pois a não ser ultrapassando esse mesmo sentido interior o objeto transmitido pelos sentidos corporais poderá chegar a ser objeto de ciência Porque tudo o que nós sabemos só entendemos pela razão aquilo que será considerado ciência Ora sabemos entre outras coisas que não se pode ter a sensação das cores pela audição nem a sensação do som pela vista E esse conhecimento racional nós não o temos pelos olhos nem pelos ouvidos e tampouco por esse sentido interior do qual os animais não estão desprovidos Por outro lado não podemos crer que os animais conheçam a impossibilidade de sentir seja a luz pelos ouvidos seja os sons pelos olhos visto que nós mesmos só o discernimos pela observação racional e pelo pensamento Ev Não posso dizer que tenha compreendido o que acabas de dizer O que se seguiria com efeito se mediante o sentido interior do qual os animais não estão desprovidos conforme o admites chegassem a perceber também como nós a impossibilidade de sentir as cores pelo ouvido ou os sons pela vista Ag Mas acaso crês que eles possam mesmo distinguir entre si um sentido do outro a cor da qual têm a sensação o sentido que tem sua sede nos olhos aquele outro o interior que está na alma e até a razão que define e classifica tão bem cada uma dessas coisas Ev De modo algum Ag O que te parece Poderia a própria razão distinguir esses quatro fatores entre si e determiná los definindoos se ela não percebesse por comunicação a cor pelo sentido da vista esse mesmo sentido pelo sentido interior que o comanda e esse último enfim por si mesmo se é que não haja outros intermediários Ev Não vejo como poderia ser de outra forma Ag E o que pensar Percebes que o sentido da vista percebe a cor sem se perceber a si mesmo Porque pelo sentido que vê a cor com efeito não vês o ato mesmo da visão Ev Não não o vejo de modo algum Ag Empenhate ainda em distinguir bem o seguinte pois não o negarás penso eu uma coisa é a cor e outra o ato de ver a cor Outra coisa enfim muito distinta na ausência da cor a posse de um sentido capaz de a ver caso ela lá estivesse Ev Distingo também essas três coisas e concordo que diferem entre si Ag Agora dessas três coisas a qual vês pelos olhos senão a cor Ev Nada mais Ag Dizeme então por qual faculdade vês as duas outras Pois não poderias distinguilas sem as ver Ev Ignoro Sei apenas que elas existem nada mais Ag Ignoras pois se é a própria razão que exerce essa função vital que chamamos de sentido interior bem superior aos sentidos corporais ou então algum outro princípio Ev Ignoro Ag Sabes pelo menos que somente a razão pode definir essas coisas e que ela unicamente pode agir sobre objetos submetidos a seu exame Ev É certo Ag Logo qualquer seja essa outra faculdade capaz de ter o sentimento de tudo o que sabemos ela está ao serviço da razão à qual apresenta e traz tudo o que apreende De maneira que os objetos percebidos possam ser diferenciados entre si e conhecidos não somente pelo sentidos mas ainda por conhecimento racional Ev É bem verdade Ag Pois bem Mas essa mesma razão que distingue entre um e outro isto é os sentidos seus servidores e os objetos que eles lhe apresentam e que reconhece ainda a diferença existente entre eles e ela afirmando sua preeminência sobre eles acaso essa razão compreendese a si mesma por meio de outra faculdade que não seja ela mesma Saberias que possuis a razão caso não percebesses a mesma razão Ev Isso é bem verdadeiro Os sentidos exteriores não se percebem a si mesmos Ag Por conseguinte já que percebendo a cor pelo sentido da vista nós não percebemos a nossa própria sensação se ouvindo um som não ouvimos nossa própria audição se cheirando uma rosa nosso olfato não inala em si nenhum perfume se degustando algo nosso paladar não sente na boca o próprio paladar se apalpando um objeto não podemos tocar o sentido mesmo do tato é evidente que esses cinco sentidos não podem ser sentidos por si mesmos ainda que por eles todos os objetos corporais sejam sentidos por nós Ev É evidente Capítulo 4 Percebese o sentido interior a si mesmo 10 Ag Creio ser também evidente que esse sentido interior não somente sente as impressões que recebe dos cinco sentidos externos mas percebe igualmente os mesmos sentidos Se assim não fosse o animal não se moveria de seu lugar para apoderarse de algo ou para fugir de alguma coisa Mas não o sente de modo a ter conhecimento ordenado à ciência porque isso é próprio da razão Contudo percebeo suficientemente para se mover Ora até isso ultrapassa a simples percepção dos cinco sentidos externos Todavia se a coisa ainda te resta obscura ela haverá de se esclarecer ao considerares o que se passa por exemplo em um desses cinco sentidos em particular Por exemplo o da vista Com efeito um animal não poderia de modo algum abrir os olhos nem os mover em direção ao que deseja ver se não sentisse que não vê o tal objeto ao ter os olhos fechados ou sem dirigir seu olhar naquela direção Ora se ele percebe em si a ausência da visão quando não está olhando para aquele determinado objeto é necessário também que ele perceba sua visão quando está a enxergar de fato Já que não é da mesma maneira que ele move os olhos ao ver o objeto cobiçado e os mantém fixos quando não o enxerga Isso mostra bem que o animal sente diferentemente uma coisa e outra Mas por outro lado essa vida interior que percebe assim as próprias sensações de objetos corporais terá ela também consciência de si mesma A questão é menos clara a não ser que se diga que cada um ao se observar a fundo interiormente constate que todo ser vivo foge da morte Ora sendo essa o oposto da vida é preciso ao que parece que também a vida tome consciência de si mesma para fugir desse modo a seu oposto Todavia se a questão ainda não está bastante evidente passemos adiante a fim de avançarmos unicamente apoiados em provas certas e evidentes Ora o evidente até o presente é o seguinte que os sentidos corporais percebem os objetos corporais que esses mesmos sentidos não podem ter a sensação de si mesmos que o sentido interior percebe não só os objetos corporais por intermédio dos exteriores mas percebe até mesmo esses sentidos enfim que a razão conhece tudo isso e conhecese a si mesma visto que todos esses conhecimentos tornamse objeto de ciência Aí estão evidências não te parece assim Ev Com efeito assim me parece Ag Pois bem vejamos agora Qual a questão cuja ambicionada solução nos fez percorrer tão longa caminhada Capítulo 5 O sentido interior juiz e guia dos sentidos exteriores 11 Ev Pelo que me recordo das três questões que nos propusemos no início do atual diálogo II37 ao traçarmos o plano desta nossa discussão a primeira é justamente esta da qual tratamos agora a saber como poderíamos chegar sem deixarmos de aderir com fé muito firme e inquebrável à prova racional da existência de Deus Ag Tu o relembras com exatidão Mas desejo que te recordes também com diligência que ao te perguntar eu se conhecias com certeza a tua própria existência pareceute que conhecias não apenas isso mas ainda mais duas outras realidades o viver e o pensar Ev Recordome igualmente disso Ag Pois bem considera no momento a qual dessas três realidades podem pertencer os objetos dos sentidos corporais isto é em que categoria de realidades na tua opinião é preciso classificar toda ordem de conhecimentos adquiridos pelos sentidos seja o da vista seja o de qualquer outro órgão corporal Porventura na categoria das coisas que unicamente existem ou mesmo nas que existem vivem e além disso são inteligentes Ev Na categoria das coisas que somente existem Ag E o próprio sentido em qual das três categorias está ele no teu parecer Ev Na dos seres vivos Ag Assim sendo qual dos dois por conseguinte julgas ser melhor o sentido ou o objeto que o sentido percebe Ev Evidentemente o sentido Ag E por qual motivo Ev Porque o ser que também goza da vida é melhor do que aquele que só existe O princípio de subordinação 12 Ag Pois bem E aquele sentido interior que conforme nossas buscas anteriores está abaixo da razão e nos é também comum com os animais será que hesitarias a antepôlo ao sentido pelo qual percebemos os corpos e que já reconheceste ser preferível ao corpo ele mesmo Ev Não hesitaria de forma alguma Ag Mas quisera também ouvir de ti por qual motivo não o hesitarias Posto que não poderás pretender classificar esse sentido interior no gênero dos que possuem a inteligência mas unicamente classificálo entre as coisas que existem e vivem embora privadas de inteligência Isso porque ele também encontrase entre os animais que são carentes de inteligência Assim sendo desejo saber por que antepões o sentido interior aos sentidos exteriores visto que ambos pertencem ao simples gênero de seres que vivem Por outro lado antepuseste os sentidos exteriores que atingem os corpos a esses mesmos corpos porque estes classificamse entre as coisas que somente existem e os sentidos entre as que vivem Mas como o sentido interior pertence também a esse último gênero isto é dos que vivem dizeme por que os consideras melhor do que os sentidos exteriores Caso respondas é porque um sente os outros creio que não terias encontrado uma norma que nos permita proclamar Todo ser dotado de sensação é melhor do que o objeto de sua sensação posto que seríamos talvez forçados a conceder também que Todo ser dotado de inteligência é melhor do que o objeto de sua intelecção o que é falso Com efeito o homem compreende o que seja a sabedoria e contudo não é superior à sabedoria Considera pois por qual motivo na tua opinião é preciso antepor o sentido interior aos exteriores pelos quais sentimos os corpos Ev É porque eu reconheço no sentido interior um guia e um juiz dos sentidos exteriores De fato quando estes faltam em algo de suas funções o sentido interior reclama os seus serviços como junto a um servidor conforme dissemos em nossa conversa anterior Na verdade o sentido da vista por exemplo não vê a presença ou a ausência de sua visão E porque não vê não pode julgar sobre o que lhe falta ou lhe basta Esse é o papel do sentido interior É esse que no próprio animal adverteo a abrir o olho fechado e a suprir a falta que percebe haver Ora ninguém duvida desta regra Quem julga é superior àquele sobre o que julga50 Ag Parecete pois que os sentidos exteriores fazem igualmente certo julgamento sobre os corpos Porque lhes pertence com efeito o prazer ou a dor conforme eles impressionam o corpo com doçura ou aspereza E do mesmo modo como o sentido interior julga que falta ou basta algo do sentido da vista para ter por exemplo uma visão clara e perfeita Igualmente o sentido próprio da vista julga ao que falta ou basta quanto às cores De modo semelhante assim como o sentido interior julga a nossa audição considerandoa deficiente ou suficientemente atenta também o próprio ouvido por sua vez julga os sons distinguindo os que o impressionam com doçura daqueles que ressoam com estrépito Inútil prosseguirmos examinando em relação aos outros sentidos exteriores pois já percebeste eu penso o que quero dizer a saber que o sentido interior julga os sentidos corporais aprovando um bom funcionamento ou exigindo um mau serviço Do mesmo modo os próprios sentidos externos eles mesmos julgam os objetos corporais aceitando seu contato caso seja agradável ou rejeitando o caso contrário51 Ev Eu percebo por certo e concordo ser tudo isso bem verdadeiro Capítulo 6 A razão transcende a tudo mais no homem 13 Ag Considera agora se a mesma razão também julga o sentido interior Pois já não te pergunto se o julgas melhor do que os sentidos exteriores pois não duvido que penses assim Tampouco te pergunto se é para investigarmos se a razão julga o sentido interior Com efeito para todas as realidades inferiores a ela os corpos os sentidos exteriores e o próprio sentido interior quem pois a não ser a mesma razão nos declara como um é melhor do que outro e o quanto ela mesma ultrapassaos a todos E quem nos informará sobre isso a não ser a mesma razão De nenhum modo poderia fazêlo se tudo não estivesse submetido a seu juízo Ev É evidente Ag Portanto acima da natureza que apenas existe sem viver nem compreender como acontece com os corpos inanimados vem a natureza que não somente existe mas que também vive sem contudo ter a inteligência como acontece com a alma dos animais e por sua vez acima dessa última vem aquela natureza que ao mesmo tempo existe vive e entende aquela que é a alma racional do homem Sendo assim crês que em nós isto é entre esses elementos constitutivos de nossa natureza humana podese encontrar algum elemento mais nobre do que aquele que enumeramos em terceiro lugar Porque manifestamente nós possuímos um corpo e também uma alma que anima o corpo e é causa de seu desenvolvimento Dois elementos que também vimos nos animais Enfim a mais temos um terceiro elemento que por assim dizer é como a cabeça ou o olho de nossa alma A menos que se encontre um nome mais adequado para designar a nossa razão ou inteligência faculdade que a natureza dos animais não possui Vê pois eu te peço se podes encontrar na natureza do homem algo mais excelente do que a razão52 Ev Não encontro absolutamente nada que possa ser melhor Última etapa acima da razão só Deus 14 Ag Pois bem O que dirias se pudéssemos encontrar alguma realidade cuja existência não só se conhecesse mas também fosse superior à nossa razão Hesitarias qualquer que fosse essa realidade afirmar ser ela Deus Ev Não de imediato Se eu pudesse descobrir algo superior à parte mais excelente de minha natureza eu não a chamaria logo Deus Porque a mim não agrada chamar de Deus aquele a quem minha razão é inferior mas sim aquele a quem ser algum é superior Ag É justamente assim E é Deus mesmo que deu à tua razão tão piedoso e verdadeiro sentimento a respeito dele Perguntote porém se não encontrasses nada acima de nossa razão a não ser o que é eterno e imutável hesitarias chamálo de Deus Pois os corpos são mutáveis tu o sabes e a vida pela qual os corpos são animados em meio à variedade de seus estados mostra com evidência que essa vida está sujeita a mutações E até a própria razão por seu lado que por vezes se esforça por chegar à verdade por vezes não por vezes a atinge e por vezes não mostrase seguramente estar sujeita a mutações Se pois sem a ajuda de órgão algum corporal nem do tato nem do paladar nem do olfato do ouvido ou dos olhos nem por sentido algum que seja inferior a essa dita razão mas por si mesma ela percebe algo de eterno e imutável é necessário que a dita razão se reconheça ao mesmo tempo inferior a essa realidade e que esse Ser seja o seu Deus53 Ev Quanto a mim certamente reconheceria como Deus esse ser do qual se teria provado que nada existe de superior Ag Está entendido Pois bastarmeá então mostrar a existência de tal realidade que ou bem aceitarás como Deus ou bem caso haja outro ser acima dela concordarás que esse mesmo ser é verdadeiramente Deus Assim haja ou não algum ser superior a essa realidade será evidente que Deus existe desde que com a ajuda desse mesmo Deus eu tiver conseguido demonstrar como o prometi a existência de uma realidade superior à razão54 Ev Demonstra pois o que me prometeste B O QUE É INDIVIDUAL E O QUE É COMUM A TODOS 71519 Capítulo 7 Características de cada sentido exterior a Quanto ao sentido da vista 15 Ag Assim o farei Mas primeiramente eu te pergunto Meus sentidos corporais são os mesmos que os teus ou pelo contrário os meus só pertencem a mim e os teus somente a ti Porque se assim não fosse não poderia ver com meus olhos um objeto que tu não visses igualmente Ev Concordo plenamente ainda que todos nós tenhamos sentidos da mesma natureza entretanto cada um possui os seus próprios sentidos o da vista o da audição e todos os outros Pois qualquer homem pode não somente ver mas também ouvir o que outro não vê nem escuta E o mesmo acontece com todos os outros sentidos qualquer pode perceber o que outra pessoa não percebe É manifesto por aí que teus sentidos são só teus e os meus só meus Ag E quanto ao sentido interior será que essa mesma resposta seria dada ou outra diferente Ev Sem dúvida nenhuma outra Porque os meus sentidos interiores percebem as minhas próprias sensações e os teus as tuas É por isso que freqüentemente alguém ao ver determinado objeto perguntame se também eu o vejo porque sou só eu mesmo que percebo se enxerguei ou não e não o meu interlocutor Ag E quanto à razão Não pensas que cada um de nós possui também a sua própria Pois com efeito pode acontecer que eu compreenda alguma realidade que tu não tenhas compreendido E nem possas saber se eu a compreendi ao passo que eu mesmo o sei muito bem Ev Evidentemente quanto à mente racional cada um de nós também possui a sua própria55 b Quanto ao sentido da audição 16 Ag Acaso poderias também dizer que cada um de nós possui seu próprio sol ou sua própria lua estrelas ou outras coisas semelhantes posto que os contemplamos cada um com os próprios sentidos Ev De modo algum eu diria isso Ag Podemos por conseguinte muitos de nós juntos e ao mesmo tempo ver um único objeto embora possuindo cada um os seus próprios sentidos Permitemnos eles ver juntamente e ao mesmo tempo um objeto único Assim ainda que meus sentidos sejam uns e outros os teus pode acontecer que o objeto de nossa visão não seja distinto para ti da que é para mim mesmo Que um único objeto porém esteja presente a nós dois e que o vejamos igualmente e ao mesmo tempo Ev Isso é bem evidente Ag Podemos de igual modo ouvir ao mesmo tempo uma mesma voz e assim ainda que meu ouvido seja um e outro o teu contudo a voz que ouvimos não será uma para ti e outra para mim Tampouco uma parte dessa voz vai a teu ouvido e outra ao meu Mas pelo contrário o som tal como foi emitido em sua identidade e totalidade fazse ouvir igualmente e ao mesmo tempo a cada um de nós Ev Isso também é evidente c Quanto aos sentidos do olfato e do paladar 17 Ag Agora convém também notar em relação aos demais sentidos corporais que o que se refere à questão presente não dizemos que eles se comportam de maneira totalmente semelhante à dos dois sentidos referidos o da vista e o do ouvido nem de maneira totalmente diferente Com efeito podemos eu e tu encher nossas narinas com o mesmo ar ou perceber pelo odor a qualidade deste ar E do mesmo modo um e outro podemos degustar um mesmo mel ou qualquer outro alimento ou bebida e perceber seu gosto pelo paladar ainda que esse mel seja único e que nossos sentidos nos pertençam a cada um em particular o teu a ti e o meu a mim Destarte enquanto ambos sintamos um e mesmo odor ou um só e mesmo sabor não é contudo nem por meu sentido que tu o percebes nem eu pelo teu nem por um órgão único que nos poderia pertencer em comum a cada um de nós Mas o meu sentido pertence totalmente a mim e o teu a ti ainda que nós dois sintamos um único odor ou sabor Donde se segue que esses dois sentidos o do olfato e o do paladar possuem algumas propriedades semelhantes às que possuem os dois outros sentidos o da vista e o da audição Quanto ao que se refere a nosso presente assunto porém eles diferem nisto se bem que inspiremos um e outro pelo nariz um único ar ou que degustemos um mesmo alimento contudo eu não inspiro a mesma porção de ar que tu e tampouco ingiro a mesma porção de alimento que tu Mas eu tomo uma e tu outra E assim ao respirar eu inspiro uma parte de toda a massa de ar o quanto me é suficiente Igualmente tu da massa total de ar inspiras outra parte o quanto te convém E quanto ao alimento ainda que um único em sua totalidade seja absorvido por um e outro de nós ele não pode entretanto ser absorvido totalmente por mim nem totalmente por ti da mesma maneira uma única palavra é ouvida inteiramente por mim e por ti ao mesmo tempo É tal como acontece quanto a qualquer imagem visual Ela é visível tanto por mim quanto por ti e ao mesmo tempo Quanto ao alimento e à bebida porém necessariamente será uma a parte que eu recebo e outra a que tu recebes Talvez não compreendas bastante tudo isso Ev Muito bem pelo contrário Convenho que tudo está inteiramente claro e certo d Quanto ao sentido do tato 18 Ag Acaso não te parece que se pode comparar o sentido do tato ao dos olhos e dos ouvidos do ponto de vista que ora tratamos Pois não somente podemos nós dois perceber pelo tato um mesmo corpo mas que poderás também tocar a mesma parte que eu tiver tocado De sorte que não seria somente o mesmo corpo mas também a mesma parte desse corpo que nós percebemos ambos pelo tato Porque não sucede com o sentido do tato o mesmo que acontece com o alimento que nos é apresentado Pois este não pode ser tomado todo inteiro por mim e por ti quando o ingerimos Pelo contrário para o tato o objeto que eu tocar tu podes também o tocar o mesmo e todo inteiro de modo que nós o tocamos ambos e não cada um apenas uma parte mas cada um tocao em sua tota lidade Ev Confesso que sob esse aspecto o sentido do tato tem muita semelhança com os dois outros sentidos precedentes o da vista e o da audição Vejo porém uma diferença nisto simultaneamente isto é num só e mesmo tempo é que podemos um e outro ver e ouvir totalmente uma só e mesma coisa Ao passo que quanto ao tato não podemos certamente um e outro tocar no mesmo objeto por inteiro ao mesmo tempo apenas em partes distintas Quanto à mesma parte seria somente cada um em tempos diversos Isso porque em parte alguma onde tu tocas eu posso aplicar o meu tato a não ser que tenhas retirado o teu56 19 Ag Respondeste com bastante tino Mas deves ainda considerar o seguinte como explicar que entre todos os objetos que nós sentimos há alguns que sentimos ao mesmo tempo que outros e há outros que sentimos cada um separadamente E por outro lado quanto a nossos sentidos eles mesmos como cada um de nós percebe sozinho os seus de maneira que de minha parte não percebo os teus nem tu os meus Uma vez isso estabelecido convém que advirtas ainda outro fato entre as coisas que percebemos pelos sentidos externos isto é entre os objetos corpóreos aquilo que não podemos perceber juntos mas cada um à parte é unicamente o que se torna nosso a tal ponto que podemos convertêlo e transformálo em nossa própria substância Está nesse caso por exemplo o alimento e a bebida Nenhuma das partes por mim absorvidas poderá sêlo também por ti Com efeito ainda que seja verdade que as amas tenham mastigado os alimentos antes de os servirem às crianças entretanto o que o paladar assimilou e transformou em sua própria carne não poderá de forma alguma ser devolvido para servir de alimento à criança alguma Porque quando a boca degusta com prazer algum alimento ela reserva para si uma parte por mínima que seja e de modo irreversível Isso acontece conforme as exigências da natureza do corpo Se assim não fosse não teria sabor algum na boca depois de os alimentos terem sido mastigados e dados a outros E podese dizer com igual razão quanto às partes do ar que inspiramos pelas narinas Porque ainda que possas também inspirar alguma porção do ar que eu expirei não poderás entretanto inspirar também aquilo que foi convertido em algo que me é próprio e que não pode ser devolvido Com efeito os médicos ensinam que nós também nos alimentamos ao respirar E não posso devolver o mesmo ar expirando para que possas por tua vez recebêlo aspirando por tuas narinas Quanto porém aos outros objetos sensíveis que percebemos mas sem entrentato os mudar em nossa substância corporal alterandoos nós podemos eu e tu sentilos ou ao mesmo tempo ou então alternadamente um depois do outro de modo que podes também sentir seja a totalidade do objeto seja a mesma parte do que eu sinto Tais são por exemplo a luz o som ou os corpos que tocamos sem entretanto alterálos Ev Compreendo Ag Está pois claro que os objetos percebidos por nossos sentidos corporais sem entretanto os transformarmos ficam entretanto estranhos à natureza de nossos sentidos E assim são eles um bem comum porque não são convertidos nem transformados em algo próprio nosso e por assim dizer naquilo que é de nosso uso privativo Ev Concordo perfeitamente Ag Portanto é preciso entender como sendo coisa própria e de ordem privada o que pertence a cada um de nós em particular e assim somente cada um percebe em si mesmo como pertencente propriamente à sua natureza E por sua vez é preciso entender como coisa comum e de ordem pública o que sem nenhuma alteração nem mudança é percebido por todos57 Ev Assim acontece SEGUNDA PARTE 8201438 A INTUIÇÃO DE DEUS ACIMA DA RAZÃO Capítulo 8 Os números e suas leis superiores à razão 20 Ag Coragem Atende agora e dizeme se há alguma coisa que possa ser objeto comum de visão a todos os seres capazes de raciocinar Todavia que a veja cada um com sua própria razão e espírito Alguma coisa visível a todos e que estando à disposição geral entretanto não sofre alteração pelo uso dos que dela se servem à vontade o que não acontece com o alimento e a bebida Mas que permanecem inalteráveis em sua integridade seja ela vista ou não Em tua opinião talvez nada exista com tais propriedades Ev Ao contrário Eu vejo muitas coisas dessa natureza Basta lembrar a razão e a verdade dos números Apresentamse elas a todos os que raciocinam de tal forma que aqueles que fazem cálculos cada um baseado em sua própria razão e inteligência esforçamse para adquirila Uns conseguemno mais facilmente outros mais dificilmente outros ainda não o conseguem de modo algum Todavia ela mostrase igualmente a todos os que são capazes de captála E quando alguém a percebe ninguém a transforma nem a converte em si mesmo como se fosse algum alimento E caso alguém se engane a seu respeito ela não fica desvirtuada Permanece em toda sua verdade e integridade Apenas a pessoa que se engana afunda tanto mais no erro quanto menos consegue vêla perfeitamente58 21 Ag Sem dúvida isso é bem exato Vejo que como homem bem informado nessa matéria soubeste encontrar pronta resposta Entretanto se te fosse dito que esses números estão impressos em nosso espírito não em virtude de alguma propriedade de sua natureza mas por efeito das coisas sensíveis percebidas sendo portanto como imagens dos objetos visíveis o que responderias Ou acaso és também desse parecer Ev De modo algum penso dessa maneira Pois se é pelos sentidos que percebo os números não se segue que também possa perceber por esses mesmos sentidos a lei da divisão e da adição dos ditos números É pela luz de meu espírito que corrigirei o indivíduo seja ele quem for que numa adição ou subtração me apresentar um resultado errôneo Do mesmo modo de tudo o que percebo pelos sentidos corporais como o céu esta terra e os diversos corpos que aqui se encontram eu ignoro a sua duração futura Mas ao contrário sei com certeza que sete mais três são dez E isso não somente agora mas para sempre E que nunca de modo algum sete mais três cessaram no passado e não cessarão no futuro de ser dez Tal é pois uma verdade inalterável dos números que é como disse possuída em comum por mim e por qualquer ser dotado de razão59 22 Ag Nada tenho a objetar às tuas respostas tão cheias de verdade e de certeza Mas verás igualmente que os próprios números não são percebidos por meio dos sentidos corporais E isso com facilidade quando consideramos que qualquer número recebe sua designação de número em virtude das vezes que contém a unidade Por exemplo se contém duas vezes a unidade é chamado dois Se três vezes chamase três E caso possua dez vezes a unidade então denominase dez E assim todo número sem exceção é denominado pelo número de vezes que contém a unidade Ora todo aquele que reflete sobre a verdadeira noção da unidade constata que ela não pode ser captada pelos sentidos corporais Porque todo objeto atingido por um de nossos sentidos seja ele qual for não é constituído pela unidade mas sim pela pluralidade que o forma Com efeito por ser um corpo por aí mesmo possui inúmeras partes Assim sem falar de todos os corpos do menor e dos menos distintos um corpúsculo por exemplo por menor que seja possui sem dúvida ao menos uma parte à direita e outra à esquerda uma parte superior e outra inferior uma anterior e outra posterior extremidades e uma parte do meio Devemos admitir que todas essas partes encontramse na exigüidade da menor massa corpórea que seja É porque não podemos admitir que corpo algum seja pura e realmente uma unidade Se bem que não se possa contar nele tal infinidade de partes senão quando as distinguimos pelo conceito da mesma unidade Com efeito quando procuro a unidade num corpo e que estou certo de não a encontrar por certo eu sei o que aí procurava e que não encontraria nem poderia encontrar Ou melhor dito o que não existe de forma alguma Sabendo pois que não existe um corpo uno eu sei entretanto o que seja a unidade Porque se ignorasse não poderia contar no corpo essa pluralidade e diversidade de partes Em todo lugar porém onde conheço a unidade por certo nunca será por meio dos sentidos corporais pois que eles me informam unicamente sobre os corpos nos quais a unidade pura e verdadeira está ausente como já o provamos Por outro lado se nós não percebemos a unidade pelos sentidos corporais tampouco percebemos por meio deles o número pelo menos nenhum daqueles números que nós intuímos pela inteligência Porque não há nenhum que exista a não ser por quantas vezes contém a unidade Ora essa percepção escapa aos sentidos corporais Tomemos por exemplo a metade da menor partícula corpórea seja qual for a massa dessas duas metades cada uma delas possui ainda a sua metade Essas duas partes estão no corpo sem serem elas mesmas simplesmente duas partes indivisíveis Ao contrário o número denominado dois porque possui duas vezes o que é simplesmente um vê sua metade que é precisamente o um puro e simples incapaz de ter ele mesmo uma metade ou um terço ou uma outra fração por ser simples e realmente um uno e único60 A constante ordem dos números 23 Ag Além do mais seguindo a série dos números vemos que depois de um vem o dois e esse número comparado ao precedente é o seu dobro Contudo o dobro de dois não vem logo depois dele mas sim o três por meio do qual se chega ao quatro que é o dobro de dois E essa relação estende se a toda série dos outros números conforme uma lei absolutamente certa e imutável De maneira que depois de um isto é depois do primeiro de todos os números e prescindindo deste o primeiro a seguir é o que realizará o seu duplo o dois Por sua vez depois do dois imediatamente após esse segundo número e este descontado só será o segundo número que realizará o seu dobro Porque depois de dois vem primeiramente o número três e só em segundo lugar o quatro que é o dobro de dois Depois do terceiro número isto é do três e sendo este descontado será o terceiro número que realizará o dobro Porque depois de três vem primeiramente o quatro e em seguida o cinco e só em terceiro lugar o seis que é o dobro de três E do mesmo modo depois do quatro e prescindindo deste o quarto número que é o dobro dele Porque vem primeiramente o cinco em segundo lugar o seis e em terceiro o sete e só em quarto o oito que é o dobro do quatro Assim pois vai acontecer com todos os outros o que foi verificado com o primeiro par de números isto é com o um e o dois a saber acrescentando a um número qualquer a série de unidades que ele conta a totalidade obtida é o seu dobro Pois bem essa lei da qual constatamos a imutabilidade a estabilidade e a inalterabilidade que vemos cumprida em toda série de números por meio de qual faculdade e de onde temos seu conhecimento61 Com efeito pessoa alguma por nenhum de seus sentidos corporais pode abraçar o conhecimento de todos os números por serem eles inumeráveis E como sabemos ser essa relação a mesma para todos eles Por meio de que imaginação ou em que imagem essa verdade tão certa a da série indefinida dos números mostrase a nós com tanta constância em casos inumeráveis a não ser por uma luz interior ignorada pelos sentidos corporais62 A lei dos números é universal e acessível a todos os que raciocinam 24 Ag Por essas provas e muitas outras semelhantes todos aqueles que raciocinam e a quem Deus concedeu o espírito mas igualmente a quem a teimosia não envolveu nas trevas são forçados a reconhecer que a lei e a verdade dos números escapam ao domínio dos sentidos corporais e que essas leis são invariáveis e puras oferecendose universalmente aos olhos de todos aqueles que são capazes de raciocínio63 É certo que muitas outras verdades podem ser encontradas que se apresentam por assim dizer pública e universalmente a todos os que refletem E cada um em seu espírito e sua razão e não com os sentidos corporais deixamnas invioláveis e imutáveis Foi pois por algum motivo que eu te permiti com boa vontade quando ao responderes àquela minha questão II821 de abordares principalmente estas leis e esta verdade dos números Pois de fato não é em vão que os nossos Livros Santos uniram intimamente o número à sabedoria ao escreverem Explorei igualmente o meu próprio coração para conhecer examinar e escrutar a sabedoria e o número Eclo 72664 Capítulo 9 Manifestações de sabedoria natural 25 Ag Todavia peço que me digas o que te parece precisarmos pensar a respeito da sabedoria Julgas que cada um dos homens sábios possui uma sabedoria particular Ou então crês que haja uma única sabedoria à disposição de todos como um bem comum ao qual quanto mais uma pessoa participa mais tornase sábia Ev Mas ainda não sei de que sabedoria queres falar65 Pois vejo os homens opinarem de modo diferente sobre o que seja agir ou falar com sabedoria Por exemplo Aqueles que abraçam o serviço militar crêem estar agindo de maneira sábia Ao contrário os que menosprezam esse estado e empenhamse a trabalhar na agricultura louvam de preferência essa ocupação atribuindoa à sabedoria Por outro lado aqueles que são hábeis em cogitar meios de se enriquecer crêem por aí serem sábios Em contradição os que desprezando ou repelindo todas essas coisas e qualquer espécie de bens temporais aplicam todos os seus esforços na busca da verdade a fim de adquirir o conhecimento de Deus e de si mesmos e julgam que tal seja a grande função da sabedoria E por sua vez existem aqueles que se recusam a entregarse ao lazer da busca da contemplação da verdade para dedicaremse antes a cuidados e ocupações bem penosas tornandose úteis aos homens e consagrandose à ocupação de governar e organizar com justiça as tarefas humanas Esses também consideramse como sábios Finalmente há aqueles que fazem uma coisa e outra vivendo em parte na busca da contemplação da verdade e em parte nas tarefas do serviço que julgam dever à sociedade humana Pensam eles levar a palma da sabedoria Isso omitindo aquelas inumeráveis agremiações das quais não existe nenhuma que pondo seus seguidores acima de todos não pretenda que só elas possuem o título de sábios Desse modo como se trata agora entre nós de responder não conforme ao que cremos mas conforme ao que admitimos com compreensão clara sermeá impossível responder à tua questão antes de saber não só pela fé mas também pela luz da razão em que consiste a sabedoria ela mesma66 Sabedoria Bem supremo e Verdade beatificante 26 Ag Acaso em tua opinião será a sabedoria outra coisa a não ser a verdade na qual se contempla e se possui o sumo Bem67 ao qual todos desejamos chegar sem dúvida alguma Com efeito todos aqueles de quem acabas de citar as opiniões divergentes na busca da sabedoria desejam o bem e fogem do mal Mas a razão da divergência de seus sentimentos encontrase nas diversas acepções que têm do bem Ora quem quer que conseqüentemente deseja aquilo que não deveria desejar não deixa de estar no erro ainda que não desejasse a não ser o que lhe parecia como bem Pelo contrário é impossível o erro no caso de alguém não ter desejo algum ou desejar apenas o que devia desejar Na medida pois em que todos os homens desejam a vida feliz não erram Mas na medida em que alguém abandona o caminho da vida que leva à beatitude mesmo quando declara e proclama não querer senão chegar até à beatitude nessa mesma medida erra Com efeito há erro quando seguimos um caminho que não pode nos conduzir aonde pretendemos chegar E quanto mais uma pessoa erra no caminho da vida menos ela é sábia porque tanto mais afastase da verdade na qual se contempla e se possui o Bem supremo Ora uma vez alcançado o sumo Bem cada um tornase feliz o que sem contestação todos nós queremos68 Portanto como é certo que todos queremos ser felizes é também certo que queremos possuir a sabedoria Pois ninguém é feliz sem a posse do sumo Bem cuja contemplação e posse encontramse nessa verdade que denominamos sabedoria Desse modo assim como antes de sermos felizes possuímos impressa em nossa mente a noção da felicidade visto ser por ela com efeito que sabemos com firmeza sem nenhuma hesitação afirmamos que queremos ser felizes Assim também antes de sermos sábios nós temos impressa em nossa mente a noção da sabedoria69 Em virtude da qual cada um de nós ao ser questionado se quer ser sábio responde sem sombra de hesitação que o quer Sabedoria bem comum e supremo de todos 27 Ag Logo estamos agora de acordo sobre a natureza da sabedoria Talvez as tuas palavras não puderam exprimir essa definição mas se teu espírito não o tivesse percebido de algum modo ignorarias totalmente que queres ser sábio e que tens a obrigação de o querer o que não negarás eu o penso Nessas condições quisera que me dissesses agora se és da opinião que a sabedoria oferecese ela também tal as leis e a verdade dos números como um bem comum para todos os que gozam do uso da razão Ou então que existem tantas sabedorias quanto se possa contar de sábios porque há tantas inteligências humanas quantos homens o que faz com que nada possa eu ver da tua mente nem tu da minha Ev Se o Bem supremo é único e o mesmo para todos é preciso também que a verdade o seja Pois é nela que é visto e adquirido esse bem isto é a sabedoria Ag Mas tens acaso alguma dúvida de que o Bem supremo seja ele qual for venha a ser o mesmo para todos os homens Ev Sim tenho certas dúvidas porque vejo umas pessoas pondo o seu deleite em coisas muito diversas como se essas fossem o seu Bem supremo Ag Na verdade quisera que ninguém tivesse dúvida sobre o Bem supremo assim como ninguém tem sobre a necessidade de se possuir esse Bem supremo seja ele qual for para ser feliz Mas essa é uma grande questão que talvez exija outra longa exposição Portanto suponhamos que haja com efeito tantos bens supremos quantos os objetos distintos procurados por pessoas diversas como sendo o seu bem supremo Talvez deverá seguirse daí que a própria sabedoria não seja única e comum a todos pelo fato de os bens que os homens vêm e escolhem nela serem múltiplos e diversos Se crês isso podes também duvidar de que a luz do sol seja única pelo fato de os objetos vistos por ela serem múltiplos e diversos E entre essa multiplicidade de seres cada um escolhe a seu gosto Por exemplo aquilo que alguém desejar pelo sentido da vista Um olha com agrado a altura de um monte e goza desse espetáculo Outro prefere a regularidade da planície Este a profundidade dos vales Aquele outro o verde das florestas Outro a mobilidade da superfície do mar E outro finalmente reúne todas essas belezas ou algumas delas simultaneamente para a alegria de sua vista Dessa maneira assim como apesar da diversidade e multiplicidade dos objetos que os homens vêem à luz do sol entre os quais escolhem para deleite de sua contemplação não há entretanto senão uma só e mesma luz na qual o olhar atento de cada um descobre e abraça como objeto de seu especial deleite Do mesmo modo apesar da multiplicidade e diversidade dos bens entre os quais cada um escolhe o que prefere para dele gozar contemplandoo e possuindoo e para fazer dele o seu real e verdadeiro Bem supremo não obstante é bem possível que a luz mesma da sabedoria mediante a qual se pode contemplar e possuir esses bens seja ela mesma única e comum para todos os sábios70 Ev Concordo que seja possível e nada impede que haja sabedoria única e comum a todos apesar da diversidade e multiplicidade dos bens Mas quisera saber se assim é de fato Pois admitir a possibilidade de alguma coisa ser de certa maneira não constitui que ela o seja na realidade Ag Sabemos pois por agora que existe a sabedoria mas não sabemos ainda se ela é única e comum a todos ou se cada um dos sábios possui a sua sabedoria própria como cada um possui a sua alma e a sua inteligência própria Ev É bem assim Capítulo 10 Certezas imutáveis das leis da sabedoria 28 Ag Pois bem O que te parece Quando afirmamos com segurança que existe a sabedoria e que existem homens sábios e que todos nós queremos ser felizes de onde vêm essas verdades Pois não ousarias duvidar de que sabes isso e que é essa de fato a verdade71 Ora tais verdades tu as vês como vês o pensamento que tens o qual eu ignoro totalmente a não ser que tu mo comuniques Ou então tu as vês compreendendo que eu também possa vêlas embora tu não o comuniques a mim Ev Não duvido de que tu também possas ver tais verdades mesmo que eu não as queira comunicar a ti Ag Então uma verdade única que ambos vemos cada um por sua própria inteligência não será ela algo de comum a nós dois Ev Evidentemente Ag Do mesmo modo não negarás suponho eu que devemos aplicarnos ao estudo da sabedoria e concordarás que aí está também uma verdade Ev Disso não duvido de forma alguma Ag Poderíamos além disso negar que essa verdade seja uma e ao mesmo tempo comum aos olhos de todos aqueles que a percebem não obstante cada um a perceber pela própria inteligência e não pela minha ou a tua ou de quem quer que seja Pois finalmente o objeto dessa percepção apresentase universalmente à disposião de quantos a contemplam Ev De modo algum podemos negar isso Ag E se for dito igualmente é preciso viver conforme a justiça subordinar as coisas menos boas às melhores comparar entre si as semelhantes e dar a cada um o que lhe é devido Não concordarás que tudo isso é muito verdadeiro e apresentase universalmente à minha disposição como à tua e a todos aqueles que o considerarem Ev Estou de acordo Ag Bem E se for dito o que não é corrompido isto é o íntegro é melhor do que o corrompido o eterno vale mais do que o temporal o ser inviolado mais do que aquele sujeito à violação Poderás negar isso Ev Quem o poderia Ag Logo cada um pode apropriarse dizendo serem só suas essas verdades quando elas se apresentam de maneira imutável à contemplação de todos aqueles que as podem considerar Ev Ninguém poderia sem erro declarar essas verdades serem de sua propriedade particular visto serem igualmente únicas e comuns a todos enquanto verdadeiras Ag Do mesmo modo é preciso afastar sua alma da corrupção e a dirigir para a pureza isto é urge amar não a corrupção mas a integridade Quem o negará E uma vez admitida a existência dessa verdade como não compreender que ela seja imutável e possa ser entendida por todas as inteligências capazes de a perceber Ev Isso é muito exato Ag E se for dito uma vida que adversidade alguma desvia do caminho certo e honesto é melhor do que outra vida facilmente dividida e sacudida pelas provações temporais Poderá alguém duvidar disso72 Ev Quem o duvidaria 29 Ag Já não procurarei exemplos desse gênero Basta que reconheças comigo e que me concedas como algo muito certo que essas verdades são como regras e espécie de luminares das virtudes73 e ainda que essas máximas são verdadeiras e imutáveis prestandose seja isolada seja conjuntamente como um objeto comum de compreensão a todos aqueles que as podem perceber cada um por meio de sua própria inteligência e razão Mas eu te pediria ainda se essa regra e luzeiro das virtudes conforme teu julgamento pertencem à sabedoria Pois julgarás penso eu que todo homem tendo alcançado a sabedoria é sábio Ev Assim me parece de fato Ag E que dizes Aquele que vive conforme à justiça poderia fazêlo se não visse quais são as coisas inferiores a serem subordinadas às superiores e quais as iguais a serem postas no mesmo plano e quais as coisas particulares que devem ser devolvidas a cada um Ev Uma pessoa sem a sabedoria não saberia agir assim Ag Negarás pois que uma pessoa que vê essas coisas contemplaas como sábio Ev Não o nego Ag E o que dizer daquele que vive com prudência Não escolhe ele a incorruptibilidade julgando ser preciso preferila à corrupção Ev É claro Ag Assim pois quando uma pessoa escolhe para dirigir o seu espírito aquelas coisas que na opinião de todos devem ser escolhidas podese negar que sua escolha seja feita com sabedoria Ev Não o negarei de modo algum Ag Por conseguinte uma pessoa ao digirir seu espírito na direção de quem escolhe sabiamente é indubitável que está agindo com sabedoria Ev Sim é indubitável Ag Dessa maneira aquele que nem por medo nem por ameaças afastase do fim escolhido e para o qual dirigese sabiamente age ele sem dúvida com sabedoria Ev Com efeito sem dúvida alguma Ag Por conseguinte é manifesto que tudo o que chamamos de regras e luminares das virtudes pertencem à sabedoria Com efeito quanto mais alguém acomoda sua vida a elas e vive e age desse modo tanto mais vive com sabedoria Ora nenhuma ação feita com sabedoria podese dizer que esteja desligada da sabedoria Ev É bem assim Ag Portanto quanto verdadeiras e imutáveis são aquelas leis dos números das quais como dizias anteriormente apresentamse de modo imutável e universal a todos os que as consideram e tanto são igualmente verdadeiras e imutáveis as regras de sabedoria Algumas delas eu as submeti especialmente à tua apreciação e te pareceram verdadeiras e evidentes Concordaste serem elas comuns a todas as inteligências capazes de as perceber Capítulo 11 A sabedoria e os números encontram sua fonte na Verdade imutável 30 Ev Não posso ter dúvidas acerca disso Mas bem quisera saber se essas duas realidades a saber a sabedoria e o número pertencem a um só e mesmo gênero já que as próprias santas Escrituras como lembraste reúnemas num mesmo plano ao mencionálas74 Ou acaso procederia uma da outra ou ainda uma subsistiria na outra Será que o número procede da sabedoria ou subsiste nela75 Com efeito se a sabedoria procede do número ou subsiste nela eu não ousaria afirmálo Na verdade não sei como explicar o fato de conhecendo um grande número de estudiosos de aritmética e calculadores ou sejam eles designados de modo diferente esses que sabem perfeita e admiravelmente calcular e por outro lado conhecendo eu bem pouco sábios ou mesmo nenhum a sabedoria pareceme um bem mais venerável do que o número Ag Dizes algo que eu costumo estranhar Pois quando considero em mim mesmo a verdade imutável dos números e por assim dizer as moradas ou o santuário ou região sublime onde habitam ou se conseguirmos encontrar qualquer outro nome mais conveniente para designar essa espécie de habitação e sede dos números nesse caso eu me sinto bem longe do mundo corpóreo76 E se nessa região sublime descubro alguma realidade na qual talvez me seja possível pensar nada encontro que possa ser traduzido em palavras Caio então no cansaço e volto aos objetos que nos cercam a fim de conseguir me exprimir E falo de coisas que estão diante de nossos olhos como de costume Aconteceme isso igualmente quando me aplico a pensar na sabedoria com toda atenção que posso e muito esforço Fico assim muito perplexo visto que essas duas realidades a sabedoria e o número pertencem à verdade indubitável a mais secreta e certa E acrescento ainda o testemunho das Escrituras onde essas duas coisas como lembrei acima estão mencionadas conjuntamente Portanto muito me admiro de que o número seja tido como sem valor para a imensa multidão dos homens ao passo que a sabedoria lhes seja de muito apreço Pois incontestavelmente são uma só e mesma realidade Não obstante nos Livros Sagrados é dito também sobre a sabedoria que ela atinge com força desde uma extremidade à outra e dispõe todas as coisas com suavidade Sb 81 Esse poder pelo qual ela atinge com força de uma extremidade à outra designa talvez o número E aquele em virtude do qual ela dispõe tudo com suavidade denominaria já em sentido próprio a sabedoria Já que uma e outra coisa pertencem a uma só e mesma sabedoria 31 Ag Mas por que Deus deu o número a todos os seres até mesmo aos menores e àqueles que se encontram no limite das coisas Pois os corpos também possuem seus números ainda que estejam no último lugar na escada dos seres Ao contrário Deus não deu a sabedoria aos corpos nem a todos os seres vivos mas somente às almas racionais É como se estabelecesse nelas como em seu trono para de lá dispor sobre todas as coisas até as mais ínfimas as quais são certamente dotadas de números Assim como nós julgamos facilmente os corpos como objetos ordenados inferiores a nós e que neles vemos impressos números supomos que estes também estejam abaixo de nós e por isso serem de menor valia do que a sabedoria Contudo se nos dispusermos a voltar por assim dizer em direção ao alto descobriremos que os mesmos números ultrapassam as nossas mentes e permanecem imutáveis na verdade ela mesma É por isso que bem poucas pessoas podem ser sábias ao passo que a possibilidade de fazer contas é concedida até aos néscios É também porque os homens admiram a sabedoria e apreciam menos os números Mas aqueles que são instruídos e os verdadeiros estudiosos quanto mais se afastam das impurezas terrestres tanto melhor contemplam na própria verdade o número como a sabedoria e a ambos atribuem grande estima Em comparação a essa verdade não somente o ouro e a prata mas todos os outros bens para a obtenção dos quais os homens se disputam e até a si mesmos são julgados como vis77 32 Ag Não te admires pois se os homens fazem pouco caso dos números e apreciam a sabedoria como muito preciosa É precisamente porque é mais fácil para eles fazer contas do que ser sábio Não vês que eles também estimam mais o ouro do que a luz de uma lâmpada em comparação da qual o ouro possui apenas um valor irrisível Dáse assim mais apreço a uma coisa bem inferior porque até um mendigo pode acender para si uma lâmpada ao passo que ao ouro bem poucos o possuem Quanto à sabedoria longe de mim considerála inferior em comparação ao número visto que ela lhe é idêntica Requer porém olhos capazes de a contemplar Do mesmo modo como no fogo percebese a luz e o calor que são por assim dizer consubstanciais sem poderem ser separados um do outro contudo o calor atinge somente os objetos que se colocam perto dele A luz entretanto difundese também nos lugares mais distantes e espaçados De igual maneira o poder da inteligência inerente à sabedoria inflama com seu calor os seres mais próximos a ela como são as almas racionais Quanto aos seres mais afastados como os corpos esses não são tão atingidos pelo calor da sabedoria também se inundados pela luz dos números Tudo isso pode talvez ser obscuro para ti pois não se pode de modo adequado adaptar alguma comparação de coisas visíveis a algo invisível Observa somente um ponto que aliás bastaria como conclusão para a questão em pauta Será ele evidente até para espíritos humildes como os nossos Se não podemos saber claramente se o número está contido na sabedoria ou se procede dela ou ainda se a própria sabedoria vem do número ou existe nele finalmente se é possível ver uma mesma realidade sob nome duplo o que é evidente em qualquer caso é que a sabedoria como o número é verdadeira e imutavelmente verdadeira78 Capítulo 12 A Verdade imutável o próprio Deus 33 Ag Conseqüentemente de modo algum poderias negar a existência de uma verdade imutável que contém em si todas as coisas mutáveis e verdadeiras79 E não as poderás considerar como sendo tua ou como exclusivamente minha nem de ninguém Pelo contrário apresentase ela e oferecese universalmente a todos os que são capazes de contemplar realidades invariavelmente verdadeiras É ela semelhante a uma luz admiravelmente secreta e pública ao mesmo tempo Ora a respeito de algo que pertence assim universalmente a todos os que raciocinam e compreendem poderseia dizer que pertence como própria à natureza particular de alguém Tu te lembras penso eu de nossas considerações precedentes II71519 sobre os sentidos corporais80 A respeito daqueles objetos que percebemos em comum pelos sentidos da vista ou do ouvido tal como as cores e os sons nós os vemos ou entendemos conjuntamente tanto eu como tu E contudo esses objetos não pertencem à natureza de nossos olhos ou ouvidos mas nos são comuns enquanto objetos de percepção Assim não dirias sobre esses objetos que nós percebemos um e outro em comum cada um com sua própria mente que eles constituam a natureza individual da mente de qualquer de nós Porque se os olhos de duas pessoas vêem juntos ao mesmo tempo um objeto será impossível esse objeto ser identificado com os olhos desta ou daquela Será esse objeto terceira coisa para a qual se dirigem os olhares de uma pessoa e outra Ev Nada de mais claro e verdadeiro Inferioridade da mente diante da verdade incapaz de julgála e susceptível de constante mutabilidade 34 Ag Portanto esta verdade sobre a qual estamos falando há tanto tempo e a qual mesmo sendo uma só nos faz perceber tantas coisas será ela no teu parecer mais excelente do que nossa mente Igual a ela Ou até inferior Se fosse inferior nossos julgamentos longe de se regulamentarem sobre ela julgariam a ela mesma tal como nós julgamos os corpos E acontece isso porque estes são inferiores à mente humana Dizemos dos corpos muitas vezes não somente que são ou não assim que deviam ser ou não de tal modo E igualmente sobre nossa alma sabemos não apenas que ela possui tal ou tal maneira de ser mas que talvez deveria possuir tal ou tal outro modo de ser De fato a respeito dos corpos é desse modo que julgamos ao dizer este é menos branco do que deveria ser ou é menos quadrado e ainda a respeito de muitas outras propriedades Sobre nossa alma dizemos ela é menos capaz do que deveria ser ou menos condescendente ou menos corajosa conforme a modalidade com que se apresenta nosso estado moral E nós formamos esses julgamentos de acordo com aquelas regras interiores da verdade que todos possuímos em comum E de modo algum ninguém vem a julgar essas mesmas regras Com efeito quando alguém afirma as coisas eternas são superiores às temporais ou então sete e três são dez ninguém diz isso deveria ser assim Pelo contrário cada um apenas constata ser assim Ninguém corrige como se fosse algum censor mas registra com alegria como uma descoberta Por outro lado se a verdade fosse igual às nossas mentes ela se tornaria mutável como elas são já que nosso entendimento às vezes vê de modo mais claro outras vezes menos E por aí revela ser mutável Ao passo que a verdade permanecendo a mesma em si mesma não ganha nada quando a vemos mais claramente nem nada perde quando a vemos menos bem Ela guarda sempre sua integridade e sua inalterabilidade81 Aqueles que mantêm seu olhar voltado para ela alegramse pois são iluminados E ficam cegos os que se recusam olhar em sua direção E que dizer ainda Não é também em conformidade com a verdade que emitimos juízos sobre a nossa própria mente sem que ninguém possa proferir de modo algum juízos a respeito da verdade ela mesma Com efeito afirmamos fulano compreende menos do que devia ou compreende tanto quanto devia Ora a medida conforme a qual a mente humana deve compreender é a medida mesma com que consegue aplicarse e unirse à verdade imutável Assim pois se a verdade não é nem inferior nem igual a nossa mente seguese que ela só pode ser superior e mais excelente do que ela82 Capítulo 13 Exortação a abraçar a Verdade fonte única da felicidade 35 Ag Eu te havia prometido se te lembras de haver de provar que existe uma realidade muito mais sublime do que a nossa mente e nossa razão cf II614 Eila diante de ti é a própria Verdade Abraçaa se o podes Que ela seja o teu gozo Põe tuas delícias no Senhor e ele concederá o que teu coração deseja Sl 364 Pois o que desejas senão ser feliz E haverá alguém mais feliz do que aquele que goza da inabalável imutável e muito excelente Verdade83 Por certo os homens dizemse felizes quando abraçam belos corpos objetos de seus ardentes desejos sejam os de suas esposas sejam os de suas amantes E duvidaríamos nós de nossa felicidade quando abraçamos a Verdade Proclamamse felizes os homens quando para refrescar a garganta ressequida pelo calor chegam até uma fonte abundante e pura Ou quando famintos encontram para saciar a fome a refeição do meiodia ou a da noite abundante e esmerada E negaríamos nós que somos felizes quando a mesma Verdade sacia nossa sede e nossa fome Muitas vezes ouvimos a voz daqueles que se dizem felizes porque descansam em leito de rosas e flores variadas Ou ainda deleitamse com os mais delicados perfumes Mas existe algo mais perfumado algo mais agradável do que o sopro da Verdade E duvidaríamos nós de nos dizer felizes quando a aspiramos Muitos põem a felicidade de sua vida em ouvir cantos de vozes humanas e o som de instrumentos musicais Se lhes faltam tais prazeres consideramse infelizes Mas caso lhes sejam devolvidos transbordam de alegria E nós Quando certo silêncio eloqüente e harmonioso da Verdade penetra por assim dizer sem qualquer ruído em nossa mente haveríamos de procurar outra vida feliz em vez de gozarmos desta tão presente e segura em nós Os homens crêemse felizes quando deleitados com o brilho do ouro ou da prata com o brilho das pedras preciosas ou de outros objetos coloridos ou com o esplendor e encanto da própria lua destinada a iluminar nossos olhos corporais venha ela do fogo da terra das estrelas da luz ou do sol não são afastados desse deleite por desgosto nem necessidade alguma sentemse deveras felizes e desejariam viver para sempre desse modo a fim de gozar de tais prazeres E nós temeríamos pôr a felicidade de nossa vida na contemplação da luz da Verdade A Verdade vive na mente humana 36 Ag Muito pelo contrário já que é na verdade que conhecemos e possuímos o Bem supremo e já que essa Verdade é a Sabedoria fixemos nela nossa mente para captarmos esse Bem e gozarmos dele Pois é feliz aquele que desfruta do sumo Bem Com efeito essa verdade contém em si todos os bens verdadeiros entre os quais os homens conforme o grau de sua inteligência escolhem para si um só ou diversos deles para seu gozo Ora há homens que à luz do sol fixam com agrado seus olhos sobre certo objeto para o contemplar com deleite Talvez haja entre esses homens alguns cujos olhos sejam mais vigorosos mais sadios e potentes Esses nada olham com maior prazer do que o próprio sol pelo qual são iluminados todos os outros objetos E é justamente nesses objetos que os olhos dos mais fracos encontram o seu deleite A mesma coisa acontece quanto a uma inteligência mais vigorosa e forte depois de ter considerado com certeza racional um bom número de verdades imutáveis seu olhar dirigese para a Verdade mesma da qual toda verdade recebe sua luz Aderindo a ela eles como que esquecem tudo mais gozando nela só e ao mesmo tempo de todas as outras coisas Pois tudo o que agrada nas verdades particulares tira evidentemente o seu encanto da própria Verdade84 Capítulo 14 A Verdade fonte de liberdade e segurança 37 Ag Eis no que consiste a nossa liberdade estarmos submetidos a essa Verdade É ela o nosso Deus mesmo o qual nos liberta da morte isto é da condição de pecado Pois a própria Verdade que se fez homem conversando com os homens disse àqueles que nela acreditavam Se permanecerdes na minha palavra sereis em verdade meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará Jo 8313285 Com efeito nossa alma de nada goza com liberdade se não o gozar com segurança Ora ninguém pode viver com segurança no meio de bens que pode vir a perder contra a sua vontade A verdade e a sabedoria ninguém as pode perder contra a própria vontade Pois ninguém pode ficar separado delas por distâncias de lugar O que se pode entender por ficar separado da verdade e da sabedoria será o amor dos bens inferiores Aliás ninguém quer alguma coisa sem de fato o querer Logo nós possuímos na verdade um bem do qual todos podemos gozar igualmente e em comum Nesse gozo não existe estreiteza alguma nem defeito nenhum A Verdade acolhe todos aqueles que a amam sem suscitar qualquer inveja Ela dáse a todos do mesmo modo e permanece pura em relação a cada um Nunca alguém virá a dizer a um outro que está junto da verdade Retirate para que eu possa também me aproximar dela Afasta teus braços para que eu também a abrace Não Todos lhe estão estreitamente unidos todos a retêm ao mesmo tempo Oferecese em alimento a todos sem ter de se repartir em diversas partes Tu nada bebes dela sem que eu não possa também beber Pois nada que dela recebes tornase tua propriedade exclusiva Pelo contrário o que dela recebes permanece também para mim em toda sua integridade O que dela inspiras não espero que o tenhas exalado para que venha a inspirar por minha vez Pois nada da verdade tornase propriedade de um só ou apenas de alguns mas simultaneamente ela é toda inteira e comum a todos86 A transcendência da Verdade 38 Ag Conseqüentemente esta verdade possui menos analogia com os objetos dos sentidos do tato do gosto e do olfato do que com os objetos atingidos pelos sentidos do ouvido e da vista Pois toda palavra escutada é ouvida ao mesmo tempo totalmente por todos e cada um E assim também quanto aos objetos postos diante dos olhos Tanto vê uma pessoa quanto outra ao mesmo tempo Mas essas semelhanças são ainda sem dúvida muito imperfeitas De fato cada palavra seja qual for não soa inteiramente ao mesmo tempo Ela estendese no espaço por intervalos e prolongase no tempo Uma de suas partes soa primeiro outra só depois Do mesmo modo toda imagem visual ocupa certo campo no espaço e não é vista totalmente em toda parte Além do mais todas essas coisas podem nos ser arrebatadas sem que o queiramos e muitas são as dificuldades que podem nos impedir a possibilidade de gozar delas Realmente se um cantor pudesse ter uma voz muitíssimo melodiosa e prolongar indefinidamente os amantes do canto apressarseiam à porfia para escutálo Empurrarseiam mutuamente e disputariam os lugares Isso tanto mais quanto mais numerosos fossem a fim de cada um poder ficar mais perto do dito cantor Mesmo assim da melodia ouvida não poderiam reter nada que pudessem conservar consigo Pelo contrário não haveriam de perceber senão sons esparsos Do mesmo modo se quiséssemos contemplar o sol e se o pudéssemos fazer sem interrupção ele não só nos deixaria no momento do poente mas também poderia ficar oculto à nossa vista devido às nuvens Além do mais muitos outros obstáculos nos fariam perder o prazer de o contemplar contra nossa vontade Enfim ainda que eu tivesse sempre presente o encanto da luz para minha vista e o do canto para os meus ouvidos o que retiraria eu de glorioso de tudo isso sendo essas coisas comuns a mim e aos animais Pelo contrário aquela beleza da Verdade e da Sabedoria enquanto persistir a vontade de gozar dela de modo perseverante nem a multidão de ouvintes amontoados em sua volta exclui os recém chegados Tampouco o tempo lhe põe um fim nem ela muda de lugar para lugar A noite não a interrompe Nem as trevas a podem esconder E ela não está subordinada aos sentidos corporais Está perto de todos aqueles que a amam e voltamse para ela em qualquer parte do mundo Para todos ela está sempre próxima e para todos dura eternamente Não está em lugar nenhum e apesar disso nunca está ausente de parte alguma Advertenos do exterior e ensinanos interiormente87 Torna melhores todos os que a contemplam e ninguém a pode tornar pior ou a deteriorar Pessoa al guma é seu juiz mas sem ela ninguém pode ser julgado com retidão A verdade é pois sem contestação superior e mais excelente do que nós porque ela é una e ao mesmo tempo torna sábia separadamente cada uma de nossas mentes e as faz juízes das outras coisas todas Jamais porém a mente é juiz em relação à Verdade transcendente TERCEIRA PARTE 15392054 TUDO O QUE É BOM E PERFEITO VEM DE DEUS Capítulo 15 Conclusão de toda a argumentação anterior Deus existe 39 Ag Ora Evódio tu admitiste que se te eu demonstrasse a existência de uma realidade superior à nossa mente reconhecerias ser Deus essa realidade Mas só no caso de nada existir acima dessa realidade E ao aceitar essa concessão disse eu que me bastaria com efeito fazer tal demonstração Pois se houvesse alguma realidade mais excelente essa precisamente seria Deus E se não houvesse nada mais excelente do que ela então imediatamente essa mesma verdade seria Deus Em ambos os casos todavia não poderias negar que Deus existe E precisamente era esta a questão que nós nos tínhamos proposto debater e discutir88 Agora se em vista disso estás perplexo recorda aquilo em que cremos conforme o ensino sagrado de Cristo ou seja que existe o Pai da Sabedoria Lembrate desta outra doutrina pertencente também à nossa fé que a Sabedoria gerada pelo Pai eterno lhe é perfeitamente igual É porque nada há mais a discutir no momento a respeito desse ponto mas somente guardarmos esse ensino com fé inabalável Deus pois existe Ele é a realidade verdadeira e suma acima de tudo E eu julgo que essa verdade não somente é objeto inabalável de nossa fé mas que nós chegamos a ela pela razão como sendo uma verdade certíssima ainda que sua visão não nos seja muito profunda pelo conhecimento89 Mas bastanos isso para podermos explicar os outros aspectos de nosso assunto A não ser que tenhas alguma objeção a opor a essas conclusões Ev Quanto a mim sintome inundado por uma alegria realmente incrível Minhas palavras não conseguem exprimila Aceito estas tuas conclusões proclamandoas certíssimas Exclamo pois com minha voz interior a qual exprime o desejo de ser atendido pela Verdade mesma e de unirme a ela E essa união eu o confesso não somente é um bem mas o sumo Bem fonte de beatitude90 O desejo de sabedoria é inerente a nosso espírito 40 Ag Muito bem Igualmente alegrome profundamente Mas dizeme Somos nós porventura desde agora sábios e felizes ou estamos ainda a caminho desse estado a ser atingido Ev Penso que ainda tendemos a isso Ag De onde pois tiras a compreensão dessas verdades e certezas das quais dizes te alegrar Pois concedes que elas pertencem à sabedoria Poderá um ignorante insipiens conhecer a sabedoria Ev Enquanto for ignorante não o poderá Ag Portanto ou já te tornaste sábio ou então ainda és ignorante Ev Na verdade ainda não sou sábio Mas tampouco me considero como ignorante posto que conheço a sabedoria Com efeito as conclusões a que cheguei são certas E não posso negar que elas pertençam à sabedoria Ag Peçote de me dizer não concordas que aquele que não é justo é injusto E quem não é prudente é imprudente E quem não é temperante é intemperante Podese duvidar de alguma dessas afirmações Ev Concordo que um homem quando não é justo é injusto E responderia o mesmo a respeito do prudente e do temperante Ag Agora por que então quando alguém não é sábio deixará de ser ignorante Ev Aceito também que aquele que não é sábio é ignorante Ag Pois bem E tu qual dessas coisas és Ev Qualquer que seja a maneira como me denominar não me atrevo ainda a me considerar sábio Por outro lado pelo que concordei seguese eu o constato que não devo hesitar em me ter como ignorante Ag Logo o ignorante conhece a sabedoria Com efeito como dissemos ele não estaria certo de desejar ser sábio nem que isso seja de fato algo irrecusável caso a idéia de sabedoria não estivesse inerente a seu espírito Assim está em ti a idéia dessas realidades obtidas e sobre as quais respondeste muito bem quando te propus questões Essas coisas pertencem de fato à sabedoria cujo conhecimento te causou tanta alegria Ev É bem como dizes Capítulo 16 A sabedoria manifestase aos que a procuram graças aos números impressos em cada ser 41 Ag Quando nós nos esforçamos para nos tornar sábios o que fazemos a não ser concentrar toda nossa alma com o maior zelo possível ao que contemplamos com a mente colocandoa aí de modo estável Ela assim não se compraz mais com seu eu particular ligado às coisas transitórias mas despojada de toda afeição às coisas sujeitas ao tempo e ao espaço procura abraçar o Ser que é uno e sempre idêntico a si mesmo Pois na verdade assim como a alma é toda a vida do corpo do mesmo modo toda vida bemaventurada da alma é Deus Enquanto vamos executando esse trabalho até o levarmos à sua hora de perfeita realização estamos ainda a caminho E já que nos é concedido gozar desses bens verdadeiros e seguros embora sejam como espécie de lampejos em nossa viagem ainda tenebrosa observa se não seria o que a Escritura diz sobre a Sabedoria referindose à sua conduta em relação àqueles que a amam que vêm a seu encontro e a procuram Com efeito está dito Ela se mostrará a eles jubilosamente nos caminhos e irá a seu encontro com toda a solicitude Sb 616 Efetivamente em qualquer lugar onde olhares a sabedoria te fala pelos vestígios que imprimiu em todas as suas obras E quando recais de novo no amor às coisas exteriores é valendose da própria beleza dos seres exteriores que ela te chama a teu interior E isso a fim de que vendo tudo quanto te encanta nos corpos e te seduz através dos sentidos corporais reconheças que está repleto de números Ao indagares de onde vem isso entra em ti mesmo e compreende tua impotência de julgar para o bem ou para o mal os objetos percebidos por teus sentidos Pois não poderias aprovar ou desaproválos se não tivesses dentro de ti certas leis estéticas às quais confrontas todas as belezas sensíveis do mundo exterior A sabedoria regula pelos números a harmoniosa evolução do universo 42 Contempla o céu a terra o mar e todos os seres neles contidos brilhando nas alturas ou rastejando a teus pés voando ou nadando Todos possuem beleza porque têm seus números Suprimaos e eles nada mais serão91 Logo de onde vêm eles a não ser daquele de onde procede todo número Visto que o ser que neles está não existe a não ser na medida que realiza os números que possui Até os artistas humanos possuem em sua própria mente números de todas as belezas corporais para conformar a eles as suas obras Com as mãos e os instrumentos eles trabalham até que o objeto que modelam exteriormente seja relacionado com a luz interior que possuem dos seus números Isso para que sua obra possa adquirir toda a perfeição possível Será ela expressa pelos sentidos de modo a agradar o juiz interior o qual intui os números transcendentes Indaga depois quem move os membros do próprio artista Não será também pelo número que eles são movidos com regularidade conforme as leis dos números E se tiras das mãos a obra que o artista modela e de sua alma a intenção de a elaborar e se não houver outra finalidade a não ser dar prazer ao movimento de seus membros não será isso o que se denomina dança Verifica o que agrada na dança e o número responderteá ainda Sou eu Contempla agora a beleza de um corpo bem formado são os números a ocupar o seu lugar Observa a beleza dos movimentos corporais são os números atuando no tempo Penetra na região de onde procedem os números Examina aí o tempo e o espaço a arte não está em nenhum lugar e em tempo algum Contudo aí reina o número Sua mansão não está no espaço nem sua duração nos dias Contudo os aprendizes dobrandose às regras da arte a que estão a aprender com o desejo de se tornarem artistas movem seu corpo no tempo e no espaço Ao passo que a alma só se move no tempo pois é com o andar do tempo que a arte é aperfeiçoada Ultrapassa agora a mesma alma do artista e fixate até vislumbrar o número sempiterno A sabedoria então resplandecerá diante de ti vinda de seu trono mais secreto e do próprio santuário da Verdade E se teu olhar ainda muito fraco ficar ofuscado à sua vista reconduz o olhar de teu espírito na direção daquele caminho onde ela se revelava tão amigavelmente Lembrate porém apenas que deixaste para mais tarde essa contemplação para a retomares quando ficares mais robusto e mais vigoroso Infelizes os que não reconhecem nos seres criados o reflexo da sabedoria de Deus 43 Ó Sabedoria luz suavíssima da mente purificada Infelizes os que te abandonam A ti que és o seu guia e assim extraviamse entre teus vestígios Ai dos que amam teus sinais em vez de amar a ti esquecendose do que ensinas Pois tu não cessas de nos dar a entender quem és e quão grande és São acenos teus todas as belezas das criaturas Já que até o artista insinua por assim dizer a quem contempla a sua obra para que contemplando a beleza que elaborou não se retenha totalmente nela mas ao percorrer com os olhos a beleza da obra criada não seja de tal maneira que suscite apenas seu afeto e admiração para com aquele que a executou A quem se parecem os que amam as tuas obras em vez de te amar a ti Assemelhamse a homens que ao ouvirem um sábio falar com eloqüência escutamno avidamente a suavidade de sua voz é a cadência de seus períodos Isso a tal ponto que perdem de vista o principal isto é o conteúdo do pensamento do orador Ora as palavras são apenas um sinal Infelizes daqueles que se afastam de tua luz e mergulham com delícia na própria obscuridade Será como se voltassem as costas para ti ó Sabedoria e precipitassem em suas obras carnais como na própria sombra Entretanto isso mesmo que lhes causa prazer é apenas irradiação de tua luz Mas essas sombras que amam tornam o olhar da alma mais débil e incapaz de gozar de tua vista É porque o homem afunda mais e mais nas trevas à medida que abraça com mais gosto aquilo a que a sua fraqueza adaptase com maior facilidade Começa assim a menosprezar o Ser supremo e a não mais julgar como mal tudo o que engana sua imprevidência seduz sua indigência ou atormenta a sua escravidão Ora esses sofrimentos são a justa punição por tua perversão pois nada do que é conforme a justiça pode ser mal A sabedoria comunicada a todos os seres 44 Portanto sejam quais forem os seres mutáveis que vês não os podes perceber nem pelos sentidos corporais nem pela aplicação do espírito a não ser que eles recebam certa perfeição própria dos números sem a qual recairiam no nada Logo não duvides que existe uma forma eterna e imutável em virtude da qual esses seres mutáveis não se desfazem mas antes com seus movimentos compassados e grande variedade de formas compõem uma espécie de poemas temporais Esse Ser eterno e imutável não está contido nem se difunde por lugares nem se prolonga e varia no correr dos tempos Mas é por sua Perfeição Forma que puderam se formar todas as coisas que nos rodeiam ajustaremse e serem produzidas conforme os números próprios de acordo com o seu gênero no tempo e no espaço92 Capítulo 17 O princípio de participação Todo bem e toda perfeição é recebida de Deus 45 Todo ser mutável é necessariamente também susceptível de perfeição formabilis est Pois assim como denominamos mutável o que pode ser mudado do mesmo modo chamamos perfectível o que pode receber uma perfeição Ora coisa alguma pode se aperfeiçoar a si mesma porque coisa alguma pode se dar a si aquilo que não possui E por certo é para receber uma perfeição que o ser é aperfeiçoável Se pois todo ser que já possui uma perfeição não precisa receber o que já possui e pelo contrário se todo ser que não possui a perfeição não pode se dar o que não tem em conseqüência nenhuma realidade pode se aperfeiçoar a si mesma como dissemos93 E o que direi a mais sobre a mutabilidade da alma e do corpo Por certo o que afirmamos anteriormente é suficiente O que já ficou estabelecido pois se impõe a alma e o corpo devem receber sua perfeição de outro ser a Perfeição imutável e eterna Aquela da qual foi dito Tu os mudarás e eles ficarão mudados mas tu permaneces sempre o mesmo e os teus anos jamais findarão Sl 1012728 Esses anos que jamais findarão estão postos por eternidade nessa expressão do profeta Igualmente dessa Perfeição ainda está dito que permanece em si mesma sem nada mudar ela tudo renova Sb 727 Isso é para que se compreenda também que todas as coisas são governadas por uma Providência Visto que todas as realidades que existem recairiam completamente no nada caso fossem privadas de sua perfeição própria É porque aquela imutável Perfeição pela qual todos os seres mutantes subsistem é ela mesma uma Providência Esses seres realizamse movemse conforme os números de suas próprias perfeições Realmente essas realidades não teriam existência se aquela Suma Perfeição não existisse Assim todo aquele que se dirige para a sabedoria constata olhando e considerando as criaturas do universo que essa sabedoria revelase a ele no caminho Ela vem a seu encontro com um semblante alegre plena de toda solicitude e providência É porque o seu ardor em percorrer esse caminho inflamase tanto melhor quanto mais o próprio caminho recebe sua beleza daquela sabedoria junto a qual deseja ardentemente chegar Conclusão 46 Mas ó Evódio se acaso encontras além dos seres que têm a existência mas não a vida dos que têm a existência e a vida mas esta sem a inteligência e dos que têm a existência a vida e a mais a inteligência digo se encontras além desses algum outro gênero de seres então não receies afirmar que existe algum bem que não procede de Deus94 Esses três gêneros de seres com efeito podem ainda ser designados simplesmente por dois nomes corpo e vida Pois esse termo vida convém muito bem seja aos seres não tendo senão a vida sem inteligência tais os animais seja aos que possuem a inteligência como os homens Ora esses dois princípios a saber o corpo e a vida são evidentemente tomados aqui enquanto pertencentes às criaturas porque o Criador também possui a vida e essa ao supremo grau Ora aquelas duas criaturas o corpo e a vida sendo perfectíveis como dissemos acima e podendo recair no nada pela perda total de suas perfeições mostramnos bastante que elas tiram sua existência daquela Perfeição que é sempre idêntica a si mesma É porque todos os bens sejam eles quais forem do maior ao menor não podem proceder senão de Deus Com efeito o que há de mais excelente entre as criaturas do que a vida da inteligência E o que há de mais inferior do que o corpo Ora sejam quais forem as deficiências a qual estão sujeitos e mesmo se tenderem muito de perto para o nãoser todavia restalhes certa perfeição que lhes dá de algum modo a existência Pois bem esse pouco de perfeição que sobra ao ser seja qual for procede daquela Perfeição a qual desconhece a mutabilidade e a deficiência e que não permite aos próprios movimentos dos seres que estão em decadência ou em progresso saírem das leis de seus respectivos números Por essa razão tudo o que se observa de admirável na natureza das coisas no universo e que julgamos dignos de admiração intensa ou fraca deve ser referido com incomparável e inefável louvor ao Criador A menos que tenhas alguma objeção a fazer Capítulo 18 O livrearbítrio é um bem em si mesmo 47 Ev Declaro estar suficientemente convicto de que existe um modo o quanto é possível nesta vida para homens como nós de tornar evidente estes dois princípios primários que Deus existe e que todos os bens procedem de Deus Isso porque todos os seres existentes os que têm a inteligência a vida e a existência os que somente possuem a vida e a existência como os que possuem somente a existência todos vêm de Deus Vejamos agora se é possível esclarecer a terceira questão proposta a saber convém considerar a vontade livre do homem entre os bens Uma vez esse ponto demonstrado concederei sem hesitação que Deus nola deu e que convinha nola ter dado95 Ag Tu te lembraste com exatidão dos assuntos propostos Notaste perfeitamente que a segunda questão Que todo bem procede de Deus está explicada Mas deverias ter notado que também esta a terceira está resolvida Pois parecia a ti como dizias que o livrearbítrio da vontade não devia nos ter sido dado visto que as pessoas servemse dele para pecar Eu opunha à tua opinião que não podemos agir com retidão a não ser pelo livrearbítiro da vontade96 E afirmava que Deus nolo deu sobretudo em vista desse bem Tu me respondeste que a vontade livre devia nos ter sido dada do mesmo modo como nos foi dada a justiça da qual ninguém pode se servir a não ser com retidão Essa resposta lançounos a entrar em múltiplos rodeios neste diálogo com a finalidade de te provar que todos os bens os menores como os maiores chegamnos unicamente por meio de Deus Mas tal conclusão não teria sido posta com clareza se não tivéssemos antes refutado o sentimento ímpio do insensato que diz em seu coração Deus não existe Sl 131 Empenhamonos então em uma discussão capaz de nos trazer alguma evidência certos da proteção do mesmo Deus em tão arriscada viagem Ora essas duas verdades que Deus existe e que todos os bens vêm dele nós já admitimos com fé inabalável Entretanto nós as expusemos de tal forma que a terceira verdade também se torna plenamente evidente a saber que a vontade livre deve ser contada entre os bens recebidos de Deus Ainda que o homem possa usar mal da liberdade a sua vontade livre deve ser considerada como um bem 48 Ag Com efeito a discussão precedente já demonstra e nós o admitimos a natureza corpórea ser de grau inferior à natureza espiritual E daí se seguir que o espírito é um bem maior do que o corpo Ora entre os bens corpóreos encontrase no homem alguns de que ele pode abusar sem que por isso digamos que esses bens não lhes deveriam ter sido dados pois reconhecemos serem eles um bem Sendo assim o que há de espantoso que exista no espírito também abusos de alguns bens mas que por serem bens não puderam ter sido dados a não ser por Aquele de quem procedem todos os bens Com efeito vês que grande privação é para o corpo não ter as mãos e contudo acontece que há quem use mal das próprias mãos Realizam com elas ações cruéis ou vergonhosas Se visses uma pessoa sem pés afirmarias que lhe falta à integridade do corpo um bem muito valioso Entretanto aquele que se serve de seus pés para prejudicar ao próximo ou se avilta a si mesmo estaria usando mal de seus pés Negarias isso Com os olhos vemos esta luz do dia e distinguimos as diversas formas corporais São eles elementos de máxima beleza em nosso corpo Assim estão eles colocados como no ápice em tributo à sua dignidade Seu uso contribui para salvaguardar o homem e trazem eles à nossa vida muitas vantagens Entretanto muitos se servem deles para praticarem grande número de ações vergonhosas e obrigamnos a servir às suas paixões Ora compreendes quão precioso bem falta ao rosto quando lhe faltam os olhos Todavia se eles existem quem nolos deu a não ser Deus o dispensador de todos os bens Por conseguinte do mesmo modo como aprovas a presença desses bens no corpo e que sem considerar os que deles abusam louvas o doador de igual modo deve ser quanto à vontade livre sem a qual ninguém pode viver com retidão Deves reconhecer que ela é um bem e um dom de Deus e que é preciso condenar aqueles que abusam desse bem em vez de dizer que o doador não deveria têlo dado a nós Entre os três graus de bens a liberdade ocupa um grau médio 49 Ev Primeiramente desejo que me proves que a vontade livre é um bem Concederei logo em seguida que ela é um dom de Deus porque reconheço que todos os bens procedem de Deus Ag Mas enfim já te provei não sem grande esforço em nossa discussão precedente e tu reconheceste que toda beleza e toda perfeição corporal decorrem da Perfeição Forma suprema de todas as coisas isto é da Verdade E tu concedeste todas elas serem um bem De fato até os nossos cabelos são contados Mt 1030 como nos diz no Evangelho a própria Verdade Ou será que esqueceste o que dissemos sobre a sublimidade do número de seu poder que se estende de uma extremidade a outra Logo podes julgar extravagância considerar nossos cabelos entre os bens sem dúvida diminutos dos mais desprezíveis mas enfim bens sem encontrarmos outro doador senão Deus criador de todos os bens Porque todos os bens tanto os maiores como os menores são dados por Aquele de quem procede todo bem E assim por outro lado como duvidar ainda a respeito da vontade livre do homem sem a qual conforme o parecer daqueles mesmos que levam vida perversa ninguém poderia viver Agora respondeme eu te peço o que te parece melhor em nós aquilo sem o que se pode viver com retidão ou alguma coisa sem a qual não se pode viver retamente Ev Perdoame eu te rogo Sinto vergonha de minha cegueira Quem hesitaria de achar muito melhor um bem sem o qual não há vida honesta Ag Assim sendo negarás agora que um cego possa viver honestamente Ev Longe de mim uma demência tão grande Ag Se pois concedes que os olhos são no corpo um bem cuja carência contudo não impede de se viver honestamente a vontade livre poderá te parecer não ser um bem quando sem ela ninguém pode viver honestamente Capítulo 19 Entre os grandes bens as virtudes cardeais 50 Ag Considera agora a justiça da qual ninguém pode abusar Ela é contada entre os maiores bens que existem no homem Como também o são todas as virtudes da alma com as quais se pode levar vida boa e honesta Tampouco ninguém poderá abusar da prudência nem da força nem da temperança Com efeito nelas como na justiça a qual te referiste reina a reta razão sem a qual virtude alguma pode existir Por certo pessoa alguma pode abusar dessa reta razão O livrearbítrio não é o bem mais perfeito Ag Aí estão pois bens muito excelentes Convém porém te lembrares de que não somente os grandes bens mas também os pequenos só podem provir daquele por quem existem todos os bens isto é de Deus Tal foi a conclusão da qual ficamos convencidos na discussão precedente cf II1745 à qual destes com freqüência e com alegria o teu consentimento Portanto as virtudes pelas quais as pessoas vivem honestamente pertencem à categoria de grandes bens As diversas espécies de corpos sem os quais podese viver com honestidade contamse entre os bens mínimos E por sua vez as forças do espírito sem as quais não se pode viver de modo honesto são bens médios Das virtudes ninguém usa mal todavia dos outros bens isto é dos médios e dos inferiores pode se fazer seja bom seja mau uso O motivo pelo qual ninguém usa mal das virtudes é que a obra virtuosa consiste precisamente no bom uso daquelas coisas das quais podemos também abusar Ora o bom uso nunca pode ser um abuso Assim Deus na superabundância e na grandeza de sua bondade pôs à nossa disposição não somente grandes bens mas também bens médios e outros inferiores Essa bondade divina deve ser glorificada de preferência pelos grandes bens doados mais do que pelos médios Da mesma forma mais pelos bens médios do que pelos pequenos Todavia por todos eles Deus deve ser glorificado Pois isso é melhor do que se eles não nos tivessem sido concedidos Digressão a vontade livre que se serve de tudo mais servese também de si mesma 51 Ev De acordo Um ponto porém me preocupa ainda Com efeito estamos tratando agora a respeito da vontade livre Verificamos que ela mesma pode servirse ora bem ora mal das coisas Assim como poderemos nós contála entre as coisas das quais nos servimos Ag Da mesma maneira como os conhecimentos requeridos pela ciência nos são conhecidos pela razão e entretanto a própria razão está posta no número dos objetos conhecidos por ela mesma Porventura esqueceste isso Quando procurávamos quais os objetos que se conhecem pela razão tu afirmaste que se conhece a razão por meio da mesma razão cf II613 Não te admires pois se usando das outras coisas por meio da vontade livre nós possamos também usar da mesma vontade livre servindonos dela por meio dela mesma De modo que de certa forma a vontade que se serve de tudo mais servese de si mesma tal como a razão que conhecendo o restante conhecese a si mesma Sucede igualmente o mesmo com a memória que não só percebe todos os outros objetos dos quais nós nos lembramos Pois assim como não nos esquecemos que temos uma memória esta retém em nosso modo de viver a si mesma em nós Pois ela não se lembra unicamente das outras coisas mas também de si mesma Ou melhor somos nós mesmos por seu intermédio que nos lembramos das outras coisas e dela mesma A vontade livre entre o Bem supremo e os bens mutáveis 52 Conseqüentemente quando a vontade esse bem médio adere ao Bem imutável o qual pertence a todos em comum e não é privativo de ninguém do mesmo modo aquela Verdade da qual temos dito tantas coisas sem nada termos podido falar dignamente quando a vontade adere ao Sumo Bem então o homem possui a vida feliz Ora essa vida feliz mesma é o que o espírito sente quando adere ao Bem imutável Este tornase para o homem como um bem privativo o principal de todos Ele possui então além do mais todas as virtudes das quais não é possível usar mal Por outro lado acontece que se todos esses bens estão entre os maiores e principais no homem entretanto eles são o que se compreende facilmente privativos a cada um e não comuns a todos Com efeito é graças à mesma Verdade e Sabedoria que são comuns a todos os homens que todos aqueles que aderem a ela tornamse sábios e felizes Mas não é graças à felicidade de outrem que alguém adquire a felicidade pois mesmo quando este para vir a ser feliz imita o primeiro aspira a tornarse feliz pelos meios os quais vê que ele assim se tornou a saber pela verdade comum e imutável Do mesmo modo ninguém tornase prudente pela prudência de determinada pessoa Nem forte nem temperante nem justo pela força pela temperança ou pela justiça de outro homem Mas sim conformando seu espírtio àquelas regras imutáveis aqueles luzeiros de virtudes que subsistem inalterados numa vida incorruptível no seio mesmo da Verdade e da Sabedoria comum a todos Regras às quais ele mesmo se conformou e uniu seu espírito isto é aquelas virtudes às quais se propôs imitar97 Conseqüências da aversão ou da conversão ao sumo Bem 53 Assim pois a vontade obtém no aderir ao Bem imutável e universal os primeiros e maiores bens do homem embora ela mesma não seja senão um bem médio Em contraposição ela peca ao se afastar do Bem imutável e comum para se voltar para o seu próprio bem particular seja exterior seja inferior Ela voltase para seu bem particular quando quer ser senhora de si mesma para um bem exterior quando se aplica a apropriarse de coisas alheias ou de tudo o que não lhe diz respeito e voltase para um bem inferior quando ama os prazeres do corpo Desse modo o homem tornase orgulhoso curioso e dissoluto e fica sujeito a um tipo de vida a qual em comparação à vida superior anteriormente descrita é antes morte Apesar de tudo é claro que sua vida continua submissa ao governo da Providência divina que põe todas as coisas em seu lugar e retribui a cada um conforme os seus méritos Acontece que aqueles bens desejados pelos pecadores não são maus de modo algum Tampouco é má a vontade livre do homem a qual como averiguamos é preciso ser contada entre os bens médios Mas o mal consiste na aversão da vontade ao Bem imutável para se converter aos bens transitórios Por sua vez essa aversão e essa conversão não sendo forçadas mas voluntárias o infortúnio que se segue será um castigo justo e merecido98 Capítulo 20 Conclusão o mal originase da deficiência do livrearbítrio 54 Ag Talvez tu me perguntas Já que a vontade movese afastandose do Bem imutável para procurar um bem mutável de onde lhe vem esse impulso Por certo tal movimento é mal ainda que a vontade livre sem a qual não se pode viver bem deva ser contada entre os bens E esse movimento isto é o ato de vontade de afastarse de Deus seu Senhor constitui sem dúvida pecado Poderemos porém designar a Deus como autor do pecado Não E assim esse movimento não vem de Deus Mas de onde vem ele A tal questão eu te contristaria talvez se te respondesse que não o sei Contudo não diria senão a verdade Pois não se pode conhecer o que é simplesmente nada99 Quanto a ti contentate por enquanto de conservar inabalável esse sentimento irremovível de piedade de modo a professar não ser possível apresentarse a teus sentidos nem à tua inteligência nem em geral a teu pensamento bem algum que não venha de Deus Com efeito não pode existir realidade alguma que não venha de Deus De fato em todas as coisas nas quais notares que há medida número e ordem não hesites em atribuílas a Deus como seu autor Aliás a um ser ao qual tiveres retirado completamente esses três elementos nele nada restará absolutamente Porque mesmo se nele permanecesse um começo qualquer de perfeição desde que aí não encontres mais a medida nem o número nem a ordem visto que em toda parte onde se encontrarem esses três elementos existe a perfeição plenamente realizada tu deverias retirar mesmo um início de perfeição que parecesse até ser apenas certa matéria oferecida ao artífice para que trabalhe com ela e a aperfeiçoe Porque se a perfeição em sua realização completa é um bem o começo dessa perfeição já é certo bem Assim se acontecesse a supressão total do bem o que restaria não é um quase nada mas sim um absoluto nada Ora todo bem procede de Deus Não há de fato realidade alguma que não proceda de Deus Considera agora de onde pode proceder aquele movimento de aversão que nós reconhecemos constituir o pecado sendo ele movimento defeituoso e todo defeito vindo do nãoser não duvides de afirmar sem hesitação que ele não procede de Deus Tal defeito porém sendo voluntário está posto sob nosso poder Porque se de fato o temeres é preciso não o querer e se não o quiseres ele não existirá Haverá pois segurança maior do que te encontrares em uma vida onde nada pode te acontecer quando não o queiras Mas é verdade que o homem que cai por si mesmo não pode igualmente se reerguer por si mesmo tão espontaneamente100 É porque do céu Deus nos estende sua mão direita isto é nosso Senhor Jesus Cristo Peguemos essa mão com fé firme esperemos sua ajuda com esperança confiante e desejemola com ardente caridade Mas se na tua opinião falta ainda alguma coisa a pesquisar com mais diligência sobre a origem do pecado quanto a mim penso não ser de modo algum necessário entretanto se julgas o contrário nós o deixaremos para outro diálogo Ev Seja concordo com teu desejo de diferir para outro momento o que me preocupa ainda Mas não concordo com que a questão esteja como pensas suficientemente elucidada 37 12 O sentido do saber para Agostinho Nesta passagem Agostinho pergunta a Evódio se ele sabe scias que o livrearbítrio nos foi dado por Deus Importa avaliar o sentido desse verbo scire nos escritos filosóficos agostinianos Significa conhecer com certeza racional Tal como é o conhecimento das ciências matemáticas Opõese ao conhecimento da fé adquirido por via da aceitação da autoridade Na obra A verdadeira religião Agostinho insiste bastante nessa dupla via A fé e a razão cf cap 814 Em Solilóquios o scire é evocado diversas vezes Cf I49 Scire autem aliud est Saber porém é outra coisa Leiase a nota 23 38 12 Reivindicação pelagiana Já observamos como os pelagianos esforçavamse para encontrar nas afirmações de Agostinho textos favoráveis a seu ponto de vista isto é do poder da vontade natural que prescinde da graça Esta passagem é uma delas O próprio Agostinho fez o levantamento dessas proposições em suas Retractationes Cf a nota 33 relativa a I1430 39 24 Alusão à teoria da iluminação Diz Agostinho a Evódio Deus há de te conceder que sejas instruído interiormente por aquela Verdade Mestra soberana e universal Encontramos aí uma clara alusão à sua teoria da iluminação tal como foi explanada no diálogo O Mestre A finalidade de Agostinho é de explicar o fato fundamental de possuirmos no interior da mente a mesma verdade eterna pela qual a inteligência tem o poder de tomar consciência pessoal dessa verdade Explicase isso por uma especial intervenção de Deus ao dotar o espírito humano da possibilidade de julgar com certeza que ultrapassa as nossas capacidades naturais Tal como acontece com a graça agindo sobre a nossa vontade Agostinho põe assim o acento sobre a luz divina que se manifesta em nós Donde o nome de iluminação corretamente dado a esta doutrina Cf a mais II823 nota 26 40 25 O método filosófico agostiniano Neste início do l II Agostinho torna a insistir como já o fizera no começo de l I 36 sobre o seu método de discussão Isso nos leva a compreender melhor o teor de sua filosofia Seria ela uma sabedoria puramente racional Não porque Agostinho concebe apenas uma única verdadeira sabedoria a que seja ao mesmo tempo racional e sobrenatural O seu real objetivo é chegar à verdade plena isto é Deus Só assim poderemos adquirir por participação a beatitude já neste mundo Lembremos o seu gaudium de ritate Ora a aquisição dessa sabedoria para Agostinho deve sempre começar pela fé sobrenatural Assim o seu método consiste em recebermos primeiramente a verdade pela fé antes de a penetrarmos pela inteligência Já no l I25 ele se fundamentara numa magnífica profissão de fé nas verdades mais fundamentais da teodicéia cristã Só então em resposta à questão de Evódio de onde vem o mal é que inicia a argumentação filosófica para provar a existência de Deus No I24 como neste II26 ele apela para o Nisi credideritis non intelligetis E afirma a seguir que não quer se limitar à fé mas aplicarse ao esforço intelectual para entender Agostinho não criou de modo formal um sistema filosófico ainda assim constituiu uma filosofia agostiniana separável de sua teologia Isso mesmo se tal separação não tenha sido elaborada expressamente por ele Cf F J Thonnard n 15 B A 6 pp 497 500 41 26 O crede ut intelligas nas obras agostinianas Se é para se desejar entender o que cremos é básico crer no que queremos entender Há um entender que é necessário antecipar ao crer o qual não só está ordenado à fé mas já em si anuncia a fé A melhor intelecção acontece pelo método do desenvolvimento da fé O famoso Sermão nº 43 é todo inteiro consagrado ao estudo do relacionamento da fé com a inteligência Agostinho explica aí muito bem como a fórmula Intellige ut credas corresponde anteticamente ao Crede ut intelligas A fé precede mas a inteligência a segue Leiase ainda no Tratado sobre o Ev de são João 296 assim como no Costumes da Igreja católica I23 É bom sublinharmos como Agostinho insiste que o progresso na fé e na inteligência dos mistérios divinos corresponde à vontade mesma de Deus que chama os homens à sua visão 42 26 Agostinho criador da teologia no Ocidente P Batiffol em sua obra Le catholicisme de saint Augustin declara com muita verdade O amor de Agostinho pela inteligência inteligência essa entendida como esforço do crente para pensar a sua fé transportanos a uma atmosfera nova Ele crê na legitimidade e na eficácia do esforço intelectual E associa toda a Igreja nesse trabalho tendo confiança no progresso da inteligência da fé Graças a esse intento e pelo magnífico uso por ele mesmo feito tornouse o verdadeiro criador da teologia no Ocidente principalmente em relação a tal método e espírito assim como Orígenes o fora no Oriente Cf op cit p 73 do t I 43 26 A constante busca de esclarecimento da fé Aqui como nas Confissões X68 Agostinho não tem em mira conduzir propriamente à fé em Deus esta já é pressuposta Ele quer sim aperfeiçoar a fé Declarao no presente capítulo A fé deve levar à perfeita compreensão aquele que crê deve procurar compreender Todavia por certo o primeiro ato que se supõe naquele que quer sem muita dificuldade e com fruto seguir a Agostinho em suas elevações é de renovar explicitamente sua fé em Deus criador princípio de toda verdade e Bem soberano Em seguida com o coração purificado chegará a conhecer melhor a Deus e a amálo plenamente 44 26 Sem a fé seria possível provar a existência de Deus Diz aqui o texto Não se pode considerar como tendo sido encontrado aquilo em que se acredita sem ser entendido e ninguém se torna capaz idoneus de encontrar a Deus se antes não crer o que deverá compreender depois Seria exagerado retirar daí a conclusão de que a razão é impotente para provar sozinha a existência de Deus Nesse caso o próprio Agostinho estaria desdizendose a si mesmo Pois ele dava muita importância por exemplo ao consenso universal e à doutrina dos filósofos antigos os quais evidentemente não possuíam a fé No texto acima ele visa particularmente as disposições morais requeridas para tornar fecunda a busca da prova da existência de Deus No último item deste capítulo acabamos de vêlo assinalar expressamente o valor da fé Ora a fé em Deus mesmo natural incluise nessa espécie de disposição moral e facilita o esforço do espírito Por certo a fé sobrenatural contribuirá com mais forte razão nesse sentido O termo idoneus capaz inserido no texto citado acima não indica pois um condição metafísica mas sim uma aptidão moral que trará mais facilidade para encontrar a Deus Tal disposição é possível a todos Agostinho distinguea das luzes superiores reservadas não somente aos santos no céu mas já aos melhores melioribus nesta terra 26 Cf F Cayré Dieu présent dans la vie de lEsprit pp 4041 45 37 O plano do livro II A divisão do l II apresentada logo no início do presente cap 3 revela uma clareza didática que surpreende aqueles que afirmam ser as exposições de Agostinho desordenadas e à mercê do capricho Propõese ele aqui de modo decidido atingir três metas a primeiramente como a existência de Deus é evidente b em seguida que todo bem provém dele c finalmente que a vontade livre está nesse caso logo é um bem Agostinho desenvolve a sua demonstração da existência de Deus com um rigor impecável nestes capítulos de diálogo com Evódio sem nenhum desvio em seu plano Distingamos três partes A 1ª de 37 a 719 é toda ordenada à apresentação da tese que só será formulada no cap 6 Deus existe já que há algo superior à razão E esta é a realidade mais nobre no homem A 2ª parte de 820 a 1438 é o coração mesmo da prova agostiniana Deus é intuído como a perfeição acima da razão A 3ª parte de 1539 a 2054 das mais belas demonstra como tudo o que é bom vem de Deus O livrearbítrio sendo um bem para o homem vem de Deus O mal originase de uma deficiência do livrearbítrio 46 37 O ponto de partida da reflexão Agostinho lançase ao desenvolvimento da prova da existência de Deus Nesta primeira parte coloca como fundamento a observação da realidade na constituição dos seres criados Essas realidades percebidas diretamente por todo homem são três o fato da existência dos seres a vida sensível e a capacidade de entendimento no homem Em síntese o ser a vida e a razão São três graus de perfeição nos seres bem distintos e hierarquizados A razão é o que há de mais elevado na natureza humana Os dois primeiros graus ser e vida encontramse também fora do eu Acima da razão só pode estar o próprio Deus fonte de todo ser criado 47 37 Passagens paralelas em outras obras de Agostinho Vemos aqui nosso autor tomar como ponto de partida absolutamente indubitável a intuição da existência do eu pensante Tal criteriologia agostiniana já se encontra bem formulada nos Diálogos filosóficos os seus primeiros escritos Os três livros de Contra os Acadêmicos esboçam de passagem a fórmula do cógito agostiniano Em A vida feliz 27 supõe com força que a ordem do pensamento parte da certeza de nossa própria existência E conforme os Solilóquios II11 essa certeza está bem fundada em nosso próprio pensamento Recordemos a famosa questão Scis esse te Scio Sabes que existes Sei No presente diálogo O livrearbítrio esta passagem do 37 é elucitativa de seu pensamento Em A verdadeira religião 3973 encontramos a explicitação de que a verdade de existir encontrase na certeza mesma que a dúvida pode existir Leiase ainda em As Confissões VII1016 o belo texto sobre a busca da verdade no próprio íntimo Mais tarde em A Trindade XV1221 as fórmulas sobre a questão do Cogito adquirem novo vigor No l X1014 dessa obra afirma Agostinho Se eu não existisse seria impossível a dúvida Citemos ainda uma outra passagem em A Cidade de Deus XI26 Se me engano existo 48 37 Influência da doutrina agostiniana sobre a certeza do eu pensante A doutrina agostiniana dá absoluta primazia à certeza e à preeminência metafísica do eu pensante Tal tese tornouse profundamente revolucionária para toda filosofia posterior e deu a nota aos grandes movimentos da Idade Média Eu penso eu vivo eu quero Vemos sempre invocada a realidade da alma absolutamente certa e imediatamente garantida pela evidência interior com toda a sua força probatória 49 38 Os três graus de conhecimento no homem Está em jogo agora o dinamismo da alma Agostinho mostrase assim mais preocupado com a vida vivere do que com o existir esse Especialmente com aquela vida superior que pertence ao espírito intelligere nesse ser complexo que é o homem Analisa no momento algumas de suas atividades para tirar daí uma lei de preeminência vital Começa por observar o fato de haver três graus de conhecimento e estabelece uma hierarquia 1º Os cinco sentidos corporais Entretanto não possuem o conhecimento direto da própria operação 389 2º O sentido comum interior Este percebe os sentidos externos com os seus objetos Mas Agostinho não chega à certeza de que o sentido interior tenha consciência de si mesmo 410512 3º A razão Esta ao contrário conhece a operação dos cinco sentidos corporais e seus objetos e também o sentido interior Além do mais reconhecese e pode chegar à ciência 61314 50 512 O princípio de subordinação ou regulação O princípio de subordinação ou de regulação como também é chamado constitui parte significativa da metafísica agostiniana Consiste em evocar a subordinação prática de cada atividade da alma dentro de sua hierarquia a um elemento que lhe seja superior Eis como Agostinho considera este princípio psicológico mas que possui um fundo metafísico a respeito das relações existentes entre os sentidos exteriores e o sentido interior Aquele que julga se antepõe ao que é julgado Notese que o termo julgar aí não possui o sentido comum de veredicto racional Marca simplesmente a influência ativa de um ser sobre outro que lhe esteja ordenado Implica isso a dependência de um em relação a outro em seu agir O princípio de subordinação sendo também de ordem ontológica Agostinho vai utilizálo a seguir sempre no plano metafísico a propósito da vida do espírito Daí a sua importância Será essa uma das peças mestras da dialética agostiniana Leiase mais adiante neste mesmo II1641 como será evocada esta doutrina O princípio vital do corpo é a alma e o da alma é Deus Cf também o cap 1746 com a nota 58 Ascensões agostinianas 51 512 O valor dos canais do conhecimento São canais de conhecimento os sentidos exteriores o sentido interior e a razão Agostinho examina aqui o valor de cada um Os sentidos exteriores antepõemse aos objetos observados por serem seres vivos O sentido interior sobrepõese aos sentidos exteriores porque os julga No homem a razão tem a primazia sobre os sentidos e mesmo sobre o sentido interior porque julga a eles todos Fica assim estabelecida a hierarquia dos valores o corpo a alma animal e enfim a razão que é como a cabeça ou o olho de nossa alma Manifestamente nada existe de mais excelente na natureza da alma do que a razão 52 613 A grande superioridade do homem poder julgar O julgamento é obra exclusiva da inteligência Reproduzimos aqui uma nota complementar esclarecedora que se encontra no volume A verdadeira religião relativa ao cap 2953 sobre A superioridade do espírito é a capacidade de julgar A fim de conduzir o leitor à descoberta do espírito Agostinho levao a constatar a superioridade da vida reflexiva sobre a vida sensitiva e a fortiori sobre os corpos inorgânicos pelo fato de que a mente julga o sensível e a sensação É a razão a faculdade de julgar por excelência 53 614 O início da grande prova Eis o momento da tomada de impulso para a ascensão desejada As demonstrações fornecidas até aqui foram apenas um preâmbulo Agora os elementos de base já mencionados vão ser cuidadosamente recolocados em vista da ascensão O caminho a ser percorrido pela prova encontrase fixado com clareza A grande argumentação será desenvolvida a seguir dos caps 1233 a 1539 Apoiarseá na constatação de haver uma verdade eterna e imutável superior ao homem à qual ser algum é superior 54 614 A existência de Deus para Agostinho Em toda a sua vida santo Agostinho nunca duvidou da existência de Deus e da Providência Julgava mesmo não poder ser contestado haver um Criador Não podia acreditar poder existir ateus convictos Para ele a existência de Deus é dessas verdades às quais a Providência de Deus deu tal clareza que é difícil furtarse a ela Ninguém será capaz de ignorar totalmente a Deus Contudo ele reconhece não ser Deus objeto de intuição direta e de vista imediata Não se contentava porém com fé ingênua Procurava estabelecer demonstração mais científica Recorre na ocasião a argumentos clássicos tais o consenso universal a finalidade e a ordem do mundo a contingência dos seres A prova desenvolvida ex professo nesta obra é bem criação sua Achase em conexão estreita com a demonstração da existência da verdade Podese todavia reconhecer nela uma adaptação da dialética de Plotino no esforço de subir em direção à Fonte criadora O tom místico e por vezes o teor apaixonado de seus argumentos nada tiram do valor filosófico de sua argumentação 55 715 Análise deste capítulo 7 Serão estudadas no presente capítulo as atividades do espírito em si mesmo e as dos sentidos externos em relação a seu objeto e ao objeto dos mesmos Não se trata porém unicamente de dados psicológicos Agostinho elevase além até o plano metafísico A princípio porém limitase a observações sobre o conhecimento sensível Por isso alguns críticos quiseram ver nestas páginas apenas digressões Na verdade por enquanto Agostinho não se ergue até à verdade intelectual propriamente dita Da observação dos sentidos entretanto tirará uma conclusão que há de ter boa aplicação em relação ao conhecimento da verdade Começa por comparar as faculdades e seu objeto para chegar a demonstrar quanto este é independente da mente que o percebe Eis a seqüência das idéias expostas 715 característica de nossas faculdades cognitivas os sentidos externos São eles individuais próprios a cada pessoa 16 os objetos atingidos são bem distintos uns dos outros 17 comparação dos cinco sentidos entre si sob diversos pontos de vista 18 Conclusão se o sentido corporal é individual o objeto é bem distinto dele e muitas vezes comum a todos Isso prova a sua realidade Em próximos capítulos encontraremos uma analogia do mesmo realismo objetivo num plano superior isto é no da vida intelectual propriamente dita Cf Cayré op cit pp 124125 56 718 Capítulo desnecessário Na presente argumentação cada parte possui o seu valor e não se tem o direito se quisermos reproduzir exatamente o pensamento de Agostinho de suprimir tal ou tal elemento supostamente sem importância Isso seria enfraquecer o conjunto Tudo na verdade tem seu papel sem dúvida acessório mas real Esta primeira parte portanto não pode ser ignorada como o fazem por vezes sem se correr o risco de deformação É ela que vai situar o argumento agostiniano em seu verdadeiro quadro o de uma realidade viva o espírito humano considerado em suas atividades Sem isso o silogismo ficaria apoiado num plano unicamente ideal e não no real Ao contrário com tudo o que foi apresentado temos como base um realismo muito característico em perfeita relação com a primeira afirmação da tese Se há um ser superior ao espírito esse ser é Deus Cf Cayré op cit p 149 57 719 Motivos das longas considerações A finalidade de Agostinho ao entregarse a estas copiosas considerações é o desejo de preparar a visão de que a intuição de Deus está acima dos sentidos e da razão Termina as observações deste cap 7 insistindo no que seja próprio ou individual e no que seja comum público ou universal Passo a passo foi ele expondo sua teoria sobre o conhecimento Iniciou pelas sensações dos sentidos corporais até chegar ao conhecimento puramente intelectual e abstrato Os presentes capítulos revestem assim um especial interesse na revelação da noética agostiniana Encontramos aqui um bom exemplo do que seja o método ascensional de Agostinho dos objetos externos aos sentidos dos sentidos exteriores ao sentido interno deste à razão e da razão às verdades eternas e imutáveis ou mundo inteligível e enfim deste a Deus 58 820 Sumário das idéias expostas do cap 8 Vemos agora ser introduzida por Evódio a famosa razão e verdade dos números ratio et veritas numeri Neste capítulo vem desenvolvida a teoria dos números sob um ângulo muito elevado o da verdade Tal verdade dos números é manifesta e inalterável 820 Não vem pelos sentidos mas de certa forma está impressa no espírito 21 De fato os números não nos vêm pelos sentidos a unidade que é a base deles não nos é sensível 22 As propriedades da unidade confirmamnos essa conclusão Consideremos as três propriedades mais características a imutabilidade a certeza e a inalterabilidade as quais não podem ser percebidas a não ser por uma luz interior Ora de tal luz os sentidos corporais são incapazes 23 Em conclusão Agostinho mostra que esse conhecimento puramente intelectual certo objetivo indiscutível é possuído por todo espírito realmente sadio Cf Cayré op cit pp 125126 59 821 As verdades comuns e universais As verdades eternas brilham por sua universalidade Os céticos insistem na falsidade do ponto de vista individual o que dá lugar a opiniões infindas e contraditórias Para eles não existe a verdade porque esta é carente da garantia da comunidade pensante Entretanto por certo há uma categoria de verdades comuns que resplandecem aos olhos de todos num plano superior ao individual Todos dizem o mesmo com pleno consenso Agostinho não se cansa de ponderar a respeito dessas veritates communes desse acordo do pensamento nas verdades comuns a todos Para ele cada indivíduo tem sua razão e seu olho próprio Ora os objetos de ordem inteligível e comum achamse à vista de todos os espíritos Não se consomem nunca se destroem por assimilação como os manjares e as bebidas Não são produtos das impressões sensoriais Por exemplo os teoremas de matemática só são percebidos pela inteligência E por essa razão gozam de uma essência incorruptível Ao passo que tudo o que é percebido pelos sentidos corporais está sujeito à corrupção e não sabemos por quanto tempo durará As verdades matemáticas são um patrimônio comum de todos os que pensam e são incorruptíveis 60 822 Os números acesso ao mundo do espírito Nesta passagem como em diversos tratados compostos logo após a sua conversão a geometria e os números estão apresentados como fornecendo a prova decisiva de que há uma verdade imutável e como tal capaz de abrir acesso ao mundo inteligível e espiritual Leiase em Solilóquios I4910 A espécie de conhecimento que Agostinho deseja ter de Deus semelhante ao da geometria E no diálogo A Ordem II184748 e 194950 A razão ao observar atentamente verá o valor e o poder dos números Em A Música VI123536 Agostinho apóiase igualmente sobre as leis dos números para se elevar até Deus Em Confissões VI46 diz Desejava eu ter em relação a fatos não demonstráveis a mesma certeza com que digo 7 mais 3 dão 10 Lembremos que Agostinho recebeu sua primeira iluminação racional graças à matemática Esta foi a primeira ciência elaborada no Ocidente e vulgarizada sobretudo pela escola pitagórica De fato a matemática serve não somente para construir uma ordem de conhecimentos seguros mas também para educar o espírito na dialética da ascensão e no manejo das idéias puras Cf maior desenvolvimento da questão mais adiante no cap 1130 61 823 As propriedades da verdade Neste item Agostinho convidanos a meditar melhor sobre as eminentes propriedades da verdade que se manifestam na lei dos números Sua transcendência revelase à razão a qual chega a conhecer suas propriedades A verdade é porém em nós algo muito mais alto do que a própria razão Desse modo pouco a pouco Agostinho nos levará a concluir a respeito da existência de uma realidade tão grande que não pode ser outra coisa senão o mesmo Deus Cf H I Marrou S Augustin et la fin de la culture antique p 288 62 823 Nova alusão à teoria da iluminação Vemos aqui Agostinho referirse novamente à sua teoria da iluminação A luz interior mencionada não é a da simples inteligência contraposta à dos sentidos Fala ele sobre um influxo especial de Deus sobre a inteligência para iluminála Para maiores esclarecimentos releiase a nota n 3 referente ao l II24 E Agostinho irá ainda se referir ao tema com maior precisão no l III513 cf nota 11 63 824 A intuição luz acima da razão Uma simples reflexão sobre o conteúdo de nossos pensamentos nos leva a constatar a existência imutável de grande número de verdades em nossa mente Agostinho apela para o testemunho da consciência a qual atesta em nós a intuição do inteligível As noções e leis dos números revelamse com real independência do sensível pois possuem propriedades muito diferentes dos objetos sensíveis Não possuem por exemplo nem cor nem odor Em particular a unidade princípio dos números possui em si simplicidade E esta nunca está realizada em um corpo 822 Necessariamente convém aos corpos a distinção e portanto a pluralidade de partes Concluise pois que a inteligência percebe leis independentemente dos sentidos Cf Thonnard Précis dHistoire de la philosophie p 206 64 824 Citação do Eclesiástico 726 Agostinho no próximo capítulo 113032 associará as regras da sabedoria percebidas por intuição independentemente de realidades concretas com as noções e leis dos números Estes como já foi visto estão acima do sensível e impõemse a todos Em apoio a seu ponto de vista cita aqui uma passagem do Eclesiástico na versão grega Setenta Esta assim vem no original Circuivi ego et cor meum ut scirem et considerarem et quaererem sapientiam et numerum 726 65 925 Diversos sentidos do termo sabedoria O termo sabedoria sapientia oferece na linguagem agostiniana múltiplos sentidos Neste item a sabedoria é evocada conforme o seu uso corrente no sentido de prudência arte de bem viver opção de vida No próximo item 26 veremos Agostinho empenharse em definir a sabedoria como a Verdade na qual se vê e se possui o sumo Bem No item 27 ele considera a sabedoria de outro ponto de vista a universalidade É ela a mesma para todos tal como a luz do sol 66 925 Saber pela razão Sobre o método aqui lembrado por Evódio cf a nota 8 no l I 36 Não apenas crer mas entender as razões de sua crença Amiúde Agostinho relembra o que se propusera com Evódio Compreender aquilo em que cremos 67 926 Implicação dos conceitos verdade sabedoria sumo Bem e felicidade A sabedoria não é senão a verdade em que se contempla e se possui o sumo Bem A sofia sabedoria para os gregos como para os cristãos entranha sempre uma conexão necessária com a verdade Pois uma sabedoria esvaziada do conhecimento da verdade seria uma contradição nos termos E a sabedoria não só implica uma conexão com a verdade mas também com o Bem supremo o summum bonum Notese que não é apenas a percepção mas ainda a posse da verdade que é o sumo Bem o que nos traz a felicidade Felicidade à qual todos nós tendemos sem contestação alguma Feliz é aquele que goza do sumo Bem até o seu pleno desfrute A verdade é pois um deleite O bonum é beatificum pois a verdade beatificante é o próprio Deus 68 926 A felicidade está em Deus Viver feliz significa viver na posse da verdade Viver na luz e conforme a arte da sabedoria Possuir a verdade como sumo Bem é o elemento formal da felicidade Lemos na obra Costumes da Igreja católica I34 A felicidade consiste em amar e possuir o que há de mais excelente para o homem Com efeito desfrutar é ter à disposição aquilo que se ama O bem é alguma coisa de que se gosta É o que cumula o nosso mais profundo desejo O que pode o homem amar em vista de seu único fim vital a não ser um bem que ultrapassa todos os outros bens e que se apresenta como o Bem supremo A vida feliz é pois a posse amorosa do sumo Bem Leiase mais adiante neste l II sobre a mesma temática o cap 133536 e a nota 47 A verdade beatificante 69 926 Outras alusões à teoria da iluminação Antes de sermos felizes levamos gravada em nossa mente a noção da felicidade Já indicamos outras referências à doutrina da iluminação Releiase no l II24 a nota 3 E o texto do l III513 e 2472 onde Agostinho tornará a se referir a essa sua tão querida doutrina Dirá ele A sabedoria não procede daquele que é iluminado por ela mas sim daquele que ilumina 70 927 Patrimônio das verdades comuns A comunhão universal das inteligências na mesma verdade tem sido um fenômeno atraente para os grandes pensadores Há uma maravilhosa concórdia mental nos seres racionais Esse fato das veritates communes patrimônio do pensamento também atraiu poderosamente a atenção e a admiração de Agostinho Os espíritos formam sociedade entre si para a compreensão das mesmas verdades axiológicas isto é em relação aos valores Para explicálo Agostinho não apela para a teoria do entendimento único antes a exclui Porque cada homem tem sua própria mente seu próprio olho espiritual para intuir os axiomas a saber as verdades evidentes Mas a mente criada achase em conexão com uma fonte de luz superior que ilumina a todo homem assim como os olhos corporais são tocados pela luz do mesmo sol A presente passagem é uma das premissas do processo dialético de demonstração da existência de Deus como fundamento último do mundo das verdades É tendência profunda do pensamento moderno relativista reduzir a validade das verdades a um círculo temporal e cultural Para ele só há verdade em relação a uma humanidade determinada Cf V Capánaga San Agustin p 148 nota 2 71 1028 Noção fundamental de verdade A noção da verdade é central constitui o fundamento da doutrina da sabedoria uma das bases essenciais da filosofia agostiniana Em seu diálogo Contra os Acadêmicos Agostinho refutara o ceticismo mostrando como essa posição é contraditória Agora ele quer estabelecer de modo positivo que existem muitas verdades absolutamente certas as quais o homem é capaz de atingir e das quais não pode duvidar Tais verdades nos são fornecidas por exemplo pelo estudo da matemática da geometria da lógica da música da estética e da moral natural Neste capítulo Agostinho convidanos a meditar sobre as propriedades eminentes da verdade Leiase ainda mais adiante a nota 45 relativa ao cap 1234 72 1028 A sabedoria no plano da Moral A sabedoria coloca no plano moral alguns princípios gerais que todos devem aceitar Por exemplo é preciso viver conforme a justiça o eterno está acima do temporário a verdade é imutável a vida reta e honesta é mais digna do que a vida perturbada moralmente 73 1029 Lumina virtutum Essas verdades são como regras e espécie de luminares das virtudes Agostinho compara aqui a sabedoria a luminares ou focos das virtudes Significam eles as regras morais que são rão inflexíveis e certos quanto às leis dos números 74 1130 Insistência sobre a citação bíblica a respeito da sabedoria e do número Agostinho lembra aqui de novo a passagem já citada no l II 824 em que se referiu a Eclo 726 Explorei igualmente o meu próprio coração para conhecer examinar e escrutar a sabedoria e o número Cf a nota 28 correspondente 75 1130 A temática do capítulo 11 Podemos sintetizar toda a problemática deste cap 11 nas seguintes questões São a sabedoria e os números uma só coisa Ou existem independentemente um do outro Ou então dependem um do outro Agostinho mostra com interesse a excelência relativa da sabedoria e dos números sempre confrontandoos com a verdade Convém insistir em que para Agostinho os números estavam bem longe de ser meros algarismos Constituíam princípios reais e dinâmicos inseparáveis de qualquer ser já que nenhum pode ser concebido senão como ativo A atividade é um atributo transcendental que tendo origem no número compenetra tudo o que existe Essa noção da natureza dos números originária de Pitágoras recebeua Agostinho de Platão que por sua vez a tinha adotado e ampliado Cf A S Pinheiro op cit p 141 n 31 76 1130 A matemática eleva os espíritos Afirma Agostinho nesta passagem que a matemática serve não apenas para construir uma ordem de conhecimentos seguros mas também para formar os espíritos na dialética da ascensão e no manejo das idéias puras Todo o orbe ontológico iluminase com a luz dos números Lemos no item 32 Os corpos são inundados pela luz dos números Procura Agostinho nos números um reflexo de Deus Considera porém que esse reflexo é mais distante do que o da sabedoria 77 1131 Diferença fundamental entre sabedoria e números Não pode ser minimizada a diferença entre sabedoria e números Estes são realizados nos corpos ao passo que a sabedoria apenas nos espíritos Enquanto estão nos corpos eles nos são inferiores Mas enquanto são imutáveis na verdade eles nos ultrapassam Quanto mais alguém se torna apto a contemplálos na pura verdade mais serão eles estimáveis e julgados superiores aos corpos e a si mesmo 78 1132 Relações entre sabedoria e números A estima que se tem pelos números ou pela sabedoria não é a mesma porque nem sempre julgamos conforme o valor verdadeiro Por exemplo o ouro por ser raro é preferido pelos homens à luz que em si é muito mais preciosa O número e a sabedoria são iguais de um ponto de vista mas desiguais de outro Assim como a luz e o calir do fogo projetamse distintamente em distânciais desiguais do mesmo modo acontece com o número que é possuído por todos os corpos Ora a sabedoria é percebida apenas pelo espírito Tal comparação é grosseira para se dizer que o número possui mais extensão mas que a sabedoria possui mais compreensão sendo portanto mais rica Um e outro porém estão em dependência expressa da verdade que é sempre imutável Mas seja como for as relações de dignidade que se estabeleçam entre sabedoria e número ambas não verdadeiras implicam a verdade contêmna de algum modo Cf Cayré op cit p 128ss 79 1233 As provas da existência de Deus em santo Agostinho Em parte alguma Agostinho tratou em conjunto ou sistematicamente das provas da existência de Deus Menciona porém a prova deduzida da aspiração dos homens à felicidade cf A vida feliz bem como a prova histórica da existência de Deus In Io 1064 Além da prova teológica Sermão 1412 élhe familiar a idéia de que a consideração da mutabilidade das coisas deste mundo há de levar o homem ao conhecimento de sua natureza de criatura Conf 1146 Com particular predileção e de modo mais pormenorizado usa no Livrearbítrio o argumento derivado da existência das mais sublimes verdades objetivas imutáveis e universalmente válidas de ordem lógica matemática ética e estética que repousam no espírito humano A existência dessas verdades seria inexplicável se não se admitisse uma verdade essencial idêntica com o próprio Deus que contém todas as verdades particulares Cf Altaner Stuiber Patrologia p 434 80 1233 Os objetos exteriores possuídos em comum pelos sentidos humanos Nesta passagem Agostinho faz referência ao que já foi dito acima no l II71519 A mesma coisa é percebida por muitas pessoas e ao mesmo tempo por cada uma em particular seja em sua totalidade seja somente em algumas de suas partes Quer ele mostrar a dependência da mente diante da verdade perfeita De fato será pela inferioridade de nosso espírito diante da verdade em geral que ele demonstrará a existência de uma verdade perfeita E Agostinho mostra essa inferioridade pela incapacidade de cada um em fazer sua uma verdade que pertence a todos Ela é uma verdade comum e universal a todos 81 1234 As verdades reinantes no espírito do homem Na mente humana estão presentes verdades eternas absolutas necessárias que nossa mente contingente e mutável não seria capaz de produzir Logo concluirá Agostinho existe Deus razão suficiente dessas verdades Eis alguns de seus argumentos Alguém ao constatar uma verdade não a corrige como se fosse um censor mas alegrase como diante de uma descoberta feita As verdades eternas não estão sujeitas aos vaivéns do temperamento ou do humor resplandecem íntegras e invioladas e isso numa mente mutável como é a nossa São verdades que permanecem em si Cf A verdadeira religião 3973 e a nota correspondente Onde habita a verdade Elas são constantes do espírito e evidenciam o realismo do conhecimento Contra elas nada vale a sofística dos céticos São verdades em si mesmas in se ipsa vera não um produto da consciência pensante 82 1234 Em busca da Verdade absoluta Após os longos encaminhamentos que marcaram as pesquisas sobre a vida do espírito humano poderíamos pensar em deparar agora uma passagem direta da verdade interior à Verdade transcendente Mas neste cap 12 Agostinho parece ter sustado essa tendência intuitiva Ora teria ido por uma via direta do pensamento humano à Verdade divina Vemos porém aqui uma insistência sua em frisar a inferioridade de nossa mente perante a Verdade absoluta É claro que a natureza da mente não pode ser a razão de ser da verdade A Verdade perfeita ultrapassa a capacidade dos espíritos particulares E Agostinho constata a evidência de existir uma realidade superior e mais excelente do que a nossa mente humana Cf A verdadeira religião 3056 Acima de nossos juízos a Lei imutável com a nota correspondente O salto para a trans cendência 83 1335 A Verdade beatificante Agostinho não se contenta de provar a existência de uma realidade suprema o sumo Ser Ele leva seus discípulos a estabelecer com ele uma verdadeira união que é a posse fruitiva da verdade pela sabedoria sobrenatural Compara o conhecimento da verdade a um abraço à verdade amplexus veritatis O conhecimento se matiza nesse abraço com uma intensa e rica afetividade poderosa irradiação que banha e transforma as potências da alma A verdade e o amor formam como uma só chama Mas o conhecimento saboroso e experimental de Deus não supõe uma visão imediata da divindade esta é apenas vislumbrada no espelho das criaturas 84 1336 Sumário das idéias expostas nos caps 13 e 14 Os caps 1335 a 14 38 apresentam a conclusão da prova da existência de Deus Agostinho visa aí levar a mente a se unir à Verdade descoberta No cap 133536 ele mostra a excelência da Verdade sob dois aspectos diferentes 1º do ponto de vista sobretudo subjetivo atento à comparação com a própria mente 2º cap 143738 do ponto de vista objetivo donde sobressai a perfeita transcendência da Verdade Analisando melhor No n 35 Agostinho compara a verdade aos objetos percebidos pelos cinco sentidos exteriores É como um aspecto negativo da Verdade No n 36 Elevase ao aspecto positivo a Verdade vive na mente humana A Verdade é identificada com a Sabedoria a Beatitude e a Luz Ela é como o sol dos espíritos conforme a fórmula dos Solilóquios I815 No n 37a É na posse da Verdade que o homem encontra a verdadeira liberdade No n 37b Agostinho assinala o caráter universal da Verdade ela pertence a todos e a cada um No n 38 A transcendência da Verdade é apontada 85 1337 A nossa liberdade consiste na posse da Verdade Nesta passagem vemos Agostinho declarar bem expressamente que é mediante o dom da fé que a alma fica submetida à verdade E é pela percepção e a posse da verdade que nossa liberdade se constitui Pois o homem não pode gozar de nada com a liberdade se não a gozar com toda segurança Para Agostinho a liberdade não se define como a faculdade de escolha arbitrária entre o bem e o mal mas como o poder de se determinar pelo bem e por Deus Assim não seremos realmente livres senão no momento em que Deus nos tomar em suas mãos e nos justificar isto é nos santificar 86 1437 A verdade bem comum e universal A verdade é para todos nós um tesouro comum Todos podemos dela desfrutar sem que sua torrente diminua O tema voltará no final do item 38 E sobre a mesma temática leiase Confissões XII2534 A Trindade VIII12 23 In l Jo III6 e a Carta 144 a Nebrídio 87 1438 O apelo de Deus Diz belamente Agostinho nesta passagem que a Verdade o mesmo Deus o Verbo feito carne nos atinge porque nos fala no exterior e também se faz ouvir no interior Lemos no original Foris admonet intus docet Agostinho é um especialista nessa escuta do apelo de Deus Diz ele nas Confissões VII1016 Tu me gritaste de longe e ouvi como se ouve no coração É a escuta dessa voz que nos introduz na verdadeira felicidade 88 1539 Sentido da objeção de Evódio Este texto está em relação com o II614 em que Agostinho apresentava as grandes linhas da questão em debate Naquela passagem Evódio apresentou uma reserva ao argumento de Agostinho Seria preciso provar não somente que existe alguma coisa acima da razão mas que não existe nada que esteja acima dessa realidade Agostinho respondeulhe então que se houvesse um ser acima esse é que seria Deus Mas o que poderia haver acima O presente n 39 retoma a questão e mostra que na realidade a hesitação de Evódio então era inspirada pela fé cristã a qual denomina o Verbo de Sabedoria de Deus e reconhecelhe um Pai Assim Agostinho vai mostrar agora que a Sabedoria é em todos os pontos igual ao Pai e que de qualquer modo Deus existe Ele responde apoiandose na fé porque a objeção fora feita apoiada na fé Mas está bem entendido aí que é uma objeção e não a tese que possui unicamente uma base racional Cf Cayré op cit p 140 89 1539 Apreciação da prova agostiniana da existência de Deus O que dá originalidade e unidade à solução agostiniana ao problema da existência de Deus é a perspectiva em que é considerada Esta é essencialmente interior Com efeito seu princípio inspirador é Noli foras ire in teipsum redi in interiore homine habitat veritas Não saias de ti volta para ti mesmo a verdade habita no homem interior Cf A verdadeira religião 3972 Em conformidade com este princípio Agostinho não procura a solução dos problemas filosóficos no estudo da realidade externa como fizera Aristóteles mas no estudo do mundo interior da mente Sem dúvida o bispo de Hipona como os filósofos gregos concorda que se possa chegar a Deus mediante os indícios cosmológicos Mas ele encontra indícios muito sugestivos da realidade divina no homem mais do que no mundo Na mente humana estão presentes verdades eternas absolutas verdadeiras que nossa mente contingente e mutável não poderia produzir Logo existe Deus razão suficiente dessas verdades Cf B Mondin Curso de filosofia I p 140141 90 1539 Na espiritualidade agostiniana bases de um misticismo natural Agostinho nesta sua obra lança base de autêntico misticismo natural o mais puro e único válido que existe O essencial encontra se nesta afirmação Deus está presente na vida da mente Tal conclusão foi estabelecida através da observação da atividade da mente Nas Confissões Agostinho fala da imanência de Deus em nós associada à sua transcendência Leiase como ele afirma com vigor em formas ricas e enriquecedoras Entrei na sede da própria alma Intravi ad ipsius animis mei sedem X2536 E ainda Onde te encontrei para conhecerte senão em ti mesmo acima de mim In te supra me X2637 No final da presente obra vemos Evódio rezar com fervor à Verdade Quer ele unirse a Deus em sua beatitude Reconhece que a sua própria mente que descobriu a Verdade é impotente para manter essa descoberta de modo estável É necessário o recurso à religião A fé virá ajudar a razão para se ultrapassar Cf Cayré op cit p 141 91 1642 Um pouco de estética agostiniana Já observamos que em Agostinho encontramos a influência da especulação pitagórica sobre os números a sua essência e conexão com o mundo Todos os seres possuem uma estrutura matemática e racional São obra de uma maravilhosa engenharia onde reinam as proporções e a harmonia As coisas todas foram criadas em ordem número e harmonia Por isso o universo é contemplado por Agostinho em suas conexões metafísicas sendo os números um dos mais importantes laços das coisas com a Mente Criadora na qual está o fundamento lógico e primordial do Cosmos Os números isto é as formas proporcionadas das coisas tão ajustadas a seus fins revelam uma estrutura racional e guiam até ao Número eterno à Forma das Formas ou Sabedoria incriada do Criador Cf V Capánaga op cit p 153 É de interesse ler em A verdadeira religião o texto do cap 4074 com a nota correspondente Todo ser tem seus números secretos 92 1644 A doutrina da participação e do exemplarismo A participação tem papel muito universal no agostianismo Mostra estar em Deus o princípio de todas as coisas Tudo vive em sua dependência Assim tudo o que não é Deus ele mesmo participa de Deus seja no plano da existência seja no do conhecimento ou do bem Duas outras doutrinas possuem ainda para Agostinho o valor de princípio pois unem o pensamento humano a Deus de modo muito próximo Uma dessas doutrinas é o exemplarismo No fundo sustenta ela a mesma teoria que a participação mas considerada nas relações de semelhança existente entre as criaturas e o Criador Este é o Exemplar as criaturas as cópias Cf a nota 11 do III513 A outra doutrina célebre na escola agostiniana é a da iluminação Constitui uma particular aplicação da prova de Deus Tratase agora da exemplaridade realizada no espírito que pensa e que conhece a verdade Implica uma intervenção divina especial dotando o espírito da capacidade de conhecer e julgar com certeza que ultrapassa as nossas possibilidades naturais como seres inferiores que somos É uma participação criada à Verdade Perfeita que é Deus Releiase a nota 3 II24 93 1745 Capítulo particularmente rico Vemos aparecer aqui um aspecto novo da grande tese Depois de ter provado a existência de Deus Agostinho nos assinala a presença divina em todas as coisas Deduz uma série de corolários do princípio Deus existe e é o autor de todo o bem Temos neste item páginas de densidade e luminosidade extremas Tais colocações fizeram as delícias dos grandes filósofos escolásticos Eis alguns princípios deduzidos Todo ser mutável é também necessariamente perfectível formabilis isto é capaz de receber o ser uma essência existente Nada pode se aperfeiçoar a si mesmo Ninguém pode se dar a si mesmo o que não possui Todo ser mutável deve receber sua perfeição de uma Perfeição imutável Esta fórmula é uma explícita demonstração do princípio de participação Os seres existentes privados de toda perfeição cairão no nada Agostinho conclui desses princípios expressamente a ação do Deus Criador e da Providência que conserva sua obra Tanto mais que os seres criados não existiriam se a Providência não existisse Cf Cayré op cit pp 143145 94 1746 As ascensões agostinianas Agostinho poderia terse contentado de comprovar sua demonstração da existência de Deus pelo princípio posto acima Tudo o que existe vem de Deus e também pela aplicação dos princípios complementares deduzidos Vemolo porém aqui ir mais longe Distingue três tipos de seres existentes os corpos sem vida os vivos sem razão e os espíritos dotados de vida racional Mostra assim que quer apoiar a sua demonstração não em qualquer ser mas no tipo de ser mais perfeito o espírito Por essa razão a prova agostiniana da existência de Deus é denominada prova da presença de Deus na vida do espírito Na realidade a sua prova é uma ascensão fundamentada no esquema esse vivere intelligere Nós o vimos passar da observação dos sentidos exteriores para o sentido interior deste para a razão para chegar enfim à sabedoria Dito de outro modo pelo que é inferior à razão infra rationem cf II512 613 até atingir a verdade que lhe é superior Notese que Agostinho não procede por abstração mas por graus subindo na observação da hierarquia dos seres De modo tal que o grau superior não suprime os outros Ao contrário supõeos pois se apóia neles O que é menos sustenta o que é mais De outro lado porém o mais contém o que é menos O homem todo encontrase unido na busca do Ser supremo E é essa a sua teoria da subordinação 95 1847 Colocada a 3ª questão É o livrearbítrio um bem No início deste l II 37 Agostinho indicava com clareza as três metas a que se propunha 1º demonstrar a evidência da existência de Deus 2º mostrar que todo bem provém dele 3º que a vontade livre é um bem porque procede de Deus Observa agora que a terceira questão já se encontra resolvida nas conclusões das duas precedentes No fundo tratavase de afastar o escândalo de a vontade livre poder vir a escolher o mal Pois teria sido possível a Deus ter suprimido essa possibilidade e fixado a alma no bem dizia Evódio Responde nosso doutor que tal possibilidade do abuso da liberdade não implica que a vontade livre deixe de ser um bem em si 1848 assim como o mau uso que se possa fazer dos seres corporais não impede que os corpos sejam um bem em si mesmos 96 1847 Passagem reivindicada pelos pelagianos Não se pode agir corretamente a não ser pelo livrearbítrio da vontade Essa passagem é uma daquelas reivindicadas pelos pelagianos em apoio de suas teses Cf na Introdução deste livro o item 8 As Retractationes e o De libero arbitrio onde vêm selecionadas as passagens levantadas por Agostinho como algo das reivindicações pelagianas E como ele as refuta 97 1952 Benefícios da vontade livre É bem manifesto a vontade livre ser um bem 1950 Para nós é o meio de vivermos honestamente praticando as virtudes das quais é ela o sustento imediato O livrearbítrio foi concedido ao homem para que conquistasse méritos afirma Agostinho no Contra Fortunatum maniquaeum 15 É ele o suporte de toda ordem moral o princípio essencial de um mundo de valores superiores A vontade livre leva a unirnos ao Bem imutável Encontramos neste a felicidade conformandonos à luz das virtudes No próximo item Agostinho explicará como a vontade livre obtém os melhores bens ao se voltar para o Bem imutável e pelo contrário como se prejudica quando seu amor é privativo e parcial uma real privação A comunhão com Deus e os outros homens é a nossa autêntica riqueza É só a comunhão na unidade que nos traz a felicidade Nessas explanações podemos constatar mais uma vez o otimismo agostiniano Que se releia o cap 1641 deste l II A Sabedoria revelase em toda parte aos que a procuram 98 1953 O pecado aversão do sumo Bem conversão aos bens inferiores O livrearbítrio é um bem médio pois o seu bom ou mau uso está na dependência da vontade Se a vontade livre adere ao Bem imutável e universal isto é à Verdade para dela gozar então a vontade chega a possuir a vida bemaventurada o que é o Bem supremo do homem Mas a vontade livre pode se afastar desse Bem supremo para gozar de si mesma e das coisas inferiores É isso o que constitui o mal moral e o pecado Aversão do sumo Bem conversão para os bens inferiores Tais são os dois atos livres que decidem nossa felicidade ou infelicidade eternas Cf E Gilson op cit p 190 Ao descrever psicologicamente o mal Agostinho inclui esses dois elementos a aversão da vontade livre do Bem imutável e a conversão aos bens mutáveis Aversio a Deo et conversio ad creaturam No próximo l III cap 2472 ele se referirá às conseqüências da aversão a Deus O Criador deixa à criatura a liberdade de se decidir contra ele Quão grande é a sua onipotência Observemos como neste item Agostinho aborda o tema do particular e do universal A alma que ama só o que lhe é particular cai do universal que é comum a todos ao particular que lhe é próprio Apegase a esses bens como se fossem o todo Ora o universal vem de Deus Identificase com ele Quando o homem não está mais aberto para Deus enfrenta sua própria limitação Depois de se ter afastado de Deus a vontade separatista termina seu percurso caindo no nada Sermo 1423 O pecado tem ligação com o nada Cf Marcel Neusch Augustin un chemin de conversion p 69ss 99 2054 A solução platônica do problema do mal e Agostinho Agostinho expõe nas Confissões VII caps 1012 em que consistia a solução platônica do problema do mal Visão essa que viera a se impor a seu espírito Ensinavam os platônicos que o mal não é um ser mas uma privação um limite ou deficiência E por aí vinha a se tornar até mesmo uma condição para a harmonia universal Mas no ponto de vista moral o mal tinha sua origem na liberdade humana Plotino também explicava assim o mal na sua 3ª Enéades II e III e na 4ª Enéades II 26 Agostinho que foi um adepto da teoria platônica do bem igualmente faz consistir todo o mal na carência do bem Dessa maneira um ser existe tanto menos quanto mais carece de bem Logo o pecado que é uma carência da bondade do livrearbítrio não pode vir de Deus mas de um defeito de ser e do operar É ele verdadeiro nãoser A liberdade de que goza o homem vem a ser a única fonte do mal O mal moral tem pois sua origem numa deficiência da vontade livre porque todo bem por mínimo que seja vem de Deus No início do próximo l III nos caps 1 e 9 Agostinho voltará a desenvolver essas idéias Cf ainda no De Ordine II4 e nas De diversis quaestionibus q 24 e 27 E ainda numa carta a s Jerônimo carta 166513 Aí a ordem estética do universo é posta em plena luz 100 2054 Sem a graça divina ninguém fica livre do mal Agostinho indica este texto em suas Retractationes 96 como sendo uma resposta antecipada aos pelagianos sobre a necessidade da graça Acrescenta ter insistido sobre essa questão nas seguintes passagens além da presente II1950 e no livro II5052 Ensina ele que o próprio livrearbítrio e suas boas ações são o fruto da graça divina Essas afirmações possuem especial interesse também no ponto de vista filosófico Fazemnos penetrar até o cerne na doutrina agostiniana na qual tudo no universo está explicado por sua dependência de Deus Desse modo quanto mais nós dependermos de Deus pela graça tanto mais seremos livres Em outras palavras tanto mais livre é o homem quanto mais opta pelo bem e aproximase dele A verdadeira liberdade não consiste na faculdade de escolher entre o bem e o mal e sim no poder voltarse para o bem e renunciar ao mal No De correptione et gratia 32 diz Agostinho Pois não é o livrearbítrio ainda mais livre quando não pode servir ao pecado LIVRO III LOUVOR A DEUS PELA ORDEM UNIVERSAL DA QUAL O LIVRE ARBÍTRIO É UM ELEMENTO POSITIVO AINDA QUE SUJEITO AO PECADO INTRODUÇÃO 113 Capítulo 1 O movimento culpável da vontade que se afasta de Deus vem do livrearbítrio 1 Ev Vejo já claramente que é preciso contar a vontade livre entre os bens e não dos menores Portanto precisamos reconhecer a vontade como dom de Deus e quanto foi conveniente ela nos ter sido dada Nessas condições desejo agora saber de ti caso o julgues oportuno de onde procede a inclinação pela qual a mesma vontade afastase daquele Bem universal e imutável para se voltar em direção a bens particulares alheios e inferiores todos aliás sujeitos a mutações Ag E o que te parece necessário saber Ev O seguinte uma vez que a vontade nos foi dada de tal forma que essa inclinação aos bens inferiores lhe seja natural então ela tem necessariamente de se voltar para tais bens Ora não se pode descobrir culpa alguma onde a necessidade e a natureza dominam Ag Julgas que esse movimento é bom ou não Ev Acho mal Ag Então tu o condenas Ev Por certo eu o condeno Ag Logo condenas um movimento que não é culpável para a alma Ev Não condeno um movimento não culpável para a alma mas ignoro se não existe alguma culpa no fato de alguém abandonar o Bem imutável para se voltar para as coisas mutáveis Ag Condenas então o que ignoras Ev Não me impugnes com palavras Eu disse Ignoro se não existe alguma culpa para dar a entender que sem dúvida há uma culpa Com efeito pela palavra dita Ignoro por certo declarei suficientemente ridícula uma dúvida a respeito de coisa tão evidente Ag Considera pois que verdade tão certa será essa que te levou a esquecer assim rapidamente o que afirmaste há pouco Com efeito se esse movimento de se voltar para os bens mutáveis existe vindo da natureza ou devido à necessidade ele não pode de modo algum ser culpável Ora tu o consideras agora como culpável com firmeza tão absoluta que crês até ser digno de zombaria qualquer dúvida a respeito de coisa tão certa Por que então pareceu a ti que era preciso afirmar ou pelo menos exprimir sob forma duvidosa o que tu mesmo estás convencido de ser manifestamente falso Na realidade disseste se a vontade livre nos foi dada de tal forma que esse movimento lhe é natural então voltase ele necessariamente para tais bens mutáveis e não se pode reconhecer falta alguma onde a natureza e a necessidade dominam Entretanto a vontade não nos foi dada dessa forma e disso não deverias duvidar de modo algum já que não duvidas que tal movimento é culpável Ev Eu disse considerar esse mesmo movimento culpável e ser por isso que ele me desagradava Não posso duvidar que não seja repreensível Mas nego que a alma levada por qualquer movimento que a distancie do Bem imutável em direção às coisas mutáveis possa ser culpada caso seja ela impulsionada necessariamente por sua própria natureza101 2 Ag Pertence a quem esse movimento que concordas certamente deve ser culpável Ev Vejo que o sinto na alma mas não sei a quem hei de o atribuir Ag Negas porventura ser a alma movida por esse movimento Ev Não o nego Ag Negas portanto que o movimento pelo qual uma pedra é movida pertence à mesma pedra Pois não falo é claro daquele movimento pelo qual movemos uma pedra ou daquele que ela recebe de alguma força estranha como por exemplo quando é lançada ao ar Mas sim daquele outro movimento pelo qual ela volta para a terra em virtude de seu próprio peso e aí cai Ev Não nego é verdade que o movimento pelo qual a pedra é impelida como o dizes e cai para baixo não lhe pertença mas isso lhe é natural Se a alma possuir dessa mesma forma seu movimento para as coisas inferiores evidentemente este também lhe será natural e não se poderá censurar com razão o fato de ela seguir um movimento próprio à sua natureza Porque mesmo se ela o seguisse para sua própria perda seria constrangida pela necessidade da natureza Assim pois se não hesitamos de declarar culpável esse movimento na alma para isso é preciso que neguemos absolutamente que ele lhe seja natural Por conseguinte tal movimento não se assemelha àquele que move a pedra que cai naturalmente Ag Pergunto acaso teremos chegado a algo conclusivo nos dois diálogos precedentes Ev Evidentemente Ag Penso portanto que tu te lembras como em nosso primeiro diálogo I1121 ficou suficientemente estabelecido que nada pode sujeitar o espírito à paixão a não ser a própria vontade Porque nem um agente superior nem um igual podem constrangêla a esse vexame visto que seria injustiça Tampouco um agente inferior porque esse não possui poder para tal Resta portanto que seja próprio da vontade aquele movimento pelo qual ela se afasta do Criador e dirigese às criaturas para usufruir delas Se pois ao declarar esse movimento culpável e para ti apenas duvidar disso parecia irrisório certamente ele não é natural mas voluntário Aliás assemelhase de fato ao movimento que arrasta a pedra para baixo sob este aspecto que assim como tal movimento é próprio da pedra assim também é próprio da alma Mas diferenciase nisto que a pedra não possui o poder de reter o movimento que a arrasta e ela pode não o querer Ela não é arrastada ao abandono dos bens superiores para escolher os inferiores Assim o movimento da pedra é natural e o da alma voluntário102 Tanto assim que se fosse dito a pedra cometer pecado porque por seu próprio peso ela tende para baixo seríamos julgados não digo mais estúpidos do que uma pedra mas indiscutivelmente uns loucos Ao contrário podemos acusar a alma de pecado quando verificamos que claramente ela prefere os bens inferiores em abandono dos superiores Ainda nos será necessário investigar de onde procede esse movimento que desvia a vontade do Bem imutável para os bens mutáveis já que reconhecemos que ele procede da própria alma e é ademais voluntário e por aí culpável Assim todo ensinamento a esse respeito deve ter como meta condenar e reprimir tal movimento da queda para os bens mutáveis e orientar nossa vontade a escolher os bens eternos conduzindoa ao gozo do Bem imutável 3 Ev Vejo e por assim dizer toco e percebo a verdade do que dizes Pois não sinto nada de mais firme e mais íntimo do que o sentimento de possuir uma vontade própria e de ser por ela levado a gozar de alguma coisa Ora não encontro realmente o que chamaríamos de meu a não ser a vontade pela qual quero e não quero E já que por seu intermédio eu cometo o mal a quem atribuir a não ser a mim mesmo Certamente quem me fez é um Deus bom e como não posso praticar nenhuma boa ação a não ser por minha vontade fica pois bastante claro que é acima de tudo para fazer o bem que a vontade me foi dada por esse Deus tão bom Quanto ao movimento pelo qual a vontade se inclina de um lado e de outro se não fosse voluntário e posto em nosso poder o homem não seria digno de ser louvado quando sua vontade se orienta para os bens superiores tampouco ser inculpado quando girando por assim dizer sobre si mesmo inclinase para os bens inferiores Nesse sentido não se deveria exortar a desprezar os bens transitórios para adquirir os bens eternos E a renunciar à má vida para viver honestamente Ora quem quer que estime não haver motivo para serem dadas aos homens essas espécies de advertência merece ser excluído do número dos viventes PRIMEIRA PARTE 24411 CONCILIAÇÃO ENTRE O PECADO E A PRESCIÊNCIA DE DEUS Capítulo 2 Objeção não acontece necessariamente o que Deus prevê 4 Ev Assim sendo sintome sumamente preocupado com uma questão como pode ser que pelo fato de Deus conhecer antecipadamente todas as coisas futuras não venhamos nós a pecar sem que isso seja necessariamente De fato afirmar que qualquer acontecimento possa se realizar sem que Deus o tenha previsto seria tentar destruir a presciência divina com desvairada impiedade É porque se Deus sabia que o primeiro homem havia de pecar o que deve concordar comigo todo aquele que admite a presciência divina em relação aos acontecimentos futuros se assim se deu eu não digo que por isso ele não devesse ter criado o homem pois o criou bom e o pecado em nada pode prejudicar a Deus Além do que depois de Deus ter manifestado toda a sua bondade criandoo manifestou sua justiça punindo o pecado e ainda sua grande misericórdia salvandoo Desse modo não digo que ele não devia ter criado o homem mas já que previra seu pecado como futuro afirmo que isso devia inevitavelmente realizarse Como pois pode existir uma vontade livre onde é evidente uma necessidade tão inevitável Condições para o entendimento do problema crer na Providência e cultivar sentimentos de piedade 5 Ag Insististe com veemência Que a misericórdia de Deus nos venha em ajuda e abra a porta a nós que nela batemos Contudo eu acreditaria facilmente que se os homens em sua maioria são atormentados por essa questão o único motivo é que eles não procuram a solução com piedade E estão mais prontos a se desculparem do que a se acusarem de seus pecados Com efeito alguns admitem de bom grado que nenhuma Providência divina preside as coisas humanas E assim abandonando ao destino sua alma e corpo entregamse a toda espécie de vícios que os golpeiam e despedaçam Negando os julgamentos de Deus e menosprezando os dos homens crêem livrarse dos que os acusam apelando para a proteção da sorte Acostumaramse a representar essa sorte pintandoa como pessoa cega Assim pensam ter eles mesmos mais valor do que ela pela qual se crêem governados Ou então confessam partilhar sua cegueira ao sentir e falar dessa maneira Poderseia sem absurdo conceder a tais pessoas que todas as suas atividades são uma seqüência de acasos visto que caem em cada uma de suas ações103 Contra essa opinião porém cheia de erros loucos e insensatos creio que já tratamos suficientemente em nosso segundo diálogo cf II1745 Há outras pessoas que sem ousar negar que a Providência de Deus governa a vida humana preferem crer entretanto por erro ímpio que essa Providência é impotente injusta até mesmo má Isso ao invés de confessarem os seus próprios pecados com piedade suplicante Não obstante se todas essas pessoas se deixassem persuadir pensando no melhor dos Seres o mais justo e poderoso creriam que a bondade a justiça e o poder de Deus são bem maiores e mais elevados do que todas as concepções do próprio espírito Caso se vissem obrigadas a considerarse a si mesmas entenderiam que deveriam render graças a Deus mesmo se ele tivesse querido lhes dar uma natureza inferior àquela que possuem Exclamariam elas no mais íntimo de sua consciência Eu dizia Senhor tende piedade de mim curai minha alma porque pequei contra vós Sl 405 Essas pessoas seriam então conduzidas ao templo da sabedoria pelos caminhos seguros da misericórdia divina E sem conceber orgulho algum por suas descobertas nem perturbação alguma diante do que lhes falta entender tornarseiam pela ciência mais aptas à contemplação E reconhecendo sua ignorância mais pacientes para tentar novas investigações Quanto a ti porém Evódio não duvido de estares persuadido de tudo isso Considera com quanta facilidade poderei agora te responder sobre problema tão grande depois de me teres respondido a algumas poucas questões Capítulo 3 A presciência divina longe de destruir o ato livre exige a sua existência 6 Ag Com efeito eis o que é causa de preocupação e admiração como não admitir contradição e repugnância no fato de Deus por um lado prever todos os acontecimentos futuros e por outro nós pecarmos por livre vontade e não por necessidade Tu dizes realmente se Deus prevê o pecado do homem este há de pecar necessariamente Ora se isso é necessário não há portanto decisão voluntária no pecado mas sim irrecusável e imutável necessidade E desse raciocínio receias precisamente chegarmos a uma das duas seguintes conclusões ou negar em Deus impiamente a presciência de todos os acontecimentos futuros ou bem caso não possamos negálo de admitir que pecamos não voluntária mas necessariamente Mas haverá outro motivo de tua perplexidade Ev Não nada mais no momento Ag Então tudo o que Deus prevê acontece ao teu parecer necessariamente e não de modo voluntário ao homem Ev É bem essa a minha opinião Ag Desperta enfim e após refletir um pouco dentro de ti dizeme se puderes que tipo de atos de vontade terás amanhã o de pecar ou de agir corretamente Ev Não o sei Ag O que dizes E Deus mesmo pensarás que também o ignora Ev Nunca pensaria isso Ag Logo se ele conhece qual deve ser a tua vontade de amanhã igualmente prevê qual a vontade de todos os homens quer os existentes quer os que virão a existir Com maior razão prevê sua própria conduta em relação aos justos e aos ímpios Ev Certamente se digo que Deus tem a presciência de minhas ações direi com maior segurança que ele também tem a presciência das suas próprias e assim prevê com absoluta certeza o que fará Ag Ora acaso tu não temes dizer que Deus fará também todas as suas obras por necessidade e não voluntariamente visto haver de acontecer tudo o que Deus prevê necessária e não livremente Ev Ao dizer que todos os acontecimentos previstos por Deus acontecem necessariamente eu tinha só em mente aqueles que acontecem com os seres criados e não os que acontecem com ele mesmo Com efeito esses na realidade não acontecem pois são eternos Ag Então Deus não atua sobre as suas criaturas Ev Ele estabeleceu uma vez por todas como deve decorrer a ordem do universo que criou e nada dispõe com novo querer Ag Acaso não cria o Criador ninguém feliz Ev Certamente o cria Ag E ele o faz por certo no momento em que essa pessoa se torna feliz Ev Assim é Ag Se pois por exemplo tu deves te tornar feliz daqui a um ano só será daqui a um ano que serás feliz Ev Sim Ag Nesse caso Deus prevê hoje o que farás daqui a um ano Ev Sempre o previu e ainda agora o prevê E admito que assim deve suceder no futuro 7 Ag Peçote que me digas não és tu uma criatura de Deus e a tua felicidade não há de se realizar em ti Ev Por certo eu sou não só sua criatura como é em mim mesmo que se realizará a minha felicidade Ag Mas então não será voluntária mas necessariamente que a tua felicidade realizarseá em ti por disposição de Deus Ev A vontade de Deus constitui para mim uma necessidade Ag Então serás feliz contra tua vontade Ev Ah Se estivesse em meu poder o ser feliz sem dúvida alguma eu o seria desde agora E se não o sou é porque não sou eu mas ele que me torna feliz Ag De modo maravilhoso a verdade se manifestou por tua voz Pois não poderias de fato encontrar nada que esteja em nosso poder senão aquilo que fazemos quando o queremos Eis por que nada se encontra tão plenamente em nosso poder do que a própria vontade Pois esta desde que o queiramos sem demora estará disposta à execução104 Assim podemos muito bem dizer não envelhecemos voluntariamente mas por necessidade Ou não morremos voluntariamente mas por necessidade E outras coisas semelhantes Contudo que não queiramos voluntariamente aquilo que queremos quem mesmo em delírio ousaria afirmar tal coisa É porque ainda que Deus preveja as nossas vontades futuras não se segue que não queiramos algo sem vontade livre Pois ao dizer a respeito da felicidade que tu não te tornas feliz por ti mesmo disseste isso como se talvez o tivesse negado Ora o que eu disse foi quando chegares a ser feliz tu não o serás contra a tua vontade mas sim querendoo livremente Pois se Deus prevê tua felicidade futura e nada te pode acontecer senão o que ele previu visto que caso contrário não haveria presciência Todavia não estamos obrigados a admitir a opinião totalmente absurda e muito afastada da verdade que tu poderás ser feliz sem o querer Ora a vontade de ser feliz que terás quando começares a sêlo certamente não te é tirada pela presciência de Deus que já desde hoje voltase com certeza sobre tua felicidade futura Assim também a vontade culpável se acaso estiver em ti não deixará de ser vontade livre pelo fato de ter Deus previsto a existência futura dela105 8 Ag Considera agora eu te rogo com quanta cegueira dizem Se Deus previu minha vontade futura visto que nada pode acontecer senão o que ele previu é necessário que eu queira o que ele previu Ora se isso fosse necessário não seria mais voluntariamente que eu quis forçoso é reconhecêlo mas por necessidade Ó insólita loucura Pois como não pode acontecer nada se não o que foi previsto por Deus a vontade da qual ele previu a existência futura é vontade livre Desprezo igualmente outra afirmação monstruosa como a que acabo de atribuir àquele mesmo opositor que diz É necessário que eu queira de determinado modo Pois por aí pelo fato de essa pessoa supor a necessidade de querer de certo modo ela tenta eliminar a mesma vontade livre Já que lhe é inevitável querer dessa maneira de onde tirará ela o seu querer visto que não haverá mais o ato livre da vontade E se esse homem afirmar que não quis dizer isso contudo ao dizer que visto haver necessidade de querer a vontade não possui mais aquele seu poder de liberdade então poderá ele ser refutado com o que tu mesmo respondeste quando te perguntei se era contra tua vontade que havias de te tornar feliz Com efeito respondesteme que serias logo feliz se tivesse tal poder porque tinhas a vontade mas não a possibilidade conforme disseste Ao que eu acrescentei que essa era a exclamação mesma da verdade provinda de tua voz cf 37 Realmente não podemos negar que algo não está em nosso poder quando aquilo que queremos não se encontra à nossa disposição Entretanto quando queremos se a própria vontade nos faltasse evidentemente não o quereríamos Mas se por impossível acontecer que queiramos sem o querer está claro que a vontade não falta a quem quer E nada mais está tanto em nosso poder quanto termos à nossa disposição o que queremos Conseqüentemente nossa vontade sequer seria mais vontade se não estivesse em nosso poder106 Ora por isso mesmo por ela estar em nosso poder é que ela é livre para nós Pois é claro que aquilo que não é livre para nós é o que não está em nosso poder ou que não se encontra à nossa disposição Eis por que sem negar que Deus prevê todos os acontecimentos futuros entretanto nós queremos livremente aquilo que queremos Porque se o objeto da presciência divina é a nossa vontade é essa mesma vontade assim prevista que se realizará Haverá pois um ato de vontade livre já que Deus vê esse ato livre com antecedência E por outro lado não seria ato de nossa vontade se ele não devesse estar em nosso poder Portanto Deus também previu esse poder Logo essa presciência não me tira o poder Poder que me pertencerá tanto mais seguramente quanto mais a presciência daquele que não pode se enganar previu que me pertenceria Ev Eis que agora não nego mais antes admito que tudo o que Deus previu acontece necessariamente Mas se ele previu os nossos pecados foi de tal forma que haveríamos de guardar nossa vontade E esta não deixa de ser livre e estar sempre posta sob nosso poder107 Capítulo 4 Obscuridade da relação entre presciência divina e liberdade humana 9 Ag O que então te embaraça ainda Talvez esqueceste as conclusões de nosso primeiro diálogo cf III 123 e por isso negas que sem sermos forçados por ninguém nem por agente superior nem por inferior nem por igual não pecamos senão por nossa própria vontade Ev Não ouso negar nenhuma dessas verdades Entretanto confesso que não vejo ainda como não se contradizem estes dois fatos a presciência divina de nossos pecados e a nossa liberdade de pecar Porque enfim Deus é justo É preciso reconhecêlo E ele prevê tudo Mas quisera saber em virtude de que justiça ele castiga os pecados que não podem deixar de acontecer Ora como o que ele previu não pode deixar de acontecer necessariamente como não se há de atribuir ao Criador o que em suas criaturas inevitavelmente acontece Resposta prever não é forçar 10 Ag Conforme teu aparecer de onde vem a oposição a nosso livrearbítrio em face à presciência de Deus Da presciência ou do caráter divino dessa presciência Ev Sobretudo por ser presciência de Deus Ag Então se fosses tu a prever com alguma certeza que alguém haveria de pecar não seria necessariamente que ele haveria de pecar Ev Ao contrário seria necessário que ele viesse a pecar De outra maneira minha previsão não seria uma presciência por não se referir a fatos verídicos Ag Nesse caso se as coisas previstas acontecem necessariamente não é porque a presciência é de Deus mas somente porque há uma presciência Porque se a coisa prevista não fosse certa não haveria presciência Ev De acordo mas aonde tudo isso nos levará Ag Se não me engano não se segue da tua previsão que tu forçarias a pecar aquele de quem previste que haveria de pecar nem a tua presciência mesma o forçaria a pecar Ainda que sem dúvida ele houvesse de pecar pois de outra forma não terias tido a presciência desse acontecimento futuro Assim também não há contradição a que saibas por tua presciência o que outro realizará por sua própria vontade Assim Deus sem forçar ninguém a pecar prevê contudo os que hão de pecar por própria vontade 11 Ag Por que pois como justo juiz não puniria ele os atos que sua presciência não forçou a cometer Porque assim como tu ao lembrares os acontecimentos passados não os força a se realizarem assim Deus ao prever os acontecimentos futuros não os força E assim como tens lembrança de certas coisas que fizeste todavia não fizeste todas as coisas de que te lembras do mesmo modo Deus prevê tudo de que ele mesmo é o autor sem contudo ser o autor de tudo o que prevê Mas dos atos maus de que não é o autor ele é o justo punidor Compreende destarte com que justiça Deus pune os pecados pois ainda que os sabendo futuros ele não é quem os faz Porque se não tivesse de castigar os pecadores porque prevê os seus pecados ele não teria tampouco de recompensar os que procedem bem Visto que não deixa de prever tampouco as suas boas ações Reconheçamos pois pertencer à sua presciência o fato de nada ignorar dos acontecimentos futuros E também visto o pecado ser cometido voluntariamente ser próprio de sua justiça julgálo e não deixar que seja cometido impunemente já que a sua presciência não os forçou a serem cometidos SEGUNDA PARTE 5121646 RELAÇÕES ENTRE O PECADO E A PROVIDÊNCIA DIVINA A REGRA FUNDAMENTAL LOUVAR A DEUS POR TER DADO O SER ÀS CRIATURAS RACIONAIS AINDA QUE PECADORAS Capítulo 5 Louvemos a Deus por todas as obras criadas as superiores como as inferiores 12 Ag Quanto à tua terceira pergunta Como é possível não atribuir ao Criador tudo o que em suas criaturas acontece necessariamente108 Temos um esclarecimento fácil nesta regra de piedade a qual convém lembrarmos É para nós um dever de sempre darmos graças a nosso Criador Certamente será muito justo louválo por sua bondade tão generosa mesmo no caso de ele nos criar entre seres de alguma forma inferiores Pois nossa alma mesmo corrompida por pecados será contudo sempre mais nobre e melhor do que se fosse por exemplo esta luz material visível Entretanto tu mesmo vês quantos louvores são atribuídos a Deus pela excelência da luz até pelos que vivem entregues aos sentidos do corpo Logo pelo fato de serem as almas pecadoras censuradas não fiques perturbado a ponto de dizeres em teu coração Seria melhor para elas que não existissem Pois saibas que é comparando a elas mesmas que as condenas pensando no que seriam se não tivessem cometido pecado algum Todavia Deus seu Criador não é menos digno dos mais magníficos louvores de que o homem é capaz de lhe atribuir E isso não somente por têlas mantido na ordem por ele estabelecida em toda justiça mesmo sendo pecadoras mas também por têlas criado em tal dignidade que ainda manchadas pelo pecado elas não cedem em nobreza de modo algum à luz material pela qual justamente o louvamos109 13 Eis aqui ainda outro conselho toma cuidado para não dizeres Seria melhor se estas coisas não existissem mas de preferência Elas poderiam ter sido constituídas de outro modo Pois tudo o que a razão apresenta com verdade como sendo melhor saiba que Deus o fez sendo ele o autor de todos os bens110 Ora não é mais uma razão verdadeira mas uma mesquinha inveja o fato de não se querer admitir que tendo pensado que uma coisa melhor deveria ter sido produzida nada de menos bom seja feito Como por exemplo se tendo visto o céu não quisesses que a terra fosse criada Ora isso seria uma total iniqüidade Tua censura sem dúvida seria justa caso visses que o céu tendo sido omitido na série de seres a terra tenha sido produzida Pois poderias dizer que ela deveria ter sido feita conforme a idéia que pudeste conceber do céu Então quando tivesses visto realizado o céu naquele grau de perfeição ao qual querias levar a terra ele te pareceria claramente produzido sob o nome de céu e não sob o de terra Julgo que tu não estando privado de algo melhor de modo algum deverias achar mal a produção de outra realidade inferior neste caso a existência da terra Por sua vez esta mesma terra apresenta em todas as suas partes tal variedade que nada pode se oferecer a quem reflete sobre os elementos de sua beleza que não seja em toda a sua totalidade produzida por Deus autor de todas as coisas Com efeito da parte mais fértil e aprazível da terra até à mais árida e estéril passase por graus tão bem dispostos que não ousarias dizer que nenhuma dessas partes é má a não ser comparada a outra melhor E assim sobes no louvor por todos os degraus Entretanto isso de maneira que ao se encontrar no ápice na melhor espécie de terra não possas querer que ela seja a única Ora entre toda a terra e o céu qual não é a distância Entre eles com efeito interpõemse os corpos úmidos e os gasosos E a partir desses quatro elementos terra céu água e ar resulta outra infinita variedade de formas e espécies que só Deus pode enumerar Pode pois conforme isso existir na natureza certas coisas que tua razão não consegue conceber Mas que algo concebido por tua razão dotado de verdadeira idéia não exista isso não é possível Pois tu não podes conceber uma coisa melhor entre os seres criados que tenha escapado ao autor da criação Com efeito a alma humana está em união natural com os exemplares divinos111 dos quais ela depende Assim quando afirma Seria melhor ter sido feito isto em vez daquilo diz uma verdade e a alma vê o que diz Ela a vê nesses exemplares aos quais está ligada Logo que creia que Deus fez tudo o que ela por sua razão dotada de verdade mostrar que ele deveria ter feito mesmo se ela não o vê como uma realidade entre as coisas realizadas Porque mesmo se ela não pudesse ver o céu com os seus olhos e entretanto concluísse por sua razão dotada de verdade que tal coisa deveria ter sido feita ela deveria crer em sua existência Onde veria ela com efeito por seu pensamento que essa criatura deveria ter sido feita a não ser nesses exemplares conforme os quais tudo foi feito Quanto às coisas que não se encontram nesses exemplares ninguém pode concebêlo como verídico na medida mesma em que estão desprovidas de verdadeira realidade A vontade mesmo pecadora é um bem 14 Constitui um erro comum à maioria dos homens quando ao conceber em seu espírito a existência de realidades melhores não as procura com os olhos corporais em seus lugares próprios Seria por exemplo como se alguém percebendo pela razão a perfeita redondeza do círculo se irritasse por não o encontrar em uma noz caso ainda não tivesse visto nenhum outro corpo redondo além dessa fruta Semelhantes a esse homem são aqueles que vêem em sua mente por uma idéia verdadeira que uma criatura seria melhor se mesmo dotada de vontade livre ficasse sempre fixa em Deus sem nunca haver de pecar E de outro lado ao constatar os pecados dos homens se contristassem não de que eles continuem a pecar mas de que tenham sido criados em condição de poder pecar Dizem Deus deveria nos ter criado de tal modo que sempre quiséssemos gozar de sua imutábel verdade sem jamais aceitar o pecado Que cessem esses lamentos e não censurem ao Criador Pois criandoos Deus não os forçou a pecar visto que lhes deu o poder de os cometer ou não caso o quisessem E por outro lado não existem os anjos que nunca pecaram nem pecarão jamais Na verdade se te comprazes com uma criatura cuja vontade persevera até o fim sem pecar certamente tens razão de a preferir àquela que peca Mas assim como tu a preferes em teu pensamento assim também Deus seu Criador a prefere na ordem das coisas Crês na existência de tal criatura a qual se encontra no grau supremo dos seres e no mais alto dos céus Porque se o Criador manifestou sua bondade produzindo uma criatura de quem previa os pecados futuros como não teria podido manifestar também sua bondade produzindo aquela de quem previa igualmente não dever jamais pecar112 15 Essa tão sublime criatura a mais elevada de todas está na posse definitiva de sua felicidade Pois goza para sempre de seu Criador como o merece por sua vontade indefectível de se manter sempre unida à justiça Mas abaixo dela a criatura pecadora possui o lugar que lhe compete pelo princípio da ordem Ela perdeu a bemaventurança pecando mas não pôde perder a possibilidade de a recuperar Essa criatura está acima certamente daquela outra que permanece para sempre obstinada em sua vontade de pecar Entre esta última e aquela primeira que permanece fixa em sua vontade de não se separar da justiça a segunda representa uma espécie de meio termo pois pode recobrar sua grandeza pela humildade da penitência Ora mesmo quanto àquela criatura sobre a qual Deus previu não somente que ela pecaria mas ainda que perseveraria em sua vontade de pecar nem dela Deus afastou a efusão de sua bondade deixandoa de criar Pois do mesmo modo que um cavalo que se extravia é melhor do que uma pedra que não pode se extraviar ficando sempre em seu lugar próprio por faltarlhe movimento e sensibilidade assim uma criatura que peca por sua vontade livre é melhor do que aquela outra que é incapaz de pecar por carecer dessa mesma vontade livre De igual maneira eu louvarei o vinho coisa boa em seu gênero e censuraria o homem que tivesse se embriagado com esse mesmo vinho E contudo esse homem que eu censurei e que se encontra embriagado eu o preferiria ao vinho que enalteci e com o qual ele se embriagara Acontece o mesmo com as criaturas materiais Cada ser com todo direito é digno de louvor conforme seu grau de perfeição enquanto se deve censurar os que abusam e assim afastam seu olhar da percepção da verdade E contudo esse seres mesmo corrompidos e como que em estado de embriaguez não por motivo de seus vícios mas devido ao que conservam da dignidade de sua natureza permanecem preferíveis àqueles outros simplesmente materiais A excelência das almas espirituais 16 Assim pois qualquer alma vale mais do que todo ser corporal e nenhuma alma pecadora seja qual for a profundidade de sua queda por mudança alguma tornase jamais um corpo Nem se pode retirarlhe nada da perfeição que faz dela uma alma Portanto ela conservará sempre sua superioridade sobre o corpo Ora entre os corpos materiais a luz ocupa o lugar mais excelente Seguese que a última das almas deve ser colocada acima desse principal ser entre os corpos materiais Pode acontecer que certo corpo prevaleça sobre outro naturalmente unido a uma alma mas ele de modo algum pode estar acima de alma alguma Por que motivo então não se há de bendizer a Deus e glorificálo com inefáveis louvores quando tendo criado almas destinadas a perseverar na observância das leis da justiça nosso Criador deu a vida também a outras almas que ele previu haver de pecar e mesmo perseverar em seu pecado Visto que estas últimas almas são ainda superiores em bondade aos seres animados que são incapazes de pecar seja por falta de razão seja por carecer do livrearbítrio da vontade E além disso as almas mesmo impenitentes são ainda mais nobres e excelentes do que qualquer brilho esplêndido dos corpos luminosos Esses que muitos homens cometem o erro grosseiro de venerar como sendo a substância própria de Deus altíssimo113 Ora no mundo dos seres corpóreos desde a harmonia das constelações siderais até ao número de nossos cabelos encontrase a bondade e a perfeição de todas as coisas ordenadas de modo tão gradual e maravilhoso que seria grande ignorância perguntar O que é isto Para que serve aquilo Porque cada ser foi criado dentro de sua ordem correspondente Sendo assim quanto mais dará prova de ignorância quem perguntar o mesmo em relação a qualquer alma Pois esta por mais que se tenha degenerado da beleza a que chegara e tenha caído em algum defeito estará sempre sem dúvida alguma em dignidade muito acima do que todos os corpos materiais Julgamentos incorretos e o certo conforme a razão 17 Com efeito um é o julgamento da razão e outro bem diferente o do próprio interesse pessoal A razão aprecia segundo a luz da verdade e assim subordina as coisas inferiores às superiores conforme um julgamento correto Mas o interesse pessoal inclinase mais freqüentemente a julgar conforme a vantagem que lhe proporcionam as coisas a ponto de fazer maior caso de coisas que a razão demonstra serem de menor valor Por exemplo enquanto a razão coloca os corpos celestes bem acima dos corpos terrestres não obstante acontece que o homem carnal prefira ver até mesmo o céu privado de diversos astros a ter o seu campo privado de um só arbusto ou o seu rebanho de uma única vaca Vemos as pessoas adultas desprezarem por completo ou pelo menos esperarem pacientemente que o tempo corrija os julgamentos das crianças Pois estas exetuando algumas pessoas em cujo amor se comprazem preferem que morra qualquer homem mais do que um passarinho seu E muito mais se esse tal homem lhes causa medo e o seu passarinho for belo e canoro Semelhantemente as pessoas em cuja alma já surgiu a sabedoria encontramse habitualmente com homens que não sabendo julgar as coisas conforme a razão louvam a Deus pelas criaturas ínfimas por serem estas mais adaptadas a seus sentidos carnais enquanto abstêmse de louválo ou louvam pouco pelas criaturas superiores e portanto mais excelentes Encontramse também com outras certas pessoas que ousam até censurar a Deus e corrigilo e até mesmo recusamse de crer que ele seja o autor dos seres inferiores Devem os sábios habituaremse a desprezar totalmente os julgamento de tais indivíduos Mas caso não consigam corrigilos enquanto esperam sua correção toleremnos e suportemnos pacientemente Capítulo 6 Não atribuir a Deus a causa do pecado 18a Nessas condições as pessoas afastamse muito da verdade ao supor que têm direito de atribuir ao Criador os pecados das criaturas dizendo que aquilo que Deus previu como futuro deva acontecer necessariamente Longe da verdade também estavas tu ó Evódio114 ao dizeres que não compreendias como não atribuir ao Criador o que em sua criatura acontece necessariamente Eu pelo contrário não encontro e mesmo certifico de que não existe nem pode existir meio de atribuir a Deus o que em suas criaturas acontece necessariamente Ao contrário que tudo se realiza de tal forma que sempre fica intacta a vontade livre do pecador B OBJEÇÃO E O DESEJO DA PRÓPRIA MORTE Ninguém quer deixar de existir 18b Realmente se alguém me dissesse Gostaria mais de não existir do que de ser infeliz na vida responderlheia Mentes Pois neste mesmo momento és infeliz e entretanto não queres morrer senão em vista de existires Assim sem quereres ser infeliz queres apesar disso viver Dá portanto graças a Deus de que existes conforme o teu querer a fim de seres libertado daquilo que és contra a tua vontade Pois existes voluntariamente e és infeliz contra tua própria vontade Ora se és ingrato pelo que és voluntariamente com razão serás forçado a ser o que não queres isto é infeliz Pois bem eu louvo a bondade do Criador de que mesmo ingrato tu possuis o que queres e louvo a justiça do divino Ordenador pelo fato de que possuis os dissabores mesmo sem o quereres devido à tua ingratidão115 Louvar a Deus por sua bondade e justiça 19 E se essa mesma pessoa me replicasse dizendo Se eu não quero morrer não é precisamente por amar mais ser infeliz do que não existir em absoluto Mas é por recear ser mais infeliz ainda depois da morte Então eu haveria de responder Se tal estado fosse injusto esse não seria o teu Se porém fosse justo louvemos Aquele cujas leis te são impostas E caso ela insistisse ainda E como poderei pensar que se tal estado fosse injusto não seria o meu Eu explicarlheia Pelo seguinte caso dependa de teu próprio poder ou não serás infeliz ou então por te comportares sem justiça serás justamente infeliz Se ao contrário querendo te comportar com justiça e não o conseguindo então não dependerias de ti mesmo Estarias assim ou sob o poder de outra pessoa ou mesmo não dependendo de ninguém Ora isso seria voluntariamente ou contra tua vontade porque não podes estar assim contra teu querer a não ser que estejas vencido por alguma força exterior e superior Ora aquele que não está sob o poder de ninguém não pode ser vencido por força estranha alguma Mas se é voluntariamente que não estás sob o poder de ninguém isso quer dizer que estás sob o teu próprio poder Então se te comportas sem probidade serás com razão infeliz E então o que for que te aconteça será por tua vontade Encontrarás nisso ainda motivos para dar graças à bondade de teu Criador E no caso de não te sentires sob teu próprio poder será um ser mais fraco que tu ou um mais forte que te manterá sob sua dependência Se for um ser mais fraco isso será por tua culpa e assim tua infelicidade será justa porque poderias vencer algo mais fraco caso o quisesses Mas se for alguém mais forte que retém tua fraqueza sob seu poder essa situação é tão razoável que não terias motivo algum para considerála injusta Portanto é plena verdade o que te dizia Se esse teu estado fosse injusto não seria o teu Se porém fosse justo louvemos Aquele por cujas leis tu te encontras nesse estado Capítulo 7 A existência é amada porque vem do sumo Ser 20 Se todavia alguém me disser Se embora sendo infeliz prefiro existir a não existir de modo algum é porque acontece que atualmente eu existo Entretanto se tivesse podido ter sido consultado antes de existir teria escolhido não existir a viver de um modo infeliz Com efeito agora este meu receio de perder a existência apesar de ser infeliz é efeito da minha miséria que me impede de querer o que na verdade deveria pretender Pois na presente condição deveria preferir o nãoser a uma existência infeliz Agora confesso que prefiro a existência mesmo infeliz ao nãoser Mas essa vontade é tanto mais insensata quanto mais miserável e é tanto mais miserável quanto vejo com maior verdade que não a deveria querer Responderia a essa pessoa Toma cuidado em não te enganares lá mesmo onde julgas estar com a verdade Pois se fosses feliz gostarias certamente antes existir do que não existir E agora que existes mesmo infeliz preferes ainda existir infeliz que sejas a não existir em absoluto embora recusandote a ser infeliz Considera pois o quanto podes quão excelente bem é a existência em si mesma objeto do querer dos felizes e dos infelizes Pois se prestares bastante atenção verás primeiramente que és infeliz na medida mesma em que não te aproxima do Ser supremo Por outro lado crês preferível o nãoser a uma existência miserável na mesma medida em que perdes de vista esse sumo Ser Entretanto tu te apegas à existência porque recebeste o ser dAquele que é o Ser supremo Resolução Amar mais e mais a vida e aspirar ao amor das coisas eternas 21 Logo se queres fugir da infelicidade ama em ti esse mesmo quererser Com efeito quanto mais quiseres ser mais aproximate dAquele que existe acima de tudo E dá graças a Deus desde já por existires Pois mesmo sendo inferior aos bemaventurados contudo és superior aos seres que não possuem sequer o desejo da felicidade Entretanto apesar disso muitos desses seres inferiores são exaltados pelos próprios desafortunados Todavia todos os seres pelo fato de existirem são com todo direito dignos de serem apreciados Porque pelo simples fato de existirem são bons Assim pois quanto mais amares a existência tanto mais desejarás a vida eterna e aspirarás a te transformar de tal maneira que tuas disposições não sejam transitoriamente impressas em ti como que gravadas pelo amor das realidades efêmeras Pois as coisas temporais nada são antes de existirem ao existirem passam e tendo passado voltam ao nada Logo quando são futuras ainda não existem ao terem passado não existirão mais Como pois retêlas a fim de que permaneçam essas realidades para as quais iniciar a existir é idêntico a caminhar para o nada Mas quem ama a exis tência aprova e utiliza essas coisas caducas enquanto existem mas dá o seu grande amor ao Ser que permanece sempre E se o amor daquelas realidades o tornava inconstante fortificarseá por esse amor ao Ser que sempre é E caso se desesperar amando coisas passageiras firmarseá amando o Ser que é permanente Fixarseá e obterá aquele mesmo Ser que desejava quando temia deixar de existir e não podia se fixar arrastado pelo amor das coisas fugazes116 Logo não te entristeças mas ao contrário te alegres e muito pelo fato de que prefiras existir mesmo infeliz deixar de ser infeliz por não mais existires Com efeito se a partir desse quererser inicial cresces mais e mais no amor ao ser elevarás o templo de tua alma em direção ao Ser supremo Assim tu te preservarás de toda queda pela qual passam à não existência os seres inferiores os quais existem apenas para voltar ao nada levando em sua ruína as forças e o ser de quem ama tais coisas Quanto àquele que prefere não ser para escapar da miséria como isso não pode se dar ele não tem outra alternativa do que suportar de ser infeliz Pelo contrário aquele que possui maior amor à existência do que aversão a viver infeliz que aumente esse amor à existência e assim se afastará daquilo a que tem tanta aversão Pois logo que conseguir possuir perfeitamente aquela existência que convém à sua condição não será mais infeliz Capítulo 8 Nem mesmo aqueles que se suicidam preferem o nãoser 22 Efetivamente considera o absurdo e a contradição desta declaração Gostaria mais de não existir do que de ser infeliz Pois ao se dizer gosto mais disto do que daquilo escolhese alguma coisa Ora o nãoser não é coisa alguma mas um simples nada e por conseguinte é absolutamente impossível que se faça uma escolha conveniente quando nada há a ser escolhido Sem dúvida dizes ainda Eu queria existir mesmo sendo infeliz mas não deveria ter querido isso O que deverias então ter querido De preferência não existir respondeste Se tivesses tido de querer isso então tal havia de ser o melhor Ora o nada não pode ser o melhor Logo não é isso que deverias ter querido E o sentimento que te leva a não querer o nada é mais conforme à verdade do que o parecer pelo qual crês que deverias ter querido tal coisa Além disso quando alguém faz uma boa escolha é preciso que o objeto desejado uma vez obtido torne melhor aquele que optou por ele Ora é impossível tornarse melhor alguém que já não existe Logo ninguém pode escolher de modo conveniente não mais existir Nem nós devemos nos deixar impressionar pelo julgamento daqueles que sob o peso da miséria se deram à morte Com efeito ou bem eles procuraram refúgio lá onde julgavam estar melhor e isso não parece contrário a nosso raciocínio seja da maneira que for como o supuseram ou bem menos ainda caso tenham acreditado em seu total desaparecimento essa escolha absurda das pessoas em escolher o nada deve nos inquietar Realmente como posso seguir um homem a quem se eu lhe perguntasse o que escolhe ele me respondesse Nada Pois aquele que escolhe nãoser certamente fixa sua opção sobre o nada ainda que se negue a admitir essa resposta No fundo o suicida procura encontrar a própria tranqüilidade 23 Não obstante para exprimir o meu pensamento sobre toda essa questão se isso for possível direi pareceme que ninguém que se suicida ou que deseja a morte de qualquer maneira possui o sentimento de que não será nada depois da morte Ainda que isso entre um pouco em sua idéia Com efeito o parecer racional reside no erro ou na verdade obtidos por via do raciocínio ou da fé em testemunhos dados Pelo contrário o sentimento tira seu valor da própria natureza ou do hábito Ora pode acontecer que o parecer lógico diga uma coisa e o sentimento íntimo outra Constatase isso facilmente pelo fato de que em muitos casos cremos que deveríamos fazer uma coisa mas agrada nos na realidade fazer outra Por vezes o sentimento íntimo é mais verdadeiro do que o parecer formalizado Isso quando esse vem do erro e o sentimento da natureza Por exemplo freqüentemente um doente encontra prazer em tomar água gelada e isso com proveito ainda que acreditando que lhe será nocivo Outras vezes o parecer formalizado é mais verdadeiro do que o sentimento íntimo Por exemplo no caso de o doente crer conforme a recomendação competente do médico que a água fria lhe será nociva posto que com efeito ela realmente o seja ainda que o dito doente tenha prazer de bebêla Por vezes o parecer lógico e o sentimento são igualmente verdadeiros como acontece quando uma coisa útil não somente é tida como tal mas ainda ocasiona prazer Enfim há vezes em que existe erro de um lado e doutro quando uma coisa nociva é julgada benéfica e causa prazer Habitualmente porém um parecer certo corrige um mau hábito e um mau parecer costuma corromper uma natureza correta Isso por ser muito forte o domínio e a supremacia da razão Assim acontece quando uma pessoa crê que após a morte não mais existirá e que entretanto levada por tristezas intoleráveis inclinase com todo seu desejo em direção à morte resolva abraçála e com efeito se suicida Há em seu parecer a crença errônea de completo aniquilamento Não obstante existe pelo contrário em seu sentimento o desejo natural do repouso117 Ora o que permanece na tranqüilidade não pode ser um puro nada Bem ao contrário possui mais realidade do que aquilo que é instável Posto que a instabilidade é causa de afetos tão opostos que mutuamente um destrói o outro Pelo contrário o repouso implica a permanência a qual se tem em vista quando se diz de algo Isto existe é Desse modo todo desejo daquele que quer morrer é dirigido não para cessar de existir pela morte mas para encontrar a tranqüilidade E assim enquanto crê por engano obter o nãoser sua natureza está a aspirar pela tranqüilidade isto é deseja possuir uma realidade mais perfeita Logo assim como não pode absolutamente ser crível que alguém goste de não existir não se pode de modo algum admitir que alguém seja ingrato para com a bondade de seu Criador pelo ser do qual frui C O PECADO E A ORDEM DO UNIVERSO Capítulo 9 É indevido censurar a Deus pela criação de seres menos perfeitos 24 Se fosse dito Entretanto não seria difícil nem laborioso para a onipotência de Deus proporcionar a cada uma de suas obras o que lhe convém dentro de sua ordem de maneira que nenhuma viesse a ser infeliz Pois sua onipotência não poderia ser incapaz disso nem sua bondade haveria de ser avara desse dom Responderia a essa objeção a ordem hierárquica das criaturas desde a mais elevada até a mais ínfima decorre em graus tão bem proporionados que só a inveja poderia levar a dizer Esta realidade não deveria existir assim Ou ainda Aquela deveria ser de outro modo Com efeito caso se pretendesse que uma criatura se assemelhasse a tal outra que lhe fosse superior essa já deveria existir e com excelência suficiente para que nada pudesse lhe ser acrescentado por ser perfeita Então alguém ao afirmar Gostaria que esta realidade fosse como aquela outra caso pretendesse acrescentar perfeição à criatura superior já perfeita por aí seria exagerado e injusto Ou ainda se alguém pretender suprimir a realidade mais imperfeita seria mau e iníquo E aquele que dissesse Esta aqui não deveria existir seria igualmente mau e invejoso visto que ao recusarlhe a existência verseia forçado a considerar tal outra menos perfeita Seria por exemplo como se dissesse A lua não deveria existir Ora a claridade de uma candeia que seja ainda que bem inferior continua bela em seu gênero e agradável quando as trevas cobrem a terra e assim mostrase ela bem apropriada aos afazeres noturnos Devido a tudo isso meu interlocutor deve bem confessar que a referida candeia é digna de ser louvada em sua humilde limitação Negálo seria próprio de um doido ou de um obstinado Como pois ousar dizer convenientemente A lua não deveria existir entre os seres quando ao dizer A candeia não deveria existir essa pessoa já é digna de zombaria E caso não afirmasse A lua não deveria existir mas sim Deveria ser semelhante ao sol ela não se daria conta de que esse desejo reduzse a A lua não deveria existir mas deveria haver dois sóis Nisso enganase duplamente porque acrescentar ao mesmo tempo nova perfeição às coisas que já são perfeitas em sua natureza é desejar como que outro sol E diminuir a sua perfeição é como desejar eliminar a lua Deus é digno de louvores pela criação da variedade dos seres 25 Talvez meu interlocutor dirá a propósito desse exemplo que ele não se lamenta de modo algum a respeito da lua porque o esplendor menor que ela possui não é de natureza a tornála infeliz Mas que é a respeito das almas que ele se contrista Não devido à obscuridade delas mas precisamente por causa do seu estado de desgraça Seja mas que ele considere então atentamente que se a lua não é infeliz por sua opacidade do mesmo modo o sol não é feliz por seu brilho Pois ainda que sendo corpos celestes são contudo corpos e pelo que diz respeito à luz são capazes de serem percebidos por nossos olhos corporais nunca porém os corpos como corpos podem sentir felicidade ou desdita ainda que possam ser corpos de seres felizes ou infelizes Mas a comparação tirada desses corpos luminosos ensinanos o seguinte contemplando a diversidade dos corpos vês uns mais brilhantes do que outros mas estarias no erro ao pedir a supressão dos mais obscuros ou o nivelamento com os mais brilhantes Pois se os consideras a todos em sua relação com a perfeição do universo quanto mais eles diferem de brilho entre si mais te é fácil constatar que todos eles existem Aliás o conjunto não te parece perfeito senão porque coexistem corpos mais nobres com outros mais humildes Considera por aí igualmente a diversidade existente nas almas e encontrarás como compreender que essa miséria da qual te lamentas também possui seu papel na perfeição do universo Essa perfeição faz com que nada falte sequer essas almas que tiveram de se tornar infelizes por terem querido livremente ser pecadoras E não se pode dizer que Deus não devia ter dado a existência a essas almas Igualmente é erro afirmar que ele não seja digno de louvor por ter dado o ser a outras criaturas ainda bem inferiores do que essas almas infortunadas O pecado nada tira da ordem do universo 26 Entretanto parecendo não compreender bem o que foi dito meu interlocutor apresenta ainda outra objeção Com efeito argumenta ele se nossa miséria completa a perfeição do universo viria então a faltar algo a essa perfeição caso todos nós sempre fôssemos felizes Por conseguinte se a alma não se torna infeliz a não ser pecando seguese que até os nossos próprios pecados são necessários à perfeição do universo criado por Deus118 Como então pune Deus com justiça os pecados sem os quais a sua criação não teria nem a sua plenitude nem a sua perfeição A isso se responde não são os pecados mesmos nem as desgraças mesmas que são necessários à perfeição do universo mas as almas enquanto almas as quais se não quiserem pecar não pecam mas tendo pecado tornamse infelizes Se absolvidos os seus pecados a sua miséria continuasse ou mesmo se esta precedesse qualquer pecado com razão seria dito que uma brecha foi introduzida na ordem e no governo do universo Por outro lado caso se cometam pecados mas não exista a pena a ordem ficaria igualmente abalada pela injustiça Inversamente quando os justos encontram a felicidade então aparece perfeita a ordem do universo E porque não faltam almas pecadoras que encontram o castigo nem almas a cujas boas obras seguese a felicidade o universo não deixa de conservar a sua perfeição Porque na verdade nem o pecado nem o castigo do pecado são seres à parte mas estados acidentais dos seres O pecado voluntário leva a um estado acidental de desordem vergonhosa ao qual se segue o estado penal precisamente para o colocar no lugar que lhe corresponde para não haver uma desordem dentro da ordem universal Força o castigo a harmonizarse o pecado com a ordem do universo Assim a pena do pecado vem a reparar a ignomínia do mesmo119 A penalidade sofrida pelas almas pecadoras contribui para a perfeição do universo 27 Daí provém que se uma criatura superior pecar será punida por criaturas inferiores Porque ainda que estas estejam em condição bem mais baixa podem ser de certo modo elevadas pelas almas pecadoras Ajustamse assim à ordem e harmonia do universo Com efeito o que há numa casa de mais nobre do que a pessoa humana e o que há de mais baixo e abjeto do que o esgoto da casa Contudo um escravo preso por uma falta que o faz ser encarregado de limpar o esgoto dignifica aquele lugar por meio de sua mesma ignomínia E essas duas coisas a indignidade do escravo e o ato de limpar o esgoto reunidas e formando agora uma só espécie de unidade contribuem para a boa disposição da casa Inseremse tão bem uma na outra que concorrem ao arranjo daquela residência numa ordem cheia de harmonia Contudo se esse escravo não tivesse querido pecar nem por isso à administração doméstica teria faltado outro meio para fazer executar as limpezas necessárias De modo semelhante haverá algo de mais ínfimo entre os seres do que um corpo formado da terra E entretanto a alma mesmo pecadora dignifica tão bem essa carne corruptível que lhe dá uma forma admiravelmente constituída assim como o movimento vital Por isso se não é conveniente que uma alma pecadora habite o céu devido a seu pecado não obstante convémlhe habitar a terra como castigo Assim seja qual for a opção da alma permanecerá sempre a beleza deste universo do qual Deus é o criador e administrador e cuja ordem consiste na harmoniosa conveniência de suas partes Quanto às almas nobres ao habitarem em seres de baixa condição elas os dignificam não por suas misérias pois não as possuem mas pelo bom uso que fazem dessas criaturas Todavia se fosse permitido às almas pecadoras habitarem em lugares mais elevados haveria por certo desordem porque elas não se adaptariam a tais lugares não podendo usar deles de modo conveniente nem lhes trazer esplendor algum 28 É porque nosso mundo terrestre ainda que destinado às coisas corruptíveis conserva entretanto o quanto lhe é possível a imagem de seres superiores e não cessa de oferecer exemplos e sinais disso Com efeito se virmos um homem bom e de caráter nobre levado pelo dever e a honra a deixar que seu corpo se consuma pelas chamas não classificamos esse fato como castigo infligido ao pecado mas como prova de força e paciência E nós muito o admiramos caso uma terrível destruição dizimar seus membros corporais mais do que se não tivesse tido de sofrer nada semelhante Pois reconhecemos com admiração que a natureza da alma é tal que não sofre alteração pela modificação do corpo Por outro lado se acontecer serem consumidos os membros do corpo de um bandido que observamos pelo mesmo suplício caso seja dentro da ordem e da lei nós admitimos o fato Logo esses dois tipos de homens dignificam seus tormentos mas um demonstrando o que vale a sua virtude e outro o que merece o seu pecado Ora se após essa prova do fogo ou mesmo antes dela víssemos aquele homem santo de que falamos em primeiro lugar tornarse digno das moradas celestes ser transportado para os céus por certo alegrarnosíamos Pelo contrário se fosse o bandido que víssemos seja antes de seu suplício seja depois conservando ele a malícia de sua vontade elevarse aos céus para ser colocado num trono de eterna glória quem não ficaria chocado Concluise pois que um e outro puderam dignificar os seres inferiores mas só um deles os seres superiores Aplicação do que foi dito à punição do pecado original e à redenção Isso levanos a observar que a mortalidade de nosso corpo foi dignificada pelo primeiro homem de modo que o pecado encontrou aí seu castigo proporcionado E também foi o corpo humano dignificado por nosso Senhor de modo que a sua misericórdia fez dele o meio de nos libertar do pecado120 Por outro lado o justo podia permanecendo justo possuir um corpo mortal mas inversamente o pecador enquanto se mantiver pecador não pode atingir a imortalidade dos anjos Não me refiro à imortalidade sublime dos anjos daqueles dos quais o Apóstolo diz Não sabeis que julgaremos os mesmos anjos 1Cor 63 Mas sim daqueles de quem o Senhor diz Eles serão semelhantes aos anjos de Deus Lc 2036 Com efeito aqueles que desejam a igualdade com os anjos movidos por própria vanglória não querem por aí elevarse a uma medida igual à dos anjos mas sim rebaixarem os anjos à sua própria condição É porque perseverando em tal pretensão serão igualados ao castigo dos anjos prevaricadores que amam o seu próprio poder mais do que o de Deus todopoderoso Realmente tais homens encontrarseão do lado esquerdo no juízo final porque não terão procurado a Deus pela porta da humildade a qual o Senhor Jesus Cristo mostrounos em si mesmo Viveram eles cheios de orgulho sem nenhuma misericórdia Então serlhesá dito Ide para o fogo eterno preparado para o diabo e para os seus anjos Mt 2541 Capítulo 10 Conseqüências do pecado original 29 São duas as fontes do pecado uma o pensamento espontâneo outra a persuasão de outrem Penso que é a isso que se refere a palavra do profeta De meus pecados ocultos purificaime Senhor e das faltas alheias preservai vosso servo Sl 181314 Todavia num e noutro caso o pecado é sem dúvida voluntário Isso porque assim como ninguém ao pensar espontaneamente vem a pecar contra a própria vontade do mesmo modo ao consentir a uma má sugestão certamente não consente sem ser por vontade própria Entretanto pecar por si mesmo sem ser induzido a isso por ninguém e persuadir a outrem a cometer pecado por inveja e dolo é certamente mais grave do que ser levado ao pecado por persuasão alheia Deus observou plenamente a justiça punindo um e outro pecado o do demônio e o dos homens Pois foi tudo pesado na balança da eqüidade Assim o fato de não ser recusado ao demônio o possuir de certa forma o homem sob seu poder posto que lhe fora submetido por haver aceito as suas más sugestões Com efeito não seria justo impedilo de dominar sobre aquele a quem havia capturado Por outro lado absolutamente não podia acontecer que a justiça perfeita de Deus soberano e verdadeiro que se estende por toda parte se omitisse sem remeter em ordem os estragos dos pecadores É porque ao homem sendo menos culpado do que o demônio foi encontrado um meio de restauração e salvação pelo fato mesmo de estar sujeito ao demônio até na própria mortalidade de sua carne Pois o demônio é o príncipe deste mundo quero dizer da parte mortal e ínfima da criação isto é ele é o chefe de todos os pecados e senhor da morte O homem tornandose menos seguro pela consciência de ser mortal temendo a ferocidade da parte dos animais os mais vis e abjetos e até mesmo dos menores em meio a mil incômodos acha se por outro lado incerto do futuro Habituouse então a reprimir as alegrias culpáveis e sobretudo a dominar o seu orgulho cujas más sugestões levaramno a perderse Tal orgulho afasta por ele só o remédio preparado pela misericórdia divina Quem há com efeito que tenha mais necessidade de misericórdia do que o mísero E também o que há de mais indigno de misericórdia do que o orgulhoso infortunado A obra da redenção 30 Aconteceu então que o Verbo de Deus por quem tudo foi feito e cujo gozo constitui toda a bemaventurança dos anjos estendeu sua clemência até a nossa miséria e o Verbo fezse carne e habitou entre nós Jo 1314 Poderia assim o homem chegar a comer o pão dos anjos sem ainda ser igualado aos anjos já que Ele mesmo o Pão dos anjos se dignava igualarse aos homens E desceu Ele até nós sem contudo abandonar os anjos Ele está ao mesmo tempo inteiramente junto a eles e inteiramente junto a nós Nutre a eles aos anjos interiormente por seu ser de Deus E ensinanos a nós por fora por tudo o que somos121 Tornanos capazes pela fé de participarmos com os anjos do alimento da visão beatífica Na verdade a criatura racional nutrese desse Verbo como de seu melhor alimento Ora a alma humana é racional Está porém retida por castigo de seu pecado em liames mortais Ela é reduzida assim a um estado de grande debilidade Deve esforçarse para perceber as realidades invisíveis por conjecturas através das realidades visíveis É porque o alimento da criatura racional tornouse visível Sem nada mudar em sua natureza revestiuse da nossa a fim de levar a Ele que é invisível aqueles que só procuram as coisas visíveis Desse modo Aquele que a alma por seu orgulho abandonara em seu interior ela reencontrao fora dela na humildade E só será imitando essa humildade visível que voltará à sua elevação invisível A submissão ao Senhor livranos do poder do demônio 31 É porque o Verbo de Deus o Filho único de Deus que sempre teve e sempre terá o demônio submetido às suas leis tendo se revestido de nossa humanidade submeteu igualmente o demônio ao homem Para isso nada lhe exigiu com violência Mas venceuo pela lei da justiça Posto que o demônio tendo enganado a mulher e feito cair o homem por meio dela certamente animado pelo desejo perverso de causar dano entretanto com todo direito pretendia submeter à lei da morte todos os descendentes do primeiro homem a título de pecadores Em conseqüência esse poder não deveria perdurar senão até o dia em que o demônio poria o Justo à morte Àquele em quem nada podia encontrar digno de morte E Ele não somente foi condenado à morte sem crime algum como também nasceu sem concupiscência alguma pela qual o demônio subjugava a todos os seus cativos como frutos de sua árvore Isso sem dúvida levado por um desejo muito perverso Não obstante sem lhe ter faltado certo direito de propriedade122 Por conseguinte é com toda justiça que o demônio está constrangido a libertar aqueles que crêem naquele a quem submeteu à morte injustamente Desse modo se os homens morrem de morte temporal que essa morte seja para liquidar sua dívida e se vivem da vida eterna que seja para viver naquele que pagou por eles uma dívida que ele próprio não tinha Para aqueles porém a quem o demônio tiver persuadido de perseverar na infidelidade com direito ele os terá como companheiros na danação eterna Assim pois aconteceu que o homem não foi arrancado por violência ao demônio tal como este não havia se apropriado por violência do homem mas por persuasão Dessa maneira foi submetido o homem que com direito havia sido humilhado a ponto de se tornar escravo daquele a quem dera o consentimento para o mal Com direito também foi libertado por Aquele a quem dera o consentimento para o bem Isso porque o homem fora menos culpado consentindo ao mal do que o demônio a persuadir a fazêlo Capítulo 11 Toda criatura justa ou pecadora contribui para a ordem universal 32 Deus é pois o Criador de todas as naturezas não somente daquelas que haviam de perseverar na virtude e na justiça como daquelas que haveriam de pecar Estas Deus as criou não para que pecassem mas para que acrescentassem algo à beleza do universo quer consentindo quer não ao pecado Se aqueles seres espirituais que ocupam o cume da ordem universal tivessem falhado e aceitado pecar o universo terseia enfraquecido e deteriorado e algo de grande teria faltado à criação Pois faltaria aquilo cuja ruína perturbaria o equilíbrio e a harmonia dos seres Tais são aquelas criaturas tão excelentes santas e sublimes potestades celestes ou supracelestes das quais só Deus é o Senhor e ao qual o mundo inteiro está submetido Sem a função delas cheia de justiça e de perfeição nosso universo não subsistiria Do mesmo modo aquelas outras criaturas que podem pecar ou não no caso de não existirem a ordem do universo não se alteraria Nesse caso entretanto muito de considerável teria faltado Posto que com efeito são almas racionais por certo dessemelhantes por suas funções daqueles espíritos superiores mas igualandoos em sua natureza E abaixo delas há ainda muitos outros graus de ser que sendo obras do Deus supremo permanecem dignas de louvor123 Função dos seres angélicos e dos homens 33 Logo possui uma função sublime essa natureza a qual não somente se não existisse mas ainda se pecasse diminuiria a ordem do universo Função menos sublime exerce aquela outra natureza cuja inexistência somente e não seu pecado diminuiria essa perfeição universal Aos primeiros seres os angélicos foi dado o poder de suster todas as coisas como função própria Deles a ordem universal não se poderia passar Aliás a razão de sua perseverança na vontade do bem não vem da nobre função que receberam mas eles a receberam porque sua perseverança foi prevista por Aquele que confiou neles Ademais não é por sua própria autoridade que eles mantêm todas as coisas na ordem mas por aderirem à autoridade e obedecerem com total dedicação às ordens dAquele de quem por quem e em quem124 todas as coisas foram feitas Por sua parte aquela segunda natureza a humana quando não peca recebe também a função e o grandíssimo poder de sustentar todas as coisas na ordem Não porém como próprias mas em união com os primeiros seres por ter sido previsto que ele seria capaz de pecar Os seres espirituais podem unirse entre si sem nada ganhar com isso e separaremse também sem se diminuírem em nada Assim os seres superiores nada ganham em facilidade nas suas ações se os inferiores uniremse a eles Tampouco sua ação tornase mais difícil se os inferiores abandonarem sua função pecando Pois mesmo que os seres espirituais tivessem um corpo não é pelos lugares ou volumes corporais que essas criaturas espirituais podem unirse ou separarse mas pela semelhança ou dessemelhança de suas disposições Ação dos anjos e das almas sobre os seres inferiores 34 Ora a alma humana que desde o pecado encontrase em seu lugar em corpos frágeis e mortais governa cada uma o seu corpo não totalmente conforme sua própria vontade mas como o permitem as leis universais Contudo não se segue que essa alma seja inferior aos corpos celestes125 aos quais estão submissos os corpos terrestres Pois até as roupas esfarrapadas de um escravo condenado estão longe de valer o mesmo que as vestes de um servo fiel estabelecido com honra junto a seu senhor Mas o próprio escravo vale muito mais do que não importa que veste preciosa pelo fato de ser homem Portanto aquele espírito angélico superior unido a Deus e num corpo celeste pode por seu poder angélico embelezar e governar os mesmos corpos terrestres conforme lhes ordena Aquele de quem compreende inefavelmente a vontade Quanto à alma humana inferior por sua vez morando em corpo mortal governa com dificuldade interiormente esse mesmo corpo que a oprime Contudo ela o embeleza o quanto pode Quanto aos corpos exteriores que a circundam ela influenciaos conforme sua possibilidade com uma ação ainda que muito mais fraca Capítulo 12a Nada pode perturbar o governo de Deus sobre o universo 35 Donde se segue esta conclusão a criatura corpórea até a de condição mais ínfima não estaria privada de beleza singularíssima mesmo no caso de o homem não ter querido pecar Com efeito quem pode governar o todo pode também governar uma parte Não se segue porém que aquele que pode menos possa algo mais Assim por exemplo um médico pode ser competente para curar eficazmente qualquer doença da pele Entretanto não se segue que aquele médico que trata com sucesso tais males necessariamente cure toda espécie de doenças no homem Na verdade a razão pode perceber uma idéia certa que faça ver com evidência que deve existir uma criatura que nunca tenha pecado e nunca houvesse de pecar jamais e essa mesma razão pode mostrar também outra verdade que essa criatura abstémse de pecar por sua livre vontade e isso sem ser forçada por necessidade alguma mas por si mesma E mesmo se ela pecasse ainda que de fato não o tenha feito como Deus o previu apesar de tudo bastaria a autoridade divina cujo poder é inefável para governar todo este universo de modo que dando a cada um o que lhe convém e é devido Ele não haveria de tolerar em todo seu domínio nada de disforme ou indecoroso Porque supondo que se Deus se passasse de todo poder criado para esse mesmo fim como seria o caso de os seres angélicos todos eles virem a falhar pecando contra os seus mandamentos Deus governaria todas as coisas por sua ação cheia de bondade e de ordem em sua suprema majestade Entretanto nem sequer por inveja deixaria de querer a existência de seres espirituais Ele que também criou com muita bondade os seres corporais ainda que bem abaixo dos espirituais É assim que ninguém pode contemplar com inteligência o céu a terra e todos os seres visíveis com suas proporções e sua ordem conforme seu gênero próprio sem reconhecer que Deus somente é o autor de todas as coisas e sem admitir que é preciso lhe tributar inefáveis louvores Todavia até na hipótese de melhor disposição das coisas não poder ser obtida sem que o poder angélico pela excelência de sua natureza e bondade de sua vontade esteja no plano supremo da organização universal ainda assim a defecção de todos os anjos não teria desprovido o Criador do governo de seu império Com efeito nem essa bondade como decorrente de qualquer desgosto nem seu poder devido a qualquer dificuldade faltarlheiam para criar outros seres angélicos e colocálos nos tronos abandonados pelos prevaricadores Enfim se as criaturas espirituais fossem condenadas por seus pecados tal como mereciam no maior número que se suponha isso não poderia prejudicar a ordem Porque se prestariam com toda eqüidade e conveniência à ordem a qual leva ao castigo todos aqueles que fossem dignos de serem condenados Assim pois de qualquer lado que se dirija a nossa reflexão ela encontra a Deus digno de louvores inefáveis Ele o Criador excelente e o governador muito justo de todos os seres D O PECADO E A BONDADE DAS CRIATURAS Capítulo 12b Contemplação da beleza da criação 36a Enfim deixemos a visão da beleza das coisas para serem contempladas por aqueles que a podem ver graças ao auxílio de Deus Quanto àqueles que são incapazes de a ver não tentemos levá los a contemplar o inefável mistério por palavras Não obstante por causa de certos homens palradores ignorantes ou sofistas examinemos tão grande questão com a maior brevidade que nos seja possível126 Capítulo 13 Princípio fundamental todo ser é bom O mal é uma privação 36b Toda natureza natura que pode tornarse menos boa todavia é boa De fato ou bem a corrupção não lhe é nociva e nesse caso ela é incorruptível ou bem a corrupção atingea e então ela é corruptível Vem a perder a sua perfeição e tornase menos boa Caso a corrupção a privar totalmente de todo bem o que dela restará não poderá mais se corromper não tendo mais bem algum cuja corrupção a possa atingir e assim prejudicála Por outro lado aquilo que a corrupção não pode prejudicar também não pode se corromper e assim esse ser será incorruptível Pois eis algo totalmente absurdo uma natureza tornarse incorruptível por sua própria corrupção Por isso se diz com absoluta verdade que toda natureza enquanto tal é boa Mas se ela for incorruptível será melhor do que a corruptível E se ela for corruptível já que a corrupção não pode atingila senão tornandoa menos boa ela é indubitavelmente boa Ora toda natureza ou é corruptível ou incorruptível Portanto toda natureza é boa Denomino natureza o que habitualmente se designa pela palavra substância Conseqüentemente posso dizer que toda substância é Deus ou procede de Deus e assim tudo o que é bom é Deus ou procede de Deus A reprovação devida aos defeitos vem a ser louvor ao Deus supremo 37 Uma vez essas verdades tendo sido firmemente estabelecidas como ponto de partida de nosso raciocínio atende ó Evódio ao que vou dizer toda natureza racional tendo sido criada com o livrearbítrio da vontade é sem dúvida alguma digna de louvor caso se mantenha fixa no gozo do Bem supremo e imutável A mesma coisa quanto à natureza racional que se esforça por se fixar nele permanentemente deve ela igualmente ser louvada Pelo contrário toda natureza que não esteja fixa naquele Bem supremo e recusarse a trabalhar para aí se manter é digna de ser censurada vituperanda est na medida em que aí não estiver e não fizer o necessário para isso Logo se é digna de louvor uma natureza racional que não é senão criatura não há dúvida que também deve ser louvado Aquele que a criou E caso ela seja censurada ninguém duvida que seu Criador vem a ser igualmente louvado por essa censura Com efeito se o que reprovamos nessa criatura é precisamente o fato de não querer gozar do Bem supremo e imutável isto é de seu Criador é bem este a quem louvamos sem dúvida alguma Ó quão grande é pois a bondade divina e de quantos inefáveis louvores todas as línguas e todos os pensamentos devem celebrar e honrar o Deus criador de todas as coisas Visto que não podemos sem o louvar a ele mesmo ver dirigidos a nós louvores ou censuras Com efeito não podemos ser reprovados por não permanecermos unidos a ele a não ser porque essa união constitui o nosso grande supremo e primeiro bem E donde procede tudo isso senão porque Deus é o Bem inefável Como pois poderseia encontrar em nossos pecados algo de censura em referência a Ele quando não podemos condenar tais pecados sem proclamarmos os seus louvores Não se pode reprovar o vício sem louvar a natureza 38 Pois bem Nas mesmas coisas que reprovamos não é unicamente o defeito ou vício vitium que reprovamos127 Ora não se pode reprovar o vício de natureza alguma sem louvar implicitamente a essa natureza Com efeito ou bem aquele que censuras é conforme à natureza do seu ser e então não é um defeito e é a ti que convém corrigir o julgamento errôneo para que saibas censurar a propósito e assim o teor de tua reprovação não seja indevido Ou então caso se trate de um vício para ser justamente reprovado tem forçosamente de ser contrário à mesma natureza Porque todo vício pelo fato mesmo de ser vício é contrário à natureza Efetivamente se não prejudicar a natureza não será tampouco vício Inversamente se for vício por afetar a natureza de modo nocivo é claro ser também vício pelo fato de ser contrário à natureza Agora se uma natureza for corrompida não por seus próprios vícios mas pelos de outra natureza então ela será censurada injustamente Devemos antes procurar se a outra natureza da qual o vício a pôde corromper não está ela mesma corrompida por seus próprios vícios Mas o que é ser viciado a não ser estar corrompido pelo vício Ora uma natureza que não está viciada não possui vício algum Ao passo que a natureza cujo vício pôde corromper outra natureza certamente está viciada Logo a primeira está corrompida por seu próprio vício Ela cujo vício pôde corromper as outras naturezas Donde se segue esta conclusão todo vício é contrário à natureza exatamente daquela mesma natureza da qual vem tal vício É porque se conclui que em todas as coisas não se reprova a não ser o vício e este não vem a ser constituído vício senão por sua oposição à natureza do ser onde se encontra E não se pode reprovar com justeza o vício de coisa alguma a não ser que se louve a natureza dessa mesma coisa Com efeito nada pode com razão te desagradar no vício a não ser o fato de que ele vicia o que te agrada na natureza Capítulo 14 Dois complementos 1º Natureza alguma corrompese sem já estar viciada 39 É preciso considerar igualmente este outro aspecto será verdade dizer que uma natureza se corrompe pela influência do vício de outra natureza sem que ela mesmo não tenha vício algum Realmente se uma natureza ao aproximarse de outra com intenção de corrompêla com seus próprios vícios caso não encontre nela algo de corruptível não pode corrompêla E caso o encontre ela não realiza a corrupção de sua natureza a não ser pela influência dos vícios que ali encontra Porque em primeiro lugar se for uma natureza mais forte em face de outra mais fraca que a influencia evidentemente ela não será corrompida a não ser que o queira E caso queira ela começa a ser corrompida por seu próprio vício antes de o ser por um vício alheio Em segundo lugar caso se trate de uma natureza diante de outra de igual força tampouco poderá ser corrompida no caso de se recusar a isso Porque desde que qualquer natureza atingida por um vício aproximarse de outra isenta de vício para a corromper pelo fato mesmo não se apresenta mais com igualdade de força mas como menos forte devido a já estar viciada Finalmente se uma natureza mais forte corrompe outra mais fraca essa corrupção dáse ou bem pelo vício das duas se for o fruto das paixões depravadas de ambas ou bem pela influência do vício da mais forte caso esta goze de tal superioridade que mesmo viciada guarde a prioridade sobre a natureza inferior à qual corrompe Assim quem com razão poderia reprovar os frutos da terra pelo fato de não se servirem bem deles os homens que já estão corrompidos por seus próprios vícios e que corromperam aqueles bons frutos abusando deles para satisfazerem sua própria luxúria Entretanto seria de louco duvidar de que a natureza humana mesmo viciada não possua excelência e força maior do que não importa qual fruto da terra mesmo isento de qualquer defeito 2º Nem toda corrupção é digna de ser censurada 40 Pode ainda acontecer que uma natureza mais forte corrompa outra mais fraca e isso sem que haja vício algum nem de um lado nem de outro Porque só chamamos vício ao que é digno de reprovação vituperatio Quem por exemplo ousaria censurar algum homem frugal que nos frutos da terra não procure nada mais do que o sustento para a sua natureza Ou ainda censurar esses mesmos frutos pelo fato de se corromperem ao serem consumidos como alimento pelo homem Nesse caso nem é mesmo costume de se falar em corrupção porque habitualmente esse termo corrupção designa sobretudo vício Por outro lado facilmente podese observar em referência às coisas comuns que freqüentemente não é senão para se servir em vista de satisfazer a sua própria indigência que uma natureza mais forte corrompe outra mais fraca Ou ainda por vezes para manter em ordem quanto à justiça ao punir alguma falta Temos conforme esse princípio as palavras do Apóstolo Se alguém destrói o templo de Deus Deus o destruirá 1Cor 312 Por vezes a vituperação é em vista de guardar a ordem própria das coisas mutáveis que estão sujeitas umas às outras conforme a leis cheias de sabedoria muito adequadas as quais regem o universo segundo o grau de força dado a cada um Por exemplo se os olhos de alguém por causa de sua pouca força natural são incapazes de suportar a luz e por isso padecem corrupção pelo brilho direto do sol não seria para supor que o sol produza essa transformação para suprir o que falta à sua própria luz Ou que o faz por algum vício que tenha Tampouco seria preciso recriminar os próprios olhos por terem obedecido seja a seu dono abrindose àquela luz tão forte seja à mesma luz e serem por isso queimados Conseqüentemente de todas as corrupções só a viciosa é reprovável com justeza Quanto às outras ou bem não devem sequer ser designadas como currupção Ou então não sendo viciadas não podem por certo serem dignas de reprovação Desse modo presumese que a mesma palavra reprovação vituperatio tirou esse nome por ser uma preparação para a reprovação ou seja por estar apta e ser devida com justiça somente ao vício Por isso foi chamada em latim virtuperatio isto é vitio paratio Louvar os seres é louvar a Deus criador das naturezas 41 Como eu dizia no começo o vício não é um mal senão por sua oposição à natureza daquela mesma coisa à qual ele atinge Por isso será evidente que a natureza de alguma coisa da qual se reprova o vício é uma natureza digna de louvor Devemos pois declarar absolutamente que reprovar os vícios é sempre louvar a natureza a saber a natureza da qual reprovamos os vícios Com efeito estes se opondo à natureza o mal deles cresce tanto mais quanto mais diminui a bondade integral dessa natureza Portanto quando reprovas um vício certamente louvas a coisa da qual desejas a integridade E que integridade senão a da natureza Uma natureza perfeita não somente não merece nenhuma reprovação mas dentro de sua condição é digna de louvor Logo o que vês faltar à perfeição de uma natureza eis o que chamas de vício testemunhando bastante por aí que essa natureza te agrada visto que não acusas a sua imperfeição senão porque gostarias de a ver perfeita128 E O PECADO E A JUSTIÇA Capítulo 15 Motivos de louvar a Deus 42 Se pois reprovar os vícios é proclamar a beleza e a dignidade das naturezas mesmo atingidas de vícios quanto mais deve Deus ser louvado como Criador de todas as naturezas até por motivo dos vícios dessas naturezas A razão é que dele elas recebem essa natureza que possuem e não se tornam viciadas senão na medida que se afastam daquela arte divina conforme a qual foram produzidas E não são elas com justeza dignas de reprovação senão na medida em que a pessoa que as reprova tem a visão dessa arte conforme a qual foram formadas Poderia ele reprovar nas criaturas algo que não fosse o fato de não estarem seguindo o seu modelo E se essa mesma arte pela qual todas as coisas foram feitas isto é a suprema e imutável sabedoria de Deus possui uma existência verdadeira e suma como de fato a possui considera para onde se dirigem as naturezas que dela se desviam isto é dessa arte divina129 Esse defeito do desvio da idéia de Deus entretanto não seria censurável se não fosse voluntário Peçote de considerar se com razão censurarias uma coisa que fosse tal como deve ser Penso que não mas pelo contrário censurarias aquilo que não fosse como devia ser Ora ninguém deve o que não recebeu e aquele que é devedor a quem deve ele a não ser Àquele de quem recebeu algo com obrigação de devolver Pois aquilo mesmo que se devolve entregase Àquele de quem se havia recebido E o que se devolve aos legítimos herdeiros dos credores é certamente devolvido aos mesmos credores aos quais os herdeiros sucederam legitimamente De outra forma deverseia falar não de restituição mas de simples entrega de dons ou como se queira denominar As criaturas inferiores ao perecerem não faltam ao que devem Seria portanto absurdo dizer que nenhum ser temporal deveria desaparecer A razão é porque essa ordem de seres está disposta de tal forma que se não desaparecessem as coisas futuras não poderiam suceder às passadas nem portanto permitir que a beleza dos tempos pudesse se desenvolver em sua espécie Com efeito o quanto tais seres inferiores recebem assim executam e devolvem Àquele a quem são devedores por tudo o que são e enquanto são Portanto se alguém se lamenta pelo desaparecimento de tais seres que faça atenção à forma de se exprimir em seu próprio discurso no qual expressa o seu pensamento e examine se o considera justo e inspirado pela prudência Porque nessa sua alocução caso ele se limitasse ao som das palavras se viesse a preferir o som de uma única palavra ou sílaba não querendo que cessasse mais e cedesse o lugar às sílabas seguintes que por sua vez ao terminar houvessem de suceder a outras formando a trama de todo o discurso no caso de alguém assim fazer não seria ele taxado como um grande demente Visto que a linguagem compõese de sílabas e palavras que se sucedem ininterruptamente 43 É porque em referência aos seres que perecem por não lhes ter sido dado existir mais longamente a fim de permitir a todas as coisas de se realizarem a seu tempo ninguém tem motivo de censurar o seu desaparecimento Pois ninguém pode afirmar esse ser deveria permanecer na existência já que ele não poderia ultrapassar os limites que lhe foram assinalados130 A razão levanos a reprovar o mal e praticar o bem como uma dívida para com Deus Entretanto quando se trata de criaturas racionais pecadoras ou não as quais concorrem de certo modo maravilhoso à beleza do universo o fato de alguém desejar Sejam essas criaturas isentas de pecado é absurdo porque peca até mesmo aquele que condena como pecado o que não é Ou ainda supor que os pecados não devam ser reprovados não seria menos absurdo porque assim se chegaria até a não se louvar mais as boas ações e sim as más Nesse caso é a direção total do espírito humano que estaria perturbada e a vida transformada Ou supor ainda que uma boa ação praticada como devia ser deva ser reprovada resultaria disso uma abominável loucura ou para dizêlo em termos mais suaves um erro muito deplorável Por outro lado resta enfim a verdadeira razão da censura condenar tudo o que é pecado e tudo o que com justiça é censurável por não existir como deveria sêlo Procura pois de que uma natureza pecadora está em dívida e reconhecerás das boas ações Procura também em relação a quem ela está em dívida e reconhecerás em relação a Deus Porque dAquele de quem ela recebeu o poder de agir bem querendoo livremente recebeu também o poder de ser infeliz caso não o fizer Entretanto será feliz se praticar o bem Caso a vontade livre não devolver a Deus o que lhe deve pela prática da virtude dará glória a Deus por um justo castigo 44 Como ninguém passa por cima das leis do Criador todopoderoso a alma não tem outra saída senão pagar a sua dívida Ora pagaa seja usando bem o dom que recebeu seja perdendo aquilo que não quis empregar corretamente É porque se ela não devolver cumprindo a justiça ela o devolverá padecendo o castigo Num e noutro caso empregase a seguinte idéia devolver o que é devido O que se acaba de dizer poderia também se exprimir desta maneira se a criatura racional não devolver o que deve cumprindo o que deve ela o devolverá padecendo o devido castigo E não há nenhum intervalo de tempo entre os termos dessa alternativa como se um fosse o tempo onde o culpado não faz o que devia fazer e outro no qual padece o que merece Isso está assim disposto a fim de que a beleza do universo não seja alterada um só instante caso a desordem do pecado se manifestasse sem ter uma reparação por um justo castigo Fica porém reservado ao julgamento futuro a manifestação clara de tudo o que agora está sendo executado em grande segredo E será então levado à maior intensidade o sentimento de infortúnio do pecador Com efeito assim como o fato de não estar desperto é dormir assim também quem quer que não faça o que deve padece sem tardança o que merece Pois tão grande é a felicidade que se encontra na justiça que ninguém pode se afastar dela sem se voltar logo em direção à infelicidade Portanto em resumo em todos os casos em que haja defeitos na natureza ou aconteça de muitas coisas se extinguirem por não ter recebido o poder de existir por mais tempo aí não há culpa Como também não há culpa no ser que durante sua existência não recebeu a capacidade de ser mais perfeito do que foi Enfim só há culpa no caso de um ser recusarse a ser o que tinha o poder de ser se o quisesse E porque aí se trata de recusar um bem que lhe foi dado a alma se torna culpada Capítulo 16 Deus nada nos deve nós tudo lhe devemos 45 Ora Deus nada deve a ninguém porque tudo dá gratuitamente E se alguém afirmasse que algo lhe é devido por seus méritos ao menos é certo que a própria existência não lhe é devida visto que a quem ainda não existia nada lhe é devido Mas embora supondo um pretendido mérito o qual haveria de ser pelo fato de te voltares Àquele de quem recebeste a existência a fim de que ele mesmo te torne melhor após te haver dado o ser Que vantages tens para que possas reclamar dele com justiça sendo que no caso de te recusares a voltar para Deus ele nada perde com isso Ao passo que tu perderás Aquele mesmo sem quem nada serias e só por quem és alguma coisa A tal ponto que se não te voltares para Ele e não lhe devolveres o que dele recebeste virás a cair não no nada certamente mas na infelicidade Logo todos os seres lhe devem primeiramente tudo o que são enquanto natureza existente Em seguida aqueles seres que receberam a capacidade de querer devemlhe tudo o que lhes é possível para progredir se o quiserem Devem assim tudo o que têm a obrigação de ser Em conseqüência ninguém é responsável pelo que não recebeu Contudo é culpado com justiça se não fizer o que devia Ora é dever fazêlo quem recebeu uma vontade livre e uma capacidade suficientemente grande para isso Conclusão o pecado é causado pela vontade livre Deus não é a causa do pecado Louvor ao Criador em todas as circunstâncias 46 Dessa forma quando alguém não faz o que deve o Criador fica a tal ponto isento de culpa que é preciso na verdade louválo Isso porque o culpado padece o que deve e ainda porque nessa mesma reprovação que merece por não ter feito o que deve existe um louvor prestado Àquele a quem o pecador é devedor Posto que se te louvam quando vês o que deves fazer ainda que não o vejas senão naquele que é a Verdade imutável quanto mais é preciso louvar Aquele que de antemão também determinou quereres isso e deute o poder para tanto E Ele não deixará impune a tua desobediência Cada um é responsável pelo que recebeu Portanto se o homem tivesse sido criado de tal modo que pecasse inevitavelmente seu dever seria pecar E ao pecar portanto faria o que devia e não faria senão seguir a lei da natureza Mas já que seria crime falar dessa maneira seguese que ninguém é obrigado por sua natureza a pecar Tampouco é obrigado a ser levado por uma natureza alheia porque ninguém peca sujeitandose ao que não quer por própria vontade Com efeito caso se sujeitar justamente a isso seu pecado não está em que se sujeitou contra sua vontade Mas só peca quando age voluntariamente de maneira a dever padecer com toda justiça o que não teria querido sofrer Pois por outro lado se o aceitasse injustamente como pecaria Efetivamente o pecado não consiste em suportar alguma coisa injustamente mas sim em praticar algo injustamente Posto que ninguém está forçado a pecar nem por sua própria natureza nem pela natureza de outro logo só vem a pecar por sua própria vontade Enfim se quisesses atribuir o pecado ao Criador desculparias o pecador que nada teria cumprido fora dos desígnios de seu Criador E então poderias desculpálo com justiça pois não haveria pecado algum Logo se não houver pecado nada mais existe que possas atribuir à responsabilidade do Criador Louvemos pois o Criador se o pecador puder ser desculpado E caso não o possa louvemos ainda o Criador Pois se o pecador é defendido conforme a justiça ele não será mais pecador E caso ele não possa ser defendido será pecador na medida em que se afasta voluntariamente de seu Criador Nesse caso tampouco há razão para não louvar o Criador Conseqüentemente na verdade eu não encontro o meio e certifico absolutamente não haver nenhum que possa levar a atribuir nossos pecados a Deus nosso Criador Pelo contrário encontro ocasião para louválo nesses mesmos pecados não somente porque Ele os pune mas mais ainda porque não são cometidos senão quando alguém se afasta de sua verdade Ev Aceito tudo isso e o aprovo com boa vontade Creio ser tudo absolutamente verdadeiro e concordo contigo que não se pode de modo algum atribuir com razão nossos pecados ao Criador TERCEIRA PARTE 17472577 PROBLEMAS DIVERSOS A A VONTADE LIVRE CAUSA PRIMEIRA DO PECADO Capítulo 17 Posição do problema sem liberdade não há pecado 47 Ev Não obstante quisera saber se possível por que aquelas criaturas que Deus previu não haverem de pecar não pecam e por que pecam aquelas outras que Ele previu haverem de pecar Na verdade não creio mais que a presciência divina força estas últimas a pecar e aquelas outras a não pecar Sem dúvida se não houvesse alguma causa não haveria entre as criaturas racionais tal divisão de modo que umas nunca venham a pecar e outras persistam pecando E ainda outros seres de natureza racional fiquem de certa forma como no meio entre os dois grupos Por vezes cometem pecados e por vezes convertemse para o bem Por qual razão estão eles assim divididos em três grupos Não quero porém que me respondas simplesmente É devido à própria vontade porque eu procuro a causa determinante dessa vontade Com efeito não é sem alguma causa que uma criatura nunca queira pecar e que outra não queira jamais abandonar o pecado E enfim que uma terceira por vezes o queira e por vezes não uma vez que todas elas são dotadas de uma mesma natureza racional Eis a única coisa penso eu estar a ver claramente que tal tríplice divisão da vontade entre as criaturas racionais não pode existir sem alguma causa Ignoro porém qual seja ela131 A raiz de todos os males é a vontade desregrada 48 Ag Entretanto sendo a vontade a causa do pecado como indagas a causa do mesmo ato da vontade Caso eu pudesse encontrála não irias perguntar ainda qual a causa dessa causa E assim onde haveríamos de terminar a busca Onde estaria o final da investigação e da discussão Não obstante nada podes investigar além da mesma raiz da questão Com efeito não penses que se possa dizer nada de mais verdadeiro do que esta máxima A raiz de todos os males é a cobiça 1Tm 610 isto é a disposição de querer além daquilo que é suficiente e que cada natureza exige conforme sua própria condição a fim de se conservar De fato a cobiça ou amor ao dinheiro é denominada em grego filarguria isto é amor da prata termo esse que não é dito somente a respeito desse metal mas da moeda da qual foi tirado o seu nome porque as moedas entre os antigos eram feitas o mais freqüentemente de prata pura ou de alguma mistura à base da prata O termo deve ser entendido de todas as coisas desejadas com imoderação Enfim encontrase a cobiça em tudo o que alguém quer além do que lhe é suficiente Tal cobiça é cupidez e a cupidez é uma vontade desregrada improba Logo é a vontade desregrada a causa de todos os males Se essa vontade estivesse em harmonia com a natureza certamente esta a salvaguardaria e não lhe seria nociva Por conseguinte não seria desregrada De onde se segue que a raiz de todos os males não está na natureza E isso basta por enquanto para refutarmos todos aqueles que pretendem responsabilizar a natureza dos seres pelos pecados Quanto a ti se pretendes ainda investigar qual seja a causa dessa raiz como poderia ser a vontade a raiz de todos os males Com efeito essa raiz seria a causa da cobiça mas essa uma vez tendo sido encontrada como eu dizia acima seria preciso procurar ainda a causa dessa primeira causa e não haveria limite algum para as tuas buscas O que motiva a vontade 49 Ag Mas enfim anteriormente à vontade qual poderia ser a causa determinante da vontade Realmente ou bem é a vontade ela mesma e não se sai dessa raiz da vontade ou bem não é a vontade e então não há pecado algum Logo ou a vontade é a causa primeira do pecado e nenhum pecado será causa primeira do pecado e a nada se pode imputar o pecado senão ao próprio pecador Logo não se pode imputar justamente o pecado a não ser a quem seja dono da vontade Ou afinal a vontade não será mais a causa do pecado e assim não haverá mais pecado algum Desse modo não sei por que tu te empenhas tanto em procurar outra causa fora da vontade Além do mais qualquer seja a causa da vontade ou ela será justa ou injusta Se for justa quem quer que lhe obedeça o impulso não pode pecar Se for injusta que cada um resista a ela e não mais pecará Capítulo 18 Pode alguém pecar em coisas que não pôde evitar 50 Será talvez que essa causa leva ao pecado a agir com tanta violência a ponto de forçar a quem não quer Ora será preciso que tenhamos de repetir tantas vezes as mesmas idéias Recorda os nossos longos desenvolvimentos anteriores sobre a questão do pecado e da vontade livre cf III caps 3 e 4 Mas se é difícil para ti tudo conservar na memória retém ao menos esta breve sentença qualquer seja a causa que move a vontade se acontecer lhe ser impossível resistir e vier a cair sob a violência não haverá pecado Mas caso possa resistir que não ceda e então certamente não haverá pecado Todavia talvez essa tentação venha a induzir ao erro no caso de estar alguém desprevenido Então que tome suas precauções para não se deixar enganar Entretanto será que esse engano é tão astucioso que contra ele nada valem as cautelas tomadas Se assim for admito não poder haver pecado algum Quem poderia ser culpado num ato inevitável Em todo caso ninguém pode negar que o pecado existe Logo será possível ao homem evitálo132 B A NOSSA SITUAÇÃO ATUAL DEVIDA AO PECADO ORIGINAL 51 Apesar de tudo acontecem certas ações que mesmo cometidas por ignorância foram condenadas com obrigação de serem reparadas Lemos nas Sagradas Escrituras o Apóstolo dizer Obtive misericórdia porque agi por ignorâcia 1Tm 113 E o reiprofeta Não recordes ó Senhor meus desvios da juventude e os meus pecados por ignorância Sl 247 Existem também ações condenáveis ainda que praticadas por necessidade Isso quando o homem pretende agir bem e não o consegue Pois de onde viriam estas palavras Não faço o bem que eu quero mas pratico o mal que não quero E estas outras Pois o querer o bem está ao meu alcance não porém o praticálo Rm 71918 E ainda A carne tem aspirações contrárias ao espírito e o espírito contrárias às da carne Opõemse reciprocamente de sorte que não fazeis o que quereis Gl 517 Mas tudo isso pertence aos homens enquanto suas ações são derivadas da primitiva condenação à morte Pois se não existisse aí uma punião dada ao homem mas apenas uma conseqüência de sua natureza não haveria nesses atos pecado algum Na verdade se o homem não se afasta nisso da condição conforme à qual foi criado naturalmente de modo que não pode se encontrar num estado melhor ele está executando o que deve ao fazer essas coisas Todavia se o homem fosse bom agiria de outra forma Agora porém porque está nesse estado ele não é bom nem possui o poder de se tornar bom Seja porque não vê em que estado deve se colocar seja porque embora o vendo não tem a força de se alçar a esse estado melhor no qual sabe que teria o dever de se pôr Assim sendo quem duvidaria que haja aí uma penalidade133 Ora toda penalidade se for justa é a punição do pecado e denominase castigo Se nossa condição fosse injusta visto que ninguém hesita a ver aí uma penalidade é bem evidente que teria sido imposta ao homem por algum dominador injusto Ora só um louco duvidaria da onipotência e da justiça de Deus Logo a penalidade é justa e está destinada a punir algum pecado Posto que nenhum dominador injusto poderia subtrair o homem ao poder de Deus sem que ele o percebesse Tampouco arrebatálo desse mesmo Deus contra a sua verdade como se fosse algum adversário menos forte empregando ameaças ou violência para depois vir a atormentar os homens com punições injustas Resta portanto que essa justa penalidade é o fruto da condenação do homem 52 Nada de espantoso aliás se o homem em conseqüência da ignorância não goze do livrearbítrio de sua vontade na escolha do bem que deve praticar Ou ainda se diante da violência de seus maus hábitos carnais tornados de certo modo disposições naturais por efeito do que há de brutal na geração da vida mortal o homem veja perfeitamente o bem a ser feito e o queira sem contudo poder realizálo De fato essa é a punição muito justa do pecado fazer perder aquilo que não foi bem usado quando seria possível têlo feito sem dificuldade alguma caso o quisesse Em outras palavras é muito justo que quem sabendo mas não querendo agir bem seja privado de perceber o que é bom E quem não querendo agir bem quando o podia perca o poder de praticálo quando o quer de novo Na verdade tais são as duas reais penalidades para toda alma pecadora a ignorância e a dificuldade Da ignorância provém o vexame do erro e da dificuldade o tormento que aflige134 Ora aprovar o falso como se fosse a verdade e assim enganarse sem o querer tornandose incapaz de se abster de atos libidinosos em conseqüência das resistências e dos dolorosos tormentos dos vínculos carnais essa não é a natureza primitiva do homem mas sim o seu castigo depois de ter sido condenado135 Mas quando falamos da vontade livre para agir bem evidentemente falamos daquela vontade com a qual o homem foi criado Capítulo 19 Se foram Adão e Eva que pecaram que culpa temos nós 53 Apresentase aqui aquela questão que algumas pessoas costumam comentar entre si Ao pecar estão prontas a acusar seja o que for exceto a si mesmas Declaram elas Se foram Adão e Eva que pecaram que fizemos nós pobres infelizes para nascermos na cegueira da ignorância e nos tormentos da dificuldade Vagamos primeiramente no erro ignorando o que devemos fazer Em seguida quando os preceitos da justiça começam a nos ser manifestos e quereríamos cumprilos não sei por qual resistência da concupiscência carnal e por qual necessidade tornamonos incapazes de fazêlo A negligência é culpável Dirijo uma breve resposta a essas pessoas para que se tranqüilizem e deixem de murmurar contra Deus Pois poderiam talvez se lamentar com razão se homem algum houvesse existido que não tenha podido triunfar do erro e da concupiscência Uma vez porém que Deus se acha em tudo presente e que de tantas maneiras se serve das criaturas para chamar a si a ele que é o Senhor esse seu servo que dele se desviou a fim de instruílo caso creia consolálo caso espere encorajálo caso ame ajudálo caso faça esforço e escutálo caso implore Não te recriminam pelo fato de ignorares contra tua própria vontade mas de negligenciares procurar saber o que ignoras Tampouco te é imputado como culpa não poderes curar teus membros feridos mas de menosprezares Aquele que te quer curar Enfim são esses os teus verdadeiros pecados136 Visto que não existe homem tão desprovido de inteligência que não conheça a utilidade de procurar aquilo que não traz vantagem alguma de ser ignorado e o dever de confessar humildemente suas fraquezas a fim de obter para quem procura com humildade a ajuda dAquele que não está sujeito ao erro nem à fraqueza alguma quando vem trazer socorro As fraquezas humanas não são verdadeiros pecados mas penalidades pelo primeiro pecado 54 As más ações que cometemos por ignorância e as boas que não conseguimos praticar apesar da boa vontade denominamse pecados visto tirarem sua origem daquele primeiro pecado cometido por livre vontade Esse com efeito como antecedente mereceu os outros pecados como conseqüentes Assim de modo semelhante costumamos denominar língua não apenas o órgão que pomos em movimento na boca ao falarmos mas também aquilo que resulta desses movimentos isto é a forma e a seqüência sonora das palavras Nesse sentido dizemos uma é a língua grega outra a latina Da mesma maneira denominamos pecado não apenas o que em sentido próprio é pecado por ter sido cometido conscientemente e por livre vontade mas também o que é a conseqüência necessária do mesmo pecado como castigo do mesmo Igualmente quanto ao termo natureza Entendemos de um jeito quando falamos em sentido próprio isto é a respeito da natureza específica na qual o homem foi primeiramente criado no estado de inocência De modo diferente entendemos o termo natureza quando tratamos dessa natureza na qual como conseqüência do castigo imposto ao primeiro homem após sua condenação nascemos mortais ignorantes e escravos da carne tal como disse o Apóstolo Como eles os pagãos nós os judeus também andávamos outrora nos desejos de nossa carne satisfazendo as vontades da carne e os seus impulsos e éramos por natureza como os demais filhos da ira Ef 23 Capítulo 20 Justiça e bondade de Deus na condição atual de fraqueza dos homens 55 Dessa maneira aprouve muito justamente a Deus que governa soberanamente todas as coisas que nascêssemos daquele primeiro casal com ignorância e dificuldade no esforço e na mortalidade Isso porque ao pecarem eles foram precipitados no erro na dor e na morte Assim na origem do homem devia se manifestar a justiça daquele que pune e no decorrer de sua vida a misericórdia daquele que liberta Posto que se os primeiros homens desde a sua condenação perderam a sua felicidade não perderam por aí a sua fecundidade Logo a sua descendência mesmo carnal e mortal poderia tornar se em seu gênero certo elemento de honra e ornamento para o universo Na verdade não era justo que o primeiro homem gerasse filhos melhores do que ele mesmo era Por outro lado convinha ao se converter para Deus que qualquer pudesse triunfar do castigo que havia merecido ao nascer no afastamento de Deus Outrossim não convinha que essa boa vontade de regresso a Deus fosse impedida Pelo contrário que fosse ajudada O Criador de todas as coisas mostrava além do mais por esse meio com quanta facilidade o primeiro homem teria podido se o quisesse manterse no estado no qual havia sido criado visto que sua descendência pôde vir a triunfar do estado em que nascera Em qualquer hipótese a respeito da origem das almas Deus é sempre justo 56 Em seguida se supusermos que Deus criou uma só alma da qual tiraram sua origem as almas de todos os homens que nascem quem poderia negar não ter cada homem pecado ao pecar o primeiro homem137 No caso porém de as almas serem criadas separadamente uma a uma na ocasião do nascimento de cada homem138 não se pode achar ser contra a razão mas ao contrário perfeitamente conveniente e bem conforme a ordem que os desméritos da primeira alma sejam conaturais à alma seguinte e que o mérito da segunda seja conatural à antecedente Com efeito o que há de indigno para o Criador se ainda assim ter ele querido demonstrar a dignidade da alma natureza espiritual ultrapassar de muito os seres corporais e que o grau de profundidade ao qual uma alma chegou em sua degradação possa ser o ponto de origem de outra alma Eis por que quando a alma ao pecar cai na ignorância e nas dificuldades falase então com razão de castigo visto que certamente ela foi melhor antes de tal castigo Logo em conseqüência não apenas antes de pecar mas desde o começo de sua vida se uma alma começa por encontrarse em estado semelhante àquele em que outra tornouse após toda uma vida de pecado ela possui entretanto um bem considerável do qual deve dar graças a seu Criador Visto que desde o seu nascimento e seu próprio começo ela é superior a não importa qual ser apenas corporal em sua total perfeição Com efeito não é um bem de pouco valor não apenas o fato de ser uma alma cuja natureza já ultrapassa qualquer corpo mas também de ser capaz com a ajuda do Criador de aperfeiçoarse a si mesma e por um piedoso empenho poder adquirir e possuir as virtudes por meio das quais poderá vir a libertarse dos tormentos da dificuldade e da cegueira do erro Se assim é a ignorância e a dificuldade dessas almas no momento de nascer não serão para elas o castigo do pecado mas sim um estímulo ao progresso e um início de perfeição Pois não é pouca coisa antes mesmo de qualquer boa obra meritória ter a alma recebido a capacidade de um julgamento natural por meio do qual prefere a sabedoria ao erro e o repouso à dificuldade Assim pode ela chegar àquela Sabedoria e repouso não por seu nascimento mas pela constância nos esforços E caso a alma recusarse de agir com razão será considerada culpada de pecado por não ter usado bem da possibilidade que recebeu Pois se bem que tenha nascido na ignorância e nas dificuldades contudo necessidade alguma a obrigava a permanecer nesse estado em que nascera Afinal ninguém de modo algum a não ser Deus onipotente pode ser o Criador de tais almas de darlhes a existência antes mesmo de ter sido amado por elas E reformálas amandoas e aperfeiçoálas quando por elas amado É Ele que dá o ser às almas que não existem ainda E àquelas que o amam como autor de sua existência concedelhes o poder de serem felizes139 57 Por outro lado ao admitirmos que talvez as almas já tenham preexistido em algum lugar secreto disposto por Deus e serem elas enviadas para animar e governar os corpos de cada uma das pessoas que for nascendo nesse caso estão elas destinadas a esse ofício para dar uma boa direção ao corpo em que nascem sujeito à penalidade do pecado isto é padecendo a mortalidade devida ao pecado do primeiro homem Fazem isso dominando o corpo por meio das virtudes para submetêlo a uma servidão perfeitamente legítima e conveniente para lhe fazer adquirir assim progressivamente conforme a ordem em tempo oportuno um lugar na morada incorruptível do céu Essas almas ao entrarem na vida presente sujeitandose ao encargo de reger membros mortais devem também submeterse ao esquecimento da vida precedente assim como aceitar os trabalhos desta vida Aí está a explicação daquela ignorância e dificuldades que foram para o primeiro homem o castigo de sua queda mortal é para assim ser expiada a miséria da própria alma Mas para as outras almas elas encontram desse modo acesso à sua função de recuperar para o corpo a incorruptibilidade Assim tampouco são denominados pecados a ignorância e a fraqueza a não ser no sentido de que o corpo provindo da geração de pecador comunica às almas que vêm a unirse a elas aquela mesma ignorância e dificuldade Mas nem essas almas nem o Criador devem ser julgados responsáveis como de uma falta Pois Deus deulhes a capacidade de agir bem nos deveres penosos e também ensinoulhes o caminho da fé em meio à cegueira da ignorância E acima de tudo deulhes esse reto julgamento pelo qual toda alma reconhece que é preciso procurar tudo o que não lhe traz utilidade alguma em ignorar Deulhes ainda o poder de fazer esforços perseverantes no cumprimento de seus deveres para vencerem a dificuldade de agir bem Implorarem assim a ajuda do Criador para a obtenção de auxílio divino nos seus esforços Deus mesmo ordena que se façam esforços seja de modo exterior por intermédio da lei seja por convites pessoais no íntimo do coração E ao mesmo tempo prepara a glória daquela cidade bem aventurada para os vencedores do demônio que arrastou o primeiro homem a tal miséria tendoo vencido por uma pérfida persuasão E é precisamente aceitando essas misérias que os homens triunfam do demônio pela excelência de sua fé Não é um fato de pouca glória o de vencerem o demônio tomando sobre si aquele mesmo suplício pelo qual o espírito das trevas glorificavase de ter vencido os homens Ora quem quer que negligencie esse combate seduzido pelo amor desta vida não terá o direito de atribuir o castigo de sua deserção a uma ordem do grande Rei Pelo contrário verseá submetido ao Senhor de todas as coisas relegado por ele ao lugar que lhe corresponde nos domínios do mesmo demônio sob cujas ordens aprouve militar tendo traído a sua bandeira 58 Finalmente se admitirmos a suposição de que as almas antes de sua união com o corpo encontravamse em algum outro lugar e não foram enviadas pelo Senhor nosso Deus mas ao contrário vieram espontaneamente unirse aos corpos a conseqüência é então fácil de ser compreendida Tudo o que elas experimentam de ignorância e dificuldades sendo conseqüência de sua própria vontade não há aí de modo algum nada que se possa incriminar ao Criador Aliás mesmo se o próprio Senhor Deus tivesse enviado essas almas uma vez que não as privou até em meio da ignorância e das dificuldades da vontade livre nem da faculdade de pedir de procurar e de esforçarse propondose Ele a dar às que lhe pedissem de mostrarse às que procurassem e de abrirse às que batessem Ele seria totalmente isento de qualquer culpa Ele consentiria assim a essas almas zelosas e de boa vontade poderem obter triunfo sobre a ignorância as dificuldades e darlhesia um meio de adquirir a coroa de glória Quanto às almas negligentes que pretendem desculpar seus pecados por meio de suas fraquezas o Senhor Deus não consideraria como crime essa mesma ignorância ou dificuldade Entretanto por terem preferido permanecer envoltas nelas em vez de chegar à verdade e à facilidade procurando e esforçandose com zelo confessando com humildade suas faltas e orando Ele as haveria de punir com justo castigo140 Capítulo 21 O que é preciso crer e que tipos de erros prejudicam a nossa felicidade 59 Há pois quatro opiniões sobre a origem da alma ou todas elas provêm de uma só transmitidas por geração 2055 ou bem a cada nascimento humano uma nova alma é criada 56 ou então as almas já existentes em qualquer outro lugar são enviadas por Deus aos corpos daqueles que nascem 57 ou enfim elas descem por sua própria vontade para os corpos dos que nascem 58 Dessas quatro opiniões nenhuma deveria ser adotada afirmativamente de modo temerário Pois essa questão ainda não foi desenvolvida e esclarecida pelos intérpretes católicos dos Livros Sagrados o quanto exigiriam sua obscuridade e complexidade Ou caso já o tenham feito tais obras ainda não nos chegaram às mãos Contentemonos por enquanto de estarmos firmes na fé para não aceitar opinião falsa alguma ou que seja indigna da natureza do Criador Pois em direção a Ele é que tendemos pelo caminho da piedade Pois se nossa opinião a respeito de Deus não for conforme ao que Ele é nosso esforço nos levará forçosamente não para a bemaventurança mas em direção à vacuidade Quanto aos seres criados caso adotemos uma opinião que não corresponda à realidade não há perigo algum contanto que não consideremos essas idéias como algo certo e evidente Pois não é em direção aos seres criados que somos ensinados a nos dirigir para nos tornar felizes mas sim em direção ao próprio Criador Logo se em relação a Ele persuademnos de crer o que não é certo e conforme à realidade abusam de nossa confiança com erro muito pernicioso Porque caminhando na direção de meta que não existe ou que se existe não nos torna felizes ninguém pode chegar à vida bemaventurada 60 Mas para podermos chegar à contemplação da eterna Verdade e sermos capazes de gozar dela e a ela aderirmos foinos proporcionado um meio vindo das coisas temporais e preparado de modo adaptado à nossa fraqueza Consiste quanto às coisas futuras e passadas em crer apenas o suficiente para aqueles que como nós caminham em direção às realidades da eternidade Ora tal ensino de fé possui a mais alta autoridade sendo dirigido pela misericórdia de Deus Quanto às coisas presentes relacionadas às criaturas nossos sentidos percebemnas através da mobilidade e mutabilidade do corpo e da alma como objetos transitórios Nesse domínio a respeito de tudo o que escapa à nossa experiência não podemos ter nenhuma espécie de conhecimento direto Por conseguinte é preciso crer sem hesitação alguma em tudo o que nos afirmam sobre os seres criados em relação ao passado ou ao futuro uma vez sendo garantido pela autoridade do testemunho divino Uma parte desses relatos na verdade já se passou sem que tenhamos podido nos dar conta Outra parte ainda não foi posta ao alcance de nossos sentidos Contudo possuem todos eles uma grande eficácia para fortalecer nossa esperança e excitar nosso amor exortandonos a atenção sobre o quanto Deus cuida de nossa libertação através da sucessão perfeitamente ordenada dos tempos Mas seja qual for o erro mesmo servindose este da máscara da autoridade divina será refutado sobretudo se constatarmos seja a existência de qualquer natureza mutável além dos seres criados por Deus seja afirmar a existência de uma beleza mutável na própria natureza de Deus ou ainda caso se pretenda que essa divina natureza é algo a mais ou algo a menos do que a Trindade Pois é em vista de compreender com piedade e discrição a Trindade que se aplica toda a vigilância cristã e a esse fim é que tendem todos os seus progressos Entretanto quanto a tratarmos da unidade e da igualdade das Pessoas dessa Trindade e do que nela é próprio a cada uma das pessoas divinas não é este o lugar de fazêlo Com facilidade poderíamos apresentar outras considerações sobre o Senhor nosso Deus autor formador e ordenador de todas as coisas e sobre certas verdades que pertencem a nossa fé muito salutar É com elas que se nutre como de leite aquele que começa a se elevar das coisas da terra para as do céu encontrando um útil apoio para esse intento Seria na verdade muito fácil fazer essas considerações e muitos já o realizaram Não obstante aprofundar tudo o que é relativo à Trindade por completo e desenvolver de tal modo que toda inteligência humana o quanto é possível nesta vida fique conquistada pela evidência da argumentação quer se trate de realizálo com palavras ou simplesmente pelo pensamento sem dúvida é um empreendimento muito difícil e pouco acessível seja para qualquer homem seja certamente para mim Logo conforme nosso propósito cheguemos a termo na medida em que para isso temos força e o quanto formos ajudados por Deus Primeiramente sem sombra de dúvida creiamos tudo o que nos é proposto em relação aos seres criados seja a respeito das coisas do passado seja como predição do futuro para nos servir a melhor estimar a nossa religião em sua pureza excitandonos a um amor muito sincero para com Deus e o próximo Por outro lado é preciso nos precaver contra os incrédulos o suficiente para esmagarmos sua infidelidade ao peso da autoridade divina Ou então para lhes demonstrar o quanto possível em primeiro lugar que não há insensatez alguma em crer tais afirmações Em seguida que pelo contrário existe grande loucura em não crer nelas Todavia são as falsas doutrinas concernentes não tanto ao passado e ao futuro quanto às relativas ao presente e sobretudo às realidades imutáveis que é preciso refutar e sobre as quais urge triunfar o quanto possível por demonstrações evidentes O problema de nossa origem é menos importante do que o de nosso destino 61 Na verdade na série das realidades temporais é preciso preferir a expectativa das coisas futuras à verificação das passadas Pois mesmo nos Livros Sagrados o relato das coisas passadas encerra em si uma prefiguração uma promessa ou ainda um testemunho das que devem acontecer Além do mais até a respeito dos acontecimentos desta vida na prosperidade ou adversidade poucos se preocupam tanto com o estado em que se encontravam anteriormente fosse ele próspero ou adverso mas todo o ardor de suas preocupações concentrase de preferência sobre o que esperam do futuro Porque devido a não sei que sentimento íntimo e natural as coisas que nos aconteceram por serem passadas são consideradas apenas como um instante de felicidade ou infortúnio ou como se nunca tivessem acontecido Que inconveniente haveria pois para mim o fato de ignorar quando comecei a existir se constato que agora existo e não desespero de continuar a existir no futuro Porque não é em direção ao passado que me dirijo e não será para temer como um erro pernicioso o fato de possuir uma opinião contrária ao que as coisas foram na realidade Mas é em direção ao meu estado futuro que dirijo o meu caminhar sob a conduta da misericórdia de meu Criador Portanto se em relação à minha situação futura e sobre Aquele junto a quem hei de estar o fato de ter crenças ou idéias não conformes à verdade isso sim seria um erro a respeito do qual devo acautelarme a todo custo Pois é para temer que não me prepare o suficiente ou que não possa atingir o fim mesmo de minhas aspirações caso tome uma coisa por outra Assim por exemplo como nenhum inconveniente seguirseia na compra de uma veste caso não me lembrasse mais do inverno passado mas haveria um real inconveniente se não cresse na iminência do frio a vir Do mesmo modo não haveria inconveniente algum para minha alma o fato de ter esquecido o que talvez tenha suportado outrora Isso se ela considera agora com cuidado e mantém bem presente o fim para o qual doravante deve se preparar E ainda por exemplo não haveria prejuízo algum para um navegante que se dirigisse a Roma se viesse a esquecer de que porto seu navio desatracou Contanto que não ignorasse para onde deva dirigir a proa de sua embarcação a partir de onde se encontra presentemente Por outro lado não haveria vantagem alguma em se lembrar de onde teve lugar sua partida se tendo uma falsa indicação sobre o porto de Roma viesse a se chocar contra os recifes De igual maneira se não me recordo mais do início de minha vida não se seguirá daí para mim inconveniente algum Contanto que saiba onde encontrar o repouso final De modo semelhante não haveria utilidade nenhuma para mim em me lembrar ou conjecturar de que maneira minha vida se iniciou se tendo a respeito de Deus única meta dos trabalhos da alma convicções indignas dele eu me arremetesse contra os arrecifes do erro 62 Ao falar assim essas palavras não devem fazer crer a ninguém que queiramos impedir aos pesquisadores competentes de examinar conforme as Escrituras divinamente inspiradas se a alma provém uma de outra por geração ou se são elas criadas uma a uma em cada corpo que vivifica ou ainda se elas são enviadas de algum lugar por ordem divina para animar e governar os corpos ou enfim se elas introduzemse nele por própria vontade cf III2159 Isso caso a razão exija serem considerados e discutidos tais problemas em vista de resolver alguma questão muito necessária Ou então caso alguém encontre tempo deixando outras questões mais necessárias e prefira abordar essas pesquisas e exposições Na verdade eu disse tudo o que precede sobretudo a fim de que ninguém nessa questão a respeito da origem da alma se irrite temerariamente contra outro que talvez por hesitação muito humana não opine exatamente como ele próprio E também para que se alguém tiver podido perceber nessa questão alguma evidência e certeza não creia que os demais tenham perdido a esperança dos bens futuros por não se recordar dos inícios de sua existência Capítulo 22 Os pecados são atribuíveis à própria vontade não a Deus 63 Seja como for a respeito desse problema quer o deixemos definitivamente quer o suspendamos por certo tempo para examinarmos melhor mais tarde nada impede constatarmos claramente esta conclusão as almas estão sujeitas a um castigo merecido por seus próprios pecados sem que seja atingida em nada a integridade a justiça e a irredutível firmeza e imutabilidade do Criador em sua natureza e majestade Porque os pecados como já expusemos longamente não devem ser atribuídos senão à própria vontade E não é para se buscar outra causa além dessa Hipótese e se o estado atual do homem fosse conforme à sua natureza sem que tenha havido o pecado original 64 Suponhamos que a ignorância e as dificuldades na luta sejam naturais à alma sendo a partir daí que ela progrida e elevese ao conhecimento e ao repouso até conseguir a plena realização da vida bemaventurada141 Ora para esse progresso empregando os mais nobres esforços e piedade os meios não lhe são recusados Mas caso ela for negligente por sua própria vontade será justo que seja relegada a uma ignorância mais ampla e a dificuldades mais graves onde encontrará então sua punição E conforme a ordem e a harmonia reinantes no governo das coisas ficará ela colocada num plano inferior Não é sua ignorância natural nem sua incapacidade natural que lhe seriam imputadas como pecado mas o fato de sua falta de aplicação em relação ao saber e seu pouco esforço para adquirir a facilidade de proceder bem De modo análogo por exemplo não saber nem poder falar vemos ser algo natural às crianças pequeninas E essa ignorância e dificuldade de expressão não apenas estão isentas de censura dos professores mas até parecem ser agradáveis e encantadoras para o coração humano Com efeito não se pode dizer que a criança tenha negligenciado de adquirir sua capacidade de falar por qualquer maldade nem mesmo ter perdido o hábito por sua falta É porque se nossa felicidade consistisse na eloqüência e se fossem consideradas como crime as faltas cometidas nas ações da vida por certo não se poderia censurar a ninguém de ter cometido pecado com seu defeito natural de pronúncia É fato próprio da vida infantil pois partimos dela para a aquisição da eloqüência Contudo seria censurado com razão se alguém por sua má vontade tivesse recaído no defeito da infância e tivesse querido nele permanecer Agora da mesma maneira se a ignorância da verdade e a dificuldade de tender para o bem fossem naturais ao homem como sendo o ponto de onde parte para alcançar a felicidade e portanto elevar se até à posse da sabedoria e da paz ninguém poderia sem injustiça censurar à alma como sendo pecado esse começo natural Mas caso ela não queira progredir ou se o quiser após certo progresso retroceder ao começo padeceria o castigo com toda razão Conclusão é preciso louvar a Deus em qualquer hipótese 65 O Criador da alma merece pois em tudo louvores seja por ter posto na alma desde a sua origem um começo de aptidão para ascender até o sumo Bem seja porque Ele a ajuda a progredir seja porque dá a esses progressos contínuos um complemento e coroamento ou seja enfim porque por uma muito justa e merecida condenação ele a faz entrar na ordem conforme os seus deméritos quando ela peca isto é quando recusa desde os seus primeiros passos se elevar para a perfeição ou que retroceda após alguns progressos Pois é certo que a alma não foi criada má pelo fato de não ser ainda tão perfeita quanto a capacidade que recebeu de vir a sêlo ao progredir Visto que bem abaixo de sua perfeição inicial encontramse todas as perfeições dos corpos Entretanto apesar da inferioridade esses corpos são em seu gênero dignos de louvor conforme o bom julgamento de todo aquele que julga as coisas com sanidade Logo se a alma ignora o que há de fazer é porque isso provém de uma perfeição ainda não obtida Ela a obterá porém se usar bem o que lhe foi já dado Ora o que lhe foi dado é a capacidade de procurar com cuidado e piedade caso o queira Assim também quando a alma conhecendo o que deve fazer fica ainda incapaz de o realizar isso provém de uma perfeição ainda não adquirida Pois existe nela uma parte mais sublime essa que toma a dianteira para perceber o bem que lhe convém fazer Outra parte porém é mais preguiçosa e carnal e não se deixa dirigir logo como deveria por tal caminho E essa resistência é para advertir a alma de implorar a fim de conseguir seu acabamento o auxílio dAquele que ela sabe ser o autor de seus inícios Assim deve Ele se tornar para ela mais amado visto não ser por suas próprias forças mas graças à bondade divina que ela tem a sua existência Assim também deverá ela à sua misericórdia o fato de ser elevada à beatitude Ora quanto mais for amado Aquele que a fez mais lhe está assegurado o repouso que ela possuirá nele e mais abundante será a alegria que ela há de gozar em sua eternidade Pois de modo semelhante se só um primeiro rebento brota de um pequeno arbusto uma árvore não merece de modo algum ser denominada estéril ainda que tenha de atravessar muitos verões sem fruto à espera do tempo oportuno para manifestar a sua fecundidade Desse modo por que não havemos nós de dirigir nossos louvores como um dever de piedade ao Criador da alma se Ele lhe deu não só um início mas o tempo de se preparar pela aplicação e progresso moral para chegar ao fruto da sabedoria e da justiça E ainda mais por lhe ter consentido essa grande dignidade de ter em seu poder o tender caso o queira até à beatitude C PROBLEMAS ACERCA DAS CRIANÇAS Capítulo 23 A morte prematura das crianças e o sofrimento que padecem não são contrários à ordem universal 66 Alguns ignorantes costumam objetar a tais argumentos uma objeção caluniosa concernente à morte das crianças e acerca dos sofrimentos corporais pelos quais nós as vemos freqüentemente serem afligidas Dizem eles Que necessidade tinha essa criança de nascer pois se antes mesmo de ter realizado qualquer obra meritória deixa a vida E em que categoria será preciso colocar no momento do julgamento final aquele pequeno ser cujo lugar não está nem entre os justos pois não praticou nenhuma boa ação nem entre os maus posto que não cometeu pecado algum Respondemos a isso considerando o conjunto do universo e a ordem perfeita que une todas as criaturas através do espaço e tempo chegase à conclusão da impossibilidade de homem algum ser criado inutilmente visto que nenhuma folha de árvore tenha sido criada sem motivo Entretanto é por certo supérfluo interrogar sobre os méritos de alguém que nada mereceu Porquanto não é para temer que não possa haver uma espécie de vida média entre a virtuosa e a pecaminosa E em referência a um juiz pode ser que ele tome uma decisão média entre a recompensa e o castigo E as crianças que morrem sem batismo 67 Nesse sentido há ainda o costume entre aquelas mesmas pessoas de indagarem para que pode servir às criancinhas o sacramento do batismo de Cristo quando muitas delas após têlo recebido morrem antes de ser capazes de nada entender Quanto a esse problema conforme uma crença sólida piedosa e razoável o que é de fato útil à mesma criança batizada é a fé daqueles que a oferecem para ser consagrada a Deus Essa opinião é recomendada pela autoridade muito salutar da Igreja Por aí cada um pode aquilatar quanta utilidade constitui para si a própria fé pessoal já que a de uma pessoa estranha pode ser comunicada com benefício a outros que não a possuem ainda Nesse sentido qual o proveito que o filho daquela viúva encontrou com sua própria fé visto que uma vez estando morto já não a possuía mais Entretanto a fé de sua mãe lhe foi de tanta utilidade que lhe obteve a ressurreição Lc 711ss Logo com quanta mais forte razão a fé de uma outra pessoa pode aproveitar a uma criança à qual certamente não se pode inculpar de falta de fé142 As dores das criancinhas são compatíveis com a bondade divina 68 Reflitamos agora sobre o caso dos sofrimentos corporais com os quais as crianças pequenas são atormentadas as quais devido à sua idade estão isentas de qualquer pecado Na suposição de as almas que vivificam as crianças não terem já começado a existir antes costumam alguns erguer lamentações maiores como se tivessem pena e dizem Que mal fizeram para sofrer assim Falam como se pudesse haver algum mérito devido à inocência antes de alguém poder cometer algum mal E no caso de Deus pretender obter alguma coisa de bom para a correção dos adultos quando os prova pelas dores e morte das crianças que lhe são queridas por qual razão não haveria de fazêlo Posto que uma vez tendo passado esses sofrimentos tudo será como se não tivessem existido para aqueles a quem aconteceram E quanto àqueles em cuja intenção tais coisas terão acontecido ou eles se tornarão melhores no caso de se corrigirem por meio dessas aflições temporais e assim terem optado por viver com mais retidão ou no caso contrário não terão desculpa alguma diante da punição no julgamento futuro pois recusaram apesar das angústias da vida presente a voltarem os seus desejos em direção da vida eterna Aliás quem é que pode saber o quanto a essas crianças cujos tormentos visaram abalar a dureza do coração dos mais velhos ou pôr em prova sua fé ou ainda manifestar a sua piedade quem pois poderá saber qual será a feliz compensação que Deus reserva a essas crianças no segredo de seus julgamentos Porquanto se elas não praticaram ainda bem algum foi também sem haver pecado em nada que suportaram tais sofrimentos Assim lembremos aquelas crianças postas à morte quando Herodes procurava o Senhor Jesus Cristo para o matar Mt 26 Não é em vão que a Igreja as apresenta à nossa veneração reconhecendoas no número glorioso dos mártires Razões providenciais das dores dos animais 69 Além disso aqueles homens caluniadores desprovidos do zelo necessário para examinar tais problemas e na verdade perturbadores muito loquazes tentam ainda abalar a fé dos fléis menos instruídos a propósito das dores e cansaço dos animais Dizem Que mal cometeram os animais para sofrerem tão grandes penas ou que bem esperam em troca para serem provados com padecimentos tão excessivos Mas se falam e sentem assim é porque julgam as coisas de modo muito iníquo São eles incapazes de contemplar a natureza e a grandeza do sumo Bem Pretendem que tudo seja semelhante ao que pensam Eles não podem conceber o sumo Bem acima daqueles corpos colocados no plano supremo que são os corpos celestes e por essa razão menos sujeitos à corrupção Reclamam assim de maneira totalmente contrária à lei da ordem universal de que os corpos dos animais sofram a morte e qualquer corrupção como se eles não fossem mortais Ora na verdade eles encontramse na ínfima categoria dos seres Ou consideramnos como se fossem maus pelo fato de valerem menos do que os corpos celestes Todavia a dor sentida pelos animais põe em relevo na alma desses mesmos animais um poder admirável e digno de estima em seu gênero Por aí aparece suficientemente o quanto a alma aspira à unidade ao vivificar e governar os respectivos corpos Pois o que é a dor a não ser uma sensação de resistência à divisão e à corrupção Graças a isso aparece mais claramente do que a luz o quanto a alma desses animais está ávida de unidade no conjunto do corpo e o quanto deseja isso Pois não é com prazer nem indiferença mas antes com esforço e resistência que ela reage contra o sofrimento de seu corpo não aceitando a não ser com penas de ver assim a sua unidade e integridade serem abaladas Se não fosse a dor dos animais não se poderia ver suficientemente quão grande é a aspiração à unidade até na ordem inferior das criaturas denominadas animais E sem isso nós não estaríamos bastante advertidos o quanto todas as coisas são feitas pela soberana sublime e inefável unidade do Criador Conclusão toda criatura canta a unidade suprema de Deus 70 Na verdade tu o verás se atenderes piedosa e diligentemente como toda a beleza e o movimento das critauras submetidos às reflexões do espírito humano estabelecem uma linguagem apta a nos instruir E esses diversos movimentos e disposições são como línguas variadas que clamam em todos os lugares e nos conjuram ao conhecimento do Criador Não há coisa alguma entre as criaturas que não possua o sentimento da dor ou do prazer que não chegue à perfeição própria de seu gênero ou não consiga em absoluto a estabilidade devida à sua natureza a não ser em virtude de certa unidade De modo semelhante nenhuma criatura existe entre as que sentem quer os incômodos da dor quer a satisfação do prazer que ao fugir da dor ou buscando o prazer não ateste por aí suficientemente que está a fugir da desagregação e à procura da unidade Também entre as almas dotadas de razão há todo um desejo de conhecimento no qual a sua natureza se deleita e que conduz à unidade tudo aquilo que percebem Igualmente quanto ao desejo de evitar o erro não fazem outra coisa senão evitar a confusão inexplicável gerada por equívocos Ora de onde nos vem o malestar provocado por tudo o que é equívoco a não se porque lhe falta a exata unidade Uma coisa pois se segue daí todos os seres quer eles causem dano ou sofram dano quer causem agrado ou recebam agrado insinuam e proclamam a unidade do Criador Mas caso a ignorância e as dificuldades pelas quais esta vida deve necessariamente ter o seu começo não são próprias da natureza das almas resta que ou bem foram impostas como uma obrigação ou bem infligidas como uma punição Sobre esses assuntos julgo que a presente argumentação tenha sido suficiente D QUESTÕES SOBRE O PRIMEIRO PECADO DO HOMEM E O DO DEMÔNIO Capítulo 24 Foi o homem criado em estado de sabedoria ou de insensatez 71 Mas vamos agora de preferência procurar saber em que estado foi criado o primeiro homem mais do que indagar como se propagou a sua descendência Ora alguns imaginam propor a dificuldade com habilidade ao indagar Se o primeiro homem foi criado sábio como se explica ter sido ele seduzido E caso tenha sido criado insensato como não há de ser Deus o autor dos defeitos dele visto que a insensatez stultitia é o maior de todos143 Como se a criatura humana não fosse suscetível entre os dois extremos insensatez e sabedoria de conhecer um estado intermédio o qual não possa ser denominado nem uma coisa nem outra Pois o homem não começa a ser insensato ou sábio de maneira a ser chamado necessariamente por uma das duas denominações a não ser no momento em que esteja em condições de possuir a sabedoria caso não seja negligente e sua vontade não se torne responsável pela insensatez Assim ele poderá possuir a sabedoria sendo sua vontade a culpada pelo defeito da insensatez De fato ninguém perde o juízo a ponto de chamar insensato uma criança ainda que haja absurdo maior chamála de sábia Por conseguinte uma criança não pode ser denominada nem insensata nem sábia embora já possua a natureza humana Por aí se vê que a natureza do homem nasce em um estado intermédio que não é nem a estultice nem a sabedoria Assim também se alguém estivesse alienado por um estado de espírito em sua constituição natural semelhante ao das pessoas que carecem de sabedoria e não por negligência em adquirila ninguém teria razão de o chamar de insensato visto estar nesse estado por natureza e não em conseqüência de sua culpa A insensatez é efetivamente a ignorância não qualquer uma mas a acarretada por vício das coisas que devem ser desejadas ou evitadas Daí não chamarmos tampouco insensato o animal desprovido de razão por não ter recebido a capacidade de se tornar sábio Entretanto muitas vezes nossa maneira de falar é freqüentemente analógica e não tomada em sentido próprio Assim por exemplo a cegueira que é o mal supremo dos olhos não é contudo um defeito para os cachorrinhos recémnascidos Nem nesse caso pode ser chamada propriamente de cegueira O primeiro pecado não pode ser imputado a Deus mas sim ao orgulho do homem 72 Em conseqüência o homem foi criado em um estado tal que sem ainda ser sábio era capaz entretanto de receber um preceito com o evidente dever de obedecer a ele Não é pois para se estranhar que pudesse ter sido seduzido Nem é injusto que tenha sido castigado por não haver obedecido a tal preceito Por outro lado resulta que o seu Criador não é o autor dos defeitos porque a ausência de sabedoria ainda não era um defeito para o homem uma vez que ele não tinha ainda recebido a capacidade de a possuir Não obstante o homem tinha o meio se o quisesse de se servir dela convenientemente Elevarse assim até aquela sabedoria que ainda não desfrutava Pois uma coisa é gozar da razão outra coisa ser sábio A razão torna todo homem capaz de receber um preceito ao qual deve fidelidade na execução do que é prescrito Ora assim como a natureza racional é capaz de perceber um preceito assim também a observância deste conduz à sabedoria Dessa maneira o que a natureza faz para a compreensão do preceito a vontade o faz para a observância do mesmo E de modo semelhante assim como para a natureza racional é como um mérito receber um preceito assim a observação deste pela vontade é como o fundamento para a recepção da sabedoria Todavia no momento em que o homem começa a ser capaz de compreender um preceito começa por aí mesmo a poder pecar Ora antes de chegar a ser sábio é de duas maneiras que ele peca ou não se sujeitando a aceitar o preceito ou então não o observando após o ter aceito Quanto ao sábio ele peca ao afastarse da sabedoria Com efeito assim como o preceito não procede daquele que o recebe mas daquele que o impõe do mesmo modo a sabedoria não procede daquele que é iluminado por ela mas daquele que ilumina Conseqüentemente de que não deve ser louvado o Criador do homem Pois o homem é um bem superior ao animal em virtude de ser capaz de receber um preceito E ele tornase ainda melhor depois de o ter aceito E muito mais ainda após ter obedecido a ele Enfim é ainda muitíssimo melhor do que tudo isso quando a luz da sabedoria eterna o torna bemaventurado Por outro lado o pecado é um mal que consiste em negligenciar seja o aceitar um preceito seja de observálo seja de perseverar na contemplação da sabedoria De onde se pode compreender como o primeiro homem mesmo tendo sido criado sábio podia no entanto ser seduzido E como a esse pecado cometido livremente seguiuse justamente o castigo por disposicão divina Assim fala o apóstolo Paulo Jactandose de possuir a sabedoria tornaramse néscios Rm 122 Pois o orgulho com efeito afasta sabedoria e a insensatez é uma conseqüência dessa aversão144 A insensatez é uma espécie de cegueira como diz o mesmo Apóstolo Seu coração insensato obscureceuse Rm 121 Ora de onde vem esse obscurecimento a não ser porque o homem se afasta da luz da sabedoria E de onde vem esse afastamento a não ser de que o homem do qual Deus é o único bem quer se tornar ele mesmo o seu próprio bem como Deus o é para si É porque está dito No dia em que comerdes o fruto os vossos olhos vão se abrir e sereis como deuses Gn 35 Como se dá a passagem da insensatez à sabedoria 73 O que perturba os que refletem sobre essas questões é o seguinte Será por insensatez que o primeiro homem afastouse de Deus ou será que foi ao se afastar que ele se tornou insensato Pois se responderes Foi por insensatez que ele se afastou da sabedoria pareceria que o homem tinha sido insensato já antes de se afastar da sabedoria visto essa insensatez ter sido a causa de seu afastamento Do mesmo modo se responderes Foi ao se retirar que ele se tornou insensato perguntarse ia Caso ao se retirar comportouse ele com insensatez ou com sabedoria Pois se foi com sabedoria agiu bem não tendo cometido pecado algum Se foi com insensatez ele já devia ter dentro de si essa insensatez pela qual se produziu o seu afastamento Pois nada poderia ele ter feito com insensatez sem ser antes um estulto De onde fica claro que existe um certo meio termo por onde se passa da insensatez para a sabedoria E essa passagem não pode ser chamada nem um ato de insensatez nem um ato de sabedoria Acontece que os homens enquanto vivem nesta vida presente não chegam a compreender a não ser por termos opostos Com efeito nenhum mortal tornase sábio senão passando da insensatez à sabedoria Ora essa passagem fazse néscia ou sabiamente Caso se realize com insensatez por certo não é uma boa ação o que não pode ser dito sem grande absurdo E caso se efetue com sabedoria esta já se encontra no homem antes de sua passagem para a sabedoria o que não é menos absurdo De onde se vê que existe realmente um termo intermédio do qual não se pode dizer que seja nem uma coisa nem outra E quando o primeiro homem passou do santuário da sabedoria para a insensatez essa passagem não pertencia nem à sabedoria nem à insensatez Acontece o mesmo no caso da passagem do sono para o estado de vigília Estar prestes a pegar no sono não é precisamente a mesma coisa do que estar acordado mas sim uma certa transição de um estado para outro Há porém uma diferença esses últimos atos do dormir e acordar acontecem o mais freqüentemente de modo involuntário Ao contrário aqueles primeiros atos concernentes à sabedoria e à insensatez não se realizam nunca a não ser voluntariamente É porque sanções muito justas são a conseqüência Capítulo 25 Confronto entre o orgulho e a sabedoria 74 O que pôde mover a vontade de nossos primeiros pais Mas a vontade não flca solicitada a um determinado ato a não ser por meio de algum objeto o qual vem a perceber E se cada pessoa tem o poder de escolher o que aceita ou rejeita ninguém possui o poder de escolher o que vai aceitar ou rejeitar Ninguém pode determinar qual o objeto cuja vista o impressionará145 Ora é preciso reconhecer a alma fica impressionada pela vista de objetos sejam superiores sejam inferiores de tal modo que a vontade racional pode escolher entre os dois lados o que prefere E será conforme o mérito dessa escolha que se seguirá para ela o infortúnio ou a felicidade Assim no paraíso terrestre havia como objeto percebido vindo do lado superior o preceito divino e vindo do lado inferior a sugestão da serpente Pois nem o que o Senhor ia prescrever nem o que a serpente ia sugerir foi deixado ao poder do homem Contudo ele estava certamente livre de resistir à vista das seduções inferiores pois o homem tendo sido criado na sanidade da sabedoria achavase isento de todos os liames que dificultavam a sua escolha Podemos compreender isso pelo fato de os próprios insensatos chegarem a vencerse e se elevarem até à sabedoria ainda que lhes seja penoso renunciar às doçuras envenenadas de seus hábitos funestos146 O que moveu a vontade do demônio para se voltar para o mal 75 Aqui pode ser colocada uma questão uma vez que o primeiro homem encontrouse na presença de dois objetos percebidos de ordem oposta de um lado o preceito vindo de Deus e de outro a sugestão da serpente perguntase de onde teria vindo ao próprio demônio o desígnio de preferir a impiedade que o precipitou do alto de seu trono Na verdade se não tivesse sido impressionado pela vista de objeto algum ele não teria escolhido de fazer o que fez Pois se nada lhe tivesse ocorrido ao espírito não teria voltado de modo algum sua intenção para o mal Logo de onde lhe veio ao espírito o pensamento fosse qual fosse o conteúdo dessa sugestão de formar esse projeto que o levou a passar do estado de anjo bom que era ao de demônio147 Pois realmente aquele que quer por certo quer alguma coisa E ele não poderia querer esse intento se não lhe fosse assinalado exteriormente pelos sentidos ou se não tivesse sido apresentado a seu espírito de alguma maneira secreta É preciso distinguirmos duas espécies de objeto de conhecimento uma provindo de uma sugestão exterior premeditada como foi o caso da tentação do demônio a quem o homem cedeu tornandose pecador outra provindo das realidades que estão submetidas à atenção de nosso espírito148 ou à percepção de nossos sentidos corporais O que poderia vir a cair sob o pensamento direto do espírito por certo não seria a imutável Trindade que não somente escapa ao domínio de nosso entendimento mas ainda ultrapassa de muito a alma Cai sob a ação do espírito precisamente o próprio espírito pelo qual temos consciência de viver Em seguida o corpo ao qual o espírito governa É porque em cada ação ele move os membros que devem ser postos em movimento quando preciso Enfim também os sentidos corporais que têm por objeto direto o conhecimento dos seres corpóreos O orgulho principal fonte de toda má opção 76 Que a alma mutável possa se contemplar comprazerse de certa maneira em si mesma na contemplação da suprema sabedoria a qual sendo imensa não é a própria alma isso vem de que ela por não ser igual a Deus possui entretanto belezas que depois de Deus podem encantála Sua beleza tornase perfeita quando perdendose de vista no amor de Deus imutável esquecese totalmente em sua presença149 Mas se ao contrário indo por assim dizer a seu próprio encontro ela se compraz em si mesma como por uma espécie de arremedo perverso de Deus até pretender encontrar o seu gozo na própria independência então se faz tanto menor quanto mais deseja se engrandecer Esse é o sentido das palavras O orgulho é o começo de todo pecado Eclo 1013 E destas outras O início do orgulho humano é afastarse de Deus Eclo 1012150 Foi esse o pecado do demônio que acrescentou a inveja a mais odiosa até persuadir ao homem esse mesmo orgulho em razão do qual ele tinha consciência de ter sido condenado Mas aconteceu que a punição infligida ao homem foi destinada a corrigilo mais do que a dar ao mesmo homem a morte Visto que o demônio apresentouse ao homem como exemplo de orgulho o Senhor apresentouse a nós como exemplo de humildade e com a promessa de vida eterna Em seu amor infinito Deus quis que resgatados pelo sangue de Cristo derramado após trabalhos e sofrimentos inexprimíveis nós nos uníssemos a nosso Libertador com uma caridade ardente para deixarnos arrebatar até ele por luzes tão brilhantes que a vista de realidade inferior alguma possa nos afastar da contemplação do Bem supremo Outrossim se alguma sugestão procedente do apetite de bens inferiores vier a solicitar nossa atenção deveríamos ser reconduzidos ao bem pelo exemplo da condenação e dos tormentos eternos do demônio Conclusão a excelência da sabedoria 77 Tão grande é a beleza da justica tão grande o encanto da luz eterna isto é da Verdade e da Sabedoria imutável que mesmo se não nos fosse permitido gozar delas a não ser pelo espaço de um único dia em troca terseia plenamente razão em menosprezar por elas inumeráveis anos desta vida embora repletos de delícias e transbordantes de bens temporais Pois o salmista não se enganou ao dizer com tanto fervor Um só dia em teu santuário vale mais do que mil anos longe de ti Sl 8311151 Ainda que se possam interpretar essas palavras em outro sentido compreendendo por mil dias a mutabilidade dos tempos e designando por um só dia a imutabilidade da eternidade Curta conclusão geral Ignoro se ao responder às tuas questões ó Evódio o quanto o Senhor dignouse me conceder não haver eu omitido alguns pontos dos quais constatarás a ausência Contudo mesmo se os encontrares a extensão deste livro obriganos a finalizálo suspendendo as presentes argumentações 101 11 Vista geral do livro III O livro III estuda o livrearbítrio relacionandoo com a ordem reinante no universo Agostinho sempre se esmerou em exaltar a ordem universal da criação da qual o livrearbítrio ainda que sujeito ao pecado é um dos elementos constituintes Na Introdução deste livro III 113 é tratada a questão da origem da inclinação da alma para os bens transitórios em detrimento da busca dos bens imutáveis Esse movimento que afasta a vontade de Deus é certamente culpável e provém da debilidade humana para agir bem No correr do livro serão tratadas questões relativas às dificuldades e fraquezas do livrearbítrio da vontade Mas em todas as situações Agostinho encontrará motivos para louvar a Providência divina Podemos distinguir neste livro III as seguintes partes 1º de 24 a 411 o problema de se conciliar a liberdade humana com a prescência divina 2º de 512 a 1646 a parte mais extensa Desenvolvimento de uma série de considerações a respeito das relações entre o pecado e a Providência 3º de 1747 a 2577 problemas diversos Sobretudo o da origem de nossas almas individuais e a busca de uma explicação psicológica do primeiro pecado de Adão e o do demônio A obra termina com um magnífico elogio da sabedoria o oposto do orgulho 102 12 Qual a causa do mal no homem Etienne Gilson explica muito bem estas proposições Afirma Agostinho todo bem vem de Deus Na natureza tudo é um bem pois tudo vem de Deus Se um esboço de ser já é certo bem a supressão total de bem equivale por definição a uma supressão total de ser Tornase contraditório imaginarse uma causa positiva como é Deus estar na origem do movimento de aversão pela qual a vontade livre afastase dele Sem dúvida Deus criou a vontade senhora de si mesma e capaz de se apegar ao sumo Bem e também capaz de se afastar dele Contudo a vontade assim criada poderia desprenderse de Deus mas não deveria fazêlo necessariamente Sua queda visto que foi de fato uma queda não é natural e fatal como a de uma pedra que cai mas a queda livre de uma vontade que consente Podemos ler tais questões desenvolvidas de modo mais pleno em outra obra de Agostinho De diversis quaestionibus 83 nn 1 a 4 Cf E Gilson Introduction à létude de saint Augustin pp 190191 103 25 Será o destino o responsável por nossas ações Observa Agostinho serem muitos aqueles que não crêem a divina Providência dirigir com bondade os acontecimentos humanos Também não crêem serem as próprias ações o resultado de uma livre opção Daí julgaremse isentos de responsabilidade por seus atos Dizem eles Se pecam é porque foram forçados a isso Abandonamse assim ao destino de corpo e alma entregandose a toda sorte de vícios Negam a justiça divina e fazem pouco caso da humana procurando desculparse responsabilizando por suas más ações a sorte a fortuna ou o destino cego Ora Agostinho demonstra nos capítulos que se seguem que a presciência divina não retira a liberdade de nossos atos e sua conseqüente responsabilidade Nessas famosas passagens coloca ele todos os recursos de sua poderosa e sutil dialética para anular qualquer oposição entre presciência e liberdade 104 37 O poder da vontade Nada está tanto em nosso poder quanto a vontade pois está ela disposta à execução sem demora alguma no instante mesmo em que o queremos Tal colocação parecese muito com as do sistema pelagiano que apregoava a independência absoluta da liberdade e seu poder ilimitado para o bem como para o mal Assim a virtude só viria a depender de nós Já comentamos longamente sobre essa questão problemática da autodeterminação absoluta da verdade na nota 31 correspondente ao texto do l I1329 Todavia é preciso relevarmos as afirmações de Agostinho no final do l II 2054 em que ensina o livrearbítrio e suas boas ações serem o fruto da ajuda divina O homem não pode se reerguer por si mesmo 105 37 Plano da exposição sobre a presciência de Deus e nossos pecados Deus conhece de antemão nossos atos mas nossa vontade é livre Essas duas verdades são incontestáveis tanto uma como outra E Agostinho empenhase em conciliálas nestes capítulos No cap 24 Evódio propusera a questão preocupante Como pode existir uma vontade livre onde é evidente e inevitável certa ação No cap 36 Agostinho apresenta a mesma questão com maior precisão Como não há contradição e incompatibilidade entre o fato de Deus saber com antecedência todos os acontecimentos futuros e o fato de nós pecarmos livre e não necessariamente No cap 38 encontramos a resposta explicativa No cap 49 Evódio insiste novamente porque confessa ainda não ter conseguido entender como os dois termos não se contradizem No item 410 Agostinho explicalhe que é preciso não confundir presciência e causalidade E dá como exemplo a experiência da própria presciência humana No item 411 Agostinho apresenta a conclusão final Deus por sua presciência não força os acontecimentos futuros a se realizarem 106 38 Deus prevê os nossos atos livres Nossa vontade sequer seria vontade se não estivesse em nosso poder Ora por isso mesmo que está em nosso poder é livre para nós A presciência de Deus tem por objeto precisamente os nossos atos livres O fato de Deus os conhecer não é necessariamente a condição de forçálos a que se realizem Deus sabe que eu farei livremente tal ação Assim a presciência não age mais sobre o futuro do que a memória sobre o passado 107 38 Agostinho pertinaz defensor da liberdade Santo Agostinho sempre sustentou que a liberdade é um fundamento de antropologia cristã Defendeua contra os maniqueus seus antigos correligionários contra o determinismo dos astrólogos de que ele mesmo tinha sido vítima e contra toda forma de fatalismo João Paulo II Augsutinum Hipponensem nota 160 Leiase ainda o que o bispo de Hipona afirma a respeito dessa temática em A Cidade de Deus nos caps 8910 do livro V Na polêmica contra o pelagianismo demonstrará com insistência como a liberdade e o auxílio da graça divina não se opõem É verdade que nos últimos anos de sua vida justamente em reação à superemancipação da independência absoluta de vontade em relação a Deus defendida pelos pelagianos dará ele mais e mais espaço à ação da graça divina Chegará mesmo a afirmar a predestinação e a perseverança dos santos ser devida totalmente à ação gratuita de Deus Contudo é considerada como a opinião mais correta de Agostinho a que se encontra na resposta dada a Simpliciano no De diversis quaestionibus ad Simplicianum I q 2 no ano 397 Cf Dict Théol Catholique col 2378ss 108 512 As questões de Evódio Evódio revelase neste diálogo como discípulo muito respeitoso fornecendo a Agostinho em freqüentes interrupções a ocasião de aprofundar os seus pensamentos Nesta passagem Agostinho alude às questões feitas por ele neste l III a saber A primeira relacionase com a presciência de Deus 24 A segunda com a justiça de Deus 49 E agora a terceira que introduz o problema mais longo da Providência no mundo 512 109 512 O otimismo agostiniano No presente capítulo Agostinho dános a marca de verdadeiro otimismo Faznos lembrar Leibniz e Plotino É preciso notar porém que o otimismo agostiniano não é absoluto Por aí distinguese essencialmente do otimismo daqueles dois outros filósofos Para esses o mundo atual é o melhor possível absolutamente falando Ao contrário Agostinho reconhece francamente os limites de nossa razão em face de Deus Confessa humildemente o mistério da liberdade divina Leiase no De genesi contra manichaeos o esclarecedor cap 24 do l I e em De diversis quaestionibus 83 q 28 Por que quis Deus criar o mundo Para Agostinho Deus sendo infinitamente bom e sábio produz sempre o que é melhor mas isso no plano atual de sua Providência por ele livremente fixado O que não exclui a possibilidade de um outro plano onde poderia ter sido criado um mundo melhor do que o nosso Cf Thonnard B A VI nota 27 p 514 110 513 Uma fórmula ousada Se nós concebermos algo melhor conforme a razão dotada de verdade graças à iluminação divina mesmo se não a verificarmos pela experiência devemos afirmar que isso existe Haverá certa ousadia nessa afirmação Todavia tal fórmula pode ser legitimada pela teoria do exemplarismo e da iluminação A teoria do exemplarismo concebida como exercício da causalidade perfeita pertence à essência mais íntima do agostinismo É por influência das Idéias divinas que todas as coisas são o que são Cf Thonnard op cit nota 28 p 515 111 513 A doutrina do exemplarismo Encontramos aqui nova e clara referência à teoria do exemplarismo Pode esta doutrina ser expressa nestes termos Todo ser é uma realização de uma idéia de Deus e todo conhecimento uma participação e seu pensamento que é o perfeito exemplar das coisas Interessa reler a nota 56 do l II1644 sobre a relação entre a teoria da participação do exemplarismo e do iluminismo 112 514 A Providência conforme Plotino e Agostinho Comparando a teoria de Plotino com a teoria agostiniana sobre a Providência desenvolvida neste l III e igualmente no De Ordine e no De Musica VI constatase a inegável influência do pensador pagão na filosofia cristã assim como as preciosas retificações que a fé católica ofereceu ao bispo de Hipona Plotino consagra especialmente à Providência os tratados II e III da 3ª Enéades Diz ele entre outras coisas As partes devem ser examinadas em sua relação com o conjunto Ora tal princípio é constantemente lembrado por Agostinho Essa é mesmo uma das idéias centrais da presente obra Idéia que inspira em particular o famoso otimismo agostiniano Afirma Plotino ainda Os seres que chamamos maus têm também seu papel e sua beleza São mais fracos mas a beleza do universo não fica diminuída por isso Esse tema é retomado com gosto neste capítulo e no 1235 para mostrar que as almas mesmo as pecadoras embelezam em seu plano e a seu modo a obra de Deus Cf Thonnard op cit nota 26 pp 511512 113 616 Clara referência aos maniqueus Agostinho referese aqui explicitamente ao erro maniqueu de conceber a essência de Deus como algo corpóreo como já observamos na Introdução deste livro Em seu conjunto o De libero arbitrio é uma refutação da solução dada pelos maniqueus ao problema que atormentava tanto ao jovem Agostinho Havia ele encontrado no dualismo maniqueu uma solução fácil e aparentemente satisfatória naquela época Não lhe desgostava considerar sua alma como uma parcela de Deus e lançar sobre o princípio do mal localizado no corpo a responsabilidade preocupante de suas fraquezas morais Procurese em Confissões V1018 e VII11 o que ele diz a esse respeito 114 618a A ausência da participação de Evódio Encontramos aqui uma interpelação a Evódio o interlocutor de Agostinho neste diálogo Entretanto desde a segunda parte deste l III 512 havíamos deixado de encontrar qualquer interferência sua E daqui por diante ele não mais será lembrado A não ser muito rapidamente no final do cap 1646 e no 1747 A razão é que Evódio não mais se encontrava ao lado de Agostinho em Tagaste tampouco em Hipona no ano 395 quando esta obra foi terminada 115 618b É compreensível o desejo da morte Numa série de considerações Agostinho demonstra que não se pode de modo algum censurar a Deus por haver criado a vontade livre mesmo sendo ela falível e pecadora Nesse intuito desenvolve algumas observações inspiradas em profunda psicologia da qual é mestre Encontramse pecadores que se tornaram infelizes por um justo castigo e que declaram preferir ser nada a sofrer Mentem a si pró prios afirma Agostinho O que eles procuram ao desejar o nada é o reflexo de profunda aspiração pelo descanso isto é por um estado melhor para seu ser Porque nenhum desejo sincero pode tender ao nada sem se destruir É porque no fundo todo desejo ao procurar o ser testemunha seu gosto pelo Ser supremo Deus e manifesta que a natureza humana é boa Cf Thonnard op cit introd pp 132133 116 721 A aspiração ao verdadeiro ser Esta é uma das mais belas passagens desta obra Agostinho sempre gostou de refletir sobre a fugacidade das coisas temporais Encontramos magníficas passagens sobre essa temática em diversas obras suas Por exemplo nos Comentários aos Salmos 10920 387 768 E nas Confissões IV1015 podemos ler com proveito o que ele comenta sobre O destino efêmero das criaturas Diz Erich Przywara Toda experiência das criaturas manifesta que elas não são mas somente que foram e serão E por certo toda nossa busca dirigese a um genuíno é no qual e em virtude do qual todas as coisas são Esse ser é Deus Cf San Agustin Perfil humano y religioso p 175 117 823 O significado do quies agostiniano Quies etis que neste lugar traduzimos por respouso ou tranqüilidade e em outros por calma quietude serenidade possui significado muito denso que é preciso não perder de vista No seguimento do estoicismo Agostinho deixanos aqui vislumbrar o que entende por esse vocábulo A tranqüilidade não se confunde com o nada Constitui pelo contrário um modo superior de existência O espírito tranqüilo tem a permanência do que em toda verdade pode ser dito a existência em plenitude Cf Braga op cit p 196 n 15 Assim para Agostinho o quietus esse equivale a magis esse Possui mais riqueza de ser aquele que está tranqüilo do que aquele que está irrequieto 118 926 Etiam peccata até mesmo os pecados Paul Claudel na sua obra Soulier de Satan colocou como epígrafe esta expressão de Agostinho Etiam peccata no sentido de que até mesmo os pecados glorificam a Deus Ora nesta passagem de livrearbítrio o sentido da expressão é outro Pelo contexto constatamos que Agostinho a emprega como uma objeção à qual se opõe Diz ele Objetamme se a nossa própria miséria completa a perfeição do universo teria faltado alguma coisa a essa perfeição no caso de sermos sempre felizes Logo a alma ao cair na desgraça ao pecar até nossos pecados seriam necessários à perfeição do universo eis a minha resposta a tal objeção Não são os pecados nem a própria miséria que são necessários à perfeição do universo mas as almas como almas No Enchiridion 2496 Agostinho apresenta com clareza o seu pensamento A existência dos pecadores contribui à perfeição do universo Contudo eles não contribuem enquanto pecadores mas como vontades livres tendo a capacidade de pecar ou não Mais adiante no cap 1132 leremos uma interessante referência à capacidade de pecar dos anjos e das criaturas humanas com a respectiva repercussão na ordem universal 119 926 A ordem do universo transcende os pecados individuais Tudo vem de Deus tudo conduz a Deus O mundo está sabiamente dirigido conforme regras e medidas harmoniosas Pode acontecer que certos detalhes pareçam apontar alguma desproporção e assim parecer perturbado o equilíbrio do conjunto Mas tudo é belo e bom tudo está em seu lugar no vasto universo O importante não são casos particulares e fatos individuais mas a harmonia do todo tanto no mundo moral como no mundo físico Cf Bardy Saint Augustin p 503 120 928 A admirável conveniência da redenção No pensamento de Agostinho a Providência divina aparece em poderosa originalidade e incontestável superioridade sobre o pensamento neoplatônico de Plotino cf nota 12 do l III514 Longe de comprometer a liberdade humana é nela que o santo doutor encontra a explicação do pecado Mas isso nada diminui a bondade sabedoria e poder do Criador que após ter tirado o mundo do nada governao a cada instante Merece Deus nossos louvores em tudo mesmo permitindo o pecado Agostinho ainda que raciocinando o mais freqüentemente como puro filósofo mostrase penetrado pela conveniência da redenção cf 9281031 E esta terceira parte do livro III é na verdade mais de ordem teológica do que filosófica No cap 2576 concluirá Resgatados pelo sangue de Cristo devemos aderir a nosso Salvador por uma tão grande caridade que objeto exterior algum possa nos separar dele Realça Agostinho a perfeita harmonia entre a bondade imutável de Deus que não pode senão irradiar o bem e o drama do pecado e o da redenção obraprima da Providência Cf Thonnard op cit nota 26 pp 513514 121 1030 Deus exortanos no íntimo pelo exterior Esta é uma das belas passagens teológicas da obra Deus nos forinsecus admonens Agostinho com freqüência emprega os verbos monet e admonet no sentido de Deus nos admoestar exortar advertir chamar a atenção Existe uma advertência para a interioridade no próprio regime da exterioridade Notese a presente passagem Cristo pão dos anjos fazse homem para nos levar ao regime da interioridade isto é para dispornos e participar dele com os anjos pela fé No l II 1438 já encontramos a bela expressão Deus foris admonet intus docet Deus advertenos por fora ensinanos no interior Cf a nota 51 O apelo de Deus 122 1031 Os direitos do demônio e a redenção É da tradição patrística a exposição do dogma que apresnta Jesus Cristo mediador entre Deus e os homens vindo nos resgatar do pecado pelo sacrifício expiatório da cruz Agostinho em particular no correr de suas controvérsias pelagianas ensina claramente essa doutrina como oriunda das próprias Sagradas Escrituras Quanto à teoria dos direitos do demônio que é apenas um tema secundário não significa ela de modo algum que Jesus Cristo veio pagar um penhor ao demônio para obter a libertação do homem Neste capítulo Agostinho mostra que o pecado sem ser necessário nada tira da perfeição da ordem do universo Mas por certo o papel do demônio na redenção ainda que muito secundário interessava bastante a nosso santo doutor Via ele aí um exemplo expressivo dos métodos da divina Providência pondo um remédio ao lado do mal para obter um bem maior do conjunto Podemos encontrar outra boa exposição da doutrina da redenção em A Trindade XIII12161519 Consultemse na edição em português as notas complementares correspondentes 123 1132 Contribuição de toda criatura à beleza do universo Agostinho continua a insistir todo ser criado angelical ou humano material que seja justo ou pecedor contribui para a beleza universal A criatura racional contribui à ordem do universo quer persevere ou não na justiça Leiase o que já foi dito atrás no cap 926 com a nota 19 correspondente 124 1133 Fórmula trinitária Na fórmula latina ex quo per quem in quo há clara alusão às Pessoas da SSma Trindade Agostinho servese dessas expressões para caracterizar a ação de Deus na criação Ex quo a partir de quem indica a causa eficiente e designa o Pai eterno primeiro Princípio ao qual é atribuída a criação por apropriação Per quem por quem indica o meio da ação o Verbo de Deus cujas idéias exemplares são a luz que dirige o Criador Cf Omnia per ipsum facta sunt Jo 13 e Cl 116 In quo em quem indica a união isto é o próprio Espírito Santo vivificador 125 1234 A doutrina da matéria espiritual Agostinho aceita como verossímil sem o afirmar de modo absoluto a famosa doutrina da Idade Média de uma matéria espiritual ou de um corpo celeste A influência do Criador esclarece e enriquece primeiramente o mundo dos espíritos mais próximos de Deus Vemos nesta passagem Agostinho refletir sobre os anjos aplicandolhes por analogia a nossa psicologia Mais adiante nos caps 2369 e 2575 ele tornará a fazer alusões aos corpos celestes 126 1236a Nova aplicação a erros dos maniqueus Em refutação à doutrina dualista dos maniqueus Agostinho afirma aqui ser totalmente inútil imaginar uma substância má a fim de salvaguardar a bondade de Deus Toda substância é boa Ao desaprovar o vício ou corrupção que se encontra no mundo por esse mesmo fato estamos louvando a natureza assim atacada e mais ainda ao Criador 127 1338 Sentido dos termos vício e corrupção Para melhor compreensão do texto lembremos que o termo latino vitium ii não possui unicamente o sentido moral de algo oposto à virtude Significa igualmente defeito deformidade desaprovação ou alguma imperfeição do ser Ora qualquer seja o termo empregado é preciso ter bem clara a idéia de Agostinho todo vício ou defeito supõe o bem O mesmo se diga do termo corrupção corruptio onis Cf III 1336b 128 1441 A matéria é boa refutação a maniqueus e neoplatônicos Toda esta argumentação em função de declarar a bondade de todos os seres é uma contestação aos maniqueus que consideravam a matéria como sendo má em si Ao mesmo tempo Agostinho refuta eficazmente a doutrina neoplatônica de Plotino sobre a matéria ainda que não se refira a isso A matéria longe de ser fonte do mal é para o bispo de Hipona uma realidade boa visto vir de Deus É o último e menor reflexo de Deus sendo pura capacidade Ora poder ser já é participar do ser e portanto capaz da bondade do ser Essa tese fundamental distingue radicalmente o agostianismo do neoplatonismo apesar de haver alhures um evidente parentesco de espírito entre as duas filosofias 129 1542 A arte divina A palavra arte ars artis aparece três vezes neste parágrafo Referese à Sabedoria de Deus isto é às idéias existentes na mente divina e que constituem o exemplar dos seres criados E é essa a teoria do exemplarismo como já vimos na nota 11 deste l III Por influência destas idéias divinas todas as coisas são o que são possuindo a existência e a sua forma ou perfeição específica Só pela iluminação divina poderemos compreender algo das idéias de Deus 130 1543 Um capítulo de transição Todo este capítulo 15 gira em torno do que é devido debuit a Deus Serve assim de transição para uma nova razão de se louvar a Deus a justiça Três idéias se encadeiam 1ª A criatura inferior por não possuir um ser que permaneça nada deve à Providência ao se extinguir 42 2ª A vontade livre por ter recebido um ser mais perfeito ao fazer o que deve isto é ao realizar o bem glorifica a Deus 43 3ª Se não o fizer a justiça será restabelecida pela punição A glória de Deus será assim salvaguardada 44 Agostinho distanciase agora das objeções aos maniqueus para se voltar a um tema mais fundamental o das relações entre pecado e Providência Chega assim por uma transição bastante natural à conclusão geral desta parte a divina Providência é digna de louvores em todas as suas obras mesmo ao criar vontades livres que podem vir a pecar por culpa própria Cf Thonnard op cit n 34 p 532 131 1747 Esquema da terceira parte do livro III Problemas diversos Esta última parte do livro III é dedicada a responder às dificuldades que naquela ocasião apresentavamse muito atuais Quase todas elas referentes a questões propostas pelos maniqueus Para maior clareza distingamos quatro séries de problemas A de 174750 A vontade livre causa primeira do pecado B de 18512265 A situação atual da humanidade devida ao pecado original C de 236670 A morte e sofrimento das crianças D de 24712577 O primeiro pecado de Adão e o do demônio O orgulho causa do pecado impedimento à passagem para a sabedoria Elogio da sabedoria 132 1850 Defesa de Agostinho perante os pelagianos Pelágio ao abusar desta passagem foi assim literalmente refutado por Agostinho nas Retractationes 93 Reconheço que essas palavras são minhas mas Pelágio precisa reconhecer tudo mais que vai escrito acima desse texto Os pelagianos afirmam de tal modo o livrearbítrio da vontade a não deixar mais lugar para a graça de Deus Asseguram que a graça nos é dada conforme nossos méritos Mas que eles não se glorifiquem de me terem como advogado sob o pretexto de que nos meus livros sobre O livrearbítrio eu tenha dito muita coisa em favor da liberdade como exigia a nossa discussão de então O bispo de Hipona voltará ainda a fazer expressa menção das suas posições no De libero arbitrio defendendoas dos pelagianos em seu De dono perseverantiae 1126 a 1230 Leiase nova nota sobre esta temática mais adiante a n 40 referente ao cap 2058 133 1851 A natureza humana foi criada boa A presente resposta de Agostinho aos maniqueus é considerada excelente Lutando contra a heresia maniquéia ele não precisava demonstrar na ocasião o papel de graça na vida humana Nem mesmo pôr em relevo a importância do pecado original ou de suas conseqüências Devia sim como o fez insistir sobre a excelência da natureza humana a qual vinda de Deus foi criada boa e que não se teria afastado do Criador sem as debilidades voluntárias de seu livrearbítrio Cf G Bardy Les Révisions B A VIII p 187 134 1852 O estado primitivo de nossos primeiros pais Esta passagem vem citada por Agostinho nas Retractationes 95 para demonstrar aos pelagianos como ele já ensinava o pecado original antes da controvérsia pelagiana Deus não criou o homem num estado de ignorância e dificuldades Essa situação atual é o castigo pelo pecado A nossos primeiros pais Deus concedeu a sabedoria a retidão no exercício do livrearbítrio a imortalidade e dom ainda mais precioso a graça santificantes Todos esses dons conforme Agostinho formam parte da natureza humana Mas pelo pecado original a natureza ficou profundamente transformada De boa tornouse inclinada para o mal Santo Tomás distingue a natureza humana pura sem os dons preternaturais que foram perdidos e os dons sobrenaturais como o da graça divina não devidos à natureza do homem Agostinho não faz essa distinção mas insiste que a nossa natureza ficou deteriorada Nos próximos capítulos em especial de 1953 a 2265 Agostinho voltará muitas vezes à idéia dos males atuais de nossa natureza sintetizados por ele na ignorância e nas dificuldades ignorantia et difficultas Devem essas deficiências ser superadas na busca da virtude Os dois males apontados são relativos às duas faculdades humanas a inteligência e a vontade A plena superação deles só será quando atingirmos a meta final na beatitude da sabedoria e no pleno gozo do repouso de Deus Cf 2264 135 1852 A pena do pecado original Agostinho foi o primeiro a elucidar com clareza e precisão o caráter da culpa inerente ao pecado de Adão transmitido a todos os homens É o pecado original um peccatum e ao mesmo tempo a poena peccati Está comprovado principalmente por Rm 5 12 Pertence à essência do pecado original o ser réu da concupiscência reatus concupiscentiae que consiste na carência hereditária da união espiritual vital com Deus Essa pena é apagada no batismo Cf B Altaner A Stuiber Patrologia p 436 136 1953 A consoladora mensagem desta obra Deus está conosco O pecador não pode queixarse a não ser de si mesmo se vier a ser infeliz No fundo o único pecado é o desprezo da graça De modo algum o pecado se dá necessariamente no homem Caso ele queira voltarse para Deus e pôr em ação a própria vontade a ajuda do Criador infinitamente bom não lhe há de faltar Realiza assim Deus a ordem da divina Sabedoria levando o homem sua criatura à felicidade Sem dúvida essa insistência de Agostinho a nos fazer retornar para Deus a fim de solucionar o problema do mal sob todos os aspectos faz a unidade da presente obra E que grande lição para nós É esse o único método eficaz para obtermos o apaziguamento interior Com efeito como não nos abandonarmos com plena confiança à bondade onipotente de Deus quando compreendemos com Agostinho que Ele é a bondade incapaz de querer para nós outra coisa senão o bem Não se trata porém de abandono preguiçoso como o dos quietistas ou fatalistas O presente diálogo põe especialmente em destaque o papel do livrearbítrio Sem ainda falar muito da graça Agostinho a supõe constantemente Vemos assim quanto o agostinismo bem compreendido é essencialmente otimista Cf Thonnard Introdução ao B A VI p 134 137 2056 Um grande problema para Agostinho a origem da alma A origem da alma foi problema que sempre preocupou e atormentou Agostinho durante toda a sua vida Conhecia ele perfeitamente graças às luzes da fé e da filosofia neoplatônica que a alma é superior ao corpo Conhecia também os seus atributos simplicidade imortalidade e sua capacidade de ser elevada à ordem sobrenatural da graça Mas sempre de algum modo direta ou indiretamente ao referirse à sua origem o seu espírito flutuava entre soluções opostas permanecendo em dúvidas e vacilações Parecialhe estar diante de um mistério profundo Para nosso melhor esclarecimento da questão é preciso distinguir entre a origem das almas de Adão e Eva e a origem das almas de seus descendentes As de Adão e Eva foram sem dúvida criadas diretamente por Deus como as Sagradas Escrituras dizem expressamente Gn 27 Agostinho defende isso com rigor e repele qualquer outro modo de aparição da primeira alma Suas inquietações correspondem acerca da origem das almas dos descendentes de Adão e Eva Parte ele do princípio que nega e refuta expressamente o fato e a possibilidade de que as almas provenham por emanação da substância divina Isso contra os gnósticos e os maniqueus Igualmente repele o traducianismo materialista de Tertuliano Exclui também e combate a metempsicose e não admite a preexistência das almas doutrina de Platão e Orígenes Nessa hipótese as almas capazes de pecar tornavamse culpadas recebendo como castigo serem encerradas em corpos mortais Cf M Lanseros OSA Introdução ao De anima et eius originae BAC III p 763 138 2056 Diversas hipóteses a respeito da origem da alma Para Agostinho como surge a alma em um novo ser racional Quatro hipóteses apresentavamse a ele como possíveis Leiase a boa síntese que ele faz no início do cap 2159 1º As almas transmitemse por geração da alma dos pais à dos filhos É o tradiciunismo espiritualista 2055 2º Deus cria uma alma para cada indivíduo no momento de começar a viver É a tese do creacionismo Agostinho gostaria de que assim fosse Mas sentia dificuldade de explicar a transmissão do pecado original 2056 3º As almas criadas por Deus existem em algum lugar sem possuir falta alguma precedente São enviadas por Ele em tempo oportuno para reger os corpos 2057 4º Elas baixam por própria vontade para virem habitar os corpos 2058 Sem fixar sua escolha Agostinho neste cap 20 justifica sob qualquer hipótese a divina Providência Pretende explicar o estado de nossa miséria diante de todas essas situações E como a bondade do Criador pode ser justificada e continuar a ser digna de inefáveis louvores Encontramos explicitações sobre essa temática em várias outras obras de Agostinho Cf em De Genesi ad litteram no cap X E a carta a s Jerônimo n 166 que leva como título geral De origine animae hominis Essa carta é um verdadeiro tratado sobre a questão Cf ainda De anima et ejus origine e as Cartas 164 a Evódio e 190 a Optato 139 2056 A misericórdia de Deus sempre presente Neste cap 20 vemos como Agostinho demonstra que seja qual for a verdadeira doutrina acerca da origem das almas não será uma injustiça que as conseqüências penais do pecado de nossos primeiros pais tenham passado a seus descendentes O doutor de Hipona sempre insiste na superabundância da graça e em tudo encontra motivo para louvar a misericórdia de Deus 140 2058 Novas refutações de Agostinho a Pelágio o homem sem a graça não consegue se reerguer Já temos observado como Pelágio queria provar Agostinho haver reconhecido a soberania do livrearbítrio e portanto o reconhecimento da inutilidade da graça Nas suas Retratações I96 Agostinho afirma expressamente Eis como bem antes da aparição da heresia pelagiana nós já nos exprimíamos como se discutíssemos contra ela Dissemos claramente de que condição miserável a graça de Deus libertanos Situação essa mui justamente infligida aos pecadores Com efeito por si mesmo isto é livremente o homem pode cair mas não consegue levantarse por si mesmo No l II20 54 já foi dito Sem a ajuda de Deus ninguém é libertado de seus males Essa situação os pelagianos não querem que provenha de uma justa condenação porque negam o pecado original Não obstante a ignorância e a incapacidade mesmo se pertencessem à natureza primitiva do homem não se deveria por isso acusar a Deus mas louválo como já explicamos suficientemente nesse mesmo livro III 141 2264 Uma hipótese o homem ter sido criado no estado atual sem ter havido o pecado Até aqui temos visto Agostinho sustentar que a ignorância e o erro assim como as dificuldades na conquista do autodomínio então ligados em nossos primeiros pais não a um estado natural mas serem o castigo do pecado Neste capítulo ele apresenta a suposição de um mundo sem pecado o homem criado sem os privilégios acima expostos submetido entretanto às mesmas dificuldades que enfrenta hoje para chegar à sabedoria Toda a sua obrigação estaria então em se esfoçar para se vencer e tender à bemaventuraça contando com a graça de Deus E Agostinho apressase a mostrar que ainda assim Deus seria digno de louvores E Gilson comenta esta passagem do seguinte modo Sendo absolutamente livre em seu ato criador Deus poderia se o quisesse ter criado o homem nesse estado em que o vemos presentemente Não haveria nada de indigno ao fazer almas tais como são as nossas atualmente ignorantes por certo mas dotadas de uma luz natural que lhes permite libertarse progressivamente das trevas da ignorância e agraciadas com uma vontade capaz de adquirir todas as virtudes Mas Deus não o quis Gilson op cit p 192 142 2366 O problema do sofrimento e morte das crianças Nesta seção C da terceira parte do livro III do cap 2366 a 70 Agostinho ao tratar das crianças preocupase também com a utilidade do batismo que lhes é conferido 67 Igualmente com a morte prematura delas e seus sofrimentos 68 Isso o leva a refletir ademais sobre o sofrimento dos animais 69 Significativa a definição de dor por ele proposta O que é a dor a não ser uma sensação de resistência à divisão e à corrupção 69 Conclui que todo ser criado canta a unidade inefável de Deuse por aí demonstra a utilidade de sua existência 70 Particularmente bela é a sua reflexão de como os seres aspiram pela unidade em Deus 143 2471 O sentido do termo stultitia Traduzimos o termo stultitia empregado freqüentemente por Agostinho nesta obra por insensatez Poderíamos ainda ter traduzido por estultícia loucura ignorância insciência incapacidade Stultitia porém não é qualquer ignorância mas aquela referente às coisas que devem ser estimadas ou evitadas 1342 O stultus é pois um insensato louco ignorante tolo imprudente néscio ou insciente Stultitia para Agostinho é o oposto de sabedoria ou sapiência E stultus o oposto de sapiens sábio Neste item lemos que o primeiro homem não foi criado insensato mas com capacidade a se tornar sábio 144 2472 Males derivados do orgulho O orgulho pelo qual o homem atribuise a sabedoria afastao da verdadeira sabedoria leva à corrupção de sua inteligência Assim não saberia conduzilo a não ser ao erro em matéria de religião Está clara aí a alusão aos neoplatônicos Cf o que está dito nesse sentido nas Confissões VII91314 e In Io 24 145 2574 A psicologia da atuação da vontade A liberdade humana sempre foi bem salvaguardada por Agostinho Já temos insistido o quanto ele a defendeu contra os maniqueus E igualmente na luta pelagiana sob o risco de comprometer a mesma liberdade ao exaltar sobremaneira a ação da graça ele nunca se retratou de suas primeiras teorias acerca da capacidade do livrearbítrio Neste capítulo vemos Agostinho desenvolver sua teoria sobre a psicologia da vontade Esta não se decide nunca sem ter um motivo sem haver percebido algum bem de qualquer modo que seja Ainda que a vontade seja livre diante dos motivos no fundo ela toma resoluções diferentes conforme as diversas motivações apresentadas 146 2574 Distinção entre liberdade e livrearbítrio Enquanto para nós esses dois termos são quase sinônimos existe para Agostinho clara distinção entre o sentido de liberum arbitrium e o de libertas O livrearbítrio existia no primeiro homem É por ele que Adão escolheu a via do mal Mas ao agir assim ele perdeu a liberdade de agir bem Seguese que os seus descendentes deixados a si mesmos conservaram intacto seu livrearbítrio para querer livremente o mal Mas não mais estavam livres no sentido completo da palavra porque não possuíam desde então a verdadeira e plena liberdade aquela que Adão possuía a de usar bem de seu livrearbítrio Portanto só há liberdade libertas para Agostinho quando a graça vem se enxertar no livrearbítrio e este se torna liberdade Esta pois vem a ser o bom uso do livrearbítrio o qual subsiste no homem atual mas com um poder mais restrito Donde segue que a diferença entre o homem decaído e aquele que se restaura pela graça não está de modo algum na posse ou não do livrearbítrio mas sim em sua eficácia A incapacidade de cumprir o bem conhecido querido e escolhido é uma penalidade do pecado original Deus por meio de sua graça suscita em nós a boa vontade Nesta vida mortal resta ao livrearbítrio não o poder de cumprir por si mesmo a justiça caso o queira mas o de se voltar com confiança suplicante para Aquele que lhe pode obter a graça de praticar a virtude Cf J Rivière Enchiridion B A 9 nota 18 p 351ss e E Gilson op cit p 202ss 147 2575 A psicologia do pecado dos anjos Agostinho estuda aqui a situação dos anjos maus ao pecar aplicandolhes por analogia a nossa própria psicologia A presente reflexão baseada sobretudo na fé é antes de tudo um tratado de teologia Notemos como o autor aceita como verossimilhança sem o afirmar categoricamente a possibilidade de uma matéria espiritual Releiase o que já foi dito no cap 1234 e as observações da n 25 148 2575 A atenção do espírito A expressão acima no original é a seguinte intentio animi a qual poderia também ser traduzida por pensamento do espírito O termo intentio é muito empregado por Agostinho Neste capítulo final do l III vemolo mencionado cinco vezes Significa propriamente os objetos conhecidos pela aplicação do espírito ou pela atividade do pensamento em contraposição aos objetos conhecidos pelos sentidos corporais É pois o conhecimento próprio da inteligência logo o próprio pensamento Cf A S Pinheiro op cit n 59 p 264 149 2576 Pontos fundamentais da espiritualidade agostiniana Nesta importante passagem Agostinho diz em síntese a alma que em Deus renuncia a tudo e a seu próprio ser recobra a si mesma e a tudo mais Encontramos aí a clara fundamentação da espiritualidade agostiniana fonte das ascensões no processo de interiorização ad extra ad intra ad supra Diz ele nas Confissões VII1016 Após redire ad memet ipsum intravi in intima mea Abrese ele em seu interior no zênite da alma buscando o transcendente Lembremos o famoso aforismo de A verdadeira religião Noli foras ire in teipsum redi transcende te ipsum 3972 Não saias fora de ti mas volta para dentro de ti mesmo a Verdade habita no coração do homem Encontramos as mesmas advertências em outros escritos seus No Sermão 15379 Não fiques em ti transcendete nAquele que te fez Noli remanere in te transcende et te No S 169911 Sai sai de ti mesmo eu digo Tolle te tolle inquan te a te E no S 3303 Não fiques em ti mesmo Noli remanere in te 150 6576 O sentido das citações do Eclesiástico 101415 Estas duas passagens do Eclesiástico estão citadas conforme a Setenta em latim assim transcritas Initium peccati superbia 1015 e Initium superbiae hominis apostatare a Deo 1014 Observese que é raro encontrarmos em Agostinho esses dois versículos apresentados como máximas de ordem geral Para ele é clara a referência à falta de Adão isto é a seu pecado de orgulho Sendo esse também o ponto de partida para toda falta humana o afastamento de Deus e a conseqüente imersão nas trevas 151 2577 O elogio final da Sabedoria Este belo elogio final da Sabedoria apresentase como um fecho brilhante à presente obra sobre o livrearbítrio Terminemos nossas notas evocando a significativa oração oficial da festa litúrgica de santo Agostinho a 28 de agosto Senhor despertai na vossa Igreja o espírito que animou santo Agostinho para que todos nós sedentos da verdadeira Sabedoria não cansemos de vos procurar a vós fonte viva do amor eterno Amém BIBLIOGRAFIA NB O texto original completo encontrase em Patrologia de Migne patres Latini edição Maurina tomo 32 col 1221 1310 TEXTOS BILÍNGÜES Agustín San De libero arbitrio in Biblioteca de Autores Cristianos BAC tomo III versão em espanhol introdução e notas por P Evaristo Seijas OSA Madri 1951 pp 237521 Augustin Saint De Libero arbitrio in Bibliothèque Augustinienne BA vol VI Dialogues philosophiques versão em francês introdução e notas por FJThonnard AA Desclée de Brouwer Paris1941 Augustin Saint De libero arbitrio in Oeuvres Complètes de Saint Augustin tomo 3 versão em francês introdução e notas por Péronne Vincent Écalle Ed Vivès Paris 1873 pp 292421 TEXTO COMPLETO EM PORTUGUÊS Agostinho Santo O livre arbítrio trad com introdução e notas por António Soares Pinheiro Faculdade de Filosofia Braga 1986 OUTRAS OBRAS DE SANTO AGOSTINHO Augustin Saint Retractationes texto introdução trad e notas por Gustave Bardy Desclée de Brouwer Paris 1951 Confissões trad de M Luiza Jardim Amarante Paulus S Paulo 5ª edição 1993 A Cidade de Deus contra os pagãos 2 tomos 2ª ed trad por Oscar Paes Lems Vozes Petrópolis 1990 Enchiridion trad e notas por J Rivière in B A tomo 9 Desclée de Brouwer Paris 1947 A verdadeira religião trad introd e notas por N A Oliveira Paulus S Paulo 1987 Solilóquios idem ibidem 1993 A Vida feliz idem ibidem 1993 A doutrina cristã idem ibidem 1991 A Trindade idem ibidem no prelo De Ordine trad introd e notas por P V Capánaga ORSA in BAC I Madri 1957 Le maître trad e notas por F J Thonnard in Bibl Augustinienne Dialogues philosophiques Desclée de Brouwer 1955 De natura boni trad intr e notas por M Lanseros in BAC III MAdri 1951 De gratia et libero arbitrio trad por PGEVega in BAC VI Madri 1956 OBRAS DE ESTUDO SOBRE SANTO AGOSTINHO Bardy Gustave Saint Augustin lhomme et loeuvre Desclé de Brouwer 6ª edição 1946 Brown Peter La vie de Saint Augustin traduzido do inglês Ed du Seuil Paris 1985 Capánaga Victor ORSA Introducción general in Obras de san Agustín in Biblioteca de Autores Cristianos BAC I Madri 1957 Pensamientos de San Agustín in BAC I Minor Madri 1979 San Agustín Clássicos Labor XI Barcelona 1954 Cayré Fulbert AA La contemplation augustienne Desclée de Bouwer Paris 1954 Dieu présent dans la vie de lesprit Desclée de Brouwer Paris 1951 Patrologie et Histoire de la Théologie tomo I Desclée et Cias Paris Tournai Roma 1947 Folch Gomes Cirilo OSB Antologia dos Santos Padre Paulus S Paulo 1985 Gilson Etienne Introduction à létude de saint Augustin Libr Philos 2ª ed Vrin Paris 1929 João Paulo II Carta Apostólica Augustinum Hipponensem pelo 16º centenário da conversão de santo Agostinho Ed Loyola 1987 Marrou HenriIréné Saint Augustin et la fin de la culture antique Ed de Boccard Paris 1ª edição 1938 Saint Augustim et laugustinisme Ed du Seuil Paris 1951 PortaliéE Augustin Saint artigo in Dictionnaire de Théologie Catholique tomo I 2 col 2268 2472 Paris 1931 Przywara E San Agustín perfil humano y religioso ed Cristiandad 2ª ed Madri 1984 Rocha Frei Hylton Miranda OAR Pelos caminhos de santo Agostinho Ed Loyola S Paulo 1989 Thonnard FJAA Précis de lhistoire de la philosophie Desclée de Brouwer Paris Tournai Roma 1937 Trapé Agostinho Saint Augustin lhomme le pasteur le mystique trad do italiano Fayard Paris 19088 NB Outras indicações bibliográficas estão dadas nas notas complementares Esta é uma obra extensa profunda e decisiva de importância excepcional pelos múltiplos e graves problemas estudados sobretudo aquele fundamental a respeito da origem e causa do pecado assim como a responsabilidade humana por seus atos livres O tema principal é pois o da liberdade do ser humano e a origem do mal moral Para Agostinho a fonte do pecado está no abuso da liberdade sendo entretanto o livrearbítrio um grande dom de Deus O que há de mais famoso nesta obra é a argumentação da prova da existência de Deus no livro II Prova reconhecidamente original do doutor de Hipona e denominada prova pela verdade pelas idéias eternas ou pela via do espírito Ponto de particular valor é a doutrina da Providência de Deus em face aos seres livres e que se encontra no livro III Até os dias de hoje os temas aqui debatidos permanecem de real atualidade A leitura refletida e degustada será muito enriquecedora a todos os que buscam um conhecimento mais aprofundado sobre as temáticas expostas 76929 Coleção PATRÍSTICA 1 Padres Apostólicos Clemente Romano Inácio de Antioquia Policarpo de Esmirna PseudoBarnabé Hermas Pápias Didaqué 2 Padres Apologistas Carta a Diogneto Aristides Taciano Atenágoras Teófilo Hérmias 3 Apologias e Diálogo com Trifão Justino de Roma 4 Contra as heresias Ireneu de Lião 5 Explicação dos símbolos da fé Sobre os sacramentos Sobre os mistérios Sobre a penitência Ambrósio de Milão 6 Sermões Leão Magno 7 A Trindade S Agostinho 8 O livrearbítrio S Agostinho 91 Comentário aos Salmos Salmos 150 S Agostinho 92 Comentário aos Salmos Salmos 51100 S Agostinho 93 Comentário aos Salmos Salmos 101150 S Agostinho 10 Confissões S Agostinho 11 Solilóquios A vida feliz S Agostinho 12 A Graça I S Agostinho 13 A Graça II S Agostinho 14 Homilia sobre Lucas 12 Homilias sobre a imagem do homem Tratado sobre o Espírito Santo Basílio de Cesareia 15 História eclesiástica Eusébio de Cesareia 16 Os bens do matrimônio A santa virgindade consagrada Os bens da viuvez Cartas a Proba e a Juliana S Agostinho 17 A doutrina cristã S Agostinho 18 Contra os pagãos A encarnação do Verbo Apologia ao imperador Constâncio Apologia de sua fuga Vida e conduta de S Antão S Atanásio 19 A verdadeira religião O cuidado devido aos mortos S Agostinho 20 Contra Celso Orígenes 21 Comentário ao Gênesis S Agostinho 22 Tratado sobre a Santíssima Trindade S Hilário de Poitiers 23 Da incompreensibilidade de Deus Da Providência de Deus Cartas a Olímpia S João Crisóstomo 24 Contra os Acadêmicos A Ordem A grandeza da Alma O Mestre S Agostinho 25 Explicação de algumas proposições da Carta aos Romanos Explicação da Carta aos Gálatas Explicação incoada da Carta aos Romanos S Agostinho 26 Examerão os seis dias da criação S Ambrósio 271 Comentário às Cartas de São Paulo1 Homilias sobre a Carta aos Romanos Comentário sobre a Carta aos Gálatas Homilias sobre a Carta aos Efésios S João Crisóstomo 272 Comentário às Cartas de São Paulo2 Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios Homilias sobre a Segunda Carta aos Coríntios S João Crisóstomo 273 Comentário às Cartas de São Paulo3 Homilias sobre as cartas Primeira e Segunda a Timóteo a Tito aos Filipenses aos Colossenses Primeira e Segunda aos Tessalonicenses a Filemon aos Hebreus S João Crisóstomo 28 Regra Pastoral S Gregório Magno 29 A criação do homem A alma e a ressurreição A grande catequese S Gregório de Nissa 30 Tratado sobre os Princípios Orígenes 31 Apologia contra os livros de Rufino S Jerônimo 32 A fé e o símbolo Primeira catequese aos não cristãos A disciplina cristã A continência S Agostinho Direção Editorial Claudiano Avelino dos Santos Coordenação de desenvolvimento digital Erivaldo Dantas Título original De libero arbitrio Tradução do original latino cotejada com versões em francês e em espanhol Tradução organização introdução e notas Ir Nair de Assis Oliveira Revisão Honório Dalbosco Dados Internacionais de Catalogação na Publicação CIP Câmara Brasileira do Livro SP Brasil Agostinho Santo Bispo de Hipona 354430 O livrearbítrio Santo Agostinho tradução organização introdução e notas Nair de Assis Oliveira revisão Honório Dalbosco São Paulo Paulus 1995 Patrística eISBN 9788534938822 1 Livrearbítrio e determinismo 2 Livrearbítrio e determinismo Ensinamentos bíblicos I Oliveira Nair de Assis II Título III Série 942314 CDD2337 Índices para catálogo sistemático 1 Liberdade Ensino bíblico Doutrina cristã 2337 2 Livrearbítrio Ensino bíblico Doutrina cristã 2337 PAULUS 2014 Rua Francisco Cruz 229 04117091 São Paulo Brasil Fax 11 55793627 Tel 11 50843066 wwwpauluscombr editorialpauluscombr eISBN 9788534938822 História da Filosofia Medieval Livro 8 Patrística Livrearbítrio LIVRO I O PECADO PROVÉM DO LIVRE ARBÍTRIO Aluno Capítulo 1 É Deus o autor do mal Deus não é o autor do mal O livrearbítrio A responsabilidade humana Conclusão do livro estabelece a base para a discussão sobre o problema do mal defendendo a ideia de que Deus não é o autor do mal e que a origem do mal reside na liberdade de escolha das criaturas Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal Concupiscência Orgulho Ignorância Fraqueza da vontade Influências externas Paixões desordenadas Conclusão O mal não é visto como uma característica intrínseca do universo mas sim como uma consequência da liberdade humana A responsabilidade por nossas ações é individual e a compreensão dos motivos que nos levam a agir mal é fundamental para o processo de conversão e santificação Capítulo 3 Busca da origem do pecado A razão como guia As paixões como obstáculo A vontade livre Conclusão A principal tese apresentada é que o pecado se origina da submissão da razão às paixões O capítulo estabelece uma conexão entre a razão as paixões e o pecado A submissão da razão às paixões é identificada como a raiz do mal uma vez que leva o indivíduo a agir de forma contrária à sua própria natureza e à vontade divina Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão Paixões sutis A razão corrompida A ausência de paixão não implica em ausência de pecado O capítulo busca refutar a ideia de que a ausência de paixões intensas em um ato de maldade o exclui da categoria do pecado O autor provavelmente argumenta que a paixão pode se manifestar de formas mais sutis e que a razão quando corrompida pode justificar atos de violência mesmo na ausência de emoções fortes Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil Lei divina vs lei humana Bem menor vs mal maior Intenção e circunstâncias Paixões e virtudes Conclusão O autor busca conciliar a tese de que o pecado é resultado da submissão da razão às paixões com a existência de atos de violência que são moralmente justificáveis como a legítima defesa A distinção entre lei divina e lei humana a análise da intenção e das circunstâncias e o papel das virtudes são elementoschave para essa conciliação Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais Lei eterna Leis temporais A importância da distinção A razão iluminada pela fé Conclusão O capítulo oferece uma solução para as questões levantadas nos capítulos anteriores propondo que a origem do pecado está na transgressão da lei eterna Ao distinguir entre a lei eterna e as leis temporais o indivíduo pode tomar decisões morais mais acertadas e evitar a submissão da razão às paixões Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão A razão como distinção A razão como guia O livrearbítrio Conclusão O capítulo estabelece a base para a discussão sobre a causa do pecado enfatizando o papel da razão na natureza humana A razão ao mesmo tempo em que eleva o homem acima dos animais também o torna responsável por suas escolhas e o expõe à possibilidade do pecado Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres A hierarquia dos seres A natureza dual do homem O pecado original A imagem e semelhança de Deus Conclusão O capítulo 8 aprofunda a discussão sobre a natureza humana e sua relação com o pecado Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão O homem sábio como ideal A submissão da vontade à razão A importância da educação A felicidade como consequência da virtude Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta um ideal a ser perseguido o homem sábio Ao explorar a relação entre a razão e a vontade livre o autor busca mostrar como a submissão da vontade à razão pode levar à felicidade e à virtude afastando o indivíduo do pecado Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões A razão como guia O livrearbítrio e a responsabilidade A importância da educação A força da vontade Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão otimista da natureza humana enfatizando o poder da razão para controlar as paixões Ao defender a ideia de que a submissão da razão às paixões não é inevitável o autor busca fortalecer a responsabilidade individual pelas escolhas e incentivar a busca pela virtude Capítulo 11a O Ser Supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões A bondade divina A justiça divina O livrearbítrio como dom divino A graça divina Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão teológica da liberdade humana e da responsabilidade individual Ao afirmar que Deus não força o homem a pecar o autor busca conciliar a onipotência divina com a liberdade humana e a justiça divina Capítulo 11b Dúvidas de Evódio A origem do mal A predestinação A compatibilidade da liberdade com a onisciência divina A natureza do pecado Conclusão O capítulo serve como um ponto de partida para a terceira parte da obra apresentando um conjunto de desafios à tese central Ao explorar as dúvidas de Evódio o autor prepara o terreno para uma discussão mais aprofundada sobre a natureza do pecado a liberdade humana e a relação entre Deus e o homem Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo A teoria das Formas A matéria como princípio do mal A alma humana como prisioneira do corpo O papel da razão Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo apresenta uma visão alternativa sobre a origem do mal baseada na filosofia platônica Ao explorar a teoria das Formas e a natureza da alma humana o autor busca oferecer uma explicação para o pecado que não se baseia no livre arbítrio Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais As quatro virtudes cardeais A virtude como hábito A boa vontade como disposição para o bem O livrearbítrio e a virtude Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo aprofunda a discussão sobre a boa vontade conectandoa com a prática das virtudes cardeais Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através das ações virtuosas o autor reforça a ideia de que o pecado é resultado de uma escolha livre e não de uma força externa Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade A felicidade como fim último Os obstáculos à felicidade A importância da escolha O papel da graça divina Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo explora a relação entre a felicidade e a virtude mostrando como as escolhas que fazemos moldam nossa experiência da vida Ao enfatizar a importância da boa vontade e da prática das virtudes o autor busca mostrar que a felicidade é um fruto do exercício do livrearbítrio Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal A lei eterna A lei natural A lei positiva A boa vontade e a lei Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo busca situar a boa vontade dentro de um contexto mais amplo relacionandoa com a ordem cósmica estabelecida por Deus Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através da conformidade com a lei eterna e a lei natural o autor reforça a ideia de que a escolha de fazer o bem é uma decisão racional e livre Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio Revisão dos argumentos Definição precisa de pecado O pecado como uma violação da lei mora A liberdade como condição essencial para o pecado A responsabilidade individual Como o livrearbítrio se encaixa Conclusão O capítulo encerra a terceira parte com uma afirmação contundente o pecado é resultado do livrearbítrio humano Ao definir o pecado e mostrar como ele se relaciona com a lei moral e a liberdade o autor oferece uma visão clara e coerente sobre a natureza do mal Introdução O autor introduz a questão fundamental do problema do mal questionando se Deus sendo bom e onipotente poderia ser o autor do mal que existe no mundo Essa questão milenar tem desafiado filósofos e teólogos ao longo da história e busca uma explicação coerente para a coexistência do mal em um universo criado por um Deus bom Capítulo 1 É Deus o autor do mal Neste capítulo o autor aprofunda a discussão sobre a origem do mal propondo que o mal não é uma criação direta de Deus mas sim uma consequência do livrearbítrio concedido às criaturas A ideia central é que a liberdade de escolha embora seja um dom divino permite que os seres humanos se desviem do caminho do bem e cometam atos de maldade Deus não é o autor do mal A tese central é que Deus sendo infinitamente bom não pode ser a causa do mal O mal é visto como uma perversão da ordem divina e uma consequência das escolhas livres das criaturas O livrearbítrio A liberdade de escolher entre o bem e o mal é apresentada como um componente essencial da natureza humana Essa liberdade embora possa levar ao mal é considerada um dom precioso que permite o verdadeiro amor e a relação autêntica com Deus A responsabilidade humana O autor enfatiza que os seres humanos são responsáveis por suas ações tanto as boas quanto as más O mal não é uma fatalidade mas sim uma escolha Conclusão O primeiro capítulo do livro estabelece a base para a discussão sobre o problema do mal defendendo a ideia de que Deus não é o autor do mal e que a origem do mal reside na liberdade de escolha das criaturas Essa perspectiva teológica busca conciliar a existência do mal com a bondade de Deus e a responsabilidade humana Capítulo 2 Por qual motivo agimos mal O segundo capítulo aprofunda a discussão sobre as razões que levam os seres humanos a cometerem o mal Embora não tenhamos o texto exato do capítulo podemos inferir alguns possíveis motivos com base na discussão teológica sobre o pecado Concupiscência A inclinação natural do ser humano para o pecado um desejo desordenado que afasta a pessoa de Deus Orgulho A busca excessiva pela própria glória que leva à desobediência a Deus e à exploração dos outros Ignorância A falta de conhecimento sobre o bem e o mal pode levar a escolhas equivocadas Fraqueza da vontade A dificuldade em resistir às tentações e seguir a razão Influências externas O ambiente a sociedade e as relações interpessoais podem influenciar negativamente as escolhas individuais Paixões desordenadas Emoções como a ira a inveja e o ódio podem levar a ações prejudiciais Conclusão O mal não é visto como uma característica intrínseca do universo mas sim como uma consequência da liberdade humana A responsabilidade por nossas ações é individual e a compreensão dos motivos que nos levam a agir mal é fundamental para o processo de conversão e santificação Capítulo 3 Busca da origem do pecado Neste capítulo o autor aprofunda a investigação sobre a natureza do pecado buscando identificar sua origem A principal tese apresentada é que o pecado se origina da submissão da razão às paixões A razão como guia A razão é apresentada como a faculdade humana responsável por guiar a vontade e as ações Ela tem a capacidade de discernir o bem do mal e de tomar decisões racionais As paixões como obstáculo As paixões por outro lado são forças internas que podem desviar a razão de seu objetivo Quando a razão se submete às paixões o indivíduo é levado a agir de forma contrária à sua própria natureza racional e à vontade de Deus A vontade livre O livrearbítrio é fundamental para a compreensão do pecado Ao escolher seguir as paixões em vez da razão o indivíduo exerce sua liberdade de forma equivocada optando pelo mal em vez do bem Em resumo o capítulo 3 estabelece uma conexão entre a razão as paixões e o pecado A submissão da razão às paixões é identificada como a raiz do mal uma vez que leva o indivíduo a agir de forma contrária à sua própria natureza e à vontade divina Capítulo 4 Objeção e os homicídios cometidos sem paixão A questão central No capítulo 4 o autor se propõe a responder a uma possível objeção à tese central da obra ou seja que o pecado se origina da submissão da razão às paixões A objeção levanta a seguinte questão se o pecado é resultado da dominação das paixões sobre a razão como explicar os atos de maldade como os homicídios que parecem ser cometidos sem a influência de paixões intensas A resposta do autor Para responder a essa objeção o autor provavelmente desenvolve uma análise mais profunda da natureza da paixão e da razão Ele pode argumentar que Paixões sutis Nem todas as paixões são manifestações aparentes e intensas Há paixões mais sutis como o ódio latente a inveja disfarçada ou o desejo de poder que podem motivar ações cruéis mesmo que não sejam acompanhadas de emoções fortes no momento do ato A razão corrompida A razão por sua vez pode estar corrompida pelo pecado original ou por más influências levando o indivíduo a justificar atos de violência mesmo que não sejam motivados por paixões imediatas A ausência de paixão não implica em ausência de pecado A falta de paixão intensa no momento do ato não significa que o pecado não tenha ocorrido A intenção de causar mal mesmo que fria e calculada é suficiente para caracterizar um ato pecaminoso Em resumo O capítulo 4 busca refutar a ideia de que a ausência de paixões intensas em um ato de maldade o exclui da categoria do pecado O autor provavelmente argumenta que a paixão pode se manifestar de formas mais sutis e que a razão quando corrompida pode justificar atos de violência mesmo na ausência de emoções fortes Capítulo 5 Outra objeção e os homicídios cometidos em autodefesa admitidos pela lei civil A questão central No capítulo anterior o autor abordou a objeção de que nem todos os pecados são motivados por paixões intensas Neste capítulo a objeção se aprofunda se o pecado é resultado da submissão da razão às paixões como classificar atos de violência como a legítima defesa que são permitidos pela lei civil A resposta do autor O autor provavelmente busca diferenciar entre a lei divina e a lei humana argumentando que Lei divina vs lei humana A lei divina que é imutável e universal estabelece um padrão moral mais elevado do que a lei humana A lei humana por sua vez é contingente e adaptável às circunstâncias históricas e sociais Bem menor vs mal maior Em situações de legítima defesa a ação de matar pode ser considerada um mal menor em comparação com o mal maior de perder a própria vida ou a vida de outra pessoa inocente A lei humana ao permitir a legítima defesa reconhece essa distinção Intenção e circunstâncias A intenção do agente também é crucial Em um ato de legítima defesa a intenção não é causar mal mas sim preservar a própria vida ou a vida de outrem As circunstâncias do ato como a iminência do perigo também são relevantes para a avaliação moral Paixões e virtudes Mesmo em situações de legítima defesa as paixões podem estar presentes mas não são necessariamente o motor principal da ação A virtude da prudência por exemplo pode guiar a decisão de usar a força para se defender Em resumo O autor busca conciliar a tese de que o pecado é resultado da submissão da razão às paixões com a existência de atos de violência que são moralmente justificáveis como a legítima defesa A distinção entre lei divina e lei humana a análise da intenção e das circunstâncias e o papel das virtudes são elementoschave para essa conciliação Capítulo 6 Solução saber distinguir a lei eterna das leis temporais A questão central Após explorar as objeções à tese central da obra o capítulo 6 provavelmente apresenta uma solução mais abrangente para a questão da origem do pecado e da moralidade das ações humanas A chave para essa solução reside na distinção entre a lei eterna e as leis temporais A resposta do autor O autor argumenta que a raiz do pecado está na transgressão da lei eterna que é imutável e universal expressando a vontade de Deus para todas as criaturas racionais Ao contrário da lei eterna as leis temporais como as leis civis são contingentes e podem variar de sociedade para sociedade Pontoschave Lei eterna É a lei divina imutável e universal que expressa a ordem natural das coisas e a vontade de Deus para todas as criaturas racionais Leis temporais São as leis humanas contingentes e variáveis que visam regular a vida em sociedade e podem entrar em conflito com a lei eterna A importância da distinção Saber distinguir entre a lei eterna e as leis temporais é fundamental para tomar decisões morais corretas Ao agir de acordo com a lei eterna o indivíduo se alinha com a vontade de Deus e evita o pecado A razão iluminada pela fé A razão humana por si só pode ter dificuldade em discernir a lei eterna em todas as situações A fé que ilumina a razão é essencial para compreender a vontade de Deus e agir de acordo com ela Em resumo O capítulo 6 oferece uma solução para as questões levantadas nos capítulos anteriores propondo que a origem do pecado está na transgressão da lei eterna Ao distinguir entre a lei eterna e as leis temporais o indivíduo pode tomar decisões morais mais acertadas e evitar a submissão da razão às paixões Capítulo 7 O homem superior aos animais pela razão Neste capítulo o autor provavelmente inicia uma exploração mais profunda da natureza humana e de como a razão que distingue o homem dos animais pode ser tanto fonte de bem quanto de mal Pontoschave A razão como distinção A razão é apresentada como a principal característica que diferencia o ser humano dos animais Ela permite ao homem conhecer a verdade tomar decisões conscientes e viver em sociedade A razão como guia A razão é vista como o guia da conduta humana indicando o caminho do bem e do mal No entanto a razão humana é falível e pode ser corrompida pelo pecado O livrearbítrio O livrearbítrio aliado à razão permite ao homem escolher entre o bem e o mal Essa liberdade é um dom divino mas também a fonte do pecado Em resumo O capítulo 7 estabelece a base para a discussão sobre a causa do pecado enfatizando o papel da razão na natureza humana A razão ao mesmo tempo em que eleva o homem acima dos animais também o torna responsável por suas escolhas e o expõe à possibilidade do pecado Capítulo 8 O lugar do homem na escala da perfeição dos seres O que esperar deste capítulo No capítulo 8 o autor propõe a discussão iniciada no capítulo anterior explorando com mais detalhes a posição única do ser humano no universo Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Tópicos abordados A hierarquia dos seres O autor pode apresentar uma visão hierárquica dos seres situando o homem em um lugar de destaque porém não absoluto Essa hierarquia pode ser baseada em critérios como a racionalidade a espiritualidade e a capacidade de amar A natureza dual do homem A natureza humana é frequentemente descrita como uma dualidade entre corpo e alma ou entre matéria e espírito O autor pode explorar essa dualidade para explicar as tendências do homem para o bem e para o mal O pecado original A doutrina do pecado original pode ser apresentada como uma explicação para a inclinação do homem para o pecado mesmo antes de cometer qualquer ação concreta A imagem e semelhança de Deus O homem é frequentemente descrito como criado à imagem e semelhança de Deus O autor pode explorar as implicações dessa afirmação para a compreensão da natureza humana e do pecado Em resumo O capítulo 8 aprofunda a discussão sobre a natureza humana e sua relação com o pecado Ao analisar o lugar do homem na escala da perfeição dos seres o autor buscará elucidar como a liberdade humana embora seja um dom divino pode ser fonte de pecado Capítulo 9 O homem sábio aquele que vive submisso à razão No capítulo 9 o autor propõe discussão sobre a relação entre a razão e a vontade livre explorando o conceito do homem sábio Este capítulo deve servir como um contraponto ao capítulo anterior onde a natureza dual do homem e a possibilidade do pecado foram exploradas Tópicos abordados O homem sábio como ideal O autor pode apresentar o homem sábio como um ideal a ser perseguido alguém que utiliza sua razão de forma plena e consistente para tomar decisões justas e virtuosas A submissão da vontade à razão A submissão da vontade à razão é apresentada como a marca distintiva do homem sábio Ao agir de acordo com a razão o indivíduo se afasta da impulsividade e do pecado A importância da educação A educação é vista como um instrumento fundamental para o desenvolvimento da razão e para a formação do homem sábio A felicidade como consequência da virtude A felicidade é apresentada como o resultado natural da prática da virtude e da vida segundo a razão Como o livrearbítrio se encaixa O livrearbítrio continua sendo um tema central neste capítulo No entanto a ênfase se desloca do abuso da liberdade para o seu uso correto O homem sábio é aquele que ao exercer sua liberdade escolhe viver de acordo com a razão e a virtude Em resumo O capítulo 9 apresenta um ideal a ser perseguido o homem sábio Ao explorar a relação entre a razão e a vontade livre o autor busca mostrar como a submissão da vontade à razão pode levar à felicidade e à virtude afastando o indivíduo do pecado Capítulo 10 Nada força a razão a submeterse às paixões O que esperar deste capítulo No capítulo 10 o autor provavelmente aprofunda a discussão sobre a relação entre razão e paixões defendendo a tese de que a submissão da razão às paixões não é uma inevitabilidade mas sim uma escolha Tópicos abordados A razão como guia O autor reafirma o papel da razão como guia da conduta humana capaz de controlar as paixões e direcionar as ações para o bem O livrearbítrio e a responsabilidade A responsabilidade individual pelas escolhas é enfatizada O livrearbítrio permite que o homem escolha entre seguir a razão ou ceder às paixões A importância da educação A educação é apresentada como um instrumento fundamental para fortalecer a razão e permitir que o indivíduo resista às tentações das paixões A força da vontade A vontade é vista como um poder interior que quando fortalecida pela razão permite ao indivíduo superar as paixões Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é apresentado como a chave para a liberdade humana Ao afirmar que nada força a razão a se submeter às paixões o autor está defendendo a ideia de que o indivíduo sempre tem a possibilidade de escolher o bem mesmo diante das tentações Em resumo O capítulo 10 apresenta uma visão otimista da natureza humana enfatizando o poder da razão para controlar as paixões Ao defender a ideia de que a submissão da razão às paixões não é inevitável o autor busca fortalecer a responsabilidade individual pelas escolhas e incentivar a busca pela virtude Capítulo 11a O Ser Supremo não constrange a mente humana a ser escrava das paixões O que esperar deste capítulo No capítulo 11a o autor aprofunda a discussão sobre a liberdade humana e a responsabilidade individual pelas escolhas com um foco especial no papel de Deus nesse processo Tópicos abordados A bondade divina O autor defende a ideia de que Deus sendo perfeitamente bom não força o homem a pecar A escolha de pecar é uma decisão livre do indivíduo A justiça divina A justiça divina é apresentada como compatível com a liberdade humana Deus não pune o homem por atos que não estão sob seu controle O livrearbítrio como dom divino O livrearbítrio é visto como um dom precioso concedido por Deus que permite ao homem crescer em santidade e se aproximar de Deus por meio de suas escolhas livres A graça divina A graça divina é apresentada como um auxílio para superar as tentações e viver uma vida virtuosa mas não como uma força que anula a liberdade humana Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é defendido como um aspecto essencial da natureza humana e como um dom divino A tese central é que Deus em sua bondade infinita não força o homem a pecar mas lhe concede a liberdade de escolher entre o bem e o mal Em resumo O capítulo 11a apresenta uma visão teológica da liberdade humana e da responsabilidade individual Ao afirmar que Deus não força o homem a pecar o autor busca conciliar a onipotência divina com a liberdade humana e a justiça divina Capítulo 11b Dúvidas de Evódio O que esperar deste capítulo O capítulo 11b introduz a terceira parte da obra ao apresentar uma série de dúvidas ou objeções muitas vezes atribuídas a um personagem fictício chamado Evódio Essas dúvidas visam desafiar a tese central da obra ou seja que o pecado é resultado do livre arbítrio humano Tópicos abordados A origem do mal Evódio pode questionar como o mal pode existir em um mundo criado por um Deus bom e onipotente A predestinação O personagem pode apresentar argumentos a favor da predestinação sugerindo que o destino de cada indivíduo já está predeterminado e que o livrearbítrio é uma ilusão A compatibilidade da liberdade com a onisciência divina Evódio pode questionar como a liberdade humana se concilia com a onisciência divina Se Deus sabe tudo o que acontecerá como podemos ser realmente livres para escolher A natureza do pecado O personagem pode apresentar diferentes concepções de pecado questionando a ideia de que o pecado é simplesmente uma má escolha O objetivo do autor Ao apresentar as dúvidas de Evódio o autor busca criar um diálogo com o leitor e explorar as diferentes perspectivas sobre a questão do pecado e da liberdade humana Ao refutar as objeções de Evódio nos capítulos seguintes o autor fortalecerá sua tese central Em resumo O capítulo 11b serve como um ponto de partida para a terceira parte da obra apresentando um conjunto de desafios à tese central Ao explorar as dúvidas de Evódio o autor prepara o terreno para uma discussão mais aprofundada sobre a natureza do pecado a liberdade humana e a relação entre Deus e o homem Capítulo 12 Uma hipótese do platonismo O que esperar deste capítulo No capítulo 12 o autor se aprofunda na discussão sobre a origem do mal confrontando a perspectiva que atribui o pecado ao livrearbítrio humano com uma visão platônica da realidade Tópicos abordados A teoria das Formas O autor pode apresentar a teoria das Formas de Platão segundo a qual o mundo material é uma mera sombra de um mundo ideal onde residem as Formas perfeitas do bem da beleza e da justiça A matéria como princípio do mal A matéria pode ser apresentada como o princípio do mal uma força que corrompe as Formas perfeitas e leva à imperfeição A alma humana como prisioneira do corpo A alma humana pode ser descrita como uma partícula do mundo das Formas aprisionada em um corpo material O pecado seria então resultado dessa prisão e da influência da matéria sobre a alma O papel da razão A razão seria a ferramenta que permite à alma lembrarse de suas origens divinas e buscar a libertação da matéria Como o livrearbítrio se encaixa A teoria platônica pode ser apresentada como uma alternativa à ideia de que o pecado é resultado do livrearbítrio Nessa perspectiva o mal não é uma escolha mas sim uma condição inerente à existência material Em resumo O capítulo 12 provavelmente apresenta uma visão alternativa sobre a origem do mal baseada na filosofia platônica Ao explorar a teoria das Formas e a natureza da alma humana o autor busca oferecer uma explicação para o pecado que não se baseia no livrearbítrio Capítulo 13 Nossa boa vontade implica o exercício das quatro virtudes cardeais O que esperar deste capítulo No capítulo 13 o autor provavelmente aprofunda a discussão sobre a boa vontade estabelecendo uma conexão entre a prática da virtude e o exercício do livrearbítrio Tópicos abordados As quatro virtudes cardeais O autor deve apresentar as quatro virtudes cardeais prudência justiça fortaleza e temperança e explicar como elas se relacionam com a boa vontade A virtude como hábito A virtude é apresentada como um hábito adquirido através da prática constante que leva à excelência moral A boa vontade como disposição para o bem A boa vontade é vista como uma disposição interior que inclina o indivíduo a praticar o bem e a evitar o mal O livrearbítrio e a virtude O exercício das virtudes cardeais é apresentado como uma expressão do livrearbítrio pois exige uma escolha consciente e deliberada Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher praticar o bem através das virtudes A boa vontade portanto não é apenas um desejo de fazer o bem mas sim a capacidade de agir de acordo com esse desejo escolhendo a virtude em cada situação Em resumo O capítulo 13 aprofunda a discussão sobre a boa vontade conectandoa com a prática das virtudes cardeais Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através das ações virtuosas o autor reforça a ideia de que o pecado é resultado de uma escolha livre e não de uma força externa Capítulo 14 Motivo de nem todos conseguirem a desejada felicidade O que esperar deste capítulo No capítulo 14 o autor aprofunda a discussão sobre a busca da felicidade e a importância da virtude para alcançála Ele pode explorar as razões pelas quais nem todos conseguem atingir a felicidade desejada relacionando isso com a questão do livrearbítrio e da prática das virtudes Possíveis tópicos abordados A felicidade como fim último O autor pode reafirmar a ideia de que a felicidade é o fim último de todas as ações humanas e que a virtude é o meio para alcançála Os obstáculos à felicidade Serão explorados os obstáculos que impedem as pessoas de alcançar a felicidade como as paixões desordenadas os vícios a ignorância e as más escolhas A importância da escolha O autor pode enfatizar que a felicidade não é algo que se adquire passivamente mas sim algo que se conquista através de escolhas conscientes e deliberadas O papel da graça divina A graça divina pode ser apresentada como um auxílio indispensável para superar os obstáculos e alcançar a felicidade Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher o caminho da felicidade através da prática da virtude A incapacidade de alcançar a felicidade é atribuída portanto à má utilização do livrearbítrio ou seja à escolha de caminhos que levam ao sofrimento e à infelicidade Em resumo O capítulo 14 explora a relação entre a felicidade e a virtude mostrando como as escolhas que fazemos moldam nossa experiência da vida Ao enfatizar a importância da boa vontade e da prática das virtudes o autor busca mostrar que a felicidade é um fruto do exercício do livrearbítrio Capítulo 15 Relação da boa vontade com a lei eterna e a temporal O que esperar deste capítulo No capítulo 15 o autor aprofunda a discussão sobre a natureza da boa vontade relacionandoa com os conceitos de lei eterna e lei temporal Essa conexão busca explicar como a boa vontade se encaixa na ordem cósmica estabelecida por Deus e como ela se manifesta nas ações humanas Tópicos abordados A lei eterna O autor pode apresentar a lei eterna como a ordem racional e imutável estabelecida por Deus que rege todo o universo A lei natural A lei natural é apresentada como a participação da lei eterna na natureza humana manifestandose como a inclinação natural do homem para o bem e a verdade A lei positiva A lei positiva é a lei criada pelos homens para regular a vida em sociedade que deve estar em conformidade com a lei natural e a lei eterna A boa vontade e a lei A boa vontade é apresentada como a conformidade da vontade humana com a lei eterna e a lei natural A pessoa de boa vontade é aquela que age de acordo com a ordem racional estabelecida por Deus Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é visto como a capacidade de escolher agir de acordo com a lei eterna e a lei natural A boa vontade portanto é o exercício livre e consciente da conformidade com a ordem divina Em resumo O capítulo 15 busca situar a boa vontade dentro de um contexto mais amplo relacionandoa com a ordem cósmica estabelecida por Deus Ao mostrar como a boa vontade se manifesta através da conformidade com a lei eterna e a lei natural o autor reforça a ideia de que a escolha de fazer o bem é uma decisão racional e livre Capítulo 16 Conclusão a definição da essência do pecado mostra que ele procede do livrearbítrio O que esperar deste capítulo O capítulo 16 sendo o último da terceira parte serve como uma síntese dos argumentos apresentados anteriormente O autor provavelmente reúne todas as ideias e evidências para apresentar uma conclusão sólida sobre a natureza do pecado e a sua relação com o livrearbítrio Tópicos abordados Revisão dos argumentos O autor pode fazer uma breve revisão dos argumentos apresentados nos capítulos anteriores destacando os pontos mais importantes Definição precisa de pecado Será apresentada uma definição clara e concisa do que é o pecado enfatizando o seu caráter moral e voluntário O pecado como uma violação da lei moral O pecado será caracterizado como uma transgressão da lei moral tanto da lei natural inscrita no coração do homem quanto da lei divina revelada A liberdade como condição essencial para o pecado O autor reafirmará que o pecado só é possível graças ao livrearbítrio pois exige uma escolha consciente contra o bem A responsabilidade individual A conclusão enfatizará a responsabilidade individual por cada pecado cometido uma vez que o pecado é fruto de uma escolha livre Como o livrearbítrio se encaixa Neste capítulo o livrearbítrio é apresentado como a raiz de todo o pecado Ao definir o pecado como uma violação voluntária da lei moral o autor demonstra que o pecado é uma escolha pessoal e que o indivíduo é responsável por suas ações Em resumo O capítulo 16 encerra a terceira parte com uma afirmação contundente o pecado é resultado do livrearbítrio humano Ao definir o pecado e mostrar como ele se relaciona com a lei moral e a liberdade o autor oferece uma visão clara e coerente sobre a natureza do mal

Sua Nova Sala de Aula

Sua Nova Sala de Aula

Empresa

Contato Blog

Legal

Termos de uso Política de privacidade Política de cookies Código de honra

Baixe o app

4,8
(35.000 avaliações)
© 2026 Meu Guru® • 42.269.770/0001-84