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ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO COMO MÉTODO EM PESQUISA SOCIAL CIENTÍFICA CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS AS A METHOD IN SOCIAL SCIENTIFIC RESEARCH Norman Fairclough Versão para o português Iran Ferreira de Melo Meu objetivo neste capítulo é descrever a Análise Crítica do Discurso ACD como um método que possa ser usado na pesquisa social científica Pretendo referir me especificamente a aspectos selecionados de um objeto de pesquisa particular o papel diferenciado da liguagem no novo capitalismo Devo declarar previamente que guardo certas reservas quanto ao conceito de método Não é difícil pensar em método como uma espécie de habilidade transferível se considerarmos a definação do termo como uma técnica uma ferramenta numa caixa da qual se pode lançar mão quando necessário e depois devolvêla A ACD na minha visão é muito mais uma teoria que um método ou melhor uma perspectiva teórica sobre a língua e de uma maneira mais geral sobre a semiose que inclui a línguagem visual linguagem corporal e assim por diante como um elemento ou momento do processo social material WILLIAMS 1977 que dá margem a análises linguísticas ou semióticas inseridas em reflexões Professor Emérito do Departamento de Linguística e Língua Inglesa da Universidade de Lancaster Lancaster Reino Unido nfaircloughlancasteracuk Este texto integra a obra Methods of critical discourse analysis organizada por Wodak e Meyer 2 ed Londres Sage 2005 p 121138 Doutorando pela Universidade da São Paulo USP São Paulo Brasil iranmelohotmailcom 308 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso mais amplas sobre o processo social Além do mais esta persepctiva tem uma relação dialógica com outras teorias e métodos sociais com eles engajandose não apenas de maneira interdisciplinar mas transdisciplinar entendendo que coengajamentos particulares sobre determinados aspectos do processo social devem suscitar avanços teóricos e metodológicos que perpassem as fronteiras das várias teorias e métodos FAIRCLOUGH 2000a Dito isso de outra maneira todos nós deveríamos estar abertos a diferentes lógicas teóricas a sua interiorização HARVEY 1996 tornando possível transformar as relações que existem entre elas Primeiramente descreverei a posição teórica da atual versão da ACD Em segundo lugar o aparato de análise o método e a visão da crítica Finalmente darei exemplo utilizando uma questão particular do vasto objeto de pesquisa que é a língua no novo capitalismo as representações da mudança na economia globalizada 1 Posições teóricas da ACD discurso como um momento das práticas sociais Nesta sessão estabelecerei o modelo da ACD que tenta incorporar a visão de língua como um elemento integrante do processo social material ver CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 FAIRCLOUGH 2000a Esta vertente da ACD está baseada em uma visão de semiose como a parte irredutível dos processos sociais materiais A semiose inclui todas as formas de construção de sentidos imagens linguagem corporal e a própria língua Vemos a vida social como uma rede interconectada de práticas sociais de diversos tipos econômicas políticas culturais entre outras todas com um elemento semiótico A concepção de práticas sociais no permite combinar as perspectivas de estrutura e de ação uma prática é por um lado uma maneira relativamente permanente de agir na sociedade determinada por sua posição dentro da rede de práticas estruturada e por outro um domínio de ação social e interação que reproduz estruturas podendo transformálas Todas são práticas de produção arenas dentro das quais a vida social é produzida seja ela econômica política cultural ou cotidiana Toda prática inclui os seguintes elementos a Atividade produtiva b Meios de produção 309 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 c Relações sociais d Identidades sociais e Valores culturais f Consciência g Semiose Esses elementos estão dialeticamente relacionados HARVEY 1996 Em outras palavras são elementos diferentes mas não totalmente separados e distintos Há um sentido no qual cada um internaliza os outros sem se confundirem entre si Dessa perspectiva as relações e identidades sociais os valores culturais e a consciência são em parte semióticos o que não permite inferir que as relações sociais por exemplo sejam teorizadas do modo como se faz nos estudos da linguagem essas duas matérias têm propriedades distintas e pesquisálas dá margem a disciplinas distintas A ACD é a análise das relações dialéticas entre semioses inclusive a língua e outros elementos das práticas sociais Essa disciplina preocupase particularmente com as mudanças radicais na vida social contemporânea no papel que a semiose tem dentro dos processos de mudança e nas relações entre semiose e outros elementos sociais dentro da rede de práticas O papel da semiose nas práticas sociais por sua vez deve ser estabelecido por meio de análise A semiose pode ser mais importante e aparente em determinada ou determinadas práticas do que em outras e sua importância pode variar com o passar do tempo São três as maneiras de atuação da semiose Primeiramente atua como parte da atividade social inserida em uma prática É parte do trabalho de um vendedor de loja por exemplo usar a língua de uma forma particular e o mesmo acontece quando se governa um país Em segundo lugar a semiose atua nas representações Os atores sociais no curso de sua atividade produzem não só representações das práticas em que estão inseridos representações reflexivas como de outras recontextualizandoas BERNSTEIN 1990 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 e incorporandoas às suas próprias Além disso os atores sociais irão produzir representações de modo distinto dependendo da posição que eles ocupam dentro de suas práticas A representação é um processo de construção social das práticas incluindo a autoconstrução reflexiva as representações adentram e modelam os processos e práticas sociais Em terceiro lugar a semiose atua no desempenho de posições particulares As identidades de 310 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso pessoas que operam em certas posições são apenas parcialmente determinadas pela prática em si As pessoas de diferentes classes sociais sexos nacionalidades etnias ou culturas com experiências de vida diversas produzem desempenhos distintos A semiose como parte da atividade social constitui gêneros discursivos Os gêneros são as maneiras diversas de agir de produzir a vida social semioticamente São exemplos a conversação cotidiana as reuniões dos diversos tipos de organização as entrevistas políticas e de outros tipos e as críticas de livros A semiose na representação e autorrepresentação de práticas sociais constitui os discursos que são as várias representações da vida social Os atores sociais posicionados diferentemente veem e representam a vida social de modo distinto com discursos distintos A vida de pessoas pobres por exemplo é representada nas práticas sociais do governo da política da medicina da ciência social e os diferentes discursos inseridos nessas práticas correspondem às diversas posições dos atores sociais A semiose no desempenho das posições constitui os estilos Os médicos professores ou ministros de governo por exemplo não têm simplesmente estilos semióticos em razão de sua posição nas práticas Cada posição é desempenhada com estilos diferentes dependendo de aspectos de identidade que excedem a construção das diversas posições Os estilos são maneiras de ser identidades em seu aspecto semiótico As práticas sociais interrelacionadas de maneira particular constituem a ordem social como é o caso da atual ordem neoliberal globalizada emergente do novo capitalismo ou mais especificamente a ordem social de educação de uma sociedade específica em um certo período de tempo O aspecto semiótico de uma ordem social é o que podemos chamar de ordem de discurso É a maneira de os diversos gêneros e discursos estarem interrelacionados entre si Uma ordem de discurso é uma estruturação social da diferença semiótica uma ordenação social particular das relações entre os vários modos de construir sentido isto é os diversos discursos e gêneros Um aspecto dessa ordenação é a dominância algumas maneiras de construir sentido são dominantes ou estão em voga para certas ordens de discurso outras são marginais subversivas alternativas Por exemplo pode haver uma maneira dominante de conduzir uma consulta médica na Inglaterra No entanto há outras maneiras que podem ser adotadas ou desenvolvidas em maior ou menor proporção em oposição àquela dominante A maneira dominante provavelmente 311 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 manterá a distância social entre médicos e pacientes e a autoridade do médico na interação já as outras formas de proceder mais serão mais democráticas menos autoritárias O conceito político de hegemonia pode ser útil quando aplicado à análise de ordens de discurso FAIRCLOUGH 1992 FORGACS 1988 LACLAU MOUFFE 1985 Uma determinada estruturação social da diversidade semiótica pode ser hegemônica tornarse parte do senso comum legitimador que sustenta as relações de dominação Mas a hegemonia em seus períodos de crise será sempre contestada em maior ou menor proporção Uma ordem de discurso não é um sistema fechado ou rígido é na verdade um sistema aberto posto em risco pelo que acontece em interações reais A ACD como indiquei anteriormente oscila entre a ênfase na estrutura nas mudanças na estruturação da diversidade semiótica ordens de discurso e a ênfase na ação no trabalho semiótico produtivo que acontece nos textos e interações Nas duas perspectivas o que importa são as articulações em mudança entre gêneros discursos e estilos a mudança da estruturação social entre esses elementos na estabilidade e permanência nas ordens de discurso e uma continuidade no trabalho das relações entre eles em textos e interações O termo interdiscursividade está reservado para os textos e as interações a interdiscursividade de um texto é parte de sua intertextualidade é uma questão de quais gêneros discursos e estilos os constituem e como no texto esses aspectos são trabalhados para formar articulações particulares 2 Estrutura analítica da ACD Uma estrutura analítica para a ACD é representada esquematicamente abaixo Foi modelada com base no conceito de apreciação crítica explicatória do teórico crítico de Roy Bhaskar BHASKAR 1986 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 1 Dar ênfase em um problema social que tenha um aspecto semiótico 2 Identificar obstáculos para que esse problema seja resolvido pela análise a Da rede de práticas no qual está inserido b Das relações de semiose com outros elementos dentro das práticas particulares em questão 312 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso c Do discurso a semiose em si i Estrutura analítica a ordem de discurso ii Análise interacional iii Análise interdiscursiva iv Análise linguística e semiótica 3 Considerar se a ordem social a rede de práticas em algum sentido é um problema ou não 4 Identificar maneiras possíveis para superar os obstáculos 5 Refletir criticamente sobre a análise 14 Uma característicachave desse modelo é a combinação de elementos relacionais 2 com elementos dialéticos 4 Ele combina uma apreciação negativa no diagnóstico do problema com uma apreciação positiva na identificação das possibilidades até então inconcebidas para sua resolução levando em consideração a maneira como as coisas estão O estágio 1 mostra como essa abordagem da ACD é baseada em problemas A ACD é uma forma de ciência social crítica projetada para mostrar problemas enfrentados pelas pessoas em razão das formas particulares de vida social fornecendo recursos para que se chegue a uma solução É claro que isso leva a uma pergunta um problema para quem Na condição de ciência social crítica a ACD tem objetivos emancipatórios e focaliza os chamados perdedores dentro de certas formas de vida social os pobres os excluídos socialmente aqueles que estão sujeitos a relações opressivas de raça e sexo e assim por diante Mas isso não nos dá uma um conjunto de problemas sociais claramente definidos e incontroversos Os assuntos problemáticos e que requerem mudança são inerentemente controversos e contestáveis e a ACD estará inevitavelmente envolvida em debates e controvérsias sociais quando enfatizar certas características da vida social como problema O estágio 2 da apreciação crítica aborda o diagnóstico do problema de uma maneira bastante indireta questionando quais são os obstáculos a serem superados O que faz com que a estrutura e organização da vida social resistam a uma resolução descomplicada O diagnóstico considera a maneira pela qual as práticas sociais se interrelacionam o modo de relação da semiose com outros elementos de práticas sociais e com características de discurso em si Por ser o foco particular da análise do discurso devo discutir esse aspecto mais detidamente 313 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Apresentei anteriormente a oscilação de ênfase da ACD entre a estrutura e a ação ênfase na estruturação de ordens de discurso e ênfase no que acontece em determinadas interações Os obstáculos para a resolução do problema têm certa relação com a estruturação social das diversidades semióticas nas ordens de discurso É o que se observa por exemplo na maneira como os discursos de administração de empresas colonizou domínios do serviço público tais como a educação Os obstáculos são também em parte um problema de dominação ou de influência nas formas de interação do uso da linguagem Isso significa que devemos analisar as interações A palavra interação é usada aqui em seu sentido amplo a conversa é uma forma de interação como também um artigo de jornal é embora os interlocutores estejam distantes no tempo e no espaço Nesse sentido tanto o texto escrito como o televisivo ou digital são interações A análise interacional tem dois aspectos Primeiro há uma investigação interdiscursiva que busca responder à seguinte pergunta como certos tipos de interação juntamente articulam os diferentes gêneros discursos e estilos A suposição que se faz aqui é que uma interação ou texto é tipicamente híbrida em termos de gêneros de discursos e de estilos ou seja parte da análise está relacionada com o desenvolvimento de uma mistura particular de certos tipos de interação O segundo aspecto é a análise linguística e de outras formas de investigação semiótica como é o caso das imagens visuais Devo não me deter aqui tanto na análise linguística Uma dificuldade encontrada pelos não especialistas em linguística é que há muitos aspectos da língua relevantes na interação para uma análise crítica Existem no entanto listas de aspectos linguísticos que tendem a ser particularmente relevantes quando tratamos de análises críticas como por exemplo no capítulo 8 de FAIRCLOUGH 1992 e no capítulo 10 de FOWLER et al 1979 Essa vertente da ACD se baseia na teoria linguística sistêmicofuncional HALLIDAY 1994 que tem a virtude de ser funcional isto é vê e analisa a língua levando em consideração que ela mesmo em sua gramática é modelada pelas funções sociais a que tem serventia Assim fica relativamente fácil observar como categorias de análise social se conectam com categorias de análise linguística Ver capítulo 8 de CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 para uma apreciação e comentário crítico a respeito desse tipo de análise linguística O estágio 3 da análise considerar se a ordem social precisa do problema é uma forma indireta de ligar as coisas como realmente são com o que elas 314 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso devem ser Se alguém conseguir estabelecer por uma uma apreciação crítica que a ordem social gera uma série de problemas necessários para que ela se mantenha viva isso fortalece as razões para uma mudança social radical O problema da ideologia também surge aqui o discurso é ideológico na medida em que contribui para a manutenção de relações particulares de poder e dominação O estágio 4 da análise transforma a apreciação crítica negativa em positiva pela identificação das possibilidades de mudanças ainda não concebidas ou concebidas parcialmente levando em consideração as coisas estão Esse estágio pode estar voltado a apontar contradições lacunas deficiências dentro dos aspectos considerados dominantes na ordem social como é o caso das contradições nos tipos de interação dominantes ou ainda mostrar diferenças e resistência Finalmente o estágio 5 é um momento em que a análise se torna reflexiva questionando por exemplo sua eficácia como apreciação crítica sua contribuição para a emancipação social e o ajuste em seus posicionamentos a práticas acadêmicas nos dias atuais tão ligadas ao mercado e ao Estado 3 Exemplo representações de mudança na economia global O exemplo que escolhi para ilustrar essa abordagem da ACD são as representações de mudança na economia global O significado de tais representações para as ciências sociais críticas surge como uma área mais ampla de pesquisa à qual aludi anteriormente a linguagem do novo capitalismo Devo portanto começar relacionando aquela área a essa O novo capitalismo pode ser visto como uma rearrumação de práticas sociais De acordo com Jessop 2000 tal rearrumação envolve tanto uma reestruturação quanto um reescalonamento Novas relações estruturais estão sendo estabelecidas entre domínios da vida social redes de práticas ou utilizando os termos de Bourdieu 1979 campos Notavelmente há uma reestruturação das relações nos campos econômicos e nãoeconômicos que compreende uma colonização massiva nestes realizadas por aqueles Reescalonar pressupõe novas relações estabelecidas entre as diferentes escalas da vida social e entre as redes de práticas sociais nas diferentes escalas global regional nacional e local Desse ponto de vista o fenômeno largamente conhecido como globalização não é simplesmente um movimento das organizações e processos econômicos de uma escala essencialmente nacional para uma essencialmente global a globalização 315 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 tem uma longa história e o que de fato está em jogo são as novas relações entre as escalas Língua e semiose têm uma considerável importância na reestruturação e reescalonamento do capitalismo Toda aquela ideia de uma economia baseada em conhecimento na qual conhecimento e informação têm um novo e decisivo significado é fruto de uma economia baseada no discurso os conhecimentos são produzidos circulam e são consumidos como discursos os quais são operados como novas formas de agir e de interagir inclusive como novos gêneros e inculcados como novas formas de ser novas identidades inclusive com novos estilos Um exemplo disso seria o conhecimento das novas maneiras de administrar organizações A reestruturação e o reescalonamento do capitalismo é em parte um processo semiótico a reestruturação e reescalonamento das ordens do discurso envolvendo novas relações estruturais e escalares entre os gêneros discursos e estilos A língua também é importante para a realização dessa reestruturação e reescalonamento do capitalismo O termo neoliberalismo pode ser entendido como um referente a projetos políticos que visam a remover obstáculos tais como Estados com fortes programas de assistência social para o desenvolvimento do novo capitalismo BOURDIEU 1998 Como mostra Bourdieu os discursos neoliberais são uma parte significativa dos recursos empregados na busca da concretização do projeto neoliberal É nesse ponto que entra o meu exemplo um aspecto particularmente importante do discurso neoliberal é o da representação da mudança na economia global difundida nas sociedades contemporâneas como inevitável e irresistível sendo necessário apenas a adaptação e a convivência com ela O novo capitalismo é então uma rede de práticas novas e parte dessa distinção reside na maneira como a língua atua dentro da rede seus gêneros discursos e estilos Podemos distinguir três objetos de análise interconectados dominação diferença e resistência Primeiramente devemos identificar quais gêneros discursos e estilos são dominantes Para ilustrar poderíamos mencionar os gêneros reguladores da ação e da interação nas organizações o tipo de linguagem que constitui o trabalho em equipe a troca de ideias as parcerias ou as avaliações os discursos da economia neoliberal inclusive as representações da mudança disseminados e impostos internacionalmente por organizações como o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial de Comércio com palavraschave como livre comércio 316 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso transparência flexibilidade qualidade e os estilos de figuraschave que devem assumir na nova ordem empresários gerentes líderes políticos etc Precisamos também considerar como esses gêneros discursos e estilos são disseminados internacionalmente reescalonados reestruturados e em meio às áreas da vida social O discurso e o gênero de negociação por exemplo fluem na vida familiar militar política e econômica Em segundo lugar precisamos considerar uma certa faixa de diferença de diversidade nos gêneros discursos e estilos e a estruturação e reestruturação social dessa diferença Um ponto de discussão é o acesso quem tem ou não tem acesso às formas dominantes Outro ponto é a relação entre formas dominantes e não dominantes é preciso compreender como outros gêneros discursos e estilos são afetados pela imposição dos novos gêneros discursos e estilos dominantes Por exemplo o discurso político corrente converge sobremaneira para o discurso neoliberal O que aconteceu então com os discursos radicais e socialistas Como foram eles marginalizados Como continuam a manterse Um erro a ser evitado é assumir que as formas dominantes são as únicas existentes Isso nos leva ao terceiro objeto de análise a resistência Gêneros discursos e estilos dominantes são novos domínios colonizadores Gêneros discursos e estilos de administração de empresas por exemplo estão colonizando rapidamente os governos e setores públicos como educação e estão entrando rapidamente nas diferentes escalas Mas a colonização nunca é um processo simples as novas formas são assimiladas e combinadas em muitos casos com as formas antigas Existe um processo de apropriação delas que pode levar a vários resultados assimilação aquiescente formas de resistência tácita ou mesmo mais abertas por exemplo quando as pessoas jogam o jogo de uma maneira conscientemente estratégica sem aceitálo ou à busca de alternativas coerentes Como disse antes o tipo de representações de mudança na economia global que me importa está disseminado podemos encontrálo na mídia econômica política e educacional e em outros tipos de textos Em outro artigo FAIRCLOUGH 2000b investiguei como as representações de mudança se movem entre os diferentes tipos de discurso Também mostrei FAIRCLOUGH 2000c que essas representações são uma característica relevante no discurso do terceira via na linguagem política do novo laborismo na GrãBretanha O primeiro texto que discutirei foi selecionado como um exemplo típico ele poderia ser suplementado por vários outros e em um estudo mais completo seria Esse texto é o Prefácio 317 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 escrito pelo Primeiro Ministro Britânico Tony Blair em 1998 para o Ministério do Comércio e Indústria sobre competitividade do Departamento de Indústria e Comércio 1998 Esse artigo está reproduzido no Apêndice 1 Seguirei o modelo analítico dos cinco passos apresentados acima 4 Ênfase no problema social que tem um aspecto semiótico Para esta parte da análise precisamos sair do texto usando fontes acadêmicas e nãoacadêmicas para entender o sentido do seu contexto social A compreensão de quais são os maiores problemas sociais contemporâneos vem por meio de uma visão ampla da ordem social ver a discussão acima sobre a língua no novo capitalismo Darei ênfase a um ponto que considero ser um problema que se manifesta nesse texto e que pode ser resumido pela notória afirmação de Margareth Tatcher Não há alternativa em inglês There is no alternative frase que gerou a sigla TINA amplamente utilizada desde então Tratase do capitalismo global na sua forma neoliberal geralmente construído como externo imutável e inquestionável um simples fato da vida com que devemos nos conformar Existem entretanto alternativas exequíveis de organizar as relações econômicas internacionais de modo que não tenham os efeitos prejudiciais do modelo atual por exemplo o aumento da defasagem econômica entre pobres e ricos e entre os estados e que são excluídas da agenda política em razão dessas representações 5 Identificar obstáculos para a resolução desse problema Iniciarei com as redes de práticas nas quais textos como esse em questão estão localizados O texto é parte de um livro branco um documento de diretriz governamental e localizase em uma das práticas da rede de práticas que constituem o governo Contudo governos nacionais estão cada vez mais se incorporando a redes de práticas mais abrangentes que incluem não apenas outros governos mas também agências internacionais intergovernamentais e patrocinadas por governos tais como a União Europeia o Banco Mundial o Fundo Monetário Internacional redes comerciais entre outros Os governos de acordo com Castells 1998 estão cada vez mais funcionando como um ponto de interconexão dentro das redes transnacionais que se baseiam em complexos comerciais governamentais cujas 318 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso funções centrais se focalizam na criação de condições estruturas financeiras fiscais legais o capital humano etc para o êxito da competição na nova economia global sendo esta última apresentada como se fosse algo do conhecimento de todos Tendo em vista que a prática em questão está protegida por essa poderosa rede há um obstáculo substancial para a resolução do problema Considerando o segundo aspecto para a resolução dos obstáculos a semiose na relação com outros elementos dentro da rede de práticas tem um papel crucial na imposição expansão e legitimação da nova economia global Bourdieu 1998 enfatizou a importância do papel do discurso do poder como um elemento significativo dentre os vários recursos empregados por aqueles interessados em expandir e consolidar a nova ordem neoliberal Isso significa que tais representações da nova economia e da mudança econômica não podem ser de maneira alguma ignoradas Alguém pode se referir aqui a mudanças em governos e em formas de governar a que a New Labour se refere como modernização do governo que inclui um movimento dual de dispersão ou devolução do controle e um fortalecimento do centro em certos aspectos especialmente na coordenação de diferentes ramos do governo e no gerenciamento de percepção É em parte o que se conhece amplamente hoje como spin O gerenciamento premia a linguagem utilizada pelo governo e o monitoramento cuidadoso dessa linguagem Em níveis diferentes portanto a relação da semiose com outros elementos na rede de práticas constitui um obstáculo considerável para a resolução do problema O terceiro aspecto para a resolução do problema levanos ao discurso a semiose em si tanto em termos estruturais ordem do discurso como em termos interacionais O problema tornase de difícil resolução em razão da recontexualização BERNSTEIN 1990 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 Representações da nova economia global e da mudança econômica que se assemelham muito ao do exemplo estão presentes como disse anteriormente nos discursos da economia política mídia educação etc tanto na GrãBretanha como internacionalmente Tais representações fluem através da rede comercial governamental transnacional e são recontextualizadas e como o conceito propõe transformadas de gênero para gênero de um domínio de discurso para outro Voltando agora para a análise interacional comentarei primeiro sobre as características da linguagem do texto em sua representação da mudança econômica e depois tratarei da interdiscursividade Neste estágio da análise terei que usar alguns termos da linguística embora busque usálos o mínimo possível Como já 319 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 havia mencionado o modelo de análise linguística está baseado na Linguística SistêmicoFuncional HALLIDAY 1994 As representações dominantes da nova ordem global têm certas características linguísticas previsíveis Processos na nova economia são representados sem agentes sociais responsáveis num presente dissociados do tempo e da história e no que se refere à modalização as afirmações sobre a nova economia frequentemente clichês bastante conhecidos são representadas categoricamente como verdades desmodalizadas Autoritariamente há uma tendência de troca do é da economia para o tem que ser da política e de deixar de lado o caso categoricamente para usar o nós em convocação a uma resposta A nova realidade econômica é representada como universal independentemente do lugar uma série de evidências ou aparições da nova economia são representadas assindeticamente em listas Mostrei em outro texto FAIRCLOUGH no prelo que essas características são mantidas pela recontextualização aparecendo em textos de economia por exemplo textos do Banco Mundial textos políticos educacionais etc Essas características estão presentes no texto de Blair Na representação da mudança na economia e no mundo moderno inexistem agentes sociais responsáveis Os agentes dos processos materiais são abstratos ou inanimados No primeiro parágrafo O mundo moderno foi varrido mudança é o agente da primeira frase passiva e as novas tecnologias e os novos mercados são agentes da frase senguinte Percebase que os últimos estão relacionados a processos intransitivos surgir abrir representando mudanças como acontecimentos processos sem agentes A terceira frase é existencial novos competidores e novas oportunidades aparecem meramente como existentes sem serem situados dentro dos processos de mudança Percebese também que no terceiro parágrafo é o inanimado este novo mundo o agente dos desafios Em contrapartida quando chegamos às respostas nacionais para esses implacáveis e impessoais processos de mudança mundial os agentes sociais estão totalmente presentes o comércio o governo o Departamento de Comércio e Indústria e especialmente nós Em se tratando de tempo tempo verbal e modalização a mudança mundial é representada num presente historicamente dissociado e o mesmo acontece com os processos nacionais de resposta A modalização é representada por clichês autoritários e categóricos nas cinco afirmativas do primeiro parágrafo como se vê em O mundo moderno foi varrido pela mudança A única referência histórica 320 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso ao passado é dada pela concepção de antigo sistema na verdade antiquado em a antiquada intervenção do Estado não funcionou e nem poderia no parágrafo 4 Há uma tendência em trocar o é pelo tem que ser O tem que ser está implícito nos parágrafos 2 e 3 nosso sucesso depende de nosso êxito em explorar nossos recursos mais valiosos ou seja nós devemos explorálos A necessidade de ação do governo e do comércio também é evidenciada em esse novo mundo de mudanças comerciais deve ser inovador e governo deve criar A partir do parágrafo 5 o tem que ser é explícito e recorrente o verbo auxiliar deve aparece seis vezes O predomínio do é referese ao mundo de mudanças o do dever ser diz respeito às repostas nacionais para o mundo em mudança Um divisor é textualmente construído entre economia e política fato e valor que exclui o anterior em favor do posterior em contraste com a tradição democrática social da qual a New Labour se originou Ao contrário dos processos econômicos os processos políticos têm na realidade agentes sociais responsáveis o agente nos processos modalizados com o must é o nós em cinco dos casos e o governo em um dos casos Resumindo a mudança do mundo é implicitamente representada independente de lugar não há expressões de lugar no primeiro nem no terceiro parágrafo Em outros textos isso pode ficar explícito em expressões do tipo em qualquer lugar que olhamos no mundo contemporâneo A sintaxe é feita pela parataxe tanto nas relações entre frases como na relação entre os elementos na frase Tomemos por exemplo os dois primeiros parágrafos O primeiro deles consiste de três frases justapostas o segundo e o terceiro têm também orações relacionadas entre si de forma internamente justaposta relacionando evidências da mudança do mundo O mesmo vale para o segundo parágrafo ainda que as frases estejam tematicamente relacionadas por conta dos temas pronominais anafóricos na segunda e terceira frases A segunda frase contém sintagmas justapostos Notese que a sequência das frases não é significativa ela muda sem nenhum efeito maior no significado No parágrafo 2 há um pequeno rearranjo de palavras por causa da anáfora De fato o que é incluído ou excluído dessa lista de evidências é de certa forma arbitrário A segunda frase do primeiro parágrafo por exemplo poderia ter sido escrita assim enormes quantias de dinheiro se movem pelo mundo numa fração de segundo e mesmo nosso gato de estimação Socks tem sua própria página na Internet A segunda oração é extravagante somente porque Blair não tem um gato chamado Socks 321 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Essa frase na verdade também foi incluída em uma listagem muito semelhante num livro do presidente dos Estados Unidos Bill Clinton O que é significativo retoricamente é o inexorável acúmulo de evidências de mudança a que Clarke e Newman 1998 chamam de a cascata da mudança tomando a nova economia com um simples fato com que devemos conviver e nos adequar Resumindo a mudança é autoritariamente representada como listas de manifestações e clichês num presente que não reconhece lugares com agentes sociais ocultos demandando uma resposta predeterminada Essas características constroem a nova economia como um simples fato para o qual não há alternativas Voltemonos para a interdiscursividade O texto em análise é uma recontextualização do tipo de linguagem utilizado pela economia de desenvolvimento nos textos de organizações tais como o Banco Mundial Há um deslocamento desse contexto para outro cujo tipo de linguagem é o da política e governamental Isso se manifesta em vários aspectos O texto pertence a um gênero governamental particular o prefácio ministerial para um documento oficial o que nos permite antecipar o cabeçalho a assinatura no final a fotografia do Primeiro Ministro bem como a organização retórica como um todo De caráter político é projetado para ser persuasivo com características distintas de um outro possivelmente apresentado pelo Banco Mundial primariamente orientado para análise o que não exclui uma intenção persuasiva Para um exemplo real ver FAIRCLOUGH no prelo O texto de Blair tem características comuns de retórica política É mais fortemente orientado para o dever ser do que para o é direcionase no sentido de dar prescrições e comandos para ação o agente dessas ações projetadas é as mais das vezes o pronome de primeira pessoa nós o nósgoverno nós devemos também investir nas capacidades britânicas quando as empresas não puderem fazê lo sozinhas embora a referência exata do nós inclusivo seja caracteristicamente vaga Há um certo número de antíteses que estabelecem contrastes nítidos e notáveis novos concorrentes mas também grandes novas oportunidades uma visão de longo prazo num mundo de pressões imediatistas competir no difícil mercado de hoje prosperar nos mercados do amanhã O mas é uma conjunção de parataxe bastante empregada usada no início de frases dos parágrafos 3 4 e 5 e mais uma vez estabelecendo antíteses O texto começa e termina com frases curtas dramáticas metafóricas que servem bem como estribilhos O mundo moderno foi varrido pela mudança devemos por o futuro no lado da Grã 322 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Bretanha O vocabulário do processo inclui palavras que destacam o desejo e energia dos agentes nas ações projetadas construir criar promover forjar fomentar confiscar como também o fazem as palavras que representam estados afetivos preparado para comprometido com O texto é um chamado à ação coletiva inclusiva e comprometida A recontextualização requer hibridismo mistura de diferentes discursos Nesse texto misturamse os discursos de desenvolvimento e o político A recontextualização requer transformação Representações da nova economia não são idênticas num relatório do Banco Mundial e num prefácio político Os diferentes textos estão infectados pelo discurso que os torna recontextualizados É o que se observa no primeiro parágrafo do texto de Blair A representação da mudança é condensada em três curtas frases que incorporam as características da retórica política sobre a qual já me referi a metáfora dramática da primeira frase a antítese da terceira e que constitui uma base dramática abrupta e acabada para a persuasiva retórica política do texto Matéria análoga seria provavelmente mais completa e mais bem elaborada num relatório do Banco Mundial Para uma comparação real ver FAIRCLOUGH no prelo A recontextualização implica transformação para acomodação ao novo contexto e seu discurso A análise interacional mostra como a nova ordem econômica está textualmente construída como um fato inevitável da vida Se os textos com tais construções são como sugeri comuns e estão disseminados nos vários tipos de discurso e além disso domesticados pela recontextualização dentro dos diversos tipos de discurso e gêneros podese constatar que o efeito gotejante de tais representações em muitos textos e interações é também um obstáculo para que o problema seja resolvido 6 Em certo sentido precisa ser problemática a ordem social a rede de práticas Eu já respondi efetivamente à pergunta acima representações da mudança econômica e da nova economia global como inevitáveis são uma parte legitimadora da nova ordem social Isso também é uma questão de ideologia São representações e distorções parciais concretamente a inevitabilidade e a inexorabilidade da nova economia repousam significativamente sobre acordos intergovernamentais sobre o comércio mundial por exemplo e sobre o desregramento dos mercados financeiros O desregramento é geralmente reversível embora em alguns níveis os 323 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 mercados tenham uma lógica impessoal a que todos os envolvidos devem se submeter Não há nada que tenha sido criado socialmente que não possa ser modificado no mesmo âmbito Essas representações e distorções que claramente contribuem para a manutenção de relações desiguais de poder são todas elas ideológicas 7 Identificar possíveis caminhos para vencer os obstáculos Neste ponto devo introduzir outro texto Apêndice 2 trecho de um livro BROWN CASTES 1996 escrito por dois antigos membros do Partido dos Trabalhadores Ken Coates membro do Parlamento Europeu e Michael Barrat Brown Ambos estão atualmente trabalhando na Indepedent Labour Network e escrevendo sobre a visão da New Labour a que chamam de globalização capitalista a nova economia global nos termos da New Labour A razão de incluir um novo texto neste estágio é sair nos termos que apresentei anteriormente do dominante para a diferença e resistência O tipo de representação da nova economia que venho discutindo até agora não é o único em textos e interações contemporâneas embora seja o dominante Há diferenças mas também resistência Esses autores escrevem contra a New Labour tomando uma posição de esquerda dentro do movimento trabalhista Existem também textos de resistência em organizações anticapitalistas que recentemente têm alcançado destaque em eventos como os protestos na reunião da Organização Mundial de Comércio realizada em Seattle em 1999 Com relação ao texto de Blair selecionei para esta reflexão um texto tipificador de muitos outros um estudo mais completo faria uma análise mais rica Essas representações alternativas se encontram em uma contrarrede de práticas sociais emergentes que pelo menos constitui um possível recurso para indicação dos obstáculos que tenho discutido apesar de serem na atualidade relativamente marginalizados Avaliar o quão substancial será um determinado recurso será difícil neste estágio Além do mais uma avaliação detalhada está além do escopo desse artigo Devo limitarme a uma análise interacional que foque as mesmas características identificadas no texto de Blair para demonstrar como essa representação de mudança difere da dominante Os agentes neste trecho são diferentes daqueles do texto de Blair São agentes sociais as grandes empresas transnacionais as empresas baseadas na GrãBretanha as empresas baseadas em países estrangeiros a União 324 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Européia a Comissão Européia entre outros Vale mencinar que as representações da nova economia da New Labour nunca se referem a corporações transnacionais O termo capital é usado em dois sentidos primeiro como um agente social equivalente a uma empresa capitalista o Capital sempre foi global e segundo no sentido de dinheiro o capital é mais móvel Esses agentes sociais são em alguns casos agentes de processos materiais na economia É o que se observa em capital se movendo internacionalmente companhias operando transnacionalmente operando no Reino Unido a União Europeia reforçam sua posição de clientes a Comissão Europeia providenciando uma clientela mais bem organizada para as transnacionais Mas há também processos materiais que poderiam ter recebido agentes sociais mas não receberam o capital é mais móvel pode ser movimentado mais rapidamente por meios eletrônicos Na citação a última oração é relacional mas pode ser vista como uma metáfora gramatical HALLIDAY 1994 para uma oração material como o capital pode ser mais facilmente movimentado as companhias podem movimentar o capital mais facilmente Ao invés de um presente dissociado do tempo e da história às orações no presente são em muitos casos dadas especificações temporais os governos hoje cada vez mais requerem A expressão cada vez mais constrói um presente como um processo de tornarse o atual objetivo da Comissão Europeia O presente simples combinase com o presente perfeito tais companhias transnacionais vêm se tornando dominantes o que dá profundidade histórica ao presente moldando um presente em relação ao passado e em termos de processo ligando o passado ao presente Além do mais a mudança econômica é em parte especificada em termos de lugar em vez de ser representada independentemente dele peculiar ao Reino Unido Europa Quanto à modalização não temos neste último texto as divisões entre o é e o dever ser característico nas representações dominantes Há uma significativa mudança no final do excerto do é para o poderia ser representando o atual sistema econômico não como o único possível mas como aberto a mudanças iniciadas pelos agentes sociais os governos dos estados europeus A modalização das afirmações é categórica e autoritária como nos texto de Blair mas não são clichês tão óbvios A sintaxe do trecho também é diferente da do texto de Blair Ela não possui as listas justapostas deste a construção de listas de evidências para estabelecer 325 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 retoricamente a inexorável realidade da mudança O trecho é mais argumentativo e uma indicação disso é a natureza dos elos coesivos entre as frases que incluem conjunções em outras palavras de fato mas comparativos mais importante além disso outras ordens melhores e um pronome anafórico com antecedente oracional que Alguém pode afirmar que esse é um discurso diferente e suas características também incluem vocabulário que a New Labour não usa como por exemplo as palavras capital no sentido de comércio capitalista transnacionais clientelismo bem como em algum lugar no mesmo capítulo representações de governo e capital como acontece em governos desafiando o poder do capital internacional 8 Refletir criticamente sobre a análise Como pode uma análise como esta contribuir para a resolução de problemas tais como o que enfatizei Como podemos conectar artigos acadêmicos a digamos campanhas contra o neoliberalismo ou mais concretamente a campanhas da Organização Mundial de Comércio na tentativa de expandir o livre comércio A vida acadêmica está organizada como uma rede de práticas distintas um mercado distinto e uma análise crítica que permanece dentro de seus limites provavelmente não surtirá muito efeito Pode ser que tenha algum efeito se as pessoas que gastam algum tempo de sua vida em cursos de pósgraduação levarem ideias e abordagens para outras áreas de sua vida Mas continuo achando que devemos repensar a maneira como pesquisamos onde e como publicamos e como escrevemos Com respeito a como pesquisamos o que eu disse sobre as representações da nova economia não se liga diretamente às campanhas de ativistas contra problemas como o livre comércio Por que não trabalhamos com ativistas no projeto e desenvolvimento da pesquisa amarrando essa experiência por exemplo a campanhas de pessoas deficientes a favor de reformas da assistência social Como e onde publicamos Por que não publicar em panfletos em artigos de jornais e de revistas em livros populares ou na Internet Com relação a como escrevemos seria possível desenvolver maneiras acessíveis de se escrever a muitas pessoas sem serem superficiais Para conferir uma tentativa de escrever um livro popular sobre a linguagem da New Labour ver Fairclough 2000c e ver também Daily Telegraph de 2 de março de 2000 para um artigo futuro sobre o mesmo tema 326 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso 9 Para seguir lendo CHOULIARAKI L FAIRCLOUGH N Discourse in Late Modernity Rethinking Critical Discourse Analysis Edinburgh University Press 1999 Este livro apresenta uma explicação mais sistemática da versão da ACD que expomos neste capítulo FAIRCLOUGH N Language and Power Londres Longman 1989 Esta é a primeira versão deste enfoque da ACD com um amplo tratamento das questões vinculadas à linguagem e ao poder FAIRCLOUGH N Discourse and Social Change Cambridge Polity Press 1992 Esta é uma das primeiras versões da ACD relacionada com a investigação sobre a mudança social FAIRCLOUGH N New Labour New Language Londres Routledge 2000 Uma introdutória divulgação da análise do discurso político Baseiase na versão da ACD que apresentamos neste capítulo Referências BHASKAR R Scientific realism and human emancipation London Verso 1986 BERNSTEIN B The structuring of pedagogic discourse London Routledge 1990 BOURDIEU P La distinction Critique sociale du jugement Paris Les éditions de minuit 1979 A reasoned utopia and economic fatalism New Left Review 227 p 25 30 1998 BROWN B M COATES K The Blair revelation Deliverence for Whom Nottingham Spokesman 1996 CASTELLS M The information age economy society and culture 3 vols Oxford Blackwell 1998 CHOULIARAKI L FAIRCLOUGH N Discourse in Late Modernity Rethinking Critical Discourse Analysis Edinburgh Edinburgh University Press 1999 327 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 CLARK J NEWMAN J A modern Brtish peaple New Labour and the reconstruction of social welfare Departament of Intercultural Communication an Management Copenhagen Business School Ocacasional Paper 1998 DEPARTAMENT OF TRADE AND INDUSTRY Building the Knowledge Driven Economy London Stationery Office 1998 FAIRCLOUGH N Discourse and social change Oxford and Cambridge Polity Press and Blackwell 1992 Discourse social theory and social research the case of welfare reform Journal of Sociolinguistics 42 2000a Representations of change in neoliberal discourse Relaciones Laborales 2000b New labor New language London Routledge 2000c Representations of change in neoliberal discourse Relaciones Laborales No prelo FORGACS D Gramsci reader London Lawrence and Wishart 1988 FOWLER R HODGE G KRESS G TREW T Eds Language and control London Routledge and Kegan Paul 1979 HALLIDAY M A K Introduction to Functional Grammar 2 ed London Arnold 1994 HARVEY D Justice nature and geography of difference Oxford Blackwell 1996 JESSOP B The crisis of the national spatiotemporal fix and the tendential ecologial dominance of globalizing capitalism International Journal of Urban and Regional Research 242 p 323360 2000 LACLAU E MOUFFE C Hegemony and socialist strategy Towards a radical democratic politics London and New York Verso 1985 WILLIAMS R Marxism and Literature Oxford Oxford University Press 328 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Apêndice 1 Construindo uma economia baseada no conhecimento O mundo moderno foi varrido pela mudança Novas tecnologias surgem constantemente novos mercados estão se abrindo Existem novos concorrentes mas também grandes novas oportunidades Nosso sucesso depende da eficácia com que exploramos nossos recursos mais valiosos nosso conhecimento habilidades e criatividade Essas são as chaves para a projeção de bens e serviços valorizados e aperfeiçoamento das práticas administrativas Elas ocupam uma posição central na moderna economia baseada no conhecimento Esse novo mundo de mudanças desafia as empresas a serem inovadoras e criativas a melhorarem sua produção continuamente a construírem novas alianças e a assumirem riscos Mas também desafia o governo a criar e executar uma nova abordagem para as políticas industriais Esse é o propósito deste White Paper A antiquada intervenção do Estado não funcionava e nem poderia Mas a confiança cega no mercado também não O governo precisa fomentar a competição estimulando os empreendimentos a flexibilidade e a inovação abrindo mercados Mas também precisamos investir nas capacidades britânicas quando as empresas sozinhas não puderem em educação em ciência e na criação de uma cultura empreendedora Devemos promover parcerias criativas que ajudem as empresas a colaborar em troca de vantagens competitivas a promover uma visão de longo prazo num mundo de pressões imediatistas a equiparar seus desempenhos com os melhores do mundo a forjar alianças com outros negócios e com empregados Tudo isso é papel do DTI Departamento de Comércio e Indústria Não atingiremos nossos objetivo do dia para a noite O presente White Paper cria uma estrutura de diretrizes para os próximos dez anos Devemos competir mais efetivamente nos difíceis mercados de hoje se quisermos prosperar nos mercados de amanhã No governo no comércio em nossas universidades e por toda nossa sociedade devemos fazer muito mais para adotar um novo espírito empreendedor equipandonos para prazos prolongados estando preparados para aproveitar oportunidades e comprometidos com a inovação constante com o desempenho melhorado Essa é a rota para o sucesso comercial e prosperidade para todos Devemos colocar o futuro ao lado da GrãBretanha 329 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Apêndice 2 O capital sempre foi global movimentandose internacionalmente das bases situadas nos países industrialmente desenvolvidos O que mudou não foi o fato de o capital estar mais móvel mas as bases que estão menos importantes como mercados e centros de produção Em outras palavras as grandes empresas transnacionais não estão apenas maiores mas também mais independentes a União Europeia longe de oferecer liderança e desafio para as naçõesestados da Europa reforça sua posição de cliente de empresas transnacionais De fato o clientelismo não se aplica apenas a empresas baseadas na Europa Embora seja verdade que o capitalismo nacional não seja mais possível numa economia globalizada não é verdade que os governos nacionais e por extensão a União Europeia são totalmente incapacitados de empregarem seus poderes contra as ações arbitrárias do capital transnacional Há muito que os governos podem fazer para barganhar Mas tal barganha tem que ter uma dimensão internacional ou as empresas podem continuar a dividir ou conquistar A New Labour parece ter abandonado a permanência de tradições internacionalistas dos trabalhadores A ICTFU TUC europeia e os grupos de comércio de Gênova oferecemse como aliados potenciais para fortalecer a resposta aos trabalhadores britânicos ao capital internacional BROWN COATS 1996 p 172174 Recebido em 16072012 Aprovado em 31102012

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ANÁLISE CRÍTICA DO DISCURSO COMO MÉTODO EM PESQUISA SOCIAL CIENTÍFICA CRITICAL DISCOURSE ANALYSIS AS A METHOD IN SOCIAL SCIENTIFIC RESEARCH Norman Fairclough Versão para o português Iran Ferreira de Melo Meu objetivo neste capítulo é descrever a Análise Crítica do Discurso ACD como um método que possa ser usado na pesquisa social científica Pretendo referir me especificamente a aspectos selecionados de um objeto de pesquisa particular o papel diferenciado da liguagem no novo capitalismo Devo declarar previamente que guardo certas reservas quanto ao conceito de método Não é difícil pensar em método como uma espécie de habilidade transferível se considerarmos a definação do termo como uma técnica uma ferramenta numa caixa da qual se pode lançar mão quando necessário e depois devolvêla A ACD na minha visão é muito mais uma teoria que um método ou melhor uma perspectiva teórica sobre a língua e de uma maneira mais geral sobre a semiose que inclui a línguagem visual linguagem corporal e assim por diante como um elemento ou momento do processo social material WILLIAMS 1977 que dá margem a análises linguísticas ou semióticas inseridas em reflexões Professor Emérito do Departamento de Linguística e Língua Inglesa da Universidade de Lancaster Lancaster Reino Unido nfaircloughlancasteracuk Este texto integra a obra Methods of critical discourse analysis organizada por Wodak e Meyer 2 ed Londres Sage 2005 p 121138 Doutorando pela Universidade da São Paulo USP São Paulo Brasil iranmelohotmailcom 308 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso mais amplas sobre o processo social Além do mais esta persepctiva tem uma relação dialógica com outras teorias e métodos sociais com eles engajandose não apenas de maneira interdisciplinar mas transdisciplinar entendendo que coengajamentos particulares sobre determinados aspectos do processo social devem suscitar avanços teóricos e metodológicos que perpassem as fronteiras das várias teorias e métodos FAIRCLOUGH 2000a Dito isso de outra maneira todos nós deveríamos estar abertos a diferentes lógicas teóricas a sua interiorização HARVEY 1996 tornando possível transformar as relações que existem entre elas Primeiramente descreverei a posição teórica da atual versão da ACD Em segundo lugar o aparato de análise o método e a visão da crítica Finalmente darei exemplo utilizando uma questão particular do vasto objeto de pesquisa que é a língua no novo capitalismo as representações da mudança na economia globalizada 1 Posições teóricas da ACD discurso como um momento das práticas sociais Nesta sessão estabelecerei o modelo da ACD que tenta incorporar a visão de língua como um elemento integrante do processo social material ver CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 FAIRCLOUGH 2000a Esta vertente da ACD está baseada em uma visão de semiose como a parte irredutível dos processos sociais materiais A semiose inclui todas as formas de construção de sentidos imagens linguagem corporal e a própria língua Vemos a vida social como uma rede interconectada de práticas sociais de diversos tipos econômicas políticas culturais entre outras todas com um elemento semiótico A concepção de práticas sociais no permite combinar as perspectivas de estrutura e de ação uma prática é por um lado uma maneira relativamente permanente de agir na sociedade determinada por sua posição dentro da rede de práticas estruturada e por outro um domínio de ação social e interação que reproduz estruturas podendo transformálas Todas são práticas de produção arenas dentro das quais a vida social é produzida seja ela econômica política cultural ou cotidiana Toda prática inclui os seguintes elementos a Atividade produtiva b Meios de produção 309 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 c Relações sociais d Identidades sociais e Valores culturais f Consciência g Semiose Esses elementos estão dialeticamente relacionados HARVEY 1996 Em outras palavras são elementos diferentes mas não totalmente separados e distintos Há um sentido no qual cada um internaliza os outros sem se confundirem entre si Dessa perspectiva as relações e identidades sociais os valores culturais e a consciência são em parte semióticos o que não permite inferir que as relações sociais por exemplo sejam teorizadas do modo como se faz nos estudos da linguagem essas duas matérias têm propriedades distintas e pesquisálas dá margem a disciplinas distintas A ACD é a análise das relações dialéticas entre semioses inclusive a língua e outros elementos das práticas sociais Essa disciplina preocupase particularmente com as mudanças radicais na vida social contemporânea no papel que a semiose tem dentro dos processos de mudança e nas relações entre semiose e outros elementos sociais dentro da rede de práticas O papel da semiose nas práticas sociais por sua vez deve ser estabelecido por meio de análise A semiose pode ser mais importante e aparente em determinada ou determinadas práticas do que em outras e sua importância pode variar com o passar do tempo São três as maneiras de atuação da semiose Primeiramente atua como parte da atividade social inserida em uma prática É parte do trabalho de um vendedor de loja por exemplo usar a língua de uma forma particular e o mesmo acontece quando se governa um país Em segundo lugar a semiose atua nas representações Os atores sociais no curso de sua atividade produzem não só representações das práticas em que estão inseridos representações reflexivas como de outras recontextualizandoas BERNSTEIN 1990 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 e incorporandoas às suas próprias Além disso os atores sociais irão produzir representações de modo distinto dependendo da posição que eles ocupam dentro de suas práticas A representação é um processo de construção social das práticas incluindo a autoconstrução reflexiva as representações adentram e modelam os processos e práticas sociais Em terceiro lugar a semiose atua no desempenho de posições particulares As identidades de 310 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso pessoas que operam em certas posições são apenas parcialmente determinadas pela prática em si As pessoas de diferentes classes sociais sexos nacionalidades etnias ou culturas com experiências de vida diversas produzem desempenhos distintos A semiose como parte da atividade social constitui gêneros discursivos Os gêneros são as maneiras diversas de agir de produzir a vida social semioticamente São exemplos a conversação cotidiana as reuniões dos diversos tipos de organização as entrevistas políticas e de outros tipos e as críticas de livros A semiose na representação e autorrepresentação de práticas sociais constitui os discursos que são as várias representações da vida social Os atores sociais posicionados diferentemente veem e representam a vida social de modo distinto com discursos distintos A vida de pessoas pobres por exemplo é representada nas práticas sociais do governo da política da medicina da ciência social e os diferentes discursos inseridos nessas práticas correspondem às diversas posições dos atores sociais A semiose no desempenho das posições constitui os estilos Os médicos professores ou ministros de governo por exemplo não têm simplesmente estilos semióticos em razão de sua posição nas práticas Cada posição é desempenhada com estilos diferentes dependendo de aspectos de identidade que excedem a construção das diversas posições Os estilos são maneiras de ser identidades em seu aspecto semiótico As práticas sociais interrelacionadas de maneira particular constituem a ordem social como é o caso da atual ordem neoliberal globalizada emergente do novo capitalismo ou mais especificamente a ordem social de educação de uma sociedade específica em um certo período de tempo O aspecto semiótico de uma ordem social é o que podemos chamar de ordem de discurso É a maneira de os diversos gêneros e discursos estarem interrelacionados entre si Uma ordem de discurso é uma estruturação social da diferença semiótica uma ordenação social particular das relações entre os vários modos de construir sentido isto é os diversos discursos e gêneros Um aspecto dessa ordenação é a dominância algumas maneiras de construir sentido são dominantes ou estão em voga para certas ordens de discurso outras são marginais subversivas alternativas Por exemplo pode haver uma maneira dominante de conduzir uma consulta médica na Inglaterra No entanto há outras maneiras que podem ser adotadas ou desenvolvidas em maior ou menor proporção em oposição àquela dominante A maneira dominante provavelmente 311 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 manterá a distância social entre médicos e pacientes e a autoridade do médico na interação já as outras formas de proceder mais serão mais democráticas menos autoritárias O conceito político de hegemonia pode ser útil quando aplicado à análise de ordens de discurso FAIRCLOUGH 1992 FORGACS 1988 LACLAU MOUFFE 1985 Uma determinada estruturação social da diversidade semiótica pode ser hegemônica tornarse parte do senso comum legitimador que sustenta as relações de dominação Mas a hegemonia em seus períodos de crise será sempre contestada em maior ou menor proporção Uma ordem de discurso não é um sistema fechado ou rígido é na verdade um sistema aberto posto em risco pelo que acontece em interações reais A ACD como indiquei anteriormente oscila entre a ênfase na estrutura nas mudanças na estruturação da diversidade semiótica ordens de discurso e a ênfase na ação no trabalho semiótico produtivo que acontece nos textos e interações Nas duas perspectivas o que importa são as articulações em mudança entre gêneros discursos e estilos a mudança da estruturação social entre esses elementos na estabilidade e permanência nas ordens de discurso e uma continuidade no trabalho das relações entre eles em textos e interações O termo interdiscursividade está reservado para os textos e as interações a interdiscursividade de um texto é parte de sua intertextualidade é uma questão de quais gêneros discursos e estilos os constituem e como no texto esses aspectos são trabalhados para formar articulações particulares 2 Estrutura analítica da ACD Uma estrutura analítica para a ACD é representada esquematicamente abaixo Foi modelada com base no conceito de apreciação crítica explicatória do teórico crítico de Roy Bhaskar BHASKAR 1986 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 1 Dar ênfase em um problema social que tenha um aspecto semiótico 2 Identificar obstáculos para que esse problema seja resolvido pela análise a Da rede de práticas no qual está inserido b Das relações de semiose com outros elementos dentro das práticas particulares em questão 312 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso c Do discurso a semiose em si i Estrutura analítica a ordem de discurso ii Análise interacional iii Análise interdiscursiva iv Análise linguística e semiótica 3 Considerar se a ordem social a rede de práticas em algum sentido é um problema ou não 4 Identificar maneiras possíveis para superar os obstáculos 5 Refletir criticamente sobre a análise 14 Uma característicachave desse modelo é a combinação de elementos relacionais 2 com elementos dialéticos 4 Ele combina uma apreciação negativa no diagnóstico do problema com uma apreciação positiva na identificação das possibilidades até então inconcebidas para sua resolução levando em consideração a maneira como as coisas estão O estágio 1 mostra como essa abordagem da ACD é baseada em problemas A ACD é uma forma de ciência social crítica projetada para mostrar problemas enfrentados pelas pessoas em razão das formas particulares de vida social fornecendo recursos para que se chegue a uma solução É claro que isso leva a uma pergunta um problema para quem Na condição de ciência social crítica a ACD tem objetivos emancipatórios e focaliza os chamados perdedores dentro de certas formas de vida social os pobres os excluídos socialmente aqueles que estão sujeitos a relações opressivas de raça e sexo e assim por diante Mas isso não nos dá uma um conjunto de problemas sociais claramente definidos e incontroversos Os assuntos problemáticos e que requerem mudança são inerentemente controversos e contestáveis e a ACD estará inevitavelmente envolvida em debates e controvérsias sociais quando enfatizar certas características da vida social como problema O estágio 2 da apreciação crítica aborda o diagnóstico do problema de uma maneira bastante indireta questionando quais são os obstáculos a serem superados O que faz com que a estrutura e organização da vida social resistam a uma resolução descomplicada O diagnóstico considera a maneira pela qual as práticas sociais se interrelacionam o modo de relação da semiose com outros elementos de práticas sociais e com características de discurso em si Por ser o foco particular da análise do discurso devo discutir esse aspecto mais detidamente 313 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Apresentei anteriormente a oscilação de ênfase da ACD entre a estrutura e a ação ênfase na estruturação de ordens de discurso e ênfase no que acontece em determinadas interações Os obstáculos para a resolução do problema têm certa relação com a estruturação social das diversidades semióticas nas ordens de discurso É o que se observa por exemplo na maneira como os discursos de administração de empresas colonizou domínios do serviço público tais como a educação Os obstáculos são também em parte um problema de dominação ou de influência nas formas de interação do uso da linguagem Isso significa que devemos analisar as interações A palavra interação é usada aqui em seu sentido amplo a conversa é uma forma de interação como também um artigo de jornal é embora os interlocutores estejam distantes no tempo e no espaço Nesse sentido tanto o texto escrito como o televisivo ou digital são interações A análise interacional tem dois aspectos Primeiro há uma investigação interdiscursiva que busca responder à seguinte pergunta como certos tipos de interação juntamente articulam os diferentes gêneros discursos e estilos A suposição que se faz aqui é que uma interação ou texto é tipicamente híbrida em termos de gêneros de discursos e de estilos ou seja parte da análise está relacionada com o desenvolvimento de uma mistura particular de certos tipos de interação O segundo aspecto é a análise linguística e de outras formas de investigação semiótica como é o caso das imagens visuais Devo não me deter aqui tanto na análise linguística Uma dificuldade encontrada pelos não especialistas em linguística é que há muitos aspectos da língua relevantes na interação para uma análise crítica Existem no entanto listas de aspectos linguísticos que tendem a ser particularmente relevantes quando tratamos de análises críticas como por exemplo no capítulo 8 de FAIRCLOUGH 1992 e no capítulo 10 de FOWLER et al 1979 Essa vertente da ACD se baseia na teoria linguística sistêmicofuncional HALLIDAY 1994 que tem a virtude de ser funcional isto é vê e analisa a língua levando em consideração que ela mesmo em sua gramática é modelada pelas funções sociais a que tem serventia Assim fica relativamente fácil observar como categorias de análise social se conectam com categorias de análise linguística Ver capítulo 8 de CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 para uma apreciação e comentário crítico a respeito desse tipo de análise linguística O estágio 3 da análise considerar se a ordem social precisa do problema é uma forma indireta de ligar as coisas como realmente são com o que elas 314 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso devem ser Se alguém conseguir estabelecer por uma uma apreciação crítica que a ordem social gera uma série de problemas necessários para que ela se mantenha viva isso fortalece as razões para uma mudança social radical O problema da ideologia também surge aqui o discurso é ideológico na medida em que contribui para a manutenção de relações particulares de poder e dominação O estágio 4 da análise transforma a apreciação crítica negativa em positiva pela identificação das possibilidades de mudanças ainda não concebidas ou concebidas parcialmente levando em consideração as coisas estão Esse estágio pode estar voltado a apontar contradições lacunas deficiências dentro dos aspectos considerados dominantes na ordem social como é o caso das contradições nos tipos de interação dominantes ou ainda mostrar diferenças e resistência Finalmente o estágio 5 é um momento em que a análise se torna reflexiva questionando por exemplo sua eficácia como apreciação crítica sua contribuição para a emancipação social e o ajuste em seus posicionamentos a práticas acadêmicas nos dias atuais tão ligadas ao mercado e ao Estado 3 Exemplo representações de mudança na economia global O exemplo que escolhi para ilustrar essa abordagem da ACD são as representações de mudança na economia global O significado de tais representações para as ciências sociais críticas surge como uma área mais ampla de pesquisa à qual aludi anteriormente a linguagem do novo capitalismo Devo portanto começar relacionando aquela área a essa O novo capitalismo pode ser visto como uma rearrumação de práticas sociais De acordo com Jessop 2000 tal rearrumação envolve tanto uma reestruturação quanto um reescalonamento Novas relações estruturais estão sendo estabelecidas entre domínios da vida social redes de práticas ou utilizando os termos de Bourdieu 1979 campos Notavelmente há uma reestruturação das relações nos campos econômicos e nãoeconômicos que compreende uma colonização massiva nestes realizadas por aqueles Reescalonar pressupõe novas relações estabelecidas entre as diferentes escalas da vida social e entre as redes de práticas sociais nas diferentes escalas global regional nacional e local Desse ponto de vista o fenômeno largamente conhecido como globalização não é simplesmente um movimento das organizações e processos econômicos de uma escala essencialmente nacional para uma essencialmente global a globalização 315 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 tem uma longa história e o que de fato está em jogo são as novas relações entre as escalas Língua e semiose têm uma considerável importância na reestruturação e reescalonamento do capitalismo Toda aquela ideia de uma economia baseada em conhecimento na qual conhecimento e informação têm um novo e decisivo significado é fruto de uma economia baseada no discurso os conhecimentos são produzidos circulam e são consumidos como discursos os quais são operados como novas formas de agir e de interagir inclusive como novos gêneros e inculcados como novas formas de ser novas identidades inclusive com novos estilos Um exemplo disso seria o conhecimento das novas maneiras de administrar organizações A reestruturação e o reescalonamento do capitalismo é em parte um processo semiótico a reestruturação e reescalonamento das ordens do discurso envolvendo novas relações estruturais e escalares entre os gêneros discursos e estilos A língua também é importante para a realização dessa reestruturação e reescalonamento do capitalismo O termo neoliberalismo pode ser entendido como um referente a projetos políticos que visam a remover obstáculos tais como Estados com fortes programas de assistência social para o desenvolvimento do novo capitalismo BOURDIEU 1998 Como mostra Bourdieu os discursos neoliberais são uma parte significativa dos recursos empregados na busca da concretização do projeto neoliberal É nesse ponto que entra o meu exemplo um aspecto particularmente importante do discurso neoliberal é o da representação da mudança na economia global difundida nas sociedades contemporâneas como inevitável e irresistível sendo necessário apenas a adaptação e a convivência com ela O novo capitalismo é então uma rede de práticas novas e parte dessa distinção reside na maneira como a língua atua dentro da rede seus gêneros discursos e estilos Podemos distinguir três objetos de análise interconectados dominação diferença e resistência Primeiramente devemos identificar quais gêneros discursos e estilos são dominantes Para ilustrar poderíamos mencionar os gêneros reguladores da ação e da interação nas organizações o tipo de linguagem que constitui o trabalho em equipe a troca de ideias as parcerias ou as avaliações os discursos da economia neoliberal inclusive as representações da mudança disseminados e impostos internacionalmente por organizações como o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial de Comércio com palavraschave como livre comércio 316 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso transparência flexibilidade qualidade e os estilos de figuraschave que devem assumir na nova ordem empresários gerentes líderes políticos etc Precisamos também considerar como esses gêneros discursos e estilos são disseminados internacionalmente reescalonados reestruturados e em meio às áreas da vida social O discurso e o gênero de negociação por exemplo fluem na vida familiar militar política e econômica Em segundo lugar precisamos considerar uma certa faixa de diferença de diversidade nos gêneros discursos e estilos e a estruturação e reestruturação social dessa diferença Um ponto de discussão é o acesso quem tem ou não tem acesso às formas dominantes Outro ponto é a relação entre formas dominantes e não dominantes é preciso compreender como outros gêneros discursos e estilos são afetados pela imposição dos novos gêneros discursos e estilos dominantes Por exemplo o discurso político corrente converge sobremaneira para o discurso neoliberal O que aconteceu então com os discursos radicais e socialistas Como foram eles marginalizados Como continuam a manterse Um erro a ser evitado é assumir que as formas dominantes são as únicas existentes Isso nos leva ao terceiro objeto de análise a resistência Gêneros discursos e estilos dominantes são novos domínios colonizadores Gêneros discursos e estilos de administração de empresas por exemplo estão colonizando rapidamente os governos e setores públicos como educação e estão entrando rapidamente nas diferentes escalas Mas a colonização nunca é um processo simples as novas formas são assimiladas e combinadas em muitos casos com as formas antigas Existe um processo de apropriação delas que pode levar a vários resultados assimilação aquiescente formas de resistência tácita ou mesmo mais abertas por exemplo quando as pessoas jogam o jogo de uma maneira conscientemente estratégica sem aceitálo ou à busca de alternativas coerentes Como disse antes o tipo de representações de mudança na economia global que me importa está disseminado podemos encontrálo na mídia econômica política e educacional e em outros tipos de textos Em outro artigo FAIRCLOUGH 2000b investiguei como as representações de mudança se movem entre os diferentes tipos de discurso Também mostrei FAIRCLOUGH 2000c que essas representações são uma característica relevante no discurso do terceira via na linguagem política do novo laborismo na GrãBretanha O primeiro texto que discutirei foi selecionado como um exemplo típico ele poderia ser suplementado por vários outros e em um estudo mais completo seria Esse texto é o Prefácio 317 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 escrito pelo Primeiro Ministro Britânico Tony Blair em 1998 para o Ministério do Comércio e Indústria sobre competitividade do Departamento de Indústria e Comércio 1998 Esse artigo está reproduzido no Apêndice 1 Seguirei o modelo analítico dos cinco passos apresentados acima 4 Ênfase no problema social que tem um aspecto semiótico Para esta parte da análise precisamos sair do texto usando fontes acadêmicas e nãoacadêmicas para entender o sentido do seu contexto social A compreensão de quais são os maiores problemas sociais contemporâneos vem por meio de uma visão ampla da ordem social ver a discussão acima sobre a língua no novo capitalismo Darei ênfase a um ponto que considero ser um problema que se manifesta nesse texto e que pode ser resumido pela notória afirmação de Margareth Tatcher Não há alternativa em inglês There is no alternative frase que gerou a sigla TINA amplamente utilizada desde então Tratase do capitalismo global na sua forma neoliberal geralmente construído como externo imutável e inquestionável um simples fato da vida com que devemos nos conformar Existem entretanto alternativas exequíveis de organizar as relações econômicas internacionais de modo que não tenham os efeitos prejudiciais do modelo atual por exemplo o aumento da defasagem econômica entre pobres e ricos e entre os estados e que são excluídas da agenda política em razão dessas representações 5 Identificar obstáculos para a resolução desse problema Iniciarei com as redes de práticas nas quais textos como esse em questão estão localizados O texto é parte de um livro branco um documento de diretriz governamental e localizase em uma das práticas da rede de práticas que constituem o governo Contudo governos nacionais estão cada vez mais se incorporando a redes de práticas mais abrangentes que incluem não apenas outros governos mas também agências internacionais intergovernamentais e patrocinadas por governos tais como a União Europeia o Banco Mundial o Fundo Monetário Internacional redes comerciais entre outros Os governos de acordo com Castells 1998 estão cada vez mais funcionando como um ponto de interconexão dentro das redes transnacionais que se baseiam em complexos comerciais governamentais cujas 318 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso funções centrais se focalizam na criação de condições estruturas financeiras fiscais legais o capital humano etc para o êxito da competição na nova economia global sendo esta última apresentada como se fosse algo do conhecimento de todos Tendo em vista que a prática em questão está protegida por essa poderosa rede há um obstáculo substancial para a resolução do problema Considerando o segundo aspecto para a resolução dos obstáculos a semiose na relação com outros elementos dentro da rede de práticas tem um papel crucial na imposição expansão e legitimação da nova economia global Bourdieu 1998 enfatizou a importância do papel do discurso do poder como um elemento significativo dentre os vários recursos empregados por aqueles interessados em expandir e consolidar a nova ordem neoliberal Isso significa que tais representações da nova economia e da mudança econômica não podem ser de maneira alguma ignoradas Alguém pode se referir aqui a mudanças em governos e em formas de governar a que a New Labour se refere como modernização do governo que inclui um movimento dual de dispersão ou devolução do controle e um fortalecimento do centro em certos aspectos especialmente na coordenação de diferentes ramos do governo e no gerenciamento de percepção É em parte o que se conhece amplamente hoje como spin O gerenciamento premia a linguagem utilizada pelo governo e o monitoramento cuidadoso dessa linguagem Em níveis diferentes portanto a relação da semiose com outros elementos na rede de práticas constitui um obstáculo considerável para a resolução do problema O terceiro aspecto para a resolução do problema levanos ao discurso a semiose em si tanto em termos estruturais ordem do discurso como em termos interacionais O problema tornase de difícil resolução em razão da recontexualização BERNSTEIN 1990 CHOULIARAKI FAIRCLOUGH 1999 Representações da nova economia global e da mudança econômica que se assemelham muito ao do exemplo estão presentes como disse anteriormente nos discursos da economia política mídia educação etc tanto na GrãBretanha como internacionalmente Tais representações fluem através da rede comercial governamental transnacional e são recontextualizadas e como o conceito propõe transformadas de gênero para gênero de um domínio de discurso para outro Voltando agora para a análise interacional comentarei primeiro sobre as características da linguagem do texto em sua representação da mudança econômica e depois tratarei da interdiscursividade Neste estágio da análise terei que usar alguns termos da linguística embora busque usálos o mínimo possível Como já 319 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 havia mencionado o modelo de análise linguística está baseado na Linguística SistêmicoFuncional HALLIDAY 1994 As representações dominantes da nova ordem global têm certas características linguísticas previsíveis Processos na nova economia são representados sem agentes sociais responsáveis num presente dissociados do tempo e da história e no que se refere à modalização as afirmações sobre a nova economia frequentemente clichês bastante conhecidos são representadas categoricamente como verdades desmodalizadas Autoritariamente há uma tendência de troca do é da economia para o tem que ser da política e de deixar de lado o caso categoricamente para usar o nós em convocação a uma resposta A nova realidade econômica é representada como universal independentemente do lugar uma série de evidências ou aparições da nova economia são representadas assindeticamente em listas Mostrei em outro texto FAIRCLOUGH no prelo que essas características são mantidas pela recontextualização aparecendo em textos de economia por exemplo textos do Banco Mundial textos políticos educacionais etc Essas características estão presentes no texto de Blair Na representação da mudança na economia e no mundo moderno inexistem agentes sociais responsáveis Os agentes dos processos materiais são abstratos ou inanimados No primeiro parágrafo O mundo moderno foi varrido mudança é o agente da primeira frase passiva e as novas tecnologias e os novos mercados são agentes da frase senguinte Percebase que os últimos estão relacionados a processos intransitivos surgir abrir representando mudanças como acontecimentos processos sem agentes A terceira frase é existencial novos competidores e novas oportunidades aparecem meramente como existentes sem serem situados dentro dos processos de mudança Percebese também que no terceiro parágrafo é o inanimado este novo mundo o agente dos desafios Em contrapartida quando chegamos às respostas nacionais para esses implacáveis e impessoais processos de mudança mundial os agentes sociais estão totalmente presentes o comércio o governo o Departamento de Comércio e Indústria e especialmente nós Em se tratando de tempo tempo verbal e modalização a mudança mundial é representada num presente historicamente dissociado e o mesmo acontece com os processos nacionais de resposta A modalização é representada por clichês autoritários e categóricos nas cinco afirmativas do primeiro parágrafo como se vê em O mundo moderno foi varrido pela mudança A única referência histórica 320 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso ao passado é dada pela concepção de antigo sistema na verdade antiquado em a antiquada intervenção do Estado não funcionou e nem poderia no parágrafo 4 Há uma tendência em trocar o é pelo tem que ser O tem que ser está implícito nos parágrafos 2 e 3 nosso sucesso depende de nosso êxito em explorar nossos recursos mais valiosos ou seja nós devemos explorálos A necessidade de ação do governo e do comércio também é evidenciada em esse novo mundo de mudanças comerciais deve ser inovador e governo deve criar A partir do parágrafo 5 o tem que ser é explícito e recorrente o verbo auxiliar deve aparece seis vezes O predomínio do é referese ao mundo de mudanças o do dever ser diz respeito às repostas nacionais para o mundo em mudança Um divisor é textualmente construído entre economia e política fato e valor que exclui o anterior em favor do posterior em contraste com a tradição democrática social da qual a New Labour se originou Ao contrário dos processos econômicos os processos políticos têm na realidade agentes sociais responsáveis o agente nos processos modalizados com o must é o nós em cinco dos casos e o governo em um dos casos Resumindo a mudança do mundo é implicitamente representada independente de lugar não há expressões de lugar no primeiro nem no terceiro parágrafo Em outros textos isso pode ficar explícito em expressões do tipo em qualquer lugar que olhamos no mundo contemporâneo A sintaxe é feita pela parataxe tanto nas relações entre frases como na relação entre os elementos na frase Tomemos por exemplo os dois primeiros parágrafos O primeiro deles consiste de três frases justapostas o segundo e o terceiro têm também orações relacionadas entre si de forma internamente justaposta relacionando evidências da mudança do mundo O mesmo vale para o segundo parágrafo ainda que as frases estejam tematicamente relacionadas por conta dos temas pronominais anafóricos na segunda e terceira frases A segunda frase contém sintagmas justapostos Notese que a sequência das frases não é significativa ela muda sem nenhum efeito maior no significado No parágrafo 2 há um pequeno rearranjo de palavras por causa da anáfora De fato o que é incluído ou excluído dessa lista de evidências é de certa forma arbitrário A segunda frase do primeiro parágrafo por exemplo poderia ter sido escrita assim enormes quantias de dinheiro se movem pelo mundo numa fração de segundo e mesmo nosso gato de estimação Socks tem sua própria página na Internet A segunda oração é extravagante somente porque Blair não tem um gato chamado Socks 321 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Essa frase na verdade também foi incluída em uma listagem muito semelhante num livro do presidente dos Estados Unidos Bill Clinton O que é significativo retoricamente é o inexorável acúmulo de evidências de mudança a que Clarke e Newman 1998 chamam de a cascata da mudança tomando a nova economia com um simples fato com que devemos conviver e nos adequar Resumindo a mudança é autoritariamente representada como listas de manifestações e clichês num presente que não reconhece lugares com agentes sociais ocultos demandando uma resposta predeterminada Essas características constroem a nova economia como um simples fato para o qual não há alternativas Voltemonos para a interdiscursividade O texto em análise é uma recontextualização do tipo de linguagem utilizado pela economia de desenvolvimento nos textos de organizações tais como o Banco Mundial Há um deslocamento desse contexto para outro cujo tipo de linguagem é o da política e governamental Isso se manifesta em vários aspectos O texto pertence a um gênero governamental particular o prefácio ministerial para um documento oficial o que nos permite antecipar o cabeçalho a assinatura no final a fotografia do Primeiro Ministro bem como a organização retórica como um todo De caráter político é projetado para ser persuasivo com características distintas de um outro possivelmente apresentado pelo Banco Mundial primariamente orientado para análise o que não exclui uma intenção persuasiva Para um exemplo real ver FAIRCLOUGH no prelo O texto de Blair tem características comuns de retórica política É mais fortemente orientado para o dever ser do que para o é direcionase no sentido de dar prescrições e comandos para ação o agente dessas ações projetadas é as mais das vezes o pronome de primeira pessoa nós o nósgoverno nós devemos também investir nas capacidades britânicas quando as empresas não puderem fazê lo sozinhas embora a referência exata do nós inclusivo seja caracteristicamente vaga Há um certo número de antíteses que estabelecem contrastes nítidos e notáveis novos concorrentes mas também grandes novas oportunidades uma visão de longo prazo num mundo de pressões imediatistas competir no difícil mercado de hoje prosperar nos mercados do amanhã O mas é uma conjunção de parataxe bastante empregada usada no início de frases dos parágrafos 3 4 e 5 e mais uma vez estabelecendo antíteses O texto começa e termina com frases curtas dramáticas metafóricas que servem bem como estribilhos O mundo moderno foi varrido pela mudança devemos por o futuro no lado da Grã 322 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Bretanha O vocabulário do processo inclui palavras que destacam o desejo e energia dos agentes nas ações projetadas construir criar promover forjar fomentar confiscar como também o fazem as palavras que representam estados afetivos preparado para comprometido com O texto é um chamado à ação coletiva inclusiva e comprometida A recontextualização requer hibridismo mistura de diferentes discursos Nesse texto misturamse os discursos de desenvolvimento e o político A recontextualização requer transformação Representações da nova economia não são idênticas num relatório do Banco Mundial e num prefácio político Os diferentes textos estão infectados pelo discurso que os torna recontextualizados É o que se observa no primeiro parágrafo do texto de Blair A representação da mudança é condensada em três curtas frases que incorporam as características da retórica política sobre a qual já me referi a metáfora dramática da primeira frase a antítese da terceira e que constitui uma base dramática abrupta e acabada para a persuasiva retórica política do texto Matéria análoga seria provavelmente mais completa e mais bem elaborada num relatório do Banco Mundial Para uma comparação real ver FAIRCLOUGH no prelo A recontextualização implica transformação para acomodação ao novo contexto e seu discurso A análise interacional mostra como a nova ordem econômica está textualmente construída como um fato inevitável da vida Se os textos com tais construções são como sugeri comuns e estão disseminados nos vários tipos de discurso e além disso domesticados pela recontextualização dentro dos diversos tipos de discurso e gêneros podese constatar que o efeito gotejante de tais representações em muitos textos e interações é também um obstáculo para que o problema seja resolvido 6 Em certo sentido precisa ser problemática a ordem social a rede de práticas Eu já respondi efetivamente à pergunta acima representações da mudança econômica e da nova economia global como inevitáveis são uma parte legitimadora da nova ordem social Isso também é uma questão de ideologia São representações e distorções parciais concretamente a inevitabilidade e a inexorabilidade da nova economia repousam significativamente sobre acordos intergovernamentais sobre o comércio mundial por exemplo e sobre o desregramento dos mercados financeiros O desregramento é geralmente reversível embora em alguns níveis os 323 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 mercados tenham uma lógica impessoal a que todos os envolvidos devem se submeter Não há nada que tenha sido criado socialmente que não possa ser modificado no mesmo âmbito Essas representações e distorções que claramente contribuem para a manutenção de relações desiguais de poder são todas elas ideológicas 7 Identificar possíveis caminhos para vencer os obstáculos Neste ponto devo introduzir outro texto Apêndice 2 trecho de um livro BROWN CASTES 1996 escrito por dois antigos membros do Partido dos Trabalhadores Ken Coates membro do Parlamento Europeu e Michael Barrat Brown Ambos estão atualmente trabalhando na Indepedent Labour Network e escrevendo sobre a visão da New Labour a que chamam de globalização capitalista a nova economia global nos termos da New Labour A razão de incluir um novo texto neste estágio é sair nos termos que apresentei anteriormente do dominante para a diferença e resistência O tipo de representação da nova economia que venho discutindo até agora não é o único em textos e interações contemporâneas embora seja o dominante Há diferenças mas também resistência Esses autores escrevem contra a New Labour tomando uma posição de esquerda dentro do movimento trabalhista Existem também textos de resistência em organizações anticapitalistas que recentemente têm alcançado destaque em eventos como os protestos na reunião da Organização Mundial de Comércio realizada em Seattle em 1999 Com relação ao texto de Blair selecionei para esta reflexão um texto tipificador de muitos outros um estudo mais completo faria uma análise mais rica Essas representações alternativas se encontram em uma contrarrede de práticas sociais emergentes que pelo menos constitui um possível recurso para indicação dos obstáculos que tenho discutido apesar de serem na atualidade relativamente marginalizados Avaliar o quão substancial será um determinado recurso será difícil neste estágio Além do mais uma avaliação detalhada está além do escopo desse artigo Devo limitarme a uma análise interacional que foque as mesmas características identificadas no texto de Blair para demonstrar como essa representação de mudança difere da dominante Os agentes neste trecho são diferentes daqueles do texto de Blair São agentes sociais as grandes empresas transnacionais as empresas baseadas na GrãBretanha as empresas baseadas em países estrangeiros a União 324 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Européia a Comissão Européia entre outros Vale mencinar que as representações da nova economia da New Labour nunca se referem a corporações transnacionais O termo capital é usado em dois sentidos primeiro como um agente social equivalente a uma empresa capitalista o Capital sempre foi global e segundo no sentido de dinheiro o capital é mais móvel Esses agentes sociais são em alguns casos agentes de processos materiais na economia É o que se observa em capital se movendo internacionalmente companhias operando transnacionalmente operando no Reino Unido a União Europeia reforçam sua posição de clientes a Comissão Europeia providenciando uma clientela mais bem organizada para as transnacionais Mas há também processos materiais que poderiam ter recebido agentes sociais mas não receberam o capital é mais móvel pode ser movimentado mais rapidamente por meios eletrônicos Na citação a última oração é relacional mas pode ser vista como uma metáfora gramatical HALLIDAY 1994 para uma oração material como o capital pode ser mais facilmente movimentado as companhias podem movimentar o capital mais facilmente Ao invés de um presente dissociado do tempo e da história às orações no presente são em muitos casos dadas especificações temporais os governos hoje cada vez mais requerem A expressão cada vez mais constrói um presente como um processo de tornarse o atual objetivo da Comissão Europeia O presente simples combinase com o presente perfeito tais companhias transnacionais vêm se tornando dominantes o que dá profundidade histórica ao presente moldando um presente em relação ao passado e em termos de processo ligando o passado ao presente Além do mais a mudança econômica é em parte especificada em termos de lugar em vez de ser representada independentemente dele peculiar ao Reino Unido Europa Quanto à modalização não temos neste último texto as divisões entre o é e o dever ser característico nas representações dominantes Há uma significativa mudança no final do excerto do é para o poderia ser representando o atual sistema econômico não como o único possível mas como aberto a mudanças iniciadas pelos agentes sociais os governos dos estados europeus A modalização das afirmações é categórica e autoritária como nos texto de Blair mas não são clichês tão óbvios A sintaxe do trecho também é diferente da do texto de Blair Ela não possui as listas justapostas deste a construção de listas de evidências para estabelecer 325 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 retoricamente a inexorável realidade da mudança O trecho é mais argumentativo e uma indicação disso é a natureza dos elos coesivos entre as frases que incluem conjunções em outras palavras de fato mas comparativos mais importante além disso outras ordens melhores e um pronome anafórico com antecedente oracional que Alguém pode afirmar que esse é um discurso diferente e suas características também incluem vocabulário que a New Labour não usa como por exemplo as palavras capital no sentido de comércio capitalista transnacionais clientelismo bem como em algum lugar no mesmo capítulo representações de governo e capital como acontece em governos desafiando o poder do capital internacional 8 Refletir criticamente sobre a análise Como pode uma análise como esta contribuir para a resolução de problemas tais como o que enfatizei Como podemos conectar artigos acadêmicos a digamos campanhas contra o neoliberalismo ou mais concretamente a campanhas da Organização Mundial de Comércio na tentativa de expandir o livre comércio A vida acadêmica está organizada como uma rede de práticas distintas um mercado distinto e uma análise crítica que permanece dentro de seus limites provavelmente não surtirá muito efeito Pode ser que tenha algum efeito se as pessoas que gastam algum tempo de sua vida em cursos de pósgraduação levarem ideias e abordagens para outras áreas de sua vida Mas continuo achando que devemos repensar a maneira como pesquisamos onde e como publicamos e como escrevemos Com respeito a como pesquisamos o que eu disse sobre as representações da nova economia não se liga diretamente às campanhas de ativistas contra problemas como o livre comércio Por que não trabalhamos com ativistas no projeto e desenvolvimento da pesquisa amarrando essa experiência por exemplo a campanhas de pessoas deficientes a favor de reformas da assistência social Como e onde publicamos Por que não publicar em panfletos em artigos de jornais e de revistas em livros populares ou na Internet Com relação a como escrevemos seria possível desenvolver maneiras acessíveis de se escrever a muitas pessoas sem serem superficiais Para conferir uma tentativa de escrever um livro popular sobre a linguagem da New Labour ver Fairclough 2000c e ver também Daily Telegraph de 2 de março de 2000 para um artigo futuro sobre o mesmo tema 326 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso 9 Para seguir lendo CHOULIARAKI L FAIRCLOUGH N Discourse in Late Modernity Rethinking Critical Discourse Analysis Edinburgh University Press 1999 Este livro apresenta uma explicação mais sistemática da versão da ACD que expomos neste capítulo FAIRCLOUGH N Language and Power Londres Longman 1989 Esta é a primeira versão deste enfoque da ACD com um amplo tratamento das questões vinculadas à linguagem e ao poder FAIRCLOUGH N Discourse and Social Change Cambridge Polity Press 1992 Esta é uma das primeiras versões da ACD relacionada com a investigação sobre a mudança social FAIRCLOUGH N New Labour New Language Londres Routledge 2000 Uma introdutória divulgação da análise do discurso político Baseiase na versão da ACD que apresentamos neste capítulo Referências BHASKAR R Scientific realism and human emancipation London Verso 1986 BERNSTEIN B The structuring of pedagogic discourse London Routledge 1990 BOURDIEU P La distinction Critique sociale du jugement Paris Les éditions de minuit 1979 A reasoned utopia and economic fatalism New Left Review 227 p 25 30 1998 BROWN B M COATES K The Blair revelation Deliverence for Whom Nottingham Spokesman 1996 CASTELLS M The information age economy society and culture 3 vols Oxford Blackwell 1998 CHOULIARAKI L FAIRCLOUGH N Discourse in Late Modernity Rethinking Critical Discourse Analysis Edinburgh Edinburgh University Press 1999 327 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 CLARK J NEWMAN J A modern Brtish peaple New Labour and the reconstruction of social welfare Departament of Intercultural Communication an Management Copenhagen Business School Ocacasional Paper 1998 DEPARTAMENT OF TRADE AND INDUSTRY Building the Knowledge Driven Economy London Stationery Office 1998 FAIRCLOUGH N Discourse and social change Oxford and Cambridge Polity Press and Blackwell 1992 Discourse social theory and social research the case of welfare reform Journal of Sociolinguistics 42 2000a Representations of change in neoliberal discourse Relaciones Laborales 2000b New labor New language London Routledge 2000c Representations of change in neoliberal discourse Relaciones Laborales No prelo FORGACS D Gramsci reader London Lawrence and Wishart 1988 FOWLER R HODGE G KRESS G TREW T Eds Language and control London Routledge and Kegan Paul 1979 HALLIDAY M A K Introduction to Functional Grammar 2 ed London Arnold 1994 HARVEY D Justice nature and geography of difference Oxford Blackwell 1996 JESSOP B The crisis of the national spatiotemporal fix and the tendential ecologial dominance of globalizing capitalism International Journal of Urban and Regional Research 242 p 323360 2000 LACLAU E MOUFFE C Hegemony and socialist strategy Towards a radical democratic politics London and New York Verso 1985 WILLIAMS R Marxism and Literature Oxford Oxford University Press 328 FAIRCLOUGH N Análise crítica do discurso Apêndice 1 Construindo uma economia baseada no conhecimento O mundo moderno foi varrido pela mudança Novas tecnologias surgem constantemente novos mercados estão se abrindo Existem novos concorrentes mas também grandes novas oportunidades Nosso sucesso depende da eficácia com que exploramos nossos recursos mais valiosos nosso conhecimento habilidades e criatividade Essas são as chaves para a projeção de bens e serviços valorizados e aperfeiçoamento das práticas administrativas Elas ocupam uma posição central na moderna economia baseada no conhecimento Esse novo mundo de mudanças desafia as empresas a serem inovadoras e criativas a melhorarem sua produção continuamente a construírem novas alianças e a assumirem riscos Mas também desafia o governo a criar e executar uma nova abordagem para as políticas industriais Esse é o propósito deste White Paper A antiquada intervenção do Estado não funcionava e nem poderia Mas a confiança cega no mercado também não O governo precisa fomentar a competição estimulando os empreendimentos a flexibilidade e a inovação abrindo mercados Mas também precisamos investir nas capacidades britânicas quando as empresas sozinhas não puderem em educação em ciência e na criação de uma cultura empreendedora Devemos promover parcerias criativas que ajudem as empresas a colaborar em troca de vantagens competitivas a promover uma visão de longo prazo num mundo de pressões imediatistas a equiparar seus desempenhos com os melhores do mundo a forjar alianças com outros negócios e com empregados Tudo isso é papel do DTI Departamento de Comércio e Indústria Não atingiremos nossos objetivo do dia para a noite O presente White Paper cria uma estrutura de diretrizes para os próximos dez anos Devemos competir mais efetivamente nos difíceis mercados de hoje se quisermos prosperar nos mercados de amanhã No governo no comércio em nossas universidades e por toda nossa sociedade devemos fazer muito mais para adotar um novo espírito empreendedor equipandonos para prazos prolongados estando preparados para aproveitar oportunidades e comprometidos com a inovação constante com o desempenho melhorado Essa é a rota para o sucesso comercial e prosperidade para todos Devemos colocar o futuro ao lado da GrãBretanha 329 Linha dÁgua n 25 2 p 307329 2012 Apêndice 2 O capital sempre foi global movimentandose internacionalmente das bases situadas nos países industrialmente desenvolvidos O que mudou não foi o fato de o capital estar mais móvel mas as bases que estão menos importantes como mercados e centros de produção Em outras palavras as grandes empresas transnacionais não estão apenas maiores mas também mais independentes a União Europeia longe de oferecer liderança e desafio para as naçõesestados da Europa reforça sua posição de cliente de empresas transnacionais De fato o clientelismo não se aplica apenas a empresas baseadas na Europa Embora seja verdade que o capitalismo nacional não seja mais possível numa economia globalizada não é verdade que os governos nacionais e por extensão a União Europeia são totalmente incapacitados de empregarem seus poderes contra as ações arbitrárias do capital transnacional Há muito que os governos podem fazer para barganhar Mas tal barganha tem que ter uma dimensão internacional ou as empresas podem continuar a dividir ou conquistar A New Labour parece ter abandonado a permanência de tradições internacionalistas dos trabalhadores A ICTFU TUC europeia e os grupos de comércio de Gênova oferecemse como aliados potenciais para fortalecer a resposta aos trabalhadores britânicos ao capital internacional BROWN COATS 1996 p 172174 Recebido em 16072012 Aprovado em 31102012

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