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1 APRESENTAÇÃO ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 0000 Dahbar Júlio César Análise das Demonstrações Financeiras Júlio César Dahbar Cidade Grupo Ibmec Educacional 2021 00 p 21x297 cm Inclui bibliografia 1 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 1 2 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 3 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO 4 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Dahbar Júlio César II Ibmec Online III Análise das Demonstrações Financeiras CDD 0000000 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 08 Unidade 1 Objetivo e Usuários da Análise das Demonstrações Financeiras 11 Unidade 2 Contabilidade O Ponto de Partida 13 Unidade 3 Cuidados para a Análise 27 Unidade 4 Metodologia de Análise 35 CAPÍTULO 2 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 42 Unidade 1 Análise de Liquidez e Atividade 45 Unidade 2 Análise da Necessidade de Capital de Giro NCG 51 Unidade 3 Análise de Endividamento e Risco de Inadimplência 56 Unidade 4 Análise da Situação Financeira e Endividamento na Prática 62 CAPÍTULO 3 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO 68 Unidade 1 Índices de Rentabilidade 71 Unidade 2 Índices de Lucratividade e Giro 76 Unidade 3 Valor Econômico Adicionado EVA 81 Unidade 4 Análise do Desempenho Econômico na Prática 89 CAPÍTULO 4 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE 94 Unidade 1 Alavancagem Operacional e Ponto de Equilíbrio 97 Unidade 2 Alavancagem Financeira 103 Unidade 3 Análise dos Fluxos de Caixa 109 REFERÊNCIAS 116 4 NOME DA DISCIPLINA INTRODUÇÃO A análise das demonstrações financeiras envolve o conhecimento a utilização e a interpretação de índices que facilitam a compreensão da situação econômico financeira das empresas Permite ao analista conhecer e apresentar conclusões sobre o desempenho econômico a situação financeira e o risco de inadimplência da companhia fornecendo informações que apoiam a tomada de decisões financeiras de todos aqueles que se relacionam com a companhia Dentre os potenciais interessados na análise é possível destacar os acionistas os credores os bancos o governo os empregados os fornecedores os clientes etc O estudo da análise das demonstrações financeiras proposto envolverá quatro etapas Inicialmente no Capítulo 1 serão abordados os aspectos fundamentais um background um conjunto de fundamentos que possibilita que o profissional desenvolva e apresente um relatório de análise mais abrangente completo e de qualidade Em seguida nos Capítulos 2 e 3 serão aprofundados os estudos da análise da situação financeira endividamento e risco de inadimplência assim como da análise do desempenho econômico das empresas Serão abordados aspectos como os índices de liquidez o ciclo operacional e financeiro a necessidade de capital de giro e as formas de financiamento e métricas de endividamento e inadimplência Na análise do desempenho econômico serão vistos os principais índices de rentabilidade e lucratividade além de um estudo detalhado do Valor Econômico Adicionado Economic Value Added EVA No último capítulo serão abordados tópicos adicionais de análise que permitirão ao analista complementar a análise e detalhar as conclusões Serão estudados a alavancagem operacional os custos variáveis e as despesas fixas a margem de contribuição e o ponto de equilíbrio A alavancagem financeira será apresentada sob diferentes aspectos em uma abordagem abrangente e será detalhada a análise do fluxo de caixa No processo além de destacar os principais conceitos e teorias a respeito dos temas serão apresentados exemplos e em alguns casos aplicações práticas das análises e dos índices estudados como forma de permitir a você uma formação não apenas no nível teórico mas também com o objetivo de desenvolver habilidades práticas para construir as competências necessárias sobre o assunto 5 APRESENTAÇÃO OBJETIVOS DO CURSO Após concluir o estudo da disciplina Análise das demonstrações financeiras você será capaz de compreender os objetivos e os diferentes usuários da análise das demonstrações financeiras conhecer o papel da contabilidade como ponto de partida para a análise estar atentoa aos cuidados necessários no processo de análise e seguir uma metodologia de análise proposta calcular e interpretar os principais índices de liquidez e de atividade além de avançar nos estudos sobre a necessidade de capital de giro identificar e utilizar métricas que apoiam a análise de risco de inadimplência e endividamento avaliar os diferentes índices de lucratividade e rentabilidade assim como as relações entre ambas estimar e interpretar o Valor Econômico Adicionado Economic Value Added EVA compreender a alavancagem operacional e financeira avançar na interpretação da análise dos fluxos de caixa CARTA AO ALUNO Caroa alunoa como teremos a oportunidade de estudar ao longo do nosso curso a análise das demons trações financeiras fornece aos usuários uma visão abrangente da situação econômicofi nanceira das empresas Tratase de uma disciplina fundamental para que se possa avaliar as decisões de investimento operacionais e de financiamento das companhias confrontar com os resultados esperados sugerir correções e propor decisões É um tema que interessa não apenas aos gestores da companhia na busca por melhor desempenho mas também a todos os que se relacionam com a instituição como credores fornecedores clientes empregados proprietários apoiandose nas análises para a tomada de decisão Nesse sentido adquirir competências relacionadas à análise das demonstrações financeiras deve constituir o processo de formação de todo profissional de administração finanças contabilidade controladoria auditoria e de outras áreas cujas atividades impactam o de sempenho econômicofinanceiro da organização Para isso evidentemente é preciso agre gar um conjunto de conhecimentos teóricos com habilidades práticas essenciais para uma adequada avaliação interpretação e conclusão Desejamos sucesso no curso Equipe Ibmec online DIRETRIZES PEDAGÓGICAS Em um curso online o aluno é o principal agente de aprendizado Para que os estudos da disciplina sejam eficientes e eficazes algumas recomendações podem ser dadas como dicas organize o tempo escolhendo os melhores dias e horários para realizar a disciplina em caso de dúvida consulte as referências bibliográficas o glossário e o material de apoio releia o conteúdo sempre que achar que um assunto não ficou suficientemente claro leia os textos complementares indicados faça os exercícios de feedback automático e participe dos fóruns com seu professor e seus colegas de turma 8 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Capítulo 1 9 CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO A análise das demonstrações financeiras envolve o conhecimento a utilização e a interpretação de índices que facilitam a compreensão da situação econômico financeira das empresas No entanto antes de utilizar tais índices e para melhor calculálos e interpretálos é necessário estabelecer um background um conjunto de fundamentos que permite que o profissional desenvolva e apresente um relatório de análise mais abrangente completo e de qualidade Este capítulo apresenta os aspectos introdutórios porém fundamentais da análise das demonstrações financeiras Serão apresentados os objetivos e os diferentes usuários da análise etapa importante para compreender as necessidades e expectativas dos diferentes usuários Conhecer essas demandas é fundamental para alinhar as expectativas e atender adequadamente aos objetivos Em seguida serão apresentadas as principais demonstrações financeiras que a contabilidade das empresas pode fornecer Entender o processo de construção dessas informações é essencial para saber como utilizálas mas também para poder criticar a sua qualidade Por fim serão introduzidas as principais técnicas de análise utilizadas no processo Será proposta ainda uma metodologia de etapas para o processo de análise como forma de apoio ao racional que pode ser seguido pelos analistas 10 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender quais são os usuários da análise das demonstrações financeiras qual o objetivo da análise da situação econômicofinanceira das empresas o papel e as características das principais demonstrações financeiras a importância de averiguar a qualidade das informações disponíveis a necessidade de criticar a contabilidade as principais técnicas utilizadas no processo de análise as etapas do processo de análise Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos apresentados este capítulo está dividido em Unidade 1 Objetivo e usuários da análise das demonstrações financeiras Unidade 2 Contabilidade o ponto de partida Unidade 3 Cuidados para a análise Unidade 4 Metodologia de análise 11 CAPÍTULO 1 UNIDADE 1 OBJETIVO E USUÁRIOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS A análise das demonstrações financeiras também conhecida como análise das demonstra ções contábeis tem o objetivo de calcular e interpretar informações a respeito da situação econômicofinanceira das empresas por meio de um conjunto de técnicas e indicadores SAIBA MAIS Alguns autores e usuários ainda se referem à análise das demonstrações financeiras apenas como análise de balanços Na prática as duas denominações representam o mesmo objetivo e a história ajuda a compreender isso Como indica Marion 2019 essa expressão foi introduzida quando os bancos americanos inicialmente no final do século XIX solicitavam as demonstrações praticamente o balanço às empresas que desejavam contrair empréstimos O autor ainda reforça como argumento para o uso da expressão análise de balanços o fato de a demonstração do resultado do exercício ter sido conhecida em certo período como balanço econômico ou balanço de resultado e a denominação do fluxo de caixa já ter sido conhecida como balanço financeiro A partir da análise das demonstrações financeiras surgem informações como a companhia Alfa conquistou este ano margem bruta de 30 ou seja dois pontos percentuais acima da margem alcançada no mesmo período do ano passado e em linha com a margem bruta do setor Da mesma forma o resultado operacional também foi considerado satisfatório A empresa alcançou pelo terceiro ano consecutivo crescimento no EBITDA mantendose acima da média do seu setor A margem líquida por outro lado foi negativamente afetada pelo aumento das despesas financeiras e fechou o ano em apenas 3 bem abaixo da média do segmento Com isso o retorno sobre o patrimônio líquido ROE atingiu 7 aa abaixo do custo de capital próprio estimado para a empresa de 10 aa A companhia iniciou neste ano um processo de readequação em sua estrutura de capital com o objetivo de reduzir o endividamento atualmente em 40 DE e então aliviar o resultado financeiro Apesar disso a situação de caixa da empresa liquidez permanece confortável devido principal mente a sua política de compras agressiva que garante à companhia um ciclo financeiro curto e consequentemente uma Necessidade de Capital de Giro NCG bem abaixo dos seus principais concorrentes 12 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Nesse exemplo percebese que de forma mais específica a análise das demonstrações financeiras permite avaliar a capacidade de geração de lucro e riqueza da empresa em um determinado período medir a capacidade de pagamento das obrigações analisar a geração de caixa acompanhar a evolução dos resultados financeiros e econômicos ao longo do tem po e comparar o desempenho da empresa com o de outras do mesmo setor Portanto pela análise das demonstrações financeiras é possível extrair informações sobre a situação passada e presente das empresas mas que também podem ser utilizadas como insumo para projeções acerca de sua situação futura Por essa razão constituemse como instrumental essencial no apoio à tomada de decisões pelos diversos usuários da análise Daí a relevância de se conhecer as demandas dos inúmeros interessados na análise da situ ação econômicofinanceira das companhias As sociedades constituídas com o propósito de explorar determinada atividade econômica têm como principal objetivo em um sentido mais geral a criação de riqueza Pensando em uma empresa em seu início de vida por exemplo o dono ou sócios só estariam dispostos a aportar seus recursos no negócio se acreditarem na capacidade da empresa de remunerar adequadamente o capital investido Para conquistar tal objetivo os proprietários precisarão evidentemente acompanhar e to mar decisões sobre inúmeras questões mercadológicas tributárias operacionais e legais Mas para visualizar se estão no caminho correto e corrigir os rumos quando necessário tornase imprescindível conhecer e analisar a situação econômicofinanceira da empresa Essa visão isolada já seria suficiente para compreendermos a importância do assunto No entanto não podemos nos esquecer de que os proprietários acionistas ou sócios de uma empresa não são os únicos interessados na instituição portanto não são os únicos benefi ciados pelo processo de análise das demonstrações financeiras As instituições financeiras ao conceder crédito para as empresas não raro solicitam as prin cipais informações contábeis dos seus clientes com o objetivo de conhecêlos melhor cal cular os riscos e estabelecer as condições taxas e prazos sobre as quais a concessão do empréstimo ou financiamento seria autorizado Da mesma maneira também se beneficiam da análise das demonstrações financeiras os fornecedores ao negociar produtos ou serviços para pagamento a prazo os clientes espe cialmente quando precisam estabelecer uma relação de longo prazo e de confiança com a empresa as instituições governamentais ao conceder benefícios ou financiamentos e também em relação ao cálculo e pagamento de tributos os concorrentes preocupados em comparar o seu desempenho ao dos principais players do setor e por que não os próprios funcionários interessados em conhecer a saúde financeira da empresa ansiosos com a ma nutenção dos seus empregos 13 CAPÍTULO 1 E à medida que as empresas ganham corpo crescem e se tornam companhias surgem no vos interessados nos benefícios da análise das demonstrações financeiras Os investidores por exemplo sejam em ações ou títulos de dívidas certamente irão buscar informações por meio da análise das demonstrações financeiras que lhes apoiem na tomada de decisão de investimentos além do fato de essas companhias em boa parte passarem a ser acom panhadas por analistas de mercado gestores de fundos de investimentos e consultores de investimentos Figura 1 Demonstrações financeiras Fonte Adaptada de Martins Miranda e Diniz 2020 p 4 UNIDADE 2 CONTABILIDADE O PONTO DE PARTIDA A contabilidade apresentase como ponto de partida para a análise das demonstrações fi nanceiras uma vez que fornece um conjunto de informações estruturadas periódicas e padronizadas sobre a companhia não apenas quanto à sua situação patrimonial mas tam bém em relação ao seu desempenho econômico e geração de caixa De acordo com Martins Miranda e Diniz 2020 a Contabilidade deve ser compreendida como modelo de represen tação da situação econômicofinanceira de uma entidade 14 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Cabe ao analista estudar as informações contábeis divulgadas ou preparadas extrair os dados necessários para a construção dos índices de interesse e então tirar suas conclu sões Por isso conhecer a contabilidade e as principais demonstrações contábeis disponí veis ou que se possa construir é o ponto de partida do processo de análise Nesse sentido as principais demonstrações contábeis utilizadas no processo de análise são o balanço patrimonial a demonstração do resultado do exercício e a demonstração do fluxo de caixa TOME NOTA A Lei 640476 que dispõe sobre as sociedades por ações estabelece em seu Artigo 176 a respeito das demonstrações financeiras que devem ser elaboradas ao fim de cada exercício social São elas balanço patrimonial demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados demonstração do resultado do exercício demonstração dos fluxos de caixa e demonstração do valor adicionado se for companhia aberta O mesmo normativo estabelece que as demonstrações serão complementadas por notas explicativas e outros quadros analíticos ou demonstrações contábeis necessárias para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício Todas essas informações e demonstrações podem e devem ser utilizadas no processo de análise da situação econômicofinanceira da companhia Balanço Patrimonial BP O Balanço Patrimonial BP é a demonstração financeira que apresenta a situação financei ra e patrimonial da empresa em uma data específica Como é comum ouvir nas aulas de contabilidade o BP é uma espécie de fotografia que apresenta quando tirada a situação patrimonial da companhia naquele momento Tratase portanto de um conjunto de infor mações estáticas mas a partir do qual é possível extrair ricas informações sobre a situação econômicofinanceira da empresa 15 CAPÍTULO 1 Por essa razão alguns autores a consideram uma das principais demonstrações no proces so de análise De acordo com Martins Miranda e Diniz 2020 o balanço patrimonial é uma das demonstrações contábeis mais importantes aos processos de tomada de decisão por parte dos usuários das informações oriundas da contabilidade A estrutura do balanço patrimonial é composta por ativos que representam os bens e di reitos da empresa e passivos que podem ser obrigações dívidas ou patrimônio líquido capital próprio Ativos Os ativos podem ser vistos como o destino da aplicação de recursos da empresa ou as con tas que recebem os recursos da empresa com o objetivo de gerar ou apoiar a geração de benefícios futuros Quando a empresa concede prazo de pagamento aos seus clientes ao realizar uma venda por exemplo essa conta créditos a receber ou clientes ou contas a receber será caracterizada como um ativo um direito da empresa utilizado como apoio na geração de receita Da mesma maneira se uma empresa decide adquirir ou desenvolver um novo aplicativo de vendas e atendimento a clientes o montante despendido tornase um ati vo na medida em que se espera que tal aquisição possa vir a colaborar com o aumento das vendas ou com a melhoria da eficiência operacional da companhia nos próximos exercícios FIQUE ATENTO O CPC 00R2 define ativo como recurso econômico presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados em que recurso econômico é um direito que tem o potencial de produzir benefícios econômicos Por representarem bens e direitos os ativos são apresentados no Balanço Patrimonial em ordem decrescente de liquidez e são subdivididos em ativos circulantes e ativos não circu lantes O Quadro 1 ilustra a estrutura de apresentação das contas dos ativos 16 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Quadro 1 Estrutura de apresentação de contas dos ativos Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Ativo circulante No ativo circulante são contabilizados os bens e direitos realizáveis no curto prazo aqueles de maior liquidez da empresa em que são classificadas as disponibilidades ou equivalentes de caixa e todos os bens ou direitos que podem ser convertidos em dinheiro ou consumidos nas operações dentro do prazo de 12 meses COMENTÁRIO DO AUTOR Prazo de 12 meses Para as empresas que têm ciclos operacionais iguais ou inferiores a um ano MARTINS MIRANDA DINIZ 2020 Para Costa e Lund 2018 o grupo ativo circulante são contas que estão sempre em movi mento giro sendo que a conversão em dinheiro será no máximo no próximo exercício social Incluemse nesse grupo o disponível caixa e equivalentes as contas a receber os estoques e outros créditos ou direitos de curto prazo 17 CAPÍTULO 1 Ativo não circulante Os ativos não circulantes em contraposição representam aqueles de mais longo prazo e de menor liquidez e estão subdivididos em realizável a longo prazo como o próprio nome sugere representam os bens e direitos realizáveis no longo prazo em geral após 12 meses do encerramento do exercício Inclui empréstimos adiantamentos ou vendas realizados a diretores acionistas sociedades coligadas ou controladas etc ainda que realizáveis no curto prazo investimentos representam as aplicações financeiras de caráter mais permanente realizadas com o objetivo de investimento Em geral não são necessárias para as ativida des operacionais da empresa Incluem por exemplo terrenos para investimento imóvel para auferir renda obras de artes participações acionárias em outras entidades que não se destinam à venda dentre outros ativos similares imobilizado são os bens e direitos corpóreos de caráter mais permanente utilizados na atividade principal da empresa Os exemplos mais comuns incluem imóveis salas galpões prédios máquinas e equipamentos intangível assim como o imobilizado os ativos intangíveis são destinados à atividade principal da empresa mas representam bens e direitos não corpóreos como direitos autorais patentes e marcas ou ágio por expectativa de rentabilidade futura goodwill Passivo e patrimônio líquido Os passivos em contraponto são as obrigações da empresa Representam as fontes de financiamento dos ativos que podem ser onerosas ou não exigíveis ou não Ao comprar mercadorias a prazo por exemplo a dívida assumida fica registrada em uma conta do passi vo Fornecedores que se caracteriza como uma conta exigível mas não onerosa O mesmo ocorre para outras contas a pagar tributos a pagar Por outro lado se a companhia contrata empréstimos ou financiamentos ou capta recursos por intermédio da emissão de títulos as obrigações assumidas também irão ser registradas em contas do passivo classificadas como exigíveis e onerosas O patrimônio líquido da empresa por outro lado representa as fontes de captação de re cursos próprios da empresa capital social reservas de lucros etc Pode ser visto como re sultado da diferença entre o ativo total e o seu passivo exigível circulante e não circulante Observe na Tabela 1 um exemplo de balanço patrimonial com as contas do ativo da com panhia Magazine Luiza 18 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS MAGAZINE LUIZA BALANÇO PATRIMONIAL ATIVO milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Ativo Total R 879674100 R 1979107300 R 2464720300 Ativo Circulante R 641239000 R 1284116100 R 1679881000 Caixa e Equivalente de Caixa R 59908700 R 30574600 R 168137600 Aplicações Financeiras R 40911100 R 444815800 R 122177900 Contas a Receber R 205155700 R 291503400 R 476189900 Estoques R 281024800 R 380176300 R 592723600 Tributos a recuperar R 30369100 R 86414400 R 71611800 Outros Ativos Circulantes R 23869600 R 50631600 R 249040200 Ativo Não Circulante R 238435100 R 694991200 R 784839300 Realizável a Longo Prazo R 72281400 R 174870300 R 185099500 Investimentos R 30846200 R 30509100 R 38672500 Imobilizado R 75425300 R 335049000 R 372367600 Intangível R 59882200 R 154562800 R 188699700 Tabela 1 Balanço patrimonial com as contas do ativo da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online TOME NOTA O CPC 00 R2 dispõe que passivo é uma obrigação presente da entidade de transferir um recurso econômico como resultado de eventos passados e que patrimônio líquido é a participação residual nos ativos da entidade após a dedução de todos os seus passivos Por representarem obrigações os passivos são classificados por ordem decrescente de exi gibilidade Portanto primeiro são apresentadas as dívidas e obrigações que devem ser qui tadas antes O Quadro 2 demonstra a estrutura de apresentação das contas do passivo 19 CAPÍTULO 1 Quadro 2 Estrutura de apresentação das contas do passivo Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Passivo circulante Engloba todas as obrigações de curto prazo da empresa assim entendidas aquelas que precisam ser liquidadas dentro do prazo de 12 meses da data de elaboração do balanço ou dentro do prazo do ciclo operacional se superior a um ano Incluemse entre contas do passivo circulante as obrigações com fornecedores os tributos a pagar e outras obrigações além dos compromissos com empréstimos e financiamentos dentre outros Passivo não circulante No passivo circulante encontramse as obrigações de mais longo prazo da companhia cujo prazo de vencimento seja superior a 12 meses considerado a partir da data de elaboração do balanço Em geral incluem dívidas como empréstimos e financiamentos debêntures e outros títulos de dívida a pagar e também obrigações fiscais como IR e CS Diferidos dentre outras Patrimônio líquido O patrimônio líquido representa as fontes de captação de recursos próprios da companhia Em termos de identidade contábil pode ser visto como o valor residual a diferença dos ativos totais da empresa e os seus passivos circulante e não circulante É composto pelas 20 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS contas de capital social reservas de capital reservas de lucros ações ou cotas em tesoura ria dentre outras A Tabela 2 apresenta as contas do passivo e patrimônio líquido da companhia Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA BALANÇO PATRIMONIAL PASSIVO milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Passivo Total Passivo e PL R 879674100 R 1979107300 R 2464720300 Passivo Circulante R 538859800 R 800258700 R 1341614500 Obrigações sociais e trabalhistas R 25898300 R 35471700 R 35972100 Aplicações Financeiras R 40911100 R 444815800 R 122177900 Fornecedores R 410524400 R 593487700 R 850139800 Obrigações fiscais R 14097900 R 35200800 R 40130800 Empréstimos e financiamentos CP R 13074300 R 996700 R 166718100 Outras obrigações CP R 75264900 R 135101800 R 248653700 Passivo não circulante R 110527100 R 422354900 R 390577100 Empréstimos e financiamentos LP R 32522400 R 83886200 R 1958100 Outras obrigações R 171200 R 195172400 R 218014200 Tributos Diferidos LP R 000 R 3904300 R 2484300 Provisões LP R 38735500 R 103711900 R 137993500 Lucros e receitas a apropriar R 39098000 R 35680100 R 30127000 Patrimônio Líquido R 230287200 R 756493700 R 732528700 Capital social R 171988600 R 595228200 R 595228200 Reservas de Capital R 3484000 R 19873000 R 21303700 Reservas de Lucros R 61249500 R 141075700 R 157489100 Outros resultados abrangentes R 533100 R 316800 R 1115100 Tabela 2 Contas do passivo e patrimônio líquido da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online 21 CAPÍTULO 1 Demonstração do Resultado do Exercício DRE Outra demonstração contábil essencial para a análise da situação econômicofinanceira das empresas é a Demonstração do Resultado do Exercício DRE A DRE apresenta o desempe nho da companhia ao longo de determinado exercício social em geral 12 meses embora possa ser levantada em períodos mais curtos É nela que são evidenciados os resultados da companhia por meio da apuração do lucro bruto operacional ou líquido ou prejuízo do período A DRE apresenta de maneira estruturada as receitas os custos e as despesas incorridos pela empresa em determinado período e que possibilita aos usuários evidenciar para cada exercício as principais causas do resultado lucro ou prejuízos apurado Além disso infor mações presentes na DRE são utilizadas como insumo em conjunto com os dados de outras demonstrações no cálculo das principais métricas de análise como será visto nos capítulos seguintes O Quadro 3 contém a estrutura da DRE Demonstração do Resultado do Exercício Receita Líquida Custo dos Bens eou Serviços Vendidos Resultado Bruto Despesas Operacionais Despesas com Vendas Despesas Gerais e Administrativas Outras receitas ou despesas operacionais Resultado antes do Resultado Financeiro e Tributos LAJIR ou Resultado Financeiro Receitas Financeiras Despesas Financeiras Resultado antes dos Tributos sobre o Lucro LAIR Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro LucroPrejuízo do período LL Quadro 3 Estrutura da DRE Fonte Elaborado pelo autor Adaptado de formulários de demonstrações financeiras padronizadas DFP publicados pelas com panhias abertas brasileiras A Receita Líquida RL é calculada a partir da Receita bruta do exercício excluídos os aba timentos os descontos os cancelamentos as devoluções e os impostos sobre vendas Da RL são subtraídos os custos das mercadorias vendidas CMV ou dos produtos vendidos CPV ou ainda dos serviços prestados CSP chegandose ao Resultado ou Lucro Bruto A 22 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS partir daí a DRE detalha as Despesas Operacionais incorridas pela companhia no período que representam os gastos que dão suporte à atividade operacional principal da empresa e incluem despesas com vendas administrativas gerais e outras despesas ou receitas opera cionais Ao subtrair do Lucro Bruto essas despesas operacionais calculase o Resultado ou Lucro Operacional antes do Resultado Financeiro e Impostos o LAJIR também conhecido pela sigla EBIT do inglês Earns Before Interest and Taxes Em seguida é apresentado o Resultado Financeiro da companhia soma das receitas fi nanceiras como juros de aplicação financeiras e despesas financeiras do período as des pesas incorridas em decorrência do uso de capital de terceiros como os juros pagos nos empréstimos e financiamentos despesas na emissão de títulos dentre outros Deduzindo o resultado financeiro do LAJIR chegase ao Resultado ou Lucro Antes do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido o LAIR Após contabilizada a provisão dos impostos e contribuições sobre o lucro calculase finalmente o resultado lucroprejuízo líquido do período por vezes representado apenas como LL SAIBA MAIS O EBITDA muito utilizado na análise da situação econômicofinanceira das empresas significa Resultado antes de juros impostos depreciação e amortização A sigla advém do inglês Earns Before Interest Taxes Depreciation and Amortizacion EBITDA É muitas vezes utilizado como referência de medida da capacidade de geração de caixa operacional da companhia uma vez que depreciação e amortização não representam saídas de caixa para a empresa No entanto o analista deve estar atento ao fato de que o EBITDA não é sinônimo de fluxo de caixa operacional uma vez que ele é calculado antes da provisão de impostos sobre o lucro e tampouco representa uma medida do fluxo de caixa livre da empresa vez que para isso precisariam ser consideradas ainda as necessidades de reinvestimento na companhia Tratase de uma métrica não contábil não está presente na DRE mas que é facilmente calculada ao somar a depreciação e a amortização do período ao LAJIR ou Lucro antes do Resultado Financeiro e Imposto de Renda A Tabela 3 apresenta como exemplo o DRE da companhia Magazine Luiza 23 CAPÍTULO 1 MAGAZINE LUIZA DRE milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Receita de vendas R 1559044400 R 1988631000 R 2917711300 Custo Bens ou Serviços Vendidos R 1105302200 R 1433234900 R 2165715100 Resultado lucro Bruto R 453742200 R 555396100 R 751996200 DespesasReceitas operacionais R 345587100 R 426539800 R 669538600 LAIR EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Resultado financeiro R 29468800 R 7041300 R 41049500 LAIR R 78686300 R 121815000 R 41408100 IR e CSSL R 18943400 R 29632200 R 2237200 Lucro Líquido R 59742900 R 92182800 R 39170900 Tabela 3 DRE da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online Demonstração dos Fluxos de Caixa DFC A Demonstração dos Fluxos de Caixa DFC fornece ao analista informações relevantes rela cionadas aos fluxos de recebimentos e pagamentos realizados em determinado exercício relacionados às atividades operacionais de investimento e de financiamento demonstran do o impacto desses fluxos no caixa da empresa Como na DRE as operações são contabilizadas pelo regime de competência em que as re ceitas e as despesas são registradas no período em que são realizadas independentemente de terem sido recebidas ou pagas a DFC apresentase como instrumento complementar essencial na análise da situação econômicofinanceira da companhia De acordo com Assaf Neto 2021 p 98 A DFC permite que se analise principalmente a capacidade financeira da empresa em honrar seus compromissos perante terceiros empréstimos e financiamentos e acionistas dividendos a geração de resultados de caixa futuros e das operações atuais e a posição de liquidez e solvência financeira O Quadro 4 apresenta uma estrutura resumida da DFC método indireto 24 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Demonstração dos fluxos de caixa método indireto FLUXOS OPERACIONAIS Resultado Líquido LL Depreciação AumentoRedução de Duplicatas a Receber AumentoRedução em Estoques AumentoRedução em Fornecedores Redução em Salários a pagar Outros Caixa Líquido das Atividades FLUXOS DE INVESTIMENTOS Pagamento na Compra de Imobilizado Recebimento pela Venda de Imobilizado Outros Caixa Líquido de Investimentos FLUXOS DE FINANCIAMENTO Integralização de Aumento de Capital Amortização de Empréstimos e Financiamentos Recebimentopagamento de Dividendos Novas Captações de Empréstimos e Financiamentos Outros Caixa Líquido de Financiamentos AUMENTOREDUÇÃO DE CAIXA SALDO INICIAL DE CAIXA SALDO FINAL DE CAIXA Quadro 4 Estrutura resumida da DFC método indireto Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 p 100 O fluxo de caixa das atividades operacionais evidencia a geração de caixa das operações a partir do lucro prejuízo do período ajustando as contas da DRE que não representam entrada ou saída de recursos por exemplo a amortização a depreciação e as variações nos ativos e passivos como as contas a receber os estoques os fornecedores os salários a pagar dentre outros O fluxo de caixa das atividades de investimentos demonstra as variações nos ativos de longo prazo da companhia e envolve por exemplo aquisição e venda de imobilizado aquisição de ativos intangíveis investimentos em controladas dentre outros O fluxo de caixa das atividades de financiamento está relacionado diretamente às fontes de financiamento da empresa ou seja aos fluxos com credores e acionistas Inseremse aqui 25 CAPÍTULO 1 como exemplo o pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio as amortizações de dívidas empréstimos financiamentos e títulos emitidos além de novas captações de dívidas ou capital próprio emissão de ações Observe na Tabela 4 a Demonstração do fluxo de caixa método indireto da companhia Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA FLUXO DE CAIXA milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Caixa líquido Atividades Operacionais R 123616400 R 332955500 R 260388200 Caixa gerado nas operações R 109068800 R 266230400 R 158012700 Lucro líquido prejuízo R 59742900 R 92182800 R 39170900 Depreciação e Amortização R 16369000 R 48697500 R 70252300 Juros de emprést e Financ Prov R 4971400 R 20373600 R 22848800 Ganho perda venda ativo imob R 8800 R 498600 R 189700 Equivalência Patrimonial R 5775700 R 2660700 R 11992900 Outros ganhos perdas não caixa R 33752400 R 108135800 R 37543900 Variação nos ativos e passivos R 21470100 R 596096800 R 111471700 Contas a receber R 92558000 R 88548800 R 193679700 Estoques R 88299800 R 102664700 R 206550000 Outros ativos R 69148500 R 577151300 R 153417500 Fornecedores R 118510700 R 140992000 R 256364800 Impostos e obrigações trabalhistas R 4236600 R 18311500 R 7810000 Outros passivos R 10432100 R 12964500 R 109729100 Outros Fluxos Caixa Operacional R 6922500 R 3089100 R 9096200 Caixa líquido Atividades Investimento R 39411200 R 92858600 R 65144500 Aquisição imobilizado R 28507200 R 39942900 R 37199100 Aquisição ativo intangível R 7933400 R 12208500 R 17185000 Investimentos R 2970600 R 40707200 R 10760400 26 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Caixa líquido Atividades Financiamento R 65567200 R 396480000 R 57680700 Captação de Empréstimos e Financiamentos R 000 R 79894400 R 80112600 Amortização de Empréstimos e Financiamentos R 41259000 R 60700200 R 2263700 Pagamento de Juros R 5315700 R 5232000 R 79700 Pagamento de dividendos R 11427300 R 18200000 R 29940500 Ações em Tesouraria Adquiridas R 7565200 R 14144500 R 56735200 Emissão de ações R 000 R 430000000 R 000 Gastos com emissão de ações R 000 R 6760500 R 000 Pgto de arrendamento mercantil R 000 R 21430900 R 29016000 Pgto de juros sobre arrenda mento mercantil R 000 R 15235300 R 19758200 Variação Líquida de caixa R 18638000 R 29334100 R 137563000 Tabela 4 Demonstração do fluxo de caixa método indireto da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online De posse das demonstrações financeiras o analista terá à disposição o conjunto de infor mações necessárias para dar início ao trabalho Destacandose que apesar de as demons trações serem divulgadas separadamente muitas vezes é a análise conjunta que fará mais sentido e que poderá representar de maneira mais completa e abrangente as informações econômicofinanceiras da empresa No caso das sociedades por ações em especial as companhias abertas como já menciona do anteriormente os analistas e o mercado ainda têm acesso a uma série de relatórios e in formações complementares como as notas explicativas e o relatório da administração que auxiliam o processo Antes de seguir porém é importante tomar alguns cuidados tópico que será abordado na próxima unidade 27 CAPÍTULO 1 UNIDADE 3 CUIDADOS PARA A ANÁLISE As demonstrações financeiras como apresentadas na unidade anterior são o insumo bási co da análise da situação econômicofinanceira das empresas Por essa razão é fundamen tal que as informações nelas registradas e divulgadas representem da forma mais acurada possível a realidade econômicofinanceira da companhia para que o produto da análise seja confiável Em uma analogia dificilmente um chef conseguiria manter o padrão de qualidade de seus pratos se utilizasse como matériaprima alimentos estragados ou de má qualidade Da mes ma forma ainda que o analista conheça todo o arsenal teórico e prático acerca da análise das demonstrações financeiras se as informações utilizadas não forem confiáveis e asserti vas o suficiente as conclusões poderão ser afetadas A Figura 2 ilustra os possíveis caminhos da confiabilidade da análise Figura 2 Possíveis caminhos da confiabilidade da análise Sabese que apesar dos esforços e da evolução das técnicas contábeis na busca por repre sentar adequadamente a realidade da empresa a contabilidade ainda é apenas um modelo que simplifica essa realidade A contabilidade de uma forma bem prática pode ser enten dida como um modelo e como tal busca representar simplificadamente a realidade eco nômica e financeira das entidades MARTINS MIRANDA DINIZ 2020 p 10 Mas isso não 28 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS exclui a responsabilidade do analista de antes mesmo de iniciar a análise criticar e tomar alguns cuidados em relação às demonstrações e às informações nelas representadas Qualidade das informações O primeiro cuidado que o analista deve ter é com relação à qualidade das informações disponíveis para a análise A esse respeito o analista enfrentará questões como as infor mações são verdadeiras Elas estão completas Representam com exatidão as operações Foram lançadas com rigor e precisão consideradas as regras contábeis Figura 3 Qualidade das informações A esse respeito apesar das especificidades presentes em cada setor os analistas podem apoiarse nas diretrizes e princípios gerais que norteiam a contabilidade das empresas Há uma estrutura conceitual que direciona de maneira abrangente o processo de reconhe cimento e mensuração das informações contábeis divulgadas além de nortear a estrutura das diferentes demonstrações financeiras apresentadas Não é à toa que os analistas preci sam ser bons conhecedores da contabilidade 29 CAPÍTULO 1 SAIBA MAIS Para saber mais sobre a estrutura conceitual mencionada acesse o documento disponível no seguinte link httpwwwcpcorgbrCPC DocumentosEmitidosPronunciamentos No caso das companhias abertas esse filtro de qualidade é sobremaneira facilitado uma vez que para elas é exigido que as demonstrações sejam submetidas à auditoria por um auditor independente SAIBA MAIS Para saber mais sobre a exigência de auditor independente conforme disposto no Parágrafo 3º Artigo 177 da Lei 640476 acesse o link a seguir httpwwwplanaltogovbrccivil03leisl6404compiladahtm Conforme indica Assaf Neto 2021 p 48 o Parecer dos Auditores reflete se as demonstrações financeiras representam adequadamente a situação econômicofinanceira da empresa se há uniformidade com relação aos relatórios apurados em exercícios anteriores e se foram seguidos os princípios contábeis Essa situação certamente confere mais tranquilidade à continuidade do trabalho do analista 30 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS SAIBA MAIS Em 2005 foi criado no Brasil pela Resolução CFC nº 10552005 o Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC considerando as necessidades da contabilidade brasileira de convergência internacional de centralização na emissão de normas e da representação e processos democráticos na produção das informações Esse processo de convergência com as normas internacionais teve início em 2008 após a edição da Lei 1163807 e em 2009 com a Lei 119412009 passando a estabelecer novos padrões na elaboração e divulgação das demonstrações financeiras Com isso as práticas contábeis no Brasil passaram a manter plena convergência com as Normas Internacionais de Contabilidade IFRS International Financial Reporting Standards emitidas pelo IASB International Accounting Standards Board As normas são publicadas pelo CPC essencialmente por meio de pronunciamentos técnicos mas também pode editar interpretações orientações e comunicados Para conhecer o CPC acesse httpwwwcpcorgbrCPCCPCConhecaCPC Na ponta contrária há casos em que as demonstrações financeiras da empresa sequer es tão disponíveis ou se apresentam muito desorganizadas quando se deseja analisálas Nes ses casos há uma etapa anterior ao processo de análise que precisará ser vencida para que o resultado do trabalho fique satisfatório Portanto todo analista precisa também ser um bom conhecedor da contabilidade e da es trutura conceitual básica que norteia a contabilidade para que possa criticar adequada mente as informações que lhe forem apresentadas antes de dar prosseguimento à análise propriamente dita Reclassificação de contas Ainda que as demonstrações financeiras sejam consideradas confiáveis e de qualidade em alguns casos há certos cuidados que o analista deverá ter em relação à classificação que foi dada aos lançamentos São adaptações que podem vir a ser necessárias e que podem melhorar o resultado da análise 31 CAPÍTULO 1 Marion 2019 nos apresenta exemplos interessantes De acordo com o autor Se uma em presa por exemplo dispõe vender um imóvel que até o momento estava classificado no Imobilizado Permanente Ativo Não Circulante classificando essa conta no Ativo Circulante o analista terá que reclassificálo MARION 2019 p 23 Isso porque ainda que classificado corretamente do ponto de vista contábil o valor do imóvel no ativo circulante impactaria de forma positiva a situação financeira de curto prazo da companhia Mas se sabe que a liqui dez dos imóveis não é alta Outro exemplo apresentado por Marion 2019 diz respeito às receitas ou despesas finan ceiras que quando contabilizadas como operacionais precisariam ser reclassificadas como não operacionais para que por exemplo os índices de rentabilidade operacional da com panhia não sejam afetados Há ainda situações específicas como despesas do exercício seguinte duplicatas descon tadas e leasing para citar alguns exemplos que devem sempre ser averiguadas antes da análise 32 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS NA PRÁTICA Como o lançamento de duplicatas descontadas pode afetar os índices de liquidez da empresa A empresa A possui um Ativo Circulante AC total de R 10M sendo R 2M em duplicatas a receber e R 8M em caixa Na mesma data o Passivo Circulante PC total da empresa A contabiliza R 5M Qual a relação entre AC e PC da empresa A Resposta Para encontrar a relação entre o AC e o PC basta dividir um pelo outro Nesse caso o indicador será igual a 2 Isso significa na prática que a empresa possui R 200 em ativos de curto prazo para cada R 100 de obrigações de curto prazo Como veremos em outro capítulo esse índice é conhecido como Índice de Liquidez Geral da empresa Mas de que forma a contabilização de duplicatas descontadas poderia alterar tal índice Vejamos caso a empresa A decida descontar em uma instituição financeira suas duplicatas a receber como fica a relação entre o AC e PC se a a contabilização ocorrer como uma conta redutora do ativo Observação Essa forma de contabilização era utilizada Depois da edição do CPC 48 no entanto o entendimento passou a ser que as duplicatas descontadas sejam contabilizadas no passivo circulante como empréstimos passando a representar a essência econômica da operação No entanto ainda pode haver situações em que o analista deparese com a contabilização anterior razão pela qual precisa avaliar a relevância dos números e se necessário providenciar a sua reclassificação Resposta Nesse caso as duplicatas descontadas são contabilizadas creditadas como redutoras da conta duplicatas a receber no ativo circulante e a conta banco caixa e disponibilidades da empresa é debitada Veja que não há alteração portanto nos valores do AC e do PC de modo que a relação entre eles não se altera 33 CAPÍTULO 1 EMPRESA A Antes Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M EMPRESA A Depois Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 10M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M Duplicatas a Receber R 2M b a contabilização ocorrer como uma conta do passivo circulante Resposta Nesse caso as duplicatas descontadas são creditadas no passivo circulante e a conta bancos caixa e disponibilidades é debitada Aqui a situação muda A contabilização de fato representa a essência econômica da operação que nada mais é do que um emprés timo embora com as duplicatas utilizadas como garantia Supõese aqui que a companhia mantém os riscos da operação ou seja mantém a responsabilidade de pagar ao banco caso o cliente não honre seu compromisso o que é relativamente comum nesse tipo de situação Veja nas tabelas a seguir o antes e depois da operação no balanço da empresa A 34 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS EMPRESA A Antes Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M EMPRESA A Depois Ativo Circulante R 12M Passivo Circulante R 7M Caixa e disponibilidades R 10M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M Com isso a relação AC e PC cai para 171 alterando portanto o Índice de Liquidez Geral da empresa Portanto caso o analista deparese com uma situação como a da letra a o mais adequado seria reclassificar a conta duplicatas descontadas conforme letra b Cabe destacar no entanto que em alguns casos os valores envolvidos podem não ser tão relevantes ou seja não necessariamente significativos a ponto de distorcerem a análise Em outros casos a regulamentação já pode prever critérios de classificação adequados o que eliminaria a necessidade da reclassificação Cabe ao analista criticar e decidir a melhor maneira de seguir 35 CAPÍTULO 1 UNIDADE 4 METODOLOGIA DE ANÁLISE Principais técnicas de análise Como mencionado as demonstrações financeiras são o insumo essencial para a análise da situação econômicofinanceira das empresas No entanto elas de forma isolada não são suficientes para se chegar às conclusões desejadas Como indicam Martins Miranda e Diniz 2020 p 69 as demonstrações finan ceiras tradicionais Balanço Patrimonial e DRE preparadas e divulgadas por uma empresa não têm isoladamente uma grande potencialidade para identificar suas forças e fraquezas Fonte Anawat Sudchanham 123RF Olhar para a DRE ou para o BP na forma bruta não permite na maior parte dos casos che gar a conclusões sobre o desempenho econômico da empresa avaliar sua rentabilidade e lucratividade entender o seu endividamento e liquidez e menos ainda fazer comparações É preciso ir além O primeiro passo é entender e criticar adequadamente a contabilidade da empresa e conhecer de forma satisfatória o setor o negócio e o ambiente em que a companhia está inserida A partir daí o analista poderá fazer uso de um conjunto completo de índices métricas e indicadores Nos próximos capítulos cada um desses indicadores e índices será estudado de forma detalhada Neste tópico porém serão abordadas algumas técnicas que podem ser utilizadas no pro cesso Análise horizontal Ao analisar o DRE 2020 de uma companhia a Cia A e observar por exemplo que o Custo das Mercadorias Vendidas CMV foi de R 1 Milhão a que conclusões o analista pode che gar Esse valor é alto Baixo O que representa em termos da situação econômicofinanceira da empresa Analisando apenas o valor bruto da conta não há como responder a essas questões 36 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Por outro lado caso ele realize uma análise temporal observando o CMV não apenas do ano corrente mas também de anos anteriores poderá avaliar a evolução temporal dessa conta O mesmo tipo de análise pode ser feita para as demais contas de resultado ou patrimoniais Esse processo é conhecido como Análise horizontal pois analisa a mesma conta em diferen tes exercícios horizontal da mesma demonstração Há diferentes maneiras de realizar essa análise Uma delas é estabelecer uma data base um ano a partir do qual os demais serão comparados e utilizar números índices em que o ano base recebe o valor 100 e os demais são calculados por meio de regras de três a partir dele Em geral utilizase uma base fixa a partir da data mais antiga da comparação mas isso não é uma regra Observe que nesse caso o número obtido para 2020 por exemplo represen taria o crescimento em relação ao ano base que não necessariamente seria o ano anterior De forma mais objetiva o analista poderia calcular diretamente a taxa de crescimento de um período para o outro a partir do base estabelecendo taxas de crescimento anuais Em qualquer caso a análise horizontal permite avaliar o crescimento em vendas custos despe sas lucros ou acréscimos ou reduções em contas do BP Embora tenha a sua utilidade e possa servir de apoio para análises mais avançadas a análi se horizontal isolada pode não responder a todas as questões e em alguns casos pode até distorcer alguns fatos Suponha por exemplo que no ano de 2019 o CMV da Cia A tenha sido de R 11M Em uma análise horizontal isolada poderia se chegar à conclusão de que a empresa conseguiu reduzir em 91 o seu CMV como se isso fosse bom Mas e se as receitas da empresa em 2019 e 2020 respectivamente tiverem sido R 14M e R 12M Análise vertical Outro caminho que o analista poderia seguir ao se deparar com o CMV da Cia A em 2020 seria relacionar esse valor com outra conta também do DRE porém do mesmo exercício Essa técnica conhecida como Análise vertical permite conhecer a participação relativa de cada conta de resultado ou patrimonial Ela recebe esse nome pois percorre diferentes con tas do mesmo exercício vertical No caso da Cia A o analista poderia por exemplo calcular a porcentagem que o CMV repre senta das vendas Sabendo que a receita da empresa em 2020 foi de R 12M essa relação é de 8333 Embora esse número possa indicar que no ano de 2020 o CMV representou 8333 das vendas ele de forma isolada assim como ocorre na análise horizontal continua não sendo suficiente para responder às principais questões que o analista deseja esclarecer Afinal o que representa em termos da situação econômicofinanceira da empresa 37 CAPÍTULO 1 Talvez por isso Assaf Neto 2021 tenha indicado que as aplicações práticas dessas duas téc nicas têm sofrido desgastes apesar da grande importância de ambas Análise vertical e horizontal conjugadas Não é difícil observar que o analista poderia realizar uma análise vertical da Cia A avaliando a representatividade de uma conta em relação a outra do mesmo exercício como a relação CVMReceitas e ao mesmo tempo uma análise horizontal verificando a evolução dessa relação ao longo dos anos Voltando ao exemplo como se pode observar na Tabela 5 o analista perceberia então que a relação entre o CMV e as vendas no ano de 2020 foi mais alta que em 2019 o que se pode notar também pelo lucro bruto que em 2020 foi menor que em 2019 Por isso foi mencio nado anteriormente que a análise horizontal isolada pode distorcer alguns fatos Cia A Análise vertical e horizontal 2019 2020 Receitas R 140000 10000 R 120000 10000 CMV R 110000 7857 R 100000 8333 Lucro Bruto R 30000 2143 R 20000 1667 Tabela 5 Cia A Análise vertical e horizontal Assim a análise vertical e horizontal realizadas de forma conjunta podem reduzir as limita ções das duas técnicas quando isoladas e tornar o processo mais significativo e esclarece dor Índices Na análise horizontal o valor de determinada conta é relacionado com o valor da mesma conta em outro período Na vertical o valor de uma conta é relacionado com o valor de outra conta do mesmo período Observe que nos dois casos essa relação é estabelecida na forma de índices O cálculo de índices é portanto peça central no processo de análise Mas em muitos casos a relação ou o cálculo de índices não se dará apenas dentro de um mesmo demonstrativo financeiro Ao contrário para que se possa analisar de maneira mais completa a situação econômicofinanceira de uma empresa sua liquidez rentabilidade sol vência etc outros índices precisarão ser calculados e em muitos casos relacionando con tas de diferentes demonstrações financeiras Em outros algumas métricas precisarão ser calculadas com base nessas contas e índices 38 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Martins Miranda e Diniz 2020 comentam sobre a importância dos índices para ajudar a en tender a saúde financeira e a tendência de um negócio e destacam que eles também ajudam a compreender de forma mais simples algumas relações nas demonstrações contábeis Nos próximos capítulos avançaremos nesses tópicos de forma detalhada Comparação Como já é possível observar a comparação é uma técnica chave no processo de análise da situação econômicofinanceira de uma empresa Como saber por exemplo se a margem operacional de 10 é alta ou baixa se a rentabilidade sobre o patrimônio líquido ROE de 15 é boa ou ruim ou se o índice de liquidez igual a 1 está adequado para a companhia ou pode representar um risco Na maior parte dos casos esses índices precisam ser comparados Há diferentes maneiras de se fazer essa comparação e a mais adequada vai depender dos objetivos da análise e daquilo que se pretende concluir A comparação pode ocorrer por exemplo com dados históricos da própria empresa Assim ao avaliar que o ROE de um período a outro evoluiu de 14 para 15 o analista já poderia tecer algumas conclusões Mas e se a própria empresa tivesse estabelecido uma meta de 16 Nesse caso o resultado poderia ter sido considerado insatisfatório Algumas vezes a comparação pode ter que ser realizada com metas da própria entidade De forma similar o analista poderia comparar o ROE da empresa com o médio do setor de atuação da companhia ou com o de seu principal concorrente olhando um pouco mais para fora da empresa Pode ainda comparar o ROE o custo de capital próprio da empresa que de certa forma representa a taxa de retorno exigida pelos acionistas para avaliar se a companhia tem conseguido rentabilizar adequadamente os provedores de capital próprio Portanto não basta calcular os índices também é preciso saber interpretálos e embora cada um já traga o seu próprio significado a comparação é uma técnica que ajuda o analista em suas conclusões Etapas do processo de análise Sabese que o processo de análise da situação econômicofinanceira das empresas não é uma ciência exata Ao longo do processo há diversas etapas que dependem da percepção e sensibilidade do analista da experiência do conhecimento a respeito do negócio e do am biente de atuação da empresa 39 CAPÍTULO 1 Isso não impede porém de se propor um esquema sintético das principais etapas do pro cesso de análise como forma de apoiar o analista em seu racional mais técnico A Figura 4 apresenta um esquema sugerido para isso Figura 4 Esquema sintético das principais etapas do processo de análise 40 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Definição dos objetivos da análise a definição do objetivo da análise precisa estar bemdefinida pois é o que direcionará as etapas seguintes Em alguns casos a inten ção do analista será realizar a análise da situação econômicofinanceira da compa nhia de maneira completa mas em situações específicas pode ser que ele precise compreender apenas o nível de endividamento o risco de inadimplência ou analisar a rentabilidade do negócio Levantamento das demonstrações contábeis a definição dos objetivos da análise é que direcionará as demonstrações financeiras necessárias para o processo Cabe ao analista levantar as demonstrações de interesse e complementar as informações quando necessário como em relatórios ou notas explicativas Análise de qualidade e reclassificação de posse das demonstrações e informa ções financeiras o analista deve averiguar a qualidade dos dados A análise do pa recer de auditória quando existir é um caminho que confere segurança ao analista nessa etapa Além disso deve proceder à crítica em relação à necessidade ou não de reclassificação de algumas contas para que as informações representem da melhor maneira possível a essência econômica do negócio Escolha e cálculo dos índices para cada objetivo há um conjunto de índices e métricas mais adequados Esse é o momento de o analista conhecer os índices van tagens e desvantagens de cada um para optar de forma mais precisa pelos que me lhor atendam aos objetivos propostos e que possam fundamentar as suas conclusões e decisões de maneira mais precisa Análise e comparação de posse dos índices e das métricas o analista precisará interpretálos Claro que seu próprio conhecimento e experiência já poderão indicar as primeiras conclusões mas como visto no tópico das principais métricas de análise a comparação seja com o histórico ou as metas da própria empresa seja com o mer cado de atuação da empresa ou ainda com expectativas dos principais interessados na companhia tornase fundamental para apoiar a próxima etapa a de conclusões Conclusões e decisão esse é o momento de o analista concluir a análise É nessa etapa que ele irá apresentar a sua opinião final a respeito da situação econômicofi nanceira da empresa tecendo comentários sobre sua liquidez rentabilidade e solvên cia Cabe destacar que essa etapa pode ser apresentada tanto em termos presentes como também de forma prospectiva ou seja de tendências Neste capítulo introduzimos os principais conceitos que orientam o analista nas três primei ras etapas desse processo Os próximos capítulos serão dedicados a apresentar os aspectos técnicos mais relevantes da análise das demonstrações financeiras fundamentais para as etapas finais 41 CAPÍTULO 1 RESUMO Neste capítulo abordamos a importância de estabelecer e conhecer os objetivos e usuários da análise das demonstrações financeiras fundamentais para que o processo utilize as fer ramentas adequadas e para que os resultados apresentados estejam alinhados às expecta tivas dos diferentes interessados A contabilidade foi apresentada como ponto de partida do processo de análise de maneira que conhecer as principais demonstrações financeiras seus principais conceitos contas e estrutura conceitual tornase essencial ao analista Foi destacada ainda a importância de se criticar a qualidade das informações financeiras especialmente com o objetivo de averiguar se representam adequadamente a essência eco nômica do negócio em análise e quando necessário providenciar as reclassificações neces sárias para que a interpretação esteja mais adequada Por fim foram introduzidas as principais técnicas de análise que irão perpassar o cálculo e a interpretação dos índices e métricas que serão estudados nos próximos capítulos Foi sugerida ainda uma proposta de metodologia de etapas do processo apresentando aos analistas o racional básico que pode ser seguido ainda que o processo de análise envolva aspectos subjetivos relevantes 42 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINAN CEIRA E ENDIVIDAMENTO Capítulo 2 43 CAPÍTULO 2 INTRODUÇÃO O estudo da situação financeira e do endividamento é uma etapa relevante da análise das demonstrações financeiras para compreensão da situação econômico financeira das empresas Neste capítulo serão apresentados os principais índices e métricas utilizados nessa etapa A análise da situação financeira busca compreender a liquidez da empresa e a solvência de curto prazo Para isso são apresentados os índices de liquidez características e limitações e os índices de atividade que fornecem informações sobre os ciclos operacional e financeiro da empresa e ajudam a complementar o estudo da liquidez Além disso será apresentado um modelo dinâmico da NCG e sua forma de financiamento Na análise do endividamento e risco de inadimplência a atenção recai sobre a solvência de longo prazo da companhia sua capacidade em realizar os pagamentos de juros e de quitar as amortizações das dívidas Nesse sentido serão estudados os principais índices de endividamento ou estrutura o índice de cobertura de juros e a relação entre a dívida líquida e EBITDA Por fim aprendidas as principais técnicas será apresentado um caso prático de análise da situação financeira e endividamento tendo como base as demonstrações financeiras divulgadas pelo Magazine Luiza 44 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender os principais índices de liquidez e suas limitações a análise dos ciclos e prazos médios das atividades operacionais das empresas a visão dinâmica da necessidade de capital de giro suas formas de financiamento e os impactos na solvência de curto prazo das empresas os índices de endividamento e a sua interpretação os índices de cobertura de juros e sua utilização na análise de risco de inadimplência a aplicação prática da análise da situação econômicofinanceira de uma empresa Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos apresentados este capítulo está dividido em Unidade 1 Análise de liquidez e atividade Unidade 2 Análise da necessidade de capital de giro Unidade 3 Análise de endividamento e risco de inadimplência Unidade 4 Análise da situação financeira e endividamento na prática 45 CAPÍTULO 2 UNIDADE 1 ANÁLISE DE LIQUIDEZ E ATIVIDADE A análise da situação financeira dedicase essencialmente ao estudo da capacidade da em presa de honrar seus compromissos De forma mais prática o que se procura entender é a capacidade de a empresa pagar suas obrigações e dívidas Nesta unidade serão abordados os índices de liquidez da empresa e os ciclos da atividade Liquidez corrente A liquidez corrente da empresa apresenta a relação entre os seus ativos e passivos circulan tes Tratase portanto de análise de curto prazo que indica a proporção de ativos circulan tes disponíveis por unidade monetária a pagar no curto prazo passivo circulante Ativocirculante Liquidezcorrente ILC Passivocirculante Se o Índice de Liquidez Corrente ILC for maior que 1 significa que a empresa tem mais bens e direitos ativos do que obrigações passivos de curto prazo o que pode lhe dar mais tranquilidade para honrar compromissos de curto prazo O contrário por outro lado ILC menor que 1 mostra que a empresa tem mais obrigações do que bens e direitos de curto prazo o que pode indicar dificuldades no pagamento de suas contas Essa análise porém precisa explorar mais a fundo as características de cada conta compo nente do ativo circulante uma vez que elas podem apresentar liquidez diferente A conta estoques por exemplo pode demorar 10 20 30 ou mais dias para se transformar em caixa o que evidentemente influencia a capacidade de pagamento Nesse sentido outros índices são também calculados em complemento Liquidez seca O Índice de Liquidez Seca ILS considera a capacidade de pagamento da empresa descon tados os estoques Ativocirculante Estoques Liquidez seca ILS Passivocirculante 46 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Com isso o analista tem em mãos um índice que representa a capacidade de a empresa honrar suas obrigações de mais curto prazo considerando apenas os ativos tidos como mais líquidos No mesmo sentido quanto maior esse índice melhor a capacidade de pagamento da em presa Liquidez imediata Considerando que outros ativos circulantes podem também não ter boa liquidez como as contas a receber de clientes outro índice utilizado para avaliar a capacidade de pagamento é o Índice de Liquidez Imediata ILI Esse índice considera a relação entre as disponibilidades da empresa e o seu passivo circulante Representa portanto a capacidade de a empresa honrar seus compromissos utilizando para isso apenas o caixa ou equivalentes de caixa como aplicações financeiras de curto prazo Disponibilidades Liquidezimediata ILI Passivocirculante Liquidez geral Em caminho oposto porém complementar o Índice de Liquidez Geral ILG apresenta a me dida de capacidade de pagamento de longo prazo da empresa Tal índice calcula a relação entre a soma do ativo circulante e o realizável a longo prazo com a soma do passivo circu lante e o passivo não circulante AC RALP Liquidez geral ILG PC PNC Os índices de liquidez como se pode observar apresentam uma situação estática represen tada no BP no final do período em análise A análise da situação financeira da empresa no entanto especialmente de curto prazo pode ser fortemente impactada pelas suas opera ções Empresas capazes de transformar estoque em vendas e vendas em caixa de maneira mais rápida ou que consigam mais prazo para pagar os fornecedores podem ter uma situa ção financeira mais tranquila Observe na Tabela 1 os valores do ativo e passivo circulantes das empresas A e B 47 CAPÍTULO 2 EMPRESA A Ativo circulante R 14M Passivo circulante R 14M Caixa e disponibilidades R 4M Fornecedores salários impostos etc R 14M Estoques R 6M Duplicatas a Receber R 4M EMPRESA B Ativo circulante R 14M Passivo circulante R 14M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 14M Estoques R 4M Duplicatas a Receber R 2M Tabela 1 Valores do ativo e passivo circulantes das empresas A e B Observe que o ILC das empresas A e B é igual a 1 Nesse sentido poderia inferirse que a situação financeira de ambas é similar Indo além poderia até indicar que a situação da empresa B é mais confortável que a da A visto que tem mais disponibilidades ou seja ILI superior Mas e se o prazo de recebimento das du plicatas a receber e de transformação de estoques em vendas da empresa A fosse por exemplo 4 vezes menor que a da B E se a empresa A tiver prazo de pagamento de suas contas a pagar em média de 30 dias enquanto a da B for 15 Será que essas informações alterariam a análise É necessário avaliar Fonte Thanee Hengpattanapong 123RF Por essa razão tornase essencial conhecer adequadamente as operações das empresas Esse estudo é feito pela análise do ciclo operacional e ciclo financeiro por vezes conhecida como análise da atividade 48 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Ciclo operacional As empresas de forma geral adquirem mercadorias para revenda ou insumos para a pres tação de serviços ou produção Esses materiais não são utilizados exatamente no mesmo momento em que são recebidos Em uma empresa comercial por exemplo o estoque de mora alguns dias para ser vendido De forma similar nem todas as vendas realizadas pela empresa são à vista Do momento da venda até o efetivo recebimento em média transcor rem mais alguns dias O Ciclo Operacional CO é definido como o prazo médio que uma empresa demora em suas operações para transformar efetivamente as compras recebidas insumos ou merca dorias para revenda em caixa Esse período é composto pelo prazo médio de estoques e pelo prazo médio de recebimento das vendas CO PME PMR Prazo Médio de Estoques PME O Prazo Médio de Estoques PME representa em dias o tempo médio que a empresa de mora para vender seu estoque É calculado em função do custo das vendas DRE e dos estoques BP da seguinte maneira 360 x Estoques PME Custodasvendas Observe na fórmula que a relação entre estoques e custo das vendas representa uma me dida em anos da representatividade dos estoques em relação ao custo das vendas Por exemplo se o custo das vendas em um ano foi de R 1M e a conta estoque está em R 100 mil então ela representa 010 ano de custo das vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase então por 360 utilizase 360 quando se está analisando a DRE de 12 meses em outros casos podese calcular de forma proporcional No exemplo o PME será de 36 dias 49 CAPÍTULO 2 Prazo Médio de Recebimento PMR O Prazo Médio de Recebimento PMR das vendas representa em dias o tempo médio que a empresa demora para receber de seus clientes É calculado em função das vendas DRE e das contas a receber BP da seguinte maneira REFLITA A análise e o cálculo dos prazos médios precisa ser vista de forma abrangente Compreender seu significado é essencial para calcular e interpretar corretamente Como o PME poderia ser entendido dentro de uma empresa industrial por exemplo Nesse caso o PME deveria compreender o prazo médio de estocagem dos insumos mais o prazo médio de fabricação mais o prazo médio de vendas Veja que assim como em uma empresa comercial representa o período de tempo que decorre do recebimento das compras até a sua efetiva venda 360 xClientes PMR Vendas Como no PME a relação entre clientes e vendas representa uma medida em anos da repre sentatividade das contas a receber em relação às vendas Por exemplo se as vendas no ano foram de R 12M e a conta clientes está em R 240 mil então ela representa 020 ano de vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase por 360 No exemplo o PMR será de 72 dias fazendo com que o CO da empresa seja igual a 108 36 72 dias Prazo médio de pagamento A concessão de prazo nas compras de mercadorias é uma prática comercial comum presen te nas relações entre empresas e fornecedores e impacta a análise da situação financeira De forma similar ao PMR as compras realizadas pelas empresas em geral não são pagas todas à vista Do momento em que as mercadorias ou insumos são recebidos até o momento de seu pa gamento decorre um prazo conhecido como Prazo Médio de Pagamento PMP Pode ser calculado em função do custo das vendas DRE como alternativa e de forma mais rigorosa podese utilizar o valor das compras realizadas no período partindose da fórmula do CMV EI Compras EI e dos Fornecedores BP da seguinte maneira 50 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 360 x Fornecedores PMP Custodasvendas oucompras A relação entre fornecedores e custo das vendas representa uma medida em anos da re presentatividade das contas a pagar a fornecedores em relação ao custo das vendas Por exemplo se o custo das vendas no ano foi de R 1 M e a conta fornecedores está em R 200 mil então ela representa 020 ano de vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase por 360 No exemplo o PMP será de 72 dias Ciclo financeiro Como visto anteriormente as empresas usualmente levam alguns dias para transformar efetivamente as mercadorias ou insumos recebidos em caixa período esse conhecido como ciclo operacional Por outro lado elas também recebem um prazo para pagar essas merca dorias e insumos o prazo médio de pagamento Fica fácil observar que se o PMP CO ou CF 0 a empresa ainda não terá recebido em mé dia as suas vendas para honrar o pagamento aos fornecedores situação financeira que pre cisa ser administrada De forma oposta se PMP CO ou CF 0 as empresas irão pagar seus fornecedores apenas após terem recebido de seus clientes situação bem mais confortável O ciclo financeiro da empresa é justamente a diferença entre o CO e o PMP Pode ser en tendido portanto como o período em que as atividades da empresa do ponto de vista da situação financeira ficam descobertas portanto precisam ser financiadas por capital de giro A Figura 1 mostra essa relação CF CO PMP 51 CAPÍTULO 2 Figura 1 Ciclo financeiro UNIDADE 2 ANÁLISE DA NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO NCG Necessidade de Capital de Giro NCG A análise da situação financeira da empresa pode ser vista de forma mais abrangente e dinâ mica Os ativos e passivos de curto prazo relacionados às atividades principais da empresa não necessariamente se limitam a estoques contas a receber e fornecedores Há também salários outras contas a pagar tributos etc Além disso é preciso considerar que muitos desses ativos e passivos de curto prazo são cíclicos Os estoques por exemplo para darem suporte às operações e às vendas da em presa devem periodicamente ser renovados O mesmo acontece com as contas a receber Enquanto a empresa recebe de alguns clientes concede novos prazos referentes a novas vendas 52 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Assaf Neto 2021 ensina que a parcela das disponibilidades pode ser considerada como ativo cíclico um saldo positivo mínimo necessário para viabilizar os desembolsos que de vem ocorrer previamente à entrada de recursos Podese dizer que essa parcela dos ativos embora eles tenham natureza de curto prazo do ponto de vista financeiro assumem carac terísticas de ativos permanentes A empresa mantém recursos investidos nessas contas que precisam ser financiados Parte desses ativos circulantes operacionais são financiados pelos chamados Passivos Circu lantes Operacionais PCO Afinal há parcelas dos passivos que também são cíclicas como salários a pagar fornecedores impostos a pagar pois se relacionam diretamente às opera ções da empresa Considerase Necessidade de Capital de Giro ou NCG as parcelas do ACO que não são totalmente cobertas pelo PCO da empresa NCG ACO PCO A situação financeira mais confortável é aquela em que a NCG é negativa ou ao menos zero ou seja quando o PCO é suficiente para financiar o ACO Mas quando isso não ocorre não necessariamente a situação financeira da companhia é ruim É preciso avaliar de que forma a NCG está sendo financiada Essa parcela do ativo circulante dita cíclica é denominada Ativo Circulante Operacio nal ACO Os demais ativos circulantes podem ser referenciados como Ativos Financeiros como é o caso das aplicações financeiras de curto prazo das disponibi lidades Fonte Phonlawat Chaicheevinlikit 123RF 53 CAPÍTULO 2 Financiamento da NCG Uma vez compreendida a NCG da empresa é preciso avaliar de que forma ela está sendo financiada Para isso é preciso seguir com os conceitos de capital circulante líquido e saldo em tesouraria Capital Circulante Líquido CCL ou Capital de giro líquido O capital circulante líquido como o nome indica equivale à diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante CCL AC PC No entanto para compreender adequadamente o significado prático do CCL é interessante visualizar a fórmula de outra maneira Pela identidade do BP podese concluir que AT PT AC ANC PC PNC PL AC PC PNC PL ANC CCL Portanto o CCL pode ser calculado como CCL PNC PL ANC Essa forma de apresentação permite avançar na compreensão do CCL e seu papel na gestão do capital de giro das empresas O CCL pode ser visto como a parcela do passivo de longo prazo da companhia PNC PL que excede os investimentos em ativos de longo prazo ANC De outra forma o CCL de uma empresa representa a parcela dos recursos de longo prazo ditos recursos onerosos de longo prazo ROLP que estão disponíveis para financiar as atividades de curto prazo da empresa O CCL ajuda a financiar portanto a NCG da empresa 54 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Se CCL 0 então a companhia possui recursos de longo prazo financiando as suas operações o que torna a situação financeira da empresa mais confortável Nesse sentido o que se deve analisar é a relação entre o CCL e a NCG Se NCG CCL então o CCL é suficiente para financiar toda a NCG da empresa e ainda sobram recursos Essa situação é a ideal Se NCG CCL então o CCL é insuficiente para financiar a NCG e a empresa possivelmente terá recursos onerosos de curto prazo ROCP como empréstimos e financiamentos financiando a NCG Nesse caso a situação financeira da empresa pode se desestabilizar vez que os ROCP podem ter custos mais altos e precisam ser renovados em prazo mais curto o que aumenta os riscos do negócio Como menciona Assaf Neto 2021 p 199 quando a NIG superar o CCL a empresa dá sinais de conviver com dificuldades financeiras ao financiar ativos cíclicos caracteristica mente de longo prazo com recursos de curto prazo não cíclicos Saldo em Tesouraria ST A diferença entre o CCL e a NCG é conhecida como Saldo em Tesouraria ST Se ST 0 mais confortável pode ser a situação financeira da empresa Se ST 0 a empresa pode estar ca minhando para uma situação de insolvência ST CCL NCG Cabe esclarecer que o ST não necessariamente representa o saldo em caixa da companhia Isso pode ocorrer ou não pois a companhia pode manter passivos circulantes financeiros ou ROCP O saldo em tesouraria pode ser representado também por ST Ativo financeiro Passivo financeiro Análise prospectiva da NCG De tudo o que foi exposto percebese que a NCG guarda uma relação direta com o nível de atividade da companhia Essa constatação pode ser analisada conjuntamente com a análi se dos ciclos operacionais Suponha por um instante e como recurso didático que fosse possível representar todas as contas operacionais cíclicas do ativo e passivo em número de 55 CAPÍTULO 2 dias sendo calculadas em função das vendas diárias Portanto a NCG também poderia ser representada como função das vendas diárias Como exemplo observe na Tabela 2 a relação resumida dos ativos e passivos cíclicos de uma empresa que tenha faturado no período R 144000 mil o equivalente a R 400 mil por dia Em R Em dias de vendas Ativo Circulante Operacional R 108000 27000 Contas a Receber R 36000 9000 Estoques R 72000 18000 Passivo Circulante Operacional R 54000 135 Fornecedores R 54000 135 NCG R 54000 13500 Tabela 2 Relação resumida dos ativos e passivos cíclicos Pela análise da tabela percebese que a NCG da empresa equivale a 135 de vendas diárias Veja que nessa análise podese avaliar a NCG como 360 C FxVendas NCG Em que CF é o ciclo financeiro da empresa em dias de vendas Essa formulação ajuda a perceber a NCG como função das vendas o que ajuda a explicar como ela pode crescer de um período para outro exclusivamente pelo aumento no nível de atividade da empresa Isso ajuda a compreender o porquê algumas empresas podem quebrar por aumento das vendas Simplesmente porque não planejaram adequadamente o capital de giro necessário para suportar o aumento das vendas Nesse exemplo e considerando que os ciclos da empresa se mantenham relativamente constantes caso a empresa preveja um faturamento no próximo exercício de R 180000 a NCG da empresa crescerá para 135 x R 180000360 ou R 67500 Essa diferença de R 56 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO TOME NOTA O efeito tesoura Como a NCG guarda uma relação direta com o nível de atividade da empresa o analista precisa estar atento a sua evolução comparativamente à evolução do CCL O aumento das vendas eleva a NCG mas não necessariamente aumenta o CCL da companhia Se o crescimento da NCG for maior que o crescimento do CCL por períodos seguidos a empresa pode vir a enfrentar o chamado efeito tesoura em que a partir de um dado momento a NCG se torna maior que o CCL e o saldo em tesouraria passa a apresentar valores negativos cada vez maiores colocando a empresa em uma situação de insolvência de curto prazo UNIDADE 3 ANÁLISE DE ENDIVIDAMENTO E RISCO DE INADIMPLÊNCIA Os investimentos realizados pelas empresas geralmente são financiados ou por capital pró prio dos acionistas sócios ou lucros retidos ou capital de terceiros por empréstimos e financiamentos ou emissão de títulos A presença do capital de terceiros é justificada até certo ponto por apresentar um custo mais baixo para a empresa em relação ao capital pró prio e por trazer alguns benefícios como os fiscais No entanto o endividamento excessi vo pode trazer riscos que precisam ser avaliados Nesta unidade serão apre sentados os principais índices de endivi damento e análise de inadimplência O objetivo é compreender de forma ampla a capacidade de a empresa cumprir com suas obrigações de pagamento de juros e amortização do principal das dívidas Fonte jirkaejc 123RF 57 CAPÍTULO 2 É preciso esclarecer que os índices de endividamento conhecidos também como índices de estrutura em geral relacionam o passivo total da empresa com seus ativos ou patrimônio líquido quer sejam passivos onerosos ou não Como o objetivo desta unidade é analisar o endividamento e o risco de inadimplência os índices de endividamento serão apresentados como relação das dívidas da empresa portanto passivos onerosos Endividamento total O índice de endividamento total mais tradicional relaciona o passivo total da empresa com seu ativo total e representa portanto a participação dos ativos da empresa que está sendo financiada pelos passivos onerosos ou não PC PNC END AT No entanto quanto menor a participação do passivo oneroso em relação ao passivo total da empresa mais esse índice poderia confundir a análise da real situação de endividamento da companhia Nesse sentido considerando agora apenas o passivo oneroso o endividamento total de uma empresa busca relacionar a participação relativa das dívidas da empresa uso de capital de terceiros em relação ao capital total que a financia PL Dívida Total Conforme destaca Damodaran 2005 p113 pode ser calculado pela seguinte fórmula Dívida Endividamento capital total Dívida PL Se o índice de endividamento total da empresa for por exemplo 40 significa que do total de recursos onerosos utilizados pela empresa capital próprio e de terceiros 40 é prove niente de dívidas O que é o mesmo que dizer que 60 é de recursos próprios Na prática é comum que a relação de endividamento total seja apresentada como DDE sendo D do termo em inglês debt e E também do inglês equity Ou EDE para medir a participação do capital próprio no capital total De forma similar é comum também calcular a métrica de endividamento DE Nesse caso o que se observa é a relação entre a dívida e o patrimônio líquido E não é difícil perceber que a relação DE pode ser calculada pelo índice de endividamento total No exemplo apresen tado se o endividamento total é 40 a relação DE será 58 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 040 067 060 D D E D E E D E Essa relação indica que a cada R 100 de capital próprio E a empresa utiliza R 067 de dívida ATENÇÃOFIQUE ATENTO Considerase dívida bruta da companhia a soma de todos os seus passivos onerosos aqueles que possuem pelo menos de forma explícita custo financeiro ou seja dos quais se exige o pagamento de juros A dívida líquida é o resultado da dívida bruta após subtraído o disponível da empresa caixa e equivalentes de caixa Nos índices de endividamento o analista caso assim considere adequado pode utilizar a dívida líquida Esse índice pode ser útil por exemplo nos casos em que a companhia apresente em determinado período um saldo em caixa muito superior ao que suas necessidades operacionais caixa cíclico exigiriam Relação dívida curto prazo X Dívida total A análise do índice de endividamento total fornece informações sobre a quantidade de dí vida utilizada pela empresa No entanto não necessariamente indica a qualidade da dívida Uma alternativa para essa análise é comparar a dívida de curto prazo com a dívida total da companhia Para isso basta calcular a razão entre o total de passivos onerosos de curto pra zo e o total da dívida Essa métrica pode ajudar a avaliar a qualidade da dívida De todo o exposto percebese que quanto maior for o índice de endividamento da empre sa maior tende a ser o seu risco No entanto os índices de endividamento por serem base ados apenas em contas do BP representam a situação da empresa em um dado momento são estáticos Acompanhar sua evolução e principalmente comparála com os índices do setor é importante 59 CAPÍTULO 2 O mais comum é que o pagamento dos juros e a amortização das dívidas ocorra com o pas sar do tempo utilizando para isso os resultados operacionais conquistados pela empresa Uma empresa em funcionamento não paga suas dívidas por meio da realização de seus ativos Ela só se desfaz de ativos para pagamento de suas dívidas quando se en contra numa situação de risco e forte endividamento O normal é a empresa pagar as dívidas por meio da geração de caixa operacional COSTA LUND 2018 p 54 Nessa análise há dois índices que podem ajudar Dívida LíquidaEBITDA Dívidalíquida Dívidabruta Disponibilidades Dívidalíquida EBITDA EBITDA A relação entre a dívida líquida e o EBITDA da empresa apresenta o percentual que a dívi da da empresa líquida das disponibilidades representa de sua geração de caixa Como se sabe o EBITDA é utilizado como referência de resultado operacional da empresa uma vez que representa os ganhos resultados antes do pagamento dos juros impostos e depre ciação Tratase assim de boa referência para a análise da capacidade de pagamento das obrigações Mas a análise precisa avançar É preciso avaliar como a empresa pagará os juros Como amortizará o principal Embora seja possível uma reestruturação de passivos e venda de ativos essas não são situações corriqueiras que representam ações de uma empresa saudável financei ramente Fonte RAJESH RAJENDRAN NAIR 123RF 60 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Quando comparado com a dívida líquida fornece uma boa métrica da capacidade de a com panhia amortizar a sua dívida Se uma empresa apresenta uma relação dívida líquidaEBI TDA igual a 100 por exemplo significa que o resultado operacional de um ano supondo que se está utilizando o EBITDA de um ano é suficiente para amortizar toda a dívida Se for 50 significa que o resultado operacional é suficiente para quitar a dívida em apenas meio ano e assim por diante Portanto quanto menor o índice melhor a situação financeira da companhia REFLITA Dívida bruta ou dívida líquida Como em outros índices o índice Dívida líquidaEBITDA pode ser também calculado substituindo a dívida líquida pela bruta Qual a mais adequada A resposta novamente dependerá de cada caso Se o analista entende que a situação de caixa da empresa é mais que suficiente para as suas necessidades operacionais cíclicas talvez as disponibilidades possam eventualmente ser utilizadas na amortização de dívidas Nesses casos o uso da dívida líquida possa fazer sentido Fica a reflexão Índice de Cobertura de Juros ICJ EBIT ICJ Despesas financeiraslíquidas O índice de cobertura como o nome indica apresenta a capacidade de a empresa pagar ju ros a partir de seus lucros Quanto maior esse índice maior será a folga da empresa em ter mos de resultado operacional disponível para o pagamento dos juros das suas obrigações Uma empresa que tenha faturamento de R 1M e obrigações de juros de R 100mil terá um índice de cobertura de juros igual a 10 Isso significa que o resultado operacional da companhia equivale a 10x as suas obrigações com juros Valor que representa uma situação financeira confortável Como a depreciação e a amortização reduzem o lucro operacional EBIT mas não repre sentam efetivamente saída de caixa podese calcular o ICJ como alternativa utilizando o EBITDA 61 CAPÍTULO 2 EBITDA ICJ Despesas financeiraslíquidas ICJ e risco de inadimplência Um dos usos do ICJ é ajudar a estabelecer um spread de risco de inadimplência para em presas a fim de se estimar o seu custo de capital de terceiros De forma geral o ICJ ajuda a determinar o seu risco e consequentemente o rating atribuído à companhia A partir desse rating o spread é estimado O professor Aswath Damodaran 2021 apresenta essa abordagem em seu site e disponibi liza uma tabela conforme Tabelas 3 e 4 em que relaciona o ICJ ao spread para companhias não financeiras tanto de grande porte como para as de porte menor e mais arriscadas If interest coverage ratio is to Rating is Spread is 850 100000 AaaAAA 069 65 8499999 Aa2AA 085 55 6499999 A1A 107 425 5499999 A2A 118 3 4249999 A3A 133 25 2999999 Baa2BBB 171 225 249999 Ba1BB 231 2 22499999 Ba2BB 277 175 1999999 B1B 405 15 1749999 B2B 486 125 1499999 B3B 594 08 1249999 CaaCCC 946 065 0799999 Ca2CC 997 02 0649999 C2C 1309 100000 0199999 D2D 1744 Tabela 3 For large nonfinancial service firms mkt cap 5 billion Fonte Damodaran 2021 62 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO If interest coverage ratio is greater than to Rating is Spread is 125 100000 AaaAAA 069 95 12499999 Aa2AA 085 75 9499999 A1A 107 6 7499999 A2A 118 45 5999999 A3A 133 4 4499999 Baa2BBB 171 35 39999999 Ba1BB 231 3 3499999 Ba2BB 277 25 2999999 B1B 405 2 2499999 B2B 486 15 1999999 B3B 594 125 1499999 CaaCCC 946 08 1249999 Ca2CC 997 05 0799999 C2C 1309 100000 0499999 D2D 1744 Tabela 4 For smaller and riskier firms Fonte Damodaran 2021 UNIDADE 4 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO NA PRÁTICA Como exemplo prático da análise da situação financeira e endividamento serão utilizados os dados econômicos e financeiros da companhia Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 conforme os demonstrativos financeiros apresentados anteriormente as análises aqui apresentadas têm o objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não represen tam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa 63 CAPÍTULO 2 Considerando os objetivos os índices serão apresentados em uma perspectiva interna com comparação exclusivamente histórica Na prática os analistas devem estudar o setor de atuação e o negócio da empresa e podem fazer também comparações com empresas do mesmo segmento de atuação Análise da situação financeira Os índices de liquidez do Magazine Luiza referentes aos anos de 2018 2019 e 2020 são apresentados na Figura 2 Figura 2 Índices de liquidez do Magazine Luiza Como se pode observar o ILC da empresa em 2020 ficou ligeiramente mais baixo que o do ano anterior em 125 significando que a empresa possui R 125 em bens e direitos de curto prazo para cada R 100 em obrigações de curto prazo Ao serem desconsiderados os esto ques o ILS ficou em 081 o que demonstra que sem estoques a empresa possui R 081 em ativos circulantes para cada R 100 de passivo circulante Já o ILI fechou o ano de 2020 em 022 Esses índices de liquidez no entanto não necessariamente são suficientes para chegar a conclusões sobre a análise da situação econômicofinanceira das empresas A análise de atividade pode ajudar na melhor compreensão da situação financeira A Tabela 5 apresenta os prazos médios e os ciclos operacional CO e financeiro CF da companhia 64 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Magazine Luiza Análise de ciclos 2018 2019 2020 PME 9153 9549 9853 PMR 4737 5277 5875 CO 13890 14826 15728 PMP 13371 14907 14132 CF 519 081 1596 Tabela 5 Prazos médios e os ciclos operacional CO e financeiro CF da companhia Podese observar que entre os anos de 2018 e 2019 a companhia operava praticamente com um equilíbrio entre o CO e o PMP mantendo o CF relativamente baixo Em 2019 inclusi ve chegou a ser negativo o que significa que a empresa conseguia sustentar todo o seu ciclo operacional com o prazo de pagamento que recebia de seus fornecedores Basta comparar o CO de 14826 dias com os 14907 dias de prazo de pagamento em média Em 2020 o ciclo financeiro ficou em 1596 Apenas pelos índices de liquidez a análise não é tão clara Pelos ciclos podese observar um conjunto de fatores O PMR aumentou de aproximadamente 53 para quase 59 dias ao passo que o PMP reduziu de 149 para 141 dias Como o PME também aumentou ligeiramente o CF subiu o que pode indicar aumento na necessidade de capital de giro Mas a análise não deve parar por aí A avaliação deve seguir para a análise dinâmica da NCG suas fontes de financiamento e im pactos no saldo em tesouraria A Tabela 6 apresenta a NCG o CCL e o ST do Magazine Luiza no período em análise Cabe esclarecer que o ACO foi calculado como a diferença entre o AC e as disponibilidades da empresa caixa equivalentes de caixa e aplicações financeiras Do outro lado o PCO da companhia foi considerado como a diferença entre o PC e os emprés timos e financiamentos de curto prazo Magazine Luiza Análise da NCG em milhares de reais 2018 2019 2020 Ativo Circulante Operacional ACO R 540419200 R 808725700 R 1389565500 Passivo Circulante Operacional PCO R 525785500 R 799262000 R 1174896400 NCG ACO PCO R 14633700 R 9463700 R 214669100 Capital Circulante Líquido CCL R 102379200 R 483857400 R 338266500 Saldo em tesouraria ST R 87745500 R 474393700 R 123597400 Tabela 6 NCG o CCL e o ST do Magazine Luiza no período em análise 65 CAPÍTULO 2 Como se pode observar na análise dos ciclos a NCG aumentou em 2020 Saiu de aproxi madamente R 94 milhões para mais de R 2 bilhões Percebese que isso ocorreu porque houve aumento nos investimentos em ativos operacionais de curto prazo mas o aumento no passivo circulante operacional não foi suficiente para financiar o acréscimo Porém apesar do aumento na NCG o CCL aumentou de forma mais que proporcional entre 2018 e 2020 mantendose ainda mais que suficiente para suprir as necessidades de capital de giro da companhia Essa situação aparece no Saldo em Tesouraria ST Como a empresa possui recursos onero sos de longo prazo PNC e PL suficientes para financiar a necessidade de capital de giro o ST da empresa fechou o ano de 2020 em mais de R 1 bilhão Análise de endividamento e risco de inadimplência Os índices de endividamento do Magazine Luiza estão expressos na Tabela 7 Magazine Luiza Análise de ciclos 2018 2019 2020 Dívida Bruta D R 45596700 R 84882900 R 168676200 Patrimônio Líquido E R 230287200 R 756493700 R 732528700 DDE 1653 1009 1872 DE 1980 1122 2303 Disponibilidades R 100819800 R 475390400 R 290315500 Dívida Líquida DL R 55223100 R 390507500 R 121639300 POCP Empréstimos e Finan ciamentos CP R 13074300 R 996700 R 166718100 POCPD 2867 117 9884 EBITDA R 124524100 R 177553800 R 152709900 DLEBITDA 4435 21994 7965 DEBITDA 3662 4781 11046 EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Despesas financeiras líquidas R 29468800 R 7041300 R 41049500 ICJ EBIT 367 1830 201 ICJ EBITDA 423 2522 372 Tabela 7 Índices de endividamento do Magazine Luiza 66 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Como se pode observar a dívida bruta total do Magazine Luiza tem se mantido em percen tuais baixos em relação ao capital total investido Aqui vale relembrar que nesse conceito considerase capital total a soma dos empréstimos e financiamentos de curto e longo prazo com o patrimônio líquido ou seja o total dos recursos onerosos que financiam a empresa mais o patrimônio líquido Nesse sentido essa composição da dívida em 2020 pode ser observada com outros olhos visto que é inferior ao caixa Resta analisar o impacto da dívida nos resultados da empresa em virtude dos encargos financeiros Esse detalhe fica visível na análise dos ICJ Ao se observar os ICJ pelo EBIT em 2019 atingiu 1830 o que significa que o lucro operacional representou 1830 vezes as despesas finan ceiras líquidas Em 2020 o índice foi 201 devido ao acréscimo nas despesas financeiras líquidas e à redução observada no EBIT RESUMO Neste capítulo foram introduzidos os principais aspectos relacionados à análise da situação financeira e endividamento das empresas Foram apresentados os índices de liquidez destacando suas características e limitações especialmente por representarem aspectos mais estáticos da companhia Foram abordados os prazos médios e os ciclos operacional e financeiro da empresa em complemento ao es tudo da liquidez uma vez que possibilitam visualizar melhor as atividades da empresa e os impactos na situação financeira O capítulo abordou ainda a visão dinâmica da Necessidade de Capital de Giro NCG que considera todos ativos e passivos circulantes operacionais Destacou também as possibili Em 2020 o índice DDE alcançou 1872 Ao se observar a participação da dívida de curto prazo em relação ao total percebese que o índice alcançou em 2020 9884 Ao se analisar porém esse dado conjuntamente com as informações de CCL NCG e com as disponibilidades da empresa a avaliação tor nase mais completa Na prática a companhia não precisaria recorrer a recursos onerosos de curto prazo para financiar a sua NCG já que o CCL tem se mostrado mais que suficien te Além disso a dívida líquida da empresa é negativa o que significa que as disponibilida des da companhia são superiores ao total da sua dívida bruta incluindo aí a de curto prazo Fonte Andriy Popov 123RF 67 CAPÍTULO 2 dades de financiamento da NCG o papel do Capital Circulante Líquido CCL e os possíveis impactos no Saldo em Tesouraria ST Na análise de endividamento foram debatidos os índices de endividamento e a relação dívida líquidaEBITDA como instrumentos que podem avaliar a solvência de longo prazo da companhia Além dos Índices de Cobertura de Juros ICJ que auxiliam na análise da capaci dade de pagamento e risco de inadimplência Por fim o capítulo apresenta um exemplo de aplicação prática com o objetivo principal de explorar os cálculos e a interpretação dos índices em especial quando analisados em conjunto e em complemento de forma a consolidar os conceitos estudados e despertar o interesse em avançar e aprimorar o processo 68 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Capítulo 3 69 CAPÍTULO 3 INTRODUÇÃO A análise do desempenho econômico das empresas busca compreender e investigar a capacidade de geração de resultado lucro em relação aos diferentes fatores que o influenciam como os ativos as vendas e o capital investido A ideia central que envolve a análise de desempenho econômico é a de que a observação apenas dos valores absolutos dos lucros gerados pela empresa não é suficiente Saber por exemplo que a empresa A teve R 200 mil de lucro e a B R 200 milhões indica apenas que a empresa B é de grande porte nada mais Por isso esses valores precisam ser analisados relativamente a outros sob a forma de taxas de lucro ou rentabilidade Para entender essa relação vale lembrar que uma empresa é constituída por um conjunto de ativos fruto de suas decisões de investimento que geram receitas e consequentemente lucro São os lucros que irão remunerar as diferentes fontes de financiamento dos ativos dos credores e dos acionistas O desempenho econômico das empresas portanto é em grande parte resultado de suas decisões de investimento a análise visa avaliar a atratividade dessas escolhas Neste capítulo vamos nos concentrar nas análises de lucratividade rentabilidade giro e valor econômico adicionado 70 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender as diferentes medidas de lucratividade de uma companhia e o seu significado as medidas de rentabilidade sua interpretação e análise o conceito de giro dos ativos investimento e patrimônio líquido a relação entre os índices de rentabilidade o giro e as margens como complemento à análise o conceito de valor econômico adicionado e spread econômico a aplicação prática da análise de desempenho econômico Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos descritos este capítulo está dividido em Unidade 1 Índices de rentabilidade Unidade 2 Índices de lucratividade e giro Unidade 3 Valor Econômico Adicionado EVA Unidade 4 Análise do desempenho econômico na prática 71 CAPÍTULO 3 UNIDADE 1 ÍNDICES DE RENTABILIDADE O estudo da rentabilidade busca investigar o desempenho econômico da empresa anali sando a relação entre a geração de lucro e os ativos e as diferentes fontes de financiamento utilizadas pela companhia que contribuíram para o seu alcance O objetivo do estudo da rentabilidade portanto é calcular e analisar a taxa de retorno sobre os seus ativos o capital próprio e o capital investido Tratase de uma análise acerca da rentabilidade das decisões de investimento tomadas pela companhia Figura 1 Conjunto de ativos Fonte Elaborado pelo autor Um aspecto importante ao se calcular a rentabilidade é utilizar medidas de lucro que sejam coerentes com o que se deseja analisar Por isso para cada situação como destacado em cada um dos índices há uma medida de lucro mais apropriada 72 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Retorno sobre o investimento ROI Figura 2 Avaliação sobre retorno de lucro capital Fonte Andrii Yalanskyi 123RF O retorno sobre o investimento também conhecido pela sigla em inglês ROI return on in vestment avalia a taxa de retorno do lucro em relação ao capital total que a financia O que se busca estimar é a capacidade de a empresa rentabilizar por meio da geração de lucro o montante total de capital na companhia independentemente da estrutura utilizada capital próprio ou dívida Pode ser calculado da seguinte maneira 1 EBIT T ROI Capitaltotal Capital total conhecido por capital empregado ou no inglês capital employed é a soma de todos os passivos onerosos da empresa ou recursos onerosos de curto ou longo prazo Representa os montantes captados pela empresa dívida ou capital próprio sobre os quais incide algum custo financeiro custo de oportunidade Incluemse aí empréstimos e finan ciamentos títulos emitidos patrimônio líquido Pode ser calculado portanto como a soma do PL com o passivo oneroso curto e longo prazo 73 CAPÍTULO 3 Figura 3 Análise de capital total Fonte Hendra Su 123RF Cabe lembrar que todo o restante do passivo chamado de não oneroso como fornecedo res salários impostos e outras contas a pagar não possui custo financeiro Como o passivo circulante e não circulante é composto por passivo oneroso e não oneroso o capital total também pode ser calculado pela diferença entre o ativo total passivo total e o passivo não oneroso COMENTÁRIO DO AUTOR Em relação ao custo financeiro sabese que em alguns casos pode haver juros implícitos mas em geral não são considerados como passivos onerosos É o caso por exemplo de um fornecedor que concede prazo de pagamento mas oferece um desconto para pagamento à vista Entretanto tal operação não é considerada um financiamento Se o analista considerar relevante ele pode proceder à reclassificação para fins de análise Nesse sentido como se trata de uma medida de rentabilidade do capital investido indepen dente de quem esteja financiando a empresa capital próprio ou de terceiros o lucro utili zado na análise é o lucro operacional ou EBIT Isso porque esse é justamente o lucro mais apropriado como medida de geração de resultado da empresa como um todo 74 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Por fim cabe avaliar que para fins de análise é importante excluir do lucro operacional a parcela destinada aos impostos Por isso o lucro é multiplicado por 1T em que T repre senta a alíquota efetiva dos tributos sobre o lucro efetivamente cobrado pela companhia Retorno sobre o Patrimônio Líquido O retorno sobre patrimônio líquido conhecido pela sigla em inglês ROE return on equity é a medida de rentabilidade do capital próprio utilizado pela empresa Objetiva calcular a capa cidade de a companhia rentabilizar os seus acionistas sócios a partir da geração de lucro É calculado da seguinte forma Lucro Líquido ROE Patrimônio Líquido Nesse caso como se deseja analisar a rentabilidade do ponto de vista do acionista o lucro apropriado é o lucro líquido e a base de comparação é o próprio patrimônio líquido que efetivamente representa o capital próprio da empresa TOME NOTA Alíquota efetiva dos tributos Sabese que em alguns casos pode haver juros implícitos mas em geral não são considerados como passivos onerosos É o caso por exemplo de um fornecedor que concede prazo de pagamento mas oferece um desconto para pagamento à vista Entretanto tal operação não é considerada um financiamento Se o analista considerar relevante ele pode proceder à reclassificação para fins de análise Análise comparativa ROE x ROI Se uma empresa for financiada única e exclusivamente com capital próprio de forma que o capital total seja igual ao patrimônio líquido há que se esperar que o lucro operacional seja igual ao lucro líquido e portanto que o ROE seja igual ao ROI Se ROI é 1 EBIT T ROI Capitaltotal 75 CAPÍTULO 3 Então se não há capital de terceiros não haverá despesas com juros portanto EBIT1T será igual ao lucro líquido sendo Lucrolíquido ROI Capitaltotal No entanto se não há capital de terceiros o capital total será igual ao patrimônio líquido de maneira que Lucrolíquido ROI Patrimônio Líquido Com isso temse que ROI ROE Por essa razão a comparação entre ROI e ROE pode fornecer interessantes informações aos acionistas em termos do uso de capital de terceiros na companhia Se ROE ROI o uso de capital de terceiros na estrutura da empresa está agregando valor aos acionistas já que a companhia passou a entregar uma rentabilidade ROE superior à da companhia desalavancada ROI Lembrese que o ROI indica a rentabilidade operacional da empresa de sua capacidade de geração de lucro independentemente de quem a financia De forma oposta se ROE ROI o uso de capital de terceiros na estrutura da empresa passou a subtrair valor para os acionistas uma vez que a companhia passou a entregar uma renta bilidade ROE inferior Retorno sobre os Ativos ROA Outra medida de rentabilidade utilizada é o retorno sobre os ativos da empresa ou ROA return on assets do termo em inglês O ROA mede a taxa de retorno em relação aos seus ativos totais É calculado da seguinte maneira Lucro Líquido ROA AtivoTotal 76 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Nesse caso por se tratar de medida geral em relação ao ativo o lucro utilizado é o líquido No entanto podese calcular também utilizando o NOPAT ATENÇÃO Uma discussão comum no cálculo dos índices de rentabilidade diz respeito aos valores que se deve utilizar como referência para o capital total patrimônio líquido e ativo e de qual período de tempo do início do fim ou a média do período Isso ocorre porque os índices relacionam uma medida de fluxo DRE os lucros que dizem respeito ao período como um todo com uma medida de estoque BP que representa apenas uma fotografia do final do período Na prática o que acontece é que a geração de lucro de um período é influenciada não apenas pelos ativos ou capitais investidos constantes no BP ao final do período mas também pelos ativos e capitais investidos no início do período ou ainda por novas captações de recursos realizadas ao longo do período As três possibilidades podem ser utilizadas cabe ao analista compreender a que melhor representa a empresa em análise UNIDADE 2 ÍNDICES DE LUCRATIVIDADE E GIRO Índices de Lucratividade O estudo da lucratividade das empresas tem o objetivo de avaliar a sua capacidade de ge ração de lucros a partir do volume de vendas As principais medidas utilizadas são margem bruta margem EBIT margem EBITDA e margem líquida Margem Bruta A margem bruta avalia a relação entre o lucro bruto e as vendas Representa portanto a capacidade de geração de lucro da empresa a partir das vendas após deduzidos todos os custos sejam das mercadorias vendidas CMV dos produtos vendidos CPV ou dos serviços prestados CSP Conforme Costa e Lund 2018 p 80 a margem bruta é um indicador que corresponde ao percentual de cada real de venda que restou após a empresa ter deduzido os custos das vendas 77 CAPÍTULO 3 Se as empresas A e B tiveram lucro bruto respectivamente de R 60 mil e R 40 milhões para faturamentos de R 200 mil e R 200 milhões a margem bruta de A terá sido 30 en quanto a de B apenas 20 Margem Operacional Margem LAJIR ou EBIT A margem operacional avalia a relação entre o lucro operacional da empresa e as vendas Portanto representa o resultado medido em termos percentuais sobre as vendas após deduzidos todos os custos e as despesas operacionais como as despesas com vendas ad ministrativas e gerais É importante esclarecer que esse conceito de lucro operacional re presenta apenas as atividades operacionais da empresa independentemente de como ela está sendo financiada Portanto não considera o resultado financeiro da companhia Lucro Bruto Margem Bruta Vendas Líquidas LucroOperacional LAJIRou EBIT MargemOperacional LAJIRou EBIT Vendas Líquidas TOME NOTA O lucro operacional é também referenciado por alguns autores como lucro antes dos juros e impostos LAIR ou pela sigla em inglês de mesmo sentido EBIT Earns Before Interests and Taxes Margem Líquida A margem líquida avalia a relação entre o lucro operacional e as vendas líquidas Represen ta afinal o que restou das vendas após deduzidos todos os custos as despesas operacio nais o resultado financeiro e os impostos Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Líquidas 78 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Margem EBITDALAJIDA Outra medida de lucratividade amplamente utilizada pelo mercado é a margem EBITDA que representa a relação entre o resultado operacional da empresa antes de depreciação e amortização e as vendas líquidas O EBITDA embora não faça parte da DRE pode ser facilmente calculado a partir do EBIT somandose as despesas de depre ciação e amortização do período É uma medida muitas vezes utilizada embora não represente a mesma coisa como re ferência para a capacidade de geração de caixa da empresa uma vez que deprecia ção e amortização são despesas operacio nais que não representam saída de caixa Fonte Alex Bramwell 123RF EBITDAou LAJIDA Margem EBITDAou LAJIDA Vendas Líquidas TOME NOTA O lucro operacional antes dos juros dos impostos da depreciação e da amortização é por vezes apresentado como LAJIDA ou pela sigla em inglês de mesmo sentido EBITDA Earns Before Interests Taxes Depreciation and Amortization SAIBA MAIS O EBITDA depois de provisionados os impostos é por vezes utilizado como referência para o fluxo de caixa operacional da empresa É importante notar no entanto que para se chegar a esse resultado devese partir do EBIT calcular a provisão dos impostos e então chegar ao lucro operacional após impostos ou NOPAT Net Operating Profit After Taxes A partir do NOPAT somase novamente a depreciação e a amortização para se chegar ao chamado fluxo de caixa operacional da empresa É importante compreender que fluxo de caixa operacional não significa fluxo de caixa livre da empresa Para este devese ainda subtrair as necessidades de reinvestimento na empresa seja para capital de giro ou CAPEX 79 CAPÍTULO 3 Giro do Ativo O giro do ativo como o nome sugere indica o número de vezes que o ativo total da empresa gira dentro do exercício considerado em razão do volume total de receitas É calculado pela fórmula Receitas Girodo Ativo AtivoTotal Percebese que o giro do ativo pode ser visto como a capacidade de a empresa gerar re ceitas para cada unidade monetária investida no ativo Portanto quanto maior o índice mais eficiente é a empresa no uso de seus investimentos ativos Giro do ativo igual a 2 por exemplo significa que a companhia foi capaz de gerar R 2 de vendas para cada R 1 investido em ativos Giro do PL De forma similar o giro do patrimônio líquido indica a capacidade de a empresa gerar re ceitas para cada unidade monetária investida pelos sócios ou acionistas Giro do PL igual a 3 por exemplo significa que a companhia foi capaz de gerar R 3 de vendas para cada R 1 de patrimônio Receitas Girodo PL PL Giro do Investimento O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao capital total investido na empresa ou investimen to O giro do investimento indica a capacidade de a empresa gerar vendas para cada unida de monetária investida pelo capital total dívida e patrimônio líquido Vendas Girodoinvestimento Capitaltotal Análise de Margem x Giro A análise do giro permite explorar melhor o desempenho econômico das empresas por meio da decomposição dos índices de rentabilidade e de sua relação com a margem e o giro Vejamos o caso do ROA 80 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Lucrolíquido Lucro Líquido Vendas ROA ROA x AtivoTotal Vendas AtivoTotal Como Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Vendas Girodoativo AtivoTotal Então ROA Margem Líquida xGirodo Ativo De forma similar podese decompor o ROE Lucrolíquido Lucro Líquido Vendas ROE ROE x PL Vendas Patrimônio Líquido Como Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Vendas Girodo PL PL Então ROE Margem Líquida xGirodo PL Quanto ao ROI 1 1 EBIT t EBIT t Vendas ROI ROI x CapitalTotal Vendas CapitalTotal 81 CAPÍTULO 3 Como EBIT MargemOperacional Vendas Vendas Girodo Investimento Capitaltotal Então 1 ROI MargemOperacional x t xGirodo Investimento De forma geral podese perceber que as taxas de rentabilidade de uma empresa podem ser vistas como função da sua lucratividade e do seu giro da sua eficiência nas decisões de investimento Uma maneira portanto de investigar a rentabilidade da empresa é estudar detalhadamente todos os componentes que influenciam a margem e o giro UNIDADE 3 VALOR ECONÔMICO ADICIONADO EVA Nas Unidades 1 e 2 o desempenho econômico foi apresentado sob a perspectiva interna com o objetivo de compreender a capacidade de a empresa gerar resultados a partir de suas operações lucratividade e do capital investido rentabilidade Essa análise embora fundamental não é suficiente para avaliar se a companhia está agregando valor aos seus acionistas Uma empresa pode por exemplo apresentar ROE crescente nos últimos anos e estar em patamar similar ao do seu setor mas será que está remunerando adequadamente o capital investido pelos acionistas Na prática os acionistas ao aportarem seus recursos na empresa têm uma expectativa de retorno conhecida como taxa mínima de atratividade ou retorno esperado que considera a percepção de risco em relação à companhia Essa taxa mínima de atratividade quando observada pela ótica da empresa é chamada de custo de capital próprio 82 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Custo de capital Essa percepção de que o custo de capital representa o retorno esperado ou a taxa mínima de atratividade exigida pelos acionistas ao investir na empresa ajuda a compreender a for mação do custo de capital próprio Figura 4 Custo de capital investido Fonte pitinan 123RF Para isso é interessante lembrar que o investimento representa a abdicação de consumo presente para consumo no futuro Por essa razão os investidores em tese só aceitariam aplicar seus recursos se fossem compensados no mínimo por um prêmio por essa espera no consumo desde que isso não represente risco Essa compensação na prática financeira é muitas vezes representada pela taxa livre de risco de mercado ou seja pela oportunidade de se investir em um título livre de risco como um título governamental Como o investimento em capital próprio das empresas no entanto apresenta riscos os acionistas exigem também um prêmio pelo risco Assim o custo de capital próprio Ke pode ser representado por Ke rf prêmio pelorisco Para cálculo do custo de capital próprio utilizase por vezes como referência o modelo CAPM ou Capital Asset Pricing Model que define o custo de capital próprio como 83 CAPÍTULO 3 risk free representa a taxa livre de risco do mercado representa uma medida do risco sistemático risco não diversificável da empresa é uma representação do prêmio de risco de mercado calculado pela diferença entre o retorno esperado de uma carteira diversificada de ativos arriscados e o retorno da taxa livre de risco representa o capital próprio total patrimônio líquido investido na companhia é a dívida total da empresa ou passivo oneroso e representa a alíquota de impostos sobre os lucros ke rf b rm rf Em que rf b oubeta rm rf As empresas no entanto não são financiadas apenas por capital próprio mas por uma com binação entre capital próprio e capital de terceiros que representa o custo da empresa ao captar recursos por meio de empréstimos financiamentos e emissão de títulos O custo da dívida Kd ou custo do capital de terceiros é formado seguindo o mesmo racio cínio aplicado ao custo de capital próprio com a diferença de que o prêmio de risco passa a ser representado pelo risco de a companhia não conseguir honrar as obrigações assumidas no empréstimo chamado de risco de inadimplência Dessa forma o custo de capital total da empresa ou como é mais conhecido weighted ave rage cost of capital WACC custo médio ponderado de capital representa a média entre o custo de capital próprio e o custo de capital de terceiros ponderados pela participação de cada um no capital total investido na empresa 1 E D WACC Ke Kd T D E D E Em que E D T O custo da dívida na fórmula acima foi multiplicado por 1T para representar o custo da dívida já líquida dos benefícios fiscais do pagamento dos juros 84 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Valor Econômico Adicionado EVA Valor econômico adicionado do inglês Economic Value Added EVA pode ser definido como o excesso de retorno que a empresa consegue gerar para o acionista Nesse sentido repre senta uma espécie de lucro ou resultado econômico da empresa ou lucro residual aquele que resta depois de deduzidos todos os custos e as despesas incluindo o custo de capital Conforme mencionado por Assaf Neto 2020 o fundamento do conceito de EVA é o lucro residual lucro que resta após serem deduzidos todos os custos e encargos de capital inclu sive o custo de capital próprio É o lucro na visão dos acionistas SAIBA MAIS Assaf Neto 2020 p 114 nos conta que O conceito original de EVA como valor agregado ou adicionado por uma empresa foi proposto por economistas no século XIX assumindo a medida diversas denominações e propostas ao longo do tempo Em 1820 por exemplo foi definido por David Ricardo como lucro su pranormal Posteriormente ficou conhecido por lucro econômico ou residual Mais recentemente anos 1980 uma empresa de consultoria Stern Stewart Co adotou alguns ajustes e registrou o nome dessa medida como EVA Economic Value Added Valor Econômico Agrega do O EVA pode ser analisado tanto pela perspectiva operacional que compara o lucro operacio nal da empresa com o seu custo de capital total como pela ótica do acionista ao comparar o lucro líquido com o custo de capital próprio Figura 5 Comparativo lucro operacional com custo de capital total Fonte Elaborada pelo autor 85 CAPÍTULO 3 O EVA pela ótica da empresa O EVA analisado pela perspectiva operacional da empresa considera o lucro econômico ge rado pelas suas atividades principais independentemente de sua estrutura de capital e de quem quer que esteja financiando a empresa Por esse lado pode ser calculado pela diferença entre o lucro operacional após os impostos NOPAT e o seu custo de capital total WACC NOPAT lucro operacional após os impostos EBIT1T Custo de capital total WACC x Investimento EVA na perspectiva da empresa Quadro 1 Diferença entre o lucro operacional após os impostos NOPAT e o seu custo de capital total WACC Fonte Adaptado de Assaf Neto 2020 O EVA na visão do acionista O EVA analisado pela ótica do acionista considera o lucro econômico gerado pelas atividades principais e pelas atividades de financiamento da companhia considerando portanto a sua estrutura de capital Pode ser calculado pela diferença entre o lucro líquido e o custo de capital próprio Ke Lucro Líquido Custo de capital próprio Ke x PL EVA na visão do acionista Quadro 2 Diferença entre o lucro líquido e o custo de capital próprio Ke Fonte Adaptado de Assaf Neto 2020 Para exemplificar suponha que a companhia C tenha apresentado ao mercado a sua de monstração do resultado do exercício conforme Tabela 1 referente ao último período 86 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO DRE Companhia C milhares reais Receitas R 150000 Custo das Mercadorias Vendidas CMV R 99000 Lucro Bruto R 51000 Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA R 12000 Lucro Operacional EBIT R 39000 Despesas Financeiras R 9000 Lucro antes do IR R 30000 IR e CSSL 34 R 10200 Lucro Líquido R 19800 Tabela 1 Demonstração do resultado do exercício Fonte Elaborada pelo autor Considere ainda que a empresa é financiada por um investimento total também em milha res de reais de R 300000 sendo R 180000 de PL 60 do capital total EDE R 120000 de passivo oneroso dívida 40 do capital total DDE O custo de capital próprio Ke da companhia é estimado em 10 Com base no DRE e con siderando o passivo oneroso podese estimar o custo da dívida kd pela relação entre as despesas financeiras e a dívida da empresa NOPAT R 39000 x 134 R 25740 90 750 Kd 1200 Assim o WACC será 10 60 750 40 1 34 798 WACC x x x Cálculo do EVA na perspectiva da empresa 87 CAPÍTULO 3 Custo do capital total WACC x Investimento total R 300000 x 798 23940 EVA na perspectiva da empresa R 1800 Cálculo do EVA na visão do acionista Lucro Líquido R 19800 Custo do capital próprio Ke x PL R 180000 x 10 18000 EVA na visão do acionista R 1800 Spread Econômico A análise do EVA pode ser realizada a partir das métricas de rentabilidade das empresas especialmente o ROI e o ROE Para isso basta observar que Portanto Portanto NOPAT ROI Investimentototal NOPAT ROI x Investimento Assim como EVA NOPAT WACC x Investimentototal Então EVA ROI x InvestimentoTotal WACC x Investimentototal EVA ROI WACC x Investimentototal Da mesma forma na visão do acionista Lucro Líquido ROE PL Lucro Líquido ROE x PL 88 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Assim como EVA Lucro Líquido Ke x PL Então EVA ROE x PL Ke x PL EVA ROE Ke x PL Do exemplo acima da companhia C temse que 25740 858 300000 R ROI R Portanto 858 798 300000 1 800 EVA x R R 1 9800 1100 1 80000 R ROE R Portanto 1100 1 000 1 80000 1 800 EVA x R R Por essa análise do EVA a partir da rentabilidade fica fácil perceber que a empresa irá gerar valor econômico a partir de suas operações sempre que o ROI WACC ou de outra forma irá adicionar valor ao acionista sempre que o ROE Ke Em outras palavras se a empresa estiver rentabilizando o capital investido total ou do acio nista acima do custo de capital temse que a empresa consegue gerar valor econômico para o acionista Essa diferença entre os índices de rentabilidade da empresa ROI ou ROE e o custo de capital WACC ou Ke é conhecida como spread econômico Do exemplo podese então calcular o spread econômico da empresa e do acionista como 858 798 060 Spread Econômicodaempresa ROI WACC 1100 1 000 100 Spread Econômicodoacionista ROE Ke 89 CAPÍTULO 3 UNIDADE 4 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO NA PRÁTICA Como exemplo prático da análise do desempenho econômico serão utilizados os dados econômicos e financeiros da companhia Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 conforme os demonstrativos financeiros apresentados no capítulo 1 Assim como no ca pítulo anterior os índices serão apresentados em uma perspectiva interna Na prática os analistas devem estudar o setor de atuação e o negócio da empresa e podem fazer também comparações com empresas do mesmo segmento de atuação COMENTÁRIO DO AUTOR As análises aqui apresentadas têm objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não representam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa FIQUE ATENTO Análise de rentabilidade as análises aqui apresentadas têm objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não representam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa A Tabela 2 apresenta a análise dos índices de rentabilidade da empresa Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA Rentabilidade milhares de reais 2019 2020 Capital Total médio R 766866950 R 1234834600 EBIT1T R 85045158 R 54422016 ROI 1109 441 PL médio R 493390450 R 744511200 Lucro Líquido R 92182800 R 39170900 90 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO ROE 1868 526 Ativo Total médio R 1429390700 R 2221913800 ROA 645 176 Giro Ativo 139 131 Giro PL 403 392 Giro do Investimento 259 236 Tabela 2 Rentabilidade Fonte Elaborada pelo autor O capital total no conceito apresentado na Unidade 1 foi calculado pela diferença entre o ativo total e o passivo circulante somandose em seguida o passivo oneroso de curto prazo empréstimos e financiamentos Tratase do mesmo valor da soma do passivo oneroso de curto prazo com o passivo não circulante e o patrimônio líquido Além disso utilizase o conceito da média ou seja o valor apresentado em 2019 representa na realidade a média entre 2019 e 2018 Isso é feito para considerar possíveis alterações ao longo do exercício Por essa razão para esta análise fo ram considerados apenas os anos de 2019 e 2020 Nesse sentido o ROI da empresa em 2019 foi de 1109 Isso significa que para cada R 100 investidos na empresa ela gerou R 1109 disponíveis aos investidores capital próprio e de terceiros Em 2020 o ROI foi 441 O ROI pode ser analisado considerando a margem operacional e o giro do investimento O giro do investimento ficou relativamente estável Em 2019 foi 259 e em 2020 236 Isso de monstra que em 2020 a empresa gerou R 236 em vendas para cada unidade monetária de capital total nela investido Para melhor compreensão do ROI podese desmembrar a margem operacional e observar os diferentes componentes do resultado operacional Para o cálculo do ROE e do ROA o PL e o ativo total foram também calculados pela média do período O ROE alcançado em 2019 foi de 1868 o que demonstra que para cada R 100 aportados pelos acionistas a empresa gerou R 1868 de resultado líquido Em 2020 o ROE foi 526 Quanto ao ROA podese observar que em 2019 foi 645 caindo para 176 em 2020 Da mesma forma que o ROI o ROE e o ROA podem ser analisados na perspectiva das mar gens e giros Novamente o valor dos giros do ativo e do patrimônio líquido ficaram re 91 CAPÍTULO 3 lativamente estáveis Podese portanto proceder a uma análise da margem líquida para complementar o estudo A análise do ROE e do ROI precisa ser complementada em comparação com o setor de atua ção da empresa mas também tendo em vista o custo de capital da companhia O ROE deve ser comparado ao custo de capital próprio da empresa enquanto o ROI em relação ao WACC ou custo médio ponderado de capital A análise do ROE comparativamente ao ROI também fornece informações interessantes Se ROE for maior que o ROI a alavancagem financeira ou seja o uso do capital de terceiros pode estar gerando valor aos acionistas No caso da Magazine Luiza em 2019 e 2020 o ROE se manteve acima do ROI Análise de lucratividade A Tabela 3 apresenta os índices de lucratividade da empresa Magazine Luiza em 2018 2019 e 2020 MAGAZINE LUIZA DRE milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Receita de vendas R 1559044400 R 1988631000 R 2917711300 Resultado lucro Bruto R 453742200 R 555396100 R 751996200 Margem Bruta 2910 2793 2577 LAIR EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Margem Operacional EBIT 694 648 283 Lucro líquido R 59742900 R 92182800 R 39170900 Margem líquida 383 464 134 Depreciação e Amortização R 16369000 R 48697500 R 70252300 EBITDA R 124524100 R 177553800 R 152709900 Margem EBITDA 799 893 523 Tabela 3 Índice de lucratividade Fonte Elaborada pelo autor A margem bruta da companhia foi 2577 em 2020 o que significa que para cada R 1 de vendas a empresa lucrou após deduzidos os custos dos bens e serviços vendidos R 02577 Em 2019 e 2018 a margem foi respectivamente 2793 e 2910 92 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Movimento similar ocorreu com a margem operacional que foi de 694 em 2018 648 em 2019 e 283 em 2020 Portanto em 2018 a empresa lucrou R 694 com suas opera ções para cada R 100 de vendas e R 283 para cada R 100 em vendas em 2020 Esse movimento pode ajudar a explicar o ROI analisado no tópico anterior A margem líquida esteve em 383 em 2018 indicando que para cada R 100 de vendas a empresa lucrou após descontar todos os custos as despesas os juros e os impostos R 383 aos acionistas Em 2019 o resultado foi 464 e em 2020 134 A análise da margem líquida pode ajudar a complementar o estudo do ROE e do ROA Já a margem EBITDA que em 2018 foi 799 demonstra que a companhia gerou resultado operacional antes dos juros dos impostos da depreciação e da amortização de R 799 por R 100 de vendas Essa medida pode ser considerada como uma referência da capacidade de geração de caixa operacional da empresa Para chegar a conclusões mais precisas podese fazer comparações por exemplo com os índices dos principais concorrentes ou com a média do setor Devese procurar investigar ainda as principais razões dos movimentos nos índices SAIBA MAIS Já ouviu falar em EBITDA ajustado ou lucro líquido ajustado Às vezes em determinado exercício as empresas podem incorrer em receitas ou despesas consideradas não recorrentes São situações que não ocorrem periodicamente ano a ano Elas podem surgir a partir de mudanças na contabilização ou em operações consideradas atípicas pela empresa Como base de comparação e análise pode ser interessante o analista investigar e utilizar dados ajustados caso considere apropriado RESUMO Neste capítulo foram apresentadas as principais medidas de desempenho econômico das empresas que buscam compreender e investigar a capacidade de geração de resultado lu cro da companhia em relação aos diferentes fatores que o influenciam como os ativos as vendas e o capital investido Foram estudados os índices de rentabilidade de lucratividade giro e o valor econômico adicionado EVA Foram apresentados os índices de rentabilidade ROI ROE e ROA que buscam investigar o desempenho econômico da empresa analisando a relação entre a geração de lucro opera cional ou líquido e os ativos e as diferentes fontes de financiamento utilizadas pela compa nhia e que contribuíram para o seu alcance 93 CAPÍTULO 3 Quanto aos índices de lucratividade o foco do estudo foi nas margens bruta operacional EBITDA e líquida que representam o quanto a empresa gerou de resultado considerando as suas diferentes perspectivas para cada unidade monetária de vendas O estudo da lucratividade foi complementado pela análise de giro que está relacionada à capacidade de a empresa gerar vendas considerando as suas diferentes fontes de financia mento e o ativo total O estudo da rentabilidade foi então complementado considerando o seu desmembramento entre margens e giros Foi apresentado ainda o conceito de valor econômico adicionado ou EVA do termo em in glês que pode ser interpretado como o excesso de retorno que a empresa consegue gerar para o acionista Representa uma espécie de lucro ou resultado econômico da empresa lucro residual ou seja aquele que resta depois de deduzidos todos os custos e as despesas incluindo o custo de capital Por fim foram calculados os principais índices de rentabilidade lucratividade e giro da em presa Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 como exemplo de aplicação prática da análise do desempenho econômico 94 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Capítulo 4 95 CAPÍTULO 4 INTRODUÇÃO A análise do desempenho econômico da situação financeira e do risco de inadimplência certamente já fornece ao analista um panorama abrangente da situação econômicofinanceira de uma empresa Contudo há outras análises que podem complementar o estudo e fornecer insumos para que as conclusões do analista sejam ainda mais assertivas como as análises das alavancagens operacional e financeira e do fluxo de caixa De acordo com Assaf Neto 2012 p 290 Diversos trabalhos acadêmicos demonstram que a alavancagem operacional afeta o risco econômico operacional das empresas sendo colocado como um dos fatores que descrevem o comportamento do retorno das ações Já a alavancagem financeira indica a capacidade que a participação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas Por fim a análise dos fluxos de caixa é de vital importância no processo de análise da situação econômicofinanceira de uma organização pois fornece informações complementares para os índices tradicionais de desempenho econômico situação financeira e risco de inadimplência Esses tópicos adicionais de análise serão abordados neste capítulo 96 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender o conceito de alavancagem operacional e ponto de equilíbrio o papel da margem de contribuição o cálculo e a interpretação da alavancagem operacional o grau de alavancagem financeira e sua relação com o retorno dos investimentos as diferentes visões dos fluxos de caixa das atividades operacionais de financiamento e investimento os índices alternativos baseados nos fluxos de caixa Para uma melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos acima este capítulo está dividido em Unidade 1 Alavancagem operacional e ponto de equilíbrio Unidade 2 Alavancagem financeira Unidade 3 Análise dos fluxos de caixa 97 CAPÍTULO 4 UNIDADE 1 ALAVANCAGEM OPERACIONAL E PONTO DE EQUILÍBRIO O desempenho operacional de uma empresa depende da relação entre um conjunto de es forços realizados para produzir eou comercializar seus produtos ou serviços assim como os custos e as despesas daí decorrentes O conceito de alavancagem operacional surge da compreensão de qual parte dos custos e das despesas incorridos são fixos Portanto não guardam relação com o nível de atividade da empresa O estudo da alavancagem operacional nesse sentido nos permite compreender os pos síveis impactos nos resultados operacionais da companhia conforme ela altera o nível de atividade para diferentes estruturas de custos fixos e variáveis Figura 1 Custos e suas variações Fonte qvist 123RF Os custos variáveis como o próprio nome indica são aqueles que variam diretamente conforme o volume de operações da empresa São os custos que podem ser associados à cada unidade de venda da companhia Consequentemente eles acompanham o nível de atividade observado Assim se as vendas crescerem os custos variáveis em termos absolu 98 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE tos também subirão Do contrário se as vendas caírem os custos variáveis em montante financeiro também reduzirão Os exemplos mais comuns de custos variáveis são aqueles das mercadorias ou dos produ tos vendidos das comissões pagas em relação ao volume de vendas entre outros Figura 2 Custos ou despesas fixos Fonte ssstocker 123RF Custos ou despesas fixos por sua vez são aqueles que se mantêm relativamente constan tes ou seja não variam mesmo que o volume de atividade da empresa se altere Relativa mente constantes no entanto não significa que os valores serão sempre os mesmos A ideia central no conceito de custos e despesas fixos é o fato de que as obrigações deles decorren tes continuarão existindo independentemente de a empresa auferir receitas qualquer que seja o seu nível de operação Enquadramse como possíveis despesas fixas por exemplo as despesas de aluguel os sa lários fixos as despesas de depreciação e amortização os juros sobre empréstimos e finan ciamentos entre outras despesas gerais e administrativas contratadas que não guardam relação com as vendas ou a produção Então 99 CAPÍTULO 4 No entanto a partir do momento em que se aumenta o período de análise e como conse quência há chance de variações maiores no volume de atividade da companhia é preciso se atentar ao fato de que as despesas fixas podem mudar de patamar Ocorre que a empresa não conseguirá crescer de forma mais significativa o seu volume de vendas sempre man tendo a atual estrutura de despesas fixas Em uma empresa industrial por exemplo aumentar as vendas pode significar o aumento na produção e portanto a busca por uma planta de produção maior Isso pode acarretar cres cimento nas despesas fixas de aluguel depreciação e talvez até de pessoal administrativo Dessa maneira para períodos mais longos pode ser que as despesas fixas sofram saltos mantendose em seguida constantes por mais um período e assim por diante Agora da análise entre os custos variáveis o volume de atividade receitas e as despesas fixas surgem os conceitos de margem de contribuição e ponto de equilíbrio A margem de contribuição é definida como a diferença entre o volume de vendas e o custo variável total incorrido Ela pode ser realizada por unidade vendida calculada como a dife rença entre o preço unitário e o custo variável unitário Assim sendo temos que No estudo das despesas fixas assim como no dos custos variáveis o tempo desem penha um papel crucial Isso porque para períodos de análise mais curtos é fácil visualizar que as despesas fixas permane cerão constantes para qualquer volume de vendas Dificilmente a organização mu dará o seu patamar de aluguel salários e outras despesas consideradas fixas Fonte venimo 123RF Então Qt Quantidadetotal Pu Preçounitário Rt Receitatotal Qt Pu CVu Custovariávelunitário CVt Custovariáveltotal CVu Qt Dft Despesa fixatotal MCu Margemdecontribuiçãounitária e MCt Margemdecontribuiçãototal MCu Pu CVu MCt Pu CVu Qt Rt CVt 100 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Considerandose determinada estrutura de custos e despesas o ponto de equilíbrio é defi nido como o nível de atividade em que as vendas se igualam aos custos totais Isto é quan do Rt Df CVt MCt Df Rt CVt Df Da equação acima podese concluir que o ponto de equilíbrio de outro modo pode ser entendido como o volume de atividade receita total para o qual a margem de contribuição total equivale ao total das despesas fixas Assim o ponto de equilíbrio pode ser calculado como o volume de faturamento para o qual 1 Df Rt CVt Rt Como exemplo considere na Tabela 1 o faturamento os custos variáveis as despesas fixas a margem de contribuição e o ponto de equilíbrio das companhias C e D que auferiram em determinado período o mesmo faturamento e lucro operacional C milhares de reais D milhares de reais Receitas R 150000 100 R 150000 100 Custos variáveis R 105000 70 R 75000 50 Margem de contribuição total R 45000 30 R 75000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 5000 R 5000 Ponto de equilíbrio R 133333 R 140000 Tabela 1 Faturamento e custos variáveis Fonte Elaborada pelo autor Observe que apesar de as duas empresas terem auferido a mesma receita e até mesmo o resultado operacional temos que o ponto de equilíbrio de ambas é diferente Isso se deve à diferença entre a estrutura de custos fixos e variáveis das duas companhias 101 CAPÍTULO 4 Se as vendas das empresas C e D subirem 20 vejamos o que aconteceria com o resultado operacional Observe a Tabela 2 C milhares de reais D milhares de reais Receitas R 180000 100 R 180000 100 Custos variáveis R 126000 70 R 90000 50 Margem de contribuição total R 54000 30 R 90000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 14000 R 20000 Tabela 2 Alavancagem operacional Fonte Elaborada pelo autor Podemos notar que o resultado operacional da companhia D subiu mais que o da C Para a mesma variação de 20 nas receitas o lucro operacional da companhia D cresceu 300 portanto 15 vezes o aumento das vendas Já o resultado da companhia C aumentou 180 ou seja nove vezes o crescimento nas vendas De acordo com Assaf Neto 2021 p 120 grifos nossos a alavancagem operacional re vela como uma alteração no volume de atividade influi sobre o lucro operacional da empre sa Nesse contexto o grau de alavancagem operacional representa o impacto percentual observado no resultado operacional da empresa para cada unidade percentual de variação no faturamento LO Rt Variaçãonolucrooperacional LO GAO Variaçãonasreceitas Rt A Tabela 3 apresenta o grau de alavancagem operacional GAO das empresas C e D C D Var resultado operacional 18000 30000 Var vendas 20 20 GAO 9 15 Tabela 3 Grau de alavancagem operacional Fonte Elaborada pelo autor 102 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Assim para cada percentual de variação nas vendas o resultado operacional da empresa D mudará 15 enquanto o da empresa C se alterará em 9 afinal a empresa D tem relativa mente aos custos totais uma participação maior de despesas fixas apresentando maior ca pacidade em alavancar daí o nome de alavancagem operacional seus lucros operacionais É importante observar no entanto que essa característica faz com que a companhia D apre sente sob outro espectro risco operacional superior ao da empresa C devido à sua estrutu ra de despesas fixas mais alta Vejamos nas tabelas 4 e 5 por exemplo o que acontece em caso de queda de 20 nas ven das C milhares de reais D milhares reais Receitas R 120000 100 R 120000 100 Custos variáveis R 84000 70 R 60000 50 Margem de contribuição total R 36000 30 R 60000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 4000 R 10000 Tabela 4 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor C D Var resultado operacional 18000 30000 Var vendas 20 20 GAO 9 15 Tabela 5 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor Portanto de forma oposta no caso de queda nas vendas aquela ligada ao resultado opera cional da companhia D foi superior ao da companhia C mantendose o GAO Dessa maneira percebese que a atuação do GAO ocorre tanto em caso de aumento quanto em caso de redução das vendas indicando não só maior alavancagem dos lucros mas também dos prejuízos 103 CAPÍTULO 4 UNIDADE 2 ALAVANCAGEM FINANCEIRA O resultado operacional das empresas é fruto de suas decisões de investimento um conjun to de ativos que dá suporte às atividades principais Esses investimentos porém precisam ser financiados seja por capital próprio seja por capital de terceiros São essas decisões de financiamento que definem a estrutura de capital da organização determinando em última instância o resultado líquido da empresa para os acionistas SAIBA MAIS É fácil observar que se há apenas capital próprio financiando uma companhia o lucro líquido disponível aos acionistas será o mesmo que o resultado operacional após impostos alcançado nas operações pois não haverá obrigações financeiras a cumprir O que se pretende discutir neste ponto é a alavancagem financeira ou seja a capacidade que a participação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas Uma maneira de avaliar o grau de alavancagem financeira da empresa é comparar de for ma relativa o resultado operacional com o resultado líquido em determinado período As sim temos que NOPAT GAF LL Retomando o exemplo da empresa C utilizado anteriormente podemos calcular o GAF da companhia conforme observado na Tabela 6 104 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Companhia C milhares de reais Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 120000 R 180000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 NOPAT EBIT1T R 25740 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 9000 R 3060 Lucro líquido R 19800 Tabela 6 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor Nesse exemplo portanto o GAF da companhia C será de O GAF pode ser visto como a variação percentual potencial no lucro líquido para dada va riação no resultado operacional da companhia Em outras palavras conforme indica Assaf Neto 2021 temos que 25740 130 19800 NOPAT GAF LL LL LOP LL GAF LOP No exemplo da companhia C vamos supor que para a mesma estrutura de capital a empre sa tenha conseguido um aumento de 10 em seu resultado operacional Diante disso qual será o impacto no lucro líquido da empresa A Tabela 7 demonstra esse incremento 105 CAPÍTULO 4 Companhia C milhares de reais Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 42900 R 14586 R 28314 R 9000 R 3060 Lucro líquido R 22374 Tabela 7 Lucro líquido empresarial Fonte Elaborada pelo autor Portanto para uma variação de 10 no lucro operacional que saiu de R 39000 para R 42900 o lucro líquido cresceu 13 passando de R 19800 para R 22374 Pela fórmula do GAF temos que 1310 13 LL GAF LL GAF LOP LL LOP 13 10 13 LL GAF LL GAF LOP LL LOP Nesse sentido quanto maior o grau de alavancagem financeira maior é o potencial de a utilização de capital de terceiros alavancar os resultados para os acionistas No entanto é importante lembrar que o impacto da alavancagem ocorre também nos dois sentidos As sim caso o resultado operacional tenha uma queda de 10 o lucro líquido disponível aos acionistas da companhia será impactado de forma mais que proporcional devido à alavan cagem financeira Nesse caso a queda esperada no LL será dada por Isso pode ser confirmado com a Tabela 8 Companhia C milhares de reais Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 35100 R 11934 R 23166 R 9000 R 3060 Lucro líquido R 17226 Tabela 8 Lucro operacional Fonte Elaborada pelo autor 106 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Assim para uma queda de 10 no resultado operacional da empresa que saiu de R 39000 para R 35100 o lucro líquido reduziu de R 19800 para R 17226 tendose uma queda de 13 como o GAF já previa Grau de alavancagem financeira e rentabilidade O grau de alavancagem financeira GAF tem relação direta com a rentabilidade da em presa e o custo da dívida Vejamos na Tabela 9 a relação entre o retorno dos investimentos da companhia C ROI o custo da dívida e líquido de IR Kd e o retorno sobre o patrimônio líquido da empresa ROE Companhia C milhares de reais Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 120000 R 180000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 Retorno do investimento ROI 858 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 9000 R 3060 Custo da dívida Kd Líquida de IR 495 Lucro líquido R 19800 Retorno sobre o PL ROE 1100 Tabela 9 Rentabilidade da empresa e o custo da dívida Fonte Elaborada pelo autor O ROI da companhia C foi de 858 Como visto anteriormente essa medida indica a capaci dade de a empresa gerar resultado operacional tendo relação com suas decisões de inves timentos O ROE por outro lado também é influenciado pelas decisões de financiamento da empresa Nesse caso ele é 11 superior ao ROI Não é difícil visualizarmos que o ROE deveria ser exatamente igual ao ROI caso a companhia fosse 100 financiada com capital próprio afinal não haveria despesas financeiras e o lucro operacional após impostos se igualaria ao lucro líquido após impostos Além disso o investimento total seria igual ao PL 107 CAPÍTULO 4 No exemplo a companhia financia seus investimentos em parte com dívida que tem um custo de 495 líquido de IR Como o ROI é superior ao custo da dívida essa diferença é entregue aos acionistas A Tabela 10 nos mostra a comparação entre ROI Kd e ROE para diferentes estruturas de capital da companhia C Companhia C milhares de reais Estruturas de capital 1 2 3 Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 000 R 300000 R 300000 R 120000 R 180000 R 300000 R 180000 R 120000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administra tivas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 Retorno do investimento ROI 858 858 858 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 000 R 000 R 9000 R 3060 R 13500 R 4590 Custo da dívida Kd Líquida de IR 495 495 Lucro líquido R 25740 R 19800 R 16830 Retorno sobre o PL ROE 858 1100 1403 Tabela 10 Estruturas de capital Fonte Elaborada pelo autor Na estrutura de capital 1 quando não há dívida e como já se desconfiava o ROE é exatamente igual ao ROI ou seja 858 Ao se passar para a estrutura de capital 2 em que a companhia C tem dívidas de 40 em relação ao capital total observase que o ROE subiu para 11 Isso porque a empresa consegue rentabilizar suas operações ROI que foi de 858 acima do seu custo da dívida Kd de 495 Essa diferença positiva fica para os proprietários O mesmo é observado na estrutura 3 em que o endividamento sobe para 60 Nesse caso o ROE foi ainda maior 1403 108 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Interessante notar que no exemplo em questão a análise recai para mudanças na estrutura de capital da companhia para um mesmo resultado operacional É um pouco diferente da análise anterior quando a análise ocorreu para o impacto do aumento no resultado opera cional da companhia nos lucros líquidos para dada estrutura de capital Nesse sentido nessa análise de mudança na estrutura de capital apesar da aparente que da nos lucros líquidos ela se dá para aportes em patrimônio líquido cada vez menores e proporcionalmente menores de maneira que o ROE cresça Podese inferir portanto que enquanto o ROI for maior que o custo da dívida o ROE será maior que o ROI e a empresa terá um grau de alavancagem financeira maior que 1 Considerando as análises de Assaf Neto 2021 a Tabela 11 apresenta as possíveis relações Se Identifica Denota GAF 1 ROE ROI ROI Kd GAF 1 ROE ROI ROI Kd GAF 1 ROE ROI ROI Kd Tabela 11 Relações entre ROI e ROE Fonte Assaf Neto 2021 p 227 TOME NOTA No exemplo anterior considerouse que o custo da dívida se manteve constante ao aumentar o endividamento da empresa de 40 para 60 Na prática sabese que o custo da dívida assim como o retorno esperado pelos acionistas alterase con forme a dívida aumenta Isso ocorre espe cialmente por conta do aumento do risco de falência ou seja devido ao risco de a companhia não conseguir cumprir com seus compromissos financeiros assumi dos Na análise financeira essas altera ções devem ser consideradas pelo analista em suas conclusões Fonte rastudio123RF 109 CAPÍTULO 4 UNIDADE 3 ANÁLISE DO FLUXO DE CAIXA A análise do fluxo de caixa é de vital importância no processo de análise da situação econô micofinanceira de uma organização pois fornece informações complementares aos índices tradicionais de desempenho econômico situação financeira e risco de inadimplência É pela análise do fluxo de caixa que se pode identificar o caixa gerado nas operações da empresa avaliando se foi suficiente para cobrir as necessidades de investimento em capi tal de giro e ainda garantir o cumprimento das obrigações com terceiros em termos de pagamento de juros e amortizações e contribuir para os investimentos em imobilizado ou intangíveis Do contrário a empresa precisará de novas captações de recursos Fonte rawpixel 123RF Os fluxos de caixa também têm sido utilizados como fonte para a construção de índices que complementam ou modificam os de análise tradicionalmente aplicados Sem falar nos as pectos prospectivos uma vez que ao avaliar as empresas são os fluxos de caixa livres da empresa ou do acionista que geralmente se utiliza como referência para a capacidade de geração de benefícios econômicos futuros Fluxo de caixa das atividades operacionais A capacidade de geração de caixa da empresa no desenvolvimento de suas atividades é o ponto de partida da análise do fluxo de caixa Em termos econômicos o DRE é a demons tração financeira que apresenta o resultado operacional da empresa Entretanto sabese 110 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE que devido ao regime de competência e à existência de algumas despesas econômicas o DRE não representa exatamente a capacidade de geração de caixa da empresa Há despesas registradas no DRE que não representam saídas de caixa como é o caso da depreciação e amortização ou aquelas que são frutos de atividades de financiamento como o pagamento de juros Pelo método indireto após realizados esses ajustes a partir do lucro líquido do exercício chegase ao caixa gerado nas operações Com base no caixa gerado nas operações podese avaliar a capacidade de a empresa quitar suas obrigações com terceiros e ainda realizar novos investimentos Se negativo a organi zação possivelmente entrará em situação de dificuldade financeira e precisará cobrir suas necessidades de caixa com recursos não operacionais como venda de ativos ou novos apor tes de recursos No último caso tenderia a aumentar a situação de insolvência da organiza ção considerando o aumento das obrigações com terceiros TOME NOTA Na demonstração do fluxo de caixa o caixa gerado por algumas atividades não recorrentes como o ganho ou a perda na venda de ativos do imobilizado podem impactar o caixa gerado nas operações Se o analista assim considerar poderá fazer os ajustes necessários antes de sua análise O Quadro 1 apresenta um modelo de fluxo de caixa das atividades operacionais Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS OPERACIONAIS Resultado líquido LL Depreciação Aumentoredução de duplicatas a receber Aumentoredução em estoques Aumentoredução em fornecedores Redução em salários a pagar Outros Caixa líquido das atividades Quadro 1 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos operacionais Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 111 CAPÍTULO 4 Também relacionado às operações é preciso lembrar que parte das receitas podem não ter sido recebidas no período enquanto as vendas realizadas no período anterior foram rece bidas Parte das compras pode ser paga apenas no próximo período enquanto as compras do período passado podem ter sido quitadas no período atual Por tais razões na análise do fluxo de caixa operacional são feitos ajustes nas contas de ativos e passivos circulantes conhecidos como variações nos ativos e passivos Exemplo se uma empresa iniciou o período com contas a receber de R 2000000 vendeu R 10000000 mas encerrou com contas a receber de R 3000000 o que isso significa em termos de fluxo de caixa Ora se a empresa tivesse recebido o montante total de suas vendas ela teria recebido R 12000000 R 2000000 a receber do período anterior e R 10000000 das vendas do período atual No entanto como ainda restaram R 3000000 em contas a receber no final do período então a organização recebeu apenas R 9000000 no período Os R 1000000 a menos em relação às vendas representa exatamente o aumento das contas a receber R 3000000 R 2000000 Por essa razão precisam constar da análise do fluxo de caixa da empresa Em resumo as receitas da companhia sob o ponto de vista da DRE foram de R 10000000 mas analisando pela ótica do fluxo de caixa foram de R 9000000 O raciocínio análogo deve ser feito para as demais contas do ativo e passivo circulantes como estoques fornecedores e impostos a pagar De forma geral aumentos em contas do ativo circulante e reduções em contas do passivo circulante representam reduções de caixa ao passo que reduções em contas do ativo circulante e aumentos nas contas do passivo cir culante indicam aumento de caixa Os incrementos nas contas dos ativos e passivos circulantes operacionais da companhia estão relacionados geralmente ao crescimento das vendas e aos ciclos operacionais deter minantes da necessidade de capital de giro da organização Fluxo de caixa das atividades de financiamento O fluxo de caixa das atividades de financiamento está relacionado diretamente à estrutura de capital da empresa ou seja às diferentes fontes de recursos que financiam as opera ções São contabilizados por exemplo os pagamentos de juros sobre empréstimos e finan ciamentos o arrendamento mercantil os juros sobre capital próprio e dividendos além das amortizações e novas captações de empréstimos captações de ações entre outros O Quadro 2 apresenta a estrutura do fluxo de caixa das atividades de financiamento 112 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS DE FINANCIAMENTO Integralização de aumento de capital Amortização de empréstimos e financiamentos Recebimentopagamento de dividendos Novas captações de empréstimos e financiamentos Outros Caixa líquido de financiamentos Quadro 2 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos de financiamento Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Em uma primeira análise podese avaliar se o fluxo de caixa gerado nas atividades operacio nais é capaz de cobrir os custos financeiros da utilização de capital de terceiros A geração de caixa operacional deve ser suficiente para o pagamento dos juros a fim de a companhia não entrar em uma situação de insolvência Em caso negativo a empresa provavelmente precisará recorrer a novos empréstimos ou receitas extraordinárias não operacionais para honrar com suas obrigações Um passo além esperase que o caixa livre após o pagamento de juros também contribua para o pagamento de ao menos parte da amortização dos empréstimos de modo propor cional ao prazo restante para a quitação Marion 2019 p 187 nos informa que Se a empresa gerou caixa para pagar percentuais pelo menos acima de 50 da dívida vencida a situação não é tão dramática Note que o au tor menciona sobre a dívida vencida De fato se a amortização está prevista para ocorrer por exemplo em cinco anos e a geração de caixa da companhia após os juros for suficiente para amortizar ao menos 20 da dívida total então a situação está sob controle Por fim vale mencionar que nos fluxos de caixa das atividades de financiamento o analista ainda identifica as novas captações de recursos realizadas pela empresa A análise do fluxo de caixa nos permite avaliar o destino de tais recursos que idealmente deveriam ser dire cionados a novos investimentos mesmo que em capital de giro Fluxo de caixa das atividades de investimento O fluxo de caixa das atividades de investimento evidencia as decisões de investimento da empresa É nele que são contabilizados o pagamento eou recebimento de aquisiçãovenda de ativos imobilizados e investimentos bem como o pagamento de ativos intangíveis da empresa 113 CAPÍTULO 4 Figura 3 Fluxo de caixa de investimento Fonte Elnur Amikishiyev 123RF Idealmente esses fluxos devem ser cobertos pela geração de caixa operacional da empresa após os juros e as amortizações de empréstimos e financiamentos ainda que não totalmen te Se não forem esperase que estejam alinhados ao caixa gerado pelas novas captações de recursos especialmente de longo prazo O Quadro 3 nos apresenta um modelo de fluxo de caixa das atividades de investimentos Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS DE INVESTIMENTOS Pagamento na compra de imobilizado Recebimento pela venda de imobilizado Outros Caixa líquido de investimentos Quadro 3 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos de investimentos Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Marion 2019 nos brinda com a proposição de alguns índices que podem ser levantados a partir da análise das DFC São eles cobertura de juros e capacidade de quitar dívidas 114 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE A cobertura de juros se trata de um índice que avalia a capacidade de a empresa pagar juros a partir do caixa gerado nas operações Marion 2019 destaca que esse caixa gerado deve ser analisado antes dos juros e impostos Caixa geradonasoperações CJ Juros pagosno período Assim se uma empresa gerou caixa de R 20000 em suas operações por exemplo e pagou R 1000000 em juros no mesmo período ela terá cobertura de juros igual a dois Isso sig nifica que a organização precisou operar durante metade do período apenas para cobrir o pagamento de juros Outra relação sugerida por Marion 2019 é entre o caixa gerado nas operações agora após o pagamento de juros e dividendos ou seja após o cumprimento das obrigações de encargos financeiros com capital próprio e de terceiros e o total de financiamentos one rosos da companhia que poderia incluir as dívidas de longo prazo apenas ou a dívida total Estamos nos referindo à capacidade de a empresa quitar dívidas Caixa geradonasoperaçõesapósobrigações financeiras Cqd Financiamentosoneros Se a organização apresenta uma geração de caixa após deduzidos os juros e dividendos de R 1500000 e possui dívidas totais de R 15000000 então o índice de capacidade de quitar dívidas será de 010 Isto é a geração de caixa nesse caso seria suficiente para quitar apenas 10 da dívida Marion 2019 ainda apresenta outros índices como a taxa de retorno do caixa o nível de recebimento de vendas e a capacidade de novos investimentos 115 CAPÍTULO 4 NA PRÁTICA A demonstração dos fluxos de caixa da companhia JCDM indica geração de caixa nas operações de R 8000000 pagamento de juros de R 2000000 e pagamento de dividendos iguais a R 2000000 Sabe se ainda que a dívida total da companhia é de R 20000000 a ser amortizada em oito anos Com base nessas informações calcule e analise os índices de cobertura de juros e a capacidade de quitar dívidas da organização Solução A cobertura de juros igual a quatro sinaliza que a empresa gera R 400 de caixa em suas operações para cada R 100 de custo da dívida ou juros De outro modo isso indica que a companhia opera ¼ do período para pagar juros A capacidade de quitar dívidas igual a 020 indica que a companhia consegue gerar caixa de suas operações após o pagamento de juros e dividendos suficiente para quitar 20 da sua dívida total Nesse ritmo poderia quitála em cinco anos Como a dívida pode ser amortizada em até oito anos podese inferir que o caixa gerado nas operações é suficiente para pagar juros e dividendos amortizar a dívida e ainda contribuir para eventuais necessidades de reinvestimento na empresa 8000000 4 CJ 2000000 8000000 2000000 2000000 4000000 020 20000000 20000000 Cqd RESUMO Neste capítulo estudamos tópicos adicionais de análise que permitem complementar o es tudo da situação econômicofinanceira das empresas Inicialmente foi apresentado o grau de alavancagem operacional da empresa que representa o impacto percentual observado no resultado operacional da organização para cada unidade o percentual de variação no faturamento e os riscos daí decorrentes Entre outros conceitos pudemos compreender os aspectos fundamentais dos custos variáveis das despesas fixas da margem de contribui ção do ponto de equilíbrio e do grau de alavancagem operacional 116 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Em seguida nosso estudo avançou para a alavancagem financeira capacidade que a partici pação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas O GAF foi apresentado em termos da relação entre o NOPAT e o LL considerandose uma mesma estrutura de capital Tam bém foi realizada uma análise para diferentes estruturas em que o GAF foi abordado como uma relação entre as taxas de rentabilidade da companhia especialmente o ROI e o ROE Por fim pudemos nos aprofundar quanto à análise do fluxo de caixa em que se destacou a segmentação dos fluxos de caixa das atividades operacionais de investimento e financia mentos assim como a relação entre elas Ainda foi possível estudar a adoção de índices a partir das informações de geração de caixa da companhia os quais complementam ou me lhoram os índices tradicionais REFERÊNCIAS ASSAF NETO A Estrutura e análise de balanços 12 ed São Paulo Atlas 2021 ASSAF NETO A Finanças corporativas e valor 6 ed São Paulo Atlas 2012 ASSAF NETO A Valuation métricas de valor e avaliação de empresas 3 ed São Paulo Atlas 2020 BRASIL Lei n 6404 de 15 de dezembro de 1976 Dispõe sobre as sociedades por ações Brasília Congresso Nacional 2019 Disponível em httpwwwplanaltogovbrccivil03 leisl6404compiladahtm Acesso em 18 abr 2021 COSTA L G A LUND M L M P Análise econômicofinanceira Rio de Janeiro FGV 2018 CPC Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC 00 R2 estrutura conceitual para relató rio financeiro Brasília CPC 2019 Disponível em httpwwwcpcorgbrCPCDocumentos EmitidosPronunciamentosPronunciamentoId80 Acesso em 21 abr 2021 DAMODARAN A Avaliação de investimentos ferramentas e técnicas para a determinação do valor de qualquer ativo Rio de Janeiro Qualitymark 2005 MARION J C Análise das demonstrações contábeis 8 ed São Paulo Atlas 2019 MARTINS E MIRANDA G J DINIZ J A Análise didática das demonstrações contábeis 3 ed São Paulo Atlas 2020 MATARAZZO D Análise financeira de balanços abordagem gerencial 7 ed São Paulo Atlas 2015

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1 APRESENTAÇÃO ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 0000 Dahbar Júlio César Análise das Demonstrações Financeiras Júlio César Dahbar Cidade Grupo Ibmec Educacional 2021 00 p 21x297 cm Inclui bibliografia 1 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 1 2 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 3 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO 4 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Dahbar Júlio César II Ibmec Online III Análise das Demonstrações Financeiras CDD 0000000 SUMÁRIO CAPÍTULO 1 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS 08 Unidade 1 Objetivo e Usuários da Análise das Demonstrações Financeiras 11 Unidade 2 Contabilidade O Ponto de Partida 13 Unidade 3 Cuidados para a Análise 27 Unidade 4 Metodologia de Análise 35 CAPÍTULO 2 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 42 Unidade 1 Análise de Liquidez e Atividade 45 Unidade 2 Análise da Necessidade de Capital de Giro NCG 51 Unidade 3 Análise de Endividamento e Risco de Inadimplência 56 Unidade 4 Análise da Situação Financeira e Endividamento na Prática 62 CAPÍTULO 3 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO 68 Unidade 1 Índices de Rentabilidade 71 Unidade 2 Índices de Lucratividade e Giro 76 Unidade 3 Valor Econômico Adicionado EVA 81 Unidade 4 Análise do Desempenho Econômico na Prática 89 CAPÍTULO 4 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE 94 Unidade 1 Alavancagem Operacional e Ponto de Equilíbrio 97 Unidade 2 Alavancagem Financeira 103 Unidade 3 Análise dos Fluxos de Caixa 109 REFERÊNCIAS 116 4 NOME DA DISCIPLINA INTRODUÇÃO A análise das demonstrações financeiras envolve o conhecimento a utilização e a interpretação de índices que facilitam a compreensão da situação econômico financeira das empresas Permite ao analista conhecer e apresentar conclusões sobre o desempenho econômico a situação financeira e o risco de inadimplência da companhia fornecendo informações que apoiam a tomada de decisões financeiras de todos aqueles que se relacionam com a companhia Dentre os potenciais interessados na análise é possível destacar os acionistas os credores os bancos o governo os empregados os fornecedores os clientes etc O estudo da análise das demonstrações financeiras proposto envolverá quatro etapas Inicialmente no Capítulo 1 serão abordados os aspectos fundamentais um background um conjunto de fundamentos que possibilita que o profissional desenvolva e apresente um relatório de análise mais abrangente completo e de qualidade Em seguida nos Capítulos 2 e 3 serão aprofundados os estudos da análise da situação financeira endividamento e risco de inadimplência assim como da análise do desempenho econômico das empresas Serão abordados aspectos como os índices de liquidez o ciclo operacional e financeiro a necessidade de capital de giro e as formas de financiamento e métricas de endividamento e inadimplência Na análise do desempenho econômico serão vistos os principais índices de rentabilidade e lucratividade além de um estudo detalhado do Valor Econômico Adicionado Economic Value Added EVA No último capítulo serão abordados tópicos adicionais de análise que permitirão ao analista complementar a análise e detalhar as conclusões Serão estudados a alavancagem operacional os custos variáveis e as despesas fixas a margem de contribuição e o ponto de equilíbrio A alavancagem financeira será apresentada sob diferentes aspectos em uma abordagem abrangente e será detalhada a análise do fluxo de caixa No processo além de destacar os principais conceitos e teorias a respeito dos temas serão apresentados exemplos e em alguns casos aplicações práticas das análises e dos índices estudados como forma de permitir a você uma formação não apenas no nível teórico mas também com o objetivo de desenvolver habilidades práticas para construir as competências necessárias sobre o assunto 5 APRESENTAÇÃO OBJETIVOS DO CURSO Após concluir o estudo da disciplina Análise das demonstrações financeiras você será capaz de compreender os objetivos e os diferentes usuários da análise das demonstrações financeiras conhecer o papel da contabilidade como ponto de partida para a análise estar atentoa aos cuidados necessários no processo de análise e seguir uma metodologia de análise proposta calcular e interpretar os principais índices de liquidez e de atividade além de avançar nos estudos sobre a necessidade de capital de giro identificar e utilizar métricas que apoiam a análise de risco de inadimplência e endividamento avaliar os diferentes índices de lucratividade e rentabilidade assim como as relações entre ambas estimar e interpretar o Valor Econômico Adicionado Economic Value Added EVA compreender a alavancagem operacional e financeira avançar na interpretação da análise dos fluxos de caixa CARTA AO ALUNO Caroa alunoa como teremos a oportunidade de estudar ao longo do nosso curso a análise das demons trações financeiras fornece aos usuários uma visão abrangente da situação econômicofi nanceira das empresas Tratase de uma disciplina fundamental para que se possa avaliar as decisões de investimento operacionais e de financiamento das companhias confrontar com os resultados esperados sugerir correções e propor decisões É um tema que interessa não apenas aos gestores da companhia na busca por melhor desempenho mas também a todos os que se relacionam com a instituição como credores fornecedores clientes empregados proprietários apoiandose nas análises para a tomada de decisão Nesse sentido adquirir competências relacionadas à análise das demonstrações financeiras deve constituir o processo de formação de todo profissional de administração finanças contabilidade controladoria auditoria e de outras áreas cujas atividades impactam o de sempenho econômicofinanceiro da organização Para isso evidentemente é preciso agre gar um conjunto de conhecimentos teóricos com habilidades práticas essenciais para uma adequada avaliação interpretação e conclusão Desejamos sucesso no curso Equipe Ibmec online DIRETRIZES PEDAGÓGICAS Em um curso online o aluno é o principal agente de aprendizado Para que os estudos da disciplina sejam eficientes e eficazes algumas recomendações podem ser dadas como dicas organize o tempo escolhendo os melhores dias e horários para realizar a disciplina em caso de dúvida consulte as referências bibliográficas o glossário e o material de apoio releia o conteúdo sempre que achar que um assunto não ficou suficientemente claro leia os textos complementares indicados faça os exercícios de feedback automático e participe dos fóruns com seu professor e seus colegas de turma 8 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Capítulo 1 9 CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO A análise das demonstrações financeiras envolve o conhecimento a utilização e a interpretação de índices que facilitam a compreensão da situação econômico financeira das empresas No entanto antes de utilizar tais índices e para melhor calculálos e interpretálos é necessário estabelecer um background um conjunto de fundamentos que permite que o profissional desenvolva e apresente um relatório de análise mais abrangente completo e de qualidade Este capítulo apresenta os aspectos introdutórios porém fundamentais da análise das demonstrações financeiras Serão apresentados os objetivos e os diferentes usuários da análise etapa importante para compreender as necessidades e expectativas dos diferentes usuários Conhecer essas demandas é fundamental para alinhar as expectativas e atender adequadamente aos objetivos Em seguida serão apresentadas as principais demonstrações financeiras que a contabilidade das empresas pode fornecer Entender o processo de construção dessas informações é essencial para saber como utilizálas mas também para poder criticar a sua qualidade Por fim serão introduzidas as principais técnicas de análise utilizadas no processo Será proposta ainda uma metodologia de etapas para o processo de análise como forma de apoio ao racional que pode ser seguido pelos analistas 10 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender quais são os usuários da análise das demonstrações financeiras qual o objetivo da análise da situação econômicofinanceira das empresas o papel e as características das principais demonstrações financeiras a importância de averiguar a qualidade das informações disponíveis a necessidade de criticar a contabilidade as principais técnicas utilizadas no processo de análise as etapas do processo de análise Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos apresentados este capítulo está dividido em Unidade 1 Objetivo e usuários da análise das demonstrações financeiras Unidade 2 Contabilidade o ponto de partida Unidade 3 Cuidados para a análise Unidade 4 Metodologia de análise 11 CAPÍTULO 1 UNIDADE 1 OBJETIVO E USUÁRIOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS A análise das demonstrações financeiras também conhecida como análise das demonstra ções contábeis tem o objetivo de calcular e interpretar informações a respeito da situação econômicofinanceira das empresas por meio de um conjunto de técnicas e indicadores SAIBA MAIS Alguns autores e usuários ainda se referem à análise das demonstrações financeiras apenas como análise de balanços Na prática as duas denominações representam o mesmo objetivo e a história ajuda a compreender isso Como indica Marion 2019 essa expressão foi introduzida quando os bancos americanos inicialmente no final do século XIX solicitavam as demonstrações praticamente o balanço às empresas que desejavam contrair empréstimos O autor ainda reforça como argumento para o uso da expressão análise de balanços o fato de a demonstração do resultado do exercício ter sido conhecida em certo período como balanço econômico ou balanço de resultado e a denominação do fluxo de caixa já ter sido conhecida como balanço financeiro A partir da análise das demonstrações financeiras surgem informações como a companhia Alfa conquistou este ano margem bruta de 30 ou seja dois pontos percentuais acima da margem alcançada no mesmo período do ano passado e em linha com a margem bruta do setor Da mesma forma o resultado operacional também foi considerado satisfatório A empresa alcançou pelo terceiro ano consecutivo crescimento no EBITDA mantendose acima da média do seu setor A margem líquida por outro lado foi negativamente afetada pelo aumento das despesas financeiras e fechou o ano em apenas 3 bem abaixo da média do segmento Com isso o retorno sobre o patrimônio líquido ROE atingiu 7 aa abaixo do custo de capital próprio estimado para a empresa de 10 aa A companhia iniciou neste ano um processo de readequação em sua estrutura de capital com o objetivo de reduzir o endividamento atualmente em 40 DE e então aliviar o resultado financeiro Apesar disso a situação de caixa da empresa liquidez permanece confortável devido principal mente a sua política de compras agressiva que garante à companhia um ciclo financeiro curto e consequentemente uma Necessidade de Capital de Giro NCG bem abaixo dos seus principais concorrentes 12 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Nesse exemplo percebese que de forma mais específica a análise das demonstrações financeiras permite avaliar a capacidade de geração de lucro e riqueza da empresa em um determinado período medir a capacidade de pagamento das obrigações analisar a geração de caixa acompanhar a evolução dos resultados financeiros e econômicos ao longo do tem po e comparar o desempenho da empresa com o de outras do mesmo setor Portanto pela análise das demonstrações financeiras é possível extrair informações sobre a situação passada e presente das empresas mas que também podem ser utilizadas como insumo para projeções acerca de sua situação futura Por essa razão constituemse como instrumental essencial no apoio à tomada de decisões pelos diversos usuários da análise Daí a relevância de se conhecer as demandas dos inúmeros interessados na análise da situ ação econômicofinanceira das companhias As sociedades constituídas com o propósito de explorar determinada atividade econômica têm como principal objetivo em um sentido mais geral a criação de riqueza Pensando em uma empresa em seu início de vida por exemplo o dono ou sócios só estariam dispostos a aportar seus recursos no negócio se acreditarem na capacidade da empresa de remunerar adequadamente o capital investido Para conquistar tal objetivo os proprietários precisarão evidentemente acompanhar e to mar decisões sobre inúmeras questões mercadológicas tributárias operacionais e legais Mas para visualizar se estão no caminho correto e corrigir os rumos quando necessário tornase imprescindível conhecer e analisar a situação econômicofinanceira da empresa Essa visão isolada já seria suficiente para compreendermos a importância do assunto No entanto não podemos nos esquecer de que os proprietários acionistas ou sócios de uma empresa não são os únicos interessados na instituição portanto não são os únicos benefi ciados pelo processo de análise das demonstrações financeiras As instituições financeiras ao conceder crédito para as empresas não raro solicitam as prin cipais informações contábeis dos seus clientes com o objetivo de conhecêlos melhor cal cular os riscos e estabelecer as condições taxas e prazos sobre as quais a concessão do empréstimo ou financiamento seria autorizado Da mesma maneira também se beneficiam da análise das demonstrações financeiras os fornecedores ao negociar produtos ou serviços para pagamento a prazo os clientes espe cialmente quando precisam estabelecer uma relação de longo prazo e de confiança com a empresa as instituições governamentais ao conceder benefícios ou financiamentos e também em relação ao cálculo e pagamento de tributos os concorrentes preocupados em comparar o seu desempenho ao dos principais players do setor e por que não os próprios funcionários interessados em conhecer a saúde financeira da empresa ansiosos com a ma nutenção dos seus empregos 13 CAPÍTULO 1 E à medida que as empresas ganham corpo crescem e se tornam companhias surgem no vos interessados nos benefícios da análise das demonstrações financeiras Os investidores por exemplo sejam em ações ou títulos de dívidas certamente irão buscar informações por meio da análise das demonstrações financeiras que lhes apoiem na tomada de decisão de investimentos além do fato de essas companhias em boa parte passarem a ser acom panhadas por analistas de mercado gestores de fundos de investimentos e consultores de investimentos Figura 1 Demonstrações financeiras Fonte Adaptada de Martins Miranda e Diniz 2020 p 4 UNIDADE 2 CONTABILIDADE O PONTO DE PARTIDA A contabilidade apresentase como ponto de partida para a análise das demonstrações fi nanceiras uma vez que fornece um conjunto de informações estruturadas periódicas e padronizadas sobre a companhia não apenas quanto à sua situação patrimonial mas tam bém em relação ao seu desempenho econômico e geração de caixa De acordo com Martins Miranda e Diniz 2020 a Contabilidade deve ser compreendida como modelo de represen tação da situação econômicofinanceira de uma entidade 14 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Cabe ao analista estudar as informações contábeis divulgadas ou preparadas extrair os dados necessários para a construção dos índices de interesse e então tirar suas conclu sões Por isso conhecer a contabilidade e as principais demonstrações contábeis disponí veis ou que se possa construir é o ponto de partida do processo de análise Nesse sentido as principais demonstrações contábeis utilizadas no processo de análise são o balanço patrimonial a demonstração do resultado do exercício e a demonstração do fluxo de caixa TOME NOTA A Lei 640476 que dispõe sobre as sociedades por ações estabelece em seu Artigo 176 a respeito das demonstrações financeiras que devem ser elaboradas ao fim de cada exercício social São elas balanço patrimonial demonstração dos lucros ou prejuízos acumulados demonstração do resultado do exercício demonstração dos fluxos de caixa e demonstração do valor adicionado se for companhia aberta O mesmo normativo estabelece que as demonstrações serão complementadas por notas explicativas e outros quadros analíticos ou demonstrações contábeis necessárias para esclarecimento da situação patrimonial e dos resultados do exercício Todas essas informações e demonstrações podem e devem ser utilizadas no processo de análise da situação econômicofinanceira da companhia Balanço Patrimonial BP O Balanço Patrimonial BP é a demonstração financeira que apresenta a situação financei ra e patrimonial da empresa em uma data específica Como é comum ouvir nas aulas de contabilidade o BP é uma espécie de fotografia que apresenta quando tirada a situação patrimonial da companhia naquele momento Tratase portanto de um conjunto de infor mações estáticas mas a partir do qual é possível extrair ricas informações sobre a situação econômicofinanceira da empresa 15 CAPÍTULO 1 Por essa razão alguns autores a consideram uma das principais demonstrações no proces so de análise De acordo com Martins Miranda e Diniz 2020 o balanço patrimonial é uma das demonstrações contábeis mais importantes aos processos de tomada de decisão por parte dos usuários das informações oriundas da contabilidade A estrutura do balanço patrimonial é composta por ativos que representam os bens e di reitos da empresa e passivos que podem ser obrigações dívidas ou patrimônio líquido capital próprio Ativos Os ativos podem ser vistos como o destino da aplicação de recursos da empresa ou as con tas que recebem os recursos da empresa com o objetivo de gerar ou apoiar a geração de benefícios futuros Quando a empresa concede prazo de pagamento aos seus clientes ao realizar uma venda por exemplo essa conta créditos a receber ou clientes ou contas a receber será caracterizada como um ativo um direito da empresa utilizado como apoio na geração de receita Da mesma maneira se uma empresa decide adquirir ou desenvolver um novo aplicativo de vendas e atendimento a clientes o montante despendido tornase um ati vo na medida em que se espera que tal aquisição possa vir a colaborar com o aumento das vendas ou com a melhoria da eficiência operacional da companhia nos próximos exercícios FIQUE ATENTO O CPC 00R2 define ativo como recurso econômico presente controlado pela entidade como resultado de eventos passados em que recurso econômico é um direito que tem o potencial de produzir benefícios econômicos Por representarem bens e direitos os ativos são apresentados no Balanço Patrimonial em ordem decrescente de liquidez e são subdivididos em ativos circulantes e ativos não circu lantes O Quadro 1 ilustra a estrutura de apresentação das contas dos ativos 16 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Quadro 1 Estrutura de apresentação de contas dos ativos Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Ativo circulante No ativo circulante são contabilizados os bens e direitos realizáveis no curto prazo aqueles de maior liquidez da empresa em que são classificadas as disponibilidades ou equivalentes de caixa e todos os bens ou direitos que podem ser convertidos em dinheiro ou consumidos nas operações dentro do prazo de 12 meses COMENTÁRIO DO AUTOR Prazo de 12 meses Para as empresas que têm ciclos operacionais iguais ou inferiores a um ano MARTINS MIRANDA DINIZ 2020 Para Costa e Lund 2018 o grupo ativo circulante são contas que estão sempre em movi mento giro sendo que a conversão em dinheiro será no máximo no próximo exercício social Incluemse nesse grupo o disponível caixa e equivalentes as contas a receber os estoques e outros créditos ou direitos de curto prazo 17 CAPÍTULO 1 Ativo não circulante Os ativos não circulantes em contraposição representam aqueles de mais longo prazo e de menor liquidez e estão subdivididos em realizável a longo prazo como o próprio nome sugere representam os bens e direitos realizáveis no longo prazo em geral após 12 meses do encerramento do exercício Inclui empréstimos adiantamentos ou vendas realizados a diretores acionistas sociedades coligadas ou controladas etc ainda que realizáveis no curto prazo investimentos representam as aplicações financeiras de caráter mais permanente realizadas com o objetivo de investimento Em geral não são necessárias para as ativida des operacionais da empresa Incluem por exemplo terrenos para investimento imóvel para auferir renda obras de artes participações acionárias em outras entidades que não se destinam à venda dentre outros ativos similares imobilizado são os bens e direitos corpóreos de caráter mais permanente utilizados na atividade principal da empresa Os exemplos mais comuns incluem imóveis salas galpões prédios máquinas e equipamentos intangível assim como o imobilizado os ativos intangíveis são destinados à atividade principal da empresa mas representam bens e direitos não corpóreos como direitos autorais patentes e marcas ou ágio por expectativa de rentabilidade futura goodwill Passivo e patrimônio líquido Os passivos em contraponto são as obrigações da empresa Representam as fontes de financiamento dos ativos que podem ser onerosas ou não exigíveis ou não Ao comprar mercadorias a prazo por exemplo a dívida assumida fica registrada em uma conta do passi vo Fornecedores que se caracteriza como uma conta exigível mas não onerosa O mesmo ocorre para outras contas a pagar tributos a pagar Por outro lado se a companhia contrata empréstimos ou financiamentos ou capta recursos por intermédio da emissão de títulos as obrigações assumidas também irão ser registradas em contas do passivo classificadas como exigíveis e onerosas O patrimônio líquido da empresa por outro lado representa as fontes de captação de re cursos próprios da empresa capital social reservas de lucros etc Pode ser visto como re sultado da diferença entre o ativo total e o seu passivo exigível circulante e não circulante Observe na Tabela 1 um exemplo de balanço patrimonial com as contas do ativo da com panhia Magazine Luiza 18 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS MAGAZINE LUIZA BALANÇO PATRIMONIAL ATIVO milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Ativo Total R 879674100 R 1979107300 R 2464720300 Ativo Circulante R 641239000 R 1284116100 R 1679881000 Caixa e Equivalente de Caixa R 59908700 R 30574600 R 168137600 Aplicações Financeiras R 40911100 R 444815800 R 122177900 Contas a Receber R 205155700 R 291503400 R 476189900 Estoques R 281024800 R 380176300 R 592723600 Tributos a recuperar R 30369100 R 86414400 R 71611800 Outros Ativos Circulantes R 23869600 R 50631600 R 249040200 Ativo Não Circulante R 238435100 R 694991200 R 784839300 Realizável a Longo Prazo R 72281400 R 174870300 R 185099500 Investimentos R 30846200 R 30509100 R 38672500 Imobilizado R 75425300 R 335049000 R 372367600 Intangível R 59882200 R 154562800 R 188699700 Tabela 1 Balanço patrimonial com as contas do ativo da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online TOME NOTA O CPC 00 R2 dispõe que passivo é uma obrigação presente da entidade de transferir um recurso econômico como resultado de eventos passados e que patrimônio líquido é a participação residual nos ativos da entidade após a dedução de todos os seus passivos Por representarem obrigações os passivos são classificados por ordem decrescente de exi gibilidade Portanto primeiro são apresentadas as dívidas e obrigações que devem ser qui tadas antes O Quadro 2 demonstra a estrutura de apresentação das contas do passivo 19 CAPÍTULO 1 Quadro 2 Estrutura de apresentação das contas do passivo Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Passivo circulante Engloba todas as obrigações de curto prazo da empresa assim entendidas aquelas que precisam ser liquidadas dentro do prazo de 12 meses da data de elaboração do balanço ou dentro do prazo do ciclo operacional se superior a um ano Incluemse entre contas do passivo circulante as obrigações com fornecedores os tributos a pagar e outras obrigações além dos compromissos com empréstimos e financiamentos dentre outros Passivo não circulante No passivo circulante encontramse as obrigações de mais longo prazo da companhia cujo prazo de vencimento seja superior a 12 meses considerado a partir da data de elaboração do balanço Em geral incluem dívidas como empréstimos e financiamentos debêntures e outros títulos de dívida a pagar e também obrigações fiscais como IR e CS Diferidos dentre outras Patrimônio líquido O patrimônio líquido representa as fontes de captação de recursos próprios da companhia Em termos de identidade contábil pode ser visto como o valor residual a diferença dos ativos totais da empresa e os seus passivos circulante e não circulante É composto pelas 20 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS contas de capital social reservas de capital reservas de lucros ações ou cotas em tesoura ria dentre outras A Tabela 2 apresenta as contas do passivo e patrimônio líquido da companhia Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA BALANÇO PATRIMONIAL PASSIVO milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Passivo Total Passivo e PL R 879674100 R 1979107300 R 2464720300 Passivo Circulante R 538859800 R 800258700 R 1341614500 Obrigações sociais e trabalhistas R 25898300 R 35471700 R 35972100 Aplicações Financeiras R 40911100 R 444815800 R 122177900 Fornecedores R 410524400 R 593487700 R 850139800 Obrigações fiscais R 14097900 R 35200800 R 40130800 Empréstimos e financiamentos CP R 13074300 R 996700 R 166718100 Outras obrigações CP R 75264900 R 135101800 R 248653700 Passivo não circulante R 110527100 R 422354900 R 390577100 Empréstimos e financiamentos LP R 32522400 R 83886200 R 1958100 Outras obrigações R 171200 R 195172400 R 218014200 Tributos Diferidos LP R 000 R 3904300 R 2484300 Provisões LP R 38735500 R 103711900 R 137993500 Lucros e receitas a apropriar R 39098000 R 35680100 R 30127000 Patrimônio Líquido R 230287200 R 756493700 R 732528700 Capital social R 171988600 R 595228200 R 595228200 Reservas de Capital R 3484000 R 19873000 R 21303700 Reservas de Lucros R 61249500 R 141075700 R 157489100 Outros resultados abrangentes R 533100 R 316800 R 1115100 Tabela 2 Contas do passivo e patrimônio líquido da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online 21 CAPÍTULO 1 Demonstração do Resultado do Exercício DRE Outra demonstração contábil essencial para a análise da situação econômicofinanceira das empresas é a Demonstração do Resultado do Exercício DRE A DRE apresenta o desempe nho da companhia ao longo de determinado exercício social em geral 12 meses embora possa ser levantada em períodos mais curtos É nela que são evidenciados os resultados da companhia por meio da apuração do lucro bruto operacional ou líquido ou prejuízo do período A DRE apresenta de maneira estruturada as receitas os custos e as despesas incorridos pela empresa em determinado período e que possibilita aos usuários evidenciar para cada exercício as principais causas do resultado lucro ou prejuízos apurado Além disso infor mações presentes na DRE são utilizadas como insumo em conjunto com os dados de outras demonstrações no cálculo das principais métricas de análise como será visto nos capítulos seguintes O Quadro 3 contém a estrutura da DRE Demonstração do Resultado do Exercício Receita Líquida Custo dos Bens eou Serviços Vendidos Resultado Bruto Despesas Operacionais Despesas com Vendas Despesas Gerais e Administrativas Outras receitas ou despesas operacionais Resultado antes do Resultado Financeiro e Tributos LAJIR ou Resultado Financeiro Receitas Financeiras Despesas Financeiras Resultado antes dos Tributos sobre o Lucro LAIR Imposto de Renda e Contribuição Social sobre o Lucro LucroPrejuízo do período LL Quadro 3 Estrutura da DRE Fonte Elaborado pelo autor Adaptado de formulários de demonstrações financeiras padronizadas DFP publicados pelas com panhias abertas brasileiras A Receita Líquida RL é calculada a partir da Receita bruta do exercício excluídos os aba timentos os descontos os cancelamentos as devoluções e os impostos sobre vendas Da RL são subtraídos os custos das mercadorias vendidas CMV ou dos produtos vendidos CPV ou ainda dos serviços prestados CSP chegandose ao Resultado ou Lucro Bruto A 22 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS partir daí a DRE detalha as Despesas Operacionais incorridas pela companhia no período que representam os gastos que dão suporte à atividade operacional principal da empresa e incluem despesas com vendas administrativas gerais e outras despesas ou receitas opera cionais Ao subtrair do Lucro Bruto essas despesas operacionais calculase o Resultado ou Lucro Operacional antes do Resultado Financeiro e Impostos o LAJIR também conhecido pela sigla EBIT do inglês Earns Before Interest and Taxes Em seguida é apresentado o Resultado Financeiro da companhia soma das receitas fi nanceiras como juros de aplicação financeiras e despesas financeiras do período as des pesas incorridas em decorrência do uso de capital de terceiros como os juros pagos nos empréstimos e financiamentos despesas na emissão de títulos dentre outros Deduzindo o resultado financeiro do LAJIR chegase ao Resultado ou Lucro Antes do Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido o LAIR Após contabilizada a provisão dos impostos e contribuições sobre o lucro calculase finalmente o resultado lucroprejuízo líquido do período por vezes representado apenas como LL SAIBA MAIS O EBITDA muito utilizado na análise da situação econômicofinanceira das empresas significa Resultado antes de juros impostos depreciação e amortização A sigla advém do inglês Earns Before Interest Taxes Depreciation and Amortizacion EBITDA É muitas vezes utilizado como referência de medida da capacidade de geração de caixa operacional da companhia uma vez que depreciação e amortização não representam saídas de caixa para a empresa No entanto o analista deve estar atento ao fato de que o EBITDA não é sinônimo de fluxo de caixa operacional uma vez que ele é calculado antes da provisão de impostos sobre o lucro e tampouco representa uma medida do fluxo de caixa livre da empresa vez que para isso precisariam ser consideradas ainda as necessidades de reinvestimento na companhia Tratase de uma métrica não contábil não está presente na DRE mas que é facilmente calculada ao somar a depreciação e a amortização do período ao LAJIR ou Lucro antes do Resultado Financeiro e Imposto de Renda A Tabela 3 apresenta como exemplo o DRE da companhia Magazine Luiza 23 CAPÍTULO 1 MAGAZINE LUIZA DRE milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Receita de vendas R 1559044400 R 1988631000 R 2917711300 Custo Bens ou Serviços Vendidos R 1105302200 R 1433234900 R 2165715100 Resultado lucro Bruto R 453742200 R 555396100 R 751996200 DespesasReceitas operacionais R 345587100 R 426539800 R 669538600 LAIR EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Resultado financeiro R 29468800 R 7041300 R 41049500 LAIR R 78686300 R 121815000 R 41408100 IR e CSSL R 18943400 R 29632200 R 2237200 Lucro Líquido R 59742900 R 92182800 R 39170900 Tabela 3 DRE da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online Demonstração dos Fluxos de Caixa DFC A Demonstração dos Fluxos de Caixa DFC fornece ao analista informações relevantes rela cionadas aos fluxos de recebimentos e pagamentos realizados em determinado exercício relacionados às atividades operacionais de investimento e de financiamento demonstran do o impacto desses fluxos no caixa da empresa Como na DRE as operações são contabilizadas pelo regime de competência em que as re ceitas e as despesas são registradas no período em que são realizadas independentemente de terem sido recebidas ou pagas a DFC apresentase como instrumento complementar essencial na análise da situação econômicofinanceira da companhia De acordo com Assaf Neto 2021 p 98 A DFC permite que se analise principalmente a capacidade financeira da empresa em honrar seus compromissos perante terceiros empréstimos e financiamentos e acionistas dividendos a geração de resultados de caixa futuros e das operações atuais e a posição de liquidez e solvência financeira O Quadro 4 apresenta uma estrutura resumida da DFC método indireto 24 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Demonstração dos fluxos de caixa método indireto FLUXOS OPERACIONAIS Resultado Líquido LL Depreciação AumentoRedução de Duplicatas a Receber AumentoRedução em Estoques AumentoRedução em Fornecedores Redução em Salários a pagar Outros Caixa Líquido das Atividades FLUXOS DE INVESTIMENTOS Pagamento na Compra de Imobilizado Recebimento pela Venda de Imobilizado Outros Caixa Líquido de Investimentos FLUXOS DE FINANCIAMENTO Integralização de Aumento de Capital Amortização de Empréstimos e Financiamentos Recebimentopagamento de Dividendos Novas Captações de Empréstimos e Financiamentos Outros Caixa Líquido de Financiamentos AUMENTOREDUÇÃO DE CAIXA SALDO INICIAL DE CAIXA SALDO FINAL DE CAIXA Quadro 4 Estrutura resumida da DFC método indireto Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 p 100 O fluxo de caixa das atividades operacionais evidencia a geração de caixa das operações a partir do lucro prejuízo do período ajustando as contas da DRE que não representam entrada ou saída de recursos por exemplo a amortização a depreciação e as variações nos ativos e passivos como as contas a receber os estoques os fornecedores os salários a pagar dentre outros O fluxo de caixa das atividades de investimentos demonstra as variações nos ativos de longo prazo da companhia e envolve por exemplo aquisição e venda de imobilizado aquisição de ativos intangíveis investimentos em controladas dentre outros O fluxo de caixa das atividades de financiamento está relacionado diretamente às fontes de financiamento da empresa ou seja aos fluxos com credores e acionistas Inseremse aqui 25 CAPÍTULO 1 como exemplo o pagamento de dividendos e juros sobre capital próprio as amortizações de dívidas empréstimos financiamentos e títulos emitidos além de novas captações de dívidas ou capital próprio emissão de ações Observe na Tabela 4 a Demonstração do fluxo de caixa método indireto da companhia Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA FLUXO DE CAIXA milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Caixa líquido Atividades Operacionais R 123616400 R 332955500 R 260388200 Caixa gerado nas operações R 109068800 R 266230400 R 158012700 Lucro líquido prejuízo R 59742900 R 92182800 R 39170900 Depreciação e Amortização R 16369000 R 48697500 R 70252300 Juros de emprést e Financ Prov R 4971400 R 20373600 R 22848800 Ganho perda venda ativo imob R 8800 R 498600 R 189700 Equivalência Patrimonial R 5775700 R 2660700 R 11992900 Outros ganhos perdas não caixa R 33752400 R 108135800 R 37543900 Variação nos ativos e passivos R 21470100 R 596096800 R 111471700 Contas a receber R 92558000 R 88548800 R 193679700 Estoques R 88299800 R 102664700 R 206550000 Outros ativos R 69148500 R 577151300 R 153417500 Fornecedores R 118510700 R 140992000 R 256364800 Impostos e obrigações trabalhistas R 4236600 R 18311500 R 7810000 Outros passivos R 10432100 R 12964500 R 109729100 Outros Fluxos Caixa Operacional R 6922500 R 3089100 R 9096200 Caixa líquido Atividades Investimento R 39411200 R 92858600 R 65144500 Aquisição imobilizado R 28507200 R 39942900 R 37199100 Aquisição ativo intangível R 7933400 R 12208500 R 17185000 Investimentos R 2970600 R 40707200 R 10760400 26 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Caixa líquido Atividades Financiamento R 65567200 R 396480000 R 57680700 Captação de Empréstimos e Financiamentos R 000 R 79894400 R 80112600 Amortização de Empréstimos e Financiamentos R 41259000 R 60700200 R 2263700 Pagamento de Juros R 5315700 R 5232000 R 79700 Pagamento de dividendos R 11427300 R 18200000 R 29940500 Ações em Tesouraria Adquiridas R 7565200 R 14144500 R 56735200 Emissão de ações R 000 R 430000000 R 000 Gastos com emissão de ações R 000 R 6760500 R 000 Pgto de arrendamento mercantil R 000 R 21430900 R 29016000 Pgto de juros sobre arrenda mento mercantil R 000 R 15235300 R 19758200 Variação Líquida de caixa R 18638000 R 29334100 R 137563000 Tabela 4 Demonstração do fluxo de caixa método indireto da companhia Magazine Luiza Fonte Magazine online De posse das demonstrações financeiras o analista terá à disposição o conjunto de infor mações necessárias para dar início ao trabalho Destacandose que apesar de as demons trações serem divulgadas separadamente muitas vezes é a análise conjunta que fará mais sentido e que poderá representar de maneira mais completa e abrangente as informações econômicofinanceiras da empresa No caso das sociedades por ações em especial as companhias abertas como já menciona do anteriormente os analistas e o mercado ainda têm acesso a uma série de relatórios e in formações complementares como as notas explicativas e o relatório da administração que auxiliam o processo Antes de seguir porém é importante tomar alguns cuidados tópico que será abordado na próxima unidade 27 CAPÍTULO 1 UNIDADE 3 CUIDADOS PARA A ANÁLISE As demonstrações financeiras como apresentadas na unidade anterior são o insumo bási co da análise da situação econômicofinanceira das empresas Por essa razão é fundamen tal que as informações nelas registradas e divulgadas representem da forma mais acurada possível a realidade econômicofinanceira da companhia para que o produto da análise seja confiável Em uma analogia dificilmente um chef conseguiria manter o padrão de qualidade de seus pratos se utilizasse como matériaprima alimentos estragados ou de má qualidade Da mes ma forma ainda que o analista conheça todo o arsenal teórico e prático acerca da análise das demonstrações financeiras se as informações utilizadas não forem confiáveis e asserti vas o suficiente as conclusões poderão ser afetadas A Figura 2 ilustra os possíveis caminhos da confiabilidade da análise Figura 2 Possíveis caminhos da confiabilidade da análise Sabese que apesar dos esforços e da evolução das técnicas contábeis na busca por repre sentar adequadamente a realidade da empresa a contabilidade ainda é apenas um modelo que simplifica essa realidade A contabilidade de uma forma bem prática pode ser enten dida como um modelo e como tal busca representar simplificadamente a realidade eco nômica e financeira das entidades MARTINS MIRANDA DINIZ 2020 p 10 Mas isso não 28 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS exclui a responsabilidade do analista de antes mesmo de iniciar a análise criticar e tomar alguns cuidados em relação às demonstrações e às informações nelas representadas Qualidade das informações O primeiro cuidado que o analista deve ter é com relação à qualidade das informações disponíveis para a análise A esse respeito o analista enfrentará questões como as infor mações são verdadeiras Elas estão completas Representam com exatidão as operações Foram lançadas com rigor e precisão consideradas as regras contábeis Figura 3 Qualidade das informações A esse respeito apesar das especificidades presentes em cada setor os analistas podem apoiarse nas diretrizes e princípios gerais que norteiam a contabilidade das empresas Há uma estrutura conceitual que direciona de maneira abrangente o processo de reconhe cimento e mensuração das informações contábeis divulgadas além de nortear a estrutura das diferentes demonstrações financeiras apresentadas Não é à toa que os analistas preci sam ser bons conhecedores da contabilidade 29 CAPÍTULO 1 SAIBA MAIS Para saber mais sobre a estrutura conceitual mencionada acesse o documento disponível no seguinte link httpwwwcpcorgbrCPC DocumentosEmitidosPronunciamentos No caso das companhias abertas esse filtro de qualidade é sobremaneira facilitado uma vez que para elas é exigido que as demonstrações sejam submetidas à auditoria por um auditor independente SAIBA MAIS Para saber mais sobre a exigência de auditor independente conforme disposto no Parágrafo 3º Artigo 177 da Lei 640476 acesse o link a seguir httpwwwplanaltogovbrccivil03leisl6404compiladahtm Conforme indica Assaf Neto 2021 p 48 o Parecer dos Auditores reflete se as demonstrações financeiras representam adequadamente a situação econômicofinanceira da empresa se há uniformidade com relação aos relatórios apurados em exercícios anteriores e se foram seguidos os princípios contábeis Essa situação certamente confere mais tranquilidade à continuidade do trabalho do analista 30 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS SAIBA MAIS Em 2005 foi criado no Brasil pela Resolução CFC nº 10552005 o Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC considerando as necessidades da contabilidade brasileira de convergência internacional de centralização na emissão de normas e da representação e processos democráticos na produção das informações Esse processo de convergência com as normas internacionais teve início em 2008 após a edição da Lei 1163807 e em 2009 com a Lei 119412009 passando a estabelecer novos padrões na elaboração e divulgação das demonstrações financeiras Com isso as práticas contábeis no Brasil passaram a manter plena convergência com as Normas Internacionais de Contabilidade IFRS International Financial Reporting Standards emitidas pelo IASB International Accounting Standards Board As normas são publicadas pelo CPC essencialmente por meio de pronunciamentos técnicos mas também pode editar interpretações orientações e comunicados Para conhecer o CPC acesse httpwwwcpcorgbrCPCCPCConhecaCPC Na ponta contrária há casos em que as demonstrações financeiras da empresa sequer es tão disponíveis ou se apresentam muito desorganizadas quando se deseja analisálas Nes ses casos há uma etapa anterior ao processo de análise que precisará ser vencida para que o resultado do trabalho fique satisfatório Portanto todo analista precisa também ser um bom conhecedor da contabilidade e da es trutura conceitual básica que norteia a contabilidade para que possa criticar adequada mente as informações que lhe forem apresentadas antes de dar prosseguimento à análise propriamente dita Reclassificação de contas Ainda que as demonstrações financeiras sejam consideradas confiáveis e de qualidade em alguns casos há certos cuidados que o analista deverá ter em relação à classificação que foi dada aos lançamentos São adaptações que podem vir a ser necessárias e que podem melhorar o resultado da análise 31 CAPÍTULO 1 Marion 2019 nos apresenta exemplos interessantes De acordo com o autor Se uma em presa por exemplo dispõe vender um imóvel que até o momento estava classificado no Imobilizado Permanente Ativo Não Circulante classificando essa conta no Ativo Circulante o analista terá que reclassificálo MARION 2019 p 23 Isso porque ainda que classificado corretamente do ponto de vista contábil o valor do imóvel no ativo circulante impactaria de forma positiva a situação financeira de curto prazo da companhia Mas se sabe que a liqui dez dos imóveis não é alta Outro exemplo apresentado por Marion 2019 diz respeito às receitas ou despesas finan ceiras que quando contabilizadas como operacionais precisariam ser reclassificadas como não operacionais para que por exemplo os índices de rentabilidade operacional da com panhia não sejam afetados Há ainda situações específicas como despesas do exercício seguinte duplicatas descon tadas e leasing para citar alguns exemplos que devem sempre ser averiguadas antes da análise 32 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS NA PRÁTICA Como o lançamento de duplicatas descontadas pode afetar os índices de liquidez da empresa A empresa A possui um Ativo Circulante AC total de R 10M sendo R 2M em duplicatas a receber e R 8M em caixa Na mesma data o Passivo Circulante PC total da empresa A contabiliza R 5M Qual a relação entre AC e PC da empresa A Resposta Para encontrar a relação entre o AC e o PC basta dividir um pelo outro Nesse caso o indicador será igual a 2 Isso significa na prática que a empresa possui R 200 em ativos de curto prazo para cada R 100 de obrigações de curto prazo Como veremos em outro capítulo esse índice é conhecido como Índice de Liquidez Geral da empresa Mas de que forma a contabilização de duplicatas descontadas poderia alterar tal índice Vejamos caso a empresa A decida descontar em uma instituição financeira suas duplicatas a receber como fica a relação entre o AC e PC se a a contabilização ocorrer como uma conta redutora do ativo Observação Essa forma de contabilização era utilizada Depois da edição do CPC 48 no entanto o entendimento passou a ser que as duplicatas descontadas sejam contabilizadas no passivo circulante como empréstimos passando a representar a essência econômica da operação No entanto ainda pode haver situações em que o analista deparese com a contabilização anterior razão pela qual precisa avaliar a relevância dos números e se necessário providenciar a sua reclassificação Resposta Nesse caso as duplicatas descontadas são contabilizadas creditadas como redutoras da conta duplicatas a receber no ativo circulante e a conta banco caixa e disponibilidades da empresa é debitada Veja que não há alteração portanto nos valores do AC e do PC de modo que a relação entre eles não se altera 33 CAPÍTULO 1 EMPRESA A Antes Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M EMPRESA A Depois Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 10M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M Duplicatas a Receber R 2M b a contabilização ocorrer como uma conta do passivo circulante Resposta Nesse caso as duplicatas descontadas são creditadas no passivo circulante e a conta bancos caixa e disponibilidades é debitada Aqui a situação muda A contabilização de fato representa a essência econômica da operação que nada mais é do que um emprés timo embora com as duplicatas utilizadas como garantia Supõese aqui que a companhia mantém os riscos da operação ou seja mantém a responsabilidade de pagar ao banco caso o cliente não honre seu compromisso o que é relativamente comum nesse tipo de situação Veja nas tabelas a seguir o antes e depois da operação no balanço da empresa A 34 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS EMPRESA A Antes Ativo Circulante R 10M Passivo Circulante R 5M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M EMPRESA A Depois Ativo Circulante R 12M Passivo Circulante R 7M Caixa e disponibilidades R 10M Fornecedores salários impostos etc R 5M Duplicatas a Receber R 2M Com isso a relação AC e PC cai para 171 alterando portanto o Índice de Liquidez Geral da empresa Portanto caso o analista deparese com uma situação como a da letra a o mais adequado seria reclassificar a conta duplicatas descontadas conforme letra b Cabe destacar no entanto que em alguns casos os valores envolvidos podem não ser tão relevantes ou seja não necessariamente significativos a ponto de distorcerem a análise Em outros casos a regulamentação já pode prever critérios de classificação adequados o que eliminaria a necessidade da reclassificação Cabe ao analista criticar e decidir a melhor maneira de seguir 35 CAPÍTULO 1 UNIDADE 4 METODOLOGIA DE ANÁLISE Principais técnicas de análise Como mencionado as demonstrações financeiras são o insumo essencial para a análise da situação econômicofinanceira das empresas No entanto elas de forma isolada não são suficientes para se chegar às conclusões desejadas Como indicam Martins Miranda e Diniz 2020 p 69 as demonstrações finan ceiras tradicionais Balanço Patrimonial e DRE preparadas e divulgadas por uma empresa não têm isoladamente uma grande potencialidade para identificar suas forças e fraquezas Fonte Anawat Sudchanham 123RF Olhar para a DRE ou para o BP na forma bruta não permite na maior parte dos casos che gar a conclusões sobre o desempenho econômico da empresa avaliar sua rentabilidade e lucratividade entender o seu endividamento e liquidez e menos ainda fazer comparações É preciso ir além O primeiro passo é entender e criticar adequadamente a contabilidade da empresa e conhecer de forma satisfatória o setor o negócio e o ambiente em que a companhia está inserida A partir daí o analista poderá fazer uso de um conjunto completo de índices métricas e indicadores Nos próximos capítulos cada um desses indicadores e índices será estudado de forma detalhada Neste tópico porém serão abordadas algumas técnicas que podem ser utilizadas no pro cesso Análise horizontal Ao analisar o DRE 2020 de uma companhia a Cia A e observar por exemplo que o Custo das Mercadorias Vendidas CMV foi de R 1 Milhão a que conclusões o analista pode che gar Esse valor é alto Baixo O que representa em termos da situação econômicofinanceira da empresa Analisando apenas o valor bruto da conta não há como responder a essas questões 36 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Por outro lado caso ele realize uma análise temporal observando o CMV não apenas do ano corrente mas também de anos anteriores poderá avaliar a evolução temporal dessa conta O mesmo tipo de análise pode ser feita para as demais contas de resultado ou patrimoniais Esse processo é conhecido como Análise horizontal pois analisa a mesma conta em diferen tes exercícios horizontal da mesma demonstração Há diferentes maneiras de realizar essa análise Uma delas é estabelecer uma data base um ano a partir do qual os demais serão comparados e utilizar números índices em que o ano base recebe o valor 100 e os demais são calculados por meio de regras de três a partir dele Em geral utilizase uma base fixa a partir da data mais antiga da comparação mas isso não é uma regra Observe que nesse caso o número obtido para 2020 por exemplo represen taria o crescimento em relação ao ano base que não necessariamente seria o ano anterior De forma mais objetiva o analista poderia calcular diretamente a taxa de crescimento de um período para o outro a partir do base estabelecendo taxas de crescimento anuais Em qualquer caso a análise horizontal permite avaliar o crescimento em vendas custos despe sas lucros ou acréscimos ou reduções em contas do BP Embora tenha a sua utilidade e possa servir de apoio para análises mais avançadas a análi se horizontal isolada pode não responder a todas as questões e em alguns casos pode até distorcer alguns fatos Suponha por exemplo que no ano de 2019 o CMV da Cia A tenha sido de R 11M Em uma análise horizontal isolada poderia se chegar à conclusão de que a empresa conseguiu reduzir em 91 o seu CMV como se isso fosse bom Mas e se as receitas da empresa em 2019 e 2020 respectivamente tiverem sido R 14M e R 12M Análise vertical Outro caminho que o analista poderia seguir ao se deparar com o CMV da Cia A em 2020 seria relacionar esse valor com outra conta também do DRE porém do mesmo exercício Essa técnica conhecida como Análise vertical permite conhecer a participação relativa de cada conta de resultado ou patrimonial Ela recebe esse nome pois percorre diferentes con tas do mesmo exercício vertical No caso da Cia A o analista poderia por exemplo calcular a porcentagem que o CMV repre senta das vendas Sabendo que a receita da empresa em 2020 foi de R 12M essa relação é de 8333 Embora esse número possa indicar que no ano de 2020 o CMV representou 8333 das vendas ele de forma isolada assim como ocorre na análise horizontal continua não sendo suficiente para responder às principais questões que o analista deseja esclarecer Afinal o que representa em termos da situação econômicofinanceira da empresa 37 CAPÍTULO 1 Talvez por isso Assaf Neto 2021 tenha indicado que as aplicações práticas dessas duas téc nicas têm sofrido desgastes apesar da grande importância de ambas Análise vertical e horizontal conjugadas Não é difícil observar que o analista poderia realizar uma análise vertical da Cia A avaliando a representatividade de uma conta em relação a outra do mesmo exercício como a relação CVMReceitas e ao mesmo tempo uma análise horizontal verificando a evolução dessa relação ao longo dos anos Voltando ao exemplo como se pode observar na Tabela 5 o analista perceberia então que a relação entre o CMV e as vendas no ano de 2020 foi mais alta que em 2019 o que se pode notar também pelo lucro bruto que em 2020 foi menor que em 2019 Por isso foi mencio nado anteriormente que a análise horizontal isolada pode distorcer alguns fatos Cia A Análise vertical e horizontal 2019 2020 Receitas R 140000 10000 R 120000 10000 CMV R 110000 7857 R 100000 8333 Lucro Bruto R 30000 2143 R 20000 1667 Tabela 5 Cia A Análise vertical e horizontal Assim a análise vertical e horizontal realizadas de forma conjunta podem reduzir as limita ções das duas técnicas quando isoladas e tornar o processo mais significativo e esclarece dor Índices Na análise horizontal o valor de determinada conta é relacionado com o valor da mesma conta em outro período Na vertical o valor de uma conta é relacionado com o valor de outra conta do mesmo período Observe que nos dois casos essa relação é estabelecida na forma de índices O cálculo de índices é portanto peça central no processo de análise Mas em muitos casos a relação ou o cálculo de índices não se dará apenas dentro de um mesmo demonstrativo financeiro Ao contrário para que se possa analisar de maneira mais completa a situação econômicofinanceira de uma empresa sua liquidez rentabilidade sol vência etc outros índices precisarão ser calculados e em muitos casos relacionando con tas de diferentes demonstrações financeiras Em outros algumas métricas precisarão ser calculadas com base nessas contas e índices 38 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Martins Miranda e Diniz 2020 comentam sobre a importância dos índices para ajudar a en tender a saúde financeira e a tendência de um negócio e destacam que eles também ajudam a compreender de forma mais simples algumas relações nas demonstrações contábeis Nos próximos capítulos avançaremos nesses tópicos de forma detalhada Comparação Como já é possível observar a comparação é uma técnica chave no processo de análise da situação econômicofinanceira de uma empresa Como saber por exemplo se a margem operacional de 10 é alta ou baixa se a rentabilidade sobre o patrimônio líquido ROE de 15 é boa ou ruim ou se o índice de liquidez igual a 1 está adequado para a companhia ou pode representar um risco Na maior parte dos casos esses índices precisam ser comparados Há diferentes maneiras de se fazer essa comparação e a mais adequada vai depender dos objetivos da análise e daquilo que se pretende concluir A comparação pode ocorrer por exemplo com dados históricos da própria empresa Assim ao avaliar que o ROE de um período a outro evoluiu de 14 para 15 o analista já poderia tecer algumas conclusões Mas e se a própria empresa tivesse estabelecido uma meta de 16 Nesse caso o resultado poderia ter sido considerado insatisfatório Algumas vezes a comparação pode ter que ser realizada com metas da própria entidade De forma similar o analista poderia comparar o ROE da empresa com o médio do setor de atuação da companhia ou com o de seu principal concorrente olhando um pouco mais para fora da empresa Pode ainda comparar o ROE o custo de capital próprio da empresa que de certa forma representa a taxa de retorno exigida pelos acionistas para avaliar se a companhia tem conseguido rentabilizar adequadamente os provedores de capital próprio Portanto não basta calcular os índices também é preciso saber interpretálos e embora cada um já traga o seu próprio significado a comparação é uma técnica que ajuda o analista em suas conclusões Etapas do processo de análise Sabese que o processo de análise da situação econômicofinanceira das empresas não é uma ciência exata Ao longo do processo há diversas etapas que dependem da percepção e sensibilidade do analista da experiência do conhecimento a respeito do negócio e do am biente de atuação da empresa 39 CAPÍTULO 1 Isso não impede porém de se propor um esquema sintético das principais etapas do pro cesso de análise como forma de apoiar o analista em seu racional mais técnico A Figura 4 apresenta um esquema sugerido para isso Figura 4 Esquema sintético das principais etapas do processo de análise 40 FUNDAMENTOS DA ANÁLISE DAS DEMONSTRAÇÕES FINANCEIRAS Definição dos objetivos da análise a definição do objetivo da análise precisa estar bemdefinida pois é o que direcionará as etapas seguintes Em alguns casos a inten ção do analista será realizar a análise da situação econômicofinanceira da compa nhia de maneira completa mas em situações específicas pode ser que ele precise compreender apenas o nível de endividamento o risco de inadimplência ou analisar a rentabilidade do negócio Levantamento das demonstrações contábeis a definição dos objetivos da análise é que direcionará as demonstrações financeiras necessárias para o processo Cabe ao analista levantar as demonstrações de interesse e complementar as informações quando necessário como em relatórios ou notas explicativas Análise de qualidade e reclassificação de posse das demonstrações e informa ções financeiras o analista deve averiguar a qualidade dos dados A análise do pa recer de auditória quando existir é um caminho que confere segurança ao analista nessa etapa Além disso deve proceder à crítica em relação à necessidade ou não de reclassificação de algumas contas para que as informações representem da melhor maneira possível a essência econômica do negócio Escolha e cálculo dos índices para cada objetivo há um conjunto de índices e métricas mais adequados Esse é o momento de o analista conhecer os índices van tagens e desvantagens de cada um para optar de forma mais precisa pelos que me lhor atendam aos objetivos propostos e que possam fundamentar as suas conclusões e decisões de maneira mais precisa Análise e comparação de posse dos índices e das métricas o analista precisará interpretálos Claro que seu próprio conhecimento e experiência já poderão indicar as primeiras conclusões mas como visto no tópico das principais métricas de análise a comparação seja com o histórico ou as metas da própria empresa seja com o mer cado de atuação da empresa ou ainda com expectativas dos principais interessados na companhia tornase fundamental para apoiar a próxima etapa a de conclusões Conclusões e decisão esse é o momento de o analista concluir a análise É nessa etapa que ele irá apresentar a sua opinião final a respeito da situação econômicofi nanceira da empresa tecendo comentários sobre sua liquidez rentabilidade e solvên cia Cabe destacar que essa etapa pode ser apresentada tanto em termos presentes como também de forma prospectiva ou seja de tendências Neste capítulo introduzimos os principais conceitos que orientam o analista nas três primei ras etapas desse processo Os próximos capítulos serão dedicados a apresentar os aspectos técnicos mais relevantes da análise das demonstrações financeiras fundamentais para as etapas finais 41 CAPÍTULO 1 RESUMO Neste capítulo abordamos a importância de estabelecer e conhecer os objetivos e usuários da análise das demonstrações financeiras fundamentais para que o processo utilize as fer ramentas adequadas e para que os resultados apresentados estejam alinhados às expecta tivas dos diferentes interessados A contabilidade foi apresentada como ponto de partida do processo de análise de maneira que conhecer as principais demonstrações financeiras seus principais conceitos contas e estrutura conceitual tornase essencial ao analista Foi destacada ainda a importância de se criticar a qualidade das informações financeiras especialmente com o objetivo de averiguar se representam adequadamente a essência eco nômica do negócio em análise e quando necessário providenciar as reclassificações neces sárias para que a interpretação esteja mais adequada Por fim foram introduzidas as principais técnicas de análise que irão perpassar o cálculo e a interpretação dos índices e métricas que serão estudados nos próximos capítulos Foi sugerida ainda uma proposta de metodologia de etapas do processo apresentando aos analistas o racional básico que pode ser seguido ainda que o processo de análise envolva aspectos subjetivos relevantes 42 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINAN CEIRA E ENDIVIDAMENTO Capítulo 2 43 CAPÍTULO 2 INTRODUÇÃO O estudo da situação financeira e do endividamento é uma etapa relevante da análise das demonstrações financeiras para compreensão da situação econômico financeira das empresas Neste capítulo serão apresentados os principais índices e métricas utilizados nessa etapa A análise da situação financeira busca compreender a liquidez da empresa e a solvência de curto prazo Para isso são apresentados os índices de liquidez características e limitações e os índices de atividade que fornecem informações sobre os ciclos operacional e financeiro da empresa e ajudam a complementar o estudo da liquidez Além disso será apresentado um modelo dinâmico da NCG e sua forma de financiamento Na análise do endividamento e risco de inadimplência a atenção recai sobre a solvência de longo prazo da companhia sua capacidade em realizar os pagamentos de juros e de quitar as amortizações das dívidas Nesse sentido serão estudados os principais índices de endividamento ou estrutura o índice de cobertura de juros e a relação entre a dívida líquida e EBITDA Por fim aprendidas as principais técnicas será apresentado um caso prático de análise da situação financeira e endividamento tendo como base as demonstrações financeiras divulgadas pelo Magazine Luiza 44 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender os principais índices de liquidez e suas limitações a análise dos ciclos e prazos médios das atividades operacionais das empresas a visão dinâmica da necessidade de capital de giro suas formas de financiamento e os impactos na solvência de curto prazo das empresas os índices de endividamento e a sua interpretação os índices de cobertura de juros e sua utilização na análise de risco de inadimplência a aplicação prática da análise da situação econômicofinanceira de uma empresa Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos apresentados este capítulo está dividido em Unidade 1 Análise de liquidez e atividade Unidade 2 Análise da necessidade de capital de giro Unidade 3 Análise de endividamento e risco de inadimplência Unidade 4 Análise da situação financeira e endividamento na prática 45 CAPÍTULO 2 UNIDADE 1 ANÁLISE DE LIQUIDEZ E ATIVIDADE A análise da situação financeira dedicase essencialmente ao estudo da capacidade da em presa de honrar seus compromissos De forma mais prática o que se procura entender é a capacidade de a empresa pagar suas obrigações e dívidas Nesta unidade serão abordados os índices de liquidez da empresa e os ciclos da atividade Liquidez corrente A liquidez corrente da empresa apresenta a relação entre os seus ativos e passivos circulan tes Tratase portanto de análise de curto prazo que indica a proporção de ativos circulan tes disponíveis por unidade monetária a pagar no curto prazo passivo circulante Ativocirculante Liquidezcorrente ILC Passivocirculante Se o Índice de Liquidez Corrente ILC for maior que 1 significa que a empresa tem mais bens e direitos ativos do que obrigações passivos de curto prazo o que pode lhe dar mais tranquilidade para honrar compromissos de curto prazo O contrário por outro lado ILC menor que 1 mostra que a empresa tem mais obrigações do que bens e direitos de curto prazo o que pode indicar dificuldades no pagamento de suas contas Essa análise porém precisa explorar mais a fundo as características de cada conta compo nente do ativo circulante uma vez que elas podem apresentar liquidez diferente A conta estoques por exemplo pode demorar 10 20 30 ou mais dias para se transformar em caixa o que evidentemente influencia a capacidade de pagamento Nesse sentido outros índices são também calculados em complemento Liquidez seca O Índice de Liquidez Seca ILS considera a capacidade de pagamento da empresa descon tados os estoques Ativocirculante Estoques Liquidez seca ILS Passivocirculante 46 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Com isso o analista tem em mãos um índice que representa a capacidade de a empresa honrar suas obrigações de mais curto prazo considerando apenas os ativos tidos como mais líquidos No mesmo sentido quanto maior esse índice melhor a capacidade de pagamento da em presa Liquidez imediata Considerando que outros ativos circulantes podem também não ter boa liquidez como as contas a receber de clientes outro índice utilizado para avaliar a capacidade de pagamento é o Índice de Liquidez Imediata ILI Esse índice considera a relação entre as disponibilidades da empresa e o seu passivo circulante Representa portanto a capacidade de a empresa honrar seus compromissos utilizando para isso apenas o caixa ou equivalentes de caixa como aplicações financeiras de curto prazo Disponibilidades Liquidezimediata ILI Passivocirculante Liquidez geral Em caminho oposto porém complementar o Índice de Liquidez Geral ILG apresenta a me dida de capacidade de pagamento de longo prazo da empresa Tal índice calcula a relação entre a soma do ativo circulante e o realizável a longo prazo com a soma do passivo circu lante e o passivo não circulante AC RALP Liquidez geral ILG PC PNC Os índices de liquidez como se pode observar apresentam uma situação estática represen tada no BP no final do período em análise A análise da situação financeira da empresa no entanto especialmente de curto prazo pode ser fortemente impactada pelas suas opera ções Empresas capazes de transformar estoque em vendas e vendas em caixa de maneira mais rápida ou que consigam mais prazo para pagar os fornecedores podem ter uma situa ção financeira mais tranquila Observe na Tabela 1 os valores do ativo e passivo circulantes das empresas A e B 47 CAPÍTULO 2 EMPRESA A Ativo circulante R 14M Passivo circulante R 14M Caixa e disponibilidades R 4M Fornecedores salários impostos etc R 14M Estoques R 6M Duplicatas a Receber R 4M EMPRESA B Ativo circulante R 14M Passivo circulante R 14M Caixa e disponibilidades R 8M Fornecedores salários impostos etc R 14M Estoques R 4M Duplicatas a Receber R 2M Tabela 1 Valores do ativo e passivo circulantes das empresas A e B Observe que o ILC das empresas A e B é igual a 1 Nesse sentido poderia inferirse que a situação financeira de ambas é similar Indo além poderia até indicar que a situação da empresa B é mais confortável que a da A visto que tem mais disponibilidades ou seja ILI superior Mas e se o prazo de recebimento das du plicatas a receber e de transformação de estoques em vendas da empresa A fosse por exemplo 4 vezes menor que a da B E se a empresa A tiver prazo de pagamento de suas contas a pagar em média de 30 dias enquanto a da B for 15 Será que essas informações alterariam a análise É necessário avaliar Fonte Thanee Hengpattanapong 123RF Por essa razão tornase essencial conhecer adequadamente as operações das empresas Esse estudo é feito pela análise do ciclo operacional e ciclo financeiro por vezes conhecida como análise da atividade 48 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Ciclo operacional As empresas de forma geral adquirem mercadorias para revenda ou insumos para a pres tação de serviços ou produção Esses materiais não são utilizados exatamente no mesmo momento em que são recebidos Em uma empresa comercial por exemplo o estoque de mora alguns dias para ser vendido De forma similar nem todas as vendas realizadas pela empresa são à vista Do momento da venda até o efetivo recebimento em média transcor rem mais alguns dias O Ciclo Operacional CO é definido como o prazo médio que uma empresa demora em suas operações para transformar efetivamente as compras recebidas insumos ou merca dorias para revenda em caixa Esse período é composto pelo prazo médio de estoques e pelo prazo médio de recebimento das vendas CO PME PMR Prazo Médio de Estoques PME O Prazo Médio de Estoques PME representa em dias o tempo médio que a empresa de mora para vender seu estoque É calculado em função do custo das vendas DRE e dos estoques BP da seguinte maneira 360 x Estoques PME Custodasvendas Observe na fórmula que a relação entre estoques e custo das vendas representa uma me dida em anos da representatividade dos estoques em relação ao custo das vendas Por exemplo se o custo das vendas em um ano foi de R 1M e a conta estoque está em R 100 mil então ela representa 010 ano de custo das vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase então por 360 utilizase 360 quando se está analisando a DRE de 12 meses em outros casos podese calcular de forma proporcional No exemplo o PME será de 36 dias 49 CAPÍTULO 2 Prazo Médio de Recebimento PMR O Prazo Médio de Recebimento PMR das vendas representa em dias o tempo médio que a empresa demora para receber de seus clientes É calculado em função das vendas DRE e das contas a receber BP da seguinte maneira REFLITA A análise e o cálculo dos prazos médios precisa ser vista de forma abrangente Compreender seu significado é essencial para calcular e interpretar corretamente Como o PME poderia ser entendido dentro de uma empresa industrial por exemplo Nesse caso o PME deveria compreender o prazo médio de estocagem dos insumos mais o prazo médio de fabricação mais o prazo médio de vendas Veja que assim como em uma empresa comercial representa o período de tempo que decorre do recebimento das compras até a sua efetiva venda 360 xClientes PMR Vendas Como no PME a relação entre clientes e vendas representa uma medida em anos da repre sentatividade das contas a receber em relação às vendas Por exemplo se as vendas no ano foram de R 12M e a conta clientes está em R 240 mil então ela representa 020 ano de vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase por 360 No exemplo o PMR será de 72 dias fazendo com que o CO da empresa seja igual a 108 36 72 dias Prazo médio de pagamento A concessão de prazo nas compras de mercadorias é uma prática comercial comum presen te nas relações entre empresas e fornecedores e impacta a análise da situação financeira De forma similar ao PMR as compras realizadas pelas empresas em geral não são pagas todas à vista Do momento em que as mercadorias ou insumos são recebidos até o momento de seu pa gamento decorre um prazo conhecido como Prazo Médio de Pagamento PMP Pode ser calculado em função do custo das vendas DRE como alternativa e de forma mais rigorosa podese utilizar o valor das compras realizadas no período partindose da fórmula do CMV EI Compras EI e dos Fornecedores BP da seguinte maneira 50 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 360 x Fornecedores PMP Custodasvendas oucompras A relação entre fornecedores e custo das vendas representa uma medida em anos da re presentatividade das contas a pagar a fornecedores em relação ao custo das vendas Por exemplo se o custo das vendas no ano foi de R 1 M e a conta fornecedores está em R 200 mil então ela representa 020 ano de vendas Como o que se deseja é uma medida em dias multiplicase por 360 No exemplo o PMP será de 72 dias Ciclo financeiro Como visto anteriormente as empresas usualmente levam alguns dias para transformar efetivamente as mercadorias ou insumos recebidos em caixa período esse conhecido como ciclo operacional Por outro lado elas também recebem um prazo para pagar essas merca dorias e insumos o prazo médio de pagamento Fica fácil observar que se o PMP CO ou CF 0 a empresa ainda não terá recebido em mé dia as suas vendas para honrar o pagamento aos fornecedores situação financeira que pre cisa ser administrada De forma oposta se PMP CO ou CF 0 as empresas irão pagar seus fornecedores apenas após terem recebido de seus clientes situação bem mais confortável O ciclo financeiro da empresa é justamente a diferença entre o CO e o PMP Pode ser en tendido portanto como o período em que as atividades da empresa do ponto de vista da situação financeira ficam descobertas portanto precisam ser financiadas por capital de giro A Figura 1 mostra essa relação CF CO PMP 51 CAPÍTULO 2 Figura 1 Ciclo financeiro UNIDADE 2 ANÁLISE DA NECESSIDADE DE CAPITAL DE GIRO NCG Necessidade de Capital de Giro NCG A análise da situação financeira da empresa pode ser vista de forma mais abrangente e dinâ mica Os ativos e passivos de curto prazo relacionados às atividades principais da empresa não necessariamente se limitam a estoques contas a receber e fornecedores Há também salários outras contas a pagar tributos etc Além disso é preciso considerar que muitos desses ativos e passivos de curto prazo são cíclicos Os estoques por exemplo para darem suporte às operações e às vendas da em presa devem periodicamente ser renovados O mesmo acontece com as contas a receber Enquanto a empresa recebe de alguns clientes concede novos prazos referentes a novas vendas 52 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Assaf Neto 2021 ensina que a parcela das disponibilidades pode ser considerada como ativo cíclico um saldo positivo mínimo necessário para viabilizar os desembolsos que de vem ocorrer previamente à entrada de recursos Podese dizer que essa parcela dos ativos embora eles tenham natureza de curto prazo do ponto de vista financeiro assumem carac terísticas de ativos permanentes A empresa mantém recursos investidos nessas contas que precisam ser financiados Parte desses ativos circulantes operacionais são financiados pelos chamados Passivos Circu lantes Operacionais PCO Afinal há parcelas dos passivos que também são cíclicas como salários a pagar fornecedores impostos a pagar pois se relacionam diretamente às opera ções da empresa Considerase Necessidade de Capital de Giro ou NCG as parcelas do ACO que não são totalmente cobertas pelo PCO da empresa NCG ACO PCO A situação financeira mais confortável é aquela em que a NCG é negativa ou ao menos zero ou seja quando o PCO é suficiente para financiar o ACO Mas quando isso não ocorre não necessariamente a situação financeira da companhia é ruim É preciso avaliar de que forma a NCG está sendo financiada Essa parcela do ativo circulante dita cíclica é denominada Ativo Circulante Operacio nal ACO Os demais ativos circulantes podem ser referenciados como Ativos Financeiros como é o caso das aplicações financeiras de curto prazo das disponibi lidades Fonte Phonlawat Chaicheevinlikit 123RF 53 CAPÍTULO 2 Financiamento da NCG Uma vez compreendida a NCG da empresa é preciso avaliar de que forma ela está sendo financiada Para isso é preciso seguir com os conceitos de capital circulante líquido e saldo em tesouraria Capital Circulante Líquido CCL ou Capital de giro líquido O capital circulante líquido como o nome indica equivale à diferença entre o ativo circulante e o passivo circulante CCL AC PC No entanto para compreender adequadamente o significado prático do CCL é interessante visualizar a fórmula de outra maneira Pela identidade do BP podese concluir que AT PT AC ANC PC PNC PL AC PC PNC PL ANC CCL Portanto o CCL pode ser calculado como CCL PNC PL ANC Essa forma de apresentação permite avançar na compreensão do CCL e seu papel na gestão do capital de giro das empresas O CCL pode ser visto como a parcela do passivo de longo prazo da companhia PNC PL que excede os investimentos em ativos de longo prazo ANC De outra forma o CCL de uma empresa representa a parcela dos recursos de longo prazo ditos recursos onerosos de longo prazo ROLP que estão disponíveis para financiar as atividades de curto prazo da empresa O CCL ajuda a financiar portanto a NCG da empresa 54 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Se CCL 0 então a companhia possui recursos de longo prazo financiando as suas operações o que torna a situação financeira da empresa mais confortável Nesse sentido o que se deve analisar é a relação entre o CCL e a NCG Se NCG CCL então o CCL é suficiente para financiar toda a NCG da empresa e ainda sobram recursos Essa situação é a ideal Se NCG CCL então o CCL é insuficiente para financiar a NCG e a empresa possivelmente terá recursos onerosos de curto prazo ROCP como empréstimos e financiamentos financiando a NCG Nesse caso a situação financeira da empresa pode se desestabilizar vez que os ROCP podem ter custos mais altos e precisam ser renovados em prazo mais curto o que aumenta os riscos do negócio Como menciona Assaf Neto 2021 p 199 quando a NIG superar o CCL a empresa dá sinais de conviver com dificuldades financeiras ao financiar ativos cíclicos caracteristica mente de longo prazo com recursos de curto prazo não cíclicos Saldo em Tesouraria ST A diferença entre o CCL e a NCG é conhecida como Saldo em Tesouraria ST Se ST 0 mais confortável pode ser a situação financeira da empresa Se ST 0 a empresa pode estar ca minhando para uma situação de insolvência ST CCL NCG Cabe esclarecer que o ST não necessariamente representa o saldo em caixa da companhia Isso pode ocorrer ou não pois a companhia pode manter passivos circulantes financeiros ou ROCP O saldo em tesouraria pode ser representado também por ST Ativo financeiro Passivo financeiro Análise prospectiva da NCG De tudo o que foi exposto percebese que a NCG guarda uma relação direta com o nível de atividade da companhia Essa constatação pode ser analisada conjuntamente com a análi se dos ciclos operacionais Suponha por um instante e como recurso didático que fosse possível representar todas as contas operacionais cíclicas do ativo e passivo em número de 55 CAPÍTULO 2 dias sendo calculadas em função das vendas diárias Portanto a NCG também poderia ser representada como função das vendas diárias Como exemplo observe na Tabela 2 a relação resumida dos ativos e passivos cíclicos de uma empresa que tenha faturado no período R 144000 mil o equivalente a R 400 mil por dia Em R Em dias de vendas Ativo Circulante Operacional R 108000 27000 Contas a Receber R 36000 9000 Estoques R 72000 18000 Passivo Circulante Operacional R 54000 135 Fornecedores R 54000 135 NCG R 54000 13500 Tabela 2 Relação resumida dos ativos e passivos cíclicos Pela análise da tabela percebese que a NCG da empresa equivale a 135 de vendas diárias Veja que nessa análise podese avaliar a NCG como 360 C FxVendas NCG Em que CF é o ciclo financeiro da empresa em dias de vendas Essa formulação ajuda a perceber a NCG como função das vendas o que ajuda a explicar como ela pode crescer de um período para outro exclusivamente pelo aumento no nível de atividade da empresa Isso ajuda a compreender o porquê algumas empresas podem quebrar por aumento das vendas Simplesmente porque não planejaram adequadamente o capital de giro necessário para suportar o aumento das vendas Nesse exemplo e considerando que os ciclos da empresa se mantenham relativamente constantes caso a empresa preveja um faturamento no próximo exercício de R 180000 a NCG da empresa crescerá para 135 x R 180000360 ou R 67500 Essa diferença de R 56 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO TOME NOTA O efeito tesoura Como a NCG guarda uma relação direta com o nível de atividade da empresa o analista precisa estar atento a sua evolução comparativamente à evolução do CCL O aumento das vendas eleva a NCG mas não necessariamente aumenta o CCL da companhia Se o crescimento da NCG for maior que o crescimento do CCL por períodos seguidos a empresa pode vir a enfrentar o chamado efeito tesoura em que a partir de um dado momento a NCG se torna maior que o CCL e o saldo em tesouraria passa a apresentar valores negativos cada vez maiores colocando a empresa em uma situação de insolvência de curto prazo UNIDADE 3 ANÁLISE DE ENDIVIDAMENTO E RISCO DE INADIMPLÊNCIA Os investimentos realizados pelas empresas geralmente são financiados ou por capital pró prio dos acionistas sócios ou lucros retidos ou capital de terceiros por empréstimos e financiamentos ou emissão de títulos A presença do capital de terceiros é justificada até certo ponto por apresentar um custo mais baixo para a empresa em relação ao capital pró prio e por trazer alguns benefícios como os fiscais No entanto o endividamento excessi vo pode trazer riscos que precisam ser avaliados Nesta unidade serão apre sentados os principais índices de endivi damento e análise de inadimplência O objetivo é compreender de forma ampla a capacidade de a empresa cumprir com suas obrigações de pagamento de juros e amortização do principal das dívidas Fonte jirkaejc 123RF 57 CAPÍTULO 2 É preciso esclarecer que os índices de endividamento conhecidos também como índices de estrutura em geral relacionam o passivo total da empresa com seus ativos ou patrimônio líquido quer sejam passivos onerosos ou não Como o objetivo desta unidade é analisar o endividamento e o risco de inadimplência os índices de endividamento serão apresentados como relação das dívidas da empresa portanto passivos onerosos Endividamento total O índice de endividamento total mais tradicional relaciona o passivo total da empresa com seu ativo total e representa portanto a participação dos ativos da empresa que está sendo financiada pelos passivos onerosos ou não PC PNC END AT No entanto quanto menor a participação do passivo oneroso em relação ao passivo total da empresa mais esse índice poderia confundir a análise da real situação de endividamento da companhia Nesse sentido considerando agora apenas o passivo oneroso o endividamento total de uma empresa busca relacionar a participação relativa das dívidas da empresa uso de capital de terceiros em relação ao capital total que a financia PL Dívida Total Conforme destaca Damodaran 2005 p113 pode ser calculado pela seguinte fórmula Dívida Endividamento capital total Dívida PL Se o índice de endividamento total da empresa for por exemplo 40 significa que do total de recursos onerosos utilizados pela empresa capital próprio e de terceiros 40 é prove niente de dívidas O que é o mesmo que dizer que 60 é de recursos próprios Na prática é comum que a relação de endividamento total seja apresentada como DDE sendo D do termo em inglês debt e E também do inglês equity Ou EDE para medir a participação do capital próprio no capital total De forma similar é comum também calcular a métrica de endividamento DE Nesse caso o que se observa é a relação entre a dívida e o patrimônio líquido E não é difícil perceber que a relação DE pode ser calculada pelo índice de endividamento total No exemplo apresen tado se o endividamento total é 40 a relação DE será 58 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO 040 067 060 D D E D E E D E Essa relação indica que a cada R 100 de capital próprio E a empresa utiliza R 067 de dívida ATENÇÃOFIQUE ATENTO Considerase dívida bruta da companhia a soma de todos os seus passivos onerosos aqueles que possuem pelo menos de forma explícita custo financeiro ou seja dos quais se exige o pagamento de juros A dívida líquida é o resultado da dívida bruta após subtraído o disponível da empresa caixa e equivalentes de caixa Nos índices de endividamento o analista caso assim considere adequado pode utilizar a dívida líquida Esse índice pode ser útil por exemplo nos casos em que a companhia apresente em determinado período um saldo em caixa muito superior ao que suas necessidades operacionais caixa cíclico exigiriam Relação dívida curto prazo X Dívida total A análise do índice de endividamento total fornece informações sobre a quantidade de dí vida utilizada pela empresa No entanto não necessariamente indica a qualidade da dívida Uma alternativa para essa análise é comparar a dívida de curto prazo com a dívida total da companhia Para isso basta calcular a razão entre o total de passivos onerosos de curto pra zo e o total da dívida Essa métrica pode ajudar a avaliar a qualidade da dívida De todo o exposto percebese que quanto maior for o índice de endividamento da empre sa maior tende a ser o seu risco No entanto os índices de endividamento por serem base ados apenas em contas do BP representam a situação da empresa em um dado momento são estáticos Acompanhar sua evolução e principalmente comparála com os índices do setor é importante 59 CAPÍTULO 2 O mais comum é que o pagamento dos juros e a amortização das dívidas ocorra com o pas sar do tempo utilizando para isso os resultados operacionais conquistados pela empresa Uma empresa em funcionamento não paga suas dívidas por meio da realização de seus ativos Ela só se desfaz de ativos para pagamento de suas dívidas quando se en contra numa situação de risco e forte endividamento O normal é a empresa pagar as dívidas por meio da geração de caixa operacional COSTA LUND 2018 p 54 Nessa análise há dois índices que podem ajudar Dívida LíquidaEBITDA Dívidalíquida Dívidabruta Disponibilidades Dívidalíquida EBITDA EBITDA A relação entre a dívida líquida e o EBITDA da empresa apresenta o percentual que a dívi da da empresa líquida das disponibilidades representa de sua geração de caixa Como se sabe o EBITDA é utilizado como referência de resultado operacional da empresa uma vez que representa os ganhos resultados antes do pagamento dos juros impostos e depre ciação Tratase assim de boa referência para a análise da capacidade de pagamento das obrigações Mas a análise precisa avançar É preciso avaliar como a empresa pagará os juros Como amortizará o principal Embora seja possível uma reestruturação de passivos e venda de ativos essas não são situações corriqueiras que representam ações de uma empresa saudável financei ramente Fonte RAJESH RAJENDRAN NAIR 123RF 60 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Quando comparado com a dívida líquida fornece uma boa métrica da capacidade de a com panhia amortizar a sua dívida Se uma empresa apresenta uma relação dívida líquidaEBI TDA igual a 100 por exemplo significa que o resultado operacional de um ano supondo que se está utilizando o EBITDA de um ano é suficiente para amortizar toda a dívida Se for 50 significa que o resultado operacional é suficiente para quitar a dívida em apenas meio ano e assim por diante Portanto quanto menor o índice melhor a situação financeira da companhia REFLITA Dívida bruta ou dívida líquida Como em outros índices o índice Dívida líquidaEBITDA pode ser também calculado substituindo a dívida líquida pela bruta Qual a mais adequada A resposta novamente dependerá de cada caso Se o analista entende que a situação de caixa da empresa é mais que suficiente para as suas necessidades operacionais cíclicas talvez as disponibilidades possam eventualmente ser utilizadas na amortização de dívidas Nesses casos o uso da dívida líquida possa fazer sentido Fica a reflexão Índice de Cobertura de Juros ICJ EBIT ICJ Despesas financeiraslíquidas O índice de cobertura como o nome indica apresenta a capacidade de a empresa pagar ju ros a partir de seus lucros Quanto maior esse índice maior será a folga da empresa em ter mos de resultado operacional disponível para o pagamento dos juros das suas obrigações Uma empresa que tenha faturamento de R 1M e obrigações de juros de R 100mil terá um índice de cobertura de juros igual a 10 Isso significa que o resultado operacional da companhia equivale a 10x as suas obrigações com juros Valor que representa uma situação financeira confortável Como a depreciação e a amortização reduzem o lucro operacional EBIT mas não repre sentam efetivamente saída de caixa podese calcular o ICJ como alternativa utilizando o EBITDA 61 CAPÍTULO 2 EBITDA ICJ Despesas financeiraslíquidas ICJ e risco de inadimplência Um dos usos do ICJ é ajudar a estabelecer um spread de risco de inadimplência para em presas a fim de se estimar o seu custo de capital de terceiros De forma geral o ICJ ajuda a determinar o seu risco e consequentemente o rating atribuído à companhia A partir desse rating o spread é estimado O professor Aswath Damodaran 2021 apresenta essa abordagem em seu site e disponibi liza uma tabela conforme Tabelas 3 e 4 em que relaciona o ICJ ao spread para companhias não financeiras tanto de grande porte como para as de porte menor e mais arriscadas If interest coverage ratio is to Rating is Spread is 850 100000 AaaAAA 069 65 8499999 Aa2AA 085 55 6499999 A1A 107 425 5499999 A2A 118 3 4249999 A3A 133 25 2999999 Baa2BBB 171 225 249999 Ba1BB 231 2 22499999 Ba2BB 277 175 1999999 B1B 405 15 1749999 B2B 486 125 1499999 B3B 594 08 1249999 CaaCCC 946 065 0799999 Ca2CC 997 02 0649999 C2C 1309 100000 0199999 D2D 1744 Tabela 3 For large nonfinancial service firms mkt cap 5 billion Fonte Damodaran 2021 62 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO If interest coverage ratio is greater than to Rating is Spread is 125 100000 AaaAAA 069 95 12499999 Aa2AA 085 75 9499999 A1A 107 6 7499999 A2A 118 45 5999999 A3A 133 4 4499999 Baa2BBB 171 35 39999999 Ba1BB 231 3 3499999 Ba2BB 277 25 2999999 B1B 405 2 2499999 B2B 486 15 1999999 B3B 594 125 1499999 CaaCCC 946 08 1249999 Ca2CC 997 05 0799999 C2C 1309 100000 0499999 D2D 1744 Tabela 4 For smaller and riskier firms Fonte Damodaran 2021 UNIDADE 4 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO NA PRÁTICA Como exemplo prático da análise da situação financeira e endividamento serão utilizados os dados econômicos e financeiros da companhia Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 conforme os demonstrativos financeiros apresentados anteriormente as análises aqui apresentadas têm o objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não represen tam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa 63 CAPÍTULO 2 Considerando os objetivos os índices serão apresentados em uma perspectiva interna com comparação exclusivamente histórica Na prática os analistas devem estudar o setor de atuação e o negócio da empresa e podem fazer também comparações com empresas do mesmo segmento de atuação Análise da situação financeira Os índices de liquidez do Magazine Luiza referentes aos anos de 2018 2019 e 2020 são apresentados na Figura 2 Figura 2 Índices de liquidez do Magazine Luiza Como se pode observar o ILC da empresa em 2020 ficou ligeiramente mais baixo que o do ano anterior em 125 significando que a empresa possui R 125 em bens e direitos de curto prazo para cada R 100 em obrigações de curto prazo Ao serem desconsiderados os esto ques o ILS ficou em 081 o que demonstra que sem estoques a empresa possui R 081 em ativos circulantes para cada R 100 de passivo circulante Já o ILI fechou o ano de 2020 em 022 Esses índices de liquidez no entanto não necessariamente são suficientes para chegar a conclusões sobre a análise da situação econômicofinanceira das empresas A análise de atividade pode ajudar na melhor compreensão da situação financeira A Tabela 5 apresenta os prazos médios e os ciclos operacional CO e financeiro CF da companhia 64 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Magazine Luiza Análise de ciclos 2018 2019 2020 PME 9153 9549 9853 PMR 4737 5277 5875 CO 13890 14826 15728 PMP 13371 14907 14132 CF 519 081 1596 Tabela 5 Prazos médios e os ciclos operacional CO e financeiro CF da companhia Podese observar que entre os anos de 2018 e 2019 a companhia operava praticamente com um equilíbrio entre o CO e o PMP mantendo o CF relativamente baixo Em 2019 inclusi ve chegou a ser negativo o que significa que a empresa conseguia sustentar todo o seu ciclo operacional com o prazo de pagamento que recebia de seus fornecedores Basta comparar o CO de 14826 dias com os 14907 dias de prazo de pagamento em média Em 2020 o ciclo financeiro ficou em 1596 Apenas pelos índices de liquidez a análise não é tão clara Pelos ciclos podese observar um conjunto de fatores O PMR aumentou de aproximadamente 53 para quase 59 dias ao passo que o PMP reduziu de 149 para 141 dias Como o PME também aumentou ligeiramente o CF subiu o que pode indicar aumento na necessidade de capital de giro Mas a análise não deve parar por aí A avaliação deve seguir para a análise dinâmica da NCG suas fontes de financiamento e im pactos no saldo em tesouraria A Tabela 6 apresenta a NCG o CCL e o ST do Magazine Luiza no período em análise Cabe esclarecer que o ACO foi calculado como a diferença entre o AC e as disponibilidades da empresa caixa equivalentes de caixa e aplicações financeiras Do outro lado o PCO da companhia foi considerado como a diferença entre o PC e os emprés timos e financiamentos de curto prazo Magazine Luiza Análise da NCG em milhares de reais 2018 2019 2020 Ativo Circulante Operacional ACO R 540419200 R 808725700 R 1389565500 Passivo Circulante Operacional PCO R 525785500 R 799262000 R 1174896400 NCG ACO PCO R 14633700 R 9463700 R 214669100 Capital Circulante Líquido CCL R 102379200 R 483857400 R 338266500 Saldo em tesouraria ST R 87745500 R 474393700 R 123597400 Tabela 6 NCG o CCL e o ST do Magazine Luiza no período em análise 65 CAPÍTULO 2 Como se pode observar na análise dos ciclos a NCG aumentou em 2020 Saiu de aproxi madamente R 94 milhões para mais de R 2 bilhões Percebese que isso ocorreu porque houve aumento nos investimentos em ativos operacionais de curto prazo mas o aumento no passivo circulante operacional não foi suficiente para financiar o acréscimo Porém apesar do aumento na NCG o CCL aumentou de forma mais que proporcional entre 2018 e 2020 mantendose ainda mais que suficiente para suprir as necessidades de capital de giro da companhia Essa situação aparece no Saldo em Tesouraria ST Como a empresa possui recursos onero sos de longo prazo PNC e PL suficientes para financiar a necessidade de capital de giro o ST da empresa fechou o ano de 2020 em mais de R 1 bilhão Análise de endividamento e risco de inadimplência Os índices de endividamento do Magazine Luiza estão expressos na Tabela 7 Magazine Luiza Análise de ciclos 2018 2019 2020 Dívida Bruta D R 45596700 R 84882900 R 168676200 Patrimônio Líquido E R 230287200 R 756493700 R 732528700 DDE 1653 1009 1872 DE 1980 1122 2303 Disponibilidades R 100819800 R 475390400 R 290315500 Dívida Líquida DL R 55223100 R 390507500 R 121639300 POCP Empréstimos e Finan ciamentos CP R 13074300 R 996700 R 166718100 POCPD 2867 117 9884 EBITDA R 124524100 R 177553800 R 152709900 DLEBITDA 4435 21994 7965 DEBITDA 3662 4781 11046 EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Despesas financeiras líquidas R 29468800 R 7041300 R 41049500 ICJ EBIT 367 1830 201 ICJ EBITDA 423 2522 372 Tabela 7 Índices de endividamento do Magazine Luiza 66 ANÁLISE DA SITUAÇÃO FINANCEIRA E ENDIVIDAMENTO Como se pode observar a dívida bruta total do Magazine Luiza tem se mantido em percen tuais baixos em relação ao capital total investido Aqui vale relembrar que nesse conceito considerase capital total a soma dos empréstimos e financiamentos de curto e longo prazo com o patrimônio líquido ou seja o total dos recursos onerosos que financiam a empresa mais o patrimônio líquido Nesse sentido essa composição da dívida em 2020 pode ser observada com outros olhos visto que é inferior ao caixa Resta analisar o impacto da dívida nos resultados da empresa em virtude dos encargos financeiros Esse detalhe fica visível na análise dos ICJ Ao se observar os ICJ pelo EBIT em 2019 atingiu 1830 o que significa que o lucro operacional representou 1830 vezes as despesas finan ceiras líquidas Em 2020 o índice foi 201 devido ao acréscimo nas despesas financeiras líquidas e à redução observada no EBIT RESUMO Neste capítulo foram introduzidos os principais aspectos relacionados à análise da situação financeira e endividamento das empresas Foram apresentados os índices de liquidez destacando suas características e limitações especialmente por representarem aspectos mais estáticos da companhia Foram abordados os prazos médios e os ciclos operacional e financeiro da empresa em complemento ao es tudo da liquidez uma vez que possibilitam visualizar melhor as atividades da empresa e os impactos na situação financeira O capítulo abordou ainda a visão dinâmica da Necessidade de Capital de Giro NCG que considera todos ativos e passivos circulantes operacionais Destacou também as possibili Em 2020 o índice DDE alcançou 1872 Ao se observar a participação da dívida de curto prazo em relação ao total percebese que o índice alcançou em 2020 9884 Ao se analisar porém esse dado conjuntamente com as informações de CCL NCG e com as disponibilidades da empresa a avaliação tor nase mais completa Na prática a companhia não precisaria recorrer a recursos onerosos de curto prazo para financiar a sua NCG já que o CCL tem se mostrado mais que suficien te Além disso a dívida líquida da empresa é negativa o que significa que as disponibilida des da companhia são superiores ao total da sua dívida bruta incluindo aí a de curto prazo Fonte Andriy Popov 123RF 67 CAPÍTULO 2 dades de financiamento da NCG o papel do Capital Circulante Líquido CCL e os possíveis impactos no Saldo em Tesouraria ST Na análise de endividamento foram debatidos os índices de endividamento e a relação dívida líquidaEBITDA como instrumentos que podem avaliar a solvência de longo prazo da companhia Além dos Índices de Cobertura de Juros ICJ que auxiliam na análise da capaci dade de pagamento e risco de inadimplência Por fim o capítulo apresenta um exemplo de aplicação prática com o objetivo principal de explorar os cálculos e a interpretação dos índices em especial quando analisados em conjunto e em complemento de forma a consolidar os conceitos estudados e despertar o interesse em avançar e aprimorar o processo 68 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Capítulo 3 69 CAPÍTULO 3 INTRODUÇÃO A análise do desempenho econômico das empresas busca compreender e investigar a capacidade de geração de resultado lucro em relação aos diferentes fatores que o influenciam como os ativos as vendas e o capital investido A ideia central que envolve a análise de desempenho econômico é a de que a observação apenas dos valores absolutos dos lucros gerados pela empresa não é suficiente Saber por exemplo que a empresa A teve R 200 mil de lucro e a B R 200 milhões indica apenas que a empresa B é de grande porte nada mais Por isso esses valores precisam ser analisados relativamente a outros sob a forma de taxas de lucro ou rentabilidade Para entender essa relação vale lembrar que uma empresa é constituída por um conjunto de ativos fruto de suas decisões de investimento que geram receitas e consequentemente lucro São os lucros que irão remunerar as diferentes fontes de financiamento dos ativos dos credores e dos acionistas O desempenho econômico das empresas portanto é em grande parte resultado de suas decisões de investimento a análise visa avaliar a atratividade dessas escolhas Neste capítulo vamos nos concentrar nas análises de lucratividade rentabilidade giro e valor econômico adicionado 70 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender as diferentes medidas de lucratividade de uma companhia e o seu significado as medidas de rentabilidade sua interpretação e análise o conceito de giro dos ativos investimento e patrimônio líquido a relação entre os índices de rentabilidade o giro e as margens como complemento à análise o conceito de valor econômico adicionado e spread econômico a aplicação prática da análise de desempenho econômico Para melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos descritos este capítulo está dividido em Unidade 1 Índices de rentabilidade Unidade 2 Índices de lucratividade e giro Unidade 3 Valor Econômico Adicionado EVA Unidade 4 Análise do desempenho econômico na prática 71 CAPÍTULO 3 UNIDADE 1 ÍNDICES DE RENTABILIDADE O estudo da rentabilidade busca investigar o desempenho econômico da empresa anali sando a relação entre a geração de lucro e os ativos e as diferentes fontes de financiamento utilizadas pela companhia que contribuíram para o seu alcance O objetivo do estudo da rentabilidade portanto é calcular e analisar a taxa de retorno sobre os seus ativos o capital próprio e o capital investido Tratase de uma análise acerca da rentabilidade das decisões de investimento tomadas pela companhia Figura 1 Conjunto de ativos Fonte Elaborado pelo autor Um aspecto importante ao se calcular a rentabilidade é utilizar medidas de lucro que sejam coerentes com o que se deseja analisar Por isso para cada situação como destacado em cada um dos índices há uma medida de lucro mais apropriada 72 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Retorno sobre o investimento ROI Figura 2 Avaliação sobre retorno de lucro capital Fonte Andrii Yalanskyi 123RF O retorno sobre o investimento também conhecido pela sigla em inglês ROI return on in vestment avalia a taxa de retorno do lucro em relação ao capital total que a financia O que se busca estimar é a capacidade de a empresa rentabilizar por meio da geração de lucro o montante total de capital na companhia independentemente da estrutura utilizada capital próprio ou dívida Pode ser calculado da seguinte maneira 1 EBIT T ROI Capitaltotal Capital total conhecido por capital empregado ou no inglês capital employed é a soma de todos os passivos onerosos da empresa ou recursos onerosos de curto ou longo prazo Representa os montantes captados pela empresa dívida ou capital próprio sobre os quais incide algum custo financeiro custo de oportunidade Incluemse aí empréstimos e finan ciamentos títulos emitidos patrimônio líquido Pode ser calculado portanto como a soma do PL com o passivo oneroso curto e longo prazo 73 CAPÍTULO 3 Figura 3 Análise de capital total Fonte Hendra Su 123RF Cabe lembrar que todo o restante do passivo chamado de não oneroso como fornecedo res salários impostos e outras contas a pagar não possui custo financeiro Como o passivo circulante e não circulante é composto por passivo oneroso e não oneroso o capital total também pode ser calculado pela diferença entre o ativo total passivo total e o passivo não oneroso COMENTÁRIO DO AUTOR Em relação ao custo financeiro sabese que em alguns casos pode haver juros implícitos mas em geral não são considerados como passivos onerosos É o caso por exemplo de um fornecedor que concede prazo de pagamento mas oferece um desconto para pagamento à vista Entretanto tal operação não é considerada um financiamento Se o analista considerar relevante ele pode proceder à reclassificação para fins de análise Nesse sentido como se trata de uma medida de rentabilidade do capital investido indepen dente de quem esteja financiando a empresa capital próprio ou de terceiros o lucro utili zado na análise é o lucro operacional ou EBIT Isso porque esse é justamente o lucro mais apropriado como medida de geração de resultado da empresa como um todo 74 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Por fim cabe avaliar que para fins de análise é importante excluir do lucro operacional a parcela destinada aos impostos Por isso o lucro é multiplicado por 1T em que T repre senta a alíquota efetiva dos tributos sobre o lucro efetivamente cobrado pela companhia Retorno sobre o Patrimônio Líquido O retorno sobre patrimônio líquido conhecido pela sigla em inglês ROE return on equity é a medida de rentabilidade do capital próprio utilizado pela empresa Objetiva calcular a capa cidade de a companhia rentabilizar os seus acionistas sócios a partir da geração de lucro É calculado da seguinte forma Lucro Líquido ROE Patrimônio Líquido Nesse caso como se deseja analisar a rentabilidade do ponto de vista do acionista o lucro apropriado é o lucro líquido e a base de comparação é o próprio patrimônio líquido que efetivamente representa o capital próprio da empresa TOME NOTA Alíquota efetiva dos tributos Sabese que em alguns casos pode haver juros implícitos mas em geral não são considerados como passivos onerosos É o caso por exemplo de um fornecedor que concede prazo de pagamento mas oferece um desconto para pagamento à vista Entretanto tal operação não é considerada um financiamento Se o analista considerar relevante ele pode proceder à reclassificação para fins de análise Análise comparativa ROE x ROI Se uma empresa for financiada única e exclusivamente com capital próprio de forma que o capital total seja igual ao patrimônio líquido há que se esperar que o lucro operacional seja igual ao lucro líquido e portanto que o ROE seja igual ao ROI Se ROI é 1 EBIT T ROI Capitaltotal 75 CAPÍTULO 3 Então se não há capital de terceiros não haverá despesas com juros portanto EBIT1T será igual ao lucro líquido sendo Lucrolíquido ROI Capitaltotal No entanto se não há capital de terceiros o capital total será igual ao patrimônio líquido de maneira que Lucrolíquido ROI Patrimônio Líquido Com isso temse que ROI ROE Por essa razão a comparação entre ROI e ROE pode fornecer interessantes informações aos acionistas em termos do uso de capital de terceiros na companhia Se ROE ROI o uso de capital de terceiros na estrutura da empresa está agregando valor aos acionistas já que a companhia passou a entregar uma rentabilidade ROE superior à da companhia desalavancada ROI Lembrese que o ROI indica a rentabilidade operacional da empresa de sua capacidade de geração de lucro independentemente de quem a financia De forma oposta se ROE ROI o uso de capital de terceiros na estrutura da empresa passou a subtrair valor para os acionistas uma vez que a companhia passou a entregar uma renta bilidade ROE inferior Retorno sobre os Ativos ROA Outra medida de rentabilidade utilizada é o retorno sobre os ativos da empresa ou ROA return on assets do termo em inglês O ROA mede a taxa de retorno em relação aos seus ativos totais É calculado da seguinte maneira Lucro Líquido ROA AtivoTotal 76 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Nesse caso por se tratar de medida geral em relação ao ativo o lucro utilizado é o líquido No entanto podese calcular também utilizando o NOPAT ATENÇÃO Uma discussão comum no cálculo dos índices de rentabilidade diz respeito aos valores que se deve utilizar como referência para o capital total patrimônio líquido e ativo e de qual período de tempo do início do fim ou a média do período Isso ocorre porque os índices relacionam uma medida de fluxo DRE os lucros que dizem respeito ao período como um todo com uma medida de estoque BP que representa apenas uma fotografia do final do período Na prática o que acontece é que a geração de lucro de um período é influenciada não apenas pelos ativos ou capitais investidos constantes no BP ao final do período mas também pelos ativos e capitais investidos no início do período ou ainda por novas captações de recursos realizadas ao longo do período As três possibilidades podem ser utilizadas cabe ao analista compreender a que melhor representa a empresa em análise UNIDADE 2 ÍNDICES DE LUCRATIVIDADE E GIRO Índices de Lucratividade O estudo da lucratividade das empresas tem o objetivo de avaliar a sua capacidade de ge ração de lucros a partir do volume de vendas As principais medidas utilizadas são margem bruta margem EBIT margem EBITDA e margem líquida Margem Bruta A margem bruta avalia a relação entre o lucro bruto e as vendas Representa portanto a capacidade de geração de lucro da empresa a partir das vendas após deduzidos todos os custos sejam das mercadorias vendidas CMV dos produtos vendidos CPV ou dos serviços prestados CSP Conforme Costa e Lund 2018 p 80 a margem bruta é um indicador que corresponde ao percentual de cada real de venda que restou após a empresa ter deduzido os custos das vendas 77 CAPÍTULO 3 Se as empresas A e B tiveram lucro bruto respectivamente de R 60 mil e R 40 milhões para faturamentos de R 200 mil e R 200 milhões a margem bruta de A terá sido 30 en quanto a de B apenas 20 Margem Operacional Margem LAJIR ou EBIT A margem operacional avalia a relação entre o lucro operacional da empresa e as vendas Portanto representa o resultado medido em termos percentuais sobre as vendas após deduzidos todos os custos e as despesas operacionais como as despesas com vendas ad ministrativas e gerais É importante esclarecer que esse conceito de lucro operacional re presenta apenas as atividades operacionais da empresa independentemente de como ela está sendo financiada Portanto não considera o resultado financeiro da companhia Lucro Bruto Margem Bruta Vendas Líquidas LucroOperacional LAJIRou EBIT MargemOperacional LAJIRou EBIT Vendas Líquidas TOME NOTA O lucro operacional é também referenciado por alguns autores como lucro antes dos juros e impostos LAIR ou pela sigla em inglês de mesmo sentido EBIT Earns Before Interests and Taxes Margem Líquida A margem líquida avalia a relação entre o lucro operacional e as vendas líquidas Represen ta afinal o que restou das vendas após deduzidos todos os custos as despesas operacio nais o resultado financeiro e os impostos Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Líquidas 78 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Margem EBITDALAJIDA Outra medida de lucratividade amplamente utilizada pelo mercado é a margem EBITDA que representa a relação entre o resultado operacional da empresa antes de depreciação e amortização e as vendas líquidas O EBITDA embora não faça parte da DRE pode ser facilmente calculado a partir do EBIT somandose as despesas de depre ciação e amortização do período É uma medida muitas vezes utilizada embora não represente a mesma coisa como re ferência para a capacidade de geração de caixa da empresa uma vez que deprecia ção e amortização são despesas operacio nais que não representam saída de caixa Fonte Alex Bramwell 123RF EBITDAou LAJIDA Margem EBITDAou LAJIDA Vendas Líquidas TOME NOTA O lucro operacional antes dos juros dos impostos da depreciação e da amortização é por vezes apresentado como LAJIDA ou pela sigla em inglês de mesmo sentido EBITDA Earns Before Interests Taxes Depreciation and Amortization SAIBA MAIS O EBITDA depois de provisionados os impostos é por vezes utilizado como referência para o fluxo de caixa operacional da empresa É importante notar no entanto que para se chegar a esse resultado devese partir do EBIT calcular a provisão dos impostos e então chegar ao lucro operacional após impostos ou NOPAT Net Operating Profit After Taxes A partir do NOPAT somase novamente a depreciação e a amortização para se chegar ao chamado fluxo de caixa operacional da empresa É importante compreender que fluxo de caixa operacional não significa fluxo de caixa livre da empresa Para este devese ainda subtrair as necessidades de reinvestimento na empresa seja para capital de giro ou CAPEX 79 CAPÍTULO 3 Giro do Ativo O giro do ativo como o nome sugere indica o número de vezes que o ativo total da empresa gira dentro do exercício considerado em razão do volume total de receitas É calculado pela fórmula Receitas Girodo Ativo AtivoTotal Percebese que o giro do ativo pode ser visto como a capacidade de a empresa gerar re ceitas para cada unidade monetária investida no ativo Portanto quanto maior o índice mais eficiente é a empresa no uso de seus investimentos ativos Giro do ativo igual a 2 por exemplo significa que a companhia foi capaz de gerar R 2 de vendas para cada R 1 investido em ativos Giro do PL De forma similar o giro do patrimônio líquido indica a capacidade de a empresa gerar re ceitas para cada unidade monetária investida pelos sócios ou acionistas Giro do PL igual a 3 por exemplo significa que a companhia foi capaz de gerar R 3 de vendas para cada R 1 de patrimônio Receitas Girodo PL PL Giro do Investimento O mesmo raciocínio pode ser aplicado ao capital total investido na empresa ou investimen to O giro do investimento indica a capacidade de a empresa gerar vendas para cada unida de monetária investida pelo capital total dívida e patrimônio líquido Vendas Girodoinvestimento Capitaltotal Análise de Margem x Giro A análise do giro permite explorar melhor o desempenho econômico das empresas por meio da decomposição dos índices de rentabilidade e de sua relação com a margem e o giro Vejamos o caso do ROA 80 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Lucrolíquido Lucro Líquido Vendas ROA ROA x AtivoTotal Vendas AtivoTotal Como Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Vendas Girodoativo AtivoTotal Então ROA Margem Líquida xGirodo Ativo De forma similar podese decompor o ROE Lucrolíquido Lucro Líquido Vendas ROE ROE x PL Vendas Patrimônio Líquido Como Lucro Líquido Margem Líquida Vendas Vendas Girodo PL PL Então ROE Margem Líquida xGirodo PL Quanto ao ROI 1 1 EBIT t EBIT t Vendas ROI ROI x CapitalTotal Vendas CapitalTotal 81 CAPÍTULO 3 Como EBIT MargemOperacional Vendas Vendas Girodo Investimento Capitaltotal Então 1 ROI MargemOperacional x t xGirodo Investimento De forma geral podese perceber que as taxas de rentabilidade de uma empresa podem ser vistas como função da sua lucratividade e do seu giro da sua eficiência nas decisões de investimento Uma maneira portanto de investigar a rentabilidade da empresa é estudar detalhadamente todos os componentes que influenciam a margem e o giro UNIDADE 3 VALOR ECONÔMICO ADICIONADO EVA Nas Unidades 1 e 2 o desempenho econômico foi apresentado sob a perspectiva interna com o objetivo de compreender a capacidade de a empresa gerar resultados a partir de suas operações lucratividade e do capital investido rentabilidade Essa análise embora fundamental não é suficiente para avaliar se a companhia está agregando valor aos seus acionistas Uma empresa pode por exemplo apresentar ROE crescente nos últimos anos e estar em patamar similar ao do seu setor mas será que está remunerando adequadamente o capital investido pelos acionistas Na prática os acionistas ao aportarem seus recursos na empresa têm uma expectativa de retorno conhecida como taxa mínima de atratividade ou retorno esperado que considera a percepção de risco em relação à companhia Essa taxa mínima de atratividade quando observada pela ótica da empresa é chamada de custo de capital próprio 82 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Custo de capital Essa percepção de que o custo de capital representa o retorno esperado ou a taxa mínima de atratividade exigida pelos acionistas ao investir na empresa ajuda a compreender a for mação do custo de capital próprio Figura 4 Custo de capital investido Fonte pitinan 123RF Para isso é interessante lembrar que o investimento representa a abdicação de consumo presente para consumo no futuro Por essa razão os investidores em tese só aceitariam aplicar seus recursos se fossem compensados no mínimo por um prêmio por essa espera no consumo desde que isso não represente risco Essa compensação na prática financeira é muitas vezes representada pela taxa livre de risco de mercado ou seja pela oportunidade de se investir em um título livre de risco como um título governamental Como o investimento em capital próprio das empresas no entanto apresenta riscos os acionistas exigem também um prêmio pelo risco Assim o custo de capital próprio Ke pode ser representado por Ke rf prêmio pelorisco Para cálculo do custo de capital próprio utilizase por vezes como referência o modelo CAPM ou Capital Asset Pricing Model que define o custo de capital próprio como 83 CAPÍTULO 3 risk free representa a taxa livre de risco do mercado representa uma medida do risco sistemático risco não diversificável da empresa é uma representação do prêmio de risco de mercado calculado pela diferença entre o retorno esperado de uma carteira diversificada de ativos arriscados e o retorno da taxa livre de risco representa o capital próprio total patrimônio líquido investido na companhia é a dívida total da empresa ou passivo oneroso e representa a alíquota de impostos sobre os lucros ke rf b rm rf Em que rf b oubeta rm rf As empresas no entanto não são financiadas apenas por capital próprio mas por uma com binação entre capital próprio e capital de terceiros que representa o custo da empresa ao captar recursos por meio de empréstimos financiamentos e emissão de títulos O custo da dívida Kd ou custo do capital de terceiros é formado seguindo o mesmo racio cínio aplicado ao custo de capital próprio com a diferença de que o prêmio de risco passa a ser representado pelo risco de a companhia não conseguir honrar as obrigações assumidas no empréstimo chamado de risco de inadimplência Dessa forma o custo de capital total da empresa ou como é mais conhecido weighted ave rage cost of capital WACC custo médio ponderado de capital representa a média entre o custo de capital próprio e o custo de capital de terceiros ponderados pela participação de cada um no capital total investido na empresa 1 E D WACC Ke Kd T D E D E Em que E D T O custo da dívida na fórmula acima foi multiplicado por 1T para representar o custo da dívida já líquida dos benefícios fiscais do pagamento dos juros 84 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Valor Econômico Adicionado EVA Valor econômico adicionado do inglês Economic Value Added EVA pode ser definido como o excesso de retorno que a empresa consegue gerar para o acionista Nesse sentido repre senta uma espécie de lucro ou resultado econômico da empresa ou lucro residual aquele que resta depois de deduzidos todos os custos e as despesas incluindo o custo de capital Conforme mencionado por Assaf Neto 2020 o fundamento do conceito de EVA é o lucro residual lucro que resta após serem deduzidos todos os custos e encargos de capital inclu sive o custo de capital próprio É o lucro na visão dos acionistas SAIBA MAIS Assaf Neto 2020 p 114 nos conta que O conceito original de EVA como valor agregado ou adicionado por uma empresa foi proposto por economistas no século XIX assumindo a medida diversas denominações e propostas ao longo do tempo Em 1820 por exemplo foi definido por David Ricardo como lucro su pranormal Posteriormente ficou conhecido por lucro econômico ou residual Mais recentemente anos 1980 uma empresa de consultoria Stern Stewart Co adotou alguns ajustes e registrou o nome dessa medida como EVA Economic Value Added Valor Econômico Agrega do O EVA pode ser analisado tanto pela perspectiva operacional que compara o lucro operacio nal da empresa com o seu custo de capital total como pela ótica do acionista ao comparar o lucro líquido com o custo de capital próprio Figura 5 Comparativo lucro operacional com custo de capital total Fonte Elaborada pelo autor 85 CAPÍTULO 3 O EVA pela ótica da empresa O EVA analisado pela perspectiva operacional da empresa considera o lucro econômico ge rado pelas suas atividades principais independentemente de sua estrutura de capital e de quem quer que esteja financiando a empresa Por esse lado pode ser calculado pela diferença entre o lucro operacional após os impostos NOPAT e o seu custo de capital total WACC NOPAT lucro operacional após os impostos EBIT1T Custo de capital total WACC x Investimento EVA na perspectiva da empresa Quadro 1 Diferença entre o lucro operacional após os impostos NOPAT e o seu custo de capital total WACC Fonte Adaptado de Assaf Neto 2020 O EVA na visão do acionista O EVA analisado pela ótica do acionista considera o lucro econômico gerado pelas atividades principais e pelas atividades de financiamento da companhia considerando portanto a sua estrutura de capital Pode ser calculado pela diferença entre o lucro líquido e o custo de capital próprio Ke Lucro Líquido Custo de capital próprio Ke x PL EVA na visão do acionista Quadro 2 Diferença entre o lucro líquido e o custo de capital próprio Ke Fonte Adaptado de Assaf Neto 2020 Para exemplificar suponha que a companhia C tenha apresentado ao mercado a sua de monstração do resultado do exercício conforme Tabela 1 referente ao último período 86 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO DRE Companhia C milhares reais Receitas R 150000 Custo das Mercadorias Vendidas CMV R 99000 Lucro Bruto R 51000 Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA R 12000 Lucro Operacional EBIT R 39000 Despesas Financeiras R 9000 Lucro antes do IR R 30000 IR e CSSL 34 R 10200 Lucro Líquido R 19800 Tabela 1 Demonstração do resultado do exercício Fonte Elaborada pelo autor Considere ainda que a empresa é financiada por um investimento total também em milha res de reais de R 300000 sendo R 180000 de PL 60 do capital total EDE R 120000 de passivo oneroso dívida 40 do capital total DDE O custo de capital próprio Ke da companhia é estimado em 10 Com base no DRE e con siderando o passivo oneroso podese estimar o custo da dívida kd pela relação entre as despesas financeiras e a dívida da empresa NOPAT R 39000 x 134 R 25740 90 750 Kd 1200 Assim o WACC será 10 60 750 40 1 34 798 WACC x x x Cálculo do EVA na perspectiva da empresa 87 CAPÍTULO 3 Custo do capital total WACC x Investimento total R 300000 x 798 23940 EVA na perspectiva da empresa R 1800 Cálculo do EVA na visão do acionista Lucro Líquido R 19800 Custo do capital próprio Ke x PL R 180000 x 10 18000 EVA na visão do acionista R 1800 Spread Econômico A análise do EVA pode ser realizada a partir das métricas de rentabilidade das empresas especialmente o ROI e o ROE Para isso basta observar que Portanto Portanto NOPAT ROI Investimentototal NOPAT ROI x Investimento Assim como EVA NOPAT WACC x Investimentototal Então EVA ROI x InvestimentoTotal WACC x Investimentototal EVA ROI WACC x Investimentototal Da mesma forma na visão do acionista Lucro Líquido ROE PL Lucro Líquido ROE x PL 88 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Assim como EVA Lucro Líquido Ke x PL Então EVA ROE x PL Ke x PL EVA ROE Ke x PL Do exemplo acima da companhia C temse que 25740 858 300000 R ROI R Portanto 858 798 300000 1 800 EVA x R R 1 9800 1100 1 80000 R ROE R Portanto 1100 1 000 1 80000 1 800 EVA x R R Por essa análise do EVA a partir da rentabilidade fica fácil perceber que a empresa irá gerar valor econômico a partir de suas operações sempre que o ROI WACC ou de outra forma irá adicionar valor ao acionista sempre que o ROE Ke Em outras palavras se a empresa estiver rentabilizando o capital investido total ou do acio nista acima do custo de capital temse que a empresa consegue gerar valor econômico para o acionista Essa diferença entre os índices de rentabilidade da empresa ROI ou ROE e o custo de capital WACC ou Ke é conhecida como spread econômico Do exemplo podese então calcular o spread econômico da empresa e do acionista como 858 798 060 Spread Econômicodaempresa ROI WACC 1100 1 000 100 Spread Econômicodoacionista ROE Ke 89 CAPÍTULO 3 UNIDADE 4 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO NA PRÁTICA Como exemplo prático da análise do desempenho econômico serão utilizados os dados econômicos e financeiros da companhia Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 conforme os demonstrativos financeiros apresentados no capítulo 1 Assim como no ca pítulo anterior os índices serão apresentados em uma perspectiva interna Na prática os analistas devem estudar o setor de atuação e o negócio da empresa e podem fazer também comparações com empresas do mesmo segmento de atuação COMENTÁRIO DO AUTOR As análises aqui apresentadas têm objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não representam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa FIQUE ATENTO Análise de rentabilidade as análises aqui apresentadas têm objetivo exclusivamente educacional são colocadas com o único propósito de exemplificar e praticar os conceitos estudados na disciplina e não representam qualquer opinião profissional ou recomendação em relação à empresa A Tabela 2 apresenta a análise dos índices de rentabilidade da empresa Magazine Luiza MAGAZINE LUIZA Rentabilidade milhares de reais 2019 2020 Capital Total médio R 766866950 R 1234834600 EBIT1T R 85045158 R 54422016 ROI 1109 441 PL médio R 493390450 R 744511200 Lucro Líquido R 92182800 R 39170900 90 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO ROE 1868 526 Ativo Total médio R 1429390700 R 2221913800 ROA 645 176 Giro Ativo 139 131 Giro PL 403 392 Giro do Investimento 259 236 Tabela 2 Rentabilidade Fonte Elaborada pelo autor O capital total no conceito apresentado na Unidade 1 foi calculado pela diferença entre o ativo total e o passivo circulante somandose em seguida o passivo oneroso de curto prazo empréstimos e financiamentos Tratase do mesmo valor da soma do passivo oneroso de curto prazo com o passivo não circulante e o patrimônio líquido Além disso utilizase o conceito da média ou seja o valor apresentado em 2019 representa na realidade a média entre 2019 e 2018 Isso é feito para considerar possíveis alterações ao longo do exercício Por essa razão para esta análise fo ram considerados apenas os anos de 2019 e 2020 Nesse sentido o ROI da empresa em 2019 foi de 1109 Isso significa que para cada R 100 investidos na empresa ela gerou R 1109 disponíveis aos investidores capital próprio e de terceiros Em 2020 o ROI foi 441 O ROI pode ser analisado considerando a margem operacional e o giro do investimento O giro do investimento ficou relativamente estável Em 2019 foi 259 e em 2020 236 Isso de monstra que em 2020 a empresa gerou R 236 em vendas para cada unidade monetária de capital total nela investido Para melhor compreensão do ROI podese desmembrar a margem operacional e observar os diferentes componentes do resultado operacional Para o cálculo do ROE e do ROA o PL e o ativo total foram também calculados pela média do período O ROE alcançado em 2019 foi de 1868 o que demonstra que para cada R 100 aportados pelos acionistas a empresa gerou R 1868 de resultado líquido Em 2020 o ROE foi 526 Quanto ao ROA podese observar que em 2019 foi 645 caindo para 176 em 2020 Da mesma forma que o ROI o ROE e o ROA podem ser analisados na perspectiva das mar gens e giros Novamente o valor dos giros do ativo e do patrimônio líquido ficaram re 91 CAPÍTULO 3 lativamente estáveis Podese portanto proceder a uma análise da margem líquida para complementar o estudo A análise do ROE e do ROI precisa ser complementada em comparação com o setor de atua ção da empresa mas também tendo em vista o custo de capital da companhia O ROE deve ser comparado ao custo de capital próprio da empresa enquanto o ROI em relação ao WACC ou custo médio ponderado de capital A análise do ROE comparativamente ao ROI também fornece informações interessantes Se ROE for maior que o ROI a alavancagem financeira ou seja o uso do capital de terceiros pode estar gerando valor aos acionistas No caso da Magazine Luiza em 2019 e 2020 o ROE se manteve acima do ROI Análise de lucratividade A Tabela 3 apresenta os índices de lucratividade da empresa Magazine Luiza em 2018 2019 e 2020 MAGAZINE LUIZA DRE milhares de reais Descrição 2018 2019 2020 Receita de vendas R 1559044400 R 1988631000 R 2917711300 Resultado lucro Bruto R 453742200 R 555396100 R 751996200 Margem Bruta 2910 2793 2577 LAIR EBIT R 108155100 R 128856300 R 82457600 Margem Operacional EBIT 694 648 283 Lucro líquido R 59742900 R 92182800 R 39170900 Margem líquida 383 464 134 Depreciação e Amortização R 16369000 R 48697500 R 70252300 EBITDA R 124524100 R 177553800 R 152709900 Margem EBITDA 799 893 523 Tabela 3 Índice de lucratividade Fonte Elaborada pelo autor A margem bruta da companhia foi 2577 em 2020 o que significa que para cada R 1 de vendas a empresa lucrou após deduzidos os custos dos bens e serviços vendidos R 02577 Em 2019 e 2018 a margem foi respectivamente 2793 e 2910 92 ANÁLISE DO DESEMPENHO ECONÔMICO Movimento similar ocorreu com a margem operacional que foi de 694 em 2018 648 em 2019 e 283 em 2020 Portanto em 2018 a empresa lucrou R 694 com suas opera ções para cada R 100 de vendas e R 283 para cada R 100 em vendas em 2020 Esse movimento pode ajudar a explicar o ROI analisado no tópico anterior A margem líquida esteve em 383 em 2018 indicando que para cada R 100 de vendas a empresa lucrou após descontar todos os custos as despesas os juros e os impostos R 383 aos acionistas Em 2019 o resultado foi 464 e em 2020 134 A análise da margem líquida pode ajudar a complementar o estudo do ROE e do ROA Já a margem EBITDA que em 2018 foi 799 demonstra que a companhia gerou resultado operacional antes dos juros dos impostos da depreciação e da amortização de R 799 por R 100 de vendas Essa medida pode ser considerada como uma referência da capacidade de geração de caixa operacional da empresa Para chegar a conclusões mais precisas podese fazer comparações por exemplo com os índices dos principais concorrentes ou com a média do setor Devese procurar investigar ainda as principais razões dos movimentos nos índices SAIBA MAIS Já ouviu falar em EBITDA ajustado ou lucro líquido ajustado Às vezes em determinado exercício as empresas podem incorrer em receitas ou despesas consideradas não recorrentes São situações que não ocorrem periodicamente ano a ano Elas podem surgir a partir de mudanças na contabilização ou em operações consideradas atípicas pela empresa Como base de comparação e análise pode ser interessante o analista investigar e utilizar dados ajustados caso considere apropriado RESUMO Neste capítulo foram apresentadas as principais medidas de desempenho econômico das empresas que buscam compreender e investigar a capacidade de geração de resultado lu cro da companhia em relação aos diferentes fatores que o influenciam como os ativos as vendas e o capital investido Foram estudados os índices de rentabilidade de lucratividade giro e o valor econômico adicionado EVA Foram apresentados os índices de rentabilidade ROI ROE e ROA que buscam investigar o desempenho econômico da empresa analisando a relação entre a geração de lucro opera cional ou líquido e os ativos e as diferentes fontes de financiamento utilizadas pela compa nhia e que contribuíram para o seu alcance 93 CAPÍTULO 3 Quanto aos índices de lucratividade o foco do estudo foi nas margens bruta operacional EBITDA e líquida que representam o quanto a empresa gerou de resultado considerando as suas diferentes perspectivas para cada unidade monetária de vendas O estudo da lucratividade foi complementado pela análise de giro que está relacionada à capacidade de a empresa gerar vendas considerando as suas diferentes fontes de financia mento e o ativo total O estudo da rentabilidade foi então complementado considerando o seu desmembramento entre margens e giros Foi apresentado ainda o conceito de valor econômico adicionado ou EVA do termo em in glês que pode ser interpretado como o excesso de retorno que a empresa consegue gerar para o acionista Representa uma espécie de lucro ou resultado econômico da empresa lucro residual ou seja aquele que resta depois de deduzidos todos os custos e as despesas incluindo o custo de capital Por fim foram calculados os principais índices de rentabilidade lucratividade e giro da em presa Magazine Luiza nos anos de 2018 2019 e 2020 como exemplo de aplicação prática da análise do desempenho econômico 94 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Capítulo 4 95 CAPÍTULO 4 INTRODUÇÃO A análise do desempenho econômico da situação financeira e do risco de inadimplência certamente já fornece ao analista um panorama abrangente da situação econômicofinanceira de uma empresa Contudo há outras análises que podem complementar o estudo e fornecer insumos para que as conclusões do analista sejam ainda mais assertivas como as análises das alavancagens operacional e financeira e do fluxo de caixa De acordo com Assaf Neto 2012 p 290 Diversos trabalhos acadêmicos demonstram que a alavancagem operacional afeta o risco econômico operacional das empresas sendo colocado como um dos fatores que descrevem o comportamento do retorno das ações Já a alavancagem financeira indica a capacidade que a participação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas Por fim a análise dos fluxos de caixa é de vital importância no processo de análise da situação econômicofinanceira de uma organização pois fornece informações complementares para os índices tradicionais de desempenho econômico situação financeira e risco de inadimplência Esses tópicos adicionais de análise serão abordados neste capítulo 96 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE OBJETIVOS DO CAPÍTULO Ao final deste capítulo será possível compreender o conceito de alavancagem operacional e ponto de equilíbrio o papel da margem de contribuição o cálculo e a interpretação da alavancagem operacional o grau de alavancagem financeira e sua relação com o retorno dos investimentos as diferentes visões dos fluxos de caixa das atividades operacionais de financiamento e investimento os índices alternativos baseados nos fluxos de caixa Para uma melhor compreensão das questões que envolvem os objetivos acima este capítulo está dividido em Unidade 1 Alavancagem operacional e ponto de equilíbrio Unidade 2 Alavancagem financeira Unidade 3 Análise dos fluxos de caixa 97 CAPÍTULO 4 UNIDADE 1 ALAVANCAGEM OPERACIONAL E PONTO DE EQUILÍBRIO O desempenho operacional de uma empresa depende da relação entre um conjunto de es forços realizados para produzir eou comercializar seus produtos ou serviços assim como os custos e as despesas daí decorrentes O conceito de alavancagem operacional surge da compreensão de qual parte dos custos e das despesas incorridos são fixos Portanto não guardam relação com o nível de atividade da empresa O estudo da alavancagem operacional nesse sentido nos permite compreender os pos síveis impactos nos resultados operacionais da companhia conforme ela altera o nível de atividade para diferentes estruturas de custos fixos e variáveis Figura 1 Custos e suas variações Fonte qvist 123RF Os custos variáveis como o próprio nome indica são aqueles que variam diretamente conforme o volume de operações da empresa São os custos que podem ser associados à cada unidade de venda da companhia Consequentemente eles acompanham o nível de atividade observado Assim se as vendas crescerem os custos variáveis em termos absolu 98 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE tos também subirão Do contrário se as vendas caírem os custos variáveis em montante financeiro também reduzirão Os exemplos mais comuns de custos variáveis são aqueles das mercadorias ou dos produ tos vendidos das comissões pagas em relação ao volume de vendas entre outros Figura 2 Custos ou despesas fixos Fonte ssstocker 123RF Custos ou despesas fixos por sua vez são aqueles que se mantêm relativamente constan tes ou seja não variam mesmo que o volume de atividade da empresa se altere Relativa mente constantes no entanto não significa que os valores serão sempre os mesmos A ideia central no conceito de custos e despesas fixos é o fato de que as obrigações deles decorren tes continuarão existindo independentemente de a empresa auferir receitas qualquer que seja o seu nível de operação Enquadramse como possíveis despesas fixas por exemplo as despesas de aluguel os sa lários fixos as despesas de depreciação e amortização os juros sobre empréstimos e finan ciamentos entre outras despesas gerais e administrativas contratadas que não guardam relação com as vendas ou a produção Então 99 CAPÍTULO 4 No entanto a partir do momento em que se aumenta o período de análise e como conse quência há chance de variações maiores no volume de atividade da companhia é preciso se atentar ao fato de que as despesas fixas podem mudar de patamar Ocorre que a empresa não conseguirá crescer de forma mais significativa o seu volume de vendas sempre man tendo a atual estrutura de despesas fixas Em uma empresa industrial por exemplo aumentar as vendas pode significar o aumento na produção e portanto a busca por uma planta de produção maior Isso pode acarretar cres cimento nas despesas fixas de aluguel depreciação e talvez até de pessoal administrativo Dessa maneira para períodos mais longos pode ser que as despesas fixas sofram saltos mantendose em seguida constantes por mais um período e assim por diante Agora da análise entre os custos variáveis o volume de atividade receitas e as despesas fixas surgem os conceitos de margem de contribuição e ponto de equilíbrio A margem de contribuição é definida como a diferença entre o volume de vendas e o custo variável total incorrido Ela pode ser realizada por unidade vendida calculada como a dife rença entre o preço unitário e o custo variável unitário Assim sendo temos que No estudo das despesas fixas assim como no dos custos variáveis o tempo desem penha um papel crucial Isso porque para períodos de análise mais curtos é fácil visualizar que as despesas fixas permane cerão constantes para qualquer volume de vendas Dificilmente a organização mu dará o seu patamar de aluguel salários e outras despesas consideradas fixas Fonte venimo 123RF Então Qt Quantidadetotal Pu Preçounitário Rt Receitatotal Qt Pu CVu Custovariávelunitário CVt Custovariáveltotal CVu Qt Dft Despesa fixatotal MCu Margemdecontribuiçãounitária e MCt Margemdecontribuiçãototal MCu Pu CVu MCt Pu CVu Qt Rt CVt 100 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Considerandose determinada estrutura de custos e despesas o ponto de equilíbrio é defi nido como o nível de atividade em que as vendas se igualam aos custos totais Isto é quan do Rt Df CVt MCt Df Rt CVt Df Da equação acima podese concluir que o ponto de equilíbrio de outro modo pode ser entendido como o volume de atividade receita total para o qual a margem de contribuição total equivale ao total das despesas fixas Assim o ponto de equilíbrio pode ser calculado como o volume de faturamento para o qual 1 Df Rt CVt Rt Como exemplo considere na Tabela 1 o faturamento os custos variáveis as despesas fixas a margem de contribuição e o ponto de equilíbrio das companhias C e D que auferiram em determinado período o mesmo faturamento e lucro operacional C milhares de reais D milhares de reais Receitas R 150000 100 R 150000 100 Custos variáveis R 105000 70 R 75000 50 Margem de contribuição total R 45000 30 R 75000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 5000 R 5000 Ponto de equilíbrio R 133333 R 140000 Tabela 1 Faturamento e custos variáveis Fonte Elaborada pelo autor Observe que apesar de as duas empresas terem auferido a mesma receita e até mesmo o resultado operacional temos que o ponto de equilíbrio de ambas é diferente Isso se deve à diferença entre a estrutura de custos fixos e variáveis das duas companhias 101 CAPÍTULO 4 Se as vendas das empresas C e D subirem 20 vejamos o que aconteceria com o resultado operacional Observe a Tabela 2 C milhares de reais D milhares de reais Receitas R 180000 100 R 180000 100 Custos variáveis R 126000 70 R 90000 50 Margem de contribuição total R 54000 30 R 90000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 14000 R 20000 Tabela 2 Alavancagem operacional Fonte Elaborada pelo autor Podemos notar que o resultado operacional da companhia D subiu mais que o da C Para a mesma variação de 20 nas receitas o lucro operacional da companhia D cresceu 300 portanto 15 vezes o aumento das vendas Já o resultado da companhia C aumentou 180 ou seja nove vezes o crescimento nas vendas De acordo com Assaf Neto 2021 p 120 grifos nossos a alavancagem operacional re vela como uma alteração no volume de atividade influi sobre o lucro operacional da empre sa Nesse contexto o grau de alavancagem operacional representa o impacto percentual observado no resultado operacional da empresa para cada unidade percentual de variação no faturamento LO Rt Variaçãonolucrooperacional LO GAO Variaçãonasreceitas Rt A Tabela 3 apresenta o grau de alavancagem operacional GAO das empresas C e D C D Var resultado operacional 18000 30000 Var vendas 20 20 GAO 9 15 Tabela 3 Grau de alavancagem operacional Fonte Elaborada pelo autor 102 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Assim para cada percentual de variação nas vendas o resultado operacional da empresa D mudará 15 enquanto o da empresa C se alterará em 9 afinal a empresa D tem relativa mente aos custos totais uma participação maior de despesas fixas apresentando maior ca pacidade em alavancar daí o nome de alavancagem operacional seus lucros operacionais É importante observar no entanto que essa característica faz com que a companhia D apre sente sob outro espectro risco operacional superior ao da empresa C devido à sua estrutu ra de despesas fixas mais alta Vejamos nas tabelas 4 e 5 por exemplo o que acontece em caso de queda de 20 nas ven das C milhares de reais D milhares reais Receitas R 120000 100 R 120000 100 Custos variáveis R 84000 70 R 60000 50 Margem de contribuição total R 36000 30 R 60000 50 Despesas fixas R 40000 R 70000 Resultado operacional R 4000 R 10000 Tabela 4 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor C D Var resultado operacional 18000 30000 Var vendas 20 20 GAO 9 15 Tabela 5 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor Portanto de forma oposta no caso de queda nas vendas aquela ligada ao resultado opera cional da companhia D foi superior ao da companhia C mantendose o GAO Dessa maneira percebese que a atuação do GAO ocorre tanto em caso de aumento quanto em caso de redução das vendas indicando não só maior alavancagem dos lucros mas também dos prejuízos 103 CAPÍTULO 4 UNIDADE 2 ALAVANCAGEM FINANCEIRA O resultado operacional das empresas é fruto de suas decisões de investimento um conjun to de ativos que dá suporte às atividades principais Esses investimentos porém precisam ser financiados seja por capital próprio seja por capital de terceiros São essas decisões de financiamento que definem a estrutura de capital da organização determinando em última instância o resultado líquido da empresa para os acionistas SAIBA MAIS É fácil observar que se há apenas capital próprio financiando uma companhia o lucro líquido disponível aos acionistas será o mesmo que o resultado operacional após impostos alcançado nas operações pois não haverá obrigações financeiras a cumprir O que se pretende discutir neste ponto é a alavancagem financeira ou seja a capacidade que a participação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas Uma maneira de avaliar o grau de alavancagem financeira da empresa é comparar de for ma relativa o resultado operacional com o resultado líquido em determinado período As sim temos que NOPAT GAF LL Retomando o exemplo da empresa C utilizado anteriormente podemos calcular o GAF da companhia conforme observado na Tabela 6 104 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Companhia C milhares de reais Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 120000 R 180000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 NOPAT EBIT1T R 25740 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 9000 R 3060 Lucro líquido R 19800 Tabela 6 Variação de vendas e resultado operacional Fonte Elaborada pelo autor Nesse exemplo portanto o GAF da companhia C será de O GAF pode ser visto como a variação percentual potencial no lucro líquido para dada va riação no resultado operacional da companhia Em outras palavras conforme indica Assaf Neto 2021 temos que 25740 130 19800 NOPAT GAF LL LL LOP LL GAF LOP No exemplo da companhia C vamos supor que para a mesma estrutura de capital a empre sa tenha conseguido um aumento de 10 em seu resultado operacional Diante disso qual será o impacto no lucro líquido da empresa A Tabela 7 demonstra esse incremento 105 CAPÍTULO 4 Companhia C milhares de reais Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 42900 R 14586 R 28314 R 9000 R 3060 Lucro líquido R 22374 Tabela 7 Lucro líquido empresarial Fonte Elaborada pelo autor Portanto para uma variação de 10 no lucro operacional que saiu de R 39000 para R 42900 o lucro líquido cresceu 13 passando de R 19800 para R 22374 Pela fórmula do GAF temos que 1310 13 LL GAF LL GAF LOP LL LOP 13 10 13 LL GAF LL GAF LOP LL LOP Nesse sentido quanto maior o grau de alavancagem financeira maior é o potencial de a utilização de capital de terceiros alavancar os resultados para os acionistas No entanto é importante lembrar que o impacto da alavancagem ocorre também nos dois sentidos As sim caso o resultado operacional tenha uma queda de 10 o lucro líquido disponível aos acionistas da companhia será impactado de forma mais que proporcional devido à alavan cagem financeira Nesse caso a queda esperada no LL será dada por Isso pode ser confirmado com a Tabela 8 Companhia C milhares de reais Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 35100 R 11934 R 23166 R 9000 R 3060 Lucro líquido R 17226 Tabela 8 Lucro operacional Fonte Elaborada pelo autor 106 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Assim para uma queda de 10 no resultado operacional da empresa que saiu de R 39000 para R 35100 o lucro líquido reduziu de R 19800 para R 17226 tendose uma queda de 13 como o GAF já previa Grau de alavancagem financeira e rentabilidade O grau de alavancagem financeira GAF tem relação direta com a rentabilidade da em presa e o custo da dívida Vejamos na Tabela 9 a relação entre o retorno dos investimentos da companhia C ROI o custo da dívida e líquido de IR Kd e o retorno sobre o patrimônio líquido da empresa ROE Companhia C milhares de reais Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 120000 R 180000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administrativas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 Retorno do investimento ROI 858 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 9000 R 3060 Custo da dívida Kd Líquida de IR 495 Lucro líquido R 19800 Retorno sobre o PL ROE 1100 Tabela 9 Rentabilidade da empresa e o custo da dívida Fonte Elaborada pelo autor O ROI da companhia C foi de 858 Como visto anteriormente essa medida indica a capaci dade de a empresa gerar resultado operacional tendo relação com suas decisões de inves timentos O ROE por outro lado também é influenciado pelas decisões de financiamento da empresa Nesse caso ele é 11 superior ao ROI Não é difícil visualizarmos que o ROE deveria ser exatamente igual ao ROI caso a companhia fosse 100 financiada com capital próprio afinal não haveria despesas financeiras e o lucro operacional após impostos se igualaria ao lucro líquido após impostos Além disso o investimento total seria igual ao PL 107 CAPÍTULO 4 No exemplo a companhia financia seus investimentos em parte com dívida que tem um custo de 495 líquido de IR Como o ROI é superior ao custo da dívida essa diferença é entregue aos acionistas A Tabela 10 nos mostra a comparação entre ROI Kd e ROE para diferentes estruturas de capital da companhia C Companhia C milhares de reais Estruturas de capital 1 2 3 Investimento total Passivo oneroso Patrimônio líquido R 300000 R 000 R 300000 R 300000 R 120000 R 180000 R 300000 R 180000 R 120000 Receitas Custo das mercadorias vendidas CMV Lucro bruto Despesas com vendas gerais e administra tivas inc DA Lucro operacional EBIT IR e CSSL 34 NOPAT EBIT1T R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 R 150000 R 99000 R 51000 R 12000 R 39000 R 13260 R 25740 Retorno do investimento ROI 858 858 858 Despesas financeiras Benefício fiscal redução do IR R 000 R 000 R 9000 R 3060 R 13500 R 4590 Custo da dívida Kd Líquida de IR 495 495 Lucro líquido R 25740 R 19800 R 16830 Retorno sobre o PL ROE 858 1100 1403 Tabela 10 Estruturas de capital Fonte Elaborada pelo autor Na estrutura de capital 1 quando não há dívida e como já se desconfiava o ROE é exatamente igual ao ROI ou seja 858 Ao se passar para a estrutura de capital 2 em que a companhia C tem dívidas de 40 em relação ao capital total observase que o ROE subiu para 11 Isso porque a empresa consegue rentabilizar suas operações ROI que foi de 858 acima do seu custo da dívida Kd de 495 Essa diferença positiva fica para os proprietários O mesmo é observado na estrutura 3 em que o endividamento sobe para 60 Nesse caso o ROE foi ainda maior 1403 108 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Interessante notar que no exemplo em questão a análise recai para mudanças na estrutura de capital da companhia para um mesmo resultado operacional É um pouco diferente da análise anterior quando a análise ocorreu para o impacto do aumento no resultado opera cional da companhia nos lucros líquidos para dada estrutura de capital Nesse sentido nessa análise de mudança na estrutura de capital apesar da aparente que da nos lucros líquidos ela se dá para aportes em patrimônio líquido cada vez menores e proporcionalmente menores de maneira que o ROE cresça Podese inferir portanto que enquanto o ROI for maior que o custo da dívida o ROE será maior que o ROI e a empresa terá um grau de alavancagem financeira maior que 1 Considerando as análises de Assaf Neto 2021 a Tabela 11 apresenta as possíveis relações Se Identifica Denota GAF 1 ROE ROI ROI Kd GAF 1 ROE ROI ROI Kd GAF 1 ROE ROI ROI Kd Tabela 11 Relações entre ROI e ROE Fonte Assaf Neto 2021 p 227 TOME NOTA No exemplo anterior considerouse que o custo da dívida se manteve constante ao aumentar o endividamento da empresa de 40 para 60 Na prática sabese que o custo da dívida assim como o retorno esperado pelos acionistas alterase con forme a dívida aumenta Isso ocorre espe cialmente por conta do aumento do risco de falência ou seja devido ao risco de a companhia não conseguir cumprir com seus compromissos financeiros assumi dos Na análise financeira essas altera ções devem ser consideradas pelo analista em suas conclusões Fonte rastudio123RF 109 CAPÍTULO 4 UNIDADE 3 ANÁLISE DO FLUXO DE CAIXA A análise do fluxo de caixa é de vital importância no processo de análise da situação econô micofinanceira de uma organização pois fornece informações complementares aos índices tradicionais de desempenho econômico situação financeira e risco de inadimplência É pela análise do fluxo de caixa que se pode identificar o caixa gerado nas operações da empresa avaliando se foi suficiente para cobrir as necessidades de investimento em capi tal de giro e ainda garantir o cumprimento das obrigações com terceiros em termos de pagamento de juros e amortizações e contribuir para os investimentos em imobilizado ou intangíveis Do contrário a empresa precisará de novas captações de recursos Fonte rawpixel 123RF Os fluxos de caixa também têm sido utilizados como fonte para a construção de índices que complementam ou modificam os de análise tradicionalmente aplicados Sem falar nos as pectos prospectivos uma vez que ao avaliar as empresas são os fluxos de caixa livres da empresa ou do acionista que geralmente se utiliza como referência para a capacidade de geração de benefícios econômicos futuros Fluxo de caixa das atividades operacionais A capacidade de geração de caixa da empresa no desenvolvimento de suas atividades é o ponto de partida da análise do fluxo de caixa Em termos econômicos o DRE é a demons tração financeira que apresenta o resultado operacional da empresa Entretanto sabese 110 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE que devido ao regime de competência e à existência de algumas despesas econômicas o DRE não representa exatamente a capacidade de geração de caixa da empresa Há despesas registradas no DRE que não representam saídas de caixa como é o caso da depreciação e amortização ou aquelas que são frutos de atividades de financiamento como o pagamento de juros Pelo método indireto após realizados esses ajustes a partir do lucro líquido do exercício chegase ao caixa gerado nas operações Com base no caixa gerado nas operações podese avaliar a capacidade de a empresa quitar suas obrigações com terceiros e ainda realizar novos investimentos Se negativo a organi zação possivelmente entrará em situação de dificuldade financeira e precisará cobrir suas necessidades de caixa com recursos não operacionais como venda de ativos ou novos apor tes de recursos No último caso tenderia a aumentar a situação de insolvência da organiza ção considerando o aumento das obrigações com terceiros TOME NOTA Na demonstração do fluxo de caixa o caixa gerado por algumas atividades não recorrentes como o ganho ou a perda na venda de ativos do imobilizado podem impactar o caixa gerado nas operações Se o analista assim considerar poderá fazer os ajustes necessários antes de sua análise O Quadro 1 apresenta um modelo de fluxo de caixa das atividades operacionais Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS OPERACIONAIS Resultado líquido LL Depreciação Aumentoredução de duplicatas a receber Aumentoredução em estoques Aumentoredução em fornecedores Redução em salários a pagar Outros Caixa líquido das atividades Quadro 1 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos operacionais Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 111 CAPÍTULO 4 Também relacionado às operações é preciso lembrar que parte das receitas podem não ter sido recebidas no período enquanto as vendas realizadas no período anterior foram rece bidas Parte das compras pode ser paga apenas no próximo período enquanto as compras do período passado podem ter sido quitadas no período atual Por tais razões na análise do fluxo de caixa operacional são feitos ajustes nas contas de ativos e passivos circulantes conhecidos como variações nos ativos e passivos Exemplo se uma empresa iniciou o período com contas a receber de R 2000000 vendeu R 10000000 mas encerrou com contas a receber de R 3000000 o que isso significa em termos de fluxo de caixa Ora se a empresa tivesse recebido o montante total de suas vendas ela teria recebido R 12000000 R 2000000 a receber do período anterior e R 10000000 das vendas do período atual No entanto como ainda restaram R 3000000 em contas a receber no final do período então a organização recebeu apenas R 9000000 no período Os R 1000000 a menos em relação às vendas representa exatamente o aumento das contas a receber R 3000000 R 2000000 Por essa razão precisam constar da análise do fluxo de caixa da empresa Em resumo as receitas da companhia sob o ponto de vista da DRE foram de R 10000000 mas analisando pela ótica do fluxo de caixa foram de R 9000000 O raciocínio análogo deve ser feito para as demais contas do ativo e passivo circulantes como estoques fornecedores e impostos a pagar De forma geral aumentos em contas do ativo circulante e reduções em contas do passivo circulante representam reduções de caixa ao passo que reduções em contas do ativo circulante e aumentos nas contas do passivo cir culante indicam aumento de caixa Os incrementos nas contas dos ativos e passivos circulantes operacionais da companhia estão relacionados geralmente ao crescimento das vendas e aos ciclos operacionais deter minantes da necessidade de capital de giro da organização Fluxo de caixa das atividades de financiamento O fluxo de caixa das atividades de financiamento está relacionado diretamente à estrutura de capital da empresa ou seja às diferentes fontes de recursos que financiam as opera ções São contabilizados por exemplo os pagamentos de juros sobre empréstimos e finan ciamentos o arrendamento mercantil os juros sobre capital próprio e dividendos além das amortizações e novas captações de empréstimos captações de ações entre outros O Quadro 2 apresenta a estrutura do fluxo de caixa das atividades de financiamento 112 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS DE FINANCIAMENTO Integralização de aumento de capital Amortização de empréstimos e financiamentos Recebimentopagamento de dividendos Novas captações de empréstimos e financiamentos Outros Caixa líquido de financiamentos Quadro 2 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos de financiamento Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Em uma primeira análise podese avaliar se o fluxo de caixa gerado nas atividades operacio nais é capaz de cobrir os custos financeiros da utilização de capital de terceiros A geração de caixa operacional deve ser suficiente para o pagamento dos juros a fim de a companhia não entrar em uma situação de insolvência Em caso negativo a empresa provavelmente precisará recorrer a novos empréstimos ou receitas extraordinárias não operacionais para honrar com suas obrigações Um passo além esperase que o caixa livre após o pagamento de juros também contribua para o pagamento de ao menos parte da amortização dos empréstimos de modo propor cional ao prazo restante para a quitação Marion 2019 p 187 nos informa que Se a empresa gerou caixa para pagar percentuais pelo menos acima de 50 da dívida vencida a situação não é tão dramática Note que o au tor menciona sobre a dívida vencida De fato se a amortização está prevista para ocorrer por exemplo em cinco anos e a geração de caixa da companhia após os juros for suficiente para amortizar ao menos 20 da dívida total então a situação está sob controle Por fim vale mencionar que nos fluxos de caixa das atividades de financiamento o analista ainda identifica as novas captações de recursos realizadas pela empresa A análise do fluxo de caixa nos permite avaliar o destino de tais recursos que idealmente deveriam ser dire cionados a novos investimentos mesmo que em capital de giro Fluxo de caixa das atividades de investimento O fluxo de caixa das atividades de investimento evidencia as decisões de investimento da empresa É nele que são contabilizados o pagamento eou recebimento de aquisiçãovenda de ativos imobilizados e investimentos bem como o pagamento de ativos intangíveis da empresa 113 CAPÍTULO 4 Figura 3 Fluxo de caixa de investimento Fonte Elnur Amikishiyev 123RF Idealmente esses fluxos devem ser cobertos pela geração de caixa operacional da empresa após os juros e as amortizações de empréstimos e financiamentos ainda que não totalmen te Se não forem esperase que estejam alinhados ao caixa gerado pelas novas captações de recursos especialmente de longo prazo O Quadro 3 nos apresenta um modelo de fluxo de caixa das atividades de investimentos Demonstração dos fluxos de caixa Método indireto FLUXOS DE INVESTIMENTOS Pagamento na compra de imobilizado Recebimento pela venda de imobilizado Outros Caixa líquido de investimentos Quadro 3 Demonstração dos fluxos de caixa Fluxos de investimentos Fonte Adaptado de Assaf Neto 2021 Marion 2019 nos brinda com a proposição de alguns índices que podem ser levantados a partir da análise das DFC São eles cobertura de juros e capacidade de quitar dívidas 114 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE A cobertura de juros se trata de um índice que avalia a capacidade de a empresa pagar juros a partir do caixa gerado nas operações Marion 2019 destaca que esse caixa gerado deve ser analisado antes dos juros e impostos Caixa geradonasoperações CJ Juros pagosno período Assim se uma empresa gerou caixa de R 20000 em suas operações por exemplo e pagou R 1000000 em juros no mesmo período ela terá cobertura de juros igual a dois Isso sig nifica que a organização precisou operar durante metade do período apenas para cobrir o pagamento de juros Outra relação sugerida por Marion 2019 é entre o caixa gerado nas operações agora após o pagamento de juros e dividendos ou seja após o cumprimento das obrigações de encargos financeiros com capital próprio e de terceiros e o total de financiamentos one rosos da companhia que poderia incluir as dívidas de longo prazo apenas ou a dívida total Estamos nos referindo à capacidade de a empresa quitar dívidas Caixa geradonasoperaçõesapósobrigações financeiras Cqd Financiamentosoneros Se a organização apresenta uma geração de caixa após deduzidos os juros e dividendos de R 1500000 e possui dívidas totais de R 15000000 então o índice de capacidade de quitar dívidas será de 010 Isto é a geração de caixa nesse caso seria suficiente para quitar apenas 10 da dívida Marion 2019 ainda apresenta outros índices como a taxa de retorno do caixa o nível de recebimento de vendas e a capacidade de novos investimentos 115 CAPÍTULO 4 NA PRÁTICA A demonstração dos fluxos de caixa da companhia JCDM indica geração de caixa nas operações de R 8000000 pagamento de juros de R 2000000 e pagamento de dividendos iguais a R 2000000 Sabe se ainda que a dívida total da companhia é de R 20000000 a ser amortizada em oito anos Com base nessas informações calcule e analise os índices de cobertura de juros e a capacidade de quitar dívidas da organização Solução A cobertura de juros igual a quatro sinaliza que a empresa gera R 400 de caixa em suas operações para cada R 100 de custo da dívida ou juros De outro modo isso indica que a companhia opera ¼ do período para pagar juros A capacidade de quitar dívidas igual a 020 indica que a companhia consegue gerar caixa de suas operações após o pagamento de juros e dividendos suficiente para quitar 20 da sua dívida total Nesse ritmo poderia quitála em cinco anos Como a dívida pode ser amortizada em até oito anos podese inferir que o caixa gerado nas operações é suficiente para pagar juros e dividendos amortizar a dívida e ainda contribuir para eventuais necessidades de reinvestimento na empresa 8000000 4 CJ 2000000 8000000 2000000 2000000 4000000 020 20000000 20000000 Cqd RESUMO Neste capítulo estudamos tópicos adicionais de análise que permitem complementar o es tudo da situação econômicofinanceira das empresas Inicialmente foi apresentado o grau de alavancagem operacional da empresa que representa o impacto percentual observado no resultado operacional da organização para cada unidade o percentual de variação no faturamento e os riscos daí decorrentes Entre outros conceitos pudemos compreender os aspectos fundamentais dos custos variáveis das despesas fixas da margem de contribui ção do ponto de equilíbrio e do grau de alavancagem operacional 116 TÓPICOS ADICIONAIS DE ANÁLISE Em seguida nosso estudo avançou para a alavancagem financeira capacidade que a partici pação de terceiros na estrutura de capital de uma empresa tem de alavancar os resultados dos proprietários de capital próprio donos ou acionistas O GAF foi apresentado em termos da relação entre o NOPAT e o LL considerandose uma mesma estrutura de capital Tam bém foi realizada uma análise para diferentes estruturas em que o GAF foi abordado como uma relação entre as taxas de rentabilidade da companhia especialmente o ROI e o ROE Por fim pudemos nos aprofundar quanto à análise do fluxo de caixa em que se destacou a segmentação dos fluxos de caixa das atividades operacionais de investimento e financia mentos assim como a relação entre elas Ainda foi possível estudar a adoção de índices a partir das informações de geração de caixa da companhia os quais complementam ou me lhoram os índices tradicionais REFERÊNCIAS ASSAF NETO A Estrutura e análise de balanços 12 ed São Paulo Atlas 2021 ASSAF NETO A Finanças corporativas e valor 6 ed São Paulo Atlas 2012 ASSAF NETO A Valuation métricas de valor e avaliação de empresas 3 ed São Paulo Atlas 2020 BRASIL Lei n 6404 de 15 de dezembro de 1976 Dispõe sobre as sociedades por ações Brasília Congresso Nacional 2019 Disponível em httpwwwplanaltogovbrccivil03 leisl6404compiladahtm Acesso em 18 abr 2021 COSTA L G A LUND M L M P Análise econômicofinanceira Rio de Janeiro FGV 2018 CPC Comitê de Pronunciamentos Contábeis CPC 00 R2 estrutura conceitual para relató rio financeiro Brasília CPC 2019 Disponível em httpwwwcpcorgbrCPCDocumentos EmitidosPronunciamentosPronunciamentoId80 Acesso em 21 abr 2021 DAMODARAN A Avaliação de investimentos ferramentas e técnicas para a determinação do valor de qualquer ativo Rio de Janeiro Qualitymark 2005 MARION J C Análise das demonstrações contábeis 8 ed São Paulo Atlas 2019 MARTINS E MIRANDA G J DINIZ J A Análise didática das demonstrações contábeis 3 ed São Paulo Atlas 2020 MATARAZZO D Análise financeira de balanços abordagem gerencial 7 ed São Paulo Atlas 2015

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