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Psicologia ·
Políticas Públicas
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INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O COMUM E O SINGULAR NA COMUNICAÇÃO DO TERCEIRO SETOR Um estudo sobre a legitimação de um parque público pelas mãos da comunidade Sheila Lima Wilma Vilaça UniBH Centro Universitário de Belo Horizonte A sociedade civil e a formação do terceiro setor Há mais de três mil anos os gregos deram início à participação do cidadão na vida pública debatendo voluntariosamente as questões pertinentes aos bens coletivos em suas assembléias que decidiam os implementos a serem priorizados na pólis Hoje a participação da sociedade civil na esfera pública divide com o Estado e o mercado a responsabilidade pela melhoria da qualidade de vida das mais variadas formas e intensidade Dessa forma o voluntarismo e os movimentos sociais que trabalham pela minimização da pobreza e das desigualdades sociais não são novidades no mundo moderno e muito menos devem ser reconhecidos como um fenômeno do final do século XX As práticas religiosas sempre vincularam a emergência de fazer o bem sem olhar a quem ou é dando que se recebe como condição para a conquista de um terreno no céu Exemplo disso são as entidades católicas de assistência social o pagamento de dízimos ou as Santas Casas de Misericórdia Porém é a partir da década de 70 que os movimentos perdem seu caráter iminentemente religioso e as organizações civis adquirem contornos de organizações temáticas Marilena Chauí destaca a configuração de um novo sujeito coletivo descentralizado destituído de conformações teóricas prévias No interior dos movimentos sociais os indivíduos até então dispersos e privatizados passam a definirse a reconhecerse mutuamente a decidir e agir em conjunto e a redefinirse a cada efeito resultante das decisões e atividades realizadas1 Somese a isso o fato de que esse novo sujeito deixa de se comportar como uma mera engrenagem como um objeto do processo de desenvolvimento político social para participar como ator no palco das discussões e contingências da sociedade INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Ao desvincularse dos tradicionais centros organizadores como a igreja os sindicatos e a esquerda os sujeitos emergentes reorganizam suas práticas ainda que sem perder totalmente de vista os liames socioculturais que lhes deram origem Os novos movimentos sociais populares agregam ao sujeito a valorização do cotidiano a importância da participação a experiência de sair do seu mundo para participar do mundo de todos e a certeza de pequenas conquistas tangíveis que não mais são consideradas como uma gota de água perdida na imensidão do oceano Que são as migalhas das pequenas vitórias das pequenas lutas São a experiência que os excluídos adquirem de sua presença no campo social e político de interesses e vontades de direitos e práticas que vão formando uma história pois seu conjunto lhes dá a dignidade de um acontecimento histórico2 Desde a década de 70 então têm crescido progressivamente os espaços de participação da sociedade através de conselhos debates associações comunitárias orçamentos participativos órgãos de defesa além de uma infinidade de outros mecanismos que colocam em evidência e apresentam respostas para os graves problemas sociais evidentes no cenário brasileiro O caráter de participação da sociedade civil em princípio caracterizado pelo espontaneismo e pelo voluntarismo se expande e permite uma manifestação em cadeia cujos ecos geram necessidade de organização e gerenciamento de ações e recursos a fim de assegurar legitimidade e sustentabilidade do trabalho junto à sociedade Como então caracterizar e conceituar esse novo movimento Estar na sociedade civil implicaria num sentido de pertença cidadã com seus direitos e deveres num plano simbólico que é logicamente anterior ao obtido pelo pertencimento político dado pela mediação dos órgãos do governo Marcando um espaço de integração cidadã a sociedade civil distinguese pois do Estado mas caracterizandose pela promoção de interesses coletivos diferenciase também da lógica do mercado Forma por assim dizer um terceiro setor3 1 CHAUÍ Marilena Prefácio In SADER pp 1012 2 Idem ibidem p 12 3 Texto O que é o terceiro setor In wwwritsorgbr INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 A nova organização da sociedade diferentemente dos tradicionais setores primário indústria secundário comércio e terciário serviços tem sido atualmente assim caracterizada Primeiro Setor Estado organizações públicas com objetivos públicos Segundo Setor mercado organizações privadas com fins privados e Terceiro Setor sociedade civil organizações privadas com fins públicos O terceiro setor é assinalado então pelo desenvolvimento de atividades que são ao mesmo tempo não lucrativas e não governamentais Muito se tem falado sobre terceiro setor e responsabilidade social nos últimos tempos com vistas a tentar entender e contextualizar esta nova realidade Temas como gestão legislação mercado de trabalho projetos para levantamento de recursos parcerias e trabalho voluntário têm sido evidenciados em publicações impressas e em sites sobre o assunto Mas a comunicação ainda não ganhou espaço satisfatório neste cenário O uso de ferramentas de marketing e comunicação pelas organizações do Segundo Setor empresa e também do Primeiro Setor Estado é antigo e conta com o amparo de avançados estudos sobre mercado consumidor e opinião pública Além disso estão disponíveis sofisticados recursos tecnológicos como a internet videoconferências e uma variada gama de possibilidades tradicionais e inovadoras quando se trata de divulgação Porém para o Terceiro Setor a comunicação ainda se apresenta como um grande desafio já que ele precisa de investimentos e apoio do Estado e da iniciativa privada da credibilidade conferida pela sociedade e do suporte de profissionais dêem conta de trabalhar de acordo com as demandas e especificidades de cada entidade do setor Não importa qual seja a área de atuação o sucesso de uma empresa privada está quase sempre relacionado a um projeto de comunicação eficaz e bem elaborado No terceiro setor isso ocorre com as chamadas grandes organizações aquelas que formam um grupo seleto de entidades com marcas fortes e bem construídas cujo trabalho já alcançou respeitável visibilidade pública Infelizmente uma minoria No entanto à medida que as organizações da sociedade civil se profissionalizam para dar conta do enorme desafio da autosustentabilidade cresce a necessidade de incorporar estratégias e ferramentas para divulgar suas ações sociais4 4 Comunicação um grande desafio para o terceiro setor matéria extraída da Carta de Educação do SenacSP nº 20 junjul editada pelo Ofício Plus Comunicação e Marketing INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O destaque para o 3º setor vem se expandindo inclusive com uma cobertura jornalística mais aprimorada e interessada em divulgar trabalhos que têm gerado significativas transformações sociais Se a imprensa está mais aberta para cobrir a área social é também cada vez maior o número de pessoas bem informadas e exigentes e de cidadãos envolvidos em causas sociais ambientais e culturais Todavia é preciso que o terceiro setor crie mecanismos para dar visibilidade às ações desenvolvidas além de instrumentos para aferição de resultados e impactos dos trabalhos realizados É preciso mostrar à sociedade que as organizações do terceiro setor trabalham em busca de uma forma de relações sociais A paixão que nos move precisa ser percebida como oportunidade e não como assistencialismo Quando buscamos parceiros é preciso assegurarlhes que nossos projetos serão de fato realizados dentro de princípios éticos e de padrões profissionais5 A divulgação de suas estratégias e resultados é um instigante processo por que devem passar as organizações do terceiro setor Somente com a adoção de uma comunicação que tenha caráter permanente estratégico e que acelere as transformações sociais o terceiro setor conseguirá implementar com sucesso suas ações e parcerias O principal desafio do terceiro setor é buscar uma atuação mais articulada constituindo redes de informações entre as instituições que desempenham trabalho na mesma área Do contrário por meio de ações isoladas tornase difícil estabelecer um processo de comunicação permanente6 O terceiro setor lida com o desafio de agregar o trabalho voluntário a uma iminente necessidade de profissionalização A militância apresenta uma série de vantagens como dedicação envolvimento emocional e ideológico com as propostas mas nem sempre esse apoio é profissional Como lidar com a comunicação informal propiciada por essa rede de relacionamentos e com a criação de instrumentos e procedimentos que assegurem a qualificação das propostas da organização Precisaria o terceiro setor criar ferramentas específicas para a comunicação com seus públicos ou o uso de ferramentas convencionais já 5 WAISSMAN Vera A comunicação como agente transformador das relações na construção da imagem INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 seria suficiente para sua sustentabilidade Qual é o desafio de se planejar a comunicação para o terceiro setor em um cenário que conta com a espontaneidade do trabalho voluntário a necessidade de credibilidade junto aos setores fomentadores de recursos e a inevitabilidade do apoio e legitimação da sociedade Essas e outras questões estão na pauta das discussões que devem permear o estudo da comunicação no terceiro setor No âmbito deste artigo pretendese identificar a comunicação como arcabouço para a configuração dos movimentos da sociedade civil organizada que dão forma e ação ao terceiro setor Para visualizar o entrelaçamento entre as interações sociais e as práticas comunicativas apresentamos um movimento social singular que lançou luz para a formação de uma das primeiras organizações não governamentais ligadas ao meio ambiente em Belo Horizonte e que do final da década de 70 até o início dos anos 90 consolidou a criação do Parque Fazenda Lagoa do Nado7 A contribuição da comunicação para a conquista coletiva O movimento em defesa da Lagoa do Nado surgiu a partir da relação da comunidade com o espaço de uma fazenda de propriedade privada Fazenda Giannetti que fazia parte da infância e do diaadia dos moradores dos recém criados bairros Planalto e Itapoã8 As visitas à fazenda eram às vezes autorizadas todavia na maior parte do tempo eram feitas às escondidas As primeiras manifestações em defesa da área têm início com o Grupo Verde Integral dos Jovens do Planalto formado a partir de 197778 por jovens com idade de 13 a 20 anos que moravam em bairros adjacentes ao parque O grupo era composto por poetas músicos artesãos e estudantes As atividades desenvolvidas até então eram voltadas para as festas comunitárias shows festas juninas e barraquinhas para ajudar na construção da Igreja do Bairro Planalto apontando uma preocupação com as questões culturais e comunitárias Mas o caráter de movimento social organizado ainda era embrionário 6 Idem ibidem 7 O estudo em questão foi embasado na dissertação de Mestrado defendida por Sheila Lima junto ao Departamento de Comunicação Social da UFMG em 2000 com o tema A construção da experiência urbana no lugar as relações comunicativas e a produção de sentidos no Parque Fazenda Lagoa do Nado 8 Estes bairros estão situados na Região Norte de Belo Horizonte e como parte da região periférica da cidade fora do Centro da Avenida do Contorno não comportavam equipamentos de consumo coletivo e de lazer para seus moradores INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 A mesma espontaneidade com que lidavam com o cotidiano de suas ações também fez com que o grupo se aglutinasse em torno da causa da Lagoa do Nado primeiro de forma incipiente e descomprometida adquirindo depois uma postura contestadora e de grande poder de mobilização A notícia da liberação da área do parque9 para a construção de um conjunto habitacional foi trazida aos membros do Grupo Verde Integral GVI em dezembro de 1981 com surpresa e indignação A área que antes pertencera ao exprefeito Américo René Giannetti já havia sido considerada como um importante espaço de preservação dentro da política ambientalista implantada pelo Governador Aureliano Chaves em 1976 A Lagoa do Nado foi cogitada à época como uma das áreas verdes da cidade que podia ser preservada com a função de atendimento à população periférica que reside em conjuntos habitacionais carentes de espaços livres de uso público10 Porém a partir de 18 de dezembro de 1981 a área passou a ser propriedade da Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais Minascaixa que anunciou sua intenção de construir ali um conjunto habitacional Imediatamente após a divulgação do destino do parque o grupo se reuniu e procurou a orientação da AMDA Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente A entidade alertou para a necessidade de mobilização da comunidade Assim o GVI assumiu com mais clareza a disposição de lutar pela transformação da área em parque Algumas atividades que já eram realizadas na praça ou na igreja foram gradativamente transferidas para a fazendinha Em 1982 têm início as primeiras manifestações em defesa da área do parque com a realização de uma grande caminhada que agregou boa parte da comunidade circunvizinha A mobilização foi feita através de convites nas igrejas escolas nas ruas e nas residências A busca de visibilidade na sociedade através do apoio dos veículos de comunicação pôde ser observada em toda a tessitura do movimento As diversas manifestações festas embates e conflitos foram construídos na voz dos seus participantes e retratados para a população através da imprensa A caminhada que marcou a primeira manifestação organizada realizada em 1982 foi reportada em vários veículos da imprensa estadual e até nacional 9 O termo parque foi instituído oficialmente a partir de 1994 ano da inauguração de suas obras arquitetônicas Porém desde 1982 início do movimento pela sua implantação era conhecido pela comunidade como Parque Fazenda Lagoa do Nado 10 UMA LAGOA 1982 p 6267 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 À medida que o parque foi sendo ocupado e cuidado pelos membros do GVI a comunidade começou a se acostumar com a presença diária dos meninos da lagoa O pessoal já sabia que era a gente que tomava conta Às vezes pegava fogo e antes do pessoal ligar pro Corpo de Bombeiros ligava pra gente11 O contato diário com a comunidade fomentou a vinda de outras pessoas que se incorporaram ao grupo Alguns já traziam experiência de grupo de jovens de lideranças comunitárias ou de militância em movimentos religiosos sociais e políticos Os encontros promovidos em torno da idéia de se fazer uma festaprotesto motivaram a institucionalização do grupo provocando a criação da ACELN Associação Cultural Ecológica e Desportiva Lagoa do Nado A entidade procurou respaldar o movimento nos meios de comunicação fazendo denúncias e divulgando as manifestações e eventos Tanto as conquistas quanto as decepções foram tecidas na fala da entidade e da mídia que teve um papel fundamental na visibilidade do movimento para além do seu lugar de origem Um exemplo interessante pode ser percebido no abraço da lagoa promovido durante a 5ª Festa que foi um evento preparado para ser retratado na mídia impressa e eletrônica com direito a vôo panorâmico aparição no Fantástico e até em jornal americano além da visibilidade na mídia impressa estadual e nacional A comunicação mostrouse desde as primeiras manifestações pela preservação do parque como o arcabouço capaz de criar e expor acontecimentos assegurando a convivência e a sociabilidade principalmente entre a ACELN e os moradores da região A preocupação em manter a comunidade constantemente informada e envolvida com o processo de conquista do lugar fomentou uma série de ações criativas e ousadas que sensibilizaram o cidadão comum e exigiram um posicionamento dos órgãos públicos e também da mídia Ainda que de início nenhum membro da associação tivesse conhecimento acadêmico em estratégias de divulgação ou atividades afins a comunicação foi utilizada com propriedade desde o tradicional bocaaboca até a montagem de eventos para emissoras de televisão Na Primeira Festa da Lagoa do Nado realizada em 1983 foi anunciada a criação da Associação O caráter de solidariedade manifestação e alegria que embalou a festa impulsionou a vinda de muitas pessoas para os quadros da entidade As festas sempre 11 Depoimento de um dos fundadores do movimento IZINHO2000 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 serviram como um amálgama para aglutinar mais e mais pessoas em defesa do parque cuja contribuição se dava de maneira bastante diversificada Alguns participavam de todas as reuniões visitavam órgãos públicos e entidades ambientalistas outros mobilizavam a comunidade cediam materiais ou colaboravam com a infraestrutura necessária para a divulgação Uns contactavam conhecidos na imprensa outros levavam parentes para conhecer o parque e participar das atividades O importante era assegurar a formação de uma verdadeira rede de relações em torno de uma perspectiva comum que era convencer a Minascaixa a desistir da construção do conjunto habitacional na área e sua posterior transformação em parque público A ACELN formou uma frente de trabalho e solidariedade que impressionava pelo caráter de resistência pacífica e poder de mobilização das pessoas As festas da Lagoa do Nado costumavam reunir mais de dez mil pessoas em um único final de semana O público garantido era o principal atrativo para artistas e cantores inclusive de outros estados que sempre se dispuseram a participar voluntariamente das festas Os parcos recursos e a corrida contra o tempo dispensado voluntariamente pelos associados dificultavam uma divulgação a contento Os cartazes folhetos e carros de som sempre avisavam em cima da hora aos moradores da região As festas tinham porém um efeito multiplicador sendo o bocaaboca sua mais eficaz estratégia de divulgação Nas festas juninas e nas festas anuais de Outubro sempre se pôde observar um efeito cascata no aumento gradativo do número de participantes A cada dia mais pessoas lotavam o parque que no último dia batia recorde de público com atividades pela manhã tarde e noite Não só os artistas mas também os comerciantes e membros da comunidade mostravamse simpáticos ao parque colaborando para a viabilização da festa Quase tudo era conseguido pelo trabalho voluntário Dos pregos ao lanche para os músico da arte dos cartazes até o carro de som Ao envolver a comunidade a associação conscientizava as pessoas e ganhava mais adeptos tornando a festa um grande momento de sociabilidade entre a entidade artistas comerciantes e moradores A ACELN continuou utilizando folhetos cartazes cartas abaixoassinados e faixas Na primavera de 1992 foi criado o Informativo Verde Integral primeira publicação da ACELN a primar por uma qualidade técnica tanto na forma quanto no conteúdo da publicação Depois do Verde Integral foram elaborados vários mecanismos de divulgação INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Nenhum destes veículos de informação porém manteve uma periodicidade regular por um longo tempo Todos vieram para suprir demandas específicas do momento no qual foram criados mas tiveram um papel fundamental para a construção do movimento A rede de comunicação tecida através da imprensa demonstra a importância da visibilidade do movimento dentro e fora da comunidade A mídia desempenha um papel fundamental como legitimadora das ações que se desenvolvem no diaadia da sociedade Para além das críticas sobre seu imbricamento com interesses comerciais ou particulares está a sociedade civil clamando por justiça e atenção aos seus problemas na maioria das vezes relegados pelo poder público que deveria trazer soluções e apoiar as demandas sociais Assim a relação da ACELN com a imprensa foi de inestimável valor para a consolidação do movimento O seu reconhecimento se deu através das várias ações e atividades desenvolvidas pela entidade que pressentiu a urgência de convocar a mídia ou criar fatos para atrair a sua atenção Ainda que executada de forma amadorística e artesanal a ACELN tinha uma percepção muito clara de como as estratégias de comunicação deveriam ser montadas para cada situação Ao ser questionado sobre as principais estratégias de comunicação utilizadas para mobilizar a comunidade em torno das festas um dos membros da ACELN não hesitou Corpo a corpo e boca a boca É ir de casa em casa de boteco em boteco Panfletar nas festas bares em todos os locais Mapear mesmo Pregar cartazes em tudo quanto for lugar Nós usamos todos os recursos de comunicação Se for avaliar nós não desperdiçamos um recurso Rádio é importante Então a gente mandava pras rádios Televisão é importante Jornal Cartaz Panfleto Conversar Todo recurso de comunicação eu acho que a Lagoa usou Nós nunca falamos que esse é mais importante que aquele Todos são importantes Então a gente fazia de tudo A gente nunca deixou de ir de casa em casa de conversar de entregar o mosquitinho Tem uma articulação de todos esses recursos Um não vive sem o outro 12 Todos esses instrumentos disseminaram o trabalho da ACELN para além das cercas do parque e possibilitaram a interlocução entre a entidade os órgãos públicos responsáveis pelo destino do parque a imprensa e a sociedade como agentes de um mesmo processo A interdependência desses sujeitos aliada a um contexto sóciopolítico peculiar produziram os 12 Depoimento de um dos participantes do movimento INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 fios para o tecido desta experiência singular a implemantação do Parque Fazenda Lagoa do Nado em 1994 pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte As mudanças originadas a partir da administração pública do parque são evidentes mas o Parque Lagoa do Nado carrega na sua história o ineditismo que o transformou em lugar especial Ainda hoje tornase evidente a cumplicidade da comunidade na gestão do espaço através da participação direta da Comissão Consultiva composta por entidades e órgãos públicos ali representados em todas as decisões tomadas e implementadas no cotidiano do parque A legalização do Parque Lagoa do Nado como um espaço coletivo de uso da comunidade local e de toda a população da cidade com ações administradas pelo poder público conforma um novo sentido à sua utilização De um lugar legitimado apenas por seus usuários o parque passa a ser um lugar reconhecido pelas instituições oficiais de administração pública e passa a ser gerido com a participação da sociedade civil Comunicação Relações Públicas e a singularidade do terceiro setor A presença cotidiana da ACELN foi definidora na conquista do Parque Lagoa do Nado pela comunidade Como uma organização do terceiro setor termo que no final da década de 70 sequer era pronunciado no país a entidade precisou lançar mão ainda que intuitivamente de instrumentos de comunicação para sua legitimação como representante da sociedade civil Jornais panfletos cartazes faixas matérias publicadas na imprensa e cobertura dos acontecimentos e eventos por emissoras de rádio e de televisão foram algumas das ferramentas empregadas Em princípio esses instrumentos são adotados em qualquer ação de comunicação que se deseja implementar onde a instância emissora espera atingir o seu receptor e obter dele o efeito desejado Ao mesmo tempo pudemos observar um aspecto ímpar na configuração do Parque Lagoa do Nado como um legítimo espaço de inserção da sociedade civil seja apenas como cidadã ou organizada institucionalmente através da ACELN As interações construídas pelos sujeitos em ação evidenciaram o espírito gregário que deu ao movimento um caráter único Quando se trata do terceiro setor a participação dos sujeitos tece a história cujo roteiro não é INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 previamente definido e muito menos se apresenta como uma receita de sucesso que deva ser seguida Essa mobilização dos sujeitos contribuiu também para que aflorasse a importância da formação da consciência pública Instada a participar por meio dos mecanismos de comunicação utilizados a comunidade descobre uma real consciência a respeito do significado profundo do conceito de cidadania Segundo Duarte13 numa sociedade democrática são as pessoas o povo que moldam seus governos e não o contrário No caso da ACELN o que a entidade fez foi mobilizar a opinião pública para o seu papel partindo sempre da premissa de que era a informação o melhor meio para atingir corações e mentes o caminho para que a sociedade se empenhasse em compreender criticamente as formas que o poder constituído assumia sempre que estavam em jogo interesses utilitaristas e econômicos O uso de instrumentos já consolidados e reconhecidos por produtores e receptores de comunicação é vital e deve ser estrategicamente utilizado pelas organizações do terceiro setor Porém as experiências oriundas da interação dos sujeitos em torno do objetivo que move a entidade devem ser pontuadas uma vez que a comunicação pressupõe a troca de experiências a partir do entendimento comum de seus significados Portanto a comunicação social principalmente nas sociedades democráticas tem o papel de difundir tendências e integrar os cidadãos em um dado contexto Isso acaba por acontecer naturalmente quando seus recursos são colocados à disposição do despertar da consciência individual e coletiva No caso da comunicação no terceiro setor o que se percebe é que essa conscientização é reflexo das muitas iniciativas como as da pioneira ACELN e dos erros e acertos inerentes à toda mudança paradigmática Entretanto especificamente a área de Relações Públicas vista como uma atividade que se caracteriza por interpretar os anseios da sociedade14 tem uma importante função nesse contexto Caberia à atividade e aos seus profissionais contribuir com esse novo modelo redimensionando a atuação de forma a ampliar as suas perspectivas 13 2002 p151 14 DUARTE 2002 p 155 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O terceiro setor apresenta algumas especificidades históricas mas não difere dos demais setores em um aspecto a questão da credibilidade que gera a confiança necessária à sua sustentação como um organismo de intervenção social A singularidade estaria então naquele que é sujeito e objeto das ações do terceiro setor o indivíduo e seu resgate como cidadão Ao estabelecer que essa é a tônica do trabalho tanto das Relações Públicas quanto do terceiro setor começamos a estreitar os laços que atam essa interface O profissional de Relações Públicas deve posicionarse de forma crítica e sem dúvida ética quanto ao seu papel de desnudar ou obliterar as informações que poderão ajudar o indivíduo a fazer a ponte entre essa nova sociedade e os valores nela contidos O desafio está lançado O terceiro setor é um campo fértil que deve ser observado em suas singularidades pelas contribuições que tem trazido para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e mais viável À Comunicação Social e às Relações Públicas cabe lançar as bases para o entendimento de que esse caminho é um caminho sem volta pois foi a sociedade quem construiu seu trajeto e arquitetura INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Referências Bibliográficas BENFICA Clair José Izinho Entrevista Belo Horizonte jan 2000 CHAUÍ Marilena In SADER Eder Quanto novos personagens entram em cena 2ed Rio de Janeiro Paz e Terra 1988 COMUNICAÇÃO um grande desafio para o terceiro setor matéria extraída da Carta de Educação do SenacSP nº 20 junjul 2002 editada pela Ofício Plus Comunicação e Marketing DUARTE Lúcia Ética ambiental e comunicação In FREITAS Ricardo Ferreira e LUCAS Luciene org Desafios contemporâneos em comunicação perspectivas de Relações Públicas São Paulo Summus 2002 LIMA Sheila Ferreira A construção da experiência urbana no lugar as relações comunicativas e a produção de sentidos no Parque Fazenda Lagoa do Nado Belo Horizonte UFMG 2000 Dissertação Mestrado em Comunicação Social O TERCEIRO setor avança Revista Ecologia Integral Publicação do Centro de Ecologia Integral Ano 1 nº 1 setembro a outubro 2001 PERUZZO Cecília Maria Krohling Comunicação nos movimentos populares a participação na construção da cidadania Petrópolis Vozes 1998 PESQUISA Responsabilidade Social das Empresas Percepção do Consumidor Brasileiro Instituto Ethos 2002 PRÊMIO Ethos Valor Responsabilidade social nas empresas a contribuição das universidades Editora Fundação Petrópolis 2002 UMA LAGOA que depende de um entendimento político Estado de Minas Belo Horizonte 25 abr 1982 1cad p7 WAISSMAN Vera A comunicação como agente transformador das relações na construção da imagem site wwwritsorgbr 6 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico 50 Years Of Profession Social Responsibility Or EthicalPolitical Project 50 Años De Profesión Responsabilidad Social O Proyecto ÉticoPolítico Artigo Oswaldo H Yamamoto Universidade Federal do Rio Grande do Norte 6 PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 7 No capítulo intitulado Uma Defesa da Psicologia com o qual concluía o seu estudo sobre a incipiente profissão de psicólogo na passagem da década de 60 Mello afirmava A Psicologia é uma autêntica ciência e não uma técnica para solucionar os problemas íntimos dos privilegiados e o benefício das soluções que ela propõe e das técnicas que criou deve ser estendido ao maior número de pessoas Reservá las para poucos como tem sido feito é desvirtuar seu valor como um instrumento de modificação social Renovar a prática da Psicologia a começar pela formação que os profissionais recebem não é uma tarefa simples mas é sem dúvida uma tarefa urgente 1975 p 113 No momento em que comemoramos o marco dos 50 anos de profissão regulamentada é oportuno nos debruçarmos sobre o que ocorreu desde o momento em que Mello ao mesmo tempo em que fazia uma severa avaliação da Psicologia aduzia que a Psicologia poderia e deveria ser mais do que uma atividade de luxo sendo uma injustiça reduzila às tendências presentes até então no seu desenvolvimento O ponto de partida que adotamos para construir uma resposta à questão sobre o que se passou com a Psicologia nesses 50 anos é retomar a literatura E embora ela seja farta iremos nos concentrar em dois estudos pelo fato de apenas esses serem resultantes de projetos abrangentes sobre a Psicologia em âmbito nacional O primeiro deles é um programa proposto e organizado pelo Conselho Federal de Psicologia CFP na segunda metade dos anos 80 que redundou na publicação do livro Quem É o Psicólogo Brasileiro CFP 1988 que reunia informações e análises acerca da profissão nos seus primeiros 25 anos1 e o segundo um projeto conduzido em meados da década de 2000 por um grupo de trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Psicologia ANPEPP com o apoio do Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq resultou no livro O Trabalho do Psicólogo no Brasil Bastos Gondim 2010 A comparação dos resultados desses dois estudos evidencia um crescimento extraordinário da profissão Dos 15 psicólogos Resumo O presente texto aborda uma das questões mais polêmicas que acompanham estes primeiros 50 anos de profissão regulamentada o alcance social da profissão de psicólogo e sua possibilidade de contribuir para o processo de mudança social A partir de dados sobre a evolução da profissão no Brasil discutimos a questão confrontando as teses do alcance social da responsabilidade social e do compromisso social concluindo por indagar sobre a viabilidade da proposição de um projeto éticopolítico para a Psicologia Palavraschave Responsabilidade social Ética Política de saúde Psicologia Brasil Abstract This paper focuses one of the most controversial issues that accompany these first 50 years of legally regulated profession the social impact of the profession of psychologist and its possibility to con tribute to the process of social change From data on the evolution of the profession in Brazil we discuss the issue comparing the thesis of social impact social responsibility and social commitment concluding by questioning the viability of the proposition of an ethicalpolitical project for Psychology Keywords Social responsibility Ethics Health care policy Psychology Brazil Resumen El presente texto aborda una de las cuestiones más polémicas que acompañan estos primeros 50 años de profesión reglamentada el alcance social de la profesión de psicólogo y su posibilidad de contribuir para el proceso de mudanza social A partir de datos sobre la evolución de la profesión en el Brasil discutimos la cuestión confrontando las tesis del alcance social de la responsabilidad social y del compromiso social concluyendo por indagar sobre la viabilidad de la proposición de un proyecto ético político para la Psicología Palabras clave Responsabilidad social Ética Política de salud Psicología Brasil 1 O programa do CFP teve prosseguimento com dois outros livros Conselho Federal de Psicologia 1992 Psicólogo Brasileiro Construção de Novo Espaço Campinas SP Átomo e Conselho Federal de Psicologia 1994 Psicólogo Brasileiro Práticas Emergentes e Desafios para a Formação São Paulo Casa do Psicólogo além de outras pesquisas pontuais 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 8 registrados no MEC em 1962 passamos para aproximadamente 54 mil no estudo de 1988 e para 236 mil em 2010 O número de agências formadoras também cresceu de forma espetacular no período compreendido pelos dois estudos nacionais o sistema cresceu 300 assim como o processo de privatização que passa de aproximadamente 70 em 1988 para 90 em 2010 Esse imenso processo de crescimento tem ao menos duas consequências o hiato entre o número de egressos para o de inscritos no Sistema Conselhos cerca de 65 dos formandos adquirem condições legais para o exercício da profissão e a desqualificação da formação Abbad Mourão 2010 Bastos Gondim Souza Souza 2011 Souza Bastos Barbosa 2011 Yamamoto Souza Silva Zanelli 2010 Crescimento no entanto não é sempre sinônimo de desenvolvimento Para além da expansão o que os números revelam sobre as mudanças na profissão O percentual de psicólogos que se dedica ao exercício da profissão cresce de aproximadamente 70 para 84 dos inscritos o que pode ser lido como o indicador de uma tendência à consolidação da profissão Se a profissão se estruturou à luz do modelo médico profissional liberal ou seja trabalhador autônomo os dados de 2010 mostram que passa a haver um equilíbrio entre as modalidades de inserção 52 assalariados e 48 autônomos Contudo a tendência à institucionalizaçãoassalariamento de que falavam Mello 1975 e Campos 1983 é visível apenas 15 dos profissionais que se declaram autônomos afirmam que atuam exclusivamente nessa condição Quanto às condições de trabalho tanto dos assalariados quanto dos autônomos a precarização e a deterioração da remuneração adjetivam o que se disse anteriormente acerca da consolidação da profissão Bastos Gondim 2010 Passemos agora a examinar as mudanças verificadas na prática efetiva do psicólogo Os dados da pesquisa de 2010 são elucidativos em diversos aspectos Em primeiro lugar a informação de que 67 dos psicólogos se vincula a apenas uma área de atuação2 E qual a área predominante Clínica com 53 dos respondentes de forma exclusiva ou combinando áreas A saúde absorve 279 dos psicólogos seguida da área do trabalho e das organizações com 2513 e da educacional com 98 Em segundo lugar tomando as modalidades de inserção profissional dos psicólogos o setor público é o que apresenta a maior concentração com 40 da amostra Seguemse 35 no setor privado e surpreendentes 25 no terceiro setor4 A combinação de duas ou mais inserções no entanto é a marca da profissão e abrange 65 dos psicólogos E o que os psicólogos estão fazendo nesses espaços de inserção profissional No setor público a principal atividade é aplicação de testes psicológicos 329 seguida de psicodiagnóstico com 296 E no terceiro setor Psicodiagnóstico com 276 e aplicação de testes psicológicos com 235 Sem invocar qualquer teoria da conspiração e ciente do risco de simplificar a questão é inescapável a lembrança da tese do gatopardismo de Giuseppe de Lampedusa5 Psicologia elitismo e mudança social O quadro que delineamos a partir dos resultados das pesquisas não teve por objetivo traçar um perfil acurado da profissão tarefa ademais já realizada pelos estudos aos quais fizemos referência O que intentamos foi a partir dos estudos construir uma base para discutir as questões postas por Mello 1975 no estudo pioneiro da década de 60 Além das indiscutíveis indicações para a revisão da prática e da urgência em modificarmos os rumos da formação meta 2 Sem desconhecer as polêmicas envolvidas com a definição da área de atuação eg Botomé 1988 Gondim Bastos Peixoto 2010 o conceito se presta para a análise que empreendemos 3 É importante observar que pode ter havido vieses na coleta conduzida por um grupo de trabalho da área da Psicologia do trabalho e das organizações decorrente de uma divulgação diferencial e eventualmente do envolvimento com a pesquisa 4 Terceiro setor aparecerá destacado no presente texto em virtude da discordância conceitual com relação à sua existência como um setor da economia Para uma discussão sobre esse tema ver entre outros Montaño 2002 5 Tratase de referência à obra Il Gattopardo de Giuseppe de Lampedusa Ao analisar a decadência da aristocracia e a emergência da burguesia no processo da unificação italiana a tese política do príncipe Don Fabrizio da Sicília é que algo deve mudar se não se quer mudar nada Esse neologismo comum a diversos autores nas ciências humanas foi empregado em um texto anterior para expressar a tese de que a Psicologia muda em aspectos secundários para manter intacto o que é essencial Yamamoto 2000 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 9 que ainda estamos longe de atingir há dois aspectos na avaliação de Mello que gostaríamos de retomar a a extensão das técnicas que a Psicologia criou para parcelas mais amplas da população e b a sua capacidade de ser um agente de mudança social São dois aspectos que conforme veremos imbricam embora sejam no limite questões de natureza diversa O debate acerca do elitismo da profissão era um lugar comum Depois da avaliação inicial de Mello 1975 Botomé 1979 e Campos 1983 apenas para citar dois pesquisadores constatavam o problema do baixo alcance da profissão que pela natureza da inserção profissional e pelas atividades propostas psicoterapia realizada em consultório privado deixava desassistidas parcelas amplas da população Esses autores embora com perspectivas analíticas diversas deixavam no ar uma confiança na capacidade de a profissão alterar os seus rumos na direção de maior alcance social Campos apontava ainda a insuficiência dos recursos teóricos e técnicos produzidos até então pela Psicologia no Brasil para tal empreendimento ou seja fazer frente a uma clientela com características diferentes das que a profissão elitizada então atendia ou seja as classes subalternas Os resultados dos estudos acima aludidos mostram que a profissão passa a atingir de fato parcelas mais amplas da população ao longo de sua curta história No entanto a ampliação do leque populacional atingido ou a focalização nos segmentos de menor renda representa por si só uma ampliação do alcance social da profissão Uma primeira questão que está subjacente se aproxima da análise que Botomé 1988 faz inspirado nas teses do cientista argentino Oscar Varsavsky a distinção entre uma profissão que se define pelo que sabe fazer de outra que se orienta pelas demandas sociais Os estudos sobre as atividades desenvolvidas pelos psicólogos ao longo destes anos parecem indicar fortemente a primeira das alternativas a profissão tem se orientado muito mais pela oferta de serviços do que pela construção de respostas a partir das demandas da população atendida É interessante observar que estamos tratando das orientações gerais da profissão e não da escolha pura e simples de uma das alternativas em detrimento da outra Não é possível conceber um atendimento das demandas da população sem a oferta de serviços para os quais o psicólogo tenha competência técnica Além disso a questão do alcance social pode não se resumir ao atendimento qualificado das demandas da população A questão não é trivial pois pode haver em algumas circunstâncias coincidências entre as duas alternativas e ainda assim a análise mostrar que o alcance social é problemático Considerar as demandas da população é sinônimo de dar respostas para as suas necessidades Exemplifiquemos se hipoteticamente a demanda expressa pelos usuários dos serviços públicos de saúde for o atendimento psicoterápico individual nos moldes da atividade clínica tradicionalmente exercida em consultórios privados que eventualmente corresponde à imagem pública da profissão responder a essa expectativa com pessoas pertencentes às classes subalternas significa aumentar o alcance social da profissão Do elitismo ao alcance social Retomemos o tema da qualidade da atuação e da competência técnica Afirmamos e reafirmamos aqui que não é possível qualquer ação profissional que não seja qualificada tecnicamente Contudo nem a competência técnica em si é uma condição suficiente nem tampouco qualquer competência técnica é adequada ou seja voltando aos termos da discussão de Botomé 1988 é indispensável considerar a adequação para o segmento da população atendida das competências 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 10 técnicas que a Psicologia desenvolveu ao longo de sua história Se considerarmos o que previa Campos os dados das pesquisas mais recentes nos permitem indagar sobre a adequação de se utilizar por mais competente tecnicamente que seja os recursos que a Psicologia tradicionalmente desenvolveu para o contexto da clínica privada Para discutir a adequação ou não do que Campos 1983 denominou de arsenal teóricotécnico desenvolvido historicamente pela Psicologia para uma atuação que tem por foco as classes subalternas é preciso colocar em pauta a natureza dessa intervenção É necessário considerar os dados desagregados dos estudos recentes para analisar onde e em que trabalham os psicólogos que não atuam de forma autônoma em tese lócus privilegiado da prática tradicional dos psicólogos no Brasil A resposta para essa questão é clara o setor do bemestar social o chamado campo das políticas sociais Os resultados da pesquisa nacional de 20106 nos permitem deduzir que aproximadamente 40 dos psicólogos que participaram do estudo trabalham no campo das políticas sociais Os setores nos quais os psicólogos têm presença significativa são os da saúde pública e os da assistência social Estamos falando aqui de dois segmentos que têm um significado diverso no que diz respeito à discussão de alcance social As políticas voltadas para o campo da saúde são ou pretendem ser universalistas ao passo que aquelas referentes à assistência são focalizadas e compensatórias Embora na prática os segmentos populacionais atingidos possam ser coincidentes a distinção é importante para uma análise da extensão dos serviços psicológicos pois o significado da ação profissional passa a obedecer a lógicas distintas Um detalhamento da ação concreta do psicólogo nesses serviços nos permite qualificar a discussão do alcance social Atentando especificamente para os profissionais que trabalham nas políticas sociais as respostas dos psicólogos no estudo de 2010 replicam em linhas gerais os resultados da amostra maior o psicodiagnóstico é a atividade mais frequente seguido de aplicação de testes psicológicos e de atendimento a crianças com distúrbios de aprendizagem Assistência psicológica a pacientes clínicos e cirúrgicos e psicoterapia individual adulto criança e adolescente estão igualmente entre as atividades mais citadas Por outro lado dentre as atividades mais frequentes embora menos citadas figuram algumas que podem ser associadas ao trabalho no setor do bemestar embora muito pouco elucidativas pela sua formulação por demais vaga participação em equipes técnicas e planejamento e execução de projetos As respostas à questão das abordagens teórico metodológicas que informam a prática também são esclarecedoras psicanálise em primeiro lugar cognitivocomportamental e humanistaexistencial Essas poucas indicações vão ao encontro de algumas das nossas observações anteriores Não há exceto eventualmente de forma pontual rigorosamente novidades na prática efetiva do psicólogo ao mudar o seu foco de atenção para as chamadas parcelas mais amplas da população Duas interpretações são admissíveis ou o psicólogo está reiterando práticas conhecidas seja porque ele desconheça outras seja porque não estamos produzindo novas e eventualmente mais adequadas alternativas ou o psicólogo está atendendo adequadamente à expectativa do serviço enfim às demandas a ele dirigidas As questões acima pedem desdobramentos analíticos que escapam à possibilidade de abordagem mais detida neste espaço Entretanto deixamos algumas indicações As ações requeridas e aí entendase tanto as demandas advindas do serviço 6 Passaremos a trabalhar com alguns dados do banco de dados do estudo já referido do GT da ANPEPP que resultou no livro de Bastos Gondim e Peixoto 2010 mas que não estão contemplados na obra 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 11 Estado e gestores como as do público atendido necessitam ser analisadas mais detalhadamente nas diversas inserções profissionais no campo das políticas sociais Apenas para exemplificar no mesmo campo da assistência social sob a égide do SUAS as demandas nos Centros de Referências de Assistência Social CRAS e nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social CREAS são bastante diferenciadas e requerem eventualmente práticas diversas dos profissionais No segundo caso em uma situação de crise instalada uma intervenção emergencial nos moldes da prática clínica tradicional poderia eventualmente ser justificada ou seja talvez as duas alternativas aludidas anteriormente não sejam excludentes Essas observações nos permitem recolocar a questão do alcance social Pensando neste como a extensão qualificada dos serviços da Psicologia e essa era a demanda presente tanto no argumento de Mello 1975 quanto no de Botomé 1979 ao avaliar que apenas 15 da população tinha acesso ao serviço do psicólogo e indagando se os restantes 85 não necessitariam deles a profissão inquestionavelmente ampliou a cobertura de sua ação utilizando ou não os recursos clássicos da Psicologia O alcance social todavia necessita ser compreendido dentro de um contexto mais amplo Afirmamos alhures que política social nos marcos do modo de produção capitalista remete à chamada questão social cujas refrações somente podem ser tratadas de forma setorial e parcial na forma de políticas sociais específicas eg Yamamoto Oliveira 2010 O psicólogo como profissional do setor do bemestar ou seja do campo que historicamente tem propiciado o alargamento do alcance social da profissão trabalha exatamente nessas refrações como um executor terminal das políticas segmentadas Essa constatação se tem procedência remetenos à necessidade de um lado de o psicólogo compreender de maneira mais profunda do que o que ocorre usualmente as determinações macroestruturais de sua inserção profissional no setor do bemestar social público de outro de buscar alargar o campo de ação para além dos limites de executor terminal da política intervindo na gestão e principalmente na sua formulação Alcance social e compromisso político Temos situado as questões que estamos tratando como pertencentes ao âmbito do alcance social da profissão em virtude do ponto de partida da nossa análise Mas a última asserção nos conduz à necessidade de qualificar melhor a inserção social do psicólogo Para isso é necessário recuperar um antigo embora sempre atual debate sobre a diferença entre ação política em sentido estrito e a dimensão política da ação profissional7 Mencionamos a dimensão técnica que afirmamos ser indispensável para uma prática socialmente significativa e uma outra dimensão a ser considerada é a política Toda ação profissional esteja o psicólogo ciente ou não comporta uma dimensão política pelo fato de o profissional estar envolvido como lembra Iamamoto 1998 com as relações de poder da sociedade Ignorar essa dimensão representa assumir as já superadas teses sobre a neutralidade da técnica8 Transpondo essa discussão para a atividade profissional o ponto que estamos debatendo trata da responsabilidade política do psicólogo e não do cidadão no desenvolvimento de sua atividade profissional ou seja estamos no controvertido terreno do compromisso político do psicólogo 7 Abordamos esse tema em uma discussão sobre o compromisso social do psicólogo Yamamoto 2007 Há no campo da educação um interessante debate sobre os limites da competência técnica e política Mello 1982 Nosella 1983 8 O estudo de Coimbra 1995 sobre a relação da Psicologia com o regime autocrático burguês de 19641985 para citar um exemplo não deixa espaço para qualquer ingenuidade relativa à questão Apenas para situar a questão e prosseguir no tratamento do tema essa questão salvo engano está conectada à discussão da responsabilidade social da ciência tema que ganhou relevo com a participação de cientistas no desfecho da Segunda Guerra Mundial Em suma a imensa polêmica instalada nos segundo pósguerra dizia respeito à questão de quando cessa a responsabilidade do cientista ou dito de outra forma se ele é corresponsável pelos desdobramentos de suas descobertas científicas Há uma infinidade de textos que tratam dessa questão como por exemplo o livro do filósofo da ciência Jacob Bronowski 1979 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 12 Situemos a questão Inicialmente é necessário ter em mente que a Psicologia como qualquer outra profissão situada dentro dos marcos de uma formação social capitalista subordinase em última instância às determinações do modo de produção dominante Em outras palavras inscrevese dentro da divisão social do trabalho cumprindo o seu papel dentro de sua especificidade na reprodução das relações sociais capitalistas Esse é um limite da ação profissional que necessita ser levado em consideração A condição de trabalhador assalariado compreende parâmetros institucionais e trabalhistas que regulam as relações de trabalho Iamamoto 1998 além de um conjunto de prescrições que são próprias de sua inserção profissional É indispensável aqui fazer três observações Em primeiro lugar não estamos em absoluto afirmando que o psicólogo deva obedecer acriticamente às imposições do seu empregador em que nível for ou seja combatendo a famigerada tese da obediência devida mas que é impossível ignorar as determinações postas pela sua inserção profissional no quadro da organização social e técnica do trabalho A segunda observação é que não estamos igualmente admitindo que os limites acima aludidos da ação profissional postos pela sua localização na divisão capitalista de trabalho sejam imutáveis mas que o alcance de ações profissionais individuais para alterálos é restrito ou quase inexistente É importante ressaltar que essa consideração não cancela a diferença acima mencionada entre a ação política propriamente dita e a dimensão política da ação profissional Há um limite eventualmente tênue entre a ação propriamente política sindical partidária ou nos movimentos sociais enfim a militância política e aquela dimensão política que envolve a consideração das consequências sociais da sua atividade profissional E é desta última que estamos tratando neste ponto A terceira observação é que reconhecendo a dimensão política da ação profissional e distinguindoa da militância reiteramos uma tese que embora antiga deve ser relembrada a de que historicamente não cabe ao psicólogo ou a qualquer outra categoria profissional como tal um papel decisivo em processo algum de transformação estrutural da sociedade Novamente duas ressalvas isso não significa por um lado que tais ações em uma direção progressista pela falta de um termo melhor sejam inúteis ou desnecessárias9 por outro que a ação profissional por não ser neutra não possa se articular e contribuir com as lutas populares e os projetos societários alternativos Essas três observações estabelecem contornos para a discussão da polêmica tese do compromisso social do psicólogo Compromisso social ou responsabilidade social As considerações anteriores sobre a margem de ação política do psicólogo tendem a recolocar a questão para o âmbito individual Falamos das determinações estruturais mais gerais dos requerimentos de ordem institucional e trabalhista e como aludimos anteriormente das necessidades ou demandas sociais configurando um campo de tensões no qual se situa a ação do psicólogo É nesse terreno de contradições que se situa a questão do utilizando uma expressão corrente e controvertida compromisso social do psicólogo Mas se já concluímos que o alcance social da profissão se alargou ao longo destes 50 anos após a regulamentação o que dizer do compromisso social Vamos nos deter um pouco nos sentidos assumidos pela expressão 9 Situamse aí por exemplo as definições acerca da melhoria das condições de vida da população saúde seja terapêutica seja prevenção seja promoção habitação saneamento enfim os alvos das chamadas políticas sociais fragmentadas indiscutivelmente necessárias mas que em si não comportam a qualificação de ações relativas à transformação estrutural da sociedade capitalista 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 13 Bastos 2009 faz um levantamento das acepções de compromisso social do psicólogo identifica quatro dimensões nos textos que analisa e propõe uma quinta São elas expansão renovação direção política orientação teórica e competência técnica Não é nossa intenção discutir a análise das dimensões do autor porque as questões que nos tocam mais de perto já foram objeto de atenção mas discutir a forma pela qual ele define duas delas e pensar nos seus desdobramentos a direção política e a orientação teórica De acordo com Bastos 2009 o âmbito direção política é definido pela orientação para a transformação social e a supressão das desigualdades que se associaria à orientação teórica que na análise do compromisso social estaria identificada com a abordagem sociohistórica O autor faz a crítica a tal compreensão do compromisso social por entender que comporta o risco de esvaziar a identidade profissional do psicólogo e de construir uma psicologia classista pela concepção voluntarista subjacente e pela pressuposição da supremacia de um determinado referencial teóricometodológico em detrimento das demais e da pluralidade do conhecimento psicológico A questão contida nessa crítica do nosso ponto de vista reside na disputa em torno da definição do que seja compromisso social e por conseguinte do enquadramento das diversas ações do psicólogo como socialmente comprometidas ou não A linha de argumentação que Bastos busca construir e é importante que seja mencionado sobre o compromisso social do psicólogo do trabalho e das organizações diz respeito a uma eventual avaliação maniqueísta que coloca de um lado determinadas formas de inserção profissional como comprometidas socialmente e de outro aquelas não comprometidas socialmente Há aqui duas questões a considerar A primeira diz respeito à leitura que faz Bastos da literatura sobre o compromisso social É importante dizer não se trata de um campo de estudos antes são escritos relativamente esparsos artigos que analisam a prática e discutem o compromisso do psicólogo envolvido nesse contexto textos de combate e outros documentos10 portanto embora os leitores possam identificar posições mais consolidadas é difícil afirmar que estas sejam hegemônicas A crítica de Bastos reside como vimos na desqualificação de práticas profissionais que não estejam alinhadas a determinada abordagem teórico metodológica e voltadas para a transformação social Façamos um exercício E se substituirmos compromisso social por responsabilidade social Seguramente seria difícil sustentar aquelas definições das dimensões direção política e orientação teórica ou seja seria impensável afirmar que somente ações profissionais que se articulam com a transformação social a partir de uma determinada impostação teórica sejam socialmente responsáveis Talvez resida aí o cerne do embate de Bastos 2009 O reconhecimento de que há uma pluralidade teóricometodológica e de posturas políticas na ação profissional do psicólogo a informar práticas socialmente responsáveis não seria a reivindicação do autor Mas é forçoso reconhecer que há uma distinção entre responsabilidade e compromisso social a julgar pelos escritos analisados por Bastos E essa distinção nos remete à questão da transformação social Reafirmando o que foi dito anteriormente sobre o eventual papel de qualquer categoria profissional no processo de transformação estrutural da sociedade capitalista não seria o caso de se pensar em duas modalidades de compromisso social uma na ordem do individual o que remete a questão para decisões ao campo da ética 10 Para uma análise compreensiva de como a literatu ra tem tratado a questão do compromisso social do psicólogo ver Amorim 2010 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 14 e eventualmente na ordem do coletivo Em outras palavras indagar sobre a possibilidade de pensarmos em compromisso social com a definição acima para uma inteira e heterogênea categoria profissional É possível pensar em um projeto éticopolítico para a Psicologia Um tópico para iniciar a discussão a defesa da pluralidade e do reconhecimento da diferença supõe necessariamente abrir mão da tentativa de ações coletivas E em que nível de organização é possível pensar em ações coletivas Visando a superar o nível da ação profissional individual gostaríamos de propor a discussão sobre a viabilidade da construção de um projeto coletivo na forma de um projeto éticopolítico para a profissão Projetos profissionais de acordo com Netto apresentam a autoimagem de uma profissão elegem os valores que a legitimam socialmente delimitam e priorizam seus objetivos e funções formulam os requisitos teóricos práticos institucionais para o seu exercício prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as bases das suas relações com os usuários de seus serviços com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais privadas e públicas 2009 p 144 A questão para a Psicologia área de estudo e de atividade profissional que aceita a definição da fragmentação como um traço imanente não é trivial Para além da dispersão teóricometodológica dificuldades adicionais se relacionam ao fato de a Psicologia como de resto qualquer categoria profissional ser fundamentalmente heterogênea Conforme lembra Netto os membros do corpo categoria profissional são necessariamente indivíduos diferentes têm origens situações posições e expectativas sociais diversas condições intelectuais distintas comportamentos e preferências teóricas ideológicas e políticas variadas etc 2009 p 145 E mais importante que o corpo profissional é uma unidade nãohomogênea uma unidade de diversos nele estão presentes projetos individuais e societários diversos e portanto configura um espaço plural do qual podem surgir projetos profissionais diferentes 2009 p 145 Um projeto éticopolítico para a profissão não suprime portanto as divergências mas deve ser construído se possível apesar da existência dessas diferenças e das suas contradições internas Como se trata de uma proposta coletiva construída por um sujeito coletivo com a heterogeneidade que lhe é própria como afirmamos acima o projeto éticopolítico visa a atingir toda a categoria profissional E sendo construído por uma unidade de diversos o projeto é igualmente não uma unicidade mas uma unidade possível Pensando dessa forma é possível conceber diferentes projetos éticopolíticos simultaneamente propostos que disputam a hegemonia da profissão Se entendermos as definições criticadas por Bastos 2009 como esboços de projetos éticopolíticos e não como uma avaliação maniqueísta de compromisso social as características das definições direção política e orientação teórica são perfeitamente justificáveis Seria não um julgamento do que é aceitável ou não na prática profissional do psicólogo mas o alinhamento com propostas coletivas alternativas Dito de outra forma em vez de qualificar as ações profissionais como socialmente comprometidas ou não poderíamos pensar nelas vinculadas ou articuladas a um ou a outro projeto ético político profissional Conforme lembra Netto os membros do corpo categoria profissional são necessariamente indivíduos diferentes têm origens situações posições e expectativas sociais diversas condições intelectuais distintas comportamentos e preferências teóricas ideológicas e políticas variadas etc 2009 p 145 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 15 supõe articular uma dupla dimensão de um lado as condições macrossocietárias que estabelecem o terreno sóciohistórico em que se exerce a profissão seus limites e possibilidades e de outro as respostas sóciohistóricas éticopolíticas e técnicas de agentes profissionais a esse contexto as quais traduzem como esses limites e possibilidades são analisados apropriados e projetados pelos profissionais 2007 p 222 Conquanto estejamos partindo da viabilidade da construção de projetos profissionais com diferentes fidelidades ideopolíticas o que estamos defendendo aqui e o que motivou estas considerações é a possibilidade ou não de proposição de um projeto éticopolítico para a Psicologia crítico e progressista que possa de uma parte dar suporte às decisões éticoprofissionais de ordem individual do psicólogo considerados os marcos já aludidos e para além da sua indispensável ação política como cidadão ser coparticipante de um projeto éticopolítico que se articule com projetos societários mais amplos E nesse caso evidentemente estamos nos referindo a projetos societários que apontem a transformação estrutural da sociedade capitalista e não a sua manutenção De fato é difícil imaginar que as categorias profissionais com a complexidade que comportam hoje possam convergir para um único projeto profissional Portanto é perfeitamente lícito e plausível esperar que projetos alternativos concorram pela hegemonia na categoria profissional Essa diversidade de proposições em busca de hegemonia pode inclusive ensejar a disputa de projetos que se situem dentro de um mesmo espaço do ponto de vista das perspectivas ideopolíticas e dos projetos societários aos quais eventualmente se perfilhem É desnecessário aduzir que hegemonias são construídas e conquistadas e não impostas tratase portanto de projetos que se qualifiquem como tal que consigam fazer frente à diversidade da profissão e da categoria demonstrar sua eficácia na articulação dos profissionais e sua vinculação efetiva com os projetos societários abrangentes Devese lembrar neste ponto que a possibilidade da proposição de projetos ético políticos da profissão não elide os limites da ação política e profissional antes discutidos Em síntese um projeto éticopolítico como bem define Iamamoto 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 16 Oswaldo H Yamamoto Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Rio Grande do Norte RN Brasil Email oswaldoyamamotogmailcom Endereço para envio de correspondência Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de Psicologia Caixa Postal 1622 Rio Grande do Norte RN Brasil CEP 59078970 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 17 Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 1741999 Porto Alegre Artmed Iamamoto M V 1998 O serviço social na contemporaneidade trabalho e formação social São Paulo Cortez Iamamoto M V 2007 Serviço social em tempo de capital fetiche capital financeiro trabalho e questão social São Paulo Cortez Mello G N 1982 Magistério de 1o grau da competência técnica ao compromisso político São Paulo Cortez Mello S L 1975 Psicologia e profissão em São Paulo São Paulo Ática Montaño C 2002 Terceiro setor e a questão social crítica ao padrão emergente de intervenção social São Paulo Cortez Netto J P 2009 A construção do projeto éticopolítico do serviço social In A E Mota M I S Bravo R Uchoa V Nogueira R Marsiglia L Gomes M Teixeira Orgs Serviço social e saúde formação e trabalho profissional pp 141160 4a ed São Paulo Cortez Nosella P 1983 Compromisso político como horizonte da competência técnica Educação Sociedade 14 9197 Souza M P R Bastos A V B Barbosa D R 2011 Formação básica e profissional do psicólogo análise do desempenho dos estudantes do ENADE 2006 Avaliação Psicológica 103 295312 Yamamoto O H 2000 A psicologia em movimento entre o gattopardismo e o neoliberalismo Psicologia e Sociedade 1212 221233 Yamamoto O H 2007 Políticas sociais terceiro setor e compromisso social perspectivas e limites do trabalho do psicólogo Psicologia Sociedade 19 3037 Yamamoto O H Oliveira I F 2010 Política social e psicologia uma trajetória de 25 anos Psicologia Teoria e Pesquisa 26Esp 924 Yamamoto O H Souza J A J Silva N Zanelli J C 2010 A formação básica pósgraduada e complementar do psicólogo no Brasil In A V B Bastos S M G Gondim Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 4565 Porto Alegre Artmed Abbad G da S Mourão L 2010 Competências profissionais e estratégias de qualificação e requalificação In A V B Bastos S M G Gondim Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 380401 Porto Alegre Artmed Amorim K M O 2010 Compromisso social do psicólogo em artigos publicados em periódicos científicos no Brasil Dissertação de mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Norte Natal RN Bastos A V B 2009 O mundo das organizações e do trabalho o que significa compromisso social para a psicologia In M R Souza F C S Lemos Orgs Psicologia e compromisso social unidade na diversidade pp 942 São Paulo Escuta Bastos A V B Gondim S M G Orgs 2010 O trabalho do psicólogo no Brasil Porto Alegre Artmed Bastos A V B Gondim S M G Souza J A J Souza M P R 2011 Formação básica e profissional do psicólogo uma análise do desempenho das IES no ENADE2006 Avaliação Psicológica 103 313347 Botomé S P 1979 A quem nós psicólogos servimos de fato Psicologia 5 115 Botomé S P 1988 Em busca de perspectivas para a psicologia como área de atuação e como campo profissional In Conselho Federal de PsicologiaCFP Org Quem é o psicólogo brasileiro pp 273297 São Paulo Edicon Bronowski J 1979 Ciência e valores humanos Belo Horizonte Itatiaia Campos R H F 1983 A função social do psicólogo Educação Sociedade 16 7484 Coimbra C M B 1995 Os guardiães da ordem uma viagem pelas práticas psi no Brasil do milagre Rio de Janeiro Oficina do Autor Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1988 Quem é o psicólogo brasileiro São Paulo Edicon Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1992 Psicólogo brasileiro construção de novos espaços Campinas SP Átomo Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1994 Psicólogo brasileiro práticas emergentes e desafios para a formação São Paulo Casa do Psicólogo Gondim S M G Bastos A V B Peixoto L S A 2010 Áreas de atuação atividades e abordagens teóricas do psicólogo brasileiro In A V B Bastos S M G Gondim Referências 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 315 Evento Estudos de Psicologia 1999 42 315329 A Psicologia a caminho do novo século identidade profissional e compromisso social1 Ana Mercês Bahia Bock Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Resumo O tema A Psicologia a caminho do novo século identidade profissional e compromisso social foi desenvolvido aqui a partir de três aspectos um pequeno resgate histórico sobre o vínculo da Psicologia com a sociedade brasileira buscando caracterizar sua relação com esta sociedade em seguida desenvolver a perspectiva da profissão comprometida com a realidade social apresentando alguns critérios para se jul gar o compromisso social de práticas e saberes da Psicolo gia além da defesa de que a Psicologia como saber e fazer se desenvolva sempre vinculada à sociedade que a acolhe e para finalizar trazer a questão da identidade profissional do psicólogo partindo do princípio de que identidade deve ser sempre vista como metamorfose e como movimento perma nente de transformação O texto pretende ser uma defesa de uma identidade para os psicólogos que seja movimento e transformação porque é reflexo do vínculo que a Psicologia deve manter com a sociedade que está sempre em movi mento vínculo este de compromisso com as necessidades e demandas da maioria da população brasileira Palavraschave Psicologia profissão compromisso social identidade profissional 316 Evento A Psicologia a caminho do novo século identidade profissio nal e compromisso social O tema desta palestra que tomo como um desafio demonstra claramente que estamos utili zando o marco da mudança do século como um momento de reflexão sobre nosso futuro enquanto categoria profissional e enquanto ciên cia Estamos em um momento importante de construir planos pro jetos para o futuro projetos estes que percebemos claramente como definidores de nossa identidade profissional Estamos querendo de finir quem queremos ser no próximo século Pretensioso sim po rém necessário e correto É preciso aproveitar estes marcos e rituais Abstract Psychology towards the new century professional identity and social commitment The theme Psychology towards the new century professional identity and social commitment was elaborated here from three foundations 1 a short historical recovery of the links between Psychology and Brazilian society aiming at the portrayal of its relationship with that society 2 the development of a perspective of the profession committed to the social reality including the presentation of criteria to evaluate the social engagement of practices and understandings of Psychology and the argument that Psychology as knowledge and doings should always act in dependence to the society that hosts it 3 the prompting of the question of psychologists professional identity from the standpoint that identity should always be seen as metamorphosis and a permanent movement of transformation The text intends to be a defense of an identity for psychologists that implies movement and transformation because it is consequence of the linkage Psychology should entertain with society which is always moving a linkage of commitment to the needs and demands of the majority of the Brazilian population Keywords Psychology profession social commitment professional identity 317 Evento que a nossa cultura nos oferece para refletir sobre nossa atuação como profissionais Na verdade há apenas uma aparência de que estamos pensando apenas o futuro Não estamos pensando também o pre sente o amanhã de nossa profissão Quem queremos ser Que cara queremos dar à nossa profissão Que inserção social queremos que ela tenha Que vínculo queremos ter com a sociedade que abriga e recebe nosso trabalho Que finali dade queremos imprimir às nossas ações Estas são questões que a meu ver estão embutidas no tema Ou melhor no desafio desta pa lestra Devo confessar de início que eu gosto deste desafio Gosto de poder pensar que participo da definição do futuro de minha profis são Gosto de poder pensar que o futuro não está pronto e que me cabe participar de sua construção Isto na verdade me encanta Fa rei portanto esta reflexão com paixão podem estar certos Para começar gosto de estruturar minha reflexão para que todos possam acompanhar o caminho do meu pensamento e quem sabe chegarmos juntos no final Isto é também um ponto crucial pois projeto de futuro de uma profissão ninguém faz sozinho Teremos de enfrentar este outro desafio construir o futuro juntos Pretendo inicialmente caracterizar o vínculo que nossa profis são tem tido com a sociedade para em seguida refletir sobre o apelo que está sendo feito a ela hoje A que perguntas tem respondido e que respostas nossa profissão tem dado à sociedade brasileira De pois discutir a perspectiva de uma profissão comprometida com a realidade social para finalizar com a questão da identidade profissi onal Bem vamos ao trabalho A Psicologia e a sociedade um pequeno resgate Se voltarmos um pouco mais no tempo para começar do come ço vamos encontrar no Brasil Colonial de acordo com os estudos de Mitsuko Antunes 1999 estudos sobre fenômenos psicológicos principalmente em obras de outras áreas do saber tais como Teolo gia Moral Pedagogia Política e Arquitetura escritos por autores de formação jesuítica que tinham claramente a finalidade de contri 318 Evento buir para o controle dos indígenas São estudos sobre emoção senti dos autoconhecimento adaptação ambiental diferenças raciais e outros temas relacionados diretamente à questão do controle político da população colonial Com a vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro grandes alterações sociais acontecem em uma cidade que se aglomera sem condições básicas de vida Doenças infecciosas proliferam e campa nhas de higienização da sociedade vão tomar importância e força É grande o desenvolvimento do saber médico guiado pelas idéias da higienização e saneamento físico e moral da sociedade Os conteú dos psicológicos aparecem então nas produções médicas para carac terizar as doenças da moral presente nas prostitutas nos pobres e nos loucos É o período da criação dos grandes hospícios Como eliminar problemas que existem na sociedade Como manter mãodeobra barata sem os efeitos indesejáveis que ela tra zia As produções científicas caminhavam na direção destas ques tões e as respostas são permeadas de racismo científico como a teo ria da degenerescência quanto mais inferior é a raça mais propenso à degenerescência os indivíduos estão por isso o índice de alcoolis mo e de loucura eram mais altos entre os negros Na Primeira República última década do século XIX a Psicolo gia começa a se separar como área Na primeira metade do século XX lutase pela modernização da sociedade brasileira Havia um enorme interesse em sair da produção agrária e ingressar na modernidade através do crescimento da industrialização Estávamos lutando por uma nova sociedade que precisava para poder se desen volver a contento de um homem novo A defesa da educação da difusão do ensino das idéias escolanovistas vão embasar as produ ções da época A Psicologia vem então dar fundamentos e elemen tos para o desenvolvimento destas novas idéias educacionais E a pergunta para a Psicologia se modifica que conhecimentos científi cos são necessários para desenvolver as crianças na direção desta sociedade moderna que queremos Noções de diferenciação das pessoas a partir da idéia de capaci dades inerentes aos indivíduos vão crescer no seio da Psicologia que 319 Evento produzirá muitos instrumentos capazes de fazer estas diferenciações As influências americanas tornamse dominantes na Psicologia bra sileira As testagens psicológicas trazem também a enorme possi bilidade de respondermos adequadamente ao desafio da moderniza ção o homem certo no lugar certo Do controle do período colonial para a higienização do início do século XIX para a diferenciação no século XX O início do século XX será marcado por uma credibilidade mui to grande na educação A educação foi vista como a grande respon sável pelo desenvolvimento da sociedade A relação Pedagogiaestu dos psicológicos será então altamente reforçada A Psicologia per mitia que a Educação fosse pensada a partir de bases científicas Posteriormente na década de 30 os ideais escolanovistas vão acen tuar esta relação A Escola Nova movimento progressista na Peda gogia moderna trazia uma nova proposta educacional a partir de uma concepção de infância que abandonava a visão tradicional em que a criança era possuidora de uma natureza corrompida necessi tando ser cultivada para que o mal fosse desenraizado A criança passava a ser vista como possuidora de uma natureza pura e boa que precisava ser conhecida em sua profundidade para que o trabalho educacional pudesse contribuir para mantêla assim pura espontâ nea livre Conhecer seu desenvolvimento para poder corrigir seu percurso se tornou tarefa imprescindível Além disso todo poder de diferenciação criado pela Psicologia contribuiu para seu avanço também na área da Psicologia Organizacional ou do Trabalho Era possível atuar selecionando o homem certo para o lugar certo Institutos de seleção e orientação vão surgir como o ISOP que comemorou há pouco seus 50 anos A institucionalização da Psicologia era evidente E é importante registrar que ao lado de toda uma prática e de um conhecimento diferenciador e que via o homem de forma muito simplificada a histórica no qual o aspecto social era na maior parte das vezes relegado a segundo ou último plano convivia um conhecimento crí tico que concebia o homem e o fenômeno psicológico como indissociáveis do processo de socialização entendendo o psiquismo 320 Evento como manifestação e como instância histórica e social Helena Antipoff Manoel Bomfim e Ulisses Pernambucano representam esse setor da Psicologia que não foi vitorioso na História mas que regis trou suas idéias permitindonos hoje resgatálos Em 1962 a Psicologia foi definitivamente institucionalizada através da Lei 4119 que regulamentou a profissão no país Nos anos que se seguem cursos de Psicologia proliferaram no país associa ções profissionais e científicas campos de trabalho foram surgindo Enfim a Psicologia se desenvolvia com vigor No final de década de 70 com as grandes greves operárias a classe média também foi levada às suas organizações Criou entida des e fortaleceu as já existentes Nessa época precisamente em 1979 os psicólogos inicialmente em São Paulo mas seguidos pelo Rio de Janeiro Minas Gerais Pernambuco Rio Grande do Sul e logo de pois Brasília Ceará Paraná ocuparam ou criaram seus Sindicatos Os Conselhos foram em seguida ocupados por grupos mais progres sistas que queriam a entidade trabalhando para que a Psicologia se tornasse um instrumento a serviço da população brasileira A década de 80 trouxe novos desafios aos psicólogos A peque na mas significativa abertura do mercado de trabalho no serviço público de saúde colocou aos psicólogos e às suas entidades desafios muito grandes Era preciso reinventar uma Psicologia que permi tisse contribuir e responder às necessidades daquela população com a qual não estávamos habituados a trabalhar Esse fato contribuiu para fortalecer nossas entidades A década de 80 foi assim fervilhante para os psicólogos Os Sindicatos se uniram e criaram a Federação Nacional dos Psicólogos os Conselhos também se fortaleceram pro duzindo material escrito sobre a profissão e organizando Congressos como os CONPSI que aconteceram em São Paulo Psicólogos in gressaram e fortaleceram o movimento da saúde chegando a colo car na direção desse movimento uma psicóloga Mônica Valente além da participação ativa no Movimento da Luta Antimanicomial Estava dada a largada para um período em que os psicólogos iriam se perguntar e refletir sobre a relação de seu trabalho e do próprio fenômeno psicológico com a realidade social A realidade 321 Evento social entrava na Psicologia para remexer tudo o que durante tantos anos ficou naturalizado e cristalizado Estas questões vão tomando formas diferentes dentro da Psicologia até chegarmos ao momento atual no qual estamos colocando a questão do compromisso social de nossa profissão e de nossa ciência Discutir o compromisso social da Psicologia significa portanto sermos capazes de avaliar a sua inserção como ciência e profissão na sociedade e apontarmos em que direção a Psicologia tem cami nhado para a transformação das condições de vida Para a manu tenção Para contribuir para este debate pretendo responder a duas ques tões 1 Por que hoje se coloca esta exigência para a Psicologia de atuar com compromisso social 2 Quais os critérios para se afirmar que a intervenção demons tra compromisso social Por que hoje se coloca esta exigência para a Psicologia en quanto ciência e profissão de buscar uma produção e uma interven ção que denote compromisso social Dois pontos me parecem im portantes para responder a esta questão Primeiro é preciso comentar alguns dados sobre a situação de nosso país para que possamos caracterizar a necessidade deste tipo de intervenção Considerandose o Produto Interno Bruto PIB o Brasil ocupa hoje o lugar de 10a economia mundial Entre 174 nações o Brasil é a 10ª em produção de riqueza Mas se considerarmos agora o Índice de Desenvolvimento Humano IDH o Brasil tem outra classificação somos a 79ª nação Somos a 86ª em educação temos altos índices nas taxas de mortali dade infantil em analfabetismo e baixos nas condições de moradia e saneamento básico em atendimento à saúde da população E 158 da população brasileira ou seja 26 milhões de pessoas não têm acesso às condições mínimas de saúde educação e serviços básicos Somos para coroar esse quadro a nação campeã em concentração de renda O PIB per capita dos 20 mais ricos US18563 é 32 322 Evento vezes maior do que o dos 20 mais pobres US578 Os 20 mais pobres ficam com apenas 25 da renda enquanto que os 20 mais ricos detêm 634 dela Estes índices se traduzem em péssimas condições de vida para a maioria de nossa população que não tem acesso aos serviços básicos de saúde e educação Temos de 160 milhões de habitantes 46 mi lhões fora da escola sendo 43 milhões de adultos analfabetos totais e funcionais e 3 milhões de crianças entre 7 e 14 anos Se tomarmos o dado dos que estão na escola vamos assistir a uma mortalidade escolar termo utilizado aqui para designar a perda de alunos que a escola sofre impressionante 38 milhões no ensino fundamental 55 milhões no ensino médio e 2 milhões no ensino superior Sem distribuição de renda nenhum outro problema é resolvido e todas as medidas tornamse paliativas Temos um país no qual a média de imposto de renda das insti tuições financeiras foi em 1998 de R63000 o total de imposto territorial rural em 1998 foi 250 milhões em um país que tem a maior área cultivável do planeta para comparar o cigarro arreca dou 1 bilhão de reais no mesmo ano E que políticas sociais temos tido em nosso país Estamos sob os ditames do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional que na busca de administrar e controlar os empréstimos feitos por gran des financiadores internacionais aos países em desenvolvimento vêm interferindo em suas políticas domésticas São medidas que visam permitir que o Estado vá desinvestindo em setores nãolucrativos para poder aumentar suas possibilidades de pagamento da dívida externa Que país é este Que situação dramática a que vivemos É importante aqui fazer uma distinção semântica Muitos têm dito que vivemos uma situação trágica Não não vivemos Tragédia é um termo que designa acontecimentos que despertam lástima uma ocorrência funesta mau fado infortúnio Algo que o destino nos reservou porque independe de nossa intervenção Terremotos ci clones tempestades são tragédias Devemos utilizar nestes casos como é o caso brasileiro o termo drama que também designa acon 323 Evento tecimento terrível catastrófico mas que aqui se refere à interferên cia humana Temos em nosso país uma situação dramática Fechado esse parêntese semântico volto ao nosso drama Poderí amos ficar aqui horas descrevendo as características de nossa situa ção econômica e política e as condições de vida de nosso povo Mas sabemos que todos aqui a conhecem bem Queria apenas começar situando a sociedade em que acontece nossa profissão e nossa ciência E o que nós psicólogos temos com isto Nós profissionais da vida não podemos deixar de considerar este quadro porque é dele e nele que podemos caracterizar as neces sidades e demandas para nossa profissão Não podemos mais nos pensar como profissionais que em consultórios particulares ou es critórios oferecemos nossos serviços acreditando que estamos tendo alguma contribuição ou interferência para a melhoria das condições de vida Sei que não tem sido fácil sair destes lugares pois estamos nos centros urbanos e precisamos trabalhar Mas não perceber as limitações sociais de nosso trabalho ou mesmo pior ainda camuflar isto com justificativas de que sofrimento psíquico é igual para todos ricos e pobres é alguma coisa que não se pode mais aceitar Preci samos reconhecer as limitações de nossa ação profissional pois isto já é um bom começo Bem recordando nosso trajeto nesta reflexão estávamos bus cando responder por que hoje se coloca a exigência do compromis so social Apresentamos então dados sobre as condições de vida em nosso país e pretendemos aqui concluir este primeiro ponto afirman do que hoje se coloca essa exigência porque as condições de vida de nosso povo estão se deteriorando há muita pobreza muita carência e estas situações têm gerado sofrimento psíquico e nós psicólogos já não podemos mais estar de costas para esta realidade Ela entra pela nossa casa ela se estampa nos jornais e na televisão ela nos atinge em nosso trabalho A realidade já é tão evidente que nos per turba e nos coloca questões Mas para irmos adiante em nossa reflexão poderíamos nos per guntar mas o Brasil sempre viveu com dificuldades as condições de 324 Evento vida em nosso país podem estar piores mas nunca estiveram boas Por que agora esta exigência Porque a Psicologia vem se transformando e vem se aproximan do de visões concretas e históricas abandonando as visões naturali zantes que ainda caracterizam nossa ciência e nossas técnicas Vamos explicar melhor isto A Psicologia em seu desenvolvimento esteve sempre presa a uma dicotomia entre objetividade e subjetividade entre interno e exter no entre natural e histórico objeto e sujeito razão e emoção indiví duo e sociedade Desde Wundt temos vivido esse desafio de superar estas dicoto mias e nosso desenvolvimento teórico pode ser registrado a partir destas tentativas Mantidas estas dicotomias não temos sido capazes de compre ender o homem que não de forma a naturalizar seu desenvolvimento e seu mundo psicológico Explicando melhor porque mantemos uma visão dicotômica temos explicado o movimento do mundo psicoló gico como um movimento interno gerado por si mesmo É a ima gem do Barão de Munchhausen que sai do pântano puxando pelos seus próprios cabelos imagem esta que usei em meu trabalho de doutoramento para simbolizar as idéias que a Psicologia tem construído que vêem o homem como um ser capaz de através de seu próprio esforço se autodeterminar Bock 1999 Esta tradição naturalizante do fenômeno psicológico nos jogou em uma perspectiva de profissão que sempre compreendeu nossa intervenção como curativa remediativa terapêutica Temos nos li mitado a ela nestes anos todos de profissão Não é para menos que temos tido um modelo médico de intervenção Mas isto vem mudando A realidade objetiva o mundo social e cultural vem invadindo nosso conhecimento e já não podemos mais falar de mundo psicológico sem considerar o mundo social e cultu ral Ainda estamos construindo um modelo de relação entre estes mundos entendendo que estes se influenciam e não que constituem um ao outro Isto significa que ainda não superamos a dicotomia mas estamos caminhando 325 Evento A Psicologia tem se aberto para estas novas leituras Queremos entender o mundo psicológico como um mundo constituído a partir de relações sociais e de formas de produção da sobrevivência Quero aqui explicar melhor pois penso que este aspecto é fundamental A Psicologia ao pensar o indivíduo descolado de seu mundo social e cultural viu o desenvolvimento deste ser como produzido pelo seu próprio movimento Algo dentro de nós nos movimenta O mundo social ficou isento Construímos uma Psicologia que não pre cisa fazer qualquer referência ao mundo social e cultural para falar do humano Temos visto isto em pronunciamentos de psicólogos que explicam o que se passa com um indivíduo sem fazer qualquer refe rência a questões políticas econômicas e culturais de nossa socieda de O máximo que avançamos é até o pai e mãe do indivíduo Nem na família enquanto instituição social que se estrutura para respon der às necessidades da sociedade burguesa e capitalista chegamos ainda Mas estamos avançando A Psicologia está então se abrindo para estas questões e isto coloca o compromisso social como uma possibilidade como uma exigência como um critério de qualidade da intervenção Penso que outros aspectos existem mas me dou por satisfeita para responder à primeira questão a que me propus com estes dois elementos o país exige nosso posicionamento político no exercício da profissão e a Psicologia começa a nos possibilitar este posiciona mento com seu avanço na crítica da naturalização de fenômeno psi cológico que caracterizou a história de nosso conhecimento Psicologia e Compromisso Social uma tarefa necessária Podemos partir então para nossa segunda questão quais os crité rios para se afirmar que a intervenção demonstra compromisso soci al Não tenho aqui a pretensão de esgotar os critérios possíveis para esta classificação Mas vou apontar alguns que me parecem importantes Primeiro o trabalho do psicólogo deve apontar para a transfor mação social para a mudança das condições de vida da população brasileira Friso que disse apontar porque é a finalidade do traba 326 Evento lho que importa ser caracterizada aqui Estamos falando do compro misso portanto de uma perspectiva ética Assim vale a intenção A finalidade do trabalho O psicólogo não pode mais ter uma visão estreita de sua inter venção pensandoa como um trabalho voltado para um indivíduo como se este vivesse isolado não tivesse a ver com a realidade soci al construindoa e sendo construído por ela É preciso ver qualquer intervenção mesmo que no nível individual como uma intervenção social e neste sentido posicionada Vamos acabar com a idéia de que mundo psicológico não tem nada a ver com mundo social Que sofrimento psíquico não tem nada a ver com condições objetivas de vida Os psicólogos precisam ter clareza de que ao fazer ou saber Psicologia estão com sua prática e seu conhecimento interferindo na sociedade Temos exemplos de como nossos conceitos serviram para acobertar as desigualdades sociais Diferenças individuais pers pectivas classificatórias noções abstratas de ser humano e de mundo psicológico nas quais a noção de potencialidades estava dada de for ma apriorística à vida a própria noção de desenvolvimento permiti ram que as condições sociais que facilitam ou impedem o desenvol vimento do sujeito ficassem camufladas por detrás de discursos abs tratos e ideológicos Na área da educação existe um exemplo bem evidente falamos de fracasso escolar e de dificuldades de aprendiza gem nos referindo sempre ao aluno Como podemos acreditar que uma parte apenas de um processo a criança fracasse sozinha O processo de ensinoaprendizagem fracassou não o aluno Não temos dúvida hoje de que a Psicologia contribuiu para ocultar as condi ções desiguais de vida no decorrer da História Precisamos escapar disto e nos engajar politicamente através da finalidade de nossa intervenção Quero esclarecer que penso que sem pre tivemos finalidades para nosso trabalho mas nunca quisemos colocálas em debate Nunca quisemos evidenciálas Agora é hora Outro critério que podemos utilizar é verificar se a prática esca pa do modelo médico de fazer Psicologia Isto é se a prática desen volvida não pensa a realidade e o sujeito a partir da perspectiva da doença O psicólogo pode e deve hoje pensar sua intervenção de 327 Evento maneira mais ampla no sentido da promoção da saúde da comuni dade e isto significa compreender o sujeito como alguém que am pliando seu conhecimento e sua compreensão sobre a realidade que o cerca se torna capaz de intervir transformar atuar modificar a realidade Claro que a doença é uma possibilidade nesta realidade mas nunca pode ser o eixo para a Psicologia Um terceiro critério é o tipo de técnica que se utiliza Nossas técnicas têm sido construídas e utilizadas com uma determinada ca mada social em geral intelectualizada e muito verbal A população brasileira na sua maioria não tem costume e facilidade para traba lhar a partir das técnicas com as quais estamos acostumados É pre ciso inovar e inovar a partir das características da população a ser atendida Nossa formação tecnicista tem nos ensinado coisas pron tas para aplicar Precisamos nos tornar capazes de criar Psicologia adaptando nossos saberes à demanda e à realidade que se nos apre senta Assumir um compromisso social em nossa profissão é estar vol tado para uma intervenção crítica e transformadora de nossas condi ções de vida É estar comprometido com a crítica desta realidade a partir da perspectiva de nossa ciência e de nossa profissão É romper com 500 anos de desigualdade social que caracteriza a história bra sileira rompendo com um saber que oculta esta desigualdade atrás de conceitos e teorias naturalizadoras da realidade social Assumir compromisso social em nossa prática é acreditar que só se fala do ser humano quando se fala das condições de vida que o determinam Termos práticas terapêuticas deve significar termos práticas capazes de alterar a realidade social de denunciar as desigualdades de con tribuir para que se possa cada vez mais compreender a realidade que nos cerca e atuarmos nela para sua transformação no sentido das necessidades da comunidade social Assumir compromisso social em nossa ciência é buscar estranhar o que hoje já parece familiar é não aceitar que as coisas são porque são mas sempre duvidar e buscar novas respostas Compromisso social é estranhar é inquietarse com a realidade e não aceitar as coisas como estão É buscar saídas É isto 328 Evento que parte de nossa categoria profissional vem fazendo o que é moti vo de orgulho para todos nós Movimento e transformação uma identidade profissional para os psicólogos E para terminar minha reflexão trago a questão da identidade profissional do psicólogo Tenho resistido um pouco a discussões sobre a identidade da Psicologia porque em geral essas discussões buscam uma cara para a Psicologia pensando em poder mantêla depois de encontrada Quero uma Psicologia que se metamorfoseie o tempo todo acompanhando as mudanças da realidade social de nos so país Não podemos querer uma Psicologia que seja a cristalização de uma mesmice de nós mesmos Se entendermos que a identidade é movimento é metamorfose devemos entender que a identidade pro fissional nunca estará pronta nunca terá uma definição Estará sem pre acompanhando o movimento da realidade Na verdade penso que nos enganamos quando falamos que não temos identidade pro fissional Temos sim Temos uma identidade profissional que reflete a prática importante que temos tido porém elitista restrita pouco diversificada e colada às necessidades e demandas de setores dominan tes de nossa sociedade Uma minoria que possuindo condições de comprar nossos serviços foi por muito tempo a única usuária deles Queremos agora dar a volta por cima e construir uma profissão iden tificada com as necessidades da maioria da população brasileira uma maioria que sofre dadas as condições de vida que possui uma mai oria que luta dadas as condições de vida que possui Identificarse com as necessidades de nosso povo e acompanhar o movimento des tas necessidades sendo capazes de construirmos sempre e perma nentemente respostas técnicas e científicas É este o nosso desafio Queremos estar em busca permanente em movimento sempre Queremos que o movimento seja a nossa identidade e que a inquieta ção seja nosso lema Referências Antunes M A M 1999 A Psicologia no Brasil leitura histórica sobre sua constituição São Paulo Unimarco Bock A M B 1999 Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicolo gia São Paulo EDUC 329 Evento 1 Versão revista da palestra de abertura da II Semana Norteriograndense de Psicolo gia realizada em Natal RN nos dias 16 18 de setembro de 1999 promovida pelo CRP13Seção RN UFRN e UNP Ana Mercês Bahia Bock doutora em Psicologia Social pela PUCSP é psicóloga e professora de Psicologia Social e da Educa ção na PUCSP diretora da Facul dade de Psicologia gestões 9397 e 972001 presidente do Conse lho Federal de Psicologia gestões 9798 e 982001 É coautora do livro Psicologias uma introdução ao estudo da Psicologia pela Sa raiva e autora do livro Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia pela EDUCCortez Endereço para correspondência Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Rua Monte Alegre 984 05014901 São Paulo SP E mail anabockzazcombr Recebido em 210999 Revisado em 181099 Aceito em 061199 Nota Sobre o autor A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Psicología para América Latina Revista de la Unión Latinoamericana de Psicología wwwpsicolatinaorg A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Ana Mercês Bahia Bock1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo A tradição da Psicologia no Brasil tem sido marcada pelo compromisso com os interesses das elites e tem se constituído como uma ciência e uma profissão para o controle a categorização e a diferenciação Poucas têm sido as contribuições da Psicologia para a transformação das condições de vida tão desiguais em nosso país A colonização do Brasil por Portugal foi caracterizada fundamentalmente pela exploração o que exigiu a construção de um forte aparelho repressivo As idéias psicológicas produzidas neste período por representantes da igreja ou intelectuais orgânicos do sistema português terão a marca do controle Vamos encontrar produções que buscam aumentar o controle sobre as mulheres as crianças e os indígenas No século XIX o Brasil deixa de ser colônia e transformase em império As idéias psicológicas vão ser produzidas principalmente no âmbito da medicina e da educação Com a vinda da Corte portuguesa vamos ter duas conseqüências fundamentais a demanda de serviços até então inexistentes como a educação nos seus diversos níveis inclusive superior e o século XIX vai assistir à abertura de escolas que se tornarão referência no Brasil como o colégio Pedro II a Escola Normal em Niterói e em São Paulo e o Pedagogium no Rio de Janeiro e o desenvolvimento rápido da cidade do Rio de Janeiro que sem qualquer infraestrutura para suportar esse desenvolvimento se viu às voltas com doenças miséria prostituição e loucura O século XIX vai assistir assim ao surgimento das idéias de saneamento e higienização das cidades higienização que será entendida como material e moral Buscase uma sociedade livre da desordem e dos desvios 1 Ana Mercês Bahia Bock é doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo professora da equipe de psicologia sócio histórica da PUCSP diretora da Faculdade de Psicologia da PUCSP de 93 a 2001 e presidente do Conselho Federal de Psicologia de 97 a 2001 1 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual As idéias psicológicas puderam colaborar significativamente no trabalho da educação e da higienização moral A educação será marcada por práticas autoritárias e disciplinares A escola vai surgir como um lugar de disciplina e rigor moral caracterizandose por uma educação autoritária e disciplinadora A medicina pela criação de hospícios como asilos higiênicos e de tratamento moral em 1842 é inaugurado no RJ o hospício Pedro II em 1852 em SP o asilo Provisório de Alienados da cidade de SP A sociedade dominada pela ideologia da ordem e da higienização O final do século XIX trouxe à República a riqueza cafeeira e o desenvolvimento do pólo econômico no sudeste A psicologia adquiria o estatuto da ciência autônoma na Europa e em seguida nos Estados Unidos Na educação o pensamento está marcado pelo movimento da Escola Nova que coloca o indivíduo como eixo de sua construção e dá ênfase a preocupação cientificista transformando as escolas em verdadeiros laboratórios As idéias psicológicas foram também associadas à administração e à gestão do trabalho baseadas no pensamento taylorista E a industrialização no Brasil vai fazer novas exigências à psicologia que com a experiência da psicologia aplicada à educação pode colaborar significativamente com um conhecimento que possibilitava a diferenciação das pessoas para a formação de grupos mais homogêneos nas escolas e a seleção de trabalhadores adequados para a empresa As guerras trouxeram o desenvolvimento dos testes psicológicos instrumentos estes que viabilizaram esta prática diferenciadora e categorizadora da psicologia E foi com este lugar social que a psicologia se institucionalizou no Brasil sendo reconhecida em 1962 como profissão Esta pequena retrospectiva mostra que a Psicologia esteve comprometida com os interesses das elites brasileiras Uma profissão que quando atingiu camadas de baixo poder aquisitivo nas empresas nas escolas e na saúde esteve sempre a serviço do controle da higienização da discriminação e da categorização que permitiam melhorar a produtividade o lucro permitiam melhorar as condições de vida das elites brasileiras que sempre fizeram política nesse país a partir exclusivamente de seus interesses Esta Psicologia tradicional se desenvolveu e se fundamentou em concepções universalizantes e naturalizantes da subjetividade Idéias que pensavam o homem e seu mundo psíquico de forma a entendêlo como um ser natural dotado de capacidades e características da espécie e que inserido em um meio adequado poderia ter seu desenvolvimento Um homem que é responsável pelo seu desenvolvimento e pelo seu sucesso ou fracasso O esforço de cada um era a garantia do desenvolvimento adequado São estas idéias que vamos desenvolver aqui para podermos fazer a crítica a universalização e naturalização do homem buscando uma perspectiva histórica para a Psicologia A visão liberal de Homem O liberalismo ideologia fundamental do capitalismo nasceu com a revolução burguesa para revolucionar a ordem feudal e se instituiu para garantir a manutenção da ordem que se instalava A burguesia constituiu as idéias liberais para se opor à ordem feudal uma ordem baseada na existência de uma hierarquia no universo um mundo pensado como estável ordenado e organizado pela vontade 2 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual divina Um mundo pronto no qual a verdade se revelava aos indivíduos A hierarquia no universo se refletia na hierarquia entre os homens Um mundo paralisado no qual cada um já nascia no lugar no qual deveria ficar Um universo que tinha a Terra como seu centro Um mundo de fé e dogmas religiosos que ofereciam aos homens as idéias prontas e os valores certos para serem adotados Um mundo que desconheceu individualidades impedindo que os sujeitos se constituíssem como tal Um mundo que não precisou de uma Psicologia Assim como oposição a estas idéias do feudalismo a perspectiva liberal tem como um de seus elementos centrais a valorização do indivíduo o individualismo Cada indivíduo é um ser moral que possui direitos derivados de sua natureza humana Somos indivíduos e somos iguais fraterno e livres com direito à propriedade à segurança à liberdade e à igualdade A visão liberal quebrava a estabilidade do mundo sua hierarquia e suas certezas O indivíduo estava agora no centro e poderia e deveria se movimentar E por que surgiam estas idéias liberais Porque o capitalismo precisava destas idéias precisava pensar o mundo como em movimento para explorar a natureza em busca de matériasprimas e precisava dessacralizar a natureza O capitalismo precisava do indivíduo como ser produtivo e consumidor A Terra já podia então tomar seu humilde lugar no universo A verdade já podia ser plural O mundo estava posto em seu movimento O homem também estava em seu movimento E neste mundo agora incerto o homem se viu frente à possibilidade de ser de pensar e de fazer A escolha tornavase uma exigência e um elemento da condição humana Escolher entre várias possibilidades e escolher diferentemente de outros permite o desenvolvimento de uma noção de indivíduo e conseqüentemente uma noção de eu entre os homens Fertilizando estes novos elementos vamos assistir ao desenvolvimento da noção de vida privada Estudos interessantes existentes hoje mostram como a vida coletiva vai dando lugar a um espaço privado de vida As casas vão modificando sua arquitetura para reservar locais privados para os indivíduos os nomes vão se individualizando marcas vão sendo colocadas em roupas guardanapos lençóis permitindo identificação A vida do trabalho vai saindo da casa para a fábrica modificando o caráter da vida pública A casa vai se tornando lugar reservado à família que dentro de casa vai também dividindo espaços e permitindo lugares mais individuais e privados Os banheiros saem dos corredores para se tornarem lugares fechados e posteriormente individualizados A noção de eu e a individualização vão nascendo e se desenvolvendo com a história do capitalismo A idéia de um mundo interno aos sujeitos da existência de componentes individuais singulares pessoais privados vai tomando força permitindo o desenvolvimento de um sentimento de eu A possibilidade de uma ciência que estude este sentimento e este fenômeno também é resultado deste processo histórico A Psicologia vai se tornando necessária As idéias liberais construídas no decorrer do desenvolvimento do capitalismo vão permitir a construção de uma determinada Psicologia Essas idéias se caracterizam fundamentalmente por pensar o homem a partir da noção de natureza humana Uma natureza que nos iguala e exige liberdade como condição para o desenvolvimento das potencialidades das quais somos dotados como seres humanos Importante notar que o liberalismo propiciou com estas idéias de igualdade natural entre os homens o questionamento das hierarquias sociais e desigualdades características do período histórico da feudalismo Ao homem deveriam ser dadas as melhores condições de vida para que seu potencial natural pudesse 3 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual desabrochar Frente às enormes desigualdades sociais do mundo moderno o liberalismo produziu sua própria defesa construindo a noção de diferenças individuais decorrentes do aproveitamento diferenciado que cada um faz das condições que a sociedade igualitariamente lhe oferece Assim as condições históricas deste período permitiram o surgimento da Psicologia e do próprio fenômeno psicológico como hoje está constituído As idéias naturalizadoras do liberalismo serão responsáveis pela concepção de fenômeno psicológico que se tornará dominante na Psicologia Para tratar deste assunto escolhemos trazer alguns dados da pesquisa realizada por Bock 1999 sobre o significado do fenômeno psicológico do fenômeno psicológico entre os psicólogos de São Paulo Na publicação de tese de doutorado Bock 1999 relata que encontrou em questionário aplicados a 44 psicólogos muitas definições para o fenômeno psicológico acontecimento organísmicos manifestações do aparelho psíquico individualidade algo que ocorre na relação e é o que somos conflitos pulsionais confusão mental manifestação do homem pensar e sentir o mundo o homem e relação com o meio consciência saberse indivíduo o que se mostra subjetividade funções egóicas existência intersubjetiva experiências vivências loucura distúrbio o próprio homem evento estruturantes do homem comportamento engrenagem de emoção motivação habilidades e potencialidades experiências emocionais psique pensamento sensação emoção e expressão entendimento de si e do mundo manifestação da vida mental tudo que é percebido pelos sentidos é consciente e é inconscienteBock 1999 pag 173 Cabe ainda trazer alguns dados a mais deste trabalho de Bock Os psicólogos utilizamse de chavões para designar o fenômeno psicológico O fenômeno é biopsicosocial O fenômeno envolve ou implica a interação entre pessoas O fenômeno se refere ao um indivíduo que é agente e sujeitoBock 99 174 Ainda elementos recorrentes nas respostas aos questionários que indicam elementos de uma conceituação consensual entre os psicólogos É um fenômeno interior ao homem Tem vários componentes É uma estrutura uma organização interna ao homem Possui aspectos conscientes e inconscientes Há algo de biológico e de social neste fenômeno A interação é importante na sua constituiçãointeração com o meio com os outros Recebe influência de fora e influência do meio É um fenômeno possível de ser conhecidoconsciente mas tem aspecto a que não se tem acessoinconsciente O psicólogo possui instrumento e conhecimentos para contribuir no conhecimento desse fenômeno e na sua restruturação É um fenômeno que se desestrutura A noção de desequilíbrio de desorganização de desestruturação é bastante presente Alguns identificam o fenômeno com a sua desestruturação 4 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual isto é o fenômeno é a doença o desequilíbrio ou o conflito Há uma noção presente em alguns questionários que é a identificação do fenômeno com a possibilidade de o indivíduo relacionarse consigo mesmoBock 99 pag 174175 Mas que coisa é esta o fenômeno psicológico Ora é processo ora é estrutura ora manifestação ora relação ora é conteúdo ora é distúrbio ora experiência É interno mas com relação com o externo É biológico é psíquico e é social é agente e é resultado é fenômeno humano relacionado ao que denominamos eu O fenômeno psicológico seja lá qual for sua conceituação aparece descolado da realidade na qual o indivíduo se insere e mais ainda descolado do próprio indivíduo que o abriga Esta é a noção algo que se abriga em nosso corpo do qual não temos muito controle visto como algo que em determinados momentos de crise nos domina sem que tenhamos qualquer possibilidade de controlálo algo que inclui segredos que nem eu mesmo sei algo enclausurado em nós que é ou contém um verdadeiro eu E aqui cabe falarmos da relação deste fenômeno psicológico com o meio social e cultural Esta relação é afirmada como necessária e importante por muitos psicólogos no entanto é vista como uma relação na qual o externomundo social impede e dificulta o pleno e livre desenvolvimento de nosso mundo internopsicológico O mundo social é um mundo estranho ao nosso eu Um lugar no qual temos que estar e por isto nos resta a tarefa de nos adaptarmos E a história deste aparato psicológico passa a ser a história da sua adaptação ao mundo social cultural e econômico Trabalhar relacionarse aprender fazer são atividades desta adaptação Amar emocionarse perceber motivarse são vistas também como possibilidades humanas que se desenvolvem ou melhor se atualizampois já eram potencializadas neste mundo externo Um fenômeno abstrato visto como característica humana Um fenômeno que existe em nós como estrutura processo expressão ou qualquer de suas conceituações porque somos humanos e ele pertence a nossa natureza Fica então naturalizado o fenômeno psicológico Algo que lá está como possibilidade quando nascemos algo que deverá ser fertilizado por afeto estimulações adequadas e boas condições de vida mas que lá está pronto para desabrochar Em defesa de uma visão histórica do fenômeno psicológico A Psicologia SócioHistórica que toma como base a Psicologia históricocultural de Vigotski 1896 1934 se apresenta desde seus primórdios como uma possibilidade de superação destas visões dicotômicas O discurso de Vigostki no II Congresso PanRusso de Psiconeurologia em 1924 sobre o método de investigação reflexológica e psicológica demonstra isto com clareza ao fazer a crítica a posições que foram consideradas reducionistas e ao incentivar a produção de uma Psicologia dialética A psicologia sóciohistórica tem inerente a ela a possibilidade de crítica Não apenas por uma intencionalidade de quem a produz mas por seus fundamentos epistemológicos e teóricos Fundamentase no marxismo e adota o materialismo histórico e dialético como filosofia teoria e método Nesse sentido concebe o homem como ativo social e histórico A sociedade como produção histórica dos homens que através do trabalho produzem sua vida material As idéias como representações da realidade material A realidade material como fundada em contradições que se expressam nas idéias E a história como o movimento contraditório constante do fazer humano no qual a partir da base material deve ser compreendida toda produção de idéias inclusive a ciência e a 5 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual psicologia A Psicologia SócioHistórica não trabalha com a concepção liberal de homem e de fenômeno psicológico Acredita que o fenômeno psicológico se desenvolve ao longo do tempo Assim o fenômeno psicológico não pertence à Natureza Humana o fenômeno psicológico não pré existe ao homem o fenômeno psicológico reflete a condição social econômica e cultural em que vivem os homens Portanto para a SócioHistórica falar do fenômeno psicológico é obrigatoriamente falar da sociedade Falar da subjetividade humana é falar da objetividade onde vivem os homens A compreensão do mundo interno exige a compreensão do mundo externo pois são dois aspectos de um mesmo movimento de um processo no qual o homem atua e constrói modifica o mundo e este por sua vez propicia os elementos para a constituição psicológica do homem As capacidades humanas devem ser vistas como algo que surge após uma série de transformações qualitativas Cada transformação cria condições para novas transformações em um processo histórico e não natural O fenômeno psicológico deve ser entendido como construção no nível individual do mundo simbólico que é social O fenômeno deve ser visto como subjetividade concebida como algo que se constituiu na relação com o mundo material e social mundo este que só existe pela atividade humana Subjetividade e objetividade se constituem uma à outra sem se confundirem A linguagem é mediação para a internalização da objetividade permitindo a construção de sentidos pessoais que constituem a subjetividade O mundo psicológico é um mundo em relação dialética com o mundo social Conhecer o fenômeno psicológico significa conhecer a expressão subjetiva de um mundo objetivocoletivo um fenômeno que se constitui em um processo de conversão do social em individual de construção interna dos elementos e atividades do mundo externo Conhecêlo desta forma significa retirálo de um campo abstrato e idealista e dar a ele uma base material vigorosa Permite ainda que se supere definitivamente visões metafísicas do fenômeno psicológico que o conceberam como algo súbito algo que surge no homem ou melhor algo que já estava lá em estado embrionário e que se atualiza com o amadurecimento humano O homem e o fenômeno psicológico pensados como sementes que se desenvolvem e desabrocham E por que a psicologia sóciohistórica é crítica a estas perspectivas Porque tais perspectivas fazem uma psicologia descolada da realidade social e cultural que é constitutiva do fenômeno psicológico E isto é uma questão importante porque é desta descolagem que se constitui o processo ideológico da psicologia Passamos a contribuir significativamente para ocultar os aspectos sociais do processo de construção do fenômeno psicológico em cada um de nós Fazemos ideologia Ideologia como definida por Charlot é um sistema teórico cujas idéias têm sua origem na realidade como é sempre o caso das idéias mas que coloca ao contrário que as idéias são autônomas isto é que transforma em entidades e em essências as realidades que ele apreende e que assim desenvolve uma representação ilusória ao mesmo tempo daquilo sobre o que trata e dele próprio e que graças a essa representação ilusória desempenha um papel mistificador quase sempre inconscienteo próprio ideológico é mistificado acredita na autonomia de suas idéias as idéias assim destacadas de sua relação com a realidade servem com efeito para construir um sistema teórico que camufla e justifica a 6 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual dominação de classe Ideológico não significa portanto errôneo Aliás é porque uma ideologia é um sistema ilusório e não um sistema de idéias falsas que é social e potencialmente eficaz Charlot 1979 p32 Chauí nos ajuda a completar o conceito quando afirma que a operação da ideologia é a criação de universais abstratos isto é a transformação das idéias particulares da classe dominante em idéias universais de todos e para todos os membros da sociedade Essa universalidade das idéias é abstrata porque não corresponde a nada real e concreto visto que no real existem concretamente classes particulares e não a universalidade humana As idéias da ideologia são pois universais abstratos Chauí 1981 p95 A ideologia é assim uma representação ilusória que fazemos do real O ilusório da ideologia está em que parte da realidade fica ocultada nas constituições ideais Na psicologia ao construirmos as noções e teorizações sobre o fenômeno psicológico tem ficado ocultada a sua produção social Com isto as conseqüências são danosas do ponto de vista das possibilidades da psicologia contribuir para a denúncia e a transformação das condições de vida constitutivos do fenômeno O fenômeno psicológico como qualquer fenômeno não tem força motriz que lhe seja própria É na relação com o mundo material e social que se desenvolvem as possibilidades humanas Claro há um corpo biológico que se instituiu como elemento básico da relação e é nele que se processará o que estamos chamando de fenômeno psicológico Esta relação com o mundo através da atividade dos sujeitos se torna essencial para que algo ocorra em nós Temos usado a imagem do Barão de Munchhausen para expressar uma compreensão da ideologia que se constitui a partir da psicologia Uma outra vez quis saltar um brejo mas quando me encontrava a meio caminho percebi que era maior do que imaginara antes Puxei as rédeas no meio de meu salto e retornei à margem que acabara de deixar para tomar mais impulso Outra vez me saí mal e afundei no brejo até o pescoço Eu certamente teria perecido se pela força de meu próprio braço não tivesse puxado pelo meu próprio cabelo preso em rabicho a mim e a meu cavalo que segurava fortemente entre os joelhos Raspe p40 É esta a melhor imagem que encontramos para designar esta ideologia do esforço próprio de cada um para desenvolverse para desenvolver o potencial contido em sua natureza A Psicologia tem assim há anos contribuído para responsabilizar os sujeitos por seus sucessos e fracassos temos pensado e defendido condições de vida como canteiro apropriado ou não para o desabrochar de potencialidades temos acreditado e contribuído para classificar e diferenciar pessoas pelas suas características e dinâmicas psicológicas temos criado ou contribuído para reforçar padrões de conduta que interessam à sociedade manter como conduta necessária ao bom desenvolvimento das pessoas A psicologia tem reforçado formas de vida e de desenvolvimento das elites como padrão de normalidade e de saúde contribuindo para a construção de programas de recuperação e assistência àqueles que não conseguem ao puxarem pelos seus próprios cabelos se desenvolver nesta direção Tem transformado o diferente o fora do padrão dominante em anormal A psicologia não tem sido capaz de ao falar do fenômeno psicológico falar de vida das condições econômicas sociais e culturais nas quais se inserem os homens A psicologia tem ao contrário contribuído significativamente para ocultar estas condições Falase da mãe e do pai sem falar da família como instituição social marcada historicamente pela apropriação dos sujeitos falase da sexualidade sem falar da tradição judaicocristã de repressão à sexualidade falase da identidade das mulheres sem se falar das características machistas de nossa cultura falase do corpo sem inserilo na 7 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual cultura falase de habilidade e aptidões de um sujeito sem se falar das suas reais possibilidades de acesso à cultura falase do homem sem falar do trabalho falase do psicólogo sem falar do cultural e do social Na verdade não se fala de nada Fazse ideologia Reverter este processo de construção da psicologia como ciência e profissão implica a nosso ver redefinir o fenômeno psicológico E por que este aspecto faz da psicologia sóciohistórica uma perspectiva crítica Porque já não poderemos mais pensar a realidade social econômica e cultural como algo fora do Homem estranho ao mundo psicológico que aparece como algo que o impede o anula ou o desvirtua O mundo social e o mundo psicológico caminham juntos em seu movimento e a psicologia para compreender o mundo psicológico terá obrigatoriamente que trazer para seu âmbito a realidade social na qual o fenômeno psicológico se constrói e por outro lado ao estudar o mundo psicológico estará contribuindo para a compreensão do mundo social Trabalhar para aliviar o sofrimento psicológico das pessoas possibilitará e exigirá do psicólogo um posicionamento ético e político sobre o mundo social e psicológico A psicologia sóciohistórica pretende assim ser crítica porque posicionada A psicologia sóciohistórica exige a definição de uma ética e exige uma visão política sobre a realidade na qual nosso objeto de estudo e trabalho se insere A psicologia sóciohistórica carrega intrinsecamente à sua forma de pensar a realidade e o mundo psicológico esta perspectiva e a necessidade deste posicionamento As idéias liberais serão responsáveis pelo desenvolvimento da concepção de fenômeno psicológico dominante na Psicologia Um fenômeno concebido de forma abstrata enclausurado no homem descolado da realidade social a não ser como oportunidades para o desabrochar do potencial algo em nosso corpo do qual não temos muito controle visto como algo que em determinados momentos de crise nos domina sem que tenhamos qualquer possibilidade de controlálo algo que inclui segredos que nem eu mesmo sei algo enclausurado em nós que é ou contém um verdadeiro eu Cabe ressaltar que nesta concepção a sociedade aparece como algo que se contrapõe aos movimentos naturais do humano A sociedade é algo oposto aos nossos interesses naturais O Mundo externo impede dificulta o pleno desenvolvimento de nosso mundo interno Mundo interno e mundo externo ficam definitivamente separados Ciências diferentes são criadas para dar conta destas realidades tão diversas A Psicologia enquanto ciência do mundo interno abandona qualquer vínculo mais profundo com a realidade social e cultural para pensar o homem isolado para estudar o fenômeno psicológico como algo já existente no homem que independe da relação com o mundo cultural para se constituir A Prática profissional surge então carregada de uma perspectiva corretiva e terapêutica Não poderia ser outra pois se já somos o que vamos ser dada a natureza humana da qual somos dotados a Psicologia só poderia se constituir enquanto prática profissional como um conhecimento e um conjunto técnico que detecta desvios do desenvolvimento humano em relação ao que é concebido como natural propondose como algo que reencaminha realinha adapta cura A Psicologia se associa a idéia de doença mas nosso objeto de trabalho não é o corpo que adoece Nosso objeto é o mundo simbólico Nosso objeto é o registro que os sujeitos fazem do mundo que os cerca do cotidiano Esse mundo não fica doente Esse mundo se estrutura se desetrutura sofre mas não fica doente no sentido de adquirir mal moléstia ou enfermidade Só uma noção naturalizante do mundo psicológico poderia ter chegado a essas noções Pois se o mundo psicológico é natural é da espécie é de nossa natureza humana já está lá e será desenvolvido com o passar do tempo e das experiências Aí sim podese pensar que ele adoece 8 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual A conseqüência mais evidente de tudo isto é que a Psicologia tornase uma ideologia pois ajuda a acobertar as condições sociais que constituem o homem Todas as qualidades e todos os defeitos dos humanos são analisados da perspectiva naturalizante E tudo que foge à regra ao esperado ao comum é patologizado Abrimos mão de nossa possibilidade de a partir do sofrimento psicológico denunciar as condições de vida que desigualam desestruturam e geram sofrimento A Psicologia se instituiu assim em nossa sociedade moderna como uma ciência e uma profissão conservadoras que não constrói nem debate um projeto de transformação social É hora de rompermos É hora de fazermos a crítica contundente a esta perspectiva liberal de homem É hora de abandonarmos definitivamente as visões naturalizantes de homem e de mundo adotando perspectivas históricas Necessitamos rever nossos conhecimentos e práticas a partir de noções que entendam o homem como um ser constituído ao longo de sua própria vida ao longo de sua ação sobre o mundo na interação com os outros homens inseridos em uma cultura que acumula e contém o desenvolvimento de gerações anteriores O fenômeno psicológico não pertence mais à natureza humana O homem ao construir a cultura e a sociedade se libertou de sua natureza ultrapassando seus limites e características O fenômeno psicológico como registro no homem de sua relação com o mundo na medida em que este mundo é social e cultural passa a se caracterizar por esta condição Assim o fenômeno psicológico não preexiste no homem Se desenvolve conforme o homem se insere na sociedade nas relações e na cultura Ali estão as possibilidade do homem se tornar humano A humanidade do homem está na cultura nas relações sociais e nas formas de produção da vida É lá que o homem vai buscar os elementos para sua constituição A concepção histórica do fenômeno psicológico permite que se pense o homem e o mundo em permanente movimento permite que se construa uma prática profissional e saberes em Psicologia colados a um projeto de sociedade permite que o psicólogo perceba claramente sua profissão como um fazer social que incentiva um determinado projeto de transformação social A concepção histórica do fenômeno psicológico contribui significativamente para a superação de perspectivas estigmatizadoras que a Psicologia desenvolveu O homem é visto como uma construção do homem O controle a categorização e a diferenciação deixam de ser entendidas como naturais para serem lidas como um determinado compromisso da Psicologia com as necessidades e projetos sociais Os processos a serem analisados são da objetivação do homem em seu mundo e o da apropriação do mundo pelo homem para se constituir O homem atua pondo no mundo social seus conteúdos individuais O homem se objetiva no mundo e faz isto junto com os outros homens Assim a humanidade vai se constituindo no mundo nos objetos na cultura nas formas de sobrevivência e de produção humanas De lá que o homem vai retirar o material para se constituir Vai se apropriar da humanidade que construiu ao transformar o mundo Vai retomar para si a humanidade que construiu Assim o homem se constrói ao construir o seu mundo Pensar esse processo de construção da subjetividade como um movimento e uma relação do homem com o mundo no qual nem homem nem mundo existem a priori em um certo sentido é superar visões naturalizantes e ideológicas na Psicologia O mundo psicológico que estudamos não é natural não está lá pronto não possui conteúdos universais nem processos e estruturas prontas para serem movimentadas ou preenchidas 9 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Pensar desta forma a subjetividade nos coloca em uma outra relação com o mundo social Passamos a perceber a necessidade de nos posicionarmos sobre qual homem e qual sociedade queremos estimular Isto porque passamos a pensar que o mundo psicológico não está pronto e nem mesmo tem direção para seu desenvolvimento dada naturalmente Nossas intervenções profissionais são portanto direcionamentos Qual mundo queremos estimular Qual sociedade Qual subjetividade Qual homem Ao mesmo tempo que esta tarefa de definirmos o projeto de nossa intervenção se coloca como obrigatória outro ganho acontece Passamos a nos ver como profissionais que através de nossas intervenções atuamos no mundo mudamos o mundo nos objetivamos no mundo Nos vemos então como sujeitos que transformam o mundo a partir de sua prática profissional Isto passa a exigir que façamos de nosso projeto profissional um projeto político de construção do âmbito coletivo A Psicologia brasileira precisa se voltar para a sociedade Precisa se perceber como uma intervenção política na sociedade A história de nossa ciência e de nossa profissão mostra que sempre estivemos comprometidos com interesses sociais Sempre fizemos de nossa ciência e de nossa profissão um instrumento político No entanto a revisão histórica mostra que estivemos comprometidos com os interesses das elites brasileiras Queremos com a perspectiva histórica na Psicologia reverter esse processo e nos comprometermos com outros setores da população Queremos acreditar que é possível pensar que os sofrimentos psíquicos que temos e que nossos conteúdos e estruturas psíquicas são reflexo de um mundo de competição de discriminação de estigmatização de diferenciação e que querer trabalhar para mudar esses quadros é também acreditar que um mundo melhor é possível É em prol desse projeto de um mundo melhor que queremos colocar nossa profissão Referências Bibliográficas Antunes Mitsuko A M A Psicologia no Brasil leitura histórica sobre sua constituição Enimarco Ed EDUC São Paulo 1999 Bock Ana MB Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia EdCortezEDUC São Paulo 1999 Chauí Marilena O que é a ideologia coleção 0Primeiros Passos EdBrasiliense 2ª edição São Paulo 1981 Lowy Michael As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen EdBusca Vida São Paulo 1987 Lowy Michael Ideologias e Ciências Sociais elementos para uma análise marxista EdCortez 4ª edição São Paulo 1988 Warde Miriam J Liberalismo e Educação tese de doutoramento PUC 0São Paulo 1984 10 Departamento de Administração CONTRATO PSICOLÓGICO E COMPROMETIMENTO DOS PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR Aluna Camila S do Carmo Orientador José Roberto Gomes da Silva Introdução O terceiro setor está conquistando notoriedade a cada dia com o expressivo crescimento de organizações dessa área de atuação e o conseqüente aumento do número de contratações de profissionais para atuar no setor Um levantamento feito pelo Instituto Superior de Estudos da Religião Iser concluiu que cerca de 1 milhão de pessoas são contratadas com a carteira assinada em entidades assistenciais1 Segundo um estudo feito pela FASFIL As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil houve um crescimento de 157 no número de organizações sem fins lucrativos no Brasil no período de 1995 a 2002 alcançando o número de 276 mil organizações 2 Outros dados mais recentes divulgados no início de 2006 pelo estudo do programa de voluntários das Nações Unidas UNV em parceria com Johns Hopkins Center for Civil Society Studies instituição norteamericana que estuda as organizações sem fins lucrativos no mundo apontaram um crescimento de 71 do setor sem fins lucrativos no Brasil no período de 1995 a 2007 passando de 190 mil para 326 mil3 O aumento encontrado pelas pesquisas reafirma a importância que essas organizações têm na sociedade assim como o seu tamanho é representativo na economia do Brasil seja pela geração de oportunidades de trabalho devido ao presente desemprego no país seja pelo trabalho filantrópico exercido em contrapartida ao enfraquecimento do Estado no papel de provedor de bemestar social para a população Landim 1993 Além disso o interesse das empresas privadas em investir em boas ações para se tornarem mais competitivas no mercado também vem impulsionando esse crescimento4 Dentre os empregados desse novo setor da economia podese encontrar profissionais vindos de empresas o que levanta a hipótese de o terceiro setor estar oferecendo remunerações compatíveis com o setor privado Porém esse é um fato ainda controverso já que segundo Mauro Silveira Uma nova profissão à vista Marketing Social revista Você SA 220200 um diretor pode chegar a receber R20 mil enquanto Amalia Sima e Paulo de Souza afirmam em seu livro Marketing Social Crescente Editorial que o salário médio no setor para esse mesmo cargo seria de R1663 O fato é que existem profissionais que trocam seus cargos em grandes empresas com grandes salários por outros em organizações do terceiro setor mesmo com a diminuição da remuneração5 Os indivíduos estão buscando mais qualidade de vida o que vai além dos altos salários Atualmente organizações que podem oferecer realização profissional e pessoal possuem um grande diferencial aos olhos dos profissionais Segundo Bernardo Toro filósofo e especialista em pesquisa e tecnologia e também um dos maiores pensadores do terceiro 1 Fonte httprevistaepocaglobocomRevistaEpoca0EDG57716601200html em 2122008 2 Fonte httpwwwgifeorgbrnumerosdadosopenphpcampo31camposcampo2campo1 campo4campo3x21y2tamanhodetela2tipoie acessado em 2122008 3 Fonte httpwwwgifeorgbrnumerosdadosopenphpcampo31camposcampo2campo1 campo4campo3x21y2tamanhodetela2tipoie acessado em 2122008 4 Fonte httpwww2uolcombrcanalexecutivonotas081902200816htm acessado em 2222008 5 Fonte httpwwwcathocombrjcsinputerviewphtmlid3042 acessado em 2122008 Departamento de Administração setor para um indivíduo ser importante em uma sociedade não é necessário possuir apenas dinheiro É necessário ir além tendo muitos contratos sociais e pertencendo a muitas organizações úteis6 Contudo sabendo que existem variáveis influenciadoras no processo de decisão por uma carreira é necessário identificar Em que se baseia o comprometimento do profissional com a organização do terceiro setor Quais expectativas pessoais e profissionais são criadas a respeito dessa organização E como estes indivíduos constroem o seu contrato psicológico nessas organizações do terceiro setor Estas são algumas perguntas que podem ser feitas dentre tantas outras a respeito de tal assunto Embora haja uma grande quantidade de estudos científicos voltados para o terceiro setor e a respeito do contrato psicológico e do comprometimento dos indivíduos com as organizações às quais pertencem esses estudos em sua grande maioria se concentram em trabalhadores fora do terceiro setor Este estudo traz uma análise relevante que poderá servir de referência para os gestores das organizações de terceiro setor oferecendo informações importantes para o relacionamento com os seus funcionários e a análise das expectativas que esses mantêm sobre a relação de trabalho auxiliando a adaptálos ao contexto da organização O estudo se insere em uma linha de pesquisa desenvolvida no IAGPUCRio que tem como objetivo principal compreender a maneira como os profissionais vêem as alternativas de trabalho no atual contexto da sociedade brasileira Na linha de pesquisa outras formas de relações de trabalho já vêm sendo estudadas tais como aqueles que envolvem empregados terceirizados trabalhadores autônomos ou autoempregados e teletrabalhadores O estudo sobre os indivíduos que trabalham em organizações do terceiro setor foco do projeto PIBICCNPq a que se refere este relatório foi iniciado em janeiro de 2008 O presente relatório apresenta os primeiros resultados consolidados da revisão de literatura e da pesquisa de campo já realizada Objetivos Este estudo tem como objetivo analisar o contrato psicológico dos indivíduos que optam pela carreira no terceiro setor assim como qual é a relação de comprometimento com as organizações que pertencem A relevância desta pesquisa se deve principalmente ao fato de serem ainda escassos os estudos que focalizam os aspectos que influenciam as relações de trabalho no terceiro setor se comparados ao volume de conhecimento produzido sobre o contexto do trabalho no setor público e nas empresas industriais e comerciais O Terceiro Setor O terceiro setor é a denominação dada a organizações de iniciativa privada que visam à produção de bens e serviços públicos fazendo referência ao Estado e ao Mercado o primeiro e segundo setor respectivamente através da negação de nem governamental nem lucrativo Dessa forma visa um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam a produção de bens e serviços públicos Fernandes 1994 p21 Logo as organizações do terceiro setor agem em prol de benefícios coletivos papel também desempenhado pelo Governo mas a partir de indivíduos que acreditam que são necessárias mudanças e que podem tomar a iniciativa para que mudanças sociais aconteçam mesmo não fazendo parte do Estado ou visando lucro como as organizações privadas O terceiro setor poderia ser reconhecido por quatro segmentos formas tradicionais de ajuda mútua que inclui creches e hospitais movimentos sociais e das ações civis que defendem e reinvidicam causas junto à sociedade e ao estado organizações não 6 Fonte httpportalexameabrilcombrdegustacaosecuredegustacaodoCODSITE35CODRECURSO211UR LRETORNOhttpportalexameabrilcombrempresasm0076789html acessado em 2222008 Departamento de Administração governamentais ONGs e filantropia empresarial Fernandes 1994 Porém esse termo terceiro setor para algumas pessoas envolve todo o conjunto de ONGs movimentos sociais e outros grupos associados que passaram a construir um setor econômico denominado economia social e se propõem a pôr em prática ações sociaispúblicas sem fins lucrativos Matos 2005 p40 A existência de diversas denominações que podem ser encontradas para tal termo pode ser justificada pela imprecisão conceitual surgida da dificuldade de agrupar as diferentes organizações em um mesmo grupo segundo características comuns Coelho 2000 É um tipo de Frankenstein grande heterogêneo construído de pedaços desajeitado com múltiplas facetas É contraditório pois inclui tanto entidades progressistas como conservadoras Abrange projetos e programas sociais que objetivam tanto a emancipação dos setores populares e a construção de programas meramente assistenciais compensatórios estruturados segundo ações estratégicoracionais pautadas pela lógica do mercado Um ponto em comum todos falam em nome da cidadania O novo associativismo do terceiro setor tem estabelecido relações contraditórias com o antigo associativismo advindo dos movimentos sociais populares na maioria urbanos dos anos 70 e 80 Gohn 2000 p60 apud Matos 2005 Relação de trabalho no terceiro setor Segundo Pereira 2004 as organizações do terceiro setor principalmente as de médio ou grande porte estão cada vez gerando mais cargos a serem ocupados e criando diferentes relações de trabalho As relações mais presentes que podem ser citadas são a Trabalho autônomo caracterizado pela ausência de subordinação e capacidade de autodeterminação do trabalhador quanto à suas atividades que no terceiro setor significa horários flexíveis que adaptam o trabalhador às necessidades da entidade e a definição de limites de forma mais livre b Trabalho voluntário que no terceiro setor é caracterizado como o trabalho voluntário contratual uma pessoa física presta serviço nãoremunerado e vinculase a instituição através de um Termo de Adesão que constitui em um instrumento informal de contrato c Trabalho celetista quando o indivíduo estabelece relação de emprego com a instituição e apresenta a Carteira de Trabalho e Previdência Social assinada segundo a Consolidação das Leis Trabalhistas CLT d Estagiário que é a relação do indivíduo com a instituição com o objetivo de complementar o ensino desenvolvendo atividades adaptadas ao currículo escolar e tem a intervenção obrigatória da instituição de ensino Comprometimento Comprometimento Organizacional pode ser definido como o grau com que um funcionário se identifica com determinada organização e seus objetivos desejando manterse como parte dela Robbins 2005 Ou seja representa a atitude do funcionário ante o trabalho observada através de fatores pessoais de seu comportamento Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Makin 1999 apontam que pessoas que estão comprometidas com a instituição a que pertencem empenhamse mais nas suas atividades e na busca dos objetivos organizacionais sendo capazes de ir além do exigido em sua função para atingilos e reforçar seus valores Esses indivíduos adotam comportamentos como sentimento de responsabilidade adesão e trabalho suplementar como resultado do investimento que está sendo aplicado à organização Departamento de Administração Segundo Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Makin 1999 o comprometimento organizacional pode ser classificado em três tipos afetivo de continuação e normativo Isso porque conforme os autores a natureza do compromisso psicológico entre o funcionário e a organização pode ser distinta e todos os funcionários têm inevitavelmente algum vínculo com a organização mas esses vínculos diferem conforme eles são desenvolvidos e se mantêm no ambiente organizacional O comprometimento afetivo acontece quando há apego envolvimento uma identificação do indivíduo com a organização Nesses casos os funcionários permanecem nas empresas porque assim desejam e os indivíduos aceitam a influência da organização porque as atitudes demonstradas da organização são coerentes com seus próprios valores Segundo os autores esse tipo de comprometimento será induzido por experiências anteriores em especial aquelas que satisfizeram as necessidades dos empregados Indivíduos afetivamente mais comprometidos tendem a se sentir mais motivados e a participar mais ativamente na organização O comprometimento de continuação está relacionado aos custos percebidos em deixar a organização Nesse caso a necessidade de se manter trabalhando para a organização é o que os mantêm nela As atitudes e os comportamentos dos indivíduos são norteados por recompensas específicas e não pela congruência de crenças e atitudes Quando esse tipo de comprometimento tornase predominante a relação com a motivação é negativamente afetada assim como o desempenho e a satisfação O comprometimento normativo está relacionado com um alto nível de comprometimento com a organização com o sentimento de obrigação moral de permanecer na organização Os indivíduos permanecem nas organizações porque se sentem obrigados a isso Essa obrigação moral pode ser desencadeada por experiências vividas pelos empregados durante o processo de socialização organizacional como a criação de ambiente familiar entre os funcionários O comprometimento criado em relação ao trabalho pode ser construído de mais de uma das fontes de envolvimento descritas Quando existe mais de um tipo provavelmente o vínculo criado entre as partes tornase mais forte Segundo Morin 2001 o trabalho representa um papel importante na sociedade não apenas pelo valor material recebido o que revela que compensações materiais nem sempre são suficientes para a satisfação do funcionário Para certos indivíduos existem outros fatores mais importantes que podem sobrepor ao item remuneração no ambiente organizacional O relacionamento com outras pessoas no ambiente de trabalho a ocupação com algo e o trabalho como caminho para um objetivo de vida são mais importantes que a conquista apenas de bens materiais assim como recompensas sociais e psicológicas como elogios incentivos e parceria tornam os indivíduos mais comprometidos com a empresa e dispostos a cumprir seus objetivos dentro dela A maneira como os indivíduos trabalham e o que eles produzem têm um impacto sobre o que pensam e na maneira como percebem sua liberdade e sua independência O processo de trabalho assim como o seu fruto ajuda o indivíduo a descobrir e formar sua identidade Morin 2001 p16 Contrato Psicológico De acordo com Enid Mumford 1995 a idéia de contrato surgiu conforme as leis romanas e tratavase de um acordo feito por duas partes que se divide em quatro tipos 1 Contractus re que envolve um desempenho real 2 contractus litteris que é o acordo escrito 3 contactus verbus que é um acordo explícito oral 4 contractus consensus que envolve um acordo tácito como a aceitação de um benefício Departamento de Administração Hegel 1821 apud Mumford 1995 separa os contratos sejam eles formais ou informais em contratos de doação e contrato de câmbio ou troca onde se enquadram os contratos de trabalho O contrato pressupõe que as partes contratantes reconhecemse como proprietárias de algo de valor para ambas e que cada um está disposto a dar ao outro o que é necessário para que a atividade seja desenvolvida A teoria do contrato psicológico é vista por Denise Rousseau 1995 como o que o indivíduo percebe de reciprocidade entre ele e a organização de acordo com as promessas feitas de forma explícita ou implicitamente através de expressão de comprometimento e intenção futura por exemplo nesse relacionamento Os funcionários de uma organização recebem mensagens dos empregadores através de palavras ações ou sinais e as interpretam como promessas mesmo não sendo essa a intenção da mensagem A autora ressalta que os contratos psicológicos são acordos não escritos baseados em promessas e que resultam na crença individual moldando o comportamento e as atitudes de um indivíduo dentro da organização a que está ligado São modelos mentais que por serem baseados em promessas e dependerem de fatores como confiança percepção e aceitação podem ser entendidos pelas pessoas de formas diferentes As mensagens recebidas pelo indivíduo são interpretadas por cada um de uma forma conforme a sua predisposição individual Isso porque as pessoas têm limites cognitivos e diferentes quadros de referência e são julgadas de acordo com normas sociais para então construirse o contrato psicológico Levinson et al 1962 apud Morrinson e Robinson1997 definem o conceito de contrato psicológico como as expectativas acerca das obrigações recíprocas do empregado e da organização ou seja o conjunto de crenças sobre o que cada parte tem a obrigação de dar e o direito a receber em troca de contribuições da outra parte Esses autores afirmaram que o contrato psicológico é dinâmico logo eles evoluem com o passar do tempo e se adaptam ou alteramse conforme as necessidades do empregado e do empregador O estudo do contrato psicológico dos indivíduos de uma organização propicia melhor compreensão do comportamento de cada um como membro da empresa a que pertence podendo explorar as expectativas por ele criadas o que ajuda a relacionar as necessidades individuais com as organizacionais Rousseau 1995 afirma que a classificação do contrato psicológico pode darse das seguintes formas contrato transacional ou transicional em relações de curto prazo e contrato relacional ou balanceado em relações de longo prazo Segundo a autora os contratos transacionais são mais baseados em fatores monetários de curto prazo de duração nos quais o envolvimento com a organização é baixo Nos contratos transicionais além de baixo envolvimento não há comprometimento da organização para com o empregado e viceversa por tratarse de uma situação de curta duração Os contratos relacionais caracterizamse pelo envolvimento investimento e compreensão de ambas as partes envolvidas além da expectativa de longo prazo da organização Os contratos balanceados seguem os contratos relacionais porém há o compromisso de desenvolvimento contínuo por parte do indivíduo para incentivar o crescimento organizacional Qualquer dos tipos de contratos psicológicos irá envolver elementos de relações de curto e longo prazo O que irá diferenciálos será a proporção que cada um terá Entretanto assim como em grande parte dos contratos existentes o contrato psicológico se faz mais ativo quando passa a influenciar o comportamento dos indivíduos Isso se dá principalmente quando o contrato é violado ou seja o contrato não é entendido da mesma forma por ambas as partes Departamento de Administração Heather Maguire 2002 faz um paralelo ao que Rousseau afirma e propõem o modelo threetier Neste modelo em forma de pirâmide a base estaria relacionada ao contrato transacional proposto por Rousseau 1995 Nela os empregados comprometerseiam com razoáveis níveis de responsabilidade que incluiriam a dedicação com a empresa controle da carga de trabalho e autonomia enquanto os empregadores contribuiriam através de níveis apropriados de recompensas como pagamento condições de trabalho e oportunidade de demonstrar competência Entre o topo e a base da pirâmide estaria o nível de contrato associado ao contrato balanceado Nele estariam os aspectos de carreira e os empregados devem contribuir com o trabalho com o departamento a que pertencem sendo esperado que seus empregadores possibilitem o desenvolvimento de suas carreira e comprometamse com a educação para aumentar a empregabilidade No topo da pirâmide estariam os aspectos relacionais baseados na lealdade e confiança na gerência por parte do empregados e esperando dos empregadores uma gerência competente e sentimento de pertencimento A releitura feita por Maguire apresenta como o indivíduo pode comprometerse com a sua carreira seu ambiente de trabalho e o trabalho em si assim como com sua equipe demonstrando que existem elementos com os quais o indivíduo pode se identificar mesmo que não esteja envolvido com a instituição a que pertence Mumford 1995 afirma que cada indivíduo possui sua própria visão acerca do que ele espera da organização ou então um diferente grau de influência sobre os objetivos que ele espera que sejam alcançados Segundo ele os indivíduos podem reagir de maneiras diferentes bem como apresentar maior grau de satisfação com objetivos de longo prazo ou de curto prazo O autor ainda apresenta a questão da satisfação no trabalho de como ela acontece observando quais são as expectativas criadas pelos indivíduos e o que está realmente acontecendo naquele ambiente As expectativas seriam então avaliadas de acordo com as atitudes as normas a conduta e o nível de reconhecimento das empresas principalmente quando voltadas para o resultado ou seja se o resultado é avaliado apenas quantitativamente ou se o esforço despendido pelo funcionário também é valorizado Essas expectativas poderiam ser agrupadas e resumidas de forma a criar um grupo de contratos que poderiam ser identificados na relação entre empregado e empregador No contrato psicológico a empresa estaria à procura de indivíduos que estejam motivados para cuidar bem dos interesses da empresa e os empregados estariam à espera de reconhecimento status tempo para a família e segurança Além disso o ambiente motivador deveria ser constante exigindo muito de ambas as partes baseado em honestidade e clareza por exemplo Segundo Morrinson 1997 a crescente utilização do conceito de contrato psicológico como ferramenta de análise nas relações de trabalho fez com que ele fosse muitas vezes associado a uma forma de manipulação dos indivíduos contrariando a idéia de compreensão das relações humanas nas organizações O autor salienta que os contratos são expressos através das ações das pessoas E o processo de formação do contrato começa desde o momento da seleção do indivíduo para a ocupação Rosseau 1995 Smithson e Lewis 2003 mencionam que apesar de diversos pesquisadores utilizarem o conceito de contrato psicológico de formas diferentes todas as definições apresentadas incluem quatro itens O primeiro é a incorporação de crenças valores expectativas e aspirações do empregado e do empregador inclusive crenças implícitas de promessas e obrigações na medida em que esses vão sendo percebidos na relação Departamento de Administração O segundo item é a observação de que as expectativas não são necessariamente explícitas Portanto o relacionamento entre empregado e empregador deve basearse em confiança nos termos do relacionamento lealdade e boafé Outro aspecto importante é que o contrato psicológico pode ser continuamente renegociado causando mudanças no indivíduo na organização nas expectativas Dessa forma tornase visível a característica dinâmica e mutável do contrato psicológico apesar de grande parte das pesquisas fornecer apenas uma visão instantânea de uma etapa do processo Por fim por ser baseado em percepções individuais indivíduos de uma mesma organização podem apresentar contratos psicológicos diferentes que por sua vez influenciam as formas como cada um deles percebe os eventos organizacionais Metodologia A presente pesquisa busca contribuir na compreensão do contrato psicológico construído no ambiente organizacional do terceiro setor assim como o comprometimento envolvido Optouse pela abordagem qualitativa dos dados por meio da análise de entrevistas realizadas com profissionais que atuam em organizações do terceiro setor O foco mais amplo do projeto de pesquisa original se propõe a identificar elementos constituintes e característicos do contrato psicológico e do comprometimento de indivíduos que atuam em diferentes organizações do terceiro setor com formações e vínculos de trabalho diversos Uma vez que a pesquisa foi iniciada em janeiro de 2008 apresentamse neste artigo os resultados de quatro entrevistas já realizadas e analisadas Em termos da linha de pesquisa considerase que estes resultados possuem então um caráter parcial Em termos da classificação do tipo de pesquisa utilizouse a tipologia adotada por Vergara 2004 que categoriza os estudos quanto aos fins e quanto aos meios Quanto aos fins tratase de uma pesquisa exploratória e descritiva Quanto aos meios podese classificar como pesquisa de campo e bibliográfica A seleção de sujeitos para as entrevistas deuse pelo critério de acessibilidade tendo sido utilizados canais de contato pessoal da autora do estudo e do seu orientador para a localização e o acesso aos indivíduos O Quadro 1 apresenta os perfis dos entrevistados Por razões éticas acordadas nas entrevistas optouse pela não divulgação dos nomes dos entrevistados e das organizações a que estão vinculados Quadro 1 Perfil dos participantes Entrevistados Organização Função na Organização Formação Tipo de vínculo com a organização Tempo de atuação na organização Entrevistado 1 Organização A Diretor Executivo Administração Trabalho celetista 2 anos e 8 meses Entrevistado 2 Organização A Coordenador de Marketing Administração Trabalho celetista 1 ano e 6 meses Entrevistado 3 Organização A Coordenador de Projetos Ciências Sociais Trabalho celetista 2 anos e 6 meses Entrevistado 4 Organização B Presidente e fundador Economia Trabalho autônomo 5 anos No Quadro 1 observase que três entrevistados atuam na mesma organização Os quatro entrevistados revelaram possuir em seu currículo profissional experiências como Departamento de Administração empregados em empresas comerciais ou industriais anteriores ao seu trabalho no terceiro setor Hoje todos trabalham apenas nas organizações indicadas no quadro Organização A é uma organização nãogovernamental que apóia projetos como creches comunidades de baixa renda e casas de assistência a deficientes no Rio de Janeiro e São Paulo Essa organização é composta por trabalhadores voluntários celetistas e estagiários Foi fundada em 1997 e atualmente assiste oito obras sociais Organização B por sua vez é uma organização nãogovernamental que desenvolve trabalhos assistenciais com os moradores de uma comunidade carente do Rio de Janeiro Foi fundada em 2003 e é composta de trabalhadores autônomos e voluntários As entrevistas foram realizadas no mês de maio de 2008 A duração média de cada uma foi de 30 minutos Todas as entrevistas foram realizadas no local de trabalho dos indivíduos ou seja nas sedes das ONGs Todas foram gravadas em meio digital e foram integralmente transcritas pela própria autora do estudo O conteúdo das entrevistas foi apoiado por roteiro semiestruturado composto das seguintes questões a O que significa para você trabalhar nessa organização b Você se identifica com a organização O que mais influencia nessa identificação c Como é o seu ambiente de trabalho e as relações com os outros funcionários d Quais foram as principais razões de você ter vindo trabalhar nessa organização e Que diferença você vê entre trabalhar em uma organização do terceiro setor e uma empresa tradicional Quais são as diferenças as vantagens e desvantagens percebidas f O que você espera da organização E o que você acredita que a organização espera de você g Quais obrigações você considera ter com a organização h Você se sente valorizado Por quê i Quais são seus planos de carreira profissional Como pretende atingilos Você se vê fazendo carreira no terceiro setor j Como você acredita que o mercado de trabalho vê a experiência profissional de um indivíduo que atua no terceiro setor O conteúdo das respostas dos entrevistados foi analisado buscandose a identificação de categorias de análise Do resultado deste trabalho de leitura e interpretação dos dados emergiram sete categorias a saber expectativas criadas pelos empregados espectativa de continuidade interpretações particulares baseadas nas percepções individuais identificação do indivíduo com a organização ambiente organizacional motivação e valorização remuneração Essas categorias foram utilizadas para a apresentação dos resultados no tópico a seguir Análise de dados Neste estudo buscamos entrevistar profissionais atuantes no terceiro setor procurando entender as diversas naturezas da relação de trabalho existente entre os entrevistados e a instituição que atuam Da mesma forma está sendo buscada diversidade de organizações para que o resultado possa ter maior amplitude A análise das entrevistas revelou categorias que ajudaram a analisar o comprometimento e o contrato psicológico dos entrevistados a Expectativas criadas pelos empregados Ao tratarmos das expectativas desenvolvidas pelos entrevistados perguntouse o que cada um acreditava que a instituição a qual pertence esperava dele Podese observar que os indivíduos criam uma expectativa muito voltada para a equipe quando o que é esperado de si Departamento de Administração é o mesmo para os demais integrantes independente das diferentes obrigações explícitas nos contratos formais De forma geral criase a expectativa de continuidade com a instituição de desenvolvimento profissional em forma de parceria com a instituição e com os outros funcionários Eu acho que a Organização A espera de cada um aqui dentro que a gente consiga implementar o plano de trabalho que a gente traçou em conjunto É a gente cumprir com o que a gente prometeu em conjunto Entrevistado 1 O que a Organização A espera de mim Eu acho que ele espera que eu cresça com ele né Que eu faça a diferença e ajude ele a crescer Entrevistado 2 Quando questionados sobre o que esperavam da instituição embora alguns dos profissionais mencionassem que esperavam que a instituição em que trabalham fosse um lugar para se desenvolver profissionalmente todos os entrevistados demonstraram mais expectativas acerca do desenvolvimento das próprias organizações Eu espero que a Organização A tenha cada vez uma voz ativa na sociedade Que cada vez seja um ícone mesmo de transformação de que é possível ter algum envolvimento de mudança e que ela seja identificada por isso Entrevistado 2 Essa preocupação com o desenvolvimento da organização denota uma forma de comprometimento que tem um forte componente afetivo Vale ressaltar também que as organizações às quais os entrevistados estão vinculados possuem poucos anos de existência e os funcionários tendem a ser fortemente envolvidos no esforço de busca pela sustentabilidade e crescimento da instituição o que pode ser um elemento de reforço ao seu comprometimento afetivo b Expectativa de Continuidade Percebeuse também outra característica do comprometimento afetivo quando se tratava da expectativa de permanência do indivíduo nas organizações A maioria dos entrevistados demonstrou que a permanência é desejada por cada um independente de outros fatores Eu pretendo continuar no terceiro setor e em uma perspectiva coerente eu pretendo continuar dentro da Organização A Entrevistado 3 Contudo foi possível notar a presença de características do comprometimento normativo Isso foi percebido quando os entrevistados relataram estar atuando em organizações onde pessoas próximas ou o próprio entrevistado estava à frente da instituição De certa forma fazer parte da construção da história da organização a que se está prestando serviço criou um sentimento de obrigação moral de permanência Eu acompanhei esse processo desde o momento zero Então desde quando eles começaram a ter essa idéia quando começaram a fazer os contatos para ver como ia funcionar desde a primeira reunião pedagógica eu estava Departamento de Administração presente Quando eu vi eu já estava trabalhando lá Foi só um processo que eu sempre fiz parte Entrevistado 3 Quando nós fundamos esse trabalho aqui na comunidade onde ele que é professor universitário com mestrado e doutorado nasceu e cresceu foi para mostrar para as pessoas que é possível E é meu dever mostrar que dá para mudar Eu quero deixar a ONG com sustentabilidade para as pessoas da comunidade porque eu não pretendo continuar a frente para sempre Entrevistado 4 Em outras palavras observase que pelo menos para alguns desses indivíduos a participação na organização vai além de uma simples relação contratual de trabalho assumindo também conotação de um projeto de vida pessoal Dessa forma foi possível encontrar mais de uma fonte de comprometimento dos indivíduos nas organizações reforçando que mais de uma fonte de envolvimento fortalece o vínculo com a instituição c Interpretações particulares baseadas nas percepções individuais Os entrevistados partilham à opinião de que o trabalho no terceiro setor é uma oportunidade de exercer uma profissão e agir como cidadãos melhores A visão que os profissionais têm do terceiro setor também não é heterogênea Todos os entrevistados citam que esse é um setor que está em fase de expansão ganhando visibilidade no universo empresarial com a conscientização por um posicionamento mais sustentável e dando possibilidade a muitos profissionais mesmo aqueles que estariam fora do mercado tradicional Trabalhar no terceiro setor significa para mim uma oportunidade de você que tem mais de trinta anos trinta e cinco o mercado para essa faixa etária já está abolido Entrevistado 4 Quando questionados sobre as diferenças que conseguiam visualizar no terceiro setor dos demais os profissionais citaram que o nível de profissionalismo no terceiro setor parece ainda ser menor que no terceiro setor os números não são tão importantes quanto no setor de serviços e que ele envolve muito mais o indivíduo com a tarefa fazendo com que não haja somente a obrigação de realização da tarefa dentro do escritório Um ponto importante ressaltado por alguns dos entrevistados foi a necessidade de desempenhar diversos papéis o que segundo eles transforma o profissional do terceiro setor em alguém diferenciado dos demais Tem dia que eu estou revisando contrato tem dia que eu to contratando gente Então assim você está lidando com uma diversidade muito maior de assuntos e de responsabilidades muito grandes Entrevistado 1 d Identificação do indivíduo com a organização Entre os entrevistados todos expuseram opiniões parecidas em relação ao significado do trabalho Notase que há identificação por parte dos indivíduos em relação à organização em que trabalham Segundo Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Mankin 1999 o comprometimento afetivo acontece nessas circunstâncias onde os valores do indivíduo e o da organização se assemelham O trabalho em si significa conciliar muito do que eu acredito com o que eu sei fazer com o que eu gosto de fazer Entrevistado 1 Departamento de Administração O que mais me fascina aqui na Organização A é essa união de estar trabalhando na minha área e também na área social Entrevistado 2 O comprometimento também se relaciona à aceitação dos objetivos da organização e à identificação dos valores partilhados Quanto a isso mais uma vez os entrevistados responderam de forma homogênea Todos citaram o poder de ação de construir diferença no ambiente social como objeto de identificação Além disso os funcionários da Organização A ainda citam que a identificação com a filosofia da instituição também contribui muito para a identificação individual com a tarefa que realizam e Ambiente organizacional Em relação aos aspectos organizacionais quando tratado do ambiente de trabalho os profissionais demonstraram que existe bastante adaptabilidade e informalidade Ressaltaram que o ambiente proporciona um misto de relacionamento pessoal com profissional É um relacionamento muito colaborativo de crescimento conjunto de fazer isso aqui crescer pra crescer junto Entrevistado 1 Da mesma forma expuseram o quanto o grupo a equipe e as atitudes de cada um são importantes para a construção da imagem desse ambiente Tem uma liberdade de trabalho que é interessante A gente tem espaço de colocar a proatividade da gente em atividade em efetiva atividade Isso é muito interessante por que a gente dá muito a cara do que a gente é da nossa bagagem para o trabalho da gente e assim a gente modifica um pouco a Organização A também Tem essa abertura que é interessante Entrevistado 3 Todo esse conjunto forma um ambiente agradável nas organizações possibilitando que aqueles que nelas se encontram partilhem de características semelhantes como disse o Entrevistado 2 A gente diz que é uma seleção natural porque quem fica aqui realmente é porque tem uns objetivos iguais Então as pessoas que ficam aqui mais tempo é que geralmente tem mais ou menos a mesma filosofia de vida e isso é muito bom A informalidade presente em ambas as instituições também desperta a preocupação do cumprimento da tarefa O fato de as equipes atuarem de forma dependente uma das outras é um dos principais motivos da cobrança e da pontuação de que apesar de haver o envolvimento pessoal com a tarefa há um objetivo a ser alcançado Dessa forma apesar do grau de informalidade presente os profissionais cobram de si e dos outros a participação nos projetos e atividades f Motivação e valorização Ao analisar se os profissionais se sentem valorizados foram encontradas diferentes descrições para a valorização individual Segundo o Entrevistado 1 a valorização dáse principalmente por já haver a identificação inicial O Entrevistado 3 citou que as pequenas ações realizadas por cada um e que são reconhecidas geram grande valorização Departamento de Administração Quando eu comecei organizar isso aqui eu lembro que eu mandei para um dos nossos diretores que é um dos que assinam o cheque o Carlos um executivo super atarefado e voltou o material todo com um bilhetinho Muito boa organização Excelente Parabéns Esse tipo de cuidado que eles têm com detalhes que passam despercebidos em empresas comerciais essa motivação a cada passo é estimulante Em contrapartida o Entrevistado 4 demonstrou sentirse pouco valorizado dizendo que não espera que seu trabalho seja reconhecido por outras pessoas pois essas não sabem reconhecer o verdadeiro valor do trabalho social Quanto ao fator motivacional os entrevistados demonstraram posições semelhantes ao optarem atuar no terceiro setor Eles relataram a importância de estar trabalhando em uma ambiente onde está exercendo sua profissão e ao mesmo tempo podendo expor seu lado solidário e humano sem repressão Também disseram que apesar de terem tido importantes oportunidades de atuação em outras organizações a opção de trabalhar no terceiro setor foi considerada como a mais estimulante na hora da decidir onde atuar Além disso os entrevistados mesmo sabendo que há a necessidade de multiplicidade de papeis aceitamnos como um desafio positivo e enriquecedor Então de repente você está jogando nas onze e desenvolvendo essa capacidade de aprender e eu acho que isso dá uma adaptabilidade tão grande que quem entra numa empresa e segue aquele itinerário fordista meio que não tem Isso é tão bom Dá vontade de aprender mais de continuar Entrevistado 3 g Remuneração A questão salarial abordada durante as entrevistas despertou pequenas diferenças entre os profissionais Apesar de para todos os empregados o salário não ser o principal atrativo quando se trata do nível de satisfação alguns entrevistados disseram não se sentirem valorizados financeiramente como disse o Entrevistado 2 Financeiramente eu não me sinto valorizado eu trabalho para caramba às vezes toda segunda feira a gente fica aqui até nove horas da noite a gente faz evento sábado domingo A gente rala muito Então comparado ao trabalho e remuneração financeira não ainda não Todos os entrevistados demonstraram que optar por trabalhar no terceiro setor foi uma escolha baseada no equilíbrio entre satisfação e remuneração Tive sim que fazer um certo sacrifício do ponto de vista financeiro né Porque não tem como você fazer uma mudança como essa sem ter pelo menos no início uma noção assim ah mas eu to investindo para o que eu quero fazer Entrevistado 1 No caso do Entrevistado 4 que atua como trabalhador autônomo na ONG a remuneração inexistente transformase em um tipo de frustração por não poder fazer mais pela instituição Segundo ele a remuneração não influencia no seu sentimento pela ONG mas Departamento de Administração se ela existisse serviria como meio de fazer mais pela comunidade já que poderia se dedicar mais plenamente ao trabalho na organização Conclusões Esta pesquisa com objetivo analisar o contrato psicológico dos indivíduos que optam pela carreira no terceiro setor assim como qual é a relação de comprometimento com as organizações a que pertencem As considerações que serão apresentadas possuem caráter parcial já que outras entrevistas estão sendo agendadas para os próximos meses A respeito das expectativas desenvolvidas pelos indivíduos e de sua forma de engajamento podese perceber uma predominância dos tipos de comprometimento afetivo e normativo segundo o modelo de Meyer e Allen Os indivíduos revelam expectativa de continuidade nas instituições de desenvolvimento profissional em forma de parceria esperando também que a organização se desenvolva junto com eles Em parte os profissionais se comprometem a continuar nas organizações por assim desejarem e em parte se sentem vinculados a elas por um sentimento de obrigação moral Sentemse orgulhosos de suas organizações e ao mesmo tempo entendem a responsabilidade que assumiram diante da sociedade quando escolheram trabalhar no terceiro setor Em relação aos aspectos organizacionais os profissionais consideram existir bastante adaptabilidade e informalidade Os entrevistados visualizam o terceiro setor como um setor em expansão com grandes oportunidades mas também ressaltam que ainda existem preconceitos com relação ao trabalho nesse setor Eles partilham à opinião de que o trabalho no terceiro setor é uma oportunidade de exercer uma profissão e agir como cidadãos melhores A questão salarial levantada revelou diferenças entre os entrevistados Apesar de o fator monetário ter sido tratado como menos importante no processo de escolha pelo terceiro setor alguns profissionais mostraramse pouco valorizados em relação a isto De modo geral a análise revelou a predominância de contratos psicológicos com foco relacional ou de longo prazo diferenciandose do foco mais transacional ou de curto prazo que tem dominado as relações de trabalho no atual contexto do mercado de trabalho Um aspecto não abordado diretamente nas entrevistas mas que parece ser influenciador das expectativas que os indivíduos desenvolvem sobre a relação de trabalho é o nível de formalização da gestão de seu contrato com a organizaçãoNa continuidade da linha de pesquisa esperase abordar também a visão sobre esse lado da relação de trabalho Nos próximos meses o estudo continuará a ser desenvolvido por meio da realização de entrevistas com indivíduos que atuam em outras organizações do terceiro setor além daquelas já abordadas até o momento Isso possibilitará a confirmação ou complementação dos resultados apurados nessa primeira fase da pesquisa No futuro pretendese ainda ampliar o foco da análise do estudo de modo a se observar a influência de variáveis ainda não consideradas até este ponto e que podem afetar as expectativas dos indivíduos sobre a relação de trabalho com as organizações do terceiro setor Entre elas destacamse por exemplo as questões de gênero grau de formação escolar idade e tipo de experiência profissional prévia dos indivíduos Referências 1 COELHO Simone de Castro Tavares Terceiro Setor Um estudo comparado entre Brasil e Estado Unidos São Paulo Editora SENAC São Paulo 2000 2 FERNANDES Rubem César Privado porém público o terceiro setor na América Latina Rio de Janeiro RelumeDumará 1994 Departamento de Administração 3 LANDIM Leilah Para além do mercado e do Estado Filantropia e cidadania no Brasil Rio de Janeiro ISER Núcleo de pesquisa 1993 4 MAGUIRE H Psychological contracts are they still relevant Career Development International v7 n3 p167180 2002 5 MATOS Maria Izilda Santos de Terceiro setor e gênero trajetórias e perspectivas São Paulo Cultura Acadêmica Instituto Presbiteriano Mackenzie 2005 6 MCDONALD DJ MAKIN PJ The psychological contract organizational commitment and job satisfaction of temporary staff Leadership Organizational Development Journal v21 n2 p8491 2002 7 MORIN EM Os sentidos do trabalho Tradução Angelo Soares Revista de Administração de Empresas v41 n3 p819 jul set 2001 8 MORRINSON E W e ROBINSON S When employees feel betrayed a model of how psychological contract violation develops Academy of Management Review v22 n1 p226256 1997 9 MUMFORD E Contracts Complexity and Contradictions The changing employment relationship Personnel Review v24 n8 p5470 1995 10 PEREIRA Ligia Jucimeire Relação de trabalho no Terceiro Setor Gênesis Revista de Direito do Trabalho nº 137 p683688 maio 2004 11 REGO A Comprometimento Afetivo dos membros organizacionais o papel das percepções de justiça Revista de Administração Contemporânea v6 n2 p209241 maioagosto 2002 12 ROBBINS Stephen P Comportamento Organizacional Tradução Reynaldo Marcondes São Paulo Pearson Prentice Hall 2005 13 ROUSSEAU DM Psychological Contract on Organization understanding written and unwritten agreements Thousand Oaks Sage 1995 14 SMITHSON J e LEWIS S The Psychological Contract a sloan work and family encyclopedia entry 2003 Disponível em httpwfnetworkbceduencyclopediaentryphpid250areaAll Acessado em 120508 15 VERGARA Sylvia Constant Projetos e relatórios de pesquisa em administração São Paulo Atlas 2004 YAMAMOTO O H 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social ou Projeto Ético Político Psicologia Ciência e Profissão 32 num esp 617 2012 Resumo O objetivo geral de Yamamoto em seu texto 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social ou Projeto ÉticoPolítico é abordar os debates mais controversos que marcaram os primeiros 50 anos da profissão regulamentada a extensão do impacto social da psicologia como campo profissional e sua capacidade de influenciar a transformação social O autor abre seu texto destacando a visão de Mello sobre a psicologia como uma ciência que não deve ser limitada a resolver problemas pessoais de poucos privilegiados mas sim ser acessível a um maior número de pessoas como um instrumento de mudança social Ao celebrar os 50 anos da profissão regulamentada Yamamoto propõe uma reflexão sobre o desenvolvimento da psicologia desde então explorando dois estudos nacionais abrangentes Quem É o Psicólogo Brasileiro do Conselho Federal de Psicologia nos anos 80 e O Trabalho do Psicólogo no Brasil da Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduação em Psicologia realizado em meados dos anos 2000 Esses estudos ajudam a compreender a trajetória da psicologia no Brasil ao longo de cinco décadas Neste sentido Yamamoto esclarece que dos estudos citados se extrai a constatação do crescimento exponencial da profissão de psicólogo no Brasil destacando o aumento significativo no número de profissionais e instituições de formação Contudo ressalta que crescimento não se traduz necessariamente em desenvolvimento Aponta para a diferença entre crescimento e desenvolvimento ao explorar a desqualificação da formação o hiato entre formandos e profissionais habilitados e a tendência à precarização das condições de trabalho e remuneração na profissão de psicologia Examina também as áreas predominantes de atuação dos psicólogos como clínica saúde trabalho e organizações e revela as atividades mais comuns em diferentes setores de trabalho questionando a predominância de práticas como aplicação de testes psicológicos e psicodiagnóstico em detrimento de outras intervenções E prossegue o autor em sua reflexão sobre a evolução da psicologia ao longo dos anos e suas implicações sociais Examina a questão do alcance social da profissão analisando a extensão das técnicas psicológicas para segmentos mais amplos da população e sua capacidade de ser um agente de mudança social Destaca a preocupação com o elitismo da profissão apontando estudos anteriores Mello 1975 Botomé 1979 e Campos 1983 que evidenciam o problema do baixo alcance da psicologia e a confiança na capacidade da profissão de ampliar seu impacto social Contudo questiona se a simples ampliação do leque populacional atingido representa necessariamente um aumento no alcance social levantando a distinção entre uma profissão orientada pelo que sabe fazer e outra que se direciona pelas demandas sociais Explora a complexidade de atender às demandas da população e oferecer serviços psicológicos adequados questionando se simplesmente atender às demandas equivale a aumentar o alcance social da profissão Ainda para Yamamoto é importante olhar para a questão da qualidade da atuação e da competência técnica dos psicólogos especialmente ao direcionar seus serviços para segmentos mais amplos da população Ele discute a necessidade de considerar não apenas a competência técnica mas também sua adequação ao contexto da população atendida Explora a atuação dos psicólogos no campo das políticas sociais identificando os setores em que atuam como saúde pública e assistência social e questiona se a mudança de foco para esses segmentos resulta em uma transformação efetiva na prática da Psicologia Levanta a questão de se os psicólogos ao atenderem essas parcelas mais amplas da população estão de fato promovendo uma prática mais adequada e inovadora ou simplesmente reproduzem os mesmos modelos tradicionais de atendimento Além disso o autor sugere a necessidade de um entendimento mais profundo das determinações macroestruturais que influenciam a atuação do psicólogo no campo do bemestar social e propõe uma intervenção mais ampla e ativa na gestão e formulação das políticas indo além do papel de executor terminal das políticas segmentadas O autor então explora a questão do compromisso social do psicólogo mergulhando na distinção entre ação política em sentido estrito e a dimensão política da atividade profissional Ele enfatiza que toda ação profissional envolve uma dimensão política pois o profissional está imerso nas relações de poder da sociedade Destacando que ignorar essa dimensão significa aderir a ideias ultrapassadas sobre a neutralidade da técnica O debate se concentra na responsabilidade política do psicólogo no exercício de sua profissão e no contexto do desenvolvimento de suas atividades Yamamoto pondera que ao inserir a Psicologia como parte de uma formação social capitalista a profissão está subordinada às determinações do modo de produção dominante Aponta ainda que a condição de trabalhador assalariado implica em limites e prescrições institucionais que regulam as relações de trabalho do psicólogo No entanto destaca que não se defende uma obediência acrítica às imposições dos empregadores mas sim a compreensão das determinações da inserção profissional na sociedade O autor diferencia a ação política propriamente dita como a militância em movimentos sociais e a dimensão política da atividade profissional Argumenta que historicamente os profissionais incluindo os psicólogos têm um papel limitado na transformação estrutural da sociedade No entanto reconhece que a ação profissional pode contribuir para projetos sociais alternativos e lutas populares apesar de não ser capaz de promover mudanças estruturais significativas por si só No cerne da discussão está a controvérsia sobre o compromisso social do psicólogo e a reflexão sobre a responsabilidade política associada à sua prática profissional dentro de uma sociedade capitalista Diante disso o autor explora o conceito de compromisso social do psicólogo e as diferentes perspectivas associadas a essa noção Iniciase com a análise de Bastos sobre o compromisso social que identifica e critica diferentes dimensões atribuídas a essa ideia na literatura psicológica Yamamoto cita Bastos que propõe que a direção política e a orientação teórica são duas dimensões fundamentais do compromisso social do psicólogo Ele critica essa definição por sugerir a supressão da identidade profissional e por favorecer uma psicologia classista ao pressupor a supremacia de uma teoria específica em detrimento de outras A discussão se estende para uma reflexão sobre como diversas ações dos psicólogos são categorizadas como socialmente comprometidas ou não Há uma crítica à possível desqualificação de práticas profissionais que não se alinham com uma determinada abordagem teórica voltada para a transformação social Existe uma ponderação sobre a diferença entre compromisso social e responsabilidade social sugerindo que a pluralidade teórica e as posturas políticas na prática profissional podem informar ações socialmente responsáveis Isso levanta a questão sobre a possibilidade de diferentes modalidades de compromisso social uma individual ligada a decisões éticas e outra coletiva mais voltada para o contexto amplo da categoria profissional como um todo E nesta ótica Yamamoto encaminha suas conclusões e reflexões voltadas para análise da viabilidade e necessidade de construir um projeto éticopolítico coletivo para a profissão de Psicologia Ele debate a diversidade e heterogeneidade inerentes à categoria profissional destacando a complexidade de unificar uma identidade única diante das diversas visões teorias e práticas presentes na Psicologia Nesta linha de pensamento a proposta é avançar da atuação profissional individual para a construção de um projeto coletivo que estabeleça valores objetivos e normas para a profissão Isso é considerado crucial para transcender as limitações e possibilidades impostas pelo contexto social e histórico em que a profissão se insere Neste sentido a discussão se volta para a possibilidade de coexistência de diferentes projetos éticopolíticos na Psicologia reconhecendo que os profissionais têm origens posições e expectativas diversas o que leva à existência de múltiplas visões sobre como a profissão deve ser exercida Nisso há uma ênfase na compreensão de que não se trata de eliminar as divergências mas de construir um projeto coletivo que contemple a pluralidade e a heterogeneidade existente na profissão Yamamoto também ressalta a importância de alinhar esse projeto éticopolítico a propostas que visem à transformação estrutural da sociedade capitalista em oposição à sua manutenção E o autor arremata a noção essencial é que a Psicologia ao propor um projeto ético político não só deve considerar o âmbito individual e profissional dos psicólogos mas também buscar um alinhamento com agendas e movimentos que visam mudanças sociais mais profundas e estruturais na sociedade
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INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O COMUM E O SINGULAR NA COMUNICAÇÃO DO TERCEIRO SETOR Um estudo sobre a legitimação de um parque público pelas mãos da comunidade Sheila Lima Wilma Vilaça UniBH Centro Universitário de Belo Horizonte A sociedade civil e a formação do terceiro setor Há mais de três mil anos os gregos deram início à participação do cidadão na vida pública debatendo voluntariosamente as questões pertinentes aos bens coletivos em suas assembléias que decidiam os implementos a serem priorizados na pólis Hoje a participação da sociedade civil na esfera pública divide com o Estado e o mercado a responsabilidade pela melhoria da qualidade de vida das mais variadas formas e intensidade Dessa forma o voluntarismo e os movimentos sociais que trabalham pela minimização da pobreza e das desigualdades sociais não são novidades no mundo moderno e muito menos devem ser reconhecidos como um fenômeno do final do século XX As práticas religiosas sempre vincularam a emergência de fazer o bem sem olhar a quem ou é dando que se recebe como condição para a conquista de um terreno no céu Exemplo disso são as entidades católicas de assistência social o pagamento de dízimos ou as Santas Casas de Misericórdia Porém é a partir da década de 70 que os movimentos perdem seu caráter iminentemente religioso e as organizações civis adquirem contornos de organizações temáticas Marilena Chauí destaca a configuração de um novo sujeito coletivo descentralizado destituído de conformações teóricas prévias No interior dos movimentos sociais os indivíduos até então dispersos e privatizados passam a definirse a reconhecerse mutuamente a decidir e agir em conjunto e a redefinirse a cada efeito resultante das decisões e atividades realizadas1 Somese a isso o fato de que esse novo sujeito deixa de se comportar como uma mera engrenagem como um objeto do processo de desenvolvimento político social para participar como ator no palco das discussões e contingências da sociedade INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Ao desvincularse dos tradicionais centros organizadores como a igreja os sindicatos e a esquerda os sujeitos emergentes reorganizam suas práticas ainda que sem perder totalmente de vista os liames socioculturais que lhes deram origem Os novos movimentos sociais populares agregam ao sujeito a valorização do cotidiano a importância da participação a experiência de sair do seu mundo para participar do mundo de todos e a certeza de pequenas conquistas tangíveis que não mais são consideradas como uma gota de água perdida na imensidão do oceano Que são as migalhas das pequenas vitórias das pequenas lutas São a experiência que os excluídos adquirem de sua presença no campo social e político de interesses e vontades de direitos e práticas que vão formando uma história pois seu conjunto lhes dá a dignidade de um acontecimento histórico2 Desde a década de 70 então têm crescido progressivamente os espaços de participação da sociedade através de conselhos debates associações comunitárias orçamentos participativos órgãos de defesa além de uma infinidade de outros mecanismos que colocam em evidência e apresentam respostas para os graves problemas sociais evidentes no cenário brasileiro O caráter de participação da sociedade civil em princípio caracterizado pelo espontaneismo e pelo voluntarismo se expande e permite uma manifestação em cadeia cujos ecos geram necessidade de organização e gerenciamento de ações e recursos a fim de assegurar legitimidade e sustentabilidade do trabalho junto à sociedade Como então caracterizar e conceituar esse novo movimento Estar na sociedade civil implicaria num sentido de pertença cidadã com seus direitos e deveres num plano simbólico que é logicamente anterior ao obtido pelo pertencimento político dado pela mediação dos órgãos do governo Marcando um espaço de integração cidadã a sociedade civil distinguese pois do Estado mas caracterizandose pela promoção de interesses coletivos diferenciase também da lógica do mercado Forma por assim dizer um terceiro setor3 1 CHAUÍ Marilena Prefácio In SADER pp 1012 2 Idem ibidem p 12 3 Texto O que é o terceiro setor In wwwritsorgbr INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 A nova organização da sociedade diferentemente dos tradicionais setores primário indústria secundário comércio e terciário serviços tem sido atualmente assim caracterizada Primeiro Setor Estado organizações públicas com objetivos públicos Segundo Setor mercado organizações privadas com fins privados e Terceiro Setor sociedade civil organizações privadas com fins públicos O terceiro setor é assinalado então pelo desenvolvimento de atividades que são ao mesmo tempo não lucrativas e não governamentais Muito se tem falado sobre terceiro setor e responsabilidade social nos últimos tempos com vistas a tentar entender e contextualizar esta nova realidade Temas como gestão legislação mercado de trabalho projetos para levantamento de recursos parcerias e trabalho voluntário têm sido evidenciados em publicações impressas e em sites sobre o assunto Mas a comunicação ainda não ganhou espaço satisfatório neste cenário O uso de ferramentas de marketing e comunicação pelas organizações do Segundo Setor empresa e também do Primeiro Setor Estado é antigo e conta com o amparo de avançados estudos sobre mercado consumidor e opinião pública Além disso estão disponíveis sofisticados recursos tecnológicos como a internet videoconferências e uma variada gama de possibilidades tradicionais e inovadoras quando se trata de divulgação Porém para o Terceiro Setor a comunicação ainda se apresenta como um grande desafio já que ele precisa de investimentos e apoio do Estado e da iniciativa privada da credibilidade conferida pela sociedade e do suporte de profissionais dêem conta de trabalhar de acordo com as demandas e especificidades de cada entidade do setor Não importa qual seja a área de atuação o sucesso de uma empresa privada está quase sempre relacionado a um projeto de comunicação eficaz e bem elaborado No terceiro setor isso ocorre com as chamadas grandes organizações aquelas que formam um grupo seleto de entidades com marcas fortes e bem construídas cujo trabalho já alcançou respeitável visibilidade pública Infelizmente uma minoria No entanto à medida que as organizações da sociedade civil se profissionalizam para dar conta do enorme desafio da autosustentabilidade cresce a necessidade de incorporar estratégias e ferramentas para divulgar suas ações sociais4 4 Comunicação um grande desafio para o terceiro setor matéria extraída da Carta de Educação do SenacSP nº 20 junjul editada pelo Ofício Plus Comunicação e Marketing INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O destaque para o 3º setor vem se expandindo inclusive com uma cobertura jornalística mais aprimorada e interessada em divulgar trabalhos que têm gerado significativas transformações sociais Se a imprensa está mais aberta para cobrir a área social é também cada vez maior o número de pessoas bem informadas e exigentes e de cidadãos envolvidos em causas sociais ambientais e culturais Todavia é preciso que o terceiro setor crie mecanismos para dar visibilidade às ações desenvolvidas além de instrumentos para aferição de resultados e impactos dos trabalhos realizados É preciso mostrar à sociedade que as organizações do terceiro setor trabalham em busca de uma forma de relações sociais A paixão que nos move precisa ser percebida como oportunidade e não como assistencialismo Quando buscamos parceiros é preciso assegurarlhes que nossos projetos serão de fato realizados dentro de princípios éticos e de padrões profissionais5 A divulgação de suas estratégias e resultados é um instigante processo por que devem passar as organizações do terceiro setor Somente com a adoção de uma comunicação que tenha caráter permanente estratégico e que acelere as transformações sociais o terceiro setor conseguirá implementar com sucesso suas ações e parcerias O principal desafio do terceiro setor é buscar uma atuação mais articulada constituindo redes de informações entre as instituições que desempenham trabalho na mesma área Do contrário por meio de ações isoladas tornase difícil estabelecer um processo de comunicação permanente6 O terceiro setor lida com o desafio de agregar o trabalho voluntário a uma iminente necessidade de profissionalização A militância apresenta uma série de vantagens como dedicação envolvimento emocional e ideológico com as propostas mas nem sempre esse apoio é profissional Como lidar com a comunicação informal propiciada por essa rede de relacionamentos e com a criação de instrumentos e procedimentos que assegurem a qualificação das propostas da organização Precisaria o terceiro setor criar ferramentas específicas para a comunicação com seus públicos ou o uso de ferramentas convencionais já 5 WAISSMAN Vera A comunicação como agente transformador das relações na construção da imagem INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 seria suficiente para sua sustentabilidade Qual é o desafio de se planejar a comunicação para o terceiro setor em um cenário que conta com a espontaneidade do trabalho voluntário a necessidade de credibilidade junto aos setores fomentadores de recursos e a inevitabilidade do apoio e legitimação da sociedade Essas e outras questões estão na pauta das discussões que devem permear o estudo da comunicação no terceiro setor No âmbito deste artigo pretendese identificar a comunicação como arcabouço para a configuração dos movimentos da sociedade civil organizada que dão forma e ação ao terceiro setor Para visualizar o entrelaçamento entre as interações sociais e as práticas comunicativas apresentamos um movimento social singular que lançou luz para a formação de uma das primeiras organizações não governamentais ligadas ao meio ambiente em Belo Horizonte e que do final da década de 70 até o início dos anos 90 consolidou a criação do Parque Fazenda Lagoa do Nado7 A contribuição da comunicação para a conquista coletiva O movimento em defesa da Lagoa do Nado surgiu a partir da relação da comunidade com o espaço de uma fazenda de propriedade privada Fazenda Giannetti que fazia parte da infância e do diaadia dos moradores dos recém criados bairros Planalto e Itapoã8 As visitas à fazenda eram às vezes autorizadas todavia na maior parte do tempo eram feitas às escondidas As primeiras manifestações em defesa da área têm início com o Grupo Verde Integral dos Jovens do Planalto formado a partir de 197778 por jovens com idade de 13 a 20 anos que moravam em bairros adjacentes ao parque O grupo era composto por poetas músicos artesãos e estudantes As atividades desenvolvidas até então eram voltadas para as festas comunitárias shows festas juninas e barraquinhas para ajudar na construção da Igreja do Bairro Planalto apontando uma preocupação com as questões culturais e comunitárias Mas o caráter de movimento social organizado ainda era embrionário 6 Idem ibidem 7 O estudo em questão foi embasado na dissertação de Mestrado defendida por Sheila Lima junto ao Departamento de Comunicação Social da UFMG em 2000 com o tema A construção da experiência urbana no lugar as relações comunicativas e a produção de sentidos no Parque Fazenda Lagoa do Nado 8 Estes bairros estão situados na Região Norte de Belo Horizonte e como parte da região periférica da cidade fora do Centro da Avenida do Contorno não comportavam equipamentos de consumo coletivo e de lazer para seus moradores INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 A mesma espontaneidade com que lidavam com o cotidiano de suas ações também fez com que o grupo se aglutinasse em torno da causa da Lagoa do Nado primeiro de forma incipiente e descomprometida adquirindo depois uma postura contestadora e de grande poder de mobilização A notícia da liberação da área do parque9 para a construção de um conjunto habitacional foi trazida aos membros do Grupo Verde Integral GVI em dezembro de 1981 com surpresa e indignação A área que antes pertencera ao exprefeito Américo René Giannetti já havia sido considerada como um importante espaço de preservação dentro da política ambientalista implantada pelo Governador Aureliano Chaves em 1976 A Lagoa do Nado foi cogitada à época como uma das áreas verdes da cidade que podia ser preservada com a função de atendimento à população periférica que reside em conjuntos habitacionais carentes de espaços livres de uso público10 Porém a partir de 18 de dezembro de 1981 a área passou a ser propriedade da Caixa Econômica do Estado de Minas Gerais Minascaixa que anunciou sua intenção de construir ali um conjunto habitacional Imediatamente após a divulgação do destino do parque o grupo se reuniu e procurou a orientação da AMDA Associação Mineira de Defesa do Meio Ambiente A entidade alertou para a necessidade de mobilização da comunidade Assim o GVI assumiu com mais clareza a disposição de lutar pela transformação da área em parque Algumas atividades que já eram realizadas na praça ou na igreja foram gradativamente transferidas para a fazendinha Em 1982 têm início as primeiras manifestações em defesa da área do parque com a realização de uma grande caminhada que agregou boa parte da comunidade circunvizinha A mobilização foi feita através de convites nas igrejas escolas nas ruas e nas residências A busca de visibilidade na sociedade através do apoio dos veículos de comunicação pôde ser observada em toda a tessitura do movimento As diversas manifestações festas embates e conflitos foram construídos na voz dos seus participantes e retratados para a população através da imprensa A caminhada que marcou a primeira manifestação organizada realizada em 1982 foi reportada em vários veículos da imprensa estadual e até nacional 9 O termo parque foi instituído oficialmente a partir de 1994 ano da inauguração de suas obras arquitetônicas Porém desde 1982 início do movimento pela sua implantação era conhecido pela comunidade como Parque Fazenda Lagoa do Nado 10 UMA LAGOA 1982 p 6267 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 À medida que o parque foi sendo ocupado e cuidado pelos membros do GVI a comunidade começou a se acostumar com a presença diária dos meninos da lagoa O pessoal já sabia que era a gente que tomava conta Às vezes pegava fogo e antes do pessoal ligar pro Corpo de Bombeiros ligava pra gente11 O contato diário com a comunidade fomentou a vinda de outras pessoas que se incorporaram ao grupo Alguns já traziam experiência de grupo de jovens de lideranças comunitárias ou de militância em movimentos religiosos sociais e políticos Os encontros promovidos em torno da idéia de se fazer uma festaprotesto motivaram a institucionalização do grupo provocando a criação da ACELN Associação Cultural Ecológica e Desportiva Lagoa do Nado A entidade procurou respaldar o movimento nos meios de comunicação fazendo denúncias e divulgando as manifestações e eventos Tanto as conquistas quanto as decepções foram tecidas na fala da entidade e da mídia que teve um papel fundamental na visibilidade do movimento para além do seu lugar de origem Um exemplo interessante pode ser percebido no abraço da lagoa promovido durante a 5ª Festa que foi um evento preparado para ser retratado na mídia impressa e eletrônica com direito a vôo panorâmico aparição no Fantástico e até em jornal americano além da visibilidade na mídia impressa estadual e nacional A comunicação mostrouse desde as primeiras manifestações pela preservação do parque como o arcabouço capaz de criar e expor acontecimentos assegurando a convivência e a sociabilidade principalmente entre a ACELN e os moradores da região A preocupação em manter a comunidade constantemente informada e envolvida com o processo de conquista do lugar fomentou uma série de ações criativas e ousadas que sensibilizaram o cidadão comum e exigiram um posicionamento dos órgãos públicos e também da mídia Ainda que de início nenhum membro da associação tivesse conhecimento acadêmico em estratégias de divulgação ou atividades afins a comunicação foi utilizada com propriedade desde o tradicional bocaaboca até a montagem de eventos para emissoras de televisão Na Primeira Festa da Lagoa do Nado realizada em 1983 foi anunciada a criação da Associação O caráter de solidariedade manifestação e alegria que embalou a festa impulsionou a vinda de muitas pessoas para os quadros da entidade As festas sempre 11 Depoimento de um dos fundadores do movimento IZINHO2000 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 serviram como um amálgama para aglutinar mais e mais pessoas em defesa do parque cuja contribuição se dava de maneira bastante diversificada Alguns participavam de todas as reuniões visitavam órgãos públicos e entidades ambientalistas outros mobilizavam a comunidade cediam materiais ou colaboravam com a infraestrutura necessária para a divulgação Uns contactavam conhecidos na imprensa outros levavam parentes para conhecer o parque e participar das atividades O importante era assegurar a formação de uma verdadeira rede de relações em torno de uma perspectiva comum que era convencer a Minascaixa a desistir da construção do conjunto habitacional na área e sua posterior transformação em parque público A ACELN formou uma frente de trabalho e solidariedade que impressionava pelo caráter de resistência pacífica e poder de mobilização das pessoas As festas da Lagoa do Nado costumavam reunir mais de dez mil pessoas em um único final de semana O público garantido era o principal atrativo para artistas e cantores inclusive de outros estados que sempre se dispuseram a participar voluntariamente das festas Os parcos recursos e a corrida contra o tempo dispensado voluntariamente pelos associados dificultavam uma divulgação a contento Os cartazes folhetos e carros de som sempre avisavam em cima da hora aos moradores da região As festas tinham porém um efeito multiplicador sendo o bocaaboca sua mais eficaz estratégia de divulgação Nas festas juninas e nas festas anuais de Outubro sempre se pôde observar um efeito cascata no aumento gradativo do número de participantes A cada dia mais pessoas lotavam o parque que no último dia batia recorde de público com atividades pela manhã tarde e noite Não só os artistas mas também os comerciantes e membros da comunidade mostravamse simpáticos ao parque colaborando para a viabilização da festa Quase tudo era conseguido pelo trabalho voluntário Dos pregos ao lanche para os músico da arte dos cartazes até o carro de som Ao envolver a comunidade a associação conscientizava as pessoas e ganhava mais adeptos tornando a festa um grande momento de sociabilidade entre a entidade artistas comerciantes e moradores A ACELN continuou utilizando folhetos cartazes cartas abaixoassinados e faixas Na primavera de 1992 foi criado o Informativo Verde Integral primeira publicação da ACELN a primar por uma qualidade técnica tanto na forma quanto no conteúdo da publicação Depois do Verde Integral foram elaborados vários mecanismos de divulgação INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Nenhum destes veículos de informação porém manteve uma periodicidade regular por um longo tempo Todos vieram para suprir demandas específicas do momento no qual foram criados mas tiveram um papel fundamental para a construção do movimento A rede de comunicação tecida através da imprensa demonstra a importância da visibilidade do movimento dentro e fora da comunidade A mídia desempenha um papel fundamental como legitimadora das ações que se desenvolvem no diaadia da sociedade Para além das críticas sobre seu imbricamento com interesses comerciais ou particulares está a sociedade civil clamando por justiça e atenção aos seus problemas na maioria das vezes relegados pelo poder público que deveria trazer soluções e apoiar as demandas sociais Assim a relação da ACELN com a imprensa foi de inestimável valor para a consolidação do movimento O seu reconhecimento se deu através das várias ações e atividades desenvolvidas pela entidade que pressentiu a urgência de convocar a mídia ou criar fatos para atrair a sua atenção Ainda que executada de forma amadorística e artesanal a ACELN tinha uma percepção muito clara de como as estratégias de comunicação deveriam ser montadas para cada situação Ao ser questionado sobre as principais estratégias de comunicação utilizadas para mobilizar a comunidade em torno das festas um dos membros da ACELN não hesitou Corpo a corpo e boca a boca É ir de casa em casa de boteco em boteco Panfletar nas festas bares em todos os locais Mapear mesmo Pregar cartazes em tudo quanto for lugar Nós usamos todos os recursos de comunicação Se for avaliar nós não desperdiçamos um recurso Rádio é importante Então a gente mandava pras rádios Televisão é importante Jornal Cartaz Panfleto Conversar Todo recurso de comunicação eu acho que a Lagoa usou Nós nunca falamos que esse é mais importante que aquele Todos são importantes Então a gente fazia de tudo A gente nunca deixou de ir de casa em casa de conversar de entregar o mosquitinho Tem uma articulação de todos esses recursos Um não vive sem o outro 12 Todos esses instrumentos disseminaram o trabalho da ACELN para além das cercas do parque e possibilitaram a interlocução entre a entidade os órgãos públicos responsáveis pelo destino do parque a imprensa e a sociedade como agentes de um mesmo processo A interdependência desses sujeitos aliada a um contexto sóciopolítico peculiar produziram os 12 Depoimento de um dos participantes do movimento INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 fios para o tecido desta experiência singular a implemantação do Parque Fazenda Lagoa do Nado em 1994 pela Prefeitura Municipal de Belo Horizonte As mudanças originadas a partir da administração pública do parque são evidentes mas o Parque Lagoa do Nado carrega na sua história o ineditismo que o transformou em lugar especial Ainda hoje tornase evidente a cumplicidade da comunidade na gestão do espaço através da participação direta da Comissão Consultiva composta por entidades e órgãos públicos ali representados em todas as decisões tomadas e implementadas no cotidiano do parque A legalização do Parque Lagoa do Nado como um espaço coletivo de uso da comunidade local e de toda a população da cidade com ações administradas pelo poder público conforma um novo sentido à sua utilização De um lugar legitimado apenas por seus usuários o parque passa a ser um lugar reconhecido pelas instituições oficiais de administração pública e passa a ser gerido com a participação da sociedade civil Comunicação Relações Públicas e a singularidade do terceiro setor A presença cotidiana da ACELN foi definidora na conquista do Parque Lagoa do Nado pela comunidade Como uma organização do terceiro setor termo que no final da década de 70 sequer era pronunciado no país a entidade precisou lançar mão ainda que intuitivamente de instrumentos de comunicação para sua legitimação como representante da sociedade civil Jornais panfletos cartazes faixas matérias publicadas na imprensa e cobertura dos acontecimentos e eventos por emissoras de rádio e de televisão foram algumas das ferramentas empregadas Em princípio esses instrumentos são adotados em qualquer ação de comunicação que se deseja implementar onde a instância emissora espera atingir o seu receptor e obter dele o efeito desejado Ao mesmo tempo pudemos observar um aspecto ímpar na configuração do Parque Lagoa do Nado como um legítimo espaço de inserção da sociedade civil seja apenas como cidadã ou organizada institucionalmente através da ACELN As interações construídas pelos sujeitos em ação evidenciaram o espírito gregário que deu ao movimento um caráter único Quando se trata do terceiro setor a participação dos sujeitos tece a história cujo roteiro não é INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 previamente definido e muito menos se apresenta como uma receita de sucesso que deva ser seguida Essa mobilização dos sujeitos contribuiu também para que aflorasse a importância da formação da consciência pública Instada a participar por meio dos mecanismos de comunicação utilizados a comunidade descobre uma real consciência a respeito do significado profundo do conceito de cidadania Segundo Duarte13 numa sociedade democrática são as pessoas o povo que moldam seus governos e não o contrário No caso da ACELN o que a entidade fez foi mobilizar a opinião pública para o seu papel partindo sempre da premissa de que era a informação o melhor meio para atingir corações e mentes o caminho para que a sociedade se empenhasse em compreender criticamente as formas que o poder constituído assumia sempre que estavam em jogo interesses utilitaristas e econômicos O uso de instrumentos já consolidados e reconhecidos por produtores e receptores de comunicação é vital e deve ser estrategicamente utilizado pelas organizações do terceiro setor Porém as experiências oriundas da interação dos sujeitos em torno do objetivo que move a entidade devem ser pontuadas uma vez que a comunicação pressupõe a troca de experiências a partir do entendimento comum de seus significados Portanto a comunicação social principalmente nas sociedades democráticas tem o papel de difundir tendências e integrar os cidadãos em um dado contexto Isso acaba por acontecer naturalmente quando seus recursos são colocados à disposição do despertar da consciência individual e coletiva No caso da comunicação no terceiro setor o que se percebe é que essa conscientização é reflexo das muitas iniciativas como as da pioneira ACELN e dos erros e acertos inerentes à toda mudança paradigmática Entretanto especificamente a área de Relações Públicas vista como uma atividade que se caracteriza por interpretar os anseios da sociedade14 tem uma importante função nesse contexto Caberia à atividade e aos seus profissionais contribuir com esse novo modelo redimensionando a atuação de forma a ampliar as suas perspectivas 13 2002 p151 14 DUARTE 2002 p 155 INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 O terceiro setor apresenta algumas especificidades históricas mas não difere dos demais setores em um aspecto a questão da credibilidade que gera a confiança necessária à sua sustentação como um organismo de intervenção social A singularidade estaria então naquele que é sujeito e objeto das ações do terceiro setor o indivíduo e seu resgate como cidadão Ao estabelecer que essa é a tônica do trabalho tanto das Relações Públicas quanto do terceiro setor começamos a estreitar os laços que atam essa interface O profissional de Relações Públicas deve posicionarse de forma crítica e sem dúvida ética quanto ao seu papel de desnudar ou obliterar as informações que poderão ajudar o indivíduo a fazer a ponte entre essa nova sociedade e os valores nela contidos O desafio está lançado O terceiro setor é um campo fértil que deve ser observado em suas singularidades pelas contribuições que tem trazido para o desenvolvimento de uma sociedade mais justa e mais viável À Comunicação Social e às Relações Públicas cabe lançar as bases para o entendimento de que esse caminho é um caminho sem volta pois foi a sociedade quem construiu seu trajeto e arquitetura INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação BHMG 2 a 6 Set 2003 1 Trabalho apresentado no Núcleo de Relações Públicas e Comunicação Organizacional XXVI Congresso Anual em Ciência da Comunicação Belo HorizonteMG 02 a 06 de setembro de 2003 Referências Bibliográficas BENFICA Clair José Izinho Entrevista Belo Horizonte jan 2000 CHAUÍ Marilena In SADER Eder Quanto novos personagens entram em cena 2ed Rio de Janeiro Paz e Terra 1988 COMUNICAÇÃO um grande desafio para o terceiro setor matéria extraída da Carta de Educação do SenacSP nº 20 junjul 2002 editada pela Ofício Plus Comunicação e Marketing DUARTE Lúcia Ética ambiental e comunicação In FREITAS Ricardo Ferreira e LUCAS Luciene org Desafios contemporâneos em comunicação perspectivas de Relações Públicas São Paulo Summus 2002 LIMA Sheila Ferreira A construção da experiência urbana no lugar as relações comunicativas e a produção de sentidos no Parque Fazenda Lagoa do Nado Belo Horizonte UFMG 2000 Dissertação Mestrado em Comunicação Social O TERCEIRO setor avança Revista Ecologia Integral Publicação do Centro de Ecologia Integral Ano 1 nº 1 setembro a outubro 2001 PERUZZO Cecília Maria Krohling Comunicação nos movimentos populares a participação na construção da cidadania Petrópolis Vozes 1998 PESQUISA Responsabilidade Social das Empresas Percepção do Consumidor Brasileiro Instituto Ethos 2002 PRÊMIO Ethos Valor Responsabilidade social nas empresas a contribuição das universidades Editora Fundação Petrópolis 2002 UMA LAGOA que depende de um entendimento político Estado de Minas Belo Horizonte 25 abr 1982 1cad p7 WAISSMAN Vera A comunicação como agente transformador das relações na construção da imagem site wwwritsorgbr 6 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico 50 Years Of Profession Social Responsibility Or EthicalPolitical Project 50 Años De Profesión Responsabilidad Social O Proyecto ÉticoPolítico Artigo Oswaldo H Yamamoto Universidade Federal do Rio Grande do Norte 6 PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 7 No capítulo intitulado Uma Defesa da Psicologia com o qual concluía o seu estudo sobre a incipiente profissão de psicólogo na passagem da década de 60 Mello afirmava A Psicologia é uma autêntica ciência e não uma técnica para solucionar os problemas íntimos dos privilegiados e o benefício das soluções que ela propõe e das técnicas que criou deve ser estendido ao maior número de pessoas Reservá las para poucos como tem sido feito é desvirtuar seu valor como um instrumento de modificação social Renovar a prática da Psicologia a começar pela formação que os profissionais recebem não é uma tarefa simples mas é sem dúvida uma tarefa urgente 1975 p 113 No momento em que comemoramos o marco dos 50 anos de profissão regulamentada é oportuno nos debruçarmos sobre o que ocorreu desde o momento em que Mello ao mesmo tempo em que fazia uma severa avaliação da Psicologia aduzia que a Psicologia poderia e deveria ser mais do que uma atividade de luxo sendo uma injustiça reduzila às tendências presentes até então no seu desenvolvimento O ponto de partida que adotamos para construir uma resposta à questão sobre o que se passou com a Psicologia nesses 50 anos é retomar a literatura E embora ela seja farta iremos nos concentrar em dois estudos pelo fato de apenas esses serem resultantes de projetos abrangentes sobre a Psicologia em âmbito nacional O primeiro deles é um programa proposto e organizado pelo Conselho Federal de Psicologia CFP na segunda metade dos anos 80 que redundou na publicação do livro Quem É o Psicólogo Brasileiro CFP 1988 que reunia informações e análises acerca da profissão nos seus primeiros 25 anos1 e o segundo um projeto conduzido em meados da década de 2000 por um grupo de trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós Graduação em Psicologia ANPEPP com o apoio do Conselho Federal de Psicologia e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CNPq resultou no livro O Trabalho do Psicólogo no Brasil Bastos Gondim 2010 A comparação dos resultados desses dois estudos evidencia um crescimento extraordinário da profissão Dos 15 psicólogos Resumo O presente texto aborda uma das questões mais polêmicas que acompanham estes primeiros 50 anos de profissão regulamentada o alcance social da profissão de psicólogo e sua possibilidade de contribuir para o processo de mudança social A partir de dados sobre a evolução da profissão no Brasil discutimos a questão confrontando as teses do alcance social da responsabilidade social e do compromisso social concluindo por indagar sobre a viabilidade da proposição de um projeto éticopolítico para a Psicologia Palavraschave Responsabilidade social Ética Política de saúde Psicologia Brasil Abstract This paper focuses one of the most controversial issues that accompany these first 50 years of legally regulated profession the social impact of the profession of psychologist and its possibility to con tribute to the process of social change From data on the evolution of the profession in Brazil we discuss the issue comparing the thesis of social impact social responsibility and social commitment concluding by questioning the viability of the proposition of an ethicalpolitical project for Psychology Keywords Social responsibility Ethics Health care policy Psychology Brazil Resumen El presente texto aborda una de las cuestiones más polémicas que acompañan estos primeros 50 años de profesión reglamentada el alcance social de la profesión de psicólogo y su posibilidad de contribuir para el proceso de mudanza social A partir de datos sobre la evolución de la profesión en el Brasil discutimos la cuestión confrontando las tesis del alcance social de la responsabilidad social y del compromiso social concluyendo por indagar sobre la viabilidad de la proposición de un proyecto ético político para la Psicología Palabras clave Responsabilidad social Ética Política de salud Psicología Brasil 1 O programa do CFP teve prosseguimento com dois outros livros Conselho Federal de Psicologia 1992 Psicólogo Brasileiro Construção de Novo Espaço Campinas SP Átomo e Conselho Federal de Psicologia 1994 Psicólogo Brasileiro Práticas Emergentes e Desafios para a Formação São Paulo Casa do Psicólogo além de outras pesquisas pontuais 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 8 registrados no MEC em 1962 passamos para aproximadamente 54 mil no estudo de 1988 e para 236 mil em 2010 O número de agências formadoras também cresceu de forma espetacular no período compreendido pelos dois estudos nacionais o sistema cresceu 300 assim como o processo de privatização que passa de aproximadamente 70 em 1988 para 90 em 2010 Esse imenso processo de crescimento tem ao menos duas consequências o hiato entre o número de egressos para o de inscritos no Sistema Conselhos cerca de 65 dos formandos adquirem condições legais para o exercício da profissão e a desqualificação da formação Abbad Mourão 2010 Bastos Gondim Souza Souza 2011 Souza Bastos Barbosa 2011 Yamamoto Souza Silva Zanelli 2010 Crescimento no entanto não é sempre sinônimo de desenvolvimento Para além da expansão o que os números revelam sobre as mudanças na profissão O percentual de psicólogos que se dedica ao exercício da profissão cresce de aproximadamente 70 para 84 dos inscritos o que pode ser lido como o indicador de uma tendência à consolidação da profissão Se a profissão se estruturou à luz do modelo médico profissional liberal ou seja trabalhador autônomo os dados de 2010 mostram que passa a haver um equilíbrio entre as modalidades de inserção 52 assalariados e 48 autônomos Contudo a tendência à institucionalizaçãoassalariamento de que falavam Mello 1975 e Campos 1983 é visível apenas 15 dos profissionais que se declaram autônomos afirmam que atuam exclusivamente nessa condição Quanto às condições de trabalho tanto dos assalariados quanto dos autônomos a precarização e a deterioração da remuneração adjetivam o que se disse anteriormente acerca da consolidação da profissão Bastos Gondim 2010 Passemos agora a examinar as mudanças verificadas na prática efetiva do psicólogo Os dados da pesquisa de 2010 são elucidativos em diversos aspectos Em primeiro lugar a informação de que 67 dos psicólogos se vincula a apenas uma área de atuação2 E qual a área predominante Clínica com 53 dos respondentes de forma exclusiva ou combinando áreas A saúde absorve 279 dos psicólogos seguida da área do trabalho e das organizações com 2513 e da educacional com 98 Em segundo lugar tomando as modalidades de inserção profissional dos psicólogos o setor público é o que apresenta a maior concentração com 40 da amostra Seguemse 35 no setor privado e surpreendentes 25 no terceiro setor4 A combinação de duas ou mais inserções no entanto é a marca da profissão e abrange 65 dos psicólogos E o que os psicólogos estão fazendo nesses espaços de inserção profissional No setor público a principal atividade é aplicação de testes psicológicos 329 seguida de psicodiagnóstico com 296 E no terceiro setor Psicodiagnóstico com 276 e aplicação de testes psicológicos com 235 Sem invocar qualquer teoria da conspiração e ciente do risco de simplificar a questão é inescapável a lembrança da tese do gatopardismo de Giuseppe de Lampedusa5 Psicologia elitismo e mudança social O quadro que delineamos a partir dos resultados das pesquisas não teve por objetivo traçar um perfil acurado da profissão tarefa ademais já realizada pelos estudos aos quais fizemos referência O que intentamos foi a partir dos estudos construir uma base para discutir as questões postas por Mello 1975 no estudo pioneiro da década de 60 Além das indiscutíveis indicações para a revisão da prática e da urgência em modificarmos os rumos da formação meta 2 Sem desconhecer as polêmicas envolvidas com a definição da área de atuação eg Botomé 1988 Gondim Bastos Peixoto 2010 o conceito se presta para a análise que empreendemos 3 É importante observar que pode ter havido vieses na coleta conduzida por um grupo de trabalho da área da Psicologia do trabalho e das organizações decorrente de uma divulgação diferencial e eventualmente do envolvimento com a pesquisa 4 Terceiro setor aparecerá destacado no presente texto em virtude da discordância conceitual com relação à sua existência como um setor da economia Para uma discussão sobre esse tema ver entre outros Montaño 2002 5 Tratase de referência à obra Il Gattopardo de Giuseppe de Lampedusa Ao analisar a decadência da aristocracia e a emergência da burguesia no processo da unificação italiana a tese política do príncipe Don Fabrizio da Sicília é que algo deve mudar se não se quer mudar nada Esse neologismo comum a diversos autores nas ciências humanas foi empregado em um texto anterior para expressar a tese de que a Psicologia muda em aspectos secundários para manter intacto o que é essencial Yamamoto 2000 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 9 que ainda estamos longe de atingir há dois aspectos na avaliação de Mello que gostaríamos de retomar a a extensão das técnicas que a Psicologia criou para parcelas mais amplas da população e b a sua capacidade de ser um agente de mudança social São dois aspectos que conforme veremos imbricam embora sejam no limite questões de natureza diversa O debate acerca do elitismo da profissão era um lugar comum Depois da avaliação inicial de Mello 1975 Botomé 1979 e Campos 1983 apenas para citar dois pesquisadores constatavam o problema do baixo alcance da profissão que pela natureza da inserção profissional e pelas atividades propostas psicoterapia realizada em consultório privado deixava desassistidas parcelas amplas da população Esses autores embora com perspectivas analíticas diversas deixavam no ar uma confiança na capacidade de a profissão alterar os seus rumos na direção de maior alcance social Campos apontava ainda a insuficiência dos recursos teóricos e técnicos produzidos até então pela Psicologia no Brasil para tal empreendimento ou seja fazer frente a uma clientela com características diferentes das que a profissão elitizada então atendia ou seja as classes subalternas Os resultados dos estudos acima aludidos mostram que a profissão passa a atingir de fato parcelas mais amplas da população ao longo de sua curta história No entanto a ampliação do leque populacional atingido ou a focalização nos segmentos de menor renda representa por si só uma ampliação do alcance social da profissão Uma primeira questão que está subjacente se aproxima da análise que Botomé 1988 faz inspirado nas teses do cientista argentino Oscar Varsavsky a distinção entre uma profissão que se define pelo que sabe fazer de outra que se orienta pelas demandas sociais Os estudos sobre as atividades desenvolvidas pelos psicólogos ao longo destes anos parecem indicar fortemente a primeira das alternativas a profissão tem se orientado muito mais pela oferta de serviços do que pela construção de respostas a partir das demandas da população atendida É interessante observar que estamos tratando das orientações gerais da profissão e não da escolha pura e simples de uma das alternativas em detrimento da outra Não é possível conceber um atendimento das demandas da população sem a oferta de serviços para os quais o psicólogo tenha competência técnica Além disso a questão do alcance social pode não se resumir ao atendimento qualificado das demandas da população A questão não é trivial pois pode haver em algumas circunstâncias coincidências entre as duas alternativas e ainda assim a análise mostrar que o alcance social é problemático Considerar as demandas da população é sinônimo de dar respostas para as suas necessidades Exemplifiquemos se hipoteticamente a demanda expressa pelos usuários dos serviços públicos de saúde for o atendimento psicoterápico individual nos moldes da atividade clínica tradicionalmente exercida em consultórios privados que eventualmente corresponde à imagem pública da profissão responder a essa expectativa com pessoas pertencentes às classes subalternas significa aumentar o alcance social da profissão Do elitismo ao alcance social Retomemos o tema da qualidade da atuação e da competência técnica Afirmamos e reafirmamos aqui que não é possível qualquer ação profissional que não seja qualificada tecnicamente Contudo nem a competência técnica em si é uma condição suficiente nem tampouco qualquer competência técnica é adequada ou seja voltando aos termos da discussão de Botomé 1988 é indispensável considerar a adequação para o segmento da população atendida das competências 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 10 técnicas que a Psicologia desenvolveu ao longo de sua história Se considerarmos o que previa Campos os dados das pesquisas mais recentes nos permitem indagar sobre a adequação de se utilizar por mais competente tecnicamente que seja os recursos que a Psicologia tradicionalmente desenvolveu para o contexto da clínica privada Para discutir a adequação ou não do que Campos 1983 denominou de arsenal teóricotécnico desenvolvido historicamente pela Psicologia para uma atuação que tem por foco as classes subalternas é preciso colocar em pauta a natureza dessa intervenção É necessário considerar os dados desagregados dos estudos recentes para analisar onde e em que trabalham os psicólogos que não atuam de forma autônoma em tese lócus privilegiado da prática tradicional dos psicólogos no Brasil A resposta para essa questão é clara o setor do bemestar social o chamado campo das políticas sociais Os resultados da pesquisa nacional de 20106 nos permitem deduzir que aproximadamente 40 dos psicólogos que participaram do estudo trabalham no campo das políticas sociais Os setores nos quais os psicólogos têm presença significativa são os da saúde pública e os da assistência social Estamos falando aqui de dois segmentos que têm um significado diverso no que diz respeito à discussão de alcance social As políticas voltadas para o campo da saúde são ou pretendem ser universalistas ao passo que aquelas referentes à assistência são focalizadas e compensatórias Embora na prática os segmentos populacionais atingidos possam ser coincidentes a distinção é importante para uma análise da extensão dos serviços psicológicos pois o significado da ação profissional passa a obedecer a lógicas distintas Um detalhamento da ação concreta do psicólogo nesses serviços nos permite qualificar a discussão do alcance social Atentando especificamente para os profissionais que trabalham nas políticas sociais as respostas dos psicólogos no estudo de 2010 replicam em linhas gerais os resultados da amostra maior o psicodiagnóstico é a atividade mais frequente seguido de aplicação de testes psicológicos e de atendimento a crianças com distúrbios de aprendizagem Assistência psicológica a pacientes clínicos e cirúrgicos e psicoterapia individual adulto criança e adolescente estão igualmente entre as atividades mais citadas Por outro lado dentre as atividades mais frequentes embora menos citadas figuram algumas que podem ser associadas ao trabalho no setor do bemestar embora muito pouco elucidativas pela sua formulação por demais vaga participação em equipes técnicas e planejamento e execução de projetos As respostas à questão das abordagens teórico metodológicas que informam a prática também são esclarecedoras psicanálise em primeiro lugar cognitivocomportamental e humanistaexistencial Essas poucas indicações vão ao encontro de algumas das nossas observações anteriores Não há exceto eventualmente de forma pontual rigorosamente novidades na prática efetiva do psicólogo ao mudar o seu foco de atenção para as chamadas parcelas mais amplas da população Duas interpretações são admissíveis ou o psicólogo está reiterando práticas conhecidas seja porque ele desconheça outras seja porque não estamos produzindo novas e eventualmente mais adequadas alternativas ou o psicólogo está atendendo adequadamente à expectativa do serviço enfim às demandas a ele dirigidas As questões acima pedem desdobramentos analíticos que escapam à possibilidade de abordagem mais detida neste espaço Entretanto deixamos algumas indicações As ações requeridas e aí entendase tanto as demandas advindas do serviço 6 Passaremos a trabalhar com alguns dados do banco de dados do estudo já referido do GT da ANPEPP que resultou no livro de Bastos Gondim e Peixoto 2010 mas que não estão contemplados na obra 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 11 Estado e gestores como as do público atendido necessitam ser analisadas mais detalhadamente nas diversas inserções profissionais no campo das políticas sociais Apenas para exemplificar no mesmo campo da assistência social sob a égide do SUAS as demandas nos Centros de Referências de Assistência Social CRAS e nos Centros de Referência Especializados de Assistência Social CREAS são bastante diferenciadas e requerem eventualmente práticas diversas dos profissionais No segundo caso em uma situação de crise instalada uma intervenção emergencial nos moldes da prática clínica tradicional poderia eventualmente ser justificada ou seja talvez as duas alternativas aludidas anteriormente não sejam excludentes Essas observações nos permitem recolocar a questão do alcance social Pensando neste como a extensão qualificada dos serviços da Psicologia e essa era a demanda presente tanto no argumento de Mello 1975 quanto no de Botomé 1979 ao avaliar que apenas 15 da população tinha acesso ao serviço do psicólogo e indagando se os restantes 85 não necessitariam deles a profissão inquestionavelmente ampliou a cobertura de sua ação utilizando ou não os recursos clássicos da Psicologia O alcance social todavia necessita ser compreendido dentro de um contexto mais amplo Afirmamos alhures que política social nos marcos do modo de produção capitalista remete à chamada questão social cujas refrações somente podem ser tratadas de forma setorial e parcial na forma de políticas sociais específicas eg Yamamoto Oliveira 2010 O psicólogo como profissional do setor do bemestar ou seja do campo que historicamente tem propiciado o alargamento do alcance social da profissão trabalha exatamente nessas refrações como um executor terminal das políticas segmentadas Essa constatação se tem procedência remetenos à necessidade de um lado de o psicólogo compreender de maneira mais profunda do que o que ocorre usualmente as determinações macroestruturais de sua inserção profissional no setor do bemestar social público de outro de buscar alargar o campo de ação para além dos limites de executor terminal da política intervindo na gestão e principalmente na sua formulação Alcance social e compromisso político Temos situado as questões que estamos tratando como pertencentes ao âmbito do alcance social da profissão em virtude do ponto de partida da nossa análise Mas a última asserção nos conduz à necessidade de qualificar melhor a inserção social do psicólogo Para isso é necessário recuperar um antigo embora sempre atual debate sobre a diferença entre ação política em sentido estrito e a dimensão política da ação profissional7 Mencionamos a dimensão técnica que afirmamos ser indispensável para uma prática socialmente significativa e uma outra dimensão a ser considerada é a política Toda ação profissional esteja o psicólogo ciente ou não comporta uma dimensão política pelo fato de o profissional estar envolvido como lembra Iamamoto 1998 com as relações de poder da sociedade Ignorar essa dimensão representa assumir as já superadas teses sobre a neutralidade da técnica8 Transpondo essa discussão para a atividade profissional o ponto que estamos debatendo trata da responsabilidade política do psicólogo e não do cidadão no desenvolvimento de sua atividade profissional ou seja estamos no controvertido terreno do compromisso político do psicólogo 7 Abordamos esse tema em uma discussão sobre o compromisso social do psicólogo Yamamoto 2007 Há no campo da educação um interessante debate sobre os limites da competência técnica e política Mello 1982 Nosella 1983 8 O estudo de Coimbra 1995 sobre a relação da Psicologia com o regime autocrático burguês de 19641985 para citar um exemplo não deixa espaço para qualquer ingenuidade relativa à questão Apenas para situar a questão e prosseguir no tratamento do tema essa questão salvo engano está conectada à discussão da responsabilidade social da ciência tema que ganhou relevo com a participação de cientistas no desfecho da Segunda Guerra Mundial Em suma a imensa polêmica instalada nos segundo pósguerra dizia respeito à questão de quando cessa a responsabilidade do cientista ou dito de outra forma se ele é corresponsável pelos desdobramentos de suas descobertas científicas Há uma infinidade de textos que tratam dessa questão como por exemplo o livro do filósofo da ciência Jacob Bronowski 1979 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 12 Situemos a questão Inicialmente é necessário ter em mente que a Psicologia como qualquer outra profissão situada dentro dos marcos de uma formação social capitalista subordinase em última instância às determinações do modo de produção dominante Em outras palavras inscrevese dentro da divisão social do trabalho cumprindo o seu papel dentro de sua especificidade na reprodução das relações sociais capitalistas Esse é um limite da ação profissional que necessita ser levado em consideração A condição de trabalhador assalariado compreende parâmetros institucionais e trabalhistas que regulam as relações de trabalho Iamamoto 1998 além de um conjunto de prescrições que são próprias de sua inserção profissional É indispensável aqui fazer três observações Em primeiro lugar não estamos em absoluto afirmando que o psicólogo deva obedecer acriticamente às imposições do seu empregador em que nível for ou seja combatendo a famigerada tese da obediência devida mas que é impossível ignorar as determinações postas pela sua inserção profissional no quadro da organização social e técnica do trabalho A segunda observação é que não estamos igualmente admitindo que os limites acima aludidos da ação profissional postos pela sua localização na divisão capitalista de trabalho sejam imutáveis mas que o alcance de ações profissionais individuais para alterálos é restrito ou quase inexistente É importante ressaltar que essa consideração não cancela a diferença acima mencionada entre a ação política propriamente dita e a dimensão política da ação profissional Há um limite eventualmente tênue entre a ação propriamente política sindical partidária ou nos movimentos sociais enfim a militância política e aquela dimensão política que envolve a consideração das consequências sociais da sua atividade profissional E é desta última que estamos tratando neste ponto A terceira observação é que reconhecendo a dimensão política da ação profissional e distinguindoa da militância reiteramos uma tese que embora antiga deve ser relembrada a de que historicamente não cabe ao psicólogo ou a qualquer outra categoria profissional como tal um papel decisivo em processo algum de transformação estrutural da sociedade Novamente duas ressalvas isso não significa por um lado que tais ações em uma direção progressista pela falta de um termo melhor sejam inúteis ou desnecessárias9 por outro que a ação profissional por não ser neutra não possa se articular e contribuir com as lutas populares e os projetos societários alternativos Essas três observações estabelecem contornos para a discussão da polêmica tese do compromisso social do psicólogo Compromisso social ou responsabilidade social As considerações anteriores sobre a margem de ação política do psicólogo tendem a recolocar a questão para o âmbito individual Falamos das determinações estruturais mais gerais dos requerimentos de ordem institucional e trabalhista e como aludimos anteriormente das necessidades ou demandas sociais configurando um campo de tensões no qual se situa a ação do psicólogo É nesse terreno de contradições que se situa a questão do utilizando uma expressão corrente e controvertida compromisso social do psicólogo Mas se já concluímos que o alcance social da profissão se alargou ao longo destes 50 anos após a regulamentação o que dizer do compromisso social Vamos nos deter um pouco nos sentidos assumidos pela expressão 9 Situamse aí por exemplo as definições acerca da melhoria das condições de vida da população saúde seja terapêutica seja prevenção seja promoção habitação saneamento enfim os alvos das chamadas políticas sociais fragmentadas indiscutivelmente necessárias mas que em si não comportam a qualificação de ações relativas à transformação estrutural da sociedade capitalista 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 13 Bastos 2009 faz um levantamento das acepções de compromisso social do psicólogo identifica quatro dimensões nos textos que analisa e propõe uma quinta São elas expansão renovação direção política orientação teórica e competência técnica Não é nossa intenção discutir a análise das dimensões do autor porque as questões que nos tocam mais de perto já foram objeto de atenção mas discutir a forma pela qual ele define duas delas e pensar nos seus desdobramentos a direção política e a orientação teórica De acordo com Bastos 2009 o âmbito direção política é definido pela orientação para a transformação social e a supressão das desigualdades que se associaria à orientação teórica que na análise do compromisso social estaria identificada com a abordagem sociohistórica O autor faz a crítica a tal compreensão do compromisso social por entender que comporta o risco de esvaziar a identidade profissional do psicólogo e de construir uma psicologia classista pela concepção voluntarista subjacente e pela pressuposição da supremacia de um determinado referencial teóricometodológico em detrimento das demais e da pluralidade do conhecimento psicológico A questão contida nessa crítica do nosso ponto de vista reside na disputa em torno da definição do que seja compromisso social e por conseguinte do enquadramento das diversas ações do psicólogo como socialmente comprometidas ou não A linha de argumentação que Bastos busca construir e é importante que seja mencionado sobre o compromisso social do psicólogo do trabalho e das organizações diz respeito a uma eventual avaliação maniqueísta que coloca de um lado determinadas formas de inserção profissional como comprometidas socialmente e de outro aquelas não comprometidas socialmente Há aqui duas questões a considerar A primeira diz respeito à leitura que faz Bastos da literatura sobre o compromisso social É importante dizer não se trata de um campo de estudos antes são escritos relativamente esparsos artigos que analisam a prática e discutem o compromisso do psicólogo envolvido nesse contexto textos de combate e outros documentos10 portanto embora os leitores possam identificar posições mais consolidadas é difícil afirmar que estas sejam hegemônicas A crítica de Bastos reside como vimos na desqualificação de práticas profissionais que não estejam alinhadas a determinada abordagem teórico metodológica e voltadas para a transformação social Façamos um exercício E se substituirmos compromisso social por responsabilidade social Seguramente seria difícil sustentar aquelas definições das dimensões direção política e orientação teórica ou seja seria impensável afirmar que somente ações profissionais que se articulam com a transformação social a partir de uma determinada impostação teórica sejam socialmente responsáveis Talvez resida aí o cerne do embate de Bastos 2009 O reconhecimento de que há uma pluralidade teóricometodológica e de posturas políticas na ação profissional do psicólogo a informar práticas socialmente responsáveis não seria a reivindicação do autor Mas é forçoso reconhecer que há uma distinção entre responsabilidade e compromisso social a julgar pelos escritos analisados por Bastos E essa distinção nos remete à questão da transformação social Reafirmando o que foi dito anteriormente sobre o eventual papel de qualquer categoria profissional no processo de transformação estrutural da sociedade capitalista não seria o caso de se pensar em duas modalidades de compromisso social uma na ordem do individual o que remete a questão para decisões ao campo da ética 10 Para uma análise compreensiva de como a literatu ra tem tratado a questão do compromisso social do psicólogo ver Amorim 2010 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 14 e eventualmente na ordem do coletivo Em outras palavras indagar sobre a possibilidade de pensarmos em compromisso social com a definição acima para uma inteira e heterogênea categoria profissional É possível pensar em um projeto éticopolítico para a Psicologia Um tópico para iniciar a discussão a defesa da pluralidade e do reconhecimento da diferença supõe necessariamente abrir mão da tentativa de ações coletivas E em que nível de organização é possível pensar em ações coletivas Visando a superar o nível da ação profissional individual gostaríamos de propor a discussão sobre a viabilidade da construção de um projeto coletivo na forma de um projeto éticopolítico para a profissão Projetos profissionais de acordo com Netto apresentam a autoimagem de uma profissão elegem os valores que a legitimam socialmente delimitam e priorizam seus objetivos e funções formulam os requisitos teóricos práticos institucionais para o seu exercício prescrevem normas para o comportamento dos profissionais e estabelecem as bases das suas relações com os usuários de seus serviços com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais privadas e públicas 2009 p 144 A questão para a Psicologia área de estudo e de atividade profissional que aceita a definição da fragmentação como um traço imanente não é trivial Para além da dispersão teóricometodológica dificuldades adicionais se relacionam ao fato de a Psicologia como de resto qualquer categoria profissional ser fundamentalmente heterogênea Conforme lembra Netto os membros do corpo categoria profissional são necessariamente indivíduos diferentes têm origens situações posições e expectativas sociais diversas condições intelectuais distintas comportamentos e preferências teóricas ideológicas e políticas variadas etc 2009 p 145 E mais importante que o corpo profissional é uma unidade nãohomogênea uma unidade de diversos nele estão presentes projetos individuais e societários diversos e portanto configura um espaço plural do qual podem surgir projetos profissionais diferentes 2009 p 145 Um projeto éticopolítico para a profissão não suprime portanto as divergências mas deve ser construído se possível apesar da existência dessas diferenças e das suas contradições internas Como se trata de uma proposta coletiva construída por um sujeito coletivo com a heterogeneidade que lhe é própria como afirmamos acima o projeto éticopolítico visa a atingir toda a categoria profissional E sendo construído por uma unidade de diversos o projeto é igualmente não uma unicidade mas uma unidade possível Pensando dessa forma é possível conceber diferentes projetos éticopolíticos simultaneamente propostos que disputam a hegemonia da profissão Se entendermos as definições criticadas por Bastos 2009 como esboços de projetos éticopolíticos e não como uma avaliação maniqueísta de compromisso social as características das definições direção política e orientação teórica são perfeitamente justificáveis Seria não um julgamento do que é aceitável ou não na prática profissional do psicólogo mas o alinhamento com propostas coletivas alternativas Dito de outra forma em vez de qualificar as ações profissionais como socialmente comprometidas ou não poderíamos pensar nelas vinculadas ou articuladas a um ou a outro projeto ético político profissional Conforme lembra Netto os membros do corpo categoria profissional são necessariamente indivíduos diferentes têm origens situações posições e expectativas sociais diversas condições intelectuais distintas comportamentos e preferências teóricas ideológicas e políticas variadas etc 2009 p 145 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 15 supõe articular uma dupla dimensão de um lado as condições macrossocietárias que estabelecem o terreno sóciohistórico em que se exerce a profissão seus limites e possibilidades e de outro as respostas sóciohistóricas éticopolíticas e técnicas de agentes profissionais a esse contexto as quais traduzem como esses limites e possibilidades são analisados apropriados e projetados pelos profissionais 2007 p 222 Conquanto estejamos partindo da viabilidade da construção de projetos profissionais com diferentes fidelidades ideopolíticas o que estamos defendendo aqui e o que motivou estas considerações é a possibilidade ou não de proposição de um projeto éticopolítico para a Psicologia crítico e progressista que possa de uma parte dar suporte às decisões éticoprofissionais de ordem individual do psicólogo considerados os marcos já aludidos e para além da sua indispensável ação política como cidadão ser coparticipante de um projeto éticopolítico que se articule com projetos societários mais amplos E nesse caso evidentemente estamos nos referindo a projetos societários que apontem a transformação estrutural da sociedade capitalista e não a sua manutenção De fato é difícil imaginar que as categorias profissionais com a complexidade que comportam hoje possam convergir para um único projeto profissional Portanto é perfeitamente lícito e plausível esperar que projetos alternativos concorram pela hegemonia na categoria profissional Essa diversidade de proposições em busca de hegemonia pode inclusive ensejar a disputa de projetos que se situem dentro de um mesmo espaço do ponto de vista das perspectivas ideopolíticas e dos projetos societários aos quais eventualmente se perfilhem É desnecessário aduzir que hegemonias são construídas e conquistadas e não impostas tratase portanto de projetos que se qualifiquem como tal que consigam fazer frente à diversidade da profissão e da categoria demonstrar sua eficácia na articulação dos profissionais e sua vinculação efetiva com os projetos societários abrangentes Devese lembrar neste ponto que a possibilidade da proposição de projetos ético políticos da profissão não elide os limites da ação política e profissional antes discutidos Em síntese um projeto éticopolítico como bem define Iamamoto 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 16 Oswaldo H Yamamoto Doutor em Educação pela Universidade de São Paulo Professor Titular do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte Rio Grande do Norte RN Brasil Email oswaldoyamamotogmailcom Endereço para envio de correspondência Universidade Federal do Rio Grande do Norte Departamento de Psicologia Caixa Postal 1622 Rio Grande do Norte RN Brasil CEP 59078970 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 17 Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 1741999 Porto Alegre Artmed Iamamoto M V 1998 O serviço social na contemporaneidade trabalho e formação social São Paulo Cortez Iamamoto M V 2007 Serviço social em tempo de capital fetiche capital financeiro trabalho e questão social São Paulo Cortez Mello G N 1982 Magistério de 1o grau da competência técnica ao compromisso político São Paulo Cortez Mello S L 1975 Psicologia e profissão em São Paulo São Paulo Ática Montaño C 2002 Terceiro setor e a questão social crítica ao padrão emergente de intervenção social São Paulo Cortez Netto J P 2009 A construção do projeto éticopolítico do serviço social In A E Mota M I S Bravo R Uchoa V Nogueira R Marsiglia L Gomes M Teixeira Orgs Serviço social e saúde formação e trabalho profissional pp 141160 4a ed São Paulo Cortez Nosella P 1983 Compromisso político como horizonte da competência técnica Educação Sociedade 14 9197 Souza M P R Bastos A V B Barbosa D R 2011 Formação básica e profissional do psicólogo análise do desempenho dos estudantes do ENADE 2006 Avaliação Psicológica 103 295312 Yamamoto O H 2000 A psicologia em movimento entre o gattopardismo e o neoliberalismo Psicologia e Sociedade 1212 221233 Yamamoto O H 2007 Políticas sociais terceiro setor e compromisso social perspectivas e limites do trabalho do psicólogo Psicologia Sociedade 19 3037 Yamamoto O H Oliveira I F 2010 Política social e psicologia uma trajetória de 25 anos Psicologia Teoria e Pesquisa 26Esp 924 Yamamoto O H Souza J A J Silva N Zanelli J C 2010 A formação básica pósgraduada e complementar do psicólogo no Brasil In A V B Bastos S M G Gondim Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 4565 Porto Alegre Artmed Abbad G da S Mourão L 2010 Competências profissionais e estratégias de qualificação e requalificação In A V B Bastos S M G Gondim Orgs O trabalho do psicólogo no Brasil pp 380401 Porto Alegre Artmed Amorim K M O 2010 Compromisso social do psicólogo em artigos publicados em periódicos científicos no Brasil Dissertação de mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Norte Natal RN Bastos A V B 2009 O mundo das organizações e do trabalho o que significa compromisso social para a psicologia In M R Souza F C S Lemos Orgs Psicologia e compromisso social unidade na diversidade pp 942 São Paulo Escuta Bastos A V B Gondim S M G Orgs 2010 O trabalho do psicólogo no Brasil Porto Alegre Artmed Bastos A V B Gondim S M G Souza J A J Souza M P R 2011 Formação básica e profissional do psicólogo uma análise do desempenho das IES no ENADE2006 Avaliação Psicológica 103 313347 Botomé S P 1979 A quem nós psicólogos servimos de fato Psicologia 5 115 Botomé S P 1988 Em busca de perspectivas para a psicologia como área de atuação e como campo profissional In Conselho Federal de PsicologiaCFP Org Quem é o psicólogo brasileiro pp 273297 São Paulo Edicon Bronowski J 1979 Ciência e valores humanos Belo Horizonte Itatiaia Campos R H F 1983 A função social do psicólogo Educação Sociedade 16 7484 Coimbra C M B 1995 Os guardiães da ordem uma viagem pelas práticas psi no Brasil do milagre Rio de Janeiro Oficina do Autor Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1988 Quem é o psicólogo brasileiro São Paulo Edicon Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1992 Psicólogo brasileiro construção de novos espaços Campinas SP Átomo Conselho Federal de PsicologiaCFP Org 1994 Psicólogo brasileiro práticas emergentes e desafios para a formação São Paulo Casa do Psicólogo Gondim S M G Bastos A V B Peixoto L S A 2010 Áreas de atuação atividades e abordagens teóricas do psicólogo brasileiro In A V B Bastos S M G Gondim Referências 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social Ou Projeto ÉticoPolítico Oswaldo H Yamamoto PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO 2012 32 num esp 617 315 Evento Estudos de Psicologia 1999 42 315329 A Psicologia a caminho do novo século identidade profissional e compromisso social1 Ana Mercês Bahia Bock Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Resumo O tema A Psicologia a caminho do novo século identidade profissional e compromisso social foi desenvolvido aqui a partir de três aspectos um pequeno resgate histórico sobre o vínculo da Psicologia com a sociedade brasileira buscando caracterizar sua relação com esta sociedade em seguida desenvolver a perspectiva da profissão comprometida com a realidade social apresentando alguns critérios para se jul gar o compromisso social de práticas e saberes da Psicolo gia além da defesa de que a Psicologia como saber e fazer se desenvolva sempre vinculada à sociedade que a acolhe e para finalizar trazer a questão da identidade profissional do psicólogo partindo do princípio de que identidade deve ser sempre vista como metamorfose e como movimento perma nente de transformação O texto pretende ser uma defesa de uma identidade para os psicólogos que seja movimento e transformação porque é reflexo do vínculo que a Psicologia deve manter com a sociedade que está sempre em movi mento vínculo este de compromisso com as necessidades e demandas da maioria da população brasileira Palavraschave Psicologia profissão compromisso social identidade profissional 316 Evento A Psicologia a caminho do novo século identidade profissio nal e compromisso social O tema desta palestra que tomo como um desafio demonstra claramente que estamos utili zando o marco da mudança do século como um momento de reflexão sobre nosso futuro enquanto categoria profissional e enquanto ciên cia Estamos em um momento importante de construir planos pro jetos para o futuro projetos estes que percebemos claramente como definidores de nossa identidade profissional Estamos querendo de finir quem queremos ser no próximo século Pretensioso sim po rém necessário e correto É preciso aproveitar estes marcos e rituais Abstract Psychology towards the new century professional identity and social commitment The theme Psychology towards the new century professional identity and social commitment was elaborated here from three foundations 1 a short historical recovery of the links between Psychology and Brazilian society aiming at the portrayal of its relationship with that society 2 the development of a perspective of the profession committed to the social reality including the presentation of criteria to evaluate the social engagement of practices and understandings of Psychology and the argument that Psychology as knowledge and doings should always act in dependence to the society that hosts it 3 the prompting of the question of psychologists professional identity from the standpoint that identity should always be seen as metamorphosis and a permanent movement of transformation The text intends to be a defense of an identity for psychologists that implies movement and transformation because it is consequence of the linkage Psychology should entertain with society which is always moving a linkage of commitment to the needs and demands of the majority of the Brazilian population Keywords Psychology profession social commitment professional identity 317 Evento que a nossa cultura nos oferece para refletir sobre nossa atuação como profissionais Na verdade há apenas uma aparência de que estamos pensando apenas o futuro Não estamos pensando também o pre sente o amanhã de nossa profissão Quem queremos ser Que cara queremos dar à nossa profissão Que inserção social queremos que ela tenha Que vínculo queremos ter com a sociedade que abriga e recebe nosso trabalho Que finali dade queremos imprimir às nossas ações Estas são questões que a meu ver estão embutidas no tema Ou melhor no desafio desta pa lestra Devo confessar de início que eu gosto deste desafio Gosto de poder pensar que participo da definição do futuro de minha profis são Gosto de poder pensar que o futuro não está pronto e que me cabe participar de sua construção Isto na verdade me encanta Fa rei portanto esta reflexão com paixão podem estar certos Para começar gosto de estruturar minha reflexão para que todos possam acompanhar o caminho do meu pensamento e quem sabe chegarmos juntos no final Isto é também um ponto crucial pois projeto de futuro de uma profissão ninguém faz sozinho Teremos de enfrentar este outro desafio construir o futuro juntos Pretendo inicialmente caracterizar o vínculo que nossa profis são tem tido com a sociedade para em seguida refletir sobre o apelo que está sendo feito a ela hoje A que perguntas tem respondido e que respostas nossa profissão tem dado à sociedade brasileira De pois discutir a perspectiva de uma profissão comprometida com a realidade social para finalizar com a questão da identidade profissi onal Bem vamos ao trabalho A Psicologia e a sociedade um pequeno resgate Se voltarmos um pouco mais no tempo para começar do come ço vamos encontrar no Brasil Colonial de acordo com os estudos de Mitsuko Antunes 1999 estudos sobre fenômenos psicológicos principalmente em obras de outras áreas do saber tais como Teolo gia Moral Pedagogia Política e Arquitetura escritos por autores de formação jesuítica que tinham claramente a finalidade de contri 318 Evento buir para o controle dos indígenas São estudos sobre emoção senti dos autoconhecimento adaptação ambiental diferenças raciais e outros temas relacionados diretamente à questão do controle político da população colonial Com a vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro grandes alterações sociais acontecem em uma cidade que se aglomera sem condições básicas de vida Doenças infecciosas proliferam e campa nhas de higienização da sociedade vão tomar importância e força É grande o desenvolvimento do saber médico guiado pelas idéias da higienização e saneamento físico e moral da sociedade Os conteú dos psicológicos aparecem então nas produções médicas para carac terizar as doenças da moral presente nas prostitutas nos pobres e nos loucos É o período da criação dos grandes hospícios Como eliminar problemas que existem na sociedade Como manter mãodeobra barata sem os efeitos indesejáveis que ela tra zia As produções científicas caminhavam na direção destas ques tões e as respostas são permeadas de racismo científico como a teo ria da degenerescência quanto mais inferior é a raça mais propenso à degenerescência os indivíduos estão por isso o índice de alcoolis mo e de loucura eram mais altos entre os negros Na Primeira República última década do século XIX a Psicolo gia começa a se separar como área Na primeira metade do século XX lutase pela modernização da sociedade brasileira Havia um enorme interesse em sair da produção agrária e ingressar na modernidade através do crescimento da industrialização Estávamos lutando por uma nova sociedade que precisava para poder se desen volver a contento de um homem novo A defesa da educação da difusão do ensino das idéias escolanovistas vão embasar as produ ções da época A Psicologia vem então dar fundamentos e elemen tos para o desenvolvimento destas novas idéias educacionais E a pergunta para a Psicologia se modifica que conhecimentos científi cos são necessários para desenvolver as crianças na direção desta sociedade moderna que queremos Noções de diferenciação das pessoas a partir da idéia de capaci dades inerentes aos indivíduos vão crescer no seio da Psicologia que 319 Evento produzirá muitos instrumentos capazes de fazer estas diferenciações As influências americanas tornamse dominantes na Psicologia bra sileira As testagens psicológicas trazem também a enorme possi bilidade de respondermos adequadamente ao desafio da moderniza ção o homem certo no lugar certo Do controle do período colonial para a higienização do início do século XIX para a diferenciação no século XX O início do século XX será marcado por uma credibilidade mui to grande na educação A educação foi vista como a grande respon sável pelo desenvolvimento da sociedade A relação Pedagogiaestu dos psicológicos será então altamente reforçada A Psicologia per mitia que a Educação fosse pensada a partir de bases científicas Posteriormente na década de 30 os ideais escolanovistas vão acen tuar esta relação A Escola Nova movimento progressista na Peda gogia moderna trazia uma nova proposta educacional a partir de uma concepção de infância que abandonava a visão tradicional em que a criança era possuidora de uma natureza corrompida necessi tando ser cultivada para que o mal fosse desenraizado A criança passava a ser vista como possuidora de uma natureza pura e boa que precisava ser conhecida em sua profundidade para que o trabalho educacional pudesse contribuir para mantêla assim pura espontâ nea livre Conhecer seu desenvolvimento para poder corrigir seu percurso se tornou tarefa imprescindível Além disso todo poder de diferenciação criado pela Psicologia contribuiu para seu avanço também na área da Psicologia Organizacional ou do Trabalho Era possível atuar selecionando o homem certo para o lugar certo Institutos de seleção e orientação vão surgir como o ISOP que comemorou há pouco seus 50 anos A institucionalização da Psicologia era evidente E é importante registrar que ao lado de toda uma prática e de um conhecimento diferenciador e que via o homem de forma muito simplificada a histórica no qual o aspecto social era na maior parte das vezes relegado a segundo ou último plano convivia um conhecimento crí tico que concebia o homem e o fenômeno psicológico como indissociáveis do processo de socialização entendendo o psiquismo 320 Evento como manifestação e como instância histórica e social Helena Antipoff Manoel Bomfim e Ulisses Pernambucano representam esse setor da Psicologia que não foi vitorioso na História mas que regis trou suas idéias permitindonos hoje resgatálos Em 1962 a Psicologia foi definitivamente institucionalizada através da Lei 4119 que regulamentou a profissão no país Nos anos que se seguem cursos de Psicologia proliferaram no país associa ções profissionais e científicas campos de trabalho foram surgindo Enfim a Psicologia se desenvolvia com vigor No final de década de 70 com as grandes greves operárias a classe média também foi levada às suas organizações Criou entida des e fortaleceu as já existentes Nessa época precisamente em 1979 os psicólogos inicialmente em São Paulo mas seguidos pelo Rio de Janeiro Minas Gerais Pernambuco Rio Grande do Sul e logo de pois Brasília Ceará Paraná ocuparam ou criaram seus Sindicatos Os Conselhos foram em seguida ocupados por grupos mais progres sistas que queriam a entidade trabalhando para que a Psicologia se tornasse um instrumento a serviço da população brasileira A década de 80 trouxe novos desafios aos psicólogos A peque na mas significativa abertura do mercado de trabalho no serviço público de saúde colocou aos psicólogos e às suas entidades desafios muito grandes Era preciso reinventar uma Psicologia que permi tisse contribuir e responder às necessidades daquela população com a qual não estávamos habituados a trabalhar Esse fato contribuiu para fortalecer nossas entidades A década de 80 foi assim fervilhante para os psicólogos Os Sindicatos se uniram e criaram a Federação Nacional dos Psicólogos os Conselhos também se fortaleceram pro duzindo material escrito sobre a profissão e organizando Congressos como os CONPSI que aconteceram em São Paulo Psicólogos in gressaram e fortaleceram o movimento da saúde chegando a colo car na direção desse movimento uma psicóloga Mônica Valente além da participação ativa no Movimento da Luta Antimanicomial Estava dada a largada para um período em que os psicólogos iriam se perguntar e refletir sobre a relação de seu trabalho e do próprio fenômeno psicológico com a realidade social A realidade 321 Evento social entrava na Psicologia para remexer tudo o que durante tantos anos ficou naturalizado e cristalizado Estas questões vão tomando formas diferentes dentro da Psicologia até chegarmos ao momento atual no qual estamos colocando a questão do compromisso social de nossa profissão e de nossa ciência Discutir o compromisso social da Psicologia significa portanto sermos capazes de avaliar a sua inserção como ciência e profissão na sociedade e apontarmos em que direção a Psicologia tem cami nhado para a transformação das condições de vida Para a manu tenção Para contribuir para este debate pretendo responder a duas ques tões 1 Por que hoje se coloca esta exigência para a Psicologia de atuar com compromisso social 2 Quais os critérios para se afirmar que a intervenção demons tra compromisso social Por que hoje se coloca esta exigência para a Psicologia en quanto ciência e profissão de buscar uma produção e uma interven ção que denote compromisso social Dois pontos me parecem im portantes para responder a esta questão Primeiro é preciso comentar alguns dados sobre a situação de nosso país para que possamos caracterizar a necessidade deste tipo de intervenção Considerandose o Produto Interno Bruto PIB o Brasil ocupa hoje o lugar de 10a economia mundial Entre 174 nações o Brasil é a 10ª em produção de riqueza Mas se considerarmos agora o Índice de Desenvolvimento Humano IDH o Brasil tem outra classificação somos a 79ª nação Somos a 86ª em educação temos altos índices nas taxas de mortali dade infantil em analfabetismo e baixos nas condições de moradia e saneamento básico em atendimento à saúde da população E 158 da população brasileira ou seja 26 milhões de pessoas não têm acesso às condições mínimas de saúde educação e serviços básicos Somos para coroar esse quadro a nação campeã em concentração de renda O PIB per capita dos 20 mais ricos US18563 é 32 322 Evento vezes maior do que o dos 20 mais pobres US578 Os 20 mais pobres ficam com apenas 25 da renda enquanto que os 20 mais ricos detêm 634 dela Estes índices se traduzem em péssimas condições de vida para a maioria de nossa população que não tem acesso aos serviços básicos de saúde e educação Temos de 160 milhões de habitantes 46 mi lhões fora da escola sendo 43 milhões de adultos analfabetos totais e funcionais e 3 milhões de crianças entre 7 e 14 anos Se tomarmos o dado dos que estão na escola vamos assistir a uma mortalidade escolar termo utilizado aqui para designar a perda de alunos que a escola sofre impressionante 38 milhões no ensino fundamental 55 milhões no ensino médio e 2 milhões no ensino superior Sem distribuição de renda nenhum outro problema é resolvido e todas as medidas tornamse paliativas Temos um país no qual a média de imposto de renda das insti tuições financeiras foi em 1998 de R63000 o total de imposto territorial rural em 1998 foi 250 milhões em um país que tem a maior área cultivável do planeta para comparar o cigarro arreca dou 1 bilhão de reais no mesmo ano E que políticas sociais temos tido em nosso país Estamos sob os ditames do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional que na busca de administrar e controlar os empréstimos feitos por gran des financiadores internacionais aos países em desenvolvimento vêm interferindo em suas políticas domésticas São medidas que visam permitir que o Estado vá desinvestindo em setores nãolucrativos para poder aumentar suas possibilidades de pagamento da dívida externa Que país é este Que situação dramática a que vivemos É importante aqui fazer uma distinção semântica Muitos têm dito que vivemos uma situação trágica Não não vivemos Tragédia é um termo que designa acontecimentos que despertam lástima uma ocorrência funesta mau fado infortúnio Algo que o destino nos reservou porque independe de nossa intervenção Terremotos ci clones tempestades são tragédias Devemos utilizar nestes casos como é o caso brasileiro o termo drama que também designa acon 323 Evento tecimento terrível catastrófico mas que aqui se refere à interferên cia humana Temos em nosso país uma situação dramática Fechado esse parêntese semântico volto ao nosso drama Poderí amos ficar aqui horas descrevendo as características de nossa situa ção econômica e política e as condições de vida de nosso povo Mas sabemos que todos aqui a conhecem bem Queria apenas começar situando a sociedade em que acontece nossa profissão e nossa ciência E o que nós psicólogos temos com isto Nós profissionais da vida não podemos deixar de considerar este quadro porque é dele e nele que podemos caracterizar as neces sidades e demandas para nossa profissão Não podemos mais nos pensar como profissionais que em consultórios particulares ou es critórios oferecemos nossos serviços acreditando que estamos tendo alguma contribuição ou interferência para a melhoria das condições de vida Sei que não tem sido fácil sair destes lugares pois estamos nos centros urbanos e precisamos trabalhar Mas não perceber as limitações sociais de nosso trabalho ou mesmo pior ainda camuflar isto com justificativas de que sofrimento psíquico é igual para todos ricos e pobres é alguma coisa que não se pode mais aceitar Preci samos reconhecer as limitações de nossa ação profissional pois isto já é um bom começo Bem recordando nosso trajeto nesta reflexão estávamos bus cando responder por que hoje se coloca a exigência do compromis so social Apresentamos então dados sobre as condições de vida em nosso país e pretendemos aqui concluir este primeiro ponto afirman do que hoje se coloca essa exigência porque as condições de vida de nosso povo estão se deteriorando há muita pobreza muita carência e estas situações têm gerado sofrimento psíquico e nós psicólogos já não podemos mais estar de costas para esta realidade Ela entra pela nossa casa ela se estampa nos jornais e na televisão ela nos atinge em nosso trabalho A realidade já é tão evidente que nos per turba e nos coloca questões Mas para irmos adiante em nossa reflexão poderíamos nos per guntar mas o Brasil sempre viveu com dificuldades as condições de 324 Evento vida em nosso país podem estar piores mas nunca estiveram boas Por que agora esta exigência Porque a Psicologia vem se transformando e vem se aproximan do de visões concretas e históricas abandonando as visões naturali zantes que ainda caracterizam nossa ciência e nossas técnicas Vamos explicar melhor isto A Psicologia em seu desenvolvimento esteve sempre presa a uma dicotomia entre objetividade e subjetividade entre interno e exter no entre natural e histórico objeto e sujeito razão e emoção indiví duo e sociedade Desde Wundt temos vivido esse desafio de superar estas dicoto mias e nosso desenvolvimento teórico pode ser registrado a partir destas tentativas Mantidas estas dicotomias não temos sido capazes de compre ender o homem que não de forma a naturalizar seu desenvolvimento e seu mundo psicológico Explicando melhor porque mantemos uma visão dicotômica temos explicado o movimento do mundo psicoló gico como um movimento interno gerado por si mesmo É a ima gem do Barão de Munchhausen que sai do pântano puxando pelos seus próprios cabelos imagem esta que usei em meu trabalho de doutoramento para simbolizar as idéias que a Psicologia tem construído que vêem o homem como um ser capaz de através de seu próprio esforço se autodeterminar Bock 1999 Esta tradição naturalizante do fenômeno psicológico nos jogou em uma perspectiva de profissão que sempre compreendeu nossa intervenção como curativa remediativa terapêutica Temos nos li mitado a ela nestes anos todos de profissão Não é para menos que temos tido um modelo médico de intervenção Mas isto vem mudando A realidade objetiva o mundo social e cultural vem invadindo nosso conhecimento e já não podemos mais falar de mundo psicológico sem considerar o mundo social e cultu ral Ainda estamos construindo um modelo de relação entre estes mundos entendendo que estes se influenciam e não que constituem um ao outro Isto significa que ainda não superamos a dicotomia mas estamos caminhando 325 Evento A Psicologia tem se aberto para estas novas leituras Queremos entender o mundo psicológico como um mundo constituído a partir de relações sociais e de formas de produção da sobrevivência Quero aqui explicar melhor pois penso que este aspecto é fundamental A Psicologia ao pensar o indivíduo descolado de seu mundo social e cultural viu o desenvolvimento deste ser como produzido pelo seu próprio movimento Algo dentro de nós nos movimenta O mundo social ficou isento Construímos uma Psicologia que não pre cisa fazer qualquer referência ao mundo social e cultural para falar do humano Temos visto isto em pronunciamentos de psicólogos que explicam o que se passa com um indivíduo sem fazer qualquer refe rência a questões políticas econômicas e culturais de nossa socieda de O máximo que avançamos é até o pai e mãe do indivíduo Nem na família enquanto instituição social que se estrutura para respon der às necessidades da sociedade burguesa e capitalista chegamos ainda Mas estamos avançando A Psicologia está então se abrindo para estas questões e isto coloca o compromisso social como uma possibilidade como uma exigência como um critério de qualidade da intervenção Penso que outros aspectos existem mas me dou por satisfeita para responder à primeira questão a que me propus com estes dois elementos o país exige nosso posicionamento político no exercício da profissão e a Psicologia começa a nos possibilitar este posiciona mento com seu avanço na crítica da naturalização de fenômeno psi cológico que caracterizou a história de nosso conhecimento Psicologia e Compromisso Social uma tarefa necessária Podemos partir então para nossa segunda questão quais os crité rios para se afirmar que a intervenção demonstra compromisso soci al Não tenho aqui a pretensão de esgotar os critérios possíveis para esta classificação Mas vou apontar alguns que me parecem importantes Primeiro o trabalho do psicólogo deve apontar para a transfor mação social para a mudança das condições de vida da população brasileira Friso que disse apontar porque é a finalidade do traba 326 Evento lho que importa ser caracterizada aqui Estamos falando do compro misso portanto de uma perspectiva ética Assim vale a intenção A finalidade do trabalho O psicólogo não pode mais ter uma visão estreita de sua inter venção pensandoa como um trabalho voltado para um indivíduo como se este vivesse isolado não tivesse a ver com a realidade soci al construindoa e sendo construído por ela É preciso ver qualquer intervenção mesmo que no nível individual como uma intervenção social e neste sentido posicionada Vamos acabar com a idéia de que mundo psicológico não tem nada a ver com mundo social Que sofrimento psíquico não tem nada a ver com condições objetivas de vida Os psicólogos precisam ter clareza de que ao fazer ou saber Psicologia estão com sua prática e seu conhecimento interferindo na sociedade Temos exemplos de como nossos conceitos serviram para acobertar as desigualdades sociais Diferenças individuais pers pectivas classificatórias noções abstratas de ser humano e de mundo psicológico nas quais a noção de potencialidades estava dada de for ma apriorística à vida a própria noção de desenvolvimento permiti ram que as condições sociais que facilitam ou impedem o desenvol vimento do sujeito ficassem camufladas por detrás de discursos abs tratos e ideológicos Na área da educação existe um exemplo bem evidente falamos de fracasso escolar e de dificuldades de aprendiza gem nos referindo sempre ao aluno Como podemos acreditar que uma parte apenas de um processo a criança fracasse sozinha O processo de ensinoaprendizagem fracassou não o aluno Não temos dúvida hoje de que a Psicologia contribuiu para ocultar as condi ções desiguais de vida no decorrer da História Precisamos escapar disto e nos engajar politicamente através da finalidade de nossa intervenção Quero esclarecer que penso que sem pre tivemos finalidades para nosso trabalho mas nunca quisemos colocálas em debate Nunca quisemos evidenciálas Agora é hora Outro critério que podemos utilizar é verificar se a prática esca pa do modelo médico de fazer Psicologia Isto é se a prática desen volvida não pensa a realidade e o sujeito a partir da perspectiva da doença O psicólogo pode e deve hoje pensar sua intervenção de 327 Evento maneira mais ampla no sentido da promoção da saúde da comuni dade e isto significa compreender o sujeito como alguém que am pliando seu conhecimento e sua compreensão sobre a realidade que o cerca se torna capaz de intervir transformar atuar modificar a realidade Claro que a doença é uma possibilidade nesta realidade mas nunca pode ser o eixo para a Psicologia Um terceiro critério é o tipo de técnica que se utiliza Nossas técnicas têm sido construídas e utilizadas com uma determinada ca mada social em geral intelectualizada e muito verbal A população brasileira na sua maioria não tem costume e facilidade para traba lhar a partir das técnicas com as quais estamos acostumados É pre ciso inovar e inovar a partir das características da população a ser atendida Nossa formação tecnicista tem nos ensinado coisas pron tas para aplicar Precisamos nos tornar capazes de criar Psicologia adaptando nossos saberes à demanda e à realidade que se nos apre senta Assumir um compromisso social em nossa profissão é estar vol tado para uma intervenção crítica e transformadora de nossas condi ções de vida É estar comprometido com a crítica desta realidade a partir da perspectiva de nossa ciência e de nossa profissão É romper com 500 anos de desigualdade social que caracteriza a história bra sileira rompendo com um saber que oculta esta desigualdade atrás de conceitos e teorias naturalizadoras da realidade social Assumir compromisso social em nossa prática é acreditar que só se fala do ser humano quando se fala das condições de vida que o determinam Termos práticas terapêuticas deve significar termos práticas capazes de alterar a realidade social de denunciar as desigualdades de con tribuir para que se possa cada vez mais compreender a realidade que nos cerca e atuarmos nela para sua transformação no sentido das necessidades da comunidade social Assumir compromisso social em nossa ciência é buscar estranhar o que hoje já parece familiar é não aceitar que as coisas são porque são mas sempre duvidar e buscar novas respostas Compromisso social é estranhar é inquietarse com a realidade e não aceitar as coisas como estão É buscar saídas É isto 328 Evento que parte de nossa categoria profissional vem fazendo o que é moti vo de orgulho para todos nós Movimento e transformação uma identidade profissional para os psicólogos E para terminar minha reflexão trago a questão da identidade profissional do psicólogo Tenho resistido um pouco a discussões sobre a identidade da Psicologia porque em geral essas discussões buscam uma cara para a Psicologia pensando em poder mantêla depois de encontrada Quero uma Psicologia que se metamorfoseie o tempo todo acompanhando as mudanças da realidade social de nos so país Não podemos querer uma Psicologia que seja a cristalização de uma mesmice de nós mesmos Se entendermos que a identidade é movimento é metamorfose devemos entender que a identidade pro fissional nunca estará pronta nunca terá uma definição Estará sem pre acompanhando o movimento da realidade Na verdade penso que nos enganamos quando falamos que não temos identidade pro fissional Temos sim Temos uma identidade profissional que reflete a prática importante que temos tido porém elitista restrita pouco diversificada e colada às necessidades e demandas de setores dominan tes de nossa sociedade Uma minoria que possuindo condições de comprar nossos serviços foi por muito tempo a única usuária deles Queremos agora dar a volta por cima e construir uma profissão iden tificada com as necessidades da maioria da população brasileira uma maioria que sofre dadas as condições de vida que possui uma mai oria que luta dadas as condições de vida que possui Identificarse com as necessidades de nosso povo e acompanhar o movimento des tas necessidades sendo capazes de construirmos sempre e perma nentemente respostas técnicas e científicas É este o nosso desafio Queremos estar em busca permanente em movimento sempre Queremos que o movimento seja a nossa identidade e que a inquieta ção seja nosso lema Referências Antunes M A M 1999 A Psicologia no Brasil leitura histórica sobre sua constituição São Paulo Unimarco Bock A M B 1999 Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicolo gia São Paulo EDUC 329 Evento 1 Versão revista da palestra de abertura da II Semana Norteriograndense de Psicolo gia realizada em Natal RN nos dias 16 18 de setembro de 1999 promovida pelo CRP13Seção RN UFRN e UNP Ana Mercês Bahia Bock doutora em Psicologia Social pela PUCSP é psicóloga e professora de Psicologia Social e da Educa ção na PUCSP diretora da Facul dade de Psicologia gestões 9397 e 972001 presidente do Conse lho Federal de Psicologia gestões 9798 e 982001 É coautora do livro Psicologias uma introdução ao estudo da Psicologia pela Sa raiva e autora do livro Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia pela EDUCCortez Endereço para correspondência Pontifícia Universidade Católica de São Paulo Rua Monte Alegre 984 05014901 São Paulo SP E mail anabockzazcombr Recebido em 210999 Revisado em 181099 Aceito em 061199 Nota Sobre o autor A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Psicología para América Latina Revista de la Unión Latinoamericana de Psicología wwwpsicolatinaorg A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Ana Mercês Bahia Bock1 Pontifícia Universidade Católica de São Paulo A tradição da Psicologia no Brasil tem sido marcada pelo compromisso com os interesses das elites e tem se constituído como uma ciência e uma profissão para o controle a categorização e a diferenciação Poucas têm sido as contribuições da Psicologia para a transformação das condições de vida tão desiguais em nosso país A colonização do Brasil por Portugal foi caracterizada fundamentalmente pela exploração o que exigiu a construção de um forte aparelho repressivo As idéias psicológicas produzidas neste período por representantes da igreja ou intelectuais orgânicos do sistema português terão a marca do controle Vamos encontrar produções que buscam aumentar o controle sobre as mulheres as crianças e os indígenas No século XIX o Brasil deixa de ser colônia e transformase em império As idéias psicológicas vão ser produzidas principalmente no âmbito da medicina e da educação Com a vinda da Corte portuguesa vamos ter duas conseqüências fundamentais a demanda de serviços até então inexistentes como a educação nos seus diversos níveis inclusive superior e o século XIX vai assistir à abertura de escolas que se tornarão referência no Brasil como o colégio Pedro II a Escola Normal em Niterói e em São Paulo e o Pedagogium no Rio de Janeiro e o desenvolvimento rápido da cidade do Rio de Janeiro que sem qualquer infraestrutura para suportar esse desenvolvimento se viu às voltas com doenças miséria prostituição e loucura O século XIX vai assistir assim ao surgimento das idéias de saneamento e higienização das cidades higienização que será entendida como material e moral Buscase uma sociedade livre da desordem e dos desvios 1 Ana Mercês Bahia Bock é doutora em Psicologia Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo professora da equipe de psicologia sócio histórica da PUCSP diretora da Faculdade de Psicologia da PUCSP de 93 a 2001 e presidente do Conselho Federal de Psicologia de 97 a 2001 1 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual As idéias psicológicas puderam colaborar significativamente no trabalho da educação e da higienização moral A educação será marcada por práticas autoritárias e disciplinares A escola vai surgir como um lugar de disciplina e rigor moral caracterizandose por uma educação autoritária e disciplinadora A medicina pela criação de hospícios como asilos higiênicos e de tratamento moral em 1842 é inaugurado no RJ o hospício Pedro II em 1852 em SP o asilo Provisório de Alienados da cidade de SP A sociedade dominada pela ideologia da ordem e da higienização O final do século XIX trouxe à República a riqueza cafeeira e o desenvolvimento do pólo econômico no sudeste A psicologia adquiria o estatuto da ciência autônoma na Europa e em seguida nos Estados Unidos Na educação o pensamento está marcado pelo movimento da Escola Nova que coloca o indivíduo como eixo de sua construção e dá ênfase a preocupação cientificista transformando as escolas em verdadeiros laboratórios As idéias psicológicas foram também associadas à administração e à gestão do trabalho baseadas no pensamento taylorista E a industrialização no Brasil vai fazer novas exigências à psicologia que com a experiência da psicologia aplicada à educação pode colaborar significativamente com um conhecimento que possibilitava a diferenciação das pessoas para a formação de grupos mais homogêneos nas escolas e a seleção de trabalhadores adequados para a empresa As guerras trouxeram o desenvolvimento dos testes psicológicos instrumentos estes que viabilizaram esta prática diferenciadora e categorizadora da psicologia E foi com este lugar social que a psicologia se institucionalizou no Brasil sendo reconhecida em 1962 como profissão Esta pequena retrospectiva mostra que a Psicologia esteve comprometida com os interesses das elites brasileiras Uma profissão que quando atingiu camadas de baixo poder aquisitivo nas empresas nas escolas e na saúde esteve sempre a serviço do controle da higienização da discriminação e da categorização que permitiam melhorar a produtividade o lucro permitiam melhorar as condições de vida das elites brasileiras que sempre fizeram política nesse país a partir exclusivamente de seus interesses Esta Psicologia tradicional se desenvolveu e se fundamentou em concepções universalizantes e naturalizantes da subjetividade Idéias que pensavam o homem e seu mundo psíquico de forma a entendêlo como um ser natural dotado de capacidades e características da espécie e que inserido em um meio adequado poderia ter seu desenvolvimento Um homem que é responsável pelo seu desenvolvimento e pelo seu sucesso ou fracasso O esforço de cada um era a garantia do desenvolvimento adequado São estas idéias que vamos desenvolver aqui para podermos fazer a crítica a universalização e naturalização do homem buscando uma perspectiva histórica para a Psicologia A visão liberal de Homem O liberalismo ideologia fundamental do capitalismo nasceu com a revolução burguesa para revolucionar a ordem feudal e se instituiu para garantir a manutenção da ordem que se instalava A burguesia constituiu as idéias liberais para se opor à ordem feudal uma ordem baseada na existência de uma hierarquia no universo um mundo pensado como estável ordenado e organizado pela vontade 2 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual divina Um mundo pronto no qual a verdade se revelava aos indivíduos A hierarquia no universo se refletia na hierarquia entre os homens Um mundo paralisado no qual cada um já nascia no lugar no qual deveria ficar Um universo que tinha a Terra como seu centro Um mundo de fé e dogmas religiosos que ofereciam aos homens as idéias prontas e os valores certos para serem adotados Um mundo que desconheceu individualidades impedindo que os sujeitos se constituíssem como tal Um mundo que não precisou de uma Psicologia Assim como oposição a estas idéias do feudalismo a perspectiva liberal tem como um de seus elementos centrais a valorização do indivíduo o individualismo Cada indivíduo é um ser moral que possui direitos derivados de sua natureza humana Somos indivíduos e somos iguais fraterno e livres com direito à propriedade à segurança à liberdade e à igualdade A visão liberal quebrava a estabilidade do mundo sua hierarquia e suas certezas O indivíduo estava agora no centro e poderia e deveria se movimentar E por que surgiam estas idéias liberais Porque o capitalismo precisava destas idéias precisava pensar o mundo como em movimento para explorar a natureza em busca de matériasprimas e precisava dessacralizar a natureza O capitalismo precisava do indivíduo como ser produtivo e consumidor A Terra já podia então tomar seu humilde lugar no universo A verdade já podia ser plural O mundo estava posto em seu movimento O homem também estava em seu movimento E neste mundo agora incerto o homem se viu frente à possibilidade de ser de pensar e de fazer A escolha tornavase uma exigência e um elemento da condição humana Escolher entre várias possibilidades e escolher diferentemente de outros permite o desenvolvimento de uma noção de indivíduo e conseqüentemente uma noção de eu entre os homens Fertilizando estes novos elementos vamos assistir ao desenvolvimento da noção de vida privada Estudos interessantes existentes hoje mostram como a vida coletiva vai dando lugar a um espaço privado de vida As casas vão modificando sua arquitetura para reservar locais privados para os indivíduos os nomes vão se individualizando marcas vão sendo colocadas em roupas guardanapos lençóis permitindo identificação A vida do trabalho vai saindo da casa para a fábrica modificando o caráter da vida pública A casa vai se tornando lugar reservado à família que dentro de casa vai também dividindo espaços e permitindo lugares mais individuais e privados Os banheiros saem dos corredores para se tornarem lugares fechados e posteriormente individualizados A noção de eu e a individualização vão nascendo e se desenvolvendo com a história do capitalismo A idéia de um mundo interno aos sujeitos da existência de componentes individuais singulares pessoais privados vai tomando força permitindo o desenvolvimento de um sentimento de eu A possibilidade de uma ciência que estude este sentimento e este fenômeno também é resultado deste processo histórico A Psicologia vai se tornando necessária As idéias liberais construídas no decorrer do desenvolvimento do capitalismo vão permitir a construção de uma determinada Psicologia Essas idéias se caracterizam fundamentalmente por pensar o homem a partir da noção de natureza humana Uma natureza que nos iguala e exige liberdade como condição para o desenvolvimento das potencialidades das quais somos dotados como seres humanos Importante notar que o liberalismo propiciou com estas idéias de igualdade natural entre os homens o questionamento das hierarquias sociais e desigualdades características do período histórico da feudalismo Ao homem deveriam ser dadas as melhores condições de vida para que seu potencial natural pudesse 3 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual desabrochar Frente às enormes desigualdades sociais do mundo moderno o liberalismo produziu sua própria defesa construindo a noção de diferenças individuais decorrentes do aproveitamento diferenciado que cada um faz das condições que a sociedade igualitariamente lhe oferece Assim as condições históricas deste período permitiram o surgimento da Psicologia e do próprio fenômeno psicológico como hoje está constituído As idéias naturalizadoras do liberalismo serão responsáveis pela concepção de fenômeno psicológico que se tornará dominante na Psicologia Para tratar deste assunto escolhemos trazer alguns dados da pesquisa realizada por Bock 1999 sobre o significado do fenômeno psicológico do fenômeno psicológico entre os psicólogos de São Paulo Na publicação de tese de doutorado Bock 1999 relata que encontrou em questionário aplicados a 44 psicólogos muitas definições para o fenômeno psicológico acontecimento organísmicos manifestações do aparelho psíquico individualidade algo que ocorre na relação e é o que somos conflitos pulsionais confusão mental manifestação do homem pensar e sentir o mundo o homem e relação com o meio consciência saberse indivíduo o que se mostra subjetividade funções egóicas existência intersubjetiva experiências vivências loucura distúrbio o próprio homem evento estruturantes do homem comportamento engrenagem de emoção motivação habilidades e potencialidades experiências emocionais psique pensamento sensação emoção e expressão entendimento de si e do mundo manifestação da vida mental tudo que é percebido pelos sentidos é consciente e é inconscienteBock 1999 pag 173 Cabe ainda trazer alguns dados a mais deste trabalho de Bock Os psicólogos utilizamse de chavões para designar o fenômeno psicológico O fenômeno é biopsicosocial O fenômeno envolve ou implica a interação entre pessoas O fenômeno se refere ao um indivíduo que é agente e sujeitoBock 99 174 Ainda elementos recorrentes nas respostas aos questionários que indicam elementos de uma conceituação consensual entre os psicólogos É um fenômeno interior ao homem Tem vários componentes É uma estrutura uma organização interna ao homem Possui aspectos conscientes e inconscientes Há algo de biológico e de social neste fenômeno A interação é importante na sua constituiçãointeração com o meio com os outros Recebe influência de fora e influência do meio É um fenômeno possível de ser conhecidoconsciente mas tem aspecto a que não se tem acessoinconsciente O psicólogo possui instrumento e conhecimentos para contribuir no conhecimento desse fenômeno e na sua restruturação É um fenômeno que se desestrutura A noção de desequilíbrio de desorganização de desestruturação é bastante presente Alguns identificam o fenômeno com a sua desestruturação 4 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual isto é o fenômeno é a doença o desequilíbrio ou o conflito Há uma noção presente em alguns questionários que é a identificação do fenômeno com a possibilidade de o indivíduo relacionarse consigo mesmoBock 99 pag 174175 Mas que coisa é esta o fenômeno psicológico Ora é processo ora é estrutura ora manifestação ora relação ora é conteúdo ora é distúrbio ora experiência É interno mas com relação com o externo É biológico é psíquico e é social é agente e é resultado é fenômeno humano relacionado ao que denominamos eu O fenômeno psicológico seja lá qual for sua conceituação aparece descolado da realidade na qual o indivíduo se insere e mais ainda descolado do próprio indivíduo que o abriga Esta é a noção algo que se abriga em nosso corpo do qual não temos muito controle visto como algo que em determinados momentos de crise nos domina sem que tenhamos qualquer possibilidade de controlálo algo que inclui segredos que nem eu mesmo sei algo enclausurado em nós que é ou contém um verdadeiro eu E aqui cabe falarmos da relação deste fenômeno psicológico com o meio social e cultural Esta relação é afirmada como necessária e importante por muitos psicólogos no entanto é vista como uma relação na qual o externomundo social impede e dificulta o pleno e livre desenvolvimento de nosso mundo internopsicológico O mundo social é um mundo estranho ao nosso eu Um lugar no qual temos que estar e por isto nos resta a tarefa de nos adaptarmos E a história deste aparato psicológico passa a ser a história da sua adaptação ao mundo social cultural e econômico Trabalhar relacionarse aprender fazer são atividades desta adaptação Amar emocionarse perceber motivarse são vistas também como possibilidades humanas que se desenvolvem ou melhor se atualizampois já eram potencializadas neste mundo externo Um fenômeno abstrato visto como característica humana Um fenômeno que existe em nós como estrutura processo expressão ou qualquer de suas conceituações porque somos humanos e ele pertence a nossa natureza Fica então naturalizado o fenômeno psicológico Algo que lá está como possibilidade quando nascemos algo que deverá ser fertilizado por afeto estimulações adequadas e boas condições de vida mas que lá está pronto para desabrochar Em defesa de uma visão histórica do fenômeno psicológico A Psicologia SócioHistórica que toma como base a Psicologia históricocultural de Vigotski 1896 1934 se apresenta desde seus primórdios como uma possibilidade de superação destas visões dicotômicas O discurso de Vigostki no II Congresso PanRusso de Psiconeurologia em 1924 sobre o método de investigação reflexológica e psicológica demonstra isto com clareza ao fazer a crítica a posições que foram consideradas reducionistas e ao incentivar a produção de uma Psicologia dialética A psicologia sóciohistórica tem inerente a ela a possibilidade de crítica Não apenas por uma intencionalidade de quem a produz mas por seus fundamentos epistemológicos e teóricos Fundamentase no marxismo e adota o materialismo histórico e dialético como filosofia teoria e método Nesse sentido concebe o homem como ativo social e histórico A sociedade como produção histórica dos homens que através do trabalho produzem sua vida material As idéias como representações da realidade material A realidade material como fundada em contradições que se expressam nas idéias E a história como o movimento contraditório constante do fazer humano no qual a partir da base material deve ser compreendida toda produção de idéias inclusive a ciência e a 5 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual psicologia A Psicologia SócioHistórica não trabalha com a concepção liberal de homem e de fenômeno psicológico Acredita que o fenômeno psicológico se desenvolve ao longo do tempo Assim o fenômeno psicológico não pertence à Natureza Humana o fenômeno psicológico não pré existe ao homem o fenômeno psicológico reflete a condição social econômica e cultural em que vivem os homens Portanto para a SócioHistórica falar do fenômeno psicológico é obrigatoriamente falar da sociedade Falar da subjetividade humana é falar da objetividade onde vivem os homens A compreensão do mundo interno exige a compreensão do mundo externo pois são dois aspectos de um mesmo movimento de um processo no qual o homem atua e constrói modifica o mundo e este por sua vez propicia os elementos para a constituição psicológica do homem As capacidades humanas devem ser vistas como algo que surge após uma série de transformações qualitativas Cada transformação cria condições para novas transformações em um processo histórico e não natural O fenômeno psicológico deve ser entendido como construção no nível individual do mundo simbólico que é social O fenômeno deve ser visto como subjetividade concebida como algo que se constituiu na relação com o mundo material e social mundo este que só existe pela atividade humana Subjetividade e objetividade se constituem uma à outra sem se confundirem A linguagem é mediação para a internalização da objetividade permitindo a construção de sentidos pessoais que constituem a subjetividade O mundo psicológico é um mundo em relação dialética com o mundo social Conhecer o fenômeno psicológico significa conhecer a expressão subjetiva de um mundo objetivocoletivo um fenômeno que se constitui em um processo de conversão do social em individual de construção interna dos elementos e atividades do mundo externo Conhecêlo desta forma significa retirálo de um campo abstrato e idealista e dar a ele uma base material vigorosa Permite ainda que se supere definitivamente visões metafísicas do fenômeno psicológico que o conceberam como algo súbito algo que surge no homem ou melhor algo que já estava lá em estado embrionário e que se atualiza com o amadurecimento humano O homem e o fenômeno psicológico pensados como sementes que se desenvolvem e desabrocham E por que a psicologia sóciohistórica é crítica a estas perspectivas Porque tais perspectivas fazem uma psicologia descolada da realidade social e cultural que é constitutiva do fenômeno psicológico E isto é uma questão importante porque é desta descolagem que se constitui o processo ideológico da psicologia Passamos a contribuir significativamente para ocultar os aspectos sociais do processo de construção do fenômeno psicológico em cada um de nós Fazemos ideologia Ideologia como definida por Charlot é um sistema teórico cujas idéias têm sua origem na realidade como é sempre o caso das idéias mas que coloca ao contrário que as idéias são autônomas isto é que transforma em entidades e em essências as realidades que ele apreende e que assim desenvolve uma representação ilusória ao mesmo tempo daquilo sobre o que trata e dele próprio e que graças a essa representação ilusória desempenha um papel mistificador quase sempre inconscienteo próprio ideológico é mistificado acredita na autonomia de suas idéias as idéias assim destacadas de sua relação com a realidade servem com efeito para construir um sistema teórico que camufla e justifica a 6 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual dominação de classe Ideológico não significa portanto errôneo Aliás é porque uma ideologia é um sistema ilusório e não um sistema de idéias falsas que é social e potencialmente eficaz Charlot 1979 p32 Chauí nos ajuda a completar o conceito quando afirma que a operação da ideologia é a criação de universais abstratos isto é a transformação das idéias particulares da classe dominante em idéias universais de todos e para todos os membros da sociedade Essa universalidade das idéias é abstrata porque não corresponde a nada real e concreto visto que no real existem concretamente classes particulares e não a universalidade humana As idéias da ideologia são pois universais abstratos Chauí 1981 p95 A ideologia é assim uma representação ilusória que fazemos do real O ilusório da ideologia está em que parte da realidade fica ocultada nas constituições ideais Na psicologia ao construirmos as noções e teorizações sobre o fenômeno psicológico tem ficado ocultada a sua produção social Com isto as conseqüências são danosas do ponto de vista das possibilidades da psicologia contribuir para a denúncia e a transformação das condições de vida constitutivos do fenômeno O fenômeno psicológico como qualquer fenômeno não tem força motriz que lhe seja própria É na relação com o mundo material e social que se desenvolvem as possibilidades humanas Claro há um corpo biológico que se instituiu como elemento básico da relação e é nele que se processará o que estamos chamando de fenômeno psicológico Esta relação com o mundo através da atividade dos sujeitos se torna essencial para que algo ocorra em nós Temos usado a imagem do Barão de Munchhausen para expressar uma compreensão da ideologia que se constitui a partir da psicologia Uma outra vez quis saltar um brejo mas quando me encontrava a meio caminho percebi que era maior do que imaginara antes Puxei as rédeas no meio de meu salto e retornei à margem que acabara de deixar para tomar mais impulso Outra vez me saí mal e afundei no brejo até o pescoço Eu certamente teria perecido se pela força de meu próprio braço não tivesse puxado pelo meu próprio cabelo preso em rabicho a mim e a meu cavalo que segurava fortemente entre os joelhos Raspe p40 É esta a melhor imagem que encontramos para designar esta ideologia do esforço próprio de cada um para desenvolverse para desenvolver o potencial contido em sua natureza A Psicologia tem assim há anos contribuído para responsabilizar os sujeitos por seus sucessos e fracassos temos pensado e defendido condições de vida como canteiro apropriado ou não para o desabrochar de potencialidades temos acreditado e contribuído para classificar e diferenciar pessoas pelas suas características e dinâmicas psicológicas temos criado ou contribuído para reforçar padrões de conduta que interessam à sociedade manter como conduta necessária ao bom desenvolvimento das pessoas A psicologia tem reforçado formas de vida e de desenvolvimento das elites como padrão de normalidade e de saúde contribuindo para a construção de programas de recuperação e assistência àqueles que não conseguem ao puxarem pelos seus próprios cabelos se desenvolver nesta direção Tem transformado o diferente o fora do padrão dominante em anormal A psicologia não tem sido capaz de ao falar do fenômeno psicológico falar de vida das condições econômicas sociais e culturais nas quais se inserem os homens A psicologia tem ao contrário contribuído significativamente para ocultar estas condições Falase da mãe e do pai sem falar da família como instituição social marcada historicamente pela apropriação dos sujeitos falase da sexualidade sem falar da tradição judaicocristã de repressão à sexualidade falase da identidade das mulheres sem se falar das características machistas de nossa cultura falase do corpo sem inserilo na 7 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual cultura falase de habilidade e aptidões de um sujeito sem se falar das suas reais possibilidades de acesso à cultura falase do homem sem falar do trabalho falase do psicólogo sem falar do cultural e do social Na verdade não se fala de nada Fazse ideologia Reverter este processo de construção da psicologia como ciência e profissão implica a nosso ver redefinir o fenômeno psicológico E por que este aspecto faz da psicologia sóciohistórica uma perspectiva crítica Porque já não poderemos mais pensar a realidade social econômica e cultural como algo fora do Homem estranho ao mundo psicológico que aparece como algo que o impede o anula ou o desvirtua O mundo social e o mundo psicológico caminham juntos em seu movimento e a psicologia para compreender o mundo psicológico terá obrigatoriamente que trazer para seu âmbito a realidade social na qual o fenômeno psicológico se constrói e por outro lado ao estudar o mundo psicológico estará contribuindo para a compreensão do mundo social Trabalhar para aliviar o sofrimento psicológico das pessoas possibilitará e exigirá do psicólogo um posicionamento ético e político sobre o mundo social e psicológico A psicologia sóciohistórica pretende assim ser crítica porque posicionada A psicologia sóciohistórica exige a definição de uma ética e exige uma visão política sobre a realidade na qual nosso objeto de estudo e trabalho se insere A psicologia sóciohistórica carrega intrinsecamente à sua forma de pensar a realidade e o mundo psicológico esta perspectiva e a necessidade deste posicionamento As idéias liberais serão responsáveis pelo desenvolvimento da concepção de fenômeno psicológico dominante na Psicologia Um fenômeno concebido de forma abstrata enclausurado no homem descolado da realidade social a não ser como oportunidades para o desabrochar do potencial algo em nosso corpo do qual não temos muito controle visto como algo que em determinados momentos de crise nos domina sem que tenhamos qualquer possibilidade de controlálo algo que inclui segredos que nem eu mesmo sei algo enclausurado em nós que é ou contém um verdadeiro eu Cabe ressaltar que nesta concepção a sociedade aparece como algo que se contrapõe aos movimentos naturais do humano A sociedade é algo oposto aos nossos interesses naturais O Mundo externo impede dificulta o pleno desenvolvimento de nosso mundo interno Mundo interno e mundo externo ficam definitivamente separados Ciências diferentes são criadas para dar conta destas realidades tão diversas A Psicologia enquanto ciência do mundo interno abandona qualquer vínculo mais profundo com a realidade social e cultural para pensar o homem isolado para estudar o fenômeno psicológico como algo já existente no homem que independe da relação com o mundo cultural para se constituir A Prática profissional surge então carregada de uma perspectiva corretiva e terapêutica Não poderia ser outra pois se já somos o que vamos ser dada a natureza humana da qual somos dotados a Psicologia só poderia se constituir enquanto prática profissional como um conhecimento e um conjunto técnico que detecta desvios do desenvolvimento humano em relação ao que é concebido como natural propondose como algo que reencaminha realinha adapta cura A Psicologia se associa a idéia de doença mas nosso objeto de trabalho não é o corpo que adoece Nosso objeto é o mundo simbólico Nosso objeto é o registro que os sujeitos fazem do mundo que os cerca do cotidiano Esse mundo não fica doente Esse mundo se estrutura se desetrutura sofre mas não fica doente no sentido de adquirir mal moléstia ou enfermidade Só uma noção naturalizante do mundo psicológico poderia ter chegado a essas noções Pois se o mundo psicológico é natural é da espécie é de nossa natureza humana já está lá e será desenvolvido com o passar do tempo e das experiências Aí sim podese pensar que ele adoece 8 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual A conseqüência mais evidente de tudo isto é que a Psicologia tornase uma ideologia pois ajuda a acobertar as condições sociais que constituem o homem Todas as qualidades e todos os defeitos dos humanos são analisados da perspectiva naturalizante E tudo que foge à regra ao esperado ao comum é patologizado Abrimos mão de nossa possibilidade de a partir do sofrimento psicológico denunciar as condições de vida que desigualam desestruturam e geram sofrimento A Psicologia se instituiu assim em nossa sociedade moderna como uma ciência e uma profissão conservadoras que não constrói nem debate um projeto de transformação social É hora de rompermos É hora de fazermos a crítica contundente a esta perspectiva liberal de homem É hora de abandonarmos definitivamente as visões naturalizantes de homem e de mundo adotando perspectivas históricas Necessitamos rever nossos conhecimentos e práticas a partir de noções que entendam o homem como um ser constituído ao longo de sua própria vida ao longo de sua ação sobre o mundo na interação com os outros homens inseridos em uma cultura que acumula e contém o desenvolvimento de gerações anteriores O fenômeno psicológico não pertence mais à natureza humana O homem ao construir a cultura e a sociedade se libertou de sua natureza ultrapassando seus limites e características O fenômeno psicológico como registro no homem de sua relação com o mundo na medida em que este mundo é social e cultural passa a se caracterizar por esta condição Assim o fenômeno psicológico não preexiste no homem Se desenvolve conforme o homem se insere na sociedade nas relações e na cultura Ali estão as possibilidade do homem se tornar humano A humanidade do homem está na cultura nas relações sociais e nas formas de produção da vida É lá que o homem vai buscar os elementos para sua constituição A concepção histórica do fenômeno psicológico permite que se pense o homem e o mundo em permanente movimento permite que se construa uma prática profissional e saberes em Psicologia colados a um projeto de sociedade permite que o psicólogo perceba claramente sua profissão como um fazer social que incentiva um determinado projeto de transformação social A concepção histórica do fenômeno psicológico contribui significativamente para a superação de perspectivas estigmatizadoras que a Psicologia desenvolveu O homem é visto como uma construção do homem O controle a categorização e a diferenciação deixam de ser entendidas como naturais para serem lidas como um determinado compromisso da Psicologia com as necessidades e projetos sociais Os processos a serem analisados são da objetivação do homem em seu mundo e o da apropriação do mundo pelo homem para se constituir O homem atua pondo no mundo social seus conteúdos individuais O homem se objetiva no mundo e faz isto junto com os outros homens Assim a humanidade vai se constituindo no mundo nos objetos na cultura nas formas de sobrevivência e de produção humanas De lá que o homem vai retirar o material para se constituir Vai se apropriar da humanidade que construiu ao transformar o mundo Vai retomar para si a humanidade que construiu Assim o homem se constrói ao construir o seu mundo Pensar esse processo de construção da subjetividade como um movimento e uma relação do homem com o mundo no qual nem homem nem mundo existem a priori em um certo sentido é superar visões naturalizantes e ideológicas na Psicologia O mundo psicológico que estudamos não é natural não está lá pronto não possui conteúdos universais nem processos e estruturas prontas para serem movimentadas ou preenchidas 9 A perspectiva histórica da subjetividade uma exigência para la Psicologia atual Pensar desta forma a subjetividade nos coloca em uma outra relação com o mundo social Passamos a perceber a necessidade de nos posicionarmos sobre qual homem e qual sociedade queremos estimular Isto porque passamos a pensar que o mundo psicológico não está pronto e nem mesmo tem direção para seu desenvolvimento dada naturalmente Nossas intervenções profissionais são portanto direcionamentos Qual mundo queremos estimular Qual sociedade Qual subjetividade Qual homem Ao mesmo tempo que esta tarefa de definirmos o projeto de nossa intervenção se coloca como obrigatória outro ganho acontece Passamos a nos ver como profissionais que através de nossas intervenções atuamos no mundo mudamos o mundo nos objetivamos no mundo Nos vemos então como sujeitos que transformam o mundo a partir de sua prática profissional Isto passa a exigir que façamos de nosso projeto profissional um projeto político de construção do âmbito coletivo A Psicologia brasileira precisa se voltar para a sociedade Precisa se perceber como uma intervenção política na sociedade A história de nossa ciência e de nossa profissão mostra que sempre estivemos comprometidos com interesses sociais Sempre fizemos de nossa ciência e de nossa profissão um instrumento político No entanto a revisão histórica mostra que estivemos comprometidos com os interesses das elites brasileiras Queremos com a perspectiva histórica na Psicologia reverter esse processo e nos comprometermos com outros setores da população Queremos acreditar que é possível pensar que os sofrimentos psíquicos que temos e que nossos conteúdos e estruturas psíquicas são reflexo de um mundo de competição de discriminação de estigmatização de diferenciação e que querer trabalhar para mudar esses quadros é também acreditar que um mundo melhor é possível É em prol desse projeto de um mundo melhor que queremos colocar nossa profissão Referências Bibliográficas Antunes Mitsuko A M A Psicologia no Brasil leitura histórica sobre sua constituição Enimarco Ed EDUC São Paulo 1999 Bock Ana MB Aventuras do Barão de Munchhausen na Psicologia EdCortezEDUC São Paulo 1999 Chauí Marilena O que é a ideologia coleção 0Primeiros Passos EdBrasiliense 2ª edição São Paulo 1981 Lowy Michael As aventuras de Karl Marx contra o Barão de Munchhausen EdBusca Vida São Paulo 1987 Lowy Michael Ideologias e Ciências Sociais elementos para uma análise marxista EdCortez 4ª edição São Paulo 1988 Warde Miriam J Liberalismo e Educação tese de doutoramento PUC 0São Paulo 1984 10 Departamento de Administração CONTRATO PSICOLÓGICO E COMPROMETIMENTO DOS PROFISSIONAIS QUE ATUAM EM ORGANIZAÇÕES DO TERCEIRO SETOR Aluna Camila S do Carmo Orientador José Roberto Gomes da Silva Introdução O terceiro setor está conquistando notoriedade a cada dia com o expressivo crescimento de organizações dessa área de atuação e o conseqüente aumento do número de contratações de profissionais para atuar no setor Um levantamento feito pelo Instituto Superior de Estudos da Religião Iser concluiu que cerca de 1 milhão de pessoas são contratadas com a carteira assinada em entidades assistenciais1 Segundo um estudo feito pela FASFIL As Fundações Privadas e Associações sem Fins Lucrativos no Brasil houve um crescimento de 157 no número de organizações sem fins lucrativos no Brasil no período de 1995 a 2002 alcançando o número de 276 mil organizações 2 Outros dados mais recentes divulgados no início de 2006 pelo estudo do programa de voluntários das Nações Unidas UNV em parceria com Johns Hopkins Center for Civil Society Studies instituição norteamericana que estuda as organizações sem fins lucrativos no mundo apontaram um crescimento de 71 do setor sem fins lucrativos no Brasil no período de 1995 a 2007 passando de 190 mil para 326 mil3 O aumento encontrado pelas pesquisas reafirma a importância que essas organizações têm na sociedade assim como o seu tamanho é representativo na economia do Brasil seja pela geração de oportunidades de trabalho devido ao presente desemprego no país seja pelo trabalho filantrópico exercido em contrapartida ao enfraquecimento do Estado no papel de provedor de bemestar social para a população Landim 1993 Além disso o interesse das empresas privadas em investir em boas ações para se tornarem mais competitivas no mercado também vem impulsionando esse crescimento4 Dentre os empregados desse novo setor da economia podese encontrar profissionais vindos de empresas o que levanta a hipótese de o terceiro setor estar oferecendo remunerações compatíveis com o setor privado Porém esse é um fato ainda controverso já que segundo Mauro Silveira Uma nova profissão à vista Marketing Social revista Você SA 220200 um diretor pode chegar a receber R20 mil enquanto Amalia Sima e Paulo de Souza afirmam em seu livro Marketing Social Crescente Editorial que o salário médio no setor para esse mesmo cargo seria de R1663 O fato é que existem profissionais que trocam seus cargos em grandes empresas com grandes salários por outros em organizações do terceiro setor mesmo com a diminuição da remuneração5 Os indivíduos estão buscando mais qualidade de vida o que vai além dos altos salários Atualmente organizações que podem oferecer realização profissional e pessoal possuem um grande diferencial aos olhos dos profissionais Segundo Bernardo Toro filósofo e especialista em pesquisa e tecnologia e também um dos maiores pensadores do terceiro 1 Fonte httprevistaepocaglobocomRevistaEpoca0EDG57716601200html em 2122008 2 Fonte httpwwwgifeorgbrnumerosdadosopenphpcampo31camposcampo2campo1 campo4campo3x21y2tamanhodetela2tipoie acessado em 2122008 3 Fonte httpwwwgifeorgbrnumerosdadosopenphpcampo31camposcampo2campo1 campo4campo3x21y2tamanhodetela2tipoie acessado em 2122008 4 Fonte httpwww2uolcombrcanalexecutivonotas081902200816htm acessado em 2222008 5 Fonte httpwwwcathocombrjcsinputerviewphtmlid3042 acessado em 2122008 Departamento de Administração setor para um indivíduo ser importante em uma sociedade não é necessário possuir apenas dinheiro É necessário ir além tendo muitos contratos sociais e pertencendo a muitas organizações úteis6 Contudo sabendo que existem variáveis influenciadoras no processo de decisão por uma carreira é necessário identificar Em que se baseia o comprometimento do profissional com a organização do terceiro setor Quais expectativas pessoais e profissionais são criadas a respeito dessa organização E como estes indivíduos constroem o seu contrato psicológico nessas organizações do terceiro setor Estas são algumas perguntas que podem ser feitas dentre tantas outras a respeito de tal assunto Embora haja uma grande quantidade de estudos científicos voltados para o terceiro setor e a respeito do contrato psicológico e do comprometimento dos indivíduos com as organizações às quais pertencem esses estudos em sua grande maioria se concentram em trabalhadores fora do terceiro setor Este estudo traz uma análise relevante que poderá servir de referência para os gestores das organizações de terceiro setor oferecendo informações importantes para o relacionamento com os seus funcionários e a análise das expectativas que esses mantêm sobre a relação de trabalho auxiliando a adaptálos ao contexto da organização O estudo se insere em uma linha de pesquisa desenvolvida no IAGPUCRio que tem como objetivo principal compreender a maneira como os profissionais vêem as alternativas de trabalho no atual contexto da sociedade brasileira Na linha de pesquisa outras formas de relações de trabalho já vêm sendo estudadas tais como aqueles que envolvem empregados terceirizados trabalhadores autônomos ou autoempregados e teletrabalhadores O estudo sobre os indivíduos que trabalham em organizações do terceiro setor foco do projeto PIBICCNPq a que se refere este relatório foi iniciado em janeiro de 2008 O presente relatório apresenta os primeiros resultados consolidados da revisão de literatura e da pesquisa de campo já realizada Objetivos Este estudo tem como objetivo analisar o contrato psicológico dos indivíduos que optam pela carreira no terceiro setor assim como qual é a relação de comprometimento com as organizações que pertencem A relevância desta pesquisa se deve principalmente ao fato de serem ainda escassos os estudos que focalizam os aspectos que influenciam as relações de trabalho no terceiro setor se comparados ao volume de conhecimento produzido sobre o contexto do trabalho no setor público e nas empresas industriais e comerciais O Terceiro Setor O terceiro setor é a denominação dada a organizações de iniciativa privada que visam à produção de bens e serviços públicos fazendo referência ao Estado e ao Mercado o primeiro e segundo setor respectivamente através da negação de nem governamental nem lucrativo Dessa forma visa um conjunto de organizações e iniciativas privadas que visam a produção de bens e serviços públicos Fernandes 1994 p21 Logo as organizações do terceiro setor agem em prol de benefícios coletivos papel também desempenhado pelo Governo mas a partir de indivíduos que acreditam que são necessárias mudanças e que podem tomar a iniciativa para que mudanças sociais aconteçam mesmo não fazendo parte do Estado ou visando lucro como as organizações privadas O terceiro setor poderia ser reconhecido por quatro segmentos formas tradicionais de ajuda mútua que inclui creches e hospitais movimentos sociais e das ações civis que defendem e reinvidicam causas junto à sociedade e ao estado organizações não 6 Fonte httpportalexameabrilcombrdegustacaosecuredegustacaodoCODSITE35CODRECURSO211UR LRETORNOhttpportalexameabrilcombrempresasm0076789html acessado em 2222008 Departamento de Administração governamentais ONGs e filantropia empresarial Fernandes 1994 Porém esse termo terceiro setor para algumas pessoas envolve todo o conjunto de ONGs movimentos sociais e outros grupos associados que passaram a construir um setor econômico denominado economia social e se propõem a pôr em prática ações sociaispúblicas sem fins lucrativos Matos 2005 p40 A existência de diversas denominações que podem ser encontradas para tal termo pode ser justificada pela imprecisão conceitual surgida da dificuldade de agrupar as diferentes organizações em um mesmo grupo segundo características comuns Coelho 2000 É um tipo de Frankenstein grande heterogêneo construído de pedaços desajeitado com múltiplas facetas É contraditório pois inclui tanto entidades progressistas como conservadoras Abrange projetos e programas sociais que objetivam tanto a emancipação dos setores populares e a construção de programas meramente assistenciais compensatórios estruturados segundo ações estratégicoracionais pautadas pela lógica do mercado Um ponto em comum todos falam em nome da cidadania O novo associativismo do terceiro setor tem estabelecido relações contraditórias com o antigo associativismo advindo dos movimentos sociais populares na maioria urbanos dos anos 70 e 80 Gohn 2000 p60 apud Matos 2005 Relação de trabalho no terceiro setor Segundo Pereira 2004 as organizações do terceiro setor principalmente as de médio ou grande porte estão cada vez gerando mais cargos a serem ocupados e criando diferentes relações de trabalho As relações mais presentes que podem ser citadas são a Trabalho autônomo caracterizado pela ausência de subordinação e capacidade de autodeterminação do trabalhador quanto à suas atividades que no terceiro setor significa horários flexíveis que adaptam o trabalhador às necessidades da entidade e a definição de limites de forma mais livre b Trabalho voluntário que no terceiro setor é caracterizado como o trabalho voluntário contratual uma pessoa física presta serviço nãoremunerado e vinculase a instituição através de um Termo de Adesão que constitui em um instrumento informal de contrato c Trabalho celetista quando o indivíduo estabelece relação de emprego com a instituição e apresenta a Carteira de Trabalho e Previdência Social assinada segundo a Consolidação das Leis Trabalhistas CLT d Estagiário que é a relação do indivíduo com a instituição com o objetivo de complementar o ensino desenvolvendo atividades adaptadas ao currículo escolar e tem a intervenção obrigatória da instituição de ensino Comprometimento Comprometimento Organizacional pode ser definido como o grau com que um funcionário se identifica com determinada organização e seus objetivos desejando manterse como parte dela Robbins 2005 Ou seja representa a atitude do funcionário ante o trabalho observada através de fatores pessoais de seu comportamento Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Makin 1999 apontam que pessoas que estão comprometidas com a instituição a que pertencem empenhamse mais nas suas atividades e na busca dos objetivos organizacionais sendo capazes de ir além do exigido em sua função para atingilos e reforçar seus valores Esses indivíduos adotam comportamentos como sentimento de responsabilidade adesão e trabalho suplementar como resultado do investimento que está sendo aplicado à organização Departamento de Administração Segundo Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Makin 1999 o comprometimento organizacional pode ser classificado em três tipos afetivo de continuação e normativo Isso porque conforme os autores a natureza do compromisso psicológico entre o funcionário e a organização pode ser distinta e todos os funcionários têm inevitavelmente algum vínculo com a organização mas esses vínculos diferem conforme eles são desenvolvidos e se mantêm no ambiente organizacional O comprometimento afetivo acontece quando há apego envolvimento uma identificação do indivíduo com a organização Nesses casos os funcionários permanecem nas empresas porque assim desejam e os indivíduos aceitam a influência da organização porque as atitudes demonstradas da organização são coerentes com seus próprios valores Segundo os autores esse tipo de comprometimento será induzido por experiências anteriores em especial aquelas que satisfizeram as necessidades dos empregados Indivíduos afetivamente mais comprometidos tendem a se sentir mais motivados e a participar mais ativamente na organização O comprometimento de continuação está relacionado aos custos percebidos em deixar a organização Nesse caso a necessidade de se manter trabalhando para a organização é o que os mantêm nela As atitudes e os comportamentos dos indivíduos são norteados por recompensas específicas e não pela congruência de crenças e atitudes Quando esse tipo de comprometimento tornase predominante a relação com a motivação é negativamente afetada assim como o desempenho e a satisfação O comprometimento normativo está relacionado com um alto nível de comprometimento com a organização com o sentimento de obrigação moral de permanecer na organização Os indivíduos permanecem nas organizações porque se sentem obrigados a isso Essa obrigação moral pode ser desencadeada por experiências vividas pelos empregados durante o processo de socialização organizacional como a criação de ambiente familiar entre os funcionários O comprometimento criado em relação ao trabalho pode ser construído de mais de uma das fontes de envolvimento descritas Quando existe mais de um tipo provavelmente o vínculo criado entre as partes tornase mais forte Segundo Morin 2001 o trabalho representa um papel importante na sociedade não apenas pelo valor material recebido o que revela que compensações materiais nem sempre são suficientes para a satisfação do funcionário Para certos indivíduos existem outros fatores mais importantes que podem sobrepor ao item remuneração no ambiente organizacional O relacionamento com outras pessoas no ambiente de trabalho a ocupação com algo e o trabalho como caminho para um objetivo de vida são mais importantes que a conquista apenas de bens materiais assim como recompensas sociais e psicológicas como elogios incentivos e parceria tornam os indivíduos mais comprometidos com a empresa e dispostos a cumprir seus objetivos dentro dela A maneira como os indivíduos trabalham e o que eles produzem têm um impacto sobre o que pensam e na maneira como percebem sua liberdade e sua independência O processo de trabalho assim como o seu fruto ajuda o indivíduo a descobrir e formar sua identidade Morin 2001 p16 Contrato Psicológico De acordo com Enid Mumford 1995 a idéia de contrato surgiu conforme as leis romanas e tratavase de um acordo feito por duas partes que se divide em quatro tipos 1 Contractus re que envolve um desempenho real 2 contractus litteris que é o acordo escrito 3 contactus verbus que é um acordo explícito oral 4 contractus consensus que envolve um acordo tácito como a aceitação de um benefício Departamento de Administração Hegel 1821 apud Mumford 1995 separa os contratos sejam eles formais ou informais em contratos de doação e contrato de câmbio ou troca onde se enquadram os contratos de trabalho O contrato pressupõe que as partes contratantes reconhecemse como proprietárias de algo de valor para ambas e que cada um está disposto a dar ao outro o que é necessário para que a atividade seja desenvolvida A teoria do contrato psicológico é vista por Denise Rousseau 1995 como o que o indivíduo percebe de reciprocidade entre ele e a organização de acordo com as promessas feitas de forma explícita ou implicitamente através de expressão de comprometimento e intenção futura por exemplo nesse relacionamento Os funcionários de uma organização recebem mensagens dos empregadores através de palavras ações ou sinais e as interpretam como promessas mesmo não sendo essa a intenção da mensagem A autora ressalta que os contratos psicológicos são acordos não escritos baseados em promessas e que resultam na crença individual moldando o comportamento e as atitudes de um indivíduo dentro da organização a que está ligado São modelos mentais que por serem baseados em promessas e dependerem de fatores como confiança percepção e aceitação podem ser entendidos pelas pessoas de formas diferentes As mensagens recebidas pelo indivíduo são interpretadas por cada um de uma forma conforme a sua predisposição individual Isso porque as pessoas têm limites cognitivos e diferentes quadros de referência e são julgadas de acordo com normas sociais para então construirse o contrato psicológico Levinson et al 1962 apud Morrinson e Robinson1997 definem o conceito de contrato psicológico como as expectativas acerca das obrigações recíprocas do empregado e da organização ou seja o conjunto de crenças sobre o que cada parte tem a obrigação de dar e o direito a receber em troca de contribuições da outra parte Esses autores afirmaram que o contrato psicológico é dinâmico logo eles evoluem com o passar do tempo e se adaptam ou alteramse conforme as necessidades do empregado e do empregador O estudo do contrato psicológico dos indivíduos de uma organização propicia melhor compreensão do comportamento de cada um como membro da empresa a que pertence podendo explorar as expectativas por ele criadas o que ajuda a relacionar as necessidades individuais com as organizacionais Rousseau 1995 afirma que a classificação do contrato psicológico pode darse das seguintes formas contrato transacional ou transicional em relações de curto prazo e contrato relacional ou balanceado em relações de longo prazo Segundo a autora os contratos transacionais são mais baseados em fatores monetários de curto prazo de duração nos quais o envolvimento com a organização é baixo Nos contratos transicionais além de baixo envolvimento não há comprometimento da organização para com o empregado e viceversa por tratarse de uma situação de curta duração Os contratos relacionais caracterizamse pelo envolvimento investimento e compreensão de ambas as partes envolvidas além da expectativa de longo prazo da organização Os contratos balanceados seguem os contratos relacionais porém há o compromisso de desenvolvimento contínuo por parte do indivíduo para incentivar o crescimento organizacional Qualquer dos tipos de contratos psicológicos irá envolver elementos de relações de curto e longo prazo O que irá diferenciálos será a proporção que cada um terá Entretanto assim como em grande parte dos contratos existentes o contrato psicológico se faz mais ativo quando passa a influenciar o comportamento dos indivíduos Isso se dá principalmente quando o contrato é violado ou seja o contrato não é entendido da mesma forma por ambas as partes Departamento de Administração Heather Maguire 2002 faz um paralelo ao que Rousseau afirma e propõem o modelo threetier Neste modelo em forma de pirâmide a base estaria relacionada ao contrato transacional proposto por Rousseau 1995 Nela os empregados comprometerseiam com razoáveis níveis de responsabilidade que incluiriam a dedicação com a empresa controle da carga de trabalho e autonomia enquanto os empregadores contribuiriam através de níveis apropriados de recompensas como pagamento condições de trabalho e oportunidade de demonstrar competência Entre o topo e a base da pirâmide estaria o nível de contrato associado ao contrato balanceado Nele estariam os aspectos de carreira e os empregados devem contribuir com o trabalho com o departamento a que pertencem sendo esperado que seus empregadores possibilitem o desenvolvimento de suas carreira e comprometamse com a educação para aumentar a empregabilidade No topo da pirâmide estariam os aspectos relacionais baseados na lealdade e confiança na gerência por parte do empregados e esperando dos empregadores uma gerência competente e sentimento de pertencimento A releitura feita por Maguire apresenta como o indivíduo pode comprometerse com a sua carreira seu ambiente de trabalho e o trabalho em si assim como com sua equipe demonstrando que existem elementos com os quais o indivíduo pode se identificar mesmo que não esteja envolvido com a instituição a que pertence Mumford 1995 afirma que cada indivíduo possui sua própria visão acerca do que ele espera da organização ou então um diferente grau de influência sobre os objetivos que ele espera que sejam alcançados Segundo ele os indivíduos podem reagir de maneiras diferentes bem como apresentar maior grau de satisfação com objetivos de longo prazo ou de curto prazo O autor ainda apresenta a questão da satisfação no trabalho de como ela acontece observando quais são as expectativas criadas pelos indivíduos e o que está realmente acontecendo naquele ambiente As expectativas seriam então avaliadas de acordo com as atitudes as normas a conduta e o nível de reconhecimento das empresas principalmente quando voltadas para o resultado ou seja se o resultado é avaliado apenas quantitativamente ou se o esforço despendido pelo funcionário também é valorizado Essas expectativas poderiam ser agrupadas e resumidas de forma a criar um grupo de contratos que poderiam ser identificados na relação entre empregado e empregador No contrato psicológico a empresa estaria à procura de indivíduos que estejam motivados para cuidar bem dos interesses da empresa e os empregados estariam à espera de reconhecimento status tempo para a família e segurança Além disso o ambiente motivador deveria ser constante exigindo muito de ambas as partes baseado em honestidade e clareza por exemplo Segundo Morrinson 1997 a crescente utilização do conceito de contrato psicológico como ferramenta de análise nas relações de trabalho fez com que ele fosse muitas vezes associado a uma forma de manipulação dos indivíduos contrariando a idéia de compreensão das relações humanas nas organizações O autor salienta que os contratos são expressos através das ações das pessoas E o processo de formação do contrato começa desde o momento da seleção do indivíduo para a ocupação Rosseau 1995 Smithson e Lewis 2003 mencionam que apesar de diversos pesquisadores utilizarem o conceito de contrato psicológico de formas diferentes todas as definições apresentadas incluem quatro itens O primeiro é a incorporação de crenças valores expectativas e aspirações do empregado e do empregador inclusive crenças implícitas de promessas e obrigações na medida em que esses vão sendo percebidos na relação Departamento de Administração O segundo item é a observação de que as expectativas não são necessariamente explícitas Portanto o relacionamento entre empregado e empregador deve basearse em confiança nos termos do relacionamento lealdade e boafé Outro aspecto importante é que o contrato psicológico pode ser continuamente renegociado causando mudanças no indivíduo na organização nas expectativas Dessa forma tornase visível a característica dinâmica e mutável do contrato psicológico apesar de grande parte das pesquisas fornecer apenas uma visão instantânea de uma etapa do processo Por fim por ser baseado em percepções individuais indivíduos de uma mesma organização podem apresentar contratos psicológicos diferentes que por sua vez influenciam as formas como cada um deles percebe os eventos organizacionais Metodologia A presente pesquisa busca contribuir na compreensão do contrato psicológico construído no ambiente organizacional do terceiro setor assim como o comprometimento envolvido Optouse pela abordagem qualitativa dos dados por meio da análise de entrevistas realizadas com profissionais que atuam em organizações do terceiro setor O foco mais amplo do projeto de pesquisa original se propõe a identificar elementos constituintes e característicos do contrato psicológico e do comprometimento de indivíduos que atuam em diferentes organizações do terceiro setor com formações e vínculos de trabalho diversos Uma vez que a pesquisa foi iniciada em janeiro de 2008 apresentamse neste artigo os resultados de quatro entrevistas já realizadas e analisadas Em termos da linha de pesquisa considerase que estes resultados possuem então um caráter parcial Em termos da classificação do tipo de pesquisa utilizouse a tipologia adotada por Vergara 2004 que categoriza os estudos quanto aos fins e quanto aos meios Quanto aos fins tratase de uma pesquisa exploratória e descritiva Quanto aos meios podese classificar como pesquisa de campo e bibliográfica A seleção de sujeitos para as entrevistas deuse pelo critério de acessibilidade tendo sido utilizados canais de contato pessoal da autora do estudo e do seu orientador para a localização e o acesso aos indivíduos O Quadro 1 apresenta os perfis dos entrevistados Por razões éticas acordadas nas entrevistas optouse pela não divulgação dos nomes dos entrevistados e das organizações a que estão vinculados Quadro 1 Perfil dos participantes Entrevistados Organização Função na Organização Formação Tipo de vínculo com a organização Tempo de atuação na organização Entrevistado 1 Organização A Diretor Executivo Administração Trabalho celetista 2 anos e 8 meses Entrevistado 2 Organização A Coordenador de Marketing Administração Trabalho celetista 1 ano e 6 meses Entrevistado 3 Organização A Coordenador de Projetos Ciências Sociais Trabalho celetista 2 anos e 6 meses Entrevistado 4 Organização B Presidente e fundador Economia Trabalho autônomo 5 anos No Quadro 1 observase que três entrevistados atuam na mesma organização Os quatro entrevistados revelaram possuir em seu currículo profissional experiências como Departamento de Administração empregados em empresas comerciais ou industriais anteriores ao seu trabalho no terceiro setor Hoje todos trabalham apenas nas organizações indicadas no quadro Organização A é uma organização nãogovernamental que apóia projetos como creches comunidades de baixa renda e casas de assistência a deficientes no Rio de Janeiro e São Paulo Essa organização é composta por trabalhadores voluntários celetistas e estagiários Foi fundada em 1997 e atualmente assiste oito obras sociais Organização B por sua vez é uma organização nãogovernamental que desenvolve trabalhos assistenciais com os moradores de uma comunidade carente do Rio de Janeiro Foi fundada em 2003 e é composta de trabalhadores autônomos e voluntários As entrevistas foram realizadas no mês de maio de 2008 A duração média de cada uma foi de 30 minutos Todas as entrevistas foram realizadas no local de trabalho dos indivíduos ou seja nas sedes das ONGs Todas foram gravadas em meio digital e foram integralmente transcritas pela própria autora do estudo O conteúdo das entrevistas foi apoiado por roteiro semiestruturado composto das seguintes questões a O que significa para você trabalhar nessa organização b Você se identifica com a organização O que mais influencia nessa identificação c Como é o seu ambiente de trabalho e as relações com os outros funcionários d Quais foram as principais razões de você ter vindo trabalhar nessa organização e Que diferença você vê entre trabalhar em uma organização do terceiro setor e uma empresa tradicional Quais são as diferenças as vantagens e desvantagens percebidas f O que você espera da organização E o que você acredita que a organização espera de você g Quais obrigações você considera ter com a organização h Você se sente valorizado Por quê i Quais são seus planos de carreira profissional Como pretende atingilos Você se vê fazendo carreira no terceiro setor j Como você acredita que o mercado de trabalho vê a experiência profissional de um indivíduo que atua no terceiro setor O conteúdo das respostas dos entrevistados foi analisado buscandose a identificação de categorias de análise Do resultado deste trabalho de leitura e interpretação dos dados emergiram sete categorias a saber expectativas criadas pelos empregados espectativa de continuidade interpretações particulares baseadas nas percepções individuais identificação do indivíduo com a organização ambiente organizacional motivação e valorização remuneração Essas categorias foram utilizadas para a apresentação dos resultados no tópico a seguir Análise de dados Neste estudo buscamos entrevistar profissionais atuantes no terceiro setor procurando entender as diversas naturezas da relação de trabalho existente entre os entrevistados e a instituição que atuam Da mesma forma está sendo buscada diversidade de organizações para que o resultado possa ter maior amplitude A análise das entrevistas revelou categorias que ajudaram a analisar o comprometimento e o contrato psicológico dos entrevistados a Expectativas criadas pelos empregados Ao tratarmos das expectativas desenvolvidas pelos entrevistados perguntouse o que cada um acreditava que a instituição a qual pertence esperava dele Podese observar que os indivíduos criam uma expectativa muito voltada para a equipe quando o que é esperado de si Departamento de Administração é o mesmo para os demais integrantes independente das diferentes obrigações explícitas nos contratos formais De forma geral criase a expectativa de continuidade com a instituição de desenvolvimento profissional em forma de parceria com a instituição e com os outros funcionários Eu acho que a Organização A espera de cada um aqui dentro que a gente consiga implementar o plano de trabalho que a gente traçou em conjunto É a gente cumprir com o que a gente prometeu em conjunto Entrevistado 1 O que a Organização A espera de mim Eu acho que ele espera que eu cresça com ele né Que eu faça a diferença e ajude ele a crescer Entrevistado 2 Quando questionados sobre o que esperavam da instituição embora alguns dos profissionais mencionassem que esperavam que a instituição em que trabalham fosse um lugar para se desenvolver profissionalmente todos os entrevistados demonstraram mais expectativas acerca do desenvolvimento das próprias organizações Eu espero que a Organização A tenha cada vez uma voz ativa na sociedade Que cada vez seja um ícone mesmo de transformação de que é possível ter algum envolvimento de mudança e que ela seja identificada por isso Entrevistado 2 Essa preocupação com o desenvolvimento da organização denota uma forma de comprometimento que tem um forte componente afetivo Vale ressaltar também que as organizações às quais os entrevistados estão vinculados possuem poucos anos de existência e os funcionários tendem a ser fortemente envolvidos no esforço de busca pela sustentabilidade e crescimento da instituição o que pode ser um elemento de reforço ao seu comprometimento afetivo b Expectativa de Continuidade Percebeuse também outra característica do comprometimento afetivo quando se tratava da expectativa de permanência do indivíduo nas organizações A maioria dos entrevistados demonstrou que a permanência é desejada por cada um independente de outros fatores Eu pretendo continuar no terceiro setor e em uma perspectiva coerente eu pretendo continuar dentro da Organização A Entrevistado 3 Contudo foi possível notar a presença de características do comprometimento normativo Isso foi percebido quando os entrevistados relataram estar atuando em organizações onde pessoas próximas ou o próprio entrevistado estava à frente da instituição De certa forma fazer parte da construção da história da organização a que se está prestando serviço criou um sentimento de obrigação moral de permanência Eu acompanhei esse processo desde o momento zero Então desde quando eles começaram a ter essa idéia quando começaram a fazer os contatos para ver como ia funcionar desde a primeira reunião pedagógica eu estava Departamento de Administração presente Quando eu vi eu já estava trabalhando lá Foi só um processo que eu sempre fiz parte Entrevistado 3 Quando nós fundamos esse trabalho aqui na comunidade onde ele que é professor universitário com mestrado e doutorado nasceu e cresceu foi para mostrar para as pessoas que é possível E é meu dever mostrar que dá para mudar Eu quero deixar a ONG com sustentabilidade para as pessoas da comunidade porque eu não pretendo continuar a frente para sempre Entrevistado 4 Em outras palavras observase que pelo menos para alguns desses indivíduos a participação na organização vai além de uma simples relação contratual de trabalho assumindo também conotação de um projeto de vida pessoal Dessa forma foi possível encontrar mais de uma fonte de comprometimento dos indivíduos nas organizações reforçando que mais de uma fonte de envolvimento fortalece o vínculo com a instituição c Interpretações particulares baseadas nas percepções individuais Os entrevistados partilham à opinião de que o trabalho no terceiro setor é uma oportunidade de exercer uma profissão e agir como cidadãos melhores A visão que os profissionais têm do terceiro setor também não é heterogênea Todos os entrevistados citam que esse é um setor que está em fase de expansão ganhando visibilidade no universo empresarial com a conscientização por um posicionamento mais sustentável e dando possibilidade a muitos profissionais mesmo aqueles que estariam fora do mercado tradicional Trabalhar no terceiro setor significa para mim uma oportunidade de você que tem mais de trinta anos trinta e cinco o mercado para essa faixa etária já está abolido Entrevistado 4 Quando questionados sobre as diferenças que conseguiam visualizar no terceiro setor dos demais os profissionais citaram que o nível de profissionalismo no terceiro setor parece ainda ser menor que no terceiro setor os números não são tão importantes quanto no setor de serviços e que ele envolve muito mais o indivíduo com a tarefa fazendo com que não haja somente a obrigação de realização da tarefa dentro do escritório Um ponto importante ressaltado por alguns dos entrevistados foi a necessidade de desempenhar diversos papéis o que segundo eles transforma o profissional do terceiro setor em alguém diferenciado dos demais Tem dia que eu estou revisando contrato tem dia que eu to contratando gente Então assim você está lidando com uma diversidade muito maior de assuntos e de responsabilidades muito grandes Entrevistado 1 d Identificação do indivíduo com a organização Entre os entrevistados todos expuseram opiniões parecidas em relação ao significado do trabalho Notase que há identificação por parte dos indivíduos em relação à organização em que trabalham Segundo Meyer e Allen 1997 apud McDonald e Mankin 1999 o comprometimento afetivo acontece nessas circunstâncias onde os valores do indivíduo e o da organização se assemelham O trabalho em si significa conciliar muito do que eu acredito com o que eu sei fazer com o que eu gosto de fazer Entrevistado 1 Departamento de Administração O que mais me fascina aqui na Organização A é essa união de estar trabalhando na minha área e também na área social Entrevistado 2 O comprometimento também se relaciona à aceitação dos objetivos da organização e à identificação dos valores partilhados Quanto a isso mais uma vez os entrevistados responderam de forma homogênea Todos citaram o poder de ação de construir diferença no ambiente social como objeto de identificação Além disso os funcionários da Organização A ainda citam que a identificação com a filosofia da instituição também contribui muito para a identificação individual com a tarefa que realizam e Ambiente organizacional Em relação aos aspectos organizacionais quando tratado do ambiente de trabalho os profissionais demonstraram que existe bastante adaptabilidade e informalidade Ressaltaram que o ambiente proporciona um misto de relacionamento pessoal com profissional É um relacionamento muito colaborativo de crescimento conjunto de fazer isso aqui crescer pra crescer junto Entrevistado 1 Da mesma forma expuseram o quanto o grupo a equipe e as atitudes de cada um são importantes para a construção da imagem desse ambiente Tem uma liberdade de trabalho que é interessante A gente tem espaço de colocar a proatividade da gente em atividade em efetiva atividade Isso é muito interessante por que a gente dá muito a cara do que a gente é da nossa bagagem para o trabalho da gente e assim a gente modifica um pouco a Organização A também Tem essa abertura que é interessante Entrevistado 3 Todo esse conjunto forma um ambiente agradável nas organizações possibilitando que aqueles que nelas se encontram partilhem de características semelhantes como disse o Entrevistado 2 A gente diz que é uma seleção natural porque quem fica aqui realmente é porque tem uns objetivos iguais Então as pessoas que ficam aqui mais tempo é que geralmente tem mais ou menos a mesma filosofia de vida e isso é muito bom A informalidade presente em ambas as instituições também desperta a preocupação do cumprimento da tarefa O fato de as equipes atuarem de forma dependente uma das outras é um dos principais motivos da cobrança e da pontuação de que apesar de haver o envolvimento pessoal com a tarefa há um objetivo a ser alcançado Dessa forma apesar do grau de informalidade presente os profissionais cobram de si e dos outros a participação nos projetos e atividades f Motivação e valorização Ao analisar se os profissionais se sentem valorizados foram encontradas diferentes descrições para a valorização individual Segundo o Entrevistado 1 a valorização dáse principalmente por já haver a identificação inicial O Entrevistado 3 citou que as pequenas ações realizadas por cada um e que são reconhecidas geram grande valorização Departamento de Administração Quando eu comecei organizar isso aqui eu lembro que eu mandei para um dos nossos diretores que é um dos que assinam o cheque o Carlos um executivo super atarefado e voltou o material todo com um bilhetinho Muito boa organização Excelente Parabéns Esse tipo de cuidado que eles têm com detalhes que passam despercebidos em empresas comerciais essa motivação a cada passo é estimulante Em contrapartida o Entrevistado 4 demonstrou sentirse pouco valorizado dizendo que não espera que seu trabalho seja reconhecido por outras pessoas pois essas não sabem reconhecer o verdadeiro valor do trabalho social Quanto ao fator motivacional os entrevistados demonstraram posições semelhantes ao optarem atuar no terceiro setor Eles relataram a importância de estar trabalhando em uma ambiente onde está exercendo sua profissão e ao mesmo tempo podendo expor seu lado solidário e humano sem repressão Também disseram que apesar de terem tido importantes oportunidades de atuação em outras organizações a opção de trabalhar no terceiro setor foi considerada como a mais estimulante na hora da decidir onde atuar Além disso os entrevistados mesmo sabendo que há a necessidade de multiplicidade de papeis aceitamnos como um desafio positivo e enriquecedor Então de repente você está jogando nas onze e desenvolvendo essa capacidade de aprender e eu acho que isso dá uma adaptabilidade tão grande que quem entra numa empresa e segue aquele itinerário fordista meio que não tem Isso é tão bom Dá vontade de aprender mais de continuar Entrevistado 3 g Remuneração A questão salarial abordada durante as entrevistas despertou pequenas diferenças entre os profissionais Apesar de para todos os empregados o salário não ser o principal atrativo quando se trata do nível de satisfação alguns entrevistados disseram não se sentirem valorizados financeiramente como disse o Entrevistado 2 Financeiramente eu não me sinto valorizado eu trabalho para caramba às vezes toda segunda feira a gente fica aqui até nove horas da noite a gente faz evento sábado domingo A gente rala muito Então comparado ao trabalho e remuneração financeira não ainda não Todos os entrevistados demonstraram que optar por trabalhar no terceiro setor foi uma escolha baseada no equilíbrio entre satisfação e remuneração Tive sim que fazer um certo sacrifício do ponto de vista financeiro né Porque não tem como você fazer uma mudança como essa sem ter pelo menos no início uma noção assim ah mas eu to investindo para o que eu quero fazer Entrevistado 1 No caso do Entrevistado 4 que atua como trabalhador autônomo na ONG a remuneração inexistente transformase em um tipo de frustração por não poder fazer mais pela instituição Segundo ele a remuneração não influencia no seu sentimento pela ONG mas Departamento de Administração se ela existisse serviria como meio de fazer mais pela comunidade já que poderia se dedicar mais plenamente ao trabalho na organização Conclusões Esta pesquisa com objetivo analisar o contrato psicológico dos indivíduos que optam pela carreira no terceiro setor assim como qual é a relação de comprometimento com as organizações a que pertencem As considerações que serão apresentadas possuem caráter parcial já que outras entrevistas estão sendo agendadas para os próximos meses A respeito das expectativas desenvolvidas pelos indivíduos e de sua forma de engajamento podese perceber uma predominância dos tipos de comprometimento afetivo e normativo segundo o modelo de Meyer e Allen Os indivíduos revelam expectativa de continuidade nas instituições de desenvolvimento profissional em forma de parceria esperando também que a organização se desenvolva junto com eles Em parte os profissionais se comprometem a continuar nas organizações por assim desejarem e em parte se sentem vinculados a elas por um sentimento de obrigação moral Sentemse orgulhosos de suas organizações e ao mesmo tempo entendem a responsabilidade que assumiram diante da sociedade quando escolheram trabalhar no terceiro setor Em relação aos aspectos organizacionais os profissionais consideram existir bastante adaptabilidade e informalidade Os entrevistados visualizam o terceiro setor como um setor em expansão com grandes oportunidades mas também ressaltam que ainda existem preconceitos com relação ao trabalho nesse setor Eles partilham à opinião de que o trabalho no terceiro setor é uma oportunidade de exercer uma profissão e agir como cidadãos melhores A questão salarial levantada revelou diferenças entre os entrevistados Apesar de o fator monetário ter sido tratado como menos importante no processo de escolha pelo terceiro setor alguns profissionais mostraramse pouco valorizados em relação a isto De modo geral a análise revelou a predominância de contratos psicológicos com foco relacional ou de longo prazo diferenciandose do foco mais transacional ou de curto prazo que tem dominado as relações de trabalho no atual contexto do mercado de trabalho Um aspecto não abordado diretamente nas entrevistas mas que parece ser influenciador das expectativas que os indivíduos desenvolvem sobre a relação de trabalho é o nível de formalização da gestão de seu contrato com a organizaçãoNa continuidade da linha de pesquisa esperase abordar também a visão sobre esse lado da relação de trabalho Nos próximos meses o estudo continuará a ser desenvolvido por meio da realização de entrevistas com indivíduos que atuam em outras organizações do terceiro setor além daquelas já abordadas até o momento Isso possibilitará a confirmação ou complementação dos resultados apurados nessa primeira fase da pesquisa No futuro pretendese ainda ampliar o foco da análise do estudo de modo a se observar a influência de variáveis ainda não consideradas até este ponto e que podem afetar as expectativas dos indivíduos sobre a relação de trabalho com as organizações do terceiro setor Entre elas destacamse por exemplo as questões de gênero grau de formação escolar idade e tipo de experiência profissional prévia dos indivíduos Referências 1 COELHO Simone de Castro Tavares Terceiro Setor Um estudo comparado entre Brasil e Estado Unidos São Paulo Editora SENAC São Paulo 2000 2 FERNANDES Rubem César Privado porém público o terceiro setor na América Latina Rio de Janeiro RelumeDumará 1994 Departamento de Administração 3 LANDIM Leilah Para além do mercado e do Estado Filantropia e cidadania no Brasil Rio de Janeiro ISER Núcleo de pesquisa 1993 4 MAGUIRE H Psychological contracts are they still relevant Career Development International v7 n3 p167180 2002 5 MATOS Maria Izilda Santos de Terceiro setor e gênero trajetórias e perspectivas São Paulo Cultura Acadêmica Instituto Presbiteriano Mackenzie 2005 6 MCDONALD DJ MAKIN PJ The psychological contract organizational commitment and job satisfaction of temporary staff Leadership Organizational Development Journal v21 n2 p8491 2002 7 MORIN EM Os sentidos do trabalho Tradução Angelo Soares Revista de Administração de Empresas v41 n3 p819 jul set 2001 8 MORRINSON E W e ROBINSON S When employees feel betrayed a model of how psychological contract violation develops Academy of Management Review v22 n1 p226256 1997 9 MUMFORD E Contracts Complexity and Contradictions The changing employment relationship Personnel Review v24 n8 p5470 1995 10 PEREIRA Ligia Jucimeire Relação de trabalho no Terceiro Setor Gênesis Revista de Direito do Trabalho nº 137 p683688 maio 2004 11 REGO A Comprometimento Afetivo dos membros organizacionais o papel das percepções de justiça Revista de Administração Contemporânea v6 n2 p209241 maioagosto 2002 12 ROBBINS Stephen P Comportamento Organizacional Tradução Reynaldo Marcondes São Paulo Pearson Prentice Hall 2005 13 ROUSSEAU DM Psychological Contract on Organization understanding written and unwritten agreements Thousand Oaks Sage 1995 14 SMITHSON J e LEWIS S The Psychological Contract a sloan work and family encyclopedia entry 2003 Disponível em httpwfnetworkbceduencyclopediaentryphpid250areaAll Acessado em 120508 15 VERGARA Sylvia Constant Projetos e relatórios de pesquisa em administração São Paulo Atlas 2004 YAMAMOTO O H 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social ou Projeto Ético Político Psicologia Ciência e Profissão 32 num esp 617 2012 Resumo O objetivo geral de Yamamoto em seu texto 50 Anos De Profissão Responsabilidade Social ou Projeto ÉticoPolítico é abordar os debates mais controversos que marcaram os primeiros 50 anos da profissão regulamentada a extensão do impacto social da psicologia como campo profissional e sua capacidade de influenciar a transformação social O autor abre seu texto destacando a visão de Mello sobre a psicologia como uma ciência que não deve ser limitada a resolver problemas pessoais de poucos privilegiados mas sim ser acessível a um maior número de pessoas como um instrumento de mudança social Ao celebrar os 50 anos da profissão regulamentada Yamamoto propõe uma reflexão sobre o desenvolvimento da psicologia desde então explorando dois estudos nacionais abrangentes Quem É o Psicólogo Brasileiro do Conselho Federal de Psicologia nos anos 80 e O Trabalho do Psicólogo no Brasil da Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduação em Psicologia realizado em meados dos anos 2000 Esses estudos ajudam a compreender a trajetória da psicologia no Brasil ao longo de cinco décadas Neste sentido Yamamoto esclarece que dos estudos citados se extrai a constatação do crescimento exponencial da profissão de psicólogo no Brasil destacando o aumento significativo no número de profissionais e instituições de formação Contudo ressalta que crescimento não se traduz necessariamente em desenvolvimento Aponta para a diferença entre crescimento e desenvolvimento ao explorar a desqualificação da formação o hiato entre formandos e profissionais habilitados e a tendência à precarização das condições de trabalho e remuneração na profissão de psicologia Examina também as áreas predominantes de atuação dos psicólogos como clínica saúde trabalho e organizações e revela as atividades mais comuns em diferentes setores de trabalho questionando a predominância de práticas como aplicação de testes psicológicos e psicodiagnóstico em detrimento de outras intervenções E prossegue o autor em sua reflexão sobre a evolução da psicologia ao longo dos anos e suas implicações sociais Examina a questão do alcance social da profissão analisando a extensão das técnicas psicológicas para segmentos mais amplos da população e sua capacidade de ser um agente de mudança social Destaca a preocupação com o elitismo da profissão apontando estudos anteriores Mello 1975 Botomé 1979 e Campos 1983 que evidenciam o problema do baixo alcance da psicologia e a confiança na capacidade da profissão de ampliar seu impacto social Contudo questiona se a simples ampliação do leque populacional atingido representa necessariamente um aumento no alcance social levantando a distinção entre uma profissão orientada pelo que sabe fazer e outra que se direciona pelas demandas sociais Explora a complexidade de atender às demandas da população e oferecer serviços psicológicos adequados questionando se simplesmente atender às demandas equivale a aumentar o alcance social da profissão Ainda para Yamamoto é importante olhar para a questão da qualidade da atuação e da competência técnica dos psicólogos especialmente ao direcionar seus serviços para segmentos mais amplos da população Ele discute a necessidade de considerar não apenas a competência técnica mas também sua adequação ao contexto da população atendida Explora a atuação dos psicólogos no campo das políticas sociais identificando os setores em que atuam como saúde pública e assistência social e questiona se a mudança de foco para esses segmentos resulta em uma transformação efetiva na prática da Psicologia Levanta a questão de se os psicólogos ao atenderem essas parcelas mais amplas da população estão de fato promovendo uma prática mais adequada e inovadora ou simplesmente reproduzem os mesmos modelos tradicionais de atendimento Além disso o autor sugere a necessidade de um entendimento mais profundo das determinações macroestruturais que influenciam a atuação do psicólogo no campo do bemestar social e propõe uma intervenção mais ampla e ativa na gestão e formulação das políticas indo além do papel de executor terminal das políticas segmentadas O autor então explora a questão do compromisso social do psicólogo mergulhando na distinção entre ação política em sentido estrito e a dimensão política da atividade profissional Ele enfatiza que toda ação profissional envolve uma dimensão política pois o profissional está imerso nas relações de poder da sociedade Destacando que ignorar essa dimensão significa aderir a ideias ultrapassadas sobre a neutralidade da técnica O debate se concentra na responsabilidade política do psicólogo no exercício de sua profissão e no contexto do desenvolvimento de suas atividades Yamamoto pondera que ao inserir a Psicologia como parte de uma formação social capitalista a profissão está subordinada às determinações do modo de produção dominante Aponta ainda que a condição de trabalhador assalariado implica em limites e prescrições institucionais que regulam as relações de trabalho do psicólogo No entanto destaca que não se defende uma obediência acrítica às imposições dos empregadores mas sim a compreensão das determinações da inserção profissional na sociedade O autor diferencia a ação política propriamente dita como a militância em movimentos sociais e a dimensão política da atividade profissional Argumenta que historicamente os profissionais incluindo os psicólogos têm um papel limitado na transformação estrutural da sociedade No entanto reconhece que a ação profissional pode contribuir para projetos sociais alternativos e lutas populares apesar de não ser capaz de promover mudanças estruturais significativas por si só No cerne da discussão está a controvérsia sobre o compromisso social do psicólogo e a reflexão sobre a responsabilidade política associada à sua prática profissional dentro de uma sociedade capitalista Diante disso o autor explora o conceito de compromisso social do psicólogo e as diferentes perspectivas associadas a essa noção Iniciase com a análise de Bastos sobre o compromisso social que identifica e critica diferentes dimensões atribuídas a essa ideia na literatura psicológica Yamamoto cita Bastos que propõe que a direção política e a orientação teórica são duas dimensões fundamentais do compromisso social do psicólogo Ele critica essa definição por sugerir a supressão da identidade profissional e por favorecer uma psicologia classista ao pressupor a supremacia de uma teoria específica em detrimento de outras A discussão se estende para uma reflexão sobre como diversas ações dos psicólogos são categorizadas como socialmente comprometidas ou não Há uma crítica à possível desqualificação de práticas profissionais que não se alinham com uma determinada abordagem teórica voltada para a transformação social Existe uma ponderação sobre a diferença entre compromisso social e responsabilidade social sugerindo que a pluralidade teórica e as posturas políticas na prática profissional podem informar ações socialmente responsáveis Isso levanta a questão sobre a possibilidade de diferentes modalidades de compromisso social uma individual ligada a decisões éticas e outra coletiva mais voltada para o contexto amplo da categoria profissional como um todo E nesta ótica Yamamoto encaminha suas conclusões e reflexões voltadas para análise da viabilidade e necessidade de construir um projeto éticopolítico coletivo para a profissão de Psicologia Ele debate a diversidade e heterogeneidade inerentes à categoria profissional destacando a complexidade de unificar uma identidade única diante das diversas visões teorias e práticas presentes na Psicologia Nesta linha de pensamento a proposta é avançar da atuação profissional individual para a construção de um projeto coletivo que estabeleça valores objetivos e normas para a profissão Isso é considerado crucial para transcender as limitações e possibilidades impostas pelo contexto social e histórico em que a profissão se insere Neste sentido a discussão se volta para a possibilidade de coexistência de diferentes projetos éticopolíticos na Psicologia reconhecendo que os profissionais têm origens posições e expectativas diversas o que leva à existência de múltiplas visões sobre como a profissão deve ser exercida Nisso há uma ênfase na compreensão de que não se trata de eliminar as divergências mas de construir um projeto coletivo que contemple a pluralidade e a heterogeneidade existente na profissão Yamamoto também ressalta a importância de alinhar esse projeto éticopolítico a propostas que visem à transformação estrutural da sociedade capitalista em oposição à sua manutenção E o autor arremata a noção essencial é que a Psicologia ao propor um projeto ético político não só deve considerar o âmbito individual e profissional dos psicólogos mas também buscar um alinhamento com agendas e movimentos que visam mudanças sociais mais profundas e estruturais na sociedade