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21 Revisão de texto 211 As influências de Foucault nos estudos da Análise de Discurso Em sua obra Discurso e mudança social Norman Fairclough 2001 apresenta a influência do pensamento de Michel Foucault 1972 na Análise de Discurso Textualmente Orientada ADTO Diferente das abordagens mais estruturalistas que tratavam o discurso apenas como texto ou linguagem Fairclough com base em Foucault propõe enxergálo como prática social inserido em instituições de saber e influenciado por relações de poder Seu objetivo foi ir além das limitações da ADTO complementandoa com uma perspectiva que dê conta dos aspectos sociais históricos e ideológicos presentes nas práticas discursivas Dentre os principais conceitos retomados por Fairclough 2001 destacamse ordens de discurso formação discursiva formação de objetos formação de modalidades enunciativas formação de conceitos e formação de estratégias Esses conceitos nos ajudam a entender como os discursos são regulados e produzidos em certos contextos Dependendo do local e da instituição onde o discurso é produzido ele seguirá regras específicas que estruturam o que pode ser dito por quem em que momento e com que efeitos de sentido Cada campo discursivo possui limites condições que geram possibilidades e regras que moldam os sentidos e apontam os sujeitos envolvidos isso é o que Fairclough baseado em Foucault referese como formação discursiva Ela envolve quatro dimensões fundamentais formação de objetos o que será tematizado e como determinado objeto é inserido na formação discursiva formação de modalidades enunciativas quem pode falar de que lugar fala e a quem o discurso se dirige formação de conceitos como os objetos são compreendidos e nomeados dentro daquele campo discursivo formação de estratégias quais são as formas de argumentação de convencimento ou de regulação reunidos nos enunciados Esses conceitos são responsáveis pela formação de sujeitos as relações entre eles e a luta de poder em que participam dentro do campo discursivo 212 Discurso segundo Fairclough A partir dessas influências foucaultianas Fairclough 2001 propôs uma teorização do discurso englobando a análise textualmente orientada com o pensamento social e político Seu objetivo foi construir um eixo analítico do texto que reúne os aspectos linguísticos as práticas sociais e os contextos histórico e político em que estão inseridos Para isso o autor apresentou um quadro tridimensional como texto prática discursiva e prática social Fairclough 2001 p 89 Essa abordagem oferece ferramentas que facilitam a compreensão de como as mudanças discursivas estão relacionadas a transformações sociais e culturais mais amplas Fairclough opõese à definição estruturalista do discurso onde Saussure enxergava a linguagem como um sistema fechado de signos língua como estrutura mais abstrato e individual focando no falante ao afirmar que o discurso está diretamente ligado às práticas sociais e deve ser estudado no contexto em que é produzido e circula como se observa nos seguintes trechos implica ser o discurso um modo de ação uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros como também um modo de representação implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social Os eventos discursivos específicos variam em sua determinação estrutural segundo o domínio social particular ou o quadro institucional em que são gerados Por outro lado o discurso é socialmente constitutivo O discurso contribui para a construção de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e o restringem O discurso é uma prática não apenas de representação do mundo mas de significação do mundo constituindo e construindo o mundo em significado Fairclough 2001 p 91 Em outras palavras para Fairclough o discurso possui uma natureza dupla é ao mesmo tempo uma forma de ação e uma forma de representação Enquanto ação ele permite que os sujeitos atuem sobre o mundo e sobre os outros por meio da linguagem Enquanto representação ele constrói significados e visões de mundo que organizam nossa compreensão da realidade Além disso o discurso não apenas contribui para reproduzir a sociedade identidades sociais relações sociais sistemas de conhecimento e crença como é mas também contribui para transformála Fairclough 2001 p 92 A partir dessa perspectiva Fairclough afirma que o discurso possui uma relação constitutiva e dialética com a estrutura social moldandoa e sendo moldada por ela As práticas sociais são o que nos levam a produzir discursos assim como os discursos são o que definem as práticas sociais Isso significa que os discursos que constituem a sociedade não surgem do nada não são um jogo de pensamentos e ideias individuais mas surgem de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais concretas Fairclough 2001 p93 sendo regulados por tais Ao mesmo tempo essas práticas sociais são definidas e transformadas pelos discursos produzidos em seu interior 213 Prática social Fairclough 2001 p 94 afirma que a prática social tem várias orientações econômica política cultural ideológica e o discurso pode estar implicado em todas elas sem que se possa reduzir qualquer uma dessas orientações do discurso Isso implica que o discurso não se limita a uma única função ou esfera social mas passa por diversas partes da vida social participando da organização econômica das relações de poder das produções culturais e das disputas ideológicas Contudo Fairclough enfatiza que não se pode reduzir nenhuma dessas orientações à outra ou seja o discurso quando atua em uma prática política por exemplo não se resume apenas à política pois também pode carregar significados culturais ou econômicos Sendo assim o discurso enquanto prática social é atravessado por diversas forças e interesses simultaneamente e não é um fenômeno que atua em apenas uma dimensão da estrutura social O autor dá ênfase às dimensões política e ideológica para a análise crítica do discurso O discurso como prática política estabelece mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos entre as quais existem relações de poder Fairclough 2001 p 94 Em outras palavras o discurso não é apenas um meio de expressar ideias mas uma prática que atua na criação de novas formas de organização social e novas hierarquias contribui para preservar e legitimar estruturas já existentes e é usado para desordenar resistir ou modificar essas estruturas Além disso ele age sobre as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos Essas entidades são formadas e definidas também através dos discursos Por exemplo discursos políticos podem reforçar a identidade de um grupo como a classe trabalhadora ou redefinir seus limites Sendo assim enquanto prática política atua sobre quem exerce o poder quem é subordinado como os grupos se formam e como se relacionam O discurso também tem um papel ideológico O discurso como prática ideológica constitui naturaliza mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder Fairclough 2001 p 94 Isso significa que o discurso cria sentidos define o que é certoerrado verdadeirofalso por exemplo faz com que esses sentidos pareçam óbvios inevitáveis naturais perpetua esses significados pode mudar desestabilizar e propor novos sentidos Esses significados do mundo não são neutros Diferentes grupos ou classes sociais produzem discursos que expressam e reforçam seus interesses e visões de mundo Assim o discurso ideológico atua disfarçando ou ressaltando desigualdades conforme quem o produz e quem o consome Fairclough conclui que as práticas políticas e ideológicas são interdependentes pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder Fairclough 2001 p 94 O discurso define o que as pessoas pensam ser verdade justo normal tudo isso vinculado às disputas de poder 214 Prática discursiva Quanto a prática discursiva Fairclough distingue a prática discursiva manifestase em forma linguística na forma do que referirei como textos usando texto no sentido amplo de Halliday linguagem falada e escrita Halliday 1978 A prática social política ideológica etc é uma dimensão do evento discurso da mesma forma que o texto Fairclough 2001 p 99 Apesar da prática discursiva fazer parte da prática social há certos momentos em que a prática social não será inteiramente constituída pelo discurso podendo conter elementos nãodiscursivos por exemplo políticas públicas envolvem textos e discursos mas também decisões administrativas recursos financeiros e ações concretas No entanto a prática discursiva sempre será composta pelo discurso pois ela se dá na linguagem seja falada ou escrita como Fairclough destaca ao citar Halliday Ou seja toda prática discursiva é uma forma de prática social que se expressa em textos mas nem toda prática social se reduz ou se limita à discursiva Outro ponto importante para compreender como funcionam as práticas discursivas e como devem ser analisadas dentro do discurso são os processos de produção distribuição e consumo textual Fairclough 2001 p 99 Ainda segundo o autor a natureza desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais Fairclough 2001 p 106107 O processo de produção referese a como e por quem o discurso é produzido o processo de distribuição está relacionado a como e onde o discurso circula e por fim o processo de consumo diz respeito a como o discurso é interpretado e quais efeitos produz Esses três processos dependem do meio social no qual o discurso está inserido Ao analisar o processo de produção discursiva é fundamental compreender os conceitos de interdiscursividade e intertextualidade manifesta pois segundo Fairclough 2001 ambos nos ajudam a entender como os textos são construídos A interdiscursividade referese à maneira como diferentes discursos ou gêneros discursivos se conectam na produção de um texto Ao escrever o autor não utiliza apenas um único discurso isolado mas combina elementos de vários discursos que já circulam socialmente e são reconhecidos Dessa forma a interdiscursividade influencia o processo de produção pois orienta as escolhas do autor ao recorrer a outros discursos ou gêneros para estruturar um novo texto Fairclough 2001 Essas escolhas não são totalmente livres mas são moldadas pelas normas discursivas pelas convenções sociais e pelo contexto em que o autor está inserido Por sua vez a intertextualidade manifesta é uma parte visível da interdiscursividade são as marcas evidentes de outros textos no discurso produzido como citações alusões ou paráfrases Fairclough 2001 Durante o processo de produção o produtor decide como e até que ponto tornar explícita essa intertextualidade dependendo do objetivo da comunicação do contexto e das normas do ambiente social ou institucional em que o texto será inserido 215 Ideologia ela tem existência material nas práticas das instituições que abre o caminho para investigar as práticas discursivas como formas materiais de ideologia Fairclough 2001 p 116 Ou seja o discurso pode ser analisado como a materialização das ideologias que constituem as práticas sociais que o cerca a ideologia interpela os sujeitos que conduz à concepção de que um dos mais significativos efeitos ideológicos que os lingüistas ignoram no discurso segundo Althusser 1971 161 n 16 é a constituição dos sujeitos Fairclough 2001 p 117 O discurso define quem são os sujeitos Tendo em vista que os discursos são uma materialização das ideologias eles são então responsáveis por construir os sujeitos a maneira como pensam como agem sobre os outros e sobre o mundo Os sujeitos são atravessados por ideias por discursos os aparelhos ideológicos de estado instituições tais como a educação ou a mídia são ambos locais e marcos delimitadores na luta de classe que apontam para a luta no discurso e subjacente a ele como foco para uma análise de discurso orientada ideologicamente Fairclough 2001 p 117 O local onde os discursos são formados indica qual poder está em disputa No entanto o próprio discurso funciona como um campo de batalha no qual se definem as relações de poder quem exerce autoridade e quem a ela se submete As ideologias incorporadas nos discursos revelam as tensões presentes nas instituições em que esses discursos são produzidos evidenciando qual ideologia se sobressai como dominante A questão chave é se a ideologia é uma propriedade de estruturas ou uma propriedade de estruturas ou uma propriedade de eventos e a resposta é ambas Fairclough 2001 p 118 É necessário entender que as estruturas são regras normas sistemas relativamente estáveis que moldam a prática social no caso do discurso as ordens de discurso os conjuntos de gêneros estilos e discursos legitimados numa sociedade ou instituição e os eventos são interações concretas específicas situadas em um tempo e um espaço uma conversa uma reportagem uma música uma aula etc O questionamento levantado por Fairclough é se a ideologia é algo fixado nas estruturas como parte do sistema social ou ela só se manifesta nos eventos concretos de discurso A resposta dele é que é as duas coisas está nas estruturas porque as ordens de discurso já carregam valores perspectivas e relações de poder naturalizadas e está nos eventos porque cada prática discursiva pode reproduzir ou transformar essas estruturas Prefiro a concepção de que a ideologia está localizada tanto nas estruturas isto é ordens de discurso que constituem o resultado de eventos passados como nas condições para os eventos atuais e nos próprios eventos quando reproduzem e transformam as estruturas condicionadoras É uma orientação acumulada e naturalizada que é construída nas normas e nas convenções como também um trabalho atual de naturalização e desnaturalização de tais orientações nos eventos discursivos Fairclough 2001 p 119 Nas estruturas as ordens de discurso são o resultado acumulado de eventos passados e funcionam como condições para os eventos atuais limitam moldam e tornam alguns discursos mais prováveis ou aceitáveis que outros por exemplo a tradição jornalística do tom objetivo já é uma estrutura ideológica naturalizada Nos eventos quando realizamos um evento discursivo dar uma entrevista escrever uma música fazer um post podemos reproduzir ou transformar a estrutura que nos condiciona Há sempre um trabalho de naturalização reforçar o que já é visto como normal ou desnaturalização questionar problematizar o que parecia natural Fairclough define ideologia então como uma orientação acumulada e naturalizada herdada das estruturas mas também como um trabalho ativo que ocorre no momento da interação o evento Outra questão importante sobre a ideologia diz respeito aos aspectos ou níveis do texto e do discurso que podem ser investidos ideologicamente Os sentidos das palavras são importantes naturalmente mas também o são outros aspectos semânticos tais como as pressuposições as metáforas e a coerência Fairclough 2001 p 119 A ideologia não é apenas o que é dito conteúdo mas também como é dito forma escolha de palavras estrutura implicações Muitas análises superficiais param no sentido das palavras essa palavra é carregada de preconceito essa expressão é neutra mas Fairclough aponta que é necessário direcionar nossa atenção a outros aspectos semânticas que moldam a interpretação e reproduzem valores sociais como as pressuposições as metáforas e a coerência As pressuposições são ideias que o texto assume como verdade sem questionar por exemplo no enunciado O problema da juventude que não quer trabalhar pressupõe que a juventude não tem vontade de trabalhar sem discutir as condições que tornam o trabalho precário ou inviável As metáforas estão relacionadas a organizam nossa percepção da realidade definição baseada em Lakoff Johnson 2002 por exemplo metáforas econômicas que tratam a economia como um corpo doente a ser curado justificam medidas de austeridade como se fossem tratamento médico inevitável Por fim a c oerência o modo como as ideias se conectam no texto pode reforçar uma visão de mundo como exemplo uma reportagem que liga desemprego à falta de qualificação individual constrói coerência em torno do discurso meritocrático deixando de fora causas estruturais As ideologias construídas nas convenções podem ser mais ou menos naturalizadas e automatizadas e as pessoas podem achar difícil compreender que suas práticas normais poderiam ter investimentos ideológicos específicos Mesmo quando nossa prática pode ser interpretada como de resistência contribuindo para a mudança ideológica não estamos necessariamente conscientes dos detalhes de sua significação ideológica Fairclough 2001 p 120 Esses comentários sobre a consciência podem ser ligados a questões sobre a interpelação do sujeito O caso ideal na teoria althusseriana é o do sujeito posicionado na ideologia de tal maneira que disfarça a ação e os efeitos desta e dá ao sujeito uma autonomia imaginária Fairclough 2001 p 120 A teoria althusseriana do sujeito exagera a constituição ideológica dos sujeitos e consequentemente subestima a capacidade de os sujeitos agirem individual ou coletivamente como agentes até mesmo no compromisso com a crítica e na oposição às práticas ideológicas Fairclough 2001 p 121 os sujeitos são posicionados ideologicamente mas são também capazes de agir criativamente no sentido de realizar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que são expostos e de reestruturar as práticas e as estruturas posicionadoras Fairclough 2001 p 121 Mas daí nem todo discurso é irremediavelmente ideológico As ideologias surgem nas sociedades caracterizadas por relações de dominação com base na classe no gênero social no grupo cultural e assim por diante e à medida que os seres humanos são capazes de transcender tais sociedades são capazes de transcender a ideologia Fairclough 2001 p 121 216 Hegemonia Pular para a página 122 217 Texto A partir da página 101 também falar sobre o capítulo 4 Interdiscursividade 218 Metáfora Pular para a página 241 219 Mudança social Falar sobre os aspectos da mudança social lideradas pelo discurso informações contidas no capítulo 7
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Dependendo do local e da instituição onde o discurso é produzido ele seguirá regras específicas que estruturam o que pode ser dito por quem em que momento e com que efeitos de sentido Cada campo discursivo possui limites condições que geram possibilidades e regras que moldam os sentidos e apontam os sujeitos envolvidos isso é o que Fairclough baseado em Foucault referese como formação discursiva Ela envolve quatro dimensões fundamentais formação de objetos o que será tematizado e como determinado objeto é inserido na formação discursiva formação de modalidades enunciativas quem pode falar de que lugar fala e a quem o discurso se dirige formação de conceitos como os objetos são compreendidos e nomeados dentro daquele campo discursivo formação de estratégias quais são as formas de argumentação de convencimento ou de regulação reunidos nos enunciados Esses conceitos são responsáveis pela formação de sujeitos as relações entre eles e a luta de poder em que participam dentro do campo 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observa nos seguintes trechos implica ser o discurso um modo de ação uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros como também um modo de representação implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social Os eventos discursivos específicos variam em sua determinação estrutural segundo o domínio social particular ou o quadro institucional em que são gerados Por outro lado o discurso é socialmente constitutivo O discurso contribui para a construção de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e o restringem O discurso é uma prática não apenas de representação do mundo mas de significação do mundo constituindo e construindo o mundo em significado Fairclough 2001 p 91 Em outras palavras para Fairclough o discurso possui uma natureza dupla é ao mesmo tempo uma forma de ação e uma forma de representação Enquanto ação ele permite que os sujeitos atuem sobre o mundo e sobre os outros por meio da linguagem Enquanto representação ele constrói significados e visões de mundo que organizam nossa compreensão da realidade Além disso o discurso não apenas contribui para reproduzir a sociedade identidades sociais relações sociais sistemas de conhecimento e crença como é mas também contribui para transformála Fairclough 2001 p 92 A partir dessa perspectiva Fairclough afirma que o discurso possui uma relação constitutiva e dialética com a estrutura social moldandoa e sendo moldada por ela As práticas sociais são o que nos levam a produzir discursos assim como os discursos são o que definem as práticas sociais Isso significa que os discursos que constituem a sociedade não surgem do nada não são um jogo de pensamentos e ideias individuais mas surgem de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais concretas Fairclough 2001 p93 sendo regulados por tais Ao mesmo tempo essas práticas sociais são definidas e transformadas pelos discursos produzidos em seu interior 213 Prática social Fairclough 2001 p 94 afirma que a prática social tem várias orientações econômica política cultural ideológica e o discurso pode estar implicado em todas elas sem que se possa reduzir qualquer uma dessas orientações do discurso Isso implica que o discurso não se limita a uma única função ou esfera social mas passa por diversas partes da vida social participando da organização econômica das relações de poder das produções culturais e das disputas ideológicas Contudo Fairclough enfatiza que não se pode reduzir nenhuma dessas orientações à outra ou seja o discurso quando atua em uma prática política por exemplo não se resume apenas à política pois também pode carregar significados culturais ou econômicos Sendo assim o discurso enquanto prática social é atravessado por diversas forças e interesses simultaneamente e não é um fenômeno que atua em apenas uma dimensão da estrutura social O autor dá ênfase às dimensões política e ideológica para a análise crítica do discurso O discurso como prática política estabelece mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos entre as quais existem relações de poder Fairclough 2001 p 94 Em outras palavras o discurso não é apenas um meio de expressar ideias mas uma prática que atua na criação de novas formas de organização social e novas hierarquias contribui para preservar e legitimar estruturas já existentes e é usado para desordenar resistir ou modificar essas estruturas Além disso ele age sobre as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos Essas entidades são formadas e definidas também através dos discursos Por exemplo discursos políticos podem reforçar a identidade de um grupo como a classe trabalhadora ou redefinir seus limites Sendo assim enquanto prática política atua sobre quem exerce o poder quem é subordinado como os grupos se formam e como se relacionam O discurso também tem um papel ideológico O discurso como prática ideológica constitui naturaliza mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder Fairclough 2001 p 94 Isso significa que o discurso cria sentidos define o que é certoerrado verdadeirofalso por exemplo faz com que esses sentidos pareçam óbvios inevitáveis naturais perpetua esses significados pode mudar desestabilizar e propor novos sentidos Esses significados do mundo não são neutros Diferentes grupos ou classes sociais produzem discursos que expressam e reforçam seus interesses e visões de mundo Assim o discurso ideológico atua disfarçando ou ressaltando desigualdades conforme quem o produz e quem o consome Fairclough conclui que as práticas políticas e ideológicas são interdependentes pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder Fairclough 2001 p 94 O discurso define o que as pessoas pensam ser verdade justo normal tudo isso vinculado às disputas de poder 214 Prática discursiva Quanto a 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compreender como funcionam as práticas discursivas e como devem ser analisadas dentro do discurso são os processos de produção distribuição e consumo textual Fairclough 2001 p 99 Ainda segundo o autor a natureza desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais Fairclough 2001 p 106107 O processo de produção referese a como e por quem o discurso é produzido o processo de distribuição está relacionado a como e onde o discurso circula e por fim o processo de consumo diz respeito a como o discurso é interpretado e quais efeitos produz Esses três processos dependem do meio social no qual o discurso está inserido Ao analisar o processo de produção discursiva é fundamental compreender os conceitos de interdiscursividade e intertextualidade manifesta pois segundo Fairclough 2001 ambos nos ajudam a entender como os textos são construídos A interdiscursividade referese à maneira como diferentes discursos ou gêneros discursivos se conectam na produção de um texto Ao escrever o autor não utiliza apenas um único discurso isolado mas combina elementos de vários discursos que já circulam socialmente e são reconhecidos Dessa forma a interdiscursividade influencia o processo de produção pois orienta as escolhas do autor ao recorrer a outros discursos ou gêneros para estruturar um novo texto Fairclough 2001 Essas escolhas não são totalmente livres mas são moldadas pelas normas discursivas pelas convenções sociais e pelo contexto em que o autor está inserido Por sua vez a intertextualidade manifesta é uma parte visível da interdiscursividade são as marcas evidentes de outros textos no discurso produzido como citações alusões ou paráfrases Fairclough 2001 Durante o processo de produção o produtor decide como e até que ponto tornar explícita essa intertextualidade dependendo do objetivo da comunicação do contexto e das normas do ambiente social ou institucional em que o texto será inserido 215 Ideologia ela tem existência material nas práticas das instituições que abre o caminho para investigar as práticas discursivas como formas materiais de ideologia Fairclough 2001 p 116 Ou seja o discurso pode ser analisado como a materialização das ideologias que constituem as práticas sociais que o cerca a ideologia interpela os sujeitos que conduz à concepção de que um dos mais significativos efeitos ideológicos que os lingüistas ignoram no discurso segundo Althusser 1971 161 n 16 é a constituição dos sujeitos Fairclough 2001 p 117 O discurso define quem são os sujeitos Tendo em vista que os discursos são uma materialização das ideologias eles são então responsáveis por construir os sujeitos a maneira como pensam como agem sobre os outros e sobre o mundo Os sujeitos são atravessados por ideias por discursos os aparelhos ideológicos de estado instituições tais como a educação ou a mídia são ambos locais e marcos delimitadores na luta de classe que apontam para a luta no discurso e subjacente a ele como foco para uma análise de discurso orientada ideologicamente Fairclough 2001 p 117 O local onde os discursos são formados indica qual poder está em disputa No entanto o próprio discurso funciona como um campo de batalha no qual se definem as relações de poder quem exerce autoridade e quem a ela se submete As ideologias incorporadas nos discursos revelam as tensões presentes nas instituições em que esses discursos são produzidos evidenciando qual ideologia se sobressai como dominante A questão chave é se a ideologia é uma propriedade de estruturas ou uma propriedade de estruturas ou uma propriedade de eventos e a resposta é ambas Fairclough 2001 p 118 É necessário entender que as estruturas são regras normas sistemas relativamente estáveis que moldam a prática social no caso do discurso as ordens de discurso os conjuntos de gêneros estilos e discursos legitimados numa sociedade ou instituição e os eventos são interações concretas específicas situadas em um tempo e um espaço uma conversa uma reportagem uma música uma aula 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passados e funcionam como condições para os eventos atuais limitam moldam e tornam alguns discursos mais prováveis ou aceitáveis que outros por exemplo a tradição jornalística do tom objetivo já é uma estrutura ideológica naturalizada Nos eventos quando realizamos um evento discursivo dar uma entrevista escrever uma música fazer um post podemos reproduzir ou transformar a estrutura que nos condiciona Há sempre um trabalho de naturalização reforçar o que já é visto como normal ou desnaturalização questionar problematizar o que parecia natural Fairclough define ideologia então como uma orientação acumulada e naturalizada herdada das estruturas mas também como um trabalho ativo que ocorre no momento da interação o evento Outra questão importante sobre a ideologia diz respeito aos aspectos ou níveis do texto e do discurso que podem ser investidos ideologicamente Os sentidos das palavras são importantes naturalmente mas também o são outros aspectos semânticos tais como as pressuposições as metáforas e a coerência Fairclough 2001 p 119 A ideologia não é apenas o que é dito conteúdo mas também como é dito forma escolha de palavras estrutura implicações Muitas análises superficiais param no sentido das palavras essa palavra é carregada de preconceito essa expressão é neutra mas Fairclough aponta que é necessário direcionar nossa atenção a outros aspectos semânticas que moldam a interpretação e reproduzem valores sociais como as pressuposições as metáforas e a coerência As pressuposições são ideias que o texto assume como verdade sem questionar por exemplo no enunciado O problema da juventude que não quer trabalhar pressupõe que a juventude não tem vontade de trabalhar sem discutir as condições que tornam o trabalho precário ou inviável As metáforas estão relacionadas a organizam nossa percepção da realidade definição baseada em Lakoff Johnson 2002 por exemplo metáforas econômicas que tratam a economia como um corpo doente a ser curado justificam medidas de austeridade como se fossem tratamento médico inevitável Por fim a c oerência o modo como as ideias se conectam no texto pode reforçar uma visão de mundo como exemplo uma reportagem que liga desemprego à falta de qualificação individual constrói coerência em torno do discurso meritocrático deixando de fora causas estruturais As ideologias construídas nas convenções podem ser mais ou menos naturalizadas e automatizadas e as pessoas podem achar difícil compreender que suas práticas normais poderiam ter investimentos ideológicos específicos Mesmo quando nossa prática pode ser interpretada como de resistência contribuindo para a mudança ideológica não estamos necessariamente conscientes dos detalhes de sua significação ideológica Fairclough 2001 p 120 Esses comentários sobre a consciência podem ser ligados a questões sobre a interpelação do sujeito O caso ideal na teoria althusseriana é o do sujeito posicionado na ideologia de tal maneira que disfarça a ação e os efeitos desta e dá ao sujeito uma autonomia imaginária Fairclough 2001 p 120 A teoria althusseriana do sujeito exagera a constituição ideológica dos sujeitos e consequentemente subestima a capacidade de os sujeitos agirem individual ou coletivamente como agentes até mesmo no compromisso com a crítica e na oposição às práticas ideológicas Fairclough 2001 p 121 os sujeitos são posicionados ideologicamente mas são também capazes de agir criativamente no sentido de realizar suas próprias conexões entre as diversas práticas e ideologias a que são expostos e de reestruturar as práticas e as estruturas posicionadoras Fairclough 2001 p 121 Mas daí nem todo discurso é irremediavelmente ideológico As ideologias surgem nas sociedades caracterizadas por relações de dominação com base na classe no gênero social no grupo cultural e assim por diante e à medida que os seres humanos são capazes de transcender tais sociedades são capazes de transcender a ideologia Fairclough 2001 p 121 216 Hegemonia Pular para a página 122 217 Texto A partir da página 101 também falar sobre o capítulo 4 Interdiscursividade 218 Metáfora Pular para a página 241 219 Mudança social Falar sobre os aspectos da mudança social lideradas pelo discurso informações contidas no capítulo 7