8
Linguística
UEMS
23
Linguística
UEMS
27
Linguística
UEMS
2
Linguística
UNILAB
2
Linguística
UNILAB
95
Linguística
ESTACIO
12
Linguística
UMG
11
Linguística
IFB
5
Linguística
UMG
18
Linguística
UNILAB
Texto de pré-visualização
Esta obra é uma introdução crítica à análise do discurso praticada nas mais diversas disciplinas hoje em dia desde a linguística e a sociolinguística até os estudos culturais e sociológicos O autor demonstra como a preocupação com a análise do discurso pode ser combinada de modo sistemático e frutífero com o interesse nos grandes problemas da análise social e da mudança social Fairclough oferece uma revisão crítica e concisa dos métodos e dos resultados da análise do discurso Ele discute o trabalho descritivo de linguistas e analistas da conversa bem como o trabalho mais histórico e teoricamente orientado de Michel Foucault Este livro é valioso como uma introdução aos debates atuais acerca de discurso poder e ideologia e também como um guia prático para a análise de textos A reimpressão desta obra faz parte de um programa de reedição de clássicos da Editora Universidade de Brasília há muito tempo esgotados ISBN 9788523006143 Cód EDU 049565 DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Reitor pro tempore Roberto A R de Aguiar ViceReitor José Carlos Balthazar Diretor Norberto Abreu e Silva Neto Conselho Editorial Denise Imbroisi José Carlos Córdova Coutinho José Otávio Nogueira Guimarães Lúcia Mercês de Avelar Luís Eduardo de Lacerda Abreu Maria José M S da Silva Norberto Abreu e Silva Neto Presidente Norman Fairclough DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL Coordenadora da tradução Izabel Magalhães Revisão técnica e prefácio à edição brasileira Izabel Magalhães EQUIPE EDITORIAL Supervisão Editorial Dival Porto Lomba Preparação de originais revisão e índice Gilvam Joaquim Cosmo e Wilma G Rosas Saltarelli Diagramação Eugênio Felix Braga Capa Ivanise Oliveira de Brito Supervisão gráfica Luiz Antônio R Ribeiro e Elmano Rodrigues Pinheiro Equipe de tradução Izabel Magalhães André R N Martins Carla Rosane Zório Célia M L Mota Janaína Saraiva de Aquino Josenia Vieira Maria Christina Diniz Leal Sandra da Rocha M de Oliveira Título original Discourse and social change Copyright 1992 by Norman Fairclough Copyright 2001 by Editora Universidade de Brasília pela tradução Direitos exclusivos para esta edição em língua portuguesa EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA SCS quadra 2 bloco C nº 78 edifício OK 1º andar CEP 70302509 Brasília Distrito Federal Telefone 61 30354211 fax 61 30354223 Email direcaoeditoraunbbr wwweditoraunbbr Impresso no Brasil Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta publicação poderá ser armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem a autorização por escrito da Editora Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília Fairclough Norman F165 Discurso e mudança social Norman Fairclough Izabel Magalhães coordenadora da tradução revisão técnica e prefácio Brasília Editora Universidade de Brasília 2001 2008 reimpressão 320 p 21 cm Tradução de Discourse and social change ISBN 9788523006143 1 Sociolingüística 2 Análise do discurso 3 Mudança social I Magalhães Izabel II Título CDU 801 801301 Para minha mãe e em memória de meu pai Sumário PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA 11 AGRADECIMENTOS 15 PREFÁCIO 17 INTRODUÇÃO 19 CAPÍTULO 1 ABORDAGENS DA ANÁLISE DE DISCURSO 31 Sinclair e Coulthard 32 Análise da conversa 36 Labov e Fanshel 40 Potter e Wetherell 44 Linguística crítica 46 Pêcheux 51 Conclusão 57 CAPÍTULO 2 MICHEL FOUCAULT E A ANÁLISE DE DISCURSO 61 Os trabalhos arqueológicos de Foucault 64 A formação dos objetos 65 A formação de modalidades enunciativas 68 A formação de conceitos 70 A formação de estratégias 73 Da arqueologia à genealogia 74 Foucault e a análise de discurso textualmente orientada 81 CAPÍTULO 3 TEORIA SOCIAL DO DISCURSO 89 Discurso 89 Discurso como texto 101 Prática discursiva 106 Discurso como prática social ideologia e hegemonia 116 Mudança discursiva 126 Conclusão 130 CAPÍTULO 4 INTERTEXTUALIDADE 133 Exemplo 1 Reportagem de jornal 138 Exemplo 2 Um guia para os portadores de cartão do banco Barclay 148 Intertextualidade manifesta 152 Intertextualidade e transformações 166 Intertextualidade coerência e sujeitos 170 CAPÍTULO 5 ANÁLISE TEXTUAL A CONSTRUÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS E DO EU 175 Exemplo 1 Entrevista médica padrão 176 Exemplo 2 Entrevista médica alternativa 183 Exemplo 3 Narrativa conversacional 189 Características de controle interacional 192 Tomada de turno 192 Estruturas de troca 193 Controle de tópicos 195 Determinação e policiamento de agendas 196 Formulação 198 Modalidade 199 Polidez 203 Ethos 207 Conclusão 209 CAPÍTULO 6 ANÁLISE TEXTUAL A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE SOCIAL 211 Conectivos e argumentação 212 Transitividade e tema 221 Significado das palavras 230 Criação de palavras 236 Metáfora 241 Conclusão 245 CAPÍTULO 7 DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 247 Democratização 248 Comodificação 255 Tecnologização 264 Produzindo sentido das tendências 268 Conclusão modelos relevantes de discurso 272 CAPÍTULO 8 A PRÁTICA DA ANÁLISE DE DISCURSO 275 Os dados 276 Análise 282 Resultados 291 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 295 ÍNDICE 307 Prefácio à edição brasileira Conheci Norman Fairclough na Universidade de Lancaster GrãBretanha em 1975 Em 1988 ele visitou a Universidade de Brasília a meu convite para ministrar o curso Linguagem Poder e Ideologia Durante a visita discutimos a idéia de um convênio de pesquisa internacional entre a Universidade de Brasília e a Universidade de Lancaster O convênio recebeu apoio do Conselho Britânico e da Capes em 1991 Fairclough visitou a Universidade de Brasília novamente em 1994 e em 1998 A tradução desta obra é produto do convênio e uma realização do Grupo de Pesquisa de Linguagem e Ideologia da Universidade de Brasília O trabalho de Fairclough é conhecido no mundo inteiro representando uma significativa contribuição da linguística britânica do final do século XX que tem influenciado um grande número de pesquisadores tanto estudiosos da linguagem como de disciplinas afins A Teoria Social do Discurso que o autor apresenta no Capítulo 3 tem em comum com a Escola Francesa de Análise de Discurso a dimensão crítica do olhar sobre a linguagem como prática social Entretanto a teoria de Fairclough é inovadora quando propõe examinar em profundidade não apenas o papel da linguagem na reprodução das práticas sociais e das ideologias mas também seu papel fundamental na transformação social Isso é possível na teoria de Fairclough porque ela é dialética na medida em que considera o discurso por um lado moldado pela estrutura social e por outro constitutivo da estrutura social O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e restringem suas próprias normas e convenções e também as relações as identidades e as instituições que lhe são subjacentes cf Capítulo 3 Além disso a teoria de Fairclough resgata o conceito de interdiscurso do teórico da análise de discurso francesa Michel Pêcheux Fairclough discute a configuração de práticas discursivas e a relação entre elas em termos da ordem de discurso um conceito formulado inicialmente por Michel Foucault que tanto pode favorecer a reprodução do sujeito social como a sua transformação A mudança discursiva ocorre mediante a reconfiguração ou a mutação dos elementos da ordem de discurso que atuam dinamicamente na relação entre as práticas discursivas Ela pode estender seus efeitos sobre os sujeitos e suas identidades as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença Num mundo de grandes transformações como o nosso essa é sem sombra de dúvida uma questão central E é aí que se encontra a principal contribuição de Fairclough para os leitores brasileiros até que ponto as transformações propostas nos textos orais e escritos são favoráveis aos cidadãos Para responder a essa questão é preciso ter uma visão crítica sobre o papel da linguagem na organização e na manutenção da hegemonia de determinados grupos sociais em detrimento de outros Tais blocos incluem não apenas a classe social como na visão de Louis Althusser e Michel Pêcheux mas também a etnia o gênero social e mesmo a linguagem escrita que no senso comum ideológico separa os indivíduos em letrados e analfabetos valorizando os primeiros A manutenção desses blocos exige em muitos casos o apelo à mudança a modernização superficial e a rearticulação das práticas sociais conservadoras Num país em que a população é com freqüência alvo de manipulação por parte de grupos de poder conhecer o trabalho de Fairclough é uma necessidade Cabe esclarecer porém que o autor não propõe soluções fáceis principalmente porque o caminho da crítica exige leitura reflexão e desenvolvimento de uma consciência sobre direitos e deveres que pode demandar profundas transformações na identidade do eu e do outro e ainda na identidade nacional Nesse sentido a transformação das práticas sociais passa por uma transformação das práticas linguísticas nos mais diversos domínios Na tradução optouse pelo uso do masculino e do feminino por exemplo elea em situações em que se usa normalmente o masculino genérico em português como em ciências do homem Essa decisão segue um uso já consolidado no inglês fruto da tendência de democratização do discurso que o autor discute no Capítulo 7 desta obra Adotaramse o masculino e o feminino em substituição ao feminino genérico usado pelo autor buscando facilitar a leitura sem prejudicar a dimensão crítica da obra Izabel Magalhães Agradecimentos O artigo de jornal à página 139 foi reproduzido com permissão do The Sun Agradeço à Editora da Universidade de Cambridge e ao doutor S Levinson a permissão para usar a figura à página 204 à Universidade de Lancaster por ter permitido a reprodução do texto às páginas 261262 e à MGN Limited que autorizou a reprodução do artigo à página 145 Prefácio A idéia de escrever este livro surgiu nas discussões com um grupo de colegas da Universidade de Lancaster sobre a análise de discurso como um método na pesquisa social particularmente com os sociólogos Paul Bagguley Scott Lash Celia Lury e Mick Dillon do Departamento de Política e Susan Condor do Departamento de Psicologia Também foram benéficos o apoio e o entusiasmo de colegas e alunos de Lingüística principalmente Romy Clark Roz Ivanic Hilary Janks Stef Slembrouk e Mary Talbot Mary Talbot também forneceu o exemplo de narrativa conversacional do Capítulo 5 Agradeço a Gunther Kress e John Thompson por terem lido e comentado uma versão anterior do livro Finalmente tive muito apoio e paciência de Vonny Simon e Matthew durante o processo de produção do livro Introdução Hoje os indivíduos que trabalham em uma variedade de disciplinas começam a reconhecer os modos como as mudanças no uso lingüístico estão ligadas a processos sociais e culturais mais amplos e conseqüentemente a considerar a importância do uso da análise lingüística como um método para estudar a mudança social Mas ainda não existe um método de análise lingüística que seja tanto teoricamente adequado como viável na prática Meu objetivo principal neste livro é portanto desenvolver uma abordagem de análise lingüística que possa contribuir para preencher essa lacuna uma abordagem que será útil particularmente para investigar a mudança na linguagem e que será útil em estudos de mudança social e cultural Para atingir isso é necessário reunir métodos para analisar a linguagem desenvolvidos na lingüística e nos estudos de linguagem com o pensamento social e político relevante para desenvolver uma teoria social da linguagem adequada Entre os primeiros incluo trabalhos em vários ramos da lingüística vocabulário semântica gramática na pragmática e acima de tudo na análise de discurso que foram desenvolvidos nos últimos anos principalmente por lingüistas os vários sentidos de discurso e análise de discurso são discutidos resumidamente e incluo entre os últimos os trabalhos de Antonio Gramsci Louis Althusser Michel Foucault Jürgen Habermas e Anthony Giddens veja referências Tal síntese lá muito deveria ter sido feita mas há vários fatores que têm dificultado sua realização satisfatória até o momento Um é o isolamento dos estudos lingüísticos de outras ciências sociais e ainda a dominação da lingüística por paradigmas formalistas e Tradução de Izabel Magalhães cognitivos Dois outros fatores são a falta de interesse pela linguagem por parte de outras ciências sociais e uma tendência de considerar a linguagem transparente enquanto dados lingüísticos como entrevistas são amplamente usados há uma tendência em acreditar que o conteúdo social de tais dados pode ser lido sem atenção à própria linguagem Tais posições e atitudes estão mudando agora Os limites entre as ciências sociais estão enfraquecendo e uma maior diversidade de teoria e prática vem se desenvolvendo nas disciplinas Tais mudanças têmse feito acompanhar por uma virada lingüística na teoria social cujo resultado é um papel mais central conferido à linguagem nos fenômenos sociais As tentativas anteriores de síntese entre os estudos lingüísticos e a teoria social tiveram dessa forma sucesso limitado Por exemplo um grupo de lingüistas na GrãBretanha na década de 1970 desenvolveu uma lingüística crítica ao combinar as teorias e os métodos de análise textual da lingüística sistêmica Halliday 1978 com teorias de ideologia Algum tempo antes na França Michel Pêcheux e seus colegas começaram a desenvolver uma abordagem à análise de discurso que se baseou especialmente no trabalho do lingüista Zellig Harris e na reelaboração de uma teoria marxista de ideologia feita por Althusser Ambas as tentativas apresentam um desequilíbrio entre os elementos sociais e os lingüísticos da síntese embora tenham pontos negativos e positivos complementares nos primeiros a análise lingüística e o tratamento de textos lingüísticos estão bem desenvolvidos mas há pouca teoria social e os conceitos de ideologia e poder são usados com pouca discussão ou explicação enquanto no trabalho de Pêcheux a teoria social é mais sofisticada mas a análise lingüística é tratada em termos semânticos muito estreitos Além do mais ambas as tentativas estão baseadas em uma visão estática das relações de poder com ênfase exagerada no papel desempenhado pelo amoldamento ideológico dos textos lingüísticos na reprodução das relações de poder existentes Prestouse pouca atenção à luta e à transformação nas relações de poder e ao papel da linguagem aí Conferiuse ênfase semelhante à descrição dos textos como produtos acabados e deuse pouca atenção aos processos de produção e interpretação textual ou às tensões que caracterizam tais processos Como conseqüência essas tentativas de síntese não são adequadas para investigar a linguagem dinamicamente em processos de mudança social e cultural ver Capítulo 1 para uma discussão mais detalhada dessas abordagens e referência a tentativas mais recentes de aprimorálas e desenvolvêlas A síntese que tentarei realizar neste livro estará centrada como a de Pêcheux na análise de discurso e no conceito de discurso Discurso é um conceito difícil principalmente porque há tantas definições conflitantes e sobrepostas formuladas de várias perspectivas teóricas e disciplinares ver van Dijk 1985 McDonell 1986 sobre algumas dessas definições Na lingüística discurso é usado algumas vezes com referência a amostras ampliadas de diálogo falado em contraste com textos escritos Nesse sentido análise textual e análise de discurso não partilham a limitação tradicional da análise lingüística a frases ou a unidades gramaticais menores ao contrário focalizam as propriedades organizacionais de nível superior do diálogo por exemplo tomada de turno ou a estrutura de aberturas e fechamentos conversacionais ou de textos escritos por exemplo a estrutura de uma reportagem de crime em um jornal Mais comumente entretanto discurso é usado na lingüística com referência a amostras ampliadas de linguagem falada ou escrita Além de preservar a ênfase em aspectos organizacionais de nível superior esse sentido de discurso enfatiza a interação entre falante e receptora ou entre escritora e leitora portanto entre processos de produção e interpretação da fala e da escrita como também o contexto situacional do uso lingüístico Texto é considerado aqui como uma dimensão do discurso o produto escrito ou falado do processo de produção textual Sobre essa concepção de discurso como texto e interação ver Widdowson 1979 Finalmente discurso também é usado em relação a diferentes tipos de linguagem usada em diferentes tipos de situação social por exemplo discurso de jornal discurso publicitário discurso de sala de aula discurso de consultas médicas Por outro lado discurso é amplamente usado na teoria e na análise social como por exemplo no trabalho de Michel Foucault com referência aos diferentes modos de estruturação das áreas de conhecimento e prática social Dessa forma o discurso da discurso Essa abordagem é elaborada e aplicada a várias espécies de discurso em capítulos posteriores do livro Sugeri no início desta Introdução que as mudanças no uso linguístico são uma parte importante de mudanças sociais e culturais mais amplas Isso ocorre cada vez mais entretanto a afirmação precisa de mais explicação e justificativa As afirmações sobre a importância social da linguagem não são novas A teoria social em décadas recentes atribui à linguagem um lugar mais central na vida social ver Thompson 1984 Primeiro na teoria marxista Gramsci 1971 e Althusser 1971 enfatizam o significado da ideologia na reprodução social moderna e outros como Pêcheux 1982 identificam o discurso como a forma material linguística preeminente da ideologia ver no Capítulo 1 o item Pêcheux entendo por reprodução os mecanismos por meio dos quais as sociedades mantêm suas estruturas sociais e relações sociais ao longo do tempo Segundo Foucault 1979 ressalta a importância das tecnologias em formas modernas de poder e está claro que estas são exemplificadas centralmente na linguagem ver no Capítulo 2 o item Da arqueologia à genealogia Terceiro Habermas 1984 focaliza a colonização do mundo da vida pelos sistemas da economia e do Estado que considera em termos de um deslocamento de usos comunicativos da linguagem orientados para produzir a compreensão por usos estratégicos da linguagem orientados para o sucesso para conseguir que as pessoas realizem coisas A elevação da linguagem e do discurso na esfera social refletese de maneira variada em trabalhos por exemplo sobre as relações de gênero Spender 1980 ou a mídia van Dijk 1985b que focalizam a linguagem e na pesquisa sociológica que toma como dados a conversação Atkinson e Heritage 1984 O que está aberto ao debate é se tal teoria e pesquisa reconhecem a importância que a linguagem sempre teve na vida social mas que previamente não foi suficientemente reconhecida ou realmente refletem um destaque na importância social da linguagem Embora ambos os casos possam ser verdadeiros acredito que tenha havido mudança significativa no funcionamento social da linguagem alteração refletida na centralização da linguagem nas principais mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas Muitas dessas ciência médica é atualmente o dominante na prática de assistência médica embora contraste com vários discursos holísticos alternativos por exemplo os da homeopatia e os da acupuntura como também com os discursos populares folclóricos Nesse sentido os discursos são manifestados nos modos particulares de uso da linguagem e de outras formas simbólicas tais como imagens visuais ver Thompson 1990 Os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais eles as constroem ou as constituem diferentes discursos constituem entidadeschave sejam elas a doença mental a cidadania ou o letramento de diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos sociais por exemplo como médicos ou pacientes e são esses efeitos sociais do discurso que são focalizados na análise de discurso Outro foco importante localizase na mudança histórica como diferentes discursos se combinam em condições sociais particulares para produzir um novo e complexo discurso Um exemplo contemporâneo é a construção social da doença Aids em que vários discursos como os discursos da venereologia da invasão cultural por estrangeiros da poluição são combinados para constituir um novo discurso o da Aids Esse sentido mais socioteórico de discurso será discutido adiante no Capítulo 2 Minha tentativa de reunir a análise linguística e a teoria social está centrada numa combinação desse sentido mais socioteórico de discurso com o sentido de texto e interação na análise de discurso orientada linguisticamente Esse conceito de discurso e análise de discurso é tridimensional Qualquer evento discursivo isto é qualquer exemplo de discurso é considerado como simultaneamente um texto um exemplo de prática discursiva e um exemplo de prática social A dimensão do texto cuida da análise linguística de textos A dimensão da prática discursiva como interação na concepção texto e interação de discurso especifica a natureza dos processos de produção e interpretação textual por exemplo que tipos de discurso incluindo discursos no sentido mais socioteórico são derivados e como se combinam A dimensão de prática social cuida de questões de interesse na análise social tais como as circunstâncias institucionais e organizacionais do evento discursivo e como elas moldam a natureza da prática discursiva e os efeitos constitutivosconstrutivos referidos anteriormente Acrescentaria que texto é usado neste livro em um sentido que é bastante familiar na linguística mas não alhures para referir a qualquer produto escrito ou falado de tal maneira que a transcrição de uma entrevista ou conversa por exemplo seria denominada um texto A ênfase neste livro é sobre a linguagem e portanto textos linguísticos mas é muito apropriado estender a noção de discurso a outras formas simbólicas tais como imagens visuais e textos que são combinações de palavras e imagens por exemplo na publicidade ver Hodge e Kress 1988 Usarei o termo discurso sem um artigo para referir ao uso linguístico considerado do modo tridimensional citado anteriormente por exemplo a posição dos sujeitos sociais é realizada no discurso e referirmeei a tipos de discurso aos quais as pessoas recorrem quando se envolvem no discurso significando convenções como gêneros de discurso e estilos No Capítulo 4 também começarei a usar o termo discurso com um artigo um discurso os discursos o discurso da biologia no sentido socioteórico para uma classe particular de tipos de discurso ou convenções Também referirmeei às práticas discursivas de instituições organizações ou sociedades particulares em contraste com prática discursiva como uma dimensão analiticamente distinta do discurso A justificativa para o conceito multidimensional de discurso e para a análise de discurso delineada anteriormente é apresentada nos capítulos de 1 a 3 O Capítulo 1 é um estudo de abordagens da análise de discurso que são orientadas linguisticamente isto é elas focalizam os textos e a análise textual Argumentarei que essas abordagens dão atenção insuficiente a aspectos sociais importantes do discurso para os quais é preciso recorrer à teoria social No Capítulo 2 comento tais perspectivas sociais do discurso no trabalho de Michel Foucault um teórico social que tem sido uma influência de destaque no desenvolvimento da análise de discurso como forma de análise social No Capítulo 2 argumento ainda que a maior atenção aos textos e à análise linguística aumentaria o valor da análise de discurso como método na pesquisa social Em seguida no Capítulo 3 apresento minha abordagem multidimensional como síntese das concepções de discurso com orientação social e linguística avançando para o que denomino teoria social do mudanças sociais não envolvem apenas a linguagem mas são constituídas de modo significativo por mudanças nas práticas de linguagem e talvez seja uma indicação da importância crescente da linguagem na mudança social e cultural que tentativas de definir a direção da mudança cada vez mais incluam tentativas de mudar as práticas de linguagem Darei alguns exemplos Primeiro em muitos países houve recentemente um movimento de extensão do mercado a novas áreas da vida social setores como a educação a assistência médica e as artes foram obrigados a reestruturar e a reconceituar suas atividades como produção e marketing de bens para consumidores Urry 1987 Tais mudanças afetam profundamente as atividades as relações sociais e as identidades sociais e profissionais das pessoas que trabalham em tais setores Grande parte de seu impacto diz respeito a mudanças nas práticas discursivas isto é mudanças na linguagem Por exemplo na educação as pessoas encontramse sob pressão para se envolver com novas atividades que são definidas em grande parte por novas práticas discursivas como marketing e para adotar novas práticas discursivas em atividades existentes como o ensino Isso inclui relexicalizações de atividades e relações por exemplo a relexicalização dos aprendizes como consumidores ou clientes de cursos como pacotes ou produtos Inclui também uma reestruturação mais sutil das práticas discursivas da educação os tipos de discurso gêneros estilos etc que aí são usados e a colonização da educação por tipos de discurso exteriores incluindo os da publicidade os da administração e os da terapia Além disso a indústria está passando por mudanças no sentido do que é denominado produção pósfordiana Bagguley e Lash 1988 Bagguley 1990 em que os operários não mais funcionam como indivíduos que desempenham rotinas repetitivas em um processo de produção invariante mas como grupos em relação flexível com um processo acelerado de mudança Acrescentese que as relações tradicionais empregadofirma são consideradas pelas administrações como disfuncionais nesse contexto portanto elas têm tentado transformar a cultura do local de trabalho por exemplo ao estabelecer instituições que posicionam os empregados em uma relação mais participativa com a gerência como nos círculos de práticas discursivas em instituições particulares ou mesmo em toda uma sociedade No nível de textos considero esses processos em termos de intertextualidade ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva e o Capítulo 4 os textos são construídos por meio da articulação de outros textos de modos particulares modos que dependem de circunstâncias sociais e mudam com elas No nível de ordens de discurso as relações entre práticas discursivas e limites entre estas em uma instituição ou na sociedade mais ampla são modificadas segundo as direções seguidas pela mudança social Quarto seria necessário um método crítico Tipicamente as relações entre a mudança discursiva social e cultural não são transparentes para as pessoas envolvidas Nem tampouco o é a tecnologização do discurso Crítico implica mostrar conexões e causas que estão ocultas implica também intervenção por exemplo fornecendo recursos por meio da mudança para aqueles que possam encontrarse em desvantagem Nesse sentido é importante evitar uma imagem da mudança discursiva como um processo unilinear de cima para baixo há luta na estruturação de textos e ordens de discurso e as pessoas podem resistir às mudanças que vêm de cima ou delas se apropriar como também simplesmente as seguir ver no Capítulo 3 o item Discurso e o Capítulo 7 Para concluir esta Introdução apresentarei uma breve discussão do tratamento dado à mudança discursiva nos capítulos de 3 a 7 O Capítulo 3 apresenta minha síntese de concepções de discurso social e linguisticamente orientadas Minha formulação da análise na dimensão da prática discursiva está centrada no conceito de intertextualidade Entretanto minha formulação da análise na dimensão da prática social está centrada nos conceitos de ideologia e essencialmente de hegemonia no sentido de um modo de dominação que se baseia em alianças na incorporação de grupos subordinados e na geração de consentimento As hegemonias em organizações e instituições particulares e no nível societário são produzidas reproduzidas contestadas e transformadas no discurso Além disso pode ser considerada a estruturação de práticas discursivas em modos particulares nas ordens de discurso nas quais se naturaliza e ganha ampla aceitação como uma forma de hegemonia especificamente cultural É a combinação dos conceitos de intertextualidade e hegemonia que torna a teoria do Capítulo 3 útil para investigar a mudança discursiva em relação à mudança social e cultural A seleção de textos prévios e de tipos de texto que são articulados em uma dada instância um evento discursivo particular e a maneira como são articulados dependem de como o evento discursivo se situa em relação às hegemonias e às lutas hegemônicas se por exemplo ele contesta práticas e relações hegemônicas existentes ou ao contrário tomaas como dadas A abordagem da mudança discursiva apresentada no Capítulo 3 combina uma concepção de texto e prática discursiva que deriva do conceito de intertextualidade de Bakhtin via Kristeva Bakhtin 1981 e 1986 Kristeva 1986a e uma concepção de poder que deriva da teoria de hegemonia de Gramsci Gramsci 1971 BuciGlucksmann 1980 A teoria do Capítulo 3 é elaborada nos capítulos que se seguem O Capítulo 4 toma o conceito de intertextualidade em termos de uma distinção entre intertextualidade manifesta a presença explícita de outros textos em um texto e interdiscursividade a constituição de um texto com base numa configuração de tipos de texto ou convenções discursivas Sugiro um modo de diferenciar gêneros de discurso discursos estilos e tipos de atividade como convenções discursivas distintas O Capítulo 4 também discute a intertextualidade em relação à distribuição social de textos e as transformações que sofrem e em relação à construção da identidade social no discurso Nos capítulos 5 e 6 a ênfase é na análise textual Esses capítulos examinam aspectos do vocabulário da gramática da coesão da estrutura textual da força e da coerência textual sobre esses termos ver no Capítulo 3 o item Discurso como texto Também desenvolvem uma concepção multifuncional da análise de discurso o Capítulo 5 versa principalmente sobre a função do discurso na constituição de identidades sociais e relações sociais enquanto o foco do Capítulo 6 é sobre constituição reprodução e mudança dos sistemas de conhecimento e crença no discurso No Capítulo 7 a ênfase é sobre a dimensão de prática social do discurso e especialmente sobre determinadas tendências amplas de mudança que afetam ordens de discurso contemporâneas democratização comodificação e tecnologização do discurso e sua relação com mudanças sociais e culturais As análises de mudança nos capítulos de 4 a 7 ilustram uma variedade de campos e instituições com análise detalhada de amostras de discurso Uma questão examinada no Capítulo 4 é o modo como os meios de comunicação de massa estão modificando o limite entre as esferas públicas e privadas da vida social Isso envolve não apenas questões ligadas ao conteúdo do discurso da mídia tal como o tratamento de aspectos da vida privada como notícia pública mas também se manifesta intertextualmente em uma mescla de práticas discursivas da esfera privada com aquelas da esfera pública resultando no uso por alguns setores da mídia de uma versão estereotipada da fala popular Uma outra questão é a pressão nas indústrias de serviços para tratar os serviços como bens e os clientes como consumidores que se evidencia na mescla das práticas discursivas de prestação de informações e de publicidade No Capítulo 5 discuto mudanças nas identidades sociais de profissionais e seus clientes e na natureza da interação entre eles focalizando médicos e pacientes Sugiro que as mudanças nas identidades e nas relações de médicos e pacientes se realizem discursivamente na mudança de consultas médicas formais para consultas mais informais que podem incorporar as práticas discursivas da terapia àquelas da medicina mais tradicional O Capítulo 6 incluiu amostras de dois livretos de assistência prénatal que exemplificam representações opostas de processos prénatais Prossigo discutindo a engenharia da mudança semântica como parte de uma tentativa de realização de mudança cultural com referência específica às falas de um ministro do governo Thatcher sobre o tema da cultura empresarial O Capítulo 7 retoma o tema da comodificação e a mescla de prestação de informação e publicidade agora com referência à educação usando o exemplo de um prospecto de universidade O objetivo deste livro é persuadir os leitores de que a análise de discurso é um tipo de análise interessante de fazer e provêlos com os recursos para realizála O último capítulo do livro o Capítulo 8 reúne os assuntos introduzidos nos capítulos de 3 a 7 na forma de um conjunto de instruções para fazer análise de discurso Tais instruções referemse à coleta à transcrição e à codificação de textos ao uso de resultados como também à análise Capítulo 1 Abordagens da análise de discurso Meu objetivo neste capítulo é descrever brevemente algumas abordagens recentes e atuais para a análise de discurso como contexto e base para a elaboração de minha própria abordagem nos capítulos de 3 a 8 A análise de discurso é agora uma área de estudo muito diversificada com uma variedade de abordagens em um grupo de disciplinas exemplos dessa variedade estão representados em van Dijk 1985a A pesquisa de abordagens neste capítulo é portanto necessariamente seletiva Selecionei abordagens que de algum modo combinam a análise detalhada de textos linguísticos com uma orientação social para o discurso Isso corresponde ao meu objetivo em capítulos posteriores de realizar uma combinação efetiva e útil de análise textual e outros modos de análise social Também conferi um tratamento seletivo às abordagens focalizando os aspectos que são mais próximos às minhas prioridades neste livro As abordagens investigadas podem ser divididas em dois grupos segundo a natureza de sua orientação social para o discurso distinguindose abordagens nãocríticas e críticas Tal divisão não é absoluta As abordagens críticas diferem das abordagens nãocríticas não apenas na descrição das práticas discursivas mas também ao mostrarem como o discurso é moldado por relações de poder e ideologias e os efeitos construtivos que o discurso exerce sobre as identidades sociais as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença nenhum dos quais é normalmente aparente Tradução de Izabel Magalhães Atos são funcionais e não categorias formais e uma questão central é a relação entre eles e as categorias formais da gramática essa questão vem recebendo muita atenção na pragmática ver Levinson 1983 Leech e Thomas 1989 Sabese bem que não existem correspondências simples Por exemplo uma frase interrogativa uma pergunta gramatical pode ser uma diretiva como também uma provocação por exemplo Você pode fechar as cortinas e uma frase declarativa afirmativa gramatical pode ser qualquer um desses últimos ou um ato informativo por exemplo As cortinas não estão fechadas pode pedir uma confirmação pedir a alguém que as feche ou apenas prestar informação Sinclair e Coulthard referemse ao que denominam situação e tática para determinar a função de uma frase em um exemplo particular de discurso A primeira traz fatores situacionais que são relevantes por exemplo se as crianças sabem que não é permitido conversar na sala uma frase declarativa doa professora Você está conversando provavelmente será interpretada como um comando para parar Como Labov e Fanshel veja adiante Sinclair e Coulthard propõem regras interpretativas que abrangem tanto a forma linguística das frases como os fatores situacionais Tática trata da influência da posição sequencial de uma frase no discurso sobre sua interpretação Por exemplo uma frase declarativa como Talvez seja diferente do ponto de vista da mulher após um retorno em uma série de trocas provocativas isto é na qual seria antecipado um lance iniciador é passível de ser interpretada como provocação apesar do fato de a maioria das declarativas não ser provocações e de a maioria das provocações ser frases interrogativas O ponto forte da teoria de Sinclair e Coulthard está no modo pioneiro pelo qual chama atenção para as propriedades organizacionais sistemáticas do diálogo e fornece modos para sua descrição As limitações dessa teoria são a ausência de desenvolvimento de uma orientação social para o discurso e a insuficiente atenção à interpretação Tais limitações podem estar relacionadas à escolha de dados eles se concentram em uma modalidade de discurso de sala de aula tradicional centrada noa professora e os dados não refletem a diversidade das atuais práticas de sala de aula Isso leva a que o discurso de sala de aula pareça mais homogêneo do que realmente é e naturaliza práticas dominantes ao apresentálas como se fossem as únicas Elas aparecem como se simplesmente estivessem lá disponíveis para a descrição e não como tendo sido postas lá por meio de processos de contestação a práticas alternativas não como práticas investidas ver no Capítulo 3 o item Ideologia de ideologias particulares por exemplo concepções de aprendizagem e de aprendizes e auxiliares na manutenção de relações de poder particulares na sociedade Em resumo falta na abordagem de Sinclair e Coulthard uma orientação social desenvolvida ao deixar de considerar como as relações de poder moldam as práticas discursivas e ao deixar de situar historicamente o discurso de sala de aula em processos de luta e mudança social Uma característica surpreendente da prática de sala de aula contemporânea é sua diversidade indagase por que o discurso de sala de aula tradicional que eles descrevem está sob pressão e o que está em jogo A homogeneidade dos dados também desvia a atenção da ambivalência do discurso de sala de aula e da diversidade de interpretações possíveis Considere este exemplo de Coulthard 1977108 Professor Que tipo de pessoa você acha que ele é Você de que está rindo Aluno De nada P Como A De nada P Você não está rindo de nada nada mesmo A Não É engraçado mesmo porque eles não acham que se estivessem lá poderiam não gostar disso e soa de certo como uma atitude arrogante Sinclair e Coulthard consideram esse exemplo uma interpretação errônea da situação pelo aluno tomando assim a pergunta do professor sobre o riso como disciplinar na intenção em vez de dialógica mas tais exemplos também indicam a heterogeneida para os participantes do discurso As abordagens que classifiquei como basicamente nãocríticas são os pressupostos para a descrição do discurso de sala de aula de Sinclair e Coulthard 1975 o trabalho etnometodológico da análise da conversação o modelo de discurso terapêutico de Labov e Fanshel 1977 e uma abordagem recente da análise de discurso desenvolvida pelos psicólogos sociais Potter e Wetherell 1987 As abordagens críticas que incluí são a linguística crítica de Fowler et al 1979 e a abordagem francesa da análise de discurso desenvolvida com base na teoria de ideologia de Althusser por Pêcheux Pêcheux 1982 Concluise o capítulo com um resumo de questõeschave na análise de discurso retiradas dessa pesquisa que servirão como ponto de partida para a apresentação de minha própria abordagem no Capítulo 3 Sinclair e Coulthard Sinclair e Coulthard 1975 ver também Coulthard 1977 tiveram o propósito de elaborar um sistema descritivo geral para a análise de discurso mas decidiram focalizar a sala de aula por tratarse de uma situação formal cuja prática discursiva é passível de ser governada por regras claras O sistema descritivo está baseado em unidades que se supõe estejam na mesma relação umas com as outras como unidades nas formas iniciais da gramática sistêmica Halliday 1961 há uma escala hierárquica de unidades com unidades hierarquicamente superiores formandose de unidades do nível abaixo Dessa forma na gramática uma frase é formada de orações que são formadas de grupos e assim por diante Da mesma forma no discurso de sala de aula há cinco unidades de hierarquia descendente aula transação troca lance ato de tal modo que uma aula é formada de transações que são formadas de trocas e assim por diante Sinclair e Coulthard têm pouco a dizer sobre a aula mas sugerem uma estrutura clara para a transação Transações consistem de trocas São abertas e fechadas por trocas limite que consistem minimamente de lances estruturadores com outros lan ces ou sem eles Por exemplo Bem hoje imaginei que faríamos três testes consiste de um lance estruturador bem e um lance focalizador que informa à turma sobre o que será a transação Entre as trocas limite há geralmente uma sequência de trocas informativas diretivas ou provocativas em que se realizam respectivamente afirmativas pedidos ou comandos e perguntas geralmente peloa professora Vamos examinar a estrutura de um tipo de troca a troca provocativa Este consiste tipicamente de três lances iniciador resposta e retorno Por exemplo Professor Você pode me dizer por que você come toda essa comida Sim Aluno Para ficar forte P Para ficar forte Sim Para ficar forte Por que você quer ser forte A primeira contribuição do professor é um lance iniciador a contribuição do aluno é uma resposta e a primeira linha da segunda contribuição do professor é o retorno a segunda linha é outro lance iniciador Note que uma contribuição enunciado pode consistir de mais de um lance A presença consistente de retorno pressupõe que os professores têm o poder de avaliar as contribuições dos alunos raramente alguém se arriscaria a fazer isso fora de uma situação de aprendizagem e mostra que grande parte do discurso de sala de aula concerne à avaliação do conhecimento dos alunos e ao seu treinamento para dizer coisas que são relevantes segundo critérios estabelecidos pelas escolas Um lance consiste de um ou mais atos Sinclair e Coulthard distinguem 22 atos para o discurso de sala de aula alguns dos quais como pronto quando uma criança pede o direito de responder talvez levantando a mão são bastante específicos desse tipo de discurso Outros são menos específicos o lance iniciador de uma troca provocativa inclui por exemplo uma provocação enquanto o lance iniciador de uma troca diretiva inclui uma diretiva potencial do discurso de sala de aula a coexistência nas escolas de um repertório de discursos de sala de aula que os produtores e os intérpretes de textos precisam ter em mente Isso implica atenção aos processos discursivos tanto em relação à interpretação como à produção enquanto a ênfase de Sinclair e Coulthard está nos textos como produtos do discurso embora a categoria tática implique alguma atenção à interpretação Isso também torna sua atenção como analistas problemática já que os analistas interpretam os textos em vez de simplesmente descrevêlos Ao alegar que descrevem os dados não estão Sinclair e Coulthard realmente interpretandoos na perspectiva do professor Por exemplo consideraram que o aluno cometeu um erro ao interpretar o professor e não o contrário que o aluno talvez tenha dado uma resposta evasiva a uma pergunta ambivalente do professor Afinal de contas nada também é ambivalente poderia significar Não posso dizerlhe o que me faz rir aqui Isso levanta outro problema na teoria ela força decisões sobre as funções dos enunciados mas os enunciados com frequência são realmente ambivalentes para os intérpretes não apenas ambíguos como demonstra recente trabalho na pragmática ver Levinson 1983 isto é não se pode decidir com clareza sobre seus sentidos Análise da conversação Análise da conversação AC é uma abordagem da análise de discurso que foi desenvolvida por um grupo de sociólogos que se autodenominam etnometodologistas A etnometodologia é uma abordagem interpretativa da sociologia que focaliza a vida cotidiana como feito dependente de habilidades e os métodos que as pessoas usam para produzila Garfinkel 1967 Benson e Hughes 1983 A tendência entre os etnometodologistas é evitar a teoria geral e a discussão ou o uso de conceitos como classe poder e ideologia que constituem preocupação central na sociologia regular Alguns etnometodologistas demonstram interesse particular na conversação e nos métodos que seus praticantes usam para produzila e interpretála Schenkein 1978 Atkinson e Heritage 1984 restrições ao que possa seguilo Exemplos particularmente claros são os pares adjacentes como pergunta e resposta uma pergunta produzida por uma falante implica seqüencialmente uma resposta de outroa ou reclamação e desculpa A evidência para que x implique seqüencialmente y inclui 1 o fato de que qualquer coisa que ocorra após x se for de qualquer modo possível será tomada como y por exemplo se Essa é sua esposa é seguida por Bem não é minha mãe a última deverá ser tomada como uma resposta positiva implicada e 2 o fato de que se y não ocorrer sua ausência será notada e comumente oferece margem para uma inferência por exemplo se os professores deixam de dar retorno às respostas dos alunos isso pode ser tomado como uma rejeição implícita destes Segundo Atkinson e Heritage 1984 6 virtualmente todo enunciado ocorre em algum local estruturalmente definido na conversa Uma implicação disso é que os turnos exibem uma análise de turnos prévios fornecendo evidência constante no texto de como os enunciados são interpretados Outra implicação é que a posição sequencial de um enunciado é por si só bastante para determinar seu sentido Mas esse ponto é altamente questionável por dois motivos 1 os efeitos da sequência sobre o sentido variam segundo o tipo de discurso 2 como sugeri quando discuti Sinclair e Coulthard podese recorrer a uma variedade de tipos de discurso durante uma interação e os participantes como produtores e intérpretes constantemente têm de negociar suas posições em relação a esse repertório Considere esta passagem de uma consulta médica que analiso no Capítulo 5 Exemplo 2 Paciente e eu acho que uma das razões pelas quais eu bebia tanto sabe e ahm Médico hum hum hum hum você voltou você voltou você voltou a beber novamente P não M ah você não voltou ininteligível P não mas ahm uma coisa que a senhora me disse na terçafeira Vou sugerir em minha análise desse fragmento de consulta que ela é um misto de consulta médica e terapia Nessa mescla o que diz a seqüência à intérprete sobre a pergunta do médico em seu primeiro turno Em uma consulta médica mais convencional uma pergunta doa médicoa imediatamente após oa paciente terse referido a uma condição médica possivelmente perigosa aqui a bebida provavelmente seria tomada como uma questão médica exigindo atenção completa de ambos os participantes Em uma sessão de terapia tal pergunta poderia ser tomada de modo mais conversacional como um comentário lateral mostrando que oa terapeuta está em sintonia com os problemas doa paciente Aqui a paciente parece tomála como um comentário lateral ela dá respostas mecânicas de uma palavra à pergunta principal e ao assentimento talvez um teste do médico à resposta e muda o assunto de volta à narrativa de eventos recentes Para tomar tal decisão interpretativa a paciente precisa de informações adicionais à seqüência ela precisa avaliar a natureza do evento social a relação social entre ela e o médico e o tipo de discurso Isso implica uma concepção de processos discursivos e interpretação que é mais complexa do que é geralmente pressuposto na AC uma concepção que pode por exemplo acomodar produtores e intérpretes negociando seu caminho em repertórios de tipos de discurso O exemplo também sugere que a própria análise é um processo de interpretação e portanto uma prática contenciosa e problemática Há pouca preocupação com isso na AC Mas como Sinclair e Coulthard há uma tendência entre os analistas a interpretar os dados com base em uma orientação partilhada entre os participantes para um único tipo de discurso entretanto ver Jefferson e Lee 1981 O efeito é apresentar um quadro da conversa excessivamente harmonioso e cooperativo Há também um negligenciamento do poder como um fator na conversação Nos processos de negociação a que me referi alguns participantes tipicamente têm mais força do que outros e em muitos tipos de discurso por exemplo discurso de sala de aula não encontramos regras partilhadas para a tomada de turno em que os participantes têm direitos e obrigações iguais mas uma distribuição assimétrica de direitos por exemplo para autoselecionaremse interromperem manterem o piso em vários turnos e obrigações por exemplo tomar o turno se forem chamados Em tais casos é evidente que produzir o discurso faz parte de processos mais amplos de produção da vida social das relações sociais e das identidades sociais mas grande parte da AC em sua leitura harmoniosa da interação entre iguais dá a impressão de que produzir o discurso é um fim em si mesmo Apesar de diferentes pontos de partida e orientações disciplinares e teóricas as abordagens de Sinclair e Coulthard e da AC têm forças e limitações bastante similares ambas fizeram contribuições importantes para uma nova apreciação da natureza das estruturas no diálogo mas nenhuma das duas desenvolve uma orientação social para o discurso a esse respeito a AC sofre das mesmas limitações de Sinclair e Coulthard e nem fornece uma explicação satisfatória dos processos discursivos e da interpretação embora a AC apresente considerável reflexão sobre determinados aspectos da interpretação Labov e Fanshel O trabalho de Labov e Fanshel 1977 é um estudo de um lingüista e um psicólogo sobre o discurso da entrevista psicoterapêutica Ao contrário de Sinclair e Coulthard e da AC Labov e Fanshel assumem a heterogeneidade do discurso que para eles reflete as contradições e pressões p 35 da situação de entrevista Eles concordam com Goffman 1974 que as mudanças entre molduras são um aspecto normal da conversação e identificam nos seus dados uma configuração de diferentes estilos associados a diferentes molduras o estilo da entrevista o estilo cotidiano usado nas narrativas de pacientes sobre a vida desde a última visita N para narrativa a seguir e o estilo da família F a se Termo da AC que significa manter o espaço sociopsicológico ou ter o controle dos turnos conversacionais N da T a chefe da família têm implicações gerais na cultura em termos de obrigações do papel e outras são parte dos pressupostos correntes da terapia por exemplo o terapeuta não diz à paciente o que fazer ou da cultura por exemplo cada um deve cuidar de si As proposições raramente são formuladas explicitamente mas a questão principal numa interação pode ser se um evento é ou não um exemplo de proposição Além disso as proposições constituem conexões implícitas entre partes de uma interação que são importantes para sua coerência A seção transversal é então analisada como interação significando uma ação que afeta as relações do eu e outros Supõese que qualquer enunciado realize simultaneamente algumas ações que são hierarquicamente ordenadas de modo que ações de nível superior são realizadas por meio de ações de nível inferior uma relação marcada por conseqüentemente a seguir Assim para o exemplo anterior simplifiquei a representação de Labov e Fanshel Rhoda a paciente continua a narrativa e fornece informações para sustentar sua asserção de que realizou a sugestão S Rhoda requer informações sobre a hora em que sua mãe pretende voltar para casa por conseqüente solicita indiretamente que a mãe volte para casa portanto realizando a sugestão S conseqüentemente questionando a mãe indiretamente por não desempenhar de forma adequada seu papel como chefe da família simultaneamente admitindo suas próprias limitações simutaneamente afirmando novamente que realizou a sugestão A proposição S é a sugestão do terapeuta de que devemos expressar nossas necessidades a outras pessoas Tais representações são baseadas em regras discursivas propostas por Labov e Fanshel para interpretar as formas de superfície dos enunciados como tipos particulares de ação Por exemplo há uma regra de pedidos indiretos que especifica as condições sob as quais se tomam perguntas pedidos de informação como pedidos de ação A análise é completada com regras seqüenciais de combinação das seções transversais Labov e Fanshel referemse a sua abordagem como análise de discurso abrangente e seu detalhamento é de certo impressio nante embora também como indicam consuma muito tempo Eles próprios identificam alguns problemas as pistas paralingüísticas são reconhecidamente difíceis de interpretar as expansões podem ser feitas interminavelmente e inexiste um ponto obviamente motivado para a segmentação e as expansões têm o efeito de aplainar importantes diferenças entre elementos de primeiro e segundo plano no discurso Entretanto quero focalizar minha discussão sobre duas importantes percepções em sua abordagem que precisam ser levadas adiante A primeira é a visão de que o discurso pode ser estilisticamente heterogêneo por causa de contradições e pressões na situação de fala Por exemplo no caso do discurso terapêutico a sugestão é que o uso do estilo cotidiano e familiar é parte de uma estratégia da paciente para estabelecer algumas partes da conversa como imunes à habilidade intrusa do terapeuta Mencionei anteriormente a similaridade desse ponto com o conceito de molduras de Goffman O princípio da heterogeneidade do discurso é um elemento central em minha discussão de intertextualidade ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva Mencionarei aqui apenas duas diferenças entre minha posição e a de Labov e Fanshel Primeiro o encaixe de um estilo em outro como no exemplo anterior é apenas uma forma de heterogeneidade e freqüentemente toma formas mais complexas em que os estilos são difíceis de separar Segundo a visão deles sobre heterogeneidade é muito estática eles consideram o discurso terapêutico como uma configuração estável de estilos mas não analisam a heterogeneidade dinamicamente como mudanças históricas nas configurações de estilos O valor principal do princípio da heterogeneidade parece estar na investigação da mudança discursiva dentro da mudança social e cultural mais ampla ver no Capítulo 3 o item Mudança discursiva para uma elaboração dessa perspectiva A segunda percepção é que o discurso é construído sobre proposições implícitas que são tomadas como tácitas pelos participantes e que sustentam sua coerência Novamente esse é um princípio importante cujo potencial e cujas implicações não são desenvolvidos por Labov e Fanshel Particularmente eles não atentam para o caráter ideológico de algumas dessas proposições tais como as obrigações associadas ao papel de mãe ou a ideologia individualista do eu na proposição cada um deve cuidar de si ou para o trabalho ideológico da terapia em sua reprodução sem questionamento que é reminiscente de críticas da terapia como um mecanismo para adequar as pessoas a papéis sociais convencionais Em outras palavras Labov e Fanshel aproximamse de uma análise crítica do discurso terapêutico fornecendo recursos analíticos valiosos para tal análise Potter e Wetherell Como exemplo final de uma abordagem nãocrítica à análise de discurso discutirei o uso por Potter e Wetherell 1987 da análise de discurso como um método na psicologia social Isso é interessante no presente contexto primeiro porque mostra como a análise de discurso pode ser usada para estudar questões que têm sido abordadas tradicionalmente com outros métodos e segundo porque levanta a questão se a análise de discurso concerne principalmente à forma ou ao conteúdo do discurso Veja a crítica a Sinclair e Coulthard em Thompson 1984 106108 por serem formalistas e por negligenciarem o conteúdo do discurso de sala de aula A defesa da análise de discurso por Potter e Wetherell como um método para psicólogos sociais baseiase em um único argumento que é sucessivamente aplicado a várias áreas fundamentais da pesquisa na psicologia social O argumento é que a psicologia social tradicional distorce e mesmo suprime propriedadeschave dos materiais lingüísticos que usa como dados que o discurso é construtivo e conseqüentemente constitui objetos e categorias e que o que uma pessoa diz não permanece consistente de uma ocasião a outra mas varia segundo as funções da fala Primeiro o argumento é aplicado à pesquisa sobre atitudes a pesquisa tradicional pressupuõha que as pessoas tinham atitudes consistentes sobre objetos tais como imigrantes de cor enquanto a análise de discurso mostra não apenas que as pessoas fazem avaliações diferentes e até contraditórias de um objeto de acordo com o contexto mas também que o próprio objeto é construído diferentemente dependendo de sua avaliação então imigrantes de cor é uma construção que muitas pessoas rejeitariam O argumento é então aplicado ao estudo de como as pessoas usam regras como as pessoas produzem relatos explicativos de seu comportamento desculpas justificativas etc e assim por diante argumentandose em cada caso a favor da superioridade da análise de discurso sobre outros métodos tais como os métodos experimentais Potter e Wetherell contrastam a priorização do conteúdo em sua abordagem com a priorização da forma na teoria da acomodação da fala na psicologia social Esta focaliza a maneira como as pessoas modificam a fala de acordo com a pessoa a quem falam e assim com a variabilidade da forma lingüística segundo o contexto e a função enquanto na primeira eles abordam a variabilidade do conteúdo lingüístico Em alguns casos o foco é sobre o conteúdo proposicional dos enunciados e sobre os tipos de argumento nos quais as proposições funcionam Por exemplo ao pesquisarem atitudes registram o que os informantes da Nova Zelândia dizem a respeito da repatriação dos imigrantes polinésios Em outros casos o foco é sobre o vocabulário e a metáfora por exemplo os predicados verbos adjetivos e as metáforas usados relativos à comunidade em reportagens da mídia sobre os distúrbios urbanos na GrãBretanha em 1980 Na verdade a distinção formaconteúdo não é tão clara como pode parecer Há aspectos de conteúdo que claramente estão ligados a questões de forma por exemplo a metáfora pode ser uma questão de fusão de diferentes domínios de sentido mas também é uma questão de quais palavras são usadas em um texto um aspecto de sua forma E do mesmo modo aspectos de forma estão ligados ao conteúdo a mescla de estilos no discurso terapêutico identificada por Labov e Fanshel é em um nível a mescla de formas referese por exemplo às linhas de entonação que são típicas do estilo da família mas é também significativa em termos de conteúdo por exemplo em termos da construção da paciente como um tipo particular de eu ou sujeito O quadro analítico de Potter e Wetherell é pobre em comparação com outras abordagens seu conteúdo reduzse a aspectos limitados do significado ideacional ou conceitual do discurso o que deixa intocadas outras dimensões de significado em termos amplos interpessoais e aspectos associados de forma Os significados ideacionais e interpessoais são explicados em maiores detalhes no Capítulo 3 item Discurso É no tratamento dado ao eu por Potter e Wetherell que essas limitações analíticas se tornam mais aparentes Ao contrário de tratamentos tradicionais do eu na psicologia social eles adotam uma posição construtivista que enfatiza a constituição variável do eu no discurso Mas eles são incapazes de operacionalizar adequadamente essa teoria em sua análise de discurso porque como argumentarei adiante Capítulo 5 Exemplo 1 Entrevista médica padrão diferentes eus são sinalizados implicitamente por meio de configurações de muitos aspectos diversos do comportamento verbal como também nãoverbal e é necessário um aparato analítico mais rico do que o de Potter e Wetherell para descrevêlos Como outras abordagens referidas a de Potter e Wetherell é insuficientemente desenvolvida em sua orientação social para o discurso Há em sua análise de discurso uma ênfase individualista parcial sobre as estratégias retóricas dos falantes A discussão do eu é uma exceção aparente porque uma visão construtivista do eu enfatiza a ideologia e a moldagem social do eu no discurso mas essa teoria é pouco adequada à orientação predominante do livro além de não ser operacionalizada na análise de discurso Finalmente há uma tendência para a atividade estratégica ou retórica do eu ao se usarem categorias regras etc como alternativas à sujeição do eu em lugar de se tomarem as duas em uma síntese dialética ver Capítulo 3 item Discurso para uma elaboração dessa visão Linguística crítica Linguística crítica foi uma abordagem desenvolvida por um grupo da Universidade de East Anglia na década de 1970 Fowler et al 1979 Kress e Hodge 1979 Eles tentaram casar um método de análise linguística textual com uma teoria social do funcionamento da linguagem em processos políticos e ideológicos recor rendo à teoria linguística funcionalista associada com Michael Halliday 1978 1985 e conhecida como linguística sistêmica Considerandose suas origens disciplinares não surpreende que a linguística crítica estivesse ansiosa por distinguirse da linguística regular na época mais firmemente dominada pelo paradigma chomskyano do que agora e da sociolinguística ver Fowler et al 1979 185195 São rejeitados dois dualismos prevalecentes e relacionados na teoria linguística o tratamento dos sistemas linguísticos como autônomos e independentes do uso da linguagem e a separação entre significado e estilo ou expressão ou entre conteúdo e forma Contra o primeiro dualismo a linguística crítica afirma com Halliday que a linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social Halliday 1973 65 e argumenta que a linguagem à qual as pessoas têm acesso depende de sua posição no sistema social Contra o segundo dualismo a linguística crítica apóia a concepção de Halliday da gramática de uma língua como sistemas de opções entre as quais os falantes fazem seleções segundo as circunstâncias sociais assumindo que opções formais têm significados contrastantes e que as escolhas de formas são sempre significativas A sociolinguística é criticada porque meramente estabelece correlações entre linguagem e sociedade em vez de buscar relações causais mais profundas incluindo os efeitos da linguagem na sociedade a linguagem serve para confirmar e consolidar as organizações que a moldam Fowler et al 1979 190 A citação de Halliday no último parágrafo diz mais A linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social e a organização dos sentidos comportamentais deve propiciar percepção de suas fundações sociais Halliday 1973 65 Kress 1989 445 sugere que a linguística crítica desenvolveu a afirmação contida na segunda parte da citação mas na verdade não aquela contida na primeira ela tentou compreender estruturas das fundações sociais da organização dos sentidos comportamentais nos textos A linguística crítica novamente toma uma posição conforme Halliday em oposição à prática da linguística regular e da sociolinguística ao tomar textos completos falados ou escritos como objetos de análise Estendese a hipótese SapirWhorf de que a linguagem incorpora visões de mundo particulares a variedades da mesma língua os textos particulares incorporam ideologias ou teorias particulares e o propósito é a interpretação crítica de textos a recuperação dos sentidos sociais expressos no discurso pela análise das estruturas linguísticas à luz dos contextos interacionais e sociais mais amplos Fowler et al 1979 195196 O objetivo é produzir um método analítico que seja utilizável por pessoas que possam ser por exemplo historiadores e não especialistas em linguística Para a análise textual os linguistas críticos baseiamse muito no trabalho da gramática sistêmica de Halliday ver Halliday 1985 mas também em conceitos de outras teorias como ato de fala e transformação A linguística crítica difere de outras abordagens na atenção que dedica à gramática e ao vocabulário dos textos Há muita referência à transitividade o aspecto da gramática da oração ou da frase relacionado ao seu significado ideacional isto é o modo como representa a realidade ver no Capítulo 6 o item Transitividade e tema para uma discussão detalhada de transitividade A gramática fornece diferentes tipos de processo e participantes associados como opções e a seleção sistemática de um tipo de processo particular pode ser ideologicamente significativa Por exemplo o jornal comunista The Morning Star 21 de abril de 1980 formula parte de uma reportagem sobre um dia de ação de um sindicato médico como um processo de ação em que os trabalhadores nortistas são os atores O Parlamento foi atacado por centenas de nortistas Isso poderia ter sido formulado como um processo relacional em que o significado de trabalhadores em ação fosse menos proeminente por exemplo Houve um lobby no Parlamento com centenas de nortistas Um outro foco relacionado é sobre os processos gramaticais da transformação examinados no tempo real por exemplo as transformações associadas com o desenvolvimento de uma reportagem num jornal num período de anos discutidas em Trew 1979 ou mais abstratamente por exemplo onde o que poderia ter sido formulado como oração x criticou bastante y é realmente formulado de modo transformado como nominalização houve muita crítica A nominalização é a conversão de uma oração em um nominal ou nome aqui crítica de x criticou y Outra transformação é a apassivação a conversão de uma oração ativa em uma oração passiva por exemplo a manchete Manifestantes são mortos pela polícia em lugar de Polícia mata manifestantes Tais transformações podem ser associadas com aspectos do texto ideologicamente significativos tal como a mistificação sistemática da agência ambas permitem que o agente de uma oração seja omitido Um foco adicional é sobre aspectos da gramática da oração que dizem respeito a seus significados interpessoais isto é um foco sobre o modo como as relações sociais e as identidades sociais são marcadas na oração Tratase da gramática da modalidade ver no Capítulo 5 o item Modalidade para exemplos e discussão A abordagem do vocabulário baseiase no pressuposto de que diferentes modos de lexicalizar domínios de significado podem envolver sistemas de classificação ideologicamente diferentes assim há interesse em como as áreas da experiência podem vir a ser relexicalizadas em princípios classificatórios diferentes por exemplo no curso da luta política ver no Capítulo 6 o item Metáfora para mais detalhes Na linguística crítica há uma tendência a enfatizar demais o texto como produto e a relegar a segundo plano os processos de produção e interpretação de textos Por exemplo embora se diga que o objetivo da linguística crítica seja a interpretação crítica de textos dáse pouca atenção aos processos e aos problemas da interpretação aos doa analistaintérprete ou aos doa participante intérprete Assim na análise a relação entre aspectos textuais e sentidos sociais é muitas vezes retratada como sem problemas e transparente apesar da insistência de que não há associação previsível de um para um entre qualquer forma linguística e qualquer sentido social específico Fowler et al 1979 198 na prática atribuemse valores a estruturas particulares tais como orações passivas sem agentes de modo bastante mecânico Mas os textos podem estar abertos a diferentes interpretações dependendo do contexto e doa intérprete o que significa que os sentidos sociais do discurso bem como ideologias não podem ser simplesmente extraídos do texto sem considerar padrões e variações na distribuição no consumo e na interpretação social do texto Pode ser que a ideologia seja linguisticamente mediada e habitual para uma leitora aquiescente nãocríticoa Fowler et al 1979 190 mas os leitores são frequentemente críticos Uma vez que a linguística crítica tenha estabelecido sentidos sociais para um texto há uma tendência a tomar os efeitos ideológicos como tácitos Uma outra limitação da linguística crítica é que ela confere uma ênfase unilateral aos efeitos do discurso na reprodução social de relações e estruturas sociais existentes e consequentemente negligencia tanto o discurso como domínio em que se realizam as lutas sociais como a mudança no discurso uma dimensão da mudança social e cultural mais ampla Isso não está desligado dos comentários que fiz no último parágrafo a interpretação é um processo ativo em que os sentidos a que se chegou dependem dos recursos usados e da posição social doa intérprete e só ignorando esse processo dinâmico é que se pode construir textos que simplesmente produzam efeitos ideológicos sobre um recipiente passivo Mais geralmente o que está em questão é a visão exclusivamente descendente do poder e da ideologia na linguística crítica que corresponde a uma ênfase encontrada também na abordagem althusseriana do grupo de Pêcheux discutida a seguir na estase social e não na mudança nas estruturas sociais e não na ação social e na reprodução social e não na transformação social Há necessidade de uma teoria social do discurso baseada em uma reavaliação desses dualismos tomados como pólos em relações de tensão em vez de optarse por um membro de cada par e rejeitar o outro como se fossem mutuamente exclusivos Um comentário final é que na linguística crítica se concebe a interface linguagemideologia muito estreitamente Primeiro além da gramática e do vocabulário outros aspectos dos textos podem ter significância ideológica por exemplo a estrutura argumentativa ou narrativa geral de um texto Segundo a linguística crítica lida principalmente com o monólogo escrito e tem relativamente pouco a dizer sobre aspectos ideologicamente importantes da organização do diálogo falado como a tomada de turno embora haja alguma discussão das dimensões pragmáticas dos enunciados tais como seus aspectos de polidez ver no Capítulo 5 o item Polidez Terceiro devido ao negligenciamento relativo dos processos de interpretação a ênfase cai exageradamente na realização de ideologias nos textos O que é deixado de lado é o sentido em que os processos de interpretação levam os intérpretes a pressupor coisas que não estão no texto e que podem ser de natureza ideológica veja um exemplo no Capítulo 3 item Prática discursiva Fairclough 1989b apresenta uma discussão mais completa Recentemente os linguistas críticos fizeram sua própria crítica do trabalho anterior Kress 1989 Fowler 1988a incluindo alguns pontos que levantei anteriormente e determinados membros do grupo envolveramse muito com o desenvolvimento de uma abordagem um pouco diferente Hodge e Kress 1988 Kress e Threadgold 1988 que denominam semiótica social Em oposição à linguística crítica há preocupação com uma variedade de sistemas semióticos como a linguagem e com a interrelação entre linguagem e semiose visual Os processos discursivos de produção e interpretação textual tornaramse uma preocupação central e há mais atenção explícita ao desenvolvimento de uma teoria social do discurso com uma orientação para a luta e a mudança histórica no discurso que se centra em uma tentativa de desenvolver uma teoria do gênero de discurso Pêcheux Michel Pêcheux e seus colaboradores Pêcheux et al 1979 Pêcheux 1982 desenvolveram uma abordagem crítica à análise de discurso que como a linguística crítica tenta combinar uma teoria social do discurso com um método de análise textual trabalhando principalmente com o discurso político escrito Sua pesquisa tem se ligado conscientemente a desenvolvimentos políticos na França especialmente a relação entre os partidos comunista e socialista nos anos 1970 e uma comparação de seu discurso político A fonte principal da abordagem de Pêcheux na teoria social foi a teoria marxista de ideologia de Althusser 1971 Althusser enfatiza a autonomia relativa da ideologia da base econômica e a 3 Os textos podem ser heterogêneos e ambíguos e podese recorrer a configurações de diferentes tipos de discurso em sua produção e interpretação Labov e Fanshel comparamse a análise da conversação a primeira geração do grupo de Pêcheux 4 O discurso é estudado histórica e dinamicamente em termos de configurações mutantes de tipos de discurso em processos discursivos e em termos de como tais mudanças refletem e constituem processos de mudança social mais amplos a segunda geração do grupo de Pêcheux a semiótica social comparamse Labov e Fanshel a primeira geração do grupo de Pêcheux a lingüística crítica 5 O discurso é socialmente construtivo lingüística crítica Pêcheux Potter e Wetherell constituindo os sujeitos sociais as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença e o estudo do discurso focaliza seus efeitos ideológicos construtivos Pêcheux lingüística crítica comparese Labov e Fanshel 6 A análise de discurso preocupase não apenas com as relações de poder no discurso comparese a análise da conversação mas também com a maneira como as relações de poder e a luta de poder moldam e transformam as práticas discursivas de uma sociedade ou instituição segunda geração do grupo de Pêcheux comparamse as abordagens nãocríticas a lingüística crítica 7 A análise de discurso cuida do funcionamento deste na transformação criativa de ideologias e práticas como também do funcionamento que assegura sua reprodução comparemse Pêcheux a lingüística crítica 8 Os textos são analisados em termos de uma gama diversa de aspectos de forma e significado por exemplo as propriedades do diálogo e da estrutura textual como também o vocabulário e a gramática pertencentes tanto às funções ideacionais da linguagem como às interpessoais comparemse Potter e Wetherell Pêcheux O que se busca é uma análise de discurso que focalize a variabilidade a mudança e a luta variabilidade entre as práticas e heterogeneidade entre elas como reflexo sincrônico de processos de mudança histórica que são moldados pela luta entre as forças sociais Embora os pontos 4 5 e 6 recebam algum apoio especialmente nas abordagens críticas à análise de discurso que discuti anteriormente precisamos ir à teoria social para encontrar desenvolvimentos completos e explícitos Foucault contribui com sua valiosa percepção de todos eles como argumentarei no Capítulo 2 Entretanto nem a tradição crítica na análise de discurso orientada linguisticamente nem Foucault lidam satisfatoriamente com o ponto 7 o modo como o discurso contribui tanto para a reprodução como para a transformação das sociedades Tal dualidade do discurso é de importância central no quadro teórico que apresento no Capítulo 3 e seu negligenciamento nos escritos de Foucault é associado a fraquezas teóricas e metodológicas fundamentais em seu trabalho Capítulo 2 Michel Foucault e a análise de discurso A prática do discurso revolucionário e do discurso científico nos últimos dois séculos não o libertou dessa idéia de que as palavras são sopro um murmúrio externo um bater de asas que se tem dificuldade de ouvir no assunto sério que é a história Michel Foucault A arquelogia do saber Foucault tem tido uma enorme influência sobre as ciências sociais e as humanidades e a popularização do conceito de discurso e de análise de discurso como um método pode parcialmente ser atribuída a essa influência É importante examinar seu trabalho em detalhes por duas razões Primeiramente a abordagem de análise de discurso de Foucault é amplamente referida como um modelo pelos cientistas sociais e a partir do instante em que eu estou defendendo uma abordagem diferente para a análise de discurso em estudos de mudanças sociais e culturais a relação entre as duas abordagens necessita ser esclarecida Existe um contraste principal aqui entre uma análise de discurso textualmente e por conseguinte linguisticamente orientada doravante abreviada para ADTO como a minha e a abordagem mais abstrata de Foucault Eu também preciso dar as razões pelas quais os cientistas sociais deveriam considerar o uso da ADTO no fim do capítulo argumentarei como isso pode conduzir a análises sociais mais satisfatórias A segunda razão para um capítulo sobre Foucault já foi aludida o desenvolvimento de uma abordagem para a análise de discurso Tradução de Célia Maria Ladeira Mota que seja teoricamente adequada tanto quanto praticamente utilizável requer uma síntese da análise de discurso orientada linguisticamente e a compreensão da teoria social recente sobre a linguagem e o discurso O trabalho de Foucault representa uma importante contribuição para uma teoria social do discurso em áreas como a relação entre discurso e poder a construção discursiva de sujeitos sociais e do conhecimento e o funcionamento do discurso na mudança social Como eu destaquei no fim do Capítulo 1 essas são áreas em que abordagens orientadas linguisticamente são fráças e nãodesenvolvidas No entanto uma vez que a abordagem de Foucault para o discurso e o contexto intelectual no qual foi desenvolvida são tão diferentes do meu próprio trabalho não se pode simplesmente aplicar o trabalho de Foucault em análise de discurso é como diz Courtine uma questão de pôr a perspectiva de Foucault para funcionar 1981 40 dentro da ADTO e tentar operacionalizar sua percepção em métodos reais de análise A proeminência dada ao discurso nos trabalhos iniciais de Foucault é uma consequência de posições que ele assumiu em relação à condução da pesquisa nas ciências humanas Ele optou por enfocar as práticas discursivas num esforço para ir além dos dois principais modelos alternativos de investigação disponíveis na pesquisa social o estruturalismo e a hermenêutica Dreyfus e Rabinow 1982 xiiixxiii Foucault preocupouse com as práticas discursivas como constitutivas do conhecimento e com as condições de transformação do conhecimento em uma ciência associadas a uma formação discursiva Esse contexto intelectual ajuda a explicar as principais diferenças entre a análise de discurso de Foucault e a da ADTO Em primeiro lugar Foucault estava preocupado em algumas fases de seu trabalho com um tipo de discurso bastante específico o discurso das ciências humanas como a medicina a psiquiatria a economia e a gramática A ADTO por outro lado está preocupada em princípio com qualquer tipo de discurso conversação discurso de sala de aula discurso da mídia e assim por diante Em segundo lugar como já indiquei enquanto a análise de textos de linguagem falada ou escrita é a parte central da ADTO ela não é uma parte da análise de discurso de Foucault Seu foco é sobre as condições de possibilidade do discurso Robin 1973 83 sobre as regras de formação que definem possíveis objetos modalidades enunciativas sujeitos conceitos e estratégias de um tipo particular de discurso esses termos são explicitados a seguir A ênfase de Foucault é sobre os domínios de conhecimento que são constituídos por tais regras Eu citei anteriormente a opinião de Courtine de que nós deveríamos pôr a perspectiva de Foucault para funcionar dentro da ADTO A noção da perspectiva de Foucault no entanto pode ser enganadora dadas as mudanças de ênfase dentro de seu trabalho claramente descritas em Davidson 1986 Em seu trabalho arqueológico inicial o foco era nos tipos de discurso formações discursivas veja adiante como regras para a constituição de áreas de conhecimento Em seus últimos estudos genealógicos a ênfase mudou para as relações entre conhecimento e poder E no trabalho dos últimos anos de Foucault a preocupação era com a ética ou como o indivíduo deve constituirse ele próprio como um sujeito moral de suas próprias ações Rabinow 1984 352 Embora o discurso permaneça uma preocupação ao longo de toda a obra seu status muda e assim mudam também as implicações para a ADTO Neste capítulo eu irei primeiro explicar e avaliar as concepções de discurso nos estudos arqueológicos de Foucault especialmente Foucault 1972 e em seguida discutirei como o status do discurso se altera no trabalho genealógico de Foucault enfocando Foucault 1979 e 1981 O principal objetivo nessas seções será identificar algumas perspectivas e percepções valiosas acerca do discurso e da linguagem no trabalho de Foucault que devem ser integradas à teoria da ADTO e operacionalizadas em sua metodologia quando for adequado Eu concluo no entanto discutindo certas fragilidades no trabalho de Foucault as quais limitam seu valor para a ADTO e como a ADTO poderá contribuir para reforçar a análise social até mesmo dentro da tradição foucaultiana O que eu estou oferecendo assim é uma leitura de Foucault de um ponto de vista específico explicações e críticas mais detalhadas e equilibradas são disponíveis em outras fontes por exemplo Dreyfus e Rabinow 1982 Hoy 1986 Fraser 1989 Os trabalhos arqueológicos de Foucault Os estudos arqueológicos iniciais de Foucault eu estarei me referindo particularmente a Foucault 1972 incluem as duas principais contribuições teóricas sobre o discurso que precisam ser incorporadas à ADTO A primeira é uma visão constitutiva do discurso que envolve uma noção de discurso como ativamente constituindo ou construindo a sociedade em várias dimensões o discurso constitui os objetos de conhecimento os sujeitos e as formas sociais do eu as relações sociais e as estruturas conceituais A segunda é uma ênfase na interdependência das práticas discursivas de uma sociedade ou instituição os textos sempre recorrem a outros textos contemporâneos ou historicamente anteriores e os transformam uma propriedade comumente referida como a intertextualidade de textos ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva e qualquer tipo de prática discursiva é gerado de combinações de outras e é definido pelas suas relações com outras práticas discursivas uma perspectiva reconhecida por Pêcheux na primazia que ele atribuiu ao interdiscurso veja no Capítulo 1 o item Pêcheux Embora o foco de Foucault 1972 seja sobre as formações discursivas das ciências humanas sua percepção é transferível para todos os tipos de discurso O que Foucault entende por discurso e análise de discurso em seus trabalhos arqueológicos Ele vê a análise de discurso voltada para a análise de enunciados a tradução usual do francês énoncés o que é um pouco enganador ao insinuar que énoncés são apenas asserções opostas a perguntas ordens ameaças e assim por diante De acordo com uma formulação Foucault 1972 107108 a análise de enunciados é uma de uma série de formas de analisar desempenhos verbais As demais são uma análise lógica de proposições uma análise gramatical de frases uma análise psicológica ou contextual de formulações A análise discursiva de enunciados não substitui esses outros tipos de análises mas não pode também ser reduzida a eles Uma consequência é que para Foucault a análise de discurso não pode ser equiparada à análise linguística nem o discurso à linguagem A análise de discurso diz respeito não à especificação das frases que são possíveis ou gramaticais mas à especificação sociohistoricamente variável de formações discursivas algumas vezes referidas como discursos sistemas de regras que tornam possível a ocorrência de certos enunciados e não outros em determinados tempos lugares e localizações institucionais A concepção de análise linguística à qual Foucault está recorrendo é datada o livro de Foucault 1972 foi escrito em 1969 e o tipo de regras às quais ele se refere parece ser o que os sociolinguistas atuantes nos anos 1970 chamaram de regras sociolinguísticas regras sociais de uso da linguagem No entanto a perspectiva de Foucault é muito diferente de qualquer uma encontrada na sociolinguística parte da diferença é a falta de preocupação com textos de linguagem anteriormente referidos Uma formação discursiva consiste de regras de formação para o conjunto particular de enunciados que pertencem a ela e mais especificamente de regras para a formação de objetos de regras para a formação de modalidades enunciativas e posições do sujeito de regras para a formação de conceitos e de regras para a formação de estratégias Foucault 1972 3139 Essas regras são constituídas por combinações de elementos discursivos e nãodiscursivos anteriores exemplos são fornecidos a seguir e o processo de articulação desses elementos faz do discurso uma prática social Foucault usa a expressão prática discursiva Eu discutirei cada tipo de regra apresentando um resumo da posição de Foucault e indicação breve de seu interesse e suas implicações potenciais para a análise de discurso A formação dos objetos A percepção essencial no que diz respeito à formação de objetos é que os objetos do discurso são constituídos e transformados em discurso de acordo com as regras de uma formação discursiva específica ao contrário de existirem independentemente e simplesmente serem referidos ou discutidos dentro de um discurso particular Por objetos Foucault entende objetos de conhecimento as entidades que as disciplinas particulares ou as ciências reconhecem dentro de seus campos de interesse e que elas tomam como alvos de investigação Esse sentido de objetos pode ser estendido para além de disciplinas ou ciências formalmente organizadas para as entidades reconhecidas na vida comum Foucault dá o exemplo da constituição da loucura como um objeto no discurso da psicopatologia a partir do século XIX em diante outros exemplos poderiam ser a constituição de nação e raça ou liberdade e empresa ver Keat e Abercrombie 1990 no discurso contemporâneo da mídia e da política ou de letramento no discurso educacional De acordo com Foucault a doença mental foi constituída por tudo o que foi dito em todos os enunciados que a nomeavam dividiam descreviam explicavam 1972 32 Além do mais a loucura não é um objeto estável mas está sujeita a transformações contínuas tanto entre formações discursivas como dentro de uma dada formação discursiva Isso significa que uma formação discursiva precisa ser definida de tal forma que permita a transformação de seus objetos e Foucault sugere que a unidade de um discurso é baseada não tanto na permanência e na singularidade de um objeto quanto no espaço no qual vários objetos emergem e são continuamente transformados 1972 32 O que é de maior significação aqui para a análise de discurso é a visão de discurso como constitutiva contribuindo para a produção a transformação e a reprodução dos objetos e como veremos logo dos sujeitos da vida social Isso implica que o discurso tem uma relação ativa com a realidade que a linguagem significa a realidade no sentido da construção de significados para ela em vez de o discurso ter uma relação passiva com a realidade com a linguagem meramente se referindo aos objetos os quais são tidos como dados na realidade A visão referencial do relacionamento entre linguagem e realidade tem sido geralmente pressuposta pela linguística e pelas abordagens da análise de discurso baseadas na linguística O espaço a que Foucault se refere aqui é definido para uma dada formação discursiva em termos de relação uma relação entre instituições processos sociais e econômicos padrões de comportamento sistemas de normas técnicas tipos de classificação modos de caracterização específicos 1972 45 uma relação que constitui as regras de formação para os objetos Usando o exemplo da psicopatologia Foucault escreve Se em um período particular na história de nossa sociedade o delinquente foi psicologizado e patologizado se um comportamento criminal pôde dar origem a toda uma série de objetos de conhecimento homicídio e suicídio crimes passionais ofensas sexuais certas formas de roubo vadiagem isso foi porque um grupo de relações particulares foi adotado para uso no discurso psiquiátrico A relação entre planos de especificação como categorias penais e graus reduzidos de responsabilidade e planos de caracterização psicológica facilidades aptidões graus de desenvolvimento ou involução diferentes formas de reação ao ambiente tipos de caráter se adquiridos ou hereditários A relação entre a autoridade da decisão médica e a autoridade da decisão judicial A relação entre o filtro formado pelo interrogatório judicial a informação policial a investigação e todo o maquinário de informação judicial e o filtro formado pelo questionário médico exames clínicos a procura por antecedentes e explicações biográficas A relação entre a família as normas sexuais e penais de comportamento dos indivíduos e a tabela de sintomas patológicos e doenças das quais elas são sinais A relação entre confinamento terapêutico no hospital e confinamento punitivo na prisão 1972 4344 Foucault sugere que uma formação discursiva constitui objetos de forma altamente limitada na qual as restrições sobre o que ocorre dentro de uma formação discursiva são uma função das relações interdiscursivas entre as formações discursivas e das relações entre as práticas discursivas e nãodiscursivas que compõem tal formação discursiva A ênfase nas relações interdiscursivas tem importantes implicações para a análise de discurso já que põe no centro da agenda a investigação sobre a estruturação ou articulação das formações discursivas na relação umas com as outras dentro do que eu chamarei usando um termo foucaultiano ordens de discurso institucionais e societárias a totalidade de práticas discursivas dentro de uma instituição ou sociedade e o relacionamento entre elas ver Fairclough 1989a 29 e Capítulo 3 item Prática discursiva adiante A visão de que a articulação de ordens de discurso é decisiva para a constituição de qualquer formação discursiva e que deve por isso ser um foco central na análise de discurso é expressa de forma variada no trabalho de Pêcheux em seu conceito de interdiscurso ver Capítulo 1 Bernstein 1982 e Laclau e Mouffe 1985 A formação de modalidades enunciativas A principal tese de Foucault com respeito à formação de modalidades enunciativas é a de que o sujeito social que produz um enunciado não é uma entidade que existe fora e independentemente do discurso como a origem do enunciado seu autorsua autora mas é ao contrário uma função do próprio enunciado Isto é os enunciados posicionam os sujeitos aqueles que os produzem mas também aqueles para quem eles são dirigidos de formas particulares de modo que descrever uma formulação como enunciado não consiste em analisar a relação entre o autor e o que ele diz ou quis dizer ou disse sem querer mas em determinar que posição pode e deve ser ocupada por qualquer indivíduo para que ele seja o sujeito dela 1972 9596 Essa visão da relação entre sujeito e enunciado é elaborada por meio de uma caracterização de formações discursivas constituídas por configurações particulares de modalidades enunciativas Modalidades enunciativas são tipos de atividade discursiva como descrição formação de hipóteses formulação de regulações ensino e assim por diante cada uma das quais tem associadas suas próprias posições de sujeito Assim por exemplo o ensino como uma atividade discursiva posiciona aqueles que fazem parte como professora ou alunoa Como no caso de objetos as regras de formação para as modalidades enunciativas de uma formação discursiva particular são constituídas por um complexo grupo de relações Foucault resume isso para o discurso clínico Se no discurso clínico o médico é alternadamente o soberano questionador direto o olho que observa o dedo que toca o órgão que decifra sinais o ponto no qual descrições previamente formuladas são integradas o técnico de laboratório isso é por que um completo grupo de relações é envolvido entre diversos elementos distintos alguns dos quais dizem respeito ao status dos médicos outros aos lugares institucional e técnico hospital laboratório prática privada etc de onde eles falam ou ainda de acordo com sua posição como sujeitos que percebem observam descrevem ensinam etc 1972 53 Essa articulação de modalidades enunciativas é historicamente específica e aberta à mudança histórica a atenção às condições sociais sob as quais tais articulações são transformadas e aos mecanismos de sua transformação são uma parte significativa da pesquisa sobre a mudança discursiva em relação à mudança social ver Capítulo 3 item Mudança discursiva e Capítulo 7 adiante De preferência à postulação de um sujeito da medicina unitário que daria coerência a essas várias modalidades enunciativas e posições de sujeito Foucault sugere que essas várias modalidades e posições manifestam a dispersão ou fragmentação do sujeito Em outras palavras uma médicoa é constituídoa pela configuração de modalidades enunciativas e posições de sujeito que é reassegurada pelas regras correntes do discurso médico O trabalho de Foucault é uma grande contribuição para o descentramento do sujeito social nas recentes teorias sociais ver Henriques et al 1984 para a visão do sujeito constituído reproduzido e transformado na prática social e por meio dela e para a visão do sujeito fragmentado O que é de particular significação no presente contexto é que Foucault atribui um papel fundamental para o discurso na constituição dos sujeitos sociais Por implicação as questões de subjetividade identidade social e domínio do eu devem ser do maior interesse nas teorias de discurso e linguagem e na análise discursiva e linguística De fato eles têm recebido muito pouca atenção na principal corrente linguística ou mesmo na análise de discurso lingüística e textualmente orientada na sociolingüística ou na pragmática lingüística Essas disciplinas acadêmicas têm quase sempre mantido o tipo de visão présocial do sujeito social o que tem sido largamente rejeitado em recentes debates sobre a subjetividade De acordo com essa visão as pessoas entram na prática e na interação social com identidades sociais que são préformadas as quais afetam sua prática mas não são afetadas por ela Em termos da linguagem é largamente admitido nessas disciplinas que a identidade social da pessoa afetará a forma como ela usa a linguagem mas há pouca percepção do uso de linguagem práticas discursivas afetando ou moldando a identidade social A subjetividade e a identidade social são questões secundárias nos estudos de linguagem geralmente não indo além de teorias de expressão e significado expressivo a identidade origem social gênero classe atitudes crenças e assim por diante de uma falante é expressa nas formas linguísticas e nos significados que elea escolhe Ao contrário disso adotarei a posição de Foucault de localizar a questão dos efeitos da prática discursiva sobre a identidade social no centro da ADTO teórica e metodologicamente Essa visão tem consequências significativas para a reivindicação de a análise de discurso ser um método principal de pesquisa social uma teoria expressiva da subjetividade no discurso permite que ele seja considerado como uma dimensão secundária da prática social ao contrário de uma teoria constitutiva No entanto existem importantes limitações A insistência de Foucault sobre o sujeito como um efeito das formações discursivas tem um sabor pesadamente estruturalista que exclui a agência social ativa de qualquer sentido significativo Isso é insatisfatório por razões que demonstrarei na seção final A posição sobre o discurso e a subjetividade que eu defenderei no Capítulo 3 item Ideologia é dialética que considera os sujeitos sociais moldados pelas práticas discursivas mas também capazes de remodelar e reestruturar essas práticas A formação de conceitos Por conceitos Foucault entende a bateria de categorias elementos e tipos que uma disciplina usa como um aparato para tratar seus campos de interesse ele dá o exemplo de sujeito predicado substantivo verbo e palavra como conceitos de gramática Mas como no caso de objetos e modalidades enunciativas uma formação discursiva não define um conjunto unitário de conceitos estáveis com relações bem definidas entre si Ao contrário o quadro é de configurações mutáveis de conceitos em transformação Foucault propõe abordar a formação de conceitos dentro de uma formação discursiva por meio de uma descrição de como é organizado o campo de enunciados a ela associado dentro do qual seus conceitos surgiram e circularam Essa estratégia dá origem a uma rica explicação 1972 dos diferentes tipos de relação que podem existir nos textos e entre eles Isso é útil no desenvolvimento de perspectivas intertextuais e interdiscursivas na ADTO particularmente porque essas perspectivas têm recebido pouca atenção na linguística ou na análise de discurso orientada linguisticamente Dentro do campo de enunciados de uma formação discursiva existem relações em várias dimensões Uma classe de relações é entre os enunciados de um texto particular como por exemplo as relações de sequência e dependência Foucault se refere a várias estruturas retóricas de acordo com as quais grupos de enunciados podem ser combinados como são ligadas descrições deduções definições cujo encadeamento caracteriza a arquitetura de um texto por meios que dependem da formação discursiva 1972 57 Tais relações intratextuais têm sido investigadas mais recentemente na linguística de texto Outras relações são interdiscursivas referentes à relação entre diferentes formações discursivas ou diferentes textos As relações interdiscursivas podem ser diferenciadas conforme pertençam a campos de presença concomitância ou memória Foucault define um campo de presença como todos os enunciados formulados noutro lugar e aceitos no discurso reconhecidos como verdadeiros envolvendo uma descrição exata um raciocínio bem fundamentado ou uma pressuposição necessária como também os que são criticados discutidos julgados rejeitados ou excluídos p 5758 explícita ou implicitamente Um campo de concomitância consiste mais especificamente de enunciados originados em diferentes formações discursivas e está ligado à questão das relações entre as formações discursivas Finalmente um campo de memória consiste de enunciados que não são mais aceitos ou discutidos por meio dos quais relações de filiação gênese transformação continuidade e descontinuidade histórica podem ser estabelecidas p 9899 Foucault acrescenta as relações de um enunciado com todas as formulações cuja possibilidade subseqüente é determinada por ele e aquelas cujo status por exemplo a literatura o enunciado compartilha Foucault resume essa perspectiva na afirmação de que não pode existir enunciado que de uma forma ou de outra não realize novamente outros enunciados 1972 98 Seu tratamento das relações entre os enunciados é reminiscente dos escritos sobre gênero e dialogismo de Bakhtin 1981 1986 os quais Kristeva introduziu para o público ocidental com o conceito de intertextualidade 1986a 37 E como eu observei anteriormente Pécheux adota uma perspectiva semelhante ao dar primazia ao interdiscurso em sua teoria do discurso Embora as distinções entre os vários tipos de relação em Foucault não sejam sempre claras o que ele está fornecendo aqui é a base para uma investigação sistemática das relações nos textos e nos tipos de discurso e entre eles Farei uma distinção entre intertextualidade relações entre textos e interdiscursividade relações entre formações discursivas ou mais genericamente entre diferentes tipos de discurso ver Capítulo 4 item Intertextualidade manifesta adiante A interdiscursividade envolve as relações entre outras formações discursivas que de acordo com Foucault constituem as regras de formação de uma dada formação discursiva veja as seções anteriores sobre a formação de objetos e modalidades enunciativas Ao discutir as relações dos campos de enunciados Foucault 1972 9798 faz alguns comentários valiosos sobre a noção de contexto e especificamente sobre como o contexto situacional de um enunciado a situação social na qual ele ocorre e seu contexto verbal sua posição em relação a outros enunciados que o precedem e o seguem determinam a forma que ele toma e o modo pelo qual é interpretado Tratase de um lugar comum na sociolinguística que os enunciados ou falas são assim determinados A observação adicional importante que Foucault faz é que a relação entre a fala e seu contexto verbal e situacional não é transparente a forma como o contexto afeta o que é dito ou escrito e como isso é interpretado varia de uma formação discursiva para outra Por exemplo os aspectos da identidade social doa falante tais como gênero social etnia ou idade que provavelmente afetam de modo substancial as formas e os significados numa conversa podem ter pouco efeito numa conferência de biólogos Novamente o fato de que a fala de uma participante apareça imediatamente depois de uma pergunta de outro pode constituir uma pista forte para tomar a fala como resposta à pergunta num interrogatório mais do que numa conversação casual Não se pode portanto simplesmente apelar ao contexto para explicar o que é dito ou escrito ou como é interpretado como muitos linguistas fazem na sociolinguística e na pragmática é preciso voltar atrás para a formação discursiva e para a articulação das formações discursivas nas ordens de discurso para explicar a relação contextotextosignificado A formação de estratégias As regras de formação discutidas até aqui constituem um campo de possibilidades para a criação de teorias temas ou o que Foucault chama de estratégias nem todas elas realmente realizadas As regras para a formação de estratégias determinam quais possibilidades são realizadas Elas são constituídas por uma combinação de restrições interdiscursivas e nãodiscursivas sobre possíveis estratégias 1972 6670 Foucault sugere por exemplo que o discurso econômico no período clássico é definido por um certo modo constante de relacionar possibilidades de sistematização interior a um discurso outros discursos que são exteriores a esse e a um campo completo nãodiscursivo de práticas apropriação interesses e desejos 1972 69 Note a reiteração aqui de relações interdiscursivas como restrições sobre uma formação discursiva Foucault nota que possíveis relacionamentos entre discursos incluem analogia oposição complementaridade e relações de delimitação mútua p 67 A discussão das restrições nãodiscursivas aqui é o mais próximo que Foucault chega nesse primeiro trabalho ao reconhecimento de que o discurso é determinado de fora a posição predominante tomada sobre a relação entre a prática discursiva e nãodiscursiva sugere ao contrário que a primeira tem primazia sobre a última Foucault referese primeiro à função do discurso num campo de práticas nãodiscursivas tal como a função exercida pelo discurso econômico na prática do capitalismo emergente 1972 69 segundo para as regras e processos de apropriação do discurso no sentido de que o direito de falar e a habilidade para entender tanto quanto o direito de recorrer ao corpus de enunciados já formulados são desigualmente distribuídos entre grupos sociais p 68 terceiro para as posições possíveis de desejo em relação ao discurso o discurso pode de fato ser o lugar para uma representação ilusória um elemento de simbolização uma forma do proibido um instrumento de satisfação derivada p 68 itálicos de Foucault Foucault associa as regras para a formação de estratégias com a materialidade dos enunciados As restrições nãodiscursivas referidas no parágrafo anterior estabelecem relações entre os enunciados e as instituições Por materialidade de um enunciado Foucault entende não sua propriedade de ser proferido num tempo ou lugar particular mas o fato de ter um status particular em práticas institucionais específicas Da arqueologia à genealogia Eu já me referi às mudanças de foco no curso do trabalho de Foucault Minha preocupação agora é com a transição da arqueologia à genealogia e suas implicações para a concepção de discurso em Foucault Foucault dá a seguinte explicação sucinta sobre a relação entre arqueologia e genealogia A verdade deve ser compreendida como um sistema de procedimentos ordenados para a produção regulamentação distribuição circulação e operação de enunciados A verdade está vinculada a uma relação circular com os sistemas de poder que a produzem e sustentam e com os efeitos de poder os quais ela induz e os quais a estendem Um regime de verdade Rabinow 1984 74 A primeira proposição é eu espero um sumário reconhecível da arqueologia como esbocei anteriormente A segunda mostra em resumo o efeito da genealogia sobre a arqueologia ela acrescenta o poder ou nas palavras de Davidson seu foco está nas relações mútuas entre sistemas de verdade e modalidades de poder 1986 224 A transição para a genealogia representa uma descentração do discurso Enquanto em Foucault 1972 a inteligibilidade dos sistemas de conhecimento e verdade era atribuída a regras do discurso concebidas como autônomas e de fato a relação entre práticas nãodiscursivas e discursivas era regulamentada aparentemente por essas regras no principal estudo genealógico de Foucault Disciplina e poder 1979 o discurso é secundário aos sistemas de poder Ao mesmo tempo no entanto a visão da natureza do poder nas sociedades modernas que Foucault desenvolve em seus estudos genealógicos ver Fraser 1989 localiza o discurso e a linguagem no coração das práticas e dos processos sociais O caráter do poder nas sociedades modernas está ligado aos problemas de controle das populações O poder é implícito nas práticas sociais cotidianas que são distribuídas universalmente em cada nível de todos os domínios da vida social e são constantemente empregadas além disso o poder é tolerável somente na condição de que mascare uma grande parte de si mesmo Seu sucesso é proporcional à sua habilidade para esconder seus próprios mecanismos 1981 86 O poder não funciona negativamente pela dominação forçada dos que lhe são sujeitos ele os incorpora e é produtivo no sentido de que os molda e reinstrumentaliza para ajustálos a suas necessidades O poder moderno não foi imposto de cima por agentes coletivos específicos por exemplo classes sobre grupos ou indivíduos ele se desenvolveu debaixo em certas microtécnicas tal como o exame em seu sentido médico ou educacional ver adiante as quais emergiram em instituições como os hospitais as prisões e as escolas no princípio do período moderno Tais técnicas implicam uma relação dual entre poder e conhecimento na sociedade moderna por um lado as técnicas de poder são desenvolvidas na base do conhecimento que é gerado por exemplo nas ciências sociais por outro lado as técnicas são muito relacionadas ao exercício de poder no processo de aquisição de conhecimento Foucault cunha o termo biopoder para se referir a essa forma moderna de poder que emergiu no século XVII o biopoder trouxe a vida e seus mecanismos para o terreno dos cálculos explícitos e tornou o conhecimentopoder um agente de transformação da vida humana 1981 143 Essa concepção de poder sugere que o discurso e a linguagem são de importância central nos processos sociais da sociedade moderna as práticas e as técnicas que Foucault enfatiza tanto a entrevista o aconselhamento e assim por diante são em grau significativo práticas discursivas Assim analisar as instituições e as organizações em termos de poder significa entender e analisar suas práticas discursivas Mas a visão de poder de Foucault implica não apenas maior atenção ao discurso na análise social mas também maior atenção ao poder na análise de discurso tais questões sobre discurso e poder não surgem nem nos estudos arqueológicos de Foucault nem em abordagens linguisticamente orientadas da análise de discurso Como Shapiro aponta Foucault leva a conexão linguagempolítica a um alto nível de abstração o que nos permite ir além das permutas de poder linguisticamente refletidas entre pessoas e grupos para uma análise das estruturas dentro das quais elas são empregadas 1981 162 Algumas dessas questões são levantadas pelo próprio Foucault num estudo 1984 que explora vários procedimentos mediante os quais as práticas discursivas são socialmente controladas e restringidas em cada sociedade a produção de discurso é imediatamente controlada selecionada organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos cujo papel é tutelar seus poderes e perigos domesticar suas casualidades escapar da sua ponderável formidável materialidade p 109 Entre os procedimentos que Foucault examina estão restrições sobre o que pode ser dito por quem e em que ocasiões oposições entre os discursos de razão e loucura entre discurso verdadeiro e falso efeitos de atribuições de autoria limites entre disciplinas atribuição de status canônico para certos textos e restrições sociais ao acesso a certas práticas discursivas com relação a isso Foucault nota que qualquer sistema de educação é uma forma política de manutenção ou modificação da apropriação de discursos e dos conhecimentos e poderes que eles carregam p 123 Uma ênfase significativa em Foucault 1984 é sobre a luta de poder em torno da determinação das práticas discursivas O discurso é não apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação mas é a coisa para a qual e pela qual a luta existe o discurso é o poder a ser tomado p 110 A passagem da arqueologia para a genealogia envolve uma mudança de ênfase em termos da qual as dimensões do discurso recebem proeminência Enquanto as formações discursivas de Foucault 1972 são caracterizadas em termos de disciplinas particulares por exemplo os discursos da psicopatologia da economia política e da história natural embora Foucault resista à idéia de uma simples correspondência entre discursos e disciplinas as categorias salientes do discurso em Foucault 1979 1981 são de um caráter mais genérico por exemplo a entrevista e o aconselhamento como práticas discursivas associadas respectivamente ao que Foucault chama exame e confissão ver adiante Isto é elas assinalam várias formas de interação que são estruturadas de forma particular e envolvem conjuntos específicos de participantes por exemplo entrevistadora e entrevistadoa Essas interações podem ser usadas em várias disciplinas ou instituições e são assim compatíveis com várias formações discursivas assim existem entrevistas médicas sociológicas de emprego e da mídia O contraste para alguns escritores é entre discursos e gêneros ver Kress 1988 e no Capítulo 4 o item Interdiscursividade As duas principais tecnologias de poder analisadas por Foucault são a disciplina o exame como sua técnica nuclear Foucault 1979 e a confissão Foucault 1981 Uma surpreendente preocupação básica e inicial da análise genealógica é como as técnicas trabalham sobre os corpos isto é como elas afetam as formas normalizadas detalhadas de controle sobre as disposições os hábitos e os movimentos do corpo que são discerníveis nas sociedades modernas mais obviamente no condicionamento do corpo no treinamento militar e em processos análogos na indústria na educação na medicina e assim por diante A moderna tecnologia da disciplina é engrenada para produzir o que Foucault chama corpos dóceis que são adaptados às demandas das formas modernas de produção econômica A disciplina é manifesta em formas diversas como a arquitetura das prisões das escolas ou das fábricas as quais são projetadas para alocar a cada ocupante um espaço cela escrivaninha banco etc que pode estar sujeito à constante observação a divisão do dia na escola ou no trabalho em partes estritamente demarcadas o disciplinamento da atividade corporal em conexão por exemplo com o ensino tradicional da escrita que pressupõe uma ginástica uma totalidade de rotinas cujo código rigoroso investe o corpo em sua inteireza 1979 152 ou um juízo normalizador as formas nas quais sistemas de punição constantemente medem os indivíduos contra normas Embora a disciplina seja uma tecnologia para lidar com as massas ela funciona de forma altamente individualizada de maneira que isola e focaliza cada indivíduo e todos alternadamente e os assujeita aos mesmos procedimentos normalizadores De acordo com a ênfase de Foucault na produtividade do poder o poder disciplinar produz o indivíduo moderno 1979 194 O exame implementa relações de poder que tornam possível extrair e constituir conhecimento 1979 185 Foucault define três propriedades distintas do exame 1979 187192 Primeiro o exame transformou a economia da visibilidade no exercício do poder Foucault contrasta o poder feudal no qual o soberano poderoso era altamente visível ao passo que àqueles que eram sujeitos ao poder restaria permanecerem na sombra e o poder disciplinar moderno cujo lugar é invisível mas seus sujeitos são destacados A visibilidade constante por um lado conserva o indivíduo assujeitado e por outro permite aos indivíduos serem tratados e organizados como objetos O exame é como se fosse a cerimônia dessa objetificação Segundo o exame também introduz a individualidade no campo de documentação o exame é associado com a produção de registros sobre as pessoas Isso tem duas consequências a constituição do indivíduo como um objeto descritível analisável e a manipulação de registros para chegar a generalizações sobre populações médias normas etc A última conseqüência é sugere Foucault o humilde ponto de origem das ciências humanas Terceiro o exame rodeado por todas as suas técnicas documentais faz de cada indivíduo um caso um caso que ao mesmo tempo constitui um objeto para um ramo de conhecimento e um suporte para um ramo de poder Foucault contrasta a prática tradicional de escrever crônicas dos grandes para permanecerem como monumentos com a moderna escrita disciplinar de histórias de casos para assujeitar e objetificar Se o exame é a técnica de objetificação das pessoas a confissão é a técnica de sua subjetivação O homem ocidental escreve Foucault tornouse um animal de confissão 1981 174 A compulsão para mergulhar em si mesmo e falar e especialmente sobre a própria sexualidade num conjunto de localizações sociais cada vez mais amplo originalmente a religião mas depois os relacionamentos amorosos as relações de família a medicina a educação e assim por diante aparenta ser uma resistência liberadora para a objetificação do biopoder Foucault no entanto acredita que isso é uma ilusão a confissão expõe mais a pessoa ao domínio do poder Foucault define a confissão em termos explicitamente discursivos como um ritual de discurso que se chamaria um gênero em termos mais familiares na ADTO A confissão é definida primeiro pelo tópico o sujeito da fala é também o sujeito do enunciado e também pela relação de poder entre os envolvidos não se confessa sem a presença ou presença virtual de uma parceiroa que não é simplesmente oa interlocutora mas a autoridade que requer a confissão a prescreve e aprecia e intervém para julgar perdoar consolar e reconciliar 1981 61 A confissão tem a característica peculiar de que o próprio ato de fazêla muda a pessoa que a faz ela a exonera redime e purifica ela a alivia de seus erros a libera e lhe promete a salvação p 62 Além disso o valor de uma confissão é aumentado pelos obstáculos e pela resistência que se tem para fazêla Embora a explicação da confissão em Foucault seja mais explicitamente discursiva do que a sua explicação do exame ele se refere a primeira como uma forma discursiva tanto quanto um ritual de discurso eu sugeriria que ambos são claramente associados com gêneros particulares de discurso No caso do exame eles incluiriam o exame médico o exame educacional e muitas variedades de entrevistas No caso da confissão incluiriam não somente a confissão religiosa mas também discursos terapêuticos e variedades de aconselhamento Um dos temas de Foucault é como a confissão ganhou status científico no século XIX e ele nota em relação a isso que o exame e a confissão foram combinados no interrogatório no questionário exato e na hipnose As técnicas de poder às quais Foucault confere atenção são relevantes para os tipos de discurso que se tornaram evidentes na sociedade moderna e que parecem estar intimamente associados aos seus modos de organização social e valores culturais Esses gêneros culturalmente evidentes especialmente a entrevista e o aconselhamento e aqueles associados com a administração e a publicidade aparentam estar colonizando as ordens de discurso de várias instituições e organizações contemporâneas Nesse processo eles têm sofrido uma expansão dramática de funções à medida que atravessaram os limites entre as instituições gerando muitos subtipos e variantes aconselhamento terapêutico educacional do emprego e doa consumidora por exemplo A entrevista e o aconselhamento representam respectivamente gêneros de objetificação e subjetivação correspondentes à técnica de objetificação do exame e à técnica de subjetivação da confissão e os modos de discurso que burocraticamente manipulam as pessoas como objetos por um lado e os modos de discurso que exploram e dão voz ao eu parecem ser dois focos da ordem de discurso moderna A esse respeito a perspectiva genealógica de Foucault aponta direções de pesquisa do discurso que são importantes para os objetivos deste livro a investigação das transformações históricas nas práticas discursivas das ordens de discurso e suas relações com os processos mais amplos de mudança social e cultural ver no Capítulo 3 o item Mudança discursiva e o Capítulo 7 a seguir Existem importantes questões de causalidade aqui até que ponto as mudanças discursivas constituem essas mudanças sociais ou culturais mais amplas contrariamente a serem meros reflexos delas E portanto até onde os processos mais amplos de mudança podem ser pesquisados por meio da análise de práticas discursivas em mutação Existe também a questão de quão difundidos e efetivos são os esforços conscientes de agentes institucionais para gerar mudanças nas práticas discursivas com base na pesquisa científica social por exemplo nas técnicas de entrevista frequentemente simulando as práticas discursivas de conversação informal da esfera privada em domínios públicos na base de cálculos de sua eficácia por exemplo pondo os entrevistados à vontade e treinando pessoal da instituição em novas técnicas discursivas Eu me refiro a esse processo de intervenção como a tecnologização do discurso o próprio discurso é agora largamente sujeito às tecnologias e às técnicas identificadas por Foucault como as modernas técnicas de poder veja mais no Capítulo 7 item Tecnologização a seguir Foucault e a análise de discurso textualmente orientada As principais percepções sobre o discurso que eu identifiquei no trabalho de Foucault podem ser resumidas como se segue Em seu trabalho arqueológico inicial existem duas afirmações de importância particular 1 a natureza constitutiva do discurso o discurso constitui o social como também os objetos e os sujeitos sociais 2 a primazia da interdiscursividade e da intertextualidade qualquer prática discursiva é definida por suas relações com outras e recorre a outras de forma complexa Três outros pontos substantivos emergem do trabalho genealógico de Foucault 3 a natureza discursiva do poder as práticas e as técnicas do biopoder moderno por exemplo o exame e a confissão são em grau significativo discursivas Capítulo 3 Teoria social do discurso Neste capítulo apresento uma concepção de discurso e um quadro teórico para a análise de discurso que será elaborado e ilustrado no decorrer do livro Minha abordagem é determinada pelos objetivos estabelecidos na Introdução reunir a análise de discurso orientada linguisticamente e o pensamento social e político relevante para o discurso e a linguagem na forma de um quadro teórico que será adequado para uso na pesquisa científica social e especificamente no estudo da mudança social Os dois primeiros capítulos identificaram várias realizações e limitações do trabalho anterior e o Capítulo 3 foi escrito à luz de tal discussão sem se basear diretamente aí Inicio com uma discussão do termo discurso e em seguida analiso o discurso num quadro tridimensional como texto prática discursiva e prática social Essas três dimensões de análise são discutidas uma a uma e concluo estabelecendo minha abordagem para a investigação da mudança discursiva em sua relação com a mudança social e cultural Discurso Quero focalizar a linguagem e conseqüentemente uso discurso em um sentido mais estreito do que os cientistas sociais geralmente fazem ao se referirem ao uso de linguagem falada ou escrita Usarei o termo discurso no qual os linguístas tradicio Tradução de Izabel Magalhães nalmente escrevem sobre o uso de linguagem parole fala ou desempenho Na tradição iniciada por Ferdinand de Saussure 1959 considerase a fala como não acessível ao estudo sistemático por ser essencialmente uma atividade individual os indivíduos usam uma língua de formas imprevisíveis de acordo com seus desejos e suas intenções uma langue língua que é em si mesma sistemática e social Os linguístas nessa tradição identificam a parole para ignorála pois a implicação da posição saussureana é que qualquer estudo sistemático da língua deve ser um estudo do próprio sistema da langue e não de seu uso A posição de Saussure é atacada firmemente pelos sociolinguístas que afirmam ser o uso de linguagem moldado socialmente e não individualmente Eles argumentam que a variação no uso de linguagem é sistemática e acessível ao estudo científico e que aquilo que o torna sistemático é sua correlação com variáveis sociais a língua varia de acordo com a natureza da relação entre os participantes em interações o tipo de evento social os propósitos sociais das pessoas na interação e assim por diante Downes 1984 Isso representa claramente um avanço na tradição saussureana dominante na linguística regular mas tem duas limitações principais Primeiro a ênfase tende a ser unilateral sobre como a língua varia segundo fatores sociais o que sugere a existência de tipos de sujeito social de relações sociais e de situação bastante independentes do uso de linguagem e a exclusão da possibilidade de o uso de linguagem realmente contribuir para sua constituição reprodução e mudança Segundo as variáveis sociais que são consideradas como correlacionadas a variáveis linguísticas são aspectos das situações sociais de uso linguístico relativamente superficiais além de não haver uma compreensão de que as propriedades do uso de linguagem podem ser determinadas em um sentido mais global pela estrutura social em um nível mais profundo as relações sociais entre as classes e outros grupos modos em que as instituições sociais são articuladas na formação social e assim por diante e podem contribuir para reproduzila e transformála Ao usar o termo discurso proponho considerar o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais Isso tem várias implicações Primeiro implica ser o discurso um modo de ação uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros como também um modo de representação Tratase de uma visão do uso de linguagem que se tornou familiar embora freqüentemente em termos individualistas pela Filosofia linguística e pela Pragmática linguística Levinson 1983 Segundo implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social a última é tanto uma condição como um efeito da primeira Por outro lado o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis pela classe e por outras relações sociais em um nível societário pelas relações específicas em instituições particulares como o direito ou a educação por sistemas de classificação por várias normas e convenções tanto de natureza discursiva como nãodiscursiva e assim por diante Os eventos discursivos específicos variam em sua determinação estrutural segundo o domínio social particular ou o quadro institucional em que são gerados Por outro lado o discurso é socialmente constitutivo Aqui está a importância da discussão de Foucault sobre a formação discursiva de objetos sujeitos e conceitos O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e o restringem suas próprias normas e convenções como também relações identidades e instituições que lhe são subjacentes O discurso é uma prática não apenas de representação do mundo mas de significação do mundo constituindo e construindo o mundo em significado Podemos distinguir três aspectos dos efeitos construtivos do discurso O discurso contribui em primeiro lugar para a construção do que variavelmente é referido como identidades sociais e posições de sujeito para os sujeitos sociais e os tipos de eu ver Henriques et al 1984 Weedon 1987 Devemos contudo recordar a discussão de Foucault sobre essa questão no Capítulo 2 e as minhas observações aí quanto à ênfase na posição construtivista Segundo o discurso contribui para construir as relações sociais entre as pessoas E terceiro o discurso contribui para a construção de sistemas de conhecimento e crença Esses três efei tos correspondem respectivamente a três funções da linguagem e a dimensões de sentido que coexistem e interagem em todo discurso o que denominarei as funções da linguagem identitária relacional e ideacional A função identitária relacionase aos modos pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso a função relacional a como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas a função ideacional aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos entidades e relações As funções identitária e relacional são reunidas por Halliday 1978 como a função interpessoal Halliday também distingue uma função textual que pode ser utilmente acrescentada a minha lista isso diz respeito a como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário tomadas como dadas ou apresentadas como novas selecionadas como tópico ou tema e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto e à situação social fora do texto A prática discursiva é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa contribui para reproduzir a sociedade identidades sociais relações sociais sistemas de conhecimento e crença como é mas também contribui para transformála Por exemplo as identidades de professores e alunos e as relações entre elas que estão no centro de um sistema de educação dependem da consistência e da durabilidade de padrões de fala no interior e no exterior dessas relações para sua reprodução Porém elas estão abertas a transformações que podem originarse parcialmente no discurso na fala da sala de aula do parquinho da sala dos professores do debate educacional e assim por diante É importante que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida de um lado na determinação social do discurso e de outro na construção do social no discurso No primeiro caso o discurso é mero reflexo de uma realidade social mais profunda no último o discurso é representado idealizadamente como fonte do social O último talvez seja o erro mais imediatamente perigoso dada a ênfase nas propriedades constitutivas do discurso em debates contemporâneos Vamos tomar um exemplo para ver como esse erro pode ser evitado sem pôr em risco o princípio constitutivo A relação entre pais e filhos na família a determinação das posições de mãe pai e filhoa que são socialmente disponíveis como também a localização de indivíduos reais nessas posições a natureza da família e do lar são todas constituídas parcialmente no discurso como resultados cumulativos e de fato contraditórios de processos complexos e diversos de conversa e escrita Isso poderia levar facilmente à conclusão idealista de que realidades do mundo social como a família simplesmente emanam das cabeças das pessoas Entretanto há três ressalvas que juntas contribuem para bloquear isso Primeiro as pessoas são sempre confrontadas com a família como instituição real em um conjunto limitado de formas variantes com práticas concretas relações e identidades existentes que foram elas próprias constituídas no discurso mas reificadas em instituições e práticas Segundo os efeitos constitutivos do discurso atuam conjugados com os de outras práticas como a distribuição de tarefas domésticas o vestuário e aspectos afetivos do comportamento por exemplo quem é emotivo Terceiro o trabalho constitutivo do discurso necessariamente se realiza dentro das restrições da determinação dialética do discurso pelas estruturas sociais que nesse caso incluem a realidade das estruturas da família mas as ultrapassam e como argumentarei a seguir no interior de relações e lutas de poder particulares Assim a constituição discursiva da sociedade não emana de um livre jogo de idéias nas cabeças das pessoas mas de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais concretas orientandose para elas Uma perspectiva dialética também é um corretivo necessário a uma ênfase indevida na determinação do discurso pelas estruturas estruturas discursivas códigos convenções e normas como também por estruturas nãodiscursivas Desse ponto de vista a capacidade da palavra discurso de referirse às estruturas de convenção que subjazem aos eventos discursivos reais assim como aos próprios eventos é uma ambigüidade feliz mesmo se de outros pontos de vista possa gerar confusão O estruturalismo representado por exemplo pela abordagem de Pécheux descrita no Capítulo 1 trata a prática discursiva e o evento discursivo como meros exem plos de estruturas discursivas que são elas próprias representadas como unitárias e fixas Considera a prática discursiva em termos de um modelo de causalidade mecânica e portanto pessimista A perspectiva dialética considera a prática e o evento contraditórios e em luta com uma relação complexa e variável com as estruturas as quais manifestam apenas uma fixidez temporária parcial e contraditória A prática social tem várias orientações econômica política cultural ideológica e o discurso pode estar implicado em todas elas sem que se possa reduzir qualquer uma dessas orientações do discurso Por exemplo há várias maneiras em que se pode dizer que o discurso é um modo de prática econômica o discurso figura em proporções variáveis como um constituinte da prática econômica de natureza basicamente nãodiscursiva como a construção de pontes ou a produção de máquinas de lavar roupa há formas de prática econômica que são de natureza basicamente discursiva como a bolsa de valores o jornalismo ou a produção de novelas para a televisão Além disso a ordem sociolinguística de uma sociedade pode ser estruturada pelo menos parcialmente como um mercado onde os textos são produzidos distribuídos e consumidos como mercadorias em indústrias culturais Bourdieu 1982 Mas é o discurso como modo de prática política e ideológica que está mais ligado às preocupações deste livro O discurso como prática política estabelece mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos entre as quais existem relações de poder O discurso como prática ideológica constitui naturaliza mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder Como implicam essas palavras a prática política e a ideológica não são independentes uma da outra pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder Assim a prática política é a categoria superior Além disso o discurso como prática política é não apenas um local de luta de poder mas também um marco delimitador na luta de poder a prática discursiva recorre a convenções que naturalizam relações de poder e ideologias particulares e as próprias convenções e os modos em que se articulam são um foco de luta Argumentarei a seguir que o conceito de hegemonia de Gramsci fornece um quadro frutífero para a conceituação e a investigação das dimensões políticas e ideológicas da prática discursiva Em lugar de dizer que tipos de discurso particulares têm valores políticos e ideológicos inerentes direi que diferentes tipos de discurso em diferentes domínios ou ambientes institucionais podem vir a ser investidos política e ideologicamente Frow 1985 de formas particulares Isso significa que os tipos de discurso podem também ser envolvidos de diferentes maneiras podem ser reinvestidos Darei um exemplo no fim deste capítulo no item Mudança discursiva Uma questão razoavelmente importante é como concebemos as convenções e as normas discursivas subjacentes aos eventos discursivos Já fiz alusão à concepção estruturalista de que há conjuntos ou códigos bem definidos que são simplesmente concretizados nos eventos discursivos Isso se estende a uma concepção dos domínios sociolinguísticos constituídos por um conjunto de tais códigos em distribuição complementar de tal modo que cada um tenha suas próprias funções situações e condições de adequação que sejam claramente demarcadas de outros Critiquei concepções de variação sociolinguística baseadas no conceito de adequação em Fairclough no prelo b Abordagens dessa natureza delineiam variação sistemática em comunidades de fala segundo conjuntos de variáveis sociais incluindo o ambiente por exemplo sala de aula parquinho sala de professores e assembléia são diferentes ambientes escolares tipos de atividade propósito social por exemplo ensino trabalho de pesquisa ou teste numa sala de aula e falante por exemplo professora em oposição a alunoa Nessa concepção o código é primário e um conjunto de códigos é simplesmente uma soma de suas partes Uma posição mais frutífera para a orientação histórica da mudança discursiva neste livro é a dos analistas de discurso franceses que sugerem que o interdiscurso a complexa configuração interdependente de formações discursivas tem primazia sobre as partes e as propriedades que não são previsíveis das partes ver a discussão de Pécheux no Capítulo 1 Além disso o interdiscurso é a entidade estrutural que subjaz aos eventos discursivos e não a formação individual ou o código muitos eventos discursivos manifestam uma orientação para configurações de elementos do código e para seus limites para que se possa considerar como regra o evento discursivo existente mas especial construído da concretização normativa de um único código Um exemplo seria gêneros mistos que combinam elementos de dois ou mais gêneros tais como o batepapo em shows da televisão que é parte conversação e parte entretenimento e desempenho ver Tolson 1990 para uma análise do batepapo Entretanto usareio termo foucaultiano ordem do discurso de preferência a interdiscurso porque sugere mais claramente os tipos de configuração que tenho em mente Vamos usar o termo mais frouxo elemento e não código ou a formação para as partes de uma ordem de discurso falarei da natureza desses elementos a seguir Contrariamente a abordagens baseadas em teorias da adequação onde se supõe uma relação única e constante de complementaridade entre os elementos suponho que a relação pode ser ou tornarse contraditória Os limites entre os elementos podem ser linhas de tensão Tomemse por exemplo as diversas posições de sujeito de um indivíduo nos diferentes ambientes e atividades de uma instituição em termos da dispersão do sujeito na formação de modalidades enunciativas segundo Foucault ver no Capítulo 2 o item A formação de modalidades enunciativas É possível que os limites entre os ambientes e as práticas sejam tão naturalizados que essas posições de sujeito sejam vividas como complementares Em diferentes circunstâncias sociais os mesmos limites poderiam tornarse foco de contestação e luta e as posições de sujeito e práticas discursivas associadas a eles poderiam ser consideradas contraditórias Por exemplo os alunos podem aceitar que as narrativas da experiência própria em seus próprios dialetos sociais sejam adequadas a seções das aulas destinadas à discussão mas não a seções destinadas ao ensino ou ao trabalho escrito ou ainda as contradições entre o que é permitido em um lugar mas não em outro podem tornarse plataforma de luta para mudar os limites entre a discussão o ensino e a escrita Em primeiro lugar a aceitação de narrativas de experiência pessoal mesmo em uma parte estritamente delimitada da atividade da sala de aula pode ser uma solução resultante de lutas anteriores para aí incluíla O que se aplica aos limites entre as posições de sujeito e as convenções discursivas associadas geralmente se aplica aos elementos das ordens de discurso Aplicase também aos limites entre distintas ordens de discurso A escola e a sua ordem de discurso podem ser consideradas em relação complementar e não sobrepostas a domínios adjacentes como o lar ou a vizinhança ou por outro lado contradições percebidas entre tais domínios podem virar plataforma de lutas para redefinir seus limites e suas relações lutas por exemplo para estender as propriedades da relação paimãefilhoa e suas convenções discursivas à relação professoraalunoa ou viceversa ou estender as relações e as práticas entre amigos na vizinhança e na rua à escola Os resultados de tais lutas são rearticulações de ordens de discurso tanto das relações entre elementos nas ordens de discurso locais como a da escola como das relações entre ordens de discurso locais na ordem de discurso societária Conseqüentemente os limites entre os elementos como também entre as ordens de discurso locais podem variar entre relativamente fortes ou relativamente fracos ver Bernstein 1981 dependendo de sua articulação atual os elementos podem ser descontínuos e bem definidos ou podem ser pouco nítidos e mal definidos Nem se deve supor que esses elementos sejam homogêneos internamente Uma consequência da luta articulatória que tenho em mente é que os novos elementos são constituídos mediante a redefinição de limites entre os elementos antigos Portanto um elemento pode ser heterogêneo em sua origem e mesmo que essa heterogeneidade histórica não seja sentida como tal quando as convenções são altamente naturalizadas pode ser sentida como contradição no elemento em condições diferentes Um exemplo seria um estilo de ensino familiar que consiste na exploração pelos professores de uma rotina de perguntas e respostas estruturadas para obter dos alunos informações predeterminadas Esse estilo não é necessariamente sentido em termos de uma contradição quando usado por professores com o propósito de dar ordens aos alunos mediante a solicitação de informações mas pode ser entendido dessa maneira Se aplicarmos o conceito de investimento nesse caso podese dizer que os elementos as ordens de discurso locais e as ordens de discurso societárias são na prática potencialmente estruturadas de maneira contraditória e desse modo estão abertas para ter os investimentos políticos e ideológicos como foco de disputa em lutas para desinvestilos ou reinvestilos Os elementos a que me refiro podem ser muito variáveis em termos de uma escala Há casos em que podem parecer corresponder a uma compreensão convencional de um código ou registro inteiramente desenvolvido Halliday 1978 um bloco de variantes em níveis diferentes com padrões fonológicos distintos vocabulário padrões gramaticais regras de tomada de turno e assim por diante Exemplos de tais casos são o discurso de sessões de bingo ou de leilões de gado Em outros casos contudo as variáveis são em escala menor sistemas de tomada de turno particulares vocabulários que incorporam esquemas de classificação particulares roteiros de gêneros como relatos de crimes ou narrativas orais conjuntos de convenções de polidez e assim por diante Um ponto de oposição entre as ordens de discurso é a cristalização de tais elementos em blocos relativamente duráveis Vou sugerir Capítulo 4 item Interdiscursividade um pequeno número de tipos diferentes de elementos gêneros estilos tipos de atividade e discursos Pode ser iluminador neste ponto relembrar uma citação de Foucault Capítulo 2 item A formação dos objetos ao referirse às regras de formação de objetos na psicopatologia As relações identificadas por Foucault que foram adotadas no discurso psiquiátrico para propiciar a formação dos objetos a que se refere podem ser interpretadas como relações entre elementos discursivos de diferentes escalas planos de especificação e planos de caracterização psicológica são no mínimo parcialmente constituídos por vocabulários enquanto o interrogatório judicial e o questionário médico são elementos discursivos de tipo genérico sobre gênero ver Capítulo 4 item Interdiscursividade Entretanto notese que não são apenas elementos discursivos A investigação policial o exame clínico a reclusão terapêutica e a prisão podem ter componentes discursivos mas não são per se entidades discursivas As descrições de Foucault ressaltam a imbricação mútua do discursivo e do nãodiscursivo nas condições estruturais da prática discursiva Nesse sentido as ordens de discurso podem ser consideradas como facetas discursivas das ordens sociais cuja articulação e rearticulação interna têm a mesma natureza Até agora o foco está principalmente no que torna o discurso semelhante a outras formas de prática social Agora preciso contrabalançar tratando da questão sobre o que torna a prática discursiva especificamente discursiva Parte da resposta está evidentemente na linguagem a prática discursiva manifestase em forma linguística na forma do que referirei como textos usando texto no sentido amplo de Halliday linguagem falada e escrita Halliday 1978 A prática social política ideológica etc é uma dimensão do evento discursivo da mesma forma que o texto Mas isso não é suficiente Essas duas dimensões são mediadas por uma terceira que examina o discurso especificamente como prática discursiva Prática discursiva aqui não se opõe a prática social a primeira é uma forma particular da última Em alguns casos a prática social pode ser inteiramente constituída pela prática discursiva enquanto em outros pode envolver uma mescla de prática discursiva e nãodiscursiva A análise de um discurso particular como exemplo de prática discursiva focaliza os processos de produção distribuição e consumo textual Todos esses processos são sociais e exigem referência aos ambientes econômicos políticos e institucionais particulares nos quais o discurso é gerado A produção e o consumo são de natureza parcialmente sociocognitiva já que envolvem processos cognitivos de produção e interpretação textual que são baseados nas estruturas e nas convenções sociais interiorizadas daí o prefixo socio Na explicação desses processos sociocognitivos uma preocupação é especificar os elementos d as ordens de discurso como também outros recursos sociais denominados recursos dos membros em que se baseiam a produção e a interpretação dos sentidos e como isso ocorre A preocupação central é estabelecer conexões explanatórias entre os modos de organização e interpretação textual normativos inovativos etc como os textos são produzidos distribuídos e consumidos em um sentido mais amplo e a natureza da prática social em ter mos de sua relação com as estruturas e as lutas sociais Não se pode nem reconstruir o processo de produção nem explicar o processo de interpretação simplesmente por referência aos textos eles são respectivamente traços e pistas desses processos e não podem ser produzidos nem interpretados sem os recursos dos membros Uma forma de ligar a ênfase na prática discursiva e nos processos de produção distribuição e consumo textual ao próprio texto é focalizar a intertextualidade do último ver o item Prática discursiva a seguir A concepção tridimensional do discurso é representada diagramaticamente na Figura 31 É uma tentativa de reunir três tradições analíticas cada uma das quais é indispensável na análise de discurso Essas são a tradição de análise textual e linguística detalhada na Linguística a tradição macrossociológica de análise da prática social em relação às estruturas sociais e a tradição interpretativa ou microssociológica de considerar a prática social como alguma coisa que as pessoas produzem ativamente e entendem com base em procedimentos de senso comum partilhados Aceito a afirmação interpretativa segunda a qual devemos tentar compreender como os membros das comunidades sociais produzem seus mundos ordenados ou explicáveis Entendo que a análise de processos sociocognitivos na prática discursiva deva ser parcialmente dedicada a esse objetivo embora faça sugestões a seguir de que ela apresenta dimensões macro e micro Entretanto argumentaria que ao produzirem seu mundo as práticas dos membros são moldadas de forma inconsciente por estruturas sociais relações de poder e pela natureza da prática social em que estão envolvidos cujos marcos delimitadores vão sempre além da produção de sentidos Assim seus procedimentos e suas práticas podem ser investidos política e ideologicamente podendo ser posicionados por eles como sujeitos e membros Argumentaria também que a prática dos membros tem resultados e efeitos sobre as estruturas sociais as relações sociais e as lutas sociais dos quais outra vez eles geralmente não têm consciência E finalmente argumentaria que os próprios procedimentos que os membros usam são heterogêneos e contraditórios e contestados em lutas de natureza parcialmente discursiva A parte do procedimento que trata da análise textual pode ser denominada descrição e as partes que tratam da análise da prática discursiva e da análise da prática social da qual o discurso faz parte podem ser denominadas interpretação Sobre essa distinção ver Capítulo 6 Conclusão TEXTO PRÁTICA DISCURSIVA produção distribuição consumo PRÁTICA SOCIAL FIGURA 31 Concepção tridimensional do discurso Discurso como texto Por razões que se tornarão claras mais tarde realmente nunca se fala sobre aspectos de um texto sem referência à produção eou ficante ver Saussure 1959 Saussure e outros na tradição lingüística enfatizam a natureza arbitrária do signo a concepção de que não há uma base motivada ou racional para combinar um significante particular com um significado particular Contra isso abordagens críticas da análise de discurso defendem que os signos são socialmente motivados isto é que há razões sociais para combinar significantes particulares a significados particulares Agradeço a Gunther Kress a discussão desse assunto Pode ser uma questão de vocabulário terrorista e lutador pela liberdade são combinações contrastantes de significante e significado e o contraste entre elas é socialmente motivado ou uma questão de gramática veja exemplos a seguir ou outras dimensões da organização linguística Outra distinção importante em relação ao significado é entre o significado potencial de um texto e sua interpretação Os textos são feitos de formas às quais a prática discursiva passada condensada em convenções dota de significado potencial O significado potencial de uma forma é geralmente heterogêneo um complexo de significados diversos sobrepostos e algumas vezes contraditórios ver Fairclough 1990a de forma que os textos são em geral altamente ambivalentes e abertos a múltiplas interpretações Os intérpretes geralmente reduzem essa ambivalência potencial mediante opção por um sentido particular ou um pequeno conjunto de sentidos alternativos Uma vez que tenhamos em mente a dependência que o sentido tem da interpretação podemos usar sentido tanto para os potenciais das formas como para os sentidos atribuídos na interpretação A análise textual pode ser organizada em quatro itens vocabulário gramática coesão e estrutura textual Esses itens podem ser imaginados em escala ascendente o vocabulário trata principalmente das palavras individuais a gramática das palavras combinadas em orações e frases a coesão trata da ligação entre orações e frases e a estrutura textual trata das propriedades organizacionais de larga escala dos textos Além disso distingo três outros itens principais que não serão usados na análise textual mas na análise da prática discursiva embora certamente envolvam aspectos formais dos textos a força dos enunciados isto é os tipos de atos de fala promessas pedidos ameaças etc por eles constituídos a coerência dos textos e a intertextualidade dos textos Reunidos esses sete itens constituem um quadro para a análise textual que abrange aspectos de sua produção e interpretação como também as propriedades formais dos textos A unidade principal da gramática é a oração ou oração simples por exemplo a manchete de jornal Gorbachev reduz o preço do exército vermelho Os principais elementos das orações geralmente são chamados grupos ou sintagmas por exemplo o exército vermelho reduz o preço As orações se combinam para formar orações complexas Meus comentários aqui se restringirão a certos aspectos da oração Toda oração é multifunctional e assim toda oração é uma combinação de significados ideacionais interpessoais identitários e relacionais e textuais ver o item Discurso anteriormente As pessoas fazem escolhas sobre o modelo e a estrutura de suas orações que resultam em escolhas sobre o significado e a construção de identidades sociais relações sociais e conhecimento e crença Ilustrarei com a manchete de jornal anterior Em termos do significado ideacional a oração é transitiva significa um processo de um indivíduo particular agindo fisicamente notese a metáfora sobre uma entidade Poderíamos muito bem ver aqui um investimento ideológico diferente de outras formas de significar os mesmos eventos por exemplo A União Soviética reduz as Forças Armadas ou O exército soviético desiste das cinco divisões Em termos do significado interpessoal a oração é declarativa oposta à interrogativa ou imperativa e contém uma forma verbal do presente do indicativo que é categoricamente autoritário A relação autoraleitora aqui é entre alguém dizendo o que está acontecendo em termos seguros e alguém que recebe a informação são essas as duas posições de sujeito estabelecidas na oração Terceiro há um aspecto textual Gorbachev é o tópico ou tema da oração como geralmente ocorre com a primeira parte da oração o artigo é sobre ele e seus atos Por outro lado se a oração fosse transformada em passiva o preço do exército vermelho passaria a ser o tema O preço do exército vermelho é reduzido por Gorbachev Outra possibilidade oferecida pela passiva é o apagamento do agente entre parênteses porque ele é desconhecido já conhecido julgado irrelevante ou talvez para deixar vaga a agência e conseqüentemente a responsabilidade A abordagem da linguística crítica é particularmente interessante quanto à gramática Fowler et al 1979 Kress e Hodge 1979 O trabalho de Leech Deuchar e Hoogenraad 1982 é uma introdução acessível à gramática e Halliday 1985 faz uma apresentação mais avançada de uma forma de gramática particularmente útil à análise de discurso O vocabulário pode ser investigado de muitas maneiras e os comentários aqui e no Capítulo 6 são muito seletivos Um ponto que precisa ser esclarecido é que tem valor limitado conceber uma língua com um vocabulário que é documentado no dicionário porque há muitos vocabulários sobrepostos e em competição correspondendo aos diferentes domínios instituições práticas valores e perspectivas Os termos wording lexicalização e significação sobre isso e outros aspectos do vocabulário ver Kress e Hodge 1979 Mey 1985 captam isso melhor do que vocabulário porque implicam processos de lexicalização significação do mundo que ocorrem diferentemente em tempos e épocas diferentes e para grupos de pessoas diferentes Um foco de análise recai sobre as lexicalizações alternativas e sua significância política e ideológica sobre questões tais como a relexicalização dos domínios da experiência como parte de lutas sociais e políticas é bem conhecido o exemplo de relexicalização de terroristas como lutadores pela liberdade ou viceversa ou como certos domínios são mais intensivamente lexicalizados do que outros Outro foco é o sentido da palavra particularmente como os sentidos das palavras entram em disputa dentro de lutas mais amplas quero sugerir que as estruturações particulares das relações entre as palavras e das relações entre os sentidos de uma palavra são formas de hegemonia Um terceiro foco recai sobre a metáfora sobre a implicação política e ideológica de metáforas particulares e sobre o conflito entre metáforas alternativas Ao considerarse a coesão ver Halliday e Hasan 1976 Halliday 1985 estamos concebendo como as orações são ligadas O termo wording significa a criação de palavras N da T em frases e como as frases por sua vez são ligadas para formar unidades maiores nos textos Obtémse a ligação de várias maneiras mediante o uso de vocabulário de um campo semântico comum a repetição de palavras o uso de sinônimos próximos e assim por diante mediante uma variedade de mecanismos de referência e substituição pronomes artigos definidos demonstrativos elipse de palavras repetidas e assim por diante mediante o uso de conjunções tais como portanto entretanto e e mas Focalizar a coesão é um passo para o que Foucault refere como vários esquemas retóricos segundo os quais grupos de enunciados podem ser combinados como são ligadas descrições deduções definições cujas sucessão caracteriza a arquitetura de um texto ver no Capítulo 2 o item A formação de conceitos Esses esquemas e seus aspectos particulares como a estrutura argumentativa dos textos variam entre os tipos de discurso e é interessante explorar tais variações como evidências de diferentes modos de racionalidade e modificações nos modos de racionalidade à medida que mudam as práticas discursivas Estrutura textual também diz respeito à arquitetura dos textos e especificamente a aspectos superiores de planejamento de diferentes tipos de texto por exemplo as maneiras e a ordem em que os elementos ou os episódios são combinados para constituir uma reportagem policial no jornal ou uma entrevista para emprego Tais convenções de estruturação podem ampliar a percepção dos sistemas de conhecimento e crença e dos pressupostos sobre as relações sociais e as identidades sociais que estão embutidos nas convenções dos tipos de texto Como sugerem esses exemplos estamos interessados na estrutura do monólogo e do diálogo O último envolve os sistemas de tomada de turno e as convenções de organização da troca de turnos do falante como também as convenções para abrir e fechar entrevistas ou conversas Prática discursiva A prática discursiva como indiquei anteriormente envolve processos de produção distribuição e consumo textual e a nature za desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais Por exemplo os textos são produzidos de formas particulares em contextos sociais específicos um artigo de jornal é produzido mediante rotinas complexas de natureza coletiva por um grupo cujos membros estão envolvidos variavelmente em seus diferentes estágios de produção no acesso a fontes tais como nas reportagens das agências de notícia na transformação dessas fontes frequentemente elas próprias já são textos na primeira versão de uma reportagem na decisão sobre o local do jornal em que entra a reportagem e na edição da reportagem ver van Dijk 1988 para uma discussão detalhada e mais geralmente sobre processos discursivos Há outras maneiras em que o conceito de produtora textual é mais complicado do que pode parecer É produtivo desconstruir oa produtora em um conjunto de posições que podem ser ocupadas pela mesma pessoa ou por pessoas diferentes Goffman 1981 144 sugere uma distinção entre animadora a pessoa que realmente realiza os sons ou as marcas no papel autora aquelea que reúne as palavras e é responsável pelo texto e principal aquelea cuja posição é representada pelas palavras Em artigos de jornal há uma ambigüidade na relação entre essas posições frequentemente o principal é uma fonte fora do jornal mas algumas reportagens não deixam isso claro e dão a impressão de que o principal é o jornal oa editora ou uma jornalista e os textos de autoria coletiva muitas vezes são escritos como se fossem assinados por uma únicoa jornalista que na melhor das hipóteses seria oa animadora Veja um exemplo em Fairclough 1988b Os textos também são consumidos diferentemente em contextos sociais diversos Isso tem a ver parcialmente com o tipo de trabalho interpretativo que neles se aplica tais como exame minucioso ou atenção dividida com a realização de outras coisas e com os modos de interpretação disponíveis por exemplo geralmente não se leem receitas como textos estéticos ou artigos acadêmicos como textos retóricos embora ambos os tipos de leitura sejam possíveis O consumo como a produção pode ser individual ou coletivo compare cartas de amor com registros administrativos Alguns textos entrevistas oficiais grandes poemas são registrados transcritos preservados relidos outros publicidade não solicitada conversas casuais não são registrados mas transitórios e esquecidos Alguns textos discursos políticos livrostexto são transformados em outros textos As instituições possuem rotinas específicas para o processamento de textos uma consulta médica é transformada em um registro médico que pode ser usado para compilar estatísticas médicas ver no Capítulo 4 o item Intertextualidade e transformação para uma discussão de tais cadeias intertextuais Além disso os textos apresentam resultados variáveis de natureza extradiscursiva como também discursiva Alguns textos conduzem a guerras ou à destruição de armas nucleares outros levam as pessoas a perder o emprego ou a obtêlo outros ainda modificam as atitudes as crenças ou as práticas das pessoas Alguns textos têm distribuição simples uma conversa casual pertence apenas ao contexto imediato de situação em que ocorre enquanto outros têm distribuição complexa Textos produzidos por líderes políticos ou textos relativos à negociação internacional de armas são distribuídos em uma variedade de diferentes domínios institucionais cada um dos quais possui padrões próprios de consumo e rotinas próprias para a reprodução e transformação de textos Por exemplo os telespectadores recebem uma versão transformada de um discurso pronunciado por Thatcher ou Gorbachev versão que é consumida segundo hábitos e rotinas particulares de recepção Produtores em organizações sofisticadas como departamentos do governo produzem textos de forma a antecipar sua distribuição transformação e consumo e neles constroem leitores múltiplos Podem antecipar não apenas os receptores aqueles a quem o texto se dirige diretamente mas também os ouvintes aqueles a quem o texto não se dirige diretamente mas são incluídos entre os leitores e destinatários aqueles que não constituem parte dos leitores oficiais mas são conhecidos como consumidores de fato por exemplo os oficiais soviéticos2 são destinatários em comunicações entre os governos da Organização do Tratado do Atlântico NorteOTAN E cada uma dessas posições pode ser ocupada de forma múltipla Como indiquei anteriormente há dimensões sociocognitivas específicas de produção e interpretação textual que se centralizam na interrelação entre os recursos dos membros que os participantes do discurso têm interiorizados e trazem consigo para o processamento textual e o próprio texto Este é considerado como um conjunto de traços do processo de produção ou um conjunto de pistas para o processo de interpretação Tais processos geralmente procedem de maneira nãoconsciente e automática o que é um importante fator na determinação de sua eficácia ideológica veja outros detalhes adiante embora certos aspectos sejam mais facilmente trazidos à consciência do que outros Os processos de produção e interpretação são socialmente restringidos num sentido duplo Primeiro pelos recursos disponíveis dos membros que são estruturas sociais efetivamente interiorizadas normas e convenções como também ordens de discurso e convenções para a produção a distribuição e o consumo de textos do tipo já referido e que foram constituídos mediante a prática e a luta social passada Segundo pela natureza específica da prática social da qual fazem parte que determina os elementos dos recursos dos membros a que se recorre e como de maneira normativa criativa aquiescente ou opositiva a eles se recorre Um aspecto fundamental do quadro tridimensional para a análise de discurso é a tentativa de exploração dessas restrições especialmente a segunda fazer conexões explanatórias entre a natureza dos processos discursivos em instâncias particulares e a natureza das práticas sociais de que fazem parte Dado o foco deste livro na mudança discursiva e social é este aspecto dos processos discursivos a determinação dos aspectos dos recursos dos membros a que se recorre e como se recorre que é de maior interesse Retornarei a isso a seguir na discussão da intertextualidade Mas primeiro quero falar um pouco em termos mais gerais sobre os aspectos sociocognitivos da produção e da interpretação e introduzir mais duas das sete dimensões de análise força e coerência A produção ou a interpretação de um texto referirmeei apenas à interpretação em partes da discussão a seguir ge ralmente é representada como um processo de níveis múltiplos e como um processo ascendentedescendente Nos níveis inferiores analisase uma sequência de sons ou marcas gráficas em frases no papel Os níveis superiores dizem respeito ao significado à atribuição de significados às frases a textos completos e a partes ou a episódios de um texto que consistem de frases que podem ser interpretadas como coherentemente conectadas Os significados das unidades superiores são construídos em parte dos significados das unidades inferiores Essa é a interpretação ascendente Entretanto a interpretação também se caracteriza por predições sobre os significados das unidades de nível superior no início do processo de interpretação com base em evidência limitada e esses significados preditos moldam a maneira como as unidades de nível inferior são interpretadas Esse é o processamento descendente A produção e a interpretação são parcialmente descendentes e parcialmente ascendentes Além disso a interpretação ocorre no tempo real a interpretação a que já se chegou para palavra ou frase ou episódio x excluirá outras interpretações possíveis para palavra frase ou episódio x 1 ver Fairclough 1989a Esses aspectos do processamento textual contribuem para explicar como os intérpretes reduzem a ambivalência potencial dos textos mostrando parte do efeito do contexto na redução da ambivalência num sentido estreito de contexto como o que precede ou segue em um texto Entretanto contexto também inclui o que às vezes é chamado o contexto de situação os intérpretes chegam a interpretações da totalidade da prática social da qual o discurso faz parte e tais interpretações conduzem a predições sobre os sentidos dos textos que novamente reduzem a ambivalência pela exclusão de outros sentidos possíveis De certo modo essa é uma elaboração das propriedades descendentes da interpretação Uma grande limitação da explicação dos processos sociocognitivos apresentada anteriormente é que geralmente ela é posta em termos universais como se por exemplo o efeito do contexto no sentido e a redução da ambivalência fossem sempre os mesmos Mas não é assim A maneira como o contexto afeta a interpretação do texto varia de um tipo de discurso para outro como Foucault indicou ver no Capítulo 2 o item A formação de conceitos E nesse sentido as diferenças entre os tipos de discurso são socialmente interessantes porque apontam assunções e regras de base implícitas que têm frequentemente caráter ideológico Vou ilustrar esses pontos com uma discussão de força ver Leech 1983 Levinson 1983 Leech e Thomas 1989 A força de parte de um texto frequentemente mas nem sempre uma parte na extensão de uma frase é seu componente acional parte de seu significado interpessoal a ação social que realiza que atos de fala desempenha dar uma ordem fazer uma pergunta ameaçar prometer etc Força está em contraste com proposição o componente proposicional que é parte do significado ideacional é o processo ou a relação que é predicado das entidades Assim no caso de Prometo pagar aoa portadora se exigida a soma de 5 libras3 a força é a de uma promessa enquanto a proposição poderia ser representada esquematicamente como x paga y a z As partes dos textos são tipicamente ambivalentes em termos de força podendo ter força potencial extensiva Por exemplo Você pode carregar a mala poderia ser uma pergunta um pedido ou uma ordem uma sugestão uma reclamação e assim por diante Algumas análises de atos de fala distinguem força direta e indireta poderíamos dizer nesse caso que temos alguma coisa próxima da força direta de uma pergunta que poderia também possuir qualquer das outras forças listadas como sua força indireta Além disso não é de forma alguma incomum que as interpretações permaneçam ambivalentes às vezes pode não estar claro se temos uma pergunta simples ou também um pedido velado e assim se desafiado negável O contexto nos dois sentidos anteriores é um fator importante na redução da ambivalência da força A posição sequencial no texto é um poderoso preditor de força Na acareação qualquer coisa que o advogado diga a uma testemunha imediatamente após a resposta da testemunha pode ser interpretada como uma pergunta o que não impede que seja interpretada simultaneamente como outras coisas por exemplo como acusação Isso ajuda a explicar como é que as formas das palavras podem ter forças que 3 Aproximadamente R 1300 treze reais N da T
8
Linguística
UEMS
23
Linguística
UEMS
27
Linguística
UEMS
2
Linguística
UNILAB
2
Linguística
UNILAB
95
Linguística
ESTACIO
12
Linguística
UMG
11
Linguística
IFB
5
Linguística
UMG
18
Linguística
UNILAB
Texto de pré-visualização
Esta obra é uma introdução crítica à análise do discurso praticada nas mais diversas disciplinas hoje em dia desde a linguística e a sociolinguística até os estudos culturais e sociológicos O autor demonstra como a preocupação com a análise do discurso pode ser combinada de modo sistemático e frutífero com o interesse nos grandes problemas da análise social e da mudança social Fairclough oferece uma revisão crítica e concisa dos métodos e dos resultados da análise do discurso Ele discute o trabalho descritivo de linguistas e analistas da conversa bem como o trabalho mais histórico e teoricamente orientado de Michel Foucault Este livro é valioso como uma introdução aos debates atuais acerca de discurso poder e ideologia e também como um guia prático para a análise de textos A reimpressão desta obra faz parte de um programa de reedição de clássicos da Editora Universidade de Brasília há muito tempo esgotados ISBN 9788523006143 Cód EDU 049565 DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL FUNDAÇÃO UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA Reitor pro tempore Roberto A R de Aguiar ViceReitor José Carlos Balthazar Diretor Norberto Abreu e Silva Neto Conselho Editorial Denise Imbroisi José Carlos Córdova Coutinho José Otávio Nogueira Guimarães Lúcia Mercês de Avelar Luís Eduardo de Lacerda Abreu Maria José M S da Silva Norberto Abreu e Silva Neto Presidente Norman Fairclough DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL Coordenadora da tradução Izabel Magalhães Revisão técnica e prefácio à edição brasileira Izabel Magalhães EQUIPE EDITORIAL Supervisão Editorial Dival Porto Lomba Preparação de originais revisão e índice Gilvam Joaquim Cosmo e Wilma G Rosas Saltarelli Diagramação Eugênio Felix Braga Capa Ivanise Oliveira de Brito Supervisão gráfica Luiz Antônio R Ribeiro e Elmano Rodrigues Pinheiro Equipe de tradução Izabel Magalhães André R N Martins Carla Rosane Zório Célia M L Mota Janaína Saraiva de Aquino Josenia Vieira Maria Christina Diniz Leal Sandra da Rocha M de Oliveira Título original Discourse and social change Copyright 1992 by Norman Fairclough Copyright 2001 by Editora Universidade de Brasília pela tradução Direitos exclusivos para esta edição em língua portuguesa EDITORA UNIVERSIDADE DE BRASÍLIA SCS quadra 2 bloco C nº 78 edifício OK 1º andar CEP 70302509 Brasília Distrito Federal Telefone 61 30354211 fax 61 30354223 Email direcaoeditoraunbbr wwweditoraunbbr Impresso no Brasil Todos os direitos reservados Nenhuma parte desta publicação poderá ser armazenada ou reproduzida por qualquer meio sem a autorização por escrito da Editora Ficha catalográfica elaborada pela Biblioteca Central da Universidade de Brasília Fairclough Norman F165 Discurso e mudança social Norman Fairclough Izabel Magalhães coordenadora da tradução revisão técnica e prefácio Brasília Editora Universidade de Brasília 2001 2008 reimpressão 320 p 21 cm Tradução de Discourse and social change ISBN 9788523006143 1 Sociolingüística 2 Análise do discurso 3 Mudança social I Magalhães Izabel II Título CDU 801 801301 Para minha mãe e em memória de meu pai Sumário PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA 11 AGRADECIMENTOS 15 PREFÁCIO 17 INTRODUÇÃO 19 CAPÍTULO 1 ABORDAGENS DA ANÁLISE DE DISCURSO 31 Sinclair e Coulthard 32 Análise da conversa 36 Labov e Fanshel 40 Potter e Wetherell 44 Linguística crítica 46 Pêcheux 51 Conclusão 57 CAPÍTULO 2 MICHEL FOUCAULT E A ANÁLISE DE DISCURSO 61 Os trabalhos arqueológicos de Foucault 64 A formação dos objetos 65 A formação de modalidades enunciativas 68 A formação de conceitos 70 A formação de estratégias 73 Da arqueologia à genealogia 74 Foucault e a análise de discurso textualmente orientada 81 CAPÍTULO 3 TEORIA SOCIAL DO DISCURSO 89 Discurso 89 Discurso como texto 101 Prática discursiva 106 Discurso como prática social ideologia e hegemonia 116 Mudança discursiva 126 Conclusão 130 CAPÍTULO 4 INTERTEXTUALIDADE 133 Exemplo 1 Reportagem de jornal 138 Exemplo 2 Um guia para os portadores de cartão do banco Barclay 148 Intertextualidade manifesta 152 Intertextualidade e transformações 166 Intertextualidade coerência e sujeitos 170 CAPÍTULO 5 ANÁLISE TEXTUAL A CONSTRUÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS E DO EU 175 Exemplo 1 Entrevista médica padrão 176 Exemplo 2 Entrevista médica alternativa 183 Exemplo 3 Narrativa conversacional 189 Características de controle interacional 192 Tomada de turno 192 Estruturas de troca 193 Controle de tópicos 195 Determinação e policiamento de agendas 196 Formulação 198 Modalidade 199 Polidez 203 Ethos 207 Conclusão 209 CAPÍTULO 6 ANÁLISE TEXTUAL A CONSTRUÇÃO DA REALIDADE SOCIAL 211 Conectivos e argumentação 212 Transitividade e tema 221 Significado das palavras 230 Criação de palavras 236 Metáfora 241 Conclusão 245 CAPÍTULO 7 DISCURSO E MUDANÇA SOCIAL NAS SOCIEDADES CONTEMPORÂNEAS 247 Democratização 248 Comodificação 255 Tecnologização 264 Produzindo sentido das tendências 268 Conclusão modelos relevantes de discurso 272 CAPÍTULO 8 A PRÁTICA DA ANÁLISE DE DISCURSO 275 Os dados 276 Análise 282 Resultados 291 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 295 ÍNDICE 307 Prefácio à edição brasileira Conheci Norman Fairclough na Universidade de Lancaster GrãBretanha em 1975 Em 1988 ele visitou a Universidade de Brasília a meu convite para ministrar o curso Linguagem Poder e Ideologia Durante a visita discutimos a idéia de um convênio de pesquisa internacional entre a Universidade de Brasília e a Universidade de Lancaster O convênio recebeu apoio do Conselho Britânico e da Capes em 1991 Fairclough visitou a Universidade de Brasília novamente em 1994 e em 1998 A tradução desta obra é produto do convênio e uma realização do Grupo de Pesquisa de Linguagem e Ideologia da Universidade de Brasília O trabalho de Fairclough é conhecido no mundo inteiro representando uma significativa contribuição da linguística britânica do final do século XX que tem influenciado um grande número de pesquisadores tanto estudiosos da linguagem como de disciplinas afins A Teoria Social do Discurso que o autor apresenta no Capítulo 3 tem em comum com a Escola Francesa de Análise de Discurso a dimensão crítica do olhar sobre a linguagem como prática social Entretanto a teoria de Fairclough é inovadora quando propõe examinar em profundidade não apenas o papel da linguagem na reprodução das práticas sociais e das ideologias mas também seu papel fundamental na transformação social Isso é possível na teoria de Fairclough porque ela é dialética na medida em que considera o discurso por um lado moldado pela estrutura social e por outro constitutivo da estrutura social O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e restringem suas próprias normas e convenções e também as relações as identidades e as instituições que lhe são subjacentes cf Capítulo 3 Além disso a teoria de Fairclough resgata o conceito de interdiscurso do teórico da análise de discurso francesa Michel Pêcheux Fairclough discute a configuração de práticas discursivas e a relação entre elas em termos da ordem de discurso um conceito formulado inicialmente por Michel Foucault que tanto pode favorecer a reprodução do sujeito social como a sua transformação A mudança discursiva ocorre mediante a reconfiguração ou a mutação dos elementos da ordem de discurso que atuam dinamicamente na relação entre as práticas discursivas Ela pode estender seus efeitos sobre os sujeitos e suas identidades as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença Num mundo de grandes transformações como o nosso essa é sem sombra de dúvida uma questão central E é aí que se encontra a principal contribuição de Fairclough para os leitores brasileiros até que ponto as transformações propostas nos textos orais e escritos são favoráveis aos cidadãos Para responder a essa questão é preciso ter uma visão crítica sobre o papel da linguagem na organização e na manutenção da hegemonia de determinados grupos sociais em detrimento de outros Tais blocos incluem não apenas a classe social como na visão de Louis Althusser e Michel Pêcheux mas também a etnia o gênero social e mesmo a linguagem escrita que no senso comum ideológico separa os indivíduos em letrados e analfabetos valorizando os primeiros A manutenção desses blocos exige em muitos casos o apelo à mudança a modernização superficial e a rearticulação das práticas sociais conservadoras Num país em que a população é com freqüência alvo de manipulação por parte de grupos de poder conhecer o trabalho de Fairclough é uma necessidade Cabe esclarecer porém que o autor não propõe soluções fáceis principalmente porque o caminho da crítica exige leitura reflexão e desenvolvimento de uma consciência sobre direitos e deveres que pode demandar profundas transformações na identidade do eu e do outro e ainda na identidade nacional Nesse sentido a transformação das práticas sociais passa por uma transformação das práticas linguísticas nos mais diversos domínios Na tradução optouse pelo uso do masculino e do feminino por exemplo elea em situações em que se usa normalmente o masculino genérico em português como em ciências do homem Essa decisão segue um uso já consolidado no inglês fruto da tendência de democratização do discurso que o autor discute no Capítulo 7 desta obra Adotaramse o masculino e o feminino em substituição ao feminino genérico usado pelo autor buscando facilitar a leitura sem prejudicar a dimensão crítica da obra Izabel Magalhães Agradecimentos O artigo de jornal à página 139 foi reproduzido com permissão do The Sun Agradeço à Editora da Universidade de Cambridge e ao doutor S Levinson a permissão para usar a figura à página 204 à Universidade de Lancaster por ter permitido a reprodução do texto às páginas 261262 e à MGN Limited que autorizou a reprodução do artigo à página 145 Prefácio A idéia de escrever este livro surgiu nas discussões com um grupo de colegas da Universidade de Lancaster sobre a análise de discurso como um método na pesquisa social particularmente com os sociólogos Paul Bagguley Scott Lash Celia Lury e Mick Dillon do Departamento de Política e Susan Condor do Departamento de Psicologia Também foram benéficos o apoio e o entusiasmo de colegas e alunos de Lingüística principalmente Romy Clark Roz Ivanic Hilary Janks Stef Slembrouk e Mary Talbot Mary Talbot também forneceu o exemplo de narrativa conversacional do Capítulo 5 Agradeço a Gunther Kress e John Thompson por terem lido e comentado uma versão anterior do livro Finalmente tive muito apoio e paciência de Vonny Simon e Matthew durante o processo de produção do livro Introdução Hoje os indivíduos que trabalham em uma variedade de disciplinas começam a reconhecer os modos como as mudanças no uso lingüístico estão ligadas a processos sociais e culturais mais amplos e conseqüentemente a considerar a importância do uso da análise lingüística como um método para estudar a mudança social Mas ainda não existe um método de análise lingüística que seja tanto teoricamente adequado como viável na prática Meu objetivo principal neste livro é portanto desenvolver uma abordagem de análise lingüística que possa contribuir para preencher essa lacuna uma abordagem que será útil particularmente para investigar a mudança na linguagem e que será útil em estudos de mudança social e cultural Para atingir isso é necessário reunir métodos para analisar a linguagem desenvolvidos na lingüística e nos estudos de linguagem com o pensamento social e político relevante para desenvolver uma teoria social da linguagem adequada Entre os primeiros incluo trabalhos em vários ramos da lingüística vocabulário semântica gramática na pragmática e acima de tudo na análise de discurso que foram desenvolvidos nos últimos anos principalmente por lingüistas os vários sentidos de discurso e análise de discurso são discutidos resumidamente e incluo entre os últimos os trabalhos de Antonio Gramsci Louis Althusser Michel Foucault Jürgen Habermas e Anthony Giddens veja referências Tal síntese lá muito deveria ter sido feita mas há vários fatores que têm dificultado sua realização satisfatória até o momento Um é o isolamento dos estudos lingüísticos de outras ciências sociais e ainda a dominação da lingüística por paradigmas formalistas e Tradução de Izabel Magalhães cognitivos Dois outros fatores são a falta de interesse pela linguagem por parte de outras ciências sociais e uma tendência de considerar a linguagem transparente enquanto dados lingüísticos como entrevistas são amplamente usados há uma tendência em acreditar que o conteúdo social de tais dados pode ser lido sem atenção à própria linguagem Tais posições e atitudes estão mudando agora Os limites entre as ciências sociais estão enfraquecendo e uma maior diversidade de teoria e prática vem se desenvolvendo nas disciplinas Tais mudanças têmse feito acompanhar por uma virada lingüística na teoria social cujo resultado é um papel mais central conferido à linguagem nos fenômenos sociais As tentativas anteriores de síntese entre os estudos lingüísticos e a teoria social tiveram dessa forma sucesso limitado Por exemplo um grupo de lingüistas na GrãBretanha na década de 1970 desenvolveu uma lingüística crítica ao combinar as teorias e os métodos de análise textual da lingüística sistêmica Halliday 1978 com teorias de ideologia Algum tempo antes na França Michel Pêcheux e seus colegas começaram a desenvolver uma abordagem à análise de discurso que se baseou especialmente no trabalho do lingüista Zellig Harris e na reelaboração de uma teoria marxista de ideologia feita por Althusser Ambas as tentativas apresentam um desequilíbrio entre os elementos sociais e os lingüísticos da síntese embora tenham pontos negativos e positivos complementares nos primeiros a análise lingüística e o tratamento de textos lingüísticos estão bem desenvolvidos mas há pouca teoria social e os conceitos de ideologia e poder são usados com pouca discussão ou explicação enquanto no trabalho de Pêcheux a teoria social é mais sofisticada mas a análise lingüística é tratada em termos semânticos muito estreitos Além do mais ambas as tentativas estão baseadas em uma visão estática das relações de poder com ênfase exagerada no papel desempenhado pelo amoldamento ideológico dos textos lingüísticos na reprodução das relações de poder existentes Prestouse pouca atenção à luta e à transformação nas relações de poder e ao papel da linguagem aí Conferiuse ênfase semelhante à descrição dos textos como produtos acabados e deuse pouca atenção aos processos de produção e interpretação textual ou às tensões que caracterizam tais processos Como conseqüência essas tentativas de síntese não são adequadas para investigar a linguagem dinamicamente em processos de mudança social e cultural ver Capítulo 1 para uma discussão mais detalhada dessas abordagens e referência a tentativas mais recentes de aprimorálas e desenvolvêlas A síntese que tentarei realizar neste livro estará centrada como a de Pêcheux na análise de discurso e no conceito de discurso Discurso é um conceito difícil principalmente porque há tantas definições conflitantes e sobrepostas formuladas de várias perspectivas teóricas e disciplinares ver van Dijk 1985 McDonell 1986 sobre algumas dessas definições Na lingüística discurso é usado algumas vezes com referência a amostras ampliadas de diálogo falado em contraste com textos escritos Nesse sentido análise textual e análise de discurso não partilham a limitação tradicional da análise lingüística a frases ou a unidades gramaticais menores ao contrário focalizam as propriedades organizacionais de nível superior do diálogo por exemplo tomada de turno ou a estrutura de aberturas e fechamentos conversacionais ou de textos escritos por exemplo a estrutura de uma reportagem de crime em um jornal Mais comumente entretanto discurso é usado na lingüística com referência a amostras ampliadas de linguagem falada ou escrita Além de preservar a ênfase em aspectos organizacionais de nível superior esse sentido de discurso enfatiza a interação entre falante e receptora ou entre escritora e leitora portanto entre processos de produção e interpretação da fala e da escrita como também o contexto situacional do uso lingüístico Texto é considerado aqui como uma dimensão do discurso o produto escrito ou falado do processo de produção textual Sobre essa concepção de discurso como texto e interação ver Widdowson 1979 Finalmente discurso também é usado em relação a diferentes tipos de linguagem usada em diferentes tipos de situação social por exemplo discurso de jornal discurso publicitário discurso de sala de aula discurso de consultas médicas Por outro lado discurso é amplamente usado na teoria e na análise social como por exemplo no trabalho de Michel Foucault com referência aos diferentes modos de estruturação das áreas de conhecimento e prática social Dessa forma o discurso da discurso Essa abordagem é elaborada e aplicada a várias espécies de discurso em capítulos posteriores do livro Sugeri no início desta Introdução que as mudanças no uso linguístico são uma parte importante de mudanças sociais e culturais mais amplas Isso ocorre cada vez mais entretanto a afirmação precisa de mais explicação e justificativa As afirmações sobre a importância social da linguagem não são novas A teoria social em décadas recentes atribui à linguagem um lugar mais central na vida social ver Thompson 1984 Primeiro na teoria marxista Gramsci 1971 e Althusser 1971 enfatizam o significado da ideologia na reprodução social moderna e outros como Pêcheux 1982 identificam o discurso como a forma material linguística preeminente da ideologia ver no Capítulo 1 o item Pêcheux entendo por reprodução os mecanismos por meio dos quais as sociedades mantêm suas estruturas sociais e relações sociais ao longo do tempo Segundo Foucault 1979 ressalta a importância das tecnologias em formas modernas de poder e está claro que estas são exemplificadas centralmente na linguagem ver no Capítulo 2 o item Da arqueologia à genealogia Terceiro Habermas 1984 focaliza a colonização do mundo da vida pelos sistemas da economia e do Estado que considera em termos de um deslocamento de usos comunicativos da linguagem orientados para produzir a compreensão por usos estratégicos da linguagem orientados para o sucesso para conseguir que as pessoas realizem coisas A elevação da linguagem e do discurso na esfera social refletese de maneira variada em trabalhos por exemplo sobre as relações de gênero Spender 1980 ou a mídia van Dijk 1985b que focalizam a linguagem e na pesquisa sociológica que toma como dados a conversação Atkinson e Heritage 1984 O que está aberto ao debate é se tal teoria e pesquisa reconhecem a importância que a linguagem sempre teve na vida social mas que previamente não foi suficientemente reconhecida ou realmente refletem um destaque na importância social da linguagem Embora ambos os casos possam ser verdadeiros acredito que tenha havido mudança significativa no funcionamento social da linguagem alteração refletida na centralização da linguagem nas principais mudanças sociais ocorridas nas últimas décadas Muitas dessas ciência médica é atualmente o dominante na prática de assistência médica embora contraste com vários discursos holísticos alternativos por exemplo os da homeopatia e os da acupuntura como também com os discursos populares folclóricos Nesse sentido os discursos são manifestados nos modos particulares de uso da linguagem e de outras formas simbólicas tais como imagens visuais ver Thompson 1990 Os discursos não apenas refletem ou representam entidades e relações sociais eles as constroem ou as constituem diferentes discursos constituem entidadeschave sejam elas a doença mental a cidadania ou o letramento de diferentes modos e posicionam as pessoas de diversas maneiras como sujeitos sociais por exemplo como médicos ou pacientes e são esses efeitos sociais do discurso que são focalizados na análise de discurso Outro foco importante localizase na mudança histórica como diferentes discursos se combinam em condições sociais particulares para produzir um novo e complexo discurso Um exemplo contemporâneo é a construção social da doença Aids em que vários discursos como os discursos da venereologia da invasão cultural por estrangeiros da poluição são combinados para constituir um novo discurso o da Aids Esse sentido mais socioteórico de discurso será discutido adiante no Capítulo 2 Minha tentativa de reunir a análise linguística e a teoria social está centrada numa combinação desse sentido mais socioteórico de discurso com o sentido de texto e interação na análise de discurso orientada linguisticamente Esse conceito de discurso e análise de discurso é tridimensional Qualquer evento discursivo isto é qualquer exemplo de discurso é considerado como simultaneamente um texto um exemplo de prática discursiva e um exemplo de prática social A dimensão do texto cuida da análise linguística de textos A dimensão da prática discursiva como interação na concepção texto e interação de discurso especifica a natureza dos processos de produção e interpretação textual por exemplo que tipos de discurso incluindo discursos no sentido mais socioteórico são derivados e como se combinam A dimensão de prática social cuida de questões de interesse na análise social tais como as circunstâncias institucionais e organizacionais do evento discursivo e como elas moldam a natureza da prática discursiva e os efeitos constitutivosconstrutivos referidos anteriormente Acrescentaria que texto é usado neste livro em um sentido que é bastante familiar na linguística mas não alhures para referir a qualquer produto escrito ou falado de tal maneira que a transcrição de uma entrevista ou conversa por exemplo seria denominada um texto A ênfase neste livro é sobre a linguagem e portanto textos linguísticos mas é muito apropriado estender a noção de discurso a outras formas simbólicas tais como imagens visuais e textos que são combinações de palavras e imagens por exemplo na publicidade ver Hodge e Kress 1988 Usarei o termo discurso sem um artigo para referir ao uso linguístico considerado do modo tridimensional citado anteriormente por exemplo a posição dos sujeitos sociais é realizada no discurso e referirmeei a tipos de discurso aos quais as pessoas recorrem quando se envolvem no discurso significando convenções como gêneros de discurso e estilos No Capítulo 4 também começarei a usar o termo discurso com um artigo um discurso os discursos o discurso da biologia no sentido socioteórico para uma classe particular de tipos de discurso ou convenções Também referirmeei às práticas discursivas de instituições organizações ou sociedades particulares em contraste com prática discursiva como uma dimensão analiticamente distinta do discurso A justificativa para o conceito multidimensional de discurso e para a análise de discurso delineada anteriormente é apresentada nos capítulos de 1 a 3 O Capítulo 1 é um estudo de abordagens da análise de discurso que são orientadas linguisticamente isto é elas focalizam os textos e a análise textual Argumentarei que essas abordagens dão atenção insuficiente a aspectos sociais importantes do discurso para os quais é preciso recorrer à teoria social No Capítulo 2 comento tais perspectivas sociais do discurso no trabalho de Michel Foucault um teórico social que tem sido uma influência de destaque no desenvolvimento da análise de discurso como forma de análise social No Capítulo 2 argumento ainda que a maior atenção aos textos e à análise linguística aumentaria o valor da análise de discurso como método na pesquisa social Em seguida no Capítulo 3 apresento minha abordagem multidimensional como síntese das concepções de discurso com orientação social e linguística avançando para o que denomino teoria social do mudanças sociais não envolvem apenas a linguagem mas são constituídas de modo significativo por mudanças nas práticas de linguagem e talvez seja uma indicação da importância crescente da linguagem na mudança social e cultural que tentativas de definir a direção da mudança cada vez mais incluam tentativas de mudar as práticas de linguagem Darei alguns exemplos Primeiro em muitos países houve recentemente um movimento de extensão do mercado a novas áreas da vida social setores como a educação a assistência médica e as artes foram obrigados a reestruturar e a reconceituar suas atividades como produção e marketing de bens para consumidores Urry 1987 Tais mudanças afetam profundamente as atividades as relações sociais e as identidades sociais e profissionais das pessoas que trabalham em tais setores Grande parte de seu impacto diz respeito a mudanças nas práticas discursivas isto é mudanças na linguagem Por exemplo na educação as pessoas encontramse sob pressão para se envolver com novas atividades que são definidas em grande parte por novas práticas discursivas como marketing e para adotar novas práticas discursivas em atividades existentes como o ensino Isso inclui relexicalizações de atividades e relações por exemplo a relexicalização dos aprendizes como consumidores ou clientes de cursos como pacotes ou produtos Inclui também uma reestruturação mais sutil das práticas discursivas da educação os tipos de discurso gêneros estilos etc que aí são usados e a colonização da educação por tipos de discurso exteriores incluindo os da publicidade os da administração e os da terapia Além disso a indústria está passando por mudanças no sentido do que é denominado produção pósfordiana Bagguley e Lash 1988 Bagguley 1990 em que os operários não mais funcionam como indivíduos que desempenham rotinas repetitivas em um processo de produção invariante mas como grupos em relação flexível com um processo acelerado de mudança Acrescentese que as relações tradicionais empregadofirma são consideradas pelas administrações como disfuncionais nesse contexto portanto elas têm tentado transformar a cultura do local de trabalho por exemplo ao estabelecer instituições que posicionam os empregados em uma relação mais participativa com a gerência como nos círculos de práticas discursivas em instituições particulares ou mesmo em toda uma sociedade No nível de textos considero esses processos em termos de intertextualidade ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva e o Capítulo 4 os textos são construídos por meio da articulação de outros textos de modos particulares modos que dependem de circunstâncias sociais e mudam com elas No nível de ordens de discurso as relações entre práticas discursivas e limites entre estas em uma instituição ou na sociedade mais ampla são modificadas segundo as direções seguidas pela mudança social Quarto seria necessário um método crítico Tipicamente as relações entre a mudança discursiva social e cultural não são transparentes para as pessoas envolvidas Nem tampouco o é a tecnologização do discurso Crítico implica mostrar conexões e causas que estão ocultas implica também intervenção por exemplo fornecendo recursos por meio da mudança para aqueles que possam encontrarse em desvantagem Nesse sentido é importante evitar uma imagem da mudança discursiva como um processo unilinear de cima para baixo há luta na estruturação de textos e ordens de discurso e as pessoas podem resistir às mudanças que vêm de cima ou delas se apropriar como também simplesmente as seguir ver no Capítulo 3 o item Discurso e o Capítulo 7 Para concluir esta Introdução apresentarei uma breve discussão do tratamento dado à mudança discursiva nos capítulos de 3 a 7 O Capítulo 3 apresenta minha síntese de concepções de discurso social e linguisticamente orientadas Minha formulação da análise na dimensão da prática discursiva está centrada no conceito de intertextualidade Entretanto minha formulação da análise na dimensão da prática social está centrada nos conceitos de ideologia e essencialmente de hegemonia no sentido de um modo de dominação que se baseia em alianças na incorporação de grupos subordinados e na geração de consentimento As hegemonias em organizações e instituições particulares e no nível societário são produzidas reproduzidas contestadas e transformadas no discurso Além disso pode ser considerada a estruturação de práticas discursivas em modos particulares nas ordens de discurso nas quais se naturaliza e ganha ampla aceitação como uma forma de hegemonia especificamente cultural É a combinação dos conceitos de intertextualidade e hegemonia que torna a teoria do Capítulo 3 útil para investigar a mudança discursiva em relação à mudança social e cultural A seleção de textos prévios e de tipos de texto que são articulados em uma dada instância um evento discursivo particular e a maneira como são articulados dependem de como o evento discursivo se situa em relação às hegemonias e às lutas hegemônicas se por exemplo ele contesta práticas e relações hegemônicas existentes ou ao contrário tomaas como dadas A abordagem da mudança discursiva apresentada no Capítulo 3 combina uma concepção de texto e prática discursiva que deriva do conceito de intertextualidade de Bakhtin via Kristeva Bakhtin 1981 e 1986 Kristeva 1986a e uma concepção de poder que deriva da teoria de hegemonia de Gramsci Gramsci 1971 BuciGlucksmann 1980 A teoria do Capítulo 3 é elaborada nos capítulos que se seguem O Capítulo 4 toma o conceito de intertextualidade em termos de uma distinção entre intertextualidade manifesta a presença explícita de outros textos em um texto e interdiscursividade a constituição de um texto com base numa configuração de tipos de texto ou convenções discursivas Sugiro um modo de diferenciar gêneros de discurso discursos estilos e tipos de atividade como convenções discursivas distintas O Capítulo 4 também discute a intertextualidade em relação à distribuição social de textos e as transformações que sofrem e em relação à construção da identidade social no discurso Nos capítulos 5 e 6 a ênfase é na análise textual Esses capítulos examinam aspectos do vocabulário da gramática da coesão da estrutura textual da força e da coerência textual sobre esses termos ver no Capítulo 3 o item Discurso como texto Também desenvolvem uma concepção multifuncional da análise de discurso o Capítulo 5 versa principalmente sobre a função do discurso na constituição de identidades sociais e relações sociais enquanto o foco do Capítulo 6 é sobre constituição reprodução e mudança dos sistemas de conhecimento e crença no discurso No Capítulo 7 a ênfase é sobre a dimensão de prática social do discurso e especialmente sobre determinadas tendências amplas de mudança que afetam ordens de discurso contemporâneas democratização comodificação e tecnologização do discurso e sua relação com mudanças sociais e culturais As análises de mudança nos capítulos de 4 a 7 ilustram uma variedade de campos e instituições com análise detalhada de amostras de discurso Uma questão examinada no Capítulo 4 é o modo como os meios de comunicação de massa estão modificando o limite entre as esferas públicas e privadas da vida social Isso envolve não apenas questões ligadas ao conteúdo do discurso da mídia tal como o tratamento de aspectos da vida privada como notícia pública mas também se manifesta intertextualmente em uma mescla de práticas discursivas da esfera privada com aquelas da esfera pública resultando no uso por alguns setores da mídia de uma versão estereotipada da fala popular Uma outra questão é a pressão nas indústrias de serviços para tratar os serviços como bens e os clientes como consumidores que se evidencia na mescla das práticas discursivas de prestação de informações e de publicidade No Capítulo 5 discuto mudanças nas identidades sociais de profissionais e seus clientes e na natureza da interação entre eles focalizando médicos e pacientes Sugiro que as mudanças nas identidades e nas relações de médicos e pacientes se realizem discursivamente na mudança de consultas médicas formais para consultas mais informais que podem incorporar as práticas discursivas da terapia àquelas da medicina mais tradicional O Capítulo 6 incluiu amostras de dois livretos de assistência prénatal que exemplificam representações opostas de processos prénatais Prossigo discutindo a engenharia da mudança semântica como parte de uma tentativa de realização de mudança cultural com referência específica às falas de um ministro do governo Thatcher sobre o tema da cultura empresarial O Capítulo 7 retoma o tema da comodificação e a mescla de prestação de informação e publicidade agora com referência à educação usando o exemplo de um prospecto de universidade O objetivo deste livro é persuadir os leitores de que a análise de discurso é um tipo de análise interessante de fazer e provêlos com os recursos para realizála O último capítulo do livro o Capítulo 8 reúne os assuntos introduzidos nos capítulos de 3 a 7 na forma de um conjunto de instruções para fazer análise de discurso Tais instruções referemse à coleta à transcrição e à codificação de textos ao uso de resultados como também à análise Capítulo 1 Abordagens da análise de discurso Meu objetivo neste capítulo é descrever brevemente algumas abordagens recentes e atuais para a análise de discurso como contexto e base para a elaboração de minha própria abordagem nos capítulos de 3 a 8 A análise de discurso é agora uma área de estudo muito diversificada com uma variedade de abordagens em um grupo de disciplinas exemplos dessa variedade estão representados em van Dijk 1985a A pesquisa de abordagens neste capítulo é portanto necessariamente seletiva Selecionei abordagens que de algum modo combinam a análise detalhada de textos linguísticos com uma orientação social para o discurso Isso corresponde ao meu objetivo em capítulos posteriores de realizar uma combinação efetiva e útil de análise textual e outros modos de análise social Também conferi um tratamento seletivo às abordagens focalizando os aspectos que são mais próximos às minhas prioridades neste livro As abordagens investigadas podem ser divididas em dois grupos segundo a natureza de sua orientação social para o discurso distinguindose abordagens nãocríticas e críticas Tal divisão não é absoluta As abordagens críticas diferem das abordagens nãocríticas não apenas na descrição das práticas discursivas mas também ao mostrarem como o discurso é moldado por relações de poder e ideologias e os efeitos construtivos que o discurso exerce sobre as identidades sociais as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença nenhum dos quais é normalmente aparente Tradução de Izabel Magalhães Atos são funcionais e não categorias formais e uma questão central é a relação entre eles e as categorias formais da gramática essa questão vem recebendo muita atenção na pragmática ver Levinson 1983 Leech e Thomas 1989 Sabese bem que não existem correspondências simples Por exemplo uma frase interrogativa uma pergunta gramatical pode ser uma diretiva como também uma provocação por exemplo Você pode fechar as cortinas e uma frase declarativa afirmativa gramatical pode ser qualquer um desses últimos ou um ato informativo por exemplo As cortinas não estão fechadas pode pedir uma confirmação pedir a alguém que as feche ou apenas prestar informação Sinclair e Coulthard referemse ao que denominam situação e tática para determinar a função de uma frase em um exemplo particular de discurso A primeira traz fatores situacionais que são relevantes por exemplo se as crianças sabem que não é permitido conversar na sala uma frase declarativa doa professora Você está conversando provavelmente será interpretada como um comando para parar Como Labov e Fanshel veja adiante Sinclair e Coulthard propõem regras interpretativas que abrangem tanto a forma linguística das frases como os fatores situacionais Tática trata da influência da posição sequencial de uma frase no discurso sobre sua interpretação Por exemplo uma frase declarativa como Talvez seja diferente do ponto de vista da mulher após um retorno em uma série de trocas provocativas isto é na qual seria antecipado um lance iniciador é passível de ser interpretada como provocação apesar do fato de a maioria das declarativas não ser provocações e de a maioria das provocações ser frases interrogativas O ponto forte da teoria de Sinclair e Coulthard está no modo pioneiro pelo qual chama atenção para as propriedades organizacionais sistemáticas do diálogo e fornece modos para sua descrição As limitações dessa teoria são a ausência de desenvolvimento de uma orientação social para o discurso e a insuficiente atenção à interpretação Tais limitações podem estar relacionadas à escolha de dados eles se concentram em uma modalidade de discurso de sala de aula tradicional centrada noa professora e os dados não refletem a diversidade das atuais práticas de sala de aula Isso leva a que o discurso de sala de aula pareça mais homogêneo do que realmente é e naturaliza práticas dominantes ao apresentálas como se fossem as únicas Elas aparecem como se simplesmente estivessem lá disponíveis para a descrição e não como tendo sido postas lá por meio de processos de contestação a práticas alternativas não como práticas investidas ver no Capítulo 3 o item Ideologia de ideologias particulares por exemplo concepções de aprendizagem e de aprendizes e auxiliares na manutenção de relações de poder particulares na sociedade Em resumo falta na abordagem de Sinclair e Coulthard uma orientação social desenvolvida ao deixar de considerar como as relações de poder moldam as práticas discursivas e ao deixar de situar historicamente o discurso de sala de aula em processos de luta e mudança social Uma característica surpreendente da prática de sala de aula contemporânea é sua diversidade indagase por que o discurso de sala de aula tradicional que eles descrevem está sob pressão e o que está em jogo A homogeneidade dos dados também desvia a atenção da ambivalência do discurso de sala de aula e da diversidade de interpretações possíveis Considere este exemplo de Coulthard 1977108 Professor Que tipo de pessoa você acha que ele é Você de que está rindo Aluno De nada P Como A De nada P Você não está rindo de nada nada mesmo A Não É engraçado mesmo porque eles não acham que se estivessem lá poderiam não gostar disso e soa de certo como uma atitude arrogante Sinclair e Coulthard consideram esse exemplo uma interpretação errônea da situação pelo aluno tomando assim a pergunta do professor sobre o riso como disciplinar na intenção em vez de dialógica mas tais exemplos também indicam a heterogeneida para os participantes do discurso As abordagens que classifiquei como basicamente nãocríticas são os pressupostos para a descrição do discurso de sala de aula de Sinclair e Coulthard 1975 o trabalho etnometodológico da análise da conversação o modelo de discurso terapêutico de Labov e Fanshel 1977 e uma abordagem recente da análise de discurso desenvolvida pelos psicólogos sociais Potter e Wetherell 1987 As abordagens críticas que incluí são a linguística crítica de Fowler et al 1979 e a abordagem francesa da análise de discurso desenvolvida com base na teoria de ideologia de Althusser por Pêcheux Pêcheux 1982 Concluise o capítulo com um resumo de questõeschave na análise de discurso retiradas dessa pesquisa que servirão como ponto de partida para a apresentação de minha própria abordagem no Capítulo 3 Sinclair e Coulthard Sinclair e Coulthard 1975 ver também Coulthard 1977 tiveram o propósito de elaborar um sistema descritivo geral para a análise de discurso mas decidiram focalizar a sala de aula por tratarse de uma situação formal cuja prática discursiva é passível de ser governada por regras claras O sistema descritivo está baseado em unidades que se supõe estejam na mesma relação umas com as outras como unidades nas formas iniciais da gramática sistêmica Halliday 1961 há uma escala hierárquica de unidades com unidades hierarquicamente superiores formandose de unidades do nível abaixo Dessa forma na gramática uma frase é formada de orações que são formadas de grupos e assim por diante Da mesma forma no discurso de sala de aula há cinco unidades de hierarquia descendente aula transação troca lance ato de tal modo que uma aula é formada de transações que são formadas de trocas e assim por diante Sinclair e Coulthard têm pouco a dizer sobre a aula mas sugerem uma estrutura clara para a transação Transações consistem de trocas São abertas e fechadas por trocas limite que consistem minimamente de lances estruturadores com outros lan ces ou sem eles Por exemplo Bem hoje imaginei que faríamos três testes consiste de um lance estruturador bem e um lance focalizador que informa à turma sobre o que será a transação Entre as trocas limite há geralmente uma sequência de trocas informativas diretivas ou provocativas em que se realizam respectivamente afirmativas pedidos ou comandos e perguntas geralmente peloa professora Vamos examinar a estrutura de um tipo de troca a troca provocativa Este consiste tipicamente de três lances iniciador resposta e retorno Por exemplo Professor Você pode me dizer por que você come toda essa comida Sim Aluno Para ficar forte P Para ficar forte Sim Para ficar forte Por que você quer ser forte A primeira contribuição do professor é um lance iniciador a contribuição do aluno é uma resposta e a primeira linha da segunda contribuição do professor é o retorno a segunda linha é outro lance iniciador Note que uma contribuição enunciado pode consistir de mais de um lance A presença consistente de retorno pressupõe que os professores têm o poder de avaliar as contribuições dos alunos raramente alguém se arriscaria a fazer isso fora de uma situação de aprendizagem e mostra que grande parte do discurso de sala de aula concerne à avaliação do conhecimento dos alunos e ao seu treinamento para dizer coisas que são relevantes segundo critérios estabelecidos pelas escolas Um lance consiste de um ou mais atos Sinclair e Coulthard distinguem 22 atos para o discurso de sala de aula alguns dos quais como pronto quando uma criança pede o direito de responder talvez levantando a mão são bastante específicos desse tipo de discurso Outros são menos específicos o lance iniciador de uma troca provocativa inclui por exemplo uma provocação enquanto o lance iniciador de uma troca diretiva inclui uma diretiva potencial do discurso de sala de aula a coexistência nas escolas de um repertório de discursos de sala de aula que os produtores e os intérpretes de textos precisam ter em mente Isso implica atenção aos processos discursivos tanto em relação à interpretação como à produção enquanto a ênfase de Sinclair e Coulthard está nos textos como produtos do discurso embora a categoria tática implique alguma atenção à interpretação Isso também torna sua atenção como analistas problemática já que os analistas interpretam os textos em vez de simplesmente descrevêlos Ao alegar que descrevem os dados não estão Sinclair e Coulthard realmente interpretandoos na perspectiva do professor Por exemplo consideraram que o aluno cometeu um erro ao interpretar o professor e não o contrário que o aluno talvez tenha dado uma resposta evasiva a uma pergunta ambivalente do professor Afinal de contas nada também é ambivalente poderia significar Não posso dizerlhe o que me faz rir aqui Isso levanta outro problema na teoria ela força decisões sobre as funções dos enunciados mas os enunciados com frequência são realmente ambivalentes para os intérpretes não apenas ambíguos como demonstra recente trabalho na pragmática ver Levinson 1983 isto é não se pode decidir com clareza sobre seus sentidos Análise da conversação Análise da conversação AC é uma abordagem da análise de discurso que foi desenvolvida por um grupo de sociólogos que se autodenominam etnometodologistas A etnometodologia é uma abordagem interpretativa da sociologia que focaliza a vida cotidiana como feito dependente de habilidades e os métodos que as pessoas usam para produzila Garfinkel 1967 Benson e Hughes 1983 A tendência entre os etnometodologistas é evitar a teoria geral e a discussão ou o uso de conceitos como classe poder e ideologia que constituem preocupação central na sociologia regular Alguns etnometodologistas demonstram interesse particular na conversação e nos métodos que seus praticantes usam para produzila e interpretála Schenkein 1978 Atkinson e Heritage 1984 restrições ao que possa seguilo Exemplos particularmente claros são os pares adjacentes como pergunta e resposta uma pergunta produzida por uma falante implica seqüencialmente uma resposta de outroa ou reclamação e desculpa A evidência para que x implique seqüencialmente y inclui 1 o fato de que qualquer coisa que ocorra após x se for de qualquer modo possível será tomada como y por exemplo se Essa é sua esposa é seguida por Bem não é minha mãe a última deverá ser tomada como uma resposta positiva implicada e 2 o fato de que se y não ocorrer sua ausência será notada e comumente oferece margem para uma inferência por exemplo se os professores deixam de dar retorno às respostas dos alunos isso pode ser tomado como uma rejeição implícita destes Segundo Atkinson e Heritage 1984 6 virtualmente todo enunciado ocorre em algum local estruturalmente definido na conversa Uma implicação disso é que os turnos exibem uma análise de turnos prévios fornecendo evidência constante no texto de como os enunciados são interpretados Outra implicação é que a posição sequencial de um enunciado é por si só bastante para determinar seu sentido Mas esse ponto é altamente questionável por dois motivos 1 os efeitos da sequência sobre o sentido variam segundo o tipo de discurso 2 como sugeri quando discuti Sinclair e Coulthard podese recorrer a uma variedade de tipos de discurso durante uma interação e os participantes como produtores e intérpretes constantemente têm de negociar suas posições em relação a esse repertório Considere esta passagem de uma consulta médica que analiso no Capítulo 5 Exemplo 2 Paciente e eu acho que uma das razões pelas quais eu bebia tanto sabe e ahm Médico hum hum hum hum você voltou você voltou você voltou a beber novamente P não M ah você não voltou ininteligível P não mas ahm uma coisa que a senhora me disse na terçafeira Vou sugerir em minha análise desse fragmento de consulta que ela é um misto de consulta médica e terapia Nessa mescla o que diz a seqüência à intérprete sobre a pergunta do médico em seu primeiro turno Em uma consulta médica mais convencional uma pergunta doa médicoa imediatamente após oa paciente terse referido a uma condição médica possivelmente perigosa aqui a bebida provavelmente seria tomada como uma questão médica exigindo atenção completa de ambos os participantes Em uma sessão de terapia tal pergunta poderia ser tomada de modo mais conversacional como um comentário lateral mostrando que oa terapeuta está em sintonia com os problemas doa paciente Aqui a paciente parece tomála como um comentário lateral ela dá respostas mecânicas de uma palavra à pergunta principal e ao assentimento talvez um teste do médico à resposta e muda o assunto de volta à narrativa de eventos recentes Para tomar tal decisão interpretativa a paciente precisa de informações adicionais à seqüência ela precisa avaliar a natureza do evento social a relação social entre ela e o médico e o tipo de discurso Isso implica uma concepção de processos discursivos e interpretação que é mais complexa do que é geralmente pressuposto na AC uma concepção que pode por exemplo acomodar produtores e intérpretes negociando seu caminho em repertórios de tipos de discurso O exemplo também sugere que a própria análise é um processo de interpretação e portanto uma prática contenciosa e problemática Há pouca preocupação com isso na AC Mas como Sinclair e Coulthard há uma tendência entre os analistas a interpretar os dados com base em uma orientação partilhada entre os participantes para um único tipo de discurso entretanto ver Jefferson e Lee 1981 O efeito é apresentar um quadro da conversa excessivamente harmonioso e cooperativo Há também um negligenciamento do poder como um fator na conversação Nos processos de negociação a que me referi alguns participantes tipicamente têm mais força do que outros e em muitos tipos de discurso por exemplo discurso de sala de aula não encontramos regras partilhadas para a tomada de turno em que os participantes têm direitos e obrigações iguais mas uma distribuição assimétrica de direitos por exemplo para autoselecionaremse interromperem manterem o piso em vários turnos e obrigações por exemplo tomar o turno se forem chamados Em tais casos é evidente que produzir o discurso faz parte de processos mais amplos de produção da vida social das relações sociais e das identidades sociais mas grande parte da AC em sua leitura harmoniosa da interação entre iguais dá a impressão de que produzir o discurso é um fim em si mesmo Apesar de diferentes pontos de partida e orientações disciplinares e teóricas as abordagens de Sinclair e Coulthard e da AC têm forças e limitações bastante similares ambas fizeram contribuições importantes para uma nova apreciação da natureza das estruturas no diálogo mas nenhuma das duas desenvolve uma orientação social para o discurso a esse respeito a AC sofre das mesmas limitações de Sinclair e Coulthard e nem fornece uma explicação satisfatória dos processos discursivos e da interpretação embora a AC apresente considerável reflexão sobre determinados aspectos da interpretação Labov e Fanshel O trabalho de Labov e Fanshel 1977 é um estudo de um lingüista e um psicólogo sobre o discurso da entrevista psicoterapêutica Ao contrário de Sinclair e Coulthard e da AC Labov e Fanshel assumem a heterogeneidade do discurso que para eles reflete as contradições e pressões p 35 da situação de entrevista Eles concordam com Goffman 1974 que as mudanças entre molduras são um aspecto normal da conversação e identificam nos seus dados uma configuração de diferentes estilos associados a diferentes molduras o estilo da entrevista o estilo cotidiano usado nas narrativas de pacientes sobre a vida desde a última visita N para narrativa a seguir e o estilo da família F a se Termo da AC que significa manter o espaço sociopsicológico ou ter o controle dos turnos conversacionais N da T a chefe da família têm implicações gerais na cultura em termos de obrigações do papel e outras são parte dos pressupostos correntes da terapia por exemplo o terapeuta não diz à paciente o que fazer ou da cultura por exemplo cada um deve cuidar de si As proposições raramente são formuladas explicitamente mas a questão principal numa interação pode ser se um evento é ou não um exemplo de proposição Além disso as proposições constituem conexões implícitas entre partes de uma interação que são importantes para sua coerência A seção transversal é então analisada como interação significando uma ação que afeta as relações do eu e outros Supõese que qualquer enunciado realize simultaneamente algumas ações que são hierarquicamente ordenadas de modo que ações de nível superior são realizadas por meio de ações de nível inferior uma relação marcada por conseqüentemente a seguir Assim para o exemplo anterior simplifiquei a representação de Labov e Fanshel Rhoda a paciente continua a narrativa e fornece informações para sustentar sua asserção de que realizou a sugestão S Rhoda requer informações sobre a hora em que sua mãe pretende voltar para casa por conseqüente solicita indiretamente que a mãe volte para casa portanto realizando a sugestão S conseqüentemente questionando a mãe indiretamente por não desempenhar de forma adequada seu papel como chefe da família simultaneamente admitindo suas próprias limitações simutaneamente afirmando novamente que realizou a sugestão A proposição S é a sugestão do terapeuta de que devemos expressar nossas necessidades a outras pessoas Tais representações são baseadas em regras discursivas propostas por Labov e Fanshel para interpretar as formas de superfície dos enunciados como tipos particulares de ação Por exemplo há uma regra de pedidos indiretos que especifica as condições sob as quais se tomam perguntas pedidos de informação como pedidos de ação A análise é completada com regras seqüenciais de combinação das seções transversais Labov e Fanshel referemse a sua abordagem como análise de discurso abrangente e seu detalhamento é de certo impressio nante embora também como indicam consuma muito tempo Eles próprios identificam alguns problemas as pistas paralingüísticas são reconhecidamente difíceis de interpretar as expansões podem ser feitas interminavelmente e inexiste um ponto obviamente motivado para a segmentação e as expansões têm o efeito de aplainar importantes diferenças entre elementos de primeiro e segundo plano no discurso Entretanto quero focalizar minha discussão sobre duas importantes percepções em sua abordagem que precisam ser levadas adiante A primeira é a visão de que o discurso pode ser estilisticamente heterogêneo por causa de contradições e pressões na situação de fala Por exemplo no caso do discurso terapêutico a sugestão é que o uso do estilo cotidiano e familiar é parte de uma estratégia da paciente para estabelecer algumas partes da conversa como imunes à habilidade intrusa do terapeuta Mencionei anteriormente a similaridade desse ponto com o conceito de molduras de Goffman O princípio da heterogeneidade do discurso é um elemento central em minha discussão de intertextualidade ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva Mencionarei aqui apenas duas diferenças entre minha posição e a de Labov e Fanshel Primeiro o encaixe de um estilo em outro como no exemplo anterior é apenas uma forma de heterogeneidade e freqüentemente toma formas mais complexas em que os estilos são difíceis de separar Segundo a visão deles sobre heterogeneidade é muito estática eles consideram o discurso terapêutico como uma configuração estável de estilos mas não analisam a heterogeneidade dinamicamente como mudanças históricas nas configurações de estilos O valor principal do princípio da heterogeneidade parece estar na investigação da mudança discursiva dentro da mudança social e cultural mais ampla ver no Capítulo 3 o item Mudança discursiva para uma elaboração dessa perspectiva A segunda percepção é que o discurso é construído sobre proposições implícitas que são tomadas como tácitas pelos participantes e que sustentam sua coerência Novamente esse é um princípio importante cujo potencial e cujas implicações não são desenvolvidos por Labov e Fanshel Particularmente eles não atentam para o caráter ideológico de algumas dessas proposições tais como as obrigações associadas ao papel de mãe ou a ideologia individualista do eu na proposição cada um deve cuidar de si ou para o trabalho ideológico da terapia em sua reprodução sem questionamento que é reminiscente de críticas da terapia como um mecanismo para adequar as pessoas a papéis sociais convencionais Em outras palavras Labov e Fanshel aproximamse de uma análise crítica do discurso terapêutico fornecendo recursos analíticos valiosos para tal análise Potter e Wetherell Como exemplo final de uma abordagem nãocrítica à análise de discurso discutirei o uso por Potter e Wetherell 1987 da análise de discurso como um método na psicologia social Isso é interessante no presente contexto primeiro porque mostra como a análise de discurso pode ser usada para estudar questões que têm sido abordadas tradicionalmente com outros métodos e segundo porque levanta a questão se a análise de discurso concerne principalmente à forma ou ao conteúdo do discurso Veja a crítica a Sinclair e Coulthard em Thompson 1984 106108 por serem formalistas e por negligenciarem o conteúdo do discurso de sala de aula A defesa da análise de discurso por Potter e Wetherell como um método para psicólogos sociais baseiase em um único argumento que é sucessivamente aplicado a várias áreas fundamentais da pesquisa na psicologia social O argumento é que a psicologia social tradicional distorce e mesmo suprime propriedadeschave dos materiais lingüísticos que usa como dados que o discurso é construtivo e conseqüentemente constitui objetos e categorias e que o que uma pessoa diz não permanece consistente de uma ocasião a outra mas varia segundo as funções da fala Primeiro o argumento é aplicado à pesquisa sobre atitudes a pesquisa tradicional pressupuõha que as pessoas tinham atitudes consistentes sobre objetos tais como imigrantes de cor enquanto a análise de discurso mostra não apenas que as pessoas fazem avaliações diferentes e até contraditórias de um objeto de acordo com o contexto mas também que o próprio objeto é construído diferentemente dependendo de sua avaliação então imigrantes de cor é uma construção que muitas pessoas rejeitariam O argumento é então aplicado ao estudo de como as pessoas usam regras como as pessoas produzem relatos explicativos de seu comportamento desculpas justificativas etc e assim por diante argumentandose em cada caso a favor da superioridade da análise de discurso sobre outros métodos tais como os métodos experimentais Potter e Wetherell contrastam a priorização do conteúdo em sua abordagem com a priorização da forma na teoria da acomodação da fala na psicologia social Esta focaliza a maneira como as pessoas modificam a fala de acordo com a pessoa a quem falam e assim com a variabilidade da forma lingüística segundo o contexto e a função enquanto na primeira eles abordam a variabilidade do conteúdo lingüístico Em alguns casos o foco é sobre o conteúdo proposicional dos enunciados e sobre os tipos de argumento nos quais as proposições funcionam Por exemplo ao pesquisarem atitudes registram o que os informantes da Nova Zelândia dizem a respeito da repatriação dos imigrantes polinésios Em outros casos o foco é sobre o vocabulário e a metáfora por exemplo os predicados verbos adjetivos e as metáforas usados relativos à comunidade em reportagens da mídia sobre os distúrbios urbanos na GrãBretanha em 1980 Na verdade a distinção formaconteúdo não é tão clara como pode parecer Há aspectos de conteúdo que claramente estão ligados a questões de forma por exemplo a metáfora pode ser uma questão de fusão de diferentes domínios de sentido mas também é uma questão de quais palavras são usadas em um texto um aspecto de sua forma E do mesmo modo aspectos de forma estão ligados ao conteúdo a mescla de estilos no discurso terapêutico identificada por Labov e Fanshel é em um nível a mescla de formas referese por exemplo às linhas de entonação que são típicas do estilo da família mas é também significativa em termos de conteúdo por exemplo em termos da construção da paciente como um tipo particular de eu ou sujeito O quadro analítico de Potter e Wetherell é pobre em comparação com outras abordagens seu conteúdo reduzse a aspectos limitados do significado ideacional ou conceitual do discurso o que deixa intocadas outras dimensões de significado em termos amplos interpessoais e aspectos associados de forma Os significados ideacionais e interpessoais são explicados em maiores detalhes no Capítulo 3 item Discurso É no tratamento dado ao eu por Potter e Wetherell que essas limitações analíticas se tornam mais aparentes Ao contrário de tratamentos tradicionais do eu na psicologia social eles adotam uma posição construtivista que enfatiza a constituição variável do eu no discurso Mas eles são incapazes de operacionalizar adequadamente essa teoria em sua análise de discurso porque como argumentarei adiante Capítulo 5 Exemplo 1 Entrevista médica padrão diferentes eus são sinalizados implicitamente por meio de configurações de muitos aspectos diversos do comportamento verbal como também nãoverbal e é necessário um aparato analítico mais rico do que o de Potter e Wetherell para descrevêlos Como outras abordagens referidas a de Potter e Wetherell é insuficientemente desenvolvida em sua orientação social para o discurso Há em sua análise de discurso uma ênfase individualista parcial sobre as estratégias retóricas dos falantes A discussão do eu é uma exceção aparente porque uma visão construtivista do eu enfatiza a ideologia e a moldagem social do eu no discurso mas essa teoria é pouco adequada à orientação predominante do livro além de não ser operacionalizada na análise de discurso Finalmente há uma tendência para a atividade estratégica ou retórica do eu ao se usarem categorias regras etc como alternativas à sujeição do eu em lugar de se tomarem as duas em uma síntese dialética ver Capítulo 3 item Discurso para uma elaboração dessa visão Linguística crítica Linguística crítica foi uma abordagem desenvolvida por um grupo da Universidade de East Anglia na década de 1970 Fowler et al 1979 Kress e Hodge 1979 Eles tentaram casar um método de análise linguística textual com uma teoria social do funcionamento da linguagem em processos políticos e ideológicos recor rendo à teoria linguística funcionalista associada com Michael Halliday 1978 1985 e conhecida como linguística sistêmica Considerandose suas origens disciplinares não surpreende que a linguística crítica estivesse ansiosa por distinguirse da linguística regular na época mais firmemente dominada pelo paradigma chomskyano do que agora e da sociolinguística ver Fowler et al 1979 185195 São rejeitados dois dualismos prevalecentes e relacionados na teoria linguística o tratamento dos sistemas linguísticos como autônomos e independentes do uso da linguagem e a separação entre significado e estilo ou expressão ou entre conteúdo e forma Contra o primeiro dualismo a linguística crítica afirma com Halliday que a linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social Halliday 1973 65 e argumenta que a linguagem à qual as pessoas têm acesso depende de sua posição no sistema social Contra o segundo dualismo a linguística crítica apóia a concepção de Halliday da gramática de uma língua como sistemas de opções entre as quais os falantes fazem seleções segundo as circunstâncias sociais assumindo que opções formais têm significados contrastantes e que as escolhas de formas são sempre significativas A sociolinguística é criticada porque meramente estabelece correlações entre linguagem e sociedade em vez de buscar relações causais mais profundas incluindo os efeitos da linguagem na sociedade a linguagem serve para confirmar e consolidar as organizações que a moldam Fowler et al 1979 190 A citação de Halliday no último parágrafo diz mais A linguagem é como é por causa de sua função na estrutura social e a organização dos sentidos comportamentais deve propiciar percepção de suas fundações sociais Halliday 1973 65 Kress 1989 445 sugere que a linguística crítica desenvolveu a afirmação contida na segunda parte da citação mas na verdade não aquela contida na primeira ela tentou compreender estruturas das fundações sociais da organização dos sentidos comportamentais nos textos A linguística crítica novamente toma uma posição conforme Halliday em oposição à prática da linguística regular e da sociolinguística ao tomar textos completos falados ou escritos como objetos de análise Estendese a hipótese SapirWhorf de que a linguagem incorpora visões de mundo particulares a variedades da mesma língua os textos particulares incorporam ideologias ou teorias particulares e o propósito é a interpretação crítica de textos a recuperação dos sentidos sociais expressos no discurso pela análise das estruturas linguísticas à luz dos contextos interacionais e sociais mais amplos Fowler et al 1979 195196 O objetivo é produzir um método analítico que seja utilizável por pessoas que possam ser por exemplo historiadores e não especialistas em linguística Para a análise textual os linguistas críticos baseiamse muito no trabalho da gramática sistêmica de Halliday ver Halliday 1985 mas também em conceitos de outras teorias como ato de fala e transformação A linguística crítica difere de outras abordagens na atenção que dedica à gramática e ao vocabulário dos textos Há muita referência à transitividade o aspecto da gramática da oração ou da frase relacionado ao seu significado ideacional isto é o modo como representa a realidade ver no Capítulo 6 o item Transitividade e tema para uma discussão detalhada de transitividade A gramática fornece diferentes tipos de processo e participantes associados como opções e a seleção sistemática de um tipo de processo particular pode ser ideologicamente significativa Por exemplo o jornal comunista The Morning Star 21 de abril de 1980 formula parte de uma reportagem sobre um dia de ação de um sindicato médico como um processo de ação em que os trabalhadores nortistas são os atores O Parlamento foi atacado por centenas de nortistas Isso poderia ter sido formulado como um processo relacional em que o significado de trabalhadores em ação fosse menos proeminente por exemplo Houve um lobby no Parlamento com centenas de nortistas Um outro foco relacionado é sobre os processos gramaticais da transformação examinados no tempo real por exemplo as transformações associadas com o desenvolvimento de uma reportagem num jornal num período de anos discutidas em Trew 1979 ou mais abstratamente por exemplo onde o que poderia ter sido formulado como oração x criticou bastante y é realmente formulado de modo transformado como nominalização houve muita crítica A nominalização é a conversão de uma oração em um nominal ou nome aqui crítica de x criticou y Outra transformação é a apassivação a conversão de uma oração ativa em uma oração passiva por exemplo a manchete Manifestantes são mortos pela polícia em lugar de Polícia mata manifestantes Tais transformações podem ser associadas com aspectos do texto ideologicamente significativos tal como a mistificação sistemática da agência ambas permitem que o agente de uma oração seja omitido Um foco adicional é sobre aspectos da gramática da oração que dizem respeito a seus significados interpessoais isto é um foco sobre o modo como as relações sociais e as identidades sociais são marcadas na oração Tratase da gramática da modalidade ver no Capítulo 5 o item Modalidade para exemplos e discussão A abordagem do vocabulário baseiase no pressuposto de que diferentes modos de lexicalizar domínios de significado podem envolver sistemas de classificação ideologicamente diferentes assim há interesse em como as áreas da experiência podem vir a ser relexicalizadas em princípios classificatórios diferentes por exemplo no curso da luta política ver no Capítulo 6 o item Metáfora para mais detalhes Na linguística crítica há uma tendência a enfatizar demais o texto como produto e a relegar a segundo plano os processos de produção e interpretação de textos Por exemplo embora se diga que o objetivo da linguística crítica seja a interpretação crítica de textos dáse pouca atenção aos processos e aos problemas da interpretação aos doa analistaintérprete ou aos doa participante intérprete Assim na análise a relação entre aspectos textuais e sentidos sociais é muitas vezes retratada como sem problemas e transparente apesar da insistência de que não há associação previsível de um para um entre qualquer forma linguística e qualquer sentido social específico Fowler et al 1979 198 na prática atribuemse valores a estruturas particulares tais como orações passivas sem agentes de modo bastante mecânico Mas os textos podem estar abertos a diferentes interpretações dependendo do contexto e doa intérprete o que significa que os sentidos sociais do discurso bem como ideologias não podem ser simplesmente extraídos do texto sem considerar padrões e variações na distribuição no consumo e na interpretação social do texto Pode ser que a ideologia seja linguisticamente mediada e habitual para uma leitora aquiescente nãocríticoa Fowler et al 1979 190 mas os leitores são frequentemente críticos Uma vez que a linguística crítica tenha estabelecido sentidos sociais para um texto há uma tendência a tomar os efeitos ideológicos como tácitos Uma outra limitação da linguística crítica é que ela confere uma ênfase unilateral aos efeitos do discurso na reprodução social de relações e estruturas sociais existentes e consequentemente negligencia tanto o discurso como domínio em que se realizam as lutas sociais como a mudança no discurso uma dimensão da mudança social e cultural mais ampla Isso não está desligado dos comentários que fiz no último parágrafo a interpretação é um processo ativo em que os sentidos a que se chegou dependem dos recursos usados e da posição social doa intérprete e só ignorando esse processo dinâmico é que se pode construir textos que simplesmente produzam efeitos ideológicos sobre um recipiente passivo Mais geralmente o que está em questão é a visão exclusivamente descendente do poder e da ideologia na linguística crítica que corresponde a uma ênfase encontrada também na abordagem althusseriana do grupo de Pêcheux discutida a seguir na estase social e não na mudança nas estruturas sociais e não na ação social e na reprodução social e não na transformação social Há necessidade de uma teoria social do discurso baseada em uma reavaliação desses dualismos tomados como pólos em relações de tensão em vez de optarse por um membro de cada par e rejeitar o outro como se fossem mutuamente exclusivos Um comentário final é que na linguística crítica se concebe a interface linguagemideologia muito estreitamente Primeiro além da gramática e do vocabulário outros aspectos dos textos podem ter significância ideológica por exemplo a estrutura argumentativa ou narrativa geral de um texto Segundo a linguística crítica lida principalmente com o monólogo escrito e tem relativamente pouco a dizer sobre aspectos ideologicamente importantes da organização do diálogo falado como a tomada de turno embora haja alguma discussão das dimensões pragmáticas dos enunciados tais como seus aspectos de polidez ver no Capítulo 5 o item Polidez Terceiro devido ao negligenciamento relativo dos processos de interpretação a ênfase cai exageradamente na realização de ideologias nos textos O que é deixado de lado é o sentido em que os processos de interpretação levam os intérpretes a pressupor coisas que não estão no texto e que podem ser de natureza ideológica veja um exemplo no Capítulo 3 item Prática discursiva Fairclough 1989b apresenta uma discussão mais completa Recentemente os linguistas críticos fizeram sua própria crítica do trabalho anterior Kress 1989 Fowler 1988a incluindo alguns pontos que levantei anteriormente e determinados membros do grupo envolveramse muito com o desenvolvimento de uma abordagem um pouco diferente Hodge e Kress 1988 Kress e Threadgold 1988 que denominam semiótica social Em oposição à linguística crítica há preocupação com uma variedade de sistemas semióticos como a linguagem e com a interrelação entre linguagem e semiose visual Os processos discursivos de produção e interpretação textual tornaramse uma preocupação central e há mais atenção explícita ao desenvolvimento de uma teoria social do discurso com uma orientação para a luta e a mudança histórica no discurso que se centra em uma tentativa de desenvolver uma teoria do gênero de discurso Pêcheux Michel Pêcheux e seus colaboradores Pêcheux et al 1979 Pêcheux 1982 desenvolveram uma abordagem crítica à análise de discurso que como a linguística crítica tenta combinar uma teoria social do discurso com um método de análise textual trabalhando principalmente com o discurso político escrito Sua pesquisa tem se ligado conscientemente a desenvolvimentos políticos na França especialmente a relação entre os partidos comunista e socialista nos anos 1970 e uma comparação de seu discurso político A fonte principal da abordagem de Pêcheux na teoria social foi a teoria marxista de ideologia de Althusser 1971 Althusser enfatiza a autonomia relativa da ideologia da base econômica e a 3 Os textos podem ser heterogêneos e ambíguos e podese recorrer a configurações de diferentes tipos de discurso em sua produção e interpretação Labov e Fanshel comparamse a análise da conversação a primeira geração do grupo de Pêcheux 4 O discurso é estudado histórica e dinamicamente em termos de configurações mutantes de tipos de discurso em processos discursivos e em termos de como tais mudanças refletem e constituem processos de mudança social mais amplos a segunda geração do grupo de Pêcheux a semiótica social comparamse Labov e Fanshel a primeira geração do grupo de Pêcheux a lingüística crítica 5 O discurso é socialmente construtivo lingüística crítica Pêcheux Potter e Wetherell constituindo os sujeitos sociais as relações sociais e os sistemas de conhecimento e crença e o estudo do discurso focaliza seus efeitos ideológicos construtivos Pêcheux lingüística crítica comparese Labov e Fanshel 6 A análise de discurso preocupase não apenas com as relações de poder no discurso comparese a análise da conversação mas também com a maneira como as relações de poder e a luta de poder moldam e transformam as práticas discursivas de uma sociedade ou instituição segunda geração do grupo de Pêcheux comparamse as abordagens nãocríticas a lingüística crítica 7 A análise de discurso cuida do funcionamento deste na transformação criativa de ideologias e práticas como também do funcionamento que assegura sua reprodução comparemse Pêcheux a lingüística crítica 8 Os textos são analisados em termos de uma gama diversa de aspectos de forma e significado por exemplo as propriedades do diálogo e da estrutura textual como também o vocabulário e a gramática pertencentes tanto às funções ideacionais da linguagem como às interpessoais comparemse Potter e Wetherell Pêcheux O que se busca é uma análise de discurso que focalize a variabilidade a mudança e a luta variabilidade entre as práticas e heterogeneidade entre elas como reflexo sincrônico de processos de mudança histórica que são moldados pela luta entre as forças sociais Embora os pontos 4 5 e 6 recebam algum apoio especialmente nas abordagens críticas à análise de discurso que discuti anteriormente precisamos ir à teoria social para encontrar desenvolvimentos completos e explícitos Foucault contribui com sua valiosa percepção de todos eles como argumentarei no Capítulo 2 Entretanto nem a tradição crítica na análise de discurso orientada linguisticamente nem Foucault lidam satisfatoriamente com o ponto 7 o modo como o discurso contribui tanto para a reprodução como para a transformação das sociedades Tal dualidade do discurso é de importância central no quadro teórico que apresento no Capítulo 3 e seu negligenciamento nos escritos de Foucault é associado a fraquezas teóricas e metodológicas fundamentais em seu trabalho Capítulo 2 Michel Foucault e a análise de discurso A prática do discurso revolucionário e do discurso científico nos últimos dois séculos não o libertou dessa idéia de que as palavras são sopro um murmúrio externo um bater de asas que se tem dificuldade de ouvir no assunto sério que é a história Michel Foucault A arquelogia do saber Foucault tem tido uma enorme influência sobre as ciências sociais e as humanidades e a popularização do conceito de discurso e de análise de discurso como um método pode parcialmente ser atribuída a essa influência É importante examinar seu trabalho em detalhes por duas razões Primeiramente a abordagem de análise de discurso de Foucault é amplamente referida como um modelo pelos cientistas sociais e a partir do instante em que eu estou defendendo uma abordagem diferente para a análise de discurso em estudos de mudanças sociais e culturais a relação entre as duas abordagens necessita ser esclarecida Existe um contraste principal aqui entre uma análise de discurso textualmente e por conseguinte linguisticamente orientada doravante abreviada para ADTO como a minha e a abordagem mais abstrata de Foucault Eu também preciso dar as razões pelas quais os cientistas sociais deveriam considerar o uso da ADTO no fim do capítulo argumentarei como isso pode conduzir a análises sociais mais satisfatórias A segunda razão para um capítulo sobre Foucault já foi aludida o desenvolvimento de uma abordagem para a análise de discurso Tradução de Célia Maria Ladeira Mota que seja teoricamente adequada tanto quanto praticamente utilizável requer uma síntese da análise de discurso orientada linguisticamente e a compreensão da teoria social recente sobre a linguagem e o discurso O trabalho de Foucault representa uma importante contribuição para uma teoria social do discurso em áreas como a relação entre discurso e poder a construção discursiva de sujeitos sociais e do conhecimento e o funcionamento do discurso na mudança social Como eu destaquei no fim do Capítulo 1 essas são áreas em que abordagens orientadas linguisticamente são fráças e nãodesenvolvidas No entanto uma vez que a abordagem de Foucault para o discurso e o contexto intelectual no qual foi desenvolvida são tão diferentes do meu próprio trabalho não se pode simplesmente aplicar o trabalho de Foucault em análise de discurso é como diz Courtine uma questão de pôr a perspectiva de Foucault para funcionar 1981 40 dentro da ADTO e tentar operacionalizar sua percepção em métodos reais de análise A proeminência dada ao discurso nos trabalhos iniciais de Foucault é uma consequência de posições que ele assumiu em relação à condução da pesquisa nas ciências humanas Ele optou por enfocar as práticas discursivas num esforço para ir além dos dois principais modelos alternativos de investigação disponíveis na pesquisa social o estruturalismo e a hermenêutica Dreyfus e Rabinow 1982 xiiixxiii Foucault preocupouse com as práticas discursivas como constitutivas do conhecimento e com as condições de transformação do conhecimento em uma ciência associadas a uma formação discursiva Esse contexto intelectual ajuda a explicar as principais diferenças entre a análise de discurso de Foucault e a da ADTO Em primeiro lugar Foucault estava preocupado em algumas fases de seu trabalho com um tipo de discurso bastante específico o discurso das ciências humanas como a medicina a psiquiatria a economia e a gramática A ADTO por outro lado está preocupada em princípio com qualquer tipo de discurso conversação discurso de sala de aula discurso da mídia e assim por diante Em segundo lugar como já indiquei enquanto a análise de textos de linguagem falada ou escrita é a parte central da ADTO ela não é uma parte da análise de discurso de Foucault Seu foco é sobre as condições de possibilidade do discurso Robin 1973 83 sobre as regras de formação que definem possíveis objetos modalidades enunciativas sujeitos conceitos e estratégias de um tipo particular de discurso esses termos são explicitados a seguir A ênfase de Foucault é sobre os domínios de conhecimento que são constituídos por tais regras Eu citei anteriormente a opinião de Courtine de que nós deveríamos pôr a perspectiva de Foucault para funcionar dentro da ADTO A noção da perspectiva de Foucault no entanto pode ser enganadora dadas as mudanças de ênfase dentro de seu trabalho claramente descritas em Davidson 1986 Em seu trabalho arqueológico inicial o foco era nos tipos de discurso formações discursivas veja adiante como regras para a constituição de áreas de conhecimento Em seus últimos estudos genealógicos a ênfase mudou para as relações entre conhecimento e poder E no trabalho dos últimos anos de Foucault a preocupação era com a ética ou como o indivíduo deve constituirse ele próprio como um sujeito moral de suas próprias ações Rabinow 1984 352 Embora o discurso permaneça uma preocupação ao longo de toda a obra seu status muda e assim mudam também as implicações para a ADTO Neste capítulo eu irei primeiro explicar e avaliar as concepções de discurso nos estudos arqueológicos de Foucault especialmente Foucault 1972 e em seguida discutirei como o status do discurso se altera no trabalho genealógico de Foucault enfocando Foucault 1979 e 1981 O principal objetivo nessas seções será identificar algumas perspectivas e percepções valiosas acerca do discurso e da linguagem no trabalho de Foucault que devem ser integradas à teoria da ADTO e operacionalizadas em sua metodologia quando for adequado Eu concluo no entanto discutindo certas fragilidades no trabalho de Foucault as quais limitam seu valor para a ADTO e como a ADTO poderá contribuir para reforçar a análise social até mesmo dentro da tradição foucaultiana O que eu estou oferecendo assim é uma leitura de Foucault de um ponto de vista específico explicações e críticas mais detalhadas e equilibradas são disponíveis em outras fontes por exemplo Dreyfus e Rabinow 1982 Hoy 1986 Fraser 1989 Os trabalhos arqueológicos de Foucault Os estudos arqueológicos iniciais de Foucault eu estarei me referindo particularmente a Foucault 1972 incluem as duas principais contribuições teóricas sobre o discurso que precisam ser incorporadas à ADTO A primeira é uma visão constitutiva do discurso que envolve uma noção de discurso como ativamente constituindo ou construindo a sociedade em várias dimensões o discurso constitui os objetos de conhecimento os sujeitos e as formas sociais do eu as relações sociais e as estruturas conceituais A segunda é uma ênfase na interdependência das práticas discursivas de uma sociedade ou instituição os textos sempre recorrem a outros textos contemporâneos ou historicamente anteriores e os transformam uma propriedade comumente referida como a intertextualidade de textos ver no Capítulo 3 o item Prática discursiva e qualquer tipo de prática discursiva é gerado de combinações de outras e é definido pelas suas relações com outras práticas discursivas uma perspectiva reconhecida por Pêcheux na primazia que ele atribuiu ao interdiscurso veja no Capítulo 1 o item Pêcheux Embora o foco de Foucault 1972 seja sobre as formações discursivas das ciências humanas sua percepção é transferível para todos os tipos de discurso O que Foucault entende por discurso e análise de discurso em seus trabalhos arqueológicos Ele vê a análise de discurso voltada para a análise de enunciados a tradução usual do francês énoncés o que é um pouco enganador ao insinuar que énoncés são apenas asserções opostas a perguntas ordens ameaças e assim por diante De acordo com uma formulação Foucault 1972 107108 a análise de enunciados é uma de uma série de formas de analisar desempenhos verbais As demais são uma análise lógica de proposições uma análise gramatical de frases uma análise psicológica ou contextual de formulações A análise discursiva de enunciados não substitui esses outros tipos de análises mas não pode também ser reduzida a eles Uma consequência é que para Foucault a análise de discurso não pode ser equiparada à análise linguística nem o discurso à linguagem A análise de discurso diz respeito não à especificação das frases que são possíveis ou gramaticais mas à especificação sociohistoricamente variável de formações discursivas algumas vezes referidas como discursos sistemas de regras que tornam possível a ocorrência de certos enunciados e não outros em determinados tempos lugares e localizações institucionais A concepção de análise linguística à qual Foucault está recorrendo é datada o livro de Foucault 1972 foi escrito em 1969 e o tipo de regras às quais ele se refere parece ser o que os sociolinguistas atuantes nos anos 1970 chamaram de regras sociolinguísticas regras sociais de uso da linguagem No entanto a perspectiva de Foucault é muito diferente de qualquer uma encontrada na sociolinguística parte da diferença é a falta de preocupação com textos de linguagem anteriormente referidos Uma formação discursiva consiste de regras de formação para o conjunto particular de enunciados que pertencem a ela e mais especificamente de regras para a formação de objetos de regras para a formação de modalidades enunciativas e posições do sujeito de regras para a formação de conceitos e de regras para a formação de estratégias Foucault 1972 3139 Essas regras são constituídas por combinações de elementos discursivos e nãodiscursivos anteriores exemplos são fornecidos a seguir e o processo de articulação desses elementos faz do discurso uma prática social Foucault usa a expressão prática discursiva Eu discutirei cada tipo de regra apresentando um resumo da posição de Foucault e indicação breve de seu interesse e suas implicações potenciais para a análise de discurso A formação dos objetos A percepção essencial no que diz respeito à formação de objetos é que os objetos do discurso são constituídos e transformados em discurso de acordo com as regras de uma formação discursiva específica ao contrário de existirem independentemente e simplesmente serem referidos ou discutidos dentro de um discurso particular Por objetos Foucault entende objetos de conhecimento as entidades que as disciplinas particulares ou as ciências reconhecem dentro de seus campos de interesse e que elas tomam como alvos de investigação Esse sentido de objetos pode ser estendido para além de disciplinas ou ciências formalmente organizadas para as entidades reconhecidas na vida comum Foucault dá o exemplo da constituição da loucura como um objeto no discurso da psicopatologia a partir do século XIX em diante outros exemplos poderiam ser a constituição de nação e raça ou liberdade e empresa ver Keat e Abercrombie 1990 no discurso contemporâneo da mídia e da política ou de letramento no discurso educacional De acordo com Foucault a doença mental foi constituída por tudo o que foi dito em todos os enunciados que a nomeavam dividiam descreviam explicavam 1972 32 Além do mais a loucura não é um objeto estável mas está sujeita a transformações contínuas tanto entre formações discursivas como dentro de uma dada formação discursiva Isso significa que uma formação discursiva precisa ser definida de tal forma que permita a transformação de seus objetos e Foucault sugere que a unidade de um discurso é baseada não tanto na permanência e na singularidade de um objeto quanto no espaço no qual vários objetos emergem e são continuamente transformados 1972 32 O que é de maior significação aqui para a análise de discurso é a visão de discurso como constitutiva contribuindo para a produção a transformação e a reprodução dos objetos e como veremos logo dos sujeitos da vida social Isso implica que o discurso tem uma relação ativa com a realidade que a linguagem significa a realidade no sentido da construção de significados para ela em vez de o discurso ter uma relação passiva com a realidade com a linguagem meramente se referindo aos objetos os quais são tidos como dados na realidade A visão referencial do relacionamento entre linguagem e realidade tem sido geralmente pressuposta pela linguística e pelas abordagens da análise de discurso baseadas na linguística O espaço a que Foucault se refere aqui é definido para uma dada formação discursiva em termos de relação uma relação entre instituições processos sociais e econômicos padrões de comportamento sistemas de normas técnicas tipos de classificação modos de caracterização específicos 1972 45 uma relação que constitui as regras de formação para os objetos Usando o exemplo da psicopatologia Foucault escreve Se em um período particular na história de nossa sociedade o delinquente foi psicologizado e patologizado se um comportamento criminal pôde dar origem a toda uma série de objetos de conhecimento homicídio e suicídio crimes passionais ofensas sexuais certas formas de roubo vadiagem isso foi porque um grupo de relações particulares foi adotado para uso no discurso psiquiátrico A relação entre planos de especificação como categorias penais e graus reduzidos de responsabilidade e planos de caracterização psicológica facilidades aptidões graus de desenvolvimento ou involução diferentes formas de reação ao ambiente tipos de caráter se adquiridos ou hereditários A relação entre a autoridade da decisão médica e a autoridade da decisão judicial A relação entre o filtro formado pelo interrogatório judicial a informação policial a investigação e todo o maquinário de informação judicial e o filtro formado pelo questionário médico exames clínicos a procura por antecedentes e explicações biográficas A relação entre a família as normas sexuais e penais de comportamento dos indivíduos e a tabela de sintomas patológicos e doenças das quais elas são sinais A relação entre confinamento terapêutico no hospital e confinamento punitivo na prisão 1972 4344 Foucault sugere que uma formação discursiva constitui objetos de forma altamente limitada na qual as restrições sobre o que ocorre dentro de uma formação discursiva são uma função das relações interdiscursivas entre as formações discursivas e das relações entre as práticas discursivas e nãodiscursivas que compõem tal formação discursiva A ênfase nas relações interdiscursivas tem importantes implicações para a análise de discurso já que põe no centro da agenda a investigação sobre a estruturação ou articulação das formações discursivas na relação umas com as outras dentro do que eu chamarei usando um termo foucaultiano ordens de discurso institucionais e societárias a totalidade de práticas discursivas dentro de uma instituição ou sociedade e o relacionamento entre elas ver Fairclough 1989a 29 e Capítulo 3 item Prática discursiva adiante A visão de que a articulação de ordens de discurso é decisiva para a constituição de qualquer formação discursiva e que deve por isso ser um foco central na análise de discurso é expressa de forma variada no trabalho de Pêcheux em seu conceito de interdiscurso ver Capítulo 1 Bernstein 1982 e Laclau e Mouffe 1985 A formação de modalidades enunciativas A principal tese de Foucault com respeito à formação de modalidades enunciativas é a de que o sujeito social que produz um enunciado não é uma entidade que existe fora e independentemente do discurso como a origem do enunciado seu autorsua autora mas é ao contrário uma função do próprio enunciado Isto é os enunciados posicionam os sujeitos aqueles que os produzem mas também aqueles para quem eles são dirigidos de formas particulares de modo que descrever uma formulação como enunciado não consiste em analisar a relação entre o autor e o que ele diz ou quis dizer ou disse sem querer mas em determinar que posição pode e deve ser ocupada por qualquer indivíduo para que ele seja o sujeito dela 1972 9596 Essa visão da relação entre sujeito e enunciado é elaborada por meio de uma caracterização de formações discursivas constituídas por configurações particulares de modalidades enunciativas Modalidades enunciativas são tipos de atividade discursiva como descrição formação de hipóteses formulação de regulações ensino e assim por diante cada uma das quais tem associadas suas próprias posições de sujeito Assim por exemplo o ensino como uma atividade discursiva posiciona aqueles que fazem parte como professora ou alunoa Como no caso de objetos as regras de formação para as modalidades enunciativas de uma formação discursiva particular são constituídas por um complexo grupo de relações Foucault resume isso para o discurso clínico Se no discurso clínico o médico é alternadamente o soberano questionador direto o olho que observa o dedo que toca o órgão que decifra sinais o ponto no qual descrições previamente formuladas são integradas o técnico de laboratório isso é por que um completo grupo de relações é envolvido entre diversos elementos distintos alguns dos quais dizem respeito ao status dos médicos outros aos lugares institucional e técnico hospital laboratório prática privada etc de onde eles falam ou ainda de acordo com sua posição como sujeitos que percebem observam descrevem ensinam etc 1972 53 Essa articulação de modalidades enunciativas é historicamente específica e aberta à mudança histórica a atenção às condições sociais sob as quais tais articulações são transformadas e aos mecanismos de sua transformação são uma parte significativa da pesquisa sobre a mudança discursiva em relação à mudança social ver Capítulo 3 item Mudança discursiva e Capítulo 7 adiante De preferência à postulação de um sujeito da medicina unitário que daria coerência a essas várias modalidades enunciativas e posições de sujeito Foucault sugere que essas várias modalidades e posições manifestam a dispersão ou fragmentação do sujeito Em outras palavras uma médicoa é constituídoa pela configuração de modalidades enunciativas e posições de sujeito que é reassegurada pelas regras correntes do discurso médico O trabalho de Foucault é uma grande contribuição para o descentramento do sujeito social nas recentes teorias sociais ver Henriques et al 1984 para a visão do sujeito constituído reproduzido e transformado na prática social e por meio dela e para a visão do sujeito fragmentado O que é de particular significação no presente contexto é que Foucault atribui um papel fundamental para o discurso na constituição dos sujeitos sociais Por implicação as questões de subjetividade identidade social e domínio do eu devem ser do maior interesse nas teorias de discurso e linguagem e na análise discursiva e linguística De fato eles têm recebido muito pouca atenção na principal corrente linguística ou mesmo na análise de discurso lingüística e textualmente orientada na sociolingüística ou na pragmática lingüística Essas disciplinas acadêmicas têm quase sempre mantido o tipo de visão présocial do sujeito social o que tem sido largamente rejeitado em recentes debates sobre a subjetividade De acordo com essa visão as pessoas entram na prática e na interação social com identidades sociais que são préformadas as quais afetam sua prática mas não são afetadas por ela Em termos da linguagem é largamente admitido nessas disciplinas que a identidade social da pessoa afetará a forma como ela usa a linguagem mas há pouca percepção do uso de linguagem práticas discursivas afetando ou moldando a identidade social A subjetividade e a identidade social são questões secundárias nos estudos de linguagem geralmente não indo além de teorias de expressão e significado expressivo a identidade origem social gênero classe atitudes crenças e assim por diante de uma falante é expressa nas formas linguísticas e nos significados que elea escolhe Ao contrário disso adotarei a posição de Foucault de localizar a questão dos efeitos da prática discursiva sobre a identidade social no centro da ADTO teórica e metodologicamente Essa visão tem consequências significativas para a reivindicação de a análise de discurso ser um método principal de pesquisa social uma teoria expressiva da subjetividade no discurso permite que ele seja considerado como uma dimensão secundária da prática social ao contrário de uma teoria constitutiva No entanto existem importantes limitações A insistência de Foucault sobre o sujeito como um efeito das formações discursivas tem um sabor pesadamente estruturalista que exclui a agência social ativa de qualquer sentido significativo Isso é insatisfatório por razões que demonstrarei na seção final A posição sobre o discurso e a subjetividade que eu defenderei no Capítulo 3 item Ideologia é dialética que considera os sujeitos sociais moldados pelas práticas discursivas mas também capazes de remodelar e reestruturar essas práticas A formação de conceitos Por conceitos Foucault entende a bateria de categorias elementos e tipos que uma disciplina usa como um aparato para tratar seus campos de interesse ele dá o exemplo de sujeito predicado substantivo verbo e palavra como conceitos de gramática Mas como no caso de objetos e modalidades enunciativas uma formação discursiva não define um conjunto unitário de conceitos estáveis com relações bem definidas entre si Ao contrário o quadro é de configurações mutáveis de conceitos em transformação Foucault propõe abordar a formação de conceitos dentro de uma formação discursiva por meio de uma descrição de como é organizado o campo de enunciados a ela associado dentro do qual seus conceitos surgiram e circularam Essa estratégia dá origem a uma rica explicação 1972 dos diferentes tipos de relação que podem existir nos textos e entre eles Isso é útil no desenvolvimento de perspectivas intertextuais e interdiscursivas na ADTO particularmente porque essas perspectivas têm recebido pouca atenção na linguística ou na análise de discurso orientada linguisticamente Dentro do campo de enunciados de uma formação discursiva existem relações em várias dimensões Uma classe de relações é entre os enunciados de um texto particular como por exemplo as relações de sequência e dependência Foucault se refere a várias estruturas retóricas de acordo com as quais grupos de enunciados podem ser combinados como são ligadas descrições deduções definições cujo encadeamento caracteriza a arquitetura de um texto por meios que dependem da formação discursiva 1972 57 Tais relações intratextuais têm sido investigadas mais recentemente na linguística de texto Outras relações são interdiscursivas referentes à relação entre diferentes formações discursivas ou diferentes textos As relações interdiscursivas podem ser diferenciadas conforme pertençam a campos de presença concomitância ou memória Foucault define um campo de presença como todos os enunciados formulados noutro lugar e aceitos no discurso reconhecidos como verdadeiros envolvendo uma descrição exata um raciocínio bem fundamentado ou uma pressuposição necessária como também os que são criticados discutidos julgados rejeitados ou excluídos p 5758 explícita ou implicitamente Um campo de concomitância consiste mais especificamente de enunciados originados em diferentes formações discursivas e está ligado à questão das relações entre as formações discursivas Finalmente um campo de memória consiste de enunciados que não são mais aceitos ou discutidos por meio dos quais relações de filiação gênese transformação continuidade e descontinuidade histórica podem ser estabelecidas p 9899 Foucault acrescenta as relações de um enunciado com todas as formulações cuja possibilidade subseqüente é determinada por ele e aquelas cujo status por exemplo a literatura o enunciado compartilha Foucault resume essa perspectiva na afirmação de que não pode existir enunciado que de uma forma ou de outra não realize novamente outros enunciados 1972 98 Seu tratamento das relações entre os enunciados é reminiscente dos escritos sobre gênero e dialogismo de Bakhtin 1981 1986 os quais Kristeva introduziu para o público ocidental com o conceito de intertextualidade 1986a 37 E como eu observei anteriormente Pécheux adota uma perspectiva semelhante ao dar primazia ao interdiscurso em sua teoria do discurso Embora as distinções entre os vários tipos de relação em Foucault não sejam sempre claras o que ele está fornecendo aqui é a base para uma investigação sistemática das relações nos textos e nos tipos de discurso e entre eles Farei uma distinção entre intertextualidade relações entre textos e interdiscursividade relações entre formações discursivas ou mais genericamente entre diferentes tipos de discurso ver Capítulo 4 item Intertextualidade manifesta adiante A interdiscursividade envolve as relações entre outras formações discursivas que de acordo com Foucault constituem as regras de formação de uma dada formação discursiva veja as seções anteriores sobre a formação de objetos e modalidades enunciativas Ao discutir as relações dos campos de enunciados Foucault 1972 9798 faz alguns comentários valiosos sobre a noção de contexto e especificamente sobre como o contexto situacional de um enunciado a situação social na qual ele ocorre e seu contexto verbal sua posição em relação a outros enunciados que o precedem e o seguem determinam a forma que ele toma e o modo pelo qual é interpretado Tratase de um lugar comum na sociolinguística que os enunciados ou falas são assim determinados A observação adicional importante que Foucault faz é que a relação entre a fala e seu contexto verbal e situacional não é transparente a forma como o contexto afeta o que é dito ou escrito e como isso é interpretado varia de uma formação discursiva para outra Por exemplo os aspectos da identidade social doa falante tais como gênero social etnia ou idade que provavelmente afetam de modo substancial as formas e os significados numa conversa podem ter pouco efeito numa conferência de biólogos Novamente o fato de que a fala de uma participante apareça imediatamente depois de uma pergunta de outro pode constituir uma pista forte para tomar a fala como resposta à pergunta num interrogatório mais do que numa conversação casual Não se pode portanto simplesmente apelar ao contexto para explicar o que é dito ou escrito ou como é interpretado como muitos linguistas fazem na sociolinguística e na pragmática é preciso voltar atrás para a formação discursiva e para a articulação das formações discursivas nas ordens de discurso para explicar a relação contextotextosignificado A formação de estratégias As regras de formação discutidas até aqui constituem um campo de possibilidades para a criação de teorias temas ou o que Foucault chama de estratégias nem todas elas realmente realizadas As regras para a formação de estratégias determinam quais possibilidades são realizadas Elas são constituídas por uma combinação de restrições interdiscursivas e nãodiscursivas sobre possíveis estratégias 1972 6670 Foucault sugere por exemplo que o discurso econômico no período clássico é definido por um certo modo constante de relacionar possibilidades de sistematização interior a um discurso outros discursos que são exteriores a esse e a um campo completo nãodiscursivo de práticas apropriação interesses e desejos 1972 69 Note a reiteração aqui de relações interdiscursivas como restrições sobre uma formação discursiva Foucault nota que possíveis relacionamentos entre discursos incluem analogia oposição complementaridade e relações de delimitação mútua p 67 A discussão das restrições nãodiscursivas aqui é o mais próximo que Foucault chega nesse primeiro trabalho ao reconhecimento de que o discurso é determinado de fora a posição predominante tomada sobre a relação entre a prática discursiva e nãodiscursiva sugere ao contrário que a primeira tem primazia sobre a última Foucault referese primeiro à função do discurso num campo de práticas nãodiscursivas tal como a função exercida pelo discurso econômico na prática do capitalismo emergente 1972 69 segundo para as regras e processos de apropriação do discurso no sentido de que o direito de falar e a habilidade para entender tanto quanto o direito de recorrer ao corpus de enunciados já formulados são desigualmente distribuídos entre grupos sociais p 68 terceiro para as posições possíveis de desejo em relação ao discurso o discurso pode de fato ser o lugar para uma representação ilusória um elemento de simbolização uma forma do proibido um instrumento de satisfação derivada p 68 itálicos de Foucault Foucault associa as regras para a formação de estratégias com a materialidade dos enunciados As restrições nãodiscursivas referidas no parágrafo anterior estabelecem relações entre os enunciados e as instituições Por materialidade de um enunciado Foucault entende não sua propriedade de ser proferido num tempo ou lugar particular mas o fato de ter um status particular em práticas institucionais específicas Da arqueologia à genealogia Eu já me referi às mudanças de foco no curso do trabalho de Foucault Minha preocupação agora é com a transição da arqueologia à genealogia e suas implicações para a concepção de discurso em Foucault Foucault dá a seguinte explicação sucinta sobre a relação entre arqueologia e genealogia A verdade deve ser compreendida como um sistema de procedimentos ordenados para a produção regulamentação distribuição circulação e operação de enunciados A verdade está vinculada a uma relação circular com os sistemas de poder que a produzem e sustentam e com os efeitos de poder os quais ela induz e os quais a estendem Um regime de verdade Rabinow 1984 74 A primeira proposição é eu espero um sumário reconhecível da arqueologia como esbocei anteriormente A segunda mostra em resumo o efeito da genealogia sobre a arqueologia ela acrescenta o poder ou nas palavras de Davidson seu foco está nas relações mútuas entre sistemas de verdade e modalidades de poder 1986 224 A transição para a genealogia representa uma descentração do discurso Enquanto em Foucault 1972 a inteligibilidade dos sistemas de conhecimento e verdade era atribuída a regras do discurso concebidas como autônomas e de fato a relação entre práticas nãodiscursivas e discursivas era regulamentada aparentemente por essas regras no principal estudo genealógico de Foucault Disciplina e poder 1979 o discurso é secundário aos sistemas de poder Ao mesmo tempo no entanto a visão da natureza do poder nas sociedades modernas que Foucault desenvolve em seus estudos genealógicos ver Fraser 1989 localiza o discurso e a linguagem no coração das práticas e dos processos sociais O caráter do poder nas sociedades modernas está ligado aos problemas de controle das populações O poder é implícito nas práticas sociais cotidianas que são distribuídas universalmente em cada nível de todos os domínios da vida social e são constantemente empregadas além disso o poder é tolerável somente na condição de que mascare uma grande parte de si mesmo Seu sucesso é proporcional à sua habilidade para esconder seus próprios mecanismos 1981 86 O poder não funciona negativamente pela dominação forçada dos que lhe são sujeitos ele os incorpora e é produtivo no sentido de que os molda e reinstrumentaliza para ajustálos a suas necessidades O poder moderno não foi imposto de cima por agentes coletivos específicos por exemplo classes sobre grupos ou indivíduos ele se desenvolveu debaixo em certas microtécnicas tal como o exame em seu sentido médico ou educacional ver adiante as quais emergiram em instituições como os hospitais as prisões e as escolas no princípio do período moderno Tais técnicas implicam uma relação dual entre poder e conhecimento na sociedade moderna por um lado as técnicas de poder são desenvolvidas na base do conhecimento que é gerado por exemplo nas ciências sociais por outro lado as técnicas são muito relacionadas ao exercício de poder no processo de aquisição de conhecimento Foucault cunha o termo biopoder para se referir a essa forma moderna de poder que emergiu no século XVII o biopoder trouxe a vida e seus mecanismos para o terreno dos cálculos explícitos e tornou o conhecimentopoder um agente de transformação da vida humana 1981 143 Essa concepção de poder sugere que o discurso e a linguagem são de importância central nos processos sociais da sociedade moderna as práticas e as técnicas que Foucault enfatiza tanto a entrevista o aconselhamento e assim por diante são em grau significativo práticas discursivas Assim analisar as instituições e as organizações em termos de poder significa entender e analisar suas práticas discursivas Mas a visão de poder de Foucault implica não apenas maior atenção ao discurso na análise social mas também maior atenção ao poder na análise de discurso tais questões sobre discurso e poder não surgem nem nos estudos arqueológicos de Foucault nem em abordagens linguisticamente orientadas da análise de discurso Como Shapiro aponta Foucault leva a conexão linguagempolítica a um alto nível de abstração o que nos permite ir além das permutas de poder linguisticamente refletidas entre pessoas e grupos para uma análise das estruturas dentro das quais elas são empregadas 1981 162 Algumas dessas questões são levantadas pelo próprio Foucault num estudo 1984 que explora vários procedimentos mediante os quais as práticas discursivas são socialmente controladas e restringidas em cada sociedade a produção de discurso é imediatamente controlada selecionada organizada e redistribuída por um certo número de procedimentos cujo papel é tutelar seus poderes e perigos domesticar suas casualidades escapar da sua ponderável formidável materialidade p 109 Entre os procedimentos que Foucault examina estão restrições sobre o que pode ser dito por quem e em que ocasiões oposições entre os discursos de razão e loucura entre discurso verdadeiro e falso efeitos de atribuições de autoria limites entre disciplinas atribuição de status canônico para certos textos e restrições sociais ao acesso a certas práticas discursivas com relação a isso Foucault nota que qualquer sistema de educação é uma forma política de manutenção ou modificação da apropriação de discursos e dos conhecimentos e poderes que eles carregam p 123 Uma ênfase significativa em Foucault 1984 é sobre a luta de poder em torno da determinação das práticas discursivas O discurso é não apenas o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação mas é a coisa para a qual e pela qual a luta existe o discurso é o poder a ser tomado p 110 A passagem da arqueologia para a genealogia envolve uma mudança de ênfase em termos da qual as dimensões do discurso recebem proeminência Enquanto as formações discursivas de Foucault 1972 são caracterizadas em termos de disciplinas particulares por exemplo os discursos da psicopatologia da economia política e da história natural embora Foucault resista à idéia de uma simples correspondência entre discursos e disciplinas as categorias salientes do discurso em Foucault 1979 1981 são de um caráter mais genérico por exemplo a entrevista e o aconselhamento como práticas discursivas associadas respectivamente ao que Foucault chama exame e confissão ver adiante Isto é elas assinalam várias formas de interação que são estruturadas de forma particular e envolvem conjuntos específicos de participantes por exemplo entrevistadora e entrevistadoa Essas interações podem ser usadas em várias disciplinas ou instituições e são assim compatíveis com várias formações discursivas assim existem entrevistas médicas sociológicas de emprego e da mídia O contraste para alguns escritores é entre discursos e gêneros ver Kress 1988 e no Capítulo 4 o item Interdiscursividade As duas principais tecnologias de poder analisadas por Foucault são a disciplina o exame como sua técnica nuclear Foucault 1979 e a confissão Foucault 1981 Uma surpreendente preocupação básica e inicial da análise genealógica é como as técnicas trabalham sobre os corpos isto é como elas afetam as formas normalizadas detalhadas de controle sobre as disposições os hábitos e os movimentos do corpo que são discerníveis nas sociedades modernas mais obviamente no condicionamento do corpo no treinamento militar e em processos análogos na indústria na educação na medicina e assim por diante A moderna tecnologia da disciplina é engrenada para produzir o que Foucault chama corpos dóceis que são adaptados às demandas das formas modernas de produção econômica A disciplina é manifesta em formas diversas como a arquitetura das prisões das escolas ou das fábricas as quais são projetadas para alocar a cada ocupante um espaço cela escrivaninha banco etc que pode estar sujeito à constante observação a divisão do dia na escola ou no trabalho em partes estritamente demarcadas o disciplinamento da atividade corporal em conexão por exemplo com o ensino tradicional da escrita que pressupõe uma ginástica uma totalidade de rotinas cujo código rigoroso investe o corpo em sua inteireza 1979 152 ou um juízo normalizador as formas nas quais sistemas de punição constantemente medem os indivíduos contra normas Embora a disciplina seja uma tecnologia para lidar com as massas ela funciona de forma altamente individualizada de maneira que isola e focaliza cada indivíduo e todos alternadamente e os assujeita aos mesmos procedimentos normalizadores De acordo com a ênfase de Foucault na produtividade do poder o poder disciplinar produz o indivíduo moderno 1979 194 O exame implementa relações de poder que tornam possível extrair e constituir conhecimento 1979 185 Foucault define três propriedades distintas do exame 1979 187192 Primeiro o exame transformou a economia da visibilidade no exercício do poder Foucault contrasta o poder feudal no qual o soberano poderoso era altamente visível ao passo que àqueles que eram sujeitos ao poder restaria permanecerem na sombra e o poder disciplinar moderno cujo lugar é invisível mas seus sujeitos são destacados A visibilidade constante por um lado conserva o indivíduo assujeitado e por outro permite aos indivíduos serem tratados e organizados como objetos O exame é como se fosse a cerimônia dessa objetificação Segundo o exame também introduz a individualidade no campo de documentação o exame é associado com a produção de registros sobre as pessoas Isso tem duas consequências a constituição do indivíduo como um objeto descritível analisável e a manipulação de registros para chegar a generalizações sobre populações médias normas etc A última conseqüência é sugere Foucault o humilde ponto de origem das ciências humanas Terceiro o exame rodeado por todas as suas técnicas documentais faz de cada indivíduo um caso um caso que ao mesmo tempo constitui um objeto para um ramo de conhecimento e um suporte para um ramo de poder Foucault contrasta a prática tradicional de escrever crônicas dos grandes para permanecerem como monumentos com a moderna escrita disciplinar de histórias de casos para assujeitar e objetificar Se o exame é a técnica de objetificação das pessoas a confissão é a técnica de sua subjetivação O homem ocidental escreve Foucault tornouse um animal de confissão 1981 174 A compulsão para mergulhar em si mesmo e falar e especialmente sobre a própria sexualidade num conjunto de localizações sociais cada vez mais amplo originalmente a religião mas depois os relacionamentos amorosos as relações de família a medicina a educação e assim por diante aparenta ser uma resistência liberadora para a objetificação do biopoder Foucault no entanto acredita que isso é uma ilusão a confissão expõe mais a pessoa ao domínio do poder Foucault define a confissão em termos explicitamente discursivos como um ritual de discurso que se chamaria um gênero em termos mais familiares na ADTO A confissão é definida primeiro pelo tópico o sujeito da fala é também o sujeito do enunciado e também pela relação de poder entre os envolvidos não se confessa sem a presença ou presença virtual de uma parceiroa que não é simplesmente oa interlocutora mas a autoridade que requer a confissão a prescreve e aprecia e intervém para julgar perdoar consolar e reconciliar 1981 61 A confissão tem a característica peculiar de que o próprio ato de fazêla muda a pessoa que a faz ela a exonera redime e purifica ela a alivia de seus erros a libera e lhe promete a salvação p 62 Além disso o valor de uma confissão é aumentado pelos obstáculos e pela resistência que se tem para fazêla Embora a explicação da confissão em Foucault seja mais explicitamente discursiva do que a sua explicação do exame ele se refere a primeira como uma forma discursiva tanto quanto um ritual de discurso eu sugeriria que ambos são claramente associados com gêneros particulares de discurso No caso do exame eles incluiriam o exame médico o exame educacional e muitas variedades de entrevistas No caso da confissão incluiriam não somente a confissão religiosa mas também discursos terapêuticos e variedades de aconselhamento Um dos temas de Foucault é como a confissão ganhou status científico no século XIX e ele nota em relação a isso que o exame e a confissão foram combinados no interrogatório no questionário exato e na hipnose As técnicas de poder às quais Foucault confere atenção são relevantes para os tipos de discurso que se tornaram evidentes na sociedade moderna e que parecem estar intimamente associados aos seus modos de organização social e valores culturais Esses gêneros culturalmente evidentes especialmente a entrevista e o aconselhamento e aqueles associados com a administração e a publicidade aparentam estar colonizando as ordens de discurso de várias instituições e organizações contemporâneas Nesse processo eles têm sofrido uma expansão dramática de funções à medida que atravessaram os limites entre as instituições gerando muitos subtipos e variantes aconselhamento terapêutico educacional do emprego e doa consumidora por exemplo A entrevista e o aconselhamento representam respectivamente gêneros de objetificação e subjetivação correspondentes à técnica de objetificação do exame e à técnica de subjetivação da confissão e os modos de discurso que burocraticamente manipulam as pessoas como objetos por um lado e os modos de discurso que exploram e dão voz ao eu parecem ser dois focos da ordem de discurso moderna A esse respeito a perspectiva genealógica de Foucault aponta direções de pesquisa do discurso que são importantes para os objetivos deste livro a investigação das transformações históricas nas práticas discursivas das ordens de discurso e suas relações com os processos mais amplos de mudança social e cultural ver no Capítulo 3 o item Mudança discursiva e o Capítulo 7 a seguir Existem importantes questões de causalidade aqui até que ponto as mudanças discursivas constituem essas mudanças sociais ou culturais mais amplas contrariamente a serem meros reflexos delas E portanto até onde os processos mais amplos de mudança podem ser pesquisados por meio da análise de práticas discursivas em mutação Existe também a questão de quão difundidos e efetivos são os esforços conscientes de agentes institucionais para gerar mudanças nas práticas discursivas com base na pesquisa científica social por exemplo nas técnicas de entrevista frequentemente simulando as práticas discursivas de conversação informal da esfera privada em domínios públicos na base de cálculos de sua eficácia por exemplo pondo os entrevistados à vontade e treinando pessoal da instituição em novas técnicas discursivas Eu me refiro a esse processo de intervenção como a tecnologização do discurso o próprio discurso é agora largamente sujeito às tecnologias e às técnicas identificadas por Foucault como as modernas técnicas de poder veja mais no Capítulo 7 item Tecnologização a seguir Foucault e a análise de discurso textualmente orientada As principais percepções sobre o discurso que eu identifiquei no trabalho de Foucault podem ser resumidas como se segue Em seu trabalho arqueológico inicial existem duas afirmações de importância particular 1 a natureza constitutiva do discurso o discurso constitui o social como também os objetos e os sujeitos sociais 2 a primazia da interdiscursividade e da intertextualidade qualquer prática discursiva é definida por suas relações com outras e recorre a outras de forma complexa Três outros pontos substantivos emergem do trabalho genealógico de Foucault 3 a natureza discursiva do poder as práticas e as técnicas do biopoder moderno por exemplo o exame e a confissão são em grau significativo discursivas Capítulo 3 Teoria social do discurso Neste capítulo apresento uma concepção de discurso e um quadro teórico para a análise de discurso que será elaborado e ilustrado no decorrer do livro Minha abordagem é determinada pelos objetivos estabelecidos na Introdução reunir a análise de discurso orientada linguisticamente e o pensamento social e político relevante para o discurso e a linguagem na forma de um quadro teórico que será adequado para uso na pesquisa científica social e especificamente no estudo da mudança social Os dois primeiros capítulos identificaram várias realizações e limitações do trabalho anterior e o Capítulo 3 foi escrito à luz de tal discussão sem se basear diretamente aí Inicio com uma discussão do termo discurso e em seguida analiso o discurso num quadro tridimensional como texto prática discursiva e prática social Essas três dimensões de análise são discutidas uma a uma e concluo estabelecendo minha abordagem para a investigação da mudança discursiva em sua relação com a mudança social e cultural Discurso Quero focalizar a linguagem e conseqüentemente uso discurso em um sentido mais estreito do que os cientistas sociais geralmente fazem ao se referirem ao uso de linguagem falada ou escrita Usarei o termo discurso no qual os linguístas tradicio Tradução de Izabel Magalhães nalmente escrevem sobre o uso de linguagem parole fala ou desempenho Na tradição iniciada por Ferdinand de Saussure 1959 considerase a fala como não acessível ao estudo sistemático por ser essencialmente uma atividade individual os indivíduos usam uma língua de formas imprevisíveis de acordo com seus desejos e suas intenções uma langue língua que é em si mesma sistemática e social Os linguístas nessa tradição identificam a parole para ignorála pois a implicação da posição saussureana é que qualquer estudo sistemático da língua deve ser um estudo do próprio sistema da langue e não de seu uso A posição de Saussure é atacada firmemente pelos sociolinguístas que afirmam ser o uso de linguagem moldado socialmente e não individualmente Eles argumentam que a variação no uso de linguagem é sistemática e acessível ao estudo científico e que aquilo que o torna sistemático é sua correlação com variáveis sociais a língua varia de acordo com a natureza da relação entre os participantes em interações o tipo de evento social os propósitos sociais das pessoas na interação e assim por diante Downes 1984 Isso representa claramente um avanço na tradição saussureana dominante na linguística regular mas tem duas limitações principais Primeiro a ênfase tende a ser unilateral sobre como a língua varia segundo fatores sociais o que sugere a existência de tipos de sujeito social de relações sociais e de situação bastante independentes do uso de linguagem e a exclusão da possibilidade de o uso de linguagem realmente contribuir para sua constituição reprodução e mudança Segundo as variáveis sociais que são consideradas como correlacionadas a variáveis linguísticas são aspectos das situações sociais de uso linguístico relativamente superficiais além de não haver uma compreensão de que as propriedades do uso de linguagem podem ser determinadas em um sentido mais global pela estrutura social em um nível mais profundo as relações sociais entre as classes e outros grupos modos em que as instituições sociais são articuladas na formação social e assim por diante e podem contribuir para reproduzila e transformála Ao usar o termo discurso proponho considerar o uso de linguagem como forma de prática social e não como atividade puramente individual ou reflexo de variáveis situacionais Isso tem várias implicações Primeiro implica ser o discurso um modo de ação uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros como também um modo de representação Tratase de uma visão do uso de linguagem que se tornou familiar embora freqüentemente em termos individualistas pela Filosofia linguística e pela Pragmática linguística Levinson 1983 Segundo implica uma relação dialética entre o discurso e a estrutura social existindo mais geralmente tal relação entre a prática social e a estrutura social a última é tanto uma condição como um efeito da primeira Por outro lado o discurso é moldado e restringido pela estrutura social no sentido mais amplo e em todos os níveis pela classe e por outras relações sociais em um nível societário pelas relações específicas em instituições particulares como o direito ou a educação por sistemas de classificação por várias normas e convenções tanto de natureza discursiva como nãodiscursiva e assim por diante Os eventos discursivos específicos variam em sua determinação estrutural segundo o domínio social particular ou o quadro institucional em que são gerados Por outro lado o discurso é socialmente constitutivo Aqui está a importância da discussão de Foucault sobre a formação discursiva de objetos sujeitos e conceitos O discurso contribui para a constituição de todas as dimensões da estrutura social que direta ou indiretamente o moldam e o restringem suas próprias normas e convenções como também relações identidades e instituições que lhe são subjacentes O discurso é uma prática não apenas de representação do mundo mas de significação do mundo constituindo e construindo o mundo em significado Podemos distinguir três aspectos dos efeitos construtivos do discurso O discurso contribui em primeiro lugar para a construção do que variavelmente é referido como identidades sociais e posições de sujeito para os sujeitos sociais e os tipos de eu ver Henriques et al 1984 Weedon 1987 Devemos contudo recordar a discussão de Foucault sobre essa questão no Capítulo 2 e as minhas observações aí quanto à ênfase na posição construtivista Segundo o discurso contribui para construir as relações sociais entre as pessoas E terceiro o discurso contribui para a construção de sistemas de conhecimento e crença Esses três efei tos correspondem respectivamente a três funções da linguagem e a dimensões de sentido que coexistem e interagem em todo discurso o que denominarei as funções da linguagem identitária relacional e ideacional A função identitária relacionase aos modos pelos quais as identidades sociais são estabelecidas no discurso a função relacional a como as relações sociais entre os participantes do discurso são representadas e negociadas a função ideacional aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos entidades e relações As funções identitária e relacional são reunidas por Halliday 1978 como a função interpessoal Halliday também distingue uma função textual que pode ser utilmente acrescentada a minha lista isso diz respeito a como as informações são trazidas ao primeiro plano ou relegadas a um plano secundário tomadas como dadas ou apresentadas como novas selecionadas como tópico ou tema e como partes de um texto se ligam a partes precedentes e seguintes do texto e à situação social fora do texto A prática discursiva é constitutiva tanto de maneira convencional como criativa contribui para reproduzir a sociedade identidades sociais relações sociais sistemas de conhecimento e crença como é mas também contribui para transformála Por exemplo as identidades de professores e alunos e as relações entre elas que estão no centro de um sistema de educação dependem da consistência e da durabilidade de padrões de fala no interior e no exterior dessas relações para sua reprodução Porém elas estão abertas a transformações que podem originarse parcialmente no discurso na fala da sala de aula do parquinho da sala dos professores do debate educacional e assim por diante É importante que a relação entre discurso e estrutura social seja considerada como dialética para evitar os erros de ênfase indevida de um lado na determinação social do discurso e de outro na construção do social no discurso No primeiro caso o discurso é mero reflexo de uma realidade social mais profunda no último o discurso é representado idealizadamente como fonte do social O último talvez seja o erro mais imediatamente perigoso dada a ênfase nas propriedades constitutivas do discurso em debates contemporâneos Vamos tomar um exemplo para ver como esse erro pode ser evitado sem pôr em risco o princípio constitutivo A relação entre pais e filhos na família a determinação das posições de mãe pai e filhoa que são socialmente disponíveis como também a localização de indivíduos reais nessas posições a natureza da família e do lar são todas constituídas parcialmente no discurso como resultados cumulativos e de fato contraditórios de processos complexos e diversos de conversa e escrita Isso poderia levar facilmente à conclusão idealista de que realidades do mundo social como a família simplesmente emanam das cabeças das pessoas Entretanto há três ressalvas que juntas contribuem para bloquear isso Primeiro as pessoas são sempre confrontadas com a família como instituição real em um conjunto limitado de formas variantes com práticas concretas relações e identidades existentes que foram elas próprias constituídas no discurso mas reificadas em instituições e práticas Segundo os efeitos constitutivos do discurso atuam conjugados com os de outras práticas como a distribuição de tarefas domésticas o vestuário e aspectos afetivos do comportamento por exemplo quem é emotivo Terceiro o trabalho constitutivo do discurso necessariamente se realiza dentro das restrições da determinação dialética do discurso pelas estruturas sociais que nesse caso incluem a realidade das estruturas da família mas as ultrapassam e como argumentarei a seguir no interior de relações e lutas de poder particulares Assim a constituição discursiva da sociedade não emana de um livre jogo de idéias nas cabeças das pessoas mas de uma prática social que está firmemente enraizada em estruturas sociais materiais concretas orientandose para elas Uma perspectiva dialética também é um corretivo necessário a uma ênfase indevida na determinação do discurso pelas estruturas estruturas discursivas códigos convenções e normas como também por estruturas nãodiscursivas Desse ponto de vista a capacidade da palavra discurso de referirse às estruturas de convenção que subjazem aos eventos discursivos reais assim como aos próprios eventos é uma ambigüidade feliz mesmo se de outros pontos de vista possa gerar confusão O estruturalismo representado por exemplo pela abordagem de Pécheux descrita no Capítulo 1 trata a prática discursiva e o evento discursivo como meros exem plos de estruturas discursivas que são elas próprias representadas como unitárias e fixas Considera a prática discursiva em termos de um modelo de causalidade mecânica e portanto pessimista A perspectiva dialética considera a prática e o evento contraditórios e em luta com uma relação complexa e variável com as estruturas as quais manifestam apenas uma fixidez temporária parcial e contraditória A prática social tem várias orientações econômica política cultural ideológica e o discurso pode estar implicado em todas elas sem que se possa reduzir qualquer uma dessas orientações do discurso Por exemplo há várias maneiras em que se pode dizer que o discurso é um modo de prática econômica o discurso figura em proporções variáveis como um constituinte da prática econômica de natureza basicamente nãodiscursiva como a construção de pontes ou a produção de máquinas de lavar roupa há formas de prática econômica que são de natureza basicamente discursiva como a bolsa de valores o jornalismo ou a produção de novelas para a televisão Além disso a ordem sociolinguística de uma sociedade pode ser estruturada pelo menos parcialmente como um mercado onde os textos são produzidos distribuídos e consumidos como mercadorias em indústrias culturais Bourdieu 1982 Mas é o discurso como modo de prática política e ideológica que está mais ligado às preocupações deste livro O discurso como prática política estabelece mantém e transforma as relações de poder e as entidades coletivas classes blocos comunidades grupos entre as quais existem relações de poder O discurso como prática ideológica constitui naturaliza mantém e transforma os significados do mundo de posições diversas nas relações de poder Como implicam essas palavras a prática política e a ideológica não são independentes uma da outra pois a ideologia são os significados gerados em relações de poder como dimensão do exercício do poder e da luta pelo poder Assim a prática política é a categoria superior Além disso o discurso como prática política é não apenas um local de luta de poder mas também um marco delimitador na luta de poder a prática discursiva recorre a convenções que naturalizam relações de poder e ideologias particulares e as próprias convenções e os modos em que se articulam são um foco de luta Argumentarei a seguir que o conceito de hegemonia de Gramsci fornece um quadro frutífero para a conceituação e a investigação das dimensões políticas e ideológicas da prática discursiva Em lugar de dizer que tipos de discurso particulares têm valores políticos e ideológicos inerentes direi que diferentes tipos de discurso em diferentes domínios ou ambientes institucionais podem vir a ser investidos política e ideologicamente Frow 1985 de formas particulares Isso significa que os tipos de discurso podem também ser envolvidos de diferentes maneiras podem ser reinvestidos Darei um exemplo no fim deste capítulo no item Mudança discursiva Uma questão razoavelmente importante é como concebemos as convenções e as normas discursivas subjacentes aos eventos discursivos Já fiz alusão à concepção estruturalista de que há conjuntos ou códigos bem definidos que são simplesmente concretizados nos eventos discursivos Isso se estende a uma concepção dos domínios sociolinguísticos constituídos por um conjunto de tais códigos em distribuição complementar de tal modo que cada um tenha suas próprias funções situações e condições de adequação que sejam claramente demarcadas de outros Critiquei concepções de variação sociolinguística baseadas no conceito de adequação em Fairclough no prelo b Abordagens dessa natureza delineiam variação sistemática em comunidades de fala segundo conjuntos de variáveis sociais incluindo o ambiente por exemplo sala de aula parquinho sala de professores e assembléia são diferentes ambientes escolares tipos de atividade propósito social por exemplo ensino trabalho de pesquisa ou teste numa sala de aula e falante por exemplo professora em oposição a alunoa Nessa concepção o código é primário e um conjunto de códigos é simplesmente uma soma de suas partes Uma posição mais frutífera para a orientação histórica da mudança discursiva neste livro é a dos analistas de discurso franceses que sugerem que o interdiscurso a complexa configuração interdependente de formações discursivas tem primazia sobre as partes e as propriedades que não são previsíveis das partes ver a discussão de Pécheux no Capítulo 1 Além disso o interdiscurso é a entidade estrutural que subjaz aos eventos discursivos e não a formação individual ou o código muitos eventos discursivos manifestam uma orientação para configurações de elementos do código e para seus limites para que se possa considerar como regra o evento discursivo existente mas especial construído da concretização normativa de um único código Um exemplo seria gêneros mistos que combinam elementos de dois ou mais gêneros tais como o batepapo em shows da televisão que é parte conversação e parte entretenimento e desempenho ver Tolson 1990 para uma análise do batepapo Entretanto usareio termo foucaultiano ordem do discurso de preferência a interdiscurso porque sugere mais claramente os tipos de configuração que tenho em mente Vamos usar o termo mais frouxo elemento e não código ou a formação para as partes de uma ordem de discurso falarei da natureza desses elementos a seguir Contrariamente a abordagens baseadas em teorias da adequação onde se supõe uma relação única e constante de complementaridade entre os elementos suponho que a relação pode ser ou tornarse contraditória Os limites entre os elementos podem ser linhas de tensão Tomemse por exemplo as diversas posições de sujeito de um indivíduo nos diferentes ambientes e atividades de uma instituição em termos da dispersão do sujeito na formação de modalidades enunciativas segundo Foucault ver no Capítulo 2 o item A formação de modalidades enunciativas É possível que os limites entre os ambientes e as práticas sejam tão naturalizados que essas posições de sujeito sejam vividas como complementares Em diferentes circunstâncias sociais os mesmos limites poderiam tornarse foco de contestação e luta e as posições de sujeito e práticas discursivas associadas a eles poderiam ser consideradas contraditórias Por exemplo os alunos podem aceitar que as narrativas da experiência própria em seus próprios dialetos sociais sejam adequadas a seções das aulas destinadas à discussão mas não a seções destinadas ao ensino ou ao trabalho escrito ou ainda as contradições entre o que é permitido em um lugar mas não em outro podem tornarse plataforma de luta para mudar os limites entre a discussão o ensino e a escrita Em primeiro lugar a aceitação de narrativas de experiência pessoal mesmo em uma parte estritamente delimitada da atividade da sala de aula pode ser uma solução resultante de lutas anteriores para aí incluíla O que se aplica aos limites entre as posições de sujeito e as convenções discursivas associadas geralmente se aplica aos elementos das ordens de discurso Aplicase também aos limites entre distintas ordens de discurso A escola e a sua ordem de discurso podem ser consideradas em relação complementar e não sobrepostas a domínios adjacentes como o lar ou a vizinhança ou por outro lado contradições percebidas entre tais domínios podem virar plataforma de lutas para redefinir seus limites e suas relações lutas por exemplo para estender as propriedades da relação paimãefilhoa e suas convenções discursivas à relação professoraalunoa ou viceversa ou estender as relações e as práticas entre amigos na vizinhança e na rua à escola Os resultados de tais lutas são rearticulações de ordens de discurso tanto das relações entre elementos nas ordens de discurso locais como a da escola como das relações entre ordens de discurso locais na ordem de discurso societária Conseqüentemente os limites entre os elementos como também entre as ordens de discurso locais podem variar entre relativamente fortes ou relativamente fracos ver Bernstein 1981 dependendo de sua articulação atual os elementos podem ser descontínuos e bem definidos ou podem ser pouco nítidos e mal definidos Nem se deve supor que esses elementos sejam homogêneos internamente Uma consequência da luta articulatória que tenho em mente é que os novos elementos são constituídos mediante a redefinição de limites entre os elementos antigos Portanto um elemento pode ser heterogêneo em sua origem e mesmo que essa heterogeneidade histórica não seja sentida como tal quando as convenções são altamente naturalizadas pode ser sentida como contradição no elemento em condições diferentes Um exemplo seria um estilo de ensino familiar que consiste na exploração pelos professores de uma rotina de perguntas e respostas estruturadas para obter dos alunos informações predeterminadas Esse estilo não é necessariamente sentido em termos de uma contradição quando usado por professores com o propósito de dar ordens aos alunos mediante a solicitação de informações mas pode ser entendido dessa maneira Se aplicarmos o conceito de investimento nesse caso podese dizer que os elementos as ordens de discurso locais e as ordens de discurso societárias são na prática potencialmente estruturadas de maneira contraditória e desse modo estão abertas para ter os investimentos políticos e ideológicos como foco de disputa em lutas para desinvestilos ou reinvestilos Os elementos a que me refiro podem ser muito variáveis em termos de uma escala Há casos em que podem parecer corresponder a uma compreensão convencional de um código ou registro inteiramente desenvolvido Halliday 1978 um bloco de variantes em níveis diferentes com padrões fonológicos distintos vocabulário padrões gramaticais regras de tomada de turno e assim por diante Exemplos de tais casos são o discurso de sessões de bingo ou de leilões de gado Em outros casos contudo as variáveis são em escala menor sistemas de tomada de turno particulares vocabulários que incorporam esquemas de classificação particulares roteiros de gêneros como relatos de crimes ou narrativas orais conjuntos de convenções de polidez e assim por diante Um ponto de oposição entre as ordens de discurso é a cristalização de tais elementos em blocos relativamente duráveis Vou sugerir Capítulo 4 item Interdiscursividade um pequeno número de tipos diferentes de elementos gêneros estilos tipos de atividade e discursos Pode ser iluminador neste ponto relembrar uma citação de Foucault Capítulo 2 item A formação dos objetos ao referirse às regras de formação de objetos na psicopatologia As relações identificadas por Foucault que foram adotadas no discurso psiquiátrico para propiciar a formação dos objetos a que se refere podem ser interpretadas como relações entre elementos discursivos de diferentes escalas planos de especificação e planos de caracterização psicológica são no mínimo parcialmente constituídos por vocabulários enquanto o interrogatório judicial e o questionário médico são elementos discursivos de tipo genérico sobre gênero ver Capítulo 4 item Interdiscursividade Entretanto notese que não são apenas elementos discursivos A investigação policial o exame clínico a reclusão terapêutica e a prisão podem ter componentes discursivos mas não são per se entidades discursivas As descrições de Foucault ressaltam a imbricação mútua do discursivo e do nãodiscursivo nas condições estruturais da prática discursiva Nesse sentido as ordens de discurso podem ser consideradas como facetas discursivas das ordens sociais cuja articulação e rearticulação interna têm a mesma natureza Até agora o foco está principalmente no que torna o discurso semelhante a outras formas de prática social Agora preciso contrabalançar tratando da questão sobre o que torna a prática discursiva especificamente discursiva Parte da resposta está evidentemente na linguagem a prática discursiva manifestase em forma linguística na forma do que referirei como textos usando texto no sentido amplo de Halliday linguagem falada e escrita Halliday 1978 A prática social política ideológica etc é uma dimensão do evento discursivo da mesma forma que o texto Mas isso não é suficiente Essas duas dimensões são mediadas por uma terceira que examina o discurso especificamente como prática discursiva Prática discursiva aqui não se opõe a prática social a primeira é uma forma particular da última Em alguns casos a prática social pode ser inteiramente constituída pela prática discursiva enquanto em outros pode envolver uma mescla de prática discursiva e nãodiscursiva A análise de um discurso particular como exemplo de prática discursiva focaliza os processos de produção distribuição e consumo textual Todos esses processos são sociais e exigem referência aos ambientes econômicos políticos e institucionais particulares nos quais o discurso é gerado A produção e o consumo são de natureza parcialmente sociocognitiva já que envolvem processos cognitivos de produção e interpretação textual que são baseados nas estruturas e nas convenções sociais interiorizadas daí o prefixo socio Na explicação desses processos sociocognitivos uma preocupação é especificar os elementos d as ordens de discurso como também outros recursos sociais denominados recursos dos membros em que se baseiam a produção e a interpretação dos sentidos e como isso ocorre A preocupação central é estabelecer conexões explanatórias entre os modos de organização e interpretação textual normativos inovativos etc como os textos são produzidos distribuídos e consumidos em um sentido mais amplo e a natureza da prática social em ter mos de sua relação com as estruturas e as lutas sociais Não se pode nem reconstruir o processo de produção nem explicar o processo de interpretação simplesmente por referência aos textos eles são respectivamente traços e pistas desses processos e não podem ser produzidos nem interpretados sem os recursos dos membros Uma forma de ligar a ênfase na prática discursiva e nos processos de produção distribuição e consumo textual ao próprio texto é focalizar a intertextualidade do último ver o item Prática discursiva a seguir A concepção tridimensional do discurso é representada diagramaticamente na Figura 31 É uma tentativa de reunir três tradições analíticas cada uma das quais é indispensável na análise de discurso Essas são a tradição de análise textual e linguística detalhada na Linguística a tradição macrossociológica de análise da prática social em relação às estruturas sociais e a tradição interpretativa ou microssociológica de considerar a prática social como alguma coisa que as pessoas produzem ativamente e entendem com base em procedimentos de senso comum partilhados Aceito a afirmação interpretativa segunda a qual devemos tentar compreender como os membros das comunidades sociais produzem seus mundos ordenados ou explicáveis Entendo que a análise de processos sociocognitivos na prática discursiva deva ser parcialmente dedicada a esse objetivo embora faça sugestões a seguir de que ela apresenta dimensões macro e micro Entretanto argumentaria que ao produzirem seu mundo as práticas dos membros são moldadas de forma inconsciente por estruturas sociais relações de poder e pela natureza da prática social em que estão envolvidos cujos marcos delimitadores vão sempre além da produção de sentidos Assim seus procedimentos e suas práticas podem ser investidos política e ideologicamente podendo ser posicionados por eles como sujeitos e membros Argumentaria também que a prática dos membros tem resultados e efeitos sobre as estruturas sociais as relações sociais e as lutas sociais dos quais outra vez eles geralmente não têm consciência E finalmente argumentaria que os próprios procedimentos que os membros usam são heterogêneos e contraditórios e contestados em lutas de natureza parcialmente discursiva A parte do procedimento que trata da análise textual pode ser denominada descrição e as partes que tratam da análise da prática discursiva e da análise da prática social da qual o discurso faz parte podem ser denominadas interpretação Sobre essa distinção ver Capítulo 6 Conclusão TEXTO PRÁTICA DISCURSIVA produção distribuição consumo PRÁTICA SOCIAL FIGURA 31 Concepção tridimensional do discurso Discurso como texto Por razões que se tornarão claras mais tarde realmente nunca se fala sobre aspectos de um texto sem referência à produção eou ficante ver Saussure 1959 Saussure e outros na tradição lingüística enfatizam a natureza arbitrária do signo a concepção de que não há uma base motivada ou racional para combinar um significante particular com um significado particular Contra isso abordagens críticas da análise de discurso defendem que os signos são socialmente motivados isto é que há razões sociais para combinar significantes particulares a significados particulares Agradeço a Gunther Kress a discussão desse assunto Pode ser uma questão de vocabulário terrorista e lutador pela liberdade são combinações contrastantes de significante e significado e o contraste entre elas é socialmente motivado ou uma questão de gramática veja exemplos a seguir ou outras dimensões da organização linguística Outra distinção importante em relação ao significado é entre o significado potencial de um texto e sua interpretação Os textos são feitos de formas às quais a prática discursiva passada condensada em convenções dota de significado potencial O significado potencial de uma forma é geralmente heterogêneo um complexo de significados diversos sobrepostos e algumas vezes contraditórios ver Fairclough 1990a de forma que os textos são em geral altamente ambivalentes e abertos a múltiplas interpretações Os intérpretes geralmente reduzem essa ambivalência potencial mediante opção por um sentido particular ou um pequeno conjunto de sentidos alternativos Uma vez que tenhamos em mente a dependência que o sentido tem da interpretação podemos usar sentido tanto para os potenciais das formas como para os sentidos atribuídos na interpretação A análise textual pode ser organizada em quatro itens vocabulário gramática coesão e estrutura textual Esses itens podem ser imaginados em escala ascendente o vocabulário trata principalmente das palavras individuais a gramática das palavras combinadas em orações e frases a coesão trata da ligação entre orações e frases e a estrutura textual trata das propriedades organizacionais de larga escala dos textos Além disso distingo três outros itens principais que não serão usados na análise textual mas na análise da prática discursiva embora certamente envolvam aspectos formais dos textos a força dos enunciados isto é os tipos de atos de fala promessas pedidos ameaças etc por eles constituídos a coerência dos textos e a intertextualidade dos textos Reunidos esses sete itens constituem um quadro para a análise textual que abrange aspectos de sua produção e interpretação como também as propriedades formais dos textos A unidade principal da gramática é a oração ou oração simples por exemplo a manchete de jornal Gorbachev reduz o preço do exército vermelho Os principais elementos das orações geralmente são chamados grupos ou sintagmas por exemplo o exército vermelho reduz o preço As orações se combinam para formar orações complexas Meus comentários aqui se restringirão a certos aspectos da oração Toda oração é multifunctional e assim toda oração é uma combinação de significados ideacionais interpessoais identitários e relacionais e textuais ver o item Discurso anteriormente As pessoas fazem escolhas sobre o modelo e a estrutura de suas orações que resultam em escolhas sobre o significado e a construção de identidades sociais relações sociais e conhecimento e crença Ilustrarei com a manchete de jornal anterior Em termos do significado ideacional a oração é transitiva significa um processo de um indivíduo particular agindo fisicamente notese a metáfora sobre uma entidade Poderíamos muito bem ver aqui um investimento ideológico diferente de outras formas de significar os mesmos eventos por exemplo A União Soviética reduz as Forças Armadas ou O exército soviético desiste das cinco divisões Em termos do significado interpessoal a oração é declarativa oposta à interrogativa ou imperativa e contém uma forma verbal do presente do indicativo que é categoricamente autoritário A relação autoraleitora aqui é entre alguém dizendo o que está acontecendo em termos seguros e alguém que recebe a informação são essas as duas posições de sujeito estabelecidas na oração Terceiro há um aspecto textual Gorbachev é o tópico ou tema da oração como geralmente ocorre com a primeira parte da oração o artigo é sobre ele e seus atos Por outro lado se a oração fosse transformada em passiva o preço do exército vermelho passaria a ser o tema O preço do exército vermelho é reduzido por Gorbachev Outra possibilidade oferecida pela passiva é o apagamento do agente entre parênteses porque ele é desconhecido já conhecido julgado irrelevante ou talvez para deixar vaga a agência e conseqüentemente a responsabilidade A abordagem da linguística crítica é particularmente interessante quanto à gramática Fowler et al 1979 Kress e Hodge 1979 O trabalho de Leech Deuchar e Hoogenraad 1982 é uma introdução acessível à gramática e Halliday 1985 faz uma apresentação mais avançada de uma forma de gramática particularmente útil à análise de discurso O vocabulário pode ser investigado de muitas maneiras e os comentários aqui e no Capítulo 6 são muito seletivos Um ponto que precisa ser esclarecido é que tem valor limitado conceber uma língua com um vocabulário que é documentado no dicionário porque há muitos vocabulários sobrepostos e em competição correspondendo aos diferentes domínios instituições práticas valores e perspectivas Os termos wording lexicalização e significação sobre isso e outros aspectos do vocabulário ver Kress e Hodge 1979 Mey 1985 captam isso melhor do que vocabulário porque implicam processos de lexicalização significação do mundo que ocorrem diferentemente em tempos e épocas diferentes e para grupos de pessoas diferentes Um foco de análise recai sobre as lexicalizações alternativas e sua significância política e ideológica sobre questões tais como a relexicalização dos domínios da experiência como parte de lutas sociais e políticas é bem conhecido o exemplo de relexicalização de terroristas como lutadores pela liberdade ou viceversa ou como certos domínios são mais intensivamente lexicalizados do que outros Outro foco é o sentido da palavra particularmente como os sentidos das palavras entram em disputa dentro de lutas mais amplas quero sugerir que as estruturações particulares das relações entre as palavras e das relações entre os sentidos de uma palavra são formas de hegemonia Um terceiro foco recai sobre a metáfora sobre a implicação política e ideológica de metáforas particulares e sobre o conflito entre metáforas alternativas Ao considerarse a coesão ver Halliday e Hasan 1976 Halliday 1985 estamos concebendo como as orações são ligadas O termo wording significa a criação de palavras N da T em frases e como as frases por sua vez são ligadas para formar unidades maiores nos textos Obtémse a ligação de várias maneiras mediante o uso de vocabulário de um campo semântico comum a repetição de palavras o uso de sinônimos próximos e assim por diante mediante uma variedade de mecanismos de referência e substituição pronomes artigos definidos demonstrativos elipse de palavras repetidas e assim por diante mediante o uso de conjunções tais como portanto entretanto e e mas Focalizar a coesão é um passo para o que Foucault refere como vários esquemas retóricos segundo os quais grupos de enunciados podem ser combinados como são ligadas descrições deduções definições cujas sucessão caracteriza a arquitetura de um texto ver no Capítulo 2 o item A formação de conceitos Esses esquemas e seus aspectos particulares como a estrutura argumentativa dos textos variam entre os tipos de discurso e é interessante explorar tais variações como evidências de diferentes modos de racionalidade e modificações nos modos de racionalidade à medida que mudam as práticas discursivas Estrutura textual também diz respeito à arquitetura dos textos e especificamente a aspectos superiores de planejamento de diferentes tipos de texto por exemplo as maneiras e a ordem em que os elementos ou os episódios são combinados para constituir uma reportagem policial no jornal ou uma entrevista para emprego Tais convenções de estruturação podem ampliar a percepção dos sistemas de conhecimento e crença e dos pressupostos sobre as relações sociais e as identidades sociais que estão embutidos nas convenções dos tipos de texto Como sugerem esses exemplos estamos interessados na estrutura do monólogo e do diálogo O último envolve os sistemas de tomada de turno e as convenções de organização da troca de turnos do falante como também as convenções para abrir e fechar entrevistas ou conversas Prática discursiva A prática discursiva como indiquei anteriormente envolve processos de produção distribuição e consumo textual e a nature za desses processos varia entre diferentes tipos de discurso de acordo com fatores sociais Por exemplo os textos são produzidos de formas particulares em contextos sociais específicos um artigo de jornal é produzido mediante rotinas complexas de natureza coletiva por um grupo cujos membros estão envolvidos variavelmente em seus diferentes estágios de produção no acesso a fontes tais como nas reportagens das agências de notícia na transformação dessas fontes frequentemente elas próprias já são textos na primeira versão de uma reportagem na decisão sobre o local do jornal em que entra a reportagem e na edição da reportagem ver van Dijk 1988 para uma discussão detalhada e mais geralmente sobre processos discursivos Há outras maneiras em que o conceito de produtora textual é mais complicado do que pode parecer É produtivo desconstruir oa produtora em um conjunto de posições que podem ser ocupadas pela mesma pessoa ou por pessoas diferentes Goffman 1981 144 sugere uma distinção entre animadora a pessoa que realmente realiza os sons ou as marcas no papel autora aquelea que reúne as palavras e é responsável pelo texto e principal aquelea cuja posição é representada pelas palavras Em artigos de jornal há uma ambigüidade na relação entre essas posições frequentemente o principal é uma fonte fora do jornal mas algumas reportagens não deixam isso claro e dão a impressão de que o principal é o jornal oa editora ou uma jornalista e os textos de autoria coletiva muitas vezes são escritos como se fossem assinados por uma únicoa jornalista que na melhor das hipóteses seria oa animadora Veja um exemplo em Fairclough 1988b Os textos também são consumidos diferentemente em contextos sociais diversos Isso tem a ver parcialmente com o tipo de trabalho interpretativo que neles se aplica tais como exame minucioso ou atenção dividida com a realização de outras coisas e com os modos de interpretação disponíveis por exemplo geralmente não se leem receitas como textos estéticos ou artigos acadêmicos como textos retóricos embora ambos os tipos de leitura sejam possíveis O consumo como a produção pode ser individual ou coletivo compare cartas de amor com registros administrativos Alguns textos entrevistas oficiais grandes poemas são registrados transcritos preservados relidos outros publicidade não solicitada conversas casuais não são registrados mas transitórios e esquecidos Alguns textos discursos políticos livrostexto são transformados em outros textos As instituições possuem rotinas específicas para o processamento de textos uma consulta médica é transformada em um registro médico que pode ser usado para compilar estatísticas médicas ver no Capítulo 4 o item Intertextualidade e transformação para uma discussão de tais cadeias intertextuais Além disso os textos apresentam resultados variáveis de natureza extradiscursiva como também discursiva Alguns textos conduzem a guerras ou à destruição de armas nucleares outros levam as pessoas a perder o emprego ou a obtêlo outros ainda modificam as atitudes as crenças ou as práticas das pessoas Alguns textos têm distribuição simples uma conversa casual pertence apenas ao contexto imediato de situação em que ocorre enquanto outros têm distribuição complexa Textos produzidos por líderes políticos ou textos relativos à negociação internacional de armas são distribuídos em uma variedade de diferentes domínios institucionais cada um dos quais possui padrões próprios de consumo e rotinas próprias para a reprodução e transformação de textos Por exemplo os telespectadores recebem uma versão transformada de um discurso pronunciado por Thatcher ou Gorbachev versão que é consumida segundo hábitos e rotinas particulares de recepção Produtores em organizações sofisticadas como departamentos do governo produzem textos de forma a antecipar sua distribuição transformação e consumo e neles constroem leitores múltiplos Podem antecipar não apenas os receptores aqueles a quem o texto se dirige diretamente mas também os ouvintes aqueles a quem o texto não se dirige diretamente mas são incluídos entre os leitores e destinatários aqueles que não constituem parte dos leitores oficiais mas são conhecidos como consumidores de fato por exemplo os oficiais soviéticos2 são destinatários em comunicações entre os governos da Organização do Tratado do Atlântico NorteOTAN E cada uma dessas posições pode ser ocupada de forma múltipla Como indiquei anteriormente há dimensões sociocognitivas específicas de produção e interpretação textual que se centralizam na interrelação entre os recursos dos membros que os participantes do discurso têm interiorizados e trazem consigo para o processamento textual e o próprio texto Este é considerado como um conjunto de traços do processo de produção ou um conjunto de pistas para o processo de interpretação Tais processos geralmente procedem de maneira nãoconsciente e automática o que é um importante fator na determinação de sua eficácia ideológica veja outros detalhes adiante embora certos aspectos sejam mais facilmente trazidos à consciência do que outros Os processos de produção e interpretação são socialmente restringidos num sentido duplo Primeiro pelos recursos disponíveis dos membros que são estruturas sociais efetivamente interiorizadas normas e convenções como também ordens de discurso e convenções para a produção a distribuição e o consumo de textos do tipo já referido e que foram constituídos mediante a prática e a luta social passada Segundo pela natureza específica da prática social da qual fazem parte que determina os elementos dos recursos dos membros a que se recorre e como de maneira normativa criativa aquiescente ou opositiva a eles se recorre Um aspecto fundamental do quadro tridimensional para a análise de discurso é a tentativa de exploração dessas restrições especialmente a segunda fazer conexões explanatórias entre a natureza dos processos discursivos em instâncias particulares e a natureza das práticas sociais de que fazem parte Dado o foco deste livro na mudança discursiva e social é este aspecto dos processos discursivos a determinação dos aspectos dos recursos dos membros a que se recorre e como se recorre que é de maior interesse Retornarei a isso a seguir na discussão da intertextualidade Mas primeiro quero falar um pouco em termos mais gerais sobre os aspectos sociocognitivos da produção e da interpretação e introduzir mais duas das sete dimensões de análise força e coerência A produção ou a interpretação de um texto referirmeei apenas à interpretação em partes da discussão a seguir ge ralmente é representada como um processo de níveis múltiplos e como um processo ascendentedescendente Nos níveis inferiores analisase uma sequência de sons ou marcas gráficas em frases no papel Os níveis superiores dizem respeito ao significado à atribuição de significados às frases a textos completos e a partes ou a episódios de um texto que consistem de frases que podem ser interpretadas como coherentemente conectadas Os significados das unidades superiores são construídos em parte dos significados das unidades inferiores Essa é a interpretação ascendente Entretanto a interpretação também se caracteriza por predições sobre os significados das unidades de nível superior no início do processo de interpretação com base em evidência limitada e esses significados preditos moldam a maneira como as unidades de nível inferior são interpretadas Esse é o processamento descendente A produção e a interpretação são parcialmente descendentes e parcialmente ascendentes Além disso a interpretação ocorre no tempo real a interpretação a que já se chegou para palavra ou frase ou episódio x excluirá outras interpretações possíveis para palavra frase ou episódio x 1 ver Fairclough 1989a Esses aspectos do processamento textual contribuem para explicar como os intérpretes reduzem a ambivalência potencial dos textos mostrando parte do efeito do contexto na redução da ambivalência num sentido estreito de contexto como o que precede ou segue em um texto Entretanto contexto também inclui o que às vezes é chamado o contexto de situação os intérpretes chegam a interpretações da totalidade da prática social da qual o discurso faz parte e tais interpretações conduzem a predições sobre os sentidos dos textos que novamente reduzem a ambivalência pela exclusão de outros sentidos possíveis De certo modo essa é uma elaboração das propriedades descendentes da interpretação Uma grande limitação da explicação dos processos sociocognitivos apresentada anteriormente é que geralmente ela é posta em termos universais como se por exemplo o efeito do contexto no sentido e a redução da ambivalência fossem sempre os mesmos Mas não é assim A maneira como o contexto afeta a interpretação do texto varia de um tipo de discurso para outro como Foucault indicou ver no Capítulo 2 o item A formação de conceitos E nesse sentido as diferenças entre os tipos de discurso são socialmente interessantes porque apontam assunções e regras de base implícitas que têm frequentemente caráter ideológico Vou ilustrar esses pontos com uma discussão de força ver Leech 1983 Levinson 1983 Leech e Thomas 1989 A força de parte de um texto frequentemente mas nem sempre uma parte na extensão de uma frase é seu componente acional parte de seu significado interpessoal a ação social que realiza que atos de fala desempenha dar uma ordem fazer uma pergunta ameaçar prometer etc Força está em contraste com proposição o componente proposicional que é parte do significado ideacional é o processo ou a relação que é predicado das entidades Assim no caso de Prometo pagar aoa portadora se exigida a soma de 5 libras3 a força é a de uma promessa enquanto a proposição poderia ser representada esquematicamente como x paga y a z As partes dos textos são tipicamente ambivalentes em termos de força podendo ter força potencial extensiva Por exemplo Você pode carregar a mala poderia ser uma pergunta um pedido ou uma ordem uma sugestão uma reclamação e assim por diante Algumas análises de atos de fala distinguem força direta e indireta poderíamos dizer nesse caso que temos alguma coisa próxima da força direta de uma pergunta que poderia também possuir qualquer das outras forças listadas como sua força indireta Além disso não é de forma alguma incomum que as interpretações permaneçam ambivalentes às vezes pode não estar claro se temos uma pergunta simples ou também um pedido velado e assim se desafiado negável O contexto nos dois sentidos anteriores é um fator importante na redução da ambivalência da força A posição sequencial no texto é um poderoso preditor de força Na acareação qualquer coisa que o advogado diga a uma testemunha imediatamente após a resposta da testemunha pode ser interpretada como uma pergunta o que não impede que seja interpretada simultaneamente como outras coisas por exemplo como acusação Isso ajuda a explicar como é que as formas das palavras podem ter forças que 3 Aproximadamente R 1300 treze reais N da T