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Bispo Titular de Tiberíades Doutor em Filosofia Teologia e Direito Canônico Membro da Academia Romana de S Tomás De Aquino Secretário da S C Dos Seminários e das Universidades Dos Estudos D O M T H I A G O S I N I B A L D I LÓGICA Volume I SACRATÍSSIMO CORDI JESU SANTO AGOSTINHO I N S T I T U T O Elementos de Filosofia Volume I lógIca Dom Thiago Sinibaldi Rua São Pedro n 48 Florianópolis SC Todos os direitos reservados É proibida toda e qualquer reprodução desta edição através de qualquer forma ou meio sem a expressa permissão do autor ImprImatur Sublaci ad Stae Scholasticae die 15 augusti anno 1927 SImon laurentIuS SalVI o S B aBBaS et ordInarIuS A presente obra é uma revisão da 5ª edição portuguesa intitulada Elementos de Philosophia de Dom Thiago Sinibaldi publicada na cidade de Roma em 1927 wwwinstitutosantoagostinhoorg Gestão editorial Ana Cláudia Colla Senra Fábio Miotto Lucas Marques Senra Suelen Cantelli Branco Miotto Preparação do texto Letícia de Paula e equipe Revisão Cristóvão Fernandes Daniel Barbara Eduardo Felipe de Oliveira revisorchefe Projeto gráfico Gislainne Alves de Oliveira Diagramação Daniel Barbara Gislainne Alves de Oliveira Suyane de Liz de Francisco D666e Dom Thiago Sinibaldi Bispo titular de Tibiríades Elementos de filosofia v1 lógica Dom Thiago Sinibaldi 5ªed Florianópolis Editora Instituto Santo Agostinho 2021 312 p 23 cm ISBN 9786599372308 1Filosofia e disciplinas relacionadas I título CDU 100 Leandra Ramos Bibliotecária CRB14698 AETERNI PATRIS ENCÍCLICA DO PAPA LEÃO XIII Sobre a restauração da filosofia cristã O Filho Unigênito do Pai Eterno que apareceu na terra para trazer a salvação à linhagem humana e a luz da sabedoria divina cer tamente trouxe um grande e admirável benefício ao mundo quando tendo que subir novamente ao céu ele ordenou aos apóstolos que que fossem e ensinassem todas as nações e deixou a Igreja por ele fundada como mestre comum e suprema dos povos Mt 2819 Pois os homens a quem a verdade libertou devem ser preservados pela verdade nem os frutos das doutrinas celestiais pelas quais o homem adquiriu saúde teriam durado muito se Cristo Nosso Senhor não tivesse constituído um magistério perene para instruir o enten dimento na fé Mas a Igreja ora animada pelas promessas de seu divino autor ora imitando sua caridade de tal forma cumpria seus preceitos que sempre teve como objetivo principal e desejo ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros Para isso tende o trabalho diligente de cada um dos bispos a este fim as leis e decretos promulgados pelos Concílios e especialmente o pedido diário dos Romanos Pontífices a quem como sucessores no primado de São Pedro Príncipe dos Apóstolos pertence o direito e a obrigação de ensinar e confirmar os irmãos na fé Mas como de acordo com a advertência do Apóstolo pela filosofia e pelos discursos sedutores Col 28 as mentes dos fiéis cristãos são muitas vezes enganadas e a sinceridade da fé nos homens é corrompida os pastores supre mos da Igreja sempre julgaram ser também adequado à sua missão promover com todas as suas forças as ciências que merecem tal nome e ao mesmo tempo providenciar uma vigilância singular para que as ciências humanas sejam ensinadas em todos os lugares de acordo com a regra da fé católica e especialmente a filosofia da qual depende sem dúvida em grande medida o ensino correto das outras ciências Isso mesmo em outras coisas já vos lembramos de passagem Veneráveis Irmãos quando pela primeira vez vos fala mos por Cartas Encíclicas mas agora em razão da gravidade do assunto e da condição dos tempos somos obrigados a falarvos de 4 AETERNI PATRIS novo a fim de estabelecermos o método dos estudos filosóficos que correspondendo ao bem da fé seja acomodado à mesma dignidade das ciências humanas Se alguém fixar sua consideração na amargura de nossos tempos e abraçar com seu pensamento a condição das coisas que são realizadas pública e privadamente sem dúvida descobrirá a causa fecunda dos males tanto daqueles que nos oprimem hoje quanto daqueles que receamos consiste nas más opiniões à cerca das coisas divinas e humanas que partindo primeiro das escolas dos filósofos têm invadido todas as ordens da sociedade acolhidas por muitos Pois visto que é da natureza do homem seguir a razão como guia em suas ações se a inteligência peca em qualquer coisa sua vontade logo o seguirá e assim acontece que as falsas opiniões cuja sede está no entendimento influenciam as ações humanas e as pervertem Ao passo que por outro lado se os homens estiverem de bom juízo e se posicionarem em princípios verdadeiros e sólidos o resultado será uma grande quantidade de benefícios para o bem público e privado Não atribuímos de fato tal força e autoridade à filosofia a ponto de considerála igual à tarefa de combater e erradi car todos os erros pois quando a religião cristã foi constituída pela primeira vez veio à terra para restaurála à sua dignidade primitiva pela admirável luz da fé difundida não por palavras persuasivas de sabedoria humana mas na manifestação do espírito e do poder Cor 24 assim também no tempo presente olhamos acima de todas as coisas para a ajuda poderosa de Deus TodoPoderoso para trazer de volta a um entendimento correto das mentes do homem e dissipar as trevas do erro Mas os auxílios naturais não devem ser desprezados ou postergados os quais em benefício da sabedoria divina que forte e suavemente dispõe de todas as coisas estão à disposição da humanidade entre os quais o uso correto da filosofia é o principal Pois que não foi em vão que Deus concedeu à alma humana a luz da razão A luz adicionada da fé está longe de extinguir ou diminuir a luz adicionada da fé a virtude da inteligência que ao invés a aperfeiçoa e aumentando sua força a habilita para coisas maiores A própria ordem da Providência pede portanto que se peça apoio também para a ciência humana ao chamar os povos à fé e à 5 AETERNI PATRIS saúde plausível e sábia indústria que monumentos da antiguidade atestam ter sido praticada pelos mais préesclarecidos Padres da Igreja Estes costumavam ocupar a razão em muitos e importantes ofícios todos os quais o grande Agostinho resumiu brevemente atribuindo a esta ciência aquilo por meio do que a fé salubérrima é produzida nutrida defendida e consolidada De Trin lib XIVl Em primeiro lugar a filosofia se devidamente empregada pelos sábios pode de alguma forma pavimentar e facilitar o caminho para a fé verdadeira e preparar adequadamente os espíritos de seus alunos para receber a Revelação por isso era chamada pelos antigos umas vezes instituição prévia para a religião cristã Clem Alex Strom lib I 16 outras vezes prelúdio e auxilio do cristianismo Orig ad Greg Thaum e também é chamada pedagogo para o Evangelho Clem Alex Strom I 5 E na verdade nosso Deus benigno no que diz respeito às coisas divinas não só nos manifestou aquelas verdades que a inte ligência humana é insuficiente para conhecer mas também mani festou algumas não inteiramente inacessíveis à razão de modo que a autoridade sobrevém de Deus ao ponto e sem qualquer mistura de erro eles foram manifestados a todos Conseqüentemente os próprios sábios iluminados apenas pela razão natural conheceram demonstraram e defenderam com argumentos adequados algumas verdades que são propostas como um objeto da fé divina ou estão unidas por certos laços muito estreitos com a doutrina da fé Pois as coisas dEle que são invisíveis se vêem depois da criação do mundo considerandoas pelas obras que foram feitas ainda a Sua virtude sempiterna e a Sua divindade Rom 120 e os gentios que não têm lei mostram todavia a obra da lei escrita em seus corações Rom 215 É portanto extremamente oportuno que essas verdades mesmo reconhecidas pelos próprios sábios pagãos se tornem o benefício e a utilidade da doutrina revelada para que com efeito se manifeste que a sabedoria humana e o mesmo testemunho dos adversários também favorecem à fé cristã cujo modelo de trabalho é claro que não foi introduzido recentemente mas é antigo e foi usado muitas vezes pelos Santos Padres da Igreja Além disso essas veneráveis testemunhas e guardas das 6 AETERNI PATRIS tradições religiosas reconhecem certa forma e quase uma figura no fato dos hebreus que ao deixarem o Egito foram ordenados a carregar consigo os vasos de ouro e prata dos egípcios para que repentinamente mudassem de uso esses talheres serviriam à religião do verdadeiro Deus que antes tinha servido para ritos infames e superstições Gregório de Neocesaréia Orat paneg ad Origen louva Orígenes por isso que tendo este extraído com engenhosa habilidade muitas verdades dos pagãos considerando as como armas arrebatadas aos inimigos serviuse delas Com singular engenho para defesa da sabedoria cristã e para refutação da superstição Igualmente Gregório Nazianzeno Vit Moys E Gregório Nisseno louva e aprovam o mesmo costume de disputar de Basílio Magno Carm I Iamb 3 porém São Jerônimo encare cidamente o recomenda em Quadrato discípulo dos Apóstolos em Aristides em Justino em Irineu e em muitíssimos outros Epist ad Magn E Agostinho diz Não vemos nós com quanto ouro e prata luxuosamente vestido saiu do Egito Cipriano doutor sua víssimo e felicíssimo mártir E como saiu Lactâncio E Vitorino Optato e Hilário E para não enumerar os vivos como saíram inumeráveis gregos De doctr christ I II 40 Verdadeiramente se a razão natural deu tão excelente semente de doutrina antes de ser fertilizada com a virtude de Cristo ela certamente a produzirá muito mais abundantemente depois que a graça do Salvador res taurou e enriqueceu as forças naturais da mente humana E quem não vê que com esta forma de filosofar se abre um caminho suave e praticável para a fé No entanto a utilidade que advém dessa forma de filosofar não se circunscreve nesses limites E realmente as páginas da sabedoria divina reprovam seriamente a loucura daqueles homens que por aquelas coisas que se viam serem bens não puderam compreender Aquele que é e que não atendendo às obras desconheceram quem era o artífice Sab 13 1 Assim em primeiro lugar o grande e mais excelente fruto que se colhe da razão humana é demonstrar que existe um Deus porque pela grandeza da imagem e da criatura pode chegarse sem dúvida ao Criador delas Sab 5 5 Depois mostra razão que Deus se destaca singularmente pela reunião de todas as 7 AETERNI PATRIS perfeições primeiro pela sabedoria infinita da qual nada pode ser escondido e pela justiça suprema que nunca pode ser superada por qualquer afeto perverso e que por isso Deus não só é verdadeiro mas é a própria verdade que não pode enganarse nem enganarnos Daí se segue muito claramente que a razão humana ganha da palavra de Deus fé e autoridade plena Da mesma forma a razão declara que a doutrina evangélica brilhou desde sua origem por certos prodígios como certos argumentos da verdade e que portanto todos os que acreditam no Evangelho não acreditam irresponsavelmente como se estivessem seguindo fábulas eruditas cf 2Petr116 mas com um dom totalmente racional submetem sua inteligência e seu julgamento à autoridade divina O que porém não é de menos valor é que a razão prova claramente que a Igreja instituída por Cristo como definiu o Concílio Vaticano por causa da sua admirável propaga ção exímia santidade e inexaurível fecundidade em toda a parte por causa da unidade católica e firmeza invencível é um grande e perpétuo motivo de credibilidade e um testemunho irrefragável da sua divina missão Const Dog de Fid Cath 3 Colocando essas fundações muito sólidas ainda se requer um continuado e múltiplo uso da filosofia para que a teologia sagrada admita e receba a natureza o hábito da verdadeira ciência Porque nessa a mais nobre de todas as ciências é muito necessário que as muitas e diversas partes das doutrinas celestes sejam reunidas como um corpo a fim de que convenientemente dispostas cada qual em seu lugar e derivadas de princípios próprios permaneçam estritamente unidas entre si e finalmente que cada uma delas seja confirmada em seus próprios argumentos irrefutáveis Nem se deve passar em silêncio ou subestimar aquele conhecimento mais diligente e abundante das coisas do que dos mesmos mistérios da fé que Agostinho e outros Santos Padres elogiaram e tentaram alcançar e que o mesmo Concílio Vaticano definiu que era frutuoso Este conhecimento e inteligência serão mais perfeita e facilmente alcançados por aqueles que à integridade da vida e do estudo da fé reúnem uma engenhosidade adornada com as ciências filosó ficas especialmente ensinando o mesmo Concílio Vaticano que a inteligência dos sagrados dogmas convém ser deduzida ora da 8 AETERNI PATRIS analogia das coisas que se conhecem naturalmente ora da conexão dos mesmos mistérios entre si e com o fim último do homem Const Dogm de Fid Cath 20 Enfim também pertence à filosofia defender religiosamente as verdades ensinadas pela revelação e resistir a quem se atreva a desafiálas Nesse sentido a filosofia é altamente elogiada por ser considerada um baluarte da fé e uma firme defesa da religião Diz Clemente de Alexandria A doutrina do Salvador é perfeita em si e não carece de ninguém porque é virtude e sabedoria de Deus A filo sofia humana não faz mais poderosa a verdade mas enfraquecendo os argumentos dos sofistas contra ela e pulverizando os maliciosos estratagemas contra a verdade com razão é chamada sebe e estacada da vinha Strom lib 1 20 De fato assim como os inimigos do nome católico para lutar contra a religião muitas vezes tomam seus instrumentos de guerra da razão filosófica assim os defensores das ciências divinas tiram depósito da filosofia muitos argumentos para defenderem os dogmas da Revelação Nem se deve julgar que a fé cristã obterá um pequeno triunfo porque as armas dos adversários preparadas pela arte da razão humana para fazer o mal são vigorosa e prontamente rejeitadas pela própria razão humana Este tipo de combate religioso foi utilizado pelo próprio Apóstolo dos Gentios como recorda São Jerônimo ao escrever a Magno Paulo capitão do exército cristão e invencível orador combatendo por cristo aproveita com muita arte para argumento da fé uma inscrição casual porque aprendera do verdadeiro Davi a arrancar as armas ao inimigo e a decepar a cabeça do orgulhoso Golias com sua própria espada Epist ad Magn E a mesma Igreja não só exorta mas ordena que os doutores cristãos peçam esse auxílio da filosofia Para o V Concílio de Latrão depois de estabelecer que toda asserção contrária à verdade da fé revelada é completamente falsa porque a verdade não pode estar em contradição com a verdade Bulla Apostolici Regiminis ordena aos Doutores da filosofia que trabalhem diligentemente na solução dos argumentos falsos pois que como afirma Santo Agostinho se a razão se opõe à autoridade das Escrituras Divinas por muito especiosa que seja enganase com a semelhança da verdade porque não pode ser verdadeira Epist 143 7 9 AETERNI PATRIS Mas para que a filosofia possa produzir os frutos preciosos que recebemos é absolutamente necessário que nunca se afaste dos procedimentos seguidos pelos antigos Padres e aprovada pelo Concílio Vaticano com solene autoridade Ademais quando clara mente conhecemos que por motivos sobrenaturais devemos receber quaisquer verdades que são muito superiores à capacidade de qual quer intelecto a razão humana conhecendo sua fraqueza não ouse passar adiante nem negar essas verdades nem compreendêlas nem interpretálas livremente mas aceitandoas com absoluta e humilde fé e considerando como grande honra ser lhe permitido seguir à maneira de serva e criada as doutrinas celestes e por benefício de Deus atingilas de algum modo Em todas essas doutrinas principais que a inteligência humana não pode receber naturalmente é muito correto que a filosofia use seu método seus princípios e argumentos Não porém de uma maneira que pareça querer fugir da autoridade divina Antes de afirmar que as coisas conhecidas pela revelação gozam de uma verdade indiscutível e que aqueles que se opõem à fé também lutam com a razão justa saiba o filósofo católico que violará os diretos da fé e da razão se adotar conclusões que conhece estarem em contradição com a doutrina revelada Bem sabemos que não faltam aqueles que exaltando dema siadamente as faculdades da natureza humana defendem que a inteligência do homem uma vez submetida à autoridade divina desce da dignidade natural e como que curvada debaixo do jugo da escravidão é de tal sorte impedida que não pode atingir o ápice da verdade e da excelência Essas doutrinas no entanto estão cheias de erros e falácias e o fim a que visam é que os homens com a maior loucura e não sem crime de ingratidão rejeitem as verdades mais sublimes e respeitem espontaneamente o benefício da fé da qual até mesmo para o a sociedade civil gerou as fontes de todos os bens Por estar a mente humana encerrada em certos e muito estreitos limites está sujeita a muitos erros e a ignorar muitas coisas Pelo contrário a fé cristã confiando na autoridade de Deus ela é a infalível mestra da verdade após a qual ninguém cai nas cadeias do erro nem é abalado por ondas de opiniões incertas Portanto aqueles que com binam o estudo da filosofia com a obediência à fé cristã raciocinam 10 AETERNI PATRIS perfeitamente pressupondo que o esplendor das verdades divinas recebidas pela alma ajuda a mesma inteligência e bem longe de ofendêla em sua dignidade lhe dá muita nobreza penetração e firmeza E quando direcionam a perspicácia da engenhosidade para rejeitar as sentenças que são repugnantes à fé e aprovar aquelas que são consistentes com ela eles exercem a razão com dignidade e da maneira mais útil pois no primeiro eles descobrem as causas do erro e conhecem o defeito dos argumentos em que as mesmas se fundam Neste último porém gozam da consideração das razões com que solidamente são demonstradas e podem ser persuadidas a qualquer homem prudente Quem nega que com esse processo e exercício aumentam as riquezas do entendimento e se desenvolvem as suas faculdades há de cair no absurdo de afirmar que a distinção do verdadeiro e do falso não conduz de forma alguma à perfeição do intelecto Com razão o Concílio Vaticano recorda com estas palavras os benefícios que a fé proporciona à razão A fé livra e defende dos erros a razão e a instrui com muitos ensinamentos Const Dogm de Fid Cathol 4 E portanto o homem verdadeiramente sábio não deveria culpar a fé como inimiga da razão e das verdades naturais mas antes deveria dar graças a Deus e regozijarse veementemente porque entre as muitas causas da ignorância e em meio às ondas dos erros iluminaram a santíssima fé que como estrela amiga indica o porto da verdade excluindo todo medo do erro Pois venerados irmãos se vocês derem uma olhada na his tória da filosofia compreenderão que tudo o que dissemos até aqui é comprovado pelos fatos E certamente os antigos filósofos que careciam do benefício da fé mesmo aqueles que são considerados os mais sábios erraram muito em muitas coisas falsas e indecentes quantas incertas e duvidosas entre algumas verdadeiras eles ensi naram sobre a verdadeira natureza da divindade sobre a origem primitiva das coisas sobre o governo do mundo sobre o conheci mento divino das coisas futuras sobre a causa e o início dos males sobre o fim último do homem e a bemaventurança eterna sobre as virtudes e vícios e em outras doutrinas cujo conhecimento ver dadeiro e certo é o mais necessário à raça humana Enquanto que por outro lado os primeiros Padres e Doutores da Igreja que bem 11 AETERNI PATRIS compreenderam de acordo com o plano divino que o restaurador da ciência humana é Cristo que é virtude e sabedoria de Deus I Cor 1 24 e no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedora e da ciência Col 2 3 empreenderam averiguar os livros dos sábios antigos e confrontar as suas opiniões com as doutrinas reveladas e investigandoos cuidadosamente adotaram o que nelas parecia conforme com a verdade e corrigiram e rejeitaram tudo o mais Pois Deus infinitamente livre levantou mártires fortíssimos para a defesa da Igreja e contra a crueldade dos tiranos assim também opôs aos falsos filósofos e aos hereges homens extraordinários em sabedoria que defenderam com a ajuda da razão humana o tesouro das ver dades reveladas E assim desde os princípios da Igreja a doutrina católica teve adversários muito hostis que zombando dos dogmas e costumes dos cristãos defendiam a pluralidade dos deuses que a questão do mundo carecia de princípio e causa e que a ordem das coisas estava numa força cega e numa necessidade fatal e que não era regida pela Providência Divina Contudo com esses mestres de doutrina absurda aqueles sábios a quem chamamos de Apologistas que precedidos pela fé também usaram os argumentos da sabedoria humana com os quais estabeleceram que apenas um Deus deveria ser adorado revestido de todas as perfeições que todas as coisas foram feitas do nada por um poder onipotente subsistem de sua sabedoria e cada um se move e dirige para seus próprios fins Ocupa o primeiro lugar entre estes mártires São Justino que depois de ter percorrido as mais famosas academias dos gregos para ganhar experiência e tendo visto como ele próprio confessa que a verdade só pode ser tirada das doutrinas reveladas abraçandoas com todo o ardor de seu espírito ele as purgou das calúnias diante dos imperadores romanos e com elas concordou grande número de opiniões dos filósofos gregos Também Quadrato e Aristides Hérmias e Atenágoras de forma excelente brilharam por esse tempo Pela mesma razão Irineu mártir invicto e bispo da Igreja de Lyon não alcançou menos glória que corajosamente refutando as perver sas opiniões dos orientais difundidas graças aos gnósticos em todo o Império Romano explicou as origens de cada uma das heresias como afirma Jerônimo e de que fontes filosóficas emanavam 12 AETERNI PATRIS Epist ad Magn Todos conhecem as contendas de Clemente Alexandrino das quais o próprio Jerónimo para os homenagear lembra assim Que há nelas de ignorância E mesmo que há aí que não provenha do seio mesmo da filosofia Loc cit Ele mesmo lidou com uma incrível variedade de muitas coisas muito úteis para fundar a filosofia da história para exercer a dialética em tempo hábil para estabelecer a concórdia entre a razão e a fé Na sequência deste Orígenes insigne mestre da escola de Alexandria altamente erudito nas doutrinas gregas e orientais deu origem a muitos volumes eruditos para explicar as letras sagradas e ilustrar os dogmas sagrados Ainda que esses livros tais quais agora existem não estão totalmente isentos de erros contêm no entanto grande cópia de sentenças que multiplicam e robustecem as verdades natu rais Tertuliano luta contra os hereges com a autoridade das letras sagradas e aos filósofos mudando de armas opõelhes a filosofia Mas ele os refutou com tanta erudição e exatidão que ousou dizer Não me podeis igualar em ciência nem em doutrina como julgais Apologet 46 Arnóbio nos livros publicados contra os hereges e Lactâncio especialmente em suas instituições divinas empregam igual eloquência e valor para persuadir aos homens os dogmas e preceitos da sabedoria católica não destruindo a filosofia como costumam fazer os acadêmicos servemse para os persuadir Inst VII 7 ora das suas armas ora as que se deduzem das questões intestinas dos filófofos De Opif Dei 21 As coisas que o grande Atanásio e Crisóstomo príncipe dos oradores escreveram sobre a alma humana os atributos divinos e outros assuntos de extrema importância destacamse de tal forma na opinião de todos que parece que quase nada pode ser adicionado à sua engenhosidade e riqueza E para não ser cansativo listar cada um dos apologistas ajuntaremos aos que temos mencionado Basílio Magno bem como os dois Gregórios que saíram de Atenas empório de letras humanas grandemente instruídos em todos os recursos da filosofia converteram essas mesmas ciências que haviam adquirido com ardente estudo em refutar os hereges e instruir os cristãos Mas Santo Agostinho parece ter arrancado a primazia de tudo De um gênio mais poderoso e totalmente saturado de erudição 13 AETERNI PATRIS sagrada e profana com a mais elevada fé e com igual conhecimento ele combateu mais vigorosamente todos os erros de sua época Que assunto da filosofia não tocou e não aprofundou Que região dele ele não explorou diligentemente seja ao expor os mais elevados mistérios da fé aos fiéis seja defendendoos contra o ataque total dos adversários ou ainda quando ao demolir as fábulas dos Acadêmicos ou dos Maniqueus assentou e consolidou os fundamentos da ciência humana Com que riqueza e penetração tratou dos anjos da alma da inteligência humana a vontade e livre arbítrio da religião da vida futura do tempo da eternidade e até da mesma natureza dos corpos sujeitos a mudanças Posteriormente no Oriente João Damasceno seguindo as pegadas de Basílio e Gregório de Nazianzeno e no Ocidente Boécio e Anselmo seguindo as doutrinas de Agostinho acrescentou enormemente o patrimônio da filosofia Em seguida os Doutores da Idade Média chamados de Escolásticos empreenderam um grande trabalho recolher diligen temente as fecundas e abundantes colheitas da doutrina reformular nas volumosas obras dos Santos Padres e reunir para colocálas em um só lugar para uso e comodidade dos que virão Qualquer que seja a origem a natureza e a excelência da ciência escolar é útil aqui Veneráveis Irmãos mostrála mais difusamente com as palavras do sábio Nosso Predecessor Sixto V Pela dom dAquele que é o único a dar o espírito de ciência de sabedoria e de inteligência e que no decurso dos séculos e segundo as necessidades não cessa de enobrecer a sua Igreja com novos benefícios de provêla de novas e seguras defesa nossos antecessores homens de profunda ciência inventaram a teologia escolástica Principalmente porém dois glo riosos doutores o Angélico São Tomás e o Seráfico São Boaventura ambos professores ilustres nesta faculdade são os que com seu incomparável talento com seu assíduo zelo com seus trabalhos e vigílias cultivaram esta ciência enriquecendoa e transmitindoa a seus descendentes disposta em uma ordem perfeita e explicada de muitos modos E certamente o conhecimento de uma ciência tão saudável que dimana do fecundíssimo manancial das Escrituras dos Sumos Pontífices dos Santos Padres e dos Concílios tem sido em todos os tempos de grande vantagem para a Igreja já para a boa 14 AETERNI PATRIS inteligência e verdadeira interpretação das Escrituras já para ler e explicar os Padres com mais segurança e utilidade já para refutar os variados erros e as heresias Nesses últimos tempos contudo que nos têm trazido os dias profetizados pelo Apóstolo em que os homens blasfemos orgulhosos sedutores fazem progresso no mal errando eles e induzindo os outros ao erro certamente que para confirmar os dogmas da fé católica e refutar as heresias é mais que nunca necessária a ciência de que tratamos Bulla Triumphantis 1588 Embora essas palavras pareçam ter referência apenas à teo logia escolástica não obstante elas podem ser claramente aceitas como igualmente verdadeiras para a filosofia Pois os nobres dotes que tornam a teologia escolástica tão formidável para os inimigos da verdade a saber como acrescenta o mesmo Pontífice aquela pronta e estreita coerência de causa e efeito aquela ordem e disposi ção como de um exército disciplinado em batalha aquelas definições e distinções claras aquela força de argumento e aquelas discussões agudas pelas quais a luz se distingue das trevas o verdadeiro do falso expõem e desnudam por assim dizer as falsidades dos hereges envoltas por uma nuvem de subterfúgios e falácias aqueles nobres e admiráveis dotes dizemos são encontrados apenas no uso correto daquela filosofia que os professores escolásticos foram acostumados cuidadosa e prudentemente a fazer uso mesmo em controvérsias teológicas Além disso por ser função própria e especial dos teólogos Escolásticos unir com o mais estreito laço a ciência divina e humana certamente a teologia na qual eles se destacaram não teria ganhado tanta honra e elogio entre os homens se eles tivessem pregado uma filosofia incompleta vã e superficial Ora entre os doutores escolásticos brilha enormemente Santo Tomás de Aquino príncipe e mestre de todos que como adverte o Cardeal Caetano por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam herdou de certo modo a inte ligência de todos S T II II 148 4 Santo Tomás agrupou suas doutrinas como membros dispersos de um mesmo corpo reuniuas classificouas com admirável ordem e de tal modo as enalteceu que tem sido considerado com muita razão como o próprio defensor e a honra da Igreja Com seu espírito ao mesmo tempo humilde 15 AETERNI PATRIS e penetrante sua memória pronta e tenaz sua vida inteiramente impecável um amante da verdade por si mesma ricamente dotado de ciência humana e divina comparado com o sol aqueceu o mundo com o calor de suas virtudes e o encheu com o esplendor de seu ensino Não há nenhuma parte da filosofia que não tenha lidado com firmeza e ao mesmo tempo com solidez Ele lidou com as leis da razão com Deus e as substâncias incorpóreas com o homem e outras coisas sensíveis com os atos humanos e seus princípios Ele raciocinou de tal maneira que nele não faltam nem um conjunto completo de questões nem uma disposição adequada de as várias partes nem o melhor método de proceder nem solidez de princípios ou força de argumentação nem clareza e elegância de estilo nem facilidade para explicar o que é obscuro Além disso o Doutor Angélico impulsionou sua investigação filosófica sobre as razões e os princípios das coisas que por serem mais abrangentes e conterem em seu seio por assim dizer o germe de quase infinitas verdades deveriam ser desdobradas em tempo útil por mestres posteriores e com um bom rendimento E como ele também usou este método filosófico na refutação do erro ele ganhou este título para se distinguir que sozinho lutou vitoriosamente contra os erros de outros tempos e forneceu armas invencíveis para derrotar aqueles que poderiam em tempos posteriores surgir Mais uma vez distinguindo claramente como é apropriado à razão e à fé enquanto associava alegremente uma à outra conservando a cada uma seus direitos e salvando sua dignidade Assim é que a razão levada por Santo Tomás até o píncaro humano não pode elevarse a maior altura E a fé dificilmente poderia esperar numerosas e mais fortes argumentos da razão do que aqueles que lhe forneceu Santo Tomas de Aquino Por essas razões a maioria dos homens eruditos nos séculos passados e mais dignos de louvor por seus conhecimentos teológicos e filosóficos buscando com indizível avidez as obras de Santo Tomás consagraramse à sua sabedoria angelical não tanto para aperfeiço álo nela mas também para imbuirse inteiramente dela É um fato constante que quase todos os fundadores e legisladores de ordens religiosas enviaram seus companheiros para estudar as doutrinas 16 AETERNI PATRIS de Santo Tomás e aderir a elas religiosamente desde que não se permitisse que ninguém se separasse impunemente nem mesmo no mínimo das pegadas deste grande mestre E deixando de lado a família dominicana que tem Santo Tomás por direito próprio os Beneditinos os Carmelitas os Agostinianos a Companhia de Jesus e muitas outras Ordens estão obrigadas a esta lei como atestam as respectivas legislações de cada ordem E aqui com indizível prazer a alma recorda aquelas famosas Academias e Escolas que outrora floresceram na Europa a saber a de Paris a de Salamanca a de Alcalá a de Douai a de Tolosa e Louvaina a de Pádua de Bolonha a de Nápoles a de Coimbra e muitas outras Ninguém desconhece que sua fama cresceu pouco a pouco com o tempo e que as consultas que lhes eram feitas quando se agitavam questões muito sérias tinham muita autoridade entre os sábios Pois bem é indubitável que naqueles grandes empórios do conhecimento humano Tomás reinava como um príncipe em seu próprio império e que os espíritos de todos tanto dos mestres como dos discípulos repousaram com admirável concórdia no magistério e autoridade do Doutor Angélico Além disso os Romanos Pontífices nossos predecessores honraram a sabedoria de Tomás de Aquino com elogios únicos e vastos testemunhos Clemente VI Nicolau V Bento XIII e outros testemunham que a Igreja Universal é ilustrada com sua admi rável doutrina São Pio V confessa que com a mesma doutrina as heresias confundidas e refutadas se dissipam e que todos os dias livra o mundo de erros maléficos Outros como Clemente XII afirmam que de suas doutrinas emanaram abundantes bens à Igreja Católica e que ele próprio deve ser venerado com a mesma honra que é prestada aos maiores doutores da Igreja Gregório Ambrósio Agostinho Jerônimo Outros por fim não hesitaram em propor Santo Tomás como modelo e mestre às Academias e às Escolas Superiores que deve ser seguido com firmeza e com segurança Nesse ponto as palavras de São Urbano V à Academia de Tolosa são dignas de nota Queremos pelo teor das presentes mandamos que se sigais as doutrinas de São Tomás como verídicas e católicas e que envideis todos os esforços para desenvolvêlas 17 AETERNI PATRIS Cons 5 3081368 Seguindo o exemplo de Urbano V Inocêncio XII impõe as mesmas prescrições à Universidade de Louvaina e Bento XIV ao Colégio Dionisiano de Granada Acrescente a estes julgamentos dos Sumos Pontífices sobre Santo Tomás de Aquino o testemunho de Inocêncio VI como complemento A sua doutrina tem sobre as demais exceto o canônico propriedade nos termos ordem nos assuntos verdade nas proposições de modo que quem a segue nunca se desvie do caminho da verdade e quem a contesta será sempre suspeito de erro Sermão de S Tomás Também os Concílios Ecumênicos onde floresce a flor de toda a sabedoria terrena sempre tiveram o cuidado de dar a Santo Tomás de Aquino uma honra singular Nos Concílios de Lião de Viena de Florença do Vaticano podese dizer que Santo Tomas interveio nas deliberações e decretos dos Padres presidiu de certo modo lutando com força inelutável e com grande sucesso contra os erros dos gregos dos hereges e dos racionalistas Mas a glória principal e especial de Santo Tomás e que nenhum dos doutores católicos pode partilhar é que os Padres do Concilio Tridentino fizeram parte da ordem do conclave de colocar no altar com o livro das Escrituras e com os decretos dos Papas a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino para extrair dela conselhos razões e inspirações Um último triunfo foi reservado para este homem incom parável a saber ter sabido receber dos inimigos da Igreja Católica homenagens elogios e admiração Pois é sabido que entre os prin cipais promotores de heresias houve alguns que declararam em alta voz que suprimida a doutrina de São Tomás de Aquino se comprometiam a empreender uma luta vantajosa contra todos os doutores católicos e aniquilar a Igreja Infundada esperança mas não infundado testemunho Portanto veneráveis irmãos sempre que contemplamos o bem a força e as vantagens singulares que derivam de sua disciplina filosófica que nossos pais tanto amavam achamos arriscado que sua honra especial não deva permanecer sempre e em toda parte especialmente quando está estabelecido que a experiência cotidiana o julgamento dos maiores homens e para coroar a todos a voz da Igreja têm favorecido a filosofia escolástica E no lugar da velha 18 AETERNI PATRIS doutrina uma certa espécie de filosofia foi apresentada em várias partes da qual não se colheram os frutos desejados e saudáveis que a Igreja e a própria sociedade civil almejaram Debaixo dos impulsos dos inovadores do século XVI principiouse a filosofar sem respeito algum pela fé com plena licença para deixar voar o pensamento segundo o capricho e critério de cada um Por isso foi fácil para os gêneros da filosofia se multiplicarem de forma extraordinária e que apareceram opiniões diversas e contraditórias até sobre os objetos mais importantes dos conhecimentos humano Com uma plurali dade de conclusões os homens freqüentemente chegam a vacilar e duvidar da dúvida no entanto ao erro é fácil ao conhecimento humano o chegar como é sabido por todos os homens Mas como os homens estão aptos a seguir a liderança que lhes é dada essa nova busca parece ter cativado a alma de certos filósofos católicos que jogando de lado o patrimônio da sabedoria antiga preferiram construir um novo edifício do que fortalecer e completar o velho com a ajuda do novo imprudentemente na verdade e não sem prejuízo para as ciências Pois um sistema multiforme desse tipo que depende da autoridade e da escolha de qualquer professor tem um fundamento aberto à mudança e conseqüentemente nos dá uma filosofia não firme e estável e robusta como a de antigamente mas vacilante e débil E se por acaso ele às vezes se encontra quase incapaz de suportar o choque de seus inimigos ele deve reconhecer que a causa e a culpa estão em si mesmo E ao dizer isso não condenamos realmente aqueles homens eruditos e engenhosos que colocam sua indústria e erudição e as riquezas de novas descobertas a serviço da filosofia sabemos muito bem que com essa ciência recebe um aumento Mas devese evitar diligentemente não fazer com que a indústria e os estudos consistam no todo ou no principal exercício da filosofia Da mesma forma deve ser julgado pela Teologia Sagrada que gostamos de ser ajudados e ilustrados com as múltiplas ajudas da bolsa de estu dos mas é absolutamente necessário que seja tratado segundo o grave costume dos escolásticos para que nele unidas as forças da revelação e da razão continuem a ser uma defesa invencível da fé Sixto V Bulla cit 19 AETERNI PATRIS Com sábia previsão portanto não poucos dos defensores dos estudos filosóficos ao voltarem suas mentes recentemente para a reforma prática da filosofia objetivaram e visaram restaurar o renomado ensino de Tomás de Aquino e reconquistálo em sua antiga beleza Aprendemos com grande alegria que muitos mem bros de sua ordem veneráveis irmãos levam esse plano a sério e embora louvemos sinceramente seus esforços exortamosvos a se apegarem ao seu propósito e lembramos a cada um de vocês que Nossa primeira e mais acalentada ideia é que todos vocês devem fornecer aos jovens estudiosos um suprimento generoso e abun dante desses fluxos mais puros de sabedoria fluindo inesgotável da preciosa fonte do Doutor Angélico Muitas são as razões pelas quais desejamos tanto isso Em primeiro lugar então uma vez que na tempestade que está sobre nós a fé cristã está sendo constantemente assaltada pelas maquina ções e artifícios de uma certa falsa sabedoria todos os jovens mas especialmente aqueles que são a esperança crescente da Igreja deve riam ser alimentados com o alimento forte e robusta da doutrina para que assim poderosos em força e armados em todos os pontos possam se habituar a fazer avançar a causa da religião com força e julgamento como diz o Apóstolo a dar conta a quem lha pedir da esperança que existe em nós I Ped 5 assim como a exortar em sã doutrina e convencer os que a contradizem Tito 1 9 Além disso muitos dos homens que afastando o espírito da fé abominam os ensinamentos católicos professam que para eles apenas a razão é guia e mestre E para curálos e devolvêlos à fé católica além da ajuda sobrenatural de Deus julgamos que nada é mais oportuno do que a sólida doutrina dos Padres e dos Escolásticos que demonstram com tanta evidência e energia os fundamentos muito firmes da fé a sua origem divina a sua verdade infalível os argumentos com que são provados os benefícios que rendeu ao gênero humano e a sua perfeita harmonia com a razão quanto basta e ainda mais para dobrar os entendimentos mesmo os mais opostos e contrários Mesmo a sociedade civil e doméstica que como todos vêem está exposta a grande perigo com esta praga de opiniões perversas certamente desfrutaria de uma existência muito mais pacífica e segura 20 AETERNI PATRIS se uma doutrina mais saudável fosse ensinada nas universidades e escolas secundárias uma mais conforme ao ensinamento da Igreja tal como está contido nas obras de Santo Tomás de Aquino Pois os ensinamentos de Santo Tomás sobre o verdadeiro significado da liberdade que neste momento está se esgotando sobre a origem divina de toda autoridade sobre as leis e sua força sobre o governo paternal e justo dos príncipes sobre a obediência a os poderes supe riores na caridade mútua uns para com os outros em todos esses e assuntos afins têm uma força muito grande e invencível para derrubar aqueles princípios da nova ordem que são bem conhecidos por serem perigosos para a ordem pacífica das coisas e para a segurança pública Em suma todos os estudos devem encontrar esperança de avanço e promessa de assistência nesta restauração da disciplina filosófica que propomos As artes costumavam tirar da filosofia como de uma amante sábia bom senso e método correto e dela também seu espírito como da fonte comum da vida Quando a filosofia permaneceu imaculada em honra e sábia no julgamento então como os fatos e a experiência constante mostraram as artes liberais floresceram como nunca antes ou desde então mas negli genciados e quase apagados eles ficaram propensos pois a filosofia começou a se inclinar para o erro e dar as mãos à tolice Nem as próprias ciências físicas que agora gozam de grande reputação e pelo renome de tantas invenções atraem para si uma admiração universal sofrerão prejuízos mas encontrarão grande ajuda na restauração da filosofia antiga Pois a investigação dos fatos e a contemplação da natureza não são por si só suficientes para seu proveitoso exercício e avanço mas quando os fatos foram estabelecidos é necessário nos levantarmos e nos aplicarmos ao estudo da natureza das coisas corpóreas para investigar as leis que os governam e os princípios de onde surge sua ordem e unidade variada e atração mútua na diversidade Para tais investigações é maravilhoso quanta força luz e auxílio a filosofia escolástica traria se judiciosamente ensinada E aqui é bom notar que nossa filosofia só pode ser acusada pela mais grosseira injustiça de se opor ao avanço e ao desenvolvimento das ciências naturais Pois quando os Escolásticos seguindo a opi nião dos Santos Padres sempre sustentaram na antropologia que 21 AETERNI PATRIS a inteligência humana só é conduzida ao conhecimento das coisas sem corpo e matéria pelas coisas sensíveis eles entenderam bem que nada era de maior utilidade para o filósofo do que diligentemente pesquisar os mistérios da natureza e ser zeloso e constante no estudo das coisas físicas E isso eles confirmaram por seu próprio exemplo pois Santo Tomás o bemaventurado Alberto Magno e outros líderes dos Escolásticos nunca foram tão totalmente absortos no estudo da filosofia a ponto de não dar grande atenção ao conhecimento das coisas naturais e realmente o número de suas palavras e escritos sobre esses assuntos que os professores recentes aprovam e admitem harmonizar com a verdade não é de forma alguma pequeno Além disso nesta mesma época muitos professores ilustres das ciências físicas testemunham abertamente que entre as conclusões certas e aceitas da física moderna e os princípios filosóficos das escolas não há conflito digno desse nome Por isso ao mesmo tempo que declaramos que receberemos com boa vontade e gratidão tudo o que foi sabiamente dito tudo o que foi útil inventado e escolhido por qualquer um todos vós Veneráveis Irmãos com sério empenho exortamos que para defesa e glória da fé católica bem da sociedade e crescimento de todas as ciências renove e propague com grande coração a preciosa dou trina de Santo Tomás Dizemos doutrina de Santo Tomás porque se se encontrar nos Escolásticos alguma questão demasiado sutil alguma afirmação inconsiderada ou alguma coisa que não esteja em harmonia com as doutrinas experimentadas nos séculos posteriores ou que seja finalmente destituída de probabilidade não intentamos de modo algum propôla para ser repetida em nossa época Deixe que professores cuidadosamente selecionados se esfor cem para implantar a doutrina de Tomás de Aquino nas mentes dos alunos e expor claramente sua solidez e excelência sobre os outros Deixe que as universidades já fundadas ou a serem fundadas por vocês ilustrem e defendam esta doutrina e usea para a refutação dos erros dominantes Para evitar porém que se aceite como ver dadeiro o que é apenas hipotético e que se beba como água pura o que não é providencial para que a sabedoria e Tomás se colha em seus próprios mananciais ou ao menos nos arroios que saindo do 22 AETERNI PATRIS próprio manancial correm todavia claros e límpidos conforme o testemunho dos doutores Dos arroios que se dizem derivar do manancial mas que estão na realidade cheios de águas estagnadas e insalubres afastai com muito cuidado o espírito dos jovens Bem sabemos que as nossas finalidades Veneráveis Irmãos de nada valerão se não favorecerem os empreendimentos comuns dAquele que nas Sagradas Escrituras é chamado Deus das ciências I Reg 2 3 Elas nos advertem também que todo o bem excelente todo o dom perfeito vem de cima descendo do Pai das luzes Pacob 1 17 E mais Se alguém carece de sabedoria peçaa a Deus que a todos dá liberalmente e não o lança em rosto e serlheá dada I c 5 5 Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico que nunca começou a ler e escrever sem ter recorrido a Deus com as suas orações e que confessou com humildade que tudo o que sabia não tinha adquirido tanto com o seu estudo e trabalho mas que ele o recebeu divinamente E pela mesma razão todos nós oramos junto com Deus com súplicas humildes e concordantes que Ele derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito da ciência e do entendimento lhes abre o sentir para entenderem a sabedoria E para perceber os frutos mais abundantes da bondade Divina inter ponha também diante de Deus o patrocínio mais eficaz da Virgem Maria sede da sabedoria recorrei ao mesmo tempo à intercessão de São José puríssimo esposo da Virgem assim como os grandes Apóstolos São Pedro e São Paulo que renovarão com a verdade a terra infestada pelo contágio do erro enchendoa com o esplendor da luz celestial Por último amparados pela esperança da ajuda divina e con fiantes na vossa diligência pastoral damos a todos vós Veneráveis Irmãos do íntimo do coração a todo o clero e ao povo confiado a vosso cuidado a Bênção Apostólica como prova dos bens celestiais e testemunho da nossa benevolência particular Dado em Roma junto de São Pedro aos 4 de agosto de 1879 segundo ano do Nosso Pontificado No dia da festa do Sagrado Coração de Jesus no ano de 1886 o SumoPontífice Leão XIII de veneranda memória dignouse des tinarnos a Professor de Filosofia tomista no Seminário de Coimbra satisfazendo assim ao pedido do Exmo e Revmo Sr BispoConde D Manuel Correia de Bastos Pina Cônscios da nossa pouquidade e da importância da missão que circunstâncias tornavam ainda mais difícil e delicada pedimos que nos dispensassem do encargo mas não sendo atendidos os nossos votos abandonamos um mês depois a nossa pátria e na vigília da Natividade da Santíssima Virgem demos entrada no predito Seminário onde havíamos de permanecer pelo espaço de quatorze anos Reconhecendo a vontade de Deus na vontade do seu augusto Vigário entregamonos de alma e de coração ao comprimento dos nossos novos deveres e concebemos imediatamente o desígnio de redigir um Compêndio de Filosofia baseado na doutrina de Sto Tomás de Aquino No mês de maio de 1889 publicamos pela Imprensa do Seminário a primeira parte da Lógica escrita em língua latina E teríamos continuado a escrever nessa língua se pessoas autorizadas e amigas não nos tivessem ponderado que tendo nós recebido a missão de fruto a doutrina tomista em Portugal a nossa ação seria mais eficaz e o fruto do nosso trabalho mais abundante se o livro fosse escrito em língua portuguesa não havendo no país um bom tratado que traduzisse essa excelente doutrina na língua de Camões1 1 Não podemos deixar de recordar e com imensa saudade e gratidão um dedicadíssimo amigo que Nosso Senhor nos deu desde os primeiros dias da nossa chegada a Portugal na pessoa do Doutor José Joaquim Lopes Praça um dos mais ilustrados Lentes catedráticos da Faculdade de Direito na Universidade de Coimbra Foi ele quem nos deu a inspiração e o impulso para escrever que nos auxiliou com os seus sábios conselhos quem elogiou e defendeu o nosso livro sempre e em toda parte e sobretudo perante o Conselho superior de instrução pública e o adotou como texto das suas lições ao malogrado Príncipe AOS BENÉVOLOS LEITORES DA IV EDIÇÃO 24 AOS BENÉVOLOS LEITORES As razões aduzidas eram convincentes mas as dificuldades para nós aumentavam não só porque devíamos escrever numa língua que só tarde estudamos e que os estrangeiros aprendem com dificul dade mas também porque segundo o testemunho de autoridades competentes não é sempre fácil encontrar no vocabulário português aliás muito rico os termos precisos para exprimir as idéias especu lativas e abstratas da ciência filosófica Contudo não desanimamos Confiados na infinita bondade ao Sagrado Coração pedimoslhe encarecidamente que pelos merecimentos de Sta Margarida Mª Alacoque nos assistisse com a sua graça e nos concedesse luzes e forças para levarmos ao termo tão árduo cometimento para a glória dEle e para o bem das almas O Compêndio viu a luz pela primeira vez em março de 1893 há mais de trinta anos Recebido com muita benevolência em Portugal e no Brasil foi reimpresso em segunda e terceira edição sempre na cidade de Coimbra Esgotada a terceira edição quisemos curar a quarta aqui na Itália sob os nossos olhos para que assim pudéssemos completar algumas partes refundir outras e aproveitar mais facilmente as obras dos filósofos e dos natura listas publicadas no último trintênio O trabalho tem sido muito intenso e muito longo devendo para isso utilizar durante uma dúzia de anos os retalhos do tempo que nos deixavam livres as imprescindíveis ocupações dos nossos cargos Mas o desejo de agradarmos a Jesus e de sermos útil ao próximo nos tornou doce a fadiga e suave o cansaço A doutrina que professamos é como dissemos a de Sto Tomás de Aquino em harmonia com o atual progresso da ciên cia A Igreja fez sua essa doutrina e durante sete séculos nunca tem deixado de a recomendar e inculcar a seus filhos como a única capaz de defender as verdades tanto da ordem natural como da sobrenatural e de confutar os erros que contra essas verdades se têm propalado com tanto prejuízo das almas e da sociedade Essas recomendações e prescrições achamse resumidas no Código Real D Luiz Filippe Nosso Senhor tenha aquela alma tão boa e virtuosa no seio da sua misericórdia e lhe dê a recompensa do muito bem que nos quis e nos fez 25 AOS BENÉVOLOS LEITORES de Direito Canônico por estas palavras Os estudos de Filosofia racional e de Teologia para a formação dos alunos nessas disci plinas sejam absolutamente tratados pelos professores conforme o método a doutrina e os princípios do Angélico Doutor e esses sejam religiosamente mantidos Can 1366 2 A nossa obra saiu volumosa muito volumosa Mas obe decemos ao propósito de fazer uma exposição clara profunda e possivelmente completa das principais questões filosóficas de modo que o espírito dos leitores no fim de cada tratado ficasse esclarecido e plenamente satisfeito Levado sempre pelo mesmo propósito e sinceramente convencido de que o espiritualismo e a religião não devem ter e não têm medo da luz nem receio de novos combates encetamos a luta sem aspereza mas também sem transigências acompanhando os falsos sistemas nas suas mais recentes manifestações através dos livros dos seus representantes mais famigerados Para isso estudamos atentamente as obras dos naturalistas mais modernos mais imparciais e acreditados e pudemos verificar que os fatos citados pelos adversários em defesa de seus erros eram ou imaginários ou falsamente interpretados Nem deixamos nos lugares próprios de indicar as relações entre as verdades filosóficas e as verdades teológi cas e de mostrar que entre a razão e a fé não só não há a mais leve sombra de contraste mas reina a mais perfeita e admirável harmonia sendo elas duas luzes que emanam do mesmo Sol de verdade infinita Como porém não é possível esgotar toda a matéria nem sequer no espaço de dois anos tivemos o cuidado de expor no texto os pontos principais as verdades fundamentais que cons tituem a ciência filosófica reservando para as notas o ulterior desenvolvimento da doutrina exarada no texto a resposta às principais dificuldades como também a exposição e a confuta ção dos sistemas contrários Desse modo o livro adquiriu uma certa elasticidade e os professores podem facilmente escolher o que melhor se adaptar a inteligência dos discípulos e o que mais convier ao programa dos estudos O nosso voto é que este livro aproveite não só aos alunos dos seminários eclesiásticos 26 AOS BENÉVOLOS LEITORES mas também aos dos colégios seculares aos leigos cultos que se interessam pelas coisas da ciência e da Religião e sobretudo aos sacerdotes que tendo feito seus estudos filosóficos em idade juvenil precisam de um estudo mais reflexivo e aturado a fim de adquirir a cultura indispensável para o digno e decoroso exercício do seu altíssimo ministério Não seria desculpável que deixássemos de consignar aqui o nosso vivo e profundo agradecimento aos Exmos e Revmos Bispos de Portugal e do Brasil que logo acolheram com tanta benevolência o nosso trabalho aos ilustrados professores que o adotaram como texto das suas lições aos bondosos autores das lisonjeiras apreciações que apareceram em revistas e jornais e a quantos nos confortaram com suas amáveis referências1 1 A Civilitá Católica no seu caderno 1043 de 3 de dezembro de 1893 publicou acerca do nosso trabalho o seguinte artigo devido à pena do P Fran cisco Xavier Rondina nome muito conhecido dos portugueses Thiago Sinibaldi Arcediago da Sé Catedral de Coimbra e Professor no Seminário da mesma cidade Elementos de Filosofia Coimbra tipografia das Instituições Cristãs 1891 e 1892 Destes dois volumes um abrange a lógica a ontologia e a cosmologia geral o outro a cosmologia especial a psicologia e a teodicéia É pois um curso completo de filosofia teórica que encerra tudo o que se ensina nas melhores escolas e seminários e está escrito em português para facilitar aos mancebos daquela nação o estudo de matérias por si árduas que se tornariam ainda mais difíceis se não fossem expostas em língua vulgar Foi este o escopo que teve em vista o autor empregando nos seus Elementos de filosofia a língua portuguesa ainda que estrangeira para ele e um estilo conci so fácil plano e despido de todo o ornamento supérfluo e inútil A ordem e a distribuição das matérias é a que o bom senso a tradição escolástica e a própria experiência sugeriram aos nossos antepassados Por terem abandona do este caminho muitos dos filósofos modernos por tal forma desordenaram o método de ensino que as suas obras constituem um montão de matérias sem ordem sem precisão sem estrutura científica Pelo contrário na obra de Sinibaldi tudo está no seu lugar tudo procede com grande ordem e clareza começando pela arte de bem raciocinar ou pela lógica em seguida passando da ordem lógica para a ontológica do subjetivo para o objetivo dos conceitos mais simples para os mais compostos dos abstratos para os concretos dos universais para os particulares ou da metafísica geral chamada também onto logia para a metafísica especial E aqui o Autor seguindo a ordem natural dos 27 AOS BENÉVOLOS LEITORES nossos conhecimentos sobe da consideração do mundo ou da cosmologia ao estudo do homem rei da criação ou a psicologia e desta à contemplação de Deus princípio e fim de todas as criaturas ou à teodicéia Todos vêm que este método sintético seguido pelo Sinibaldi e em geral pelos professores de maior critério e experiência é o mais fácil e o mais acomodado a inteligência dos jovens estudantes À bondade do método o Autor une uma admirável solidez e pro fundidade de doutrina toda extraída das puras fontes do Aquinate e das obras de que entre os modernos escritores melhor souberam interpretar e desenvolver as sábias teorias do anjo das escolas teorias que foram o fundamento sobre que foi já levantado e hoje está sendo restaurado o gran dioso edifício da filosofia e teologia escolástica E como não basta afirmar a verdade mas é preciso demonstrála o autor nada afirma que não prove com abundância de razões No que é tão feliz que não poderia proceder melhor quer quanto à escolha dos argumentos quer quanto á concisão e clareza com que os expõe Nem isto é tudo com boas e fortes razões refuta também os argumen tos dos adversários cujos sistemas primeiramente expõe com brevidade e clare za e depois aprecia com uma crítica sã a fim de pôr a descoberto os erros o que ele consegue sobretudo nas copiosas notas que acompanham o texto para não distrair desse a atenção dos estudantes e para não produzir confusão nas suas inteligências Bom sistema que deveria servir de exemplo para quem escreve cursos de filosofia para principiantes A refutação dos falsos sistemas comparados com as doutrinas es colásticas fundada na razão e na experiência tem na obra de Sinibaldi o merecimento de encerrar o muito no pouco e de acrescentar ao velho o novo isto é é uma refutação quanto mais breve na forma tanto mais am pla na matéria abrangendo os errôneos princípios e as falsas teorias não só dos antigos mas também dos mais recentes filósofos idealistas ontologistas e materialistas Por isso os discípulos saem da sua escola bem couraçados contra os erros modernos e capazes de confundir e reduzir ao silêncio os espíritos presunçosos e superficiais Do que deixamos escrito julguem os nossos leitores quão vantajosa se há de tornar para os jovens clérigos e em geral para a mocidade portuguesa a obra deste douto e zeloso professor que para corresponder aos santos de sígnios do Sumo Pontífice Leão XIII insigne restaurador e promotor das dis ciplinas filosóficas abandonou a pátria e foi viver em país estrangeiro onde para tornar o seu ministério útil a todos se aplicou com ardor a aprender a língua de Camões e a escrever a ela uma obra em que a dificuldade da matéria se une a da forma não tendo a língua portuguesa aliás muito rica e bela uma terminologia tão própria como a latina para o ensino da filosofia escolástica Por isto lhe hão de ser agradecidos todos os que amam o verdadeiro progresso 28 AOS BENÉVOLOS LEITORES Mas sejanos permitido referir dois fatos que nos encheram de consolação o espírito Um Missionário Lazarista Professor num dos mais acreditados Institutos do Brasil escreveunos o seguinte Gosto muito do seu livro como também gostam dele os meus discípulos que além de aprenderem a mais segura dou trina tomista aprendem também a amar a Jesus de quem V fala com tanta veneração Em julho de 1900 em ParayleMonial um bom leigo que fazia parte de uma peregrinação brasileira dissenos estas precisas palavras V não imagina o bem que o seu livro tem feito às almas em S Paulo O nosso pobre tra balho tinha pois alcançado ao menos em parte o seu dúplice escopo que constituiu também o único prêmio por nós desejado a gloria de Deus e o bem das almas Entramos no Santuário das Aparições e prostrado aos pés do Altar diante da Urna de Sta Margarida Maria agradecemos ao divino Coração todas as graças que nos tinha dispensado Jesus quiz darnos outra prova do seu agrado mais autêntica e mais solene na Bênção Apostólica da religião e da ciência e principalmente os que à semelhança de quem escre ve estas páginas vivendo muito tempo entre os portugueses poderão formar uma verdadeira idéia das necessidades daquela ilustre nação e das suas felizes disposições para tudo o que diz respeito à cultura intelectual e intimamente se liga com a Fé Católica de que ela por muitos séculos foi além dos mares o paládio e a gloria O Revmo P Luiz Gonzaga Cabral no seu Vieira pregador na p 377 do L I em nota escreve Entre nós os estudos filosóficos outrora tão florescentes passavam para uma decadência cujas funestas conseqüências são tão manifestas que me parece inútil enumerálas A filosofia Conim bricense foi outrora um título de glória para Portugal Felizmente parece ter chegado também para isto o momento do renascimento e foi também de Coimbra como outrora que começou o impulso Uma obra excelente cheia de erudição e de solidez de doutrina foi publicada há poucos anos pelo Exmo e Revmo Snr Dr Thiago Sinibaldi Elementos de Filosofia Coimbra Imprensa do Seminário 2º vol Nesses dois preciosos volumes condensou o autor com notável clareza e brevidade os princípios da verdadeira filoso fia e discutiu com imparcialidade e vigor os diversos sistemas e teorias das escolas modernas Os Elementos de Filosofia são um livro de grande alcance e ao mesmo tempo de muita atualidade O clero particularmente encontrará neles abundantes materiais para a solução dos problemas filosóficos mais debatidos em nossos dias 29 AOS BENÉVOLOS LEITORES que nos concederam os Sumos Pontífices Leão XIII e Bento XV Essa benção nos deu a convicção de que Deus tinha abençoado as nossas intenções e os nossos esforços Roma 18 de julho de 1923 Sexto centenário da Canonização de Sto Tomás de Aquino THIAGO SINIBALDI Bispo de Tiberíades Venerabilis Frater Salutem et Apostolicam Benedictionem Satis novisti probari Nobis vehementer curam quam geris ut impense colantur in tua dioecesi philosophicae disciplinae iuxta ratio nem ac methodum divi Thomae explicatae Hinc facile intelligis quo animo exceptum a Nobis sit novum eiusdem studii tui testimonium quod litterae a Te die III Aprilis datae Nobis praebuere Namque dum merita exornas laude ac diligenter Nobis commendas opus a dileto Filio Iacobo Sinibaldi conscriptum de Elementis philosophiae praeclare ostendis studium quo fercris ad eas disciplinas provehendas quantique facias eorum industriam qui illas novis illustrant luminibus operamque navant ut pronis alumnorum auribus animisque excipiantur Quod quidem laboris genus opportunum ac frugiferum semper rati sumus ac palam ediximus ab ipsis Nostri Pontificatus exordiis Nam quo latius thesauri effundantur sanae doctrinae a summo Viro Aquinate traditae animisque discentium penitius insederint eo vulgatior ac receptior erit solida scientia rerum maximarum ac facilior fiet erro rum reiectio qui fidei sinceritatem corrumpunt ac depravant mores Quoniam vero dilectus Filius quem diximus exemplar operis sui dono Nobis obtulit obsequiosis ornatum litteris pergratum Nobis facies si eidem Nostro nomine significaveris magnopere Nos esse delectatos quum eius ingenio et doctrina tum officio Nobis exhibito quod bene volo gratoque animo prosequimur Hosce interea fructus eximio eius labori ominamur ut legentibus quamplurimis salutaris sit ut debitam pariat auctori suo prudentium virorum existimationem et laudem eosque qui pari praestant rerum scientia et ingenio exemplo proposito ad imitandum alliciat Sperantes denique fore ut Deus ministerio et ope tua aliorumque in Lusitano episcopatu Fratrum nobilibus hisce sludiis alia atque alia det incrementa Tibi ac praedicto libri auctori VENERABILI FRATRI EMMANUELI EPISCOPO CONIMBRICENSI LEO PP XIII Venerável Irmão Saúde e Bênção Apostólica Bem sabeis que vivamente aprovamos o vosso zelo pela pro funda cultura que promoveis na vossa diocese das doutrinas filosó ficas explicadas segundo a mente e o método de Santo Tomás Por isso facilmente deveis entender a satisfação com que recebemos o novo testemunho que a vossa carta de 3 de abril nos dá da conti nuação dos vossos esforços Porquanto ao passo que realçais com merecido louvor e nos recomendais encarecidamente a obra que o dileto Filho Thiago Sinibaldi escreveu Elementos de filosofia bem claramente demonstrais o empenho com que promoveis o estudo dessas doutrinas e o grande apreço em que tendes o trabalho dos que as ilustram com luzes novas e se esforçam para que elas sejam com facilidade aprendidas pelos seus alunos Em verdade sempre julgamos oportuno e frutífero este gênero de trabalhos e assim o manifestamos desde os primórdios do Nosso Pontificado Pois quanto mais largamente se difundirem os tesouros da sã doutrina ensinada pelo eminente Santo Aquinatense e mais profundamente assentarem nos ânimos dos que aprendem tanto mais vulgarizada e recebida será a sólida ciência das grandes coisas e mais fácil se tornará a rejeição dos erros que corrompem a sinceridade da Fé e depravam os costumes E visto que o dileto Filho que nomeamos nos ofereceu um exemplar da sua obra acompanhada de uma respeitosa carta será para nós muito agradável se em nosso nome lhe significardes que muita satisfação nos causou não só o seu engenho e doutrina mas também a demonstração do seu obséquio para conosco o qual aceitamos com animo benévolo e grato Entretanto que seja a sua obra salutar ao máximo número de leitores que o seu autor lucre por ela a devida estimação e louvor dos homens sensatos e que o seu AO VENERÁVEL IRMÃO MANUEL BISPO DE COIMBRA LEÃO XIII PAPA ceterisque e clero et populo tuae vigilantiae commisso Apostolicam Benedictionem peramanter impertimus Datum Romae apud S Petrum die XXIX Aprilis anno MDCCCXCIII Pontificatus Nostri decimo sexto LEO PP XIII exemplo seja imitado por outros igualmente prestantes pelo engenho e ciência das coisas tais são os frutos que desejamos ao seu exímio trabalho Finalmente esperando que Deus pelo vosso ministério e esforço e pelo dos outros Irmãos no Episcopado português há de dar muitos e muitos incrementos a tão nobres estudos concedemos muito afetuosamente a Bênção Apostólica a Vós e ao dito autor do livro bem como ao clero e povo confiado a vossa vigilância Dado em Roma junto de S Pedro no dia 29 abril de 1893 ano décimo sexto do Nosso Pontificado LEÃO XIII PAPA Venerabilis Frater Salutem et Apostolicam Benedictionem Diuturnae munus disciplinae laborisque multo diuturnioris tuum de Elementis Philosophiae librum accepimus perlibenter quarto nuper editum in lucem qui quidem quum primum apparnisset novimus quibus eum laudibus docti et sapientes viri sint prosecuti Atque his laudibus magnum pondus accessit ut meminimus ex eis litteris quas decessor Noster illustris Leo XIII fel rec in commendationem operis tui dedit ad Episcopum Conimbricensem Sane ei Pontifici cui nulla fuit antiquior cura quam ut Thomam Aquinatem apud scholas catholicas in praecipuum honorem restitueret quum ex eius voluntate magisterium philosophiae in Conimbricensi Seminario tibi utpote ad sapientiam Doctoris Angelici egregie exculto esset demandatum debuit pergratum accidere ut optimum quod de te fecisset indicium tam bene re ipsa confirmaretur Etenim haec duo volumina vehementer probari videmus intelligentibus tum sincerae doctrinae copia da Thomae hausta vel derivata fontibus tum valida contra multiplices errores defensione veri tum lucido rerum ordine scribendique perspicuitate Quod postremum licet coniicere quanto constiterit tibi qui quum Lusitane prorsus nescires tamen assidua contentione id egeris ut eam linguam ad quamlibet philosophiae subtitatem inflecteres Nec vero satis hic habes principia Thomistica usitatis in Schola illustrare tuerique rationibus convincis praeterea nihil certi ex disciplinis naturalibus afferri quod cum iis non congruati Itaque opas confecisti quod omnibus numeris in suo genere absolutum videtur in primisque accomodatum clericis qui se ad ineundum sacrae theologiae studium comparant Profecto qua parte tuus liber res divinas attingit id spirat pietatis caritatisque ut mirum non sit quod audimus huius disciplinae alumnos quorum manibus sit versatus ex eo diligere et amare Jesum Dominum didicisse eundemque et VENERABILI FRATRI IACOBO EPISCOPO TIBERIENSI S Congregationis Seminarus et Universitatibus Studiorum Propositae Secretario BENEDICTUS PP XV Venerável Irmão Saúde e Bênção Apostólica Com muito prazer recebemos o teu livro Elementos de Filosofia agora publicado em quarta edição que é fruto de diu turno ensino e de trabalho muito mais diuturno e que desde a sua primeira edição mereceu como sabemos os elogios dos homens doutos e sábios A esses elogios deu grande realce a carta que o nosso ilustre Predecessor Leão XIII de feliz memória enviou ao Bispo de Coimbra em aprovação da tua obra Na verdade devia ser muito agradável aquele Pontífice cuja preocupação constante foi repor Sto Tomás de Aquino no lugar de honra que lhe competia nas escolas católicas o ver como se tivesse verificado o ótimo conceito que de ti fizera quando conhecendote otimamente versado na sapiência do Angélico Doutor determinou enviarte a exercer o Magistério de Filosofia no Seminário de Coimbra Sabemos na verdade que estes dois volumes são muito apreciados pelos competentes pela abundância e pureza de doutrina haurida ou derivada das fontes de Sto Tomás pela solidez da argumentação em clareza da verdade contra os multíplices erros e pela ordem da matéria aliada a clareza da exposição E quanto isto te tenha custado pode bem avaliarse considerando que sendo para ti completamente desconhecida a língua portuguesa só a força de trabalho chegaste a possuíla de modo a poder amoldála a todas as subtilezas da Filosofia E não contente de ilustrar e defender os princípios tomísticos com os argumentos usados na escola demonstras também que não há contradição entre eles e as conclusões certas das ciências naturais Fizeste pois uma obra que é no seu gênero absolutamente per feita e sobretudo adaptada aos seminaristas que se preparam para AO VENERÁVEL IRMÃO THIAGO BISPO DE TIBERÍADES Secretário da S Congregação dos Seminários e das Universidades dos Estudos BENTO XV PAPA in Lusitania et per Brasiliam saluti animarum utilem fuisse Quare gra tulamur tibi ex animo venerabilis Frater et Sacratissimo Cordi Jesu cui debentur suscepti a te in eius gloriam laboris tam uberes fructus gratias tecum ogimus suisque te pergat precamur donis augere Quorum aus picem et singularis benevolentiae nostrae testem tibi tuisque apostolicam benedictionem amantissime impertimus Datum Romae apud S Petrum die XV mensis februarii MCMXVII Pontificatus Nostri anno tertio BENEDICTUS PP XV o estudo da Sagrada Teologia Com efeito sempre que se refere às coisas divinas respira tanta piedade e fervor que não é para admirar que segundo ouvimos os estudantes desta ciência que do teu livro se servem aprendam a amar ardentemente a N S Jesus Cristo e que ele tenha sido muito útil para o bem das almas em Portugal e no Brasil Por conseguinte Venerável Irmão felicitamoste do íntimo da alma e contigo agradecemos ao Santíssimo Coração de Jesus a quem se devem esses tão copiosos frutos do teu trabalho empreendido para sua glória e rogamoslhe que continue a enriquecerte de seus dons Penhor deles e testemunho da nossa singular benevolência seja a Bênção Apostólica que a ti e aos teus concedemos com todo o afeto Dado em Roma junto de S Pedro aos 15 de fevereiro de 1917 ano terceiro do Nosso Pontificado BENTO XV PAPA Lógica 1 Filosofia Filosofia que no sentido etimológico significa amor à sabedoria pode definirse a ciência que trata das causas supremas dos entes descobertas pela luz natural da razão A Filosofia a é ciên cia porquanto ciência em geral é uma série de conhecimentos certos coordenados e relativos a um determinado objeto e tal é a Filosofia b que trata das causas supremas dos entes pois esta ciência não se ocupa das causas mais óbvias ou próximas dos entes mas sobre às mais elevadas ou supremas c descobertas pela luz natural da razão visto que a Filosofia se eleva ao conhecimento das causas supremas não com o auxílio da luz sobrenatural da Fé mas sim da luz própria da razão1 1 Causa no sentido mais lato é tudo o que explica de algum modo o ente e que por isso nos pode levar ao seu conhecimento Em cada ente encontramos muitas e diversas causas que o constituem ou de que depende ou que de algum modo o explicam Essas causas em cada gênero estão por tal forma relacionadas e ordenadas que uma depende de outra e todas de uma primeira a qual é a razão suficiente de todas e a todas dá luz e firmeza Ora a nossa inteligência não se satisfaz com a superficial observação dos fatos nem com a consideração das causas próximas ou ínfimas mas elevase e progride sempre e não descansa se não chega às causas últimas e supremas se não descobre o último porquê da coisa de modo que não tenha outras perguntas a fazer Esta é a Filosofia As causas últimas são intrínsecas ou extrínsecas conforme se referem à essência ou à existência do ente Tanto as intrínsecas como as extrínsecas podem ser últimas relativamente num certo gênero ou absolutamente São intrínsecas e relativamente últi mas as leis do pensamento na ordem dos atos da inteligência e as leis morais na ordem dos atos da vontade São causas intrínsecas e absolutamente últimas as essências dos entes A causa extrínseca e absolutamente última de todos os entes finitos é Deus A Filosofia chamase comumente ciência e não sabedoria A razão é porque ciência significa em geral o conhecimento das causas dos entes mas a sabedoria sa pientia denota um certo sabor ou gosto que experimenta o nosso espírito quando possui um perfeitíssimo conhecimento de uma coisa Por isso a sabedoria é um per feitíssimo conhecimento das coisas pelo qual as próprias coisas são percebidas em todas as suas causas mesmo nas mais remotas e em todos os seus princípios mesmo nos mais elevados Ora como a razão humana entregue a si mesma dificilmente pode alcançar esse perfeitíssimo conhecimento com muita exatidão e propriedade atribuímos à Filosofia a dignidade de ciência e não a de sabedoria Poderia obje tarse que a Filosofia é sabedoria porque a sabedoria consiste no conhecimento da causa suprema e altíssima que é Deus e a Filosofia trata de Deus Respondemos que a Filosofia seria simplesmente sabedoria se julgasse das coisas criadas pelo critério das INTRODUÇÃO 40 INTRODUÇÃO 2 Objeto da Filosofia O objeto pois da Filosofia é constituído pelas causas supremas dos entes enquanto são conhecidas pela luz natural da razão Por isso a Filosofia é uma só ciência porque embora con sidere muitos e diversos entes quer na ordem subjetiva quer na objetiva consideraos contudo sob um só aspecto isto é nas respectivas causas supremas e distinguese não só das ciências naturais que se ocupam das causas próximas dos entes mas também da Teologia revelada que se eleva à Causa altíssima de todos os entes pela luz sobrenatural da Fé1 coisas divinas porque a sabedoria é propriamente o conhecimento das coisas pela causa altíssima Mas não é assim Nós não julgamos das coisas criadas pelo critério das coisas divinas mas pelo contrário julgamos das coisas divinas pelo critério das coisas criadas isto é não conhecemos as criaturas por meio de Deus mas conhece mos Deus por meio das criaturas e por isso o nosso conhecimento é ciência e não sabedoria Tal é a doutrina de Santo Tomás Summ Theol IIa IIae q 9 a 2 ad 3 q 45 a 1 Por isso o nome de sabedoria convém propriamente à Teologia revelada e sobretudo àquele dom sobrenatural que tem esse nome e que consiste em julgar de todas as coisas em conformidade das relações que elas têm com Deus Todavia às vezes ciência e sabedoria tomamse no mesmo sentido 1 Em toda e qualquer ciência deve distinguirse um dúplice objeto material e formal O material é o ente que a ciência atinge assim o corpo humano é o objeto material da medicina o formal é a razão o aspecto sob o qual e pelo qual a ciência atinge o ente assim a sanidade é o objeto formal da medicina que não se ocupa do nosso corpo senão enquanto deve ser sanado Ora o objeto formal é própria e verdadeiramente o objeto da ciência E é esse objeto e não o material que dá às ciências a unidade e a espécie a unidade porque a ciência é e dizse una quando embora trate de coisas materialmente várias e diversas contudo consideraas sob um só aspecto ou razão assim a zoologia é uma só ciência porque trata de vários seres sob a única razão de animalidade a espécie porque uma ciência difere de outra quando embora considerem o mesmo objeto material contudo o consideram sob diferente aspecto assim a anatomia distinguese da fisiologia porque embora se ocupem do mesmo corpo humano todavia a anatomia considera a estrutura dele e a fisiologia as funções Feita esta distinção facilmente percebemos que o objeto material da Filosofia é constituído pelos vários entes que são o mundo o homem Deus os atos da inteligência e da vontade e que o objeto formal consiste nas causas supremas desses vários entes enquanto são conhecidos pela luz natural da razão Por isso a Filosofia é uma só ciência porque considera tudo sob o mesmo único aspecto e é especificamente diversa de todas as outras ciências que ou consideram apenas as causas próximas dos entes como as ciências naturais ou consideram as causas supre mas enquanto são conhecidas pela luz sobrenatural da Fé como a Teologia revelada É pois manifesto o erro de Laromiguière e de Jouffroy quando dizer que a Filosofia não tem objeto próprio e determinado e dos positivistas quando afirmam 41 INTRODUÇÃO 3 Divisão da Filosofia A Filosofia dividese em três partes que são a Lógica a Metafísica e a Moral Na verdade as causas supremas dos entes que esta ciência investiga podem referirse ou aos entes objetivos ou reais que não dependem de nós no seu ser ou aos entes subjetivos que dependem de nós no seu ser enquanto derivam da nossa inteligência e são os entes lógicos ou derivam da nossa vontade e são os entes morais Dos entes objetivos considerados nas suas causas supremas ocupase a Metafísica dos entes lógicos a Lógica dos entes morais a Moral A Metafísica subdividese em quatro partes que são a Ontologia a Cosmologia a Antropologia e a Teodicéia conforme se ocupa do ente considerado em geral ou trata do mundo do homem de Deus1 que a Filosofia não é uma ciência especial mas é uma classificação de ciências As causas supremas descobertas pela luz natural da razão são o objeto formal próprio da Filosofia que não compete a nenhuma outra ciência Da unidade e da espécie desse objeto deriva a unidade e a espécie desta ciência Os adversários partem do falso princípio que a unidade e a espécie de uma ciência depende da unidade e da espécie do objeto material e não do objeto formal Santo Tomás diz Illa scientia est una quae est unius generis subjecti objecti formaliter sumpti Materialis diversitas scibilium non diversificat scientiam sed formalis Tot log summa tr 8 c 14 1 Diz Santo Tomás O ofício do homem sábio é ordenar isto é dispor as coisas de modo que uma se refira a outra porque a sabedoria é a principal perfeição da razão e é próprio desta faculdade conhecer a ordem Ora a ordem referese à razão por quatro modos Porquanto há uma ordem que a razão não estabelece mas unicamente considera tal é a ordem das coisas naturais Há uma outra ordem que a razão refletindo estabelece nos próprios atos quando coordena as suas idéias e os sinais das idéias que são as palavras Há uma terceira ordem que a razão refletindo estabelece nas coisas externas que produz por exemplo numa casa A ordem que a razão apenas considera nas coisas mas não produz é objeto próprio da Filosofia natural à qual se reduz a Metafísica A ordem que a razão estabelece nos atos pró prios pertence à Filosofia racional que é a Lógica A ordem que a razão estabelece nos atos da vontade pertence à Filosofia moral que é a Ética A ordem finalmente que a razão estabelece nas coisas externas que produz pertence às artes mecânicas daí a Filosofia das artes chamada Estética In X Eth ad Nic 1 l I Desse modo a Filosofia abrange quatro partes que são a Lógica ciência da verdade subjetiva a Metafísica ciência da verdade objetiva a Estética ciência do belo a Moral ou Ética ciência do bem Como a Filosofia não trata exprofesso das artes mecânicas mas li mitase a expor os princípios do belo por isso a Estética pode reduzirse à Metafísica e assim teremos três grandes partes irredutíveis que são a Lógica a Metafísica e a Moral Notese que o homem embora seja um só ente pode contudo con siderarse sob um tríplice aspecto e assim ser objeto das três partes da Filosofia Porquanto ele é um ser real e como tal é objeto da Metafísica que o considera 42 INTRODUÇÃO 4 Disposição das partes da Filosofia A Lógica deve pre porse às outras partes da Filosofia pois ensina as regras que a nossa inteligência deve seguir em toda e qualquer ciência para alcançar provar e defender a verdade A Metafísica deve proceder a Moral pois é pela consideração do mundo do homem e de Deus que chegamos a conhecer o princípio o fim e a norma dos nossos atos morais Na Metafísica estudase primeiramente a Ontologia que tratando do ente em geral subministra os princípios fundamentais de todas as ciências depois a Cosmologia porque a primeira realidade que se oferece à nossa consideração é o mundo exterior em seguida a Antropologia não só porque o homem é a síntese de todos os entes visíveis mas também porque ele reflete sobre si mesmo depois de ter contemplado o mundo finalmente a Teodicéia porque é pela consideração do mundo e sobretudo do homem que nos elevamos ao conhecimento da existência e das infinitas perfeições de Deus1 na sua natureza é um ser racional isto é que raciocina e os atos da sua razão formam o objeto da Lógica que os regula para a consecução da verdade é um ser moral e os atos da sua vontade são o objeto da Moral que os ordena para a consecu ção do fim conveniente A divisão da Filosofia em três partes Lógica Metafísica e Moral introduzida primeiramente por Platão foi admitida pelos mais célebres escritores Cícero diz Fuit jam a Platone accepta philosophandi ratio triplex una de vita et moribus altera de natura et rebus occultis tertia de disserendo Acad l 1 n 6 O mesmo afirma Santo Agostinho De Civ Dei l XI c 26 Santo Tomás escreve Sunt tres Philosophiae partes scilicet moralis logica et naturalis In Matth c II Muitos autores dividem a Filosofia em teorética e prática A teorética é constituída pela Metafísica a prática abrange a Lógica a Moral e a Estética Também esta divisão é excelente Mas não po demos admitir a divisão em Lógica Dinamilogia Antropologia Ontologia Cosmologia e Teologia natural e muito menos a divisão em Psicologia Lógica Metafísica e Moral 1 A ordem que seguimos na disposição das partes da Filosofia pode cha marse e é doutrinal ou lógica porque corresponde à natural evolução e ao progresso dos nossos conhecimentos Pomos em primeiro lugar a Lógica porque antes de raciocinar o homem deve apreender as leis e o modo do raciocínio Por isso a Lógica deve preporse não só às outras partes da Filosofia mas também a todas as outras ciências porque em todas se emprega o raciocínio Diz Santo Tomás Prius Philosophus debet addiscere logicam quam alias scientias quia logica tradit commu nem modum procedendi in omnibus aliis scientiis In II Met c V l V Outros escritores seguindo a ordem ontológica principiam pela Ontologia porque esta parte da Metafísica trata das primeiras e universalíssimas idéias e propriedades de todas as coisas e considera os primeiros e supremos princípios de todas as ciências 43 INTRODUÇÃO 5 Relações entre a Filosofia e as ciências naturais a A Filosofia é mais excelente que as ciências naturais A exce lência de uma ciência medese pela excelência do objeto de que trata e do fim que atinge Ora o objeto da Filosofia enquanto teorética ou especulativa é mais excelente que o objeto das ciências naturais pois a Filosofia considera o mundo o homem Deus e considera estes seres nobilíssimos nas causas ou razões supremas e remotas ao passo que as ciências naturais ou não se ocupam desses objetos ou se se ocupam de alguns deles do mundo do homem limitamse a descobrir as causas ou razões mais óbvias e próximas como também o fim que a Filosofia enquanto prática atinge e que é a consecução do fim último isto é do Bem infinito na ordem natural é superior ao fim que as ciências naturais atingem e que é a consecução de um bem material ou temporal Logo a Filosofia é mais excelente que as ciências naturais1 Mas como poderemos nós raciocinar acerca do ente e dos seus atributos se não conhecermos o modo de raciocinar legitimamente Outros como Gratry seguin do a ordem da dignidade sustentam que o estudo da Filosofia deve principiar pela Teodicéia porque dizem Deus é o Ser absoluto e necessário de quem todas as coisas recebem a existência e a inteligibilidade Mas esses escritores confundem a ordem da realidade com a ordem do conhecimento Deus é o primeiro Ente na ordem da realidade porque tudo deriva dEle mas não é o primeiro Ente na ordem do co nhecimento porque é pelas criaturas que subimos ao Criador Outros e são os Cartesianos seguindo a ordem psicológica começam pela Psicologia que é uma parte da Antropologia porque dizem sendo as faculdades da alma os meios de que como de instrumentos o homem se serve para alcançar a verdade é necessário conhecer primeiramente essas faculdades e por isso a essência da alma de que derivam Mas a razão aduzida não é convincente Por quanto do fato de as faculdades da alma serem os instrumentos de que nos servimos para a consecução da verdade não se segue que para o reto uso dessas faculdades seja necessário conhecêlas na sua natureza e no seu princípio porque para isso basta que se admita a sua existência e o seu reto e legítimo modo de operar assim como para o reto uso do instrumento não é preciso que se conheça a qualidade da matéria de que foi feito mas basta que se conheça a sua virtude ou operação natural e o modo por que se emprega 1 Cf Summ Th Ia q 1 a 5 Podemos estabelecer a nossa tese sobre outra base O grau de perfeição ou excelência de uma ciência depende do seu grau de abstração Uma ciência é tanto mais perfeita quanto mais é abstrata Ora ne nhuma ciência é mais abstrata que a Filosofia e por isso esta excede em excelên cia todas as outras ciências Diz Taine Os três quartos dos homens consideram como especulações ociosas as grandes sínteses do pensamento e erram porque a formação dessas sínteses é o escopo da vida de um povo ou de uma idade e é por 44 INTRODUÇÃO b A Filosofia é necessária para a compreensão das ciências natu rais As causas dos entes estão por tal modo coordenadas entre si que as mais óbvias ou próximas dependem das supremas ou remotas Sendo assim é claro que as ciências naturais que têm por objeto as mais óbvias ou próximas causas somente na Filosofia que tem por objeto as causas supremas ou remotas podem encontrar a última razão das suas incógnitas o termo último das suas investigações porque as razões próximas dependem das supremas e dessas recebem inteligi bilidade e certeza Logo a Filosofia é necessária para a compreensão das ciências naturais1 6 Relações entre a Filosofia e a Teologia revelada a A Filosofia é uma ciência independente da Teologia revelada Uma ciência é independente de outra quando não recebe desta nem os princípios em que se funda nem as conclusões que deduz nem os meios de que se serve para deduzir dos princípios as conclusões Ora a Filosofia não recebe da Teologia revelada nem os seus princípios porque esses são conhecidos pela luz natural da razão nem as suas conclusões porque essas são deduzidas desses princípios nem os seus elas que a humanidade chega ao seu pleno desenvolvimento Se um habitante dos outros planetas descesse a perguntarnos onde se encontra a nossa espécie seria necessário mostrarlhe as cinco ou seis idéias que possuímos acerca do espírito e do mundo essas darlheiam o conceito exato dos nossos conhecimentos Le positivisme anglais p 1112 1 A Filosofia tendo por objeto próprio e específico as causas supremas das coisas descobre e ensina os princípios primeiros e universais que devem servir de fundamento a todas as ciências Por isso ela além de ser o vínculo que liga e reúne numa síntese grandiosa e admirável todas as ciências humanas é absolutamente ne cessária para a compreensão isto é para o perfeito conhecimento das outras ciências sobretudo da Matemática da Física do Direito positivo É necessária para a compre ensão da Matemática Na verdade a Matemática procede sempre pela abstração e pelo raciocínio Mas é a Filosofia que além de dar à Matemática os primeiros princípios que são a base de toda a ciência forma o espírito para o raciocínio e para a abstração É necessária para a compreensão da Física Porquanto a Física por se basear na observação e na indução e estudar as causas próximas dos fenômenos sensíveis não pode prescindir da Filosofia que determina as condições e as regras da observação e da indução e se eleva à Causa Primeira e absolutamente Suprema É necessária para a compreensão do Direito positivo Na verdade fundandose o Direito positivo no natural é claro que ninguém poderá estudar proficientemente aquele sem co nhecer este Ora o Direito natural é objeto da Filosofia moral 45 INTRODUÇÃO meios que são o silogismo e a indução porque esses são formados à luz dos mesmos princípios racionais Logo a Filosofia é independente da Teologia revelada1 b A Filosofia é inferior em dignidade à Teologia revelada É inferior quanto ao objeto porque a Filosofia embora pela luz natural da razão se eleve às causas supremas e até à Causa absolutamente pri meira contudo não descobre senão poucas verdades relativas a Deus e de um modo muito imperfeito ao passo que a Teologia revelada guiada pela luz sobrenatural da Fé descobre muitas outras verdades relativas a Deus que transcendem a capacidade de toda a inteligência criada É inferior quanto à certeza porque a Filosofia é guiada no conhecimento dos princípios e na dedução das conclusões pela luz natural da razão que pode enganarse e muitas vezes se engana ao passo que a Teologia revelada é guiada no conhecimento dos princípios que são os artigos da Fé pela luz da ciência divina que não se engana e não pode enganar e na dedução das conclusões pelo menos das que se relacionam com esses artigos pelo magistério infalível da Igreja É inferior quanto ao fim porque a Filosofia dispõe o homem para o fim 1 A Filosofia pertence aos grupos das ciências racionais isto é daquelas ci ências que a razão forma com as suas forças naturais e por isso é uma ciência au tônoma independente de toda e qualquer ciência mesmo da Teologia revelada De fato a Filosofia já existia quando apareceu a divina luz do Cristianismo e não pode dizerse que no aparecimento dessa luz ela perdesse a própria independência visto que N S Jesus Cristo veio a este mundo não para destruir a natureza mas para a aperfeiçoar e enobrecer E todos sabem que quando no meado do século XIX dois escritores franceses de Bonald e Lamennais pretenderam obrigar a razão humana a pedir os primeiros princípios e os primeiros motivos de certeza à Revelação sobre natural a Igreja não só não aceitou mas reprovou e condenou essa pretensão mais generosa do que sábia A ordem natural não pode fundarse na ordem sobrenatural cada uma tem as suas bases Mas daí não se segue que a Filosofia deva prescindir da Teologia revelada ou da Fé Esta permite à razão do filósofo seguir os próprios princípios e as suas livres tendências sem que seja dirigida de um modo positivo e direto pela Revelação contanto que evite de contradizer as verdades divinamente manifestadas e de invadir uma esfera superior É uma subordinação indireta que não se opõe à autonomia Diz o Concílio Vaticano A Fé não proíbe às ciências de serviremse cada uma na sua esfera dos seus princípios próprios e do seu método particular mas embora reconheça sempre esta justa liberdade vela com cuidado para que não aceitem erros metendose em oposição com a doutrina divina nem invadam e perturbem saindo dos seus limites a esfera e as verdades da Revelação Const Dei Filius c 11 46 INTRODUÇÃO último natural que consiste na contemplação de Deus pelas criaturas ao passo que a Teologia revelada ordena o homem para o fim último sobrenatural que consiste na visão intuitiva de Deus Logo a Filosofia é inferior em dignidade à Teologia revelada1 7 Utilidade da Filosofia A Filosofia é utilíssima para o indivíduo e para a sociedade a É utilíssima para o indivíduo Porquanto a Filosofia aperfei çoa as mais nobres faculdades de que o homem é dotado e que são a inteligência e a vontade Aperfeiçoa a inteligência elevandoa ao conhe cimento das causas supremas dos seres criados e até ao conhecimento do próprio Deus Aperfeiçoa a vontade guiandoa pela prática das virtudes morais à consecução da felicidade eterna ainda que na ordem natural Logo a Filosofia é utilíssima para o indivíduo2 b É utilíssima para a sociedade Porquanto a sociedade sendo uma reunião de indivíduos para o alcance de um bem comum exige o concurso eficaz e proporcionado de todos os seus membros Tal concurso dos membros da sociedade consiste na soma das forças especialmente morais com que eles conspiram para o fim e que deri vam da aplicação dos princípios da verdade e da moralidade Ora os princípios da verdade e da moralidade de cuja aplicação derivam as forças morais são ensinados e inculcados pela Filosofia Logo a Filosofia é utilíssima para a sociedade3 1 S Tomás Sum Th Ia q 1 a 5 demonstra que a Teologia revelada especulativa e prática é superior em dignidade a todas as outras ciências especula tivas e práticas que se guiam pela luz natural da razão Adverte o S Doutor que as dúvidas ou incertezas que se levantam no nosso espírito acerca de um ou outro artigo de Fé nascem não da incerteza objetiva dos mesmos artigos mas da fraqueza subjetiva da inteligência criada Ib ad 1 2 Que a Filosofia aperfeiçoe a inteligência é uma verdade que todos admi tem facilmente Mas nem todos pensam que a Filosofia tende também a aperfeiçoar à vontade o que é ainda mais importante A retidão da vontade é imensamente mais preciosa mais útil mais necessária que a ilustração da inteligência Toda a perfeição da nossa vontade mesmo na ordem natural resumese e consiste no amor do sumo e infinito Bem Ora esse amor despertase e aumenta à vista das perfeições criadas enquanto essas são um reflexo das infinitas perfeições de Deus Se são amáveis as criaturas infinitamente mais amável é o Criador 3 Os costumes correspondem às idéias Se isto se verifica nos indivíduos muito mais se verifica na sociedade porquanto se os indivíduos podem estar e estão 47 INTRODUÇÃO 8 Disposições para o estudo da Filosofia As principais são três oração humilde e fervorosa grande pureza de coração ardente amor da verdade É necessária a oração porque sendo Deus o Senhor das ciências o Pai das luzes a Ele deve recorrer quem deseja a sapiência É necessária a pureza de coração porque um coração que se arrasta no lodo das mais vis paixões não pode elevarse à contemplação de coisas nobilíssimas como são as de que trata a Filosofia É necessário o amor da verdade porque só esse amor provoca o desejo de saber conforta as forças e vence as dificuldades subordina as idéias às coisas e não as coisas às idéias e se detesta o erro ama sinceramente o errante 9 Fontes da Filosofia Sendo a Filosofia o conhecimento natural dos entes pelas causas supremas é claro que as suas legítimas fontes devem ser os livros dos escritores que trataram com verdade e sapiência os grandes problemas relativos ao mundo ao homem a Deus Sobre todos os escritores levantase como o sol entre os outros astros o grande Santo Tomás de Aquino a quem pela sublimidade do talento e pela inocência da vida a Igreja deu o nome de Doutor angélico Tudo o que de verdade se encontra nos escritos dos Filósofos pagãos dos Padres e Doutores da Igreja e de todos os sábios que os precede ram Santo Tomás não só conheceu perfeitamente mas aumentou mais ou menos em contradição consigo mesmos as multidões seguem sempre o impulso dos seus princípios Negai a Deus o livrearbítrio a propriedade e vereis a que pode chegar e chega uma sociedade Daí a insipiência dos homens políticos que proíbem a liberdade da ação e depois permitem a liberdade do pensamento É a Filosofia que dirige o mundo O conflito de interesses e das paixões nasce muitas vezes de uma idéia que um escritor lançou no seio da sociedade e que parecia dever ficar sempre no campo da abstração A Filosofia é sempre a luz da história Se quisermos conhecer a civilização de um povo ou de uma época devemos examinar a maneira por que esse povo ou essa época compreendeu o direito a autoridade a liberdade etc É na Filosofia de Sócrates de Platão e de Aristóteles que deve pro curarse a inteligência da história grega nos séculos V e VI antes de Cristo como nas teorias de Epicuro se encontra a explicação da corrupção e da decadência que se seguiram As glórias do século XIII coincidem com a grande época da Filosofia escolástica Foi o espiritualismo cristão de Descartes de Bossuet de Malebranche de Leibniz e de tantos outros que fez o século de Luiz XIV É impossível ter uma idéia exata da Revolução Francesa e dos princípios que a inspiraram se não se co nhecer a Filosofia do século XVIII A teoria que o capital é um roubo não tem sido e não é hoje porventura a causa da revolução social que ameaça cobrir o mundo de sangue e de ruínas Podemos portanto concluir que a história do mundo é a história das suas idéias 48 INTRODUÇÃO completou e ordenou com tal firmeza de princípios com tal severidade de raciocínio com tal perspicuidade e propriedade de linguagem que a sua doutrina não só revolve e esclarece os mais árduos problemas mas se adapta maravilhosamente às necessidades de todos os tempos e tem a força de refutar todos os erros passados presentes e futuros Levado por esses motivos o Santo Padre Leão XIII declarou Santo Tomás Patrono de todas as escolas católicas1 1 Alguns dizem que a Filosofia de Santo Tomás envelheceu que não corres ponde às necessidades dos nossos tempos nem conserva a força e a eficácia neces sária para confutar os adversários da verdade Mas erram Santo Tomás não deduz as suas conclusões senão dos princípios e das essências das coisas e como os prin cípios são imutáveis e as essências necessárias também as conclusões são imutáveis e necessárias Por isso a doutrina do Angélico satisfaz às necessidades e exigências da mente humana em todo e qualquer tempo e tem a eficácia de confutar todas as dificuldades dos adversários em todos os tempos A Filosofia escolástica de que Santo Tomás é o principal representante foi chamada justamente a Filosofia do senso comum e por isso deve ser seguida por todos os que ainda não renunciaram a esse bom senso Nem se diga que a Filosofia de Santo Tomás é contrária às descobertas e ao progresso das ciências naturais Santo Tomás não só não é contrário às ciências naturais mas ensinando que a nossa inteligência não pode elevarse ao conheci mento das coisas imateriais senão pelo conhecimento das coisas ensinou ao mesmo tempo com a palavra e com o exemplo que o filósofo deve investigar diligentemente os segredos da natureza e ocuparse do estudo das ciências físicas Os melhores na turalistas confessam que entre os princípios da Escolástica e as descobertas certas das ciências naturais não só não existe verdadeira oposição mas pelo contrário reina a mais perfeita harmonia o que teremos ocasião de mostrar no decurso desses ele mentos E se houvesse num caso determinado uma verdadeira e averiguada opo sição o que não é impossível pois as ciências naturais não tinham no século XIII o desenvolvimento que têm hoje o filósofo amigo unicamente da verdade não deveria ter dúvida em rejeitar uma conclusão embora defendida pelos mais afama dos mestres ou pelo próprio Santo Tomás É esta a norma inculcada pelo mesmo S P Leão XIII na célebre Encíclica Aeterni Patris 4 agosto 1879 10 Lógica Lógica do grego logos discurso razão é a ciência que dirige por meio de leis as operações da nossa razão para que ordenada e facilmente alcancemos a verdade Todos os homens têm uma certa aptidão natural para dirigir e coordenar as suas operações intelectuais É a Lógica natural Mas essa aptidão não era suficiente Foi necessário que por meio da reflexão e da análise se formasse um sistema completo de leis reguladoras do pensamento de modo que chegássemos à aquisição da verdade por um caminho fácil e direito Esse sistema de leis é a Lógica artificial ou científica de que nos ocupamos1 11 Objeto da Lógica O objeto da Lógica é constituído pelas nossas operações intelectuais enquanto devem ser dispostas e ordenadas para a consecução da verdade Daí a diferença entre a Lógica e as 1 O homem nasce com um ardente desejo de conhecer a verdade Juntamente com esse desejo o sapientíssimo Criador deunos uma aptidão proporcionada um critério natural pelo qual nos servíssemos com retidão das faculdades cognitivas e descobríssemos anteriormente a todo e qualquer magistério ou ensino algumas leis ou regras fundamentais que nos ajudassem a conseguir a verdade Essas regras assim descobertas constituem a Lógica natural A ela devemos o conhecimento de muitas verdades que são dotadas de evidência imediata e de muitas conclusões que espontaneamente derivam dessas verdades Mas a Lógica natural embora muito útil não basta Porquanto a verdade está por vezes tão escondida aos nossos olhos e tão cercada de dificuldades que não é fácil percebêla Por isso podendo aperfeiçoarse a natureza pela arte foi necessário aperfeiçoar essas regras da Lógica natural completandoas e coordenandoas de modo que a nossa inteligência pudes se produzir os seus atos com facilidade sem confusão e sem erro fazer bem as demonstrações embora complexas deduzir reta e legitimamente as conclusões remota e confusamente contidas nos princípios defender a verdadeira doutrina das objeções apresentadas sob as aparências da verdade Nem este trabalho de aperfeiçoamento é difícil para o homem Dotado de reflexão pode ele estudar e analisar os atos da própria inteligência e descobrir a maneira de os produzir com facilidade com ordem e sem erros O conjunto dessas regras que foram descobertas pela reflexão e completam as da Lógica natural constitui a Lógica artificial ou cien tífica Donde se vê que a Lógica artificial se distingue da natural como o perfeito se distingue do imperfeito Santo Tomás define assim a Lógica artificial Scientia quae est directiva ipsius actus rationis per quam scilicet homo in ipso actu rationis ordinate et faciliter et sine errore procedit Post anal lib I l 1 LÓGICA 52 LÓGICA demais ciências pois nenhuma dessas estuda o pensamento para o dirigir para o seu fim1 12 A Lógica é arte e ciência a É arte Porquanto arte é o conjunto de regras ou preceitos que ensinam a executar com perfeição alguma coisa Ora a Lógica é um conjunto de regras ou preceitos que ensinam a fazer com perfeição a definição a divisão o raciocínio etc Logo a Lógica é arte2 b É ciência Com efeito é próprio da ciência deduzir dos princípios intrínsecos que constituem a essência de um objeto as propriedades ou os atributos do mesmo objeto e se se trata de dar regras deduzilas dos próprios princípios das coisas a que essas regras se referem pois que a ciência é o conhecimento das coisas pelas suas causas Ora a Lógica deduz dos princípios que constituem a natureza do raciocínio da definição da divisão etc as regras para a reta formação do mesmo raciocínio etc Logo a Lógica é ciência3 1 O objeto da Lógica como o de qualquer outra ciência dividese em mate rial e formal O material que é tudo o que a ciência atinge é constituído pelas nossas operações intelectuais o formal que é o aspecto sob o qual a ciência atinge ou conside ra o objeto material é a ordem que a razão deve estabelecer nas suas operações para alcançar a verdade Em todas as ciências é indispensável a ordem entre os vários entes de que elas tratam mas nenhuma delas excetuada a Lógica tem por objeto a própria ordem Por isso a Lógica poderia definirse a ciência da ordem nas opera ções intelectuais Diz Santo Tomás Ordo quem ratio considerando facit in proprio actu pertinet ad rationalem philosophiam In 1 Eth l 4 2 A Lógica não só é arte mas é a arte das artes porque dirige o ato da razão do qual derivam todas as artes Diz Santo Tomás A razão pode dirigir não só os atos das outras faculdades mas até os seus próprios atos Porquanto a faculdade intelectual tem o poder de refletir sobre si mesma pois que a inteligência se entende a si mesma e a razão pode raciocinar acerca do seu ato E por isso assim como pelo fato de a razão raciocinar acerca do ato das mãos foi inventada a arte do pedreiro e do carpinteiro pela qual o homem pode exercer com facilidade e com ordem os atos dessas artes assim também pelo mesmo motivo é necessária uma arte diretiva do próprio ato da razão pela qual o homem nos seus raciocínios proceda com ordem com facilidade e sem erro Esta arte é a Lógica isto é a ciência racional A qual é racional não só porque é conforme à razão o que é comum a todas as artes mas também porque se refere ao ato da razão como à sua própria matéria Por isso pode chamarse a arte das artes porque dirige o ato da razão do qual derivam todas as artes 1 Post Analyt l 1 3 A Lógica não só é ciência mas é a ciência das ciências porque dirige a pró pria razão da qual derivam todas as ciências E é uma ciência especial isto é distinta 53 LÓGICA 13 Necessidade da Lógica O estudo da Lógica é sumamente necessário Porquanto a nossa inteligência nunca poderá alcançar um profundo e completo conhecimento de qualquer ciência se não souber ordenar as suas operações extremar a verdade do erro formar racio cínios julgar da legitimidade dos argumentos Ora tudo isto constitui o objeto da Lógica Logo o estudo da Lógica é sumamente necessário1 14 Divisão da Lógica As operações intelectuais que consti tuem o objeto da Lógica podem considerarse ou quanto à ordem que deve existir entre elas para a consecução da verdade ou quanto à realidade objetiva que elas exprimem Daí a divisão da Lógica em formal e material A Lógica formal ocupase da ordem com que devem ser dispostas e das leis às quais devem estar sujeitas as operações intelectuais que são a idéia o juízo e o raciocínio A Lógica material ocupase da realidade objetiva que as nossas operações exprimem e que é a verdade e por isso ocupase da natureza da verdade dos meios de todas as outras ciências Porquanto as ciências distinguemse pelos seus objetos formais Ora o objeto formal da Lógica que como dissemos é a ordem nos atos in telectuais distinguese do objeto formal das outras ciências que se ocupam de uma série de verdades relativas a uma coisa mas não se ocupam do modo de conseguir a verdade Por isso a Lógica não é o instrumento próximo e próprio de cada ciência mas é o instrumento remoto e comum a todas as ciências porque prescreve as leis do raciocínio que se hão de observar em toda e qualquer ciência Concluímos que a Lógica é ao mesmo tempo arte e ciência mas sob diferentes aspectos É arte porque dá as normas para a reta formação do raciocínio etc é ciência porque dá a razão das normas que prescreve Logo a Lógica é uma ciência prática Cf Summ Th Ia IIae q 57 a 3 ad 3 De tudo o que deixamos dito resulta a excelência da Lógica Todavia esta é inferior em dignidade às outras partes da Filosofia Com efeito o que se procura por amor de outra coisa é inferior ao que se procura por si mesmo pois o meio é inferior ao fim Ora a instrução que se procura no estudo da Lógica é um meio para o conhecimento perfeito das outras partes da Filosofia e em geral de todas as ciências 1 A maior parte senão a totalidade dos erros que se encontram nos livros dos modernos escritores sobretudo naturalistas derivam da ignorância da Lógica Apresentam eles às vezes hipóteses arbitrárias induções incompletas fatos não averiguados outras vezes de fatos certos e averiguados deduzem conseqüências falsas E qual é o motivo verdadeiro desses desvarios É a ignorância se não é o desprezo da Lógica Sem o estudo acurado desta ciência o homem se pode chegar ao conhecimento das verdades comuns que se percebem imediatamente pela força do bom senso não pode alcançar as outras verdades senão misturadas com muitos erros e depois de muitas dificuldades Cfr Cícero Orat IV 16 54 LÓGICA que empregamos para a aquisição da verdade faculdades do caminho que percorremos método e do resultado que alcançamos ciência A Lógica pois tratase em duas seções A primeira seção é dedicada à Lógica formal a segunda à material1 1 A Lógica formal chamase formal porque a ordem de que ela se ocupa é a forma das nossas operações Dizse também analítica porque analisa o pensamen to e também porque se funda em princípios analíticos dialética porque ensina a raciocinar subjetiva porque trata dos atos do sujeito pensante menor porque trata da forma das nossas operações intelectuais que é inferior à sua matéria a ver dade e porque trata de questões menos difíceis e menos elevadas A Lógica mate rial chamase assim porque a verdade é a matéria ou o conteúdo dos pensamentos Dizse também crítica porque trata dos critérios isto é dos meios úteis para alcan çar com certeza a verdade objetiva porque se ocupa da verdade que é o objeto ou a matéria do pensamento maior porque estuda a matéria do pensamento que é a verdade e que é superior à sua forma e porque trata das questões mais difíceis e ele vadas Esta divisão da Lógica em formal e material fundase na teoria acerca da ma téria e da forma que Aristóteles e os escolásticos expuseram em conformidade com o senso comum dos homens Kant adotou as palavras mas alterou o sentido delas Dividiu também ele a Lógica em formal e material mas a Lógica formal para ele é a que se ocupa de umas formas subjetivas ou idéias do pensamento inteiramente independentes da realidade e anteriores a todo e qualquer dado da experiência Para os homens de bom senso a Lógica formal tratando da forma do pensamento e por isso dos vários modos de combinar as idéias os juízos os raciocínios se prescinde da realidade objetiva do pensamento não a nega nem falseia como fazem os Kantistas autor e pai da Lógica científica foi Aristóteles no seu Organum obra perfeita a qual segunda a confissão do próprio Kant nada foi depois acrescentado Na idade média os escolásticos e sobretudo Santo Tomás expuseramna e comentaramna A Lógica que teve Aristóteles por fundador é a formal 15 Operações da inteligência A inteligência humana não apreende sempre a verdade de um modo intuitivo e simultâneo mas por graus e em momentos sucessivos executando três diversas opera ções que são a idéia o juízo e o raciocínio Essas operações estão por tal forma dispostas que a idéia se refere ao juízo e esse ao raciocínio pois o juízo é composto de idéias e o raciocínio de juízos A expressão verbal da idéia é o termo do juízo é a proposição do raciocínio é a argumentação1 16 Divisão da Lógica formal Dividimos a Lógica formal em três capítulos no primeiro tratamos da idéia e do termo no segundo do juízo e da proposição no terceiro do raciocínio e da argumentação CAPÍTULO PRIMEIRO Idéia e Termo Sumário Idéia sua definição e análise Divisão geral da idéia Divisão da idéia universalreflexa Redução das idéias a categorias Definição e divisão 1 Todas as operações da nossa mente para alcançar a verdade resumemse nas três indicadas Na verdade quando percebemos alguma coisa ou emitimos o nosso juízo ou não Não há outra hipótese Se não emitimos o nosso juízo é mera apreensão é idéia Se emitimos um juízo esse ou emitese imediatamente pela sim ples comparação do predicado com o sujeito e fazemos um juízo ou deduzse de um juízo precedente e temos o raciocínio Outras operações que alguns escritores enumeram são apenas modalidades de uma ou outra das três mencionadas e redu zemse a essas Cfr Santo Tomás In Periher l 1 A causa pela qual a inteligência humana para alcançar a verdade precisa de executar várias e diversas operações é a sua limitação Se ela percebendo um objeto pudesse compreender com uma simples intuição tudo o que a esse objeto se refere não haveria necessidade de formar juízos como também se num princípio pudesse distintamente conhecer todas as conclusões virtual e implicitamente con tidas nesse princípio não haveria lugar para raciocínios Mas a inteligência humana não é dotada de tanta perfeição Summ Theol Ia q 58 a 3 e 4 Seção Primeira Lógica Formal 56 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO I Idéia sua definição e análise 17 Idéia Idéia é a simples representação intelectual de uma coisa assim percebendo o homem temos uma idéia A idéia é representação porque é uma imagem que exprime e reproduz a coisa é representação intelectual porque é uma imagem gravada na inteligência e não na fantasia ou numa outra faculdade sensitiva é simples representação porque à coisa reproduzida por ela não se atribui nem se nega propriedade alguma1 18 Objeto da idéia O objeto que a idéia representa é a essên cia ou natureza do ser percebido Porquanto a coisa que é representada ou reproduzida na inteligência pela idéia não é todo o ser percebido mas é apenas o que esse ser tem de mais íntimo e que o constitui numa determinada espécie e não noutra assim a coisa que a idéia de homem representa não é tudo o que o indivíduo humano possui mas é só o que o torna indivíduo desta espécie que é a humanidade Ora a coisa que um ser tem de mais íntimo e que o constitui numa certa espécie é a essência ou natureza Logo o objeto que a idéia representa é a essência ou natureza do ser percebido2 1 A reprodução ou representação de uma coisa na nossa inteligência tem o nome de idéia porque nessa representação a inteligência vê a própria coisa A idéia chamase também verbo mental porque a nossa inteligência informada pela idéia fala e diz a si mesma a coisa percebida conceito porque é uma coisa que é gerada pela própria inteligência e que começa a viver a vida intelectual do sujeito cognoscente Termo mental porque todos os atos intelectuais se resolvem nas idéias como nos seus últimos elementos Percepção ou apreensão porque a inte ligência forma a idéia de uma coisa quando a percebe ou apreende Notamos que rigorosamente falando a percepção é o ato subjetivo do cognoscente ao passo que a idéia é o produto desse ato ou por outras palavras a percepção é o conhecimento considerado subjetivamente e a idéia é o próprio conhecimento considerado objeti vamente Todavia no uso comum a percepção e a idéia empregamse para significar uma e a mesma coisa Sendo uma representação intelectual a idéia não deve confundirse com a imagem sensível que se forma na fantasia juntamente com a percepção e que acom panha todas as operações intelectuais porque essa imagem sensível representa uma coisa material como existe na realidade ao passo que a idéia representa a coisa de um modo espiritual ou imaterial 2 Todos os seres finitos são compostos de muitos e diversos elementos alguns dos quais são comuns a outros seres da mesma espécie ou gênero e outros 57 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 19 Caracteres da idéia Os principais caracteres da idéia são dois a universalidade e a necessidade a A idéia é universal Porquanto a idéia representa a essência ou natureza dos seres Ora tal essência ou natureza pelo fato de determinar os seres a uma certa espécie é comum a todos os seres que pertencem à mesma espécie e a todos pode atribuirse no mesmo sentido e por isso é uma coisa universal tal é a humanidade Logo a idéia representando a essência ou natureza dos seres é universal1 b A idéia é necessária A idéia representa a essência ou a natureza dos seres Ora a essência dos seres é imutável e por isso necessária porque se lhe tirar ou acrescentar um só dos elementos são próprios de cada ser Assim um certo homem por exemplo Pedro é animal é racional é branco é alto é sábio etc Alguns desses elementos como animal racional são comuns a todos os homens outros como branco alto etc são próprios deste homem que se chama Pedro e não de outro homem Os elementos comuns consti tuem a essência ou a natureza de Pedro porque a essência do homem é constituída pela animalidade e pela racionabilidade ao passo que os outros estão fora da natureza Ora a idéia de homem representa a essência ou a natureza desse ser e não as proprie dades individuais que o fazem distinguir dos outros homens Na verdade a idéia é a forma de uma faculdade imaterial como é a nossa inteligência Mas uma faculdade imaterial só pode receber uma coisa imaterial como é a essência dos seres As ima gens representativas das propriedades individuais dos seres só podem ser recebidas nas faculdades da ordem inferior que é a sensitiva Advertimos que a idéia pode ser tomada segundo o seu objeto material e se gundo o seu objeto formal É tomada segundo o seu objeto material quando se toma no conjunto de todos os elementos que a constituem assim quando digo Pedro é homem a idéia de homem é tomada no conjunto de todos os elementos que a consti tuem e que são a animalidade e a racionalidade É tomada segundo o seu objeto formal quando se toma na parte dos seus elementos que denota a diferença específica assim quando digo o homem e o anjo conhecem o Criador a idéia de homem é tomada apenas num dos seus elementos a racionalidade pela qual o homem convém com o anjo e que é a causa adequada desse conhecimento 1 A idéia universal como veremos é formada pela abstração enquanto a in teligência considera nos seres de uma espécie o que é comum a todos sem se importar do que é próprio de cada um É só a este caráter de universalidade de que são dotadas as idéias que devemos o poder de formar juízos e raciocínios Assim se posso dizer com razão que Pedro é homem Paulo é homem só posso dizêlo enquanto a idéia de homem representa o que há de comum nos indivíduos humanos prescindindo do que é próprio de Pedro de Paulo etc porque se a idéia de homem representasse o que é próprio de Pedro não poderia dizerse que Paulo é homem 58 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA que a constituem muda imediatamente assim se ao homem que é o animal racional se tirar o animal já não temos mais o homem mas o anjo Sendo necessária a essência dos entes também necessária é a idéia que o representa1 20 A idéia é sinal natural Sinal é uma coisa que nos leva ao conhecimento de outra É natural ou convencional conforme a rela ção entre a coisa significativa e a coisa significada depende da natureza assim o fumo é sinal natural do fogo ou depende do acordo dos homens assim o ramo da oliveira é sinal convencional da paz Ora a idéia é sinal porque apresenta um objeto ao nosso espírito e é sinal natural porque a relação entre ela e o objeto depende da natureza independente de toda a convenção humana2 21 Compreensão e extensão da idéia A compreensão da idéia é a soma ou o conjunto das notas ou dos elementos que a constituem assim a compreensão da idéia de homem é formada pelos dois elementos ou notas animalidade e racionalidade A extensão é a soma ou o número dos indivíduos que a idéia abrange assim a extensão da idéia de homem é constituída pela coleção de todos os indivíduos humanos A compre ensão e a extensão da idéia estão na razão inversa porque quanto maior é a compreensão tanto menor é a extensão e viceversa quanto maior é a extensão tanto menor é a compreensão assim a idéia de homem tem mais compreensão que a idéia de animal porque o homem possui todos os graus de perfeição de que é dotado o animal e além disso possui a razão de que o animal é destituído mas pelo contrário a idéia de animal tem mais extensão que a idéia de homem porque a idéia de 1 Como se vê a necessidade ou imutabilidade da idéia é uma conseqüência da necessidade ou imutabilidade da essência das coisas Da necessidade ou imutabilidade da essência trataremos e com o devido desenvolvimento mais tarde na Ontologia 2 A divisão do sinal em natural e convencional fundase no seu nexo com a coisa significada Mas se atendermos ao seu nexo com a faculdade cognitiva o sinal dividese também em formal e objetivo É formal quando é imagem e semelhan ça de uma coisa e por isso nos leva imediatamente antes dele ser percebido por si mesmo ao conhecimento da coisa significada assim a imagem de uma flor recebida na faculdade visual leva imediatamente esta faculdade à percepção da flor É objetivo quando primeiramente é conhecido em si mesmo e só em seguida leva à percepção do objeto representado assim o fumo é sinal objetivo do fogo Ora a idéia é sinal formal porque leva imediatamente à percepção do objeto e só depois é percebida pela reflexão Mas disto ocuparnosemos mais tarde 59 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO animal abrange todos os homens como a idéia de homem e além disso estendese a muitos outros seres vivos aos quais não se estende a idéia de homem1 ARTIGO II Divisão geral da idéia 22 Divisão geral da idéia A idéia pode considerarse ou quanto ao objeto que ela representa ou quanto ao modo por que o representa Daí uma dúplice divisão 23 Divisão da idéia quanto ao objeto representado Quanto ao objeto que representa a idéia dividese a em real e lógica b positiva e negativa c absoluta e relativa d simples e composta e abstrata e concreta f intuitiva e abstrativa g unívoca e análoga h singular universal e particular i universaldireta e universalreflexa a Idéia real e lógica Idéia real é a que representa um objeto real isto é existente fora do nosso pensamento tal é a idéia de homem considerado como é em si mesmo Idéia lógica é a que representa um ente lógico isto é só existente na inteligência tal é a idéia de homem con siderado como espécie a que estão subordinados os indivíduos humanos2 b Idéia positiva e negativa A idéia positiva é a que exprime uma entidade ou perfeição tais são as idéias de luz de virtude A idéia 1 A compreensão da idéia não pode aumentar nem diminuir sem que a idéia deixe de ser o que é porque a compreensão denota a essência e esta é incapaz de aumento e de diminuição A extensão da idéia porém pode aumentar ou diminuir sem que por isso aumente ou diminua a sua compreensão pois a extensão é uma coisa extrínseca e acidental à idéia 2 Um e o mesmo ser pode considerarse em si ou na inteligência Considerado em si o ser possui propriedades de que a natureza a dotou indepen dentemente do nosso pensamento A idéia que representa este ser é real tal é a idéia de homem considerado em si mesmo isto é nos seus elementos ou notas de ser sensitivo e racional Considerado na inteligência o ser possui ou pode possuir atributos que não possui na realidade e por isso lhe foram dados não pela natureza mas pela abstração e reflexão do nosso pensamento A idéia que representa esse ser é lógica tal é a idéia de homem considerado como espécie porque na realidade não existe o homemespécie mas existe unicamente o homemindivíduo 60 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA negativa é a que denota a ausência ou privação de entidade ou perfeição tais são as idéias de trevas de pecado que indicam a ausência da luz ou da virtude1 c Idéia absoluta e relativa A idéia absoluta representa um objeto que se não refere a outro como a idéia de planta A relativa representa um objeto que se refere a outro como a idéia de filho que se refere à de pai d Idéia simples e composta A idéia é simples quando é constituída por um único elemento tal a idéia de ente É composta quando abrange vários elementos como é a idéia de homem composto de alma e de corpo2 e Idéia abstrata e concreta Idéia abstrata é a que representa uma essência ou propriedade como que separada do sujeito e subsistente por si tal é a idéia de sabedoria Concreta é a que representa um sujeito com a sua forma ou propriedade como existe nas coisas tal é a idéia de sábio3 1 A idéia negativa não representa a própria ausência de entidade porque a au sência é nada e do nada não há imagem mas significa a oposta entidade enquanto negada Assim a idéia de trevas representa não a ausência da luz mas a negação da luz isto é a própria luz enquanto negada Para que pois uma idéia possa chamarse positiva ou negativa é necessário atender à coisa significada e não ao seu termo oral Se a idéia exprime uma ausência de entidade é sempre negativa embora o termo oral seja positivo tal é a idéia de morte como também se a idéia exprime uma entidade é sempre positiva embora o termo oral seja negativo tal é a idéia de imortal Por isso alguns termos são positivos na expressão e negativos na significação exemplo cegueira morte pecado e outros são positivos na significação e negativos na expressão exemplo imortalidade imensidade 2 Pode dizerse também que a idéia é simples quando exprime uma essên cia incomplexa isto é quando exprime uma única essência porque a essência ainda que constituída por vários elementos é por si simples ou indivisível de modo que não lhe se pode tirar um só elemento sem que ela fique destruída tal é a idéia de homem é composta quando exprime uma essência complexa isto é um complexo de essências tal é a idéia de sábio que significa o homem e a sabedoria 3 Há três espécies de concreto metafísico físico e lógico É metafísico quando a forma ou propriedade é essencial ao sujeito tal é homem porque a humanidade compete essencialmente ao indivíduo da espécie humana É físico quando a proprie dade ainda que intrínseca ao sujeito é contudo acidental enquanto não lhe com pete necessariamente tal é sábio porque a sabedoria não compete necessariamente ao homem aliás todo o homem seria sábio É lógico quando a propriedade é acidental e extrínseca ao sujeito tal é louvado porque o louvor está propriamente no conceito e nas palavras dos que louvam e não no sujeito que é seu termo 61 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO f Idéia intuitiva e abstrativa A idéia intuitiva é a que repre senta uma coisa como é em si mesma enquanto esta se une imediatamente à inteligência ou pela sua essência ou por uma imagem própria tal é a idéia de Pedro que está na minha presença A idéia abstrativa é a que representa uma coisa não como é em si mesma mas como se encontra na imagem de outra coisa que de algum modo a manifesta tal é a idéia que temos agora de Deus pela vista das criaturas1 g Idéia unívoca e análoga A idéia unívoca representa um objeto que se toma sempre numa e mesma significação tal é a idéia de substância que aplicada à planta ao sol etc significa sempre a mesma coisa A idéia análoga representa um objeto que se atribui aos infe riores numa significação nem totalmente idêntica nem totalmente diversa tal é a idéia de sanidade que se atribui ao animal ao alimento à cor2 1 A idéia intuitiva se chega a representar ou exprimir a coisa tanto quanto esta é cognoscível de modo que o conhecimento iguale e como que esgote toda a grandeza do objeto conhecido chamase compreensiva Os bemaventurados no Céu têm um conhecimento intuitivo de Deus mas não compreensivo só uma inteli gência infinita pode compreender um ser infinito Façamos uma advertência Para a idéia de uma coisa ser intuitiva não basta que a coisa seja conhecida imediatamente por si mesma mas é preciso que se una à faculdade cognitiva ou pela sua essência ou por uma espécie ou imagem própria Assim o todo e a parte são coisas conhecidas imediatamente por si mesmas sem que para serem percebidas seja preciso recorrer a outras coisas em que estejam contidas e contudo essas idéias não são intuitivas mas abstrativas porque se formam pela abstração 2 A idéia análoga merece especial atenção Analogia significa proporção re lação semelhança Idéia análoga como dizemos no texto significa uma proprieda de ou perfeição a qual se atribui a entes que são essencialmente diversos mas que têm entre si uma certa proporção ou semelhança Assim quando se diz são o animal e são o alimento a sanidade atribuise ao animal e ao alimento numa significação que não é nem totalmente idêntica porque à sanidade atribuída no alimento sig nifica uma coisa e atribuída ao animal significa outra nem totalmente diversa porque a sanidade encontrase no animal como no seu sujeito e no alimento como na sua própria causa Há uma tríplice espécie de idéias análogas uma segundo a proporção outra segundo a atribuição e a terceira segundo a proporcionalidade Alguns autores iden tificam a analogia de proporção com a de atribuição a A idéia análoga segundo a proporção representa uma propriedade a qual se atribui a dois entes a um enquanto se encontra nele principal e intrinsecamente principal analogado a outro enquanto ainda que se não encontre nele intrinse camente contudo tem uma certa relação com o primeiro analogado secundário tal é 62 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a idéia de sanidade atribuída ao animal e ao alimento porque o animal dizse são por si enquanto a sanidade lhe convém intrinsecamente ao passo que o alimento se diz são só em ordem ao animal isto é só enquanto é causa de sanidade no animal b A idéia análoga segundo a atribuição representa uma propriedade a qual se atribui a dois entes não enquanto a um convém intrinsecamente e ao outro em ordem ao primeiro mas enquanto um e outro se referem a um terceiro ao qual essa propriedade convém principal e intrinsecamente tal é a idéia de sanidade atribuí da ao alimento e à cor porque o alimento e a cor não se dizem são senão em relação a um terceiro ao animal em que a sanidade se encontra principal e essencialmente visto que o alimento é causa da sanidade do animal e a cor é sinal dessa sanidade Por isso na analogia de atribuição há pelo menos três termos ao passo que na analogia de proporção há só dois c A idéia análoga segundo a proporcionalidade representa uma propriedade que se atribui a dois entes não porque um se refere a outro mas porque a relação dessa propriedade com um ente é semelhante ou proporcionada à relação da mesma propriedade com outro ente tal é a idéia de rei que se atribui ao homem e ao leão porque a relação do leão com os outros animais é semelhante à relação do soberano com os seus súditos isto é o leão está para os outros animais como o soberano está para os seus súditos Como se vê a analogia de proporcionalidade encerra duas proporções e quatro termos embora nem sempre explícitos e chamase de proporcionalidadepor isso mesmo que a proporcionalidade é como diz Santo Tomás a proporção ou a semelhança entre duas proporções Aequalitas proportionum vocatur proporcionalitas In V Met lect V A idéia análoga segundo a proporcionalidade pode ser análoga segundo a pro porcionalidade própria e segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica É análoga segundo a proporcionalidade própria quando a propriedade representada pela idéia se atribui aos dois termos analogados porque num e noutro se encontra como forma intrínseca embora se não encontre em ambos do mesmo modo Assim a idéia de sapiência quando se atribui a Deus e ao homem é análoga segundo a proporcionalidade porque a relação da sapiência com a inteligência humana é semelhante à relação da mesma sapiência com a inteligência divina visto que numa e noutra inteligência a sapiência sig nifica o conhecimento das causas supremas e é análoga segundo a proporcionalidade própria porque a sapiência é uma forma intrínseca tanto da inteligência divina quanto da humana embora na divina seja infinitamente mais perfeita do que na humana É análoga segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica quando a propriedade representada pela idéia se atribui aos dois termos analogados porque num se encontra como forma intrínseca e noutro como semelhança dessa forma Assim a idéia de riso quando se atribui ao homem e ao jardim é análoga segundo a proporcionalidade porque a relação do riso com a face do homem é semelhante a relação da amenidade com o jardim mas é análoga segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica porque o riso compete própria e intrinsecamente ao homem ao passo que ao jardim só compete por uma certa semelhança que esse tem com o próprio riso do homem Essa analogia de proporcionalidade imprópria embora tenha o seu fundamento nas coisas contudo depende principalmente do arbítrio humano Donde se segue 63 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO h Idéia singular universal e particular A idéia é singular quando representa uma essência própria de um só indivíduo determinado de modo que só a esse convém ou pode ser atribuída tal é a idéia de Pedro É universal quando representa uma essência comum a muitos entes de modo que a todos e a cada um deles pode ser atribuída tal é a idéia de humanidade que é comum a todos os homens e que se atribui a todos e a cada um deles Por isso a idéia universal tomase em toda a sua extensão A particular é a própria idéia universal mas tomada numa parte da sua extensão como é a idéia de alguns homens1 a Na analogia de proporção ou de atribuição 1º a forma é intrínseca ao analogado principal mas é extrínseca e só convém por denominação quanto ao nome aos outros analogados assim a sanidade é intrínseca ao animal mas é extrínseca à cor ao alimento etc que dela só tem o nome não a realidade 2o a forma do analogado principal deve entrar na definição dos outros analogados que recebem do principal o nome assim não podemos entender o que é a sanidade no alimento se não entender mos primeiramente o que é a sanidade no animal 3o se nos analogados principal e secundários não há unidade de forma porque a forma encontrandose apenas no analogado principal é numericamente una há contudo unidade de ordem enquanto os analogados secundários se referem a uma e a mesma forma do analogado da qual tiram o seu nome 4o os analogados não têm um e o mesmo conceito objetivo porque não têm uma e a mesma forma e o conceito é proporcionado à forma b Na analogia de proporcionalidade própria 1o a forma é intrínseca tanto ao analogado principal como aos outros ainda que o não seja do mesmo modo e por isso as idéias análogas segundo esta analogia diferem das análogas segundo a pro porção e a atribuição e também das unívocas 2o o analogado principal não deve entrar na definição dos outros porque esses têm a sua forma intrínseca de que tiram o próprio nome 3o todos esses analogados convêm num só conceito objetivo porque todos são intrinsecamente constituídos pela mesma forma mas esta unidade é imperfeita porque a forma não se encontra em todos do mesmo modo c Na analogia de proporcionalidade metafórica verificase o que se verifica na analogia de proporção e de atribuição porque por exemplo o riso não é intrínseco no jardim como o é no homem e por isso não tem e não pode ter um e o mesmo conceito objetivo 1 Toda a idéia representa uma essência Mas a essência que a idéia singu lar representa está cercada de certas propriedades que no seu conjunto só podem convir a um indivíduo determinado Essas propriedades chamamse também notas ou propriedades individuais e reduzemse a sete contidas nos seguintes versos latinos Forma figura locus tempus stirps patria nomem Haec ea sunt septem quae non habet unus et alter A essência porém que a idéia universal exprime considerase em si ou nos seus elementos constitutivos sem relação aos caracteres que a tornam concreta nos 64 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA indivíduos e desse modo representasenos como uma coisa a qual por tal modo existe ou pode existir em muitos seres que neles se multiplique e a cada um deles se atribui Assim insistimos no mesmo exemplo a humanidade abstraída das circuns tâncias ou notas que a tornam concreta em Pedro Paulo etc é uma coisa que se encontra em muitos indivíduos pois a humanidade existe em todos os homens multiplicase numericamente neles porque há tantos homens quantos são os que têm a humanidade e atribuise a cada um deles pois de cada indivíduo de natureza humana podemos dizer que é homem A idéia universal difere a da transcendental b da comum c da coletiva d e da particular a A idéia universal difere da transcendental A idéia é transcendental quando representa uma coisa que pode atribuirse a todos os entes existentes e possíveis tal é a idéia de ente de verdadeiro de bom etc Dizse transcendental porque trans cende ou excede todos os gêneros e todas as espécies Ora há uma grande diferença entre a idéia universal e a transcendental Por quanto a idéia universal não representa senão o que é próprio de uma determinada categoria de entes ao passo que a trans cendental aplicase a todos os seres existentes e possíveis Além disso a idéia universal representa uma coisa que se atribui a todos os sujeitos aos quais se estende numa significação unívoca ou idêntica assim homem aplicado a Pedro a Paulo etc significa sempre a mesma coisa ao passo que a transcendental representa uma coisa que se atribui aos seus sujeitos numa significação análoga assim ente aplicado ao homem à planta à pedra não significa a mesma coisa b A idéia universal difere da comum Na verdade a essência indicada pela idéia universal multiplicase nos sujeitos a que se atribui de modo que a essência de um indivíduo embora convenha especificamente com a essência de outro indivíduo todavia difere numericamente assim são tantas as humanidades quantos os homens Mas a essência denotada pela idéia comum embora se atribua a vários supostos todavia não exprime exigência de multiplicação numérica nos mesmos supostos a que se atribui Assim a Essência Divina é comum às Três Pessoas mas não pode chamar se universal porque não pode estar sujeita à multiplicação numérica pois há um só Deus Cf S Th In 1 Sent dist 19 q 4 a 2 ad 2 c A idéia universal difere da coletiva exército rebanho Porquanto a uni versal pode ser atribuída a todos e a cada um dos sujeitos mas a coletiva convém só à coleção inteira dos sujeitos Por exemplo a idéia da planta que é universal atribuise a cada um dos vegetais assim dizemos a figueira é planta o pinheiro é planta a flor é planta ao passo que a idéia de exército por ser coletiva não convém a cada soldado porque não podemos dizer este soldado é o exército Sum Th Ia q 31 a 1 ad 2 d A idéia universal difere da particular Porquanto como dissemos a idéia universal tomase em toda a sua extensão mas a particular só numa parte da sua exten são assim quando dizemos alguns homens concebemos a essência humana existente não em todos os homens mas só em alguns homens indeterminados Como se vê a idéia particular aproximase da singular e às vezes chega a identificarse com esta como neste exemplo certo homem escreveu os Lusíadas 65 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO i Idéia universaldireta e universalreflexa A idéia uni versaldireta representa uma essência considerada nos seus elementos constitutivos e sem relação aos indivíduos nos quais se encontra ou pode encontrarse tal é a idéia de homem só considerada nas notas de anima lidade e de racionalidade A idéia universalreflexa representa a mesma essência mas considerada em relação aos indivíduos ou aos inferiores nos quais pode existir e aos quais pode atribuirse tal é a idéia de homem considerada como espécie Como se vê a idéia universalreflexa é a própria universaldireta à qual se acrescenta a relação aos inferiores1 24 Divisão da idéia quanto ao modo de representar o objeto Em relação ao modo por que representa o objeto a idéia dividese Portanto é fácil reconhecer as notas que caracterizam e distinguem a idéia singular e a universal A singular é incomunicável porque convém exclusivamente a um certo e determinado indivíduo a universal é comunicável porque pode atribuirse e atribuise a todos e a cada um dos indivíduos dotados da essência que essa idéia ex prime A singular é concreta porque está envolvida nas propriedades individuais ao passo que a universal é abstrata pois considerase como que separada das propriedades individuais que possui na realidade A singular é complexa pois que se compõe da es sência e dos caracteres individuais a universal é incomplexa porque só exprime a essência do ente A singular tem menos extensão que a universal porque a singular aplicase a um só indivíduo ao passo que a universal aplicase a muitos mas tem mais compreen são que a universal porque a singular não só representa a essência como a universal mas também representa as notas ou propriedades que a universal não representa 1 A idéia universaldireta representa um ente real porque os constitutivos de uma essência se acham verdadeiramente na mesma essência independentemente da nossa inteligência A universalreflexa enquanto contém a universaldireta isto é uma essência é ente real mas enquanto diz relação aos inferiores e se consi dera como uma forma comum a vários inferiores é ente lógico isto é é um produto da nossa inteligência e não existe na realidade embora tenha nesta o seu funda mento assim o homem considerado como espécie não existe realmente Mas disto mais tarde e com o devido desenvolvimento A idéia universaldireta é chamada direta porque se concebe por uma consideração direta da nossa inteligência Dizse também metafísica ou objetiva porque exprime a essência considerada em si isto é independentemente do nosso pensamento fundamental porque não designan do explícita e positivamente os indivíduos é o fundamento da universalreflexa A universalreflexa dizse reflexa porque se concebe por uma consideração reflexa da inteligência Chamase também lógica porque a relação de uma essência aos indi víduos em que se encontra ou possa encontrarse é obra inteiramente dependente da inteligência formal porque exprime exatamente a índole da idéia universal que consiste em uma coisa ser comum a muitas 66 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a em clara e obscura b distinta e confusa c completa e incompleta d adequada e inadequada a Idéia clara e obscura A idéia é clara quando o objeto por ela representado se extrema de qualquer outro É obscura quando o objeto não se extrema dos outros A idéia obscura pode tornarse clara b Idéia distinta e confusa A idéia é distinta quando não só extrema o seu objeto de qualquer outro mas também indica os ele mentos essenciais do mesmo objeto assim a idéia de homem é distinta quando representa a animalidade e a racionalidade que são os elementos constitutivos do homem É confusa quando não exprime os elementos essenciais do objeto ainda que o extreme de qualquer outro c Idéia completa e incompleta A idéia é completa quando abrange não só os elementos essenciais do objeto mas ainda as mais simples notas em que eles podem resolverse assim a idéia de homem é completa quando exprime também as notas de ente subsistente cor póreo vivente sensitivo inteligente livre incluída na animalidade e na racionalidade É incompleta quando embora exprima os elementos essenciais de que o ente é constituído todavia não indica as mais simples notas em que esses elementos se resolvem d Idéia adequada e inadequada Idéia adequada é a que apresenta à inteligência todo o objeto em si mesmo e em todas as suas relações por forma que entre ele e a idéia existe uma completa equação Esta idéia superior às forças da nossa inteligência é só própria de Deus A inadequada é a que não chega a tanta perfeição1 ARTIGO III Divisão da idéia universalreflexa 25 Divisão da idéia universalreflexa A idéia universal reflexa é como dissemos a que representa a essência em relação aos indivíduos e exprime o modo por que uma coisa pode existir em muitos 1 Para outros a idéia é adequada se do seu objeto representa o que é bastante para um certo e determinado fim é inadequada no caso contrário Todavia esta in terpretação não está muito conforme com a própria etimologia da palavra adequada 67 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO sujeitos e serlhes atribuída na mesma significação Ora esta idéia divi dese em espécie gênero diferença propriedade e acidente Essas idéias chamamse predicáveis1 26 Espécie Espécie é uma idéia universal que representa a essência completa de muitos indivíduos só numericamente distintos entre si tal é a idéia de humanidade que compreendendo a animalidade e a racionalidade exprime a essência completa de cada indivíduo humano Para que pois uma idéia o conteúdo possa atribuirse como espé cie é necessário que denote uma coisa comum a vários entes que essa coisa se refira a entes só numericamente distintos entre si e que exprima a essência completa dos mesmos entes2 27 Gênero Gênero é uma idéia universal que representa o elemento essencial comum a espécies diversas assim animal é gênero porque exprime o elemento comum à essência do homem e à do animal irracional Para que pois uma idéia possa atribuirse como gênero é necessário que denote uma coisa comum a vários entes que essa 1 A idéia universal pode ser unívoca ou análoga A universalanáloga é a que se atribui a diversos seres em significação análoga assim são análogas as idéias transcendentais ente uno verdadeiro bom porque a entidade a unidade a verdade o bem ainda que sejam possuídos por todos os seres todavia não o são do mesmo modo A universalunívoca é a que se atribui a diversos seres em significação unívo ca assim são unívocas as cinco idéias universaisreflexas pois atribuemse aos sujeitos na mesma significação As cinco idéias universaisunívocas eram chamadas pelos antigos predicá veis praedicabilia pois exprimem como dissemos os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída praedicari e pelos modernos são chamadas categoremas 2 Um exemplo mostrará claramente o modo porque a nossa inteligência forma a idéia de espécie Vendo muitos indivíduos humanos podemos por meio da abstração prescindir das notas ou caracteres individuais próprios de cada um e só considerar os elementos constitutivos da essência comuns a todos os que são dotados da mesma essência O conjunto de todos os elementos comuns constitui a espécie Assim a idéia de homem considerada em relação aos indivíduos humanos é espécie porque denota uma coisa comum a vários entes pois a humanidade é uma coisa só e todavia se encontra multiplicada em todos os indivíduos humanos diz respeito a entes só numericamente distintos pois os indivíduos humanos diferem não essencial mas numericamente exprime a essência completa desses indivíduos porque não se encontra neles elemento substancial ou comum que não se ache contido na idéia de homem 68 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA coisa se refira a entes especificamente distintos entre si e que exprima a essência incompleta dos mesmos entes e propriamente o elemento determinável da essência1 28 Diferença Diferença é uma idéia universal representa tiva do elemento essencial que é próprio de cada espécie isto é que unido ao gênero constitui a espécie tal é racional que unido ao gênero animal constitui a espécie humana Por isso para que uma idéia possa atribuirse como diferença deve representar uma coisa comum a vários entes numericamente distintos exprimir a essência incompleta e propriamente o elemento determinante da essência2 1 Se compararmos um homem não com outro homem mas por exemplo com um cavalo veremos que um e outro convém num elemento essencial mas di ferem noutro Convém enquanto são ambos animais pois dizemos que o homem é animal o cavalo é animal Diferem enquanto o homem é animal racional e o cavalo é animal irracional Esse elemento essencial que é comum a diversas espécies é o gênero Assim animal é gênero porque denota uma coisa comum a vários entes pois a ani malidade que é uma só coisa é comum ao homem e ao bruto diz respeito a entes que diferem na espécie pois o homem e o bruto são entes especificamente diversos exprime a essência incompleta porque o homem e o bruto além desse elemento essencial que é comum a ambos e que é significado pela idéia de animal possuem outro elemento essencial que é próprio de cada um e de que deriva a sua diversidade específica e por isso exprime o elemento determinável da essência porque por exemplo animal podendo ser racional ou irracional não é por si determinado a uma ou outra espécie e por isso é determinável e deve ser determinado O gênero difere da espécie porque a espécie exprime a essência completa e existe em sujeitos só numericamente distintos entre si ao passo que o gênero exprime uma parte da essência e existe em sujeitos que especificamente diferem um do outro Por isso a compreensão do gênero é menor que a da espécie embora a extensão daquele seja maior que a desa pois o gênero compreende várias espécies 2 Assim quando dizemos o homem é animal racional a idéia racional é uma diferença porque representa uma coisa que se encontra em todos os indivíduos humanos só numericamente distintos porque todo o homem é racional exprime a essência incompleta porque o homem além de racional é também animal e exprime o elemento determinante da essência porque determina o gênero animal e o limita a uma espécie humana e não a outra beluína As seguintes notas relativas à diferença são de grande importância a A diferença distinguese da espécie e do gênero Distinguese da espé cie pois a espécie exprime a essência completa e a diferença exprime só uma parte da essência Distinguese do gênero pois esse exprime a parte essencial comum a espécies diversas e para exprimir isso assume a forma de substantivo por exemplo 69 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 29 Divisão do gênero da espécie e da diferença Cada uma destas três idéias universais gênero espécie e diferença dividese em suprema ínfima ou próxima e intermédia a Gênero supremo é o que acima de si não tem outro gênero e que por isso não pode ser espécie Ínfimo ou próximo é o que abaixo de si não tem outro gênero mas só espécies Intermédio é o que tem acima e abaixo de si outro gênero e ao mesmo tempo mas sob diverso aspecto é gênero e espécie b Espécie suprema é a que está imediatamente abaixo do gênero supremo Ínfima é a que está abaixo do gênero intermédio Intermédia é a que está abaixo do gênero intermédio animal ao passo que a diferença denota a parte essencial própria de cada espécie e para exprimir isso assume a forma de adjetivo por exemplo racional A razão é que a diferença embora seja mais nobre que o gênero assim racional é mais nobre que animal todavia para o nosso modo de entender é inferior ao gênero pois esse considerase como sujeito daquela b A diferença determina o gênero para esse constituir uma certa espécie e não outra Porquanto o gênero exprimindo o elemento comum a várias espécies e sendo por isso indiferente para constituir uma ou outra das espécies subordinadas deve ser limitado a uma certa espécie e não a outra Essa limitação é feita pela dife rença Desse modo resulta a espécie composta de gênero e de diferença Esses dois elementos não se distinguem física ou realmente mas só lógica ou mentalmente pois a espécie não é uma terceira realidade composta de duas outras realidades mas é uma terceira idéia composta de duas idéias incompletas c As diferenças devem de algum modo ser contidas sob o gênero aliás não se lhe poderiam unir Dizemos de algum modo porque as diferenças não estão contidas em ato sob o gênero aliás deveríamos atribuir a este ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto predicados contraditórios mas estão contidas em potência enquanto o gênero que é por si indiferente pode ser determinado por elas d A diferença por exprimir uma qualidade essencial que unida ao gênero constitui a espécie não pode deixar de ser positiva isto é deve exprimir uma perfei ção ou realidade E se às vezes é negativa isto é se indica a ausência de perfeição ou realidade não devemos pensar que a diferença seja mera negação pois a negação é nada e o nada não pode ser elemento essencial das coisas mas devemos entender que a qualidade a qual determina o gênero a uma certa espécie nos é desconhecida e que pode ser dotada de toda e qualquer essência menos daquela que é afastada do gênero pela diferença negativa Assim quando dizemos que o cão é animal irracional essa diferença irracional não denota que a qualidade essencial que unida ao gênero animal constitui o cão seja uma negação ou ausência de realidade mas significa que essa qualidade nos é desconhecida e que pode ser tudo menos racional Cfr S Th De Ente et Essentia c 6 70 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA c Diferença suprema é a que unida ao gênero supremo constitui as espécies supremas Ínfima é a que unida ao gênero ínfimo constitui as espécies ínfimas Intermédia é a que unida ao gênero intermédio forma as espécies intermédias1 30 Propriedade Propriedade é uma idéia universal represen tativa de uma qualidade que necessariamente emana da essência completa tal é no homem a faculdade de falar Para que pois uma qualidade possa dizerse propriedade é necessário que derive da essência com pleta que derive necessariamente e que por isso convenha a todos os entes dotados da mesma essência e só a eles e convenha sempre2 1 Advertimos que a espécie o gênero e a diferença quando se atribuem aos entes que lhes estão subordinados se tomam no sentido que essas idéias universais reflexas denotam explicitamente e não no sentido que elas exprimem implicitamente Sejamos mais claros Não só a espécie mas também o gênero e a diferença significam a espécie com pleta Na verdade o gênero e a diferença atribuemse por identidade aos entes que lhes estão subordinados pois dizemos o homem é animal o homem é racional Ora esses dois universais se não significassem a essência completa mas só um dos elemen tos essenciais não poderiam atribuirse por identidade aos seres que lhes estão sujeitos pois a parte não pode atribuirse ao todo assim se nesta proposição o homem é racional a diferença racional significasse só uma parte da essência humana teríamos que o homem é o ser dotado exclusivamente de razão o que é falso Todavia o gênero e a diferença se denotam a essência completa dos entes não a denotam explicitamente Porquanto o gênero explicitamente só denota a parte essencial comum a várias espécies e implicitamente denota a outra parte essencial própria de cada espécie Como também a diferença explicitamente só denota a parte essencial própria de cada espécie e implicitamente exprime a parte essencial comum a várias espécies Em resumo a espécie significa a essência completa e exprimea explicitamen te o gênero significa a essência completa mas explicitamente só denota a parte essen cial que é comum a várias espécies e que por isso é indeterminada e determinável a diferença também significa a essência completa mas explicitamente só denota a parte essencial que é própria de cada espécie e que por isso é determinada e determinante A espécie é universalreflexa por tudo o que ela significa e denota o gênero e a diferença são universaisreflexas só pelo que denotam explicitamente Cfr S Th Op 30 cc 4 e 5 Op 48 tr 1 c 4 2 A propriedade não constitui a essência mas deriva da essência constituída e deriva necessariamente de modo que constituída a essência resulta a propriedade Por isso a propriedade convém a todos os que têm essa essência porque deri vando necessariamente da essência deve encontrarse onde se encontra a essência 71 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 31 Acidente Acidente é uma idéia universal representativa de uma qualidade que indiferentemente pode darse ou deixar de darse num sujeito tal é a bondade no homem1 convém exclusivamente aos que têm essa essência porque só os que têm uma es sência podem participar do que necessariamente deriva dela e convém sempre porque o ente não pode perder a propriedade sem perder a essência Deve porém advertirse que uma qualidade para ser verdadeira propriedade deve deri var da essência completa isto é do conjunto de todos os elementos que constituem a essência porque se derivasse de um só elemento não poderia convir exclusivamente a uma espécie mas conviria também a outra espécie que é constituída por aquele elemento assim dormir com relação ao homem não é uma propriedade no sentido rigoroso da palavra porque deriva da essência incompleta do homem isto é deriva do homem enquanto animal e por isso convém também ao bruto A propriedade distinguese da espécie do gênero e da diferença porque esses três universais constituem no todo ou em parte a essência mas a propriedade emana ainda que necessariamente da essência constituída 1 O acidente distinguese da propriedade pois essa emana necessariamente da essência constituída e aquele pode aderir ou deixar de aderir à mesma essência Notese que uma qualidade para ser acidente não é necessário que possa e deva separarse realmente do sujeito mas bata que possa separarse mentalmente Assim a alvura do cisne é acidente visto que embora ela não possa separarse realmente do cisne todavia podemos pensar que o cisne perca a alvura sem perder a sua essência Das noções expostas resultam os seguintes corolários a O gênero e a espécie atribuemse em concreto aos entes que lhes estão subordinados quando esses entes são substâncias isto é seres subsistentes por si assim dizemos o homem é animal e não podemos dizer o homem é animalidade Porquanto nesses juízos afirmamos a existência da identidade entre o sujeito e o predicado Ora essa identidade não existiria se a espécie e o gênero se atribuíssem em abstrato à substância pois a substância por ser uma coisa completa não é idêntica a uma essência abstrata a qual excluído o sujeito a que adira é uma coisa incompleta b O gênero e a espécie atribuemse em abstrato aos inferiores quando esses entes são acidentes isto é são entes que precisam de outro ente a que adiram assim dizemos a alvura é cor e não podemos dizer a alvura é colorida Na verdade o gênero e a espécie quando se atribuem ao acidente devem exprimir o que é essencial ao acidente e não o que lhe é estranho porque esses dois universaisreflexos são predi cados essenciais Mas se o gênero e a espécie se atribuíssem em concreto exprimiriam a essência do acidente e também o sujeito em que a essência existe e que por ser um ente substancial é estranho à idéia de acidente c A diferença a propriedade o acidente atribuemse aos sujeitos em concreto assim dizemos Pedro é racional honesto etc pois esses três universais assumem a forma de adjetivo e todo adjetivo é concreto 72 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 32 As idéias universaisreflexas são cinco As idéias uni versaisreflexas denotam os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída Ora os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída são cinco Porquanto o que existe em muitos sujeitos ou pertence à essência deles ou adere à essência já constituída Se pertence à essên cia ou constitui a essência completa e temos a espécie ou apenas constitui uma parte da essência e temos o gênero ou a diferença segundo essa parte da essência é indeterminada e determinável ou é determinada e determinante Se adere à essência já constituída ou adere necessa riamente e temos a propriedade ou adere contingentemente e temos o acidente Logo as idéias universaisreflexas são cinco1 ARTIGO IV Redução das idéias a categorias 33 Categorias As nossas idéias consideradas objetivamente são tantas e tão diversas que para evitar a confusão devem reduzirse a certas classes universais Essas classes chamamse categorias Categorias pois são os gêneros supremos a que se reduzem e sob os quais se subordinam todas as idéias consideradas objetivamente e que representam todos os predicados que podem atribuirse a um sujeito2 1 Devemos explicar essas duas afirmações que toda a idéia representa uma essência e que a idéia de propriedade e de acidente não constitui a essência mas uma coisa que adere à essência já constituída Na verdade toda idéia representa uma essência Essa essência encontrase não só na substância mas também embora secundariamente no acidente pois também o acidente é uma coisa determinada e não é outra e uma coisa é o que é pela sua essência O acidente pois tem a sua essência e todavia não constitui a essência da substância A substância tem a sua essência constituída por elementos que por isso chamamse substanciais e tem propriedades ou qualidades cada uma das quais é dotada de essência própria a qual não constitui mas modifica a própria substância 2 Os antigos davam às categorias o nome de praedicamenta porque essas como dizemos representam os predicados que se atribuem ou podem atribuirse a um su jeito assim como davam o nome de praedicabilia às cinco idéias universaisreflexas de que nos ocupamos no artigo antecedente As categorias diferem das cinco idéias universaisreflexas pois essas exprimem os diversos modos porque uma coisa pode ser 73 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 34 Requisitos das categorias As categorias devem ter os seguintes requisitos a a sua significação deve ser clara e determi nada porque se for confusa e incerta não podem servir para ordenar idéias b uma não deve incluir outra aliás teremos uma repetição inútil c devem ser abstratas e universais de maneira que possam representar os gêneros supremos das nossas idéias 35 As categorias das idéias são dez Cada idéia representa um objeto Serão pois tantas as categorias das idéias quantas forem as dos objetos As categorias dos objetos são dez a saber substância quantidade qualidade relação ação paixão localização quandocação estado e hábito pois não há objeto que não se reduza a alguma dessas Logo as cate gorias das idéias são dez e não há idéia que não possa compreenderse em alguma dessas classes A enumeração é completa e satisfaz aos requisitos indicados no número antecedente1 atribuída a outra ao passo que as categorias denotam as próprias coisas que são ou podem ser atribuídas a um determinado sujeito por um daqueles diversos modos 1 Os escolásticos exprimiam as dez categorias com estes versos Arbor sex Servos ardore refrigerat ustos Substância quantidade relação qualidade ação paixão Ruri cras Stabo Sed tunicanis ero localização quandocação estado hábito As categorias não podem ser mais do que as dez indicadas no texto Na ver dade as categorias representando os diversos predicados que podem atribuirse a um sujeito devem ser tantas quantas são as perguntas que podem fazerse acerca de um indivíduo Ora essas perguntas não são mais nem menos de dez Assim acerca de Pedro podemos perguntar O que é É homem substância É grande É pequeno quantidade De quem é filho É filho de Paulo relação Como é É bom qualidade O que está fazendo Escreve ação O que sofre Sofre sede paixão Aonde Em Coimbra localização Quando Hoje quandocação Como está Sentado estado O que veste A batina hábito Acabadas essas perguntas já não há mais que investigar Logo as categorias são dez Foi Aristóteles quem primeiro reduziu todas as idéias a dez categorias que são as enumeradas no texto Essa classificação é a mais completa e racional que se conhece Na verdade todo o predicado ou exprime uma coisa que existe em si ou exprime uma coisa que existe noutra como no seu sujeito que a sustenta Se a coisa existe em si é substância se existe num sujeito é acidente Substância e acidente são pois as classes supremas às quais se reduzem todos os predicados porque tudo o que existe em si está contido sob a categoria da substância e tudo o que existe num sujeito está contido sob a categoria do acidente O acidente subdividese em nove 74 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA classes Porquanto o que existe noutro ente como no seu sujeito referese a esse por nove modos pois que ou é a extensão das partes materiais do mesmo sujeito e é quantidade ou é uma perfeição que determina o sujeito e é qualidade ou é uma ordem mútua entre o sujeito e outro indivíduo e é relação ou é o exercício da energia de que o sujeito é dotado e é ação ou é uma alteração que o sujeito recebe pela ação de uma causa externa e é paixão ou é uma determinação do sujeito quanto ao lugar que ocupa e é localização ou é a determinação do sujeito quanto à duração e é quandocação ou é uma disposição do sujeito no lugar e é estado ou é uma denominação que se dá ao sujeito por causa do vestido e é hábito Aristóteles expondo a sua doutrina no livro das Categorias diz que não entendeu dar uma enumeração nem absolutamente exclusiva nem absolutamente perfeita mas que só desejou apresentar uma que lhe pareceu a mais apta para uma coordenação lógica das idéias e dos objetos Notese a diferença entre o acidente universal que é uma das cinco idéias universaisreflexas e o acidente categórico de que nos ocupamos O acidente univer sal significa uma qualidade contingente que pode indiferentemente darse ou deixar de darse no sujeito O acidente categórico exprime um ente que existe num sujeito mas abstrai do modo porque existe não exprimindo se existe necessária ou contingente mente Por isso entre a substância e o acidente universal pode colocarse a proprie dade que reside necessariamente na substância mas entre a substância e o acidente categórico não há meio termo e a propriedade pelo fato de existir no sujeito reduzse ao acidente categórico Sum Th Ia q 77 a 1 ad 5 Alguns filósofos apresentaram diversos sistemas de categorias As categorias de Victor Cousin são duas Ente infinito e ente finito As de Schleiermacher são duas sujeito e predicado As de Lotze são três reais atributivas e relativas As de Sigwart são quatro coisa propriedade atividade e relação As de Rosmint são três ontológicas dialéticas e ideológicas As de Spinoza e Descartes são três substância atributo e modo As de Locke também são três substância modo e relação As de Leibnitz e de Wolff são seis substância quantidade qualidade paixão ação e relação Renouvier estabeleceu a relação como base das categorias Para Krause a categoria fundamental é o ser considerado nos três diferentes aspectos de tese antítese e síntese As mais célebres categorias que os modernos opõem às de Aristóteles são as de Kant Esse filósofo reduziu todas as idéias puras meramente subjetivas a doze categorias dispostas em quatro classes Unidade Pluralidade ou Multidão Totalidade Quantidade Realidade ou Afirmação Negação Limitação Qualidade Substância e Modo ou Acidente Causa e Efeito Ação e Paixão Relação Possibilidade e Impossibilidade Existência e Nãoexistência Necessidade e Contingência Modalidade De todas essas categorias diremos em geral a que algumas são de menos para abranger todo o objeto ou são demais e por isso se incluem umas nas outras b que outras são falsas porque não correspondem à realidade das coisas ou se fundam em falsos princípios 75 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 36 Modo de considerar as categorias As categorias podem considerarse num dúplice estado em si e na inteligência Consideradas em si são entes reais universaisdiretos e possuem atributos de que a natureza as dotou Consideradas na inteligência são entes lógicos uni versaisreflexos e têm atributos que lhes não convém na realidade mas foram formados pela abstração Enquanto entes reais as categorias são objeto da Metafísica pois esta trata daquelas para lhes conhecer a essên cia e as propriedades que emanam da essência Enquanto entes lógicos constituem o objeto da Lógica pois esta considera as categorias como gêneros supremos para sob eles coordenar como gêneros intermédios e espécies todos os predicados que se podem atribuir a um sujeito1 A classificação de Kant não pode aceitarse pelas seguintes razões a Algumas das suas categorias são transcendentes vagas e indeterminadas como são as dispostas sob a Qualidade e a Modalidade e por isso não podem servir para a co ordenação das idéias b As categorias das três primeiras classes segundo Kant são superiores às das 4a quando é próprio o contrário porque não existe realidade nem pluralidade nem causa e efeito que se não conceba como possível ou existen te c Algumas delas estão contidas em outras assim a unidade e a pluralidade estão contidas na realidade a nãoexistência reduzse à possibilidade ou à impossibili dade d Outras estão mal dispostas assim a substância sendo uma coisa absoluta não pode estar subordinada à relação a quantidade por depender da substância não pode ser anterior a esta a ação e a paixão a causa e o efeito por não serem relações não podem estar subordinadas à relação o acidente em geral não pode também colocarse sob a relação porque há apenas um gênero de acidente que se chama relação e As categorias de Kant são meramente subjetivas sem relação alguma à realidade quando é certo que as categorias são objetivas porque representam os predicados reais que se podem atribuir a um sujeito f Finalmente o sistema de Kant é falso na sua própria base As categorias como as entendeu sempre o senso comum são idéias ou conceitos objetivos e simples sob os quais se coordenam todos os predicados reais Ora as categorias como as entende Kant não se referem à primeira operação da inteligência mas à segunda não são conceitos são juízos ou melhor são formas de juízo e representam os diferentes modos porque um predi cado se atribui a um sujeito e essas formas esses modos são inteiramente subjetivos aos quais nenhuma realidade corresponde 1 As categorias enquanto constituem o objeto da Metafísica são noções reais e objetivas e podem ser atribuídas aos objetos que existem fora da inteligên cia ao passo que enquanto são objeto da Lógica são noções lógicas e subjetivas e não podem atribuirse aos objetos existentes na realidade porque tomadas nesse segundo sentido as categorias são idéias universaisreflexas isto é se conside ram como gêneros e espécies que hão de ser coordenadas e dispostas conforme a diversidade da sua extensão Por isso se a categoria metafísica é constituída 76 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 37 Definição das categorias Reservando para a Metafísica uma conveniente explicação das categorias aqui damos apenas a definição de cada uma delas que é quanto basta para a coordenação das idéias 1ª Categoria Substância é a coisa que para existir não carece de sujeito a que adira assim o homem é substância 2ª Categoria Quantidade é a propriedade pela qual a substância é divisível em partes tal é a grandeza na pedra 3ª Categoria Qualidade é a perfeição que modifica a substância sem alterarlhe a essência tal é a virtude e a ciência no homem 4ª Categoria Relação é o nexo que liga uma substância à outra assim filho indica uma relação 5ª Categoria Ação é o exercício da força de que a substância é dotada tal é escrever 6ª Categoria Paixão é a alteração que a substância sofre pela ação do agente tal é sentir frio 7ª Categoria Localização é a determinação da substância quanto ao lugar por exemplo Pedro está em Roma 8ª Categoria Quandocação é a determinação da substância quanto ao tempo por exemplo Pedro ontem escreveu 9ª Categoria Estado é a disposição das partes quantitativas da subs tância no lugar por exemplo André está sentado exclusivamente pelo gênero supremo considerado nos seus atributos reais e obje tivos a categoria lógica é toda a série de predicados essenciais compreendendo o gênero supremo os gêneros e as espécies intermédias até à espécie ínfima 77 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 10ª Categoria Hábito é a denominação que se dá à substância por causa do vestido ou decoração por exemplo o magistrado togado1 38 Ordenação da primeira categoria Não basta determinar o número das categorias é mister estabelecer a ordem em cada uma delas Limitarnosemos a apresentar a ordenação da primeira que é a substância Substância é o gênero supremo Dividese em corpórea e incor pórea diferenças supremas Substância corpórea é o corpo espécie suprema Corpo 1º gênero intermédio pode ser animado e inanimado 1as diferenças intermédias Corpo animado constitui o vivente 1a espécie intermédia Vivente 2º gênero intermédio dividese em sensitivo e insensitivo 2as diferenças intermédias Vivente sensitivo é o animal 2a espécie intermédias Animal gênero ínfimo é racional ou irracional diferenças ínfimas Animal racional é o homem espécie ínfima Homem é só espécie e abaixo de si só contém indivíduos 1 Na Ontologia trataremos das categorias com o devido desenvolvimento Mas a simples explicação mostra que as categorias são em si noções reais porque denotam entes reais Por isso não devemos pensar que as categorias lógicas sejam coisas inteiramente ideais as quais nenhuma realidade corresponde como erradamente imaginou Kant As categorias na Lógica exprimem a coordenação lógica dos predicados essenciais das coisas reais e por isso alguma coisa nelas é ideal e alguma coisa é real É ideal a qualidade de gênero ou de espécie que se con cebe por uma abstração mas o que esse gênero ou essa espécie exprime é muito real ou objetivo Porquanto o universal reflexo supõe e contém o direto e por isso se tem atributos ideais enquanto é reflexo tem atributos reais ou objetivos en quanto contém o direto Essa é a razão porque a definição das categorias exprime uma coisa real ou objetiva 78 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Eis o quadro Substância gen supr corpórea dif supr Corpo esp supr e 1o gen interm incorpórea Animado 1a dif interm Vivente 1a esp interm e 2o gen interm inanimado sensitivo 2a dif interm Vivente 1a esp interm e 2o gen interm insensitivo Racional dif interm Animal 2a esp interm e gen ínfimo irracional Homem esp ínf Pedro Paulo André1 1 Façamos algumas reflexões acerca da ordenação da categoria de substância O gênero substância contém a espécie corpo não na sua compreensão mas na sua extensão porque a espécie tem uma compreensão maior que o gênero e além desse a diferença Estando as espécies superiores contidas nas inferiores a essas competem as proprie dades daquelas assim ao homem competem as propriedades de animal de vivente de corpo e por conseqüência de substância As diferenças dividemse em constitutivas e di visivas Constitutivas são as que constituem o gênero e competem a todas as espécies que estão contidas debaixo daquele gênero Divisivas são as que dividem o gênero e por isso não são todas participadas por todas as espécies mas uma diferença é participada por uma espécie e outra por outra Assim animado e sensitivo são diferenças constitutivas do animal e por isso são comuns ao homem e ao bruto ao passo que racional e irracional que são diferenças divisivas porque dividem o animal não são comuns ao homem e ao bruto mas uma racional é própria do homem a outra irracional é própria do bruto Na ordenação dessa categoria só consideramos as diferenças positivas As di ferenças negativas unidas ao respectivo gênero dão lugar a outras classificações A substância incorpórea é o espírito que se subdivide em inumeráveis espécies O corpo inanimado é o mineral de que se ocupa a Mineralogia O vivente insensitivo é a planta de que trata a Botânica O animal irracional é o bruto que forma o objeto da Zoologia 79 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO ARTIGO V Termo suas espécies e propriedades 39 Termo Termo ou palavra ou vocábulo é a expressão verbal da idéia O homem sendo naturalmente social deve manifestar aos outros as próprias idéias Esta manifestação extrínseca só pode efetu arse por meios sensíveis pois é próprio do homem composto de alma espiritual e de corpo elevarse ao imaterial pelo sensível Entre todos os meios o mais eficaz e universal é o termo1 40 O termo é sinal convencional O termo a é sinal porque nos manifesta a idéia concebida pela inteligência b mas é sinal convencional porque embora nos seja natural a manifestação das nossas idéias por meios sensíveis contudo foi o livrearbítrio dos homens que ligou a um vocábulo determinado a significação de uma certa idéia No termo como na idéia considerase a compreensão e a extensão2 Agora uma advertência Os seres que possuem a essência completa do gênero supremo e dos intermédios como são as espécies e os indivíduos diretamente e por si colocam na relativa categoria Os seres porém que só incompletamente participam do gênero supremo e dos intermédios como são os elementos ou as mo dificações da espécie ou do indivíduo só indiretamente se reduzem às categorias e se colocam sob aquela em que se encontra a espécie ou o indivíduo de que são elementos ou modificações 1 Entendemos falar como se vê do termo oral ou vocal que exprime sen sivelmente a idéia chamada termo mental Dizse termo porque é nele que se resolve e acaba como no seu último elemento a proposição A idéia e o termo diferem entre si pelas seguintes razões 1a a idéia expri me imediatamente o objeto o termo exprime imediatamente a idéia e mediatamente o objeto 2a a idéia é anterior ao termo pois esse só se emprega e forma para exprimir aquela e sem idéias não haveria termos 3a pela idéia falamos conosco indicando o objeto percebido pelo termo falamos com os outros 4a a idéia é sinal natural ao passo que o termo é sinal convencional como vamos demonstrar Todavia o nexo entre a idéia e o termo é tão estreito que não podem sepa rarse Não podemos conceber uma idéia sem que ao mesmo tempo se forme na nossa fantasia o termo que a representa e exprime como também o termo é a própria idéia concretizada e tornada sensível 2 O termo além de ser sinal convencional é também sinal objetivo pois antes de levar a inteligência ao conhecimento da idéia e do objeto o termo deve ser primei ramente conhecido em si mesmo 80 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 41 Espécies do termo O termo sendo a expressão verbal da idéia dividese em tantas espécies quantas são as espécies da idéia considerada em relação ao objeto representado1 Para evitarmos repetições inúteis consideraremos a divisão do termo a em positivo e negativo b em absoluto e conotativo c em abstrato e concreto d em singular universal e particular e em unívoco equívoco e análogo a Termo positivo e negativo Termo positivo é o que exprime uma realidade ou perfeição como o termo Deus caridade Negativo é o que denota a ausência de realidade ou de perfeição como o termo nada trevas2 b Termo absoluto e conotativo Termo absoluto é o que significa uma coisa que é substância ou que é considerada como subs tância tal é planta bondade O absoluto chamase também denotativo Conotativo é o que exprime uma propriedade ou qualidade que existe e enquanto existe numa substância tal é bom sábio3 1 Ao termo não podem convir as divisões que são próprias da idéia con siderada em relação ao modo porque representa o objeto pois o termo limitase a exprimir o objeto existente na inteligência mas prescinde do modo porque o mesmo objeto é percebido 2 Para conhecermos se um termo é positivo ou negativo devemos considerar a idéia que ele exprime Se a idéia é positiva isto é se representa uma perfeição ou realidade o termo é positivo como também se a idéia é negativa isto é se denota ausência de realidade ou perfeição o termo é negativo Assim são positivos os termos imenso imortal infinito etc e são negativos os termos morte pecado vício etc O termo negativo distinguese do privativo Porquanto o negativo denota apenas a au sência de realidade sem indicar se o sujeito é capaz ou incapaz dessa realidade ao passo que o privativo significa a ausência de uma perfeição num sujeito que a devia possuir tal como é o termo cego com relação ao homem 3 Como se vê o termo conotativo exprime ao mesmo tempo duas coisas uma qualidade e um sujeito ou uma substância que a possui O termo absoluto denota diretamente o sujeito com as suas qualidades o conotativo significa direta mente a qualidade existente no sujeito Por isso a denotação é a propriedade de termo denotativo ou absoluto enquanto esse indica um sujeito ou uma substân cia como a conotação é a propriedade do termo conotativo enquanto ele indica uma qualidade ou um atributo de um sujeito ou de uma substância O termo absoluto ou denominativo costuma chamarse também substantivo e o conotativo dizse também adjetivo Todavia o adjetivo tem mais extensão na Lógica do que na Gramática porque muitas vezes os termos que na Gramática são substantivos na 81 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO c Termo abstrato e concreto Termo abstrato é o que exprime uma essência ou propriedade considerada em si mesma sem relação ao sujeito que a possui tal é o termo humanidade vida sabedoria etc Concreto é o que denota um sujeito com a sua essência ou propriedade como existe na ordem real tal é o termo homem vivente sábio etc1 d Termo singular universal e particular O termo singular é o que exprime uma essência própria de um indivíduo determinado de modo que só a esse indivíduo pode ser atribuída tal é o termo Pedro Universal é o que exprime uma essência comum a muitos entes do modo que a todos e a cada um desses pode ser atribuída tal é o termo homem Particular é o próprio termo universal mas limitado na sua extensão por exemplo algum homem2 e Termo unívoco equívoco e análogo Termo unívoco é o que se atribui a vários entes mas sempre na mesma significação tal é o termo homem quando se atribui a Pedro Paulo André etc Equívoco é o que se atribui a vários entes mas em diversa significação tal é o termo leão quando se atribui a uma constelação e a um certo animal Análogo é o que se atribui a vários entes numa significação que não é inteira mente idêntica nem inteiramente diversa tal é o termo são quando se atribui ao animal e ao ar3 Lógica são adjetivos ou conotativos tais são os termos médico pintor músico etc que exprimem uma qualidade aderente a uma sujeito 1 Todo termo conotativo é concreto mas nem todo o concreto é conotativo assim o termo homem é concreto mas não é conotativo O concreto pode ser indife rentemente adjetivo e substantivo assim os termos sábio e homem são ambos concretos 2 O termo universal como a idéia universal distinguese do termo transcen dental do comum do coletivo e do particular 3 O termo pode ser equívoco mas não a idéia Porquanto o termo sendo um sinal convencional pode empregarse livremente para denotar entes diversos mas a idéia por ser um sinal natural não pode representar senão um único objeto Para se conhecer se um termo é unívoco ou equívoco é preciso considerar os sujeitos aos quais se atribui Se os sujeitos convêm entre si não só na denominação mas também na essên cia o termo é unívoco se os sujeitos não convém na essência ainda que convenham na denominação o termo é equívoco É preciso evitar o uso dos termos equívocos aliás o meio que nos foi dado por Deus para a manifestação dos nossos pensamentos conver terseá num instrumento de confusão e de ruína social Quando pois se emprega um termo que tem diferentes significações é necessário determinar o seu sentido 82 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 42 Propriedades do termo As principais propriedades do termo são seis suposição apelação estado distração ampliação e restrição a Suposição Suposição é a acepção ou posição do termo em lugar da coisa que ele exprime Não podendo introduzir no discurso as coisas de que se trata servimonos dos sinais que façam as vezes delas Esses sinais são os termos São tantas as espécies da suposição quantos são os modos por que um termo pode substituir uma coisa1 b Apelação Apelação é a aplicação de um termo a outro assim quando digo Deus é santo aplico o termo santo ao termo Deus O termo que se aplica dizse apelante o termo a que o outro se aplica chamase apelado Nas proposições o predicado é o termo apelante e o sujeito é o termo apelado2 1 A suposição dividese primeiramente em própria e imprópria A suposi ção própria é a acepção do termo em lugar da coisa que o mesmo termo exprime na sua significação própria como nesse exemplo Coimbra é uma cidade de Portugal Imprópria é a acepção do termo em lugar da coisa que o mesmo termo denota na sua significação imprópria ou metafórica como Coimbra é o cérebro de Portugal A suposição própria pode ser real e lógica A real é a acepção do termo em lugar da coisa considerada quanto aos seus atributos reais como o homem é inteligente A lógica é a acepção do termo em lugar da coisa considerada quanto aos seus atributos lógicos como o homem é espécie A suposição real pode ser absoluta e pessoal A absoluta é a posição do termo em lugar da essência considerada sem relação aos indivíduos como o homem é animal racional A pessoal é a posição do termo em lugar da es sência enquanto existe nos indivíduos como o homem morre porque não morre a essência humana mas sim o indivíduo humano A suposição pessoal pode ser singular universal ou distributiva particular e coletiva conforme o termo representa um só indivíduo ou todos e cada um dos indivíduos contidos sob a sua extensão ou apenas alguns indivíduos ou a coleção dos indivíduos A suposição particular é determinada ou confusa conforme o termo representa alguns dos seus inferiores determinados exemplo alguns apóstolos escreveram o Evangelho ou indeterminados exemplo alguns soldados são necessários para a vitória A suposição universal é completa ou incompleta conforme o termo representa todos e cada um dos indivídu os exemplo todo o animal é sensitivo ou todos e cada uma das espécies contidas sob o gênero significado pelo termo exemplo todo o animal entrou na arca de Noé 2 Para que um termo apelante possa aplicarse a outro apelado aquele deve referirse de algum modo a esse Ora um termo pode referirse a outro ou por causa forma que se encontra nesse ou por causa do sujeito que possui tal forma Se um termo é apelado por causa da sua forma a apelação é formal se é apelado por causa do sujeito a apelação é material Assim quando digo o médico cura os doentes a apelação é formal porque o médico cura enquanto possui a ciência pela qual se chama e é médico mas quando digo o médico come a apelação é material porque 83 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO c Estado Estado é a acepção do termo no tempo que o verbo exprime assim quando digo o surdo não ouve o termo surdo tomase no tempo presente significado pelo verbo não ouve e o sentido é quem presentemente é surdo não ouve d Distração Distração é a acepção do termo num tempo diverso daquele que o verbo exprime assim quando digo os cegos vêem o termo cegos não deve tomarse no tempo presente como indica o verbo vêem mas no tempo passado de modo que o sentido é os que foram cegos hoje vêem A distração opõese ao estado e Ampliação Ampliação é a extensão do termo de uma signi ficação menor a uma outra maior quando dizemos bemaventurados os mansos porque possuirão a terra o termo mansos que pelo verbo possui rão só deveria referirse aos futuros estendese a todos os mansos que foram são e serão f Restrição Restrição é a coartação do termo de uma significação maior a uma outra menor assim nas palavras de Jesus aos Apóstolos pregai o Evangelho a toda a criatura o termo toda a criatura limitase exclusivamente às criaturas humanas A restrição opõese à ampliação ARTIGO VI Definição e divisão 43 Definição Definição é a explicação de uma coisa ou de um termo Assim quando dizemos o homem é animal racional damos ele come não enquanto é médico mas enquanto é homem que aliás pode pos suir e possui a ciência da medicina Para distinguirmos se a apelação é formal ou material devemos atender às seguintes regras 1 O termo apelante empregase sempre formalmente e não materialmente Assim quando digo o homem é bom o termo apelante bom tomase formalmente isto é por causa da forma que é a bondade e que reside no sujeito porque se se tomasse materialmente isto é por causa do su jeito o sentido da proposição seria o homem é homem 2 Quando o termo apelado é concreto tomase materialmente e não formalmente Assim quando dizemos Deus morreu por nós o termo apelado que é Deus tomase materialmente isto é por causa do sujeito e não formalmente isto é não por causa da forma que é a Natureza divina porque não entendemos que morreu a natureza divina mas que morreu o Sujeito ou a Pessoa que possui a natureza divina e morreu quanto à sua natureza humana 84 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a definição do homem Serve para conhecermos a compreensão das idéias e dos termos1 44 Espécies da definição A definição é nominal e real a A definição nominal é a que explica o termo por exemplo a Filosofia é o amor à sabedoria Dividese em etimológica comum e particular A etimológica explica o termo pela etimologia como a Teologia é o discurso acerca de Deus A comum explica o termo declarando o sentido em que os homens geralmente o tomam como Deus é o ser necessário A particular explica o termo indicando o sentido que lhe se aplica como a natureza é a coleção dos seres criados2 b A definição real é a que explica a coisa significada pelo termo por exemplo a Filosofia é a ciência das causas supremas dos entes descobertas pela luz natural da razão Dividese em essencial e des critiva A essencial de todas a mais nobre explica a coisa pelos seus elementos essenciais e subdividese em lógica e física conforme esses elementos são lógicos como o homem é animal racional ou são físicos como o homem é uma substância composta de alma racional e de corpo orgânico A descritiva explica a coisa pelos elementos que se referem à mesma coisa mas que não pertencem à sua essência como são as propriedades as notas individuais etc3 1 A definição serve para fixar o estado da questão ou para dar uma noção exata das coisas e assim evitar inúteis controvérsias A definição é o princípio e o termo da ciência Partimos de uma definição in completa ou provisória para chegarmos a uma definição completa e perfeitamente conhecida É o que acontece com as idéias que de obscuras e confusas se tornam claras e distintas A definição pois é o princípio para os que apreendem mas é o termo para os que já apreendem 2 Relativamente à definição nominal fazemos as seguintes observações 1a só devem ser definidos os termos obscuros incertos e equívocos 2a a definição comum deve ser seguida sempre aliás não seriam possíveis nem as ciências nem as socieda des 3a a definição particular só deve ser apresentada em caso de necessidade 3 Acerca da definição real notamos 1o A definição essencial deve quando seja possível preferirse à descritiva pois aquela explica a natureza das coisas e esta pára na superfície 2o É absurdo exigir a definição essencial de todas as coisas pois se tudo precisasse de definição uma coisa devia ser definida por outra e esta por outra até o infinito o que é absurdo porque então nenhu ma coisa podia ser definida Por isso todas as definições devem resolverse em certas noções elementares que por serem evidentes não precisam de definição 85 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 45 Requisitos da definição A definição deve I Ser composta do gênero próximo e da diferença específica porque deste modo compreenderá todos os elementos que constituem a essência da coisa definida1 Essas noções são ente unidade verdade etc Todavia dessas noções podemos fazer uma descrição ou declaração por meio de noções que sejam relativamente a nós mais conhecidas Além disso as mais elementares noções por serem simplís simas e constarem de uma única nota não podem estar sujeitas a uma verdadeira definição pois essa resolve a coisa nos seus vários elementos A definição descritiva que explica a coisa por elementos extraessenciais di videse em própria acidental causal e genética Própria é a que explica a coisa pelas propriedades que derivam da essência da mesma coisa como o homem é capaz de rir e de apreender a ciência Acidental é a que explica a coisa pelas suas qualidades acidentais que no seu conjunto só podem convir à mesma coisa assim Virgílio Acn III descreve Poliphemo monstrum horrendum informe ingens cui lumen ademptum trunca manum pinus regir et vestigia firmat Causal é a que explica a coisa pelas causas extrínsecas que são a eficiente como o homem foi criado por Deus a exemplar como o homem foi criado à imagem de Deus a final como o homem foi criado para que ame a Deus A genética é a que explica a coisa pela sua origem como a eclipse do sol deriva da interposição da lua entre o sol e a terra A definição descritiva só num sentido lato e impróprio se chama definição porque embora faça distinguir uma coisa das outras não explica o que é a coisa Todavia esta defi nição empregase freqüentes vezes nas ciências que não penetram no interno das coisas para lhes descobrir os elementos essenciais Devemos advertir que de muitas coisas pode darse uma definição absoluta e de muitas outras uma definição relativa Dáse uma definição absoluta das coisas que pela sua natureza não se referem a outras e essa definição indica exclusiva mente os elementos que constituem a essência da própria coisa assim a substância é susceptível de uma definição absoluta Dáse uma definição relativa das coisas que se referem essencialmente a outras e essa definição indica também a coisa à qual uma outra se refere assim a definição do acidente exprime a substância à qual o acidente se refere Diz Santo Tomás Substantia quae habet quidditatem essentiam absolu tam non dependet in sua quidditate ex alio ita quod oporteat exteriorem essentiam in eius definitione poni Accidentia vero non habent esse nisi per hoc quod insunt in subjecto et ideo eorum quidditas est dependens a subjecto et propter hoc oportet quod subjectum accidentis in definitione ponatur In VII Met l 1 1 Deve seguirse essa regra quando se deseja a definição lógica que é a mais ex celente Todo o ente criado é composto de dois elementos essenciais um comum e indeterminado outro próprio e determinado Pelo elemento comum e indeterminado o ente é semelhante aos outros pelo elemento próprio e determinado distinguese dos outros e forma uma classe especial O elemento comum e indeterminado é o gênero o próprio e determinado é a diferença específica Logo a definição para explicar a essência de um ente 86 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA II Ser recíproca de modo que a definição e a coisa definida possam converterse uma na outra Esta condição deriva da primeira É pois exata a definição o homem é animal racional pois podemos dizer o animal racional é homem III Ser clara aliás não consegue o seu fim1 IV Ser breve para poder conservarse na memória2 deve apresentar o gênero e a diferença Mas notese que o gênero deve ser próximo pois o remoto não contém todas as notas essenciais da coisa definida Assim é falta esa defi nição o homem é o vivente racional pois que o vivente sendo gênero remoto de homem não inclui a nota de animalidade pela qual o homem é semelhante aos brutos nem o extrema do anjo que também é vivente racional Se não podermos determinar o gênero próximo e a diferença específica ou porque o ente é simplicíssimo e não consta de vários elementos ou porque não temos um conhecimento distinto das coisas devemos então designar duas propriedades das quais a primeira exprima a semelhança que a coisa defi nida tem com as outras e a segunda denote o que é exclusivamente próprio dela Assim não podendo dar uma rigorosa definição de Deus pois Ele é simplicíssimo e transcende todos os gêneros e todas as diferenças dizemos que Ele é o Ente dotado de perfeição infinita 1 Isto é evidente porque a definição serve para declarar uma coisa obscura ou desconhecida Por isso na definição nominal devemos empregar os termos mais conhecidos e na definição real devemos recorrer a conceitos anteriormente expli cados Contradizem a esta regra 1o os que definem a coisa pela própria coisa como homem é o ser que possui a humanidade 2o os que empregam termos meta fóricos indeterminados equívocos ou insólitos como os olhos são as estrelas do homem 3o os que sem necessidade se servem de termos negativos que indicam o que a coisa não é e não o que ela é como o homem é nãopedra Dizemos sem necessidade porque às vezes ou pela limitação da nossa inteligência ou pela própria natureza das coisas devemos recorrer a termos negativos assim dizemos que Deus é imenso que o cego é o homem que não vê 2 Sendo a definição como a diretriz de toda a investigação e discussão deve ser tal que possa a cada instante e com facilidade ser citada o que não poderia fa zerse se não fosse breve Por isso quando se define o nome empreguemse somente os termos necessários e suficientes para que se conheça a sua significação e quando se define a coisa indiquemse somente aquelas notas que explicam a mesma coisa e a distinguem das outras assim é defeituosa esta definição o homem é animal racional e sagaz porque a nota sagaz está contida na nota racional Aristóteles II Post Anal ensina dois métodos para procurar e encontrar os elementos essenciais de que se compõem a definição especialmente lógica um chamase descendente outro ascendente O método descendente parte do que é mais universal para descer ao que é menos universal Por quanto toma o gênero ao qual está sujeita a coisa que se há de definir e a esse gênero sucessivamente acrescenta tantas diferenças específicas quantas são necessárias para determinar e limitar o 87 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 46 Divisão Divisão é a decomposição de um todo nas suas partes ou nos seus elementos A divisão levanos ao conhecimento da extensão das idéias e dos termos1 47 Espécies da divisão A divisão é lógica e real a A divisão lógica é a decomposição de um todo lógico ou uni versal nas diversas partes que o constituem tal é a divisão do gênero nas diversas espécies de que é composto b A divisão real é a decomposição de um todo real ou objetivo nas suas diversas partes tal é a divisão de um organismo A divisão real é física ou metafísica segundo o todo real é composto de partes distintas ou realmente tal é o homem composto de corpo e de alma ou só logicamente tal é o homem composto de animalidade e racionalidade2 gênero de modo que essa possa converterse na coisa definida Então temos a de finição porque aquele gênero com as diferenças à excepção da última constitui o gênero próximo e a última diferença é a diferença específica Assim devendo definir o homem tomamos a substância com gênero sob o qual o homem está contido a esse gênero de substância acrescentamos as diferenças corpórea animada sensitiva racional e temos a definição lógica do homem porque o gênero substância com as três primeiras diferenças é o gênero próximo e a última diferença racional é a diferença específica O método ascendente fazendo o caminho inverso parte do que é menos universal para subir ao que é mais universal Porquanto começa por comparar a coisa que se há de definir com as coisas que mais lhe se aproximam Essa comparação mostra que a coisa tem um elemento comum como as outras coisas pelo qual lhes é semelhante e tem outro elemento próprio pelo qual difere das outras O elemento comum é o gênero o elemento próprio é a diferença Assim querendo empregar esse método para definir o homem comparamos o homem com o bruto Dessa comparação resulta que o homem convém com o bruto enquanto é animal mas difere do bruto enquanto é racional Por isso animal é o gênero na definição de homem e racional é a diferença 1 Pela definição que extrema o objeto de tudo o que lhe estranho reconhe cemos a unidade do mesmo objeto pela divisão que distingue as partes ou elementos do objeto reconhecemos a sua pluralidade ou complexidade Pela definição o objeto tornase claro pela divisão distinto A divisão pois é o complemento da definição A utilidade da divisão é incontestável A nossa inteligência é tão limitada que não pode com um só olhar compreender as coisas sobretudo se são complexas e para as compreender deve esmiuçálas e resolvêlas nas suas partes 2 A divisão física pode ser essencial ou integral ou potencial ou acidental segundo o todo físico é composto de partes essenciais tal é o homem composto de alma e corpo ou integrantes tal é um organismo ou potenciais tal é a nossa alma que é dotada de muitas e diversas potências ou faculdades ou acidentais tal é o todo artificial 88 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 48 Regras da divisão A divisão deve I Ser breve de contrário produzirá confusão II Ser adequada de modo que a coleção das partes enumeradas seja igual ao todo São pois defeituosas tanto as divisões em que se omite alguma parte do objeto dividido como as que enumeram uma parte que lhe não pertence III Ser ordenada de modo que o todo primeiramente se resolva nas partes mais próximas e depois nas mais remotas IV Ser oposta de modo que as partes se excluam mutuamente aliás uma parte será repetida sem utilidade1 1 A divisão reduzse a classificação freqüentemente empregada pelos natura listas Diremos da sua definição espécies graus e requisitos a Classificação Classificação é a disposição ordenada de muitos indivídu os em classes Todos os seres como já notamos se relacionam por alguma seme lhança A nossa inteligência considerando o caráter em que muitos indivíduos são semelhantes tomao como base da classificação b Espécies de classificação A classificação é artificial ou natural É arti ficial quando o caráter que se toma por base consiste numa propriedade extrínseca aos indivíduos É natural quando o caráter que se estabelece como fundamento é uma propriedade essencial aos indivíduos c Vários graus de classificação Os naturalistas distinguem vários graus nas suas classificações O mais alto grau é o reino gênero supremo o reino dividese em tipos 1º gênero intermédio o tipo em classes 2º gênero intermédio a classe em ordens 3º gênero intermédio a ordem em tribos 4º gênero intermédio a tribo em famílias 5º gênero intermédio a família em gêneros gênero ínfimo o gênero em es pécies a espécie em variedades a variedade em indivíduos Notese a diferença entre espécie e variedade A espécie é a coleção de indivíduos que participam da mesma natureza e geram outros indivíduos semelhantes A variedade é a coleção de indiví duos que por causa de caracteres particulares acidentais se distinguem dos outros indivíduos da mesma espécie A variedade que por meio da geração transmite os próprios caracteres chamase raça d Requisitos da classificação A classificação por ser uma divisão deve satisfazer a todas as regras que demos para essa Além disso é necessário que o caráter que se estabelece como base da classificação a seja único porque doutro modo não poderemos conhecer as mútuas relações dos seres b seja permanente porque se for transitório acabará a classificação com o caráter c seja importante aliás será inútil 89 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO CAPÍTULO SEGUNDO Juízo e Proposição Sumário Juízo e proposição sua divisão Divisão da pro posição simples Divisão da proposição composta Qualidades das proposições ARTIGO I Juízo e proposição sua divisão 49 Juízo Juízo é a união ou a separação de duas idéias e por isso de dois objetos por meio da afirmação ou da negação como o homem é livre o homem não é escravo O juízo pois é posterior à idéia1 50 Elementos do juízo Os elementos do juízo são três as duas idéias e a relação que elas têm entre si A idéia de que alguma coisa se afirma ou nega dizse sujeito a idéia que se afirma ou nega do sujeito chamase predicado a relação que une o predicado ao sujeito denominase cópula O sujeito e o predicado são a matéria do juízo a cópula é a forma2 1 O juízo é necessariamente um ato da inteligência porque só essa faculdade pode conhecer a relação que é uma coisa abstrata entre dois objetos e por isso entre duas idéias Os escritores sensualistas como Tracy dizem que o juízo é um ato da sen sibilidade alguns cartesianos sustentam que ele é um ato da vontade Uns e outros erram porque a inteligência e só ela pode conhecer a relação entre duas idéias e unilas ou separálas por meio da afirmação ou da negação ao passo que a vontade e a sensibili dade são duas faculdades cegas e não julgam É verdade que às vezes é a vontade que determina a inteligência a pronunciar o juízo e isto verificase quando a inteligência não vê a relação entre o sujeito e o predicado mas o juízo é essencialmente um ato da inteligência Lembremonos sempre de que o juízo é a afirmação da conveniência ou desconveniência entre duas idéias consideradas não subjetivamente como meras formas ideais como erradamente opina Kant mas objetivamente enquanto representam as próprias coisas externas Quem ignora ou duvida se duas idéias representam ou não uma coisa real não pode dizer se essas idéias convêm ou não entre si O juízo relati vo à conveniência ou desconveniência entre duas idéias fundase necessariamente na conveniência ou desconveniência objetiva das coisas que as idéias representam 2 Para a formação do juízo são necessárias várias e diversas operações da inteligência Primeiramente percebemos o sujeito e o predicado em seguida compa ramos esses dois elementos finalmente pronunciamos o juízo afirmando que eles convêm ou não entre si 90 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 51 Divisão do juízo O juízo dividese a em afirmativo e negativo b verdadeiro e falso c direto e reflexo d analítico e sintético e imediato e mediato a Juízo afirmativo e negativo É afirmativo se afirma a relação de conveniência entre o sujeito e o predicado exemplo a água do Mondego é límpida É negativo se nega aquela relação de conveniência exemplo a água do Tibre não é límpida1 b Juízo verdadeiro e falso É verdadeiro quando ao sujeito convém o predicado que lhe atribuímos ou não convém o que lhe negamos exemplo o amor de pátria é nobre o mundo não é eterno É falso quando ao sujeito não convém o predicado que lhe atribuímos ou convém o que lhe negamos exemplo o egoísmo é a norma da vida o animal não é sensitivo c Juízo direto e reflexo É direto quando a inteligência afirma a conveniência ou a desconveniência do predicado com o sujeito e implicitamente a própria conformidade com a realidade objetiva assim quando digo Pedro é homem afirmo que a Pedro compete a humanidade e ao mesmo tempo que tal é o meu modo de ver É reflexo quando dobrandose sobre si mesma a inteligência considera o seu próprio juízo e reconhece a sua conformidade com a realidade objetiva como quando digo estou certo de que Pedro é homem2 O juízo embora considerado nos seus elementos seja uma coisa múltipla e composta todavia considerando na sua essência é uma coisa simplicíssima pois consiste na afirmação da conveniência ou da desconveniência entre o sujeito e o predicado e essa afirmação é uma coisa simplicíssima 1 O juízo considerando na sua matéria dividese em afirmativo e negativo enquanto o predicado convém ou não convém ao sujeito Mas se o consideramos enquanto é ato da inteligência o juízo é sempre afirmativo pois sempre se afirma que o predicado convém ou não ao sujeito 2 Donde resulta que o objeto do juízo direto é o próprio sujeito a que se atribui um predicado e o objeto do juízo reflexo é a própria conformidade da inteligência com a realidade e que o juízo reflexo inclui e supõe necessariamente o direto Como também se vê o erro dos que dizem que a inteligência para conhecer a sua conformidade com a realidade objetiva deve necessariamente refletir sobre os seus atos A inteligência como dizemos no texto conhece essa conformidade pelo fato mesmo de atribuir a um determinado sujeito um determinado predicado Se não conhecesse não pronunciaria o seu juízo Isto porém não obsta a que a inteligência examine pela reflexão o seu juízo primitivo e se convença cada vez mais da verdade do seu ato 91 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO d Juízo analítico e sintético É analítico quando o predicado está contido na própria essência do sujeito enquanto ou a constitui ou dela deriva necessariamente exemplo o homem é racional É sintético quando o predicado convém ao sujeito não porque está contido na essência dele ou deriva da essência mas porque assim o atesta a expe riência ou o testemunho dos outros homens exemplo Pedro é sábio1 e Juízo imediato e mediato É imediato se a relação entre o predicado e o sujeito se conhece intuitivamente exemplo o mundo existe É mediato se aquela relação só se conhece pelo discurso exemplo a nossa alma é imortal2 52 Proposição Proposição é a expressão verbal do juízo Como o termo é a expressão verbal da idéia assim a proposição é a expressão verbal do juízo Quando dizemos o céu é belíssimo enunciamos uma proposição 1 No juízo analítico o predicado convém ao sujeito essencialmente e por isso necessariamente e onde se encontra o sujeito deve encontrarse o predicado ao passo que no juízo sintético o predicado convém ao sujeito acidentalmente e por isso contingentemente e pode encontrarse o sujeito sem esse predicado O juízo analítico em que a relação entre o sujeito e o predicado é conhecida pela simples análise do mesmo sujeito chamase também a a priori porque faz conhecer o objeto pela seu princípio que é o conceito da sua natureza ou essência b necessá rio porque o predicado convém necessariamente ao sujeito c metafísico porque a relação entre o sujeito e o predicado se funda na própria essência das coisas d absoluto porque não admite exceções e racional porque só a razão pode perceber que o predicado está na essência do sujeito O juízo sintético em que a atribuição do predicado ao sujeito se funda na experiência ou no testemunho denominase também a aposteriori porque se funda na experiência b contingente enquan to o predicado só acidental ou contingentemente convém ao sujeito c físico porque o nexo entre o predicado e o sujeito baseiase num fato físico d hipotético porque pode ter exceções e empírico porque a relação entre o predicado e o sujeito co nhecese pela experiência ou pelo testemunho dos outros Kant na sua Crítica da razão pura admite uma terceira classe de juízos que não são absolutamente analíticos nem absolutamente sintéticos e que ele chama sintéticosapriori É evidente a falsidade dessa opinião Um predicado é ou não é da essência do sujeito Não há meio termo Se é da essência do sujeito o juízo é analítico ou apriori se o não é o juízo é sintético Dizer que um juízo é sintético apriori é afirmar que um predicado convém e não convém essencial ou necessariamente ao sujeito o que repugna ao senso comum Mais tarde voltaremos a esse assunto 2 O juízo imediato dizse também primitivo porque não supõe outro juízo e o mediato chamase também derivado pois deriva de outro juízo 92 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 53 Elementos da proposição A proposição tem os mesmos elementos do juízo a saber o sujeito o predicado e a cópula O sujeito exprimese em geral pelo nome substantivo o predicado pelo nome adje tivo a cópula pelo verbo substantivo ser posto no presente do indicativo O verbo adjetivo contém o predicado e a cópula como Pedro estuda1 1 Advertimos que os termos da proposição devem ser tomados formalmente isto é segundo o sentido e não materialmente isto é não segundo o número das pa lavras por isso muitos termos materiais podem formar um só termo formal Assim nesta proposição a alma humana espiritual e imortal é criada por DEUS as palavras a alma humana espiritual e imortal formam um só termo que é o sujeito Digamos alguma coisa acerca do nome e do verbo O nome é um termo que denota pessoas ou coisas ou alguma propriedade que as pessoas ou as coisas possuem sem denotar o tempo embora haja termos que signifiquem o tempo como se fosse uma coisa por exemplo dia hora etc Dividese em substantivo e adjetivo O substantivo significa uma coisa que é subs tância ou que é considerada como substância O adjetivo exprime uma coisa que é acidente ou que é considerada como acidente Por isso o sujeito da proposição que indica uma substância ou uma coisa considerada como substância deve ser signi ficado pelo nome substantivo e o predicado que indica um acidente ou uma coisa considerada como acidente deve ser significado pelo nome adjetivo O verbo é um termo que indica o estado a ação ou a paixão de pessoas ou coisas com a indicação também do tempo em que as coisas acontecem Dividese em substantivo e adjetivo O substantivo é o que propriamente significa o ato de ser em que se fundam todos os outros atos e é um só sou és é O adjetivo é o que além do ato de ser exprime também uma ação ou uma paixão ou uma modificação ou variedade do ser como são os verbos amo quero etc O verbo substantivo costuma chamarse primitivo porque todos os outros verbos são modificações ou determinações desse verbo assim quando digo Pedro ama o verbo ama exprime a ação de Pedro fundada sobre o seu ato de ser e resol vese na seguinte Pedro é amante Além disso o verbo substantivo pode tomarse num sentido absoluto e num sentido relativo Tomase num sentido absoluto quando significa a existência atual e então não é acompanhado pelo nome adjetivo como Deus é Tomase num sentido relativo quando significa o ato de ser e compõe o pre dicado com o sujeito como o homem é racional Tomado absolutamente o verbo ser é sempre real Tomado relativamente o verbo ser é lógico ou real conforme a natureza dos termos que une ou separa Se os termos são ambos lógicos ou se um é real e outro é lógico o verbo é exprime um ente lógico como a quimera é impossível Pedro é surdo a negação ou a privação não adere ao sujeito e se os termos são ambos reais o verbo é também é real e denota o ser real e absoluto em que se funda a união do predicado com o sujeito como Deus é misericordioso 93 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO 54 Divisão da proposição A proposição dividese em simples e composta É simples quando contém um só sujeito e um só predicado como a primavera é agradável É composta quando explícita ou implicitamente contém mais que uma proposição simples como a música e a poesia são belas artes Tanto a proposição simples como a composta subdividemse em várias espécies1 ARTIGO II Divisão da proposição simples 55 Fundamento dessa divisão Na proposição simples podemos considerar três coisas a matéria de que se trata a quantidade ou extensão dos termos e a qualidade do nexo entre o sujeito e o predicado Em relação à matéria a proposição simples costuma dividirse em analítica e sintética em relação à quantidade em universal particular e singular em relação à qualidade em afirmativa e negativa 56 Proposição analítica e sintética A proposição é analítica quando exprime um juízo analítico exemplo o homem é racional É sintética quando traduz um juízo sintético exemplo Pedro é sábio 57 Proposição universal particular e singular É univer sal quando o sujeito é universal exemplo toda a criatura é finita É particular quando o sujeito é particular exemplo alguns homens são bons É singular quando o sujeito é singular exemplo Camões é o príncipe dos poetas portugueses2 1 Alguns confundiram com a proposição composta a complexa Proposição complexa é a que contém uma ou mais proposições incidentes que determinam a significação do sujeito ou do predicado Mas é infundada tal opinião A proposição complexa embora aparentemente composta é simples na realidade visto que a inci dente não forma um termo distinto 2 Na proposição singular o sujeito é tomado em toda a sua extensão por isso a proposição singular equivale à universal e reduzse a essa A universalidade de uma proposição pode ser metafísica física e moral É metafísica quando a relação entre o sujeito e o predicado se funda na própria essência das coisas e por isso não admite exceção alguma como a alma humana é espiritual É física quando a relação entre o predicado e o sujeito se funda nas leis físicas e por isso pode ter exceções como nenhum morto ressuscita É moral quando a relação entre o sujeito e o predicado se 94 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 58 Proposição afirmativa e negativa Afirmativa é a que exprime a conveniência do predicado com o sujeito exemplo O B Nuno Álvares foi um grande capitão Negativa é a que exprime a desconveniência do predicado com o sujeito exemplo O orgulho não é bom conselheiro1 59 Compreensão e extensão do predicado nas proposições afirmativa e negativa As seguintes observações são da máxima importância a Na proposição afirmativa o predicado tomase em toda a sua com preensão assim na proposição Pedro é homem afirmamos que a Pedro convêm todos os elementos que constituem o predicado homem2 b Na proposição afirmativa o predicado é tomado só em parte da sua extensão e por isso é particular assim quando dizemos as flores são plantas não se entende que todas mas somente algu mas plantas são flores Todavia o predicado quando exprime a mesma coisa que o sujeito tomase em toda a sua extensão como neste exemplo o homem é animal racional pois que todo animal racional é homem3 c Na proposição negativa o predicado é tomado só em parte da sua compreensão assim na proposição o animal não é planta só negamos funda nas leis morais e por isso admite exceções como os pais amam seus filhos Quando não é evidente a extensão do sujeito a proposição reduzse à universal ou à particular ou à singular conforme a natureza da matéria de que se trata 1 Da proposição afirmativa e negativa difere a proposição infinita a que tem por predicado um termo infinito como o homem é nãoplanta Essa proposição não é afirmativa nem negativa porque não atribui ao sujeito o predicado nem o nega Mas embora não seja afirmativa nem negativa contudo participa de uma e de outra Participa da afirmativa enquanto indica que pode convir ao sujeito um pre dicado indeterminado à exceção do que é significado pelo termo infinito participa da negativa enquanto afasta do sujeito um predicado determinado 2 Se ao sujeito faltasse uma só das notas que constituem o predicado não poderia afirmarse que este convém àquele 3 Na proposição afirmativa dizemos que o sujeito está contido sob a ex tensão do predicado mas não dizemos que só ele está contido porque o predicado pode conter outros sujeitos O predicado tem maior extensão que o sujeito embora tenha menor compreensão 95 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO ao sujeito alguns e não todos os elementos do predicado pois a vida vegetativa é comum ao animal e à planta1 d Na proposição negativa o predicado é tomado em toda a extensão e por isso é universal assim neste exemplo o animal não é planta o predicado tomase universalmente pois nenhuma planta é animal2 1 Para se negar um predicado a um sujeito não é necessário que o sujeito seja destituído de todos e cada uma das notas que constituem o predicado basta que lhe falte uma só pois a ausência de uma só nota destrói a identidade entre o sujeito e o predicado 2 Um predicado não poderia afastarse de um sujeito se um só dos entes contidos sob a extensão do predicado pudesse afirmarse do sujeito A proposição simples costuma dividirse também em absoluta e modal É absoluta quando indica se o predicado convém ou não ao sujeito como o céu é sereno É modal quando não só indica se o predicado convém ou não ao sujeito mas também exprime o modo porque o predicado convém ou repugna ao sujeito como é possível que eu hoje parta Digamos alguma coisa acerca da proposição modal O modo é uma determinação da coisa feita pelo adjetivo O adjetivo é dúpli ce do nome como branco preto etc e do verbo tais são os advérbios como brevemente velozmente etc que se chama adjetivos do verbo porque estão junto do verbo e nele se firmam Daí o dúplice modo nominal e adverbial O modo nominal é a determinação da coisa feita pelo adjetivo do nome como curso veloz o modo adverbial é a determinação da coisa feita pelo adjetivo do verbo isto é pelo advér bio como corre velozmente O modo pode determinar ou o sujeito da proposição como o homem branco corre ou o predicado como o homem corre velozmente ou a relação entre o predicado e o sujeito como é possível que o homem corra A proposição modal é propriamente a que declara o modo porque o predicado se refere ao sujeito A proposição em que o modo determina o sujeito ou o predicado é absoluta Os modos que exprimem a relação do predicado com o sujeito são seis verdadeiro e falso necessário e impossível possível e contingente Os modos verda deiro e falso não alteram a relação do predicado com o sujeito e não acrescentam nada ao sentido da proposição absoluta assim estas proposições é verdade que Pedro corre é falso que Paulo escreve equivalem a estas Pedro corre Paulo não escreve Mas os outros quatro modos alteram a relação do predicado com o sujeito e a propo sição Pedro corre difere da seguinte é possível que Pedro corra São pois quatro as espécies da proposição modal modalnecessária modalcontingente modalimpossível e modalpossível Como a modal contingente é equivalente à modalpossível porque dizer é possível que Pedro escreva é o mesmo que dizer é contingente que Pedro escre va por isso só consideramos três espécies de proposição modal a modalnecessária a modalimpossível e a modalpossível A proposição modal tem como a absoluta a quantidade e a qualidade Quanto à quantidade a proposição modal é universal ou particular segundo a diversa índole do modo Se o modo exprime necessidade a proposição é universalafirmativa porque o que convém necessariamente a um sujeito convémlhe por causa da essência e 96 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO III Divisão da proposição composta 60 Espécies da proposição composta As principais espé cies da proposição composta são cinco copulativa causal condicional disjuntiva e adversativa 61 Proposição copulativa A proposição é copulativa quando tem diversos sujeitos ou diversos predicados unidos pelas conjunções copulativa exemplo a virtude e a ciência fazem o homem grande Será verdadeira se for cada uma das proposições simples em que pode resolverse 62 Proposição causal A proposição é causal quando dá a razão por que um predicado convém ou não a um determinado sujeito exemplo a alma humana é imortal por ser espírito Para que esta proposição seja verdadeira é necessário que o seja também a razão aduzida1 63 Proposição condicional A proposição é condicional quando resulta de várias proposições simples unidas pelas partículas condicionais exemplo se Pedro é homem é racional Compõese de duas partes da condição que se chama antecedente e do condicionado que se denomina conseqüente É verdadeira quando entre a condição e por isso deve atribuirse a todos os indivíduos que têm a mesma essência assim a proposição é necessário que todo o homem seja racional corresponde a esta todo o homem é racional Se o modo exprime impossibilidade a proposição é universalnegati va porque o que não pode convir a um sujeito nem pode convir a algum indivíduo que se acha contido na extensão desse sujeito assim a proposição é impossível que o homem seja bruto corresponde a esta nenhum homem é bruto Se o modo exprime possibilidade a proposição é particular porque o que convém possivelmente ou contingentemente convém a alguns indivíduos assim esta proposição é possível que o homem seja douto corresponde a outra algum homem é douto Quanto à qualidade a modal é afirmativa ou negativa conforme o modo se afirma ou se nega assim a proposição não é possível que o homem seja bom é negativa 1 A razão aduzida pela causal será verdadeira se existir um nexo entre a mesma razão e a proposição simples isto é se na proposição simples o predicado convier ao sujeito em virtude da razão aduzida aliás será falsa embora cada uma das partes seja por si verdadeira Por isso é falsa esta proposição causal a alma humana é espiritual porque existe pois que a existência da alma não é a razão da sua espiritualidade embora seja verdade que a nossa alma é espiritual e que existe 97 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO o condicionado há um nexo tal que admitida a condição é forçoso admitir também o condicionado embora consideradas separadamente ambas as partes sejam falsas por exemplo se a pedra sente tem alma sensi tiva É falsa quando não existe aquele nexo embora as duas partes consideradas separadamente sejam verdadeiras exemplo se a planta vegeta o sol é brilhante 64 Proposição disjuntiva A proposição é disjuntiva quando tem diversos sujeitos ou diversos predicados unidos entre si pelas conjunções disjuntivas exemplo o mundo é infinito ou finito É verdadeira quando um dos predicados convém ao sujeito ou quando o predicado convém a um dos sujeitos1 65 Proposição adversativa A proposição é adversativa quando encerra várias proposições simples unidas pelas conjunções adversativas exemplo Luiz é sábio mas não é bom Será verdadeira se o forem todas as proposições simples2 1 A proposição disjuntiva pois deve ter os dois seguintes requisitos 1o as partes enumeradas devem ser completas por isso é falsa a seguinte esta cor é branca ou verde 2o as partes não podem ser todas verdadeiras nem todas falsas mas devem ser tais que a afirmação de uma delas importe a exclusão das outras e a exclusão de todas menos uma importe a afirmação da que não foi excluída Assim é verdadei ra a seguinte esse ser vivo é planta ou animal ou homem pois se afirmamos que é homem com isso negamos que seja planta ou animal e se negarmos que é planta e animal já afirmamos que é homem A disjuntiva resolvese na condicional 2 Entre as partes da proposição adversativa deve existir uma certa oposi ção embora pouco sensível ou pelo menos uma diversidade aliás a adversativa reduzirseá à copulativa Pertencem também às proposições compostas a relativa e a exponível A relati va é a que resulta de várias proposições simples unidas pelas partículas relativas onde e aí tal e qual então e quando etc como tal é o povo qual é o sacerdote Será verdadeira essa proposição se existir realmente o nexo entre as proposições simples de modo que uma seja causa e determinação da outra aliás será falsa Assim é falsa esta proposição então será feliz o homem quando possuir as riquezas A exponível é a que embora seja simples na aparência enquanto resulta de um só sujeito e de um só predicado contudo é realmente composta em força de alguma partícula unida ao su jeito ou ao predicado tal é a proposição só Deus é santo Que se resolve nas duas seguintes Deus é santo e todo outro não é santo Será verdadeira se for verdadeira a partícula que modifica a proposição aliás será falsa Assim é falsa a seguinte só o homem vive Chamase exponível porque deve ser exposta ou explicada para que se conheça a sua significação total 98 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO IV Qualidades das proposições 66 Número das qualidades As qualidades das proposições são três oposição conversão e equivalência1 67 Oposição Oposição é a repugnância de duas proposições que têm o mesmo sujeito e o mesmo predicado A repugnância está em ser uma afirmativa e a outra negativa exemplo A neve é branca a neve não é branca2 68 Divisão das proposições opostas Com relação à sua extensão as proposições opostas podem ser ou ambas universais ou ambas particulares ou uma universal e outra particular Na primeira hipótese chamamse contrárias exemplo todos os homens são justos todos os homens não são justos na segunda dizemse subcontrá rias exemplo alguns homens são justos alguns homens não são justos na terceira são contraditórias exemplo todos os homens são justos alguns homens não são justos3 Eis o esquema das proposições opostas advertindo que a letra A designa a proposição universalafirmativa E a universalnegativa I a particularafirmativa O a particularnegativa 1 Essas três qualidades convêm às proposições não enquanto essas se consi deram em si mesmas pois nesse sentido são afirmativas ou negativas universais ou par ticulares etc mas enquanto se consideram na relação que umas têm com as outras 2 Duas proposições serão pois opostas 1o se tiverem o mesmo sujeito e o mesmo predicado 2o se uma afirmar o que a outra nega Se não se verificarem essas duas condições não poderá haver oposição 3 Duas proposições singulares são contraditórias quando diferem na qualida de exemplo Antônio é sábio Antônio não é sábio Alguns incluem no número das proposições opostas as subalternas que convém entre si na qualidade enquanto são ambas afirmativas ou ambas negativas mas diferem na quantidade enquanto uma é universal e outra é particular como as seguintes todos os homens são justos alguns homens são justos Mas as subalternas não são propriamente opostas pois a oposição dáse quando uma proposição afirma o que a outra nega 99 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO Todos os homens são justos A contrárIaS E Todos os homens não são justos Alguns homens são justos I SuBcontrárIaS O Alguns homens não são justos 69 Crítica das proposições opostas a As contraditórias não podem ser ambas verdadeiras nem ambas falsas porque uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto princípio de contradição Por isso da falsidade de uma concluise a verdade da outra e da verdade de uma a falsidade da outra1 1 As contraditórias a Não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a sua matéria Porquanto afirmando uma o que a outra nega se ambas fossem verdadeiras uma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto Assim quando digo todos os homens são justos afirmo que a justiça existe em todos os homens mas quando digo alguns homens não são justos nego que a justiça existe em todos os homens Por isso se fossem verdadeiras essas duas contraditórias a justiça existiria e não exis tiria em todos os homens o que é absurdo b Não podem ser ambas falsas Porquanto se é falsa a afirmativa é falsa porque o que se afirma não é e se é falsa a negativa é falsa porque o que se nega é Ora como repugna que uma coisa ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto seja e não seja as contraditórias não podem ser ambas falsas Assim se é falsa esta proposi ção todos os homens são justos é falsa porque a justiça não se encontra em todos os homens e se é falsa esta outra alguns homens não são justos é falsa porque a justiça se encontra em todos os homens e por isso se ambas são falsas a justiça não se encontra e se encontra em todos os homens o que é absurdo A razão é porque entre uma e outra não há meio termo como não há meio termo entre a afirmação e a negação Uma coisa é ou não é Repetimos que as proposições singulares são contraditórias quando diferem entre si na qualidade porque para se excluírem reciprocamente basta que uma seja afirmativa e outra negativa Assim são contraditórias as seguintes Pedro é bom Pedro não é bom 100 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA b As contrárias não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a matéria de que tratam não podem ser ambas falsas quando a matéria é necessária podem ser ambas falsas quando a matéria é contingente1 Portanto a da verdade de uma podemos deduzir a falsidade da outra seja qual for a matéria de que se trata b da falsidade de uma deduzimos a verdade da outra quando a matéria é necessária c da falsidade de uma não se pode deduzir a verdade da outra quando a matéria é contingente c As subcontrárias não podem ser ambas falsas seja qual for a matéria de que tratam não podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é necessária podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é contingente2 1 As contrárias a Não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a sua matéria Na verdade uma afirma que a outra nega e por isso se ambas fossem verdadeiras a mesma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto b Não podem ser ambas falsas quando a matéria é necessária Com efeito nesse caso pelo fato de o predicado convir essencialmente ao sujeito a contrária afirmativa é verdadeira pois o que convém essencialmente a um sujeito não pode deixar de convir também a todos os seres que estão compreendidos na extensão desse sujeito e por isso a contrária negativa é falsa exemplo todo o homem é racional nenhum homem é racional c Podem ser ambas falsas quando a matéria é contingente Porquanto nesse caso o predicado por não convir essencialmente ao sujeito não se encontra em todos os indivíduos compreendidos no sujeito nem falta em todos e tanto pode ser falsa a proposição contrária que atribui a todos o predicado como a que o não atribui a nin guém como nestes exemplos todo o homem é bom nenhum homem é bom Entre as proposições contraditórias e as contrárias dáse essa diferença que nas contraditórias a negação de uma destrói a afirmação da outra e entre elas não há meio termo mas nas contrárias a negação de uma não só destrói a afirmação da outra mas chega a outro extremo e por isso existindo entre extremos opostos um meio termo entre as contrárias há um meio termo que é a proposição particular afirmativa ou negativa Santo Tomás in I Perih l 11 2 As subcontrárias a Não podem ser ambas falsas seja qual for a matéria de que tratam aliás as suas contraditórias que são as contrárias seriam ambas verdadeiras b Não podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é necessária Porque então o predicado convém a todos e a cada um dos indivíduos e por isso a subcon trária afirmativa é verdadeira e a negativa é falsa como alguns homens são racionais alguns homens não são racionais 101 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO Por isso a da falsidade de uma deduzimos a verdade da outra seja qual for a matéria de que tratam b da verdade de uma podemos deduzir a falsidade da outra quando a matéria é necessária c da verdade de uma não podemos deduzir a falsidade da outra quando a matéria é contingente 70 Conversão A conversão é a transformação de uma propo sição noutra Fazse pela troca dos termos passando o sujeito para predicado e este para o sujeito sem alterar a qualidade e a verdade das proposições assim a proposição algum homem é sábio convertese neste algum sábio é homem 71 Divisão da conversão A conversão pode ser simples acidental ou contraposta a É simples quando permanece a mesma quantidade Convertemse desta forma a as proposições universaisnegativas exemplo nenhum homem é planta nenhuma planta é homem b e as particularesa firmativas exemplo algum homem é sábio algum sábio é homem1 b É acidental per accidens quando se altera a quantidade Convertemse assim a as universaisafirmativas exemplo todo o homem é racional algum racional é homem b as universaisnegativas exemplo nenhuma planta é mineral algum mineral não é planta2 c É contraposta quando se conserva a mesma quantidade mas os termos por meio da partícula negativa se tornam indefinidos Convertemse por esta forma a as universaisafirmativas exemplo todo o animal é ente sensitivo todo o ente não sensitivo é não c Podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é contingente Porque então o predicado não existe em todos os indivíduos nem falta a todos e as duas subcontrárias não são propriamente opostas pois não têm o mesmo sujeito como alguns homens são bons alguns homens não são bons Cf S Tomás In I Perih l 10 1 À conversão simples estão sujeitas as universaisnegativas porque na universalnegativa o sujeito e o predicado tomamse em toda a sua extensão e na conversão conservam a sua universalidade e as particularesafirmativas porque nessas proposições o sujeito e o predicado são termos particulares e na conversão conservam a sua particularidade 2 À conversão acidental estão sujeitas as universaisafirmativas pois nessas proposições o predicado é particular e por isso quando esse na conversão se torna sujeito deve ser particular e as universaisnegativas porque nessas proposições o predicado é universal e por isso atribuise a cada um dos entes que estão compre endidos sob a sua extensão 102 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA animal b e as particularesnegativas exemplo algum corpo não é ente vivo algum ente não vivo não é não corpo1 72 Equivalência Equivalência é a redução de duas proposi ções opostas à mesma significação Esta redução fazse por meio da partícula negativa não2 73 Regras da equivalência regra 1a Duas contraditórias tornamse equivalentes antepondo a partícula negativa ao sujeito de uma delas porque assim a negação altera a quantidade e a qualidade da proposição As duas contraditórias todos os homens são sábios e alguns homens não são sábios tornamse equi valentes antepondo a partícula negativa ao sujeito da primeira nem todos os homens são sábios que equivale a alguns homens não são sábios regra 2a Duas contrárias tornamse equivalentes propondo a negação ao sujeito de uma delas assim a partícula negativa altera só a qualidade A proposição todos os homens são eloqüentes pospondo não ao sujeito homens tornase equivalente à sua contrária que é todos os homens não são eloqüentes As subcontrárias não admitem equivalência3 CAPÍTULO TERCEIRO Raciocínio e Argumentação Sumário Raciocínio seus elementos e divisão Argumentação e silogismo Silogismos simples e suas regras Figuras e modos do silogismo simples Silogismos composto e sua divisão Indução e suas espécies Sofisma e suas espécies 1 A conversão contraposta nunca ou raríssimas vezes se emprega 2 A partícula negativa não tem uma natureza maligna pois destrói tudo aquilo a que é anteposta isto é dá à proposição um sentido oposto ao que tinha Assim se a partícula negativa é anteposta à qualidade a proposição de universal se torna particular e viceversa e se é anteposta à qualidade a proposição de afirmativa se torna negativa e viceversa 3 As subcontrárias não admitem equivalência porque seja qual for o posto da par tícula negativa uma proposição subcontrária não pode reduzirse à significação da outra 103 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO I Raciocínio seus elementos e divisão 74 Raciocínio Raciocínio é a união ou separação de duas idéias pelo fato de ambas convirem ou uma convier e outra não com uma terceira idéia com a qual foram comparadas exemplo Todo o espírito é imortal A alma humana é espírito Logo a alma humana é imortal Comparando entre si duas idéias muitas vezes não podemos perceber imediatamente a sua conveniência ou desconveniência Em tal caso recorremos a uma terceira idéia para com ela comparar as duas primeiras Desta comparação resulta que ou ambas as idéias convém a uma terceira ou ambas não convém ou uma convém e outra não Na primeira hipótese concluise a conveniência das duas idéias na segunda não pode concluirse a sua conveniência nem a sua desconveniência na terceira concluise a sua desconveniência Assim não conhecendo imediatamente a relação entre estas duas idéias alma humana e imortal comparamolas com uma terceira espírito e pela sua conveniência com esta concluímos que elas convém entre si1 1 A perfeição das substâncias intelectuais consiste no conhecimento da verdade Mas há uma diferença nesse conhecimento e a diferença fundase na própria nature za dessas substâncias As inteligências superiores que são os anjos conhecem sempre a verdade com um só olhar sem movimento ou discurso As inteligências inferiores como é a do homem não chegam sempre ao perfeito conhecimento da verdade com um só olhar mas devem fazer um movimento um discurso passando do conhecido para o desconhecido e assim descobrem e conhecem explicitamente muitas verdades que estavam implicitamente contidas em determinados princípios É pois necessário que a nossa inteligência estabeleça os princípios e depois os analise e resolva para que se veja o que neles se achava envolvido Dessa análise ou resolução derivam diversos juízos dis postos entre si por modo que um deriva dos outros Essa dedução de um juízo de outros juízos é propriamente o raciocínio Cf Sum Th Ia q 85 a 5 Erram portanto Wundt quando dá o nome de raciocínio a toda e qual quer forma de conhecimento mesmo à simples sensação e Locke quando diz que o raciocínio é uma simples ação intuitiva Pelo raciocínio a inteligência não vê uma verdade na outra mas passa de uma verdade para outra Essa passagem realizase quando a inteligência não vê imediatamente a relação entre duas diversas idéias 104 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 75 Elementos do raciocínio Os elementos do raciocínio são dois a saber matéria e forma a A matéria é constituída pelas três idéias que são a matéria remota e pelos três juízos que são a matéria próxima Das três idéias uma é sujeito da conclusão outra é predicado da mesma conclusão a terceira é o termo de comparação O sujeito e o predicado chamamse extremos o sujeito é o extremo menor e o predicado é o extremo maior a idéia que é o termo de comparação dizse médio1 As três idéias comparadas entre si constituem três juízos um for mado pela comparação do predicado e da idéia média e chamase premissa maior outro pela comparação do sujeito e da idéia média e chamase pre missa menor o terceiro pela comparação do sujeito e do predicado e dizse conclusão As premissas formam o antecedente a conclusão é o conseqüente b A forma do raciocínio é a disposição das idéias e dos juízos pela qual admitido o antecedente deve necessariamente admitirse o conseqüente O nexo que em virtude da forma existe entre o antecedente e o conse qüente chamase conseqüência e raciocínios há em que a conseqüência é verdadeira e o conseqüente é falso ou em que a conseqüência é falsa e o conseqüente é verdadeiro como nestes dois exemplos I conseqüência verdadeira e conseqüente falso Todo o homem é racional Ora a planta é homem Logo a planta é racional II conseqüência falsa e conse qüente verdadeiro Todo o animal é sensitivo Ora o cão é animal Logo o homem é livre2 1 O sujeito dizse extremo menor e o predicado denominase extremo maior porque o predicado referindose ao sujeito como o princípio formal e de terminante ao princípio material e determinável tem uma extensão maior que a do sujeito O termo de comparação dizse médio não só porque é o meio pelo qual julgamos da conveniência ou da desconveniência do sujeito com o predicado mas também porque a sua extensão é geralmente média entre a extensão do sujeito e a do predicado 2 O nexo entre o antecedente e o conseqüente é tão estreito que admitindose aquele deve admitirse também este Com efeito quando julgamos ser verdadeiro 105 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 76 Divisão do raciocínio O raciocínio é afirmativo ou negativo É afirmativo se afirma a conveniência do sujeito com o pre dicado porque ambos convém com a idéia média É negativo se afirma a desconveniência do sujeito com o predicado porque um deles não convém com a idéia média1 77 Princípios do raciocínio afirmativo e negativo O raciocínio afirmativo fundase no princípio de conveniência que é duas coisas cada uma das quais é igual a uma terceira são iguais entre si O raciocínio negativo fundase no princípio de desconveniência que é duas coisas das quais uma só é igual a uma terceira não são iguais entre si2 um princípio universal implicitamente julgamos ser também verdadeira uma con clusão contida naquele princípio Quando pois se deduz a conclusão deve ela expli citamente afirmar ou negar o que implicitamente foi afirmado ou negado no princípio aliás uma e a mesma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto O juízo acerca da verdade da conseqüência pertence à lógica mas o juízo acerca da verdade do conseqüente pode pertencer a outras ciências 1 Já demos exemplos do silogismo afirmativo Um exemplo do silogismo negativo é o seguinte todo o homem é racional o cão não é homem logo o cão não é ra cional A conclusão diz que o predicado racional não compete ao sujeito cão porque esse não convém com à idéia média que é homem 2 Advirtase que duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si naquele sentido e naquela medida em que são iguais a essa terceira coisa Essa ad vertência é da máxima importância Porque não podemos dizer que são iguais entre si duas coisas uma das quais é igual à terceira considerada sob um aspecto e a outra é igual à mesma terceira coisa mas considerada sob outro aspecto porque nesse caso o meio termo não é um só mas múltiplo e o raciocínio é um sofisma Assim é falso esse raciocínio alguns homens são bons alguns homens são maus logo alguns bons são maus porque a terceira coisa alguns homens não é considerada sempre sob um e o mesmo aspecto mas na premissa maior sob um aspecto e na menor sob outro e diferente aspecto pois os homens que são bons são diversos dos que são maus e assim a terceira coisa é dúplice e portanto não há comparação das duas coisas com uma terceira e falta a base ao raciocínio Advirtase também que os dois princípios de conveniência identidade e de desconveniência discrepância se fundam e se resolvem no princípio de contradição uma coisa não pode simultaneamente ser e deixar de ser idem non potest simul esse et non esse Aqueles dois princípios são verdadeiros porque verdadeiro é o prin cípio de contradição Por isso esse é princípio remoto do raciocínio e os outros dois são princípios próximos 106 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO II Argumentação e silogismo 78 Argumentação Argumentação é a expressão verbal do racio cínio Por isso tudo quanto dissermos acerca da natureza da argu mentação das suas propriedades e leis tudo deve atribuirse ao raciocínio 79 Espécies de argumentação As espécies de argumentação são duas uma em que de duas proposições descemos para uma terceira como do todo para a parte outra em que de duas proposições subimos para uma terceira como das partes para o todo A primeira espécie é a argumentação dedutiva chamada silogismo a segunda é a indutiva e dizse indução Agora tratamos do silogismo mais tarde da indução1 80 Silogismo Silogismo é a argumentação pela qual se conclui que o predicado de um sujeito universal convém a um sujeito particular pelo fato desse se achar contido naquele sujeito universal Assim no seguinte silogismo Todo o ser criado é limitado Ora o homem é um ser criado Logo o homem é limitado o predicado limitado convém ao sujeito particular homem por este se achar contido no sujeito universal ser criado 81 Elementos do silogismo O silogismo consta de dois ele mentos que são a matéria e a forma A matéria é constituída por três termos matéria remota e por três proposições matéria próxima A forma 1 O todo de que se fala aqui na argumentação não é o integral composto de partes integrantes como é por exemplo uma casa composta das paredes do teto e do pavimento nem é o potencial composto de partes potenciais como é por exem plo a nossa alma composta das faculdades de entender querer etc mas é o todo universal composto de partes subjetivas como é por exemplo o animal cujas partes subjetivas são o animal racional e o animal irracional Na verdade atribuindose na ar gumentação a uma parte o predicado que convém ao todo é necessário que essa parte contenha em si o todo Ora isto não se verifica relativamente ao todo integral porque uma parte integrante não é o todo integral assim o teto não é a casa nem ao todo potencial pois uma parte potencial não equivale ao todo potencial assim o entendimen to não é toda a alma mas verificase relativamente ao todo universal pois que as partes subjetivas contém o todo universal assim dizemos que o homem é animal 107 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO é a conveniente disposição dos termos e das proposições em ordem à conclusão Os termos e as proposições tomam os nomes que demos às três idéias e aos três juízos que constituem a matéria do raciocínio A proposição maior indica que ao sujeito universal compete necessaria mente um certo predicado a menor que o sujeito particular está contido na extensão do sujeito universal a conclusão que ao sujeito particular deve atribuirse o predicado do sujeito universal Por isso a verdade particular expressa pela conclusão recebe toda a sua força da verdade necessária e universal significada pela premissa maior1 1 A força de que é dotada a conclusão não depende propriamente da uni versalidade da premissa maior mas sim da sua necessidade a universalidade é uma conseqüência da necessidade A proposição necessária que é a base do silogismo pode ser necessária absolutamente ou hipoteticamente conforme a necessidade é in dependente ou não de toda e qualquer condição No primeiro caso o predicado da conclusão exprime a essência total ou parcial do termo médio ou uma propriedade essencial e então o nexo entre o predicado da conclusão e o termo médio é absoluta mente necessário No segundo caso o predicado da conclusão exprime uma proprie dade atribuída ao termo médio pela experiência e então o nexo entre o predicado da conclusão e o termo médio é necessário hipoteticamente isto é supostas certas condições Mas em ambos os casos a propriedade que necessariamente convém ao termo médio atribuise a todos os sujeitos particulares contidos na extensão do termo médio que é o sujeito universal Dependendo do termo médio o resultado da comparação entre o sujeito e o predicado enquanto o termo médio é a razão porque um predicado convém ou repugna a um sujeito vêse claramente a necessidade de encontrar esse médio para se poder formar o silogismo Os antigos filósofos deram muitas regras para a invenção do médio Limitamonos a apresentar duas dessas regras uma serve quando a conclusão é uma proposição universalafirmativa e por isso vale também quando a conclusão é uma particularafirmativa a outra serve quando a conclusão é uma proposição universalnegativa e por isso vale também para a particular negati va 1a Quando a conclusão é uma proposição universalafirmativa procurese um médio que esteja contido no predicado mas contenha o sujeito Com efeito no silogismo cuja conclusão é uma proposição universalafirmativa o médio é sujeito do predicado na maior e é predicado do sujeito na menor Mas o médio se é sujeito do predicado deve ser contido no próprio predicado porque o predicado é mais universal que o sujeito e se é predicado do sujeito deve conter o próprio sujeito pela mesma razão Assim querendo concluir o silogismo por esta proposição universalafirma tiva logo toda flor é vivente pergunto a mim mesmo porque toda a flor deve ser vivente E percebo que toda a flor deve ser vivente porque é planta Mas a planta para que possa ser médio deve acharse contida no predicado vivente e deve pela sua vez conter o sujeito toda a flor E realmente a planta está contida no vivente e contém toda a flor Logo a planta é o médio Para maior clareza completamos o silogismo 108 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 82 Silogismo abreviado Às vezes por brevidade ou para maior força da argumentação omitese uma das premissas que facil mente se subentende Nesse caso o silogismo dizse abreviado ou simplesmente entimema por exemplo Todo o ser criado é limitado Logo o homem é limitado1 83 Princípios do silogismo O silogismo fundase em dois princípios que são uma derivação dos princípios de conveniência e des conveniência e que se enunciam deste modo a Tudo o que se afirma de um sujeito universal deve afirmarse de cada um dos particulares nele contidos para o silogismo afirmativo b Tudo o que se nega de um sujeito universal deve negarse de cada um dos particulares nele contidos para o silogismo negativo2 toda a planta é vivente ora toda a flor é planta logo toda a flor é vivente 2a Quando a conclusão é uma proposição universalnegativa procurese um médio ou que esteja excluído da extensão do predicado mas inclua o sujeito ou que esteja incluído na exten são do predicado mas exclua o sujeito A razão dessa regra é manifesta No silogismo que tem por conclusão uma proposição universalnegativa uma das premissas deve ser e é negativa e é negativa porque o médio ou repugna ao predicado e convém ao sujeito ou convém ao predicado mas repugna ao sujeito De resto na in venção do médio o uso e a reflexão valem mais do que as regras 1 Para se conhecer qual das duas premissas foi omitida se a maior ou a menor é necessário examinar a que ficou Se a premissa que ficou contém o extremo menor então foi omitida a premissa maior que devia exprimir a relação entre o extremo maior e o termo médio Se a premissa que ficou contém o extremo maior como no exemplo citado então foi omitida a premissa menor que devia exprimir a relação entre o extremo menor sujeito e o termo médio 2 Evidente é o princípio do silogismo afirmativo Porquanto se não pudesse atribuirse a um sujeito particular um predicado atribuído já a um sujeito universal sob o qual o particular está contido um e o mesmo predicado ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto seria e não seria atribuído ao mesmo sujeito particular seria atribuído porque quando é atribuído ao sujeito universal atribuise implici tamente a todos os sujeitos particulares contidos na extensão do sujeito universal e por isso àquele sujeito particular não seria atribuído por hipótese Não menos evidente é o princípio do silogismo negativo Com efeito quando negamos a um sujeito universal um determinado predicado implicitamente negamos o mesmo pre dicado a todos os particulares que estão contidos nesse sujeito universal e por isso 109 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO não podemos sem contradição deixar de negar explicitamente tal predicado a algum desses particulares quando nos ocupamos diretamente do tal particular O princí pio que regula o silogismo afirmativo foi chamado pelos escolásticos dictum de omni e o princípio em que se funda o silogismo negativo foi denominado dictum de nullo Esses dois princípios que regulam o silogismo afirmativo e negativo e que como dissemos são uma derivação dos princípios de conveniência e de desconveniên cia ou de identidade e de discrepância são chamados princípios lógicos porque diri gem as operações intelectuais enquanto os de conveniência e de desconveniência são chamados princípios metafísicos porque dizem respeito à realidade e exprimem o que são as coisas em si mesmas independentemente da nossa inteligência Os princípios lógicos como metafísicos fundamse como vimos no princípio de contra dição Desse princípio ocupase a Ontologia Depois de termos explicado a natureza do silogismo devemos agora exa minar as objeções aduzidas contra o seu valor lógico Limitamonos a citar as de Stuart Mill de Spencer de Bacon e Locke que são apenas umas reproduções das que foram apresentadas pelos escritores antigos e que são atualmente propugnadas pelos materialistas positivistas e modernistas a John Stuart Mill Sistema da Lógica procura demonstrar que o silogis mo é um sofisma um círculo vicioso visto que a verdade geral que é expressa pela premissa maior e de que a conclusão recebe toda a sua força depende da verdade já conhecida da mesma conclusão Assim nesse silogismo todos os homens são mortais ora Pedro é homem logo Pedro é mortal concluise que esse indivíduo é mortal por serem mortais todos os homens quando é certo que se estabelece a premissa maior todos os homens são mortais por se saber que é mortal cada um dos homens Poucas palavras em resposta A premissa maior do silogismo ou é um juízo analítico ou é um juízo sintético Se é um juízo analítico a sua verdade não se funda na verdade da conclusão mas na própria essência do sujeito e do predicado assim nesse silogismo todo o ser finito é contingente ora o mundo é ser finito logo o mundo é contingente afirmase que todo o ser finito é contingen te não por ser contingente o mundo isto é não pelo conhecimento da própria conclusão mas pela análise das duas idéias finito e contingente Se a premissa maior é um juízo sintético baseado na observação e no raciocínio como acontece no seguinte silogismo todos os homens são mortais ora Pedro é homem logo Pedro é mortal também nesse caso da verdade daquela premissa não depende da ver dade da conclusão Com efeito a esta proposição universal todos os homens são mortais não chega a nossa inteligência pelo conhecimento do particular porque o particular por nós conhecido referese ao passado e não ao futuro ao passo que aquela proposição universal prescinde de todo o tempo e abrange todos os homens passados e futuros e onde se encontra o homem aí deve encontrar se a morte se as leis da natureza não sofrerem uma suspensão O equívoco dos 110 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA adversários consiste em verem na proposição todos os homens são mortais apenas uma referência à coleção de indivíduos quando é certo que essa proposição exprime a natureza dos homens pois reduzse a esta todo o homem é mortal Logo a premissa maior não recebe da conclusão a sua força Também é falso que a con clusão seja conhecida antes da premissa maior pois embora aquela esteja contida nessa todavia nós não o conhecemos imediatamente e por isso é necessário re correr a uma outra verdade Donde se vê que o silogismo é um meio para descobrir e conhecer distintamente novas verdades Além disso é sabido que muitas vezes os sábios partem dos mesmos prin cípios universais admitidos por todos e chegam a conclusões inteiramente opos tas Ora isto não poderia acontecer se antecedentemente se conhecessem todas as verdades particulares contidas no princípio universal E se acontece isto signi fica apenas que as conclusões opostas têm um fundamento diverso isto é que os meios empregados no raciocínio foram diversos Portanto a verdade do princípio universal não deriva da verdade das proposições particulares significadas pelas con clusões mas a própria verdade da conclusão é o fruto do meio termo e por isso é uma coisa nova Notamos que o argumento de Stuart Mill se encontra em Bacon e constitui uma objeção que os velhos escolásticos faziam contra a legitimidade do silogismo e a que respondiam triunfantemente O mesmo Stuart Mill diz que a indução fornece as premissas maiores dos silogismos pois não existe generalidade sem indução Respondemos que a indução se toma em dois sentidos No sentido mais rigoroso exprime a argumentação que vai do particular para o geral No sentido mais lato significa toda e qualquer generali zação embora feita imediatamente e sem raciocínio Tomada no primeiro sentido a indução fornece ao silogismo as premissas maiores quando elas contém um juízo sintético mas não quando contém um juízo analítico Tomada no segundo sentido a indução fornece as premissas maiores do silogismo pois é certo que não existe generalidade sem indução com diz Aristóteles Post An lib 1 c 18 b H Spencer afirma que o silogismo é inútil e arbitrário pelas seguintes razões 1a o silogismo não pode ser composto de proposições universais visto que o objeto da Lógica sendo constituído pelas coisas concretas é singular 2a o nosso raciocínio natural nunca assume a forma de silogismo 3a pelo silogismo não aprendemos coisa alguma Respondemos que as razões aduzidas por H Spencer em confirmação da sua opinião são falsas É falsa a primeira porque como provaremos existem idéias universais e o sensualismo que só admite idéias particulares é anticien tífico É falsa a segunda porque embora os nossos discursos não assumam ordinariamente a forma de silogismo nem por isso esse deixa de ser útil para as discussões científicas e para a disciplina da inteligência É falsa a terceira porque muitas vezes os sábios concordam nos mesmos princípios gerais mas discordam nas conseqüências E por que essa divergência Porque não conhe cem o modo de tirar de determinados princípios legítimas conseqüências Ora é o silogismo que ensina a tirar de princípios universais conseqüências legítimas 111 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 84 Divisão do silogismo O silogismo é simples ou composto O simples só consta de proposições simples O composto contém proposições compostas ou consta de silogismos simples Agora trata mos do simples depois do composto ARTIGO III Silogismo simples e suas regras 85 Silogismo simples O silogismo é simples quando só consta de proposições simples Exemplo Todo o espírito é incorruptível A alma humana é espírito Logo a alma humana é incorruptível 86 Regras do silogismo simples São oito essas regras quatro relativas aos termos e quatro às proposições Além disso o silogismo como dissemos contra Mill serve para descobrir e co nhecer distintamente novas verdades só implicitamente contidas nos princípios gerais Diz Sortais Os progressos das ciências exatas atestam a fecundidade da dedução Se a objeção tivesse um fundamento bastaria conhecer os axiomas os postulados e as definições geométricas para se conhecer a geometria inteira E quando se diz que a premissa maior contém a conclusão devemos entender que ela contém a razão pela qual a conclusão é verdadeira isto é que a contém im plicitamente Para que se torne explícita tal inclusão não basta a maior devemos recorrer à menor que mostra se a razão indicada na maior convenha ao sujeito da conclusão Traité de Phil v II n 38 c Bacon e Locke rejeitam o silogismo e dizem que a indução é o único meio para adquirir a ciência Essa opinião é falsa A indução como veremos é um dos meios para a aqui sição da ciência mas não é o único A legitimidade do silogismo é reconhecida por sábios notáveis e insuspeitos Leibnitz escreve N Ensaios l IV c 16 Sustento que a descoberta do silogismo é uma das mais belas e importantes do espírito humano o silogismo é uma espécie de matemática universal cuja importância é desconhe cida mas que encerra uma arte de infalibilidade Cláudio Bernard Introdução ao estudo da medicina exp O espírito humano funciona sempre por meio do silogismo Poderia demonstrar a minha proposição com argumentos fisiológicos 112 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA I Terminus esto triplex maior mediusque minorque II Latius hos quam praemissae conclusio non vult III Nequaquam medium capiat conclusio oportet IV Aut semel au iterum medius generaliter esto V Utraque si praemissa neget nil inde sequetur VI Ambae afirmantes nequeunt generare negantem VII Pejorem sequitur semper conclusio partem VIII Nil sequitur geminis ex particularibus unquam1 regra I Os termos devem ser três maior menor e médio Se forem mais ou menos que três não pode ter lugar a comparação do sujeito e do predicado com o médio Falta também a essa regra quem emprega um termo equívoco como Todo o cão ladra Ora uma constelação é cão Logo uma constelação ladra regra II Nenhum termo deve ter na conclusão uma extensão maior que nas premissas Um termo que é particular nas premissas e universal na conclusão equivale a dois termos e o silogismo tem quatro termos como no seguinte em que o termo vivo é particular na maior e universal na conclusão Todo o homem é vivo Ora o bruto não é homem Logo o bruto não é vivo2 1 A necessidade da conclusão no silogismo depende exclusivamente do seu nexo com as premissas Para que exista tal nexo é necessário que uma das premissas conte nha a conclusão e a outra declare que tal continência existe porque então postas as premissas deve necessariamente deduzirse a conclusão Mas para que as premissas contenham e declarem contida a conclusão é necessário observar as citadas oito regras 2 Além disso a conclusão derivando das premissas deve estar contida nelas como a parte no todo Ora se um termo tem na conclusão uma extensão superior a que tem nas premissas já não pode estar contido nelas porque o mais não está con tido no menos Finalmente na conclusão do silogismo unimos ou separamos dois termos porque foram comparados nas premissas com o médio Ora se um termo 113 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO regra III O termo médio não deve entrar na conclusão Recorremos ao termo médio para com ele compararmos o sujeito e o predicado Efetuandose a comparação nas premissas o termo médio não pode entrar na conclusão que deve declarar exclusivamente a conveniência ou a des conveniência entre o sujeito e o predicado É falso pois este silogismo Napoleão foi pequeno Ora Napoleão foi capitão Logo Napoleão foi pequeno capitão regra IV O termo médio deve ser universal ao menos em uma das premissas Na verdade se o médio é particular em ambas as premissas equivale a dois termos pois exprime dois objetos ou indivíduos distintos e falta a comparação dos extremos com um e o mesmo médio assim é falso o seguinte silogismo Alguns homens são ignorantes Ora alguns homens são sábios Logo alguns sábios são ignorantes1 regra v De duas premissas negativas nada se pode concluir Sendo negativas as duas premissas é sinal de que o médio não é medida nem do sujeito nem do predicado e por isso não podemos concluir a conveniência nem a desconveniência do predicado com o sujeito Assim destas proposições fosse mais extenso na conclusão do que nas premissas teria sido comparado com o médio só numa parte da sua extensão e assim pereceria toda a estrutura do silogismo 1 É porém verdadeiro o silogismo quando o termo médio é singular e inco municável porque esse tomandose em toda a sua extensão corresponde ao universal e significa sempre um e o mesmo objeto ou indivíduo como neste exemplo Luís de Camões foi pobre Ora Luiz de Camões foi o autor dos Lusíadas Logo o autor dos Lusíadas foi pobre Dissemos quando o termo médio é singular e incomunicável porque se o termo é comunicável embora singular tornase de algum modo particular e não pode ser médio Assim não podemos dizer O Pai é Deus mas o Filho é Deus logo o Filho é o Pai porque o termo Deus embora singular é comunicável e não é próprio de uma só Pessoa divina 114 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Toda a planta não é imortal Ora a alma humana não é planta Logo não podemos concluir que a nossa alma é ou não imortal1 regra VI De duas premissas afirmativas não se pode tirar uma conclusão negativa Se as premissas são afirmativas o sujeito e o predicado convém com o termo médio e por isso entre si É falso pois o seguinte silogismo Todo homem honesto é digno de louvor Ora Pedro é homem honesto Logo Pedro não é digno de louvor regra VII A conclusão segue sempre a premissa mais fraca A premissa mais fraca é a negativa relativamente à afirmativa e a particular relativamente à universal Por isso essa regra resolvese nas duas seguintes 1a Se uma premissa é negativa também deve ser negativa a conclusão Porque sendo negativa uma das premissas um dos extremos não convém com o médio e por isso os dois extremos não podem convir entre si É falso pois este silogismo Todo o corpo é extenso Ora a alma humana não é corpo Logo a alma humana é extensa 2a Se uma das premissas é particular também deve ser particular a con clusão Porquanto se a conclusão fosse universal sendo uma das premissas 1 Não pode deduzirse nenhuma conclusão nem afirmativa porque a con clusão afirmativa supõem a conveniência de ambos os extremos com o médio nem negativa porque exige que um dos extremos convenha com o médio Mas para que esta regra conserve todo o seu vigor não basta que ambas as premissas consideradas em si sejam negativas mas é necessário que sejam negativas com relação ao termo médio enquanto ambas neguem a conveniência dos dois extremos com o médio aliás o silo gismo será legítimo Assim é legítimo o seguinte quem não ama a Deus não será salvo mas o ímpio não ama a Deus logo o ímpio não será salvo porque a menor embora consi derada em si seja negativa todavia considerada em relação ao termo médio é afirmativa porque afirma a conveniência do sujeito ímpio com o médio termo não ama a Deus pois é equivalente a esta o ímpio é não amante de Deus que é certamente afirmativa 115 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO particular um termo teria maior extensão na conclusão do que nas premissas o que é contrário à Regra ii Por isso é falso o seguinte silogismo Todas as ações boas merecem louvor Ora alguma ocupação é boa Logo todas as ocupações merecem louvor regra VIII De duas premissas particulares nada pode concluirse As premissas particulares a ou são ambas afirmativas b ou ambas negativas c ou uma afirmativa e outra negativa a Se as premissas particulares são ambas afirmativas nada se conclui Porque o termo médio deve ser universal pelo menos numa das premissas como manda a Regra iv ora em duas premissas particularesafirmativas não há algum termo universal pois os sujeitos e os predicados são todos particulares Por isso é falso o seguinte silogismo Alguns homens são sábios Alguns homens são ignorantes Logo alguns ignorantes são sábios b Se as premissas particulares são ambas negativas também não há conclusão porque o proíbe a Regra v c Se de duas premissas particulares uma é afirmativa e outra é negativa não pode tirarse nenhuma conclusão nem afirmativa nem negativa Não pode tirarse uma conclusão afirmativa porque o proíbe a Regra vii Nem pode tirarse uma conclusão negativa porque para tirarmos uma conclusão negativa deveria haver nas premissas dois termos universais ocupados pelo predicado da conclusão e pelo termo médio Regras ii e iv ora nas premissas há um só termo universal que é o predicado da premissa negativa Assim é falso este silogismo Alguns homens são maus Alguns homens não são maus Logo alguns maus não são maus1 1 Essa regra sofre exceção quando o silogismo contém termos singulares ou termos particulares equivalentes aos singulares pois esses termos tendo uma e a 116 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO IV Figuras e modos do silogismo 87 Forma do silogismo No silogismo além da matéria que é constituída pelos termos e pelas proposições temos a forma que é a conveniente disposição dos mesmos termos e das premissas em ordem à conclusão E como a disposição dos termos se diz figura e a das premissas se chama modo assim neste artigo tratamos das figuras e dos modos do silogismo 88 Figura Figura é a diversa disposição do termo médio relativamente aos dois extremos 89 Número das figuras As figuras são quatro Na verdade os diversos modos de dispor o termo médio com relação aos dois extremos são quatro pois que o termo médio pode ser 1o sujeito na premissa maior e predicado na menor 2o predicado na maior e sujeito na menor 3o predicado na maior e na menor 4o sujeito na maior e na menor Damos os exemplos das quatro figuras mesma significação ou extensão correspondem aos universais Assim é legítimo o seguinte silogismo São Pedro é Galileu ora São Pedro é o Príncipe dos Apóstolos logo o Príncipe dos Apóstolos é Galileu Nesse exemplo os extremos são comparados com um e o mesmo termo médio e assim salvase o princípio de conveniência Alguns escritores afirmam que todas as leis do silogismo podem reduzirse a uma só que é a seguinte o silogismo simples é legítimo quando uma das premissas inclui a conclusão e a outra exprime essa inclusão Respondemos que essa lei a qual exige o nexo entre as premissas e a conclusão não só não exclui as oito regras do silogismo mas exigeas porque são elas que ensinam o que se há de fazer ou evitar para que exista o nexo entre o antecedente e o conseqüente Outros dizem que para a legitimidade do silogismo bastam os dois princí pios fundamentais de conveniência ou de desconveniência Mas eles não refletem que as oito regras propostas servem para a reta aplicação dos mesmos princípios A Lógica de Porto Real reduz a seis as oito regras suprimindo a I e a III porque eviden tes Mas se esse critério fosse aceitável poderiam excluirse também outras que também são muito evidentes como a II e dizemos mais poderiam todas reduzir se à I que é fundamental pois é nela que se baseiam as outras sete A razão das oito regras não é a sua evidência maior ou menor mas é o fim prático para o qual tendem e que é evitar o erro e descobrilo facilmente quando proposto por outros Sob esse aspecto as oito regras são todas utilíssimas porque são vários meios para chegarmos a conclusões verdadeiras 117 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Exemplo da 1a fig Todo o homem merece afeição Ora o teu inimigo é homem Logo o teu inimigo merece afeição Exemplo da 2a fig Todo o homem é animal Ora todo o animal é substância Logo alguma substância é homem Exemplo da 3a fig Toda a planta não é animal Ora todo o homem é animal Logo todo o homem não é planta Exemplo da 4a fig Todo o homem é racional Ora algum homem é ignorante Logo algum ignorante é racional A primeira figura é a mais perfeita porque de uma maneira evi dente representa o organismo do silogismo1 1 Como a segunda figura é apenas um modo indireto da primeira as figuras podem reduzirse a três conforme o termo médio ou é uma vez sujeito e uma vez predicado ou é duas vezes predicado ou é duas vezes sujeito Todavia a pri meira figura pode desdobrarse e constituir uma dúplice figura conforme o lugar que o médio ocupa nas premissas e assim temos a primeira figura direta e indireta direta se o médio é sujeito da premissa maior e predicado da menor indireta se o médio é predicado da premissa maior e sujeito da menor A primeira figura é a mais perfeita porque nessa figura o termo médio é verdadeiramente médio enquanto sendo sujeito e predicado participa da natureza dos dois extremos que são o sujei to e o predicado da conclusão Mas a primeira figura direta é mais perfeita que a primeira indireta não só porque na direta os termos ocupam na conclusão o lugar de sujeito e de predicado que ocuparam nas premissas mas também porque a direta exprime natural e completamente o organismo e a índole do silogismo ao passo que a indireta segue um processo contorto e violento nem mostra claramente o fundamento em que o silogismo se baseia Menos perfeita é a figura em que o médio é predicado em ambas as premissas porque então o médio não é verdadei ramente médio entre o sujeito e o predicado da conclusão Todavia essa figura em que o médio é predicado em ambas as premissas é mais perfeita que a última em que o médio é sujeito em ambas as premissas pois é mais nobre o predicado que o sujeito S Th Op 48 tr 8 c 4 As três últimas figuras podem facilmente reduzirse à primeira O seguinte silogismo da primeira figura indireta todo o homem é animal ora todo o animal é 118 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 90 Princípios das figuras Cada uma dessas figuras tem seus princípios próprios A primeira e a segunda figura fundamse nos dois princípios em que se funda o silogismo e que como dissemos são uma derivação dos princípios de conveniência e de desconveniência A terceira figura deve exprimir o seguinte princípio Duas coisas uma das quais não está contida no gênero em que está contida a outra diferem entre si A quarta figura baseiase n axioma Se alguns sujeitos subordinados a um gênero pertencem também a outro gênero esses dois gêneros têm em comum alguns sujeitos1 91 Leis das figuras Cada figura tem as suas leis próprias que são diferentes aplicações das oito regras do silogismo simples e que por isso não se podem violar sem que ao mesmo tempo sejam violadas essas regras As leis das figuras são seis uma para a primeira figura três para a segunda uma para a terceira e uma para a quarta São significadas nos seguintes versos Para a 1a figura I Sit minor affirmans maior vero generalis Para a 2ª figura II Maior ubi affirmat generalis tum minor esto III Si minor affirmat conclusio sit specialis IV Si negat haec maior generalis postulat esse Para a 3a figura V Una negans esto nec maior sit specialis Para a 4a figura VI Sit minor affirmans conclusio particularis substância logo alguma substância é homem pode reduzirse à primeira figura direta dizendo todo o animal é substância ora todo homem é animal logo todo homem é substância Assim esse silogismo da segunda ou terceira figura todo o bruto não é racional ora todo o homem é racional logo todo o homem não é bruto reduzse à primeira direta dizendo todo o racional não é bruto ora todo o homem é racional logo todo o homem não é bruto Como também o seguinte silogismo da terceira ou quarta figura todo o homem é racional ora algum homem é ímpio logo algum ímpio é racional reduzse à primeira direta dizendo todo o homem é racional ora algum ímpio é homem logo algum ímpio é racional Repetimos que se a primeira figura se desdobra temos quatro figuras e que se não se desdobra só temos três 1 Mas reconhecese facilmente que os princípios ou axiomas que regem a terceira e a quarta figura são apenas diversos aspectos dos princípios em que se fundam a primeira e a segunda figura 119 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Lei I A menor seja afirmativa a maior universal a A menor seja afirmativa Por quanto se a premissa menor é negativa também negativa há de ser a conclusão Regra vii do Sil Se a conclusão é negativa o seu predicado é universal Se o predicado é universal na conclusão deve ser universal também na premissa maior Regra ii do Sil Se o predicado da premissa maior é universal a pró pria premissa é negativa Se a premissa maior é também negativa não pode haver conclusão Regra v do Sil Logo a premissa menor deve ser afirmativa Assim é falso o seguinte silogismo Todo o homem é vivente Ora nenhuma planta é homem Logo nenhuma planta é vivente b A maior seja universal Na verdade se a premissa maior fosse particular o termo médio seria particular Tanto na maior porque sujeito de uma proposição particular como na menor porque predicado de uma proposição afirmativa o que se opõem à Regra iv do Silogismo Assim é falso o seguinte Algum corpo é vivente Ora a pedra é um corpo Logo a pedra é vivente Lei II Se a maior é afirmativa a menor deve ser universal Na verdade se a maior é afirmativa o termo médio que é predicado é par ticular Por isso o médio deve ser universal na menor Regra iv do Sil e a mesma menor deve ser universal porque o médio ocupa o lugar de sujeito Peca contra esta regra o seguinte Todo o animal é vivente Ora algum vivente é planta Logo alguma planta é animal Lei III Se a menor é afirmativa a conclusão deve ser particular Com efeito se a premissa menor é afirmativa o extremo menor que é predicado dessa premissa é particular e por isso quando entra na 120 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA conclusão como sujeito deve ser também particular e assim a conclusão é necessariamente particular É pois legítimo o seguinte Nenhum homem é bruto Ora todo o bruto é sensitivo Logo algum sensitivo não é homem Lei IV Se a conclusão é negativa a maior deve ser universal Porquanto se a conclusão é negativa o seu predicado é universal na premissa maior da qual é sujeito e por isso a premissa maior deve ser universal porque universal é a proposição cujo sujeito é universal É pois legítimo o seguinte Toda a planta é vivente Ora nenhum vivente é pedra Logo nenhuma pedra é planta Lei V Uma das premissas seja negativa a maior seja universal a Uma das premissas seja negativa Na verdade se ambas as pre missas são afirmativas o termo médio que é sempre predicado é sempre particular porque particular é o predicado da proposição afirmativa e faltase contra a IV Regra do Sil Por isso é falso o seguinte O homem é animal Ora o cão é animal Logo o cão é homem b A maior seja universal Um termo que é ao mesmo tempo predicado na conclusão e sujeito na maior não pode ser menos extenso na maior do que na conclusão Regra ii do Sil Mas na conclusão esse termo é universal porque predicado de uma proposição negativa Logo deve ser também universal na maior Ora o sujeito universal torna universal a proposição Logo a maior deve ser universal Algum vivente é homem Ora nenhuma planta é homem Logo nenhuma planta é vivente 121 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Lei VI A menor seja afirmativa a conclusão particular a A menor seja afirmativa Se a menor é negativa também a con clusão há de ser negativa e o predicado da mesma conclusão é universal Sendo universal na conclusão o predicado há de ser universal também na premissa maior Se o predicado é universal na maior esta é negativa porque só na proposição negativa o predicado é tomado universalmente Mas de duas premissas negativas não pode deduzirse a conclusão Logo a premissa menor deve ser afirmativa É falso pois o seguinte Todo o animal é substância Ora nenhum animal é planta Logo nenhuma planta é substância b A conclusão seja particular Se a conclusão fosse universal o seu sujeito havia de ser universal Mas como o sujeito da conclusão é também o predicado da menor o predicado da menor devia ser universal Ora o predicado da menor não pode ser universal porque é predicado de uma proposição afirmativa mas deve ser particular Portanto a conclusão deve ser particular É falso pois o seguinte Nenhum bruto é planta Ora todo o bruto é vivente Logo todo o vivente não é planta 92 Modo Modo é a diversa disposição das premissas conside radas na sua quantidade e qualidade 93 Número dos modos Sendo o modo a diversa disposição das premissas consideradas na sua quantidade e qualidade é claro que serão tantos os modos quantas forem as possíveis disposições das premissas assim consideradas Ora as premissas consideradas na sua quantidade e qualidade podem ter em cada figura 16 diversas dispo sições e como as figuras são quatro seguese que todos os modos do silogismo se reduzem a 64 94 Número dos modos legítimos Nem todos os 64 modos são legítimos Porquanto se excluirmos os que são abertamente con trários às Regras vi e vii do Silogismo ficam apenas 36 9 em cada figura E se esses 36 modos se considerarem em ordem à conclusão que deve 122 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ser deduzida em conformidade não só das regras comuns do Silogismo mas também das leis próprias de cada figura veremos que os modos legítimos se reduzem a 191 1 Apresentamos o esquema a das diversas disposições das premissas consideradas na sua quantidade e qualidade recordando que a letra A exprime a premissa universalafirmativa E a universalnegativa I a particularafirmativa O a particularnegativa a AA EA IA OA AE EE IE OE AI EI II OI AO EO IO OO Cada figura pois tem 16 modos E como as figuras são quatro todos os modos são 64 Mas nem todos esses modos são legítimos pois alguns EE EO II IO OE OI OO pecam contra a regra Va ou a VIIIa E assim ficam 9 modos úteis em cada figura que são os seguintes b AA EA IA OA AE IE AI EI AO Mas estes 9 modos ficam ainda mais reduzidos se se avaliarem não só pelas regras comuns a todos os silogismos mas também pelas leis próprias de cada figura Assim Na 1a Figura os modos AE AO IA IE OA não concluem legitimamente porque pecam contra alei dessa figura que é a menor seja afirmativa a maior universal Por isso temos quatro modos úteis que são c AA Cuja conclusão é A AI Cuja conclusão é I EA Cuja conclusão é E EI Cuja conclusão é O Na 2a Figura os modos AI AO IE OA são ilegítimos porque os dois primeiros pecam contra a lei se a maior é afirmativa a menor deve ser universal e os outros dois pecam contra a lei Se a conclusão é negativa a maior deve ser universal 123 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Assim ficam cinco modos legítimos que são d AA Cuja conclusão é I AE Cuja conclusão é E EA Cuja conclusão é O EI Cuja conclusão é O IA Cuja conclusão é I Na 3a Figura os modos AA AI IA IE OA são ilegítimos porque pecam contra a lei própria desta figura uma premissa seja negativa a maior universal Assim ficam quatro modos legítimos que são e AE Cuja conclusão é E AO Cuja conclusão é O EA Cuja conclusão é E EI Cuja conclusão é O Na 4a Figura os modos AE AO IE são ilegítimos porque pecam contra a regra desta figura que diz a menor deve ser afirmativa Assim os modos legítimos são seis a saber f AA Cuja conclusão é I AI Cuja conclusão é I EA Cuja conclusão é O EI Cuja conclusão é O IA Cuja conclusão é I OA Cuja conclusão é O Sendo pois quatro os modos legítimos na primeira figura cinco na segunda quatro na terceira seis na quarta é claro que os modos úteis são ao todo dezenove Os modos mais perfeitos são os da primeira figura pois manifestam evidente mente a necessidade da conclusão Estes 19 modos legítimos são indicados pelos seguintes versos que embora bárbaros na aparência são contudo construídos com grandíssima arte porque as três primeiras vogais de cada palavra significam a qualidade e a quantidade das premissas e da conclusão e as consoantes servem para o fim que mais adiante veremos Lembramos que A significa a proposição universalafirmativa E denota a universalnegativa I significa a proposição particularafirmativa O denota a particularnegativa 1a figura Barbara Celarent Darii Ferio 2a figura Baralip tou Camentes Dimatis Fresapno Fresisom orum 124 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 3a figura Cesare Camestres Festino Baroco 4a figura Darapti Felapton Disamis Datisi Bocardo Ferison Os modos úteis ou legítimos dividemse em perfeitos e imperfeitos São per feitos quando a conclusão clara e diretamente deriva das premissas São imperfeitos quando a conclusão só indireta e escuramente deriva das premissas Perfeitos são os quatro modos da 1a figura que de uma maneira imediata mostram a própria força da conclusão Imperfeitos são todos os outros quinze nos quais a necessidade da conclu são não se infere unicamente da posição das premissas mas deve ser demonstrada por outro meio Demonstrase pela redução e pela dedução ao impossível Redução é a revocação de um modo imperfeito a um modo perfeito pela con versão das proposições e às vezes pela transposição das premissas Para que a re dução se faça legitimamente é preciso considerar três coisas 1a qual é o modo perfeito ao qual deve reduzirse um modo imperfeito 2a quais as proposições que se hão de sujeitar à conversão e porque forma 3a quando deve ter lugar a transposição das premissas Ora essas três coisas são indicadas pelas consoantes das palavras que exprimem os modos As letras b c d f porque começam as palavras significam que um determinado modo imperfeito se deve reduzir àquele dos quatro modos perfeitos que começa pela mesma letra Assim Baralip reduzse à Barbara Cesare à Celarent Dalapti à Darii Festino à Ferio As letras s e p que se acham no meio das palavras indicam as proposições que devem converterse e a forma da conversão Assim a letra s diz que a proposição significada pela vogal antecedente deve estar sujeita à conversão simples isto é mudando o predicado em sujeito mas conservando a quantidade A letra p significa que a proposição indicada pela vogal antecedente deve estar sujeita à conversão per accidens ou acidental mudando o predicado em sujeito e alterando a quantidade A letra m seja qual for o seu lugar indica a transposição das premissas de modo que a menor se torne maior e vicever sa O que levamos dito vêse no seguinte silogismo em Camestres todo o homem é racional ora nenhum cão é racional logo nenhum cão é homem A letra c que é inicial em Camestres indica que esse modo imperfeito se deve reduzir ao modo perfeito que começa pela mesma letra c e que é Celarent A letra m que na palavra Camestres segue a primeira vogal indica que as premissas se devem mudar A letra s que vem depois da segunda e terceira vogal significa que a premissa menor e a conclusão se devem sujeitar à conversão simples Se tudo isto se fizer aquele silogismo imperfeito em Camestres reduzse ao seguinte perfeito em Celarent nenhum racional é cão ora todo o homem é racional logo nenhum homem é cão Feita a redução vêse cla ramente a necessidade da conclusão Essa redução é possível em todos os modos imperfeitos à exceção de dois de Baroco e Bocardo A dedução ao impossível consiste em obrigar o adversário que nega a con seqüência depois de ter aceitado as premissas a admitir o impossível e o absurdo a verdade de duas contraditórias Fazse a dedução do modo seguinte Tomase a contraditória da conclusão negada comparase com uma das premissas e formase um silogismo perfeito cuja conclusão é contraditória da outra premissa admitida Assim o adversário deve admitir a verdade de duas contraditórias Seja o seguinte 125 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO V Silogismo composto e sua divisão 95 Silogismo composto Silogismo composto é como dissemos o que contém nas premissas alguma proposição composta ou é formado de silogismos simples silogismo em Bocardo algum animal não é racional ora todo o animal é sensitivo logo algum sensitivo não é racional Se alguém concede as premissas mas nega a conclusão admite que é verdadeira a seguinte proposição contraditória da conclusão negada todo o sensitivo é racional Formase então o seguinte silogismo todo o sensitivo é racional ora todo o animal é sensitivo logo todo o animal é racional Portanto quem concede as premissas do primeiro silogismo mas nega a conclusão deve admitir a verdade dessas duas contraditórias algum animal não é racional todo o animal é racional Essa prova de legitimidade vale para todos os modos imperfeitos sem exceção Agora vêse melhor a arte com que foram compostas essas palavras que exprimem os modos do silogismo E todavia não há hoje um estudante que não saiba rirse de um Barbara ou de um Baroco mas não há ninguém que não incline a cabeça diante de um x ou de um y Gratry Como a proposição simples o silogismo simples dividese em absoluto e modal É absoluto quando as duas premissas são proposições absolutas é modal quando pelo menos uma das premissas é proposição modal Digamos alguma coisa acerca do silogismo modal porque ao absoluto deve aplicarse tudo o que convém ao simples O silogismo modal é tríplice modal necessário modalimpossível e modal possível ou contingente É modal necessário quando uma ou ambas as premissas são proposições modaisnecessárias como é necessário que a criatura seja limitada ora é necessário que todo o homem seja criatura logo é necessário que todo o homem seja limitado É modalimpossível quando uma premissa é modalimpossível como é impossível que as almas humanas sejam materiais ora a alma de Pedro é humana logo é impossível que a alma de Pedro seja material Dizemos uma só porque se ambas as premissas foram proposições modaisimpossíveis o silogismo não poderia ter conclusão sendo ne gativa a proposição modalimpossível Regra vi do Sil É modalpossível ou contingente quando uma ou ambas as premissas são proposições modaiscontingentes ou possíveis como é possível que todo o homem seja branco ora é possível que todo o homem seja músico logo é possível que o músico seja branco Como um juízo exato acerca do silogismo modal é muitas vezes difícil sobretudo porque a índole da conclusão depende geralmente da índole da matéria exposta por isso para o processo se tornar mais simples e seguro convém reduzir o silogismo modal ao absoluto Assim este silo gismo modalnecessário é necessário que toda a substância extensa seja corpo ora é necessário que toda a pedra seja substância extensa logo é necessário que toda a pedra seja corpo reduzse ao seguinte absoluto em Barbara toda a substância extensa é necessariamente corpo ora toda a pedra é necessariamente substância extensa logo toda a pedra é necessariamente corpo 126 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 96 Divisão do silogismo composto Se as premissas contém alguma proposição composta o silogismo composto pode ser copulativo causal condicional disjuntivo e adversativo Se é formado de silogismos simples o silogismo composto é ou dilema ou sorites ou polisilogismo 97 Silogismo copulativo Silogismo copulativo é o que encerra uma ou ambas as premissas copulativas Exemplo Todos os animais são sensitivos Ora o cão e a lebre e o coelho são animais Logo o cão e a lebre e o coelho são sensitivos O silogismo copulativo resolvese em silogismos simples e depois esses avaliamse pelo critério comum1 98 Silogismo causal Silogismo causal chamado também epicherema é o que tem alguma proposição causal Exemplo Todo o espírito é imortal Ora a alma humana é espírito porque é independente da matéria Logo a alma humana é imortal Na apreciação desse silogismo a razão aduzida avaliase separa damente das proposições2 99 Silogismo condicional Silogismo condicional é aquele em que a premissa maior é uma proposição condicional Conclui de dois modos 1o afirmando a condição na menor e o condicionado na conclusão exemplo Se é homem é animal ora é homem logo é animal 1 Nem sempre o silogismo copulativo pode resolverse nos silogismos sim ples como no seguinte exemplo quem cumpre e ensina a lei divina é grande no reino dos céus ora Pedro ensina a lei divina logo é grande no reino dos céus A razão é porque o predicado grande no reino dos céus compete a quem cumpre e ensina a lei e não a quem se limita a ensinála 2 A parte causal não se refere propriamente à forma do silogismo mas apenas à proposição E pode haver silogismos legítimos na forma e verdadeiros na matéria que tenham uma razão falsa como no seguinte exemplo todo o espírito é imortal ora a alma humana é espírito porque é simples logo a alma humana é imortal A razão porque a nossa alma é espírito não é a sua simplicidade também a alma dos brutos é simples mas é a sua independência da matéria 127 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 2o negando o condicional na menor e a condição exemplo Se é homem é animal ora não é animal logo não é homem1 100 Silogismo disjuntivo Silogismo disjuntivo é aquele em que a premissa maior é uma proposição disjuntiva Conclui de dois modos 1o afirmando uma parte da disjunção na menor e negando todas as outras na conclusão exemplo Este corpo vivo é ou homem ou bruto ou planta ora é homem logo não é bruto nem planta 2o negando na menor todas as partes menos uma que se afirma na conclusão exemplo Este corpo vivo é ou homem ou bruto ou planta ora não é bruto nem planta logo é homem2 1 Dizemos que o silogismo condicional conclui de dois modos Na verdade afirmando a condição na menor podemos afirmar o condicionado na conclusão porque estando o condicionado contido na condição é claro que admitida esta deve admitir se aquele Como também negando o condicionado na smenor devemos negar a condi ção na conclusão pois estando o condicionado contido na condição é evidente que não se verificando aquele deve concluirse que se não verificou essa Mas o silogismo seria ilegítimo 1o se afirmando o condicionado afirmasse também a condição pois o condicionado não contém a condição assim seria falso o seguinte silogismo se é homem é animal mas é animal logo é homem visto que o animal não contém o homem e por isso um ente pode ser animal sem ser homem 2o se negando a condição da menor negasse o condicionado na conclusão pois o condicionado pode ser verdadeiro independentemente da condição pois isso é falso o seguinte silogismo se é homem é animal mas não é homem logo não é animal Todavia se prescindirmos da forma lógica do silogismo condicional e só con siderarmos a matéria podemos às vezes deduzir da afirmação do condicionado a afir mação da condição e da negação da condição a negação do condicionado Isso acontece ou quando a condição se identifica com o condicionado como neste exemplo se é homem é animal racional mas é animal racional logo é homem ou quando a condição é a razão única e exclusiva do condicionado como neste exemplo se é homem tem a faculdade de rir ora não é homem logo não tem a faculdade de rir O silogismo condicional reduzse facilmente ao simples prepondo à propo sição menor e à conclusão do silogismo condicional uma proposição maior que tenha por sujeito o predicado da condição tomado universalmente e por predicado o predi cado do condicionado Assim este silogismo condicional se Pedro é homem Pedro é racional ora Pedro é homem logo Pedro é racional reduzse ao seguinte simples todo o homem é racional ora Pedro é homem logo Pedro é racional 2 Para que a conclusão seja legítima a premissa deve conter uma verdadeira disjunção isto é as partes da premissa devem excluirse mutuamente de modo que se uma é verdadeira a outra deve ser falsa e viceversa Assim não seria legítimo este silogismo Lucas ou é escritor ou é pintor mas é escritor logo não é pintor porque a qualidade de escritor e a de pintor não se excluem mutuamente 128 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 101 Silogismo adversativo Silogismo adversativo é o que contém alguma proposição adversativa Exemplo Todo o bruto é sensitivo mas não é racional Ora o cordeiro é bruto Logo o cordeiro é sensitivo mas não é racional Também esse silogismo se avalia pelas regras comuns1 102 Dilema Dilema é um silogismo cuja premissa maior é uma proposição disjuntiva composta de duas partes ordenadas de forma que admitida qualquer delas se conclui sempre contra o adversário É célebre o dilema de Tertuliano demonstrando a injustiça da lei promulgada por Trajano o qual ordenara que os cristãos não fossem inquiridos mas que fossem condenados se alguém os denunciasse Os cristãos ou são réus ou inocentes Se são réus porque proíbes que sejam inquiridos Se são inocentes porque os condenas quando denunciados O dilema deve satisfazer às três condições seguintes 1a a disjun ção deve ser completa 2a o nexo entre a conclusão e as partes da disjunção deve ser necessário 3a deve ser impossível a retorção de modo que não possa tirarse uma segunda conclusão inteiramente oposta à primeira2 1 Ao silogismo composto pertencem o silogismo relativo e o exponível É re lativo quando a premissa maior é uma proposição relativa como a nossa alma vale tanto quanto vale Deus ora Deus vale infinitamente logo a nossa alma humana é infinito E exponível quando uma ou ambas as premissas são proposições ex poníveis como o bruto só possui a vida sensitiva ora o homem possui também a vida intelectual logo o homem não é bruto Para se conhecer a legitimidade da conclusão resolvese proposição exponível e formase o seguinte silogismo o bruto possui a vida sensitiva mas não a intelectual ora o homem possui também a vida intelectual logo o homem não é bruto 2 Se os membros da proposição disjuntiva são três ou quatro etc esse si logismo chamase trilema quadrilema etc Como se vê o dilema 1o encerra explícita ou implicitamente quatro proposições a primeira é disjuntiva a segunda é uma condicionalcausal porque é constituída pela primeira parte da disjunção e dela conclui contra o adversário dando a razão da conclusão a terceira também é con dicionalcausal e com a segunda parte da disjunção impugna o adversário a quarta 129 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 103 Sorites Sorites é um silogismo formado de várias proposi ções dispostas de modo que o predicado da primeira é o sujeito da segunda o predicado da segunda é o sujeito da terceira e assim por diante até se chegar à conclusão formada do sujeito da primeira e do predicado da última Exemplo A alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas O ser capaz de formar idéias abstratas é espiritual O ser espiritual é incorruptível O ser incorruptível é naturalmente imortal Logo a alma humana é naturalmente imortal O sorites resolvese em tantos silogismos simples da primeira figura quantas são as proposições menos duas ou quantos são os termos médios Assim o sorites proposto resolvese nos três seguintes silogismos O ser capaz de formar idéias abstratas é espiritual Ora a alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas afirma categoricamente do todo o que de um modo hipotético foi afirmado das partes assim a conclusão do citado dilema de Tertuliano é a seguinte logo a lei por ti promulgada é sempre e em todo o caso injusta 2o contém em si dois entimemas como demonstra o exemplo dado 3o difere do silogismo disjuntivo porque esse admitida uma parte exclui a outra e viceversa ao passo que o dilema deduz de cada uma das partes a mesma verdade contra o adversário Mas para que o dilema conclua eficazmente devem observarse as três con dições enumeradas no texto 1a A disjunção deve ser completa aliás o adversário encontrará uma porta de evasão Assim é ilegítimo o dilema de Cícero De Sen XIX quando querendo demonstrar que não devemos ter medo da morte disse que a nossa alma ou será eternamente feliz ou será mortal e não se lembrou de que a nossa alma pode ser também eternamente infeliz 2a O nexo entre a con clusão e as partes da disjunção deve ser necessário aliás o adversário tirarseá de todo o embaraço negando a necessidade da conclusão Assim vicioso é o argumento de um filósofo quando querendo convencer um dos seus discípulos de que não devia aceitar um emprego público disselhe Ou tu cumprirás com os teus deveres ou não no primeiro caso desagradarás aos homens no segundo a Deus Como vicio sa é a resposta do discípulo no primeiro caso agradarei a Deus no segundo aos homens Porquanto falta o nexo necessário entre a boa administração e o desagrado dos homens como não tem igual importância o desagrado de Deus e o desagrado dos homens 3a Deve ser impossível a retorção pois é pouco honroso ser ferido pelas próprias armas Falta também a essa condição o dilema do tal filósofo que queria levar o discípulo a não aceitar cargos públicos 130 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Logo a alma humana é espiritual O ser espiritual é incorruptível Ora a alma humana é um ser espiritual Logo a alma humana é incorruptível O ser incorruptível é naturalmente imortal Ora a alma humana é um ser incorruptível Logo a alma humana é naturalmente imortal1 Para a verdade do sorites é necessário 1o que não haja termos equívocos 2o que todas as proposições sejam absolutamente verdadeiras e que uma derive necessariamente da outra 3o que todas as proposi ções sejam universais só a primeira pode ser particular e afirmativa só a penúltima pode ser negativa2 1 Portanto 1o no sorites o primeiro lugar é ocupado pela premissa menor do primeiro silogismo o segundo pela premissa maior do mesmo silogismo o ter ceiro o quarto etc pela premissa maior dos silogismos seguintes 2o no sorites encontramse as premissas maiores de todos os silogismos em que se resolve as premissas menores omitemse à excepção da menor do primeiro silogismo como também se omitem as conclusões à exceção da conclusão do último silogismo 3o os sujeitos de todas as premissas à exceção do sujeito da primeira fazem o ofício de termo médio nos silogismos que o sorites contém 2 O sorites fundase no seguinte princípio quando um atributo se une com um su jeito tudo o que convém ao atributo convém também ao sujeito Assim no exemplo citado afirmandose que a alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas tudo o que convém a esse ser convém também à nossa alma Ora a um ser capaz de formar idéias abstratas convém a espiritualidade a incorruptibilidade e a imortalidade Logo essas prerrogativas devem também convir e convêm à alma humana Notese que os silo gismos simples em que se resolveu o citado sorites são três quantas são as proposições menos duas ou quantos são os termos médios que no exemplo citado são ser capaz de formar idéias abstratas ser espiritual ser incorruptível Mas para que o sorites seja uma forma legítima de argumentação deve satisfa zer às condições apontadas no texto Antes de tudo é necessário que se não intro duza nenhum termo equívoco porque sendo esse termo equivalente a dois termos já não pode subsistir a estrutura do silogismo Além disso todas as proposições devem ser absolutamente verdadeiras e ligadas entre si aliás sairão as conclusões mais desar razoadas que se podem imaginar como neste exemplo quem bebe muito dorme bem quem dorme bem não peca quem não peca é santo logo quem bebe muito é santo Mais todas as proposições sejam universais excetuada a primeira que pode ser particular A razão é porque todas as premissas do sorites à exceção da primeira re presentam as premissas maiores dos silogismos da primeira figura nos quais o próprio 131 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 104 Polisilogismo Polisilogismo é uma argumentação formada de vários silogismos dispostos de modo que a conclusão do primeiro é premissa do segundo e assim por diante Exemplo Tudo o que é independente da matéria é espiritual Ora a alma humana é independente da matéria Logo a alma humana é espiritual Ora a que é espiritual é imortal Logo a alma humana é imortal ARTIGO VI Indução e suas espécies 105 Indução Indução é uma argumentação em que se atribui a um sujeito universal ou geral um predicado que pela experiência conhecemos convir aos seres particulares contidos na extensão daquele sujeito Exemplo O cão o cordeiro o leão são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo todos os brutos são sensitivos sorites se resolve ora na primeira figura a maior deve ser universal Mas se a primeira premissa é particular não há infração de nenhuma regra porque essa premissa na resolução ocupa o lugar da menor e só exige que também particular seja a conclusão Finalmente todas as proposições sejam afirmativas Na verdade se todas fossem nega tivas resolverseia o sorites em silogismos compostos exclusivamente de proposições negativas e não haveria conclusão alguma Se fosse negativa a primeira como essa na resolução constitui a menor do primeiro silogismo teríamos um silogismo da primeira figura com a menor negativa o que é contrário à lei dessa figura Se fosse negativa qual quer outra premissa teríamos na resolução uma conclusão também negativa e como esta seria a menor de um outro silogismo haveria também a infração da mesma lei da primeira figura Mas se a penúltima proposição for negativa não deriva daí incon veniente algum contanto que seja negativa também a conclusão É muito perigosa essa espécie de argumentação que para Tracy todavia é a mais simples e genuína porque a rápida sucessão das proposições não deixa à inteligência o tempo necessário para refletir e para ver onde pode esconderse o sofisma Por isso se o adversário recorre ao sorites é necessário resolvêlo em silogismos simples conforme o conselho do Cícero Vitiosi sunt sorites frangile igitur eos si potestis ne molesti sint Acad l II 132 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 106 Divisão da indução A indução dividese em completa e incompleta É completa quando atribuímos ao todo um predicado que conhecemos convir a cada uma das suas partes Esta espécie de indução não tem valor algum científico e por isso não nos ocupamos dela É incompleta quando atribuímos ao todo um predicado que conhecemos convir a algumas das suas partes Esta segunda espécie que é propria mente indução é um meio demonstrativo de novas verdades1 107 Legitimidade da indução incompleta A passagem que na indução incompleta se faz do particular para o geral não é arbitrária Porquanto averiguandose mediante repetidas experiências que uma propriedade ou operação deriva da essência de muitos indivíduos reta mente concluímos que a mesma propriedade ou operação deve encontrar se em todos os outros indivíduos dotados da mesma essência Assim tendo reconhecido que a extensão que se observa em muitos corpos é uma propriedade que deriva da essência deles com retidão concluímos que todos os corpos são extensos2 1 Alguns escritores afirmam que a indução incompleta era desconhecida pelos antigos e que foi levantada por Bacon no séc XVII Essa asserção é falsa É certo que Bacon ensinou a maneira de fazer uso útil e legítimo da indução por meio de algumas regras que ele coligiu e que nós indicaremos mais tarde Mas os filósofos antigos principalmente Aristóteles e os escolásticos da idade média sobretudo Santo Tomás de Aquino já conheciam a indução incompleta pois que falam com muita precisão e profundidade da sua natureza e vantagens e da experimentação em que se baseia a própria indução Se não empregam mais freqüentemente a indução a razão foi a falta dos instrumentos de observação muito necessários para evitar o erro nesse gênero de argumentação ou porque sendo quase todos eclesiásticos os estudiosos desses tempos preferiam a investigação do sobresensível à do sensível Alguns escritores dizem perfeita ou imperfeita a indução que nós chamamos completa ou incompleta Mas essa divisão em perfeita e imperfeita convém à indução incompleta conforme o número dos particulares enumerados é suficiente ou não para a conclusão A indução incompleta é perfeita quando leva à certeza de que ao todo convém um certo predicado embora esse predicado tenha sido observado num só particular e leva à certeza quando se conhece que o tal predicado deriva da própria natureza ou es sência do mesmo particular O valor lógico e demonstrativo da indução incompleta não depende como veremos do número ou da quantidade dos fenômenos mas da sua quali dade enquanto revelam a essência da qual derivam Cf S Thom in lib II Post lect XX 2 A indução é um verdadeiro raciocínio como o é o silogismo porque ambos esses processos passam do conhecido para o desconhecido baseiamse no mesmo princípio de identidade contém explícita ou implicitamente três proposições e têm o mesmo fim que é a certeza 133 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 108 Processo da indução incompleta São duas pois as principais operações que constituem a indução incompleta a Deve averiguarse pela experiência se o nexo entre um fato particular e a sua causa é essencial ou acidental1 Segundo Bacon Wolff Tiberghien J Stuart Mill e os positivistas as proposi ções gerais que são o resultado da indução não são certas mas somente prováveis Respondemos que para chegarem a essa conclusão era necessário que esses es critores demonstrassem que os seguintes juízos indutivos todo o corpo é extenso o homem cortada a cabeça não vive ao dia sucede sempre a noite não são certos mas somente prováveis Parecemnos pouco coerentes os positivistas que depois de ter elogiado tanto a indução como o único meio para alcançar a certeza acabam por dizer que os juízos indutivos são somente prováveis Para eles pois a indução é e não é um meio para aquisição da certeza 1 O meio de que a indução se serve para conhecer se um fato fenômeno ou propriedade não depende de circunstâncias acidentais mas deriva da própria essência de um certo e determinado ente é a experiência Digamos alguma coisa acerca da experiência e suas espécies A Experiência A experiência é um conhecimento adquirido por meio dos sentidos internos ou externos ou por meio da consciência Dividese em observação e experimentação a Observação Observação é a percepção de um fenômeno que se ofere ce aos nossos sentidos espontaneamente e sem a nossa cooperação Requisitos da observação Para a legitimidade da observação é necessário 1o que a percepção seja intensa perseverante e livre de todo o preconceito 2o que o fenômeno se considere no seu conjunto e em cada uma das suas partes e esse exame dê sempre o mesmo resultado 3o que se determinem todas as propriedades e circunstâncias especiais de um fenômeno e as condições em que se realiza b Experimentação Experimentação é a operação pela qual reproduzi mos um fenômeno com a nossa indústria e arte A natureza não apresenta sempre os fenômenos em tempo oportuno nem em circunstâncias sempre favoráveis Por isso é necessário quando for possível reproduzir artificialmente um fenô meno tantas vezes quantas são necessárias para se poder proceder a um exame minucioso e completo Regras da experimentação A experimentação é de grande utilidade para as ciências porque a ela se deve o conhecermos as propriedades e as causas de muitas coisas Mas para que seja seguro instrumento de verdade é necessário 1o variála com relação ao tempo ao lugar às circunstâncias para se conhecer se o fenômeno deriva da essência da coisa ou de alguma causa acidental e mudável 2o repetila para que se possa melhor averiguar o nexo entre o fato e a sua causa 3o transferila da natureza para a arte 134 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA b Se o nexo é essencial o fato deve elevarse à expressão de uma lei universal de modo que possa aplicarse a todos os fatos particulares em todos os tempos e em todos os lugares1 109 Princípio da indução incompleta Para que um fato particular possa elevarse a lei universal é necessário aplicarlhe um princípio analítico que lhe dê a própria universalidade doutro modo teríamos um efeito sem causa proporcionada Esse princípio analítico é o seguinte Uma propriedade que se encontra num ente e que deriva da sua essência deve encontrarse em todos os entes dotados da mesma essên cia Portanto o princípio da indução incompleta é uma aplicação do princípio de causalidade2 4o invertêla empregando um processo contrário 5o compulsála para que se possa determinar a intensidade do fenômeno e a eficácia da causa 6o aplicála a coisas diversas ou semelhantes 7o combinála unindo os vários elementos para conhecer se esses quando unidos produzem o fenômeno que produziam quando separados De resto não se perca de vista o seguinte critério Um fenômeno que não só aumenta e diminui quando aumenta e diminui uma causa mas que chega a apare cer e desaparecer quando ela aparece e desaparece é certamente efeito dessa causa 1 A indução científica pois não consiste na acumulação das experiências Uma experiência luminosa em que o espírito descubra claramente a relação entre um fenômeno e a sua causa vale mais do que mil experiências obscuras nem essas acrescentam força àquela A indução consiste em despir um fenômeno de todas as circunstâncias que o cercam considerálo na sua essência ou natureza e relacionálo com uma causa proporcionada Quando essa relação aparece não são necessárias ulteriores observações e experiências Podemos dizer que a indução é uma intuição do espírito que num fato singular e concreto descobre e põe em relevo uma relação universal Cl Bernard diz Fenômenos da vida Não é pela acumulação dos fatos que a ciência progride mas sim pela luz da idéia Agora mais claramente se vê o erro de Stuart Mill que para demonstrar que o silogismo é um círculo vicioso diz que a premissa maior do mesmo silogismo recebe a sua força da conclusão Por quanto essa premissa maior embora seja um juízo sintético e por isso resulte da indução contudo não recebe da conclusão a sua força pois o geral a que chega a indução não representa a soma de todos os particu lares Por isso o silogismo é sempre um meio de descobrir novas verdades mesmo quando a sua premissa maior é o resultado da indução 2 Como se vê o princípio em que se funda a indução equivale ao princí pio em que se funda o silogismo mas na ordem inversa O princípio do silogismo pode 135 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 110 Diferença entre o silogismo e a indução incompleta A diferença entre essas duas espécies de argumentos está em que o silogismo conclui do universal ou do geral para o particular ou do todo para a parte enquanto a indução incompleta conclui do particular para o geral ou da parte para o todo exprimirse do modo seguinte deve afirmarse ou negarse de todas as espécies de um gênero ou de todos os indivíduos de uma espécie o que se afirmou ou negou do mesmo gênero ou da mesma espécie O princípio da indução pode também formularse assim deve afir marse ou negarse de um gênero ou de uma espécie o que se afirmou ou negou de todas as espécies desse gênero ou de todos os indivíduos dessa espécie O princípio da indução como o do silogismo reduzse ao princípio de causalidade que é a mesma causa natural produz o mesmo efeito e portanto o mesmo efeito natural exige a e supõe a mesma causa Dizem alguns filósofos que o princípio da indução incompleta é o seguinte as leis da natureza são constantes Mas erram Porquanto esse juízo sendo sintético não é o princípio da indução mas sim é uma conseqüência dela Como sabemos nós que as leis da natureza são constantes Pela experiência Não basta A experiência poderá atestar que um fenômeno se repete uma duas três vezes do mesmo modo mas não atesta que se repete sempre e em toda a parte e do mesmo modo de forma que possa tirarse essa conclusão geral as leis da natureza são constantes É necessário pois basear a indução incompleta num juízo não sintético mas analítico que por ser absoluto tem a máxima generalidade J Stuart Mill Sistema da Lógica tendo dito que a marcha natural do espírito humano é inferir o particular de outro particular afirma que a indução é a generali zação da experiência e que o axioma que lhe serve de base é o seguinte o curso da natureza é uniforme Vejamos as contradições do escritor inglês Se o espírito humano só pode inferir o particular de outro particular como pode dizerse agora que ele passa do par ticular para o geral e que aplica a todos os casos o que se encontrou só em um Segundo Stuart Mill passamos do particular para o geral em virtude do axioma o curso da natureza é uniforme Bem Mas poderá um positivista sem se contradizer admitir a uniformidade do curso da natureza Mill só reconhece como certo o que lhe refere a experiência Ora a experiência poderá atestarlhe aquela uniformidade em algumas circunstâncias particulares mas nunca em todas as circunstâncias em todos os tempos e em todas as partes Por isso também o axioma o curso da natureza é uniforme é já um resultado da indução incompleta e supõem um outro princípio de que recebeu a generalização Esse outro princípio em última análise não pode ser por sua vez um juízo sintético porque reapareceria a dificuldade mas deve ser um juízo analítico Em suma o princípio da indução deve ser necessariamente um juízo analí tico Os positivistas ou admitem os juízos analíticos ou não Se os admitem contra dizemse porque o seu sistema só reconhece juízos sintéticos Se os não admitem então tiram toda a força e legitimidade à indução pois a reduzem a um sofisma qual é a passagem do particular para o geral sem um princípio que a justifique 136 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a No silogismo pois o sujeito da conclusão é uma parte e o termo médio é um todo Na indução o sujeito da conclusão é um todo e o termo médio é o complexo das partes que formam aquele todo b No silogismo a premissa maior afirma que o predicado da conclusão convém ao termo médio a premissa menor que o sujeito está contido no termo médio a conclusão que ao sujeito convém o predicado que foi atribuído ao termo médio Na indução a premissa maior afirma que o predicado da conclusão convém às partes que formam o termo médio a premissa menor que o complexo das partes constitui o todo a conclusão que ao todo convém o predicado atribuído às partes Daí se deduz a o termo que no silogismo é médio na indução é extremo menor e viceversa b a proposição que no silogismo é con clusão na indução é premissa maior e viceversa O que levamos dito melhor se vê nos seguintes exemplos Exemplo do silogismo Todos os brutos são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo o cão o cordeiro o leão são sensitivos Exemplo da indução O cão o cordeiro o leão são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo todos os brutos são sensitivos 111 Corolário Sendo a indução tão distinta e diversa do silo gismo é claro que aquela não pode reduzirse a este pois que a conclusão do silogismo é essencialmente uma proposição particular ao passo que a conclusão da indução é sempre uma proposição universal1 1 À indução reduzemse a analogia e a hipótese a Analogia Analogia é a argumentação pela qual se concede a um sujeito particular um predicado concedido já a um sujeito particular semelhante ao primeiro Exprimese do seguinte modo Causas semelhantes produzem efeitos semelhantes Mas A e B são causas semelhantes Logo A e B produzem efeitos semelhantes Ora a causa A produz o efeito C Logo a causa B deve produzir o efeito C a Relações entre a indução e a analogia 137 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO VII Sofisma e suas espécies 112 Sofisma Sofisma é uma argumentação que parece ver dadeira mas na realidade é falsa 1a Ambas partem do mesmo ponto o particular mas não chegam ao mesmo termo porque a indução chega ao geral ao passo que a analogia somente chega ao particular 2a Na indução atribuímos ao todo um predicado que necessariamente convém a cada uma das partes e é impossível o erro mas na analogia atribuímos a uma coisa um predicado pelo fato desse convir a uma outra coisa semelhante à primeira Por isso é fácil o erro na analogia porque o predicado pode convir a uma coisa em razão do elemento diferencial e próprio e não por causa do elemento genérico e comum b Vantagens da analogia São importantíssimas as vantagens que da analogia tiram as ciências naturais e principalmente aquelas artes que se fundam na imitação como são a eloqüência a poesia etc c Hipótese Hipótese é a argumentação pela qual se considera como ver dadeira uma proposição hipótese cuja verdade é desconhecida mas que explica claramente alguns fatos Convém cm a analogia enquanto ambas concluem do particular para o par ticular e os seus resultados não excedem os limites da probabilidade A hipótese é de grande utilidade sobretudo nas ciências experimentais e exprimese com a fórmula seguinte Se existisse a causa A darseiam os fatos b c d Ora os fatos b c d dãose realmente Logo a causa A pode existir Essa conclusão é somente provável Se porém forem examinadas todas as hipóteses possíveis e se provar que todas elas à exceção de uma são inadmissíveis então a excetuada é certa a Divisão da hipótese A hipótese é física moral e lógica 1o É física quando se emprega para explicar os fatos da natureza que de pendem imediatamente das leis físicas 2o É moral quando serve para explicar os fatos que dependem da liberdade dos seres inteligentes assim pelas ações externas dos homens conhecemos os seus sentimentos internos 3o É lógica quando na interpretação de palavras obscuras propomos uma opinião que nos parece conforme com o pensamento de quem falou b Requisitos da hipótese A hipótese 1o deve ser possível 2o nem em si nem nas suas deduções deve repugnar a algum fato certo 3o deve explicar todos os fatos para que se emprega 138 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 113 Divisão do sofisma O sofisma dividese em gramatical e lógico O gramatical consiste no abuso das palavras o lógico no abuso das idéias 114 Espécies de sofisma gramatical As principais espé cies do sofisma gramatical são a anfibologia a composição a divisão a extensão e a restrição a Anfibologia A anfibologia dáse quando uma palavra se toma em dois sentidos diversos assim o silogismo tem quatro termos Refutase distinguindo o sentido b Composição O sofisma de composição cometese quando a um sujeito se atribuem simultaneamente dois predicados que só lhe podem convir sucessivamente Se a proposição os cegos vêem se toma no sentido que os homens enquanto cegos vêm é um sofisma de composição c Divisão O sofisma de divisão cometese quando a um sujeito se atribuem sucessivamente dois predicados que só lhe podem competir simultaneamente Se esta proposição o homem que é facínora não pode alcançar glória se toma no sentido que um homem que é facínora nunca poderá alcançar a glória nem mesmo depois de deixar de ser facínora é um sofisma de divisão Esse sofisma também se refuta com uma distinção d Extensão É um sofisma de extensão quando de um sentido particular se passa para um sentido universal Exemplo Todo o sábio merece louvor Ora este ímpio é sábio Logo este ímpio merece louvor Refutase esse sofisma distinguindo a conclusão o ímpio merece louvor enquanto é sábio mas não em geral e Restrição O sofisma da restrição dáse quando de um sentido afirmativo se passa para um sentido exclusivo Exemplo Tu deves ser sábio Logo não deves cuidar da saúde Refutase distinguindo o antecedente tu deves ser sábio mas não deve ser somente sábio 139 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 115 Espécies de sofisma lógico As principais espécies do sofisma lógico são a ignorância do elenco a petição de princípio o círculo vicioso a nãocausa como causa o conseqüente a indução viciosa a enume ração imperfeita o acidente a Ignorância do elenco A ignorância do elenco cometese quando por ignorância ou malícia se desvia a questão do verdadeiro caminho Nesse caso avisese o adversário b Petição de princípio A petição de princípio dáse quando se supõe como certo o que se há de demonstrar Exemplo O que não morre é imortal Ora a alma humana não morre Logo a alma humana é imortal Este e os restantes sofismas refutamse denunciandoos c Círculo vicioso Cometese o círculo vicioso quando duas coisas se demonstram uma pela outra Assim é sofisma provar a imortalidade da nossa alma pela sua espiritualidade e a espiritualidade pela imortalidade d Nãocausa como causa Cometese esse sofisma quando se toma como causa de um efeito o que é apenas uma condição ou um antecedente ou conseqüente do mesmo efeito Exemplo O império romano caiu depois do Cristianismo Logo o Cristianismo foi a causa da queda do império romano e Conseqüente Este sofisma dáse quando pelo fato de um conseqüente se deduzir de um antecedente se julga que também este se possa deduzir daquele Assim posso dizer Pedro corre logo se move mas não Pedro se move logo corre f Indução viciosa A indução viciosa cometese quando se atribui a toda a espécie um predicado que acidentalmente se encontrou nalguns indivíduos da mesma espécie Exemplo Este médico é ignorante Logo todos os médicos são ignorantes 140 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA g Enumeração imperfeita A enumeração imperfeita dáse quando se atribui ao todo um predicado que é próprio somente de algumas partes enumeradas Exemplo Os europeus os americanos e os asiáticos são brancos Logo todos os homens são brancos h Acidente Cometese este sofisma quando se atribui a um sujeito como essencial um predicado que é somente acidental Exemplo Há abusos no ensino da filosofia Logo esse ensino deve eliminarse Seção Segunda Lógica material 116 Divisão da Lógica material Dividimos a Lógica material em três capítulos no primeiro tratamos da verdade no segundo dos meios para a aquisição da verdade no terceiro do método CAPÍTULO PRIMEIRO Verdade Sumário Verdade sua divisão e natureza Certeza sua divi são existência e propriedades A existência da certeza e o Ceticismo Supremo e universal motivo da certeza A certeza e a objetividade das idéias universais ARTIGO I Verdade sua divisão e natureza 117 Verdade Verdade é a conformidade entre a inteligência e o objeto O objeto da verdade pode ser uma coisa real ou ideal existente ou possível etc1 1 Veritas est adaequatio intellectus et rei eis a definição clássica da verdade dada pelos escolásticos ou melhor pelo senso comum Na opinião dos homens uma pessoa possui a verdade quando conhece um objeto como é em si mesmo quando o seu pensamento corresponde à realidade quando há conformidade entre o que a inteligência afirma do objeto e o que o objeto é em si mesmo Diz Santo Tomás Per conformitatem intellectus et rei veritas definitur Sum Th p 1 q 16 a 2 Dessa definição resulta que para a constituição da verdade concorrem como matéria remota dois termos real ou logicamente distintos que são a inteligência e o objeto como matéria próxima a espécie ou imagem intelectual representativa da essência ou dalgum atributo do objeto e a própria entidade do objeto percebida também pela inteligência mas de um modo confuso e indeterminado como forma a união intencional daquela imagem com a mesma entidade Essa união para a inteligência humana consiste na afirmação da conveniência objetiva da imagem ou forma com o objeto existente e é significada pela proposição em que unimos o predicado que 142 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA representa e exprime a forma ou natureza percebida com o sujeito que representa o objeto como é em si mesmo mas percebido de um modo confuso e indeterminado como quando dizemos Pedro é homem Por isso o sujeito e o predicado nas pro posições são conceitos objetivos enquanto denotam uma coisa e não meramente subjetivos isto é não são meras modificações da faculdade intelectual A adequação ou conformidade entre a inteligência e o objeto não é física ou entitativa porque nem a inteligência se torna o objeto nem esse se torna aquela mas é representativa ou intencional enquanto o pensamento corresponde à realidade isto é enquanto o ser ideal do objeto está conforme com o ser real dele Para haver essa conformidade não é necessário que a inteligência reproduza e represente todos os elementos que formam a compreensão do objeto conhecido basta que as propriedades do objeto que a inteligência representa se encontrem realmente no próprio objeto A conformidade não será perfeita não será plena mas será sempre verdadeira A conformidade completa a adequação no sentido rigoroso da palavra isto é conhecer um objeto tanto quanto é cognoscível é um dote só próprio da inteligência infinita de Deus Nem se oponha que se a nossa inteligência não conhece o objeto tanto quanto é cognoscível não podemos dizer que haja adequação entre a inteligência e o objeto Por quanto aquela adequação em que consiste a essência da verdade pode realizar se e realizase mesmo quando o pensamento representa um só atributo do objeto porque há então uma igualdade ou conformidade entre a inteligência e esse atributo conhecido Repetimos será uma conformidade ou igualdade incompleta com relação a todos os atributos a toda a compreensão desse objeto mas é uma conformidade ou igualdade completa com relação à existência desse atributo conhecido Assim quando dizemos o homem é racional ainda que ignoremos os outros atributos do homem e a própria essência da racionalidade contudo há uma igualdade entre o nosso pensamento e o homem porque afirmamos que o homem é dotado de razão e efetivamente no homem existe essa faculdade Os escolásticos inculcam essa doutrina dizendo que o pensamento para ser verdadeiro deve conformarse com o objeto formal e não com o material entendendo por objeto material a coisa inteira com todos os seus elementos e por objeto formal a parte o elemento o aspecto sob o qual a coisa se apreende Kant e em geral os subjetivistas não admitem que a verdade consiste na conformidade entre a inteligência e o objeto quando esse objeto é uma coisa real ou objetiva porque dizem a realidade é inacessível à nossa inteligência Por isso alguns escritores rejeitam a clássica definição da verdade proposta pelos escolásticos Le Roy um dos chefes do modernismo diz A grande divergência entre os escolásticos e nós fundase na própria noção de verdade Dogme et critique p 355 Outros entre os quais Sentroul e alguns neoescolásticos de Louvain embora conservem a fórmula esco lástica da definição da verdade alteramlhe contudo o sentido dizendo que o objeto com que deve conformarse o pensamento nunca pode ser uma coisa real e objetiva porque não é possível uma comparação entre o pensamento e a realidade mas é apenas uma nota abstrata anteriormente conhecida um substituto mental de modo que nessa opinião a verdade se reduz a uma concordância de idéias entre si 143 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 118 Espécies de verdade A verdade pode ser lógica metafí sica e moral Verdade lógica é o conhecimento enquanto é conforme com o objeto conhecido Verdade metafísica é o próprio objeto enquanto corresponde ao conhecimento Verdade moral é o dis curso enquanto traduz a intenção de quem fala Na verdade lógica Crítica É certo que a definição de verdade dada pelos escolásticos supõe e exige o fato da conformidade do pensamento com a realidade e por isso supõe e exige que a nossa inteligência possa ter a intuição não só da sua imagem subjetiva mas também do objeto real como é em si mesmo Ora que a nossa inteligência possa atingir e atinja efetivamente o objeto real e externo e de um modo imediato é coisa certíssima Se não se admitir a essa intuição imediata da realidade a Meta física reduzirseá a uma ciência puramente ideal sem que haja a possibilidade de se encontrar um meio legítimo e racional que nos meta em comunicação com o mundo exterior Voltaremos ao assunto À verdade opõese o erro Diremos da sua natureza causas e remédios a Natureza do erro O erro consiste na desconformidade da inteligência com o objeto A desconformidade em que consiste o erro ou a falsidade por si importa uma contradição uma falta de concórdia da inteligência com o objeto enquanto a inteligência atribui a um objeto um predicado que lhe não convém ou negalhe um predicado que lhe convém Aquela desconformidade a qual consiste na falta de compreensão do objeto enquanto a inteligência não conhece o objeto tanto quanto ele é cognoscível se é uma falta de adequação absoluta não é uma falta de verdade não é um erro ou uma falsidade O juízo que traduz essa desconformidade ou discórdia da inteligência com o objeto é e dizse errôneo ou falso O erro pois não é uma verdade incompleta como afirmou Cousin mas é a privação da verdade Porque o erro opõese à verdade como a privação da forma se opõe à própria forma a privação não participa da forma excluia Assim quem diz a alma humana é mortal não diz uma verdade incompleta diz o contrário da verdade Por isso o erro é um juízo que afirma não ser o que é ou ser o que não é b Causas do erro Algumas são internas outras externas As causas internas são comuns e particulares As comuns derivam da natural propensão e facilidade que os homens têm de julgar conforme o visível sem se importar do invisível conforme a disposição da inteligência que nem sempre se regula com a devida prudência conforme os afetos do coração que pode rejeitar o que lhe é contrário As particulares derivam da condição e do temperamento dos indivíduos As causas externas são várias como a ignorância da Lógica a leitura de livros onde se ensina o erro ou a verdade não é claramente exposta nem vitoriosamente defendida c Remédios para o erro São muitos Os principais são o amor da verdade a pureza do coração o estudo acurado da Filosofia escolástica a dúvida prudente a oração assídua e fervorosa 144 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA é a inteligência que deve conformarse com o objeto na metafísica é o objeto que deve corresponder à idéia na moral é o discurso que deve exprimir o pensamento Ocupamonos agora da verdade lógica reservando para mais tarde o estudo da verdade metafísica e da moral1 119 Divisão da verdade lógica A verdade lógica é a subje tiva e objetiva b imediata e mediata c necessária e contingente d ideal e real e metafísica física e moral f direta e reflexa 1 A verdade lógica chamase também acidental a verdade ontológica denomi nase também essencial metafísica transcendental A verdade ontológica é o próprio objeto enquanto corresponde às idéias arquétipas da inteligência divina e é capaz de gerar um verdadeiro conhecimento de si mesmo na inteligência criada Nesse sentido todo o ente é verdadeiro porque todo o ente é conforme com as idéias divinas e é por nós cognoscível A verdade lógica denota a conformidade do nosso conhecimento com os objetos percebidos e dizse acidental porque tal conformidade não existe sempre no nosso pensamento Nesse sentido o nosso conhecimento é verdadeiro quando percebemos existir nas coisas o que realmente existe ou não existir nelas o que realmente não existe e é falso quando percebemos existir nas coisas o que realmente não existe ou não existir nelas e que realmente existe A verdade moral propriamente chamada veracidade consiste na conformidade do discurso com o pensamento e existe quando se diz o que se pensa quer esse pensamento seja verdadeiro quer seja falso A verdade ontológica das coisas naturais depende exclusivamente da inteligência divina porque as coisas dizemse verdadeiras enquanto correspondem às idéias divinas A verdade lógica da nossa inteligência depende das coisas e é causada por elas porque o nosso conhecimento é verdadeiro quando e porque se conforma com as coisas A verdade moral depende dos nossos pensamentos porque o nosso discurso é verdadeiro quando se conforma com os nossos pensamentos Cf S Th I Sent Dist 19 q 5 a 2 ad 2 De verit q 1 a 2 Portanto a verdade do discurso é causada pelo pensamento a verdade do pensamento pelas coisas a verdade das coisas pela inteligência divina Desse modo a inteligência divina é a razão suprema o fundamento último de toda a inteligibilidade e de toda verdade A verdade seja qual for a sua espécie reside própria e principalmente na inteli gência e dessa deriva para as coisas enquanto as coisas se referem isto é pelo fato de se referirem à mesma inteligência Por quanto a verdade consiste numa conformidade e por isso numa relação de semelhança da inteligência com a coisa Ora a relação de semelhança encontrase exclusivamente na inteligência porque nas coisas não pode encontrarse senão o fundamento e a causa dessa semelhança ou adequação Da inte ligência a verdade deriva para as coisas que por isso se dizem verdadeiras enquanto se referem à mesma inteligência como os alimentos se chamam sãos enquanto produzem ou conservam a sanidade no animal em que a sanidade propriamente se encontra Cf S Th loc cit 145 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a Verdade subjetiva e objetiva É subjetiva quando se con sidera como um produto da nossa inteligência e por isso dotada de pro priedades que lhe convém em virtude do princípio do qual deriva É objetiva quando se considera em ordem ao objeto que representa e por isso dotada de propriedades que convém ao próprio objeto b Verdade imediata e mediata É imediata quando é per cebida sem demonstração exemplo o todo excede uma das suas partes É mediata quando é deduzida de outras verdades pelo raciocínio exemplo a alma humana é uma substância espiritual c Verdade necessária e contingente É necessária quando exprime uma coisa que não pode deixar de ser o que é exemplo o homem é animal racional porque o homem não pode conceberse sem as notas de animalidade e de racionalidade É contingente quando exprime uma coisa que pode deixar de ser o que é exemplo o mundo existe d Verdade ideal e real É ideal quando exprime um juízo abstrato exemplo se a pedra sentisse teria alma É real quando exprime uma coisa existe na realidade independentemente do nosso pensamento exemplo o homem é livre e Verdade metafísica física e moral É metafísica quando exprime um juízo de ordem metafísica exemplo todo o efeito exige uma causa É física quando exprime um juízo de ordem física exemplo o fogo queima É moral quando exprime um juízo de ordem moral exemplo o filho respeita seus pais f Verdade direta e reflexa A direta é a que contém um juízo direto e por isso exprime um objeto como é em si mesmo isto é afirma que um objeto é tal em si mesmo qual é percebido pela inteligência exemplo o homem é capaz de sabedoria A reflexa é a que contém um juízo reflexo e para isso exprime a conformidade do conhecimento com o objeto isto é exprime a convicção de que o conhecimento é conforme com a realidade exemplo estou certo de que o homem é capaz de sabedoria1 1 É evidente a diferença entre a verdade direta e a reflexa A direta tem por termo um objeto enquanto esse é conforme com a inteligência ao passo que a reflexa tem por termo a própria conformidade da inteligência com o objeto conhecido Que a nossa inteligência possa refletir e reflita efetivamente sobre os seus atos e conheça a própria conformidade com os objetos e assim possua a verdade reflexa é coisa que todos percebem e admitem A dificuldade consiste em determinar o modo porque a inteligência conhece tal conformidade Entendem alguns que para isso seja preciso 146 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 120 A verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo a A verdade lógica encontrase perfeitamente naquele ato da inte ligência que encerra e exprime de um modo explícito a conformidade da mesma inteligência com o objeto Ora o ato da inteligência que encerra e exprime de um modo explícito a conformidade da própria inteligência com o objeto é o juízo porque pelo juízo a inteligência declara que um objeto é em si como ela o percebe isto é que uma natureza ou essência representada pela forma intencional é inerente ao objeto existente na realidade e por isso une os dois termos distin tos que são o objeto e a sobredita forma intencional Logo a verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo1 estabelecer um confronto entre o objeto conhecido e a imagem em que e porque o objeto é conhecido mas não advertem que para estabelecer tal confronto seria necessário conhecer o objeto por um outro modo ou por um outro meio distinto e diverso dessa imagem a não ser que se queira confrontar a imagem com um termo desconhecido Não é possível nem é precisa tal solução A coisa é muito simples Para que a inteligência possa conhecer a própria conformidade com o objeto deve apenas refletir sobre o seu ato cognoscitivo Por quanto a inteligência quando conhece um objeto não é meramente passiva isto é não se limita a receber em si a impressão e a imagem do objeto mas é eminentemente ativa porque recebida a impressão e a imagem do objeto reage no mesmo objeto representado por aquela imagem e por esse ato de reação recebeo em si apreendeo exprimeo intencionalmente e exprimindoo conformase com ele Essa conformidade da inteligência com o objeto é o termo natural do ato cognoscitivo porque a natureza da inteligência consiste pro priamente em se tornar conforme com o objeto E se tal é a natureza do ato intelectual isto é se a verdade de um juízo resplandece na própria natureza do conhecimento direto é evidente que a inteligência refletindo sobre a natureza do seu ato percebe de um modo imediato a própria conformidade com o objeto e assim possui a verdade reflexa Tal é o ensino de Santo Tomás De Ver q 1 a 9 1 A nossa inteligência não se conforma perfeitamente com o objeto senão no juízo e por isso a verdade não encontra perfeitamente senão nesse ato intelectual Quando dizemos simplesmente homem a nossa inteligência exprime um conceito uma natureza uma imagem mas essa imagem não pode dizerse conforme nem desconforme com o seu protótipo se a esse realmente não se refira assim como uma imagem pintada na tela não pode dizerse semelhante ou dessemelhante ao seu exemplar quando se considera exclusivamente em si mesma sem relação ao dito exemplar Ora a imagem de um objeto obtida pela simples apreensão não se refere explicitamente ao próprio objeto senão no juízo assim a humanidade não se percebe claramente como natureza de um indivíduo se não quando a refiro de um modo explícito a esse indivíduo e uno essa forma intencional com o seu sujeito dizendo Pedro é homem 147 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE b A verdade lógica sendo uma adequação da inteligência com o objeto deve encontrarse perfeitamente no ato em que se encontra a perfeita adequação da inteligência com o objeto Ora essa perfeita adequação encontrase no juízo Porquanto o juízo exprimindo de um modo explícito a natureza e o ser ou a existência de um objeto exprime o objeto como é em si mesmo e por isso afirma a perfeita adequação da inteligência com o mesmo objeto Assim quando digo Pedro é homem não só denoto uma determinada natureza que é a humanidade mas também afirmo que esta natureza é ou existe num determinado indivíduo que é Pedro Logo a verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo1 Afirmando que a verdade se encontra perfeitamente no juízo não queremos significar que com um só juízo se possa conhecer tudo o que se refere a um objeto mas entendemos que só por meio do juízo podemos conhecer completa e perfeitamente um objeto porque só nesse ato e por esse ato a inteligência se conforma plena e perfeitamente com o objeto real Como também quando afirmamos que a verdade se encontra perfeitamente no juízo referimonos sempre à inteligência humana e não à angélica muito menos à divina A idéia da inteligência humana é imperfeita limitada abstrata e embora represente um elemento ou uma propriedade ou a própria essência não representa contudo o objeto inteiro como é em si mesmo e por isso depois de termos conside rado as partes os elementos do objeto representados pela idéia devemos recolher esses elementos essas partes e constituir o todo como se encontra na realidade e essa obra é do juízo A idéia porém da inteligência angélica e afortiori a idéia da divina exprime o objeto como é em si mesmo com a sua natureza com o seu ser e com todas as propriedades e notas individuantes e por isso o Anjo e afortiori Deus não precisam de compor ou de dividir isto é de formar juízos afirmativos em que o predicado se compõe com o sujeito nem juízos negativos em que o predicado se divide do sujeito para alcançar a verdade Donde se vê que o juízo ou a composição e divisão é uma coisa acidental à verdade porque não constitui a sua essência mas é apenas um meio natural para a inteligência humana atingir a verdade Sum Th 1a q 11 a 2 De Ver q 1 a 3 1 A verdade deve encontrarse perfeitamente naquele ato intelectual que adequa perfeitamente o objeto Ora todo o objeto falamos do objeto criado e finito consta como veremos na Ontologia de dois elementos reais e distintos que são a essência ou a natureza e o ser ou a existência A essência para se tornar uma coisa real deve receber o ser ou a existência e só depois de receber o ser ela é ou existe A essência que recebe o ser é potência o ser que é recebido na essência e que a faz existir atualmente é ato Privada do ser a essência é uma mera abstração é um nada Por isso uma coisa dizse ente não pela essência mas pelo ser que possui Donde se segue que o ato intelectual é perfeitamente adequado ao objeto quando exprime e 148 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA de um modo explícito ambos esses elementos do objeto isto é a essência e o ser Ora tal ato é o juízo pois esse como se vê nas proposições contém sempre a essência e o ser Assim quando digo Pedro é homem não só denoto uma essência que é a humani dade mas afirmo que essa essência é ou existe e se encontra nesse indivíduo que por isso é um ente real Nem podia ser doutro modo A verdade ontológica das coisas fundase mais no ser delas do que na sua essência Com efeito uma coisa tem tanto de verdade quanto tem de entidade porque ente e verdadeiro são na realidade uma e a mesma coisa ens et verum convertuntur Sendo assim é claro que a verdade lógica deve encontrarse naquele ato que de um modo explícito exprime não só a essência das coisas mas também o seu ser Tal ato é o juízo Cf I Sent Dist 19 q 5 a 1 Notese que a inteligência é determinada ao juízo logo que lhe se manifeste o ser das coisas Para isso não é preciso que ela reflita em si nem que tenha cons ciência da verdade do próprio juízo ou da sua aptidão para conhecer nem que esteja certa da suficiente manifestação do mesmo ser Se a manifestação é tal qual a exige a faculdade perceptiva a reação dessa por meio de um juízo correspondente é um ato muito natural e necessário por isso mesmo que é uma faculdade perceptiva Se a verdade se encontra perfeitamente no juízo também no juízo deve encon trarse propriamente a falsidade ou o erro Porquanto a falsidade só pode encontrarse propriamente naquele ato em que a inteligência afirma que uma coisa é o que não é ou nega que é o que é Ora esse ato é o juízo Além disso a falsidade é contrária à verdade Ora como os contrários se referem ao mesmo sujeito contraria sunt circa idem a falsidade deve encontrarse naquele sujeito em que se encontra a verdade Ora a verdade encontrase na inteligência enquanto compõe ou divide isto é enquanto julga Logo também a falsidade deve encontrarse na inteligência enquanto julga Sum Th Ia q 17 a 4 Mas o erro mesmo no juízo é sempre uma coisa acidental para a nossa inteligência Essa faculdade tende por si para a verdade e se erra a culpa não se deve procurar nela mas em causas estranhas Tais causas dos erros reduzemse a três classes fisiológicas psicológicas e morais Reservando para mais tarde o estudo das causas fisiológicas diremos alguma coisa acerca das outras duas espécies As causas fisiológicas pode reduzirse ao influxo da imaginação à falta de reflexão à incerteza ou ambigüidade dos vocábulos à ignorância da arte do raciocínio As causas morais dos erros sobretudo em matéria de Religião e de Moral são as paixões desordenadas É um fato que o homem tem a tendência para julgar como verdadeiro o que lhe agrada e que o amor próprio mais que o amor da verdade regula os seus juízos e não o deixa reconhecer os próprios erros Não admira que o homem erre O erro é compatível com uma inteligência finita e dependente como é a nossa O que porém repugna à razão é a pertinácia no erro à qual querem dar o nome de caráter e que não é senão o privilégio dos insipientes Diz Cícero Cujusvis hominis est errare nullius nisi insipientis in errore perseverare Filipp XII 2 Que a verdade se encontre perfeitamente no juízo isto é que a nossa inte ligência no juízo e pelo juízo se ache em pleno acordo com o objeto é ditado do 149 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE senso comum mas negado por todos os subjetivistas Dizem esses que a inteligência pelo juízo une duas coisas separadas como são o predicado e o sujeito e que por isso a união e a identificação do predicado com o sujeito depende exclusivamente da inteligência e o juízo é inteiramente subjetivo e não corresponde à realidade isto é não enuncia o que o objeto é em si mesmo mas o que a inteligência pensou Ora isto é falsíssimo A inteligência quando julga não é a causa por que um predicado compete a um sujeito mas não faz senão estabelecer e ratificar um fato isto é que um predicado real está realmente contido num sujeito real e por isso a união do predicado com o sujeito não é efeito do juízo mas é anterior é pressuposto ao juízo e é a verdadeira causa dele Assim quando dizemos Pedro e bom entanto se forma esse juízo e se afirma que a bondade convém a Pedro enquanto se averiguou que na realidade esse predicado está contido nesse sujeito independentemente do nosso pensamento Logo o predicado no juízo não convém ao sujeito porque assim o julga a inteligência mas a inteligência assim o julga porque o predicado convém ao sujeito Quando pois se diz que a inteligência no juízo une o predicado com o sujeito não se entende que a inteligência une duas coisas realmente separadas uma da outra mas deve entenderse que ela julga estarem unidas na realidade duas coisas que tinham sido consideradas separadamente O principal adversário da objetividade dos juízos é Immanuel Kant Como os erros desse escritor são seguidos por muitos racionalistas livres pensadores pro testantes pelos sequazes do modernismo que o S P Pio X na Encíclica Pascendi 8 set 1907 chamou a síntese de todas as heresias devem aqui ser expostos e refutados O ponto de partida de todo o sistema subjetivista ou idealista de Kant é cons tituído pelos célebre juízos sintéticos apriori A escolástica seguindo o bom senso tinha ensinado que há só duas espécies de juízos o analítico ou apriori e o sintético ou aposteriori conforme a conveniência do predicado com o sujeito é conhecida pela razão ou pela experiência ou por outras palavras conforme o princípio da síntese ou da união é interior ou exterior ao sujeito Não há meio termo Embora os elementos do juízo analítico sejam dados pela experiência contudo ele é sempre analítico visto que o motivo por que nesse juízo por exemplo o círculo é redondo o predicado se atribui ao sujeito não se funda na experiência mas exclusivamente na própria natureza do sujeito e a verdade de tal juízo é independente de toda a experiência e subsistiria sempre embora não existisse a experiência O escritor alemão encontrou juízos de uma terceira espécie que não são nem completamente analíticos ou apriori nem completamente sintéticos ou aposteriori mas participam de uns e de outros e por isso são sintéticos a priori Exponhamos a sua teoria O juízo diz Kant é analítico quando o predicado está contido ainda que implicitamente no conceito do sujeito é sintético quando o predicado está comple tamente fora do conceito do sujeito e por isso a união de um com o outro importa uma síntese E conclui Por isso são analíticos os juízos em que não só há união mas também identidade entre o predicado e o sujeito e são sintéticos aqueles em que há união sem identidade Os analíticos podem chamarse explicativos os sintéticos exten sivos porque os primeiros nada acrescentam pelo predicado ao conceito do sujeito 150 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA mas apenas dividem pela análise o mesmo conceito nos seus conceitos parciais que se percebiam nele embora de um modo confuso ao passo que os segundos acrescen tam ao conceito do sujeito um predicado de que modo nenhum podia conceberse contido no mesmo sujeito nem podia deduzirse pela análise Crítica da razão pura Introd IV Os juízos sintéticos segundo Kant subdividemse em sintéticos apriori e em sintéticos aposteriori São sintéticos apriori quando têm algum elemento que não é dado pela experiência mas deriva espontaneamente da inteligência e por isso exprime uma coisa universal e necessária São sintéticos aposteriori ou empíricos quando se fundam exclusivamente na experiência e por isso exprimem uma coisa singular e contingente Os sintéticos apriori são verdadeiramente extensivos e constituem propriamente a ciência e são objeto da Metafísica mas os sintéticos aposteriori por serem particulares e contingentes não são científicos e como os analíticos não levam a novos conhecimentos Mas como descobriu Immanuel Kant essa terceira espécie de juízos A coisa foi simples Disse ele que um juízo analítico para ser tal deve ter três condições 1a o seu predicado deve estar contido no conceito do sujeito 2a deve ser necessário 3a deve ser universal Se falta uma dessas condições o juízo deixa de ser analítico Às vezes pode um juízo deixar de ter a primeira condição e possuir a segunda e a terceira isto é pode um juízo não ter o predicado contido no conceito do sujeito e contudo ser necessário e universal Nesse caso o juízo é sintético porque o predicado está fora do conceito do sujeito e só pela experiência se conhece a sua relação com o mesmo sujeito mas é sintético apriori porque é universal e necessário e por isso não se funda num dado da experiência que é por si singular e contingente mas deve derivar exclusivamente da inteligência e deriva dela espontaneamente apriori isto é por uma espécie de instinto ou de força mecânica Todas as inteligências possuem naturalmente umas formas dotadas de universalidade e de necessidade que aplicadas sucessivamente aos objetos da experiência os tornam determinados e definidos Kant apresenta vários exemplos desses juízos sintéticos apriori Citamos três todo o efeito exige uma causa cinco mais sete são iguais a doze a linha reta é a mais breve entre dois pontos Esses juízos são sintéticos porque o predicado não está contido no conceito do sujeito mas são apriori porque são dotados de universalidade e de necessidade isto é porque o predicado convém sempre e necessariamente ao sujeito Desses princípios Kant tira duas conseqüências 1a os juízos analíticos ou apriori em que o sujeito e o predicado são termos universais por serem necessários e universais e conseqüentemente por derivarem espontânea e exclusivamente da inteligência não tem valor algum objetivo 2a os juízos sintéticos apriori que têm um sujeito de experiência mas um predicado universal e necessário por causa da completa subje tividade desse predicado são também destituídos de valor objetivo Agora uma breve crítica a essas afirmações do escritor alemão Antes de tudo as definições do juízo analítico e sintético embora tenham alguma coisa de verdade podem todavia prestarse a equívocos e abrir a erros sobretudo se tenha em vista o sistema de Kant Esse confunde sempre o sujeito com o conceito pas sando do sujeito isto é da coisa à qual se atribui um predicado para o conceito como se 151 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE pudesse indiferentemente e sem distinção alguma dizerse do conceito o que se afirma do sujeito quando o conceito e o sujeito são duas coisas distintas existindo o sujeito na realidade e o conceito na inteligência E ainda que o conceito tomado objetivamente se identifique com o sujeito contudo essa identidade referese à coisa representada e não ao modo de representar Por isso a afirmação que o juízo é analítico quando o predicado está contido no conceito do sujeito pode prestarse a equívocos visto que o conceito é uma coisa subjetiva e por isso relativa e variável Se o conceito exprimisse a natureza ou essência do sujeito não haveria que dizer mas na teoria desse escri tor não a exprime Além disso é falso que o juízo analítico não seja princípio de novos conhecimentos Os predicados de um sujeito no juízo analítico estão todos contidos na essência e por isso no conceito do mesmo sujeito mas não estão todos contidos explicitamente quanto a nós e por isso esse juízo levanos ao conhecimento de coisas que antes não se conheciam Finalmente há juízos analíticos em que a conveniência do predicado com o sujeito não se conhece pela imediata intuição do sujeito mas pelo raciocínio Não menos equívoca é a definição do juízo sintético dada pelo escritor alemão Diz ele que nesse juízo o predicado está inteiramente fora do conceito do sujeito Ora ainda que antes do juízo pudesse dizerse que o predicado não está contido no conceito do sujeito não se pode dizer o mesmo no ato do juízo porque a inteligência não poderia alegar que um predicado convém a um sujeito se não visse essa conveniência Por isso é falso que no juízo sintético haja união sem identidade Quando digo Pedro é bom não afirmo que Pedro é a bondade mas que é dotado de bondade e por isso afirmo que tudo o que o predicado exprime se encontra ou está contido no sujeito isto é afirmo a identidade do predicado com o sujeito Essa identidade afirmase em todo o qualquer juízo afirmativo quer analítico quer sintético Sum Th Ia q 85 a 5 ad 3 Há mais Os juízos analíticos como os entendeu Kant em que todos os ele mentos são subjetivos ou apriori sempre nenhuma dependência da experiência sem nenhuma relação aos objetos não existem e são verdadeiras quimeras Porquanto o sujeito e o predicado que constituem um juízo analítico embora sejam termos universais contudo estão intrinsecamente contidos nos objetos da experiência Assim quando digo o homem é racional o homem não é uma coisa imaginária mas é um ente real independente do nosso pensamento e quando afirmo que o homem é racional afirmo que esse atributo é uma coisa intrínseca e essencial a esse sujeito Logo todos os juízos analíticos têm o seu fundamento nas coisas ou nos objetos da experiência e por isso não são inteiramente subjetivos não dependem exclusivamente da inte ligência O sujeito e o predicado do juízo podem ser termos abstratos e universais mas como o abstrato deriva do concreto e o universal deriva do singular seguese que o sujeito e o predicado são termos objetivos Não menos quimeros são os juízos sintéticos apriori forjados por Kant Primeiramente esses juízos repugnam à índole da nossa inteligência Porquanto não é possível a enunciação de um juízo se não se conhece a conveniência entre o predicado e o sujeito porque é essa mesma conveniência que se deve afirmar ou negar aliás o juízo seria um ato irracional A conveniência entre o predicado e 152 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA o sujeito só pode ser conhecida ou pela intuição ou pelo raciocínio ou pela experiência Ora nesses juízos sintéticos apriori a conveniência entre o predicado e o sujeito não é conhecida nem pela intuição porque são sintéticos isto é porque o predicado não está contido no conceito do sujeito nem pelo raciocínio porque são espontâneos nem pela experiência porque são apriori e derivam do fundo da inteligência sem correspondência com o que está de fora Além disso afirma Kant que os juízos sintéticos apriori são universais e necessários embora o predicado não esteja contido no conceito do sujeito Ora essa afirmação é absurda Um juízo só pode ser universal e necessário isto é um predicado só pode convir sempre e necessariamente a um sujeito enquanto ou porque o predicado está contido na própria natureza e no conceito do sujeito visto que só o que constitui ou acompanha a natureza convém sempre e necessariamente ao sujeito que nela subsiste Com relação aos exemplos que o escritor alemão aduz como prova da sua teoria e que seriam juízos sintéticos apriori no sentido de Kant não são eles senão juízos analíticos ou sintéticos no sentido da Escolástica Assim o juízo todo o efeito exige uma causa não é sintético apriori mas exclusivamente analítico Porquanto um juízo é analítico segundo o próprio Kant quando o predicado está contido no conceito do sujeito ou se encontra na resolução do sujeito Ora a exigência de uma causa está contida no conceito de efeito Na verdade efeito é uma coisa que foi feita que começou não deriva do si mesma mas de outro ente Ora derivar de outro ente é depender dele como da causa do próprio ser Logo a exigência de uma causa está contida no conceito de efeito digase o mesmo acerca do juízo cinco mais sete são iguais a doze Ele é exclusivamente analítico porque o predicado se encontra na resolução do sujeito De fato o conceito do predicado é o mesmo que o do sujeito pois é a unidade repetida doze vezes embora por diferentes sinais Nem vale a razão de Kant quando diz que o predicado doze não está contido no conceito do sujeito cinco mais sete pelo fato de nos servirmos às vezes de um sinal externo p exemplo dos dedos para juntar o número cinco ao número sete Com efeito o juízo consiste na conveniência entre o predicado e o sujeito e essa conveniência é percebida exclusivamente pela inteligência que analisa os conceitos ou examina as partes A experiência pode ser uma condição mesmo necessária para se averiguar se os conceitos convém ou não entre si mas não é a razão ou a causa da união Como também analítico é o juízo a linha reta é a mais breve entre dois pontos O conceito da máxima brevidade está contido no conceito da linha reta porque fixados dois pontos percebese logo que a linha reta traçada entre esses pontos é mais breve do que qualquer linha curva A figura sensível que exprime esse juízo não influi na enunciação nem na verdade dele mas serve apenas para o fixarmos melhor na inteligência Todos os outros juízos apresentados por Kant fundamse ou na imediata relação dos conceitos ou na dedução do raciocínio ou nos dados da experiência e por isso ou são analíticos ou são sintéticos no sentido escolástico Donde se vê que se não têm valor objetivo ou juízos analíticos e os sintéticos apriori como os entendeu Kant porque insubsistentes e quiméricos têm pelo con trário valor objetivo os juízos analíticos e os sintéticos como os entende a escolástica 153 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 121 A verdade lógica encontrase imperfeitamente na idéia a Encontrase na idéia A verdade consiste na conformidade da inteligência com o objeto Ora a nossa inteligência quando apreende simplesmente um objeto forma uma idéia que é uma imagem ou seme lhança do próprio objeto e por meio dessa idéia se torna conforme com o objeto porque uma faculdade perceptiva informada pela espécie ou imagem de uma coisa se torna intencionalmente a própria coisa Logo a verdade lógica encontrase na idéia b Mas encontrase imperfeitamente O conhecimento de um objeto é perfeito quando se conhecem de um modo explícito todos os elementos de que consta e que são a natureza ou a essência e o ser ou a existência Ora a idéia se representa de um modo explícito a natureza não exprime do mesmo modo a existência Não representando a idéia de um modo explícito existência não pode realizarse perfeitamente a união dos dois termos distintos que são o objeto e a forma intencional e que constituem os elementos necessários da verdade Logo a verdade lógica encontrase imperfeitamente na idéia1 Nem se insista com o escritor alemão que um conceito universal e necessário não pode provir da experiência cujo objeto é singular e contingente Todas as coisas singulares e contingentes têm em si um elemento universal e necessário que é a essência delas abstraída de todas as condições individuais Sum Th Ia q 86 a 3 Vêse também que se os juízos analíticos e sintéticos apriori inventados por Kant não concorrem para o progresso da ciência a qual tem por objeto as coisas e não os sonhos os juízos analíticos e sintéticos tomados no seu legítimo sentido servem admiravelmente para o desenvolvimento de todas as ciências racionais e experimentais Daqui a pouco falaremos nas tais formas subjetivas que aos juízos sintéticos apriori comunicariam a universalidade e a necessidade 1 A conclusão parecenos certa Se a verdade é uma adequação da inteligência com o objeto e a idéia é uma semelhança com o objeto e a idéia é uma semelhança do próprio objeto porque representa a essência dele é claro que a inteligência informada pela idéia se torna semelhante e adequada ao próprio objeto Diz S Tomás Nos simples conceitos encontrase a verdade porque se conhece a coisa enquanto à sua essência In l IX Met l 11 E noutro lugar Ainda que o inteligível incomplexo a idéia não seja nem verdadeiro nem falso contudo a inteligência percebendoo é verdadeira enquanto se torna adequada à coisa entendida In III de Anima l 11 Na idéia não há apenas a verdade ontológica que é a essência do objeto representada pela própria idéia mas há também a verdade lógica porque a inteligência conhece essa essência e conhecendoa lhe se torna semelhante ou adequada O conhecimento 154 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA será imperfeito porque tal essência é representada de um modo confuso e indetermi nado mas é verdadeiro conhecimento Também a conformidade ou adequação da inteligência com o objeto por meio da idéia é conhecida de um modo direto pelo exercício do próprio ato perceptivo embora esse conhecimento não seja perfeito como no juízo Mas a verdade encontrase imperfeitamente na idéia porque essa idéia embora represente de um modo explícito a essência de um objeto contudo não representa do mesmo modo o ser ou a existência Assim quando vejo um homem e digo homem essa idéia de homem não diz explicitamente se esse homem existe ou não Dissemos que a idéia não representa o ser das coisas de um modo explícito porque implicitamente o representa E isso é muito natural Estando a essência de uma coisa unida intima mente ao ser como a potência está unida ao ato é manifesto que não se pode conhecer a essência sem que ao mesmo tempo e de algum modo seja conhecido o ser ou a existência porque as essências não são conhecidas em abstrato mas em concreto isto é enquanto estão unidas com o ser Manifestando as suas qualidades e a sua essência um objeto manifesta necessariamente de algum modo o seu ser ou a sua existência Verificase isto não só com relação às essências das coisas concretas e singulares mas também com relação às essências abstratas e universais que têm um ser ideal formado pela razão Percebendose embora implicitamente o ser ou a existência das coisas pela idéia e dependendo a verdade de uma coisa mais do seu ser do que da sua essência a verdade encontrase também na idéia embora de um modo imperfeito Concluímos que tanto a idéia como o juízo têm o mesmo objeto com a diferença que o juízo representa e exprime de um modo explícito a essência e o ser de um objeto e por isso a ele compete perfeitamente a verdade e a idéia representa e exprime de um modo explícito a essência de um objeto e de um modo implícito o ser ou a existência e por isso competelhe a verdade imperfeitamente Uma e a mesma impressão do objeto pode determinar e determina a inteligência a formar uma idéia e a emitir um juízo Cf In I Sent dist 19 q 5 a 1 ad 7 Mas a verdade embora perfeitamente se encontre no juízo e só imperfeita mente na idéia ou na simples apreensão contudo pode separarse do juízo pois há muitos juízos falsos e não pode separarse da idéia nem quando essa é incomplexa nem quando a complexa Não pode separarse da idéia quando essa é incomplexa isto é quando denota a essência das coisas despida das notas individuais Por quanto se o juízo pode discordar do objeto enquanto pode afirmar que esse é o que não é ou que não é o que é quando é incomplexa não pode discordar do objeto porque é impossível que ela não represente o que realmente representa aliás representaria e deixaria de representar o que é absurdo Portanto assim como um objeto existente consta da sua entidade assim também a idéia consiste numa forma intencional que é a expressão da coisa pensada e que não pode deixar de ser verdadeira Assim a idéia de homem de virtude de sabedoria etc pelo fato de representar simplesmente uma essência não pode deixar de ter conformidade com a essência que representa Nem pode separarse da idéia quando essa é complexa Por quanto nós podemos conceber e concebemos um monte de ouro mas se nos limitarmos a contemplar esse monte e 155 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 122 A verdade lógica é indivisível A verdade lógica é como dissemos a adequação ou a conformidade da inteligência com o objeto e por isso importa uma igualdade entre o juízo da inteligência e o que se percebe do objeto Ora a igualdade considerada como tal é indivisível não admite graus de modo que duas coisas iguais enquanto iguais não são mais ou menos iguais mas ou são iguais ou não o são Logo a verdade lógica enquanto importa uma igualdade entre o juízo da inteligência e o que se percebe do objeto é indivisível1 Dissemos enquanto importa uma igualdade porque se a ver dade lógica se considera não enquanto importa uma igualdade mas ou em relação à inteligência que percebe ou em relação ao objeto que é não afirmarmos nem negarmos a sua existência a idéia não poderá chamarse falsa Todavia devemos admitir que a idéia complexa pode ser falsa não por si mas por acidente enquanto dá ocasião à inteligência de emitir um juízo falso Assim quando nos representamos um monte douro pode a inteligência julgar que tal monte exista realmenteMas então o erro está sempre no juízo e não na idéia Pelo que temos dito pode avaliarse a opinião de alguns neoescolásticos quando dizem que na simples apreensão ou na idéia não se encontra verdade nem de um modo imperfeito 1 A igualdade em que propriamente consiste a razão ou a essência da verdade deve existir não entre a inteligência e o objeto material isto é considerado como é na realidade com todas as suas notas mas entre a inteligência e o objeto formal isto é considerado naquelas notas que a inteligência percebe e com as quais se conforma Ora a verdade enquanto se considera como uma igualdade entre a inteligência e o objeto formal não pode admitir vários graus não pode ser mais ou menos verdade por isso mesmo que duas coisas iguais não podem ser mais ou menos iguais pois a igualdade está num ponto indivisível assim como duas linhas iguais enquanto são iguais não podem ser mais ou menos iguais e se podem aumentar e aumentam não aumentam enquanto iguais Além disso a verdade como dissemos encontrase perfeitamente no juízo afirmativo ou negativo No juízo afirmativo a inteligência afirma a conveniência entre o predicado e o sujeito no negativo nega aquela conveniência Ora a afirmação e a negação são coisas indivisíveis incapazes do mais e do menos Logo a verdade lógica é indivisível Os que admitem graus na verdade considerada sob esse ponto de vista confundem a igualdade com a semelhança A semelhança admite graus porque uma coisa pode ser mais ou menos semelhante a outra mas a igualdade excluios porque uma coisa não pode ser mais ou menos igual a outra mas ou é igual ou não o é Nem se diga que a verdade lógica por ser uma coisa finita é capaz de aumento A verdade lógica é capaz de aumento não enquanto diz igualdade entre a inteligência e o objeto porque enquanto tal e o indivisível embora finito não é capaz de aumento mas só enquanto se considera em relação à inteligência ou ao objeto como vamos ver 156 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA percebido então pode admitir vários graus e um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro do que outro conforme a maior ou menor perfeição da inteligência o maior ou menor número das notas que se percebem no objeto a maior ou menor firmeza com que a inteligência na percepção do objeto pronuncia o juízo1 1 Desenvolvamos o que dizemos no texto 1o Um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro conforme a maior ou menor perfeição da inteligência Porquanto uma inteligência perspicaz dotada de uma luz proporcionada aos objetos inteligíveis e informada por espécies de muita extensão e clareza produz um ato mais conforme com o objeto e por isso mais verdadeiro do que o ato de uma outra inteli gência menos perspicaz dotada de luz menos proporcionada ao objeto e informada por espécies de menor extensão e clareza porque todo o efeito é proporcionado à sua causa 2o Um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro conforme o maior ou menor número de notas que se percebem no objeto material Porquanto o conhecimento de um número maior de notas relativas ao objeto é mais conforme ao objeto e por isso é mais verdadeiro do que o conhecimento de um número menor de notas assim quem conhece o homem como animal racional aproximase mais da verdade do que um outro que conhece o homem somente como animal 3o Um conhecimento é mais ou menos verdadeiro conforme a maior ou menor firmeza com que a inteligência na percepção do objeto pronuncia o juízo Porquanto um juízo é mais ou menos verdadeiro conforme a sua verdade que se funda no objeto é mais ou menos firme e imutável Ora o juízos em que o predicado convém necessária e absolutamente ao sujeito são firme e imutáveis do que os juízos em que o predicado só acidental e relativamente compete ao sujeito Assim este juízo o todo é maior que a parte é mais firme e imutável e por isso mais verdadeiro que este outro Pedro é bom Mas como é evidente a maior ou menor perfeição da inteligência e do ato cognoscitivo não entra na essência da verdade a qual consiste na igualdade entre a inteligência e o objeto Tal é a doutrina de S Tomás O santo explicitamente afirma que se a verdade se toma enquanto é a adequação entre a inteligência e o objeto não se dá uma verdade maior que outra verdade porque a essência da igualdade não recebe o mais e o menos mas que se se considera o próprio ser da coisa em que se funda a verdade então existe uma verdade tanto ontológica como lógica maior que outra porque onde há mais entidade há mais verdade De Virtutibus q 2 a 9 ad 1 Vejamos agora se a falsidade admite ou não vários graus A falsidade como dissemos consiste na desconformidade da inteligência com o objeto e pode ser negativa ou positiva Ora se a falsidade negativa não admite graus porque o não ser conforme é uma coisa indivisível a falsidade positiva admite vários graus não só com relação à inteligência e ao objeto mas também com relação à própria essência ou razão da falsidade 1o Admite vários graus na própria razão de falsidade Porquanto a des conformidade entre a inteligência e o objeto pode ser mais ou menos pronunciada Diz S Tomás Quanto magis a veritate receditur tanto major est falsitas non 157 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 123 A verdade lógica é imutável A verdade lógica pode exprimir ou a essência dos entes ou um fato contingente Ora tanto num como noutro caso ela é imutável a É imutável quando exprime a essência dos entes Com efeito a verdade lógica consistindo na adequação da inteligência com o objeto deve corresponder à índole do mesmo objeto de modo que ela será imutável ou mutável conforme imutável for o objeto O objeto da nossa inteligência é a essência tanto do Ente infinito como dos entes finitos Ora a essência do Ente infinito é absolutamente imutável e a essência dos entes finitos embora seja mutável quanto aos elementos reais assim a essência do homem é mutável quanto ao corpo e à alma contudo é imutável quanto aos elementos específicos assim a essência do homem é imutável quanto à animalidade e à racionalidade Logo a verdade lógica quando exprime a essência dos entes é imutável1 enim est tam magna falsitas aestimantis tria esse quinque sicut ejus qui aestimat tria esse centum C Gentes l 3 c 139 A razão é manifesta A falsidade não é apenas a falta de verdade mas é o contrário da verdade ora entre dois termos contrários ou opostos há muitos pontos intermédios Há porém uma excepção e dáse quando a falsidade do juízo consiste na mera negação de alguma verdade assim a falsidade destes juízos Deus não existe o mundo não existe não admite graus 2o Admite vários graus com relação à inteligência Com efeito uma inteligência obtusa ou totalmente dominada pela vontade pode cair e cai em erros mais grosseiros do que os erros em que pode cair e cai uma inteligência perspicaz ou menos sujeita à influência da vontade 3o Admite vários graus com relação ao objeto ou enquanto a um objeto podemos atribuir um maior ou menor número de notas que lhe não convém ou negarlhe um número maior ou menor das que lhe são próprias ou enquanto um juízo falso em matéria necessária e imutável é mais falso que um juízo falso em matéria contingente e mutável assim o juízo Deus não existe é mais falso que o juízo o mundo não existe 1 A verdade lógica da nossa inteligência fundase na verdade ontológica das coisas percebidas Por isso como dizemos no texto a verdade lógica é imutável ou mutável conforme imutável ou mutável é a verdade ontológica Ora a verdade ontológica pode referirse a Deus e às criaturas Deus e só Ele é essencial e absolutamente imutável porque toda a mudança denota imperfeição e Deus é a perfeição infinita Se Deus é absolutamente imutável também imutável é o conhecimento que temos dEle Porquanto embora esse conhe cimento seja infinitamente inadequado e deficiente contudo o que atribuímos a Deus realmente se encontra nEle embora de um modo infinitamente elevado e superior à nossa compreensão Assim quando dizemos que Deus é bom é justo etc essas perfeições absolutas existem realmente em Deus e o nosso conhecimento embora 158 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA seja inadequado e possa tornarse mais perfeito é todavia verdadeiro e imutável Concluímos que a verdade lógica da nossa inteligência relativa a Deus é imutável porque imutável é a verdade ontológica do próprio Deus Se de Deus descemos às criaturas encontramos em todas elas a mudança Os entes espirituais se não estão sujeitos a mudanças substanciais pois não são compostos de matéria estão sujeitos a mudanças acidentais enquanto passam da potência para o ato operativo porque não são a própria atualidade Os seres materiais estão sujeitos a mudanças substanciais e acidentais Mas embora todos os seres criados estejam sujeitos a mudanças contudo há em todos uma coisa absolutamente imutável que é a essência considerada nos seus elementos específicos Se a essência das criaturas considerada nos seus elementos reais pode estar e está sujeita a mudanças mesmo substanciais considerada nos seus elementos específicos mas é necessária imutável assim a essência do homem se considerada nos elementos reais que são a alma e o corpo é contingente e mutável considerada nos seus elementos específicos que são a animalidade e a racionalidade é necessária e imutável porque embora o homem nunca tivesse existido é e será sempre verdade que ele é animal racional Daí se segue que se a verdade lógica da nossa inteligência enquanto representa o que há de mutável nas criaturas é mutável enquanto representa o que há de imutável nas mesmas criaturas que é a essência é imutável A imutabilidade das essências criadas tem como veremos a sua razão suprema o seu último fundamento na Essência divina Cf In IV Ethic l 3 Imutável quando exprime a essência das coisas a verdade é imutável também quando exprime os primeiros princípios da razão que se formam imediatamente e por simplicíssima abstração depois da apreensão da essência e que a ela se referem e nela se fundam Com efeito estes princípios uma coisa não pode simultanea mente ser e deixar de ser todo o efeito exige uma causa etc mostramse dotados de tal universalidade e necessidade que não é possível conceber o contrário sem se renunciar ao senso comum Ora um princípio universal e necessário é naturalmente imutável Os primeiros princípios são o fundamento de todas as ciências cujo objeto é constituído por verdade também universais e necessária que por isso se resolvem naqueles princípios Todas as ciências têm por fim a descoberta de tais verdades e depois de as terem descoberto nem sequer duvidam de que elas possam estar sujeitas a mudanças ou possam tornarse falsas Nenhum escritor que tenha ainda o juízo são poderá sustentar que 2 mais 2 sejam iguais a 5 ou que os três ângulos de um triângulo não sejam iguais a dois ângulos retos Diz Cl Bernard Nas matemáticas quando se parte de um axioma ou princípio cuja verdade é absolutamente necessária e consciente a liberdade deixa de existir as verdades adquiridas são imutáveis O geômetra não é livre de duvidar se os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos e por isso não é livre de rejeitar as conseqüências lógicas que se deduzem desse princípio Sendo as verdades matemáticas imutáveis e absolutas a ciência aumenta pela simples e sucessiva justaposição de todas as verdade adquiridas Introd à la medicine experim p 65 159 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE b É imutável quando exprime um fato contingente Porquanto a verdade lógica como dissemos deve corresponder à índole do objeto com o qual deve conformarse a inteligência Ora um fato contingente embora por si pudesse deixar de darse contudo depois que se deu é absoluta e eternamente imutável porque é impossível que tendose dado não se tenha dado ou não se tenha dado pelo modo por que se deu Sendo imutável o fato é imutável a relação da nossa inteligência com ele e por isso é imutável a verdade Logo a verdade lógica quando exprime um fato contingente é imutável1 1 Assim essa verdade S Joanna dArc derrotou os ingleses em Orléans exprime um fato contingente que se deu mas podia não se ter dado e todavia é imutável porque tendose dado é e será eternamente verdade que S Joanna dArc derrotou os ingleses em Orléans Se não fosse assim se esse fato contingente não fosse imutável deveríamos admitir que S Joanna dArc derrotou e não derrotou os ingleses em Orléans o que é absurdo Sum Th Ia q 84 a 1 ad 3 Agora uma advertência Quando se diz que a verdade lógica exprimindo um fato contingente se muda pelo fato de se mudar o objeto material não devemos entender que a verdade se transforma em falsidade mas que a uma verdade sucede uma outra verdade ambas imutáveis Assim quando vendo Pedro de saúde digo Pedro é são e depois vendoo doente digo Pedro não é são não podemos dizer que um juízo é verdadeiro e outro é falso ou que a verdade pela mudança do objeto material se transformou em falsidade mas devemos dizer que a uma verdade sucedeu outra verdade que ambos os juízos são verdadeiros porque ambos correspondem à realidade Dáse a contradição quando ao mesmo sujeito se atribui e se nega o mesmo predicado mas ao mesmo tempo e sob o mesmo respeito o que não se verifica no presente exemplo E ambos esses juízos são imutáveis porque é e será eternamente verdade que Pedro num certo tempo estava são e num outro tempo não estava são Como se vê consideramos a verdade lógica enquanto objetiva porque dá imutabilidade do objeto deduzimos a imutabilidade da verdade Mas se a verdade se considerar enquanto é subjetiva então é mutável como é mutável a nossa inteligência embora o objeto permaneça imutável A nossa inteligência por ser limitada pode passar em relação à verdade de um estado para outro diverso e até contrário de um conhecimento verdadeiro para um outro falso e viceversa É uma falibilidade não essencial nem natural mas acidental e eventual Sum Th Ia q 16 a 8 A imutabilidade da verdade é negada por todos os sequazes do relativismo O nosso espírito na opinião deles não é perfeito quanto à inteligência e não pode conhecer absolutamente a objetiva verdade das coisas Tudo o que conhecemos é relativo aos nossos sentidos ao nosso espírito e à nossa experiência Comte a qual por sua vez é relativa à nossa constituição Kant A verdade portanto não é uma coisa é uma vida e como tal segue o destino da nossa existência Ora o espírito 160 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA humano não é imutável mas evolvese e mudase constantemente A essas evolu ções e mudanças do espírito correspondem as evoluções e mudanças da verdade Portanto nada é absoluto isto é nada é fixo imutável e independente do nosso pensamento mas tudo é relativo isto é tudo é incerto variável e dependente do nosso espírito Donde se segue que os sistemas contraditórios são apenas momentos diversos da mesma verdade que uma coisa ontem verdadeira mesmo para todo o gênero humano pode ser falsa amanhã que uma e a mesma coisa pode ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto verdadeira e falsa conforme a uns parece verdadeira e a outros falsa Concluem que não devemos aceitar uma verdade senão condicionalmente isto é senão com a condição que ela se aceita até que não se conhece verdadeira a proposição oposta Essa opinião tão antiga como Protágoras que dizia ser a nossa inteligência a medida de todas as coisas é sustentada por Comte Bain Spencer Renouvier pelos Kantistas positivistas e modernistas e pelos sequazes da filosofia nova Bergson Le Roy Wilbois Não sendo possível citar tudo o que esses escritores disseram limi tamonos a transcrever uns breves trechos de Hamilton de Schérer e de StuartMill Hamilton diz O absoluto é uma pseudoidéia O absoluto é uma idéia negativa é o nãorelativo isto é é a negação do relativo Schérer escreve Um princípio apoderouse do espírito moderno e deve molo a Hegel Entendo falar do princípio em força do qual uma proposição não é mais verdadeira que a sua oposta Isto quer dizer que tudo é relativo e que os juízos absolutos são falsos Essa descoberta do caráter relativo das verdades é o fato capital da história do pensamento contemporâneo Hoje para nós uma coisa não é verdade nem erro É necessário inventar outras palavras Em toda a parte só vemos gradações chegamos a admitir a identidade dos contrários Conhecemos não a religião mas as religiões não a moralidade mas os costumes não os princípios mas os fatos Tudo é relativo mais ainda tudo é apenas uma relação Stuart Mill acrescenta Pode ser que noutros planetas ou nas partes ainda desconhecidas do nosso globo haja outra lógica Quem sabe se amanhã se daqui a pouco haverá outra ciência seja ela qual for se haverá duas coisas semelhantes se haverá coisa alguma Examinemos os argumentos dos relativistas a O absoluto dizem eles não existe tudo é relativo Resposta Mas o que é o absoluto o que é o relativo Se interrogarmos o senso comum ele nos dirá que o relativo é o que se refere a um outro de modo que sem esse não pode existir nem pode conceberse e que o absoluto é o que é indepen dente desse vínculo de relação de modo que pode existir e pode conceberse sem que se deva recorrer a outro ente E como tal independência admite vários graus assim há várias formas de absoluto uma mais perfeita que outra Por isso pode cha marse absoluto tudo o que existe em si e não depende do sujeito que o conhece e relativo tudo o que existe exclusivamente no sujeito e pelo sujeito Mais perfeito infinitamente mais perfeito é o Absoluto que não depende de alguma hipótese mas 161 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE até repele toda a hipótese toda a restrição todo o limite e comparado com Ele todo e qualquer outro ser é relativo isto é contingente limitado Agora perguntamos existirá exclusivamente o relativo ou deverá existir também o absoluto Se não qui sermos cair numa contradição pueril devemos responder que se existe o relativo isto é se existe o ser que se refere a um outro deve forçosamente existir esse outro a que o primeiro se refere e que se diz e é absoluto O relativo enquanto tal supõe o absoluto quem rejeita esse deve rejeitar aquele Logo ou não existe coisa alguma ou existe também o absoluto O próprio H Spencer evolucionista diz O conceito de relação traz consigo o conceito dos seus dois termos Pretender que concebamos a relação entre o relativo e o nãorelativo sem termos consciência de cada um dos dois termos é pretender que comparemos uma coisa de que temos consciência com uma outra de que não a temos a comparação é um ato de consciência que não pode realizarse se não tivermos consciência de ambos os termos Sendo assim que juízo deve fazerse da afirmação que o absoluto só se concebe como uma mera negação da concebibilidade Se o não relativo ou o absoluto não é presente ao pensamento senão como uma mera negação tornase ininteligível a relação entre ele e o rela tivo porque um dos termos da relação não se encontra na consciência Se a relação é ininteligível ininteligível é o próprio relativo donde a impossibilidade de todo o pensamento Premiers principes p I c 4 b Os relativistas replicam o absoluto se existe é incognoscível Resposta E será ele incognoscível porque é absoluto Porque respondem a experiência limitase a observar os fatos os fenômenos e não penetra até ao fundo das coisas para aí descobrir a essência A resposta não satisfaz Porquanto há duas espécies de experiência uma vulgar outra científica Se a vulgar que é comum a todos os homens não reflete e limitase a atestar os fatos a científica que é própria dos sábios não se limita a observar os fatos mas dos fatos sobe às causas e das proprie dades à essência De Dominicis escritor insuspeito comentando as citadas palavras de Spencer conclui O absoluto existe e a ciência não pode prescindir dele A ciência exige imperiosamente que além da existência do fenômeno se admita qualquer outra coisa e que sem essa qualquer outra coisa o conhecimento não é fundado não é seguro não é racional La dottrina della evoluzione vol 2 p 56 No decurso deste tratado teremos ocasião de voltar ao assunto c Os adversários acrescentam embora não seja relativo tudo o que existe todavia é relativo todo o conhecimento humano e por isso é relativa toda a verdade da nossa inteligência Respondemos que o conhecimento se pode chamar relativo à nossa inteligência num sentido e não se pode chamar relativo num outro Pode chamarse relativo à nossa inteligência enquanto um ato de uma faculdade deve revestir e reveste a condição o caráter a natureza da própria faculdade E nada mais razoável O ato é sempre proporcionado à faculdade de que deriva Por isso o conhecimento não só é relativo à inteligência dos diversos indivíduos humanos mas também à própria inteligência humana considerada em si mesma de modo que assim como a inteligência humana é essencialmente finita e limitada assim também 162 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 124 A verdade lógica é única e multíplice A verdade lógica pode considerarse em Deus e na inteligência criada Considera em Deus a verdade lógica é única porque única é a Essência divina com a qual as propriedades e as operações divinas se identificam Esta verdade lógica divina é a causa exemplar de todas as verdades lógicas das inteli gências criadas Considerada na inteligência criada a verdade lógica é multíplice porque são tantas as verdades quantos são os conhecimentos inadequado e deficiente é o conhecimento que temos das coisas mesmo sensíveis e naturais Esse conhecimento pode dizerse também relativo isto é imperfeito limitado contingente em oposição ao conhecimento absoluto isto é perfeitíssimo infinito necessário que é exclusivamente próprio de Deus Mas que se seguirá logicamente dessa relatividade Seguirseá porventura o que dizem os adversários isto é que os nossos conhecimentos não correspondem aos objetos que são mutáveis que são falsos Não porque como dissemos o conhecimento inadequado não é um conhecimento falso e uma verdade será sempre verdade fixa e imutável mesmo quando a inteligência conformandose cada vez mais com o objeto chegará a des cobrir novas notas ou a conhecer de um modo claro e distinto uma nota que antes tinha sido percebida de um modo obscuro e confuso Mas não é esse o sentido dos adversários quando dizem que o conhecimento é relativo Entendem eles por tal expressão que o conhecimento é inteiramente sub jetivo isto é que é apenas uma forma da nossa inteligência à qual não corresponde realidade alguma A afirmação não poderia ser mais absurda De fato o nosso conhecimento se é subjetivo enquanto é um ato imanente que tem o princípio e o termo no mesmo sujeito é objetivo enquanto à origem e à representação porque é causado pelo objeto e representa um objeto E como o objeto tem o ser independente do sujeito seguese que o nosso conhecimento enquanto exprime o objeto é fixo e imutável porque fixa e imutável é a essência do próprio objeto E embora o objeto conhecido exista na inteligência por um modo diferente daquele por que existe na sua realidade contudo não deixa de ser o que é não perde nem muda a própria essência É pois absurdo dizer que mudandose o sujeito se muda também o objeto e que o que é verdade para um indivíduo pode ser falso para um outro e viceversa Os relativistas esquecem uma coisa muito elementar que no conhecimento não é o sujeito que forma ou modifica o objeto mas é o objeto que modifica e determina o sujeito porque o sujeito é movido e passivo ao passo que o objeto é movente e ativo As coisas são o que são em si mesmas e não o que nos possam parecer uma coisa que é verdadeira para uma inteligência deve ser verdadeira para todas as inteligências O princípio de contradição uma coisa não pode simultaneamente ser e deixar de ser é uma verdade do senso comum e não pode ser contestada O S P Pio X no decreto Lamentabili de 3 de julho de 1907 condenou o relativismo contido nesta proposição 58a Veritas non est immutabilis plusquam ipse homo quippe quae cum ipso et per ipsum evolvitur 163 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE conformes com a realidade que existem nas inteligências das criaturas e que são outros tantos reflexos deficientes de uma única verdade divina1 ARTIGO II Certeza sua divisão existência e propriedades 125 Estados da inteligência com relação à verdade A nossa inteligência alcança perfeitamente a verdade quando forma juízos correspondentes à realidade Ora essa faculdade com relação à verdade pode encontrarse em quatro estados Porquanto ou não forma um juízo porque não tem as idéias respectivas e está na ignorância ou possui a idéia de um objeto mas não se decide a pronunciar um juízo e está na dúvida ou pronuncia um juízo mas teme que se possa verificar o contrário e está na opinião ou julga sem receio algum de errar e está na certeza É da certeza que nos devemos ocupar nesse e nos seguintes artigos2 1 Os ontologistas depois de Malebranche dizem que existe uma única verdade Deus e que por isso a nossa inteligência não pode contemplar a verdade senão em Deus Esse erro refutase com o critério exposto no texto Embora a nossa inteligência seja uma participação da inteligência divina assim como os seres cria dos são uma participação do ser divino contudo a nossa inteligência é realmente distinta da divina como realmente distintos do ser divino são os seres criados Por isso possuímos uma verdade própria ainda que participada e acidental e essa verdade é multíplice porque muitos e diversos são os conhecimentos que temos dos muitos e diversos seres Sum Th Ia q 16 a 6 2 São quatro os estados da inteligência com relação à verdade ignorância dúvida opinião e certeza Devendo tratar detidamente da certeza digamos alguma coisa acerca dos três primeiros estados a Ignorância Ignorância é o estado da inteligência quando não profere um juízo porque não tem as idéias necessárias É universal ou particular conforme a ausência dos conhecimentos é total ou parcial A particular pode ser mais ou menos extensa A ignorância como se vê é uma relação negativa isto é é uma falta de relação da inteligência para com a verdade É efeito da limitação e da fraqueza da nossa inteligência e da dificuldade ou obscuridade dos objetos cognoscíveis Muitas vezes a ignorância pode ser uma culpa como quando é a ausência de conhecimentos indispensáveis sobretudo dos relativos à ordem moral e religiosa É uma das mais deploráveis conseqüências do pecado original 164 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 126 Certeza Certeza é a firme adesão da inteligência à verdade conhecida fundada num motivo capaz de excluir todo o receio de errar A certeza a é adesão firme porque a inteligência descansa na posse da verdade sem receio de errar b é adesão à verdade conhecida porque só a verdade conhecida como tal possui a força de atrair irresistivelmente e sossegar a inteligência c é adesão fundada num motivo capaz de excluir todo o receio de errar porque a firmeza da adesão é um efeito que deve ter um motivo proporcionado Como se vê a certeza tomada no sentido rigoroso é constituída por elementos subjetivos e objetivos1 b Dúvida Dúvida é o estado da inteligência quando não se decide a emitir um juízo afirmativo ou negativo Dividese em negativa e positiva É negativa quando não há razões nem para a afirmação nem para a negação é positiva quando há razões para a afirmação e para a negação mas de igual peso ou valor de modo que a inteligência está suspensa Toda a dúvida quando deliberada supõem um juízo acerca do valor dos razões pro e contra Tal juízo embora não atinja o próprio objeto pode ser imprudente ou errôneo como qualquer outro c Opinião Opinião é o estado da inteligência quando pronuncia um juízo mas com perplexidade e receio de errar As razões que nesse caso determinam a inteligência são mais ou menos prováveis de modo que não tornam o juízo emitido absolutamente verdadeiro nem o contraditório absolutamente falso A probabi lidade pois é a soma das razões sérias e atendíveis que sustentam uma proposição Admite vários graus é maior ou menor conforme o número e o peso das razões Há opiniões prováveis mais prováveis probabilíssimas Mas tudo o que está na esfera da probabilidade não é certo Por isso uma opinião probabilíssima não é certamente ver dadeira assim como uma opinião menos provável não é certamente falsa À opinião reduzse a suspeita a qual embora não seja um juízo contudo é um inclinação para ele por causa de alguns indícios ou motivos que se descobrem no objeto Enquanto não é juízo a suspeita difere da opinião que é um juízo embora não firme enquanto é uma inclinação para o juízo é um início de opinião Sum Th IIII q 2 a 1 1 A adesão firme da inteligência é o elemento subjetivo da certeza a verdade conhecida e o motivo que determina a firmeza da adesão são os elementos objetivos A firme adesão da inteligência à verdade é o objeto material da certeza o motivo que produz essa firme adesão é o objeto formal S Tomás diz que a certeza é firmitas adhaesionis virtutis cognoscitivae in suum cognoscibile In III Sent Dist 26 q 2 a 4 A certeza é uma perfeição intrínseca do próprio ato cognoscitivo mas enquanto esse exprime uma verdade não só porque como dizemos no texto só a verdade tem a força prender e encadear a inteligência de modo que não oscile para o contrá rio mas também porque uma faculdade não acha a perfeição e o descanso senão no objeto próprio e o objeto próprio da inteligência é a verdade ou o ente enquanto verdadeiro Por isso 1o a adesão ao erro o qual por falta da devida consideração pode ser recebido como verdade não merece o nome de certeza porque não passa 165 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 127 Espécies de certeza A certeza pode considerarse nos entes em que reside nos motivos em que se funda no modo por que se conhecem os motivos no princípio de que deriva Consi derada nos entes em que reside é subjetiva e objetiva Considerada nos motivos em que se funda é metafísica física e moral Considerada no modo por que se conhecem os motivos é direta e reflexa Considerada no princípio de que deriva é natural e sobrenatural a Certeza subjetiva e objetiva A subjetiva é a própria firmeza com que aderimos à verdade Dizse subjetiva porque reside no sujeito A objetiva é a própria verdade que se manifesta clara mente à inteligência produzindo uma adesão firme e excluindo todo de uma opinião e muitas vezes nem é opinião mas pertinácia Sum Th IIII q 18 a 4 De Ver q 6 a 3 2o a firmeza dessa adesão deve fundarse em motivos sólidos e seguros de modo que a proposição tida por certa seja incompatível com a sua contraditória e assim seja excluída a possibilidade do erro 3o assim como para a perfeição da verdade lógica não basta que a inteligência se conforme com o objeto mas é necessário que conheça ainda essa conformidade assim também para a perfeição da certeza não basta que a inteligência adira sem hesitação à verdade conhecida mas deve ainda conhecer claramente mesmo ao próprio ato do juízo que essa adesão é incompatível com o erro Sendo a certeza uma adesão da inteligência à verdade é claro que encontrarse onde e como se encontra a verdade e por isso no juízo de um modo perfeito e na idéia ou simples apreensão de um modo imperfeito ou inicial Quando um objeto se manifesta convenientemente à inteligência e imprime nela a própria imagem des pida das condições materiais ou individuais a inteligência reagindo nessa imagem forma a idéia do objeto que a impressionou e assim alcança embora de um modo deficiente a verdade e a essa adere sem hesitação Como é natural os escritores que não reconhecem na idéia um vislumbre de verdade nem reconhecem nesse ato um vislumbre de certeza Os filósofos apresentam outras definições de certeza Uns dizem que a certeza é a consciência da verdade outros que é a impossibilidade da dúvida outros que é a verdade cabalmente demonstrada outros que é a verdade conhecida nos seus princípios Essas definições são todas inaceitáveis É inaceitável a primeira não só porque não pode aplicarse à certeza direta que é verdadeira certeza mas também porque não exprime os elementos essenciais da certeza É inaceitável a segunda porque além de ser negativa não manifesta o que a certeza é em si mesma É ina ceitável a terceira porque não abrange as verdades conhecidas imediatamente e que são as mais certas É inaceitável a quarta porque para estarmos certos de uma verdade não é preciso conhecêla sempre nos seus princípios pois as verdades de fato são percebidas imediatamente na sua realidade e são certíssimas 166 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA o receito de errar Dizse objetiva porque está no objeto A objetiva é causa da subjetiva1 b Certeza metafísica física e moral a Certeza metafísica Certeza metafísica é a que se baseia na essência das coisas tal é a certeza desta proposição todo o efeito exige uma causa Esta certeza é absoluta não admite exceções porque a essência das coisas é imutável Por isso a proposição contraditória à que exprime esta certeza é absolutamente impossível2 b Certeza física Certeza física é a que se funda na constância das leis físicas tal é a certeza da seguinte proposição a terra movese em volta do sol Esta certeza admite exceções porque as leis físicas podem ser suspensas pela Onipotência de Deus Por isso a proposição con traditória é só fisicamente impossível3 c Certeza moral Certeza moral é a que se funda na constância das leis morais as quais regulam as inclinações e as ações dos homens tal é a certeza desta proposição os pais amam seus filhos Esta certeza também admite exceções porque as leis morais podem ser violadas pela liberdade humana Por isso a proposição contraditória é só moralmente impossível4 1 Segundo Kant a certeza subjetiva é a que se refere aos fenômenos internos do sujeito e a objetiva é a que tem por termo os objetos externos Mas a certeza é primária e propriamente subjetiva e só secundária e impropriamente se atribui ao objeto enquanto esse é capaz de produzila no espírito humano Sum Th IIII q 18 a 4 A certeza objetiva pode também definirse a infalibilidade ou força de que é dotado o motivo para conseguir um assenso certo Todavia essa força pode deixar de produzir o seu efeito por falta de consideração 2 O objeto pois da certeza metafísica é constituído por verdades metafisicamente necessárias isto é por verdades cuja necessidade depende do nexo essencial entre o sujeito e o predicado E como a essência das coisas é imutável a certeza metafísica não admite exceções 3 O objeto da certeza física é constituído por verdades fisicamente necessárias isto é por verdades cuja necessidade deriva das leis físicas que regulam o mundo E como as leis físicas estão sujeitas ao poder do Criador que as estabeleceu a certeza física pode admitir exceções 4 O objeto da certeza moral é constituído por verdades moralmente necessárias isto é por verdades cuja necessidade depende das leis morais que dirigem as ações dos homens para um fim constante e universal determinado por Deus E como as leis morais podem ser violadas pela liberdade humana a certeza moral também pode admitir exceções 167 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE c Certeza direta e reflexa É direta quando a inteligência adere firmemente à verdade porque conhece de um modo implícito e pelo fato mesmo da sua adesão os motivos em que se funda a sua deter minação assim todos conhecem pelo menos implicitamente os motivos que os levam a aceitar como inconcusso este princípio todo o efeito exige uma causa É reflexa quando a inteligência adere firmemente à verdade porque conhece de um modo explícito e pela reflexão os motivos que a levam a essa adesão assim refletindo sobre os conceitos de efeito e de causa conhecemos explicitamente as razões que demons tram a verdade daquele princípio1 1 A diferença entre a certeza direta e a reflexa não é essencial mas acidental porque a reflexa é a apenas a direta mas aperfeiçoada É uma diferença de graus e não de espécie Alguns escritores sustentam que não há certeza direta mas que toda a certeza é essencialmente reflexa Mas não é assim Quando a inteligência determinada pelo objeto que se lhe manifesta convenientemente pronuncia um juízo está certa do que afirma nem é preciso para isso que seja consciente da própria certeza Nem toda a afirmação é acompanhada necessariamente pela reflexão e quando acompanhada a afirmação não pressupõe a consciência de si mesma mas por ser objeto da própria consciência deve preceder a própria consciência em razão de natureza se não em razão de tempo Além disso a consciência ou a reflexão não acrescenta nada à firmeza da adesão ou à firmeza direta que é determinada exclusivamente pela evidência da verdade Como também nada acrescenta à certeza que temos de uma coisa e que se funda na evidência a consciência da verdade da própria coisa de modo que se por impossível a inteligência não tivesse meio algum para verificar o valor objetivo dos seus conhecimentos nem por isso os juízos certos pronunciados por ela perderiam nada da sua firmeza e necessidade Todavia devemos admitir que a consciência da certeza como também do valor objetivo de um juízo dá a última perfeição aos nossos conhecimentos porque então possuímos plenamente a certeza como também a verdade quando temos a consciência de que a possuímos Como o ato por que a inteligência alcança a certeza é idêntico ao ato por que alcança a verdade é evidente que a mesma inteligência quando reflete sobre a natureza do seu ato tem consciência não só da verdade mas também da certeza do juízo Erram pois os que afirmam que a certeza direta chamada também vulgar e espontânea não é verdadeira certeza mas cega credulidade Na certeza direta encontrase tudo o que constitui a certeza tomada no seu sentido rigoroso a verdade evidentemente conhecida a firme adesão da inteligência excluindo todo o receio de errar e a suficiente percepção dos motivos Será uma cega credulidade e não uma verdadeira certeza a convicção com que todos admitem a existência própria a existência dos seus atos dos seus parentes da sua casa e de mil outras coisas Não Diz bem o Balmes Interrogai a criança o homem maduro o velho se estão certos da existência 168 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA d Certeza natural e sobrenatural É natural quando a inteligência esclarecida pela própria luz natural e levada por um motivo objetivo isto é baseado nos próprios objetos adere firmemente à verdade É sobrenatural quando a inteligência esclarecida pela luz sobrenatural da Fé e levada pela autoridade de Deus adere firmemente à verdade1 128 A certeza existe a A certeza é a firme adesão da inteligência à verdade conhecida Ora como atesta a consciência a nossa inteligência adere com tal firmeza a muitas verdades de evidência imediata como são o fato da existência própria os princípios da razão etc que nem pode sequer suspeitar da possibilidade do contrário Logo a certeza existe2 b Toda a faculdade assim como tende necessariamente para o seu objeto próprio assim também depois de o ter alcançado necessa riamente nele se repousa Ora a nossa inteligência tende naturalmente para a verdade e quando esta lhe aparece claramente não pode deixar de aderir a ela por necessidade de natureza e de achar nela o seu des própria da existência dos seus atos internos e externos dos seus parentes dos seus amigos das suas habitações e não achareis em ninguém a menor sombra de hesitação Crianças velhos homens todos responderão a mesma coisa e o seu olhar de espanto vos dirá o seu pensamento Mas é possível que um homem sério pergunte acerca de coisas tão claras Phil fund I 1 c 3 Mas dizem não há certeza onde não há conhecimento explícito dos motivos Não é assim Se assim fosse não haveria verdadeira certeza se não de um mínimo número de verdade o que é falso Os próprios filósofos diz Fénelon estão invencivelmente convencidos de um grande número de verdades embora não as possam explicar claramente nem confutar os argumentos contrários que dificultam a sua percepção Lettres 1 Advirtase a distinção entre o natural e o sobrenatural Natural é tudo o que convém a um ente em virtude da natureza de que é dotado ou que deriva e depende dos princípios intrínsecos de que a mesma natureza é composta assim é natural para o homem o conhecimento de Deus pela consideração das criaturas Sobrena tural é tudo o que excede as faculdades e as exigências naturais da criatura assim é sobrenatural para o homem o conhecimento intuitivo de Deus 2 Quem pode duvidar do fato da existência própria Diz S Tomás Nullus unquam erravit in hoc quod non perciperet se vivere De Ver q 10 a 8 ad 2 Quem pode negar os princípios da razão como o princípio de contradição de causalidade etc sem renunciar à própria razão O mesmo Santo falando desses princípios diz Veris sima esse constat intantum ut falsa esse nec possibile sit cogitare Post Analy l 19 169 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE canso sem nenhum receio de errar isto é não pode deixar de alcançar a certeza Logo a certeza existe1 c Deve admitirse necessariamente a existência de uma coisa quando essa existência se afirma pelo fato mesmo de se negar Ora a existência da certeza afirmase pelo fato mesmo de se negar porquanto quem nega a existência da certeza entanto a nega enquanto tem a certeza de que a certeza não existe Logo a certeza existe2 1 Cícero expõe o mesmo argumento com as seguintes palavras Ut enim necesse est lancem in libra ponderibus impositis deprimi sic animum perspicuis cedere Nam quomodo non potest animal ullum non appetere id quod accommodatum ad naturam appareat sic non potest animus objectam rem perspicuam non approbare Acad l II c 12 Acrescentese que mesmo por confissão dos adversários a ciência existe Ora a ciência não pode existir nem conceberse se não se admitem alguns princípios certos e por si evidentes porque toda a demonstração que produz a ciência deve partir de princípios dotados dessas qualidades De Ver q 11 a 1 O que dizemos da ciência deve aplicarse às artes às virtudes à sociedade e a muitas outras coisas que não poderiam subsistir se não se admitissem como certas muitas verdades relativas à nossa vida individual e social 2 A existência da certeza não pode ser rigorosamente demonstrada Porquanto quem procura demonstrar uma coisa supõe como certo que está raciocinando e que o raciocínio tem a força de convencer e por isso supõe já a existência da certeza antes de a demonstrar Por isso a nossa demonstração é apenas uma explicação reflexa Nem precisa de ser demonstrada A existência da certeza é um fato tão evidente que se impõe à nossa inteligência o que se vê não precisa de ser demonstrado Nem pode haver receio de errar porque como diz S Tomás sicut circa ipsum introitum domus qui omnibus patet et primo occurrit nullus decipitur ita etiam in consideratione veritatis In II Met l 1 a Dizem A inteligência não adquire a certeza se não for dotada de aptidão para isso Ora nunca poderá demonstrarse que a inteligência tem essa aptidão porque cometerseia um círculo vicioso dandose como provado o que havia de se provar pois a demonstração supõe e exige a certeza dos princípios de que parte Resposta A objeção contém o sofisma da passagem da ordem real para a ordem lógica É certo que na ordem real ou ontológica primeiramente é a aptidão e depois o ato das nossas faculdades mas é falso que na ordem lógica ou cognoscitiva o conhecimento dessa aptidão deva preceder o ato Assim eu não posso ouvir uma bela melodia se não tiver aptidão para isso mas não é preciso que essa aptidão seja por mim conhecida antes do ato pois conhecese e verificase no próprio ato visto que da existência do ato podemos deduzir a aptidão para o produzir Por isso a aptidão de que a nossa inteligência é dotada para alcançar a certeza deve na ordem real preceder os próprios conhecimentos certos mas não é preciso que os preceda na ordem lógica isto é não é preciso que antes conheçamos essa aptidão e depois alcancemos a certeza 170 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 129 A certeza é proporcionada à inteligência e ao motivo Todo o efeito deve ser proporcionado à causa de que deriva Ora a certeza é um efeito que deriva como de causa adequada da inteligência e do motivo porque é a inteligência que levada pelo motivo adere à verdade e por isso a sua firmeza é mais ou menos intensa conforme a maior ou menor perfeição da sua luz e a maior ou menor eficácia do motivo Logo a certeza é proporcionada à inteligência e ao motivo1 130 A certeza metafísica a física e a moral diferem especi ficamente e uma espécie é superior à outra a Diferem especificamente A certeza é proporcionada também ao motivo e por isso a motivos especificamente distintos correspondem certezas especificamente distintas Ora os motivos da certeza metafísica da física e da moral são especificamente distintos porque o motivo da certeza metafísica é a essência das coisas o da física é a constância das leis b Continuam é impossível averiguar se entre a ordem real e a ideal existe uma ponte um nexo Ora sem a existência dessa ponte desse nexo nunca poderemos estar certos de que uma ordem corresponde à outra Logo devemos admitir não a certeza mas a dúvida universal Resposta A ponte o nexo que une a ordem ideal com a real é a luz do objeto que ilumina a nossa inteligência As duas ordens como vimos e veremos não estão separadas a ordem ideal é a própria ordem real enquanto existe intencionalmente no nosso espírito 1 Na certeza devemos considerar duas coisas o ato da inteligência que é a adesão à verdade conhecida e a firmeza desse ato Ora tanto o ato como a sua firmeza são coisas proporcionadas à perfeição da inteligência e à eficácia do motivo Assim uma inteligência mais elevada mais educada pelo estudo e pela reflexão compreende mais distinta e intimamente a força de um motivo do que uma inteligência menos perfeita e por isso a sua firmeza na adesão a uma verdade será mais intensa Como também na mesma inteligência a adesão à verdade será mais ou menos firme con forme mais ou menos forte for o motivo Assim uma pessoa acredita mais no que ela viu do que no que os outros lhe referem Por isso diz S Tomás Tanto major est certitudo quanto fortius est motivum quod determinationem causat In III Sent Dist 23 q 2 a 2 Todavia a certeza se admite vários graus na sua parte positiva enquanto significa a firme adesão da inteligência à verdade não os admite na sua parte negativa enquanto significa a exclusão de todo o receio de errar Porquanto essa exclusão é um todo indivisível porque é uma negação perfeita não admite graus não podendo haver um meio termo entre o ser e o nãoser 171 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE físicas e o da moral é a constância das leis morais Logo a certeza metafí sica a física e a moral diferem especificamente1 b Uma espécie é superior à outra Sendo a certeza proporcionada ao motivo uma espécie de certeza será superior à outra se o motivo daquela for superior ao desta Ora o motivo da certeza metafísica que é a essência das coisas é superior ao da certeza física que é a constância das leis físicas e o motivo da certeza física é superior ao da certeza moral que é a constância das leis morais Logo a certeza metafísica é superior à física e a certeza física é superior à moral2 1 Sendo a certeza a adesão firme da inteligência à verdade isto é a uma das proposições contraditórias sem receio de que se verifique a oposta conforme a diversa necessidade da conveniência do predicado com o sujeito deve haver diversas espécies de certeza Ora um predicado pode convir ao sujeito ou porque o exige a essência das coisas assim dizemos que o homem é animal racional ou porque o exigem as leis físicas assim dizemos que o fogo queima ou porque o exigem as leis morais assim dizemos que as mães amam seus filhos Daí as três espécies de certeza metafísica física e moral São três espécies e não três graus da mesma espécie Porquanto os atos distinguemse pelo seu objeto formal e por isso a objetos formais especifica mente distintos correspondem atos especificamente distintos Ora sendo os motivos que constituem os objetos formais da certeza metafísica física e moral especificamente certeza metafísica a física e a moral 2 As três espécies de certeza diferem entre si não na parte negativa porque todas três excluem o receio do oposto mas na parte positiva isto é enquanto à firmeza da adesão Esa firmeza é sproporcionada ao motivo e por isso como o motivo é diverso em cada uma delas a firmeza numa espécie de certeza é mais intensa que a firmeza numa outra espécie e assim uma certeza é superior à outra A firmeza na certeza metafísica é mais intensa que a firmeza nas outras duas espécies visto que na certeza metafísica o predicado convém necessariamente ao sujeito pois convém pela exigência da própria essência e essa é necessária e imutável de modo que não é possível exceção A firmeza na certeza física é mais intensa que a na certeza moral porque na certeza física a necessidade da conveniência do predicado com o sujeito fundase na constância das leis físicas que não podem ser suspensas senão pela onipotência de Deus ao passo que na certeza moral a necessidade da conveniência do predicado com o sujeito fundase na constância das leis morais que podem ser violadas pelo livrearbítrio do homem Mas embora as leis físicas possam ser suspensas pela onipotência de Deus e as leis morais possam ser violadas pelo livrearbítrio do homem todavia daí não se segue que a certeza física e a moral não mereçam o nome e a dignidade de verdadeira certeza e que se reduzam à mera probabilidade Com efeito a certeza é a firme adesão da inteligência a uma verdade com a exclusão de todo o receio de errar É claro que quando se fala do receio de errar entendese falar do receio prudente que é próprio das pessoas sérias e que se funda em motivos graves e não do receio imprudente que é 172 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA próprio dos espíritos levianos e que se funda nos delírios de uma imaginação doente Ora a certeza física e a moral excluem todo o receio prudente de errar Porquanto a certeza física fundase nas leis físicas e a moral nas leis morais Ora as leis físicas são constantes e só podem ser suspensas por Deus que só as suspende por motivos graves e em circunstâncias tais que a suspensão pode ser facilmente averiguada Logo uma proposição que se funda nas leis físicas é certa e merece toda a adesão da inteligência enquanto não se provar claramente que se verificou o contrário isto é que se deu a exce ção porque a exceção não se supõem mas deve provarse e até que se não prove não deve ser admitida Assim quando digo este fogo queima a proposição é certíssima e só um louco pode afirmar o contrário Como também constantes são as leis morais porque representam a natural ordenação da natureza humana para o bem e por isso se num caso particular são violadas pela livre vontade humana tal violação se manifesta imediatamente pelas circunstâncias Logo uma proposição que se funda nas leis morais é certa e merece a firme adesão da inteligência até que se não provar com evidência que num caso particular essas leis foram violadas pois ninguém deve ser tido por mau senão depois de se provar a sua maldade Assim quando digo esta mãe ama seus filhos a proposição é certeza até que não se prova o contrário Quando pois se trata da certeza física e da moral embora não repugne o contrário todavia se não há motivos verdadeiramente graves o contrário não deve admitirse e a adesão deve ser e é firme porque exclui todo o receio prudente de errar Concedemos que não repugnando o contrário seja possível o erro Mas nesse caso o erro não se segue per se mas per accidens e a certeza física e a moral não deixam de ter o nome e a realidade de certeza porque uma coisa deve ser avaliada pelo que é per se isto é pela sua natureza e não pelo que é per accidens isto é pelo que lhe pode acontecer por circunstâncias estranhas Muitos escritores não reconhecem senão a certeza metafísica porque dizem a certeza a verdadeira certeza deve excluir todo o receio tanto prudente como impru dente e a possibilidade de todo o erro tanto per se como per accidens Não dividimos essa opinião Todos os homens estão certos firmemente certo de muitas verdades da ordem física e moral não suspeitam do oposto e em conformidade com essa convicção regulam a sua vida Assim todos o estão convencidos de que o fogo queima e não se lançam numa fornalha acesa embora seja por um milagre possível o contrário e de que o abraço da mãe se pode aceitar sem receio de que seja um atentado contra a própria vida embora isso não seja absolutamente impossível Se pois os homens descansam também nas verdades da ordem física e moral essas verdades são tidas como certas Será uma certeza menos perfeita que a metafísica mas é sempre certeza Objetam A certeza física e a moral não existem Porquanto a certeza exclui toda a dúvida Ora a certeza física e a moral não excluem toda a dúvida porque estando as leis físicas e as morais sujeitas a exceções podemos sempre suspeitar que se tenha dado a exceção A resposta está dada mas a repetição não será inútil É falso que a certeza física e a moral não excluem toda a dúvida porque é falso que em cada um dos casos particulares podemos suspeitar que se tenha dado a exceção nas leis físicas e morais Na verdade uma exceção nas leis físicas só pode provir de Deus e como Deus não opera 173 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 131 A certeza sobrenatural é superior a toda a certeza natural A certeza é proporcionada à perfeição da inteligência e à eficácia do motivo Ora a perfeição que a inteligência recebe da luz sobrenatural da Fé é imensamente superior à perfeição que ela recebe da sua luz natural e o motivo em que se funda a certeza sobrenatural e que é a autoridade divina sendo infalível é imensamente mais firme que todo o motivo em que se funda a certeza natural Logo a certeza sobrenatural é superior a toda a certeza natural1 caprichosamente se não houver uma razão séria para fundamentar a exceção a essas leis num determinado caso toda suspeita acerca dessa exceção é infundada Como também uma exceção às leis morais deriva do abuso da liberdade por isso se não houver uma razão que demonstre esse abuso toda a suspeita é irracional Embora pois uma exceção seja possível em abstrato todavia podemos saber com a certeza que num caso concreto não se realizou e isto basta para que o espírito adira firmemente à verdade sem receio de errar Repetimos que a possibilidade da exceção se prova que a certeza física e a moral não são tão perfeitas como a metafísica não tira àquelas duas espécies a essência da certeza Agora uma advertência A certeza física e a moral não podem exprimirse pelas seguintes fórmulas se Deus não suspende as leis físicas este fogo queima se as leis morais não são violadas esta mãe ama seus filhos A razão é clara Sendo intrínseco e essencial o nexo entre a condição e o condicionado essas fórmulas não exprimem a certeza física e a moral mas a metafísica Essas duas espécies de certeza física e moral devem exprimirse pelas seguintes fórmulas esse fogo queima esta mãe ama seus filhos Porquanto supõese nesses casos e com razão que as leis física e moral seguem o seu curso ordinário não havendo razões graves para se admitir o contrário 1 A proposição é apenas uma conseqüência dos princípios expostos nos núme ros antecedentes Devemos porém fazer uma importante distinção Se por certeza se entende a firmeza da adesão à verdade então a inteligência adere muito mais fir memente às verdades da Fé divina do que às verdades da ciência porque o motivo em que se funda a Fé sendo infalível é mais forte que o motivo em que se funda a ciência Mas se por certeza se entende o descanso da inteligência na verdade conhecida então embora a adesão às verdades da Fé seja mais firme do que a adesão às verdades da ciência contudo o descanso da inteligência é maior nas verdade da razão do que nas da Fé porque a adesão às verdades da razão é determinada pela verdade das coisas que se manifesta evidentemente à própria inteligência ao passo que a adesão às verdades da Fé é determinada pela vontade que move e inclina a inteligência a aderir a uma verdade que se não vê isto é em que se não vê o nexo entre o predicado e o sujeito Daqui se segue que se nas verdades da ciências evidentemente conhecidas a adesão da inteligência é necessária e a dúvida é impossível nas verdade da Fé a adesão é livre e um movimento indeliberado de dúvida pode levantarse no espírito do crente Cf De Ver q 10 a 12 ad 6 Lembramos que à firmeza da adesão não se opõe o movimento indeliberado de dúvida mas só a dúvida deliberada 174 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ARTIGO III A existência da certeza e o Ceticismo 132 Ceticismo Ceticismo é o sistema que negando a legi timidade dos meios de adquirir a certeza nega a existência da mesma certeza e considera a dúvida como o resultado definitivo da ciência e como o estado normal espírito humano1 133 Divisão do Ceticismo O Ceticismo dividese em universal e particular Universal é o que negando a legitimidade de todos os meios de adquirir a certeza sustenta que nada é certo e que por isso se deve duvidar de tudo Particular é o que negando a legitimidade de um ou outro meio de adquirir a certeza diz que se deve duvidar de uma 1 É muito antiga a divisão dos filósofos em dogmáticos e céticos Os dogmáticos sustentavam que o homem pode alcançar um conhecimento certo de todas as coisas os céticos pelo contrário ensinavam que o homem não pode alcançar a certeza de coisa alguma Ambos erravam como diz S Tomás L II Post l 7 Mas se o erro dos dogmáticos era grave o dos céticos era gravíssimo Fundador do Ceticismo foi Pirro de Elide 360270 a C da escola de Aristóteles e de Epicuro seguido por Timão de Philunte 325235 a C por Sexto Empírico 200 a C por Enesidemo de Creta fl 8060 a C e por outros que foram chamados pirrônicos Diziam eles que só vemos as aparências das coisas e não a realidade que toda a proposição pode ser defendida e opugnada por argumentos de igual peso e valor que não podemos afirmar nem negar a possibilidade de alcançar a certeza e que por isso é preciso suspender todo o juízo e contentarse com a dúvida Essa suspensão foi chamada observação e os pirrônicos foram denominados observadores Os pirrô nicos foram seguidos e excedidos pelos acadêmicos sequazes de Arcesilau de Eólia 315 a C Esses negavam expressamente a possibilidade de alcançar a certeza e por isso ensinavam que em todas as coisas é necessário suspender o assenso certo e contentarse com o assenso provável Como se vê a diferença entre os pirrônicos e os acadêmicos não é sensível porque no fundo todos negam a possibilidade de adquirir a certeza A opinião de uns e de outros teve o nome comum de Ceticismo significandose com essa palavra o sistema dos que afirmam que nada pode ser conhecido com certeza e que por isso se deve duvidar de tudo Também esse erro apesar de tão grosseiro foi ressuscitado de um modo total ou parcial nestes últimos séculos pelos que não aceitam a luz do Evangelho e desprezam a sapiência da Escolástica São conhecidos os nomes de Migual de Montaigne 15331592 de Pedro Charron 15411603 de Francisco Sanches 15621632 de Pedro Bayle 16471706 de David Hume 17111776 e do célebre Immanuel Kant 17241804 com a turba toda dos subjetivistas modernistas etc 175 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE ou outra espécie de verdades relativa a esse meio Reservando para mais tarde a crítica do Ceticismo particular aqui tratamos do universal1 134 O Ceticismo universal é naturalmente absurdo a Uma opinião é naturalmente absurda quando repugna à natu reza Ora o Ceticismo universal repugna à natureza pois essa pelo seu próprio peso determina a inteligência a aderir firmemente a verdades tanto da ordem ideal como da real dotadas de evidência imediata de modo que toda a dúvida se torna absolutamente impossível Logo o Ceticismo universal é naturalmente absurdo2 b Uma opinião é naturalmente absurda quando não pode ser traduzida na prática embora se refira à prática Ora tal é o Ceticismo universal porque ninguém pode operar se não está certo de que existe de que é dotado de faculdades operativas de que existem na realidade algumas coisas em que possa exercer a sua atividade etc Logo o Ceticismo universal é naturalmente absurdo3 135 O Ceticismo universal é teoricamente absurdo a Toda a opinião que envolve contradições é teoricamente absurda Ora o Ceticismo universal envolve muitas contradições Com efeito os céticos quando proclamam este princípio deve duvidarse de tudo ou o 1 O ceticismo particular toma diversos nomes conforme a diversidade dos meios cuja legitimidade se contesta Chamase a positivismo ou empirismo se nega a legitimidade da inteligência e só aceita o que pode ser percebido pela experiência externa b idealismo se não admite o testemunho dos sentidos c racionalismo se nega a autoridade da Revelação sobrenatural d fideísmo se contesta o valor da razão e só admite como certo o que foi revelado e ceticismo histórico se não aceita o testemunho dos homens 2 Com razão diz Pascal Duvidará o homem de tudo Duvidará de que duvida Duvidará de que existe É impossível que se chegue a estes extremos e penso que nunca houve efetivamente um pirrônico perfeito A própria natureza sustenta a razão impotente e não a deixa delirar até esse ponto Pensées c IV par 25 3 S Tomás nota essa impossibilidade de operar em que se encontra um cético se quiser ser coerente com a sua opinião e a contradição em que pode cair e cai realmente na vida prática Metaf l XI l 6 É curioso o seguinte fato da vida de Pirro Querendo conformar a prática com a teoria prometeu que daí por diante não evitaria o encontro dos cavalos dos carros etc Um dia vendo ao longe um cão danado que vinha ao seu encontro Pirro deitou a fugir e aos discípulos que lhe censuravam a incoerência respondeu É difícil despirse da natureza Difficile est naturam exuere 176 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA reconhecem como verdade ou como falso ou como duvidoso Se o reco nhecem como verdadeiro então é certo para eles que se deve duvidar de tudo se o reconhecem como falso também é certo para eles que não se deve duvidar de tudo se o reconhecem como duvidoso também nesse caso é certo para eles que duvidam desse princípio Logo o Ceticismo universal é teoricamente absurdo1 b Uma opinião é teoricamente absurda quando os seus defensores afirmam com os fatos o que negam com as palavras É o que acontece com os defensores do Ceticismo universal De fato os céticos na defesa da sua opinião empregam o raciocínio afirmam que os sentidos e a razão se enganam distinguem a verdade da falsidade a dúvida da certeza a afirmação da negação Sendo assim eles admitem como certo que o raciocínio pode levar à consecução da verdade que são dotados de faculdades perceptivas que existem e duvidam que alguma coisa existe na realidade que o princípio de contradição é verdadeiro etc Logo o Ceticismo universal é teoricamente absurdo2 1 S Agostinho deduz de existência da dúvida a existência da certeza com as seguintes palavras Regulam ipsam quam vides concipe hoc modo omnis qui se dubitantem intelligit verum intelligit et de hac re quam intelligit certus est de vero igitur certus est Omnis igitur qui utrum sit veritas dubitat in se ipso habet verum unde non dubitet nec ullum verum nisi in veritate verum est Non itaque oportet eum de veritate dubitare qui potuit undecumque dubitare De vera religione c 36 n 75 2 E para limitar a esfera da demonstração diremos que a pretendida exis tência da dúvida universal é a destruição do Ceticismo universal Porquanto como sabem os céticos que se deve duvidar de tudo e que realmente duvidam de tudo Pelo testemunho da consciência Logo eles têm por certa o testemunho da consciência e assim renegam o seu sistema Se disserem que duvidam também do testemunho da consciência renegam igualmente o seu sistema porque senão é certo o que a consciência refere nem é certo que existe a dúvida Objetam devemos evitar todos os erros Ora só quem duvida de tudo evita todos os erros Logo deve seguirse o Ceticismo universal Resposta É verdade que devemos evitar com todo o empenho todos os erros mas é falso que evita todos os erros quem duvida de tudo A dúvida universal é o máximo dos erros é a fonte de todos os erros O argumento dos céticos é seme lhante a este quem nada come está seguro de não ser envenenado logo devemos rejeitar todo o alimento É prudência não aderir a coisas duvidosas que não têm solido fundamento mas é pertinácia duvidar de coisas evidentes Diremos com S Agostinho Miserabilius enim fallitur qui nunquam putat facultatibus cognoscitivis esse credendum quam qui illis credendo nonnumquam fallitur De civ Dei l 19 c 18 177 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 136 Conseqüências do Ceticismo universal As conse qüências desta opinião não poderiam ser mais perniciosas A negação da certeza é a destruição da ordem religiosa moral e social É a des truição da ordem religiosa porque não admite a autoridade divina que é certíssima nem as verdades reveladas que são infalíveis É a destruição da ordem moral porque não é possível a honestidade da vida quando se duvida dos primeiros princípios da moralidade e dos primeiros preceitos da lei natural É a destruição da ordem social porque quando se duvida do princípio da autoridade dos direitos e deveres etc falta à sociedade o verdadeiro e essencial fundamento1 ARTIGO IV Universal e supremo motivo da certeza 137 Motivo da certeza Motivo da certeza é a razão que determina a inteligência a aderir firmemente à verdade Esse motivo deve existir porque a certeza é um efeito e todo o efeito exige uma causa proporcionada2 138 Espécies do motivo da certeza O motivo da certeza é a intrínseco e extrínseco b universal e particular c supremo e próximo a Motivo intrínseco e extrínseco É intrínseco quando a razão que determina a inteligência a aderir à verdade re side na própria verdade ou no objeto É extrínseco quando essa razão reside não na verdade ou no objeto mas na testemunha que nos refere uma verdade3 1 Essas conseqüências são evidentemente legítimas A quem objetasse que o Ceticismo só se refere aos conhecimentos da ordem natural e por isso não pode destruir a nossa Fé responderíamos que a nossa Fé não é possível se não se admitem como certas muitas verdades da ordem natural como são a existência de Deus a sua autoridade o fato da Revelação divina etc e que por isso a destruição da ordem natural traz consigo a destruição da ordem sobrenatural 2 O motivo da certeza deve existir necessariamente A nossa inteligência sendo uma faculdade cognoscitiva não pode aderir firmemente a uma verdade sem uma razão sem um motivo Uma adesão firme determi nada pelo instinto cego da natu reza repugna à índole e à nobreza da in teligência O motivo deve poder explicar suficientemente o efeito que ele produz e que é a própria certeza 3 Que o motivo da certeza possa ser e seja intrínseco e extrínseco à verdade 178 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Motivo universal e particular É universal quando é comum a todas as verdades às quais adere a inteligência É particular quando é próprio de uma só espécie ou de uma só ordem de verdades1 c Motivo supremo e próximo É supremo quando não depende de outro e é a razão última que nos determina a aderir à verdade É próximo quando depende de um mo tivo superior e nele finalmente se resolve2 139 O motivo da certeza é a evidência do objeto3 a O motivo da certeza é a razão que determina a inteligência a deduzse da existência de uma dúplice ordem de verdades que são as verdades da ciência e as verdades da fé Nas verdades da ciência a inteligência não adere senão por um motivo intrínseco à própria verdade por uma razão que se encontra no próprio objeto e que conhecida pela mesma inteligência determina essa faculdade a aderir Nas verdades da fé a inteligência adere à verdade por um motivo que é extrínseco à pró pria verdade e que reside na pessoa que nola refere ou ensina 1 O motivo universal e o particular não se excluem mutuamente mas um é compatível com o outro como o superior é compatível com o inferior Cada espécie de certeza tem o seu motivo particular Todavia esses motivos particulares devem ter uma nota comum e essa nota como veremos consiste na evidência objetiva 2 Todos os entes como dissemos têm várias e diversas causas de que constam ou de que dependem e que por isso são intrínsecas ou extrínsecas Umas e outras são próximas ou supremas remotas As causas próximas referemse às supremas em que acham a sua base e a sua expli cação Como as causas conhecidas por nós são motivos da nossa certeza assim esses motivos distinguemse em próximos e supremos 3 Expliquemos a natureza e as espécies da evidência a Evidência Evidência é a clara manifestação do objeto ou da verdade Por quanto todos dizem que um objeto é evidente quando se mani festa claramente à faculdade perceptiva de modo que atua nela e a deter mina a percebêlo como é em si mesmo Illa videri dicuntur quae per se ipsa movent intellectum nostrum vel sensum ad sui cognitionem Sum Th IIII q 1 a 4 Um objeto para que se torne evidente ou visível à inteligência deve ser cercado por uma luz ou claridade conveniente como deve ser iluminado um objeto material para que possa ser percebido pelos nossos olhos Essa luz ou claridade é coisa própria da inteligência e da inteligência irradia para os objetos e os torna visíveis porque a inteligência dotada como é de uma energia espiritual abstrai dos fantasmas as imagens ou espécies imateriais que representam os objetos e em que e porque eles são claramente perceptíveis e percebi dos Portanto o fenômeno completo da evidência como o da visão externa abrange três coisas o objeto a sua visibilidade e a sua manifestação à faculdade per ceptiva O objeto e a sua visibilidade constituem o elemento material da evidência o objeto é o elemento remoto a sua visibilidade é o elemento próximo a manifestação é o elemento formal 179 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE aderir à verdade Ora a razão que determina a inteligência a aderir à verdade é a evidência do objeto isto é a clara manifestação do objeto porque toda a faculdade é deter minada ao ato pelo seu objeto e por isso quando esse objeto lhe se manifesta claramente ela não pode ser indiferente mas levada pela sua própria natureza deve aderir com firmeza ao mesmo objeto e descansar nele Logo o motivo da certeza é a evidência do objeto1 b Espécies de evidência A evidência pode ser a objetiva e subjetiva b intrínseca e extrínseca c imediata e mediata a Evidência objetiva e subjetiva A objetiva é o objeto enquanto iluminado pela inteligência a esta se manifesta claramente A subjetiva é a clara percepção do objeto ou da verdade que se torna presente à inteligência A evidência é uma coisa propriamente objetiva pois é uma qua lidade do objeto cognoscível embora deva tornarse de algum modo subjetiva porque se o objeto não se manifesta claramente à inteligência esta não pode dar a própria adesão A evidência objetiva é de várias espécies Porquanto sendo uma qualidade do objeto ou da verdade essa evidência é metafísica física e moral conforme o objeto ou a verdade se funda na ordem metafísica na física ou na moral A evidência subjetiva admite vários graus na mesma espécie conforme a maior ou menor perspi cácia e aplicação da própria inteligência b Evidência intrínseca e extrínseca São duas espécies da evidência objetiva A intrínseca é própria do motivo intrínseco da certeza e reveste a própria verdade ou o objeto tal é a evidência das verdades da ciência A extrínseca é própria do motivo extrínseco da certeza e reveste a autoridade que atesta uma verdade tal é a evidência das verdades da fé tanto sobrenatural como natural Por isso quando a evidência é intrínseca vêse claramente o nexo entre o sujeito e o predicado quando é extrínseca não aparece esse nexo mas aparece a autoridade de quem atesta uma coisa A evidência intrínseca torna a verdade evidente a extrínseca torna a verdade evidentemente crível Advirtase que a evidência extrínseca é tal com relação à verdade a qual por isso se chama e é evidente extrinsecamente porque com relação à própria autoridade é intrínseca c Evidência imediata e mediata São duas espécies da evidência intrínseca É imediata quando a verdade se manifesta pela simples análise dos termos como nos princípios da razão p ex o todo é maior que uma parte ou pelo testemunho dos sentidos como nos fatos experimentais p ex o sol resplandece É mediata quando a verdade se manifesta não por si mesma mas pela luz dos princípios imediata mente eviden tes em que está contida e de que é deduzida pelo raciocínio como nas con clusões p ex a alma humana é imortal Mas tanto num como no outro caso a evidência manifesta a própria entidade da verdade ou do objeto 1 A nossa inteligência sendo por si indiferente para a percepção de inu meráveis objetos não pode perceber um certo objeto se este não lhe se manifesta convenientemente e não a determina ao ato Essa manifesta ção e determinação são absolutamente necessárias Mas depois de o objeto se manifestar e determinar a 180 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA inteligência esta não pode permanecer indiferente mas necessariamente deve perceber o objeto e aderir a ele com firmeza Exigeo a própria natureza da faculdade cognos citiva Se assim não fosse se a faculdade pudesse permanecer indiferente perante a ação do objeto deveríamos dizer que a faculdade não foi feita para o seu objeto isto é que a faculdade não é faculdade o que repugna Mais tarde explicaremos o modo porque o objeto atua na inteligência e a deter mina à percepção Limitamonos agora a dizer que não é possível o conhecimento se o objeto cognoscível não se une com a faculdade cogni tiva O objeto externo penetra no órgão animado do sujeito não pela sua substância porque o corpo é impenetrável mas pela sua ação física porque a ação do agente se encontra no paciente Ora esta ação é a expres são mais ou menos adequada da natureza do objeto porque o efeito é semelhante à própria causa O sujeito adverte e percebe por intuição ou de um modo imediato essa ação estranha que atua nele e o penetra e percebendo a ação percebe o próprio agente o próprio objeto externo Assim o objeto se torna manifesto e visível pela sua ação à faculdade perceptiva e o sujeito por tal evidência objetiva está tão certo da exis tência do objeto externo como está certo da existência própria O objeto sensível tem dois aspectos Um aspecto é físico e exterior e este cai sob a intuição dos sentidos outro é imaterial e interior e este cai sob a intuição da inteligência Este aspecto imaterial e interior dos objetos sensíveis é representado por uma imagem espiritual e é nessa e por essa imagem que a inteligência vê o objeto e a ele adere com firmeza Dizemos que a inteligência deve necessariamente aderir ao objeto ou à verdade quando esta lhe se torna visível ou evidente Mas há uma dúplice necessidade de especificação e de exercício A necessidade é de espe cificação quando uma faculdade é por tal modo determinada a produzir um certo ato que não pode produzir um ato diverso ou contrário assim a vontade dos bemaventurados ama necessariamente Deus e é impossível que o odeie A necessidade é de exercício quando uma faculdade é por tal modo determinada a produzir o ato que não pode deixar de o produzir assim os nossos olhos quando são bem dispostos e convenientemente aplicados não podem deixar de perceber um objeto presente A esta dúplice neces sidade corresponde em sentido oposto uma dúplice indiferença ou liber dade que também se chama de especificação e de exercício Feita essa distinção perguntase a necessidade em que se acha a inteligência de aderir a um objeto ou a uma verdade que se torna evidente é uma necessidade de especificação ou também de exercício A essa pergunta damos a seguinte resposta a O objeto ou a verdade quando se torna evidente determina por tal modo a adesão da inteligência que esta não pode aderir à proposi ção contrária É a neces sidade enquanto à especificação do ato A conclusão é certíssima Toda a faculdade como dissemos deve necessariamente aderir ao bem para o qual tende e que lhe se manifesta convenientemente Ora o bem da inteligência é a verdade e por isso quando esta se torna evidente a inteligência não pode deixar de aderir a ela e de rejeitar a proposição contrária Além disso se a inteligência pudesse deixar de aderir 181 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a uma proposição evidentemente verdadeira não haveria repugnância alguma em que ela pudesse aderir a uma proposição evidentemente falsa porque na hipótese admitirseia a liberdade ou indiferença de especificação a qual diz respeito a atos opostos e a adesão a uma proposição evidentemente falsa é um ato oposto à adesão a uma proposição evidentemente verda deira Ora é impossível que a inteligência adira a uma proposição eviden temente falsa Por quanto a falsidade é um mal da inteligência e quando é evidente é um mal total sem alguma aparência de bem Ora nenhuma faculdade pode aderir ao seu mal total aliás seria naturalmente viciada e o vício atribuirseia ao próprio Autor da natureza Concluímos que assim como a vontade não pode deixar de aderir a um bem que não tem aparência alguma de mal assim também a inteligência não pode deixar de aderir a uma verdade quando não tem aparência alguma de falsidade isto é quando se torna visível ou evidente S Thom De malo q 6 a un ad 10 b O objeto ou a verdade quando se torna evidente determina por tal modo a inteligência a produzir o ato que este não pode ser impedido diretamente pela von tade embora o possa ser indiretamente Uma facul dade impede diretamente uma outra quando a primeira não deixa operar a segunda embora esta por si possua todos os requisitos necessários para o ato Uma faculdade impede indiretamente uma outra quando esta não possui um requisito necessário para o ato e tal falta depende da influ ência da primeira faculdade A proposição pode desdobrarse nas duas seguintes a A produção do ato da inteligência não pode ser impedida diretamente pela vontade Por quanto a consciência atesta que a inteligência não pode deixar de aderir à verdade quando esta lhe se toma evidente seja qual for o esforço da vontade para obstar a essa adesão E não podia ser de outro modo Quando a inteligência adere a uma verdade evidente nenhum dos elementos que concorrem para este ato e que são a inteligência o objeto a evidência do objeto a união do objeto com a facul dade está sujeito ao domínio direto da vontade Portanto a vontade assim como não pode obstar a que os olhos vejam um objeto quando este se acha presente e aqueles estão bem dispostos e convenientemente aplica dos assim também não pode obstar a que a inteligência adira a uma verdade quando esta lhe se torna evidente b A produção do ato da inteligência pode ser impedida indiretamente pela vontade Dáse este fenômeno quando à inteligência falta pela influência da vontade um ou outro requisito necessário para o ato Assim se a inteligência pela imposição da vontade distrai de uma verdade a sua atenção não pode dar a própria adesão embora a verdade seja por si evidente assim como se a vontade impõe aos olhos que se fechem estes não poderão perceber um objeto embora presente e lumi noso porque então falta um requisito essencial para o ato qual é a aplicação da faculdade ao seu objeto Notamos que se a verdade não é ou não aparece evidente a inteligência não sendo determinada necessa riamente pelo objeto pode ser impedida no exercício do seu ato pela vontade como pode ser determinada por ela o que se verifica com rela ção às verdades prováveis que não são perfeitamente evidentes às verdades da fé quer humana quer divina que não são dotadas de evidência intrínseca Sum Th III q 17 a 6 De Ver q 14 a 1 182 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A verdade à qual a inteligência adere ou pode aderir ou é percebida por nós ou é atestada por outrem Ora em ambas as hipóteses o motivo da certeza é a evidência do objeto É a evidência do objeto quando a verdade percebida por nós é necessária porque a inteligência não une um predicado a um sujeito senão quando vê de um modo imediato ou mediato que um convém ao outro É a evidência do objeto quando a verdade percebida por nós é contingente porque não admitimos um fato ou um objeto senão porque esse fato ou esse objeto se revelou claramente às respectivas fa culdades perceptivas É a evidência do objeto quando a verdade é atestada por outrem porque não se admite essa verdade senão enquanto se torna evidente pela evidência da auto ridade Logo o motivo da certeza é a evidência do objeto1 1 A proposição menor pode ser mais desenvolvida A verdade ne cessária pode ser um princípio de razão como todo o efeito exige uma causa ou uma conclusão como a alma humana é imortal Se é um princípio de razão a inteligência adere firmemente a essa verdade porque a conveniência do predicado com o sujeito lhe se mostra com uma evidência imediata e própria Se é uma conclusão a inteligên cia não adere a ela se não depois de lhe constar uma dúplice evidência a evidência das premissas nas quais a conclusão se resolve e a evidência do nexo lógico entre as premissas e a conclusão Por isso é sempre a evidência embora mediato que leva a inteligência a aderir a uma conclusão Diz S Tomás Assentit intellectus alicui dupliciter uno modo quia ad hoc movetur ab ipso objecto quod est vel per se cognitum sicut patet in principiis primis vel per aliud cognitum sicut patet de conclusionibus Sum Th IIII q 1 a 4 Se a verdade é contingente é também a evidência do objeto que nos determina à adesão Porque estamos nós certos de que o mundo existe e o sol resplandece Porque esses objetos são evidentes para os nos sos olhos Diz S Tomás Similiter determinatur judicium sensitivae partis ex hoc quod sensibile subjacet sensui In I Sent Dist 23 q 2 a 2 Se a verdade é atestada por outrem é sempre a evidência ainda que extrínseca que determinada adesão da inte ligência porque não acreditamos numa coisa referida por outrem se não é evidente a autoridade da testemunha Como porém só a evidência intrínseca determina necessariamente a inteligência à adesão a mesma inteligência quando se trata de verdades de fé ou dotadas apenas de evidência extrínseca pode sofrer a influência da von tade e esta pode obstar a que a inteligência pratique o ato ou pode determinála a aderir a uma das duas proposições contraditórias Continua o S Doutor Alio modo intellectus assentit alicui non quia sufficienter moveatur ab objecto proprio sed per quamdam electionem voluntatis declinans in unam partem magis quam aliam Et si hoc sit cum certitudine absque tormidine alterius partis erit fides Sum Th IIII q 1 a 4 Concluímos com S Tomás que a evidência objetiva é o fundamento o verdadeiro motivo da nossa certeza Certitudo quae est in scientia et intellectu est ex ipsa evidentia eorum quae certa esse dicuntur In I Sent 1 c 183 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 140 A adesão causada pela evidência do objeto é infalível a A adesão causada pela evidência do objeto será infalível se tudo o que é evidente for necessariamente verdadeiro porque então não é possível o erro Ora efetivamente tudo o que é evidente é necessa riamente verdadeiro porque a evidência objetiva é a própria verdade enquanto se manifesta claramente à inteligência ou por outras palavras é a própria conformidade do pensamento com o objeto Logo a adesão causada pela evidência do objeto é infalível1 1 A evidência senão um fenômeno objetivo e subjetivo é o próprio objeto é a própria verdade enquanto se manifesta claramente à inteligência Ora desde que um objeto se manifesta claramente à inteligência essa percebe imediatamente o objeto como se manifesta isto é como é em si mesmo e por isso achase necessaria mente conforme com ele Um erro na percepção do objeto evidente não é possível a não ser que se admita um destes dois absurdos ou que o objeto que se manifesta claramente não se manifesta tal qual é em si mesmo ou que a faculdade não é capaz de perceber o objeto próprio quando este lhe se manifesta convenientemente Além disso sendo um ditame de senso comum que tudo o que é evidente é verdade porque todos apelam para a evidência como para a prova infalível da verdade se a evidência pudesse estar unida com a falsidade a inteligência seria fatalmente arrastada para a mesma falsidade o que importa a destruição da mais nobre das nossas faculdades Portanto a evidência está por tal modo unida com a verdade que aquela não pode estar sem esta embora a verdade possa estar sem a evidência intrínseca o que se verifica nas verdades da fé Daí se segue que este princípio o que é evidente é verdade é analítico Com efeito um princípio é analítico quando a conveniência entre o predicado e o sujeito se percebe pela simples análise dos termos Ora entre estes dois termos evidente e verdade existe a máxima conve niência porque evidente significa que o objeto aparece à inteligência e é percebido como é em si mesmo e verdade significa que o objeto é na inteligência como é em si mesmo Logo esse princípio é analítico Balmes filósofo espanhol diz Phil fund l I 2 22 que esse princípio o que é evidente é verdade embora certíssimo não é evidente não é analítico porque a análise não pode por si descobrir se uma idéia embora clara corresponde ou não ao objeto sendo necessário para isso transpor um abismo qual é a passagem do subjetivo para o objetivo Como se vê esse escritor parte de um princípio falso E o princípio falso é que a evidência seja uma idéia completamente subjetiva Ora a evidência é também e sobretudo objetiva porque é o próprio objeto enquanto se manifesta claramente à inteligência é a própria conformidade da idéia com o objeto percebido diretamente por uma intuição clara e imediata Por isso o que é evidente é conforme com a realidade ou é a própria realidade enquanto é percebida pela inteligência Estes e outros equívocos nascem de um grande erro comum aos subjetivistas de todas as raças que negam à faculdade perceptiva a possibilidade de apreender direta e imediatamente o próprio objeto existente na realidade 184 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A adesão causada pela evidência do objeto pode re ferirse ou a uma verdade necessária ou a uma verdade contingente ou a uma verdade de fé Ora seja qual for a espécie de verdades a que se refere a adesão é sempre infalível É infalível quando a verdade é necessária porque neste caso a inteligência vê de um modo imediato ou mediato que o predicado convém essencialmente ao sujeito e porque vê essa conveniência é impossível que se engane É infalível quando a verdade é contingente porque quando o objeto se manifesta evidentemente às faculdades perceptivas estas esta vam bem dispostas e convenientemente aplicadas e por isso não é possível o erro É infalível quando a verdade é de fé porque quando a autoridade da testemunha é evidente é sinal de que a mesma testemunha é dotada de ciência e de veracidade o que é suficiente para excluir todo o receio de errar Logo a adesão à verdade causada pela evidência do objeto é infalível1 1 Este argumento será mais desenvolvido e corroborado no capítulo seguinte quando tratarmos dos meios para a consecução da verdade A evidência portanto está sempre e necessariamente unida com a ver dade Não há nem pode haver uma evidência verdadeira e uma evidência falsa O que pode haver o que há é a evidência real e a evidência tida como tal quando o não é Muitas vezes um escritor proclama evidente um juízo seu que não é realmente evidente Deriva isso da leviandade dos prejuízos das paixões e sempre do império da vontade a qual quer que haja evidência onde não há A evidência não se demonstra porque é a visibilidade do que é e o que se vê ou o que torna visível uma coisa não precisa de ser demonstrado Mas a evidência se não se demonstra exa minase porque a verdade não é visível à nossa inteligência como um objeto externo é visível aos nossos olhos O exame deve referirse a à existência da evidência b à sua localização c à sua extensão a Quanto à existência devemos advertir que a evidência sendo uma luz tem como a luz do dia vários graus é mais ou menos brilhante e que assim como não é possível determinar exatamente o momento em que termina a noite e principia o dia assim também não é possível determinar o grau de clareza necessá rio para constituir a verdadeira evidência Portanto há também evidências incertas e duvidosas Nestes casos é preciso evitar a precipitação nos juízos para que não se diga certamente evidente o que o é apenas provavelmente Quando porém a evidência é plena completa claríssima como a luz do meiodia ela é o verdadeiro motivo o fundamento inabalável da certeza e da infalibilidade dos nossos juízos b Quanto à localização devemos examinar se a evidência é intrínse ca ou extrínseca isto é se o objeto que se diz evidente está dentro ou fora de nós A evidência intrínseca só mostra uma existência intrínseca e a evidência extrínseca só mostra uma existência extrínseca É pois errôneo concluir de uma evidência 185 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 141 A evidência do objeto é o universal e supremo mo tivo da certeza a É o motivo universal da certeza Motivo universal da certeza é a razão comum a todas as verdades isto é é a razão pela qual aderimos a todas as verdades seja qual for a sua espécie ou ordem Ora essa razão comum é a evidência do objeto porque como atesta a consciência não podemos aderir e não aderimos a nenhuma verdade senão porque o seu objeto se manifesta evidentemente à faculdade perceptiva Logo a evidência do objeto é o motivo universal da certeza1 intrínseca para uma existência extrínseca O alucinado que ainda está na posse de si mesmo tem ao mesmo tempo a evidência extrínseca da sua visão normal pela qual percebe um objeto externo e a evidência intrínseca da sua visão anormal pela qual perce be os fantasmas da sua imaginação alterada Ambas estas evidências são verdadeiras O essencial é que o alucinado não atribua uma existência extrínseca a tais fantasmas que só têm uma existência intrínseca Este exame acerca da loca lização da evidência se é possível quando o sujeito se acha no seu estado normal na posse de si mesmo é impossível quando ele se acha num estado anormal p ex no sonho ou na loucura porque então o sujeito é vítima não de uma falsa evidência extrínseca porque a evidência extrínseca nestes casos não existe mas do falso hábito inato ou adquirido de julgar como existente na realidade uma coisa que só existe na própria imaginação c Quanto à extensão é preciso examinar se o objeto que se diz evidente é simples ou complexo Quando é complexo devemos averiguar se cada uma das partes de que se compõe é dotada ou não de evidência No caso negativo é um grande erro atribuir a um objeto complexo uma evidência total quando é apenas parcial Um pequeno erro a mínima pro babilidade que se introduza na série dos nossos raciocí nios basta para tornar falsa ou obscura a conclusão Mas então a falta não deve atribuirse à evidência mas à nossa ignorância e à limitação da inteligência humana que não pode abraçar com um só relance uma questão complexa É para auxiliar a inteligência nas investigações e levála à descoberta da evidência que a Lógica prescreve as suas regras 1 Se a evidência do objeto é o motivo universal da certeza seguese que ele deve necessariamente aplicarse a todas as ordens de verdades De fato a evidência extrínseca é o motivo necessário e suficiente para a inteligência aderir às verdades da fé ou da ordem moral e a evidência intrínseca é o motivo necessário e suficiente para aderir às verdades necessárias e contingentes ou da ordem metafísica e física Advirtase porém que sendo diverso o objeto que se diz evidente con forme a diversidade das verdades diversa também é a evidência própria de cada ordem das mesmas verdades A evidência que é própria das verdades da ordem metafísica é diversa da evidência que é própria das verdades da ordem física e da ordem moral Daí a tríplice espécie da evidência metafísica física e moral E isso é muito razoável 186 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b É o motivo supremo da certeza Motivo supremo da certeza é o que não depende de outro e é a razão última que nos determina a aderir à verdade Ora tal é a evidência do objeto porque não aderimos à verdade senão quando o seu objeto se torna evidente e depois de se tornar evidente não procuramos outro motivo para aderir e para essa evidência apelamos como para a razão última da nossa adesão Logo a evidência do objeto é o motivo supremo da certeza1 142 A evidência do objeto é percebida pela inteligência por diversos meios A evidência do objeto é percebida ex clusivamente pela inteligência mas essa percepção fazse por diversos meios conforme A evidência é uma qualidade que se refere à própria entidade da verdade e toda a qualidade que se refere à entidade de um sujeito é diversa conforme a diversidade do próprio sujeito Deste modo cada espécie de evidência se torna motivo de certeza próprio de cada ordem de verdades Assim a evidência metafísica é o motivo de certeza próprio das verdades da ordem metafísica a evidência física é o motivo de certeza próprio das verdades da ordem física e a evidência moral é o motivo de certeza próprio das ver dades da ordem moral De onde se vê a diferença entre o motivo univer sal e o motivo particular da certeza O motivo universal é a evidência objetiva isto é que reside no objeto em geral O motivo particular é a evidência que reside no objeto particular isto é na verdade de uma certa espécie Por isso o motivo particular da certeza metafísica é a evidência objetiva da essência das coisas o da certeza física é a evidência objetiva da constância das leis físicas o da certeza moral é a evidência objetiva da constância das leis morais ou da autoridade A evidência objetiva é o gênero a evidência objetiva da essência das coisas a da constância das leis físicas e das leis morais são espécies A espécie deve conter o gênero 1 A evidência objetiva pois é o motivo supremo da certeza porque é a razão necessária e suficiente para a inteligência aderir à verdade porque nenhuma outra razão é mais eficaz do que essa evidência porque todas as outras razões fundamse e resolvemse na evidência Dizem podendo a evidência ser real ou aparente deve admitirse um outro motivo superior que sirva para discriminar uma de outra Logo a evidência não é motivo supremo da certeza Resposta É certo que para discriminar a certeza real da aparente é necessário um motivo Este motivo porém não é uma coisa distinta da evidência mas é a própria evidência a qual manifesta por si a própria presença quando é real ou a própria ausência quando é apenas aparente Com efeito a evidência é luz ora a luz manifes tase por si mesma quando é presente e quando não é presente manifestase pela sua ausência pelas trevas Por isso a evidência aparente não é verdadeira evidência e basta uma simples reflexão desapaixonada para averiguar que ela é apenas apa rente ao passo que a evidência real se mostra tanto mais pura e brilhante quanto mais intensa for a reflexão nos motivos da adesão 187 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a diversa índole do objeto Se o objeto é constituído por verdades necessárias o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a análise de onde a certeza metafísica Se o objeto é consti tuído por verdades contingentes o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a experiência de onde a certeza física Se o objeto é constituído por verdades da fé o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a autoridade de onde a certeza moral1 1 A evidência objetiva é o supremo e universal motivo de certeza Por isso quando nos perguntam pelos motivos porque aderimos a uma verdade ou unimos um predicado a um sujeito apelamos para a evidência do objeto e dizemos isto é assim porque é evidente Depois desta res posta não procuramos nem apresentamos outro motivo Mas pode ainda perguntarse Como é que se conhece a existência dessa evidência objetiva Essa segunda pergunta embora seja um complemento da primeira contudo difere da outra e a resposta que lhe se deve dar consiste em indicar os meios que a inteligência emprega para descobrir essa evidência e que como dizemos no texto são a análise a experiencia e a autoridade Estes meios devem ser especificamente diversos porque especificamente diversas são as ordens de verdades cuja evidência objetiva queremos descobrir Da confusão destas duas questões qual é o motivo da certeza como se co nhece o motivo da certeza nasceram todas as divergências dos filósofos que querendo resolver a primeira questão resolveram a segunda e cada um a seu modo isto é querendo indicar o motivo da certeza indica ram o meio porque se descobre Devendo no capítulo seguinte tratar desses meios que aqui apenas indicamos vamos agora expor e criticar as principais opiniões dos filósofos acerca do motivo da certeza O motivo da certeza costuma hoje chamarse critério da verdade Mas essa segunda denominação não tem sempre o mesmo sentido Lendo os escritos dos filósofos modernos vemos que o critério da verdade para alguns significa a regra a medida pela qual discriminamos a verdade da falsidade para outros denota o meio o instrumento de que o homem se serve para alcançar a verdade ou a certeza para outros finalmente indica o motivo a razão que determina a inteligência a aderir com fir meza à verdade Se por critério da verdade se entende a norma ou a medida que sirva para distinguir a verdade da falsidade a questão pode ser prejudicada por um falso suposto Podem supor como efetivamente supõem os sequazes de Descartes que a inteligência deva no princípio das suas investigações duvidar de tudo e que para depor essa dúvida universal seja necessário procurar uma norma ou uma regra que aplicada aos juízos faça distinguir o verdadeiro do falso Ora como vimos e vere mos tudo isto é impossível Há verdades por si tão evidentes que se per cebeu imediatamente sem necessidade de normas ou regras e de cuja falsidade nem é pos sível suspeitar Estas verdades imediatamente evidentes podem chamarse regras ou critérios ou princípios das conclusões enquanto estas se acham virtualmente contidas e se resolvem naquelas Mais tarde voltaremos a este assunto Se por critério da 188 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA verdade se entende o meio o instrumento de que o homem se serve para alcançar a verdade resolvese a questão facilmente indicando esses meios e mostrando a sua legitimidade Se por critério da verdade se entende o motivo que leva a aderir com firmeza à verdade como nós a entendemos então esse motivo consiste na evidência objetiva Aqui notamos que a evidência objetiva é critério de verdade não só quando por critério se entende o motivo que nos leva a aderir firmemente à verdade mas também quando por critério se entende a medida dos nossos juízos e a regra pela qual discrimi namos a verdade da falsidade Que a evidência objetiva seja ao mesmo tempo motivo e regra aparece claramente no ato de fé com que acredita mos num fato histórico Se nos perguntarem pelo motivo do nosso assenso respondemos que é a autoridade das testemunhas E se nos perguntarem ainda pela regra deste nosso assenso respondemos sempre que é a autoridade das testemunhas Eis portanto que uma e a mesma coisa qual é a autoridade das testemunhas é ao mesmo tempo motivo e regra da adesão E se isto se verifica nas verdades da fé porque não se havia de verificar nas verdades da ciência A razão é sempre a mesma De fato quando queremos conhecer o motivo da nossa adesão a uma verdade racional recorremos à evidência objetiva E quando queremos convencer os outros de que os nossos juízos são verdadeiros também recorremos à evidência objetiva como a uma regra segura porque resolvemos esses juízos nos primeiros princípios se eles são mediatos e nas idéias representativas da enti dade das coisas se são imediatos o que importa um recurso para a evidência objetiva Todavia a evidência não é motivo pela mesma razão porque é regra porque motivo e regra embora possam convir a uma e mesma realidade contudo diferem nos seus conceitos Rejeitando a evidência objetiva como universal e supremo motivo ou critério de certeza os filósofos apresentaram outros motivos ou critérios como eles os denominam Podem estes reduzirse a duas classes uns são intrínsecos ou subjetivos outros são extrínsecos ou objetivos a Critérios intrínsecos Os critérios intrínsecos ou subjetivos são a inteligên cia humana a intuição direta e imediata da Verdade infinita a idéia clara e distinta o princípio de contradição a incompreensibilidade da proposição contraditória o testemunho da consciência o instinto cego da natureza o sentimento a vontade livre a verificação da experiencia sensível De cada um destes critérios faremos uma breve crítica a A inteligência humana Não faltaram filósofos desde os tempos de Protá goras até aos nossos dias que ensinassem ser a inteligência humana a medida das coisas a única regra da verdade e da falsidade do bem e do mal A opinião não poderia ser mais absurda porque é absurdo que uma e a mesma coisa seja ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto verdadeira e falsa boa e má só porque a uns parece verdadeira e boa e a outros parece falsa e má É o relativismo que leva ao cepticismo b A intuição direta e imediata da Verdade infinita É a opinião dos ontólogos Malebranche 16381715 Gioberti 18011853 Rosmini 17971855 que 189 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE só reconhecem como certas as verdades correspondentes à Verdade infinita da qual teríamos uma visão direta e imediata Mais tarde refutaremos o Ontologismo Limitamonos aqui a dizer que esse crité rio se é próprio dos bemaventurados que contemplam a Deus intuitivamente não pode ser próprio dos mortais que só do conhecimento das coisas criadas se elevam ao conhecimento do Criador e sempre pela abstração c A idéia clara e distinta É a opinião de Descartes para quem são certas só as verdades de que temos uma idéia clara e distinta Esse critério não pode admitirse Por quanto o critério sendo o motivo ou a regra que nos dirige no juízo relativo a um objeto deve ser objetivo por que é o objeto que se impõe à faculdade e não a faculdade ao objeto Ora a idéia clara e distinta é uma coisa subjetiva porque é a imagem intencional do objeto e a sua clareza e distinção dependem ordinariamente da capacidade do sujeito e do grau de atenção Além disso o critério da verdade deve ser imutável como o é a própria verdade Mas a idéia clara e distinta é uma coisa mutável e sujeita a contradições porque um homem pode perceber clara e distintamente uma coisa e um outro pode perceber com a mesma clareza e distinção o contrário de onde o subjetivismo Notamos que a fórmula de Descartes o que se percebe clara e distintamente é verdade difere tanto da fórmula escolástica o que é evidente é verdade quanto o subjetivo difere do objetivo Porquanto na fórmula cartesiana exprimese a percepção ou a intuição da evidência isto é do objeto evidente ao passo que na escolástica exprimese a própria evidência do objeto ou o próprio objeto enquanto evidente na primeira é a própria visão que se indica como critério na outra é a visi bilidade do objeto na primeira a evidência é uma qualidade do sujeito na outra a evidência é por si e primeiramente uma qualidade do objeto d O princípio de contradição É a opinião de Wolf que pretende deduzir desse princípio todas as verdades como outras tantas conclusões de um único princípio Também essa opinião é falsa O princípio de con tradição embora esteja contido em todas as verdades que nele se fundam e se resolvem contudo não é o motivo a razão pela qual aderimos à verdade Porque estamos nós certos de que o sol resplandece Estamos certos não porque o sol não pode ao mesmo tempo resplandecer e deixar de resplandecer isto é não pelo princípio de contradição mas porque tal se manifesta aos nossos olhos isto é pela evidência objetiva Por que estamos nós certos de que o efeito exige uma causa Estamos certos não porque o efeito não pode ao mesmo tempo ser e deixar de ser efeito mas porque o predicado aparece claramente contido no sujeito Além disso o princípio de contradição não pode ser o motivo supremo da certeza Por quanto se nos perguntarem pela razão porque julgamos certo esse princípio respondemos porque é evidente Logo também o prin cípio de contradição depende da evidência e A incompreensibilidade da proposição contraditória É o critério de Spencer que afirmou ser certa só a proposição cuja contraditória é incompreensível assim a proposição o sol é luminoso é certa porque é incompreensível a contraditória o sol não é luminoso Também este critério é falso A palavra incompreensível pode significar que uma coisa não se compreende ou porque o predicado repugna ao sujeito ou porque não somos capazes de ver a relação entre os dois termos Ora 190 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA tanto no primeiro como no segundo sentido essa incompreensibilidade não pode ser o motivo ou critério supremo da certeza Não pode sêlo no pri meiro sentido porque aquela repugnância supõe já outro critério que a manifeste Não pode sêlo no segundo porque aquela incapacidade é subjetiva mutável e relativa Do fato por eu não compreender essa pro posição a terra gira em volta do sol não pode deduzirse que seja certa a contraditória a terra não gira em volta do sol f O testemunho da consciência É a opinião de Galluppi e de alguns discípulos de Kant Mas também essa é inaceitável O testemunho da consciência só acusa a existência dos fatos que se realizam no espírito mas não manifesta a essência deles e por isso não manifesta a razão o motivo porque aderimos à verdade Além disso o ato da consciência é um conhecimento reflexo e referese totalmente ao sujeito pen sante Ora o motivo ou critério da verdade deve estenderse não só ao conhecimento reflexo mas também ao direto e referirse não só ao sujeito mas também e sobretudo ao objeto Finalmente a consciência é um meio que nos manifesta a evidência dos nossos conhecimentos Ora o motivo que nos torna certos de uma verdade não é a manifestação da evidência mas é a própria evidência Logo o motivo ou critério da verdade não é o testemunho da consciência g O instinto cego da natureza É a opinião de Reid 17101786 seguido por Dugald Stewart 17731828 Mas nem essa pode admitirse Porquanto esse critério repugna à natureza da nossa inteligência a qual sendo uma faculdade cognoscitiva não pode julgar com certeza nem aderir firmemente a uma verdade se não lhe resplandece um motivo racional como os olhos não podem ver sem luz Ora o cego instinto da natureza é destituído de todo e qualquer motivo objetivo de assenso e por isso não pode levarnos à verdade como um cego não pode indicar nos o caminho Mais a nossa certeza se se baseasse no cego instinto da natureza além de irracional seria exclusivamente subjetiva porque não dependeria de modo algum da intuição do objeto Daí o subjetivismo e o ceticismo h O sentimento É a opinião de Iacobi 17431819 chefe da escola senti mentalista na Alemanha Também este critério afim ao precedente é inaceitável Na verdade o critério deve ser imutável Ora o sentimento é naturalmente mutável Além disso o critério da verdade deve ser um e o mesmo para todos os homens Ora o sentimento embora relativo à mesma coisa varia conforme a diversidade do carácter de cada um da sua constituição física da sua educação dos seus costumes prejuízos e mais condições pessoais Finalmente o sentimento é cego deve ser guiado pela razão e por isso não pode ser norma da verdade nem motivo da certeza i A vontade livre É a opinião dos sequazes do pragmatismo e do imanen tismo que dizem ser verdade só o que pode ser apetecido como bom e pode ser útil para a vida prática Também este critério é inad missível Porquanto se só fosse verdade ou certo o que parece bom e útil o homem seria a medida da verdade conforme a opinião de Protágoras e coisas contraditórias seriam simultaneamente verdadeiras visto que muitas vezes para um é boa e útil uma contraditória e para outro é boa e útil outra contraditória Ora isto não só não é critério de verdade mas é a destruição de toda a verdade porque não haveria a maneira de a distinguir 191 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE do erro Além disso o ato da nossa livre vontade não pode ser o supremo motivo da nossa certeza Porquanto o que é que provocará esse ato Será um impulso cego ou um motivo intelectual Se é um impulso cego o ato da vontade não é livre mas é fatal e instintivo e teremos todos os inconvenientes apontados na opinião de Reid Se é um motivo intelectual que dirige a nossa escolha entre opiniões diversas acei tamos com isso o critério intelectualista a visibilidade do que é como supremo motivo da evidência Finalmente o ato da vontade livre não pode ser o princípio adequado da nossa adesão à verdade nem às verdades da fé Porquanto a adesão às verdades da fé sendo um ato intelectual deve fundarse e fundase em razões certas em motivos certos de credibilidade Ora estas razões estes motivos são percebidos pela inteligência Logo a livre vontade não pode ser o critério o motivo de verdade ou de certeza j A verificação da experiencia sensível É a opinião de Comte Littré e de todos os positivistas que reconhecem como certo só o que foi verificado pela experiencia sensível Não pode aceitarse essa opinião Antes de tudo a experiência sensível pode ser e é um meio para a percepção direta ou reflexa de algumas verdades mas não é o próprio motivo que determina a inteligência à adesão Além disso esse critério se serve para algumas hipóteses não serve para todas as verdades e por isso não é universal A matemática e as ciências naturais admitem como certas muitas coisas que não foram nem podem ser verificadas pela experiência sensível Os astrônomos predizem o fenômeno do eclipse e estão certos de que se há de realizar mesmo antes de verificado pela experiência Finalmente por ser essa opinião uma consequência dos princípios do positivismo refutase com todos os argumentos que serão mais tarde aduzidos contra esse sistema b Critérios extrínsecos Os critérios extrínsecos ou objetivos são a autori dade divina e a autoridade humana a A autoridade divina É a opinião de N Huet 16301751 G de Bonald 17541840 L Bautain 17961867 precedidos pelo menos na ordem do tempo pelo bracarense Francisco Sanchez 15621632 que dizia Nada se sabe só a Fé resolve toda a dúvida e ensina a verdade Mas este critério da autoridade divina ou da Revelação sobrenatural não é universal nem é o primeiro na ordem do tempo Não é universal porque se é critério das verdades da Fé que nos são reveladas por Deus não é critério das verdades da ciência que descobrimos pela luz natural da razão Nem é o primeiro na ordem do tempo porque não podemos admitir a autoridade divina se não estivermos anteriormente certos da existência de Deus da sua infalibilidade do fato e da autenticidade da revelação e de muitas outras verdades Por isso o uso da razão precede a fé b A autoridade humana É a opinião de R de Lamenuais 17801854 e L Bonnety 17981879 que não reconhecem como certo senão o que o gênero humano atesta A autoridade humana embora seja um dos meios para alcançarmos a certeza contudo não é o critério universal da mesma certeza nem é o primeiro na ordem do tempo Não é o critério universal porque não se estende a muitas outras verdades que descobrimos pela luz natural da razão Nem é o primeiro na ordem do 192 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 143 O motivo da certeza e o senso comum Todos os homens doutos e ignorantes concordam em que o motivo da certeza consiste na evidência do objeto Com efeito quando eles desejam conven cer alguém procuram tornarlhe evidente o objeto e para essa evidência apelam como para a última e irrespon dível prova das suas convicções Daí as expressões isto é evidente cedemos à evidência não podemos con tradizer a evidência E o senso comum afirma não só que a evidência do objeto é o motivo da certeza mas tam bém que a inteligência percebe essa evidência pelos três meios que são a análise a experiência e a autoridade porque os homens quando querem mostrar que uma coisa é evidente recorrem a um desses meios conforme a índole da coisa1 ARTIGO V A certeza e a objetividade das idéias universais 144 Nexo entre as duas questões A questão relativa à certeza está intimamente ligada com a questão relativa à objetividade das idéias universais Por quanto a certeza do racio cínio supõe a certeza do juízo Ora o juízo supõe o valor objetivo das idéias universais Na verdade o juízo é a afirmação da conveniência ou da nãoconveniência entre duas idéias e como afirmando essa conveniência ou nãoconveniência das idéias entendemos afirmar a conveniência ou a nãoconveniência das tempo porque não podemos aceitar do consenso do gênero humano uma verdade se antes não estivermos certos de que esse consenso existe de que não é o resul tado dos prejuízos e se distingue das opiniões individuais Ora para averi guar tudo isso é necessário o uso de outros critérios Além disso se o homem devesse admitir como certo só o que nos é ensinado pelo con senso do gênero humano a maior parte dos homens acharseia numa perpétua dúvida e o estado normal do gênero humano seria o Ceticismo Nem seria muito melhor a condição dos doutos que só depois de aturados estudos poderiam chegar a conhecer o consenso do gênero humano e apenas com relação a um ou outro problema 1 Com razão escreve o grande Bossuet A verdade é o que é a falsi dade é o que não é Podemos entender o que é mas não podemos entender o que não é A verdadeira regra para julgar bem é a de não julgar senão quando se vê claramente Connais de Dieu et de soimême c 1 193 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE coisas que as idéias representam o nosso juízo será certo se as idéias forem plenamente conformes com as coisas1 145 Idéia universal Idéia universal como dissemos é a que representa uma essência mas comum a muitos entes de modo que a todos e a cada um deles pode ser atribuída tal é a idéia de humanidade que é comum a todos os homens e que se atribui a todos e a cada um deles2 146 Idéia universal direta e reflexa A idéia universal direta é a que representa uma essência considerada nos seus elementos cons titutivos sem relação aos indivíduos nos quais se encontra ou pode encontrarse tal é a idéia de homem considerada exclusivamente nos seus elementos de animalidade e de racionalidade A idéia universalre flexa é a que representa a mesma essência mas considerada em relação aos indivíduos ou inferiores nos quais pode existir e aos quais pode atribuirse tal é a idéia de homem considerada como espécie que abrange todos os indivíduos humanos3 1 A objetividade ou o valor objetivo das idéias universais é uma daquelas ver dades que não precisa de ser demonstrada nem o pode ser Não precisa porque é o próprio senso comum que nos diz serem as nossas idéias representativas das coisas Quando afirmo que Pedro é homem todos entendem que essa idéia universal homem tem um valor objetivo entendem que nesse sujeito que se chama Pedro há alguma coisa a qual corresponde à idéia homem Não pode ser demonstrada Porquanto quem faz uma demonstração deve servirse e servese de idéias Estas ou são objetivas ou são nãoobjetivas Se são objetivas supõese previamente o que se quer demonstrar e cometese uma petição de princípio Se são nãoobjetivas toda a discussão é ininteligível e inútil A nossa demons tração pois reduzse a uma explicação Tratamos da objetividade das idéias universais porque é o valor objetivo destas que se nega Se as idéias universais são objetivas afortiori são objetivas as singulares 2 A idéia universal representa um objeto universal e esse objeto é a essência das coisas abstraída das propriedades individuais Por isso po demos dizer indife rentemente que o objeto próprio da inteligência é o universal ou é a essência das coisas S Tomás diz Intellectus est universalum non singularium C Gent l I c 44 Objectum intellectus est ipsa rei essentia De Ver q 10 a 4 ad 1 Quando dizemos que a idéia universal ou simplesmente o universal tem valor objetivo referimonos ao seu conteúdo que é a essência 3 Quando a nossa inteligência percebe uma essência p e a essência do homem percebea enquanto é uma determinada natureza constituída por certos e determinados elementos sem se importar dos indivíduos em que essa essência se encontra ou pode encontrarse Neste caso a consideração da inteligência limitase exclusivamente a esses elementos Mas a inteligência depois de ter considerado a 194 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA essência nos seus elementos pode tornar a considerála não já em relação aos mesmos elementos mas em relação aos indivíduos em que se encontra ou pode encontrarse Neste caso concebese a essência como uma coisa que se refere a muitas isto é como uma forma que se encontra neste ou naquele indivíduo sem que nunca se esgote quanto à extensão No primeiro caso temos o universal direto que se concebe por uma intuição direta no segundo temos o universal reflexo que é o produto de uma consideração reflexa Como se vê para a formação do universal direto não se requer da parte da inteligência se não uma abstração pela qual no objeto pro posto considere exclu sivamente a essência prescindindo das notas ou pro priedades individuais Assim a humanidade que se encontra em Pedro Paulo André etc enquanto se considera tal qual existe em cada um deles é uma coisa singular e individual porque a humanidade de Pedro não é a humanidade de Paulo Mas se essa humanidade pela ação da inte ligência é depurada das propriedades individuais de que se acha cercada no tempo e no espaço isto é na sua subsistência real tornase imediatamente universal Diz S Tomás Una et eadem natura quae singularis erat et individuata per materiam in singularibus hominibus efficitur postea universalis per actionem intellectus depu rantis ipsam a conditionibus quae sunt hic et nunc De Univ t 1 Tal abstração não é real mas ideal pois consiste em que a inteligência considera exclusiva mente a essência que é o seu objeto próprio prescindindo dos caracteres de que se acha cercada nos indivíduos Tal abstração é legítima e não pode ser causa ou ocasião de erro Quando abstraímos não julgamos que uma essência existe em si mesma de um modo abstrato e separada dos caracteres individuais mas simplesmente considera mos a essência e pres cindimos dos caracteres individuais Acontece o mesmo com relação à percepção sensitiva Podemos por ex perceber com os nossos olhos a cor de um fruto sem contudo lhe percebermos o sabor Cf Sum Th p I q 85 a 1 ad 1 De potentiis animae c VI Essa operação é proporcionada à natureza da nossa inteligência Sendo esta uma faculdade espiritual isto é independente e livre de toda a matéria a sua operação deve ser também independente e livre da matéria e por isso livre e independente dessas condições deve ser o seu objeto Ora um objeto é livre e independente das condições da matéria quando se concebe de um modo universal Por isso o mesmo objeto que os sentidos percebem como singular pela inteligência é percebido como universal conforme o célebre adágio de S Sev Boecio Singulare dum sentitur universale dum intelligitur Se para a formação do universal direto é necessária e suficiente da parte da inteligência a abstração para a formação do universal reflexo é necessária a abstração e a comparação É necessária a abstração Por quanto o universal reflexo é própria e formalmente uma coisa comum a muitas unum versus alia Ora essa coisa una que é a essência subsiste de um modo material e concreto e se acha multiplicada quanto ao ser em muitos indivíduos É pois necessário que adquira uma subsistência inten cional pela qual ela que é multíplice e divisa na realidade se torne una e indivisa na própria inteligência e seja uma imagem que represente o que esses indivíduos têm de comum ou de semelhante Mas não basta este 195 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE primeiro ato da inteligência É necessário um segundo que é a compa ração Na verdade o universal reflexo é como dissemos uma coisa comum a muitas unum versus alia Ora para haver esse universal não basta que a inteligência forme pela abstração uma imagem intencional que representa o que os indivíduos têm de comum e que por isso possui a capacidade ou a nãorepugnância para existir em muitos particulares mas é necessário que depois de a ter formado reflita sobre essa essência abstrata que a compare com os seus inferiores ou particulares e veja se ela é positiva e efetivamente participável e participada e tenha para os mesmos inferiores a razão de gênero ou de espécie Só depois destas duas operações é que temos o verdadeiro universal reflexo a essência que seja ao mesmo tempo una e multíplice una quanto ao ser que ela tem na inteligência e que representa o que muitos indivíduos têm de comum ou de semelhante multíplice quanto ao ser que ela tem na rea lidade e que se multiplica e divide conforme a multiplicação e a divisão dos entes singulares e indivíduos A unidade é efeito da abstração a multiplicidade é efeito da comparação Entre o universal direto e o reflexo há várias diferenças Apontamos as principais 1º A denominação de universal convém mais ao universal reflexo do que ao direto Por quanto universal significa uma coisa comum a outras ora essa relação de uma coisa a outras realizase de um modo explícito e positivo no universal reflexo que atualmente se refere aos indivíduos ao passo que no universal direto não se verifica senão de um modo implícito e negativo enquanto a essência considerada em si não é limitada a nenhum indivíduo e tem a capacidade de ser atribuída pela reflexão mental a todos os indivíduos existentes e possíveis 2º O universal direto ainda que no seu próprio conceito inclua a unidade por que significa uma só essência Contudo quanto à sua individuação real não importa nem unidade nem pluralidade mas prescinde de uma e de ou tra porque se importasse unidade não poderia aplicarse a muitos e se importasse pluralidade não poderia aplicarse a um só De Ente et Essentia c 4 Pelo contrário o universal reflexo importando expressamente uma relação a vários entes importa unidade e pluralidade unidade quanto a si mesmo e pluralidade quanto ao termo da sua relação porque é uma só forma ou uma só essência que pode encontrarse em muitos indivíduos pelo menos possíveis 3º O universal reflexo encerra o direto ao qual acrescenta a relação aos indivíduos Conforme a variedade desta relação o reflexo dividese nos cinco predicáveis que são o gênero a espécie a diferença o próprio e o acidente O gênero e a espécie exprimem perfeitamente o universal reflexo O universal direto não é propriamente o gênero nem a espécie mas é o princípio do gênero e da espécie enquanto representa o elemento objetivo que se acha contido na noção de gênero ou de espécie S Thom De universalibus l I Notese que o animal enquanto animal e o homem enquanto homem é o universal direto e o animal enquanto gênero e o homem enquanto espécie é o universal reflexo 4º Não é o universal reflexo que se atribui por identidade a este ou àquele ente particular assim não dizemos Pedro é espécie mas é o universal direto isto é é o elemento objetivo que se acha contido na noção genérica ou específica mas sem relação aos entes particulares assim dizemos Pedro é homem Esse elemento objetivo exprime como dissemos a 196 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 147 Objetividade da idéia universaldireta A idéia uni versaldireta terá um valor objetivo se a essência que ela representa existir nos entes reais embora não exista neles pelo mesmo modo porque existe na inteligência Ora a essência representada pela idéia universaldireta existe efetivamente nos entes reais embora não exista neles pelo mesmo modo porque existe na inteligência a A essência representada pela idéia universaldireta existe nos entes reais A essência representada pela idéia universaldireta é o conjunto dos elementos específicos que faz com que o ente seja o que é e seja distinto de todos os entes das outras espécies Ora todo o ente real é intrinsecamente constituído por uns elementos específicos pelos quais é o que é e se distingue de todos os entes das outras espécies assim o homem é con stituído pela animalidade e pela racionalidade e por esses dois elementos é homem e não é bruto e distinguese dos brutos das plantas dos minerais Logo a essência representada pela idéia univer saldireta existe nos entes reais1 b A essência não existe nos entes reais pelo mesmo modo porque existe na inteligência A essência representada pelo universaldireto existe na inteligência que a percebe e nos entes reais que por ela são o que são mas na inteligência existe por um modo intencional e abstrato ou universal porque existe numa idéia e só exprime os elementos específicos ao passo que nos entes reais existe por um modo real e concreto ou singular porque constitui o ente real na sua espécie e se acha cercada e determinada pelos caracteres individuais Logo a essência represen essência a qual considerada em si mesma é indiferente para existir em um ou em muitos particulares De Ente et Essentia c 4 É claro que este modo de formar e perceber o universal é próprio da inteligência humana Deus percebe perfeitamente o universal que nós formamos pela abstração mas Ele não precisa de praticar esse ato para o perceber 1 Além disso todos atribuem por identidade a essência represen tada pela idéia universaldireta aos entes existentes na realidade assim todos dizem Pedro é homem Ora ninguém poderia atribuir tal essência aos entes reais se ela efetivamente não se encontrasse neles assim ninguém poderia dizer que Pedro é homem se em Pedro não existissem os elementos específicos que constituem o homem Por quanto o verbo é exprime numa proposição a identidade não a simples semelhança dos termos e por isso a proposição Pedro é homem seria falsa se a idéia de ho mem não denotasse o mesmo ser específico que se encontra em Pedro Logo a essência representada pela idéia universaldireta existe nos entes reais 197 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE tada pelo universaldireto não existe nos entes reais pelo mesmo modo porque existe na inteligência1 1 Diz S Tomás No universaldireto isto é na essência abstrata das notas ou caracteres individuais devemos distinguir duas coisas a essência ou natureza e a abstração ou universalidade A essência que se percebe se abstrai e se universaliza não existe senão nos entes singulares mas a própria percepção a abstração a uni versalização encontramse na inteligência É o que se verifica na percepção sensitiva A vista percebe a cor de um pomo mas não lhe sente o sabor Se pois se perguntar onde está a cor que se percebe sem o sabor respondemos que a cor que se vê não se encontra senão no pomo Mas se a cor se percebe sem sabor deve a razão disso procurarse na própria vista na qual existe a semelhança da cor e não do sabor Do mesmo modo a humanidade que é percebida não se encontra senão neste ou naquele indivíduo humano Mas se ela se percebe sem propriedades individuais e por isso se se abstrai e se reveste da forma de universalidade tudo isso acontece à humanidade enquanto é percebida pela inteligência na qual existe a semelhança da natureza da espécie e não a semelhança dos princípios ou caracteres individuais Sum Th p I q 85 a 2 ad 2 Como o assunto acerca da objetividade das idéias universais é de importância capital acrescentamos as seguintes considerações Todo o in divíduo existente na realidade é determinado a uma certa espécie e por isso tem alguns elementos que lhe são próprios que não pertencem a outros indivíduos da mesma espécie e tem outros elementos que lhe são comuns com os indivíduos da mesma espécie e o constituem nessa espé cie e não noutra Tanto os elementos próprios como os comuns são objetivos ou reais São reais os elementos próprios aliás um indivíduo não poderia distinguirse de outro individuo da mesma espécie São reais os elementos comuns aliás os entes reais reduzirseiam a entes ideais São reais os elementos próprios e os comuns e são distintos Por quanto se não fossem distintos os elementos comuns não poderiam encontrarse sem os elementos próprios isto é a essência não poderia existir senão num certo e determinado indivíduo e assim haveria um só indivíduo subsistente em cada essência ou espécie o que repugna à experiência e à razão Sendo distintos os elementos próprios e os comuns se não podem separarse realmente uns dos outros podem contudo separarse intencional ou ideal mente enquanto podemos considerar os elementos comuns sem conside rarmos os próprios E quando consideramos os elementos comuns e pres cindimos dos próprios esses elementos comuns não deixam de ser objetivos ou de existir na realidade como não deixa de ser objetiva e real a cor de uma pera só porque a consideramos sem o sabor A abstração pela qual conside ramos uma coisa sem outra é um ato da inteligência mas é um ato que não altera não transforma não destrói a objetiva realidade das coisas Estas continuem a ser o que eram Nem se diga que tudo o que é real é indivíduo Se é indivíduo tudo o que é real quanto à existência porque só os indivíduos existem não é indivíduo tudo o que é real quanto à essência porque esta é real e contudo não é por si indivídua Objetam nenhuma coisa pode tornarse o que não é Ora todo o objeto exis tente na realidade é indivíduo Logo nenhum desses objetos pode tornarse universal 198 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA Resposta A afirmação nenhuma coisa pode tornarse o que não é não pode aceitarse incondicionalmente porque há muitas coisas que se tomam o que não são assim o mármore não é estátua e contudo se torna estátua Só então uma coisa não se pode tornar o que não é quando lhe falta a capacidade para essa mudança Ora o objeto existente na realidade se é indivíduo ou particular em ato é universal em potência porque tem a capacidade de ser percebido de um modo abstrato na sua essência livre das condições próprias de uma existência concreta A objeção supõe que para a formação do universal seja necessário separar ou remover física ou realmente da essência as condições materiais ou individuais Mas a suposição é falsa Porquanto como dissemos essa separação ou remoção não é física ou real mas é intencional ou ideal Escreve Tomás Ista abstractio non est intelligenda secundum rem sed secundum rationem De pot animae c 6 Nem se diga que o objeto se não se muda fisicamente se muda idealmente Por quanto se o objeto quando é per cebido abstratamente se muda no seu modo de ser ou de existir não se muda em si mesmo Mudase o objeto no seu modo de existir porque começa a existir na nossa inteligência de um modo abstrato e imaterial quando na realidade existe de um modo concreto e material E nada mais natural Todo o objeto que é recebido num sujeito segue o modo de exis tir próprio do mesmo sujeito Ora sendo a inteligência o sujeito em que o objeto e recebido por meio da idéia é claro que o mesmo objeto deve despir por assim dizer o modo de existir que tinha na realidade para revestir o modo de existir que é próprio da inteligência O modo de exis tir da inteligência é a plena isenção ou independência da matéria e das condições que a acompanham Logo também o objeto recebido na inteligência deve existir nela sem a matéria e sem as condições materiais O objeto sem a matéria e sem as condições materiais é a essência abstrata é o universal direto Diz S Tomás Similitudo rei recepitur in intel lectu secundum modurn intellectus et non secundum modum rei Sum Th p I q 85 a 5 ad 3 Mas o modo de ser ou de existir do objeto não é o próprio objeto Se o objeto se muda no seu modo de ser não se muda em si mesmo permanece sempre o que era A essência que existe na inteligência por um modo imaterial ou espiritual é a mesma que existe na realidade por ura modo material porque os elementos que a constituem são sempre os mesmos num e noutro modo de ser ou de existir Insistem Se a inteligência formasse o universal ela comunicaria ao objeto a necessidade e a eternidade visto que o universal é por si neces sário e eterno Ora isso é impossível porque todo o objeto criado é contingente e mutável Logo a inteligência não forma o universal Resposta A inteligência quando torna o universal direto não comunica coisa alguma limitase a remover a afastar do objeto os caracteres individuais e concre tos para fazer sobressair pôr em vista exclusivamente a essência Se pois a essência quando abstrata reveste os caracteres de necessidade e de eternidade estas notas não derivam do ato abstrativo para a essência porque esse ato não as tem e ninguém dá o que não tem mas brotam do próprio fundo da essência e essa não é o produto mas apenas o objeto da inteligência Dizemos que essas duas notas brotam do próprio fundo da essência Por quanto se as coisas criadas são contin gentes e mutáveis quanto 199 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 148 Objetividade da idéia universalreflexa O objeto da idéia universalreflexa embora exista unicamente na inteligência contudo tem o seu fundamento na realidade a O objeto da idéia universalreflexa existe unicamente na inteligência Por quanto essa idéia representa uma essência que sendo una contudo é comum a muitos particulares e a cada um deles pode ser atribuída Ora tal essência existe unicamente na inteligência visto que na realidade não há coisa nenhuma que seja ao mesmo tempo una e comum a vários seres pois todo ente real é singular e indivíduo e a essência de um indivíduo é realmente distinta da essência dos outros indivíduos Logo o objeto da idéia universalreflexa existe unicamente na inteligência1 à existência porque podiam e podem deixar de existir são necessários e eternas quanto à essência São necessárias por que as essências não podem deixar de corresponder e de ser semelhantes aos arquétipos da inteligência divina são eternas enquanto as essências não são coarctadas entre um determinado espaço de tempo mas por si prescindem do tempo como também do lugar Todavia essa necessidade e eternidade que se atribui às criaturas é infinitamente diversa da eter nidade e necessidade que é própria de Dens Por quanto a necessidade que se atribui às criaturas é limitada à essência delas e não se estende à existência porque as criaturas não existem necessariamente ao passo que a necessidade que é própria de Deus abrange a essência e a existência por que Deus necessariamente existe além de ser necessariamente o que é Como também ao passo que a eternidade que se atribui à essência das coisas criadas é apenas negativa enquanto abstrai do tempo a eternidade que é própria de Deus é positiva enquanto com a sua indivisível presença abrange todo o tempo Sum Th III q 93 a 4 ad 4 Quodl II a 1 1 Além disso se o universal reflexo isto é o conteúdo da idéia universalreflexa existisse nos entes singulares ou indivíduos poderia serlhes atribuído como se lhes atribui o universaldireto Mas não é assim Ao passo que podemos dizer Pedro é homem não podemos dizer Pedro é espécie Qual é a razão desta diferença A razão é que se essa essência denotada pelo termo homem se encontra realmente em Pedro não se encontra nele a essência denotada pelo termo espécie Devemos pois dizer que o universalreflexo existe unicamente na inteligência Para maior clareza lembramos que a essência pode considerarse em si mesma nas coisas singulares e na inteligência Considerada em si mesma a essência importa unicamente os elementos que a constituem e que fazem com que seja aquela que é e não outra e por isso prescinde das condições concretas de que se acha determinada na realidade e tem os atributos que lhe pertencem pela sua definição tal é a humani dade considerada nos seus elementos constitutivos de animalidade e de racionalidade Neste caso a essência é universaldireto ou metafísico e pertence à ordem metafísica Considerada nas coisas singulares a essência está cercada de propriedades concretas e individuais que nas substâncias compostas são as condições da matéria individual e 200 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b O objeto da idéia universalreflexa tem o seu fundamento na realidade O objeto da idéia universalreflexa terá o seu fundamento na realidade se as coisas reais subministrarem à inteligência um ele mento objetivo que primeiramente depu rado das condições materiais e depois comparado com os indi víduos se conceba como uma forma una e comum a muitos seres Ora as coisas reais apresentam à inteligên cia esse ele mento objetivo que é a essência das coisas porque a essência das coisas que é o objeto do universalreflexo embora quanto ao seu modo de ser exista exclusivamente na inteligência contudo quanto aos seus elementos constitutivos nos quais a pró pria inteligência se funda para conceber a mesma essência como una forma una e comum existe efetivamente na realidade assim a humanidade embora considerada como espécie só exista na inteligência contudo considerada nos seus ele mentos de animalidade e de racionalidade existe realmente nos indi víduos humanos Logo o objeto da idéia universalreflexa tem o seu fundamento na realidade1 por isso tem atributos que lhe convém enquanto e porque existe nos seres singulares tal é a humanidade que existe em Pedro Paulo etc Neste caso a essência pertence à ordem física Considerada na inteligência a essência importa uma coisa que sendo una é comum à muitos particulares e por isso tem um ser ideal e tem os atributos que lhe convém por causa desse ser que recebeu da inteligência tal é a humanidade considerada como espécie Nesse caso a essên cia é uma coisa universal reflexa ou lógica e pertence à ordem lógica Como se vê tanto a singularidade como a universalidade ou comunidade são coisas extrínsecas e acidentais para a essência considerada em si mes ma isto é nos seus elementos constitutivos Cf De Ente et Essentia c VI Ora a essência que se chama universal isto é que se refere atualmente aos particulares não é a essência considerada em si mesma porque se assim fosse ela havia de ser sempre e em toda a parte universal e por isso única e multíplice Nem é a essência considerada nos seres singu lares porque essa não é espécie nem é ao mesmo tempo única e multíplice Mas é a essência considerada como existe na inteligência porque só em relação a esse ser ideal a essência pode ter a razão de espécie e ser ao mesmo tempo única e multíplice Cfr De Anima L II I 12 1 A conclusão parecenos evidente O universal reflexo é o próprio universal direto enquanto pela reflexão se considera como abstrato e como comum a muitos seres Ora o universal direto exprime e denota uma coisa real e objetivo qual é a essência das coisas considerada nos seus elementos constitutivos Logo o universal reflexo deve supor e supõe o universal direto e por isso tem o seu fundamento na realidade É ver dade que o universal direto representa a essência abstrata não enquanto é abstrata mas enquanto é essência ao passo que o universal reflexo representa a essência abstrata enquanto abstrata e comparada com os in divíduos mas também é verdade que essa abstração e comparação 201 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE se dão à essência um novo modo de ser na inteligência não lhe tiram o modo de ser que tinha na realidade isto é não transformam em ideais ou lógicos os elementos reais ou obje tivos que a constituem e que permanecem sempre o que eram e formam o substratum a base do universal reflexo Nem podia ser de outro modo A nossa inteligência quando forma o universal reflexo não faz senão referir uma essência abstrata aos indivíduos reais em que ela se encontra ou pode encontrarse e por isso a considera como uma coisa comum a muitos entes Ora a inteligência não poderia considerar uma coisa como comum a muitos entes existentes na realidade se nestes não existisse realmente essa coisa comum a todos que não é senão a essência Portanto se o universal direto tem o seu funda mento imediato ou próximo na realidade porque a essência que se con sidera em si mesma existe na realidade embora na realidade não exista pelo mesmo modo porque existe na inteligência o universal reflexo tem na realidade o seu fundamento mediato ou remoto porque a essência que se considera como abstrata e comum a muitos entes é uma coisa real e objetiva Cfr S Tomás in I Sent Dist 19 q 5 a1 Por isso quando dizemos que o universal é um ente lógico ou ente de razão não nos referimos à essência que se abstrai dos indivíduos pela consideração direta da inteligência e que é real ou objetiva anterior a toda a consi deração nem nos referimos ao universal considerado no seu fundamento pois este também como vimos é real mas referimonos exclusivamente ao próprio caráter da universalidade enquanto se une acidentalmente à essência Em poucas palavras no universal devemos considerar duas coisas a essência e a forma de universalidade que a essência reveste A essência é ente real a forma de universalidade é ente lógico ou de razão Onde existem os universais Eis uma das mais antigas e ruidosas questões que se tem agitado no campo da ciência As muitas e diversas soluções apresentadas pelos filósofos podem reduzirse a três A pri meira é a dos que afirmam que os universais não existem de modo algum nas coisas singulares e materiais existentes na realidade A segunda é a dos que pelo contrário sustentam que os universais existem enquanto tais na realidade A terceira é a dos que seguindo um caminho médio ensinam que os universais existem em potência ou fundamentalmente na realidade em ato ou formal mente na inteligência Tendo suficiente mente desenvolvido essa terceira opinião que é conhecida pelo nome de realismo moderado e que foi defendida por Aristóteles e depois por S Boécio pelo B Alberto Magno por S Boaventura e sobretudo pelo Angélico S Tomás de Aquino restanos examinar e criticar as outras duas opiniões a Primeira opinião A primeira opinião a qual como dissemos afirma que os universais não existem de modo algum na realidade foi sustentada pelos sequazes do nominalismo e do conceptualismo a O nominalismo diz assim os chamados universais não eram no princípio senão nomes singulares que denotavam indivíduos Esses nomes singulares tiveram em seguida um sentido mais lato e extenso e foram empregados para denotar muitos outros indivíduos semelhantes aos conhe cidos daí a universalidade dos nomes Portanto os universais existem exclusivamente nas palavras não passam de simples nomes aos quais não corresponde nenhuma realidade da natureza e nenhum con 202 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ceito da inteligência Defenderam o nominalismo Epicuro 341270 a C e os sensualistas na antiguidade Roscellino 1089 e Guilherme Occam 12801343 na idade média Tomás Hobbes 15881619 David Hume Smith Condillac DugaldStewart Taine Ribot Wundt os modernos materialistas e positivistas que só admitem imagens sensíveis e concretas O nominalismo é falso pelas seguintes razões Os nomes são sinais externos das idéias Logo se existem nomes universais devem existir tam bém idéias universais aliás deveríamos dizer que há sinais que não têm significação e que há palavras que não dizem nada Além disso pergun tamos aos nominalistas porque motivo vendo um indivíduo da mesma espécie denotamolo com o mesmo nome Respondem porque é semelhante aos outros Otimamente Mas como poderíamos nós conhecer aquela semelhança se não possuíssemos já a idéia de uma espécie ou essência que abstraindo dos caracteres individuais exprimisse exclusivamente o que é comum a vários indivíduos Logo a imposição do mesmo nome a indiví duos semelhantes pressupõe uma idéia universal Finalmente o nomina lismo destrói todas as ciências porque essas têm por objeto as idéias universais e não as singulares b O conceptualismo sustenta que os universais existem nos con ceitos mas de modo algum na realidade e que por isso os universais são meras idéias às quais nenhuma realidade objetiva corresponde Defenderam essa opinião os Estoicos na antiguidade Pedro Abelardo 1079 1142 na idade média Descartes e Kant na idade moderna O conceptualismo é falso Com efeito assim como os nomes são sinais dos con ceitos assim também os conceitos são essencialmente sinais das coisas Logo se existem conceitos universais deve existir uma realidade objetiva que de algum modo lhes corresponda Além disso todas as ciências à exceção da Lógica têm por objeto as coisas reais e não as ideais Mas se fosse verdadeiro o conceptualismo as ciências ocuparseiam de fantasmas vãos daí o ceticismo Finalmente os conceptualistas admitem que nós percebemos a semelhança existente entre vários indivíduos e que em vista dessa semelhança designamos com o mesmo conceito muitos entes singu lares Ora não poderíamos afirmar uma semelhança entre muitos entes singulares se nestes não existisse realmente um elemento comum a todos Este elemento comum a muitos entes é o universal Logo o universal existe de algum modo na realidade objetiva b Segunda opinião A segunda opinião afirma como vimos que os uni versais existem enquanto universais nas coisas reais e objetivas de modo que fora da nossa inteligência existe o gênero a espécie etc É o realismo exagerado Mas os sequazes dessa opinião não explicam todos do mesmo modo a pretendida existência do universal como tal na realidade Alguns como os Platônicos disseram que os universais como tais subsistem em si mesmos fora da inteligência Outros como Guilherme de Champeaux 10701120 e David de Dinant embora não admitissem a subsistência dos universais em si mesmos como formas separadas dos entes singulares contudo disseram que eles existem atualmente na realidade porque a essência das coisas visíveis é realmente única e numericamente idêntica em todas de modo que uma coisa não é ou não parece distinta de outra senão pelos acidentes externos Os transcendentais modernos levaram essa opinião ao mais crasso panteísmo dizendo que existe uma única substância da qual as coisas 203 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 149 Fundamento supremo da objetividade das idéias uni versais As idéias universais se têm o seu fundamento próximo nas coisas criadas têm o seu fundamento supremo na reali dade da própria Essência infinita de Deus Porquanto todas as coisas criadas são outras tantas cópias dos arquétipos que a inteligência do Artífice eterno forma e que importam alguns dos infinitos modos porque a Essência divina pode ser representada na criação Assim pode dizerse que as coisas criadas são impressões visíveis da invisível ciência divina Medidas pela ciência que nos cercam são apenas modificações Outros sequazes de Scoto ensinaram que a essência considerada em si mesma e fora de toda a reflexão da inteligência tem a capacidade de existir indiferentemente neste ou naquele indivíduo e é por si universal O realismo exagerado é falso Porquanto se os universais existissem como tais fora da inteligência deveríamos dizer que na realidade e independentemente de todo a ato intelectual existem os gêneros e as espécies como tais de modo que poderíamos dizer que um indivíduo humano por ex Pedro é espécie Ora ninguém pode admitir tal absurdo Além disso os universais que são o objeto da nossa inteligência e de que se ocupa a ciência são imutáveis incorruptíveis necessários eternos em relação à essência abstrata que eles exprimem Ora tudo o que existe ou pode existir na realidade é mutável cor ruptível contingente temporal Logo os universais não existem como tais na realidade Pelo que deixamos dito podemos apreciar as diversas formas desta opinião Quanto aos Platônicos diremos com Aristóteles que eles partem de ura falso princípio supondo que quando a inteligência separa a essência das notas individuais tal separação é real Dessa suposta sepa ração real é claro que não pode derivar senão a subsistência dos universais como tais fora da inteligência Ora o princípio estabelecido é falso porque como explicamos essa separação não é real é apenas intencional Cfr Arist Post Analyt lib II lect 2 Metaph lib VII lect 14 Quanto a Guilherme de Champeaux diremos com S Tomás que as substâncias sin gulares e indivíduas são diversas e distintas entre si não só porque as propriedades acidentais de uma são diversas e distintas das propriedades acidentais de outra mas também e sobretudo porque a matéria e a forma de uma não são a matéria e a forma de outra A forma embora possa por si ser especificamente una em vários seres contudo é numericamente mul típlice porque se torna indivídua em cada ente singular e o princípio dessa individuação é como veremos a matéria Quanto aos Scotistas diremos que eles fundam o seu raciocínio num equívoco Não negamos que a essência considerada em si mesma e como existe na inteligência seja dotada de uma certa comunidade ou multiplicidade negativa ou de uma indiferença para existir neste ou naquele indivíduo e que sob este aspecto possa chamarse universal Mas daí não se segue que essa essên cia exista na realidade Porquanto a essência se tem essa comunidade ou multiplicidade negativa quando se considera em si mesma e na inteligência não a tem quando se considera na realidade pois a essência não existe na realidade senão porque existe nos indivíduos singulares e o que existe num indivíduo não pode pertencer a outro Nem todas as pro priedades que convêm a um ente enquanto existe na inteligência convêm ao mesmo enquanto existe na realidade 204 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA divina as coisas criadas medem pela sua vez a ciência humana Essas coisas atuando na nossa inteligência deixam aí impressa uma imagem que representa a essência abstraída das condições materiais e por isso universal de onde as idéias universais Logo as idéias universais têm o seu fundamento supremo na realidade da Essência infinita de Deus1 CAPÍTULO SEGUNDO Meios para a aquisição da verdade Sumário Inteligência e razão Consciência e memória intelectual Sentidos internos e externos Testemunho suas espécies e transmissão ARTIGO I Inteligência e razão 150 Classificação desses meios Os meios para a aquisição da verdade são a inteligência a razão a consciência a memória intelectual os 1 A inteligência humana possui idéias universais Essas idéias não se contemplam na Essência divina que nos é invisível mas são recolhidas das coisas criadas Embora recolhidas das coisas criadas as idéias universais representam as essências não concretas e singulares como existem na realidade mas abstratas e universais Transportadas numa ordem ideal as essências revestem os atributos de necessidade imutabilidade eter nidade etc que se não se identificam com os correspondentes atributos de Deus contudo são reflexos destes Imutáveis necessárias eternas na inteligência divina as essências das coisas criadas devem participar desses dotes quando atuadas na criação Sendo imutável necessário eterno o selo também imutável eterna necessária é pro porcionalmente a impres são E se a impressão foi feita na matéria mutável contin gente tem poral basta uma simples abstração da inteligência para separar da ma téria a mesma impressão e fazer deste modo resplandecer as nobilíssimas propriedades de que as essências criadas são dotadas na inteligência di vina Por isso a ciência humana participa no sentido explicado da própria ciência divina Diz S Tomás Sicut scientia in nobis est sigillatio rerum in animabus nostris ita e converso formae rerum non sunt nisi quaedam sigillatio divinae scientiae in rebus De scientia Dei a 1 A objetividade das idéias universais e em geral da ciência humana não podia ser nem mais solidamente estabelecida nem mais luminosamente explicada 205 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE sentidos internos e externos e o testemunho Os pri meiros são intrínsecos o último é extrínseco Neste artigo trata mos da inteligência e da razão nos seguintes dos outros meios1 151 Inteligência Inteligência considerada como meio especial para a consecução da verdade é a faculdade pela qual apreendemos 1 A inteligência é propriamente a única faculdade que o homem possui para adquirir a verdade porque só ela por ser espiritual conhece a relação entre o predicado e o sujeito Os meios pois que enumeramos ou são essa mesma faculdade intelec tual que toma diversos nomes inteligência razão consciência memória conforme a diversidade dos atos que exerce ou das verdades que adquire ou são instrumentos sentidos e testemunho de que ela se serve para alcançar o seu fim A classificação dos meios para a aquisição da verdade é completa Com efeito todas as verdades que podemos conhecer ou são descobertas por nós ou nos são ensinadas por outros Se são descobertas por nós ou representam entidades imateriais ou exprimem entidades materiais Se representam entidades imateriais ou são idéias universais e juízos dotados de evidência imediata e são percebidas pela inteligência ou são juízos dotados de evidência mediata e são percebidas pela razão ou são as operações espirituais existentes atualmente no espírito e são percebidas pela consciência ou são as próprias percepções intelectuais passadas e são per cebidas pela memória intelec tual Se exprimem entidades materiais ou se referem aos objetos externos e a inteligência percebeas por meio dos sentidos externos ou se referem aos objetos internos e a inteligência percebeas por meio dos sentidos internos Se as verdades nos são ensi nadas por outros temos o testemunho que é divino ou humano Cf Sum Th p I q 79 aa 7 8 De Verit q 10 a 3 c Gent l I c 31 A Lógica e a Metafísica ocupamse das nossas faculdades perceptivas mas sob diversos apectos A Metafísica estudaas enquanto têm uma certa natureza e um correspondente modo de operar a Lógica consideraas enquanto são meios legítimos para a consecução da verdade As nossas faculdades perceptivas serão meios legítimos para a consecução da verdade se forem pela sua própria natureza verazes com relação ao seu objeto próprio Que sejam elas naturalmente dotadas dessa veracidade é uma das verdades evidentes que não precisam nem podem ser demonstra das sem petição de princípio Porquanto toda a demonstração exigindo o uso e o exercício das nossas faculdades perceptivas supõe como certa e indiscutível a sinceridade ou legitimidade dessas faculdades Essa ver dade pois pode ser mais explicada do que demonstrada A explicação é a seguinte Todas as faculdades perceptivas estão naturalmente ordenadas para conseguir a verdade cada uma na sua esfera e com relação ao pró prio objeto Ora não poderiam elas estar naturalmente ordenadas para conseguir a verdade se não fossem por si verazes aliás o Autor da na tureza teria dotado o homem de instrumentos essencial mente incapazes de conseguir o próprio fim Portanto se na percepção das nossas faculdades pode haver e há engano este não depende de um vício inato ou de uma natural ineptidão das mesmas mas unicamente de circunstâncias acidentais como veremos C Gent III 107 206 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA a essência das coisas e os primeiros princípios da demonstração Os primeiros princípios da demonstração são verdades dotadas de evidência imediata e percebidas pela simples inspeção ou análise dos termos como por ex o todo é maior que uma sua parte1 152 Objeto da inteligência O objeto pois da inteligência é constituído pela essência das coisas e pelos primeiros princípios da demonstração Os principais princípios ord I Pr de identidade um ente é idêntico a si mesmo II Pr de contradição um ente não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto III Pr de conveniência dois entes cada um dos quais é igual a um terceiro são iguais entre si IV Pr de desconveniência dois entes dos quais um só é igual a um terceiro não são iguais entre si V Pr de substancialidade o acidente supõe a substância VI Pr de causalidade o efeito exige ou tem uma causa VII Pr de razão suficiente todo o ente tem uma razão suficiente2 1 Diz S Tomás Nomen intellectus dupliciter accipi potest Uno modo secundum quod se habet ad hoc tantum a quo primo nomen impositum fuit intelligere enim est quasi intus legere et sic dicimur proprie intelligere cum aprehendimus quidditatem rerum vel intelligimus illa quae statim nota sunt intellectui notis rerum qnidditati bus sicut sunt prima principia quae cognoscimus cum terminos cognoscimus Alio modo potest accipi intellectus communiter secundum quod ad omnes operationes se extendit et sic comprehendit opinionem et ratiocinationem De Ver q 1 a 12 2 A inteligência sendo faculdade imaterial tem por objeto o imaterial O imaterial é incomplexo ou complexo O incomplexo é a essência das coisas o complexo é uma verdade A verdade quando é dotada de evidência imediata e é percebida pela simples inspeção dos termos tornase e é primeiro princípio da demonstração Posterior lib I lect 7 Expliquemos a natureza desses princípios Princípio em geral é uma coisa de que procede outra Diz S Tomás Principium est omne id a quo aliquod pro cedit Sum Th p I q 33 a 1 Como a coisa de que uma outra procede pode ser uma realidade ou uma verdade daí um dúplice princípio o princípio real de que procedem os entes reais e o princípio lógico de que procede a demonstração O princípio lógico pode ser primeiro e segundo O primeiro é uma verdade que se refere à nossa primeira idéia que é a do ente enquanto ente é anterior a toda a tese e a toda a hipótese penetra de um modo explícito ou implícito em todas as demonstrações e estendese a todas as disciplinas e ciências O segundo é uma verdade que se refere a um particular modo do ente tem o seu fundamento 207 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 153 A inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas a Nenhuma faculdade se engana na apreensão do objeto próprio porque existe um nexo natural entre a faculdade e o seu objeto próprio e por isso se a faculdade se enganasse com relação a esse objeto deve ria dizerse que ela foi feita e não foi feita para o seu objeto o que é absurdo Ora o objeto próprio da inteligência é a essência das coisas Logo a inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas1 e a sua resolução numa verdade anterior e abrange uma especial ciência ou disciplina Os primeiros princípios co stumam chamarse também axiomas ou dignidades porque ocupam um lugar proeminente na ordem dos conhecimentos humanos metafísicos porque são compostos de idéias universais e referemse à essência das coisas analíticos porque neles a conveniência do predicado com o sujeito é percebida pela simples análise dos termos imediatos porque são per cebidos de um modo imediato sem discurso Estes primeiros princípios distinguemse dos princípios de fato constituídos por verdades sintéticas cujo predicado atribuise ao sujeito não pela análise dos termos mas uni camente pela experiência como o sol resplandece o mundo existe Os primeiros princípios ou axiomas são verdades metafísicas e delas se ocupa com o devido desenvolvimento a Metafísica Todavia a Lógica não pode deixar de indicálos visto serem eles a base das verdades lógicas e o fundamento de toda a demonstração Reservandonos portanto a provar na Ontologia a verdade desses princípios sobretudo dos princípios de contradição e de causalidade limitamonos a um ou outro apontamento Em todos os princípios está contido o princípio de contradição porque em todas as idéias está contida a idéia de ente da qual é contraditória à idéia de nãoente de modo que os outros princípios se podem considerar como diferentes formas desse princípio O princípio de identidade pode também formularse assim o que é é Aplicações deste princípio são os seguintes a verdade deve ser absolutamente coerente a si mesma princípio de coerência nenhum ente pode ter propriedades opostas O princípio de razão suficiente não deve confundirse com o de causalidade porque o ser não pode confundirse com o ser efeito Deus não pode ser efeito porque a Causa primeira não pode ser causada mas tem a razão suficiente da sua existência na infinita perfeição da sua essência Leibniz disse que o princípio de contradição é o fundamento das verdades necessárias e que o princípio de razão suficiente é o fundamento das verdades contingentes Essa opinião não pode admitirse Porquanto se é certo que era todas as verdades contingentes se acha incluído o princípio de razão suficiente é certo também que este mesmo princípio se funda no princípio de contradição porque se pudesse darse uma coisa sem razão suficiente uma e a mesma coisa teria e não teria razão de ser o que é contrário ao princípio de contradição 1 É a sapientíssima doutrina de S Tomás Existe um nexo essencial entre as coisas uma está pela própria natureza ordenada para outra e em virtude dessa 208 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Se a inteligência se enganasse na apreensão da essência das coisas enganarseia ou porque atribui à essência uma propriedade que não tem ou porque lhe nega uma propriedade que tem Ora a inteligência quando apreende a essência das coisas não lhe atribui nem lhe nega propriedade alguma Logo não se engana na apreensão da essência das coisas1 ordem uma opera sempre do mesmo modo com relação à outra e alcança sempre o seu escopo Este nexo essencial e necessário existe também entre a faculdade e o seu objeto próprio Objeto próprio de uma faculdade é o que primeiramente e por si mesmo é percebido pela mesma faculdade Diz S Tomás Id quod est primo et per se cognitum a virtute cognoscitiva est proprium objectum ejus Sum Th p I q 85 a 8 A faculdade tem toda a sua razão de ser na existência e na índole do seu objeto próprio e estando natural e necessariamente ordenada para ele natural e necessariamente o alcança ou não se engana na apreensão do mesmo Se assim não fosse se a faculdade pudesse enganarse na apreensão do objeto próprio devia dizerse que ela está e não está ordenada para o seu objeto está ordenada porque tende para esse objeto não está ordenada porque o não alcança o que é absurdo Ora o objeto próprio da inteligência é a essência das coisas porque é essa que pri meiramente e por si é percebida pela inteligência Ensina S Tomás Quidditas rei est proprie objectum intelectos De ver q 1 a 12 Portanto a inteligência não pode enganarse na apreensão da essência das coisas Diz S Tomás Ad proprium objectum unaquaeque potentia per se ordinatur secundum quod ipsa Quae autem sunt hujusmodi semper eodem modo se habent Unde manente potentia nou deficit ejus judicium circa proprium objectum Objectum autem proprium intellectus est quidditas essentia rei unde circa quidditatem rei per se loquendo intellectus non fallitur Sum Th p I q 85 a 6 Pode a apreensão da inteligência ser deficiente imperfeita e mesmo negativa mas nunca pode ser falsa E de que modo poderia ser falsa Talvez porque em vez de representar a essência de uma coisa representa a essência de outra Mas nesse caso a apreensão é verdadeira com relação à essência que é representada e assim é sempre verdadeira Se pois a inteligência se engana alguma vez na simples apreensão de uma essência não se engana enquanto apreende simplesmente uma essência mas enquanto nessa apreensão enxerta ex plícita ou implicitamente um juízo E esse juízo pode intro duzirse por dois modos ou quando a essência de uma coisa se atribui a outra p ex quando a definição do círculo se atribui ao triângulo ou quando a uma essência se atribui um elemento estranho p ex quando se define o homem animal racional quadrúpede Mas é claro que então o erro pertence pro priamente ao juízo latente na apreensão e não à própria apreensão Essa é sempre verdadeira Sum Th p I q 17 a 3 q 85 l c 1 A falsidade encontrase própria e formalmente no juízo quando a um sujeito atribuímos um predicado que não lhe convém ou quando lhe negamos um predicado que lhe convém Ora a nossa inteligência quando apreende simplesmente 209 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 154 A inteligência não se engana na apreensão dos primei ros princípios a Os primeiros princípios são juízos cujo predicado está e se conhece de uma maneira evidente e imediata contido necessariamente na própria essência do sujeito de modo que quem percebe essa essência percebe nela e por ela o predi cado e assim a apreensão dos primeiros princípios reduzse à apreensão da essência das coisas Ora a inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas Logo nem se engana na apreensão dos primeiros princípios1 uma essência limitase a considerar essa essência sem lhe atribuir ou negar alguma propriedade ou nota de que está ou pode estar cercada na realidade e por isso a apreensão não pode deixar de ser verdadeira Abstrahentium non est mendacium dizem os escolásticos A abstração pela qual consideramos uma coisa sem outra não é erro nem fonte de erros O erro como acabamos de dizer começa quando se pro nuncia um juízo explícito ou implícito Sum Th p I q 85 a 1 ad 1 1 Chamamos a atenção sobre este argumento A inteligência enquanto é um meio especial para a consecução da verdade pronuncia exclu sivamente aqueles juízos cujo predicado está contido na noção do sujeito Ora a inteligência ou tem a noção do sujeito ou não a tem Se não a tem não pode pronunciar nenhum juízo Se a tem conhece ao mesmo tempo que o predicado convém ou não convém ao sujeito e quando afirma esta conveniência ou desconveniência por meio do juízo é impossível que se engane como é impossível que não conheça o sujeito quando o conhece Diz o An gélico Doutor Intellectus naturaliter et ex necessitate inhaeret primis principiis Summ Th p I q 82 a 2 Na doutrina do S Doutor a natureza dos primeiros princípios é tal que não só é necessário que eles sejam por si verdadeiros mas também é necessário que se veja essa verdade Diz assim Proprium horum principiorum primorum est quod non solum necesse est ea vera per se esse sed etiam necesse est videri quod sunt per se vera Post Analyt I l 19 E não pode deixar de ser assim Estes princípios exprimem todos o princípio de identidade ou deste recebem toda a força O sujeito e o predicado são e aparecem por tal modo unidos que a afirmação ou a negação de um importa a afirmação ou a negação do outro Daí se segue que na apreensão dos primeiros princípios a inteligência não se engana nem por si mesma nem por uma acidentalidade Porque estando o predicado contido na definição ou essência do sujeito desses juízos a inteligência entanto pode enganarse na apreensão dos princí pios enquanto pode enganarse na apreensão do sujeito Ora a inteligência não pode enganarse na apreensão do sujeito desses prin cípios nem por si mesma nem por uma acidentalidade Não pode enganarse por si mesma porque o sujeito desses princípios constitui o objeto próprio da inteligência e esta não se engana na apreensão do objeto próprio Não pode enganarse por uma acidentalidade porque o engano se é possível com relação aos conceitos mediatos ou 210 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Se a inteligência se enganasse na apreensão dos pri meiros princípios o engano podia provir ou da parte dos princípios ou da parte da inteligência Ora o engano não pode provir da parte dos princípios porque são por si certíssimos e evidentíssimos nem pode provir da parte da inteligência porque a inteligência conhece os primeiros princípios não por um termo médio mas imediatamente e sem discurso enquanto por uma simplicíssima e facílima análise conhece que o predicado está contido na essência do sujeito Logo a inteligência não se engana na apreensão dos primeiros princípios1 155 Regras para a inteligência A inteligência será um complexos formados por precedentes juízos não é possível com relação aos conceitos imediatos e simplicíssimos que constituem o sujeito dos primeiros princípios e que são os de ente todo parte causa efeito etc 1 Notamos para a eficácia do argumento que o termo médio é neces sário quando a inteligência ignora se o predicado convém ou não ao su jeito porque então compa ramse o predicado e o sujeito com esse termo médio e o resultado da comparação é a afirmação da conveniência ou da desconveniência do predicado com o sujeito Mas quando o predicado per tence à própria essência do sujeito pelo fato mesmo de conhecermos o sujeito conhecemos que lhe convém esse predicado Por isso logo que sejam conhecidos os termos da proposição afirmase imediatamente a conveniência ou a nãoconveniência do predicado com o sujeito As proposições que exprimem os primeiros princípios dizemse e são conhecidas por si mes mas e em relação a nós per se notae et quoud nos São conhecidas por si mesmas porque o predicado está incluído na noção do sujeito e em re lação a nós porque vemos imediatamente essa inclusão De Ver q 10 a 12 O dito acerca da legitimidade da inteligência é mais uma explicação do que uma demonstração Porquanto essa legitimidade é de uma evidência tão imediata que não pode ser rigorosamente demonstrada nem seria mente impugnada sem petição de princípio Não pode ser rigorosamente demonstrada porque baseandose a demonstração em princípios que em última análise hão de ser imediatamente evi dentes seguese que para provar a legitimidade da inteligência devemos já supôla como meio legí timo para o percepção do seu objeto Mas do fato de a legitimidade da inteligência não se poder demonstrar com todo o rigor não se segue que ela seja menos evidente Não pode demonstrarse por isso mesmo que a sua evidência é imediata O sol não se demonstra vêse Nem pode ser seriamente impugnada sem petição de princípio Quem impugnasse a legitimidade da inteligência na apreensão dos primeiros princípios deveria fazer uma argumentação baseada em última análise nos mesmos princípios e por isso admitiria a legitimidade da inteligência ao mesmo tempo que a impugna Portanto quem nega os primeiros princípios negaos aparentemente e por ostentação mas não internamente e por convicção A proposição contraditória de um princípio primeiro é um absurdo e o absurdo não se concebe embora se exprima Cf Post Analyt I 1 19 211 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE Muitos escritores têm desvirtuado a natureza dos primeiros princípios Faça mos um breve exame crítico de algumas dessas opiniões a Kant afirma que para explicar a necessidade evidente dos primeiros princípios da razão basta admitir um hábito cego e inato que ele chama forma a priori da nossa mentalidade Mas se assim fosse todos os nossos juízos que uma longa experi ência tornou habituais p e o fogo queima o corpo é pesado teriam a mesma necessidade evidente E todavia não é assim porque podemos conceber um fogo que não queima e um corpo que não é pesado A necessidade evidente dos princípios da razão longe de ser o produto de um hábito cego é o resultado da clara percepção de uma relação necessária entre o sujeito e o predicado O hábito poderá transfor mar um juízo reflexo em juízo espontâneo algo confuso mas um juízo espon tâneo embora confuso não é um juízo sintético a priori que se enuncie necessariamente sem nenhuma razão nem distinta nem confusa b O mesmo Kant afirma que os primeiros princípios e em geral os juízos ana líticos se reduzem a uma tautologia A A Contestamos a afirmação de Kant O sujeito e o predicado nos juízos analíticos não são formalmente idênticos e o predicado exprime de um modo explícito e distinto o que o sujeito exprimia de um modo implícito e confuso Além disso quando se compara o predicado com o sujeito aparecem novas relações entre esses dois termos novos respeitos que antes não apareciam Finalmente se assim fosse também a Matemática reduzirseia a uma tautologia o que nem o próprio Kant admite porque diz que as conclu sões matemáticas são juízos sintéticos a priori c Stuart Mill Log t I p 202 seguido por todos os positivistas diz que os primeiros princípios ou axiomas são as mais universais induções da experiência sensível Negamos que os primeiros princípios sejam as mais universais induções da experiência Porquanto esses princípios exprimem verdades analíticas e metafisicamente necessários ao passo que as induções da experiência sensível embora gerais são por si sintéticas e metafisicamente contingentes Ora o mais não pode identificarse com o menos Além disso a inteligência para aderir aos primeiros princípios deve perceber si existência de um nexo necessário e imutável entre o predicado e o sujeito Ora a experiencia sensível só por si é absolutamente incapaz de manifestar um nexo necessário e imutável porque se atesta o fato do nexo não pode atestar a natureza dele isto é não pode dizer se o nexo é necessário ou contingente imutável ou mutável Logo os primeiros princípios não são as mais universais induções da experiência sensível Perguntase onde têm seu fundamento os primeiros princípios Respondemos que os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza e o seu fundamento último na Inteligência de Deus Desen volvamos essa resposta a Os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza Essa proposição tornarseá evidente se considerarmos a origem dos nossos conhe cimentos intelectuais O primeiro objeto que a nossa inteligência percebe no estado 212 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA atual é a essência das coisas materiais e esta essência é o objeto próprio da mesma faculdade Diz S Tomás Primum quod intelligitur a nobis secundum statum praesentis vitae est quidditas rei materialis quae est nostri intellectus obiectum Sum Th p 1 q 88 a 3 A apreensão da essência é o primeiro ato da inteligência Percebendo a essência das coisas a inteligência percebe os ele mentos de que a essência é constituída O primeiro destes elementos perce bidos é o ente e por isso a primeira e universalíssima noção que está con tida em todas as noções e em que todas se resolvem é a noção de ente Concebida a noção ou idéia de ente a inteligência afirma imediatamente a repugnância do ente com o nãoente com o nada e pronuncia o princípio de contradição uma coisa que é não pode deixar de ser enquanto é Como também a formação de outras idéias depois da do ente por ex das idéias de substância de causa de ordem etc da origem a outros princípios ao princípio de causalidade de razão suficiente etc Essa prontidão e fa cilidade com que a nossa inteligência depois da percepção da essência pronuncia os primeiros princípios é chamada por S Tomás hábito natural da inteligência humana e os mesmos princípios são chamados inatos Mas repetimos os primeiros princípios podem chamarse inatos não enquanto sejam infundidos por Deus na nossa inteligência no momento da criação mas enquanto recebemos de Deus uma natural disposição para os pronun ciarmos e enquanto os pronunciamos depois de uma facílima e simplicíssima abstração Diz S Tomás Intellectus principiorum dicitur esse habitus naturalis ex ipsa enim natura animae intellectualis convenit homini quod statim cognito quid est totum et quid est pars cognoscat quod omne totum est mains sua parte et simile est in ceteris Sed quid sit totum et quid sit pars cognoscere non potest nisi per species intellegibiles a phantasmatibus acceptas Sum Th III q 51 a 1 E o S Doutor repete a cada passo que o conhecimento dos primeiros princípios se funda no teste munho dos sentidos e por isso nos fatos particulares Ipsorum principiorum cognitio in nobis ex sensibilibus causatur nisi enim aliquod totum sensu percepissemus non possemus intelligere quod totum esset maius parte C Gentes I II c 83 Concluímos que os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza b Mas se os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza não têm nesses fatos o seu fundamento último como pretendem os positivistas Os fatos são mutáveis e contingentes ao passo que os primeiros princípios exprimem uma verdade imutável necessária eterna que não deixaria de ser o que é embora não existisse fato algum Dizemos pois que esses princípios têm o seu fundamento último na Inteligên cia de Deus Porquanto os princípios sendo verdades devem residir na inteligência como em seu sujeito Essa inteligência não pode a do homem porque os princípios impõemse à nossa inteligência e devemos aceitálos eram verdades antes de nós os percebermos e não deixariam de o ser ainda que a nossa inteligência acabasse Logo a inteligência em que como em sujeito próprio residem os princípios deve ser a de Deus porque verdades necessárias só podem ter o fundamento último numa inteligência necessária e essa é a de Deus Bossuet escreve Ainda que não houvesse na natureza algum triângulo seria sempre certo e indubitável que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos O que vemos na essência do triângulo é certamente independente de todo o triângulo exi stente Mais ainda não é a inteligência que dá o ser à verdade e por isso ainda que a inteligência fosse destruída estas verdades subsistiram imutáveis Logique I 36 E 213 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE noutro lugar Se pergunto a mim mesmo onde e em qual sujeito estas regras subsistem eternas e imutáveis sou obrigado a admitir um Ser onde a verdade é eternamente subsistente e onde ela é sempre percebida e este Ser deve ser a própria Verdade e deve ser a Verdade toda Connais de Dieu et de soimême IV 5 Da Inteligência de Deus os princípios refletemse na inteligência humana pelo fato desta ser efeito e semelhança daquela Este reflexo porém não é direto ou imediato pois fazse como dissemos por uma fácil abstração das coisas particulares que reproduzem em si os arquétipos da inteligência divina Para entendermos mais claramente essa altíssima doutrina que é de S Tomás lembremonos de que Deus nos instrui e nos torna partícipes das suas idéias por meio das coisas criadas que são por isso outras tan tas línguas com que Ele nos fala na ordem natural Na verdade dois elementos concorrem para a realização dos nossos conhecimentos a facul dade intelectual e o objeto inteligível que se une e manifesta à nossa inteligência por uma espécie imaterial Cf Sum Th p I q 105 a 3 Ora tanto a nossa inteligência quanto o objeto inteligível tem a sua razão suprema o seu fundamento último em Deus Tem o fundamento último em Deus a nossa inteligência porque essa é uma imagem ou semelhança da Inteligência incriada e a nossa luz intelectual é um raio da luz divina em que estão contidas as razões inteligíveis de todas as coisas Diz S Tomás Ipsum lumen intellectuale quod est in nobis nihil est aliud quam quaedam participata similitudo luminis increati in quo continentur rationes ideae aetemae Sum Th p I q 84 a 5 Tem o fundamento último em Deus o objeto inteligível Com efeito todas as coisas criadas foram feitas em conformidade com os arquétipos divinos e não se dizem e não são verdadeiras senão enquanto reproduzem fielmente esses arquétipos Diz S Tomás Res naturales dicuntur verae secundam quod assequuntur similitudinem specierum quae sunt in mente divina Sum Th p I q 16 a 1 Sendo dotadas de ver dade as coisas criadas são também dotadas de inteligibilidade porque toda a verdade é por si inteligível Essa inteligibilidade é conatural e acessível à nossa inteligência a qual por ser uma faculdade espiritual mas existente na matéria deve perceber o inteligível escondido sob a concreção da matéria Deste modo a inteligência humana confor mandose com as coisas criadas conformase com a inteligência divina percebendo as essências das coisas criadas percebe os próprios arquétipos divinos e pronunciando os primeiros princípios ex prime os princípios da Inteligência divina que os exprimiu e reproduziu nas criaturas Estes princípios sendo conhecidos por uma facílima e sim plicíssima abstração não podem ser ignorados muito menos contesta dos seriamente por ninguém e por isso constituem o patrimônio da inteligência humana enquanto tal E como os primeiros princípios são os cri térios diretores de todos os nossos juízos e são um reflexo das razões ou idéias eternas de Deus podemos dizer que o homem vê tudo e julga de tudo nas razões ou idéias eternas de Deus Tal é a doutrina de S Tomás C Gentes I III c 47 Sum Th p I q 84 a 5 Para maior clareza advertimos que os arquétipos divinos representam os vários e infinitos modos porque a Essência divina é e pode ser representada na criação Por isso cada um desses modos representa a Essência divina com limitação e a nossa inteligência quando descobre nas coisas criadas esses arquétipos não descobre a própria Essência divina senão de uma maneira muito defi ciente ou limi tada Em poucas palavras as coisas criadas são reproduções ou imitações fidelíssimas dos arquétipos divinos mas estes são imitações finitas da infi nita Essência 214 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA meio legítimo e infalível para a aquisição da verdade se ob servar as regras seguintes Iª Não deve sair da sua esfera a qual como dissemos é consti tuída pela essência das coisas e pelos primeiros princípios da demonstração IIª Quando uma verdade embora dotada de evidência imediata é sintética e não analítica então para a inteligência não se enganar é indispensável o exercício de outra faculdade Assim para pronunciar esse juízo o mundo existe a inteligência deve servirse do ministério dos sentidos externos 156 Razão Razão é a própria inteligência que por meio do raciocínio deduz de uma verdade conhecida uma ver dade desconhecida A verdade que pelo raciocínio se deduz de outra verdade é dotada de evidência mediata1 divina Concluímos que os primeiros princípios pelo tato de se fundarem proximamente nas coisas criadas as quais reproduzem fiel mente em si mesmas os arquétipos divinos têm a sua razão suprema o seu fundamento último na Inteligência divina De onde se segue que da existência dos primeiros princípios que a nossa inteli gência vê reproduzidos nas coisas sensíveis pode legitimamente dedu zirse a existência de Deus Nem se diga que essa dedução importa uma passagem arbitrária da ordem ideal para a real Porquanto esses princípios embora sejam percebidos pela nossa inteli gência todavia não são um mero produto lógico a que nenhuma realidade corresponda mas são verdades objetivas que têm a sua expressão e realização nas coisas concretas e visí veis e por isso representam uma entidade real Sendo entidades objetivas ou reais os primeiros princípios supõem uma inteligência objetiva e real porque a causa deve ser proporcionada ao efeito Essa inteligência não pode ser a da criatura não só porque a inteligência da criatura sendo contingente e temporária não poderia imprimir nos primeiros princípios um cunho de necessidade e de eternidade mas também porque não teria a energia suficiente para os imprimir na concreção da matéria Logo deve ser a inteligência de um Ente superior e incriado que tenha a força de conceber essas verdades e de as reproduzir nos entes finitos visto que toda a forma que existe no efeito deve preexistir numa causa no estado de exemplar Esse ente superior e incriado é Deus Portanto o argumento que deduz da exi stência dos primeiros princípios conhecidos por nós a existência de Deus é a posteriori porque fundado num efeito inteligível enquanto dessas verdades que existem na nossa inteligência elevase à fonte de toda a verdade Diz S Tomás Ex hoc quod veritas intellecta sit aeterna quantum ad id quod intelligitur non potest concludi quod anima sit aeterna sed quod veritates intellectae fundentur in aliquo aeterno Fundantur enim in ipsa prima veritate sicut in causa universali contentiva omnis veritatis C Gent II 84 1 O conhecimento de objetos imediatamente evidentes fazse por um ato intui tivo da faculdade perceptiva intelectual Esse conhecimento é a base de todos os outros 215 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 157 Objeto da razão O objeto pois da razão é consti tuído pelas verdades mediatas isto é pelas verdades deduzidas pelo raciocínio de outras verdades precedentemente conhecidas O raciocínio como dissemos é dedutivo ou indutivo1 158 A razão não se engana na percepção das verdades imediatas a Nenhuma faculdade se engana com relação ao objeto próprio porque tende para esse objeto de um modo natural e por isso necessá rio Ora o objeto próprio da razão é a ver dade mediata deduzida pelo raciocínio de outra verdade Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas2 conhecimentos Por isso quando um objeto não é por si dotado de evidência imediata devemos recorrer a um termo médio que nos mostra se há uma relação necessária um nexo essencial entre esse objeto e os objetos imediatamente evidentes Existindo essa relação esse nexo é claro que se são verdadeiros os objetos imediatamente eviden tes devem ser também verdadeiros os objetos que não têm essa evidência imediata mas que estão relacionados com os que a têm como também se fossem falsos estes segundos objetos deveriam também ser falsos os que são imediatamente evidentes Diz S Tomás Quaedam propositiones sunt necessariae quae habent connexionem necessariam cum primis principiis sicut conclusiones demonstrabiles ad quarum remotionem sequitur remotio primorum principiorum Et his intellectus ex necessitate assentit cognita conexione necessaria conclusionum ad principia per demonstrationis deductionem Sum Th p I q 82 a 2 Repetimos que a inteligência e a razão não são duas faculdades distintas mas denotam duas distintas funções da mesma facul dade intelectual a qual descobre a relação entre dois termos às vezes de um modo imediato e outras vezes de um modo mediato por um termo médio Por isso alguns escritores dando o nome de razão à faculdade intelectual perceptiva dividemna em razão intuitiva e em razão discursiva em conformidade com essa dúplice função Cf Sum Th p I q 89 a 8 De Ver q 15 a 1 A razão pode ser teorética e prática A teorética ou especulativa limitase à percepção da verdade a prática aplica a verdade percebida à ope ração Não são duas faculdades mas uma só visto que o objeto da teorética é o mesmo que o da prática e à aplicação da verdade percebida à operação é uma coisa apenas acidental Kant concede que a razão prá tica seja um meio legítimo para a consecução da verdade mas nega que tal seja a razão teorética Mas enganase Se a razão prática se identifica com a teorética ou ambas são meios legítimos ou ambas ilegítimos 1 Para evitar repetições remetemos o leitor para o que dissemos no cap III da I parte da Lógica acerca do raciocínio e suas espécies 2 A razão não se engana por si isto é pela sua própria natureza Estando ela naturalmente orientada ou ordenada para a verdade não pode dizerse sem uma 216 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Quando pelo raciocínio deduzimos de uma verdade conhecida uma outra verdade desconhecida afirmamos explici tamente na conclusão o que implicitamente tínhamos afirmado nas premissas Ora a inteligência não se engana na percepção das premissas que em última análise são verdades imediatas Portanto nem a razão se engana na percepção das conclusões quando estas foram legitimamente deduzidas das premissas As conclusões são e dizemse verdades mediatas Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas1 contradição flagrante que ela está naturalmente orien tada ou ordenada para o erro e seria naturalmente orientada ou ordenada para o erro se se enganasse por si pela sua própria natureza Nem pode a razão mudar essa orientação essa ordem porque não é uma faculdade livre mas necessária e uma faculdade necessariamente ordenada para um certo fim não pode ser ordenada para outro fim contrário Essa orienta ção ou ordenação da razão para a verdade referese também e sobretudo às verdades mediatas isto é às verdades que não são por si imediatamente evidentes mas que são deduzidas de outras verdades por meio do raciocínio Porquanto se a inteligência angélica é naturalmente intuitiva a humana é naturalmente discursiva Percebida a essência de uma coisa e pronunciados os primeiros princípios a nossa inteligência não exauriu não compreendeu tudo o que se refere a essa coisa e precisa de com pletar o seu conhecimento e completao por meio do juízo afirmativo ou negativo passando de uma proposição para outra de uma verdade conhe cida para outra desconhecida De Ver q 15 a 1 1 Nem pode ser de outro modo Se a razão se enganasse na percep ção das verdades mediatas darseia o engano ou porque ela não pode estar certa da verdade das premissas ou porque não pode estar certa do nexo lógico entre o antecedente e o consequente Ora a razão pode estar certa tanto da verdade das premissas porque estas são imediatamente evidentes ou fundamse e resolvemse em verdades imediata mente evidentes como da verdade do nexo lógico entre o antecedente e o consequente porque podemos pela reflexão convencernos de que foram observadas as respectivas leis lógicas e de que por isso a conclusão se funda e se resolve nos primeiros princípios nas verdades imediatamente evidentes Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas Como se vê a razão no seu movimento parte da inteligência e volta para a inteligência esta é o começo e o termo daquela Diz S Tomás Quia motus semper ab immobili procedit et ad aliquid quietum terminatur inde est quod ratiocinatio humana secundum viam inquisitionis vel inventionis procedit a quibusdam simpliciter intellectis quae sunt prima principia et rursus in via judicii resolvendo redit ad prima principia ad quae inventa examinat Sum Th p I q 79 a 8 Mas se a nossa razão não pode enganarse per se pela sua própria natureza pode enganarse per accidens por um motivo que obsta à retidão do seu exercício O instrumento é bom mas o modo que nos servimos dele pode ser defeituoso e con trário às regras da arte E a arte do raciocínio é uma das mais complexas e delicadas 217 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 159 Regras para a razão A razão para que seja meio legítimo para a aquisição da verdade deve observar estas regras Iª Não deve sair da sua esfera que é o imaterial Para o conhe cimento do material é indispensável o exercício de outra faculdade A passagem do ideal para o real é sofisma IIª Estabelecidas as premissas deve deduzir a conclusão con forme as leis do raciocínio Da inobservância desta regra deriva a máxima parte dos erros ARTIGO II Consciência e memória intelectual 160 Consciência Consciência é a própria inteligência que pela reflexão percebe a existência atual das operações espirituais que são as da inteligência e da vontade1 A falta de estudo e reflexão a influência dos prejuízos e das paixões a dificuldade do assunto e outros motivos podem desviar a razão e fazer com que deixe de observar as leis da legítima dedução De onde o erro Para evitar o erro acidental a razão percorra de novo o caminho feito averigue se a conclusão desce legitimamente das premissas e julgue a mesma conclusão à luz dos primeiros princípios porque a certeza da conclusão depende inteiramente da certeza dos princípios No texto provamos em geral que a razão não se engana na percepção das verdades mediatas Como essas verdades são adquiridas por meio da dedução ou da indução deveríamos provar que a razão não se engana nem quando por meio do silogismo desce do universal para o particular nem quando por meio da indução sobe do particular para o universal Mas como nos respectivos lugares tratamos da legitimidade do silogismo e da indução julgamos desnecessária a insistência Também a legitimidade da razão é de evidência imediata e não pode rigoro samente demonstrarse nem contestarse sem petição de princípio Na verdade quem quisesse demonstrar ou contestar a legitimidade da razão devia fazer um raciocínio Ora todo o raciocínio parte de princípios que em última análise são verdades dotadas de evidência imediata e chega a conclusões que são verdades dotadas de evidência mediata Logo quem defende ou impugna a legitimidade da razão já pressupõe a sua legitimi dade no conhecimento das verdades de evidência mediata 1 A nossa inteligência não só percebe os objetos que estão fora de nós mas por ser uma faculdade espiritual e imaterial pode dobrarse sobre si mesma e perceber as operações espirituais que se realizam e estão presentes no íntimo do 218 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 161 Objeto da consciência O objeto da consciência é direto e indireto O direto é constituído pelas operações espirituais atualmente presentes O indireto é o próprio sujeito que exerce aquelas operações1 nosso espírito e que derivam da inteligência e da vontade Enquanto percebe essas operações espirituais atualmente pre sentes no nosso espírito a inteligência toma o nome de consciência Portanto o ato próprio da consciência é a reflexão A reflexão própria da consciên cia não deve confundirse com o ato pelo qual a inteligência torna a considerar um objeto já percebido para ter dele um conhecimento mais distinto e completo e que mais propriamente podia chamarse recogitação Também a recogitação é uma reflexão mas objetiva ou ontológica porque se refere ao objeto percebido ao passo que o ato da consciência é uma reflexão subjetiva ou psicológica porque se refere ao sujeito e às suas operações Que a inteligência seja dotada de reflexão é coisa cer tíssima Não só percebemos os objetos externos mas percebemos que percebemos e que remos isto é percebemos as nossas próprias operações espirituais Cada um de nós pode repetir com S Agostinho Intelligo me intelligere intelligo me vele De Trin l 10 c 10 e 11 cfr Sum Th p I q 87 a 3 e 4 1 A consciência percebe pelo menos confusamente duas coisas a ope ração espi ritual e o sujeito de que ela deriva Porquanto a operação percebese de um modo concreto como existe ora existe não em si mas no sujeito Por isso assim como os nossos olhos não percebem propriamente a cor mas a coisa colorida e as nossas mãos não apalpam propriamente a dureza mas a coisa dura assim também a consciência não percebe propria mente o pensamento e a volição mas o sujeito pensante e que rente tanto mais que ela por ser uma e a mesma coisa com a inteligência chega ao fundo das coisas É verdade que a razão pela qual a consciência percebe o sujeito é a operação como a razão pela qual os olhos percebem um objeto colorido é a cor e a razão pela qual as mãos apalpam um objeto duro é a dureza mas também é ver dade que a operação e o sujeito se percebem ao mesmo tempo enquanto constituem um só objeto que é o mesmo sujeito modificado deste ou daquele modo Por isso nós não percebemos que somos e que temos um princípio de vida senão enquanto percebemos que operamos Cf S Thom De mente a 8 Advirtase que a operação espiritual é objeto da consciência não enquanto representa uma coisa mas enquanto é um fenômeno interior ou uma modificação da faculdade intelectual e que a consciência atinge o sujeito não enquanto é dotado de uma ou de outra natureza mas só enquanto é princípio e causa de opera ções espirituais que como dissemos são as da inteligência e da vontade A consciência percebe também a existência atual das operações sensitivas mas só de um modo indireto como explicaremos mais tarde Dissemos que a consciência percebe não só as operações da inteligência mas também as da vontade porque estas também são imateriais e por isso são objetos proporcionados de uma faculdade imaterial como é a nossa consciência Quando pois se afirma que o objeto próprio da nossa inteligência é o universal o abstrato a afirmação não é muito exata Se o fosse a inteligência não poderia perceber as próprias operações que não são coisas abstratas ou universais mas muito concretas e individuais 219 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 162 A consciência não se engana na percepção das ope rações espirituais nem na percepção do sujeito agente a Não se engana na percepção das operações espirituais Se a cons ciência se enganasse na percepção das operações espirituais o engano devia provir ou da alteração do objeto ou da alteração da faculdade ou do obstáculo do meio Ora o engano não pode provir nem da alteração do objeto porque esse sendo um fenômeno interior deve ser atingido como é em si mesmo e por isso com as alterações que sofreu se as sofreu nem da alteração da faculdade porque uma faculdade inorgânica como é a consciência não pode estar sujeita à alteração visto que toda a alteração de uma faculdade deriva da alteração do órgão nem do obstáculo do meio visto que os fenômenos espirituais não precisam de meio para se unirem com a faculdade pois estando presentes na alma ma nifestamse imediatamente à inteligência que é uma facul dade da mesma alma Logo a consciência não se engana na percepção das operações espirituais1 Portanto é mais exato dizer que o objeto próprio da inteligência é o imaterial e que se essa faculdade percebe as coisas abstratas percebeas enquanto são imateriais Tudo o que é abstrato é imaterial mas nem tudo o que é imaterial é abstrato Mas não queremos por isso concluir que todos os seres imateriais podem ser diretamente percebidos pela nossa inteligência Os seres que excedem a nossa natureza como os Anjos e sobretudo o Ser infinito ainda que sejam imensamente inteligíveis em si mesmos não são contudo objetos proporcionados da nossa fraca inteligência e não podem ser percebidos diretamente mas só pelo raciocínio Donde se vê a excelência e a utilidade da consciência Pela inteligência e pela razão o nosso espírito elevase até ao mais alto grau de conheci mento até à adorável Divindade Não pode subir mais Mas se não pode subir mais o nosso espírito pode dobrarse recolherse em si mesmo penetrar até ao fundo da sua atividade É o que faz pela consciência É um novo campo de atividade mais vasto mais instrutivo mais delicioso mais di vino como diz Aristóteles Metaf l XI c 7 É com efeito neste campo que se encontram e se completam as duas ordens de conhecimentos os princípios e os fatos o abstrato e o concreto o necessário e o contingente a teoria e a prática Vêse também a diferença entre a razão e a con sciência As verdades que constituem o objeto da razão são necessárias e dotadas de evidência mediata mas as verdades que constituem o objeto da consciência e que são as operações espirituais são contingentes porque essas operações são fatos contingentes e dotadas de evidência imediata 1 Devemos ter sempre presente que o exclusivo múnus da consciência é o de atestar a presença das operações espirituais que atualmente se en contram na alma sem se curar se essas operações são verdadeiras ou falsas boas ou más de modo que se uma outra faculdade se engana com relação ao seu objeto contudo não se engana a 220 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A consciência não se engana na percepção do sujeito agente A consciência não se enganará na percepção do sujeito agente se esse for inteligível e atualmente presente à inteligência porque nesse caso o engano refundirseia no próprio Autor da natureza Ora o sujeito agente que é a própria alma é inteligível porque é imaterial e está atualmente presente à inteligência nas suas operações de modo que é objeto de uma simples apreensão Logo a consciência não se engana na percepção do sujeito agente1 consciência quando refere esse engano como não mente quem refere historicamente as mentiras dos ou tros Por isso quando se trata da consciência o objeto real e o aparente confundemse identificamse porque a modificação do sujeito é sempre a mesma e a consciência quando se limita a atestar a existência dessa modificação é sempre verdadeira como verdadeira é a afirmação de um doente de olhos quando diz que vê todos os objetos de cor amarela em bora não sejam tais em si mesmos Erra quem julga não quem refere 1 Para que a alma perceba a própria existência e o que se passa nela não é preciso mais do que a essência da própria alma que está intimamente unida com a inteligência pois é da essência da alma que derivam as ope rações nas quais ela é atualmente percebida S Thom De mente a 8 Mas repetimos a facilidade com que a consciência percebe as operações e a própria alma referese à existência das operações e da alma porque a percepção da natureza das operações e da alma pertence à razão e é coisa muito difícil De Ver q 10 a 8 ad 8 Fizemos nós uma demonstração Não Limitamonos a uma simples expli cação A demonstração não é possível quando se trata dos fundamen tos de toda a ciência A veracidade ou legitimidade da consciência é de evidência imediata e não pode ser demonstrada nem contestada sem peti ção de princípio Quem quisesse defendêla ou contestála já a supunha como certa Porquanto quem afirma ou nega que neste momento pensa já admite a existência do pensamento porque afirmar ou negar é pensar Ora admitir a existência do pensamento é admitir a veracidade da con sciência Logo a veracidade ou legitimidade da consciência não pode ser demonstrada nem contestada sem petição de princípio Para a solução das principais dificuldades contra a veracidade da con sciência fazemos as seguintes advertências 1º Para que estejamos certos do testemunho ou ato da consciência não precisamos de outra consciência Consistindo ela no poder de refletir e tendo por objeto o que se passa no íntimo do nosso espírito pode ela dobrarse sobre si mesma e perceber o próprio ato Por isso para a certeza da consci ência não é necessária uma nova faculdade mas é suficiente um novo ato da mesma faculdade 2º Muitas vezes duvidamos se um fenômeno interior deriva desta ou daquela faculdade mas a dúvida não se refere à existência mas sim à natureza do mesmo fenômeno Mas conhecer a natureza de um fenômeno e por isso a causa dele é múnus da razão não da consciência 3º Quando os loucos e os sonhadores afirmam que 221 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE veem e ouvem o que realmente não existe esses enganos devem atribuirse não à consciência que se limita a referir o que se passa no espírito dos loucos e dos sonha dores e nisso ela é veraz mas sim à falta do uso legítimo do raciocínio porque o juízo relativo à correspondência entre os fenômenos internos e os externos pertence à razão e nos loucos e nos sonhadores a razão está desarranjada ou não funciona Perguntase perceberá a consciência todas e cada uma das nossas ope rações espirituais de modo que não possa haver uma só operação incon sciente Uns respondem que toda a operação espiritual é necessariamente e sempre percebida pela consciência Por isso dividem a consciência em di reta e reflexa A direta seria a presença da alma nos seus atos e como a alma está sempre presente nos seus atos concluem que não pode haver ato que escape à consciência Escreve Balmes Dizer que os fenômenos existem na nossa alma e que não os tem presentes é uma contradição Phil fund l I c 23 Outros porém e com razão admitem que pode haver e há operações internas de que não temos consciência Antes de tudo repelem a distinção da consciência em direta e reflexa A consciência direta seria uma consciência nãoconsciência O que constitui propriamente a consciência é a advertência Se não há advertência não há nem pode haver consciência A presença da alma nos seus atos não é consciência senão quando e porque reflete sobre eles Ora se é ver dade que a alma pode habitualmente perceberse a si mesma nos seus atos enquanto tem sempre para isso uma grande e natural inclinação não é verdade que de fato ela se comtemple sempre e sem descanso Para isso seria necessária uma atenção demasiadamente intensa e constante de que a nossa alma não é capaz Logo um fato físico não é necessariamente um estado da consciência ainda que que seja sempre um estado da alma de que podemos ter consciência por uma suficiente reflexão A idéia e a consciência da idéia distinguemse como se distinguem a visão do objeto pensado e a visão do sujeito pensante Podemos pensar sem pensar no pensamento Todos admitem a legitimidade ou veracidade da consciência quanto ao objeto direto mas alguns rejeitamna ou desvirtuamna quanto ao objeto indireto Limi tamonos a citar as opiniões de Kant Descartes e Hamilton Kant depois de ter negado ou posto em dúvida a objetividade do pensamento admite a veracidade da consciência mas sustenta que esta se pode perceber os fenômenos internos o eu fenomênico não pode atingir o sujeito desses fenômenos o eu numênico A opinião de Kant é falsa em relação a esta última parte Porquanto pela consciência atingimos os fenômenos internos como nossos Ora não podemos atingilos como nossos sem atingirmos ao mesmo tempo o sujeito deles o eu numênico É o que a experiência atesta Através dos nossos pensamentos afetos desejos há sempre um que pensa ama deseja através dos variados fenômenos que se sucedem uns aos outros no nosso interior descobrimos um sujeito um númeno que no meio de tantas vicissitudes permanece sempre o mesmo e que se chama eu E esse sujeito esse númeno esse eu a consciência não o percebe apenas como um fato fisiológico mas conheceo também como um princípio de atividade como uma causa das nossas operações como uma verdadeira substância indivídua distinta e separada de todas as outras substâncias embora repetimos não perceba a natureza do eu 222 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 163 Regras para a consciência As principais são Iª A consciência deve funcionar dentro dos limites do seu objeto que é constituído pelos fenômenos internos do nosso espírito Por isso não podemos dizer que temos consciên cia das leis físicas do mundo de Deus IIª A consciência deve referir exclusivamente a existência dos fenômenos e do sujeito e não a natureza deste ou daqueles o conheci mento da natureza das coisas pertence à razão 164 Memória intelectual A memória intelectual é a mesma inteligência enquanto conserva as próprias operações passadas e as reconhece como próprias e como passadas1 165 Objeto da memória intelectual O objeto da memória intelectual é tríplice direto indireto e implícito O direto é constituído Descartes na opinião de alguns críticos admitiu que conhecemos o sujeito pensante mas que tal conhecimento é fruto não de uma percepção imediata mas de um raciocínio Daí o famoso entimema penso logo existo Essa opinião importa uma petição de princípio Quem diz penso diz eu sou pensante e por isso já admite o que se diz na conclusão isto é a existência do sujeito pensante E não pode deixar de ser assim O eu é percebido por uma simples intuição da consciência e anteriormente a todo o raciocínio que por isso se é útil para o conhecimento da natureza do sujeito pensante é inútil para o conhecimento da existência do mesmo sujeito Porquanto sendo a ação absolutamente inseparável do agente não podemos perceber uma entidade sem outra um modo de ser sem o próprio ser Hamilton diz que a consciência não podendo perceber o eu se o não distingue do nãoeu percebe também diretamente o nãoeu e por isso o próprio mundo Essa opinião não pode aceitarse porque contraria à própria consciência além de ser con trária à razão É verdade que a percepção do nãoeu completa a percepção do eu mas é falso que ambas as percepções possam pertencer e pertençam à mesma faculdade O nãoeu é percebido pelos sentidos externos e não pela consciência A alma é uma mas os seus meios de informação são muitos e diversos conforme a multiplicidade e diversidade dos objetos perceptíveis 1 A memória intelectual não é uma faculdade distinta da inteligência porque duas faculdades são distintas entre si quando o objeto de uma é distinto do objeto de outra ora o objeto da memória intelectual é idêntico ao da inteligência a verdade imaterial e inteligível Cf Sum Th p I q 79 a 7 Como se vê a memória e a consciência concordam em que ambas têm por objeto as nossas modificações ou ope rações espirituais mas diferem em que a consciência refere aquelas operações como presentes ao passo que a memória as refere como passadas Por isso pode dizerse e dizse que a memória é uma continuação da consciência 223 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE pelas operações intelectuais passadas como tais o indireto é formado pelos objetos daquelas operações o implícito é o nexo existente entre as operações intelectuais e o sujeito que as reconhece como próprias1 166 A memória intelectual não se engana na percepção das próprias operações passadas A memória intelectual não se engana na percepção das próprias operações passadas se o engano não é possível nem quanto à conservação dessas operações nem quanto ao seu reconhecimento Ora o engano não é possível nem quanto à conservação dessas operações porque tal conservação que é um dote de todas as faculdades sobretudo espirituais por excluir todo o juízo não está sujeita a erro nem quanto ao reconhecimento das operações como próprias e como passadas porque tal reconhecimento importa uma simples apreensão comparativa pela qual percebemos a identidade entre a operação que reproduzimos e a operação que produzimos no passado e esta apreensão comparativa não pode ser por si falsa Logo a memória intelectual não se en gana na percepção das próprias operações passadas2 1 É pois pela memória que adquirimos o conhecimento da nossa existência passada da identidade pessoal e da continuação da existência Porquanto não podemos lembrarnos de que pensamos um dia sem conhecer mos ao mesmo tempo que existíamos nesse dia que éramos então o que somos hoje e que temos continuado a existir até ao presente 2 A memória intelectual não só não se engana na percepção do seu objeto direto mas nem na percepção do seu objeto indireto e do implí cito porque também a percepção destes objetos reduzse a uma simples apreensão em que não pode haver erro ou engano Por isso assim como não se engana a consciência assim também não se engana a memória que como dissemos é apenas uma continuação da consciência A veracidade da memória é uma coisa absolutamente necessária para a nossa vida Se a memória não fosse veraz nenhuma arte seria possível nenhuma ciência nenhuma história nenhuma língua nenhuma lição etc Ora o Autor da natureza dá o que é necessário às suas criaturas Também a legitimidade ou veracidade da memória é de uma evidência imediata e não pode ser posta em dúvida sem petição de princípio Quem duvidasse dessa legi timidade deveria formar um raciocínio Ora todo o raciocínio supõe a legitimidade da memória porque quando de umas pre missas deduzimos uma conclusão essas premissas são coisas passadas e não estão presentes no espírito senão pela memória É por causa desse nexo da memória com o raciocínio cujas premissas a memória torna presentes que a Lógica defende a veracidade ou legitimidade dessa faculdade De onde se segue que se às vezes nos enganamos com relação ao pas sado o engano não deve atribuirse à memória mas unicamente à falta de critério e de 224 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 167 Regras para a memória intelectual Para que a memó ria intelectual seja um meio seguro para a aquisição da verdade devem observarse as seguintes regras Iª Sendo uma continuação da consciência a memória deve limi tarse a reproduzir as percepções ou operações passadas sem determinar as causas das coisas IIª Devemos afirmar só o que a memória reconhece e no modo porque ela o reconhece No caso contrário o erro proviria não da memória que não engana no que refere mas da imprudência ou precipitação nos juízos ARTIGO III Sentidos externos e internos 168 Sentidos externos Sentidos externos são os que existem na superfície externa do nosso organismo e por cujo intermédio per cebemos os seres materiais e externos1 reflexão porque ou se atribui à memória o que ela não refere ou se considera como certo o que a memória refere como duvidoso A memória pode enfraquecer pode mesmo esquecer as coisas mas o esquecimento não é erro assim como não é erro a ignorância e no que ela evidentemente refere como certo não pode enganarse aliás deixaria de ser memória isto é deixaria de ser a faculdade de conservar e reconhecer o passado Aqui notamos que a memória intelectual destinada para con servar as imagens imateriais das coisas é mais tenaz e menos móvel do que a memória sensitiva porque o órgão corpóreo a que está ligada a me mória sensitiva é mais móvel mais mutável do que uma faculdade espiritual como é a memória intelectual De Ver q 10 a 2 Como a memória pode esquecer e esquece o passado é necessário robuste cêla exercitandoa continuamente e auxiliandoa aplicando a atenção às coisas que desejamos reter e ordenando as idéias de modo que a recor dação de uma traga naturalmente a recordação da outra Os principais dotes de uma boa memória são facilidade tenacidade fidelidade prontidão É fácil quando sem esforço recorda os conhecimentos passados é tenaz se os conserva por muito tempo é fiel se os reconhece com exatidão é pronta se os reproduz com celeridade 1 O homem não só conhece as coisas imateriais mas também as materiais Para a percepção das coisas imateriais é dotado de faculdades imateriais para a percepção das coisas materiais é dotado de faculdades materiais A faculdade material não reside exclusivamente na alma nem exclusivamente no corpo mas no composto de alma e 225 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 169 Número dos sentidos externos Os sentidos externos são cinco a vista pela qual percebemos as cores o ouvido pelo qual percebemos os sons o olfato pelo qual percebemos os cheiros o gosto pelo qual percebemos os sabores o tato pelo qual percebemos os objetos externos que nos impressionam pela sua resistência1 170 Objeto dos sentidos externos O objeto dos sen tidos externos é tríplice próprio comum e concomitante É próprio quando é percebido por um só sentido assim a cor é o objeto próprio da vista o som do ouvido etc É comum quando é percebido por mais de um sentido assim a grandeza é objeto comum porque é percebida pela vista e pelo tato É concomitante quando não é percebido por si mesmo mas por meio de outro objeto a que está naturalmente unido assim a substância corpórea é objeto concomitante porque é percebida por meio das qualidades corpóreas que a envolvem2 de corpo As facul dades perceptivas das coisas materiais enquanto materiais são os sentidos que se distinguem em externos e internos 1 Na Antropologia trataremos com suficiente desenvolvimento da natureza e do número dos sentidos externos e do objeto próprio de cada um Aqui para o nosso escopo bastam estes apontamentos Tratamos das faculdades perceptivas não para investigarmos o modo porque pro duzem as suas operações mas para defendermos a sua veracidade ou legitimidade na percepção dos respectivos objetos 2 Com relação ao tríplice objeto dos sentidos fazemos as seguintes advertên cias O objeto próprio é uma qualidade singular e concreta que por si e primeiramente atua num só sentido de modo que não pode atuar em nenhum dos outros Os objetos próprios são cinco tantos quantos os sentidos O objeto comum é também uma qualidade singular e concreta que modifica de algum modo a ação dos sensíveis próprios e por isso se atua nos respectivos sentidos por si não atua primeiramente porque não pode impressionar os sentidos senão por meio dos sensíveis próprios assim a grandeza é objeto comum da vista e do tato porque referese à vista por causa da cor e ao tato por causa da resistência Os objetos comuns como dissemos são cinco o movimento a quietação o número a figura e a grandeza mas como diz S Tomás todos reduzemse à quantidade Cf Sum Th p I q 78 a 3 O objeto concomitante que os escolásticos chamam per accidens é uma coisa que está naturalmente unida com os objetos próprios ou comuns de modo que não pode deixar de ser perce bida na percepção desses objetos tal é como dissemos a substância corpórea que sendo o substratum dos sensíveis próprios e comuns é perce bida por eles e com eles A razão é que os sentidos percebem os sensíveis próprios e comuns não de um modo abstrato mas de um modo con creto pois a vista não percebe a cor mas o objeto colorido o gosto não percebe o sabor mas o objeto saboroso etc É claro que os sentidos limi tamse a atestar o fato de uma existência concreta sem penetrar na essência 226 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 171 Condições para a função dos sentidos As condi ções necessárias e suficientes para a legítima função dos sentidos referemse aos próprios sentidos ao objeto e ao meio Da parte dos sentidos é neces sário que se achem no seu estado normal e por isso estejam isentos de vícios de doenças e de qualquer afeção que possa impedir ou perturbar o exer cício da percepção Da parte do objeto requerse que seja pró prio de modo que se refira ao respectivo sentido e pro porcionado de modo que se encontre em condições convenien tes para ser percebido Da parte do meio existente entre o sentido e o objeto é preciso que tenha a capacidade de levar ao sentido inalterada a imagem do objeto1 172 Os sentidos externos percebem os objetos externos a Toda a faculdade alcança necessariamente o objeto para o qual está naturalmente ordenada se não encontra obstáculos porque se não alcançasse o seu objeto a faculdade estaria e deixaria de estar ordenada para ele o que é absurdo Ora os sentidos externos estão naturalmente ordenados para perceber os objetos externos como o demonstra não só a sua situação na superfície externa do nosso corpo mas também a sua adaptação aos respectivos objetos externos Logo os sentidos externos percebem os objetos externos2 1 A razão da natureza e do número dessas condições deduzse da própria natu reza da percepção sensitiva Fazse essa percepção enquanto o objeto atua na faculdade e nela imprime uma sua espécie ou imagem ou representação a qual determina a faculdade a percebêlo como é em si mesmo Portanto tudo o que pode concorrer de algum modo para viciar ou alterar tal impressão concorre também para viciar ou alterar a própria percepção Para evitar todo e qualquer inconveniente é indis pensável a verificação das condições enumeradas O órgão do sentido deve acharse no seu estado normal por isso não deve ser viciado um cego não vê as cores nem um surdo ouve os sons nem estar doente o gosto de um febricitante sente amarga uma coisa doce nem deve ser alterado as mãos enregeladas são incapazes de apalpar e distinguir objetos delicados O objeto deve ser próprio isto é deve referirse à faculdade que é capaz de o perceber e proporcionado ao órgão isto é não deve estar nem muito perto nem muito longe a superfície do sol da lua por estar fora do alcance da vista parece plana O meio através do qual o objeto atua no sentido não deve ser variado ou perturbado na sua condição natural assim pela interposição dos vapores que refrangem os raios da luz o sol a lua e as estrelas parecem às vezes quase vermelhas um pau mergul hando na água parece quebrado A experiência e a reflexão podem jul gar se as condições enumeradas se verificam ou não 2 A situação e a adaptação ou conformação fisiológica dos órgãos dos sentidos externos revelamnos as intenções da natureza Primeiramente a situação Se a 227 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE b Todos os homens de todos os tempos de todas as classes e condições à exceção dos loucos estiveram e estão convencidos de que os sentidos externos percebem não a modificação do próprio órgão nem uma coisa imaginária mas um objeto existente na realidade fora de nós Ora essa convicção sendo universal e constante não pode derivar senão da natureza e essa não pode enganarse Logo os sentidos externos percebem os objetos externos1 natureza nos tivesse dotado de sentidos só para conhecermos as nossas disposições subjetivas deveria têlos colocado no centro do organismo ou na cavidade do crâneo Mas não foi assim Os órgãos dos sentidos externos estão colocados na superfície externa do nosso corpo ou na extremidade dos membros E para que Para podermos relacionarnos com o mundo exterior Se não tivesse sido este o escopo da natureza teríamos um efeito sem razão suficiente o que é absurdo Logo a disposição dos órgãos dos sentidos externos manifesta a objetividade das nossas per cepções isto é a existência dos objetos percebidos Secundariamente a adaptação Todos os fisiologistas examinando os órgãos dos sentidos externos reconhecem que eles estão maravilhosamente adaptados para as respectivas funções isto é para a percepção dos respectivos objetos exter nos a vista para a percepção das cores o ouvido para a percepção dos sons etc Ora se os sentidos externos têm essa adaptação devemos concluir que eles percebem os objetos externos se não houver algum impedimento Não pode negarse a conclusão sem se negar o senso comum 1 Todos mesmo os adversários admitem a existência dessa convicção univer sal e constante acerca da objetividade da percepção sensitiva externa Todavia alguns dizem com Taine que a tal convicção é uma ilusão ver dadeira para a distinguir das ilusões falsas Mas se toda a ilusão é um engano é uma falsidade poderá haver uma ilusão verdadeira isto é uma falsidade verdadeira Ao bom senso a resposta E não pode ser de outro modo Quando um pobre homem recebe uma bengalada na cabeça lançase contra o adversário e faz todos os esforços para lhe arrancar das mãos a bengala causa instrumental da sua dor O que mostra isso Mostra que os sentidos externos isto é os olhos do agredido não perceberam uma coisa imaginária ou uma modificação do próprio órgão mas um objeto real um objeto externo O exemplo aduzido é vulgar mas não faltam outras razões científicas É admitido por todos que os nossos sentidos externos como todas as nossas potências ou faculdades podem perceber um ou outro objeto indiferentemente Quando pois os sentidos percebem um determinado objeto e não outro é preciso dizer que eles foram determinados para perceber esse objeto e não outro E de onde derivou essa determinação A determi nação podia derivar ou dos próprios sentidos ou da vontade ou dos objetos externos Mas não derivou dos próprios sentidos porque esses são por si indiferentes e indeterminados com relação aos seus objetos se fossem de terminados para perceber um objeto e não outro perceberiam sempre e só esse objeto Nem derivou da nossa vontade porque muitas vezes os sen tidos percebem um objeto independentemente e contra o desejo da nossa vontade Logo se não quisermos admitir um efeito sem 228 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 173 Os sentidos externos percebem os objetos externos por um modo imediato a Os sentidos externos perceberão os objetos externos por um modo imediato se entre a ação ou atuação desses objetos nos respectivos sentidos e a paixão ou impressão recebida pelos mesmos sentidos não existir meio algum Ora efetivamente entra essa ação e essa paixão não existe meio algum porque a ação do agente é recebida por si mesma no paciente e na ação e pela ação que reflete as propriedades do agente esse é percebido pelo paciente Logo os sentidos exter nos percebem os objetos externos por um modo imediato b Se os sentidos externos não percebessem os objetos externos por um modo imediato deveria dizerse que esses sentidos percebem primeira e diretamente a própria paixão isto é a impressão subjetiva recebida pela ação dos agentes externos e secundáriae indiretamente a mesma ação dos agentes externos Ora a experiência atesta que os sentidos externos percebem única e diretamente a ação dos agentes externos e que a impressão subjetiva dos mesmos sentidos não é percebida por esses de modo algum mas exclusivamente pelos sentidos internos Logo os sentidos externos percebem os objetos externos por um modo imediato1 uma razão suficiente devemos dizer que essa determinação dos sentidos para que percebessem um certo objeto e não outro derivou do próprio objeto externo O objeto externo determina um sentido enquanto atuando no próprio sentido imprime nele a sua imagem a qual por isso é uma qualidade acidental do sujeito recipiente O sentido em seguida por uma reação vital apropriase dessa imagem e nela percebe o próprio objeto externo que a pro duziu O que dizemos aqui em resumo será desenvolvido na Antropologia Objetam a percepção dos sentidos externos é um fato subjetivo e por isso não pode referir o que está fora do sujeito o nãoeu Respon demos que a percepção dos sentidos externos se é um fato subjetivo com relação ao seu princípio que é a faculdade é objetivo com relação ao termo que é a coisa percebida Por outras palavras a per cepção consi derada entitativamente é um fato subjetivo considerada intencional ou representativamente é um fato objetivo 1 Na Antropologia provaremos que pelos nossos sentidos externos per cebemos de um modo imediato os objetos externos Limitamonos aqui a algumas reflexões necessárias e suficientes para o nosso escopo É princípio inconcusso que o ato do agente é recebido no paciente e que o ato do agente enquanto recebido no paciente e o ato do próprio paciente não constituem senão um e o mesmo ato dotado de um dúplice aspecto de um dúplice caráter porque esse ato relativamente ao agente de 229 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE que deriva tem a natureza de princípio e relativamente ao paciente que o recebe tem a natureza de termo e de paixão Diz S Tomás Unus et idem actus sensibilis et sentientis sed ratione diferunt De Anima l III lect 2 Recebendo em si mesmo o ato do agente externo o paciente percebe o nãoeu no eu e refere naturalmente a esse nãoeu o ato que o impressionou visto que toda a paixão se refere necessariamente a uma ação Daí a objetividade da percepção E não é tudo Se o ato do agente é recebido e existe realmente no paciente se a ação e a paixão formam um e o mesmo ato com dois aspectos diferentes é claro que o paciente deve perceber direta ou imediatamente sem intermediários e antes da própria modifi cação subjetiva o ato do nãoeu do agente externo É pois inútil pro curar uma ponte que nos sirva para passar do eu para o nãoeu visto que entre o eu e o nãoeu não há distância Tal é a opinião universal dos homens Todos estão convencidos de que percebendo o mundo exterior percebem o que está fora deles e de que o objeto direto e imediato das suas percepções é constituído pelos próprios objetos externos Objetam o corpo não pode atuar na alma nem esta naquele Logo uma percepção imediata dos corpos é impossível Resposta Concedemos que os corpos não podem operar na alma quando separada do organismo mas negamos que não podem operar nela quando unida ao organismo O objeto sensível referese ao órgão animado como o agente ao paciente E como o agente pela sua ação existe no paciente aquele pode e deve ser percebido por este e de um modo imediato Na percepção dos sentidos externos poderá haver engano Serão eles verazes no que nos atestam Eis uma questão que é a base de toda a teoria acerca do conhecimento intelectual Porquanto dependendo o conhe cimento intelectual do conhecimento sensitivo quanto ao objeto pois são os sentidos que subministram à inteligência o material do pensamento é claro que se se enganam os sentidos se engana também a inteligência Tratemos pois da veracidade dos sentidos externos Antes de tudo devemos advertir que nos sentidos não se encontra a verdade tomada no seu conceito formal isto é no seu conceito próprio enquanto importa uma adequação entre a faculdade perceptiva e o objeto percebido Com efeito para que nos sentidos pudesse encontrarse a ver dade tomada no seu conceito próprio deveriam eles perceber a relação de identidade ou de discrepância entre o sujeito e o predicado e para isso deveriam possuir várias idéias universais sobretudo a idéia universal da forma em que os dois termos convêm ou não convêm Ora as facul dades materiais como são os sentidos não podem perceber a relação entre o sujeito e o predicado porque tal relação é uma coisa abstrata ou uni versal e essas faculdades não são capazes de idéias universais Logo nos sentidos não se encontra a verdade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso Se nos sentidos não existe a verdade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso nem se encontra neles o erro ou a falsidade tomada também no seu conceito próprio ou rigoroso enquanto exprime uma desconformidade entre a faculdade perceptiva e o objeto percebido Porquanto dáse essa desconformidade quando a faculdade perceptiva afirma que a um sujeito 230 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA convém um predicado que lhe não convém ou que a esse sujeito não convém um predicado que lhe convém Ora essa afirmação supondo a percepção da relação entre o predicado e o sujeito não pode ser feita pela faculdade sensitiva Logo nos sentidos não se encontra a falsi dade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso Em poucas palavras a verdade e a falsidade encontramse própria e rigorosamente no juízo Ora os sentidos não são capazes de pronunciar um verdadeiro juízo Logo a verdade e a falsidade não se encontram própria e rigorosamente nos sentidos Diz S Tomás Proprie loquendo veritas est in intellectu com ponente et dividente h e iudicante non autem in sensu neque in intellectu cognoscente quod quid est h e simpliciter apprehendente essentiam rei Sum Th p I q 16 a 2 Se algumas vezes costumamos dizer que os sentidos julgam enquanto distinguem um sensível de outro sensível que são objetos do mesmo sentido ou de sentidos diferentes tomamos o juízo em significação lata ou menos rigorosa Mas a verdade e a falsidade se não se encontram formalmente na facul dade sensitiva podem encontrarse nela materialmente enquanto a apreensão ou percepção dos objetos sensíveis corresponde ou não à realidade isto é enquanto percebe ou não os entes objetivos como são em si mesmos Daí a pergunta enganamse ou não os sentidos externos na percepção do seu objeto E como esse objeto é tríplice tresdobrase a pergunta enganamse ou não os sentidos externos na percepção do seu objeto próprio comum e concomitante A estas perguntas vamos responder Repetimos que a nossa não é uma demonstração muito menos uma demons tração rigorosa é apenas uma declaração uma resposta aos adver sários Porquanto a veracidade dos sentidos externos é tão clara tão imediatamente evidente que não precisa nem pode ser demonstrada Não pre cisa Na verdade o senso comum apela para o testemunho dos sentidos externos como para a prova irrefragável da evidência de uma coisa Daí as expressões tocase com as mãos metese pelos olhos dentro etc Não pode Com efeito toda a demonstração parte em última análise de princípios universais e esses são conhecidos pela inteligência Ora a ope ração da inteligência é precedida pela operação dos sentidos externos Logo toda a demonstração pressupõe a veracidade dos sentidos externos Essa convicção acerca da veracidade dos sentidos como também da veracidade de todos os outros meios não é efeito de um cego instinto Na verdade o instinto é uma inclinação que deriva da natureza e pela qual operamos sem um conhecimento sufi ciente Por isso quando se trata de uma faculdade perceptiva o instinto deve conceberse como uma inclinação proveniente da natureza para apreender um objeto quando o próprio objeto não impressiona por si a faculdade Porquanto se essa impressão se realiza a faculdade inclinase para produzir o seu ato em virtude da sua energia essencial e tal inclinação não é nem pode chamarse instinto Assim ninguém dirá que é o instinto que nos leva a julgar que o todo é maior que uma sua parte mas todos dirão que é a luz da razão a energia intrínseca da nossa inteligência A necessidade que nestes casos obriga a faculdade a afirmar a verdade deriva do concurso de uma dúplice causa de ordem exclusivamente cognitiva da evidência do objeto e da ten dência da faculdade para o seu ato A natural inclinação pois pela qual acredi tamos 231 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 174 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio a Se os sentidos externos quando bem dispostos e conveniente mente aplicados pudessem enganarse na percepção do objeto próprio a vista na percepção das cores o ouvido na percepção dos sons etc deveria dizerse que eles são natu ralmente incapazes de alcançar o objeto para o qual natural mente tendem Ora é absurdo dizer que uma faculdade é natu ralmente incapaz de alcançar o objeto para o qual naturalmente tende pois toda a razão do ser e da natureza de uma faculdade consiste na sua natural aptidão para conseguir o objeto próprio Logo os sentidos externos quando bem dispo stos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio b Se os sentidos externos quando bem dispostos e conveniente mente aplicados pudessem enganarse na percepção do objeto próprio darseia o engano ou porque eles não podem receber a impressão do objeto próprio ou porque esse objeto não existe na realidade Ora nenhuma dessas duas hipóteses pode admitirse Não pode admitirse a primeira porque a fisiologia examinando o organismo e a disposi ção dos sentidos externos reconheceos aptíssimos para receberem a impressão do respectivo objeto próprio Não pode admitirse a segunda porque os sentidos externos sendo por si indiferentes para receberem a impressão de muitos objetos externos não poderiam acusar a impressão de um certo objeto se esse não existisse na realidade Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio1 no testemunho dos sentidos externos e de todas as outras faculdades perceptivas é uma inclinação de ordem cognitiva e não uma inclinação cega ou instintiva 1 Os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados no que se resumem todas as condições necessárias para o legítimo exercício deles não se enganam por si isto é pela sua natureza na per cepção do objeto próprio porque se se enganassem por si seriam feitos e deixariam de ser feitos para essa percepção o que é contraditório Mas se os sentidos externos não podem enganarse pela sua natureza podem enganarse por uma causa acidental que lhes não deixa perceber o objeto como é em si mesmo Essa causa acidental deve procurarse na indispo sição do organo ou na imperfeição do meio Porquanto o sentido para perceber o seu objeto deve ser determinado por uma forma ou espécie que é a imagem intencional do mesmo objeto Mas se o sentido não estiver bem disposto ou não for convenientemente 232 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 175 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto comum a A percepção do objeto ou sensível comum é um efeito para o qual estão por si e naturalmente ordenados os respectivos senti dos tomados coletivamente Ora o efeito para o qual estão por si e naturalmente ordenadas as faculdades tomadas singular ou coletiva mente não pode deixar de se alcançar quando se verificam as devidas condições aliás essas faculdades seriam naturalmente insuficientes e deixariam de ser faculdades Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto comum b Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio Se não podem enganarse na percepção do objeto próprio nem podem enganarse na percepção do objeto comum pois cada um dos diversos aplicado não poderá receber como devia essa forma ou a forma não representará fielmente o objeto De onde o engano ou a falsidade na percepção dos nossos senti dos O que dizemos dos sentidos deve aplicarse a todas as faculdades passivas isto é determinadas ao ato pela impressão de um agente Diz S Tomás Sensus semper apprehendit rem ut est nisi sit impedimentum in organo vel io medio De Ver q 1 a 11 cf Sum Th p I q 17 a 2 Como se vê o engano ou o erro pode darse nos sentidos enquanto por uma causa acidental não percebem uma coisa como é em si mesma mas não pode darse enquanto acusam o estado próprio a afecção própria embora pos sam ocasionar um juízo falso da parte de uma faculdade superior Assim quando um doente diz que o açúcar é amargo o testemunho do gosto é veraz porque efetivamente o doente tem essa sensação embora se engane por atribuir o amargo ao açúcar Se os sentidos podem enganarse per accidens mesmo com relação ao objeto ou sensível próprio se podem não representar e não referir as coisas como são em si mesmas é claro que podem também dar à inteligência que se baseia no testemu nho deles a ocasião de emitir juízos falsos acerca dos objetos externos Todavia a inteligência pode conhecer o engano de um sentido e a sua origem se depende da indisposição do órgão ou da imperfeição do meio e conheceo por meio do mesmo ou de outro sentido ou pela reflexão própria Conhecido o engano do sentido cor rigese facil mente Por isso o juízo da inteligência que sucede imediatamente à percepção dos sentidos é sempre e necessariamente verdadeiro quando esta mos certos da boa disposição dos mesmos sentidos e da sua conveniente aplicação Na Antropologia resolveremos algumas dificuldades contra a veracidade dos sentidos externos Cf De Ver q 1 a 11 233 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE aspectos pelos quais o objeto comum se refere a vários sentidos cons titui o objeto próprio de cada um desses sentidos Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não po dem enganarse na percepção do objeto comum1 176 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante a Todos os homens de bom senso estiveram sempre e estão convencidos de que os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados percebem as qualidades sensíveis dos corpos externos como são em si mesmas aderentes a um sujeito e por isso percebera ao mesmo tempo e com o mesmo ato as qualidades e o sujeito embora aquelas de um modo explícito e esse de um modo implícito e de que essa percepção não pode estar sujeita a engano Ora tal convicção universal e constante não pode deixar de ser efeito da ver dade porque só a verdade é universal e constante e todo o efeito 1 Quando um objeto sensível é comum a vários sentidos a cada um dos quais se refere sob um aspecto diferente ou por um atributo diverso não pode ser adequada e completamente percebido se não por todos esses sentidos Então cada sentido percebe do objeto comum o atributo que é objeto próprio desse sentido Assim uma grandeza é percebida pela vista quanto à cor e pelo tato quanto à resistência Deste modo os vários sentidos constituem uma faculdade completa com relação ao objeto comum e não pode haver engano pois esse se houvesse deveria atribuirse ao Autor da natureza Mas se não pode haver na percepção do sensível comum um engano ou erro per se pode haver um engano per accidens quando para essa percepção não se empregam todos os sentidos respectivos e assim a faculdade é insuficiente incompleta inadequada com relação ao seu objeto Não admira pois que a vista não auxiliada pelo tato se engane às vezes na percepção da figura da grandeza da distância do movimento porque esses são objetos comuns Mas quando se dá o engano esse não pode atribuirse a um vício ou defeito da vista mas unicamente à imprudência de quem julga O engano de um só sentido com relação a um objeto comum pode corrigirse pela aplicação de um outro sentido ou pela reflexão da inteligência O engano pode darse sobretudo na percepção da vista enquanto dois objetos dotados de diversa grandeza mas situados em distâncias desiguais podem produzir nesse sentido a mesma impressão e essa impressão pode dar à inteligência a ocasião de concluir falsamente pela igualdade da grandeza dos dois objetos Por isso a percepção da vista deve ser interpretada e contida nos seus verdadeiros limites por outro sentido cuja percepção não varie segundo a variedade da distância do objeto Este sen tido é o tato que conserva sempre a mesma distância com relação ao seu objeto próprio 234 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA exige uma causa proporcionada Logo os sentidos exter nos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante b Se os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados se enganam na percepção do objeto concomi tante dáse o engano Ou porque as qualidades sensíveis próprias ou comuns atuam nos sentidos externos de um modo abstrato isto é como que separadas do sujeito a que aderem e que as sustenta ou porque essas qualidades são percebidas pelos sentidos de um modo abstrato Ora nenhuma destas duas hipóteses pode admitirse Não pode admitirse a primeira porque as qualidades atuam nos sentidos não separadas do sujeito mas existentes no sujeito pois é o sujeito que atua embora pelas suas qualidades nos sentidos Não pode admitirse a segunda porque as qualidades são percebidas pelos sen tidos como são em si mesmas isto é aderentes a um sujeito pois os sentidos são incapazes de abstração Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante1 1 A percepção pode ser concreta e abstrata É concreta quando um objeto composto de vários elementos se percebe como é em si mesmo como uma coisa só É abstrata quando num objeto composto de vários elementos se percebe ou se considera um elemento e não se consideram ou não se percebem os outros Assim quando vemos um pedaço de mármore branco podemos considerar esse composto de mármore e de brancura e podemos também considerar a brancura sem o mármore e o mármore sem a brancura No primeiro caso a percepção é concreta no segundo é abstrata Posto isto perguntase a percepção dos sentidos externos é concreta ou abs trata E como o objeto dessa percepção é a substância corpórea enquanto modificada pelas qualidades sensíveis a pergunta resolvese na seguinte os sentidos externos percebem a substância corpórea enquanto modificada pelas qualidades sensíveis isto é percebem o composto de sub stância e de qualidades ou percebem apenas a substância sem as quali dades ou as qualidades sem a substância A essa pergunta os filósofos respondem diversamente conforme a diversidade dos seus princípios Uns como Locke Berkeley Reid e sobretudo os Kantistas que só admitem fenôme nos ou aparências e negam a existência das substâncias ou dos númenos sustentam que a percepção dos sentidos é abstrata Outros como Aristóteles S Tomás seguidos por todos os escolásticos e filósofos de melhor critério ensinam que a percepção dos sentidos é concreta enquanto os sentidos percebendo as qualidades sensíveis como são e são concretas ou aderentes a uma coisa a um sujeito percebem o composto de substância e de qualidades percebendo as qualidades como objeto próprio ou comum e a substância como objeto concomitante S Tomás diz que para uma coisa ser objeto 235 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE concomitante dos sentidos ou ser sensível per accidens são necessárias três condições a que esteja unida a uma outra coisa que é sensível por si b que seja percebida de algum modo pelo sujeito senciente aliás não seria sensível c que seja conhecida pelo senciente por meio de uma outra faculdade perceptiva p ex pela inteligência ou por uma outra faculdade sensitiva superior Adverte o mesmo S Doutor que o sensível per accidens não é tudo o que pode ser percebido num objeto sensível mas é o que a inteligência imediatamente conhece após a impressão que esse objeto exerceu nos sentidos externos assim vendo um sujeito que fala ou caminha percebemos pela inteligência a vida dele e dizemos vejo que esse sujeito vive De Anima l 3 lect 13 Que a percepção dos sentidos seja concreta e não abstrata é coisa manifesta Na percepção abstrata operase uma análise pela qual uma coisa se separa intencio nalmente de outra isto é pela qual uma coisa se considera sem outra Ora a análise é uma operação própria da inteligência e não dos sentidos Os sentidos apresentam o composto como é em si mes mo na sua concreção Nem podia ser de outro modo O que alcançam os sentidos Só a substância Não porque a substância não pode atuar diretamente por si mesma nos sentidos nem na inteligência A substância está envolvida nas qualidades sensíveis e não pode operar nem ser perce bida sem elas Só as qualidades sensíveis Também não porque as qua lidades existem como concretas isto é aderentes a um sujeito operam como concretas e por isso devem ser percebidas como concretas Logo a percepção dos sentidos é concreta Mas não devemos exagerar a parte dos sentidos na percepção do objeto concomitante Os sentidos limitamse a apreender as qualidades sensíveis como se encontram na realidade e por isso concretas isto é existentes não em si mesmas mas num sujeito determinado e essas qualidades concretas são por eles apresentadas à inteligência Eis tudo Porquanto se é certo que essas qualidades concretas perce bidas pelos sentidos constituem um composto de acidentes e de substância é certo também que os sentidos não percebem que debaixo das qualidades existe um sujeito uma substância não sabem o que é substância nem o que é acidente não distinguem o elemento que está em si do elemento que se apoia num sujeito É a inteligência e só ela que recebendo dos sentidos as qualidades concretas per cebe imediatamente que estas por isso mesmo que são qualidades con cretas devem residir num sujeito numa substância e que essa substância deve existir e deve ser dotada de uma natureza proporcionada e correspon dente à natureza das qualidades Portanto os sentidos não se enganam per se pela sua natureza na per cepção do objeto concomitante Mas se não se enganam por si os sentidos podem dar à inteligência a ocasião de enganarse de emitir juízos falsos Com efeito os sentidos não percebem diretamente a substância mas apenas as qualidades concretas Ora pode acontecer que as mesmas qualidades con cretas se encontrem em substâncias diversas porque não repugna que substâncias diversas tenham a mesma figura a mesma cor o mesmo peso etc e pode acontecer também que as qualidades concretas existam milagrosamente sem sujeito sustentadas pela virtude onipotente de Deus Sendo assim é claro que a inteligência pode facilmente enganarse enquanto pode julgar que certas qualidades concretas pertençam a uma certa substância quando realmente pertencem a uma outra 236 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA substância diversa Ou que as qualidades sensíveis adiram atualmente a um sujeito quando atualmente não aderem Mas nesses casos o engano não deve atribuirse aos sentidos que se limitam a apresentar as qualidades concretas como são em si mesmas sem acrescentar se essas qualidades pertencem a esta ou aquela substância e se existem ou não no sujeito próprio mas deve atribuirse à inteligência que não empregou todos os meios necessários para evitar o erro e conseguir a verdade E quais são esses meios Quando há uma séria dúvida se as qualidades concretas pertencem a esta ou aquela substância é necessário multiplicar as observações e as análises até se encontrarem outras qualidades mais próprias mais características de modo que possam convir a uma só substância e não à outra Quando por um milagre da onipotência divina as qualidades concretas subsistem sem o sujeito próprio é a Fé que se encarrega de nos instruir e preservar de um juízo errôneo Se os sentidos externos percebem efetivamente e por um modo imediato os corpos externos e se eles não se enganam por si na percepção do seu tríplice objeto próprio comum e concomitante é claro que a inteligência recebendo a relação dos sentidos e baseandose exclusivamente no testemunho deles pode e deve julgar imediatamente sem nenhuma necessidade de raciocínio que os corpos existem que o mundo existe O raciocínio é necessário quando uma coisa não é evidente quando a inteligência não conhece imediatamente a relação entre o predicado e o sujeito mas quando conhece essa relação imediatamente baseandose na imediata percepção dos sentidos já não precisa de raciocínio Repetimos o que se vê não precisa de ser demonstrado São três as opiniões dos filósofos acerca da percepção e da veraci dade dos sentidos externos 1ª Uns admitem que os sentidos externos percebem e de um modo imediato os corpos externos e que a veracidade dos mesmos sentidos é imediatamente evidente e não precisa nem pode ser demonstrada 2ª Outros sustentam que os sentidos externos não percebem de modo algum os objetos externos porque estes não existem ou se existem não podem ser percebidos pelos sentidos e por isso negam ou não discutem a veracidade dos mesmos sentidos 3ª Outros afirmam que a existência dos corpos externos nos é manifesta não por uma imediata percepção dos sentidos externos mas por um outro meio e que a própria veracidade dos mesmos sentidos não é imediatamente evidente e precisa de ser demonstrada Tendo exposto e defendido a primeira opinião que é a de todos os escolásticos antigos e modernos e de todos os Padres e Doutores da Igreja vamos expor e refutar diretamente a segunda e a terceira A A segunda opinião como dissemos é a que negando a existência dos objetos externos nega a percepção e a veracidade dos sentidos externos Para os sequazes dessa opinião uma percepção externa é uma contradição a percepção dos corpos signi fica apenas a percepção das nossas idéias das modificações da nossa alma o que vemos ouvimos e em geral sentimos é apenas uma série de fenômenos internos do eu uma 237 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE série de idéias ou de sensações meramente subjetivas que por uma ilusão projetamos para fora de nós Nada é real só existem as nossas idéias O mundo é apenas uma idéia uma aparência sem realidade É o idealismo Dividese esse em subjetivo e objetivo conforme as imagens ou aparências dos corpos que a inteligência possui se fazem derivar unicamente da atividade da alma ou de uma ação do próprio Deus O idealismo subjetivo foi defen dido sobretudo por Fichte o objetivo por Berkeley O idealismo é falso em si e nas suas espécies a O idealismo em geral é falso a O idealismo baseiase num falso fundamento Porquanto supõe ele que a alma e o corpo são duas substâncias completas uma estranha à outra que a alma está relegada num ponto do organismo sem meio de comunicação com a realidade externa e que por isso não é possível uma impressão dos objetos que embora existissem seriam sempre incognoscíveis Ora esse fundamento lançado por Descartes é intei ramente falso A alma e o corpo como veremos na Antropologia são duas substâncias incompletas e substancialmente unidas de modo que formam uma só pessoa e uma só natureza ou essência Não é a alma só que sente nem é o corpo só mas é o composto de alma e de corpo é o órgão animado Logo o idealismo baseiase num falso fundamento b Se os objetos externos não existem na realidade mas exclusiva mente nas nossas idéias seguese que os nossos sentidos externos percebem o que não está pre sente o que não existe Ora uma percepção sem a coisa percebida uma visão sem a coisa vista é simplesmente uma contradição Logo o idealismo em geral é falso b O idealismo subjetivo é falso a A causa das sensações não pode ser exclusivamente a atividade da nossa alma Porquanto a nossa alma quando se experimenta uma sen sação percebe que é passiva e que essa sensação é uma operação passiva Ora o princípio e a causa motriz de uma operação passiva não é o sujeito que é por si indiferente mas é o próprio objeto Diz S Tomás Objectum comparatur ad actum potentiae passivae sicut prin cipiam et causa movens Sum Th p I q 77 a 3 Logo a causa das sensações não pode ser exclusivamente a atividade da alma b Devendo o efeito ser proporcionado à própria causa as sensações se derivassem exclusivamente da atividade da nossa alma não poderiam representar senão objetos simples e espirituais porque simples e espiritual é a nossa alma Ora as sensações representam coisas materiais e corpóreas como os próprios adversários confessam Logo as sensações não podem derivar exclusivamente da atividade da alma Além disso se as sensa ções derivassem unicamente da alma não haveria uma razão suficiente porque devessem representar como efetivamente representam os objetos corpóreos e materiais como existentes fora de nós c O idealismo objetivo é falso a Atestanos a consciência que quando experimentamos uma sen sação experimentamos pela mesma impressão a sensação e a causa dela assim quando nos aproximamos do lume sentimos o calor do lume e ao mesmo tempo o lume quente Ora se a sensação fosse produzida por um agente extrínseco como é Deus 238 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA as nossas mãos embora sentissem o calor não poderiam sentir como efetivamente sentem o calor do lume nem o lume quente Diz S Tomás Si illa species caloris in organo ab alio agente fieret tactus etsi sentiret calorem non tamen sentiret calorem ignis nec sentiret ignem esse calidum cum tamen hoc judicet sensus cujus judicium in proprio sensibili non errat De pot q 3 a 7 Logo as sensações não derivam imediatamente de Deus mas dos próprios objetos externos b Se as sensações dos objetos externos derivassem exclusivamente da ação de Deus e não da ação imediata dos próprios objetos a ação de Deus seria inútil e má inútil porque seria inútil produzir em nós a sensação de coisas materiais se estas não existissem realmente má porque Deus nos enganaria levandonos por um impulso irresistível a julgar como existente o que realmente não existe Ora é absurdo e ímpio pensar que uma ação de Deus possa ser e seja inútil e má Logo as nossas sen sações não derivam exclusivamente da ação de Deus mas da ação imediata dos próprios objetos Se as nossas sensações têm por causa imediata os objetos externos esses exis tem e o testemunho dos sentidos externos que nos acusa a exi stência dos objetos externos é legítimo ou veraz B A terceira opinião como dissemos afirma que a existência dos corpos ou dos objetos externos não se manifesta por uma imediata per cepção dos sentidos externos mas por um outro meio e que por isso a veracidade dos mesmos sen tidos externos não é imediatamente evidente Esse outro meio distinto da imediata percepção dos sentidos que nos levaria a admitir com certeza a existência dos objetos ou corpos externos é para Descartes uma inclinação universal prove niente de Deus para Malebranche a Revelação sobrenatural contida na S Escritura para Reid um instinto natural para Cousin Sentroul e outros neoescolásticos de Louvain o princípio de causalidade Façamos uma breve crítica das opiniões enumeradas mostrando que o emprego desses meios longe de substituir o exercício dos sentidos externos pressupõe e exige necessariamente o exercício e a veracidade dos mesmos sentidos a Descartes ensina que uma inclinação universal proveniente de Deus nos leva a admitir a existência dos corpos inclinação que não pode deixar de ser veraz por isso mesmo que provém de Deus Essa doutrina é falsa pelas seguintes razões a Na opinião de Descartes o conhecimento do mundo seria posterior ao conhecimento de Deus Ora dáse exatamente o contrário O conhecimento do mundo é anterior ao conhecimento de Deus porque é pelo finito que nos elevamos ao infinito Por isso não poderíamos conhecer a Deus se não acreditássemos anteriormente na veracidade dos sentidos externos b Além disso como sabe Descartes que essa inclinação existe nos homens e que é universal e por isso imputável ao próprio Autor da natu reza Ele não pode saber isso senão pela percepção sensitiva externa que o mete em relação com os outros homens Logo o juízo acerca dessa in clinação universal pressupõe a veracidade dos sentidos externos 239 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE b Malebranche ensina que só a Revelação sobrenatural contida na S Escri tura pode manifestar e manifesta ao homem a existência dos corpos Também essa opinião é inaceitável Para termos ou escutarmos o que diz a S Escritura onde está contida a Revelação sobrenatural pre cisamos do sentido da vista ou do ouvido e por isso já devemos acreditar na veracidade do testemunho dos sentidos externos c Reid afirma que um instinto natural incapaz de enganar leva irresistivel mente os homens a admitir a existência dos corpos Nem essa doutrina satisfaz Esse instinto seja qual for a sua natureza é necessa riamente posterior à existência dos homens Por isso quem admite a exi stência dos homens acredita na veracidade do testemunho dos sentidos externos antes de conhecer esse instinto porque são pelos sentidos externos que estamos certos da existência dos homens d Cousin Sentroul e outros neoescolásticos de Louvain ensinam que admitimos a existência dos corpos por um raciocínio que da existência das nossas sensações subjetivas cuja origem não pode atribuirse ao eu infere em virtude do princípio de causalidade a existência de uma causa externa Essa opinião que se atribui também a Descartes pois esse infere da existência de Deus a existência do mundo não pode ser sustentada pelas seguintes razões a Esses escritores admitem como existentes na realidade umas coisas às quais dão o nome de efeitos e outras às quais dão o nome de causas Mas de que modo poderão eles sem o auxílio dos sentidos externos averiguar que no mundo existem coisas correspondentes e conformes às noções abstratas de efeito e de causa E se não averiguaram sempre pelo auxílio dos sentidos externos que entre um antecedente e um consequente existe um nexo de verdadeira eficiência como poderão eles aplicar o princípio de causalidade Portando o raciocínio que da existência das sen sações pretende deduzir a existência do mundo pressupõe e exige o exercí cio e a veracidade dos sentidos externos b Além disso a mesma experiência que nos atesta a existência das modi ficações ou sensações subjetivas atestanos também a existência das modificações ou sensações objetivas isto é a existência dos objetos externos que atuam nos nossos sentidos externos Portanto se admitimos como imediatamente evidente a existência das sensações subjetivas deve mos também admitir como imediatamente evidente a existência das sensações objetivas A mesma razão vale para ambos os casos Logo não pode aceitarse essa opinião que concede a evidência imediata às sensações subjetivas ao passo que a nega às sensações objetivas c Finalmente o raciocínio que da existência das sensações subjetivas infere em virtude do princípio de causalidade a existência do mundo exterior tem uma conclusão mais ampla que as premissas Porquanto se as nossas sensações são meramente subjetivas se são apenas modificações do eu a única conclusão lógica é que essas sensações têm uma causa mas uma causa interna subjetiva Repugna por ventura uma causa interna de um fenômeno interno Não O subjetivo não inclui por si o objetivo e a passagem de uma para outra ordem é um sofisma Mas embora a existência das sensações subjetivas nos levasse a admitir a existência de uma causa externa nunca poderia levarnos ao conhecimento da natureza dessa causa Com efeito na opinião de Cousin como na de Descartes os corpos externos não produzem as sensações 240 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 177 Regras para os sentidos externos Para que os senti dos externos sejam meios seguros para a aquisição da verdade devem observarse as seguintes regras Iª Quando o objeto dos sentidos é próprio basta que o órgão esteja bem disposto e que o meio não o impeça de rece ber a impressão do objeto Pertence à razão julgar se estas duas condições se verificaram IIª Quando o objeto é comum devem empregarse todos os sen tidos relativos a esse objeto e também a razão porque embora o testemunho dos sentidos nunca seja por si falso todavia pode levar a falsos juízos o que se evita pela reflexão da razão IIIª Quando o objeto é concomitante como o erro é mais fácil não só porque os sentidos não são aplicados aos seus objetos próprios mas também porque substâncias diversas podem ter a mesma aparência é necessário o intervento da razão a qual pela multiplicação das observa ções e análises chega a encontrar os traços próprios de cada substância1 178 Sentidos internos Sentidos internos são os que exi stem no interior do organismo e pelos quais o homem di reta e imediata mente atinge por vários modos as próprias sensações ou reproduz as subjetivas limitamse a provocálas não são causas eficientes mas apenas ocasionais Ora um fenômeno se nos leva a conhecer de algum modo a natureza da sua causa eficiente não nos leva a conhecer a natureza da causa ocasional que não se reflete no efeito um tiro de canhão não leva por si ao conhecimento do artilheiro que o disparou Por isso o mundo se devesse ser conhecido pelas sensações subjetivas seria incognoscível na sua natureza Se porém se admite com outros sequazes desta opinião que os corpos externos produzem como causas eficientes as nossas sensações subjetivas em tal caso como a ação da causa eficiente é recebida e existe no sujeito paciente esse conhecerá a existência e a natureza da mesma causa mas conhecêlasá por um modo imediato isto é pela imediata percepção dos sentidos sem ter a necessidade de recorrer ao raciocínio Provar a existência do mundo pelo raciocínio é explicar uma coisa clara por uma outra escura Concluímos que a existência dos corpos externos é imediatamente evidente e por isso imediatamente evidente é também a veracidade dos sentidos externos 1 Resumamos em poucas palavras o que deixamos dito Os sentidos externos são meios legítimos para a aquisição da verdade É por eles que entramos em comunicação com o mundo exterior Dizer com os subjetivistas que por meio dos sentidos externos só percebemos as nossas sensa ções e não os objetos é confundir a percepção externa com a interna é contradizer a consciência a qual atesta que pelos sentidos externos direta e imediatamente percebemos os objetos e que só indireta ou mediatamente por um sentido interno percebemos as nossas sensações 241 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE imagens sensíveis dos objetos externos indireta e mediatamente percebe os mesmos objetos externos1 179 Objeto dos sentidos internos O objeto pois dos sen tidos internos é dúplice direto e indireto O direto é constituído pelas nossas sensações e pelas imagens sensíveis dos objetos externos o indireto pelos objetos externos2 180 Número dos sentidos internos Os sentidos internos são quatro a saber o sentido comum a imaginação a estima tiva e a memória sensitiva a Sentido comum Sentido comum é a faculdade pela qual o homem percebe diretamente as sensações dos sentidos externos e as suas diferenças e indiretamente o próprio organismo e o objeto das mesmas sensações externas É a continuação ou o complemento dos sentidos externos3 1 Na Antropologia desenvolveremos a teoria acerca dos sentidos internos Aqui apontamos apenas a sua natureza e o seu objeto 2 Donde se vê que o exercício dos sentidos internos supõe o exercício dos sentidos externos e que se este não se realizar ou for irregular não poderá realizarse ou não será regular aquele Um cego de nascimento nunca poderá formar a imagem sensível da cor 3 O sentido comum existe no homem Não só vemos ouvimos etc mas percebemos todas essas sensações externas comparamolas distinguimolas umas das outras o branco do amargo o som da cor etc A facul dade que tem por objeto as sensações não pode deixar de ser sensitiva O homem pelo sentido comum não só percebe as próprias sensações externas mas também o objeto e o sujeito delas Percebe o objeto porque toda a sensação termina num objeto Percebe o sujeito porque o homem percebe a sensação não abstrata mas concreta ora a sensação concreta é o próprio sujeito modificado e por isso não se pode atingir a sensação sem que implicitamente se atinja o sujeito O sujeito senciente é o objeto concomitante ou per accidens do sentido comum A percepção do sujeito é direta e imediata nem requer um raciocínio como pretende Reid O sentido comum chamase também sentido íntimo Sendo faculdade sensitiva não deve ele confundirse com a consciência que é a própria inteligência nem com o chamado senso comum que é a disposição natural de que o homem é dotado para perceber imediatamente e sem discurso os primeiros princípios da razão Dáse às vezes ao sentido comum o nome de consciência mas então para evitar confusões é necessário acrescentarlhe o adjetivo de sensitiva Deste modo distinguirseá a cons ciência sensitiva da consciência intelectual Como se vê o sentido comum faz na ordem sensitiva o que a consciência faz na ordem intelectual O sentido comum percebe os mesmos objetos que percebe a consciência com a diferença que o sentido comum percebeos num estado real ou concreto ao passo que a consciência percebeos num estado ideal 242 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Imaginação Imaginação é a faculdade pela qual o homem conserva e reproduz as imagens sensíveis dos entes mesmo na ausência deles1 c Estimativa Estimativa é a faculdade pela qual o homem percebe nos objetos materiais certas propriedades de vantagem ou de dano que escapam aos sentidos externos2 d Memória sensitiva Memória sensitiva é a faculdade pela qual o homem conserva diretamente as próprias per cepções sensitivas passadas e indiretamente os objetos daquelas percepções3 ou abstrato É assim que os dados do sentido comum se tornam na consciência objetos de ver dadeiros juízos compostos de termos abstratos ou universais 1 A imaginação existe no homem Vemos um animal e depois de o termos perdido de vista conservamos ainda e reproduzimos a sua imagem sensível A imagem de um ente é sensível quando o representa cercado de propriedades concretas e materiais como são a cor a figura a grandeza etc Os entes cujas imagens sensíveis a imaginação conserva e reproduz são os que foram percebidos imediatamente pelos sentidos externos e mediatamente pelo sentido comum Por isso a imaginação supõe o exercício dos sentidos externos e do sentido comum A imaginação no homem é reprodutiva e criadora É reprodutiva quando reproduz as imagens dos objetos externos percebidos É criadora quando une ou compõe várias imagens de objetos percebidos para formar a imagem de um objeto que nunca foi percebido e que talvez nem existe Dissemos no homem porque a imaginação do animal irracional é apenas reprodutiva visto que se essa faculdade é em nós também criadora isto é devido ao fato de ela estar unida com a inteligência 2 A estimativa é faculdade sensitiva e existe no homem e no animal irracional Nos animais irracionais a existência da estimativa é mais mani festa O cordeiro vê pela primeira vez o lobo e foge dele como do ini migo Se não é tão útil e necessária ao homem adulto essa faculdade e muito útil e necessária na infância nas perturbações da razão e em tantos movimentos que precedem a reflexão e que são regulados por ela A estimativa do homem é mais nobre que a do animal irracional O animal percebe instintivamente as propriedades de vantagem ou de dano que exi stem nos objetos mas não percebe a essência ou natureza desses objetos ao passo que o homem por ser também dotado de razão conhece a natureza desses objetos e assim os seus juízos são também comparativos pois com param o predicado com o sujeito É por isso que a estimativa no homem toma o nome de razão particular porque compara termos particulares p ex esta erva éme útil Dizse razão particular para se distinguir da razão universal ou intelectual que compara termos universais 3 No homem pois há uma dúplice memória sensitiva e intelectual Pela memó ria sensitiva lembramonos das nossas percepções sensitivas pas sadas pela intelectual lembramonos das nossas percepções intelectuais pas sadas Uma só faculdade não 243 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 181 Os sentidos internos operando nas condições indispen sáveis não podem enganarse na percepção do seu objeto Nenhuma faculdade operando nas condições indispensáveis pode enganarse na percepção do seu objeto aliás a natureza arrastarnosia fatalmente para o erro o que é absurdo Ora os sentidos internos são faculdades naturalmente destinadas a perceber as nossas sensações ou a reproduzir as imagens sen síveis dos objetos externos Logo os sentidos internos operando nas condições indispensáveis não podem enganarse na percepção do seu objeto1 basta para perceber as percepções dessa dúplice ordem intelectual e sensitiva porque deve haver proporção entre a faculdade e o seu objeto direto 1 A razão é sempre a mesma Uma faculdade que por si pela sua na tureza se engana na percepção do seu objeto é e deixa de ser ao mesmo tempo uma faculdade porque pode e não pode alcançar o seu objeto Ora isto é absurdo É claro que para a percepção sensitiva interna ser verdadeira devemos cumprir todas as condições indispensáveis Mas nesta percepção o engano é menos freqüente que na percepção sensitiva externa Porquanto na percepção sensitiva externa o engano pode provir não só do órgão que pode não estar bem disposto como também do meio que pode alterar a ação do objeto no respectivo sentido ao passo que na percepção sensitiva interna o engano pode provir unicamente do órgão que pode não estar bem disposto pois aqui não há meio entre o objeto e a faculdade mas o próprio objeto está por si unido com a respectiva faculdade determinandoa imediatamente ao ato Depois de termos provado a veracidade dos sentidos internos em geral prova remos brevemente a veracidade de cada um deles em particular a O sentido comum não se engana na percepção do seu objeto a Com efeito esta faculdade atesta que vemos ouvimos gostamos etc que o nosso organismo se acha num estado normal ou anormal que sofremos ou gozamos Ora esse testemunho é tão direto espontâneo e irresistível que é necessário ou admitilo como legítimo ou cair no mais completo e universal ceticismo De fato ninguém fora dos antigos céticos contesta a veracidade do sentido comum b Além disso o sentido comum atinge a sensação dos sentidos externos enquanto é subjetiva e adere ao sujeito senciente Sendo assim um engano será possível se for possível uma ação sem o objeto respe ctivo Ora isto é absurdo Para a solução das principais dificuldades contra a veracidade do sen tido comum apresentamos os seguintes princípios 1º Se quando a nossa alma se acha absorvida com excessiva vivacidade num pensamento ou num sentimento o sentido comum não percebe as modificações dos sentidos externos a razão é porque essas modifica ções foram apenas materiais e não vitais 2º O sentido comum refere as sensações subjetivas como elas são e por isso refereas confusas se são confusas distintas 244 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 182 Regras para os sentidos internos Para que os senti dos internos sejam meios seguros para a aquisição da verdade devem observarse as regras seguintes Iª Os sentidos externos devem estar bem dispostos e conveniente mente aplicados aos seus respectivos objetos porque o exercício regular dos sentidos internos exige o exercício regular dos sentidos externos IIª Os órgãos dos sentidos internos devem estar sãos aliás não percebem o seu objeto ou não o percebem como ele é IIIª Os sentidos internos devem limitarse à percepção do objeto direto que é constituído pelas sensações ou pelas imagens Para a percep se distintas A sua veracidade não exige mais 3º Essa faculdade limi tase a atestar os fatos internos mas não emite nem pode emitir um juízo acerca da natureza ou da causa desses fatos Portanto o erro rela tivo à natureza ou à causa dos fatos internos deve imputarse à impru dência da razão e não ao testemunho do sentido comum 4º O ato de perceber as sensações dos sentidos externos é próprio do sentido comum o ato de refletir voluntariamente sobre essas sensações é próprio da consciência O primeiro ato é permanente e essencial o segundo é intermitente e acidental 5º As modificações orgânicas e sensíveis se passarem a um estado permanente deixam de se manifestar ao sentido comum porque a percepção de uma sensação exige uma mudança no estado habitual do órgão e só tornam a manifestarse quando se der uma notá vel modificação nesse estado habitual b A imaginação não se engana na percepção do seu objeto Com efeito o ofício da imaginação é o de conservar e reproduzir as imagens sensíveis dos objetos externos Portanto ou ela não conserva e por isso não reproduz essas imagens ou as conserva e as reproduza Se não as conserva haverá nisso imperfeição mas não engano Se as conserva e reproduz não pode deixar de as conservar e reproduzir fielmente Todavia a imaginação pode ser ocasião de erro enquanto a inteligên cia ha bituada a dar um valor objetivo às próprias percepções pode sob a in fluência daquela faculdade que reproduz as imagens dos objetos mesmo quando esses não estão presentes julgar como presente o que está real mente ausente Mas nesse caso o erro deve atribuirse à inteligência c A estimativa não se engana na percepção do seu objeto Porquanto os juízos da estimativa ou são instintivos ou comparativos Se são instintivos são verdadei ros porque a natureza de que derivam não pode enganar Se são comparativos são também verdadeiros porque a razão dadas as condições necessárias é meio legítimo para a aquisição da verdade d A memória sensitiva não se engana na percepção do seu objeto Na ver dade ou conserva as sensações passadas ou não as conserva Se não as conserva mostra deficiência mas não se engana se as conserva conservaas como são e por isso não se engana 245 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE ção dos objetos dessas sensações ou ima gens é indispensável o exercício dos sentidos externos1 ARTIGO IV Testemunho suas espécies e transmissão 183 Testemunho Testemunho no sentido mais rigoroso é a manifestação de uma verdade feita por uma a outra pessoa Quem mani festa a verdade dizse testemunha A força moral que a testemunha possui para conciliar o assenso dos outros denominase autoridade Os requisitos necessários que constituem a autoridade são dois a ciência e a veraci dade A adesão prestada pela inteligência a uma verdade em força da autoridade da testemunha chamase fé O teste munho embora pareça um meio menos nobre para a aquisição da verdade é contudo mais breve mais comum mais seguro que os outros meios intrínsecos2 1 Além das regras que são gerais e comuns a todos os sentidos internos há outras próprias de cada um Mas como estas são em geral aplicações daquelas limitamonos a apresentar as que dizem respeito à imaginação que como dissemos pode induzir ao erro da inteligência Iª Devemos pela reflexão extremar cuida dosamente do elemento real o elemento imaginário IIª Não podemos afirmar a atual existência dos objetos apresentados pela imaginação se essa existência não for atestada pelos sentidos externos Porquanto a imaginação pelo fado de representar um objeto mesmo quando ele está ausente não pode ser testemunho fiel da atual e real existência das coisas IIIª Devemos absternos por quanto é possível de proferir juízos quando a imaginação está excitada A transgressão desta regra é causa de inumeráveis equívocos e desvarios 2 São dois diz S Agostinho os caminhos porque chegamos ao conhe cimento da verdade a autoridade e a razão A autoridade precede a razão no tempo a razão precede a autoridade na dignidade Eis as palavras do S Doutor Ad discendum dupliciter ducimur auctoritate atque ratione Tempore auctoritas re autem ratio prior est De Ordine l 2 c 9 O homem conhece a verdade pela razão quando a descobre por si mesmo ou clara mente a percebe se proposta por outrem de modo que o motivo da adesão é a evidente percepção da coisa Neste caso temos a ciência a visão que é a adesão da inteligência a uma verdade ou imediatamente evidente em si mesma ou evidente nos princípios intrínsecos de que deriva O homem conhece a verdade pela autoridade quando não a descobre nem claramente a percebe se proposta por outrem mas a recebe unicamente porque proposta por outrem de modo que o motivo da adesão é exclusivamente a autoridade Neste caso temos a fé que é a adesão da inteligência a uma verdade evidente não imediatamente em 246 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA si mesma nem nos princípios intrínsecos mas num princípio extrínseco que é a autoridade No primeiro caso o motivo da adesão é a autoridade da evidência no segundo é a evi dência da autoridade Por isso a fé distinguese da ciência enquanto esta vê e aquela nãovê Diz S Tomás De ratione scientiae est quod habeat firmam inhaesionem cum visione intellectiva habet enim certitudinem procedeu tem ex intellectu principiorum Fides autem deficit a scientia in eo quod non habet visionem Sum Th 12 q 67 a 3 E S Agostinho já dissera Quid est fides Credere quod non vides Tract40 in Joan Por isso é preciso não confundir o magistério com a autoridade do mesmo magistério A verdade proposta pelo magistério pode o discípulo vêla pela luz da própria inteligência intimamente ligada com os primeiros princípios e neste caso adere a essa verdade não peta autoridade do magistério mas pela evidência da coisa e essa adesão é ciência A ver dade proposta pelo magistério pode o discípulo deixar de a ver em si mesma e neste caso se adere a ela adere unicamente pela auto ridade do ma gistério e essa adesão é fé Portanto o magistério não exclui a ciência A autoridade é constituída por dois dotes necessários e suficientes para que a testemunha mereça crédito a ciência e a veracidade Em razão da ciência a testemu nha não se engana em razão da veracidade não engana Alguns autores indicam três requisitos para a autoridade da testemunha capacidade ciência e veracidade Deve porém notarse que a capacidade está incluída na ciência pois quem sabe é capaz de saber O testemunho é mais breve mais comum mais seguro que os outros meios intrín secos É mais breve porque pela razão chegamos a conhe cer algumas verdades só depois de muito tempo e de muitos esforços ao passo que pelo testemunho conhecemos muitas verdades em pouco tempo e com muita facilidade É mais comum porque a maior parte dos homens não podendo aplicarse aos estudos só pode receber a verdade pelo teste munho humano ou divino É mais seguro porque a razão individual está sujeita a freqüentes erros ao passo que o testemunho humano é menos sujeito ao engano e o divirto é absolutamente infalível Os Kantistas seguidos pelos modernistas rejeitam toda e qualquer auto ridade e admitem como dissemos a imanência como lei e norma de pensar Diz Blondel O pensamento moderno com uma susceptibilidade ciumenta considera a noção de imanência como a condição própria da filosofia É exatíssima a idéia que nada pode entrar no homem sem que saia dele e não corresponda a uma necessidade de expansão nada nem como fato histórico nem como doutrina tradicional nem como obrigação proveniente de fora não há para ele verdade que se aceite nem preceito que imponha sem que seja de algum modo autônomo ou autóctono Lettres sur les exigences de la pensée contemp Resposta Concedemos que nada pode entrar no nosso espírito sem que seja de algum modo assimilado Uma verdade para se tornar nossa deve ser percebida o ininteligível nunca será objeto da nossa inteligência Mas negamos que a nossa inteli gência só deva admitir as verdades que nasceram dela ou que ela descobriu ou as verdades que nos são agradáveis Como poderá o método daimanência provar os fatos históricos Impossível Um fato histórico para ser autêntico deverá sair do nosso espírito ou corresponder às nossas necessidades de expansão Não com certeza Um 247 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 184 Espécies do testemunho O testemunho pode ser divino e humano dogmático e histórico a Testemunho divino e humano O testemunho é divino quando é o próprio Deus quem manifesta uma verdade é humano quando é o homem Para aderir convenientemente ao testemunho divino a nossa inteligência deve ser escla recida e elevada pela luz sobrenatural da Fé b Testemunho dogmático e histórico O testemunho é dogmático quando a verdade manifestada é um dogma ou uma verdade científica p ex a imortalidade da alma humana é histórico quando a verdade manifestada é um fato histórico p ex a vitória de Lepanto1 185 O testemunho divino tanto dogmático como histórico é necessariamente infalível O testemunho divino será ne cessaria mente infalível tanto quando nos revela uma verdade científica racional ou sobrerracional como quando nos manifesta um fato histórico se Deus for dotado de tão grande ciência que não possa enganarse e de tão grande veracidade que não possa enganar Ora Deus por ser a própria fato histórico autônomo ou autóctono é uma contradição E não só recebemos de fora os fatos históricos mas também tantos outros conhecimentos relativos a todos os ramos da ciência humana O homem é essencialmente um animal ensinado A maior parte das verdades que conhece recebeas dos outros Os seus cálculos partem geralmente de verdades descobertas pelos outros Diz bem Fonsegrive O que seria da astronomia se cada astrônomo devesse descobrir por si mesmo a posição de todas as estrelas O que seria da química se cada químico fosse obri gado a recomeçar todas as análises e todas as sínteses O que seria da física e também da matemática se cada calculador devesse verificar as tábuas dos logaritmos e os instrumentos de que se serve Philosophie II p 72 É pois impossível que tudo possa sair do nosso espírito a não ser que nesse espírito tudo ou muito tenha anteriormente entrado Um extrínseco um objetivo é absolutamente indispensável mesmo nas nossas operações mais simples e humildes É o próprio Blondel que contradizendose o afirma Diz assim O progresso da nossa vontade obriganos a confessar a nossa insuficiência levanos a admitir a necessidade de um suplemento e dános a capacidade não de o produzir ou de o definir mas de o reconhecer e receber Lettres etc A autori dade superior ao indivíduo cuja ne cessidade é admitida por esse escritor não é só a humana mas é também e sobretudo a divina porque Blondel trata aí do sobrenatural e da Revelação cristã 1 A divisão do testemunho em divino e humano fundase na qualidade da testemunha e a divisão em dogmático o histórico fundase na qualidade do objeto Deixamos outras divisões de menor importância 248 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA Verdade é dotado de uma ciência infinita e por ser a própria Santidade é dotado de uma veracidade absoluta Logo o testemunho divino tanto dogmático como histórico é necessariamente infalível1 1 O testemunho divino chamase também palavra de Deus ou Revelação Como o assunto é de capital importância damoslhe o conveniente desenvolvimento sobre tudo no que diz respeito aos mistérios reservando o resto para a Moral Falaremos aqui na essência da Revelação no seu objeto na possibilidade da Revelação dos mistérios nas relações entre a Revelação e a ciência ou entre Fé e a razão a Revelação Revelação no sentido rigoroso da palavra é a mani festação de uma verdade racional ou sobrerracional feita por Deus aos ho mens por um modo sobrenatural A Revelação a é a manifestação de uma verdade porque a Revelação em geral não se refere senão a verdades ensinadas por uma pessoa estranha b é a manifestação de uma ver dade racional ou sobrerracional porque o objeto da Revelação abrange não só as verdades que não excedem a capacidade da nossa inteligência como a existência de Deus a imortalidade da alma humana etc mas também as que a excedem e que se chamam mistérios c é a manife stação feita por Deus porque aqui a testemunha não é outro homem mas é o próprio Deus que nos fala diretamente ou por meio de outra pessoa p ex por um profeta é a manifestação feita por um modo sobrenatural porque a Revelação é feita por um meio estranho e superior às forças da natureza O testemunho divino enquanto é manifestado de uma verdade racional convém com o testemunho humano enquanto é manife stação de uma verdade sobrerracional feita por Deus por um modo sobrenatural difere do testemunho humano De onde se vê que a Revelação propriamente dita é sobrenatural e essa difere da Revelação natural que é a manifestação da verdade feita por Deus aos homens por meio das obras da criação A Revelação sobrenatural e a Revelação natural impropria mente chamada Revelação diferem quanto ao princípio ao meio e ao objeto Diferem quanto ao princípio porque na Revelação natural o princípio do conhecimento é a razão humana ao passo que na sobrenatural é a Fé divina Diferem quanto ao meio porque na Revelação natural o meio porque Deus manifesta a verdade e que é constituído pelas criaturas é proporcionado à nossa natureza ao passo que na sobrenatural o meio porque Deus manifesta a verdade e que é constituído por uma comunicação direta é superior a todas as exigências da natureza humana Diferem quanto ao objeto porque na Revela ção natural nenhuma verdade excede a nossa capacidade na sobrenatural há muitas verdades que excedem a nossa compreensão e que nunca teriam sido conhecidas sem essa manifestação gratuita Além da Revelação natural pelas criaturas e da sobrenatural pela Fé que se referem à vida presente há uma Revelação sobrenatural pela glória que tem lugar na vida futura A essa tríplice Revelação corresponde uma tríplice luz infundida por Deus na nossa alma a luz da razão a luz da Fé pela graça e a luz da glória Os três graus de Reve lação estão coor denados entre si o segundo supõe o primeiro e prepara para o terceiro b Objeto da Revelação O objeto da Revelação sobrenatural é constituído como dissemos por verdades racionais e sobrerracionais Verdades racionais são as que 249 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE não excedem as forças ou a compreensão da razão criada de modo que a mesma razão entregue a si mesma pode descobrilas e perceber o intrínseco nexo entre o sujeito e o predicado Verdades sobrerracionais são as que excedem as forças ou a compreensão da razão criada de modo que a razão entregue a si mesma não as pode descobrir sem a Revelação nem depois da Revelação pode perceber o in trínseco nexo entre o predi cado e o sujeito As verdades sobrerracionais chamamse como indicamos mistérios Expliquemos a natureza do mistério Mistério em geral é uma ver dade oculta Uma verdade pode ser oculta por várias razões ou porque embora seja por si facilmente inteligível contudo escapa à nossa experiência tais são os segredos dos corações ou porque ainda que seja conhecida quanto à existência contudo não se percebe bem quanto à essência assim dizemos que o mundo está cheio de mistérios ou porque não pode ser conhecida quanto à existência sem a Revelação embora depois de revelada facilmente se percebe quanto à essência tais são todas as instituições de caráter positivo como p ex a autoridade do Sumo Pontífice ou porque excede por tal modo as forças ou a capacidade da razão criada que sem a Revelação não se pode conhecer a sua existência e depois de revelada não se pode demonstrar nem perceber de modo algum a sua essência ou o intrínseco nexo entre o sujeito e o predi cado A verdade que por esse último modo excede a capacidade da razão criada é e dizse própria e rigorosamente mistério que por isso se define uma verdade que por si e absolutamente excede a capacidade da razão criada Advertimos que a distinção das verdades em racionais e sobrerracionais não se funda em Deus que é uma única e simplicíssima Verdade mas exclusivamente na capacidade da razão criada Advertimos também que o mistério se diz e é incom preensível não enquanto as palavras que o exprimem não tenham sentido algum como pretendem os racionalistas mas enquanto mesmo depois de revelado a razão criada não chega a compreender a essência dele isto é a intrínseca razão pela qual o pre dicado convém ao sujeito Assim no mistério da SS Trindade a nossa razão percebe o que significa a unidade de natureza e a trindade de pessoas embora não compreenda porque e como podem três pessoas ser um só Deus Por isso quando dizemos Deus é uno na essência e trino nas pessoas a afirmação da conveniência entre o predicado e o sujeito fundase exclusivamente na autoridade de Deus De onde se vê a fatuidade dos incrédulos e racionalistas quando dizem que os mistérios são absurdos O mistério como dissemos é um juízo composto de dois termos cuja relação é incompreensível para a inteligência criada Se a relação entre dois termos de um juízo é incompreensível esse juízo não pode chamarse absurdo Porquanto um juízo é absurdo quando compreendemos que o predicado repugna ao sujeito Mas se não se compreende a relação entre os dois termos não pode dizerse que o juízo é absurdo nem que não é absurdo Logo os mistérios por isso mesmo que são mistérios não podem chamarse absurdos O que é sobre a razão não pode dizerse que é contra a razão c A Revelação dos mistérios não repugna Se repugnasse a Revelação dos mistérios essa repugnância darseia ou da parte de Deus ou da parte do homem ou da parte dos próprios mistérios Ora essa repugnân cia não se dá nem da parte de Deus nem da parte do homem nem da parte dos próprios mistérios Não 250 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA se dá da parte de Deus porque com a manifestação dos mistérios Deus não só não deprime nem humilha a nossa inteligência mas pelo contrário eleva e nobilita essa faculdade descobrindolhe novos horizontes que ela nunca teria podido descobrir Nem sé dá da parte do homem porque o homem se não pode compreender os mistérios quanto à essência percebeos quanto à existência e essa percepção desperta em nós um elevado sentimento da grandeza de Deus e um grande amor pela sua infinita bondade que se revelou de um modo inefável sobretudo nos benefícios da Encarnação da Redenção e da Eucaristia Nem se dá da parte dos próprios misté rios porque as verdades sobrerracionais não são contrárias às verdades racionais e se os mistérios não têm a certeza que nasce da evidência do nexo entre o predicado e o sujeito têm a certeza que nasce da evidência da autoridade divina d Relações entre a Revelação e a ciência ou entre a Fé e a razão a Entre a Revelação e a ciência ou entre a Fé e a razão não pode haver verdadeira oposição Porquanto a luz da Fé e a luz da razão são dois raios que partem do mesmo Deus que é a Luz incriada e infinita de toda a verdade Ora se entre dois raios que derivam do mesmo princípio pode haver e há distinção não pode haver e não há oposição aliás haveria oposição no próprio princípio o que é absurdo Se é verdade uma conclusão da razão é absoluta verdade um artigo da Fé Oraaà verdade não pode ser oposta à verdade mas só à falsidade Uma contradição certa entre uma verdade da Fé e uma verdade da ciência é impossível b A Fé e a razão prestamse mútuo auxílio cada uma em conformidade com a própria índole Diz o Concílio Vaticano Neque solum Fides et ratio iuter se dissi dere nunquam possunt sed opem quoque sibi mutuam ferunt Const Dei Filius c IV A razão auxilia a Fé ou a Ciência auxilia a Revelação ou a Filosofia auxilia a Teologia revelada e viceversa c A razão auxilia a Fé S Thom in Boet de Trinitate q II a 3 Em primeiro lugar a razão demonstra certas verdades que são preâm bulos ou pressupostos com relação à Fé e à Teologia revelada tais são a existência e a personali dade de Deus a possibilidade e o fato da Revela ção sobrenatural etc Ora a Fé pressupõe estas verdades Porquanto a Fé não é uma experiência do divino na nossa alma come pretendem os chamados modernistas mas é uma firme adesão da nossa inteligência a verdades que não são por si evidentes e que nos são propostas pelo magistério divino Mas para que a nossa inteligência possa aderir a verdades que não são por si evidentes é necessário que conheça anteriormente que Deus falou e por isso que Deus existe Sem esse prévio conhecimento o ato de Fé não só seria irracional mas até seria impos sível E como estas verdades a existência de Deus o fato da Revelação etc não são imediatamente evidentes devem ser demonstradas Essa demonstração é o ofício da razão ou da Filosofia Por isso a Fé pressupõe a razão ou a ciência Em segundo lugar a razão ou a Filosofia dá noções exatas de al guns termos que se encontram nos artigos da Fé ou se empregam na Teologia como os termos de essência de pessoa de substância de acidente etc Tocamos um ponto muito melindroso mas muito importante 251 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE A Teologia revelada recebe os seus princípios que são os artigos da Fé não de uma ciência natural ou criada mas exclusivamente da ciência divina pela Revelação sobrenatural Esses artigos são uma participação uma impressão das verdades divi nas na inteligência humana As verdades divi nas não podem penetrar e imprimirse na inteligência humana senão enun ciadas e concretizadas num juízo porque é no juízo que para nós se en contra propriamente a verdade Ora quando Deus revela sobrenaturalmente uma verdade não infunde na inteligência humana as idéias que constituem o juízo em que se concretiza a própria verdade tal infusão é possível mas não é o meio ordinário da Providencia mas servese das idéias que já existiam na nossa inteligência estabelece entre elas uma união que teria escapado a toda a mente criada e deste modo manifesta as suas verdades As nossas idéias de que Deus se serve e que une num juízo foram abstraídas das coisas criadas e importam uma analogia ou semelhança ainda que remotíssima com a bondade divina porque em todas as coisas criadas existe um vestígio mais ou menos perfeito da essência infinita Portanto em toda e qualquer verdade revelada ou artigo de Fé deve mos distinguir dois elementos o humano e o divino O elemento humano é constituído pelas idéias que existem naturalmente na nossa inteligência e que Deus une num juízo o divino consiste na própria união dessas idéias feita por Deus num juízo que exprime a verdade revelada O elemento humano pressupõese ao divino porque se não existissem na nossa inteligência essas idéias a verdade revelada seria incom preensível para o homem como é incompreensível esta verdade natural o todo é maior que parte para quem ignora o que é o todo e o que é a parte Todavia apesar dessa pressuposição do elemento humano a verdade revelada deve chamarse e é simplesmente divina e nova É divina pois é Deus e só Ele quem une e associa as idéias preexistentes na mente humana e por isso forma o juízo que exprime a verdade revelada visto que o juízo não consiste nas idéias consideradas isoladamente mas na união dessas idéias assim atribuise a um homem um juízo embora ele não tenha inventado os termos que o compõem É nova porque novo é o nexo nova a união entre as idéias nexo e união que como dissemos teria escapado à inteligência humana Advertimos que a verdade divina considerada na nossa inteligência é ina dequada em relação à mesma verdade considerada na própria inteligência de Deus mas não é falsa É inadequada porque as idéias humanas abstraídas das coisas criadas não podem exprimir a grandeza infinita Mas não é falsa porque como dissemos as coisas criadas são um reflexo uma semelhança um vestígio das perfeições do Criador As idéias de que se compõe uma verdade revelada devera exprimirse por meio de termos orais em fórmulas dogmáticas Esses termos nada acrescentam à verdade limitamse a manifestála A Igreja à qual pertence formular os dogmas escolhe esses termos e fixa o sentido deles Pode a Igreja empregar um termo que é próprio de uma escola mas então seria absurdo dizer que a dita escola influiu na concepção do próprio dogma Se uma escola emprega um termo no sentido em que o emprega a Igreja a conclusão é que essa escola está no caminho da verdade Dadas estas explicações é fácil assinar à razão ou à Filosofia o seu ofício com relação à Fé ou à Teologia revelada Esse ofício consiste em aceitar a ver 252 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA dade revelada como Deus a revelou e a Igreja depositária e mestra da Revelação a propõe em analisar e ilustrar as idéias de que são compostas as fórmulas dogmáticas seguindo sempre o magistério da Igreja em definir e explicar os termos que exprimem essas idéias tomandoos sempre no sentido em que os toma a Igreja em procurar nas coisas criadas umas analogias ou semelhanças para que a nossa inteligência possa de algum modo elevarse às coisas divinas que excedem a capacidade nossa Sum Th p I q 1 a 5 ad 2 Em terceiro lugar sendo necessariamente verdadeiros os princípios em que se funda a Teologia e que são as verdades reveladas e necessaria mente verdadeiras as conclusões que desses princípios derivam por legítima dedução são necessariamente falsas as objeções que contra esses princípios e essas conclusões levantam os adver sários E essas objeções são falsas ou porque se baseiam em falsos princípios ou porque não derivam legitimamente de princípios verdadeiros O ofício da Filosofia consiste em descobrir a falsidade dos princípios ou a ilegitimidade das consequências A estas três espécies de auxílio que a razão presta à Fé ou a Filo sofia presta à Teologia revelada devemos acrescentar que a razão prova com argumentos próprios e intrínsecos à essência das coisas as verdades reveladas que não excedem a capacidade da nossa razão deduz das ver dades reveladas uma multidão de consequências e de aplicações que estavam implícita e confusamente contidas naquelas verdades e que só se tornam explícitas e distintas pela análise e pelo raciocínio une entre si e ordena as verdades reveladas de modo que possam constituir um perfeito corpo de doutrina e assim forma a mais bela entre as ciências a Teologia d A Fé auxilia a razão O Concílio Vaticano enumera os benefícios que derivam da Fé para a razão e por isso da Teologia revelada para a Filosofia com as seguintes palavras Fides rationem ab erroribus libe rat et tuetur eamque multiplici cogni tione instruit Const Dei Filius l c Na verdade a Fé adverte a razão para que não siga opiniões falsas que apresentam uma espécie de verdade descobrelhe muitas verdades que ela a razão entregue a si mesma nunca teria descoberto confirma muitas outras de ordem natural A história atesta que antes do Cristianismo os filó sofos ainda os mais célebres caíam em muitos graves erros acerca da Divindade da origem das coisas da natureza origem e destino do homem e de outras questões cuja solução verda deira é absolutamente necessária para a humanidade Esses benefícios que derivam da Fé ou da Teologia revelada deve a razão ou a Filosofia aceitálos com espírito de gratidão e de reverencia Quando se trata de verdades reveladas que excedem a capacidade da nossa inteligência o Filósofo como dissemos não deve negálas nem interpretálas com o seu critério mas deve aceitálas com submissão e rejeitar como certamente falsas e contrárias à razão todas as conclusões contrárias aos prin cípios da Fé porque essa não pode errar Quando se trata de verdades reveladas que não excedem a capacidade da nossa inteligência o filósofo deve têlas presentes isto é deve pensar que são reveladas para que se não afaste do reto caminho quando quer demonstrálas com argumentos intrínsecos isto é baseados na própria essência das coisas e se lhe acon tece de chegar a uma conclusão contrária a uma verdade revelada deve no interesse da Fé e da própria 253 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 186 A adesão às verdades reveladas por Deus tem certeza metafísica superior a toda outra certeza metafísica a Tem certeza metafísica A nossa adesão a uma ver dade é sempre proporcionada ao motivo que a determina de modo que ela é dotada de certeza metafísica física ou moral conforme a qualidade da certeza do próprio motivo Ora a autoridade divina que é o motivo da adesão da nossa inteligência às verdades reveladas é dotada de certeza metafísica pois a ciência e a veracidade as quais constituem a autoridade divina competem por tal modo a Deus que não podem deixar de lhe competir sendo Ele a Verdade e a Santidade subsistente Logo a nossa adesão às verdades reveladas por Deus tem certeza metafísica b Esta certeza é superior a toda outra certeza metafísica A certeza é como dissemos proporcionada à inteligência e ao motivo Ora o ato praticado pela nossa inteligência escla recida pela luz sobrenatural da Fé é por si mais firme que todo e qualquer ato natural como também a autoridade divina em que se funda a certeza da nossa adesão às verdades reve ladas é um motivo mais firme que o próprio motivo em que se funda toda outra certeza metafísica e que é a essência das coisas porque o engano e a falsidade repugnam mais na Ver dade primeira do que na máxima evidência da natureza Logo a certeza da nossa adesão às verdades reveladas por Deus é superior a toda outra certeza metafísica1 verdade científica repetir as investigações até que a conclusão científica se harmonize com a verdade revelada Nem esta submissão da Filosofia à Teologia ou da razão à Fé pode chamarse uma degradação para a razão humana não só porque ninguém se degrada quando aceita o auxílio de mão benéfica que o salva do precipício mas também porque a Filosofia empregando as próprias forças e os próprios princípios demonstra com argumentos intrínsecos ba seados não na autoridade mas na essência das coisas a verdade racional que a Teologia lhe aponta A afirmação dos racionalistas que a liber dade do erro é preferível à escravidão da verdade é um absurdo tão para doxal que só é possível nos loucos A nossa razão é tanto escrava da Fé quanto o navegante é escravo do farol 1 Não insistimos no assunto já tratado no capítulo precedente Objetam a certeza que temos das coisas que se veem é mais firme do que a certeza das coisas que se não veem Ora a certeza da Fé divina referese a coisas que se não veem Logo a certeza da Fé divina não é mais firmemente do que a natural certeza metafísica Resposta Devemos antes de tudo distinguir a proposição maior A certeza que temos das coisas que se veem é mais firme do que a certeza das coisas que se não 254 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 187 O testemunho humanodogmático é infalível em rela ção aos juízos de senso comum Os juízos de senso comum por serem constantes universais e comuns só podem derivar do íntimo da natureza racional porque só esta existindo sempre em toda a parte e em todos os homens tem a capacidade de pro duzir efeitos dotados daqueles caracteres Ora o que deriva do íntimo da natureza racional não pode ser falso não só porque Deus Autor da natureza e Verdade subsistente não pode imprimir no nosso espírito uma natural inclinação para o erro mas também porque a adesão de todos os homens a esses juízos não pode ter outra causa a não ser a evidência da verdade porque só a verdade evidentemente conhecida pode produzir a unanimidade e universalidade de consenso Logo o testemunho humanodogmático é infalível em relação aos juízos de senso comum1 veem enquanto se considera no sujeito mas não enquanto se considera no objeto Por quanto a certeza do sujeito não está sempre na razão direta da certeza do objeto O objeto pode ser visí vel em si mesmo e todavia o sujeito pode não vêlo ou não vêlo tanto quanto ele é visível assim o sol é visibilíssimo em si mesmo mais visível do que todas as coisas que ele ilumina e torna visíveis e contudo os nossos olhos veem melhor as coisas iluminadas pelo sol do que o próprio sol Apliquemos esse princípio ao nosso caso As verdades reveladas por Deus que são o objeto da nossa Fé possuem a virtude de produzir no nosso espírito uma certeza mais firme do que a certeza que produzem as verdades da ciência mas como nas verdades reveladas não percebemos o nexo intrínseco entre o predicado e o sujeito pode a nossa inteli gência aderir menos firmemente e pode mesmo não aderir Mas repetimos a nossa in certeza ou o nosso erro não depende da incerteza do objeto mas da indis posição do sujeito Devemos também distinguir a proposição menor As verdades reveladas não são vistas em si no nexo intrínseco que une o predicado e o sujeito mas são vistas na autoridade que as manifesta A nossa inteligência para que possa aderir a uma verdade deve necessa riamente vêla de algum modo ou em si mesma ou na autoridade que a propõe Ora as verdades reveladas não são vistas em si mesma Logo devem ser vistas na autoridade divina Repetimos que nesse caso se não temos a autoridade da evidência temos a evidência da autoridade Em conformidade com estas distinções negamos a conclusão 1 Existem no seio da humanidade alguns juízos que são constantes universais comuns isto é cuja verdade foi e é reconhecida sempre por toda a parte e por todos São os juízos de senso comum relativos à nossa vida física intelectual e moral Tais são existem os corpos as leis da natureza são constantes Deus existe e merece o nosso culto o ato honesto distinguese do desonesto aos pais é devido o respeito dos filhos a alma humana é imortal etc Para que pois um juízo possa chamarse de senso comum deve ter os seguintes caracteres 1º deve ser universal diuturno 255 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE constante não só entre os povos selvagens mas também entre os civilizados de modo que não seja esquecido com o andar do tempo e com o aumento da cultura 2º deve convir com os prin cípios da razão de modo que reduzido a esses princípios manifeste mais claramente a sua verdade 3º não deve provir da ignorância ou dos prejuízos ou da corrupção dos costumes ou da superstição ou do interesse ou de outras semelhantes causas É claro que a universalidade de que deve ser dotado um juízo de senso comum é a moral Se um ou outro indivíduo contesta um juízo de senso comum nem por isso enfraquece o testemunho da humanidade Há monstros também na ordem moral Os juízos de senso comum constituem o patrimônio de que está do tado o gênero humano e que a todos e a cada um dos homens serve imensamente para o uso da vida Nessa distribuição a natureza não foi ex clusiva nem parcial Todos os homens mesmo os selvagens por isso mesmo que têm o bem da inteligência deduzem dos comuns princípios a razão ou das naturais inclinações esses juízos e os deduzem com um raciocínio espontâneo embora vulgar e imperfeito por falta de disciplina De fato não é nada difícil deduzir da vista do mundo a existência de Deus ou do desejo da felicidade a imortalidade da alma etc O que deixamos dito é confirmado pela história de todos os povos Estes juízos não podem derivar senão da natureza racional Por quanto devendo a causa ser proporcionada ao efeito um efeito constante univer sal e comum como é todo o juízo de senso comum só pode derivar de uma causa constante universal e comum Ora a causa dotada destes caracteres não pode ser senão a natureza racional porque só esta no meio de tantas divergências de opiniões de estudos de hábitos de caracteres etc existe sempre por toda a parte em todos os homens Com razão escre ve Cícero Omni in re consensio omnium gentium lex naturae putanda est Tuscul l 1 n 13 Derivando da natureza racional os juízos de senso comum não podem ser falsos ou errôneos porque a natureza ra cional feita ou criada unicamente para alcançar a verdade não está por si sujeita a engano O erro deriva sempre de uma causa contingente parti cular como é a ignorância o prejuízo a paixão etc A própria natureza pode por uma destas causas desfalecer num ou noutro indivíduo mas não é possível que desfaleça em todos C Gentes l II c 34 De onde se vê que a causa ou o princípio de onde derivam os juízos de senso comum é a razão humana e que o senso comum é a pró pria razão natural enquanto sempre e em toda a parte leva os homens a admitir verdades imediata ou mediatamente evidentes sobretudo as que nos são necessárias para a vida física intelectual e moral Os tradicionalistas encontram essa causa exclusivamente na revelação feita por Deus ao primeiro homem e transmitida às seguintes gerações O erro desses escritores está todo nesse advérbio exclusivamente porque concedemos que a causa adequada de muitas verdades tidas como juízos do senso comum seja o reto uso da razão e a revelação primitiva Reid opina que o senso comum é um cego instinto da natureza pelo qual somos determinados a admitir as verdades fundamentais não porque as vemos claramente 256 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA mas porque uma força irresistível não nos deixa du vidar acerca delas Balmes acres centa que o senso comum é um meio especial que é distinto dos outros e que pode chamarse instinto intelectual Mas estas opiniões são falsas A adesão da huma nidade a certos juízos fundamentais não é determinada por um instinto cego mas unica mente pela intuição da verdade porque esses juízos ou são imediatamente evidentes ou percebemse por um facílimo raciocínio Além disso a ad missão de um cego instinto intelectual deprime a natureza racional tira à ciência a dignidade de racional e favorece o ceticismo Alguns dos modernos antiintelectualistas como Bergson admitem em teoria a força do senso comum mas na prática contestamna Outros como Le Roy negam que os juízos do senso comum como também as ver dades reveladas tenham um valor intelectual e afirmam que esses juízos têm apenas a razão de preceitos ou regras para a vida prática Assim o axioma p ex 2 2 4 não contém nenhuma verdade racional mas nos insinua que devemos operar como se 2 2 fossem 4 Mas essa teoria longe de ser uma explicação é uma mutilação do senso comum Os axio mas tiram a força não da utilidade mas unicamente da verdade Identificandose o senso comum com a inteligência e a razão é claro que aquele não constitui um meio distinto destes dois e que os seus juízos têm uma certeza metafísica ou moral conforme a natureza dos objetos Todavia o senso comum pelo fato de ser citado como autoridade colocase também entre os meios extrínsecos é uma coisa moral e os seus juízos têm uma certeza moral e não metafísica Se o testemunho humanodogmático é infalível quanto aos juízos de senso comum não o é quanto a outros juízos A inteligência humana pode errar e erra Ora um testemunho que está sujeito a erros não pode produzir certeza mas apenas uma opinião mais ou menos provável segundo a maior ou menor autoridade das teste munhas Por isso o testemunho humano quando ensina um dogma ou uma verdade científica não é por si enquanto testemunho um meio infalível para a aquisição da verdade Todavia esse testemunho é muito útil porque leva a inteligência à des coberta da verdade e não só é útil para os ignorantes que não têm a capacidade de descobrir a verdade de onde o adágio peritis in arte credendum mas também é útil para os sábios que não podem abranger a esfera toda dos conhecimentos humanos e por isso devem aceitar dos outros sábios as verdades relativas a um ou outro ramo de ciência Aceitando esse testemunho pode o homem enganarse mas como diz S Agostinho etsi auctoritate decipi miserum sit longe tamen est miserius ab eadem non commoveri De util credendi c 16 Falamos na autoridade do testemunho humanodogmático enquanto é auto ridade É neste sentido que S Tomás diz Locus ab auctoritate quae fundatur super rationem humanam est infirmissimus Sum Th p I q 1 a 8 ad 2 Por quanto se um homem aceita uma verdade proposta por outro e aceita essa verdade não porque proposta por outro mas porque fundada em boas razões nesse caso não é a autoridade o critério da dou trina mas a doutrina é o critério da autoridade e por 257 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 188 O testemunho humanohistórico pode ser um meio infalível para a aquisição da verdade O testemunho humano histórico poderá ser um meio infalível para a aquisição da verdade se a ciência e a veracidade das pessoas que atestam um fato se tornarem evidentemente certas porque em tal caso toda a dúvida é irracional Ora a ciência e a veracidade das pessoas que atestam um fato podem tornarse evidentemente certas Logo o testemunho humanohistórico pode ser um meio infalível para a aquisição da verdade1 isso o meio que leva o discípulo à consecução da verdade não é o testemunho mas é a pró pria razão a qual como vimos é por si infalível Para maior clareza vejamos a influência do mestre no discípulo Adquirese a ciência quando se deduzem dos primeiros princípios as conclusões que neles estão contidas Ora os primeiros prin cípios não são infundidos pelo mestre na inteligência do discípulo são conhecidos por esse de um modo imediato por uma simplicíssima abstração e pressupõemse as explicações do mestre Em que consiste pois o ofício do mestre O ofício do mestre consiste em guiar a inteligência do discípulo no discurso que parte dos primeiros princípios e chega à conclusão Deste modo o discípulo adere firmemente às con clusões apoiandose não na autoridade do mestre mas nas boas razões que ouviu do mestre e fez suas e que lhe mostram o nexo íntimo e essencial existente entre os princípios e a conclusão Cf De Ver q 11 a 1 1 A consideração das leis que regulam os costumes humanos levanos a prestar fé à autoridade Estas leis podem reduzirse às duas seguin tes Iª O homem tende naturalmente para a verdade Por isso quanto mais prudente e diligente for a testemunha tanto menos possível será o receio do erro e do engano IIª O homem não opera senão pelo amor de algum bem Por isso a mentira que é por si vergonhosa e indigna do homem não pode atrair o homem senão sob a aparência de utilidade se não existe esta utilidade nem deve existir a suspeita de mentira pois ninguém é mau gratuitamente nemo gratis est malus Sobretudo não há receio de engano quando a testemunha é um homem de bem que se deixa guiar pelas leis da honestidade e não pelas da utilidade própria Dizemos que o testemunho humanohistórico é meio seguro para a aquisição da verdade se constar evidentemente da ciência e da veracidade das testemunhas E pois da máxima importância estabelecer algumas regras para se averiguar se o testemunho é dotado das duas qualidades essenciais Estas regras formam a crítica histórica geral Crítica histórica geral Apontamos as principais regras Algumas ser vem para avaliar a ciência e outras a veracidade das testemunhas I Regras relativas à ciência das testemunhas É certa a ciência das testemunhas se os seus sentidos no ato da percepção a estavam sãos e bem dispostos b e se foram atenta e diligentemente aplicados a Deve admitirse que os sentidos das testemunhas no ato da per cepção estavam sãos e bem dispostos 1º se não constar o contrário porque a integri 258 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 189 O testemunho humanohistórico e os fatos sobrena turais O testemunho humanohistórico pode ser meio infalível para a aquisição da verdade não só quando refere fatos de ordem natural mas também quando refere fatos de ordem sobrenatural como são os milagres porque também na relação dos fatos sobrenaturais a ciência e a veracidade das teste munhas podem tornarse evidentemente certas1 dade e a boa disposição dos sentidos é natural ao passo que o defeito é acidental e conhecese 2º se as testemunhas forem muitas e concordes porque então toda a dúvida é infundada 3º se o fato era de tal natureza que podia ser facilmente percebido mesmo por sentidos defeituosos como seria a existência de uma cidade b Deve admitirse que os sentidos das testemunhas foram atenta e dili gentemente aplicados 1º se o fato foi tão sensível que podia ser percebido sem muita diligencia e sem medo de errar 2º se o fato foi tão público e notável que devia naturalmente atrair as atenções de todos 3º se entre as testemunhas havia algumas que eram dotadas de prudência e perspicácia ou que tinham interesse e motivos particulares para bem averiguarem o fato II Regras relativas à veracidade das testemunhas É certa a veraci dade das testemunhas nos seguintes casos a Quando as testemunhas são muitas e diversas entre si na idade e nos carac teres na pátria e na religião nos estudos e nos talentos na edu cação e nos costumes e todavia afirmam todas a mesma coisa porque em circunstâncias tão diversas não só toda a falsidade é moralmente impossível mas também essa uniformidade não pode derivar da má fé b Quando as testemunhas são poucas mas narram um fato na presença de pessoas às quais o fato é nocivo e que podem descobrir o engano porque ninguém ainda que mau em três circunstâncias falta à verdade c Quando as testemunhas são poucas mas narram um fato que é contrário às opiniões que elas professam e ao partido a que pertencem porque neste caso só a verdade tem a força de prevalecer e manifestarse d Quando as testemunhas são poucas mas a narração de um fato em vez de procurarlhes riquezas glorias e prazeres lhes pode causar ignomínia pobreza tormentos e morte pois é necessário acreditar em teste munhas que sabem morrer pelo que atestam 1 Da análise das três faculdades cognitivas seguese que nós conhecemos os fenômenos e a ordem com que se sucedem mas não conhecemos o que está debaixo destas aparências destes fenômenos não conhece mos a coisa em si o númeno A sensibilidade atesta que há alguma coisa atrás do fenômeno porque o fenômeno é o nosso modo de representar a coisa em si mas não diz o que essa coisa é Nem o dizem a inteligência e a razão ambas limitadas pela experiência sensitiva pois as categorias e os princípios só se referem aos fenômenos A razão por si sentese inclinada a transcender a elevarse fora e acima dos fenômenos procurando um princípio pri 259 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE meiro objetivo e assim conclui para a existência da alma do mundo e de Deus Mas se ela chega a tais conclusões nem por isso esses existem fora de nós o termo do raciocínio é tão subjetivo como o é o seu princípio Porquanto se se pretendesse que a realidade fosse conforme com os discursos da razão seriam inumeráveis as antinomias ou contradições em que ela havia de cair fatalmente As principais antinomias são as quatro seguintes 1ª O mundo teve começo no espaço e no tempo ou não teve 2ª O mundo resulta de elementos simples ou compostos 3ª A liberdade existe no mundo ou não existe 4ª Existe uma causa necessária do universo ou não existe Em cada uma destas proposições disjuntivas a tese está em contradição com a antítese e todavia os argumentos que se aduzem em favor de uma têm o mesmo valor dos argumentos aduzidos em favor de outra Como poderá a razão sair desta obscuridade e livrarse desta tor tura O remédio é fácil Essas proposições são con traditórias na ordem dos númenos isto é das realidades objetivas mas não são tais na ordem dos fenômenos isto é das aparências Se se suprimir a realidade objetiva que se opõe à conciliação e à verdade de duas proposições contraditórias cessará toda a contradição já não haverá motivo para controvérsias a tese e a antítese serão ambas verdadeiras haverá a verdade subjetiva que consiste na concórdia das idéias e isso basta Então as duas partes ficarão convencidas de que se podem confutarse mutuamente é porque discutem por um nada e uma certa aparência transcendental lhes representou no tempo e no espaço uma realidade que não existia A questão não existe porque não existe um objeto determinado a questão portanto é essen cialmente inútil destituída de sentido O vosso objeto só existe na vossa cabeça e não pode existir fora dela Crítica da razão pura Todavia as verdades que se referem à alma ao mundo a Deus e que a razão especulativa ou teorética não pode demonstrar são promulgadas pela razão prática Por quanto a razão prática inculcando que se deve evi tar o mal e fazer o bem deve implícita e necessariamente admitir a liber dade e a imortalidade da alma a realidade do mundo e a existência de Deus porque se não se admitirem estas três verdades não é possível evi tar o mal e fazer o bem A razão prática não demonstra estas verdades atingeas pela fé isto é por uma certeza subjetiva e destituída de evidência de modo que a alma o mundo e Deus se apresentam como postulados ne cessários e inexplicáveis Assim a fé toma o lugar da ciência Tal é a teoria de Kant acerca do conhecimento humano A coisa é abstrusa mesmo porque o escritor alemão teve o gosto de empregar algumas palavras estra nhas para exprimir as linhas fundamentais do sistema de mudar a significação usual de muitas outras e sobretudo de ser obscuro para se mostrar profundo A sua vaidade levouo a compa rarse com Copérnico porque assim como Copérnico fez uma revolução na Astronomia mostrando que não é o Sol que gira em volta da terra mas é a terra que gira em volta do Sol assim também ele Kant fez uma revo lução na Filosofia mostrando que não é a inteligência que se acomoda às coisas para as conhecer como são em si mesmas mas são as coisas que se acomodam à inteligência 260 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA revestindo as formas que ela lhes aplica Todavia nem o mérito da invenção é devido a Manuel Kant Há muitos séculos Protágoras tinha dito o espírito é a medida forma das coisas e não são as coisas a medida forma do espírito Cf Aristot XI Metaf c 5 e por esse seu ceticismo foi exilado de Athenas Nos tempos mais recentes e anteriormente a Kant tinham ensinado com menos exagero embora com maior incoerência essa teoria entre outros Descartes Leibniz Malebranche Reid Cousin sobretudo Hume tanto que escreveu Compayré Ce nest pas Kant cest Hume qui a fondé la philosophie critique La philosophie de David Hume Não é nossa intenção de refutar aqui todas e cada uma das animações de Kant algumas já foram refutadas e outras o serão no decurso deste livro O criticismo de Kant é falso nos seus fundamentos na sua essên cia nas suas consequências A É falso nos seus fundamentos a O sistema parte de um princípio que é a dúvida do valor da razão e para averiguar se essa dúvida é ou não atendível servese da mesma razão e por isso já supõe como certo o que dá por duvidoso A contradição é manifesta Se é natural e legítimo que a nossa razão suposta sempre a própria aptidão para alcançar a cer teza reflita sobre os seus atos e reconheça os processos que seguiu na investigação da verdade é ilegítimo e absurdo que se pretenda formar raciocínios e organizar sistemas quando não só se duvida da legitimidade da razão mas se sustenta que tudo é uma mera ilusão b Um dos fundamentos do criticismo é a lei da imanência Diz o escritor alemão que o conhecimento sendo um fato da consciência não pode atingir o que está fora dela e por isso é impossível a percepção da coisa em si mesma do númeno Mas essa base é insubsistente O co nhecimento é um fato da consciência é um fato subjetivo quanto ao seu princípio que é a faculdade cognitiva mas não é subjetivo quanto ao termo que é o objeto conhecido Uma coisa conhecida em si mesma não se altera pelo fato de ser conhecida mas permanece sempre no seu estado de absoluta porque não é ela que se transforma na inteligência mas é a inteligência que atuada pela forma da coisa lhe se torna semelhante atingindoa como é em si mesma de modo que há adequação entre o con ceito da inteligência e a realidade da coisa c Kant admite também que o nosso espírito extraindo do próprio fundo a verdade toda é autônomo isto é independente de todo o objeto e de toda a regra extrínseca da verdade e por isso deve rejeitar todo o ele mento que não é imanente e autóctone quer nas construções das ciências físicas quer na elaboração das ciências lógicas e morais Mas se assim fosse como opina Kant para que havia os sábios de suar tanto para interrogar a natureza e arrancarlhe os segredos E se eles julgam indispensável meterse em comunicação com os objetos externos a razão é porque essa comunicação fornece dados que podemos conhecer Se o nosso espírito não é independente dos objetos externos nem é indepen dente das leis lógicas e morais Estas leis dominam o homem impõemse imperiosamente à sua inteligência e à sua 261 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE vontade Se são interiores enquanto se tem consciência delas são exteriores enquanto se impõem a cada um de nós O homem percebeas como verdadeiras mas não é ele que as torna tais A ordem das coisas que essas leis exprimem é essencial e imutável e ficaria sempre a mesma embora a razão do homem se escurecesse na loucura ou a sua vontade se corrompesse no vício d A autonomia de nossa inteligência se é uma glória é também se gundo Kant uma necessidade visto que na percepção o sujeito que per cebe e o objeto que seria percebido são separados por um abismo insu perável Ora é falso que o objeto seja sempre inacessível à faculdade perceptiva Quando se trata da percepção do sentido comum e da consciên cia o sujeito e o objeto não somente não são distintos mas identificamse É impossível que o sujeito se separe do objeto e que o não atinja O sujeito consciente percebese a si mesmo imediatamente como uma existência e uma realidade certíssima e descobre em si mesmo uma multi dão de atos vitais sensitivos intelectuais de idéias objetivas Dizer com Kant que nos percebemos a nós mesmos através de formas a priori da nossa mentalidade que alteram todos os objetos mesmo os objetos internos da consciência é emitir uma hipótese gratuita e contraditória gratuita porque não só não se baseia em nenhuma experiência mas é contrária a toda a experiência contraditória porque uma percepção sem um objeto percebido é uma contradição Quando se trata da percepção sensitiva ex terna também neste caso o sujeito e o objeto não estão distantes O ato do agente encontrase no paciente do modo que o agente e o paciente se acham reunidos num todo completo Sendo assim é claro que o paciente ou o sujeito não precisa de sair de si mesmo fora da sua pele como dizem os adversários para perceber o agente ou o objeto É pois falso que entre o objeto e o sujeito corra um abismo que não é possível transpor B É falso na sua essência a A essência do criticismo consiste principalmente na hipótese das formas inatas a priori que existiriam em gérmen no fundo do espírito e de que derivariam a determinação a necessidade a universalidade para os fenômenos da sensibilidade para os juízos da inteligência e para os prin cípios da razão Ora essa hipótese é gratuita inútil irracional a É gratuita Ninguém tem consciência da existência de tais formas e Kant não aduz nenhum argumento sério Existem certamente na inteligência humana conceitos universais que se aplicam às coisas singulares mas esses não são meras ilusões não derivam a priori espontaneamente do fundo do espírito mas têm o seu fundamento num princípio extrínseco à nossa inteligência nas próprias coisas singulares e por isso não são formas impostas às coisas pela inteligência mas são formas impostas à inteligência pelas coisas b É inútil Kant admite as formas a priori para explicar as notas de universali dade e de necessidade que se encontram nos nossos pensamentos Ora para isso não era necessário recorrer a essas formas a priori Desde o momento que se reconheça como é necessário reconhecer que a nossa inteligência tem a força de penetrar no âmago das coisas e descobrir nelas umas notas de universalidade e de necessidade per cebese imediatamente que o conceito universal e o necessário têm o seu fundamento 262 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA nos objetos singulares e contingentes O que se diz dos conceitos deve aplicarse aos juízos e aos princípios que sendo constituídos pelos conceitos devem ter e têm o seu fundamento não numa necessidade subjetiva mas numa realidade objetiva extrínseca ao ato cognitivo c É irracional Porquanto todos os homens estão convencidos de que alguns conceitos como o da quantidade da qualidade etc não são coisas subjetivas como afirma Kant mas representam coisas objetivas indepen dentes do nosso pensamento Além disso se os conceitos universais e necessários não pudessem derivar da expe riência por ser essa singular e contingente nem poderiam derivar do nosso espírito que também é singular e contingente porque omne agens agit sibi simile Ademais os conceitos de Kant são puros isto é sem conteúdo sem matéria ora o conceito é necessariamente o conceito de alguma coisa e por isso deve ter um conteúdo aliás deixará de ser conceito e será uma espécie de círculo quadrado b Kant admite duas formas inatas e abstratas na sensibilidade a do espaço e a do tempo Antes de tudo não se concebe como é que formas abstratas possam ter por princípio e por sujeito uma faculdade material e concreta como é a sensibilidade Além disso todos os homens estão convencidos de que a experiência sensível percebe certas determinações ou formas e entre outras a do espaço e do tempo como inerentes aos objetos externos e independentes do nosso ato perceptivo Separar como faz Kant da forma pura do fenômeno isto é da forma subjetiva do espaço e do tempo a impressão sensível que procede do objeto é uma arbitrariedade sem fundamento Ademais na teoria de Kant a matéria das nossas sensações indeterminada por si mesma é determinada pelas formas inatas da sensibilidade e assim a variedade que se encontra na figura e na duração dos objetos depende exclusivamente do nosso conhecimento Ora essa con clusão é contrária à experiência a qual atesta que a variedade na figura e na duração das coisas é independente do nosso conhecimento e que o nosso espírito não pode introduzir nessas representações do espaço e do tempo a mais leve alteração ou mudança Finalmente Kant admite a existência da realidade extensa embora dela só possa saberse que é extensa e acrescenta que temos a representação da extensão pela aplicação da forma subjetiva do espaço Ora isto também é contrário à experiência Não é a idéia da extensão que deriva da idéia do espaço mas é a idéia do espaço que pela abstração e reflexão deriva da idéia da extensão c Com relação às formas inatas da inteligência além das observações feitas apresentamos as seguintes a Kant fazendo a crítica da razão pura começa pelo juízo porque diz que julgar é pensar descobre os célebres juízos sintéticos a priori e para explicar as notas de necessidade e universalidade que se encontram nesses juízos recorre às formas inatas a priori latentes no fundo do nosso espírito Uma arbitrariedade a apoiar outra arbitrariedade Mas devemos notar o seguinte Kant começa pelo juízo e omite a questão importantíssi ma da noção ou da idéia Antes de investigar o modo porque um predicado convém a um sujeito é necessário conhecer a origem e o valor objetivo desses termos Kant ocupouse do juízo do composto e não das partes componentes e como o juízo não representa a realidade senão pelos seus termos é claro que pres 263 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE cindindo da realidade das partes devia também prescindir da realidade do composto É verdade que ele admite os concei tos mas esses conceitos não são anteriores ao juízo são posteriores não são noções simples e objetivas mas compostas e subjetivas No juízo Kant só vê o subjetivo O verbo é não exprime para ele o ato de ser dos entes reais mas apenas a união ideal de termos puramente ideais Daí o subjetivismo É falso que pensar e julgar sejam uma e a mesma coisa a simples apreensão do objeto não é um juízo é um pensamento b Na teoria de Kant a nossa inteligência aplicaria instintivamente as formas inatas aos fenômenos e sentirseia constrangida por uma fa tal necessidade a emitir o juízo Ora isto repugna a fatos averiguados Atestanos a consciência não só que nos sentimos logicamente necessitados a pensar e a julgar de um modo e não de outro mas também que essa necessidade deriva exclusivamente do objeto extrínseco ao sujeito pensante Pensamos e julgamos assim porque o objeto é assim Portanto não é uma necessidade cega que nos leva a julgar mas é o conhecimento da relação existente entre o sujeito e o predicado e independente do nosso trabalho intelectual Uma necessidade mental não pode ser e não é senão a conse quência da visão da verdade c Segundo Kant as formas inatas que são moldes vazios conceitos puros brotam na ocasião de uma sensação do fundo da alma e aplicamse por si aos fenô menos para comunicar a esses a universalidade Mas perguntamos de onde tiram essas formas o poder de tornar universais os fenômenos Como é que quando vemos um objeto aquecido pelo Sol surge em nós espontâneo o conceito de causa e quando vemos uma árvore desponta imediatamente o conceito de substância Dirseá que a nossa inteligência ao aparecer de uma imagem sensível na fantasia produz uma imagem espiritual correspondente ao objeto externo Isto é certo mas entanto é certo enquanto se admite que o objeto externo produzindo a sua imagem sensível na fantasia concorre para a produção da imagem espiritual na inteligência Por isso a imagem sensível é o princípio e a medida da imagem espiritual Mas essa explicação da boa filosofia que é também a do gênero humano é rejeitada por Kant que não admite nenhuma influência do objeto no sujeito e faz das imagens das coisas um produto interior e total do espírito d No sistema de Kant a universalidade do juízo é apenas lógica ou subjetiva porque deriva da forma subjetiva aplicada ao fenômeno Mas basta uma pequena reflexão para se concluir que a aplicação das formas inatas aos fenômenos nem a universalidade subjetiva pode comunicar ao juízo De fato essa universalidade segundo os princípios do escritor alemão não pode deixar de ser limitada a um só indivíduo Como é possível que quando digo o mel é doce todos os homens convenham comigo e assim o juízo tenha um caráter de universal Para isso é necessário que se conheça a existência dos outros homens isto é das coisas em si dos númenos que se admita que todos têm a mesma organização e também que o mel produz em todas as línguas a mesma impres são Só depois de ter conhecido e averiguado tudo isto é que se pode for mular um juízo subjetivamente universal Ora Kant é um homem a priori não admite númenos não reconhece qualidades determinadas nos objetos e portanto não pode logicamente admitir a universalidade subjetiva do juízo E então para que servem as formas inatas 264 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA e Finalmente a disposição dos conceitos ou das categorias é arbitraria torta desordenada irracional já o vimos em que a paixão pela simetria se sobrepõe à seriedade e ao senso comum Diz K Fischer admirador de Kant Na disposição das categorias aparece claramente a fantasia arquitetônica de Kant o seu gosto pela aparência é preciso não dar uma demasiada importância à simetria que aí se ostenta complacentemente Como estas categorias são abstraídas dos juízos falta a este dodecálogo de conceitos puros do entendimento a forma de sistema que não pode ser substituída pelos jogos do arquitetônico Histoire de la Phil Mod III 363 É um jogo infantil o de Kant mas não é um jogo inofensivo d As considerações que fizemos acerca das formas inatas em geral podem e devem aplicarse às formas inatas da razão As idéias da alma do mundo de Deus são como todas as outras adquiridas e objetivas como se demonstrará nos lugares próprios destes Elementos Só nota remos o erro de Kant que faz da razão uma faculdade distinta da inteligência e superior a esta quando esses dois termos significam apenas como vimos diversas funções de uma e mesma faculdade Feita a análise das três faculdades cognitivas o escritor alemão conclui que só conhecemos os fenômenos as aparências mas nos é impossí vel conhecer as coisas em si mesmas os númenos Diz assim As coisas apresentamse como objeto existente fora de nós mas nós não podemos saber o que são em si mesmas só conhecemos os fenômenos isto é as representações que elas operam em nós quando impressionam os nossos sentidos Antes de tudo notamos uma contradição de Kant Afirma que os fenômenos são os primeiros e únicos objetos do nosso conheci mento Mas sendo assim ele não podia determinar os elementos a priori que constituiriam os mesmos fenômenos pois não é possível o conheci mento de uma coisa anterior a todo o conhecimento Além disso este escritor admite e por palavras muito claras a existência do númeno da coisa em si mesma aliás diz ele haveria uma aparência sem a coisa que aparece Otimamente e já se reconhece implicitamente o princípio de causalidade Mas se existe a coisa que aparece ela deve aparecer na própria aparição porque não se concebe uma aparição abstrata isto é uma aparição separada da coisa que aparece Portanto devemos dizer ou que com o fenômeno aparece também o númeno ou que não aparece e não existe coisa nenhuma A este subjetivismo total a este niilismo absoluto levam logicamente os princí pios do autor da Crítica da razão Na verdade o fenômeno no sistema de Kant sendo constituído pela impressão ou sensação e pela intuição que são coisas subjetivas nada pode ter e nada tem de objetivo E não pode dizerse que a impressão ou sensação con tenha algum elemento objetivo que refira e apresente o objeto que impressionou os sentidos Na verdade para se concluir para a existência do objeto teria de admitirse o princípio de causalidade visto que só em virtude deste princípio pode mos passar da impressão recebida no sentido para o objeto que a produziu Mas para Kant a causa é uma forma inata a priori sem valor objetivo e a causalidade não existe fora de nós Logo no sistema de Kant não há nada de objetivo ou se houver não pode ser de modo algum conhecido Além disso se é pela forma do espaço que percebemos o fenômeno e se a forma do espaço é toda subjetiva porque não havia de ser inteiramente 265 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE subjetivo o próprio fenômeno De fato esse escritor diz e repete continuamente que os objetos da experiência não passam de ilusões ou de representações subjetivas que o fenômeno é um produto exclusivo do sujeito que a impressão é coisa completamente subjetiva que a matéria é um fenômeno subjetivo que a própria realidade é um con ceito puro da inteligência Citemos alguns trechos extraídos da Crítica Os objetos externos os corpos são apenas fenômenos são modos das nossas representações cujos objetos só existem em virtude dessas mesmas representações e tomados separadamente não são nada As coisas exter nas isto é a matéria com todas as suas formas e mudanças não passam de fenômenos isto é de representações em nós Como se vê só temos fenômenos e representações fenômenos ou aparências que nada fazem aparecer representações que nada representam Pelo menos deste naufrágio universal se salvasse o eu Mas nem ele se salva O eu para Kant é também fenomenal e este eu fenomenal não é um eu real Penso logo é Tal é o desvario fundamental de Kant Apraznos citar o juízo que do criticismo de Kant fazem Hartmann e Schope nhauer Hartmann mostrando que o sistema de Kant é uma hipótese a priori sem nenhum fundamento escreve A simples verdade que tudo o que posso represen tarme não é senão a minha representação e que tudo o que posso conceber não pode ser outra coisa senão a minha con cepção essa simples verdade é a origem de todo o idealismo subjetivo todos os seus fundamentos são outras tantas frivolidades em que se encontra sempre esse argumento mais ou menos escondido e é dele que os outros tiram toda a sua força Examen crit du realisme trascendental p 27 Scho penhauer denuncia as contradições de Kant com as seguintes palavras Kant baseia a existência da coisa em si embora através de mil subterfú gios sobre um raciocínio fundado no princípio de causalidade porque a impressão recebida nos nossos órgãos deve ter uma causa extrínseca Ora conforme a sua própria descoberta o princípio de causalidade é por nós conhecido a priori e por isso é uma função da nossa inteli gência e tem uma origem subjetiva além disso a própria impressão sensível à qual aplicamos o princípio de causalidade é indubitavelmente subjetiva e finalmente o próprio espaço em que em virtude dessa aplicação colocamos como objetos as causas da dita impressão é uma forma mental a priori e por isso subjetiva Portanto toda a intuição empírica existe inteiramente no mundo subjetivo Le monde en tant que volonté I 490 Segundo o mesmo Schopenhauer quem sustenta que o mundo é apenas um estado do próprio organismo deveria ser fechado numa casa de saúde O criticismo pois é um sistema destituído de base e de seriedade O nosso conhecimento não deriva de uma atividade meramente subjetiva e produtiva do objeto mas é o resultado da inteligência e do próprio objeto conhecido Nem admitindo a perfeita correspondência entre o objeto e o conhecimento se verificam essas obscuridades e torturas da razão descritas com cores aterradoras por Kant As tais antinomias são também formas a priori existentes unicamente na cabeça do escri tor alemão e só ele teve a habilidade de encontrar argumentos dotados do mesmo valor em favor de cada uma das partes contraditórias dessas proposições disjuntivas No decurso deste livro teremos ocasião e necessidade de mostrar que os ar gumentos 266 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA favoráveis à tese não o são à antítese e por isso que a inteligência deve aceitar uma parte das antinomias e excluir outra Só acrescentaremos que o remédio que foi proposto por esse escritor para aliviar as torturas da razão e que como vimos consiste na supressão da realidade objetiva não é nada eficaz para o escopo Porquanto essa supressão se faz desaparecer o conflito do espírito com o objeto não faz desaparecer antes intensifica o conflito do espírito consigo mesmo enquanto ele é condenado a uma perpétua ilusão recebendo ou formando representações que nada representam julgando como objetivas as propriedades das coisas externas que afinal são apenas modos da percepção e afecções do sujeito e admitindo a identidade e a verdade simultânea de duas proposições contraditórias E será essa uma concórdia de idéias Não admira portanto se a solução de Kant não satisfez ninguém Alguns dos seus sequazes mais coerentes que o mestre despenharamse no fundo de um absoluto ceticismo outros levados pelo instinto da reação abra çaram o mais intemperante dogmatismo Mas Kant confiava tanto na sua descoberta que desejou aplicála também ao regime das nações Dizia que a metafísica divide os povos porque admite a realidade objetiva e que suprimida essa realidade já não haveria motivo para lutas entre os di versos países Para esse sistema de pacificação chegou a pedir o favor dos Governos de então ninguém atendeu ao pedido só a Convenção nacional de França lhe respondeu honrandoo com o título de cidadão francês Se Kant não trata bem a razão especulativa declarandoa incapaz de perce ber a realidade e sujeita a perpétuas ilusões não trata melhor a razão prática Essa também é cega e se admite algumas verdades como a liber dade e a imortalidade da alma a realidade do mundo a existência de Deus admiteas não como conclusões de uma demonstração mas unica mente como postulados atingidos pela fé isto é por uma certeza subjetiva e destituída de toda evidência A que estado reduziram esses filósofos transcendentais a pobre razão humana Mas escutemos o que diz acerca destes postulados de Kant um célebre escritor que por fim percebeu toda a vaidade e o absurdo deste sistema Falamos de Ausonio Franchi que na Última crítica escreve as linhas seguintes Absurda e impossível tornase toda a saída da consciência razão prática fora de si mesma e toda a per cepção de verdades transcendentes apesar de todo o recurso a qualquer postulado E por onde havia de ir a consciência saindo fora de si se fora dela não há nada E como poderia ela conhecer as verdades transcen dentes se além ou acima dela não há nada Os postulados que haviam de fazer o grande milagre referemse à existência de Deus à liberdade e à imortalidade da alma Pois bem postular seriamente a existência de Deus quando se tem dito que Deus com a sua existência é um abismo de contradições postular a liberdade e a imortalidade da alma quando se tem dito que a alma é um ente imaginário não é porventura postular que a filosofia se transforme em comédia e que a razão se reduza por si de propósito ao estado de loucura raciocinante É certo que se alguém racio cinasse deste modo em qualquer outra matéria nas ocorrências da vida privada doméstica civil seria tido por todos sobretudo pelos criticistas como um demente digno de ser recomendado à psiquiatria e ao manicô mio e deverá depois admirarse como eminentemente científico e superlativamente filosófico esse modo de raciocinar sobre matérias de metafísica e de psicologia Vol II p 430 267 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE e O criticismo falso nos seus fundamentos e na sua essência não é me nos falso nas suas consequências porquanto é a destruição da verdade da ciência experimental da ciência especulativa da ciência prática a É a destruição da verdade A verdade como dissemos consiste na confor midade do nosso pensamento com as coisas Veritas consistit in adacquatione intellectus et rei Sum Th p I q 21 a 2 Ela é imutável porque fixo ou imutável é o elemento objetivo com que o pensamento se conforma Mas como no sistema de Kant não há uma verdade ontológica fixa e imutável ou se há é para nós completamente desco nhecida nem por consequência pode haver uma verdade lógica No entretanto não que rendo suprimir o vocábulo de verdade desvirtuaramlhe o sentido dizendo que a verdade consiste na concórdia das idéias e que por isso é a visão do que nos parece e não do que é Essa seria a verdade subjetiva e por isso mutável e subjetiva em oposição à verdade objetiva e por isso fixa e absoluta Daí a negação de todo o dogma filosófico e teológico b É a destruição de toda a ciência experimental Porquanto se o homem pode perceber unicamente as próprias idéias e não pode de modo algum atingir os objetos como são em si mesmos toda a ciência experi mental será apenas a ciência das nossas idéias será uma psicologia Diz S Tomás Si ea quae intelligimus essent solum species quae sunt in anima sequeretur quod scientiae omnes non essent de rebus quae sunt extra animam sed solum de speciebus intelligibilibus quae sunt in anima Sum Th p 1 q 85 a 2 É verdade que Kant quis limitar o seu ceticismo ou agnosticismo ao domínio do sobressensível ou da metafísica e pretendeu ser dogmático no domínio da experiência quer nas ciências físicas quer nas ciências matemáticas e geométricas que também são de algum modo experimentais mas não é com isso que se salva o valor das ciências experimentais Porquanto segundo Kant a própria percepção experimental quer no seu conjunto quer nos seus elementos não passa como vimos de uma construção ou criação do espírito que é determinada pela natureza do sujeito pensante e que seria diferente se fosse diferente essa natu reza Por isso a ciência experimental não apreende o que é na realidade mas apenas os efeitos psicológicos do nosso espírito proporcionados à sua estrutura e às suas disposições presentes Tudo é pois subjetivo Os sábios quando dizem que apresen tam os fenômenos astronômicos físicos ou biológicos não apresentam realmente senão fenômenos psicológicos que não têm relação alguma com os pri meiros Será admissível tão grande desvario Não com certeza Não é o acordo de uma idéia com outra idéia que os sábios pretendem atingir mas é o acordo cada vez mais exato e perfeito das suas idéias com a realidade com os fatos com as leis da natureza c É a destruição de toda a ciência especulativa Porquanto é pos sível por ventura uma ciência exclusivamente subjetiva Não é possível O acordo de várias idéias falsas embora logicamente ordenadas entre si não pode constituir a verdade Mas nem esse acordo é possível Com efeito todo o acordo deve ser regulado por princípios Mas se para os Kantistas não existe nenhum princípio absolutamente certo a não ser o princípio de contradição e se esse mesmo princípio é como os outros princípios um hábito cego e inato de alguns espíritos de que outros podem 268 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ser destituídos não temos a certeza absoluta de que não podemos atribuir e negar ao mesmo tempo a mesma coisa à mesma idéia E não tendo essa certeza nem pode mos estar certos de ter alcançado o acordo entre as nossas idéias e o próprio acordo é impossível Desse modo passase fatalmente do ceticismo objetivo e parcial para o ceticismo subjetivo e total para o niilismo do pensamento A destruição da ciência objetiva traz consigo a destruição de toda a ciência mesmo da subjetiva d É a destruição de toda a ciência prática Kant admite que a lei do dever proclama no fundo das nossas consciências a distinção entre o bem e o mal Mas perguntamos As idéias morais de dever de bem de mal etc são objetivas ou mera mente subjetivas Se são objetivas porque re jeita ele a objetividade das idéias teoréticas Se são meramente subjetivas e ilusórias com qual direito poderá ele impôlas a si mesmo e aos outros Kant responde que não pode impor essas idéias a ninguém por meio de uma demonstração limitase a impôlas a si mesmo por um ato de fé crê no dever na liberdade na sanção divina na imortalidade da alma e crê porque sente a necessidade de crer Por isso esse ato de fé é cego não é racional nem humano E assim a Moral a mais imperativa das ciências fundase numa crença cega que não pode imporse a ninguém Foram portanto lógicos os discípulos de Kant trans formando a Moral obrigatória em Moral facultativa e desvirtuando as idéias de dever de liberdade etc Para eles a Moral não passa de uma técnica de uma arte sem um ideal certo sem preceitos certos sem obrigações sem sanção Se uma doutrina não é criadora de forças e de felicidade senão pela certeza que tem e que dá concluímos que o criticismo tendo destruído pela base a certeza deve aniquilar todas as forças de ação e toda a felicidade da vida humana Não podemos deixar de advertir que esse ceticismo de Kant não só destrói a verdadeira Filosofia mas também a Teologia revelada Se o homem não pode nem deve aceitar nenhuma regra extrínseca de verdade absoluta e superior a ele se ele deve rejeitar tudo o que não é o produto imanente da própria personalidade toda a autoridade divina e huma na é posta de parte como coisa absurda ou inútil Nada de testemunho externo nada de Revelação sobrenatural O que se chama dogma deve sair como toda a crença e toda a regra de vida do fundo íntimo do homem deve ser o fruto do esforço vital da alma A religião que se diz revelada é o produto espontâneo da consciência humana que vai procurando um ser superior Os dogmas são concepções provisórias sujeitas a mudanças e a progressivas evoluções tendo por norma unicamente a lei do progresso humano Cf Farges La crise de la certitude T Pesch le Kantisme Os neokantistas para salvar de algum modo a certeza objetiva dos nossos conhecimentos modificaram o sistema do mestre e assim nasceram o voluntarismo o pragmatismo o dogmatismo moral e o antiintelectualismo Poucas palavras para cada uma destas opiniões a Voluntarismo Foi ensinado por Renouvier o verdadeiro funda dor do neocriticismo e seguido por Secretan Afirma que a certeza objetiva dos nossos conhe 269 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE cimentos depende não da razão naturalmente impotente para alcançar a verdade mas da livre vontade É a vontade que faz a verdade e o erro de modo que a liberdade individual é a criadora da ver dade científica e moral O voluntarismo é falso Porquanto esse sistema se explica a existência de alguns erros porque o erro depende às vezes do influxo da vontade não explica a existência de nenhuma verdade porque a percepção da ver dade é ato exclusivamente próprio da razão Depende porventura do nosso livre arbítrio que os três ângulos de um triângulo sejam iguais a dois ângulos retos Não com certeza Com muita graça dizia Fouilée ao mesmo Renouvier O dia em que bastasse a um astrônomo um ato de livre arbítrio para ver na extremidade do telescópio uma estrela seria o dia da ruína da ciência astronômica La liberté et le determinisme p 12 A verdade é e não pode deixar de ser impessoal b Pragmatismo E o sistema de Blondel W James seguidos por De Sailly Tyrrel Denis Loisy e outros Rejeita o valor do conhecimento intelectual porque todo o movimento transeunte do objeto para o sujeito como é o movimento da per cepção objetiva é impossível e sustenta que o único meio para atingir a verdade objetiva é a praxe a ação porque só o movimento do sujeito para o objeto como é o movimento da vontade é capaz de atingir o objeto Escreve Blondel A verdade e o bem só se demonstram pela ação e pelas consequências morais Laction etc O pragmatismo é falso Porquanto esse sistema ao passo que rejeita o valor do conhecimento intelectual porque afirma ser impossível o movi mento ou a ação transeunte do objeto no sujeito admite o valor da ação voluntária a qual não é senão a ação transeunte do sujeito no objeto Se a ação transeunte é por si impossível como dizem os neokantistas deve ser impossível sempre em todos os casos Além disso o pragma tismo admite que o objeto não é percebido no conhecimento especulativo mas na ação livre Ora nenhuma ação livre pode querer e atingir uma coisa que não tenha sido anteriormente percebida pela inteligência É velho mas sempre novo o aforismo nihil volitum nisi praecognitum Se a inteligência nada mostra à vontade ela nada quer c Dogmatismo moral É o sistema de Laberthonnière Afirma que não é a inteligência que alcança a certeza objetiva mas é a boa vontade e que a utilidade é o critério da verdade O dogmatismo moral também é falso Porquanto se concedemos que a boa vontade possa determinar e aplicar a inteligência a um certo objeto e que por isso é devido a essa boa vontade se um conhecimento é mais claro se uma convicção é mais forte se uma opinião escolhida é mais provável negamos com o bom senso que a vontade perceba a verdade A vontade é uma faculdade cega quer mas não vê o que quer Além disso se a boa vontade fosse a faculdade perceptiva da verdade os homens de má vontade não conheceriam nenhuma verdade sobretudo de ordem religiosa e moral o que é falso Finalmente nem tudo o que é útil é verdade Se a utilidade pode satisfazer as exigências do coração só a verdade satisfaz as exigências da inteligência 270 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 190 Transmissão do testemunho humanohistórico O testemunho humanohistórico transmitese por três meios pela tradição pelos monumentos e pela história a Tradição é a transmissão oral de um fato por uma série não interrompida de testemunhas Será evidentemente ma nifesta a ciência e a veracidade das testemunhas tradicionais se a tradição for a perpétua de modo que seja como uma cadeia formada de tantos anéis quantas são as gerações das testemunhas e estendida entre nós e a época em que o fato se deu sem nenhuma interrupção b uniforme isto é invariável e constante quanto à substância do fato c ampla por forma que cada linha da série seja representada por um grande nú mero de testemunhas d importante isto é que se refira a fatos públicos e notáveis A ausência ou o silêncio dos documentos é uma razão exclusivamente negativa que nada prova contra a tradição b Monumentos são obras de arte mais duradouras que servem para perpetuar a memória de uma pessoa ou de um acon tecimento notável tais são as estátuas as colunas os templos as pinturas as medalhas etc Os monumentos para que tenham autoridade devem ser a autênticos isto é perten centes ao tempo ao lugar às pessoas a que são atribuídos b contemporâneos dos fatos que eles representam ou das pessoas a que se referem c conformes às tradições legítimas e aos documentos certos d Antiintelectualismo É a opinião de Bergson Sustenta que tudo o que existe está sujeito a um movimento vital e contínuo e como a nossa inteligência é incapaz de perceber a vida o movimento a continuidade por isso as nossas idéias relativas a objetos fixos e imutáveis a verdades necessárias e eternas são vãs e ilusórias Apre senta um remédio para tornar possível a metafísica objetiva e o remédio é a intuição Não menos inaceitável é a opinião de Bergson A asserção que a nossa inteli gência não percebe o movimento a vida a continuidade é gratuita e contrária à experi ência Além disso é falso que as nossas idéias rela tivas às essências e aos primeiros princípios sejam vãs e ilusórias Elas são tão fixas e imutáveis como o são os objetos representados Nem pode ser admitido o remédio apresentado por esse escritor A intuição seria para ele uma nova faculdade substituída à inteligência uma espécie de instinto consciente Ora repugna que possa existir um instinto con sciente uma faculdade dotada ao mesmo tempo de instinto e de reflexão Uma intuição sem idéias é uma contradição porque é uma visão que não é visão Notamos que para Bergson o instinto perdido pelo homem quando na evolução deixou de ser puro animal só pode recuperarse e tor narse consciente por um esforço violento e doloroso do espírito Como se vê a inventiva de Bergson não é menos genial que a do seu Kant 271 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE c História é a narração metodicamente escrita de fatos notáveis para instrução da humanidade Um livro histórico será meio seguro para a aquisição da verdade se for genuíno inteiro e verídico a Um livro dizse genuíno se realmente foi escrito pelo autor a quem o atribuem ou pertence ao tempo a que o referem No caso contrário dizse apócrifo O livro será genuíno 1º se for atribuído a um certo autor por uma tradição nunca interrompida que vem desde o tempo em que o livro apareceu até nós 2º se o estilo e as circunstâncias da narração convierem à pessoa do autor 3º se concordar com os códices mais antigos 4º se não houver argumentos positivos que neguem a sua genuinidade b Um livro é inteiro quando se conserva tal qual foi escrito pelo autor Deixa de ser inteiro quando ou por mutilação se lhe tirou alguma coisa que o autor escreveu truncado ou por interpolação se lhe acrescentou uma coisa que o autor não escreveu interpolado O livro será inteiro 1º se o estilo a forma e as doutrinas forem sempre coerentes 2º se alguns trechos citados por outros autores estiverem conformes com os respectivos do livro ou só diferirem em coisas de pe quena importância c Um livro é verídico quando refere os fatos como estes se deram O livro será verídico se o escritor possui ciência e probidade O escritor possui ciência quando os fatos que narra são públicos notáveis e observados por muitas testemunhas quando nenhum escritor contemporâneo se levantou para contradizer o fato narrado principalmente se assim o exigia o interesse de muitas pessoas quando a tradição e os monumentos confirmam a narração O escritor possui a probidade quando é homem de bem e honesto ou escreveu por autoridade pública ou contou fatos contrários ao seu interesse ou à sua glória1 1 Não basta demonstrar que um livro é genuíno inteiro e verídico é necessário sabêlo interpretar Para isso serve a hermenêutica a Hermenêutica Hermenêutica é a arte que nos ensina a interpretar o sentido das palavras de um escritor b Elementos para a interpretação de um livro Para se conhecer o verdadeiro sentido das palavras de um escritor deve atenderse aos seguintes ele mentos gramatical lógico sistemático e histórico a O elemento gramatical é formado pelas palavras e frases que o escritor empregou para manifestar o seu pensamento b O elemento lógico consiste nas relações existentes entre as diversas idéias ou pensamentos que do livro constarem 272 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA CAPÍTULO TERCEIRO Método Sumário Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes Processo Método analítico e sintético Termo do movimento Ciência ARTIGO I Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes 191 Método Método é o caminho que a inteligência deve seguir para a aquisição da ciência ou mais propriamente é a ordenada disposi ção das operações intelectuais A nossa inteligência chega ao perfeito conhecimento da verdade ou à aquisição da ciência por várias e diversas operações que devem ser convenientemente dispostas para se alcançar esse fim Tal conveniente ou ordenada disposição chamase método1 c O elemento sistemático é o laço íntimo que liga e subordina todas as partes a um centro comum de unidade Muitos escritores reduzem o elemento sistemático ao lógico e ensinam que o elemento lógico consiste na harmonia de uma parte com outra e de todas com um centro comum d O elemento histórico referese às circunstâncias biográficas que possam revelar o pensamento do próprio autor c Regras da hermenêutica A hermenêutica dá as regras para a exata interpretação desses quatro elementos a Para a interpretação do elemento gramatical é necessário lº conhecer perfeitamente não só a língua em que o livro está escrito mas também o sentido que as palavras e as frases tinham na época em que viveu o autor 2º tomar as palavras no sentido próprio e natural salvo se assim tomadas exprimirem um absurdo 3º consultar os códices manuscritos ou as edições mais fiéis e emendadas pelo autor b Para a interpretação do elemento lógico deve atenderse aos lugares parale los aos princípios que o escritor estabelece às consequências que tira às definições que formula e às semelhanças que emprega etc c Para a interpretação do elemento sistemático deve considerarse todo o contexto da obra e o escopo que o autor se propôs d Para a interpretação do elemento histórico deve atenderse ao tempo em que o autor viveu às circunstâncias que o levaram a escrever à doutrina que profes sava etc porque tudo isso concorre para manifestar e esclarecer o seu pensamento 1 A utilidade e a necessidade do método são manifestas A ciência não é um 273 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 192 Elementos do método No caminho intelectual como no material devemos distinguir três coisas o ponto de partida o processo e o termo O ponto de que parte a inteligência é constituído pelos princípios do raciocínio o processo é o modo porque a inteligência vai sucessivamente deduzindo das premissas as conclusões o termo a que se chega é a ciência O método porém consiste propriamente no processo ou movimento da inteligência Neste artigo tratamos do ponto de partida no seguinte do processo no terceiro do termo 193 O ponto de partida das demonstrações filosóficas não pode ser a dúvida universal As conclusões do racio cínio estão contidas nos princípios e destes recebem a sua luz e a sua força Ora se a dúvida universal fosse princípio dos raciocínios ou o ponto de partida das demonstrações filosóficas nenhuma conclusão seria certa e evidente porque a dúvida é a negação de toda a certeza e evidência e assim terí amos o ceticismo universal Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas não pode ser a dúvida universal1 agregado qualquer de noções mas é uma série ordenada de prin cípios e conclusões relativas a um objeto determinado Ora é o método que nos ensina o modo de coor denar os nossos conhecimentos 1 Estabeleçamos com exatidão o estado desta questão importantís sima O início do método o ponto de partida para a descoberta da verdade para a aquisição da ciência poderá ser a dúvida universal séria e real Poderemos e deveremos começar duvidando séria e realmente de tudo mesmo das coisas mais evidentes e da própria evidência Não não é possível duvidar real e seriamente das coisas mais evidentes nem da própria evidência não só porque essa disposição de espírito não depende da nossa vontade mas também porque não haveria nenhum meio eficaz para procu rar e descobrir a verdade O ponto de partida seria um ponto de imobili dade seria o sepulcro de todo o processo científico A essa questão antirracional pode substituirse esta outra começando a pro curar a verdade deveremos começar como se duvidássemos de tudo isto é deveremos partir de uma fictícia dúvida de tudo mesmo da evidência ou deveremos admitir como certos alguns princípios primeiros A essa segunda pergunta damos uma dúplice e diversa resposta conforme se trata de descobrir ou de demonstrar a verdade a Se se trata de descobrir a verdade essa dúvida fictícia e universal é possível O homem que adquiriu muitos e diversos conhecimentos pode levado por uma legítima curiosidade refletir sobre si mesmo e sobre as suas certezas espontâneas ou adquiridas para as justificar perante os seus olhos Não é que duvide real e seriamente dessas certezas mas quer exa minála cientificamente Esse exame pode 274 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ser universal sem excetuar a própria evidência Ora isso não é impossível Sendo o estado primitivo do nosso espírito uma tábua rasa na qual nada está escrito mas tudo se pode escrever e se vai escrevendo gradualmente é claro que pela reflexão podemos regressar a esse estado inicial seguir a gradual evolução das nos sas certezas espontâneos ou adquiridas e determinar a razão e o modo porque cada uma delas se gravou tão profundamente na nossa inteligência que nenhuma dúvida real tem podido abalar O resultado desse exame psicológico seria não só a eliminação de muitas opiniões vencivelmente errôneas produtos de prejuízos de paixões de leviandades mas também a convicção de que muitas certezas como a existência do mundo e de nós mesmos a aptidão natural das nossas faculdades perceptivas etc foram adquiridas não pela cega propensão da nossa mentalidade mas pela evidência imediata das coisas Deste modo a evidência objetiva aparecernosia como o motivo da todas as nossas certezas Nem há aqui uma contradição Contradição haveria se admitíssemos a evidência depois de se ter negado ou duvidado dela de um modo positivo Mas não fizemos isso Admitimos efetivamente a evidência antes do exame reflexo só no decurso desse exame fizemos abstração de todas as nossas certezas evidentes fica mos indiferentes com relação a elas para adquirirmos a convicção de que essas certezas tinham efetivamente por motivo a evidência obje tiva Uma coisa é a dúvida positiva proveniente de uma razão positiva de duvidar outra coisa é a dúvida negativa proveniente de uma ignorância fictícia de todas as certezas espontâneas mesmo da evidência É essa dúvida fictícia e universal o ponto de partida na descoberta da verdade S Tomás diz da Metafísica Ista scientia sicut habel universalem considerationem de veritate ita etiam ad eam pertinet universalis dubitatio de veritate et ideo non particulariter sed simul universalem dubitationem prosequitur In III Metaph lec I Esse exame pela verificação das nossas certe zas faz com que a nossa confiança espontânea na aptidão das nossas faculdades e na evidência objetiva se transforme em confiança reflexa as nossas certezas naturais se tornem certezas científicas e o acordo entre a atividade espontânea e a atividade reflexa da nossa natureza posto agora em evidência nos convença de que a máquina humana está maravilhosamente organizada b Se porém se trata não de descobrir mas de demonstrar aos outros uma verdade já descoberta então é evidente que o ponto de partida se pode ser a dúvida particular pelo menos fictícia da verdade demonstrável não pode ser a dúvida universal nem real nem fictícia Uma discussão com um adversário ou com um discípulo deve partir de verdades anteriormente admitidas por ambas as partes de princípios já demonstrados ou admitidos e capazes de servirem de premissas para a demonstração Sem isso toda a demonstração é absolutamente impossível Assim como nada poderia moverse se tudo precisasse de ser movido assim também nada poderia provarse se tudo precisasse de ser provado O movimento do pensamento como todo e qualquer movimento precisa de um motor não movido ou imóvel Concluímos que o ponto de partida na demonstração não pode ser a dúvida universal nem real nem fictícia Dissemos que o ponto de partida pode ser a dúvida particular pelo menos fictícia da verdade demonstrável Qual é a índole dessa verdade de que podemos legi 275 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO timamente duvidar Porquanto há verdades primárias e indemonstráveis há verdades certas e demonstráveis e há verdades duvi dosas e cognoscíveis Quanto às verdades primárias e indemonstráveis o homem não pode ter dúvida nem fictícia porque repugna a ficção de uma coisa intrinsecamente impossível e tal é a dúvida das verdades pri marias como p e é nossa existência Quanto às verdades certos e demonstráveis o homem que já as conhece como certas não pode ter uma dúvida real que seria uma mentira e uma afronta feita à própria verdade mas pode ter uma dúvida fictícia para descobrir por meio do raciocínio a razão explícita dos seus conhecimentos e a força dos motivos da sua certeza Quanto às verdades duvidosas e cognoscíveis o homem pode ter uma dúvida real que pode ser tirada por meio da investigação e do raciocínio Essa dúvida particular difere da dúvida universal dos céticos não só em razão da extensão porque uma é particular e outra é universal mas também em razão do fim porque a universal tem por fim afastar os homens da investigação da verdade ao passo que a particular os estimula para essa inve stigação e em razão do processo porque a universal é o termo da inqui sição e a particular é apenas o início Agora algumas palavras acerca do sistema de Descartes relativo à pre sente questão Esse escritor no livro Discours de la méthode estabelece a dúvida universal como o ponto de partida nas investigações e demonstra ções científicas e como meio seguro para distinguir a verdade da falsidade Damos o resumo do sistema O homem para levantar em bases firmes o edifício científico deve colocarse no estado de dúvida universal Mas principiando a duvidar de tudo logo percebe pelo testemunho da consciên cia que não pode duvidar da existência do próprio pensamento porque duvidar é pensar Admitida a existência do pensamento deve admitir a existência do sujeito pensante Daí a sentença penso logo existo Essa sentença é o primeiro princípio o fundamento de toda a filosofia e dela deriva o grande critério tudo o que é conhecido clara e distintamente é verdade Em seguida analisando os objetos do pensamento encontra na sua inteligência a idéia do infinito Nessa idéia percebese claramente a existência de Deus Logo Deus existe Se Deus existe o homem não pode enganarse nem na percepção das verdades imediatamente evidentes nem na percepção dos fenômenos externos aliás o erro refundirseia no próprio Deus Autor das faculdades humanas Do livro citado não aparece claramente se a dúvida universal é para Descartes real ou apenas fictícia É certo porém que esse escritor não é cético porque a dúvida universal não é para Descartes como é para os céticos o termo das investigações mas é apenas o início de que parte para chegar à certeza Todavia o sistema não pode admitirse pelas seguintes razões a A dúvida universal é para Descartes real ou fictícia Se é real ela é impossível como estado normal do nosso espírito Há verdades tão evi dentes que se impõem ao nosso espírito sem nos deixarem a possibilidade da dúvida Se é fictícia é impos sível como fundamento das demonstra ções Duvidando de tudo mesmo dos primeiros princípios da razão e da nossa capacidade de alcançar a verdade não é possível resolver 276 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA a dúvida por meio do raciocínio que supõe como coisas certas aqueles princípios e aquela capacidade Diz muito bem Rabier Descartes meteuse no estado de um homem que pelo receio de se apartar do verdadeiro caminho corta as próprias pernas e assim não pode dar mais um passo Logique b Descartes começa por admitir como certo um só fato a existência do pensamento Mas um fato embora incontestável embora verdade real se não é esclarecido por um princípio racional por uma verdade ideal perma nece sempre estéril infecundo Se penso que consequência poderá daí tirar a ciência Se penso responde Descartes existo eis a consequência Mas não vê ele que essa consequência não se pode tirar e não se tirou senão pela aplicação de um princípio ideal o princípio de causalidade de que ele duvida e que todavia admite como certo Sendo assim a dúvida universal de Descartes não é universal Mas se a sua boafé está salva a sua lógica está muito comprometida c A célebre sentença penso logo existo é na opinião de Des cartes o primeiro princípio o fundamento de toda a filosofia e dela deduz três coisas o princípio tudo o que é concebido clara e distinta mente é verdade a existência de Deus percebida claramente na idéia de Deus a veracidade das nossas faculdades fundada na própria veracidade de Deus Ora essa sentença penso logo existo quer seja um raciocínio como diz Gassendi quer seja a simples análise de um fato interno como pensa Cousin não pode ser o primeiro princípio de toda a demonstração filo sófica não só porque o primeiro princípio não pode ser um fato como é a existência do pensamento mas também porque o primeiro princípio é como vimos o de contradição Além disso aquele princípio tudo o que é concebido de um modo claro e distinto é verdade é uma consequência de um fato e de um fato particular como é a existência do pensamento de Descartes Ora se esse escritor dúvida de todos os primei ros princípios não tem o direito de generalizar um fato particular nem pode deduzir dele uma regra geral aplicável a todos os fatos d Descartes demonstra a veracidade da nossa razão pela existência e vera cidade de Deus e a existência e a veracidade de Deus pela veracida de da nossa razão e assim demonstra o primeiro pelo segundo e o segun do pelo primeiro o que é um círculo vicioso Do fato de Deus ser o princípio da ordem ontológica e de toda a existência não se segue que a idéia de Deus seja o princípio da ordem lógica e de todos os nossos conhecimentos e Esse sistema leva ao idealismo Descartes somente tem como certo o tes temunho da consciência Mas a consciência é uma faculdade interna cuja ação está limitada à ordem subjetiva Para que pois possa o homem passar da ordem subjetiva para a objetiva é necessária uma outra facul dade distinta da consciência Como também a consciência se atesta a existência e a operação das outras faculdades não atesta a veracidade delas e não julga dos objetos próprios das outras faculdades Além disso é um contrassenso deduzir da existência da idéia do infinito a exi stência real de Deus De uma idéia só segue uma idéia e a idéia do infinito pode ser formada pela nossa inteligência f O sistema da dúvida universal não só leva ao idealismo mas tam bém ao ceticismo universal Se Descartes duvida da própria evidência não é possível admitir 277 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 194 O ponto de partida das demonstrações filosóficas deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes A demonstração consiste em deduzir de princípios certos conclusões certas Se esses princípios não são imediatamente evidentes devem ser demonstrados por outros e esses por outros e assim por diante Daí resulta que ou devemos parar num princípio que seja imediatamente evidente ou devemos subir de um princípio para outro sem nunca chegarmos a um primeiro cuja verdade seja manifesta pela simples ins peção dos termos Essa segunda hipótese não pode admitirse porque destrói toda a certeza Logo o ponto de partida das demonstrações filo sóficas deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes1 sem contradição como certa a existência do pensa mento e do sujeito pensante Se nem essa existência é certa temos o ceticismo universal se não temos a contradi ção Se esse escritor dúvida da legitimidade da razão dos sentidos externos etc porque não deveria duvidar também da legitimidade da consciência Se não duvida da legitimidade da consciência porque deveria duvidar da legitimidade da razão dos sentidos externos etc O argumento vale para todas as faculdades Logo ou temos a contradição ou o ceticismo universal 1 O início das demonstrações deve ser pois constituído por verdades ime diatamente evidentes Destas verdades umas são fundamentais e gerais enquanto devem ser pressupostas necessariamente a toda a demon stração ou discussão seja qual for o seu objeto outras são fundamentais e especiais enquanto constituem o princípio de uma ciência especial ou da parte especial de uma ciência As verdades que são fundamentais e espe ciais reduzemse de algum modo às verdades que são fundamentais e gerais As verdades que se consideram como o fundamento geral de toda a demonstração ou discussão costumam reduzirse a três e são 1º o fato da nossa existência enquanto somos seres racionais e capazes de atingir a verdade isto é de atingir as coisas como são em si mesmas 2º a existência dos objetos enquanto têm a capacidade de ser atingidos pelas nossas faculdades 3º a evidência objetiva que é o sinal que indica quando o objeto é atingido por nós e que é o motivo da nossa certeza É claro que admitindo a evidência objetiva como sinal de verdadeira percepção e mo tivo da nossa certeza devemos admitir implicitamente todas as verdades evidentes e indemonstráveis legitimadas pela sua própria evidência quer pertençam à ordem racional quer pertençam à ordem experimental Se não admitirmos esses três postulados se duvidarmos da capacidade perceptiva da inteligência ou da capacidade que o objeto tem de se manifestar ou da eficácia da evidência objetiva a demonstração não é possível Alguns filósofos admitem como postulado não a evidência objetiva mas o princípio de contradição Não nos parece aceitável essa substituição Porquanto o princípio de contradição reconhecendose ver dadeiro pela sua evidência não é ante 278 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 195 O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte racional deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes e necessárias O ponto de partida das demonstrações filosó ficas quanto à parte racional deve ser constituído por aquelas verdades em que a razão resolve por último as mesmas demonstrações e baseia toda a certeza das conclusões deduzidas Ora a razão resolve por último as suas demonstrações e baseia toda a certeza das conclusões de duzidas nas verdades imediatamente evidentes e necessárias Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte racional deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes e necessárias1 rior mas posterior à evidência Além disso o postulado deve conter de algum modo a explicação de todas as verdades Ora o princípio de contradição não explica as verdades con tingentes como a existência nossa a do mundo etc que são admitidas pela sua evidência e não por esse princípio e se mostra a possibilidade das coisas não pode mostrar a realidade delas Se um só dos três postulados indicados não é admitido pelo adversário nem pode encetarse a discussão pois as armas devem ser iguais Todavia se nesse caso não é possível o método da demonstração é possível o método da descoberta ou verificação Deve levarse o adversário a refletir sobre si mesmo a interrogar a sua consciência psicológica fazendolhe tocar com as mãos como sobre essa tábua rasa que é no princípio o nosso espírito se tem gravado a existência do eu pelo exercício do pensamento a existência dos objetos externos que atuaram em nós e nos transmitiram a própria imagem e o motivo da nossa adesão às ver dades conhecidas constituído não por um cego impulso da natureza mas pela clara intuição dos objetos Feito esse exame o adversário se estiver na boa fé não pode deixar de admitir os três postulados 1 Diz S Thomas Certitudo scientiae tota oritur ex certitudine principiorum Tunc enim illationes per certitudinem sciuntur quando resolvuntur in principia De Ver q 1 a1 Na Filosofia devemos distinguir duas partes uma racional outra experimental conforme trata da essência ou da existência das coisas Na parte racional da Filosofia a força das con clusões deriva da força das premissas Essas pre missas na mesma parte da Filosofia como em todas as ciências racionais são verdades neces sárias porque denotam uma relação necessária ou essencial entre o predi cado e o sujeito e devem ser em última análise imediatamente evidentes porque aliás não é possível a certeza científica Dizemos em última análise Porquanto não é necessário que toda a ciência racional parta de verdades imediatamente evidentes pode partir de verdades recebidas de uma ciência racional superior na qual elas possuem essa evidência imediata As verdades imediatamente evidentes constituem o ponto de partida das demonstrações na mais nobre e elevada entre todas as ciências racionais que é a Metafísica Repetimos que admitir uma verdade sem demonstração não é admitila sem motivo O motivo existe e é a evidência imediata da própria verdade 279 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 196 O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte experimental deve ser constituído por verda des imediatamente evidentes e contingentes O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte expe rimental deve ser constituído por aquelas verdades que não precisem de demonstração e que ao mesmo tempo se refiram diretamente à existência real das coisas porque só estas ver dades podem ser o fundamento sólido de raciocínios pelos quais chegamos ao conhecimento da existência real de outras coisas Ora as verdades que não precisam de demonstração e que ao mesmo tempo se referem diretamente à existência real das coisas são as verdades imediatamente evidentes e contingentes Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte experimental deve ser constituído por verdades ime diatamente evidentes e contingentes1 Objetam a inteligência na resolução das suas demonstrações para por último na veracidade das nossas faculdades Logo é dessa veracidade que deve partir a própria demonstração Resposta A inteligência quando resolve a demonstração nos princípios de que partiu servese da reflexão Ora a reflexão é ontológica e psicológica Essa con sidera o elemento subjetivo do ato aquela o elemento objetivo Se o ato se considera e se resolve no elemento subjetivo então o termo último é a veracidade das nossas faculdades e isto mostra que não se pode racionar sem que anteriormente se admita essa veracidade Mas se o ato se considera e se resolve no elemento objetivo o termo último que é o motivo último e a fonte de certeza é constituído não pela veraci dade das faculdades mas pelas verdades imediatamente evidentes e necessárias que se manifestam pela sua própria luz e nos levam ao descobrimento de outras verdades com que estão relacionadas 1 Na parte experimental da Filosofia e em geral nas ciências experimentais a força das conclusões deriva como sempre da força das premissas Estas premissas referemse à existência real das coisas e por isso são verdades contingentes porque contingente é essa existência Assim quando digo o mundo existe enuncio uma ver dade contingente porque a existência para o mundo não é absolutamente necessária mas podia ser e podia deixar de ser As premissas das demonstrações das ciências racionais não podem ser premissas das demonstrações das ciências experimentais porque de uma premissa de ordem ideal como é a premissa das ciências racionais não podemos razoavelmente passar para uma conclusão de ordem real como é a conclusão das ciências experimentais A conclusão deve ser sempre proporcionada às premissas em que está contida As verdades imediatamente evidentes e contingentes denotam fatos externos e fatos internos Se denotam fatos externos foram adquiridas pela inteligência baseada no testemunho dos sentidos externos Se denotam fatos internos foram adquiridas 280 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ARTIGO II Processo Método analítico e sintético 197 Método analítico e sintético O método dividese em analítico e sintético Analítico é o que baseado na ex periência vai dos objetos que têm mais para os que têm menos compreensão Por esse método a razão sobe dos efeitos para as causas dos fatos para as leis do todo para a parte etc Sintético é o que fundado na legitimidade da razão vai dos objetos que têm menos para os que têm mais compreensão Por esse método a razão desce das causas para os efeitos das leis para os fatos da parte para o todo etc1 pela inteligência baseada no testemunho da consciência E como o ato dos sentidos externos que é direto precede o ato da consciência que é reflexo seguese que o pro cesso filosófico devendo repetir o processo natural deve começar quanto à parte experi mental pela consideração do mundo percebido pelos sentidos externos Quando dizemos que as verdades imediatamente evidentes e contin gentes são o fundamento da Filosofia quanto à parte experimental e em geral das ciências expe rimentais referimonos ao fundamento próximo e próprio da demonstração ou da ciência porque o fundamento último e comum a todas as ciências é constituído pelas verdades necessárias e do tadas de evidência imediata 1 São pois funções do método analítico as seguintes operações a indução que de fatos particulares chega a conclusões gerais um fato particular tem maior compreensão que uma conclusão geral porque aquele exprime e contém esta a abstração que de uma idéia particular extrai uma idéia geral toda a demonstração que sobe do efeito para a causa dos fenômenos para os princípios do composto para o simples do concreto para o abstrato do particular para o geral do todo para a parte Parece contraditório o dizer que o método analítico sobe do particular para o universal e do todo para a parte Mas não o é O particular está para o universal como o todo para a parte pois o particular contém em si todas as notas do universal e mais algumas outras notas próprias São pois funções do método sintético as seguintes operações o silogismo que aplica os princípios gerais a objetos particulares a definição pela qual con sideramos o todo formado de várias partes a divisão e a classificação quando vão do gênero para a espécie e desta para os indivíduos toda a demonstração que desce da causa para o efeito dos princípios para as consequências do simples para o composto do abstrato para o concreto do universal para o particular da parte para o todo Notese que o efeito como tal tem maior compreensão que a causa pois a procedência da causa é apenas uma das notas do efeito O método analítico chamase também de invenção porque geralmente serve para descobrir a verdade de resolução porque resolve um todo nos seus 281 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 198 Diferença entre os dois métodos O método analítico segue a ordem lógica ou do conhecimento porque o efeito conhecese antes da causa os fatos antes da lei O método sintético segue a ordem real ou da natureza em que a causa precede o efeito as leis são anteriores aos fatos1 mais simples elementos empírico porque se baseia principal mente na experiência indutivo porque faz muito uso da indução para subir dos fenômenos particulares para as leis universais O método sintético denominase também de doutrina porque é mais opor tuno para ensinar a verdade descoberta de composição porque tira dos princípios universais as conclusões particulares dedutivo por que emprega especialmente a argumentação dedutiva que é o silogismo Erra pois Condillac quando reduz a análise a uma divisão e a síntese a uma composição Um e outro método manifestando a relação dos efeitos com as suas causas e destas com aqueles explicam a coisa pelos seus princípios e por isso são processos científicos e as ciências que investi gam as causas dos entes devem empregar um ou outro É necessário não confundir o método analítico com o juízo analítico nem o método sintético com o juízo sintético O método analítico indica o processo da razão que baseada na experiência sobe do particular para o universal O juízo analítico exprime uma verdade necessária em que a conveniência entre o sujeito e o predicado se conhece pela simples análise ou resolução destes dois termos O método sintético é o caminho da inteligência que do universal desce para o particular O juízo sintético é uma verdade contingente em que a relação entre o sujeito e o predicado se conhece não pela análise dos dois termos mas pela experiência 1 Estas duas palavras análise e síntese têm uma significação muito clara e determinada nas ciências naturais Assim todos entendem que a química por meio da análise resolve a água nos seus elementos para a tornar a compor por meio da síntese Mas não acontece o mesmo na Filosofia Uns consideram como análise o pro cesso que para outros é síntese Assim dividindo o gênero nas suas espécies e concluindo daquele para estas alguns julgam que é uma análise quando na realidade é uma síntese A origem desta divergência nasce da confusão que fazem entre a exten são e a compreensão das idéias entre o todo lógico e o todo real Consi deremos estas duas idéias animal e homem A idéia de animal é mais ex tensa do que a de homem mas é menos compreensiva do que esta Logo na ordem da extensão o animal é o todo o homem é a parte e quem conclui do animal para o homem realiza uma análise mas na ordem da compreensão o animal é a parte e o homem é o todo e quem conclui do animal para o homem realiza uma síntese Por isso uma análise na ordem da extensão é uma síntese na ordem da compreensão e viceversa pois o que é composto relativamente à extensão é simples relativamente a compreensão e viceversa Assim se explicam as divergências que existem entre os escritores a respeito destes dois métodos analítico e sintético 282 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 199 Regras comuns a ambos os métodos Damos as regras mais gerais comuns a ambos os métodos I Devemos principiar pelo fácil e claro e subir sucessivamente para o difícil e transcendente A razão é manifesta II O processo deve ser ordenado de modo que entre as muitas e diversas conclusões não exista lacuna mas haja um nexo íntimo e gradual III Não pode pretenderse a mesma espécie de certeza em todas e cada uma das ciências mas devemos procurar aquela certeza que corresponde à natureza da matéria tratada Erram pois os que exigem para todas as ciências a certeza matemática que é a metafísica1 200 Regras próprias do método analítico I Devemos dividir e subdividir o todo nas suas mais simples partes observando rigorosamente as leis próprias da divisão II Cada uma das partes do todo deve ser examinada e ava liada pelos princípios da razão ou da experiência conforme o todo pertence à ordem ideal ou à real III Finalmente deve atribuirse ao todo só o que se reco nheceu convir às partes2 201 Regras próprias do método sintético I Na disposição das questões devemos principiar por aquelas que são mais genéricas e ir sucessivamente descendo para as que o são menos II Na resolução dos problemas devemos primeiramente esta belecer como último fundamento dos silogismos as verda des dotadas de evidência imediata e tirar as conclusões par ticulares segundo as regras do silogismo Foi para evitar esses equívocos que no texto apresentamos as definições dos dois métodos muito explícitas dizendo que o método analítico vai dos objetos que têm mais para os que têm menos compreensão e que o sintético vai dos objetos que têm menos para os que têm mais compreensão Por isso estas palavras particular geral todo parte consideramse na sua compreensão e não na sua extensão assim quem do conceito de ani mal desce para o conceito de homem realiza um processo sintético 1 Cf S Th in II Metaph lect 5 Estando certos de uma verdade devemos pôr em prática a seguinte regra de Bossuet Não deve abando narse uma verdade demonstrada seja qual for a dificuldade de a conciliar com outra verdade 2 Como o método analítico faz muito uso da indução devem obser varse cuidadosamente todas as regras que demos para que essa espécie de argumentação seja legítima e nos leve ao conhecimento da verdade 283 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO III Não acabe o tratado sem que esteja esgotado o assunto expondo ordenadamente a existência a natureza as espécies as pro priedades e os efeitos do objeto1 202 Índole do método científico O método científico devendo levar ao conhecimento dos fenômenos pelo conheci mento das suas causas não pode ser exclusivamente analítico nem exclusiva mente sintético Não pode ser exclusivamente analítico porque pela experiência em que esse método se funda conhecemos o fenômeno era si mesmo mas não na sua causa Não pode ser exclusivamente sintético porque sem o auxílio da experiência não podemos perceber os fatos ou fenômenos e por isso nos faltará o fundamento das inves tigações e as nossas idéias não corresponderão à realidade das coisas Logo o método científico deve ser misto isto é deve ser analíticosintético2 1 Baseandose o método sintético no silogismo todas as leis que estabelece mos para a legitimidade desta forma de argumentação hão de ser escrupulosamente observadas pelos que empregam esse método 2 A ciência por ser o conhecimento de um objeto pelas suas causas adquirese no fim da síntese e não da análise porque no fim da análise conhecemos a causa pelo fenômeno ao passo que no fim da síntese co nhecemos o fenômeno pela sua causa Os filósofos não estão de acordo com relação à índole do método científico e propõem diversos métodos conforme a diversidade do meio de que na opinião deles o homem se serve para adquirir a ciência Esse meio é intrínseco ou extrínseco Se é extrínseco ou é a tradição e temos o método tradicionalista ou é o conjunto dos diversos sistemas e temos o método eclético Se é intrínseco ou é a visão de Deus conhecido por um modo direto e intuitivo e temos o método ontológico ou consiste exclusivamente nos sentidos e temos o método empírico ou é exclusivamente a razão e temos o método idealista ou é a razão auxiliada pelos sentidos e temos o método analíticosintético Logo os métodos são seis a saber tradicionalista eclético ontológico empírico idealista e analíticosintético Destes métodos faremos uma breve exposição com a crítica respectiva a Método tradicionalista Esse método seguido por Huet Bautain Lameunais Ventura faz consistir o meio dos nossos conhecimentos na tra dição ou Revelação sobrenatural pois os seus sequazes afirmam que a nossa razão é tão fraca que não pode levarnos à aquisição de nenhuma verdade Este método embora se aceite na Teologia revelada que tira os princípios da Revelação sobrenatural não pode aceitarse nas ciências hu manas cujos princípios se baseiam na luz natural da razão ou na expe riência sensível Além disso é falso que a nossa razão não possa alcançar nenhuma verdade científica sem o auxílio 284 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA da Revelação Finalmente se a razão fosse tão fraca que não pudesse chegar ao conhecimento de nenhuma verdade não poderia demonstrar o fato e a legitimidade da Revelação sobrenatural e assim nem poderíamos aceitar essa Revelação daí o ceticismo b Método eclético O método eclético chamado também sincretismo foi proposto por V Cousin Partindo do princípio que o erro é uma verdade incompleta Cousin ensina que o verdadeiro método consiste em reunir os diversos sistemas que tratam do mesmo assunto e que se completam mutuamente para assim formar um só sistema É evidente falsidade do ecletismo Primeiramente o erro não é uma verdade incompleta mas é a negação da verdade Demais é impossível reunir as diversas doutrinas filosóficas para formar um só sistema por que esse único sistema seria um cumulo de contradições Assim os mate rialistas dizem que a nossa alma é material os espiritualistas sustentam que ela é espiritual o ecletismo reuniria os dois sistemas e diria que a nossa alma é espiritual e material Poderia conceberse coisa mais absur da É verdade que alguns ecléticos mais moderados fazem consistir o seu método em tirar dos diversos sistemas só as verdades para com elas formar um corpo de doutrina Mas ainda assim esse método é incompleto exclusivamente histórico e perigoso É incompleto porque para fazer aquela escolha é necessário um outro critério baseado em princípios cer tos e o ecletismo supõe esses princípios mas não os ensina É exclu sivamente histórico quando é certo que as ciências hão de progredir não pela narração das verdades adquiridas mas pela descoberta de outras ainda não conheci das É perigoso porque sem um critério precedente seguro e firme é muito fácil cair no erro ou no ceticismo c Método ontológico O método ontológico seguido por Malebranche Gioberti Rosmini Tiberghien sequaz do panenteísmo consiste em colocar na visão intuitiva e direta de Deus e do seu conteúdo que é o mundo o meio do conhecimento das coisas criadas Tal método também deve rejeitarse Esse modo de perceber as criaturas no Criador além de ser contrário à natureza da nossa razão que se eleva ao conheci mento de Deus pelas criaturas e não viceversa é desmen tido pela nossa consciência d Método empírico O método empírico seguido pelos materialistas e positivistas Comte Littré Stuart Mill Bain Taine Wundt Spencer etc consiste em admitir como certo só o que é atestado e verificado pela experiência sensível rejei tando os princípios da razão o testemunho da consciência o valor do silogismo etc Este método é inaceitável pelas seguintes razões 1º É falso que a única fonte de certeza é a experiência sensível que os primeiros princípios da razão são falsos que o silogismo não tem valor demons trativo que o testemunho da consciência engana 2º O método empírico limitase a acumular fatos sem se importar de os anali sar severamente e de procurar as suas mais elevadas causas por isso foi chamado o método da formiga Ora esse processo é anticientífico pois não só não favorece mas até contraria o progresso das próprias ciências naturais porque estas ciências 285 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO como observa Claudio Bernard progridem não tanto pela acumulação dos fatos averiguados como pela luz da idéia que encerra a explicação dos fatos conhecidos e a antecipação dos desconhecidos Fenômenos da vida Diz Helmholtz O conhecimento dos fatos é nada a ciência só começa quando começam a descobrirse as causas e as leis desses fatos Revue scient 3º Esse método rejeita o silogismo e baseiase exclusivamente na indução Isto chamase mutilar a razão e a ciência O silogismo como dissemos longe de obstar ao progresso da indução favoreceo Porquanto a indução descobre as leis dos fenômenos sensíveis leis que são certas ou hipotéticas Ora o silogismo explica as leis certas confirma as hipotéticas e pelo método da analogia e da dependência descobre leis novas Além disso a indução como já notamos nas mãos dos materialistas e dos positivistas é uma arma inútil e sem força Na verdade esses escritores não baseando a indução no princípio de causalidade reduzemna a um sofisma qual é a passagem do particular para o geral sem razão suficiente Apraznos aqui citar o juízo que do método positivista deu M Pasteur No dis curso de recepção na Academia Francesa em 27 de abril de 1882 Pasteur censurou o positivismo por esse ter confundido a observação vulgar com a experimentação e por ter feito tão pouco uso desta última Eis as suas palavras O experimentador que interroga e explora a natureza en contrase incessantemente diante de fatos que não são ainda manifestos e não existem na maior parte senão na potência das leis naturais O desconhe cido no possível e não no realizado eis o seu domínio e para o explorar recorre a esse maravilhoso método experimental do qual se pode dizer com verdade que se não basta para tudo engana raras vezes e somente os que dele se servem mal Esse método elimina certos fatos provoca outros interroga a natureza obrigaa a responder e só se detém quando o espírito se dá por plena mente satisfeito O atrativo dos nossos estudos o encanto da ciência se assim nós podemos exprimir consiste em que em toda a parte e sempre podemos apresentar a justificação dos nossos princípios e a prova das nossas descobertas O erro de Augusto Comte e de M Littré consiste em confundir esse método com o método restrito da observação Alheios ambos à experimentação dão à palavra experiência o sentido que se lhe dá na conversação vulgar inteiramente diverso do sentido em que se toma na linguagem científica No primeiro caso a expe riência é a observação das coisas é a indução que mais ou menos legitimamente conclui do passado para o possível O verdadeiro método expe rimental vai até à prova sem réplica As condições e o resultado quotidiano do trabalho do homem de ciência dispõem o seu espírito a não atribuir uma idéia de progresso senão a uma idéia de invenção Para julgar pois do valor do positivismo o meu pensamento foi procurar nele a invenção Todavia não a encontrei M Littré e Augusto Comte acreditavam e fizeram acreditar aos espíritos superficiais que o seu sistema se baseava nos mesmos princípios de método científico que teve por fundadores Arquimedes Galileu Pascal Newton Lavoisier Foi daí que veio a ilusão dos espíritos A que erros conduz essa pretendida identidade dos dois métodos Arago dissera de Comte Ele não possui títulos matemáticos nem grandes nem pequenos 286 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 203 Índole do método das diversas ciências Todas as ciên cias não só as racionais que têm por objeto as ver dades necessárias mas também as experimentais que têm por objeto as verdades contingentes devem empregar o método analíticosintético pois esse como vimos é o método científico Quando pois se afirma que nas ciências experimentais se deve seguir o método analítico e nas ciências racionais o método sin tético deve entenderse que naquelas ciências predomina a análise com a indução e nestas predomina a síntese com o silogismo1 e Método idealista O método idealista segue um caminho contrário ao empírico e desprezando a análise e a indução emprega exclusivamente o método sintético que procede só pela dedução Este sistema que foi chamado o sistema da aranha pois esse animal tira a teia do interior do seu organismo é falso A realidade objetiva das coisas não pode adivinharse com a imaginação nem fingirse a priori mas deve ser conhecida pela experiência f Método analíticosintético O método analíticosintético seguido pelos escolásticos é o termo médio entre o empirismo e o idealismo em pregando a análise e a síntese para descobrir a verdade Pela análise examinamos os fatos ou fenômenos e por meio da indução subimos à causa desses fatos Pela síntese des cemos da causa descoberta e por meio do silogismo aplicamola aos vários efeitos que ela produz ou é capaz de produzir Newton diz O método analítico consiste em fazer experiências examinar os fenômenos e daí pela indução tirar conclu sões gerais O sintético consiste em estabelecer como princípios as causas conhecidas e averiguadas para assim explicar e confirmar os fenômenos que delas derivam Óptica lib III O método analíticosintético dizse também psicológicoracional pois auxiliase da experiência e da razão Este sistema é o verdadeiro porque corresponde à natureza do homem e à da ciência Corresponde à natureza do homem Na verdade o homem é dotado de faculdades sensitivas e intelectuais Logo no conhecimento da verdade o homem deve auxiliarse de umas e de outras sendo o conheci mento sensitivo anterior ao intelectual Ora o método analíticosintético segue essa ordem Corresponde à natureza da ciência A ciência é uma série ordenada de princípios e conclusões Os princípios conhecemse pela análise ou pela indução e as conclusões deduzemse dos princípios pela síntese ou pelo silogismo Logo o método científico deve ser analíticosintético 1 Os métodos particulares das diversas ciências excetuada a Filosofia podem reduzirse a três grupos conforme predomina em cada um deles o emprego de um destes três meios para a aquisição da verdade que são o raciocínio a experiência sensível e a autoridade O raciocínio predomina na matemática a experiência sensível nas ciências físicas a autoridade nas ciências morais Daí o método racional ou a priori o método experimental ou a posteriori o método da autoridade O método racional levanos à certeza metafísica e absoluta o experimental à certeza física e condicional o da autoridade 287 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO à certeza moral tratan dose da autoridade humana Indicaremos brevemente o método das ciências matemáticas físicas e morais reservandonos tratar do método da Filosofia no seguinte número A Método da matemática Na matemática predomina a síntese Na ver dade a matemática parte dos axiomas e das definições que se formam por meio da abstração e da análise e depois pela síntese ou dedução passa de uma quantidade para outra demonstrando pela comparação de ambas com uma terceira que uma é igual a outra Por isso a operação a que se dá o nome de análise matemática propria mente é uma síntese B Método das ciências físicas Se na matemática predomina a síntese nas ciências físicas predomina a análise As ciências físicas são naturais ou experimentais a Método das ciências naturais As ciências naturais como a Zoologia a Botânica a Geologia etc têm por fim apresentar a definição dos seres mas uma definição explicativa científica que penetre até à essência pondo em relevo a lei que preside à geração e à constituição dos próprios seres Para alcançar esse fim as ciências naturais empregam a classifi cação visto que essa operação se não for inteiramente artificial exprime o que muitas coisas têm de comum e o que têm de próprio e assim denota a essência que é composta de dois elementos um genérico e comum outro diferencial e próprio Veja se o que dissemos na Seção Primeira acerca da classificação b Método das ciências experimentais As ciências experimentais desenvol vemse principalmente pela indução Essa começa pela observação dos fenômenos progride pela suposição ou hipótese e completase pela verificação ou experimentação a A observação recolhe as circunstâncias que estiveram presentes as que faltaram e as que variaram e com elas forma três tábuas chama das por Bacon tábua da presença tábua da ausência tábua dos graus Estas tábuas podem levarnos ao conhecimento do nexo entre os fenômenos e a sua causa Mas tal nexo não passa de uma hipótese b A hipótese é indispensável na ciência porque serve para limitar os pontos da discussão e para formar o objeto da verificação c A verificação ou experimentação pode realizarse por cinco métodos dife rentes pelo método da concordância quando todas as circunstâncias que costumam acompanhar um fenômeno variam constantemente à exceção de uma essa é a causa do fenômeno pelo da diferença se um fenômeno se realiza num só dos vários casos que convêm entre si em todas as circunstâncias excetuada uma essa é a causa do fenômeno pelo da concordância e da diferença quando se começa pelo método da concordância e o da diferença serve de contraprova pelo das variares concomi tantes um fenômeno que aumenta ou diminui aumentando ou diminuindo uma causa é efeito desta causa dos restos se de um fenômeno complexo se subtrair a parte que por precedentes induções se averiguou ser efeito de uma determinada circunstância o resto do fenômeno é efeito da circunstância que ficou C Método das ciências morais Ciência morais são as que determinam as leis reguladoras dos costumes humanos As ciências morais são muito complexas 288 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 204 Índole do método da Filosofia Aplicando os princípios expostos é fácil concluir que o método que deve seguirse na Filosofia é também o analíticosintético Porquanto nas discussões filosóficas deve seguirse aquele método que é mais conforme com a índole da nossa razão Ora é próprio do homem elevarse do efeito para a causa das propriedades para a essência das coisas dos fenômenos parti culares para as leis gerais da natureza método analítico Mas não basta Devendo a ordem lógica dos conhecimentos cor responder à ordem real das coisas conhecidas é necessário fazer em seguida o caminho inverso descendo da causa para o efeito da essência para as propriedades das leis para os fenômenos método sintético Todavia dominando nesta ciência a síntese com o silogismo dizse vulgarmente que o método filosófico é sintético ainda que em rigor seja analíticosintético1 Digamos alguma coisa acerca das ciências sociológica e histórica a Método da ciência sociológica O método desta ciência é muito complexo e delicado pois exige um espírito observador dotado de senso prático de vistas elevadas e largas de grande conhecimento do coração humano como também do país e da época Não se deve facilmente deixar o antigo quando é bom mas também não se deve rejeitar uma no vidade quando essa é exigida pela mudança das circunstâncias sociais Em todo o caso dará prova de altíssima sabedoria e de generosa dedicação quem se inspirar num ideal francamente cristão que entre todos e o mais racional e o mais adequado às necessidades do homem b Método da história A história é a base das ciências morais O método da história deve evitar os dois sistemas opostos que são o hipercriticismo e a credulidade cega O hipercriticismo ao passo que aceita muitas hipóteses como certas rejeita sem razão plausível antiquíssimas tradições baseadas em sólidos fundamentos A credulidade cega aceita sem exame todas as tradições reco nhecendoas como verdadeiras 1 As opiniões dos escritores acerca de método filosófico são tan tas quantas são as que enumeramos acerca do método científico pois a Filosofia é a mais nobre entre as ciências que procedem pela luz natural da razão Por isso ao método filosófico deve aplicarse o que dissemos acerca do método científico em geral Até aqui falíamos do método de invenção isto é daquele método que nos leva ao descobrimento da verdade Restanos dizer alguma coisa acerca de método do ensino pelo qual o mestre por tal forma dirige as operações intelectuais do discípulo que este pela força da sua razão natural chega a alcançar a ciência Há três opiniões a este respeito a uns dizem que o método do ensino deve ser exclusivamente sintético b outros que deve ser analíticosintético mas a síntese deve sempre preceder a análise c outros que o 289 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO ARTIGO III Termo do movimento Ciência 205 Ciência Ciência é um sistema de conhecimentos certos rela tivos às causas ou à razão suficiente dos entes e de duzidos pela demonstração Expliquemos essa definição a Ciência é um sistema A ciência deve ser um com plexo de ver dades dispostas de modo que uma esteja subordi nada à outra e todas a uma suprema de que recebam luz e força Conclusões desconexas não formam uma ciência b É um sistema de conhecimentos certos Não há ciência sem cer teza Todavia não é sempre necessária nem sempre é possível a certeza metafísica basta a física ou a moral c É um sistema de conhecimentos relativos às causas ou à razão suficiente dos entes Todos concordam em que o conhe cimento científico se distingue do vulgar porque este observa somente os fenômenos quando método do ensino deve corresponder ao método da invenção isto é que as ciências devem ser ensinadas pelo mesmo modo porque se formaram Façamos uma breve crítica destas opiniões a A primeira opinião sustentando que o método do ensino deve ser exclusiva mente sintético é inaceitável Porquanto ninguém terá pleno conhecimento de uma ciência se embora conheça o modo de inferir dos princípios as conclusões ignora a força dos primeiros princípios de que as conclusões dependem Ora é por meio da análise que se descobrem e conhecem os primeiros princípios Assim para a perfeita aquisição das ciências naturais é preciso conhecer as observações e experiências que se fizeram para a descoberta das várias leis físicas b A segunda opinião admitindo que o método sintético deve sempre preceder o analítico é também inaceitável Na verdade quando o mestre produz a ciência no discípulo produla enquanto lhe propõe aquele mesmo processo que ele mestre empregou para chegar ao descobrimento da ver dade e assim o discípulo repete a invenção feita pelo mestre Ora esse método é analítico e por isso é falso que o método sintético deve sempre preceder o analítico c A terceira opinião sustentando que uma ciência deve ser ensinada pelo mesmo método ou processo porque foi descoberta é verdadeira Porquanto o método de invenção difere do método de ensino como a natu reza difere da arte Ora a arte é a imitação da natureza Logo o método porque se ensina uma ciência não deve diferir do método porque ela foi descoberta ou formada Assim a Física deve ensinarse por experiências feitas sob os olhos dos discípulos a Matemática pela dedução ou síntese a Filosofia pela análise e síntese etc 290 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA aquele procura as causas dos fenômenos e explica a razão porque uma coisa é o que é e não pode ser ou não é de outro modo As causas ou as razões dos entes são próximas e supremas1 d É um sistema de conhecimentos deduzidos pela demon stração Conhecimentos certos são o resultado daquela espécie de raciocínio que parte de princípios certos Essa espécie de raciocínio é a demonstração2 1 De propósito dissemos que a ciência é um sistema de conhecimen tos certos relativos às causas ou à razão suficiente dos entes Porquanto se um ente não tem sobre si uma causa de que dependa poderá ser conhe cido de um modo científico se for conhecido pela razão pela qual é o que é Assim Deus sendo o Ser subsistente pela sua essência será conhecido cientificamente pela mesma essência Que a ciência deva ocuparse das causas dos entes é coisa manifesta Verdadeira ciência é a que subministra um conhecimento perfeito O conhe cimento perfeito exige que a coisa seja presente à inteligência como é em si mesma de modo que a ordem ideal corresponda plenamente à ordem real Ora á coisa é o que é pelas suas causas ou pela sua razão suficiente Logo se a coisa não é conhecida por estas causas ou por essa razão não se encontra na inteligência como é em si mesma e por isso não é conhecida perfeitamente Diz S Tomás Scire aliquid est perfecte cognoscere ipsum hoc autem est perfecte apprehendere eius veritetem Eadem enim sunt prin cipia esse rei et veritatis ipsius Oportet ergo scientem si est perfecte cognoscens quod cognoscat causam rei scitae In I Post anal l 4 2 O termo ciência tomase em três sentidos Em sentido mais lato significa todo e qualquer conhecimento Em sentido mais restrito denota o conhecimento de uma coisa pelas suas causas Em sentido próprio indica um sistema de conhecimentos Os positivistas pretendem que a ciência deva ocuparse só do positivo isto é só do que foi percebido pela experiência sensível e não das causas Essa pretensão é absurda A ciência sossega e tranquiliza o nosso espírito Mas quando poderá o espírito descansar Só quando tiver conhecido os porquês as razões dos fenômenos que observa A ciência pois não só não deve prescindir do conhecimento das causas mas sem esse conhe cimento não é nem pode chamarse ciência Felix qui potuit rerum cogno scere causas repete com o poeta o senso comum Dizem os positivistas A experiência só mostra o fenômeno e não a causa dele A essa dificuldade responde Tyndal que é insuspeito A experiência guia sempre para uma coisa que está além do fenômeno experimental Ela produz sempre um efeito superior a si mesma e toda a diferença entre um sábio eminente e um sábio medíocre consiste principal mente na faculdade da extensão ideal 5ª Conf sobre a luz Declaremos a natureza da demonstração seus elementos e espécies a Demonstração Demonstração é o raciocínio que parte de premissas certas A demonstração pois difere das outras espécies de raciocínio não quanto à 291 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO forma mas quanto à matéria porque as outras espécies pre scindem daquela certeza nas suas premissas Advertimos que demonstração em geral é o raciocínio pelo qual o espírito progride de uma verdade conhecida para outra desconhecida Dividese em apodítica dialética e sofística conforme parte de premissas certas prováveis ou falsas A apodítica produz a certeza a dialética a opinião a sofística o erro Só a apodítica é estritamente demonstração b Elementos da demonstração Os elementos da demonstração são qua tro a saber tese princípio meio e conclusão A tese é a verdade que deve ser demons trada o princípio é a proposição maior em que se funda a conclusão o meio é a proposição menor exprimindo que a conclusão está contida no princípio a conclusão é a própria tese enquanto dedu zida das premissas em que estava contida Ex Tese A alma humana é imortal Princípio O espírito é imortal Meio Ora a alma humana é espírito Conclusão Logo a alma humana é imortal Digamos alguma coisa acerca dos quatro elementos da demonstração a A tese deve ser uma verdade que deva e possa ser demonstrada aliás a demonstração será inútil ou impossível b O princípio em que se baseia a conclusão deve ser imediatamente evidente ou deve fundarse nos primeiros princípios c O meio deve indicar a causa próxima e necessária porque o predi cado convém ao sujeito d A conclusão não é sempre da mesma natureza Quando a proposição maior é um axioma e a menor é uma verdade de fato ou de experiência a conclusão é necessária e absolutamente verdadeira como neste exemplo todo o efeito tem a sua causa ora o mundo é efeito logo o mundo tem a sua causa Quando a maior é uma verdade de fato e a menor é uma proposição singular a conclusão não é necessariamente verdadeira como os mortos não ressuscitam ora Lázaro é morto logo Lázaro não ressuscita c Terminologia da demonstração Na demonstração sobretudo mate mática empregamse palavras que precisam de explicação São as seguintes a Definição Desta já tratamos na Lógica formal b Proposição teorética e prática A teorética afirma o que uma coisa é ex o triângulo é uma figura A prática declara o que se pode ou deve fazer ex devemos amar a pátria c Axioma é uma proposição teorética e indemonstrável porque a sua verdade se torna evidente pela simples inspeção dos termos d Postulado é uma proposição prática e imediatamente evidente pela simples explicação dos termos ex de um ponto podemos tirar uma linha até ao outro ponto e Teorema é uma proposição teorética que se deve demonstrar f Problema é uma proposição prática que se deve ou pode resolver 292 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 206 Objeto da ciência Objeto da ciência é tudo aquilo de que a ciência se ocupa Dividese em material e formal O material é a própria coisa que a ciência atinge assim os corpos são o objeto material da química O formal é o aspecto sob o qual a ciência considera o objeto material assim as mudanças substanciais que se realizam nos corpos formam o objeto formal da química1 g Lema é uma proposição que uma ciência presta a outra para lhe servir de base nas demonstrações h Corolário é uma proposição que emana evidentemente de outra pro posição já demonstrada e não precisa de nova demonstração i Escólio é a nota que acrescentada a uma proposição ou a esclarece ou a defende das objeções dos adversários d Espécies de demonstração A demonstração pode ser a direta e indireta b a priori e a posteriori c absoluta e relativa d pura empírica e mista a Demonstração direta e indireta É direta quando se prova que o predicado convém ao sujeito por causa de algumas propriedades que esse possui assim conclu ímos que a nossa alma é espiritual porque é indepen dente da matéria É indireta quando se conclui que uma proposição é verdadeira porque admitindose a contrária resultaria o absurdo assim provamos que os bons devem receber o prêmio pois no caso contrário darseia o absurdo que Deus é injusto b Demonstração a priori e a posteriori E a priori quando da causa descemos ao seu efeito assim pelo fato de a alma humana ser espiritual causa demonstramos que ela é imortal efeito É a posteriori quando do efeito subimos à sua causa assim da existência do mundo efeito su bimos ao conhecimento da existência de Deus causa Estas duas espécies de demonstração reunidas formam uma outra espécie que se chama circular ou regressiva e que se dá quando depois de termos subido dos efeitos para a causa descemos desta para aqueles Esse processo é de grandíssima vantagem e leva ao perfeito conhecimento das coisas e das suas relações c Demonstração absoluta e relativa É absoluta quando a conclusão se infere de premissas por si certas assim a existência de Deus demonstrase pela contingência das coisas visíveis É relativa quando a conclusão se tira de premissas admitidas pelos adversários embora falsas assim refutamos os céticos servindonos dos seus princípios d Demonstração pura empírica e mista É pura quando ambas as premissas são proposições analíticas E empírica quando ambas as pre missas são proposições sintéticas É mista quando uma premissa é analítica e outra é sintética 1 Por isso um objeto que é materialmente uno pode ser formal mente multíplice como também um objeto que é materialmente multíplice pode ser formalmente uno Assim o organismo animal embora seja mate rialmente uno é formalmente multíplice porque pode ser considerado sob diversos aspectos na sua constituição nos seus elementos funções mudanças etc como pelo contrário o sol a lua as plantas 293 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 207 Espécies da ciência A ciência pode ser a especulativa ou prática b racional ou experimental c subor dinada ou subordinante a Ciência especulativa ou prática É especulativa quando o seu fim único e exclusivo é a contemplação da ver dade É prática quando considera a verdade mas em ordem à operação A ciência prática distinguese da arte pois esta limitase a ensinar as regras para uma obra e aquela expõe as razões das mesmas regras1 b Ciência racional ou experimental É racional se tem por objeto as verdades conhecidas pela razão tal é a metafísica a moral a matemática etc É experimental ou empírica se tem por objeto os fatos percebidos pela experiência tal é a fisiologia a biologia a química etc2 c Ciência subordinada ou subordinante É subordinada a que depende de outra É subordinante aquela de que uma outra depende Uma ciência pode depender de outra por duas razões ou porque o fim de uma é meio com relação ao fim da outra assim a farmácia depende da medicina ou porque uma aceita como princí pios as conclusões demonstradas na superior deste modo a astronomia depende da mecânica3 os homens embora sejam muitos objetos materiais todavia constituem um só objeto formal enquanto pela sua cor se referem a um só sentido à vista 1 Arte é o conhecimento do modo de fazer alguma coisa Desenvolvese como um hábito que aperfeiçoa a natureza A arte humana é imensamente superior à dos animais pois aquela é racional consciente progres siva ao passo que essa é instin tiva inconsciente estacionária Há muitas e diversas artes mas podem reduzirse a duas espécies principais liberais e mecânicas As primeiras têm por objeto alguns atos da razão como são o raciocínio a palavra etc daí a gramática a eloquência etc As segundas aplicamse às obras corporais Entre as artes liberais e as mecânicas colocamse as belas artes pintura escultura música etc que procuram o belo como as liberais e tendem para o útil como as mecânicas 2 As ciências experimentais têm por objeto os fatos percebidos pela experiência Mas esses fatos não devem ser isolados ou simplesmente acumulados como pretendem os materialistas e os positivistas mas hão de ser explicados coordenados interpretados pela razão como pensam e ensinam os melhores naturalistas por ex C Bernard Pasteur etc Essa explicação coordenação e interpretação não pode realizarse sem os primeiros princípios da razão Dáse pois a ciência do contingente mas só enquanto esse se considera sob a luz ou reflexo do necessário e do absoluto 3 À Metafísica que é a ciência dos primeiros princípios estão e devem estar subordinadas todas as ciências racionais e experimentais se quiserem guiarse pelo 294 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 208 As ciências distinguemse pelo seu objeto formal a As ciências distinguemse pelo seu objeto Tudo o que se refere a uma coisa distinguese por ela assim a vista é distinta do ouvido porque a cor é distinta do som Ora as ciências referemse ao seu objeto pois esse é o termo da ciência Logo as ciências distinguemse pelo seu objeto b As ciências distinguemse pelo seu objeto formal As ciências devem distinguirse pelo objeto a que elas imediata e principalmente se referem Ora o objeto a que as ciências imediata e principalmente se refe rem é o formal Logo as ciências distinguemse pelo seu objeto formal1 209 Classes supremas das ciências As classes supre mas das ciências são cinco a saber Física Matemática Metafísica Lógica e Moral Na verdade as ciências distinguemse pelo seu objeto formal O objeto formal das ciências é o abstrato pois tudo o que a nossa inte ligência conhece conheceo enquanto é abstrato Logo as classes das ciências serão tantas quantos forem os diferentes graus de abstração senso comum Não podemos conceber como possa ter havido e possa ainda haver espíritos tão desvairados que expulsassem e pretendam expulsar a Metafísica do número das ciências Mas disto ocuparnosemos em breve 1 A nossa ciência depende realmente do objeto Uma ciência sem um objeto que se conheça é um absurdo porque se conhecemos conhecemos alguma coisa que é o objeto e o termo do conhecimento Portanto a ciência depende realmente do objeto E não é o contrário isto é o objeto não depende realmente da nossa ciência Porquanto o conheci mento que temos de um objeto pode acabar ou pode mesmo não ter exi stido sem que por isso acabe o objeto Sendo o objeto o termo da ciência é claro que a ciência se distingue e se especifica pelo seu objeto como todo o caminho se distingue e se especifica pelo seu termo Todavia como provamos no texto a ciência distinguese pelo objeto enquanto esse se considera formalmente De onde se segue que a unidade ou a multipli cidade das ciências deriva não da unidade ou multiplicidade do objeto material pois muitos objetos materiais podem ser considerados sob um só aspecto e assim constituir uma só ciência mas da unidade ou mul tiplicidade do objeto formal pois um só objeto material pode ser con siderado sob diferentes aspectos e constituir várias ciências Assim a filosofia é uma única ciência porque o seu objeto ainda que mate rialmente seja multíplice todavia formalmente é único porque o mundo as plantas os animais o homem com as suas operações intelectuais e morais são considerados sob um único aspecto nas suas causas supre mas A anatomia e a fisiologia são duas ciências distintas porque o objeto de ambas o organismo animal ainda que materialmente seja único toda via formalmente é dúplice visto que a anatomia considerao na sua constituição e a fisiologia nas suas funções 295 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO Ora os diferentes graus de abstração são cinco É ínfimo o grau de abstração quando prescindimos da matéria indivi dual e só consi deramos a matéria comum sujeita às mudan ças sensíveis daí a Física É superior a esse quando prescindimos também da matéria comum e sensível e só consideramos a quantidade daí a Matemática É mais alto ainda quando prescindimos da matéria comum e da quantidade e consideramos o ente imaterial na sua realidade objetiva isto é como existente em si e sem dependência do nosso pensamento daí a Metafísica É altíssimo o grau de abstração quando prescindimos de toda a realidade objetiva e consideramos o ente imaterial ou na sua entidade ideal isto é na entidade com que existe na inteligência daí a Lógica ou na sua entidade moral isto é na entidade com que existe na vontade daí a Moral Logo as classes supremas das ciências são cinco1 1 Essa classificação que é devida aos Escolásticos é a mais perfeita das muitas que se têm apresentado Na verdade ela é racional no seu fundamento e completa na sua divisão É racional no seu fundamento Porquanto o aspecto geral sob o qual a ciência considera qualquer objeto é a sua abstração pois não há ciência do concreto e por isso os diversos graus da abstração devem distinguir as diversas classes das ciências É completa na sua divisão pois não há ciência que não se reduza a alguma das cinco classes Na verdade toda a ciência ou é especu lativa ou é prática Se é especulativa está subordinada à Física ou à Matemática ou à Metafísica Se é prática está subordinada à Lógica ou à Moral conforme aperfeiçoa os atos da inteligência ou os da vontade É imenso o empenho que os modernos filósofos mostram para resolver o problema da classificação das ciências Problema que tem apenas uma importância secundária As principais classificações apresentadas pelos escritores são as de Bacon de Ampère de A Comte e de A Spencer a Bacon tomou por base da sua classificação as três faculdades da alma que são a imaginação a memória e a razão e assim divide todas as ciências em três classes À imaginação corresponde a poesia à memória a história que é civil ou natural à razão a filosofia e a teologia Esta classificação não pode aceitarse A ciência é um sistema de conhecimentos Ora os conhecimentos são diversos enquanto se reterem a diversos objetos formais As ciências pois distinguemse pelos objetos formais e não pelas faculdades cognitivas Além disso a poesia não é ciência a razão e a memória são indispensáveis em todas as ciências b Ampère toma por base da sua classificação o objeto material e assim divide as ciências em cosmológicas e noológicas segundo consideram objetos materiais ou espirituais As ciências cosmológicas dividemse em cosmológicas propriamente ditas e em fisiológicas As cosmológicas propriamente ditas são a matemática e a física As fisio lógicas são as naturais e as médicas As ciências noológicas dividemse em noológicas 296 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA propriamente ditas e em sociais As noológicas propriamente ditas são as filosóficas e as nootécnicas As sociais são as históricas e as políticas Esta classificação também é inadmissível As ciências como dissemos dis tinguemse não pelos seus objetos materiais visto que diversas ciências podem ter um e o mesmo objeto material mas sim pelos seus objetos formais assim o homem é o objeto da antropologia da medicina e da anatomia porque pode ser considerado sob diversos aspectos c Comte divide as ciências em abstratas e concretas As concre tas como a mineralogia a botânica a zoologia segundo Comte não estão ainda constituídas e por isso não as classifica As ciências abstratas que são fundamentais formam seis grupos e dispostas na sua ordem hierárquica são a matemática a astronomia a física a química a biologia e a sociologia Essa classificação baseiase na ordem lógica e cronológica das ciências Baseiase na ordem lógica Porquanto é próprio da inteligência passar do mais simples e abstrato para o mais complexo e con creto Ora nesta classificação a primeira ciência que é a matemática é mais simples e abstrata que a segunda a astronomia essa o é mais que a terceira a física etc Baseiase na ordem cronológica Com efeito a primeira ciência que se constituiu foi a mate mática depois a astronomia em seguida a física a química a biologia e por último a sociologia que é o termo de todas A classificação feita por Comte é falsa pelas seguintes razões 1ª Comte na sua classificação parte das ciências mais abstratas para chegar às mais complexas porque opina que as leis abstratas encerram a mais completa expli cação dos fatos concretos Ora isto é falso Na verda de embora um fato concreto se resolva pela análise numa lei abstrata contudo uma lei abstrata não pode dar uma explicação completa dos fatos concretos pois ficaria sempre para explicar como por quem e porque leis abstratas se uniram de um certo modo para dar em resultado um deter minado fato concreto Por outras palavras quando Comte quer explicar todos os fenômenos pelas propriedades elementares da matéria não só confunde a condição com a causa mas cai no absurdo de querer encontrar a razão do mais no menos do superior no inferior do ente no nada 2ª Comte ensina que as ciências positivas se constituíram sucessivamente seguindo a ordem cronológica indicada por ele Ora isso é falso Porquanto como observa H Spencer as ciências não se desenvolvem sucessivamente mas simultaneamente e nenhuma das que ocupam os primeiros graus tanto na ordem lógica como na crono lógica podia progredir sem o auxílio das que estão colocadas nos últimos graus De mais Comte pretende que a astronomia precedeu na sua constituição a física Ora isso não é certo porque ao determinar a posição de uma estrela é necessário ter em conta as condições que podem modificar o fenômeno da visão condições que formam o objeto da física Finalmente é impossível que as ciências abstratas precedessem na sua constituição as ciências concretas pois que na realidade o concreto precede sempre o abstrato porque este formase pela generalização daquele Nem se diga que o nosso espírito passa do simples para o composto e do abstrato para o concreto porque esse processo fazse na ordem racional mas não na ordem experimental e todos sabem 297 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 210 Redução das ciências a estas classes Não há ciência que se não possa reduzir a alguma destas classes a A ciência física abrange a física que estuda as mudanças aci dentais dos corpos a química que se ocupa das mudanças substanciais dos mesmos corpos a astronomia que estuda os astros a geologia que considera a terra na sua constituição íntima a fisiologia que tem por objeto as funções regulares do organismo animal a biologia que tem por objeto a vida em geral etc b A ciência matemática compreende a aritmética que é a parte elementar da ciência dos números a álgebra que simplifica e generaliza as questões relativas aos números a geometria que estuda as formas as propriedades e as medidas da extensão etc c A ciência metafísica abrange a ontologia que trata do ente em geral a cosmologia que se ocupa do mundo a antropologia que estuda o homem a teodiceia que procura conhecer a existência e a perfeição do Ente Infinito com a luz natural da razão que os positivistas só aceitam o método experimental Cf Ferraz Socialisme naturalisme et positivisme ch VI 3ª Comte e os positivistas ensinando que só pode ser objeto da ciência o positivo isto é o que pode perceberse pela experiência sensível ex cluem do quadro das ciências a Metafísica Mais tarde provaremos que a Metafísica é ciência Agora dizemos que os positivistas se contra dizem porquanto ao passo que só querem reco nhecer como certo o que foi verificado pela experiência sensível depois admitem como certas muitas coisas que escapam ao alcance dos sentidos Investigam a natu reza do efeito e da causa da força e da matéria do meio e do fim tentam esta belecer leis imutáveis procuram a certeza acerca das coisas sensíveis e das leis universais empregam o silogismo e a indução analisam generalizam aplicam todos os pro cessos do método discursivo Os positivistas pois excluem a Metafísica do quadro das ciências ao passo que aceitam muitas coisas que formam o objeto da Metafísica Com razão disse P Janet que o positivismo não tem de positivo senão o nome Phil fran Nem podia ser de outro modo pois como diz o próprio Fouillée positivista o homem é um animal metafísico e a Metafísica há de durar enquanto existirem cérebros humanos LAvenir de la Métaphysique d Spencer divide as ciências em abstratas abstratoconcretas e concretas Às abstratas reduzemse a lógica e a matemática às abstratoconcretas a física a química etc às concretas a astronomia a geo logia a biologia a psicologia a sociologia etc Esta classificação também não pode aceitarse Porquanto a divisão da ciência em abstrata e concreta não é racional pois toda a ciência sendo fruto da generalização é mais ou menos abstrata Essa observação vale também contra a classificação de Comte Além disso o objeto material não pode tomarse como base de classificação 298 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA d A ciência lógica compreende a glotologia que con sidera a origem e as vicissitudes da linguagem a lógica que estuda o raciocínio para a consecução da verdade etc e A ciência moral compreende a ética que trata das operações da nossa vontade enquanto se referem ao fim o direito natural que se ocupa das leis impostas aos homens por Deus Autor da natureza o direito positivo que se ocupa das leis impostas pela autoridade legí tima a pedagogia que tem por objeto a educação etc A sociologia reduzse ao direito de que é parte O direito positivo subdividese em civil penal constitucional internacional etc 1 1 As seguintes observações são importantes 1ª Não pretendemos fazer a enumeração completa de todas as ciências cons tituídas mas apenas indicar o modo porque elas poderiam ser redu zidas a alguma das cinco classes 2ª As classes supremas das ciências embora sejam distintas e irredutíveis pois os seus objetos formais são irredutíveis todavia sob diferentes aspectos estão subordinadas umas às outras Assim é principal a Moral enquanto descobre o fim último que é a regra de todos os atos da vida a Lógica enquanto é o instrumento de todas as ciências a Metafísica enquanto trata do absoluto do imutável e sobretudo do Ente supremo a Matemática e a Física enquanto são muito úteis para as artes para a indústria e para a vida material da sociedade A todas estas ciências humanas que se guiam pela luz da razão está absolutamente superior a Teologia revelada que se guia pela luz da Fé e que trata das mais altas e consoladoras verdades Entre esta e aquelas existe e não pode deixar de existir a mais perfeita harmonia Deus é um centro de luz de que partem como outros tantos raios todas as verdades e todas as ciências Por isso Deus é chamado o Senhor das ciências SINOPSE Dos tratados contidos neste volume SINOPSE DA LÓGICA lógIca Lógica é a ciência que dirige por meio de regras as operações de nossa razão para que ordenadas e facilmente alcancemos a verdade O objeto pois da Lógica é constituído pelas nossas opera ções intelectuais enquanto devem ser dispostas e ordenadas para a consecução da verdade A Lógica é arte e ciência É arte enquanto é um conjunto de regras é ciência enquanto deduz essas regras dos princípios essenciais das coisas dIVISão da lógIca A Lógica dividese em formal e material A formal ocupase da ordem com que devem disporse as opera ções intelectuais e das regras que se dirigem A material trata da verdade dos meios que empregamos para a aquisição da verdade faculdades do caminho que percorremos método do resultado que alcançamos ciência SEÇÃO I LÓGICA FORMAL dIVISão da lógIca formal A Lógica formal dividese em três capítulos no 1º tratase da idéia e do termo no 2º do juízo e da proposição no 3º do raciocínio e da argumentação A IdéIa e termo a Idéia Idéia é a simples representação intelectual de uma coisa O objetivo da idéia é a essência ou natureza das coisas Por isso a idéia é universal e necessária como é a essência Na idéia consideramse a compreensão e a extensão que estão entre si na razão inversa A com preensão conhecese pela definição a extensão pela divisão Quanto ao objeto representado a idéia é real ou lógica positiva ou negativa absoluta ou relativa intuitiva ou abstrativa unívoca ou análoga singular universal ou particular universalreflexa Quanto ao 300 SINOPSE DA LÓGICA modo de representar a idéia é clara ou obscura distinta ou confusa completa ou incompleta adequada ou inadequada A idéia uni versalreflexa pode ser espécie essência completa ou gênero elemento essencial comum ou diferença elemento essencial próprio ou pro priedade qualidade necessária ou acidente qualidade contingente As idéias consideradas objetivamente reduzemse a dez gêneros supremos que se chamam categorias e que são substância quantidade qualidade relação ação paixão localização quandocação estado e hábito b termo Termo é a expressão verbal da idéia É sinal conven cional e pode ser positivo ou negativo absoluto ou conotativo abstrato ou concreto singular universal ou particular unívoco ou particular unívoco equívoco ou análogo No termo como na idéia consideramse a compreensão e a extensão BJuízo e propoSIção a Juízo Juízo é a união ou a separação de duas idéias e por isso de dois objetos por meio da afirmação ou da negação Tem três elementos sujeito predicado e cópula Pode ser afirmativo ou negativo verdadeiro ou falso direto ou reflexo analítico ou sintético imediato ou mediato b Proposição Proposição é a expressão verbal do juízo Tem os três elementos do juízo e dividese em simples e composta A simples é analítica ou sintética universal particular ou singular afirmativa ou negativa A composta é copulativa causal condicional disjuntiva e adversativa As qualidades da proposição são três oposição con trárias subcontrárias contraditórias conversão simples acidental contraposta equivalência C racIocínIo e argumentação a racIocínIo Raciocínio é a união ou a separação de duas idéias pelo fato de ambos convirem ou uma convir e outra não com uma terceira idéia com a qual foram comparadas Os seus elementos são dois a maté ria e a forma A matéria é constituída pelas três idéias matéria remota e pelos três juízos matéria próxima A forma é a disposição das idéias e dos juízos Dividese em afirmativo que se funda no princípio de conveniência e negativo que se funda no princípio de desconveniência b Argumentação Argumentação é a expressão verbal do raciocínio Dividese em dedutiva silogismo e indutiva indução O silogismo compõese de três termos e de três proposições É simples ou composto con 301 SINOPSE DA LÓGICA forme consta de proposições simples ou de proposições compostas ou de silogismos simples O simples está sujeito a oito regras das quais quatro se referem aos termos e quatro às proposições O composto pode ser copulativo causal condicional disjuntivo adversativo ou dilema sorites polissilogismo A indução é completa ou incompleta A completa atribui ao todo um predicado que convém a cada uma das partes a incompleta atribui ao todo um predicado que convém a algumas das partes mas convém essencialmente e por isso é uma argumentação legítima SEÇÃO II LÓGICA MATERIAL dIVISão da lógIca materIal A Lógica material dividese em três capítulos no 1º trata da verdade no 2º dos meios para a aquisição da verdade no 3º do método a Verdade Verdade é a conformidade entre a inteligência e o objeto É tríplice lógica metafísica e moral Aqui tratamos da lógica que é o conhecimento enquanto é conforme com o objeto Esta é subjetiva ou objetiva imediata ou mediata necessária ou contingente ideal ou real metafísica física e moral quanto ao objeto direta e reflexa A verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo e imperfeitamente na idéia é indivisível imutável única em Deus e multíplice na criatura Os estados da nossa inteligência com relação à verdade são quatro ignorância dúvida opinião e certeza A certeza firme adesão da inteligência à verdade sem receio de errar é sub jetiva ou objetiva metafísica física ou moral direta ou reflexa natural ou sobrenatural Ela existe daí a verdade do dogmatismo e a falsidade do ceticismo e é proporcionada à inteligência e ao motivo A certeza sobrenatural é superior à certeza natural O universal e supremo motivo da certeza é a evidência do objeto A certeza supõe a objetividade das idéias universais A idéia universal tanto direta como reflexa é objetiva e tem o fundamento próximo nas coisas criadas e o fundamento supremo na Essência infinita de Deus B meIoS para a aquISIção da Verdade Estes meios são a inteligência a razão a consciência a memória intelectual os sentidos internos e externos e o testemunho Todos são intrínsecos à exceção 302 SINOPSE DA LÓGICA do último Propriamente é a inteligência que percebe a verdade Os meios pois que enumeramos ou são a próprio faculdade intelectual que toma diversos nomes inteligência razão consciência memória conforme a diversidade dos atos que exerce ou das verdades que adquire ou são instrumentos sentido e testemunho de que ela se serve para alcançar a verdade Todos estes meios são legítimos e levam ao fim porque se empregam contanto que se observem as regras ou condições indispensáveis C método Método é o caminho que a inteligência deve seguir para a aquisição da ciência Tem três elementos o ponto de partida o processo e o termo O ponto de partida não pode ser a dúvida universal mas deve ser constituído por verdades imediatamente evi dentes necessárias quanto à parte racional contingentes quanto à parte experimental O processo é propriamente o método que é analítico ou sintético conforme vai ou dos objetos que têm mais para os que têm mais compreensão O método científico deve ser misto isto é analíticosintético O termo é a ciência que é um sistema de conheci mentos certos relativos às causas dos entes e deduzidos pela demonstração É especulativa ou prática racional ou experimental subordinada ou subordinante As ciências distinguemse pelos seus objetos formais isto é pelos diversos aspectos sob os quais se consideram as coisas Daí as cinco classes supremas de ciências a saber Física Matemática Metafísica Lógica e Moral O raciocínio que nos leva à aquisição da verdade é a demonstração baseada em princípios certos AGRADECIMENTO Aos benévolos colaboradores da campanha a restauração da verdadeira filosofia Adner Angeli Adriel Teles Alan Freitas Alan Lira Nunes Alcemyr Alves Aldrin De Carvalho Alessander Da Veiga Guimarães Alessandro Sima Alex De Oliveira Nogueira Alex Dias Alex Do Espírito Santo Alexandre Urbano Raitz Petersen Alyson Hideaki Maeda Ana Costa Ana Paula Dos Reis Ana Paula Oliveira Batista Ana Vitoria Belfort Anderson De Goulart Andre Barboza De Melo Lopes Marques André Fillipe Moraes Dos Santos André Luiz De Sousa Luiz André Luiz Lebrão André Marcelo Gomes Fortes André Misiara André Santiago Nunes Andrea Forcadell Andressa Lorena Negri Vanderlei Andrew Takeshi De Vita Ângelo Fonsêca Neto Angelo Alves Farias Antonio Medino Da Silva Antonio Alexandre De Oliveira Antônio Eduardo Da Silva Rocha Antonio Hamilton Da Silva Antonio Lucas Silva Uchôa Antonio Valter Paiva Ariel Hebert Arthur Araujo Arthur Santos Silva Aruan De Freitas Augusto Fontoura Augusto Ranzi Beatriz Sette Bernardo Vieira Emerick Boisbaudran Ferreira Negre Breno Baral Santos De Carvalho Bruno Alvares Bruno Andrade De Macedo Bruno Felipe De Souza Bruno Henrique Gomes Soares Bruno Pittella Oliveira O compêndio Elementos de Filosofia de Dom Thiago Sinibaldi veio à luz mediante a contribuição de 340 pessoas em uma campanha realizada no site editorainstitutosantoagostinhoorg O compêndio é com posto pelos volumes Lógica Metafísica I Metafísica II e Moral Listamos abaixo o nome dos colaboradores da campanha Bruno Vieira Barbosa Bruno Vignettes Caio César Valiatti Passamai Caio Lopes Alcaraz Torres Carla Aguilera Carlos Guesser Carlos Felice Zaccardelli Celso Gomes Da Silva Filho Cheiber Oliveira Meireles Meireles Claudia Lima Claudia Maiza Carvalho Godoy Cláudia Soares Do Couto Macedo Claudio Titericz Cristiane Barbara Daniel Carlos Ferreira Silva Daniel Mazzoni Daniel Pereira Volpato Danilo Gesualdo Danilo Gomes Moreira Davi Borges Rocha De Jesus David Fernando Da Silva David Amoprim Denis Bersi Rinaldi Dennis Bessada Deoclecio De Souza Guilherme Diego Soares Diego Augusto Diniz Pinto Diego Bernard Varella De Castro Latorre Diego Ribeiro Diego Tales De Lima Vidal Diego Wendell Da Silva Diogo Braz De Oliveira Douglas Oliveira Douglas Ribeiro Edison Dias Marques Eduardo Oliveira Ferreira Eduardo Trindade Eleanor Teruya Elton Minasse Eric André De Almeida E Santos Erick Bezerra Erick Menezes Eunice Aparecida Marques Senra Evaldo Dias De Oliveira Evanderson Nick Evandro Santana Silva Éverton Junior Goschel Broilo Fabiana Maria Ferreira Da Cruz Fábio Ferreira Da Cruz Fábio Henrique Silva Fabio Ramos Lorenzetti Felipe Augusto Da Silva Martins Fernando Rodriguez Fernando Caxias Filipe Melo Fortunato Baía Junior Francisco Bastos Moreno Francisco Henrique M De Lima Francisco Yuri Da Costa Rocha Frederico Zucareli Gabriel Barbosa Gabriel G Arruda Gabriel Goulart Da Silva Gabriel Idro Ozório Gabriel Longaretti Botti Gabriel Maria S Couto Cavalcante Gabriel Roriz Geovane Augusto Da Costa Tavares Geovano Santana Gerson De Freitas Gian Lucas Bagatoli Gilmar Amaral De Lima Gilson Pires Santana Giovani Diógenes Castello Branco Givaldo Pedro Silva Gradson Edgard Mesquita Graziella Pereira Vieira Guilherme De Barros Manzine Guilherme Guimarães Gustavo Altmüller Alvarez Gustavo Antônio Fontinelli Medrado Pinto Gustavo De Paula Correa Gustavo Grillo Gustavo Oliveira Handerson Ribeiro De Almeida Hugo José Mesquita Da Silva Hyago Rufino Iago Nicolas De Abreu Soares Igor Christmann Ilka Albuquerque Barbosa Israel Monteiro Jaia Junior Firmino Dos Santos Jaldo Santos Freire Janaina Casotti Janaina De Brick Jean Carlos Comandolli Jean Carlos Konnorate Jefferson Da Silva Jefferson Dos Santos Jefferson Farias Jefferson Andrade Jefferson De Sousa Leite Oliveira Jefferson Evaristo Do Nascimento Silva Jeovah Fialho De Lima Simões Jhoantan Fagundes João Alberto Haro Leite Haro João Batista Alves Pires João José Marques João Lucas Martucci Queiróz João Marcos Viana Da Costa João Victor Deboni Silva João Victor Deusdará Banci João Victor Schimanski João Victor Silva Medeiros João Vinicius De Araújo João Vitor Somenzari Johnata Jose Jonas Toigo Bittencourt Jorge Henrique Leite Josaphat Mata José Cláudio Aguiar José Edgar Girardi Jose Fabio De Alcantara Silva José Marcos De Andrade Júnior José Medeiros Josiane Olga Kammer Josimar Rodrigues Juliélton De Melo Targino Junior Volcan Karlile Da Silva Kelston Lages Kennyel Franco Laio Ferrari Souza Leandro Bitencourt Leandro Cerqueira Leandro Fernandes Da Silva Leonardo Da Costa Rosa Leonardo Dos Santos E Silva Leonardo Andrade Almeida Leonardo Antônio E Bertoglio Leonardo Dias Nascimento Leonardo Penha Salgado Costa Leonardo Sales Liebe Amorim Bione Soares Lucas Belussi Lucas Bequer Ribeiro Lucas Caldas Da Silva Lucas Carvalho Guerra Lucas Correa Lucas Dias Palhão Mendes Lucas Gabriel Rodolfo Lucas Henrique Feitosa De Mattos Lucas Inacio Da Luz Lucas Sousa Luciano Messias Simões Luciano Q Ataide Lúcio Souza Lobo Luiz Felipe Da Silva Luiz Alberto De Carvalho Júnior Luiz Alexandre Luiz Bernardo De Resende Maia Luiz Eduardo Di Domenico Luiz Felipe Rodrigues Merenciano Luiz Guilherme Schinzel Luiz Gustavo Fonseca Lourencetti Luiz Henrique Da Silva Conceição Luiz Otávio Luiz Vinícius Melo Martins Luiza Santiago Maiara Teodoro Maíra Gauer Palma Marcel Leda Noronha Macedo Marcela Nascimento Rosa Marcelo Gomes Corrêa Macedo Marcelo Martins Márcia Soares Andrade Márcio Gualberto Dos Santos Marco Real Simonetto Marcos Rafael De Lima Bartolomeu Marcos Vinicius Borges Fernandes Marcus Antonio Almeida Alencar Maria Aparecida Ramos Maria Clara Da Fonseca Marinaldo Cavalari Mário Casanova Mateus Da Silva Pereira Mateus Vieira Matheus Nascimento Oliveira Matheus Schimuneck Mauricio Vidal Dos Santos Maurício Erwin Resende Mauricio Vidal Dos Santos Max Lago Miguel Luis De Souza Souza Milane Tavares Monica Maria Roza Mozair Borges Murilo Biudes Schimmelpfeng Natali Junior Federzoni Natan Pimenta Nelson Carvalho Neto Nelson De Freitas Leite Junior Osiris Miranda Rietman Pablo De Carvalho Knierin Pablo Cânovas Padre Júnior Bezerra Paulo Coelho Paulo Henrique Boy Rodrigues Paulo Neves De Lima Paulo Godoi Paulo Roberto De Sousa Lucas Pedro E Raquel Campos Pedro Gusson Agelune Martins Pedro Henrique Zamagna Pedro Luís De Sousa Pedro Luiz Oliveira De Affonseca Rafael David Sales Machado Rafael Delanhese Rafael Gurgel Nobrega Rafael Magalhaes Cursino Santos Rafael Sanvezzo Rafael Stellzer Raimundo Felipe De Aguiar Ramon Lima Dos Santos Ramon Martins Cogo Ramon Murara Moleta Ramon Reinert Censi Raul Oliveira Rêmulo De Carvalho Renan Freitas Renan Melo Renato Da Costa Santos Muniz Renato Barbieri Ricardo Alexandre Ricardo Sandoli Senra Ricardo Técio Ii Miranda Garcia Roberto Celotti Roberto Daniel Amarilla Robson Nogueira Rodolfo Meo Rodolfo Miranda Rodrigo Augusto De Carvalho Costa Rodrigo De Abreu Rodrigo Franca Rodrigo Palmeira Rogério Lima Rogerio Regis Silva Ronaldo Bispo Dos Santos Rubens Marques Da Rosa Samuel Silva Saule Dias Sayron Herlon Soares Gomes Sebastião Pereira Pachu Sideval Ramos De Paula Silas De Carvalho Tatianne Lima Tatiany Fernandes Tauan De Oliveira Temístocles Marcelos Neto Thalys Melo Thassilene Paulo Thiago Augustus Santiago Neves Thiago Esteves Thomas Éric Da Cunha Carvalho Túlio Laraia Coutinho Urlan De Barros Valdemar Abrantes Vandeclécio Vinícius Silva Vanderlei Manoel Nascimento Vanessa Carla Dos Santos Canellas Victor Ribeiro Silva Victoria De Campos Tozzo Vinicius Kauam Almeida Da Silva Vinícius Fernando Santos Xavier Vinícius José De Lima Vitor Vilanova Vitor Hugo De Oliveira Fieni Vitor Menezes Santana Viviane Lourenci Wagner Pulido Rodrigues Walter Luis Jorge Welison Barbosa Wellington De Oliveira Wesley Dos Santos Pereira Weslley Medeiros De Faria Wilams Johnson Pereira Wiliam Carvalho Willian Vogel Winicius Ruiz De Souza Índice Encíclica Aeterni Patris 03 Aos Benévolos Leitores 23 Carta de Sua Santidade Leão XIII 30 Carta de Sua Santidade Bento XV 34 Introdução 39 LÓGICA Proêmio 51 Seção Primeira Lógica Formal Capítulo Primeiro Idéia e Termo Artigo I Idéia sua definição e análise 56 Artigo II Divisão geral da idéia 59 Artigo III Divisão da idéia universalreflexa 66 Artigo IV Redução das idéias a categorias 72 Artigo V Termo suas espécies e propriedades 79 Artigo VI Definição e divisão 83 Capítulo Segundo Juízo e Proposição Artigo I Juízo e proposição sua divisão 89 Artigo II Divisão da proposição simples 93 Artigo III Divisão da proposição composta 96 Artigo IV Qualidades das proposições 98 Capítulo Terceiro Raciocínio e Argumentação Artigo I Raciocínio seus elementos e divisão 103 309 ÍNDICE DAS MATÉRIAS Artigo II Argumentação e silogismo 106 Artigo III Silogismo simples e suas regras 111 Artigo IV Figuras e modos do silogismo 116 Artigo V Silogismo composto e sua divisão 125 Artigo VI Indução e suas espécies 131 Artigo VII Sofisma e suas espécies 137 Seção Segunda Lógica material Capítulo primeiro Verdade Artigo I Verdade sua divisão e natureza 141 Artigo II Certeza sua divisão existência e propriedades 163 Artigo III A existência da certeza e o Ceticismo 174 Artigo IV Universal e supremo motivo da certeza 177 Artigo V A certeza e a objetividade das idéias universais 192 Capítulo Segundo Meios para aquisição da verdade Artigo I Inteligência e razão 204 Artigo II Consciência e memória intelectual 217 Artigo III Sentidos externos e internos 224 Artigo IV Testemunho suas espécies e transmissão 245 Capítulo Terceiro Método Artigo I Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes 272 Artigo II Processo Método analítico e sintético 280 Artigo III Termo do movimento Ciência 289 Sinopse da Lógica 299 Agradecimento 303 Find Your Group The best way to connect with others is through a Backyard Circle A Circle is a small group of people who meet regularly to do life together and grow in their faith This could include Bible study fellowship serving or other things A Circle might be a Community Group Life Group Growth Group Care Group Serve Team or a Study Group Backyard offers Circles for families singles men women and any life stage from young adults to seniors Once you connect with a Circle youll have the opportunity to get to know others at Backyard who can encourage you on your journey Backyard offers various Circles with different formats times and locations You can find Circles that meet in person or online Some Circles are open to everyone and some are designed for people at a certain stage of life or with a specific interest Link Things Up Your Connections Matter The Circles Mission Help you get connected and discover ways to belong to a group that really fits Where to find the Mission Online mission folders for Circles and Circles Openspaces to introduce some of the ways you can get connected and build relationships with others Visit the Backyard Welcome Center See a Pastor or a Friendly Gift Box volunteer Live Mission Folder Table Circles Mission The Circles network at Backyard exists to help you grow into community so you can grow in Christ This starts with welcoming you into a community that helps you feel like you belong and then providing ways to connect you to groups serve and grow We do this through Circles a variety of them so you can find ones that fit your schedule stage of life and interests RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com fundamento racional e orientado à verdade Nesse contexto a filosofia não é uma especulação vaga ou subjetiva mas um saber rigoroso e organizado que parte de princípios racionais para alcançar conclusões verdadeiras Isso a distingue do mero senso comum ou da opinião que são instáveis e muitas vezes contraditórios A ciência filosófica pretende alcançar a verdade última dos entes o que confere à sua atividade um valor essencial para a formação intelectual e moral do ser humano 3 Unidade da Filosofia Apesar de sua aparente variedade ao abranger ontologia lógica ética psicologia entre outros ramos a filosofia conserva uma unidade intrínseca Essa unidade se estabelece não pela matéria particular que trata mas pelo modo como investiga os objetos sempre em busca das causas últimas Assim mesmo que se desdobre em diversas disciplinas filosóficas a filosofia permanece una pela sua formalidade metodológica A unidade da filosofia é semelhante à de um organismo composto por diferentes órgãos mas orientado por uma só alma Essa analogia nos permite compreender como todas as divisões da filosofia colaboram para um único fim a apreensão racional da verdade 4 Divisão da Filosofia A filosofia dividese em duas grandes áreas teórica e prática A teórica compreende a lógica a metafísica e a cosmologia a prática referese à ética que orienta a ação humana conforme a razão A filosofia teórica investiga o ser e seus princípios de maneira especulativa buscando a verdade pelo conhecimento puro já a filosofia prática aplica esse conhecimento à ação norteando a conduta humana Essa divisão é fundamental pois evidencia que o saber filosófico não se limita à contemplação mas tem implicações concretas na vida Assim como um arquiteto não apenas projeta mas edifica o filósofo não apenas pensa mas forma e transforma 5 Lógica objeto e necessidade A lógica é definida como a ciência e a arte de dirigir corretamente o entendimento Sua importância deriva da limitação da razão humana que embora seja capaz de conhecer a verdade está sujeita a erros A lógica fornece portanto os critérios e os instrumentos para pensar com clareza precisão e coerência Assim como o navegador precisa de bússola e mapas para não se perder o intelecto necessita da lógica para orientarse no mar das ideias Sua função não é produzir conhecimento novo mas garantir a validade do processo de pensar servindo como fundamento indispensável para todas as ciências 6 Divisão da lógica A lógica se divide em formal e material A lógica formal trata da forma do raciocínio regulando os atos do entendimento conceber julgar raciocinar independentemente do conteúdo Já a lógica material investiga as condições objetivas da verdade examinando o conteúdo das proposições e as relações que estabelecem Essa divisão reflete a distinção entre a correção do pensamento e a verdade do objeto pensado A lógica formal é como a gramática da mente enquanto a lógica material é sua semântica Ambas são necessárias a primeira para garantir que os pensamentos sigam uma estrutura válida a segunda para assegurar que aquilo que se pensa corresponde à realidade 7 Operações do entendimento O entendimento humano realiza três operações fundamentais a concepção da ideia ato pelo qual se representa mentalmente um objeto o juízo ato pelo qual se afirma ou se nega algo sobre o objeto e o raciocínio ato pelo qual a partir de dois ou mais juízos se conclui outro Essas operações são progressivas e interdependentes Não há juízo sem ideia nem raciocínio sem juízo Essa dinâmica mostra que o pensamento humano é ordenado por natureza e que pensar bem requer o domínio desses três momentos do intelecto A lógica nesse sentido é a arte que permite ao pensamento atingir sua plenitude operativa 8 Ideia definição A ideia é o primeiro ato do entendimento tratase da representação mental de uma essência sem afirmação ou negação É um conceito puro e simples como quando se pensa em triângulo árvore ou homem sem dizer nada sobre sua existência ou propriedades A ideia é pois o elemento fundamental de todo conhecimento já que nenhuma afirmação ou conclusão pode ser feita sem que antes se tenha formado uma ideia Nesse sentido a ideia é para o pensamento o que a matériaprima é para a construção a base indispensável 9 Objeto da ideia A ideia representa a essência de um ser isto é aquilo que faz com que um ente seja o que é Quando se forma a ideia de homem não se pensa em um indivíduo particular mas no que é comum a todos os homens a racionalidade a natureza animal e espiritual Essa essência é o objeto próprio da ideia Assim a função da ideia não é retratar o acidental ou passageiro mas captar o necessário e essencial Através da ideia o intelecto transcende a experiência sensível e alcança a inteligibilidade do real 10 Compreensão e extensão A ideia possui dois aspectos fundamentais a compreensão que indica os atributos ou notas que a constituem por exemplo homem animal racional e a extensão que indica o número de indivíduos abrangidos por ela todos os homens existentes Há uma relação inversa entre ambas quanto maior a compreensão menor a extensão e viceversa Essa distinção permite maior clareza nas definições e categorizações filosóficas facilitando o raciocínio e a comunicação do saber 11 Divisão da ideia quanto ao objeto representado As ideias podem ser classificadas conforme o modo como representam os objetos Podem ser reais ou lógicas segundo se fundam no ser ou na abstração positivas ou negativas se afirmam ou negam uma essência absolutas ou relativas se independem ou dependem de outra ideia intuitivas ou abstrativas segundo se originam da experiência ou da reflexão unívocas equívocas ou análogas dependendo da identidade diferença ou proporcionalidade do significado entre os entes representados Essas divisões são essenciais para evitar ambiguidades e estabelecer distinções conceituais rigorosas 12 Divisão da ideia quanto à extensão Conforme a quantidade de seres representados a ideia pode ser singular quando representa um só indivíduo ex Sócrates particular quando representa parte de uma classe ex alguns homens universal quando representa a totalidade de uma espécie ex todo homem Essa distinção é essencial para a formação correta dos juízos e argumentos pois a lógica depende da clareza da extensão envolvida nas proposições 13 Ideia universalreflexa A ideia pode representar elementos que compõem a essência e as propriedades de um ente São cinco os predicáveis que constituem a ideia universalreflexa gênero animal espécie homem diferença específica racional propriedade capacidade de rir acidente altura cor da pele etc 14 Redução das ideias às categorias As ideias ao representarem os entes podem ser reduzidas às dez categorias aristotélicas substância quantidade qualidade relação ação paixão lugar tempo situação e hábito Essas categorias abrangem todos os modos possíveis de ser e permitem organizar o conhecimento de forma sistemática Funcionam como uma gramática metafísica do real Tópicos 17 21 17 Regras da definição Algoritmo é um conjunto finito de instruções bem definidas que aplicadas a uma entrada produzem uma saída Este exemplo define com precisão e clareza o que é um algoritmo algo essencial nas ciências da computação Ele respeita as regras da definição é essencial foca na estrutura lógica do conceito é clara sem ambiguidade positiva afirma o que é não circular e não contém termos metafóricos 18 Divisão da ideia quanto ao modo de representar o objeto a Ideia clara e obscura Clara Número primo conceito definido de forma precisa e matematicamente verificável Obscura Consciência coletiva global expressão vaga de difícil delimitação muito usada em teorias sociológicas ou esotéricas mas sem rigor conceitual b Ideia distinta e confusa Distinta Neuroplasticidade cerebral conceito neurocientífico bem delimitado capacidade do cérebro de se reorganizar Confusa Felicidade digital usada em discursos modernos sobre bemestar online mas ainda carente de definição e delimitação acadêmica c Ideia completa e incompleta Completa O DNA humano possui quatro bases nitrogenadas adenina timina citosina e guanina Incompleta O DNA tem umas letrinhas que dizem como somos vaga informal imprecisa d Ideia adequada e inadequada Adequada Círculo é a figura geométrica plana cujos pontos estão todos equidistantes de um centro Inadequada Círculo é tipo uma roda de bicicleta a roda pode representar um círculo mas não é definição da essência 19 Divisão da ideia quanto à extensão Singular Greta Thunberg representa um único sujeito específico Particular Alguns ativistas ambientais referese a parte de um grupo maior Universal Todos os seres vivos que respiram oxigênio abrange uma classe inteira de entes com uma mesma característica essencial 20 Ideia universalreflexa Aplicação moderna aos cinco predicáveis a partir do conceito de inteligência artificial IA Gênero Tecnologia IA pertence ao gênero das tecnologias Espécie Sistemas que simulam cognição humana definição que delimita a IA dentro das tecnologias Diferença específica Capacidade de aprender e adaptarse autonomamente aquilo que distingue IA de outras tecnologias Propriedade Capacidade de prever padrões com base em dados não essencial mas própria da IA moderna Acidente Interface gráfica amigável elemento variável que pode ou não estar presente 21 Redução das ideias às categorias aristotélicas A partir do exemplo de um podcast educacional Substância Podcast em si como objeto de comunicação Quantidade Duração de 45 minutos Qualidade Interativo multimídia com linguagem acessível Relação É transmitido para alunos e exige interação com conteúdo escolar Ação O podcast transmite conhecimento Paixão É escutado pelos alunos Lugar Plataforma de streaming Spotify Deezer etc Tempo Publicação semanal às quartasfeiras Situação Está salvo em nuvem e acessível offline Hábito Usado com fone de ouvido em momento de estudo individual RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com a a filosofia não é uma human We are uncertain about this document If we had to classify it it would likely be considered human Probability breakdown 21 Generated 16 Mixed 82 Human Scan to update results 11640 characters 1783 words RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com fundamento racional e orientado à verdade Nesse contexto a filosofia não é uma especulação vaga ou subjetiva mas um saber rigoroso e organizado que parte de princípios racionais para alcançar conclusões verdadeiras Isso a distingue do mero senso comum ou da opinião que são instáveis e muitas vezes contraditórios A ciência filosófica pretende alcançar a verdade última dos entes o que confere à sua atividade um valor essencial para a formação intelectual e moral do ser humano 3 Unidade da Filosofia Apesar de sua aparente variedade ao abranger ontologia lógica ética psicologia entre outros ramos a filosofia conserva uma unidade intrínseca Essa unidade se estabelece não pela matéria particular que trata mas pelo modo como investiga os objetos sempre em busca das causas últimas Assim mesmo que se desdobre em diversas disciplinas filosóficas a filosofia permanece una pela sua formalidade metodológica A unidade da filosofia é semelhante à de um organismo composto por diferentes órgãos mas orientado por uma só alma Essa analogia nos permite compreender como todas as divisões da filosofia colaboram para um único fim a apreensão racional da verdade 4 Divisão da Filosofia A filosofia dividese em duas grandes áreas teórica e prática A teórica compreende a lógica a metafísica e a cosmologia a prática referese à ética que orienta a ação humana conforme a razão A filosofia teórica investiga o ser e seus princípios de maneira especulativa buscando a verdade pelo conhecimento puro já a filosofia prática aplica esse conhecimento à ação norteando a conduta humana Essa divisão é fundamental pois evidencia que o saber filosófico não se limita à contemplação mas tem implicações concretas na vida Assim como um arquiteto não apenas projeta mas edifica o filósofo não apenas pensa mas forma e transforma 5 Lógica objeto e necessidade A lógica é definida como a ciência e a arte de dirigir corretamente o entendimento Sua importância deriva da limitação da razão humana que embora seja capaz de conhecer a verdade está sujeita a erros A lógica fornece portanto os critérios e os instrumentos para pensar com clareza precisão e coerência Assim como o navegador precisa de bússola e mapas para não se perder o intelecto necessita da lógica para orientarse no mar das ideias Sua função não é produzir conhecimento novo mas garantir a validade do processo de pensar servindo como fundamento indispensável para todas as ciências 6 Divisão da lógica A lógica se divide em formal e material A lógica formal trata da forma do raciocínio regulando os atos do entendimento conceber julgar raciocinar independentemente do conteúdo Já a lógica material investiga as condições objetivas da verdade examinando o conteúdo das proposições e as relações que estabelecem Essa divisão reflete a distinção entre a correção do pensamento e a verdade do objeto pensado A lógica formal é como a gramática da mente enquanto a lógica material é sua semântica Ambas são necessárias a primeira para garantir que os pensamentos sigam uma estrutura válida a segunda para assegurar que aquilo que se pensa corresponde à realidade 7 Operações do entendimento O entendimento humano realiza três operações fundamentais a concepção da ideia ato pelo qual se representa mentalmente um objeto o juízo ato pelo qual se afirma ou se nega algo sobre o objeto e o raciocínio ato pelo qual a partir de dois ou mais juízos se conclui outro Essas operações são progressivas e interdependentes Não há juízo sem ideia nem raciocínio sem juízo Essa dinâmica mostra que o pensamento humano é ordenado por natureza e que pensar bem requer o domínio desses três momentos do intelecto A lógica nesse sentido é a arte que permite ao pensamento atingir sua plenitude operativa 8 Ideia definição A ideia é o primeiro ato do entendimento tratase da representação mental de uma essência sem afirmação ou negação É um conceito puro e simples como quando se pensa em triângulo árvore ou homem sem dizer nada sobre sua existência ou propriedades A ideia é pois o elemento fundamental de todo conhecimento já que nenhuma afirmação ou conclusão pode ser feita sem que antes se tenha formado uma ideia Nesse sentido a ideia é para o pensamento o que a matériaprima é para a construção a base indispensável 9 Objeto da ideia A ideia representa a essência de um ser isto é aquilo que faz com que um ente seja o que é Quando se forma a ideia de homem não se pensa em um indivíduo particular mas no que é comum a todos os homens a racionalidade a natureza animal e espiritual Essa essência é o objeto próprio da ideia Assim a função da ideia não é retratar o acidental ou passageiro mas captar o necessário e essencial Através da ideia o intelecto transcende a experiência sensível e alcança a inteligibilidade do real 10 Compreensão e extensão A ideia possui dois aspectos fundamentais a compreensão que indica os atributos ou notas que a constituem por exemplo homem animal racional e a extensão que indica o número de indivíduos abrangidos por ela todos os homens existentes Há uma relação inversa entre ambas quanto maior a compreensão menor a extensão e viceversa Essa distinção permite maior clareza nas definições e categorizações filosóficas facilitando o raciocínio e a comunicação do saber 11 Divisão da ideia quanto ao objeto representado As ideias podem ser classificadas conforme o modo como representam os objetos Podem ser reais ou lógicas segundo se fundam no ser ou na abstração positivas ou negativas se afirmam ou negam uma essência absolutas ou relativas se independem ou dependem de outra ideia intuitivas ou abstrativas segundo se originam da experiência ou da reflexão unívocas equívocas ou análogas dependendo da identidade diferença ou proporcionalidade do significado entre os entes representados Essas divisões são essenciais para evitar ambiguidades e estabelecer distinções conceituais rigorosas 12 Divisão da ideia quanto à extensão Conforme a quantidade de seres representados a ideia pode ser singular quando representa um só indivíduo ex Sócrates particular quando representa parte de uma classe ex alguns homens universal quando representa a totalidade de uma espécie ex todo homem Essa distinção é essencial para a formação correta dos juízos e argumentos pois a lógica depende da clareza da extensão envolvida nas proposições 13 Ideia universalreflexa A ideia pode representar elementos que compõem a essência e as propriedades de um ente São cinco os predicáveis que constituem a ideia universalreflexa gênero animal espécie homem diferença específica racional propriedade capacidade de rir acidente altura cor da pele etc 14 Redução das ideias às categorias As ideias ao representarem os entes podem ser reduzidas às dez categorias aristotélicas substância quantidade qualidade relação ação paixão lugar tempo situação e hábito Essas categorias abrangem todos os modos possíveis de ser e permitem organizar o conhecimento de forma sistemática Funcionam como uma gramática metafísica do real Tópicos 17 21 17 Regras da definição Algoritmo é um conjunto finito de instruções bem definidas que aplicadas a uma entrada produzem uma saída Este exemplo define com precisão e clareza o que é um algoritmo algo essencial nas ciências da computação Ele respeita as regras da definição é essencial foca na estrutura lógica do conceito é clara sem ambiguidade positiva afirma o que é não circular e não contém termos metafóricos 18 Divisão da ideia quanto ao modo de representar o objeto a Ideia clara e obscura Clara Número primo conceito definido de forma precisa e matematicamente verificável Obscura Consciência coletiva global expressão vaga de difícil delimitação muito usada em teorias sociológicas ou esotéricas mas sem rigor conceitual b Ideia distinta e confusa Distinta Neuroplasticidade cerebral conceito neurocientífico bem delimitado capacidade do cérebro de se reorganizar Confusa Felicidade digital usada em discursos modernos sobre bemestar online mas ainda carente de definição e delimitação acadêmica c Ideia completa e incompleta Completa O DNA humano possui quatro bases nitrogenadas adenina timina citosina e guanina Incompleta O DNA tem umas letrinhas que dizem como somos vaga informal imprecisa d Ideia adequada e inadequada Adequada Círculo é a figura geométrica plana cujos pontos estão todos equidistantes de um centro Inadequada Círculo é tipo uma roda de bicicleta a roda pode representar um círculo mas não é definição da essência 19 Divisão da ideia quanto à extensão Singular Greta Thunberg representa um único sujeito específico Particular Alguns ativistas ambientais referese a parte de um grupo maior Universal Todos os seres vivos que respiram oxigênio abrange uma classe inteira de entes com uma mesma característica essencial 20 Ideia universalreflexa Aplicação moderna aos cinco predicáveis a partir do conceito de inteligência artificial IA Gênero Tecnologia IA pertence ao gênero das tecnologias Espécie Sistemas que simulam cognição humana definição que delimita a IA dentro das tecnologias Diferença específica Capacidade de aprender e adaptarse autonomamente aquilo que distingue IA de outras tecnologias Propriedade Capacidade de prever padrões com base em dados não essencial mas própria da IA moderna Acidente Interface gráfica amigável elemento variável que pode ou não estar presente 21 Redução das ideias às categorias aristotélicas A partir do exemplo de um podcast educacional Substância Podcast em si como objeto de comunicação Quantidade Duração de 45 minutos Qualidade Interativo multimídia com linguagem acessível Relação É transmitido para alunos e exige interação com conteúdo escolar Ação O podcast transmite conhecimento Paixão É escutado pelos alunos Lugar Plataforma de streaming Spotify Deezer etc Tempo Publicação semanal às quartasfeiras Situação Está salvo em nuvem e acessível offline Hábito Usado com fone de ouvido em momento de estudo individual
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Bispo Titular de Tiberíades Doutor em Filosofia Teologia e Direito Canônico Membro da Academia Romana de S Tomás De Aquino Secretário da S C Dos Seminários e das Universidades Dos Estudos D O M T H I A G O S I N I B A L D I LÓGICA Volume I SACRATÍSSIMO CORDI JESU SANTO AGOSTINHO I N S T I T U T O Elementos de Filosofia Volume I lógIca Dom Thiago Sinibaldi Rua São Pedro n 48 Florianópolis SC Todos os direitos reservados É proibida toda e qualquer reprodução desta edição através de qualquer forma ou meio sem a expressa permissão do autor ImprImatur Sublaci ad Stae Scholasticae die 15 augusti anno 1927 SImon laurentIuS SalVI o S B aBBaS et ordInarIuS A presente obra é uma revisão da 5ª edição portuguesa intitulada Elementos de Philosophia de Dom Thiago Sinibaldi publicada na cidade de Roma em 1927 wwwinstitutosantoagostinhoorg Gestão editorial Ana Cláudia Colla Senra Fábio Miotto Lucas Marques Senra Suelen Cantelli Branco Miotto Preparação do texto Letícia de Paula e equipe Revisão Cristóvão Fernandes Daniel Barbara Eduardo Felipe de Oliveira revisorchefe Projeto gráfico Gislainne Alves de Oliveira Diagramação Daniel Barbara Gislainne Alves de Oliveira Suyane de Liz de Francisco D666e Dom Thiago Sinibaldi Bispo titular de Tibiríades Elementos de filosofia v1 lógica Dom Thiago Sinibaldi 5ªed Florianópolis Editora Instituto Santo Agostinho 2021 312 p 23 cm ISBN 9786599372308 1Filosofia e disciplinas relacionadas I título CDU 100 Leandra Ramos Bibliotecária CRB14698 AETERNI PATRIS ENCÍCLICA DO PAPA LEÃO XIII Sobre a restauração da filosofia cristã O Filho Unigênito do Pai Eterno que apareceu na terra para trazer a salvação à linhagem humana e a luz da sabedoria divina cer tamente trouxe um grande e admirável benefício ao mundo quando tendo que subir novamente ao céu ele ordenou aos apóstolos que que fossem e ensinassem todas as nações e deixou a Igreja por ele fundada como mestre comum e suprema dos povos Mt 2819 Pois os homens a quem a verdade libertou devem ser preservados pela verdade nem os frutos das doutrinas celestiais pelas quais o homem adquiriu saúde teriam durado muito se Cristo Nosso Senhor não tivesse constituído um magistério perene para instruir o enten dimento na fé Mas a Igreja ora animada pelas promessas de seu divino autor ora imitando sua caridade de tal forma cumpria seus preceitos que sempre teve como objetivo principal e desejo ensinar a religião e lutar perpetuamente contra os erros Para isso tende o trabalho diligente de cada um dos bispos a este fim as leis e decretos promulgados pelos Concílios e especialmente o pedido diário dos Romanos Pontífices a quem como sucessores no primado de São Pedro Príncipe dos Apóstolos pertence o direito e a obrigação de ensinar e confirmar os irmãos na fé Mas como de acordo com a advertência do Apóstolo pela filosofia e pelos discursos sedutores Col 28 as mentes dos fiéis cristãos são muitas vezes enganadas e a sinceridade da fé nos homens é corrompida os pastores supre mos da Igreja sempre julgaram ser também adequado à sua missão promover com todas as suas forças as ciências que merecem tal nome e ao mesmo tempo providenciar uma vigilância singular para que as ciências humanas sejam ensinadas em todos os lugares de acordo com a regra da fé católica e especialmente a filosofia da qual depende sem dúvida em grande medida o ensino correto das outras ciências Isso mesmo em outras coisas já vos lembramos de passagem Veneráveis Irmãos quando pela primeira vez vos fala mos por Cartas Encíclicas mas agora em razão da gravidade do assunto e da condição dos tempos somos obrigados a falarvos de 4 AETERNI PATRIS novo a fim de estabelecermos o método dos estudos filosóficos que correspondendo ao bem da fé seja acomodado à mesma dignidade das ciências humanas Se alguém fixar sua consideração na amargura de nossos tempos e abraçar com seu pensamento a condição das coisas que são realizadas pública e privadamente sem dúvida descobrirá a causa fecunda dos males tanto daqueles que nos oprimem hoje quanto daqueles que receamos consiste nas más opiniões à cerca das coisas divinas e humanas que partindo primeiro das escolas dos filósofos têm invadido todas as ordens da sociedade acolhidas por muitos Pois visto que é da natureza do homem seguir a razão como guia em suas ações se a inteligência peca em qualquer coisa sua vontade logo o seguirá e assim acontece que as falsas opiniões cuja sede está no entendimento influenciam as ações humanas e as pervertem Ao passo que por outro lado se os homens estiverem de bom juízo e se posicionarem em princípios verdadeiros e sólidos o resultado será uma grande quantidade de benefícios para o bem público e privado Não atribuímos de fato tal força e autoridade à filosofia a ponto de considerála igual à tarefa de combater e erradi car todos os erros pois quando a religião cristã foi constituída pela primeira vez veio à terra para restaurála à sua dignidade primitiva pela admirável luz da fé difundida não por palavras persuasivas de sabedoria humana mas na manifestação do espírito e do poder Cor 24 assim também no tempo presente olhamos acima de todas as coisas para a ajuda poderosa de Deus TodoPoderoso para trazer de volta a um entendimento correto das mentes do homem e dissipar as trevas do erro Mas os auxílios naturais não devem ser desprezados ou postergados os quais em benefício da sabedoria divina que forte e suavemente dispõe de todas as coisas estão à disposição da humanidade entre os quais o uso correto da filosofia é o principal Pois que não foi em vão que Deus concedeu à alma humana a luz da razão A luz adicionada da fé está longe de extinguir ou diminuir a luz adicionada da fé a virtude da inteligência que ao invés a aperfeiçoa e aumentando sua força a habilita para coisas maiores A própria ordem da Providência pede portanto que se peça apoio também para a ciência humana ao chamar os povos à fé e à 5 AETERNI PATRIS saúde plausível e sábia indústria que monumentos da antiguidade atestam ter sido praticada pelos mais préesclarecidos Padres da Igreja Estes costumavam ocupar a razão em muitos e importantes ofícios todos os quais o grande Agostinho resumiu brevemente atribuindo a esta ciência aquilo por meio do que a fé salubérrima é produzida nutrida defendida e consolidada De Trin lib XIVl Em primeiro lugar a filosofia se devidamente empregada pelos sábios pode de alguma forma pavimentar e facilitar o caminho para a fé verdadeira e preparar adequadamente os espíritos de seus alunos para receber a Revelação por isso era chamada pelos antigos umas vezes instituição prévia para a religião cristã Clem Alex Strom lib I 16 outras vezes prelúdio e auxilio do cristianismo Orig ad Greg Thaum e também é chamada pedagogo para o Evangelho Clem Alex Strom I 5 E na verdade nosso Deus benigno no que diz respeito às coisas divinas não só nos manifestou aquelas verdades que a inte ligência humana é insuficiente para conhecer mas também mani festou algumas não inteiramente inacessíveis à razão de modo que a autoridade sobrevém de Deus ao ponto e sem qualquer mistura de erro eles foram manifestados a todos Conseqüentemente os próprios sábios iluminados apenas pela razão natural conheceram demonstraram e defenderam com argumentos adequados algumas verdades que são propostas como um objeto da fé divina ou estão unidas por certos laços muito estreitos com a doutrina da fé Pois as coisas dEle que são invisíveis se vêem depois da criação do mundo considerandoas pelas obras que foram feitas ainda a Sua virtude sempiterna e a Sua divindade Rom 120 e os gentios que não têm lei mostram todavia a obra da lei escrita em seus corações Rom 215 É portanto extremamente oportuno que essas verdades mesmo reconhecidas pelos próprios sábios pagãos se tornem o benefício e a utilidade da doutrina revelada para que com efeito se manifeste que a sabedoria humana e o mesmo testemunho dos adversários também favorecem à fé cristã cujo modelo de trabalho é claro que não foi introduzido recentemente mas é antigo e foi usado muitas vezes pelos Santos Padres da Igreja Além disso essas veneráveis testemunhas e guardas das 6 AETERNI PATRIS tradições religiosas reconhecem certa forma e quase uma figura no fato dos hebreus que ao deixarem o Egito foram ordenados a carregar consigo os vasos de ouro e prata dos egípcios para que repentinamente mudassem de uso esses talheres serviriam à religião do verdadeiro Deus que antes tinha servido para ritos infames e superstições Gregório de Neocesaréia Orat paneg ad Origen louva Orígenes por isso que tendo este extraído com engenhosa habilidade muitas verdades dos pagãos considerando as como armas arrebatadas aos inimigos serviuse delas Com singular engenho para defesa da sabedoria cristã e para refutação da superstição Igualmente Gregório Nazianzeno Vit Moys E Gregório Nisseno louva e aprovam o mesmo costume de disputar de Basílio Magno Carm I Iamb 3 porém São Jerônimo encare cidamente o recomenda em Quadrato discípulo dos Apóstolos em Aristides em Justino em Irineu e em muitíssimos outros Epist ad Magn E Agostinho diz Não vemos nós com quanto ouro e prata luxuosamente vestido saiu do Egito Cipriano doutor sua víssimo e felicíssimo mártir E como saiu Lactâncio E Vitorino Optato e Hilário E para não enumerar os vivos como saíram inumeráveis gregos De doctr christ I II 40 Verdadeiramente se a razão natural deu tão excelente semente de doutrina antes de ser fertilizada com a virtude de Cristo ela certamente a produzirá muito mais abundantemente depois que a graça do Salvador res taurou e enriqueceu as forças naturais da mente humana E quem não vê que com esta forma de filosofar se abre um caminho suave e praticável para a fé No entanto a utilidade que advém dessa forma de filosofar não se circunscreve nesses limites E realmente as páginas da sabedoria divina reprovam seriamente a loucura daqueles homens que por aquelas coisas que se viam serem bens não puderam compreender Aquele que é e que não atendendo às obras desconheceram quem era o artífice Sab 13 1 Assim em primeiro lugar o grande e mais excelente fruto que se colhe da razão humana é demonstrar que existe um Deus porque pela grandeza da imagem e da criatura pode chegarse sem dúvida ao Criador delas Sab 5 5 Depois mostra razão que Deus se destaca singularmente pela reunião de todas as 7 AETERNI PATRIS perfeições primeiro pela sabedoria infinita da qual nada pode ser escondido e pela justiça suprema que nunca pode ser superada por qualquer afeto perverso e que por isso Deus não só é verdadeiro mas é a própria verdade que não pode enganarse nem enganarnos Daí se segue muito claramente que a razão humana ganha da palavra de Deus fé e autoridade plena Da mesma forma a razão declara que a doutrina evangélica brilhou desde sua origem por certos prodígios como certos argumentos da verdade e que portanto todos os que acreditam no Evangelho não acreditam irresponsavelmente como se estivessem seguindo fábulas eruditas cf 2Petr116 mas com um dom totalmente racional submetem sua inteligência e seu julgamento à autoridade divina O que porém não é de menos valor é que a razão prova claramente que a Igreja instituída por Cristo como definiu o Concílio Vaticano por causa da sua admirável propaga ção exímia santidade e inexaurível fecundidade em toda a parte por causa da unidade católica e firmeza invencível é um grande e perpétuo motivo de credibilidade e um testemunho irrefragável da sua divina missão Const Dog de Fid Cath 3 Colocando essas fundações muito sólidas ainda se requer um continuado e múltiplo uso da filosofia para que a teologia sagrada admita e receba a natureza o hábito da verdadeira ciência Porque nessa a mais nobre de todas as ciências é muito necessário que as muitas e diversas partes das doutrinas celestes sejam reunidas como um corpo a fim de que convenientemente dispostas cada qual em seu lugar e derivadas de princípios próprios permaneçam estritamente unidas entre si e finalmente que cada uma delas seja confirmada em seus próprios argumentos irrefutáveis Nem se deve passar em silêncio ou subestimar aquele conhecimento mais diligente e abundante das coisas do que dos mesmos mistérios da fé que Agostinho e outros Santos Padres elogiaram e tentaram alcançar e que o mesmo Concílio Vaticano definiu que era frutuoso Este conhecimento e inteligência serão mais perfeita e facilmente alcançados por aqueles que à integridade da vida e do estudo da fé reúnem uma engenhosidade adornada com as ciências filosó ficas especialmente ensinando o mesmo Concílio Vaticano que a inteligência dos sagrados dogmas convém ser deduzida ora da 8 AETERNI PATRIS analogia das coisas que se conhecem naturalmente ora da conexão dos mesmos mistérios entre si e com o fim último do homem Const Dogm de Fid Cath 20 Enfim também pertence à filosofia defender religiosamente as verdades ensinadas pela revelação e resistir a quem se atreva a desafiálas Nesse sentido a filosofia é altamente elogiada por ser considerada um baluarte da fé e uma firme defesa da religião Diz Clemente de Alexandria A doutrina do Salvador é perfeita em si e não carece de ninguém porque é virtude e sabedoria de Deus A filo sofia humana não faz mais poderosa a verdade mas enfraquecendo os argumentos dos sofistas contra ela e pulverizando os maliciosos estratagemas contra a verdade com razão é chamada sebe e estacada da vinha Strom lib 1 20 De fato assim como os inimigos do nome católico para lutar contra a religião muitas vezes tomam seus instrumentos de guerra da razão filosófica assim os defensores das ciências divinas tiram depósito da filosofia muitos argumentos para defenderem os dogmas da Revelação Nem se deve julgar que a fé cristã obterá um pequeno triunfo porque as armas dos adversários preparadas pela arte da razão humana para fazer o mal são vigorosa e prontamente rejeitadas pela própria razão humana Este tipo de combate religioso foi utilizado pelo próprio Apóstolo dos Gentios como recorda São Jerônimo ao escrever a Magno Paulo capitão do exército cristão e invencível orador combatendo por cristo aproveita com muita arte para argumento da fé uma inscrição casual porque aprendera do verdadeiro Davi a arrancar as armas ao inimigo e a decepar a cabeça do orgulhoso Golias com sua própria espada Epist ad Magn E a mesma Igreja não só exorta mas ordena que os doutores cristãos peçam esse auxílio da filosofia Para o V Concílio de Latrão depois de estabelecer que toda asserção contrária à verdade da fé revelada é completamente falsa porque a verdade não pode estar em contradição com a verdade Bulla Apostolici Regiminis ordena aos Doutores da filosofia que trabalhem diligentemente na solução dos argumentos falsos pois que como afirma Santo Agostinho se a razão se opõe à autoridade das Escrituras Divinas por muito especiosa que seja enganase com a semelhança da verdade porque não pode ser verdadeira Epist 143 7 9 AETERNI PATRIS Mas para que a filosofia possa produzir os frutos preciosos que recebemos é absolutamente necessário que nunca se afaste dos procedimentos seguidos pelos antigos Padres e aprovada pelo Concílio Vaticano com solene autoridade Ademais quando clara mente conhecemos que por motivos sobrenaturais devemos receber quaisquer verdades que são muito superiores à capacidade de qual quer intelecto a razão humana conhecendo sua fraqueza não ouse passar adiante nem negar essas verdades nem compreendêlas nem interpretálas livremente mas aceitandoas com absoluta e humilde fé e considerando como grande honra ser lhe permitido seguir à maneira de serva e criada as doutrinas celestes e por benefício de Deus atingilas de algum modo Em todas essas doutrinas principais que a inteligência humana não pode receber naturalmente é muito correto que a filosofia use seu método seus princípios e argumentos Não porém de uma maneira que pareça querer fugir da autoridade divina Antes de afirmar que as coisas conhecidas pela revelação gozam de uma verdade indiscutível e que aqueles que se opõem à fé também lutam com a razão justa saiba o filósofo católico que violará os diretos da fé e da razão se adotar conclusões que conhece estarem em contradição com a doutrina revelada Bem sabemos que não faltam aqueles que exaltando dema siadamente as faculdades da natureza humana defendem que a inteligência do homem uma vez submetida à autoridade divina desce da dignidade natural e como que curvada debaixo do jugo da escravidão é de tal sorte impedida que não pode atingir o ápice da verdade e da excelência Essas doutrinas no entanto estão cheias de erros e falácias e o fim a que visam é que os homens com a maior loucura e não sem crime de ingratidão rejeitem as verdades mais sublimes e respeitem espontaneamente o benefício da fé da qual até mesmo para o a sociedade civil gerou as fontes de todos os bens Por estar a mente humana encerrada em certos e muito estreitos limites está sujeita a muitos erros e a ignorar muitas coisas Pelo contrário a fé cristã confiando na autoridade de Deus ela é a infalível mestra da verdade após a qual ninguém cai nas cadeias do erro nem é abalado por ondas de opiniões incertas Portanto aqueles que com binam o estudo da filosofia com a obediência à fé cristã raciocinam 10 AETERNI PATRIS perfeitamente pressupondo que o esplendor das verdades divinas recebidas pela alma ajuda a mesma inteligência e bem longe de ofendêla em sua dignidade lhe dá muita nobreza penetração e firmeza E quando direcionam a perspicácia da engenhosidade para rejeitar as sentenças que são repugnantes à fé e aprovar aquelas que são consistentes com ela eles exercem a razão com dignidade e da maneira mais útil pois no primeiro eles descobrem as causas do erro e conhecem o defeito dos argumentos em que as mesmas se fundam Neste último porém gozam da consideração das razões com que solidamente são demonstradas e podem ser persuadidas a qualquer homem prudente Quem nega que com esse processo e exercício aumentam as riquezas do entendimento e se desenvolvem as suas faculdades há de cair no absurdo de afirmar que a distinção do verdadeiro e do falso não conduz de forma alguma à perfeição do intelecto Com razão o Concílio Vaticano recorda com estas palavras os benefícios que a fé proporciona à razão A fé livra e defende dos erros a razão e a instrui com muitos ensinamentos Const Dogm de Fid Cathol 4 E portanto o homem verdadeiramente sábio não deveria culpar a fé como inimiga da razão e das verdades naturais mas antes deveria dar graças a Deus e regozijarse veementemente porque entre as muitas causas da ignorância e em meio às ondas dos erros iluminaram a santíssima fé que como estrela amiga indica o porto da verdade excluindo todo medo do erro Pois venerados irmãos se vocês derem uma olhada na his tória da filosofia compreenderão que tudo o que dissemos até aqui é comprovado pelos fatos E certamente os antigos filósofos que careciam do benefício da fé mesmo aqueles que são considerados os mais sábios erraram muito em muitas coisas falsas e indecentes quantas incertas e duvidosas entre algumas verdadeiras eles ensi naram sobre a verdadeira natureza da divindade sobre a origem primitiva das coisas sobre o governo do mundo sobre o conheci mento divino das coisas futuras sobre a causa e o início dos males sobre o fim último do homem e a bemaventurança eterna sobre as virtudes e vícios e em outras doutrinas cujo conhecimento ver dadeiro e certo é o mais necessário à raça humana Enquanto que por outro lado os primeiros Padres e Doutores da Igreja que bem 11 AETERNI PATRIS compreenderam de acordo com o plano divino que o restaurador da ciência humana é Cristo que é virtude e sabedoria de Deus I Cor 1 24 e no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedora e da ciência Col 2 3 empreenderam averiguar os livros dos sábios antigos e confrontar as suas opiniões com as doutrinas reveladas e investigandoos cuidadosamente adotaram o que nelas parecia conforme com a verdade e corrigiram e rejeitaram tudo o mais Pois Deus infinitamente livre levantou mártires fortíssimos para a defesa da Igreja e contra a crueldade dos tiranos assim também opôs aos falsos filósofos e aos hereges homens extraordinários em sabedoria que defenderam com a ajuda da razão humana o tesouro das ver dades reveladas E assim desde os princípios da Igreja a doutrina católica teve adversários muito hostis que zombando dos dogmas e costumes dos cristãos defendiam a pluralidade dos deuses que a questão do mundo carecia de princípio e causa e que a ordem das coisas estava numa força cega e numa necessidade fatal e que não era regida pela Providência Divina Contudo com esses mestres de doutrina absurda aqueles sábios a quem chamamos de Apologistas que precedidos pela fé também usaram os argumentos da sabedoria humana com os quais estabeleceram que apenas um Deus deveria ser adorado revestido de todas as perfeições que todas as coisas foram feitas do nada por um poder onipotente subsistem de sua sabedoria e cada um se move e dirige para seus próprios fins Ocupa o primeiro lugar entre estes mártires São Justino que depois de ter percorrido as mais famosas academias dos gregos para ganhar experiência e tendo visto como ele próprio confessa que a verdade só pode ser tirada das doutrinas reveladas abraçandoas com todo o ardor de seu espírito ele as purgou das calúnias diante dos imperadores romanos e com elas concordou grande número de opiniões dos filósofos gregos Também Quadrato e Aristides Hérmias e Atenágoras de forma excelente brilharam por esse tempo Pela mesma razão Irineu mártir invicto e bispo da Igreja de Lyon não alcançou menos glória que corajosamente refutando as perver sas opiniões dos orientais difundidas graças aos gnósticos em todo o Império Romano explicou as origens de cada uma das heresias como afirma Jerônimo e de que fontes filosóficas emanavam 12 AETERNI PATRIS Epist ad Magn Todos conhecem as contendas de Clemente Alexandrino das quais o próprio Jerónimo para os homenagear lembra assim Que há nelas de ignorância E mesmo que há aí que não provenha do seio mesmo da filosofia Loc cit Ele mesmo lidou com uma incrível variedade de muitas coisas muito úteis para fundar a filosofia da história para exercer a dialética em tempo hábil para estabelecer a concórdia entre a razão e a fé Na sequência deste Orígenes insigne mestre da escola de Alexandria altamente erudito nas doutrinas gregas e orientais deu origem a muitos volumes eruditos para explicar as letras sagradas e ilustrar os dogmas sagrados Ainda que esses livros tais quais agora existem não estão totalmente isentos de erros contêm no entanto grande cópia de sentenças que multiplicam e robustecem as verdades natu rais Tertuliano luta contra os hereges com a autoridade das letras sagradas e aos filósofos mudando de armas opõelhes a filosofia Mas ele os refutou com tanta erudição e exatidão que ousou dizer Não me podeis igualar em ciência nem em doutrina como julgais Apologet 46 Arnóbio nos livros publicados contra os hereges e Lactâncio especialmente em suas instituições divinas empregam igual eloquência e valor para persuadir aos homens os dogmas e preceitos da sabedoria católica não destruindo a filosofia como costumam fazer os acadêmicos servemse para os persuadir Inst VII 7 ora das suas armas ora as que se deduzem das questões intestinas dos filófofos De Opif Dei 21 As coisas que o grande Atanásio e Crisóstomo príncipe dos oradores escreveram sobre a alma humana os atributos divinos e outros assuntos de extrema importância destacamse de tal forma na opinião de todos que parece que quase nada pode ser adicionado à sua engenhosidade e riqueza E para não ser cansativo listar cada um dos apologistas ajuntaremos aos que temos mencionado Basílio Magno bem como os dois Gregórios que saíram de Atenas empório de letras humanas grandemente instruídos em todos os recursos da filosofia converteram essas mesmas ciências que haviam adquirido com ardente estudo em refutar os hereges e instruir os cristãos Mas Santo Agostinho parece ter arrancado a primazia de tudo De um gênio mais poderoso e totalmente saturado de erudição 13 AETERNI PATRIS sagrada e profana com a mais elevada fé e com igual conhecimento ele combateu mais vigorosamente todos os erros de sua época Que assunto da filosofia não tocou e não aprofundou Que região dele ele não explorou diligentemente seja ao expor os mais elevados mistérios da fé aos fiéis seja defendendoos contra o ataque total dos adversários ou ainda quando ao demolir as fábulas dos Acadêmicos ou dos Maniqueus assentou e consolidou os fundamentos da ciência humana Com que riqueza e penetração tratou dos anjos da alma da inteligência humana a vontade e livre arbítrio da religião da vida futura do tempo da eternidade e até da mesma natureza dos corpos sujeitos a mudanças Posteriormente no Oriente João Damasceno seguindo as pegadas de Basílio e Gregório de Nazianzeno e no Ocidente Boécio e Anselmo seguindo as doutrinas de Agostinho acrescentou enormemente o patrimônio da filosofia Em seguida os Doutores da Idade Média chamados de Escolásticos empreenderam um grande trabalho recolher diligen temente as fecundas e abundantes colheitas da doutrina reformular nas volumosas obras dos Santos Padres e reunir para colocálas em um só lugar para uso e comodidade dos que virão Qualquer que seja a origem a natureza e a excelência da ciência escolar é útil aqui Veneráveis Irmãos mostrála mais difusamente com as palavras do sábio Nosso Predecessor Sixto V Pela dom dAquele que é o único a dar o espírito de ciência de sabedoria e de inteligência e que no decurso dos séculos e segundo as necessidades não cessa de enobrecer a sua Igreja com novos benefícios de provêla de novas e seguras defesa nossos antecessores homens de profunda ciência inventaram a teologia escolástica Principalmente porém dois glo riosos doutores o Angélico São Tomás e o Seráfico São Boaventura ambos professores ilustres nesta faculdade são os que com seu incomparável talento com seu assíduo zelo com seus trabalhos e vigílias cultivaram esta ciência enriquecendoa e transmitindoa a seus descendentes disposta em uma ordem perfeita e explicada de muitos modos E certamente o conhecimento de uma ciência tão saudável que dimana do fecundíssimo manancial das Escrituras dos Sumos Pontífices dos Santos Padres e dos Concílios tem sido em todos os tempos de grande vantagem para a Igreja já para a boa 14 AETERNI PATRIS inteligência e verdadeira interpretação das Escrituras já para ler e explicar os Padres com mais segurança e utilidade já para refutar os variados erros e as heresias Nesses últimos tempos contudo que nos têm trazido os dias profetizados pelo Apóstolo em que os homens blasfemos orgulhosos sedutores fazem progresso no mal errando eles e induzindo os outros ao erro certamente que para confirmar os dogmas da fé católica e refutar as heresias é mais que nunca necessária a ciência de que tratamos Bulla Triumphantis 1588 Embora essas palavras pareçam ter referência apenas à teo logia escolástica não obstante elas podem ser claramente aceitas como igualmente verdadeiras para a filosofia Pois os nobres dotes que tornam a teologia escolástica tão formidável para os inimigos da verdade a saber como acrescenta o mesmo Pontífice aquela pronta e estreita coerência de causa e efeito aquela ordem e disposi ção como de um exército disciplinado em batalha aquelas definições e distinções claras aquela força de argumento e aquelas discussões agudas pelas quais a luz se distingue das trevas o verdadeiro do falso expõem e desnudam por assim dizer as falsidades dos hereges envoltas por uma nuvem de subterfúgios e falácias aqueles nobres e admiráveis dotes dizemos são encontrados apenas no uso correto daquela filosofia que os professores escolásticos foram acostumados cuidadosa e prudentemente a fazer uso mesmo em controvérsias teológicas Além disso por ser função própria e especial dos teólogos Escolásticos unir com o mais estreito laço a ciência divina e humana certamente a teologia na qual eles se destacaram não teria ganhado tanta honra e elogio entre os homens se eles tivessem pregado uma filosofia incompleta vã e superficial Ora entre os doutores escolásticos brilha enormemente Santo Tomás de Aquino príncipe e mestre de todos que como adverte o Cardeal Caetano por ter venerado profundamente os santos doutores que o precederam herdou de certo modo a inte ligência de todos S T II II 148 4 Santo Tomás agrupou suas doutrinas como membros dispersos de um mesmo corpo reuniuas classificouas com admirável ordem e de tal modo as enalteceu que tem sido considerado com muita razão como o próprio defensor e a honra da Igreja Com seu espírito ao mesmo tempo humilde 15 AETERNI PATRIS e penetrante sua memória pronta e tenaz sua vida inteiramente impecável um amante da verdade por si mesma ricamente dotado de ciência humana e divina comparado com o sol aqueceu o mundo com o calor de suas virtudes e o encheu com o esplendor de seu ensino Não há nenhuma parte da filosofia que não tenha lidado com firmeza e ao mesmo tempo com solidez Ele lidou com as leis da razão com Deus e as substâncias incorpóreas com o homem e outras coisas sensíveis com os atos humanos e seus princípios Ele raciocinou de tal maneira que nele não faltam nem um conjunto completo de questões nem uma disposição adequada de as várias partes nem o melhor método de proceder nem solidez de princípios ou força de argumentação nem clareza e elegância de estilo nem facilidade para explicar o que é obscuro Além disso o Doutor Angélico impulsionou sua investigação filosófica sobre as razões e os princípios das coisas que por serem mais abrangentes e conterem em seu seio por assim dizer o germe de quase infinitas verdades deveriam ser desdobradas em tempo útil por mestres posteriores e com um bom rendimento E como ele também usou este método filosófico na refutação do erro ele ganhou este título para se distinguir que sozinho lutou vitoriosamente contra os erros de outros tempos e forneceu armas invencíveis para derrotar aqueles que poderiam em tempos posteriores surgir Mais uma vez distinguindo claramente como é apropriado à razão e à fé enquanto associava alegremente uma à outra conservando a cada uma seus direitos e salvando sua dignidade Assim é que a razão levada por Santo Tomás até o píncaro humano não pode elevarse a maior altura E a fé dificilmente poderia esperar numerosas e mais fortes argumentos da razão do que aqueles que lhe forneceu Santo Tomas de Aquino Por essas razões a maioria dos homens eruditos nos séculos passados e mais dignos de louvor por seus conhecimentos teológicos e filosóficos buscando com indizível avidez as obras de Santo Tomás consagraramse à sua sabedoria angelical não tanto para aperfeiço álo nela mas também para imbuirse inteiramente dela É um fato constante que quase todos os fundadores e legisladores de ordens religiosas enviaram seus companheiros para estudar as doutrinas 16 AETERNI PATRIS de Santo Tomás e aderir a elas religiosamente desde que não se permitisse que ninguém se separasse impunemente nem mesmo no mínimo das pegadas deste grande mestre E deixando de lado a família dominicana que tem Santo Tomás por direito próprio os Beneditinos os Carmelitas os Agostinianos a Companhia de Jesus e muitas outras Ordens estão obrigadas a esta lei como atestam as respectivas legislações de cada ordem E aqui com indizível prazer a alma recorda aquelas famosas Academias e Escolas que outrora floresceram na Europa a saber a de Paris a de Salamanca a de Alcalá a de Douai a de Tolosa e Louvaina a de Pádua de Bolonha a de Nápoles a de Coimbra e muitas outras Ninguém desconhece que sua fama cresceu pouco a pouco com o tempo e que as consultas que lhes eram feitas quando se agitavam questões muito sérias tinham muita autoridade entre os sábios Pois bem é indubitável que naqueles grandes empórios do conhecimento humano Tomás reinava como um príncipe em seu próprio império e que os espíritos de todos tanto dos mestres como dos discípulos repousaram com admirável concórdia no magistério e autoridade do Doutor Angélico Além disso os Romanos Pontífices nossos predecessores honraram a sabedoria de Tomás de Aquino com elogios únicos e vastos testemunhos Clemente VI Nicolau V Bento XIII e outros testemunham que a Igreja Universal é ilustrada com sua admi rável doutrina São Pio V confessa que com a mesma doutrina as heresias confundidas e refutadas se dissipam e que todos os dias livra o mundo de erros maléficos Outros como Clemente XII afirmam que de suas doutrinas emanaram abundantes bens à Igreja Católica e que ele próprio deve ser venerado com a mesma honra que é prestada aos maiores doutores da Igreja Gregório Ambrósio Agostinho Jerônimo Outros por fim não hesitaram em propor Santo Tomás como modelo e mestre às Academias e às Escolas Superiores que deve ser seguido com firmeza e com segurança Nesse ponto as palavras de São Urbano V à Academia de Tolosa são dignas de nota Queremos pelo teor das presentes mandamos que se sigais as doutrinas de São Tomás como verídicas e católicas e que envideis todos os esforços para desenvolvêlas 17 AETERNI PATRIS Cons 5 3081368 Seguindo o exemplo de Urbano V Inocêncio XII impõe as mesmas prescrições à Universidade de Louvaina e Bento XIV ao Colégio Dionisiano de Granada Acrescente a estes julgamentos dos Sumos Pontífices sobre Santo Tomás de Aquino o testemunho de Inocêncio VI como complemento A sua doutrina tem sobre as demais exceto o canônico propriedade nos termos ordem nos assuntos verdade nas proposições de modo que quem a segue nunca se desvie do caminho da verdade e quem a contesta será sempre suspeito de erro Sermão de S Tomás Também os Concílios Ecumênicos onde floresce a flor de toda a sabedoria terrena sempre tiveram o cuidado de dar a Santo Tomás de Aquino uma honra singular Nos Concílios de Lião de Viena de Florença do Vaticano podese dizer que Santo Tomas interveio nas deliberações e decretos dos Padres presidiu de certo modo lutando com força inelutável e com grande sucesso contra os erros dos gregos dos hereges e dos racionalistas Mas a glória principal e especial de Santo Tomás e que nenhum dos doutores católicos pode partilhar é que os Padres do Concilio Tridentino fizeram parte da ordem do conclave de colocar no altar com o livro das Escrituras e com os decretos dos Papas a Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino para extrair dela conselhos razões e inspirações Um último triunfo foi reservado para este homem incom parável a saber ter sabido receber dos inimigos da Igreja Católica homenagens elogios e admiração Pois é sabido que entre os prin cipais promotores de heresias houve alguns que declararam em alta voz que suprimida a doutrina de São Tomás de Aquino se comprometiam a empreender uma luta vantajosa contra todos os doutores católicos e aniquilar a Igreja Infundada esperança mas não infundado testemunho Portanto veneráveis irmãos sempre que contemplamos o bem a força e as vantagens singulares que derivam de sua disciplina filosófica que nossos pais tanto amavam achamos arriscado que sua honra especial não deva permanecer sempre e em toda parte especialmente quando está estabelecido que a experiência cotidiana o julgamento dos maiores homens e para coroar a todos a voz da Igreja têm favorecido a filosofia escolástica E no lugar da velha 18 AETERNI PATRIS doutrina uma certa espécie de filosofia foi apresentada em várias partes da qual não se colheram os frutos desejados e saudáveis que a Igreja e a própria sociedade civil almejaram Debaixo dos impulsos dos inovadores do século XVI principiouse a filosofar sem respeito algum pela fé com plena licença para deixar voar o pensamento segundo o capricho e critério de cada um Por isso foi fácil para os gêneros da filosofia se multiplicarem de forma extraordinária e que apareceram opiniões diversas e contraditórias até sobre os objetos mais importantes dos conhecimentos humano Com uma plurali dade de conclusões os homens freqüentemente chegam a vacilar e duvidar da dúvida no entanto ao erro é fácil ao conhecimento humano o chegar como é sabido por todos os homens Mas como os homens estão aptos a seguir a liderança que lhes é dada essa nova busca parece ter cativado a alma de certos filósofos católicos que jogando de lado o patrimônio da sabedoria antiga preferiram construir um novo edifício do que fortalecer e completar o velho com a ajuda do novo imprudentemente na verdade e não sem prejuízo para as ciências Pois um sistema multiforme desse tipo que depende da autoridade e da escolha de qualquer professor tem um fundamento aberto à mudança e conseqüentemente nos dá uma filosofia não firme e estável e robusta como a de antigamente mas vacilante e débil E se por acaso ele às vezes se encontra quase incapaz de suportar o choque de seus inimigos ele deve reconhecer que a causa e a culpa estão em si mesmo E ao dizer isso não condenamos realmente aqueles homens eruditos e engenhosos que colocam sua indústria e erudição e as riquezas de novas descobertas a serviço da filosofia sabemos muito bem que com essa ciência recebe um aumento Mas devese evitar diligentemente não fazer com que a indústria e os estudos consistam no todo ou no principal exercício da filosofia Da mesma forma deve ser julgado pela Teologia Sagrada que gostamos de ser ajudados e ilustrados com as múltiplas ajudas da bolsa de estu dos mas é absolutamente necessário que seja tratado segundo o grave costume dos escolásticos para que nele unidas as forças da revelação e da razão continuem a ser uma defesa invencível da fé Sixto V Bulla cit 19 AETERNI PATRIS Com sábia previsão portanto não poucos dos defensores dos estudos filosóficos ao voltarem suas mentes recentemente para a reforma prática da filosofia objetivaram e visaram restaurar o renomado ensino de Tomás de Aquino e reconquistálo em sua antiga beleza Aprendemos com grande alegria que muitos mem bros de sua ordem veneráveis irmãos levam esse plano a sério e embora louvemos sinceramente seus esforços exortamosvos a se apegarem ao seu propósito e lembramos a cada um de vocês que Nossa primeira e mais acalentada ideia é que todos vocês devem fornecer aos jovens estudiosos um suprimento generoso e abun dante desses fluxos mais puros de sabedoria fluindo inesgotável da preciosa fonte do Doutor Angélico Muitas são as razões pelas quais desejamos tanto isso Em primeiro lugar então uma vez que na tempestade que está sobre nós a fé cristã está sendo constantemente assaltada pelas maquina ções e artifícios de uma certa falsa sabedoria todos os jovens mas especialmente aqueles que são a esperança crescente da Igreja deve riam ser alimentados com o alimento forte e robusta da doutrina para que assim poderosos em força e armados em todos os pontos possam se habituar a fazer avançar a causa da religião com força e julgamento como diz o Apóstolo a dar conta a quem lha pedir da esperança que existe em nós I Ped 5 assim como a exortar em sã doutrina e convencer os que a contradizem Tito 1 9 Além disso muitos dos homens que afastando o espírito da fé abominam os ensinamentos católicos professam que para eles apenas a razão é guia e mestre E para curálos e devolvêlos à fé católica além da ajuda sobrenatural de Deus julgamos que nada é mais oportuno do que a sólida doutrina dos Padres e dos Escolásticos que demonstram com tanta evidência e energia os fundamentos muito firmes da fé a sua origem divina a sua verdade infalível os argumentos com que são provados os benefícios que rendeu ao gênero humano e a sua perfeita harmonia com a razão quanto basta e ainda mais para dobrar os entendimentos mesmo os mais opostos e contrários Mesmo a sociedade civil e doméstica que como todos vêem está exposta a grande perigo com esta praga de opiniões perversas certamente desfrutaria de uma existência muito mais pacífica e segura 20 AETERNI PATRIS se uma doutrina mais saudável fosse ensinada nas universidades e escolas secundárias uma mais conforme ao ensinamento da Igreja tal como está contido nas obras de Santo Tomás de Aquino Pois os ensinamentos de Santo Tomás sobre o verdadeiro significado da liberdade que neste momento está se esgotando sobre a origem divina de toda autoridade sobre as leis e sua força sobre o governo paternal e justo dos príncipes sobre a obediência a os poderes supe riores na caridade mútua uns para com os outros em todos esses e assuntos afins têm uma força muito grande e invencível para derrubar aqueles princípios da nova ordem que são bem conhecidos por serem perigosos para a ordem pacífica das coisas e para a segurança pública Em suma todos os estudos devem encontrar esperança de avanço e promessa de assistência nesta restauração da disciplina filosófica que propomos As artes costumavam tirar da filosofia como de uma amante sábia bom senso e método correto e dela também seu espírito como da fonte comum da vida Quando a filosofia permaneceu imaculada em honra e sábia no julgamento então como os fatos e a experiência constante mostraram as artes liberais floresceram como nunca antes ou desde então mas negli genciados e quase apagados eles ficaram propensos pois a filosofia começou a se inclinar para o erro e dar as mãos à tolice Nem as próprias ciências físicas que agora gozam de grande reputação e pelo renome de tantas invenções atraem para si uma admiração universal sofrerão prejuízos mas encontrarão grande ajuda na restauração da filosofia antiga Pois a investigação dos fatos e a contemplação da natureza não são por si só suficientes para seu proveitoso exercício e avanço mas quando os fatos foram estabelecidos é necessário nos levantarmos e nos aplicarmos ao estudo da natureza das coisas corpóreas para investigar as leis que os governam e os princípios de onde surge sua ordem e unidade variada e atração mútua na diversidade Para tais investigações é maravilhoso quanta força luz e auxílio a filosofia escolástica traria se judiciosamente ensinada E aqui é bom notar que nossa filosofia só pode ser acusada pela mais grosseira injustiça de se opor ao avanço e ao desenvolvimento das ciências naturais Pois quando os Escolásticos seguindo a opi nião dos Santos Padres sempre sustentaram na antropologia que 21 AETERNI PATRIS a inteligência humana só é conduzida ao conhecimento das coisas sem corpo e matéria pelas coisas sensíveis eles entenderam bem que nada era de maior utilidade para o filósofo do que diligentemente pesquisar os mistérios da natureza e ser zeloso e constante no estudo das coisas físicas E isso eles confirmaram por seu próprio exemplo pois Santo Tomás o bemaventurado Alberto Magno e outros líderes dos Escolásticos nunca foram tão totalmente absortos no estudo da filosofia a ponto de não dar grande atenção ao conhecimento das coisas naturais e realmente o número de suas palavras e escritos sobre esses assuntos que os professores recentes aprovam e admitem harmonizar com a verdade não é de forma alguma pequeno Além disso nesta mesma época muitos professores ilustres das ciências físicas testemunham abertamente que entre as conclusões certas e aceitas da física moderna e os princípios filosóficos das escolas não há conflito digno desse nome Por isso ao mesmo tempo que declaramos que receberemos com boa vontade e gratidão tudo o que foi sabiamente dito tudo o que foi útil inventado e escolhido por qualquer um todos vós Veneráveis Irmãos com sério empenho exortamos que para defesa e glória da fé católica bem da sociedade e crescimento de todas as ciências renove e propague com grande coração a preciosa dou trina de Santo Tomás Dizemos doutrina de Santo Tomás porque se se encontrar nos Escolásticos alguma questão demasiado sutil alguma afirmação inconsiderada ou alguma coisa que não esteja em harmonia com as doutrinas experimentadas nos séculos posteriores ou que seja finalmente destituída de probabilidade não intentamos de modo algum propôla para ser repetida em nossa época Deixe que professores cuidadosamente selecionados se esfor cem para implantar a doutrina de Tomás de Aquino nas mentes dos alunos e expor claramente sua solidez e excelência sobre os outros Deixe que as universidades já fundadas ou a serem fundadas por vocês ilustrem e defendam esta doutrina e usea para a refutação dos erros dominantes Para evitar porém que se aceite como ver dadeiro o que é apenas hipotético e que se beba como água pura o que não é providencial para que a sabedoria e Tomás se colha em seus próprios mananciais ou ao menos nos arroios que saindo do 22 AETERNI PATRIS próprio manancial correm todavia claros e límpidos conforme o testemunho dos doutores Dos arroios que se dizem derivar do manancial mas que estão na realidade cheios de águas estagnadas e insalubres afastai com muito cuidado o espírito dos jovens Bem sabemos que as nossas finalidades Veneráveis Irmãos de nada valerão se não favorecerem os empreendimentos comuns dAquele que nas Sagradas Escrituras é chamado Deus das ciências I Reg 2 3 Elas nos advertem também que todo o bem excelente todo o dom perfeito vem de cima descendo do Pai das luzes Pacob 1 17 E mais Se alguém carece de sabedoria peçaa a Deus que a todos dá liberalmente e não o lança em rosto e serlheá dada I c 5 5 Também nisto sigamos o exemplo do Doutor Angélico que nunca começou a ler e escrever sem ter recorrido a Deus com as suas orações e que confessou com humildade que tudo o que sabia não tinha adquirido tanto com o seu estudo e trabalho mas que ele o recebeu divinamente E pela mesma razão todos nós oramos junto com Deus com súplicas humildes e concordantes que Ele derrame sobre todos os filhos da Igreja o espírito da ciência e do entendimento lhes abre o sentir para entenderem a sabedoria E para perceber os frutos mais abundantes da bondade Divina inter ponha também diante de Deus o patrocínio mais eficaz da Virgem Maria sede da sabedoria recorrei ao mesmo tempo à intercessão de São José puríssimo esposo da Virgem assim como os grandes Apóstolos São Pedro e São Paulo que renovarão com a verdade a terra infestada pelo contágio do erro enchendoa com o esplendor da luz celestial Por último amparados pela esperança da ajuda divina e con fiantes na vossa diligência pastoral damos a todos vós Veneráveis Irmãos do íntimo do coração a todo o clero e ao povo confiado a vosso cuidado a Bênção Apostólica como prova dos bens celestiais e testemunho da nossa benevolência particular Dado em Roma junto de São Pedro aos 4 de agosto de 1879 segundo ano do Nosso Pontificado No dia da festa do Sagrado Coração de Jesus no ano de 1886 o SumoPontífice Leão XIII de veneranda memória dignouse des tinarnos a Professor de Filosofia tomista no Seminário de Coimbra satisfazendo assim ao pedido do Exmo e Revmo Sr BispoConde D Manuel Correia de Bastos Pina Cônscios da nossa pouquidade e da importância da missão que circunstâncias tornavam ainda mais difícil e delicada pedimos que nos dispensassem do encargo mas não sendo atendidos os nossos votos abandonamos um mês depois a nossa pátria e na vigília da Natividade da Santíssima Virgem demos entrada no predito Seminário onde havíamos de permanecer pelo espaço de quatorze anos Reconhecendo a vontade de Deus na vontade do seu augusto Vigário entregamonos de alma e de coração ao comprimento dos nossos novos deveres e concebemos imediatamente o desígnio de redigir um Compêndio de Filosofia baseado na doutrina de Sto Tomás de Aquino No mês de maio de 1889 publicamos pela Imprensa do Seminário a primeira parte da Lógica escrita em língua latina E teríamos continuado a escrever nessa língua se pessoas autorizadas e amigas não nos tivessem ponderado que tendo nós recebido a missão de fruto a doutrina tomista em Portugal a nossa ação seria mais eficaz e o fruto do nosso trabalho mais abundante se o livro fosse escrito em língua portuguesa não havendo no país um bom tratado que traduzisse essa excelente doutrina na língua de Camões1 1 Não podemos deixar de recordar e com imensa saudade e gratidão um dedicadíssimo amigo que Nosso Senhor nos deu desde os primeiros dias da nossa chegada a Portugal na pessoa do Doutor José Joaquim Lopes Praça um dos mais ilustrados Lentes catedráticos da Faculdade de Direito na Universidade de Coimbra Foi ele quem nos deu a inspiração e o impulso para escrever que nos auxiliou com os seus sábios conselhos quem elogiou e defendeu o nosso livro sempre e em toda parte e sobretudo perante o Conselho superior de instrução pública e o adotou como texto das suas lições ao malogrado Príncipe AOS BENÉVOLOS LEITORES DA IV EDIÇÃO 24 AOS BENÉVOLOS LEITORES As razões aduzidas eram convincentes mas as dificuldades para nós aumentavam não só porque devíamos escrever numa língua que só tarde estudamos e que os estrangeiros aprendem com dificul dade mas também porque segundo o testemunho de autoridades competentes não é sempre fácil encontrar no vocabulário português aliás muito rico os termos precisos para exprimir as idéias especu lativas e abstratas da ciência filosófica Contudo não desanimamos Confiados na infinita bondade ao Sagrado Coração pedimoslhe encarecidamente que pelos merecimentos de Sta Margarida Mª Alacoque nos assistisse com a sua graça e nos concedesse luzes e forças para levarmos ao termo tão árduo cometimento para a glória dEle e para o bem das almas O Compêndio viu a luz pela primeira vez em março de 1893 há mais de trinta anos Recebido com muita benevolência em Portugal e no Brasil foi reimpresso em segunda e terceira edição sempre na cidade de Coimbra Esgotada a terceira edição quisemos curar a quarta aqui na Itália sob os nossos olhos para que assim pudéssemos completar algumas partes refundir outras e aproveitar mais facilmente as obras dos filósofos e dos natura listas publicadas no último trintênio O trabalho tem sido muito intenso e muito longo devendo para isso utilizar durante uma dúzia de anos os retalhos do tempo que nos deixavam livres as imprescindíveis ocupações dos nossos cargos Mas o desejo de agradarmos a Jesus e de sermos útil ao próximo nos tornou doce a fadiga e suave o cansaço A doutrina que professamos é como dissemos a de Sto Tomás de Aquino em harmonia com o atual progresso da ciên cia A Igreja fez sua essa doutrina e durante sete séculos nunca tem deixado de a recomendar e inculcar a seus filhos como a única capaz de defender as verdades tanto da ordem natural como da sobrenatural e de confutar os erros que contra essas verdades se têm propalado com tanto prejuízo das almas e da sociedade Essas recomendações e prescrições achamse resumidas no Código Real D Luiz Filippe Nosso Senhor tenha aquela alma tão boa e virtuosa no seio da sua misericórdia e lhe dê a recompensa do muito bem que nos quis e nos fez 25 AOS BENÉVOLOS LEITORES de Direito Canônico por estas palavras Os estudos de Filosofia racional e de Teologia para a formação dos alunos nessas disci plinas sejam absolutamente tratados pelos professores conforme o método a doutrina e os princípios do Angélico Doutor e esses sejam religiosamente mantidos Can 1366 2 A nossa obra saiu volumosa muito volumosa Mas obe decemos ao propósito de fazer uma exposição clara profunda e possivelmente completa das principais questões filosóficas de modo que o espírito dos leitores no fim de cada tratado ficasse esclarecido e plenamente satisfeito Levado sempre pelo mesmo propósito e sinceramente convencido de que o espiritualismo e a religião não devem ter e não têm medo da luz nem receio de novos combates encetamos a luta sem aspereza mas também sem transigências acompanhando os falsos sistemas nas suas mais recentes manifestações através dos livros dos seus representantes mais famigerados Para isso estudamos atentamente as obras dos naturalistas mais modernos mais imparciais e acreditados e pudemos verificar que os fatos citados pelos adversários em defesa de seus erros eram ou imaginários ou falsamente interpretados Nem deixamos nos lugares próprios de indicar as relações entre as verdades filosóficas e as verdades teológi cas e de mostrar que entre a razão e a fé não só não há a mais leve sombra de contraste mas reina a mais perfeita e admirável harmonia sendo elas duas luzes que emanam do mesmo Sol de verdade infinita Como porém não é possível esgotar toda a matéria nem sequer no espaço de dois anos tivemos o cuidado de expor no texto os pontos principais as verdades fundamentais que cons tituem a ciência filosófica reservando para as notas o ulterior desenvolvimento da doutrina exarada no texto a resposta às principais dificuldades como também a exposição e a confuta ção dos sistemas contrários Desse modo o livro adquiriu uma certa elasticidade e os professores podem facilmente escolher o que melhor se adaptar a inteligência dos discípulos e o que mais convier ao programa dos estudos O nosso voto é que este livro aproveite não só aos alunos dos seminários eclesiásticos 26 AOS BENÉVOLOS LEITORES mas também aos dos colégios seculares aos leigos cultos que se interessam pelas coisas da ciência e da Religião e sobretudo aos sacerdotes que tendo feito seus estudos filosóficos em idade juvenil precisam de um estudo mais reflexivo e aturado a fim de adquirir a cultura indispensável para o digno e decoroso exercício do seu altíssimo ministério Não seria desculpável que deixássemos de consignar aqui o nosso vivo e profundo agradecimento aos Exmos e Revmos Bispos de Portugal e do Brasil que logo acolheram com tanta benevolência o nosso trabalho aos ilustrados professores que o adotaram como texto das suas lições aos bondosos autores das lisonjeiras apreciações que apareceram em revistas e jornais e a quantos nos confortaram com suas amáveis referências1 1 A Civilitá Católica no seu caderno 1043 de 3 de dezembro de 1893 publicou acerca do nosso trabalho o seguinte artigo devido à pena do P Fran cisco Xavier Rondina nome muito conhecido dos portugueses Thiago Sinibaldi Arcediago da Sé Catedral de Coimbra e Professor no Seminário da mesma cidade Elementos de Filosofia Coimbra tipografia das Instituições Cristãs 1891 e 1892 Destes dois volumes um abrange a lógica a ontologia e a cosmologia geral o outro a cosmologia especial a psicologia e a teodicéia É pois um curso completo de filosofia teórica que encerra tudo o que se ensina nas melhores escolas e seminários e está escrito em português para facilitar aos mancebos daquela nação o estudo de matérias por si árduas que se tornariam ainda mais difíceis se não fossem expostas em língua vulgar Foi este o escopo que teve em vista o autor empregando nos seus Elementos de filosofia a língua portuguesa ainda que estrangeira para ele e um estilo conci so fácil plano e despido de todo o ornamento supérfluo e inútil A ordem e a distribuição das matérias é a que o bom senso a tradição escolástica e a própria experiência sugeriram aos nossos antepassados Por terem abandona do este caminho muitos dos filósofos modernos por tal forma desordenaram o método de ensino que as suas obras constituem um montão de matérias sem ordem sem precisão sem estrutura científica Pelo contrário na obra de Sinibaldi tudo está no seu lugar tudo procede com grande ordem e clareza começando pela arte de bem raciocinar ou pela lógica em seguida passando da ordem lógica para a ontológica do subjetivo para o objetivo dos conceitos mais simples para os mais compostos dos abstratos para os concretos dos universais para os particulares ou da metafísica geral chamada também onto logia para a metafísica especial E aqui o Autor seguindo a ordem natural dos 27 AOS BENÉVOLOS LEITORES nossos conhecimentos sobe da consideração do mundo ou da cosmologia ao estudo do homem rei da criação ou a psicologia e desta à contemplação de Deus princípio e fim de todas as criaturas ou à teodicéia Todos vêm que este método sintético seguido pelo Sinibaldi e em geral pelos professores de maior critério e experiência é o mais fácil e o mais acomodado a inteligência dos jovens estudantes À bondade do método o Autor une uma admirável solidez e pro fundidade de doutrina toda extraída das puras fontes do Aquinate e das obras de que entre os modernos escritores melhor souberam interpretar e desenvolver as sábias teorias do anjo das escolas teorias que foram o fundamento sobre que foi já levantado e hoje está sendo restaurado o gran dioso edifício da filosofia e teologia escolástica E como não basta afirmar a verdade mas é preciso demonstrála o autor nada afirma que não prove com abundância de razões No que é tão feliz que não poderia proceder melhor quer quanto à escolha dos argumentos quer quanto á concisão e clareza com que os expõe Nem isto é tudo com boas e fortes razões refuta também os argumen tos dos adversários cujos sistemas primeiramente expõe com brevidade e clare za e depois aprecia com uma crítica sã a fim de pôr a descoberto os erros o que ele consegue sobretudo nas copiosas notas que acompanham o texto para não distrair desse a atenção dos estudantes e para não produzir confusão nas suas inteligências Bom sistema que deveria servir de exemplo para quem escreve cursos de filosofia para principiantes A refutação dos falsos sistemas comparados com as doutrinas es colásticas fundada na razão e na experiência tem na obra de Sinibaldi o merecimento de encerrar o muito no pouco e de acrescentar ao velho o novo isto é é uma refutação quanto mais breve na forma tanto mais am pla na matéria abrangendo os errôneos princípios e as falsas teorias não só dos antigos mas também dos mais recentes filósofos idealistas ontologistas e materialistas Por isso os discípulos saem da sua escola bem couraçados contra os erros modernos e capazes de confundir e reduzir ao silêncio os espíritos presunçosos e superficiais Do que deixamos escrito julguem os nossos leitores quão vantajosa se há de tornar para os jovens clérigos e em geral para a mocidade portuguesa a obra deste douto e zeloso professor que para corresponder aos santos de sígnios do Sumo Pontífice Leão XIII insigne restaurador e promotor das dis ciplinas filosóficas abandonou a pátria e foi viver em país estrangeiro onde para tornar o seu ministério útil a todos se aplicou com ardor a aprender a língua de Camões e a escrever a ela uma obra em que a dificuldade da matéria se une a da forma não tendo a língua portuguesa aliás muito rica e bela uma terminologia tão própria como a latina para o ensino da filosofia escolástica Por isto lhe hão de ser agradecidos todos os que amam o verdadeiro progresso 28 AOS BENÉVOLOS LEITORES Mas sejanos permitido referir dois fatos que nos encheram de consolação o espírito Um Missionário Lazarista Professor num dos mais acreditados Institutos do Brasil escreveunos o seguinte Gosto muito do seu livro como também gostam dele os meus discípulos que além de aprenderem a mais segura dou trina tomista aprendem também a amar a Jesus de quem V fala com tanta veneração Em julho de 1900 em ParayleMonial um bom leigo que fazia parte de uma peregrinação brasileira dissenos estas precisas palavras V não imagina o bem que o seu livro tem feito às almas em S Paulo O nosso pobre tra balho tinha pois alcançado ao menos em parte o seu dúplice escopo que constituiu também o único prêmio por nós desejado a gloria de Deus e o bem das almas Entramos no Santuário das Aparições e prostrado aos pés do Altar diante da Urna de Sta Margarida Maria agradecemos ao divino Coração todas as graças que nos tinha dispensado Jesus quiz darnos outra prova do seu agrado mais autêntica e mais solene na Bênção Apostólica da religião e da ciência e principalmente os que à semelhança de quem escre ve estas páginas vivendo muito tempo entre os portugueses poderão formar uma verdadeira idéia das necessidades daquela ilustre nação e das suas felizes disposições para tudo o que diz respeito à cultura intelectual e intimamente se liga com a Fé Católica de que ela por muitos séculos foi além dos mares o paládio e a gloria O Revmo P Luiz Gonzaga Cabral no seu Vieira pregador na p 377 do L I em nota escreve Entre nós os estudos filosóficos outrora tão florescentes passavam para uma decadência cujas funestas conseqüências são tão manifestas que me parece inútil enumerálas A filosofia Conim bricense foi outrora um título de glória para Portugal Felizmente parece ter chegado também para isto o momento do renascimento e foi também de Coimbra como outrora que começou o impulso Uma obra excelente cheia de erudição e de solidez de doutrina foi publicada há poucos anos pelo Exmo e Revmo Snr Dr Thiago Sinibaldi Elementos de Filosofia Coimbra Imprensa do Seminário 2º vol Nesses dois preciosos volumes condensou o autor com notável clareza e brevidade os princípios da verdadeira filoso fia e discutiu com imparcialidade e vigor os diversos sistemas e teorias das escolas modernas Os Elementos de Filosofia são um livro de grande alcance e ao mesmo tempo de muita atualidade O clero particularmente encontrará neles abundantes materiais para a solução dos problemas filosóficos mais debatidos em nossos dias 29 AOS BENÉVOLOS LEITORES que nos concederam os Sumos Pontífices Leão XIII e Bento XV Essa benção nos deu a convicção de que Deus tinha abençoado as nossas intenções e os nossos esforços Roma 18 de julho de 1923 Sexto centenário da Canonização de Sto Tomás de Aquino THIAGO SINIBALDI Bispo de Tiberíades Venerabilis Frater Salutem et Apostolicam Benedictionem Satis novisti probari Nobis vehementer curam quam geris ut impense colantur in tua dioecesi philosophicae disciplinae iuxta ratio nem ac methodum divi Thomae explicatae Hinc facile intelligis quo animo exceptum a Nobis sit novum eiusdem studii tui testimonium quod litterae a Te die III Aprilis datae Nobis praebuere Namque dum merita exornas laude ac diligenter Nobis commendas opus a dileto Filio Iacobo Sinibaldi conscriptum de Elementis philosophiae praeclare ostendis studium quo fercris ad eas disciplinas provehendas quantique facias eorum industriam qui illas novis illustrant luminibus operamque navant ut pronis alumnorum auribus animisque excipiantur Quod quidem laboris genus opportunum ac frugiferum semper rati sumus ac palam ediximus ab ipsis Nostri Pontificatus exordiis Nam quo latius thesauri effundantur sanae doctrinae a summo Viro Aquinate traditae animisque discentium penitius insederint eo vulgatior ac receptior erit solida scientia rerum maximarum ac facilior fiet erro rum reiectio qui fidei sinceritatem corrumpunt ac depravant mores Quoniam vero dilectus Filius quem diximus exemplar operis sui dono Nobis obtulit obsequiosis ornatum litteris pergratum Nobis facies si eidem Nostro nomine significaveris magnopere Nos esse delectatos quum eius ingenio et doctrina tum officio Nobis exhibito quod bene volo gratoque animo prosequimur Hosce interea fructus eximio eius labori ominamur ut legentibus quamplurimis salutaris sit ut debitam pariat auctori suo prudentium virorum existimationem et laudem eosque qui pari praestant rerum scientia et ingenio exemplo proposito ad imitandum alliciat Sperantes denique fore ut Deus ministerio et ope tua aliorumque in Lusitano episcopatu Fratrum nobilibus hisce sludiis alia atque alia det incrementa Tibi ac praedicto libri auctori VENERABILI FRATRI EMMANUELI EPISCOPO CONIMBRICENSI LEO PP XIII Venerável Irmão Saúde e Bênção Apostólica Bem sabeis que vivamente aprovamos o vosso zelo pela pro funda cultura que promoveis na vossa diocese das doutrinas filosó ficas explicadas segundo a mente e o método de Santo Tomás Por isso facilmente deveis entender a satisfação com que recebemos o novo testemunho que a vossa carta de 3 de abril nos dá da conti nuação dos vossos esforços Porquanto ao passo que realçais com merecido louvor e nos recomendais encarecidamente a obra que o dileto Filho Thiago Sinibaldi escreveu Elementos de filosofia bem claramente demonstrais o empenho com que promoveis o estudo dessas doutrinas e o grande apreço em que tendes o trabalho dos que as ilustram com luzes novas e se esforçam para que elas sejam com facilidade aprendidas pelos seus alunos Em verdade sempre julgamos oportuno e frutífero este gênero de trabalhos e assim o manifestamos desde os primórdios do Nosso Pontificado Pois quanto mais largamente se difundirem os tesouros da sã doutrina ensinada pelo eminente Santo Aquinatense e mais profundamente assentarem nos ânimos dos que aprendem tanto mais vulgarizada e recebida será a sólida ciência das grandes coisas e mais fácil se tornará a rejeição dos erros que corrompem a sinceridade da Fé e depravam os costumes E visto que o dileto Filho que nomeamos nos ofereceu um exemplar da sua obra acompanhada de uma respeitosa carta será para nós muito agradável se em nosso nome lhe significardes que muita satisfação nos causou não só o seu engenho e doutrina mas também a demonstração do seu obséquio para conosco o qual aceitamos com animo benévolo e grato Entretanto que seja a sua obra salutar ao máximo número de leitores que o seu autor lucre por ela a devida estimação e louvor dos homens sensatos e que o seu AO VENERÁVEL IRMÃO MANUEL BISPO DE COIMBRA LEÃO XIII PAPA ceterisque e clero et populo tuae vigilantiae commisso Apostolicam Benedictionem peramanter impertimus Datum Romae apud S Petrum die XXIX Aprilis anno MDCCCXCIII Pontificatus Nostri decimo sexto LEO PP XIII exemplo seja imitado por outros igualmente prestantes pelo engenho e ciência das coisas tais são os frutos que desejamos ao seu exímio trabalho Finalmente esperando que Deus pelo vosso ministério e esforço e pelo dos outros Irmãos no Episcopado português há de dar muitos e muitos incrementos a tão nobres estudos concedemos muito afetuosamente a Bênção Apostólica a Vós e ao dito autor do livro bem como ao clero e povo confiado a vossa vigilância Dado em Roma junto de S Pedro no dia 29 abril de 1893 ano décimo sexto do Nosso Pontificado LEÃO XIII PAPA Venerabilis Frater Salutem et Apostolicam Benedictionem Diuturnae munus disciplinae laborisque multo diuturnioris tuum de Elementis Philosophiae librum accepimus perlibenter quarto nuper editum in lucem qui quidem quum primum apparnisset novimus quibus eum laudibus docti et sapientes viri sint prosecuti Atque his laudibus magnum pondus accessit ut meminimus ex eis litteris quas decessor Noster illustris Leo XIII fel rec in commendationem operis tui dedit ad Episcopum Conimbricensem Sane ei Pontifici cui nulla fuit antiquior cura quam ut Thomam Aquinatem apud scholas catholicas in praecipuum honorem restitueret quum ex eius voluntate magisterium philosophiae in Conimbricensi Seminario tibi utpote ad sapientiam Doctoris Angelici egregie exculto esset demandatum debuit pergratum accidere ut optimum quod de te fecisset indicium tam bene re ipsa confirmaretur Etenim haec duo volumina vehementer probari videmus intelligentibus tum sincerae doctrinae copia da Thomae hausta vel derivata fontibus tum valida contra multiplices errores defensione veri tum lucido rerum ordine scribendique perspicuitate Quod postremum licet coniicere quanto constiterit tibi qui quum Lusitane prorsus nescires tamen assidua contentione id egeris ut eam linguam ad quamlibet philosophiae subtitatem inflecteres Nec vero satis hic habes principia Thomistica usitatis in Schola illustrare tuerique rationibus convincis praeterea nihil certi ex disciplinis naturalibus afferri quod cum iis non congruati Itaque opas confecisti quod omnibus numeris in suo genere absolutum videtur in primisque accomodatum clericis qui se ad ineundum sacrae theologiae studium comparant Profecto qua parte tuus liber res divinas attingit id spirat pietatis caritatisque ut mirum non sit quod audimus huius disciplinae alumnos quorum manibus sit versatus ex eo diligere et amare Jesum Dominum didicisse eundemque et VENERABILI FRATRI IACOBO EPISCOPO TIBERIENSI S Congregationis Seminarus et Universitatibus Studiorum Propositae Secretario BENEDICTUS PP XV Venerável Irmão Saúde e Bênção Apostólica Com muito prazer recebemos o teu livro Elementos de Filosofia agora publicado em quarta edição que é fruto de diu turno ensino e de trabalho muito mais diuturno e que desde a sua primeira edição mereceu como sabemos os elogios dos homens doutos e sábios A esses elogios deu grande realce a carta que o nosso ilustre Predecessor Leão XIII de feliz memória enviou ao Bispo de Coimbra em aprovação da tua obra Na verdade devia ser muito agradável aquele Pontífice cuja preocupação constante foi repor Sto Tomás de Aquino no lugar de honra que lhe competia nas escolas católicas o ver como se tivesse verificado o ótimo conceito que de ti fizera quando conhecendote otimamente versado na sapiência do Angélico Doutor determinou enviarte a exercer o Magistério de Filosofia no Seminário de Coimbra Sabemos na verdade que estes dois volumes são muito apreciados pelos competentes pela abundância e pureza de doutrina haurida ou derivada das fontes de Sto Tomás pela solidez da argumentação em clareza da verdade contra os multíplices erros e pela ordem da matéria aliada a clareza da exposição E quanto isto te tenha custado pode bem avaliarse considerando que sendo para ti completamente desconhecida a língua portuguesa só a força de trabalho chegaste a possuíla de modo a poder amoldála a todas as subtilezas da Filosofia E não contente de ilustrar e defender os princípios tomísticos com os argumentos usados na escola demonstras também que não há contradição entre eles e as conclusões certas das ciências naturais Fizeste pois uma obra que é no seu gênero absolutamente per feita e sobretudo adaptada aos seminaristas que se preparam para AO VENERÁVEL IRMÃO THIAGO BISPO DE TIBERÍADES Secretário da S Congregação dos Seminários e das Universidades dos Estudos BENTO XV PAPA in Lusitania et per Brasiliam saluti animarum utilem fuisse Quare gra tulamur tibi ex animo venerabilis Frater et Sacratissimo Cordi Jesu cui debentur suscepti a te in eius gloriam laboris tam uberes fructus gratias tecum ogimus suisque te pergat precamur donis augere Quorum aus picem et singularis benevolentiae nostrae testem tibi tuisque apostolicam benedictionem amantissime impertimus Datum Romae apud S Petrum die XV mensis februarii MCMXVII Pontificatus Nostri anno tertio BENEDICTUS PP XV o estudo da Sagrada Teologia Com efeito sempre que se refere às coisas divinas respira tanta piedade e fervor que não é para admirar que segundo ouvimos os estudantes desta ciência que do teu livro se servem aprendam a amar ardentemente a N S Jesus Cristo e que ele tenha sido muito útil para o bem das almas em Portugal e no Brasil Por conseguinte Venerável Irmão felicitamoste do íntimo da alma e contigo agradecemos ao Santíssimo Coração de Jesus a quem se devem esses tão copiosos frutos do teu trabalho empreendido para sua glória e rogamoslhe que continue a enriquecerte de seus dons Penhor deles e testemunho da nossa singular benevolência seja a Bênção Apostólica que a ti e aos teus concedemos com todo o afeto Dado em Roma junto de S Pedro aos 15 de fevereiro de 1917 ano terceiro do Nosso Pontificado BENTO XV PAPA Lógica 1 Filosofia Filosofia que no sentido etimológico significa amor à sabedoria pode definirse a ciência que trata das causas supremas dos entes descobertas pela luz natural da razão A Filosofia a é ciên cia porquanto ciência em geral é uma série de conhecimentos certos coordenados e relativos a um determinado objeto e tal é a Filosofia b que trata das causas supremas dos entes pois esta ciência não se ocupa das causas mais óbvias ou próximas dos entes mas sobre às mais elevadas ou supremas c descobertas pela luz natural da razão visto que a Filosofia se eleva ao conhecimento das causas supremas não com o auxílio da luz sobrenatural da Fé mas sim da luz própria da razão1 1 Causa no sentido mais lato é tudo o que explica de algum modo o ente e que por isso nos pode levar ao seu conhecimento Em cada ente encontramos muitas e diversas causas que o constituem ou de que depende ou que de algum modo o explicam Essas causas em cada gênero estão por tal forma relacionadas e ordenadas que uma depende de outra e todas de uma primeira a qual é a razão suficiente de todas e a todas dá luz e firmeza Ora a nossa inteligência não se satisfaz com a superficial observação dos fatos nem com a consideração das causas próximas ou ínfimas mas elevase e progride sempre e não descansa se não chega às causas últimas e supremas se não descobre o último porquê da coisa de modo que não tenha outras perguntas a fazer Esta é a Filosofia As causas últimas são intrínsecas ou extrínsecas conforme se referem à essência ou à existência do ente Tanto as intrínsecas como as extrínsecas podem ser últimas relativamente num certo gênero ou absolutamente São intrínsecas e relativamente últi mas as leis do pensamento na ordem dos atos da inteligência e as leis morais na ordem dos atos da vontade São causas intrínsecas e absolutamente últimas as essências dos entes A causa extrínseca e absolutamente última de todos os entes finitos é Deus A Filosofia chamase comumente ciência e não sabedoria A razão é porque ciência significa em geral o conhecimento das causas dos entes mas a sabedoria sa pientia denota um certo sabor ou gosto que experimenta o nosso espírito quando possui um perfeitíssimo conhecimento de uma coisa Por isso a sabedoria é um per feitíssimo conhecimento das coisas pelo qual as próprias coisas são percebidas em todas as suas causas mesmo nas mais remotas e em todos os seus princípios mesmo nos mais elevados Ora como a razão humana entregue a si mesma dificilmente pode alcançar esse perfeitíssimo conhecimento com muita exatidão e propriedade atribuímos à Filosofia a dignidade de ciência e não a de sabedoria Poderia obje tarse que a Filosofia é sabedoria porque a sabedoria consiste no conhecimento da causa suprema e altíssima que é Deus e a Filosofia trata de Deus Respondemos que a Filosofia seria simplesmente sabedoria se julgasse das coisas criadas pelo critério das INTRODUÇÃO 40 INTRODUÇÃO 2 Objeto da Filosofia O objeto pois da Filosofia é constituído pelas causas supremas dos entes enquanto são conhecidas pela luz natural da razão Por isso a Filosofia é uma só ciência porque embora con sidere muitos e diversos entes quer na ordem subjetiva quer na objetiva consideraos contudo sob um só aspecto isto é nas respectivas causas supremas e distinguese não só das ciências naturais que se ocupam das causas próximas dos entes mas também da Teologia revelada que se eleva à Causa altíssima de todos os entes pela luz sobrenatural da Fé1 coisas divinas porque a sabedoria é propriamente o conhecimento das coisas pela causa altíssima Mas não é assim Nós não julgamos das coisas criadas pelo critério das coisas divinas mas pelo contrário julgamos das coisas divinas pelo critério das coisas criadas isto é não conhecemos as criaturas por meio de Deus mas conhece mos Deus por meio das criaturas e por isso o nosso conhecimento é ciência e não sabedoria Tal é a doutrina de Santo Tomás Summ Theol IIa IIae q 9 a 2 ad 3 q 45 a 1 Por isso o nome de sabedoria convém propriamente à Teologia revelada e sobretudo àquele dom sobrenatural que tem esse nome e que consiste em julgar de todas as coisas em conformidade das relações que elas têm com Deus Todavia às vezes ciência e sabedoria tomamse no mesmo sentido 1 Em toda e qualquer ciência deve distinguirse um dúplice objeto material e formal O material é o ente que a ciência atinge assim o corpo humano é o objeto material da medicina o formal é a razão o aspecto sob o qual e pelo qual a ciência atinge o ente assim a sanidade é o objeto formal da medicina que não se ocupa do nosso corpo senão enquanto deve ser sanado Ora o objeto formal é própria e verdadeiramente o objeto da ciência E é esse objeto e não o material que dá às ciências a unidade e a espécie a unidade porque a ciência é e dizse una quando embora trate de coisas materialmente várias e diversas contudo consideraas sob um só aspecto ou razão assim a zoologia é uma só ciência porque trata de vários seres sob a única razão de animalidade a espécie porque uma ciência difere de outra quando embora considerem o mesmo objeto material contudo o consideram sob diferente aspecto assim a anatomia distinguese da fisiologia porque embora se ocupem do mesmo corpo humano todavia a anatomia considera a estrutura dele e a fisiologia as funções Feita esta distinção facilmente percebemos que o objeto material da Filosofia é constituído pelos vários entes que são o mundo o homem Deus os atos da inteligência e da vontade e que o objeto formal consiste nas causas supremas desses vários entes enquanto são conhecidos pela luz natural da razão Por isso a Filosofia é uma só ciência porque considera tudo sob o mesmo único aspecto e é especificamente diversa de todas as outras ciências que ou consideram apenas as causas próximas dos entes como as ciências naturais ou consideram as causas supre mas enquanto são conhecidas pela luz sobrenatural da Fé como a Teologia revelada É pois manifesto o erro de Laromiguière e de Jouffroy quando dizer que a Filosofia não tem objeto próprio e determinado e dos positivistas quando afirmam 41 INTRODUÇÃO 3 Divisão da Filosofia A Filosofia dividese em três partes que são a Lógica a Metafísica e a Moral Na verdade as causas supremas dos entes que esta ciência investiga podem referirse ou aos entes objetivos ou reais que não dependem de nós no seu ser ou aos entes subjetivos que dependem de nós no seu ser enquanto derivam da nossa inteligência e são os entes lógicos ou derivam da nossa vontade e são os entes morais Dos entes objetivos considerados nas suas causas supremas ocupase a Metafísica dos entes lógicos a Lógica dos entes morais a Moral A Metafísica subdividese em quatro partes que são a Ontologia a Cosmologia a Antropologia e a Teodicéia conforme se ocupa do ente considerado em geral ou trata do mundo do homem de Deus1 que a Filosofia não é uma ciência especial mas é uma classificação de ciências As causas supremas descobertas pela luz natural da razão são o objeto formal próprio da Filosofia que não compete a nenhuma outra ciência Da unidade e da espécie desse objeto deriva a unidade e a espécie desta ciência Os adversários partem do falso princípio que a unidade e a espécie de uma ciência depende da unidade e da espécie do objeto material e não do objeto formal Santo Tomás diz Illa scientia est una quae est unius generis subjecti objecti formaliter sumpti Materialis diversitas scibilium non diversificat scientiam sed formalis Tot log summa tr 8 c 14 1 Diz Santo Tomás O ofício do homem sábio é ordenar isto é dispor as coisas de modo que uma se refira a outra porque a sabedoria é a principal perfeição da razão e é próprio desta faculdade conhecer a ordem Ora a ordem referese à razão por quatro modos Porquanto há uma ordem que a razão não estabelece mas unicamente considera tal é a ordem das coisas naturais Há uma outra ordem que a razão refletindo estabelece nos próprios atos quando coordena as suas idéias e os sinais das idéias que são as palavras Há uma terceira ordem que a razão refletindo estabelece nas coisas externas que produz por exemplo numa casa A ordem que a razão apenas considera nas coisas mas não produz é objeto próprio da Filosofia natural à qual se reduz a Metafísica A ordem que a razão estabelece nos atos pró prios pertence à Filosofia racional que é a Lógica A ordem que a razão estabelece nos atos da vontade pertence à Filosofia moral que é a Ética A ordem finalmente que a razão estabelece nas coisas externas que produz pertence às artes mecânicas daí a Filosofia das artes chamada Estética In X Eth ad Nic 1 l I Desse modo a Filosofia abrange quatro partes que são a Lógica ciência da verdade subjetiva a Metafísica ciência da verdade objetiva a Estética ciência do belo a Moral ou Ética ciência do bem Como a Filosofia não trata exprofesso das artes mecânicas mas li mitase a expor os princípios do belo por isso a Estética pode reduzirse à Metafísica e assim teremos três grandes partes irredutíveis que são a Lógica a Metafísica e a Moral Notese que o homem embora seja um só ente pode contudo con siderarse sob um tríplice aspecto e assim ser objeto das três partes da Filosofia Porquanto ele é um ser real e como tal é objeto da Metafísica que o considera 42 INTRODUÇÃO 4 Disposição das partes da Filosofia A Lógica deve pre porse às outras partes da Filosofia pois ensina as regras que a nossa inteligência deve seguir em toda e qualquer ciência para alcançar provar e defender a verdade A Metafísica deve proceder a Moral pois é pela consideração do mundo do homem e de Deus que chegamos a conhecer o princípio o fim e a norma dos nossos atos morais Na Metafísica estudase primeiramente a Ontologia que tratando do ente em geral subministra os princípios fundamentais de todas as ciências depois a Cosmologia porque a primeira realidade que se oferece à nossa consideração é o mundo exterior em seguida a Antropologia não só porque o homem é a síntese de todos os entes visíveis mas também porque ele reflete sobre si mesmo depois de ter contemplado o mundo finalmente a Teodicéia porque é pela consideração do mundo e sobretudo do homem que nos elevamos ao conhecimento da existência e das infinitas perfeições de Deus1 na sua natureza é um ser racional isto é que raciocina e os atos da sua razão formam o objeto da Lógica que os regula para a consecução da verdade é um ser moral e os atos da sua vontade são o objeto da Moral que os ordena para a consecu ção do fim conveniente A divisão da Filosofia em três partes Lógica Metafísica e Moral introduzida primeiramente por Platão foi admitida pelos mais célebres escritores Cícero diz Fuit jam a Platone accepta philosophandi ratio triplex una de vita et moribus altera de natura et rebus occultis tertia de disserendo Acad l 1 n 6 O mesmo afirma Santo Agostinho De Civ Dei l XI c 26 Santo Tomás escreve Sunt tres Philosophiae partes scilicet moralis logica et naturalis In Matth c II Muitos autores dividem a Filosofia em teorética e prática A teorética é constituída pela Metafísica a prática abrange a Lógica a Moral e a Estética Também esta divisão é excelente Mas não po demos admitir a divisão em Lógica Dinamilogia Antropologia Ontologia Cosmologia e Teologia natural e muito menos a divisão em Psicologia Lógica Metafísica e Moral 1 A ordem que seguimos na disposição das partes da Filosofia pode cha marse e é doutrinal ou lógica porque corresponde à natural evolução e ao progresso dos nossos conhecimentos Pomos em primeiro lugar a Lógica porque antes de raciocinar o homem deve apreender as leis e o modo do raciocínio Por isso a Lógica deve preporse não só às outras partes da Filosofia mas também a todas as outras ciências porque em todas se emprega o raciocínio Diz Santo Tomás Prius Philosophus debet addiscere logicam quam alias scientias quia logica tradit commu nem modum procedendi in omnibus aliis scientiis In II Met c V l V Outros escritores seguindo a ordem ontológica principiam pela Ontologia porque esta parte da Metafísica trata das primeiras e universalíssimas idéias e propriedades de todas as coisas e considera os primeiros e supremos princípios de todas as ciências 43 INTRODUÇÃO 5 Relações entre a Filosofia e as ciências naturais a A Filosofia é mais excelente que as ciências naturais A exce lência de uma ciência medese pela excelência do objeto de que trata e do fim que atinge Ora o objeto da Filosofia enquanto teorética ou especulativa é mais excelente que o objeto das ciências naturais pois a Filosofia considera o mundo o homem Deus e considera estes seres nobilíssimos nas causas ou razões supremas e remotas ao passo que as ciências naturais ou não se ocupam desses objetos ou se se ocupam de alguns deles do mundo do homem limitamse a descobrir as causas ou razões mais óbvias e próximas como também o fim que a Filosofia enquanto prática atinge e que é a consecução do fim último isto é do Bem infinito na ordem natural é superior ao fim que as ciências naturais atingem e que é a consecução de um bem material ou temporal Logo a Filosofia é mais excelente que as ciências naturais1 Mas como poderemos nós raciocinar acerca do ente e dos seus atributos se não conhecermos o modo de raciocinar legitimamente Outros como Gratry seguin do a ordem da dignidade sustentam que o estudo da Filosofia deve principiar pela Teodicéia porque dizem Deus é o Ser absoluto e necessário de quem todas as coisas recebem a existência e a inteligibilidade Mas esses escritores confundem a ordem da realidade com a ordem do conhecimento Deus é o primeiro Ente na ordem da realidade porque tudo deriva dEle mas não é o primeiro Ente na ordem do co nhecimento porque é pelas criaturas que subimos ao Criador Outros e são os Cartesianos seguindo a ordem psicológica começam pela Psicologia que é uma parte da Antropologia porque dizem sendo as faculdades da alma os meios de que como de instrumentos o homem se serve para alcançar a verdade é necessário conhecer primeiramente essas faculdades e por isso a essência da alma de que derivam Mas a razão aduzida não é convincente Por quanto do fato de as faculdades da alma serem os instrumentos de que nos servimos para a consecução da verdade não se segue que para o reto uso dessas faculdades seja necessário conhecêlas na sua natureza e no seu princípio porque para isso basta que se admita a sua existência e o seu reto e legítimo modo de operar assim como para o reto uso do instrumento não é preciso que se conheça a qualidade da matéria de que foi feito mas basta que se conheça a sua virtude ou operação natural e o modo por que se emprega 1 Cf Summ Th Ia q 1 a 5 Podemos estabelecer a nossa tese sobre outra base O grau de perfeição ou excelência de uma ciência depende do seu grau de abstração Uma ciência é tanto mais perfeita quanto mais é abstrata Ora ne nhuma ciência é mais abstrata que a Filosofia e por isso esta excede em excelên cia todas as outras ciências Diz Taine Os três quartos dos homens consideram como especulações ociosas as grandes sínteses do pensamento e erram porque a formação dessas sínteses é o escopo da vida de um povo ou de uma idade e é por 44 INTRODUÇÃO b A Filosofia é necessária para a compreensão das ciências natu rais As causas dos entes estão por tal modo coordenadas entre si que as mais óbvias ou próximas dependem das supremas ou remotas Sendo assim é claro que as ciências naturais que têm por objeto as mais óbvias ou próximas causas somente na Filosofia que tem por objeto as causas supremas ou remotas podem encontrar a última razão das suas incógnitas o termo último das suas investigações porque as razões próximas dependem das supremas e dessas recebem inteligi bilidade e certeza Logo a Filosofia é necessária para a compreensão das ciências naturais1 6 Relações entre a Filosofia e a Teologia revelada a A Filosofia é uma ciência independente da Teologia revelada Uma ciência é independente de outra quando não recebe desta nem os princípios em que se funda nem as conclusões que deduz nem os meios de que se serve para deduzir dos princípios as conclusões Ora a Filosofia não recebe da Teologia revelada nem os seus princípios porque esses são conhecidos pela luz natural da razão nem as suas conclusões porque essas são deduzidas desses princípios nem os seus elas que a humanidade chega ao seu pleno desenvolvimento Se um habitante dos outros planetas descesse a perguntarnos onde se encontra a nossa espécie seria necessário mostrarlhe as cinco ou seis idéias que possuímos acerca do espírito e do mundo essas darlheiam o conceito exato dos nossos conhecimentos Le positivisme anglais p 1112 1 A Filosofia tendo por objeto próprio e específico as causas supremas das coisas descobre e ensina os princípios primeiros e universais que devem servir de fundamento a todas as ciências Por isso ela além de ser o vínculo que liga e reúne numa síntese grandiosa e admirável todas as ciências humanas é absolutamente ne cessária para a compreensão isto é para o perfeito conhecimento das outras ciências sobretudo da Matemática da Física do Direito positivo É necessária para a compre ensão da Matemática Na verdade a Matemática procede sempre pela abstração e pelo raciocínio Mas é a Filosofia que além de dar à Matemática os primeiros princípios que são a base de toda a ciência forma o espírito para o raciocínio e para a abstração É necessária para a compreensão da Física Porquanto a Física por se basear na observação e na indução e estudar as causas próximas dos fenômenos sensíveis não pode prescindir da Filosofia que determina as condições e as regras da observação e da indução e se eleva à Causa Primeira e absolutamente Suprema É necessária para a compreensão do Direito positivo Na verdade fundandose o Direito positivo no natural é claro que ninguém poderá estudar proficientemente aquele sem co nhecer este Ora o Direito natural é objeto da Filosofia moral 45 INTRODUÇÃO meios que são o silogismo e a indução porque esses são formados à luz dos mesmos princípios racionais Logo a Filosofia é independente da Teologia revelada1 b A Filosofia é inferior em dignidade à Teologia revelada É inferior quanto ao objeto porque a Filosofia embora pela luz natural da razão se eleve às causas supremas e até à Causa absolutamente pri meira contudo não descobre senão poucas verdades relativas a Deus e de um modo muito imperfeito ao passo que a Teologia revelada guiada pela luz sobrenatural da Fé descobre muitas outras verdades relativas a Deus que transcendem a capacidade de toda a inteligência criada É inferior quanto à certeza porque a Filosofia é guiada no conhecimento dos princípios e na dedução das conclusões pela luz natural da razão que pode enganarse e muitas vezes se engana ao passo que a Teologia revelada é guiada no conhecimento dos princípios que são os artigos da Fé pela luz da ciência divina que não se engana e não pode enganar e na dedução das conclusões pelo menos das que se relacionam com esses artigos pelo magistério infalível da Igreja É inferior quanto ao fim porque a Filosofia dispõe o homem para o fim 1 A Filosofia pertence aos grupos das ciências racionais isto é daquelas ci ências que a razão forma com as suas forças naturais e por isso é uma ciência au tônoma independente de toda e qualquer ciência mesmo da Teologia revelada De fato a Filosofia já existia quando apareceu a divina luz do Cristianismo e não pode dizerse que no aparecimento dessa luz ela perdesse a própria independência visto que N S Jesus Cristo veio a este mundo não para destruir a natureza mas para a aperfeiçoar e enobrecer E todos sabem que quando no meado do século XIX dois escritores franceses de Bonald e Lamennais pretenderam obrigar a razão humana a pedir os primeiros princípios e os primeiros motivos de certeza à Revelação sobre natural a Igreja não só não aceitou mas reprovou e condenou essa pretensão mais generosa do que sábia A ordem natural não pode fundarse na ordem sobrenatural cada uma tem as suas bases Mas daí não se segue que a Filosofia deva prescindir da Teologia revelada ou da Fé Esta permite à razão do filósofo seguir os próprios princípios e as suas livres tendências sem que seja dirigida de um modo positivo e direto pela Revelação contanto que evite de contradizer as verdades divinamente manifestadas e de invadir uma esfera superior É uma subordinação indireta que não se opõe à autonomia Diz o Concílio Vaticano A Fé não proíbe às ciências de serviremse cada uma na sua esfera dos seus princípios próprios e do seu método particular mas embora reconheça sempre esta justa liberdade vela com cuidado para que não aceitem erros metendose em oposição com a doutrina divina nem invadam e perturbem saindo dos seus limites a esfera e as verdades da Revelação Const Dei Filius c 11 46 INTRODUÇÃO último natural que consiste na contemplação de Deus pelas criaturas ao passo que a Teologia revelada ordena o homem para o fim último sobrenatural que consiste na visão intuitiva de Deus Logo a Filosofia é inferior em dignidade à Teologia revelada1 7 Utilidade da Filosofia A Filosofia é utilíssima para o indivíduo e para a sociedade a É utilíssima para o indivíduo Porquanto a Filosofia aperfei çoa as mais nobres faculdades de que o homem é dotado e que são a inteligência e a vontade Aperfeiçoa a inteligência elevandoa ao conhe cimento das causas supremas dos seres criados e até ao conhecimento do próprio Deus Aperfeiçoa a vontade guiandoa pela prática das virtudes morais à consecução da felicidade eterna ainda que na ordem natural Logo a Filosofia é utilíssima para o indivíduo2 b É utilíssima para a sociedade Porquanto a sociedade sendo uma reunião de indivíduos para o alcance de um bem comum exige o concurso eficaz e proporcionado de todos os seus membros Tal concurso dos membros da sociedade consiste na soma das forças especialmente morais com que eles conspiram para o fim e que deri vam da aplicação dos princípios da verdade e da moralidade Ora os princípios da verdade e da moralidade de cuja aplicação derivam as forças morais são ensinados e inculcados pela Filosofia Logo a Filosofia é utilíssima para a sociedade3 1 S Tomás Sum Th Ia q 1 a 5 demonstra que a Teologia revelada especulativa e prática é superior em dignidade a todas as outras ciências especula tivas e práticas que se guiam pela luz natural da razão Adverte o S Doutor que as dúvidas ou incertezas que se levantam no nosso espírito acerca de um ou outro artigo de Fé nascem não da incerteza objetiva dos mesmos artigos mas da fraqueza subjetiva da inteligência criada Ib ad 1 2 Que a Filosofia aperfeiçoe a inteligência é uma verdade que todos admi tem facilmente Mas nem todos pensam que a Filosofia tende também a aperfeiçoar à vontade o que é ainda mais importante A retidão da vontade é imensamente mais preciosa mais útil mais necessária que a ilustração da inteligência Toda a perfeição da nossa vontade mesmo na ordem natural resumese e consiste no amor do sumo e infinito Bem Ora esse amor despertase e aumenta à vista das perfeições criadas enquanto essas são um reflexo das infinitas perfeições de Deus Se são amáveis as criaturas infinitamente mais amável é o Criador 3 Os costumes correspondem às idéias Se isto se verifica nos indivíduos muito mais se verifica na sociedade porquanto se os indivíduos podem estar e estão 47 INTRODUÇÃO 8 Disposições para o estudo da Filosofia As principais são três oração humilde e fervorosa grande pureza de coração ardente amor da verdade É necessária a oração porque sendo Deus o Senhor das ciências o Pai das luzes a Ele deve recorrer quem deseja a sapiência É necessária a pureza de coração porque um coração que se arrasta no lodo das mais vis paixões não pode elevarse à contemplação de coisas nobilíssimas como são as de que trata a Filosofia É necessário o amor da verdade porque só esse amor provoca o desejo de saber conforta as forças e vence as dificuldades subordina as idéias às coisas e não as coisas às idéias e se detesta o erro ama sinceramente o errante 9 Fontes da Filosofia Sendo a Filosofia o conhecimento natural dos entes pelas causas supremas é claro que as suas legítimas fontes devem ser os livros dos escritores que trataram com verdade e sapiência os grandes problemas relativos ao mundo ao homem a Deus Sobre todos os escritores levantase como o sol entre os outros astros o grande Santo Tomás de Aquino a quem pela sublimidade do talento e pela inocência da vida a Igreja deu o nome de Doutor angélico Tudo o que de verdade se encontra nos escritos dos Filósofos pagãos dos Padres e Doutores da Igreja e de todos os sábios que os precede ram Santo Tomás não só conheceu perfeitamente mas aumentou mais ou menos em contradição consigo mesmos as multidões seguem sempre o impulso dos seus princípios Negai a Deus o livrearbítrio a propriedade e vereis a que pode chegar e chega uma sociedade Daí a insipiência dos homens políticos que proíbem a liberdade da ação e depois permitem a liberdade do pensamento É a Filosofia que dirige o mundo O conflito de interesses e das paixões nasce muitas vezes de uma idéia que um escritor lançou no seio da sociedade e que parecia dever ficar sempre no campo da abstração A Filosofia é sempre a luz da história Se quisermos conhecer a civilização de um povo ou de uma época devemos examinar a maneira por que esse povo ou essa época compreendeu o direito a autoridade a liberdade etc É na Filosofia de Sócrates de Platão e de Aristóteles que deve pro curarse a inteligência da história grega nos séculos V e VI antes de Cristo como nas teorias de Epicuro se encontra a explicação da corrupção e da decadência que se seguiram As glórias do século XIII coincidem com a grande época da Filosofia escolástica Foi o espiritualismo cristão de Descartes de Bossuet de Malebranche de Leibniz e de tantos outros que fez o século de Luiz XIV É impossível ter uma idéia exata da Revolução Francesa e dos princípios que a inspiraram se não se co nhecer a Filosofia do século XVIII A teoria que o capital é um roubo não tem sido e não é hoje porventura a causa da revolução social que ameaça cobrir o mundo de sangue e de ruínas Podemos portanto concluir que a história do mundo é a história das suas idéias 48 INTRODUÇÃO completou e ordenou com tal firmeza de princípios com tal severidade de raciocínio com tal perspicuidade e propriedade de linguagem que a sua doutrina não só revolve e esclarece os mais árduos problemas mas se adapta maravilhosamente às necessidades de todos os tempos e tem a força de refutar todos os erros passados presentes e futuros Levado por esses motivos o Santo Padre Leão XIII declarou Santo Tomás Patrono de todas as escolas católicas1 1 Alguns dizem que a Filosofia de Santo Tomás envelheceu que não corres ponde às necessidades dos nossos tempos nem conserva a força e a eficácia neces sária para confutar os adversários da verdade Mas erram Santo Tomás não deduz as suas conclusões senão dos princípios e das essências das coisas e como os prin cípios são imutáveis e as essências necessárias também as conclusões são imutáveis e necessárias Por isso a doutrina do Angélico satisfaz às necessidades e exigências da mente humana em todo e qualquer tempo e tem a eficácia de confutar todas as dificuldades dos adversários em todos os tempos A Filosofia escolástica de que Santo Tomás é o principal representante foi chamada justamente a Filosofia do senso comum e por isso deve ser seguida por todos os que ainda não renunciaram a esse bom senso Nem se diga que a Filosofia de Santo Tomás é contrária às descobertas e ao progresso das ciências naturais Santo Tomás não só não é contrário às ciências naturais mas ensinando que a nossa inteligência não pode elevarse ao conheci mento das coisas imateriais senão pelo conhecimento das coisas ensinou ao mesmo tempo com a palavra e com o exemplo que o filósofo deve investigar diligentemente os segredos da natureza e ocuparse do estudo das ciências físicas Os melhores na turalistas confessam que entre os princípios da Escolástica e as descobertas certas das ciências naturais não só não existe verdadeira oposição mas pelo contrário reina a mais perfeita harmonia o que teremos ocasião de mostrar no decurso desses ele mentos E se houvesse num caso determinado uma verdadeira e averiguada opo sição o que não é impossível pois as ciências naturais não tinham no século XIII o desenvolvimento que têm hoje o filósofo amigo unicamente da verdade não deveria ter dúvida em rejeitar uma conclusão embora defendida pelos mais afama dos mestres ou pelo próprio Santo Tomás É esta a norma inculcada pelo mesmo S P Leão XIII na célebre Encíclica Aeterni Patris 4 agosto 1879 10 Lógica Lógica do grego logos discurso razão é a ciência que dirige por meio de leis as operações da nossa razão para que ordenada e facilmente alcancemos a verdade Todos os homens têm uma certa aptidão natural para dirigir e coordenar as suas operações intelectuais É a Lógica natural Mas essa aptidão não era suficiente Foi necessário que por meio da reflexão e da análise se formasse um sistema completo de leis reguladoras do pensamento de modo que chegássemos à aquisição da verdade por um caminho fácil e direito Esse sistema de leis é a Lógica artificial ou científica de que nos ocupamos1 11 Objeto da Lógica O objeto da Lógica é constituído pelas nossas operações intelectuais enquanto devem ser dispostas e ordenadas para a consecução da verdade Daí a diferença entre a Lógica e as 1 O homem nasce com um ardente desejo de conhecer a verdade Juntamente com esse desejo o sapientíssimo Criador deunos uma aptidão proporcionada um critério natural pelo qual nos servíssemos com retidão das faculdades cognitivas e descobríssemos anteriormente a todo e qualquer magistério ou ensino algumas leis ou regras fundamentais que nos ajudassem a conseguir a verdade Essas regras assim descobertas constituem a Lógica natural A ela devemos o conhecimento de muitas verdades que são dotadas de evidência imediata e de muitas conclusões que espontaneamente derivam dessas verdades Mas a Lógica natural embora muito útil não basta Porquanto a verdade está por vezes tão escondida aos nossos olhos e tão cercada de dificuldades que não é fácil percebêla Por isso podendo aperfeiçoarse a natureza pela arte foi necessário aperfeiçoar essas regras da Lógica natural completandoas e coordenandoas de modo que a nossa inteligência pudes se produzir os seus atos com facilidade sem confusão e sem erro fazer bem as demonstrações embora complexas deduzir reta e legitimamente as conclusões remota e confusamente contidas nos princípios defender a verdadeira doutrina das objeções apresentadas sob as aparências da verdade Nem este trabalho de aperfeiçoamento é difícil para o homem Dotado de reflexão pode ele estudar e analisar os atos da própria inteligência e descobrir a maneira de os produzir com facilidade com ordem e sem erros O conjunto dessas regras que foram descobertas pela reflexão e completam as da Lógica natural constitui a Lógica artificial ou cien tífica Donde se vê que a Lógica artificial se distingue da natural como o perfeito se distingue do imperfeito Santo Tomás define assim a Lógica artificial Scientia quae est directiva ipsius actus rationis per quam scilicet homo in ipso actu rationis ordinate et faciliter et sine errore procedit Post anal lib I l 1 LÓGICA 52 LÓGICA demais ciências pois nenhuma dessas estuda o pensamento para o dirigir para o seu fim1 12 A Lógica é arte e ciência a É arte Porquanto arte é o conjunto de regras ou preceitos que ensinam a executar com perfeição alguma coisa Ora a Lógica é um conjunto de regras ou preceitos que ensinam a fazer com perfeição a definição a divisão o raciocínio etc Logo a Lógica é arte2 b É ciência Com efeito é próprio da ciência deduzir dos princípios intrínsecos que constituem a essência de um objeto as propriedades ou os atributos do mesmo objeto e se se trata de dar regras deduzilas dos próprios princípios das coisas a que essas regras se referem pois que a ciência é o conhecimento das coisas pelas suas causas Ora a Lógica deduz dos princípios que constituem a natureza do raciocínio da definição da divisão etc as regras para a reta formação do mesmo raciocínio etc Logo a Lógica é ciência3 1 O objeto da Lógica como o de qualquer outra ciência dividese em mate rial e formal O material que é tudo o que a ciência atinge é constituído pelas nossas operações intelectuais o formal que é o aspecto sob o qual a ciência atinge ou conside ra o objeto material é a ordem que a razão deve estabelecer nas suas operações para alcançar a verdade Em todas as ciências é indispensável a ordem entre os vários entes de que elas tratam mas nenhuma delas excetuada a Lógica tem por objeto a própria ordem Por isso a Lógica poderia definirse a ciência da ordem nas opera ções intelectuais Diz Santo Tomás Ordo quem ratio considerando facit in proprio actu pertinet ad rationalem philosophiam In 1 Eth l 4 2 A Lógica não só é arte mas é a arte das artes porque dirige o ato da razão do qual derivam todas as artes Diz Santo Tomás A razão pode dirigir não só os atos das outras faculdades mas até os seus próprios atos Porquanto a faculdade intelectual tem o poder de refletir sobre si mesma pois que a inteligência se entende a si mesma e a razão pode raciocinar acerca do seu ato E por isso assim como pelo fato de a razão raciocinar acerca do ato das mãos foi inventada a arte do pedreiro e do carpinteiro pela qual o homem pode exercer com facilidade e com ordem os atos dessas artes assim também pelo mesmo motivo é necessária uma arte diretiva do próprio ato da razão pela qual o homem nos seus raciocínios proceda com ordem com facilidade e sem erro Esta arte é a Lógica isto é a ciência racional A qual é racional não só porque é conforme à razão o que é comum a todas as artes mas também porque se refere ao ato da razão como à sua própria matéria Por isso pode chamarse a arte das artes porque dirige o ato da razão do qual derivam todas as artes 1 Post Analyt l 1 3 A Lógica não só é ciência mas é a ciência das ciências porque dirige a pró pria razão da qual derivam todas as ciências E é uma ciência especial isto é distinta 53 LÓGICA 13 Necessidade da Lógica O estudo da Lógica é sumamente necessário Porquanto a nossa inteligência nunca poderá alcançar um profundo e completo conhecimento de qualquer ciência se não souber ordenar as suas operações extremar a verdade do erro formar racio cínios julgar da legitimidade dos argumentos Ora tudo isto constitui o objeto da Lógica Logo o estudo da Lógica é sumamente necessário1 14 Divisão da Lógica As operações intelectuais que consti tuem o objeto da Lógica podem considerarse ou quanto à ordem que deve existir entre elas para a consecução da verdade ou quanto à realidade objetiva que elas exprimem Daí a divisão da Lógica em formal e material A Lógica formal ocupase da ordem com que devem ser dispostas e das leis às quais devem estar sujeitas as operações intelectuais que são a idéia o juízo e o raciocínio A Lógica material ocupase da realidade objetiva que as nossas operações exprimem e que é a verdade e por isso ocupase da natureza da verdade dos meios de todas as outras ciências Porquanto as ciências distinguemse pelos seus objetos formais Ora o objeto formal da Lógica que como dissemos é a ordem nos atos in telectuais distinguese do objeto formal das outras ciências que se ocupam de uma série de verdades relativas a uma coisa mas não se ocupam do modo de conseguir a verdade Por isso a Lógica não é o instrumento próximo e próprio de cada ciência mas é o instrumento remoto e comum a todas as ciências porque prescreve as leis do raciocínio que se hão de observar em toda e qualquer ciência Concluímos que a Lógica é ao mesmo tempo arte e ciência mas sob diferentes aspectos É arte porque dá as normas para a reta formação do raciocínio etc é ciência porque dá a razão das normas que prescreve Logo a Lógica é uma ciência prática Cf Summ Th Ia IIae q 57 a 3 ad 3 De tudo o que deixamos dito resulta a excelência da Lógica Todavia esta é inferior em dignidade às outras partes da Filosofia Com efeito o que se procura por amor de outra coisa é inferior ao que se procura por si mesmo pois o meio é inferior ao fim Ora a instrução que se procura no estudo da Lógica é um meio para o conhecimento perfeito das outras partes da Filosofia e em geral de todas as ciências 1 A maior parte senão a totalidade dos erros que se encontram nos livros dos modernos escritores sobretudo naturalistas derivam da ignorância da Lógica Apresentam eles às vezes hipóteses arbitrárias induções incompletas fatos não averiguados outras vezes de fatos certos e averiguados deduzem conseqüências falsas E qual é o motivo verdadeiro desses desvarios É a ignorância se não é o desprezo da Lógica Sem o estudo acurado desta ciência o homem se pode chegar ao conhecimento das verdades comuns que se percebem imediatamente pela força do bom senso não pode alcançar as outras verdades senão misturadas com muitos erros e depois de muitas dificuldades Cfr Cícero Orat IV 16 54 LÓGICA que empregamos para a aquisição da verdade faculdades do caminho que percorremos método e do resultado que alcançamos ciência A Lógica pois tratase em duas seções A primeira seção é dedicada à Lógica formal a segunda à material1 1 A Lógica formal chamase formal porque a ordem de que ela se ocupa é a forma das nossas operações Dizse também analítica porque analisa o pensamen to e também porque se funda em princípios analíticos dialética porque ensina a raciocinar subjetiva porque trata dos atos do sujeito pensante menor porque trata da forma das nossas operações intelectuais que é inferior à sua matéria a ver dade e porque trata de questões menos difíceis e menos elevadas A Lógica mate rial chamase assim porque a verdade é a matéria ou o conteúdo dos pensamentos Dizse também crítica porque trata dos critérios isto é dos meios úteis para alcan çar com certeza a verdade objetiva porque se ocupa da verdade que é o objeto ou a matéria do pensamento maior porque estuda a matéria do pensamento que é a verdade e que é superior à sua forma e porque trata das questões mais difíceis e ele vadas Esta divisão da Lógica em formal e material fundase na teoria acerca da ma téria e da forma que Aristóteles e os escolásticos expuseram em conformidade com o senso comum dos homens Kant adotou as palavras mas alterou o sentido delas Dividiu também ele a Lógica em formal e material mas a Lógica formal para ele é a que se ocupa de umas formas subjetivas ou idéias do pensamento inteiramente independentes da realidade e anteriores a todo e qualquer dado da experiência Para os homens de bom senso a Lógica formal tratando da forma do pensamento e por isso dos vários modos de combinar as idéias os juízos os raciocínios se prescinde da realidade objetiva do pensamento não a nega nem falseia como fazem os Kantistas autor e pai da Lógica científica foi Aristóteles no seu Organum obra perfeita a qual segunda a confissão do próprio Kant nada foi depois acrescentado Na idade média os escolásticos e sobretudo Santo Tomás expuseramna e comentaramna A Lógica que teve Aristóteles por fundador é a formal 15 Operações da inteligência A inteligência humana não apreende sempre a verdade de um modo intuitivo e simultâneo mas por graus e em momentos sucessivos executando três diversas opera ções que são a idéia o juízo e o raciocínio Essas operações estão por tal forma dispostas que a idéia se refere ao juízo e esse ao raciocínio pois o juízo é composto de idéias e o raciocínio de juízos A expressão verbal da idéia é o termo do juízo é a proposição do raciocínio é a argumentação1 16 Divisão da Lógica formal Dividimos a Lógica formal em três capítulos no primeiro tratamos da idéia e do termo no segundo do juízo e da proposição no terceiro do raciocínio e da argumentação CAPÍTULO PRIMEIRO Idéia e Termo Sumário Idéia sua definição e análise Divisão geral da idéia Divisão da idéia universalreflexa Redução das idéias a categorias Definição e divisão 1 Todas as operações da nossa mente para alcançar a verdade resumemse nas três indicadas Na verdade quando percebemos alguma coisa ou emitimos o nosso juízo ou não Não há outra hipótese Se não emitimos o nosso juízo é mera apreensão é idéia Se emitimos um juízo esse ou emitese imediatamente pela sim ples comparação do predicado com o sujeito e fazemos um juízo ou deduzse de um juízo precedente e temos o raciocínio Outras operações que alguns escritores enumeram são apenas modalidades de uma ou outra das três mencionadas e redu zemse a essas Cfr Santo Tomás In Periher l 1 A causa pela qual a inteligência humana para alcançar a verdade precisa de executar várias e diversas operações é a sua limitação Se ela percebendo um objeto pudesse compreender com uma simples intuição tudo o que a esse objeto se refere não haveria necessidade de formar juízos como também se num princípio pudesse distintamente conhecer todas as conclusões virtual e implicitamente con tidas nesse princípio não haveria lugar para raciocínios Mas a inteligência humana não é dotada de tanta perfeição Summ Theol Ia q 58 a 3 e 4 Seção Primeira Lógica Formal 56 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO I Idéia sua definição e análise 17 Idéia Idéia é a simples representação intelectual de uma coisa assim percebendo o homem temos uma idéia A idéia é representação porque é uma imagem que exprime e reproduz a coisa é representação intelectual porque é uma imagem gravada na inteligência e não na fantasia ou numa outra faculdade sensitiva é simples representação porque à coisa reproduzida por ela não se atribui nem se nega propriedade alguma1 18 Objeto da idéia O objeto que a idéia representa é a essên cia ou natureza do ser percebido Porquanto a coisa que é representada ou reproduzida na inteligência pela idéia não é todo o ser percebido mas é apenas o que esse ser tem de mais íntimo e que o constitui numa determinada espécie e não noutra assim a coisa que a idéia de homem representa não é tudo o que o indivíduo humano possui mas é só o que o torna indivíduo desta espécie que é a humanidade Ora a coisa que um ser tem de mais íntimo e que o constitui numa certa espécie é a essência ou natureza Logo o objeto que a idéia representa é a essência ou natureza do ser percebido2 1 A reprodução ou representação de uma coisa na nossa inteligência tem o nome de idéia porque nessa representação a inteligência vê a própria coisa A idéia chamase também verbo mental porque a nossa inteligência informada pela idéia fala e diz a si mesma a coisa percebida conceito porque é uma coisa que é gerada pela própria inteligência e que começa a viver a vida intelectual do sujeito cognoscente Termo mental porque todos os atos intelectuais se resolvem nas idéias como nos seus últimos elementos Percepção ou apreensão porque a inte ligência forma a idéia de uma coisa quando a percebe ou apreende Notamos que rigorosamente falando a percepção é o ato subjetivo do cognoscente ao passo que a idéia é o produto desse ato ou por outras palavras a percepção é o conhecimento considerado subjetivamente e a idéia é o próprio conhecimento considerado objeti vamente Todavia no uso comum a percepção e a idéia empregamse para significar uma e a mesma coisa Sendo uma representação intelectual a idéia não deve confundirse com a imagem sensível que se forma na fantasia juntamente com a percepção e que acom panha todas as operações intelectuais porque essa imagem sensível representa uma coisa material como existe na realidade ao passo que a idéia representa a coisa de um modo espiritual ou imaterial 2 Todos os seres finitos são compostos de muitos e diversos elementos alguns dos quais são comuns a outros seres da mesma espécie ou gênero e outros 57 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 19 Caracteres da idéia Os principais caracteres da idéia são dois a universalidade e a necessidade a A idéia é universal Porquanto a idéia representa a essência ou natureza dos seres Ora tal essência ou natureza pelo fato de determinar os seres a uma certa espécie é comum a todos os seres que pertencem à mesma espécie e a todos pode atribuirse no mesmo sentido e por isso é uma coisa universal tal é a humanidade Logo a idéia representando a essência ou natureza dos seres é universal1 b A idéia é necessária A idéia representa a essência ou a natureza dos seres Ora a essência dos seres é imutável e por isso necessária porque se lhe tirar ou acrescentar um só dos elementos são próprios de cada ser Assim um certo homem por exemplo Pedro é animal é racional é branco é alto é sábio etc Alguns desses elementos como animal racional são comuns a todos os homens outros como branco alto etc são próprios deste homem que se chama Pedro e não de outro homem Os elementos comuns consti tuem a essência ou a natureza de Pedro porque a essência do homem é constituída pela animalidade e pela racionabilidade ao passo que os outros estão fora da natureza Ora a idéia de homem representa a essência ou a natureza desse ser e não as proprie dades individuais que o fazem distinguir dos outros homens Na verdade a idéia é a forma de uma faculdade imaterial como é a nossa inteligência Mas uma faculdade imaterial só pode receber uma coisa imaterial como é a essência dos seres As ima gens representativas das propriedades individuais dos seres só podem ser recebidas nas faculdades da ordem inferior que é a sensitiva Advertimos que a idéia pode ser tomada segundo o seu objeto material e se gundo o seu objeto formal É tomada segundo o seu objeto material quando se toma no conjunto de todos os elementos que a constituem assim quando digo Pedro é homem a idéia de homem é tomada no conjunto de todos os elementos que a consti tuem e que são a animalidade e a racionalidade É tomada segundo o seu objeto formal quando se toma na parte dos seus elementos que denota a diferença específica assim quando digo o homem e o anjo conhecem o Criador a idéia de homem é tomada apenas num dos seus elementos a racionalidade pela qual o homem convém com o anjo e que é a causa adequada desse conhecimento 1 A idéia universal como veremos é formada pela abstração enquanto a in teligência considera nos seres de uma espécie o que é comum a todos sem se importar do que é próprio de cada um É só a este caráter de universalidade de que são dotadas as idéias que devemos o poder de formar juízos e raciocínios Assim se posso dizer com razão que Pedro é homem Paulo é homem só posso dizêlo enquanto a idéia de homem representa o que há de comum nos indivíduos humanos prescindindo do que é próprio de Pedro de Paulo etc porque se a idéia de homem representasse o que é próprio de Pedro não poderia dizerse que Paulo é homem 58 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA que a constituem muda imediatamente assim se ao homem que é o animal racional se tirar o animal já não temos mais o homem mas o anjo Sendo necessária a essência dos entes também necessária é a idéia que o representa1 20 A idéia é sinal natural Sinal é uma coisa que nos leva ao conhecimento de outra É natural ou convencional conforme a rela ção entre a coisa significativa e a coisa significada depende da natureza assim o fumo é sinal natural do fogo ou depende do acordo dos homens assim o ramo da oliveira é sinal convencional da paz Ora a idéia é sinal porque apresenta um objeto ao nosso espírito e é sinal natural porque a relação entre ela e o objeto depende da natureza independente de toda a convenção humana2 21 Compreensão e extensão da idéia A compreensão da idéia é a soma ou o conjunto das notas ou dos elementos que a constituem assim a compreensão da idéia de homem é formada pelos dois elementos ou notas animalidade e racionalidade A extensão é a soma ou o número dos indivíduos que a idéia abrange assim a extensão da idéia de homem é constituída pela coleção de todos os indivíduos humanos A compre ensão e a extensão da idéia estão na razão inversa porque quanto maior é a compreensão tanto menor é a extensão e viceversa quanto maior é a extensão tanto menor é a compreensão assim a idéia de homem tem mais compreensão que a idéia de animal porque o homem possui todos os graus de perfeição de que é dotado o animal e além disso possui a razão de que o animal é destituído mas pelo contrário a idéia de animal tem mais extensão que a idéia de homem porque a idéia de 1 Como se vê a necessidade ou imutabilidade da idéia é uma conseqüência da necessidade ou imutabilidade da essência das coisas Da necessidade ou imutabilidade da essência trataremos e com o devido desenvolvimento mais tarde na Ontologia 2 A divisão do sinal em natural e convencional fundase no seu nexo com a coisa significada Mas se atendermos ao seu nexo com a faculdade cognitiva o sinal dividese também em formal e objetivo É formal quando é imagem e semelhan ça de uma coisa e por isso nos leva imediatamente antes dele ser percebido por si mesmo ao conhecimento da coisa significada assim a imagem de uma flor recebida na faculdade visual leva imediatamente esta faculdade à percepção da flor É objetivo quando primeiramente é conhecido em si mesmo e só em seguida leva à percepção do objeto representado assim o fumo é sinal objetivo do fogo Ora a idéia é sinal formal porque leva imediatamente à percepção do objeto e só depois é percebida pela reflexão Mas disto ocuparnosemos mais tarde 59 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO animal abrange todos os homens como a idéia de homem e além disso estendese a muitos outros seres vivos aos quais não se estende a idéia de homem1 ARTIGO II Divisão geral da idéia 22 Divisão geral da idéia A idéia pode considerarse ou quanto ao objeto que ela representa ou quanto ao modo por que o representa Daí uma dúplice divisão 23 Divisão da idéia quanto ao objeto representado Quanto ao objeto que representa a idéia dividese a em real e lógica b positiva e negativa c absoluta e relativa d simples e composta e abstrata e concreta f intuitiva e abstrativa g unívoca e análoga h singular universal e particular i universaldireta e universalreflexa a Idéia real e lógica Idéia real é a que representa um objeto real isto é existente fora do nosso pensamento tal é a idéia de homem considerado como é em si mesmo Idéia lógica é a que representa um ente lógico isto é só existente na inteligência tal é a idéia de homem con siderado como espécie a que estão subordinados os indivíduos humanos2 b Idéia positiva e negativa A idéia positiva é a que exprime uma entidade ou perfeição tais são as idéias de luz de virtude A idéia 1 A compreensão da idéia não pode aumentar nem diminuir sem que a idéia deixe de ser o que é porque a compreensão denota a essência e esta é incapaz de aumento e de diminuição A extensão da idéia porém pode aumentar ou diminuir sem que por isso aumente ou diminua a sua compreensão pois a extensão é uma coisa extrínseca e acidental à idéia 2 Um e o mesmo ser pode considerarse em si ou na inteligência Considerado em si o ser possui propriedades de que a natureza a dotou indepen dentemente do nosso pensamento A idéia que representa este ser é real tal é a idéia de homem considerado em si mesmo isto é nos seus elementos ou notas de ser sensitivo e racional Considerado na inteligência o ser possui ou pode possuir atributos que não possui na realidade e por isso lhe foram dados não pela natureza mas pela abstração e reflexão do nosso pensamento A idéia que representa esse ser é lógica tal é a idéia de homem considerado como espécie porque na realidade não existe o homemespécie mas existe unicamente o homemindivíduo 60 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA negativa é a que denota a ausência ou privação de entidade ou perfeição tais são as idéias de trevas de pecado que indicam a ausência da luz ou da virtude1 c Idéia absoluta e relativa A idéia absoluta representa um objeto que se não refere a outro como a idéia de planta A relativa representa um objeto que se refere a outro como a idéia de filho que se refere à de pai d Idéia simples e composta A idéia é simples quando é constituída por um único elemento tal a idéia de ente É composta quando abrange vários elementos como é a idéia de homem composto de alma e de corpo2 e Idéia abstrata e concreta Idéia abstrata é a que representa uma essência ou propriedade como que separada do sujeito e subsistente por si tal é a idéia de sabedoria Concreta é a que representa um sujeito com a sua forma ou propriedade como existe nas coisas tal é a idéia de sábio3 1 A idéia negativa não representa a própria ausência de entidade porque a au sência é nada e do nada não há imagem mas significa a oposta entidade enquanto negada Assim a idéia de trevas representa não a ausência da luz mas a negação da luz isto é a própria luz enquanto negada Para que pois uma idéia possa chamarse positiva ou negativa é necessário atender à coisa significada e não ao seu termo oral Se a idéia exprime uma ausência de entidade é sempre negativa embora o termo oral seja positivo tal é a idéia de morte como também se a idéia exprime uma entidade é sempre positiva embora o termo oral seja negativo tal é a idéia de imortal Por isso alguns termos são positivos na expressão e negativos na significação exemplo cegueira morte pecado e outros são positivos na significação e negativos na expressão exemplo imortalidade imensidade 2 Pode dizerse também que a idéia é simples quando exprime uma essên cia incomplexa isto é quando exprime uma única essência porque a essência ainda que constituída por vários elementos é por si simples ou indivisível de modo que não lhe se pode tirar um só elemento sem que ela fique destruída tal é a idéia de homem é composta quando exprime uma essência complexa isto é um complexo de essências tal é a idéia de sábio que significa o homem e a sabedoria 3 Há três espécies de concreto metafísico físico e lógico É metafísico quando a forma ou propriedade é essencial ao sujeito tal é homem porque a humanidade compete essencialmente ao indivíduo da espécie humana É físico quando a proprie dade ainda que intrínseca ao sujeito é contudo acidental enquanto não lhe com pete necessariamente tal é sábio porque a sabedoria não compete necessariamente ao homem aliás todo o homem seria sábio É lógico quando a propriedade é acidental e extrínseca ao sujeito tal é louvado porque o louvor está propriamente no conceito e nas palavras dos que louvam e não no sujeito que é seu termo 61 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO f Idéia intuitiva e abstrativa A idéia intuitiva é a que repre senta uma coisa como é em si mesma enquanto esta se une imediatamente à inteligência ou pela sua essência ou por uma imagem própria tal é a idéia de Pedro que está na minha presença A idéia abstrativa é a que representa uma coisa não como é em si mesma mas como se encontra na imagem de outra coisa que de algum modo a manifesta tal é a idéia que temos agora de Deus pela vista das criaturas1 g Idéia unívoca e análoga A idéia unívoca representa um objeto que se toma sempre numa e mesma significação tal é a idéia de substância que aplicada à planta ao sol etc significa sempre a mesma coisa A idéia análoga representa um objeto que se atribui aos infe riores numa significação nem totalmente idêntica nem totalmente diversa tal é a idéia de sanidade que se atribui ao animal ao alimento à cor2 1 A idéia intuitiva se chega a representar ou exprimir a coisa tanto quanto esta é cognoscível de modo que o conhecimento iguale e como que esgote toda a grandeza do objeto conhecido chamase compreensiva Os bemaventurados no Céu têm um conhecimento intuitivo de Deus mas não compreensivo só uma inteli gência infinita pode compreender um ser infinito Façamos uma advertência Para a idéia de uma coisa ser intuitiva não basta que a coisa seja conhecida imediatamente por si mesma mas é preciso que se una à faculdade cognitiva ou pela sua essência ou por uma espécie ou imagem própria Assim o todo e a parte são coisas conhecidas imediatamente por si mesmas sem que para serem percebidas seja preciso recorrer a outras coisas em que estejam contidas e contudo essas idéias não são intuitivas mas abstrativas porque se formam pela abstração 2 A idéia análoga merece especial atenção Analogia significa proporção re lação semelhança Idéia análoga como dizemos no texto significa uma proprieda de ou perfeição a qual se atribui a entes que são essencialmente diversos mas que têm entre si uma certa proporção ou semelhança Assim quando se diz são o animal e são o alimento a sanidade atribuise ao animal e ao alimento numa significação que não é nem totalmente idêntica porque à sanidade atribuída no alimento sig nifica uma coisa e atribuída ao animal significa outra nem totalmente diversa porque a sanidade encontrase no animal como no seu sujeito e no alimento como na sua própria causa Há uma tríplice espécie de idéias análogas uma segundo a proporção outra segundo a atribuição e a terceira segundo a proporcionalidade Alguns autores iden tificam a analogia de proporção com a de atribuição a A idéia análoga segundo a proporção representa uma propriedade a qual se atribui a dois entes a um enquanto se encontra nele principal e intrinsecamente principal analogado a outro enquanto ainda que se não encontre nele intrinse camente contudo tem uma certa relação com o primeiro analogado secundário tal é 62 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a idéia de sanidade atribuída ao animal e ao alimento porque o animal dizse são por si enquanto a sanidade lhe convém intrinsecamente ao passo que o alimento se diz são só em ordem ao animal isto é só enquanto é causa de sanidade no animal b A idéia análoga segundo a atribuição representa uma propriedade a qual se atribui a dois entes não enquanto a um convém intrinsecamente e ao outro em ordem ao primeiro mas enquanto um e outro se referem a um terceiro ao qual essa propriedade convém principal e intrinsecamente tal é a idéia de sanidade atribuí da ao alimento e à cor porque o alimento e a cor não se dizem são senão em relação a um terceiro ao animal em que a sanidade se encontra principal e essencialmente visto que o alimento é causa da sanidade do animal e a cor é sinal dessa sanidade Por isso na analogia de atribuição há pelo menos três termos ao passo que na analogia de proporção há só dois c A idéia análoga segundo a proporcionalidade representa uma propriedade que se atribui a dois entes não porque um se refere a outro mas porque a relação dessa propriedade com um ente é semelhante ou proporcionada à relação da mesma propriedade com outro ente tal é a idéia de rei que se atribui ao homem e ao leão porque a relação do leão com os outros animais é semelhante à relação do soberano com os seus súditos isto é o leão está para os outros animais como o soberano está para os seus súditos Como se vê a analogia de proporcionalidade encerra duas proporções e quatro termos embora nem sempre explícitos e chamase de proporcionalidadepor isso mesmo que a proporcionalidade é como diz Santo Tomás a proporção ou a semelhança entre duas proporções Aequalitas proportionum vocatur proporcionalitas In V Met lect V A idéia análoga segundo a proporcionalidade pode ser análoga segundo a pro porcionalidade própria e segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica É análoga segundo a proporcionalidade própria quando a propriedade representada pela idéia se atribui aos dois termos analogados porque num e noutro se encontra como forma intrínseca embora se não encontre em ambos do mesmo modo Assim a idéia de sapiência quando se atribui a Deus e ao homem é análoga segundo a proporcionalidade porque a relação da sapiência com a inteligência humana é semelhante à relação da mesma sapiência com a inteligência divina visto que numa e noutra inteligência a sapiência sig nifica o conhecimento das causas supremas e é análoga segundo a proporcionalidade própria porque a sapiência é uma forma intrínseca tanto da inteligência divina quanto da humana embora na divina seja infinitamente mais perfeita do que na humana É análoga segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica quando a propriedade representada pela idéia se atribui aos dois termos analogados porque num se encontra como forma intrínseca e noutro como semelhança dessa forma Assim a idéia de riso quando se atribui ao homem e ao jardim é análoga segundo a proporcionalidade porque a relação do riso com a face do homem é semelhante a relação da amenidade com o jardim mas é análoga segundo a proporcionalidade imprópria ou metafórica porque o riso compete própria e intrinsecamente ao homem ao passo que ao jardim só compete por uma certa semelhança que esse tem com o próprio riso do homem Essa analogia de proporcionalidade imprópria embora tenha o seu fundamento nas coisas contudo depende principalmente do arbítrio humano Donde se segue 63 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO h Idéia singular universal e particular A idéia é singular quando representa uma essência própria de um só indivíduo determinado de modo que só a esse convém ou pode ser atribuída tal é a idéia de Pedro É universal quando representa uma essência comum a muitos entes de modo que a todos e a cada um deles pode ser atribuída tal é a idéia de humanidade que é comum a todos os homens e que se atribui a todos e a cada um deles Por isso a idéia universal tomase em toda a sua extensão A particular é a própria idéia universal mas tomada numa parte da sua extensão como é a idéia de alguns homens1 a Na analogia de proporção ou de atribuição 1º a forma é intrínseca ao analogado principal mas é extrínseca e só convém por denominação quanto ao nome aos outros analogados assim a sanidade é intrínseca ao animal mas é extrínseca à cor ao alimento etc que dela só tem o nome não a realidade 2o a forma do analogado principal deve entrar na definição dos outros analogados que recebem do principal o nome assim não podemos entender o que é a sanidade no alimento se não entender mos primeiramente o que é a sanidade no animal 3o se nos analogados principal e secundários não há unidade de forma porque a forma encontrandose apenas no analogado principal é numericamente una há contudo unidade de ordem enquanto os analogados secundários se referem a uma e a mesma forma do analogado da qual tiram o seu nome 4o os analogados não têm um e o mesmo conceito objetivo porque não têm uma e a mesma forma e o conceito é proporcionado à forma b Na analogia de proporcionalidade própria 1o a forma é intrínseca tanto ao analogado principal como aos outros ainda que o não seja do mesmo modo e por isso as idéias análogas segundo esta analogia diferem das análogas segundo a pro porção e a atribuição e também das unívocas 2o o analogado principal não deve entrar na definição dos outros porque esses têm a sua forma intrínseca de que tiram o próprio nome 3o todos esses analogados convêm num só conceito objetivo porque todos são intrinsecamente constituídos pela mesma forma mas esta unidade é imperfeita porque a forma não se encontra em todos do mesmo modo c Na analogia de proporcionalidade metafórica verificase o que se verifica na analogia de proporção e de atribuição porque por exemplo o riso não é intrínseco no jardim como o é no homem e por isso não tem e não pode ter um e o mesmo conceito objetivo 1 Toda a idéia representa uma essência Mas a essência que a idéia singu lar representa está cercada de certas propriedades que no seu conjunto só podem convir a um indivíduo determinado Essas propriedades chamamse também notas ou propriedades individuais e reduzemse a sete contidas nos seguintes versos latinos Forma figura locus tempus stirps patria nomem Haec ea sunt septem quae non habet unus et alter A essência porém que a idéia universal exprime considerase em si ou nos seus elementos constitutivos sem relação aos caracteres que a tornam concreta nos 64 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA indivíduos e desse modo representasenos como uma coisa a qual por tal modo existe ou pode existir em muitos seres que neles se multiplique e a cada um deles se atribui Assim insistimos no mesmo exemplo a humanidade abstraída das circuns tâncias ou notas que a tornam concreta em Pedro Paulo etc é uma coisa que se encontra em muitos indivíduos pois a humanidade existe em todos os homens multiplicase numericamente neles porque há tantos homens quantos são os que têm a humanidade e atribuise a cada um deles pois de cada indivíduo de natureza humana podemos dizer que é homem A idéia universal difere a da transcendental b da comum c da coletiva d e da particular a A idéia universal difere da transcendental A idéia é transcendental quando representa uma coisa que pode atribuirse a todos os entes existentes e possíveis tal é a idéia de ente de verdadeiro de bom etc Dizse transcendental porque trans cende ou excede todos os gêneros e todas as espécies Ora há uma grande diferença entre a idéia universal e a transcendental Por quanto a idéia universal não representa senão o que é próprio de uma determinada categoria de entes ao passo que a trans cendental aplicase a todos os seres existentes e possíveis Além disso a idéia universal representa uma coisa que se atribui a todos os sujeitos aos quais se estende numa significação unívoca ou idêntica assim homem aplicado a Pedro a Paulo etc significa sempre a mesma coisa ao passo que a transcendental representa uma coisa que se atribui aos seus sujeitos numa significação análoga assim ente aplicado ao homem à planta à pedra não significa a mesma coisa b A idéia universal difere da comum Na verdade a essência indicada pela idéia universal multiplicase nos sujeitos a que se atribui de modo que a essência de um indivíduo embora convenha especificamente com a essência de outro indivíduo todavia difere numericamente assim são tantas as humanidades quantos os homens Mas a essência denotada pela idéia comum embora se atribua a vários supostos todavia não exprime exigência de multiplicação numérica nos mesmos supostos a que se atribui Assim a Essência Divina é comum às Três Pessoas mas não pode chamar se universal porque não pode estar sujeita à multiplicação numérica pois há um só Deus Cf S Th In 1 Sent dist 19 q 4 a 2 ad 2 c A idéia universal difere da coletiva exército rebanho Porquanto a uni versal pode ser atribuída a todos e a cada um dos sujeitos mas a coletiva convém só à coleção inteira dos sujeitos Por exemplo a idéia da planta que é universal atribuise a cada um dos vegetais assim dizemos a figueira é planta o pinheiro é planta a flor é planta ao passo que a idéia de exército por ser coletiva não convém a cada soldado porque não podemos dizer este soldado é o exército Sum Th Ia q 31 a 1 ad 2 d A idéia universal difere da particular Porquanto como dissemos a idéia universal tomase em toda a sua extensão mas a particular só numa parte da sua exten são assim quando dizemos alguns homens concebemos a essência humana existente não em todos os homens mas só em alguns homens indeterminados Como se vê a idéia particular aproximase da singular e às vezes chega a identificarse com esta como neste exemplo certo homem escreveu os Lusíadas 65 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO i Idéia universaldireta e universalreflexa A idéia uni versaldireta representa uma essência considerada nos seus elementos constitutivos e sem relação aos indivíduos nos quais se encontra ou pode encontrarse tal é a idéia de homem só considerada nas notas de anima lidade e de racionalidade A idéia universalreflexa representa a mesma essência mas considerada em relação aos indivíduos ou aos inferiores nos quais pode existir e aos quais pode atribuirse tal é a idéia de homem considerada como espécie Como se vê a idéia universalreflexa é a própria universaldireta à qual se acrescenta a relação aos inferiores1 24 Divisão da idéia quanto ao modo de representar o objeto Em relação ao modo por que representa o objeto a idéia dividese Portanto é fácil reconhecer as notas que caracterizam e distinguem a idéia singular e a universal A singular é incomunicável porque convém exclusivamente a um certo e determinado indivíduo a universal é comunicável porque pode atribuirse e atribuise a todos e a cada um dos indivíduos dotados da essência que essa idéia ex prime A singular é concreta porque está envolvida nas propriedades individuais ao passo que a universal é abstrata pois considerase como que separada das propriedades individuais que possui na realidade A singular é complexa pois que se compõe da es sência e dos caracteres individuais a universal é incomplexa porque só exprime a essência do ente A singular tem menos extensão que a universal porque a singular aplicase a um só indivíduo ao passo que a universal aplicase a muitos mas tem mais compreen são que a universal porque a singular não só representa a essência como a universal mas também representa as notas ou propriedades que a universal não representa 1 A idéia universaldireta representa um ente real porque os constitutivos de uma essência se acham verdadeiramente na mesma essência independentemente da nossa inteligência A universalreflexa enquanto contém a universaldireta isto é uma essência é ente real mas enquanto diz relação aos inferiores e se consi dera como uma forma comum a vários inferiores é ente lógico isto é é um produto da nossa inteligência e não existe na realidade embora tenha nesta o seu funda mento assim o homem considerado como espécie não existe realmente Mas disto mais tarde e com o devido desenvolvimento A idéia universaldireta é chamada direta porque se concebe por uma consideração direta da nossa inteligência Dizse também metafísica ou objetiva porque exprime a essência considerada em si isto é independentemente do nosso pensamento fundamental porque não designan do explícita e positivamente os indivíduos é o fundamento da universalreflexa A universalreflexa dizse reflexa porque se concebe por uma consideração reflexa da inteligência Chamase também lógica porque a relação de uma essência aos indi víduos em que se encontra ou possa encontrarse é obra inteiramente dependente da inteligência formal porque exprime exatamente a índole da idéia universal que consiste em uma coisa ser comum a muitas 66 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a em clara e obscura b distinta e confusa c completa e incompleta d adequada e inadequada a Idéia clara e obscura A idéia é clara quando o objeto por ela representado se extrema de qualquer outro É obscura quando o objeto não se extrema dos outros A idéia obscura pode tornarse clara b Idéia distinta e confusa A idéia é distinta quando não só extrema o seu objeto de qualquer outro mas também indica os ele mentos essenciais do mesmo objeto assim a idéia de homem é distinta quando representa a animalidade e a racionalidade que são os elementos constitutivos do homem É confusa quando não exprime os elementos essenciais do objeto ainda que o extreme de qualquer outro c Idéia completa e incompleta A idéia é completa quando abrange não só os elementos essenciais do objeto mas ainda as mais simples notas em que eles podem resolverse assim a idéia de homem é completa quando exprime também as notas de ente subsistente cor póreo vivente sensitivo inteligente livre incluída na animalidade e na racionalidade É incompleta quando embora exprima os elementos essenciais de que o ente é constituído todavia não indica as mais simples notas em que esses elementos se resolvem d Idéia adequada e inadequada Idéia adequada é a que apresenta à inteligência todo o objeto em si mesmo e em todas as suas relações por forma que entre ele e a idéia existe uma completa equação Esta idéia superior às forças da nossa inteligência é só própria de Deus A inadequada é a que não chega a tanta perfeição1 ARTIGO III Divisão da idéia universalreflexa 25 Divisão da idéia universalreflexa A idéia universal reflexa é como dissemos a que representa a essência em relação aos indivíduos e exprime o modo por que uma coisa pode existir em muitos 1 Para outros a idéia é adequada se do seu objeto representa o que é bastante para um certo e determinado fim é inadequada no caso contrário Todavia esta in terpretação não está muito conforme com a própria etimologia da palavra adequada 67 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO sujeitos e serlhes atribuída na mesma significação Ora esta idéia divi dese em espécie gênero diferença propriedade e acidente Essas idéias chamamse predicáveis1 26 Espécie Espécie é uma idéia universal que representa a essência completa de muitos indivíduos só numericamente distintos entre si tal é a idéia de humanidade que compreendendo a animalidade e a racionalidade exprime a essência completa de cada indivíduo humano Para que pois uma idéia o conteúdo possa atribuirse como espé cie é necessário que denote uma coisa comum a vários entes que essa coisa se refira a entes só numericamente distintos entre si e que exprima a essência completa dos mesmos entes2 27 Gênero Gênero é uma idéia universal que representa o elemento essencial comum a espécies diversas assim animal é gênero porque exprime o elemento comum à essência do homem e à do animal irracional Para que pois uma idéia possa atribuirse como gênero é necessário que denote uma coisa comum a vários entes que essa 1 A idéia universal pode ser unívoca ou análoga A universalanáloga é a que se atribui a diversos seres em significação análoga assim são análogas as idéias transcendentais ente uno verdadeiro bom porque a entidade a unidade a verdade o bem ainda que sejam possuídos por todos os seres todavia não o são do mesmo modo A universalunívoca é a que se atribui a diversos seres em significação unívo ca assim são unívocas as cinco idéias universaisreflexas pois atribuemse aos sujeitos na mesma significação As cinco idéias universaisunívocas eram chamadas pelos antigos predicá veis praedicabilia pois exprimem como dissemos os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída praedicari e pelos modernos são chamadas categoremas 2 Um exemplo mostrará claramente o modo porque a nossa inteligência forma a idéia de espécie Vendo muitos indivíduos humanos podemos por meio da abstração prescindir das notas ou caracteres individuais próprios de cada um e só considerar os elementos constitutivos da essência comuns a todos os que são dotados da mesma essência O conjunto de todos os elementos comuns constitui a espécie Assim a idéia de homem considerada em relação aos indivíduos humanos é espécie porque denota uma coisa comum a vários entes pois a humanidade é uma coisa só e todavia se encontra multiplicada em todos os indivíduos humanos diz respeito a entes só numericamente distintos pois os indivíduos humanos diferem não essencial mas numericamente exprime a essência completa desses indivíduos porque não se encontra neles elemento substancial ou comum que não se ache contido na idéia de homem 68 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA coisa se refira a entes especificamente distintos entre si e que exprima a essência incompleta dos mesmos entes e propriamente o elemento determinável da essência1 28 Diferença Diferença é uma idéia universal representa tiva do elemento essencial que é próprio de cada espécie isto é que unido ao gênero constitui a espécie tal é racional que unido ao gênero animal constitui a espécie humana Por isso para que uma idéia possa atribuirse como diferença deve representar uma coisa comum a vários entes numericamente distintos exprimir a essência incompleta e propriamente o elemento determinante da essência2 1 Se compararmos um homem não com outro homem mas por exemplo com um cavalo veremos que um e outro convém num elemento essencial mas di ferem noutro Convém enquanto são ambos animais pois dizemos que o homem é animal o cavalo é animal Diferem enquanto o homem é animal racional e o cavalo é animal irracional Esse elemento essencial que é comum a diversas espécies é o gênero Assim animal é gênero porque denota uma coisa comum a vários entes pois a ani malidade que é uma só coisa é comum ao homem e ao bruto diz respeito a entes que diferem na espécie pois o homem e o bruto são entes especificamente diversos exprime a essência incompleta porque o homem e o bruto além desse elemento essencial que é comum a ambos e que é significado pela idéia de animal possuem outro elemento essencial que é próprio de cada um e de que deriva a sua diversidade específica e por isso exprime o elemento determinável da essência porque por exemplo animal podendo ser racional ou irracional não é por si determinado a uma ou outra espécie e por isso é determinável e deve ser determinado O gênero difere da espécie porque a espécie exprime a essência completa e existe em sujeitos só numericamente distintos entre si ao passo que o gênero exprime uma parte da essência e existe em sujeitos que especificamente diferem um do outro Por isso a compreensão do gênero é menor que a da espécie embora a extensão daquele seja maior que a desa pois o gênero compreende várias espécies 2 Assim quando dizemos o homem é animal racional a idéia racional é uma diferença porque representa uma coisa que se encontra em todos os indivíduos humanos só numericamente distintos porque todo o homem é racional exprime a essência incompleta porque o homem além de racional é também animal e exprime o elemento determinante da essência porque determina o gênero animal e o limita a uma espécie humana e não a outra beluína As seguintes notas relativas à diferença são de grande importância a A diferença distinguese da espécie e do gênero Distinguese da espé cie pois a espécie exprime a essência completa e a diferença exprime só uma parte da essência Distinguese do gênero pois esse exprime a parte essencial comum a espécies diversas e para exprimir isso assume a forma de substantivo por exemplo 69 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 29 Divisão do gênero da espécie e da diferença Cada uma destas três idéias universais gênero espécie e diferença dividese em suprema ínfima ou próxima e intermédia a Gênero supremo é o que acima de si não tem outro gênero e que por isso não pode ser espécie Ínfimo ou próximo é o que abaixo de si não tem outro gênero mas só espécies Intermédio é o que tem acima e abaixo de si outro gênero e ao mesmo tempo mas sob diverso aspecto é gênero e espécie b Espécie suprema é a que está imediatamente abaixo do gênero supremo Ínfima é a que está abaixo do gênero intermédio Intermédia é a que está abaixo do gênero intermédio animal ao passo que a diferença denota a parte essencial própria de cada espécie e para exprimir isso assume a forma de adjetivo por exemplo racional A razão é que a diferença embora seja mais nobre que o gênero assim racional é mais nobre que animal todavia para o nosso modo de entender é inferior ao gênero pois esse considerase como sujeito daquela b A diferença determina o gênero para esse constituir uma certa espécie e não outra Porquanto o gênero exprimindo o elemento comum a várias espécies e sendo por isso indiferente para constituir uma ou outra das espécies subordinadas deve ser limitado a uma certa espécie e não a outra Essa limitação é feita pela dife rença Desse modo resulta a espécie composta de gênero e de diferença Esses dois elementos não se distinguem física ou realmente mas só lógica ou mentalmente pois a espécie não é uma terceira realidade composta de duas outras realidades mas é uma terceira idéia composta de duas idéias incompletas c As diferenças devem de algum modo ser contidas sob o gênero aliás não se lhe poderiam unir Dizemos de algum modo porque as diferenças não estão contidas em ato sob o gênero aliás deveríamos atribuir a este ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto predicados contraditórios mas estão contidas em potência enquanto o gênero que é por si indiferente pode ser determinado por elas d A diferença por exprimir uma qualidade essencial que unida ao gênero constitui a espécie não pode deixar de ser positiva isto é deve exprimir uma perfei ção ou realidade E se às vezes é negativa isto é se indica a ausência de perfeição ou realidade não devemos pensar que a diferença seja mera negação pois a negação é nada e o nada não pode ser elemento essencial das coisas mas devemos entender que a qualidade a qual determina o gênero a uma certa espécie nos é desconhecida e que pode ser dotada de toda e qualquer essência menos daquela que é afastada do gênero pela diferença negativa Assim quando dizemos que o cão é animal irracional essa diferença irracional não denota que a qualidade essencial que unida ao gênero animal constitui o cão seja uma negação ou ausência de realidade mas significa que essa qualidade nos é desconhecida e que pode ser tudo menos racional Cfr S Th De Ente et Essentia c 6 70 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA c Diferença suprema é a que unida ao gênero supremo constitui as espécies supremas Ínfima é a que unida ao gênero ínfimo constitui as espécies ínfimas Intermédia é a que unida ao gênero intermédio forma as espécies intermédias1 30 Propriedade Propriedade é uma idéia universal represen tativa de uma qualidade que necessariamente emana da essência completa tal é no homem a faculdade de falar Para que pois uma qualidade possa dizerse propriedade é necessário que derive da essência com pleta que derive necessariamente e que por isso convenha a todos os entes dotados da mesma essência e só a eles e convenha sempre2 1 Advertimos que a espécie o gênero e a diferença quando se atribuem aos entes que lhes estão subordinados se tomam no sentido que essas idéias universais reflexas denotam explicitamente e não no sentido que elas exprimem implicitamente Sejamos mais claros Não só a espécie mas também o gênero e a diferença significam a espécie com pleta Na verdade o gênero e a diferença atribuemse por identidade aos entes que lhes estão subordinados pois dizemos o homem é animal o homem é racional Ora esses dois universais se não significassem a essência completa mas só um dos elemen tos essenciais não poderiam atribuirse por identidade aos seres que lhes estão sujeitos pois a parte não pode atribuirse ao todo assim se nesta proposição o homem é racional a diferença racional significasse só uma parte da essência humana teríamos que o homem é o ser dotado exclusivamente de razão o que é falso Todavia o gênero e a diferença se denotam a essência completa dos entes não a denotam explicitamente Porquanto o gênero explicitamente só denota a parte essencial comum a várias espécies e implicitamente denota a outra parte essencial própria de cada espécie Como também a diferença explicitamente só denota a parte essencial própria de cada espécie e implicitamente exprime a parte essencial comum a várias espécies Em resumo a espécie significa a essência completa e exprimea explicitamen te o gênero significa a essência completa mas explicitamente só denota a parte essen cial que é comum a várias espécies e que por isso é indeterminada e determinável a diferença também significa a essência completa mas explicitamente só denota a parte essencial que é própria de cada espécie e que por isso é determinada e determinante A espécie é universalreflexa por tudo o que ela significa e denota o gênero e a diferença são universaisreflexas só pelo que denotam explicitamente Cfr S Th Op 30 cc 4 e 5 Op 48 tr 1 c 4 2 A propriedade não constitui a essência mas deriva da essência constituída e deriva necessariamente de modo que constituída a essência resulta a propriedade Por isso a propriedade convém a todos os que têm essa essência porque deri vando necessariamente da essência deve encontrarse onde se encontra a essência 71 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 31 Acidente Acidente é uma idéia universal representativa de uma qualidade que indiferentemente pode darse ou deixar de darse num sujeito tal é a bondade no homem1 convém exclusivamente aos que têm essa essência porque só os que têm uma es sência podem participar do que necessariamente deriva dela e convém sempre porque o ente não pode perder a propriedade sem perder a essência Deve porém advertirse que uma qualidade para ser verdadeira propriedade deve deri var da essência completa isto é do conjunto de todos os elementos que constituem a essência porque se derivasse de um só elemento não poderia convir exclusivamente a uma espécie mas conviria também a outra espécie que é constituída por aquele elemento assim dormir com relação ao homem não é uma propriedade no sentido rigoroso da palavra porque deriva da essência incompleta do homem isto é deriva do homem enquanto animal e por isso convém também ao bruto A propriedade distinguese da espécie do gênero e da diferença porque esses três universais constituem no todo ou em parte a essência mas a propriedade emana ainda que necessariamente da essência constituída 1 O acidente distinguese da propriedade pois essa emana necessariamente da essência constituída e aquele pode aderir ou deixar de aderir à mesma essência Notese que uma qualidade para ser acidente não é necessário que possa e deva separarse realmente do sujeito mas bata que possa separarse mentalmente Assim a alvura do cisne é acidente visto que embora ela não possa separarse realmente do cisne todavia podemos pensar que o cisne perca a alvura sem perder a sua essência Das noções expostas resultam os seguintes corolários a O gênero e a espécie atribuemse em concreto aos entes que lhes estão subordinados quando esses entes são substâncias isto é seres subsistentes por si assim dizemos o homem é animal e não podemos dizer o homem é animalidade Porquanto nesses juízos afirmamos a existência da identidade entre o sujeito e o predicado Ora essa identidade não existiria se a espécie e o gênero se atribuíssem em abstrato à substância pois a substância por ser uma coisa completa não é idêntica a uma essência abstrata a qual excluído o sujeito a que adira é uma coisa incompleta b O gênero e a espécie atribuemse em abstrato aos inferiores quando esses entes são acidentes isto é são entes que precisam de outro ente a que adiram assim dizemos a alvura é cor e não podemos dizer a alvura é colorida Na verdade o gênero e a espécie quando se atribuem ao acidente devem exprimir o que é essencial ao acidente e não o que lhe é estranho porque esses dois universaisreflexos são predi cados essenciais Mas se o gênero e a espécie se atribuíssem em concreto exprimiriam a essência do acidente e também o sujeito em que a essência existe e que por ser um ente substancial é estranho à idéia de acidente c A diferença a propriedade o acidente atribuemse aos sujeitos em concreto assim dizemos Pedro é racional honesto etc pois esses três universais assumem a forma de adjetivo e todo adjetivo é concreto 72 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 32 As idéias universaisreflexas são cinco As idéias uni versaisreflexas denotam os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída Ora os diversos modos por que uma coisa pode existir em muitos sujeitos e serlhes atribuída são cinco Porquanto o que existe em muitos sujeitos ou pertence à essência deles ou adere à essência já constituída Se pertence à essên cia ou constitui a essência completa e temos a espécie ou apenas constitui uma parte da essência e temos o gênero ou a diferença segundo essa parte da essência é indeterminada e determinável ou é determinada e determinante Se adere à essência já constituída ou adere necessa riamente e temos a propriedade ou adere contingentemente e temos o acidente Logo as idéias universaisreflexas são cinco1 ARTIGO IV Redução das idéias a categorias 33 Categorias As nossas idéias consideradas objetivamente são tantas e tão diversas que para evitar a confusão devem reduzirse a certas classes universais Essas classes chamamse categorias Categorias pois são os gêneros supremos a que se reduzem e sob os quais se subordinam todas as idéias consideradas objetivamente e que representam todos os predicados que podem atribuirse a um sujeito2 1 Devemos explicar essas duas afirmações que toda a idéia representa uma essência e que a idéia de propriedade e de acidente não constitui a essência mas uma coisa que adere à essência já constituída Na verdade toda idéia representa uma essência Essa essência encontrase não só na substância mas também embora secundariamente no acidente pois também o acidente é uma coisa determinada e não é outra e uma coisa é o que é pela sua essência O acidente pois tem a sua essência e todavia não constitui a essência da substância A substância tem a sua essência constituída por elementos que por isso chamamse substanciais e tem propriedades ou qualidades cada uma das quais é dotada de essência própria a qual não constitui mas modifica a própria substância 2 Os antigos davam às categorias o nome de praedicamenta porque essas como dizemos representam os predicados que se atribuem ou podem atribuirse a um su jeito assim como davam o nome de praedicabilia às cinco idéias universaisreflexas de que nos ocupamos no artigo antecedente As categorias diferem das cinco idéias universaisreflexas pois essas exprimem os diversos modos porque uma coisa pode ser 73 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 34 Requisitos das categorias As categorias devem ter os seguintes requisitos a a sua significação deve ser clara e determi nada porque se for confusa e incerta não podem servir para ordenar idéias b uma não deve incluir outra aliás teremos uma repetição inútil c devem ser abstratas e universais de maneira que possam representar os gêneros supremos das nossas idéias 35 As categorias das idéias são dez Cada idéia representa um objeto Serão pois tantas as categorias das idéias quantas forem as dos objetos As categorias dos objetos são dez a saber substância quantidade qualidade relação ação paixão localização quandocação estado e hábito pois não há objeto que não se reduza a alguma dessas Logo as cate gorias das idéias são dez e não há idéia que não possa compreenderse em alguma dessas classes A enumeração é completa e satisfaz aos requisitos indicados no número antecedente1 atribuída a outra ao passo que as categorias denotam as próprias coisas que são ou podem ser atribuídas a um determinado sujeito por um daqueles diversos modos 1 Os escolásticos exprimiam as dez categorias com estes versos Arbor sex Servos ardore refrigerat ustos Substância quantidade relação qualidade ação paixão Ruri cras Stabo Sed tunicanis ero localização quandocação estado hábito As categorias não podem ser mais do que as dez indicadas no texto Na ver dade as categorias representando os diversos predicados que podem atribuirse a um sujeito devem ser tantas quantas são as perguntas que podem fazerse acerca de um indivíduo Ora essas perguntas não são mais nem menos de dez Assim acerca de Pedro podemos perguntar O que é É homem substância É grande É pequeno quantidade De quem é filho É filho de Paulo relação Como é É bom qualidade O que está fazendo Escreve ação O que sofre Sofre sede paixão Aonde Em Coimbra localização Quando Hoje quandocação Como está Sentado estado O que veste A batina hábito Acabadas essas perguntas já não há mais que investigar Logo as categorias são dez Foi Aristóteles quem primeiro reduziu todas as idéias a dez categorias que são as enumeradas no texto Essa classificação é a mais completa e racional que se conhece Na verdade todo o predicado ou exprime uma coisa que existe em si ou exprime uma coisa que existe noutra como no seu sujeito que a sustenta Se a coisa existe em si é substância se existe num sujeito é acidente Substância e acidente são pois as classes supremas às quais se reduzem todos os predicados porque tudo o que existe em si está contido sob a categoria da substância e tudo o que existe num sujeito está contido sob a categoria do acidente O acidente subdividese em nove 74 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA classes Porquanto o que existe noutro ente como no seu sujeito referese a esse por nove modos pois que ou é a extensão das partes materiais do mesmo sujeito e é quantidade ou é uma perfeição que determina o sujeito e é qualidade ou é uma ordem mútua entre o sujeito e outro indivíduo e é relação ou é o exercício da energia de que o sujeito é dotado e é ação ou é uma alteração que o sujeito recebe pela ação de uma causa externa e é paixão ou é uma determinação do sujeito quanto ao lugar que ocupa e é localização ou é a determinação do sujeito quanto à duração e é quandocação ou é uma disposição do sujeito no lugar e é estado ou é uma denominação que se dá ao sujeito por causa do vestido e é hábito Aristóteles expondo a sua doutrina no livro das Categorias diz que não entendeu dar uma enumeração nem absolutamente exclusiva nem absolutamente perfeita mas que só desejou apresentar uma que lhe pareceu a mais apta para uma coordenação lógica das idéias e dos objetos Notese a diferença entre o acidente universal que é uma das cinco idéias universaisreflexas e o acidente categórico de que nos ocupamos O acidente univer sal significa uma qualidade contingente que pode indiferentemente darse ou deixar de darse no sujeito O acidente categórico exprime um ente que existe num sujeito mas abstrai do modo porque existe não exprimindo se existe necessária ou contingente mente Por isso entre a substância e o acidente universal pode colocarse a proprie dade que reside necessariamente na substância mas entre a substância e o acidente categórico não há meio termo e a propriedade pelo fato de existir no sujeito reduzse ao acidente categórico Sum Th Ia q 77 a 1 ad 5 Alguns filósofos apresentaram diversos sistemas de categorias As categorias de Victor Cousin são duas Ente infinito e ente finito As de Schleiermacher são duas sujeito e predicado As de Lotze são três reais atributivas e relativas As de Sigwart são quatro coisa propriedade atividade e relação As de Rosmint são três ontológicas dialéticas e ideológicas As de Spinoza e Descartes são três substância atributo e modo As de Locke também são três substância modo e relação As de Leibnitz e de Wolff são seis substância quantidade qualidade paixão ação e relação Renouvier estabeleceu a relação como base das categorias Para Krause a categoria fundamental é o ser considerado nos três diferentes aspectos de tese antítese e síntese As mais célebres categorias que os modernos opõem às de Aristóteles são as de Kant Esse filósofo reduziu todas as idéias puras meramente subjetivas a doze categorias dispostas em quatro classes Unidade Pluralidade ou Multidão Totalidade Quantidade Realidade ou Afirmação Negação Limitação Qualidade Substância e Modo ou Acidente Causa e Efeito Ação e Paixão Relação Possibilidade e Impossibilidade Existência e Nãoexistência Necessidade e Contingência Modalidade De todas essas categorias diremos em geral a que algumas são de menos para abranger todo o objeto ou são demais e por isso se incluem umas nas outras b que outras são falsas porque não correspondem à realidade das coisas ou se fundam em falsos princípios 75 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 36 Modo de considerar as categorias As categorias podem considerarse num dúplice estado em si e na inteligência Consideradas em si são entes reais universaisdiretos e possuem atributos de que a natureza as dotou Consideradas na inteligência são entes lógicos uni versaisreflexos e têm atributos que lhes não convém na realidade mas foram formados pela abstração Enquanto entes reais as categorias são objeto da Metafísica pois esta trata daquelas para lhes conhecer a essên cia e as propriedades que emanam da essência Enquanto entes lógicos constituem o objeto da Lógica pois esta considera as categorias como gêneros supremos para sob eles coordenar como gêneros intermédios e espécies todos os predicados que se podem atribuir a um sujeito1 A classificação de Kant não pode aceitarse pelas seguintes razões a Algumas das suas categorias são transcendentes vagas e indeterminadas como são as dispostas sob a Qualidade e a Modalidade e por isso não podem servir para a co ordenação das idéias b As categorias das três primeiras classes segundo Kant são superiores às das 4a quando é próprio o contrário porque não existe realidade nem pluralidade nem causa e efeito que se não conceba como possível ou existen te c Algumas delas estão contidas em outras assim a unidade e a pluralidade estão contidas na realidade a nãoexistência reduzse à possibilidade ou à impossibili dade d Outras estão mal dispostas assim a substância sendo uma coisa absoluta não pode estar subordinada à relação a quantidade por depender da substância não pode ser anterior a esta a ação e a paixão a causa e o efeito por não serem relações não podem estar subordinadas à relação o acidente em geral não pode também colocarse sob a relação porque há apenas um gênero de acidente que se chama relação e As categorias de Kant são meramente subjetivas sem relação alguma à realidade quando é certo que as categorias são objetivas porque representam os predicados reais que se podem atribuir a um sujeito f Finalmente o sistema de Kant é falso na sua própria base As categorias como as entendeu sempre o senso comum são idéias ou conceitos objetivos e simples sob os quais se coordenam todos os predicados reais Ora as categorias como as entende Kant não se referem à primeira operação da inteligência mas à segunda não são conceitos são juízos ou melhor são formas de juízo e representam os diferentes modos porque um predi cado se atribui a um sujeito e essas formas esses modos são inteiramente subjetivos aos quais nenhuma realidade corresponde 1 As categorias enquanto constituem o objeto da Metafísica são noções reais e objetivas e podem ser atribuídas aos objetos que existem fora da inteligên cia ao passo que enquanto são objeto da Lógica são noções lógicas e subjetivas e não podem atribuirse aos objetos existentes na realidade porque tomadas nesse segundo sentido as categorias são idéias universaisreflexas isto é se conside ram como gêneros e espécies que hão de ser coordenadas e dispostas conforme a diversidade da sua extensão Por isso se a categoria metafísica é constituída 76 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 37 Definição das categorias Reservando para a Metafísica uma conveniente explicação das categorias aqui damos apenas a definição de cada uma delas que é quanto basta para a coordenação das idéias 1ª Categoria Substância é a coisa que para existir não carece de sujeito a que adira assim o homem é substância 2ª Categoria Quantidade é a propriedade pela qual a substância é divisível em partes tal é a grandeza na pedra 3ª Categoria Qualidade é a perfeição que modifica a substância sem alterarlhe a essência tal é a virtude e a ciência no homem 4ª Categoria Relação é o nexo que liga uma substância à outra assim filho indica uma relação 5ª Categoria Ação é o exercício da força de que a substância é dotada tal é escrever 6ª Categoria Paixão é a alteração que a substância sofre pela ação do agente tal é sentir frio 7ª Categoria Localização é a determinação da substância quanto ao lugar por exemplo Pedro está em Roma 8ª Categoria Quandocação é a determinação da substância quanto ao tempo por exemplo Pedro ontem escreveu 9ª Categoria Estado é a disposição das partes quantitativas da subs tância no lugar por exemplo André está sentado exclusivamente pelo gênero supremo considerado nos seus atributos reais e obje tivos a categoria lógica é toda a série de predicados essenciais compreendendo o gênero supremo os gêneros e as espécies intermédias até à espécie ínfima 77 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 10ª Categoria Hábito é a denominação que se dá à substância por causa do vestido ou decoração por exemplo o magistrado togado1 38 Ordenação da primeira categoria Não basta determinar o número das categorias é mister estabelecer a ordem em cada uma delas Limitarnosemos a apresentar a ordenação da primeira que é a substância Substância é o gênero supremo Dividese em corpórea e incor pórea diferenças supremas Substância corpórea é o corpo espécie suprema Corpo 1º gênero intermédio pode ser animado e inanimado 1as diferenças intermédias Corpo animado constitui o vivente 1a espécie intermédia Vivente 2º gênero intermédio dividese em sensitivo e insensitivo 2as diferenças intermédias Vivente sensitivo é o animal 2a espécie intermédias Animal gênero ínfimo é racional ou irracional diferenças ínfimas Animal racional é o homem espécie ínfima Homem é só espécie e abaixo de si só contém indivíduos 1 Na Ontologia trataremos das categorias com o devido desenvolvimento Mas a simples explicação mostra que as categorias são em si noções reais porque denotam entes reais Por isso não devemos pensar que as categorias lógicas sejam coisas inteiramente ideais as quais nenhuma realidade corresponde como erradamente imaginou Kant As categorias na Lógica exprimem a coordenação lógica dos predicados essenciais das coisas reais e por isso alguma coisa nelas é ideal e alguma coisa é real É ideal a qualidade de gênero ou de espécie que se con cebe por uma abstração mas o que esse gênero ou essa espécie exprime é muito real ou objetivo Porquanto o universal reflexo supõe e contém o direto e por isso se tem atributos ideais enquanto é reflexo tem atributos reais ou objetivos en quanto contém o direto Essa é a razão porque a definição das categorias exprime uma coisa real ou objetiva 78 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Eis o quadro Substância gen supr corpórea dif supr Corpo esp supr e 1o gen interm incorpórea Animado 1a dif interm Vivente 1a esp interm e 2o gen interm inanimado sensitivo 2a dif interm Vivente 1a esp interm e 2o gen interm insensitivo Racional dif interm Animal 2a esp interm e gen ínfimo irracional Homem esp ínf Pedro Paulo André1 1 Façamos algumas reflexões acerca da ordenação da categoria de substância O gênero substância contém a espécie corpo não na sua compreensão mas na sua extensão porque a espécie tem uma compreensão maior que o gênero e além desse a diferença Estando as espécies superiores contidas nas inferiores a essas competem as proprie dades daquelas assim ao homem competem as propriedades de animal de vivente de corpo e por conseqüência de substância As diferenças dividemse em constitutivas e di visivas Constitutivas são as que constituem o gênero e competem a todas as espécies que estão contidas debaixo daquele gênero Divisivas são as que dividem o gênero e por isso não são todas participadas por todas as espécies mas uma diferença é participada por uma espécie e outra por outra Assim animado e sensitivo são diferenças constitutivas do animal e por isso são comuns ao homem e ao bruto ao passo que racional e irracional que são diferenças divisivas porque dividem o animal não são comuns ao homem e ao bruto mas uma racional é própria do homem a outra irracional é própria do bruto Na ordenação dessa categoria só consideramos as diferenças positivas As di ferenças negativas unidas ao respectivo gênero dão lugar a outras classificações A substância incorpórea é o espírito que se subdivide em inumeráveis espécies O corpo inanimado é o mineral de que se ocupa a Mineralogia O vivente insensitivo é a planta de que trata a Botânica O animal irracional é o bruto que forma o objeto da Zoologia 79 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO ARTIGO V Termo suas espécies e propriedades 39 Termo Termo ou palavra ou vocábulo é a expressão verbal da idéia O homem sendo naturalmente social deve manifestar aos outros as próprias idéias Esta manifestação extrínseca só pode efetu arse por meios sensíveis pois é próprio do homem composto de alma espiritual e de corpo elevarse ao imaterial pelo sensível Entre todos os meios o mais eficaz e universal é o termo1 40 O termo é sinal convencional O termo a é sinal porque nos manifesta a idéia concebida pela inteligência b mas é sinal convencional porque embora nos seja natural a manifestação das nossas idéias por meios sensíveis contudo foi o livrearbítrio dos homens que ligou a um vocábulo determinado a significação de uma certa idéia No termo como na idéia considerase a compreensão e a extensão2 Agora uma advertência Os seres que possuem a essência completa do gênero supremo e dos intermédios como são as espécies e os indivíduos diretamente e por si colocam na relativa categoria Os seres porém que só incompletamente participam do gênero supremo e dos intermédios como são os elementos ou as mo dificações da espécie ou do indivíduo só indiretamente se reduzem às categorias e se colocam sob aquela em que se encontra a espécie ou o indivíduo de que são elementos ou modificações 1 Entendemos falar como se vê do termo oral ou vocal que exprime sen sivelmente a idéia chamada termo mental Dizse termo porque é nele que se resolve e acaba como no seu último elemento a proposição A idéia e o termo diferem entre si pelas seguintes razões 1a a idéia expri me imediatamente o objeto o termo exprime imediatamente a idéia e mediatamente o objeto 2a a idéia é anterior ao termo pois esse só se emprega e forma para exprimir aquela e sem idéias não haveria termos 3a pela idéia falamos conosco indicando o objeto percebido pelo termo falamos com os outros 4a a idéia é sinal natural ao passo que o termo é sinal convencional como vamos demonstrar Todavia o nexo entre a idéia e o termo é tão estreito que não podem sepa rarse Não podemos conceber uma idéia sem que ao mesmo tempo se forme na nossa fantasia o termo que a representa e exprime como também o termo é a própria idéia concretizada e tornada sensível 2 O termo além de ser sinal convencional é também sinal objetivo pois antes de levar a inteligência ao conhecimento da idéia e do objeto o termo deve ser primei ramente conhecido em si mesmo 80 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 41 Espécies do termo O termo sendo a expressão verbal da idéia dividese em tantas espécies quantas são as espécies da idéia considerada em relação ao objeto representado1 Para evitarmos repetições inúteis consideraremos a divisão do termo a em positivo e negativo b em absoluto e conotativo c em abstrato e concreto d em singular universal e particular e em unívoco equívoco e análogo a Termo positivo e negativo Termo positivo é o que exprime uma realidade ou perfeição como o termo Deus caridade Negativo é o que denota a ausência de realidade ou de perfeição como o termo nada trevas2 b Termo absoluto e conotativo Termo absoluto é o que significa uma coisa que é substância ou que é considerada como subs tância tal é planta bondade O absoluto chamase também denotativo Conotativo é o que exprime uma propriedade ou qualidade que existe e enquanto existe numa substância tal é bom sábio3 1 Ao termo não podem convir as divisões que são próprias da idéia con siderada em relação ao modo porque representa o objeto pois o termo limitase a exprimir o objeto existente na inteligência mas prescinde do modo porque o mesmo objeto é percebido 2 Para conhecermos se um termo é positivo ou negativo devemos considerar a idéia que ele exprime Se a idéia é positiva isto é se representa uma perfeição ou realidade o termo é positivo como também se a idéia é negativa isto é se denota ausência de realidade ou perfeição o termo é negativo Assim são positivos os termos imenso imortal infinito etc e são negativos os termos morte pecado vício etc O termo negativo distinguese do privativo Porquanto o negativo denota apenas a au sência de realidade sem indicar se o sujeito é capaz ou incapaz dessa realidade ao passo que o privativo significa a ausência de uma perfeição num sujeito que a devia possuir tal como é o termo cego com relação ao homem 3 Como se vê o termo conotativo exprime ao mesmo tempo duas coisas uma qualidade e um sujeito ou uma substância que a possui O termo absoluto denota diretamente o sujeito com as suas qualidades o conotativo significa direta mente a qualidade existente no sujeito Por isso a denotação é a propriedade de termo denotativo ou absoluto enquanto esse indica um sujeito ou uma substân cia como a conotação é a propriedade do termo conotativo enquanto ele indica uma qualidade ou um atributo de um sujeito ou de uma substância O termo absoluto ou denominativo costuma chamarse também substantivo e o conotativo dizse também adjetivo Todavia o adjetivo tem mais extensão na Lógica do que na Gramática porque muitas vezes os termos que na Gramática são substantivos na 81 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO c Termo abstrato e concreto Termo abstrato é o que exprime uma essência ou propriedade considerada em si mesma sem relação ao sujeito que a possui tal é o termo humanidade vida sabedoria etc Concreto é o que denota um sujeito com a sua essência ou propriedade como existe na ordem real tal é o termo homem vivente sábio etc1 d Termo singular universal e particular O termo singular é o que exprime uma essência própria de um indivíduo determinado de modo que só a esse indivíduo pode ser atribuída tal é o termo Pedro Universal é o que exprime uma essência comum a muitos entes do modo que a todos e a cada um desses pode ser atribuída tal é o termo homem Particular é o próprio termo universal mas limitado na sua extensão por exemplo algum homem2 e Termo unívoco equívoco e análogo Termo unívoco é o que se atribui a vários entes mas sempre na mesma significação tal é o termo homem quando se atribui a Pedro Paulo André etc Equívoco é o que se atribui a vários entes mas em diversa significação tal é o termo leão quando se atribui a uma constelação e a um certo animal Análogo é o que se atribui a vários entes numa significação que não é inteira mente idêntica nem inteiramente diversa tal é o termo são quando se atribui ao animal e ao ar3 Lógica são adjetivos ou conotativos tais são os termos médico pintor músico etc que exprimem uma qualidade aderente a uma sujeito 1 Todo termo conotativo é concreto mas nem todo o concreto é conotativo assim o termo homem é concreto mas não é conotativo O concreto pode ser indife rentemente adjetivo e substantivo assim os termos sábio e homem são ambos concretos 2 O termo universal como a idéia universal distinguese do termo transcen dental do comum do coletivo e do particular 3 O termo pode ser equívoco mas não a idéia Porquanto o termo sendo um sinal convencional pode empregarse livremente para denotar entes diversos mas a idéia por ser um sinal natural não pode representar senão um único objeto Para se conhecer se um termo é unívoco ou equívoco é preciso considerar os sujeitos aos quais se atribui Se os sujeitos convêm entre si não só na denominação mas também na essên cia o termo é unívoco se os sujeitos não convém na essência ainda que convenham na denominação o termo é equívoco É preciso evitar o uso dos termos equívocos aliás o meio que nos foi dado por Deus para a manifestação dos nossos pensamentos conver terseá num instrumento de confusão e de ruína social Quando pois se emprega um termo que tem diferentes significações é necessário determinar o seu sentido 82 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 42 Propriedades do termo As principais propriedades do termo são seis suposição apelação estado distração ampliação e restrição a Suposição Suposição é a acepção ou posição do termo em lugar da coisa que ele exprime Não podendo introduzir no discurso as coisas de que se trata servimonos dos sinais que façam as vezes delas Esses sinais são os termos São tantas as espécies da suposição quantos são os modos por que um termo pode substituir uma coisa1 b Apelação Apelação é a aplicação de um termo a outro assim quando digo Deus é santo aplico o termo santo ao termo Deus O termo que se aplica dizse apelante o termo a que o outro se aplica chamase apelado Nas proposições o predicado é o termo apelante e o sujeito é o termo apelado2 1 A suposição dividese primeiramente em própria e imprópria A suposi ção própria é a acepção do termo em lugar da coisa que o mesmo termo exprime na sua significação própria como nesse exemplo Coimbra é uma cidade de Portugal Imprópria é a acepção do termo em lugar da coisa que o mesmo termo denota na sua significação imprópria ou metafórica como Coimbra é o cérebro de Portugal A suposição própria pode ser real e lógica A real é a acepção do termo em lugar da coisa considerada quanto aos seus atributos reais como o homem é inteligente A lógica é a acepção do termo em lugar da coisa considerada quanto aos seus atributos lógicos como o homem é espécie A suposição real pode ser absoluta e pessoal A absoluta é a posição do termo em lugar da essência considerada sem relação aos indivíduos como o homem é animal racional A pessoal é a posição do termo em lugar da es sência enquanto existe nos indivíduos como o homem morre porque não morre a essência humana mas sim o indivíduo humano A suposição pessoal pode ser singular universal ou distributiva particular e coletiva conforme o termo representa um só indivíduo ou todos e cada um dos indivíduos contidos sob a sua extensão ou apenas alguns indivíduos ou a coleção dos indivíduos A suposição particular é determinada ou confusa conforme o termo representa alguns dos seus inferiores determinados exemplo alguns apóstolos escreveram o Evangelho ou indeterminados exemplo alguns soldados são necessários para a vitória A suposição universal é completa ou incompleta conforme o termo representa todos e cada um dos indivídu os exemplo todo o animal é sensitivo ou todos e cada uma das espécies contidas sob o gênero significado pelo termo exemplo todo o animal entrou na arca de Noé 2 Para que um termo apelante possa aplicarse a outro apelado aquele deve referirse de algum modo a esse Ora um termo pode referirse a outro ou por causa forma que se encontra nesse ou por causa do sujeito que possui tal forma Se um termo é apelado por causa da sua forma a apelação é formal se é apelado por causa do sujeito a apelação é material Assim quando digo o médico cura os doentes a apelação é formal porque o médico cura enquanto possui a ciência pela qual se chama e é médico mas quando digo o médico come a apelação é material porque 83 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO c Estado Estado é a acepção do termo no tempo que o verbo exprime assim quando digo o surdo não ouve o termo surdo tomase no tempo presente significado pelo verbo não ouve e o sentido é quem presentemente é surdo não ouve d Distração Distração é a acepção do termo num tempo diverso daquele que o verbo exprime assim quando digo os cegos vêem o termo cegos não deve tomarse no tempo presente como indica o verbo vêem mas no tempo passado de modo que o sentido é os que foram cegos hoje vêem A distração opõese ao estado e Ampliação Ampliação é a extensão do termo de uma signi ficação menor a uma outra maior quando dizemos bemaventurados os mansos porque possuirão a terra o termo mansos que pelo verbo possui rão só deveria referirse aos futuros estendese a todos os mansos que foram são e serão f Restrição Restrição é a coartação do termo de uma significação maior a uma outra menor assim nas palavras de Jesus aos Apóstolos pregai o Evangelho a toda a criatura o termo toda a criatura limitase exclusivamente às criaturas humanas A restrição opõese à ampliação ARTIGO VI Definição e divisão 43 Definição Definição é a explicação de uma coisa ou de um termo Assim quando dizemos o homem é animal racional damos ele come não enquanto é médico mas enquanto é homem que aliás pode pos suir e possui a ciência da medicina Para distinguirmos se a apelação é formal ou material devemos atender às seguintes regras 1 O termo apelante empregase sempre formalmente e não materialmente Assim quando digo o homem é bom o termo apelante bom tomase formalmente isto é por causa da forma que é a bondade e que reside no sujeito porque se se tomasse materialmente isto é por causa do su jeito o sentido da proposição seria o homem é homem 2 Quando o termo apelado é concreto tomase materialmente e não formalmente Assim quando dizemos Deus morreu por nós o termo apelado que é Deus tomase materialmente isto é por causa do sujeito e não formalmente isto é não por causa da forma que é a Natureza divina porque não entendemos que morreu a natureza divina mas que morreu o Sujeito ou a Pessoa que possui a natureza divina e morreu quanto à sua natureza humana 84 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a definição do homem Serve para conhecermos a compreensão das idéias e dos termos1 44 Espécies da definição A definição é nominal e real a A definição nominal é a que explica o termo por exemplo a Filosofia é o amor à sabedoria Dividese em etimológica comum e particular A etimológica explica o termo pela etimologia como a Teologia é o discurso acerca de Deus A comum explica o termo declarando o sentido em que os homens geralmente o tomam como Deus é o ser necessário A particular explica o termo indicando o sentido que lhe se aplica como a natureza é a coleção dos seres criados2 b A definição real é a que explica a coisa significada pelo termo por exemplo a Filosofia é a ciência das causas supremas dos entes descobertas pela luz natural da razão Dividese em essencial e des critiva A essencial de todas a mais nobre explica a coisa pelos seus elementos essenciais e subdividese em lógica e física conforme esses elementos são lógicos como o homem é animal racional ou são físicos como o homem é uma substância composta de alma racional e de corpo orgânico A descritiva explica a coisa pelos elementos que se referem à mesma coisa mas que não pertencem à sua essência como são as propriedades as notas individuais etc3 1 A definição serve para fixar o estado da questão ou para dar uma noção exata das coisas e assim evitar inúteis controvérsias A definição é o princípio e o termo da ciência Partimos de uma definição in completa ou provisória para chegarmos a uma definição completa e perfeitamente conhecida É o que acontece com as idéias que de obscuras e confusas se tornam claras e distintas A definição pois é o princípio para os que apreendem mas é o termo para os que já apreendem 2 Relativamente à definição nominal fazemos as seguintes observações 1a só devem ser definidos os termos obscuros incertos e equívocos 2a a definição comum deve ser seguida sempre aliás não seriam possíveis nem as ciências nem as socieda des 3a a definição particular só deve ser apresentada em caso de necessidade 3 Acerca da definição real notamos 1o A definição essencial deve quando seja possível preferirse à descritiva pois aquela explica a natureza das coisas e esta pára na superfície 2o É absurdo exigir a definição essencial de todas as coisas pois se tudo precisasse de definição uma coisa devia ser definida por outra e esta por outra até o infinito o que é absurdo porque então nenhu ma coisa podia ser definida Por isso todas as definições devem resolverse em certas noções elementares que por serem evidentes não precisam de definição 85 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 45 Requisitos da definição A definição deve I Ser composta do gênero próximo e da diferença específica porque deste modo compreenderá todos os elementos que constituem a essência da coisa definida1 Essas noções são ente unidade verdade etc Todavia dessas noções podemos fazer uma descrição ou declaração por meio de noções que sejam relativamente a nós mais conhecidas Além disso as mais elementares noções por serem simplís simas e constarem de uma única nota não podem estar sujeitas a uma verdadeira definição pois essa resolve a coisa nos seus vários elementos A definição descritiva que explica a coisa por elementos extraessenciais di videse em própria acidental causal e genética Própria é a que explica a coisa pelas propriedades que derivam da essência da mesma coisa como o homem é capaz de rir e de apreender a ciência Acidental é a que explica a coisa pelas suas qualidades acidentais que no seu conjunto só podem convir à mesma coisa assim Virgílio Acn III descreve Poliphemo monstrum horrendum informe ingens cui lumen ademptum trunca manum pinus regir et vestigia firmat Causal é a que explica a coisa pelas causas extrínsecas que são a eficiente como o homem foi criado por Deus a exemplar como o homem foi criado à imagem de Deus a final como o homem foi criado para que ame a Deus A genética é a que explica a coisa pela sua origem como a eclipse do sol deriva da interposição da lua entre o sol e a terra A definição descritiva só num sentido lato e impróprio se chama definição porque embora faça distinguir uma coisa das outras não explica o que é a coisa Todavia esta defi nição empregase freqüentes vezes nas ciências que não penetram no interno das coisas para lhes descobrir os elementos essenciais Devemos advertir que de muitas coisas pode darse uma definição absoluta e de muitas outras uma definição relativa Dáse uma definição absoluta das coisas que pela sua natureza não se referem a outras e essa definição indica exclusiva mente os elementos que constituem a essência da própria coisa assim a substância é susceptível de uma definição absoluta Dáse uma definição relativa das coisas que se referem essencialmente a outras e essa definição indica também a coisa à qual uma outra se refere assim a definição do acidente exprime a substância à qual o acidente se refere Diz Santo Tomás Substantia quae habet quidditatem essentiam absolu tam non dependet in sua quidditate ex alio ita quod oporteat exteriorem essentiam in eius definitione poni Accidentia vero non habent esse nisi per hoc quod insunt in subjecto et ideo eorum quidditas est dependens a subjecto et propter hoc oportet quod subjectum accidentis in definitione ponatur In VII Met l 1 1 Deve seguirse essa regra quando se deseja a definição lógica que é a mais ex celente Todo o ente criado é composto de dois elementos essenciais um comum e indeterminado outro próprio e determinado Pelo elemento comum e indeterminado o ente é semelhante aos outros pelo elemento próprio e determinado distinguese dos outros e forma uma classe especial O elemento comum e indeterminado é o gênero o próprio e determinado é a diferença específica Logo a definição para explicar a essência de um ente 86 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA II Ser recíproca de modo que a definição e a coisa definida possam converterse uma na outra Esta condição deriva da primeira É pois exata a definição o homem é animal racional pois podemos dizer o animal racional é homem III Ser clara aliás não consegue o seu fim1 IV Ser breve para poder conservarse na memória2 deve apresentar o gênero e a diferença Mas notese que o gênero deve ser próximo pois o remoto não contém todas as notas essenciais da coisa definida Assim é falta esa defi nição o homem é o vivente racional pois que o vivente sendo gênero remoto de homem não inclui a nota de animalidade pela qual o homem é semelhante aos brutos nem o extrema do anjo que também é vivente racional Se não podermos determinar o gênero próximo e a diferença específica ou porque o ente é simplicíssimo e não consta de vários elementos ou porque não temos um conhecimento distinto das coisas devemos então designar duas propriedades das quais a primeira exprima a semelhança que a coisa defi nida tem com as outras e a segunda denote o que é exclusivamente próprio dela Assim não podendo dar uma rigorosa definição de Deus pois Ele é simplicíssimo e transcende todos os gêneros e todas as diferenças dizemos que Ele é o Ente dotado de perfeição infinita 1 Isto é evidente porque a definição serve para declarar uma coisa obscura ou desconhecida Por isso na definição nominal devemos empregar os termos mais conhecidos e na definição real devemos recorrer a conceitos anteriormente expli cados Contradizem a esta regra 1o os que definem a coisa pela própria coisa como homem é o ser que possui a humanidade 2o os que empregam termos meta fóricos indeterminados equívocos ou insólitos como os olhos são as estrelas do homem 3o os que sem necessidade se servem de termos negativos que indicam o que a coisa não é e não o que ela é como o homem é nãopedra Dizemos sem necessidade porque às vezes ou pela limitação da nossa inteligência ou pela própria natureza das coisas devemos recorrer a termos negativos assim dizemos que Deus é imenso que o cego é o homem que não vê 2 Sendo a definição como a diretriz de toda a investigação e discussão deve ser tal que possa a cada instante e com facilidade ser citada o que não poderia fa zerse se não fosse breve Por isso quando se define o nome empreguemse somente os termos necessários e suficientes para que se conheça a sua significação e quando se define a coisa indiquemse somente aquelas notas que explicam a mesma coisa e a distinguem das outras assim é defeituosa esta definição o homem é animal racional e sagaz porque a nota sagaz está contida na nota racional Aristóteles II Post Anal ensina dois métodos para procurar e encontrar os elementos essenciais de que se compõem a definição especialmente lógica um chamase descendente outro ascendente O método descendente parte do que é mais universal para descer ao que é menos universal Por quanto toma o gênero ao qual está sujeita a coisa que se há de definir e a esse gênero sucessivamente acrescenta tantas diferenças específicas quantas são necessárias para determinar e limitar o 87 CAPÍTULO PRIMEIRO IDÉIA E TERMO 46 Divisão Divisão é a decomposição de um todo nas suas partes ou nos seus elementos A divisão levanos ao conhecimento da extensão das idéias e dos termos1 47 Espécies da divisão A divisão é lógica e real a A divisão lógica é a decomposição de um todo lógico ou uni versal nas diversas partes que o constituem tal é a divisão do gênero nas diversas espécies de que é composto b A divisão real é a decomposição de um todo real ou objetivo nas suas diversas partes tal é a divisão de um organismo A divisão real é física ou metafísica segundo o todo real é composto de partes distintas ou realmente tal é o homem composto de corpo e de alma ou só logicamente tal é o homem composto de animalidade e racionalidade2 gênero de modo que essa possa converterse na coisa definida Então temos a de finição porque aquele gênero com as diferenças à excepção da última constitui o gênero próximo e a última diferença é a diferença específica Assim devendo definir o homem tomamos a substância com gênero sob o qual o homem está contido a esse gênero de substância acrescentamos as diferenças corpórea animada sensitiva racional e temos a definição lógica do homem porque o gênero substância com as três primeiras diferenças é o gênero próximo e a última diferença racional é a diferença específica O método ascendente fazendo o caminho inverso parte do que é menos universal para subir ao que é mais universal Porquanto começa por comparar a coisa que se há de definir com as coisas que mais lhe se aproximam Essa comparação mostra que a coisa tem um elemento comum como as outras coisas pelo qual lhes é semelhante e tem outro elemento próprio pelo qual difere das outras O elemento comum é o gênero o elemento próprio é a diferença Assim querendo empregar esse método para definir o homem comparamos o homem com o bruto Dessa comparação resulta que o homem convém com o bruto enquanto é animal mas difere do bruto enquanto é racional Por isso animal é o gênero na definição de homem e racional é a diferença 1 Pela definição que extrema o objeto de tudo o que lhe estranho reconhe cemos a unidade do mesmo objeto pela divisão que distingue as partes ou elementos do objeto reconhecemos a sua pluralidade ou complexidade Pela definição o objeto tornase claro pela divisão distinto A divisão pois é o complemento da definição A utilidade da divisão é incontestável A nossa inteligência é tão limitada que não pode com um só olhar compreender as coisas sobretudo se são complexas e para as compreender deve esmiuçálas e resolvêlas nas suas partes 2 A divisão física pode ser essencial ou integral ou potencial ou acidental segundo o todo físico é composto de partes essenciais tal é o homem composto de alma e corpo ou integrantes tal é um organismo ou potenciais tal é a nossa alma que é dotada de muitas e diversas potências ou faculdades ou acidentais tal é o todo artificial 88 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 48 Regras da divisão A divisão deve I Ser breve de contrário produzirá confusão II Ser adequada de modo que a coleção das partes enumeradas seja igual ao todo São pois defeituosas tanto as divisões em que se omite alguma parte do objeto dividido como as que enumeram uma parte que lhe não pertence III Ser ordenada de modo que o todo primeiramente se resolva nas partes mais próximas e depois nas mais remotas IV Ser oposta de modo que as partes se excluam mutuamente aliás uma parte será repetida sem utilidade1 1 A divisão reduzse a classificação freqüentemente empregada pelos natura listas Diremos da sua definição espécies graus e requisitos a Classificação Classificação é a disposição ordenada de muitos indivídu os em classes Todos os seres como já notamos se relacionam por alguma seme lhança A nossa inteligência considerando o caráter em que muitos indivíduos são semelhantes tomao como base da classificação b Espécies de classificação A classificação é artificial ou natural É arti ficial quando o caráter que se toma por base consiste numa propriedade extrínseca aos indivíduos É natural quando o caráter que se estabelece como fundamento é uma propriedade essencial aos indivíduos c Vários graus de classificação Os naturalistas distinguem vários graus nas suas classificações O mais alto grau é o reino gênero supremo o reino dividese em tipos 1º gênero intermédio o tipo em classes 2º gênero intermédio a classe em ordens 3º gênero intermédio a ordem em tribos 4º gênero intermédio a tribo em famílias 5º gênero intermédio a família em gêneros gênero ínfimo o gênero em es pécies a espécie em variedades a variedade em indivíduos Notese a diferença entre espécie e variedade A espécie é a coleção de indivíduos que participam da mesma natureza e geram outros indivíduos semelhantes A variedade é a coleção de indiví duos que por causa de caracteres particulares acidentais se distinguem dos outros indivíduos da mesma espécie A variedade que por meio da geração transmite os próprios caracteres chamase raça d Requisitos da classificação A classificação por ser uma divisão deve satisfazer a todas as regras que demos para essa Além disso é necessário que o caráter que se estabelece como base da classificação a seja único porque doutro modo não poderemos conhecer as mútuas relações dos seres b seja permanente porque se for transitório acabará a classificação com o caráter c seja importante aliás será inútil 89 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO CAPÍTULO SEGUNDO Juízo e Proposição Sumário Juízo e proposição sua divisão Divisão da pro posição simples Divisão da proposição composta Qualidades das proposições ARTIGO I Juízo e proposição sua divisão 49 Juízo Juízo é a união ou a separação de duas idéias e por isso de dois objetos por meio da afirmação ou da negação como o homem é livre o homem não é escravo O juízo pois é posterior à idéia1 50 Elementos do juízo Os elementos do juízo são três as duas idéias e a relação que elas têm entre si A idéia de que alguma coisa se afirma ou nega dizse sujeito a idéia que se afirma ou nega do sujeito chamase predicado a relação que une o predicado ao sujeito denominase cópula O sujeito e o predicado são a matéria do juízo a cópula é a forma2 1 O juízo é necessariamente um ato da inteligência porque só essa faculdade pode conhecer a relação que é uma coisa abstrata entre dois objetos e por isso entre duas idéias Os escritores sensualistas como Tracy dizem que o juízo é um ato da sen sibilidade alguns cartesianos sustentam que ele é um ato da vontade Uns e outros erram porque a inteligência e só ela pode conhecer a relação entre duas idéias e unilas ou separálas por meio da afirmação ou da negação ao passo que a vontade e a sensibili dade são duas faculdades cegas e não julgam É verdade que às vezes é a vontade que determina a inteligência a pronunciar o juízo e isto verificase quando a inteligência não vê a relação entre o sujeito e o predicado mas o juízo é essencialmente um ato da inteligência Lembremonos sempre de que o juízo é a afirmação da conveniência ou desconveniência entre duas idéias consideradas não subjetivamente como meras formas ideais como erradamente opina Kant mas objetivamente enquanto representam as próprias coisas externas Quem ignora ou duvida se duas idéias representam ou não uma coisa real não pode dizer se essas idéias convêm ou não entre si O juízo relati vo à conveniência ou desconveniência entre duas idéias fundase necessariamente na conveniência ou desconveniência objetiva das coisas que as idéias representam 2 Para a formação do juízo são necessárias várias e diversas operações da inteligência Primeiramente percebemos o sujeito e o predicado em seguida compa ramos esses dois elementos finalmente pronunciamos o juízo afirmando que eles convêm ou não entre si 90 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 51 Divisão do juízo O juízo dividese a em afirmativo e negativo b verdadeiro e falso c direto e reflexo d analítico e sintético e imediato e mediato a Juízo afirmativo e negativo É afirmativo se afirma a relação de conveniência entre o sujeito e o predicado exemplo a água do Mondego é límpida É negativo se nega aquela relação de conveniência exemplo a água do Tibre não é límpida1 b Juízo verdadeiro e falso É verdadeiro quando ao sujeito convém o predicado que lhe atribuímos ou não convém o que lhe negamos exemplo o amor de pátria é nobre o mundo não é eterno É falso quando ao sujeito não convém o predicado que lhe atribuímos ou convém o que lhe negamos exemplo o egoísmo é a norma da vida o animal não é sensitivo c Juízo direto e reflexo É direto quando a inteligência afirma a conveniência ou a desconveniência do predicado com o sujeito e implicitamente a própria conformidade com a realidade objetiva assim quando digo Pedro é homem afirmo que a Pedro compete a humanidade e ao mesmo tempo que tal é o meu modo de ver É reflexo quando dobrandose sobre si mesma a inteligência considera o seu próprio juízo e reconhece a sua conformidade com a realidade objetiva como quando digo estou certo de que Pedro é homem2 O juízo embora considerado nos seus elementos seja uma coisa múltipla e composta todavia considerando na sua essência é uma coisa simplicíssima pois consiste na afirmação da conveniência ou da desconveniência entre o sujeito e o predicado e essa afirmação é uma coisa simplicíssima 1 O juízo considerando na sua matéria dividese em afirmativo e negativo enquanto o predicado convém ou não convém ao sujeito Mas se o consideramos enquanto é ato da inteligência o juízo é sempre afirmativo pois sempre se afirma que o predicado convém ou não ao sujeito 2 Donde resulta que o objeto do juízo direto é o próprio sujeito a que se atribui um predicado e o objeto do juízo reflexo é a própria conformidade da inteligência com a realidade e que o juízo reflexo inclui e supõe necessariamente o direto Como também se vê o erro dos que dizem que a inteligência para conhecer a sua conformidade com a realidade objetiva deve necessariamente refletir sobre os seus atos A inteligência como dizemos no texto conhece essa conformidade pelo fato mesmo de atribuir a um determinado sujeito um determinado predicado Se não conhecesse não pronunciaria o seu juízo Isto porém não obsta a que a inteligência examine pela reflexão o seu juízo primitivo e se convença cada vez mais da verdade do seu ato 91 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO d Juízo analítico e sintético É analítico quando o predicado está contido na própria essência do sujeito enquanto ou a constitui ou dela deriva necessariamente exemplo o homem é racional É sintético quando o predicado convém ao sujeito não porque está contido na essência dele ou deriva da essência mas porque assim o atesta a expe riência ou o testemunho dos outros homens exemplo Pedro é sábio1 e Juízo imediato e mediato É imediato se a relação entre o predicado e o sujeito se conhece intuitivamente exemplo o mundo existe É mediato se aquela relação só se conhece pelo discurso exemplo a nossa alma é imortal2 52 Proposição Proposição é a expressão verbal do juízo Como o termo é a expressão verbal da idéia assim a proposição é a expressão verbal do juízo Quando dizemos o céu é belíssimo enunciamos uma proposição 1 No juízo analítico o predicado convém ao sujeito essencialmente e por isso necessariamente e onde se encontra o sujeito deve encontrarse o predicado ao passo que no juízo sintético o predicado convém ao sujeito acidentalmente e por isso contingentemente e pode encontrarse o sujeito sem esse predicado O juízo analítico em que a relação entre o sujeito e o predicado é conhecida pela simples análise do mesmo sujeito chamase também a a priori porque faz conhecer o objeto pela seu princípio que é o conceito da sua natureza ou essência b necessá rio porque o predicado convém necessariamente ao sujeito c metafísico porque a relação entre o sujeito e o predicado se funda na própria essência das coisas d absoluto porque não admite exceções e racional porque só a razão pode perceber que o predicado está na essência do sujeito O juízo sintético em que a atribuição do predicado ao sujeito se funda na experiência ou no testemunho denominase também a aposteriori porque se funda na experiência b contingente enquan to o predicado só acidental ou contingentemente convém ao sujeito c físico porque o nexo entre o predicado e o sujeito baseiase num fato físico d hipotético porque pode ter exceções e empírico porque a relação entre o predicado e o sujeito co nhecese pela experiência ou pelo testemunho dos outros Kant na sua Crítica da razão pura admite uma terceira classe de juízos que não são absolutamente analíticos nem absolutamente sintéticos e que ele chama sintéticosapriori É evidente a falsidade dessa opinião Um predicado é ou não é da essência do sujeito Não há meio termo Se é da essência do sujeito o juízo é analítico ou apriori se o não é o juízo é sintético Dizer que um juízo é sintético apriori é afirmar que um predicado convém e não convém essencial ou necessariamente ao sujeito o que repugna ao senso comum Mais tarde voltaremos a esse assunto 2 O juízo imediato dizse também primitivo porque não supõe outro juízo e o mediato chamase também derivado pois deriva de outro juízo 92 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 53 Elementos da proposição A proposição tem os mesmos elementos do juízo a saber o sujeito o predicado e a cópula O sujeito exprimese em geral pelo nome substantivo o predicado pelo nome adje tivo a cópula pelo verbo substantivo ser posto no presente do indicativo O verbo adjetivo contém o predicado e a cópula como Pedro estuda1 1 Advertimos que os termos da proposição devem ser tomados formalmente isto é segundo o sentido e não materialmente isto é não segundo o número das pa lavras por isso muitos termos materiais podem formar um só termo formal Assim nesta proposição a alma humana espiritual e imortal é criada por DEUS as palavras a alma humana espiritual e imortal formam um só termo que é o sujeito Digamos alguma coisa acerca do nome e do verbo O nome é um termo que denota pessoas ou coisas ou alguma propriedade que as pessoas ou as coisas possuem sem denotar o tempo embora haja termos que signifiquem o tempo como se fosse uma coisa por exemplo dia hora etc Dividese em substantivo e adjetivo O substantivo significa uma coisa que é subs tância ou que é considerada como substância O adjetivo exprime uma coisa que é acidente ou que é considerada como acidente Por isso o sujeito da proposição que indica uma substância ou uma coisa considerada como substância deve ser signi ficado pelo nome substantivo e o predicado que indica um acidente ou uma coisa considerada como acidente deve ser significado pelo nome adjetivo O verbo é um termo que indica o estado a ação ou a paixão de pessoas ou coisas com a indicação também do tempo em que as coisas acontecem Dividese em substantivo e adjetivo O substantivo é o que propriamente significa o ato de ser em que se fundam todos os outros atos e é um só sou és é O adjetivo é o que além do ato de ser exprime também uma ação ou uma paixão ou uma modificação ou variedade do ser como são os verbos amo quero etc O verbo substantivo costuma chamarse primitivo porque todos os outros verbos são modificações ou determinações desse verbo assim quando digo Pedro ama o verbo ama exprime a ação de Pedro fundada sobre o seu ato de ser e resol vese na seguinte Pedro é amante Além disso o verbo substantivo pode tomarse num sentido absoluto e num sentido relativo Tomase num sentido absoluto quando significa a existência atual e então não é acompanhado pelo nome adjetivo como Deus é Tomase num sentido relativo quando significa o ato de ser e compõe o pre dicado com o sujeito como o homem é racional Tomado absolutamente o verbo ser é sempre real Tomado relativamente o verbo ser é lógico ou real conforme a natureza dos termos que une ou separa Se os termos são ambos lógicos ou se um é real e outro é lógico o verbo é exprime um ente lógico como a quimera é impossível Pedro é surdo a negação ou a privação não adere ao sujeito e se os termos são ambos reais o verbo é também é real e denota o ser real e absoluto em que se funda a união do predicado com o sujeito como Deus é misericordioso 93 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO 54 Divisão da proposição A proposição dividese em simples e composta É simples quando contém um só sujeito e um só predicado como a primavera é agradável É composta quando explícita ou implicitamente contém mais que uma proposição simples como a música e a poesia são belas artes Tanto a proposição simples como a composta subdividemse em várias espécies1 ARTIGO II Divisão da proposição simples 55 Fundamento dessa divisão Na proposição simples podemos considerar três coisas a matéria de que se trata a quantidade ou extensão dos termos e a qualidade do nexo entre o sujeito e o predicado Em relação à matéria a proposição simples costuma dividirse em analítica e sintética em relação à quantidade em universal particular e singular em relação à qualidade em afirmativa e negativa 56 Proposição analítica e sintética A proposição é analítica quando exprime um juízo analítico exemplo o homem é racional É sintética quando traduz um juízo sintético exemplo Pedro é sábio 57 Proposição universal particular e singular É univer sal quando o sujeito é universal exemplo toda a criatura é finita É particular quando o sujeito é particular exemplo alguns homens são bons É singular quando o sujeito é singular exemplo Camões é o príncipe dos poetas portugueses2 1 Alguns confundiram com a proposição composta a complexa Proposição complexa é a que contém uma ou mais proposições incidentes que determinam a significação do sujeito ou do predicado Mas é infundada tal opinião A proposição complexa embora aparentemente composta é simples na realidade visto que a inci dente não forma um termo distinto 2 Na proposição singular o sujeito é tomado em toda a sua extensão por isso a proposição singular equivale à universal e reduzse a essa A universalidade de uma proposição pode ser metafísica física e moral É metafísica quando a relação entre o sujeito e o predicado se funda na própria essência das coisas e por isso não admite exceção alguma como a alma humana é espiritual É física quando a relação entre o predicado e o sujeito se funda nas leis físicas e por isso pode ter exceções como nenhum morto ressuscita É moral quando a relação entre o sujeito e o predicado se 94 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 58 Proposição afirmativa e negativa Afirmativa é a que exprime a conveniência do predicado com o sujeito exemplo O B Nuno Álvares foi um grande capitão Negativa é a que exprime a desconveniência do predicado com o sujeito exemplo O orgulho não é bom conselheiro1 59 Compreensão e extensão do predicado nas proposições afirmativa e negativa As seguintes observações são da máxima importância a Na proposição afirmativa o predicado tomase em toda a sua com preensão assim na proposição Pedro é homem afirmamos que a Pedro convêm todos os elementos que constituem o predicado homem2 b Na proposição afirmativa o predicado é tomado só em parte da sua extensão e por isso é particular assim quando dizemos as flores são plantas não se entende que todas mas somente algu mas plantas são flores Todavia o predicado quando exprime a mesma coisa que o sujeito tomase em toda a sua extensão como neste exemplo o homem é animal racional pois que todo animal racional é homem3 c Na proposição negativa o predicado é tomado só em parte da sua compreensão assim na proposição o animal não é planta só negamos funda nas leis morais e por isso admite exceções como os pais amam seus filhos Quando não é evidente a extensão do sujeito a proposição reduzse à universal ou à particular ou à singular conforme a natureza da matéria de que se trata 1 Da proposição afirmativa e negativa difere a proposição infinita a que tem por predicado um termo infinito como o homem é nãoplanta Essa proposição não é afirmativa nem negativa porque não atribui ao sujeito o predicado nem o nega Mas embora não seja afirmativa nem negativa contudo participa de uma e de outra Participa da afirmativa enquanto indica que pode convir ao sujeito um pre dicado indeterminado à exceção do que é significado pelo termo infinito participa da negativa enquanto afasta do sujeito um predicado determinado 2 Se ao sujeito faltasse uma só das notas que constituem o predicado não poderia afirmarse que este convém àquele 3 Na proposição afirmativa dizemos que o sujeito está contido sob a ex tensão do predicado mas não dizemos que só ele está contido porque o predicado pode conter outros sujeitos O predicado tem maior extensão que o sujeito embora tenha menor compreensão 95 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO ao sujeito alguns e não todos os elementos do predicado pois a vida vegetativa é comum ao animal e à planta1 d Na proposição negativa o predicado é tomado em toda a extensão e por isso é universal assim neste exemplo o animal não é planta o predicado tomase universalmente pois nenhuma planta é animal2 1 Para se negar um predicado a um sujeito não é necessário que o sujeito seja destituído de todos e cada uma das notas que constituem o predicado basta que lhe falte uma só pois a ausência de uma só nota destrói a identidade entre o sujeito e o predicado 2 Um predicado não poderia afastarse de um sujeito se um só dos entes contidos sob a extensão do predicado pudesse afirmarse do sujeito A proposição simples costuma dividirse também em absoluta e modal É absoluta quando indica se o predicado convém ou não ao sujeito como o céu é sereno É modal quando não só indica se o predicado convém ou não ao sujeito mas também exprime o modo porque o predicado convém ou repugna ao sujeito como é possível que eu hoje parta Digamos alguma coisa acerca da proposição modal O modo é uma determinação da coisa feita pelo adjetivo O adjetivo é dúpli ce do nome como branco preto etc e do verbo tais são os advérbios como brevemente velozmente etc que se chama adjetivos do verbo porque estão junto do verbo e nele se firmam Daí o dúplice modo nominal e adverbial O modo nominal é a determinação da coisa feita pelo adjetivo do nome como curso veloz o modo adverbial é a determinação da coisa feita pelo adjetivo do verbo isto é pelo advér bio como corre velozmente O modo pode determinar ou o sujeito da proposição como o homem branco corre ou o predicado como o homem corre velozmente ou a relação entre o predicado e o sujeito como é possível que o homem corra A proposição modal é propriamente a que declara o modo porque o predicado se refere ao sujeito A proposição em que o modo determina o sujeito ou o predicado é absoluta Os modos que exprimem a relação do predicado com o sujeito são seis verdadeiro e falso necessário e impossível possível e contingente Os modos verda deiro e falso não alteram a relação do predicado com o sujeito e não acrescentam nada ao sentido da proposição absoluta assim estas proposições é verdade que Pedro corre é falso que Paulo escreve equivalem a estas Pedro corre Paulo não escreve Mas os outros quatro modos alteram a relação do predicado com o sujeito e a propo sição Pedro corre difere da seguinte é possível que Pedro corra São pois quatro as espécies da proposição modal modalnecessária modalcontingente modalimpossível e modalpossível Como a modal contingente é equivalente à modalpossível porque dizer é possível que Pedro escreva é o mesmo que dizer é contingente que Pedro escre va por isso só consideramos três espécies de proposição modal a modalnecessária a modalimpossível e a modalpossível A proposição modal tem como a absoluta a quantidade e a qualidade Quanto à quantidade a proposição modal é universal ou particular segundo a diversa índole do modo Se o modo exprime necessidade a proposição é universalafirmativa porque o que convém necessariamente a um sujeito convémlhe por causa da essência e 96 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO III Divisão da proposição composta 60 Espécies da proposição composta As principais espé cies da proposição composta são cinco copulativa causal condicional disjuntiva e adversativa 61 Proposição copulativa A proposição é copulativa quando tem diversos sujeitos ou diversos predicados unidos pelas conjunções copulativa exemplo a virtude e a ciência fazem o homem grande Será verdadeira se for cada uma das proposições simples em que pode resolverse 62 Proposição causal A proposição é causal quando dá a razão por que um predicado convém ou não a um determinado sujeito exemplo a alma humana é imortal por ser espírito Para que esta proposição seja verdadeira é necessário que o seja também a razão aduzida1 63 Proposição condicional A proposição é condicional quando resulta de várias proposições simples unidas pelas partículas condicionais exemplo se Pedro é homem é racional Compõese de duas partes da condição que se chama antecedente e do condicionado que se denomina conseqüente É verdadeira quando entre a condição e por isso deve atribuirse a todos os indivíduos que têm a mesma essência assim a proposição é necessário que todo o homem seja racional corresponde a esta todo o homem é racional Se o modo exprime impossibilidade a proposição é universalnegati va porque o que não pode convir a um sujeito nem pode convir a algum indivíduo que se acha contido na extensão desse sujeito assim a proposição é impossível que o homem seja bruto corresponde a esta nenhum homem é bruto Se o modo exprime possibilidade a proposição é particular porque o que convém possivelmente ou contingentemente convém a alguns indivíduos assim esta proposição é possível que o homem seja douto corresponde a outra algum homem é douto Quanto à qualidade a modal é afirmativa ou negativa conforme o modo se afirma ou se nega assim a proposição não é possível que o homem seja bom é negativa 1 A razão aduzida pela causal será verdadeira se existir um nexo entre a mesma razão e a proposição simples isto é se na proposição simples o predicado convier ao sujeito em virtude da razão aduzida aliás será falsa embora cada uma das partes seja por si verdadeira Por isso é falsa esta proposição causal a alma humana é espiritual porque existe pois que a existência da alma não é a razão da sua espiritualidade embora seja verdade que a nossa alma é espiritual e que existe 97 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO o condicionado há um nexo tal que admitida a condição é forçoso admitir também o condicionado embora consideradas separadamente ambas as partes sejam falsas por exemplo se a pedra sente tem alma sensi tiva É falsa quando não existe aquele nexo embora as duas partes consideradas separadamente sejam verdadeiras exemplo se a planta vegeta o sol é brilhante 64 Proposição disjuntiva A proposição é disjuntiva quando tem diversos sujeitos ou diversos predicados unidos entre si pelas conjunções disjuntivas exemplo o mundo é infinito ou finito É verdadeira quando um dos predicados convém ao sujeito ou quando o predicado convém a um dos sujeitos1 65 Proposição adversativa A proposição é adversativa quando encerra várias proposições simples unidas pelas conjunções adversativas exemplo Luiz é sábio mas não é bom Será verdadeira se o forem todas as proposições simples2 1 A proposição disjuntiva pois deve ter os dois seguintes requisitos 1o as partes enumeradas devem ser completas por isso é falsa a seguinte esta cor é branca ou verde 2o as partes não podem ser todas verdadeiras nem todas falsas mas devem ser tais que a afirmação de uma delas importe a exclusão das outras e a exclusão de todas menos uma importe a afirmação da que não foi excluída Assim é verdadei ra a seguinte esse ser vivo é planta ou animal ou homem pois se afirmamos que é homem com isso negamos que seja planta ou animal e se negarmos que é planta e animal já afirmamos que é homem A disjuntiva resolvese na condicional 2 Entre as partes da proposição adversativa deve existir uma certa oposi ção embora pouco sensível ou pelo menos uma diversidade aliás a adversativa reduzirseá à copulativa Pertencem também às proposições compostas a relativa e a exponível A relati va é a que resulta de várias proposições simples unidas pelas partículas relativas onde e aí tal e qual então e quando etc como tal é o povo qual é o sacerdote Será verdadeira essa proposição se existir realmente o nexo entre as proposições simples de modo que uma seja causa e determinação da outra aliás será falsa Assim é falsa esta proposição então será feliz o homem quando possuir as riquezas A exponível é a que embora seja simples na aparência enquanto resulta de um só sujeito e de um só predicado contudo é realmente composta em força de alguma partícula unida ao su jeito ou ao predicado tal é a proposição só Deus é santo Que se resolve nas duas seguintes Deus é santo e todo outro não é santo Será verdadeira se for verdadeira a partícula que modifica a proposição aliás será falsa Assim é falsa a seguinte só o homem vive Chamase exponível porque deve ser exposta ou explicada para que se conheça a sua significação total 98 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO IV Qualidades das proposições 66 Número das qualidades As qualidades das proposições são três oposição conversão e equivalência1 67 Oposição Oposição é a repugnância de duas proposições que têm o mesmo sujeito e o mesmo predicado A repugnância está em ser uma afirmativa e a outra negativa exemplo A neve é branca a neve não é branca2 68 Divisão das proposições opostas Com relação à sua extensão as proposições opostas podem ser ou ambas universais ou ambas particulares ou uma universal e outra particular Na primeira hipótese chamamse contrárias exemplo todos os homens são justos todos os homens não são justos na segunda dizemse subcontrá rias exemplo alguns homens são justos alguns homens não são justos na terceira são contraditórias exemplo todos os homens são justos alguns homens não são justos3 Eis o esquema das proposições opostas advertindo que a letra A designa a proposição universalafirmativa E a universalnegativa I a particularafirmativa O a particularnegativa 1 Essas três qualidades convêm às proposições não enquanto essas se consi deram em si mesmas pois nesse sentido são afirmativas ou negativas universais ou par ticulares etc mas enquanto se consideram na relação que umas têm com as outras 2 Duas proposições serão pois opostas 1o se tiverem o mesmo sujeito e o mesmo predicado 2o se uma afirmar o que a outra nega Se não se verificarem essas duas condições não poderá haver oposição 3 Duas proposições singulares são contraditórias quando diferem na qualida de exemplo Antônio é sábio Antônio não é sábio Alguns incluem no número das proposições opostas as subalternas que convém entre si na qualidade enquanto são ambas afirmativas ou ambas negativas mas diferem na quantidade enquanto uma é universal e outra é particular como as seguintes todos os homens são justos alguns homens são justos Mas as subalternas não são propriamente opostas pois a oposição dáse quando uma proposição afirma o que a outra nega 99 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO Todos os homens são justos A contrárIaS E Todos os homens não são justos Alguns homens são justos I SuBcontrárIaS O Alguns homens não são justos 69 Crítica das proposições opostas a As contraditórias não podem ser ambas verdadeiras nem ambas falsas porque uma coisa não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto princípio de contradição Por isso da falsidade de uma concluise a verdade da outra e da verdade de uma a falsidade da outra1 1 As contraditórias a Não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a sua matéria Porquanto afirmando uma o que a outra nega se ambas fossem verdadeiras uma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto Assim quando digo todos os homens são justos afirmo que a justiça existe em todos os homens mas quando digo alguns homens não são justos nego que a justiça existe em todos os homens Por isso se fossem verdadeiras essas duas contraditórias a justiça existiria e não exis tiria em todos os homens o que é absurdo b Não podem ser ambas falsas Porquanto se é falsa a afirmativa é falsa porque o que se afirma não é e se é falsa a negativa é falsa porque o que se nega é Ora como repugna que uma coisa ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto seja e não seja as contraditórias não podem ser ambas falsas Assim se é falsa esta proposi ção todos os homens são justos é falsa porque a justiça não se encontra em todos os homens e se é falsa esta outra alguns homens não são justos é falsa porque a justiça se encontra em todos os homens e por isso se ambas são falsas a justiça não se encontra e se encontra em todos os homens o que é absurdo A razão é porque entre uma e outra não há meio termo como não há meio termo entre a afirmação e a negação Uma coisa é ou não é Repetimos que as proposições singulares são contraditórias quando diferem entre si na qualidade porque para se excluírem reciprocamente basta que uma seja afirmativa e outra negativa Assim são contraditórias as seguintes Pedro é bom Pedro não é bom 100 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA b As contrárias não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a matéria de que tratam não podem ser ambas falsas quando a matéria é necessária podem ser ambas falsas quando a matéria é contingente1 Portanto a da verdade de uma podemos deduzir a falsidade da outra seja qual for a matéria de que se trata b da falsidade de uma deduzimos a verdade da outra quando a matéria é necessária c da falsidade de uma não se pode deduzir a verdade da outra quando a matéria é contingente c As subcontrárias não podem ser ambas falsas seja qual for a matéria de que tratam não podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é necessária podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é contingente2 1 As contrárias a Não podem ser ambas verdadeiras seja qual for a sua matéria Na verdade uma afirma que a outra nega e por isso se ambas fossem verdadeiras a mesma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto b Não podem ser ambas falsas quando a matéria é necessária Com efeito nesse caso pelo fato de o predicado convir essencialmente ao sujeito a contrária afirmativa é verdadeira pois o que convém essencialmente a um sujeito não pode deixar de convir também a todos os seres que estão compreendidos na extensão desse sujeito e por isso a contrária negativa é falsa exemplo todo o homem é racional nenhum homem é racional c Podem ser ambas falsas quando a matéria é contingente Porquanto nesse caso o predicado por não convir essencialmente ao sujeito não se encontra em todos os indivíduos compreendidos no sujeito nem falta em todos e tanto pode ser falsa a proposição contrária que atribui a todos o predicado como a que o não atribui a nin guém como nestes exemplos todo o homem é bom nenhum homem é bom Entre as proposições contraditórias e as contrárias dáse essa diferença que nas contraditórias a negação de uma destrói a afirmação da outra e entre elas não há meio termo mas nas contrárias a negação de uma não só destrói a afirmação da outra mas chega a outro extremo e por isso existindo entre extremos opostos um meio termo entre as contrárias há um meio termo que é a proposição particular afirmativa ou negativa Santo Tomás in I Perih l 11 2 As subcontrárias a Não podem ser ambas falsas seja qual for a matéria de que tratam aliás as suas contraditórias que são as contrárias seriam ambas verdadeiras b Não podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é necessária Porque então o predicado convém a todos e a cada um dos indivíduos e por isso a subcon trária afirmativa é verdadeira e a negativa é falsa como alguns homens são racionais alguns homens não são racionais 101 CAPÍTULO SEGUNDO JUÍZO E PROPOSIÇÃO Por isso a da falsidade de uma deduzimos a verdade da outra seja qual for a matéria de que tratam b da verdade de uma podemos deduzir a falsidade da outra quando a matéria é necessária c da verdade de uma não podemos deduzir a falsidade da outra quando a matéria é contingente 70 Conversão A conversão é a transformação de uma propo sição noutra Fazse pela troca dos termos passando o sujeito para predicado e este para o sujeito sem alterar a qualidade e a verdade das proposições assim a proposição algum homem é sábio convertese neste algum sábio é homem 71 Divisão da conversão A conversão pode ser simples acidental ou contraposta a É simples quando permanece a mesma quantidade Convertemse desta forma a as proposições universaisnegativas exemplo nenhum homem é planta nenhuma planta é homem b e as particularesa firmativas exemplo algum homem é sábio algum sábio é homem1 b É acidental per accidens quando se altera a quantidade Convertemse assim a as universaisafirmativas exemplo todo o homem é racional algum racional é homem b as universaisnegativas exemplo nenhuma planta é mineral algum mineral não é planta2 c É contraposta quando se conserva a mesma quantidade mas os termos por meio da partícula negativa se tornam indefinidos Convertemse por esta forma a as universaisafirmativas exemplo todo o animal é ente sensitivo todo o ente não sensitivo é não c Podem ser ambas verdadeiras quando a matéria é contingente Porque então o predicado não existe em todos os indivíduos nem falta a todos e as duas subcontrárias não são propriamente opostas pois não têm o mesmo sujeito como alguns homens são bons alguns homens não são bons Cf S Tomás In I Perih l 10 1 À conversão simples estão sujeitas as universaisnegativas porque na universalnegativa o sujeito e o predicado tomamse em toda a sua extensão e na conversão conservam a sua universalidade e as particularesafirmativas porque nessas proposições o sujeito e o predicado são termos particulares e na conversão conservam a sua particularidade 2 À conversão acidental estão sujeitas as universaisafirmativas pois nessas proposições o predicado é particular e por isso quando esse na conversão se torna sujeito deve ser particular e as universaisnegativas porque nessas proposições o predicado é universal e por isso atribuise a cada um dos entes que estão compre endidos sob a sua extensão 102 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA animal b e as particularesnegativas exemplo algum corpo não é ente vivo algum ente não vivo não é não corpo1 72 Equivalência Equivalência é a redução de duas proposi ções opostas à mesma significação Esta redução fazse por meio da partícula negativa não2 73 Regras da equivalência regra 1a Duas contraditórias tornamse equivalentes antepondo a partícula negativa ao sujeito de uma delas porque assim a negação altera a quantidade e a qualidade da proposição As duas contraditórias todos os homens são sábios e alguns homens não são sábios tornamse equi valentes antepondo a partícula negativa ao sujeito da primeira nem todos os homens são sábios que equivale a alguns homens não são sábios regra 2a Duas contrárias tornamse equivalentes propondo a negação ao sujeito de uma delas assim a partícula negativa altera só a qualidade A proposição todos os homens são eloqüentes pospondo não ao sujeito homens tornase equivalente à sua contrária que é todos os homens não são eloqüentes As subcontrárias não admitem equivalência3 CAPÍTULO TERCEIRO Raciocínio e Argumentação Sumário Raciocínio seus elementos e divisão Argumentação e silogismo Silogismos simples e suas regras Figuras e modos do silogismo simples Silogismos composto e sua divisão Indução e suas espécies Sofisma e suas espécies 1 A conversão contraposta nunca ou raríssimas vezes se emprega 2 A partícula negativa não tem uma natureza maligna pois destrói tudo aquilo a que é anteposta isto é dá à proposição um sentido oposto ao que tinha Assim se a partícula negativa é anteposta à qualidade a proposição de universal se torna particular e viceversa e se é anteposta à qualidade a proposição de afirmativa se torna negativa e viceversa 3 As subcontrárias não admitem equivalência porque seja qual for o posto da par tícula negativa uma proposição subcontrária não pode reduzirse à significação da outra 103 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO I Raciocínio seus elementos e divisão 74 Raciocínio Raciocínio é a união ou separação de duas idéias pelo fato de ambas convirem ou uma convier e outra não com uma terceira idéia com a qual foram comparadas exemplo Todo o espírito é imortal A alma humana é espírito Logo a alma humana é imortal Comparando entre si duas idéias muitas vezes não podemos perceber imediatamente a sua conveniência ou desconveniência Em tal caso recorremos a uma terceira idéia para com ela comparar as duas primeiras Desta comparação resulta que ou ambas as idéias convém a uma terceira ou ambas não convém ou uma convém e outra não Na primeira hipótese concluise a conveniência das duas idéias na segunda não pode concluirse a sua conveniência nem a sua desconveniência na terceira concluise a sua desconveniência Assim não conhecendo imediatamente a relação entre estas duas idéias alma humana e imortal comparamolas com uma terceira espírito e pela sua conveniência com esta concluímos que elas convém entre si1 1 A perfeição das substâncias intelectuais consiste no conhecimento da verdade Mas há uma diferença nesse conhecimento e a diferença fundase na própria nature za dessas substâncias As inteligências superiores que são os anjos conhecem sempre a verdade com um só olhar sem movimento ou discurso As inteligências inferiores como é a do homem não chegam sempre ao perfeito conhecimento da verdade com um só olhar mas devem fazer um movimento um discurso passando do conhecido para o desconhecido e assim descobrem e conhecem explicitamente muitas verdades que estavam implicitamente contidas em determinados princípios É pois necessário que a nossa inteligência estabeleça os princípios e depois os analise e resolva para que se veja o que neles se achava envolvido Dessa análise ou resolução derivam diversos juízos dis postos entre si por modo que um deriva dos outros Essa dedução de um juízo de outros juízos é propriamente o raciocínio Cf Sum Th Ia q 85 a 5 Erram portanto Wundt quando dá o nome de raciocínio a toda e qual quer forma de conhecimento mesmo à simples sensação e Locke quando diz que o raciocínio é uma simples ação intuitiva Pelo raciocínio a inteligência não vê uma verdade na outra mas passa de uma verdade para outra Essa passagem realizase quando a inteligência não vê imediatamente a relação entre duas diversas idéias 104 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 75 Elementos do raciocínio Os elementos do raciocínio são dois a saber matéria e forma a A matéria é constituída pelas três idéias que são a matéria remota e pelos três juízos que são a matéria próxima Das três idéias uma é sujeito da conclusão outra é predicado da mesma conclusão a terceira é o termo de comparação O sujeito e o predicado chamamse extremos o sujeito é o extremo menor e o predicado é o extremo maior a idéia que é o termo de comparação dizse médio1 As três idéias comparadas entre si constituem três juízos um for mado pela comparação do predicado e da idéia média e chamase premissa maior outro pela comparação do sujeito e da idéia média e chamase pre missa menor o terceiro pela comparação do sujeito e do predicado e dizse conclusão As premissas formam o antecedente a conclusão é o conseqüente b A forma do raciocínio é a disposição das idéias e dos juízos pela qual admitido o antecedente deve necessariamente admitirse o conseqüente O nexo que em virtude da forma existe entre o antecedente e o conse qüente chamase conseqüência e raciocínios há em que a conseqüência é verdadeira e o conseqüente é falso ou em que a conseqüência é falsa e o conseqüente é verdadeiro como nestes dois exemplos I conseqüência verdadeira e conseqüente falso Todo o homem é racional Ora a planta é homem Logo a planta é racional II conseqüência falsa e conse qüente verdadeiro Todo o animal é sensitivo Ora o cão é animal Logo o homem é livre2 1 O sujeito dizse extremo menor e o predicado denominase extremo maior porque o predicado referindose ao sujeito como o princípio formal e de terminante ao princípio material e determinável tem uma extensão maior que a do sujeito O termo de comparação dizse médio não só porque é o meio pelo qual julgamos da conveniência ou da desconveniência do sujeito com o predicado mas também porque a sua extensão é geralmente média entre a extensão do sujeito e a do predicado 2 O nexo entre o antecedente e o conseqüente é tão estreito que admitindose aquele deve admitirse também este Com efeito quando julgamos ser verdadeiro 105 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 76 Divisão do raciocínio O raciocínio é afirmativo ou negativo É afirmativo se afirma a conveniência do sujeito com o pre dicado porque ambos convém com a idéia média É negativo se afirma a desconveniência do sujeito com o predicado porque um deles não convém com a idéia média1 77 Princípios do raciocínio afirmativo e negativo O raciocínio afirmativo fundase no princípio de conveniência que é duas coisas cada uma das quais é igual a uma terceira são iguais entre si O raciocínio negativo fundase no princípio de desconveniência que é duas coisas das quais uma só é igual a uma terceira não são iguais entre si2 um princípio universal implicitamente julgamos ser também verdadeira uma con clusão contida naquele princípio Quando pois se deduz a conclusão deve ela expli citamente afirmar ou negar o que implicitamente foi afirmado ou negado no princípio aliás uma e a mesma coisa seria e deixaria de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto O juízo acerca da verdade da conseqüência pertence à lógica mas o juízo acerca da verdade do conseqüente pode pertencer a outras ciências 1 Já demos exemplos do silogismo afirmativo Um exemplo do silogismo negativo é o seguinte todo o homem é racional o cão não é homem logo o cão não é ra cional A conclusão diz que o predicado racional não compete ao sujeito cão porque esse não convém com à idéia média que é homem 2 Advirtase que duas coisas iguais a uma terceira são iguais entre si naquele sentido e naquela medida em que são iguais a essa terceira coisa Essa ad vertência é da máxima importância Porque não podemos dizer que são iguais entre si duas coisas uma das quais é igual à terceira considerada sob um aspecto e a outra é igual à mesma terceira coisa mas considerada sob outro aspecto porque nesse caso o meio termo não é um só mas múltiplo e o raciocínio é um sofisma Assim é falso esse raciocínio alguns homens são bons alguns homens são maus logo alguns bons são maus porque a terceira coisa alguns homens não é considerada sempre sob um e o mesmo aspecto mas na premissa maior sob um aspecto e na menor sob outro e diferente aspecto pois os homens que são bons são diversos dos que são maus e assim a terceira coisa é dúplice e portanto não há comparação das duas coisas com uma terceira e falta a base ao raciocínio Advirtase também que os dois princípios de conveniência identidade e de desconveniência discrepância se fundam e se resolvem no princípio de contradição uma coisa não pode simultaneamente ser e deixar de ser idem non potest simul esse et non esse Aqueles dois princípios são verdadeiros porque verdadeiro é o prin cípio de contradição Por isso esse é princípio remoto do raciocínio e os outros dois são princípios próximos 106 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO II Argumentação e silogismo 78 Argumentação Argumentação é a expressão verbal do racio cínio Por isso tudo quanto dissermos acerca da natureza da argu mentação das suas propriedades e leis tudo deve atribuirse ao raciocínio 79 Espécies de argumentação As espécies de argumentação são duas uma em que de duas proposições descemos para uma terceira como do todo para a parte outra em que de duas proposições subimos para uma terceira como das partes para o todo A primeira espécie é a argumentação dedutiva chamada silogismo a segunda é a indutiva e dizse indução Agora tratamos do silogismo mais tarde da indução1 80 Silogismo Silogismo é a argumentação pela qual se conclui que o predicado de um sujeito universal convém a um sujeito particular pelo fato desse se achar contido naquele sujeito universal Assim no seguinte silogismo Todo o ser criado é limitado Ora o homem é um ser criado Logo o homem é limitado o predicado limitado convém ao sujeito particular homem por este se achar contido no sujeito universal ser criado 81 Elementos do silogismo O silogismo consta de dois ele mentos que são a matéria e a forma A matéria é constituída por três termos matéria remota e por três proposições matéria próxima A forma 1 O todo de que se fala aqui na argumentação não é o integral composto de partes integrantes como é por exemplo uma casa composta das paredes do teto e do pavimento nem é o potencial composto de partes potenciais como é por exem plo a nossa alma composta das faculdades de entender querer etc mas é o todo universal composto de partes subjetivas como é por exemplo o animal cujas partes subjetivas são o animal racional e o animal irracional Na verdade atribuindose na ar gumentação a uma parte o predicado que convém ao todo é necessário que essa parte contenha em si o todo Ora isto não se verifica relativamente ao todo integral porque uma parte integrante não é o todo integral assim o teto não é a casa nem ao todo potencial pois uma parte potencial não equivale ao todo potencial assim o entendimen to não é toda a alma mas verificase relativamente ao todo universal pois que as partes subjetivas contém o todo universal assim dizemos que o homem é animal 107 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO é a conveniente disposição dos termos e das proposições em ordem à conclusão Os termos e as proposições tomam os nomes que demos às três idéias e aos três juízos que constituem a matéria do raciocínio A proposição maior indica que ao sujeito universal compete necessaria mente um certo predicado a menor que o sujeito particular está contido na extensão do sujeito universal a conclusão que ao sujeito particular deve atribuirse o predicado do sujeito universal Por isso a verdade particular expressa pela conclusão recebe toda a sua força da verdade necessária e universal significada pela premissa maior1 1 A força de que é dotada a conclusão não depende propriamente da uni versalidade da premissa maior mas sim da sua necessidade a universalidade é uma conseqüência da necessidade A proposição necessária que é a base do silogismo pode ser necessária absolutamente ou hipoteticamente conforme a necessidade é in dependente ou não de toda e qualquer condição No primeiro caso o predicado da conclusão exprime a essência total ou parcial do termo médio ou uma propriedade essencial e então o nexo entre o predicado da conclusão e o termo médio é absoluta mente necessário No segundo caso o predicado da conclusão exprime uma proprie dade atribuída ao termo médio pela experiência e então o nexo entre o predicado da conclusão e o termo médio é necessário hipoteticamente isto é supostas certas condições Mas em ambos os casos a propriedade que necessariamente convém ao termo médio atribuise a todos os sujeitos particulares contidos na extensão do termo médio que é o sujeito universal Dependendo do termo médio o resultado da comparação entre o sujeito e o predicado enquanto o termo médio é a razão porque um predicado convém ou repugna a um sujeito vêse claramente a necessidade de encontrar esse médio para se poder formar o silogismo Os antigos filósofos deram muitas regras para a invenção do médio Limitamonos a apresentar duas dessas regras uma serve quando a conclusão é uma proposição universalafirmativa e por isso vale também quando a conclusão é uma particularafirmativa a outra serve quando a conclusão é uma proposição universalnegativa e por isso vale também para a particular negati va 1a Quando a conclusão é uma proposição universalafirmativa procurese um médio que esteja contido no predicado mas contenha o sujeito Com efeito no silogismo cuja conclusão é uma proposição universalafirmativa o médio é sujeito do predicado na maior e é predicado do sujeito na menor Mas o médio se é sujeito do predicado deve ser contido no próprio predicado porque o predicado é mais universal que o sujeito e se é predicado do sujeito deve conter o próprio sujeito pela mesma razão Assim querendo concluir o silogismo por esta proposição universalafirma tiva logo toda flor é vivente pergunto a mim mesmo porque toda a flor deve ser vivente E percebo que toda a flor deve ser vivente porque é planta Mas a planta para que possa ser médio deve acharse contida no predicado vivente e deve pela sua vez conter o sujeito toda a flor E realmente a planta está contida no vivente e contém toda a flor Logo a planta é o médio Para maior clareza completamos o silogismo 108 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 82 Silogismo abreviado Às vezes por brevidade ou para maior força da argumentação omitese uma das premissas que facil mente se subentende Nesse caso o silogismo dizse abreviado ou simplesmente entimema por exemplo Todo o ser criado é limitado Logo o homem é limitado1 83 Princípios do silogismo O silogismo fundase em dois princípios que são uma derivação dos princípios de conveniência e des conveniência e que se enunciam deste modo a Tudo o que se afirma de um sujeito universal deve afirmarse de cada um dos particulares nele contidos para o silogismo afirmativo b Tudo o que se nega de um sujeito universal deve negarse de cada um dos particulares nele contidos para o silogismo negativo2 toda a planta é vivente ora toda a flor é planta logo toda a flor é vivente 2a Quando a conclusão é uma proposição universalnegativa procurese um médio ou que esteja excluído da extensão do predicado mas inclua o sujeito ou que esteja incluído na exten são do predicado mas exclua o sujeito A razão dessa regra é manifesta No silogismo que tem por conclusão uma proposição universalnegativa uma das premissas deve ser e é negativa e é negativa porque o médio ou repugna ao predicado e convém ao sujeito ou convém ao predicado mas repugna ao sujeito De resto na in venção do médio o uso e a reflexão valem mais do que as regras 1 Para se conhecer qual das duas premissas foi omitida se a maior ou a menor é necessário examinar a que ficou Se a premissa que ficou contém o extremo menor então foi omitida a premissa maior que devia exprimir a relação entre o extremo maior e o termo médio Se a premissa que ficou contém o extremo maior como no exemplo citado então foi omitida a premissa menor que devia exprimir a relação entre o extremo menor sujeito e o termo médio 2 Evidente é o princípio do silogismo afirmativo Porquanto se não pudesse atribuirse a um sujeito particular um predicado atribuído já a um sujeito universal sob o qual o particular está contido um e o mesmo predicado ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto seria e não seria atribuído ao mesmo sujeito particular seria atribuído porque quando é atribuído ao sujeito universal atribuise implici tamente a todos os sujeitos particulares contidos na extensão do sujeito universal e por isso àquele sujeito particular não seria atribuído por hipótese Não menos evidente é o princípio do silogismo negativo Com efeito quando negamos a um sujeito universal um determinado predicado implicitamente negamos o mesmo pre dicado a todos os particulares que estão contidos nesse sujeito universal e por isso 109 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO não podemos sem contradição deixar de negar explicitamente tal predicado a algum desses particulares quando nos ocupamos diretamente do tal particular O princí pio que regula o silogismo afirmativo foi chamado pelos escolásticos dictum de omni e o princípio em que se funda o silogismo negativo foi denominado dictum de nullo Esses dois princípios que regulam o silogismo afirmativo e negativo e que como dissemos são uma derivação dos princípios de conveniência e de desconveniên cia ou de identidade e de discrepância são chamados princípios lógicos porque diri gem as operações intelectuais enquanto os de conveniência e de desconveniência são chamados princípios metafísicos porque dizem respeito à realidade e exprimem o que são as coisas em si mesmas independentemente da nossa inteligência Os princípios lógicos como metafísicos fundamse como vimos no princípio de contra dição Desse princípio ocupase a Ontologia Depois de termos explicado a natureza do silogismo devemos agora exa minar as objeções aduzidas contra o seu valor lógico Limitamonos a citar as de Stuart Mill de Spencer de Bacon e Locke que são apenas umas reproduções das que foram apresentadas pelos escritores antigos e que são atualmente propugnadas pelos materialistas positivistas e modernistas a John Stuart Mill Sistema da Lógica procura demonstrar que o silogis mo é um sofisma um círculo vicioso visto que a verdade geral que é expressa pela premissa maior e de que a conclusão recebe toda a sua força depende da verdade já conhecida da mesma conclusão Assim nesse silogismo todos os homens são mortais ora Pedro é homem logo Pedro é mortal concluise que esse indivíduo é mortal por serem mortais todos os homens quando é certo que se estabelece a premissa maior todos os homens são mortais por se saber que é mortal cada um dos homens Poucas palavras em resposta A premissa maior do silogismo ou é um juízo analítico ou é um juízo sintético Se é um juízo analítico a sua verdade não se funda na verdade da conclusão mas na própria essência do sujeito e do predicado assim nesse silogismo todo o ser finito é contingente ora o mundo é ser finito logo o mundo é contingente afirmase que todo o ser finito é contingen te não por ser contingente o mundo isto é não pelo conhecimento da própria conclusão mas pela análise das duas idéias finito e contingente Se a premissa maior é um juízo sintético baseado na observação e no raciocínio como acontece no seguinte silogismo todos os homens são mortais ora Pedro é homem logo Pedro é mortal também nesse caso da verdade daquela premissa não depende da ver dade da conclusão Com efeito a esta proposição universal todos os homens são mortais não chega a nossa inteligência pelo conhecimento do particular porque o particular por nós conhecido referese ao passado e não ao futuro ao passo que aquela proposição universal prescinde de todo o tempo e abrange todos os homens passados e futuros e onde se encontra o homem aí deve encontrar se a morte se as leis da natureza não sofrerem uma suspensão O equívoco dos 110 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA adversários consiste em verem na proposição todos os homens são mortais apenas uma referência à coleção de indivíduos quando é certo que essa proposição exprime a natureza dos homens pois reduzse a esta todo o homem é mortal Logo a premissa maior não recebe da conclusão a sua força Também é falso que a con clusão seja conhecida antes da premissa maior pois embora aquela esteja contida nessa todavia nós não o conhecemos imediatamente e por isso é necessário re correr a uma outra verdade Donde se vê que o silogismo é um meio para descobrir e conhecer distintamente novas verdades Além disso é sabido que muitas vezes os sábios partem dos mesmos prin cípios universais admitidos por todos e chegam a conclusões inteiramente opos tas Ora isto não poderia acontecer se antecedentemente se conhecessem todas as verdades particulares contidas no princípio universal E se acontece isto signi fica apenas que as conclusões opostas têm um fundamento diverso isto é que os meios empregados no raciocínio foram diversos Portanto a verdade do princípio universal não deriva da verdade das proposições particulares significadas pelas con clusões mas a própria verdade da conclusão é o fruto do meio termo e por isso é uma coisa nova Notamos que o argumento de Stuart Mill se encontra em Bacon e constitui uma objeção que os velhos escolásticos faziam contra a legitimidade do silogismo e a que respondiam triunfantemente O mesmo Stuart Mill diz que a indução fornece as premissas maiores dos silogismos pois não existe generalidade sem indução Respondemos que a indução se toma em dois sentidos No sentido mais rigoroso exprime a argumentação que vai do particular para o geral No sentido mais lato significa toda e qualquer generali zação embora feita imediatamente e sem raciocínio Tomada no primeiro sentido a indução fornece ao silogismo as premissas maiores quando elas contém um juízo sintético mas não quando contém um juízo analítico Tomada no segundo sentido a indução fornece as premissas maiores do silogismo pois é certo que não existe generalidade sem indução com diz Aristóteles Post An lib 1 c 18 b H Spencer afirma que o silogismo é inútil e arbitrário pelas seguintes razões 1a o silogismo não pode ser composto de proposições universais visto que o objeto da Lógica sendo constituído pelas coisas concretas é singular 2a o nosso raciocínio natural nunca assume a forma de silogismo 3a pelo silogismo não aprendemos coisa alguma Respondemos que as razões aduzidas por H Spencer em confirmação da sua opinião são falsas É falsa a primeira porque como provaremos existem idéias universais e o sensualismo que só admite idéias particulares é anticien tífico É falsa a segunda porque embora os nossos discursos não assumam ordinariamente a forma de silogismo nem por isso esse deixa de ser útil para as discussões científicas e para a disciplina da inteligência É falsa a terceira porque muitas vezes os sábios concordam nos mesmos princípios gerais mas discordam nas conseqüências E por que essa divergência Porque não conhe cem o modo de tirar de determinados princípios legítimas conseqüências Ora é o silogismo que ensina a tirar de princípios universais conseqüências legítimas 111 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 84 Divisão do silogismo O silogismo é simples ou composto O simples só consta de proposições simples O composto contém proposições compostas ou consta de silogismos simples Agora trata mos do simples depois do composto ARTIGO III Silogismo simples e suas regras 85 Silogismo simples O silogismo é simples quando só consta de proposições simples Exemplo Todo o espírito é incorruptível A alma humana é espírito Logo a alma humana é incorruptível 86 Regras do silogismo simples São oito essas regras quatro relativas aos termos e quatro às proposições Além disso o silogismo como dissemos contra Mill serve para descobrir e co nhecer distintamente novas verdades só implicitamente contidas nos princípios gerais Diz Sortais Os progressos das ciências exatas atestam a fecundidade da dedução Se a objeção tivesse um fundamento bastaria conhecer os axiomas os postulados e as definições geométricas para se conhecer a geometria inteira E quando se diz que a premissa maior contém a conclusão devemos entender que ela contém a razão pela qual a conclusão é verdadeira isto é que a contém im plicitamente Para que se torne explícita tal inclusão não basta a maior devemos recorrer à menor que mostra se a razão indicada na maior convenha ao sujeito da conclusão Traité de Phil v II n 38 c Bacon e Locke rejeitam o silogismo e dizem que a indução é o único meio para adquirir a ciência Essa opinião é falsa A indução como veremos é um dos meios para a aqui sição da ciência mas não é o único A legitimidade do silogismo é reconhecida por sábios notáveis e insuspeitos Leibnitz escreve N Ensaios l IV c 16 Sustento que a descoberta do silogismo é uma das mais belas e importantes do espírito humano o silogismo é uma espécie de matemática universal cuja importância é desconhe cida mas que encerra uma arte de infalibilidade Cláudio Bernard Introdução ao estudo da medicina exp O espírito humano funciona sempre por meio do silogismo Poderia demonstrar a minha proposição com argumentos fisiológicos 112 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA I Terminus esto triplex maior mediusque minorque II Latius hos quam praemissae conclusio non vult III Nequaquam medium capiat conclusio oportet IV Aut semel au iterum medius generaliter esto V Utraque si praemissa neget nil inde sequetur VI Ambae afirmantes nequeunt generare negantem VII Pejorem sequitur semper conclusio partem VIII Nil sequitur geminis ex particularibus unquam1 regra I Os termos devem ser três maior menor e médio Se forem mais ou menos que três não pode ter lugar a comparação do sujeito e do predicado com o médio Falta também a essa regra quem emprega um termo equívoco como Todo o cão ladra Ora uma constelação é cão Logo uma constelação ladra regra II Nenhum termo deve ter na conclusão uma extensão maior que nas premissas Um termo que é particular nas premissas e universal na conclusão equivale a dois termos e o silogismo tem quatro termos como no seguinte em que o termo vivo é particular na maior e universal na conclusão Todo o homem é vivo Ora o bruto não é homem Logo o bruto não é vivo2 1 A necessidade da conclusão no silogismo depende exclusivamente do seu nexo com as premissas Para que exista tal nexo é necessário que uma das premissas conte nha a conclusão e a outra declare que tal continência existe porque então postas as premissas deve necessariamente deduzirse a conclusão Mas para que as premissas contenham e declarem contida a conclusão é necessário observar as citadas oito regras 2 Além disso a conclusão derivando das premissas deve estar contida nelas como a parte no todo Ora se um termo tem na conclusão uma extensão superior a que tem nas premissas já não pode estar contido nelas porque o mais não está con tido no menos Finalmente na conclusão do silogismo unimos ou separamos dois termos porque foram comparados nas premissas com o médio Ora se um termo 113 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO regra III O termo médio não deve entrar na conclusão Recorremos ao termo médio para com ele compararmos o sujeito e o predicado Efetuandose a comparação nas premissas o termo médio não pode entrar na conclusão que deve declarar exclusivamente a conveniência ou a des conveniência entre o sujeito e o predicado É falso pois este silogismo Napoleão foi pequeno Ora Napoleão foi capitão Logo Napoleão foi pequeno capitão regra IV O termo médio deve ser universal ao menos em uma das premissas Na verdade se o médio é particular em ambas as premissas equivale a dois termos pois exprime dois objetos ou indivíduos distintos e falta a comparação dos extremos com um e o mesmo médio assim é falso o seguinte silogismo Alguns homens são ignorantes Ora alguns homens são sábios Logo alguns sábios são ignorantes1 regra v De duas premissas negativas nada se pode concluir Sendo negativas as duas premissas é sinal de que o médio não é medida nem do sujeito nem do predicado e por isso não podemos concluir a conveniência nem a desconveniência do predicado com o sujeito Assim destas proposições fosse mais extenso na conclusão do que nas premissas teria sido comparado com o médio só numa parte da sua extensão e assim pereceria toda a estrutura do silogismo 1 É porém verdadeiro o silogismo quando o termo médio é singular e inco municável porque esse tomandose em toda a sua extensão corresponde ao universal e significa sempre um e o mesmo objeto ou indivíduo como neste exemplo Luís de Camões foi pobre Ora Luiz de Camões foi o autor dos Lusíadas Logo o autor dos Lusíadas foi pobre Dissemos quando o termo médio é singular e incomunicável porque se o termo é comunicável embora singular tornase de algum modo particular e não pode ser médio Assim não podemos dizer O Pai é Deus mas o Filho é Deus logo o Filho é o Pai porque o termo Deus embora singular é comunicável e não é próprio de uma só Pessoa divina 114 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Toda a planta não é imortal Ora a alma humana não é planta Logo não podemos concluir que a nossa alma é ou não imortal1 regra VI De duas premissas afirmativas não se pode tirar uma conclusão negativa Se as premissas são afirmativas o sujeito e o predicado convém com o termo médio e por isso entre si É falso pois o seguinte silogismo Todo homem honesto é digno de louvor Ora Pedro é homem honesto Logo Pedro não é digno de louvor regra VII A conclusão segue sempre a premissa mais fraca A premissa mais fraca é a negativa relativamente à afirmativa e a particular relativamente à universal Por isso essa regra resolvese nas duas seguintes 1a Se uma premissa é negativa também deve ser negativa a conclusão Porque sendo negativa uma das premissas um dos extremos não convém com o médio e por isso os dois extremos não podem convir entre si É falso pois este silogismo Todo o corpo é extenso Ora a alma humana não é corpo Logo a alma humana é extensa 2a Se uma das premissas é particular também deve ser particular a con clusão Porquanto se a conclusão fosse universal sendo uma das premissas 1 Não pode deduzirse nenhuma conclusão nem afirmativa porque a con clusão afirmativa supõem a conveniência de ambos os extremos com o médio nem negativa porque exige que um dos extremos convenha com o médio Mas para que esta regra conserve todo o seu vigor não basta que ambas as premissas consideradas em si sejam negativas mas é necessário que sejam negativas com relação ao termo médio enquanto ambas neguem a conveniência dos dois extremos com o médio aliás o silo gismo será legítimo Assim é legítimo o seguinte quem não ama a Deus não será salvo mas o ímpio não ama a Deus logo o ímpio não será salvo porque a menor embora consi derada em si seja negativa todavia considerada em relação ao termo médio é afirmativa porque afirma a conveniência do sujeito ímpio com o médio termo não ama a Deus pois é equivalente a esta o ímpio é não amante de Deus que é certamente afirmativa 115 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO particular um termo teria maior extensão na conclusão do que nas premissas o que é contrário à Regra ii Por isso é falso o seguinte silogismo Todas as ações boas merecem louvor Ora alguma ocupação é boa Logo todas as ocupações merecem louvor regra VIII De duas premissas particulares nada pode concluirse As premissas particulares a ou são ambas afirmativas b ou ambas negativas c ou uma afirmativa e outra negativa a Se as premissas particulares são ambas afirmativas nada se conclui Porque o termo médio deve ser universal pelo menos numa das premissas como manda a Regra iv ora em duas premissas particularesafirmativas não há algum termo universal pois os sujeitos e os predicados são todos particulares Por isso é falso o seguinte silogismo Alguns homens são sábios Alguns homens são ignorantes Logo alguns ignorantes são sábios b Se as premissas particulares são ambas negativas também não há conclusão porque o proíbe a Regra v c Se de duas premissas particulares uma é afirmativa e outra é negativa não pode tirarse nenhuma conclusão nem afirmativa nem negativa Não pode tirarse uma conclusão afirmativa porque o proíbe a Regra vii Nem pode tirarse uma conclusão negativa porque para tirarmos uma conclusão negativa deveria haver nas premissas dois termos universais ocupados pelo predicado da conclusão e pelo termo médio Regras ii e iv ora nas premissas há um só termo universal que é o predicado da premissa negativa Assim é falso este silogismo Alguns homens são maus Alguns homens não são maus Logo alguns maus não são maus1 1 Essa regra sofre exceção quando o silogismo contém termos singulares ou termos particulares equivalentes aos singulares pois esses termos tendo uma e a 116 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ARTIGO IV Figuras e modos do silogismo 87 Forma do silogismo No silogismo além da matéria que é constituída pelos termos e pelas proposições temos a forma que é a conveniente disposição dos mesmos termos e das premissas em ordem à conclusão E como a disposição dos termos se diz figura e a das premissas se chama modo assim neste artigo tratamos das figuras e dos modos do silogismo 88 Figura Figura é a diversa disposição do termo médio relativamente aos dois extremos 89 Número das figuras As figuras são quatro Na verdade os diversos modos de dispor o termo médio com relação aos dois extremos são quatro pois que o termo médio pode ser 1o sujeito na premissa maior e predicado na menor 2o predicado na maior e sujeito na menor 3o predicado na maior e na menor 4o sujeito na maior e na menor Damos os exemplos das quatro figuras mesma significação ou extensão correspondem aos universais Assim é legítimo o seguinte silogismo São Pedro é Galileu ora São Pedro é o Príncipe dos Apóstolos logo o Príncipe dos Apóstolos é Galileu Nesse exemplo os extremos são comparados com um e o mesmo termo médio e assim salvase o princípio de conveniência Alguns escritores afirmam que todas as leis do silogismo podem reduzirse a uma só que é a seguinte o silogismo simples é legítimo quando uma das premissas inclui a conclusão e a outra exprime essa inclusão Respondemos que essa lei a qual exige o nexo entre as premissas e a conclusão não só não exclui as oito regras do silogismo mas exigeas porque são elas que ensinam o que se há de fazer ou evitar para que exista o nexo entre o antecedente e o conseqüente Outros dizem que para a legitimidade do silogismo bastam os dois princí pios fundamentais de conveniência ou de desconveniência Mas eles não refletem que as oito regras propostas servem para a reta aplicação dos mesmos princípios A Lógica de Porto Real reduz a seis as oito regras suprimindo a I e a III porque eviden tes Mas se esse critério fosse aceitável poderiam excluirse também outras que também são muito evidentes como a II e dizemos mais poderiam todas reduzir se à I que é fundamental pois é nela que se baseiam as outras sete A razão das oito regras não é a sua evidência maior ou menor mas é o fim prático para o qual tendem e que é evitar o erro e descobrilo facilmente quando proposto por outros Sob esse aspecto as oito regras são todas utilíssimas porque são vários meios para chegarmos a conclusões verdadeiras 117 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Exemplo da 1a fig Todo o homem merece afeição Ora o teu inimigo é homem Logo o teu inimigo merece afeição Exemplo da 2a fig Todo o homem é animal Ora todo o animal é substância Logo alguma substância é homem Exemplo da 3a fig Toda a planta não é animal Ora todo o homem é animal Logo todo o homem não é planta Exemplo da 4a fig Todo o homem é racional Ora algum homem é ignorante Logo algum ignorante é racional A primeira figura é a mais perfeita porque de uma maneira evi dente representa o organismo do silogismo1 1 Como a segunda figura é apenas um modo indireto da primeira as figuras podem reduzirse a três conforme o termo médio ou é uma vez sujeito e uma vez predicado ou é duas vezes predicado ou é duas vezes sujeito Todavia a pri meira figura pode desdobrarse e constituir uma dúplice figura conforme o lugar que o médio ocupa nas premissas e assim temos a primeira figura direta e indireta direta se o médio é sujeito da premissa maior e predicado da menor indireta se o médio é predicado da premissa maior e sujeito da menor A primeira figura é a mais perfeita porque nessa figura o termo médio é verdadeiramente médio enquanto sendo sujeito e predicado participa da natureza dos dois extremos que são o sujei to e o predicado da conclusão Mas a primeira figura direta é mais perfeita que a primeira indireta não só porque na direta os termos ocupam na conclusão o lugar de sujeito e de predicado que ocuparam nas premissas mas também porque a direta exprime natural e completamente o organismo e a índole do silogismo ao passo que a indireta segue um processo contorto e violento nem mostra claramente o fundamento em que o silogismo se baseia Menos perfeita é a figura em que o médio é predicado em ambas as premissas porque então o médio não é verdadei ramente médio entre o sujeito e o predicado da conclusão Todavia essa figura em que o médio é predicado em ambas as premissas é mais perfeita que a última em que o médio é sujeito em ambas as premissas pois é mais nobre o predicado que o sujeito S Th Op 48 tr 8 c 4 As três últimas figuras podem facilmente reduzirse à primeira O seguinte silogismo da primeira figura indireta todo o homem é animal ora todo o animal é 118 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 90 Princípios das figuras Cada uma dessas figuras tem seus princípios próprios A primeira e a segunda figura fundamse nos dois princípios em que se funda o silogismo e que como dissemos são uma derivação dos princípios de conveniência e de desconveniência A terceira figura deve exprimir o seguinte princípio Duas coisas uma das quais não está contida no gênero em que está contida a outra diferem entre si A quarta figura baseiase n axioma Se alguns sujeitos subordinados a um gênero pertencem também a outro gênero esses dois gêneros têm em comum alguns sujeitos1 91 Leis das figuras Cada figura tem as suas leis próprias que são diferentes aplicações das oito regras do silogismo simples e que por isso não se podem violar sem que ao mesmo tempo sejam violadas essas regras As leis das figuras são seis uma para a primeira figura três para a segunda uma para a terceira e uma para a quarta São significadas nos seguintes versos Para a 1a figura I Sit minor affirmans maior vero generalis Para a 2ª figura II Maior ubi affirmat generalis tum minor esto III Si minor affirmat conclusio sit specialis IV Si negat haec maior generalis postulat esse Para a 3a figura V Una negans esto nec maior sit specialis Para a 4a figura VI Sit minor affirmans conclusio particularis substância logo alguma substância é homem pode reduzirse à primeira figura direta dizendo todo o animal é substância ora todo homem é animal logo todo homem é substância Assim esse silogismo da segunda ou terceira figura todo o bruto não é racional ora todo o homem é racional logo todo o homem não é bruto reduzse à primeira direta dizendo todo o racional não é bruto ora todo o homem é racional logo todo o homem não é bruto Como também o seguinte silogismo da terceira ou quarta figura todo o homem é racional ora algum homem é ímpio logo algum ímpio é racional reduzse à primeira direta dizendo todo o homem é racional ora algum ímpio é homem logo algum ímpio é racional Repetimos que se a primeira figura se desdobra temos quatro figuras e que se não se desdobra só temos três 1 Mas reconhecese facilmente que os princípios ou axiomas que regem a terceira e a quarta figura são apenas diversos aspectos dos princípios em que se fundam a primeira e a segunda figura 119 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Lei I A menor seja afirmativa a maior universal a A menor seja afirmativa Por quanto se a premissa menor é negativa também negativa há de ser a conclusão Regra vii do Sil Se a conclusão é negativa o seu predicado é universal Se o predicado é universal na conclusão deve ser universal também na premissa maior Regra ii do Sil Se o predicado da premissa maior é universal a pró pria premissa é negativa Se a premissa maior é também negativa não pode haver conclusão Regra v do Sil Logo a premissa menor deve ser afirmativa Assim é falso o seguinte silogismo Todo o homem é vivente Ora nenhuma planta é homem Logo nenhuma planta é vivente b A maior seja universal Na verdade se a premissa maior fosse particular o termo médio seria particular Tanto na maior porque sujeito de uma proposição particular como na menor porque predicado de uma proposição afirmativa o que se opõem à Regra iv do Silogismo Assim é falso o seguinte Algum corpo é vivente Ora a pedra é um corpo Logo a pedra é vivente Lei II Se a maior é afirmativa a menor deve ser universal Na verdade se a maior é afirmativa o termo médio que é predicado é par ticular Por isso o médio deve ser universal na menor Regra iv do Sil e a mesma menor deve ser universal porque o médio ocupa o lugar de sujeito Peca contra esta regra o seguinte Todo o animal é vivente Ora algum vivente é planta Logo alguma planta é animal Lei III Se a menor é afirmativa a conclusão deve ser particular Com efeito se a premissa menor é afirmativa o extremo menor que é predicado dessa premissa é particular e por isso quando entra na 120 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA conclusão como sujeito deve ser também particular e assim a conclusão é necessariamente particular É pois legítimo o seguinte Nenhum homem é bruto Ora todo o bruto é sensitivo Logo algum sensitivo não é homem Lei IV Se a conclusão é negativa a maior deve ser universal Porquanto se a conclusão é negativa o seu predicado é universal na premissa maior da qual é sujeito e por isso a premissa maior deve ser universal porque universal é a proposição cujo sujeito é universal É pois legítimo o seguinte Toda a planta é vivente Ora nenhum vivente é pedra Logo nenhuma pedra é planta Lei V Uma das premissas seja negativa a maior seja universal a Uma das premissas seja negativa Na verdade se ambas as pre missas são afirmativas o termo médio que é sempre predicado é sempre particular porque particular é o predicado da proposição afirmativa e faltase contra a IV Regra do Sil Por isso é falso o seguinte O homem é animal Ora o cão é animal Logo o cão é homem b A maior seja universal Um termo que é ao mesmo tempo predicado na conclusão e sujeito na maior não pode ser menos extenso na maior do que na conclusão Regra ii do Sil Mas na conclusão esse termo é universal porque predicado de uma proposição negativa Logo deve ser também universal na maior Ora o sujeito universal torna universal a proposição Logo a maior deve ser universal Algum vivente é homem Ora nenhuma planta é homem Logo nenhuma planta é vivente 121 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Lei VI A menor seja afirmativa a conclusão particular a A menor seja afirmativa Se a menor é negativa também a con clusão há de ser negativa e o predicado da mesma conclusão é universal Sendo universal na conclusão o predicado há de ser universal também na premissa maior Se o predicado é universal na maior esta é negativa porque só na proposição negativa o predicado é tomado universalmente Mas de duas premissas negativas não pode deduzirse a conclusão Logo a premissa menor deve ser afirmativa É falso pois o seguinte Todo o animal é substância Ora nenhum animal é planta Logo nenhuma planta é substância b A conclusão seja particular Se a conclusão fosse universal o seu sujeito havia de ser universal Mas como o sujeito da conclusão é também o predicado da menor o predicado da menor devia ser universal Ora o predicado da menor não pode ser universal porque é predicado de uma proposição afirmativa mas deve ser particular Portanto a conclusão deve ser particular É falso pois o seguinte Nenhum bruto é planta Ora todo o bruto é vivente Logo todo o vivente não é planta 92 Modo Modo é a diversa disposição das premissas conside radas na sua quantidade e qualidade 93 Número dos modos Sendo o modo a diversa disposição das premissas consideradas na sua quantidade e qualidade é claro que serão tantos os modos quantas forem as possíveis disposições das premissas assim consideradas Ora as premissas consideradas na sua quantidade e qualidade podem ter em cada figura 16 diversas dispo sições e como as figuras são quatro seguese que todos os modos do silogismo se reduzem a 64 94 Número dos modos legítimos Nem todos os 64 modos são legítimos Porquanto se excluirmos os que são abertamente con trários às Regras vi e vii do Silogismo ficam apenas 36 9 em cada figura E se esses 36 modos se considerarem em ordem à conclusão que deve 122 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA ser deduzida em conformidade não só das regras comuns do Silogismo mas também das leis próprias de cada figura veremos que os modos legítimos se reduzem a 191 1 Apresentamos o esquema a das diversas disposições das premissas consideradas na sua quantidade e qualidade recordando que a letra A exprime a premissa universalafirmativa E a universalnegativa I a particularafirmativa O a particularnegativa a AA EA IA OA AE EE IE OE AI EI II OI AO EO IO OO Cada figura pois tem 16 modos E como as figuras são quatro todos os modos são 64 Mas nem todos esses modos são legítimos pois alguns EE EO II IO OE OI OO pecam contra a regra Va ou a VIIIa E assim ficam 9 modos úteis em cada figura que são os seguintes b AA EA IA OA AE IE AI EI AO Mas estes 9 modos ficam ainda mais reduzidos se se avaliarem não só pelas regras comuns a todos os silogismos mas também pelas leis próprias de cada figura Assim Na 1a Figura os modos AE AO IA IE OA não concluem legitimamente porque pecam contra alei dessa figura que é a menor seja afirmativa a maior universal Por isso temos quatro modos úteis que são c AA Cuja conclusão é A AI Cuja conclusão é I EA Cuja conclusão é E EI Cuja conclusão é O Na 2a Figura os modos AI AO IE OA são ilegítimos porque os dois primeiros pecam contra a lei se a maior é afirmativa a menor deve ser universal e os outros dois pecam contra a lei Se a conclusão é negativa a maior deve ser universal 123 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO Assim ficam cinco modos legítimos que são d AA Cuja conclusão é I AE Cuja conclusão é E EA Cuja conclusão é O EI Cuja conclusão é O IA Cuja conclusão é I Na 3a Figura os modos AA AI IA IE OA são ilegítimos porque pecam contra a lei própria desta figura uma premissa seja negativa a maior universal Assim ficam quatro modos legítimos que são e AE Cuja conclusão é E AO Cuja conclusão é O EA Cuja conclusão é E EI Cuja conclusão é O Na 4a Figura os modos AE AO IE são ilegítimos porque pecam contra a regra desta figura que diz a menor deve ser afirmativa Assim os modos legítimos são seis a saber f AA Cuja conclusão é I AI Cuja conclusão é I EA Cuja conclusão é O EI Cuja conclusão é O IA Cuja conclusão é I OA Cuja conclusão é O Sendo pois quatro os modos legítimos na primeira figura cinco na segunda quatro na terceira seis na quarta é claro que os modos úteis são ao todo dezenove Os modos mais perfeitos são os da primeira figura pois manifestam evidente mente a necessidade da conclusão Estes 19 modos legítimos são indicados pelos seguintes versos que embora bárbaros na aparência são contudo construídos com grandíssima arte porque as três primeiras vogais de cada palavra significam a qualidade e a quantidade das premissas e da conclusão e as consoantes servem para o fim que mais adiante veremos Lembramos que A significa a proposição universalafirmativa E denota a universalnegativa I significa a proposição particularafirmativa O denota a particularnegativa 1a figura Barbara Celarent Darii Ferio 2a figura Baralip tou Camentes Dimatis Fresapno Fresisom orum 124 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 3a figura Cesare Camestres Festino Baroco 4a figura Darapti Felapton Disamis Datisi Bocardo Ferison Os modos úteis ou legítimos dividemse em perfeitos e imperfeitos São per feitos quando a conclusão clara e diretamente deriva das premissas São imperfeitos quando a conclusão só indireta e escuramente deriva das premissas Perfeitos são os quatro modos da 1a figura que de uma maneira imediata mostram a própria força da conclusão Imperfeitos são todos os outros quinze nos quais a necessidade da conclu são não se infere unicamente da posição das premissas mas deve ser demonstrada por outro meio Demonstrase pela redução e pela dedução ao impossível Redução é a revocação de um modo imperfeito a um modo perfeito pela con versão das proposições e às vezes pela transposição das premissas Para que a re dução se faça legitimamente é preciso considerar três coisas 1a qual é o modo perfeito ao qual deve reduzirse um modo imperfeito 2a quais as proposições que se hão de sujeitar à conversão e porque forma 3a quando deve ter lugar a transposição das premissas Ora essas três coisas são indicadas pelas consoantes das palavras que exprimem os modos As letras b c d f porque começam as palavras significam que um determinado modo imperfeito se deve reduzir àquele dos quatro modos perfeitos que começa pela mesma letra Assim Baralip reduzse à Barbara Cesare à Celarent Dalapti à Darii Festino à Ferio As letras s e p que se acham no meio das palavras indicam as proposições que devem converterse e a forma da conversão Assim a letra s diz que a proposição significada pela vogal antecedente deve estar sujeita à conversão simples isto é mudando o predicado em sujeito mas conservando a quantidade A letra p significa que a proposição indicada pela vogal antecedente deve estar sujeita à conversão per accidens ou acidental mudando o predicado em sujeito e alterando a quantidade A letra m seja qual for o seu lugar indica a transposição das premissas de modo que a menor se torne maior e vicever sa O que levamos dito vêse no seguinte silogismo em Camestres todo o homem é racional ora nenhum cão é racional logo nenhum cão é homem A letra c que é inicial em Camestres indica que esse modo imperfeito se deve reduzir ao modo perfeito que começa pela mesma letra c e que é Celarent A letra m que na palavra Camestres segue a primeira vogal indica que as premissas se devem mudar A letra s que vem depois da segunda e terceira vogal significa que a premissa menor e a conclusão se devem sujeitar à conversão simples Se tudo isto se fizer aquele silogismo imperfeito em Camestres reduzse ao seguinte perfeito em Celarent nenhum racional é cão ora todo o homem é racional logo nenhum homem é cão Feita a redução vêse cla ramente a necessidade da conclusão Essa redução é possível em todos os modos imperfeitos à exceção de dois de Baroco e Bocardo A dedução ao impossível consiste em obrigar o adversário que nega a con seqüência depois de ter aceitado as premissas a admitir o impossível e o absurdo a verdade de duas contraditórias Fazse a dedução do modo seguinte Tomase a contraditória da conclusão negada comparase com uma das premissas e formase um silogismo perfeito cuja conclusão é contraditória da outra premissa admitida Assim o adversário deve admitir a verdade de duas contraditórias Seja o seguinte 125 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO V Silogismo composto e sua divisão 95 Silogismo composto Silogismo composto é como dissemos o que contém nas premissas alguma proposição composta ou é formado de silogismos simples silogismo em Bocardo algum animal não é racional ora todo o animal é sensitivo logo algum sensitivo não é racional Se alguém concede as premissas mas nega a conclusão admite que é verdadeira a seguinte proposição contraditória da conclusão negada todo o sensitivo é racional Formase então o seguinte silogismo todo o sensitivo é racional ora todo o animal é sensitivo logo todo o animal é racional Portanto quem concede as premissas do primeiro silogismo mas nega a conclusão deve admitir a verdade dessas duas contraditórias algum animal não é racional todo o animal é racional Essa prova de legitimidade vale para todos os modos imperfeitos sem exceção Agora vêse melhor a arte com que foram compostas essas palavras que exprimem os modos do silogismo E todavia não há hoje um estudante que não saiba rirse de um Barbara ou de um Baroco mas não há ninguém que não incline a cabeça diante de um x ou de um y Gratry Como a proposição simples o silogismo simples dividese em absoluto e modal É absoluto quando as duas premissas são proposições absolutas é modal quando pelo menos uma das premissas é proposição modal Digamos alguma coisa acerca do silogismo modal porque ao absoluto deve aplicarse tudo o que convém ao simples O silogismo modal é tríplice modal necessário modalimpossível e modal possível ou contingente É modal necessário quando uma ou ambas as premissas são proposições modaisnecessárias como é necessário que a criatura seja limitada ora é necessário que todo o homem seja criatura logo é necessário que todo o homem seja limitado É modalimpossível quando uma premissa é modalimpossível como é impossível que as almas humanas sejam materiais ora a alma de Pedro é humana logo é impossível que a alma de Pedro seja material Dizemos uma só porque se ambas as premissas foram proposições modaisimpossíveis o silogismo não poderia ter conclusão sendo ne gativa a proposição modalimpossível Regra vi do Sil É modalpossível ou contingente quando uma ou ambas as premissas são proposições modaiscontingentes ou possíveis como é possível que todo o homem seja branco ora é possível que todo o homem seja músico logo é possível que o músico seja branco Como um juízo exato acerca do silogismo modal é muitas vezes difícil sobretudo porque a índole da conclusão depende geralmente da índole da matéria exposta por isso para o processo se tornar mais simples e seguro convém reduzir o silogismo modal ao absoluto Assim este silo gismo modalnecessário é necessário que toda a substância extensa seja corpo ora é necessário que toda a pedra seja substância extensa logo é necessário que toda a pedra seja corpo reduzse ao seguinte absoluto em Barbara toda a substância extensa é necessariamente corpo ora toda a pedra é necessariamente substância extensa logo toda a pedra é necessariamente corpo 126 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 96 Divisão do silogismo composto Se as premissas contém alguma proposição composta o silogismo composto pode ser copulativo causal condicional disjuntivo e adversativo Se é formado de silogismos simples o silogismo composto é ou dilema ou sorites ou polisilogismo 97 Silogismo copulativo Silogismo copulativo é o que encerra uma ou ambas as premissas copulativas Exemplo Todos os animais são sensitivos Ora o cão e a lebre e o coelho são animais Logo o cão e a lebre e o coelho são sensitivos O silogismo copulativo resolvese em silogismos simples e depois esses avaliamse pelo critério comum1 98 Silogismo causal Silogismo causal chamado também epicherema é o que tem alguma proposição causal Exemplo Todo o espírito é imortal Ora a alma humana é espírito porque é independente da matéria Logo a alma humana é imortal Na apreciação desse silogismo a razão aduzida avaliase separa damente das proposições2 99 Silogismo condicional Silogismo condicional é aquele em que a premissa maior é uma proposição condicional Conclui de dois modos 1o afirmando a condição na menor e o condicionado na conclusão exemplo Se é homem é animal ora é homem logo é animal 1 Nem sempre o silogismo copulativo pode resolverse nos silogismos sim ples como no seguinte exemplo quem cumpre e ensina a lei divina é grande no reino dos céus ora Pedro ensina a lei divina logo é grande no reino dos céus A razão é porque o predicado grande no reino dos céus compete a quem cumpre e ensina a lei e não a quem se limita a ensinála 2 A parte causal não se refere propriamente à forma do silogismo mas apenas à proposição E pode haver silogismos legítimos na forma e verdadeiros na matéria que tenham uma razão falsa como no seguinte exemplo todo o espírito é imortal ora a alma humana é espírito porque é simples logo a alma humana é imortal A razão porque a nossa alma é espírito não é a sua simplicidade também a alma dos brutos é simples mas é a sua independência da matéria 127 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 2o negando o condicional na menor e a condição exemplo Se é homem é animal ora não é animal logo não é homem1 100 Silogismo disjuntivo Silogismo disjuntivo é aquele em que a premissa maior é uma proposição disjuntiva Conclui de dois modos 1o afirmando uma parte da disjunção na menor e negando todas as outras na conclusão exemplo Este corpo vivo é ou homem ou bruto ou planta ora é homem logo não é bruto nem planta 2o negando na menor todas as partes menos uma que se afirma na conclusão exemplo Este corpo vivo é ou homem ou bruto ou planta ora não é bruto nem planta logo é homem2 1 Dizemos que o silogismo condicional conclui de dois modos Na verdade afirmando a condição na menor podemos afirmar o condicionado na conclusão porque estando o condicionado contido na condição é claro que admitida esta deve admitir se aquele Como também negando o condicionado na smenor devemos negar a condi ção na conclusão pois estando o condicionado contido na condição é evidente que não se verificando aquele deve concluirse que se não verificou essa Mas o silogismo seria ilegítimo 1o se afirmando o condicionado afirmasse também a condição pois o condicionado não contém a condição assim seria falso o seguinte silogismo se é homem é animal mas é animal logo é homem visto que o animal não contém o homem e por isso um ente pode ser animal sem ser homem 2o se negando a condição da menor negasse o condicionado na conclusão pois o condicionado pode ser verdadeiro independentemente da condição pois isso é falso o seguinte silogismo se é homem é animal mas não é homem logo não é animal Todavia se prescindirmos da forma lógica do silogismo condicional e só con siderarmos a matéria podemos às vezes deduzir da afirmação do condicionado a afir mação da condição e da negação da condição a negação do condicionado Isso acontece ou quando a condição se identifica com o condicionado como neste exemplo se é homem é animal racional mas é animal racional logo é homem ou quando a condição é a razão única e exclusiva do condicionado como neste exemplo se é homem tem a faculdade de rir ora não é homem logo não tem a faculdade de rir O silogismo condicional reduzse facilmente ao simples prepondo à propo sição menor e à conclusão do silogismo condicional uma proposição maior que tenha por sujeito o predicado da condição tomado universalmente e por predicado o predi cado do condicionado Assim este silogismo condicional se Pedro é homem Pedro é racional ora Pedro é homem logo Pedro é racional reduzse ao seguinte simples todo o homem é racional ora Pedro é homem logo Pedro é racional 2 Para que a conclusão seja legítima a premissa deve conter uma verdadeira disjunção isto é as partes da premissa devem excluirse mutuamente de modo que se uma é verdadeira a outra deve ser falsa e viceversa Assim não seria legítimo este silogismo Lucas ou é escritor ou é pintor mas é escritor logo não é pintor porque a qualidade de escritor e a de pintor não se excluem mutuamente 128 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 101 Silogismo adversativo Silogismo adversativo é o que contém alguma proposição adversativa Exemplo Todo o bruto é sensitivo mas não é racional Ora o cordeiro é bruto Logo o cordeiro é sensitivo mas não é racional Também esse silogismo se avalia pelas regras comuns1 102 Dilema Dilema é um silogismo cuja premissa maior é uma proposição disjuntiva composta de duas partes ordenadas de forma que admitida qualquer delas se conclui sempre contra o adversário É célebre o dilema de Tertuliano demonstrando a injustiça da lei promulgada por Trajano o qual ordenara que os cristãos não fossem inquiridos mas que fossem condenados se alguém os denunciasse Os cristãos ou são réus ou inocentes Se são réus porque proíbes que sejam inquiridos Se são inocentes porque os condenas quando denunciados O dilema deve satisfazer às três condições seguintes 1a a disjun ção deve ser completa 2a o nexo entre a conclusão e as partes da disjunção deve ser necessário 3a deve ser impossível a retorção de modo que não possa tirarse uma segunda conclusão inteiramente oposta à primeira2 1 Ao silogismo composto pertencem o silogismo relativo e o exponível É re lativo quando a premissa maior é uma proposição relativa como a nossa alma vale tanto quanto vale Deus ora Deus vale infinitamente logo a nossa alma humana é infinito E exponível quando uma ou ambas as premissas são proposições ex poníveis como o bruto só possui a vida sensitiva ora o homem possui também a vida intelectual logo o homem não é bruto Para se conhecer a legitimidade da conclusão resolvese proposição exponível e formase o seguinte silogismo o bruto possui a vida sensitiva mas não a intelectual ora o homem possui também a vida intelectual logo o homem não é bruto 2 Se os membros da proposição disjuntiva são três ou quatro etc esse si logismo chamase trilema quadrilema etc Como se vê o dilema 1o encerra explícita ou implicitamente quatro proposições a primeira é disjuntiva a segunda é uma condicionalcausal porque é constituída pela primeira parte da disjunção e dela conclui contra o adversário dando a razão da conclusão a terceira também é con dicionalcausal e com a segunda parte da disjunção impugna o adversário a quarta 129 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 103 Sorites Sorites é um silogismo formado de várias proposi ções dispostas de modo que o predicado da primeira é o sujeito da segunda o predicado da segunda é o sujeito da terceira e assim por diante até se chegar à conclusão formada do sujeito da primeira e do predicado da última Exemplo A alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas O ser capaz de formar idéias abstratas é espiritual O ser espiritual é incorruptível O ser incorruptível é naturalmente imortal Logo a alma humana é naturalmente imortal O sorites resolvese em tantos silogismos simples da primeira figura quantas são as proposições menos duas ou quantos são os termos médios Assim o sorites proposto resolvese nos três seguintes silogismos O ser capaz de formar idéias abstratas é espiritual Ora a alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas afirma categoricamente do todo o que de um modo hipotético foi afirmado das partes assim a conclusão do citado dilema de Tertuliano é a seguinte logo a lei por ti promulgada é sempre e em todo o caso injusta 2o contém em si dois entimemas como demonstra o exemplo dado 3o difere do silogismo disjuntivo porque esse admitida uma parte exclui a outra e viceversa ao passo que o dilema deduz de cada uma das partes a mesma verdade contra o adversário Mas para que o dilema conclua eficazmente devem observarse as três con dições enumeradas no texto 1a A disjunção deve ser completa aliás o adversário encontrará uma porta de evasão Assim é ilegítimo o dilema de Cícero De Sen XIX quando querendo demonstrar que não devemos ter medo da morte disse que a nossa alma ou será eternamente feliz ou será mortal e não se lembrou de que a nossa alma pode ser também eternamente infeliz 2a O nexo entre a con clusão e as partes da disjunção deve ser necessário aliás o adversário tirarseá de todo o embaraço negando a necessidade da conclusão Assim vicioso é o argumento de um filósofo quando querendo convencer um dos seus discípulos de que não devia aceitar um emprego público disselhe Ou tu cumprirás com os teus deveres ou não no primeiro caso desagradarás aos homens no segundo a Deus Como vicio sa é a resposta do discípulo no primeiro caso agradarei a Deus no segundo aos homens Porquanto falta o nexo necessário entre a boa administração e o desagrado dos homens como não tem igual importância o desagrado de Deus e o desagrado dos homens 3a Deve ser impossível a retorção pois é pouco honroso ser ferido pelas próprias armas Falta também a essa condição o dilema do tal filósofo que queria levar o discípulo a não aceitar cargos públicos 130 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA Logo a alma humana é espiritual O ser espiritual é incorruptível Ora a alma humana é um ser espiritual Logo a alma humana é incorruptível O ser incorruptível é naturalmente imortal Ora a alma humana é um ser incorruptível Logo a alma humana é naturalmente imortal1 Para a verdade do sorites é necessário 1o que não haja termos equívocos 2o que todas as proposições sejam absolutamente verdadeiras e que uma derive necessariamente da outra 3o que todas as proposi ções sejam universais só a primeira pode ser particular e afirmativa só a penúltima pode ser negativa2 1 Portanto 1o no sorites o primeiro lugar é ocupado pela premissa menor do primeiro silogismo o segundo pela premissa maior do mesmo silogismo o ter ceiro o quarto etc pela premissa maior dos silogismos seguintes 2o no sorites encontramse as premissas maiores de todos os silogismos em que se resolve as premissas menores omitemse à excepção da menor do primeiro silogismo como também se omitem as conclusões à exceção da conclusão do último silogismo 3o os sujeitos de todas as premissas à exceção do sujeito da primeira fazem o ofício de termo médio nos silogismos que o sorites contém 2 O sorites fundase no seguinte princípio quando um atributo se une com um su jeito tudo o que convém ao atributo convém também ao sujeito Assim no exemplo citado afirmandose que a alma humana é um ser capaz de formar idéias abstratas tudo o que convém a esse ser convém também à nossa alma Ora a um ser capaz de formar idéias abstratas convém a espiritualidade a incorruptibilidade e a imortalidade Logo essas prerrogativas devem também convir e convêm à alma humana Notese que os silo gismos simples em que se resolveu o citado sorites são três quantas são as proposições menos duas ou quantos são os termos médios que no exemplo citado são ser capaz de formar idéias abstratas ser espiritual ser incorruptível Mas para que o sorites seja uma forma legítima de argumentação deve satisfa zer às condições apontadas no texto Antes de tudo é necessário que se não intro duza nenhum termo equívoco porque sendo esse termo equivalente a dois termos já não pode subsistir a estrutura do silogismo Além disso todas as proposições devem ser absolutamente verdadeiras e ligadas entre si aliás sairão as conclusões mais desar razoadas que se podem imaginar como neste exemplo quem bebe muito dorme bem quem dorme bem não peca quem não peca é santo logo quem bebe muito é santo Mais todas as proposições sejam universais excetuada a primeira que pode ser particular A razão é porque todas as premissas do sorites à exceção da primeira re presentam as premissas maiores dos silogismos da primeira figura nos quais o próprio 131 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 104 Polisilogismo Polisilogismo é uma argumentação formada de vários silogismos dispostos de modo que a conclusão do primeiro é premissa do segundo e assim por diante Exemplo Tudo o que é independente da matéria é espiritual Ora a alma humana é independente da matéria Logo a alma humana é espiritual Ora a que é espiritual é imortal Logo a alma humana é imortal ARTIGO VI Indução e suas espécies 105 Indução Indução é uma argumentação em que se atribui a um sujeito universal ou geral um predicado que pela experiência conhecemos convir aos seres particulares contidos na extensão daquele sujeito Exemplo O cão o cordeiro o leão são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo todos os brutos são sensitivos sorites se resolve ora na primeira figura a maior deve ser universal Mas se a primeira premissa é particular não há infração de nenhuma regra porque essa premissa na resolução ocupa o lugar da menor e só exige que também particular seja a conclusão Finalmente todas as proposições sejam afirmativas Na verdade se todas fossem nega tivas resolverseia o sorites em silogismos compostos exclusivamente de proposições negativas e não haveria conclusão alguma Se fosse negativa a primeira como essa na resolução constitui a menor do primeiro silogismo teríamos um silogismo da primeira figura com a menor negativa o que é contrário à lei dessa figura Se fosse negativa qual quer outra premissa teríamos na resolução uma conclusão também negativa e como esta seria a menor de um outro silogismo haveria também a infração da mesma lei da primeira figura Mas se a penúltima proposição for negativa não deriva daí incon veniente algum contanto que seja negativa também a conclusão É muito perigosa essa espécie de argumentação que para Tracy todavia é a mais simples e genuína porque a rápida sucessão das proposições não deixa à inteligência o tempo necessário para refletir e para ver onde pode esconderse o sofisma Por isso se o adversário recorre ao sorites é necessário resolvêlo em silogismos simples conforme o conselho do Cícero Vitiosi sunt sorites frangile igitur eos si potestis ne molesti sint Acad l II 132 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 106 Divisão da indução A indução dividese em completa e incompleta É completa quando atribuímos ao todo um predicado que conhecemos convir a cada uma das suas partes Esta espécie de indução não tem valor algum científico e por isso não nos ocupamos dela É incompleta quando atribuímos ao todo um predicado que conhecemos convir a algumas das suas partes Esta segunda espécie que é propria mente indução é um meio demonstrativo de novas verdades1 107 Legitimidade da indução incompleta A passagem que na indução incompleta se faz do particular para o geral não é arbitrária Porquanto averiguandose mediante repetidas experiências que uma propriedade ou operação deriva da essência de muitos indivíduos reta mente concluímos que a mesma propriedade ou operação deve encontrar se em todos os outros indivíduos dotados da mesma essência Assim tendo reconhecido que a extensão que se observa em muitos corpos é uma propriedade que deriva da essência deles com retidão concluímos que todos os corpos são extensos2 1 Alguns escritores afirmam que a indução incompleta era desconhecida pelos antigos e que foi levantada por Bacon no séc XVII Essa asserção é falsa É certo que Bacon ensinou a maneira de fazer uso útil e legítimo da indução por meio de algumas regras que ele coligiu e que nós indicaremos mais tarde Mas os filósofos antigos principalmente Aristóteles e os escolásticos da idade média sobretudo Santo Tomás de Aquino já conheciam a indução incompleta pois que falam com muita precisão e profundidade da sua natureza e vantagens e da experimentação em que se baseia a própria indução Se não empregam mais freqüentemente a indução a razão foi a falta dos instrumentos de observação muito necessários para evitar o erro nesse gênero de argumentação ou porque sendo quase todos eclesiásticos os estudiosos desses tempos preferiam a investigação do sobresensível à do sensível Alguns escritores dizem perfeita ou imperfeita a indução que nós chamamos completa ou incompleta Mas essa divisão em perfeita e imperfeita convém à indução incompleta conforme o número dos particulares enumerados é suficiente ou não para a conclusão A indução incompleta é perfeita quando leva à certeza de que ao todo convém um certo predicado embora esse predicado tenha sido observado num só particular e leva à certeza quando se conhece que o tal predicado deriva da própria natureza ou es sência do mesmo particular O valor lógico e demonstrativo da indução incompleta não depende como veremos do número ou da quantidade dos fenômenos mas da sua quali dade enquanto revelam a essência da qual derivam Cf S Thom in lib II Post lect XX 2 A indução é um verdadeiro raciocínio como o é o silogismo porque ambos esses processos passam do conhecido para o desconhecido baseiamse no mesmo princípio de identidade contém explícita ou implicitamente três proposições e têm o mesmo fim que é a certeza 133 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 108 Processo da indução incompleta São duas pois as principais operações que constituem a indução incompleta a Deve averiguarse pela experiência se o nexo entre um fato particular e a sua causa é essencial ou acidental1 Segundo Bacon Wolff Tiberghien J Stuart Mill e os positivistas as proposi ções gerais que são o resultado da indução não são certas mas somente prováveis Respondemos que para chegarem a essa conclusão era necessário que esses es critores demonstrassem que os seguintes juízos indutivos todo o corpo é extenso o homem cortada a cabeça não vive ao dia sucede sempre a noite não são certos mas somente prováveis Parecemnos pouco coerentes os positivistas que depois de ter elogiado tanto a indução como o único meio para alcançar a certeza acabam por dizer que os juízos indutivos são somente prováveis Para eles pois a indução é e não é um meio para aquisição da certeza 1 O meio de que a indução se serve para conhecer se um fato fenômeno ou propriedade não depende de circunstâncias acidentais mas deriva da própria essência de um certo e determinado ente é a experiência Digamos alguma coisa acerca da experiência e suas espécies A Experiência A experiência é um conhecimento adquirido por meio dos sentidos internos ou externos ou por meio da consciência Dividese em observação e experimentação a Observação Observação é a percepção de um fenômeno que se ofere ce aos nossos sentidos espontaneamente e sem a nossa cooperação Requisitos da observação Para a legitimidade da observação é necessário 1o que a percepção seja intensa perseverante e livre de todo o preconceito 2o que o fenômeno se considere no seu conjunto e em cada uma das suas partes e esse exame dê sempre o mesmo resultado 3o que se determinem todas as propriedades e circunstâncias especiais de um fenômeno e as condições em que se realiza b Experimentação Experimentação é a operação pela qual reproduzi mos um fenômeno com a nossa indústria e arte A natureza não apresenta sempre os fenômenos em tempo oportuno nem em circunstâncias sempre favoráveis Por isso é necessário quando for possível reproduzir artificialmente um fenô meno tantas vezes quantas são necessárias para se poder proceder a um exame minucioso e completo Regras da experimentação A experimentação é de grande utilidade para as ciências porque a ela se deve o conhecermos as propriedades e as causas de muitas coisas Mas para que seja seguro instrumento de verdade é necessário 1o variála com relação ao tempo ao lugar às circunstâncias para se conhecer se o fenômeno deriva da essência da coisa ou de alguma causa acidental e mudável 2o repetila para que se possa melhor averiguar o nexo entre o fato e a sua causa 3o transferila da natureza para a arte 134 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA b Se o nexo é essencial o fato deve elevarse à expressão de uma lei universal de modo que possa aplicarse a todos os fatos particulares em todos os tempos e em todos os lugares1 109 Princípio da indução incompleta Para que um fato particular possa elevarse a lei universal é necessário aplicarlhe um princípio analítico que lhe dê a própria universalidade doutro modo teríamos um efeito sem causa proporcionada Esse princípio analítico é o seguinte Uma propriedade que se encontra num ente e que deriva da sua essência deve encontrarse em todos os entes dotados da mesma essên cia Portanto o princípio da indução incompleta é uma aplicação do princípio de causalidade2 4o invertêla empregando um processo contrário 5o compulsála para que se possa determinar a intensidade do fenômeno e a eficácia da causa 6o aplicála a coisas diversas ou semelhantes 7o combinála unindo os vários elementos para conhecer se esses quando unidos produzem o fenômeno que produziam quando separados De resto não se perca de vista o seguinte critério Um fenômeno que não só aumenta e diminui quando aumenta e diminui uma causa mas que chega a apare cer e desaparecer quando ela aparece e desaparece é certamente efeito dessa causa 1 A indução científica pois não consiste na acumulação das experiências Uma experiência luminosa em que o espírito descubra claramente a relação entre um fenômeno e a sua causa vale mais do que mil experiências obscuras nem essas acrescentam força àquela A indução consiste em despir um fenômeno de todas as circunstâncias que o cercam considerálo na sua essência ou natureza e relacionálo com uma causa proporcionada Quando essa relação aparece não são necessárias ulteriores observações e experiências Podemos dizer que a indução é uma intuição do espírito que num fato singular e concreto descobre e põe em relevo uma relação universal Cl Bernard diz Fenômenos da vida Não é pela acumulação dos fatos que a ciência progride mas sim pela luz da idéia Agora mais claramente se vê o erro de Stuart Mill que para demonstrar que o silogismo é um círculo vicioso diz que a premissa maior do mesmo silogismo recebe a sua força da conclusão Por quanto essa premissa maior embora seja um juízo sintético e por isso resulte da indução contudo não recebe da conclusão a sua força pois o geral a que chega a indução não representa a soma de todos os particu lares Por isso o silogismo é sempre um meio de descobrir novas verdades mesmo quando a sua premissa maior é o resultado da indução 2 Como se vê o princípio em que se funda a indução equivale ao princí pio em que se funda o silogismo mas na ordem inversa O princípio do silogismo pode 135 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 110 Diferença entre o silogismo e a indução incompleta A diferença entre essas duas espécies de argumentos está em que o silogismo conclui do universal ou do geral para o particular ou do todo para a parte enquanto a indução incompleta conclui do particular para o geral ou da parte para o todo exprimirse do modo seguinte deve afirmarse ou negarse de todas as espécies de um gênero ou de todos os indivíduos de uma espécie o que se afirmou ou negou do mesmo gênero ou da mesma espécie O princípio da indução pode também formularse assim deve afir marse ou negarse de um gênero ou de uma espécie o que se afirmou ou negou de todas as espécies desse gênero ou de todos os indivíduos dessa espécie O princípio da indução como o do silogismo reduzse ao princípio de causalidade que é a mesma causa natural produz o mesmo efeito e portanto o mesmo efeito natural exige a e supõe a mesma causa Dizem alguns filósofos que o princípio da indução incompleta é o seguinte as leis da natureza são constantes Mas erram Porquanto esse juízo sendo sintético não é o princípio da indução mas sim é uma conseqüência dela Como sabemos nós que as leis da natureza são constantes Pela experiência Não basta A experiência poderá atestar que um fenômeno se repete uma duas três vezes do mesmo modo mas não atesta que se repete sempre e em toda a parte e do mesmo modo de forma que possa tirarse essa conclusão geral as leis da natureza são constantes É necessário pois basear a indução incompleta num juízo não sintético mas analítico que por ser absoluto tem a máxima generalidade J Stuart Mill Sistema da Lógica tendo dito que a marcha natural do espírito humano é inferir o particular de outro particular afirma que a indução é a generali zação da experiência e que o axioma que lhe serve de base é o seguinte o curso da natureza é uniforme Vejamos as contradições do escritor inglês Se o espírito humano só pode inferir o particular de outro particular como pode dizerse agora que ele passa do par ticular para o geral e que aplica a todos os casos o que se encontrou só em um Segundo Stuart Mill passamos do particular para o geral em virtude do axioma o curso da natureza é uniforme Bem Mas poderá um positivista sem se contradizer admitir a uniformidade do curso da natureza Mill só reconhece como certo o que lhe refere a experiência Ora a experiência poderá atestarlhe aquela uniformidade em algumas circunstâncias particulares mas nunca em todas as circunstâncias em todos os tempos e em todas as partes Por isso também o axioma o curso da natureza é uniforme é já um resultado da indução incompleta e supõem um outro princípio de que recebeu a generalização Esse outro princípio em última análise não pode ser por sua vez um juízo sintético porque reapareceria a dificuldade mas deve ser um juízo analítico Em suma o princípio da indução deve ser necessariamente um juízo analí tico Os positivistas ou admitem os juízos analíticos ou não Se os admitem contra dizemse porque o seu sistema só reconhece juízos sintéticos Se os não admitem então tiram toda a força e legitimidade à indução pois a reduzem a um sofisma qual é a passagem do particular para o geral sem um princípio que a justifique 136 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA a No silogismo pois o sujeito da conclusão é uma parte e o termo médio é um todo Na indução o sujeito da conclusão é um todo e o termo médio é o complexo das partes que formam aquele todo b No silogismo a premissa maior afirma que o predicado da conclusão convém ao termo médio a premissa menor que o sujeito está contido no termo médio a conclusão que ao sujeito convém o predicado que foi atribuído ao termo médio Na indução a premissa maior afirma que o predicado da conclusão convém às partes que formam o termo médio a premissa menor que o complexo das partes constitui o todo a conclusão que ao todo convém o predicado atribuído às partes Daí se deduz a o termo que no silogismo é médio na indução é extremo menor e viceversa b a proposição que no silogismo é con clusão na indução é premissa maior e viceversa O que levamos dito melhor se vê nos seguintes exemplos Exemplo do silogismo Todos os brutos são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo o cão o cordeiro o leão são sensitivos Exemplo da indução O cão o cordeiro o leão são sensitivos Ora o cão o cordeiro o leão são brutos Logo todos os brutos são sensitivos 111 Corolário Sendo a indução tão distinta e diversa do silo gismo é claro que aquela não pode reduzirse a este pois que a conclusão do silogismo é essencialmente uma proposição particular ao passo que a conclusão da indução é sempre uma proposição universal1 1 À indução reduzemse a analogia e a hipótese a Analogia Analogia é a argumentação pela qual se concede a um sujeito particular um predicado concedido já a um sujeito particular semelhante ao primeiro Exprimese do seguinte modo Causas semelhantes produzem efeitos semelhantes Mas A e B são causas semelhantes Logo A e B produzem efeitos semelhantes Ora a causa A produz o efeito C Logo a causa B deve produzir o efeito C a Relações entre a indução e a analogia 137 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO ARTIGO VII Sofisma e suas espécies 112 Sofisma Sofisma é uma argumentação que parece ver dadeira mas na realidade é falsa 1a Ambas partem do mesmo ponto o particular mas não chegam ao mesmo termo porque a indução chega ao geral ao passo que a analogia somente chega ao particular 2a Na indução atribuímos ao todo um predicado que necessariamente convém a cada uma das partes e é impossível o erro mas na analogia atribuímos a uma coisa um predicado pelo fato desse convir a uma outra coisa semelhante à primeira Por isso é fácil o erro na analogia porque o predicado pode convir a uma coisa em razão do elemento diferencial e próprio e não por causa do elemento genérico e comum b Vantagens da analogia São importantíssimas as vantagens que da analogia tiram as ciências naturais e principalmente aquelas artes que se fundam na imitação como são a eloqüência a poesia etc c Hipótese Hipótese é a argumentação pela qual se considera como ver dadeira uma proposição hipótese cuja verdade é desconhecida mas que explica claramente alguns fatos Convém cm a analogia enquanto ambas concluem do particular para o par ticular e os seus resultados não excedem os limites da probabilidade A hipótese é de grande utilidade sobretudo nas ciências experimentais e exprimese com a fórmula seguinte Se existisse a causa A darseiam os fatos b c d Ora os fatos b c d dãose realmente Logo a causa A pode existir Essa conclusão é somente provável Se porém forem examinadas todas as hipóteses possíveis e se provar que todas elas à exceção de uma são inadmissíveis então a excetuada é certa a Divisão da hipótese A hipótese é física moral e lógica 1o É física quando se emprega para explicar os fatos da natureza que de pendem imediatamente das leis físicas 2o É moral quando serve para explicar os fatos que dependem da liberdade dos seres inteligentes assim pelas ações externas dos homens conhecemos os seus sentimentos internos 3o É lógica quando na interpretação de palavras obscuras propomos uma opinião que nos parece conforme com o pensamento de quem falou b Requisitos da hipótese A hipótese 1o deve ser possível 2o nem em si nem nas suas deduções deve repugnar a algum fato certo 3o deve explicar todos os fatos para que se emprega 138 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA 113 Divisão do sofisma O sofisma dividese em gramatical e lógico O gramatical consiste no abuso das palavras o lógico no abuso das idéias 114 Espécies de sofisma gramatical As principais espé cies do sofisma gramatical são a anfibologia a composição a divisão a extensão e a restrição a Anfibologia A anfibologia dáse quando uma palavra se toma em dois sentidos diversos assim o silogismo tem quatro termos Refutase distinguindo o sentido b Composição O sofisma de composição cometese quando a um sujeito se atribuem simultaneamente dois predicados que só lhe podem convir sucessivamente Se a proposição os cegos vêem se toma no sentido que os homens enquanto cegos vêm é um sofisma de composição c Divisão O sofisma de divisão cometese quando a um sujeito se atribuem sucessivamente dois predicados que só lhe podem competir simultaneamente Se esta proposição o homem que é facínora não pode alcançar glória se toma no sentido que um homem que é facínora nunca poderá alcançar a glória nem mesmo depois de deixar de ser facínora é um sofisma de divisão Esse sofisma também se refuta com uma distinção d Extensão É um sofisma de extensão quando de um sentido particular se passa para um sentido universal Exemplo Todo o sábio merece louvor Ora este ímpio é sábio Logo este ímpio merece louvor Refutase esse sofisma distinguindo a conclusão o ímpio merece louvor enquanto é sábio mas não em geral e Restrição O sofisma da restrição dáse quando de um sentido afirmativo se passa para um sentido exclusivo Exemplo Tu deves ser sábio Logo não deves cuidar da saúde Refutase distinguindo o antecedente tu deves ser sábio mas não deve ser somente sábio 139 CAPÍTULO TERCEIRO RACIOCÍNIO E ARGUMENTAÇÃO 115 Espécies de sofisma lógico As principais espécies do sofisma lógico são a ignorância do elenco a petição de princípio o círculo vicioso a nãocausa como causa o conseqüente a indução viciosa a enume ração imperfeita o acidente a Ignorância do elenco A ignorância do elenco cometese quando por ignorância ou malícia se desvia a questão do verdadeiro caminho Nesse caso avisese o adversário b Petição de princípio A petição de princípio dáse quando se supõe como certo o que se há de demonstrar Exemplo O que não morre é imortal Ora a alma humana não morre Logo a alma humana é imortal Este e os restantes sofismas refutamse denunciandoos c Círculo vicioso Cometese o círculo vicioso quando duas coisas se demonstram uma pela outra Assim é sofisma provar a imortalidade da nossa alma pela sua espiritualidade e a espiritualidade pela imortalidade d Nãocausa como causa Cometese esse sofisma quando se toma como causa de um efeito o que é apenas uma condição ou um antecedente ou conseqüente do mesmo efeito Exemplo O império romano caiu depois do Cristianismo Logo o Cristianismo foi a causa da queda do império romano e Conseqüente Este sofisma dáse quando pelo fato de um conseqüente se deduzir de um antecedente se julga que também este se possa deduzir daquele Assim posso dizer Pedro corre logo se move mas não Pedro se move logo corre f Indução viciosa A indução viciosa cometese quando se atribui a toda a espécie um predicado que acidentalmente se encontrou nalguns indivíduos da mesma espécie Exemplo Este médico é ignorante Logo todos os médicos são ignorantes 140 LÓGICA SEÇÃO PRIMEIRA g Enumeração imperfeita A enumeração imperfeita dáse quando se atribui ao todo um predicado que é próprio somente de algumas partes enumeradas Exemplo Os europeus os americanos e os asiáticos são brancos Logo todos os homens são brancos h Acidente Cometese este sofisma quando se atribui a um sujeito como essencial um predicado que é somente acidental Exemplo Há abusos no ensino da filosofia Logo esse ensino deve eliminarse Seção Segunda Lógica material 116 Divisão da Lógica material Dividimos a Lógica material em três capítulos no primeiro tratamos da verdade no segundo dos meios para a aquisição da verdade no terceiro do método CAPÍTULO PRIMEIRO Verdade Sumário Verdade sua divisão e natureza Certeza sua divi são existência e propriedades A existência da certeza e o Ceticismo Supremo e universal motivo da certeza A certeza e a objetividade das idéias universais ARTIGO I Verdade sua divisão e natureza 117 Verdade Verdade é a conformidade entre a inteligência e o objeto O objeto da verdade pode ser uma coisa real ou ideal existente ou possível etc1 1 Veritas est adaequatio intellectus et rei eis a definição clássica da verdade dada pelos escolásticos ou melhor pelo senso comum Na opinião dos homens uma pessoa possui a verdade quando conhece um objeto como é em si mesmo quando o seu pensamento corresponde à realidade quando há conformidade entre o que a inteligência afirma do objeto e o que o objeto é em si mesmo Diz Santo Tomás Per conformitatem intellectus et rei veritas definitur Sum Th p 1 q 16 a 2 Dessa definição resulta que para a constituição da verdade concorrem como matéria remota dois termos real ou logicamente distintos que são a inteligência e o objeto como matéria próxima a espécie ou imagem intelectual representativa da essência ou dalgum atributo do objeto e a própria entidade do objeto percebida também pela inteligência mas de um modo confuso e indeterminado como forma a união intencional daquela imagem com a mesma entidade Essa união para a inteligência humana consiste na afirmação da conveniência objetiva da imagem ou forma com o objeto existente e é significada pela proposição em que unimos o predicado que 142 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA representa e exprime a forma ou natureza percebida com o sujeito que representa o objeto como é em si mesmo mas percebido de um modo confuso e indeterminado como quando dizemos Pedro é homem Por isso o sujeito e o predicado nas pro posições são conceitos objetivos enquanto denotam uma coisa e não meramente subjetivos isto é não são meras modificações da faculdade intelectual A adequação ou conformidade entre a inteligência e o objeto não é física ou entitativa porque nem a inteligência se torna o objeto nem esse se torna aquela mas é representativa ou intencional enquanto o pensamento corresponde à realidade isto é enquanto o ser ideal do objeto está conforme com o ser real dele Para haver essa conformidade não é necessário que a inteligência reproduza e represente todos os elementos que formam a compreensão do objeto conhecido basta que as propriedades do objeto que a inteligência representa se encontrem realmente no próprio objeto A conformidade não será perfeita não será plena mas será sempre verdadeira A conformidade completa a adequação no sentido rigoroso da palavra isto é conhecer um objeto tanto quanto é cognoscível é um dote só próprio da inteligência infinita de Deus Nem se oponha que se a nossa inteligência não conhece o objeto tanto quanto é cognoscível não podemos dizer que haja adequação entre a inteligência e o objeto Por quanto aquela adequação em que consiste a essência da verdade pode realizar se e realizase mesmo quando o pensamento representa um só atributo do objeto porque há então uma igualdade ou conformidade entre a inteligência e esse atributo conhecido Repetimos será uma conformidade ou igualdade incompleta com relação a todos os atributos a toda a compreensão desse objeto mas é uma conformidade ou igualdade completa com relação à existência desse atributo conhecido Assim quando dizemos o homem é racional ainda que ignoremos os outros atributos do homem e a própria essência da racionalidade contudo há uma igualdade entre o nosso pensamento e o homem porque afirmamos que o homem é dotado de razão e efetivamente no homem existe essa faculdade Os escolásticos inculcam essa doutrina dizendo que o pensamento para ser verdadeiro deve conformarse com o objeto formal e não com o material entendendo por objeto material a coisa inteira com todos os seus elementos e por objeto formal a parte o elemento o aspecto sob o qual a coisa se apreende Kant e em geral os subjetivistas não admitem que a verdade consiste na conformidade entre a inteligência e o objeto quando esse objeto é uma coisa real ou objetiva porque dizem a realidade é inacessível à nossa inteligência Por isso alguns escritores rejeitam a clássica definição da verdade proposta pelos escolásticos Le Roy um dos chefes do modernismo diz A grande divergência entre os escolásticos e nós fundase na própria noção de verdade Dogme et critique p 355 Outros entre os quais Sentroul e alguns neoescolásticos de Louvain embora conservem a fórmula esco lástica da definição da verdade alteramlhe contudo o sentido dizendo que o objeto com que deve conformarse o pensamento nunca pode ser uma coisa real e objetiva porque não é possível uma comparação entre o pensamento e a realidade mas é apenas uma nota abstrata anteriormente conhecida um substituto mental de modo que nessa opinião a verdade se reduz a uma concordância de idéias entre si 143 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 118 Espécies de verdade A verdade pode ser lógica metafí sica e moral Verdade lógica é o conhecimento enquanto é conforme com o objeto conhecido Verdade metafísica é o próprio objeto enquanto corresponde ao conhecimento Verdade moral é o dis curso enquanto traduz a intenção de quem fala Na verdade lógica Crítica É certo que a definição de verdade dada pelos escolásticos supõe e exige o fato da conformidade do pensamento com a realidade e por isso supõe e exige que a nossa inteligência possa ter a intuição não só da sua imagem subjetiva mas também do objeto real como é em si mesmo Ora que a nossa inteligência possa atingir e atinja efetivamente o objeto real e externo e de um modo imediato é coisa certíssima Se não se admitir a essa intuição imediata da realidade a Meta física reduzirseá a uma ciência puramente ideal sem que haja a possibilidade de se encontrar um meio legítimo e racional que nos meta em comunicação com o mundo exterior Voltaremos ao assunto À verdade opõese o erro Diremos da sua natureza causas e remédios a Natureza do erro O erro consiste na desconformidade da inteligência com o objeto A desconformidade em que consiste o erro ou a falsidade por si importa uma contradição uma falta de concórdia da inteligência com o objeto enquanto a inteligência atribui a um objeto um predicado que lhe não convém ou negalhe um predicado que lhe convém Aquela desconformidade a qual consiste na falta de compreensão do objeto enquanto a inteligência não conhece o objeto tanto quanto ele é cognoscível se é uma falta de adequação absoluta não é uma falta de verdade não é um erro ou uma falsidade O juízo que traduz essa desconformidade ou discórdia da inteligência com o objeto é e dizse errôneo ou falso O erro pois não é uma verdade incompleta como afirmou Cousin mas é a privação da verdade Porque o erro opõese à verdade como a privação da forma se opõe à própria forma a privação não participa da forma excluia Assim quem diz a alma humana é mortal não diz uma verdade incompleta diz o contrário da verdade Por isso o erro é um juízo que afirma não ser o que é ou ser o que não é b Causas do erro Algumas são internas outras externas As causas internas são comuns e particulares As comuns derivam da natural propensão e facilidade que os homens têm de julgar conforme o visível sem se importar do invisível conforme a disposição da inteligência que nem sempre se regula com a devida prudência conforme os afetos do coração que pode rejeitar o que lhe é contrário As particulares derivam da condição e do temperamento dos indivíduos As causas externas são várias como a ignorância da Lógica a leitura de livros onde se ensina o erro ou a verdade não é claramente exposta nem vitoriosamente defendida c Remédios para o erro São muitos Os principais são o amor da verdade a pureza do coração o estudo acurado da Filosofia escolástica a dúvida prudente a oração assídua e fervorosa 144 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA é a inteligência que deve conformarse com o objeto na metafísica é o objeto que deve corresponder à idéia na moral é o discurso que deve exprimir o pensamento Ocupamonos agora da verdade lógica reservando para mais tarde o estudo da verdade metafísica e da moral1 119 Divisão da verdade lógica A verdade lógica é a subje tiva e objetiva b imediata e mediata c necessária e contingente d ideal e real e metafísica física e moral f direta e reflexa 1 A verdade lógica chamase também acidental a verdade ontológica denomi nase também essencial metafísica transcendental A verdade ontológica é o próprio objeto enquanto corresponde às idéias arquétipas da inteligência divina e é capaz de gerar um verdadeiro conhecimento de si mesmo na inteligência criada Nesse sentido todo o ente é verdadeiro porque todo o ente é conforme com as idéias divinas e é por nós cognoscível A verdade lógica denota a conformidade do nosso conhecimento com os objetos percebidos e dizse acidental porque tal conformidade não existe sempre no nosso pensamento Nesse sentido o nosso conhecimento é verdadeiro quando percebemos existir nas coisas o que realmente existe ou não existir nelas o que realmente não existe e é falso quando percebemos existir nas coisas o que realmente não existe ou não existir nelas e que realmente existe A verdade moral propriamente chamada veracidade consiste na conformidade do discurso com o pensamento e existe quando se diz o que se pensa quer esse pensamento seja verdadeiro quer seja falso A verdade ontológica das coisas naturais depende exclusivamente da inteligência divina porque as coisas dizemse verdadeiras enquanto correspondem às idéias divinas A verdade lógica da nossa inteligência depende das coisas e é causada por elas porque o nosso conhecimento é verdadeiro quando e porque se conforma com as coisas A verdade moral depende dos nossos pensamentos porque o nosso discurso é verdadeiro quando se conforma com os nossos pensamentos Cf S Th I Sent Dist 19 q 5 a 2 ad 2 De verit q 1 a 2 Portanto a verdade do discurso é causada pelo pensamento a verdade do pensamento pelas coisas a verdade das coisas pela inteligência divina Desse modo a inteligência divina é a razão suprema o fundamento último de toda a inteligibilidade e de toda verdade A verdade seja qual for a sua espécie reside própria e principalmente na inteli gência e dessa deriva para as coisas enquanto as coisas se referem isto é pelo fato de se referirem à mesma inteligência Por quanto a verdade consiste numa conformidade e por isso numa relação de semelhança da inteligência com a coisa Ora a relação de semelhança encontrase exclusivamente na inteligência porque nas coisas não pode encontrarse senão o fundamento e a causa dessa semelhança ou adequação Da inte ligência a verdade deriva para as coisas que por isso se dizem verdadeiras enquanto se referem à mesma inteligência como os alimentos se chamam sãos enquanto produzem ou conservam a sanidade no animal em que a sanidade propriamente se encontra Cf S Th loc cit 145 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a Verdade subjetiva e objetiva É subjetiva quando se con sidera como um produto da nossa inteligência e por isso dotada de pro priedades que lhe convém em virtude do princípio do qual deriva É objetiva quando se considera em ordem ao objeto que representa e por isso dotada de propriedades que convém ao próprio objeto b Verdade imediata e mediata É imediata quando é per cebida sem demonstração exemplo o todo excede uma das suas partes É mediata quando é deduzida de outras verdades pelo raciocínio exemplo a alma humana é uma substância espiritual c Verdade necessária e contingente É necessária quando exprime uma coisa que não pode deixar de ser o que é exemplo o homem é animal racional porque o homem não pode conceberse sem as notas de animalidade e de racionalidade É contingente quando exprime uma coisa que pode deixar de ser o que é exemplo o mundo existe d Verdade ideal e real É ideal quando exprime um juízo abstrato exemplo se a pedra sentisse teria alma É real quando exprime uma coisa existe na realidade independentemente do nosso pensamento exemplo o homem é livre e Verdade metafísica física e moral É metafísica quando exprime um juízo de ordem metafísica exemplo todo o efeito exige uma causa É física quando exprime um juízo de ordem física exemplo o fogo queima É moral quando exprime um juízo de ordem moral exemplo o filho respeita seus pais f Verdade direta e reflexa A direta é a que contém um juízo direto e por isso exprime um objeto como é em si mesmo isto é afirma que um objeto é tal em si mesmo qual é percebido pela inteligência exemplo o homem é capaz de sabedoria A reflexa é a que contém um juízo reflexo e para isso exprime a conformidade do conhecimento com o objeto isto é exprime a convicção de que o conhecimento é conforme com a realidade exemplo estou certo de que o homem é capaz de sabedoria1 1 É evidente a diferença entre a verdade direta e a reflexa A direta tem por termo um objeto enquanto esse é conforme com a inteligência ao passo que a reflexa tem por termo a própria conformidade da inteligência com o objeto conhecido Que a nossa inteligência possa refletir e reflita efetivamente sobre os seus atos e conheça a própria conformidade com os objetos e assim possua a verdade reflexa é coisa que todos percebem e admitem A dificuldade consiste em determinar o modo porque a inteligência conhece tal conformidade Entendem alguns que para isso seja preciso 146 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 120 A verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo a A verdade lógica encontrase perfeitamente naquele ato da inte ligência que encerra e exprime de um modo explícito a conformidade da mesma inteligência com o objeto Ora o ato da inteligência que encerra e exprime de um modo explícito a conformidade da própria inteligência com o objeto é o juízo porque pelo juízo a inteligência declara que um objeto é em si como ela o percebe isto é que uma natureza ou essência representada pela forma intencional é inerente ao objeto existente na realidade e por isso une os dois termos distin tos que são o objeto e a sobredita forma intencional Logo a verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo1 estabelecer um confronto entre o objeto conhecido e a imagem em que e porque o objeto é conhecido mas não advertem que para estabelecer tal confronto seria necessário conhecer o objeto por um outro modo ou por um outro meio distinto e diverso dessa imagem a não ser que se queira confrontar a imagem com um termo desconhecido Não é possível nem é precisa tal solução A coisa é muito simples Para que a inteligência possa conhecer a própria conformidade com o objeto deve apenas refletir sobre o seu ato cognoscitivo Por quanto a inteligência quando conhece um objeto não é meramente passiva isto é não se limita a receber em si a impressão e a imagem do objeto mas é eminentemente ativa porque recebida a impressão e a imagem do objeto reage no mesmo objeto representado por aquela imagem e por esse ato de reação recebeo em si apreendeo exprimeo intencionalmente e exprimindoo conformase com ele Essa conformidade da inteligência com o objeto é o termo natural do ato cognoscitivo porque a natureza da inteligência consiste pro priamente em se tornar conforme com o objeto E se tal é a natureza do ato intelectual isto é se a verdade de um juízo resplandece na própria natureza do conhecimento direto é evidente que a inteligência refletindo sobre a natureza do seu ato percebe de um modo imediato a própria conformidade com o objeto e assim possui a verdade reflexa Tal é o ensino de Santo Tomás De Ver q 1 a 9 1 A nossa inteligência não se conforma perfeitamente com o objeto senão no juízo e por isso a verdade não encontra perfeitamente senão nesse ato intelectual Quando dizemos simplesmente homem a nossa inteligência exprime um conceito uma natureza uma imagem mas essa imagem não pode dizerse conforme nem desconforme com o seu protótipo se a esse realmente não se refira assim como uma imagem pintada na tela não pode dizerse semelhante ou dessemelhante ao seu exemplar quando se considera exclusivamente em si mesma sem relação ao dito exemplar Ora a imagem de um objeto obtida pela simples apreensão não se refere explicitamente ao próprio objeto senão no juízo assim a humanidade não se percebe claramente como natureza de um indivíduo se não quando a refiro de um modo explícito a esse indivíduo e uno essa forma intencional com o seu sujeito dizendo Pedro é homem 147 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE b A verdade lógica sendo uma adequação da inteligência com o objeto deve encontrarse perfeitamente no ato em que se encontra a perfeita adequação da inteligência com o objeto Ora essa perfeita adequação encontrase no juízo Porquanto o juízo exprimindo de um modo explícito a natureza e o ser ou a existência de um objeto exprime o objeto como é em si mesmo e por isso afirma a perfeita adequação da inteligência com o mesmo objeto Assim quando digo Pedro é homem não só denoto uma determinada natureza que é a humanidade mas também afirmo que esta natureza é ou existe num determinado indivíduo que é Pedro Logo a verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo1 Afirmando que a verdade se encontra perfeitamente no juízo não queremos significar que com um só juízo se possa conhecer tudo o que se refere a um objeto mas entendemos que só por meio do juízo podemos conhecer completa e perfeitamente um objeto porque só nesse ato e por esse ato a inteligência se conforma plena e perfeitamente com o objeto real Como também quando afirmamos que a verdade se encontra perfeitamente no juízo referimonos sempre à inteligência humana e não à angélica muito menos à divina A idéia da inteligência humana é imperfeita limitada abstrata e embora represente um elemento ou uma propriedade ou a própria essência não representa contudo o objeto inteiro como é em si mesmo e por isso depois de termos conside rado as partes os elementos do objeto representados pela idéia devemos recolher esses elementos essas partes e constituir o todo como se encontra na realidade e essa obra é do juízo A idéia porém da inteligência angélica e afortiori a idéia da divina exprime o objeto como é em si mesmo com a sua natureza com o seu ser e com todas as propriedades e notas individuantes e por isso o Anjo e afortiori Deus não precisam de compor ou de dividir isto é de formar juízos afirmativos em que o predicado se compõe com o sujeito nem juízos negativos em que o predicado se divide do sujeito para alcançar a verdade Donde se vê que o juízo ou a composição e divisão é uma coisa acidental à verdade porque não constitui a sua essência mas é apenas um meio natural para a inteligência humana atingir a verdade Sum Th 1a q 11 a 2 De Ver q 1 a 3 1 A verdade deve encontrarse perfeitamente naquele ato intelectual que adequa perfeitamente o objeto Ora todo o objeto falamos do objeto criado e finito consta como veremos na Ontologia de dois elementos reais e distintos que são a essência ou a natureza e o ser ou a existência A essência para se tornar uma coisa real deve receber o ser ou a existência e só depois de receber o ser ela é ou existe A essência que recebe o ser é potência o ser que é recebido na essência e que a faz existir atualmente é ato Privada do ser a essência é uma mera abstração é um nada Por isso uma coisa dizse ente não pela essência mas pelo ser que possui Donde se segue que o ato intelectual é perfeitamente adequado ao objeto quando exprime e 148 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA de um modo explícito ambos esses elementos do objeto isto é a essência e o ser Ora tal ato é o juízo pois esse como se vê nas proposições contém sempre a essência e o ser Assim quando digo Pedro é homem não só denoto uma essência que é a humani dade mas afirmo que essa essência é ou existe e se encontra nesse indivíduo que por isso é um ente real Nem podia ser doutro modo A verdade ontológica das coisas fundase mais no ser delas do que na sua essência Com efeito uma coisa tem tanto de verdade quanto tem de entidade porque ente e verdadeiro são na realidade uma e a mesma coisa ens et verum convertuntur Sendo assim é claro que a verdade lógica deve encontrarse naquele ato que de um modo explícito exprime não só a essência das coisas mas também o seu ser Tal ato é o juízo Cf I Sent Dist 19 q 5 a 1 Notese que a inteligência é determinada ao juízo logo que lhe se manifeste o ser das coisas Para isso não é preciso que ela reflita em si nem que tenha cons ciência da verdade do próprio juízo ou da sua aptidão para conhecer nem que esteja certa da suficiente manifestação do mesmo ser Se a manifestação é tal qual a exige a faculdade perceptiva a reação dessa por meio de um juízo correspondente é um ato muito natural e necessário por isso mesmo que é uma faculdade perceptiva Se a verdade se encontra perfeitamente no juízo também no juízo deve encon trarse propriamente a falsidade ou o erro Porquanto a falsidade só pode encontrarse propriamente naquele ato em que a inteligência afirma que uma coisa é o que não é ou nega que é o que é Ora esse ato é o juízo Além disso a falsidade é contrária à verdade Ora como os contrários se referem ao mesmo sujeito contraria sunt circa idem a falsidade deve encontrarse naquele sujeito em que se encontra a verdade Ora a verdade encontrase na inteligência enquanto compõe ou divide isto é enquanto julga Logo também a falsidade deve encontrarse na inteligência enquanto julga Sum Th Ia q 17 a 4 Mas o erro mesmo no juízo é sempre uma coisa acidental para a nossa inteligência Essa faculdade tende por si para a verdade e se erra a culpa não se deve procurar nela mas em causas estranhas Tais causas dos erros reduzemse a três classes fisiológicas psicológicas e morais Reservando para mais tarde o estudo das causas fisiológicas diremos alguma coisa acerca das outras duas espécies As causas fisiológicas pode reduzirse ao influxo da imaginação à falta de reflexão à incerteza ou ambigüidade dos vocábulos à ignorância da arte do raciocínio As causas morais dos erros sobretudo em matéria de Religião e de Moral são as paixões desordenadas É um fato que o homem tem a tendência para julgar como verdadeiro o que lhe agrada e que o amor próprio mais que o amor da verdade regula os seus juízos e não o deixa reconhecer os próprios erros Não admira que o homem erre O erro é compatível com uma inteligência finita e dependente como é a nossa O que porém repugna à razão é a pertinácia no erro à qual querem dar o nome de caráter e que não é senão o privilégio dos insipientes Diz Cícero Cujusvis hominis est errare nullius nisi insipientis in errore perseverare Filipp XII 2 Que a verdade se encontre perfeitamente no juízo isto é que a nossa inte ligência no juízo e pelo juízo se ache em pleno acordo com o objeto é ditado do 149 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE senso comum mas negado por todos os subjetivistas Dizem esses que a inteligência pelo juízo une duas coisas separadas como são o predicado e o sujeito e que por isso a união e a identificação do predicado com o sujeito depende exclusivamente da inteligência e o juízo é inteiramente subjetivo e não corresponde à realidade isto é não enuncia o que o objeto é em si mesmo mas o que a inteligência pensou Ora isto é falsíssimo A inteligência quando julga não é a causa por que um predicado compete a um sujeito mas não faz senão estabelecer e ratificar um fato isto é que um predicado real está realmente contido num sujeito real e por isso a união do predicado com o sujeito não é efeito do juízo mas é anterior é pressuposto ao juízo e é a verdadeira causa dele Assim quando dizemos Pedro e bom entanto se forma esse juízo e se afirma que a bondade convém a Pedro enquanto se averiguou que na realidade esse predicado está contido nesse sujeito independentemente do nosso pensamento Logo o predicado no juízo não convém ao sujeito porque assim o julga a inteligência mas a inteligência assim o julga porque o predicado convém ao sujeito Quando pois se diz que a inteligência no juízo une o predicado com o sujeito não se entende que a inteligência une duas coisas realmente separadas uma da outra mas deve entenderse que ela julga estarem unidas na realidade duas coisas que tinham sido consideradas separadamente O principal adversário da objetividade dos juízos é Immanuel Kant Como os erros desse escritor são seguidos por muitos racionalistas livres pensadores pro testantes pelos sequazes do modernismo que o S P Pio X na Encíclica Pascendi 8 set 1907 chamou a síntese de todas as heresias devem aqui ser expostos e refutados O ponto de partida de todo o sistema subjetivista ou idealista de Kant é cons tituído pelos célebre juízos sintéticos apriori A escolástica seguindo o bom senso tinha ensinado que há só duas espécies de juízos o analítico ou apriori e o sintético ou aposteriori conforme a conveniência do predicado com o sujeito é conhecida pela razão ou pela experiência ou por outras palavras conforme o princípio da síntese ou da união é interior ou exterior ao sujeito Não há meio termo Embora os elementos do juízo analítico sejam dados pela experiência contudo ele é sempre analítico visto que o motivo por que nesse juízo por exemplo o círculo é redondo o predicado se atribui ao sujeito não se funda na experiência mas exclusivamente na própria natureza do sujeito e a verdade de tal juízo é independente de toda a experiência e subsistiria sempre embora não existisse a experiência O escritor alemão encontrou juízos de uma terceira espécie que não são nem completamente analíticos ou apriori nem completamente sintéticos ou aposteriori mas participam de uns e de outros e por isso são sintéticos a priori Exponhamos a sua teoria O juízo diz Kant é analítico quando o predicado está contido ainda que implicitamente no conceito do sujeito é sintético quando o predicado está comple tamente fora do conceito do sujeito e por isso a união de um com o outro importa uma síntese E conclui Por isso são analíticos os juízos em que não só há união mas também identidade entre o predicado e o sujeito e são sintéticos aqueles em que há união sem identidade Os analíticos podem chamarse explicativos os sintéticos exten sivos porque os primeiros nada acrescentam pelo predicado ao conceito do sujeito 150 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA mas apenas dividem pela análise o mesmo conceito nos seus conceitos parciais que se percebiam nele embora de um modo confuso ao passo que os segundos acrescen tam ao conceito do sujeito um predicado de que modo nenhum podia conceberse contido no mesmo sujeito nem podia deduzirse pela análise Crítica da razão pura Introd IV Os juízos sintéticos segundo Kant subdividemse em sintéticos apriori e em sintéticos aposteriori São sintéticos apriori quando têm algum elemento que não é dado pela experiência mas deriva espontaneamente da inteligência e por isso exprime uma coisa universal e necessária São sintéticos aposteriori ou empíricos quando se fundam exclusivamente na experiência e por isso exprimem uma coisa singular e contingente Os sintéticos apriori são verdadeiramente extensivos e constituem propriamente a ciência e são objeto da Metafísica mas os sintéticos aposteriori por serem particulares e contingentes não são científicos e como os analíticos não levam a novos conhecimentos Mas como descobriu Immanuel Kant essa terceira espécie de juízos A coisa foi simples Disse ele que um juízo analítico para ser tal deve ter três condições 1a o seu predicado deve estar contido no conceito do sujeito 2a deve ser necessário 3a deve ser universal Se falta uma dessas condições o juízo deixa de ser analítico Às vezes pode um juízo deixar de ter a primeira condição e possuir a segunda e a terceira isto é pode um juízo não ter o predicado contido no conceito do sujeito e contudo ser necessário e universal Nesse caso o juízo é sintético porque o predicado está fora do conceito do sujeito e só pela experiência se conhece a sua relação com o mesmo sujeito mas é sintético apriori porque é universal e necessário e por isso não se funda num dado da experiência que é por si singular e contingente mas deve derivar exclusivamente da inteligência e deriva dela espontaneamente apriori isto é por uma espécie de instinto ou de força mecânica Todas as inteligências possuem naturalmente umas formas dotadas de universalidade e de necessidade que aplicadas sucessivamente aos objetos da experiência os tornam determinados e definidos Kant apresenta vários exemplos desses juízos sintéticos apriori Citamos três todo o efeito exige uma causa cinco mais sete são iguais a doze a linha reta é a mais breve entre dois pontos Esses juízos são sintéticos porque o predicado não está contido no conceito do sujeito mas são apriori porque são dotados de universalidade e de necessidade isto é porque o predicado convém sempre e necessariamente ao sujeito Desses princípios Kant tira duas conseqüências 1a os juízos analíticos ou apriori em que o sujeito e o predicado são termos universais por serem necessários e universais e conseqüentemente por derivarem espontânea e exclusivamente da inteligência não tem valor algum objetivo 2a os juízos sintéticos apriori que têm um sujeito de experiência mas um predicado universal e necessário por causa da completa subje tividade desse predicado são também destituídos de valor objetivo Agora uma breve crítica a essas afirmações do escritor alemão Antes de tudo as definições do juízo analítico e sintético embora tenham alguma coisa de verdade podem todavia prestarse a equívocos e abrir a erros sobretudo se tenha em vista o sistema de Kant Esse confunde sempre o sujeito com o conceito pas sando do sujeito isto é da coisa à qual se atribui um predicado para o conceito como se 151 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE pudesse indiferentemente e sem distinção alguma dizerse do conceito o que se afirma do sujeito quando o conceito e o sujeito são duas coisas distintas existindo o sujeito na realidade e o conceito na inteligência E ainda que o conceito tomado objetivamente se identifique com o sujeito contudo essa identidade referese à coisa representada e não ao modo de representar Por isso a afirmação que o juízo é analítico quando o predicado está contido no conceito do sujeito pode prestarse a equívocos visto que o conceito é uma coisa subjetiva e por isso relativa e variável Se o conceito exprimisse a natureza ou essência do sujeito não haveria que dizer mas na teoria desse escri tor não a exprime Além disso é falso que o juízo analítico não seja princípio de novos conhecimentos Os predicados de um sujeito no juízo analítico estão todos contidos na essência e por isso no conceito do mesmo sujeito mas não estão todos contidos explicitamente quanto a nós e por isso esse juízo levanos ao conhecimento de coisas que antes não se conheciam Finalmente há juízos analíticos em que a conveniência do predicado com o sujeito não se conhece pela imediata intuição do sujeito mas pelo raciocínio Não menos equívoca é a definição do juízo sintético dada pelo escritor alemão Diz ele que nesse juízo o predicado está inteiramente fora do conceito do sujeito Ora ainda que antes do juízo pudesse dizerse que o predicado não está contido no conceito do sujeito não se pode dizer o mesmo no ato do juízo porque a inteligência não poderia alegar que um predicado convém a um sujeito se não visse essa conveniência Por isso é falso que no juízo sintético haja união sem identidade Quando digo Pedro é bom não afirmo que Pedro é a bondade mas que é dotado de bondade e por isso afirmo que tudo o que o predicado exprime se encontra ou está contido no sujeito isto é afirmo a identidade do predicado com o sujeito Essa identidade afirmase em todo o qualquer juízo afirmativo quer analítico quer sintético Sum Th Ia q 85 a 5 ad 3 Há mais Os juízos analíticos como os entendeu Kant em que todos os ele mentos são subjetivos ou apriori sempre nenhuma dependência da experiência sem nenhuma relação aos objetos não existem e são verdadeiras quimeras Porquanto o sujeito e o predicado que constituem um juízo analítico embora sejam termos universais contudo estão intrinsecamente contidos nos objetos da experiência Assim quando digo o homem é racional o homem não é uma coisa imaginária mas é um ente real independente do nosso pensamento e quando afirmo que o homem é racional afirmo que esse atributo é uma coisa intrínseca e essencial a esse sujeito Logo todos os juízos analíticos têm o seu fundamento nas coisas ou nos objetos da experiência e por isso não são inteiramente subjetivos não dependem exclusivamente da inte ligência O sujeito e o predicado do juízo podem ser termos abstratos e universais mas como o abstrato deriva do concreto e o universal deriva do singular seguese que o sujeito e o predicado são termos objetivos Não menos quimeros são os juízos sintéticos apriori forjados por Kant Primeiramente esses juízos repugnam à índole da nossa inteligência Porquanto não é possível a enunciação de um juízo se não se conhece a conveniência entre o predicado e o sujeito porque é essa mesma conveniência que se deve afirmar ou negar aliás o juízo seria um ato irracional A conveniência entre o predicado e 152 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA o sujeito só pode ser conhecida ou pela intuição ou pelo raciocínio ou pela experiência Ora nesses juízos sintéticos apriori a conveniência entre o predicado e o sujeito não é conhecida nem pela intuição porque são sintéticos isto é porque o predicado não está contido no conceito do sujeito nem pelo raciocínio porque são espontâneos nem pela experiência porque são apriori e derivam do fundo da inteligência sem correspondência com o que está de fora Além disso afirma Kant que os juízos sintéticos apriori são universais e necessários embora o predicado não esteja contido no conceito do sujeito Ora essa afirmação é absurda Um juízo só pode ser universal e necessário isto é um predicado só pode convir sempre e necessariamente a um sujeito enquanto ou porque o predicado está contido na própria natureza e no conceito do sujeito visto que só o que constitui ou acompanha a natureza convém sempre e necessariamente ao sujeito que nela subsiste Com relação aos exemplos que o escritor alemão aduz como prova da sua teoria e que seriam juízos sintéticos apriori no sentido de Kant não são eles senão juízos analíticos ou sintéticos no sentido da Escolástica Assim o juízo todo o efeito exige uma causa não é sintético apriori mas exclusivamente analítico Porquanto um juízo é analítico segundo o próprio Kant quando o predicado está contido no conceito do sujeito ou se encontra na resolução do sujeito Ora a exigência de uma causa está contida no conceito de efeito Na verdade efeito é uma coisa que foi feita que começou não deriva do si mesma mas de outro ente Ora derivar de outro ente é depender dele como da causa do próprio ser Logo a exigência de uma causa está contida no conceito de efeito digase o mesmo acerca do juízo cinco mais sete são iguais a doze Ele é exclusivamente analítico porque o predicado se encontra na resolução do sujeito De fato o conceito do predicado é o mesmo que o do sujeito pois é a unidade repetida doze vezes embora por diferentes sinais Nem vale a razão de Kant quando diz que o predicado doze não está contido no conceito do sujeito cinco mais sete pelo fato de nos servirmos às vezes de um sinal externo p exemplo dos dedos para juntar o número cinco ao número sete Com efeito o juízo consiste na conveniência entre o predicado e o sujeito e essa conveniência é percebida exclusivamente pela inteligência que analisa os conceitos ou examina as partes A experiência pode ser uma condição mesmo necessária para se averiguar se os conceitos convém ou não entre si mas não é a razão ou a causa da união Como também analítico é o juízo a linha reta é a mais breve entre dois pontos O conceito da máxima brevidade está contido no conceito da linha reta porque fixados dois pontos percebese logo que a linha reta traçada entre esses pontos é mais breve do que qualquer linha curva A figura sensível que exprime esse juízo não influi na enunciação nem na verdade dele mas serve apenas para o fixarmos melhor na inteligência Todos os outros juízos apresentados por Kant fundamse ou na imediata relação dos conceitos ou na dedução do raciocínio ou nos dados da experiência e por isso ou são analíticos ou são sintéticos no sentido escolástico Donde se vê que se não têm valor objetivo ou juízos analíticos e os sintéticos apriori como os entendeu Kant porque insubsistentes e quiméricos têm pelo con trário valor objetivo os juízos analíticos e os sintéticos como os entende a escolástica 153 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 121 A verdade lógica encontrase imperfeitamente na idéia a Encontrase na idéia A verdade consiste na conformidade da inteligência com o objeto Ora a nossa inteligência quando apreende simplesmente um objeto forma uma idéia que é uma imagem ou seme lhança do próprio objeto e por meio dessa idéia se torna conforme com o objeto porque uma faculdade perceptiva informada pela espécie ou imagem de uma coisa se torna intencionalmente a própria coisa Logo a verdade lógica encontrase na idéia b Mas encontrase imperfeitamente O conhecimento de um objeto é perfeito quando se conhecem de um modo explícito todos os elementos de que consta e que são a natureza ou a essência e o ser ou a existência Ora a idéia se representa de um modo explícito a natureza não exprime do mesmo modo a existência Não representando a idéia de um modo explícito existência não pode realizarse perfeitamente a união dos dois termos distintos que são o objeto e a forma intencional e que constituem os elementos necessários da verdade Logo a verdade lógica encontrase imperfeitamente na idéia1 Nem se insista com o escritor alemão que um conceito universal e necessário não pode provir da experiência cujo objeto é singular e contingente Todas as coisas singulares e contingentes têm em si um elemento universal e necessário que é a essência delas abstraída de todas as condições individuais Sum Th Ia q 86 a 3 Vêse também que se os juízos analíticos e sintéticos apriori inventados por Kant não concorrem para o progresso da ciência a qual tem por objeto as coisas e não os sonhos os juízos analíticos e sintéticos tomados no seu legítimo sentido servem admiravelmente para o desenvolvimento de todas as ciências racionais e experimentais Daqui a pouco falaremos nas tais formas subjetivas que aos juízos sintéticos apriori comunicariam a universalidade e a necessidade 1 A conclusão parecenos certa Se a verdade é uma adequação da inteligência com o objeto e a idéia é uma semelhança com o objeto e a idéia é uma semelhança do próprio objeto porque representa a essência dele é claro que a inteligência informada pela idéia se torna semelhante e adequada ao próprio objeto Diz S Tomás Nos simples conceitos encontrase a verdade porque se conhece a coisa enquanto à sua essência In l IX Met l 11 E noutro lugar Ainda que o inteligível incomplexo a idéia não seja nem verdadeiro nem falso contudo a inteligência percebendoo é verdadeira enquanto se torna adequada à coisa entendida In III de Anima l 11 Na idéia não há apenas a verdade ontológica que é a essência do objeto representada pela própria idéia mas há também a verdade lógica porque a inteligência conhece essa essência e conhecendoa lhe se torna semelhante ou adequada O conhecimento 154 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA será imperfeito porque tal essência é representada de um modo confuso e indetermi nado mas é verdadeiro conhecimento Também a conformidade ou adequação da inteligência com o objeto por meio da idéia é conhecida de um modo direto pelo exercício do próprio ato perceptivo embora esse conhecimento não seja perfeito como no juízo Mas a verdade encontrase imperfeitamente na idéia porque essa idéia embora represente de um modo explícito a essência de um objeto contudo não representa do mesmo modo o ser ou a existência Assim quando vejo um homem e digo homem essa idéia de homem não diz explicitamente se esse homem existe ou não Dissemos que a idéia não representa o ser das coisas de um modo explícito porque implicitamente o representa E isso é muito natural Estando a essência de uma coisa unida intima mente ao ser como a potência está unida ao ato é manifesto que não se pode conhecer a essência sem que ao mesmo tempo e de algum modo seja conhecido o ser ou a existência porque as essências não são conhecidas em abstrato mas em concreto isto é enquanto estão unidas com o ser Manifestando as suas qualidades e a sua essência um objeto manifesta necessariamente de algum modo o seu ser ou a sua existência Verificase isto não só com relação às essências das coisas concretas e singulares mas também com relação às essências abstratas e universais que têm um ser ideal formado pela razão Percebendose embora implicitamente o ser ou a existência das coisas pela idéia e dependendo a verdade de uma coisa mais do seu ser do que da sua essência a verdade encontrase também na idéia embora de um modo imperfeito Concluímos que tanto a idéia como o juízo têm o mesmo objeto com a diferença que o juízo representa e exprime de um modo explícito a essência e o ser de um objeto e por isso a ele compete perfeitamente a verdade e a idéia representa e exprime de um modo explícito a essência de um objeto e de um modo implícito o ser ou a existência e por isso competelhe a verdade imperfeitamente Uma e a mesma impressão do objeto pode determinar e determina a inteligência a formar uma idéia e a emitir um juízo Cf In I Sent dist 19 q 5 a 1 ad 7 Mas a verdade embora perfeitamente se encontre no juízo e só imperfeita mente na idéia ou na simples apreensão contudo pode separarse do juízo pois há muitos juízos falsos e não pode separarse da idéia nem quando essa é incomplexa nem quando a complexa Não pode separarse da idéia quando essa é incomplexa isto é quando denota a essência das coisas despida das notas individuais Por quanto se o juízo pode discordar do objeto enquanto pode afirmar que esse é o que não é ou que não é o que é quando é incomplexa não pode discordar do objeto porque é impossível que ela não represente o que realmente representa aliás representaria e deixaria de representar o que é absurdo Portanto assim como um objeto existente consta da sua entidade assim também a idéia consiste numa forma intencional que é a expressão da coisa pensada e que não pode deixar de ser verdadeira Assim a idéia de homem de virtude de sabedoria etc pelo fato de representar simplesmente uma essência não pode deixar de ter conformidade com a essência que representa Nem pode separarse da idéia quando essa é complexa Por quanto nós podemos conceber e concebemos um monte de ouro mas se nos limitarmos a contemplar esse monte e 155 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 122 A verdade lógica é indivisível A verdade lógica é como dissemos a adequação ou a conformidade da inteligência com o objeto e por isso importa uma igualdade entre o juízo da inteligência e o que se percebe do objeto Ora a igualdade considerada como tal é indivisível não admite graus de modo que duas coisas iguais enquanto iguais não são mais ou menos iguais mas ou são iguais ou não o são Logo a verdade lógica enquanto importa uma igualdade entre o juízo da inteligência e o que se percebe do objeto é indivisível1 Dissemos enquanto importa uma igualdade porque se a ver dade lógica se considera não enquanto importa uma igualdade mas ou em relação à inteligência que percebe ou em relação ao objeto que é não afirmarmos nem negarmos a sua existência a idéia não poderá chamarse falsa Todavia devemos admitir que a idéia complexa pode ser falsa não por si mas por acidente enquanto dá ocasião à inteligência de emitir um juízo falso Assim quando nos representamos um monte douro pode a inteligência julgar que tal monte exista realmenteMas então o erro está sempre no juízo e não na idéia Pelo que temos dito pode avaliarse a opinião de alguns neoescolásticos quando dizem que na simples apreensão ou na idéia não se encontra verdade nem de um modo imperfeito 1 A igualdade em que propriamente consiste a razão ou a essência da verdade deve existir não entre a inteligência e o objeto material isto é considerado como é na realidade com todas as suas notas mas entre a inteligência e o objeto formal isto é considerado naquelas notas que a inteligência percebe e com as quais se conforma Ora a verdade enquanto se considera como uma igualdade entre a inteligência e o objeto formal não pode admitir vários graus não pode ser mais ou menos verdade por isso mesmo que duas coisas iguais não podem ser mais ou menos iguais pois a igualdade está num ponto indivisível assim como duas linhas iguais enquanto são iguais não podem ser mais ou menos iguais e se podem aumentar e aumentam não aumentam enquanto iguais Além disso a verdade como dissemos encontrase perfeitamente no juízo afirmativo ou negativo No juízo afirmativo a inteligência afirma a conveniência entre o predicado e o sujeito no negativo nega aquela conveniência Ora a afirmação e a negação são coisas indivisíveis incapazes do mais e do menos Logo a verdade lógica é indivisível Os que admitem graus na verdade considerada sob esse ponto de vista confundem a igualdade com a semelhança A semelhança admite graus porque uma coisa pode ser mais ou menos semelhante a outra mas a igualdade excluios porque uma coisa não pode ser mais ou menos igual a outra mas ou é igual ou não o é Nem se diga que a verdade lógica por ser uma coisa finita é capaz de aumento A verdade lógica é capaz de aumento não enquanto diz igualdade entre a inteligência e o objeto porque enquanto tal e o indivisível embora finito não é capaz de aumento mas só enquanto se considera em relação à inteligência ou ao objeto como vamos ver 156 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA percebido então pode admitir vários graus e um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro do que outro conforme a maior ou menor perfeição da inteligência o maior ou menor número das notas que se percebem no objeto a maior ou menor firmeza com que a inteligência na percepção do objeto pronuncia o juízo1 1 Desenvolvamos o que dizemos no texto 1o Um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro conforme a maior ou menor perfeição da inteligência Porquanto uma inteligência perspicaz dotada de uma luz proporcionada aos objetos inteligíveis e informada por espécies de muita extensão e clareza produz um ato mais conforme com o objeto e por isso mais verdadeiro do que o ato de uma outra inteli gência menos perspicaz dotada de luz menos proporcionada ao objeto e informada por espécies de menor extensão e clareza porque todo o efeito é proporcionado à sua causa 2o Um conhecimento pode ser mais ou menos verdadeiro conforme o maior ou menor número de notas que se percebem no objeto material Porquanto o conhecimento de um número maior de notas relativas ao objeto é mais conforme ao objeto e por isso é mais verdadeiro do que o conhecimento de um número menor de notas assim quem conhece o homem como animal racional aproximase mais da verdade do que um outro que conhece o homem somente como animal 3o Um conhecimento é mais ou menos verdadeiro conforme a maior ou menor firmeza com que a inteligência na percepção do objeto pronuncia o juízo Porquanto um juízo é mais ou menos verdadeiro conforme a sua verdade que se funda no objeto é mais ou menos firme e imutável Ora o juízos em que o predicado convém necessária e absolutamente ao sujeito são firme e imutáveis do que os juízos em que o predicado só acidental e relativamente compete ao sujeito Assim este juízo o todo é maior que a parte é mais firme e imutável e por isso mais verdadeiro que este outro Pedro é bom Mas como é evidente a maior ou menor perfeição da inteligência e do ato cognoscitivo não entra na essência da verdade a qual consiste na igualdade entre a inteligência e o objeto Tal é a doutrina de S Tomás O santo explicitamente afirma que se a verdade se toma enquanto é a adequação entre a inteligência e o objeto não se dá uma verdade maior que outra verdade porque a essência da igualdade não recebe o mais e o menos mas que se se considera o próprio ser da coisa em que se funda a verdade então existe uma verdade tanto ontológica como lógica maior que outra porque onde há mais entidade há mais verdade De Virtutibus q 2 a 9 ad 1 Vejamos agora se a falsidade admite ou não vários graus A falsidade como dissemos consiste na desconformidade da inteligência com o objeto e pode ser negativa ou positiva Ora se a falsidade negativa não admite graus porque o não ser conforme é uma coisa indivisível a falsidade positiva admite vários graus não só com relação à inteligência e ao objeto mas também com relação à própria essência ou razão da falsidade 1o Admite vários graus na própria razão de falsidade Porquanto a des conformidade entre a inteligência e o objeto pode ser mais ou menos pronunciada Diz S Tomás Quanto magis a veritate receditur tanto major est falsitas non 157 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 123 A verdade lógica é imutável A verdade lógica pode exprimir ou a essência dos entes ou um fato contingente Ora tanto num como noutro caso ela é imutável a É imutável quando exprime a essência dos entes Com efeito a verdade lógica consistindo na adequação da inteligência com o objeto deve corresponder à índole do mesmo objeto de modo que ela será imutável ou mutável conforme imutável for o objeto O objeto da nossa inteligência é a essência tanto do Ente infinito como dos entes finitos Ora a essência do Ente infinito é absolutamente imutável e a essência dos entes finitos embora seja mutável quanto aos elementos reais assim a essência do homem é mutável quanto ao corpo e à alma contudo é imutável quanto aos elementos específicos assim a essência do homem é imutável quanto à animalidade e à racionalidade Logo a verdade lógica quando exprime a essência dos entes é imutável1 enim est tam magna falsitas aestimantis tria esse quinque sicut ejus qui aestimat tria esse centum C Gentes l 3 c 139 A razão é manifesta A falsidade não é apenas a falta de verdade mas é o contrário da verdade ora entre dois termos contrários ou opostos há muitos pontos intermédios Há porém uma excepção e dáse quando a falsidade do juízo consiste na mera negação de alguma verdade assim a falsidade destes juízos Deus não existe o mundo não existe não admite graus 2o Admite vários graus com relação à inteligência Com efeito uma inteligência obtusa ou totalmente dominada pela vontade pode cair e cai em erros mais grosseiros do que os erros em que pode cair e cai uma inteligência perspicaz ou menos sujeita à influência da vontade 3o Admite vários graus com relação ao objeto ou enquanto a um objeto podemos atribuir um maior ou menor número de notas que lhe não convém ou negarlhe um número maior ou menor das que lhe são próprias ou enquanto um juízo falso em matéria necessária e imutável é mais falso que um juízo falso em matéria contingente e mutável assim o juízo Deus não existe é mais falso que o juízo o mundo não existe 1 A verdade lógica da nossa inteligência fundase na verdade ontológica das coisas percebidas Por isso como dizemos no texto a verdade lógica é imutável ou mutável conforme imutável ou mutável é a verdade ontológica Ora a verdade ontológica pode referirse a Deus e às criaturas Deus e só Ele é essencial e absolutamente imutável porque toda a mudança denota imperfeição e Deus é a perfeição infinita Se Deus é absolutamente imutável também imutável é o conhecimento que temos dEle Porquanto embora esse conhe cimento seja infinitamente inadequado e deficiente contudo o que atribuímos a Deus realmente se encontra nEle embora de um modo infinitamente elevado e superior à nossa compreensão Assim quando dizemos que Deus é bom é justo etc essas perfeições absolutas existem realmente em Deus e o nosso conhecimento embora 158 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA seja inadequado e possa tornarse mais perfeito é todavia verdadeiro e imutável Concluímos que a verdade lógica da nossa inteligência relativa a Deus é imutável porque imutável é a verdade ontológica do próprio Deus Se de Deus descemos às criaturas encontramos em todas elas a mudança Os entes espirituais se não estão sujeitos a mudanças substanciais pois não são compostos de matéria estão sujeitos a mudanças acidentais enquanto passam da potência para o ato operativo porque não são a própria atualidade Os seres materiais estão sujeitos a mudanças substanciais e acidentais Mas embora todos os seres criados estejam sujeitos a mudanças contudo há em todos uma coisa absolutamente imutável que é a essência considerada nos seus elementos específicos Se a essência das criaturas considerada nos seus elementos reais pode estar e está sujeita a mudanças mesmo substanciais considerada nos seus elementos específicos mas é necessária imutável assim a essência do homem se considerada nos elementos reais que são a alma e o corpo é contingente e mutável considerada nos seus elementos específicos que são a animalidade e a racionalidade é necessária e imutável porque embora o homem nunca tivesse existido é e será sempre verdade que ele é animal racional Daí se segue que se a verdade lógica da nossa inteligência enquanto representa o que há de mutável nas criaturas é mutável enquanto representa o que há de imutável nas mesmas criaturas que é a essência é imutável A imutabilidade das essências criadas tem como veremos a sua razão suprema o seu último fundamento na Essência divina Cf In IV Ethic l 3 Imutável quando exprime a essência das coisas a verdade é imutável também quando exprime os primeiros princípios da razão que se formam imediatamente e por simplicíssima abstração depois da apreensão da essência e que a ela se referem e nela se fundam Com efeito estes princípios uma coisa não pode simultanea mente ser e deixar de ser todo o efeito exige uma causa etc mostramse dotados de tal universalidade e necessidade que não é possível conceber o contrário sem se renunciar ao senso comum Ora um princípio universal e necessário é naturalmente imutável Os primeiros princípios são o fundamento de todas as ciências cujo objeto é constituído por verdade também universais e necessária que por isso se resolvem naqueles princípios Todas as ciências têm por fim a descoberta de tais verdades e depois de as terem descoberto nem sequer duvidam de que elas possam estar sujeitas a mudanças ou possam tornarse falsas Nenhum escritor que tenha ainda o juízo são poderá sustentar que 2 mais 2 sejam iguais a 5 ou que os três ângulos de um triângulo não sejam iguais a dois ângulos retos Diz Cl Bernard Nas matemáticas quando se parte de um axioma ou princípio cuja verdade é absolutamente necessária e consciente a liberdade deixa de existir as verdades adquiridas são imutáveis O geômetra não é livre de duvidar se os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos e por isso não é livre de rejeitar as conseqüências lógicas que se deduzem desse princípio Sendo as verdades matemáticas imutáveis e absolutas a ciência aumenta pela simples e sucessiva justaposição de todas as verdade adquiridas Introd à la medicine experim p 65 159 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE b É imutável quando exprime um fato contingente Porquanto a verdade lógica como dissemos deve corresponder à índole do objeto com o qual deve conformarse a inteligência Ora um fato contingente embora por si pudesse deixar de darse contudo depois que se deu é absoluta e eternamente imutável porque é impossível que tendose dado não se tenha dado ou não se tenha dado pelo modo por que se deu Sendo imutável o fato é imutável a relação da nossa inteligência com ele e por isso é imutável a verdade Logo a verdade lógica quando exprime um fato contingente é imutável1 1 Assim essa verdade S Joanna dArc derrotou os ingleses em Orléans exprime um fato contingente que se deu mas podia não se ter dado e todavia é imutável porque tendose dado é e será eternamente verdade que S Joanna dArc derrotou os ingleses em Orléans Se não fosse assim se esse fato contingente não fosse imutável deveríamos admitir que S Joanna dArc derrotou e não derrotou os ingleses em Orléans o que é absurdo Sum Th Ia q 84 a 1 ad 3 Agora uma advertência Quando se diz que a verdade lógica exprimindo um fato contingente se muda pelo fato de se mudar o objeto material não devemos entender que a verdade se transforma em falsidade mas que a uma verdade sucede uma outra verdade ambas imutáveis Assim quando vendo Pedro de saúde digo Pedro é são e depois vendoo doente digo Pedro não é são não podemos dizer que um juízo é verdadeiro e outro é falso ou que a verdade pela mudança do objeto material se transformou em falsidade mas devemos dizer que a uma verdade sucedeu outra verdade que ambos os juízos são verdadeiros porque ambos correspondem à realidade Dáse a contradição quando ao mesmo sujeito se atribui e se nega o mesmo predicado mas ao mesmo tempo e sob o mesmo respeito o que não se verifica no presente exemplo E ambos esses juízos são imutáveis porque é e será eternamente verdade que Pedro num certo tempo estava são e num outro tempo não estava são Como se vê consideramos a verdade lógica enquanto objetiva porque dá imutabilidade do objeto deduzimos a imutabilidade da verdade Mas se a verdade se considerar enquanto é subjetiva então é mutável como é mutável a nossa inteligência embora o objeto permaneça imutável A nossa inteligência por ser limitada pode passar em relação à verdade de um estado para outro diverso e até contrário de um conhecimento verdadeiro para um outro falso e viceversa É uma falibilidade não essencial nem natural mas acidental e eventual Sum Th Ia q 16 a 8 A imutabilidade da verdade é negada por todos os sequazes do relativismo O nosso espírito na opinião deles não é perfeito quanto à inteligência e não pode conhecer absolutamente a objetiva verdade das coisas Tudo o que conhecemos é relativo aos nossos sentidos ao nosso espírito e à nossa experiência Comte a qual por sua vez é relativa à nossa constituição Kant A verdade portanto não é uma coisa é uma vida e como tal segue o destino da nossa existência Ora o espírito 160 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA humano não é imutável mas evolvese e mudase constantemente A essas evolu ções e mudanças do espírito correspondem as evoluções e mudanças da verdade Portanto nada é absoluto isto é nada é fixo imutável e independente do nosso pensamento mas tudo é relativo isto é tudo é incerto variável e dependente do nosso espírito Donde se segue que os sistemas contraditórios são apenas momentos diversos da mesma verdade que uma coisa ontem verdadeira mesmo para todo o gênero humano pode ser falsa amanhã que uma e a mesma coisa pode ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto verdadeira e falsa conforme a uns parece verdadeira e a outros falsa Concluem que não devemos aceitar uma verdade senão condicionalmente isto é senão com a condição que ela se aceita até que não se conhece verdadeira a proposição oposta Essa opinião tão antiga como Protágoras que dizia ser a nossa inteligência a medida de todas as coisas é sustentada por Comte Bain Spencer Renouvier pelos Kantistas positivistas e modernistas e pelos sequazes da filosofia nova Bergson Le Roy Wilbois Não sendo possível citar tudo o que esses escritores disseram limi tamonos a transcrever uns breves trechos de Hamilton de Schérer e de StuartMill Hamilton diz O absoluto é uma pseudoidéia O absoluto é uma idéia negativa é o nãorelativo isto é é a negação do relativo Schérer escreve Um princípio apoderouse do espírito moderno e deve molo a Hegel Entendo falar do princípio em força do qual uma proposição não é mais verdadeira que a sua oposta Isto quer dizer que tudo é relativo e que os juízos absolutos são falsos Essa descoberta do caráter relativo das verdades é o fato capital da história do pensamento contemporâneo Hoje para nós uma coisa não é verdade nem erro É necessário inventar outras palavras Em toda a parte só vemos gradações chegamos a admitir a identidade dos contrários Conhecemos não a religião mas as religiões não a moralidade mas os costumes não os princípios mas os fatos Tudo é relativo mais ainda tudo é apenas uma relação Stuart Mill acrescenta Pode ser que noutros planetas ou nas partes ainda desconhecidas do nosso globo haja outra lógica Quem sabe se amanhã se daqui a pouco haverá outra ciência seja ela qual for se haverá duas coisas semelhantes se haverá coisa alguma Examinemos os argumentos dos relativistas a O absoluto dizem eles não existe tudo é relativo Resposta Mas o que é o absoluto o que é o relativo Se interrogarmos o senso comum ele nos dirá que o relativo é o que se refere a um outro de modo que sem esse não pode existir nem pode conceberse e que o absoluto é o que é indepen dente desse vínculo de relação de modo que pode existir e pode conceberse sem que se deva recorrer a outro ente E como tal independência admite vários graus assim há várias formas de absoluto uma mais perfeita que outra Por isso pode cha marse absoluto tudo o que existe em si e não depende do sujeito que o conhece e relativo tudo o que existe exclusivamente no sujeito e pelo sujeito Mais perfeito infinitamente mais perfeito é o Absoluto que não depende de alguma hipótese mas 161 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE até repele toda a hipótese toda a restrição todo o limite e comparado com Ele todo e qualquer outro ser é relativo isto é contingente limitado Agora perguntamos existirá exclusivamente o relativo ou deverá existir também o absoluto Se não qui sermos cair numa contradição pueril devemos responder que se existe o relativo isto é se existe o ser que se refere a um outro deve forçosamente existir esse outro a que o primeiro se refere e que se diz e é absoluto O relativo enquanto tal supõe o absoluto quem rejeita esse deve rejeitar aquele Logo ou não existe coisa alguma ou existe também o absoluto O próprio H Spencer evolucionista diz O conceito de relação traz consigo o conceito dos seus dois termos Pretender que concebamos a relação entre o relativo e o nãorelativo sem termos consciência de cada um dos dois termos é pretender que comparemos uma coisa de que temos consciência com uma outra de que não a temos a comparação é um ato de consciência que não pode realizarse se não tivermos consciência de ambos os termos Sendo assim que juízo deve fazerse da afirmação que o absoluto só se concebe como uma mera negação da concebibilidade Se o não relativo ou o absoluto não é presente ao pensamento senão como uma mera negação tornase ininteligível a relação entre ele e o rela tivo porque um dos termos da relação não se encontra na consciência Se a relação é ininteligível ininteligível é o próprio relativo donde a impossibilidade de todo o pensamento Premiers principes p I c 4 b Os relativistas replicam o absoluto se existe é incognoscível Resposta E será ele incognoscível porque é absoluto Porque respondem a experiência limitase a observar os fatos os fenômenos e não penetra até ao fundo das coisas para aí descobrir a essência A resposta não satisfaz Porquanto há duas espécies de experiência uma vulgar outra científica Se a vulgar que é comum a todos os homens não reflete e limitase a atestar os fatos a científica que é própria dos sábios não se limita a observar os fatos mas dos fatos sobe às causas e das proprie dades à essência De Dominicis escritor insuspeito comentando as citadas palavras de Spencer conclui O absoluto existe e a ciência não pode prescindir dele A ciência exige imperiosamente que além da existência do fenômeno se admita qualquer outra coisa e que sem essa qualquer outra coisa o conhecimento não é fundado não é seguro não é racional La dottrina della evoluzione vol 2 p 56 No decurso deste tratado teremos ocasião de voltar ao assunto c Os adversários acrescentam embora não seja relativo tudo o que existe todavia é relativo todo o conhecimento humano e por isso é relativa toda a verdade da nossa inteligência Respondemos que o conhecimento se pode chamar relativo à nossa inteligência num sentido e não se pode chamar relativo num outro Pode chamarse relativo à nossa inteligência enquanto um ato de uma faculdade deve revestir e reveste a condição o caráter a natureza da própria faculdade E nada mais razoável O ato é sempre proporcionado à faculdade de que deriva Por isso o conhecimento não só é relativo à inteligência dos diversos indivíduos humanos mas também à própria inteligência humana considerada em si mesma de modo que assim como a inteligência humana é essencialmente finita e limitada assim também 162 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 124 A verdade lógica é única e multíplice A verdade lógica pode considerarse em Deus e na inteligência criada Considera em Deus a verdade lógica é única porque única é a Essência divina com a qual as propriedades e as operações divinas se identificam Esta verdade lógica divina é a causa exemplar de todas as verdades lógicas das inteli gências criadas Considerada na inteligência criada a verdade lógica é multíplice porque são tantas as verdades quantos são os conhecimentos inadequado e deficiente é o conhecimento que temos das coisas mesmo sensíveis e naturais Esse conhecimento pode dizerse também relativo isto é imperfeito limitado contingente em oposição ao conhecimento absoluto isto é perfeitíssimo infinito necessário que é exclusivamente próprio de Deus Mas que se seguirá logicamente dessa relatividade Seguirseá porventura o que dizem os adversários isto é que os nossos conhecimentos não correspondem aos objetos que são mutáveis que são falsos Não porque como dissemos o conhecimento inadequado não é um conhecimento falso e uma verdade será sempre verdade fixa e imutável mesmo quando a inteligência conformandose cada vez mais com o objeto chegará a des cobrir novas notas ou a conhecer de um modo claro e distinto uma nota que antes tinha sido percebida de um modo obscuro e confuso Mas não é esse o sentido dos adversários quando dizem que o conhecimento é relativo Entendem eles por tal expressão que o conhecimento é inteiramente sub jetivo isto é que é apenas uma forma da nossa inteligência à qual não corresponde realidade alguma A afirmação não poderia ser mais absurda De fato o nosso conhecimento se é subjetivo enquanto é um ato imanente que tem o princípio e o termo no mesmo sujeito é objetivo enquanto à origem e à representação porque é causado pelo objeto e representa um objeto E como o objeto tem o ser independente do sujeito seguese que o nosso conhecimento enquanto exprime o objeto é fixo e imutável porque fixa e imutável é a essência do próprio objeto E embora o objeto conhecido exista na inteligência por um modo diferente daquele por que existe na sua realidade contudo não deixa de ser o que é não perde nem muda a própria essência É pois absurdo dizer que mudandose o sujeito se muda também o objeto e que o que é verdade para um indivíduo pode ser falso para um outro e viceversa Os relativistas esquecem uma coisa muito elementar que no conhecimento não é o sujeito que forma ou modifica o objeto mas é o objeto que modifica e determina o sujeito porque o sujeito é movido e passivo ao passo que o objeto é movente e ativo As coisas são o que são em si mesmas e não o que nos possam parecer uma coisa que é verdadeira para uma inteligência deve ser verdadeira para todas as inteligências O princípio de contradição uma coisa não pode simultaneamente ser e deixar de ser é uma verdade do senso comum e não pode ser contestada O S P Pio X no decreto Lamentabili de 3 de julho de 1907 condenou o relativismo contido nesta proposição 58a Veritas non est immutabilis plusquam ipse homo quippe quae cum ipso et per ipsum evolvitur 163 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE conformes com a realidade que existem nas inteligências das criaturas e que são outros tantos reflexos deficientes de uma única verdade divina1 ARTIGO II Certeza sua divisão existência e propriedades 125 Estados da inteligência com relação à verdade A nossa inteligência alcança perfeitamente a verdade quando forma juízos correspondentes à realidade Ora essa faculdade com relação à verdade pode encontrarse em quatro estados Porquanto ou não forma um juízo porque não tem as idéias respectivas e está na ignorância ou possui a idéia de um objeto mas não se decide a pronunciar um juízo e está na dúvida ou pronuncia um juízo mas teme que se possa verificar o contrário e está na opinião ou julga sem receio algum de errar e está na certeza É da certeza que nos devemos ocupar nesse e nos seguintes artigos2 1 Os ontologistas depois de Malebranche dizem que existe uma única verdade Deus e que por isso a nossa inteligência não pode contemplar a verdade senão em Deus Esse erro refutase com o critério exposto no texto Embora a nossa inteligência seja uma participação da inteligência divina assim como os seres cria dos são uma participação do ser divino contudo a nossa inteligência é realmente distinta da divina como realmente distintos do ser divino são os seres criados Por isso possuímos uma verdade própria ainda que participada e acidental e essa verdade é multíplice porque muitos e diversos são os conhecimentos que temos dos muitos e diversos seres Sum Th Ia q 16 a 6 2 São quatro os estados da inteligência com relação à verdade ignorância dúvida opinião e certeza Devendo tratar detidamente da certeza digamos alguma coisa acerca dos três primeiros estados a Ignorância Ignorância é o estado da inteligência quando não profere um juízo porque não tem as idéias necessárias É universal ou particular conforme a ausência dos conhecimentos é total ou parcial A particular pode ser mais ou menos extensa A ignorância como se vê é uma relação negativa isto é é uma falta de relação da inteligência para com a verdade É efeito da limitação e da fraqueza da nossa inteligência e da dificuldade ou obscuridade dos objetos cognoscíveis Muitas vezes a ignorância pode ser uma culpa como quando é a ausência de conhecimentos indispensáveis sobretudo dos relativos à ordem moral e religiosa É uma das mais deploráveis conseqüências do pecado original 164 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 126 Certeza Certeza é a firme adesão da inteligência à verdade conhecida fundada num motivo capaz de excluir todo o receio de errar A certeza a é adesão firme porque a inteligência descansa na posse da verdade sem receio de errar b é adesão à verdade conhecida porque só a verdade conhecida como tal possui a força de atrair irresistivelmente e sossegar a inteligência c é adesão fundada num motivo capaz de excluir todo o receio de errar porque a firmeza da adesão é um efeito que deve ter um motivo proporcionado Como se vê a certeza tomada no sentido rigoroso é constituída por elementos subjetivos e objetivos1 b Dúvida Dúvida é o estado da inteligência quando não se decide a emitir um juízo afirmativo ou negativo Dividese em negativa e positiva É negativa quando não há razões nem para a afirmação nem para a negação é positiva quando há razões para a afirmação e para a negação mas de igual peso ou valor de modo que a inteligência está suspensa Toda a dúvida quando deliberada supõem um juízo acerca do valor dos razões pro e contra Tal juízo embora não atinja o próprio objeto pode ser imprudente ou errôneo como qualquer outro c Opinião Opinião é o estado da inteligência quando pronuncia um juízo mas com perplexidade e receio de errar As razões que nesse caso determinam a inteligência são mais ou menos prováveis de modo que não tornam o juízo emitido absolutamente verdadeiro nem o contraditório absolutamente falso A probabi lidade pois é a soma das razões sérias e atendíveis que sustentam uma proposição Admite vários graus é maior ou menor conforme o número e o peso das razões Há opiniões prováveis mais prováveis probabilíssimas Mas tudo o que está na esfera da probabilidade não é certo Por isso uma opinião probabilíssima não é certamente ver dadeira assim como uma opinião menos provável não é certamente falsa À opinião reduzse a suspeita a qual embora não seja um juízo contudo é um inclinação para ele por causa de alguns indícios ou motivos que se descobrem no objeto Enquanto não é juízo a suspeita difere da opinião que é um juízo embora não firme enquanto é uma inclinação para o juízo é um início de opinião Sum Th IIII q 2 a 1 1 A adesão firme da inteligência é o elemento subjetivo da certeza a verdade conhecida e o motivo que determina a firmeza da adesão são os elementos objetivos A firme adesão da inteligência à verdade é o objeto material da certeza o motivo que produz essa firme adesão é o objeto formal S Tomás diz que a certeza é firmitas adhaesionis virtutis cognoscitivae in suum cognoscibile In III Sent Dist 26 q 2 a 4 A certeza é uma perfeição intrínseca do próprio ato cognoscitivo mas enquanto esse exprime uma verdade não só porque como dizemos no texto só a verdade tem a força prender e encadear a inteligência de modo que não oscile para o contrá rio mas também porque uma faculdade não acha a perfeição e o descanso senão no objeto próprio e o objeto próprio da inteligência é a verdade ou o ente enquanto verdadeiro Por isso 1o a adesão ao erro o qual por falta da devida consideração pode ser recebido como verdade não merece o nome de certeza porque não passa 165 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 127 Espécies de certeza A certeza pode considerarse nos entes em que reside nos motivos em que se funda no modo por que se conhecem os motivos no princípio de que deriva Consi derada nos entes em que reside é subjetiva e objetiva Considerada nos motivos em que se funda é metafísica física e moral Considerada no modo por que se conhecem os motivos é direta e reflexa Considerada no princípio de que deriva é natural e sobrenatural a Certeza subjetiva e objetiva A subjetiva é a própria firmeza com que aderimos à verdade Dizse subjetiva porque reside no sujeito A objetiva é a própria verdade que se manifesta clara mente à inteligência produzindo uma adesão firme e excluindo todo de uma opinião e muitas vezes nem é opinião mas pertinácia Sum Th IIII q 18 a 4 De Ver q 6 a 3 2o a firmeza dessa adesão deve fundarse em motivos sólidos e seguros de modo que a proposição tida por certa seja incompatível com a sua contraditória e assim seja excluída a possibilidade do erro 3o assim como para a perfeição da verdade lógica não basta que a inteligência se conforme com o objeto mas é necessário que conheça ainda essa conformidade assim também para a perfeição da certeza não basta que a inteligência adira sem hesitação à verdade conhecida mas deve ainda conhecer claramente mesmo ao próprio ato do juízo que essa adesão é incompatível com o erro Sendo a certeza uma adesão da inteligência à verdade é claro que encontrarse onde e como se encontra a verdade e por isso no juízo de um modo perfeito e na idéia ou simples apreensão de um modo imperfeito ou inicial Quando um objeto se manifesta convenientemente à inteligência e imprime nela a própria imagem des pida das condições materiais ou individuais a inteligência reagindo nessa imagem forma a idéia do objeto que a impressionou e assim alcança embora de um modo deficiente a verdade e a essa adere sem hesitação Como é natural os escritores que não reconhecem na idéia um vislumbre de verdade nem reconhecem nesse ato um vislumbre de certeza Os filósofos apresentam outras definições de certeza Uns dizem que a certeza é a consciência da verdade outros que é a impossibilidade da dúvida outros que é a verdade cabalmente demonstrada outros que é a verdade conhecida nos seus princípios Essas definições são todas inaceitáveis É inaceitável a primeira não só porque não pode aplicarse à certeza direta que é verdadeira certeza mas também porque não exprime os elementos essenciais da certeza É inaceitável a segunda porque além de ser negativa não manifesta o que a certeza é em si mesma É ina ceitável a terceira porque não abrange as verdades conhecidas imediatamente e que são as mais certas É inaceitável a quarta porque para estarmos certos de uma verdade não é preciso conhecêla sempre nos seus princípios pois as verdades de fato são percebidas imediatamente na sua realidade e são certíssimas 166 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA o receito de errar Dizse objetiva porque está no objeto A objetiva é causa da subjetiva1 b Certeza metafísica física e moral a Certeza metafísica Certeza metafísica é a que se baseia na essência das coisas tal é a certeza desta proposição todo o efeito exige uma causa Esta certeza é absoluta não admite exceções porque a essência das coisas é imutável Por isso a proposição contraditória à que exprime esta certeza é absolutamente impossível2 b Certeza física Certeza física é a que se funda na constância das leis físicas tal é a certeza da seguinte proposição a terra movese em volta do sol Esta certeza admite exceções porque as leis físicas podem ser suspensas pela Onipotência de Deus Por isso a proposição con traditória é só fisicamente impossível3 c Certeza moral Certeza moral é a que se funda na constância das leis morais as quais regulam as inclinações e as ações dos homens tal é a certeza desta proposição os pais amam seus filhos Esta certeza também admite exceções porque as leis morais podem ser violadas pela liberdade humana Por isso a proposição contraditória é só moralmente impossível4 1 Segundo Kant a certeza subjetiva é a que se refere aos fenômenos internos do sujeito e a objetiva é a que tem por termo os objetos externos Mas a certeza é primária e propriamente subjetiva e só secundária e impropriamente se atribui ao objeto enquanto esse é capaz de produzila no espírito humano Sum Th IIII q 18 a 4 A certeza objetiva pode também definirse a infalibilidade ou força de que é dotado o motivo para conseguir um assenso certo Todavia essa força pode deixar de produzir o seu efeito por falta de consideração 2 O objeto pois da certeza metafísica é constituído por verdades metafisicamente necessárias isto é por verdades cuja necessidade depende do nexo essencial entre o sujeito e o predicado E como a essência das coisas é imutável a certeza metafísica não admite exceções 3 O objeto da certeza física é constituído por verdades fisicamente necessárias isto é por verdades cuja necessidade deriva das leis físicas que regulam o mundo E como as leis físicas estão sujeitas ao poder do Criador que as estabeleceu a certeza física pode admitir exceções 4 O objeto da certeza moral é constituído por verdades moralmente necessárias isto é por verdades cuja necessidade depende das leis morais que dirigem as ações dos homens para um fim constante e universal determinado por Deus E como as leis morais podem ser violadas pela liberdade humana a certeza moral também pode admitir exceções 167 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE c Certeza direta e reflexa É direta quando a inteligência adere firmemente à verdade porque conhece de um modo implícito e pelo fato mesmo da sua adesão os motivos em que se funda a sua deter minação assim todos conhecem pelo menos implicitamente os motivos que os levam a aceitar como inconcusso este princípio todo o efeito exige uma causa É reflexa quando a inteligência adere firmemente à verdade porque conhece de um modo explícito e pela reflexão os motivos que a levam a essa adesão assim refletindo sobre os conceitos de efeito e de causa conhecemos explicitamente as razões que demons tram a verdade daquele princípio1 1 A diferença entre a certeza direta e a reflexa não é essencial mas acidental porque a reflexa é a apenas a direta mas aperfeiçoada É uma diferença de graus e não de espécie Alguns escritores sustentam que não há certeza direta mas que toda a certeza é essencialmente reflexa Mas não é assim Quando a inteligência determinada pelo objeto que se lhe manifesta convenientemente pronuncia um juízo está certa do que afirma nem é preciso para isso que seja consciente da própria certeza Nem toda a afirmação é acompanhada necessariamente pela reflexão e quando acompanhada a afirmação não pressupõe a consciência de si mesma mas por ser objeto da própria consciência deve preceder a própria consciência em razão de natureza se não em razão de tempo Além disso a consciência ou a reflexão não acrescenta nada à firmeza da adesão ou à firmeza direta que é determinada exclusivamente pela evidência da verdade Como também nada acrescenta à certeza que temos de uma coisa e que se funda na evidência a consciência da verdade da própria coisa de modo que se por impossível a inteligência não tivesse meio algum para verificar o valor objetivo dos seus conhecimentos nem por isso os juízos certos pronunciados por ela perderiam nada da sua firmeza e necessidade Todavia devemos admitir que a consciência da certeza como também do valor objetivo de um juízo dá a última perfeição aos nossos conhecimentos porque então possuímos plenamente a certeza como também a verdade quando temos a consciência de que a possuímos Como o ato por que a inteligência alcança a certeza é idêntico ao ato por que alcança a verdade é evidente que a mesma inteligência quando reflete sobre a natureza do seu ato tem consciência não só da verdade mas também da certeza do juízo Erram pois os que afirmam que a certeza direta chamada também vulgar e espontânea não é verdadeira certeza mas cega credulidade Na certeza direta encontrase tudo o que constitui a certeza tomada no seu sentido rigoroso a verdade evidentemente conhecida a firme adesão da inteligência excluindo todo o receio de errar e a suficiente percepção dos motivos Será uma cega credulidade e não uma verdadeira certeza a convicção com que todos admitem a existência própria a existência dos seus atos dos seus parentes da sua casa e de mil outras coisas Não Diz bem o Balmes Interrogai a criança o homem maduro o velho se estão certos da existência 168 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA d Certeza natural e sobrenatural É natural quando a inteligência esclarecida pela própria luz natural e levada por um motivo objetivo isto é baseado nos próprios objetos adere firmemente à verdade É sobrenatural quando a inteligência esclarecida pela luz sobrenatural da Fé e levada pela autoridade de Deus adere firmemente à verdade1 128 A certeza existe a A certeza é a firme adesão da inteligência à verdade conhecida Ora como atesta a consciência a nossa inteligência adere com tal firmeza a muitas verdades de evidência imediata como são o fato da existência própria os princípios da razão etc que nem pode sequer suspeitar da possibilidade do contrário Logo a certeza existe2 b Toda a faculdade assim como tende necessariamente para o seu objeto próprio assim também depois de o ter alcançado necessa riamente nele se repousa Ora a nossa inteligência tende naturalmente para a verdade e quando esta lhe aparece claramente não pode deixar de aderir a ela por necessidade de natureza e de achar nela o seu des própria da existência dos seus atos internos e externos dos seus parentes dos seus amigos das suas habitações e não achareis em ninguém a menor sombra de hesitação Crianças velhos homens todos responderão a mesma coisa e o seu olhar de espanto vos dirá o seu pensamento Mas é possível que um homem sério pergunte acerca de coisas tão claras Phil fund I 1 c 3 Mas dizem não há certeza onde não há conhecimento explícito dos motivos Não é assim Se assim fosse não haveria verdadeira certeza se não de um mínimo número de verdade o que é falso Os próprios filósofos diz Fénelon estão invencivelmente convencidos de um grande número de verdades embora não as possam explicar claramente nem confutar os argumentos contrários que dificultam a sua percepção Lettres 1 Advirtase a distinção entre o natural e o sobrenatural Natural é tudo o que convém a um ente em virtude da natureza de que é dotado ou que deriva e depende dos princípios intrínsecos de que a mesma natureza é composta assim é natural para o homem o conhecimento de Deus pela consideração das criaturas Sobrena tural é tudo o que excede as faculdades e as exigências naturais da criatura assim é sobrenatural para o homem o conhecimento intuitivo de Deus 2 Quem pode duvidar do fato da existência própria Diz S Tomás Nullus unquam erravit in hoc quod non perciperet se vivere De Ver q 10 a 8 ad 2 Quem pode negar os princípios da razão como o princípio de contradição de causalidade etc sem renunciar à própria razão O mesmo Santo falando desses princípios diz Veris sima esse constat intantum ut falsa esse nec possibile sit cogitare Post Analy l 19 169 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE canso sem nenhum receio de errar isto é não pode deixar de alcançar a certeza Logo a certeza existe1 c Deve admitirse necessariamente a existência de uma coisa quando essa existência se afirma pelo fato mesmo de se negar Ora a existência da certeza afirmase pelo fato mesmo de se negar porquanto quem nega a existência da certeza entanto a nega enquanto tem a certeza de que a certeza não existe Logo a certeza existe2 1 Cícero expõe o mesmo argumento com as seguintes palavras Ut enim necesse est lancem in libra ponderibus impositis deprimi sic animum perspicuis cedere Nam quomodo non potest animal ullum non appetere id quod accommodatum ad naturam appareat sic non potest animus objectam rem perspicuam non approbare Acad l II c 12 Acrescentese que mesmo por confissão dos adversários a ciência existe Ora a ciência não pode existir nem conceberse se não se admitem alguns princípios certos e por si evidentes porque toda a demonstração que produz a ciência deve partir de princípios dotados dessas qualidades De Ver q 11 a 1 O que dizemos da ciência deve aplicarse às artes às virtudes à sociedade e a muitas outras coisas que não poderiam subsistir se não se admitissem como certas muitas verdades relativas à nossa vida individual e social 2 A existência da certeza não pode ser rigorosamente demonstrada Porquanto quem procura demonstrar uma coisa supõe como certo que está raciocinando e que o raciocínio tem a força de convencer e por isso supõe já a existência da certeza antes de a demonstrar Por isso a nossa demonstração é apenas uma explicação reflexa Nem precisa de ser demonstrada A existência da certeza é um fato tão evidente que se impõe à nossa inteligência o que se vê não precisa de ser demonstrado Nem pode haver receio de errar porque como diz S Tomás sicut circa ipsum introitum domus qui omnibus patet et primo occurrit nullus decipitur ita etiam in consideratione veritatis In II Met l 1 a Dizem A inteligência não adquire a certeza se não for dotada de aptidão para isso Ora nunca poderá demonstrarse que a inteligência tem essa aptidão porque cometerseia um círculo vicioso dandose como provado o que havia de se provar pois a demonstração supõe e exige a certeza dos princípios de que parte Resposta A objeção contém o sofisma da passagem da ordem real para a ordem lógica É certo que na ordem real ou ontológica primeiramente é a aptidão e depois o ato das nossas faculdades mas é falso que na ordem lógica ou cognoscitiva o conhecimento dessa aptidão deva preceder o ato Assim eu não posso ouvir uma bela melodia se não tiver aptidão para isso mas não é preciso que essa aptidão seja por mim conhecida antes do ato pois conhecese e verificase no próprio ato visto que da existência do ato podemos deduzir a aptidão para o produzir Por isso a aptidão de que a nossa inteligência é dotada para alcançar a certeza deve na ordem real preceder os próprios conhecimentos certos mas não é preciso que os preceda na ordem lógica isto é não é preciso que antes conheçamos essa aptidão e depois alcancemos a certeza 170 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 129 A certeza é proporcionada à inteligência e ao motivo Todo o efeito deve ser proporcionado à causa de que deriva Ora a certeza é um efeito que deriva como de causa adequada da inteligência e do motivo porque é a inteligência que levada pelo motivo adere à verdade e por isso a sua firmeza é mais ou menos intensa conforme a maior ou menor perfeição da sua luz e a maior ou menor eficácia do motivo Logo a certeza é proporcionada à inteligência e ao motivo1 130 A certeza metafísica a física e a moral diferem especi ficamente e uma espécie é superior à outra a Diferem especificamente A certeza é proporcionada também ao motivo e por isso a motivos especificamente distintos correspondem certezas especificamente distintas Ora os motivos da certeza metafísica da física e da moral são especificamente distintos porque o motivo da certeza metafísica é a essência das coisas o da física é a constância das leis b Continuam é impossível averiguar se entre a ordem real e a ideal existe uma ponte um nexo Ora sem a existência dessa ponte desse nexo nunca poderemos estar certos de que uma ordem corresponde à outra Logo devemos admitir não a certeza mas a dúvida universal Resposta A ponte o nexo que une a ordem ideal com a real é a luz do objeto que ilumina a nossa inteligência As duas ordens como vimos e veremos não estão separadas a ordem ideal é a própria ordem real enquanto existe intencionalmente no nosso espírito 1 Na certeza devemos considerar duas coisas o ato da inteligência que é a adesão à verdade conhecida e a firmeza desse ato Ora tanto o ato como a sua firmeza são coisas proporcionadas à perfeição da inteligência e à eficácia do motivo Assim uma inteligência mais elevada mais educada pelo estudo e pela reflexão compreende mais distinta e intimamente a força de um motivo do que uma inteligência menos perfeita e por isso a sua firmeza na adesão a uma verdade será mais intensa Como também na mesma inteligência a adesão à verdade será mais ou menos firme con forme mais ou menos forte for o motivo Assim uma pessoa acredita mais no que ela viu do que no que os outros lhe referem Por isso diz S Tomás Tanto major est certitudo quanto fortius est motivum quod determinationem causat In III Sent Dist 23 q 2 a 2 Todavia a certeza se admite vários graus na sua parte positiva enquanto significa a firme adesão da inteligência à verdade não os admite na sua parte negativa enquanto significa a exclusão de todo o receio de errar Porquanto essa exclusão é um todo indivisível porque é uma negação perfeita não admite graus não podendo haver um meio termo entre o ser e o nãoser 171 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE físicas e o da moral é a constância das leis morais Logo a certeza metafí sica a física e a moral diferem especificamente1 b Uma espécie é superior à outra Sendo a certeza proporcionada ao motivo uma espécie de certeza será superior à outra se o motivo daquela for superior ao desta Ora o motivo da certeza metafísica que é a essência das coisas é superior ao da certeza física que é a constância das leis físicas e o motivo da certeza física é superior ao da certeza moral que é a constância das leis morais Logo a certeza metafísica é superior à física e a certeza física é superior à moral2 1 Sendo a certeza a adesão firme da inteligência à verdade isto é a uma das proposições contraditórias sem receio de que se verifique a oposta conforme a diversa necessidade da conveniência do predicado com o sujeito deve haver diversas espécies de certeza Ora um predicado pode convir ao sujeito ou porque o exige a essência das coisas assim dizemos que o homem é animal racional ou porque o exigem as leis físicas assim dizemos que o fogo queima ou porque o exigem as leis morais assim dizemos que as mães amam seus filhos Daí as três espécies de certeza metafísica física e moral São três espécies e não três graus da mesma espécie Porquanto os atos distinguemse pelo seu objeto formal e por isso a objetos formais especifica mente distintos correspondem atos especificamente distintos Ora sendo os motivos que constituem os objetos formais da certeza metafísica física e moral especificamente certeza metafísica a física e a moral 2 As três espécies de certeza diferem entre si não na parte negativa porque todas três excluem o receio do oposto mas na parte positiva isto é enquanto à firmeza da adesão Esa firmeza é sproporcionada ao motivo e por isso como o motivo é diverso em cada uma delas a firmeza numa espécie de certeza é mais intensa que a firmeza numa outra espécie e assim uma certeza é superior à outra A firmeza na certeza metafísica é mais intensa que a firmeza nas outras duas espécies visto que na certeza metafísica o predicado convém necessariamente ao sujeito pois convém pela exigência da própria essência e essa é necessária e imutável de modo que não é possível exceção A firmeza na certeza física é mais intensa que a na certeza moral porque na certeza física a necessidade da conveniência do predicado com o sujeito fundase na constância das leis físicas que não podem ser suspensas senão pela onipotência de Deus ao passo que na certeza moral a necessidade da conveniência do predicado com o sujeito fundase na constância das leis morais que podem ser violadas pelo livrearbítrio do homem Mas embora as leis físicas possam ser suspensas pela onipotência de Deus e as leis morais possam ser violadas pelo livrearbítrio do homem todavia daí não se segue que a certeza física e a moral não mereçam o nome e a dignidade de verdadeira certeza e que se reduzam à mera probabilidade Com efeito a certeza é a firme adesão da inteligência a uma verdade com a exclusão de todo o receio de errar É claro que quando se fala do receio de errar entendese falar do receio prudente que é próprio das pessoas sérias e que se funda em motivos graves e não do receio imprudente que é 172 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA próprio dos espíritos levianos e que se funda nos delírios de uma imaginação doente Ora a certeza física e a moral excluem todo o receio prudente de errar Porquanto a certeza física fundase nas leis físicas e a moral nas leis morais Ora as leis físicas são constantes e só podem ser suspensas por Deus que só as suspende por motivos graves e em circunstâncias tais que a suspensão pode ser facilmente averiguada Logo uma proposição que se funda nas leis físicas é certa e merece toda a adesão da inteligência enquanto não se provar claramente que se verificou o contrário isto é que se deu a exce ção porque a exceção não se supõem mas deve provarse e até que se não prove não deve ser admitida Assim quando digo este fogo queima a proposição é certíssima e só um louco pode afirmar o contrário Como também constantes são as leis morais porque representam a natural ordenação da natureza humana para o bem e por isso se num caso particular são violadas pela livre vontade humana tal violação se manifesta imediatamente pelas circunstâncias Logo uma proposição que se funda nas leis morais é certa e merece a firme adesão da inteligência até que se não provar com evidência que num caso particular essas leis foram violadas pois ninguém deve ser tido por mau senão depois de se provar a sua maldade Assim quando digo esta mãe ama seus filhos a proposição é certeza até que não se prova o contrário Quando pois se trata da certeza física e da moral embora não repugne o contrário todavia se não há motivos verdadeiramente graves o contrário não deve admitirse e a adesão deve ser e é firme porque exclui todo o receio prudente de errar Concedemos que não repugnando o contrário seja possível o erro Mas nesse caso o erro não se segue per se mas per accidens e a certeza física e a moral não deixam de ter o nome e a realidade de certeza porque uma coisa deve ser avaliada pelo que é per se isto é pela sua natureza e não pelo que é per accidens isto é pelo que lhe pode acontecer por circunstâncias estranhas Muitos escritores não reconhecem senão a certeza metafísica porque dizem a certeza a verdadeira certeza deve excluir todo o receio tanto prudente como impru dente e a possibilidade de todo o erro tanto per se como per accidens Não dividimos essa opinião Todos os homens estão certos firmemente certo de muitas verdades da ordem física e moral não suspeitam do oposto e em conformidade com essa convicção regulam a sua vida Assim todos o estão convencidos de que o fogo queima e não se lançam numa fornalha acesa embora seja por um milagre possível o contrário e de que o abraço da mãe se pode aceitar sem receio de que seja um atentado contra a própria vida embora isso não seja absolutamente impossível Se pois os homens descansam também nas verdades da ordem física e moral essas verdades são tidas como certas Será uma certeza menos perfeita que a metafísica mas é sempre certeza Objetam A certeza física e a moral não existem Porquanto a certeza exclui toda a dúvida Ora a certeza física e a moral não excluem toda a dúvida porque estando as leis físicas e as morais sujeitas a exceções podemos sempre suspeitar que se tenha dado a exceção A resposta está dada mas a repetição não será inútil É falso que a certeza física e a moral não excluem toda a dúvida porque é falso que em cada um dos casos particulares podemos suspeitar que se tenha dado a exceção nas leis físicas e morais Na verdade uma exceção nas leis físicas só pode provir de Deus e como Deus não opera 173 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 131 A certeza sobrenatural é superior a toda a certeza natural A certeza é proporcionada à perfeição da inteligência e à eficácia do motivo Ora a perfeição que a inteligência recebe da luz sobrenatural da Fé é imensamente superior à perfeição que ela recebe da sua luz natural e o motivo em que se funda a certeza sobrenatural e que é a autoridade divina sendo infalível é imensamente mais firme que todo o motivo em que se funda a certeza natural Logo a certeza sobrenatural é superior a toda a certeza natural1 caprichosamente se não houver uma razão séria para fundamentar a exceção a essas leis num determinado caso toda suspeita acerca dessa exceção é infundada Como também uma exceção às leis morais deriva do abuso da liberdade por isso se não houver uma razão que demonstre esse abuso toda a suspeita é irracional Embora pois uma exceção seja possível em abstrato todavia podemos saber com a certeza que num caso concreto não se realizou e isto basta para que o espírito adira firmemente à verdade sem receio de errar Repetimos que a possibilidade da exceção se prova que a certeza física e a moral não são tão perfeitas como a metafísica não tira àquelas duas espécies a essência da certeza Agora uma advertência A certeza física e a moral não podem exprimirse pelas seguintes fórmulas se Deus não suspende as leis físicas este fogo queima se as leis morais não são violadas esta mãe ama seus filhos A razão é clara Sendo intrínseco e essencial o nexo entre a condição e o condicionado essas fórmulas não exprimem a certeza física e a moral mas a metafísica Essas duas espécies de certeza física e moral devem exprimirse pelas seguintes fórmulas esse fogo queima esta mãe ama seus filhos Porquanto supõese nesses casos e com razão que as leis física e moral seguem o seu curso ordinário não havendo razões graves para se admitir o contrário 1 A proposição é apenas uma conseqüência dos princípios expostos nos núme ros antecedentes Devemos porém fazer uma importante distinção Se por certeza se entende a firmeza da adesão à verdade então a inteligência adere muito mais fir memente às verdades da Fé divina do que às verdades da ciência porque o motivo em que se funda a Fé sendo infalível é mais forte que o motivo em que se funda a ciência Mas se por certeza se entende o descanso da inteligência na verdade conhecida então embora a adesão às verdades da Fé seja mais firme do que a adesão às verdades da ciência contudo o descanso da inteligência é maior nas verdade da razão do que nas da Fé porque a adesão às verdades da razão é determinada pela verdade das coisas que se manifesta evidentemente à própria inteligência ao passo que a adesão às verdades da Fé é determinada pela vontade que move e inclina a inteligência a aderir a uma verdade que se não vê isto é em que se não vê o nexo entre o predicado e o sujeito Daqui se segue que se nas verdades da ciências evidentemente conhecidas a adesão da inteligência é necessária e a dúvida é impossível nas verdade da Fé a adesão é livre e um movimento indeliberado de dúvida pode levantarse no espírito do crente Cf De Ver q 10 a 12 ad 6 Lembramos que à firmeza da adesão não se opõe o movimento indeliberado de dúvida mas só a dúvida deliberada 174 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ARTIGO III A existência da certeza e o Ceticismo 132 Ceticismo Ceticismo é o sistema que negando a legi timidade dos meios de adquirir a certeza nega a existência da mesma certeza e considera a dúvida como o resultado definitivo da ciência e como o estado normal espírito humano1 133 Divisão do Ceticismo O Ceticismo dividese em universal e particular Universal é o que negando a legitimidade de todos os meios de adquirir a certeza sustenta que nada é certo e que por isso se deve duvidar de tudo Particular é o que negando a legitimidade de um ou outro meio de adquirir a certeza diz que se deve duvidar de uma 1 É muito antiga a divisão dos filósofos em dogmáticos e céticos Os dogmáticos sustentavam que o homem pode alcançar um conhecimento certo de todas as coisas os céticos pelo contrário ensinavam que o homem não pode alcançar a certeza de coisa alguma Ambos erravam como diz S Tomás L II Post l 7 Mas se o erro dos dogmáticos era grave o dos céticos era gravíssimo Fundador do Ceticismo foi Pirro de Elide 360270 a C da escola de Aristóteles e de Epicuro seguido por Timão de Philunte 325235 a C por Sexto Empírico 200 a C por Enesidemo de Creta fl 8060 a C e por outros que foram chamados pirrônicos Diziam eles que só vemos as aparências das coisas e não a realidade que toda a proposição pode ser defendida e opugnada por argumentos de igual peso e valor que não podemos afirmar nem negar a possibilidade de alcançar a certeza e que por isso é preciso suspender todo o juízo e contentarse com a dúvida Essa suspensão foi chamada observação e os pirrônicos foram denominados observadores Os pirrô nicos foram seguidos e excedidos pelos acadêmicos sequazes de Arcesilau de Eólia 315 a C Esses negavam expressamente a possibilidade de alcançar a certeza e por isso ensinavam que em todas as coisas é necessário suspender o assenso certo e contentarse com o assenso provável Como se vê a diferença entre os pirrônicos e os acadêmicos não é sensível porque no fundo todos negam a possibilidade de adquirir a certeza A opinião de uns e de outros teve o nome comum de Ceticismo significandose com essa palavra o sistema dos que afirmam que nada pode ser conhecido com certeza e que por isso se deve duvidar de tudo Também esse erro apesar de tão grosseiro foi ressuscitado de um modo total ou parcial nestes últimos séculos pelos que não aceitam a luz do Evangelho e desprezam a sapiência da Escolástica São conhecidos os nomes de Migual de Montaigne 15331592 de Pedro Charron 15411603 de Francisco Sanches 15621632 de Pedro Bayle 16471706 de David Hume 17111776 e do célebre Immanuel Kant 17241804 com a turba toda dos subjetivistas modernistas etc 175 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE ou outra espécie de verdades relativa a esse meio Reservando para mais tarde a crítica do Ceticismo particular aqui tratamos do universal1 134 O Ceticismo universal é naturalmente absurdo a Uma opinião é naturalmente absurda quando repugna à natu reza Ora o Ceticismo universal repugna à natureza pois essa pelo seu próprio peso determina a inteligência a aderir firmemente a verdades tanto da ordem ideal como da real dotadas de evidência imediata de modo que toda a dúvida se torna absolutamente impossível Logo o Ceticismo universal é naturalmente absurdo2 b Uma opinião é naturalmente absurda quando não pode ser traduzida na prática embora se refira à prática Ora tal é o Ceticismo universal porque ninguém pode operar se não está certo de que existe de que é dotado de faculdades operativas de que existem na realidade algumas coisas em que possa exercer a sua atividade etc Logo o Ceticismo universal é naturalmente absurdo3 135 O Ceticismo universal é teoricamente absurdo a Toda a opinião que envolve contradições é teoricamente absurda Ora o Ceticismo universal envolve muitas contradições Com efeito os céticos quando proclamam este princípio deve duvidarse de tudo ou o 1 O ceticismo particular toma diversos nomes conforme a diversidade dos meios cuja legitimidade se contesta Chamase a positivismo ou empirismo se nega a legitimidade da inteligência e só aceita o que pode ser percebido pela experiência externa b idealismo se não admite o testemunho dos sentidos c racionalismo se nega a autoridade da Revelação sobrenatural d fideísmo se contesta o valor da razão e só admite como certo o que foi revelado e ceticismo histórico se não aceita o testemunho dos homens 2 Com razão diz Pascal Duvidará o homem de tudo Duvidará de que duvida Duvidará de que existe É impossível que se chegue a estes extremos e penso que nunca houve efetivamente um pirrônico perfeito A própria natureza sustenta a razão impotente e não a deixa delirar até esse ponto Pensées c IV par 25 3 S Tomás nota essa impossibilidade de operar em que se encontra um cético se quiser ser coerente com a sua opinião e a contradição em que pode cair e cai realmente na vida prática Metaf l XI l 6 É curioso o seguinte fato da vida de Pirro Querendo conformar a prática com a teoria prometeu que daí por diante não evitaria o encontro dos cavalos dos carros etc Um dia vendo ao longe um cão danado que vinha ao seu encontro Pirro deitou a fugir e aos discípulos que lhe censuravam a incoerência respondeu É difícil despirse da natureza Difficile est naturam exuere 176 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA reconhecem como verdade ou como falso ou como duvidoso Se o reco nhecem como verdadeiro então é certo para eles que se deve duvidar de tudo se o reconhecem como falso também é certo para eles que não se deve duvidar de tudo se o reconhecem como duvidoso também nesse caso é certo para eles que duvidam desse princípio Logo o Ceticismo universal é teoricamente absurdo1 b Uma opinião é teoricamente absurda quando os seus defensores afirmam com os fatos o que negam com as palavras É o que acontece com os defensores do Ceticismo universal De fato os céticos na defesa da sua opinião empregam o raciocínio afirmam que os sentidos e a razão se enganam distinguem a verdade da falsidade a dúvida da certeza a afirmação da negação Sendo assim eles admitem como certo que o raciocínio pode levar à consecução da verdade que são dotados de faculdades perceptivas que existem e duvidam que alguma coisa existe na realidade que o princípio de contradição é verdadeiro etc Logo o Ceticismo universal é teoricamente absurdo2 1 S Agostinho deduz de existência da dúvida a existência da certeza com as seguintes palavras Regulam ipsam quam vides concipe hoc modo omnis qui se dubitantem intelligit verum intelligit et de hac re quam intelligit certus est de vero igitur certus est Omnis igitur qui utrum sit veritas dubitat in se ipso habet verum unde non dubitet nec ullum verum nisi in veritate verum est Non itaque oportet eum de veritate dubitare qui potuit undecumque dubitare De vera religione c 36 n 75 2 E para limitar a esfera da demonstração diremos que a pretendida exis tência da dúvida universal é a destruição do Ceticismo universal Porquanto como sabem os céticos que se deve duvidar de tudo e que realmente duvidam de tudo Pelo testemunho da consciência Logo eles têm por certa o testemunho da consciência e assim renegam o seu sistema Se disserem que duvidam também do testemunho da consciência renegam igualmente o seu sistema porque senão é certo o que a consciência refere nem é certo que existe a dúvida Objetam devemos evitar todos os erros Ora só quem duvida de tudo evita todos os erros Logo deve seguirse o Ceticismo universal Resposta É verdade que devemos evitar com todo o empenho todos os erros mas é falso que evita todos os erros quem duvida de tudo A dúvida universal é o máximo dos erros é a fonte de todos os erros O argumento dos céticos é seme lhante a este quem nada come está seguro de não ser envenenado logo devemos rejeitar todo o alimento É prudência não aderir a coisas duvidosas que não têm solido fundamento mas é pertinácia duvidar de coisas evidentes Diremos com S Agostinho Miserabilius enim fallitur qui nunquam putat facultatibus cognoscitivis esse credendum quam qui illis credendo nonnumquam fallitur De civ Dei l 19 c 18 177 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 136 Conseqüências do Ceticismo universal As conse qüências desta opinião não poderiam ser mais perniciosas A negação da certeza é a destruição da ordem religiosa moral e social É a des truição da ordem religiosa porque não admite a autoridade divina que é certíssima nem as verdades reveladas que são infalíveis É a destruição da ordem moral porque não é possível a honestidade da vida quando se duvida dos primeiros princípios da moralidade e dos primeiros preceitos da lei natural É a destruição da ordem social porque quando se duvida do princípio da autoridade dos direitos e deveres etc falta à sociedade o verdadeiro e essencial fundamento1 ARTIGO IV Universal e supremo motivo da certeza 137 Motivo da certeza Motivo da certeza é a razão que determina a inteligência a aderir firmemente à verdade Esse motivo deve existir porque a certeza é um efeito e todo o efeito exige uma causa proporcionada2 138 Espécies do motivo da certeza O motivo da certeza é a intrínseco e extrínseco b universal e particular c supremo e próximo a Motivo intrínseco e extrínseco É intrínseco quando a razão que determina a inteligência a aderir à verdade re side na própria verdade ou no objeto É extrínseco quando essa razão reside não na verdade ou no objeto mas na testemunha que nos refere uma verdade3 1 Essas conseqüências são evidentemente legítimas A quem objetasse que o Ceticismo só se refere aos conhecimentos da ordem natural e por isso não pode destruir a nossa Fé responderíamos que a nossa Fé não é possível se não se admitem como certas muitas verdades da ordem natural como são a existência de Deus a sua autoridade o fato da Revelação divina etc e que por isso a destruição da ordem natural traz consigo a destruição da ordem sobrenatural 2 O motivo da certeza deve existir necessariamente A nossa inteligência sendo uma faculdade cognoscitiva não pode aderir firmemente a uma verdade sem uma razão sem um motivo Uma adesão firme determi nada pelo instinto cego da natu reza repugna à índole e à nobreza da in teligência O motivo deve poder explicar suficientemente o efeito que ele produz e que é a própria certeza 3 Que o motivo da certeza possa ser e seja intrínseco e extrínseco à verdade 178 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Motivo universal e particular É universal quando é comum a todas as verdades às quais adere a inteligência É particular quando é próprio de uma só espécie ou de uma só ordem de verdades1 c Motivo supremo e próximo É supremo quando não depende de outro e é a razão última que nos determina a aderir à verdade É próximo quando depende de um mo tivo superior e nele finalmente se resolve2 139 O motivo da certeza é a evidência do objeto3 a O motivo da certeza é a razão que determina a inteligência a deduzse da existência de uma dúplice ordem de verdades que são as verdades da ciência e as verdades da fé Nas verdades da ciência a inteligência não adere senão por um motivo intrínseco à própria verdade por uma razão que se encontra no próprio objeto e que conhecida pela mesma inteligência determina essa faculdade a aderir Nas verdades da fé a inteligência adere à verdade por um motivo que é extrínseco à pró pria verdade e que reside na pessoa que nola refere ou ensina 1 O motivo universal e o particular não se excluem mutuamente mas um é compatível com o outro como o superior é compatível com o inferior Cada espécie de certeza tem o seu motivo particular Todavia esses motivos particulares devem ter uma nota comum e essa nota como veremos consiste na evidência objetiva 2 Todos os entes como dissemos têm várias e diversas causas de que constam ou de que dependem e que por isso são intrínsecas ou extrínsecas Umas e outras são próximas ou supremas remotas As causas próximas referemse às supremas em que acham a sua base e a sua expli cação Como as causas conhecidas por nós são motivos da nossa certeza assim esses motivos distinguemse em próximos e supremos 3 Expliquemos a natureza e as espécies da evidência a Evidência Evidência é a clara manifestação do objeto ou da verdade Por quanto todos dizem que um objeto é evidente quando se mani festa claramente à faculdade perceptiva de modo que atua nela e a deter mina a percebêlo como é em si mesmo Illa videri dicuntur quae per se ipsa movent intellectum nostrum vel sensum ad sui cognitionem Sum Th IIII q 1 a 4 Um objeto para que se torne evidente ou visível à inteligência deve ser cercado por uma luz ou claridade conveniente como deve ser iluminado um objeto material para que possa ser percebido pelos nossos olhos Essa luz ou claridade é coisa própria da inteligência e da inteligência irradia para os objetos e os torna visíveis porque a inteligência dotada como é de uma energia espiritual abstrai dos fantasmas as imagens ou espécies imateriais que representam os objetos e em que e porque eles são claramente perceptíveis e percebi dos Portanto o fenômeno completo da evidência como o da visão externa abrange três coisas o objeto a sua visibilidade e a sua manifestação à faculdade per ceptiva O objeto e a sua visibilidade constituem o elemento material da evidência o objeto é o elemento remoto a sua visibilidade é o elemento próximo a manifestação é o elemento formal 179 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE aderir à verdade Ora a razão que determina a inteligência a aderir à verdade é a evidência do objeto isto é a clara manifestação do objeto porque toda a faculdade é deter minada ao ato pelo seu objeto e por isso quando esse objeto lhe se manifesta claramente ela não pode ser indiferente mas levada pela sua própria natureza deve aderir com firmeza ao mesmo objeto e descansar nele Logo o motivo da certeza é a evidência do objeto1 b Espécies de evidência A evidência pode ser a objetiva e subjetiva b intrínseca e extrínseca c imediata e mediata a Evidência objetiva e subjetiva A objetiva é o objeto enquanto iluminado pela inteligência a esta se manifesta claramente A subjetiva é a clara percepção do objeto ou da verdade que se torna presente à inteligência A evidência é uma coisa propriamente objetiva pois é uma qua lidade do objeto cognoscível embora deva tornarse de algum modo subjetiva porque se o objeto não se manifesta claramente à inteligência esta não pode dar a própria adesão A evidência objetiva é de várias espécies Porquanto sendo uma qualidade do objeto ou da verdade essa evidência é metafísica física e moral conforme o objeto ou a verdade se funda na ordem metafísica na física ou na moral A evidência subjetiva admite vários graus na mesma espécie conforme a maior ou menor perspi cácia e aplicação da própria inteligência b Evidência intrínseca e extrínseca São duas espécies da evidência objetiva A intrínseca é própria do motivo intrínseco da certeza e reveste a própria verdade ou o objeto tal é a evidência das verdades da ciência A extrínseca é própria do motivo extrínseco da certeza e reveste a autoridade que atesta uma verdade tal é a evidência das verdades da fé tanto sobrenatural como natural Por isso quando a evidência é intrínseca vêse claramente o nexo entre o sujeito e o predicado quando é extrínseca não aparece esse nexo mas aparece a autoridade de quem atesta uma coisa A evidência intrínseca torna a verdade evidente a extrínseca torna a verdade evidentemente crível Advirtase que a evidência extrínseca é tal com relação à verdade a qual por isso se chama e é evidente extrinsecamente porque com relação à própria autoridade é intrínseca c Evidência imediata e mediata São duas espécies da evidência intrínseca É imediata quando a verdade se manifesta pela simples análise dos termos como nos princípios da razão p ex o todo é maior que uma parte ou pelo testemunho dos sentidos como nos fatos experimentais p ex o sol resplandece É mediata quando a verdade se manifesta não por si mesma mas pela luz dos princípios imediata mente eviden tes em que está contida e de que é deduzida pelo raciocínio como nas con clusões p ex a alma humana é imortal Mas tanto num como no outro caso a evidência manifesta a própria entidade da verdade ou do objeto 1 A nossa inteligência sendo por si indiferente para a percepção de inu meráveis objetos não pode perceber um certo objeto se este não lhe se manifesta convenientemente e não a determina ao ato Essa manifesta ção e determinação são absolutamente necessárias Mas depois de o objeto se manifestar e determinar a 180 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA inteligência esta não pode permanecer indiferente mas necessariamente deve perceber o objeto e aderir a ele com firmeza Exigeo a própria natureza da faculdade cognos citiva Se assim não fosse se a faculdade pudesse permanecer indiferente perante a ação do objeto deveríamos dizer que a faculdade não foi feita para o seu objeto isto é que a faculdade não é faculdade o que repugna Mais tarde explicaremos o modo porque o objeto atua na inteligência e a deter mina à percepção Limitamonos agora a dizer que não é possível o conhecimento se o objeto cognoscível não se une com a faculdade cogni tiva O objeto externo penetra no órgão animado do sujeito não pela sua substância porque o corpo é impenetrável mas pela sua ação física porque a ação do agente se encontra no paciente Ora esta ação é a expres são mais ou menos adequada da natureza do objeto porque o efeito é semelhante à própria causa O sujeito adverte e percebe por intuição ou de um modo imediato essa ação estranha que atua nele e o penetra e percebendo a ação percebe o próprio agente o próprio objeto externo Assim o objeto se torna manifesto e visível pela sua ação à faculdade perceptiva e o sujeito por tal evidência objetiva está tão certo da exis tência do objeto externo como está certo da existência própria O objeto sensível tem dois aspectos Um aspecto é físico e exterior e este cai sob a intuição dos sentidos outro é imaterial e interior e este cai sob a intuição da inteligência Este aspecto imaterial e interior dos objetos sensíveis é representado por uma imagem espiritual e é nessa e por essa imagem que a inteligência vê o objeto e a ele adere com firmeza Dizemos que a inteligência deve necessariamente aderir ao objeto ou à verdade quando esta lhe se torna visível ou evidente Mas há uma dúplice necessidade de especificação e de exercício A necessidade é de espe cificação quando uma faculdade é por tal modo determinada a produzir um certo ato que não pode produzir um ato diverso ou contrário assim a vontade dos bemaventurados ama necessariamente Deus e é impossível que o odeie A necessidade é de exercício quando uma faculdade é por tal modo determinada a produzir o ato que não pode deixar de o produzir assim os nossos olhos quando são bem dispostos e convenientemente aplicados não podem deixar de perceber um objeto presente A esta dúplice neces sidade corresponde em sentido oposto uma dúplice indiferença ou liber dade que também se chama de especificação e de exercício Feita essa distinção perguntase a necessidade em que se acha a inteligência de aderir a um objeto ou a uma verdade que se torna evidente é uma necessidade de especificação ou também de exercício A essa pergunta damos a seguinte resposta a O objeto ou a verdade quando se torna evidente determina por tal modo a adesão da inteligência que esta não pode aderir à proposi ção contrária É a neces sidade enquanto à especificação do ato A conclusão é certíssima Toda a faculdade como dissemos deve necessariamente aderir ao bem para o qual tende e que lhe se manifesta convenientemente Ora o bem da inteligência é a verdade e por isso quando esta se torna evidente a inteligência não pode deixar de aderir a ela e de rejeitar a proposição contrária Além disso se a inteligência pudesse deixar de aderir 181 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a uma proposição evidentemente verdadeira não haveria repugnância alguma em que ela pudesse aderir a uma proposição evidentemente falsa porque na hipótese admitirseia a liberdade ou indiferença de especificação a qual diz respeito a atos opostos e a adesão a uma proposição evidentemente falsa é um ato oposto à adesão a uma proposição evidentemente verda deira Ora é impossível que a inteligência adira a uma proposição eviden temente falsa Por quanto a falsidade é um mal da inteligência e quando é evidente é um mal total sem alguma aparência de bem Ora nenhuma faculdade pode aderir ao seu mal total aliás seria naturalmente viciada e o vício atribuirseia ao próprio Autor da natureza Concluímos que assim como a vontade não pode deixar de aderir a um bem que não tem aparência alguma de mal assim também a inteligência não pode deixar de aderir a uma verdade quando não tem aparência alguma de falsidade isto é quando se torna visível ou evidente S Thom De malo q 6 a un ad 10 b O objeto ou a verdade quando se torna evidente determina por tal modo a inteligência a produzir o ato que este não pode ser impedido diretamente pela von tade embora o possa ser indiretamente Uma facul dade impede diretamente uma outra quando a primeira não deixa operar a segunda embora esta por si possua todos os requisitos necessários para o ato Uma faculdade impede indiretamente uma outra quando esta não possui um requisito necessário para o ato e tal falta depende da influ ência da primeira faculdade A proposição pode desdobrarse nas duas seguintes a A produção do ato da inteligência não pode ser impedida diretamente pela vontade Por quanto a consciência atesta que a inteligência não pode deixar de aderir à verdade quando esta lhe se toma evidente seja qual for o esforço da vontade para obstar a essa adesão E não podia ser de outro modo Quando a inteligência adere a uma verdade evidente nenhum dos elementos que concorrem para este ato e que são a inteligência o objeto a evidência do objeto a união do objeto com a facul dade está sujeito ao domínio direto da vontade Portanto a vontade assim como não pode obstar a que os olhos vejam um objeto quando este se acha presente e aqueles estão bem dispostos e convenientemente aplica dos assim também não pode obstar a que a inteligência adira a uma verdade quando esta lhe se torna evidente b A produção do ato da inteligência pode ser impedida indiretamente pela vontade Dáse este fenômeno quando à inteligência falta pela influência da vontade um ou outro requisito necessário para o ato Assim se a inteligência pela imposição da vontade distrai de uma verdade a sua atenção não pode dar a própria adesão embora a verdade seja por si evidente assim como se a vontade impõe aos olhos que se fechem estes não poderão perceber um objeto embora presente e lumi noso porque então falta um requisito essencial para o ato qual é a aplicação da faculdade ao seu objeto Notamos que se a verdade não é ou não aparece evidente a inteligência não sendo determinada necessa riamente pelo objeto pode ser impedida no exercício do seu ato pela vontade como pode ser determinada por ela o que se verifica com rela ção às verdades prováveis que não são perfeitamente evidentes às verdades da fé quer humana quer divina que não são dotadas de evidência intrínseca Sum Th III q 17 a 6 De Ver q 14 a 1 182 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A verdade à qual a inteligência adere ou pode aderir ou é percebida por nós ou é atestada por outrem Ora em ambas as hipóteses o motivo da certeza é a evidência do objeto É a evidência do objeto quando a verdade percebida por nós é necessária porque a inteligência não une um predicado a um sujeito senão quando vê de um modo imediato ou mediato que um convém ao outro É a evidência do objeto quando a verdade percebida por nós é contingente porque não admitimos um fato ou um objeto senão porque esse fato ou esse objeto se revelou claramente às respectivas fa culdades perceptivas É a evidência do objeto quando a verdade é atestada por outrem porque não se admite essa verdade senão enquanto se torna evidente pela evidência da auto ridade Logo o motivo da certeza é a evidência do objeto1 1 A proposição menor pode ser mais desenvolvida A verdade ne cessária pode ser um princípio de razão como todo o efeito exige uma causa ou uma conclusão como a alma humana é imortal Se é um princípio de razão a inteligência adere firmemente a essa verdade porque a conveniência do predicado com o sujeito lhe se mostra com uma evidência imediata e própria Se é uma conclusão a inteligên cia não adere a ela se não depois de lhe constar uma dúplice evidência a evidência das premissas nas quais a conclusão se resolve e a evidência do nexo lógico entre as premissas e a conclusão Por isso é sempre a evidência embora mediato que leva a inteligência a aderir a uma conclusão Diz S Tomás Assentit intellectus alicui dupliciter uno modo quia ad hoc movetur ab ipso objecto quod est vel per se cognitum sicut patet in principiis primis vel per aliud cognitum sicut patet de conclusionibus Sum Th IIII q 1 a 4 Se a verdade é contingente é também a evidência do objeto que nos determina à adesão Porque estamos nós certos de que o mundo existe e o sol resplandece Porque esses objetos são evidentes para os nos sos olhos Diz S Tomás Similiter determinatur judicium sensitivae partis ex hoc quod sensibile subjacet sensui In I Sent Dist 23 q 2 a 2 Se a verdade é atestada por outrem é sempre a evidência ainda que extrínseca que determinada adesão da inte ligência porque não acreditamos numa coisa referida por outrem se não é evidente a autoridade da testemunha Como porém só a evidência intrínseca determina necessariamente a inteligência à adesão a mesma inteligência quando se trata de verdades de fé ou dotadas apenas de evidência extrínseca pode sofrer a influência da von tade e esta pode obstar a que a inteligência pratique o ato ou pode determinála a aderir a uma das duas proposições contraditórias Continua o S Doutor Alio modo intellectus assentit alicui non quia sufficienter moveatur ab objecto proprio sed per quamdam electionem voluntatis declinans in unam partem magis quam aliam Et si hoc sit cum certitudine absque tormidine alterius partis erit fides Sum Th IIII q 1 a 4 Concluímos com S Tomás que a evidência objetiva é o fundamento o verdadeiro motivo da nossa certeza Certitudo quae est in scientia et intellectu est ex ipsa evidentia eorum quae certa esse dicuntur In I Sent 1 c 183 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 140 A adesão causada pela evidência do objeto é infalível a A adesão causada pela evidência do objeto será infalível se tudo o que é evidente for necessariamente verdadeiro porque então não é possível o erro Ora efetivamente tudo o que é evidente é necessa riamente verdadeiro porque a evidência objetiva é a própria verdade enquanto se manifesta claramente à inteligência ou por outras palavras é a própria conformidade do pensamento com o objeto Logo a adesão causada pela evidência do objeto é infalível1 1 A evidência senão um fenômeno objetivo e subjetivo é o próprio objeto é a própria verdade enquanto se manifesta claramente à inteligência Ora desde que um objeto se manifesta claramente à inteligência essa percebe imediatamente o objeto como se manifesta isto é como é em si mesmo e por isso achase necessaria mente conforme com ele Um erro na percepção do objeto evidente não é possível a não ser que se admita um destes dois absurdos ou que o objeto que se manifesta claramente não se manifesta tal qual é em si mesmo ou que a faculdade não é capaz de perceber o objeto próprio quando este lhe se manifesta convenientemente Além disso sendo um ditame de senso comum que tudo o que é evidente é verdade porque todos apelam para a evidência como para a prova infalível da verdade se a evidência pudesse estar unida com a falsidade a inteligência seria fatalmente arrastada para a mesma falsidade o que importa a destruição da mais nobre das nossas faculdades Portanto a evidência está por tal modo unida com a verdade que aquela não pode estar sem esta embora a verdade possa estar sem a evidência intrínseca o que se verifica nas verdades da fé Daí se segue que este princípio o que é evidente é verdade é analítico Com efeito um princípio é analítico quando a conveniência entre o predicado e o sujeito se percebe pela simples análise dos termos Ora entre estes dois termos evidente e verdade existe a máxima conve niência porque evidente significa que o objeto aparece à inteligência e é percebido como é em si mesmo e verdade significa que o objeto é na inteligência como é em si mesmo Logo esse princípio é analítico Balmes filósofo espanhol diz Phil fund l I 2 22 que esse princípio o que é evidente é verdade embora certíssimo não é evidente não é analítico porque a análise não pode por si descobrir se uma idéia embora clara corresponde ou não ao objeto sendo necessário para isso transpor um abismo qual é a passagem do subjetivo para o objetivo Como se vê esse escritor parte de um princípio falso E o princípio falso é que a evidência seja uma idéia completamente subjetiva Ora a evidência é também e sobretudo objetiva porque é o próprio objeto enquanto se manifesta claramente à inteligência é a própria conformidade da idéia com o objeto percebido diretamente por uma intuição clara e imediata Por isso o que é evidente é conforme com a realidade ou é a própria realidade enquanto é percebida pela inteligência Estes e outros equívocos nascem de um grande erro comum aos subjetivistas de todas as raças que negam à faculdade perceptiva a possibilidade de apreender direta e imediatamente o próprio objeto existente na realidade 184 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A adesão causada pela evidência do objeto pode re ferirse ou a uma verdade necessária ou a uma verdade contingente ou a uma verdade de fé Ora seja qual for a espécie de verdades a que se refere a adesão é sempre infalível É infalível quando a verdade é necessária porque neste caso a inteligência vê de um modo imediato ou mediato que o predicado convém essencialmente ao sujeito e porque vê essa conveniência é impossível que se engane É infalível quando a verdade é contingente porque quando o objeto se manifesta evidentemente às faculdades perceptivas estas esta vam bem dispostas e convenientemente aplicadas e por isso não é possível o erro É infalível quando a verdade é de fé porque quando a autoridade da testemunha é evidente é sinal de que a mesma testemunha é dotada de ciência e de veracidade o que é suficiente para excluir todo o receio de errar Logo a adesão à verdade causada pela evidência do objeto é infalível1 1 Este argumento será mais desenvolvido e corroborado no capítulo seguinte quando tratarmos dos meios para a consecução da verdade A evidência portanto está sempre e necessariamente unida com a ver dade Não há nem pode haver uma evidência verdadeira e uma evidência falsa O que pode haver o que há é a evidência real e a evidência tida como tal quando o não é Muitas vezes um escritor proclama evidente um juízo seu que não é realmente evidente Deriva isso da leviandade dos prejuízos das paixões e sempre do império da vontade a qual quer que haja evidência onde não há A evidência não se demonstra porque é a visibilidade do que é e o que se vê ou o que torna visível uma coisa não precisa de ser demonstrado Mas a evidência se não se demonstra exa minase porque a verdade não é visível à nossa inteligência como um objeto externo é visível aos nossos olhos O exame deve referirse a à existência da evidência b à sua localização c à sua extensão a Quanto à existência devemos advertir que a evidência sendo uma luz tem como a luz do dia vários graus é mais ou menos brilhante e que assim como não é possível determinar exatamente o momento em que termina a noite e principia o dia assim também não é possível determinar o grau de clareza necessá rio para constituir a verdadeira evidência Portanto há também evidências incertas e duvidosas Nestes casos é preciso evitar a precipitação nos juízos para que não se diga certamente evidente o que o é apenas provavelmente Quando porém a evidência é plena completa claríssima como a luz do meiodia ela é o verdadeiro motivo o fundamento inabalável da certeza e da infalibilidade dos nossos juízos b Quanto à localização devemos examinar se a evidência é intrínse ca ou extrínseca isto é se o objeto que se diz evidente está dentro ou fora de nós A evidência intrínseca só mostra uma existência intrínseca e a evidência extrínseca só mostra uma existência extrínseca É pois errôneo concluir de uma evidência 185 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 141 A evidência do objeto é o universal e supremo mo tivo da certeza a É o motivo universal da certeza Motivo universal da certeza é a razão comum a todas as verdades isto é é a razão pela qual aderimos a todas as verdades seja qual for a sua espécie ou ordem Ora essa razão comum é a evidência do objeto porque como atesta a consciência não podemos aderir e não aderimos a nenhuma verdade senão porque o seu objeto se manifesta evidentemente à faculdade perceptiva Logo a evidência do objeto é o motivo universal da certeza1 intrínseca para uma existência extrínseca O alucinado que ainda está na posse de si mesmo tem ao mesmo tempo a evidência extrínseca da sua visão normal pela qual percebe um objeto externo e a evidência intrínseca da sua visão anormal pela qual perce be os fantasmas da sua imaginação alterada Ambas estas evidências são verdadeiras O essencial é que o alucinado não atribua uma existência extrínseca a tais fantasmas que só têm uma existência intrínseca Este exame acerca da loca lização da evidência se é possível quando o sujeito se acha no seu estado normal na posse de si mesmo é impossível quando ele se acha num estado anormal p ex no sonho ou na loucura porque então o sujeito é vítima não de uma falsa evidência extrínseca porque a evidência extrínseca nestes casos não existe mas do falso hábito inato ou adquirido de julgar como existente na realidade uma coisa que só existe na própria imaginação c Quanto à extensão é preciso examinar se o objeto que se diz evidente é simples ou complexo Quando é complexo devemos averiguar se cada uma das partes de que se compõe é dotada ou não de evidência No caso negativo é um grande erro atribuir a um objeto complexo uma evidência total quando é apenas parcial Um pequeno erro a mínima pro babilidade que se introduza na série dos nossos raciocí nios basta para tornar falsa ou obscura a conclusão Mas então a falta não deve atribuirse à evidência mas à nossa ignorância e à limitação da inteligência humana que não pode abraçar com um só relance uma questão complexa É para auxiliar a inteligência nas investigações e levála à descoberta da evidência que a Lógica prescreve as suas regras 1 Se a evidência do objeto é o motivo universal da certeza seguese que ele deve necessariamente aplicarse a todas as ordens de verdades De fato a evidência extrínseca é o motivo necessário e suficiente para a inteligência aderir às verdades da fé ou da ordem moral e a evidência intrínseca é o motivo necessário e suficiente para aderir às verdades necessárias e contingentes ou da ordem metafísica e física Advirtase porém que sendo diverso o objeto que se diz evidente con forme a diversidade das verdades diversa também é a evidência própria de cada ordem das mesmas verdades A evidência que é própria das verdades da ordem metafísica é diversa da evidência que é própria das verdades da ordem física e da ordem moral Daí a tríplice espécie da evidência metafísica física e moral E isso é muito razoável 186 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b É o motivo supremo da certeza Motivo supremo da certeza é o que não depende de outro e é a razão última que nos determina a aderir à verdade Ora tal é a evidência do objeto porque não aderimos à verdade senão quando o seu objeto se torna evidente e depois de se tornar evidente não procuramos outro motivo para aderir e para essa evidência apelamos como para a razão última da nossa adesão Logo a evidência do objeto é o motivo supremo da certeza1 142 A evidência do objeto é percebida pela inteligência por diversos meios A evidência do objeto é percebida ex clusivamente pela inteligência mas essa percepção fazse por diversos meios conforme A evidência é uma qualidade que se refere à própria entidade da verdade e toda a qualidade que se refere à entidade de um sujeito é diversa conforme a diversidade do próprio sujeito Deste modo cada espécie de evidência se torna motivo de certeza próprio de cada ordem de verdades Assim a evidência metafísica é o motivo de certeza próprio das verdades da ordem metafísica a evidência física é o motivo de certeza próprio das verdades da ordem física e a evidência moral é o motivo de certeza próprio das ver dades da ordem moral De onde se vê a diferença entre o motivo univer sal e o motivo particular da certeza O motivo universal é a evidência objetiva isto é que reside no objeto em geral O motivo particular é a evidência que reside no objeto particular isto é na verdade de uma certa espécie Por isso o motivo particular da certeza metafísica é a evidência objetiva da essência das coisas o da certeza física é a evidência objetiva da constância das leis físicas o da certeza moral é a evidência objetiva da constância das leis morais ou da autoridade A evidência objetiva é o gênero a evidência objetiva da essência das coisas a da constância das leis físicas e das leis morais são espécies A espécie deve conter o gênero 1 A evidência objetiva pois é o motivo supremo da certeza porque é a razão necessária e suficiente para a inteligência aderir à verdade porque nenhuma outra razão é mais eficaz do que essa evidência porque todas as outras razões fundamse e resolvemse na evidência Dizem podendo a evidência ser real ou aparente deve admitirse um outro motivo superior que sirva para discriminar uma de outra Logo a evidência não é motivo supremo da certeza Resposta É certo que para discriminar a certeza real da aparente é necessário um motivo Este motivo porém não é uma coisa distinta da evidência mas é a própria evidência a qual manifesta por si a própria presença quando é real ou a própria ausência quando é apenas aparente Com efeito a evidência é luz ora a luz manifes tase por si mesma quando é presente e quando não é presente manifestase pela sua ausência pelas trevas Por isso a evidência aparente não é verdadeira evidência e basta uma simples reflexão desapaixonada para averiguar que ela é apenas apa rente ao passo que a evidência real se mostra tanto mais pura e brilhante quanto mais intensa for a reflexão nos motivos da adesão 187 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE a diversa índole do objeto Se o objeto é constituído por verdades necessárias o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a análise de onde a certeza metafísica Se o objeto é consti tuído por verdades contingentes o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a experiência de onde a certeza física Se o objeto é constituído por verdades da fé o meio de que a inteligência se serve para lhe perceber a evidência é a autoridade de onde a certeza moral1 1 A evidência objetiva é o supremo e universal motivo de certeza Por isso quando nos perguntam pelos motivos porque aderimos a uma verdade ou unimos um predicado a um sujeito apelamos para a evidência do objeto e dizemos isto é assim porque é evidente Depois desta res posta não procuramos nem apresentamos outro motivo Mas pode ainda perguntarse Como é que se conhece a existência dessa evidência objetiva Essa segunda pergunta embora seja um complemento da primeira contudo difere da outra e a resposta que lhe se deve dar consiste em indicar os meios que a inteligência emprega para descobrir essa evidência e que como dizemos no texto são a análise a experiencia e a autoridade Estes meios devem ser especificamente diversos porque especificamente diversas são as ordens de verdades cuja evidência objetiva queremos descobrir Da confusão destas duas questões qual é o motivo da certeza como se co nhece o motivo da certeza nasceram todas as divergências dos filósofos que querendo resolver a primeira questão resolveram a segunda e cada um a seu modo isto é querendo indicar o motivo da certeza indica ram o meio porque se descobre Devendo no capítulo seguinte tratar desses meios que aqui apenas indicamos vamos agora expor e criticar as principais opiniões dos filósofos acerca do motivo da certeza O motivo da certeza costuma hoje chamarse critério da verdade Mas essa segunda denominação não tem sempre o mesmo sentido Lendo os escritos dos filósofos modernos vemos que o critério da verdade para alguns significa a regra a medida pela qual discriminamos a verdade da falsidade para outros denota o meio o instrumento de que o homem se serve para alcançar a verdade ou a certeza para outros finalmente indica o motivo a razão que determina a inteligência a aderir com fir meza à verdade Se por critério da verdade se entende a norma ou a medida que sirva para distinguir a verdade da falsidade a questão pode ser prejudicada por um falso suposto Podem supor como efetivamente supõem os sequazes de Descartes que a inteligência deva no princípio das suas investigações duvidar de tudo e que para depor essa dúvida universal seja necessário procurar uma norma ou uma regra que aplicada aos juízos faça distinguir o verdadeiro do falso Ora como vimos e vere mos tudo isto é impossível Há verdades por si tão evidentes que se per cebeu imediatamente sem necessidade de normas ou regras e de cuja falsidade nem é pos sível suspeitar Estas verdades imediatamente evidentes podem chamarse regras ou critérios ou princípios das conclusões enquanto estas se acham virtualmente contidas e se resolvem naquelas Mais tarde voltaremos a este assunto Se por critério da 188 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA verdade se entende o meio o instrumento de que o homem se serve para alcançar a verdade resolvese a questão facilmente indicando esses meios e mostrando a sua legitimidade Se por critério da verdade se entende o motivo que leva a aderir com firmeza à verdade como nós a entendemos então esse motivo consiste na evidência objetiva Aqui notamos que a evidência objetiva é critério de verdade não só quando por critério se entende o motivo que nos leva a aderir firmemente à verdade mas também quando por critério se entende a medida dos nossos juízos e a regra pela qual discrimi namos a verdade da falsidade Que a evidência objetiva seja ao mesmo tempo motivo e regra aparece claramente no ato de fé com que acredita mos num fato histórico Se nos perguntarem pelo motivo do nosso assenso respondemos que é a autoridade das testemunhas E se nos perguntarem ainda pela regra deste nosso assenso respondemos sempre que é a autoridade das testemunhas Eis portanto que uma e a mesma coisa qual é a autoridade das testemunhas é ao mesmo tempo motivo e regra da adesão E se isto se verifica nas verdades da fé porque não se havia de verificar nas verdades da ciência A razão é sempre a mesma De fato quando queremos conhecer o motivo da nossa adesão a uma verdade racional recorremos à evidência objetiva E quando queremos convencer os outros de que os nossos juízos são verdadeiros também recorremos à evidência objetiva como a uma regra segura porque resolvemos esses juízos nos primeiros princípios se eles são mediatos e nas idéias representativas da enti dade das coisas se são imediatos o que importa um recurso para a evidência objetiva Todavia a evidência não é motivo pela mesma razão porque é regra porque motivo e regra embora possam convir a uma e mesma realidade contudo diferem nos seus conceitos Rejeitando a evidência objetiva como universal e supremo motivo ou critério de certeza os filósofos apresentaram outros motivos ou critérios como eles os denominam Podem estes reduzirse a duas classes uns são intrínsecos ou subjetivos outros são extrínsecos ou objetivos a Critérios intrínsecos Os critérios intrínsecos ou subjetivos são a inteligên cia humana a intuição direta e imediata da Verdade infinita a idéia clara e distinta o princípio de contradição a incompreensibilidade da proposição contraditória o testemunho da consciência o instinto cego da natureza o sentimento a vontade livre a verificação da experiencia sensível De cada um destes critérios faremos uma breve crítica a A inteligência humana Não faltaram filósofos desde os tempos de Protá goras até aos nossos dias que ensinassem ser a inteligência humana a medida das coisas a única regra da verdade e da falsidade do bem e do mal A opinião não poderia ser mais absurda porque é absurdo que uma e a mesma coisa seja ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto verdadeira e falsa boa e má só porque a uns parece verdadeira e boa e a outros parece falsa e má É o relativismo que leva ao cepticismo b A intuição direta e imediata da Verdade infinita É a opinião dos ontólogos Malebranche 16381715 Gioberti 18011853 Rosmini 17971855 que 189 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE só reconhecem como certas as verdades correspondentes à Verdade infinita da qual teríamos uma visão direta e imediata Mais tarde refutaremos o Ontologismo Limitamonos aqui a dizer que esse crité rio se é próprio dos bemaventurados que contemplam a Deus intuitivamente não pode ser próprio dos mortais que só do conhecimento das coisas criadas se elevam ao conhecimento do Criador e sempre pela abstração c A idéia clara e distinta É a opinião de Descartes para quem são certas só as verdades de que temos uma idéia clara e distinta Esse critério não pode admitirse Por quanto o critério sendo o motivo ou a regra que nos dirige no juízo relativo a um objeto deve ser objetivo por que é o objeto que se impõe à faculdade e não a faculdade ao objeto Ora a idéia clara e distinta é uma coisa subjetiva porque é a imagem intencional do objeto e a sua clareza e distinção dependem ordinariamente da capacidade do sujeito e do grau de atenção Além disso o critério da verdade deve ser imutável como o é a própria verdade Mas a idéia clara e distinta é uma coisa mutável e sujeita a contradições porque um homem pode perceber clara e distintamente uma coisa e um outro pode perceber com a mesma clareza e distinção o contrário de onde o subjetivismo Notamos que a fórmula de Descartes o que se percebe clara e distintamente é verdade difere tanto da fórmula escolástica o que é evidente é verdade quanto o subjetivo difere do objetivo Porquanto na fórmula cartesiana exprimese a percepção ou a intuição da evidência isto é do objeto evidente ao passo que na escolástica exprimese a própria evidência do objeto ou o próprio objeto enquanto evidente na primeira é a própria visão que se indica como critério na outra é a visi bilidade do objeto na primeira a evidência é uma qualidade do sujeito na outra a evidência é por si e primeiramente uma qualidade do objeto d O princípio de contradição É a opinião de Wolf que pretende deduzir desse princípio todas as verdades como outras tantas conclusões de um único princípio Também essa opinião é falsa O princípio de con tradição embora esteja contido em todas as verdades que nele se fundam e se resolvem contudo não é o motivo a razão pela qual aderimos à verdade Porque estamos nós certos de que o sol resplandece Estamos certos não porque o sol não pode ao mesmo tempo resplandecer e deixar de resplandecer isto é não pelo princípio de contradição mas porque tal se manifesta aos nossos olhos isto é pela evidência objetiva Por que estamos nós certos de que o efeito exige uma causa Estamos certos não porque o efeito não pode ao mesmo tempo ser e deixar de ser efeito mas porque o predicado aparece claramente contido no sujeito Além disso o princípio de contradição não pode ser o motivo supremo da certeza Por quanto se nos perguntarem pela razão porque julgamos certo esse princípio respondemos porque é evidente Logo também o prin cípio de contradição depende da evidência e A incompreensibilidade da proposição contraditória É o critério de Spencer que afirmou ser certa só a proposição cuja contraditória é incompreensível assim a proposição o sol é luminoso é certa porque é incompreensível a contraditória o sol não é luminoso Também este critério é falso A palavra incompreensível pode significar que uma coisa não se compreende ou porque o predicado repugna ao sujeito ou porque não somos capazes de ver a relação entre os dois termos Ora 190 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA tanto no primeiro como no segundo sentido essa incompreensibilidade não pode ser o motivo ou critério supremo da certeza Não pode sêlo no pri meiro sentido porque aquela repugnância supõe já outro critério que a manifeste Não pode sêlo no segundo porque aquela incapacidade é subjetiva mutável e relativa Do fato por eu não compreender essa pro posição a terra gira em volta do sol não pode deduzirse que seja certa a contraditória a terra não gira em volta do sol f O testemunho da consciência É a opinião de Galluppi e de alguns discípulos de Kant Mas também essa é inaceitável O testemunho da consciência só acusa a existência dos fatos que se realizam no espírito mas não manifesta a essência deles e por isso não manifesta a razão o motivo porque aderimos à verdade Além disso o ato da consciência é um conhecimento reflexo e referese totalmente ao sujeito pen sante Ora o motivo ou critério da verdade deve estenderse não só ao conhecimento reflexo mas também ao direto e referirse não só ao sujeito mas também e sobretudo ao objeto Finalmente a consciência é um meio que nos manifesta a evidência dos nossos conhecimentos Ora o motivo que nos torna certos de uma verdade não é a manifestação da evidência mas é a própria evidência Logo o motivo ou critério da verdade não é o testemunho da consciência g O instinto cego da natureza É a opinião de Reid 17101786 seguido por Dugald Stewart 17731828 Mas nem essa pode admitirse Porquanto esse critério repugna à natureza da nossa inteligência a qual sendo uma faculdade cognoscitiva não pode julgar com certeza nem aderir firmemente a uma verdade se não lhe resplandece um motivo racional como os olhos não podem ver sem luz Ora o cego instinto da natureza é destituído de todo e qualquer motivo objetivo de assenso e por isso não pode levarnos à verdade como um cego não pode indicar nos o caminho Mais a nossa certeza se se baseasse no cego instinto da natureza além de irracional seria exclusivamente subjetiva porque não dependeria de modo algum da intuição do objeto Daí o subjetivismo e o ceticismo h O sentimento É a opinião de Iacobi 17431819 chefe da escola senti mentalista na Alemanha Também este critério afim ao precedente é inaceitável Na verdade o critério deve ser imutável Ora o sentimento é naturalmente mutável Além disso o critério da verdade deve ser um e o mesmo para todos os homens Ora o sentimento embora relativo à mesma coisa varia conforme a diversidade do carácter de cada um da sua constituição física da sua educação dos seus costumes prejuízos e mais condições pessoais Finalmente o sentimento é cego deve ser guiado pela razão e por isso não pode ser norma da verdade nem motivo da certeza i A vontade livre É a opinião dos sequazes do pragmatismo e do imanen tismo que dizem ser verdade só o que pode ser apetecido como bom e pode ser útil para a vida prática Também este critério é inad missível Porquanto se só fosse verdade ou certo o que parece bom e útil o homem seria a medida da verdade conforme a opinião de Protágoras e coisas contraditórias seriam simultaneamente verdadeiras visto que muitas vezes para um é boa e útil uma contraditória e para outro é boa e útil outra contraditória Ora isto não só não é critério de verdade mas é a destruição de toda a verdade porque não haveria a maneira de a distinguir 191 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE do erro Além disso o ato da nossa livre vontade não pode ser o supremo motivo da nossa certeza Porquanto o que é que provocará esse ato Será um impulso cego ou um motivo intelectual Se é um impulso cego o ato da vontade não é livre mas é fatal e instintivo e teremos todos os inconvenientes apontados na opinião de Reid Se é um motivo intelectual que dirige a nossa escolha entre opiniões diversas acei tamos com isso o critério intelectualista a visibilidade do que é como supremo motivo da evidência Finalmente o ato da vontade livre não pode ser o princípio adequado da nossa adesão à verdade nem às verdades da fé Porquanto a adesão às verdades da fé sendo um ato intelectual deve fundarse e fundase em razões certas em motivos certos de credibilidade Ora estas razões estes motivos são percebidos pela inteligência Logo a livre vontade não pode ser o critério o motivo de verdade ou de certeza j A verificação da experiencia sensível É a opinião de Comte Littré e de todos os positivistas que reconhecem como certo só o que foi verificado pela experiencia sensível Não pode aceitarse essa opinião Antes de tudo a experiência sensível pode ser e é um meio para a percepção direta ou reflexa de algumas verdades mas não é o próprio motivo que determina a inteligência à adesão Além disso esse critério se serve para algumas hipóteses não serve para todas as verdades e por isso não é universal A matemática e as ciências naturais admitem como certas muitas coisas que não foram nem podem ser verificadas pela experiência sensível Os astrônomos predizem o fenômeno do eclipse e estão certos de que se há de realizar mesmo antes de verificado pela experiência Finalmente por ser essa opinião uma consequência dos princípios do positivismo refutase com todos os argumentos que serão mais tarde aduzidos contra esse sistema b Critérios extrínsecos Os critérios extrínsecos ou objetivos são a autori dade divina e a autoridade humana a A autoridade divina É a opinião de N Huet 16301751 G de Bonald 17541840 L Bautain 17961867 precedidos pelo menos na ordem do tempo pelo bracarense Francisco Sanchez 15621632 que dizia Nada se sabe só a Fé resolve toda a dúvida e ensina a verdade Mas este critério da autoridade divina ou da Revelação sobrenatural não é universal nem é o primeiro na ordem do tempo Não é universal porque se é critério das verdades da Fé que nos são reveladas por Deus não é critério das verdades da ciência que descobrimos pela luz natural da razão Nem é o primeiro na ordem do tempo porque não podemos admitir a autoridade divina se não estivermos anteriormente certos da existência de Deus da sua infalibilidade do fato e da autenticidade da revelação e de muitas outras verdades Por isso o uso da razão precede a fé b A autoridade humana É a opinião de R de Lamenuais 17801854 e L Bonnety 17981879 que não reconhecem como certo senão o que o gênero humano atesta A autoridade humana embora seja um dos meios para alcançarmos a certeza contudo não é o critério universal da mesma certeza nem é o primeiro na ordem do tempo Não é o critério universal porque não se estende a muitas outras verdades que descobrimos pela luz natural da razão Nem é o primeiro na ordem do 192 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 143 O motivo da certeza e o senso comum Todos os homens doutos e ignorantes concordam em que o motivo da certeza consiste na evidência do objeto Com efeito quando eles desejam conven cer alguém procuram tornarlhe evidente o objeto e para essa evidência apelam como para a última e irrespon dível prova das suas convicções Daí as expressões isto é evidente cedemos à evidência não podemos con tradizer a evidência E o senso comum afirma não só que a evidência do objeto é o motivo da certeza mas tam bém que a inteligência percebe essa evidência pelos três meios que são a análise a experiência e a autoridade porque os homens quando querem mostrar que uma coisa é evidente recorrem a um desses meios conforme a índole da coisa1 ARTIGO V A certeza e a objetividade das idéias universais 144 Nexo entre as duas questões A questão relativa à certeza está intimamente ligada com a questão relativa à objetividade das idéias universais Por quanto a certeza do racio cínio supõe a certeza do juízo Ora o juízo supõe o valor objetivo das idéias universais Na verdade o juízo é a afirmação da conveniência ou da nãoconveniência entre duas idéias e como afirmando essa conveniência ou nãoconveniência das idéias entendemos afirmar a conveniência ou a nãoconveniência das tempo porque não podemos aceitar do consenso do gênero humano uma verdade se antes não estivermos certos de que esse consenso existe de que não é o resul tado dos prejuízos e se distingue das opiniões individuais Ora para averi guar tudo isso é necessário o uso de outros critérios Além disso se o homem devesse admitir como certo só o que nos é ensinado pelo con senso do gênero humano a maior parte dos homens acharseia numa perpétua dúvida e o estado normal do gênero humano seria o Ceticismo Nem seria muito melhor a condição dos doutos que só depois de aturados estudos poderiam chegar a conhecer o consenso do gênero humano e apenas com relação a um ou outro problema 1 Com razão escreve o grande Bossuet A verdade é o que é a falsi dade é o que não é Podemos entender o que é mas não podemos entender o que não é A verdadeira regra para julgar bem é a de não julgar senão quando se vê claramente Connais de Dieu et de soimême c 1 193 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE coisas que as idéias representam o nosso juízo será certo se as idéias forem plenamente conformes com as coisas1 145 Idéia universal Idéia universal como dissemos é a que representa uma essência mas comum a muitos entes de modo que a todos e a cada um deles pode ser atribuída tal é a idéia de humanidade que é comum a todos os homens e que se atribui a todos e a cada um deles2 146 Idéia universal direta e reflexa A idéia universal direta é a que representa uma essência considerada nos seus elementos cons titutivos sem relação aos indivíduos nos quais se encontra ou pode encontrarse tal é a idéia de homem considerada exclusivamente nos seus elementos de animalidade e de racionalidade A idéia universalre flexa é a que representa a mesma essência mas considerada em relação aos indivíduos ou inferiores nos quais pode existir e aos quais pode atribuirse tal é a idéia de homem considerada como espécie que abrange todos os indivíduos humanos3 1 A objetividade ou o valor objetivo das idéias universais é uma daquelas ver dades que não precisa de ser demonstrada nem o pode ser Não precisa porque é o próprio senso comum que nos diz serem as nossas idéias representativas das coisas Quando afirmo que Pedro é homem todos entendem que essa idéia universal homem tem um valor objetivo entendem que nesse sujeito que se chama Pedro há alguma coisa a qual corresponde à idéia homem Não pode ser demonstrada Porquanto quem faz uma demonstração deve servirse e servese de idéias Estas ou são objetivas ou são nãoobjetivas Se são objetivas supõese previamente o que se quer demonstrar e cometese uma petição de princípio Se são nãoobjetivas toda a discussão é ininteligível e inútil A nossa demons tração pois reduzse a uma explicação Tratamos da objetividade das idéias universais porque é o valor objetivo destas que se nega Se as idéias universais são objetivas afortiori são objetivas as singulares 2 A idéia universal representa um objeto universal e esse objeto é a essência das coisas abstraída das propriedades individuais Por isso po demos dizer indife rentemente que o objeto próprio da inteligência é o universal ou é a essência das coisas S Tomás diz Intellectus est universalum non singularium C Gent l I c 44 Objectum intellectus est ipsa rei essentia De Ver q 10 a 4 ad 1 Quando dizemos que a idéia universal ou simplesmente o universal tem valor objetivo referimonos ao seu conteúdo que é a essência 3 Quando a nossa inteligência percebe uma essência p e a essência do homem percebea enquanto é uma determinada natureza constituída por certos e determinados elementos sem se importar dos indivíduos em que essa essência se encontra ou pode encontrarse Neste caso a consideração da inteligência limitase exclusivamente a esses elementos Mas a inteligência depois de ter considerado a 194 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA essência nos seus elementos pode tornar a considerála não já em relação aos mesmos elementos mas em relação aos indivíduos em que se encontra ou pode encontrarse Neste caso concebese a essência como uma coisa que se refere a muitas isto é como uma forma que se encontra neste ou naquele indivíduo sem que nunca se esgote quanto à extensão No primeiro caso temos o universal direto que se concebe por uma intuição direta no segundo temos o universal reflexo que é o produto de uma consideração reflexa Como se vê para a formação do universal direto não se requer da parte da inteligência se não uma abstração pela qual no objeto pro posto considere exclu sivamente a essência prescindindo das notas ou pro priedades individuais Assim a humanidade que se encontra em Pedro Paulo André etc enquanto se considera tal qual existe em cada um deles é uma coisa singular e individual porque a humanidade de Pedro não é a humanidade de Paulo Mas se essa humanidade pela ação da inte ligência é depurada das propriedades individuais de que se acha cercada no tempo e no espaço isto é na sua subsistência real tornase imediatamente universal Diz S Tomás Una et eadem natura quae singularis erat et individuata per materiam in singularibus hominibus efficitur postea universalis per actionem intellectus depu rantis ipsam a conditionibus quae sunt hic et nunc De Univ t 1 Tal abstração não é real mas ideal pois consiste em que a inteligência considera exclusiva mente a essência que é o seu objeto próprio prescindindo dos caracteres de que se acha cercada nos indivíduos Tal abstração é legítima e não pode ser causa ou ocasião de erro Quando abstraímos não julgamos que uma essência existe em si mesma de um modo abstrato e separada dos caracteres individuais mas simplesmente considera mos a essência e pres cindimos dos caracteres individuais Acontece o mesmo com relação à percepção sensitiva Podemos por ex perceber com os nossos olhos a cor de um fruto sem contudo lhe percebermos o sabor Cf Sum Th p I q 85 a 1 ad 1 De potentiis animae c VI Essa operação é proporcionada à natureza da nossa inteligência Sendo esta uma faculdade espiritual isto é independente e livre de toda a matéria a sua operação deve ser também independente e livre da matéria e por isso livre e independente dessas condições deve ser o seu objeto Ora um objeto é livre e independente das condições da matéria quando se concebe de um modo universal Por isso o mesmo objeto que os sentidos percebem como singular pela inteligência é percebido como universal conforme o célebre adágio de S Sev Boecio Singulare dum sentitur universale dum intelligitur Se para a formação do universal direto é necessária e suficiente da parte da inteligência a abstração para a formação do universal reflexo é necessária a abstração e a comparação É necessária a abstração Por quanto o universal reflexo é própria e formalmente uma coisa comum a muitas unum versus alia Ora essa coisa una que é a essência subsiste de um modo material e concreto e se acha multiplicada quanto ao ser em muitos indivíduos É pois necessário que adquira uma subsistência inten cional pela qual ela que é multíplice e divisa na realidade se torne una e indivisa na própria inteligência e seja uma imagem que represente o que esses indivíduos têm de comum ou de semelhante Mas não basta este 195 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE primeiro ato da inteligência É necessário um segundo que é a compa ração Na verdade o universal reflexo é como dissemos uma coisa comum a muitas unum versus alia Ora para haver esse universal não basta que a inteligência forme pela abstração uma imagem intencional que representa o que os indivíduos têm de comum e que por isso possui a capacidade ou a nãorepugnância para existir em muitos particulares mas é necessário que depois de a ter formado reflita sobre essa essência abstrata que a compare com os seus inferiores ou particulares e veja se ela é positiva e efetivamente participável e participada e tenha para os mesmos inferiores a razão de gênero ou de espécie Só depois destas duas operações é que temos o verdadeiro universal reflexo a essência que seja ao mesmo tempo una e multíplice una quanto ao ser que ela tem na inteligência e que representa o que muitos indivíduos têm de comum ou de semelhante multíplice quanto ao ser que ela tem na rea lidade e que se multiplica e divide conforme a multiplicação e a divisão dos entes singulares e indivíduos A unidade é efeito da abstração a multiplicidade é efeito da comparação Entre o universal direto e o reflexo há várias diferenças Apontamos as principais 1º A denominação de universal convém mais ao universal reflexo do que ao direto Por quanto universal significa uma coisa comum a outras ora essa relação de uma coisa a outras realizase de um modo explícito e positivo no universal reflexo que atualmente se refere aos indivíduos ao passo que no universal direto não se verifica senão de um modo implícito e negativo enquanto a essência considerada em si não é limitada a nenhum indivíduo e tem a capacidade de ser atribuída pela reflexão mental a todos os indivíduos existentes e possíveis 2º O universal direto ainda que no seu próprio conceito inclua a unidade por que significa uma só essência Contudo quanto à sua individuação real não importa nem unidade nem pluralidade mas prescinde de uma e de ou tra porque se importasse unidade não poderia aplicarse a muitos e se importasse pluralidade não poderia aplicarse a um só De Ente et Essentia c 4 Pelo contrário o universal reflexo importando expressamente uma relação a vários entes importa unidade e pluralidade unidade quanto a si mesmo e pluralidade quanto ao termo da sua relação porque é uma só forma ou uma só essência que pode encontrarse em muitos indivíduos pelo menos possíveis 3º O universal reflexo encerra o direto ao qual acrescenta a relação aos indivíduos Conforme a variedade desta relação o reflexo dividese nos cinco predicáveis que são o gênero a espécie a diferença o próprio e o acidente O gênero e a espécie exprimem perfeitamente o universal reflexo O universal direto não é propriamente o gênero nem a espécie mas é o princípio do gênero e da espécie enquanto representa o elemento objetivo que se acha contido na noção de gênero ou de espécie S Thom De universalibus l I Notese que o animal enquanto animal e o homem enquanto homem é o universal direto e o animal enquanto gênero e o homem enquanto espécie é o universal reflexo 4º Não é o universal reflexo que se atribui por identidade a este ou àquele ente particular assim não dizemos Pedro é espécie mas é o universal direto isto é é o elemento objetivo que se acha contido na noção genérica ou específica mas sem relação aos entes particulares assim dizemos Pedro é homem Esse elemento objetivo exprime como dissemos a 196 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 147 Objetividade da idéia universaldireta A idéia uni versaldireta terá um valor objetivo se a essência que ela representa existir nos entes reais embora não exista neles pelo mesmo modo porque existe na inteligência Ora a essência representada pela idéia universaldireta existe efetivamente nos entes reais embora não exista neles pelo mesmo modo porque existe na inteligência a A essência representada pela idéia universaldireta existe nos entes reais A essência representada pela idéia universaldireta é o conjunto dos elementos específicos que faz com que o ente seja o que é e seja distinto de todos os entes das outras espécies Ora todo o ente real é intrinsecamente constituído por uns elementos específicos pelos quais é o que é e se distingue de todos os entes das outras espécies assim o homem é con stituído pela animalidade e pela racionalidade e por esses dois elementos é homem e não é bruto e distinguese dos brutos das plantas dos minerais Logo a essência representada pela idéia univer saldireta existe nos entes reais1 b A essência não existe nos entes reais pelo mesmo modo porque existe na inteligência A essência representada pelo universaldireto existe na inteligência que a percebe e nos entes reais que por ela são o que são mas na inteligência existe por um modo intencional e abstrato ou universal porque existe numa idéia e só exprime os elementos específicos ao passo que nos entes reais existe por um modo real e concreto ou singular porque constitui o ente real na sua espécie e se acha cercada e determinada pelos caracteres individuais Logo a essência represen essência a qual considerada em si mesma é indiferente para existir em um ou em muitos particulares De Ente et Essentia c 4 É claro que este modo de formar e perceber o universal é próprio da inteligência humana Deus percebe perfeitamente o universal que nós formamos pela abstração mas Ele não precisa de praticar esse ato para o perceber 1 Além disso todos atribuem por identidade a essência represen tada pela idéia universaldireta aos entes existentes na realidade assim todos dizem Pedro é homem Ora ninguém poderia atribuir tal essência aos entes reais se ela efetivamente não se encontrasse neles assim ninguém poderia dizer que Pedro é homem se em Pedro não existissem os elementos específicos que constituem o homem Por quanto o verbo é exprime numa proposição a identidade não a simples semelhança dos termos e por isso a proposição Pedro é homem seria falsa se a idéia de ho mem não denotasse o mesmo ser específico que se encontra em Pedro Logo a essência representada pela idéia universaldireta existe nos entes reais 197 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE tada pelo universaldireto não existe nos entes reais pelo mesmo modo porque existe na inteligência1 1 Diz S Tomás No universaldireto isto é na essência abstrata das notas ou caracteres individuais devemos distinguir duas coisas a essência ou natureza e a abstração ou universalidade A essência que se percebe se abstrai e se universaliza não existe senão nos entes singulares mas a própria percepção a abstração a uni versalização encontramse na inteligência É o que se verifica na percepção sensitiva A vista percebe a cor de um pomo mas não lhe sente o sabor Se pois se perguntar onde está a cor que se percebe sem o sabor respondemos que a cor que se vê não se encontra senão no pomo Mas se a cor se percebe sem sabor deve a razão disso procurarse na própria vista na qual existe a semelhança da cor e não do sabor Do mesmo modo a humanidade que é percebida não se encontra senão neste ou naquele indivíduo humano Mas se ela se percebe sem propriedades individuais e por isso se se abstrai e se reveste da forma de universalidade tudo isso acontece à humanidade enquanto é percebida pela inteligência na qual existe a semelhança da natureza da espécie e não a semelhança dos princípios ou caracteres individuais Sum Th p I q 85 a 2 ad 2 Como o assunto acerca da objetividade das idéias universais é de importância capital acrescentamos as seguintes considerações Todo o in divíduo existente na realidade é determinado a uma certa espécie e por isso tem alguns elementos que lhe são próprios que não pertencem a outros indivíduos da mesma espécie e tem outros elementos que lhe são comuns com os indivíduos da mesma espécie e o constituem nessa espé cie e não noutra Tanto os elementos próprios como os comuns são objetivos ou reais São reais os elementos próprios aliás um indivíduo não poderia distinguirse de outro individuo da mesma espécie São reais os elementos comuns aliás os entes reais reduzirseiam a entes ideais São reais os elementos próprios e os comuns e são distintos Por quanto se não fossem distintos os elementos comuns não poderiam encontrarse sem os elementos próprios isto é a essência não poderia existir senão num certo e determinado indivíduo e assim haveria um só indivíduo subsistente em cada essência ou espécie o que repugna à experiência e à razão Sendo distintos os elementos próprios e os comuns se não podem separarse realmente uns dos outros podem contudo separarse intencional ou ideal mente enquanto podemos considerar os elementos comuns sem conside rarmos os próprios E quando consideramos os elementos comuns e pres cindimos dos próprios esses elementos comuns não deixam de ser objetivos ou de existir na realidade como não deixa de ser objetiva e real a cor de uma pera só porque a consideramos sem o sabor A abstração pela qual conside ramos uma coisa sem outra é um ato da inteligência mas é um ato que não altera não transforma não destrói a objetiva realidade das coisas Estas continuem a ser o que eram Nem se diga que tudo o que é real é indivíduo Se é indivíduo tudo o que é real quanto à existência porque só os indivíduos existem não é indivíduo tudo o que é real quanto à essência porque esta é real e contudo não é por si indivídua Objetam nenhuma coisa pode tornarse o que não é Ora todo o objeto exis tente na realidade é indivíduo Logo nenhum desses objetos pode tornarse universal 198 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA Resposta A afirmação nenhuma coisa pode tornarse o que não é não pode aceitarse incondicionalmente porque há muitas coisas que se tomam o que não são assim o mármore não é estátua e contudo se torna estátua Só então uma coisa não se pode tornar o que não é quando lhe falta a capacidade para essa mudança Ora o objeto existente na realidade se é indivíduo ou particular em ato é universal em potência porque tem a capacidade de ser percebido de um modo abstrato na sua essência livre das condições próprias de uma existência concreta A objeção supõe que para a formação do universal seja necessário separar ou remover física ou realmente da essência as condições materiais ou individuais Mas a suposição é falsa Porquanto como dissemos essa separação ou remoção não é física ou real mas é intencional ou ideal Escreve Tomás Ista abstractio non est intelligenda secundum rem sed secundum rationem De pot animae c 6 Nem se diga que o objeto se não se muda fisicamente se muda idealmente Por quanto se o objeto quando é per cebido abstratamente se muda no seu modo de ser ou de existir não se muda em si mesmo Mudase o objeto no seu modo de existir porque começa a existir na nossa inteligência de um modo abstrato e imaterial quando na realidade existe de um modo concreto e material E nada mais natural Todo o objeto que é recebido num sujeito segue o modo de exis tir próprio do mesmo sujeito Ora sendo a inteligência o sujeito em que o objeto e recebido por meio da idéia é claro que o mesmo objeto deve despir por assim dizer o modo de existir que tinha na realidade para revestir o modo de existir que é próprio da inteligência O modo de exis tir da inteligência é a plena isenção ou independência da matéria e das condições que a acompanham Logo também o objeto recebido na inteligência deve existir nela sem a matéria e sem as condições materiais O objeto sem a matéria e sem as condições materiais é a essência abstrata é o universal direto Diz S Tomás Similitudo rei recepitur in intel lectu secundum modurn intellectus et non secundum modum rei Sum Th p I q 85 a 5 ad 3 Mas o modo de ser ou de existir do objeto não é o próprio objeto Se o objeto se muda no seu modo de ser não se muda em si mesmo permanece sempre o que era A essência que existe na inteligência por um modo imaterial ou espiritual é a mesma que existe na realidade por ura modo material porque os elementos que a constituem são sempre os mesmos num e noutro modo de ser ou de existir Insistem Se a inteligência formasse o universal ela comunicaria ao objeto a necessidade e a eternidade visto que o universal é por si neces sário e eterno Ora isso é impossível porque todo o objeto criado é contingente e mutável Logo a inteligência não forma o universal Resposta A inteligência quando torna o universal direto não comunica coisa alguma limitase a remover a afastar do objeto os caracteres individuais e concre tos para fazer sobressair pôr em vista exclusivamente a essência Se pois a essência quando abstrata reveste os caracteres de necessidade e de eternidade estas notas não derivam do ato abstrativo para a essência porque esse ato não as tem e ninguém dá o que não tem mas brotam do próprio fundo da essência e essa não é o produto mas apenas o objeto da inteligência Dizemos que essas duas notas brotam do próprio fundo da essência Por quanto se as coisas criadas são contin gentes e mutáveis quanto 199 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 148 Objetividade da idéia universalreflexa O objeto da idéia universalreflexa embora exista unicamente na inteligência contudo tem o seu fundamento na realidade a O objeto da idéia universalreflexa existe unicamente na inteligência Por quanto essa idéia representa uma essência que sendo una contudo é comum a muitos particulares e a cada um deles pode ser atribuída Ora tal essência existe unicamente na inteligência visto que na realidade não há coisa nenhuma que seja ao mesmo tempo una e comum a vários seres pois todo ente real é singular e indivíduo e a essência de um indivíduo é realmente distinta da essência dos outros indivíduos Logo o objeto da idéia universalreflexa existe unicamente na inteligência1 à existência porque podiam e podem deixar de existir são necessários e eternas quanto à essência São necessárias por que as essências não podem deixar de corresponder e de ser semelhantes aos arquétipos da inteligência divina são eternas enquanto as essências não são coarctadas entre um determinado espaço de tempo mas por si prescindem do tempo como também do lugar Todavia essa necessidade e eternidade que se atribui às criaturas é infinitamente diversa da eter nidade e necessidade que é própria de Dens Por quanto a necessidade que se atribui às criaturas é limitada à essência delas e não se estende à existência porque as criaturas não existem necessariamente ao passo que a necessidade que é própria de Deus abrange a essência e a existência por que Deus necessariamente existe além de ser necessariamente o que é Como também ao passo que a eternidade que se atribui à essência das coisas criadas é apenas negativa enquanto abstrai do tempo a eternidade que é própria de Deus é positiva enquanto com a sua indivisível presença abrange todo o tempo Sum Th III q 93 a 4 ad 4 Quodl II a 1 1 Além disso se o universal reflexo isto é o conteúdo da idéia universalreflexa existisse nos entes singulares ou indivíduos poderia serlhes atribuído como se lhes atribui o universaldireto Mas não é assim Ao passo que podemos dizer Pedro é homem não podemos dizer Pedro é espécie Qual é a razão desta diferença A razão é que se essa essência denotada pelo termo homem se encontra realmente em Pedro não se encontra nele a essência denotada pelo termo espécie Devemos pois dizer que o universalreflexo existe unicamente na inteligência Para maior clareza lembramos que a essência pode considerarse em si mesma nas coisas singulares e na inteligência Considerada em si mesma a essência importa unicamente os elementos que a constituem e que fazem com que seja aquela que é e não outra e por isso prescinde das condições concretas de que se acha determinada na realidade e tem os atributos que lhe pertencem pela sua definição tal é a humani dade considerada nos seus elementos constitutivos de animalidade e de racionalidade Neste caso a essência é universaldireto ou metafísico e pertence à ordem metafísica Considerada nas coisas singulares a essência está cercada de propriedades concretas e individuais que nas substâncias compostas são as condições da matéria individual e 200 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b O objeto da idéia universalreflexa tem o seu fundamento na realidade O objeto da idéia universalreflexa terá o seu fundamento na realidade se as coisas reais subministrarem à inteligência um ele mento objetivo que primeiramente depu rado das condições materiais e depois comparado com os indi víduos se conceba como uma forma una e comum a muitos seres Ora as coisas reais apresentam à inteligên cia esse ele mento objetivo que é a essência das coisas porque a essência das coisas que é o objeto do universalreflexo embora quanto ao seu modo de ser exista exclusivamente na inteligência contudo quanto aos seus elementos constitutivos nos quais a pró pria inteligência se funda para conceber a mesma essência como una forma una e comum existe efetivamente na realidade assim a humanidade embora considerada como espécie só exista na inteligência contudo considerada nos seus ele mentos de animalidade e de racionalidade existe realmente nos indi víduos humanos Logo o objeto da idéia universalreflexa tem o seu fundamento na realidade1 por isso tem atributos que lhe convém enquanto e porque existe nos seres singulares tal é a humanidade que existe em Pedro Paulo etc Neste caso a essência pertence à ordem física Considerada na inteligência a essência importa uma coisa que sendo una é comum à muitos particulares e por isso tem um ser ideal e tem os atributos que lhe convém por causa desse ser que recebeu da inteligência tal é a humanidade considerada como espécie Nesse caso a essên cia é uma coisa universal reflexa ou lógica e pertence à ordem lógica Como se vê tanto a singularidade como a universalidade ou comunidade são coisas extrínsecas e acidentais para a essência considerada em si mes ma isto é nos seus elementos constitutivos Cf De Ente et Essentia c VI Ora a essência que se chama universal isto é que se refere atualmente aos particulares não é a essência considerada em si mesma porque se assim fosse ela havia de ser sempre e em toda a parte universal e por isso única e multíplice Nem é a essência considerada nos seres singu lares porque essa não é espécie nem é ao mesmo tempo única e multíplice Mas é a essência considerada como existe na inteligência porque só em relação a esse ser ideal a essência pode ter a razão de espécie e ser ao mesmo tempo única e multíplice Cfr De Anima L II I 12 1 A conclusão parecenos evidente O universal reflexo é o próprio universal direto enquanto pela reflexão se considera como abstrato e como comum a muitos seres Ora o universal direto exprime e denota uma coisa real e objetivo qual é a essência das coisas considerada nos seus elementos constitutivos Logo o universal reflexo deve supor e supõe o universal direto e por isso tem o seu fundamento na realidade É ver dade que o universal direto representa a essência abstrata não enquanto é abstrata mas enquanto é essência ao passo que o universal reflexo representa a essência abstrata enquanto abstrata e comparada com os in divíduos mas também é verdade que essa abstração e comparação 201 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE se dão à essência um novo modo de ser na inteligência não lhe tiram o modo de ser que tinha na realidade isto é não transformam em ideais ou lógicos os elementos reais ou obje tivos que a constituem e que permanecem sempre o que eram e formam o substratum a base do universal reflexo Nem podia ser de outro modo A nossa inteligência quando forma o universal reflexo não faz senão referir uma essência abstrata aos indivíduos reais em que ela se encontra ou pode encontrarse e por isso a considera como uma coisa comum a muitos entes Ora a inteligência não poderia considerar uma coisa como comum a muitos entes existentes na realidade se nestes não existisse realmente essa coisa comum a todos que não é senão a essência Portanto se o universal direto tem o seu funda mento imediato ou próximo na realidade porque a essência que se con sidera em si mesma existe na realidade embora na realidade não exista pelo mesmo modo porque existe na inteligência o universal reflexo tem na realidade o seu fundamento mediato ou remoto porque a essência que se considera como abstrata e comum a muitos entes é uma coisa real e objetiva Cfr S Tomás in I Sent Dist 19 q 5 a1 Por isso quando dizemos que o universal é um ente lógico ou ente de razão não nos referimos à essência que se abstrai dos indivíduos pela consideração direta da inteligência e que é real ou objetiva anterior a toda a consi deração nem nos referimos ao universal considerado no seu fundamento pois este também como vimos é real mas referimonos exclusivamente ao próprio caráter da universalidade enquanto se une acidentalmente à essência Em poucas palavras no universal devemos considerar duas coisas a essência e a forma de universalidade que a essência reveste A essência é ente real a forma de universalidade é ente lógico ou de razão Onde existem os universais Eis uma das mais antigas e ruidosas questões que se tem agitado no campo da ciência As muitas e diversas soluções apresentadas pelos filósofos podem reduzirse a três A pri meira é a dos que afirmam que os universais não existem de modo algum nas coisas singulares e materiais existentes na realidade A segunda é a dos que pelo contrário sustentam que os universais existem enquanto tais na realidade A terceira é a dos que seguindo um caminho médio ensinam que os universais existem em potência ou fundamentalmente na realidade em ato ou formal mente na inteligência Tendo suficiente mente desenvolvido essa terceira opinião que é conhecida pelo nome de realismo moderado e que foi defendida por Aristóteles e depois por S Boécio pelo B Alberto Magno por S Boaventura e sobretudo pelo Angélico S Tomás de Aquino restanos examinar e criticar as outras duas opiniões a Primeira opinião A primeira opinião a qual como dissemos afirma que os universais não existem de modo algum na realidade foi sustentada pelos sequazes do nominalismo e do conceptualismo a O nominalismo diz assim os chamados universais não eram no princípio senão nomes singulares que denotavam indivíduos Esses nomes singulares tiveram em seguida um sentido mais lato e extenso e foram empregados para denotar muitos outros indivíduos semelhantes aos conhe cidos daí a universalidade dos nomes Portanto os universais existem exclusivamente nas palavras não passam de simples nomes aos quais não corresponde nenhuma realidade da natureza e nenhum con 202 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ceito da inteligência Defenderam o nominalismo Epicuro 341270 a C e os sensualistas na antiguidade Roscellino 1089 e Guilherme Occam 12801343 na idade média Tomás Hobbes 15881619 David Hume Smith Condillac DugaldStewart Taine Ribot Wundt os modernos materialistas e positivistas que só admitem imagens sensíveis e concretas O nominalismo é falso pelas seguintes razões Os nomes são sinais externos das idéias Logo se existem nomes universais devem existir tam bém idéias universais aliás deveríamos dizer que há sinais que não têm significação e que há palavras que não dizem nada Além disso pergun tamos aos nominalistas porque motivo vendo um indivíduo da mesma espécie denotamolo com o mesmo nome Respondem porque é semelhante aos outros Otimamente Mas como poderíamos nós conhecer aquela semelhança se não possuíssemos já a idéia de uma espécie ou essência que abstraindo dos caracteres individuais exprimisse exclusivamente o que é comum a vários indivíduos Logo a imposição do mesmo nome a indiví duos semelhantes pressupõe uma idéia universal Finalmente o nomina lismo destrói todas as ciências porque essas têm por objeto as idéias universais e não as singulares b O conceptualismo sustenta que os universais existem nos con ceitos mas de modo algum na realidade e que por isso os universais são meras idéias às quais nenhuma realidade objetiva corresponde Defenderam essa opinião os Estoicos na antiguidade Pedro Abelardo 1079 1142 na idade média Descartes e Kant na idade moderna O conceptualismo é falso Com efeito assim como os nomes são sinais dos con ceitos assim também os conceitos são essencialmente sinais das coisas Logo se existem conceitos universais deve existir uma realidade objetiva que de algum modo lhes corresponda Além disso todas as ciências à exceção da Lógica têm por objeto as coisas reais e não as ideais Mas se fosse verdadeiro o conceptualismo as ciências ocuparseiam de fantasmas vãos daí o ceticismo Finalmente os conceptualistas admitem que nós percebemos a semelhança existente entre vários indivíduos e que em vista dessa semelhança designamos com o mesmo conceito muitos entes singu lares Ora não poderíamos afirmar uma semelhança entre muitos entes singulares se nestes não existisse realmente um elemento comum a todos Este elemento comum a muitos entes é o universal Logo o universal existe de algum modo na realidade objetiva b Segunda opinião A segunda opinião afirma como vimos que os uni versais existem enquanto universais nas coisas reais e objetivas de modo que fora da nossa inteligência existe o gênero a espécie etc É o realismo exagerado Mas os sequazes dessa opinião não explicam todos do mesmo modo a pretendida existência do universal como tal na realidade Alguns como os Platônicos disseram que os universais como tais subsistem em si mesmos fora da inteligência Outros como Guilherme de Champeaux 10701120 e David de Dinant embora não admitissem a subsistência dos universais em si mesmos como formas separadas dos entes singulares contudo disseram que eles existem atualmente na realidade porque a essência das coisas visíveis é realmente única e numericamente idêntica em todas de modo que uma coisa não é ou não parece distinta de outra senão pelos acidentes externos Os transcendentais modernos levaram essa opinião ao mais crasso panteísmo dizendo que existe uma única substância da qual as coisas 203 CAPÍTULO PRIMEIRO VERDADE 149 Fundamento supremo da objetividade das idéias uni versais As idéias universais se têm o seu fundamento próximo nas coisas criadas têm o seu fundamento supremo na reali dade da própria Essência infinita de Deus Porquanto todas as coisas criadas são outras tantas cópias dos arquétipos que a inteligência do Artífice eterno forma e que importam alguns dos infinitos modos porque a Essência divina pode ser representada na criação Assim pode dizerse que as coisas criadas são impressões visíveis da invisível ciência divina Medidas pela ciência que nos cercam são apenas modificações Outros sequazes de Scoto ensinaram que a essência considerada em si mesma e fora de toda a reflexão da inteligência tem a capacidade de existir indiferentemente neste ou naquele indivíduo e é por si universal O realismo exagerado é falso Porquanto se os universais existissem como tais fora da inteligência deveríamos dizer que na realidade e independentemente de todo a ato intelectual existem os gêneros e as espécies como tais de modo que poderíamos dizer que um indivíduo humano por ex Pedro é espécie Ora ninguém pode admitir tal absurdo Além disso os universais que são o objeto da nossa inteligência e de que se ocupa a ciência são imutáveis incorruptíveis necessários eternos em relação à essência abstrata que eles exprimem Ora tudo o que existe ou pode existir na realidade é mutável cor ruptível contingente temporal Logo os universais não existem como tais na realidade Pelo que deixamos dito podemos apreciar as diversas formas desta opinião Quanto aos Platônicos diremos com Aristóteles que eles partem de ura falso princípio supondo que quando a inteligência separa a essência das notas individuais tal separação é real Dessa suposta sepa ração real é claro que não pode derivar senão a subsistência dos universais como tais fora da inteligência Ora o princípio estabelecido é falso porque como explicamos essa separação não é real é apenas intencional Cfr Arist Post Analyt lib II lect 2 Metaph lib VII lect 14 Quanto a Guilherme de Champeaux diremos com S Tomás que as substâncias sin gulares e indivíduas são diversas e distintas entre si não só porque as propriedades acidentais de uma são diversas e distintas das propriedades acidentais de outra mas também e sobretudo porque a matéria e a forma de uma não são a matéria e a forma de outra A forma embora possa por si ser especificamente una em vários seres contudo é numericamente mul típlice porque se torna indivídua em cada ente singular e o princípio dessa individuação é como veremos a matéria Quanto aos Scotistas diremos que eles fundam o seu raciocínio num equívoco Não negamos que a essência considerada em si mesma e como existe na inteligência seja dotada de uma certa comunidade ou multiplicidade negativa ou de uma indiferença para existir neste ou naquele indivíduo e que sob este aspecto possa chamarse universal Mas daí não se segue que essa essên cia exista na realidade Porquanto a essência se tem essa comunidade ou multiplicidade negativa quando se considera em si mesma e na inteligência não a tem quando se considera na realidade pois a essência não existe na realidade senão porque existe nos indivíduos singulares e o que existe num indivíduo não pode pertencer a outro Nem todas as pro priedades que convêm a um ente enquanto existe na inteligência convêm ao mesmo enquanto existe na realidade 204 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA divina as coisas criadas medem pela sua vez a ciência humana Essas coisas atuando na nossa inteligência deixam aí impressa uma imagem que representa a essência abstraída das condições materiais e por isso universal de onde as idéias universais Logo as idéias universais têm o seu fundamento supremo na realidade da Essência infinita de Deus1 CAPÍTULO SEGUNDO Meios para a aquisição da verdade Sumário Inteligência e razão Consciência e memória intelectual Sentidos internos e externos Testemunho suas espécies e transmissão ARTIGO I Inteligência e razão 150 Classificação desses meios Os meios para a aquisição da verdade são a inteligência a razão a consciência a memória intelectual os 1 A inteligência humana possui idéias universais Essas idéias não se contemplam na Essência divina que nos é invisível mas são recolhidas das coisas criadas Embora recolhidas das coisas criadas as idéias universais representam as essências não concretas e singulares como existem na realidade mas abstratas e universais Transportadas numa ordem ideal as essências revestem os atributos de necessidade imutabilidade eter nidade etc que se não se identificam com os correspondentes atributos de Deus contudo são reflexos destes Imutáveis necessárias eternas na inteligência divina as essências das coisas criadas devem participar desses dotes quando atuadas na criação Sendo imutável necessário eterno o selo também imutável eterna necessária é pro porcionalmente a impres são E se a impressão foi feita na matéria mutável contin gente tem poral basta uma simples abstração da inteligência para separar da ma téria a mesma impressão e fazer deste modo resplandecer as nobilíssimas propriedades de que as essências criadas são dotadas na inteligência di vina Por isso a ciência humana participa no sentido explicado da própria ciência divina Diz S Tomás Sicut scientia in nobis est sigillatio rerum in animabus nostris ita e converso formae rerum non sunt nisi quaedam sigillatio divinae scientiae in rebus De scientia Dei a 1 A objetividade das idéias universais e em geral da ciência humana não podia ser nem mais solidamente estabelecida nem mais luminosamente explicada 205 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE sentidos internos e externos e o testemunho Os pri meiros são intrínsecos o último é extrínseco Neste artigo trata mos da inteligência e da razão nos seguintes dos outros meios1 151 Inteligência Inteligência considerada como meio especial para a consecução da verdade é a faculdade pela qual apreendemos 1 A inteligência é propriamente a única faculdade que o homem possui para adquirir a verdade porque só ela por ser espiritual conhece a relação entre o predicado e o sujeito Os meios pois que enumeramos ou são essa mesma faculdade intelec tual que toma diversos nomes inteligência razão consciência memória conforme a diversidade dos atos que exerce ou das verdades que adquire ou são instrumentos sentidos e testemunho de que ela se serve para alcançar o seu fim A classificação dos meios para a aquisição da verdade é completa Com efeito todas as verdades que podemos conhecer ou são descobertas por nós ou nos são ensinadas por outros Se são descobertas por nós ou representam entidades imateriais ou exprimem entidades materiais Se representam entidades imateriais ou são idéias universais e juízos dotados de evidência imediata e são percebidas pela inteligência ou são juízos dotados de evidência mediata e são percebidas pela razão ou são as operações espirituais existentes atualmente no espírito e são percebidas pela consciência ou são as próprias percepções intelectuais passadas e são per cebidas pela memória intelec tual Se exprimem entidades materiais ou se referem aos objetos externos e a inteligência percebeas por meio dos sentidos externos ou se referem aos objetos internos e a inteligência percebeas por meio dos sentidos internos Se as verdades nos são ensi nadas por outros temos o testemunho que é divino ou humano Cf Sum Th p I q 79 aa 7 8 De Verit q 10 a 3 c Gent l I c 31 A Lógica e a Metafísica ocupamse das nossas faculdades perceptivas mas sob diversos apectos A Metafísica estudaas enquanto têm uma certa natureza e um correspondente modo de operar a Lógica consideraas enquanto são meios legítimos para a consecução da verdade As nossas faculdades perceptivas serão meios legítimos para a consecução da verdade se forem pela sua própria natureza verazes com relação ao seu objeto próprio Que sejam elas naturalmente dotadas dessa veracidade é uma das verdades evidentes que não precisam nem podem ser demonstra das sem petição de princípio Porquanto toda a demonstração exigindo o uso e o exercício das nossas faculdades perceptivas supõe como certa e indiscutível a sinceridade ou legitimidade dessas faculdades Essa ver dade pois pode ser mais explicada do que demonstrada A explicação é a seguinte Todas as faculdades perceptivas estão naturalmente ordenadas para conseguir a verdade cada uma na sua esfera e com relação ao pró prio objeto Ora não poderiam elas estar naturalmente ordenadas para conseguir a verdade se não fossem por si verazes aliás o Autor da na tureza teria dotado o homem de instrumentos essencial mente incapazes de conseguir o próprio fim Portanto se na percepção das nossas faculdades pode haver e há engano este não depende de um vício inato ou de uma natural ineptidão das mesmas mas unicamente de circunstâncias acidentais como veremos C Gent III 107 206 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA a essência das coisas e os primeiros princípios da demonstração Os primeiros princípios da demonstração são verdades dotadas de evidência imediata e percebidas pela simples inspeção ou análise dos termos como por ex o todo é maior que uma sua parte1 152 Objeto da inteligência O objeto pois da inteligência é constituído pela essência das coisas e pelos primeiros princípios da demonstração Os principais princípios ord I Pr de identidade um ente é idêntico a si mesmo II Pr de contradição um ente não pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto III Pr de conveniência dois entes cada um dos quais é igual a um terceiro são iguais entre si IV Pr de desconveniência dois entes dos quais um só é igual a um terceiro não são iguais entre si V Pr de substancialidade o acidente supõe a substância VI Pr de causalidade o efeito exige ou tem uma causa VII Pr de razão suficiente todo o ente tem uma razão suficiente2 1 Diz S Tomás Nomen intellectus dupliciter accipi potest Uno modo secundum quod se habet ad hoc tantum a quo primo nomen impositum fuit intelligere enim est quasi intus legere et sic dicimur proprie intelligere cum aprehendimus quidditatem rerum vel intelligimus illa quae statim nota sunt intellectui notis rerum qnidditati bus sicut sunt prima principia quae cognoscimus cum terminos cognoscimus Alio modo potest accipi intellectus communiter secundum quod ad omnes operationes se extendit et sic comprehendit opinionem et ratiocinationem De Ver q 1 a 12 2 A inteligência sendo faculdade imaterial tem por objeto o imaterial O imaterial é incomplexo ou complexo O incomplexo é a essência das coisas o complexo é uma verdade A verdade quando é dotada de evidência imediata e é percebida pela simples inspeção dos termos tornase e é primeiro princípio da demonstração Posterior lib I lect 7 Expliquemos a natureza desses princípios Princípio em geral é uma coisa de que procede outra Diz S Tomás Principium est omne id a quo aliquod pro cedit Sum Th p I q 33 a 1 Como a coisa de que uma outra procede pode ser uma realidade ou uma verdade daí um dúplice princípio o princípio real de que procedem os entes reais e o princípio lógico de que procede a demonstração O princípio lógico pode ser primeiro e segundo O primeiro é uma verdade que se refere à nossa primeira idéia que é a do ente enquanto ente é anterior a toda a tese e a toda a hipótese penetra de um modo explícito ou implícito em todas as demonstrações e estendese a todas as disciplinas e ciências O segundo é uma verdade que se refere a um particular modo do ente tem o seu fundamento 207 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 153 A inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas a Nenhuma faculdade se engana na apreensão do objeto próprio porque existe um nexo natural entre a faculdade e o seu objeto próprio e por isso se a faculdade se enganasse com relação a esse objeto deve ria dizerse que ela foi feita e não foi feita para o seu objeto o que é absurdo Ora o objeto próprio da inteligência é a essência das coisas Logo a inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas1 e a sua resolução numa verdade anterior e abrange uma especial ciência ou disciplina Os primeiros princípios co stumam chamarse também axiomas ou dignidades porque ocupam um lugar proeminente na ordem dos conhecimentos humanos metafísicos porque são compostos de idéias universais e referemse à essência das coisas analíticos porque neles a conveniência do predicado com o sujeito é percebida pela simples análise dos termos imediatos porque são per cebidos de um modo imediato sem discurso Estes primeiros princípios distinguemse dos princípios de fato constituídos por verdades sintéticas cujo predicado atribuise ao sujeito não pela análise dos termos mas uni camente pela experiência como o sol resplandece o mundo existe Os primeiros princípios ou axiomas são verdades metafísicas e delas se ocupa com o devido desenvolvimento a Metafísica Todavia a Lógica não pode deixar de indicálos visto serem eles a base das verdades lógicas e o fundamento de toda a demonstração Reservandonos portanto a provar na Ontologia a verdade desses princípios sobretudo dos princípios de contradição e de causalidade limitamonos a um ou outro apontamento Em todos os princípios está contido o princípio de contradição porque em todas as idéias está contida a idéia de ente da qual é contraditória à idéia de nãoente de modo que os outros princípios se podem considerar como diferentes formas desse princípio O princípio de identidade pode também formularse assim o que é é Aplicações deste princípio são os seguintes a verdade deve ser absolutamente coerente a si mesma princípio de coerência nenhum ente pode ter propriedades opostas O princípio de razão suficiente não deve confundirse com o de causalidade porque o ser não pode confundirse com o ser efeito Deus não pode ser efeito porque a Causa primeira não pode ser causada mas tem a razão suficiente da sua existência na infinita perfeição da sua essência Leibniz disse que o princípio de contradição é o fundamento das verdades necessárias e que o princípio de razão suficiente é o fundamento das verdades contingentes Essa opinião não pode admitirse Porquanto se é certo que era todas as verdades contingentes se acha incluído o princípio de razão suficiente é certo também que este mesmo princípio se funda no princípio de contradição porque se pudesse darse uma coisa sem razão suficiente uma e a mesma coisa teria e não teria razão de ser o que é contrário ao princípio de contradição 1 É a sapientíssima doutrina de S Tomás Existe um nexo essencial entre as coisas uma está pela própria natureza ordenada para outra e em virtude dessa 208 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Se a inteligência se enganasse na apreensão da essência das coisas enganarseia ou porque atribui à essência uma propriedade que não tem ou porque lhe nega uma propriedade que tem Ora a inteligência quando apreende a essência das coisas não lhe atribui nem lhe nega propriedade alguma Logo não se engana na apreensão da essência das coisas1 ordem uma opera sempre do mesmo modo com relação à outra e alcança sempre o seu escopo Este nexo essencial e necessário existe também entre a faculdade e o seu objeto próprio Objeto próprio de uma faculdade é o que primeiramente e por si mesmo é percebido pela mesma faculdade Diz S Tomás Id quod est primo et per se cognitum a virtute cognoscitiva est proprium objectum ejus Sum Th p I q 85 a 8 A faculdade tem toda a sua razão de ser na existência e na índole do seu objeto próprio e estando natural e necessariamente ordenada para ele natural e necessariamente o alcança ou não se engana na apreensão do mesmo Se assim não fosse se a faculdade pudesse enganarse na apreensão do objeto próprio devia dizerse que ela está e não está ordenada para o seu objeto está ordenada porque tende para esse objeto não está ordenada porque o não alcança o que é absurdo Ora o objeto próprio da inteligência é a essência das coisas porque é essa que pri meiramente e por si é percebida pela inteligência Ensina S Tomás Quidditas rei est proprie objectum intelectos De ver q 1 a 12 Portanto a inteligência não pode enganarse na apreensão da essência das coisas Diz S Tomás Ad proprium objectum unaquaeque potentia per se ordinatur secundum quod ipsa Quae autem sunt hujusmodi semper eodem modo se habent Unde manente potentia nou deficit ejus judicium circa proprium objectum Objectum autem proprium intellectus est quidditas essentia rei unde circa quidditatem rei per se loquendo intellectus non fallitur Sum Th p I q 85 a 6 Pode a apreensão da inteligência ser deficiente imperfeita e mesmo negativa mas nunca pode ser falsa E de que modo poderia ser falsa Talvez porque em vez de representar a essência de uma coisa representa a essência de outra Mas nesse caso a apreensão é verdadeira com relação à essência que é representada e assim é sempre verdadeira Se pois a inteligência se engana alguma vez na simples apreensão de uma essência não se engana enquanto apreende simplesmente uma essência mas enquanto nessa apreensão enxerta ex plícita ou implicitamente um juízo E esse juízo pode intro duzirse por dois modos ou quando a essência de uma coisa se atribui a outra p ex quando a definição do círculo se atribui ao triângulo ou quando a uma essência se atribui um elemento estranho p ex quando se define o homem animal racional quadrúpede Mas é claro que então o erro pertence pro priamente ao juízo latente na apreensão e não à própria apreensão Essa é sempre verdadeira Sum Th p I q 17 a 3 q 85 l c 1 A falsidade encontrase própria e formalmente no juízo quando a um sujeito atribuímos um predicado que não lhe convém ou quando lhe negamos um predicado que lhe convém Ora a nossa inteligência quando apreende simplesmente 209 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 154 A inteligência não se engana na apreensão dos primei ros princípios a Os primeiros princípios são juízos cujo predicado está e se conhece de uma maneira evidente e imediata contido necessariamente na própria essência do sujeito de modo que quem percebe essa essência percebe nela e por ela o predi cado e assim a apreensão dos primeiros princípios reduzse à apreensão da essência das coisas Ora a inteligência não se engana na apreensão da essência das coisas Logo nem se engana na apreensão dos primeiros princípios1 uma essência limitase a considerar essa essência sem lhe atribuir ou negar alguma propriedade ou nota de que está ou pode estar cercada na realidade e por isso a apreensão não pode deixar de ser verdadeira Abstrahentium non est mendacium dizem os escolásticos A abstração pela qual consideramos uma coisa sem outra não é erro nem fonte de erros O erro como acabamos de dizer começa quando se pro nuncia um juízo explícito ou implícito Sum Th p I q 85 a 1 ad 1 1 Chamamos a atenção sobre este argumento A inteligência enquanto é um meio especial para a consecução da verdade pronuncia exclu sivamente aqueles juízos cujo predicado está contido na noção do sujeito Ora a inteligência ou tem a noção do sujeito ou não a tem Se não a tem não pode pronunciar nenhum juízo Se a tem conhece ao mesmo tempo que o predicado convém ou não convém ao sujeito e quando afirma esta conveniência ou desconveniência por meio do juízo é impossível que se engane como é impossível que não conheça o sujeito quando o conhece Diz o An gélico Doutor Intellectus naturaliter et ex necessitate inhaeret primis principiis Summ Th p I q 82 a 2 Na doutrina do S Doutor a natureza dos primeiros princípios é tal que não só é necessário que eles sejam por si verdadeiros mas também é necessário que se veja essa verdade Diz assim Proprium horum principiorum primorum est quod non solum necesse est ea vera per se esse sed etiam necesse est videri quod sunt per se vera Post Analyt I l 19 E não pode deixar de ser assim Estes princípios exprimem todos o princípio de identidade ou deste recebem toda a força O sujeito e o predicado são e aparecem por tal modo unidos que a afirmação ou a negação de um importa a afirmação ou a negação do outro Daí se segue que na apreensão dos primeiros princípios a inteligência não se engana nem por si mesma nem por uma acidentalidade Porque estando o predicado contido na definição ou essência do sujeito desses juízos a inteligência entanto pode enganarse na apreensão dos princí pios enquanto pode enganarse na apreensão do sujeito Ora a inteligência não pode enganarse na apreensão do sujeito desses prin cípios nem por si mesma nem por uma acidentalidade Não pode enganarse por si mesma porque o sujeito desses princípios constitui o objeto próprio da inteligência e esta não se engana na apreensão do objeto próprio Não pode enganarse por uma acidentalidade porque o engano se é possível com relação aos conceitos mediatos ou 210 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Se a inteligência se enganasse na apreensão dos pri meiros princípios o engano podia provir ou da parte dos princípios ou da parte da inteligência Ora o engano não pode provir da parte dos princípios porque são por si certíssimos e evidentíssimos nem pode provir da parte da inteligência porque a inteligência conhece os primeiros princípios não por um termo médio mas imediatamente e sem discurso enquanto por uma simplicíssima e facílima análise conhece que o predicado está contido na essência do sujeito Logo a inteligência não se engana na apreensão dos primeiros princípios1 155 Regras para a inteligência A inteligência será um complexos formados por precedentes juízos não é possível com relação aos conceitos imediatos e simplicíssimos que constituem o sujeito dos primeiros princípios e que são os de ente todo parte causa efeito etc 1 Notamos para a eficácia do argumento que o termo médio é neces sário quando a inteligência ignora se o predicado convém ou não ao su jeito porque então compa ramse o predicado e o sujeito com esse termo médio e o resultado da comparação é a afirmação da conveniência ou da desconveniência do predicado com o sujeito Mas quando o predicado per tence à própria essência do sujeito pelo fato mesmo de conhecermos o sujeito conhecemos que lhe convém esse predicado Por isso logo que sejam conhecidos os termos da proposição afirmase imediatamente a conveniência ou a nãoconveniência do predicado com o sujeito As proposições que exprimem os primeiros princípios dizemse e são conhecidas por si mes mas e em relação a nós per se notae et quoud nos São conhecidas por si mesmas porque o predicado está incluído na noção do sujeito e em re lação a nós porque vemos imediatamente essa inclusão De Ver q 10 a 12 O dito acerca da legitimidade da inteligência é mais uma explicação do que uma demonstração Porquanto essa legitimidade é de uma evidência tão imediata que não pode ser rigorosamente demonstrada nem seria mente impugnada sem petição de princípio Não pode ser rigorosamente demonstrada porque baseandose a demonstração em princípios que em última análise hão de ser imediatamente evi dentes seguese que para provar a legitimidade da inteligência devemos já supôla como meio legí timo para o percepção do seu objeto Mas do fato de a legitimidade da inteligência não se poder demonstrar com todo o rigor não se segue que ela seja menos evidente Não pode demonstrarse por isso mesmo que a sua evidência é imediata O sol não se demonstra vêse Nem pode ser seriamente impugnada sem petição de princípio Quem impugnasse a legitimidade da inteligência na apreensão dos primeiros princípios deveria fazer uma argumentação baseada em última análise nos mesmos princípios e por isso admitiria a legitimidade da inteligência ao mesmo tempo que a impugna Portanto quem nega os primeiros princípios negaos aparentemente e por ostentação mas não internamente e por convicção A proposição contraditória de um princípio primeiro é um absurdo e o absurdo não se concebe embora se exprima Cf Post Analyt I 1 19 211 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE Muitos escritores têm desvirtuado a natureza dos primeiros princípios Faça mos um breve exame crítico de algumas dessas opiniões a Kant afirma que para explicar a necessidade evidente dos primeiros princípios da razão basta admitir um hábito cego e inato que ele chama forma a priori da nossa mentalidade Mas se assim fosse todos os nossos juízos que uma longa experi ência tornou habituais p e o fogo queima o corpo é pesado teriam a mesma necessidade evidente E todavia não é assim porque podemos conceber um fogo que não queima e um corpo que não é pesado A necessidade evidente dos princípios da razão longe de ser o produto de um hábito cego é o resultado da clara percepção de uma relação necessária entre o sujeito e o predicado O hábito poderá transfor mar um juízo reflexo em juízo espontâneo algo confuso mas um juízo espon tâneo embora confuso não é um juízo sintético a priori que se enuncie necessariamente sem nenhuma razão nem distinta nem confusa b O mesmo Kant afirma que os primeiros princípios e em geral os juízos ana líticos se reduzem a uma tautologia A A Contestamos a afirmação de Kant O sujeito e o predicado nos juízos analíticos não são formalmente idênticos e o predicado exprime de um modo explícito e distinto o que o sujeito exprimia de um modo implícito e confuso Além disso quando se compara o predicado com o sujeito aparecem novas relações entre esses dois termos novos respeitos que antes não apareciam Finalmente se assim fosse também a Matemática reduzirseia a uma tautologia o que nem o próprio Kant admite porque diz que as conclu sões matemáticas são juízos sintéticos a priori c Stuart Mill Log t I p 202 seguido por todos os positivistas diz que os primeiros princípios ou axiomas são as mais universais induções da experiência sensível Negamos que os primeiros princípios sejam as mais universais induções da experiência Porquanto esses princípios exprimem verdades analíticas e metafisicamente necessários ao passo que as induções da experiência sensível embora gerais são por si sintéticas e metafisicamente contingentes Ora o mais não pode identificarse com o menos Além disso a inteligência para aderir aos primeiros princípios deve perceber si existência de um nexo necessário e imutável entre o predicado e o sujeito Ora a experiencia sensível só por si é absolutamente incapaz de manifestar um nexo necessário e imutável porque se atesta o fato do nexo não pode atestar a natureza dele isto é não pode dizer se o nexo é necessário ou contingente imutável ou mutável Logo os primeiros princípios não são as mais universais induções da experiência sensível Perguntase onde têm seu fundamento os primeiros princípios Respondemos que os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza e o seu fundamento último na Inteligência de Deus Desen volvamos essa resposta a Os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza Essa proposição tornarseá evidente se considerarmos a origem dos nossos conhe cimentos intelectuais O primeiro objeto que a nossa inteligência percebe no estado 212 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA atual é a essência das coisas materiais e esta essência é o objeto próprio da mesma faculdade Diz S Tomás Primum quod intelligitur a nobis secundum statum praesentis vitae est quidditas rei materialis quae est nostri intellectus obiectum Sum Th p 1 q 88 a 3 A apreensão da essência é o primeiro ato da inteligência Percebendo a essência das coisas a inteligência percebe os ele mentos de que a essência é constituída O primeiro destes elementos perce bidos é o ente e por isso a primeira e universalíssima noção que está con tida em todas as noções e em que todas se resolvem é a noção de ente Concebida a noção ou idéia de ente a inteligência afirma imediatamente a repugnância do ente com o nãoente com o nada e pronuncia o princípio de contradição uma coisa que é não pode deixar de ser enquanto é Como também a formação de outras idéias depois da do ente por ex das idéias de substância de causa de ordem etc da origem a outros princípios ao princípio de causalidade de razão suficiente etc Essa prontidão e fa cilidade com que a nossa inteligência depois da percepção da essência pronuncia os primeiros princípios é chamada por S Tomás hábito natural da inteligência humana e os mesmos princípios são chamados inatos Mas repetimos os primeiros princípios podem chamarse inatos não enquanto sejam infundidos por Deus na nossa inteligência no momento da criação mas enquanto recebemos de Deus uma natural disposição para os pronun ciarmos e enquanto os pronunciamos depois de uma facílima e simplicíssima abstração Diz S Tomás Intellectus principiorum dicitur esse habitus naturalis ex ipsa enim natura animae intellectualis convenit homini quod statim cognito quid est totum et quid est pars cognoscat quod omne totum est mains sua parte et simile est in ceteris Sed quid sit totum et quid sit pars cognoscere non potest nisi per species intellegibiles a phantasmatibus acceptas Sum Th III q 51 a 1 E o S Doutor repete a cada passo que o conhecimento dos primeiros princípios se funda no teste munho dos sentidos e por isso nos fatos particulares Ipsorum principiorum cognitio in nobis ex sensibilibus causatur nisi enim aliquod totum sensu percepissemus non possemus intelligere quod totum esset maius parte C Gentes I II c 83 Concluímos que os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza b Mas se os primeiros princípios têm o seu fundamento próximo nos fatos da natureza não têm nesses fatos o seu fundamento último como pretendem os positivistas Os fatos são mutáveis e contingentes ao passo que os primeiros princípios exprimem uma verdade imutável necessária eterna que não deixaria de ser o que é embora não existisse fato algum Dizemos pois que esses princípios têm o seu fundamento último na Inteligên cia de Deus Porquanto os princípios sendo verdades devem residir na inteligência como em seu sujeito Essa inteligência não pode a do homem porque os princípios impõemse à nossa inteligência e devemos aceitálos eram verdades antes de nós os percebermos e não deixariam de o ser ainda que a nossa inteligência acabasse Logo a inteligência em que como em sujeito próprio residem os princípios deve ser a de Deus porque verdades necessárias só podem ter o fundamento último numa inteligência necessária e essa é a de Deus Bossuet escreve Ainda que não houvesse na natureza algum triângulo seria sempre certo e indubitável que os três ângulos de um triângulo são iguais a dois retos O que vemos na essência do triângulo é certamente independente de todo o triângulo exi stente Mais ainda não é a inteligência que dá o ser à verdade e por isso ainda que a inteligência fosse destruída estas verdades subsistiram imutáveis Logique I 36 E 213 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE noutro lugar Se pergunto a mim mesmo onde e em qual sujeito estas regras subsistem eternas e imutáveis sou obrigado a admitir um Ser onde a verdade é eternamente subsistente e onde ela é sempre percebida e este Ser deve ser a própria Verdade e deve ser a Verdade toda Connais de Dieu et de soimême IV 5 Da Inteligência de Deus os princípios refletemse na inteligência humana pelo fato desta ser efeito e semelhança daquela Este reflexo porém não é direto ou imediato pois fazse como dissemos por uma fácil abstração das coisas particulares que reproduzem em si os arquétipos da inteligência divina Para entendermos mais claramente essa altíssima doutrina que é de S Tomás lembremonos de que Deus nos instrui e nos torna partícipes das suas idéias por meio das coisas criadas que são por isso outras tan tas línguas com que Ele nos fala na ordem natural Na verdade dois elementos concorrem para a realização dos nossos conhecimentos a facul dade intelectual e o objeto inteligível que se une e manifesta à nossa inteligência por uma espécie imaterial Cf Sum Th p I q 105 a 3 Ora tanto a nossa inteligência quanto o objeto inteligível tem a sua razão suprema o seu fundamento último em Deus Tem o fundamento último em Deus a nossa inteligência porque essa é uma imagem ou semelhança da Inteligência incriada e a nossa luz intelectual é um raio da luz divina em que estão contidas as razões inteligíveis de todas as coisas Diz S Tomás Ipsum lumen intellectuale quod est in nobis nihil est aliud quam quaedam participata similitudo luminis increati in quo continentur rationes ideae aetemae Sum Th p I q 84 a 5 Tem o fundamento último em Deus o objeto inteligível Com efeito todas as coisas criadas foram feitas em conformidade com os arquétipos divinos e não se dizem e não são verdadeiras senão enquanto reproduzem fielmente esses arquétipos Diz S Tomás Res naturales dicuntur verae secundam quod assequuntur similitudinem specierum quae sunt in mente divina Sum Th p I q 16 a 1 Sendo dotadas de ver dade as coisas criadas são também dotadas de inteligibilidade porque toda a verdade é por si inteligível Essa inteligibilidade é conatural e acessível à nossa inteligência a qual por ser uma faculdade espiritual mas existente na matéria deve perceber o inteligível escondido sob a concreção da matéria Deste modo a inteligência humana confor mandose com as coisas criadas conformase com a inteligência divina percebendo as essências das coisas criadas percebe os próprios arquétipos divinos e pronunciando os primeiros princípios ex prime os princípios da Inteligência divina que os exprimiu e reproduziu nas criaturas Estes princípios sendo conhecidos por uma facílima e sim plicíssima abstração não podem ser ignorados muito menos contesta dos seriamente por ninguém e por isso constituem o patrimônio da inteligência humana enquanto tal E como os primeiros princípios são os cri térios diretores de todos os nossos juízos e são um reflexo das razões ou idéias eternas de Deus podemos dizer que o homem vê tudo e julga de tudo nas razões ou idéias eternas de Deus Tal é a doutrina de S Tomás C Gentes I III c 47 Sum Th p I q 84 a 5 Para maior clareza advertimos que os arquétipos divinos representam os vários e infinitos modos porque a Essência divina é e pode ser representada na criação Por isso cada um desses modos representa a Essência divina com limitação e a nossa inteligência quando descobre nas coisas criadas esses arquétipos não descobre a própria Essência divina senão de uma maneira muito defi ciente ou limi tada Em poucas palavras as coisas criadas são reproduções ou imitações fidelíssimas dos arquétipos divinos mas estes são imitações finitas da infi nita Essência 214 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA meio legítimo e infalível para a aquisição da verdade se ob servar as regras seguintes Iª Não deve sair da sua esfera a qual como dissemos é consti tuída pela essência das coisas e pelos primeiros princípios da demonstração IIª Quando uma verdade embora dotada de evidência imediata é sintética e não analítica então para a inteligência não se enganar é indispensável o exercício de outra faculdade Assim para pronunciar esse juízo o mundo existe a inteligência deve servirse do ministério dos sentidos externos 156 Razão Razão é a própria inteligência que por meio do raciocínio deduz de uma verdade conhecida uma ver dade desconhecida A verdade que pelo raciocínio se deduz de outra verdade é dotada de evidência mediata1 divina Concluímos que os primeiros princípios pelo tato de se fundarem proximamente nas coisas criadas as quais reproduzem fiel mente em si mesmas os arquétipos divinos têm a sua razão suprema o seu fundamento último na Inteligência divina De onde se segue que da existência dos primeiros princípios que a nossa inteli gência vê reproduzidos nas coisas sensíveis pode legitimamente dedu zirse a existência de Deus Nem se diga que essa dedução importa uma passagem arbitrária da ordem ideal para a real Porquanto esses princípios embora sejam percebidos pela nossa inteli gência todavia não são um mero produto lógico a que nenhuma realidade corresponda mas são verdades objetivas que têm a sua expressão e realização nas coisas concretas e visí veis e por isso representam uma entidade real Sendo entidades objetivas ou reais os primeiros princípios supõem uma inteligência objetiva e real porque a causa deve ser proporcionada ao efeito Essa inteligência não pode ser a da criatura não só porque a inteligência da criatura sendo contingente e temporária não poderia imprimir nos primeiros princípios um cunho de necessidade e de eternidade mas também porque não teria a energia suficiente para os imprimir na concreção da matéria Logo deve ser a inteligência de um Ente superior e incriado que tenha a força de conceber essas verdades e de as reproduzir nos entes finitos visto que toda a forma que existe no efeito deve preexistir numa causa no estado de exemplar Esse ente superior e incriado é Deus Portanto o argumento que deduz da exi stência dos primeiros princípios conhecidos por nós a existência de Deus é a posteriori porque fundado num efeito inteligível enquanto dessas verdades que existem na nossa inteligência elevase à fonte de toda a verdade Diz S Tomás Ex hoc quod veritas intellecta sit aeterna quantum ad id quod intelligitur non potest concludi quod anima sit aeterna sed quod veritates intellectae fundentur in aliquo aeterno Fundantur enim in ipsa prima veritate sicut in causa universali contentiva omnis veritatis C Gent II 84 1 O conhecimento de objetos imediatamente evidentes fazse por um ato intui tivo da faculdade perceptiva intelectual Esse conhecimento é a base de todos os outros 215 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 157 Objeto da razão O objeto pois da razão é consti tuído pelas verdades mediatas isto é pelas verdades deduzidas pelo raciocínio de outras verdades precedentemente conhecidas O raciocínio como dissemos é dedutivo ou indutivo1 158 A razão não se engana na percepção das verdades imediatas a Nenhuma faculdade se engana com relação ao objeto próprio porque tende para esse objeto de um modo natural e por isso necessá rio Ora o objeto próprio da razão é a ver dade mediata deduzida pelo raciocínio de outra verdade Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas2 conhecimentos Por isso quando um objeto não é por si dotado de evidência imediata devemos recorrer a um termo médio que nos mostra se há uma relação necessária um nexo essencial entre esse objeto e os objetos imediatamente evidentes Existindo essa relação esse nexo é claro que se são verdadeiros os objetos imediatamente eviden tes devem ser também verdadeiros os objetos que não têm essa evidência imediata mas que estão relacionados com os que a têm como também se fossem falsos estes segundos objetos deveriam também ser falsos os que são imediatamente evidentes Diz S Tomás Quaedam propositiones sunt necessariae quae habent connexionem necessariam cum primis principiis sicut conclusiones demonstrabiles ad quarum remotionem sequitur remotio primorum principiorum Et his intellectus ex necessitate assentit cognita conexione necessaria conclusionum ad principia per demonstrationis deductionem Sum Th p I q 82 a 2 Repetimos que a inteligência e a razão não são duas faculdades distintas mas denotam duas distintas funções da mesma facul dade intelectual a qual descobre a relação entre dois termos às vezes de um modo imediato e outras vezes de um modo mediato por um termo médio Por isso alguns escritores dando o nome de razão à faculdade intelectual perceptiva dividemna em razão intuitiva e em razão discursiva em conformidade com essa dúplice função Cf Sum Th p I q 89 a 8 De Ver q 15 a 1 A razão pode ser teorética e prática A teorética ou especulativa limitase à percepção da verdade a prática aplica a verdade percebida à ope ração Não são duas faculdades mas uma só visto que o objeto da teorética é o mesmo que o da prática e à aplicação da verdade percebida à operação é uma coisa apenas acidental Kant concede que a razão prá tica seja um meio legítimo para a consecução da verdade mas nega que tal seja a razão teorética Mas enganase Se a razão prática se identifica com a teorética ou ambas são meios legítimos ou ambas ilegítimos 1 Para evitar repetições remetemos o leitor para o que dissemos no cap III da I parte da Lógica acerca do raciocínio e suas espécies 2 A razão não se engana por si isto é pela sua própria natureza Estando ela naturalmente orientada ou ordenada para a verdade não pode dizerse sem uma 216 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Quando pelo raciocínio deduzimos de uma verdade conhecida uma outra verdade desconhecida afirmamos explici tamente na conclusão o que implicitamente tínhamos afirmado nas premissas Ora a inteligência não se engana na percepção das premissas que em última análise são verdades imediatas Portanto nem a razão se engana na percepção das conclusões quando estas foram legitimamente deduzidas das premissas As conclusões são e dizemse verdades mediatas Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas1 contradição flagrante que ela está naturalmente orien tada ou ordenada para o erro e seria naturalmente orientada ou ordenada para o erro se se enganasse por si pela sua própria natureza Nem pode a razão mudar essa orientação essa ordem porque não é uma faculdade livre mas necessária e uma faculdade necessariamente ordenada para um certo fim não pode ser ordenada para outro fim contrário Essa orienta ção ou ordenação da razão para a verdade referese também e sobretudo às verdades mediatas isto é às verdades que não são por si imediatamente evidentes mas que são deduzidas de outras verdades por meio do raciocínio Porquanto se a inteligência angélica é naturalmente intuitiva a humana é naturalmente discursiva Percebida a essência de uma coisa e pronunciados os primeiros princípios a nossa inteligência não exauriu não compreendeu tudo o que se refere a essa coisa e precisa de com pletar o seu conhecimento e completao por meio do juízo afirmativo ou negativo passando de uma proposição para outra de uma verdade conhe cida para outra desconhecida De Ver q 15 a 1 1 Nem pode ser de outro modo Se a razão se enganasse na percep ção das verdades mediatas darseia o engano ou porque ela não pode estar certa da verdade das premissas ou porque não pode estar certa do nexo lógico entre o antecedente e o consequente Ora a razão pode estar certa tanto da verdade das premissas porque estas são imediatamente evidentes ou fundamse e resolvemse em verdades imediata mente evidentes como da verdade do nexo lógico entre o antecedente e o consequente porque podemos pela reflexão convencernos de que foram observadas as respectivas leis lógicas e de que por isso a conclusão se funda e se resolve nos primeiros princípios nas verdades imediatamente evidentes Logo a razão não se engana na percepção das verdades mediatas Como se vê a razão no seu movimento parte da inteligência e volta para a inteligência esta é o começo e o termo daquela Diz S Tomás Quia motus semper ab immobili procedit et ad aliquid quietum terminatur inde est quod ratiocinatio humana secundum viam inquisitionis vel inventionis procedit a quibusdam simpliciter intellectis quae sunt prima principia et rursus in via judicii resolvendo redit ad prima principia ad quae inventa examinat Sum Th p I q 79 a 8 Mas se a nossa razão não pode enganarse per se pela sua própria natureza pode enganarse per accidens por um motivo que obsta à retidão do seu exercício O instrumento é bom mas o modo que nos servimos dele pode ser defeituoso e con trário às regras da arte E a arte do raciocínio é uma das mais complexas e delicadas 217 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 159 Regras para a razão A razão para que seja meio legítimo para a aquisição da verdade deve observar estas regras Iª Não deve sair da sua esfera que é o imaterial Para o conhe cimento do material é indispensável o exercício de outra faculdade A passagem do ideal para o real é sofisma IIª Estabelecidas as premissas deve deduzir a conclusão con forme as leis do raciocínio Da inobservância desta regra deriva a máxima parte dos erros ARTIGO II Consciência e memória intelectual 160 Consciência Consciência é a própria inteligência que pela reflexão percebe a existência atual das operações espirituais que são as da inteligência e da vontade1 A falta de estudo e reflexão a influência dos prejuízos e das paixões a dificuldade do assunto e outros motivos podem desviar a razão e fazer com que deixe de observar as leis da legítima dedução De onde o erro Para evitar o erro acidental a razão percorra de novo o caminho feito averigue se a conclusão desce legitimamente das premissas e julgue a mesma conclusão à luz dos primeiros princípios porque a certeza da conclusão depende inteiramente da certeza dos princípios No texto provamos em geral que a razão não se engana na percepção das verdades mediatas Como essas verdades são adquiridas por meio da dedução ou da indução deveríamos provar que a razão não se engana nem quando por meio do silogismo desce do universal para o particular nem quando por meio da indução sobe do particular para o universal Mas como nos respectivos lugares tratamos da legitimidade do silogismo e da indução julgamos desnecessária a insistência Também a legitimidade da razão é de evidência imediata e não pode rigoro samente demonstrarse nem contestarse sem petição de princípio Na verdade quem quisesse demonstrar ou contestar a legitimidade da razão devia fazer um raciocínio Ora todo o raciocínio parte de princípios que em última análise são verdades dotadas de evidência imediata e chega a conclusões que são verdades dotadas de evidência mediata Logo quem defende ou impugna a legitimidade da razão já pressupõe a sua legitimi dade no conhecimento das verdades de evidência mediata 1 A nossa inteligência não só percebe os objetos que estão fora de nós mas por ser uma faculdade espiritual e imaterial pode dobrarse sobre si mesma e perceber as operações espirituais que se realizam e estão presentes no íntimo do 218 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 161 Objeto da consciência O objeto da consciência é direto e indireto O direto é constituído pelas operações espirituais atualmente presentes O indireto é o próprio sujeito que exerce aquelas operações1 nosso espírito e que derivam da inteligência e da vontade Enquanto percebe essas operações espirituais atualmente pre sentes no nosso espírito a inteligência toma o nome de consciência Portanto o ato próprio da consciência é a reflexão A reflexão própria da consciên cia não deve confundirse com o ato pelo qual a inteligência torna a considerar um objeto já percebido para ter dele um conhecimento mais distinto e completo e que mais propriamente podia chamarse recogitação Também a recogitação é uma reflexão mas objetiva ou ontológica porque se refere ao objeto percebido ao passo que o ato da consciência é uma reflexão subjetiva ou psicológica porque se refere ao sujeito e às suas operações Que a inteligência seja dotada de reflexão é coisa cer tíssima Não só percebemos os objetos externos mas percebemos que percebemos e que remos isto é percebemos as nossas próprias operações espirituais Cada um de nós pode repetir com S Agostinho Intelligo me intelligere intelligo me vele De Trin l 10 c 10 e 11 cfr Sum Th p I q 87 a 3 e 4 1 A consciência percebe pelo menos confusamente duas coisas a ope ração espi ritual e o sujeito de que ela deriva Porquanto a operação percebese de um modo concreto como existe ora existe não em si mas no sujeito Por isso assim como os nossos olhos não percebem propriamente a cor mas a coisa colorida e as nossas mãos não apalpam propriamente a dureza mas a coisa dura assim também a consciência não percebe propria mente o pensamento e a volição mas o sujeito pensante e que rente tanto mais que ela por ser uma e a mesma coisa com a inteligência chega ao fundo das coisas É verdade que a razão pela qual a consciência percebe o sujeito é a operação como a razão pela qual os olhos percebem um objeto colorido é a cor e a razão pela qual as mãos apalpam um objeto duro é a dureza mas também é ver dade que a operação e o sujeito se percebem ao mesmo tempo enquanto constituem um só objeto que é o mesmo sujeito modificado deste ou daquele modo Por isso nós não percebemos que somos e que temos um princípio de vida senão enquanto percebemos que operamos Cf S Thom De mente a 8 Advirtase que a operação espiritual é objeto da consciência não enquanto representa uma coisa mas enquanto é um fenômeno interior ou uma modificação da faculdade intelectual e que a consciência atinge o sujeito não enquanto é dotado de uma ou de outra natureza mas só enquanto é princípio e causa de opera ções espirituais que como dissemos são as da inteligência e da vontade A consciência percebe também a existência atual das operações sensitivas mas só de um modo indireto como explicaremos mais tarde Dissemos que a consciência percebe não só as operações da inteligência mas também as da vontade porque estas também são imateriais e por isso são objetos proporcionados de uma faculdade imaterial como é a nossa consciência Quando pois se afirma que o objeto próprio da nossa inteligência é o universal o abstrato a afirmação não é muito exata Se o fosse a inteligência não poderia perceber as próprias operações que não são coisas abstratas ou universais mas muito concretas e individuais 219 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 162 A consciência não se engana na percepção das ope rações espirituais nem na percepção do sujeito agente a Não se engana na percepção das operações espirituais Se a cons ciência se enganasse na percepção das operações espirituais o engano devia provir ou da alteração do objeto ou da alteração da faculdade ou do obstáculo do meio Ora o engano não pode provir nem da alteração do objeto porque esse sendo um fenômeno interior deve ser atingido como é em si mesmo e por isso com as alterações que sofreu se as sofreu nem da alteração da faculdade porque uma faculdade inorgânica como é a consciência não pode estar sujeita à alteração visto que toda a alteração de uma faculdade deriva da alteração do órgão nem do obstáculo do meio visto que os fenômenos espirituais não precisam de meio para se unirem com a faculdade pois estando presentes na alma ma nifestamse imediatamente à inteligência que é uma facul dade da mesma alma Logo a consciência não se engana na percepção das operações espirituais1 Portanto é mais exato dizer que o objeto próprio da inteligência é o imaterial e que se essa faculdade percebe as coisas abstratas percebeas enquanto são imateriais Tudo o que é abstrato é imaterial mas nem tudo o que é imaterial é abstrato Mas não queremos por isso concluir que todos os seres imateriais podem ser diretamente percebidos pela nossa inteligência Os seres que excedem a nossa natureza como os Anjos e sobretudo o Ser infinito ainda que sejam imensamente inteligíveis em si mesmos não são contudo objetos proporcionados da nossa fraca inteligência e não podem ser percebidos diretamente mas só pelo raciocínio Donde se vê a excelência e a utilidade da consciência Pela inteligência e pela razão o nosso espírito elevase até ao mais alto grau de conheci mento até à adorável Divindade Não pode subir mais Mas se não pode subir mais o nosso espírito pode dobrarse recolherse em si mesmo penetrar até ao fundo da sua atividade É o que faz pela consciência É um novo campo de atividade mais vasto mais instrutivo mais delicioso mais di vino como diz Aristóteles Metaf l XI c 7 É com efeito neste campo que se encontram e se completam as duas ordens de conhecimentos os princípios e os fatos o abstrato e o concreto o necessário e o contingente a teoria e a prática Vêse também a diferença entre a razão e a con sciência As verdades que constituem o objeto da razão são necessárias e dotadas de evidência mediata mas as verdades que constituem o objeto da consciência e que são as operações espirituais são contingentes porque essas operações são fatos contingentes e dotadas de evidência imediata 1 Devemos ter sempre presente que o exclusivo múnus da consciência é o de atestar a presença das operações espirituais que atualmente se en contram na alma sem se curar se essas operações são verdadeiras ou falsas boas ou más de modo que se uma outra faculdade se engana com relação ao seu objeto contudo não se engana a 220 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b A consciência não se engana na percepção do sujeito agente A consciência não se enganará na percepção do sujeito agente se esse for inteligível e atualmente presente à inteligência porque nesse caso o engano refundirseia no próprio Autor da natureza Ora o sujeito agente que é a própria alma é inteligível porque é imaterial e está atualmente presente à inteligência nas suas operações de modo que é objeto de uma simples apreensão Logo a consciência não se engana na percepção do sujeito agente1 consciência quando refere esse engano como não mente quem refere historicamente as mentiras dos ou tros Por isso quando se trata da consciência o objeto real e o aparente confundemse identificamse porque a modificação do sujeito é sempre a mesma e a consciência quando se limita a atestar a existência dessa modificação é sempre verdadeira como verdadeira é a afirmação de um doente de olhos quando diz que vê todos os objetos de cor amarela em bora não sejam tais em si mesmos Erra quem julga não quem refere 1 Para que a alma perceba a própria existência e o que se passa nela não é preciso mais do que a essência da própria alma que está intimamente unida com a inteligência pois é da essência da alma que derivam as ope rações nas quais ela é atualmente percebida S Thom De mente a 8 Mas repetimos a facilidade com que a consciência percebe as operações e a própria alma referese à existência das operações e da alma porque a percepção da natureza das operações e da alma pertence à razão e é coisa muito difícil De Ver q 10 a 8 ad 8 Fizemos nós uma demonstração Não Limitamonos a uma simples expli cação A demonstração não é possível quando se trata dos fundamen tos de toda a ciência A veracidade ou legitimidade da consciência é de evidência imediata e não pode ser demonstrada nem contestada sem peti ção de princípio Quem quisesse defendêla ou contestála já a supunha como certa Porquanto quem afirma ou nega que neste momento pensa já admite a existência do pensamento porque afirmar ou negar é pensar Ora admitir a existência do pensamento é admitir a veracidade da con sciência Logo a veracidade ou legitimidade da consciência não pode ser demonstrada nem contestada sem petição de princípio Para a solução das principais dificuldades contra a veracidade da con sciência fazemos as seguintes advertências 1º Para que estejamos certos do testemunho ou ato da consciência não precisamos de outra consciência Consistindo ela no poder de refletir e tendo por objeto o que se passa no íntimo do nosso espírito pode ela dobrarse sobre si mesma e perceber o próprio ato Por isso para a certeza da consci ência não é necessária uma nova faculdade mas é suficiente um novo ato da mesma faculdade 2º Muitas vezes duvidamos se um fenômeno interior deriva desta ou daquela faculdade mas a dúvida não se refere à existência mas sim à natureza do mesmo fenômeno Mas conhecer a natureza de um fenômeno e por isso a causa dele é múnus da razão não da consciência 3º Quando os loucos e os sonhadores afirmam que 221 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE veem e ouvem o que realmente não existe esses enganos devem atribuirse não à consciência que se limita a referir o que se passa no espírito dos loucos e dos sonha dores e nisso ela é veraz mas sim à falta do uso legítimo do raciocínio porque o juízo relativo à correspondência entre os fenômenos internos e os externos pertence à razão e nos loucos e nos sonhadores a razão está desarranjada ou não funciona Perguntase perceberá a consciência todas e cada uma das nossas ope rações espirituais de modo que não possa haver uma só operação incon sciente Uns respondem que toda a operação espiritual é necessariamente e sempre percebida pela consciência Por isso dividem a consciência em di reta e reflexa A direta seria a presença da alma nos seus atos e como a alma está sempre presente nos seus atos concluem que não pode haver ato que escape à consciência Escreve Balmes Dizer que os fenômenos existem na nossa alma e que não os tem presentes é uma contradição Phil fund l I c 23 Outros porém e com razão admitem que pode haver e há operações internas de que não temos consciência Antes de tudo repelem a distinção da consciência em direta e reflexa A consciência direta seria uma consciência nãoconsciência O que constitui propriamente a consciência é a advertência Se não há advertência não há nem pode haver consciência A presença da alma nos seus atos não é consciência senão quando e porque reflete sobre eles Ora se é ver dade que a alma pode habitualmente perceberse a si mesma nos seus atos enquanto tem sempre para isso uma grande e natural inclinação não é verdade que de fato ela se comtemple sempre e sem descanso Para isso seria necessária uma atenção demasiadamente intensa e constante de que a nossa alma não é capaz Logo um fato físico não é necessariamente um estado da consciência ainda que que seja sempre um estado da alma de que podemos ter consciência por uma suficiente reflexão A idéia e a consciência da idéia distinguemse como se distinguem a visão do objeto pensado e a visão do sujeito pensante Podemos pensar sem pensar no pensamento Todos admitem a legitimidade ou veracidade da consciência quanto ao objeto direto mas alguns rejeitamna ou desvirtuamna quanto ao objeto indireto Limi tamonos a citar as opiniões de Kant Descartes e Hamilton Kant depois de ter negado ou posto em dúvida a objetividade do pensamento admite a veracidade da consciência mas sustenta que esta se pode perceber os fenômenos internos o eu fenomênico não pode atingir o sujeito desses fenômenos o eu numênico A opinião de Kant é falsa em relação a esta última parte Porquanto pela consciência atingimos os fenômenos internos como nossos Ora não podemos atingilos como nossos sem atingirmos ao mesmo tempo o sujeito deles o eu numênico É o que a experiência atesta Através dos nossos pensamentos afetos desejos há sempre um que pensa ama deseja através dos variados fenômenos que se sucedem uns aos outros no nosso interior descobrimos um sujeito um númeno que no meio de tantas vicissitudes permanece sempre o mesmo e que se chama eu E esse sujeito esse númeno esse eu a consciência não o percebe apenas como um fato fisiológico mas conheceo também como um princípio de atividade como uma causa das nossas operações como uma verdadeira substância indivídua distinta e separada de todas as outras substâncias embora repetimos não perceba a natureza do eu 222 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 163 Regras para a consciência As principais são Iª A consciência deve funcionar dentro dos limites do seu objeto que é constituído pelos fenômenos internos do nosso espírito Por isso não podemos dizer que temos consciên cia das leis físicas do mundo de Deus IIª A consciência deve referir exclusivamente a existência dos fenômenos e do sujeito e não a natureza deste ou daqueles o conheci mento da natureza das coisas pertence à razão 164 Memória intelectual A memória intelectual é a mesma inteligência enquanto conserva as próprias operações passadas e as reconhece como próprias e como passadas1 165 Objeto da memória intelectual O objeto da memória intelectual é tríplice direto indireto e implícito O direto é constituído Descartes na opinião de alguns críticos admitiu que conhecemos o sujeito pensante mas que tal conhecimento é fruto não de uma percepção imediata mas de um raciocínio Daí o famoso entimema penso logo existo Essa opinião importa uma petição de princípio Quem diz penso diz eu sou pensante e por isso já admite o que se diz na conclusão isto é a existência do sujeito pensante E não pode deixar de ser assim O eu é percebido por uma simples intuição da consciência e anteriormente a todo o raciocínio que por isso se é útil para o conhecimento da natureza do sujeito pensante é inútil para o conhecimento da existência do mesmo sujeito Porquanto sendo a ação absolutamente inseparável do agente não podemos perceber uma entidade sem outra um modo de ser sem o próprio ser Hamilton diz que a consciência não podendo perceber o eu se o não distingue do nãoeu percebe também diretamente o nãoeu e por isso o próprio mundo Essa opinião não pode aceitarse porque contraria à própria consciência além de ser con trária à razão É verdade que a percepção do nãoeu completa a percepção do eu mas é falso que ambas as percepções possam pertencer e pertençam à mesma faculdade O nãoeu é percebido pelos sentidos externos e não pela consciência A alma é uma mas os seus meios de informação são muitos e diversos conforme a multiplicidade e diversidade dos objetos perceptíveis 1 A memória intelectual não é uma faculdade distinta da inteligência porque duas faculdades são distintas entre si quando o objeto de uma é distinto do objeto de outra ora o objeto da memória intelectual é idêntico ao da inteligência a verdade imaterial e inteligível Cf Sum Th p I q 79 a 7 Como se vê a memória e a consciência concordam em que ambas têm por objeto as nossas modificações ou ope rações espirituais mas diferem em que a consciência refere aquelas operações como presentes ao passo que a memória as refere como passadas Por isso pode dizerse e dizse que a memória é uma continuação da consciência 223 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE pelas operações intelectuais passadas como tais o indireto é formado pelos objetos daquelas operações o implícito é o nexo existente entre as operações intelectuais e o sujeito que as reconhece como próprias1 166 A memória intelectual não se engana na percepção das próprias operações passadas A memória intelectual não se engana na percepção das próprias operações passadas se o engano não é possível nem quanto à conservação dessas operações nem quanto ao seu reconhecimento Ora o engano não é possível nem quanto à conservação dessas operações porque tal conservação que é um dote de todas as faculdades sobretudo espirituais por excluir todo o juízo não está sujeita a erro nem quanto ao reconhecimento das operações como próprias e como passadas porque tal reconhecimento importa uma simples apreensão comparativa pela qual percebemos a identidade entre a operação que reproduzimos e a operação que produzimos no passado e esta apreensão comparativa não pode ser por si falsa Logo a memória intelectual não se en gana na percepção das próprias operações passadas2 1 É pois pela memória que adquirimos o conhecimento da nossa existência passada da identidade pessoal e da continuação da existência Porquanto não podemos lembrarnos de que pensamos um dia sem conhecer mos ao mesmo tempo que existíamos nesse dia que éramos então o que somos hoje e que temos continuado a existir até ao presente 2 A memória intelectual não só não se engana na percepção do seu objeto direto mas nem na percepção do seu objeto indireto e do implí cito porque também a percepção destes objetos reduzse a uma simples apreensão em que não pode haver erro ou engano Por isso assim como não se engana a consciência assim também não se engana a memória que como dissemos é apenas uma continuação da consciência A veracidade da memória é uma coisa absolutamente necessária para a nossa vida Se a memória não fosse veraz nenhuma arte seria possível nenhuma ciência nenhuma história nenhuma língua nenhuma lição etc Ora o Autor da natureza dá o que é necessário às suas criaturas Também a legitimidade ou veracidade da memória é de uma evidência imediata e não pode ser posta em dúvida sem petição de princípio Quem duvidasse dessa legi timidade deveria formar um raciocínio Ora todo o raciocínio supõe a legitimidade da memória porque quando de umas pre missas deduzimos uma conclusão essas premissas são coisas passadas e não estão presentes no espírito senão pela memória É por causa desse nexo da memória com o raciocínio cujas premissas a memória torna presentes que a Lógica defende a veracidade ou legitimidade dessa faculdade De onde se segue que se às vezes nos enganamos com relação ao pas sado o engano não deve atribuirse à memória mas unicamente à falta de critério e de 224 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 167 Regras para a memória intelectual Para que a memó ria intelectual seja um meio seguro para a aquisição da verdade devem observarse as seguintes regras Iª Sendo uma continuação da consciência a memória deve limi tarse a reproduzir as percepções ou operações passadas sem determinar as causas das coisas IIª Devemos afirmar só o que a memória reconhece e no modo porque ela o reconhece No caso contrário o erro proviria não da memória que não engana no que refere mas da imprudência ou precipitação nos juízos ARTIGO III Sentidos externos e internos 168 Sentidos externos Sentidos externos são os que existem na superfície externa do nosso organismo e por cujo intermédio per cebemos os seres materiais e externos1 reflexão porque ou se atribui à memória o que ela não refere ou se considera como certo o que a memória refere como duvidoso A memória pode enfraquecer pode mesmo esquecer as coisas mas o esquecimento não é erro assim como não é erro a ignorância e no que ela evidentemente refere como certo não pode enganarse aliás deixaria de ser memória isto é deixaria de ser a faculdade de conservar e reconhecer o passado Aqui notamos que a memória intelectual destinada para con servar as imagens imateriais das coisas é mais tenaz e menos móvel do que a memória sensitiva porque o órgão corpóreo a que está ligada a me mória sensitiva é mais móvel mais mutável do que uma faculdade espiritual como é a memória intelectual De Ver q 10 a 2 Como a memória pode esquecer e esquece o passado é necessário robuste cêla exercitandoa continuamente e auxiliandoa aplicando a atenção às coisas que desejamos reter e ordenando as idéias de modo que a recor dação de uma traga naturalmente a recordação da outra Os principais dotes de uma boa memória são facilidade tenacidade fidelidade prontidão É fácil quando sem esforço recorda os conhecimentos passados é tenaz se os conserva por muito tempo é fiel se os reconhece com exatidão é pronta se os reproduz com celeridade 1 O homem não só conhece as coisas imateriais mas também as materiais Para a percepção das coisas imateriais é dotado de faculdades imateriais para a percepção das coisas materiais é dotado de faculdades materiais A faculdade material não reside exclusivamente na alma nem exclusivamente no corpo mas no composto de alma e 225 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 169 Número dos sentidos externos Os sentidos externos são cinco a vista pela qual percebemos as cores o ouvido pelo qual percebemos os sons o olfato pelo qual percebemos os cheiros o gosto pelo qual percebemos os sabores o tato pelo qual percebemos os objetos externos que nos impressionam pela sua resistência1 170 Objeto dos sentidos externos O objeto dos sen tidos externos é tríplice próprio comum e concomitante É próprio quando é percebido por um só sentido assim a cor é o objeto próprio da vista o som do ouvido etc É comum quando é percebido por mais de um sentido assim a grandeza é objeto comum porque é percebida pela vista e pelo tato É concomitante quando não é percebido por si mesmo mas por meio de outro objeto a que está naturalmente unido assim a substância corpórea é objeto concomitante porque é percebida por meio das qualidades corpóreas que a envolvem2 de corpo As facul dades perceptivas das coisas materiais enquanto materiais são os sentidos que se distinguem em externos e internos 1 Na Antropologia trataremos com suficiente desenvolvimento da natureza e do número dos sentidos externos e do objeto próprio de cada um Aqui para o nosso escopo bastam estes apontamentos Tratamos das faculdades perceptivas não para investigarmos o modo porque pro duzem as suas operações mas para defendermos a sua veracidade ou legitimidade na percepção dos respectivos objetos 2 Com relação ao tríplice objeto dos sentidos fazemos as seguintes advertên cias O objeto próprio é uma qualidade singular e concreta que por si e primeiramente atua num só sentido de modo que não pode atuar em nenhum dos outros Os objetos próprios são cinco tantos quantos os sentidos O objeto comum é também uma qualidade singular e concreta que modifica de algum modo a ação dos sensíveis próprios e por isso se atua nos respectivos sentidos por si não atua primeiramente porque não pode impressionar os sentidos senão por meio dos sensíveis próprios assim a grandeza é objeto comum da vista e do tato porque referese à vista por causa da cor e ao tato por causa da resistência Os objetos comuns como dissemos são cinco o movimento a quietação o número a figura e a grandeza mas como diz S Tomás todos reduzemse à quantidade Cf Sum Th p I q 78 a 3 O objeto concomitante que os escolásticos chamam per accidens é uma coisa que está naturalmente unida com os objetos próprios ou comuns de modo que não pode deixar de ser perce bida na percepção desses objetos tal é como dissemos a substância corpórea que sendo o substratum dos sensíveis próprios e comuns é perce bida por eles e com eles A razão é que os sentidos percebem os sensíveis próprios e comuns não de um modo abstrato mas de um modo con creto pois a vista não percebe a cor mas o objeto colorido o gosto não percebe o sabor mas o objeto saboroso etc É claro que os sentidos limi tamse a atestar o fato de uma existência concreta sem penetrar na essência 226 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 171 Condições para a função dos sentidos As condi ções necessárias e suficientes para a legítima função dos sentidos referemse aos próprios sentidos ao objeto e ao meio Da parte dos sentidos é neces sário que se achem no seu estado normal e por isso estejam isentos de vícios de doenças e de qualquer afeção que possa impedir ou perturbar o exer cício da percepção Da parte do objeto requerse que seja pró prio de modo que se refira ao respectivo sentido e pro porcionado de modo que se encontre em condições convenien tes para ser percebido Da parte do meio existente entre o sentido e o objeto é preciso que tenha a capacidade de levar ao sentido inalterada a imagem do objeto1 172 Os sentidos externos percebem os objetos externos a Toda a faculdade alcança necessariamente o objeto para o qual está naturalmente ordenada se não encontra obstáculos porque se não alcançasse o seu objeto a faculdade estaria e deixaria de estar ordenada para ele o que é absurdo Ora os sentidos externos estão naturalmente ordenados para perceber os objetos externos como o demonstra não só a sua situação na superfície externa do nosso corpo mas também a sua adaptação aos respectivos objetos externos Logo os sentidos externos percebem os objetos externos2 1 A razão da natureza e do número dessas condições deduzse da própria natu reza da percepção sensitiva Fazse essa percepção enquanto o objeto atua na faculdade e nela imprime uma sua espécie ou imagem ou representação a qual determina a faculdade a percebêlo como é em si mesmo Portanto tudo o que pode concorrer de algum modo para viciar ou alterar tal impressão concorre também para viciar ou alterar a própria percepção Para evitar todo e qualquer inconveniente é indis pensável a verificação das condições enumeradas O órgão do sentido deve acharse no seu estado normal por isso não deve ser viciado um cego não vê as cores nem um surdo ouve os sons nem estar doente o gosto de um febricitante sente amarga uma coisa doce nem deve ser alterado as mãos enregeladas são incapazes de apalpar e distinguir objetos delicados O objeto deve ser próprio isto é deve referirse à faculdade que é capaz de o perceber e proporcionado ao órgão isto é não deve estar nem muito perto nem muito longe a superfície do sol da lua por estar fora do alcance da vista parece plana O meio através do qual o objeto atua no sentido não deve ser variado ou perturbado na sua condição natural assim pela interposição dos vapores que refrangem os raios da luz o sol a lua e as estrelas parecem às vezes quase vermelhas um pau mergul hando na água parece quebrado A experiência e a reflexão podem jul gar se as condições enumeradas se verificam ou não 2 A situação e a adaptação ou conformação fisiológica dos órgãos dos sentidos externos revelamnos as intenções da natureza Primeiramente a situação Se a 227 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE b Todos os homens de todos os tempos de todas as classes e condições à exceção dos loucos estiveram e estão convencidos de que os sentidos externos percebem não a modificação do próprio órgão nem uma coisa imaginária mas um objeto existente na realidade fora de nós Ora essa convicção sendo universal e constante não pode derivar senão da natureza e essa não pode enganarse Logo os sentidos externos percebem os objetos externos1 natureza nos tivesse dotado de sentidos só para conhecermos as nossas disposições subjetivas deveria têlos colocado no centro do organismo ou na cavidade do crâneo Mas não foi assim Os órgãos dos sentidos externos estão colocados na superfície externa do nosso corpo ou na extremidade dos membros E para que Para podermos relacionarnos com o mundo exterior Se não tivesse sido este o escopo da natureza teríamos um efeito sem razão suficiente o que é absurdo Logo a disposição dos órgãos dos sentidos externos manifesta a objetividade das nossas per cepções isto é a existência dos objetos percebidos Secundariamente a adaptação Todos os fisiologistas examinando os órgãos dos sentidos externos reconhecem que eles estão maravilhosamente adaptados para as respectivas funções isto é para a percepção dos respectivos objetos exter nos a vista para a percepção das cores o ouvido para a percepção dos sons etc Ora se os sentidos externos têm essa adaptação devemos concluir que eles percebem os objetos externos se não houver algum impedimento Não pode negarse a conclusão sem se negar o senso comum 1 Todos mesmo os adversários admitem a existência dessa convicção univer sal e constante acerca da objetividade da percepção sensitiva externa Todavia alguns dizem com Taine que a tal convicção é uma ilusão ver dadeira para a distinguir das ilusões falsas Mas se toda a ilusão é um engano é uma falsidade poderá haver uma ilusão verdadeira isto é uma falsidade verdadeira Ao bom senso a resposta E não pode ser de outro modo Quando um pobre homem recebe uma bengalada na cabeça lançase contra o adversário e faz todos os esforços para lhe arrancar das mãos a bengala causa instrumental da sua dor O que mostra isso Mostra que os sentidos externos isto é os olhos do agredido não perceberam uma coisa imaginária ou uma modificação do próprio órgão mas um objeto real um objeto externo O exemplo aduzido é vulgar mas não faltam outras razões científicas É admitido por todos que os nossos sentidos externos como todas as nossas potências ou faculdades podem perceber um ou outro objeto indiferentemente Quando pois os sentidos percebem um determinado objeto e não outro é preciso dizer que eles foram determinados para perceber esse objeto e não outro E de onde derivou essa determinação A determi nação podia derivar ou dos próprios sentidos ou da vontade ou dos objetos externos Mas não derivou dos próprios sentidos porque esses são por si indiferentes e indeterminados com relação aos seus objetos se fossem de terminados para perceber um objeto e não outro perceberiam sempre e só esse objeto Nem derivou da nossa vontade porque muitas vezes os sen tidos percebem um objeto independentemente e contra o desejo da nossa vontade Logo se não quisermos admitir um efeito sem 228 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 173 Os sentidos externos percebem os objetos externos por um modo imediato a Os sentidos externos perceberão os objetos externos por um modo imediato se entre a ação ou atuação desses objetos nos respectivos sentidos e a paixão ou impressão recebida pelos mesmos sentidos não existir meio algum Ora efetivamente entra essa ação e essa paixão não existe meio algum porque a ação do agente é recebida por si mesma no paciente e na ação e pela ação que reflete as propriedades do agente esse é percebido pelo paciente Logo os sentidos exter nos percebem os objetos externos por um modo imediato b Se os sentidos externos não percebessem os objetos externos por um modo imediato deveria dizerse que esses sentidos percebem primeira e diretamente a própria paixão isto é a impressão subjetiva recebida pela ação dos agentes externos e secundáriae indiretamente a mesma ação dos agentes externos Ora a experiência atesta que os sentidos externos percebem única e diretamente a ação dos agentes externos e que a impressão subjetiva dos mesmos sentidos não é percebida por esses de modo algum mas exclusivamente pelos sentidos internos Logo os sentidos externos percebem os objetos externos por um modo imediato1 uma razão suficiente devemos dizer que essa determinação dos sentidos para que percebessem um certo objeto e não outro derivou do próprio objeto externo O objeto externo determina um sentido enquanto atuando no próprio sentido imprime nele a sua imagem a qual por isso é uma qualidade acidental do sujeito recipiente O sentido em seguida por uma reação vital apropriase dessa imagem e nela percebe o próprio objeto externo que a pro duziu O que dizemos aqui em resumo será desenvolvido na Antropologia Objetam a percepção dos sentidos externos é um fato subjetivo e por isso não pode referir o que está fora do sujeito o nãoeu Respon demos que a percepção dos sentidos externos se é um fato subjetivo com relação ao seu princípio que é a faculdade é objetivo com relação ao termo que é a coisa percebida Por outras palavras a per cepção consi derada entitativamente é um fato subjetivo considerada intencional ou representativamente é um fato objetivo 1 Na Antropologia provaremos que pelos nossos sentidos externos per cebemos de um modo imediato os objetos externos Limitamonos aqui a algumas reflexões necessárias e suficientes para o nosso escopo É princípio inconcusso que o ato do agente é recebido no paciente e que o ato do agente enquanto recebido no paciente e o ato do próprio paciente não constituem senão um e o mesmo ato dotado de um dúplice aspecto de um dúplice caráter porque esse ato relativamente ao agente de 229 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE que deriva tem a natureza de princípio e relativamente ao paciente que o recebe tem a natureza de termo e de paixão Diz S Tomás Unus et idem actus sensibilis et sentientis sed ratione diferunt De Anima l III lect 2 Recebendo em si mesmo o ato do agente externo o paciente percebe o nãoeu no eu e refere naturalmente a esse nãoeu o ato que o impressionou visto que toda a paixão se refere necessariamente a uma ação Daí a objetividade da percepção E não é tudo Se o ato do agente é recebido e existe realmente no paciente se a ação e a paixão formam um e o mesmo ato com dois aspectos diferentes é claro que o paciente deve perceber direta ou imediatamente sem intermediários e antes da própria modifi cação subjetiva o ato do nãoeu do agente externo É pois inútil pro curar uma ponte que nos sirva para passar do eu para o nãoeu visto que entre o eu e o nãoeu não há distância Tal é a opinião universal dos homens Todos estão convencidos de que percebendo o mundo exterior percebem o que está fora deles e de que o objeto direto e imediato das suas percepções é constituído pelos próprios objetos externos Objetam o corpo não pode atuar na alma nem esta naquele Logo uma percepção imediata dos corpos é impossível Resposta Concedemos que os corpos não podem operar na alma quando separada do organismo mas negamos que não podem operar nela quando unida ao organismo O objeto sensível referese ao órgão animado como o agente ao paciente E como o agente pela sua ação existe no paciente aquele pode e deve ser percebido por este e de um modo imediato Na percepção dos sentidos externos poderá haver engano Serão eles verazes no que nos atestam Eis uma questão que é a base de toda a teoria acerca do conhecimento intelectual Porquanto dependendo o conhe cimento intelectual do conhecimento sensitivo quanto ao objeto pois são os sentidos que subministram à inteligência o material do pensamento é claro que se se enganam os sentidos se engana também a inteligência Tratemos pois da veracidade dos sentidos externos Antes de tudo devemos advertir que nos sentidos não se encontra a verdade tomada no seu conceito formal isto é no seu conceito próprio enquanto importa uma adequação entre a faculdade perceptiva e o objeto percebido Com efeito para que nos sentidos pudesse encontrarse a ver dade tomada no seu conceito próprio deveriam eles perceber a relação de identidade ou de discrepância entre o sujeito e o predicado e para isso deveriam possuir várias idéias universais sobretudo a idéia universal da forma em que os dois termos convêm ou não convêm Ora as facul dades materiais como são os sentidos não podem perceber a relação entre o sujeito e o predicado porque tal relação é uma coisa abstrata ou uni versal e essas faculdades não são capazes de idéias universais Logo nos sentidos não se encontra a verdade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso Se nos sentidos não existe a verdade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso nem se encontra neles o erro ou a falsidade tomada também no seu conceito próprio ou rigoroso enquanto exprime uma desconformidade entre a faculdade perceptiva e o objeto percebido Porquanto dáse essa desconformidade quando a faculdade perceptiva afirma que a um sujeito 230 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA convém um predicado que lhe não convém ou que a esse sujeito não convém um predicado que lhe convém Ora essa afirmação supondo a percepção da relação entre o predicado e o sujeito não pode ser feita pela faculdade sensitiva Logo nos sentidos não se encontra a falsi dade tomada no seu conceito próprio ou rigoroso Em poucas palavras a verdade e a falsidade encontramse própria e rigorosamente no juízo Ora os sentidos não são capazes de pronunciar um verdadeiro juízo Logo a verdade e a falsidade não se encontram própria e rigorosamente nos sentidos Diz S Tomás Proprie loquendo veritas est in intellectu com ponente et dividente h e iudicante non autem in sensu neque in intellectu cognoscente quod quid est h e simpliciter apprehendente essentiam rei Sum Th p I q 16 a 2 Se algumas vezes costumamos dizer que os sentidos julgam enquanto distinguem um sensível de outro sensível que são objetos do mesmo sentido ou de sentidos diferentes tomamos o juízo em significação lata ou menos rigorosa Mas a verdade e a falsidade se não se encontram formalmente na facul dade sensitiva podem encontrarse nela materialmente enquanto a apreensão ou percepção dos objetos sensíveis corresponde ou não à realidade isto é enquanto percebe ou não os entes objetivos como são em si mesmos Daí a pergunta enganamse ou não os sentidos externos na percepção do seu objeto E como esse objeto é tríplice tresdobrase a pergunta enganamse ou não os sentidos externos na percepção do seu objeto próprio comum e concomitante A estas perguntas vamos responder Repetimos que a nossa não é uma demonstração muito menos uma demons tração rigorosa é apenas uma declaração uma resposta aos adver sários Porquanto a veracidade dos sentidos externos é tão clara tão imediatamente evidente que não precisa nem pode ser demonstrada Não pre cisa Na verdade o senso comum apela para o testemunho dos sentidos externos como para a prova irrefragável da evidência de uma coisa Daí as expressões tocase com as mãos metese pelos olhos dentro etc Não pode Com efeito toda a demonstração parte em última análise de princípios universais e esses são conhecidos pela inteligência Ora a ope ração da inteligência é precedida pela operação dos sentidos externos Logo toda a demonstração pressupõe a veracidade dos sentidos externos Essa convicção acerca da veracidade dos sentidos como também da veracidade de todos os outros meios não é efeito de um cego instinto Na verdade o instinto é uma inclinação que deriva da natureza e pela qual operamos sem um conhecimento sufi ciente Por isso quando se trata de uma faculdade perceptiva o instinto deve conceberse como uma inclinação proveniente da natureza para apreender um objeto quando o próprio objeto não impressiona por si a faculdade Porquanto se essa impressão se realiza a faculdade inclinase para produzir o seu ato em virtude da sua energia essencial e tal inclinação não é nem pode chamarse instinto Assim ninguém dirá que é o instinto que nos leva a julgar que o todo é maior que uma sua parte mas todos dirão que é a luz da razão a energia intrínseca da nossa inteligência A necessidade que nestes casos obriga a faculdade a afirmar a verdade deriva do concurso de uma dúplice causa de ordem exclusivamente cognitiva da evidência do objeto e da ten dência da faculdade para o seu ato A natural inclinação pois pela qual acredi tamos 231 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 174 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio a Se os sentidos externos quando bem dispostos e conveniente mente aplicados pudessem enganarse na percepção do objeto próprio a vista na percepção das cores o ouvido na percepção dos sons etc deveria dizerse que eles são natu ralmente incapazes de alcançar o objeto para o qual natural mente tendem Ora é absurdo dizer que uma faculdade é natu ralmente incapaz de alcançar o objeto para o qual naturalmente tende pois toda a razão do ser e da natureza de uma faculdade consiste na sua natural aptidão para conseguir o objeto próprio Logo os sentidos externos quando bem dispo stos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio b Se os sentidos externos quando bem dispostos e conveniente mente aplicados pudessem enganarse na percepção do objeto próprio darseia o engano ou porque eles não podem receber a impressão do objeto próprio ou porque esse objeto não existe na realidade Ora nenhuma dessas duas hipóteses pode admitirse Não pode admitirse a primeira porque a fisiologia examinando o organismo e a disposi ção dos sentidos externos reconheceos aptíssimos para receberem a impressão do respectivo objeto próprio Não pode admitirse a segunda porque os sentidos externos sendo por si indiferentes para receberem a impressão de muitos objetos externos não poderiam acusar a impressão de um certo objeto se esse não existisse na realidade Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio1 no testemunho dos sentidos externos e de todas as outras faculdades perceptivas é uma inclinação de ordem cognitiva e não uma inclinação cega ou instintiva 1 Os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados no que se resumem todas as condições necessárias para o legítimo exercício deles não se enganam por si isto é pela sua natureza na per cepção do objeto próprio porque se se enganassem por si seriam feitos e deixariam de ser feitos para essa percepção o que é contraditório Mas se os sentidos externos não podem enganarse pela sua natureza podem enganarse por uma causa acidental que lhes não deixa perceber o objeto como é em si mesmo Essa causa acidental deve procurarse na indispo sição do organo ou na imperfeição do meio Porquanto o sentido para perceber o seu objeto deve ser determinado por uma forma ou espécie que é a imagem intencional do mesmo objeto Mas se o sentido não estiver bem disposto ou não for convenientemente 232 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 175 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto comum a A percepção do objeto ou sensível comum é um efeito para o qual estão por si e naturalmente ordenados os respectivos senti dos tomados coletivamente Ora o efeito para o qual estão por si e naturalmente ordenadas as faculdades tomadas singular ou coletiva mente não pode deixar de se alcançar quando se verificam as devidas condições aliás essas faculdades seriam naturalmente insuficientes e deixariam de ser faculdades Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto comum b Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto próprio Se não podem enganarse na percepção do objeto próprio nem podem enganarse na percepção do objeto comum pois cada um dos diversos aplicado não poderá receber como devia essa forma ou a forma não representará fielmente o objeto De onde o engano ou a falsidade na percepção dos nossos senti dos O que dizemos dos sentidos deve aplicarse a todas as faculdades passivas isto é determinadas ao ato pela impressão de um agente Diz S Tomás Sensus semper apprehendit rem ut est nisi sit impedimentum in organo vel io medio De Ver q 1 a 11 cf Sum Th p I q 17 a 2 Como se vê o engano ou o erro pode darse nos sentidos enquanto por uma causa acidental não percebem uma coisa como é em si mesma mas não pode darse enquanto acusam o estado próprio a afecção própria embora pos sam ocasionar um juízo falso da parte de uma faculdade superior Assim quando um doente diz que o açúcar é amargo o testemunho do gosto é veraz porque efetivamente o doente tem essa sensação embora se engane por atribuir o amargo ao açúcar Se os sentidos podem enganarse per accidens mesmo com relação ao objeto ou sensível próprio se podem não representar e não referir as coisas como são em si mesmas é claro que podem também dar à inteligência que se baseia no testemu nho deles a ocasião de emitir juízos falsos acerca dos objetos externos Todavia a inteligência pode conhecer o engano de um sentido e a sua origem se depende da indisposição do órgão ou da imperfeição do meio e conheceo por meio do mesmo ou de outro sentido ou pela reflexão própria Conhecido o engano do sentido cor rigese facil mente Por isso o juízo da inteligência que sucede imediatamente à percepção dos sentidos é sempre e necessariamente verdadeiro quando esta mos certos da boa disposição dos mesmos sentidos e da sua conveniente aplicação Na Antropologia resolveremos algumas dificuldades contra a veracidade dos sentidos externos Cf De Ver q 1 a 11 233 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE aspectos pelos quais o objeto comum se refere a vários sentidos cons titui o objeto próprio de cada um desses sentidos Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não po dem enganarse na percepção do objeto comum1 176 Os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante a Todos os homens de bom senso estiveram sempre e estão convencidos de que os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados percebem as qualidades sensíveis dos corpos externos como são em si mesmas aderentes a um sujeito e por isso percebera ao mesmo tempo e com o mesmo ato as qualidades e o sujeito embora aquelas de um modo explícito e esse de um modo implícito e de que essa percepção não pode estar sujeita a engano Ora tal convicção universal e constante não pode deixar de ser efeito da ver dade porque só a verdade é universal e constante e todo o efeito 1 Quando um objeto sensível é comum a vários sentidos a cada um dos quais se refere sob um aspecto diferente ou por um atributo diverso não pode ser adequada e completamente percebido se não por todos esses sentidos Então cada sentido percebe do objeto comum o atributo que é objeto próprio desse sentido Assim uma grandeza é percebida pela vista quanto à cor e pelo tato quanto à resistência Deste modo os vários sentidos constituem uma faculdade completa com relação ao objeto comum e não pode haver engano pois esse se houvesse deveria atribuirse ao Autor da natureza Mas se não pode haver na percepção do sensível comum um engano ou erro per se pode haver um engano per accidens quando para essa percepção não se empregam todos os sentidos respectivos e assim a faculdade é insuficiente incompleta inadequada com relação ao seu objeto Não admira pois que a vista não auxiliada pelo tato se engane às vezes na percepção da figura da grandeza da distância do movimento porque esses são objetos comuns Mas quando se dá o engano esse não pode atribuirse a um vício ou defeito da vista mas unicamente à imprudência de quem julga O engano de um só sentido com relação a um objeto comum pode corrigirse pela aplicação de um outro sentido ou pela reflexão da inteligência O engano pode darse sobretudo na percepção da vista enquanto dois objetos dotados de diversa grandeza mas situados em distâncias desiguais podem produzir nesse sentido a mesma impressão e essa impressão pode dar à inteligência a ocasião de concluir falsamente pela igualdade da grandeza dos dois objetos Por isso a percepção da vista deve ser interpretada e contida nos seus verdadeiros limites por outro sentido cuja percepção não varie segundo a variedade da distância do objeto Este sen tido é o tato que conserva sempre a mesma distância com relação ao seu objeto próprio 234 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA exige uma causa proporcionada Logo os sentidos exter nos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante b Se os sentidos externos quando bem dispostos e conve nientemente aplicados se enganam na percepção do objeto concomi tante dáse o engano Ou porque as qualidades sensíveis próprias ou comuns atuam nos sentidos externos de um modo abstrato isto é como que separadas do sujeito a que aderem e que as sustenta ou porque essas qualidades são percebidas pelos sentidos de um modo abstrato Ora nenhuma destas duas hipóteses pode admitirse Não pode admitirse a primeira porque as qualidades atuam nos sentidos não separadas do sujeito mas existentes no sujeito pois é o sujeito que atua embora pelas suas qualidades nos sentidos Não pode admitirse a segunda porque as qualidades são percebidas pelos sen tidos como são em si mesmas isto é aderentes a um sujeito pois os sentidos são incapazes de abstração Logo os sentidos externos quando bem dispostos e convenientemente aplicados não podem enganarse na percepção do objeto concomitante1 1 A percepção pode ser concreta e abstrata É concreta quando um objeto composto de vários elementos se percebe como é em si mesmo como uma coisa só É abstrata quando num objeto composto de vários elementos se percebe ou se considera um elemento e não se consideram ou não se percebem os outros Assim quando vemos um pedaço de mármore branco podemos considerar esse composto de mármore e de brancura e podemos também considerar a brancura sem o mármore e o mármore sem a brancura No primeiro caso a percepção é concreta no segundo é abstrata Posto isto perguntase a percepção dos sentidos externos é concreta ou abs trata E como o objeto dessa percepção é a substância corpórea enquanto modificada pelas qualidades sensíveis a pergunta resolvese na seguinte os sentidos externos percebem a substância corpórea enquanto modificada pelas qualidades sensíveis isto é percebem o composto de sub stância e de qualidades ou percebem apenas a substância sem as quali dades ou as qualidades sem a substância A essa pergunta os filósofos respondem diversamente conforme a diversidade dos seus princípios Uns como Locke Berkeley Reid e sobretudo os Kantistas que só admitem fenôme nos ou aparências e negam a existência das substâncias ou dos númenos sustentam que a percepção dos sentidos é abstrata Outros como Aristóteles S Tomás seguidos por todos os escolásticos e filósofos de melhor critério ensinam que a percepção dos sentidos é concreta enquanto os sentidos percebendo as qualidades sensíveis como são e são concretas ou aderentes a uma coisa a um sujeito percebem o composto de substância e de qualidades percebendo as qualidades como objeto próprio ou comum e a substância como objeto concomitante S Tomás diz que para uma coisa ser objeto 235 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE concomitante dos sentidos ou ser sensível per accidens são necessárias três condições a que esteja unida a uma outra coisa que é sensível por si b que seja percebida de algum modo pelo sujeito senciente aliás não seria sensível c que seja conhecida pelo senciente por meio de uma outra faculdade perceptiva p ex pela inteligência ou por uma outra faculdade sensitiva superior Adverte o mesmo S Doutor que o sensível per accidens não é tudo o que pode ser percebido num objeto sensível mas é o que a inteligência imediatamente conhece após a impressão que esse objeto exerceu nos sentidos externos assim vendo um sujeito que fala ou caminha percebemos pela inteligência a vida dele e dizemos vejo que esse sujeito vive De Anima l 3 lect 13 Que a percepção dos sentidos seja concreta e não abstrata é coisa manifesta Na percepção abstrata operase uma análise pela qual uma coisa se separa intencio nalmente de outra isto é pela qual uma coisa se considera sem outra Ora a análise é uma operação própria da inteligência e não dos sentidos Os sentidos apresentam o composto como é em si mes mo na sua concreção Nem podia ser de outro modo O que alcançam os sentidos Só a substância Não porque a substância não pode atuar diretamente por si mesma nos sentidos nem na inteligência A substância está envolvida nas qualidades sensíveis e não pode operar nem ser perce bida sem elas Só as qualidades sensíveis Também não porque as qua lidades existem como concretas isto é aderentes a um sujeito operam como concretas e por isso devem ser percebidas como concretas Logo a percepção dos sentidos é concreta Mas não devemos exagerar a parte dos sentidos na percepção do objeto concomitante Os sentidos limitamse a apreender as qualidades sensíveis como se encontram na realidade e por isso concretas isto é existentes não em si mesmas mas num sujeito determinado e essas qualidades concretas são por eles apresentadas à inteligência Eis tudo Porquanto se é certo que essas qualidades concretas perce bidas pelos sentidos constituem um composto de acidentes e de substância é certo também que os sentidos não percebem que debaixo das qualidades existe um sujeito uma substância não sabem o que é substância nem o que é acidente não distinguem o elemento que está em si do elemento que se apoia num sujeito É a inteligência e só ela que recebendo dos sentidos as qualidades concretas per cebe imediatamente que estas por isso mesmo que são qualidades con cretas devem residir num sujeito numa substância e que essa substância deve existir e deve ser dotada de uma natureza proporcionada e correspon dente à natureza das qualidades Portanto os sentidos não se enganam per se pela sua natureza na per cepção do objeto concomitante Mas se não se enganam por si os sentidos podem dar à inteligência a ocasião de enganarse de emitir juízos falsos Com efeito os sentidos não percebem diretamente a substância mas apenas as qualidades concretas Ora pode acontecer que as mesmas qualidades con cretas se encontrem em substâncias diversas porque não repugna que substâncias diversas tenham a mesma figura a mesma cor o mesmo peso etc e pode acontecer também que as qualidades concretas existam milagrosamente sem sujeito sustentadas pela virtude onipotente de Deus Sendo assim é claro que a inteligência pode facilmente enganarse enquanto pode julgar que certas qualidades concretas pertençam a uma certa substância quando realmente pertencem a uma outra 236 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA substância diversa Ou que as qualidades sensíveis adiram atualmente a um sujeito quando atualmente não aderem Mas nesses casos o engano não deve atribuirse aos sentidos que se limitam a apresentar as qualidades concretas como são em si mesmas sem acrescentar se essas qualidades pertencem a esta ou aquela substância e se existem ou não no sujeito próprio mas deve atribuirse à inteligência que não empregou todos os meios necessários para evitar o erro e conseguir a verdade E quais são esses meios Quando há uma séria dúvida se as qualidades concretas pertencem a esta ou aquela substância é necessário multiplicar as observações e as análises até se encontrarem outras qualidades mais próprias mais características de modo que possam convir a uma só substância e não à outra Quando por um milagre da onipotência divina as qualidades concretas subsistem sem o sujeito próprio é a Fé que se encarrega de nos instruir e preservar de um juízo errôneo Se os sentidos externos percebem efetivamente e por um modo imediato os corpos externos e se eles não se enganam por si na percepção do seu tríplice objeto próprio comum e concomitante é claro que a inteligência recebendo a relação dos sentidos e baseandose exclusivamente no testemunho deles pode e deve julgar imediatamente sem nenhuma necessidade de raciocínio que os corpos existem que o mundo existe O raciocínio é necessário quando uma coisa não é evidente quando a inteligência não conhece imediatamente a relação entre o predicado e o sujeito mas quando conhece essa relação imediatamente baseandose na imediata percepção dos sentidos já não precisa de raciocínio Repetimos o que se vê não precisa de ser demonstrado São três as opiniões dos filósofos acerca da percepção e da veraci dade dos sentidos externos 1ª Uns admitem que os sentidos externos percebem e de um modo imediato os corpos externos e que a veracidade dos mesmos sentidos é imediatamente evidente e não precisa nem pode ser demonstrada 2ª Outros sustentam que os sentidos externos não percebem de modo algum os objetos externos porque estes não existem ou se existem não podem ser percebidos pelos sentidos e por isso negam ou não discutem a veracidade dos mesmos sentidos 3ª Outros afirmam que a existência dos corpos externos nos é manifesta não por uma imediata percepção dos sentidos externos mas por um outro meio e que a própria veracidade dos mesmos sentidos não é imediatamente evidente e precisa de ser demonstrada Tendo exposto e defendido a primeira opinião que é a de todos os escolásticos antigos e modernos e de todos os Padres e Doutores da Igreja vamos expor e refutar diretamente a segunda e a terceira A A segunda opinião como dissemos é a que negando a existência dos objetos externos nega a percepção e a veracidade dos sentidos externos Para os sequazes dessa opinião uma percepção externa é uma contradição a percepção dos corpos signi fica apenas a percepção das nossas idéias das modificações da nossa alma o que vemos ouvimos e em geral sentimos é apenas uma série de fenômenos internos do eu uma 237 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE série de idéias ou de sensações meramente subjetivas que por uma ilusão projetamos para fora de nós Nada é real só existem as nossas idéias O mundo é apenas uma idéia uma aparência sem realidade É o idealismo Dividese esse em subjetivo e objetivo conforme as imagens ou aparências dos corpos que a inteligência possui se fazem derivar unicamente da atividade da alma ou de uma ação do próprio Deus O idealismo subjetivo foi defen dido sobretudo por Fichte o objetivo por Berkeley O idealismo é falso em si e nas suas espécies a O idealismo em geral é falso a O idealismo baseiase num falso fundamento Porquanto supõe ele que a alma e o corpo são duas substâncias completas uma estranha à outra que a alma está relegada num ponto do organismo sem meio de comunicação com a realidade externa e que por isso não é possível uma impressão dos objetos que embora existissem seriam sempre incognoscíveis Ora esse fundamento lançado por Descartes é intei ramente falso A alma e o corpo como veremos na Antropologia são duas substâncias incompletas e substancialmente unidas de modo que formam uma só pessoa e uma só natureza ou essência Não é a alma só que sente nem é o corpo só mas é o composto de alma e de corpo é o órgão animado Logo o idealismo baseiase num falso fundamento b Se os objetos externos não existem na realidade mas exclusiva mente nas nossas idéias seguese que os nossos sentidos externos percebem o que não está pre sente o que não existe Ora uma percepção sem a coisa percebida uma visão sem a coisa vista é simplesmente uma contradição Logo o idealismo em geral é falso b O idealismo subjetivo é falso a A causa das sensações não pode ser exclusivamente a atividade da nossa alma Porquanto a nossa alma quando se experimenta uma sen sação percebe que é passiva e que essa sensação é uma operação passiva Ora o princípio e a causa motriz de uma operação passiva não é o sujeito que é por si indiferente mas é o próprio objeto Diz S Tomás Objectum comparatur ad actum potentiae passivae sicut prin cipiam et causa movens Sum Th p I q 77 a 3 Logo a causa das sensações não pode ser exclusivamente a atividade da alma b Devendo o efeito ser proporcionado à própria causa as sensações se derivassem exclusivamente da atividade da nossa alma não poderiam representar senão objetos simples e espirituais porque simples e espiritual é a nossa alma Ora as sensações representam coisas materiais e corpóreas como os próprios adversários confessam Logo as sensações não podem derivar exclusivamente da atividade da alma Além disso se as sensa ções derivassem unicamente da alma não haveria uma razão suficiente porque devessem representar como efetivamente representam os objetos corpóreos e materiais como existentes fora de nós c O idealismo objetivo é falso a Atestanos a consciência que quando experimentamos uma sen sação experimentamos pela mesma impressão a sensação e a causa dela assim quando nos aproximamos do lume sentimos o calor do lume e ao mesmo tempo o lume quente Ora se a sensação fosse produzida por um agente extrínseco como é Deus 238 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA as nossas mãos embora sentissem o calor não poderiam sentir como efetivamente sentem o calor do lume nem o lume quente Diz S Tomás Si illa species caloris in organo ab alio agente fieret tactus etsi sentiret calorem non tamen sentiret calorem ignis nec sentiret ignem esse calidum cum tamen hoc judicet sensus cujus judicium in proprio sensibili non errat De pot q 3 a 7 Logo as sensações não derivam imediatamente de Deus mas dos próprios objetos externos b Se as sensações dos objetos externos derivassem exclusivamente da ação de Deus e não da ação imediata dos próprios objetos a ação de Deus seria inútil e má inútil porque seria inútil produzir em nós a sensação de coisas materiais se estas não existissem realmente má porque Deus nos enganaria levandonos por um impulso irresistível a julgar como existente o que realmente não existe Ora é absurdo e ímpio pensar que uma ação de Deus possa ser e seja inútil e má Logo as nossas sen sações não derivam exclusivamente da ação de Deus mas da ação imediata dos próprios objetos Se as nossas sensações têm por causa imediata os objetos externos esses exis tem e o testemunho dos sentidos externos que nos acusa a exi stência dos objetos externos é legítimo ou veraz B A terceira opinião como dissemos afirma que a existência dos corpos ou dos objetos externos não se manifesta por uma imediata per cepção dos sentidos externos mas por um outro meio e que por isso a veracidade dos mesmos sen tidos externos não é imediatamente evidente Esse outro meio distinto da imediata percepção dos sentidos que nos levaria a admitir com certeza a existência dos objetos ou corpos externos é para Descartes uma inclinação universal prove niente de Deus para Malebranche a Revelação sobrenatural contida na S Escritura para Reid um instinto natural para Cousin Sentroul e outros neoescolásticos de Louvain o princípio de causalidade Façamos uma breve crítica das opiniões enumeradas mostrando que o emprego desses meios longe de substituir o exercício dos sentidos externos pressupõe e exige necessariamente o exercício e a veracidade dos mesmos sentidos a Descartes ensina que uma inclinação universal proveniente de Deus nos leva a admitir a existência dos corpos inclinação que não pode deixar de ser veraz por isso mesmo que provém de Deus Essa doutrina é falsa pelas seguintes razões a Na opinião de Descartes o conhecimento do mundo seria posterior ao conhecimento de Deus Ora dáse exatamente o contrário O conhecimento do mundo é anterior ao conhecimento de Deus porque é pelo finito que nos elevamos ao infinito Por isso não poderíamos conhecer a Deus se não acreditássemos anteriormente na veracidade dos sentidos externos b Além disso como sabe Descartes que essa inclinação existe nos homens e que é universal e por isso imputável ao próprio Autor da natu reza Ele não pode saber isso senão pela percepção sensitiva externa que o mete em relação com os outros homens Logo o juízo acerca dessa in clinação universal pressupõe a veracidade dos sentidos externos 239 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE b Malebranche ensina que só a Revelação sobrenatural contida na S Escri tura pode manifestar e manifesta ao homem a existência dos corpos Também essa opinião é inaceitável Para termos ou escutarmos o que diz a S Escritura onde está contida a Revelação sobrenatural pre cisamos do sentido da vista ou do ouvido e por isso já devemos acreditar na veracidade do testemunho dos sentidos externos c Reid afirma que um instinto natural incapaz de enganar leva irresistivel mente os homens a admitir a existência dos corpos Nem essa doutrina satisfaz Esse instinto seja qual for a sua natureza é necessa riamente posterior à existência dos homens Por isso quem admite a exi stência dos homens acredita na veracidade do testemunho dos sentidos externos antes de conhecer esse instinto porque são pelos sentidos externos que estamos certos da existência dos homens d Cousin Sentroul e outros neoescolásticos de Louvain ensinam que admitimos a existência dos corpos por um raciocínio que da existência das nossas sensações subjetivas cuja origem não pode atribuirse ao eu infere em virtude do princípio de causalidade a existência de uma causa externa Essa opinião que se atribui também a Descartes pois esse infere da existência de Deus a existência do mundo não pode ser sustentada pelas seguintes razões a Esses escritores admitem como existentes na realidade umas coisas às quais dão o nome de efeitos e outras às quais dão o nome de causas Mas de que modo poderão eles sem o auxílio dos sentidos externos averiguar que no mundo existem coisas correspondentes e conformes às noções abstratas de efeito e de causa E se não averiguaram sempre pelo auxílio dos sentidos externos que entre um antecedente e um consequente existe um nexo de verdadeira eficiência como poderão eles aplicar o princípio de causalidade Portando o raciocínio que da existência das sen sações pretende deduzir a existência do mundo pressupõe e exige o exercí cio e a veracidade dos sentidos externos b Além disso a mesma experiência que nos atesta a existência das modi ficações ou sensações subjetivas atestanos também a existência das modificações ou sensações objetivas isto é a existência dos objetos externos que atuam nos nossos sentidos externos Portanto se admitimos como imediatamente evidente a existência das sensações subjetivas deve mos também admitir como imediatamente evidente a existência das sensações objetivas A mesma razão vale para ambos os casos Logo não pode aceitarse essa opinião que concede a evidência imediata às sensações subjetivas ao passo que a nega às sensações objetivas c Finalmente o raciocínio que da existência das sensações subjetivas infere em virtude do princípio de causalidade a existência do mundo exterior tem uma conclusão mais ampla que as premissas Porquanto se as nossas sensações são meramente subjetivas se são apenas modificações do eu a única conclusão lógica é que essas sensações têm uma causa mas uma causa interna subjetiva Repugna por ventura uma causa interna de um fenômeno interno Não O subjetivo não inclui por si o objetivo e a passagem de uma para outra ordem é um sofisma Mas embora a existência das sensações subjetivas nos levasse a admitir a existência de uma causa externa nunca poderia levarnos ao conhecimento da natureza dessa causa Com efeito na opinião de Cousin como na de Descartes os corpos externos não produzem as sensações 240 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 177 Regras para os sentidos externos Para que os senti dos externos sejam meios seguros para a aquisição da verdade devem observarse as seguintes regras Iª Quando o objeto dos sentidos é próprio basta que o órgão esteja bem disposto e que o meio não o impeça de rece ber a impressão do objeto Pertence à razão julgar se estas duas condições se verificaram IIª Quando o objeto é comum devem empregarse todos os sen tidos relativos a esse objeto e também a razão porque embora o testemunho dos sentidos nunca seja por si falso todavia pode levar a falsos juízos o que se evita pela reflexão da razão IIIª Quando o objeto é concomitante como o erro é mais fácil não só porque os sentidos não são aplicados aos seus objetos próprios mas também porque substâncias diversas podem ter a mesma aparência é necessário o intervento da razão a qual pela multiplicação das observa ções e análises chega a encontrar os traços próprios de cada substância1 178 Sentidos internos Sentidos internos são os que exi stem no interior do organismo e pelos quais o homem di reta e imediata mente atinge por vários modos as próprias sensações ou reproduz as subjetivas limitamse a provocálas não são causas eficientes mas apenas ocasionais Ora um fenômeno se nos leva a conhecer de algum modo a natureza da sua causa eficiente não nos leva a conhecer a natureza da causa ocasional que não se reflete no efeito um tiro de canhão não leva por si ao conhecimento do artilheiro que o disparou Por isso o mundo se devesse ser conhecido pelas sensações subjetivas seria incognoscível na sua natureza Se porém se admite com outros sequazes desta opinião que os corpos externos produzem como causas eficientes as nossas sensações subjetivas em tal caso como a ação da causa eficiente é recebida e existe no sujeito paciente esse conhecerá a existência e a natureza da mesma causa mas conhecêlasá por um modo imediato isto é pela imediata percepção dos sentidos sem ter a necessidade de recorrer ao raciocínio Provar a existência do mundo pelo raciocínio é explicar uma coisa clara por uma outra escura Concluímos que a existência dos corpos externos é imediatamente evidente e por isso imediatamente evidente é também a veracidade dos sentidos externos 1 Resumamos em poucas palavras o que deixamos dito Os sentidos externos são meios legítimos para a aquisição da verdade É por eles que entramos em comunicação com o mundo exterior Dizer com os subjetivistas que por meio dos sentidos externos só percebemos as nossas sensa ções e não os objetos é confundir a percepção externa com a interna é contradizer a consciência a qual atesta que pelos sentidos externos direta e imediatamente percebemos os objetos e que só indireta ou mediatamente por um sentido interno percebemos as nossas sensações 241 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE imagens sensíveis dos objetos externos indireta e mediatamente percebe os mesmos objetos externos1 179 Objeto dos sentidos internos O objeto pois dos sen tidos internos é dúplice direto e indireto O direto é constituído pelas nossas sensações e pelas imagens sensíveis dos objetos externos o indireto pelos objetos externos2 180 Número dos sentidos internos Os sentidos internos são quatro a saber o sentido comum a imaginação a estima tiva e a memória sensitiva a Sentido comum Sentido comum é a faculdade pela qual o homem percebe diretamente as sensações dos sentidos externos e as suas diferenças e indiretamente o próprio organismo e o objeto das mesmas sensações externas É a continuação ou o complemento dos sentidos externos3 1 Na Antropologia desenvolveremos a teoria acerca dos sentidos internos Aqui apontamos apenas a sua natureza e o seu objeto 2 Donde se vê que o exercício dos sentidos internos supõe o exercício dos sentidos externos e que se este não se realizar ou for irregular não poderá realizarse ou não será regular aquele Um cego de nascimento nunca poderá formar a imagem sensível da cor 3 O sentido comum existe no homem Não só vemos ouvimos etc mas percebemos todas essas sensações externas comparamolas distinguimolas umas das outras o branco do amargo o som da cor etc A facul dade que tem por objeto as sensações não pode deixar de ser sensitiva O homem pelo sentido comum não só percebe as próprias sensações externas mas também o objeto e o sujeito delas Percebe o objeto porque toda a sensação termina num objeto Percebe o sujeito porque o homem percebe a sensação não abstrata mas concreta ora a sensação concreta é o próprio sujeito modificado e por isso não se pode atingir a sensação sem que implicitamente se atinja o sujeito O sujeito senciente é o objeto concomitante ou per accidens do sentido comum A percepção do sujeito é direta e imediata nem requer um raciocínio como pretende Reid O sentido comum chamase também sentido íntimo Sendo faculdade sensitiva não deve ele confundirse com a consciência que é a própria inteligência nem com o chamado senso comum que é a disposição natural de que o homem é dotado para perceber imediatamente e sem discurso os primeiros princípios da razão Dáse às vezes ao sentido comum o nome de consciência mas então para evitar confusões é necessário acrescentarlhe o adjetivo de sensitiva Deste modo distinguirseá a cons ciência sensitiva da consciência intelectual Como se vê o sentido comum faz na ordem sensitiva o que a consciência faz na ordem intelectual O sentido comum percebe os mesmos objetos que percebe a consciência com a diferença que o sentido comum percebeos num estado real ou concreto ao passo que a consciência percebeos num estado ideal 242 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA b Imaginação Imaginação é a faculdade pela qual o homem conserva e reproduz as imagens sensíveis dos entes mesmo na ausência deles1 c Estimativa Estimativa é a faculdade pela qual o homem percebe nos objetos materiais certas propriedades de vantagem ou de dano que escapam aos sentidos externos2 d Memória sensitiva Memória sensitiva é a faculdade pela qual o homem conserva diretamente as próprias per cepções sensitivas passadas e indiretamente os objetos daquelas percepções3 ou abstrato É assim que os dados do sentido comum se tornam na consciência objetos de ver dadeiros juízos compostos de termos abstratos ou universais 1 A imaginação existe no homem Vemos um animal e depois de o termos perdido de vista conservamos ainda e reproduzimos a sua imagem sensível A imagem de um ente é sensível quando o representa cercado de propriedades concretas e materiais como são a cor a figura a grandeza etc Os entes cujas imagens sensíveis a imaginação conserva e reproduz são os que foram percebidos imediatamente pelos sentidos externos e mediatamente pelo sentido comum Por isso a imaginação supõe o exercício dos sentidos externos e do sentido comum A imaginação no homem é reprodutiva e criadora É reprodutiva quando reproduz as imagens dos objetos externos percebidos É criadora quando une ou compõe várias imagens de objetos percebidos para formar a imagem de um objeto que nunca foi percebido e que talvez nem existe Dissemos no homem porque a imaginação do animal irracional é apenas reprodutiva visto que se essa faculdade é em nós também criadora isto é devido ao fato de ela estar unida com a inteligência 2 A estimativa é faculdade sensitiva e existe no homem e no animal irracional Nos animais irracionais a existência da estimativa é mais mani festa O cordeiro vê pela primeira vez o lobo e foge dele como do ini migo Se não é tão útil e necessária ao homem adulto essa faculdade e muito útil e necessária na infância nas perturbações da razão e em tantos movimentos que precedem a reflexão e que são regulados por ela A estimativa do homem é mais nobre que a do animal irracional O animal percebe instintivamente as propriedades de vantagem ou de dano que exi stem nos objetos mas não percebe a essência ou natureza desses objetos ao passo que o homem por ser também dotado de razão conhece a natureza desses objetos e assim os seus juízos são também comparativos pois com param o predicado com o sujeito É por isso que a estimativa no homem toma o nome de razão particular porque compara termos particulares p ex esta erva éme útil Dizse razão particular para se distinguir da razão universal ou intelectual que compara termos universais 3 No homem pois há uma dúplice memória sensitiva e intelectual Pela memó ria sensitiva lembramonos das nossas percepções sensitivas pas sadas pela intelectual lembramonos das nossas percepções intelectuais pas sadas Uma só faculdade não 243 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 181 Os sentidos internos operando nas condições indispen sáveis não podem enganarse na percepção do seu objeto Nenhuma faculdade operando nas condições indispensáveis pode enganarse na percepção do seu objeto aliás a natureza arrastarnosia fatalmente para o erro o que é absurdo Ora os sentidos internos são faculdades naturalmente destinadas a perceber as nossas sensações ou a reproduzir as imagens sen síveis dos objetos externos Logo os sentidos internos operando nas condições indispensáveis não podem enganarse na percepção do seu objeto1 basta para perceber as percepções dessa dúplice ordem intelectual e sensitiva porque deve haver proporção entre a faculdade e o seu objeto direto 1 A razão é sempre a mesma Uma faculdade que por si pela sua na tureza se engana na percepção do seu objeto é e deixa de ser ao mesmo tempo uma faculdade porque pode e não pode alcançar o seu objeto Ora isto é absurdo É claro que para a percepção sensitiva interna ser verdadeira devemos cumprir todas as condições indispensáveis Mas nesta percepção o engano é menos freqüente que na percepção sensitiva externa Porquanto na percepção sensitiva externa o engano pode provir não só do órgão que pode não estar bem disposto como também do meio que pode alterar a ação do objeto no respectivo sentido ao passo que na percepção sensitiva interna o engano pode provir unicamente do órgão que pode não estar bem disposto pois aqui não há meio entre o objeto e a faculdade mas o próprio objeto está por si unido com a respectiva faculdade determinandoa imediatamente ao ato Depois de termos provado a veracidade dos sentidos internos em geral prova remos brevemente a veracidade de cada um deles em particular a O sentido comum não se engana na percepção do seu objeto a Com efeito esta faculdade atesta que vemos ouvimos gostamos etc que o nosso organismo se acha num estado normal ou anormal que sofremos ou gozamos Ora esse testemunho é tão direto espontâneo e irresistível que é necessário ou admitilo como legítimo ou cair no mais completo e universal ceticismo De fato ninguém fora dos antigos céticos contesta a veracidade do sentido comum b Além disso o sentido comum atinge a sensação dos sentidos externos enquanto é subjetiva e adere ao sujeito senciente Sendo assim um engano será possível se for possível uma ação sem o objeto respe ctivo Ora isto é absurdo Para a solução das principais dificuldades contra a veracidade do sen tido comum apresentamos os seguintes princípios 1º Se quando a nossa alma se acha absorvida com excessiva vivacidade num pensamento ou num sentimento o sentido comum não percebe as modificações dos sentidos externos a razão é porque essas modifica ções foram apenas materiais e não vitais 2º O sentido comum refere as sensações subjetivas como elas são e por isso refereas confusas se são confusas distintas 244 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 182 Regras para os sentidos internos Para que os senti dos internos sejam meios seguros para a aquisição da verdade devem observarse as regras seguintes Iª Os sentidos externos devem estar bem dispostos e conveniente mente aplicados aos seus respectivos objetos porque o exercício regular dos sentidos internos exige o exercício regular dos sentidos externos IIª Os órgãos dos sentidos internos devem estar sãos aliás não percebem o seu objeto ou não o percebem como ele é IIIª Os sentidos internos devem limitarse à percepção do objeto direto que é constituído pelas sensações ou pelas imagens Para a percep se distintas A sua veracidade não exige mais 3º Essa faculdade limi tase a atestar os fatos internos mas não emite nem pode emitir um juízo acerca da natureza ou da causa desses fatos Portanto o erro rela tivo à natureza ou à causa dos fatos internos deve imputarse à impru dência da razão e não ao testemunho do sentido comum 4º O ato de perceber as sensações dos sentidos externos é próprio do sentido comum o ato de refletir voluntariamente sobre essas sensações é próprio da consciência O primeiro ato é permanente e essencial o segundo é intermitente e acidental 5º As modificações orgânicas e sensíveis se passarem a um estado permanente deixam de se manifestar ao sentido comum porque a percepção de uma sensação exige uma mudança no estado habitual do órgão e só tornam a manifestarse quando se der uma notá vel modificação nesse estado habitual b A imaginação não se engana na percepção do seu objeto Com efeito o ofício da imaginação é o de conservar e reproduzir as imagens sensíveis dos objetos externos Portanto ou ela não conserva e por isso não reproduz essas imagens ou as conserva e as reproduza Se não as conserva haverá nisso imperfeição mas não engano Se as conserva e reproduz não pode deixar de as conservar e reproduzir fielmente Todavia a imaginação pode ser ocasião de erro enquanto a inteligên cia ha bituada a dar um valor objetivo às próprias percepções pode sob a in fluência daquela faculdade que reproduz as imagens dos objetos mesmo quando esses não estão presentes julgar como presente o que está real mente ausente Mas nesse caso o erro deve atribuirse à inteligência c A estimativa não se engana na percepção do seu objeto Porquanto os juízos da estimativa ou são instintivos ou comparativos Se são instintivos são verdadei ros porque a natureza de que derivam não pode enganar Se são comparativos são também verdadeiros porque a razão dadas as condições necessárias é meio legítimo para a aquisição da verdade d A memória sensitiva não se engana na percepção do seu objeto Na ver dade ou conserva as sensações passadas ou não as conserva Se não as conserva mostra deficiência mas não se engana se as conserva conservaas como são e por isso não se engana 245 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE ção dos objetos dessas sensações ou ima gens é indispensável o exercício dos sentidos externos1 ARTIGO IV Testemunho suas espécies e transmissão 183 Testemunho Testemunho no sentido mais rigoroso é a manifestação de uma verdade feita por uma a outra pessoa Quem mani festa a verdade dizse testemunha A força moral que a testemunha possui para conciliar o assenso dos outros denominase autoridade Os requisitos necessários que constituem a autoridade são dois a ciência e a veraci dade A adesão prestada pela inteligência a uma verdade em força da autoridade da testemunha chamase fé O teste munho embora pareça um meio menos nobre para a aquisição da verdade é contudo mais breve mais comum mais seguro que os outros meios intrínsecos2 1 Além das regras que são gerais e comuns a todos os sentidos internos há outras próprias de cada um Mas como estas são em geral aplicações daquelas limitamonos a apresentar as que dizem respeito à imaginação que como dissemos pode induzir ao erro da inteligência Iª Devemos pela reflexão extremar cuida dosamente do elemento real o elemento imaginário IIª Não podemos afirmar a atual existência dos objetos apresentados pela imaginação se essa existência não for atestada pelos sentidos externos Porquanto a imaginação pelo fado de representar um objeto mesmo quando ele está ausente não pode ser testemunho fiel da atual e real existência das coisas IIIª Devemos absternos por quanto é possível de proferir juízos quando a imaginação está excitada A transgressão desta regra é causa de inumeráveis equívocos e desvarios 2 São dois diz S Agostinho os caminhos porque chegamos ao conhe cimento da verdade a autoridade e a razão A autoridade precede a razão no tempo a razão precede a autoridade na dignidade Eis as palavras do S Doutor Ad discendum dupliciter ducimur auctoritate atque ratione Tempore auctoritas re autem ratio prior est De Ordine l 2 c 9 O homem conhece a verdade pela razão quando a descobre por si mesmo ou clara mente a percebe se proposta por outrem de modo que o motivo da adesão é a evidente percepção da coisa Neste caso temos a ciência a visão que é a adesão da inteligência a uma verdade ou imediatamente evidente em si mesma ou evidente nos princípios intrínsecos de que deriva O homem conhece a verdade pela autoridade quando não a descobre nem claramente a percebe se proposta por outrem mas a recebe unicamente porque proposta por outrem de modo que o motivo da adesão é exclusivamente a autoridade Neste caso temos a fé que é a adesão da inteligência a uma verdade evidente não imediatamente em 246 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA si mesma nem nos princípios intrínsecos mas num princípio extrínseco que é a autoridade No primeiro caso o motivo da adesão é a autoridade da evidência no segundo é a evi dência da autoridade Por isso a fé distinguese da ciência enquanto esta vê e aquela nãovê Diz S Tomás De ratione scientiae est quod habeat firmam inhaesionem cum visione intellectiva habet enim certitudinem procedeu tem ex intellectu principiorum Fides autem deficit a scientia in eo quod non habet visionem Sum Th 12 q 67 a 3 E S Agostinho já dissera Quid est fides Credere quod non vides Tract40 in Joan Por isso é preciso não confundir o magistério com a autoridade do mesmo magistério A verdade proposta pelo magistério pode o discípulo vêla pela luz da própria inteligência intimamente ligada com os primeiros princípios e neste caso adere a essa verdade não peta autoridade do magistério mas pela evidência da coisa e essa adesão é ciência A ver dade proposta pelo magistério pode o discípulo deixar de a ver em si mesma e neste caso se adere a ela adere unicamente pela auto ridade do ma gistério e essa adesão é fé Portanto o magistério não exclui a ciência A autoridade é constituída por dois dotes necessários e suficientes para que a testemunha mereça crédito a ciência e a veracidade Em razão da ciência a testemu nha não se engana em razão da veracidade não engana Alguns autores indicam três requisitos para a autoridade da testemunha capacidade ciência e veracidade Deve porém notarse que a capacidade está incluída na ciência pois quem sabe é capaz de saber O testemunho é mais breve mais comum mais seguro que os outros meios intrín secos É mais breve porque pela razão chegamos a conhe cer algumas verdades só depois de muito tempo e de muitos esforços ao passo que pelo testemunho conhecemos muitas verdades em pouco tempo e com muita facilidade É mais comum porque a maior parte dos homens não podendo aplicarse aos estudos só pode receber a verdade pelo teste munho humano ou divino É mais seguro porque a razão individual está sujeita a freqüentes erros ao passo que o testemunho humano é menos sujeito ao engano e o divirto é absolutamente infalível Os Kantistas seguidos pelos modernistas rejeitam toda e qualquer auto ridade e admitem como dissemos a imanência como lei e norma de pensar Diz Blondel O pensamento moderno com uma susceptibilidade ciumenta considera a noção de imanência como a condição própria da filosofia É exatíssima a idéia que nada pode entrar no homem sem que saia dele e não corresponda a uma necessidade de expansão nada nem como fato histórico nem como doutrina tradicional nem como obrigação proveniente de fora não há para ele verdade que se aceite nem preceito que imponha sem que seja de algum modo autônomo ou autóctono Lettres sur les exigences de la pensée contemp Resposta Concedemos que nada pode entrar no nosso espírito sem que seja de algum modo assimilado Uma verdade para se tornar nossa deve ser percebida o ininteligível nunca será objeto da nossa inteligência Mas negamos que a nossa inteli gência só deva admitir as verdades que nasceram dela ou que ela descobriu ou as verdades que nos são agradáveis Como poderá o método daimanência provar os fatos históricos Impossível Um fato histórico para ser autêntico deverá sair do nosso espírito ou corresponder às nossas necessidades de expansão Não com certeza Um 247 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 184 Espécies do testemunho O testemunho pode ser divino e humano dogmático e histórico a Testemunho divino e humano O testemunho é divino quando é o próprio Deus quem manifesta uma verdade é humano quando é o homem Para aderir convenientemente ao testemunho divino a nossa inteligência deve ser escla recida e elevada pela luz sobrenatural da Fé b Testemunho dogmático e histórico O testemunho é dogmático quando a verdade manifestada é um dogma ou uma verdade científica p ex a imortalidade da alma humana é histórico quando a verdade manifestada é um fato histórico p ex a vitória de Lepanto1 185 O testemunho divino tanto dogmático como histórico é necessariamente infalível O testemunho divino será ne cessaria mente infalível tanto quando nos revela uma verdade científica racional ou sobrerracional como quando nos manifesta um fato histórico se Deus for dotado de tão grande ciência que não possa enganarse e de tão grande veracidade que não possa enganar Ora Deus por ser a própria fato histórico autônomo ou autóctono é uma contradição E não só recebemos de fora os fatos históricos mas também tantos outros conhecimentos relativos a todos os ramos da ciência humana O homem é essencialmente um animal ensinado A maior parte das verdades que conhece recebeas dos outros Os seus cálculos partem geralmente de verdades descobertas pelos outros Diz bem Fonsegrive O que seria da astronomia se cada astrônomo devesse descobrir por si mesmo a posição de todas as estrelas O que seria da química se cada químico fosse obri gado a recomeçar todas as análises e todas as sínteses O que seria da física e também da matemática se cada calculador devesse verificar as tábuas dos logaritmos e os instrumentos de que se serve Philosophie II p 72 É pois impossível que tudo possa sair do nosso espírito a não ser que nesse espírito tudo ou muito tenha anteriormente entrado Um extrínseco um objetivo é absolutamente indispensável mesmo nas nossas operações mais simples e humildes É o próprio Blondel que contradizendose o afirma Diz assim O progresso da nossa vontade obriganos a confessar a nossa insuficiência levanos a admitir a necessidade de um suplemento e dános a capacidade não de o produzir ou de o definir mas de o reconhecer e receber Lettres etc A autori dade superior ao indivíduo cuja ne cessidade é admitida por esse escritor não é só a humana mas é também e sobretudo a divina porque Blondel trata aí do sobrenatural e da Revelação cristã 1 A divisão do testemunho em divino e humano fundase na qualidade da testemunha e a divisão em dogmático o histórico fundase na qualidade do objeto Deixamos outras divisões de menor importância 248 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA Verdade é dotado de uma ciência infinita e por ser a própria Santidade é dotado de uma veracidade absoluta Logo o testemunho divino tanto dogmático como histórico é necessariamente infalível1 1 O testemunho divino chamase também palavra de Deus ou Revelação Como o assunto é de capital importância damoslhe o conveniente desenvolvimento sobre tudo no que diz respeito aos mistérios reservando o resto para a Moral Falaremos aqui na essência da Revelação no seu objeto na possibilidade da Revelação dos mistérios nas relações entre a Revelação e a ciência ou entre Fé e a razão a Revelação Revelação no sentido rigoroso da palavra é a mani festação de uma verdade racional ou sobrerracional feita por Deus aos ho mens por um modo sobrenatural A Revelação a é a manifestação de uma verdade porque a Revelação em geral não se refere senão a verdades ensinadas por uma pessoa estranha b é a manifestação de uma ver dade racional ou sobrerracional porque o objeto da Revelação abrange não só as verdades que não excedem a capacidade da nossa inteligência como a existência de Deus a imortalidade da alma humana etc mas também as que a excedem e que se chamam mistérios c é a manife stação feita por Deus porque aqui a testemunha não é outro homem mas é o próprio Deus que nos fala diretamente ou por meio de outra pessoa p ex por um profeta é a manifestação feita por um modo sobrenatural porque a Revelação é feita por um meio estranho e superior às forças da natureza O testemunho divino enquanto é manifestado de uma verdade racional convém com o testemunho humano enquanto é manife stação de uma verdade sobrerracional feita por Deus por um modo sobrenatural difere do testemunho humano De onde se vê que a Revelação propriamente dita é sobrenatural e essa difere da Revelação natural que é a manifestação da verdade feita por Deus aos homens por meio das obras da criação A Revelação sobrenatural e a Revelação natural impropria mente chamada Revelação diferem quanto ao princípio ao meio e ao objeto Diferem quanto ao princípio porque na Revelação natural o princípio do conhecimento é a razão humana ao passo que na sobrenatural é a Fé divina Diferem quanto ao meio porque na Revelação natural o meio porque Deus manifesta a verdade e que é constituído pelas criaturas é proporcionado à nossa natureza ao passo que na sobrenatural o meio porque Deus manifesta a verdade e que é constituído por uma comunicação direta é superior a todas as exigências da natureza humana Diferem quanto ao objeto porque na Revela ção natural nenhuma verdade excede a nossa capacidade na sobrenatural há muitas verdades que excedem a nossa compreensão e que nunca teriam sido conhecidas sem essa manifestação gratuita Além da Revelação natural pelas criaturas e da sobrenatural pela Fé que se referem à vida presente há uma Revelação sobrenatural pela glória que tem lugar na vida futura A essa tríplice Revelação corresponde uma tríplice luz infundida por Deus na nossa alma a luz da razão a luz da Fé pela graça e a luz da glória Os três graus de Reve lação estão coor denados entre si o segundo supõe o primeiro e prepara para o terceiro b Objeto da Revelação O objeto da Revelação sobrenatural é constituído como dissemos por verdades racionais e sobrerracionais Verdades racionais são as que 249 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE não excedem as forças ou a compreensão da razão criada de modo que a mesma razão entregue a si mesma pode descobrilas e perceber o intrínseco nexo entre o sujeito e o predicado Verdades sobrerracionais são as que excedem as forças ou a compreensão da razão criada de modo que a razão entregue a si mesma não as pode descobrir sem a Revelação nem depois da Revelação pode perceber o in trínseco nexo entre o predi cado e o sujeito As verdades sobrerracionais chamamse como indicamos mistérios Expliquemos a natureza do mistério Mistério em geral é uma ver dade oculta Uma verdade pode ser oculta por várias razões ou porque embora seja por si facilmente inteligível contudo escapa à nossa experiência tais são os segredos dos corações ou porque ainda que seja conhecida quanto à existência contudo não se percebe bem quanto à essência assim dizemos que o mundo está cheio de mistérios ou porque não pode ser conhecida quanto à existência sem a Revelação embora depois de revelada facilmente se percebe quanto à essência tais são todas as instituições de caráter positivo como p ex a autoridade do Sumo Pontífice ou porque excede por tal modo as forças ou a capacidade da razão criada que sem a Revelação não se pode conhecer a sua existência e depois de revelada não se pode demonstrar nem perceber de modo algum a sua essência ou o intrínseco nexo entre o sujeito e o predi cado A verdade que por esse último modo excede a capacidade da razão criada é e dizse própria e rigorosamente mistério que por isso se define uma verdade que por si e absolutamente excede a capacidade da razão criada Advertimos que a distinção das verdades em racionais e sobrerracionais não se funda em Deus que é uma única e simplicíssima Verdade mas exclusivamente na capacidade da razão criada Advertimos também que o mistério se diz e é incom preensível não enquanto as palavras que o exprimem não tenham sentido algum como pretendem os racionalistas mas enquanto mesmo depois de revelado a razão criada não chega a compreender a essência dele isto é a intrínseca razão pela qual o pre dicado convém ao sujeito Assim no mistério da SS Trindade a nossa razão percebe o que significa a unidade de natureza e a trindade de pessoas embora não compreenda porque e como podem três pessoas ser um só Deus Por isso quando dizemos Deus é uno na essência e trino nas pessoas a afirmação da conveniência entre o predicado e o sujeito fundase exclusivamente na autoridade de Deus De onde se vê a fatuidade dos incrédulos e racionalistas quando dizem que os mistérios são absurdos O mistério como dissemos é um juízo composto de dois termos cuja relação é incompreensível para a inteligência criada Se a relação entre dois termos de um juízo é incompreensível esse juízo não pode chamarse absurdo Porquanto um juízo é absurdo quando compreendemos que o predicado repugna ao sujeito Mas se não se compreende a relação entre os dois termos não pode dizerse que o juízo é absurdo nem que não é absurdo Logo os mistérios por isso mesmo que são mistérios não podem chamarse absurdos O que é sobre a razão não pode dizerse que é contra a razão c A Revelação dos mistérios não repugna Se repugnasse a Revelação dos mistérios essa repugnância darseia ou da parte de Deus ou da parte do homem ou da parte dos próprios mistérios Ora essa repugnân cia não se dá nem da parte de Deus nem da parte do homem nem da parte dos próprios mistérios Não 250 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA se dá da parte de Deus porque com a manifestação dos mistérios Deus não só não deprime nem humilha a nossa inteligência mas pelo contrário eleva e nobilita essa faculdade descobrindolhe novos horizontes que ela nunca teria podido descobrir Nem sé dá da parte do homem porque o homem se não pode compreender os mistérios quanto à essência percebeos quanto à existência e essa percepção desperta em nós um elevado sentimento da grandeza de Deus e um grande amor pela sua infinita bondade que se revelou de um modo inefável sobretudo nos benefícios da Encarnação da Redenção e da Eucaristia Nem se dá da parte dos próprios misté rios porque as verdades sobrerracionais não são contrárias às verdades racionais e se os mistérios não têm a certeza que nasce da evidência do nexo entre o predicado e o sujeito têm a certeza que nasce da evidência da autoridade divina d Relações entre a Revelação e a ciência ou entre a Fé e a razão a Entre a Revelação e a ciência ou entre a Fé e a razão não pode haver verdadeira oposição Porquanto a luz da Fé e a luz da razão são dois raios que partem do mesmo Deus que é a Luz incriada e infinita de toda a verdade Ora se entre dois raios que derivam do mesmo princípio pode haver e há distinção não pode haver e não há oposição aliás haveria oposição no próprio princípio o que é absurdo Se é verdade uma conclusão da razão é absoluta verdade um artigo da Fé Oraaà verdade não pode ser oposta à verdade mas só à falsidade Uma contradição certa entre uma verdade da Fé e uma verdade da ciência é impossível b A Fé e a razão prestamse mútuo auxílio cada uma em conformidade com a própria índole Diz o Concílio Vaticano Neque solum Fides et ratio iuter se dissi dere nunquam possunt sed opem quoque sibi mutuam ferunt Const Dei Filius c IV A razão auxilia a Fé ou a Ciência auxilia a Revelação ou a Filosofia auxilia a Teologia revelada e viceversa c A razão auxilia a Fé S Thom in Boet de Trinitate q II a 3 Em primeiro lugar a razão demonstra certas verdades que são preâm bulos ou pressupostos com relação à Fé e à Teologia revelada tais são a existência e a personali dade de Deus a possibilidade e o fato da Revela ção sobrenatural etc Ora a Fé pressupõe estas verdades Porquanto a Fé não é uma experiência do divino na nossa alma come pretendem os chamados modernistas mas é uma firme adesão da nossa inteligência a verdades que não são por si evidentes e que nos são propostas pelo magistério divino Mas para que a nossa inteligência possa aderir a verdades que não são por si evidentes é necessário que conheça anteriormente que Deus falou e por isso que Deus existe Sem esse prévio conhecimento o ato de Fé não só seria irracional mas até seria impos sível E como estas verdades a existência de Deus o fato da Revelação etc não são imediatamente evidentes devem ser demonstradas Essa demonstração é o ofício da razão ou da Filosofia Por isso a Fé pressupõe a razão ou a ciência Em segundo lugar a razão ou a Filosofia dá noções exatas de al guns termos que se encontram nos artigos da Fé ou se empregam na Teologia como os termos de essência de pessoa de substância de acidente etc Tocamos um ponto muito melindroso mas muito importante 251 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE A Teologia revelada recebe os seus princípios que são os artigos da Fé não de uma ciência natural ou criada mas exclusivamente da ciência divina pela Revelação sobrenatural Esses artigos são uma participação uma impressão das verdades divi nas na inteligência humana As verdades divi nas não podem penetrar e imprimirse na inteligência humana senão enun ciadas e concretizadas num juízo porque é no juízo que para nós se en contra propriamente a verdade Ora quando Deus revela sobrenaturalmente uma verdade não infunde na inteligência humana as idéias que constituem o juízo em que se concretiza a própria verdade tal infusão é possível mas não é o meio ordinário da Providencia mas servese das idéias que já existiam na nossa inteligência estabelece entre elas uma união que teria escapado a toda a mente criada e deste modo manifesta as suas verdades As nossas idéias de que Deus se serve e que une num juízo foram abstraídas das coisas criadas e importam uma analogia ou semelhança ainda que remotíssima com a bondade divina porque em todas as coisas criadas existe um vestígio mais ou menos perfeito da essência infinita Portanto em toda e qualquer verdade revelada ou artigo de Fé deve mos distinguir dois elementos o humano e o divino O elemento humano é constituído pelas idéias que existem naturalmente na nossa inteligência e que Deus une num juízo o divino consiste na própria união dessas idéias feita por Deus num juízo que exprime a verdade revelada O elemento humano pressupõese ao divino porque se não existissem na nossa inteligência essas idéias a verdade revelada seria incom preensível para o homem como é incompreensível esta verdade natural o todo é maior que parte para quem ignora o que é o todo e o que é a parte Todavia apesar dessa pressuposição do elemento humano a verdade revelada deve chamarse e é simplesmente divina e nova É divina pois é Deus e só Ele quem une e associa as idéias preexistentes na mente humana e por isso forma o juízo que exprime a verdade revelada visto que o juízo não consiste nas idéias consideradas isoladamente mas na união dessas idéias assim atribuise a um homem um juízo embora ele não tenha inventado os termos que o compõem É nova porque novo é o nexo nova a união entre as idéias nexo e união que como dissemos teria escapado à inteligência humana Advertimos que a verdade divina considerada na nossa inteligência é ina dequada em relação à mesma verdade considerada na própria inteligência de Deus mas não é falsa É inadequada porque as idéias humanas abstraídas das coisas criadas não podem exprimir a grandeza infinita Mas não é falsa porque como dissemos as coisas criadas são um reflexo uma semelhança um vestígio das perfeições do Criador As idéias de que se compõe uma verdade revelada devera exprimirse por meio de termos orais em fórmulas dogmáticas Esses termos nada acrescentam à verdade limitamse a manifestála A Igreja à qual pertence formular os dogmas escolhe esses termos e fixa o sentido deles Pode a Igreja empregar um termo que é próprio de uma escola mas então seria absurdo dizer que a dita escola influiu na concepção do próprio dogma Se uma escola emprega um termo no sentido em que o emprega a Igreja a conclusão é que essa escola está no caminho da verdade Dadas estas explicações é fácil assinar à razão ou à Filosofia o seu ofício com relação à Fé ou à Teologia revelada Esse ofício consiste em aceitar a ver 252 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA dade revelada como Deus a revelou e a Igreja depositária e mestra da Revelação a propõe em analisar e ilustrar as idéias de que são compostas as fórmulas dogmáticas seguindo sempre o magistério da Igreja em definir e explicar os termos que exprimem essas idéias tomandoos sempre no sentido em que os toma a Igreja em procurar nas coisas criadas umas analogias ou semelhanças para que a nossa inteligência possa de algum modo elevarse às coisas divinas que excedem a capacidade nossa Sum Th p I q 1 a 5 ad 2 Em terceiro lugar sendo necessariamente verdadeiros os princípios em que se funda a Teologia e que são as verdades reveladas e necessaria mente verdadeiras as conclusões que desses princípios derivam por legítima dedução são necessariamente falsas as objeções que contra esses princípios e essas conclusões levantam os adver sários E essas objeções são falsas ou porque se baseiam em falsos princípios ou porque não derivam legitimamente de princípios verdadeiros O ofício da Filosofia consiste em descobrir a falsidade dos princípios ou a ilegitimidade das consequências A estas três espécies de auxílio que a razão presta à Fé ou a Filo sofia presta à Teologia revelada devemos acrescentar que a razão prova com argumentos próprios e intrínsecos à essência das coisas as verdades reveladas que não excedem a capacidade da nossa razão deduz das ver dades reveladas uma multidão de consequências e de aplicações que estavam implícita e confusamente contidas naquelas verdades e que só se tornam explícitas e distintas pela análise e pelo raciocínio une entre si e ordena as verdades reveladas de modo que possam constituir um perfeito corpo de doutrina e assim forma a mais bela entre as ciências a Teologia d A Fé auxilia a razão O Concílio Vaticano enumera os benefícios que derivam da Fé para a razão e por isso da Teologia revelada para a Filosofia com as seguintes palavras Fides rationem ab erroribus libe rat et tuetur eamque multiplici cogni tione instruit Const Dei Filius l c Na verdade a Fé adverte a razão para que não siga opiniões falsas que apresentam uma espécie de verdade descobrelhe muitas verdades que ela a razão entregue a si mesma nunca teria descoberto confirma muitas outras de ordem natural A história atesta que antes do Cristianismo os filó sofos ainda os mais célebres caíam em muitos graves erros acerca da Divindade da origem das coisas da natureza origem e destino do homem e de outras questões cuja solução verda deira é absolutamente necessária para a humanidade Esses benefícios que derivam da Fé ou da Teologia revelada deve a razão ou a Filosofia aceitálos com espírito de gratidão e de reverencia Quando se trata de verdades reveladas que excedem a capacidade da nossa inteligência o Filósofo como dissemos não deve negálas nem interpretálas com o seu critério mas deve aceitálas com submissão e rejeitar como certamente falsas e contrárias à razão todas as conclusões contrárias aos prin cípios da Fé porque essa não pode errar Quando se trata de verdades reveladas que não excedem a capacidade da nossa inteligência o filósofo deve têlas presentes isto é deve pensar que são reveladas para que se não afaste do reto caminho quando quer demonstrálas com argumentos intrínsecos isto é baseados na própria essência das coisas e se lhe acon tece de chegar a uma conclusão contrária a uma verdade revelada deve no interesse da Fé e da própria 253 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 186 A adesão às verdades reveladas por Deus tem certeza metafísica superior a toda outra certeza metafísica a Tem certeza metafísica A nossa adesão a uma ver dade é sempre proporcionada ao motivo que a determina de modo que ela é dotada de certeza metafísica física ou moral conforme a qualidade da certeza do próprio motivo Ora a autoridade divina que é o motivo da adesão da nossa inteligência às verdades reveladas é dotada de certeza metafísica pois a ciência e a veracidade as quais constituem a autoridade divina competem por tal modo a Deus que não podem deixar de lhe competir sendo Ele a Verdade e a Santidade subsistente Logo a nossa adesão às verdades reveladas por Deus tem certeza metafísica b Esta certeza é superior a toda outra certeza metafísica A certeza é como dissemos proporcionada à inteligência e ao motivo Ora o ato praticado pela nossa inteligência escla recida pela luz sobrenatural da Fé é por si mais firme que todo e qualquer ato natural como também a autoridade divina em que se funda a certeza da nossa adesão às verdades reve ladas é um motivo mais firme que o próprio motivo em que se funda toda outra certeza metafísica e que é a essência das coisas porque o engano e a falsidade repugnam mais na Ver dade primeira do que na máxima evidência da natureza Logo a certeza da nossa adesão às verdades reveladas por Deus é superior a toda outra certeza metafísica1 verdade científica repetir as investigações até que a conclusão científica se harmonize com a verdade revelada Nem esta submissão da Filosofia à Teologia ou da razão à Fé pode chamarse uma degradação para a razão humana não só porque ninguém se degrada quando aceita o auxílio de mão benéfica que o salva do precipício mas também porque a Filosofia empregando as próprias forças e os próprios princípios demonstra com argumentos intrínsecos ba seados não na autoridade mas na essência das coisas a verdade racional que a Teologia lhe aponta A afirmação dos racionalistas que a liber dade do erro é preferível à escravidão da verdade é um absurdo tão para doxal que só é possível nos loucos A nossa razão é tanto escrava da Fé quanto o navegante é escravo do farol 1 Não insistimos no assunto já tratado no capítulo precedente Objetam a certeza que temos das coisas que se veem é mais firme do que a certeza das coisas que se não veem Ora a certeza da Fé divina referese a coisas que se não veem Logo a certeza da Fé divina não é mais firmemente do que a natural certeza metafísica Resposta Devemos antes de tudo distinguir a proposição maior A certeza que temos das coisas que se veem é mais firme do que a certeza das coisas que se não 254 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 187 O testemunho humanodogmático é infalível em rela ção aos juízos de senso comum Os juízos de senso comum por serem constantes universais e comuns só podem derivar do íntimo da natureza racional porque só esta existindo sempre em toda a parte e em todos os homens tem a capacidade de pro duzir efeitos dotados daqueles caracteres Ora o que deriva do íntimo da natureza racional não pode ser falso não só porque Deus Autor da natureza e Verdade subsistente não pode imprimir no nosso espírito uma natural inclinação para o erro mas também porque a adesão de todos os homens a esses juízos não pode ter outra causa a não ser a evidência da verdade porque só a verdade evidentemente conhecida pode produzir a unanimidade e universalidade de consenso Logo o testemunho humanodogmático é infalível em relação aos juízos de senso comum1 veem enquanto se considera no sujeito mas não enquanto se considera no objeto Por quanto a certeza do sujeito não está sempre na razão direta da certeza do objeto O objeto pode ser visí vel em si mesmo e todavia o sujeito pode não vêlo ou não vêlo tanto quanto ele é visível assim o sol é visibilíssimo em si mesmo mais visível do que todas as coisas que ele ilumina e torna visíveis e contudo os nossos olhos veem melhor as coisas iluminadas pelo sol do que o próprio sol Apliquemos esse princípio ao nosso caso As verdades reveladas por Deus que são o objeto da nossa Fé possuem a virtude de produzir no nosso espírito uma certeza mais firme do que a certeza que produzem as verdades da ciência mas como nas verdades reveladas não percebemos o nexo intrínseco entre o predicado e o sujeito pode a nossa inteli gência aderir menos firmemente e pode mesmo não aderir Mas repetimos a nossa in certeza ou o nosso erro não depende da incerteza do objeto mas da indis posição do sujeito Devemos também distinguir a proposição menor As verdades reveladas não são vistas em si no nexo intrínseco que une o predicado e o sujeito mas são vistas na autoridade que as manifesta A nossa inteligência para que possa aderir a uma verdade deve necessa riamente vêla de algum modo ou em si mesma ou na autoridade que a propõe Ora as verdades reveladas não são vistas em si mesma Logo devem ser vistas na autoridade divina Repetimos que nesse caso se não temos a autoridade da evidência temos a evidência da autoridade Em conformidade com estas distinções negamos a conclusão 1 Existem no seio da humanidade alguns juízos que são constantes universais comuns isto é cuja verdade foi e é reconhecida sempre por toda a parte e por todos São os juízos de senso comum relativos à nossa vida física intelectual e moral Tais são existem os corpos as leis da natureza são constantes Deus existe e merece o nosso culto o ato honesto distinguese do desonesto aos pais é devido o respeito dos filhos a alma humana é imortal etc Para que pois um juízo possa chamarse de senso comum deve ter os seguintes caracteres 1º deve ser universal diuturno 255 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE constante não só entre os povos selvagens mas também entre os civilizados de modo que não seja esquecido com o andar do tempo e com o aumento da cultura 2º deve convir com os prin cípios da razão de modo que reduzido a esses princípios manifeste mais claramente a sua verdade 3º não deve provir da ignorância ou dos prejuízos ou da corrupção dos costumes ou da superstição ou do interesse ou de outras semelhantes causas É claro que a universalidade de que deve ser dotado um juízo de senso comum é a moral Se um ou outro indivíduo contesta um juízo de senso comum nem por isso enfraquece o testemunho da humanidade Há monstros também na ordem moral Os juízos de senso comum constituem o patrimônio de que está do tado o gênero humano e que a todos e a cada um dos homens serve imensamente para o uso da vida Nessa distribuição a natureza não foi ex clusiva nem parcial Todos os homens mesmo os selvagens por isso mesmo que têm o bem da inteligência deduzem dos comuns princípios a razão ou das naturais inclinações esses juízos e os deduzem com um raciocínio espontâneo embora vulgar e imperfeito por falta de disciplina De fato não é nada difícil deduzir da vista do mundo a existência de Deus ou do desejo da felicidade a imortalidade da alma etc O que deixamos dito é confirmado pela história de todos os povos Estes juízos não podem derivar senão da natureza racional Por quanto devendo a causa ser proporcionada ao efeito um efeito constante univer sal e comum como é todo o juízo de senso comum só pode derivar de uma causa constante universal e comum Ora a causa dotada destes caracteres não pode ser senão a natureza racional porque só esta no meio de tantas divergências de opiniões de estudos de hábitos de caracteres etc existe sempre por toda a parte em todos os homens Com razão escre ve Cícero Omni in re consensio omnium gentium lex naturae putanda est Tuscul l 1 n 13 Derivando da natureza racional os juízos de senso comum não podem ser falsos ou errôneos porque a natureza ra cional feita ou criada unicamente para alcançar a verdade não está por si sujeita a engano O erro deriva sempre de uma causa contingente parti cular como é a ignorância o prejuízo a paixão etc A própria natureza pode por uma destas causas desfalecer num ou noutro indivíduo mas não é possível que desfaleça em todos C Gentes l II c 34 De onde se vê que a causa ou o princípio de onde derivam os juízos de senso comum é a razão humana e que o senso comum é a pró pria razão natural enquanto sempre e em toda a parte leva os homens a admitir verdades imediata ou mediatamente evidentes sobretudo as que nos são necessárias para a vida física intelectual e moral Os tradicionalistas encontram essa causa exclusivamente na revelação feita por Deus ao primeiro homem e transmitida às seguintes gerações O erro desses escritores está todo nesse advérbio exclusivamente porque concedemos que a causa adequada de muitas verdades tidas como juízos do senso comum seja o reto uso da razão e a revelação primitiva Reid opina que o senso comum é um cego instinto da natureza pelo qual somos determinados a admitir as verdades fundamentais não porque as vemos claramente 256 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA mas porque uma força irresistível não nos deixa du vidar acerca delas Balmes acres centa que o senso comum é um meio especial que é distinto dos outros e que pode chamarse instinto intelectual Mas estas opiniões são falsas A adesão da huma nidade a certos juízos fundamentais não é determinada por um instinto cego mas unica mente pela intuição da verdade porque esses juízos ou são imediatamente evidentes ou percebemse por um facílimo raciocínio Além disso a ad missão de um cego instinto intelectual deprime a natureza racional tira à ciência a dignidade de racional e favorece o ceticismo Alguns dos modernos antiintelectualistas como Bergson admitem em teoria a força do senso comum mas na prática contestamna Outros como Le Roy negam que os juízos do senso comum como também as ver dades reveladas tenham um valor intelectual e afirmam que esses juízos têm apenas a razão de preceitos ou regras para a vida prática Assim o axioma p ex 2 2 4 não contém nenhuma verdade racional mas nos insinua que devemos operar como se 2 2 fossem 4 Mas essa teoria longe de ser uma explicação é uma mutilação do senso comum Os axio mas tiram a força não da utilidade mas unicamente da verdade Identificandose o senso comum com a inteligência e a razão é claro que aquele não constitui um meio distinto destes dois e que os seus juízos têm uma certeza metafísica ou moral conforme a natureza dos objetos Todavia o senso comum pelo fato de ser citado como autoridade colocase também entre os meios extrínsecos é uma coisa moral e os seus juízos têm uma certeza moral e não metafísica Se o testemunho humanodogmático é infalível quanto aos juízos de senso comum não o é quanto a outros juízos A inteligência humana pode errar e erra Ora um testemunho que está sujeito a erros não pode produzir certeza mas apenas uma opinião mais ou menos provável segundo a maior ou menor autoridade das teste munhas Por isso o testemunho humano quando ensina um dogma ou uma verdade científica não é por si enquanto testemunho um meio infalível para a aquisição da verdade Todavia esse testemunho é muito útil porque leva a inteligência à des coberta da verdade e não só é útil para os ignorantes que não têm a capacidade de descobrir a verdade de onde o adágio peritis in arte credendum mas também é útil para os sábios que não podem abranger a esfera toda dos conhecimentos humanos e por isso devem aceitar dos outros sábios as verdades relativas a um ou outro ramo de ciência Aceitando esse testemunho pode o homem enganarse mas como diz S Agostinho etsi auctoritate decipi miserum sit longe tamen est miserius ab eadem non commoveri De util credendi c 16 Falamos na autoridade do testemunho humanodogmático enquanto é auto ridade É neste sentido que S Tomás diz Locus ab auctoritate quae fundatur super rationem humanam est infirmissimus Sum Th p I q 1 a 8 ad 2 Por quanto se um homem aceita uma verdade proposta por outro e aceita essa verdade não porque proposta por outro mas porque fundada em boas razões nesse caso não é a autoridade o critério da dou trina mas a doutrina é o critério da autoridade e por 257 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE 188 O testemunho humanohistórico pode ser um meio infalível para a aquisição da verdade O testemunho humano histórico poderá ser um meio infalível para a aquisição da verdade se a ciência e a veracidade das pessoas que atestam um fato se tornarem evidentemente certas porque em tal caso toda a dúvida é irracional Ora a ciência e a veracidade das pessoas que atestam um fato podem tornarse evidentemente certas Logo o testemunho humanohistórico pode ser um meio infalível para a aquisição da verdade1 isso o meio que leva o discípulo à consecução da verdade não é o testemunho mas é a pró pria razão a qual como vimos é por si infalível Para maior clareza vejamos a influência do mestre no discípulo Adquirese a ciência quando se deduzem dos primeiros princípios as conclusões que neles estão contidas Ora os primeiros prin cípios não são infundidos pelo mestre na inteligência do discípulo são conhecidos por esse de um modo imediato por uma simplicíssima abstração e pressupõemse as explicações do mestre Em que consiste pois o ofício do mestre O ofício do mestre consiste em guiar a inteligência do discípulo no discurso que parte dos primeiros princípios e chega à conclusão Deste modo o discípulo adere firmemente às con clusões apoiandose não na autoridade do mestre mas nas boas razões que ouviu do mestre e fez suas e que lhe mostram o nexo íntimo e essencial existente entre os princípios e a conclusão Cf De Ver q 11 a 1 1 A consideração das leis que regulam os costumes humanos levanos a prestar fé à autoridade Estas leis podem reduzirse às duas seguin tes Iª O homem tende naturalmente para a verdade Por isso quanto mais prudente e diligente for a testemunha tanto menos possível será o receio do erro e do engano IIª O homem não opera senão pelo amor de algum bem Por isso a mentira que é por si vergonhosa e indigna do homem não pode atrair o homem senão sob a aparência de utilidade se não existe esta utilidade nem deve existir a suspeita de mentira pois ninguém é mau gratuitamente nemo gratis est malus Sobretudo não há receio de engano quando a testemunha é um homem de bem que se deixa guiar pelas leis da honestidade e não pelas da utilidade própria Dizemos que o testemunho humanohistórico é meio seguro para a aquisição da verdade se constar evidentemente da ciência e da veracidade das testemunhas E pois da máxima importância estabelecer algumas regras para se averiguar se o testemunho é dotado das duas qualidades essenciais Estas regras formam a crítica histórica geral Crítica histórica geral Apontamos as principais regras Algumas ser vem para avaliar a ciência e outras a veracidade das testemunhas I Regras relativas à ciência das testemunhas É certa a ciência das testemunhas se os seus sentidos no ato da percepção a estavam sãos e bem dispostos b e se foram atenta e diligentemente aplicados a Deve admitirse que os sentidos das testemunhas no ato da per cepção estavam sãos e bem dispostos 1º se não constar o contrário porque a integri 258 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 189 O testemunho humanohistórico e os fatos sobrena turais O testemunho humanohistórico pode ser meio infalível para a aquisição da verdade não só quando refere fatos de ordem natural mas também quando refere fatos de ordem sobrenatural como são os milagres porque também na relação dos fatos sobrenaturais a ciência e a veracidade das teste munhas podem tornarse evidentemente certas1 dade e a boa disposição dos sentidos é natural ao passo que o defeito é acidental e conhecese 2º se as testemunhas forem muitas e concordes porque então toda a dúvida é infundada 3º se o fato era de tal natureza que podia ser facilmente percebido mesmo por sentidos defeituosos como seria a existência de uma cidade b Deve admitirse que os sentidos das testemunhas foram atenta e dili gentemente aplicados 1º se o fato foi tão sensível que podia ser percebido sem muita diligencia e sem medo de errar 2º se o fato foi tão público e notável que devia naturalmente atrair as atenções de todos 3º se entre as testemunhas havia algumas que eram dotadas de prudência e perspicácia ou que tinham interesse e motivos particulares para bem averiguarem o fato II Regras relativas à veracidade das testemunhas É certa a veraci dade das testemunhas nos seguintes casos a Quando as testemunhas são muitas e diversas entre si na idade e nos carac teres na pátria e na religião nos estudos e nos talentos na edu cação e nos costumes e todavia afirmam todas a mesma coisa porque em circunstâncias tão diversas não só toda a falsidade é moralmente impossível mas também essa uniformidade não pode derivar da má fé b Quando as testemunhas são poucas mas narram um fato na presença de pessoas às quais o fato é nocivo e que podem descobrir o engano porque ninguém ainda que mau em três circunstâncias falta à verdade c Quando as testemunhas são poucas mas narram um fato que é contrário às opiniões que elas professam e ao partido a que pertencem porque neste caso só a verdade tem a força de prevalecer e manifestarse d Quando as testemunhas são poucas mas a narração de um fato em vez de procurarlhes riquezas glorias e prazeres lhes pode causar ignomínia pobreza tormentos e morte pois é necessário acreditar em teste munhas que sabem morrer pelo que atestam 1 Da análise das três faculdades cognitivas seguese que nós conhecemos os fenômenos e a ordem com que se sucedem mas não conhecemos o que está debaixo destas aparências destes fenômenos não conhece mos a coisa em si o númeno A sensibilidade atesta que há alguma coisa atrás do fenômeno porque o fenômeno é o nosso modo de representar a coisa em si mas não diz o que essa coisa é Nem o dizem a inteligência e a razão ambas limitadas pela experiência sensitiva pois as categorias e os princípios só se referem aos fenômenos A razão por si sentese inclinada a transcender a elevarse fora e acima dos fenômenos procurando um princípio pri 259 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE meiro objetivo e assim conclui para a existência da alma do mundo e de Deus Mas se ela chega a tais conclusões nem por isso esses existem fora de nós o termo do raciocínio é tão subjetivo como o é o seu princípio Porquanto se se pretendesse que a realidade fosse conforme com os discursos da razão seriam inumeráveis as antinomias ou contradições em que ela havia de cair fatalmente As principais antinomias são as quatro seguintes 1ª O mundo teve começo no espaço e no tempo ou não teve 2ª O mundo resulta de elementos simples ou compostos 3ª A liberdade existe no mundo ou não existe 4ª Existe uma causa necessária do universo ou não existe Em cada uma destas proposições disjuntivas a tese está em contradição com a antítese e todavia os argumentos que se aduzem em favor de uma têm o mesmo valor dos argumentos aduzidos em favor de outra Como poderá a razão sair desta obscuridade e livrarse desta tor tura O remédio é fácil Essas proposições são con traditórias na ordem dos númenos isto é das realidades objetivas mas não são tais na ordem dos fenômenos isto é das aparências Se se suprimir a realidade objetiva que se opõe à conciliação e à verdade de duas proposições contraditórias cessará toda a contradição já não haverá motivo para controvérsias a tese e a antítese serão ambas verdadeiras haverá a verdade subjetiva que consiste na concórdia das idéias e isso basta Então as duas partes ficarão convencidas de que se podem confutarse mutuamente é porque discutem por um nada e uma certa aparência transcendental lhes representou no tempo e no espaço uma realidade que não existia A questão não existe porque não existe um objeto determinado a questão portanto é essen cialmente inútil destituída de sentido O vosso objeto só existe na vossa cabeça e não pode existir fora dela Crítica da razão pura Todavia as verdades que se referem à alma ao mundo a Deus e que a razão especulativa ou teorética não pode demonstrar são promulgadas pela razão prática Por quanto a razão prática inculcando que se deve evi tar o mal e fazer o bem deve implícita e necessariamente admitir a liber dade e a imortalidade da alma a realidade do mundo e a existência de Deus porque se não se admitirem estas três verdades não é possível evi tar o mal e fazer o bem A razão prática não demonstra estas verdades atingeas pela fé isto é por uma certeza subjetiva e destituída de evidência de modo que a alma o mundo e Deus se apresentam como postulados ne cessários e inexplicáveis Assim a fé toma o lugar da ciência Tal é a teoria de Kant acerca do conhecimento humano A coisa é abstrusa mesmo porque o escritor alemão teve o gosto de empregar algumas palavras estra nhas para exprimir as linhas fundamentais do sistema de mudar a significação usual de muitas outras e sobretudo de ser obscuro para se mostrar profundo A sua vaidade levouo a compa rarse com Copérnico porque assim como Copérnico fez uma revolução na Astronomia mostrando que não é o Sol que gira em volta da terra mas é a terra que gira em volta do Sol assim também ele Kant fez uma revo lução na Filosofia mostrando que não é a inteligência que se acomoda às coisas para as conhecer como são em si mesmas mas são as coisas que se acomodam à inteligência 260 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA revestindo as formas que ela lhes aplica Todavia nem o mérito da invenção é devido a Manuel Kant Há muitos séculos Protágoras tinha dito o espírito é a medida forma das coisas e não são as coisas a medida forma do espírito Cf Aristot XI Metaf c 5 e por esse seu ceticismo foi exilado de Athenas Nos tempos mais recentes e anteriormente a Kant tinham ensinado com menos exagero embora com maior incoerência essa teoria entre outros Descartes Leibniz Malebranche Reid Cousin sobretudo Hume tanto que escreveu Compayré Ce nest pas Kant cest Hume qui a fondé la philosophie critique La philosophie de David Hume Não é nossa intenção de refutar aqui todas e cada uma das animações de Kant algumas já foram refutadas e outras o serão no decurso deste livro O criticismo de Kant é falso nos seus fundamentos na sua essên cia nas suas consequências A É falso nos seus fundamentos a O sistema parte de um princípio que é a dúvida do valor da razão e para averiguar se essa dúvida é ou não atendível servese da mesma razão e por isso já supõe como certo o que dá por duvidoso A contradição é manifesta Se é natural e legítimo que a nossa razão suposta sempre a própria aptidão para alcançar a cer teza reflita sobre os seus atos e reconheça os processos que seguiu na investigação da verdade é ilegítimo e absurdo que se pretenda formar raciocínios e organizar sistemas quando não só se duvida da legitimidade da razão mas se sustenta que tudo é uma mera ilusão b Um dos fundamentos do criticismo é a lei da imanência Diz o escritor alemão que o conhecimento sendo um fato da consciência não pode atingir o que está fora dela e por isso é impossível a percepção da coisa em si mesma do númeno Mas essa base é insubsistente O co nhecimento é um fato da consciência é um fato subjetivo quanto ao seu princípio que é a faculdade cognitiva mas não é subjetivo quanto ao termo que é o objeto conhecido Uma coisa conhecida em si mesma não se altera pelo fato de ser conhecida mas permanece sempre no seu estado de absoluta porque não é ela que se transforma na inteligência mas é a inteligência que atuada pela forma da coisa lhe se torna semelhante atingindoa como é em si mesma de modo que há adequação entre o con ceito da inteligência e a realidade da coisa c Kant admite também que o nosso espírito extraindo do próprio fundo a verdade toda é autônomo isto é independente de todo o objeto e de toda a regra extrínseca da verdade e por isso deve rejeitar todo o ele mento que não é imanente e autóctone quer nas construções das ciências físicas quer na elaboração das ciências lógicas e morais Mas se assim fosse como opina Kant para que havia os sábios de suar tanto para interrogar a natureza e arrancarlhe os segredos E se eles julgam indispensável meterse em comunicação com os objetos externos a razão é porque essa comunicação fornece dados que podemos conhecer Se o nosso espírito não é independente dos objetos externos nem é indepen dente das leis lógicas e morais Estas leis dominam o homem impõemse imperiosamente à sua inteligência e à sua 261 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE vontade Se são interiores enquanto se tem consciência delas são exteriores enquanto se impõem a cada um de nós O homem percebeas como verdadeiras mas não é ele que as torna tais A ordem das coisas que essas leis exprimem é essencial e imutável e ficaria sempre a mesma embora a razão do homem se escurecesse na loucura ou a sua vontade se corrompesse no vício d A autonomia de nossa inteligência se é uma glória é também se gundo Kant uma necessidade visto que na percepção o sujeito que per cebe e o objeto que seria percebido são separados por um abismo insu perável Ora é falso que o objeto seja sempre inacessível à faculdade perceptiva Quando se trata da percepção do sentido comum e da consciên cia o sujeito e o objeto não somente não são distintos mas identificamse É impossível que o sujeito se separe do objeto e que o não atinja O sujeito consciente percebese a si mesmo imediatamente como uma existência e uma realidade certíssima e descobre em si mesmo uma multi dão de atos vitais sensitivos intelectuais de idéias objetivas Dizer com Kant que nos percebemos a nós mesmos através de formas a priori da nossa mentalidade que alteram todos os objetos mesmo os objetos internos da consciência é emitir uma hipótese gratuita e contraditória gratuita porque não só não se baseia em nenhuma experiência mas é contrária a toda a experiência contraditória porque uma percepção sem um objeto percebido é uma contradição Quando se trata da percepção sensitiva ex terna também neste caso o sujeito e o objeto não estão distantes O ato do agente encontrase no paciente do modo que o agente e o paciente se acham reunidos num todo completo Sendo assim é claro que o paciente ou o sujeito não precisa de sair de si mesmo fora da sua pele como dizem os adversários para perceber o agente ou o objeto É pois falso que entre o objeto e o sujeito corra um abismo que não é possível transpor B É falso na sua essência a A essência do criticismo consiste principalmente na hipótese das formas inatas a priori que existiriam em gérmen no fundo do espírito e de que derivariam a determinação a necessidade a universalidade para os fenômenos da sensibilidade para os juízos da inteligência e para os prin cípios da razão Ora essa hipótese é gratuita inútil irracional a É gratuita Ninguém tem consciência da existência de tais formas e Kant não aduz nenhum argumento sério Existem certamente na inteligência humana conceitos universais que se aplicam às coisas singulares mas esses não são meras ilusões não derivam a priori espontaneamente do fundo do espírito mas têm o seu fundamento num princípio extrínseco à nossa inteligência nas próprias coisas singulares e por isso não são formas impostas às coisas pela inteligência mas são formas impostas à inteligência pelas coisas b É inútil Kant admite as formas a priori para explicar as notas de universali dade e de necessidade que se encontram nos nossos pensamentos Ora para isso não era necessário recorrer a essas formas a priori Desde o momento que se reconheça como é necessário reconhecer que a nossa inteligência tem a força de penetrar no âmago das coisas e descobrir nelas umas notas de universalidade e de necessidade per cebese imediatamente que o conceito universal e o necessário têm o seu fundamento 262 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA nos objetos singulares e contingentes O que se diz dos conceitos deve aplicarse aos juízos e aos princípios que sendo constituídos pelos conceitos devem ter e têm o seu fundamento não numa necessidade subjetiva mas numa realidade objetiva extrínseca ao ato cognitivo c É irracional Porquanto todos os homens estão convencidos de que alguns conceitos como o da quantidade da qualidade etc não são coisas subjetivas como afirma Kant mas representam coisas objetivas indepen dentes do nosso pensamento Além disso se os conceitos universais e necessários não pudessem derivar da expe riência por ser essa singular e contingente nem poderiam derivar do nosso espírito que também é singular e contingente porque omne agens agit sibi simile Ademais os conceitos de Kant são puros isto é sem conteúdo sem matéria ora o conceito é necessariamente o conceito de alguma coisa e por isso deve ter um conteúdo aliás deixará de ser conceito e será uma espécie de círculo quadrado b Kant admite duas formas inatas e abstratas na sensibilidade a do espaço e a do tempo Antes de tudo não se concebe como é que formas abstratas possam ter por princípio e por sujeito uma faculdade material e concreta como é a sensibilidade Além disso todos os homens estão convencidos de que a experiência sensível percebe certas determinações ou formas e entre outras a do espaço e do tempo como inerentes aos objetos externos e independentes do nosso ato perceptivo Separar como faz Kant da forma pura do fenômeno isto é da forma subjetiva do espaço e do tempo a impressão sensível que procede do objeto é uma arbitrariedade sem fundamento Ademais na teoria de Kant a matéria das nossas sensações indeterminada por si mesma é determinada pelas formas inatas da sensibilidade e assim a variedade que se encontra na figura e na duração dos objetos depende exclusivamente do nosso conhecimento Ora essa con clusão é contrária à experiência a qual atesta que a variedade na figura e na duração das coisas é independente do nosso conhecimento e que o nosso espírito não pode introduzir nessas representações do espaço e do tempo a mais leve alteração ou mudança Finalmente Kant admite a existência da realidade extensa embora dela só possa saberse que é extensa e acrescenta que temos a representação da extensão pela aplicação da forma subjetiva do espaço Ora isto também é contrário à experiência Não é a idéia da extensão que deriva da idéia do espaço mas é a idéia do espaço que pela abstração e reflexão deriva da idéia da extensão c Com relação às formas inatas da inteligência além das observações feitas apresentamos as seguintes a Kant fazendo a crítica da razão pura começa pelo juízo porque diz que julgar é pensar descobre os célebres juízos sintéticos a priori e para explicar as notas de necessidade e universalidade que se encontram nesses juízos recorre às formas inatas a priori latentes no fundo do nosso espírito Uma arbitrariedade a apoiar outra arbitrariedade Mas devemos notar o seguinte Kant começa pelo juízo e omite a questão importantíssi ma da noção ou da idéia Antes de investigar o modo porque um predicado convém a um sujeito é necessário conhecer a origem e o valor objetivo desses termos Kant ocupouse do juízo do composto e não das partes componentes e como o juízo não representa a realidade senão pelos seus termos é claro que pres 263 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE cindindo da realidade das partes devia também prescindir da realidade do composto É verdade que ele admite os concei tos mas esses conceitos não são anteriores ao juízo são posteriores não são noções simples e objetivas mas compostas e subjetivas No juízo Kant só vê o subjetivo O verbo é não exprime para ele o ato de ser dos entes reais mas apenas a união ideal de termos puramente ideais Daí o subjetivismo É falso que pensar e julgar sejam uma e a mesma coisa a simples apreensão do objeto não é um juízo é um pensamento b Na teoria de Kant a nossa inteligência aplicaria instintivamente as formas inatas aos fenômenos e sentirseia constrangida por uma fa tal necessidade a emitir o juízo Ora isto repugna a fatos averiguados Atestanos a consciência não só que nos sentimos logicamente necessitados a pensar e a julgar de um modo e não de outro mas também que essa necessidade deriva exclusivamente do objeto extrínseco ao sujeito pensante Pensamos e julgamos assim porque o objeto é assim Portanto não é uma necessidade cega que nos leva a julgar mas é o conhecimento da relação existente entre o sujeito e o predicado e independente do nosso trabalho intelectual Uma necessidade mental não pode ser e não é senão a conse quência da visão da verdade c Segundo Kant as formas inatas que são moldes vazios conceitos puros brotam na ocasião de uma sensação do fundo da alma e aplicamse por si aos fenô menos para comunicar a esses a universalidade Mas perguntamos de onde tiram essas formas o poder de tornar universais os fenômenos Como é que quando vemos um objeto aquecido pelo Sol surge em nós espontâneo o conceito de causa e quando vemos uma árvore desponta imediatamente o conceito de substância Dirseá que a nossa inteligência ao aparecer de uma imagem sensível na fantasia produz uma imagem espiritual correspondente ao objeto externo Isto é certo mas entanto é certo enquanto se admite que o objeto externo produzindo a sua imagem sensível na fantasia concorre para a produção da imagem espiritual na inteligência Por isso a imagem sensível é o princípio e a medida da imagem espiritual Mas essa explicação da boa filosofia que é também a do gênero humano é rejeitada por Kant que não admite nenhuma influência do objeto no sujeito e faz das imagens das coisas um produto interior e total do espírito d No sistema de Kant a universalidade do juízo é apenas lógica ou subjetiva porque deriva da forma subjetiva aplicada ao fenômeno Mas basta uma pequena reflexão para se concluir que a aplicação das formas inatas aos fenômenos nem a universalidade subjetiva pode comunicar ao juízo De fato essa universalidade segundo os princípios do escritor alemão não pode deixar de ser limitada a um só indivíduo Como é possível que quando digo o mel é doce todos os homens convenham comigo e assim o juízo tenha um caráter de universal Para isso é necessário que se conheça a existência dos outros homens isto é das coisas em si dos númenos que se admita que todos têm a mesma organização e também que o mel produz em todas as línguas a mesma impres são Só depois de ter conhecido e averiguado tudo isto é que se pode for mular um juízo subjetivamente universal Ora Kant é um homem a priori não admite númenos não reconhece qualidades determinadas nos objetos e portanto não pode logicamente admitir a universalidade subjetiva do juízo E então para que servem as formas inatas 264 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA e Finalmente a disposição dos conceitos ou das categorias é arbitraria torta desordenada irracional já o vimos em que a paixão pela simetria se sobrepõe à seriedade e ao senso comum Diz K Fischer admirador de Kant Na disposição das categorias aparece claramente a fantasia arquitetônica de Kant o seu gosto pela aparência é preciso não dar uma demasiada importância à simetria que aí se ostenta complacentemente Como estas categorias são abstraídas dos juízos falta a este dodecálogo de conceitos puros do entendimento a forma de sistema que não pode ser substituída pelos jogos do arquitetônico Histoire de la Phil Mod III 363 É um jogo infantil o de Kant mas não é um jogo inofensivo d As considerações que fizemos acerca das formas inatas em geral podem e devem aplicarse às formas inatas da razão As idéias da alma do mundo de Deus são como todas as outras adquiridas e objetivas como se demonstrará nos lugares próprios destes Elementos Só nota remos o erro de Kant que faz da razão uma faculdade distinta da inteligência e superior a esta quando esses dois termos significam apenas como vimos diversas funções de uma e mesma faculdade Feita a análise das três faculdades cognitivas o escritor alemão conclui que só conhecemos os fenômenos as aparências mas nos é impossí vel conhecer as coisas em si mesmas os númenos Diz assim As coisas apresentamse como objeto existente fora de nós mas nós não podemos saber o que são em si mesmas só conhecemos os fenômenos isto é as representações que elas operam em nós quando impressionam os nossos sentidos Antes de tudo notamos uma contradição de Kant Afirma que os fenômenos são os primeiros e únicos objetos do nosso conheci mento Mas sendo assim ele não podia determinar os elementos a priori que constituiriam os mesmos fenômenos pois não é possível o conheci mento de uma coisa anterior a todo o conhecimento Além disso este escritor admite e por palavras muito claras a existência do númeno da coisa em si mesma aliás diz ele haveria uma aparência sem a coisa que aparece Otimamente e já se reconhece implicitamente o princípio de causalidade Mas se existe a coisa que aparece ela deve aparecer na própria aparição porque não se concebe uma aparição abstrata isto é uma aparição separada da coisa que aparece Portanto devemos dizer ou que com o fenômeno aparece também o númeno ou que não aparece e não existe coisa nenhuma A este subjetivismo total a este niilismo absoluto levam logicamente os princí pios do autor da Crítica da razão Na verdade o fenômeno no sistema de Kant sendo constituído pela impressão ou sensação e pela intuição que são coisas subjetivas nada pode ter e nada tem de objetivo E não pode dizerse que a impressão ou sensação con tenha algum elemento objetivo que refira e apresente o objeto que impressionou os sentidos Na verdade para se concluir para a existência do objeto teria de admitirse o princípio de causalidade visto que só em virtude deste princípio pode mos passar da impressão recebida no sentido para o objeto que a produziu Mas para Kant a causa é uma forma inata a priori sem valor objetivo e a causalidade não existe fora de nós Logo no sistema de Kant não há nada de objetivo ou se houver não pode ser de modo algum conhecido Além disso se é pela forma do espaço que percebemos o fenômeno e se a forma do espaço é toda subjetiva porque não havia de ser inteiramente 265 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE subjetivo o próprio fenômeno De fato esse escritor diz e repete continuamente que os objetos da experiência não passam de ilusões ou de representações subjetivas que o fenômeno é um produto exclusivo do sujeito que a impressão é coisa completamente subjetiva que a matéria é um fenômeno subjetivo que a própria realidade é um con ceito puro da inteligência Citemos alguns trechos extraídos da Crítica Os objetos externos os corpos são apenas fenômenos são modos das nossas representações cujos objetos só existem em virtude dessas mesmas representações e tomados separadamente não são nada As coisas exter nas isto é a matéria com todas as suas formas e mudanças não passam de fenômenos isto é de representações em nós Como se vê só temos fenômenos e representações fenômenos ou aparências que nada fazem aparecer representações que nada representam Pelo menos deste naufrágio universal se salvasse o eu Mas nem ele se salva O eu para Kant é também fenomenal e este eu fenomenal não é um eu real Penso logo é Tal é o desvario fundamental de Kant Apraznos citar o juízo que do criticismo de Kant fazem Hartmann e Schope nhauer Hartmann mostrando que o sistema de Kant é uma hipótese a priori sem nenhum fundamento escreve A simples verdade que tudo o que posso represen tarme não é senão a minha representação e que tudo o que posso conceber não pode ser outra coisa senão a minha con cepção essa simples verdade é a origem de todo o idealismo subjetivo todos os seus fundamentos são outras tantas frivolidades em que se encontra sempre esse argumento mais ou menos escondido e é dele que os outros tiram toda a sua força Examen crit du realisme trascendental p 27 Scho penhauer denuncia as contradições de Kant com as seguintes palavras Kant baseia a existência da coisa em si embora através de mil subterfú gios sobre um raciocínio fundado no princípio de causalidade porque a impressão recebida nos nossos órgãos deve ter uma causa extrínseca Ora conforme a sua própria descoberta o princípio de causalidade é por nós conhecido a priori e por isso é uma função da nossa inteli gência e tem uma origem subjetiva além disso a própria impressão sensível à qual aplicamos o princípio de causalidade é indubitavelmente subjetiva e finalmente o próprio espaço em que em virtude dessa aplicação colocamos como objetos as causas da dita impressão é uma forma mental a priori e por isso subjetiva Portanto toda a intuição empírica existe inteiramente no mundo subjetivo Le monde en tant que volonté I 490 Segundo o mesmo Schopenhauer quem sustenta que o mundo é apenas um estado do próprio organismo deveria ser fechado numa casa de saúde O criticismo pois é um sistema destituído de base e de seriedade O nosso conhecimento não deriva de uma atividade meramente subjetiva e produtiva do objeto mas é o resultado da inteligência e do próprio objeto conhecido Nem admitindo a perfeita correspondência entre o objeto e o conhecimento se verificam essas obscuridades e torturas da razão descritas com cores aterradoras por Kant As tais antinomias são também formas a priori existentes unicamente na cabeça do escri tor alemão e só ele teve a habilidade de encontrar argumentos dotados do mesmo valor em favor de cada uma das partes contraditórias dessas proposições disjuntivas No decurso deste livro teremos ocasião e necessidade de mostrar que os ar gumentos 266 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA favoráveis à tese não o são à antítese e por isso que a inteligência deve aceitar uma parte das antinomias e excluir outra Só acrescentaremos que o remédio que foi proposto por esse escritor para aliviar as torturas da razão e que como vimos consiste na supressão da realidade objetiva não é nada eficaz para o escopo Porquanto essa supressão se faz desaparecer o conflito do espírito com o objeto não faz desaparecer antes intensifica o conflito do espírito consigo mesmo enquanto ele é condenado a uma perpétua ilusão recebendo ou formando representações que nada representam julgando como objetivas as propriedades das coisas externas que afinal são apenas modos da percepção e afecções do sujeito e admitindo a identidade e a verdade simultânea de duas proposições contraditórias E será essa uma concórdia de idéias Não admira portanto se a solução de Kant não satisfez ninguém Alguns dos seus sequazes mais coerentes que o mestre despenharamse no fundo de um absoluto ceticismo outros levados pelo instinto da reação abra çaram o mais intemperante dogmatismo Mas Kant confiava tanto na sua descoberta que desejou aplicála também ao regime das nações Dizia que a metafísica divide os povos porque admite a realidade objetiva e que suprimida essa realidade já não haveria motivo para lutas entre os di versos países Para esse sistema de pacificação chegou a pedir o favor dos Governos de então ninguém atendeu ao pedido só a Convenção nacional de França lhe respondeu honrandoo com o título de cidadão francês Se Kant não trata bem a razão especulativa declarandoa incapaz de perce ber a realidade e sujeita a perpétuas ilusões não trata melhor a razão prática Essa também é cega e se admite algumas verdades como a liber dade e a imortalidade da alma a realidade do mundo a existência de Deus admiteas não como conclusões de uma demonstração mas unica mente como postulados atingidos pela fé isto é por uma certeza subjetiva e destituída de toda evidência A que estado reduziram esses filósofos transcendentais a pobre razão humana Mas escutemos o que diz acerca destes postulados de Kant um célebre escritor que por fim percebeu toda a vaidade e o absurdo deste sistema Falamos de Ausonio Franchi que na Última crítica escreve as linhas seguintes Absurda e impossível tornase toda a saída da consciência razão prática fora de si mesma e toda a per cepção de verdades transcendentes apesar de todo o recurso a qualquer postulado E por onde havia de ir a consciência saindo fora de si se fora dela não há nada E como poderia ela conhecer as verdades transcen dentes se além ou acima dela não há nada Os postulados que haviam de fazer o grande milagre referemse à existência de Deus à liberdade e à imortalidade da alma Pois bem postular seriamente a existência de Deus quando se tem dito que Deus com a sua existência é um abismo de contradições postular a liberdade e a imortalidade da alma quando se tem dito que a alma é um ente imaginário não é porventura postular que a filosofia se transforme em comédia e que a razão se reduza por si de propósito ao estado de loucura raciocinante É certo que se alguém racio cinasse deste modo em qualquer outra matéria nas ocorrências da vida privada doméstica civil seria tido por todos sobretudo pelos criticistas como um demente digno de ser recomendado à psiquiatria e ao manicô mio e deverá depois admirarse como eminentemente científico e superlativamente filosófico esse modo de raciocinar sobre matérias de metafísica e de psicologia Vol II p 430 267 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE e O criticismo falso nos seus fundamentos e na sua essência não é me nos falso nas suas consequências porquanto é a destruição da verdade da ciência experimental da ciência especulativa da ciência prática a É a destruição da verdade A verdade como dissemos consiste na confor midade do nosso pensamento com as coisas Veritas consistit in adacquatione intellectus et rei Sum Th p I q 21 a 2 Ela é imutável porque fixo ou imutável é o elemento objetivo com que o pensamento se conforma Mas como no sistema de Kant não há uma verdade ontológica fixa e imutável ou se há é para nós completamente desco nhecida nem por consequência pode haver uma verdade lógica No entretanto não que rendo suprimir o vocábulo de verdade desvirtuaramlhe o sentido dizendo que a verdade consiste na concórdia das idéias e que por isso é a visão do que nos parece e não do que é Essa seria a verdade subjetiva e por isso mutável e subjetiva em oposição à verdade objetiva e por isso fixa e absoluta Daí a negação de todo o dogma filosófico e teológico b É a destruição de toda a ciência experimental Porquanto se o homem pode perceber unicamente as próprias idéias e não pode de modo algum atingir os objetos como são em si mesmos toda a ciência experi mental será apenas a ciência das nossas idéias será uma psicologia Diz S Tomás Si ea quae intelligimus essent solum species quae sunt in anima sequeretur quod scientiae omnes non essent de rebus quae sunt extra animam sed solum de speciebus intelligibilibus quae sunt in anima Sum Th p 1 q 85 a 2 É verdade que Kant quis limitar o seu ceticismo ou agnosticismo ao domínio do sobressensível ou da metafísica e pretendeu ser dogmático no domínio da experiência quer nas ciências físicas quer nas ciências matemáticas e geométricas que também são de algum modo experimentais mas não é com isso que se salva o valor das ciências experimentais Porquanto segundo Kant a própria percepção experimental quer no seu conjunto quer nos seus elementos não passa como vimos de uma construção ou criação do espírito que é determinada pela natureza do sujeito pensante e que seria diferente se fosse diferente essa natu reza Por isso a ciência experimental não apreende o que é na realidade mas apenas os efeitos psicológicos do nosso espírito proporcionados à sua estrutura e às suas disposições presentes Tudo é pois subjetivo Os sábios quando dizem que apresen tam os fenômenos astronômicos físicos ou biológicos não apresentam realmente senão fenômenos psicológicos que não têm relação alguma com os pri meiros Será admissível tão grande desvario Não com certeza Não é o acordo de uma idéia com outra idéia que os sábios pretendem atingir mas é o acordo cada vez mais exato e perfeito das suas idéias com a realidade com os fatos com as leis da natureza c É a destruição de toda a ciência especulativa Porquanto é pos sível por ventura uma ciência exclusivamente subjetiva Não é possível O acordo de várias idéias falsas embora logicamente ordenadas entre si não pode constituir a verdade Mas nem esse acordo é possível Com efeito todo o acordo deve ser regulado por princípios Mas se para os Kantistas não existe nenhum princípio absolutamente certo a não ser o princípio de contradição e se esse mesmo princípio é como os outros princípios um hábito cego e inato de alguns espíritos de que outros podem 268 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ser destituídos não temos a certeza absoluta de que não podemos atribuir e negar ao mesmo tempo a mesma coisa à mesma idéia E não tendo essa certeza nem pode mos estar certos de ter alcançado o acordo entre as nossas idéias e o próprio acordo é impossível Desse modo passase fatalmente do ceticismo objetivo e parcial para o ceticismo subjetivo e total para o niilismo do pensamento A destruição da ciência objetiva traz consigo a destruição de toda a ciência mesmo da subjetiva d É a destruição de toda a ciência prática Kant admite que a lei do dever proclama no fundo das nossas consciências a distinção entre o bem e o mal Mas perguntamos As idéias morais de dever de bem de mal etc são objetivas ou mera mente subjetivas Se são objetivas porque re jeita ele a objetividade das idéias teoréticas Se são meramente subjetivas e ilusórias com qual direito poderá ele impôlas a si mesmo e aos outros Kant responde que não pode impor essas idéias a ninguém por meio de uma demonstração limitase a impôlas a si mesmo por um ato de fé crê no dever na liberdade na sanção divina na imortalidade da alma e crê porque sente a necessidade de crer Por isso esse ato de fé é cego não é racional nem humano E assim a Moral a mais imperativa das ciências fundase numa crença cega que não pode imporse a ninguém Foram portanto lógicos os discípulos de Kant trans formando a Moral obrigatória em Moral facultativa e desvirtuando as idéias de dever de liberdade etc Para eles a Moral não passa de uma técnica de uma arte sem um ideal certo sem preceitos certos sem obrigações sem sanção Se uma doutrina não é criadora de forças e de felicidade senão pela certeza que tem e que dá concluímos que o criticismo tendo destruído pela base a certeza deve aniquilar todas as forças de ação e toda a felicidade da vida humana Não podemos deixar de advertir que esse ceticismo de Kant não só destrói a verdadeira Filosofia mas também a Teologia revelada Se o homem não pode nem deve aceitar nenhuma regra extrínseca de verdade absoluta e superior a ele se ele deve rejeitar tudo o que não é o produto imanente da própria personalidade toda a autoridade divina e huma na é posta de parte como coisa absurda ou inútil Nada de testemunho externo nada de Revelação sobrenatural O que se chama dogma deve sair como toda a crença e toda a regra de vida do fundo íntimo do homem deve ser o fruto do esforço vital da alma A religião que se diz revelada é o produto espontâneo da consciência humana que vai procurando um ser superior Os dogmas são concepções provisórias sujeitas a mudanças e a progressivas evoluções tendo por norma unicamente a lei do progresso humano Cf Farges La crise de la certitude T Pesch le Kantisme Os neokantistas para salvar de algum modo a certeza objetiva dos nossos conhecimentos modificaram o sistema do mestre e assim nasceram o voluntarismo o pragmatismo o dogmatismo moral e o antiintelectualismo Poucas palavras para cada uma destas opiniões a Voluntarismo Foi ensinado por Renouvier o verdadeiro funda dor do neocriticismo e seguido por Secretan Afirma que a certeza objetiva dos nossos conhe 269 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE cimentos depende não da razão naturalmente impotente para alcançar a verdade mas da livre vontade É a vontade que faz a verdade e o erro de modo que a liberdade individual é a criadora da ver dade científica e moral O voluntarismo é falso Porquanto esse sistema se explica a existência de alguns erros porque o erro depende às vezes do influxo da vontade não explica a existência de nenhuma verdade porque a percepção da ver dade é ato exclusivamente próprio da razão Depende porventura do nosso livre arbítrio que os três ângulos de um triângulo sejam iguais a dois ângulos retos Não com certeza Com muita graça dizia Fouilée ao mesmo Renouvier O dia em que bastasse a um astrônomo um ato de livre arbítrio para ver na extremidade do telescópio uma estrela seria o dia da ruína da ciência astronômica La liberté et le determinisme p 12 A verdade é e não pode deixar de ser impessoal b Pragmatismo E o sistema de Blondel W James seguidos por De Sailly Tyrrel Denis Loisy e outros Rejeita o valor do conhecimento intelectual porque todo o movimento transeunte do objeto para o sujeito como é o movimento da per cepção objetiva é impossível e sustenta que o único meio para atingir a verdade objetiva é a praxe a ação porque só o movimento do sujeito para o objeto como é o movimento da vontade é capaz de atingir o objeto Escreve Blondel A verdade e o bem só se demonstram pela ação e pelas consequências morais Laction etc O pragmatismo é falso Porquanto esse sistema ao passo que rejeita o valor do conhecimento intelectual porque afirma ser impossível o movi mento ou a ação transeunte do objeto no sujeito admite o valor da ação voluntária a qual não é senão a ação transeunte do sujeito no objeto Se a ação transeunte é por si impossível como dizem os neokantistas deve ser impossível sempre em todos os casos Além disso o pragma tismo admite que o objeto não é percebido no conhecimento especulativo mas na ação livre Ora nenhuma ação livre pode querer e atingir uma coisa que não tenha sido anteriormente percebida pela inteligência É velho mas sempre novo o aforismo nihil volitum nisi praecognitum Se a inteligência nada mostra à vontade ela nada quer c Dogmatismo moral É o sistema de Laberthonnière Afirma que não é a inteligência que alcança a certeza objetiva mas é a boa vontade e que a utilidade é o critério da verdade O dogmatismo moral também é falso Porquanto se concedemos que a boa vontade possa determinar e aplicar a inteligência a um certo objeto e que por isso é devido a essa boa vontade se um conhecimento é mais claro se uma convicção é mais forte se uma opinião escolhida é mais provável negamos com o bom senso que a vontade perceba a verdade A vontade é uma faculdade cega quer mas não vê o que quer Além disso se a boa vontade fosse a faculdade perceptiva da verdade os homens de má vontade não conheceriam nenhuma verdade sobretudo de ordem religiosa e moral o que é falso Finalmente nem tudo o que é útil é verdade Se a utilidade pode satisfazer as exigências do coração só a verdade satisfaz as exigências da inteligência 270 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 190 Transmissão do testemunho humanohistórico O testemunho humanohistórico transmitese por três meios pela tradição pelos monumentos e pela história a Tradição é a transmissão oral de um fato por uma série não interrompida de testemunhas Será evidentemente ma nifesta a ciência e a veracidade das testemunhas tradicionais se a tradição for a perpétua de modo que seja como uma cadeia formada de tantos anéis quantas são as gerações das testemunhas e estendida entre nós e a época em que o fato se deu sem nenhuma interrupção b uniforme isto é invariável e constante quanto à substância do fato c ampla por forma que cada linha da série seja representada por um grande nú mero de testemunhas d importante isto é que se refira a fatos públicos e notáveis A ausência ou o silêncio dos documentos é uma razão exclusivamente negativa que nada prova contra a tradição b Monumentos são obras de arte mais duradouras que servem para perpetuar a memória de uma pessoa ou de um acon tecimento notável tais são as estátuas as colunas os templos as pinturas as medalhas etc Os monumentos para que tenham autoridade devem ser a autênticos isto é perten centes ao tempo ao lugar às pessoas a que são atribuídos b contemporâneos dos fatos que eles representam ou das pessoas a que se referem c conformes às tradições legítimas e aos documentos certos d Antiintelectualismo É a opinião de Bergson Sustenta que tudo o que existe está sujeito a um movimento vital e contínuo e como a nossa inteligência é incapaz de perceber a vida o movimento a continuidade por isso as nossas idéias relativas a objetos fixos e imutáveis a verdades necessárias e eternas são vãs e ilusórias Apre senta um remédio para tornar possível a metafísica objetiva e o remédio é a intuição Não menos inaceitável é a opinião de Bergson A asserção que a nossa inteli gência não percebe o movimento a vida a continuidade é gratuita e contrária à experi ência Além disso é falso que as nossas idéias rela tivas às essências e aos primeiros princípios sejam vãs e ilusórias Elas são tão fixas e imutáveis como o são os objetos representados Nem pode ser admitido o remédio apresentado por esse escritor A intuição seria para ele uma nova faculdade substituída à inteligência uma espécie de instinto consciente Ora repugna que possa existir um instinto con sciente uma faculdade dotada ao mesmo tempo de instinto e de reflexão Uma intuição sem idéias é uma contradição porque é uma visão que não é visão Notamos que para Bergson o instinto perdido pelo homem quando na evolução deixou de ser puro animal só pode recuperarse e tor narse consciente por um esforço violento e doloroso do espírito Como se vê a inventiva de Bergson não é menos genial que a do seu Kant 271 CAPÍTULO SEGUNDO MEIOS PARA AQUISIÇÃO DA VERDADE c História é a narração metodicamente escrita de fatos notáveis para instrução da humanidade Um livro histórico será meio seguro para a aquisição da verdade se for genuíno inteiro e verídico a Um livro dizse genuíno se realmente foi escrito pelo autor a quem o atribuem ou pertence ao tempo a que o referem No caso contrário dizse apócrifo O livro será genuíno 1º se for atribuído a um certo autor por uma tradição nunca interrompida que vem desde o tempo em que o livro apareceu até nós 2º se o estilo e as circunstâncias da narração convierem à pessoa do autor 3º se concordar com os códices mais antigos 4º se não houver argumentos positivos que neguem a sua genuinidade b Um livro é inteiro quando se conserva tal qual foi escrito pelo autor Deixa de ser inteiro quando ou por mutilação se lhe tirou alguma coisa que o autor escreveu truncado ou por interpolação se lhe acrescentou uma coisa que o autor não escreveu interpolado O livro será inteiro 1º se o estilo a forma e as doutrinas forem sempre coerentes 2º se alguns trechos citados por outros autores estiverem conformes com os respectivos do livro ou só diferirem em coisas de pe quena importância c Um livro é verídico quando refere os fatos como estes se deram O livro será verídico se o escritor possui ciência e probidade O escritor possui ciência quando os fatos que narra são públicos notáveis e observados por muitas testemunhas quando nenhum escritor contemporâneo se levantou para contradizer o fato narrado principalmente se assim o exigia o interesse de muitas pessoas quando a tradição e os monumentos confirmam a narração O escritor possui a probidade quando é homem de bem e honesto ou escreveu por autoridade pública ou contou fatos contrários ao seu interesse ou à sua glória1 1 Não basta demonstrar que um livro é genuíno inteiro e verídico é necessário sabêlo interpretar Para isso serve a hermenêutica a Hermenêutica Hermenêutica é a arte que nos ensina a interpretar o sentido das palavras de um escritor b Elementos para a interpretação de um livro Para se conhecer o verdadeiro sentido das palavras de um escritor deve atenderse aos seguintes ele mentos gramatical lógico sistemático e histórico a O elemento gramatical é formado pelas palavras e frases que o escritor empregou para manifestar o seu pensamento b O elemento lógico consiste nas relações existentes entre as diversas idéias ou pensamentos que do livro constarem 272 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA CAPÍTULO TERCEIRO Método Sumário Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes Processo Método analítico e sintético Termo do movimento Ciência ARTIGO I Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes 191 Método Método é o caminho que a inteligência deve seguir para a aquisição da ciência ou mais propriamente é a ordenada disposi ção das operações intelectuais A nossa inteligência chega ao perfeito conhecimento da verdade ou à aquisição da ciência por várias e diversas operações que devem ser convenientemente dispostas para se alcançar esse fim Tal conveniente ou ordenada disposição chamase método1 c O elemento sistemático é o laço íntimo que liga e subordina todas as partes a um centro comum de unidade Muitos escritores reduzem o elemento sistemático ao lógico e ensinam que o elemento lógico consiste na harmonia de uma parte com outra e de todas com um centro comum d O elemento histórico referese às circunstâncias biográficas que possam revelar o pensamento do próprio autor c Regras da hermenêutica A hermenêutica dá as regras para a exata interpretação desses quatro elementos a Para a interpretação do elemento gramatical é necessário lº conhecer perfeitamente não só a língua em que o livro está escrito mas também o sentido que as palavras e as frases tinham na época em que viveu o autor 2º tomar as palavras no sentido próprio e natural salvo se assim tomadas exprimirem um absurdo 3º consultar os códices manuscritos ou as edições mais fiéis e emendadas pelo autor b Para a interpretação do elemento lógico deve atenderse aos lugares parale los aos princípios que o escritor estabelece às consequências que tira às definições que formula e às semelhanças que emprega etc c Para a interpretação do elemento sistemático deve considerarse todo o contexto da obra e o escopo que o autor se propôs d Para a interpretação do elemento histórico deve atenderse ao tempo em que o autor viveu às circunstâncias que o levaram a escrever à doutrina que profes sava etc porque tudo isso concorre para manifestar e esclarecer o seu pensamento 1 A utilidade e a necessidade do método são manifestas A ciência não é um 273 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 192 Elementos do método No caminho intelectual como no material devemos distinguir três coisas o ponto de partida o processo e o termo O ponto de que parte a inteligência é constituído pelos princípios do raciocínio o processo é o modo porque a inteligência vai sucessivamente deduzindo das premissas as conclusões o termo a que se chega é a ciência O método porém consiste propriamente no processo ou movimento da inteligência Neste artigo tratamos do ponto de partida no seguinte do processo no terceiro do termo 193 O ponto de partida das demonstrações filosóficas não pode ser a dúvida universal As conclusões do racio cínio estão contidas nos princípios e destes recebem a sua luz e a sua força Ora se a dúvida universal fosse princípio dos raciocínios ou o ponto de partida das demonstrações filosóficas nenhuma conclusão seria certa e evidente porque a dúvida é a negação de toda a certeza e evidência e assim terí amos o ceticismo universal Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas não pode ser a dúvida universal1 agregado qualquer de noções mas é uma série ordenada de prin cípios e conclusões relativas a um objeto determinado Ora é o método que nos ensina o modo de coor denar os nossos conhecimentos 1 Estabeleçamos com exatidão o estado desta questão importantís sima O início do método o ponto de partida para a descoberta da verdade para a aquisição da ciência poderá ser a dúvida universal séria e real Poderemos e deveremos começar duvidando séria e realmente de tudo mesmo das coisas mais evidentes e da própria evidência Não não é possível duvidar real e seriamente das coisas mais evidentes nem da própria evidência não só porque essa disposição de espírito não depende da nossa vontade mas também porque não haveria nenhum meio eficaz para procu rar e descobrir a verdade O ponto de partida seria um ponto de imobili dade seria o sepulcro de todo o processo científico A essa questão antirracional pode substituirse esta outra começando a pro curar a verdade deveremos começar como se duvidássemos de tudo isto é deveremos partir de uma fictícia dúvida de tudo mesmo da evidência ou deveremos admitir como certos alguns princípios primeiros A essa segunda pergunta damos uma dúplice e diversa resposta conforme se trata de descobrir ou de demonstrar a verdade a Se se trata de descobrir a verdade essa dúvida fictícia e universal é possível O homem que adquiriu muitos e diversos conhecimentos pode levado por uma legítima curiosidade refletir sobre si mesmo e sobre as suas certezas espontâneas ou adquiridas para as justificar perante os seus olhos Não é que duvide real e seriamente dessas certezas mas quer exa minála cientificamente Esse exame pode 274 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ser universal sem excetuar a própria evidência Ora isso não é impossível Sendo o estado primitivo do nosso espírito uma tábua rasa na qual nada está escrito mas tudo se pode escrever e se vai escrevendo gradualmente é claro que pela reflexão podemos regressar a esse estado inicial seguir a gradual evolução das nos sas certezas espontâneos ou adquiridas e determinar a razão e o modo porque cada uma delas se gravou tão profundamente na nossa inteligência que nenhuma dúvida real tem podido abalar O resultado desse exame psicológico seria não só a eliminação de muitas opiniões vencivelmente errôneas produtos de prejuízos de paixões de leviandades mas também a convicção de que muitas certezas como a existência do mundo e de nós mesmos a aptidão natural das nossas faculdades perceptivas etc foram adquiridas não pela cega propensão da nossa mentalidade mas pela evidência imediata das coisas Deste modo a evidência objetiva aparecernosia como o motivo da todas as nossas certezas Nem há aqui uma contradição Contradição haveria se admitíssemos a evidência depois de se ter negado ou duvidado dela de um modo positivo Mas não fizemos isso Admitimos efetivamente a evidência antes do exame reflexo só no decurso desse exame fizemos abstração de todas as nossas certezas evidentes fica mos indiferentes com relação a elas para adquirirmos a convicção de que essas certezas tinham efetivamente por motivo a evidência obje tiva Uma coisa é a dúvida positiva proveniente de uma razão positiva de duvidar outra coisa é a dúvida negativa proveniente de uma ignorância fictícia de todas as certezas espontâneas mesmo da evidência É essa dúvida fictícia e universal o ponto de partida na descoberta da verdade S Tomás diz da Metafísica Ista scientia sicut habel universalem considerationem de veritate ita etiam ad eam pertinet universalis dubitatio de veritate et ideo non particulariter sed simul universalem dubitationem prosequitur In III Metaph lec I Esse exame pela verificação das nossas certe zas faz com que a nossa confiança espontânea na aptidão das nossas faculdades e na evidência objetiva se transforme em confiança reflexa as nossas certezas naturais se tornem certezas científicas e o acordo entre a atividade espontânea e a atividade reflexa da nossa natureza posto agora em evidência nos convença de que a máquina humana está maravilhosamente organizada b Se porém se trata não de descobrir mas de demonstrar aos outros uma verdade já descoberta então é evidente que o ponto de partida se pode ser a dúvida particular pelo menos fictícia da verdade demonstrável não pode ser a dúvida universal nem real nem fictícia Uma discussão com um adversário ou com um discípulo deve partir de verdades anteriormente admitidas por ambas as partes de princípios já demonstrados ou admitidos e capazes de servirem de premissas para a demonstração Sem isso toda a demonstração é absolutamente impossível Assim como nada poderia moverse se tudo precisasse de ser movido assim também nada poderia provarse se tudo precisasse de ser provado O movimento do pensamento como todo e qualquer movimento precisa de um motor não movido ou imóvel Concluímos que o ponto de partida na demonstração não pode ser a dúvida universal nem real nem fictícia Dissemos que o ponto de partida pode ser a dúvida particular pelo menos fictícia da verdade demonstrável Qual é a índole dessa verdade de que podemos legi 275 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO timamente duvidar Porquanto há verdades primárias e indemonstráveis há verdades certas e demonstráveis e há verdades duvi dosas e cognoscíveis Quanto às verdades primárias e indemonstráveis o homem não pode ter dúvida nem fictícia porque repugna a ficção de uma coisa intrinsecamente impossível e tal é a dúvida das verdades pri marias como p e é nossa existência Quanto às verdades certos e demonstráveis o homem que já as conhece como certas não pode ter uma dúvida real que seria uma mentira e uma afronta feita à própria verdade mas pode ter uma dúvida fictícia para descobrir por meio do raciocínio a razão explícita dos seus conhecimentos e a força dos motivos da sua certeza Quanto às verdades duvidosas e cognoscíveis o homem pode ter uma dúvida real que pode ser tirada por meio da investigação e do raciocínio Essa dúvida particular difere da dúvida universal dos céticos não só em razão da extensão porque uma é particular e outra é universal mas também em razão do fim porque a universal tem por fim afastar os homens da investigação da verdade ao passo que a particular os estimula para essa inve stigação e em razão do processo porque a universal é o termo da inqui sição e a particular é apenas o início Agora algumas palavras acerca do sistema de Descartes relativo à pre sente questão Esse escritor no livro Discours de la méthode estabelece a dúvida universal como o ponto de partida nas investigações e demonstra ções científicas e como meio seguro para distinguir a verdade da falsidade Damos o resumo do sistema O homem para levantar em bases firmes o edifício científico deve colocarse no estado de dúvida universal Mas principiando a duvidar de tudo logo percebe pelo testemunho da consciên cia que não pode duvidar da existência do próprio pensamento porque duvidar é pensar Admitida a existência do pensamento deve admitir a existência do sujeito pensante Daí a sentença penso logo existo Essa sentença é o primeiro princípio o fundamento de toda a filosofia e dela deriva o grande critério tudo o que é conhecido clara e distintamente é verdade Em seguida analisando os objetos do pensamento encontra na sua inteligência a idéia do infinito Nessa idéia percebese claramente a existência de Deus Logo Deus existe Se Deus existe o homem não pode enganarse nem na percepção das verdades imediatamente evidentes nem na percepção dos fenômenos externos aliás o erro refundirseia no próprio Deus Autor das faculdades humanas Do livro citado não aparece claramente se a dúvida universal é para Descartes real ou apenas fictícia É certo porém que esse escritor não é cético porque a dúvida universal não é para Descartes como é para os céticos o termo das investigações mas é apenas o início de que parte para chegar à certeza Todavia o sistema não pode admitirse pelas seguintes razões a A dúvida universal é para Descartes real ou fictícia Se é real ela é impossível como estado normal do nosso espírito Há verdades tão evi dentes que se impõem ao nosso espírito sem nos deixarem a possibilidade da dúvida Se é fictícia é impos sível como fundamento das demonstra ções Duvidando de tudo mesmo dos primeiros princípios da razão e da nossa capacidade de alcançar a verdade não é possível resolver 276 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA a dúvida por meio do raciocínio que supõe como coisas certas aqueles princípios e aquela capacidade Diz muito bem Rabier Descartes meteuse no estado de um homem que pelo receio de se apartar do verdadeiro caminho corta as próprias pernas e assim não pode dar mais um passo Logique b Descartes começa por admitir como certo um só fato a existência do pensamento Mas um fato embora incontestável embora verdade real se não é esclarecido por um princípio racional por uma verdade ideal perma nece sempre estéril infecundo Se penso que consequência poderá daí tirar a ciência Se penso responde Descartes existo eis a consequência Mas não vê ele que essa consequência não se pode tirar e não se tirou senão pela aplicação de um princípio ideal o princípio de causalidade de que ele duvida e que todavia admite como certo Sendo assim a dúvida universal de Descartes não é universal Mas se a sua boafé está salva a sua lógica está muito comprometida c A célebre sentença penso logo existo é na opinião de Des cartes o primeiro princípio o fundamento de toda a filosofia e dela deduz três coisas o princípio tudo o que é concebido clara e distinta mente é verdade a existência de Deus percebida claramente na idéia de Deus a veracidade das nossas faculdades fundada na própria veracidade de Deus Ora essa sentença penso logo existo quer seja um raciocínio como diz Gassendi quer seja a simples análise de um fato interno como pensa Cousin não pode ser o primeiro princípio de toda a demonstração filo sófica não só porque o primeiro princípio não pode ser um fato como é a existência do pensamento mas também porque o primeiro princípio é como vimos o de contradição Além disso aquele princípio tudo o que é concebido de um modo claro e distinto é verdade é uma consequência de um fato e de um fato particular como é a existência do pensamento de Descartes Ora se esse escritor dúvida de todos os primei ros princípios não tem o direito de generalizar um fato particular nem pode deduzir dele uma regra geral aplicável a todos os fatos d Descartes demonstra a veracidade da nossa razão pela existência e vera cidade de Deus e a existência e a veracidade de Deus pela veracida de da nossa razão e assim demonstra o primeiro pelo segundo e o segun do pelo primeiro o que é um círculo vicioso Do fato de Deus ser o princípio da ordem ontológica e de toda a existência não se segue que a idéia de Deus seja o princípio da ordem lógica e de todos os nossos conhecimentos e Esse sistema leva ao idealismo Descartes somente tem como certo o tes temunho da consciência Mas a consciência é uma faculdade interna cuja ação está limitada à ordem subjetiva Para que pois possa o homem passar da ordem subjetiva para a objetiva é necessária uma outra facul dade distinta da consciência Como também a consciência se atesta a existência e a operação das outras faculdades não atesta a veracidade delas e não julga dos objetos próprios das outras faculdades Além disso é um contrassenso deduzir da existência da idéia do infinito a exi stência real de Deus De uma idéia só segue uma idéia e a idéia do infinito pode ser formada pela nossa inteligência f O sistema da dúvida universal não só leva ao idealismo mas tam bém ao ceticismo universal Se Descartes duvida da própria evidência não é possível admitir 277 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 194 O ponto de partida das demonstrações filosóficas deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes A demonstração consiste em deduzir de princípios certos conclusões certas Se esses princípios não são imediatamente evidentes devem ser demonstrados por outros e esses por outros e assim por diante Daí resulta que ou devemos parar num princípio que seja imediatamente evidente ou devemos subir de um princípio para outro sem nunca chegarmos a um primeiro cuja verdade seja manifesta pela simples ins peção dos termos Essa segunda hipótese não pode admitirse porque destrói toda a certeza Logo o ponto de partida das demonstrações filo sóficas deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes1 sem contradição como certa a existência do pensa mento e do sujeito pensante Se nem essa existência é certa temos o ceticismo universal se não temos a contradi ção Se esse escritor dúvida da legitimidade da razão dos sentidos externos etc porque não deveria duvidar também da legitimidade da consciência Se não duvida da legitimidade da consciência porque deveria duvidar da legitimidade da razão dos sentidos externos etc O argumento vale para todas as faculdades Logo ou temos a contradição ou o ceticismo universal 1 O início das demonstrações deve ser pois constituído por verdades ime diatamente evidentes Destas verdades umas são fundamentais e gerais enquanto devem ser pressupostas necessariamente a toda a demon stração ou discussão seja qual for o seu objeto outras são fundamentais e especiais enquanto constituem o princípio de uma ciência especial ou da parte especial de uma ciência As verdades que são fundamentais e espe ciais reduzemse de algum modo às verdades que são fundamentais e gerais As verdades que se consideram como o fundamento geral de toda a demonstração ou discussão costumam reduzirse a três e são 1º o fato da nossa existência enquanto somos seres racionais e capazes de atingir a verdade isto é de atingir as coisas como são em si mesmas 2º a existência dos objetos enquanto têm a capacidade de ser atingidos pelas nossas faculdades 3º a evidência objetiva que é o sinal que indica quando o objeto é atingido por nós e que é o motivo da nossa certeza É claro que admitindo a evidência objetiva como sinal de verdadeira percepção e mo tivo da nossa certeza devemos admitir implicitamente todas as verdades evidentes e indemonstráveis legitimadas pela sua própria evidência quer pertençam à ordem racional quer pertençam à ordem experimental Se não admitirmos esses três postulados se duvidarmos da capacidade perceptiva da inteligência ou da capacidade que o objeto tem de se manifestar ou da eficácia da evidência objetiva a demonstração não é possível Alguns filósofos admitem como postulado não a evidência objetiva mas o princípio de contradição Não nos parece aceitável essa substituição Porquanto o princípio de contradição reconhecendose ver dadeiro pela sua evidência não é ante 278 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 195 O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte racional deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes e necessárias O ponto de partida das demonstrações filosó ficas quanto à parte racional deve ser constituído por aquelas verdades em que a razão resolve por último as mesmas demonstrações e baseia toda a certeza das conclusões deduzidas Ora a razão resolve por último as suas demonstrações e baseia toda a certeza das conclusões de duzidas nas verdades imediatamente evidentes e necessárias Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte racional deve ser constituído por verdades imediatamente evidentes e necessárias1 rior mas posterior à evidência Além disso o postulado deve conter de algum modo a explicação de todas as verdades Ora o princípio de contradição não explica as verdades con tingentes como a existência nossa a do mundo etc que são admitidas pela sua evidência e não por esse princípio e se mostra a possibilidade das coisas não pode mostrar a realidade delas Se um só dos três postulados indicados não é admitido pelo adversário nem pode encetarse a discussão pois as armas devem ser iguais Todavia se nesse caso não é possível o método da demonstração é possível o método da descoberta ou verificação Deve levarse o adversário a refletir sobre si mesmo a interrogar a sua consciência psicológica fazendolhe tocar com as mãos como sobre essa tábua rasa que é no princípio o nosso espírito se tem gravado a existência do eu pelo exercício do pensamento a existência dos objetos externos que atuaram em nós e nos transmitiram a própria imagem e o motivo da nossa adesão às ver dades conhecidas constituído não por um cego impulso da natureza mas pela clara intuição dos objetos Feito esse exame o adversário se estiver na boa fé não pode deixar de admitir os três postulados 1 Diz S Thomas Certitudo scientiae tota oritur ex certitudine principiorum Tunc enim illationes per certitudinem sciuntur quando resolvuntur in principia De Ver q 1 a1 Na Filosofia devemos distinguir duas partes uma racional outra experimental conforme trata da essência ou da existência das coisas Na parte racional da Filosofia a força das con clusões deriva da força das premissas Essas pre missas na mesma parte da Filosofia como em todas as ciências racionais são verdades neces sárias porque denotam uma relação necessária ou essencial entre o predi cado e o sujeito e devem ser em última análise imediatamente evidentes porque aliás não é possível a certeza científica Dizemos em última análise Porquanto não é necessário que toda a ciência racional parta de verdades imediatamente evidentes pode partir de verdades recebidas de uma ciência racional superior na qual elas possuem essa evidência imediata As verdades imediatamente evidentes constituem o ponto de partida das demonstrações na mais nobre e elevada entre todas as ciências racionais que é a Metafísica Repetimos que admitir uma verdade sem demonstração não é admitila sem motivo O motivo existe e é a evidência imediata da própria verdade 279 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 196 O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte experimental deve ser constituído por verda des imediatamente evidentes e contingentes O ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte expe rimental deve ser constituído por aquelas verdades que não precisem de demonstração e que ao mesmo tempo se refiram diretamente à existência real das coisas porque só estas ver dades podem ser o fundamento sólido de raciocínios pelos quais chegamos ao conhecimento da existência real de outras coisas Ora as verdades que não precisam de demonstração e que ao mesmo tempo se referem diretamente à existência real das coisas são as verdades imediatamente evidentes e contingentes Logo o ponto de partida das demonstrações filosóficas quanto à parte experimental deve ser constituído por verdades ime diatamente evidentes e contingentes1 Objetam a inteligência na resolução das suas demonstrações para por último na veracidade das nossas faculdades Logo é dessa veracidade que deve partir a própria demonstração Resposta A inteligência quando resolve a demonstração nos princípios de que partiu servese da reflexão Ora a reflexão é ontológica e psicológica Essa con sidera o elemento subjetivo do ato aquela o elemento objetivo Se o ato se considera e se resolve no elemento subjetivo então o termo último é a veracidade das nossas faculdades e isto mostra que não se pode racionar sem que anteriormente se admita essa veracidade Mas se o ato se considera e se resolve no elemento objetivo o termo último que é o motivo último e a fonte de certeza é constituído não pela veraci dade das faculdades mas pelas verdades imediatamente evidentes e necessárias que se manifestam pela sua própria luz e nos levam ao descobrimento de outras verdades com que estão relacionadas 1 Na parte experimental da Filosofia e em geral nas ciências experimentais a força das conclusões deriva como sempre da força das premissas Estas premissas referemse à existência real das coisas e por isso são verdades contingentes porque contingente é essa existência Assim quando digo o mundo existe enuncio uma ver dade contingente porque a existência para o mundo não é absolutamente necessária mas podia ser e podia deixar de ser As premissas das demonstrações das ciências racionais não podem ser premissas das demonstrações das ciências experimentais porque de uma premissa de ordem ideal como é a premissa das ciências racionais não podemos razoavelmente passar para uma conclusão de ordem real como é a conclusão das ciências experimentais A conclusão deve ser sempre proporcionada às premissas em que está contida As verdades imediatamente evidentes e contingentes denotam fatos externos e fatos internos Se denotam fatos externos foram adquiridas pela inteligência baseada no testemunho dos sentidos externos Se denotam fatos internos foram adquiridas 280 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA ARTIGO II Processo Método analítico e sintético 197 Método analítico e sintético O método dividese em analítico e sintético Analítico é o que baseado na ex periência vai dos objetos que têm mais para os que têm menos compreensão Por esse método a razão sobe dos efeitos para as causas dos fatos para as leis do todo para a parte etc Sintético é o que fundado na legitimidade da razão vai dos objetos que têm menos para os que têm mais compreensão Por esse método a razão desce das causas para os efeitos das leis para os fatos da parte para o todo etc1 pela inteligência baseada no testemunho da consciência E como o ato dos sentidos externos que é direto precede o ato da consciência que é reflexo seguese que o pro cesso filosófico devendo repetir o processo natural deve começar quanto à parte experi mental pela consideração do mundo percebido pelos sentidos externos Quando dizemos que as verdades imediatamente evidentes e contin gentes são o fundamento da Filosofia quanto à parte experimental e em geral das ciências expe rimentais referimonos ao fundamento próximo e próprio da demonstração ou da ciência porque o fundamento último e comum a todas as ciências é constituído pelas verdades necessárias e do tadas de evidência imediata 1 São pois funções do método analítico as seguintes operações a indução que de fatos particulares chega a conclusões gerais um fato particular tem maior compreensão que uma conclusão geral porque aquele exprime e contém esta a abstração que de uma idéia particular extrai uma idéia geral toda a demonstração que sobe do efeito para a causa dos fenômenos para os princípios do composto para o simples do concreto para o abstrato do particular para o geral do todo para a parte Parece contraditório o dizer que o método analítico sobe do particular para o universal e do todo para a parte Mas não o é O particular está para o universal como o todo para a parte pois o particular contém em si todas as notas do universal e mais algumas outras notas próprias São pois funções do método sintético as seguintes operações o silogismo que aplica os princípios gerais a objetos particulares a definição pela qual con sideramos o todo formado de várias partes a divisão e a classificação quando vão do gênero para a espécie e desta para os indivíduos toda a demonstração que desce da causa para o efeito dos princípios para as consequências do simples para o composto do abstrato para o concreto do universal para o particular da parte para o todo Notese que o efeito como tal tem maior compreensão que a causa pois a procedência da causa é apenas uma das notas do efeito O método analítico chamase também de invenção porque geralmente serve para descobrir a verdade de resolução porque resolve um todo nos seus 281 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 198 Diferença entre os dois métodos O método analítico segue a ordem lógica ou do conhecimento porque o efeito conhecese antes da causa os fatos antes da lei O método sintético segue a ordem real ou da natureza em que a causa precede o efeito as leis são anteriores aos fatos1 mais simples elementos empírico porque se baseia principal mente na experiência indutivo porque faz muito uso da indução para subir dos fenômenos particulares para as leis universais O método sintético denominase também de doutrina porque é mais opor tuno para ensinar a verdade descoberta de composição porque tira dos princípios universais as conclusões particulares dedutivo por que emprega especialmente a argumentação dedutiva que é o silogismo Erra pois Condillac quando reduz a análise a uma divisão e a síntese a uma composição Um e outro método manifestando a relação dos efeitos com as suas causas e destas com aqueles explicam a coisa pelos seus princípios e por isso são processos científicos e as ciências que investi gam as causas dos entes devem empregar um ou outro É necessário não confundir o método analítico com o juízo analítico nem o método sintético com o juízo sintético O método analítico indica o processo da razão que baseada na experiência sobe do particular para o universal O juízo analítico exprime uma verdade necessária em que a conveniência entre o sujeito e o predicado se conhece pela simples análise ou resolução destes dois termos O método sintético é o caminho da inteligência que do universal desce para o particular O juízo sintético é uma verdade contingente em que a relação entre o sujeito e o predicado se conhece não pela análise dos dois termos mas pela experiência 1 Estas duas palavras análise e síntese têm uma significação muito clara e determinada nas ciências naturais Assim todos entendem que a química por meio da análise resolve a água nos seus elementos para a tornar a compor por meio da síntese Mas não acontece o mesmo na Filosofia Uns consideram como análise o pro cesso que para outros é síntese Assim dividindo o gênero nas suas espécies e concluindo daquele para estas alguns julgam que é uma análise quando na realidade é uma síntese A origem desta divergência nasce da confusão que fazem entre a exten são e a compreensão das idéias entre o todo lógico e o todo real Consi deremos estas duas idéias animal e homem A idéia de animal é mais ex tensa do que a de homem mas é menos compreensiva do que esta Logo na ordem da extensão o animal é o todo o homem é a parte e quem conclui do animal para o homem realiza uma análise mas na ordem da compreensão o animal é a parte e o homem é o todo e quem conclui do animal para o homem realiza uma síntese Por isso uma análise na ordem da extensão é uma síntese na ordem da compreensão e viceversa pois o que é composto relativamente à extensão é simples relativamente a compreensão e viceversa Assim se explicam as divergências que existem entre os escritores a respeito destes dois métodos analítico e sintético 282 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 199 Regras comuns a ambos os métodos Damos as regras mais gerais comuns a ambos os métodos I Devemos principiar pelo fácil e claro e subir sucessivamente para o difícil e transcendente A razão é manifesta II O processo deve ser ordenado de modo que entre as muitas e diversas conclusões não exista lacuna mas haja um nexo íntimo e gradual III Não pode pretenderse a mesma espécie de certeza em todas e cada uma das ciências mas devemos procurar aquela certeza que corresponde à natureza da matéria tratada Erram pois os que exigem para todas as ciências a certeza matemática que é a metafísica1 200 Regras próprias do método analítico I Devemos dividir e subdividir o todo nas suas mais simples partes observando rigorosamente as leis próprias da divisão II Cada uma das partes do todo deve ser examinada e ava liada pelos princípios da razão ou da experiência conforme o todo pertence à ordem ideal ou à real III Finalmente deve atribuirse ao todo só o que se reco nheceu convir às partes2 201 Regras próprias do método sintético I Na disposição das questões devemos principiar por aquelas que são mais genéricas e ir sucessivamente descendo para as que o são menos II Na resolução dos problemas devemos primeiramente esta belecer como último fundamento dos silogismos as verda des dotadas de evidência imediata e tirar as conclusões par ticulares segundo as regras do silogismo Foi para evitar esses equívocos que no texto apresentamos as definições dos dois métodos muito explícitas dizendo que o método analítico vai dos objetos que têm mais para os que têm menos compreensão e que o sintético vai dos objetos que têm menos para os que têm mais compreensão Por isso estas palavras particular geral todo parte consideramse na sua compreensão e não na sua extensão assim quem do conceito de ani mal desce para o conceito de homem realiza um processo sintético 1 Cf S Th in II Metaph lect 5 Estando certos de uma verdade devemos pôr em prática a seguinte regra de Bossuet Não deve abando narse uma verdade demonstrada seja qual for a dificuldade de a conciliar com outra verdade 2 Como o método analítico faz muito uso da indução devem obser varse cuidadosamente todas as regras que demos para que essa espécie de argumentação seja legítima e nos leve ao conhecimento da verdade 283 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO III Não acabe o tratado sem que esteja esgotado o assunto expondo ordenadamente a existência a natureza as espécies as pro priedades e os efeitos do objeto1 202 Índole do método científico O método científico devendo levar ao conhecimento dos fenômenos pelo conheci mento das suas causas não pode ser exclusivamente analítico nem exclusiva mente sintético Não pode ser exclusivamente analítico porque pela experiência em que esse método se funda conhecemos o fenômeno era si mesmo mas não na sua causa Não pode ser exclusivamente sintético porque sem o auxílio da experiência não podemos perceber os fatos ou fenômenos e por isso nos faltará o fundamento das inves tigações e as nossas idéias não corresponderão à realidade das coisas Logo o método científico deve ser misto isto é deve ser analíticosintético2 1 Baseandose o método sintético no silogismo todas as leis que estabelece mos para a legitimidade desta forma de argumentação hão de ser escrupulosamente observadas pelos que empregam esse método 2 A ciência por ser o conhecimento de um objeto pelas suas causas adquirese no fim da síntese e não da análise porque no fim da análise conhecemos a causa pelo fenômeno ao passo que no fim da síntese co nhecemos o fenômeno pela sua causa Os filósofos não estão de acordo com relação à índole do método científico e propõem diversos métodos conforme a diversidade do meio de que na opinião deles o homem se serve para adquirir a ciência Esse meio é intrínseco ou extrínseco Se é extrínseco ou é a tradição e temos o método tradicionalista ou é o conjunto dos diversos sistemas e temos o método eclético Se é intrínseco ou é a visão de Deus conhecido por um modo direto e intuitivo e temos o método ontológico ou consiste exclusivamente nos sentidos e temos o método empírico ou é exclusivamente a razão e temos o método idealista ou é a razão auxiliada pelos sentidos e temos o método analíticosintético Logo os métodos são seis a saber tradicionalista eclético ontológico empírico idealista e analíticosintético Destes métodos faremos uma breve exposição com a crítica respectiva a Método tradicionalista Esse método seguido por Huet Bautain Lameunais Ventura faz consistir o meio dos nossos conhecimentos na tra dição ou Revelação sobrenatural pois os seus sequazes afirmam que a nossa razão é tão fraca que não pode levarnos à aquisição de nenhuma verdade Este método embora se aceite na Teologia revelada que tira os princípios da Revelação sobrenatural não pode aceitarse nas ciências hu manas cujos princípios se baseiam na luz natural da razão ou na expe riência sensível Além disso é falso que a nossa razão não possa alcançar nenhuma verdade científica sem o auxílio 284 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA da Revelação Finalmente se a razão fosse tão fraca que não pudesse chegar ao conhecimento de nenhuma verdade não poderia demonstrar o fato e a legitimidade da Revelação sobrenatural e assim nem poderíamos aceitar essa Revelação daí o ceticismo b Método eclético O método eclético chamado também sincretismo foi proposto por V Cousin Partindo do princípio que o erro é uma verdade incompleta Cousin ensina que o verdadeiro método consiste em reunir os diversos sistemas que tratam do mesmo assunto e que se completam mutuamente para assim formar um só sistema É evidente falsidade do ecletismo Primeiramente o erro não é uma verdade incompleta mas é a negação da verdade Demais é impossível reunir as diversas doutrinas filosóficas para formar um só sistema por que esse único sistema seria um cumulo de contradições Assim os mate rialistas dizem que a nossa alma é material os espiritualistas sustentam que ela é espiritual o ecletismo reuniria os dois sistemas e diria que a nossa alma é espiritual e material Poderia conceberse coisa mais absur da É verdade que alguns ecléticos mais moderados fazem consistir o seu método em tirar dos diversos sistemas só as verdades para com elas formar um corpo de doutrina Mas ainda assim esse método é incompleto exclusivamente histórico e perigoso É incompleto porque para fazer aquela escolha é necessário um outro critério baseado em princípios cer tos e o ecletismo supõe esses princípios mas não os ensina É exclu sivamente histórico quando é certo que as ciências hão de progredir não pela narração das verdades adquiridas mas pela descoberta de outras ainda não conheci das É perigoso porque sem um critério precedente seguro e firme é muito fácil cair no erro ou no ceticismo c Método ontológico O método ontológico seguido por Malebranche Gioberti Rosmini Tiberghien sequaz do panenteísmo consiste em colocar na visão intuitiva e direta de Deus e do seu conteúdo que é o mundo o meio do conhecimento das coisas criadas Tal método também deve rejeitarse Esse modo de perceber as criaturas no Criador além de ser contrário à natureza da nossa razão que se eleva ao conheci mento de Deus pelas criaturas e não viceversa é desmen tido pela nossa consciência d Método empírico O método empírico seguido pelos materialistas e positivistas Comte Littré Stuart Mill Bain Taine Wundt Spencer etc consiste em admitir como certo só o que é atestado e verificado pela experiência sensível rejei tando os princípios da razão o testemunho da consciência o valor do silogismo etc Este método é inaceitável pelas seguintes razões 1º É falso que a única fonte de certeza é a experiência sensível que os primeiros princípios da razão são falsos que o silogismo não tem valor demons trativo que o testemunho da consciência engana 2º O método empírico limitase a acumular fatos sem se importar de os anali sar severamente e de procurar as suas mais elevadas causas por isso foi chamado o método da formiga Ora esse processo é anticientífico pois não só não favorece mas até contraria o progresso das próprias ciências naturais porque estas ciências 285 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO como observa Claudio Bernard progridem não tanto pela acumulação dos fatos averiguados como pela luz da idéia que encerra a explicação dos fatos conhecidos e a antecipação dos desconhecidos Fenômenos da vida Diz Helmholtz O conhecimento dos fatos é nada a ciência só começa quando começam a descobrirse as causas e as leis desses fatos Revue scient 3º Esse método rejeita o silogismo e baseiase exclusivamente na indução Isto chamase mutilar a razão e a ciência O silogismo como dissemos longe de obstar ao progresso da indução favoreceo Porquanto a indução descobre as leis dos fenômenos sensíveis leis que são certas ou hipotéticas Ora o silogismo explica as leis certas confirma as hipotéticas e pelo método da analogia e da dependência descobre leis novas Além disso a indução como já notamos nas mãos dos materialistas e dos positivistas é uma arma inútil e sem força Na verdade esses escritores não baseando a indução no princípio de causalidade reduzemna a um sofisma qual é a passagem do particular para o geral sem razão suficiente Apraznos aqui citar o juízo que do método positivista deu M Pasteur No dis curso de recepção na Academia Francesa em 27 de abril de 1882 Pasteur censurou o positivismo por esse ter confundido a observação vulgar com a experimentação e por ter feito tão pouco uso desta última Eis as suas palavras O experimentador que interroga e explora a natureza en contrase incessantemente diante de fatos que não são ainda manifestos e não existem na maior parte senão na potência das leis naturais O desconhe cido no possível e não no realizado eis o seu domínio e para o explorar recorre a esse maravilhoso método experimental do qual se pode dizer com verdade que se não basta para tudo engana raras vezes e somente os que dele se servem mal Esse método elimina certos fatos provoca outros interroga a natureza obrigaa a responder e só se detém quando o espírito se dá por plena mente satisfeito O atrativo dos nossos estudos o encanto da ciência se assim nós podemos exprimir consiste em que em toda a parte e sempre podemos apresentar a justificação dos nossos princípios e a prova das nossas descobertas O erro de Augusto Comte e de M Littré consiste em confundir esse método com o método restrito da observação Alheios ambos à experimentação dão à palavra experiência o sentido que se lhe dá na conversação vulgar inteiramente diverso do sentido em que se toma na linguagem científica No primeiro caso a expe riência é a observação das coisas é a indução que mais ou menos legitimamente conclui do passado para o possível O verdadeiro método expe rimental vai até à prova sem réplica As condições e o resultado quotidiano do trabalho do homem de ciência dispõem o seu espírito a não atribuir uma idéia de progresso senão a uma idéia de invenção Para julgar pois do valor do positivismo o meu pensamento foi procurar nele a invenção Todavia não a encontrei M Littré e Augusto Comte acreditavam e fizeram acreditar aos espíritos superficiais que o seu sistema se baseava nos mesmos princípios de método científico que teve por fundadores Arquimedes Galileu Pascal Newton Lavoisier Foi daí que veio a ilusão dos espíritos A que erros conduz essa pretendida identidade dos dois métodos Arago dissera de Comte Ele não possui títulos matemáticos nem grandes nem pequenos 286 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 203 Índole do método das diversas ciências Todas as ciên cias não só as racionais que têm por objeto as ver dades necessárias mas também as experimentais que têm por objeto as verdades contingentes devem empregar o método analíticosintético pois esse como vimos é o método científico Quando pois se afirma que nas ciências experimentais se deve seguir o método analítico e nas ciências racionais o método sin tético deve entenderse que naquelas ciências predomina a análise com a indução e nestas predomina a síntese com o silogismo1 e Método idealista O método idealista segue um caminho contrário ao empírico e desprezando a análise e a indução emprega exclusivamente o método sintético que procede só pela dedução Este sistema que foi chamado o sistema da aranha pois esse animal tira a teia do interior do seu organismo é falso A realidade objetiva das coisas não pode adivinharse com a imaginação nem fingirse a priori mas deve ser conhecida pela experiência f Método analíticosintético O método analíticosintético seguido pelos escolásticos é o termo médio entre o empirismo e o idealismo em pregando a análise e a síntese para descobrir a verdade Pela análise examinamos os fatos ou fenômenos e por meio da indução subimos à causa desses fatos Pela síntese des cemos da causa descoberta e por meio do silogismo aplicamola aos vários efeitos que ela produz ou é capaz de produzir Newton diz O método analítico consiste em fazer experiências examinar os fenômenos e daí pela indução tirar conclu sões gerais O sintético consiste em estabelecer como princípios as causas conhecidas e averiguadas para assim explicar e confirmar os fenômenos que delas derivam Óptica lib III O método analíticosintético dizse também psicológicoracional pois auxiliase da experiência e da razão Este sistema é o verdadeiro porque corresponde à natureza do homem e à da ciência Corresponde à natureza do homem Na verdade o homem é dotado de faculdades sensitivas e intelectuais Logo no conhecimento da verdade o homem deve auxiliarse de umas e de outras sendo o conheci mento sensitivo anterior ao intelectual Ora o método analíticosintético segue essa ordem Corresponde à natureza da ciência A ciência é uma série ordenada de princípios e conclusões Os princípios conhecemse pela análise ou pela indução e as conclusões deduzemse dos princípios pela síntese ou pelo silogismo Logo o método científico deve ser analíticosintético 1 Os métodos particulares das diversas ciências excetuada a Filosofia podem reduzirse a três grupos conforme predomina em cada um deles o emprego de um destes três meios para a aquisição da verdade que são o raciocínio a experiência sensível e a autoridade O raciocínio predomina na matemática a experiência sensível nas ciências físicas a autoridade nas ciências morais Daí o método racional ou a priori o método experimental ou a posteriori o método da autoridade O método racional levanos à certeza metafísica e absoluta o experimental à certeza física e condicional o da autoridade 287 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO à certeza moral tratan dose da autoridade humana Indicaremos brevemente o método das ciências matemáticas físicas e morais reservandonos tratar do método da Filosofia no seguinte número A Método da matemática Na matemática predomina a síntese Na ver dade a matemática parte dos axiomas e das definições que se formam por meio da abstração e da análise e depois pela síntese ou dedução passa de uma quantidade para outra demonstrando pela comparação de ambas com uma terceira que uma é igual a outra Por isso a operação a que se dá o nome de análise matemática propria mente é uma síntese B Método das ciências físicas Se na matemática predomina a síntese nas ciências físicas predomina a análise As ciências físicas são naturais ou experimentais a Método das ciências naturais As ciências naturais como a Zoologia a Botânica a Geologia etc têm por fim apresentar a definição dos seres mas uma definição explicativa científica que penetre até à essência pondo em relevo a lei que preside à geração e à constituição dos próprios seres Para alcançar esse fim as ciências naturais empregam a classifi cação visto que essa operação se não for inteiramente artificial exprime o que muitas coisas têm de comum e o que têm de próprio e assim denota a essência que é composta de dois elementos um genérico e comum outro diferencial e próprio Veja se o que dissemos na Seção Primeira acerca da classificação b Método das ciências experimentais As ciências experimentais desenvol vemse principalmente pela indução Essa começa pela observação dos fenômenos progride pela suposição ou hipótese e completase pela verificação ou experimentação a A observação recolhe as circunstâncias que estiveram presentes as que faltaram e as que variaram e com elas forma três tábuas chama das por Bacon tábua da presença tábua da ausência tábua dos graus Estas tábuas podem levarnos ao conhecimento do nexo entre os fenômenos e a sua causa Mas tal nexo não passa de uma hipótese b A hipótese é indispensável na ciência porque serve para limitar os pontos da discussão e para formar o objeto da verificação c A verificação ou experimentação pode realizarse por cinco métodos dife rentes pelo método da concordância quando todas as circunstâncias que costumam acompanhar um fenômeno variam constantemente à exceção de uma essa é a causa do fenômeno pelo da diferença se um fenômeno se realiza num só dos vários casos que convêm entre si em todas as circunstâncias excetuada uma essa é a causa do fenômeno pelo da concordância e da diferença quando se começa pelo método da concordância e o da diferença serve de contraprova pelo das variares concomi tantes um fenômeno que aumenta ou diminui aumentando ou diminuindo uma causa é efeito desta causa dos restos se de um fenômeno complexo se subtrair a parte que por precedentes induções se averiguou ser efeito de uma determinada circunstância o resto do fenômeno é efeito da circunstância que ficou C Método das ciências morais Ciência morais são as que determinam as leis reguladoras dos costumes humanos As ciências morais são muito complexas 288 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 204 Índole do método da Filosofia Aplicando os princípios expostos é fácil concluir que o método que deve seguirse na Filosofia é também o analíticosintético Porquanto nas discussões filosóficas deve seguirse aquele método que é mais conforme com a índole da nossa razão Ora é próprio do homem elevarse do efeito para a causa das propriedades para a essência das coisas dos fenômenos parti culares para as leis gerais da natureza método analítico Mas não basta Devendo a ordem lógica dos conhecimentos cor responder à ordem real das coisas conhecidas é necessário fazer em seguida o caminho inverso descendo da causa para o efeito da essência para as propriedades das leis para os fenômenos método sintético Todavia dominando nesta ciência a síntese com o silogismo dizse vulgarmente que o método filosófico é sintético ainda que em rigor seja analíticosintético1 Digamos alguma coisa acerca das ciências sociológica e histórica a Método da ciência sociológica O método desta ciência é muito complexo e delicado pois exige um espírito observador dotado de senso prático de vistas elevadas e largas de grande conhecimento do coração humano como também do país e da época Não se deve facilmente deixar o antigo quando é bom mas também não se deve rejeitar uma no vidade quando essa é exigida pela mudança das circunstâncias sociais Em todo o caso dará prova de altíssima sabedoria e de generosa dedicação quem se inspirar num ideal francamente cristão que entre todos e o mais racional e o mais adequado às necessidades do homem b Método da história A história é a base das ciências morais O método da história deve evitar os dois sistemas opostos que são o hipercriticismo e a credulidade cega O hipercriticismo ao passo que aceita muitas hipóteses como certas rejeita sem razão plausível antiquíssimas tradições baseadas em sólidos fundamentos A credulidade cega aceita sem exame todas as tradições reco nhecendoas como verdadeiras 1 As opiniões dos escritores acerca de método filosófico são tan tas quantas são as que enumeramos acerca do método científico pois a Filosofia é a mais nobre entre as ciências que procedem pela luz natural da razão Por isso ao método filosófico deve aplicarse o que dissemos acerca do método científico em geral Até aqui falíamos do método de invenção isto é daquele método que nos leva ao descobrimento da verdade Restanos dizer alguma coisa acerca de método do ensino pelo qual o mestre por tal forma dirige as operações intelectuais do discípulo que este pela força da sua razão natural chega a alcançar a ciência Há três opiniões a este respeito a uns dizem que o método do ensino deve ser exclusivamente sintético b outros que deve ser analíticosintético mas a síntese deve sempre preceder a análise c outros que o 289 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO ARTIGO III Termo do movimento Ciência 205 Ciência Ciência é um sistema de conhecimentos certos rela tivos às causas ou à razão suficiente dos entes e de duzidos pela demonstração Expliquemos essa definição a Ciência é um sistema A ciência deve ser um com plexo de ver dades dispostas de modo que uma esteja subordi nada à outra e todas a uma suprema de que recebam luz e força Conclusões desconexas não formam uma ciência b É um sistema de conhecimentos certos Não há ciência sem cer teza Todavia não é sempre necessária nem sempre é possível a certeza metafísica basta a física ou a moral c É um sistema de conhecimentos relativos às causas ou à razão suficiente dos entes Todos concordam em que o conhe cimento científico se distingue do vulgar porque este observa somente os fenômenos quando método do ensino deve corresponder ao método da invenção isto é que as ciências devem ser ensinadas pelo mesmo modo porque se formaram Façamos uma breve crítica destas opiniões a A primeira opinião sustentando que o método do ensino deve ser exclusiva mente sintético é inaceitável Porquanto ninguém terá pleno conhecimento de uma ciência se embora conheça o modo de inferir dos princípios as conclusões ignora a força dos primeiros princípios de que as conclusões dependem Ora é por meio da análise que se descobrem e conhecem os primeiros princípios Assim para a perfeita aquisição das ciências naturais é preciso conhecer as observações e experiências que se fizeram para a descoberta das várias leis físicas b A segunda opinião admitindo que o método sintético deve sempre preceder o analítico é também inaceitável Na verdade quando o mestre produz a ciência no discípulo produla enquanto lhe propõe aquele mesmo processo que ele mestre empregou para chegar ao descobrimento da ver dade e assim o discípulo repete a invenção feita pelo mestre Ora esse método é analítico e por isso é falso que o método sintético deve sempre preceder o analítico c A terceira opinião sustentando que uma ciência deve ser ensinada pelo mesmo método ou processo porque foi descoberta é verdadeira Porquanto o método de invenção difere do método de ensino como a natu reza difere da arte Ora a arte é a imitação da natureza Logo o método porque se ensina uma ciência não deve diferir do método porque ela foi descoberta ou formada Assim a Física deve ensinarse por experiências feitas sob os olhos dos discípulos a Matemática pela dedução ou síntese a Filosofia pela análise e síntese etc 290 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA aquele procura as causas dos fenômenos e explica a razão porque uma coisa é o que é e não pode ser ou não é de outro modo As causas ou as razões dos entes são próximas e supremas1 d É um sistema de conhecimentos deduzidos pela demon stração Conhecimentos certos são o resultado daquela espécie de raciocínio que parte de princípios certos Essa espécie de raciocínio é a demonstração2 1 De propósito dissemos que a ciência é um sistema de conhecimen tos certos relativos às causas ou à razão suficiente dos entes Porquanto se um ente não tem sobre si uma causa de que dependa poderá ser conhe cido de um modo científico se for conhecido pela razão pela qual é o que é Assim Deus sendo o Ser subsistente pela sua essência será conhecido cientificamente pela mesma essência Que a ciência deva ocuparse das causas dos entes é coisa manifesta Verdadeira ciência é a que subministra um conhecimento perfeito O conhe cimento perfeito exige que a coisa seja presente à inteligência como é em si mesma de modo que a ordem ideal corresponda plenamente à ordem real Ora á coisa é o que é pelas suas causas ou pela sua razão suficiente Logo se a coisa não é conhecida por estas causas ou por essa razão não se encontra na inteligência como é em si mesma e por isso não é conhecida perfeitamente Diz S Tomás Scire aliquid est perfecte cognoscere ipsum hoc autem est perfecte apprehendere eius veritetem Eadem enim sunt prin cipia esse rei et veritatis ipsius Oportet ergo scientem si est perfecte cognoscens quod cognoscat causam rei scitae In I Post anal l 4 2 O termo ciência tomase em três sentidos Em sentido mais lato significa todo e qualquer conhecimento Em sentido mais restrito denota o conhecimento de uma coisa pelas suas causas Em sentido próprio indica um sistema de conhecimentos Os positivistas pretendem que a ciência deva ocuparse só do positivo isto é só do que foi percebido pela experiência sensível e não das causas Essa pretensão é absurda A ciência sossega e tranquiliza o nosso espírito Mas quando poderá o espírito descansar Só quando tiver conhecido os porquês as razões dos fenômenos que observa A ciência pois não só não deve prescindir do conhecimento das causas mas sem esse conhe cimento não é nem pode chamarse ciência Felix qui potuit rerum cogno scere causas repete com o poeta o senso comum Dizem os positivistas A experiência só mostra o fenômeno e não a causa dele A essa dificuldade responde Tyndal que é insuspeito A experiência guia sempre para uma coisa que está além do fenômeno experimental Ela produz sempre um efeito superior a si mesma e toda a diferença entre um sábio eminente e um sábio medíocre consiste principal mente na faculdade da extensão ideal 5ª Conf sobre a luz Declaremos a natureza da demonstração seus elementos e espécies a Demonstração Demonstração é o raciocínio que parte de premissas certas A demonstração pois difere das outras espécies de raciocínio não quanto à 291 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO forma mas quanto à matéria porque as outras espécies pre scindem daquela certeza nas suas premissas Advertimos que demonstração em geral é o raciocínio pelo qual o espírito progride de uma verdade conhecida para outra desconhecida Dividese em apodítica dialética e sofística conforme parte de premissas certas prováveis ou falsas A apodítica produz a certeza a dialética a opinião a sofística o erro Só a apodítica é estritamente demonstração b Elementos da demonstração Os elementos da demonstração são qua tro a saber tese princípio meio e conclusão A tese é a verdade que deve ser demons trada o princípio é a proposição maior em que se funda a conclusão o meio é a proposição menor exprimindo que a conclusão está contida no princípio a conclusão é a própria tese enquanto dedu zida das premissas em que estava contida Ex Tese A alma humana é imortal Princípio O espírito é imortal Meio Ora a alma humana é espírito Conclusão Logo a alma humana é imortal Digamos alguma coisa acerca dos quatro elementos da demonstração a A tese deve ser uma verdade que deva e possa ser demonstrada aliás a demonstração será inútil ou impossível b O princípio em que se baseia a conclusão deve ser imediatamente evidente ou deve fundarse nos primeiros princípios c O meio deve indicar a causa próxima e necessária porque o predi cado convém ao sujeito d A conclusão não é sempre da mesma natureza Quando a proposição maior é um axioma e a menor é uma verdade de fato ou de experiência a conclusão é necessária e absolutamente verdadeira como neste exemplo todo o efeito tem a sua causa ora o mundo é efeito logo o mundo tem a sua causa Quando a maior é uma verdade de fato e a menor é uma proposição singular a conclusão não é necessariamente verdadeira como os mortos não ressuscitam ora Lázaro é morto logo Lázaro não ressuscita c Terminologia da demonstração Na demonstração sobretudo mate mática empregamse palavras que precisam de explicação São as seguintes a Definição Desta já tratamos na Lógica formal b Proposição teorética e prática A teorética afirma o que uma coisa é ex o triângulo é uma figura A prática declara o que se pode ou deve fazer ex devemos amar a pátria c Axioma é uma proposição teorética e indemonstrável porque a sua verdade se torna evidente pela simples inspeção dos termos d Postulado é uma proposição prática e imediatamente evidente pela simples explicação dos termos ex de um ponto podemos tirar uma linha até ao outro ponto e Teorema é uma proposição teorética que se deve demonstrar f Problema é uma proposição prática que se deve ou pode resolver 292 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 206 Objeto da ciência Objeto da ciência é tudo aquilo de que a ciência se ocupa Dividese em material e formal O material é a própria coisa que a ciência atinge assim os corpos são o objeto material da química O formal é o aspecto sob o qual a ciência considera o objeto material assim as mudanças substanciais que se realizam nos corpos formam o objeto formal da química1 g Lema é uma proposição que uma ciência presta a outra para lhe servir de base nas demonstrações h Corolário é uma proposição que emana evidentemente de outra pro posição já demonstrada e não precisa de nova demonstração i Escólio é a nota que acrescentada a uma proposição ou a esclarece ou a defende das objeções dos adversários d Espécies de demonstração A demonstração pode ser a direta e indireta b a priori e a posteriori c absoluta e relativa d pura empírica e mista a Demonstração direta e indireta É direta quando se prova que o predicado convém ao sujeito por causa de algumas propriedades que esse possui assim conclu ímos que a nossa alma é espiritual porque é indepen dente da matéria É indireta quando se conclui que uma proposição é verdadeira porque admitindose a contrária resultaria o absurdo assim provamos que os bons devem receber o prêmio pois no caso contrário darseia o absurdo que Deus é injusto b Demonstração a priori e a posteriori E a priori quando da causa descemos ao seu efeito assim pelo fato de a alma humana ser espiritual causa demonstramos que ela é imortal efeito É a posteriori quando do efeito subimos à sua causa assim da existência do mundo efeito su bimos ao conhecimento da existência de Deus causa Estas duas espécies de demonstração reunidas formam uma outra espécie que se chama circular ou regressiva e que se dá quando depois de termos subido dos efeitos para a causa descemos desta para aqueles Esse processo é de grandíssima vantagem e leva ao perfeito conhecimento das coisas e das suas relações c Demonstração absoluta e relativa É absoluta quando a conclusão se infere de premissas por si certas assim a existência de Deus demonstrase pela contingência das coisas visíveis É relativa quando a conclusão se tira de premissas admitidas pelos adversários embora falsas assim refutamos os céticos servindonos dos seus princípios d Demonstração pura empírica e mista É pura quando ambas as premissas são proposições analíticas E empírica quando ambas as pre missas são proposições sintéticas É mista quando uma premissa é analítica e outra é sintética 1 Por isso um objeto que é materialmente uno pode ser formal mente multíplice como também um objeto que é materialmente multíplice pode ser formalmente uno Assim o organismo animal embora seja mate rialmente uno é formalmente multíplice porque pode ser considerado sob diversos aspectos na sua constituição nos seus elementos funções mudanças etc como pelo contrário o sol a lua as plantas 293 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 207 Espécies da ciência A ciência pode ser a especulativa ou prática b racional ou experimental c subor dinada ou subordinante a Ciência especulativa ou prática É especulativa quando o seu fim único e exclusivo é a contemplação da ver dade É prática quando considera a verdade mas em ordem à operação A ciência prática distinguese da arte pois esta limitase a ensinar as regras para uma obra e aquela expõe as razões das mesmas regras1 b Ciência racional ou experimental É racional se tem por objeto as verdades conhecidas pela razão tal é a metafísica a moral a matemática etc É experimental ou empírica se tem por objeto os fatos percebidos pela experiência tal é a fisiologia a biologia a química etc2 c Ciência subordinada ou subordinante É subordinada a que depende de outra É subordinante aquela de que uma outra depende Uma ciência pode depender de outra por duas razões ou porque o fim de uma é meio com relação ao fim da outra assim a farmácia depende da medicina ou porque uma aceita como princí pios as conclusões demonstradas na superior deste modo a astronomia depende da mecânica3 os homens embora sejam muitos objetos materiais todavia constituem um só objeto formal enquanto pela sua cor se referem a um só sentido à vista 1 Arte é o conhecimento do modo de fazer alguma coisa Desenvolvese como um hábito que aperfeiçoa a natureza A arte humana é imensamente superior à dos animais pois aquela é racional consciente progres siva ao passo que essa é instin tiva inconsciente estacionária Há muitas e diversas artes mas podem reduzirse a duas espécies principais liberais e mecânicas As primeiras têm por objeto alguns atos da razão como são o raciocínio a palavra etc daí a gramática a eloquência etc As segundas aplicamse às obras corporais Entre as artes liberais e as mecânicas colocamse as belas artes pintura escultura música etc que procuram o belo como as liberais e tendem para o útil como as mecânicas 2 As ciências experimentais têm por objeto os fatos percebidos pela experiência Mas esses fatos não devem ser isolados ou simplesmente acumulados como pretendem os materialistas e os positivistas mas hão de ser explicados coordenados interpretados pela razão como pensam e ensinam os melhores naturalistas por ex C Bernard Pasteur etc Essa explicação coordenação e interpretação não pode realizarse sem os primeiros princípios da razão Dáse pois a ciência do contingente mas só enquanto esse se considera sob a luz ou reflexo do necessário e do absoluto 3 À Metafísica que é a ciência dos primeiros princípios estão e devem estar subordinadas todas as ciências racionais e experimentais se quiserem guiarse pelo 294 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA 208 As ciências distinguemse pelo seu objeto formal a As ciências distinguemse pelo seu objeto Tudo o que se refere a uma coisa distinguese por ela assim a vista é distinta do ouvido porque a cor é distinta do som Ora as ciências referemse ao seu objeto pois esse é o termo da ciência Logo as ciências distinguemse pelo seu objeto b As ciências distinguemse pelo seu objeto formal As ciências devem distinguirse pelo objeto a que elas imediata e principalmente se referem Ora o objeto a que as ciências imediata e principalmente se refe rem é o formal Logo as ciências distinguemse pelo seu objeto formal1 209 Classes supremas das ciências As classes supre mas das ciências são cinco a saber Física Matemática Metafísica Lógica e Moral Na verdade as ciências distinguemse pelo seu objeto formal O objeto formal das ciências é o abstrato pois tudo o que a nossa inte ligência conhece conheceo enquanto é abstrato Logo as classes das ciências serão tantas quantos forem os diferentes graus de abstração senso comum Não podemos conceber como possa ter havido e possa ainda haver espíritos tão desvairados que expulsassem e pretendam expulsar a Metafísica do número das ciências Mas disto ocuparnosemos em breve 1 A nossa ciência depende realmente do objeto Uma ciência sem um objeto que se conheça é um absurdo porque se conhecemos conhecemos alguma coisa que é o objeto e o termo do conhecimento Portanto a ciência depende realmente do objeto E não é o contrário isto é o objeto não depende realmente da nossa ciência Porquanto o conheci mento que temos de um objeto pode acabar ou pode mesmo não ter exi stido sem que por isso acabe o objeto Sendo o objeto o termo da ciência é claro que a ciência se distingue e se especifica pelo seu objeto como todo o caminho se distingue e se especifica pelo seu termo Todavia como provamos no texto a ciência distinguese pelo objeto enquanto esse se considera formalmente De onde se segue que a unidade ou a multipli cidade das ciências deriva não da unidade ou multiplicidade do objeto material pois muitos objetos materiais podem ser considerados sob um só aspecto e assim constituir uma só ciência mas da unidade ou mul tiplicidade do objeto formal pois um só objeto material pode ser con siderado sob diferentes aspectos e constituir várias ciências Assim a filosofia é uma única ciência porque o seu objeto ainda que mate rialmente seja multíplice todavia formalmente é único porque o mundo as plantas os animais o homem com as suas operações intelectuais e morais são considerados sob um único aspecto nas suas causas supre mas A anatomia e a fisiologia são duas ciências distintas porque o objeto de ambas o organismo animal ainda que materialmente seja único toda via formalmente é dúplice visto que a anatomia considerao na sua constituição e a fisiologia nas suas funções 295 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO Ora os diferentes graus de abstração são cinco É ínfimo o grau de abstração quando prescindimos da matéria indivi dual e só consi deramos a matéria comum sujeita às mudan ças sensíveis daí a Física É superior a esse quando prescindimos também da matéria comum e sensível e só consideramos a quantidade daí a Matemática É mais alto ainda quando prescindimos da matéria comum e da quantidade e consideramos o ente imaterial na sua realidade objetiva isto é como existente em si e sem dependência do nosso pensamento daí a Metafísica É altíssimo o grau de abstração quando prescindimos de toda a realidade objetiva e consideramos o ente imaterial ou na sua entidade ideal isto é na entidade com que existe na inteligência daí a Lógica ou na sua entidade moral isto é na entidade com que existe na vontade daí a Moral Logo as classes supremas das ciências são cinco1 1 Essa classificação que é devida aos Escolásticos é a mais perfeita das muitas que se têm apresentado Na verdade ela é racional no seu fundamento e completa na sua divisão É racional no seu fundamento Porquanto o aspecto geral sob o qual a ciência considera qualquer objeto é a sua abstração pois não há ciência do concreto e por isso os diversos graus da abstração devem distinguir as diversas classes das ciências É completa na sua divisão pois não há ciência que não se reduza a alguma das cinco classes Na verdade toda a ciência ou é especu lativa ou é prática Se é especulativa está subordinada à Física ou à Matemática ou à Metafísica Se é prática está subordinada à Lógica ou à Moral conforme aperfeiçoa os atos da inteligência ou os da vontade É imenso o empenho que os modernos filósofos mostram para resolver o problema da classificação das ciências Problema que tem apenas uma importância secundária As principais classificações apresentadas pelos escritores são as de Bacon de Ampère de A Comte e de A Spencer a Bacon tomou por base da sua classificação as três faculdades da alma que são a imaginação a memória e a razão e assim divide todas as ciências em três classes À imaginação corresponde a poesia à memória a história que é civil ou natural à razão a filosofia e a teologia Esta classificação não pode aceitarse A ciência é um sistema de conhecimentos Ora os conhecimentos são diversos enquanto se reterem a diversos objetos formais As ciências pois distinguemse pelos objetos formais e não pelas faculdades cognitivas Além disso a poesia não é ciência a razão e a memória são indispensáveis em todas as ciências b Ampère toma por base da sua classificação o objeto material e assim divide as ciências em cosmológicas e noológicas segundo consideram objetos materiais ou espirituais As ciências cosmológicas dividemse em cosmológicas propriamente ditas e em fisiológicas As cosmológicas propriamente ditas são a matemática e a física As fisio lógicas são as naturais e as médicas As ciências noológicas dividemse em noológicas 296 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA propriamente ditas e em sociais As noológicas propriamente ditas são as filosóficas e as nootécnicas As sociais são as históricas e as políticas Esta classificação também é inadmissível As ciências como dissemos dis tinguemse não pelos seus objetos materiais visto que diversas ciências podem ter um e o mesmo objeto material mas sim pelos seus objetos formais assim o homem é o objeto da antropologia da medicina e da anatomia porque pode ser considerado sob diversos aspectos c Comte divide as ciências em abstratas e concretas As concre tas como a mineralogia a botânica a zoologia segundo Comte não estão ainda constituídas e por isso não as classifica As ciências abstratas que são fundamentais formam seis grupos e dispostas na sua ordem hierárquica são a matemática a astronomia a física a química a biologia e a sociologia Essa classificação baseiase na ordem lógica e cronológica das ciências Baseiase na ordem lógica Porquanto é próprio da inteligência passar do mais simples e abstrato para o mais complexo e con creto Ora nesta classificação a primeira ciência que é a matemática é mais simples e abstrata que a segunda a astronomia essa o é mais que a terceira a física etc Baseiase na ordem cronológica Com efeito a primeira ciência que se constituiu foi a mate mática depois a astronomia em seguida a física a química a biologia e por último a sociologia que é o termo de todas A classificação feita por Comte é falsa pelas seguintes razões 1ª Comte na sua classificação parte das ciências mais abstratas para chegar às mais complexas porque opina que as leis abstratas encerram a mais completa expli cação dos fatos concretos Ora isto é falso Na verda de embora um fato concreto se resolva pela análise numa lei abstrata contudo uma lei abstrata não pode dar uma explicação completa dos fatos concretos pois ficaria sempre para explicar como por quem e porque leis abstratas se uniram de um certo modo para dar em resultado um deter minado fato concreto Por outras palavras quando Comte quer explicar todos os fenômenos pelas propriedades elementares da matéria não só confunde a condição com a causa mas cai no absurdo de querer encontrar a razão do mais no menos do superior no inferior do ente no nada 2ª Comte ensina que as ciências positivas se constituíram sucessivamente seguindo a ordem cronológica indicada por ele Ora isso é falso Porquanto como observa H Spencer as ciências não se desenvolvem sucessivamente mas simultaneamente e nenhuma das que ocupam os primeiros graus tanto na ordem lógica como na crono lógica podia progredir sem o auxílio das que estão colocadas nos últimos graus De mais Comte pretende que a astronomia precedeu na sua constituição a física Ora isso não é certo porque ao determinar a posição de uma estrela é necessário ter em conta as condições que podem modificar o fenômeno da visão condições que formam o objeto da física Finalmente é impossível que as ciências abstratas precedessem na sua constituição as ciências concretas pois que na realidade o concreto precede sempre o abstrato porque este formase pela generalização daquele Nem se diga que o nosso espírito passa do simples para o composto e do abstrato para o concreto porque esse processo fazse na ordem racional mas não na ordem experimental e todos sabem 297 CAPÍTULO TERCEIRO MÉTODO 210 Redução das ciências a estas classes Não há ciência que se não possa reduzir a alguma destas classes a A ciência física abrange a física que estuda as mudanças aci dentais dos corpos a química que se ocupa das mudanças substanciais dos mesmos corpos a astronomia que estuda os astros a geologia que considera a terra na sua constituição íntima a fisiologia que tem por objeto as funções regulares do organismo animal a biologia que tem por objeto a vida em geral etc b A ciência matemática compreende a aritmética que é a parte elementar da ciência dos números a álgebra que simplifica e generaliza as questões relativas aos números a geometria que estuda as formas as propriedades e as medidas da extensão etc c A ciência metafísica abrange a ontologia que trata do ente em geral a cosmologia que se ocupa do mundo a antropologia que estuda o homem a teodiceia que procura conhecer a existência e a perfeição do Ente Infinito com a luz natural da razão que os positivistas só aceitam o método experimental Cf Ferraz Socialisme naturalisme et positivisme ch VI 3ª Comte e os positivistas ensinando que só pode ser objeto da ciência o positivo isto é o que pode perceberse pela experiência sensível ex cluem do quadro das ciências a Metafísica Mais tarde provaremos que a Metafísica é ciência Agora dizemos que os positivistas se contra dizem porquanto ao passo que só querem reco nhecer como certo o que foi verificado pela experiência sensível depois admitem como certas muitas coisas que escapam ao alcance dos sentidos Investigam a natu reza do efeito e da causa da força e da matéria do meio e do fim tentam esta belecer leis imutáveis procuram a certeza acerca das coisas sensíveis e das leis universais empregam o silogismo e a indução analisam generalizam aplicam todos os pro cessos do método discursivo Os positivistas pois excluem a Metafísica do quadro das ciências ao passo que aceitam muitas coisas que formam o objeto da Metafísica Com razão disse P Janet que o positivismo não tem de positivo senão o nome Phil fran Nem podia ser de outro modo pois como diz o próprio Fouillée positivista o homem é um animal metafísico e a Metafísica há de durar enquanto existirem cérebros humanos LAvenir de la Métaphysique d Spencer divide as ciências em abstratas abstratoconcretas e concretas Às abstratas reduzemse a lógica e a matemática às abstratoconcretas a física a química etc às concretas a astronomia a geo logia a biologia a psicologia a sociologia etc Esta classificação também não pode aceitarse Porquanto a divisão da ciência em abstrata e concreta não é racional pois toda a ciência sendo fruto da generalização é mais ou menos abstrata Essa observação vale também contra a classificação de Comte Além disso o objeto material não pode tomarse como base de classificação 298 LÓGICA SEÇÃO SEGUNDA d A ciência lógica compreende a glotologia que con sidera a origem e as vicissitudes da linguagem a lógica que estuda o raciocínio para a consecução da verdade etc e A ciência moral compreende a ética que trata das operações da nossa vontade enquanto se referem ao fim o direito natural que se ocupa das leis impostas aos homens por Deus Autor da natureza o direito positivo que se ocupa das leis impostas pela autoridade legí tima a pedagogia que tem por objeto a educação etc A sociologia reduzse ao direito de que é parte O direito positivo subdividese em civil penal constitucional internacional etc 1 1 As seguintes observações são importantes 1ª Não pretendemos fazer a enumeração completa de todas as ciências cons tituídas mas apenas indicar o modo porque elas poderiam ser redu zidas a alguma das cinco classes 2ª As classes supremas das ciências embora sejam distintas e irredutíveis pois os seus objetos formais são irredutíveis todavia sob diferentes aspectos estão subordinadas umas às outras Assim é principal a Moral enquanto descobre o fim último que é a regra de todos os atos da vida a Lógica enquanto é o instrumento de todas as ciências a Metafísica enquanto trata do absoluto do imutável e sobretudo do Ente supremo a Matemática e a Física enquanto são muito úteis para as artes para a indústria e para a vida material da sociedade A todas estas ciências humanas que se guiam pela luz da razão está absolutamente superior a Teologia revelada que se guia pela luz da Fé e que trata das mais altas e consoladoras verdades Entre esta e aquelas existe e não pode deixar de existir a mais perfeita harmonia Deus é um centro de luz de que partem como outros tantos raios todas as verdades e todas as ciências Por isso Deus é chamado o Senhor das ciências SINOPSE Dos tratados contidos neste volume SINOPSE DA LÓGICA lógIca Lógica é a ciência que dirige por meio de regras as operações de nossa razão para que ordenadas e facilmente alcancemos a verdade O objeto pois da Lógica é constituído pelas nossas opera ções intelectuais enquanto devem ser dispostas e ordenadas para a consecução da verdade A Lógica é arte e ciência É arte enquanto é um conjunto de regras é ciência enquanto deduz essas regras dos princípios essenciais das coisas dIVISão da lógIca A Lógica dividese em formal e material A formal ocupase da ordem com que devem disporse as opera ções intelectuais e das regras que se dirigem A material trata da verdade dos meios que empregamos para a aquisição da verdade faculdades do caminho que percorremos método do resultado que alcançamos ciência SEÇÃO I LÓGICA FORMAL dIVISão da lógIca formal A Lógica formal dividese em três capítulos no 1º tratase da idéia e do termo no 2º do juízo e da proposição no 3º do raciocínio e da argumentação A IdéIa e termo a Idéia Idéia é a simples representação intelectual de uma coisa O objetivo da idéia é a essência ou natureza das coisas Por isso a idéia é universal e necessária como é a essência Na idéia consideramse a compreensão e a extensão que estão entre si na razão inversa A com preensão conhecese pela definição a extensão pela divisão Quanto ao objeto representado a idéia é real ou lógica positiva ou negativa absoluta ou relativa intuitiva ou abstrativa unívoca ou análoga singular universal ou particular universalreflexa Quanto ao 300 SINOPSE DA LÓGICA modo de representar a idéia é clara ou obscura distinta ou confusa completa ou incompleta adequada ou inadequada A idéia uni versalreflexa pode ser espécie essência completa ou gênero elemento essencial comum ou diferença elemento essencial próprio ou pro priedade qualidade necessária ou acidente qualidade contingente As idéias consideradas objetivamente reduzemse a dez gêneros supremos que se chamam categorias e que são substância quantidade qualidade relação ação paixão localização quandocação estado e hábito b termo Termo é a expressão verbal da idéia É sinal conven cional e pode ser positivo ou negativo absoluto ou conotativo abstrato ou concreto singular universal ou particular unívoco ou particular unívoco equívoco ou análogo No termo como na idéia consideramse a compreensão e a extensão BJuízo e propoSIção a Juízo Juízo é a união ou a separação de duas idéias e por isso de dois objetos por meio da afirmação ou da negação Tem três elementos sujeito predicado e cópula Pode ser afirmativo ou negativo verdadeiro ou falso direto ou reflexo analítico ou sintético imediato ou mediato b Proposição Proposição é a expressão verbal do juízo Tem os três elementos do juízo e dividese em simples e composta A simples é analítica ou sintética universal particular ou singular afirmativa ou negativa A composta é copulativa causal condicional disjuntiva e adversativa As qualidades da proposição são três oposição con trárias subcontrárias contraditórias conversão simples acidental contraposta equivalência C racIocínIo e argumentação a racIocínIo Raciocínio é a união ou a separação de duas idéias pelo fato de ambos convirem ou uma convir e outra não com uma terceira idéia com a qual foram comparadas Os seus elementos são dois a maté ria e a forma A matéria é constituída pelas três idéias matéria remota e pelos três juízos matéria próxima A forma é a disposição das idéias e dos juízos Dividese em afirmativo que se funda no princípio de conveniência e negativo que se funda no princípio de desconveniência b Argumentação Argumentação é a expressão verbal do raciocínio Dividese em dedutiva silogismo e indutiva indução O silogismo compõese de três termos e de três proposições É simples ou composto con 301 SINOPSE DA LÓGICA forme consta de proposições simples ou de proposições compostas ou de silogismos simples O simples está sujeito a oito regras das quais quatro se referem aos termos e quatro às proposições O composto pode ser copulativo causal condicional disjuntivo adversativo ou dilema sorites polissilogismo A indução é completa ou incompleta A completa atribui ao todo um predicado que convém a cada uma das partes a incompleta atribui ao todo um predicado que convém a algumas das partes mas convém essencialmente e por isso é uma argumentação legítima SEÇÃO II LÓGICA MATERIAL dIVISão da lógIca materIal A Lógica material dividese em três capítulos no 1º trata da verdade no 2º dos meios para a aquisição da verdade no 3º do método a Verdade Verdade é a conformidade entre a inteligência e o objeto É tríplice lógica metafísica e moral Aqui tratamos da lógica que é o conhecimento enquanto é conforme com o objeto Esta é subjetiva ou objetiva imediata ou mediata necessária ou contingente ideal ou real metafísica física e moral quanto ao objeto direta e reflexa A verdade lógica encontrase perfeitamente no juízo e imperfeitamente na idéia é indivisível imutável única em Deus e multíplice na criatura Os estados da nossa inteligência com relação à verdade são quatro ignorância dúvida opinião e certeza A certeza firme adesão da inteligência à verdade sem receio de errar é sub jetiva ou objetiva metafísica física ou moral direta ou reflexa natural ou sobrenatural Ela existe daí a verdade do dogmatismo e a falsidade do ceticismo e é proporcionada à inteligência e ao motivo A certeza sobrenatural é superior à certeza natural O universal e supremo motivo da certeza é a evidência do objeto A certeza supõe a objetividade das idéias universais A idéia universal tanto direta como reflexa é objetiva e tem o fundamento próximo nas coisas criadas e o fundamento supremo na Essência infinita de Deus B meIoS para a aquISIção da Verdade Estes meios são a inteligência a razão a consciência a memória intelectual os sentidos internos e externos e o testemunho Todos são intrínsecos à exceção 302 SINOPSE DA LÓGICA do último Propriamente é a inteligência que percebe a verdade Os meios pois que enumeramos ou são a próprio faculdade intelectual que toma diversos nomes inteligência razão consciência memória conforme a diversidade dos atos que exerce ou das verdades que adquire ou são instrumentos sentido e testemunho de que ela se serve para alcançar a verdade Todos estes meios são legítimos e levam ao fim porque se empregam contanto que se observem as regras ou condições indispensáveis C método Método é o caminho que a inteligência deve seguir para a aquisição da ciência Tem três elementos o ponto de partida o processo e o termo O ponto de partida não pode ser a dúvida universal mas deve ser constituído por verdades imediatamente evi dentes necessárias quanto à parte racional contingentes quanto à parte experimental O processo é propriamente o método que é analítico ou sintético conforme vai ou dos objetos que têm mais para os que têm mais compreensão O método científico deve ser misto isto é analíticosintético O termo é a ciência que é um sistema de conheci mentos certos relativos às causas dos entes e deduzidos pela demonstração É especulativa ou prática racional ou experimental subordinada ou subordinante As ciências distinguemse pelos seus objetos formais isto é pelos diversos aspectos sob os quais se consideram as coisas Daí as cinco classes supremas de ciências a saber Física Matemática Metafísica Lógica e Moral O raciocínio que nos leva à aquisição da verdade é a demonstração baseada em princípios certos AGRADECIMENTO Aos benévolos colaboradores da campanha a restauração da verdadeira filosofia Adner Angeli Adriel Teles Alan Freitas Alan Lira Nunes Alcemyr Alves Aldrin De Carvalho Alessander Da Veiga Guimarães Alessandro Sima Alex De Oliveira Nogueira Alex Dias Alex Do Espírito Santo Alexandre Urbano Raitz Petersen Alyson Hideaki Maeda Ana Costa Ana Paula Dos Reis Ana Paula Oliveira Batista Ana Vitoria Belfort Anderson De Goulart Andre Barboza De Melo Lopes Marques André Fillipe Moraes Dos Santos André Luiz De Sousa Luiz André Luiz Lebrão André Marcelo Gomes Fortes André Misiara André Santiago Nunes Andrea Forcadell Andressa Lorena Negri Vanderlei Andrew Takeshi De Vita Ângelo Fonsêca Neto Angelo Alves Farias Antonio Medino Da Silva Antonio Alexandre De Oliveira Antônio Eduardo Da Silva Rocha Antonio Hamilton Da Silva Antonio Lucas Silva Uchôa Antonio Valter Paiva Ariel Hebert Arthur Araujo Arthur Santos Silva Aruan De Freitas Augusto Fontoura Augusto Ranzi Beatriz Sette Bernardo Vieira Emerick Boisbaudran Ferreira Negre Breno Baral Santos De Carvalho Bruno Alvares Bruno Andrade De Macedo Bruno Felipe De Souza Bruno Henrique Gomes Soares Bruno Pittella Oliveira O compêndio Elementos de Filosofia de Dom Thiago Sinibaldi veio à luz mediante a contribuição de 340 pessoas em uma campanha realizada no site editorainstitutosantoagostinhoorg O compêndio é com posto pelos volumes Lógica Metafísica I Metafísica II e Moral Listamos abaixo o nome dos colaboradores da campanha Bruno Vieira Barbosa Bruno Vignettes Caio César Valiatti Passamai Caio Lopes Alcaraz Torres Carla Aguilera Carlos Guesser Carlos Felice Zaccardelli Celso Gomes Da Silva Filho Cheiber Oliveira Meireles Meireles Claudia Lima Claudia Maiza Carvalho Godoy Cláudia Soares Do Couto Macedo Claudio Titericz Cristiane Barbara Daniel Carlos Ferreira Silva Daniel Mazzoni Daniel Pereira Volpato Danilo Gesualdo Danilo Gomes Moreira Davi Borges Rocha De Jesus David Fernando Da Silva David Amoprim Denis Bersi Rinaldi Dennis Bessada Deoclecio De Souza Guilherme Diego Soares Diego Augusto Diniz Pinto Diego Bernard Varella De Castro Latorre Diego Ribeiro Diego Tales De Lima Vidal Diego Wendell Da Silva Diogo Braz De Oliveira Douglas Oliveira Douglas Ribeiro Edison Dias Marques Eduardo Oliveira Ferreira Eduardo Trindade Eleanor Teruya Elton Minasse Eric André De Almeida E Santos Erick Bezerra Erick Menezes Eunice Aparecida Marques Senra Evaldo Dias De Oliveira Evanderson Nick Evandro Santana Silva Éverton Junior Goschel Broilo Fabiana Maria Ferreira Da Cruz Fábio Ferreira Da Cruz Fábio Henrique Silva Fabio Ramos Lorenzetti Felipe Augusto Da Silva Martins Fernando Rodriguez Fernando Caxias Filipe Melo Fortunato Baía Junior Francisco Bastos Moreno Francisco Henrique M De Lima Francisco Yuri Da Costa Rocha Frederico Zucareli Gabriel Barbosa Gabriel G Arruda Gabriel Goulart Da Silva Gabriel Idro Ozório Gabriel Longaretti Botti Gabriel Maria S Couto Cavalcante Gabriel Roriz Geovane Augusto Da Costa Tavares Geovano Santana Gerson De Freitas Gian Lucas Bagatoli Gilmar Amaral De Lima Gilson Pires Santana Giovani Diógenes Castello Branco Givaldo Pedro Silva Gradson Edgard Mesquita Graziella Pereira Vieira Guilherme De Barros Manzine Guilherme Guimarães Gustavo Altmüller Alvarez Gustavo Antônio Fontinelli Medrado Pinto Gustavo De Paula Correa Gustavo Grillo Gustavo Oliveira Handerson Ribeiro De Almeida Hugo José Mesquita Da Silva Hyago Rufino Iago Nicolas De Abreu Soares Igor Christmann Ilka Albuquerque Barbosa Israel Monteiro Jaia Junior Firmino Dos Santos Jaldo Santos Freire Janaina Casotti Janaina De Brick Jean Carlos Comandolli Jean Carlos Konnorate Jefferson Da Silva Jefferson Dos Santos Jefferson Farias Jefferson Andrade Jefferson De Sousa Leite Oliveira Jefferson Evaristo Do Nascimento Silva Jeovah Fialho De Lima Simões Jhoantan Fagundes João Alberto Haro Leite Haro João Batista Alves Pires João José Marques João Lucas Martucci Queiróz João Marcos Viana Da Costa João Victor Deboni Silva João Victor Deusdará Banci João Victor Schimanski João Victor Silva Medeiros João Vinicius De Araújo João Vitor Somenzari Johnata Jose Jonas Toigo Bittencourt Jorge Henrique Leite Josaphat Mata José Cláudio Aguiar José Edgar Girardi Jose Fabio De Alcantara Silva José Marcos De Andrade Júnior José Medeiros Josiane Olga Kammer Josimar Rodrigues Juliélton De Melo Targino Junior Volcan Karlile Da Silva Kelston Lages Kennyel Franco Laio Ferrari Souza Leandro Bitencourt Leandro Cerqueira Leandro Fernandes Da Silva Leonardo Da Costa Rosa Leonardo Dos Santos E Silva Leonardo Andrade Almeida Leonardo Antônio E Bertoglio Leonardo Dias Nascimento Leonardo Penha Salgado Costa Leonardo Sales Liebe Amorim Bione Soares Lucas Belussi Lucas Bequer Ribeiro Lucas Caldas Da Silva Lucas Carvalho Guerra Lucas Correa Lucas Dias Palhão Mendes Lucas Gabriel Rodolfo Lucas Henrique Feitosa De Mattos Lucas Inacio Da Luz Lucas Sousa Luciano Messias Simões Luciano Q Ataide Lúcio Souza Lobo Luiz Felipe Da Silva Luiz Alberto De Carvalho Júnior Luiz Alexandre Luiz Bernardo De Resende Maia Luiz Eduardo Di Domenico Luiz Felipe Rodrigues Merenciano Luiz Guilherme Schinzel Luiz Gustavo Fonseca Lourencetti Luiz Henrique Da Silva Conceição Luiz Otávio Luiz Vinícius Melo Martins Luiza Santiago Maiara Teodoro Maíra Gauer Palma Marcel Leda Noronha Macedo Marcela Nascimento Rosa Marcelo Gomes Corrêa Macedo Marcelo Martins Márcia Soares Andrade Márcio Gualberto Dos Santos Marco Real Simonetto Marcos Rafael De Lima Bartolomeu Marcos Vinicius Borges Fernandes Marcus Antonio Almeida Alencar Maria Aparecida Ramos Maria Clara Da Fonseca Marinaldo Cavalari Mário Casanova Mateus Da Silva Pereira Mateus Vieira Matheus Nascimento Oliveira Matheus Schimuneck Mauricio Vidal Dos Santos Maurício Erwin Resende Mauricio Vidal Dos Santos Max Lago Miguel Luis De Souza Souza Milane Tavares Monica Maria Roza Mozair Borges Murilo Biudes Schimmelpfeng Natali Junior Federzoni Natan Pimenta Nelson Carvalho Neto Nelson De Freitas Leite Junior Osiris Miranda Rietman Pablo De Carvalho Knierin Pablo Cânovas Padre Júnior Bezerra Paulo Coelho Paulo Henrique Boy Rodrigues Paulo Neves De Lima Paulo Godoi Paulo Roberto De Sousa Lucas Pedro E Raquel Campos Pedro Gusson Agelune Martins Pedro Henrique Zamagna Pedro Luís De Sousa Pedro Luiz Oliveira De Affonseca Rafael David Sales Machado Rafael Delanhese Rafael Gurgel Nobrega Rafael Magalhaes Cursino Santos Rafael Sanvezzo Rafael Stellzer Raimundo Felipe De Aguiar Ramon Lima Dos Santos Ramon Martins Cogo Ramon Murara Moleta Ramon Reinert Censi Raul Oliveira Rêmulo De Carvalho Renan Freitas Renan Melo Renato Da Costa Santos Muniz Renato Barbieri Ricardo Alexandre Ricardo Sandoli Senra Ricardo Técio Ii Miranda Garcia Roberto Celotti Roberto Daniel Amarilla Robson Nogueira Rodolfo Meo Rodolfo Miranda Rodrigo Augusto De Carvalho Costa Rodrigo De Abreu Rodrigo Franca Rodrigo Palmeira Rogério Lima Rogerio Regis Silva Ronaldo Bispo Dos Santos Rubens Marques Da Rosa Samuel Silva Saule Dias Sayron Herlon Soares Gomes Sebastião Pereira Pachu Sideval Ramos De Paula Silas De Carvalho Tatianne Lima Tatiany Fernandes Tauan De Oliveira Temístocles Marcelos Neto Thalys Melo Thassilene Paulo Thiago Augustus Santiago Neves Thiago Esteves Thomas Éric Da Cunha Carvalho Túlio Laraia Coutinho Urlan De Barros Valdemar Abrantes Vandeclécio Vinícius Silva Vanderlei Manoel Nascimento Vanessa Carla Dos Santos Canellas Victor Ribeiro Silva Victoria De Campos Tozzo Vinicius Kauam Almeida Da Silva Vinícius Fernando Santos Xavier Vinícius José De Lima Vitor Vilanova Vitor Hugo De Oliveira Fieni Vitor Menezes Santana Viviane Lourenci Wagner Pulido Rodrigues Walter Luis Jorge Welison Barbosa Wellington De Oliveira Wesley Dos Santos Pereira Weslley Medeiros De Faria Wilams Johnson Pereira Wiliam Carvalho Willian Vogel Winicius Ruiz De Souza Índice Encíclica Aeterni Patris 03 Aos Benévolos Leitores 23 Carta de Sua Santidade Leão XIII 30 Carta de Sua Santidade Bento XV 34 Introdução 39 LÓGICA Proêmio 51 Seção Primeira Lógica Formal Capítulo Primeiro Idéia e Termo Artigo I Idéia sua definição e análise 56 Artigo II Divisão geral da idéia 59 Artigo III Divisão da idéia universalreflexa 66 Artigo IV Redução das idéias a categorias 72 Artigo V Termo suas espécies e propriedades 79 Artigo VI Definição e divisão 83 Capítulo Segundo Juízo e Proposição Artigo I Juízo e proposição sua divisão 89 Artigo II Divisão da proposição simples 93 Artigo III Divisão da proposição composta 96 Artigo IV Qualidades das proposições 98 Capítulo Terceiro Raciocínio e Argumentação Artigo I Raciocínio seus elementos e divisão 103 309 ÍNDICE DAS MATÉRIAS Artigo II Argumentação e silogismo 106 Artigo III Silogismo simples e suas regras 111 Artigo IV Figuras e modos do silogismo 116 Artigo V Silogismo composto e sua divisão 125 Artigo VI Indução e suas espécies 131 Artigo VII Sofisma e suas espécies 137 Seção Segunda Lógica material Capítulo primeiro Verdade Artigo I Verdade sua divisão e natureza 141 Artigo II Certeza sua divisão existência e propriedades 163 Artigo III A existência da certeza e o Ceticismo 174 Artigo IV Universal e supremo motivo da certeza 177 Artigo V A certeza e a objetividade das idéias universais 192 Capítulo Segundo Meios para aquisição da verdade Artigo I Inteligência e razão 204 Artigo II Consciência e memória intelectual 217 Artigo III Sentidos externos e internos 224 Artigo IV Testemunho suas espécies e transmissão 245 Capítulo Terceiro Método Artigo I Ponto de partida Verdades imediatamente evidentes 272 Artigo II Processo Método analítico e sintético 280 Artigo III Termo do movimento Ciência 289 Sinopse da Lógica 299 Agradecimento 303 Find Your Group The best way to connect with others is through a Backyard Circle A Circle is a small group of people who meet regularly to do life together and grow in their faith This could include Bible study fellowship serving or other things A Circle might be a Community Group Life Group Growth Group Care Group Serve Team or a Study Group Backyard offers Circles for families singles men women and any life stage from young adults to seniors Once you connect with a Circle youll have the opportunity to get to know others at Backyard who can encourage you on your journey Backyard offers various Circles with different formats times and locations You can find Circles that meet in person or online Some Circles are open to everyone and some are designed for people at a certain stage of life or with a specific interest Link Things Up Your Connections Matter The Circles Mission Help you get connected and discover ways to belong to a group that really fits Where to find the Mission Online mission folders for Circles and Circles Openspaces to introduce some of the ways you can get connected and build relationships with others Visit the Backyard Welcome Center See a Pastor or a Friendly Gift Box volunteer Live Mission Folder Table Circles Mission The Circles network at Backyard exists to help you grow into community so you can grow in Christ This starts with welcoming you into a community that helps you feel like you belong and then providing ways to connect you to groups serve and grow We do this through Circles a variety of them so you can find ones that fit your schedule stage of life and interests RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com fundamento racional e orientado à verdade Nesse contexto a filosofia não é uma especulação vaga ou subjetiva mas um saber rigoroso e organizado que parte de princípios racionais para alcançar conclusões verdadeiras Isso a distingue do mero senso comum ou da opinião que são instáveis e muitas vezes contraditórios A ciência filosófica pretende alcançar a verdade última dos entes o que confere à sua atividade um valor essencial para a formação intelectual e moral do ser humano 3 Unidade da Filosofia Apesar de sua aparente variedade ao abranger ontologia lógica ética psicologia entre outros ramos a filosofia conserva uma unidade intrínseca Essa unidade se estabelece não pela matéria particular que trata mas pelo modo como investiga os objetos sempre em busca das causas últimas Assim mesmo que se desdobre em diversas disciplinas filosóficas a filosofia permanece una pela sua formalidade metodológica A unidade da filosofia é semelhante à de um organismo composto por diferentes órgãos mas orientado por uma só alma Essa analogia nos permite compreender como todas as divisões da filosofia colaboram para um único fim a apreensão racional da verdade 4 Divisão da Filosofia A filosofia dividese em duas grandes áreas teórica e prática A teórica compreende a lógica a metafísica e a cosmologia a prática referese à ética que orienta a ação humana conforme a razão A filosofia teórica investiga o ser e seus princípios de maneira especulativa buscando a verdade pelo conhecimento puro já a filosofia prática aplica esse conhecimento à ação norteando a conduta humana Essa divisão é fundamental pois evidencia que o saber filosófico não se limita à contemplação mas tem implicações concretas na vida Assim como um arquiteto não apenas projeta mas edifica o filósofo não apenas pensa mas forma e transforma 5 Lógica objeto e necessidade A lógica é definida como a ciência e a arte de dirigir corretamente o entendimento Sua importância deriva da limitação da razão humana que embora seja capaz de conhecer a verdade está sujeita a erros A lógica fornece portanto os critérios e os instrumentos para pensar com clareza precisão e coerência Assim como o navegador precisa de bússola e mapas para não se perder o intelecto necessita da lógica para orientarse no mar das ideias Sua função não é produzir conhecimento novo mas garantir a validade do processo de pensar servindo como fundamento indispensável para todas as ciências 6 Divisão da lógica A lógica se divide em formal e material A lógica formal trata da forma do raciocínio regulando os atos do entendimento conceber julgar raciocinar independentemente do conteúdo Já a lógica material investiga as condições objetivas da verdade examinando o conteúdo das proposições e as relações que estabelecem Essa divisão reflete a distinção entre a correção do pensamento e a verdade do objeto pensado A lógica formal é como a gramática da mente enquanto a lógica material é sua semântica Ambas são necessárias a primeira para garantir que os pensamentos sigam uma estrutura válida a segunda para assegurar que aquilo que se pensa corresponde à realidade 7 Operações do entendimento O entendimento humano realiza três operações fundamentais a concepção da ideia ato pelo qual se representa mentalmente um objeto o juízo ato pelo qual se afirma ou se nega algo sobre o objeto e o raciocínio ato pelo qual a partir de dois ou mais juízos se conclui outro Essas operações são progressivas e interdependentes Não há juízo sem ideia nem raciocínio sem juízo Essa dinâmica mostra que o pensamento humano é ordenado por natureza e que pensar bem requer o domínio desses três momentos do intelecto A lógica nesse sentido é a arte que permite ao pensamento atingir sua plenitude operativa 8 Ideia definição A ideia é o primeiro ato do entendimento tratase da representação mental de uma essência sem afirmação ou negação É um conceito puro e simples como quando se pensa em triângulo árvore ou homem sem dizer nada sobre sua existência ou propriedades A ideia é pois o elemento fundamental de todo conhecimento já que nenhuma afirmação ou conclusão pode ser feita sem que antes se tenha formado uma ideia Nesse sentido a ideia é para o pensamento o que a matériaprima é para a construção a base indispensável 9 Objeto da ideia A ideia representa a essência de um ser isto é aquilo que faz com que um ente seja o que é Quando se forma a ideia de homem não se pensa em um indivíduo particular mas no que é comum a todos os homens a racionalidade a natureza animal e espiritual Essa essência é o objeto próprio da ideia Assim a função da ideia não é retratar o acidental ou passageiro mas captar o necessário e essencial Através da ideia o intelecto transcende a experiência sensível e alcança a inteligibilidade do real 10 Compreensão e extensão A ideia possui dois aspectos fundamentais a compreensão que indica os atributos ou notas que a constituem por exemplo homem animal racional e a extensão que indica o número de indivíduos abrangidos por ela todos os homens existentes Há uma relação inversa entre ambas quanto maior a compreensão menor a extensão e viceversa Essa distinção permite maior clareza nas definições e categorizações filosóficas facilitando o raciocínio e a comunicação do saber 11 Divisão da ideia quanto ao objeto representado As ideias podem ser classificadas conforme o modo como representam os objetos Podem ser reais ou lógicas segundo se fundam no ser ou na abstração positivas ou negativas se afirmam ou negam uma essência absolutas ou relativas se independem ou dependem de outra ideia intuitivas ou abstrativas segundo se originam da experiência ou da reflexão unívocas equívocas ou análogas dependendo da identidade diferença ou proporcionalidade do significado entre os entes representados Essas divisões são essenciais para evitar ambiguidades e estabelecer distinções conceituais rigorosas 12 Divisão da ideia quanto à extensão Conforme a quantidade de seres representados a ideia pode ser singular quando representa um só indivíduo ex Sócrates particular quando representa parte de uma classe ex alguns homens universal quando representa a totalidade de uma espécie ex todo homem Essa distinção é essencial para a formação correta dos juízos e argumentos pois a lógica depende da clareza da extensão envolvida nas proposições 13 Ideia universalreflexa A ideia pode representar elementos que compõem a essência e as propriedades de um ente São cinco os predicáveis que constituem a ideia universalreflexa gênero animal espécie homem diferença específica racional propriedade capacidade de rir acidente altura cor da pele etc 14 Redução das ideias às categorias As ideias ao representarem os entes podem ser reduzidas às dez categorias aristotélicas substância quantidade qualidade relação ação paixão lugar tempo situação e hábito Essas categorias abrangem todos os modos possíveis de ser e permitem organizar o conhecimento de forma sistemática Funcionam como uma gramática metafísica do real Tópicos 17 21 17 Regras da definição Algoritmo é um conjunto finito de instruções bem definidas que aplicadas a uma entrada produzem uma saída Este exemplo define com precisão e clareza o que é um algoritmo algo essencial nas ciências da computação Ele respeita as regras da definição é essencial foca na estrutura lógica do conceito é clara sem ambiguidade positiva afirma o que é não circular e não contém termos metafóricos 18 Divisão da ideia quanto ao modo de representar o objeto a Ideia clara e obscura Clara Número primo conceito definido de forma precisa e matematicamente verificável Obscura Consciência coletiva global expressão vaga de difícil delimitação muito usada em teorias sociológicas ou esotéricas mas sem rigor conceitual b Ideia distinta e confusa Distinta Neuroplasticidade cerebral conceito neurocientífico bem delimitado capacidade do cérebro de se reorganizar Confusa Felicidade digital usada em discursos modernos sobre bemestar online mas ainda carente de definição e delimitação acadêmica c Ideia completa e incompleta Completa O DNA humano possui quatro bases nitrogenadas adenina timina citosina e guanina Incompleta O DNA tem umas letrinhas que dizem como somos vaga informal imprecisa d Ideia adequada e inadequada Adequada Círculo é a figura geométrica plana cujos pontos estão todos equidistantes de um centro Inadequada Círculo é tipo uma roda de bicicleta a roda pode representar um círculo mas não é definição da essência 19 Divisão da ideia quanto à extensão Singular Greta Thunberg representa um único sujeito específico Particular Alguns ativistas ambientais referese a parte de um grupo maior Universal Todos os seres vivos que respiram oxigênio abrange uma classe inteira de entes com uma mesma característica essencial 20 Ideia universalreflexa Aplicação moderna aos cinco predicáveis a partir do conceito de inteligência artificial IA Gênero Tecnologia IA pertence ao gênero das tecnologias Espécie Sistemas que simulam cognição humana definição que delimita a IA dentro das tecnologias Diferença específica Capacidade de aprender e adaptarse autonomamente aquilo que distingue IA de outras tecnologias Propriedade Capacidade de prever padrões com base em dados não essencial mas própria da IA moderna Acidente Interface gráfica amigável elemento variável que pode ou não estar presente 21 Redução das ideias às categorias aristotélicas A partir do exemplo de um podcast educacional Substância Podcast em si como objeto de comunicação Quantidade Duração de 45 minutos Qualidade Interativo multimídia com linguagem acessível Relação É transmitido para alunos e exige interação com conteúdo escolar Ação O podcast transmite conhecimento Paixão É escutado pelos alunos Lugar Plataforma de streaming Spotify Deezer etc Tempo Publicação semanal às quartasfeiras Situação Está salvo em nuvem e acessível offline Hábito Usado com fone de ouvido em momento de estudo individual RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com a a filosofia não é uma human We are uncertain about this document If we had to classify it it would likely be considered human Probability breakdown 21 Generated 16 Mixed 82 Human Scan to update results 11640 characters 1783 words RESUMO SINIBALDI Dom Thiago Elementos de Filosofia Volume I Lógica 5 ed Florianópolis Instituto Santo Agostinho 2021 Tópicos 1 ao 14 1 Filosofia e suas características A filosofia é compreendida como a ciência das causas supremas dos entes investigadas à luz da razão natural Diferente das ciências particulares que estudam aspectos ou áreas específicas da realidade a filosofia busca as razões últimas e universais do ser enquanto ser É portanto uma disciplina caracterizada por seu alcance universal pois não se restringe a um campo limitado da experiência mas abrange todos os entes possíveis Além disso é uma ciência racional e sistemática pois se funda na razão e desenvolvese mediante um método rigoroso ordenado e coerente Sua profundidade está em investigar o fundamento das coisas suas essências seus princípios e suas finalidades Com isso a filosofia se estabelece como a base para as demais ciências e também como uma ponte entre a razão e a fé quando se considera sua aplicação no campo da teologia natural 2 Ciência A filosofia sendo uma ciência deve apresentar elementos próprios de toda investigação científica certeza método e sistematização A ciência em sentido estrito é definida como um conhecimento certo obtido por causas evidentes com fundamento racional e orientado à verdade Nesse contexto a filosofia não é uma especulação vaga ou subjetiva mas um saber rigoroso e organizado que parte de princípios racionais para alcançar conclusões verdadeiras Isso a distingue do mero senso comum ou da opinião que são instáveis e muitas vezes contraditórios A ciência filosófica pretende alcançar a verdade última dos entes o que confere à sua atividade um valor essencial para a formação intelectual e moral do ser humano 3 Unidade da Filosofia Apesar de sua aparente variedade ao abranger ontologia lógica ética psicologia entre outros ramos a filosofia conserva uma unidade intrínseca Essa unidade se estabelece não pela matéria particular que trata mas pelo modo como investiga os objetos sempre em busca das causas últimas Assim mesmo que se desdobre em diversas disciplinas filosóficas a filosofia permanece una pela sua formalidade metodológica A unidade da filosofia é semelhante à de um organismo composto por diferentes órgãos mas orientado por uma só alma Essa analogia nos permite compreender como todas as divisões da filosofia colaboram para um único fim a apreensão racional da verdade 4 Divisão da Filosofia A filosofia dividese em duas grandes áreas teórica e prática A teórica compreende a lógica a metafísica e a cosmologia a prática referese à ética que orienta a ação humana conforme a razão A filosofia teórica investiga o ser e seus princípios de maneira especulativa buscando a verdade pelo conhecimento puro já a filosofia prática aplica esse conhecimento à ação norteando a conduta humana Essa divisão é fundamental pois evidencia que o saber filosófico não se limita à contemplação mas tem implicações concretas na vida Assim como um arquiteto não apenas projeta mas edifica o filósofo não apenas pensa mas forma e transforma 5 Lógica objeto e necessidade A lógica é definida como a ciência e a arte de dirigir corretamente o entendimento Sua importância deriva da limitação da razão humana que embora seja capaz de conhecer a verdade está sujeita a erros A lógica fornece portanto os critérios e os instrumentos para pensar com clareza precisão e coerência Assim como o navegador precisa de bússola e mapas para não se perder o intelecto necessita da lógica para orientarse no mar das ideias Sua função não é produzir conhecimento novo mas garantir a validade do processo de pensar servindo como fundamento indispensável para todas as ciências 6 Divisão da lógica A lógica se divide em formal e material A lógica formal trata da forma do raciocínio regulando os atos do entendimento conceber julgar raciocinar independentemente do conteúdo Já a lógica material investiga as condições objetivas da verdade examinando o conteúdo das proposições e as relações que estabelecem Essa divisão reflete a distinção entre a correção do pensamento e a verdade do objeto pensado A lógica formal é como a gramática da mente enquanto a lógica material é sua semântica Ambas são necessárias a primeira para garantir que os pensamentos sigam uma estrutura válida a segunda para assegurar que aquilo que se pensa corresponde à realidade 7 Operações do entendimento O entendimento humano realiza três operações fundamentais a concepção da ideia ato pelo qual se representa mentalmente um objeto o juízo ato pelo qual se afirma ou se nega algo sobre o objeto e o raciocínio ato pelo qual a partir de dois ou mais juízos se conclui outro Essas operações são progressivas e interdependentes Não há juízo sem ideia nem raciocínio sem juízo Essa dinâmica mostra que o pensamento humano é ordenado por natureza e que pensar bem requer o domínio desses três momentos do intelecto A lógica nesse sentido é a arte que permite ao pensamento atingir sua plenitude operativa 8 Ideia definição A ideia é o primeiro ato do entendimento tratase da representação mental de uma essência sem afirmação ou negação É um conceito puro e simples como quando se pensa em triângulo árvore ou homem sem dizer nada sobre sua existência ou propriedades A ideia é pois o elemento fundamental de todo conhecimento já que nenhuma afirmação ou conclusão pode ser feita sem que antes se tenha formado uma ideia Nesse sentido a ideia é para o pensamento o que a matériaprima é para a construção a base indispensável 9 Objeto da ideia A ideia representa a essência de um ser isto é aquilo que faz com que um ente seja o que é Quando se forma a ideia de homem não se pensa em um indivíduo particular mas no que é comum a todos os homens a racionalidade a natureza animal e espiritual Essa essência é o objeto próprio da ideia Assim a função da ideia não é retratar o acidental ou passageiro mas captar o necessário e essencial Através da ideia o intelecto transcende a experiência sensível e alcança a inteligibilidade do real 10 Compreensão e extensão A ideia possui dois aspectos fundamentais a compreensão que indica os atributos ou notas que a constituem por exemplo homem animal racional e a extensão que indica o número de indivíduos abrangidos por ela todos os homens existentes Há uma relação inversa entre ambas quanto maior a compreensão menor a extensão e viceversa Essa distinção permite maior clareza nas definições e categorizações filosóficas facilitando o raciocínio e a comunicação do saber 11 Divisão da ideia quanto ao objeto representado As ideias podem ser classificadas conforme o modo como representam os objetos Podem ser reais ou lógicas segundo se fundam no ser ou na abstração positivas ou negativas se afirmam ou negam uma essência absolutas ou relativas se independem ou dependem de outra ideia intuitivas ou abstrativas segundo se originam da experiência ou da reflexão unívocas equívocas ou análogas dependendo da identidade diferença ou proporcionalidade do significado entre os entes representados Essas divisões são essenciais para evitar ambiguidades e estabelecer distinções conceituais rigorosas 12 Divisão da ideia quanto à extensão Conforme a quantidade de seres representados a ideia pode ser singular quando representa um só indivíduo ex Sócrates particular quando representa parte de uma classe ex alguns homens universal quando representa a totalidade de uma espécie ex todo homem Essa distinção é essencial para a formação correta dos juízos e argumentos pois a lógica depende da clareza da extensão envolvida nas proposições 13 Ideia universalreflexa A ideia pode representar elementos que compõem a essência e as propriedades de um ente São cinco os predicáveis que constituem a ideia universalreflexa gênero animal espécie homem diferença específica racional propriedade capacidade de rir acidente altura cor da pele etc 14 Redução das ideias às categorias As ideias ao representarem os entes podem ser reduzidas às dez categorias aristotélicas substância quantidade qualidade relação ação paixão lugar tempo situação e hábito Essas categorias abrangem todos os modos possíveis de ser e permitem organizar o conhecimento de forma sistemática Funcionam como uma gramática metafísica do real Tópicos 17 21 17 Regras da definição Algoritmo é um conjunto finito de instruções bem definidas que aplicadas a uma entrada produzem uma saída Este exemplo define com precisão e clareza o que é um algoritmo algo essencial nas ciências da computação Ele respeita as regras da definição é essencial foca na estrutura lógica do conceito é clara sem ambiguidade positiva afirma o que é não circular e não contém termos metafóricos 18 Divisão da ideia quanto ao modo de representar o objeto a Ideia clara e obscura Clara Número primo conceito definido de forma precisa e matematicamente verificável Obscura Consciência coletiva global expressão vaga de difícil delimitação muito usada em teorias sociológicas ou esotéricas mas sem rigor conceitual b Ideia distinta e confusa Distinta Neuroplasticidade cerebral conceito neurocientífico bem delimitado capacidade do cérebro de se reorganizar Confusa Felicidade digital usada em discursos modernos sobre bemestar online mas ainda carente de definição e delimitação acadêmica c Ideia completa e incompleta Completa O DNA humano possui quatro bases nitrogenadas adenina timina citosina e guanina Incompleta O DNA tem umas letrinhas que dizem como somos vaga informal imprecisa d Ideia adequada e inadequada Adequada Círculo é a figura geométrica plana cujos pontos estão todos equidistantes de um centro Inadequada Círculo é tipo uma roda de bicicleta a roda pode representar um círculo mas não é definição da essência 19 Divisão da ideia quanto à extensão Singular Greta Thunberg representa um único sujeito específico Particular Alguns ativistas ambientais referese a parte de um grupo maior Universal Todos os seres vivos que respiram oxigênio abrange uma classe inteira de entes com uma mesma característica essencial 20 Ideia universalreflexa Aplicação moderna aos cinco predicáveis a partir do conceito de inteligência artificial IA Gênero Tecnologia IA pertence ao gênero das tecnologias Espécie Sistemas que simulam cognição humana definição que delimita a IA dentro das tecnologias Diferença específica Capacidade de aprender e adaptarse autonomamente aquilo que distingue IA de outras tecnologias Propriedade Capacidade de prever padrões com base em dados não essencial mas própria da IA moderna Acidente Interface gráfica amigável elemento variável que pode ou não estar presente 21 Redução das ideias às categorias aristotélicas A partir do exemplo de um podcast educacional Substância Podcast em si como objeto de comunicação Quantidade Duração de 45 minutos Qualidade Interativo multimídia com linguagem acessível Relação É transmitido para alunos e exige interação com conteúdo escolar Ação O podcast transmite conhecimento Paixão É escutado pelos alunos Lugar Plataforma de streaming Spotify Deezer etc Tempo Publicação semanal às quartasfeiras Situação Está salvo em nuvem e acessível offline Hábito Usado com fone de ouvido em momento de estudo individual