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Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 2 RESUMO A partir da análise de piadas sobre surdos contadas ou não por pessoas surdas este estudo busca refletir sobre a constituição do ethos da pessoa com surdez Neste artigo apresentamos a análise de duas piadas sobre surdos contadas por ouvintes sendo que por meio delas é possível verificar que para a sociedade de um modo geral há muito tempo o surdo vem sendo tratado com indiferença sob o olhar dominante e supremo do ouvinte o qual o julga incapaz deficiente tomando sempre atitudes discriminatórias Desse modo o percurso dessa investigação se orienta a partir de questionamentos levantados em torno dos motivos pelos quais isso ocorre quais as representações dominantes que a pessoa ouvinte tem a respeito da pessoa surda O ouvinte mantém uma relação de poder sobre o surdo Existe um olhar de ser inferior devido a um corpo danificado Qual o universo de representações que os interlocutores foram construindo sobre a pessoa surda Para fundamentar nosso estudo baseamonos nos pressupos tos teóricos da retórica aristotélica a partir de considerações feitas especialmente por Reboul 2004 e Amossy 2005 bem como nas Heloisa Helena Vallim de Melo Mestranda em Linguística pela Universidade de Franca Unifran Docente dos cursos de Pedagogia Letras Fonoaudiologia História Geografia e Educação Artística da Universidade de Franca Unifran Ana Cristina Carmelino Doutora em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Unesp Docente do Mestrado em Linguística da Universidade de Franca Unifran e do curso de Letras da Universidade Metodista de Piracicaba Unimep O ETHOS DA PESSOA SURDA UM ESTUDO DE PIADAS 30 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 considerações sobre o humor feitas por Travaglia 1989 Possenti 1998 e Propp 1992 os quais refletem não só sobre os recursos linguísticos envolvidos na construção do humor mas também sobre as diferentes funções do humor Palavraschave retórica argumentação ethos humor piadas ABSTRACT From an analysis of jokes about deaf people told or not by ano ther deaf this study tries to reflect about the Ethos constitution of the deaf person In this work we present the analysis of two jokes about deaf people told by listeners stating that by means of them it is possible to identify that for the society as a whole for a long time the deaf person has been treated with indifference under the dominant an supreme look of the listener who always consider him unable impaired and always having discriminatory actions towards the deaf Thus the course of this investigation is oriented from the questioning raised about the reasons why this occurs which dominant representation the listener person has about the deaf person Does the listener have a power relation concerning the deaf Is there a look of an inferior being because of a damaged body Which is the representation approach that listeners made about the deaf person To found or study we based on the theoretical presuppositions of the aristotelic rhetorical from the considerations made especially by Reboul 2004 and Amossy 2005 as well as the considerations about humor made by Travaglia 1989 Possenti 1998 and Propp 1992 who reflect not only about the linguistic resources involved in the construction of humor but also the different functions of it Keywords rhetorical argumentation ethos humor jokes 31 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 INTRODUÇÃO Este trabalho busca verificar como o ethos da pessoa surda é cons truído pela cultura ouvinte a partir da análise de piadas de surdos contadas por pessoas ouvintes A fim de tornar claro o estudo primeiramente tecemos considerações sobre alguns conceitoschave da retórica especialmente ethos com base em Aristóteles 1964 Reboul 2004 Pacheco 1997 Mosca 2004 e Amossy 2005 Depois tratamos das formas de manifes tação do humor de acordo com alguns estudiosos do assunto e do gênero piada Convém esclarecer que as piadas em estudo foram selecionadas de acordo com o tema todas as que de certa forma relacionamse à questão da surdez ou à pessoa surda tendo como fonte diferentes sites da internet os quais são referenciados junto às piadas A busca foi feita a partir das palavras piadas de surdos ou piadas de surdinhos inseridas no site de busca Google RETÓRICA E ETHOS CONCEITOSCHAVE A retórica tida como a arte de bem falar tem como principal objetivo convencer o auditório Consiste portanto em uma moda lidade discursiva capaz de gerar persuasão e tem em seus estudos a preocupação maior com a forma e não com o conteúdo Utiliza a argumentação por meio do discurso para persuadir o seu auditório no entanto não se preocupa com a veracidade de sua tese pois o que a retórica realmente busca é a eficácia na adesão de seu auditório seja qual for o meio utilizado Segundo Mosca 2005 a retórica consiste em um conjunto de fatores que presidem a produção de uma manifestação discursiva ou seja de uma proposta de visão da realidade e dos recursos mobilizados 32 para viabilizála p 2 Assim concluímos que ela está relacionada aos fatores e recursos que mobilizamos para a produção de um discurso Portanto o maior foco de pesquisa da retórica é o que diz respeito à persuasão ou seja aos meios e estratégias mais eficientes para se convencer o auditório levandoo a aderir às pretensões do orador A retórica para Mosca 2004 se norteia pelos princípios de acei tação da mudança o respeito à alteridade e a consideração da língua como lugar de confronto das subjetividades sendo que estes mesmos princípios a têm colocado à prova A autora enfatiza que a partir do pressuposto de que a argumentatividade se faz presente em toda atividade discursiva podemos deduzir que ao argumentar conside ramos o outro como capaz de reagir e de interagir diante do que lhe propomos dandolhes portanto a qualificação para a discussão Na argumentação entram em jogo os interesses a negociação a necessi dade de influência e o poder A autora sinaliza que a retórica segundo a doutrina aristotélica é considerada domínio dos conhecimentos prováveis e é por meio do embate de ideias e pela habilidade de se manejar o discurso que ocorrerá o seu desenvolvimento Já para Pacheco 1997 a retórica exerce a persuasão por meio do discurso sendo que o seu principal intuito é o de atingir a adesão intelectual do auditório pouco se importando com a verdade O autor também ressalta que ela faz uso de uma linguagem popular justamente porque se dirige aos homens de um modo geral Quando analisa a retórica no mundo grego o autor conclui que a retórica é uma técnica instrumental e como todo instrumento pode ser usada para atingir objetivos sublimes ou nefastos p 32 De acordo com Mosca 2005 a retórica ciência mais privilegiada na antiguidade que tem seu projeto inicial concebido por Aristóte les é embasada na tríade que privilegia o ethos o pathos e o logos O ethos diz respeito à boa impressão que o orador imprime no auditório Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 33 através da construção da sua imagem o pathos está relacionado às emoções e sentimentos que o orador utiliza em sua fala para lidar com a emoção do auditório e o logos está intimamente ligado a todo argumento que deriva da razão Interessanos aqui aprofundarmonos mais sobre o ethos foco de nosso estudo Amossy 2005 introduz a questão do ethos enfatizando que todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si p 9 O locutor não precisa detalhar suas qualidades ou seu modo de ser de forma explícita pois através de seu discurso do seu estilo consegue implicitamente construir sua própria apresentação por meio de suas trocas verbais sua postura enfim do próprio discurso Conforme a autora o termo ethos já utilizado pelos antigos designa a imagem que o orador cria de si com o intuito de persuadir causando boa impressão ao auditório pouco importando se é verdadeiro ou não Portanto a peça mais importante da retórica é a construção da imagem que o orador elabora de si próprio durante o seu discurso Amossy 2005 salienta que a produção da imagem de si sob uma perspectiva interacional passa a ser enfocada nos trabalhos do sociólogo Erving Goffman apud AMOSSY 2005 p 12 que enfatizando os ritos de interação veio influenciar a análise das conversações Goffman concebe a interação social como a influência que os parceiros exercem uns com os outros para impor imagens que os valorizem Vejamos agora algumas considerações sobre o humor e o gênero piada O HUMOR E O GÊNERO PIADA Travaglia 1989 considera o humor uma atividade ou faculdade humana universal cuja função vai muito além do simples fazer rir Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 34 p 670 É uma forma de revelar verdades servindo como uma es pécie de denúncia e de desmitificação Por esse motivo é tido como a linguagem do século e consequentemente estudado e pesquisado cada vez mais Conforme Travaglia 1992 há algumas categorias que nos ajudam a entender o humor já que ele pode ser visto quanto à sua forma de composição ao objetivo ao grau de polidez ao assunto ao código e aos recursos linguísticos pelos quais ele se manifesta Possenti 1998 embora não conceitue o humor caracterizao sempre pautado em seu material de pesquisa as piadas Ressalta que uma das maiores características do humor é que ele permite dizer alguma coisa mais ou menos proibida mas não necessariamente crítica no sentido corrente p 49 Ao tratar do humor nas piadas esse autor observa que elas revelam os problemas sociais e culturais existentes em uma sociedade bem como exibe a estrutura de uma língua Assim ainda que os tex tos humorísticos possam ser objeto de um estudo mais sistemático levandose em conta o sistema gramatical da língua também se verifica na manifestação do humor a relevância do contexto cultural E é buscando verificar os aspectos linguísticos envolvidos no humor que Possenti 1998 se propõe analisar as piadas por considerálas um rico material verdadeiro laboratório de pesquisa para se testar teorias da linguagem De acordo com o autor os mecanismos envolvidos nas piadas podem estar relacionados aos níveis fonológicos morfológicos lexical sintático e a aspectos como a pressuposição a inferência o conhecimento prévio a variação linguística e a tradução De acordo com Propp 1992 o humor é considerado a capacidade de perceber e criar o cômico aquilo que faz rir p 152 A seguir complementa que o humor é aquela disposição de espírito que em Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 35 nossas relações com os outros pela manifestação de pequenos de feitos nos deixa entrever uma natureza internamente positiva p 152 levandonos desse modo a refletir sobre a interrelação entre quem promove e quem percebe o humor O autor enfoca alguns as pectos do riso ressaltando que o cômico e o riso são concretos pois o homem efetivamente ri e que a percepção do cômico está ligada ao comportamento Dessa forma podemos notar que o humor está intimamente ligado às necessidades que determinada pessoa ou certo grupo sente de ex teriorizar conflitos ou outras questões relacionadas às suas relações com a sociedade O ETHOS DA PESSOA SURDA As piadas escolhidas para análise contemplam de forma clara a visão do outro em relação à surdez além de demonstrarem que a capacidade de interpretação do outro está intimamente ligada ao processo de identificação da pessoa surda Dessa forma fica evi denciado como a sociedade de um modo geral concebe o ethos da pessoa com surdez razão de nossos questionamentos iniciais os quais gostaríamos de aqui retomar quais as representações dominantes que a pessoa ouvinte tem a respeito da pessoa surda O ouvinte mantém uma relação de poder sobre o surdo Existe um olhar de ser inferior devido a um corpo danificado Qual o universo de representações que os interlocutores foram construindo sobre a pessoa surda Ao analisarmos tais piadas buscamos identificar não só o gatilho do humor baseandonos nos autores referenciados acima mas tam bém observar como a sociedade vem construindo uma identidade de inferioridade em relação ao surdo A seguir passamos à análise de piadas contadas por ouvintes e que Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 36 se referem à pessoa surda Escolhemos propositalmente com o intuito de levar o leitor a se ater à diferença uma piada de pessoa que possui uma surdez possivelmente de nascença e profunda e outra piada que trata de pessoa que se ensurdeceu com o tempo e portanto teve experiências auditivas anteriores e consequentemente desenvolveu uma língua oral sem maiores comprometimentos Piada 1 Os surdos recémcasados Dois surdosmudos se casaram Durante a primeira semana do casamento eles descobriram que eram incapazes de se comunicar na cama quando a luz estivesse apagada pois eles não enxergariam a linguagem dos sinais Depois de várias noites pensando em alguma solução a esposa encontrou uma solução Querido gesticula ela por que não fazemos alguns simples sinais Por exemplo à noite se você quiser fazer sexo comigo pegue meu seio esquerdo uma vez Se você não quiser fazer sexo pegue no meu seio direito uma vez O marido acha uma grande ideia e gesticula de volta à es posa Grande ideia Agora se você quiser fazer sexo comigo balance meu bilau uma vez Se você não quiser fazer sexo balance meu bilau 50 vezes Disponível em httpwwwpiadasdodiacombrmostra piadaaspidpiada211 Acesso em 5 jan 2009 Verificamos que nessa piada a utilização errônea do termo surdo mudo denota a falta de conhecimento do surdo por parte da pessoa ouvinte O surdo não apresenta mudez Seu aparelho fonador está em perfeitas condições Quando tem treino fonoaudiológico é possível desenvolver a fala universo de representações que os ouvintes foram construindo em torno da pessoa surda Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 37 Nesse caso o gatilho do humor está relacionado aos scripts da estupi dez e do ridículo por se tratar de uma inadequação de comportamento Para Travaglia 1992 os scripts são uma espécie de veio humorístico suportes convencionais do humor A inadequação se apresenta quan do o surdo é idiotizado pelo ouvinte porque supostamente o casal precisa de sinais comunicação para o ato sexual como se para tal a linguagem articulada seja verbal ou por sinais fosse necessária Dessa forma o ouvinte expõe a representação de um surdo idiota Por outro lado podemos também ver uma representação do surdo espertalhão o qual aceitando a ideia proposta pela esposa tira proveito de sua surdez para garantir a sua satisfação sexual Portanto aqui o ethos do surdo é constituído de duas formas distintas como o de idiota pelo não surdo e o aproveitador pelo próprio surdo Piada 2 O gênio surdo Entra um sujeito no bar e diz para o barman Me paga uma bebida O barman muito admirado responde que não Diz que o bar dele não é a Santa Casa de Misericórdia Então o cliente responde Ah Eu tenho aqui uma coisa impressionante e se eu te mostrar você vai me pagar uma bebida O barman intrigado pede que ele mostre logo essa coisa Então o cliente tira do sobretudo um baralho de cartas com cerca de 30 centímetros O barman fica perplexo e resolve pagar uma bebida para o cidadão Alguns jogos e copos de pois o barman decide perguntar ao homem onde ele tinha arranjado tal baralho Eu tenho um gênio que concede desejos O barman todo empolgado pede logo ao homem que lhe mostre o geniozinho para pedir alguma coisa O cara esfrega Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 38 uma lâmpada e realmente aparece o tal gênio dizendo o seguinte Vou te conceder um desejo mas fala logo que eu quero voltar a dormir O barman então sem pensar pede a primeira coisa que lhe vem à cabeça Quero 1 milhão em notas O geniozinho estala os dedos e de repente o bar fica cheio de botas Botas Eu pedi 1 milhão em notas e não em botas Essa porra desse gênio é um bocado surdo não acha O homem responde Claro que eu acho Ou você realmente acredita que eu ia pedir um baralho de 30 centímetros Disponível em httpwwwpiadasonlinecombrMostra PiadasaspOgeniosurdo Acesso em 5 jun 2009 Essa piada trata de um gênio ensurdecido com o tempo e não pro priamente de uma pessoa surda de nascença O que leva ao riso é justamente o desvio o fato de ele não escutar os pedidos corretamente por apresentar uma perda da audição Como vimos em Bergson 1987 todo desvio é cômico sendo que ele se dá sobre o fato de certas deformidades terem o poder de provocar o riso Nesse caso especificamente é a surdez que é considerada um desvio O gatilho do humor está na troca que o gênio faz dos pedidos devido à sua baixa audição É possível percebermos um mecanismo fonológico deflagrado no humor das palavras nota e caralho as quais são confundidas pelo gênio por botas e baralho A simples mudança de uma única unidade significativa é capaz de transformar completamente a palavra Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 39 Ainda podemos pensar no caso de uma falsa homonímia as quais segundo Travaglia 1995 são responsáveis pelo efeito humorístico Isso se faz marcar pela troca das palavras notabota e baralhocaralho Como ressalta o autor apesar de não serem homônimas elas ocorrem por seus usuários não ouvirem bem É no desenrolar da situação que elas passam a ser compreendidas O ethos do surdo dessa piada é demarcado como o de um tolo e idiotizado além de irônico CONSIDERAÇÕES FINAIS Após analisarmos tais piadas pudemos verificar que a sociedade demonstra ter pouco conhecimento da pessoa surda ou com defici ência auditiva Há uma tendência em concebêla como uma pessoa que desvia do padrão incapaz tola idiotizada utilizando para tal de um script de estupidez De certa forma a comunidade ouvinte reprime o surdo tentando fazêlo narrarse como um ouvinte Fica claro portanto que há uma relação de poder sobre a pessoa surda que passa a ser carregada de inferioridade As representações que passam a dominar nos ouvin tes sobre as identidades surdas são de um ethos de incapacidade e invalidez Para que passemos a compreender o surdo é necessário que deixemos de concebêlo como doente disforme e passemos a entendêlo como um indivíduo que tem todas as possibilidades porém faz a leitura do mundo de outra forma ou seja visualmente A maior diferença que separa a identidade surda da ouvinte é o fato de o primeiro ter uma experiência visual por onde desenvolve toda a sua aprendizagem ao passo que o segundo além da visual conta com a experiência auditiva Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 4 0 Quanto aos recursos linguísticos utilizados nas piadas podemos citar as ocorrências de scripts de estupidez do ridículo da astúcia Observamos também mecanismos fonológicos lexicais e de falsa homonímia REFERÊNCIAS AMOSSY R Imagens de si no discurso a construção do ethos São Paulo Con texto 2005 BERGSON H O riso ensaio sobre a significação do cômico Rio de Janeiro Guanabara 1987 MOSCA LLS Retóricas de ontem e de hoje São Paulo Humanitas 2004 A atualidade da retórica e seus estudos encontros e desencontros In I Congresso virtual da Universidade de Lisboa Lisboa DLR Departamento de Literaturas Românicas 2005 PACHECO G Retórica e nova retórica a tradição grega e a Teoria da Argu mentação de Chaïm Perelman Cadernos PETJURPUCRIO Rio de Janeiro p 2747 1997 POSSENTI S Os humores da língua análises linguísticas de piadas Campinas Mercado de Letras 1998 PROPP V I Comicidade e riso São Paulo Ática 1992 REBOUL O Introdução à retórica Tradução de Ivone Castilho Benedetti 2 ed São Paulo Martins Fontes 2004 TRAVAGLIA L C Uma introdução ao estudo do humor pela linguística DELTA v 6 n 1 p 5582 1990 O que é engraçado Categorias do risível e o humor brasileiro na tele visão Leitura estudos linguísticos e literários Universidade Federal de Alagoas Maceió n 5 6 p 4279 1992 Homonímia mundos textuais e humor Organon UFRGS Porto Alegre v 9 n 23 p 4150 1995 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 41 Recursos linguísticos e discursivos do humor humor e classe social na televisão brasileira In Estudos linguísticos XVIII anais de seminários do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo Lorena Prefeitura Municipal de LorenaGELSP 2º sem p 670677 1989 TRINGALI D Introdução à retórica a retórica como crítica literária São Paulo Duas Cidades 1988 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009

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presidem a produção de uma manifestação discursiva ou seja de uma proposta de visão da realidade e dos recursos mobilizados 32 para viabilizála p 2 Assim concluímos que ela está relacionada aos fatores e recursos que mobilizamos para a produção de um discurso Portanto o maior foco de pesquisa da retórica é o que diz respeito à persuasão ou seja aos meios e estratégias mais eficientes para se convencer o auditório levandoo a aderir às pretensões do orador A retórica para Mosca 2004 se norteia pelos princípios de acei tação da mudança o respeito à alteridade e a consideração da língua como lugar de confronto das subjetividades sendo que estes mesmos princípios a têm colocado à prova A autora enfatiza que a partir do pressuposto de que a argumentatividade se faz presente em toda atividade discursiva podemos deduzir que ao argumentar conside ramos o outro como capaz de reagir e de interagir diante do que lhe propomos dandolhes portanto a qualificação para a discussão Na argumentação entram 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diz respeito à boa impressão que o orador imprime no auditório Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 33 através da construção da sua imagem o pathos está relacionado às emoções e sentimentos que o orador utiliza em sua fala para lidar com a emoção do auditório e o logos está intimamente ligado a todo argumento que deriva da razão Interessanos aqui aprofundarmonos mais sobre o ethos foco de nosso estudo Amossy 2005 introduz a questão do ethos enfatizando que todo ato de tomar a palavra implica a construção de uma imagem de si p 9 O locutor não precisa detalhar suas qualidades ou seu modo de ser de forma explícita pois através de seu discurso do seu estilo consegue implicitamente construir sua própria apresentação por meio de suas trocas verbais sua postura enfim do próprio discurso Conforme a autora o termo ethos já utilizado pelos antigos designa a imagem que o orador cria de si com o intuito de persuadir causando boa impressão ao auditório pouco importando se é verdadeiro ou não Portanto a peça mais importante da retórica é a construção da imagem que o orador elabora de si próprio durante o seu discurso Amossy 2005 salienta que a produção da imagem de si sob uma perspectiva interacional passa a ser enfocada nos trabalhos do sociólogo Erving Goffman apud AMOSSY 2005 p 12 que enfatizando os ritos de interação veio influenciar a análise das conversações Goffman concebe a interação social como a influência que os parceiros exercem uns com os outros para impor imagens que os valorizem Vejamos agora algumas considerações sobre o humor e o gênero piada O HUMOR E O GÊNERO PIADA Travaglia 1989 considera o humor uma atividade ou faculdade humana universal cuja função vai muito além do simples fazer rir Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 34 p 670 É uma forma de revelar verdades servindo como uma es pécie de denúncia e de desmitificação Por esse motivo é tido como a linguagem do século e consequentemente estudado e pesquisado cada vez mais Conforme Travaglia 1992 há algumas categorias que nos ajudam a entender o humor já que ele pode ser visto quanto à sua forma de composição ao objetivo ao grau de polidez ao assunto ao código e aos recursos linguísticos pelos quais ele se manifesta Possenti 1998 embora não conceitue o humor caracterizao sempre pautado em seu material de pesquisa as piadas Ressalta que uma das maiores características do humor é que ele permite dizer alguma coisa mais ou menos proibida mas não necessariamente crítica no sentido corrente p 49 Ao tratar do humor nas piadas esse autor observa que elas revelam os problemas sociais e culturais existentes em uma sociedade bem como exibe a estrutura de uma língua Assim ainda que os tex tos humorísticos possam ser objeto de um estudo mais sistemático levandose em conta o sistema gramatical da língua também se verifica na manifestação do humor a relevância do contexto cultural E é buscando verificar os aspectos linguísticos envolvidos no humor que Possenti 1998 se propõe analisar as piadas por considerálas um rico material verdadeiro laboratório de pesquisa para se testar teorias da linguagem De acordo com o autor os mecanismos envolvidos nas piadas podem estar relacionados aos níveis fonológicos morfológicos lexical sintático e a aspectos como a pressuposição a inferência o conhecimento prévio a variação linguística e a tradução De acordo com Propp 1992 o humor é considerado a capacidade de perceber e criar o cômico aquilo que faz rir p 152 A seguir complementa que o humor é aquela disposição de espírito que em Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 35 nossas relações com os outros pela manifestação de pequenos de feitos nos deixa entrever uma natureza internamente positiva p 152 levandonos desse modo a refletir sobre a interrelação entre quem promove e quem percebe o humor O autor enfoca alguns as pectos do riso ressaltando que o cômico e o riso são concretos pois o homem efetivamente ri e que a percepção do cômico está ligada ao comportamento Dessa forma podemos notar que o humor está intimamente ligado às necessidades que determinada pessoa ou certo grupo sente de ex teriorizar conflitos ou outras questões relacionadas às suas relações com a sociedade O ETHOS DA PESSOA SURDA As piadas escolhidas para análise contemplam de forma clara a visão do outro em relação à surdez além de demonstrarem que a capacidade de interpretação do outro está intimamente ligada ao processo de identificação da pessoa surda Dessa forma fica evi denciado como a sociedade de um modo geral concebe o ethos da pessoa com surdez razão de nossos questionamentos iniciais os quais gostaríamos de aqui retomar quais as representações dominantes que a pessoa ouvinte tem a respeito da pessoa surda O ouvinte mantém uma relação de poder sobre o surdo Existe um olhar de ser inferior devido a um corpo danificado Qual o universo de representações que os interlocutores foram construindo sobre a pessoa surda Ao analisarmos tais piadas buscamos identificar não só o gatilho do humor baseandonos nos autores referenciados acima mas tam bém observar como a sociedade vem construindo uma identidade de inferioridade em relação ao surdo A seguir passamos à análise de piadas contadas por ouvintes e que Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 36 se referem à pessoa surda Escolhemos propositalmente com o intuito de levar o leitor a se ater à diferença uma piada de pessoa que possui uma surdez possivelmente de nascença e profunda e outra piada que trata de pessoa que se ensurdeceu com o tempo e portanto teve experiências auditivas anteriores e consequentemente desenvolveu uma língua oral sem maiores comprometimentos Piada 1 Os surdos recémcasados Dois surdosmudos se casaram Durante a primeira semana do casamento eles descobriram que eram incapazes de se comunicar na cama quando a luz estivesse apagada pois eles não enxergariam a linguagem dos sinais Depois de várias noites pensando em alguma solução a esposa encontrou uma solução Querido gesticula ela por que não fazemos alguns simples sinais Por exemplo à noite se você quiser fazer sexo comigo pegue meu seio esquerdo uma vez Se você não quiser fazer sexo pegue no meu seio direito uma vez O marido acha uma grande ideia e gesticula de volta à es posa Grande ideia Agora se você quiser fazer sexo comigo balance meu bilau uma vez Se você não quiser fazer sexo balance meu bilau 50 vezes Disponível em httpwwwpiadasdodiacombrmostra piadaaspidpiada211 Acesso em 5 jan 2009 Verificamos que nessa piada a utilização errônea do termo surdo mudo denota a falta de conhecimento do surdo por parte da pessoa ouvinte O surdo não apresenta mudez Seu aparelho fonador está em perfeitas condições Quando tem treino fonoaudiológico é possível desenvolver a fala universo de representações que os ouvintes foram construindo em torno da pessoa surda Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 37 Nesse caso o gatilho do humor está relacionado aos scripts da estupi dez e do ridículo por se tratar de uma inadequação de comportamento Para Travaglia 1992 os scripts são uma espécie de veio humorístico suportes convencionais do humor A inadequação se apresenta quan do o surdo é idiotizado pelo ouvinte porque supostamente o casal precisa de sinais comunicação para o ato sexual como se para tal a linguagem articulada seja verbal ou por sinais fosse necessária Dessa forma o ouvinte expõe a representação de um surdo idiota Por outro lado podemos também ver uma representação do surdo espertalhão o qual aceitando a ideia proposta pela esposa tira proveito de sua surdez para garantir a sua satisfação sexual Portanto aqui o ethos do surdo é constituído de duas formas distintas como o de idiota pelo não surdo e o aproveitador pelo próprio surdo Piada 2 O gênio surdo Entra um sujeito no bar e diz para o barman Me paga uma bebida O barman muito admirado responde que não Diz que o bar dele não é a Santa Casa de Misericórdia Então o cliente responde Ah Eu tenho aqui uma coisa impressionante e se eu te mostrar você vai me pagar uma bebida O barman intrigado pede que ele mostre logo essa coisa Então o cliente tira do sobretudo um baralho de cartas com cerca de 30 centímetros O barman fica perplexo e resolve pagar uma bebida para o cidadão Alguns jogos e copos de pois o barman decide perguntar ao homem onde ele tinha arranjado tal baralho Eu tenho um gênio que concede desejos O barman todo empolgado pede logo ao homem que lhe mostre o geniozinho para pedir alguma coisa O cara esfrega Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 38 uma lâmpada e realmente aparece o tal gênio dizendo o seguinte Vou te conceder um desejo mas fala logo que eu quero voltar a dormir O barman então sem pensar pede a primeira coisa que lhe vem à cabeça Quero 1 milhão em notas O geniozinho estala os dedos e de repente o bar fica cheio de botas Botas Eu pedi 1 milhão em notas e não em botas Essa porra desse gênio é um bocado surdo não acha O homem responde Claro que eu acho Ou você realmente acredita que eu ia pedir um baralho de 30 centímetros Disponível em httpwwwpiadasonlinecombrMostra PiadasaspOgeniosurdo Acesso em 5 jun 2009 Essa piada trata de um gênio ensurdecido com o tempo e não pro priamente de uma pessoa surda de nascença O que leva ao riso é justamente o desvio o fato de ele não escutar os pedidos corretamente por apresentar uma perda da audição Como vimos em Bergson 1987 todo desvio é cômico sendo que ele se dá sobre o fato de certas deformidades terem o poder de provocar o riso Nesse caso especificamente é a surdez que é considerada um desvio O gatilho do humor está na troca que o gênio faz dos pedidos devido à sua baixa audição É possível percebermos um mecanismo fonológico deflagrado no humor das palavras nota e caralho as quais são confundidas pelo gênio por botas e baralho A simples mudança de uma única unidade significativa é capaz de transformar completamente a palavra Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 39 Ainda podemos pensar no caso de uma falsa homonímia as quais segundo Travaglia 1995 são responsáveis pelo efeito humorístico Isso se faz marcar pela troca das palavras notabota e baralhocaralho Como ressalta o autor apesar de não serem homônimas elas ocorrem por seus usuários não ouvirem bem É no desenrolar da situação que elas passam a ser compreendidas O ethos do surdo dessa piada é demarcado como o de um tolo e idiotizado além de irônico CONSIDERAÇÕES FINAIS Após analisarmos tais piadas pudemos verificar que a sociedade demonstra ter pouco conhecimento da pessoa surda ou com defici ência auditiva Há uma tendência em concebêla como uma pessoa que desvia do padrão incapaz tola idiotizada utilizando para tal de um script de estupidez De certa forma a comunidade ouvinte reprime o surdo tentando fazêlo narrarse como um ouvinte Fica claro portanto que há uma relação de poder sobre a pessoa surda que passa a ser carregada de inferioridade As representações que passam a dominar nos ouvin tes sobre as identidades surdas são de um ethos de incapacidade e invalidez Para que passemos a compreender o surdo é necessário que deixemos de concebêlo como doente disforme e passemos a entendêlo como um indivíduo que tem todas as possibilidades porém faz a leitura do mundo de outra forma ou seja visualmente A maior diferença que separa a identidade surda da ouvinte é o fato de o primeiro ter uma experiência visual por onde desenvolve toda a sua aprendizagem ao passo que o segundo além da visual conta com a experiência auditiva Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 4 0 Quanto aos recursos linguísticos utilizados nas piadas podemos citar as ocorrências de scripts de estupidez do ridículo da astúcia Observamos também mecanismos fonológicos lexicais e de falsa homonímia REFERÊNCIAS AMOSSY R Imagens de si no discurso a construção do ethos São Paulo Con texto 2005 BERGSON H O riso ensaio sobre a significação do cômico Rio de Janeiro Guanabara 1987 MOSCA LLS Retóricas de ontem e de hoje São Paulo Humanitas 2004 A atualidade da retórica e seus estudos encontros e desencontros In I Congresso virtual da Universidade de Lisboa Lisboa DLR Departamento de Literaturas Românicas 2005 PACHECO G Retórica e nova retórica a tradição grega e a Teoria da Argu mentação de Chaïm Perelman Cadernos PETJURPUCRIO Rio de Janeiro p 2747 1997 POSSENTI S Os humores da língua análises linguísticas de piadas Campinas Mercado de Letras 1998 PROPP V I Comicidade e riso São Paulo Ática 1992 REBOUL O Introdução à retórica Tradução de Ivone Castilho Benedetti 2 ed São Paulo Martins Fontes 2004 TRAVAGLIA L C Uma introdução ao estudo do humor pela linguística DELTA v 6 n 1 p 5582 1990 O que é engraçado Categorias do risível e o humor brasileiro na tele visão Leitura estudos linguísticos e literários Universidade Federal de Alagoas Maceió n 5 6 p 4279 1992 Homonímia mundos textuais e humor Organon UFRGS Porto Alegre v 9 n 23 p 4150 1995 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009 41 Recursos linguísticos e discursivos do humor humor e classe social na televisão brasileira In Estudos linguísticos XVIII anais de seminários do Grupo de Estudos Linguísticos do Estado de São Paulo Lorena Prefeitura Municipal de LorenaGELSP 2º sem p 670677 1989 TRINGALI D Introdução à retórica a retórica como crítica literária São Paulo Duas Cidades 1988 Diálogos Pertinentes Revista Científica de Letras FrancaSP v 5 n 5 p 2941 jandez 2009

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