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Padre Antônio Vieira SERMÕES edição eBooksBrasil Sermões Parte 1 Vieira Padre Antônio 16081697 Fonte digital Ministério da Cultura Fundação BIBLIOTECA NACIONAL Departamento Nacional do Livro wwwbnbr httpwwwbnbrbibvirtualacervo RocketEditionTM eBooksBrasilcom Copyright Domínio Público ÍNDICE Nota Informativa O Autor Sermões Sermão da Sexagéssima 1655 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1672 Sermão do Nascimento da Virgem Maria 1657 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1669 Sermão de Santo Inácio 1669 Sermão da Terceira Dominga da Quaresma 1655 Sermão do Santíssimo Sacramento 1674 Sermão da QuintaFeira da Quaresma 1669 Sermão de Nossa Senhora de Penha de França 1652 Sermão no Sábado Quarto da Quaresma 1652 Sermão das Lágrimas de São Pedro 1669 Sermão do Mandato 1670 Sermão da Bula da S Cruzada 1647 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1673 Segunda Parte Sermão da Rainha Santa Isabel 1674 Sermão da Glória de Maria Mãe de Deus 1644 Sermão da Primeira Dominga da Quaresma 1655 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1670 Notas MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro SERMÕES Parte 1 Padre Antônio Vieira Nota Informativa O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atuação não é negada sua intensa atividade em variadíssimo campo que vai da religião à política à diplomacia É possível que essa notável capacidade de ter participação significativa em áreas múltiplas e por vezes de articulação difícil e implicando grandes distâncias geográficas tenha sido preponderante para a perpetuação de seu nome até nossos dias Poucos têm tido a faculdade de suscitar tanto ódio e tanta admiração poucos tem sido tão lidos repetidos e analisados poucos são tão conhecidos por pessoas de origem social e cultural tão diversificada O acesso amplamente democrático dos Sermões via Biblioteca Virtual da Fundação Biblioteca Nacional permitirá que novas gerações de leitores e igualmente aqueles que já o conheciam parcialmente tenham à disposição uma parte fundamental da obra de Vieira Obra que não se restringe a sua atividade de pregador mas que se volta para o século que viveu quase que por inteiro 16081697 Não se deve entretanto confundir as idéias de autor e obra com uma noção abusivamente totalizante de unidade Não só vida e obra não são continuidades perfeitas que se explicam entre si de modo reflexo e imediato como a obra não constitui uma homogeneidade perfeita Assim é inútil tentar imaginar princípios organizadores únicos externos ou internos à escrita vieiriana que servissem de fundamento ou fórmula geral de compreensão a tudo que o jesuíta deixou Os Sermões que se seguem têm entre outras qualidades a de evidenciar a inconsistência deste imaginário conservador que insiste em não ver o que na teoria da história aponta para a descontinuidade a ruptura ou a complexidade Vieira trata aqui de leque temático excepcional em um número igualmente espantoso de intervenções que se dão em dispersão temporal e geográfica rara Examina freqüentemente por muitas vezes e de modos eventualmente distintos assuntos que tocam à teologia à organização política e social à correta elaboração dos sermões à moral à origem das cores à atuação de outras ordens religiosas enfim a um semnúmero de questões que ora nos surpreendem por seu caráter a nós contemporâneo ora que parecem extravagantes ou distantes Essa variedade e dispersão requerem portanto que sejam observados seus diferentes aspectos em relação aos conjuntos de saber e poder a que se articulam Análise histórica e cultural que evita assim interpretações reducionistas e lineares Características importantes dos sermões de Vieira é sua constante preocupação com os efeitos da pregação na vida social Sermões são ou devem ser como ele próprio diz no sermão da Sexagésima um instrumento de origem divina voltado para a expansão do cristianismo para a correção dos erros dos cristãos para edificação de uma sociedade efetivamente católica para a salvação eterna Muitos sermões e cartas do grande jesuíta evidenciam seu pragmatismo seu amor pela ação e pela construção da cidade celeste na terra Exemplo dessa extrema atenção de Vieira quanto à correta construção da sociedade cristã é sua atividade missionária no Brasil Se admite a escravidão negra especialmente como instrumento indispensável à ocupação cristã das terras e gentes brasileiras não deixa de criticar acerbamente os excessos pecaminosos de ganância luxúria e crueldade dos senhores e de seus aliados Luta então por estabelecer uma ordem social que regulada por documentos legais e por uma política moderada da metrópole seguisse atentamente princípios cristãos Os ataques de Vieira aos senhores de escravos a cobrança de obediência às determinações de Lisboa quanto à liberdade indígena por parte de governadores e capitãesmor a hostilidade de outras ordens religiosas são fatores determinantes para a expulsão de Vieira e outros jesuítas do Brasil E nos ajudam a compreender a complexidade da situação colonial e a rejeitar explicações simplistas que se limitam a apontar sem matizes ou contradições a aliança entre Igreja e colonialismo Seria pois fazer bom uso destes sermões se os tomássemos como feixe de múltiplos caminhos que podem ajudar a compreender melhor mais atenta e complexamente a sociedade brasileira do século XVII e de nossos dias E isto sem perder o prazer da leitura que sua escrita incomparável oferece A presente obra oferecida aos leitores do site da Fundação Biblioteca Nacional é a recente edição dos Sermões de Vieira em sua totalidade publicada em doze volumes na cidade de Erechim Rio Grande do Sul pela Edelbra em 1998 sob a supervisão do professor doutor Luiz Felipe Baêta Neves Tal edição tem como base os Sermões editados por Frederico Ozanam Pessoa de Barros sob a supervisão do padre Antônio Charbel SDB e do professor A Della Nina publicados em vinte e quatro volumes em São Paulo pela Editora das Américas em 1957 Uma das coleções da edição princeps dos sermões de Vieira publicada em Lisboa em quinze tomos entre 1679 e 1748 se encontra atualmente no acervo da Biblioteca Nacional LF Baêta Neves Mônica Giraldo Hortegas O AUTOR Nome literário VIEIRA PADRE ANTÔNIO Nome completo ANTÔNIO VIEIRA Nascimento 06 de Fevereiro de 1608 Lisboa Falecimento 18 de Julho de 1697 Salvador BA BIOGRAFIA Em 1614 com seis anos de idade Antônio Vieira vem com a família para o Brasil destinado à Bahia Aí em 1623 no Colégio dos Jesuítas em Salvador tirou o grau de Mestre em Artes e entrou no noviciado da Companhia de Jesus Em 1633 um ano antes de se ordenar estréia no púlpito na igreja da Conceição BA com o sermão Maria Rosa Mística Em 1634 foi ordenado e lecionou Teologia no Colégio em que se formou Em 1641 embarcou para Portugal onde veio a ser pregador régio conselheiro e embaixador de D João IV Ele foi embaixador junto à França e à Holanda e em Roma Em 1649 sofreu pressão do Santo Ofício Em 1652 foi transferido para as missões jesuíticas do Maranhão e aí prega e batalha em defesa da liberdade dos índios contra os colonos escravocratas Em 1654 ele retorna à metrópole e em 1655 obtida a Lei da Liberdade dos Índios volta ao Maranhão Em 1661 hostilizado pelos colonos expulso do Maranhão com outros jesuítas volta a Lisboa Em 1662 devido à revolta palaciana é desterrado para o Porto Em 1665 é preso pela Inquisição por acreditar na ressurreição de D João e profetizar em Portugal o Quinto Império sob custódia em Coimbra Em 1667 o Santo Ofício lhe cassa a palavra e o condena à reclusão restituindoo à liberdade no ano seguinte Em 1669 parte para Roma onde retoma a carreira de orador insigne no Vaticano e nos saraus literários da Rainha Cristina da Suécia de quem foi confessor De volta a Portugal em 1675 iniciou pouco depois em 1679 a edição de seus Sermões Completos Em 1681 volta ao Brasil definitivamente Foi comprometido com o irmão Vieira Ravasco e o sobrinho no crime do alcaidemor da Bahia porém se reabilita Os Sermões continuaram a ser publicados em Lisboa O êxito de escritor compensa as agruras do homen público Faleceu com 89 anos no Colégio em que estudara e começara sua extraordinária vida de intelectual de pregador e de cidadão do mundo SERMÕES Padre Antônio Vieira AO PRÍNCIPE NOSSO SENHOR Senhor A obediência com que V A foi servido mandarme dar à estampa os meus sermões é a que põe aos pés de V A esta primeira parte deles tão diferentes na matéria e lugares em que foram recitados como foi vária e perpétua a peregrinação de minha vida Se V A por sua benignidade e grandeza se dignar de os passar sob os olhos entenderei que com a Coroa e Estados de ei Rei que está no céu passou também a V A o agrado com que Majestade e o Príncipe D Teodósio enquanto Deus quis os ouviam Mas porque os afetos se não herdam com os impérios ainda será maior a mercê que receberei de V A se estas folhas que ofereço cerradas e mudas se conservarem no mesmo silêncio a que os meus anos me têm reduzido Então ficará livre a rudeza destes discursos da forçosa temeridade com que os ponho à suprema censura do juízo de V A tanto mais para temer por sua agudeza e compreensão quanto o mundo presente o admira sobre todos os que o passado tem conhecido Deus nos guarde e conserve a Real Pessoa de V A por muitos anos para que nas gloriosas ações de V A se desempenhe a nossa esperança do que em tantos dotes da natureza e graça nos está prometendo Colégio de Santo Antão em 21 de julho de 1677 LEITOR Da folha que fica atrás se a leste haverás entendido a primeira razão ou obrigação por que começo a tirar da sepultura estes meus borrões que sem a voz que os animava ainda ressuscitados são cadáveres A esta obrigação que chamei primeira como vassalo se ajuntou outra também primeira como religioso que foi a obediência do maior de meus prelados o Reverendíssimo P João Paulo Oliva PrepósitoGeral de nossa Companhia Se conheces a Eminência desta grãocabeça pela lição de seus escritos como não podes deixar de a conhecer pela fama sendo o oráculo do púlpito Vaticano em quatro sucessivos Pontificados esta só aprovação te bastará para que me comeces a ler com melhor conceito daquele que formarás depois de lido Assim lisonjeia aos pais o amor dos filhos e assim honram os sumamente grandes aos pequenos Sobre estas duas razões acrescentarão outros outras para mim de menos momento E não era a menor delas a corrupção com que andam estampados debaixo de meu nome e traduzidos em diferentes línguas muitos sermões ou supostos totalmente não sendo meus ou sendo meus na substância tomados só de memória e por isso informes ou finalmente impressos por cópias defeituosas e depravadas com que em todos ou quase todos vieram a ser maiores os erros dos que eu conheci sempre nos próprios originais Este conhecimento que ingenuamente te confesso foi a razão total por que nunca me persuadi a sair à luz com semelhante gênero de Escritura de que o mundo está tão cheio Nem me animava a isto posto que muitos mo alegassem o rumo particular que segui sem outro exemplo porque só dos que são dignos de imitação se fizeram os exemplares Se chegar a receber a última forma um livro que tenho ideado com título de Pregador e Ouvinte Cristão nele verás as regras não sei se da arte se do gênio que me guiaram por este novo caminho Entretanto se quiseres saber as cousas por que me apartei do mais seguido e ordinário no sermão de Semen et Verbum Dei as acharás o qual por isso se põe em primeiro lugar como prólogo dos demais Se gostas da afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto não me leias Quando este estilo mais florescia nasceram as primeiras verduras do meu que perdoarás quando as encontrares mas valeume tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido e o começaram também a ser os que reconheceram o seu engano e mal se entendiam a si mesmos O nome de Primeira Parte com que sai este tomo promete outras Se me perguntas quantas serão só te pode responder com certeza o Autor da vida Se esta durar à proporção da matéria a que se acha nos meus papéis bastante é a formar doze corpos desta mesma e ainda maior estatura Em cada um deles irei metendo dois ou três sermões dos já impressos restituidos à sua original inteireza e os que se não reimprimirem entre os demais supõe que não são meus Os que de presente tens nas mãos e mais ainda os seguintes serão todos diversos e não continuados esperando tu porventura que saísse com os que chamas quaresmais santorais e mariais inteiros como se usa Mas o meu intento não é fazer sermonários é estampar os sermões que fiz Assim como foram pregados acaso e sem ordem assim tos ofereço porque hás de saber que havendo trinta e sete anos que as voltas do mundo me arrebataram da minha província do Brasil e me trazem pelas da Europa nunca pude professar o ofício de pregador e muito menos o de pregador ordinário por não ter lugar certo nem tempo já aplicado a outras ocupações em serviço de Deus e da Pátria já impedido de minhas freqüentes enfermidades por ocasião das quais deixei de recitar alguns sermões não poucos que já tinha prevenidos e também agora se darão à estampa Além dessa diversidade geral acharás ainda neles outra maior pelas diversas ocasiões em que os sucessos extraordinários de nossa idade e os das minhas peregrinações por diferentes terras e mares me obrigaram a falar em público E assim uns serão panegíricos outros gratulatórios outros apologéticos outros políticos outros bélicos outros náuticos outros funerais outros totalmente ascéticos mas todos quanto a matéria o permitia e mais do que em tais casos se costuma morais O meu primeiro intento era dividir estas matérias e reduzilas a tomos particulares havendo número em cada uma para justo volume mas como seriam necessários muitos mais dias para esta separação e para estender e vestir os que estão só em apontamentos por não dilatar o teu desejo o qual tanto mais te agradeço quanto menos mo deves irão saindo diante e à desfilada os que estiverem mais prontos E creio que te não será menos grata esta mesma variedade para alternar assim e aliviar o fastio que costuma causar a semelhança Por fim não te quero empenhar com a promessa de outras obras porque se bem entre o pó das minhas memórias ou dos meus esquecimentos se acham como na oficina de Vulcano muitas peças meio forjadas nem elas se podem já bater por falta de forças e muito menos aperfeiçoar e polir por estar embotada a lima com o gosto e gastada como tempo Só sentirei que este me falte para pôr a última mão aos quatro Livros Latinos de Regno Christi in terris consummato por outro nome Clavis Prophetarum em que se abre nova estrada à fácil inteligência dos profetas e tem sido o maior emprego de meus estudos Mas porque estes vulgares são mais universais o desejo de servir a todos lhes dá agora a preferência Se tirares deles algum proveito espiritual que é o que só pretendo rogame a Deus pela vida e se ouvires que sou morto lê o último sermão deste Livro para que te desenganes dela e tomarás o conselho que tenho tomado Deus te guarde Dos sermões que andam impressos com nome do autor em várias línguas para que se conheça quais são próprios e legítimos e quais alheios e supostos Outra vez leitor me hás de ouvir outra vez não só peço mas imploro tua atenção E se te faltar paciência bem a podes aprender da minha pelo que agora direi Saberás que devo grandes obrigações aos impressores principalmente de Espanha No ano de 1662 imprimiram em Madri debaixo de meu nome um livro intitulado Sermones Varios e no ano de 1664 outro a que chamaram Segunda Parte As mais intoleráveis injúrias são aquelas a que se deve agradecimento e tal foi este benefício Muitos dos ditos sermões como já te adverti são totalmente alheios e supostos E os que verdadeiramente são ou tinham sido meus ou por vício dos exemplares ou por outros respeitos não ocultos se estamparam pela maior parte em tal figura que eu mesmo os não conheço E porque de presente ouço que ainda se continua a estampa de outros os quais devem ser mais dignos de sair à luz pois lhes fazem esta honra para que eu a não logre roubada a seus verdadeiros autores e os que os lerem se não enganem com eles e comigo me pareceu no princípio deste primeiro tomo escreverte esta como carta de guia pela qual sem equivocação do nome saibas a quem lês e como Outras diligências tenho feito para que os ditos livros se recolham mas como este favor posto que tão justo é incerto o que só posso entretanto é pôrte diante dos olhos esta lista de todos os sermões que até agora têm chegado à minha notícia distribuídos com a maior distinção e ordem que em matéria tão desordenada e confusa me foi possível SERMÕES ESTAMPADOS DE CONSENTIMENTO DO AUTOR Sermão do Espírito Santo nos anos da Rainha nossa Senhora Sermão ao Te Deum no nascimento da sereníssima Princesa Estes dois sermões se traduziram em francês e se imprimiram em Paris Cinco sermões das Pedras de Davi em língua italiana estampados em Roma Mião e Veneza e depois de traduzidos em castelhano impressos em Madri Saragoça Valência Barcelona e Flandres Sermão das Chagas de São Francisco em italiano estampado em Roma Milão e Veneza Sermão do Beato Estanislou em italiano estampado em Roma Estes dois sermões se traduziram em Castela e Portugal de verbo ad verbum isto é mal e como não deveram pela dissonância das línguas Todos os outros sermões que andam estampados com nome do autor em língua portuguesa castelhana e outras se imprimiram sem consentimento seu nem ainda notícia SERMÕES DA PRIMEIRA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO DE 1662 Sermon del Juizio p 1 Sermon de las lIa gas de Francisco pág 310 primeiro destes sermões tem muitos erros e o segundo muitos mais por culpa dos manuscritos que andam mui viciados e também da tradução que mudou em algumas partes o verdadeiro sentido Sermon de S Juan Baptista y Profession pág 52 Sermon en las Exequias de Doña Maria de Ataide pág 93 Estes dois sermões por serem primeiro estampados em Portugal trazem menos erros No segundo falta um discurso Sermon de S Juan Evangelista pág 118 No fim se diz com razão Hic multa desiderantur porque se não estampou a primeira parte que contem a ocasiao e motivo da matéria demais de outros muitos defeitos Sermon de Jueves Santo pág 137 Sermon de la Exaltación de ia Cruz pág 169 Ambos trocados e truncados e defeituosos em muitos lugares A estes sermões se seguem no mesmo livro três fragmentos de outros com título de Pensamientos predicables sacados de papees dei Autor a saber Discurso sobre las caidades de un ânimo real pág 192 Discurso sobre la buena politica de los tributos pág 204 Discurso sobre la immunidad de la Iglesia pág 2120 primeiro foi tirado do sermão dos anos de ElRei em dia de São José o segundo do sermão de S Antônio nas Cortes o terceiro do sermão de S Roque impressos em Portugal mas nenhum deles é nem merece nome de discurso porque lhes falta o fundamento e intento e a conexão de tudo e lhes sobeja o que acrescentaram os tradutores SERMÕES DA SEGUNDA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO DE 1664 Esta segunda parte contém vinte e dois sermões onze totalmente alheios e onze do autor Uns e outros são os seguintes Sermon de la Feria quarta Miércoies de ceniza pág 83 Sermon para el Miércoles segundo de Quaresma pág 117 Sermon en la Domínica quarta de Quaresma pág 136 Sermon para el Sábbado sexto de Quaresma pág 157 Sermon del Mandato en el Jueves Santo pág 179 Sermon de la Soiedadde la VN S pág 193 Sermon de las Lágrimas de la Madalena pág 208 Sermon de S Ougustin pág 298 Sermon de S Francisco pág 313 Sermon de la Expectación pág 323 Sermon de S Juan Evangelista pág 333 Entram neste número os dois sermões das Lágrimas da Madalena e de Santo Agostinho porque bem que o assunto de ambos seja do autor e também alguns lugares da Escritura no primeiro não há palavra sua e no segundo que só é um fragmento mui poucas SERMÕES DO AUTOR Sermon de la segunda Dominga de Adviento pág 1 Sermon de la Domínica tercera de Adviento pág 24 Sermon de la Domínica quarta de Adviento pág 41 Sermon de la Domínica de Sexagésima pág 56 Sermon en eI primer Domingo de Quaresma pág 98 Sermon en el segundó dia de Pascua de Ressurrección pág 220 Sermon de S Pedro Nolasco pág 253 Sermon de la Visitación de N Senora pág 261 Sermon de S Roque pág 284 Sermon de N Senora de la Gracia pág 348 Sermon para el buen successo de las armas dei Brasil pág 369 Estes sermões reconhece o autor por seus mais pela matéria que pela forma que em muitos está totalmente pervertida e adulterada como se verá quando saírem tirados dos verdadeiros originais O de S Pedro Nolasco é composto de duas ametades diversas e não diz a cabeça com os membros No de S Roque falta a metade no de N S da Graça dois discursos E assim neste como nos demais há muitas coisas diminuídas muitas acrescentadas muitas mudadas não falando em infinitos outros erros ou do texto ou da tradução ou da sentença e sentido natural Vejase e combinese o sermão da Sexagésima que sai neste tomo com ser este entre todos o que se traduziu por exemplar mais correto e com menos defeitos SERMÕES DA TERCEIRA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO 1678 Quando em suposição da graça que pedi e me foi concedida de que os dois tomos antecedentes impressos debaixo do meu nome se recolhessem cuidava eu que com este exemplo se absteriam os impressores de Madri de prosseguir com este injurioso favor eis que aparece em Portugal outro terceiro tomo estampado na mesma corte com nome de Sermones del Padre Antonio Vieira Assim me vendem com boa tenção os fabricadores desta falsa moeda não aparecendo entre ela alguns papéis verdadeiros e legítimos que por roubados se me puderam e deviam restituir É bem verdade que na mesma tela dos discursos que me perfilham reconheço eu alguns remendos da minha pobreza que só para isso servem fora da urdidura em que foram tecidos Deixados porém estes reparos e outros que não é justo me queixe de quem me honra saiba terceira vez o leitor que de dezenove sermões que contém este tomo entrando no mesmo número um problema de S Francisco Xavier somente cinco são meus De uns e outros se põe aqui a lista para maior clareza Sermon de Ceniza pág 1 Sermon de l0S Inimigos pág 21 Sermon de la quarta Dominga de Quaresma pág 49 Sermon del Mandato pág 100 Sermon de las Lágrimas de 5 Pedro pág 161 Sermon de la Venida del Espirito Santo pág 184 Sermon de la Epifania pág 203 Sermon de S Thomé Apostol pág 219 Sermon de S Francisco de Assis pág 241 Sermon de S Antonio de Padua pág 256 Sermon de S Francisco Xavier pág 273 Sermon de una Prosession en dia de S Joseph pág 294 Sermon de S Úrsula y sus companeras pág 325 Question de la fineza deI amor de S Francisco Xavier pág 361 SERMÕES DO AUTOR Sermon del quarto miércoles de Quaresma pág 35 Sermon del Ciego pág 81 Sermon del Mandato pág 119 Sermon del Santíssimo Sacramento pág 136 Sermon de S Thereza de Jesus pág 325 Estes cinco sermões e com mais razão três deles se puderam também contar entre os alheios pela notável corrupção que em alguns se vê foi indústria com que saem deformados Mas enquanto a estampa os não restitui todos à sua origem leiamse nesta o do Cego e dos Zebedeus que já estavam impressos quando cá apareceram em tão dessemelhante figura e verseá a diferença APROVAÇÃO DO MUITO REVERENDO PADRE MESTRE frei João da Madre de Deus provincial da Província de Portugal da Seráfica Ordem de S Francisco pregador de S Alteza Examinador das Ordens Militares etc Senhor Se em alguma ocasião se achou obediência sem merecimento foi nesta em que por mandado de V Alteza vi a primeira parte dos sermões do Padre Antônio Vieira da Sagrada Companhia de Jesus meritíssimo pregador de tal Príncipe por príncipe de todos os pregadores tirados das imperfeições com que os adulteraram as mãos por onde corriam e reduzidos a parto legítimo de seu supremo engenho A censura mais acertada é pôrlhes o nome de seu autor por censura pois sem competência de nenhuma posto que com inveja de todas é respeitado pelo oráculo do púlpito entre as nações do mundo aonde a experiência ou a fama de seus escritos o têm levado nas asas da sua pena Tinha eu um grande desejo de que o autor desse princípio às obras a que anela a nossa bem fundada esperança e promete o seu grande talento para que por benefício da imprensa ficasse imortal na memória dos vindouros a glória que logra a admiração dos presentes e que soubesse o mundo que não tinha que invejar Portugal à erudição latina e à eloqüência grega e muitas vezes me repetia a mim mesmo aquelas palavras de Jó capítulo 31 vers 35 Desiderium meum oudiat omnipotens et librum scribat ipse quijudicat ut in humero meo portem illum et circundem illum quasi coronam mihi Ouça Deus o meu desejo e escreva um livro o mesmo que julga para que eu o traga por estimação nos ombros e por coroa na cabeça Deus com a inspiração e V Alteza com a obediência me cumpriram este desejo Que juiz poderia escrever um livro de sermões senão o Padre Antônio Vieira juiz por antonomásia do ofício em a arte e regras da prédica e de quem todos os pregadores nos contentáramos de ser aprendizes para nos podermos chamar mestres Só se podia duvidar em que sendo o juiz o escritor do livro fosse Jó o coroado com ele e que o livro que haja de ser glória para quem o compôs fosse glória para quem o lesse Mas quem abrir o livro achará solução à dúvida porque em cada um dos sermões que contém verá que podendo só ser glória de quem os escreve são juntamente coroa de quem os lê Não são só glória de quem os fez mas também ventura dos que os têm Ao menos para comigo assim o julga com Jó o meu afeto Coronam mihi Digo pois de cada um destes sermões o que disse Plínio no II livro das suas Epístolas Ep 3 Proemiatur apte narrat aperte pugnat acriter colligit fortiter ornat excelse Começa com energia viva que atrai prossegue com claridade singular que deleita prova com viveza grave que admira recolhe com variedade eloqüente que ensina adorna com excelência sentenciosa que suspende e o que é mais dificultoso Postremo docet deíectat afficit Diverte como se não advertisse ensina como se não recreasse deleita como se não repreendesse aproveita como se não deleitasse Não só não há neles coisa que encontre ao serviço real mas muitas para que V Alteza continue a obediência com que obrigou ao autor a dar à estampa este livro para que saia à luz com os mais trabalhos tão luzidos de seus estudos e engenho para a glória de Deus e honra destes remos Isto sinto isto digo e o que não sei dizer é o que mais sinto Em 5 Francisco de Lisboa 29 de agosto de 1678 Fr João da Madre de Deus LICENÇAS DA RELIGIÃO Eu Luís Álvares da Companhia de Jesus provincial da Província de Portugal por particular concessão que para isso me foi dada de nosso muito reverendo Padre João Paulo Oliva prepósito geral dou licença para que se imprima este livro Primeira Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira da mesma Companhia pregador de S Alteza O qual foi examinado e aprovado por pessoas doutas e graves da mesma Companhia E por verdade dei esta assinada com meu sinal e selada com o selo de meu Ofício Dada em Lisboa aos 18 de setembro de 1677 Luís Álvares DO SANTO OFÍCIO Vistas as informações que se houveram podese imprimir esta Primeira Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus e impressos tornarão para serem conferidos com o original e se dar licença para correrem e sem ela não correrão Lisboa 15 de julho de 1678 Manoel de Magalhães de Meneses Manoel Pimentel de Souza Manoel de Maura Manoel Fr Valério de S Raimundo DO ORDINÁRIO Podese imprimir o primeiro tomo dos Sermões do Reverendo Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus e pregador de S Alteza Lisboa 6 de agosto de 1678 Fr Cristóvão Bispo de Martíria DO PAÇO Podese imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário e depois de impresso tornará a esta mesa para se conferir e taxar e sem isso não correrá em Lisboa 30 de agosto de 1678 Marquês Presidente Magalhães de Menezes Mausinho Carneiro Está conforme com seu original Convento de N Senhora da Graça 15 de setembro de 1679 Fr Diogo de Teive Pode correr em Lisboa 15 de setembro de 1679 Taxam este livro de SERMÕES do Padre Antônio Vieira em mil e duzentos réis Lisboa 18 de setembro de 1679 Marquês R Magalhães de Menezes Roxas Basto Rêgo Lampréia FCB PRIVILÉGIO REAL Eu o príncipe como Regente e Governador dos Remos e Senhorios de Portugal e Algarves faço saber que o Padre Antônio Vieira me representou por sua petição que tinha impresso com as licenças necessárias a Primeira Parte dos Sermões que oferece em um tomo que contém quinze pedindome lhe fizesse mercê conceder privilégio na forma do estilo e visto o que alegou hei por bem que por tempo de dez anos nenhum livreiro nem impressor possa imprimir nem vender o Livro dos Sermões referidos nem mandálo vir de fora do Reino sob pena de perdimento dos volumes que lhe forem achados e de cinqüenta cruzados a metade para a minha câmera e a outra para o acusador Este alvará se cumprirá como nele se contém e valerá posto que seu efeito haja de durar mais de um ano sem embargo da Ordem do Livro 2 tit 40 em contrário E pagou de novos direitos quinhentos e quarenta réis que se carregaram ao tesoureiro deles Pedro Soares à Fol 63 do Liv 4 de sua receita Luis Goudinho de Niza o fez em Lisboa a trinta de setembro de mil seiscentos e setenta e nove José Fagundes Bezerra o fez escrever PRÍNCIPE Marquês MordomoMor Alvará do Padre Antônio Vieira por que V A há por bem de lhe conceder privilégio por tempo de dez anos para nenhum livreiro ou impressor vender nem imprimir ou mandar vir de fora do Reino o Livro dos Sermões de que trata na maneira acima declarada SERMÃO DA SEXAGÉSIMA PREGADO NA CAPELA REAL Este sermão pregou o Autor no ano de 1655 vindo da Missão do Maranhão onde achou as dificuldades que nele se apontam as quais vencidas com novas ordens reais voltou logo para a mesma Missão Semen est Verbum Dei1 I O pregador evangélico será pago não só pelo que semeia como pelas distâncias que percorre e não volta nem mesmo diante das dificuldades que a natureza lhe apresenta as pedras os espinhos as aves o homem Cristo ordenou que se pregasse a todas as criaturas porque há homensbrutos homenspedras e homens homens O que aconteceu com a semente do Evangelho aconteceu com os missionários do Maranhão Não age mal o pregador que volta à busca de melhores instrumentos Este sermão servirá de prólogo aos outros sermões quaresmais E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso ouditório saísse hoje tão desenganado da pregação como vem enganado com o pregador Ouçamos o Evangelho e ouçamolo todo que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe Ecce exiit qui seminat seminare Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina Bem parece este texto dos livros de Deus Não só faz menção do semear mas faz também caso de sair Exiit porque no dia da messe hãonos de medir a semeadura e hãonos de contar os passos O mundo aos que lavrais com ele nem vos satisfaz o que despendeis nem vos paga o que andais Deus não é assim Para quem lavra com Deus até o sair é semear porque também das passadas colhe fruto Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear há outros que semeiam sem sair Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia à China ao Japão os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria Todos terão sua razão mas tudo tem sua conta Aos que têm a seara em casa pagarlhesão a semeadura aos que vão buscar a seara tão longe hãolhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos Ah dia do juízo Ah pregadores Os de cá acharvoseis com mais paço os de lá com mais passos Exiit seminare Mas daqui mesmo vejo que notais e me notais que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu porém não diz que tornou porque os pregadores do Evangelho os homens que professam pregar e propagar a fé é bem que saiam mas não é bem que tornem Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham Nec revertebantur cum ambularent uma vez que iam não tornavam Ez 112 As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito como diz o mesmo texto mas esse espírito tinha impulsos para os levar não tinha regresso para os trazer porque sair para tornar melhor é não sair Assim argúis com muita razão e eu também assim o digo Mas pergunto e se esse semeador Evangélico quando saiu achasse o campo tomado se se armassem contra ele os espinhos se se levantassem contra ele as pedras e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho Começou ele a semear diz Cristo mas com pouca ventura Uma parte do trigo caiu entre espinhos e afogaramno os espinhos Aliud cecidit inter spinas et sim ul exortae spinae suffocaverunt iílud Outra parte caiu sobre as pedras e secouse nas pedras por falta de umidade Aliud cecidit super petram et natum aruil quia non habebat humorem Outra parte caiu no caminho e pisaramno os homens e comeramno as aves Aliud cecidit secus viam ei concuícatum esi ei volucres coeli comederuni illud Ora vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira Todas as criaturas quantas há no mundo se reduzem a quatro gêneros criaturas racionais como os homens criaturas sensitivas como os animais criaturas vegetativas como as plantas criaturas insensíveis como as pedras e não há mais Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador Nenhuma A natureza insensível o perseguiu nas pedras a vegetativa nos espinhos a sensitiva nas aves a racional nos homens E notai a desgraça do trigo que onde só podia esperar razão ali achou maior agravo As pedras secaramno os espinhos afogaramno as aves comeramno e os homens Pisaramno Concuícatum est ab hominibus diz a glosa Quando Cristo mandou pregar os apóstolos pelo mundo disselhes desta maneira Euntes in mundum universum praedicate omni creaturae Ide e pregai a toda a criatura Mc 1615 Como assim Senhor Os animais não são criaturas As árvores não são criaturas As pedras não são criaturas Pois hão os apóstolos de pregar às pedras Hão de pregar aos troncos Hão de pregar aos animais Sim diz S Gregório depois de Santo Agostinho porque como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo muitas delas bárbaras e incultas haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas haviam de achar homenshomens haviam de achar homensbrutos haviam de achar homenstroncos haviam de achar homenspedras E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura que se armem contra eles todas as criaturas Grande desgraça Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui e para onde venho Tudo o que aqui padeceu o trigo padeceram lá os semeadores Se bem advertirdes houve aqui trigo mirrado trigo afogado trigo comido e trigo pisado Trigo mirrado Natum aruil quia non habebat humorem trigo afogado Exortae spinae suifocaveruni iííud trigo comido Volucres coeli comederuni iílud trigo pisado Concuícatum est Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da Missão do Maranhão de doze anos a esta parte Houve missionários afogados porque uns se afogaram na boca do grande rio Amazonas houve missionários comidos porque a outros comeram os bárbaros na Ilha dos Aroás houve missionários mirrados porque tais tornaram os da jornada dos Tocantins mirrados da fome e da doença onde tal houve que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas Vede se lhe quadra bem o Natum aruit quja non habebat humorem E que sobre mirrados sobre afogados sobre comidos ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens Concuícatum est Não me queixo nem o digo Senhor pelos semeadores só pela seara o digo só pela seara o sinto Para os semeadores isto são glórias mirrados sim mas por amor de vós mirrados afogados sim mas por amor de vós afogados comidos sim mas por amor de vós comidos pisados e perseguidos sim mas por amor de vós perseguidos e pisados Agora torna a minha pergunta E que faria neste caso ou que devia fazer o semeador evangélico vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos Deixaria a lavoura Desistiria da sementeira Ficarseia ocioso no campo só porque tinha lá ido Parece que não Mas se tornasse muito depressa a casa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos seria isto desistir Seria isto tornar atrás Não por certo No mesmo texto de Ezequiel com quem argílistes temos a prova Já vimos como dizia o texto que aqueles animais da carroça de Deus quando iam não tornavam Nec revertebantur cum ambuíarent Ez 112 Lede agora dois versos mais abaixo e vereis que diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam à semelhança de um raio ou corisco Ibant et revertebantur in simil itud inem fuíguris coruscantis Ez 114 Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio como diz o texto que quando iam não tornavam Porque quem vai e volta como um raio não torna Ir e voltar como raio não é tornar é ir por diante Assim o fez o semeador do nosso Evangelho Não o desanimau nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda continuou por diante no semear e foi com tanta felicidade que nesta quarta e última parte do trigo se restouraram com vantagem as perdas dos demais nasceu cresceu espigou amadureceu colheu se mediuse achouse que por um grão multiplicara cento Etfecitfructum centuplum Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira Oh que grande exemplo me dá este semeador Dáme grandes esperanças a sementeira porque ainda que se perderam os primeiros trabalhos lograrseão os últimos dáme grande exemplo o semeador porque depois de perder a primeira a segunda e a terceira parte do trigo aproveitou a quarta e última e colheu dela muito fruto Já que se perderam as três partes da vida já que uma parte da idade a levaram os espinhos já que outra parte a levaram as pedras já que outra parte a levaram os caminhos e tantos caminhos esta quarta e última parte este último quartel da vida por que se perderá também Por que não dará fruto Por que não terão também os anos o que tem o ano O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos Por que não terá também o seu outono a vida As flores umas caem outras secam outras murcham outras leva o vento aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto só essas são as venturosas só essas são as discretas só essas são as que duram só essas são as que aproveitam só essas são as que sustentam o mundo Será bem que o mundo morra à fome Será bem que os últimos dias se passem em flores Não será bem nem Deus quer que seja nem há de ser Eis aqui por que eu dizia ao princípio que vindes enganados como pregador Mas para que possais ir desenganados como sermão tratarei nele uma matéria de grande peso e importância Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei de pregar e aos mais que ouvirdes esta quaresma II Semen est verbum Dei O trigo do Evangelho é a palavra de Deus os espinhos as pedras os caminhos e a terra boa os diversos estados do coração do homem Se a palavra de Deus é tão eficaz por que vemos tão pouco fruto O trigo que semeou o pregador evangélico diz Cristo que é a palavra de Deus Os espinhos as pedras o caminho e a terra boa em que o trigo caiu são os diversos corações dos homens Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados com riquezas com delícias e nestes afogase a palavra de Deus As pedras são os corações duros e obstinados e nestes secase a palavra de Deus e se nasce não cria raízes Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do mundo umas que vão outras que vêm outras que atravessam e todas passam e nestes é pisada a palavra de Deus porque ou a desatendem ou a desprezam Finalmente a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração e nestes prende e frutifica a palavra divina com tanta fecundidade e abundância que se colhe cento por um Et fructum fecit centuplum Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso depois que subo ao púlpito Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um e já eu me contentara com que frutificasse um por cento Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem já o mundo fora santo Este argumento da fé fundado na autoridade de Cristo se aperta ainda mais na experiência comparando os tempos passados com os presentes Lede as histórias eclesiásticas e achálaseis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus Tantos pecadores convertidos tanta mudança de vida tanta reformação de costumes os grandes desprezando as riquezas e vaidades do mundo os reis renunciando os cetros e as coroas as mocidades e as gentilezas metendose pelos desertos e pelas covas E hoje Nada disto Nunca na igreja de Deus houve tantas pregações nem tantos pregadores como hoje Pois se tanto se semeia a palavra de Deus como é tão pouco o fruto Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva não há um moço que se arrependa não há um velho que se desengane que é isto Assim como Deus não é hoje menos onipotente assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era Pois se a palavra de Deus é tão poderosa se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão Quero começar pregandome a mim A mim será e também a vós a mim para aprender a pregar a vós para que aprendais a ouvir III Tal deficiência pode provir ou de Deus com a graça ou do pregador com a doutrina ou do ouvinte com entendimento Deus porém não falta ele é o sol e a chuva e o Evangelho não fala das sementes que se perdem por falta das influências do céu A culpa portanto é ou do pregador ou dos ouvintes Mas mesmo os piores ouvintes os espinhos e as pedras hão de aceitar a palavra de Deus Seguese pois que a culpa é do pregador Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um de três princípios ou da parte do pregador ou da parte do ouvinte ou da parte de Deus Para uma alma se converter por meio de um sermão há de haver três concursos há de concorrer o pregador com a doutrina persuadindo há de concorrer o ouvinte com o entendimento percebendo há de concorrer Deus com a graça alumiando Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas olhos espelho e luz Se tem espelho e é cego não se pode ver por falta de olhos se tem espelho e tem olhos e se é de noite não se pode ver por falta de luz Logo há mister luz há mister espelho e há mister olhos Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si e verse a si mesmo Para esta vista são necessários olhos é necessária luz e é necessário espelho O pregador concorre com o espelho que é a doutrina Deus concorre com a luz que é a graça o homem concorre com os olhos que é o conhecimento Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos de Deus do pregador e do ouvinte por qual deles havemos de entender que falta Por parte do ouvinte ou por parte do pregador ou por parte de Deus Primeiramente por parte de Deus não falta nem pode faltar Esta proposição é de fé definida no Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos Do trigo que deitou à terra o semeador uma parte se logrou e três se perderam E por que se perderam estas três A primeira perdeuse porque a afogaram os espinhos a segunda porque a secaram as pedras a terceira porque a pisaram os homens e a comeram as aves Isto é o que diz Cristo mas notai o que não diz Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por cousa do sol ou da chuva A cousa por que ordinariamente se perdem as sementeiras é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos ou porque falta ou sobeja a chuva ou porque falta ou sobeja o sol Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por cousa do sol ou da chuva Porque o sol e a chuva são as influências da parte do céu e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus nunca é por falta do céu sempre é por culpa nossa Deixará de frutificar a sementeira ou pelo embaraço dos espinhos ou pela dureza das pedras ou pelos descaminhos dos caminhos mas por falta das influências do céu isso nunca é nem pode ser Sempre Deus está pronto de sua parte com o sol para aquentar e com a chuva para regar com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer se os nossos corações quiserem Qui solem suum oriri facit super bonos et malos et pluit super justos et injustos2 Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus que se quiserem fazer bons como a negará Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova Quid debui facere vineae meae et nonfeci disse o mesmo Deus por Isaias3 Sendo pois certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus seguese que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes Por qual será Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes mas não é assim Se fora por falta dos ouvintes não fizera a palavra de Deus muito grande fruto mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito não é por falta dos ouvintes Provo Os ouvintes ou são maus ou são bons se são bons faz neles grande fruto a palavra de Deus se são maus ainda que não faça neles fruto faz efeito No Evangelho o temos O trigo que caiu nos espinhos nasceu mas afogaramno Simul exortae spinae suffocaverunt illud O trigo que caiu nas pedras nasceu também mas secouse Et natum aruiL O trigo que caiu na terra boa nasceu e frutificou com grande multiplicação Et natum frcitfiuctum centuplum De maneira que o trigo que caiu na boa terra nasceu e frutificou o trigo que caiu na má terra não frutificou mas nasceu porque a palavra de Deus é tão fecunda que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto faz efeito lançada nos espinhos não frutificou mas nasceu até nos espinhos lançada nas pedras não frutificou mas nasceu até nas pedras Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos E por quê Os espinhos por agudos as pedras por duras Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes porque vêm só a ouvir sutilezas a esperar galantarias a avaliar pensamentos e às vezes também a picar a quem os não pica Aliud cecidit inter spinas O trigo não picou os espinhos antes os espinhos o picaram a ele o mesmo sucede cá Cuidais que o sermão vos picou a vós e não é assim vós sois o que picais o sermão Por isso são maus ouvintes os de entendimentos agudos Mas os de vontades endurecidas ainda são piores porque um entendimento agudo pode se ferir pelos mesmos fios e vencerse uma agudeza com outra maior mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza antes dana mais porque quanto as setas são mais agudas tanto mais facilmente se despontam na pedra Oh Deus nos livre de vontades endurecidas que ainda são piores que as pedras A vara de Moisés abrandou as pedras e não pôde abrandar uma vontade endurecida Percutiens virga bis silicem et egressae sunt aquae largissimae Induratum est cor Phamonis4 E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas seremos mais rebeldes é tanta a força da divina palavra que apesar da agudeza nasce nos espinhos e apesar da dureza nasce nas pedras Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos para que se visse a força do que semeava E tanta a força da divina palavra que sem cortar nem despontar espinhos nasce entre espinhos E tanta a força da divina palavra que sem arrancar nem abrandar pedras nasce nas pedras Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras ouvi a palavra de Deus e tende confiança tomai exemplo nestas mesmas pedras e nestes espinhos Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem Quando o semeador do céu deixou o campo saindo deste mundo as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa5E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa se a palavra de Deus até nas pedras até nos espinhos nasce não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus nem nascer nos corações não é por culpa nem por indisposição dos ouvintes Supostas estas duas demonstrações suposto que o fruto e efeito da palavra de Deus não fica nem por parte de Deus nem por parte dos ouvintes seguese por conseqüência clara que fica por parte do pregador E assim é Sabeis cristãos por que não faz fruto a palavra de Deus Por culpa dos pregadores Sabeis pregadores por que não faz fruto a palavra de Deus Por culpa nossa IV No pregador devese considerar a pessoa a ciência a matéria o estilo a voz A pessoa uma coisa é o semeador outra o que semeia uma coisa é o pregador outra o que prega As ações é que dão ser ao pregador Hoje pregamse palavras e pensamentos antigamente pregavamse palavras e obras De nada vale a funda de Davi sem as pedras Até o Filho de Deus enquanto Deus não é obra de Deus é palavra de Deus No céu Deus é necessariamente amado porque é Deus visto o que não acontece na terra onde é apenas Deus ouvido Os sermões fazem pouco efeito porque não são pregados aos olhos mas aos ouvidos Seguir o exemplo do Batista Os ouvintes e as ovelhas de Jacó Contra esse argumento lá o exemplo do profeta Jonas Mas como em um pregador há tantas qualidades e em uma pregação há tantas leis e os pregadores podem ser culpados em todas em qual consistirá esta culpa No pregador podemse considerar cinco circunstâncias a pessoa a ciência a matéria o estilo a voz A pessoa que é a ciência que tem a matéria que trata o estilo que segue a voz com que fala Todas estas circunstâncias temos no Evangelho Vamolas examinando uma por uma e buscando esta cousa Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus pela circunstância da pessoa Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares e hoje os pregadores são eu e outros como eu Boa razão é esta A definição do pregador é a vida e o exemplo Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador senão ao que semeia Reparai Não diz Cristo saiu a semear o semeador senão saiu a semear o que semeia Ecce exiit qai seminat semiitare Entre o semeador e o que semeia há muita diferença uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja uma coisa é o governador e outra o que governa Da mesma maneira uma coisa é o semeador e outra o que semeia uma coisa é o pregador e outra o que prega O semeador e o pregador é nome o que semeia e o que prega é ação e as ações são as que dão o ser ao pregador Ter nome de pregador ou ser pregador de nome não importa nada as ações a vida o exemplo as obras são as que convertem o mundo O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito qual cuidais que é E o conceito que de sua vida têm os ouvintes Antigamente convertiase o mundo hoje por que se não converte ninguém Porque hoje pregamse palavras e pensamentos antigamente pregavamse palavras e obras Palavras sem obras são tiro sem bala atroam mas não ferem A funda de Davi derrubou o gigante mas não o derrubou com o estalo senão com a pedra infixus est lapis in fronte ejus6 As vozes da harpa de Davi lançavam fora os demônios do corpo de Soul mas não eram vozes pronunciadas com a boca eram vozes formadas com a mão David tollebat citharam et percutiebat manu sua7 Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador O pregar que é falar fazse com a boca o pregar que é semear fazse com a mão Para falar ao vento bastam palavras para falar ao coração são necessárias obras Diz o Evangelho que a palavra de Deus multiplicou cento por um Que quer isso dizer Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras Não Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras Pois palavras que frutificam obras vede se podem ser só palavras Quis Deus converter o mundo e que fez Mandou ao mundo seu Filho feito homem Notai O Filho de Deus enquanto Deus é palavra de Deus não é obra de Deus Gertitum nonfactum O Filho de Deus enquanto Deus e Homem é palavra de Deus e obra de Deus juntamente Verbum caro factum est8 De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do mundo Verbo divino é palavra divina mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas se forem desacompanhadas de obras A razão disto é porque as palavras ouvemse as obras vêemse as palavras entram pelos ouvidos as obras entram pelos olhos e a nossa alma rendese muito mais pelos olhos que pelos ouvidos No céu ninguém há que não ame a Deus nem possa deixar de o amar Na terra há tão poucos que o amem todos o ofendem Deus não é o mesmo e tão digno de ser amado no céu como na terra Pois como no céu obriga e necessita a todos ao amarem e na terra não A razão é porque Deus no céu é Deus visto Deus na terra é Deus ouvido No céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos Videbimus eum sicut est9 na terra entralhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos Fides ex ouditu10 E o que entra pelos ouvidos crêse o que entra pelos olhos necessita Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros Vai um pregador pregando a Paixão chega ao pretório de Pilatos conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros ouve aquilo o ouditório muito atento Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça ouvem todos com a mesma atenção Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nela uma cana por cetro continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes Correse neste passo uma cortina aparece a imagem do Ecce homo eis todos prostrados por terra eis todos a bater nos peitos eis as lágrimas eis os gritos eis os alaridos eis as bofetadas Que é isto Que apareceu de novo nesta igreja Tudo o que descobriu aquela cortina tinha já dito o pregador Já tinha dito daquela púrpura já tinha dito daquela coroa e daqueles espinhos já tinha dito daquele cetro e daquela cana Pois se isto então não fez abalo nenhum como faz agora tanto Porque então era Ecce homo ouvido e agora é Ecce homo visto a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos Sabem padres pregadores porque fazem pouco abalo os nossos sermões Porque não pregamos aos olhos pregamos só aos ouvidos Porque convertia o Batista tantos pecadores Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos o seu exemplo pregava aos olhos As palavras do Batista pregavam penitência Agite poenitentiam Homens fazei penitência Mt 32 e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem que é o retrato da penitência e da aspereza As palavras do Batista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre As palavras do Batista pregavam composição e modéstia e condenavam a soberba e a vaidade das galas e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem vestido de peles de camelo com as cerdas e cilicio à raiz da carne As palavras do Batista pregavam despegos e retiros do mundo e fugir das ocasiões e dos homens e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui o homem que deixou as cortes e as cidades e vive num deserto e numa cova Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra como se hão de converter Jacó punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam e daquii procedia que os cordeiros nasciam manchados11 Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos têm diante dos olhos as nossas manchas como hão de conceber virtudes Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras se uma coisa é o semeador e outra o que semeia como se há de fazer fruto Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas Jon 124 Jonas fugitivo de Deus desobediente contumaz e ainda depois de engolido e vomitado iracundo impaciente pouco caritativo pouco misericordioso e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas desejoso de ver sovertida a Nínive e de a ver soverter com seus olhos havendo nela tantos mil inocentes Contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei a maior corte e o maior reino do mundo e não de homens fiéis senão de gentes idólatras Outra é logo a cousa que buscamos Qual será V O estilo deve ser muito fácil e muito natural Por isso Cristo compara o pregar ao semear uma arte sem arte A coisa está no cair está na queda na cadência no caso O mais antigo pregador o céu semeador de estrelas Devese pregar como quem semeia e não como quem azuleja ou ladrilha Não fazer do sermão um xadrez As palavras devem ser como as estrelas claras e distintas O enigma dos nomes próprios desbatizando os santos O argumento é bom mas há autores que o contradizem Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos Um estilo tão empeçado um estilo tão dificultoso um estilo tão afetado um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza Boa razão é também esta O estilo há de ser muito fácil e muito natural Por isso Cristo comparou o pregar ao semear Exiit qui seminat seminare Compara Cristo o pregar ao semear porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte Nas outras artes tudo é arte na música tudo se faz por compasso na arquitetura tudo se faz por regra na aritmética tudo se faz por conta na geografia tudo se faz por medida O semear não é assim É uma arte sem arte caia onde cair Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho Caía o trigo nos espinhos e nascia Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae Caía o trigo nas pedras e nascia Aliud cecidit super petram et natum Caía o trigo na terra boa e nascia Aliud cecidit in terrwn boiram et natum Ia o trigo caindo e ia nascendo Assim há de ser o pregar Hão de cair as coisas e hão de nascer tão naturais que vão caindo tão próprias que venham nascendo Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa Ver vir os tristes passos da Escritura como quem vem ao martírio uns vêm acorrentados outros vêm arrastados outros vêm estirados outros vêm torcidos outros vêm despedaçados só atados não vêm Há tal tirania Então no meio disto Que bem levantado está aquilo Não está a coisa no levantar está no cair Cecidit Notai uma alegoria própria de nossa língua O trigo do semeador ainda que caiu quatro vezes só de três nasceu para o sermão vir nascendo há de ter três modos de cair Há de cair com queda há de cair com cadência há de cair com caso A queda é para as coisas a cadência para as palavras o caso para a disposição A queda é para as coisas porque hão de vir bem trazidas e em seu lugar hão de ter queda A cadência é para as palavras porque não hão de ser escabrosas nem dissonantes hão de ter cadência O caso é para a disposição porque há de ser tão natural e tão desafetado que pareça caso e não estudo Cecid ii cecidit cecidit Já que falo contra os estilos modernos quero alegar por mimo estilo do mais antigo pregador que houve no mundo E qual foi ele O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuom ejus annuntiat firmamentum diz Davi12Suposto que o céu é pregador deve de ter sermões e deve de ter palavras Se tem diz o mesmo Davi tem palavras e tem sermões e mais muito bem ouvidos Non sunt loquelbe neque sermones quorum nou oudiantur voces eorum13 E quais são estes sermões e estas palavras do céu As palavras são as estrelas os sermões são a composição a ordem a harmonia e o curso delas Vede como diz o estilo de pregar do céu como estilo que Cristo ensinou na terra Um e outro é semear a terra semeada de trigo o céu semeado de estrelas O pregar há de ser como quem semeia e não como quem ladrilha ou azuleja Ordenado mas como as estrelas Stellae manentes in ordine suo Jz 520 Todas as estrelas estão por sua ordem mas é ordem que faz influência não é ordem que faça lavor Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras Se de uma parte está branco da outra há de estar negro se de uma parte está dia da outra há de estar noite se de uma parte dizem luz da outra hão de dizer sombra se de uma parte dizem desceu da outra hão de dizer subiu Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrario Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras Como hão de ser as palavras Como as estrelas As estrelas são muito distintas e muito claras Assim há de ser o estilo da pregação muito distinto e muito claro E nem por isso temais que pareça o estilo baixo as estrelas são muito distintas e muito claras e altíssimas O estilo pode ser muito claro e muito alto tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem O rústico acha documentos nas estrelas para a sua lavoura e o mareante para a sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos De maneira que o rústico e o mareante que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas e o matemático que tem lido quantos escreveram não alcança a entender quanto nelas há Tal pode ser o sermão estrelas que todos as vêem e muito poucos as medem Sim padre porém esse estilo de pregar não é pregar culto Mas fosse Este desventurado estilo que hoje se usa os que o querem honrar chamamlhe culto os que o condenam chamamlhe escuro mas ainda lhe fazem muita honra O estilo culto não é escuro é negro e negro boçal e muito ceirado É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz Assim como há léxicon para o grego e calepino para o latim assim é necessário haver um vocabulário do púlpito Eu ao menos o tomara para os nomes próprios porque os cultos têm batizados os santos e cada autor que alegam é um enigma Assim o disse o Cetro penitente assim o disse o Evangelista Apeles assim o disse a Águia de África o Favo de Claraval a Púrpura de Belém a Boca de Ouro Há tal modo de alegar O Cetro penitente dizem que é Davi como se todos os cetros não foram penitentes o Evangelista Apeles que és Lucas o Favo de Claraval S Bernardo a Águia de Africa Santo Agostinho a Púrpura de Belém S Jerônimo a Boca de Ouro S Crisóstomo E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião e que a Boca de Ouro é Midas Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bartolo e Baldo havíeis de fiar dele o vosso pleito Se houvesse um homem que assim falasse na conversação não o havíeis de ter por néscio Pois o que na conversação seria necedade como há de ser discrição no púlpito Boa me parecia também esta razão mas como os cultos pelo polido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno com Ambrósio com Crisólogo com Leão e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino com Tertuliano com Basfiio de Sclêucia com Zeno Veronense e outros não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios a sua profundidade Qual será logo a cousa de nossa queixa VI A matéria o sermão deve ter um só assunto uma só matéria O semeador semeava trigo e só Se lançasse à terra grande variedade de sementes nada colheria Exemplos do Batista e de Jonas O sermão e a árvore Os ensinamentos dos clássicos pagãos e dos Padres da Igreja Esta porém não é ainda a cousa da falta de frutos da palavra de Deus Será pela matéria ou matérias que tomamos pregadores Usase hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho em que tomam muitas matérias levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias Boa razão é também esta O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes senão uma só Exiit qui seminat seminare semen Semeou uma semente só e não muitas porque o sermão há de ter uma só matéria e não muitas matérias Se o lavrador semeara primeiro trigo e sobre o trigo semeara centeio e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo e sobre o milho semeara cevada que havia de nascer Uma mata brava uma confusão verde Eis aqui o que acontece aos sermões deste gênero Como semeiam tanta vanedade não podem colher coisa certa Quem semeia misturas mal pode colher trigo Se uma nou fizesse um bordo para o Norte outro para o Sul outro para Leste outro para Oeste como poderia fazer viagem Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco Um assunto vai para um vento outro assunto vai para outro vento que se há de colher senão vento O Batista convertia muitos em Judéia mas quantas matérias tomava Uma só matéria Parate viam Domini14 a preparação para o reino de cristo Jonas converteu os ninivitas mas quantos assuntos tomau Um só assunto Adhuc quadraginta dies et Ninive subvertetur15 a subversão da cidade De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora Por isso não pregamos nenhum O sermão há de ser de uma só cor há de ter um só objeto um só assunto uma só matéria Há de tomar o pregador uma só matéria há de definila para que se conheça há de dividila para que se distinga há de provála com a Escritura há de declarála com razão há de confirmála com o exemplo há de amplificála com as cousas com os efeitos com as circunstâncias com as conveniências que se hão de seguir com os inconvenientes que se hão de seguir com os inconvenientes que se devem evitar há de responder às dúvidas há de satisfazer às dificuldades há de impugnar e refutar com toda a força de eloqüência os argumentos contrários e depois disto há de colher há de apertar há de concluir há de persuadir há de acabar Isto é sermão isto é pregar e o que não é isto é falar demais alto Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela Quereis ver tudo isto com os olhos Ora vede Uma árvore tem raízes tem troncos tem ramos tem folhas tem varas tem flores tem frutos Assim há de ser o sermão há de ter raízes fortes e sólidas porque há de ser fundado no Evangelho há de ter um tronco porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria Deste tronco hão de nascer diversos ramos que são diversos discursos mas nascidos da mesma matéria e continuados nela Estes ramos não hão de ser secos senão cobertos de folhas porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras Há de ter esta árvore varas que são a repreensão dos vícios há de ter flores que são as sentenças e por remate de tudo há de ter frutos que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão De maneira que há de haver frutos há de haver flores há de haver varas há de haver folhas há de haver ramos mas tudo nascido e fundado em um só tronco que é uma só matéria Se tudo são troncos não é sermão é madeira Se tudo são ramos não é sermão são maravalhas Se tudo são folhas não é sermão são versas Se tudo são varas não é sermão é feixe Se tudo são flores não é sermão é ramalhete Serem tudo frutos não pode ser porque não há frutos sem árvore Assim que nesta árvore a que podemos chamar Árvore da vida há de haver o proveitoso do fruto o formoso das flores o rigoroso das varas o vestido das folhas o estendido dos ramos mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar senão fundado nas raízes do Evangelho Semimore semen Eis aqui como hão de ser os sermões eis aqui como não são E assim não é muito que se não faça fruto com eles Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente não só com os preceitos de Aristóteles dos Túlios dos Quintilianos mas com a prática observada do principe dos oradores evangélicos S João Crisóstomo de S Basílio Magno S Bernardo S Cipriano e com as famosíssimas orações de S Gregório Nazianzeno mestre de ambas as Igrejas E posto que nestes mesmos Padres como em Santo Agostinho S Gregório e muitos outros se achamos Evangelhos apostilados com nomes de sermões e homilias uma coisa é expor e outra é pregar uma ensinar e outra persuadir E desta última é que eu falo com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio de Pádua e S Vicente Ferrer Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira cousa que busco VII A Ciência será a falta de ciência a cousa da esterilidade da palavra de Deus O pregador deve pregar do seu e não do alheio deve lutar com as próprias armas como Davi que recusou as armas de Soul Cristo encontrou os apóstolos refazendo as suas redescomo as redes a pregação deve ter chumbo e cortiça Na descida do Espírito Santo as línguas de fogo desceram sobre a cabeça dos apóstolos e não sobre as línguas para significar que o que sai da boca pára nos ouvidos mas o que sai pela boca mas da cabeça convence o entendimento Razão por que desceu uma língua sobre cada apóstolo O Batista entretanto contraria esta asserção do autor Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam Depois da sentença de Adão a terra não costuma dar fruto senão a quem come o seu pão como suor do seu rosto Boa razão parece também esta O pregador há de pregar o seu e não o alheio Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu Semen suum Semeou o seu e não o alheio porque o alheio e o furtado não é bom para semear ainda que o furto seja de ciência Comeu Eva o pomo da ciência e queixavame eu antigamente desta nossa Mãe já que comeu o pomo por que lhe não guardou as pevides Não seria bem que chegasse a nós a árvore já que nos chegaram os encargos dela Pois por que o não fez assim Eva Porque o pomo era furtado e o alheio é bom para comer mas não é bom para semear é bom para comer porque dizem que é saboroso não é bom para semear porque não nasce Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa mas esteja certo que se nasce não há de deitar raízes e o que não tem raízes não pode dar frutos Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto porque pregam o alheio e não o seu Semen soum O pregar é entrar em batalha com os vícios e armas alheias ainda que sejam as de Aquiles a ninguém deram vitória16 Quando Davi saiu a campo como gigante ofereceulhe Soul as suas armas mas ele não as quis aceitar Com armas alheias ninguém pode vencer ainda que seja Davi As armas de Soul só servem a Soul as de Davi a Davi e mais aproveita um cajado e uma funda própria que a espada e a lança alheia Pregador que peleja com as armas alheias não hajais medo que derrube gigante Fez Cristo aos apóstolos pescadores de homens que foi ordená los de pregadores E que faziam os apóstolos Diz o texto que estavam Reficientes retia sua Refazendo as redes suas17 Eram as redes dos apóstolos e não eram alheias Notai Retia sua Não diz que eram suas porque as compraram senão que eram suas porque as faziam não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro senão porque lhes custaram o seu trabalho Desta maneira eram as redes suas e porque desta maneira eram suas por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens Com redes alheias ou feitas por mão alheia podemse pescar peixes homens não se podem pescar A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço Como se faz uma rede Do fio e do nó se compõe a malha Quem não enfia nem ata como há de fazer rede E quem não sabe enfiar nem sabe atar como há de pescar homens A rede tem chumbada que vai ao fundo e tem cortiça que nada em cima da água A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo e tem outras mais superficiais e mais leves e governar o leve e o pesado só o sabe fazer quem faz a rede Na boca de quem não faz a pregação até o chumbo é cortiça As razões não hão de ser enxertadas hão de ser nascidas O pregar não é recitar As razões próprias nascem do entendimento as alheias vão pegadas à memória e os homens não se convencem pela memória senão pelo entendimento Veio o Espírito Santo sobre os apóstolos e quando as línguas desciam do céu cuidava eu que lhes haviam de pôr na boca mas elas foramse pôr na cabeça Pois por que na cabeça e não na boca que é o lugar da língua Porque o que há de dizer o pregador não lhe há de sair só da boca hálhe de sair pela boca mas da cabeça O que sai só da boca pára nos ouvidos o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento Ainda têm mais mistério estas línguas do Espírito Santo Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os apóstolos senão cada uma sobre cada um Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis seditque supra singulos eorum18 E por que cada uma sobre cada um e não todas sobre todos Porque não servem todas as línguas a todos senão a cada um a sua Uma língua só sobre Pedro porque a língua de Pedro não serve a André outra língua só sobre André porque a língua de André não serve a Filipe outra língua só sobre Filipe porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu e assim dos mais E se não vede o estilo de cada um dos apóstolos sobre que desceu o Espírito Santo Só de cinco temos escrituras mas a diferença com que escreveram como sabem os doutos é admirável As penas todas eram tiradas das asas daquela Pomba Divina mas o estilo tão diverso tão particular e tão próprio de cada um que bem mostra que era seu Mateus fácil João misterioso Pedro grave Jacó forte Tadeu sublime e todos com tal valentia no dizer que cada palavra era um trovão cada cláusula um raio e cada razão um triunfo Ajuntai a estes cinco S Lucas e S Marcos que também ali estavam e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S João no Apocalipse Locuta sunt septem tonitrua voces suas19 Eram trovões que falavam e dearticulavam as vozes mas estas vozes eram suas Voces suas suas e não alheias como notou Ansberto Non alienas sed suas Enfim pregar o alheio é pregar o alheio e com o alheio nunca se fez coisa boa Contudo eu não me firmo de todo nesta razão porque do grande Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías como notou S Lucas e não com outro nome senão de sermões Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum sicut scriptum est in libto sermonun Jsaiae Pmphetae20 Deixo o que tomau S Ambrósio de S Basilio S Próspero e Beda de Santo Agostinho Teofilato e Eutímio de S João Crisóstomo VIII A voz antigamente a primeira qualidade do pregador era bom peito Como se definiu o Batista O pregador voz que arrazoa e não voz que brada Contudo às vezes valem mais os brados que a razão como no julgamento de Cristo Definição de Isaias contrária ao exemplo de Jesus de Moisés e de outros patriarcas e profetas Conclusão a cousa da falta de fruto dos sermões não está nem na pessoa nem no estilo nem na matéria nem na ciência nem na voz do pregador Será finalmente a cousa que há tanto buscamos a voz com que hoje falam os pregadores Antigamente pregavam bradando hoje pregam conversando Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito E verdadeiramente como o mundo se governa tanto pelos sentidos podem às vezes mais os brados que a razão Boa era também esta mas não a podemos provar com o semeador porque já dissemos que não era oficio de boca Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico nos deu no semeador verdadeiro que é Cristo Tanto que Cristo acabou a parábola diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar Haec dicens clamabat Lc 88 Bradou o Senhor e não arrazoou sobre a parábola porque era tal o ouditório que fiou mais dos brados que da razão Perguntaram ao Batista quem era Respondeu ele Ego vox clainantis in deserto Jo 123 Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto Desta maneira se definiu o Batista A definição do pregador cuidava eu que era voz que arrazoa e não voz que brada Pois porque se definiu o Batista pelo bradar e não pelo arrazoar não pela razão senão pelos brados Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão e tais eram aqueles a quem o Batista pregava Vedeo claramente em Cristo Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam lavou as mãos e disse Ego nullam cousam invenio in homine isto Lc 2314 Eu nenhuma cousa acho neste homem Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora que fosse crucificado At illi magis clamabant crucifigatur Mt 2723 De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados E qual pôde mais Puderam mais os brados que a razão A razão não valeu para o livrar os brados bastaram para o pôr na cruz E como os brados no mundo podem tanto bem é que bradem alguma vez os pregadores bem é que gritem Por isto Isaias chamau aos pregadores nuvens Qui sunt isti qui ut nubes volant21 A nuvem tem relâmpago tem trovão e tem raio relâmpago para os olhos trovão para os ouvidos raio para o coração com o relâmpago alumia com o trovão assombra com o raio mata Mas o raio fere a um o relâmpago a muitos a trovão a todos Assim há de ser a voz da pregador um trovão da céu que assombre e faça tremer o mundo Mas que diremos à oração de Moisés Concresat ut pluvia doctrina meo fluat ut ros elo quium meum Dt 322 Desça minha doutrina como chuva da céu e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo tão celebrado par Isaias Non clamabit neque oudietur vox ejusforis Is 422 Não clamará não bradará mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora E não há dúvida que o praticar familiarmente e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos não só concilia maior atenção mas naturalmente e sem força se insinua entra penetra e se mete na alma Em conclusão que a cousa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus nem é a circunstância da pessoa Qui seminat nem a do estilo Seminare nem a da matéria Semen nem a da ciência Suum nem a da voz Clamabat Moisés tinha fraca voz Amós tinha grosseiro estilo Salomão multiplicava e variava os assuntos Balaão não tinha exemplo de vida o seu animal não tinha ciência e contudo todos estes falando persuadiam e convenciam22 Pois se nenhuma destas razões que discorremos nem todas elas juntas são a cousa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus qual diremos finalmente que é a verdadeira cousa IX A verdadeira razão as palavras dos pregadores são palavras de Deus mas não são a palavra de Deus As Escrituras quando não tomadas em seu verdadeiro sentido podem transformarse em palavras do demônio como no caso da tentação de Cristo Analogia entre o pináculo do Templo e o púlpito Os pregadores e as duas falsas testemunhas do julgamento de Cristo Admoestação de S Paulo Excelência dos comediógrafos pagãos sobre os maus pregadores As palavras que tomei por tema o dizem Semen est Verbum Dei Sabeis cristãos a cousa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações É porque as palavras dos pregadores são palavras mas não são palavras de Deus Falo do que ordinariamente se ouve A palavra de Deus como dizia é tão poderosa e tão eficaz que não só na boa terra faz fruto mas até nas pedras e nos espinhos nasce Mas se as palavras dos pregadores não são palavra de Deus que muito que não tenham a eficácia e os efeitos de palavra de Deus Ventum seminabunt et turbinem colligent Os 87 diz o Espírito Santo Quem semeia ventos colhe tempestades Se os pregadores semeiam vento se o que se prega é vaidade se não se prega a palavra de Deus como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher frutos Mas dirmeeis padre os pregadores de hoje não pregam do Evangelho não pregam das Sagradas Escrituras Pois como não pregam a palavra de Deus Esse é o mal Pregam palavras de Deus mas não pregam a palavra de Deus Qui habet sennonem meum loquatur serutonem meus23 disse Deus por Jeremias As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse são palavra de Deus mas pregadas no sentido que nós queremos não são palavras de Deus antes podem ser palavra do demônio Tentou o demônio a Cristo a que fizesse das pedras pão Respondeulhe o Senhor Non in solo pane vivit homo sed in omni verbo quod procedit de Dei24 Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronômio Vendo o demônio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura levao ao templo e alegando o lugar do salmo novento dizlhe desta maneira Mitte de aeorsum scriptum est enim quia Angelis suis Deus mandavit de te ut custodiant te in omnibus viis tuis SI 9011 Deitate daí abaixo porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços para que te não faças mal De sorte que Cristo defendeuse do diabo com a Escritura e o diabo tentou a Cristo com a Escritura Todas as Escrituras são palavra de Deus pois se Cristo toma a Escritura para se defender do diabo como toma o diabo a Escritura para tentar a Cristo A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido E as mesmas palavras que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus tomadas em sentido alheio são armas do diabo As mesmas palavras que tomadas no sentido em que Deus as disse são defesa tomadas no sentido em que Deus as não disse são tentação Eis aqui a tentação com que então o diabo quis derrubar a Cristo e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo O pináculo do Templo é o púlpito porque é o lugar mais alto dele O diabo tentou a Cristo no deserto tentouo no monte tentouo no Templo no deserto tentouo com a gula no monte tentouo com a ambição no Templo tentouo com as Escrituras mal interpretadas e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja e que em muitas partes tem derrubado dela senão a Cristo a sua fé Dizeime pregadores aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome dizeime estes assuntos inúteis que tantas vezes levantais essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis achastelas alguma vez nos profetas do Testamento Velho ou nos apóstolos e evangelistas do Testamento Novo ou no Autor de ambos os Testamentos Cristo É certo que não porque desde a primeira palavra do Gênesis até a última do Apocalipse não há tal coisa em todas as Escrituras25 Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais como cuidais que pregais a palavra de Deus Mais Nesses lugares nesses textos que alegais para prova do que dizeis é esse o sentido em que Deus os disse É esse o sentido em que os entendemos Padres da Igreja É esse o sentido da mesma gramática das palavras Não por certo porque muitas vezes as tomais pelo que soam e não pelo que significam e talvez nem pelo que soam Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus seguese que não são palavras de Deus E se não são palavras de Deus que nos queixamos de que não façam fruto as pregações Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos e não havemos de querer dizer o que elas dizem E então ver cabecear o ouditório a estas coisas quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir Verdadeiramente não sei de que mais me espante se dos nossos conceitos se dos vossos aplousos Oh que bem levantou o pregador Assim é mas que levantou Um falso testemunho ao texto outro falso testemunho ao santo outro ao entendimento e ao sentido de ambos Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus Se a alguém parecer demasiada a censura ouçame Estava Cristo acusado diante de Caifás e diz o evangelista S Mateus que por fim vieram duas testemunhas Novissime venerunt duo falsi testes Mt 2660 Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que se os judeus destruíssem o Templo ele o tomaria a reedificar em três dias Se lermos o evangelista S João acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o Templo dentro de três dias e isso mesmo é o que referiram as testemunhas como lhes chama o evangelista testemunhas falsas Duo falsi testes O mesmo S João deu a razão Loquebatur de templo corporis sui Jo 221 Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo falava o Senhor do templo místico de seu corpo o qual os judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém ainda que as palavras eram verdadeiras as testemunhas eram falsas Eram falsas porque Cristo as dissera em um sentido e eles as referiram em outro e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas é levantar falso testemunho a Deus é levantar falso testemunho às Escrituras Ah Senhor quantos falsos testemunhos vos levantam Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas o que são imaginações minhas que me não quero excluir deste número Que muito logo que as nossas imaginações e as nossas vaidades e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus Miseráveis de nós e miseráveis dos nossos tempos Pois neles se veio a cumprir a profecia de S Paulo Erit tempus curo sanam doctrinam non sustinebunt 2 Tim 43 Virá tempo diz S Paulo em que os homens não sofrerão a doutrina sã Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes ouribus mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha os quais não façam mais do que adularlhes as orelhas A veritate quidem ouditun avertent ad fabulas outem convertentur fecharão os ouvidos à verdade e abrilosão às fábulas Fábula tem duas significações quer dizer fingimento e quer dizer comédia e tudo são muitas pregações deste tempo São fingimento porque são subtilezas e pensamentos aéreos sem fundamento de verdade são comédia porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabaremse as comédias em Portugal mas não foi assim Não se acabaram mudaramse passaramse do teatro ao púlpito Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam Tomara ter aqui as comédias de Plouto de Terêncio de Sêneca e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo muitos pontos de doutrina moral muito mais verdadeiros e muito mais sólidos do que hoje se ouvem nos púlpitos Grande miséria por certo que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio que nas pregações de um orador cristão e muitas vezes sobre cristão religioso Pouco disse S Paulo em lhes chamar comédia porque muitos sermões há que não são comédia são farsa Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo vestido ou amortalhado em um hábito de penitência que todos mais ou menos ásperos são de penitência e todos desde o dia em que os professamos mortalhas a vista é de horror o nome de reverência a matéria de compunção a dignidade de oráculo o lugar e a expectação de silêncio E quando este se rompeu que é o que se ouve Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajas e em tal lugar cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do céu que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias que com a voz com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios Isto havia de cuidar o estrangeiro E nós que é o que vemos Vemos sair da boca daquele homem assim naqueles trajos uma voz muito afetada e muito polida e logo começar com muito desgarro a quê A motivar desvelos a acreditar empenhos a requintar finezas a lisonjear precipícios a brilhar auroras a derreter Cristais a desmaiar jasmins a toucar primaveras e outras mil indignidades destas Não é isto farsa a mais digna de riso se não fora tanto para chorar Na comédia o rei veste como rei e fala como rei o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio o rústico veste como rústico e fala como rústico mas um pregador vestir como religioso e falar como não o quero dizer por reverência ao lugar Já que o púlpito é teatro e o sermão comédia sequer não faremos bem a figura Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício Assim pregava S Paulo assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos Não louvamos e não admiramos o seu pregar não nos prezamos de seus filhos Pois por que os não imitamos Por que não pregamos como eles pregavam Neste mesmo púlpito pregou S Francisco Xavier neste mesmo púlpito pregou S Francisco de Borja e eu que tenho o mesmo hábito por que não pregarei a sua doutrina já que me falta o seu espírito X Não fazer caso das zombarias dos ouvintes a doutrina que eles desestimam essa é a mais proveitosa é como o trigo que caiu no caminho O pregador é o médico não deve procurar agradar mas curar Diferença entre dois famosos pregadores de Coimbra Esperança de melhores frutos para a quaresma que se inicia Dirmeeis o que a mim me dizem e o que já tenho experimentado que se pregamos assim zombam de nós os ouvintes e não gostam de ouvir Oh boa razão para um servo de Jesus Cristo Zombem e não gostem embora e façamos nosso ofício A doutrina de que eles zombam a doutrina que eles desestimam essa é a que lhes devemos pregar e por isso mesmo porque é a mais proveitosa e a que mais hão mister O trigo que caiu no caminho comeramno as aves Estas aves como explicou o mesmo Cristo são os demônios que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens Venit diabolus et tollit verbum de corde eorum Pois por que não comeu o diabo o trigo que caiu entre os espinhos ou o trigo que caiu nas pedras senão o trigo que caiu no caminho Porque o trigo que caiu no caminho Conculcatum est ab hominibus pisaramno os homens e a doutrina que os homens pisam a doutrina que os homens desprezam essa é a de que o diabo se teme Desses outros conceitos desses outros pensamentos dessas outras subtilezas que os homens estimam e prezam dessas não se teme nem se acoutela o diabo porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão de tirar as almas das unhas Mas daquela doutrina que cai secos viam daquela doutrina que parece comum secas viam daquela doutrina que parece trivial secas viam daquela doutrina que parece trilhada secos viam daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam essa é a de que o demônio se receia e se acoutela essa é a que procura comer e tirar do mundo E por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores e a que deviam buscar os ouvintes Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós zombemonos tanto de suas zombarias como dos seus aplousos Per infamiam et bonan famam diz S Paulo 2 Cor 68 O pregador há de saber pregar com fama e sem fama Mais diz o apóstolo há de pregar com fama e com infâmia Pregar o pregador para ser afamado isso é mundo mas infamado e pregar o que convém ainda que seja com descrédito de sua fama isso é ser pregador de Jesus Cristo Pois o gostarem ou não gostaremos ouvintes Oh que advertência tão digna Que médico há que repare no gosto do enfermo quando trata de lhe dar saúde Sarem e não gostem salvemse e amarguelhes que para isso somos médicos das almas Quais vos parecem que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho Explicando Cristo a parábola diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto Hi sunt qui cum goudio suscipiunt verbum Pois será bem que os outros ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras Não gostem e abrandemse não gostem e quebremse não gostem e frutifiquem Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra Et fructum afferunt in patientia conclui Cristo26 De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar senão com o padecer frutifiquemos nós e tenham eles paciência A pregação que frutifica a pregação que aproveita não é aquela que dá gosto ao ouvinte é aquela que lhe dá pena Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito sem saber parte de si então é a pregação qual convém então se pode esperar que faça fruto Et frucium afferunt in patientia Enfim para que os pregadores saibam como hão de pregar e os ouvintes a quem hão de ouvir acabo com um exemplo de nosso Reino e quase de nossos tempos Fregavam em Coimbra dois famosos pregadores ambos bem conhecidos por seus escritos não os nomeio porque os hei de desigualar Altercouse entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador e como não há juízo sem inclinação uns diziam este outros aquele Mas um lente que entre os mais tinha maior autoridade concluiu desta maneira Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo só direi uma diferença que sempre experimento quando ouço um saio do sermão muito contente do pregador quando ouço outro saio muito descontente de mim Com isto tenho acabado Algum dia vos enganastes tanto comigo que saíeis do sermão muito contentes do pregador agora quisera eu desenganar vos tanto que saíreis muito descontentes de vós Semeadores do Evangelho eis aqui o que devemos pretender dos nossos sermões não que os homens saiam contentes de nós senão que saiam muito descontentes de si não que lhes pareçam bem os nossos conceitos mas que lhes pareçam mal os seus costumes as suas vidas os seus passatempos as suas ambições e enfim todos os seus pecados Contanto que se descontentem de si descontentemse embora de nós Si hominibus placerem Christi servus non essem Gal 1 10 dizia o maior de todos os pregadores S Paulo Se eu contentara aos homens não seria servo de Deus Oh contentemos a Deus e acabemos de não fazer caso dos homens Advirtamos que nesta mesma igreja há tribunas mais altas que as que vemos Spetaculum facti suminus Deo angelis et hominibus27 Acima das tribunas dos reis estão as tribunas dos anjos está a tribuna e o tribunal de Deus que nos ouve e nos há de julgar Que conta há de dar a Deus um pregador no dia do juízo O ouvinte dirá não mo disseram mas o pregador Vae mihi quia tacui Is 65 Ai de mim que não disse o que convinha Não seja mais assim por amor de Deus e de nós Estamos às portas da quaresma que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja e em que ela se arma contra os vícios Preguemos e armemonos todos contra os pecados contra as soberbas contra os ódios contra as ambições contra as invejas contra as cobiças contra as sensualidades Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto Et fecit fructum centuplum SERMÃO DE QUARTAFEIRA DE CINZA EM ROMA NA IGREJA DE S ANTÓNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1672 Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverentis1 I O pó futuro em que nos havemos de converter é visível à vista mas o pó presente o pó que somos como poderemos entender essa verdade A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais ambas grandes ambas tristes ambas temerosas ambas certas Mas uma de tal maneira certa e evidente que não é necessário entendimento para crer outra de tal maneira certa e dificultosa que nenhum entendimento basta para a alcançar Uma é presente outra futura mas a futura vêemna os olhos a presente não a alcança o entendimento E que duas coisas enigmáticas são estas Pulvis es tu in pulverem reverteris Sois pó e em pó vos haveis de converter Sois pó é a presente em pó vos haveis de converter é a futura O pó futuro o pó em que nos havemos de converter vêemno os olhos o pó presente o pó que somos nem os olhos o vêem nem o entendimento o alcança Que me diga a Igreja que hei de ser pó Jn pulverem reverteris não é necessário fé nem entendimento para o crer Naquelas sepulturas ou abertas ou cerradas o estão vendo os olhos Que dizem aquelas letras Que cobrem aquelas pedras As letras dizem pó as pedras cobrem pó e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser tudo pó Vamos para maior exemplo e maior horror a esses sepulcros recentes do Vaticano Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas respondervosão os epitáfios que só as distinguem Aquele pó foi Urbano aquele pó foi Inocêncio aquele pó foi Alexandre e este que ainda não está de todo desfeito foi Clemente De sorte que para eu crer que hei de ser pó não é necessário fé nem entendimento basta a vista Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja regra da fé e da verdade que não só hei de ser pó de futuro senão que já sou pó de presente Pulvis es Como o pode alcançar o entendimento se os olhos estão vendo o contrário É possível que estes olhos que vêem estes ouvidos que ouvem esta língua que fala estas mãos e estes braços que se movem estes pés que andam e pisam tudo isto já hoje é pó Pulvis es Argumento à Igreja com a mesma Igreja Memento homo A Igreja dizme e supõe que sou homem logo não sou pó O homem é uma substância vivente sensitiva racional O pó vive Não Pois como é pó o vivente O pó sente Não Pois como é pó o sensitivo O pó entende e discorre Não Pois como é pó o racional Enfim se me concedem que sou homem Memento homo como me pregam que sou pó Quia pulvis es Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano peçamos àquela Senhora que só foi exceção deste pó se digne de nos alcançar graça Ave Maria II O homem foi pó e há de ser pó logo é pó pois tudo o que vive não é o que é é o que foi e o que há de ser O exemplo da vara de Arão que se converte em serpente Deus se definiu a Moisés como aquele que é o que é porque só ele é o que foi e o que há de ser Se alguém puder afirmar o mesmo de si próprio também é digno de ser adorado Enfim senhores não só havemos de ser pó mas já somos pó Pulvis es Todos os embargos que se podiam pôr contra esta sentença universal são os que ouvistes Porém como ela foi pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos seus descendentes nem admite interpretação nem pode ter dúvida Mas como pode ser Como pode ser que eu que o digo vós que o ouvis e todos os que vivemos sejamos já pó Pulvis es A razão é esta O homem em qualquer estado que esteja é certo que foi pó e há de tornar a ser pó Foi pó e há de tomar a ser pó Logo é pó Porque tudo o que vive nesta vida não é o que é é o que foi e o que há de ser Ora vede No dia aprazado em que Moisés e os magos do Egito haviam de fazer prova e ostentação de seus poderes diante de eI rei Faraó Moisés estava só com Arão de uma parte e todos os magos da outra Deu sinal o rei mandou Moisés a Arão que lançasse a sua vara em terra e converteuse subitamente em uma serpente viva e tão temerosa como aquela de que o mesmo Moisés no deserto se não dava por seguro Fizeram todos os magos o mesmo começam a saltar e a ferver serpentes porém a de Moisés investiu e avançou a todas elas intrépida e senhorilmente e assim vivas como estavam sem matar nem despedaçar comeu e engoliu a todas Refere o caso a Escritura e diz estas palavras Devoravit virga Aaron virgas eorum a vara de Arão comeu e engoliu as dos egípcios Êx 712 Parece que não havia de dizer a vara senão a serpente A vara não tinha boca para comer nem dentes para mastigar nem garganta para engolir nem estômago para recolher tanta multidão de serpentes A serpente em que a vara se converteu sim porque era um dragão vivo voraz e terrível capaz de tamanha batalha e de tanta façanha Pois por que diz o texto que a vara foi a que fez tudo isto e não a serpente Porque cada um é o que foi e o que há de ser A vara de Moisés antes de ser serpente foi vara e depois de ser serpente tornou a ser vara a serpente que foi vara e há de tornar a ser vara não é serpente é vara Virga Aaron E verdade que a serpente naquele tempo estava viva e andava e comia e batalhava e vencia e triunfava mas como tinha sido vara e havia de tornar a ser vara não era o que era era o que fora e o que havia de ser Virga Ah serpentes astutas do mundo vivas e tão vivas Não vos fieis da vossa vida nem da vossa viveza não sois o que cuidais nem o que sois sois o que fostes e o que haveis de ser Por mais que vós vejais agora um dragão coroado e vestido de armas douradas com a couda levantada e retorcida açoitando os ventos o peito inchado as asas estendidas o colo encrespado e soberbo a boca aberta dentes agudos língua trifitricada olhos cintilantes garras e unhas rompentes por mais que se veja esse dragão já tremular na bandeira dos lacedemônios já passear nos jardins das hespéridesjá guardar os tesouros de Midas ou seja dragão volante entre os meteoros ou dragão de estrelas entre as constelações ou dragão de divindade afetada entre as hierarquias se foi vara e há de ser vara é vara se foi terra e há de ser terra é terra se foi nada e há de ser nada é nada porque tudo o que vive neste mundo é o que foi e o que há de ser Só Deus é o que é mas por isso mesmo Por isso mesmo Notai Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Midiã manda o que leve a nova da liberdade ao povo cativo e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava para que lhe dessem crédito respondeu Deus e definiuse Ego sum qui sum Eu sou o que sou Êx 314 Dirás que o que é te manda Qui est misit me ad vos Qui est O que é E que nome ou que distinção é esta Também Moisés é o que é também Faraó é o que é também o povo com que há de falar é o que é Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo como a toma Deus só por sua E se todos são o que são e cada um é o que é por que diz Deus não só como atributo senão como essência própria da sua divindade Ego sum qui sum Eu sou o que sou Excelentemente S Jerônimo respondendo com as palavras do Apocalipse Qui est et qui erat et qui venturus est2 Sabeis por que diz Deus Ego sum qui sum Sabeis por que só Deus é o que é Porque só Deus é o que foi e o que há de ser Deus é Deus e foi Deus e há de ser Deus e só quem é o que foi e o que há de ser é o que é Qui est et qui erat et qui venturus est Ego sum qui sum De maneira que quem é o que foi e o que há de ser é o que é e este é só Deus Quem não é o que foi e o que há de ser não é o que é é o que foi e o que há de ser e esses somos nós Olhemos para trás que é o que fomos Pó Olhemos para diante que é o que havemos de ser Pó Fomos pó e havemos de ser pó Pois isso é o que somos Pulvis es Eu bem sei que também há deuses da terra e que esta terra onde estamos foi a pátria comum de todos os deuses ou próprios ou estrangeiros Aqueles deuses eram de diversos metais estes são de barro ou cru ou mal cozido mas deuses Deuses na grandeza deuses na majestade deuses no poder deuses na adoração e também deuses no nome Ego dixi dii estis Mas se houver que pode haver se houver algum destes deuses que cuide ou diga Ego sum qui sum olhe primeiro o que foi e o que há de ser Se foi Deus e há de ser Deus é Deus eu o creio e o adoro mas se não foi Deus nem há de ser Deus se foi pó e há de ser pó faça mais caso da sua sepultura que da sua divindade Assim lho disse e os desenganou o mesmo Deus que lhes chamau deuses Ego dixi dii estis Vos outem sicut homines moremini3 Quem foi pó e há de ser pó seja o que quiser e quanto quiser é pó Pulvis es III Jó definese como quem foi pó e há de ser pó Abraão definese como quem é pó O texto sagrado não diz convertervoseis em pó mas tornareis a ser pó O que chamamos vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó Pareceme que tenho provado a minha razão e a conseqüência dela Se a quereis ver praticada em próprios termos sou contente Praticaram este desengano dois homens que sabiam mais de nós que nós Abraão e Jó com outro memento como o nosso dizia a Deus Memento quaeso quod sicuit lutum feceris me et in pulverem deduces me Lembraivos Senhor que me fizestes de pó e que em pó me haveis de tornar Jó l0 9 Abraão pedindo licença ou atrevimento para falar a Deus Loquar ad Dominum cum sim pulvis et cinis Falarvosei Senhor ainda que sou pó e cinza Gên 18 27 Já vedes a diferença dos termos que não pode ser maior nem também mais natural ao nosso intento Jó diz que foi pó e há de ser pó Abraão não diz que foi nem que há de ser senão que já é pó Cum sim pulvis et cinis Se um destes homens fora morto e outro vivo falavam muito propriamente porque todo o vivo pode dizer Eu fui pó e hei de ser pó e um morto se falar havia de dizer Eu já sou pó Mas Abraão que disse isto não estava morto senão vivo como Jó e Abraão e Jó não eram de diferente metal nem de diferente natureza Pois se ambos eram da mesma natureza e ambos estavam vivos como diz um que já é pó e outro não diz que o é senão que o foi e que o há de ser Por isso mesmo Porque Jó foi pó e há de ser pó por isso Abraão é pó Em Jó falou a morte em Abraão falou a vida em ambos a natureza Um descreveuse pelo passado e pelo futuro o outro definiuse pelo presente um reconheceu o efeito o outro considerou a cousa um disse o que era o outro declarou o porquê Porque Jó e Abraão e qualquer outro homem foi pó por isso já é pó Fostes pó e haveis de ser pó como Jó Pois já sois pó como Abraão Cum sim pulvis et cinis Tudo temos no nosso texto se bem se considera porque as segundas palavras dele não só contêm a declaração senão também a razão das primeiras Pulvis es sois pó E por quê Porque in pulverem mverteris porque fostes pó e haveis de tomar a ser pó Esta é a força da palavra reverteris a qual não só significa o po que havemos de ser senão também a pó que somos Por isso não diz convertetis convertervoseis em pó senão reverteris tomareis a ser o pó que fostes Quando dizemos que os mortos se convertem em pó falamos impropriamente porque aquilo não é conversão é reversão reverteris É tornar a ser na morte a pó que somos no nascimento é tornar a ser na sepultura a pó que somos no campo damasceno E porque somos pó e havemos de tomar a ser pó Ia pulverem neverteris por isso já somos pó Pulvis es Não é exposição minha senão formalidade do mesmo texto com que Deus pronunciou a sentença de morte contra Adão Donec reverteris in terram de qua sumptus es quia pulvis es Gên 319 Até que tomes a ser a tenra de que fostes formado porque és pó De maneira que a razão e o porquê de sermos pó Qutíapulvis es é porque somos pó e havemos de tomar a ser pó Donec revertaris in terram de qua sumptus es Só parece que se pode opor ou dizer em contrário que aquele donec até que significa tempo em meio entre o pó que somos e o pó que havemos de ser e que neste meio tempo não somos pó Mas a mesma verdade divina que disse donec disse também pulvis es E a razão desta conseqüência está no reverteris porque a reversão com que tornamos a ser a pó que fomos começa circularmente não do último senão do primeiro ponto da vida Notai Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser Uns fazem o círculo maior outros menor outros mais pequeno outros mínimo De utero transíatus ad tumulum4 Mas ou a caminho seja largo ou breve ou brevíssimo como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele e quem quanto mais se aparta mais se chega não se aparta O pó que foi nosso princípio esse mesmo e não outro é o nosso fim e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó quanto mais parece que nos apartamos dele tanto mais nos chegamos para ele o passo que nos aparta esse mesmo nos chega o dia que faz a vida esse mesmo a desfaz E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo sempre somos pó Por isso quando Deus intimau a Adão a reversão ou revolução deste circulo Donec revertaris das premissas pó foste e pó serás tirou por conseqüência pó és Quia pulvis es Assim que desde o primeiro instante da vida até o último nos devemos persuadir e assentar conosco que não só somos e havemos de ser pó senão que já a somos e por isso mesmo Foste pó e hás de ser pó És pó Pulvis es IV Se já somos pó qual a diferença existente entre vivos e mortos Os vivos são o pó levantado pelo vento os mortos são o pó caído Adão frito de pó recebendo o vento do sopro divino tornase vivo Nas Escrituras levantar é viver cair é morrer Assim como distingue Davi há o pó da morte e o pó da vida Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser pois Deus o disse perguntarmeeis e com muita razão em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos Os mortos são pó nós também somos pó em que nos distinguimos uns dos outros Distinguimonos os vivos dos mortos assim como se distingue o pó do pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet Estão essas praças no verão cobertas de pó dá um pédevento levantase o pó no ar e que faz O que fazem as vivos e muitos vivos Não aquieta o pó nem pode estar queda anda corre voa entrapar esta rua sai por aquela já vai adiante já torna atrás tudo enche tudo cobre tudo envolve tudo perturba tudo cega tudo penetra em tudo e por tudo se mete sem aquietar nem sossegar um momento enquanto o vento dura Acalmau o vento cai o pó e onde o vento parou ali fica ou dentro de casa ou na rua ou em cima de um telhado ou no mar ou no rio ou no monte ou na campanha Não é assim Assim é E que pó e que vento é este O pó somos nós Quia pulvis es o vento é a nossa vida Quia ventus es vita mea Jó 77 Deu o vento levantouse o pó parou a vento caiu Deu o vento eis o pó levantado esses são os vivos Parou o vento eis o pó caído estes são os mortos Os vivos pó os mortos pó os vivos pó levantado os mortos pó caído os vivos pó com vento e por isso vãos os mortos pó sem vento e por isso sem vaidade Esta é a distinção e não há outra Nem cuide alguém que é isto metáfora ou comparação senão realidade experimentada e certa Forma Deus de pó aquela primeira estátua que depois se chamau carpa de Adão Assim o diz o texto original Formavit Deus hominem de pulvere terrae Gên 27 A figura era humana e muito primorosamente delineada mas a substância ou a matéria não era mais que pó A cabeça pó o peito pó os braços pó os olhos a boca a língua o coração tudo pó Chegase pais Deus à estátua e que fez Jnspiravit in faciem ejus Assoproua Gên 27 E tanto que o vento do assopro deu no pó Et factus est homo in animam viventem eis o pó levantado e vivo já é homemjá se chama Adão Ah pó se aquietaras e pararas aí Mas pó assoprada e com vento como havia de aquietar Eila abaixa eilo acima e tanto acima e tanto abaixo dando uma tão grande volta e tantas voltas Já senhor do universo já escravo de si mesma já só já acompanhado já nu já vestido já coberta de folhas já de peles já tentada já vencido já homiziada já desterrada já pecador já penitente e para maior penitência pai chorando os filhos lavrando a terra recolhendo espinhos por frutos suando trabalhando lidando fatigando com tantos vaivéns do gosto e da fortuna sempre em uma roda viva Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento O vento durou muito porque naquele tempo eram mais largas as vidas mas alfim parou E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão O que sucede ao pó Assim como o vento a levantou e o sustinha tanto que o vento parou caiu Pó levantado Adão vivo pó caído Adão morto Et mortus est Este foi o primeiro pó e o primeiro vivo e o primeiro condenado à morte e esta é a diferença que há de vivos a mortos e de pó a pó Por isso na Escritura o morrer se chama cair e o viver levantarse O morrer cair Vos outem sicut hominas moriemini et sicut unus de principibus cadetis5 O viver levantarse Adolescens tibi dico surget6 Se levantados vivos se caídos mortos mas ou caídos ou levantados ou mortos ou vivos pó os levantados pó da vida os mortos pó da morte Assim a entendeu e notou Davi e esta é a distinção que fez quando disse Jn pulvere mortis deduxisti me Levastesme Senhor ao pó da morte Não bastava dizer Jn pulverem deduxisti assim como In pulverem reverteris Se bastava mas disse com maior energia Ia pulverem mortis ao pó da morte porque há pó da morte e pó da vida os vivos que andamos em pé somos o pó da vida Pulvis es os mortos que jazem na sepultura são o pó da morte In pulverem reverteris V O memento dos vivos lembrese o pó levantado que há de ser pó caído O vento da vida e o vento da fortuna A estátua de Nabucodonosor o ouro a prata o bronze o ferro tudo se converte em pó de terra Significado do nome de Adão Santo Agostinho e a glória de Roma Roma a caveira do mundo ainda está sujeita a novas destruições Salomão e o espelho do passado e do futuro À vista desta distinção tão verdadeira e deste desengano tão certo que posso eu dizer ao nosso pó senão o que lhe diz a Igreja Memento homo Dois mementos hei de fazer hoje ao pó um memento ao pó levantado outro memento ao pó caído um memento ao pó que somos outro memento ao pó que havemos de ser um memento ao pó que me ouve outra memento ao pó que não pode ouvir O primeiro será o memento dos vivos o segundo o dos mortos Aos vivos que direi eu Diga que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído Levantase o pó com a vento da vida e muito mais como vento da fortuna mas lembrese o pó que o vento da fortuna não pode durar mais que o vento da vida e que pode durar muito menos porque é mais inconstante O vento da vida por mais que cresça nunca pode chegar a ser bonança o vento da fortuna se cresce pode chegar a ser tempestade e tão grande tempestade que se afogue nela o mesmo vento da vida Pó levantado lembrate outra vez que hás de ser pó caído e que tudo há de cair e ser pó contigo Estátua de Nabuco ouro prata bronze ferro lustre riqueza fama poder lembrate que tudo há de cair de um golpe e que então se verá o que agora não queremos ver que tudo é pó e pó de terra Eu não me admiro senhores que aquela estátua em um momento se convertesse toda em pó era imagem de homem isso bastava O que me admira e admirou sempre é que se convertesse como diz o texto em pó de terra In favilíam aestivae areae Dan 235 A cabeça da estátua não era de ouro Pois porque se não converte o ouro em pó de ouro O peito e os braços não eram de prata Porque se não converte a prata em pó de prata O ventre não era de bronze e ademais de ferro Porque se não converte o bronze em pó de bronze e o ferro em pó de ferro Mas o ouro a prata a bronze o ferro tudo em pó de terra Sim Tudo em pó de terra Cuida a ilustre desvanecida que é de ouro e todo esse resplendor em caindo há de ser pó e pó de terra Cuida o rico inchado que é de prata e toda essa riqueza em caindo há de ser pó e pó de terra Cuida o robusto que é de bronze cuida o valente que é de ferro um confiado outro arrogante e toda essa fortaleza e toda essa valentia em caindo há de ser pó e pó de terra In favilíam aestivae areae Senhor pó Nimium ne crede colori7 A pedra que desfez em pó a estátua é a pedra daquela sepultura Aquela pedra é como a pedra do pintor que mói todas as cores e todas as desfaz em pó O negro da sotaina o branco da cota o pavonaço do mantelete o vermelho da púrpura tudo ali se desfaz em pó Adão quer dizer ruber o vermelho porque o pó da campa damasceno de que Adão foi formado era vermelho e parece que escolheu Deus o pó daquela cor tão prezada para nela e com ela desenganar a todas as cores8 Desenganese a escarlata mais fina mais alta e mais coroada e desenganemse dai abaixo todas as cores que todas se hão de moer naquela pedra e desfazer em pó e o que é mais todas em pó da mesma cor Na estátua o ouro era amarelo a prata branca o bronze verde o ferro negro mas tanto que a tocou a pedra tudo ficou da mesma cor tudo da cor da terra In favilíam aestivae areae O pó levantado como vão quis fazer distinções de pó a pó e porque não pôde distinguir a substância pôs a diferença nas cores Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor para que não distinga a vaidade e a fortuna os que fez iguais a razão Ouvi a Santo Agostinho Respice sepulchra et vide quis dominus quis servus quis poupei quis dives Discerne si potes regem a vincto fartem a debili pulchrum a deformit9 Abri aquelas sepulturas diz Agostinho e vede qual é ali o senhor e qual o servo qual é ali o pobre e qual o rico Discerne si potes distinguime ali se podeis o valente do fraco o formoso do feio o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros Distinguilos Conheceilos Não por certo O grande e o pequeno o rico e o pobre o sábio e o ignorante o senhor e o escravo o príncipe e o cavador o alemão e o etíope todos ali são da mesma cor Passa Santo Agostinho da sua África à nossa Roma e pergunta assim Ubi sunt quos ambiebant civium potentatus Ubi insuperabiles imperatores Ubi exercituum duces Ubi satrapae et tyranni10 Onde estão os cônsules romanos Onde estão aqueles imperadores e capitães famosos que desde o Capitólio mandavam o mundo Que se fez dos Césares e dos Pampeus dos Mários e dos Silas dos Cipiões e dos Emílios Os Augustos os Cláudios os Tibérios os Vespasianos os Titos os Trajanos que é deles Nunc omnia pulvis tudo pó Nunc omnia favillae tudo cinza Nunc in poucis versibus eorum memoria est não resta de todos eles outra memória mais que os poucos versos das suas sepulturas Meu Agostinho também esses versos que se liam então já os não há apagaramse as letras comeu o tempo as pedras também as pedras morrem Mors etiam saxis nominibus que veni11 Oh que memento este para Roma Já não digo como até agora lembrate homem que és pó levantado e hás de ser pó caído O que digo é lembrate Roma que és pó levantado e que és pó caído juntamente Olha Roma daqui para baixo e verteás caída e sepultada debaixo de ti olha Roma de lá para cima e verteás levantada e pendente em cima de ti Roma sobre Roma e Roma debaixo de Roma Nas margens do Tibre a Roma que se vê para cima vêse também para baixo mas aquilo são sombras Aqui a Roma que se vê em cima vêse também embaixo e não é engano da vista senão verdade a cidade sobre as ruínas o corpo sobre o cadáver a Roma viva sobre a morta Que coisa é Roma senão um sepulcro de si mesma Embaixo as cinzas em cima a estátua embaixo os ossos em cima o vulto Este vulto esta majestade esta grandeza é a imagem e só a imagem da que está debaixo da terra Ordenou a Providência divina que Roma fosse tantas vezes destruída e depois edificada sobre suas ruínas para que a cabeçada mundo tivesse uma caveira em que se ver Um homem podese ver na caveira de outro homem a cabeça do mundo não se podia ver senão na sua própria caveira Que é Roma levantada A cabeça do mundo Que é Roma caída A caveira do mundo Que são esses pedaços de Termas e Coliseus senão os ossos rotos e truncados desta grande caveira E que são essas colunas essas agulhas desenterradas senão os dentes mais duros desencaixadas dela Oh que sisuda seria a cabeça do mundo se se visse bem na sua caveira Nabuco depois de ver a estátua convertida em pó edificou outra estátua Louco Que é o que te disse o profeta Tu rex es caput Tu rei és a cabeça da estátua an 238 Pois se tu és a cabeça e estás viva olhe a cabeça viva para a cabeça defunta olhe a cabeça levantada para a cabeça caída olhe a cabeça para a caveira Oh se Roma fizesse o que não soube fazer Nabuco Oh se a cabeça da mundo olhasse para a caveira do mundo A caveira é maior que a cabeça para que tenha menos lugar a vaidade e maior matéria a desengana Isto fui e isto sou Nisto parou a grandeza daquele imenso todo de que hoje sou tão pequena parte Nisto parou E a pior é Roma minha se me dás licença para que tu diga que não há de parar só nisto Este destroça e estas ruínas que vês tuas não são as últimas ainda te espera outra antes do fim do mundo profetizada nas Escrituras Aquela Babilônia de que fala S João quando diz na Apocalipse Cedidit cedidit Babylon Apoc 148 é Roma não pela que hoje é senão pela que há de ser Assim o entendem S Jerônimo Santo Agostinho S Ambrósia Tertuliano Ecumênio Cassiadara e outros Padres a quem seguem concordemente intérpretes e teólogos12 Roma a espiritual é eterna porque Portae infrri non praevalebunt adversus eam13 Mas Roma a temporal sujeita está coma as outras metrópoles das monarquias e não só sujeita mas condenada à catástrofe das coisas mudáveis e aos eclipses do tempo Nas tuas ruínas vês a que foste nos teus oráculos lês a que hás de ser e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma pelo que foste e pelo que hás de ser estima a que és Nesta mesma roda natural das coisas humanas descobriu a sabedoria de Salomão dois espelhos recíprocos que podemos chamar do tempo em que se vê facilmente o que foi e o que há de ser Quid est quod fuit Ipsum quod futu rum est Quid est quod factun est Ipsum quod faciendunt est Que é o que foi Aquilo mesma que há de ser Que é o que há de ser Aquilo mesmo que foi EcI 19 Ponde estes dois espelhos um defronte do outro e assim coma os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso assim por reverberação natural e recíproca achareis que no espelho da passada se vê o que há de ser e no do futuro o que foi Se quereis ver o futuro lede as histórias e olhai para o passado se quereis ver o passado lede as profecias e olhai para o futuro E quem quiser ver o presente para ande há de olhar Não o disse Salomão mas eu o direi Diga que olhe juntamente para um e para outro espelho Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente A razão ou conseqüência é manifesta Se no passado se vê o futuro e no futuro se vê o passado seguese que no passado e no futuro se vê o presente porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro Quid est quod fuit Ipsum quod futurum est Quid est quod est Ipsum quod fuit et quod futurum est Roma o que foste isso hás de ser e o que foste e o que hás de ser isso és Vête bem nestes dois espelhos do tempo e conhecerteás E se a verdade deste desengana tem lugar nas pedras quanto mais nos homens No passado foste pó No futuro hás de ser pó Logo no presente és pó Pulvis es VI O memento dos mortos lembrese o pó caído que há de ser pó levantado O pó que foi homem há de tornar a ser homem Jó comparase à fênix e não à águia O autor não teme a morte teme a imortalidade já reconhecida pelos filósofos pagãos Nem vivemos como mortais nem vivemos como imortais A observação de Sêneca Este foi o memento dos vivos acaba com o memento dos mortos Aos vivos disse lembrese o pó levantado que há de ser pó caído Aos mortos digo lembrese o pó caído que há de ser pó levantado Ninguém morre para estar sempre morto par isso a morte nas Escrituras se chama sana Os vivos caem em terra com o sono da morte os mortos jazem na sepultura dormindo sem movimento nem sentido aquele profundo e dilatado letargo mas quando o pregão da trombeta final os chamar o juízo todos hão de acordar e levantarse outra vez Então dirá cada um com Davi Ego dormivi et soporatus sum et esxurrexi14 Lembrese pois o pó caído que há de ser pó levantado Este segundo memento é muito mais terrível que o primeiro Aos vivos disse Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris aos mortos digo com as palavras trocadas mas com sentido igualmente verdadeiro Memento pulvis quia homo es et in hominem reverteris lembrate pó que és homem e que em homem te hás de tornar Os que me ouviram já sabem que cada um é o que foi e o que há de ser Tu que jazes nesta sepultura sabeo agora Eu vivo tu estás morto eu falo tu estás mudo mas assim como eu sendo homem porque fui pó e hei de tornar a ser pó sou pó assim tu sendo pó porque foste homem e hás de tornar a ser homem és homem Morre a águia morre a fênix mas a águia morta não é águia a fênix morta é fênix E porquê A águia morta não é águia porque foi águia mas não há de tornar a ser águia A fênix morta é fênix porque foi fênix e há de tornar a ser fênix Assim és tu que jazes nessa sepultura Morto sim desfeito em cinzas sim mas em cinzas como as da fênix A fênix desfeita em cinzas é fênix porque foi fênix e há de tornar a ser fênix E tu desfeito também em cinzas és homem porque foste homem e hás de tornar a ser homem Não é a proposição nem comparação minha senão da Sabedoria e Verdade eterna Ouçam os mortos a um morto que melhor que todos os vivos conheceu e pregou a fé da imortalidade In nidulo meo morias et sicut phoenix multiplicabo dies meos Morrerei no meu ninho diz Jó e como fênix multiplicarei os meus dias15Os dias somaos a vida diminuios a morte e multiplicaos a ressurreição Por isso Jó como vivo como morto e como imortal se compara à fênix Bem pudera este grande herói pois chamau ninho à sua sepultura compararse à rainha das aves como rei que era Mas falando de si e conosco naquela medida em que todos somos iguais não se comparou à águia senão à fênix porque o nascer águia é fortuna de poucos o renascer fênix é natureza de todos Todos nascemos para morrer e todos morremos para ressuscitar Para nascer antes de ser tivemos necessidade de pai e mãe que nos gerasse para renascer depois de morrer como a fênix o mesmo pó em que se corrompeu e desfez o corpo é o pai e a mãe de que havemos de tornar a ser gerados Putredini dixi pater meus es mater mea et soror mea vermibus16 Sendo pois igualmente certa esta segunda metamorfose como a primeira preguemos também aos mortos como pregou Ezequiel para que nos ouçam mortos e vivos Ez 37 4 Se dissermos aos vivos lembrate homem que és pó porque foste pó e hás de tornar a ser pó brademos com a mesma verdade aos mortos que já são pó lembrate pó que és homem porque foste homem e hás de tornar a ser homem Memento pulvis quia homo es et in hominem reverteris Senhores meus não seja isto cerimônia falemos muito seriamente que o dia é disso Ou cremos que somos imortais ou não Se o homem acaba com o pó não tenho que dizer mas se o pó há de tornar a ser homem não sei o que vos diga nem o que me diga A mim não me faz medo o pó que hei de ser faz medo o que há de ser o pó Eu não temo na morte a morte temo a imortalidade eu não temo hoje o dia de cinza temo hoje o dia de Páscoa porque sei que hei de ressuscitar porque sei que hei de viver para sempre porque sei que me espera uma eternidade ou no céu ou no inferno Scio enim quod Redemptor meus vivit et in novissimo die de terra surrecturus sum17 Scio diz Notai Não diz Creio senão Scio sei Porque a verdade e certeza da imortalidade do homem não só é fé senão também ciência Por ciência e por razão natural a conheceram Platão Aristóteles e tantos outros filósofos gentios18 Mas que importava que o não alcançasse a razão onde está a fé Que importa a autoridade dos homens onde está o testemunho de Deus O pó daquela sepultura está clamando De terra surrecturus sum et rursum circundabor pelle mea et in carne mea videbo Deum meum quem visurus sum ego ipse et oculi mei conspecturi sunt et non alius19 Este homem este corpo estes ossos esta carne esta pele estes olhos este eu e não outro é o que há de morrer Sim mas reviver e ressuscitar à imortalidade Mortal até o pó mas depois do pó imortal Credis hoc Utique Domine20Pois que efeito faz em nós este conhecimento da morte e esta fé da imortalidade Quando considero na vida que se usa acho que não vivemos como mortais nem vivemos como imortais Não vivemos como mortais porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna Não vivemos como imortais porque nos esquecemos tanto da vida eterna como se não houvera tal vida Se esta vida fora imortal e nós imortais que havíamos de fazer senão o que fazemos Estai comigo Se Deus assim como fez um Adão fizera dois e o segundo fora mais sisudo que o nosso nós havíamos de ser mortais como somos e os filhos de outro Adão haviam de ser imortais E estes homens imortais que haviam de fazer neste mundo Isto mesmo que nós fazemos Depois que não coubessem no Paraíso e se fossem multiplicando haviamse de estender pela terra haviam de conduzir de todas as partes do mundo todo o bom precioso e deleitoso que Deus para eles tinha criado haviam de ordenar cidades e palácios quintas jardins fontes delícias banquetes representações músicas festas e tudo aquilo que pudesse formar uma vida alegre e deleitosa Não é isto o que nós fazemos E muito mais do que eles haviam de fazer porque o haviam de fazer com justiça com razão com modéstia com temperança sem luxo sem soberba sem ambição sem inveja e com concórdia com caridade com humanidade Mas como se ririam de nós e como pasmariam de nós aqueles homens imortais Como se ririam das nossas loucuras como pasmariam da nossa cegueira vendonos tão ocupados tão solícitos tão desvelados pela nossa vidazinha de dois dias e tão esquecidos e descuidados da morte como se fôramos tão imortais como eles Eles sem dor nem enfermidade nós enfermos e gemendo eles vivendo sempre nós morrendo eles não sabendo o nome à sepultura nós enterrando uns a outros eles gozando o mundo em paz e nós fazendo demandas e guerras pelo que não havemos de gozar Homenzinhos miseráveis haviam de dizer homenzinhos miseráveis loucos insensatos não vedes que sois mortais Não vedes que haveis de acabar amanhã Não vedes que vos hão de meter debaixo de uma sepultura e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo não haveis de lograr mais que sete pés de terra Que doidice que cegueira é logo a vossa Não sendo como nós quereis viver como nós Assim é Morimur ut mortales vivimus ut imortales morreremos como mortais que somos e vivemos como se fôramos imortais21 Assim o dizia Sêneca gentio à Roma gentia Vós a isto dizeis que Sêneca era um estóico E não é mais ser cristão que ser estóico Sêneca não conhecia a imortalidade da alma o mais a que chegou foi a duvidá la e contudo entendia isto VII Cuidar da vida imortal As duas portas da morte Opinião de Aristóteles A escada do sonho de Jacó No momento da morte não se teme a morte temese a vida Resolução Ora senhores já que somos cristãos já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais saibamos usar da morte e da imortalidade Tratemos desta vida como mortais e da outra como imortais Pode haver loucura mais rematada pode haver cegueira mais cega que empregarme todo na vida que há de acabar e não tratar da vida que há de durar para sempre Cansarme afligirme matarme pelo que forçosamente hei de deixar e do que hei de lograr ou perder para sempre não fazer nenhum caso Tantas diligências para esta vida nenhuma diligência para a outra vida Tanto medo tanto receio da morte temporal e da eterna nenhum temor Mortos mortos desenganai estes vivos Dizeinos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos quando entrastes e saístes pelas portas da morte A morte tem duas portas Qui exaltas me de portis mortis22 Uma porta de vidro por onde se sai da vida outra porta de diamante por onde se entra à eternidade Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte sem poder tornar atrás nem parar nem fugir nem dilatar senão entrar para onde não sabe e para sempre Oh que transe tão apertado Oh que passo tão estreito Oh que momento tão terrível Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis a mais terrível é a morte Disse bem mas não entendeu o que disse Não é terrível a morte pela vida que acaba senão pela eternidade que começa Não é terrível a porta por onde se sai a terrível é a porta por onde se entra Se olhais para cima uma escada que chega até o céu se olhais para baixo um precipício que vai parar no inferno e isto incerto Dormindo Jacó sobre uma pedra viu aquela escada que chegava da terra até o céu e acordou atônito gritando Terribilis est locus iste Oh que terrível lugar é este Gên 1817 E por que é terrível Jacó Non est híc aliud nisi domus Dei et porta caeli Porque isto não é outra coisa senão a porta do céu Pois a portado céu a porta da bemaventurança é terrível Sim Porque é uma porta que se pode abrir e que se pode fechar E aquela porta que se abriu para as cinco virgens prudentes e que se fechou para as cinco néscias Et clousa est janua Mt 2510 E se esta porta é terrível para quem olha só para cima quão terrível será para quem olhar para cima e mais para baixo Se é terrível para quem olha só para o céu quanto mais terrível será para quem olhar para o céu e para o inferno juntamente Este é o mistério de toda a escada em que Jacó não reparou inteiramente como quem estava dormindo Bem viu Jacó que pela escada subiam e desciam anjos mas não reparou que aquela escada tinha mais degraus para descer que para subir para subir era escada da terra até o céu para descer era escada do céu até o inferno para subir era escada por onde subiram anjos a ser bem aventurados para descer era escada por onde desceram anjos a ser demônios Terrível escada para quem não sobe porque perde o céu e a vista de Deus e mais terrível para quem desce porque não só perdeu o céu e a vista de Deus mas vai arder no inferno eternamente Esta é a visão mais que terrível que todos havemos de ver este o lugar mais que terrível por onde todos havemos de passar e por onde já passaram todos os que ali jazem Jacó jazia sobre a pedra ali a pedra jaz sobre Jacó ou Jacó debaixo da pedra Já dormiram o seu sono Dormierunt somnum suum SI 75 6já viram aquela visão já subiram ou desceram pela escada Se estão no céu ou no inferno Deus o sabe mas tudo se averiguou naquele momento Oh que momento torno a dizer oh que passo oh que transe tão terrível Oh que temores oh que aflição oh que angústias Ali senhores não se teme a morte temese a vida Tudo o que ali dá pena é tudo o que nesta vida deu gosto e tudo o que buscamos por nosso gosto muitas vezes com tantas penas Oh que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida Que verdades que desenganos que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas ou não ter nascido ou tornar a nascer de novo para fazer uma vida muito diferente Mas já é tarde já não há tempo Quia tempus non erit amplius Apc 106 Cristãos e senhores meus por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo É certo que todos caminhamos para aquele passo é infalível que todos havemos de chegar e todos nos havemos de ver naquele terrível momento e pode ser que muito cedo Julgue cada um de nós se será melhor arrependerse agora ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar nem seja arrependimento Deus nos avisa Deus nos dá estas vozes não deixemos passar esta inspiração que não sabemos se será a última Se então havemos de desejar em vão começar outra vida comecemola agora Dixi nunc caepi23 Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte Vive assim como quiseras ter vivido quando morras Oh que consolação tão grande será então a nossa se o fizermos assim E pelo contrário que desconsolação tão irremediável e tão desesperada se nos deixarmos levar da corrente quando nos acharmos onde ela nos leva E possível que me condenei por minha culpa e por minha vontade e conhecendo muito bem o que agora experimento sem nenhum remédio É possível que por uma cegueira de que me não quis apartar por um apetite que passou em um momento hei de arder no inferno enquanto Deus for Deus Cuidemos nisto cristãos cuidemos nisto Em que cuidamos e em que não cuidamos Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte Resolução resolução uma vez que sem resolução nada se faz E para que esta resolução dure e não seja como outras tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora De vinte e quatro horas que tem o dia por que se não dará uma hora à triste alma Esta é a melhor devoção e mais útil penitência e mais agradável a Deus que podeis fazer nesta quaresma Tomar uma hora cada dia em que só por só com Deus e conosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho quero acabar deixandovos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora Primeiro quanto tenho vivido Segundo como vivi Terceiro quanto posso viver Quarto como é bem que viva Torno a dizer para que vos fique na memória Quanto tenho vivido Como vivi Quanto posso viver Como é bem que viva Memento hom Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus1 I Por que somente na instituição do sacramento da Eucaristia Jesus usou e por duas vezes o advérbio verdadeiramente O Mistério da Fé por antonomásia tornase para o autor o mistério da razão Os sete inimigos dessa verdade o judeu o gentio o herege o filósofo o político o devoto e o demônio Duas palavras de mais ou uma duas vezes repetida achava eu com fácil reparo na cláusula que propus do Evangelho Vere cibus vere potus Jo 656 Todos os mistérios da fé todos os sacramentos da Igreja são verdadeiros mistérios e verdadeiros sacramentos contudo se atentamente lermos todos os Evangelhos se atentamente advertirmos todas as palavras de Cristo acharemos que em nenhum outro mistério em nenhum outro sacramento senão no da Eucaristia ratificou o Senhor aquela palavra Vere verdadeiramente Instituiu Cristo o sacramento da Penitência e disse Quorum remiseritis peccata remittuntur eis A quem perdoardes os pecados serão perdoados Jo 2023 E não disse vere verdadeiramente perdoados Instituiu o sacramento do Batismo e disse Qui crediderit et baptizatus fuerit salvus erit Quem crer e for batizado será salvo Mc 16 15 Mas não disse vere verdadeiramente salvo Pois se nos outros mistérios se nos outros sacramentos não expressou o soberano Senhor nem ratificou a verdade de seus efeitos no sacramento de seu corpo e sangue por que confirma com tão particular expressão Por que a ratifica uma e outra vez Vere est cibus vere est potus Nas maiores alturas sempre são mais ocasionados os precipícios e como o mistério da Eucaristia é o mais alto de todos os mistérios como o sacramento do corpo e sangue de Cristo é o mais levantado de todos os sacramentos previu o Senhor que havia de achar nele a fraqueza e descobrir a malícia maiores ocasiões de duvidar Haviamno de duvidar os sentidos e haviamno de duvidar as potências haviao de duvidar a ciência e haviao de duvidar a ignorância haviao de duvidar o escrúpulo e haviao de duvidar a curiosidade e onde estava mais ocasionada a dúvida era bem que ficasse mais expressa e mais ratificada a verdade Por isso ratificou a verdade de seu corpo debaixo das espécies da hóstia Caro mea vere est cibus por isso ratificou a verdade de seu sangue debaixo das espécies do cálix Et sanguis meus vere est potus Suposta esta inteligência que não é menos que do Concílio Tridentino e suposta a ocasião desta solenidade instituída para desagravar a verdade deste soberano mistério vendome eu hoje neste verdadeiramente grande teatro da fé determino sustentar contra todos os inimigos dela a verdade infalível daquele vere Vere est cibus vere est potus Estas duas conclusões de Cristo havemos de defender hoje com sua graça E porque os princípios da fé contra aqueles que a negam ou não valem ou não querem que valham ainda que infalíveis pondo de parte o escudo da mesma fé e saindo a campo em tudo com armas iguais argumentarei somente hoje com as da razão O mistério da Eucaristia chamase Mistério da Fé por antonomásia Hic est calix sanguinis mei novi et aeterni testamenti mysterium fidei mas hoje com novidade pode ser que nunca ouvida faremos o Mistério da Fé mistério da razão Sairão a argumentar contra a verdade deste mistério não só os inimigos declarados dela mas todos os que por qualquer via a podem dificultar e serão sete Um judeu um gentio um herege um filósofo um político um devoto e o mesmo demônio Todos estes porão suas dúvidas e a todos satisfará a razão E para que a vitória seja mais gloriosa vencendo a cada um com suas próprias armas ao judeu responderá a razão com as Escrituras do Testamento Velho ao gentio com as suas fábulas ao herege com o Evangelho ao filósofo com a natureza ao político com a conveniência ao devoto com os seus afetos e ao demônio com as suas tentações Temos a matéria Para que seja a glória de nossa santa fé e honra do diviníssimo Sacramento peçamos àquela Senhora que deu a Deus a carne e sangue de que se instituiu este mistério e não é menos interessada na vitória de seus inimigos nos alcance a luz o esforço a graça que para tão nova batalha havemos mister Ave Maria II O primeiro inimigo o judeu Primeira objeção a possibilidade do sacramento Por que Cristo em vez de atenderlhes a dúvida ameaçoulhe a malícia Para os judeus apoiandose nas Escrituras é impossível Deus imenso limitarse ao pão e invisível limitarse ao visível Por que então no deserto pediram a Arão sacerdote que lhes fizesse um Deus visível O que eles pediram nós recebemos Um argumento a nosso favor os judeus adoraram o bezerro e foram castigados nós adoramos a hóstia e não o somos embora os primeiros cristãos tenham sido judeus Se o judeu crê nos outros milagres da Escritura por que não crer na Eucaristia Se crê no poder das palavras de Josué ao sol e de Moisés à rocha por que não acreditar no poder das palavras do sacerdote Para o judeu crer na Eucaristia não lhe é necessária nova fé Cristo ao instituir a Eucaristia não pediu entendimento pediu memória Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus O primeiro inimigo de Cristo que temos em campo contra a verdade daquele sacrossanto mistério é o judeu Judaica perfídia foi como se crê a que deu cousa à dor e ocasião à glória deste grande dia Mas para convencer o judeu e o sujeitar à fé do mistério da Eucaristia não há mister a razão as nossas Escrituras bastamlhe as suas mesmas A primeira e maior dúvida que tiveram os judeus contra a verdade deste sacramento foi a possibilidade dele Quomodo potest hic nobis carnem suam dare ad manducandum Como pode este diziam darnos a comer sua carne Jo 653 Não é possível E Cristo que lhes respondeu Nisi manducaveritis carnem Filii hominis et biberitis ejus sanguinem non habebitis vitam in vobis Jo 654 Se não comerdes a minha carne e beberdes o meu sangue não tereis vida Senhor com licença de vossa sabedoria divina a questão dos judeus era duvidarem da possibilidade deste mistério e as dúvidas postas em presença do mestre soltamse com a explicação e não com o castigo Se estes homens duvidam da possibilidade do mistério dizeilhes como é possível e declarailhes o modo com que pode ser e ficarão satisfeitos Pois por que seguiu Cristo neste caso outro caminho tão diferente e em lugar de lhes dar a explicação os ameaçou com castigo A razão foi porque os que duvidavam neste passo eram os judeus Litigabant ergo judaei Jó 653 e para os judeus conhecerem a possibilidade daquele mistério não é necessária a doutrina de Cristo bastalhes as suas Escrituras e a razão Provo do mesmo texto Litigabant ergo judaei Diz que os judeus litigavam uns contra os outros sobre o caso Se litigavam logo uns diziam que sim outros que não os que diziam que sim davam razões para ser possível os que diziam que não davam razões para o não ser e eram tão eficazes as razões dos que diziam que sim que não teve Cristo necessidade de dar as suas Por isso acudiu à pertinácia como castigo e não à dúvida com a explicação Três coisas concorriam nesta demanda a dúvida do mistério a malícia dos que o negavam e a razão dos que o defendiam E quando Cristo parece que havia de acudir à dúvida com a explicação acudiu à malícia como castigo porque os argumentos dos que negavam o mistério já estavam convencidos na razão dos que o defendiam De maneira que para convencer ao judaísmo da possibilidade do Sacramento da Eucaristia não é necessária a fé nem a doutrina de Cristo basta a fé e a razão dos mesmos judeus E se não desçamos em particular aos impossíveis que neste mistério reconhece ou se lhe representam ao judeu Quomodo potest Diz o judeu que o mistério da Eucaristia na forma em que o cremos os cristãos nem é possível quanto à substância nem quanto ao modo Não é possível quanto à substância porque como diz Moisés no Êxodo e Salomão no terceiro dos Reis Êx 3320 3 Rs 827 Deus é imenso e invisível e o imenso não se pode limitar a tão pequena esfera nem o invisível reduzirse ao que se vê E não é possível quanto ao modo porque como diz Davi nos salmos SI 7118 1354 o autor dos milagres é só Deus e o sujeito dos milagres são as criaturas sendo logo o sacerdote criatura como pode fazer milagres em Deus e converter em corpo de Deus a substância do pão Quomodo potest Para satisfazer a razão as aparências destes dois impossíveis não tem necessidade de ir buscar razões a outros entendimentos porque no entendimento dos mesmos judeus as tem ambas concedidas e convencidas Enquanto Moisés se detinha no monte recebendo a lei cansados os judeus que agora não cansam de esperar disseram assim a Arão Fac nobis Eloim qui nos praecedat Êx 32 1 Arão fazei nos um Deus que possamos ver e seguir e vá diante de nós nesta viagem Notai a palavra Eloim que não só significa Deus senão o Deus verdadeiro que criou o céu e a terra Assim o escreveu Moisés nas primeiras palavras que escreveu In principio creavit Eloim caelum et terram Gên 11 Esta proposta pois dos judeus tinha dois grandes reparos o primeiro que pediram a um homem que lhes fizesse Deus o segundo que pediram isto a Arão e não a outro homem Não sabiam os hebreus que Deus é imenso e que ocupa todo o lugar Pois como lhe pediam que fizesse um Deus que pudesse mudar lugar e ir diante Não sabiam que Deus é invisível e fora da esfera e objeto dos olhos humanos Pois como pediam que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir Tudo isto quer dizer Qui nos praecedat E já que pediam esta grande obra e este grande milagre a um homem não estavam ali outras grandes pessoas cabeças das tribos e governadores do povo e sobre todos não estava Hur nomeado pelo mesmo Moisés por adjunto de Arão enquanto durasse a sua ausência Habetis Aaron et Hur si quid natum fuerit quaestionis referetis ad eos2 Pois por que não pediram a Hur ou a algum dos outros que obrasse essa maravilha senão a Arão e só a Arão Aqui vereis quão racionais são e quão conformes ao entendimento humano os mistérios da fé católica Ainda quando os judeus foram hereges da sua fé não puderam negar a razão da nossa Pediram os judeus a Arão que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir porque entenderam que ainda que Deus era imenso e invisível sem menoscabo de sua grandeza se podia limitar a menor esfera e sem perigo de sua invisibilidade se podia encobrir debaixo de alguma figura e sinal visível E escolheram por ministro desta maravilha a Arão que era sacerdote e não a outrem porque entenderam também que ação tão sobrenatural e milagrosa como pôr a Deus debaixo de espécies criadas não podia competir a outro senão ao sacerdote Eis aqui o que os judeus pediram então e eis aqui o que nós adoramos hoje um Deus debaixo de espécies visíveis posto nelas milagrosamente por ministério dos sacerdotes Os judeus foram os que traçaram o mistério e nós somos os que o gozamos eles fizeram a petição e nós recebemos o despacho eles erraram e nós não podemos errar E em que esteve a diferença Esteve só a diferença em que eles creram que se podia fazer esta maravilha por autoridade humana Fac nobis Eloim qui nos praecedat e nós cremos que só se faz e se pode fazer por autoridade divina Hoc facite in mean commemorationem Lc 2219 E que crendo o judeu que se podia fazer por poder humano não creia que se possa fazer por onipotência divina Quomodo potest Não é isto só erro da fé é cegueira da razão E se não ajudese a razão da experiência Quando os judeus neste caso adoraram o bezerro no mesmo dia os castigou Deus matando mais de vinte mil deles Êx 3218 É assim Logo bem se segue que está Deus na hóstia consagrada Provo a conseqüência Se Deus ponhamos este impossível se Deus não está naquela hóstia todos os cristãos somos idólatras como o foram os judeus quando adoraram o bezerro É certo porque em tal caso reconhecemos divindade onde a não há Pois se somos idólatras por que nos não castiga Deus assim como castigou aos judeus Aperto a dúvida porque os judeus adoraram o bezerro uma só vez os cristãos adoramos a hóstia consagrada há mil e seiscentos anos os judeus adoraram o bezerro em um só lugar os cristãos adoramos o Sacramento em todas as partes do mundo os judeus que adoraram o bezerro eram de uma só nação e os cristãos que adoram o Sacramento são de todas as nações do universo Ainda falta o mais forçoso argumento Muitos dos que crêem e adoram este soberano mistério são hebreus da mesma nação verdadeiramente convertidos à fé o mesmo autor e instituidor dele Cristo Redentor e Senhor nosso era hebreu os primeiros que o adoraram creram e comungaram que foram os apóstolos e os discípulos eram também hebreus e esses mesmos hebreus foram os primeiros sacerdotes que o consagraram e os primeiros pregadores que o levaram promulgaram fundaram e estabeleceram por todo o mundo Pois se Deus é o mesmo e os adoradores deste mistério os mesmos por que os não castiga Deus a eles e a nós como castigou aos antigos hebreus Se adorar aquela hóstia é idolatria como foi adorar o bezerro por que sofre Deus mil e seiscentos anos na face de todo o mundo o que não sofreu um dia em um deserto É porque eles foram verdadeiramente idólatras e nós somos verdadeiros fiéis é porque eles adorando o bezerro reconheciam divindade onde não havia e nós adorando aquela hóstia consagrada reconhecemos divindade onde verdadeiramente está Deus De maneira judeu que com o teu mesmo castigo com as tuas mesmas Escrituras e com o teu mesmo entendimento te está convencendo a razão a mesma verdade que negas e os mesmos impossíveis e dificuldades que finges Mas vamos continuando e discorrendo por todas as dificuldades deste mistério e veremos como os judeus as têm já crido todas nas suas Escrituras O Sacramento da Eucaristia por antonomásia é mistério do Testamento Novo Hic calix novum testamentum est in meo sanguine 1 Cor 1125 Mas de tal modo é mistério novo e do Testamento Novo que todas as suas dificuldades se creram e se tiraram no Velho Grande dificuldade é desse mistério que o pão se converta em corpo de Cristo e o vinho em seu sangue mas se o judeu crê nas suas Escrituras que a mulher de Jó se converteu em estátua se crê que a vara de Moisés se converteu em serpente se crê que o Rio Nilo se converteu em sangue que razão tem para não crer que o pão se converte em corpo de Cristo3 Grande dificuldade é deste mistério que se conservem os acidentes fora do sujeito e que subsistam por si sem o arrimo da substância mas se o judeu crê que a luz que é acidente do sol foi criada ao primeiro dia e o sol que é a substância da luz foi criado ao quarto que razão tem para não crer que existam os acidentes de pão que vemos onde não tem substância de pão que os sustente4 Grande dificuldade é neste mistério que receba tanto o que comungou toda a hóstia como o que recebeu uma pequena parte mas se o judeu crê que quando seus pais iam colher o maná ao campo os que colhiam muito e os que colhiam pouco todos se achavam igualmente com a mesma medida que razão tem para não crer que assim os que recebem parte como os que recebem toda a hóstia comungam todo Cristo5 Finalmente é grande dificuldade neste mistério que todas as maravilhas dele se obrem com quatro palavras e que esteja Deus sujeito e como obediente às do sacerdote mas se o judeu crê que a três palavras de Josué obedeceu Deus e parou o sol e que por não crer Moisés que bastavam palavras para converter a penha em fonte foi condenado a não entrar na Terra de Promissão que razão tem para não crer que bastam as palavras do sacerdote para que Cristo desça e o pão se mude6 De maneira que para o judeu confessar a possibilidade no mistério da Eucaristia em que tropeça não lhe é necessário nova fé nem a nossa bastalhe a velha a sua ajudada só da razão O que creu nas suas Escrituras é o que aqui lhe manda crer a fé só com esta diferença que aqui mandamselhe crer por junto os milagres que lá creu repartidos A seu profeta o disse Memoriam fecit mirabilium suorum escam dedit timentibus se SI 1104 Fez uma memória Deus das suas maravilhas no pão que deu a comer aos que o temem De sorte que a memória é nova mas as maravilhas são antigas lá estavam divididas aqui estão compendiadas Donde é muito para notar acerca do Memoriam fecit que quando Cristo instituiu e se deixou no Sacramento não pediu mais que memória In mei memoriam facietis7E por que não pediu entendimento e vontade Cristo neste mistério pretendia amor e fé para o amor era necessária vontade para a fé entendimento pois por que se cansa em encomendar a memória Porque o lugar onde Cristo instituiu este mistério era Jerusalém e as pessoas diante de quem o instituiu eram os judeus e para Jerusalém e os judeus crerem e amarem este mistério não lhes é necessário discorrerem como entendimento nem aplicarem nova vontade basta que se lembrem com a memória Lembremse do que creram na sua lei e não duvidarão de adorar o que nós cremos na nossa Nenhuma nação do mundo tem mais facilitada a fé do Santíssimo Sacramento que os judeus porque as outras nações para crerem hão mister entendimento e vontade o judeu para crer bastalhe a memória Lembremse e crerão De sorte que a infidelidade nos judeus não é tanto infidelidade quanto esquecimento não crêem porque se não lembram E se basta a memória para crerem quanto mais bastará o discurso e a razão Confessem pois convencidos dela a verdade infalível daquele Vere Vere est cibus vere est potus III Segundo inimigo o gentio O exemplo de Atreu dando a comer as carnes de seu filho Averróis horrorizase com as palavras de Cristo Apoiandose em Tertuliano o autor usa contra os gentios suas próprias fábulas A idolatria é degrau para a fé Vários exemplos tirados da mitologia Nada há de descrédito para nossa religião nessas semelhanças Davi e S Pedro encarecem os mistérios da fé comparandoos com as fábulas pagãs Se o gentio crê na fábula que é arremedo por que não crer na existência verdadeira de suas fábulas Ao gentio também lhe parece impossível este mistério e a maior dificuldade que acha nele são as mesmas palavras de Cristo Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus Como é possível diz o gentio que seja Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue Quando Atreu deu a comer a Tiestes a carne de seu filho diz a gentilidade que fez tal horror este caso à mesma natureza que o sol contra seu curso tornou atrás por não contaminar a pureza de seus raios dando luz a tão abominável mesa8 Como pode logo ser Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue E como podem ser homens os que comem a carne e bebem o sangue a seu próprio Deus Pareceu tão forçoso este argumento tão desumana esta ação a Averróis comentador de Aristóteles que só por não ser de uma lei em que era obrigado a comer seu Deus não quis ser cristão e se deixou morrer gentio Aos argumentos dos gentios prometeu a razão que responderia com as suas fábulas e por que não pareça pouco sólido este novo modo de responder ouçamos primeiro a Tertuliano9 Argumentando contra a gentilidade Tertuliano no seu Apologético disse que as fábulas dos gentios faziam mais criveis os mistérios dos cristãos Parece proposição dificultosa porque as fábulas dos gentios são mentiras são fingimentos os mistérios dos cristãos são verdades infalíveis como logo pode ser que a mentira acrescente crédito à verdade O mesmo Tertuliano se explicou como juízo que costuma Fideliora sunt nostra magisque credenda quorum imagines quoque fidem invenerunt As fábulas dos gentios se bem se consideram são uns arremedos são umas semelhanças são umas imagens ou imaginações dos mistérios dos cristãos E se os gentios deram fé ao arremedado somente dos nossos mistérios por que a não hão de dar ao verdadeiro deles Se creram e adoraram os retratos por que hão de duvidar a crença e negar a adoração aos originais Fideliora magisque credenda quarum imagines quoque fidem invenerunt Com a sua mesma idolatria está convencendo a razão aos gentios para que não possam negar a fé porque nenhuma coisa lhes propõe tão dificultosa de crer a fé que eles a não tenham já concedido e confessado nas suas fábulas Daqui se entenderá a razão e providência altíssima que Deus teve para permitir a idolatria no mundo E qual foi Para que a mesma idolatria abrisse o caminho à fé e facilitasse no entendimento dos homens a crença de tão altos e tão secretos mistérios como os que Deus tinha guardado para a lei da graça Assim como Deus neste mundo criou um homem para pai de todos os homens que foi Adão assim fez outro homem para pai de todos os crentes que foi Abraão A um deu o primado da natureza a outro a primazia da fé Mas esse mesmo Abraão se bem lhe examinarmos a vida acharemos que antes de crer no verdadeiro Deus foi idólatra Thare pater Abrahae et Nachor servierunt que diis alienis10 Pois idólatra Abraão que há de ser pai de todos os crentes Sim e por isso mesmo Permitiu Deus que o pai da fé fosse filho da idolatria porque a idolatria é degrau e sucessão para a fé A porta da fé é a credulidade como dizem os teólogos porque antes de uma coisa ser crida há de julgar o entendimento que é críveI E isto é o que fez a idolatria no mundo vindo diante da fé A idolatria semeou a credibilidade e a fé colheu a crença a idolatria com as fábulas começou a fazer os gentios crédulos e a fé com os mistérios acabou de os fazer crentes Como a fé é crença de coisas verdadeiras e dificultosas a idolatria facilitou o dificultoso e logo a fé introduziu o verdadeiro As repugnâncias que tem a fé e o grande o árduo o escuro e o sobrenatural dos mistérios crer o que não vejo e confessar o que não entendo E estas repuguâncias já a idolatria as tinha vencido nas fábulas quando a fé as convenceu nos mistérios Suposta esta verdade ficam mui fáceis de crer aos gentios quaisquer dificuldades que se lhes representem no Sacramento do Altar porque tudo o que nós cremos neste mistério creram eles primeiro nas suas fábulas Se os gentios criam que no pão comiam um deus e no vinho bebiam outro no pão a Ceres e no vinho a Baco que dificuldade lhes fica para crerem que debaixo das espécies do pão comemos a carne e debaixo das espécies do vinho bebemos o sangue do nosso Deus Se comêssemos a carne e sangue em própria espécie seria horror da natureza mas debaixo de espécies alheias tão naturais como as de pão e vinho nenhum horror faz nem pode fazer ainda a quem tenha a vista tão mimosa e o gosto tão achacado como Averróis Em todos os outros impossíveis que se representam ao gentio neste mistério corre o mesmo Parece impossível neste mistério que a substância do pão passe a ser corpo de Cristo parece impossível que a quantidade do pão ocupe um só lugar na mesma hóstia parece impossível que o mesmo manjar cause morte e cause vida parece impossível que o mesmo Cristo esteja juntamente no céu e mais na terra parece impossível que desça Deus cada dia à terra para se unir com o homem e o levar ao céu e parece finalmente impossível que o homem comendo se transforme com um bocado de homem em Deus Mas se os gentios criam desfaçamos todos esses impossíveis se os gentios criam que Dafne se converteu em louro que Narciso se converteu em flor que Niobe se converteu em mármore Hipomenes em leão e Aretusa em fonte que razão lhes fica para duvidar que o pão se converte em corpo e o vinho em sangue de Cristo11 Se os gentios criam que no corpo de Gerião havia três corpos que razão têm para duvidar que a quantidade do corpo de Cristo e a quantidade do pão sendo duas ocupem um só lugar na mesma hóstia12 Se os gentios criam que a espada de Aquiles feriu a Telefo quando inimigo e que a mesma espada o sarou depois quando reconciliado que razão têm para duvidar que o mesmo corpo de Cristo é morte para os obstinados e vida para os arrependidos13 Se os gentios criam que Hecate estava juntamente no céu na terra e no inferno no céu com e nome de Lua na terra com o nome de Diana no inferno com o nome de proserpina14 que razão têm para duvidar que o mesmo Cristo está no céu e na terra e em diversos lugares dela juntamente Se os gentios criam que Júpiter desceu à terra em chuva de ouro para render e obrigar a Danae e em figura de águia para levar ao céu a Ganímedes15 que razão lhes fica para duvidar que desça Deus à tenra em outros dois disfarces para render e se unir com os homens nesta vida e para os levar ao céu na outra Finalmente se os gentios crêem que Glauco mastigando uma erva mudou a natureza e se converteu em Deus do mar16 que dificuldade têm para crer que por meio daquele manjar soberano mudem os cristãos a natureza e de humanos fiquem divinos Assim que não lhes fica razão nenhuma de duvidar neste mistério aos gentios porque tudo o que se manda crer no Sacramento creram eles primeiro nas suas fábulas Nem cuide alguém que é descrédito de nossa religião parecerem se os seus mistérios com as fábulas dos gentios porque antes esse é o maior crédito da fé e o maior abono da onipotência Louva Davi os mistérios da lei escrita e encareceos por comparação às fábulas dos gentios Narraverunt mihi iniqui jabulationes sed non ut lex tua17 Louva S Pedro os mistérios da lei da graça e encareceos por comparação às fábulas da mesma gentilidade Non enim doctas fabulas secuti notam facimus vobis virtutem et praesentiam Jesu Christi18 Notável comparação e notável conformidade entre as duas maiores colunas da lei velha e nova Se Davi e Pedro querem encarecer os mistérios divinos da fé por comparação à gentilidade por que os não comparam com as histórias dos gentios senão com as suas fábulas A profissão da história é dizer verdade e as histórias dos gentios tiveram feitos heróicos e casos famosíssimos como se vê nas dos gregos e dos romanos Pois por que comparam Davi e Pedro os mistérios sagrados não às histórias senão às fábulas Porque as histórias contam o que os homens fizeram e as fábulas contam o que os homens fingiram e vencer Deus aos homens no que puderam fazer não é argumento de sua grandeza mas vencer Deus aos homens no que souberam fingir esse é o louvor cabal de seu poder Que chegassem as obras de sua onipotência onde chegaram os fingimentos de nossa imaginação que chegasse a onipotência divina obrando onde chegou a imaginação humana fingindo Grande poder Grande sabedoria Grande Deus Isto é o que adoramos e confessamos naquele mistério As fábulas dos gentios foram imaginações fingidas das maravilhas daquele mistério e as maravilhas daquele mistério são existências verdadeiras das suas fábulas Pois se as creram na imaginação por que as hão de negar na realidade Confesse logo o gentio convencido da razão a verdade manifesta daquele Vere e diga Vere est cibus vere est potus IV Terceiro inimigo o herege Objeção Cristo muitas vezes chama pão a este mistério logo é pão É preciso estudarse a terminologia dos livros sagrados As Escrituras dão nome as coisas ou pelo que foram ou pelo que parecem ou pelo que são Segunda objeção se assim é Cristo poderia ter chamado corpo ao pão sem que isto viesse alterar a substância do pão Ainda mais é chamado vide pedra e cordeiro sem ser nenhuma dessas três coisas Razão da palavra vere Distinção entre sentido metafórico e verdadeiro O herege como inimigo doméstico argumenta com o Evangelho e das palavras de Cristo forma armas contra o mesmo Cristo Crê e pretende provar que o que está debaixo das espécies sacramentais é verdadeira substância de pão e argüi desta maneira Cristo no Evangelho chama muitas vezes pão a este mistério Hic est panis qui de caelo descendit Qui manducat hunc panem vivet in aeternum19 Cristo chamalhe pão Logo é pão Provo a conseqüência diz o herege Porque a razão por que os católicos cremos que na hóstia está a substância do corpo de Cristo é porque Cristo disse Hoc est corpus meum Este é meu corpo Mt 2626 Pois se na hóstia está a substância do corpo porque Cristo disse Hoc est corpus meum também na hóstia está a substância de pão porque Cristo disse Hic est panis Responde a razão facilmente Chama Cristo pão à hóstia consagrada sem ser pão porque ainda que não é pão foi pão ainda que não é pão parece pão e para ter o nome não é necessário ser basta haver sido não é necessário ser basta parecer Prova a razão com o mesmo Evangelho Panis quem dabo caro mea est Jo 652 O pão que eu vos hei de dar diz Cristo é meu corpo Pois se é corpo por que lhe chama pão E se lhe chama pão por que lhe chama corpo Chamalhe corpo pelo que é e chamalhe pão pelo que foi Chamalhe corpo pelo que é e chamalhe pão pelo que parece Aquela hóstia não é pão mas foi pão e parece pão e basta o parecer e o haver sido para se chamar assim E por que não possa dizer o herege que isto é explicação humana e nossa veja ele e vejam todos como esta é a frase e o modo de falar de Deus e de suas Escrituras Convertida a vara de Moisés que também se chama de Arão em serpente convertidas também em serpentes as varas dos magos de Faraó investiu a serpente de Moisés as outras e diz assim o texto Virga Aaron devoravit virgas eorum a vara de Moisés comeu as varas dos egípcios Êx 712 Parece que não havia de dizer assim As serpentes dos egípcios não as comeu a vara de Moisés senão a serpente de Moisés porque a vara não podia comer senão a serpente Pois se a serpente foi a que comeu por que se diz que comeu a vara Porque a serpente de Moisés tinha sido vara de Moisés e para a serpente se chamar vara basta que tenha sido vara ainda que seja serpente O mesmo passa neste mistério A hóstia consagrada que agora é corpo de Cristo tinha sido pão e para a hóstia que é corpo de Cristo se chamar pão basta que tenha sido pão ainda que seja corpo de Cristo De sorte que sem ser pão se pode chamar pão não porque o é senão porque o foi Da mesma maneira se chama pão não porque o é senão porque o parece Refere o texto sagrado a criação dos planetas e astros celestes e diz que fez Deus duas luzes ou lumieiras como lhes chama o texto maiores que todas que são o sol e a lua Fecit duo luminaria magna Gên 116 Se consultarmos a astrologia havemos de achar que a maior de todas as luzes celestes é o sol e a menor de todas é a lua Pois se a lua é o menor de todos os astros por que se chama maior Que se chame maior o sol é devido esse nome à sua grandeza mas chamarse maior a lua Sim O sol chamase maior porque o é a lua chamase maior porque o parece Todos os astros são maiores que a lua mas a lua parece maior que todos e basta que pareça maior ainda que o não seja para que se chame maior Assim nem mais nem menos aquela sagrada hóstia não é pão mas parece pão porque ficaram nela os acidentes de pão em que topam os nossos sentidos e basta que pareça pão ainda que o não seja para que se chame pão Hic est panis E se acaso algum herege se não deixar convencer destes exemplos por serem do Testamento Velho que alguns deles negaram como os maniqueus no Testamento Novo temos os mesmos e ainda se pode ver mais claros Nas bodas de Caná de Galiléia quando o arquitriclino ou regente da mesa provou o vinho milagroso diz o evangelista S João que gostou a água feita vinho Gustavit architriclinus aquam vinum factam Jo 29 Na manhã da ressurreição quando as Marias entraram no sepulcro diz o evangelista S Marcos que viram um mancebo vestido de branco assentado à parte direita viderunt juvenem sedentam a dextris coopertum stola candida Mc 165 E este mancebo diz S Mateus que era um anjo Angelus enim Domini descendit de caelo et revolvit lapidem et sedebat super eum20 Nestes dois casos tem o herege ambos os seus reparos o vinho milagroso depois da conversão era verdadeiro vinho o anjo que viram as Marias vestido de branco também era verdadeiro anjo Pois se o vinho verdadeiramente e na substância era vinho como lhe chama ainda água o evangelista S João Aquam vinum factam E se o anjo verdadeiramente e na substância era anjo como lhe chama homem o evangelista S Marcos Viderunt juvenem sedentem Ambos falaram como evangelistas e ambos com verdade e propriedade natural S João chamau água ao vinho porque ainda que já não era água senão vinho tinha sido água Aquam vinum factam E S Marcos chamau ao anjo homem porque ainda que não era homem senão anjo na figura e no trajo parecia homem Juvenem sedentem coopertum stola candida O mesmo acontece na hóstia consagrada e por isso falou dela Cristo como os seus evangelistas falaram do vinho milagroso e do anjo disfarçado Assim como a substância da água se tinha convertido em substância de vinho e contudo se chama água depois da conversão não porque fosse ainda água senão porque o tinha sido assim o corpo de Cristo no Sacramento se chama pão não porque seja pão senão porque o foi E assim como o anjo na substância era verdadeiro anjo e contudo se chama homem porque vinha disfarçado em trajos de homens e parecia homem assim o corpo de Cristo debaixo das espécies sacramentais se chama pão não porque seja pão senão porque parece pão Hic est panis Sim Mas daqui mesmo insta e argumenta o herege que assim como Cristo chamau pão à hóstia sem ser pão assim lhe podia chamar seu corpo sem ser seu corpo Não podia diz a razão e daí mesmo o prova e convence admiravelmente À hóstia podese chamar pão sem ser pão porque foi pão e parece pão mas não se pode chamar corpo de Cristo sem ser corpo de Cristo porque nem o foi nem o parece De um de três modos se pode chamar a hóstia corpo de Cristo ou porque o é ou porque o foi ou porque o parece Porque o parece não porque aquela hóstia depois de consagrada não parece corpo de Cristo Porque o foi não porque aquela hóstia antes de consagrada não foi corpo de Cristo Logo se se chama corpo de Cristo é porque verdadeiramente o é e porque não fica outro verdadeiro sentido em que as palavras de Cristo se possam verificar Contrareplica ainda o herege obstinadamente Cristo na Escritura chamase pedra chamase cordeiro chamase vide Chamase pedra porque assim o disse S Paulo Bibebant de consequente eos petra petra outem erat Christus21 Chamase cordeiro porque assim o disse S João Batista Ecce Agnus Dei ecce qui tollit peccata mundi22 Chamase vide porque o mesmo Cristo o disse falando de si Ego sum vitis vos palmites23 E contudo nem Cristo foi pedra nem parece pedra nem é pedra nem foi cordeiro nem parece cordeiro nem é cordeiro nem foi vide nem parece vide nem é vide logo ainda que o Sacramento se chame pão porque foi pão e parece pão bem se pode chamar corpo de Cristo sem ser Corpo de Cristo assim como se chama pedra cordeiro e vide sem ser vide cordeiro nem pedra Bendita seja Senhor a vossa sabedoria e providência que contra toda a pertinácia e astúcia de tão obstinados inimigos de nossa fé deixastes armada vossa Igreja e defendida a verdade desse soberano mistério com uma só palavra Vere Entre o sentido verdadeiro e o metafórico há esta diferença que o sentido metafórico significa somente semelhança o verdadeiro significa realidade E para tirar toda esta equivocação e qualquer outra dúvida o mesmo instituidor do Sacramento Cristo declarou e repetiu uma e outra vez que o sentido em que falava assim de seu corpo como de seu sangue não era metafórico senão verdadeiro Verdadeiro na significação do corpo Caro mea vere est cibus e verdadeiro na significação do sangue Et sanguis meus vere est potus Se eu dissera a Lutero e Calvino que eram homens claro está que haviam de entender que falava em sentido verdadeiro porque ainda que foram dois monstros tão irracionais eram compostos de alma e corpo Mas se eu lhes dissera que eram duas serpentes venenosas que eram dois lobos do rebanho de Cristo que eram duas pestes do mundo e da Igreja também haviam de entender que falava em sentido metafórico Pois a mesma diferença vai do texto de Cristo a esses textos mal interpretados que eles alegam contra a verdade do Sacramento Chama S Paulo a Cristo pedra porque assim como da pedra do deserto de que ele falava brotou a fonte perene de que bebia o povo de Deus assim de Cristo manaram e manam as fontes da graça de que se alimenta o povo cristão Chama o Batista a Cristo cordeiro porque assim como na lei antiga se sacrificavam cordeiros para aplacar a Deus ofendido assim Cristo figurado neles se sacrificou na cruz pelos pecados do mundo E chamase finalmente o mesmo Cristo vide porque assim como a vara cortada ou separada da vide não pode dar fruto assim os que se separam de Cristo e de sua Igreja como os hereges não podem fazer obra boa nem meritória Deste modo é Cristo pedra é cordeiro é vide mas não por realidade senão por semelhança e não em sentido verdadeiro senão no metafórico Porém quando o mesmo Senhor fala de seu corpo e de seu sangue como o corpo e sangue de sua sagrada humanidade era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue e não metafórico também o sentido em que fala não pode ser metafórico senão verdadeiro E se não respondam estes dois heresiarcas e digamme se o corpo de Cristo que foi imolado na cruz e o sangue que foi derramado no Calvário era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue de Cristo Ambos eles confessam que sim pois esse mesmo corpo que foi imolado na cruz éo que nos deu Cristo a comer na hóstia e por isso disse Hoc est corpus meum quod pro vobis tradetur24 E esse mesmo sangue que foi derramado no Cal vário é o que nos deu a beber no cálix e por isso disse Hic est calix sanguinis mei Qui pro vobis effundentur25 Emudeça logo o herege tape a boca ímpia e blasfema e creia e confesse com as mãos atadas a verdade daquele vere Vere est cibus vere est potus V Quarto inimigo o filósofo O filósofo usa contra a Eucaristia argumentos tirados da natureza e com a mesma natureza mestra da fé replica o autor I objeção as substâncias das coisas são imutáveis Resposta na nutrição do corpo humano os alimentos se transformam em substância de carne e sangue em menos de oito horas o que a natureza faz devagar Deus faz depressa e nisto é que está o milagre II objeção o todo é maior que a parte e a parte menor que o todo logo Cristo não pode estar todo em uma parte da hóstia Prova em contrário o espelho quebrado Comparação de Davi III objeção o entendimento julga pelos sentidos Mas se a vista se engana nas obras da natureza como o arcoíris como não se enganar nas que são sobre a natureza O filósofo que é gente tão cega pela presunção como os que até agora vimos pela infidelidade cuida que tem fortíssimos argumentos contra este mistério e diz que não pode ser verdadeiro por muitos princípios Primeiro porque as naturezas e substâncias das coisas são imutáveis logo o que era substância de pão não se pode converter em substância de Cristo Segundo porque o todo é maior que a parte e a parte menor que o todo logo se todo Cristo está em toda a hóstia todo Cristo não pode estar em qualquer parte dela Terceiro porque o entendimento deve julgar conforme as espécies dos sentidos que são as portas de todo o conhecimento humano os sentidos cheiram gostam e apalpam pão logo pão é e não corpo de Cristo o que está naquela hóstia Com a natureza argumenta o filósofo e com a mesma natureza o há de convencer a razão e muito facilmente e sem trabalho porque com a fé ser sobrenatural a melhor ou mais fácil mestra da fé é a natureza Os profetas que foram os que pregaram e ensinaram os mistérios da fé aos homens não os mandou Deus ao mundo no tempo da lei da natureza senão no tempo que se seguiu depois dela que foi o da Escrita E por quê Douta e avisadamente Tertuliano Praemisit tibi naturam magistrain submissurus et prophetiam quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae Deu Deus primeiro aos homens por mestra a natureza havendolhes de dar depois a profecia porque as obras da natureza são rudimentos dos mistérios da graça e muito mais facilmente aprenderiam os homens o que se lhes ensinasse na escola da fé tendo sido primeiro discípulos da natureza Quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae Se queres ser mestre na fé fazete discípulo da natureza porque os exemplos da natureza te desatarão as dificuldades da fé Ouça pois o filósofo discípulo da natureza por mais graduado que seja nela e verá como lhe desfaz a razão com os princípios de sua mesma escola todos os argumentos que tem contra a fé daquele mistério À primeira dificuldade responde a razão que não tem a filosofia que se espantar de lhe dizer a fé que a substância do pão se converte na substância do corpo e a substância do vinho na substância do sangue de Cristo porque este milagre vemos sensivelmente cada dia na nutrição natural do corpo humano Na nutrição natural do corpo humano a substância do pão e do vinho não se converte em substância de carne e sangue Pois se a natureza é poderosa para converter pão e vinho em carne e sangue em espaço de oito horas por que não será poderoso Deus a converter pão e vinho em substância de carne e sangue em menos tempo Para confessar este milagre não é necessário crer que Deus é mais poderoso que a natureza basta conceder que é mais apressado O que a natureza faz devagar por que o não fará Deus um pouco mais depressa Os dois milagres célebres que Cristo fez em pão e vinho foram as bodas de Caná e o do deserto nas bodas converteu a água em vinho no deserto com cinco pães deu de comer a cinco mil homens26 Um reparo a ambos os casos Para Cristo dar pão no deserto não tinha necessidade de se aproveitar dos cinco pães para Cristo dar vinho nas bodas não tinha necessidade de que as jarras se enchessem de água Pois por que não quis dar vinho senão convertido de água Por que não quis dar pão senão multiplicado de pães A razão foi diz Santo Agostinho porque quis que nos exemplos da natureza se facilitasse a fé das suas maravilhas27 Na multiplicação dos pães fez o que faz a terra na conversão do vinho fez o que fazem as vides Na multiplicação dos pães fez o que faz a terra porque a terra semeiamlhe pouco pão e dá muito na conversão do vinho fez o que fazem as vides porque as vides a água que chove do céu convertem em vinho Isto fez Cristo no deserto isto fez Cristo nas bodas No deserto de pouco pão fez muito nas bodas de água fez vinho Mas se Cristo fez o que faz a terra se Cristo fez o que fazem as vides em que esteve o milagre Esteve o milagre em que Cristo fez em um instante o que a terra e as vides fazem em seis meses Oh que boa doutrina esta se fora hoje o seu dia De maneira que o que distingue as obras de Deus enquanto autor sobrenatural das obras da natureza é a pressa ou o vagar com que se fazem Milagres feitos devagar são obras da natureza obras da natureza feitas depressa são milagres Isto é o que passa no nosso mistério Converter pão e vinho em carne e sangue assim como o faz Cristo no Sacramento assim o faz a natureza na nutrição mas com esta diferença que a natureza fálo em muitas horas e Cristo em um instante Pois filósofo o que a natureza faz devagar o autor da natureza e da graça por que o não fará depressa O impossível de estar todo em todo e todo em qualquer parte também o descrerá o filósofo e confessará facilmente que é possível se tornar à escola da natureza Tome o filósofo nas mãos um espelho de Cristal vejase nele e verá uma só figura Quebre logo esse espelho e que verá Verá tantas vezes multiplicada a mesma figura quantas são as partes do Cristal e tão inteira e perfeita nas partes grandes e maiores como nas pequenas como nas menores como nas mínimas Pois assim como um Cristal inteiro é um só espelho e dividido são muitos espelhos assim aquele circulo branco de pão inteiro é uma só hóstia e partido são muitas E assim como se parte o Cristal sem se partir a figura assim se parte a hóstia sem partir o corpo de Cristo E assim como a figura está em todo o Cristal e toda em qualquer parte dele ainda que seja muito pequena assim em toda a hóstia está todo Cristo e todo em qualquer parte dela por menor e por mínima que seja E assim finalmente como o rosto que se vê no Cristal dividido em tantas partes é sempre um só e o mesmo e somente se multiplicam as imagens dele assim também o corpo de Cristo que está na hóstia dividido em tantas partes é sempre um só corpo e somente se multiplicam as suas presenças Lá o objeto é um só e as imagens são muitas cá da mesma maneira as presenças são muitas mas o objeto é um só Pode haver semelhança mais viva Pode haver propriedade mais própria Parece que criou Deus o mistério do Cristal só para espelho do sacramento Assim o disse Davi e o entendeu a Igreja Mittit crystallum suam sicut bucelías Deita Deus os seus Cristais do céu à terra como bocados de pão28 Notável como peregrina comparação Que semelhança têm os bocados de pão com o Cristal ou o Cristal com os bocados de pão Com os bocados do pão usual da vossa mesa nenhum mas com os bocados do Pão Sacramental da mesa eucarística toda aquela semelhança maravilhosa que vistes Porque tudo o que no Cristal se vê como por vidraças é o que passa dentro no Sacramento com as cortinas corridas Assim como no Cristal se vê por milagre manifesto da natureza o todo sem ocupar mais que a parte a divisão sem destruir a inteireza e a multiplicação sem exceder a singularidade assim na hóstia com oculta e sobrenatural maravilha o mesmo corpo de Cristo é um e infinitamente multiplicado dividido e sempre inteiro e tão todo na parte como no todo E que não haja o filósofo de crer aos olhos ainda que lhe digam contestemente que ali está pão a mesma natureza lho ensina com um notável exemplo Na íris ou arco celeste todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores e contudo ensina a verdadeira filosofia que naquele arco não há cores senão luz e água Pois se a filosofia ensina que não há cor onde os olhos estão vendo cor que muito que ensine a fé que não há pão onde os olhos parece que vêem pão Por isso dizia Davi falando de seus olhos uma coisa muito digna de reparar em que ninguém repara Revela oculos meos et considerabo mirabilia de lege tua SI 118 18 Senhor revelaime os olhos e considerarei vossas maravilhas Parece que havia de dizer o profeta Senhor revelaime vossas maravilhas para que eu as conheça mas revelaime os olhos para que conheça vossas maravilhas Sim porque muitas vezes os olhos contradizem as maravilhas de Deus como se vê no mistério da Eucaristia E para entender semelhantes maravilhas são necessárias duas revelações uma revelação nas maravilhas para que o entendimento as conheça outra revelação nos olhos para que a vista as não contradiga Mas esta segunda revelação não é necessário que a faça Deus basta que a faça a razão Se a vista se engana nas obras da natureza nas que são sobre a natureza como se não há de enganar E se em um arco de luz e nuvem assim erram e desatinam os olhos em um círculo de nuvem sem luz que crédito lhes há de dar Emende logo o filósofo a vista com o discurso e confesse ensinado da natureza e convencido da razão a verdade indubitável daquele Vere Vere est cibus vere est potus VI Quinto inimigo trocase mui acertadamente o político pelo demônio Objeção é impossível que os homens que comungam a Cristo no sacramento sejam como Deus visto como o demônio apenas querendo assemelharse a Deus foi por isso castigado Se o maná era pão de anjos como o corpo do Filho de Deus há de ser pão de homens Deus unindose à natureza humana e não à angélica preferiu os homens aos anjos O primeiro inventor da Eucaristia foi o próprio demônio no Paraíso terrestre Cristo apenas fez verdadeira a sua mentira consagrando debaixo das espécies de pão o que ele fingira debaixo das aparências de pomo Agora se seguia o político mas fique para o fim e entre em seu lugar o diabo que talvez não seria desacertada esta troca Tempos houve em que os demônios falavam e o mundo os ouvia mas depois que ouviu os políticos ainda é pior mundo O diabo como soberbo e como ciente que é dobrada soberba ou dobrada inchação como lhe chamau S Paulo Scientia inflat 1 Cor 81 argumenta assim Se os homens comungaram a Cristo no Sacramento foram como Deus os homens não podem ser como Deus logo não comungam a Cristo no Sacramento A conseqüência diz o diabo é tão evidente como minha a suposição não a podem negar os homens porque é sua Se os homens comungaram a Cristo foram como Deus o seu mesmo texto o diz In me manet et ego in illo29 E que os homens não possam ser como Deus eu o digo e eu o padeço diz o demônio que se eu não intentara no céu ser como Deus não pagara hoje este impossível como o estou pagando Pois se a mim se a Lúcifer se à mais nobre de todas as criaturas é impossível a semelhança do Altíssimo Similis ero Altissimo Is 1414 ao homem vil feito de barro como há de ser possível não só a semelhança mas a transformação que isto quer dizer Ele em mim e eu nele Crerem os homens esta loucura é não se conhecerem a si nem nos conhecerem a nós Nós ainda que perseguidos somos anjos que quem nos pode roubar o lugar não nos pode tirar a natureza E se o maná que tanto era menos nobre se chamau pão de anjos o corpo do Filho de Deus que excede ao maná com infinita nobreza como há de ser pão de homens SI 77 15 A última parte deste soberbo argumento do demônio responde a razão com a cousa de sua mesma caída Depois que Cristo uniu a si a natureza humana e não a angélica Nus quam angelos apprehendit sed semen Abrahae apprehendit30 não há que espantar que os homens sejam em tudo preferidos aos anjos Nesta primeira admiração e neste primeiro assombro se sumirão todos os espantas E quanto ao impossível de os homens comendo poderem ser como Deus não argumenta o diabo contra nós argumenta contra si O primeiro inventor ninguém se espante do que digo o primeiro inventor da traça ou do desenho do mistério da Eucaristia foi o demônio Quando o demônio tentou a Eva disselhe assim In quocumque die comederitis eritis sicut Dii Gên 35 Comei do pomo vedado porque no dia que comerdes ficareis como Deus Eis aqui o mistério da Eucaristia não só quanto à substância senão também quanto aos efeitos Quanto à substância porque diz o demônio que está a divindade em um pomo quanto aos efeitos porque diz que comendo o homem há de ficar como Deus Pois vem cá diabo De ore tuo tejudico31 Se tu dizes que o homem comendo ficará como Deus e que no pomo daquela árvore está encoberta a divindade como negas que pode estar encoberta a divindade debaixo das espécies de pão e que comendo o homem pode ficar como Deus O que Cristo nos concedeu neste mistério é o que o diabo nos prometeu no paraíso Fez Cristo verdadeira a mentira do diabo para desta maneira o vencer a ele e nos desafrontar a nós Naquele encontro do paraíso ficou o demônio vencedor e o homem afrontado vencedor o demônio porque enganou afrontado o homem porque ficou enganado despojado perdido Pois que remédio para desafrontar o homem e o vingar do demônio O remédio foi fazer Cristo da sua promessa dádiva e da sua tentação sacramento e assim o fez Da promessa do demônio fez dádiva porque nos deu a comer a divindade que ele nos prometera comendo e fez da sua tentação sacramento porque consagrou debaixo das espécies de pão o que ele fingira debaixo das aparências do pomo De sorte que o demônio ficou vencido porque a sua mentira ficou verdade e o homem desafrontado porque o seu engano ficou fé O que creram nossos primeiros pais no paraíso é o que nós cremos no Sacramento eles erradamente ao diabo nós acertadamente a Deus Daqui se segue que neste mistério nem o diabo pede ser tentador nem o homem tentado O diabo não pede ser tentador porque se o diabo me quiser tentar na fé do mistério da Eucaristia respondolhe eu assim Quando tu diabo falaste a Eva ou mentiste ou disseste verdade Se mentiste não te devo crer porque quem mentiu então também mentirá agora E se falaste verdade também te não devo crer porque se falaste verdade pede Deus pôr divindade naquele pomo Pois se Deus pede pôr divindade em um bocado isso mesmo que tu concedes é o que eu creio Vaite embora ou na má hora Também o homem não pode ser tentado porque se o homem é pensamento de Ruperto se o homem creu ao diabo quando lhe disse que comendo seria como Deus como há de deixar de crer a Deus quando lhe diz o mesmo Principalmente que o que o diabo dizia não cabia na esfera da onipotência e o que diz Cristo sim A onipotência de Deus enquanto autor da natureza tem menor esfera que a mesma onipotência de Deus enquanto autor da graça porque a onipotência de Deus enquanto autor da natureza só pode produzir efeitos naturais e por virtude natural não pedia estar a divindade em um pomo A onipotência de Deus enquanto autor da graça pode produzir efeitos sobrenaturais e por virtude sobrenatunal pode a divindade estar em um bocado Pois se os homens foram tão inocentes que creram um impossível ao diabo porque hão de ser tão irracionais que neguem um possível a Deus Desenganese logo o demônio que neste mistério não só nos não pede vencer mas nem ainda nos pode tentar e confesse obrigado de sua mesma tentação a verdade daquele Vere que como pai da mentira tem feito negar a tantos Vere est cibus vere est potus VII Sexto inimigo o devoto Mais por excesso de amor que por falta de fé queixase o devoto dos acidentes que encobrem Cristo a seus olhos Razão os homens amam mais finamente a Cristo desejado por saudades do que gozado por vista O desejo de S Paulo O devoto não por falta de fé mas por excesso de amor e mais queixoso dos acidentes que duvidoso da substância por parte do seu afeto argüi assim com o mesmo Cristo a minha fé com os olhos fechados crê firmemente Senhor que estais nesse Sacramento mas o meu amor com os olhos abertos não pode entender nem penetrar como seja possível esta verdade Se partindovos da terra quisestes ficar na terra foi para satisfação do vosso amor e para alívio do nosso para crédito de vossas finezas e para remédio de nossas saudades Assim o disse aquele grande intérprete dos segredos de vosso coração neste mistério De sua contristatis absen tia solatium singulare reliquit32 Pois se ficastes para nossa consolação como vos encobris a nossos olhos Se foi amor o ficar como pode ser amor o ficar desse modo Ficar e ficar encoberto antes é martírio do desejo que alívio da saudade Por certo que não eram esses antigamente os estilos de vosso amor nem da sua paciência En ipse stat post parietem nostrum respiciens perfenestras prospiciens per cancellos33 Havia sim entre vós e a alma vossa querida uma parede mas com a parede ser sua havia nela uma gelosia vossa por onde a víeis e por onde vos via Para não podermos ver vossa divindade é nossa a parede deste corpo mas para não vermos vossa humanidade vossa é a parede desses acidentes Pois se os impedimentos e estorvos da vista são vossos e vosso amor é onipotente como quereis que creia o meu amor uma tão grande implicação do vosso como é amarme tanto e não vos deixardes ver A fé o crê muito a seu pesar mas o amor não o sofre nem o alcança nem o pode deixar de ter por impossível Assim argüi amorosamente queixosa a devoção mas tem fácil e mui inteira resposta a sua piedade A um afeto amoroso da alma responde a razão com outro afeto mais amoroso de Cristo e diz que maior amor é em Cristo o não se deixar ver do que na devoção o desejar vêlo Ainda que Cristo se não deixa ver de nós é certo que se deixou conosco mas deixouse de maneira que o não possamos ver porque fiou mais seu amor de nossos desejos que de nossos olhos O fim para que Cristo se deixou no Sacramento foi para que os homens o amássemos E sendo que o maior conhecimento é cousa do maior amor amam os homens mais finamente a Cristo desejado por saudades do que gozado por vista Se eu me não engano tenho bem imaginada a prova desta verdade Saudoso S Paulo de se ver com Cristo dizia assim Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo34 Oh quem me dera que a minha alma se desatara e desunira do corpo para poder estar com Cristo Tendo isto assim se perguntarmos aos teólogos se as almas que estão vendo a Cristo têm algum desejo resolvem todos que sim e que desejam unirse com seus corpos Pois dificulto agora e parece que apertadamente se as almas que estão vendo a Cristo desejam unir se a seus corpos por que diz a alma de S Paulo que desejara desatarse de seu corpo para ir ver a Cristo Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo Flp 1 23 A razão é porque Cristo em respeito das almas dos bemaventurados é gozado por vista e em respeito da alma de S Paulo era desejado por saudades e o amor de Cristo desejado por saudades é muito mais eficaz nesta parte ou mais afetuoso ou mais impaciente que o mesmo amor de Cristo gozado por vista Cristo gozado por vista ainda deixa amor a uma alma para desejar unirse a seu corpo mas Cristo desejado por saudades até a união de seu próprio corpo lhe faz aborrecível Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo E como a Cristo lhe vai melhor com as nossas saudades que com os nossos olhos por isso se quis deixar em disfarce de desejado e não em trajos de visto Descoberto para os olhos não encoberto sim para as saudades Conheça logo a nossa devoção que é fineza e não implicação do amor de Cristo o deixarse invisível naquele mistério e confesse não só a nossa fé com os olhos fechados senão o nosso amor com os olhos abertos a verdade amorosa daquele Vere Vere est cibus vere est potus VIII Sétimo inimigo o político Os políticos argumentam com a autoridade Como é possível que o monarca ao universo se exponha assim a todos cercado só de uns acidentes de pão Razão Onde se conquisiam venerações não se perde autoridade A lançada da lado de Cristo e a Igreja A construção da igreja de Santa Eustáquia e os muros de Lisboa Ultimamente argumenta o político e do mesmo caso que deu ocasião a esta solenidade infere não estar a pessoa soberana de Cristo naquela hóstia Os príncipes de nenhuma coisa são nem devem ser mais zelosos que de sua autoridade Já arriscar e expor a soberania da própria pessoa a perder vir às mãos de seus inimigos antes perderá um príncipe a vida e mil vidas que consentir tal afronta E se não lembrese a fé do primeiro rei de Israel Perdida a batalha dos montes de Gelboé contra os filisteus achavase Saul tão malferido que nem se pedia retirar nem defender E que resolução tomau neste caso Tirame por esta espada disse ao seu pajem da lança e matame Ne forte veniant incircumsisi isti et interficiant illudentes mihi Por que não venham estes infiéis e me tirem a vida perdendo o respeito 1 Rs 31 4 Pelo respeito e pela autoridade o havia e não pela vida pois se mandava matar Não teve ânimo o criado para o executar e lançandose o mesmo Soul sobre a ponta da sua espada caiu morto por não cair nas mãos de seus inimigos Assim estimam os príncipes e assim devem estimar mais a autoridade que a vida Pois se tanto preço tem na estimação dos monarcas supremos a autoridade e soberania de suas pessoas se antes quer um rei generoso tirarse a vida por suas mãos que poder vir às de seus inimigos como é possível nem crível que o príncipe da glória Cristo que o rei dos homens e dos anjos que o monarca universal do céu e da terra deixasse tão mal guardada sua autoridade e tão pouco defendido seu respeito como é força que o esteja cercado só de uns acidentes de pão Como é possível nem crível que deixasse tão arriscada e exposta a majestade divina de sua pessoa a cair nas mãos infiéis e sacrílegas de seus inimigos como publicam as memórias deste dia e a ocasião e o nome destes desagravos Aos outros argumentos respondi pela razão com o que estudei a este respondo com o que vejo Onde se conquistam venerações não se perde autoridade Estes são os ditames de Deus esta foi sempre sua razão de estado Permitiu o que choramos para conseguir o que vemos Que maior exaltação de fé que maior confusão de heresia que maior honra de Cristo Tanto rende a Deus uma ofensa quando é a cristandade a que sente e a nobreza a que a desagrava As majestades e altezas do mundo os grandes os títulos os prelados as religiões todos prostrados por terra todos servindo de joelhos todos confessandose por escravos humildes e adorando como a supremo Senhor aquela soberana majestade sempre venerável e sempre veneranda mas muito mais quando ofendida Veja agora o político se perde Deus autoridade ou se conquista honra e glória quando permite uma indecência Dizia esse mesmo Senhor que sempre é o mesmo e sempre se parece consigo Si exaltatus fuero a terra omnia traham ad me ipsum Quando eu for levantado da terra em uma cruz hei de trazer tudo a mim Jo 1232 A afronta da cruz foi a maior que padeceu nem pedia padecer Cristo a mãos da infidelidade e temeridade humana mas as conseqüências dessa mesma afronta diz o Senhor que haviam de ser as suas maiores glórias trazendo tudo a si Assim o mostrou e vai ainda mostrando o cumprimento desta profecia pelo discurso dos tempos da fé universal do mundo quase todo já trazido ao conhecimento obediência e veneração de Cristo Mas se quisermos apertar mais a significação e energia daquele Si Si exaltatus fuero a terra nos obséquios de José e Nicodemos se verificou na mesma cruz o Omnia trabani adme ipsum José como notou S Marcos era nobre Nobilis decurio Mc 15 43 Nicodemos como notou S João era príncipe Princeps judaeorum Jo 31 E como Cristo desde a sua cruz havia de trazer a si a nobreza e os príncipes por isso diz que havia de trazer a si tudo Onmia traham ad me ipsum porque os príncipes e a nobreza é o tudo dos reinos Escolheu Cristo aos nobres e senhores para que o tirassem do afrontoso suplício e fizessem as honras a seu corpo porque honrar o corpo de Cristo afrontado é ação que anda avinculada à nobreza E quando assim trouxe a si a nobreza diz que havia de trazer a si omnia e não omnes tudo e não todos porque os nobres não são todos mas são tudo Bem se cumpriu esta promessa então mas muito melhor cumprida a vemos agora Omnia traham ad me ipsum Tudo o que há em Portugal aqui o tem Cristo a seus pés Que fez este dia tão solene e esta igreja tão célebre senão uma injúria a Cristo Quando o soldado infiel deu a lançada a Cristo saíram do lado ferido todos os sacramentos E disse judiciosamente Tertuliano Ut de injuria lateris ejus tota formaretur Ecclesia Que de uma injúria do corpo de Cristo se formau toda a Igreja O que Tertuliano disse da Igreja universal podemos nós dizer desta material que se fundou esta nova igreja de uma injúria do corpo de Cristo Mas são muito de reparar os termos de Tertuliano que da injúria do corpo de Cristo não diz que se formaram só os fundamentos senão toda a Igreja Tota formaretur Ecclesia Vemos levantados os fundamentos desta nova igreja muito nobres muito suntuosos muito magníficos e muito conformes aos ânimos generosos de seus ilustres fundadores mas sente muito a piedade cristã e portuguesa ver a fábrica parada há tantos anos Quando no interrompido ou ameaçado desta obra se pudera presumir descuido assaz desculpado ficava com a variedade e estreiteza dos tempos mas quanto esta estreiteza é mais pública e conhecida tanto maior louvor merece o novo e presente zelo com que se trata de levar a fábrica por diante e não parar até se pôr em sua perfeição sendo o primeiro exemplo o de sua majestade que Deus nos guarde cuja real liberalidade quer ter uma grande parte nesta obra como em todas as de piedade Os tempos parece que estão pedindo que se edifiquem antes muros e castelos que templos mas esse privilégio têm nomeadamente os templos do Santíssimo Sacramento que são as melhores fortificações dos remos Edificou a divina Sabedoria um templo Sapientia aedificavit sibi domum Prov 91 Dedicou este templo ao Santíssimo Sacramento Miscuit vinum et proposuit mensam E que se seguiu daqui Misit ancillas suas ut vocarent ad arcem et ad moenia civitatis35 Os que serviam naquele templo como os que servem neste era com nome de escravos e a esses escravos mandou o Senhor que chamassem para a fortaleza e para os muros da cidade Pois como O que se edificou era templo ao Santíssimo Sacramento e o recado com que se convocava a gente para o templo dizia que viesse para os muros e para as fortalezas da cidade Ad arcem et ad moenia civitatis Sim que os templos do Santíssimo Sacramento são os mais fortes muros são as mais inexpugnáveis fortalezas das cidades e dos remos Edifiquese leve se por diante esta fábrica que ela será os mais fortes muros de Lisboa ela será a mais inexpugnável fortaleza de Portugal E acabará de conhecer o político a razão de estado de Deus que quando se expõe a cair nas mãos de seus inimigos é para mais nos defender dos nossos e para fundar sobre suas injúrias o edifício de suas glórias aprendendo e confessando na política deste altíssimo conselho de Cristo a verdade secretíssima e sacratíssima daquele Vere Vere est cibus vere est potus IX Súplica em favor dos inimigos da Eucaristia Diviníssimo Sacramento real e verdadeiro corpo de Cristo Deus encoberto debaixo de substância de carne homem encoberto debaixo de acidentes de pão o filósofo o devoto o político corno cristãos e católicos e com o filósofo toda a nossa ciência e todas as ciências com o devoto toda a nossa piedade e todos os nossos afetos com o político toda a nossa conveniência e todos os nossos interesses e todos os que estamos presentes com tudo o que sabemos o que amamos e o que esperamos obedientes à fé e guiados pela razão às escuras e com luz com os olhos fechados mas abertos profundamente prostrados ante a majestade tremenda de vosso divino e humano acatamento cremos confessamos e adoramos a verdade infalível de vossa real presença debaixo da cortina sem substância desses acidentes visíveis E com confiança Senhor da clemência com que nos sofre vosso amor e da benignidade com que aceita a tibieza de nossos obséquios nos oferecemos nos dedicamos nos entregamos todos a ele em perpétua obrigação de o servir como escravos posto que indigníssimos desse soberano Sacramento Aumentai Senhor pela grandeza de vossa misericórdia esta família vossa e pois que o judeu obstinado o herege cego e o gentio ignorante não sabem nem querem orar por si nós oramos e pedimos por eles a vós soberano pastor que de todos haveis de fazer um rebanho Ensinai Senhor a ignorância do gentio alumiai a cegueira do herege abrandai a obstinação do judeu E para que a maldade e astúcia do demônio tentador os não engane chegue já a execução de vossa justiça e acabe o mundo de ver atada sua rebeldia naquelas cadeias e fechada naquele cárcere que há tantos anos lhe está ameaçado e prometido para que desta maneira unidas todas as seitas do mundo na concórdia de uma só fé e religião36 se forme de todas essas seis vozes uma total consonância e perpétua harmonia cantando todas em todas as quatro partes do mundo até o fim dele e confessando alternadamente a muitas vozes e juntas em uma só voz a sagrada e consagrada verdade daquele Vere Vere est cibus vere est potus SERMÃO DO NASCIMENTO DA VIRGEM MARIA DEBAIXO DA INVOCAÇÃO DE N SENHORA DA LUZ TÍTULO DA IGREJA E COLÉGIO DA COMPANHIA DE JESUS NA CIDADE DE S LUÍS DO MARANHÃO ANO DE 1657 De qua natus est Jesus1 I Por que no dia do nascimento da Virgem nos propõe a Igreja o Evangelho do nascimento de Cristo O sol nasce duas vezes quando aparece a luz e quando aparece o astro Desse modo é que se deve interpretar o que dizem os evangelistas e o Gênesis Quem é o sol duas vezes nascido É Cristo que nasceu quando nasceu Maria em Nazaré e quando ele próprio nasceu em Belém Celebramos hoje o nascimento mas que nascimento celebramos Se o perguntarmos à Igreja responde que o nascimento de Maria se consultarmos o Evangelho lemos nele o nascimento de Jesus De qua natus est Jesus Assim temos encontrados nas mesmas palavras que propus o texto com o mistério o tema com o sermão e um nascimento com outro Se a Igreja celebrara neste dia o nascimento glorioso de Cristo muito acomodado Evangelho nos mandava ler mas o dia e o nascimento que festejamos não é o do Filho é o da Mãe Pois se ainda hoje nasce a Mãe como nos mostra já a igreja e o Evangelho não a Mãe senão o Filho nascido De qua natus est Jesus Só no dia de Nossa Senhora da Luz se pudera responder cabalmente a esta dúvida O sol se bem advertirdes tem dois nascimentos um nascimento com que nasce quando nasce e outro nascimento com que nasce antes de nascer Aquela primeira luz da manhã que apaga ou acende as sombras da noite cuja luz é É luz do sol E esse sol então está já nascido Não e sim Não porque ainda não está nascido em si mesmo Sim porque já está nascido na sua luz De sorte que naturalmente vêem os nossos olhos ao sol duas vezes nascido nascido quando nasce e nascido antes de nascer Grande prova temos desta filosofia na mesma história evangélica e é um dos mais aparentes encontros que se acham em toda ela Partiram as Marias ao sepulcro na manhã do terceiro dia e referindo o evangelista S Marcos a hora a que chegaram diz assim Valde mane una subbatorum veniunt ad monumentum orto jam sole Ao domingo muito de madrugada chegaram ao sepulcro sendo já o sol nascido Mc 162 Notável dizer Se era já o sol nascido Orto jam sole como era muito de madrugada Valde mane E se era muito de madrugada Valde mane como era já o sol nascido Orto jam sole Tudo era e tudo podia ser diz Santo Agostinho porque era o sol nascido antes de nascer2 Ora vede O tempo em que vieram as Marias ao sepulcro era muito de madrugada Valde mane diz S Marcos Valde diluculo diz S Lucas Lc 242 Era muito de madrugada Valde mane Logo já havia alguma luz que isso quer dizer diluculo Havia luz Logo já o sol estava nascido Orto jam sole Provo a conseqüência porque o sol como dizíamos tem dois nascimentos um nascimento quando vem arraiando aquela primeira luz da manhã a que chamamos aurora outro nascimento quando o sol descobre ou acaba de desaparecer em si mesmo E como o sol não só nasce quando nasce em si mesmo senão também quando nasce na sua luz por isso disse o evangelista com toda a verdade que era de madrugada e que era o sol nascido Nenhuma destas palavras é minha todas são da glosa de Lirano seguindo a Santo Agostinho Valde mane orto jam soIe Sol enim potest oriri dupliciter uno modo perfecte quando primo egreditur et apparet super terram alio modo quando lur ejus incipit apparerere scilicet in aurora et sic accipitur hic ortus solis3 Não o podia dizer mais em português De maneira que àquela primeira luz com que se rompem as trevas da noite chamau S Marcos nascimento do sol porque em todo o rigor da verdade evangélica não só nasce o sol quando nasce em si mesmo senão quando nasce na sua luz Um nascimento do sol é quando nasce em si mesmo e aparece sobre a terra Quando primo egreditur et apparet super terram o outro nascimento é antes de nascer em si mesmo quando nasce e aparece a sua luz Quando lux ejus incipit apparere É o que estamos vendo neste dia e o que nos está pregando a Igreja neste Evangelho O dia mostranos nascida a luz o Evangelho mostranos nascido o sol e tudo é Não é o dia em que o sol apareceu nascido sobre a terra Quando primo egreditur et apparet super terram mas é o dia em que aparece nascido na luz da sua aurora Quando lux eius incipit apparere scilicet in aurora porque se o sol não está ainda nascido em si mesmo já está nascido na luz de que há de nascer De qua natus est Jesus Estava dito Mas porque parecerá novidade dar dois nascimentos e dois dias de nascimentos a Cristo saibam os curiosos que não é novidade nova senão mui antiga e uma das mais bem retratadas verdades que o Criador do mundo nos pintou no princípio dele No primeiro dia do mundo criou Deus a luz no quarto dia criou o sol Sobre estes dois dias e estas duas criações há grande batalha entre os doutores porque se o sol é a fonte da luz que luz é esta que foi criada antes do sol Ou é a mesma luz do sol ou é outra luz diferente Se é a mesma por que não foi criada no mesmo dia E se é diferente que luz é ou que luz pode haver diferente da luz do sol Santo Tomás e com ele o sentir mais comum dos teólogos resolve que a luz que Deus criou o primeiro dia foi a mesma luz de que formau o sol ao dia quarto De modo que em ambos estes dias e em ambas estas criações foi criado o sol No primeiro dia foi criado o sol informe no quarto dia foi criado o sol formado São os termos de que usa Santo Tomás No primeiro dia foi criado o sol informe porque foi criado em forma de luz no quarto dia foi criado o sol formado porque foi criado em forma de sol4 Em conclusão que entre todas as criaturas só o sol teve dois dias de nascimento o primeiro dia e o quarto dia O quarto dia em que nasceu em si mesmo e o primeiro em que nasceu na sua luz O quarto dia em que nasceu sol formado e o primeiro em que nasceu na luz de que se formau Pode haver propriedade mais própria Agora pergunto eu se alguém me não entendeu ainda quem é este sol duas vezes nascido E quem é esta luz de que se formau este sol O sol é Jesus a luz é Maria diz Alberto Magno E não era necessário que ele o dissesse Assim como o sol nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento assim como o sol nasceu uma vez quando nascido e outra antes de nascer assim como o sol uma vez nasceu em si mesmo e outra na sua luz assim nem mais nem menos o sol Divino Cristo nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento Um dia em que nasceu em Belém outro em que nasceu em Nazaré Um dia em que nasceu quando nascido que foi em vinte e cinco de dezembro e outro dia em que nasceu antes de nascer que foi neste venturoso dia Um dia em que nasceu de sua Mãe outro dia em que nasceu com ela Um dia em que nasceu em si mesmo outro dia em que nasceu naquela de quem nasceu De qua natus est Jesus Temos introduzido e concordado o Evangelho que não é a menor dificuldade deste dia Para satisfazermos à segunda obrigação que não é senão a primeira peçamos à Senhora da Luz nos comunique um raio da sua Ave Maria II Razões por que devemos festejar este dia antes por nascimento da luz que por nascimento do sol Cristo sol de justiça e a Senhora da Luz Mãe de misericórdia De qua natus est Jesus Suposto que temos neste natus do Evangelho dois nascidos e nesse nascimento dois nascimentos o nascimento da luz Maria nascida em si mesma e o nascimento do sol Cristo nascido na sua luz qual destes nascimentos faz mais alegre este dia E por qual deles o devemos mais festejar Por dia do nascimento da luz ou por dia do nascimento do sol Com licença do mesmo sol ou com lisonja sua digo que por dia do nascimento da luz E por quê Não por uma razão nem por duas senão por muitas Só quatro apontarei porque desejo ser breve Primeira razão porque a luz é mais privilegiada que o sol Segunda porque é mais benigna Terceira porque é mais universal Quarta porque é mais apressada para nosso bem Por todos estes títulos é mais para festejar este dia por dia do nascimento da luz que por dia ou por véspera do nascimento do sol Mas porque este sol e esta luz entre os quais havemos de fazer a comparação parecem extremos incomparáveis como verdadeiramente é incomparável Cristo sobre todas as puras criaturas entrando também neste número sua mesma mãe antes que eu comece a me desempenhar deste grande assunto ou a empenhar me nele declaro que em tudo o que disser procede a comparação entre Cristo como Sol de justiça e a Senhora da Luz como Mãe de misericórdia e que assim como os efeitos da luz se referem à primeira fonte dela que é o sol assim todos os que obra a Senhora em nosso favor são nascidos e derivados do mesmo Cristo cuja bondade e providência ordenou que todos passassem e se nos comunicassem por mão de sua Mãe como advogada e medianeira nossa e dispensadora universal de suas graças Assim o supõe com S Bernardo a mais pia e bem recebida teologia Nihil Deus nos habere voluit quod per manus Mariae non tronsisset5 Isto posto III Primeira razão a luz é mais privilegiada que o sol A luz e não o sol é a chave que abre as portas do dia O dia é filho da luz e não do sol O papel importante da luz na criação do mundo O nascimento da Virgem e a criação da luz Começando pelo primeiro titulo de ser a luz mais privilegiada digo que é mais privilegiada a luz que o sol porque o dia que é a vida e a formosura do mundo não o faz o nascimento do sol senão o nascimento da luz É advertência de Santo Ambrósio e advertência que quis o grande doutor que soubéssemos que era sua Advertimus quod lucis ortus antequam solis diem videatur aperire Tenho advertido diz Santo Ambrósio que o que primeiro abre e faz o dia é o nascimento da luz e não o do sol6 Está esta grande máquina e variedade do universo coberta de trevas está o mundo todo fechado no cárcere da noite e qual é a chave que abre as portas ao dia O sol Não senão a luz porque ao aparecer do sol já o mundo está patente e descoberto Diem sol clarificat lux facit O sol faz o dia mais claro mas a luz é a que faz o dia E se não vede diz o santo Frequenter coelum nubibus texitur ut sol tegatur nec ullus radius ejus appareat lux tamen diem demonstrat Quantas vezes acontece forrarse o céu de nuvens espessas com que não aparece o sol nem o menor de seus raios e contudo ainda que não vemos o sol vemos o dia Por quê Porque nolo mostra a luz Bem se segue logo que o dia tão necessário e tão proveitoso ao mundo é filho da luz e não filho do sol Parece que tem alguma coisa de sofístico este discurso de Santo Ambrósio porque sendo a luz efeito do sol quem faz a luz faz o dia Assim parece mas não é assim E quero dar uma prova valente a uma razão que parece fraca Noutras ocasiões declaramos a Escritura com o santo agora declararemos o santo com a Escritura Diz Santo Ambrósio que o dia é filho da luz e não do sol Provo e pergunto O sol em que dia o criou Deus Diz a Sagrada Escritura que criou Deus o sol ao dia quarto Luminare majus ut praeesset diei et factum est dies quartus Gên 1 1619 Deus criou o sol ao dia quarto Logo antes de haver sol já havia dias Antes de haver sol já havia dias Logo o dia não é filho do sol Pois de quem é filho É filho da luz O mesmo texto sagrado In principio creavit Deus caelum et terram Gên 11 No princípio antes de haver dia nem noite nem tempo criou Deus o céú e a terra Et tenebrae erant super faciem abyssi E o mundo todo estava sepultado em um abismo de trevas Dixitque Deus fiat lux et facta est lux Disse Deus façase a luz e foi feita a luz Appellavitque lucem diem et tenebras noctem et factus est dies unus E chamau Deus à luz dia e às trevas noite deste modo se fez o primeiro dia que houve no mundo Gên 1235 De maneira como bem dizia Santo Ambrósio que o dia é filho da luz e não do sol ao nascimento da luz e não ao do sol deve o mundo o beneficio do dia O tempo ditosíssimo da lei da graça em que estamos é o dia do mundo o tempo da lei da natureza e da lei escrita que já passou foi a noite Assim o diz S Paulo Nox praecessit dies outem appropinquavit7 E quem foi a aurora que amanheceu ao mundo este dia tão alegre tão salutífero e tão vital senão aquela luz divina O sol fez o dia mais claro mas a luz a que rompeu as trevas a luz foi a que venceu e despojou a noite a luz foi a que fez o dia Diem sol clarificat lux facit Grande privilégio da luz sobre o sol que ela e não ele ou ao menos que ela primeiro que ele seja a autora do dia Mas eu sem me sair do mesmo passo ainda hei de dizer outro privilégio maior da mesma luz Criou Deus a luz três dias antes de criar o sol Tanto que houve sol no mundo logo houve também olhos que o vissem e que gozassem de seus resplendores porque o sol foi criado ao quarto dia e as aves e os peixes ao quinto os animais da terra e os homens ao sexto De sorte que como notou S Basilio todos os três dias em que a luz esteve criada antes da criação do sol não havia olhos no mundo8 Pois se não havia olhos no mundo para que criou Deus a luz Que crie Deus o sol ao quarto dia bem está porque no quinto e no sexto dia havia de criar os olhos de todos os viventes mas se no segundo no terceiro e no quarto dia não houve nem havia de haver olhos por que cria Deus a luz no primeiro Porque o sol criouo Deus para os olhos dos homens e dos animais a luz crioua Deus para os seus olhos E assim foi Fiat lux et facta est lux et vidit Deus lucem quod esset bona Gên 14 Disse Deus Façase a luz e fezse a luz e no mesmo ponto que nasceu e apareceu a luz logo foi o emprego e suspensão dos olhos de Deus Vidit Deus lucem Digo emprego e suspensão porque quando Deus criou a luz já estava criado o céu a terra os elementos os anjos e nada disto levou após si os olhos de Deus senão a luz Ela encheu os olhos de Deus de maneira que sendo os olhos de Deus imensos parece que não deixou neles lugar para os pôr noutra coisa Assim era a luz criada para os olhos de Deus como o sol para os dos homens e dos animais Não cuideis que digo injúrias ao Sol Encarnado que assim quis Ele que fosse Aparece no mundo o sol encarnado Cristo e que olhos o viram nascido Olhos de homens e olhos de animais Para o verem nascido olhos de animais ele mesmo foi buscar os animais a um presépio e para o verem nascido olhos de homens ele os mandou buscar por uma estrela entre os reis e por um anjo entre os pastares Os homens pelo pecado estavam convertidos em animais Homo cum in honore esset non intellexit comparatus est jumentis9 Por isso se mostra o sol nascido aos olhos dos homens e dos animais porque nascia para fazer de animais homens Porém a luz como nascia para Mãe de Deus ocultase a todos os olhos criados e só nasce manifesta aos divinos Vidit Deus lucem Os olhos de Deus foram os que festejaram o nascimento desta soberana luz e festejaramna aqueles três dias em que não houve sol nem outros olhos porque tomau cada pessoa da Santíssima Trindade um dia da festa por sua conta Ipse est enim lux quae primam distinxit dierum nostrorum trinitatem disse S Dionisio Areopagita10 Os olhos do Padre festejaram o nascimento da luz o primeiro dia Et vidit Deus luceni quod esset bona E viu Deus Padre que a luz era boa para filha Os olhos do Filho festejaram o nascimento da luz o segundo dia Et vidit Deus lucein quod esset bona E viu Deus Filho que a luz era boa para Mãe Os olhos do Espírito Santo festejaram o nascimento da luz o terceiro dia Et vidit Deus lucem quod esset bona E viu Deus Espírito Santo que a luz era boa para Esposa Assim festejou toda a Santíssima Trindade o nascimento daquela soberana luz e assim o devemos festejar nós Ponde os olhos cristãos naquela luz e pedilhe que os ponha em vós e vereis como é boa para tudo Vidit lucem quo desset bona Boa para a consolação se estiveres afligido boa para o remédio se estiveres necessitado boa para a saúde se estiveres enfermo boa para a vitória se estiveres tentado e se estiveres caído e fora da graça de Deus boa e só ela boa para vos conciliar com Ele Tão cheia de privilégios de Deus nasce hoje esta luz de quem Ele há de nascer De qua natus est Jesus IV Segunda razão a luz é mais benigna que o sol O sol e a nuvem que guiava os filhos de Israel pelo deserto Os rigores do sol da justiça e as benignidades da luz O nascimento de Maria é a passagem do sol do signo do Leão para o signo da Virgem Maria e a sarça ardente do deserto S João o novo signa celeste e a humanização do sol O segundo título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais benigna É a luz mais benigna que o sol porque o sol alumia mas abrasa a luz alumia e não ofende Quereis ver a diferença da luz ao sol Olhai para o mesmo sol e para a mesma luz de que ele nasce a aurora A aurora é o riso do céu a alegria dos campos a respiração das flores a harmonia das aves a vida e alento do mundo Começa a sair e a crescer o sol eis o gesto agradável do mundo e a composição da mesma natureza toda mudada O céu acendese os campos secamse as flores murchamse as aves emudecem os animais buscam as covas os homens as sombras E se Deus não cortara a carreira ao sol com a interposição da noite fervera e abrasarase a terra arderam as plantas secaramse os rios sumiramse as fontes e foram verdadeiros e não fabulosos os incêndios de Faetonte A razão natural desta diferença é porque o sol como dizem os filósofos ou verdadeiramente é fogo ou de natureza mui semelhante ao fogo elemento terrível bravo indômito abrasador executivo e consumidor de tudo Pelo contrário a luz em sua pureza é uma qualidade branda suave amiga enfim criada para companheira e instrumento da vista sem ofensa dos olhos que são em toda a organização do corpo humano a parte mais humana mais delicada e mais mimosa Filósofos houve que pela sutileza e facilidade da luz chegaram a cuidar que era espírito e não corpo Mas porque a filosofia humana ainda não tem alcançado perfeitamente a diferença da luz ao sol valhamonos da ciência dos anjos Aquele anjo visível que guiava os filhos de Israel pelo deserto diz o texto que marchava com duas colunas de prodigiosa grandeza uma de nuvem de dia e outra de fogo de noite Per diem in columna nubis per noctem in columna ignis Êx 1321 E por que e para que levava o anjo estas duas colunas de nuvem e fogo A de nuvem para reparo do sol a de fogo para continuação da luz Tanto que anoitecia acendia o anjo a coluna de fogo sobre os arraiais para que tivessem sempre luz E tanto que amanhecia atravessava o anjo a coluna de nuvem para que ficassem reparados e defendidos do sol De maneira que todo o cuidado do anjo sobre os seus encomendados consistia em dois pontos o primeiro que nunca lhes tocasse o sol o segundo que nunca lhes faltasse a luz Tão benignas qualidades reconhecia o anjo na luz e tão rigorosas no sol Estas são as propriedades rigorosas e benignas do sol e da luz natural E as mesmas se bem o considerarmos acharemos no Sol e na Luz divina Cristo é sol mas sol de justiça como lhe chamau o profeta Sol justitiae Mal 42 E que muito que no sol haja raios e na justiça rigores Todos os rigores que tem obrado no mundo o sol natural tantas secas tantas esterilidades tantas sedes tantas fomes tantas doenças tantas pestes tantas mortandades tudo foram execuções do sol de justiça o qual as fez ainda maiores O sol material nunca queimau cidades e o sol de justiça queimau e abrasou em um dia as cinco cidades de Pentápolis inteiras sem deixar homem à vida nem dos mesmos edifícios e pedras mais que as cinzas Tais são os rigores daquele sol divino Mas a benignidade da luz que hoje nasce e de que ele nasceu como a poderei eu explicar Muitas e grandes coisas pudera dizer desta soberana benignidade mas direi só uma que vale por todas É tão benigna aquela divina luz que sendo tão rigorosos e tão terríveis os raios do divino sol ela só basta para os abrandar e fazer também benignos Por que vos parece que nasce a Virgem Maria em tal dia como hoje Se o dia do nascimento de Cristo foi misterioso e misterioso o dia do nascimento do Batista por ser o precursor de Cristo quanto mais o dia da Mãe de Cristo Pois que mistério tem nascer a Senhora neste dia Muito grande mistério O mistério do dia do nascimento de Cristo como notou Santo Agostinho foi porque naquele tempo volta o sol para nós e começam os dias a crescer O mistério do dia do nascimento do Batista foi porque naquele tempo se aparta o sol de nós e começam os dias a diminuir E o mistério do dia do nascimento da Senhora é porque neste tempo passa o sol do signo do Leão para o signo da Virgem e começa o mesmo sol a abrandar O caminho do sol é pelos doze signos celestes em que tem diferentes efeitos conforme a constelação e qualidades de cada um Quando o sol anda no signo de Leão como se tomara a natureza daquele animal colérico e assanhado tais são os seus efeitos calores securas enfermidades malignas tresvarios sangue mortes Porém tanto que o sol passa do signo do Leão ao signo de Virgem já o Leão começa a abrandar já vai manso já vai pacífico já vai cordeiro O mesmo sucedeu aos rigores do nosso sol Lede o Testamento Velho e achareis que Deus antigamente afogava exércitos queimava cidades alagava mundos despovoava paraísos E hoje sendo os pecados dignos de maior castigo pela circunstância do tempo da fé e dos benefícios não se vêem em Deus semelhantes rigores Pois por que se Deus é O mesmo e a sua justiça a mesma Porque então estava o sol no signo do Leão agora está no signo de Virgem Como o sol entrou no signo de Virgem logo aquela benigna luz lhe amansou os rigores lhe embargou as execuções e lhe temperou de tal maneira os raios que ao mesmo fogo abrasador de que eram compostos lhe tirou as atividades com que queimava e só lhe deixou os resplendores com que luzia Grande caso mas provado Vê Moisés no deserto uma sarça que ardia em fogo e não se queimava Êx 3 3 Pasma da visão parte a vêla de mais perto e quanto mais caminha e vê tanto mais pasma Ser fogo o que estou vendo não há dúvida aquela luz intensa aquelas chamas vivas aquelas labaredas ardentes de fogo são mas a sarça não se consome a sarça está inteira a sarça está verde Que maravilha é esta Grande maravilha para quem não conhecia o fogo nem a sarça mas para quem sabe que o fogo era Deus e a sarça Maria ainda era maravilha maior ou não era maravilha O fogo era Deus que vinha libertar o povo Assim diz o texto A sarça era Maria em quem Deus tomau forma visível quando veio libertar o gênero humano Assim o diz S Jerônimo Santo Atanásio S Basílio e a mesma Igreja11 Como o fogo estava na sarça como Deus estava em Maria já o seu fogo não tinha atividades para queimar Luzir sim resplender sim que são efeitos de luz mas queimar abrasar consumir que são efeitos de fogo isso não que já lhos tirou Maria Já Maria despontou os raios do sol por isso luzem e não ferem ardem e não queimam resplandecem e não abrasam Parecevos maravilha que assim abrandasse aquela benigna luz os rigores do sol Parecevos grande maravilha que assim lhe apagasse o fogoso e abrasado e lhe deixasse só o respíandescente e luminoso Pois ainda fez mais Não só abrandou ou apagou no sol os rigores do fogo senão também os rigores da luz O sol não é só rigoroso e terrível no fogo com que abrasa senão também na luz com quê alumia Em aparecendo no Oriente os primeiros raios do sol como se foram archeiros da guarda do grande rei dos planetas vereis como vão diante fazendo praça e como em um momento alimpam o campo do céu sem guardar respeito nem perdoar a coisa luzente O vulgo das estrelas que andavam como espalhadas na confiança da noite as pequeninas somemse as maiores retiramse todas fogem todas se escondem sem haver nenhuma por maior luzeiro que seja que se atreva a parar nem a aparecer diante do sol descoberto Vedes esta majestade severa Vedes este rigor da luz do sol com que nada lhe pára com que tudo escurece em sua presença Ora deixaio vir ao signo de Virgem e vereis como essa mesma luz fica benigna e tratável Viu S João no Apocalipse um novo signo celeste Signun magnun apparuit in caelo Apc 121 Era uma mulher vestida do sol calçada da lua e coroada de estrelas Mulier amicta sole luna sub pedibus ejus et in capite ejus corona stellarum duodecim Ibid Não reparo no sol e na lua no sol e nas estrelas reparo Calçada da lua e vestida de sol bem pode ser porque diante do sol também aparece a lua Mas vestida de sol e coroada de estrelas Sol e estrelas juntamente Não é possível como acabamos de ver Pois se na presença do sol fogem e desaparecem as estrelas e o sol estava presente e tão presente no vestido da mesma mulher como apareciam nem podiam aparecer as estrelas da coroa Aí vereis quão mudado está o sol depois que vestiu uma mulher ou depois que uma mulher o vestiu a ele12 Este signo em que o sol apareceu a S João era o signo de Virgem Signum magnum apparuit in caelo Mulier amicta sole E depois que o sol entrou no signo de Virgem depois que o sol se humanou nas entranhas da Virgem Maria logo os seus raios não foram temerosos logo a sua majestade não foi terrível logo a grandeza de soberania da sua mesma luz foi tão benigna que já não fogem nem se escondem dela as estrelas antes lhes consente que possam luzir e brilhar em sua presença Assim amansou aquela luz divina o sol noutro tempo tão severo assim humanou a intolerável grandeza de sua luz assim temperou e quebrou a força de seus raios Para que vejamos quanto se deve alegrar neste dia e quanto deve festejar o nascimento desta benigna luz o gênero humano todo e mais aqueles que mais têm ofendido o Sol Quantas vezes havia de Ter o Sol de justiça abrasado o mundo Quantas havia de ter fulminado com os seus raios as rebeldias de nossas ingratidões e as abominações de nossos vícios se não fora pela benignidade daquela luz Para isso nasceu e para isso nasce hoje para o fazer humano antes de nascer e para lhe atar as mãos e os braços depois de nascido De qua natus est Jesus V Terceira razão a luz é mais universal o sol é limitado no tempo e no lugar Diversidades entre o sol material e o sol de justiça O sol de justiça e as trevas do Egito O papa Inocêncio III e a comparação do Cântico dos Cânticos O terceiro título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais universal É a luz mais universal que o sol porque o sol nunca alumia mais que meio mundo e meio tempo a luz alumia em todo o tempo e a todo o mundo O sol nunca alumia mais que meio mundo porque quando amanhece para nós anoitece para os nossos antípodas e quando amanhece aos antípodas anoitece para nós E nunca alumia mais que meio tempo porque das vinte e quatro horas do dia natural as doze assiste em um hemisfério as doze no outro Não assim a luz A luz não tem limitação de tempo nem de lugar sempre alumia e sempre em toda parte e sempre a todos Onde está o sol alumia com o sol onde está a lua alumia com a lua e onde não há sol nem lua alumia com as estrelas mas sempre alumia De sorte que não há parte do mundo nem movimento de tempo ou seja dia ou seja noite em que maior ou menor não haja sempre luz Tal foi a disposição de Deus no principio do mundo Ao sol limitoulhe Deus a jurisdição no tempo e no lugar à luz não lhe deu jurisdição limitada senão absoluta para todo o lugar e para todo o tempo Ao sol limitoulhe Deus tempo porque mandou que alumiasse o dia Luminare majus ut praeesset diei Gên 116 e limitoulhe lugar porque só quis que andasse dentro dos trópicos de Câncer e Capricórnio e que deles não saísse Porém à luz não lhe limitou tempo porque mandou que alumiasse de dia por meio do sol e de noite por meio da lua e das estrelas Luminare majus ut praeesset diei luminare minus ut praeesset nocti et stellas ibid E não lhe pôs limitação de lugar porque quis que alumiasse não só dentro dos trópicos senão fora deles como faz a luz que dentro dos trópicos alumia por meio do sol e da lua e fora dos trópicos por meio das estrelas para que por este modo de dia e de noite no claro e no escuro na presença e na ausência do sol sempre houvesse luz como há Esta mesma diferença se acha na verdadeira luz e no verdadeiro sol Cristo e sua mãe Cristo é sol do mundo mas sol que tem certo hemisfério sol que tem seus antípodas sol que quando nasce nasce para alguns e não para todos Assim o disse Deus por boca do profeta Malaquias Orietur vobis timentibus nomem meum sol justitiae Mal 42 Nascerá o sol de justiça para vós os que temeis o meu nome Fala o profeta não da graça da redenção ou suficiente que é universal para todos senão da santificante e eficaz de que muitos por sua culpa são excluídos e por isso diz que o sol de justiça não nasce para todos senão só para aqueles que o temem Todo este mundo tomado nesta consideração se divide em dois hemisférios um hemisfério dos que temem a Deus outro hemisfério dos que o não temem No hemisfério dos que temem a Deus só nasce o sol da justiça e só para eles há dia só eles são alumiados No hemisfério dos que não temem a Deus nunca jamais amanhece o sol sempre há perpétua noite todos estão em trevas e às escuras Neste sentido chamau o profeta a este sol sol de justiça Sol justitiae O sol material se bem se considera é sol sem justiça porque trata a todos pela mesma forma e tanto amanhece para os bons como para os maus Qui solem suum oriri facit super bonos et malos Mt 545 É possível que tanto sol há de haver para o bom como para o mau Para o cristão como para o infiel Para o que adora a Deus como para o que adora o ídolo Tanto há de amanhecer o sol para o diligente como para o preguiçoso Tanto para o que lhe abre a janela como para o quelha fecha Tanto para o lavrador que o espera como para o ladrão que o aborrece Notável injustiça do sol material Não assim o Sol da Justiça É Sol da Justiça porque trata a cada um conforme o que merece Só para os bons amanhece e para os maus escondese só alumia aos que o temem e aos que o não temem sempre os tem às escuras Parece coisa dificultosa que no mesmo hemisfério na mesma cidade e talvez na mesma casa estejam uns alumiados e outros às escuras mas assim passa e já isto se viu com os olhos no mundo algum dia Uma das pragas do Egito foram as trevas E descrevendoas o texto diz assim Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti Nemo vidit fratrem suum nec movit se de loco in quo erat ubicumque outem habitabant filii Israel lux erat Êx 1022 s Houve em toda a terra do Egito umas trevas tão horríveis que nenhum egípcio via ao outro e nenhum se podia mover do lugar onde estava mas onde habitavam as hebreus no mesmo tempo havia luz Brava maravilha Em toda a terra do Egito havia umas casas que só eram habitadas de egípcios outras que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente Nas que eram habitadas de egípcios todos estavam em trevas nas que eram habitadas de hebreus todos estavam em luz nas que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente os hebreus estavam alumiados e as egípcios às escuras Isto que fez no Egito a vara de Moisés faz em todo mundo a vara do Sol de Justiça Muitas casas há no mundo em que todos são pecadores algumas casas haverá em que todos sejam justos outras há e é o mais ordinário em que uns são justos e outros pecadores E com toda esta diversidade de casas e de homens executa a vara do Sol de Justiça o que a de Moisés no Egito Na casa onde todos são justos todos estão em luz na casa onde todos são pecadores todos estão em trevas na casa onde há pecadores e justos os justos estão alumiados e os pecadores às escuras De sorte que o Sol de Justiça nesta consideração em que falamos é sol tão particular e tão parcial que não só no mundo tem diferentes hemisférios mas até na mesma casa tem antípodas Não assim aquela luz que hoje nasce que para todos e para todo o tempo e para todo lugar é sempre luz Viram os anjos nascer hoje aquela formosa luz e admirados de sua beleza disseram assim Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens pulchra ut luna electa ut sol Quem é esta que nasce e aparece no mundo diligente como a aurora formosa como a lua escolhida como o sol Cant 69 À aurora à lua e ao sol comparam os anjos esta Senhora e parece que dizem menos em três comparações do que diriam em uma Se disseram só que era semelhante ao sol diriam mais porque de sol à lua é minguar de sol à aurora é descer Pois por que razão que não podia ser sem grande razão uns espíritos tão bem entendidos como os anjos ajustam umas semelhanças tão desiguais e comparam a Senhora quando nasce à aurora à lua e ao sol juntamente Deu no mistério advertidamente o papa Inocêncio III Comparam os anjos a Maria quando nasce juntamente ao sol à lua e à aurora para mostrar que aquela Senhora é luz de todos as tempos Todos os tempos ou são dia ou são noite ou são aquela hora de luz duvidosa que há entre a noite e o dia Ao dia alumia o sol à noite alumia a lua à hora entre noite e dia alumia a aurora Pois por isso chamam os anjos juntamente à Senhora aurora lua e sol para mostrarem que é luz que alumia em todos os tempos Luz que alumia de dia como sol luz que alumia de noite como lua luz que alumia quando não é noite nem dia como aurora E que são ou que significam estes três tempos Ouvi agora a Inocência Lusa lucet in nocte aurora in diluculo sol in die Nox outem est culpa diluculun poenitentia dies gratia A lua alumia de noite e a noite é a culpa a aurora alumia de madrugada e a madrugada é a penitência o sol alumia de dia e o dia é a graça E para todos estes tempos e para todos estes estados é Maria luz universal Luz para os justos que estão em graça luz para os pecadores que estão na culpa e luz para os penitentes que querem passar da culpa à graça Qui ergo jacet in nocte culpae respiciat lunam deprecetur Mariam qui surgit ad diluculum poenitentiae respiciat auroram deprecetur Mariam qui vivit in die gratiae respiciat solem deprecetur Mariam Pelo que conclui exortando o grande pontífice se sois pecador se estais na noite do pecado olhai para a lua fazei oração a Maria para que vos alumie e vos tire da noite da pecado para a madrugada da penitência Se sois penitente estais na madrugada do arrependimento ponde os olhos na aurora fazei oração a Maria para que vos alumie e vos passe da madrugada da penitência ao dia da graça Se sois justo se estais no dia da graça ponde os olhos no sol fazei oração a Maria para que vos sustente e vos aumente nesse dia porque desse dia ditoso não há para onde passar Assim alumia aquela soberana luz universalmente a todos sem exceção de tempo nem de estado o Sol de justiça alumia só aos que o temem Timentibus nomen meum mas a Luz de misericórdia alumia aos que o temem porque o temem e aos que o não temem para que o temam e a todos alumia O Sol de justiça nasce só para as justos mas a Luz de misericórdia nasce para os justos e mais para as pecadores E por este modo é mais universal para todos a luz que hoje nasce do que o mesmo sol que dela nasceu De qua natus est Jesus VI Quarta e última razão a diligência de Maria Em Caná ainda não era chegada a hora de Jesus e já era chegada a hora de Maria A presteza de Cristo e de Maria declaradas por Davi e S João Maria e o sacramento do batismo A cousa da perdição das cinco virgens néscias Admoestação de Habacuc Maria e a mãe de Jacó O quarto e último título porque se deve mais festejar este dia é por ser a luz mais apressada para nosso bem Ser mais apressada a luz que o sol é verdade que vêem os olhos Parte o sol do oriente e chega ao ocidente em doze horas Aparece no oriente a luz e em um instante fere o ocidente oposto e se dilata e se estende por todos os horizontes alumiando em um momento o mundo O sol como dizem os astrólogos corre em cada hora trezentas e oitenta mil léguas Grande correr Mas toda esta pressa e ligeireza do sol em comparação da luz são vagares O sol faz seu cursa em horas em dias em anos em séculos a luz sempre em um instante O sol no inverno parece que anda mais tardo no amanhecer e no verão mais diligente mas nunca se levanta tão cedo o sol que não madrugue a luz muito diante dele Ó luz divina como vos pareceis nesta diligência à luz natural Foram convidados a umas bodas a luz e o sol Cristo e Maria Faltou no meio do convite aquele licor que noutra mesa depois de o sol posto e antes de o sol se pôr deu matéria a tão grandes mistérios Quis a piedosa Mãe acudir à falta falou ao Filho mas respondeu o senhor tão secamente como se negara sêlo Quid mihi et tibi est mulier Nondum venit hora mea Jo 2 4 Que há de mim para ti mulher Ainda não chegou a minha hora Aqui reparo esta hora não era de fazer bem Não era de encobrir e acudir a uma falta Não era de remediar uma necessidade Pois como responde Cristo que não era chegada a sua hora Nondum venit hora mea E se não era chegada a sua hora como trata a Senhora do remédio Era chegada a hora de Maria e não era chegada a hora de Cristo Sim que Maria é luz e Cristo é sol e a hora do sol sempre vem depois da hora da luz Nondum venit hora mea Ainda não era vinda a hora do sol e a hora da luz já tinha chegado Por isso disse Cristo à sua mãe com grande energia Quid mihi et tibi Como se dissera Reparai Senhora na diferença que há de mim a vós na matéria de socorrer aos homens como agora quereis que eu faça Vós os socorreis e eu os socorro vós lhes acudis e eu lhes acudo vós os remediais e eu os remedeio mas vós primeiro e eu depois vós logo e eu mais devagar vós na vossa hora que é antes da minha e eu na minha que é depois da vossa Nondum venit hora mea É aquela gloriosa diferença que Santo Anselmo se atreveu a dizer uma vez e todos depois dele a repetiram tantas Velocior nonnunquam salus memorato nomine Mariae quam invocato nomine Jesus Que algumas vezes é mais apressado o remédio nomeado o nome de Maria que invocado o de Jesus Algumas vezes disse o santo e quisera eu que dissera sempre ou quase sempre Vede se tenho razão Todos os caminhos de Cristo e os de Maria foram para remédio do homem mas tenho eu notado que são mui diferentes as carroças que este Rei e Rainha do céu escolheram para correr à posta em nosso remédio Cristo escolheu por carroça o sol e Maria escolheu a luz O primeiro viuo Davi In sole possuit tabernaculum suum O segundo viuo S João Et luna sub pedibus ejus13 Cá nas cortes da terra vemos o rei e a rainha quando saem passearem juntos na mesma carroça o Rei e a Rainha do céu por que o não fariam assim Por que razão não aparece a Rainha do céu na mesma carroça do sol como seu Filho Por que divide carroça e escolheu para si a da lua Eu o direi A lua é muito mais ligeira que o sol em correr o mundo O sol corre o mundo pelos signos do zodíaco em um ano a lua em menos de trinta dias O sol corre o mundo em um ano uma só vez a lua doze vezes e ainda lhe sobejam dias e horas E como as manchadas pias que rodam a carroça da lua são muito mais ligeiras que os cavalos fogosos que tiram pelo carro do sol por isso Cristo aparece no carro do sol e Maria no da lua Não é consideração minha senão verdade profética confirmada com o testemunho de uma e outra visão e com os efeitos de ambas Tomau Cristo para si o carro do sol e que se seguiu Exultavit ur gigas ad currendam viam diz Davi Sl186 Largou o sol as rédeas ao carro e correu Cristo com passos de gigante Tomau Maria para si a carroça da lua e que se seguiu Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae ut volaret diz S João Apc 1214 Estando com a lua debaixo dos pés deramse a Maria duas asas de águia para que voasse De sorte que Cristo no carro do sol corre com passos de gigante e Maria na carroça da lua voa com asas de águia E quanto vai das águias aos gigantes e das asas aos pés e do voar ao correr tanto excede a ligeireza velocíssima com que nos socorre Maria à presteza posto que grande com que nos socorre Cristo Não vos acode primeiro nas vossas cousas o advogado que o juiz Pois Cristo é o juiz e Maria a advogada Mas não deixemos passar sem ponderação aquela advertência do evangelista Aquilae magnae Que as asas com que viu a Senhora não só eram de águia senão de águia grande De maneira que Cristo para correr em nosso remédio com passos mais que de homem tomau pés de gigante Exultavit ut gigas e a Senhora para correr em nosso remédio com passos mais que de gigante tomau asas de águia Datae sunt mulieri alae duae aquilae Mas essas asas não foram de qualquer águia senão de águia grande Aquilae magnae para que a competência ou a vantagem fosse de gigante a gigante Que coisa é uma águia grande senão um gigante das aves Cristo correndo como gigante mas como gigante dos homens a Senhora correndo como gigante mas como gigante das aves Cristo como gigante com pés a Senhora como gigante com asas Cristo como gigante que corre a Senhora como gigante que voa Cristo como gigante da terra a Senhora como gigante do ar Mas assim havia de ser para fazer a Senhora em nosso remédio os encarecimentos verdades O maior encarecimento de acudir com a maior presteza é acudir pelo ar Assim o faz a piedosa Virgem Cristo com passos de gigante acode aos homens a toda a pressa mas a Senhora com asas de águia acodelhes pelo ar Isto mesmo é ser luz que pelo ar nos vem toda E para que de uma vez vejamos a diferença com que esta soberana luz é avantajada ao divino sol na diligência de acudir a nosso remédio consideremolos juntos e comparemolos divididos E que acharemos Coisa maravilhosa Acharemos que quando o nosso remédio mais se apressa é por diligência da luz e quando alguma vez se dilata é por tardanças do sol Vestese de carne o Verbo nas entranhas da Virgem Maria e diz o evangelista que logo com muita pressa se partiu a Senhora com seu Filho a livrar o menino Batista do pecado original Exurgens outem Maria abiit in montana cumfestinatione Lc 139 Nasce enfim Cristo cresce vive morre ressuscita e do mesmo dia da Encamação a trinta e quatro anos institui o sacramento do Batismo Baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti Mt 28 19 O batismo já sabeis que é o remédio do pecado original que foi o que Cristo principalmente veio remediar ao mundo como restaurador das ruínas de Adão Pois se Cristo veio ao mundo principalmente a remediar o pecado original e se em chegando ao mundo o foi remediar logo no menino Batista como agora dilata tantos anos o remédio do mesmo pecado Então parte no mesmo instante e depois dilatase tanto tempo Sim Porque então estava Cristo dentro em sua Mãe Exurgens Maria e agora estava fora e apartado dela E para remediar os males do gênero humano é mui diferentemente apressado Cristo em si mesmo ou Cristo em sua Mãe Cristo em sua Mãe obra por ela e ela como luz obra em instante Cristo fora de sua Mãe obra por si mesmo e ele como sol obra em tempo e em muito tempo Vede se mostra a experiência o que eu dizia que quando o nosso remédio mais se apressa é por diligências daquela divina luz e da mesma maneira quando se dilata ou quando se perde bem que por culpa nossa é com tardanças do sol Das dez virgens do Evangelho com desgraça não imaginada perderamse cinco e posto que a cousa de sua perdição foi a sua imprudência a ocasião que teve essa cousa foi a tardança dos desposados Se os desposados não tardaram até a meianoite não se apagaram as lâmpadas e se as lâmpadas se não apagaram não ficaram excluídas as cinco virgens Agora pergunto E qual dos desposados foi o que tardou O esposo nesta parábola é Cristo a esposa é Maria Qual foi logo dos dois o que tardou se acaso não foram ambos Foi o esposo ou a esposa Foi Cristo ou sua Mãe Não é necessário que busquemos a resposta nos comentadores o mesmo texto o diz Moram autem faciente sponso dormitaverunt omnes et dormierunt Mt 255 E como tardasse o esposo adormeceram todas e dormiram De modo que o que tardou foi o esposo É verdade que o esposo e a esposa estavam juntos mas o que tardou ou o que foi cousa da tardança não foi a esposa senão o esposo Moram outem faciente sponso Atemos agora esta desgraça das virgens com a ventura do Batista No Batista conseguiuse o remédio por diligências mas cujas foram as diligências Estavam juntos Maria e Cristo mas as diligências foram de Maria Exurgens Maria abiit in montana cum festinatione Nas virgens perdeuse o remédio como sempre se perde por tardanças mas cujas foram as tardanças Estavam juntos o esposo e a esposa mas a tardança foi do esposo Moram autem faciente sponso O divino esposo de nossas almas é certo que nunca falta nem tarda nós somos os que lhe faltamos e lhe tardamos As suas diligências e as de sua Santíssima Mãe todas nascem da mesma fonte que é o excessivo amor de nosso remédio mas é a Senhora por mais agradar e mais se conformar com o desejo do mesmo Cristo tão solícita tão cuidadosa tão diligente em acudir em socorrer em remediar aos homens que talvez como aconteceu neste caso as diligências de seu Filho comparadas com as suas parecem tardanças Tudo é ser ele sol e ela luz O sol nunca tarda ainda quando sai mais tarde porque quem vem a seu tempo não tarda Assim o disse o profeta Habacuc falando à letra não de outrem senão do mesmo Cristo Simoram fecerit expecta illum quia veniens veniet et non tardabit Se tarda esperai por ele porque virá sem dúvida e não tardará Hab 23 Como não tardará se já tem tardado e ainda está tardando Simoram fecerit non tardabit São tardanças de sol que ainda quando parece que tarda não tarda porque vem quando deve vir Mas esse mesmo sol que regulado com suas obrigações nunca tarda comparado com as diligências da luz nunca deixa de tardar Sempre a luz vem diante sempre a luz sai primeiro sempre a luz madruga e se antecipa ao sol Ó divina luz Maria ditoso aquele que merecer os lumes de vosso favor Ditoso aquele que entrar no número dos vossos favorecidos ou dos vossos alumiados Tendovos de uma parte a vós e da outra a vosso Filho dizia aquele grande servo e amante de ambos Positus in medio quo me vertam Nescio Posto em meio dos dois não sabe Agostinho para que parte se há de voltar E quando Agostinho confessa que não sabe sofrível é em qualquer homem qualquer ignorância Ut minus sapiens dico como ignorante digo Virgem Santíssima perdoeme vosso Filho ou não me perdoe que eu me quero voltar a vós Já ele alguma hora deixou a seu Pai por sua Mãe não estranhará que eu faça o mesmo Tenha a prerrogativa de Esaú quem quiser que eu quero antes a dita de Jacó Esaú era mais amado e mais favorecido de seu pai Jacó era mais favorecido e mais amado de sua Mãe ruas a bênção levoua Jacó E por que levou Jacó a bênção Pelo que temos dito até agora porque as diligências da Mãe foram mais apressadas que as do pai Quomodo tam cito invenire potuisti fili mi Como pudeste achar tão cedo disse Isac o que eu mandei prevenir para lançar a bênção ao meu primogênito Gên 2720 E que respondeu Jacó Sendo que tudo tinham sido prevenções e diligências de sua Mãe respondeu que fora vontade de Deus Voluntas Dei fuit ibid E assim é A mãe de Jacó representava neste passo a Mãe Santíssima e quem tem de sua parte as diligências desta mãe sempre tem de sua parte a vontade de Deus Esaú teve de sua parte as diligências do pai mas quando chegou chegou tarde porque por mais diligências que faça o sol sempre as da luz chegam mais cedo Quomodo tam cito As diligências da mãe já tinham chegado e as do pai ainda haviam de chegar Assim como hoje a luz já tem nascido e o sol ainda há de nascer De Qua natus est Jesus VII Admoestação final Santo Tomás pela luz mede a perfeição das coisas São Tiago e os dons de Deus pai dos lumes Oração Ora cristãos suposto que aquela soberana luz é tão apressada e diligente para nosso remédio suposto que é tão universal para todos e para tudo suposto que é tão piedosa e benigna para nos querer fazer bem suposto que é tão privilegiada e favorecida por graça e benignidade do mesmo sol metamonos todos hoje debaixo das asas desta soberana protetora para que nos faça sombra e nos dê luz para que nos faça sombra e nos defenda dos raios do Sol de justiça que tão merecidos temos por nossos pecados e para que nos dê luz para sair deles pois é Senhora da Luz Aquela mulher prodigiosa do Apocalipse que S João viu com as asas estendidas toda a Igreja reconhece que era a Virgem Maria E nós podemos acrescentar que era a Virgem debaixo do nome e invocação de Senhora da Luz A mesma luz o dizia e o mostrava que da peanha até a coroa toda era luzes a peanha lua o vestido sol a coroa estrelas toda luzes e toda luz E pois a Senhora da Luz está com as asas abertas metamonos debaixo delas e muito dentro delas para que sejamos filhos da luz Dum lucem habetis credite in lucem ut filii lucis sitis diz Cristo Jo 1236 Enquanto se vos oferece a luz crede na luz para que sejais filhos da luz Sabeis cristãos por que não acabamos de ser filhos da luz É porque não acabamos de crer na luz Creiamos na luz e creiamos que não há maior bem no mundo que a luz e ajudemnos a esta fé os nossos mesmos sentidos Por que estimam os homens o ouro e a prata mais que os outros metais Porque têm alguma coisa de luz Por que estimam os diamantes e as pedras preciosas mais que as outras pedras Porque têm alguma coisa de luz Por que estimam mais as sedas que as lãs Porque têm alguma coisa de luz Pela luz avaliam os homens a estimação das coisas e avaliam bem porque quanto mais têm de luz mais têm de perfeição Vede o que notou Santo Tomás Neste mundo visível umas coisas são imperfeitas outras perfeitas outras perfeitíssimas e nota ele com sutileza e advertência angélica que as perfeitíssimas têm luz e dão luz as perfeitas não têm luz mas recebem luz as imperfeitas nem têm luz nem a recebem Os planetas as estrelas e o elemento do fogo que são criaturas sublimes e perfeitíssimas têm luz e dão luz o elemento do ar e o da água que são criaturas diáfanas e perfeitas não têm luz mas recebem luz a terra e todos os corpos terrestres que são criaturas imperfeitas e grosseiras nem têm luz nem recebem luz antes a rebatem e deitam de si Ora não sejamos terrestres já que Deus nos deu uma alma celestial recebamos a luz amemos a luz busquemos a luz e conheçamos que nem temos nem podemos nem Deus nos pode dar bem nenhum que seja verdadeiro bem sem luz Ouvi umas palavras admiráveis do apóstolo S Tiago na sua epístola Omne datum optim um et omne donum perfectum de sursum est descendens a Patre luminum Tg 117 Toda dádiva boa e todo dom perfeito descende do Pai dos lumes Notável dizer De maneira que quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente bom quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente perfeito não se chama Deus pai de misericórdias nem fonte das liberalidades chamase pai dos lumes e fonte da luz porque no lume e na luz que Deus nos dá com os bens consiste a bondade e a perfeição deles Muitos dos que nós chamamos bens de Deus sem luz são verdadeiramente males e muitos dos que nós chamamos males com luz são verdadeiros bens Os favores sem luz são castigos e os castigos com luz são favores as felicidades sem luz são desgraças e as desgraças com luz são felicidades as riquezas sem luz são pobreza e a pobreza com luz são as maiores riquezas a saúde sem luz é doença e a doença com luz é saúde Enfim na luz ou falta de luz consiste todo o bem ou mal desta vida e todo o da outra Por que cuidais que foram santos os santos senão porque tiveram a luz que a nós nos falta Eles desprezaram o que nós estimamos eles fugiram do que nós buscamos eles meteram debaixo dos pés o que nós trazemos sobre a cabeça porque viam as coisas com diferente luz do que nós as vemos Por isso Davi em todos os salmos por isso os profetas em todas suas orações e a Igreja nas suas não cessam de pedir a Deus luz e mais luz Esse é o dia cristãos de despachar estas petições Peçamos hoje luz para nossas trevas peçamos luz para nossas escuridades peçamos luz para nossas cegueiras luz com que conheçamos a Deus luz com que conheçamos o mundo e luz com que nos conheçamos a nós Abramos as portas à luz para que alumie nossas casas abramos os olhos à luz para que alumie nossos corações abramos os corações à luz para que more perpetuamente neles Venhamos venhamos a buscar luz a esta fonte de luz e levemos daqui cheias de luz nossas almas Com esta luz saberemos por onde havemos de ir com esta luz conheceremos donde nos havemos de guardar com esta luz enfim chegaremos àquela luz onde mora Deus a que o apóstolo chamau luz inacessível Qui lucem inhabitat inaccessibilem I Tim 616 que só por meio da luz que hoje nasce se pode chegar à vista do sol que dela nasceu De qua natus est Jesus SERMÃO DA TERCEIRA QUARTAFEIRA DA QUARESMA NA CAPELA REAL ANO 1669 Nescitis quid petatis1 I Assunto um remédio para os males de todas as cortes do mundo a consolação dos maldespachados baseandose no pedido indefinido da mãe dos Zebedeus Dois lugares e dois pretendentes um memorial e uma intercessora um príncipe e um despacho são a representação política e a história cristã deste Evangelho Nos lugares temos as mercês nos pretendentes as ambições na intercessora as valias no memorial os requerimentos no príncipe o poder e a justiça no despacho o desengano e o exemplo Este último há de ser a veia que hoje havemos de sangrar Queira Deus que a acertemos que é muito funda A enfermidade mais geral de que adoecem as cortes e a dor e o achaque de que todos comumente se queixam é de maldespachados Em alguns se queixa o merecimento em outros a necessidade em muitos a própria estimação e em todos o costume O benemérito chamalhe semrazão o necessitado diz que é crueldade o presumido tomao por agravo e o mais modesto dálhe nome de desgraça e pouca ventura E que não houvesse até agora no púlpito quem tomasse por assunto a consolação desta queixa o alívio desta melancolia o antídoto deste veneno e a cura desta enfermidade Muitos dos enfermos bem haviam mister um hospital Mas à obrigação desta cadeira que é de medicina das almas só lhe toca disputar a doença e receitar o remédio E se este for provado e pouco custoso será fácil de aplicar Ora eu movido da obrigação e da piedade e parecendome esta matéria uma das mais importantes para todas as cortes do mundo e a mais necessária para a nossa no tempo presente determino pregar hoje a consolação dos maldespachados Nem com a ambição dos Zebedeus hei de condenar os pretendentes nem com a negociação da mãe hei de argüir os intercessores nem com a resolução de Cristo hei de abonar os príncipes e os ministros só com o desengano do requerimento Nescitis quid petatis pretendo consolar eficazmente a todos os que se queixam dos seus despachos ou se sentem dos alheios Consolar um maldespachado é o assunto do sermão Se com a graça divina se conseguir o intento sairão hoje daqui os pretendentes comedidos os ministros aliviados os bem despachados confusos e os maldespachados contentes Ajude Deus o zelo com que ele sabe que fiz eleição deste ponto II Os que devem ser excluídos da lista dos mal despachados Considerar o que éreis e o que sois Adão transformado de barro em homem ainda pretende ser Deus O que tínheis e o que tendes a estranha ordem do Faraó aos irmãos de José Onde estáveis e onde estais a origem humilde de Davi Por que não se queixaram os apóstolos ante a negativa de Cristo Nescitis quid petatis Havendo pois de consolar hoje os maldespachados aquela gente muita e não vulgar de quem se pode dizer Non est qui consoletur eam2 para que procedamos distintamente e falemos só com quem devemos falar é necessário excluir primeiro desta honrada lista os que importunamente e sem razão se querem meter nela E quem são estes São aqueles que sendo hoje tanto mais do que eram e tendo tanto mais do que tinham e estando tanto mais levantados do que estavam ainda se queixam e se chamam maldespachados Adão antes de Deus o formar não era nada formado era uma estátua de barro lançada naquele chão bafejouo Deus pôsse Adão em pés começou a ser homem e foi com tão extraordinária fortuna que tinha diz o texto ele só três presidências a presidência da terra sobre todos os animais a presidência do ar sobre todas as aves a presidência do mar sobre todos os peixes Estava bem despachado Adão Parece que não podia ser mais nem melhor Contudo nem ele nem sua mulher ficaram contentes ainda pretendiam E quê Não mais que ser como Deus Eritis sicut dii3 Há tal ambição de subir Há tal desatino de crescer Anteontem nada ontem barro hoje homem amanhã Deus Não se lembrará Adão do que era ontem e muito mais do que era anteontem Quem ontem era barro não se contentará com ser hoje homem e o primeiro homem Quem anteontem era nada não se contentará com ser hoje tudo e mandar tudo Não porque já então era Adão como hoje são muitos de seus filhos que saem como ele ao barro e ao nada de que foram criados Malcriados e maus criados Por isso descontentes e ingratos quando deveram estar muito contentes e mui agradecidos E a razão desta semrazão é porque dos sentidos perderam a vista e das potências a memória nem olham para o que são nem se lembram do que foram Mas do que éreis e do que sois passemos ao que tínheis e ao que tendes Entronizado José no governo e império do Egito soube el rei Faraó que tinha pai e irmãos na terra de Canaã e mandouos logo chamar para que viessem ser companheiros da fortuna de seu irmão O recado foi notável e dizia assim Properate nec dimittatis quidquam de supellectili vestra quia omnes opes Aegypti vestrae erunt Vinde logo e não deixeis coisa alguma das vossas alfaias porque todas as riquezas do Egito hão de ser vossas Gên 4520 Este porquê não entendo Antes porque todas as riquezas do Egito haviam de ser suas não era necessário que trouxessem coisa alguma do que tinham em Canaã Pois por que lhes manda Faraó que tragam todas as suas alfaias Por isso mesmo para que cotejando as alfaias da fortuna presente com as da fortuna passada conhecessem melhor a mercê que o rei lhes fizera Eram os irmãos de José uns pobres lavradores e pastores saiam de cabanas e telhados de colmo para virem morar em palácios dourados debaixo das pirâmides e obeliscos do Egito Pois tragam as suas peles as suas mantas os seus pelotes de pano da serra tragam as suas samarras as suas alparcas as suas gualteiras tragam as suas escudelas de pão e os seus tarros de cortiça para que quando se virem com as paredes ricamente entapizadas a prata rodar pelas mesas a seda e ouro das galas as pérolas e os diamantes das jóias os criados os cavalos as carroças conheçam quanto vai de tempo a tempo e de fortuna a fortuna e dêem graças a Faraó Quer cada um conhecer e ver e apalpar a muita mercê que o rei lhe tem feito Coteje as suas alfaias as de casa e as da rua as suas e as dos seus A comparação deste muito com aquele pouco Oh quanto serviria para o agradecimento e para a modéstia e ainda para fazer lastro a mesma fortuna Visto já o que éreis e o que sois o que tínheis e o que tendes resta a combinação dos lugares onde estáveis e onde estais No segundo livro dos Reis capítulo sétimo estão registradas as mercês que Deus tinha feito a Davi e diz assim o registo Ego tuli te de pascuis sequentem greges ut esses dux super populum meum 2 Rs 78 Eu diz Deus tirei a Davi de entre pastores onde guardava as ovelhas de seu pai e o fiz capitão e governador sobre todo o meu povo Não só diz Deus o lugar onde o pôs senão também o lugar donde o tirou o onde e mais o donde Pois Senhor meu que tão grandioso sois se quereis que fiquem registadas em vossos livros as mercês que fizestes a Davi por que mandais que se registe também neles o exercício de que vivia e o lugar humilde de que o levantastes Para que à vista deste lugar conheça melhor Davi a grande mercê que lhe tenho feito Quando se vir com o bastão na mão lembrese que na mesma mão trazia o cajado Se algum dia que tudo se pode temer dos homens lhe parecerem pequenas a Davi as mercês que lhe fiz lembrarseá do lugar que tinha antes e do que tem agora lembrarseá donde o tirei e onde o pus e logo lhe parecerão grandes Estes ondes e estes dondes não se costumam registar nos livros das mercês Seria bem que ao menos se registasse nas memórias dos que as recebem Já que tivestes tanta estrela pondelhe uma estrelinha à margem Lembrese o descontente com Davi onde estava e onde está lembrese com os irmãos de José do que tinha e do que tem lembrese com Adão do que era e do que é e logo verá qual deve ser o queixoso se o despacho ou o despachado Não despachou Cristo hoje os nossos pretendentes mas eu noto que nenhum deles se queixou Pediram as duas supremas cadeiras do reino pediram que Cristo os despachasse logo com três letras Dic dic ut sedeant hi duo filii mei E foram respondidos logo com outras três Non non est meum dare vobis4 E sendo este não tão claro tão seco tão desenfeitado queixouse porventura a intercessora Queixaramse os pretendentes Nem uma palavra disseram E por quê Porque eram gente que sabia tomar as medidas à sua fortuna Compararam o que tinham sido como que eram e o que eram como que pretendiam ser Na comparação do que tinham sido com o que eram viam a melhoria do seu estado na comparação do que eram como que pretendiam sei reconheciam o excesso da sua ambição E estas duas comparações lhes taparam a boca de maneira que não teve por onde brotar a queixa Ontem remando a barca e remendando as redes hoje despachados cada um de nós com uma das doze cadeiras do reino de Cristo E que ainda não estejamos contentes e nos atrevamos a pretender os dois lugares supremos Mais razão tem logo nosso Mestre de negar do que nossa mãe e nós de pedir Ele negou como justo nós pedimos como demasiados e néscios Nescitis quid petatis III Os beneméritos maldespachados Consolações humanas as ações honradas como já o reconhecia Sêneca são satisfações de si mesmas A fama O servo inútil do Evangelho e o Venerável Beda Catão e o reconhecimento dos romanos A injustiça dos prêmios e a opinião de Marco Túlio Os nãopremiados e o glorioso epitáfio ditado pelo filho pródigo Excluídos já os queixosos e descontentes sem cousa e que porventura são a cousa de haver tantos descontentes ouçam agora os beneméritos maldespachados a muita razão que têm de se consolar A do Evangelho como logo mostrarei é a mais forte de todas Mas sem recorrer a motivos da fé se eu fora um dos beneméritos em mim mesmo e no meu próprio merecimento achara tão grandes razões de me consolar que sem outra mercê nem despacho me dera por mui contente e satisfeito Discorrei um pouco comigo Ou mereceis os prêmios que vos faltam e com que vos faltam ou não se os não mereceis não tendes de que vos queixar se os mereceis muito menos Ainda não sabíeis que não há virtude nem merecimento sem prêmio Assim como o vicio é o castigo assim a virtude é o prêmio de si mesma O maior prêmio das ações heróicas é fazêlas Com melhores palavras o disse Sêneca porque falava em melhor língua Quid consequar inquis si hoc fortiter si hoc grate fecero Quod feceris Se me perguntas que hás de conseguir pelo que fizeste ou forte ou generosamente respondote que têlo feito5 Rerum honestarum pretium in ipsis est O prêmio das ações honradas elas o têm em si e o levam logo consigo nem tarda nem espera requerimentos nem depende de outrem são satisfação de si mesmas No dia em que as fizestes vos satisfizestes E se fora de vós mesmo esperáveis outro prêmio contentaivos com o da opinião e da honra Se vossos serviços são mal premiados bastevos saber que são bem conhecidos Este prêmio mental assentado no juízo das gentes ninguém volo pode tirar nem diminuir Que importa que subais mal consultado dos ministros se estais bem julgado da fama Que importa que saísseis escusado do tribunal se o tribunal fica acusado Passai pela chancelaria este despacho deixaio por brasão a vossos descendentes sereis duas vezes glorioso Só vos dou licença que vos arrependais de ter pretendido Pouco fez ou baixamente avalia suas ações quem cuida que lhas podiam pagar os homens Se servistes à pátria que vos foi ingrata vós fizestes o que devíeis ela o que costuma Mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia Quando fizestes o que devíeis então vos pagastes Ouvi ao Mestre divino que tudo nos ensinou Dizia Cristo a seus soldados a quem encarregou não menos que a conquista do mundo em que todos deram a vida Cum feceritis omnia dicite servi inutiles summus Quando fizerdes tudo dizei que sois servos inúteis Lc 1710 Notável sentença O servo inútil é aquele que não faz nada mas o que faz muito e muito mais o que faz tudo há de cuidar e dizer que é servo inútil Sim Ninguém entendeu melhor este texto que o Venerável Beda Não fala Cristo da utilidade que recebe o Senhor senão da utilidade que não recebe o servo O servo não recebe utilidade do seu serviço porque é obrigado a servir e assim há de servir quem serve generosamente O mesmo Cristo se declarou e deu a razão muito como sua Quod debuimus facere fecimus O que devíamos fazer isso fizemos Quem fez o que devia devia o que fez e ninguém espera paga de pagar o que deve Se servi se pelejei se trabalhei se venci fiz o que devia ao rei fiz o que devia à pátria fiz o que me devia a mim mesmo e quem se desempenhou de tamanhas dívidas não há de esperar outra paga Alguns há tão desvanecidos que cuidam que fizeram mais do que deviam Enganamse Quem mais é e mais pode mais deve O sol e as estrelas servem sem cessar e sempre com grande utilidade mas esta toda é do universo e nada sua Prezaivos lá de filhos do sol e tão ilustres como as estrelas e abstendevos a mendigar outra paga Eu não pretendo com isto escusar os que vós acusais Porque vós sois benemérito não devem esses ser injustos antes aprender da vossa generosidade a ser generosos e liberais Que dão ou que podem dar a quem deu por eles o sangue Mas por que ainda com o pouco que podem faltam ao agradecimento quero eu que vos não falte a consolação Se vossos feitos foram romanos consolaivos com Catão que não teve estátua no Capitólio Vinham os estrangeiros a Roma viam as estátuas daqueles varões famosos e perguntavam pela de Catão Esta pergunta era a maior estátua de todas Aos outros pôslhes estátua o senado a Catão o mundo Deixai perguntar ao mundo e admirarse de vos não ver premiado Essa pergunta e essa admiração é o maior e melhor de todos os prêmios O que vos deu a virtude não volo pode tirar a inveja o que vos deu a fama não volo pode tirar a ingratidão Deixaios ser ingratos para que vós sejais mais glorioso Um grande merecimento sobre uma grande ingratidão fica muito mais subido Se não houvesse ingratidões como haveria finezas Não deis logo queixas ao desagradecimento dailhe graças Dirmeeis que vedes diferentemente premiados os que fizeram menos ou não fizeram nada Dor verdadeiramente grande Já disse uma rainha de Castela que os seus serviam como vassalos os nossos como filhos6 E não pode deixar de ser grande escândalo do amor e grande monstruosidade da natureza que fossem uns os filhos e sejam outros os herdeiros Mas essa mesma injustiça vos deve servir de consolação Se o mundo e o tempo fora tão justo que distribuíra os prêmios pela medida do merecimento então tínheis muita razão de queixa porque vos faltava o testemunho da virtude para que os mesmos prêmios foram instituídos Mas quando as mercês não são prova de ser homem senão de ter homem e quando não significam valor senão valia pouca injúria se faz a quem se não fazem Dizia com verdadeiro juízo Marco Túlio que as mercês feitas a indignos não honram os homens afrontam as honras7 E assim é As comendas em semelhantes peitos não são cruz são aspa e quando se vêem tantos ensambenitados da honra bem vos podeis honrar de não ser um deles Sejam esses embora exemplos da fortuna sedeo vós da virtude virtutem ex me fortunam ex aliis8 Finalmente se os homens vos são ingratos não sejais vós ingrato a Deus Se os reis vos não dão o que podem contentaivos com que vos deu Deus o que não podem dar os reis Os reis podem dar títulos rendas estados mas ânimo valor fortaleza constância desprezo da vida e outras virtudes de que se compõe a verdadeira honra não podem Se Deus vos fez estas mercês fazei poucocaso das outras que nenhuma vale o que custa Sobretudo lembrese o capitão e soldado famoso de quantos companheiros perdeu e morreram nas mesmas batalhas e não se queixam Os que morreram fizeram a maior fineza porque deram a vida por quem lha não pode dar E quem por mercê de Deus ficou vitorioso e vivo como se queixará de maldespachado Se não beijastes a mão real pelas mercês que vos não fez beijai a mão da vossa espada que vos fez digno delas Olhe o rei para vós como para um perpétuo credor e gloriaivos de que se não possa negar de devedor vosso o que é senhor de tudo Se tivestes ânimo para dar o sangue e arriscar a vida mostrai que também vos não falta para o sofrimento Então batalhastes com os inimigos agora é tempo de vos vencer a vós Se o soldado se vê despido folgue de descobrir as feridas e de envergonhar com elas a pátria por quem as recebeu Se depois de tantas cavalerias se vê a pé tenha esta pela mais ilustre carroça de seus triunfos E se assim se vê morrer à fome deixese morrer e vinguese Perdêloá quem o não sustenta e perderá outros muitos com esse desengano Não faltará quem diga por ele Quanti mercenarii abundant panibus ego outem hic fame pereo9 E este ingrato e escandaloso epitáfio será para sua memória muito maior e mais honrada comenda de quantas podem dar os que as dão em uma e muitas vidas IV Consolações divinas Não sabemos o que pedimos O pedido de Raquel a Jacó é cousa de sua morte Os pedidos de Sansão e do filho pródigo cousas de sua desventura Ovídio e o pedido de Faetonte Estes são os motivos gloriosos com que eu não só me consolara mas ainda me desvanecera se fora um dos mais beneméritos Mas porque Non omnes capiunt verbum istud10 vamos à razão divina do Evangelho com que se não podem deixar de consolar e conformar todos os que têm fé e ainda os que a não têm Ouvime ao princípio como homens e depois como cristãos Nescitis quid petatis Não sabeis o que pedis Nenhum homem há neste mundo falando do céu abaixo que saiba o que deseja nem o que pede Fundemos esta verdade na experiência para que as conseqüências dela sejam de maior e mais segura consolação E porque a petição do Evangelho foi de uma mãe e dois filhos ponhamos também o exemplo em dois filhos e uma mãe A mais encarecida a mais empenhada e a mais importuna e impaciente petição que fez mulher neste mundo foi a de Raquel a seu marido Jacó Da mihi liberos alioquim moriar Jacó daime filhos senão hei de morrer Gên 301 Respondeulhe Jacó que os filhos só Deus os dá e só ele os pode dar E com ser esta razão tão certa e tão experimentada não se conformava com ela Raquel Instava Da mihi liberos Dizialhe que advertisse como estava na primavera de seus anos e que ainda lhe restavam muitos em que podia ter naturalmente o que tanto desejava Mas esta mesma esperança a inquietava mais Da mihi liberos Animavaa com o exemplo de sua avó Sara que depois de tão comprida esterilidade houvera a Isac seu pai Mas Raquel sempre mais impaciente Da mihi liberos Ajuntava Jacó a estas razões as da lisonja mais poderosa muitas vezes com a fraqueza e presunção daquele sexo dizialhe que olhasse para si e se consolasse com a rosa a qual sendo a beleza dos prados e a rainha das flores é flor que não dá fruto Mas nem a lisonja nem a razão nem o exemplo nem a esperança bastava a lhe moderar as ânsias nem as vozes Da mihi liberos Da mihi liberos Esta era a petição este o aperto estas as instâncias Mas qual foi o despacho e o sucesso Caso verdadeiramente admirável O despacho foi assim como Raquel pedia e o sucesso em tudo contrário ao que pedia O que pedia Raquel não só era filho senão filhos Da mihi liberos e assim lho concedeu Deus porque a fez mãe de José e de Benjamin Mas o sucesso foi em tudo contrário ao que pedia porque parindo felizmente o primeiro filho morreu de parto e no mesmo parto do segundo Lembraivos agora dos termos com que Raquel pedia os filhos Da mihi liberos alioquim moriar Daime filhos dizia senão hei de morrer E quando cuidava que havia de morrer se não tivesse filhos porque teve filhos e no mesmo ponto em que os teve morreu Cuidava que pedia a vida e pedia a morte cuidava que pedia a alegria sua e de sua casa e pedia a tristeza o luto a orfandade dela e os que lhe haviam de trocar a mesma casa em sepultura Tão errados são os pensamentos e desejos humanos e tão certo é que no que pedimos com maiores ânsias não sabemos o que pedimos Nescitis quid petatis Confirmado o desengano da mãe dos Zebedeus com o exemplo desta mãe confirmemos o de seus dois filhos com o exemplo de outros dois posto que filhos de diferentes pais Sabida é a história de Sansão e sabida a do pródigo ambos famosos por seus excessos Deixados pois os princípios e progressos de uma e outra tragédia ponhamonos ao fim de ambas e vejamos o estado de extrema miséria a que os passos de cada um os levaram por tão diversos caminhos Vedes aquele homem robusto e agigantado que com aspecto ferozmente triste tosquiados os cabelos cavados os olhos e correndo sangue atado dentro em um cárcere a duas fortes cadeias anda morrendo em uma atafona Pois aquele é Sansão Vedes aquele mancebo macilento e pensativo que roto e quase despido com uma corneta pendente do ombro arrimado sobre um cajado está guardando um rebanho vil do gado mais asqueroso Pois aquele é o pródigo Quem haverá que se não admire de uma tal volta de fortuna em dois sujeitos tão notáveis um tão valente outro tão altivo É possível que nisto pararam as façanhas e vitórias de Sansão É possível que nisto pararam as riquezas e bizarrias do pródigo Nisto pararam ou para melhor dizer não pararam só nisto porque o pródigo perecendo à fome no meio da montanha não tinha licença para se sustentar das bolotas com que apascentava o seu gado e Sansão tirado em público para ludibrio do povo foi tratado com tais escárnios e indecências que de corrido e afrontado com suas próprias mãos se tirou a vida Mas qual seria a cousa destes sucessos e de suas mudanças tão estranhas Agora não vos peço admiração senão pasmo Ambas estas mudanças de fortuna não tiveram outra cousa que o bom despacho de suas petições em que Sansão e o pródigo se empenharam Pediu Sansão a seus pais que lhe dessem por mulher uma filistéia Quam quaeso ut accipiatis mihi uxorem11 Concederamlhe os pais o que pedia e esta filistéia foi a cousa das guerras que Sansão teve com os filisteus e dos enganos e traições de Dalila e da sua prisão e do seu cativeiro e da sua cegueira e das suas afrontas e do fim lastimoso e trágico de seu valor Da mesma maneira pediu o pródigo a seu pai lhe desse em vida a herança que lhe havia de caber por sua morte Da mihi partionem substantiae quae me contingit Lc 15 12 Concedeulhe o pai o que pedia e esta herança consumida em larguezas e vícios da mocidade foi cousa da sua pobreza da sua vileza da sua miséria da sua fome da sua servidão da sua desonra que só tiveram de desconto o pesar e arrependimento Tome agora Raquel e perguntemos àquela mãe e a estes dois filhos se pediriam depois de tão pesadas e contrárias experiências o que antes delas pediram Pediria Raquel filhos se soubesse que o ter filhos lhe havia de custar a vida Pediria Sansão a filistéia se soubesse que lhe havia de ser a cousa de sua afronta de sua morte e de perder os olhos com que a vira Pediria o Pródigo a herança antecipada se soubera que com ela havia de comprar a miséria a servidão a desonra Claro está que não Pois se agora não haviam de pedir nada do que pediram senão antes o contrário por que o pediram então Já sabeis a resposta Pediramno porque não sabiam o que pediam pediramno porque ninguém sabe o que pede e pediramno porque foram aquela mãe e aqueles dois filhos como a mãe e os dois filhos de nosso Evangelho Nescitis quid petatis Suposto este princípio certo e infalível que ninguém sabe o que pede tirem agora a conseqüência os que se têm por maldespachados Se vós soubésseis que vos estava bem o que pedistes então tínheis razão de estar contentes se volo concederam ou descontentes se volo negaram Mas quando ignorais igualmente se vos estava bem ou mal o que pretendíeis por que vos desconsolais Se me desconsolo porque cuido que me podia estar bem por que me não consolo considerando que me podia estar mal e mais quando nas coisas deste mundo o mal é o mais certo Consolaivos com a desgraça de Raquel consolaivos com a tragédia de Sansão consolaivos com o arrependimento do Pródigo E se estes exemplos vos movem menos por serem de longe consolaivos com os de mais perto e com os que vistes e vedes com vossos olhos Quantos vistes que cuidavam que estava o seu remédio onde acharam a sua perdição Quantos vistes que cuidavam que estava a sua honra donde tiraram o seu descrédito Quantos vistes que cuidavam que estava o seu aumento onde experimentaram a sua ruína Quantos finalmente vistes que os esperava a morte onde eles esperavam os maiores interesses e felicidades desta vida Alcançaram o que pediram aceitaram muito contentes o parabém do despacho mas o despacho não era para bem Poenam pro munere poscis disse o sol a Faetonte quando lhe pediu o governo do seu carro12 Olha filho que cuidas que pedes mercê e pedes castigo O autor é fabuloso mas a sentença verdadeira E se não perguntai aos nossos Faetontes aos do oriente na Ásia aos do meiodia na África aos do ocidente na América O mesmo carro que pediram foi o seu precipício e o mesmo excesso dos raios o seu incêndio Se lhes buscardes os ossos fulminados como se buscaram os de Faetonte uns achareis nas ondas outros nas areias outros nos hospitais outros nos cárceres e nos desterros e poucos nas mesmas terras que perderam que fora mais honrada sepultura Estes são os vossos bemdespachados Quando partiram levavam após si as invejas quando tornaram ou não tornaram trouxeram as lágrimas E se eles se enganaram com o seu desejo e com a sua fortuna porque não souberam o que pediram vós que também o não sabeis por que vos haveis de enganar Desenganai vos com o seu engano e consolaivos com o seu erro pois nem eles nem vós sabeis o que pedis Nescitis quid petatis V Na ciência de Deus e na nossa ignorância devemos estribar a indiferença de nossas petições Como conciliar com essas verdades o Pedi e recebereis Exemplos dados por Cristo no Evangelho Por pecados acedeu Deus ao pedido dos hebreus no deserto por merecimentos negou Cristo as petições dos Zebedeus Oh se soubéssemos o que pedimos Oh se soubéssemos o que nos está bem ou mal Como nos havíamos de dar muitas vezes por bemdespachados com aquele mesmo que chamamos mau despacho O que nos está bem ou mal só Deus o sabe todos o mais o ignoramos E esta ciência de Deus e esta ignorância nossa são os dois pólos em que há de estribar toda a indiferença de nossas petições e também a resignação nos despachos As petições havemolas de fazer como quem não sabe o que pede e os despachos havemolos de aceitar como de quem só sabe o que dá Cuidamos que os homens são os que nos despacham e por isso murmuramos e nos queixamos deles e não advertimos que em todos os conselhos assiste invisivelmente Deus como presidente supremo e que ele é o que nos dá ou nega o que pedimos como quem só sabe o que nos está bem ou mal As sortes diz Salomão não dependem da mão do homem que as tira senão da mão de Deus que as governa Sortes mittuntur in sinum et a Domino temperatur13 Se vos saiu a sorte em branco se vos não responderam como pedíeis consolaivos e aceitai este despacho como da mão de Deus que só sabe o que vos convém Os homens só fazem mercê quando dão Deus não só faz mercê quando dá senão também quando nega Petite et dabitur vobis Pedi e recebereis diz Cristo Lc 119 E para maior confirmação desta promessa acrescenta Omnis qui petit accipit Porque todo o que pede recebe A proposição não pode ser mais universal nem mais clara mas tem a réplica e a instância muito à flor da terra e apenas haverá neste mesmo auditório quem não possa testemunhar nela com a própria experiência Quantos senhores de ricas e grandes casas pediram a Deus um herdeiro e não o alcançaram Quantos pobres carregados de filhos pediram para eles o sustento e não têm com que lhes matar a fome Quantos na enfermidade fizeram votos pela saúde e morreram sem remédio Quantos na tempestade bradando ao céu foram comidos das ondas Quantos no cativeiro orando continuamente pela liberdade acabaram a miserável vida nos ferros e nas masmorras E para que não vamos mais longe no mesmo caso do nosso texto temos a mãe dos filhos de Zebedeu pedindo e pedindo de joelhos Adorans et petens aliquid ab eo E a resposta da sua petição sendo o mesmo Cristo a quem pediam foi um não muito desenganado e muito liso Non est meum dare vobis Pois se é verdade certa e evangélica experimentada ordinária e manifesta que muitos pedem a Deus e não alcançam o que pedem como diz Cristo Pedi e recebereis E como afirma absoluta e universalmente que todos os que pedem recebem A dúvida não pode ser mais apertada mas é da casta daquelas que se fundam na falta de inteligência ou errada apreensão do texto Ponderai e reparai bem no que dizem as palavras e no que não dizem Petite et accipietis Omnis enim Qui petit accipit Não diz Cristo Pedi e recebereis o que pedi senão Pedi e recebereis Nem diz Todo o que pede recebe o que pede senão Todo o que pede recebe E que é o que recebe O que Deus sabe que lhe está melhor Se pedis o que vos convém recebeis o que pedis mas se pedis o que vos não convém recebeis o não se vos dar o que pedíeis Deste modo todo o que pede recebe Omnis qui petit accipit porque ou recebe o que pede ou recebe o que havia de pedir se soubera o que pedia Quando um homem pede o que lhe não convém se soubera o que pedia havia de pedir que lho negassem e porque só Deus sabe o que nos convém supre com a sua ciência a nossa ignorância e por isso nos responde como aos Zebedeus com um não e nos nega o que pedimos O mesmo Cristo declarou a sua proposição e a fez evidente com três exemplos familiares e caseiros que se eu os trouxera havíeis de dizer que eram baixos tão altiva é a nossa rudeza e tão humana a sabedoria divina Quis outem ex vobis patrem petit panem nunquíd lapidem dabit illi Aut piscem nunquid pro pisce serpentem dabit illi Aut si petierit ovum nunquid porriget illi scorpionem Se um filho diz Cristo pedir pão a seu pai darlheá uma pedra Se lhe pedir peixe darlheá uma serpente Ou se lhe pedir um ovo dar lheá um escorpião Pois esta é a razão por que Deus que nos trata como filhos nos diz muitas vezes de não e nos nega o que pedimos porque pedimos pedras porque pedimos serpentes porque pedimos escorpiões Cuidamos que pedimos o necessário e pedimos o inútil cuidamos que pedimos o proveitoso e pedimos o nocivo isto é pedir pedras Cuidamos que pedimos sustento e pedimos veneno cuidamos que pedimos o que havemos de comer e pedimos o que nos há de comer cuidamos que pedimos com que viver e pedimos o que nos há de matar e isto é pedir serpentes e escorpiões Quando somos tão néscios ou tão meninos que não distinguimos o escorpião do ovo nem a serpente do peixe nem o pão da pedra Deus que é pai e tão bom pai por que nos não há de negar o que tão ignorante e tão perigosamente pedimos Oh ditosos aqueles a quem Deus assim despacha porque sabe que não sabem o que pedem Nescitis quid petatis E por que vos consoleis dobradamente não tenho nenhumas invejas aos que o mundo chama bemdespachados sabei e saibam eles que Deus assim como tem um não para as mercês também tem um sim para os castigos Entre os homens o melhor despacho das petições é como pede No tribunal de Deus muitas vezes é o contrário Deus nos livre de um como pede de Deus quando os homens não sabem o que pedem Caminhavam pelo deserto os filhos de Israel e enfastiados do maná e lembrados das olhas do Egito pediram carne Levou Moisés a Deus a petição não porque ele a aprovasse mas importunado do povo E que responderia Deus Pedem carne Sou muito contente façase assim como pedem Não só lhes darei carne senão muita e muito regalada No mesmo ponto à maneira de chuva começaram a cair sobre os arraiais infinitas aves de pena que assim fala o texto Pluit super eos sicut pulverem carnes et sicut arenam maris volatilia pennata SI 77 27 Ora grande é a paciência e liberalidade de Deus A uns homens tão ingratos desprezadores do maná do céu assim lhes concede o que pedem A um apetite tão desordenado tanto favor A uma petição tão descomedida tanta mercê Esperai um pouco pelo fim e logo vereis Muito contente o povo com a chuva nunca vista das aves de pena começam a matar a depenar a guisar de vários modos assentamse às mesas com grande festa E que sucedeu Adhuc escae eorum erant in ore ipsorum et ira Dei ascendit super eos SI 77 30 s Ainda tinham o comer na boca quando veio a ira de Deus sobre eles Comiam das aves e como se foram serpentes ou escorpiões cada bocado era outro tanto veneno e caíam mortos Eis aqui o fim do como pedem Parecia favor e era castigo parecia mercê de Deus e era ira de Deus Et ira Dei ascendit super eos Por este e outros exemplos disse altamente Santo Agostinho Multa Deus concedit iratus quae negaret propitius Deus irado concede muitas coisas as quais havia de negar se estivera propicio Se Deus estivera propicio ao povo havialhe de negar o que pedia concedeulho porque estava irado contra ele Cuidais que esse despacho tão venturoso e tão invejado é mercê Esperailhe pelo fim e vereis que é castigo E se Deus concede por pecados para que os bemdespachados se não desvaneçam também nega por merecimentos para que os maldespachados se consolem Ouvi um grande reparo sobre o nosso Evangelho Pedem os Zebedeus as cadeiras não lhas quer Cristo conceder porque não sabiam o que pediam como pouco há dissemos mas antes de lhas negar perguntalhes se se atreviam a beber o cálix isto é se se atreviam a morrer por ele e como ele Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum Responderam ambos animosamente que sim E porque o testemunho deste valor e serviço não ficasse só na fé dos pretendentes o mesmo Cristo o qualificou e justificou e lhes deu certidão autêntica de que assim era ou havia de ser Calicem quidem meum bibetis14 E depois destas provações tão miúdas e tão exatas então lhes respondeu Non est meum dare vobis Pois se o Senhor lhes havia de negar o que pediam para que lhes pede serviços Para que lhes examina merecimentos Para que lhes prova o valor Para que lhes certifica a morte e o sangue do cálix Se todas estas diligências foram feitas para sobre elas lhes fazer a mercê bem estava mas para negar o que pediam Sim Porque também o negar é mercê E porque mercês e mais se são grandes se não devem fazer senão por grandes serviços e muito justificados por isso Cristo lhes pediu primeiro os serviços e os justificou por verdadeiros para lhes fazer a mercê de lhes negar o que pediam De maneira que aos filhos de Israel concedeulhes Deus a sua petição por pecados e aos filhos de Zebedeu negoulhes Cristo a sua por merecimentos porque no primeiro caso o conceder era castigo e no segundo o negar foi mercê E como o despacho dos que se têm por bemdespachados pode ser castigo e grande castigo e pelo contrário o dos que se têm por maldespachados pode ser mercê e grande mercê tão pouca razão têm uns de se desvanecer como outros de se desconsolar pois uns e outros não sabem o que lhes deram assim como não sabem o que pedem Nescitis quid petatis VI Platão Sócrates e a oração Os pedidos de bens temporais e os males eternos S Paulo escusado e o demônio atendido S João Crisóstomo e o pedido dos Zebedeus Os maus ministros e a justiça divina A condenação de Cristo e dos ladrões e a absolvição de Barrabás Deus tem na sua mão os corações dos reis S Francisco Xavier e o pedido do Padre Simão Doutrina de S Paulo sobre a oração A carta de Urias A negação de Cristo e a predestinação Estou vendo senhores que já me haveis desempenhado do que ao principio prometi entendendo que na primeira parte deste discurso vos preguei como a homens e na segunda como a cristãos Não é assim posto que nesta segunda parte falei tantas vezes em Deus atribuindo à sua justiça e providência os vossos bons ou maus despachos Até os gentios falaram deste modo e conheceram isto mesmo só pelo lume da razão e por serem homens posto que sem fé Sócrates aquele grande filósofo da Grécia dizia que nenhuma coisa em particular se havia de pedir aos deuses senão em geral o que estivesse bem a cada um porque isto só eles o sabem e os homens ordinariamente apetecemos o que nos fora melhor não alcançar Nihil ultra petendum a diis immortalibus arbitrabatur quam ut bona tribuerent quia ii demum scirent quid unicuique esset utile nos outem plerumque id votis expetere quod non impetrasse melius foret diz Valério Máximo falando de Sócrates15 E Platão para ensinar o método com que havíamos de pedir a Deus compôs esta oração Jupiter da nobis bona sive ea petamus sive non arce vero mala etiam si ea ex errore petamus Quer dizer Júpiter daime o bem ainda que volo não peça e livraime do mal ainda que volo peça Não conheciam a Deus aqueles filósofos mas sabiam o que se deve pedir e como se deve pedir a Deus Pedirlhe que nos dê o bem ainda que lho não peçamos e que nos livre do mal ainda que Iho peçamos porque muitas vezes pedimos o mal cuidando que é bem e não pedimos o bem cuidando que é mal e só Deus que sabe o que nos está bem ou mal nos pode dar o que nos convém Assim que até agora somente preguei como a homens e por isso todos os bens ou males de que falei foram do céu abaixo Agora subamos mais acima e daime atenção como cristãos ao que brevemente me resta por dizer que é o que sobre tudo importa Nescitis quid petatis São tão néscias cristãos as nossas petições são tão arriscadas e tão perigosas muitas vezes que cuidando que pedimos os bens temporais pedimos os males eternos cuidando que pedimos nossas conveniências pedimos a nossa condenação Não é conseqüência ou consideração minha senão doutrina e conclusão expressa do mesmo Cristo Sedere outem ad dexteram meam vel sinistram non est meum dare vobis sed quibus paratum est a Patre meo16 Notável e profunda resposta Os dois discípulos e sua mãe pediam as duas primeiras cadeiras do reino temporal de Cristo entendendo erradamente que o Senhor havia de reinar temporalmente neste mundo assim como Davi Salomão e outros reis seus primogenitores Este era o seu pensamento e esta a sua petição conforme a esperança vulgar a que todos estavam persuadidos ainda depois da ressurreição de Cristo quando perguntaram Domine si in tempore hoc restitues regnum Israel17 Pois se pediam lugares e dignidades temporais como lhes responde Cristo quando Ihas nega com os decretos da predestinação do Padre Sed quibus paratum est a Patne meo Porque os despachos das nossas petições ainda que sejam de coisas temporais são efeitos muitas vezes da predestinação eterna Muitas vezes sai despachado o pretendente porque é precito e não sai despachado porque é predestinado Pediu o demônio a Deus que lhe desse poder sobre os bens e pessoa de Jó e concedeu Deus ao demônio o que pedia o demônio Pediu S Paulo a Deus e pediulhe três vezes que o livrasse de uma tentação e negou Deus a S Paulo o que pedia S Paulo Pois a Paulo se nega o que pede e ao demônio se concede Sim diz Santo Agostinho Ao demônio para maior confusão a Paulo para maior glória a Paulo como o predestinado ao demônio como a precito Quantos precitos estão hoje no inferno arrenegando dos seus despachos E quantos predestinados estão no céu dando eternas graças a Deus porque os não despacharam Dois destes predestinados não despachados eram os dois apóstolos do nosso Evangelho que por isso lhes disse Cristo que não sabiam o que pediam Cuidavam que pediam dignidades e honras do mundo e pediam sem saber o que pediam a sua condenação Unus ad dexteram et unus ad sinistram A mão direita de Cristo como se verá no dia do juízo é o lugar dos que se hão de salvar a mão esquerda é o lugar dos que se hão de condenar E como cada um dos dois apóstolos pedia indiferentemente a mão direita ou esquerda ambos se expunham e se ofereciam sem o saberem ao lugar da condenação S João Crisóstomo Ego vos elegi ad dexteram et vos vestro judicio curritis ad sinistram Eu diz Cristo escolhivos para a mão direita e vós por vosso juízo e por vossa vontade sem saber o que pedis pedis e fazeis instâncias pela mão esquerda Oh quantos requerentes da mão esquerda Oh quantos pretendentes da condenação andam hoje em todas as cortes da Cristandade sem saberem o que pedem e o que requerem Andam requerendo e solicitando e contendendo sobre quem há de levar o inferno E os que o alcançam ficam muito contentes e os que o não conseguem muito tristes Então tudo é queixar e infamar os ministros e talvez com tanto excesso e atrevimento que ainda sobem as queixas mais acima Eu não tenho tanta opinião dos nossos tribunais na justiça distributiva como noutras espécies desta virtude mas para o fim da predestinação e salvação que é o último despacho e o que só importa tanto se serve Deus de ministros justos como de injustos e tanto da sua justiça se a observam como da sua injustiça Quis Deus salvar o gênero humano naquele dia fatal em que deu a vida por ele e de que ministros se serviu sua providência Caso estupendo Serviuse de Judas de Anás de Caifás de Pilatos de Herodes e por meio da injustiça e impiedade de homens tão abomináveis se conseguiu a salvação de todos os predestinados Se esperais ser um deles não vos queixeis E se me dizeis que foram injustos os ministros convosco também vôlo concedo posto que o não creio Mas que importa que ou neste conselho fossem Judas ou naquele Anases e Caifases ou noutro Herodes e Pilatos se por meio da sua injustiça tinha Deus predestinado a vossa salvação Eles irão ao inferno pela injustiça que vos fizeram e vós por ocasião da mesma injustiça ireis ao céu Notai neste mesmo dia dois concursos dignos de toda a ponderação para que vos não queixeis de ver preferidos os que concorreram convosco O primeiro concurso foi de Cristo com Barrabás e ambos foram julgados com suma injustiça porque Barrabás ladrão adúltero homicida e traidor saiu absolto e Cristo sumamente inocente e sumamente benemérito condenado O segundo concurso foi de Dimas e Cestas o bom e o mau ladrão e ambos foram condenados com igual justiça porque ambos como ladrões mereciam a forca E que tirou Deus destes dois concursos e destes dois juízos tão encontrados O primeiro foi por ambas as partes injusto o segundo por ambas as partes justo e de ambos tirou Deus igualmente a condenação dos precitos e a salvação dos predestinados Do primeiro tirou a condenação de Barrabás e a glória de Cristo do segundo tirou a glória do bom ladrão e o inferno do mau porque para salvar ou não salvar tanto se serve Deus da justiça dos homens como da sua injustiça Concedovos que podeis ser consultado julgado e despachado ou injustamente como vós dizeis ou justamente como não confessais mas nem da justiça nem da injustiça dos ministros vos deveis queixar se tendes fé porque tanto pode pender dessa justiça a vossa condenação saindo bem despachados para o inferno como depender dessa injustiça a vossa salvação saindo mal despachados para o céu E se não tendes razão para vos queixar dos ministros muito menos a tem a vossa temeridade para subirem talvez as queixas até o sagrado onde se decretam as resoluções E por quê Porque ainda que os reis são homens Deus é o que tem na sua mão os corações dos reis Cor regis in manu Domini quocumque voluerit inclinabit illud Prov 211 O coração do rei diz Salomão está na mão de Deus e a mão de Deus é a que o move e inclina a uma ou outra parte segundo a disposição de sua providência Como o coração do rei está na mão de Deus se Deus abre e alarga a mão alargase também o coração do rei e fazvos mercê com grande liberalidade e se Deus aperta e estreita a mão estreitase do mesmo modo o coração do rei e ou vos dá muito menos ou nada do que pedíeis De maneira que ainda que o rei é o senhor que dá ou não dá tem sobre si outro senhor maior que é o que lhe alarga ou estreita o coração para que dê ou não dê Rei era Ciro e rei era Faraó Ciro dominava os hebreus no cativeiro da Babilônia e Faraó dominava os mesmos hebreus no cativeiro do Egito mas a cousa superior de serem tão diferentemente tratados não foi Ciro nem Faraó senão Deus Como Deus tinha na mão o coração daqueles reis alargou a mão ao coração de Ciro e deu Ciro liberdade aos hebreus e estreitou a mão ao coração de Faraó e não só os não libertou Faraó antes lhes apertou mais o cativeiro Adverti porém para consolação vossa que este mesmo aperto e esta mesma estreiteza e dureza do coração de Faraó foi a última disposição que Deus traçava para levar os hebreus como levou à Terra de Promissão Se o coração do rei tão largo e tão liberal com outros é para convosco estreito e ainda duro alargai vós o vosso coração e consolaivos e entendei que por esse meio vos quer Deus levar à Terra de Promissão do céu para que vos tem predestinado Pode haver maior consolação que esta Não pode Agora acabaremos de entender a providência que está escondida em uma desigualdade que cada dia experimentamos e não sei se advertimos bem nela Requer um pretendente solicita negoceia insta e talvez peita e suborna e sai despachado O outro seu competidor que não tem tanta valia nem tanto do que vale encomenda o seu negócio a Deus mete a sua petição na mão de Santo Antônio manda dizer missas a Nossa Senhora do Bom Despacho e sai escusado Pois este é o fruto de negociar com Deus Estes são os poderes da oração Esta a valia e a intercessão dos santos Sim esta é Porque eles intercederam por vós por isto não saístes despachado Um santo que pregou neste mesmo púlpito nos há de dar a prova Havia na Índia um fidalgo mui devoto de S Francisco Xavier Tinha as suas pretensões com o Senhor Rei D João o III Pediu uma carta de favor ao santo para seu companheiro Padre Mestre Simão que era mestre do príncipe e muito bem visto de elrei Escreveu S Francisco Xavier e dizia assim o capítulo da carta Dom fulano é muito amigo da Companhia tem requerimentos com S Alteza Peço a Vossa Reverência pelas obrigações que devemos a este fidalgo que procure desviar os seus despachos quanto for possível porque todo o que vem despachado para a Índia vai bem despachado para o inferno Eis aqui as intercessões dos santos Sabeis por que saiu o outro despachado e vós não Porque ele teve a valia dos homens e vós a intercessão dos santos Esperáveis que vos despachassem bem para o inferno quanto tínheis encomendado o vosso requerimento à Senhora do Bom Despacho Dai graças a Deus e à sua Mãe e ouvi tudo o que tenho dito e tudo o que se pode dizer nesta matéria em um texto estupendo de S Paulo Quid oremus sicut oportet nescimus ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus Rom 826 Nós não sabemos o que pedimos Nescitis quid petatis Nós não sabemos pedir o que nos convém Quid oremus sicut oportet nescimus E que faz Deus autor de nossa predestinação e salvação quando pedimos o que é contrário a ela Ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus O mesmo Espírito Santo diz S Paulo por sua infinita bondade e misericórdia troca emenda e ordena as nossas petições e ele mesmo pede por nós a si mesmo com gemidos que se não podem declarar Gemiribus inenarrabilibus De sorte que quando pretendemos o que encontra a nossa salvação nós pedimos na terra e o Espírito Santo geme no céu nós fazemos instâncias e ele dá ais Ai homem cego que não sabes o perigo em que te metes Ai que se quer perder aquela pobre alma Ai que anda solicitando sua condenação Ai que pretende aquele oficio Ai que pretende aquela judicatura Ai que pretende aquele concelho Ai que pretende aquele governo Ai que se alcança o que pretende vai para o inferno Pretende o Brasil se vai ao Brasil perdese pretende Angola se vai à Angola condenase pretende a Índia se passa o Cabo de Boa Esperança lá vai a esperança da sua salvação Assim geme o Espírito Santo por nos desviar do que pretendemos com tantas ânsias porque não sabemos o que pedimos Quid oremus sicut oportet nescimus Pois que há de fazer um homem depois de servir tantos anos Não há de pretender Não há de requerer Pode ser que esse fora o melhor conselho Mas não digo tanto porque não vejo tanto espírito O que só digo é pelo que cada um deve à sua salvação que o nosso modo de requerer seja este Ponde a petição na mão do ministro e o despacho nas mãos de Deus Senhor eu não sei o que peço o que mais convém à minha salvação só vós o sabeis vós o encaminhai vós o disponde vós o resolvei Com isto ou saireis despachado ou não se sairdes despachado aceitai embora a vossa portaria ou a vossa provisão e começai a temer e tremer porque pode ser que aquela folha de papel seja uma carta de Urias 2 Rs 1715 Urias levava no seio a sua carta cuidando que era um grande despacho e era a sentença da sua morte Cuidais que levais no vosso despacho o vosso remédio e o vosso oumento e pode ser que leveis nele a sentença de vossa condenação Não lhe fora melhor a Pilatos não ser julgador Não lhe fora melhor a Caifás não ser pontífice Não lhe fora melhor a Herodes não ser rei Todos esses se condenaram pelo ofício e mais com Cristo diante dos olhos Mas se fordes tão venturosamente desgraçado que não consigais o despacho consolaivos com esses exemplos e com o de S João e São Tiago Se Cristo não despacha a dois vassalos tão beneméritos folgai de ser assim benemérito Se Cristo não despacha a dois criados tão familiares de sua casa folgai de ser assim da casa de Cristo Se Cristo não despacha os dois discípulos tão amados folgai de ser assim amado seu e entendei que vos não despachou Deus nem quis que vos despachassem porque não sabíeis o que pedíeis e porque sois predestinado Lá na outra vida haveis de viver mais que nesta se aqui tiverdes trabalhos lá tereis descanso se aqui não tiverdes grandes lugares lá tereis o lugar que só é grande e se até aqui vos faltar a graça dos homens lá tereis a graça de Deus e o prêmio desta graça que é a glória SERMÃO DE SANTO INÁCIO FUNDADOR DA COMPANHIA DE JESUS Em Lisboa no Real Colégio de S Antão Ano 1669 Et vos similes hominibus expectantibus dominum suum1 I O mandamento de Cristo aos santos e a Santo Inácio em particular Santo Inácio e a Vida dos Santos Admirável é Deus em seus santos mas no santo que hoje celebra a igreja singularmente admirável A todos os Santos manda Cristo neste Evangelho que sejam semelhantes a homens Et vos similes hominibus Lc 1236 Mas assim como há grande diferença de homens a homens assim vai muito de semelhanças a semelhanças Aos outros santos manda Cristo que sejam semelhantes aos homens que servem aos senhores da terra Hominibus expectantibus dominum suum a Santo Inácio mandalhe Cristo que seja semelhante aos homens que serviram ao Senhor do céu Quanto vai do céu à terra tanto vai de semelhança a semelhança Aos outros santos meteulhes Cristo na mão este Evangelho e disselhes Servime assim como os homens servem aos homens a Santo Inácio metelhe na mão um livro da vida de todos os santos e diz lhe Serveme assim como estes homens me serviram a mim Foi o caso Jazia Santo Inácio não digo bem jazia Dom Inácio de Loiola malferido de uma bala francesa no sítio de Pamplona e picado como valente de ter perdido um castelo fabricava no pensamento outros castelos maiores pelas medidas de seus espíritos Já lhe parecia pouca defensa Navarra pouca muralha os Pireneus e pouca conquista França Consideravase capitão e espanhol e rendido e a dor lhe trazia à memória como Roma em Cipião e Cartago em Aníbal foram despojos de Espanha Os Cides os Pelaios os Viriatos os Lusos os Geriões os Hércules eram os homens com cujas semelhanças heróicas o animava e inquietava a fama mais ferido da reputação da pátria que das suas próprias feridas Cansado de lutar com pensamentos tão vastos pediu um livro de cavalerias para passar o tempo Mas ó providência divina Um livro que só se achou era das vidas dos santos Bem pagou depois Santo Inácio em livros o que deveu a este Mas vede quanto importa a lição de bons livros Se o livro fora de cavalerias sairia Santo Inácio um grande cavaleiro foi um livro de vidas de santos saiu um grande santo Se lera cavalerias sairia Santo Inácio um cavaleiro da ardente espada leu vidas de santos saiu um santo da ardente tocha Et lucernae ardentes in manibus vestris Toma Inácio o livro nas mãos lêo ao princípio com dissabor pouco depois sem fastio ultimamente com gosto e dali por diante com fome com ânsia com cuidado com desengano com devoção com lágrimas Estava atônito Inácio do que lia e de ver que havia no mundo outra milícia para ele tão nova e tão ignorada porque os que seguem as leis do apetite como se rendem sem batalha não têm conhecimento da guerra Já lhe pareciam maiores aqueles combates mais fortes aquelas resistências mais ilustres aquelas façanhas mais gloriosas aquelas vitórias e mais para apetecer aqueles triunfos Resolvese a trocar as armas e alistase debaixo das bandeiras de Cristo e a espada de que tanto se prezava foi o primeiro despojo que ofereceu a Deus e à sua Mãe nos altares de Monserrate Aceitai Senhora esta espada que como se hão de rebelar contra vós tantos inimigos tempo virá em que seja bem necessária para defensa de vossos atributos Lia Inácio as vidas dos confessores e começando como eles pelo desprezo da vaidade tira o colete despe as galas e assim como se ia despindo o corpo se ia armando o espírito Lia as vidas dos anacoretas e já suspirava pelos desertos e por se ver metido em uma cova de Manresa onde sepultado acabasse de morrer ao mundo e começasse a viver ou a ressuscitar a si mesmo Lia as vidas dos doutores e pontífices e ainda que o não afeiçoaram as mitras nem as tiaras deliberase a aprender para ensinar e a começar os rudimentos da gramática entre os meninos conhecendo que em trinta e três anos de corte e guerra ainda não começara a ser homem Lia as vidas ou as mortes valorosas dos mártires e com sede de derramar o sangue próprio quem tinha derramado tanto alheio sacrificase a ir buscar o martírio a Jerusalém oferecendo as mãos desarmadas às algemas os pés aos grilhões o corpo às masmorras e o pescoço aos alfanjes turquescos Lia finalmente as vidas e as peregrinações dos apóstolos e soandolhe melhor que tudo aos ouvidos as trombetas do Evangelho toma por empresa a conquista de todo o mundo para dilatar a fé para o sujeitar à Igreja e para levantar novo edifício sobre os alicerces e ruínas do que eles tinham fundado Isto era o que Inácio ia lendo e isto o que juntamente ia trasladando em si e imprimindo dentro na alma Mas quem lhe dissera então ao novo soldado de Cristo que notasse naquele livro o dia de trinta e um de julho que advertisse bem que aquele lugar estava vago e que soubesse que a vida de santo que ali faltava havia de ser a sua e que este dia feriado e sem nome havia de ser o dia de Santo Inácio de Loiola fundador e patriarca da Companhia de Jesus Tais são os segredos da providência tão grandes os poderes da graça e tanta a capacidade da nossa natureza Para satisfazer às obrigações de tamanho dia nem quero mais matéria que o caso que propus nem mais livros que o mesmo livro nem mais texto que as mesmas palavras Et vos similes hominibus Veremos em dois discursos Inácio semelhante a homens e Inácio homem sem semelhante Mais breve ainda o semelhante sem semelhante Este será o assunto Peçamos a graça Ave Maria II Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos como exemplar de todos eles Santo Inácio o foi porque todos os santos lhe serviram de exemplar A pintura de Zêuxis e a santidade de Santo Inácio Cristo e a diversidade de opiniões a seu respeito Santo Inácio embora um era feito à semelhança de muitos Temos Santo Inácio com o seu livro nas mãos com os exemplares de todos os santos diante dos olhos e Deus dizendolhe ao ouvido Et vos similes hominibus Tantos instrumentos juntos Grande obra intenta Deus Quando Deus quer converter homens e fazer santos lavra um diamante com outro diamante e faz um santo com outro Santo foi Davi converteuo Deus com outro santo o profeta Natã Santo foi Cornélio Centurião converteuo Deus com outro santo S Pedro Santo foi Dionísio Areopagita converteuo Deus com outro santo S Paulo Santo foi Santo Agostinho converteuo Deus com outro santo S Ambrósio Santo foi S Francisco Xavier converteuo Deus com outro santo o mesmo Santo Inácio Pois se para fazer um santo basta outro santo por que ajuntou Deus os santos de todas as idades do mundo por que ajunta os santos de todos os estados da Igreja por que ajunta as vidas as ações as virtudes os exemplos de todos os santos para fazer Santo Inácio Porque tanto era necessário para fazer um grande santo Para fazer outros santos basta um só santo para fazer um Santo Inácio são necessários todos Para ser Santo Enós basta que seja semelhante a Set para ser S José basta que seja semelhante a Jacó para ser São Josué basta que seja semelhante a Moisés para ser Santo Tobias basta que seja semelhante a Jó para ser Santo Eliseu basta que seja semelhante a Elias para ser Santo Timóteo basta que seja semelhante a Paulo mas para Inácio ser santo tão grande e tão singular como Deus o queria fazer não basta ser semelhante a um santo não basta ser semelhante a muitos santos é necessário ser semelhante a todos Por isso lhe mete Cristo nas mãos em um livro as vidas e ações heróicas de todos os santos para que os imite e se forme à semelhança de todos Et vos similes hominibus Falando Deus de seu unigênito Filho por boca de Davi diz que o gerou nos resplendores de todos os santos In splendoribus sanctorum genui te Sl 1093 Estas palavras ou se podem entender da geração eterna do Verbo antes da Encarnação ou da geração temporal do mesmo Verbo enquanto encarnado E neste segundo sentido as entendem Santo Agostinho Tertuliano Hesíquio S Justino S Próspero S Isidoro e muitos outros Diz pois o Eterno Padre que quando mandou seu Filho ao mundo o gerou nos resplendores de todos os santos porque Cristo como ensina a Teologia não só foi a cousa meritória de toda a graça e santidade mas também a cousa exemplar e protótipo de todos os santos enquanto todos foram santos à semelhança de Cristo imitando nele e dele todas as virtudes e graças com que resplandeceram e isto quer dizer In splendoribus sanctorum Assim como todos os astros recebem a luz do sol e cada um deles é juntamente um espelho e retrato resplandecente do mesmo rei dos planetas assim todos os santos recebem de Cristo a graça e do mesmo Cristo retratam em si todos os dotes e resplendores da santidade com que se ilustram Por isso o anjo quando anunciou a Encarnação não disse Qui nascetur ex te sanctus senão Quod nascetur ex te sanctum2 porque Cristo não só foi santo mas o Santo dos santos O Santo dos santos como fonte de toda a santidade por origem e o Santo dos santos como exemplar de toda a santidade para a imitação Este é o modo universal com que Cristo faz a todos os santos Mas a Santo Inácio a quem quis fazer tão singular santo fêlo também por modo singular podendo dizer dele em tão excelente sentido como verdadeiro In splendoribus sanctorum genui te Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos porque é o exemplar de todos os santos e Inácio foi gerado nos resplendores de todos os santos porque todos os santos foram o exemplar de Santo Inácio Cristo não só santo mas Santo dos santos porque de sua imitação receberam todos os santos a santidade e Inácio não só santo mas santo dos santos porque todos os santos concorreram a formar a santidade de Santo Inácio Bem sei que é melhor exemplar Cristo só que todos os santos juntos mas também sei que para ser santo basta imitar um só santo que imitou a Cristo Assim dizia S Paulo a todos os que vieram depois dos apóstolos Imitatores mei estote sicut et ego Christi3 Mas Cristo para formar a Santo Inácio ajuntou as imitações de todos os santos para que o imitasse ele só como todos Houvese Deus na formação de Santo Inácio como zêuxis na pintura de Juno deusa das deusas Fez vir diante de si aquele famoso pintor todas as formosuras que então havia mais celebradas em Agrigentina e imitando de cada uma a parte mais excelente de que as dotara a natureza venceu a mesma natureza com a arte porque ajuntando o melhor de cada uma saiu com uma imagem mais perfeita que todas4 Se assim sucedeu foi caso e fortuna mas não ciência porque como a formosura consiste na proporção ainda que cada uma das partes em si fosse de extremada beleza todas juntas podiam compor um todo que não fosse formoso Na formosura das virtudes é o contrário Como todas as virtudes entre si são concordes e não podem deixar de fazer harmonia de qualquer parte que sejam imitadas sempre há de resultar delas um composto excelente e admirável qual foi o que Deus quis formar em Santo Inácio E aqui entra com toda a sua propriedade a versão do mesmo texto In pulchritudinibus sanctorum genui te Pôs Deus diante dos olhos a Inácio estampados naquele livro os mais famosos e os mais formosos originais da santidade não de um reino ou de uma idade senão de todas as idades e de toda a Igreja e copiando Inácio em si mesmo de um a humildade de outro a penitência de um a temperança de outro a fortaleza de um a paciência de outro a caridade e de todos e cada um aquela virtude e graça em que foram mais eminentes saiu Inácio com quê Com um Santo Inácio com uma imagem da mais heróica virtude com uma imagem da mais consumada perfeição com uma imagem da mais prodigiosa santidade enfim com um santo não semelhante e parecido a um só santo senão semelhante e parecido a todos Et vos similes hominibus Perguntou Cristo uma hora a seus discípulos Quem dicunt homines esse Filium hominis Mt 2613 Quem dizem os homens que sou eu E responderam os discípulos Alii Joannem Baptistam alii vero Eliam alii vem Jenemiam aut unum ex prophetis Senhor uns dizem que sois o Batista outros que sois Elias outros que sois Jeremias ou algum dos outros profetas e santos antigos Notáveis pareceres dos homens e mais notável o parecer de Cristo Se Cristo se parecia com o Batista como se parecia com Elias Se se parecia com Elias como se parecia com Jeremias Se se parecia com Jeremias como se parecia com o Batista Nos outros santos e profetas antigos Aut unum ex prophetis ainda é maior a admiração porque era maior o número e a diferença Pois se Cristo era um só homem como se parecia com tantos homens Porque não só no natural senão também no moral como logo veremos era feito à semelhança de muitos In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo5 Onde notas Bernardo que disse o apóstolo Hominum non hominis E se era feito à semelhança de muitos que muito se parecesse com eles Quem via a Cristo instituir o batismo dizia Este é o Batista Alii Joannem Baptistam Quem via a Cristo jejuar quarenta dias em um deserto dizia Este é Elias Alii vero Eliam Quem via a Cristo chorar sobre Jerusalém dizia Este é Jeremias Alii vero Jeremiam Do mesmo modo filosofavam os que diziam que era algum dos outros santos ou profetas antigos Aut unum ex prophetis Quem via a sabedoria admirável de Cristo não estudada senão intusa dizia Este é Salomão Quem o via publicar lei nova em um monte dizia Este é Moisés Quem o via converter os homens com parábolas dizia Este é Natã Quem o via admitir os obséquios de uma mulher pecadora dizia Este é Oséias Quem o via passar as noites em oração dizia Este é Davi Quem o via aplaudido do povo e perseguido dos grandes dizia Este é Daniel Quem o via sofrer as afrontas com tanta humildade dizia Este é Miquéias Quem o via sarar os enfermos e ressuscitar os mortos dizia Este é Eliseu De maneira que a multidão e maravilha das obras causava a diversidade das opiniões e sendo Cristo na realidade um só homem na opinião era muitos homens Mas era muitos homens na opinião sendo um só na realidade porque verdadeiramente ainda que era um era feito à semelhança de muitos In similitudinem hominum factus Ah glorioso patriarca meu Se a vida de Santo Inácio se escrevera sem nome e se dele se excitara a questão Quem dicunt homines não há dúvida que o mundo se houvera de dividir em opiniões e que ninguém havia de atinar facilmente que santo era aquele Eram tão contínuas as lágrimas que Santo Inácio chorava pelos pecados da vida passada que de puro chorar chegou a perder a vista e havia de dizer o mundo Este é S Pedro Oito dias inteiros esteve Santo Inácio arrebatado em um êxtase em que Deus lhe revelou o instituto da religião que havia de fundar e havia de dizer o mundo Este é S Paulo Nenhum santo teve maiores inimigos nem mais pertinazes Mas como a vingança que Santo Inácio tomava de seus inimigos e a que deixou por instituto a seus filhos era rogar por eles a Deus havia de dizer o mundo Este é S Estevão Era tal o magistério espiritual de Santo Inácio e as regras de perfeição que ensinou tão fundadas e sólidas que todos os santos quantos depois canonizou a Igreja ou foram discípulos do seu espírito ou se conformaram com ele6 e havia de dizer o mundo Este é S Basílio Era tal o domínio que Santo Inácio tinha sobre o inferno que em ouvindo o seu nome os demônios uns se prostravam de joelhos outros começavam a tremer outros saíam amortecidos e todos saíam dos corpos e havia de dizer o mundo Este é Santo Antônio o Grande Quando os pecadores tinham repugnância de confessar seus pecados contavalhes Inácio os pecados da sua vida passada confessandose primeiro o confessor ao penitente e à vista destas confissões havia de dizer o mundo Este é Santo Agostinho Não houve gênero de necessidade ou de miséria que a caridade de Santo Inácio não remediasse os pobres os enfermos os órfãos as viúvas as mulheres perdidas e as que estavam a risco de se perder e havia de dizer o mundo Este é S Nicolau Aquele grande varão doutíssimo e religiosíssimo o Padre Frei Luís de Granada dizia que uma das maiores maravilhas que Deus fez no mundo foi Santo Inácio e o seu instituto E como a esta religião por tantos títulos grande deu Santo Inácio o nome não de sua mas de mínima havia de dizer o mundo Este é S Francisco de Paula Mas antes que vá por diante se a alguém parecerem muitos estes pareceres do mundo e grande o encontro e variedade de opiniões para se juntarem todas em um homem lembrese da multidão dos exemplares a que Deus o mandou ser semelhante quando com aquele livro nas mãos lhe disse Et vos similes hominibus Em cada página daquele livro se podia ler indecisamente uma nova opinião deste glorioso e numeroso problema Não uma vez senão muitas viu Santo Inácio quanto se pode ver nesta vida a essência os atributos as pessoas e processões divinas E quem não cuidaria e diria Este é S Bento Foi tal a compreensão que das Escrituras Sagradas teve Santo Inácio ainda antes de estudar que se as Escrituras como no tempo de Esdras se perdessem se achariam na sua memória E quem não cuidaria e diria Este é S Bernardo Obedeciam ao império de Santo Inácio os incêndios as tempestades a terra o mar o fogo os ventos E quem não cuidaria e diria Este é S Gregório Taumaturgo No mesmo tempo esteve Santo Inácio em Roma e em Colônia só para satisfazer à devoção de um seu filho que muito o desejava ver E quem não cuidaria e diria Este é S Antônio de Pádua Ressuscitou Santo Inácio não menos que nove mortos E quem não cuidada e diria Este é S Patrício Ele foi o Morte da Igreja e o martelo das heresias e diriam com razão Este é S Atanásio Ele foi o diamante da constância contra o poder dos vícios e contra a resistência dos poderosos e diriam Este é S Crisóstomo Ele foi o reformador do culto divino e da freqüência dos santos sacramentos e diriam Este é S Silvestre Ele foi o que instituiu seminários da fé em Roma e em toda a Cristandade e diriam Este é S Gregório Ele foi o que abraçou a conquista de todas as gentilidades em ambos os mundos e diriam e perguntariam de novo ambos os mundos Que santo é este ou que santos em um santo Enfim que se o mundo não soubera que este grande santo era Santo Inácio não havia de haver santo insigne na Igreja que não tivesse opinião por si de que era ele Mas eram todos parecidos a Inácio porque era Inácio semelhante a todos Et vos similes hominibus III O retrato de Santo Inácio As diversas faces do santo Os retratos de Cristo Ezequiel e os quatro rostos dos animais enigmáticos O carro da glória de Deus e a Companhia de Jesus O homem abrasado em fogo Interpretação da palavra chasmal Mal pudera eu provar de uma vez tão grande discurso se o céu cujo é o assunto não tomara por sua conta a prova Vede se o provou evidente elegante e engenhosamente Enfermo Inácio e já nos últimos dias da vida veio a visitálo seu grande devoto o eminentíssimo cardeal Pacheco e trouxe consigo um pintor insigne o qual de parte donde visse o santo e não fosse visto dele o furto de sua humildade o retratasse Põese encoberto o pintor olha para Santo Inácio forma idéia aplica os pincéis ao quadro e começa a delinearlhe as feições do rosto Toma a olhar coisa maravilhosa o que agora viu já não era o mesmo homem já não era o mesmo rosto já não era a mesma figura senão outra muito diferente da primeira Admirado o pintor deixa o desenho que tinha começado lança segundas linhas começa segundo retrato e segundo rosto olha terceira vez nova maravilha o segundo original já tinha desaparecido e Santo Inácio estava outra vez transtornado com novo aspecto com novas feições com nova cor com nova proporção com nova figura Já o pintor se pudera desenganar e cansar mas a mesma maravilha o instigava a insistir Insista repetidamente olha e torna a olhar desenha e torna a desenhar mas sendo o objeto o mesmo nunca pode tornar a ver o mesmo que tinha visto porque quantas vezes aplicava e divertia os olhos tantos eram os rostos diversos e tantas as figuras novas em que o santo se lhe representava Pasmou o pintor e desistiu do retrato pasmaram todos vendo a variedade dos desenhos que tinha começado e eu também quero pasmar um pouco à vista deste prodígio Santo Inácio nunca teve dois rostos quanto mais tantos Foi cortesão foi soldado foi religioso e nunca mudou de cores nem de semblante Serviu em palácio a elrei D Fernando o Católico e a sua maior gala era trajar sempre da mesma cor e trazer o coração no rosto Os amigos viamlhe no rosto o amor os inimigos a desafeição o príncipe a verdade e ninguém lisonja Quando soldado nunca entre as balas mudou as cores na comédia e na batalha estava com o mesmo desenfado Teve uma pendência com certo poderoso e diz a história que contra uma rua de espadas sem fazer um pé atrás se sustentou só com a sua o braço mudava os talhos e os reveses mas o rosto não mudou as cores Depois de religioso ficou fora da jurisdição da fortuna mas nem por isso fora das variedades do mundo Era porém tão igual a constância e serenidade de seu ânimo que ninguém lhe divisou jamais perturbação nem mudança no semblante o mesmo nos sucessos prósperos o mesmo nos adversos nos prósperos sem sinal de alegria nos adversos sem sombra de tristeza Pois se Inácio teve sempre o mesmo rosto cortesão soldado religioso se teve sempre e conservou o mesmo semblante como agora se transfigura em tantas formas Como se transforma em tantas figuras quando querem copiar o seu retrato Por isso mesmo Era Inácio um mas semelhante a muitos e quem era semelhante a muitos só se podia retratar em muitas figuras Antes de Cristo vir e aparecer no mundo mandou diante o seu retrato para que o conhecessem e amassem os homens E qual foi o retrato de Cristo Admirável caso ao nosso intento O retrato de Cristo como ensinam todos os Padres foi um retrato composto de muitas figuras Uma figura de Cristo foi Abel outra figura de Cristo foi Noé Uma figura foi Abraão outra figura foi Isaac uma figura José outra figura Moisés outra Sansão outra Jó outra Samuel outra Davi outra Salomão e outros Pois se o retratado era um só e o retrato também um como se retratou em tantas e tão diversas figuras Porque as perfeições de Cristo ainda em grau muito inferior não se achavam nem se podiam achar juntas em um só homem e como estavam divididas por muitos homens por isso se retratou em muitas figuras Era Cristo a mesma inocência por isso se retratou em Abel Era Cristo a mesma pureza por isso se retratou em José Era a mesma mansidão por isso se retratou em Moisés Era a mesma fortaleza por isso se retratou em Sansão Era a mesma caridade a mesma obediência a mesma paciência a mesma constância a mesma justiça a mesma piedade a mesma sabedoria por isso se retratou em Abraão em Isaac em Noé em Jó em Samuel em Davi em Salomão De sorte que sendo o retrato um só estava dividido em muitas figuras porque só em muitas figuras podiam caber as perfeições do retrato Tal o retrato de Santo Inácio como feito à semelhança de muitos Et vos similes hominibus Mas não me detenho na acomodação porque estou vendo que aconteceu a Ezequiel com o retrato de Santo Inácio o mesmo que ao pintor de Roma Viu Ezequiel um carro misterioso que se movia sobre quatro rodas vivas e tinha por nome o carro da glória de Deus Tiravam por este carro quatro animais enigmáticos cada um com quatro rostos de homem de águia de leão de boi com que olhavam para as quatro partes do mundo Em cima sobre trono de safiras aparecia um homem todo abrasado em fogo ou vestido de labaredas A lumbis desuper et a lumbis deorsum quasi species ignis splendentis7 Que representasse este carro a religião da Companhia de Jesus muitos autores o disseram Chamavase carro da glória de Deus porque esta foi a empresa de Santo Inácio Ad majorem Dei gloriam Assentava sobre quatro rodas porque essa é a diferença da Companhia As outras religiões geralmente estribam em três rodas isto é em três votos essenciais mas a Companhia em quatro Em voto de pobreza em voto de castidade em voto de obediência como as demais e em quarto voto de obediência particular ao Sumo Pontífice Olhavam os animais juntamente para as quatro partes do mundo porque este é o fim e instituto da Companhia ir viver ou morrer em qualquer parte do mundo onde se espera maior serviço de Deus e proveito das almas Tinham rosto de homem de águia de leão de boi de homem pelo trato familiar com os próximos de águia pela ciência com que ensinam e escrevem de leão pela fortaleza com que resistem aos inimigos da fé de boi pelo trabalho com que cultivam a seara de Cristo passando tantas vezes do arado ao sacrifício No povoado homens no campo bois no bosque leões nas nuvens águias E para que a explicação não fique à cortesia dos ouvintes onde a Escritura falando desses animais diz Animalia tua Sl6711 leu Arias Montano Viri societatis tuae os varões da vossa Companhia Senhor O homem abrasado em fogo que se via no alto do carro não tem necessidade de declaração isso quer dizer Inácio o fogoso o abrasado o ardente Isto suposto Viu Ezequiel este homem de fogo que ia triunfante no carro e querendo descrever a semelhança que tinha Et de medio ignis quasi species escreveu estas sete letras C H A S M A L Assim estão no original hebreu em cujo texto falo E posto que estas letras juntas fazem Chasmal palavra de duvidosa significação e que só esta vez se acha nas Escrituras os cabalistas como refere Cornélio querem que sejam letras simbólicas de que se acham muitos exemplos e mistérios no texto sagrado Nas letras que viu Baltasar e interpretou Daniel três palavras significavam três sentenças e não estava escrito mais que o princípio de cada uma Nas quatro letras do nome Adão como notou S Justino e depois dele em diversos lugares Santo Agostinho significou Moisés as quatro partes do mundo porque as quatro letras do nome Adão conforme o texto grego são as quatro primeiras com que se escreve oriente poente setentrião e meiodia Do mesmo modo lemos no terceiro Livro dos Reis que Semei amaldiçoou a Davi maledicione pessima 3 Rs 28 e no hebreu como declara S Jerônimo contém esta palavra cinco letras cada uma das quais significa dicção inteira e cada uma uma maldição particular que começa pela mesma letra Finalmente se havemos de dar fé a Corásio este foi o mistério com que as sibilas escreveram aquelas quatro letras S P Q R as quais os romanos aplicaram às suas bandeiras entendendo por elas Senatus Populus Que Romanus sendo que a verdadeira significação era Salva Populum Quem Redemisti8 Ao nosso ponto agora e às nossas letras Seja o sentido alegórico ou acomodatício como mais quiserem os doutos Viu Ezequiel o homem de fogo que ia no alto do carro quis escrever a semelhança que tinha De medio ignis quasi species Ez 14 e o que fez foi deixar somente apontado naquelas letras misteriosas não a semelhança que tinha senão os princípios das semelhanças com que se lhe representara como se sucedera a Ezequiel com Inácio o mesmo que ao pintor de Roma Pôs os olhos Ezequiel no homem de fogo pôs os olhos em Inácio e viuo primeiro que tudo cercado de perseguições perseguido dos naturais e perseguido dos estranhos perseguido dos hereges e perseguido dos católicos perseguido dos viciosos e perseguido dos espirituais perseguido em si e perseguido em seus filhos perseguido na vida e perseguido depois da morte perseguido na terra e até no céu perseguido E como os olhos proféticos penetram todos os tempos pareceulhe que aquele santo tão perseguido era S Clemente e escreveu um C Torna a olhar para se firmar mais no que via e já a representação era outra Viu a Inácio em uma cova com uma cruz e uma caveira diante lançado em terra cingido de cilícios chorando infinitas lágrimas jejuando vigiando orando disciplinandose com cadeias de ferro lutando fortemente contra as tentações e ferindo os peitos nus com uma pedra dura persuadiuse Ezequiel que era S Hierônimo e já tinha escrito um H quando Inácio de repente transfigurado se lhe mostrou em nova aparência Era o santo naquele tempo tão leigo que não sabia mais que as letras do A B C mas alumiado com um raio do céu estava escrevendo um livro do mistério altíssimo da Santíssima Trindade com a definição da essência como número e unidade dos atributos com a igualdade das pessoas com a distinção das relações com a propriedade das noções com a ordem das emanações e processões divinas e tudo com umas inteligências tão claras e tão profundas que se resolveu o profeta que devia ser Santo Atanásio que estava compondo o símbolo Pôs um A mas apenas tinha formado a letra quando já Inácio estava outra vez transformado Representavase vestido em ornamentos sacerdotais e comum Menino Jesus vivo nas mãos caso que lhe sucedeu muitas vezes Naquele passo da Missa em que com maiores afetos de devoção havia de consumir a Sagrada Hóstia corria o Senhor a cortina dos acidentes e para se mostrar mais amoroso a seu servo era em forma de menino Como Ezequiel o viu revestido de sacerdote com o Menino Jesus nas mãos entendeu que era o santo Simeão e escreveu um S Porém logo o desenganou o prodigioso original porque já se tinha mudado em outra figura Mostravase em hábito de soldado bizarro Inácio trajado de galas e plumas tinha junto a si um pobre mendigo tirava o chapéu tirava a capa e despojandose das próprias roupas cobria com elas o pobre soldado e despindose a si para cobrir o pobre Este é S Martinho diz o profeta Formou um M se bem já com receio de alguma nova transformação e de que se lhe variasse outra vez o objeto e assim foi Estava Inácio arrebatado no ar com os braços caídos como rosto inflamado com os olhos pregados no céu acusando com suspiros a brevidade da noite e dando queixas ao sol de que havendo tão poucos momentos que lhe amanhecera no ocaso já lhe anoitecia no oriente persuadido o profeta que o grande Inácio era o grande Antônio escreveu o segundo A Mas o divino Proteu não se descuidava Viu subitamente um incêndio que chegava da terra ao céu e no meio dele a Inácio abrasado em vivas chamas de fogo e zelo de amor de Deus de fogo e zelo de amor do próximo E ainda que Ezequiel parecendolhe que seria S Lourenço formou um L foram tantas as transfigurações e tão diversas as figuras em que Inácio variou o rosto o gesto as ações que acabaram de se desenganar os olhos do profeta como se tinham desenganado os do pintor Ali ficaram ambos os retratos suspensos e imperfeitos e acabou de conhecer o céu e a terra que o retrato de Inácio se não podia reduzir a uma só figura e que não podia ser copiado em uma só imagem como os outros santos quem era feito à semelhança de todos Et vos similes hominibus IV Inácio tomado por partes tinha semelhantes tomado no todo não tinha semelhantes O homem compêndio universal de todas as criaturas considerado por partes é semelhante a todas mas considerado o homem todo não tem seme1hantes como diz o Gênesis Abraão os patriarcas e Santo Inácio O possesso livre do demônio com a invocação de Santo Inácio A espada de Golias e o santo Temos visto a Inácio semelhante a homem resta ver a Inácio homem sem semelhante Mas do mesmo que temos dito nasce a dificuldade e a dúvida do que temos para dizer Se Inácio semelhante a tantos homens como pode ser que Inácio fosse homem sem semelhante Se era tão semelhante a tantos como não tinha nem teve semelhante Santo Tomás dando a razão por que a Igreja aplica a muitos santos aquelas mesmas palavras que o Eclesiástico disse de Abraão Non est inventus similis illi qui conservavit legem excelsi9 diz que se verificam daquela graça ou prerrogativa particular em que Deus costuma singularizar a cada um dos santos e fazêlo respectivamente mais excelente que os outros Mas esta razão não tem lugar em Santo Inácio porque já vimos que lhe deu Deus por exemplar a todos os santos e que ele foi semelhante não a um senão a todos imitando a cada um naquela graça e perfeição em que foi mais excelente Hugo cardeal diz que se hão de entender as palavras Non est inventus similis illi daquela idade em que cada um dos santos floresceu e assim vemos que tendose dado este elogio a Abraão se deu também a Jó Quod non sit sinilis ilii in terra10 porque cada um na sua idade foi singular e não teve semelhante Mas também esta razão não convém a Santo Inácio porque os santos que Deus lhe propôs naquela crônica universal em cujo espelho ele compôs e retratou a sua vida não foram os santos particulares de uma só idade senão os de todas as idades e de todos os séculos Pois se Santo Inácio foi semelhante a tantos como pode ser que não tivesse semelhante Digo que muito facilmente se distinguirmos as partes e o todo Tomado Santo Inácio por partes era semelhante todo Santo Inácio não tinha semelhante Vede se o provo Criado o céu e os elementos no céu criou Deus os anjos no ar as aves no mar os peixes na terra as plantas os animais e ultimamente o homem Estando porém desta maneira o universo cheio povoado e ornado de tanta imensidade e variedade de criaturas diz o texto sagrado que em todas elas não se achava uma que fosse semelhante ao homem Adae vero non inveniebatur adiutor similis ejus11 A mim pareciame que antes se havia de dizer o contrário porque demonstrativamente se convence que não se acha criatura alguma em todo o mundo que não tenha semelhança com o homem Todas as criaturas deste mundo não falando no homem ou são viventes ou não viventes Se não são viventes são os céus os elementos as pedras Se são viventes ou vivem vida vegetativa e são as plantas ou vivem vida sensitiva e são os animais ou vivem vida racional e são os anjos e tudo isso se acha no homem porque o homem dos elementos tem o corpóreo das plantas tem o vegetativo dos animais tem o sensitivo dos anjos tem o racional Esta foi a razão e o sentido como notou Santo Agostinho com que Cristo chamou ao homem toda criatura quando disse aos apóstolos Praedicate omni criaturue12 porque o homem é um compêndio universal de todas as criaturas e todas as criaturas cada uma segundo sua própria natureza estão recompiladas e retratadas no homem Pois se todas as criaturas quantas Deus criou neste mundo têm tanta semelhança como homem e o homem por sua própria natureza é semelhante não a uma ou algumas senão a todas as criaturas como diz o texto sagrado que entre todas as criaturas não se achava semelhante ao homem Non inveniebatur similis ejus Porque ainda que o homem considerado por partes era semelhante a todas as criaturas considerado todo o homem ou o homem todo nenhuma outra criatura era semelhante a ele As partes eram semelhantes o todo não tinha semelhante De maneira que a mesma semelhança que as criaturas tinham com Adão dividida e por partes era semelhança unida e por junto era diferença Assim também Santo Inácio em respeito dos outros santos a quem eu sempre respeito Santo Inácio parte por parte era semelhante todo Santo Inácio não tinha semelhante Adão semelhante sem semelhante entre todas as criaturas Inácio semelhante sem semelhante entre todos os santos No mesmo texto do Eclesiástico que se nos opunha temos uma confirmação admirável desta dessemelhança composta e fundada em muitas semelhanças Diz o texto que Abraão não teve semelhante Non est inventus similis illi Eclo 4420 e em prova deste elogio e desta proposição tão singular vai logo o mesmo texto contando as excelências e prerrogativas de Abraão Mas é muito digno de notar que em todas as coisas que assim se dizem deste grande patriarca houve outros patriarcas que foram semelhantes a ele Diz o texto que recebeu Abraão e observou o pacto da circuncisão In carne ejus stare fecit testamentum13 e isso mesmo fez Moisés Diz que foi fiel em sacrificar a seu filho Fidelis in tentatione inventus est14 e isso mesmo fez Jefté Diz que o fez crescer no mundo Crescere illum dedit quasi terrae cumulum15 e isso mesmo teve José Diz que lhe deu Deus por herança de mar a mar e do rio até os fins da terra Haereditare a mari usque ad mare et a flumine usque ad terminos terrae16 e isso mesmo se lê expressamente de Salomão Diz que lhe deu Deus a bênção de todas as gentes Benedictionem omnium gentium dedit illi17 e essa mesma benção pelas mesmas palavras deu o mesmo Deus a Isac Pois se Moisés Jefté José Salomão Isac foram semelhantes a Abraão nas mesmas graças nas mesmas excelências nas mesmas prerrogativas como diz o oráculo divino Non est inventus similis illi que nenhum se achou semelhante a Abraão Porque vai muito de se acharem as prerrogativas divididas em muitos ou estarem juntas em um só Et quae divisa beatos efficiunt collectatenes18 Abraão dividido e por partes teve muitos semelhantes todo Abraão e por junto ninguém lhe foi semelhante As semelhanças de Abraão divididas faziam a cada um semelhante a Abraão as semelhanças de Abraão unidas faziam a Abraão dessemelhante a todos Non est inventus similis illi Ó Abraão ó Inácio Abraão semelhante a todos os patriarcas mas entre todos os patriarcas sem semelhante Inácio semelhante a todos os santos mas entre todos os santos sem semelhante E se não vejamolo nos efeitos Para prova efetiva desta diferença tenho um testemunho muito legal e muito desapaixonado por ser testemunho do maior inimigo Em Germânia tendose o demônio apoderado de um homem estava tão forte e tão rebelde que a tudo resistia Aplicaramselhe todos os remédios naturais e divinos repetiramse por muitas vezes os exor cismos mas o demônio sem se render a nada Resolveuse o exorcista a invocar todo o exército do céu contra aquele soberbo espírito e começou assim pela ordem das ladainhas Sancte Michael Sancte Gabriel Omnes Sancti Angeli et Archangeli O demônio zombando Sancte Joannes Baptista Omnes Sancti Patriarchae et Prophetae O demônio sem fazer caso Soocte Petre Sancte Paule Omnes Sancti Apostoli et Evangelistae Nenhum efeito Sancte Stephane Sancte Laurenti Omnes Sancti Martyres Cada vez mais rebelde Sancte Gregori Sancte Ambrosi Omnes Sancti Ponttfices et Confessores Omnes Sancti Doctores Mais aterrado mais pertinaz mais furioso Sancte Antoni Nada Sancte Benedicte Como dantes Sancte Bernarde Nenhum abalo Sancte Dominice A ter mão fortemente Sancte Francisce A mesma pertinácia Sancte Ignati Em soando o nome de Santo Inácio desampara o demônio deixa o homem desaparece e nunca mais tornou Torna cá demônio espera Ainda que maligno e soberbo tu não és racional Não és entendido Sim Pois se resistes aos anjos que te lançaram do céu se resistes aos apóstolos a quem Cristo deu domínio sobre ti se resistes aos patriarcas e profetas aos confessores aos pontífices aos doutores aos mártires como te rendes só ao nome de Inácio Se cuidas que hei de cuidar por isso que Santo Inácio é maior que os outros santos enganaste nem eu cuido tal coisa nem seria filho de Santo Inácio se o cuidara Ser sem semelhante que é o que eu digo não significa maioria significa somente diferença E esta é a diferença que o demônio muito a seu pesar confessou com o efeito não obedecendo à invocação dos outros santos e rendendose só ao nome de Inácio para que conhecesse o mundo por este testemunho público do inferno ou verdadeiramente da providência e onipotência divina que ainda no concurso de todos os santos é Inácio sem semelhante Aquela espada com que Davi matou ao gigante Golias disse o mesmo Davi que não havia outra semelhante a ela Non est alter huic similis 1 Rs 219 E que fez aquela espada para que se diga dela que não tinha semelhante Fez no desafio de Davi o que neste caso fez Santo Inácio que também em algum tempo foi espada do mesmo a quem depois cortou a cabeça Plantouse armado no campo o soberbíssimo gigante desafiou a todo o exército de Saul a todas as doze tribos de Israel e em todas não houve uma espada que se atrevesse contra tão poderoso deliberado e belicoso inimigo Entre os demônios também há gigantes e tão valentes e belicosos que contra o poder dos maiores santos se mostram invencíveis Assim o experimentaram os apóstolos naquele terrível demônio de quem disseram a Cristo que o não puderam arrancar do posto Non potuimus ejicere eum Mc 9 27 O Golias destes gigantes do inferno era este soberbíssimo espírito a quem rendeu Santo Inácio Provocou o exorcista contra ele a todo o exército dos bem aventurados e todas as doze tribos do céu Contai se foram doze Provocou os anjos e os arcanjos os patriarcas e os profetas os apóstolos e os evangelistas os confessores e os pontífices os dou tores e os mártires os sacerdotes e os levitas E houve algum neste caso que o rendesse que o sujeitasse que o vencesse Nenhum Só Inácio sendo tão rebelde o rendeu Só Inácio sendo tão obstinado o sujeitou Só Inácio sendo tão invencível o venceu Confesse logo o demônio confesse o inferno e também o céu que Inácio entre todos os santos é espada de Davi e que a ele como a ela se deve o elogio e glória de não ter semelhante Non est alter huic similis V O verdadeiro retrato do santo o livro de seu Instituto A Companhia de Jesus e a Encarnação do Verbo Santo Inácio e os patriarcas fundadores de ordens Elias Paulo Jerônimo Agostinho Bento Bruno Bernardo João e Félix Domingos Francisco Caitano João de Deus e Santa Teresa E para que esta diferença e dessemelhança se conheça com toda a evidência e se veja com os olhos olhemos para o verdadeiro retrato de Santo Inácio Ninguém pôde retratar a Santo Inácio como vimos mas só Santo Inácio se retratou a si mesmo E qual é o verdadeiro retrato Qual é a vera efígie de Santo Inácio A vera efígie de Santo Inácio é aquele livro de seu Instituto que tem nas mãos O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve O corpo retratase com o pincel a alma com a pena Quando Ovidio estava desterrado no Ponto um seu amigo traziao retratado na pedra do anel mas ele mandoulhe os seus verses dizendo que aquele era o seu verdadeiro retrato Grata tua est pietas sed carmina rnajor imago sunt mea quae mando19 Sêneca quando lia as cartas de Lucílio diz que o via Video te mi Lucili cum maxime audio20 E melhor autor que estes Santo Agostinho disse altamente que enquanto não vemos Deus em sua própria face o podemos ver como imagem nas Escrituras Pro facie Dei pone interim Scripturam Dei21 A primeira imagem de Deus é o Verbo gerado a segunda o verbo escrito O verbo gerado é retrato de Deus ad intra o verbo escrito é retrato de Deus ad extra E assim como Deus se retratou no livro das suas Escrituras a si Inácio se retratou no livro das suas Retratouse Inácio por um livro em outro livro O livro das vidas dos santos foi o original de que Santo Inácio é cópia o livro do Instituto da Companhia é a copia de que Santo Inácio é o original Mas com isso ser assim é certo que o Instituto de Santo Inácio é muito diferente e muito dessemelhante dos outros institutos Pois se o patriarca foi feito à semelhança dos outros patriarcas e o instituto à semelhança dos outros institutos como saiu o patriarca tão diferente e o instituto tão dessemelhante Porque Santo Inácio no que imitou dos outros patriarcas e no que imitou dos outros institutos ainda que tomou os gêneros não tomou as diferenças os gêneros eram alheios as diferenças foram suas Fezse Deus homem pelo mistério altíssimo da Encarnação e notou profundamente SantoTomás como já o tinha notado S João Damasceno que fazendose Deus homem não só tomou e uniu a si a natureza humana senão também todas as outras naturezas que tinha criado22 Pela criação saíram de Deus todas as naturezas pela Encarnação tomaram todas as naturezas a unirse a Deus Mas como se fez esta universal união Como uniu Deus a si todas as naturezas Santo Tomás Communicavit se Christo homini et per consequens omnibus generibus singulorum Tomou Deus no homem diz Santo Tomás não só a natureza humana senão também todas as naturezas mas não tomou as diferenças delas senão os gêneros Tomou o gênero dos elementos no corpóreo e ainda que pudera ser um elemento como o fogo da sarça não tomou a diferença de elemento Tomou o gênero das plantas no vegetativo e ainda que pudera ser uma planta como a Arvore da Vida não tomou a diferença de planta Tomou o gênero dos animais no sensitivo e ainda que pudera ser um animal como a pomba do Jordão não tomou diferença de animal Tomou o gênero dos anjos no racional e ainda que pudera ser um anjo como Gabriel não tomou a diferença de anjo De modo que tomou Deus no homem todas as outras naturezas quanto aos gêneros mas não quanto às diferenças porque os gêneros eram das criaturas as diferenças eram de Cristo Assim o fez o grande imitador de Cristo Inácio Uniu em si todos os patriarcas uniu no seu instituto todos os institutos mas o que tomou foram os gêneros o que acrescentou foram as diferenças o que tomou foram os gêneros e por isto é semelhante o que acrescentou foram as diferenças e por isso não tem semelhante Para glória universal de todos os patriarcas e para glória singular do nosso patriarca pois o dia é seu vejamos em uma palavra os gêneros e estas diferenças Falarei só dos patriarcas que têm religião em Portugal e seguirei a ordem de antigüidade Do grande patriarca e pai de todos os patriarcas Elias tomou Santo Inácio o zelo da honra de Deus Ambos tinham espada de fogo mas o fogo de Elias queimava o fogo de Inácio acendia o fogo de Elias abrasava o fogo de Inácio derretia Ambos como dois raios artificiais subiam direitos ao céu mas o de Elias acabava em estrondo o de Inácio em lágrimas De S Paulo primeiro pai dos eremitas tomou Santo Inácio a contemplação mas Paulo no deserto para si Inácio no povoado para todos Ambos elegeram o meio mais alto e mais divino mas com diferentes fins Paulo para evitar a perseguição de Décio Inácio para resistir aos Décios e às perseguições Paulo recolheuse ao sagrado da contemplação para escapar à tirania Inácio armouse do peito forte da contemplação para debelar os tiranos Do patriarca e doutor máximo S Jerônimo tomou Santo Inácio a assistência inseparável da Sede Apostólica no serviço universal da Igreja S Jerônimo era a mão direita da Igreja com que os pontífices escreviam Santo Inácio é o braço direito da Igreja com que os pontífices se defendem Assim o disse o Papa Clemente VIII à Companhia Vos estis brachium dextrun Ecclesiae Dei Vós sois o braço direito da Igreja de Deus Do único sol da Igreja Santo Agostinho porque os raios do entendimento não eram imitáveis tomou Inácio as labaredas do coração O amor de Agostinho chegou a dizer que se ele fora Deus deixara de o ser para que Deus o fosse Inácio com suposição menos impossível dizia que entre a certeza e a dúvida de ver a Deus escolheria a dúvida de o ver pela certeza de o servir Do patriarca pai de tantos patriarcas S Bento estendendo o Monte Cassino por todo o mundo tomou Santo Inácio as escolas e a criação dos moços Para quê Para que na prensa das letras se lhes imprimam os bons costumes e estudando as humanas aprendam a ser homens O senhor arcebispo último de Lisboa tão grande português como prelado e tão grande prelado como douto dizia que todos os homens grandes que teve Portugal no século passado saíram do pátio de Santo Antão Agora o não freqüentam tanto seus netos depois veremos se são tão grandes como seus avós Do patriarca S Bruno aquele horror sagrado pela natureza que tomaria Santo Inácio Tomou o perpétuo cilício Não o cuida assim o mundo mas sabemno as enfermarias e as sepulturas O cilício que anda entre o corpo e o linho não é o que mais pica o que cega o entendimento e nega a vontade este é o que afoga a alma e tira a vida Os outros cilícios mortificam este mata Do patriarca S Bernardo anjo em carne e por isso irmão de leite de Cristo tomou Santo Inácio a angélica pureza Em ambos foi favor especial da Mãe de Deus mas em Santo Inácio tão singular que desde o dia de sua conversão nunca mais nem no corpo nem na alma sentiu pensamento contrário E sendo os maiores inimigos da castidade os olhos naqueles em quem punha os olhos Santo Inácio infundia castidade Dos gloriosos patriarcas 5 João e S Félix a cuja religião deu o seu nome a mesma Trindade tomou Santo Inácio o ofício de redentor E porque a esta trindade humana faltava a terceira pessoa quis ele ser a terceira Desta maneira permitime que o explique assim o Redentor do gênero humano que tinha só uma subsistência divina ficou como subsistindo em três subsis tências humanas redentor em João redentor em Félix e redentor em Inácio mas naqueles imediatamente redentor dos corpos neste imediatamente redentor das almas Do ilustríssimo patriarca S Domingos a quem com razão podemos chamar o grande pai das luzes tomou Santo Inácio a devoção da Rainha dos anjos e a doutrina do Doutor Angélico A primeira devoção que fazia Santo Inácio todos os dias era rezar o Rosário e o farol que quis seguissem na teologia as bandeiras da sua Companhia foi a doutrina de Santo Tomás Mas concordou Santo Inácio essa mesma doutrina e essa mesma devoção com tal preferência que no caso em que uma se encontrasse com a outra a devoção da Senhora prevalecesse à doutrina e não a doutrina à devoção Assim se começou a praticar nas primeiras conclusões públicas que em Roma defendeu a Companhia e depois sustentou com tantos livros Do serafim dos patriarcas S Francisco tomou Santo Inácio por dentro as chagas por fora a pobreza E estimou tanto Inácio a estreiteza da pobreza seráfica que atou a pobreza com um voto e a estreiteza com outro Fazemos um voto de guardar a pobreza e outro voto de a estreitar Aos professos mandou Santo Inácio que pedissem esmola aos não professos que lhes desse a esmola a religião para que a não fossem buscar fora dela Por isso têm rendas os colégios e não as casas Do patriarca S Caitano ilustre glória do estado clerical e quase contemporâneo de Santo Inácio ainda que em algumas partes da Europa quiseram honrar com o mesmo nome a seus filhos não tomou Santo Inácio o nome porque o tinha dado a Jesus O que tomou deste apostólico instituto foi a divina providência e porque não fosse menos providência nem menos divina não só a tomou entre a caridade dos fiéis senão entre a barbaria dos gentios Finalmente do nosso insigne português S João de Deus tomou Santo Inácio a caridade pública dos próximos Ambos se uniram na caridade e a caridade se dividiu em ambos Tomaram ambos por empresa o remédio do gênero humano enfermo João de uma parte curando o corpo Inácio de outra parte curando a alma João com o nome de Deus que formou o barro Inácio com o nome de Jesus que reformou o espírito Não falo naquele grande prodígio da nossa idade a Santa Madre Teresa de Jesus porque veio ao mundo depois de Santo Inácio Mas assim como Deus para dar semelhante a Adão do lado do mesmo Adão formou a Eva assim para dar semelhante a Santo Inácio do lado do mesmo Santo Inácio formou a Santa Teresa O texto desta gloriosa verdade é a mesma santa Assim o deixou escrito de sua própria mão afirmando que do espírito de Santo Inácio formou parte do seu espírito e do instituto de Santo Inácio parte do seu Instituto23 E este foi o modo maravilhoso com que o patriarca Santo Inácio veio a sair semelhante sem semelhante Semelhante porque tomou os gêneros sem semelhante porque acrescentou as diferenças Semelhante porque imitou a semelhança de cada um sem semelhante porque uniu em si as semelhanças de todos Et vos similes hominibus VI Protesta o autor que as diferenças que ponderou entre Santo Inácio e os outros fundadores posto que pareçam vantagens não são mais que semelhanças Santo Inácio como Moisés se não excedera a glória dos outros patriarcas fora menor porque veio depois Como diz S Paulo o Verbo para mostrar a igualdade que tem com o Pai tornouse dessemelhante fazendose homem a fim de que no excesso ficasse proporcionada a igualdade e na diferença a semelhança Tenho acabado as duas partes do meu discurso mas temo que não falte quem me argüa de que nesta última excedi os limites dele porque as diferenças que acrescentei às semelhanças parece que desfazem as mesmas semelhanças Comparei Santo Inácio com os patriarcas santíssimos das outras religiões sagradas e na mesma comparação parece que introduzi ou distingui alguma vantagem mas isso é o que eu nego Ainda que faço de meu santo patriarca a estimação que devo e sua santidade merece e ainda que sei as licenças que concede o dia próprio ao encarecimento dos louvores dos santos conheço porém e reconheço que nem eu podia pretender tal vantagem nem desejarlhe maior grandeza que a semelhança de tão esclarecidos exemplares e isso o que só fiz Digo pois e protesto que as diferenças que ponderei posto que pareçam vantagens não são mais que semelhanças antes acrescento que nenhuma delas fora semelhança se não tivera alguma coisa de vantagem porque essa é a prerrogativa dos que vieram primeiro Santo Inácio veio depois e muito depois daqueles gloriosíssimos patriarcas e quem vem depois se não excede não iguala se não é mais que semelhante não é semelhante No capítulo 44 e no 45 do Eclesiástico faz o texto sagrado um elogio geral de todos os patriarcas antigos começando desde Enoc E chegando a Moisés diz assim Similem illum fecit in gloria sanctorum Eclo 452 Fêlo Deus semelhante aos outros santos na glória de suas obras Este é o elogio de Moisés que não só parece moderado e curto senão muito inferior e quase indigno da fama e das ações de um herói tão singularmente grande Se lermos as histórias dos antigos patriarcas acharemos que as ações e as maravilhas de Moisés excederam quase incomparavelmente às de todos os passados Não me detenho em o demonstrar porque fora matéria muito dilatada e me mortifico assaz em não fazer um paralelo de Moisés com Santo Inácio Um que falava com Deus facie ad faciem Gên 3230 outro que o viu tantas vezes Um legislador famoso outro singularíssimo legislador um conquistador da Terra de Promissão outro conquistador de novos mundos Um domador do Mar Vermelho outro do oceano e de tantos mares Um que cedeu a glória de seus trabalhos a Josué outro a Jesus Um que tirou do cativeiro seiscentas mil famílias outro famílias cidades e reinos sem conta Um que pelo zelo das almas não duvidou em ser riscado dos livros de Deus outro que não ficou atrás em semelhante excesso Pois se Moisés excedeu tanto as glórias dos outros patriarcas como não diz a Escritura que lhes foi avantajado senão somente semelhante Similem illum fecit in gloria sanctorum Tudo isto não avançou mais que a fazer uma semelhança Não Porque os outros patriarcas foram primeiro Moisés veio depois e ainda que excedesse muito aos primeiros não chegou mais que a ser semelhante Se não excedera fora menor porque excedeu foi igual O excesso fez a semelhança a maioria a igualdade De todos os patriarcas das sagradas religiões só um temos na Escritura que é Elias S João Batista foi o maior dos nascidos e essa maioria comparada com Elias onde o chegou Não a ser maior que Elias senão a ser como ele Venit Joannes Baptista in Spiritu et virtute Eliae24 Os que vêm depois comparados com os que vieram antes não se medem tanto por tanto senão tanto por mais Se fizestes mais sois igual se fizestes tanto sois menos E qual é a razão deste modo de medir que verdadeiramente parece desigual O igual ficar menor e o maior ficar igual não é desigualdade Não quando a comparação se faz com os que foram primeiro porque essa é a prerrogativa da prioridade Os primeiros sempre têm a vantagem de ser primeiros e esta primazia ou prio ridade tem de si mesma tal excelência que comparada entre igual e igual sempre fica superior e é necessário que a mesma igualdade se supra com algum excesso para não ser ou parecer menos que igualdade Não há nem se pode conceber maior desigualdade que a das Pessoas Divinas Vede agora o que fez a Segunda Pessoa não para ser mas para provar que é igual à primeira Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens25 Sendo o Verbo diz S Paulo imagem substancial do Padre e igual a ele em tudo para mostrar que esta desigualdade era sua e não alheia própria e não roubada natural verdadeira e não fingida tomou a forma de servo fezse homem padeceu e remiu o mundo Esta conseqüência de S Paulo tem dado muito que entender a todos os Padres e expositores Porque para o Verbo mostrar a igualdade que tem com o Pai parece que se havia de deixar estar à sua destra no mesmo trono e para mostrar que era imagem e veraefígie sua como leu Tertuliano parece que como espelho do mesmo Padre havia de retratar em si mesmo todas as suas ações somente e nenhuma outra Se o Padre criou o mundo crieo também como criou o Filho se governa governe se decreta decrete se manda mande E se o Padre se não fez homem nem remiu o mundo não seja ele também homem nem Redentor porque tomar o Filho outra forma isto é a forma humana que o Padre não tomou e fazer o que ele não fez parece que era desigualar a igualdade e desfazer a proporção e mudar a seme lhança de verdadeira e perfeita imagem Pois se o Verbo se quer mostrar igual por que se desiguala Se se quer mostrar semelhante por que se desassemelha e por que faz o que o Padre não fez Porque o Padre era a primeira pessoa e o Filho a segunda e para se mostrar igual e semelhante havia de fazer mais No Padre não há prioridade de tempo nem de natureza mas há prioridade de origem o Pai é a primeira fonte da divindade de quem o Filho a recebeu o Pai é o primeiro exemplar de quem o Filho é imagem enfim o Pai é a primeira pessoa e o Filho a segunda e é tal a prerrogativa da prioridade qualquer que seja ainda que não seja nem possa ser maioria que para o Verbo mostrar ao mundo a inteireza da sua igualdade e a perfeição da sua semelhança foi conveniente que fizesse mais de que o Padre fizera Desta maneira a nosso modo de entender supriu o Verbo com o excesso das ações a prioridade da origem e proporcionou a prerrogativa do exemplar com os novos resplendores da semelhança E se isto foi decente e conveniente na igualdade de Deus entre a segunda pessoa e a primeira bem se vê quão necessário será na desigualdade dos homens Excedeu o Batista a Elias para lhe ser igual excedeu Moisés aos outros patriarcas para lhes ser semelhante Logo ainda que Santo Inácio pareça que excedeu aos exemplares santíssimos que imitou necessariamente havia de ser assim sendo eles primeiro para que no excesso ficasse proporcionada a igualdade e na diferença a semelhança Et vos similes hominibus VII O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as pefeições de todos os santos foi para que nele achássemos junto o que nos outros se acha dividido Como o maná tinha o sabor de todos os manjares Santo Inácio é um compêndio de todos os santos Acabemos com o fim O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as semelhanças e perfeições de todos os santos foi para que neste grande santo achássemos junto o que nos outros santos se acha dividido Santo Inácio se bem se consideram os princípios e fins de sua vida foi o fruto do Flos Sanctorum O Flos Sanctorum era a flor Santo Inácio foi o fruto Se de todas as flores se compusesse uma só flor esta flor havia de ter o cheiro de todas as flores e se desta flor nascesse um fruto este fruto havia de ter os sabores de todos os frutos E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio O livro foi a flor ele o fruto um fruto que contém em si todos os sabores um santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister O maná era semelhante sem semelhante semelhante porque tinha o sabor de todos os manjares sem semelhante porque nenhum manjar sabia a tudo como ele Por isso se chamou maná ou manhu Êx 1615 que quer dizer Quid est hoc Que é isto E a esta pergunta se respondia é tudo o que quiserdes O mesmo digo eu de Santo Inácio Tudo o que quiserdes tudo o que desejardes tudo o que houverdes mister achareis neste santo ou neste compêndio de todos os santos Essa foi a razão por que ordenou a Providência divina que concorressem e se ajuntassem neste grande exemplar tanta diversidade de estados de exercícios de fortunas Nasceu fidalgo foi cortesão foi soldado foi mendigo foi peregrino foi preso foi estudante foi graduado foi escritor foi religioso foi pregador foi súdito foi prelado foi legislador foi mestre de espírito e até pecador foi em sua mocidade depois arrependido penitente e santo Para quê Para que todos achem tudo em Santo Inácio Omnibus omnia factus sum26 O fidalgo achará em Santo Inácio uma idéia da verdadeira nobreza o cortesão os primores da verdadeira polícia o soldado os timbres do verdadeiro valor O pobre achará em Santo Inácio que o não desejar é mais certa riqueza o peregrino que todo o mundo é pátria o perseguido que a perseguição é o caráter dos escolhidos o preso que a verdadeira liberdade é a inocência O estudante achará em Santo Inácio o cuidado sem negligência o letrado a ciência sem ambição o pregador a verdade sem respeito o escritor a utilidade sem afeite27 O religioso achará em Santo Inácio a perfeição mais alta o súdito a obediência mais cega o prelado a prudência mais advertida o legislador as leis mais justas O mestre de espírito achará em Santo Inácio muito que aprender muito que exercitar muito que ensinar e muito para onde crescer Finalmente o pecador por mais metido que se veja no mundo e nos enganos de suas vaidades achará em Santo Inácio o verdadeiro norte de sua salvação achará o exemplo mais raro da conversão e mudança de vida achará o espelho mais vivo da resoluta e constante penitência e achará o motivo mais eficaz da confiança em Deus e na sua misericórdia para pretender para conseguir para perseverar e para subir ao mais alto cume da santidade e graça com a qual se mede a glória SERMÃO DA TERCEIRA DOMINGA DA QUARESMA NA CAPELA REAL ANO 1655 Cum ejecisset daemonium locutus est mutus et admiratae sunt turbae1 I O milagre deste dia representa o mistério da Confissão perfeita o mudo fala depois da expulsão do demônio Na parábola das bodas o pecador é condenado por não falar Na parábola do filho pródigo auto sacramental da confissão o pecador é condenado antes de falar As piores confissões as em que o mudo fala e o demônio fica como no caso de Judas A confissão das confissões será a matéria do presente sermão Como a turba que presenciou o milagre o autor se admira das confissões malfeitas Quando ou as cortes eram mais cristãs ou os pregadores menos de corte quando se fazia menos caso da graça dos ouvintes para que eles só fizessem caso da graça de Deus quando a doutrina que se tirava do Evangelho eram verdades sólidas e evangélicas e não discursos vãos e inúteis quando finalmente as vozes dos pre cursores de Cristo chamavam os pecadores ao Jordão e os levavam às fontes dos sacramentos o argumento comum deste Evangelho e a matéria utilíssima deste dia era a confissão Esta antigüidade determino desenterrar hoje esta velhice determino pregar e só me pesa que há de ser ainda que eu não queira com grande novidade O pior estado desta vida e o mais infeliz de todos é o pecado Mas se neste extremo de mal pode haver ainda outro mal maior é o de pecado e mudo O mais desventurado homem de que Cristo nos quis deixar um temeroso exemplo foi aquele da parábola das bodas a quem o rei atado de pés e mãos mandou lançar para sempre no cárcere das trevas O rei era Deus o cárcere o infemo e o homem foi o mais desventurado de todos os homens porque no dia e no lugar em que todos se salvaram só ele se condenou E em que esteve a sua desgraça Só em pecar Não porque muitos depois de pecar se salvaram Pois em que esteve Em emudecer depois de pecar Estranhoulhe o rei o descomedimento de se assentar à sua mesa e em tal dia com vestido indecente e ele em vez de solicitar o perdão da sua culpa confessandoa confirmou a sua condenação emudecendo At ilIe obinutuit Mt 2212 E ele diz o evangelista emudeceu Aqui esteve o remate da desgraça Mais mofino em emudecer que em pecar porque cometido o pecado tinha ainda o remédio da confissão mas emudecida a confissão nenhum remédio lhe ficava ao pecado Pecar é enfermar mortalmente pecar é emudecer é cair na enfermidade é renunciar o remédio Pecar é fazer naufrágio o navegante pecar e emudecer é irse com o peso ao fundo e não lançar mão da tábua em que se pode salvar Pecar é apagaremse as lâmpadas às virgens néscias pecar e emudecer é apagarselhes as lâmpadas e fecharselhes as portas O pecado tem muitas portas para entrar e uma só para sair que é a confissão Pecar é abrir as portas ao demônio para que entre à alma pecar e emudecer é abrirlhe as portas para que entre e cerrarlhe a porta para que não possa sair Isto é o que em alegoria comum temos hoje no Evangelho Um homem endemoninhado e mudo Endemoninhado porque abriu o homem as portas ao pecado mudo porque fechou o demônio a porta à confissão E que fez Cristo neste caso Maior caso ainda Erat ejiciens daemonium Lc 11 14 Não diz o evangelista que lançou Cristo o demônio fora senão que o estava lançando Achava Cristo repugnância achava força achava resistência porque não há coisa que resista a Deus neste mundo senão um pecador mudo Tantas vozes de Deus aos ouvidos e o pecador mudo Tantos raios e tantas luzes aos olhos e o pecador mudo Tantas razões ao entendimento tantos motivos à vontade tantos exemplos e tão desastrados e tão repetidos à memória e o pecador mudo Que fez aí fim Cristo Aplicou a virtude de seu poder eficaz bateu à porta porque não bastou bater à porta insistiu apertou venceu saiu rendido o demônio e falou o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus Este foi o fim da batalha glorioso para Cristo venturoso para o homem afrontoso para o demônio maravilhoso para os circunstantes e só para o nosso intento parece que menos próprio e menos airoso Diz que primeiro saiu o demônio e depois falou o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus E nesta circunstância parece que se encontra a ordem do milagre com a essência do mistério Na confissão primeiro fala o mudo e depois sai o demônio primeiro se confessa o pecador e depois se absolve o pecado Logo se neste milagre se representa o mistério da confissão primeiro havia de falar o mudo e depois havia de sair o demônio Antes não e por isso mesmo porque aqui não só se representa a confissão senão a confissão perfeita e a confissão perfeita não é aquela em que primeiro se confessa o pecado e depois se perdoa senão aquela em que primeiro se perdoa e depois se confessa Resolveuse o pródigo a tomar para casa do pai e confessar sua culpa e como bom penitente dispôs e ordenou primeiro a sua confissão Ibo ad patrem meum et dicam ei Pater peccavi in coelum et coram te2 Feita esta primeira diligência pôsse a caminho e estando ainda muito longe Cum adhuc longe esset eis que subitamente se acha entre os braços do pai apertandoo estreitamente neles e chegandoo ao rosto com as maiores carícias Accurrens cecidit super collum ejus et osculatius est eum Então se lançou o pródigo a seus pés e fez a sua confissão como a trazia prevenida Et dixit ei filius Pate peccavi in coelum et coram te Pois agora filho pródigo Não era isso o que vós tínheis ensaiado Enfim temos a comédia turbada O pai saiu cedo o filho falou tarde Perderam as figuras as deixas erraram a história trocaram o mistério Esta história do pródigo não é a comédia ou o ato sacramental da confissão Sim Logo primeiro havia o pródigo de lançarse aos pés do pai e fazer o papel da sua confissão como a trazia estudada e depois havia o pai de lançarlhe os braços e restituilo à sua graça Pois por que se troca toda a ordem e primeiro lhe lança os braços o pai e depois se confessa o filho Porque representavam ambos não só o ato sacramental da confissão senão da confissão perfeitíssima Na confissão menos perfeita primeiro se confessa o pecado e depois se recebe a graça na confissão perfeitíssima primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado A confissão menos perfeita começa pelos pés de Deus e acaba pelos braços a confissão perfeitíssima começa pelos braços e acaba pelos pés como aconteceu ao pródigo A razão é clara porque a confissão perfeitíssima é aquela em que o pecador vai aos pés de Deus verdadeiramente contrito e arrependido de seus pecados Vai verdadeiramente contrito e arrependido Logo já vai em graça já vai perdoado já vai absolto E esta é a confissão que hoje temos no milagre do Evangelho Confissão em que primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado confissão em que primeiro sai o demônio e depois fala o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus Se não houvera no mundo mais modos de confissões que estes dois que tenho dito não me ficava a mim para fazer hoje mais que seguir como dizia as pisadas dos nossos pregadores antepassados e exortar à freqüência deste sacramento e à confissão e arrependimento dos pecados Mas se me não engano ainda há outro modo de confissão e mui própria da corte Deve ser como os trajos confissão à la moda Dissemos que havia confissão em que primeiro sai o demônio e depois fala o mudo e confissão em que primeiro fala o mudo e depois sai o demônio Ainda há mais confissão E qual é Confissão em que o mudo fala e o demônio não sai con fissão em que o mudo fala e o demônio fica Judas quer dizer confessio confissão E assim como no apostolado de Cristo houve um Judas traidor e outro Judas santo assim há hoje na Igreja confissões santas e confissões traidoras Judas o traidor não foi traidor mudo antes a boca e a língua foi o principal instrumento de sua traição Ave Rabbi et osculatus est eum3 Desta sorte são muitas das confissões que hoje vemos no mundo e por isso eu há muito que me temo muito mais das confissões que dos pecados E de fé que toda a verdadeira confissão causa graça na alma Nunca houve tanta freqüência de confissões como hoje contudo vemos muito poucos efeitos da graça Qual será a causa disto tanta confissão e tão pouca graça Eu não sei a causa que é mas sei a causa que só pode ser A causa que só pode ser é que são confissões em que falam os mudos mas não saem os demônios A confissão bem feita é sacramento a malfeita é sacrilégio a confissão bem feita tira todos os pecados a malfeita acrescenta mais um pecado a confissão bem feita lança o demônio fora a malfeita meteo mais dentro E se cada dia vos vemos mais entrados e mais penetrados do demônio que fé quereis que tenhamos nas vossas confissões Ora eu hoje hei de tratar da confissão como prometi Mas porque o remédio se deve aplicar conforme a chaga não hei de tratar da confissão dos pecados senão da confissão das confissões Eis aqui a velhice e a novidade do assunto que trago hoje Não vos hei de exortar a que confesseis os pecados senão a que confesseis as confissões Os escrúpulos que a isto me movem irei discorrendo em um exame particular Eu farei o exame para que vós façais a confissão eu serei o escrupuloso para que vós sejais os confessados Mas como a matéria é tanto das portas a dentro da alma e poderia parecer temeridade e querela julgar de fora direi primeiro qual é a minha tenção em tudo o que disser Este milagre do diabo mudo fez diferentes efeitos nos ânimos dos presentes Houve quem louvou houve quem condenou e houve quem admirou Uma mulher devota louvou Beatus venter quite portavit4 Os escribas e fariseus condenaram In Beelzebub principe daemoniorum ejiciit daemonia5 As turbas a gente do povo admirou Et admiratae sunt turbae A estes últimos me hei de acostar hoje Não hei de ser dos que louvam nem hei de ser dos que condenam só hei de ser dos que admiram As vossas confissões vistas a uma luz parece que têm que louvar vistas a outra luz parece que têm que condenar eu nem as louvarei nem as condenarei somente me admirarei delas Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir Não será o sermão admirável mas será admirativo Et admiratae sunt turbae II As confissões em que o mudo fala e o demônio fica Há homens que ainda depois de falar continuam mudos porque falam no que dizem e são mudos no que calam O pecado e a confissão de Arão Cum ejecisset daemonium locutus est mutus et admiratae sunt turbae Hão de se confessar as confissões como dizíamos e as confissões que se hão de confessar são aquelas em que o mudo fala e o demônio fica Mas como pode ser falando em termos de confissão que o demônio fique se o mudo fala No material das palavras temos a resposta Locutus est mutus falou o mudo Se ele falou como lhe chamam mudo Porque na confissão há homens que ainda depois de falar são mudos Falam pelo que dizem e são mudos pelo que calam falam pelo que declaram e são mudos pelo que dissimulam falam pelo que confessam e são mudos pelo que negam Fez o Batista aquela sua famosa confissão posto que confissão em outro gênero e diz o evangelista Confessus est et non negavit et confessus est Jo 1 20 Confessou e não negou e confessou Notável duplicação de termos Se tinha dito que confessou por que acrescenta que não negou Confessus est et non negavit E depois de dizer que confessou e não negou por que torna a repetir que confessou Confessus est et non negavit et confessus est Não bastava dizer que confessou Não porque nem todo o confessar é confessar Quem confessa e nega não confessa só confessa quem confessa sem negar E porque João confessou e não negou por isso diz o evangelista que confessou Confessus est et non negavit et confessus est Ah quantas confissões negadas Ah quantas confissões não confessadas se absolvem sem absolvição neste sacramento Virá o dia do Juízo virá o dia daquele grande cadafalso do mundo quantos se verão ali confessos e negativos confessos e diminutos confessos e não confessos e por isso condenados Admirável coisa é ver muitos pecados como se fazem e ouvir como se confessam Vistos fora da confissão e em si mesmos são pecados e graves pecados ouvidos na confissão e com as cores de que ali se revestem ou não parecem pecados ou parecem virtudes Seja exemplo para que nos acomodemos ao lugar o pecado e a confissão de um grande ministro Trataram os hebreus de ter um Deus ou um ídolo que em lugar de Moisés os guiasse pelo deserto Vãose ter com Arão e dizem lhe Fac nobis deos qui nos praecedant Êx 321 Arão fazeinos um deus ou uns deuses que vão diante de nós Arão neste tempo era supremo ministro eclesiástico e secular porque em ausência de Moisés ficara com o governo do povo e como cabeça espiritual e temporal tinha dobrada obrigação de não consentir com os intentos ímpios dos idólatras e de os repreender e castigar como um atrevimento tão sacrílego merecia e de defender e sustentar a fé a religião o culto divino e quando mais não pudesse dar a vida e mil vidas em sua defesa Isto é o que Arão tinha obrigação em consciência de fazer Mas que é o que fez Ide advertindo as palavras porque todas importam muito para o caso Respondeu Arão em conseqüência da proposta daquela gente que fossem às suas casas que tirassem as arrecadas das orelhas a suas mulheres a suas filhas e a seus filhos conforme o uso da Ásia e que lhas trouxessem todas Tollite inaures aureas de uxorum filiorumque etfiliarum vestrarum et afferte ad me Trazidas as arrecadas tomouas Arão derreteu o ouro e feitas suas formas segundo a arte fundiu e fez um bezerro Quas cum ilIe accepisset formavit opere fusorio fecitque ex eis vitulum conflatibilem Tanto que apareceu acabada a nova imagem aclamaram logo todos em presença de Arão que aquele era o Deus que os tinha livrado do cativeiro do Egito E por se não mostrar menos religioso o sacerdote supremo Aedificavit altare coram eo et praeconis voce clamavit dicens Cras solemnitas Domini est Edificou Arão um altar pôs sobre ele o ídolo e mandou lançar pregão por todos os arraiais que no dia seguinte se celebrava a festa do Senhor chamando Senhor ao bezerro Há ainda mais blasfêmias e mais indignidades Ainda Surgentesque mane obtulerunt holocausta et hostias pacificas et sedit populus manducare et surrexerunt ludere Amanheceu o dia soleníssimo fizeram os sacerdotes muitos sacrifícios seguiramse aos sacrifícios banquetes e aos banquetes festas e danças tudo em honra e louvor do novo deus Até aqui ao pé da letra a primeira parte da história Pergunto agora E se Arão houvesse de confessar este pecado parecevos que tinha bem que confessar Pois assim aconteceu Houve de confessar o seu pecado Arão confessouo mas vede como o confessou que é muito para ver e para aprender Desceu Moisés do monte no mesmo ponto em que se estavam fazendo as festas vê o ídolo acendese em zelo argüi a Arão de todo o sucedido Quid tibi fecit hic populus ut induceres super eum peccatum maximum Que te fez este pobre povo para o fazeres réu diante de Deus do maior de todos os crimes Confessou Arão a sua culpa e confessoua por estes termos Tu nosti populum istum quod pronus sit ad malum Vós senhor sabeis que este povo é inclinado ao mal Dixeruntque mihi Fac nobis deos qui praecedant nos Disseramme que lhes fizesse deuses a quem seguissem Agora vai a confissão Idevos lembrando de tudo o que temos dito Quibus ego dlxi Quis vestrum habet aurum Tulerunt et dederunt mihi et projeci illud in ignem egressusque est hic vitulus Perguntei quem tinha ouro Foramno buscar e trouxerammo e eu lanceio no fogo e saiu este bezerro Há tal confissão Há tal caso no mundo Vinde cá Arão estai a contas comigo diante de Deus Vós não mandastes a todos estes homens mandado lhe chama o texto Fecit populus quae jusserat vós não mandastes a todos estes homens que fossem buscar as arrecadas de ouro de suas mulheres de suas filhas e de seus filhos e que lhas tirassem das orelhas e vo las trouxessem Pois como agora na confissão dizeis que perguntastes somente quem tinha ouro Dixi illis Quis vestrum habet aurum Mais Vós não tomastes o ouro não o derretestes não o fundistes não o formastes e fizestes o bezerro Formavit opere fusorio fecitque vitulum conflatibilem Pois como dizeis agora na confissão que lançastes o ouro no fogo e que o ídolo se fez a si mesmo e não vós a ele Projeci illud in ignem egressusque est hic vitulus Mais ainda Vós não fabricastes o altar Não pusestes nele o ídolo Não lhe dedicastes dia santo Não lhe chamastes Senhor Não lhe fizestes ou mandastes fazer sacrifícios holocaustos banquetes jogos festas Pois como na confissão agora calais tudo isto e não se vos ouve uma só palavra em matéria de tanto peso Eis aqui como dizem os pecados com as confissões e as confissões com os pecados E assim confessou os seus o maior ministro eclesiástico e secular do povo de Deus Falou Arão no que disse e foi mudo no que calou Locutus est mutus Mas notai que se fez grande injúria à pureza da confissão no que calou muito maior injúria lhe fez no que disse pelo modo com que o disse porque no que calou calou pecados no que disse fez de pecados virtudes Que é que calou Arão Calou o altar que levantara ao ídolo a adoração que lhe dera o nome do Senhor com que o honrara os pregões o dia solene as ofertas os sacrifícios as festas e sobretudo abrir a primeira porta e dar princípio às idolatrias do povo de Israel que duraram com infinitos castigos por mais de dois mil anos São boas venialidades estas para se calarem na confissão Pois isto é o que calou Arão E que é o que confessou ou como o confessou O que confessou foi o seu pecado mas o modo com que o confessou foi tão diverso que sendo o maior pecado parecia a maior virtude De maneira que se Deus não tivesse revelado a Moisés o que passava pudera Moisés por esta confissão de Arão pôlo no mesmo altar que ele tinha edificado O que Arão disse a Moisés foram estas palavras formais Dixi illis Quis vestrum habet aurum et tulerunt mihi et projeci illud in ignem Pediramme que lhes fizesse um ídolo pergunteilhes se tinham ouro trouxeramno e eu arremesseio no fogo Olhai como referiu a história Olhai como despintou a ação Olhai como enfeitou o pecado Pedir o ouro para fazer o ídolo e derretêlo e fundilo e formálo e expôlo para ser adorado isso não era só concorrer para a idolatria mas ser autor e dogmatista dela E isto é o que fez Arão Pelo contrário pedir o ouro de que o povo cego queria se formasse o ídolo e arremessálo no fogo era pôr o fogo à idolatria era abrasála era queimála era fazêla em pó e em cinza E isto é o que Arão confessou que fizera Julgai agora se têm muito que confessar semelhantes confissões e se são boas para lançar o demônio fora da alma ou para o meter mais dentro Falo da confissão de Arão cada um examine as suas Se as vossas confissões são como a de Arão têm muito que condenar se são como as do Batista têm muito que louvar Mas eu nem louvo com Marcela6 nem condeno com os fariseus admirome somente com as turbas Et admiratae sunt turbae III Confessionário geral de um ministro cristão Quis Quem sou eu O escrúpulo dos cargos Quantos ofícios tenho Assim como o sol o homem não pode presidir a mais de um hemisfério A Adão foram dados três ofícios dos quais não soube dar conta Escrúpulos da alma santa dos Cânticos e de Moisés grãoministro de Deus e de sua república Suposto pois que há confissões que merecem ser confessadas bem será que desçamos com a nossa admiração a fazer um exame particular delas para que cada um conheça melhor os defeitos das suas E para que o exame se acomode ao auditório não será das consciências de todos os estados senão só dos que têm o estado à sua conta Será um confessionário geral de um ministro cristão Os teólogos morais reduzem ordinariamente este modo de exame a sete títulos Quis Quid Ubi Quibus auxilus Cur Quomodo Quando7 A mesma ordem seguiremos eu para maior clareza do discurso vós para maior firmeza de memória Deus nos ajude Quis Quem sou eu Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro ou seja Arão secular ou seja Arão eclesiástico Eu sou um desembargador da casa da suplicação dos agravos do paço Sou um procurador da coroa Sou um chancelermor Sou um regedor da justiça Sou um conselheiro de Estado de guerra do ultramar dos três estados Sou um vedor da fazenda Sou um presidente da câmara do paço da mesa da consciência Sou um secretário de estado das mercês do expediente Sou um inquisidor Sou um deputado Sou um bispo Sou um governador de um bispado etc Bem está já temos o ofício mas o meu escrúpulo ou a minha admiração não está no ofício senão no um Tendes um só destes ofícios ou tendes muitos Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais que têm quatro que têm seis que têm oito que têm dez ofícios Este ministro universal não pergunto como vive nem quando vive Não pergunto como acode a suas obrigações nem quando acode a elas Só pergunto como se confessa Quando Deus deu forma ao governo do mundo pôs no céu aqueles dois grandes planetas o sol e a lua e deu a cada um deles uma presidência ao sol a presidência do dia Luminare niajus ut praeesset diei e à lua a presidência da noite Luminare minus utpraeesset nocti8 E por que fez Deus esta repartição Porventura por que se não queixasse a lua e as estrelas Não porque com o sol ninguém tinha competência nem podia ter justa queixa Pois se o sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu por que não proveu Deus nele ambas as presidências Por que lhe não deu ambos os ofícios Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios ainda que seja o mesmo sol O mesmo sol quando alumia um hemisfério deixa o outro às escuras E que haja de haver homem com dez hemisférios e que cuide ou se cuide que em todos pode alumiar Não vos admiro a capacidade do talento a da consciência sim Dirmeeis como doutos que deveis ser que no mesmo tempo em que Deus deu uma só presidência e um só hemisfério ao sol deu três presidências e três hemisférios a Adão Uma presidência no mar para que governasse os peixes outra presidência no ar para que governasse as aves outra presidência na terra para que governasse os outros animais Et praesit piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis universaeque terrae Gên 126 E o mesmo é governar a animais que governar a homens E o mesmo é o estado da inocência em que então estava Adão e o estado da natureza corrupta e corruptíssima em que estamos hoje Mas quando tudo fora igual o exemplo nem faz por vós nem contra mim Por vós não porque naquele tempo não havia mais que um homem no mundo e era força que ele tivesse muitos ofícios Contra mim não antes muito por mim porque Adão com esses ofícios bem se vê a boa conta que deles deu Gên 323 Não eram passadas vinte quatro horas em que Adão servia os três ofícios quando já tinha perdidos os ofícios e perdido o mundo e perdido a si e perdidos a nós9 Se isto aconteceu a um homem que saía flamante das mãos de Deus com justiça original e com ciência infusa que será aos que não são tão justos nem tão cientes e aos que tem outros originais e outras infusões Não era cristão Platão e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes um que crie a lã outro que a tosquie outro que a carde outro que a fie outro que a teça outro que a tinja outro que a tose e outro que a corte e a cosa se nas cidades bem ordenadas o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata se o que lavra a prata não pode bater o ferro se o que bate o ferro não pode fundir o cobre se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho no governo dos homens que são metais com uso de razão no governo dos homens que é a arte das artes como se hão de ajuntar em um só homem ou se hão de confundir nele tantos ofícios Se um mestre com carta de examinação dá má conta de um ofício mecânico um homem que muitas vezes não chegou a ser obreiro como há de dar boa conta de tantos ofícios políticos E que não faça disto consciência este homem Que se confesse pela quaresma e que continue a servir os mesmos ofícios ou a servirse deles depois da Páscoa Isto me admira Em semelhantes obrigações se viu metida uma hora a Alma Santa mas vede como ela confessou a sua insuficiência e depôs o seu escrúpulo Posuerunt me custodem in vineis vineam ineam non custodivi Puseramme por guarda das vinhas e eu não guardei a minha vinha Cânt 16 Pois ao menos Alma Santa a vossa vinha por vossa por que a não guardaste Porque a quem entregam muitas vinhas não pode guardar nenhuma Assim o confessa uma alma que se quer salvar Confessou a sua insuficiência e confessa a sua culpa Se alguém parece que pudera ter desculpa em tal caso era essa alma pelo que ela mesma diz Posuerunt me Puseramme Ainda quando vos pusessem nesses ofícios tínheis obrigação de depor os ofícios e confessar os erros E que será quando vós sois o que vos pusestes neles o que pretendestes o que buscastes o que os subornastes e o que porventura os tirastes a outrem para os pôr em vós Moisés aquele grãoministro de Deus e da sua república metendolhe o mesmo Deus na mão a vara e mandandoo que fosse libertar o povo respondeu Quis ego sum ut vadam ad pharaonem Ex 311 E quem sou eu Senhor ou que capacidade há em mim para esta comissão Mitte quem missurus es Êx 414 Mandai a quem vos possa servir como convém Oh ministro verdadeiramente de Deus Antes de aceitar o cargo representou a insuficiência e para que se visse que esta representação era consciência e não cortesia repugnou uma e outra vez e não aceitou senão depois que Deus lhe deu Arão por adjunto Tinha já Moisés muitos anos de governo do povo muitas cãs e muita experiência tornou a fazer outra proposta a Deus e quero referir os termos do memorial para que se veja quão apertados foram Non possum solus sustinere omnem hunc populum Núm 1114 Eu Senhor não posso só com o peso do governo deste povo Sin aliter tibi videtui obsecro ut inteficias me et inveniam gratiam in oculis tuis E quando vossa divina majestade não for servido de me aliviar peço e protesto a vossa divina majestade me tire a vida e receberei nisto muito grande mercê Não pediu o oficio para toda a vida nem para muitas vidas senão que lhe tirasse a vida só para não ter o ofício e com muita razão porque melhor é perder o ofício e a vida que reter o oficio e perder a consciência E que fez Deus neste caso Mandou a Moisés que escolhesse setenta anciãos dos mais prudentes e autorizados do povo e diz o texto que tirou Deus do espírito de Moisés e repartiu dele por todos os setenta Auferens de spiritu qui erat in Moyse et dans septuaginta viris Núm 1125 Eis aqui quem era aquele homem que se escusou do oficio De maneira que um homem que vale por setenta homens não se atreve a servir um só ofício E vós que vos fará Deus muita mercê que sejais um homem atreveisvos a servir setenta ofícios Não louvo nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae IV Quid O quê O que faz Que eleições O escrúpulo das eleições A predestinação e a parábola do profeta Isaías A confissão de Arão e as conseqüências desastrosas do seu pecado Quid Quê Depois de o ministro examinar que ministro ou que ministros é seguese ver o que faz Um dia do juízo inteiro era necessário para este exame Quid Que sentenças Que despachos Que votos Que consultas Que eleições Mas paremos nesta última palavra que é a de maiores escrúpulos e que envolve comumente todo o quid Não me atrevo a falar nesta matéria senão por uma parábola e ainda esta não há de ser minha senão do profeta Isaías Foi um homem ao mato diz Isaías ou fosse escultor de ofício ou imaginário de devoção Levava o seu machado ou a sua acha às costas e o seu intento era ir buscar um madeiro para fazer um ídolo Olhou para os cedros para as faias para os pinhos para os ciprestes cortou donde lhe pareceu um tronco e trouxeo para casa Partido o tronco em duas partes ou em dois cepos a um destes cepos meteulhe o machado e a cunha fendeuo em achas fez fogo com elas e aquentouse e cozinhou o que havia de comer O outro cepo pôslhe a regra lançoulhe as linhas desbastouo e tomando já o maço e o escopro já a goiva e o buril foio afeiçoando em forma humana Alisoulhe uma testa rasgoulhe uns olhos afiloulhe um nariz abriulhe uma boca ondeoulhe uns cabelos ao rosto foilhe seguindo os ombros os braços as mãos o peito e o resto do corpo até os pés E feito em tudo uma figura de homem pôlo sobre o altar e adorouo Pasma Isaías da cegueira deste escultor e eu também me admiro dos que fazem o que ele fez Um cepo conhecido por cepo feito homem e posto em lugar onde há de ser adorado Medietatem ejus combussi igni et de reliquo ejus idolumfaciam10 Duas ametades do mesmo tronco uma ao fogo outra ao altar Se são dois cepos por que os não haveis de tratar ambos como cepos Mas que um cepo haja de ter a fortuna de cepo e vá em achas ao fogo e que o outro cepo tão madeiro tão tronco tão informe e tão cepo como o outro o haveis de fazer à força homem e lhe haveis de dar autoridade respeito adoração divindade Dirmeeis que este segundo cepo que está muito feito e que tem partes Sim tem mas as que vós fizestes nele Tem boca porque vós lhe fizestes boca tem olhos porque vós lhe fizestes olhos tem mãos e pés porque vós lhe fizestes pés e mãos E se não dizeilhe que ande com esses pés ou que obre com essas mãos ou que fale com essa boca ou que veja com esses olhos Pois se tão cepo é agora como era dantes por que não vai também este para o fogo Ou por que não vem também o outro para o altar Há quem leve à confissão estas desigualdades Há quem se confesse dos que fez e dos que desfez A um queimastes a outro fizestes e de ambos deveis restituição igualmente Ao que queimastes deveis restituição do mal que lhe fizestes ao que fizestes deveis restituição dos males que ele fizer Fizesteslhe olhos não sendo capaz de ver restituireis os danos das suas cegueiras Fizesteslhe boca não sendo capaz de falar restituireis os danos das suas palavras Fizesteslhe mãos não sendo capaz de obrar restituireis os danos das suas omissões Fizesteslhe cabeça não sendo capaz de juízo restituireis os danos de seus desgovernos Eis aqui o encargo de ter feituras Então prezaivos de poder fazer e desfazer homens Quanto melhor fora fazer consciência dos que fizestes e dos que desfizestes Deus tem duas ações que reservou só para si criar e predestinar A ação de criar já os poderosos a têm tomado a Deus fazendo criaturas de nada a de predestinar também lha vejo tomada neste caso um para o fogo e outro para o altar Basta que também haveis de ter precitos e predestinados Se fostes precitos não sei de quê fostes mofino haveis de arder se fostes seu predestinado fostes ditoso haveis de reinar E haverá algum destes onipotentes que se tenha acusado alguma hora deste pecado de predestinação Acusado não escusado sim E por galante modo Saiu fulano com tal despacho saiu fulano com tal mercê E o que fez a mercê e o que fez o despacho e o que fez fulano é o mesmo que isto diz Se vós o fizestes para que dizeis que saiu O nosso Arão ao pé da letra Que fez Arão e que disse no caso do outro ídolo O que Arão fez foi que fundiu e forjou e formou o bezerro Formavit fecitque vitulum conflatilem Êx 32 4 E o que o mesmo Arão disse foi que o bezerro saíra Egressus que est hic vitulus Saiu Pois se vós o fizestes e se vós o fundistes e se vós o forjastes e vós o limastes se é certo que vós pedistes o ouro das arrecadas ou arrecadastes o ouro que não pedistes por que dizeis que saiu Egressus est Porque assim dizemos que fazem bezerros São tais as vossas feituras que vos afrontais de dizer que vós as fizestes Mas já que as negais aos olhos dos homens por que as não confessastes aos pés de Deus Pois credeme que o bezerro de ouro tem muito mais que confessar que ouro e bezerro E que tem mais que confessar Os danos particulares e públicos que dali se seguiram Seguiuse deste pecado quebrar Moisés as tábuas da lei escrita pela mão de Deus Projecit de manu tabulas et confregit eas11 Seguiuse ficar o povo pobre e despojado das suas jóias que eram o preço de quatrocentos anos de serviço seu e de seus antepassados no Egito Spoliaverat enim eum Aaron et nudum constituerant12 Seguiuse morrerem naquele dia à espada a mãos de Moisés e dos levitas vinte e três mil homens Cecideruntque in die illa quasi virginti tria millia hominum13 Seguiuse deixar Deus o povo e não o querer acompanhar nem assistir com sua presença como até ali fizera Non ascendam tecum quia populus durae cervicis es14 Seguiuse querer Deus acabar para sempre o mesmo povo como sem dúvida fizera se as orações de Moisés não aplacaram sua justa ira Dimitte me ut irascatur furor meus et deleam eos15 Seguiuse finalmente e seguiramse todos os outros castigos que Deus então lhes ameaçou e reservou para seu tempo de que em muitas centenas de anos e de horrendas calamidades se não viram livres os hebreus Ego autem in die ultionis visitabo et hoc peccatum eorum Que vos parecem as conseqüências daquele pecado Cuidais que não há mais que fazer um bezerro Cuidais que não há mais que entronizar um bruto ou seja cepo de pau ou cepo de ouro As mesmas conseqüências se seguem dos indignos que vós fazeis e pondes nos lugares supremos E se não olhai para elas As leis divinas e humanas quebradas os povos despojados e empobrecidos as mortes de homens a milhares uns na guerra por falta de governo outros na paz por falta de justiça outros nos hospitais por falta de cuidado sobretudo a ira de Deus provocada a assistência de sua proteção desmerecida as províncias o reino e a mesma nação inteira arriscada a uma extrema ruína que se não fora pelas orações de alguns justos já estivera acabada mas não estão ainda acabados os castigos E sobre quem carrega o peso de todas estas conseqüências Sobre aqueles que fazem e que sustentam os autores e causadores delas Ego feci ego feram16 Vós o fizestes vós o pagareis E que com esta carga às costas andem tão leves como andam Que lhes não pese este peso na consciência Que os não morda este escrúpulo na alma Que os não inquiete que os não assombre que os não traga fora de si esta conta que hão de dar a Deus E que sejam cristãos E que se confessem Mas não condeno nem louvo admirome com as tur bas Et admiratae sunt turbae V Ubi Onde Escrúpulo dos que assinalam o onde e dos que o aceitam Onde põe Portugal seus ministros da fé e dos estados Quanto mais longe tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança A parábola dos talentos e a honestidade dos criados nas regiões longínquas O profeta Habacuc e o escrúpulo dos escolhidos Ubi Onde Esta circunstância onde tem muito que reparar em toda a parte mas no Reino de Portugal muito mais porque ainda que os seus ubis ou os seus ondes dentro em si podem compreenderse facilmente os que tem fora de si são os mais diversos os mais distantes e os mais dilatados de todas as monarquias do mundo Tantos remos tantas nações tantas províncias tantas cidades tantas fortalezas tantas igrejas catedrais tantas particulares na África na Ásia na América onde põe Portugal vicereis onde põe governadores onde põe generais onde põe capitães onde põe justiças onde põe bispos e arcebispos onde põe todos os outros ministros da fé da doutrina das almas E quanto juízo quanta verdade quanta inteireza quanta consciência e necessária para distribuir bem estes ondes e para ver onde se põe cada um Se pondes o cobiçoso onde há ocasião de roubo e o fraco onde há ocasião de defender e o infiel onde há ocasião de renegar e o pobre onde há ocasião de desempobrecer que há de ser das conquistas e dos que com tanto e tão honrado sangue as ganharam Oh que os sujeitos que se põem nestes lugares são pessoas de grande qualidade e de grande autoridade fidalgos senhores títulos Por isso mais Os mesmos ecos de uns nomes tão grandes em Portugal parece que estão dizendo onde se hão de pôr Um conde Onde Onde obre proezas dignas de seus antepassados onde despenda liberalmente o seu com os soldados e beneméritos onde peleje onde defenda onde vença onde conquiste onde faça justiça onde adiante a fé e a Cristondade onde se honre a si e à pátria e ao príncipe que fez eleição de sua pessoa E não onde se aproveite e nos arruine onde se enriqueça a si e deixe pobre o estado onde perca as vitórias e venha carregado de despojos Este há de ser o onde Ubi E quanto este onde for mais longe tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança e de maiores virtudes Quem há de governar e mandar três e quatro mil léguas longe do rei onde em três anos não pode haver recurso de seus procedimentos nem ainda notícias que verdade que justiça que fé que zelo deve ser o seu Na parábola dos talentos diz Cristo que os repartiu o rei Unicuique secundum propriam virtutem Mt 2515 A cada um conforme a sua virtude e que se partiu para outra região dali muito longe a tomar posse de um reino Abiit in regionem longinquam accipene sibi negnum Lc 1912 Se isto fora história pudera ter sucedido assim mas se não era história senão parábola porque não introduz Cristo ao rei e aos criados dos talentos na mesma terra senão ao rei em uma região muito longe e aos criados dos talentos em outra Porque os criados dos talentos ao longe do rei é que melhor se experimentam e ao longe do rei é que são mais necessários Nos Brasis nas Angolas nas Goas nas Malacas nos Macaus onde o rei se conhece só por fama e se obedece só por nome aí são necessários os criados de maior fé e os talentos de maiores virtudes Se em Portugal se em Lisboa onde os olhos do rei se vêem e os brados do rei se ouvem faltam a sua obrigação homens de grandes obrigações que será in regionem longinquam Que será naquelas regiões remotíssimas onde orei onde as leis onde a justiça onde a verdade onde a razão e onde até o mesmo Deus parece que está longe Este é o escrúpulo dos que assinalam o onde e qual será o dos que o aceitam Que me mandem onde não convém culpa será ou desgraça de quem me manda mas que eu não repare aonde vou Ou eu sei aonde vou ou o não sei Se o não sei como vou onde não sei E se o sei como vou onde não posso fazer o que devo Tudo temos em um profeta não em profecia senão em história Ia o profeta Habacuc com uma cesta de pão no braço em que levava de comer para os seus segadores quando lhe sai ao caminho um anjo e dizlhe que leve aquele comer a Babilônia e que o dê a Daniel que estava no lago dos leões Que vos parece que responderia o profeta neste caso Domine Babylonem non vidi et lacum nescio Dan 1435 Senhor se eu nunca vi Babilônia nem sei onde está tal lago como hei de levar de comer a Daniel ao lago de Babilônia Eu digo que o profeta respondeu prudente vós direis que não respondeu bizarro e segundo os vossos brios assim é Se os segadores andaram aqui nas lezírias e o recado se vos dera a vós como havíeis de aceitar sem réplica Como vos havíeis de arrojar ao lago a Babilônia e aos leões Avisamvos para a armada para capitãode mareguerra para almirante para general e sendo o lagozinho o mar oceano na costa onde ele é mais soberbo e mais indômito ver como vos arrojais ao lago Acenamvos com o governo do Brasil de Angola da Índia com a embaixada de Roma de Paris de Inglaterra de Holanda e sendo estas as Babilônias das quatro partes do mundo ver como vos arrojais a Babilônia Há de se prover a gineta a bengala o bastão para as fronteiras mais empenhadas do reino e sendo a guerra contra os leões de Espanha tanto valor tanta ciência tanto exercício ver como vos arremessais aos leões Se vós não vistes o mar mais que no Tejo se não vistes o mundo mais que no mapa se não vistes a guerra mais que nos panos de Tunes como vos arrojais ao governo da guerra do mar do mundo Mas não é ainda este o mais escandaloso reparo Habacuc levava no braço a sua cesta de pão mas ele não reparou no pão nem na cesta reparou somente na Babilônia e no lago vós às avessas na Babilônia e no lago nenhum reparo no pão e na cesta aí está toda a dúvida toda a dificuldade toda a demanda Babilônia Daniel lago leões tudo isso é mui conforme ao meu espírito ao meu talento ao meu valor Eu irei a Babilônia eu libertarei a Daniel eu desqueixarei os leões se for necessário não é essa a dificuldade mas há de ser com as conveniências de minha casa Não está a dúvida na Babilônia está a dúvida e a Babilônia na cesta O pão desta cesta é para os meus segadores ir e vir a Babilônia e sustentar a Daniel à custa do meu pão não é possível nem justo Os meus segadores estão no campo a minha casa fica sem mim Babilônia está daqui tantos centos de léguas tudo isso se há de compor primeiro hãome de dar pão para os segadores e pão para a minha casa e pão para a ida e pão para a volta e para se acaso lá me comer um leão que só neste caso se supõe o caso e por se acaso eu morrer na jornada esse pão háme de ficar de juro e quando menos em três ou quatro vidas Não é isto assim O ponto está em encher a cesta e segurar o pão E o de mais Suceda o que suceder confundase Babilônia pereça Daniel fartemse os leões e leve o pecado tudo Por isso leva tudo o pecado E quantos pecados vos parece que vão envoltos nesta envolta de que nem vós nem outros fazem escrúpulo Mas dirmeeis se acaso vos quereis salvar Pois padre como me hei de haver neste caso Como se houve o profeta Primeiro escusar como se ele escusou e se não valer a escusa ir como ele foi E como foi Habacuc Tomouo o anjo pelos cabelos e pôlo em Babilônia Se vos não aproveitar uma e outra escusa ide mas com anjo e pelos cabelos com anjo que vos guie que vos encaminhe que vos alumie que vos guarde que vos ensine que vos tenha mão e ainda assim muito contra vossa vontade pelos cabelos Mas que seria se em vez de ir pelos cabelos fôsseis por muito gosto por muito desejo e por muita negociação E em vez de vos levar da mão um anjo vos levassem da mão dois diabos um da ambição outro da cobiça Se estes dois espíritos infernais são os que vos levam a toda a parte onde ides como não quereis que vos levem ao inferno E que nestes mesmos caminhos seja uma das alfaias deles o confessor E que vos confesseis quando ides assim e quando estais assim e quando tornais assim Não quero condenar nem louvar porque o prometi mas não posso deixar de me admirar com as turbas Et admiratae sunt turbae VI Quibus auxiliis Com que meios Três dedos e uma pena o ofício mais arriscado do governo humano A escrita fatal do festim de Baltasar Os ministros da pena e as parteiras do Egito O texto obscuro de Davi Importância dos escribas Comparação do profeta Malaquias Etimologia de calamidade As penas dos quatro evangelistas Os massoretas e a pontuação das Escrituras Sagradas As arrecadas da Esposa do Cântico dos Cânticos Quibus auxiliis E com que meios se fazem e se conseguem todas estas coisas que temos dito Com um papel e com muitos papéis com certidões com informações com decretos com consultas com despachos com portarias com provisões Não há coisa mais escrupulosa no mundo que papel e pena Três dedos com uma pena na mão é o oficio mais arriscado que tem o governo humano Aquela escritura fatal que apareceu a elrei Baltasar na parede diz o texto que a formaram uns dedos como de mão de homem Apparuerunt digiti quasi manus hominis Dan 55 E estes dedos quem os movia Dizem todos os intérpretes com S Jerônimo que os movia um anjo De maneira que quem escrevia era um anjo e não tinha de homem mais que três dedos Tão puro como isto há de ser quem escreve Três dedos com uma pena podem ter muita mão por isso não há de ser mais que dedos Com estes dedos não há de haver mão não há de haver braço não há de haver ouvidos não há de haver boca não há de haver olhos não há de haver coração não há de haver homem Quasi manus hominis Não há de haver mão para a dádiva nem braço para o poder nem ouvidos para a lisonja nem olhos para o respeito nem boca para a promessa nem coração para o afeto nem finalmente há de haver homem porque não há de haver carne nem sangue A razão disto é porque se os dedos não forem muito seguros com qualquer jeito da pena podem fazer grandes danos Quis Faraó destruir e acabar os filhos de Israel no Egito e que meio tomou para isto Mandou chamar as parteiras egipcianas e encomendoulhes que quando assistissem o parto das hebréias se fosse homem o que nascesse que lhe torcessem o pescoço e o matassem sem que ninguém o entendesse Eis aqui quão ocasionado oficio é o daqueles em cujas mãos nascem os negócios O parto dos negócios são as resoluções e aqueles em cujas mãos nascem estes partos ou seja escrevendo ao tribunal ou seja escrevendo ao príncipe são os ministros da pena E é tal o poder a ocasião e a sutileza deste ofício que com um jeito de mão e com um torcer de pena podem dar vida e tirar vida Com um jeito podemos dar com que vivais e com outro jeito podemos tirar o com que viveis Vede se é necessário que tenham muito escrupulosas consciências estas egipcianas quando tanto depende delas a buena dicha dos homens e não pelas riscas da vossa mão senão pelos riscos das suas Si dormiatis inter medios cleros hoc est inter medias sortes pennae columbae deargentatae SI 6714 Se estais duvidoso da vossa sorte penas prateadas diz Davi O sentido deste texto ainda se não sabe ao certo mas tomado pelo que soa terrível coisa é que a boa ou má sorte de uns dependa das penas de outros E muito mais terrível ainda se essas penas por algum reflexo se puderem pratear ou dourar Pennae columbae deargentate et posteriora dorsi ejus in pallore auri17 Estas penas são as que escrevem as sortes estas as que as tiram e as que as dão e talvez a boa aos maus e a má aos bons Quantos delitos se enfeitam com uma penada Quantos merecimentos se apagam com uma risca Quantas famas se escurecem com um borrão Para que vejam os que escrevem de quantos danos podem ser causa se a mão não for muito certa se a pena não for muito aparada se a tinta não for muito fina se a regra não for muito direita se o papel não for muito limpo Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena e muito mais àqueles que sobre um joelho aos pés do rei recebemos seus oráculos e os interpretam e estendem Eles são os que com um advérbio podem limitar ou ampliar as fortunas eles os que com uma cifra podem adiantar direitos e atrasar preferências eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso à balança da justiça eles os que com uma cláusula equívoca ou menos clara podem deixar duvidoso e em questão o que havia de ser certo e efetivo eles os que com meter ou não meter um papel podem chegar e introduzir a quem quiserem e desviar e excluir a quem não quiserem eles finalmente os que dão a última forma às resoluções soberanas de que depende o ser ou não ser de tudo Todas as penas como as ervas têm a sua virtude mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras São por oficio ou artifício como as penas da águia das quais dizemos naturais que postas entre as penas das outras aves a todas comem e desfazem Ouçam estas penas pelo que têm de reais o que delas diz o Espírito Santo In manu Dei potestas terrae et utilem rectorem suscitabit in tempus super illam In manu Dei prosperitas hominis et super faciem scribae ponet honorem suum18 Escriba neste lugar como notam os expositores significa o ofício daqueles que junto à pessoa do rei escrevem e distribuem os seus decretos Assim se chama na Escritura Saraias escriba do rei Davi e Sobna escriba del elrei Ezequias19 Diz poiso Espírito Santo O poder e império dos reis está na mão de Deus porém a honra de Deus pôla o mesmo Deus na mão dos que escrevem aos reis Et super faciem scribae imponet honorem suum Pode haver ofício mais para gloriar por uma parte e mais para tremer por outra Grande crédito e grande confiança argúi que nestas mãos e nestas penas ponham os reis a sua honra mas muito maior crédito e muito maior confiança é que diga o mesmo Deus que põe nelas a sua Quantas empresas de grande honra de Deus puderam estar muito adiantadas se estas penas sem as quais se não pode dar passo as zelaram e assistiram como era justo E quantas pelo contrário se perdem e se sepultam ou porque falta o zelo e diligência ou porque sobeja o esquecimento e o descuido quando não seja talvez a oposição Do rei que logo direi falava o profeta Malaquias debaixo do nome de Sol de Justiça quando disse que nas suas penas estava a saúde do mundo Orietur vobis sol justitiae et sanitas in pennis ejus20 Chama penas aos raios do sol porque assim como o sol por meio de seus raios alumia aquenta e vivifica a todas as partes da terra assim o rei que não pode sair do seu zodíaco por meio das penas que tem junto a si dá luz dá calor e dá vida a todas as partes da monarquia ainda que ela se estenda fora de ambos os trópicos como a do sol e a nossa Et sanitas in pennis ejus Se as suas penas forem sãs e tão puras como os raios do sol delas nascerá todo o bem e felicidade pública mas se em vez de serem sãs forem corruptas e não como raios do sol senão como raios elas serão a causa de todas as ruínas e de todas as calamidades Se perguntardes aos gramáticos donde se deriva este nome calamidade calamitas respondervosão que de calamo E que quer dizer calamo Quer dizer cana e pena porque as penas antigamente faziamse de certas canas delgadas Por sinal que diz Plínio que as melhores do mundo eram as da nossa Lusitânia Esta derivação ainda é mais certa na política que na gramática Se as penas de que se serve o rei não forem sãs destes cálamos se derivarão todas as calamidades públicas e serão o veneno e enfermidade mortal da monarquia em vez de serem a saúde dela Sanitas in pennis ejus O rei de que fala neste lugar Malaquias é o Rei dos Reis Cristo e as penas com que ele deu saúde ao mundo todos sabemos que são as dos quatro evangelistas e essas assistidas do Espírito Santo Para que advirtamos evangelistas dos príncipes a verdade a pureza a inteireza que devem imitar as suas penas e como em tudo se hão de mover pelo impulso soberano e em nada por afeto próprio Se as suas escrituras as pomos sobre a cabeça como sagradas seja cada uma delas um evangelho humano Porém se sucedesse alguma vez não ser assim ou por desatenção das penas maiores ou por corrupção das inferiores de que elas se ajudam julguem as consciências sobre que carregam estes escrúpulos se têm muito que examinar e muito que confessar e muito que restituir em negócios e matérias tantas e de tanto peso Que possa isto suceder e que tenha já sucedido o profeta Jeremias o afirma Vere mendacium operatus est stylus mendax scribarum Ou como lê o caldaico Fecit calamum mendacii ad falsandas scripturas21 E suposto que isto não só é possível mas já foi praticado e visto naquele tempo bem é que saiba o nosso quanto bastará para falsificar uma escritura Bastará mudar um nome Bastará mudar uma palavra Bastará mudar uma cifra Digo que muito menos basta Não é necessário para falsificar uma escritura mudar nomes nem palavras nem cifras nem ainda letras basta mudar um ponto ou uma vírgula Perguntam os controversistas se assim como nas Sagradas Escrituras são de fé as palavras serão também de fé os pontos e vírgulas E respondem que sim porque os pontos e vírgulas determinam o sentido das palavras e variados os pontos e vírgulas também o sentido se varia Por isso antigamente havia um conselho chamado dos massoretas cujo ofício era conservar incorruptamente em sua pureza a pontuação da Escritura Esta é a galantaria misteriosa daquele texto dos Cânticos Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatas argento Cânt 110 Diz o Esposo divino que fará à sua esposa umas arrecadas de ouro esmaltadas de prata e o esmalte segundo se tira da raiz hebraica era de pontos e vírgulas porque em lugar de vermiculatas lêem outros punctatas virgulatas argento Mas se as arrecadas eram de ouro por que eram os esmaltes de prata e formados de pontos e vírgulas Porque as arrecadas são ornamento das orelhas onde está o sentido da fé Fides ex auditu22 Rom 10 17 e nas palavras de fé ainda que os pontos e vírgulas pareçam de menos consideração assim como a prata é de menos preço que o ouro também pertencem à fé tanto como as mesmas palavras As palavras porque formam o sig nificado os pontos e vírgulas porque distinguem e determinam o sentido Exemplo Surrexit non est hic Mc 166 Ressuscitou não está aqui Com estas palavras diz o evangelista que Cristo ressuscitou e com as mesmas palavras se se mudar a pontuação pode dizer um herege que Cristo não ressuscitou Surrexit Non Est hic Ressuscitou Não Está aqui De maneira que só com trocar pontos e vírgulas com as mesmas palavras se diz que Cristo ressuscitou e é fé e com as mesmas se diz que Cristo não ressuscitou e é heresia Vede quão arriscado ofício o de uma pena na mão Ofício que com mudar um ponto ou uma vírgula da heresia pode fazer fé e da fé pode fazer heresia Oh que escrupuloso ofício E se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode fazer tantos erros e tantos danos que seria se se mudassem palavras Que seria se se diminuíssem palavras Que seria se se acrescentassem palavras Torno a dizer se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode ser causa de tantos danos que seria se se calassem regras Que seria se faltassem capítulos Que seria se se sepultassem papéis e informações inteiras E que seria se em vez de se presentarem a quem havia de pôr o remédio se entregassem a quem havia de executar a vingança Tudo isto pode caber em uma pena e eu não sei como pode caber em uma confissão Pois é certo que se confessam e muitas vezes os que isso fazem e que não falta quem absolva estas confissões ou quem se queira condenar pelas absolver Mas eu nem absolvo os confessados nem condeno os confessores porque só me admiro com as turbas Et admiratae sunt turbae VII Cur Por quê Por dinheiro O escrúpulo dos motivos O respeito pior que o dinheiro Pilatos e o respeito a César Os juízes de Samaria e a condenação de Nabot Pilatos Judas e a condenação de Cristo Cur Por quê Esta matéria dos porquês era bem larga mas vai nos faltando o tempo ou vou eu sobejando a ele e assim neste ponto e nos seguintes usarei mais cortesmente da paciência com que ouvis mas não há confissão sem penitência Cur Por quê De todas estas semrazões que temos referido ou admirado quais são as causas Quais são os motivos Quais são os porquês Não há coisa no mundo por que um homem deva ir ao inferno contudo ninguém vai ao inferno sem seu porquê Que porquês são logo estes que tanto cegam que tanto arrastam que tanto precipitam aos maiores homens do mundo Já vejo que a primeira coisa que acorre a todos é o dinheiro Cur Por quê Por dinheiro que tudo pode por dinheiro que tudo vence por dinheiro que tudo acaba Não nego ao dinheiro os seus poderes nem quero tirar ao dinheiro os seus escrúpulos mas o meu não é tão vulgar nem tão grosseiro como este Não me temo tanto do que se furta como do que se não furta Muitos ministros há no mundo e em Portugal mais que muitos que por nenhum caso os peitareis com dinheiro Mas estes mesmos deixamse peitar da amizade deixamse peitar da recomendação deixamse peitar da independência deixamse peitar do respeito E não sendo nada disto ouro nem prata são os porquês de toda a injustiça do mundo A maior sem justiça que se cometeu no mundo foi a que fez Pilatos a Cristo condenando à morte a mesma inocência E qual foi o porquê desta grande injustiça Peitaramno Deramlhe grandes somas de dinheiro os príncipes dos sacerdotes Não Um respeito uma dependência foi a que condenou a Cristo Si hunc dimittis non es amicus Caesaris Jo 1912 Se não condenais a este não sois amigo de César E por não arriscar a amizade e graça do César perdeu a graça e amizade de Deus não reparando em lhe tirar a vida Isto fez por este respeito Pilatos e no mesmo tempo Aqua lavit manus suas Mt 2724 Pediu água e lavou as mãos Que importa que as mãos de Pilatos estejam lavadas se a consciência não está limpa Que importa que o ministro seja limpo de mãos se não é limpo de respeitos A maior peita de todas é o respeito Se se puser em questão qual tem perdido mais consciências e condenado mais almas se o respeito se o dinheiro eu sempre dissera que o respeito por duas razões Primeira porque as tentações do respeito são mais e maiores que as do dinheiro São mais porque o dinheiro é pouco e os respeitos muitos São maiores porque em ânimos generosos mais fácil é desprezar muito dinheiro que cortar por um pequeno respeito Segunda e principal porque o que se fez por respeito tem muito mais dificultosa restituição que o que se fez por dinheiro Na injustiça que se fez ou se vendeu por dinheiro como dinheiro é coisa que se vê e que se apalpa o mesmo dinheiro chama pelo escrúpulo o mesmo dinheiro intercede pela restituição A luz do diamante dávos nos olhos a cadeia tira por vós o contador lembravos a conta a lâmina e o quadro peregrino ainda que sejam figuras mudas dá brados à consciência mas no que se fez por respeito por amizade por dependência como estas apreensões são coisas que se não vêem como são coisas que vos não armam a casa nem se penduram pelas paredes não tem o escrúpulo tantos despertadores que façam lembrança à alma Sobretudo se eu vendi a justiça por dinheiro quando quero restituir se quero dou o que me deram pago o que recebi desembolso o que embolsei que não é tão dificultoso Mas se eu vendi a justiça ou a dei de graça pelo respeito haver de restituir sem ter adquirido haver de pagar sem ter recebido haver de desembolsar sem ter embolsado oh que dificuldade tão terrível Quem restitui o dinheiro paga com o alheio quem restitui o respeito há de pagar com o próprio e para o tirar de minha casa para o arrancar de meus filhos para o sangrar de minhas veias oh quanto valor oh quanta resolução oh quanto poder da graça divina é necessário Os juizes de Samaria por respeito de Jesabel condenaram inocentes a Nabot e foilhe confiscada a vinha para Acab que a desejava 3 Rs 2111 Assim Acab como os juizes deviam restituição da vinha porque assim ele como eles a tinham roubada E a quem era mais fácil esta restituição A Acab era muito fácil e aos juizes muito dificultosa porque Acab restituia a vinha tendo recebido a vinha e os juizes haviam de restituir a vinha não a tendo recebido Acab restituia tanto por tanto porque pagava a vinha pela vinha os juizes restituiam tudo por nada porque haviam de pagar a vinha por um respeito Quase estou para vos dizer que se houverdes de vender a alma seja antes por dinheiro que por respeitos porque ainda que o dinheiro se restitui poucas vezes os respeitos nunca se restituem Torne Pilatos Entregou Pilatos a Cristo e Judas também o entregou Pilatos Tradidit eum voluntati eorum Judas Quid vultis mihi dare et ego eum vobis tradam23 Conheceu Pilatos e confessou a inocência de Cristo e Judas também a conheceu e confessou Pilatos Innocens ego sum a sanguine justi hujus Judas Peccavi tradens sanguinem justum24 Fez mais alguma coisa Pilatos Fez mais alguma coisa Judas Judas sim Pilatos não Judas restituiu o dinheiro lançandoo no Templo Pilatos não fez restituição alguma Pois por que restitui Judas e por que não restitui Pilatos Porque Judas entregou a Cristo por dinheiro Pilatos entregouo por respeitos As restituições do dinheiro alguma vez se fazem as dos respeitos nenhuma E se não dizeio vós Fazemse nesta corte muitas coisas por respeitos Não perguntei bem Fazse alguma coisa nesta corte que não seja por respeitos Ou nenhuma ou muito poucas E há alguém na vida ou na morte que faça restituição disto que fez por respeitos Nem o vemos nem o ouvimos Pois como se confessam disto os que o fazem ou como os absolvemos que os confessam Se eu estivera no confessionário eu vos prometo que eu os não houvera de absolver senão condenar mas como estou no púlpito não absolvo nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae VIII Quomodo Por que modos O labirinto mais intrincado da consciência O morgado de Jacó os direitos de Esaú e os sete enganos de Rebeca Davi e a corte de Saul Falta de escrúpulos de Jacó Quomodo Por que modo ou por que modos Somos entrados no labirinto mais intrincado das consciências que são os modos as traças as artes as invenções de negociar de entremeter de insinuar de persuadir de negar de anular de provar de desviar de encontrar de preferir de prevalecer finalmente de conseguir para si ou alcançar para outrem tudo quanto deixamos dito Para eu me admirar e nos assombrarmos todos do artifício e sutileza do engenho ou do engano com que estes modos se fiam com que estes teares se armam com que estes enredos se tramam com que estas negociações se tecem não nos serão necessárias as teias de Penélope nem as fábulas de Ariadne porque nas Histórias Sagradas temos uma tal tecedeira que na casa de um pastor honrado nos mostrará quanto disto se tece na corte mais corte do mundo O maior morgado que houve no mundo foi o de Jacó em que sucedeu Cristo Regnabit iit domo Jacob25 Sobre este morgado pleitearam desde o ventre da mãe os dois irmãos Jacó e Esaú Esaú tinha por si todo o direito tinha por si a natureza e a idade tinha por si o talento e o merecimento tinha por si o favor o amor a vontade e o decreto e a promessa do pai que lhe havia de dar a bênção ou a investidura De maneira que de irmão a irmão de homem a homem e de favorecido a favorecido tudo estava da parte de Esaú e contra Jacó Tinha da sua parte Esaú a idade e a natureza porque ainda que eram gêmeos e batalharam no ventre da mãe sobre o lugar Esaú nasceu primeiro Tinha mais da sua parte Esaú o talento e o valor porque era forte robusto valente animoso inclinado ao campo e às armas e que com a aljava pendente do ombro e o arco e setas na mão se fazia temer do leão no monte do urso e javali no bosque Pelo contrário Jacó Habitabat in tabemaculis26 nunca saía do estrado da mãe mais para a almofada que para a lança mais para as bainhas que para a espada Finalmente Esaú tinha da sua parte o favor o amor e o agrado porque era as delícias da velhice de Isac seu pai a quem ele sabia muito bem merecer a vontade porque quando vinha do campo ou da montaria com a caça miúda lhe fazia o prato e da maior enramada lhe dedicava os despojos Este era Esaú este era o competidor de Jacó este era o seu direito estes eram os seus servi ços este era o seu merecimento estas eram as vantagens com que a natureza e a graça o tinham feito herdeiro sem controvérsia da casa de Isac E contudo quem tal cuidara Jacó foi o que venceu a demanda Jacó o que levou a bênção Jacó o que ficou com o morgado Pois se o morgado por lei da natureza se deve ao primogênito e Esaú nasceu primeiro se o primeiro lugar por lei da razão se deve ao de melhor talento e o talento e valor de Esaú era tão avantajado se a vantagem e a maioria do prêmio por lei de justiça se deve ao maior merecimento e os serviços de Esaú eram tão conhecidamente maiores e sem competência27 se finalmente a bênção e a investidura do morgado dependia do pai e o pai era tão afeiçoado a Esaú e lho tinha prometido e com efeito lho queria dar como foi possível que prevalecesse Jacó sem direito Jacó sem talento Jacó sem serviços Jacó sem favor Porque tudo isto pode a traça a arte a manha o engano o enredo a negociação Naquele mesmo dia tinha determinado Isac dar a bênção a Esaú e porque esta solenidade havia de ser sobremesa quis o bom velho para mais sazonar o gosto que se lhe fizesse um guisado do que matasse na caça o mesmo filho Parte ao campo alegre e alvoroçado Esaú porém Rebeca que queria o morgado para Jacó a quem mais amava aproveitandose da ausência do irmão e da cegueira do pai já sabeis o que traçou Manda a Jacó ao rebanho vêm cabritos em vez de lebres da carne faz o guisado das peles guisa o engano e vestido Jacó das roupas de Esaú e calçado que é mais de mãos também de Esaú aparece em presença do cego pai e põelhe o prato diante Perguntou Isac quem era E respondeu mui bem ensaiado Jacó que era seu primogênito Esaú Admirouse de que tão depressa pudesse ter achado a caça e respondeu com singeleza tanta que fora vontade de Deus E com estas duas respostas depois de lhe tentar as mãos lhe lançou Isac a bênção e ficou o bendito Jacó com o morgado e casa de seu pai e Esaú com o que tivesse no cinto Há tal engano Há tal fingimento Há tal crueldade Pois estes são os modos de negociar e vencer Sete enganos fingiu Rebeca para tirar a casa a cuja era Fingiu o nome a Jacó porque disse que era Esaú Fingiulhe a idade porque disse que era o primogênito Fingiulhe os vestidos porque eram os do irmão Fingiulhe as mãos porque a pele e o pêlo era das luvas Fingiulhe o guisado porque era do rebanho e não do mato Fingiu a diligência porque Jacó não tinha ido à caça E para que nem a suma verdade ficasse fora do fingimento fingiu que fora vontade de Deus sendo duas vontades de Rebeca uma com que queria a Jacó e outra com que desqueria a Esaú E com nome fingido com idade fingida com vestidos fingidos com mãos fingidas com obras e serviços fingidos e até com Deus fingido se tirou o direito a justiça a fazenda a honra a sucessão a quem a tinha dado o nascimento uma vez e o merecimento muitas Parecevos grande semrazão esta Tendes muita razão Mas esta tragédia que uma vez se ensaiou em Hebron quantas vezes se representa na nossa corte Quantas vezes com nomes supostos com merecimentos fingidos e com abonações falsificadas se roubam os prêmios ao benemérito e triunfa com eles o indigno Quantas vezes rende mais a Jacó a sua Rebeca que a Esaú o seu arco Quantas vezes alcança mais Jacó com as luvas calçadas que Esaú com as armas nas mãos Se no ócio da paz se medra mais que nos trabalhos da guerra quem não há de trocar os sóis da campanha pela sombra destas paredes Não o experimentou assim Davi e mais servia a um rei injusto e inimigo Davi serviu em palácio e serviu na guerra em palácio com a harpa na guerra com a funda E onde lhe foi melhor Em palácio medrou tão pouco que da harpa tornou ao cajado na guerra montou tanto que da funda subiu à coroa Se se visse que Davi crescia mais à sombra das paredes de palácio que com o sol da campanha se se visse que medrava mais lisonjeando as orelhas com a harpa que defendendo e honrando o rei com a funda se se visse que merecia mais galanteando a Micol que servindo a Saul não seria uma grande injustiça e um escândalo mais que grande Pois isto é o que padecem os Esaús nas preferências dos Jacós Mas eu não me queixo tanto de Jacó e de Rebeca que fizeram o engano quanto de Isac que o não desfez depois de conhecido Que Esaú padeça Jacó possua Rebeca triunfe e que Isac dissimule Que esteja tão poderosa a arte de furtar bênçãos que tire Jacó a bênção da algibeira de Esaú não só depois de prometida e decretada senão depois de firmada e passada pelas chancelarias E que haja tanta paciência em Isac que lhe não troque a bênção em maldição O mesmo Jacó o temeu assim Quando a mãe o quis meter nestes enredos disse ele que temia que seu pai descobrisse o engano e que em lugar da bênção lhe deitaria alguma maldição Timeo ne putet me sibi voluisse illudere et inducam super me maledictionem pro benedictione28 Mas Rebeca não fez caso deste reparo porque conhecia bem a Isac e sabia que não tinha o velho cólera para tanto Se Isac tivera outro valor a bênção se restituira a Esaú e Rebeca sentira o fingimento e Jacó amargara o engano Mas nem Isac era pai para aquele Jacó nem marido para aquela Rebeca E que Esaú fique privado do seu morgado para sempre e que nem Rebeca que lho tira nem Jacó que lho possui nem Isac que lho consente façam escrúpulo deste caso Doutores há que condenam tudo isto e outros há que o escusam Eu não escuso nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae IX Quando Quando fazem os ministros o que fazem e quando fazem o que devem fazer Antigamente estavam os tribunais às portas das cidades agora estão as cidades às portas dos tribunais Efeitos terríveis das dilações no atender os requerimentos Cristo e seu requerimento ao Pai no Horto das Oliveiras O desengano grande alívio para os não despachados Quando Esta é a última circunstância do nosso exame E quando acabaria eu se houvera de seguir até o cabo este quando Quando fazem os ministros o que fazem e quando fazem o que devem fazer Quando respondem Quando deferem Quando despacham Quando ouvem Que até para uma audiência são necessários muitos quandos Se fazerse hoje o que se pudera fazer ontem se fazerse amanhã o que se devera fazer hoje é matéria em um reino de tantos escrúpulos e de danos muitas vezes irremediáveis aqueles quandos tão dilatados aqueles quandos tão desatendidos aqueles quandos tão eternos quanto devem inquietar a consciência de quem tiver consciência Antigamente na República Hebréia e em muitas outras os tribunais e os ministros estavam às portas das cidades Isso quer dizer nos Provérbios Nobilis in portis vir ejus quando sederit cum senatoribus terrae29 Para qualificar a nobreza do marido da mulher forte diz que tinha assento nas portas com os senadores e conselheiros da terra A isto aludiu também Cristo quando disse da Igreja que fundava em S Pedro Portae inferi non praevalebunt adversus eam Mt 1618 Que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela entendendo por portas do inferno os conselhos do inferno porque os conselhos os ministros os tribunais tudo costumava estar às portas das cidades Mas que razão tiveram aqueles legisladores para situarem este lugar aos tribunais e para porem às portas das cidades os seus ministros Várias razões apontam os historiadores e políticos mas a principal em que todos convêm era a brevidade do despacho Vinha o lavrador vinha o soldado vinha o estrangeiro com a sua demanda com a sua pretensão com o seu requerimento e sem entrar na cidade voltava respondido no mesmo dia para sua casa De sorte que estavam tão prontos aqueles ministros que nem ainda dentro da cidade estavam para que os requerentes não tivessem o trabalho nem a despesa nem a dilação de entrarem dentro Não saibam os requerentes a diferença daquela era à nossa para que se não lastimem mais Antigamente estavam os ministros às portas das cidades agora estão as cidades às portas dos ministros Tanto coche tanta liteira tanto cavalo que os de a pé não fazem conto nem deles se faz conta As portas os pátios as ruas rebentando de gente e o ministro encantado sem se saber se está em casa ou se o há no mundo sendo necessária muita valia só para alcançar de um criado a revelação deste mistério Uns batem outros não se atrevem a bater todos a esperar e todos a desesperar Sai finalmente o ministro quatro horas depois do sol aparece e desaparece de corrida olham os requerentes para o céu e uns para os outros apartase desconsolada a cidade que esperava junta E quando haverá outro quando E que vivam e obrem com esta inumanidade homens que se confessam quando procediam com tanta razão homens sem fé nem sacramentos Aqueles ministros ainda quando despachavam mal os seus requerentes faziamlhes três mercês poupavamlhes o tempo poupavamlhes o dinheiro poupavamlhes as passadas Os nossos ministros ainda quando vos despacham bem fazemvos os mesmos três danos o do dinheiro porque o gastais o do tempo porque o perdeis o das passadas porque as multiplicais E estas passadas e este tempo e este dinheiro quem os há de restituir Quem há de restituir o dinheiro a quem gasta o dinheiro que não tem Quem há de restituir as passadas a quem dá as passadas que não pode Quem há de restituir o tempo a quem perde o tempo que havia mister Oh tempo tão precioso e tão perdido Dilata o julgador oito meses a demanda que se pudera concluir em oito dias dilata o ministro oito anos o requerimento que se devera acabar em oito horas E o sangue do soldado as lágrimas do órfão a pobreza da viúva a aflição a confusão a desesperação de tantos miseráveis Cristo disse que o que se faz a estes se faz a ele E em ninguém melhor que nele se podem ver os efeitos terríveis de uma dilação Três horas requereu Cristo no horto Nestas três horas fez três petições sobre a mesma proposta a nenhuma delas foi respondido E como o sentiu ou que lhe sucedeu Foi tal a sua dor a sua aflição a sua agonia que chegou a suar sangue por todas as veias Factus est sudor ejus sicut guttae sanguinis decurrentis in terram30 Toda a vida de Cristo em trinta e três anos foi um contínuo exercício de heróica paciência mas nenhum trabalho lhe fez suar gotas de sangue senão este de requerer uma outra e três vezes sem ser respondido Se três horas de requerimento sem resposta fazem suar sangue a um HomemDeus tantos anos de requerimentos e de repulsas que efeitos causarão em um homemhomem e tanto mais quanto for mais homem O requerimento de Cristo Pater si possibile est31 suposto o decreto do Padre e a presciência do mesmo Cristo era de matéria não possível E se não ser respondido a um impossível custa tanto não ser respondido no que talvez se faz a todos quanto lastimará O que mais se deve sentir nestas desatenções dos que têm ofício de responder são os danos públicos que delas se seguem Não estivera melhor a república que o sangue que se sua no requerimento se derramara na campanha Pois isso mesmo sucedeu neste caso Se Cristo não suara sangue no Horto havia de derramar mais sangue no Calvário porque havia de derramar o sangue que derramou e mais o que tinha suado Se no requerimento se esgotarem as veias a quem há de ficar sangue para a batalha Nem fica sangue nem fica frio nem fica gosto nem fica vontade tudo aqui se perde Começou Cristo a orar ou a requerer no Horto e começou juntamente a quê A enfastiarse a temer a entristecerse Coepit pavere et taedere constristari et maestus esse Mc 1433 Mt 26 37 O mesmo acontece na corte ao mais valoroso capitão ao mais brioso soldado Vai um soldado servir na guerra e levs três coisas leva vontade leva ânimo leva alegria Torna da guerra a requerer e todas estas três coisas se lhe trocam A vontade trocase em fastio taedere o ânimo trocase em temor pavere a alegria trocase em tristeza et maestus esse E que tem a culpa de toda esta mudança tão danosa ao bem público As dilações as suspensões as irresoluções o hoje o amanhã o outro dia o nunca dos vossos quandos E faz consciência destes danos algum dos causadores deles Pois saibam ainda que o não queiram saber e desenganaremse ainda que se queiram enganar que a restituição que devem não é só uma senão dobrada Uma restituição ao particular e outra restituição à república Ao particular porque serviu à república porque não terá quem a sirva Dirmeeis que não há com que despachar e com que premiar a tantos Por esta escusa esperava Primeiramente eles dizem que há para quem quereis e não há para quem não quereis Eu não digo isso porque o não creio mas se não há com que por que lhe não dizeis que não há Por que os trazeis suspensos Por que os trazeis consumidos e consumindose Esta pergunta não tem resposta porque ainda que pareça meio de não desconsolar os pretendentes muito mais os desconsola a dilação e a suspensão do que os havia de desconsolar o desengano No mesmo passo o temos Estando Cristo na maior aflição do seu requerimento desceu um anjo do céu a confortálo Apparuit illi angelus de caelo confortans eum Lc 22 43 E em que consistiu o conforto se a resposta foi que bebesse o cálix contra o que Cristo pedia Nisso mesmo esteve o conforto porque ainda que lhe respondesse com o despacho responderamlhe com o desengano Vede quanto melhor é desenganar aos homens que ditálos e suspendelos A dilação e a suspensão para Cristo era agonia o desengano foi alento A dilação sem despacho são dois males o desengano sem dilação é um mal temperado com um bem porque se me não dais o que peço ao menos livraisme do que padeço Livraisme da suspensão livrais me do cuidado livraisme do engano livraisme da ausência de minha casa livraisme da corte e das despesas dela livraisme do nome e das indignidades de requerente livraisme do vosso tribunal livraisme das vossas escadas livraisme dos vossos criados enfim livraisme de vós E é pouco Pois se com um desengano dado a tempo os homens ficam menos queixosos o governo mais reputado o rei mais amado e o reino mais bem servido por que se há de entreter por que se há dilatar por que se não há de desenganar o pobre pretendente que tanto mais o empobreceis quanto mais o dilatais Se não há cabedal de fazenda para o despacho não haverá um não três letras para o desengano Será melhor que ele se desengane depois de perdido e que seja o vosso engano a causa de se perder Quereis que se cuide que os sustentais na falsa esperança porque são mais rendosos os que esperam que os desenganados Se lhe não podeis dar o que lhe negais quem lhe dá de restituir o que lhe perdeis Oh restituições Oh consciências Oh almas Oh exames Oh confissões Seja a última admiração esta pois não louvo nem condeno e só me admiro com as turbas Et admiratae sunt turbae X Confessar as confissões é dobrar o remédio sobre si mesmo Como fazêlo bem Com tempo suficiente e confessar douto timorato e de valor De todo este discurso se colhe se eu me não engano com evidência que há muitos escrúpulos no mundo de que se faz pouco escrúpulo que há confissões em que fala o mudo e não sai o demônio e que suposta a obrigação de se confessarem todos os pecados se devem também confessar estas confissões Grande mal é não sarar com os remédios mas adoecer dos remédios ainda é mal maior E quando se adoece dos remédios que remédio O remédio é curarse um homem dos remédios assim como se cura das enfermidades Este é o caso em que estamos O remédio do pecado é a confissão mas se as minhas confissões em lugar de me tirarem os pecados por minha desgraça nos acrescentam mais não há outro remédio senão dobrar o remédio sobre si mesmo e confessar as confissões assim como se confessam os pecados Daqueles que tornam a recair nos pecados passados dizia Tertuliano que faziam penitência da penitência e que se arrependiam Se os maus se arrependem dos arrependimentos os que devem e querem ser bons por que se não confessarão das confissões Uns o devem fazer pela certeza outros o deverão fazer pela dúvida e todos é bem que o façam pela maior segurança Para que esta confissão das confissões saia tal que não seja necessário tornar a ser confessada devemos seguir em tudo o exemplo presente de Cristo na expulsão deste diabo mudo Primeiramente Erat ejiciens Lc 1114 Todos os outros milagres faziaos Cristo em um instante este de lançar fora o demônio não o fez em instante nem com essa pressa senão devagar e em tempo É necessário primeiro que tudo a quem houver de reconfessar as suas confissões tomar tempo competente livre e desembargado de todos os outros cuidados para o ocupar só neste pois é o maior de todos Cum accepero tempus ego justitias judicabo SI 743 Eu tomarei tempo diz Deus para julgar as justiças Se Deus para examinar e julgar as consciências dos que governam diz que há de tomar tempo como poderão os mesmos que governam julgar as suas consciências e examinar os seus exames se não tomarem tempo para isto Dirá algum que é tão ocupado que não tem este tempo E há tempo para o jogo E há tempo para a quinta E há tempo para a conversação E há tempo e tantos tempos para outros divertimentos de tão pouca importância e só para a confissão não há tempo Se não houver outro tempo tomese o do ofício tomese o do tribunal tomese o do concelho O tempo que se toma para fazer melhor o ofício não se tira do ofício Mas para acurtar de razões pergunto Se agora vos dera a febre maligna como pode dar havíeis de cortar por tudo para acudir à vossa alma para tratar de vossa consciência Sim Pois o que havia de fazer a febre por que o não fará a razão O que havia de fazer o medo e a falsa contrição na enfermidade por que o não fará a verdadeira resolução na saúde Tomado o tempo e tomado a qualquer força e qualquer preço seguese a eleição do confessor Quem aqui obrou o milagre foi Cristo Erat Jesus ejiciens daemonium Lc 1114 O confessor está em lugar de Cristo e quem há de estar em lugar de Deushomem é necessário que seja muito homem e que tenha muito de Deus Non confundaris confiteri peccata et ne subjicias te omni homni pro peccato32 Não vos corrais de confessar os vossos pecados diz o Espírito Santo mas adverti que na confissão deles não vos sujeiteis a qualquer homem Se a saúde do corpo que alfim é mortal e há de acabar a não fiais de qualquer médico a saúde da alma de que depende a eternidade por que a haveis de fiar de qualquer confessor Indouto claro está que não deve ser mas não basta só que seja douto senão douto e timorato Confessor que saiba guiar a vossa alma e que tema perder a sua Confessou Judas o seu pecado aos príncipes dos sacerdotes Peccavi tradens sanguinem justum Mt 274 E eles que lhe responderam Quid ad nos Tu videris E a nós que se nos dá disto Lá te avém Vede que sacerdotes que nem se lhes dava da sua consciência nem da do penitente que se lhes ia confessar Haveis de escolher confessor que se lhe dê tanto da vossa consciência como da sua E basta que seja douto e timorato Não basta Há de ser douto e timorato e de valor É tal a fraqueza humana que até no tribunal de Cristo se olha para os grandes como grandes e se lhes guardam respeitos quando se lhes não faça lisonja Andando Filipe II à caça foilhe necessário sangrarse logo e chamaram o sangrador de uma aldeia porque não havia outro Perguntoulhe o rei se sabia a quem havia de sangrar Respondeu Sim a um homem Estimou o grande rei este homem como merecia e serviuse dele dali em diante Com semelhantes homens se hão de curar no corpo e na alma os grandes homens Com homens que sangrem a um rei como a um homem Posto aos pés deste homem e nele aos pés de Deus fale o mudo com tal verdade com tal inteireza e com tal distinção do que confessou ou não confessou dos propósitos que teve ou não teve da satisfação que fez ou deixou de fazer que de uma vez e por uma vez acabe de sair o demônio fora E seja com tão viva detestação de todos os pecados passados com tão firme resolução da emenda de todos eles e com tão verdadeira e íntima dor de haver ofendido a um Deus infinitamente amável e sobre todas as coisas amado que não só saia o demônio para sempre e para nunca mais tornar mas que já esteja lançado da alma quando falar o mudo Et cum ejecisset daemonium locutus est mutus SERMÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO EXPOSTO NA IGREJA DE S LOURENÇO IN DAMASO NOS DIAS DO CARNAVAL EM ROMA ANO DE 1674 TRADUZIDO DO ITALIANO Tentat vos Dominus Deus vester ut palam fiat utrum diligatis eum an non1 I Nos outros tempos eram três os tentadores dos homens agora não só tenta a carne o diabo e o mundo mas Deus também nos tenta a fim de provar e descobrir quais são seus amigos Maior espetáculo ó Tibre vês estes dias tu nas margens soberbamente habitadas de tuas ribeiras daquele que viu antigamente o Jordão nas soledades do seu deserto quando o demônio tentou a Cristo Ali se viu Deus tentado aqui se vê Deus tentador Tentat vos Dominus Deus vester Maior espetáculo ó Roma vês estes dias tu nas tuas praças palácios e templos daquele que viste antigamente no teu bárbaro anfiteatro quando os novos professores do Cristianismo eram deitados às feras Ali com tormentos e mortes se provava a fé aqui entre jogos e passatempos se prova o amor Ut palam fiat utrun diligatis eum an non Terríveis dias são estes e terrível concurso de tempo senhores meus Nos outros tempos e por toda a roda do ano os tentadores dos homens são três nestes dias são quatro e o quarto maior e mais poderoso que todos Nos outros tempos tenta o mundo tenta o diabo tenta a carne nestes dias não só tenta a carne o diabo o mundo e mais fortemente que nunca mas Deus também nos tenta Tentat vos Dominus Deus vester Porque cuidais que sai Deus de seus sacrários Por que cuidais que se põe Deus em público nestes dias senão para tentar também ele publicamente no tempo das tentações públicas Os três tentadores universais sempre tentam como inimigos mas não sempre como inimigos descobertos porém nestes dias quando os homens com tão estranhos disfarces se cobrem a cara o mundo o diabo a carne tentam à cara descoberta Por isso no mesmo tempo se descobre Deus para tentar ele também descobertamente Mas a que fim Não a fim de ajudar tentando a nossos inimigos mas a fim de provar e descobrir tentando quais são os seus amigos Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Esta é a propriedade natural das palavras que propus e esta será a matéria não menos própria do meu discurso Deus tentador Roma tentada os que amam ou não amam a Deus publicamente conhecidos Os pontos são três mas eu por brevidade os reduzirei a um só E comecemos II Deus tentador no carnaval O maná figura da Eucaristia remédio e tentação Os hebreus se enfastiaram do maná não pelo gosto mas pela vista tentação idêntica à que nos submete Deus na Eucaristia Tentat vos Dominus Deus vester Deus nos tenta Deus tentador Estupenda e temerosa palavra e ao parecer indigna e indecente Mas não é ainda esta a minha maior admiração Deus tentador e tentador no Sacramento Aqui está a dificuldade aqui o assombro O Santíssimo Sacramento do altar não é o peito forte com que Deus nos arma contra todas as tentações Aquela hóstia consagrada não é o escudo dobrado humano e divino juntamente com que se defende a Igreja E que nos atrevamos a dizer sem escândalo da piedade que o toma Deus por instrumento de nos tentar Tentat vos Dominus Deus vester Nestes dias sim Tumultuou o povo no deserto contra Moisés e foi o tumulto de carnaval Utinam mortui essemus in Aegypto quando sedebamus super ollas carnium2 Egito memórias da gentilidade gosto e apetite depravado intemperanças de gula enfim carne E que fez Deus então para apagar a rebelião e moderar a desordem deste apetite bruto Dixitautem Dominus ad Moysen Ego pluam vobis panes de caelo3 Moisés não é bem que o meu povo se lembre do Egito e daquilo que tinha e o deleitava quando vivia entre gentios eu lhe darei pão do céu De maneira que a primeira origem do maná e a primeira instituição do sacramento em figura foi para apartar e descarnar os homens dos apetites e costumes que chamais carnavalescos e para desarraigar do seu povo as memórias e relíquias da gentilidade quais são as que ainda se conservam entre os cristãos nestes dias Bem E teve mais algum outro fim Deus em dar o maná ao povo Sim o que eu digo Não só lhe deu o maná para o tirar daquele vício senão também para o tentar Ouvi o que ajuntou Deus às palavras referidas Ego pluam vobis panes de caelo egrediatur populus et colligat ut tentem eum utrum ambulet in lege mea an non Êx 16 4 Eu darei o maná ao povo ele sairá a recolher e eu com isto o tentarei se obedece à minha lei ou não Este foi o segundo fim por que deu Deus o maná O primeiro para remédio o segundo para tentação o primeiro para apartar a povo dos costumes profanos do Egito o segundo para tentar e provar o mesmo povo se obedecia e amava a Deus ou não Ut tentem eum utrum ambulet in lege mea an non que é em próprios termos o fim e sentido das nossas palavras Tentat vos Dominus Deus vester ut palam ilat utrun diligatis eum an non Já temas a Deus tentador e tentador no carnaval e tentador como sacramento e que o fim de nos tentar neste tempo e com este mistério é para provar nosso amor Mas em que consiste a energia desta tentação o exame desta dúvida e a averiguação desta prova Consiste em se conhecer e constar publicamente se pode mais em nós a fé que a vista e se deixamos a gosto do que se vê pelo amor do que se não vê Tornemos ao deserto e prossigamos a mesma história Depois de alguns dias que não foram muitos tornou aquele povo malacostumado e rebelde a cair na mesma tentação Lembravamse como dantes dos comeres profanos do Egito e das grosserias vis que lá tinham por regala e diziam com grande aborrecimento que o maná os enfastiava Anima nostra nauseat super cibo isto4 Este é um dos lugares da Escritura mais dificultosos de entender porque o maná como consta do mesmo texto sagrado continha em si os sabores de todos os manjares Deserviens uniuscujusque voluntati diz a sabedoria5 E Davi Omnem escam abominata est anima eorum6 Pois se o maná continha todos os sabores como podia causar fastio Aquele fastio não era por demasiada fartura nem por falta de fome ou vontade de comer porque no mesmo tempo suspiravam pelos olhos do Egito Logo se o maná não só de prato a prato mas de bocado a bocado podia variar os sabores e os hebreus quando comiam se assentavam sempre a uma mesa mais abundante e esquisitamente provida que a do seu Faraó e tinham nela juntas as sabores de quanta nada na mar voa no ar e pasce ou nasce na terra como não tiravam o fastio de um sabor com a mudança e variedade do outro E se alguém me disser que a delicadeza de manjares tão preciosos não era para o paladar grosseiro e servil de uma gente pouca antes escrava donde vinha dizerem eles In mentem nobis veniunt cucumeres et pepones porrique et caepe et allia7 os sabores destas verduras rústicas e de quaisquer outras baixezas vilãs e grosseiras também se continham no mesmo maná Como logo lhes causava nem podia causar fastio Os doutos terão lido muitas soluções desta grande dúvida mas eu cuido que vos hei de dar a literal e verdadeira Diga que o fastio do maná não estava no gosto estava nos olhos O que gostavam os hebreus era tudo quanto queriam mas o que viam era somente maná Maná ao jantar maná à ceia maná hoje maná amanhã sempre maná E como toda a variedade era para o gasto e para os olhos não havia variedade nem diferença os olhos eram os que se enfastiavam Não é exposição minha senão confissão sua Eles o dizem no mesmo texto Nihil aliud respiciunt oculi nostri nisi man Núm 116 Os nossos olhos não vêem outra coisa mais que maná E como não viam mais que maná por isso o não podiam ver por isso se enfastiavam dele e tornavam com os desejos ao Egito Oh divino maná e verdadeiro pão do céu Cremos e confessamos que estão encerrados debaixo desses acidentes todos os gostos e delícias da alma mas Anima nostra nauseat super cibo isto porque Nihil respiciunt oculi nostri nisi man Esta foi a tentação antigamente com que Deus tentou o povo israelítico no maná Ut tentem eum Esta é hoje a tentação com que tenta o povo católico no Sacramento Tentat vos Dominus Deus vester Os hebreus exceto um Moisés e os poucos que o seguiam os cristãos exceto outro Moisés8 e os poucos que o seguem todos vemos rendidos à tentação porque todos gostam mais das mesas profanas e abomináveis do Egito que daquele pão do céu A razão desta sem razão tão grande em uns e outros é a mesma nos hebreus porque não viam mais que maná nos cristãos porque não vemos mais que aqueles acidentes brancos Nihil respiciunt oculi nostri nisi man Oh fraqueza da fé oh cegueira e tirania dos olhos humanos Tenta Deus nestes dias e tenta o mundo e uma e outra tentação põe o laço nos olhos mas a de Deus nos olhos fechados a do mundo nos olhos abertos Deus tenta com a sua presença encoberta o mundo tenta com as suas representações públicas E como aquelas representações se vêem e esta presença não se pode ver em vez de triunfar a fortaleza da fé contra os apetites e enganos da vista triunfa a tirania da vista contra as obrigações da fé Se Cristo como está presente corresse aquela cortina que o encobre subitamente se veria nesta igreja a transfiguração do Tabor e toda a cidade de Pedro diria como mesmo Pedro Bonum est nos hic esse9 Mas Cristo não quer vencer o mundo com armas iguais Põese em campo contra ele invisível a nossos olhos porque vem a fazer prova de nossa fé e do nosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non III O Tabor e a exclamação de S Pedro Fineza natural do heliotrópio e fineza sobrenatural de Moisés Os serafins de Isaías e a visão de Deus Conselhos de Davi a Deus Notável caso é que quando S Pedro disse Bonum est nos hic esse digam os evangelistas que estava fora de si Nesciens quid diceret10 Quer estar sempre com Cristo e está fora de si Antes dissera eu que nunca esteve mais em si que quando quis estar sempre com Cristo Pois por que mereceu uma tal censura o fervor e amor de Pedro Porque disse que queria estar com Cristo quando viu descobertos os resplendores de sua glória sendo que isso havia de dizer quando depois se lhe encobriram com a nuvem que sobreveio No teatro do Tabor representaramse sucessivamente duas cenas muito diversas Na primeira apareceu a majestade de Cristo como sol resplandecente descoberto e coroado de raios Resplenduit facies ejus sicut sol11 Na segunda desceu e atravessou se uma nuvem que eclipsou toda aquela glória e a encobriu aos olhos dos apóstolos Nubes obumbravit eos12 E que disse agora Pe dro Nada Pois agora é que ele havia de dizer Bonum est nos hic esse porque querer estar com Cristo quando se mostra e deixa ver com toda a sua glória e majestade nem é fé nem é amor nem é pensamento digno da cabeça da Igreja Por isso a mesma nuvem que lhe tolheu o sentido da vista lhe abriu e espertou logo o sentido da fé Et ecce vox de nube dicens Ipsum audite13 A prova da verdadeira fé e a fineza do verdadeiro amor não é seguir ao sol quando ele se deixa ver claro e formoso com toda a pompa de seus raios senão quando se nega aos olhos escondido e encoberto de nuvens Vedeo no espelho da natureza Aquela flor a que o giro do sol deu o nome chamada dos gregos heliotrópio imóvel e com perpétuo movimento jamais deixa de seguir e acompanhar a seu amado planeta Quando o sol nasce se lhe inclina e o saúda quando sobe se levanta com ele quando está no zênite o contempla direita quando desce se torna a dobrar e quando finalmente chega ao ocaso com nova e profunda inclinação se despede dele Grande milagre da natureza Grande fineza de amor Mas onde está o mais fino desta fineza Descobriuo e ponderouo Plínio com uma reflexão tão admirável como a da mesma flor Heliotropii miraculum saepius diximus cum sole se circumagentis etiam nubilo die Tantus sideris amor est Maravilha é e fineza prodigiosa que aquela flor amante do sol sem se poder mover de um lugar o siga sempre em roda acompanhando seu curso mas o mais maravilhoso desta maravilha e o mais fino desta fineza diz Plínio é que não só segue e acompanha o sol quando se lhe mostra claro e resplandecente senão quando se esconde e se cobre de nuvens Etiam nubilo die tantus sideris amor est Mas passemos da escola da natureza à da graça e vejamos se há nela alguma flor semelhante Desejou Moisés ver a Deus e pediulhe que lhe mostrasse seu rosto Ostende mihi faciem tuam Êx 3313 Foilhe respondido que não era possível nesta vida Non videbit me homo et vivet14 E que vos parece que faria Moisés com este desengano Não o disse ele na sua história mas disseo por ele S Paulo com altíssima ponderação Invisibilem tanquam videns sustinuit15 Desenganado Moisés de poder ver a Deus foi tal a sua fineza que fazia não o vendo o que havia de fazer se o vira Que havia de fazer Moisés se vira a Deus Havia de estar sempre com os olhos fixos nele sem jamais se apartar de sua vista e de sua presença Pois isto que havia de fazer se o vira isso mesmo fazia não o vendo Invisibilem tanquam videns sustinuit Assim provou Moisés o seu amor e assim prova Deus nestes dias e quer provemos o nosso Ut palam fiat utrum diligatis eum Mostrasenos o Sol Divino encoberto com aquela nuvem que o faz invisível para provar se pode tanto em nós a fé como a vista e se o assistimos e acompanhamos não o vendo como se o víramos Os que assim o fizeram bem podem tomar por divisa de seu amor a fineza natural do heliotrópio e a sobrenatural de Moisés E será o corpo e a alma da empresa igualmente discreta O corpo um heliotrópio voltado ao sol coberto de nuvens e a alma a letra de S Paulo Invisibilem tanquam videns Não cuide que ama a Cristo quem não antepõe sua presença invisível a tudo quanto se vê e pode ver no mundo Lá vos chama a ver aqui a não ver porque a prova do verdadeiro amor não está em amar vendo senão em amar sem ver Amar e ver é bemaventurança amar sem ver é amor O mesmo mundo o contesta Toda a gala do amor qual é Vós o pintais nu como a verdade e assim há de ser se é amor Qual é logo a sua gala Toda a gala do amor é a sua venda Vendado e despido porque quando não tem uso dos olhos então se descobre o amor Ut palam fiat utrum diligatis eum Daime agora licença para que examine um passo vulgar de Isaías o qual cada dia aparece nos púlpitos mas para mim ainda é oculto e novo Viu Isaías aqueles serafins que todos sabem e o que eu não sei entender é como os ditos serafins assistiam a Deus e não viam a Deus Assistiam a Deus porque estavam diante do trono de Deus Seraphim stabant super illud Não viam a Deus porque com a interposição das asas cobriam os olhos próprios e a face do mesmo Deus Velabant faciem ejus16 Aqui está o ponto da minha dificuldade E folgara que me disseram os doutos que serafins são aqueles que assistem a Deus e não vêem a Deus É certo e de fé que todos os espíritos angélicos estão sempre vendo a face de Deus Angeli eorum semper vident faciem Patris qui in caelis est Mt 1810 Os serafins não só são anjos senão os supremos anjos da suprema hierarquia logo também é certo que todos os serafins vêem sempre a Deus e com visão mais alta e mais imediata que todos os outros anjos Que serafins são logo estes que assistem a Deus e não vêem a Deus Senhores meus estes serafins não vêem a Deus mas eu vejo estes serafins Dizeime Todos os que concorreis a esta igreja a adorar e acompanhar a Cristo sacramentado naquele trono assistis a Deus Sim Vedes a Deus Não Pois estes são os serafins que assistem a Deus e não vêem a Deus Não são serafins do céu são serafins da terra não são serafinsanjos são serafins homens E porque estes serafins vêm a assistir e vem a não ver por isso as mesmas asas que os trazem os param e os cegam juntamente Volabant stabant velabant Neste sentido interpretam a visão de Isaías dos Padres gregos S Cirilo e dos latinos S Jerônimo Mas eu não quero outro expositor que o mesmo texto Digo que a visão não era no céu senão na terra Assim diz o texto Plena est omnis terra gloria ejus17 Digo que o lugar da terra era a igreja Et ea quae sub ipso erant replebant templum18 Digo que nessa igreja estava impedida a vista e o uso dos olhos Assim diz o texto Et domus repleta est fumo19 Mas se os chamados serafins que assistiam nessa terra nessa igreja e nessa invisibilidade de Deus são os homens porque lhes não chama Isaías homens nem anjos nem arcanjos nem querubins senão serafins Por isso mesmo Porque assistem a Deus sem o ver Os serafins são aqueles espíritos ardentes a quem o amor a Deus deu o nome porque entre todas as hierarquias e sobre todas amam a Deus mais que todos E porque a circunstância de amar e assistir a Deus sem o ver é a maior prova a maior fineza e o grau mais alto e mais sublime a que pode subir ou voar o amor por isso lhe chama o profeta serafins mas serafins com os olhos vendados Perdoaime serafins do céu Vós tendes lá o nome e cá está o amor Vós lá assistis e amais mas vedes Cá assistimos e amamos e não vemos Esta única glória é própria da terra e própria de Deus Própria da terra Plena est omnis terra porque amar sem ver a Deus é glória que não há nem houve nem haverá nunca no céu E própria de Deus Gloria ejus porque Deus no céu da glória aqui recebea Esta é a força daquele ejus No céu dá Deus a glória aos bem aventurados na terra vós que o assistis dais a glória a Deus Deus no céu dá a glória aos bemaventurados porque deixandose ver e amar faz aos bemaventurados gloriosos Vós na terra dais a glória a Deus porque amandoo sem o ver vós o glorificais No céu Deus é o glorificador e os bemaventurados os glorificados na terra vós sois os glorificadores e Deus o glorificado e glorioso Plena est omnis terra gloria ejus Tanto vai de amar vendo a amar sem ver E porque o intento de Cristo nestes dias é tentar e provar o nosso amor Tentat vos utrum diligatis eum an non por isso se apresenta à nossa fé e não a nossos olhos não vestido de majestade e glória senão armado de invisibilidade Aquele grande guerreiro Davi aconselhava a Deus se queria render e trazer tudo a si que se armasse de sua formosura e que a beleza de seu rosto fosse a sua espada Accingere gladio tuo super femur tuum potentissime Specie tua et pulchritudine tua intende prospere procede et regna20 Mas assim como Davi não aceitou as armas de Saul assim Cristo não aceita estas armas de Davi E quando o mundo para nos levar após si faz público e pomposo teatro aos olhos de tudo o que o engenho e novidade pode inventar agradável e deleitoso ele pelo contrário debaixo daqueles disfarces esconde todos os tesouros de sua formosura confiado de nossa fé e de nosso amor que invisível será adorado que não visto será assistido e que escondido e encoberto será descobertamente amado Ut palam fiat utrum diligatis eum IV Toca a nós ou resistir e vencer a tentação ou cair Roma e o milagre do Jordão Davi interpela a parte superior do Jordão que parou à passagem da Arca O autor com o profeta interroga a parte inferior do rio que lhe voltou as costas Esta é senhores a tentação com que Deus nos tenta digna da generosidade e grandeza e do coração amoroso de tão soberano tentador Tentat vos Dominus Deus vester Agora toca a nós ou resistir e vencer a tentação ou cair ou ser da multidão vulgar dos que por suma fraqueza e indignidade seguem o mundo ou ser do mundo generoso e verdadeiramente cristão dos que deixando ao mundo as suas loucuras seguem e assistem a Cristo e professam publicamente nestes dias ser do partido dos que o amam Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Toda a tentação e toda a vitória está entre um sim e um não Ou ver ou não ver ou amar ou não amar Até agora Utrum diligatis eum an non é problema Vós o haveis de resolver e os vossos olhos De boa vontade o disputara eu largamente por uma e outra parte Mas porque a brevidade do tempo mo não permite eu volo proporei já disputado e resoluto na Escritura e prodigiosamente representado Tornemos às ribeiras do Jordão Entrou no Jordão a Arca do Testamento e subitamente as águas do rio se dividiram em duas partes ou em duas parcialidades A parte superior como estática e atônita à presença da Arca tornou atrás e parou e assim esteve imóvel A parte inferior deixandose levar da inclinação natural e ímpeto da corrente não parou e correu ao mar Esta é a famosa história que todos os anos nestes dias se representa em Roma A Arca do Testamento na qual se encerrava toda a grandeza e majestade de Deus é o digníssimo Sacramento o Jordão que se dividiu não é o Tibre mas a cidade do Tibre que também tem suas correntes e suas divisões A parte superior que reverente parou à presença da Arca são aqueles que assistem e acompanham a este Senhor A parte inferior que se retirou e correu ao mar são os que o deixam e desacompanham e se vão com a corrente onde os chama o mundo À vista desta diferença tão notável fala Davi com o rio e diz assim Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordane quia conversus es retratsum21 Jordão parado Jordão fugitivo que divisão é esta e que resolução tão diversa Tu que paras por que paras E tu que foges de quem foges Se a causa é a mesma o rio e mesmo e a natureza de uma e de outra parte a mesma por que são os movimentos tão contrários Responde Davi pela parte do Jordão superior e parado e diz que parou cortês e obsequioso porque reconheceu e reverenciou na Arca a presença do Deus de Jacó Afacie Domini afacie Dei Jacob22 Chamavase a Arca face de Deus pela particular assistência com que Deus invisivelmente residia nela E daqui se segue também que todo o verso de Davi se há de entender como nós o entendemos da passagem do Jordão porque na passagem do Mar Vermelho ainda não havia arca Mas se bastava dizer que parou o Jordão A facie Domini por que acrescentou nomeadamente o profeta que esse Deus era Deus de Jacó A facie Dei Jacob Seria porventura para diferenciar o Deus verdadeiro qual era o de Jacó dos deuses falsos e fabulosos que em diversas figuras adoravam naquele tempo os gentios Verdadeiramente senhores que quem não pára aqui a reverenciar e assistir àquela divina Arca ou não crê que está ali o verdadeiro Deus ou tem outros deuses falsos e torpes a quem mais ama e adora Mas não é este só o mistério nem foi esta só a fineza do Jordão Nota neste passo a glosa que não disse o profeta A facie Dei Israel senão A facie Dei Jacob Este patriarca tinha dois nomes o de Jacó que lhe puseram os homens e o de Israel que lhe deu Deus Pois por que se não chama Deus neste caso Deus de Israel senão Deus de Jacó Com grande mistério Jacó quer dizer Luctator o lutador Israel quer dizer Videns Deum o que vê a Deus E como Deus estava invisivelmente na Arca e o Jordão parou a Deus invisível por isso Deus se não chama aqui Deus do que vê a Deus Deus Israel porque foi Deus reverenciado e não visto chamase porém com segundo mistério e com maior energia Deus Jacob Deus lutador porque o Jordão resistindo ao peso das águas e refreando o ímpeto da corrente lutou fortemente contra a inclinação precipitosa da própria natureza e a venceu gloriosa mente De maneira que se ajustaram neste milagre do Jordão as duas circunstâncias que necessariamente concorrem nos que assistem a Cristo sacramentado nestes dias A primeira lutar como Jacó e vencer o ímpeto da inclinação natural que os leva a seguir a corrente A segunda parar e assistir aqui imovelmente a Deus mas não a Deus visto como Deus de Israel senão a Deus invisível como Deus de Jacó Assim respondeu Davi pela parte superior do Jordão que parou e reverenciou a Arca Mas pela parte inferior que correu ao mar e lhe voltou as costas como foi ação tão irracional tão precipitada e tão feia condenoua e afrontoua o profeta com a admiração da sua mesma indignidade perguntandolhe por que fugia de Deus Quid est tibi mare quod fugisti Mas se era rio por que lhe chama mar E se era o Jordão por que lhe não chama Jordão O nome que lhe tirou e o que lhe deu ambos foram declaração da censura que merecia O rio que corre ao mar seguindo a própria natureza vai buscar sua perdição ali perde o nome e o ser porque já não é rio é mar Assim foi buscar o seu naufrágio e o seu castigo aquela indigna parte do Jordão que voltou as costas à Arca E posto que esta razão bastava para lhe negar o profeta o nome de Jordão ainda o fez com maior mistério e mais claro documento e repreensão dos que nestes dias o imitam Jordanis quer dizer fluvius judicii o rio do juízo E como podia ser digno de tal nome uma parte do mesmo rio tão precipitada tão furiosa e sem juízo que por seguir o ímpeto e costume da natureza deixou de assistir à Arca de Deus e fugiu de sua presença Prezemse agora de entendidos e discretos os que se apartam ou fogem da mesma presença para ver e autorizar com a sua as loucuras do mundo nos dias em que ele mais que nunca perde o siso E se quereis ver quão alheia de juízo é semelhante resolução ponderaia comigo debaixo da alegoria do mesmo rio e ouvime falar com ele com as mesmas palavras do profeta Quid est tibi mare quod fugisti Rio precipitado e infeliz que te deixaste arrebatar da fúria da corrente e fugiste da presença da Arca de Deus dizeme de que foges tu e por quê Que mal te tem feito aquele Senhor para fugir dele De um Deus que te busca que vem em pessoa a santificarte de um Deus que sendo tu dos amorreus te quer fazer seu de um Deus que te quer livrar da servidão da gentilidade de um Deus que se mete todo dentro de ti mesmo deste Deus tão amoroso foges tu Dizeme assim eu te veja tomar atrás Quid est tibi Que fruto que proveito que interesse tens em deixar e te apartar de Deus Se te move o costume inveterado da tua corrente não vês tu que é melhor e mais são conselho emendar os costumes maus antes de chegar ao Mar Morto onde tu caminhas Se te leva o ímpeto e inclinação natural não vês que a outra parte de ti mesmo sendo da mesma natureza Conversus est retrorsum Se ele não seguiu teu exemplo por que não imitarás tu o seu Se o não fazes por virtude ao menos o deves fazer por reputação e por honra Não vês que aquele Jordão que teve mão em si e parou à presença da Arca quanto mais está parado tanto mais cresce e se exalta Não vês que ele é o milagroso o admirado o reverenciado o louvado o chamado santo Que é logo o que te leva Que é o que vais buscar aonde tão arrebatadamente caminhas Quid est tibi more quod fugisti V O Mar Morto Vallis Salinarum e o carnaval A tentação do riso e o sacrifício de Isac Roma e Sara mãe dos crentes Naquela palavra mare temos todo o quid est ou todo o porquê da admiração do profeta e isso mesmo tanto para admirar e estranhar que apenas se pode dizer sem indecência Mas não é muito que se diga pois se vê Aquele mar aonde foi parar a parte do Jordão que não parou é o que nós hoje chamamos Mar Morto e naquele tempo se chamava Vallis Salinarum porque sendo estéril de pescado e de toda a coisa vivente só se tirava dele sal Pois para correr ao Vale do Sal se há de deixar a presença e reverência da Arca Para correr ao Vale do Sal se há de fugir de Deus Assim é Para correr ao Vale do Sal e do sal que algumas vezes é assaz mordaz e picante Tudo o que vai ver e ouvir a passatempo e gosto vão destes dias que outras coisas são senão aquelas que a antiga Roma chamava sales e a moderna sali Graças chistes motes facécias bufonarias metamorfoses de trajos equívocos de pessoas transfigurações dos sexos e da espécie máquinas jocosas invenções ridículas enfim quanto sabe excogitar o engenho a sutileza e a ociosidade para mover a riso Que diria a severidade do vosso Catão se tal visse Para isto se vêem cheias as praças as ruas os balcões os teatros todos a rir e tudo para rir E que sendo em suma tão leve e tão ridícula a tentação triunfe contudo o mundo de nós e pareça que triunfa do mesmo Deus Senhor Senhor quase estava para vos representar a minha dor que seria maior decência de vossa divina autoridade retirarvos ao Sancta Sanctorum de vossos sacrários que aparecer em público nestes dias Seja riso aquele riso mas não seja irrisão vossa Riamse os homens do que vêem e do que fazem mas não pareça que se riem de vós pois fazem tão pouca conta de vossa presença Saibam porém os que assim deixam a Deus e o trocam ou vendem por tão vil preço que Deus como pregou S Paulo non irridetur23 e que lá está guardado um Vae da divina justiça para este riso Vae vobis qui ridetis quia plorabitis24 Esta é senhores a representação que vos prometi do vosso problema Utrum diligatis eum an non disputado na história do Jordão e resoluto diversamente por ambas as partes uma que parou reverente à presença da Arca outra que voltou as costas e correu ao mar Veja agora cada um qual destas partes ou partidos se resolve a seguir E porque toda a tentação de amar ou não amar a Deus nestes dias se vem a resumir no que se resume a religião ou vaidades deles que é sacrificar ou não sacrificar o riso disponhamonos animosamente para o sacrifício e tomemos por exemplar dele um vencedor famoso de semelhante tentação e tentação também de Deus como a nossa Tentou Deus a Abraão para provar seu amor São os termos com que fala a Escritura Tentavit Deus Abraham Gên 22 1 A tentação foi que lhe sacrificasse Isac o seu amado E diz S Paulo que esta tentação de Abraão e sacrifício de Isac foi parábola de Deus Unde eum in parabolam accepit25 Mas como foi parábola se é história verdadeira Não quer dizer o apóstolo que não fosse verdadeira história Quer dizer que foi história e parábola juntamente história pelo que era parábola pelo que significava Saibamos agora E que significa Isac e o seu sacrifício Isac significa riso E ainda que pareça matéria de riso este riso na significação de Deus é a matéria de toda a tentação e este riso é o que Deus nos manda sacrificar S Bernardo Dicitur tibi ut immoles Isaac tuum Isaac enim interpretatur risus Sabeis diz Bernardo o que Deus manda que lhe sacrifiquemos quando manda sacrificar Isac Manda que lhe sacrifiquemos o riso Quando mandou a Abraão que sacrificasse o seu Isac mandoulhe que sacrificasse o seu filho e esta foi a história Quando nos manda que sacrifiquemos o nosso Isac mandanos que sacrifiquemos o nosso riso e esta foi a parábola Eum in parabolam accepit Todos estamos tentados por Deus como Abraão Tentat vos Dominus Deus vester Todos estamos tentados como ele para fazer prova do nosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Se há quem se atreva a sacrificar o seu Isac suba com Abraão ao monte para o imitar E note bem a gentileza daquele grande coração e daquele braço O formidabile spetaculum Amor in prolem Deique dilectio judicio contendunt et judex ensifer instat Abrahamus et gladio jus dicit O formidável espetáculo diz S Basílio de Selêucia Litigavam no coração de Abraão dois amores ambos grandes ambos fortes ambos dificultosos de vencer o amor de Deus e o amor de Isac Por parte de Deus advogava a fé por parte de Isac contradizia toda a natureza E Abraão posto no meio destes dois afetos era o juiz que com a espada havia de pronunciar a sentença Tal é a controvérsia ó cristão que tu hás de decidir neste ponto Utrum diligatis eum an non Se amas verdadeiramente a Deus há de morrer Isac se Isac vive não amas a Deus O céu por parte de Deus a terra por parte da mundo esperam suspensos a tua resolução Tu és o juiz dá a sentença Que dizes Sim ou não Oh como me parece fiéis amadores de Cristo estar vendo em cada um de vós outro Abraão com o braço e com a espada levantada para cortar a cabeça a este Isac não inocente mas réu não legítimo mas adulterino não digno de viver mas de morrer de uma vez e acabar para sempre Morra morra Isac viva viva Cristo viva o Diviníssimo Sacramento Mas que é o que vejo Não um anjo do céu como o de Abraão mas um anjo do inferno que da parte do mundo e do apetite vos brada vos tem mão no braço e vos faz cair a espada Tal é a fraqueza de nossa fé tal a covardia de nossos corações Enfim este ano será como os demais e se cumprirá a parábola inteiramente Viverá Isac e o sacrificado será o Cordeiro Vós Senhor sereis o deixado e o mundo o buscado e o seguido Vós estareis aqui quase só e Roma no corso e nos teatros Notou o mesmo S Basílio como já o tinha escrito Josefo que Abraão teve sempre o caso em segredo e nem quando recebeu o mandamento de Deus nem quando aparelhou e partiu ao sacrifício deu conta ou notícia dele a Sara E a razão foi diz o santo porque ainda que Abraão venerava e tinha grande conceito da fé da devoção e da piedade de Sara considerou contudo o gênio feminil e temeu que como mulher e mãe não tivesse valor para consentir no sacrifício Ego quidem ejus animum suspicio sed genium vereor Conheceu o ânimo mas temeu o gênio Esta é também a razão da minha desconfiança reverencio mas receio Suspicio sed vereor Abraão era o pai dos crentes e Sara a mãe O pai dos crentes teve valor para fazer o sacrifício a mãe dos crentes não E quem é a mãe dos crentes senão tu ó Roma VI O autor com S Jerônimo incita Roma para que interprete seu nome As águias e o corpo de Cristo Roma eu não tenho autoridade nem confiança nem língua para te dizer neste caso o que sinto mas ouve tu o que te diz com igual autoridade e eloqüência o teu Doutor Máximo Jerônimo No mesmo tempo em que S Dâmaso edificava esta mesma igreja em que estamos escreveu S Jerônimo a Roma a qual então andava em grande parte enganada com as larguezas e delícias que aprovava o ímpio Joveniano mais conformes aos idólatras de Jove de quem ele tinha o nome que aos adoradores de Cristo e diz assim o grande Padre26 Urbs potens urbs orbis domina urbs Apostoli voce laudata interpretare tuum vocabulum Cidade potentíssima cidade dominadora e senhora do mundo cidade louvada não por boca do teu Apolo senão pelo oráculo de Paulo Te alIoquor contigo falo e não te digo outra coisa senão que interpretes o teu nome Interpretare tuum vocabulum Roma aut fortitudinis nomen est apud graecos aut celsitudinis juxta hebraecos Serva quod diceris virtus te excelsam faciat non voluptas humilem O grego quando diz Roma quer dizer a forte o hebreu quando diz Roma quer dizer a excelsa o cristão acrescentemos nós quando diz Roma quer dizer a santa E será bem que Roma a forte não resista a uma tentação tão leve Será bem que Roma a excelsa se abata a uma indecência tão ridícula Será bem que Roma a santa deixe a fonte da santidade por seguir a corrente da vaidade Rirseá e mofará o grego rirseá e zombará o hebreu chorará e envergonharseá o cristão Pelo que Roma minha diz S Jerônimo serva quod diceris Se te chamas Roma sê Roma sê forte sê excelsa sê santa E vós senhores romanos generosos filhos desta águia magnarum alarum27 lembraivos das palavras que a vós em primeiro lugar e a todos os que reconhecem por mãe e cabeça esta Santa Cidade disse em confiança de vossa piedade o Senhor que está presente Ubicumque fuerit corpus illic congregábuntur et aquilae Aonde estiver meu corpo ali correrão as águias Mt 2428 Corpus in altari aquilae vos estis diz Santo Ambrósio Não se tenha por águia que tudo o mais de quem tenho falado até agora é vulgo não se tenha por águia legítima e verdadeira a que aqui não vier fazer prova da agudeza de sua vista e da fineza de seu amor A águia natural prova os seus verdadeiros filhos aos raios do sol descoberto a Águia divina prova os seus nas sombras do sol escon dido Com esta nobilíssima circunstância sacrifiquem os vossos olhos a Deus tudo o que nestes dias deixarem de ver Se assim o fizerdes como de vossa generosidade e piedade se deve esperar será o vosso sacrifício por esta circunstância ainda mais precioso e mais grato a Deus que o de Abraão Notai Quando Deus mandou a Abraão que lhe sacrificasse o seu Isac disse desta maneira Vade in terram visionis atque ibi offeres Gên 222 Vai à terra da visão vai à terra onde me viste e onde me vês e aí oferece o sacrifício Na diferença de ibi a ibi está a vantagem da fineza Fazer sacrifício a Deus no lugar onde se vê Deus não é maravilha mas fazêlo no lugar onde Deus não se vê essa é a maravilha essa a fineza e esta será a glória do vosso sacrifício Se o não ver a Deus que temos presente é a tentação com que ele vos tenta Tentat vos Dominus Deus vester não o ver e amálo não o ver e assistilo não o ver e acompanhálo sempre seja a prova manifesta e pública de vosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non SERMÃO DA QUINTAFEIRA DA QUARESMA NA MISERICÓRDIA DE LISBOA ANO DE 1669 Vidit hominem caecum1 I Um cego de nascimento e muitos cegos de inveja e perfídia os escribas e fariseus Destes últimos cuidará o autor neste sermão Um cego e muitos cegos um cego curado e muitos cegos incuráveis um cego que não tendo olhos viu e muitos cegos que tendo olhos não viram é a substância resumida de todo este largo Evangelho Deu Cristo vista milagrosa em Jerusalém a um cego de seu nascimento examinaram o caso os escribas e fariseus como coisa nunca vista nem ouvida até aqueles tempos convenceuos o mesmo cego com argumentos com razões e muito mais com a evidência do milagre E quando eles haviam de reconhecer e adorar ao obrador de tamanha maravilha por verdadeiro Filho de Deus e Messias prometido como fez o cego cegos de inveja obstinados na perfídia e rebeldes contra a mesma onipotência negaram blasfemaram e condenaram a Cristo De maneira que a mesma luz manifesta da divindade a um homem deu olhos e aos outros deu nos olhos para um foi luz e para os outros foi raio a um alumiou aos outros feriu a um sarou aos outros adoeceu ao cego fez ver e aos que tinham vista cegou Não é a ponderação minha nem de alguma autoridade humana senão toda do mesmo Cristo Vendo o milagroso Senhor os efeitos tão encontrados daquela sua maravilha concluiu assim Ego in hunc mundum veni ut qui non vident videant et qui vident caeci fiant Jo 9 39 Ora o caso é diz Cristo que eu vim a este mundo para que os cegos vejam e os que têm olhos ceguem Não porque este fosse o fim de sua vinda senão porque estes foram os efeitos dela Os cegos viram porque o cego recebeu a vista e os que tinham olhos cegaram porque os escribas e fariseus ficaram cegos Supostas estas duas partes do Evangelho deixando a primeira tratarei só da segunda O homem que não tinha olhos e viu já está remediado os que têm olhos e não vêem estes são os que hão mister o remédio e com eles se empregará todo o meu discurso Vidit hominem caecum Cristo viu um homem cego sem olhos nós havemos de ver muitos homens cegos com olhos Cristo viu um homem sem olhos que não via e logo viu nós havemos de ver muitos homens com olhos que não vêem e também poderão ver se quiserem Deus me é testemunha que fiz eleição deste assunto para ver se se pode curar hoje alguma cegueira Bem conheço a fraqueza e a desproporção do instrumento mas o mesmo com que Cristo obrou o milagre me anima a esta esperança Inclinouse o Senhor à terra fez com a mão onipotente um pouco de lodo aplicouo aos olhos do cego e quando parece que lhos havia de escurecer e cegar mais com o lodo com o lodo lhos abriu e alumiou Se Cristo com lodo dá vista que cego haverá tão cego e que instrumento tão fraco e inábil que da eficácia e poderes de sua graça não possa esperar semelhantes efeitos Prostremonos como fez o cego a seus divinos pés e peçamos para nossos olhos um raio da mesma luz por intercessão da Mãe de Misericórdia em cuja casa estamos Ave Maria II Os cegos de olhos abertos Segundo Isaías dar vista aos cegos era a mais evidente prova da divindade do Messias A cegueira de Paulo Os católicos como antigamente os hebreus os únicos cegos Maldição de Davi contra os fabricadores de ídolos A idolatria e a missão de Portugal Vidit hominem caecum O cego que hoje viu Cristo padecia uma só cegueira os cegos que nós havemos de ver sendo as suas cegueiras muitas não as padecem antes as gozam e amam delas vivem delas se alimentam por elas morrem e com elas Estas cegueiras irá descobrindo o nosso discurso Assim o ajude Deus como ele é importante O maior desconcerto da natureza ou a maior circunstância de malícia que Cristo ponderou na cegueira dos escribas e fariseus que será o triste exemplar da nossa foi ser cegueira de homens que tinham os olhos abertos Ut videntes caeci fiant Os escribas e fariseus eram os sábios e letrados da lei eram os que liam as Escrituras eram os que interpretavam os profetas e por isso mesmo eram mais obrigados que todos a conhecer o Messias e nunca tão obrigados como no caso presente Isaías no capítulo trinta e dois falando da divindade do Messias e de sua vinda ao mundo diz assim Ouçam este texto os incrédulos Deus ipse veniet et salvabit vos Tunc aperientur oculi caecorum Is 35 4s Virá Deus em pessoa a salvarvos E em sinal de sua vinda e prova de sua divindade dará vista a cegos O mesmo tinha já dito no capítulo vinte e nove De tenebris et caligine oculi caecorum videbunt2 E o mesmo tornou a dizer no capítulo quarenta e dois Dedi te in faedus populi in lucem gentium ut aperires oculos caecorum3 Por isso quando o Batista mandou perguntar a Cristo se era ele o Messias Tu es qui venturus es an alium expectamus4 querendo o Senhor antes responder com obras que com palavras o primeiro milagre que obrou diante dos que trouxeram a embaixada foi dar vista a cegos Renunciate Joanini quae audistis et vidistis caeci vident5 Pois se o primeiro e mais evidente sinal da vinda do Messias se a primeira e mais evidente prova de sua divindade e onipotência era dar vista a cegos e se entre todos os cegos a que Cristo deu vista nenhum era mais cego que este e nenhuma vista mais milagrosa por ser cego de seu nascimento e a vista não restituída senão criada de novo como se alucinaram tanto os escribas e fariseus que vendo o milagre não viam nem conheciam o milagroso Aqui vereis qual era a cegueira destes homens A cegueira que cega cerrando os olhos não é a maior cegueira a que cega deixando os olhos abertos essa é a mais cega de todas E tal era a dos escribas e fariseus Homens com olhos abertos e cegos Com olhos abertos porque como letrados liam as Escrituras e entendiam os profetas e cegos porque vendo cumpridas as profecias não viam nem conheciam o profetizado Um destes letrados cegos era Saulo antes de ser Paulo e vede como lhe mostrou o céu qual era a sua cegueira Ia Saulo caminhando para Damasco armado de provisões e de ira contra os discípulos de Cristo quando ao entrar já na cidade eis que fulminado da mão do mesmo Senhor cai do cavalo em terra assombrado atônito e subitamente cego Mas qual foi o modo desta cegueira Apertis oculis diz o texto nihil videbat At 98 Com os olhos abertos nenhuma coisa via A cidade os muros as torres a estrada os campos os companheiros à vista e Saulo com os olhos abertos sem ver nenhuma coisa destas nem se ver a si Aqui esteve o maravilhoso da cegueira Se o raio lhe tirara os olhos ou lhos fechara não era maravilha que não visse mas não ver nada estando com os olhos abertos Apertís oculis nihil videbat Tal era a cegueira de Saulo quando perseguia a Cristo tal a dos escribas e fariseus quando a não criam e tal a nossa que é mais depois de o crermos Muito mais maravilhosa é esta nossa cegueira que a mesma vista do cegado Evangelho Aquele cego quando não tinha olhos não via nós temos olhos e não vemos Naquele cego houve cegueira e vista mas em diversos tempos em nós no mesmo tempo está junta a vista com a cegueira porque somos cegos com os olhos abertos e por isso mais cegos que todos Se lançarmos os olhos portado o mundo acharemos que todo ou quase todo é habitado de gente cega O gentio cego o judeu cego o herege cego e o católico que não devera ser também cego Mas de todos estes cegos quais vos parece que são os mais cegos Não há dúvida que nós os católicos Porque os outros são cegos com olhos fechados nós somos cegas com os olhos abertos Que o gentio corra sem freio após os apetites da carne que o gentio siga as leis depravadas da natureza corrupta cegueira é mas cegueira de olhos fechados não lhe abriu a fé os olhos Porém o cristão que tem fé que conhece que há Deus que há céu que há inferno que há eternidade e que viva como gentio é cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesmo gentio Que o judeu tenha por escândalo a cruz e por não confessar que crucificou a Deus não queira adorar a um Deus crucificado cegueira é manifesta mas cegueira de olhos fechados Por isso mordidos das serpentes no deserto só saravam os que viam a serpente de Moisés exaltada e os que não tinham olhos para a ver não saravam Núm 218 Porém que o cristão como chorava S Paulo seja inimigo da cruz Flp 318 e que adorando as chagas do crucificado não sare as suas é cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesma judeu Que o herege sendo batizado e chamandose cristão se não conforme com a lei de Cristo e despreze a observância de seus mandamentos cegueira é mas cegueira também de olhos fechados Crê erradamente que basta para a salvação o sangue de Cristo e que não são necessárias obras próprias Porém o católico que crê e conhece evidentemente pelo lume da fé e da razão que fé sem obras é morta e que sem obrar e viver bem ninguém se pode salvar que viva nos costumes como Lutero e Calvino É cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesmo herege Logo nós somos mais cegos que todos os cegos E se a alguém parecer que me alargo muito em dizer que a nossa cegueira dos católicos é maior que a do herege e a do judeu e a do gentio que seria se eu dissesse que entre todas as cegueiras só a nossa é a cegueira e que entre todos esses cegos só nós somos os cegos Pois assim o digo e assim é para maior horror e confusão nossa Ouvi o mesmo Deus por boca de Isaías Quis cuecus nisi servus meus Quis caecus nisi qui venundatus est Quis caecus nisi servus Domini6 Fala Deus com o povo de Israel o qual naquele tempo como nós hoje era o que só tinha a verdadeira fé e diz não uma senão três vezes que só ele entre todas as nações do mundo era o cego Não reparo no cego senão no só Que fosse cego aquele povo no tempo de Isaías ele e todos os outros profetas o lamentam porque devendo servir e adorar ao verdadeiro Deus serviam e adoravam aos ídolos Mas dessa mesma cegueira e dessa mesma idolatria se segue que não eram só os hebreus os cegos senão também todas as nações daquele tempo e daquele mundo Cegos e idólatras eram no mesmo tempo os assírios cegos e idólatras os babilônios cegos e idólatras os egípcios os etíopes os moabitas os idumeus os árabes os tinos contra os quais todos profetizou e denunciou castigos o mesmo Isaías em pena de sua idolatria7 Pois se a idolatria era a cegueira e não só os hebreus senão todas as nações de que estavam cercados e também as mais remotas eram idólatras como diz Deus que só o povo de Israel é cego Quis cuecus quis caecus quis caecus nisi servus Domini Todos os outros são cegos e só o povo de Israel é cego Sim Porque todos os outros povos eram cegos com os olhos fechados só o povo de Israel era cego com os olhos abertos O mesmo profeta o disse Populum caecum et oculos habentem Is 43 8 Povo cego e com olhos Os outros povos adoravam os ídolos e os deuses falsos porque não tinham conhecimento do Deus verdadeiro e isso mais era ignorância que cegueira Porém o povo de Israel era o que só tinha fé e conhecimento do verdadeiro Deus Notus in Judaea Deus8 Que um povo com fé e conhecimento do Deus verdadeiro adorasse os deuses falsos Isso nele não era nem podia ser ignorância senão mera cegueira e por isso só ele o cego Quis caecus nisi servus Domini Deixaime agora fazer a mesma pergunta ou as mesmas três perguntas ao nosso mundo e ao nosso tempo Quis caecus Quem é hoje o cego O gentio Não Quis caecus Quem é hoje o cego O judeu Não Quis caecus Quem é hoje o cego O herege Não Pois quem é hoje este cego que só merece nome de cego Triste e temerosa coisa é que se diga mas é forçosa conseqüência dizerse que somos nós os católicos Porque o gentio o judeu o herege são cegos sem fé e com os olhos fechados e só nós os católicos somos cegos com a verdadeira fé e com os olhos abertos Populum caecum et oculos habentem Grande miséria e confusão para todos os que dentro do grêmio da Igreja professamos a única e verdadeira religião católica e para nós os portugueses se bem olharmos para nós ainda maior No salmo cento e treze zomba Davi dos ídolos da gentilidade e uma das coisas de que principalmente os moteja é que têm olhos e não vêem Oculos habent et non videbunt SI 113 5 Bem pudera dizer que não tinham olhos porque olhos abertos em pedra ou fundidos em metal ou coloridos em pintura verdadeiramente não são olhos Também pudera dizer e mais brevemente que eram cegos Mas disse com maior ponderação e energia que tinham olhos e não viam porque o encarecimento de uma grande cegueira não consiste em não ter olhos ou em não ver senão em não ver tendo olhos Oculos habent et non videbunt Depois disto voltase o profeta com a mesma galantaria contra os fabricadores e adoradores dos ditos ídolos e a bênção que lhes deita ou a maldição que lhes roga é que sejam semelhantes a eles os que os fazem Similes illis fiant Qui faciunt ea Porque assim como a maior bênção que se pode desejar aos que adoram ao verdadeiro Deus é serem semelhantes ao Deus que os fez assim a maior praga e maldição que se pode rogar aos que adoram os deuses falsos é serem semelhantes aos deuses que eles fazem Similes illisflant Qui faciunt ea Agora dizeime E não seria muito maior desgraça não seria miséria e semrazão nunca imaginada se esta maldição caísse não já sobre os adoradores dos ídolos senão sobre os que crêem e adoram o verdadeiro Deus Pois isso é o que com efeito nos tem sucedido Que coisa são pela maior parte hoje os cristãos senão umas estátuas mortas do cristianismo e umas semelhanças vivas dos idolos da gentilidade com os olhos abertos e cegos Oculos habent et non videbunt Miséria é grande que sejam semelhantes aos ídolos os que os fazem mas muito maior miséria é e muito mais estranha que sejam semelhantes aos ídolos os que os desfazem e estes somos nós Estes somos nós torno a dizer por cristãos por católicos e muito particularmente por portugueses Para que fez Deus Portugal e para que levantou no mundo esta monarquia senão para desfazer ídolos para converter idólatras para desterrar idolatrias Assim o fizemos e fazemos com glória singular do nome cristão nas Àsias nas Áfricas nas Américas Mas como se os mesmos ídolos se vingaram de nós derrubamos as suas estátuas e eles pegaramnos as suas cegueiras Cegos e com os olhos abertos como ídolos Oculos habent et non videbunt Cegos e com os olhos abertos como o povo de Israel Populum caecum et oculos habentem Cegos e com olhos abertos como Saulo Apertis oculis nihil videbat E cegos finalmente e com os olhos abertos como os escribas e fariseus Ut videntes caeci fiant III Primeira espécie de cegueira causada pela desatenção a dos cegos que vêem e não vêem juntamente contradição já anunciada por Cristo O profeta Eliseu e a cegueira dos cavaleiros do rei da Síria Os anjos de Deus e a cegueira dos habitantes de Sodoma Os discípulos de Emaús e a inadvertência do olhar Admoestação dos profetas Jeremias e Isaías Está dito em comum o que basta agora para maior distinção e clareza desçamos ao particular Esta mesma cegueira de olhos abertos dividese em três espécies de cegueira ou falando medicamente em cegueira da primeira da segunda e da terceira espécie A primeira é de cegos que vêem e não vêem juntamente a segunda de cegos que vêem uma coisa por outra a terceira de cegos que vendo o demais só a sua cegueira não vêem Todas estas cegueiras se acharam hoje nos escribas e fariseus e todas por igual ou maior desgraça nossa se acham também em nós Vamos discorrendo por cada uma e veremos no nosso ver muita coisa que não vemos Começando pela cegueira da primeira espécie digo que os olhos abertos dos escribas e fariseus eram olhos que juntamente viam e não viam E por quê Não porque vendo o milagre não viam o milagroso como já dissemos mas porque vendo o milagre não viam o milagre e vendo o milagroso não viam o milagroso O milagre viamno nos olhos do cego o milagroso viamno em sua própria pessoa e muito mais nas suas obras que é o mais certo modo de ver e contudo nem viam o milagre nem viam o milagroso O milagre porque o não queriam ver o milagroso porque o não podiam ver Bem sei que ver e não ver implica contradição mas a cegueira dos escribas e fariseus era tão grande que podiam caber nela ambas as partes desta contradição Os filósofos dizem que uma contradição não cabe na esfera dos possíveis eu digo que cabe na esfera dos olhos Não me atrevera ao dizer se não fora proposição expressa da primeira e suma verdade Assim o disse Cristo falando destes mesmos homens no capítulo quarto de S Marcos Ut videntes videant et non videant Mc 412 Para que vendo vejam e não vejam Agora esperáveis que eu saísse com grandes espantos Se viam como não viam E se não viam como viam Dificultar sobre tal autoridade seria irreverência Cristo o diz e isso basta Eu porém não me quero escusar por isso de dar a razão deste que parece impossível Mas antes que lá cheguemos vejamos esta mesma implicação de ver e não ver praticada em dois casos famosos ambos da História Sagrada Estando elrei de Síria em campanha sobre o Reino de Israel experimentou por muitas vezes que quanto deliberava no seu exército se sabia no do inimigo 4 Rs 613 E imaginando ao princípio que devia de haver no seu conselho alguma espia comprada que fazia estes avisos soube dos capitães e dos soldados mais práticos daquela terra que o profeta Eliseu era o que revelava e descobria tudo ao seu rei Oh se os reis tiveram a seu lado profetas Achavase neste tempo Eliseu na cidade de Dotã resolve o rei mandálo tomar dentro nela por uma entrepresa e marchando a cavalaria secretamente em uma madrugada eis que sai o mesmo Eliseu a encontrarse com eles dizlhes que não era aquele o caminho de Dotã levaos à cidade fortíssima de Samaria meteos dentro dos muros fechamse as portas e ficaram todos tomados e perdidos É certo que estes soldados de elrei de Síria conheciam muito bem a cidade de Dotã e a de Samaria e as estradas que iam a uma e a outra e muitos deles ao mesmo profeta Eliseu Pois se conheciam tudo isto e viam as cidades e os caminhos e ao mesmo profeta como se deixaram levar onde não pretendiam ir Como não prenderam a Eliseu quando se lhes veio meter nas mãos E como consentiram que ele os metesse dentro dos muros e debaixo das espadas de seus inimigos Diz o texto sagrado que toda esta comédia foi efeito da oração de Eliseu o qual pediu a Deus que cegasse aquela gente Percute oro gentem hanc caecitate 4 Rs 6 18 E foi a cegueira tão nova tão extraordinária e tão maravilhosa que juntamente viam e não viam Viam a Eliseu e não viam a Eliseu viam a Samaria e não viam a Samaria viam os caminhos e não viam os caminhos viam tudo e nada viam Pode haver cegueira mais implicada e mais cega e de homens com os olhos abertos Tal foi por vontade de Deus a daqueles bárbaros e tal é contra a vontade de Deus a nossa sendo cristãos Eliseu quer dizer Saúde de Deus Samaria quer dizer cárcere e diamante E que é a saúde de Deus senão a salvação Que é o cárcere de diamante senão o inferno Pois assim como os assírios indo buscar a Eliseu se acharam em Samaria assim nós buscando a salvação nos achamos no inferno E se buscarmos a razão deste erro e desta cegueira é porque eles e nós vemos e não vemos Não vês cristão que este é o caminho do inferno Sim Não vês que este outro é o caminho da salvação Sim Pois como vais buscar a salvação pelo caminho do inferno Porque vemos os caminhos e não vemos os caminhos vemos onde vão parar e não vemos onde Tanta é com os olhos abertos a nossa cegueira Percute gentem hanc caecitate Segundo caso e maior Mandou Deus dois anjos à cidade de Sodoma para que salvassem a Ló e abrasassem a seus habitadores e eram eles tão merecedores do fogo que lhes foi necessário aos mesmos anjos defenderem a casa onde se tinham recolhido Mas como a defenderam Diz o texto sagrado que o modo que tomaram para defender a casa foi cegarem toda aquela gente desde o maior até o mais pequeno Percusserunt eos caecitat ea maximo usque ad minorem Gên 19 11 Quando eu li que os anjos cegaram a todos cuidei que lhes fecharam os olhos e que ficaram totalmente cegos e sem vista e que a razão de cegarem não só os homens senão também os meninos fora por que os meninos não pudessem guiar os homens Mas não foi assim Ficaram todos com os seus olhos abertos e inteiros como dantes Viam a cidade viam as ruas viam as casas e só com a casa e com a porta de Ló que era o que buscavam nenhum deles atinava Buscavam na cidade a rua de Ló viam a rua e não atinavam com a rua buscavam na rua a casa de Ló viam a casa e não atinavam com a casa buscavam na casa a porta de Ló viam a porta e não atinavam com a porta Ita ut ostium invenire non possent diz o texto9 E para que cesse a admiração de um caso tão prodigioso isto que fizeram naqueles olhos os anjos bons fazem nos nossos os anjos maus Estamos na quaresma tempo de rigor e penitência e sendo que a penitência é a rua estreita por onde se vai para o céu Arcta via est quae ducit ad vitam10 vemos a rua e não atinamos com a rua Entramos e freqüentamos agora mais as igrejas pomos os pés por cima dessas sepulturas e sendo que a sepultura é a casa onde havemos de morar para sempre Sepulchra eorum domus illorum in aeternum11 vemos a casa e não atinamos com a casa Sobem os pregadores ao púlpito põemnos diante dos olhos tantas vezes a lei de Deus esquecida e desprezada e sendo que a lei de Deus é a porta por onde só se pode entrar à bem aventurança Haec porta Domimi justi intrabunt in eam12 vemos a porta e não atinamos com a porta Ita ut ostium invenire non possent Paremos a esta porta ainda das telhas abaixo Andam os homens cruzando as cortes revolvendo os reinos dando voltas ao mundo cada um em demanda das suas pretensões cada um para se introduzir ao fim dos seus desejos todos aos encontrões uns sobre os outros os olhos abertos a porta à vista e ninguém atina com a porta Andais buscando a honra com olhos de lince e sendo que para a verdadeira honra não há mais que uma porta que é a virtude ninguém atina com a porta Andaisvos desvelando pela riqueza com mais olhos que um Argos e sendo que a porta certa da riqueza não é acrescentar fazenda senão diminuir cobiça ninguém atina com a porta Andaisvos matando por achar a boa vida e sendo que a porta direita por onde se entra à boa vida é fazer boa vida ninguém atina com a porta Andaisvos cansando por achar o descanso e sendo que não há nem pode haver outra porta para o verdadeiro e seguro descanso senão acomodar com o estado presente e conformar com o que Deus é servido não há quem atine com a porta Há tal desatino Há tal cegueira Mas ninguém vê o mesmo que está vendo porque todos desde o maior ao menor somos como aqueles cegos Percusserunt eos caecitate a maximo usque ad minorem Sobre estes dois exemplos tão notáveis entre agora a razão por que estais esperando Que seja possível ver e não ver juntamente já o tendes visto Direis que sim mas por milagre Eu digo que também sem milagre e muito fácil e naturalmente13 Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido ou na conversação ou em algum cuidado não dar fé das mesmas coisas que estais vendo Pois esse é o modo e a razão por que naturalmente e sem milagre podemos ver e não ver juntamente Vemos as coisas porque as vemos e não vemos essas mesmas coisas porque as vemos divertidos Iam para Emaús os dois discípulos praticando com grande tristeza na morte de seu Mestre Lc 24 e foi coisa maravilhosa que aparecendolhes o mesmo Cristo e indo caminhando e conversando com eles não o conhecessem Alguns quiseram dizer que a razão deste engano ou desta cegueira foi porque o Senhor mudara as feições do rosto e ainda a voz ou tom da fala Mas esta exposição como bem notou Santo Agostinho é contra a propriedade do texto o qual diz expressamente que o engano não foi da parte do objeto senão da potência não da parte do visto senão da vista Oculi illorum tenebantur ne eum agnoscerent14 Como é possível logo que não conhecessem a quem tão bem conheciam e que não vissem a quem estavam vendo Na palavra tenebantur está a solução da dúvida Diz o Evangelista que não conheceram os discípulos ao mesmo Senhor que estavam vendo porque tinham os olhos presos Isto quer dizer tenebantur E da mesma frase usa o evangelista falando da prisão de Cristo Ipse est tenete eum Tenuerunt eum Non me tenuisti15 Mas se os olhos estavam presos como viam E se viam como estavam presos Não estavam presos pela parte da vista estavam presos pela parte da advertência Iam os discípulos divertidos na sua prática e muito mais divertidos na sua tristeza Qui sunt hi sermones quos confertis ad invicem et estis tristes16 E esta diversão do pensamento era a que lhes prendia a advertência dos olhos Como tinham livre a vista viam a Cristo como tinham presa a advertência não conheciam que era ele E desta maneira estando os olhos dos discípulos juntamente livres e presos vinham a ser um composto de vista e de cegueira de vista com que viam e de cegueira com que não viam Vede a força que tem o pensamento para a diversão da vista Os olhos estavam no caminho com Cristo vivo o pensamento estava na sepultura com Cristo morto e pode tanto a força do pensamento que o mesmo Cristo ausente em que cuidavam os divertia do mesmo Cristo presente que estavam vendo Tanto vai de ver com atenção e advertência ou ver com desatenção e divertimento Por isso Jeremias bradava Attendite et videte Sam 1 12 Atendei e vede Não só pede o profeta vista mas vista e atenção e primeiro a atenção que a vista porque ver sem atenção é ver e não ver Ainda é mais próprio este ver e não ver do que o modo com que viam e não viam aqueles cegos tão cegos nos dois casos mila grosos que referimos Eles não viam o que viam porque lhes confundiu Deus as espécies Nós sem confusão nem variedade das espécies não vemos o que vemos só por desatenção e divertimento da vista Agora entendereis a energia misteriosa e discreta com que o profeta Isaías nos manda olhar para ver Intuemini ad videndum Is 41 18 Quem há que olhe senão para ver E quem há que veja senão olhando Por que diz logo o profeta como se nos inculcara um documento particular Intuemini ad videndum Olhai para ver Porque assim como há muitos que olham para cegar que são os que olham sem tento assim há muitos que vêem sem olhar porque vêem sem atenção Não basta ver para ver é necessário olhar para o que se vê Não vemos as coisas que vemos porque não olhamos para elas Vemolas sem advertência e sem atenção e a mesma desatenção é a cegueira da vista Divertemnas a atenção os pensamentos suspendemnos a atenção os cuidados prendemnos a atenção os desejos roubamnos a atenção os afetos e por isto vendo a vaidade da mundo imas após ela como se fora muito sólida vendo o engano da esperança confiamos nela como se fora muito certa vendo a fragilidade da vida fundamos sobre ela castelos como se fora muito firme vendo a inconstância da fortuna seguimos suas promessas como se foram muito seguras vendo a mentira de todas as coisas humanas cremos nelas como se foram muito verdadeiras E que seria se os afetos que nos divertem a atenção da vista fossem da casta daqueles que tanto divertiram e perturbaram hoje os escribas e fariseus Divertiaos o ódio divertia os a inveja divertiaos a ambição divertiaos o interesse divertia os a soberba divertiaos a autoridade e ostentação própria e como estava a atenção tão divertida tão embaraçada tão perturbada tão presa por isso não viam o que estavam vendo Ut videntes caeci fiant IV Segunda espécie de cegueira causada pela paixão a dos cegos que vêem uma coisa por outra O cego do Evangelho que via os homens como árvores A cegueira de nossos primeiros pais e dos falsos profetas da República dos Hebreus Enganos dos moabitas do rei Assuero e dos apóstolos perturbados por paixões diversas A cegueira da segunda espécie ou a segunda espécie da cegueira dos escribas e fariseus era serem tais os seus olhos que não viam as coisas às direitas senão às avessas não viam as coisas como eram senão como não eram Viam os olhos milagrosos e diziam que era engano viam a virtude sobrenatural e diziam que era pecado viam uma obra que só podia ser dos braços de Deus e diziam que não era de Deus senão contra Deus Non est hic homo a Deo17 De maneira que não só não viam as coisas como eram mas viamnas como não eram e por isso muito mais cegos que se totalmente as não viram Na cidade de Belém curou Cristo outro cego como este de Jerusalém mas não o curou pelo mesmo modo porque as mesmas enfermidades quando os sujeitos não são os mesmos muitas vezes requerem diversa cura Pôs o Senhor a mão nos olhos a este cego e perguntoulhe se via Olhou ele e disse Video homines velut arbores ambulantes Mc 824 Senhor vejo os homens como umas árvores que andam de uma parte para outra Torna Cristo a aplicarlhe outra vez a mão e diz o texto que desta segunda vez começou o homem a ver Iterum imposuit manus super oculos ejus et coepit videre Neste coepit videre reparo e é muito para reparar Este homem é certo que começou a ver da primeira vez que Cristo lhe pôs a mão nos olhos porque até ali não via nada e então começou a ver os homens como árvores Pois se o cego da primeira vez começou a ver os homens como árvores como diz o evangelista que não começou a ver senão da segunda vez Iterum imposuit manus super oculos ejus et coepit videre Porque da primeira vez via as coisas como não eram da segunda vez já as via como eram da primeira vez via os homens como árvores da segunda vez via as árvores como árvores e os homens como homens E ver as coisas como são isso é ver mas vêlas como não são não é ver é estar cego Sim Mas este homem estava cego quando não via nada e se estava também cego quando via as coisas como não eram quando estava mais cego Quando as via ou quando as não via Quando as via estava muito mais cego porque quando não via nada tinha privação da vista quando via as coisas às avessas tinha erro na vista e muito maior cegueira é o erro que a privação A privação era um defeito inocente que não mentia nem enganava o erro era uma mentira com aparência de verdade era um engano com representação de certeza era um falso testemunho com assinado de vista E se não vamos ao caso É filosofia bemfundada de Filo Hebreu que os olhos não só vêem a cor senão a cor afigura e o movimento e em todas estas três coisas errou a primeira vista daquele homem representandolhe os homens como árvores Errou na cor porque as árvores são verdes e os homens cada um é da cor de seu rosto e do seu vestido Errou na figura porque as árvores têm um pé e os homens dois os homens têm dois braços e as árvores muitos Errou no movimento porque os homens movemse progressivamente e mudam de lugares e as árvores estão sempre firmes e se movem com o vento não mudam de lugar Eis aqui quantos erros quantos enganos e quantas cegueiras se envolviam naquela primeira vista Por isso o evangelista disse que quando o cego via desta maneira ainda não tinha começado a ver porque ver umas coisas por outras não e vista é cegueira e mais que cegueira Os mais cegos homens que houve no mundo foram os primeiros homens Disselhes Deus não por terceira pessoa senão por si mesmo e não por enigmas ou metáforas senão por palavras expressas que aquela fruta da árvore que lhes proibia era venenosa e que no mesmo dia em que a comessem haviam de perder a imortalidade em que foram criados não só para si senão para todos seus filhos e descendentes e contudo comeram Há homem tão cego que coma o veneno conhecido como veneno para se matar Há homem tão cego que dê o veneno conhecido como veneno a seus filhos para os ver morrer diante de seus olhos Tal foi a cegueira dos primeiros homens e não cegueira de olhos meio abertos como a daquele cego senão de olhos totalmente abertos porque tudo isto viam muito mais clara e muito mais evidentemente do que nós o vemos e admiramos Pois como caíram em uma cegueira tão estranha como foram ou como puderam ser tão cegos Não foram cegos porque não viram que tudo viam mas foram cegos porque viram uma coisa por outra O mesmo texto o diz Vidit mulier quod bonum esset lignum ad vescendum Gên 36 Viu a mulher que aquela fruta era boa para comer Mulher cega e cega quando viste e porque viste vê o que vês e não vejas o que não vês Assim havia de ser Mas Eva com os olhos abertos estava tão cega que não via o que via e via o que não via A fruta vedada era má para comer e boa para não comer Má para comer porque comida era veneno e morte boa para não comer porque não comida era vida e imortalidade Pois se a fruta só para não comer era boa e para comer não era boa senão muito má como viu Eva que era boa para comer Este homem não é de Deus Jo 916 Este homem não é de Deus Jo 916 Vidit quod bonum esset ad vescendum Porque era tão cega a sua vista ou tão errada a sua cegueira que olhando para a mesma fruta não via o que era e via o que não era Não via que era má para comer sendo má e via que era boa para comer não sendo boa Vidit quod bonum esset Esta foi a cegueira de Eva e esta é a dos filhos de Eva Vae qui dicitis malum bonum et bonum malum18 Andam equivocados dentro em nós o mal com o bem e o bem com o mal não por falta de olhos mas por erro e engano da vista No Paraíso havia uma só árvore vedada no mundo há infinitas Tudo o que veda a lei natural a divina e as humanas tudo o que proíbe a razão e condena a experiência são árvores e frutas vedadas E tal é o engano e ilusão da nossa vista equivocada nas cores com que se disfarça o veneno que em vez de vermos o mal certo para o fugir vemos o bem que não há para o apetecer Vidit quod bonum esset Daqui nasce como da vista de Eva a ruína original do mundo não só nas consciências e almas particulares mas muito mais no comum dos estados e das repúblicas Caiu a mais florente e bemfundada república que houve no mundo qual era antigamente a dos hebreus fundada governada assistida defendida pelo mesmo Deus E qual vos parece que foi a origem ou causa principal de sua ruína Não foi outra senão a cegueira dos que tinham por oficio ser olhos da república E não porque fossem olhos de tal maneira cegos que não vissem mas porque viam trocadamente uma coisa por outra e em vez de verem o que era viam o que não era Assim o lamentou o profeta Jeremias nas lágrimas que chorou em tempo do cativeiro de Babilônia sobre a destruição e ruína de Jerusalém Prophetae tui viderunt tibi falsa19 Os olhos daquela república que não só tinham por ofício ver o presente senão também o futuro eram os profetas que por isso se chamavam videntes E diz Jeremias à enganada e já desenganada Jerusalém que os seus profetas lhe viam as coisas falsas Prophetae tui viderunt tibi falsa Notai muito a palavra viderunt Se dissera que profetizavam ou pregavam ou aconselhavam ou finalmente diziam coisas falsas bem estava mas dizer que as viam viderunt tibi Se as coisas eram falsas não eram e se não eram como as viam Porque essa era a cegueira dos olhos da triste república olhos que não viam o que era e viam o que não era nem havia de ser Os profetas verdadeiros viam o que era os profetas falsos viam o que não era e porque a cega república se deixou governar por estes olhos por isso se perdeu Jeremias profeta verdadeiro dizia que se sujeitassem a Nabucodonosor porque se assim o não fizessem havia de tomar segunda vez sobre Jerusalém e destruíla de todo Pelo contrário Ananias profeta falso pregava e prometia que Nabuco não havia de tornar antes havia de restituir os vasos sagrados do templo que tinha saqueado Jer 28 E porque estes oráculos falsos como mais plausíveis foram os cridos foi Jerusalém de todo destruída e assolada e as relíquias de sua ruína levadas a Babilônia Miquéias profeta verdadeiro consultado sobre a guerra de Ramot Galaad disse que via o exército de Israel derramado pelos campos como ovelhas sem pastor 3 Rs 22 Pelo contrário Sedecias com outros quatrocentos profetas falsos persuadiam à guerra e asseguravam a vitória E porque elrei Acab quis antes seguir a falsidade lisonjeira de muitos que a verdade provada e conhecida de um posto que entrou na batalha sem coroa e disfarçado para não ser conhecido um só tiro de uma seta perdida matou o rei desbaratou o exército e sentenciou a vitória pelos inimigos Assim viram Miquéias e Jeremias o que havia de ser e os demais o que não foi para que abram os olhos os príncipes e vejam quais são os olhos por cuja vista se guiam Guiemse pelos olhos dos poucos que vêem as coisas como são e não pelos dos muitos e cegos que vêem uma coisa por outra Viderunt tibi falsa Mas como pode ser para que demos a razão desta segunda cegueira como a demos da primeira como pode ser que haja homens tão cegos que com os olhos abertos não vejam as coisas como são Dirá alguém que este engano de vista procede da ignorância O rústico porque é ignorante vê que a lua é maior que as estrelas mas o filósofo porque é sábio e mede as quantidades pelas distâncias vê que as estrelas são maiores que a lua O rústico porque é ignorante vê que o céu é azul mas o filósofo porque é sábio e distingue o verdadeiro do aparente vê que aquilo que parece céu azul nem é azul nem é céu O rústico porque é ignorante vê muita variedade de cores no que ele chama arcodavelha mas o filósofo porque é sábio e conhece que até a luz engana quando se dobra vê que ali não há cores senão enganos corados e ilusões da vista E se a ignorância erra tanto olhando para o céu que será se olhar para a terra Eu não pretendo negar à ignorância os seus erros mas os que do céu abaixo padecem comumente os olhos dos homens e com que fazem padecer a muitos digo que não são da ignorância senão da paixão A paixão é a que erra a paixão a que os engana a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras E esta é a verdadeira razão ou sem razão de uma tão notável cegueira Os olhos vêem pelo coração e assim como quem vê por vidros de diversas cores todas as coisas lhe parecem daquela cor assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações Tinham os moabitas assentado os seus arraiais defronte a fronte com os de Josafá e Jorão reis de Israel e Judá e vendo ao amanhecer que por entre eles corria uma ribeira julgaram que a água ferida dos raios do sol era sangue e persuadiramse que os dois reis amigos por alguma súbita discórdia tinham voltado as armas um contra o outro Dixerunt sanguis gladii est pugnaverunt reges contra se et caesi sunt mutuo20 Caído da graça de elrei Assuero seu grande valido Amã e condenado à morte lançouse aos pés da rainha Ester no trono onde estava pedindo perdão e misericórdia e como Assuero o visse naquela postura foi tal o juízo que formou e tão alheio de sua própria honra que não há palavras decentes com que se possa declarar Etiam reginam vult opprimere me praesente21 Corria fortuna a barca de S Pedro no Mar de Tiberíades derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrêla Viramno os apóstolos e então tiveram o naufrágio por certo e se deram por totalmente perdidos julgando diz o texto que era algum fantasma Putaverunt phantasma esse Mc 6 49 Voltemos agora sobre estes três casos tão notáveis e saibamos a causa de tantos desenganos da vista Os apóstolos Assuero os moabitas todos estavam com os olhos abertos todos viram o que viam e todos julgaram uma coisa por outra Pois se os apóstolos viam a Cristo como julgavam que era fantasma Se Assuero viu a Amã em ato de pedir misericórdia como julgou que lhe fazia adultério Se os moabitas viam a água da ribeira como julgaram que era sangue Porque assim confundem e trocam as espécies da vista os olhos perturbados com alguma paixão Os apóstolos estavam perturbados com a paixão do temor Assuero com a paixão da ira os moabitas com a paixão do ódio e da vingança e como os moabitas desejavam verter o sangue dos dois exércitos inimigos a água lhes parecia sangue como Assuero queria tirar a vida a Amã a contrição lhe parecia pecado como os apóstolos estavam medrosos com o perigo o remédio e o mesmo Cristo lhes parecia fantasma Fiaivos lá de olhos que vêem com paixão As paixões do coração humano como as divide e enumera Aristóteles são onze mas todas elas se reduzem a duas capitais amor e ódio E estes dois afetos cegos são os dois pólos em que se revolve o mundo por isso tão malgovernado Eles são os que pesam os merecimentos eles os que qualificam as ações eles os que avaliam as prendas eles os que repartem as fortunas Eles são os que enfeitam ou descompõem eles os que fazem eu aniquilam eles os que pintam ou despintam os objetos dando e tirando a seu arbítrio a cor a figura a medida e ainda o mesmo ser e substância sem outra distinção ou juízo que aborrecer ou amar Se os olhos vêem com amor o corvo é branco se com ódio o cisne é negro se com amor o demônio é formoso se com ódio o anjo é feio se com amor o pigmeu é gigante se com ódio o gigante é pigmeu se com amor o que não é tem ser se com ódio o que tem ser e é bem que seja não é nem será jamais Por isso se vêem com perpétuo clamor da justiça os indignos levantados e as dignidades abatidas os talentos ociosos e as incapacidades com mando a ignorância graduada e a ciência sem honra a fraqueza com bastão e o valor posto a um canto o vício sobre os altares e a virtude sem culto os milagres acusados e os milagrosos réus Pode haver maior violência da razão Pode haver maior escândalo da natureza Pode haver maior perdição da república Pois tudo isto é o que faz e desfaz a paixão dos olhos humanos cegos quando se fecham e cegos quando se abrem cegos quando amam e cegos quando aborrecem cegos quando aprovam e cegos quando condenam cegos quando não vêem e quando vêem muito mais cegos Ut videntes caeci fiant V Terceira espécie de cegueira causada pela presunção a dos cegos que vendo o demais só a sua cegueira não vêem A parábola do cego que guiava a outro cego Repreensão de S João ao bispo de Laodicéia Harpastes a criada de Sêneca A queda do velho Tobias e a de nossos primeiros pais A cega presunção dos escribas e fariseus A cegueira de Longuinhos e a presunção de ofício Temos chegado posto que tarde à cegueira da terceira espécie na qual estavam confirmados os escribas e fariseus porque sendo tão cegos como temos visto não viam nem conheciam a sua própria cegueira O cego que conhece a sua cegueira não é de todo cego porque quando menos vê o que lhe falta o último extremo da cegueira é padecêla e não a conhecer Tal era o estado mais que cego destes homens dos quais disse agudamente Orígenes que chegaram a perder o sentido da cegueira Caecitatis sensu carentes A natureza quando tira o sentido da vista deixa o sentido da cegueira para que o cego se ajude dos olhos alheios Porém os escribas e fariseus estavam tão pagos dos seus e tão rematadamente cegos que não só tinham perdido o sentido da vista senão também o sentido da cegueira o da vista porque não viam o da cegueira porque a não viam Argüiuos Cristo hoje tacitamente dela e eles que entenderam o remoque responderam Nunquid et nos caeci sumos Jo 940 Porventura somos nós também cegos Como se disseram Os outros são os cegos porém nós que somos os olhos da república nós que somos as sentinelas da casa de Davi nós que temos por ofício vigiar sobre a observância da fé e da lei só nós temos luz só nós temos vista só nós somos os que vemos Mas por isso mesmo era maior a sua cegueira que todas as cegueiras e eles mais cegos que todos os cegos porque não pode haver maior cegueira nem mais cega que ser um homem cego e cuidar que o não é Introduz Cristo em uma parábola um cego que ia guiando a outro cego Si caeco ducatum praestet22 O que ia guiado era cego o que ia guiando também era cego Mas qual destes dois cegos vos parece que era mais cego o guia ou o guiado Muito mais cego era o guia porque o cego que se deixava guiar via e conhecia que era cego mas o que se fez guia do outro tão fora estava de ver e conhecer que era cego que cuidava que podia emprestar olhos O primeiro era cego uma vez o segundo duas vezes cego uma vez porque o era outra vez porque o não conhecia São João no seu Apocalipse escreve uma carta de repreensão ao bispo de Laodicéia e diz nela assim Nescis quia miser es et miserabilis et caecus Não sabes que és miserável e miserável e cego Que lhe chame miserável porque era cego bem clara está a miséria mas por que lhe chama não só uma senão duas vezes miserável Miser et miserabilis Chamalhe duas vezes miserável porque era duas vezes cego uma vez cego porque o era e outra vez cego porque o não conhecia O mesmo evangelista o disse Nescis quia miser es et miserabilis et caecus Notai o nescis era uma vez cego porque o era caecus era outra vez cego porque o não conhecia nescis E porque era duas vezes cego era duas vezes miserável miser et miserabilis Ser cego era miséria porque era cegueira mas ser cego e não o conhecer era miséria dobrada porque era cegueira dobrada A primeira cegueira tiravalhe a vista das outras coisas a segunda cegueira tiravalhe a vista da mesma cegueira e por isso era cego sobre cego e miserável sobre miserável Miser et miserabilis et caecus Oh quantos miseráveis sobre miseráveis e quantos cegos sobre cegos há como este no mundo Refere Sêneca um caso notável sucedido na sua família e diz a seu discípulo Lucílio que lhe contará uma coisa incrível mas verdadeira Incredibilem tibi narro rem sed veram Tinha uma criada chamada Harpastes a qual sendo fátua de seu nascimento perdeu subitamente a vista Haec fatua subito desiit videre E que vos parece que fazia Harpastes cega e sem juízo Aqui entra a coisa incrível Nescit esse se caecam era cega e não o sabia Paedagogum suum rogat ut migret quando o que tinha cuidado dela lhe dava a mão para a guiar lançavao de si Ait domum tenebrosam esse dizia que estava a casa às escuras que abrissem as janelas e as janelas que tinha fechadas não eram as da casa eram as dos olhos Pode haver cegueira mais fátua e mais digna de riso Pois hás de saber Lucílio diz Sêneca que desta maneira somos todos cegos e fátuos Cegos porque não vemos e fátuos porque não conhecemos a nossa cegueira Hoc quod in ea ridemus omnibus nobis accidere liqueat tibi Não é cegueira a soberba Não é cegueira a inveja Não é cegueira a cobiça Não é cegueira a ambição a pompa o luxo Não é cegueira a lisonja e a mentira Sim Mas a nossa fatuidade é tanta como a de Harpastes que sendo a cegueira e a escuridade nossa atribuímola à casa e dizemos que não se pode viver de outro modo neste mundo e muito menos na corte Nemo aliter Romae potest vivere23 Se somos cegos por que o não conhecemos Isac era cego mas conhecia a sua cegueira por isto tocou as mãos de Jacó para suprir a falta da vista como tato O mendigo de Jericó era cego mas conhecia que o era por isso a esmola que pediu a Cristo não foi outra senão a da vista Domine ut videam24 Como havemos nós de suprir as nossas cegueiras ou como lhes havemos de buscar remédio se as não conhecemos Pois por certo que não nos faltam experiências muito claras e muito caras para as conhecer se não fôramos cegos sobre cegos Olhai para as vossas quedas e vereis as vossas cegueiras Quando Tobias ouviu que vinha chegando seu filho de cuja vinda e vida já quase desesperava foi tal o seu alvoroço que levantandose remeteu a correr para o ir encontrar e receber nos braços Tende mão velho enganado Não vedes que sois cego Não vedes que não podeis andar por vós mesmo quanto mais correr Não vedes que podeis cair e que pode ser tal a queda que funeste um dia tão alegre e entristeça todo este prazer vosso e de vossa casa Assim foi em parte porque a poucos passos titubantes e malseguros tropeçou Tobias e deu consigo em terra Consurgens caecus pater ejus caepit offendens pedibus currere et pralapsus est diz o texto grego25 Levantado porém em braços alheios deu a mão o cego já menos cego a um criado e com este arrimo sem novo risco chegou a receber o filho Et data manu puero occurrit filio suo De maneira que o alvoroço a alegria súbita e o amor cegaram de tal sorte a Tobias que não viu nem reparou na sua cegueira porém depois que caiu a mesma queda o fez conhecer que era cego e que como cego se devia pôr nas mãos de quem o sustentasse e guiasse Todas as coisas se vêem com os olhos abertos e só a própria cegueira se pode ver com eles fechados Mas quando ela é tão cega que não se vê a si mesma as quedas lhe abrem os olhos para que se veja Caíram os primeiros pais tão cegamente como vimos e quando se lhes abriram os olhos para verem a sua cegueira Depois que se viram caídos Et aperti sunt oculi amborum26 O apetite os cegou e a caída lhes abriu os olhos Que filho há de Adão que não seja cego E que cego que não tenha caído uma e muitas vezes E que não bastem tantas caídas e recaídas para conhecermos a nossa cegueira Se caís em tantos tropeços quantas são as vaidades e loucuras do mundo por que não acabais de cair em que sois cego e por que não buscais quem vos levante e vos guie Só vos digo que se derdes a mão para isso a algum criado como fez Tobias que seja tão seguro criado e de tão boa vista que saiba por onde põe os pés e que vos possa guiar e suster E quando ainda assim lhe derdes a mão adverti que não seja tanta que se cegue também ele com a vossa graça e vos leve a maiores precipícios Mas já é tempo que demos a razão desta última cegueira como das demais Parece coisa incrível e impossível que um cego não conheça que é cego Mas como já temos visto que há muitos cegos desta espécie resta saber a causa de tão estranha e tão cega cegueira Se algum cego pudera haver que se não conhecesse era o nosso cego do Evangelho porque era cego de seu nascimento e quem não conhece a vista não é muito que não conhecesse a cegueira Ele porém é certo que a conhecia e nós falamos de cegos com os olhos abertos que sabem o que é ver e não ver Qual é logo ou qual pode ser a causa por que estes cegos se ceguem tanto com a sua cegueira e que a não conheçam Outros darão outras causas que para errar há muitas A que eu tenho por certa e infalível é a muita presunção dos mesmos cegos A causa da primeira cegueira como vimos é a desatenção a da segunda a paixão e a desta terceira e maior de todas a presunção Nos mesmos escribas e fariseus temos a prova Deles disse Cristo noutra ocasião a seus discípulos Sinite eos caeci sunt et duces caecorum Mt 1514 Deixaios que são cegos e guias de cegos Mas por isso mesmo é bem que nós os não deixemos agora Se eram cegos e não viam como eram ou se faziam guias de cegos Porque tanta como isto era a sua presunção Para um cego guiar cegos é necessário que tenha dois conhecimentos contrários um com que conheça os outros por cegos e outro com que conheça ou tenha para si que ele o não é E tal era a presunção dos escribas e fariseus Nos outros conheciam que a cegueira era cegueira em si estimavam que a sua cegueira era vista Por isso sendo tão cegos como os outros cegos em vez de buscarem guias para si faziamse guias dos outros e se vendiam por tais Se víssemos que um cego andasse apregoando e vendendo olhos não seria riso das gentes e da mesma natureza Pois essa era a farsa que representava nos tribunais de Jerusalém a cegueira e presunção daqueles gravíssimos ministros e esse era o altíssimo conceito que eles tinham dos seus olhos Toupeiras com presunção de linces Ainda passou muito avante esta presunção no caso de hoje O cego depois que Cristo o alumiou ficou um lince na vista e as toupeiras queriam guiar o lince Que um cego queira guiar outro cego e uma toupeira outra toupeira cegueira é muito presumida mas que as toupeiras quisessem guiar o lince e os cegos dar lições de ver a quem tinha olhos e olhos milagrosos foi a mais louca presunção que podia caber em todas as cegueiras Todo o intento hoje dos escribas e fariseus e todas as diligências e instâncias com que perseguiam o cego alumiado e com que o queriam persuadir que agora estava mais cego que dantes eram a fim de o apartarem da luz e conhecimento de Cristo e o tirarem e trazerem à sua errada opinião Ele dizia Scimus quia peccatores Deus non audit Eles diziam Nos scimus quia hic homo peccator est27 E sendo estas duas proposições tão encontradas toda a diferença por que condenavam a ciência do cego e canonizavam a sua era serem eles os que diziam Nos scimus Aquele nós tão presumido e tantas vezes inculcado nesta demanda era todo o fundamento da sua censura Nós o dizemos e tudo o mais é ignorância e erro Nós como se não houvera nós cegos e como se não fora certo o que eles já tinham inferido Nunquid et nos caeci sumus28 O homem dos olhos milagrosos confutavaos confundiaos e tomavaos às mãos e eles porque não sabiam responder aos argumentos tornavamse contra o argumentante e fixados no seu nós diziam mui inchados Et tu doce nos E quem és tu para nos ensinar a nós Eu perguntara a estes grandes letrados E quem sois vós para não aprender dele Ele arrazoa vivamente vós não dais razão ele prova o que diz vós falais e não provais ele convence com o milagre que Cristo é santo vós blasfemais que é pecador ele demonstra com evidência quem é ele vós buscais testemunhas falsas que digam que é outro ele é uma águia que fita os olhos no sol vós sois aves noturnas que cegais com a luz ele enfim é lince e vós toupeiras e no cabo vós tão vãos e tão presumidos que cuidais que vedes mais com a vossa cegueira do que ele com os seus olhos Viuse jamais presunção tão cega Só uma acho nas Escrituras semelhante mas também em Jerusalém que só em uma terra onde se crucifica a Cristo se podem criar e sofrer tais monstros Os soldados que guardavam o Calvário tendo ordem que acabassem de matar aos crucificados tanto que viram que Cristo estava já morto passaram adiante Ut viderunt eum iam mortuum non fregerunt ejus crura29 Isto fizeram os soldados que tinham olhos E Longuinhos que era cego que fez Deulhe a Cristo a lançada Quem mete a lança na mão de um cego quer que ele a meta no peito de Cristo Pois se os que tinham olhos viram que Cristo estava já morto o cego por que o quis ainda matar como se estivera vivo Porque sendo cego e tão cego era tão presumido da vista que cuidava que via melhor com os seus olhos fechados que os outros com os olhos abertos Oh quantos Longuinhos há destes no mundo e tão longos e tão estirados e tão presumidos Mas a culpa não é sua senão dos generais Se Longuinhos era cego por que havia de comer praça de soldado Se acaso tinha muitos anos de serviço dêemlhe uma mercearia Já que é cego seja rezador Mas sem olhos e com a lança na mão Sem vista e com a praça aclarada E como não havia de presumir muito dos seus olhos se sendo cego o não reformavam Ele foi muito presumido mas tinha a presunção por si Ouvi a Isaías falando com a mesma República de Jerusalém Speculatores tui caeci omines Is 5610 as tuas sentinelas ó Jerusalém todas são cegas A cidade muito fortificada porque tinha três ordens de muros mas as sentinelas todas tão mal providas que em cada uma punham a vigiar um cego E se o cego se via levantado sobre uma torre e posto numa guarita como não havia de presumir muito da sua vista Eles tinham a presunção por si mas a presunção e o posto não lhes diminuíam a cegueira Os postos não costumam dar vista antes a tiram a quem a tem e tanto mais quanto mais altos Por isso aos escribas e fariseus se lhes foi o lume dos olhos Cegos coma presunção do ofício e porque era ofício de ver muito mais cegos Ut videntes caeci fiant VI Ver sem remediar não é ver vendo é ver sem ver Apelo final à cristandade Oração Esta era a última e mais rematada cegueira dos escribas e fariseus E a nossa qual é Eles eram cegos sobre cegos porque não viam as suas cegueiras e nós acaso vemos as nossas Se as remediamos confessamos que as vemos mas se as não remediamos é certo e certíssimo que as não vemos Ver e não remediar não é ver Apareceu Deus a Moisés naquele disfarce da sarça disselhe quem era e a que vinha e as palavras com que se declarou a divina majestade foram estas Vidi afflictionem populi mei in Aegypto et sciens dolorem ejus descendi ut liberem eum Ex 37 s Vi a aflição do meu povo no Egito e conhecendo o muito que padece venho a libertálo E essa aflição que há tantos anos padece o vosso povo ainda agora a vistes Senhor Sei eu que antes de haver tal povo no mundo revelastes vós ao avô de seu fundador que o mesmo povo havia de peregrinar quatrocentos anos em terras estranhas e que nelas havia de ser cativo e afligido Assim o disse ou predisse Deus a Abraão muito antes do nascimento de Jacó que foi o pai das doze tribos e de todo o povo hebreu cativo no Egito Scito prenoscens quod perigrinum futurum sit semen tuum in terra non sua et subijicient eos servituti et affligent eos quadringentis annis 30 Pois se havia mais de quatrocentos anos que Deus tinha revelado este cativeiro e se desde o primeiro dia em que começou antes desde toda a sua eternidade o estava sempre vendo como diz que agora viu a aflição do seu povo Vidi afflictionem populi mei Diz que agora a viu porque agora a vinha remediar Vidi et descendi ut liberem eum O que se vê e não se remedeia ainda que se esteja vendo quatrocentos anos ainda que se esteja vendo uma eternidade inteira ou não se vê ou se vê como se se não vira Por isso Ana mãe de Samuel falando como mesmo Deus e pedindolhe remédio para outra aflição sua disse Si respiciens videris afflictionem mean 1 Rs 111 Se vendo virdes a minha aflição E que quer dizer se vendo virdes Quer dizer se remediardes porque ver sem remediar não é ver vendo é ver sem ver31 Quem duvida que neste mesmo dia viu Cristo pelas ruas de Jerusalém muitos outros cegos mancos e aleijados que concorrem a pedir esmolas às cortes mas não dizem os evangelistas que os viu porque os não remediou Só dizem que viu este cego a quem remediou e por isso dizem que o viu Vtdit hominem caecum Oh quem me dera ter agora neste auditório a todo o mundo Quem me dera que me ouvira agora Espanha que me ouvira França que me ouvira Alemanha que me ouvira a mesma Roma Príncipes reis imperadores monarcas do mundo vedes a ruína das vossos reinos vedes as aflições e misérias de vossos vassalos vedes as violências vedes as opressões vedes os tributos vedes as pobrezas vedes as fomes vedes as guerras vedes as mortes vedes os cativeiros vedes a assolação de tudo Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Príncipes eclesiásticos grandes maiores supremos e vós ó prelados que estais em seu lugar vedes as calamidades universais e particulares da Igreja vedes os destroços da fé vedes o descaimento da religião vedes o desprezo das leis divinas vedes a irreverência dos lugares sagrados vedes o abusados costumes vedes os pecados públicos vedes os escândalos vedes as simonias vedes os sacrilégios vedes a falta da doutrina sã vedes a condenação e perda de tantas almas dentro e fora da Cristondade Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Ministros da república da justiça da guerra do estado do mar da terra vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado vedes o peso que carrega sobre vossas consciências vedes as desatenções do governo vedes as injustiças vedes os roubos vedes os descaminhos vedes os enredos vedes as dilações vedes os subornos vedes os respeitos vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos vedes as lágrimas dos pobres os clamores e gemidos de todos Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Pais de família que tendes casa mulher filhos criados vedes o desconcerto e descaminho de vossas famílias vedes a vaidade da mulher vedes o pouco recolhimento das filhas vedes a liberdade e más companhias dos filhos vedes a soltura e descamedimento dos criados vedes como vivem vedes o que fazem e o que se atrevem a fazer fiados muitas vezes na vossa dissimulação no vosso consentimento e na sombra do vosso poder Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Finalmente homem cristão de qualquer estado e de qualquer condição que sejas vês a fé e o caráter que recebeste no Batismo vês a obrigação da lei que professas vês o estado em que vives há tantos anos vês os encargos de tua consciência vês as restituições que deves vês a ocasião de que te não apartas vês o perigo de tua alma e de tua salvação vês que estás atualmente em pecado mortal vês que se te toma a morte nesse estado que te condenas sem remédio vês que se te condenas hás de arder no inferno enquanto Deus for Deus e que hás de carecer do mesmo Deus por toda a eternidade Ou vemos tudo isso cristãos ou não o vemos Se o não vemos como somos tão cegos E se o vemos como o não remediamos Fazemos conta de o remediar alguma hora ou não Ninguém haverá tão ímpio tão bárbaro tão blasfemo que diga que não Pois se o havemos de remediar alguma hora quando há de ser esta hora Na hora da morte Na última velhice Essa é a conta que lhe fizeram todos os que estão no inferno e lá estão e estarão para sempre E será bem que façamos nós também a mesma conta e que nos vamos após eles Não não não queiramos tanto mal a nossa alma Pois se algum dia há de ser se algum dia havemos de abrir os olhos se algum dia nos havemos de resolver porque não será neste dia Ah Senhor que não quero persuadir aos homens nem a mim pois somos tão cegos a vós me quero tornar Não olheis Senhor para nossas cegueiras lembraivos dos vossos olhos lembraivos do que eles fizeram hoje em Jerusalém Ao menos um cego saia hoje daqui alumiado Ponde em nós esses olhos piedosos ponde em nós esses olhos misericordiosos ponde em nós esses olhos onipotentes Penetrai e abrandai com eles a dureza destes corações rasgai e alumiai a cegueira destes olhos para que vejam o estado miserável de suas almas para que vejam quanto lhes merece essa Cruz e essas chagas e para que lançandonos todos a vossos pés como hoje fez o cego arrependidos com uma firmíssima resolução de nossos pecados nos façamos dignos de ser alumiados com vossa graça e de vos ver eternamente na glória SERMÃO DE NOSSA SENHORA DE PENHA DE FRANÇA NA SUA IGREJA E CONVENTO DA SAGRADA RELIGIÃO DE SANTO AGOSTINHO Em Lisboa no primeiro dia do tríduo de sua festa com o Santíssimo Sacramento exposto Ano de 1652 Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abraham1 I Na Penha de França reúnemse dois tronos de duas majestades o de Maria e o de Cristo Com digno pensamento Senhor de vossa divina sabedoria e com bem merecida correspondência de vosso amor vemos juntos hoje como antigamente os ajuntou Salomão 3 Rs 219 os dois tronos de ambas as majestades o de vossa santíssima Mãe subida a esta penha e o vosso descido a ela Sobre uma penha diz Jó que havia de fabricar seu ninho a águia que moraria nas rochas mais altas e inacessíveis e que dali contemplaria o corpo morto para voar e se pôr com ele In arduis ponet nidum suum in petris manet et in accessis rupibus inde contemplatur escam et ubicumque fuerit cadaver statim adest2 Que águia que penha e que corpo morto é este senão tudo o que estamos vendo A águia Maria Santíssima a penha Penha de França o corpo morto vosso corpo sacramentado vivo mas em forma de morto Esta águia como a viu Ezequiel é a que vos tirou das entranhas do eterno Padre e vos trasladou às suas3 Ela é a que vestiu vossa divindade deste mesmo corpo e ele o que reciprocamente com sua real presença vem honrar hoje e divinizar a celebridade de sua Mãe e fazer maior este grande dia Para que eu nos arcanos secretíssimos desse mistério e nos que com igual secreto encerra o Evangelho possa descobrir os motivos de nossa obrigação e agradecimento e para que de algum modo alcance a ponderar as mercês tão prodigiosas e tão contínuas que em todas as partes da terra do mar e do mundo deve Portugal a este soberano propiciatório debaixo do glorioso nome de Penha de França por intercessão da mesma Senhora peço e da mesma presença de vossa divina e humana majestade espero aquelas assistências de graça que para tão imenso assunto me é necessária Ave Maria II Sermão sem livro e sem história Na observação final do Evangelho de S João a Águia dos evangelistas a razão pela qual não existe o Livro dos milagres da Penha Santo Agostinho águia entre os doutores negase a escrever o Livro dos Milagres Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abraham Mt 1 1 A primeira palavra que diz o evangelista e a primeira coisa que me oferece o tema é a primeira e a única que me falta neste dia Liber o livro Quando esta sagrada religião me fez a honra de que subisse hoje a este lugar quando me encomendou ou mandou que tomasse por minha conta este sermão como a matéria para todos é tão grande e para mim sobre tão grande era tão nova para ter mais que por fama as notícias e documentos do que havia de dizer deste santuário pedi o livro da sua história e dos seus milagres E que vos parece que me responderiam Esperava eu que me dissessem que eram tantos os volumes que faziam uma livraria inteira Responderamme que não havia livro Não há livro da história e milagres de Nossa Senhora de Penha de França Pois seja esta a matéria do sermão já que me não dão outra Assim o disse assim o venho cumprir Os outros sermões estudamse pelos livros este será sermão sem livro mas não sem estudo Se este caso sucedera em outra parte pudera parecer descuido Mas na religião do pai dos patriarcas Santo Agostinho tão pontual tão advertida tão observante tão ordenada que ela foi a que deu ordem e regras a todas ou quase todas as religiões do mundo claro está que não foi descuido Se sucedera em outra parte pudera parecer menos devoção Mas na religião do serafim da terra Agostinho que deixou por herança a seus filhos o coração abrasado que traz na mão e entre o amor de Jesus e Maria aquela piedosa indiferença Quo me vertam nescio4 claro está que não foi falta de devoção Se sucedera em outra parte pudera parecer menos suficiência Mas na religião da Águia dos doutores Agostinho de cujas asas tirou a Igreja em todas as idades as mais bem cortadas penas com que se ilustra as mais delgadas com que se apura e as mais doutas e copiosas com que se dilata claro está que não é insuficiência Pois se não é insuficiência se não é indevoção se não é descuido por que razão não há livro da história e milagres de Penha de França deste nome deste templo desta imagem deste assombro do mundo a que justamente podemos chamar o maior e mais público teatro da onipotência Sabeis por quê Porque do que não cabe em livros não há livro Toma por empresa S Mateus escrever a vida e ações de Cristo e escreve o seu Evangelho Segue o mesmo exemplo S Marcos e escreve o seu Chegaram às mãos de S Lucas estes dois evangelhos e outros que naquele tempo saíram que a Igreja não admitiu e parecendolhe a S Lucas que todos diziam pouco resolvese a fazer terceiro Evangelho e começa assim falando com Teófilo a quem o dedicou Quoniam multi conati sunt ordinare narrationem quae in nobis completae sunt rerum5 Como se dissera Não vos espanteis ó Teófilo de que eu escreva Evangelho de que eu escreva a história e maravilhas de Cristo depois de o haverem feito quantos sabeis e tendes lido porque todos esses que escreveram ainda que tantos e tanto não chegaram mais que a intentar Quoniam multi conati unt Escreveu enfim o seu Evangelho S Lucas Chegam todos os três Evangelhos às mãos de S João e parecendolhe como verdadeiramente era que lhes faltava muito por dizer resolve o discípulo amado a escrever quarto Evangelho Assim o fez e assentou a pena S João porque esta foi a última obra sua ainda depois do Apocalipse Mas que vos parece que lhe sucederia a S João com o seu Evangelho Leuo depois de o haver escrito e sucedeulhe com o seu o que tinha sucedido com os outros pareceulhe que era muito pouco o que tinha dito em comparação do infinito que lhe ficara por dizer Torna a tomar a pena e acrescenta no fim do seu Evangelho estas duas regras Sunt et alia multa quae fecit Jesus quae si scribantur per singula nec ipsum arbitror mundum capere posse eos qai scribendi sunt libros Jo 2125 Saibam todos os que lerem este livro que nele não estão escritas todas as obras e maravilhas de Cristo nem a menor parte delas porque se todas se houveram de escrever nem em todo o mundo couberam todos os livros Pergunto agora Em que disse mais S João nestas duas últimas regras ou em todo o seu Evangelho Parece a pergunta temerária Ao menos nenhum expositor levantou até agora tal questão Mas responde tácita e admiravelmente a ela aquele que entre todos os expositores na minha opinião é singular o doutíssimo Maldonado Quod dum dicit et se excusat et res Christi magis quodammodo quam si eas perscripsisset amplificat Muito mais disse S João só nestas duas regras últimas do que disse em todo o livro do seu Evangelho e do que dissera em muitos outros seus se os escrevera Notável resolução É possível que disse mais S João nestas duas regras que em todo o seu Evangelho e em um mundo inteiro de livros quando os tivera escrito Sim Porque em todo esse Evangelho e em todos esses livros escrevera S João as maravilhas de Cristo nestas duas regras confessou que se não podiam escrever E muito maior louvor e encarecimento é das coisas grandes confessar que se não podem escrever que escrevêlas O que se escreve ainda que seja muito cabe na pena o que se não pode escrever é maior que tudo o que cabe nela O que se escreve tem número e fim o que se não pode escrever confessase por inumerável e infinito Muito mais disse logo S João no que não escreveu que no que escreveu No que escreveu disse muitas maravilhas de Cristo mas não disse todas no que não escreveu disse todas porque mostrou que eram tantas que se não podiam escrever No que escreveu venceu aos três evangelistas porque disse muito mais que todos eles no que não escreveu venceuse a si mesmo porque disse muito mais do que tinha escrito Daqui se estenderá uma dúvida do texto de Ezequiel em que muitos têm reparado mas a meu ver ainda não está estendido Viu Ezequiel aquele misterioso carro por que tiravam quatro animais um homem um leão uma águia e um boi Todos estes quatro animais tinham asas mas a águia diz o texto que voava sobre todos quatro Desuper ipsorum quatuor Ez 1 10 Dificultosa proposição Se dissera que a águia voava sobre todos os outros três animais claro estava e assim havia de ser naturalmente porque as asas nos outros eram postiças e a águia nascera com elas Vede vós agora um boi com asas como havia de voar Mas porque muitas vezes a águia e o boi andam no mesmo jugo por isso o carro faz tão pouco caminho As asas no leão e no homem ainda que vemos voar tanto a tantos homens vêm a ser quase o mesmo De maneira que voar a águia sobre os outros três animais não é maravilha Mas dizer que voava sobre todos quatro sendo a águia um deles como pode ser A nossa razão nos descobriu este grande mistério Estes animais como dizem conformemente todos os doutores eram os quatro evangelistas as asas eram as penas com que escreveram a águia era S João E diz o profeta que a águia voava não só sobre os outros três senão sobre todos quatro Desuper ipsorum porque assim foi Quando S João escreveu o seu Evangelho voou sobre os três evangelistas porque disse muito mais que eles mas quando no fim do seu Evangelho acrescentou aquelas duas regras em que disse que as maravilhas de Cristo não se podiam escrever voou sobre todos quatro porque voou sobre si mesmo e disse muito mais do que tinha dito De maneira que muita mais voou aquela águia quando encolheu as penas que quando as estendeu Quando estendeu as penas para escrever as coisas de Cristo voou sobre os três evangelistas quando encolheu as penas confessando que se não podiam escrever voou sobre todos quatro porque voou sobre si mesmo Desuper ipsorum quatuor Passemos agora de uma águia a outra águia em sentido também literal porque assim como S João é a águia entre os evangelistas assim Santo Agostinho é a águia entre os doutores Se as penas de Santo Agostinho se estenderam se as penas de Santo Agostinho se aplicaram a escrever a História e milagres de Penha de França muito disseram como elas costumam Mas encolhendose essas penas e confessando que as maravilhas deste prodígio do mundo são tão grandes que se não podem escrever não há dúvida que dizem muito mais Dum se excusat magis res Mariae quam si eas perscripsisset amplifcat Nas matérias grandes o atreverse a escrever é engrandecer a pena não se atrever a escrever é engrandecer a matéria Se as penas da águia Agostinho se atreveram a uma empresa tão grande como reduzir a escritura o número sem número das maravilhas desta Senhora ficaram mui engrandecidas as penas mas não se atrevendo a empreender tal assunto e confessandose desiguais para tão grande empresa fica mais engrandecida a Senhora Aquela mulher vestida do sol e coroada de estrelas que viu S João no Apocalipse diz o texto que lhe deram as asas de uma águia grande para voar Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae utr volaret Apc 12 14 Que mulher é a vestida de sol e coroada de estrelas senão a Virgem Santíssima E que asas são as da grande águia senão as penas os escritores de Santo Agostinho Nas outras ocasiões dãose a esta Senhora as penas daquela águia para voar muito nesta ocasião negamselhe as penas para voar mais E assim é muito mais voa a grandeza desta Senhora encolhendose estas penas e não se atrevendo a escrever suas maravilhas que se todas se empregaram a escrever Quam si eas perscripsisset Este foi o generoso pensamento e a discretíssima advertência com que se não escreveu Livro da História e Milagres de Penha de França sendo mais eloqüente o silêncio do que a escritura em muitos livros III Os milagres da Penha de França não hão mister livros para conservarlhes a memória A Penha de França e a penha de Israel Quem não é sujeito às leis do tempo não há mister a fé das escrituras A razão por que não é necessário que haja livro direi agora e é tão clara e manifesta que por ela por si mesma se está inculcando O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens que ainda é maior tirania Por isso Gilberto chamou os livros reparadores da memória e S Máximo medicina do esquecimento Scriptura memoriae reparatrix est oblivionis medicamentum6 E como os livros foram inventados para conservadores das coisas passadas por isso os milagres de Penha de França não hão mister livros porque são milagres que não passam Esta é uma excelência com que a Virgem Maria quis singularizar os privilégios desta sua casa sobre todas as que tem milagrosas no mundo e sobre todas as que tem nesta cidade Deixemos as do mundo porque fora discurso mui dilatado Vamos às de Lisboa Foi milagrosa em Lisboa a Casa de Nossa Senhora da Natividade mas passaram os milagres da Natividade Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Amparo mas passaram os milagres do Amparo Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Desterro mas passaram os milagres do Desterro Foi milagrosa a Casa da Senhora da Luz mas passaram os milagres da Luz Só a casa de Nossa Senhora de Penha de França foi milagrosa e há de ser milagrosa porque os seus milagres nunca passam e as coisas que não passam nem acabam as coisas que permanecem sempre não hão mister livros Duas leis fez Deus neste mundo uma foi a lei de Moisés outra a de Cristo A lei de Moisés escreveuse que por isso se chama lei escrita a lei de Cristo não se escreveu E por quê A lei de Cristo não é lei mais pura não é lei mais santa não é lei mais estimada e amada de Deus que a lei de Moisés Sim Pois se se escreve a lei de Moisés a lei de Cristo por que se não escreve Porque a lei de Moisés era lei que havia de passar a lei de Cristo era lei que havia de permanecer para sempre e as coisas que passam essas são as que se escrevem as que permanecem não hão mister que se escrevam Escrevamse os milagres da Natividade escrevamse os da Luz escrevamse os do Amparo e do Desterro para que lhes não acabe o tempo as memórias assim como os acabou a eles Os milagres de Penha de França não hão mister a fé das escrituras porque eles são a fé de si mesmos Quem quiser saber os milagres de Penha de França não é necessário que os vá ler no papel venhaos ver com os olhos Esta casa não é milagrosa por papéis não é necessário que se passem certidões onde os milagres não passam Os rios sempre estão a passar e nunca passam Assim são os milagres de Penha de França um rio de milagres Quereis ver este rio e esta penha Pondevos nos desertos do Egito com os filhos de Israel caminhando para a Terra de Promissão Perecendo ali de sede aquele numeroso exército mandou Deus a Moisés que dissesse a uma penha que desse água Loquimini ad petram7 Excedeu Moisés o mandamento deu com a vara na penha mas pagou o excesso tão rigorosamente que o castigou Deus com que não entrasse na Terra de Promissão Para a penha socorrer milagrosamente a necessidade do povo basta dizer lho Loquere Não quer Deus que se cuide que o milagre é de vara quer que se saiba que o milagre e o benefício é da penha E assim foi Saiu a água milagrosa com tanta abundância e com tal continuação que diz S Paulo Bibebant de consequente eos petra 1 Cor 10 4 que bebiam da penha que os ia seguindo E como os ia seguindo a penha Não os seguia movendose do lugar onde estava mas seguiaos com um rio milagroso que dela manava e ia acompanhando o povo e o sarava de todas as enfermidades Non erat infirnus in tribubus eorum8 Na penha brotava a fonte perene e da fonte manava perenemente o rio que corria e socorria a todos E acrescentou logo S Paulo que tudo isto era figura do que depois havia de suceder e bem o vemos Naquele altar está a Penha transplantada de França a Castela e de Castela a Portugal daquela Penha sai a fonte que é a imagem milagrosa da Virgem Maria e daquela fonte nasce o rio de seus milagres e benefícios que não parando nem podendo parar corre perenemente e acode a todas as necessidades do mundo Assim o disse S João Damasceno falando desta Senhora Petra quae sitientibus vitam tribut Penha que a todos os que têm sede dá vida Fons universo orbi medicinam afferens Fonte que é medicina universal para todas as enfermidades do mundo A mesma Senhora o tinha já dito e prometido de si no capítulo oitavo dos Provérbios Qui me invenerit inveniet vitam et hauriet salutem a Domino Prov 8 36 Aquele que me buscar acharmeá e aquele que me achar achará a vida e beberá a saúde Não diz que receberá a saúde senão que a beberá porque beberá do rio dos milagres e da fonte da saúde que sai desta penha Mas vejo que me dizem os mais versados nas Escrituras que os milagres daquela antiga penha não só se escreveram em um livro senão em muitos e pelas três penas mais ilustres de ambos os Testamentos Moisés Davi S Paulo Pois assim como a história e milagres da penha de Israel se escreveram em tão multiplicados livros não seria justo também que se escrevesse a História e Milagres da Penha de França Não Pois que vai muito de penha a penha de rio a rio e de milagres a milagres Ali a penha desfezse o rio secouse e os milagres cessaram e onde o tempo acaba as coisas é bem que as perpetue a memória dos livros Na nossa Penha de França não passa assim A penha é sempre a mesma o rio sempre corre os milagres nunca param e milagres sobre que não tem jurisdição o tempo não hão mister remédios contra o tempo eles são a sua própria escritura eles os anais eles os diários de si mesmos Criou Deus distinguiu e ornou esta formosa máquina do universo em espaço de sete dias E é admirável a pontualidade e exação com que Moisés dia por dia escreveu as criaturas e obras de cada um Divisit lucem a tenebris et factum est dies unus Fiat firmamentum in medio aquarum et factum est dies secundus Germinet terra herbam virentem et factum est dies tertius9 E assim dos mais De maneira que fez Moisés um diário exatíssimo de todas as obras da criação As obras de conservação isto é da Providência com que Deus conserva e governa o universo em nada são inferiores às da criação nem no poder nem na sabedoria nem na majestade e grandeza Pois se Moisés escreveu as obras da criação e compôs um diário tão diligente de todas elas por que razão nem ele nem outro escritor sagrado escreveu as obras da conservação havendo nestas tanto concurso de causas e tanta variedade de efeitos tanta contrariedade com tanta harmonia tanta mudança com tanta estabilidade tanta confusão com tanta ordem e tantas outras circunstâncias de sabedoria de poder de providência tão novas e tão admiráveis A razão é porque as obras da criação pararam e cessaram ao sétimo dia Requievit die septimo et cessavit ab universo opere quod patrarat10 Pelo contrário as obras da conservação continuam sempre desde o princípio continuam e hão de continuar até o fim do mundo Pater meus usque modo operatur et ego operor11 E as obras que passaram e pararam era bem que se escrevesse história e ainda diário delas porém as obras que não acabam que perseveram que continuam e se vão sucedendo sempre não necessitam de história nem de memória nem de escritura porque elas são uma perpétua história e um continuado diário de si mesmas Que bem o disse Davi Caeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat firmamentum Dies diei eructat verbum12 Essa revolução dos céus esse curso dos planetas essa ordem do firmamento que outra coisa fazem continuamente senão anunciar ao mundo as obras maravilhosas de Deus E que coisa são os mesmos dias que se vão sucedendo senão uns historiadores mudos e uns cronistas diligentíssimos dessas mesmas obras que não por anais senão por diários perpétuos as estão publicando Dies diei eructat verbum Tais são as maravilhas de Penha de França Se passaram e cessaram e houvera algum sábado como aquele da criação em que constasse que tinham parado então seria bem que se escrevessem mas como não param nem cessam como aqui se vê e consta todos os sábados em que se resumem os milagres daquela semana não é necessário que se escrevam nem se historiem porque a sua história é a mesma continuação e os seus diários os mesmos dias Dies diei eructat verbum os milagres de hoje são o instrumento autêntico dos milagres de ontem e os milagres de amanhã dos milagres de hoje e assim como se vão sucedendo os dias se vão também testemunhando uns aos outros lendo a vista sem escritura o que na escritura havia de crer a memória Os gregos em um dos seus hinos com elogio singular chamaram à Virgem Maria diário da divina Onipotência Diarium unicum Domini creaturas Diário único do Senhor das criaturas13 Mas em nenhum lugar em nenhum trono de quantos esta Senhora tem no mundo se pode insculpir com mais razão este titulo que no pé daquela Penha Diário porque as suas maravilhas são de cada dia único porque só nelas não tem jurisdição o tempo Qual vos parece que é o maior milagre de Penha de França É não ter jurisdição o tempo sobre os seus milagres Não há poder maior no mundo que o do tempo tudo sujeita tudo muda tudo acaba Não só tem poder o tempo sobre a natureza mas até sobre as coisas sobrenaturais tem poder que é o que mais me admira Os milagres são coisas sobrenaturais e não lhes vale o ser superiores à natureza para não serem sujeitos ao tempo Grandes milagres foram os da serpente do deserto todos os enfermos de qualquer enfer midade que olhavam para ela saravam logo Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a serpente Grandes milagres foram os da vara de Moisés ela foi o instrumento com que se obraram todos os prodígios do Egito contra Faraó Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a vara Grandes foram os milagres da capa de Elias em virtude dela sustentava Eliseu os vivos sarava os enfermos e ressuscitava os mortos Andou o tempo e acabaram os milagres e mais acapa Grandes milagres foram os da Arca do Testamento diante dela tornavam atrás os rios caíam os muros despedaçavam se os ídolos e morriam subitamente os que se lhe atreviam Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a Arca Finalmente foram grandes e maiores que grandes os milagres da primitiva Igreja em que todos os que se batizavam falavam todas as línguas curavam de todas as enfermidades lançavam os demônios domavam as serpentes e bebiam sem lesão os venenos Passou o tempo cresceu a Igreja e como já não eram necessários para fundar a fé cessaram aqueles milagres De sorte que sobre todos os milagres teve jurisdição o tempo E que só sobre os milagres de Penha de França não tenha jurisdição Grande milagre Os outros acabam com o tempo os milagres de Penha de França crescem com o tempo O maior encarecimento do tempo é que tem poder até sobre as penhas o maior louvor daquela Penha é que tem poder até sobre o tempo E se os livros são remédio contra o tempo quem não é sujeito às leis do tempo não há mister livros IV Quais os livros da História e Milagres da Penha de França O primeiro é o Evangelho do dia Significação mística e historial da genealogia da Virgem Significação mística das gerações da Senhora Estas são as razões que se me ofereceram de não haver livro da história e milagres de Nossa Senhora da Penha de França e de não ser necessário que o houvesse suposta a resposta que me deram de que o não havia Mas com licença vossa e de todos eu não o suponho nem o entendo assim senão muito pelo contrário Digo que não só há livro senão livros da história e milagres desta casa E qual é o livro e quais são os livros Agora o ouvireis daime atenção O primeiro livro de Penha de França é o Evangelho que ali se leu Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abrabam Mt 11 Poiso livro da geração de Jesus Cristo Filho de Davi e Filho de Abraão é o livro da história e milagres de Penha de França Sim Todo este Evangelho de S Mateus desde a primeira até a última palavra está cheio daquela variedade e multidão de nomes que ouvistes Abraão Isac Jacó Jessé Davi Salomão etc Comentando estes nomes diz S João Crisóstomo estas palavras Causa quidem et ratione providentiaque Dei posita sunt haec nomina qua autem causa et ratione posita sint vere ipsi scierunt qui posuerunt et Deus cujus providentia ponebantur Nos vero quid intelligere possumus in nominibus ipsis hoc loquimur Todos aqueles nomes foram escritos neste Evangelho com grande causa e grande mistério mas qual seja a causa e qual o mistério só o sabem aqueles que os escreveram e Deus por cuja providência foram mandados escrever Nós os interpretamos conforme o que podemos entender Isto diz S João Crisóstomo e o mesmo diz Santo Anselmo e outros Padres De maneira que cada nome deste Evangelho tem duas significações uma historial e outra mística A significação historial significa pessoas a significação mística significa coisas As pessoas que se significam na significação historial são os progenitores da Virgem Maria as coisas que se significam na significação mística são as graças da mesma Senhora Os progenitores dizem o que a Senhora recebeu dos homens que é o sangue e nobreza dos patriarcas as graças dizem o que os homens recebem da Senhora que são os favores e benefícios com que enche a todo o gênero humano De sorte que ditou o Espírito Santo este primeiro capítulo de S Mateus com tal mistério e artifício que lido por fora quanto aos nomes é livro de gerações de pais e avós Liber generationis construído por dentro quanto às significações é livro de graças de favores de benefícios de remédios Admiravelmente o disse a mesma Senhora naquelas palavras do Eclesiástico que a Igreja lhe aplica In me est omnis gratia viae et virtutis transite ad me omnes qui concupiscitis me et a generationibus meis implemini Eclo 24 26 Em mim há todas as graças e todas as virtudes vinde a mim todos os que as desejais e enchervosei de minhas gerações Notáveis palavras e muito mais notável a conseqüência delas Em mim há todas as graças vinde a mim e enchervosei de minhas gerações Que conseqüência é esta Muito grande à vista desse livro Diz que se encham de suas gerações todos os que desejam suas graças porque as suas graças estão depositadas dentro das suas gerações As gerações da Senhora são todos os seus progenitores que se contam neste livro Liber generationis Mt 12 Abraão é uma geração Abraham genuit Isaac Isac é outra geração Isac genuit Jacob e assim dos mais E como debaixo de cada geração destas e de cada nome destes progenitores se contém uma particular graça e uma particular virtude com que a mesma Senhora nos socorre e remedeia por isso diz altíssimamente que todos os que desejam suas graças se venham encher de suas gerações In me est omnis gratia venite ad me et a generationibus meis implemini A glosa interlineal explicou o modo como isto é com uma comparação de grande propriedade Hic liber est apotheca gratiarum in quo omnis anima quidquid necesse habet inveniet Sabeis como é este livro diz a glosa é como uma botica de remédios sobrenaturais onde todos os homens acham tudo o de que têm necessidade para seus males14 A comparação pudera ser mais levantada mas não pode ser mais própria Que é o que tem uma botica por fora e por dentro Por fora não aparecem mais que uns títulos de nomes gregos e arábicos e por dentro debaixo deles estão os remédios com que se curam todas as enfermidades O mesmo passa neste Liber generationis de S Mateus Por fora não se vê mais que estes nomes de patriarcas uns hebraicos outros siríacos mas por dentro debaixo deles está a sua significação que contém os remédios miraculosos com que a Senhora acode a todos os males do gênero humano Ora ide comigo e vereis toda a história e milagres de Penha de França escritos neste livro Caístes enfermo em uma cama experimentastes os remédios da arte sem proveito socorrestesvos à Virgem de Penha de França fizesteslhe um voto e no mesmo ponto vos achastes com perfeita saúde Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo no livro de seus milagres Genuit josiam Josias id est salus Domini Saúde de Deus Mt 110 Foi a enfermidade que padecestes mortal desconfiaramvos os médicos recebestes os últimos sacramentos não fizestes vós oração à Virgem de Penha de França porque já não podíeis mas fizeramna os que vos assistiam e vos sustentavam a candeia na mão subitamente melhorastes tomastes da morte à vida e pendurastes ali a vossa mortalha Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo no livro dos seus milagres Genuit Eliacim Eliacim id est Dei ressurrectio Mt 113 Ressurreição obrada por Deus Estáveis todo entrevado com os membros tolhidos e entorpecidos não vos podíeis mover nem dar um passo mandastesvos trazer em ombros alheios a esta casa Pedistes com grande confiança à Virgem de Penha de França que usasse convosco de suas misericórdias no mesmo ponto tomastes para vossa casa por vossos pés e pendurastes em memória as vossas muletas Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Ezechiam Ezechias id est confortatio Domini Mt 19 Confortação do Senhor Fezvos Deus mercê de vos dar abundância de bens com que sustentar uma casa muito honrada mas não vos deu filhos com que a perpetuar Viestes a Nossa Senhora de Penha de França fizestes uma novena e acabados os nove dias de vossa devoção não tardaram os nove meses que não tivésseis sucessor para vossa casa Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Filii Abraham Abraham id es pater multarum gentium Mt 11 Pai de muita descendência Havendo muitos anos que sendo casada vivíeis como viúva e vossos filhos como órfãos porque o pai fez uma viagem para as conquistas e nunca mais houve novas dele Tomastes por devoção vir aos sábados à Penha de França ou rezar o rosário em vossa casa que às vezes é a devoção mais segura e quando menos o esperáveis vedes entrar o pai dos vossos órfãos pela porta dentro Que foi isto Milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Abiam Abias id est pater veniens hic Mt 1 7 este é o pai que veio Caístes em pobreza vistesvos com trabalhos e misérias e com a casa cheia de obrigações e de bocas a que matar a fome não houve diligência que não fizésseis não houve indústria que não experimentásseis todas sem proveito Acolhestesvos por última esperança à sombra desta casa que cobre e sustenta a tantos pobres e sem saber donde nem por onde achastesvos com remédio e com descanso Que foi isto Milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Naasson Naasson refectio et requies Domini Mt 1 4 Refeição e descanso dado por Deus Fostes tão desgraçado que vos foi necessário pleitear para viver quiseramvos tirar a vossa fazenda com demandas com calúnias com falsos testemunhos e violências andastes tantos anos arrastado por tribunais cada vez a vossa justiça mais escura e vós mais desesperado apelastes finalmente para o tribunal de Penha de França e fezvos Deus a justiça que nos homens não acháveis Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Josaphat id est Deus judex Mt 1 8 Deus feito juiz por vós Éreis um moço louco e cego andáveis enredado nos labirintos do amor profano que vos prendiam o alvedrio que vos destruíam a vida e vos levavam ao inferno Vivíeis sem lembrança da morte nem da honra nem da salvação Oh valhame Deus Quantos milagres eram necessários para vos arrancar daquele miserável estado Era necessário apartar porque a ocasião era próxima era necessário esquecer porque a lembrança era contínua era necessário ver porque os olhos estavam cegos era necessário aborrecer porque o apetite estava entregue era necessário confessar porque a consciência estava perdida era necessário perseverar por que a recaída não fosse mais arriscada Todos estes milagres havíeis mister que todos são necessários a quem vive em semelhante estado e por isso saem dele tão poucos Enfim fizestesvos devoto da Virgem de Penha de França oferecesteslhe um coração todo de cera e todo de mármore que tal era o vosso de mármore para com Deus de cera para com o mundo E quando vós mesmo cuidáveis que seria impossível haver nunca mudança em vós achastes que o mármore se abrandou que a cera se endureceu e que o vosso coração se trocou totalmente Que foi isto Foram milagres daquela Senhora Ledeos todos no livro de seus milagres Era necessário apartar Genuit Phares Phares id est divisio apartamento Era necessário esquecer Genuit Manassem Manasses id est oblivio esquecimento Era necessário ver Genuit Obet ex Ruth Ruth id est videns o que vê Era necessário aborrecer Genuit Zaram de Thamar Thamar id est amaritudo aborrecimento Era necessário confessar Genuit Judam Judas id est confessio confissão Era necessário perseverar Genuit Achas Achas id est firmamentum Domini Firmeza dada por Deus Finalmente todos os milagres que a Senhora faz que são todos os que pede a necessidade e o desejo todos estão escritos naquele seu livro Andáveis afligido e angustiado acudistes à Virgem de Penha de França e achastes refrigério e alívio Jess refrigerium Andáveis triste e desconsolado pusestes o vosso coração nas mãos da Virgem de Penha de França e tomastes com consolação e alegria Isaac risus Andáveis confuso sem vos saber resolver recorrestes à Virgem de Penha de França e livrouvos da confusão Zorobabel alienus a confusione Andáveis em guerra e dissensões tomastes por medianeira a Virgem de Penha de França e pôsvos em paz Salomon pacificus Tínheis inimigos e não sabíeis de quem vos havíeis de guardar tomastes uma carta de seguro da devoção da Virgem de Penha de França e prevenistes todos os perigos Hefron jaculum videns Sois tentado chamastes pela Virgem de Penha de França em vossas tentações e deuvos fortaleza para lutar animosamente contra o demônio Jacob luctator Sois soldado pedistes socorro à Virgem de Penha de França no conflito e deuvos valor com que vencer ao inimigo Booz praevalens Sois conselheiro recorrestes à Virgem de Penha de França e deuvos luz e prudência para acertar Salmon omnia discernis Sois mercador encomendastes as vossas encomendas à Virgem de Penha de França e recebestes em tomo com grandes aumentos Joseph argmentum Sois mareante chamastes pela Virgem de Penha de França nas tempestades e reconheceram as ondas a virtude daquele sagrado nome Maria domina maris Enfim que o primeiro livro da História e Milagres de Nossa Senhora de Penha de França é o nosso Evangelho Liber generationis V O segundo livro da História e Milagres da Penha de França o Santíssimo Sacramento do altar O livro e o Sacramento O livro misterioso do profeta Ezequiel e o memorial de que fala o profeta Davi A Casa de Penha de França Sacramento com as cortinas corridas O segundo livro desta história e milagres qual vos parece que será Também o não havemos de ir buscar fora de casa É o Santíssimo Sacramento do altar Bem dizia eu logo que os milagres desta casa não só têm livro senão livros Apareceu ao profeta Ezequiel um braço com um livro na mão e disselhe uma voz Comede volumen istud Ez 31 Ezequiel come este livro Abriu a boca Ezequiel comeu o livro e sucedeulhe uma coisa notável Porque quando o tomou na boca sentiu um sabor depois que o levou para baixo experimentou outro Admirável livro Admirável manjar que nem parece manjar nem livro Livro não porque os livros não se comem e este comiase Manjar não porque o manjar tem um só sabor e este na boca e este tinha dois sabores um exterior quando se tomou na boca e outro interior quando se passou ao peito Pois manjar que tem dois sabores manjar que se come com a boca e com o coração manjar que sabe de uma maneira aos sentidos e de outra ao interior da alma que manjar é nem pode ser este senão o Santíssimo Sacramento Por isso o profeta quando lhe disseram que o comesse não o comeu comungou não o tomou primeiro com a mão como se faz ao que se come mas abriu a boca com grande reverência e recebeuo A cerimônia o modo e os efeitos tudo é de sacramento não se pode negar Mas a figura não o parece Comede volumen istud Que tem que ver o livro com o Sacramento Agora o vereis O livro é a mais perfeita imagem de seu autor tão perfeita que não se distingue dele nem tem outro nome o livro visto por fora não mostra nada por dentro está cheio de mistérios o livro se se imprimem muitos volumes tanto tem um como todos e não tem mais todos que um o livro está juntamente em Roma na Índia e em Lisboa e é o mesmo o livro sendo o mesmo para todos uns percebem dele muito outros pouco outros nada cada um conforme a sua capacidade o livro é um mudo que fala um surdo que responde um cego que guia um morto que vive e não tendo ação em si mesmo move os ânimos e causa grandes efeitos Quem há que não reconheça em todas estas propriedades o Santíssimo Sacramento do altar Livro é e livro com grande propriedade Comede volumen istud Mas de que matéria trata este livro Disse o profeta Davi bem claramente Memoriam fecit mirabilium suorum misericors et miserator Dominus escam dedit timentibus se15 Sabeis que o livro é este soberano manjar que Deus dá aos que o temem É o livro das memórias dos milagres da misericórdia de Deus E quais são os milagres da misericórdia de Deus pergunto eu agora senão os que se obram nesta casa Que lugar há no mundo onde Deus se mostre mais misericordioso e onde sua misericórdia seja mais milagrosa que neste Ali estão os milagres e as misericórdias fechadas aqui estão os milagres e as misericórdias patentes Que cuidais que é a Casa de Penha de França com as suas maravilhas É o Sacramento com as cortinas corridas Se Deus correra as cortinas àquele mistério e nos abrira aquele livro divino havíamos de ler ali o que aqui vemos Ali estão os milagres de Penha de França encobertos aqui estão os milagres do Sacramento desencerrados Ali as paredes cobrem os milagres aqui os milagres cobrem as paredes Os milagres e inscrições de que estas paredes ordinariamente estão armadas que imaginais que são São as folhas daquele livro desencadernadas Viu S João no Apocalipse um livro que não se achou nunca quem o pudesse abrir no mundo até que o abriu Cristo Apc 51 Assim esteve fechado tantos centos de anos aquele livro do Diviníssimo Sacramento até que o abriu a Virgem de Penha de França O que ali se lê é o que aqui se vê o que ali cremos é o que aqui experimentamos Nas outras igrejas é o Sacramento mistério da fé aqui é desengano dos sentidos Se os sentidos aqui vêem tantos milagres que muito é que a fé creia ali tantos milagres Cantese nas outras igrejas Praestet fides supplementum sensuum defectui Supra a fé o defeito dos sentidos Em Penha de França cantese ao contrário Praestet sensus supplementum fidei defectui supramos sentidos o defeito da fé se porventura o houvesse Se os sentidos vêem os milagres por que os há de duvidar a fé e ainda a infidelidade O milagre em que mais tropeça e embaraça a infidelidade no Divino Sacramento é sendo Cristo um estar em tão diferentes lugares E quantos olhos há no mundo que podem testemunhar de vista este milagre na Senhora de Penha de França Vedes entrar por aquela porta um homem carregado de grilhões e de cadeias e levá las ao pé daquele altar e se lhe perguntais a causa diz que estando nas masmorras de Argel ou Tetuão lhe apareceu aquela mesma Senhora de Penha de França a que se encomendava e que em sinal da liberdade que lhe deu lhe vem oferecer as mesmas cadeias Vereis entrar por aquela porta o indiático e oferecer ricos ornamentos a este templo porque pelejando na Índia contra os aquéns ou contra os rumes invocou a Virgem de Penha de França que sendo vista diante do nosso exército pelos mesmos inimigos as suas balas nos caíam aos pés e as suas setas se convertiam contra eles Vereis entrar por aquela porta uma procissão de homens descalços com aspecto mais de ressuscitados que de vivos e dir vosão que se vêm prostrar por terra diante daquela Senhora porque vendose comidos do mar chamaram pela Virgem de Penha de França e logo a viram no ar entre as suas antenas e cessou num momento a tempestade De maneira que a Senhora de Penha de França como se debaixo dos acidentes deste glorioso nome se sacramentara também por amor de nós sendo uma só está em Lisboa está em Argel está na Índia está em todas as partes do mar e da terra onde a invocamos Vemme ao pensamento neste passo que as palavras da invocação ou têm ou participam a mesma virtude das palavras da consagração A virtude das palavras da con sagração é tão poderosa que em se pronunciando as palavras logo Cristo ali está presente Tal é a virtude das palavras da invocação Ouvi a Isaías Invocabis et Dominus exaudiet clamabis et dicet Ecce assum Is 589 Invocarmeeis e chamareis por mim e no mesmo ponto serei presente Assim o faz a Virgem piedosíssima a todos os que a invocam em todas as partes do mundo Cristo presente em toda a parte pelas palavras com que o sacerdote consagra a hóstia Maria presente em toda a parte pelas palavras com que o necessitado a invoca S Gregório Taumaturgo chamou a esta Senhora Omnium miracalorum officina Oficina de todos os milagres E como estes dois livros de milagres foram impressos na mesma oficina não é muito que sejam semelhantes nos mesmos caracteres Só com esta diferença por não dizer vantagem que no Sacramento está a oficina e o livro cerrado em Penha de França está a oficina e o livro aberto excedendo nesta parte ao Livro Gerado o Livro da Geração Liber generationis VI As enfermidades espirituais os mancos de Elias os cegos de Isaías os surdos de Davi e os mortos do Apocalipse e de S Mateus O sepulcro de Cristo e a Penha de França Ora senhores já que estamos na casa dos milagres e no dia em que a Senhora de Penha de França deve estar mais liberal que nunca de seus favores e misericórdias o que importa e o que Deus e a mesma Senhora quer é que nenhum de nós hoje se vá desta igreja sem o seu milagre Nenhum de nós há tão perfeitamente são que não tenha alguma enfermidade e muitas de que sarar Quantos estão hoje nesta igreja mancos e aleijados Quantos cegos quantos surdos quantos entrevados e o pior de tudo quantos mortos Quereis saber quem são os mancos Ouvi a Elias Usquequo claudicatis in duas partes 3 Rs 1821 Até quando povo errado hás de manquejar para duas partes adorando juntamente a Deus e mais a Baal Quantos há debaixo do nome de cristãos que dobram um joelho a Deus e outro ao ídolo Perguntaio a vossas torpes adorações Os que fazem isto são os mancos Quereis saber quais são os cegos Não são aqueles que não vêem são aqueles que vendo e tendo os olhos abertos obram como se não viram Excaeca cor populi hujus diz Isaías ut videntes non videant16 Vemos que todo este mundo é vaidade que a vida é um sonho que tudo passa que tudo acaba e que nós havemos de acabar primeiro que tudo e vivemos como se fôramos imortais ou não houvera eternidade Que reis saber quem são os surdos São aqueles de quem disse Davi Aures habent et non audient Terão ouvidos e não ouvirão SI 113 6 Não ouvir por não ter ouvidos não é grande miséria mas ter ouvidos para não ouvir é a maior enfermidade de todas Nenhuma coisa me desconsola e está desconsolando tanto como verme ouvir O que vai ao entendimento ouvilo com grande atenção e satisfação e com maior aplauso do que merece o que vai à vontade e mais importa ou não lhe dais ouvidos ou vos não soa bem neles Quanto temo que é evidente sinal da reprovação Propterea vos non auditis quia ex Deo non estis17 Estes são os surdos Quereis finalmente saber quem são os mortos São aqueles de quem disse S João Nomen habes quod vivus et mortuus es18 e aqueles de quem disse Cristo Sinite mortuos sepelire mortuos suos19 Os mortos são todos aqueles que estão em pecado mortal Haverá algum morto ou alguma morta nesta igreja Ainda mal porque tantos e tantas Vede quanto pior morte é o pecado que a mesma morte Os homens temos três vidas vida corporal vida espiritual vida eterna A morte tira somente a vida corporal o pecado tira a vida eterna e também tira a corporal porque do pecado nasceu a morte Per peccatum mors Rom 512 Todas as mortes quantas há quantas houve e quantas há de haver foram causadas de um só pecado de Adão e não bastando todas para o pagar foi necessário que o mesmo Deus morresse para satisfazer por ele A morte mata o corpo que é mortal o pecado mata a alma que é imortal e morte que mata o imortal vede que morte será Os estragos que faz a morte no corpo consomeos em poucos dias a terra os estragos que faz o pecado na alma não basta uma eternidade para os consumir no fogo E sendo sobre todo o excesso de comparação tanto mais para temer a morte da alma que a morte do corpo e tendo mais para amar e para estimar a vida espiritual e eterna que a vida temporal em que fé e em que juízo cabe que pela vida e saúde do corpo se façam tão extraordinários extremos e que da vida e saúde da alma se faça tão pouco caso Verdadeiramente senhores que quando considero no que aqui estamos vendo não há coisa para mim no mundo tão temerosa como o mesmo concurso e devoção desta casa e ainda os mesmos milagres dela Oh se ouvíramos os brados que nos estão dando à consciência estas paredes Queixamse de nós com Deus e queixamse de nós conosco e cada voto cada milagre dos que aqui se vêem pendurados é um brado é um pregão do céu contra o nosso descuido É possível estão bradando estas paredes é possível que faz tantos milagres Deus por nos dar a saúde e vida temporal e que os homens não queiram fazer o que Deus lhes manda sendo tão fácil para alcançar a saúde espiritual e a vida eterna É possível que esteja Deus empenhando toda a sua onipotência em vos dar a vida do corpo e vós que estejais empregando todas as vossas potências em perder a vida da alma Dizeime em que empregais a vossa memória Em que empregais o vosso entendimento Em que empregais a vossa vontade e todos os vossos sentidos senão em coisas que vos apartam da salvação É possível tornam a bradar contra nós estas paredes e a argumentarnos a nós conosco mesmos é possível que havemos de fazer tanto pela saúde e pela vida temporal e que pela saúde da alma e pela vida eterna não queremos fazer coisa alguma Se adoeceis se estais em perigo tanto acudir àqueles altares tantos votos tantas missas tantas romarias tantas novenas tantas promessas tantas ofertas gastese o que se gastar percase o que se perder empenhese o que se empenhar e pela saúde da alma pela vida eterna como se tal coisa não houvera nem se crerá Vede o que diz Santo Agostinho Si tantum ut aliquanto plus vivatur quanto magis ut sempre vivatur Se tanto se faz para viver um pouco mais quanto mais se deve fazer para viver sempre Pois desenganaivos que por mais que não façais caso da outra vida ela há de durar eternamente e por mais que façais tanto caso desta vida ela há de acabar e em mui poucos dias Uma vez escapareis da morte e pendurareis a mortalha em Penha de França mas alfim há de vir dia em que a morte vos não há de perdoar e em que vós não pendurareis a mortalha mas ela vos leve à sepultura Lázaro ressuscitou uma vez valeulhe Maria mas depois morreu alfim como os demais O que importa é tratar daquela vida que há de durar para sempre e procurar sarar a alma se está enferma e sobretudo ressuscitála se está morta Cristo para ressuscitar escolheu uma sepultura aberta em uma penha ln monumento quod erat excisum in petra Mac 15 46 e ressuscitou ao terceiro dia Tudo aqui temos a penha os três dias e o ressuscitador Ego sum ressurrectio et vita20 Já que a alma está morta sepultese naquela penha para que ressuscite Ó alma infelizmente morta e felizmente sepultada se ali sepultares de uma vez e para sempre tudo o que te mata Tu ressuscitarás e ressuscitarás se quiseres neste mesmo momento Que felicidade a nossa e que glória daquela Senhora e de seu sacramentado Filho se todos os que hoje entraram em Penha de França mortos saíssem ressuscitados Não ama ao Filho nem é verdadeiro devoto da Mãe quem assim o não fizer Não guardemos o ressuscitar para o terceiro dia nem para o segundo que não sabemos o dia nem a hora Cristo ressuscitou ao terceiro dia para provar a verdade da sua morte os mortos que então ressuscitaram ressuscitaram logo e no primeiro momento dos três dias para provar a eficácia da virtude de Cristo Não é esta a matéria em que se hajam de perder momentos porque pode ser que seja esta a última inspiração e este aquele último momento de que pende a eternidade Ouçam estas vozes do céu os que hoje aqui vieram surdos abram os olhos e vejam seu perigo os que vieram cegos tornem por outro caminho e com outros passos os que vieram mancos e todos levem vivas e ressuscitadas as almas que trouxeram mortas deixando em Penha de França por memória deste dia cada um a sua mortalha Estes são os mais gloriosos troféus com que se podem ornar estas miraculosas paredes E este o FINIS de maior louvor de Deus e de sua Mãe com que devemos cerrar um e outro livro pois é o fim que só nos há de levar à vida sem fim SERMÃO NO SÁBADO QUARTO DA QUARESMA EM LISBOA ANO DE 1652 Hoc autem dicebant tentantes eum ut possent accusare eum1 I Cristo tentado pelos homens no caso da mulher adúltera Outra vez quem tal imaginara outra vez tentado a Cristo Não há que fiar em vitórias A mais estabelecida paz é trégua Quando cessam batalhas então se fabricam as máquinas A máquina da tentação que hoje temos é admirável juntamente e formidável e não foi o maquinador nem o tentador o demônio foram os homens Destes tentadores e destas tentações hei de tratar Ouçamos primeiro o caso Tal dia ou tal noite como a deste dia diz S João que foi Cristo orar no Monte Olivete Sabia que havia de ser tentado foise armar para a batalha com a oração Em Cristo foi exemplo em nós é necessidade Não tem armas a fraqueza humana se as não pede a Deus Até aqui não houve perigo Do monte e muito de madrugada veio o Senhor ao Templo a pregar como costumava E diz o evangelista que concorreu todo o povo a ouvilo Et omnis populus venit ad eum Jo 82 Tanto concurso pregador divino Já temo que vos hão de tentar Veio o povo todo àquela hora porque os que não são povo não madrugam tanto põeselhes o sol à meianoite e amanhecelhes ao meiodia Estava o Senhor ensinando diz o texto quando chegaram os escribas e fariseus a perguntar um caso Traziam uma pobre mulher atada e disseram assim Magister haec mulier modo deprehensa est in adulterio Jo 8 4 Esta mulher nesta mesma hora foi achada em adultério Esta mulher E o cúmplice Foram dois os pecadores e é uma só a culpada Sempre a justiça é zelosa contra os que podem menos Moisés dizem manda na lei que os que cometerem adultério sejam apedrejados e vós Mestre que dizeis Os escribas e fariseus eram os doutores daquele tempo Bem me parecia a mim que quando os doutos e presumidos perguntam não é para saber senão para tentar Assim o diz o evangelista nas palavras que propus Hoc autem dicebant tentantes eum Em que consistiu a tentação e onde estava armado o laço diremos depois E que respondeu o Senhor Levantouse da cadeira sem falar palavra e inclinandose inclinans se Alvíssaras pecadora enxuga as lágrimas Cristo começa inclinandose Tu sairás perdoada porque a sua inclinação não é de condenar Deus nos livre de juízes inclinados se não são Deus Aonde vai a inclinação lá vai a sentença Não quis o Senhor responder por palavra quiçá por que lhas não trocassem respondeu por escrito Digito scribebat in terra Escrevia com o dedo na terra Ibid 6 Não vos espanteis que no templo lajeado de mármores houvesse terra literalmente porque era muito o concurso e pouco o cuidado moralmente porque não há lugar tão santo e tão sagrado ainda que seja a mesma igreja em que não haja terra O que Cristo escrevesse não se sabe de certo Entendem comumente os Padres que foram os pecados dos acusadores Que acuse o homicida ao homicida o ladrão ao ladrão o adúltero ao adúltero Homem acusate a ti olha que quando acusas os pecados alheios te condenas nos próprios Assim sucedeu Depois que o Senhor escreveu o processo não da acusada senão dos acusadores levantouse e não lhes disse mais que estas palavras Qui sine pecato est vestrum primus in ilíam lapidem mittat Ibid 7 Aquele de vós que se achar sem pecado seja o primeiro que atire as pedras Aqui me lembram as de S Jerônimo As pedras que traziam aparelhadas contra a delinqüente converteuas cada um contra o peito e os que tinham entrado tão zelosos começaram a se sair confusos Saíramse porque entraram na própria consciência E nota o evangelista que os que saíram primeiro foram os mais velhos Incipientes a senioribus Ibid 9 Miserável condição da vida humana Quantos mais anos mais culpas Todos se devem arrepender das suas mas com mais razão e mais depressa os que estão mais perto da conta Ficou só Cristo e a delinqüente isto é a misericórdia e a miséria Perguntoulhe Onde estão os que te acusam Condenoute alguém Nemo Doinine Ibid 11 Ninguém senhor Pois se ninguém te condena nem eu te condenarei vaite e não peques mais Este foi o fim da história admirável na justiça admirável na misericórdia admirável na sabedoria admirável na onipotência A lei ficou em pé os acusadores confusos a delinqüente perdoada e Cristo livre dos que o vieram tentar Esta tentação como dizia será a matéria do nosso discurso Peçamos a graça a quem a dá tão facilmente até aos que a não merecem Ave Maria II Antes de tratar com os homens Cristo convive com os animais e é tentado pelo demônio Hoc autem dicebant tentantes eum Que os homens sejam maiores inimigos que os demônios é verdade que eu tenho muito averiguada Busque cada um os exemplos em si e achálosá por agora bastenos a todos o de Cristo Depois de trinta anos de retiro houve Cristo de sair a tratar com os homens ou a lidar com eles E porque não basta ciência sem experiência nem há vitória sem batalha nem se peleja bem sem exercício antes de entrar nesta tão perigosa campanha quisse exercitar primeiro com outros inimigos Partese o Senhor depois de batizado ao desterro e diz S Marcos que estava e vivia ali com as feras Eratque cum bestiis Mc 113 Passados assim quarenta dias seguiramse as tentações do demônio Et accedens tentator Mt 43 tentado Cristo no mesmo deserto tentado no templo tentado no monte E depois destas duas experiências então finalmente saiu e apareceu no mundo e começou a tratar com os homens Exinde caepit praedicare Ibid 17 Não sei se reparastes na ordem destes ensaios Parece que primeiro se havia de exercitar o Senhor com os homens como racionais e humanos depois com as feras como irracionais e indômitas e ultimamente com os demônios como tão desumanos tão cruéis e tão horrendos Mas não foi assim senão ao contrário Primeiro com as feras depois com o demônio e ultimamente com os homens E por quê Porque o exercício e ensaio há de ser do menor inimigo para o maior e os homens não só são inimigos mais feros que as feras senão mais diabólicos que os mesmos demônios Vedeo na experiência Que aconteceu a Cristo com as feras com o demônio e com os homens As feras nem lhe quiseram fazer mal nem lho fizeram o demônio quislhe fazer mal mas não lho fez os homens quiseramlhe fazer mal e fizeramlho Olhai para aquela cruz As feras não o comeram o demônio não o despenhou os que lhe tiraram a vida foram os homens Julgai se são piores inimigos que o demônio Do demônio defendeisvos com a cruz os homens põemvos nela De maneira que não há dúvida que os homens são piores inimigos que os demônios A minha dúvida hoje é se são piores tentadores Hoc autem dicebant tentantes eum Os demônios tentam os homens tentam o demônio tentou a Cristo os homens tentaram a Cristo quais são os maiores e piores tentadores os homens ou os demônios A questão é muito alta e muito útil e para que não gastemos o tempo em esperar pela conclusão digo que comparada como se deve comparar astúcia com astúcia pertinácia com pertinácia e tentação com tentação piores tentadores são os homens que os demônios Comecemos pelo Evangelho com o qual também havemos de continuar e acabar III Os homens piores inimigos que os demônios As tentações do demônio vencemse com um sim ou um não as tentações dos homens são como os laços de que fala Isaías escondidos debaixo de pedras Sutileza de Pedro ao responder aos cobradores do tributo Hoc autem dicebant tentates eum Vieram os escribas e fariseus como dizíamos ao Templo que contra o ódio e a inveja humana não lhe vale sagrado à inocência Presentaram diante de Cristo a adúltera tomada em flagrante delito e alegaram o texto que é do capítulo vinte do Levítico em que a lei mandava que fosse apedrejada Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare2 Pois se a lei era expressa e o delito notório se no caso não havia dúvida de feito nem de direito por que não executam eles a lei Se é delinqüente castiguemna se a pena é de morte tiremlhe a vida se o gênero da pena são pedras apedrejemna levemna ao campo e não ao Templo E se aguardam a sentença requeiramna aos juízes e não a Cristo Isto era o que pedia a justiça o zelo e a razão Mas não o fizeram assim diz o evangelista porque o seu intento não era castigar a acusada senão acusar a Cristo Ut possent accusare eum Traziam uma acusação para levar outra Vede a maldade mais que infernal e a astúcia mais que diabólica O demônio no juízo universal e no particular háme de acusar a toim para me condenar a mim e hávos de acusar a vós para vos condenar a vós porém estes tentadores não só acusavam um para condenar outro mas acusavam a pecadora para condenar o justo acusavam a delin qüente para condenar o inocente Mas como havia isto de ser ou como queriam que fosse Como tinham urdido a trama Onde estava armado o laço Onde vinha escondida a tentação Descobriua maravilhosamente Santo Agostinho Ut si diceret non lapidetur adultera injustus convinceretur si diceret lapidetur mansuetus non videretur Ou Cristo havia de dizer que fosse apedrejada a adúltera ou não se dizia que não fosse apedrejada convenciamno de injusto se dizia que a apedrejassem parecia que não era misericordioso E ou faltasse à justiça ou à misericórdia concluíam que não era o Messias Cristo como Deus e humanado era todo mansidão todo benignidade todo misericórdia as suas entranhas e as suas ações todas eram de fazer bem de remediar de consolar e de perdoar de livrar a todos e por isso todos o amavam todos o veneravam todos o aclamavam todos o seguiam que era o que mais lhes doía aos escribas e fariseus Acrescentavase a isto o que o mesmo Senhor dizia de si de seu espírito e das causas que o trouxeram ao mundo Aos discípulos que queriam que descesse fogo do céu sobre os samaritanos disse Filius hominis non venit animas perdere sed salvare Lc 9 56 Que não tinha vindo a matar homens senão a salválos Sobretudo naquele mesmo Templo abrindo o Senhor a Escritura ensinou publicamente que dele se entendia o famoso lugar do capítulo sessenta e um de Isaías Ad annuntiandum mansuetis misit me ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam ut consolarer omnes lugentes Is 61 1s Quer dizer Mandoume Deus ao mundo para curar corações para remediar afligidos para consolar os que choram e dar liberdade e perdão aos que estão presos Parece que tinha o profeta diante dos olhos tudo o que concorria no estado e fortuna desta pobre mulher Assim a apresentaram diante de Cristo presa afligida angustiada chorando irremediavelmente sua miséria e aqui e mais na lei vinha armada a tentação Se diz que não seja apedrejada a adúltera é transgressor da lei se diz o que não dirá que a apedrejem perde a opinião de misericordioso e a estimação do povo e sobretudo contradizse a si mesmo e às escrituras do Messias que interpreta de si Logo ou diga que se execute a lei ou que se não execute ou que seja apedrejada a delinqüente ou que o não seja sempre o temos colhido porque não pode escapar de um laço sem cair no outro A este modo de argüir que é fortíssimo e apertadíssimo chamam os dialéticos dilema ou argumento comuto porque vai nele uma contraditória com tal artifício dividida em duas pontas que se escapais de uma necessariamente haveis de cair na outra Assim investiram hoje a Cristo os escribas e fariseus com Moisés De Moisés diz a Escritura Quod facies ejus esset comuta3 e nesta forma opuseram no campo como no corro contra Cristo Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare Moisés dizem mandounos apedrejar a quem cometesse este delito E para que a lei se porecesse com a testa do legislador ia disposta e dividida em duas pontas tão bem armadas que ou Cristo dissesse sim ou dissesse não se escapasse de uma levavamno na outra De maneira que as pedras de que vinham prevenidos os escribas e fariseus não eram para apedrejar a adúltera senão para que Cristo tropeçasse e caísse nelas no laço que ali lhe tinham armado Deste modo de laços armados em pedras faz elegante menção Isaías no capítulo oitavo Et erit in lapidem offensionis et petram scandali in laqueum et in ruinam Et offendent et cadent et conterentur et irretientur et capientur4 Alude o profeta ao uso dos caçadores daquele tempo os quais armavam as suas redes e laços cercados de pedras para que tropeçando nelas a caça caísse incautamente e ficasse enredada e presa Tal era o laço que os escribas e fariseus traziam hoje armado debaixo das pedras da lei ou da lei das pedras Moyses mandavit hujusmodi lapidare para que tropeçando Cristo nas pedras caísse e o tomassem no laço Lembrados estareis que o demônio no deserto e no pináculo do Templo também armou o laço a Cristo com pedras No deserto Dic ut lapides isti panes fiant5 No pináculo do Templo Ne forte offendas ad lapidem pedem tuum6 Mas com os laços e as tentações porecerem tão semelhantes vede quanto mais astutos tentadores foram os homens que o demônio Da primeira tentação do diabo livrouse Cristo facilmente com um não Non in solo pane vivit homo7 Da segunda tentação livrouse com outro não Non tentabis Dominum Deum tuum8 Porém da tentação que hoje lhe armaram os homens não bastava dizer não para se livrar porque ou dissesse não ou dissesse sim sempre ficava no laço Ou Cristo havia de dizer Sim apedrejai ou havia de dizer Não não apedrejeis Se dizia não ia contra a justiça se dizia sim ia contra a piedade Se dizia não ia contra a lei se dizia sim ia contra si mesmo Se dizia não ofendia o magistrado se dizia sim ofendia o povo De sorte que lhe armaram os paus ou as pedras em tal forma que ou quisesse observar a lei ou não quisesse sempre ficava réu Se se mostra rigoroso falta à piedade se se mostra piedoso falta à justiça e se falta ou à justiça ou à piedade não é Messias Outra tentação semelhante urdiram os mesmos escribas e fariseus contra Cristo sobre o tributo de César quando o Senhor lhes disse Quid me tentatis9 Mandaram juntas duas escolas a sua e a dos herodianos e depois de uma longa prefação de louvores falsos propuseram esta questão Licet censum dare Caesari an non Mt 22 17 Mestre é licito dar o tributo a César ou não Notai a apertura dos termos O que pediam era um sim ou um não é lícito ou não é lícito E por que com tanta formalidade e com tanto aperto O evangelista o disse Ut caperent eum in sermone10 Porque com qualquer destas duas respostas ou Cristo dissesse sim ou dissesse não sempre ficava encravado Se dizia não era contra a regalia do imperador se dizia sim era contra a liberdade e imunidade da nação se dizia não crucificavao César se dizia sim apedrejavao povo E de qualquer modo diziam eles se perde e o temos apanhado e destruído Isto é o que se maquinou e resolveu naquele conselho injusto ímpio e tirânico Consilium inierunt ut caperent eum in sernone11 Houve algum dia demônio que urdisse tal tentação e metesse um homem em tais talas Nem houve tal demônio nunca nem o pode haver porque não há nem pode haver tentação nenhuma do demônio da qual vos não possais livrar facilmente ou com um sim ou com um não Ora vede O demônio sempre arma os seus laços ao pé dos Mandamentos ali só põe a tentação porque só ali pode haver o pecado Virtus peccati lex12 Os mandamentos todos ou são positivos ou negativos e se o demônio me tenta nos Mandamentos positivos basta para me defender um sim se me tenta nos Mandamentos negativos basta para me defender um não Exemplo os Mandamentos positivos como sabeis são Amarás a Deus guardarás as festas honrarás os pais Os negativos são Não jurarás não matarás não furtarás não levantarás falso testemunho e os demais Agora ao posto Se o diabo me tenta nos Mandamentos positivos dizme Não ames a Deus não guardes as festas não honres a teu pai E se eu digo sim resolutamente sim hei de amar sim hei de guardar sim hei de honrar basta este sim para que a tentação fique desvanecida e o diabo frustrado Do mesmo modo nos Mandamentos negativos Diz o demônio que jure que mate que furte que levante falso testemunho E se eu digo não não quero jurar não quero matar não quero furtar basta este não para que o tentador e a tentação fiquem vencidos De maneira que das tentações do demônio basta um sim ou um não para ficar livre mas das tentações dos homens como estas nem basta o sim nem basta o não para me livrar porque vão armadas com tal astúcia e maquinadas com tal arte e tecidas e tramadas com tal enredo que ou digais sim ou digais não sempre ficais no laço Se dizeis que se apedreje a adúltera e que se pague o tributo incorreis no ódio do povo e hãovos de apedrejar a vós se dizeis que se não apedreje nem se pague incorreis no crime da lei e na indignação do César e hãovos de pôr em uma cruz E ainda que o tentado seja Jesus Cristo sempre os tentadores hão de ter um cabo por onde lhe possam pegar e lha possam pegar Ut possent accusare eum Vejo que me perguntais E que remédio padre para escapor de tais tentadores e de tão terríveis tentações Rem difficilem postulasti13 Nenhum teólogo escolástico ou ascético lhe deu até agora remédio Eu direi o que me ocorre Digo que não há outro remédio senão buscar um sim que seja juntamente sim e não ou um não que seja juntamente não e sim Não tenho menos autor para a prova que o príncipe dos apóstolos S Pedro E notai que quando S Pedro deu nesta sutileza ainda estava em Jerusalém e na Judéia para que não cuide alguém que a fineza desta política fosse romana Vieram ter com S Pedro os cobradores de certo tributo imposto por Augusto em que cada um por cabeça pagava duas dracmas e fizeramlhe esta pergunta Magister vester non solvit didrachma Mt 17 23 O vosso mestre não paga o tributo Viuse perplexo e atalhado S Pedro porque não sabia qual fosse a tentação de seu Mestre neste ponto de tanta conseqüência E o que respondeu foi Etiam Sim Agora pergunto eu E este etiam este sim de São Pedro que significava Significava sim e significava não Construí o com a pergunta e vereis se tem correntemente ambos os sentidos Vosso mestre não paga o tributo Sim assim é não paga Vosso mestre não paga o tributo Sim sim paga De sorte que o mesmo sim era sim e não Entendido de um modo era sim porque significava sim paga e entendido de outro modo era não porque significava não paga E com esta equivocação se escapou S Pedro dos tributeiros enquanto seu Mestre não resolvia deixando a porta aberta e cerrada juntamente e o sim aporelhado e indiferente para ser sim ou ser não conforme se resolvesse Cristo tinha ensinado ao mesmo S Pedro e a todos seus discípulos que o seu sim fosse sim e o seu não fosse não Sit sermo vester est est non non14 Mas chegado Pedro a perguntas e metido na tentação foilhe necessário fazer um sim que fosse sim e não juntamente para poder escapor dos homens Isto é o que fez S Pedro naquela ocasião E Cristo que fez no nosso caso que era muito mais apertado Viu que os cordéis com que traziam presa a adúltera eram laços com que o pretendiam atar viu que as pedras da lei que alegavam vinham cheias de fogo por dentro e que ao toque de qualquer resposta sua não só haviam de brotar faíscas mas um incêndio de calúnias viu que suposta à tenção e astúcia dos tentadores tanto se condenava condenando como absolvendo e que um e outro perigo era inevitável que conselho tomaria Não dizer sim nem não era forçoso porque até a Sabedoria infinita quando são tais as tentações dos homens se não pode livrar delas respondendo em próprios termos E como entre não e sim não há meio que meio tomaria Cristo para se livrar de uma tal tentação Agora o veremos IV Para que Cristo se defendesse de três tentações do demônio bastoulhe um só livro das Escrituras para se defender de uma tentação dos homens não lhe bastaram todas as Escrituras foilhe necessário fazer novas Escrituras A escritura de Jesus e as palavras misteriosas do festim de Baltasar Para vencer os homens quis Cristo escrever com seu próprio dedo e na terra Levantouse o divino Mestre da cadeira sem responder palavra Não havia ali outro papel senão a terra inclinase e começa a escrever nela Digito scribebat in terra Esta foi a única vez que sabemos da História Sagrada que Cristo escrevesse de seu punho Mas enquanto Cristo escreve e estes tentadores esperam tomemos ao deserto e às tentações do demônio Tentou o demônio a primeira vez a Cristo e rebate o Senhor a tentação com as palavras do capítulo oitavo do Deuteronômio Non in solo pane vivit homo15 Tentou a segunda vez e foi rebatido com as palavras do capítulo sexto do mesmo livro Non tentabis Dominum Deum tuum16 Instou a terceira vez e terceira vez o lançou Cristo de si com outras palavras do mesmo capítulo Dominum Deus tuum timebis et illi soli servies17 Quem haverá que não se admire à vista destas três tentações e da que temos presente Estes homens eram letrados de profissão eram lidos e versados nas Escrituras e atualmente estavam alegando textos da lei de Moisés Pois se Cristo se defendeu das tentações do demônio com as Escrituras Sagradas e com os textos da mesma lei por que se não defende também destes tentadores com as mesmas Escrituras Mais Resistindo ao demô nio defendeuse Cristo de três tentações com um só livro da Escritura e só com dois capítulos dele Nas Escrituras que então havia que são todas as do Testamento Velho há trinta e nove livros com mais de mil capítulos Pois se Cristo tinha tantas armas tão fortes tão diversas e tão prevenidas por que se não defende com elas desta tentação Aqui vereis quanto mais terríveis tentadores são os homens que o demônio Para Cristo se defender de três tentações do demônio bastoulhe um só livro da Escritura para se defender de uma tentação dos homens não lhe bastaram todas quantas Escrituras havia foilhe necessário fazer escrituras de novo Digito scribebat in terra As Escrituras Sagradas como notou S Gregório são os armazéns de Deus Destas disse Salomão comparandoas à torre de seu pai Davi MilIe clypei pendent ex ea omnis armatura fortium18 E são tais tão novas tão esquisitas e nunca imaginadas pelo demônio as astúcias e máquinas que os homens inventam para tentar que em todos os armazéns de Deus se não acharam armas com que as resistir e foi necessário que a Sabedoria encarnada forjasse outras de novo e se pusesse a compor e a escrever contra estes tentadores Digito scribebat in terra Mas qual foi o efeito desta escritura Agora acabareis de entender quanto mais dura é a pertinácia dos homens quando tentam que a do demônio Escreveu e escrevia a mão onipotente e os tentadores a escritura diante dos olhos nem se rendem nem desistem nem fazem caso dela nem da mão que a escreve ainda instam e apertam que responda à pergunta Cum perseverarent interrogantes19 Oh Escritura Oh Baltasar Oh Babilônia Aporeceram três dedos em uma porede sem mão sem braço sem corpo Digiti quasi manus hominis scribentis20 e com três palavras que escreveram sem saber o que significavam começa Baltasar a tremer de pés e mãos sem cor sem coração sem alento Treme o mais poderoso rei do mundo e quatro homens sem mais poder que a sua malícia não tremem Viam os dedos viam o braço que escrevia sabiam e tinham obrigação de saber pelas maravilhas que obrava e de que eles tanto se doíam que era homem e Deus juntamente e à vista de uma escritura tão larga de sua mão em que se viam processados a si mesmos não tremem nem se movem antes perseveram obstinados a perguntar e tentar Cum perseverarent Digam agora os escribas e fariseus se é o gentio Baltasar ou eles Mas o meu intento não é comparar homens senão homens com o demônio Três circunstâncias porticulares notou o Evangelista nesta ação de Cristo Notou que escrevia e com que escrevia e onde escrevia Digito scribebat in terra Escrevia Cristo e escrevia com o dedo e escrevia na terra E em todas estas circuns tâncias venceram os homens ao demônio na pertinácia de tentadores Primeiramente Scribebat Escrevia E por que quis escrever As mesmas coisas que Cristo escreveu podia dizer em voz e mais facilmente Pois por que as não quis dizer em voz senão por escrito Porque as mesmas palavras divinas têm mais eficácia para vencer as tentações escritas que ditas Na morte de Cristo tentou o demônio aos discípulos na fé da ressurreição e todos ou foram vencidos ou fraquearam na tentação como o mesmo Senhor lhes tinha predito E dando causa desta fraqueza São João diz que foi porque ignoravam as Escrituras da ressurreição Nondum sciebant Scripturam quia oportebat eum a mortuis resurgere21 Contra Evangelista sagrado Cristo tinha dito muitas vezes que havia de ressuscitar e porticularmente o disse ao mesmo S João e a S Pedro e São Tiago no monte Tabor Nemini dixeritis visionem donec Filius hominis a mortuis ressurgat22 Por que escusa logo o evangelista a fraqueza de não resistirem à tentação com a ignorância das Escrituras Porque ainda que as palavras divinas ou ditas ou escritas tenham a mesma autoridade escritas movem mais e têm mais eficácia para resistir às tentações Vedeo no modo com que Cristo resistiu ao demônio em todas as suas Em todas as três tenta ções se defendeu Cristo do demônio com a palavra divina mas não sei se tendes reparado que em todas e em cada uma advertiu que era palavra escrita Na primeira tentação Scriptum est Non in solo pane vivit homo Na segunda Scriptum est Non tentabis Dominum Deum tuum Na terceira Scriptum est Dominum Deum tuum timebis23 Porece que para resistir à tentação e rebater ao demônio bastava referir as sentenças e palavras sagradas por que acrescenta logo o Senhor e deita diante de cada uma delas a declaração de que eram escritas repetindo uma duas e três vezes Scriptum est scriptum est scriptum est Porque sendo palavra de Deus e escritas tinham não só a virtude e eficácia das palavras senão também a das letras Assim como o demônio para encantar e render aos homens põe a eficácia do encanto em certos caracteres diabólicos assim Deus para o encantar e ligar a ele tem posto maior eficácia não só nas palavras sagradas senão também nos caracteres com que são escritas Por isso Cristo neste caso vendo se tão apertadamente tentado dos homens não tardou de se defender deles dizendo senão escrevendo Scribebat Mas se tanta é a força e eficácia de um Scriptum est e Cristo hoje escrevia Scribebat e os seus tentadores o estavam vendo escrever e viam e liam a escritura por que persistem ainda e perseveram na tentação Cum perseverarent Não persiste o demônio e persistem os homens Sim porque o demônio é demônio e os homens são homens e por isso mais teimosos e mais pertinazes tentadores Onde muito se deve advertir a diferença desta escritura de Cristo às Escrituras com que resistiu ao demônio As Escrituras que o Senhor referiu ao demônio eram escrituras gerais feitas a outro intento e para outrem As escrituras que hoje escreveu eram porticulares e escritas somente para os que o estavam tentando e dirigidas ao coração e à consciência de cada um O demônio podia responder que as Escrituras do Deuteronômio eram feitas para os homens e não para os demônios mas bastou serem escrituras de Deus para o demônio ou as reverenciar ou as temer posto que não falassem com ele Os homens pelo contrário falando com todos e com cada um deles a escritura de Cristo nem a reverência os refreia nem a força os quebranta nem a consciência os intimida nem a certeza com que se vêem feridos os rende conti nuam instam e perseveram obstinados Cum perseverarent Que mais Digito Escrevia Cristo com o dedo As Escrituras com que o Senhor rebateu as tentações do demônio não eram escritas com o dedo de Deus Deus só escreveu com o dedo as duas Tábuas da Lei Tabulas scriptas digito Dei24 Os outros textos eram escritos por Moisés com mão humana Mas bastou serem Escrituras Sagradas e canônicas para que o demônio se não atrevesse a lhes resistir Vede se se podia e devia esperar hoje que os tentadores de Cristo se rendessem às suas escrituras pois eram escrituras não só de Deus mas escritas com o seu dedo Digito scribebat Claro está que se haviam de render se os tentadores fossem demônios mas não se renderam porque eram homens Quando os magos de Faraó viram o que obrava a vara de Moisés disseram Digitus Dei est hic Êx 819 Esta obra é do dedo de Deus e logo se deram por vencidos Mas como assim A arte mágica não é arte diabólica Os magos do Egito não eram ministros e instrumentos do demônio Pois como cedem tão prontamente e não se atrevem a resistir ao dedo de Deus Por isso mesmo Se as suas artes foram humanas e eles obraram como homens haviam de teimar e persistir mas como as artes eram diabólicas e eles obravam como ministros do demônio nem eles nem os demônios se atreveram a resistir à força do dedo de Deus Hoje porém vêse o dedo de Deus resistido sendo dedo de Deus não invisível e encoberto em uma vara mas visível vivo e animado porque as artes com que os escribas e fariseus vieram tentar e queriam derrubar a Cristo não eram artes diabólicas senão humanas nem eles demônios mas homens Dos demônios dizia Cristo In digito Dei ejicio daemonia25 Mas esse mesmo dedo de Deus que lançava dos corpos os demônios não lhe bastava agora para lançar de si os homens Os demônios ao menor impulso do dedo de Cristo fugiam os homens contra tantos e tão repetidos impulsos do mesmo dedo quantas eram as letras que escrevia não faziam de si nenhum abalo Os demônios deixavam os homens os homens não deixavam a Cristo os demônios não podiam parar os homens persistiam firmes os demônios desistiam os homens perseveravam Cum perseverarent Que mais In terra Nota finalmente o evangelista que escrevia Cristo na terra E por que na terra Para que os que esquecidos da própria fragilidade acusavam tão rigorosamente uma fraqueza no sexo mais fraco considerassem e advertissem que ela era terra e eles terra E tão própria do caso e tão natural esta consideração que daqui veio a ter para si Cartusiano que as palavras que Cristo escreveu foram estas Terra terram judicat A terra acusa a terra Se os acusadores foram céu não era de estranhar que acusassem a terra mas que a terra acuse a terra Ainda faziam mais estes tentadores A terra acusava a terra para condenar o céu porque acusava a adúltera para condenar a Cristo Pois se a terra muda e por si mesma estava dando brados contra estes acusadores formados da mesma terra agora que já não é muda com as palavras e vozes de Cristo que tem escritas e estampadas em si por que os não confunde por que os não convence por que os não rende Já me canso de dizer porque eram homens E se não tornemos a comparar esta tentação com a do demônio Assim como o elemento do homem é a terra assim o elemento do demônio é a ar Neste ar habitam os demônios neste ar andam neste ar nos tentam e por isso S Paulo lhes chamou potestades do ar Secuadum principem potestatis aeris hujus26 As palavras com que Cristo se defendeu do demônio foram pronunciadas no ar que é incapaz de escritura as com que se quis defender destes homens foram escritas e impressas na terra As palavras pronunciadas passam as escritas permanecem as pronunciadas entram pelos ouvidos as escritas pelos olhos E sendo aquelas só pronunciadas e estas escritas aquelas sucessivas e estas permanentes aquelas ouvidas e estas vistas aquelas breves e poucas e estas muitas e continuadas que isso quer dizer scribebat aquelas formadas no ar bastaram para vencer potestades do ar e estas impressas na terra bastaram para render os homens formados de terra Digito scribebat in terra V Os homens ainda quando desistem são piores tentadores que o demônio As duas espadas dos discípulos do Senhor Por que Cristo escreveu duas vezes Razões de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio A escritura de Cristo e os heresiarcas O demônio como mais sábio não voltou contra Cristo as Escrituras Cristo quando foi tentado preferiu ser tentado pelo demônio a ser tentado pelos homens Assim resistido Cristo e assim rebatida por não dizer afrontada a força de sua mão e da sua escritura que novo meio buscaria a Sabedoria onipotente para se defender de tão pertinazes tentadores Assim como eles perseveraram em tentar assim ele perseverou em escrever porque a pertinácia da tentação só se vence com a constância da resistência E quando os remédios são proporcionados mudálos é perdêlos Torna Cristo a inclinarse e a escrever outra vez Iterum inclinans se digito scribebat in terra E foi tal a eficácia desta segunda escritura que alfim se renderam a ela os que tinham resistido à primeira Então se foram retirando uns após outros mas se vencidos de Cristo na retirada vencedores contudo do demônio na arte da tentação Ainda quando desistem são piores tentadores os homens que o demônio O demônio tentou a Cristo três vezes mas notai que respondendo o Senhor a cada tentação com uma Escritura nunca o demônio esperou a segunda Em o demônio ouvindo uma Escritura calava desistia não resistia nem replicava mudava logo de tentação e ainda de lugar Vencido de Cristo ainda presumia e esperava vencer a Cristo refutado com uma Escritura nunca teve atrevimento para resistir nem esperar outra Escritura E os homens Olhai para eles Os homens porém mais pertinazes mais impudentes mais duros e mais feros tentadores que o mesmo demônio vêem uma vez escrever a Cristo e não se movem vêem e entendem o que escreve e não se rendem É necessário que a Sabedoria divina multiplique Escrituras sobre Escrituras que tendo escrito uma vez torne outra vez a escrever Iterum scribebat não já para persuadir os tentadores mas para se defender e se livrar a si mesmo de suas tentações Na última e mais forte tentação que padeceram os discípulos de Cristo que foi na véspera de sua morte anuncioulhes o divino Mestre que era chegado o tempo em que tinham necessidade de armas E respondendo eles que tinham duas espadas Ecce duo gladii hic Lc 2238 contentouse a Senhor com a prevenção e disselhes que essas bastavam Satis est Todos os Padres e expositores entendem concordemente que falou Cristo neste passo alegórica e metaforicamente e que as espadas com que os apóstolos se haviam de defender eram as Escrituras Sagradas O mesmo tinha declarado muito antes Davi falando dos mesmos apóstolos e das mesmas espadas Et gladii ancipites in manibus eorum ad faciendam vindictam in nationibus increpationes inpopulis27 Sendo pois este o sentido e intento das palavras de Cristo é muito para reparar que destas duas espadas naquele grande conflito se não desembainhasse mais que uma que foi a de S Pedro e que querendo os outros discípulos usar da segunda quando disseram Si percutimus in gladio28 o Senhor lho não permitisse Pois se as espadas eram duas e ambas aceitadas e aprovadas por Cristo como necessárias por que proibiu o Senhor a segunda e não quis que se usasse mais que de uma nesta tentação O mesmo Cristo o disse Haec est hora vestra et potestas tenebrarum29 Esta tentação como aquela em que se empenhou e empregou todo o poder do inferno era tentação do demônio ainda que para ela concorreram também os homens como ministros e instrumentos do mesmo demônio e do mesmo inferno e para as tentações do demônio por mais fortes e poderosas que sejam basta uma só espada isto é uma só Escritura não são necessárias duas Assim bastou uma só Escritura contra a tentação do deserto e uma só contra a tentação do Templo e uma só contra a tentação do monte E como então lhe não foi necessário a Cristo lançar mão da segunda espada por isso também neste conflito não permitiu aos apóstolos que usassem dela porque ainda que a tentação era tão forte e tão apertada era alfim tentação do demônio Haec est hora vestra et potestas tenebrarum Logo a segunda espada que o Senhor não permitiu se desembainhasse era escusada e inútil Não porque essa ficou reservada para as tentações dos homens Assim o experimentou o mesmo Senhor na tentação de hoje em que não lhe bastando uma só escritura contra a pertinácia dos seus tentadores foi forçado a se valer de segunda escritura e escrever outra vez Iterum scribebat E porque esta Segunda espada assim como foi necessária assim bastou para dar fim à batalha por isso o Senhor com o mesmo mistério quando os discípulos lhe disseram que tinham duas espadas respondeu que essas bastavam Satis est porque ainda que contra os homens não bastasse uma só Escritura como basta e bastou para o demônio contudo bastariam duas como finalmente bastaram Ao passo que os segundos caracteres uns após outros se iam formando os tentadores também após outros se iam saindo Unus post unum exibant Jo 89 O que não venceu uma Escritura venceram duas Escrituras Iterum scribebat Mas que direi eu neste passo tirando os olhos dos ministros da Sinagoga e pondoos em muitos que se chamam cristãos Já me não queixa dos escribas e fariseus nem Cristo se podia queixar tanto porque haviam de vir ao mundo tais homens que com sua pertinácia os haviam de fazer menos duros e com as suas tentações menos tentadores Os escribas e fariseus não se renderam às primeiras escrituras do dedo de Cristo mas renderamse às segundas e largaram as pedras Os hereges com nome de cristãos nem às primeiras nem às segundas escrituras se rendem antes das mesmas Escrituras adulteradas que também trazem consigo a adúltera fazem pedras com que atirar a Cristo Santo Agostinho e Santo Ambrósio dizem que escreveu Cristo duas vezes para mostrar que ele era o autor e legislador de ambas as Escrituras das Escrituras do Velho Testamento e das Escrituras do novo e que as primeiras Escrituras foram escritas em pedra porque haviam de ser estéreis as segundas escritas na terra porque haviam de ser fecundas e haviam de dar fruto como alfim deram hoje30 Mas estou vendo Senhor meu que esta terra em que escreveis e escrevestes arada duas vezes pela vossa mão e semeada duas vezes com a vossa palavra em lugar de dar fruto há de produzir espinhos Esta foi a maldição que lançastes a Adão que não só se cumpriu e estendeu mas cresceu e crescerá sempre em seus filhos Os escribas e fariseus foram piores que o demônio Virão homens que sejam piores que os escribas e fariseus O diabo rendeuse a uma Escritura os escribas e fariseus renderamse a duas virão homens que nem a duas Escrituras se rendam e pertinazes contra ambos os Testamentos com ambos vos façam guerra Daime licença para que vos repita a minha dor porte do que está antevendo vossa Sabedoria Escrevestes em ambos os Testamentos a verdade e fé de vossa divindade tão expressa no Testamento Novo e tão convencida por vós mesmo no Velho e virá um Ébion um Cerinto um Paulo Samosateno um Fotino que impudentemente neguem que fostes e sois Deus Escrevestes em ambos os Testamentos e não era necessário que se escrevesse a verdade de vossa humanidade em tudo semelhante à nossa e virá um Maniqueu um Prisciliano um Valentino que contra a evidência dos olhos e das mesmas mãos que a tocaram digam que vossa carne não foi verdadeira senão fantástica celeste e não humana Escrevestes em ambos os Testamentos a unidade de vossa pessoa uma em duas naturezas humana e divina e virá um Nestório que reconhecendo as duas naturezas diga pertinazmente que também houve em vós duas pessoas e um Eutiques e um Dioscoro que confessando a vossa humanidade e a vossa divindade digam que de ambas se formou ou transformou uma só convertendose uma na outra Escrevestes em ambos os Testamentos a perfeição e inteireza de vosso ser humano composto de corpo e alma e virá um Ario e um Apolinar que digam que tivestes somente corpo de homem e que a alma desse corpo era a divindade Escrevestes em ambos os Testamentos e demonstrastes contra os saduceus a fortuna ressurreição nossa e de todos os mortais e virá um Simão Mago um Basilides um Hemineu um Fileto que merecedores de morrer para sempre como os brutos neguem a esperança e a fé da ressurreição Escrevestes em ambos os Testamentos bastando só a experiência a verdade e absoluto domínio do livre alvedrio humano e virá um Bardasanes um Pedro Abailardo e modernamente um Eculampádio e um Male ththon que dizendo uma liberdade tão inaudita neguem que há liberdade Escrevestes em ambos os Testamentos que sem graça não há mérito e que do concurso de vossa graça e do nosso alvedrio procedem as obras dignas e só elas dignas da vida eterna e virá um Pelágio um Celestino um Juliano que impotentemente concedam todo este poder ao alvedrio acrescentando as forças do primeiro benefício com que nos criastes para vos negarem ingratissimamente o maior e segundo com que nos justificais Escrevestes em ambos os Testamentos a necessidade e merecimento das boas obras e virá um Lutero que não só negue serem necessárias as boas obras para a salvação mas se atreva a dizer que todas as boas obras são pecado e pudera acrescentar pecado em que nunca pecou Lutero Assim o ensinaram ele e Calvino aqueles dois monstros mais que infernais do nosso século para tirar do mundo a oração o jejum a esmola a castidade a penitência os sufrágios os sacramentos pregando contra o que Cristo pregou e escrevendo contra o que duas vezes escreveu e formando novas tentações contra o mesmo Cristo das mesmas Escrituras com que ele se defendeu das tentações para que se veja quanto se adiantaram os homens nas artes de tentar e quanto atrás deixaram ao mesmo demônio O demônio vendo na primeira tentação que Cristo se defendia com a Escritura para o tentar pelos mesmos fios alegou na segunda tentação outra Escritura Mas o que é muito para admirar e ainda para reverenciar foi que nem contra o primeiro nem contra o segundo nem contra o terceiro texto alegado por Cristo argüísse nem instasse o demônio uma só palavra O demônio é mais letrado mais teólogo mais filósofo mais agudo e mais sutil que todos os homens Pois se os homens e tantos homens têm argüido tanto e por tantos modos contra umas e outras Escrituras de Cristo antes se atreveram a lhe fazer guerra com elas voltando as mesmas Escrituras contra o mesmo Cristo e interpretandoas não só em sentido falso mas totalmente contrário por que não fez também isto o mesmo demônio Porque era demônio e não homem Porque era demônio tentou como sábio porque não era homem não tentou como néscio e impudente Tentar e argüir e teimar contra a verdade conhecida das Escrituras não é insolência que se ache na maldade do demônio na do homem sim Agora entendereis a energia com que na porábola da cizânia respondeu o pai de famílias Inimicus homo hoc fecit Mt 13 28 O trigo que ele tinha semeado é a doutrina pura e sã das Escrituras Sagradas a cizânia que se semeou sobre o trigo são as falsas interpretações com que se perverte o verdadeiro sentido das mesmas Escrituras E quem é ou foi o autor desta maldade e deste desengano tão pernicioso à seara de Cristo Inimicus homo o inimigo homem Notai Porece que bastava dizer o inimigo mas acrescentou e declarou que esse inimigo era homem para distinguir o inimigohomem do inimigo demônio O demônio é inimigo e grande inimigo porém o inimigodemônio nunca foi tão demônio nem tão inimigo que se atrevesse a voltar contra Cristo as Escrituras que ele alegava por si como se viu em todas as três tentações mas isto que nunca fez o inimigodemônio isto é o que fizeram e fazem os inimigoshomens Inimicus homo hoc fecit Bem sei que alguns santos por este Inimicus homo entenderam o demônio E quando esta inteligência seja verdadeira aí vereis quem são os homens Assim como nós quando queremos encarecer a maldade de um homem lhe chamamos demônio assim Deus quando quis encarecer a maldade do demônio chamoulhe homem Inimicus homo Ao menos eu se houvera de escolher tentador antes havia de querer ser tentado pelo demônio que pelos homens Cristo guiado pelo Espírito Santo escolheu tentador Ductus est a Spiritu ut tentaretur E que tentador escolheu Ut tentaretur a diabolo31 escolheu tentadordiabo e não tentadorhomem O certo é que quando o diabo tentou a Cristo Cristo foi buscar o diabo mas quando os homens hoje tentaram a Cristo os homens o buscaram a ele Tentantes eum ut possent accusare eum32 VI Guardaivos dos homens O diabo anda pelos desertos porque nas cortes os homens lhe tomaram o ofício Guardaivos dos inimigos Saul tenta contra a vida de Davi depois de livre do demônio Guardaivos dos amigos tentações dos três amigos de Jó Sobretudo cada um se guarde de si mesmo Suposto isto senhores suposto que os homens são maiores e piores tentadores que o demônio que havemos de fazer Não é necessário gastar muito tempo em consultar a resolução porque o mesmo Cristo a decidiu e nola deixou expressa e mui recomendada como tão importante Cavete ab hominibus Mt 1017 Guardai vos dos homens Se eu pregasse no deserto a anacoretas dirlhes ia que se guardassem do diabo mas como prego no povoado e a cortesãos digovos que vos guardeis uns dos outros O diabo já não tenta no povoado nem é necessário porque os homens lhe tomaram o ofício e o fazem muito melhor que ele Cristo como pouco há dizíamos quis ser tentado do diabo e foio buscar ao deserto Senhor se quereis ser tentado do demônio por que o não ides buscar à cidade à corte Porque nas cidades e nas cortes já não há demônios E não se saíram por força de exorcismos senão porque o seu talento não tem exercício Se à corte vêem alguns artífices estrangeiros mais insignes e de obra mais prima os oficiais da terra ficam à pá vão se fazer lavradores Assim lhe aconteceu ao demônio Ele era o que tinha por ofício ser tentador mas como sobrevieram os homens mais industriosos mais astutos mais sutis e mais primos na arte ficou o diabo ocioso se tenta por si mesmo é lá a um ermitão solitário onde não há homens por isso se anda pelos desertos onde Cristo o foi buscar Não digo que vos não guardeis do demônio que alguma vez dará cá um salto o que vos digo é que vos guardeis muito mais dos homens e vede se tenho razão Depois que a inveja entiou na alma de Saul indigna mancha de um rei entroulhe também o demônio no corpo Fora causa da inveja a funda de Davi e não havia outro remédio contra aquele demônio senão a sua harpa Vinha Davi tocava a harpa em presença de Saul e deixavao o demônio Fêlo assim uma vez e depois que o demônio se saiu deita mão Saul a uma lança e fez tiro a Davi diz o texto para o pregar com ela a uma porede Que um rei cometesse tal excesso de ingratidão contra um vassalo a quem devia a honra e a coroa não me admira Assim se pagam os serviços que são maiores que todo o prêmio O que me admirou sempre e o que pondera muito S Basílio de Selêucia é que não tentasse Saul esta aleivosia enquanto tinha o demônio no corpo senão depois que se saiu dele Quando Saul tem o demônio no corpo modera a inveja o ódio a fúria e depois que o demônio o deixa agora comete uma traição e uma aleivosia tão enorme Sim agora Porque agora está Saul em si dantes estava o demônio nele dantes obrava como endemoninhado agora obrava como homem Se Saul intentara esta infame ação enquanto estava possuído do demônio havíamos de dizer que obrava o demônio nele mas quis a providência do céu que o não fizesse Saul senão depois que esteve livre para que soubéssemos que obrava como homem e nos guardássemos dos homens mais ainda que do demônio O novum injuriumque facinus exclama Basílio Daemon pellitur et daemone liberatus arma capiebat Daemon vincebatur et hominis mores plus sumebant audaciae Era pior Saul livre do demônio que possuído dele porque possuído obrava pelos impulsos do demônio livre obrava pelos seus pelos de homem Et hominis mores plus sumebant audaciae Por isso o demônio vendo tão feiamente inclinado a Saul se saiu fora envergonhandose que pudesse o mundo cuidar que aquela tentação era sua Oh que bem lhe estivera ao mundo que entrasse o demônio em alguns homens para que fossem menos maus e menos tentadores Compadeçome de Davi honrado valoroso fiel mas enganado com o seu amor e com o seu príncipe Se não sabes ó Davi a quem serves vê ao teu rei no espelho da tua harpa emudecea destemperalhe as cordas fazea em pedaços Enquanto Saul estiver endemoninhado estarás seguro se tornar em si olha por ti Não é Saul homem que queira junto a si tamanho homem Bem provado cuido que está com o horror deste exemplo que nos devemos guardar e recatar dos homens mais ainda que do diabo Mas vejo que me dizeis que Saul era inimigo capitalíssimo de Davi e que dos homens que são inimigos bem é que nos guardemos com toda a cautela porém dos amigos porece que não São eles homens Pois ainda que sejam amigos guardaivos deles e credeme porque os amigos também tentam e de mais perto e se vos tentarem hão de fazer e poder mais que o diabo para vos derrubar Nunca o diabo teve mais ampla jurisdição para tentar com todas suas artes e com todo seu poder que quando tentou a Jó Tentouo na fazenda tirandolha toda em um momento tentouo nos filhos matandolhos todos de um golpe tentouo na própria carne cobrindoo de lepra e câncer e fazendoo todo uma chaga viva E que fez ou que disse Jó Dominus dedid Dominus obstulit sit nomem Domini benedictum33 Paciência humildade resignação na vontade divina graças e mais graças a Deus dando testemunho a mesma Escritura que em todas estas tentações não lhe pôde tirar da boca o demônio uma palavra que não fosse de um ânimo muito constante muito reto muito pio muito timorato muito santo In omnibus his non peccavit Job labiis suis neque stultum ali quid locutus est contra Deum34 Neste estado de tanta miséria e de tanta virtude vieram os amigos de Jó a visitálo e consolálo Eram estes amigos três todos príncipes todos sábios e que todos professavam estreita amizade com Jó Ao princípio estiveram mudos por espaço de sete dias depois falaram e falaram muito E que lhe sucedeu a Jó com estes amigos O que não pôde o diabo com todas as suas tentações Fizeramlhe perder a constância fizeramlhe perder a paciência fizeramlhe perder a conformidade e até a consciência lhe fizeram perder porque se puseram a altercar contra ele e o argüíram e o caluniaram e o aportaram de tal sorte que Jó deixou de ser Jó Não só amaldiçoou a sua vida e a sua fortuna mas ainda em respeito da justiça e da Providência divina disse coisas muito indignas da sabedoria e muito alheias da piedade de um homem santo pelas quais foi asperamente repreendido de Deus O mesmo Jó as confessou depois e se arrependeu e fez penitência delas coberto de cinza Insipienter locutus sum idcirco ipse me reprehendo et ago poenitentiam in favilla et cinere35 Eis aqui quão pouco lustroso saiu das mãos dos homens o espelho da paciência tendo saído das tentações do demônio vencedor glorioso triun fante O demônio era demônio e inimigo os homens eram amigos mas homens e bastou que fossem homens para que tentassem mais fortemente a Jó que o mesmo demônio As tentações do demônio foram para ele coroa e as consolações dos amigos não só tentação mas ruína E se isto fazem amigos sábios zelosos da honra de Deus e da alma de seu amigo como aqueles eram quando o vêm consolar em seus trabalhos que farão amigos perdidos e loucos que só se buscam a si e não a vós que estimam mais a vossa fortuna que a vossa alma e que fazem dela tão pouco caso como da sua Há mais algum homem de quem nos devamos guardar Sim O maior tentador de todos E quem é este Cada um de si mesmo O homem de que mais nos devemos guardar é eu de mim e vós de vós Unusquisque tentatur a concupiscentia sua abstractus et illectus36 Sabeis diz São Tiago Apóstolo quem vos tenta Sabeis quem vos faz cair Vós a vós cada um a si Unusquisque tentatur Nós como filhos de Eva tudo é dizer Serpens decepit me37 Tentoume o diabo enganoume o diabo e vós sois o que vos tentais e vos enganais porque quereis enganarvos O vosso diabo sois vós o vosso apetite a vossa vaidade a vossa ambição o vosso esquecimento de Deus do inferno do céu da alma Guardaivos de vós se vos quereis guardado Pôs Deus a Adão no Paraíso terreal e cuidamos que o pôs naquele lugar tão ameno e deleitoso só para que gozasse suas delícias e todo se regalasse e banhasse nelas sem nenhum outro cuidado Mas vede o que diz o texto Possuit eum in paradiso voluptatis ut operaretur et custodiret illum Gên 215 Pôs diz a Adão no Paraíso para que o cultivasse e guardasse Nesta última palavra reporei sempre muito Ut custodiret illum De quem havia de guardar o Paraíso Adão Dos animais Não porque todos lhe eram obedientes e sujeitos Dos homens Não porque não havia homens Pois se o não havia de guardar dos homens nem dos animais de quem o havia de guardar De quem o não guardou de si mesmo Guardese Adão de Adão e guardará o Paraíso Sois homem Guardaivos desse homem guardaivos do seu entendimento que vos há de enganar guardaivos da sua vontade que vos há de trair guardaivos dos seus olhos e dos seus ouvidos e de todos os seus sentidos que vos hão de entregar Guardouse Davi de Saul e caiu porque se não guardou de Davi Guardouse Sansão dos filisteus e perdeuse porque se não guardou de Sansão Guardese Davi de Davi guardese Sansão de Sansão guardese cada um de si mesmo De todos os homens nos havemos de guardar porque todos tentam mas deste homem mais que de todos porque é o maior tentador Por isso dizia Santo Agostinho como santo como douto e como experimentado Liberet te Deus a te ipso Livrete Deus de ti Cristo livrouse hoje dos homens que o tentaram mas eles não se livraram de si porque quando vieram a tentar já vinham tentados quando vieram a derrubar já vinham caídos Para si e para Cristo homens e por isso contra si e contra Cristo tentadores Tentantes eum VII Cristo o único homem de quem não nos devemos guardar Por que não fugiu a adúltera depois que se afastaram seus acusadores Como a pecadora e a samaritana devemos cada dia ficar um momento só por só com Cristo para que nos convertamos Ninguém me pode negar que é muito verdadeira e muito certa esta doutrina mas porece que eu também não posso negar que é muito triste e mui desconsolada O homem é animal sociável nisso nos distinguimos dos brutos e porece coisa dura que havendo necessariamente um homem de tratar com homens se haja de guardar de todos os homens Não haverá um homem com quem outro homem tratar sem temor sem cautela e sem se guardar dele Sim há E que homem é este Aquele Homem a quem hoje vieram tentar os homens aquele Homem que juntamente é Deus e Homem aquele Homem em quem só achou refúgio e remédio aquela mise rável mulher de quem não se compadeceram e a quem acusavam os homens Argüiu sutilissimamente Santo Agostinho que esta mulher depois que se viu livre de seus acusadores porece que devia fugir de Cristo A razão é manifesta porque Cristo tinha dito na sua sentença que quem não tivesse pecado lhe atirasse as pedras logo só de Cristo se podia temer porque só Cristo não tinha pecado Mas porque só ele não tinha pecado por isso mesmo se não temeu de tal homem e por isso mesmo só daquele homem e naquele homem se devia fiar e confiar Primeiramente Cristo na sua sentençajá se tinha excetuado a si Qui sine peccato est vestrum Jo 87 Quem de vós não tem pecado esse atire as pedras Não disse quem absolutamente senão quem de vós para se excetuar a si que é a exceção de todos os homens E o mesmo não haver em Cristo pecado era a maior segurança da pecadora Duas condições concorriam em Cristo neste caso para se compadecer e usar de misericórdia com aquela pobre mulher A primeira e universal o ser isento de pecado verificandose só nele o Qui sine peccato est A segunda e porticular o estar naquela ocasião tentado pelos homens Tentantes eum Como tentado não podia deixar de se compadecer como isento de pecado não podia deixar de perdoar A tentação o fazia compassivo e a isenção de pecado misericordioso Tudo disse admiravelmente S Paulo falando de Cristo Non enim habemus pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris tentatum per omn ia pro similitudine obsque peccato adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae ut misericordiam cansequamura38 Notai todas as palavras e porticularmente aquelas tentatum e absque peccato Como tentado tentatum não podia deixar de se compadecer Qui non possit compati Como isento de pecado obsque peccato não podia deixar de ser misericordioso Adeamus ergo cumfiducia ut misericordiam conse quamur Na verdade neste ergo de S Paulo esteve toda a confiança da delinqüente e por isso não quis fugir como se interpretara a sentença de Cristo e dissera Se só me há de atirar as pedras quem não tem pecado ninguém mas há de atirar Os fariseus que têm pecado não porque têm pecado Cristo que não tem pecado também não porque o não tem Quem não tem pecado não atira pedras Assim foi e assim lho disse Cristo Nemo te condemnavit mulier Neque ego te condemnabo Jo 811 Se ninguém te condenou nem eu te condenarei Eles não te condenaram porque tinham pecado eu não te condenarei porque o não tenho Eis aqui por que este Homem é tão diferente de todos os outros homens Os homens que tinham pecado tentavam acusavam perseguiam o Homem que não tinha pecado escusou defendeu compadeceuse perdoou livrou e de tal modo condenou o pecado que absolveu a pecadora Vade et noli amplius peccare Senhores meus conclusão Pois que os homens são piores tentadores que o demônio guardemonos dos homens e pois que entre todos os homens não há outro homem de quem seguramente nos possamos fiar senão este Homem que juntamente é Deus tratemos só deste Homem e tratemos muito familiarmente com este Homem Toda a fortuna daquela tão desgraciada criatura esteve em a trazerem diante de tal Homem e a primeira mercê que lhe fez foi livrála dos outros homens Por que cuidais que fez Deus homem Não só para remir os homens senão para que os homens tivessem um Homem de quem se pudessem fiar a quem pudessem acudir e com quem pudessem tratar sem receio sem cautela com segurança Só neste Homem se acha a verdadeira amizade só neste Homem se acha o verdadeiro remédio E nós a buscar homens a comprar homens a pôr a confiança em homens Maledictus homo qui confidit in homine Jer 7 5 Maldito o homem que confia em homem e bendito o homem que confia neste Homem e só neste Homem e muito só por só com este Homem trata do que lhe convém Levai este ponto para casa e não quero outro fruto do sermão Depois que se aportaram aqueles maus homens que bastava serem homens ainda que não fossem maus diz o evangelista que ficou só Cristo e diante dele a venturosa pecadora Remansit Jesus solus et mulier in medio stans Jo 89 Esta foi a maior ventura daquela alma e esta a melhor hora daquele dia aquele breve tempo em que esteve só por só com Cristo Neste breve tempo remediou o passado mais o futuro O passado Neque ego te condemnabo o futuro Noli amplius peccare39 Já que os homens nos levam tanta porte do dia tomemos todos os dias sequer um breve espaço em que a nossa alma se recolha com Deus e consigo e esteja só por só com Cristo com este Homem Oh se o fizéramos assim quão verdadeiramente nos convertêramos a ele Chegado Cristo à fonte de Sicar mandou todos os apóstolos que fossem à cidade buscar de comer porque era diz o evangelista a hora do meiodia Jo 4 7 Veio neste tempo a samaritana converteua o Senhor e tornando os apóstolos e pondolhe diante o que traziam não quis comer Duas grandes dúvidas tem este lugar Primeira por que mandou Cristo à cidade os apóstolos todos sendo que para trazer de comer bastava um ou dois Segunda se os mandou buscar de comer e o traziam e lho ofereceram e era meio dia por que não comeu Primeiramente não comeu porque já tinha comido Assim o suspeitaram os discípulos dizendo entre si Nunquid aliquis attulit ei manducare40 Mas não entenderam que quem tinha trazido de comer era a mesma samaritana Aquela alma convertida foi para Cristo não só a mais regalada iguaria mas o melhor e o mais esplêndido banquete que lhe podia dar o céu quanto mais a terra Tal foi o que também hoje lhe deu na conver são desta pecadora Notai Quando Cristo venceu no deserto as tentações do demônio banqueteou o céu a Cristo vencedor com iguarias da terra porém hoje como as tentações foram maiores e maiores os tentadores e a vitória maior foi também maior e melhor o banquete Lá a Cristo vencedor das tentações do demônio servi ramno os anjos com manjares do corpo Et ecce angeli ministrabant ei41 e a Cristo vencedor das tentações dos homens banqueteou a convertida com a sua alma que é para Cristo o prato mais regalado e aquele que só lhe podem dar os homens e não os anjos Esta foi a razão por que o Senhor disse que tinha comido E a razão por que mandou à cidade não porte dos apóstolos senão todos foi porque havia de converter ali a samaritana e para uma alma se converter verdadeiramente a Cristo é necessário que estejam muito a solas Cristo só por só com a alma a alma só por só com Cristo Remansit Jesus solus et mulier in medio stans42 Jesus e a alma sós Esta é a solidão que Deus quer para falar às almas e ao coração Ducam eam ia solitudinem et loquar ad cor ejus43 Não é a solidão dos ermos e dos desertos é a solidão em que a alma está só por só com Jesus Nesta solidão só por só lhe fala nesta solidão só por só ouve nesta solidão só por só lhe representa as suas misérias e lhe pede e alcança o remédio delas e ainda sem o pedir o alcança só com o silêncio e conhecimento humilde de suas culpas como aconteceu a esta solitária pecadora Façamolo assim cristão por amor de Cristo que tanto o deseja e por amor de nossas almas que tanto arriscadas andam e tão esquecidas de si Não digo que deixeis o mundo e que vos vades meter em um deserto só digo que façais o deserto dentro no mesmo mundo e dentro de vós mesmos tomando cada dia um espaço de solidão só por só com Cristo e vereis quanto vos aproveita Ali se lembra um homem de Deus e de si ali se faz resenha dos pecados e da vida passada ali se libera e compõe a futura ali se contam os anos que não hão de tornar ali se mede a eternidade que há de durar para sempre ali diz Cristo à alma eficazmente e a alma a si mesma um nunca mais muito firme e muito resoluto Noli amplius peccare ali enfim se segura aquela tão duvidosa sentença do último juiz Neque ego te condemnabo Nem eu te condenarei Esta é a absolução das absoluções esta é a indulgência das indulgências e esta a graça das graças sem a qual é infalível o inferno e com a qual é certa a glória SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S PEDRO EM SEGUNDAFEIRA DA SEMANA SANTA NA CATEDRAL DE LISBOA ANO DE 1669 Cantavit gallus et conversus Dominus respexit Petrum et egressus foras flevit amare1 I Fez Cristo sete pregações a Judas e não se converte Judas canta o galo uma vez e convertese Pedro tudo dependeu do olhar de Cristo Do pregador são as vozes de Cristo é toda a eficácia As lágrimas de Pedro manaram nos olhos de Cristo como um dilúvio salvador A conversão dos ouvintes e as águas que brotaram do penhasco Cantou o galo olhou Cristo chorou Pedro Que pregador haverá em tal dia que não fale com confiança de converter Que ouvinte haverá em tal hora que não ouça com esperança de chorar Na ceia de Betânia e na do Cordeiro que foram as duas ocasiões últimas em que Cristo teve juntos a seus discípulos sete vezes falou o Senhor com Judas e sete vezes lhe pregou para o converter As palavras umas foram de amor outras de compaixão outras de terror e porventura que nenhumas disse jamais Cristo tão temerosas Vae autem homini illi per quem Filius hominis tradetur Mt 26 24 Ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem Bonum erat ei si natus non juisset homo ille Melhor lhe fora a tal homem nunca haver nascido Ainda ditas a Judas fazem tremer estas palavras Mas nem as amorosas o abrandaram nem as compassivas o enterneceram nem as temerosas o compungiram a nada se rendeu Judas Negou S Pedro na mesma noite a Cristo negou uma negou duas negou três vezes cantou na última negação o galo Et statim gaílus cantavit Jo 18 27 e no mesmo ponto sai Pedro da casa de Caifás convertido e põese a chorar amargamente seu pecado Egressus foras flevit amare Lc 2263 Notável caso De maneira que faz Cristo sete pregações a Judas e não se converte Judas canta o galo uma vez e convertese Pedro Sim porque tanto vai de olhar Cristo ou não olhar A Pedro pôslhe os olhos Cristo Respexit Petrum Lc 2261 a Judas não lhe pôs os olhos Se Cristo põe os olhos basta a voz irracional de um galo para converter pecadores se Cristo não põe os olhos não basta a voz nem bastam sete vozes de mesmo Cristo para converter Non est satis concionatoris vox nisi simul adsit Christi in peccatorem respectus disse gravemente neste caso S Gregório Papa2 Do pregador são só as vozes dos olhos de Cristo é toda a eficácia E quando temos hoje os olhos de Cristo tão propícios que pregador haverá tão tíbio e que ouvinte tão duro que não espere grandes efeitos ao brado de suas vozes Senhor os vossos olhos são os que hão de dar as lágrimas aos nossos As mais bem nascidas lágrimas que nunca se choraram no mundo foram as de S Pedro porque tiveram o seu nascimento nos olhos de Cristo nos olhos de Cristo nasceram dos olhos de Pedro manaram nos de Cristo quando viu Respexit Petrum dos de Pedro quando chorou Flevit amare Rios de lágrimas foram hoje as lágrimas de S Pedro mas as fontes desses rios foram os olhos de Cristo Ao Nilo antigamente viamselhe as correntes mas não se lhe sabia a origem tais em Pedro hoje os dois rios ou os dois Nilos de suas lágrimas A origem era oculta porque tinham as fontes nos olhos de Cristo as correntes eram públicas porque manavam dos olhos de Pedro Para o dilúvio universal diz o texto sagrado que se abriram as janelas do céu e se romperam as fontes dos abismos Apertae sunt cataratae caeli rupti sunt fontes abyssi Gên 7 11 Assim também para este dilúvio em que hoje fora tão ditoso o mundo se se afogara abriramse as janelas do céu que são os olhos de Cristo romperamse as fontes do abismo que são os olhos de Pedro Desta maneira inundou aquele imenso dilúvio em que depois de fazer naufrágio se salvou o melhor Noé Esta é a lastimosa e gloriosa representação com que a igreja dá feliz princípio neste dia a uma semana que devera ser santa na compunção como é santa no nome Faltando água no deserto a um povo que era figura deste nosso chegouse Moisés a um penhasco deulhe um golpe com a vara e não saiu água deu o segundo golpe e saíram rios Egrissae sunt aquae largissimae Num 20 11 Que penhasco duro é este senão o meu coração e os vossos Deu a Igreja o primeiro golpe no dia das lágrimas da Madalena mas não deram as pedras água da hoje o segundo golpe no dia das lágrimas de S Pedro e no dia em que tanto chorou Pedro como não chorarão as pedras Mas não são estes os golpes que eu trago posta a confiança Os dos vossos olhos Senhor que fizeram rios os olhos de Pedro são os que hão de abrandar a dureza dos nossos Pelas lágrimas daquela Senhora que não teve pecados que chorar nos concedei hoje lágrimas com que choremos nossos pecados E pois ela chorou só por nós e para nós sua piedade nos alcance de vossos piedosos olhos esta graça Ave Maria II Os olhos único sentido que tem dois ofícios ver e chorar Por que a natureza e a providência ajuntou nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários Origem das lágrimas de Davi de Siquém de Jacó e de Sansão A vista de Eva princípio de todas as lágrimas O elogio das lágrimas Queixa do Espírito Santo contra os nossos olhos Egressus foras Petrus flevit amare Notável criatura são os olhos Admirável instrumento da natureza Prodigioso artifício da Providência Eles são a primeira origem da culpa eles a primeira fonte da graça São os olhos duas víboras metidas em duas covas em que a tentação pôs o veneno e a contrição a triaga São duas setas com que o demônio se arma para nos ferir e perder e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar Todos os sentidos do homem têm um só ofício só os olhos têm dois O ouvido ouve o gosto gosta o olfato cheira o tato apalpa só os olhos têm dois ofícios ver e chorar Estes serão os dois pólos do nosso discurso Ninguém haverá se tem entendimento que não deseje saber por que ajuntou a natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar e o de ver O ver é a ação mais alegre o chorar a mais triste Sem ver como dizia Tobias não há gosto porque o sabor de todos os gostos é o ver Tob 512 pelo contrário o chorar é o estilado da dor o sangue da alma a tinta do coração o fel da vida o líquido do sentimento Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários ver e chorar A razão e a experiência é esta ajuntou a natureza a vista e as lágrimas porque as lágrimas são conseqüência da vista ajuntou a Providência o chorar com o ver porque o ver é a causa do chorar Sabeis por que choram os olhos Porque vêem Chorou Davi toda a vida e chorou tão continuamente que com as lágrimas sustentava a mesma vida Fuerunt mihi lacrymae meae panes3 E por que chorou tanto Davi Porque viu Vidit mulierem4 Chorou Siquém chorou Jacó chorou Sansão um príncipe outro pastor outro soldado e por que pagaram este tributo tão igual às lágrimas os que tinham tão desigual fortuna Porque viram Siquém a Dina Jacó a Raquel Sansão a Dalila Choraram os que com suas lágrimas acrescentaram as águas do dilúvio e por que choraram Porque tendo o nome de filhos de Deus viram as que se chamavam filhas dos homens Videntes filii Dei filias hominum Gên 62 Mas para que são exemplos porticulares em uma causa tão comum e tão universal de todos os olhos Todas as lágrimas que se choram todas as que se têm chorado todas as que se hão de chorar até o fim do mundo onde tiveram seu princípio Em uma vista Vidit muliei quod bonum esset lignum ad vescendiim5 Viu Eva o pomo vedado e assim como aquela vista foi a origem do pecado original assim foi o princípio de todas as lágrimas que choramos os que também então começamos a ser mortais Digamme agora os teólogos se os homens se conservaram na justiça original em que foram criados os primeiros pais havia de haver lágrimas no mundo Nem lágrimas nem uma só lágrima Nem havíamos de entrar neste mundo chorando nem havíamos de chorar enquanto nele vivêssemos nem havíamos de ser chorados quando dele portíssemos Aquela vista foi a que converteu o paraíso de deleites em vale de lágrimas por aquela vista choramos todos Mas que diriam sobre esta ponderação os que neste dia fazem panegiricos às lágrimas Diriam que estima Deus tanto as lágrimas choradas por pecados que permitiu Deus o pecado de Adão só por ver chorar pecadores Diriam que permitiu Deus o pecado da sua porte para que os homens vissem a Deus derramar sangue da nossa porte para que Deus visse aos homens derramar lágrimas Não é o meu intento dizer estas coisas Que importa em semelhantes dias que as lágrimas fiquem louvadas se os olhos ficam enxutos O melhor elogio das lágrimas é chorálas Chorou Eva porque viu e choramos os filhos de Eva porque vemos Mas eu não me admiro de que os nossos olhos chorem porque vêem o que me admira muito é que sejam tão cegos os nossos olhos que vejam para chorar Só os olhos racionais choram e se é efeito da razão chorar porque viram não pode haver maior semrazão que verem para chorar É queixa do Espírito Santo e invectiva que fez contra os nossos olhos no capítulo trinta e um do Eclesiástico Nequius oculo quid creatum est6 Entre todas as coisas criadas nenhuma há mais desarrazoada no mundo nenhuma mais perversa que os olhos E por quê Porque são tais diz o mesmo Espírito Santo que vêem para chorar Ab omni facie sua lacrymabitur cum viderit7 Põemse os olhos a ver a uma porte e a outra e depois põemse a chorar porque viram Pois olhos cegos olhos maladvertidos olhos inimigos de vós mesmos se a vossa vista vos há de custar lágrimas se vedes para chorar ou haveis de chorar porque vistes para que vedes É possível que haveis de chorar porque vistes e haveis de ver para chorar Lacrymabitur cum viderit Assim é e estes são os nossos olhos choram porque vêem e vêem para chorar O chorar é o lastimoso fim do ver e o ver é o triste princípio do chorar Chorou hoje S Pedro e chorou tão amargamente como logo veremos E donde nasceu este chorar Nasceu do ver Naquela trágica noite da Paixão de Cristo entrou Pedro no átrio do pontífice Caifás e o fim com que entrou foi para ver Ut videret finem8 E vós Pedro entrais aqui para ver Pois vós saireis para chorar Quisestes ver o fim Vereis o fim do ver Egressus foras flevit amare III Do ver seguese o pecar do pecar seguese o chorar Todos os pecados são conseqüência do ver Pecam os olhos em todos os pecados e é justo que paguem por todos chorando Quer a Igreja que os olhos fonte da culpa sejam também fonte da penitência Basta o dito para sabermos que o chorar é efeito ou conseqüência do ver Mas como se segue esta conseqüência Seguese de um meiotermo terrível que se complica com o ver e com o chorar sendo conseqüente de um e antecedente de outro Do ver seguese o pecar do pecar seguese o chorar e por isso o chorar é conse qüência do ver Depois que Eva e Adão pecaram diz o texto que a ambos se lhes abriram os olhos Aperti sunt oculi amborum Gên 3 7 Pergunto Antes desta hora Adão e Eva não tinham os olhos abertos Sim tinham viram o paraíso viram a serpente viram a árvore viram o pomo viramse a si mesmos tudo viram e tudo viam Pois se viam e tinham os olhos abertos como diz o texto que agora se lhes abriram os olhos Abriramselhes para começar a chorar porque até ali não tinham chorado Aperti sunt oculi ad quod antea non patebant diz Santo Agostinho9 Criou Deus os olhos humanos com as portas do ver abertas mas com as portas do chorar fechadas Viram e pecaram e o pecado que entrou pelas portas do ver saiu pelas portas do chorar Estas são as portas dos olhos que se abriram Aperti sunt oculi amborum Pecaram porque viram choraram porque pecaram Pagaram os olhos o que fizeram os olhos porque justo era que se executasse nos olhos o castigo pois os olhos foram a causa e ocasião do delito Dirmeeis porventura que em Eva e no seu pecado teve lugar esta conseqüência em nós e nos nossos olhos não ao menos em todos Em Eva sim porque entrou o seu pecado pelos olhos em nós não porque ainda que alguns dos nossos pecados entrem pelos olhos muitos têm outras entradas Digo que em todos os pecados é o chorar conseqüência do ver e não quero outra prova senão as mesmas lágrimas Daime atenção Coisa é digna não só de reporo senão de espanto que queira Deus e aceite as lágrimas por satisfação de todos os pecados É misericórdia grande mas misericórdia que não porece justiça Que paguem os olhos os pecados dos olhos que paguem os olhos chorando o que os olhos pecaram vendo castigo é muito justo e justiça muito igual mas que os olhos hajam de pagar pelos pecados de todas as potências da alma e pelos pecados de todos os sentidos e membros do corpo que justiça e que igualdade é esta Se o homem peca nos maus passos paguem os pés se peca nas más obras paguem as mãos se peca nas más palavras pague a língua se peca nos maus pensamentos pague a memória se peca nos maus juízos pague o entendimento se peca nos maus desejos e nos maus afetos pague a vontade mas que os tristes olhos hajam de pagar tudo e por todos Sim porque é justo que pague por todos quem é causa ou instrumento dos pecados de todos Lede as Escrituras e ledeas todas que não é necessária menos lição para este assunto e achareis que em todos os pecados do corpo e da alma são cúmplices os olhos Pecou a alma os olhos são os culpados Oculus meus depraedatus est animam mean10 Pecou o corpo os olhos são os delinqüentes Si oculus tuus fuerit nequam totus corpus tuum tenebrosum erit11 Todos os pecados do homem os de pensamento os de palavra os de obra saem imediatamente do coração De corde exeunt cogitationes malae12 eis aí os pecados do pensamento Homicidia adulteria furta eis aí os pecados de obra Falsa testimonia blasphemiae eis aí os pecados de palavra E para todos esses pecados a quem segue o coração Aos olhos Si secutunt est oculos meos corneum13 Se seguis com tantas ânsias as vaidades do mundo os vossos olhos são os que vos levam à vaidade Averte oculos meos ne videant vanitatem14 Se seguis tão insaciavelmente as riquezas os vossos olhos são os desta sede insaciável Nec satiantur oculi ejus divitiis15 Se vos cegais e vos deixais arrebatar e enfurecer da paixão os vossos olhos são os apaixonados Turbatus est afurore oculus meus16 Se vos vingais e não perdoais o agravo os vossos olhos são os vingativos e os que não perdoam Non porcet eis oculus tuus17 Se estais preso e cativo da má afeição os vossos olhos são os laços que vos prenderam e vos cativaram Capiatur laqueo oculorum suorum18 Se desejais o que não deveis desejar e apeteceis o que não deveis apetecer os vossos olhos são os que desejam Desideraverunt oculi mei19 e os vossos olhos são os que apetecem Concupiscentia oculorum suorum20 Se desprezais o que deveis estimar e aborreceis o que devereis amar os vossos olhos são os que desprezam Despexit oculus meus21 os vossos olhos são os que aborrecem Non rectis oculis aspiciebat22 Infinita matéria fora se houvéramos de discorrer por todos os movimentos viciosos e por todas as ações de pecado em que são cúmplices os olhos Mas pois todos os pecados e suas espécies estão reduzidas a sete cabeças vede como pecam os olhos em todos os pecados capitais Se pecais no pecado da soberba os vossos olhos são os soberbos Oculos superborum humiliabis23 Se pecais no pecado da avareza e da cobiça os vossos olhos são os avarentos e os cobiçosos Insatiabilis oculus cupidi24 Se pecais no pecado da luxúria os vossos olhos são os torpes e sensuais Oculos eorum fornicantes25 Se pecais no pecado da ira os vossos olhos são os impacientes e irados Conturbatus est in ira oculus meus26 Se pecais no pecado da inveja os vossos olhos são os invejosos do bem alheio Nequam et oculus lividi27 Se pecais no pecado da gula os vossos olhos são os apetitosos e os malsatisfeitos Nihil respiciunt oculi nostri nisi man28 Se pecais no pecado da acídia os vossos olhos são os negligentes e os tíbios Oculi mei languerunt29 Finalmente se ofendeis a Deus e à sua lei em qualquer pecado os vossos olhos são os que ofendem Offensiones oculorum abuciat30 E não há pecado tão feio nem maldade tão abominável no mundo que não sejam os olhos a causa dessa abominação Abominationes oculorum suorum31 E pois os olhos pecam em todos os pecados vendo que muito é que paguem em todos e por todos chorando Assim como provei a verdade da culpa com toda a Escritura assim hei de provar a justificação da pena com toda a Igreja Quo fonte manavit nefas fluent perennes lacrymae32 Sabeis filhos diz a Igreja por que vos manda Deus que chorem os olhos por todos os pecados É porque os olhos são a fonte de todos Quo fonte manavit nefas fluent perennes lacrymae Chorai pois diz a Santa Igreja chorai e chorem perenemente os vossos olhos e pois esses olhos foram a fonte do pecado sejam também a fonte da contrição pois esses foram a fonte da culpa sejam também a fonte da penitência foram a fonte da culpa enquanto instrumento de ver sejam a fonte da penitência enquanto instrumentos de chorar e já que pecaram vendo paguem chorando De maneira que são os nossos olhos se bem se considera duas fontes cada uma com dois canais e com dois registros um canal que corre para dentro e se abre com o registro do ver outro canal que corre para fora e se solta com o registro do chorar Pelos canais que correm para dentro se os registros se abrem entram os pecados pelos canais que correm para fora se os registros ou as presas se soltam saem as lágrimas E pois as correntes do pecado entram pelos olhos vendo justo é que as correntes das lágrimas saiam pelos mesmos olhos chorando Vede que misteriosamente puseram as lágrimas nos olhos a natureza a justiça a razão a graça A natureza para remédio a justiça para castigo a razão para arrependimento a graça para triunfo Como pelos olhos se contrai a mácula do pecado pôs a natureza nos olhos as lágrimas para que com aquela água se lavassem as manchas como pelos olhos se admite a culpa pôs a justiça nos olhos as lágrimas para que estivesse o suplício no mesmo lugar do delito como pelos olhos se concebe a ofensa pôs a razão nos olhos as lágrimas para que onde se fundiu a ingratidão a desfizesse o arrependimento e como pelos olhos entram os inimigos à alma pôs a graça nos olhos as lágrimas para que pelas mesmas brechas por onde entraram vencedores os fizesse sair correndo Entrou Jonas pela boca da baleia pecador saia Jonas pela boca da baleia arrependido Razão é logo e justiça e não só graça senão natureza que pois os olhos são a fonte universal de todos os pecados sejam os rios de suas lágrimas a satisfação também universal de todos e que paguem os olhos por todos chorando já que pecaram em todos vendo Quo fonte manavit nefas fluent pereanes lacrymae IV Os olhos e não a língua os primeiros culpados nas negações de Pedro O pai de famílias da porábola das vinhas não se queixou das línguas dos cavadores senão de seus olhos Assim Pedro chorou amargamente para que os olhos pagassem o ver e a amargura pagasse o negar Agora se entenderá facilmente uma dúvida não fácil entre as negações de S Pedro e as suas lágrimas As negações de S Pedro todas foram pecado de língua A língua foi a que na primeira negação disse Non sum33 A língua foi a que na segunda tentação disse Non novi hominem34 A língua foi a que na terceira negação disse Homo nescio quid dicis35 Pois se a língua foi a que pecou por que foram os olhos os que pagaram o pecado Por que não condenou S Pedro a língua a perpétuo silêncio senão os olhos a perpétuas lágrimas Porque ainda que a língua foi a que pronunciou as palavras os olhos foram os primeiros culpados nas negações a língua foi o instrumento os olhos deram a causa Na porábola das vinhas foram chamados os cavadores a diferentes horas Ao pôrdosol mandou o pai de famílias que se pagasse a todos o seu jornal mas vendo os primeiros que lhes igualavam os últimos Murmurabant adversus patrem familias Mt 2011 começaram a murmurar contra o pai de famílias O que agora noto e não sei se se notou até agora é que repreendendo o pai de famílias aos murmuradores não se queixou das suas línguas senão dos seus olhos An oculus tuus nequam est quia ego bonus sum Mt 2015 Basta que porque eu sou bom os vossos olhos hão de ser maus Assim o disse e assim se queixou o pai de famílias mas eu não vejo a razão desta sua queixa A sua queixa era dos murmuradores e da murmuração os olhos não são os que murmuram senão a língua Pois por que se não queixa da língua senão dos olhos Porque ainda que das línguas saiu a murmuração os olhos e maus olhos deram a causa Muitos murmuradores murmuram o que não vêem mas estes só murmuraram o que viram Viram que eles tinham trabalhado todo o dia isso murmuraram Portavimus pondus diei et aestus36 Viram que os outros vieram tarde e muito tarde isso murmuraram Hi novissimi unam horam fecerunt37 Viram que sendo desiguais no trabalho lhos igualavam no prêmio isso murmuravam Pores illos nobis fecisti38 E como a murmuração ainda que saiu pela língua teve a ocasião nos olhos por isso são repreendidos e castigados os olhos e não a língua An oculus tuus nequam est39 Assim o julgou contra os olhos daqueles murmuradores o pai de famílias e assim se sentenciou também S Pedro contra os seus As suas negações saíram pela língua mas a causa e a ocasião deramna os olhos Negou porque quis ver porque se não quisera ver não negara pois ainda que a língua foi o instrumento da negação castiguemse os olhos que foram a causa Se os olhos não foram curiosos para ver não fora a língua fraca para negar E pois os olhos por quererem ver puseram a língua em ocasião de negar paguem os olhos por si e paguem pela língua pela língua paguem o negar e por si paguem o ver E se não pergunto Por que dizem os evangelistas com tão porticular advertência que chorou Pedro amargamente Flevit amare Se queriam encarecer as lágrimas de Pedro pela cópia digam que se fizeram seus olhos duas fontes perenes de lágrimas digam que chorou rios digam que chorou mares digam que chorou dilúvios E se queriam encarecer esses dilúvios de lágrimas não pela cópia senão pela dor digam que chorou tristemente digam que chorou sentidamente digam que chorou lastimosamente digam que chorou irremediavelmente ou busquem outros termos de maior tristeza de maior lástima de maior sentimento de maior pena de maior dor Mas que deixado tudo isto só digam e ponderem que chorou amargamente Flevit amare Sim e com muita razão porque o chorar pertence aos olhos a amargura pertence à língua e como os olhos de Pedro choravam por si e mais pela língua era bem que a amargura se passasse da língua aos olhos e que não só chorasse Pedro senão que chorasse amargamente Flevit amare Como à culpa dos olhos em ver se ajuntou com a culpa da língua em negar ajuntouse também o castigo da língua que é a amargura com o castigo dos olhos que são as lágrimas para que as lágrimas pagassem o ver e a amargura pagasse o negar e os olhos chorando amargamente pagassem por tudo Flevit amare V Se S Pedro chora porque negou por que não chora quando negou ou depois de negar senão só depois de sair Ver e chorar dois ofícios incompatíveis no mesmo tempo Davi no enterro de Abne Ovídio e o pranto de Ariadne Pedro como os portugueses na morte de D Manoel cobre o rosto para chorar Mas se o ver em Pedro foi ocasião de negar e o negar foi a causa de chorar por que não chorou Pedro quando negou senão depois que saiu Egressus foras flevit Negou a primeira vez e ficou com os olhos enxutos como dantes negou a segunda vez e ficou do mesmo modo negou a terceira vez e nem ainda então chorou Sai Pedro finalmente fora e depois que saiu então saíram também as lágrimas Egressus foras flevit amare Pois se Pedro chora porque negou por que não chora quando negou ou depois de negar senão quando saiu e depois de sair Porque enquanto Pedro não saiu fora persistia na ocasião de ver e querer ver e os olhos enquanto vêem não podem chorar O ver e o chorar como dizíamos são os dois ofícios dos olhos mas são ofícios incompatíveis no mesmo tempo enquanto vêem não podem chorar e se querem chorar hão de deixar de ver Por isso saiu fora Pedro não só para chorar senão para poder chorar porque para os seus olhos exercitarem o ofício de chorar haviam de cessar do exercício de ver Notável filosofia é a dos nossos olhos no chorar e não chorar Se choramos o nosso ver foi a causa e se não choramos o nosso ver é o impedimento Como estes nossos olhos são as portas do ver e do chorar encontramse nestas portas as lágrimas com as vistas as vistas para entrar as lágrimas para sair E porque as lágrimas são mais grossas e as vistas mais sutis entram de tropel as vistas e não podem sair as lágrimas Vistes já nas barras do mar encontrarse a força da maré com as correntes dos rios E porque o peso do mar é mais poderoso vistes como as ondas entram e os rios param Pois o mesmo passa nos nossos olhos Todos os objetos deste mar imenso do mundo e mais os que mais amamos são as ondas que umas sobre as outras entram pelos nossos olhos e ainda que as lágrimas dos mesmos olhos tenham tantas causas para sair como o sentido do ver pode mais que o sentimento do chorar vemos quando havíamos de chorar e não choramos porque não cessamos de ver Vejamos tudo nos olhos de Davi que do ver nos deixou tantos desenganos e do chorar tantos exemplos Morto lastimosamente o príncipe Abner mandou Davi que todo o exército vestido de luto e arrastando as armas o acompanhasse até a sepultura e o mesmo rei o acompanhou também Porro David sequebatur feretrum 2 Rs 3 31 Desta maneira foi marchando e continuando o enterro até o lugar do sepulcro mas ninguém chorava Tiram o corpo do esquife e ainda aqui se não viram nem ouviram lágrimas metem finalmente o cadáver na sepultura cerram a porta eis que começa Davi a rebentar em lágrimas e todos como ele em pranto desfeito Cumque sepellissent Abner levavit David vocem suam et flevit super tumulum fievit autem et omnis populus 2 Rs 332 Pois se no enterro e antes de enterrado Abner nem Davi nem o exército chora por que chora tanto Davi e choram todos com ele no mesmo ponto em que foi metido na sepultura Porque no enterro e antes de enterrado viam a Abner depois de enterrado já o não viam Como a ação de chorar se impede pela resistência do ver enquanto os olhos viram estiveram represadas as lágrimas tanto que não tiveram que ver começaram as lágrimas a sair Não puderam chorar os olhos enquanto viram tanto que não viram choraram Sirvam as letras humanas às divinas e ouçamos aquele engenho que melhor que todos soube exprimir os afetos da dor e da natureza Iamque oculis ereptus eras tum deni que flevi40 A história pode ser fabulosa mas a filosofia é verdadeira Enquanto Ariadne pôde seguir com os olhos a Teseu estiveram as lágrimas suspensas embargadas pela vista mas tanto que já o não pôde ver Iamque oculis ereptus eras tirado o impedimento da vista começaram as lágrimas a correr Tum denique flevi Esta foi a razão ainda natural por que Pedro saiu do lugar onde via e onde entrara para ver Saiu para que as suas lágrimas saíssem Et egressus foras flevit amare Entrou para ver saiu para chorar porque enquanto a vista tinha entrada não podiam as lágrimas ter saída E para que o mesmo S Pedro nos prove a verdade desta filosofia diz S Marcos no texto grego conforme a interpretação de Teofilato que saindo S Pedro do átrio lançou a capa sobre o rosto e então começou a chorar Cum caput obvelasset flevit Mc 1430 Para Pedro poder chorar cobriu primeiro os olhos para não ver Saiu para não ver o que via e cobriu os olhos para que nenhuma coisa vissem e quando não viu nem pôde ver então pôde chorar e chorou Flevit O pranto mais público que se viu na nação portuguesa foi quando chegaram à Índia as novas da morte de elrei Dom Manoel primeiro e verdadeiro pai daquela monarquia Estava o vicerei na Sé como nós agora ouvindo sermão e tanto que lhe deram a triste nova diz a história que lançou a capa sobre o rosto e que fazendo todo o auditório o mesmo começaram a chorar em grito e se levantou o maior e mais lastimoso pranto que jamais se vira Este era o uso dos capuzes portugueses quando também se usava o chorar Metiam os capuzes na cabeça até o peito cobriam e escureciam os olhos e assim choravam e lamentavam o defunto Depois que as mortes se não choram trazemse os capuzes por detrás das costas para que nem os olhos os vejam Não foi assim o luto que Pedro fez pela morte da sua alma mas porque a quis logo chorar cobriu os olhos para não ver Cum caput obvelasset flevit VI Para onde se retirou S Pedro depois da negação Davi o Pedro da lei escrita Pedro o Davi da lei da graça As lágrimas de Pedro e o desejo de Jeremias Assim saiu Pedro do lugar da sua desgraça Mas para onde saiu Diz Nicéforo e outros autores eclesiásticos mais vizinhos daquele tempo que se foi S Pedro meter em uma cova entre Jerusalém e o Monte Sião Tinha prometido morrer com Cristo mas porque não tivera ânimo para morrer teve resolução para se sepultar Nesta sepultura triste solitária escura como os olhos não tiveram luz para ver tiveram maior liberdade para chorar Só na suposição de um paralelo se pode conhecer este excesso ou este artifício das lágrimas de S Pedro Os dois exemplares da penitência que Deus pôs neste mundo em uma e outra lei foi S Pedro e Davi Davi foi o Pedro da lei escrita Pedro foi o Davi da lei da graça E assim como S Pedro escolheu lugar porticular para as suas lágrimas assim Davi escolheu tempo porticular para as suas Mas qual escolheu melhor e mais finamente Agora o veremos O tempo que Davi escolheu para as suas lágrimas foi o que diz mais com os tristes o tempo escuro da noite Per singulas noctes lacrymis meis stratum meum rigabo41 De dia governava de noite chorava o dia dava aos negócios a noite às lágrimas Oh que exemplo este para reis para ministros e para todos os que gastam o dia em ocupações ou públicas ou porticulares As flores anoitecem murchas e quase secas mas com o orvalho da noite amanhecem frescas vigorosas ressuscitadas Assim o fazia Davi e assim regava a sua alma todas as noites Per singulas noctes lacrymis meis stratum meum rigabo Mas tornemos ao motivo desta eleição E por que razão escolhia Davi o tempo escuro da noite para chorar Porque de dia com a luz como está livre o uso do ver fica embaraçado o exercício do chorar mas de noite com a sombra e escuridade das trevas fica livre e desembaraçado o exercício do chorar porque está impedido o uso de ver A mesma razão seguiu S Pedro na eleição da sua cova mas com maior crédito da sua dor e para maior excesso das suas lágrimas Davi escolheu o tempo da noite e assim chorava de noite mas de dia não chorava porém Pedro escolheu uma cova escura em que de dia e de noite sempre fosse noite para que de dia e de noite sempre chorasse Os olhos de Davi alternando o dia com a noite alternavam também o ver com o chorar porém os olhos de Pedro metidos naquela noite sucessiva e continuada nem de dia nem de noite viam e de dia e de noite sempre choravam Só Pedro pôde conseguir para as suas lágrimas o que só Jeremias soube desejar para as suas Quis dabit capiti meo aquam et oculis meis fontem lacrymarum et plorabo die ac nocte42 Oh quem dera fontes de lágrimas a meus olhos dizia Jeremias para chorar de dia e de noite Vede quão discreta e quão encarecidamente pedia Jeremias Não só pedia lágrimas senão fontes de lágrimas Fontem lacrymarum E por que pedia fontes Porque desejava chorar de dia e de noite Et plorabo die ac nocte As fontes não fazem diferença de noite a dia de dia e de noite sempre correm e como Jeremias desejava chorar de dia e de noite Plorabo die ac nocte por isso pedia fontes de lágrimas ou lágrimas como fontes Et oculis meis fontem lacrymarum Tais eram as fontes dos olhos de Pedro naquela cova escura Não havia ali diferença de noite a dia porque não havia luz e como a luz não interrompia a noite a vista não interrompia as lágrimas a noite suspendia perpetuamente o ver as lágrimas continuavam perpetuamente a chorar Chorava amargamente porque vira chorava continuamente porque não via fora do paço onde vira para não ver dentro da cova onde não via para sempre chorar Egressus foras flevit amare VII Que dizem os olhos de Pedro O concerto de Jó com seus olhos As três tentações representadas pelas ancilas e pelo soldado O escândalo dos olhos e a admoestação de Cristo Até agora falamos com os olhos de Pedro agora falem os olhos de Pedro com os nossos Os olhos também falam Neque taceat pupilla oculi tui43 E que dizemos olhos de Pedro Que dizem aqueles dois grandes pregadores aos nossos olhos Olhos aprendei de nós nós vimos e porque vimos choramos do nosso ver aprendei a não ver do nosso chorar aprendei a chorar Oh que grandes duas lições para os nossos olhos Se Pedro quando quis ver a Cristo negou três vezes a Cristo os olhos que querem ver as criaturas quantas vezes o negarão Se nega a Cristo Pedro quando quer ver levado do amor de Cristo como não negarão a Cristo os que querem ver levados de outro amor Se quem entrou a ver uma tragédia da paixão de Cristo teve tanto que chorar os que entram a ver outras representações e outros teatros que fruto hão de colher daquelas vistas Diz S Leão Papa que os olhos de Pedro se batizaram hoje nas suas lágrimas Bem se podem batizar os nossos olhos outra vez porque não têm nada de cristãos Comparai aquela cova de Chipre com a de Jerusalém comparai as nossas vistas ou as nossas cegueiras com a de S Pedro Não digo que se metam os nossos olhos em uma cova porque não há hoje tanto espírito no mundo mas ao menos não comporemos os nossos olhos Não faremos ao menos com os nossos olhos aquele concerto que fez Jó com os seus Pepigi faedus cum oculis meis ut ne cogitarem quidem de virgine44 Falava Jó do vício contra a honestidade em que tanta porte têm os olhos e diz que fez concerto com os seus para não admitir o pecado no consentimento nem ainda na imaginação Este concerto porece que não se havia de fazer com os olhos senão com o entendimento e com a vontade O consentimento pertence à vontade a imaginação pertence ao entendimento façase logo o concerto com a vontade que consente e com o entendimento que cuida e imagina e não com os olhos que somente vêem Não diz Jó Com os olhos se há de fazer o concerto porque o pecado ou o que há de ser pecado entra pela vista da vista passa à imaginação e da imaginação ao consentimento logo para que não chegue ao consentimento nos olhos onde está o primeiro perigo se há de pôr a cautela nos olhos a resistência nos olhos o remédio Notou advertidamente Salmeirão que sucede aos homens nos pecados desta casta o mesmo que sucedeu a São Pedro nas suas negações Para as negações de São Pedro concorreram duas tentadoras e um tentador a primeira e a segunda tentadora foram as duas ancilas e o terceiro tentador foi o soldado da guarda de Caifás Assim também as nossas negações A primeira ancia e a primeira tentadora é a vista a segunda ancila e a segunda tentadora é a imaginação e o terceiro tentador é o consentimento em que se consuma o pecado E assim como nas negações de Pedro a primeira tentadora foi a ancila ostiaria a porteira assim nas nossas negações a primeira tentadora é a vista que é a porteira e a que tem nos olhos as chaves das outras potências Por isso Jó fez concerto com os seus olhos para que estas portas estivessem sempre fechadas Não fecharemos estas portas tão arriscadas da nossa alma ao menos nestes dias em reverência dos olhos de Cristo No mesmo tempo em que Pedro estava negando a Cristo estava Cristo com os olhos tapados padecendo tantas afrontas Consente Cristo que lhe tapem os olhos tão afrontosamente por amor de mim e eu por amor de Cristo não fecharei os olhos Consente Cristo que lhe tapem os olhos para me salvar e eu abrirei os olhos para me perder Olhai quanto mais encarecida é a doutrina de Cristo neste caso Si oculus tuus scandalizat te erue eum et projice abs te Mt 129 Se os vossos olhos vos servem de escândalo se vos fazem cair arrancaios e lançaios fora Se fora resolução muito bem empregada arrancar os olhos por amor da salvação e para esses mesmos olhos verem a Deus por que há de ser coisa dificultosa o fechálos A Sansão arrancaramlhe os olhos os filisteus porque os entregou a Dalila Jz 14116 21 Não lhe fora melhor a Sansão fechar os olhos para não ver que perdêlos porque viu Não lhe fora melhor a Siquém não ver a Dina Gên 3425 s Não lhe fora melhor a Amnon não ver a Tamar 2 Rs 13 Não lhe fora melhor a Holofernes não ver a Judite Jdt 1019 Todos estes pereceram às mãos de seus olhos Demócrito filósofo gentio como diz Tertuliano arrancou voluntariamente os olhos por se livrar de pensamentos menos honestos Que tivesse resolução um gentio para arrancar os olhos por amor da pureza e que não tenha ânimo nem valor um cristão para os fechar Cristãos por amor daqueles olhos que Cristo hoje pôs em S Pedro e para que ele os ponha em nós que se havemos de fazer esta semana alguma penitência se havemos de fazer esta semana alguma mortificação se havemos de fazer esta semana algum ato de Cristandade seja cerrar os olhos por amor de Cristo Aquelas pestana cerradas sejam as sedas de que teçamos um cilício muito apertado a nossos olhos Não são os olhos aqueles grandes pecadores que pecam em todos os pecados Pois tragam esta semana este cilício VIII Esta vida não é lugar de ver senão de chorar Davi e o livro das dívidas e das satisfações Se pecamos como Pedro por que não choramos como Pedro Oração Como os olhos estiverem cerrados que é o segundo documento dos olhos de S Pedro como os olhos não virem logo chorarão Lembremonos que estamos em um vale de lágrimas lembremonos que esta vida não é lugar de ver senão de chorar Locus flentium45 Esta vida diz S Crisóstomo é para os nossos olhos chorarem a outra é para verem Nós nesta vida trocamos aos nossos olhos os tempos e os lugares mas também na outra vida os acharemos trocados Os olhos que chorarem na terra verão no céu os olhos que quiserem ver na terra chorarão no inferno Ibi erit fletus46 Também no inferno há lágrimas mas lágrimas sem fruto Não é melhor chorar aqui poucos dias para nosso remédio que chorar eternamente no inferno sem nenhum remédio Que contas lhe fazemos Que contas faz a nossa fé com a nossa vida Que contas fazem os que fazem conta de dar conta a Deus Olhai as contas que Deus faz com as nossas lágrimas e com os nossos pecados É passo admirável e que podendo ser de grande consolação é de grande terror Posuisti lacrymas meas ia conspectu tua SI 55 9 diz Davi Senhor vós sempre tendes postas as minhas lágrimas diante dos vossos olhos E estas lágrimas que Deus tem postas diante dos olhos onde estão Elas correm elas passam elas enxugamse elas secamse onde estão postas estas lágrimas O texto original o declarou admiravelmente Posuisti lacrymas meas in libro rationum tuarum Tem Deus posto as nossas lágrimas nos seus livros da razão tem Deus posto as nossas lágrimas nos seus livros de deve e há de haver Estes são os livros dos quais diz S João que se hão de abrir no dia do juízo Et libri aperti sunt47 e assim o resolvem todos os teólogos Um é o livro do deve outro o livro do há de haver um o livro das dividas outro o livro das satisfações no das dívidas estão os pecados no das satisfações estão as lágrimas In libro rationum tuarum Faça agora cada um as suas contas pois há de dar conta a Deus por estes livros Some cada um quantos pecados tem no livro das dívidas e some quantas lágrimas tem no livro das satisfações Haverá quando menos para cada pecado uma lágrima Oh tristes dos nossos olhos Oh miseráveis das nossas almas S Pedro no livro do deve tem três negações e no livro do há de haver tem infinitas lágrimas Quantos cristãos haverá que no livro do deve tenham infinitos pecados e no livro do há de haver não tenham três lágrimas choradas de coração Pois como havemos de aporecer diante do tribunal de Deus Como lhe havemos de dar boa conta E se estamos tão alcançados nas contas como não nos resolvemos a chorar nossos pecados desde logo pois o não fizemos até agora S Pedro não chegou a estar duas horas no seu pecado e chorou toda a vida até a morte e nós que toda a vida temos gastado em pecados e muitos estamos no cabo da vida e todos não sabemos quanto nos há de durar a vida quando fazemos conta de chorar S Pedro sabia de certo que Deus lhe tinha perdoado e contudo não cessava de chorar continuamente Sabemos de certo que Deus nos tem perdoado Sabemos de certo que temos ofendido a Deus e muitos sabem também de certo que não estão perdoados porque também sabem de certo que estão atualmente em pecado mortal e com toda esta evidência nem uns nem outros choram Dizeime pelas chagas de Cristo Fazeis conta de vos salvar como S Pedro Sim Pecastes como S Pedro Muito mais Chorastes como S Pedro Não Pois se pecastes como Pedro e não chorais como Pedro como fazeis conta de vos salvar como Pedro Tem Deus para vós outra lei Tem Deus para vós outra justiça Tem Deus para vós outra misericórdia Cristo perdoou a Pedro porque chorou e se Pedro não chorara não lhe havia Cristo de perdoar como não perdoou a Judas Pois se Cristo não perdoa a Pedro sem chorar como nos há de perdoar a nós se não choramos Somos mais discípulos de Cristo que Pedro Somos mais favorecidos de Cristo que Pedro Somos mais mimosos de Cristo que Pedro Somos mais de casa e do seio de Cristo Somos mais amigos e mais amados e mais prezados de Cristo que Pedro Pois que confiança cega e diabólica é esta nossa Senhor Senhor Judas não chorou porque lhe não pusestes os olhos Pedro chorou porque lhe pusestes os olhos Respice in nos et miserene nostri Olhai para nós piedoso Jesus olhai para nós com aqueles piedosos olhos com que hoje olhastes para Pedro Abrandai esta dureza impenetrável de nossos corações Alumiai esta cegueira obstinada de nossos olhos Fechainos estes olhos para que não vejam as vaidades e loucuras do mundo Abrinos estes olhos para que se desfaçam em lágrimas por vos terem negado e por vos terem tanto ofendido São Pedro divino apóstolo divino penitente pontífice divino lembraivos desta vossa Igreja que tão cega está e tão impenitente Lembraivos destas vossas ovelhas Lembraivos destes vossos filhos e dessas lágrimas que vos sobejaram derramai sobre nós as que tanto havemos mister Alcançainos daqueles olhos que tão benignamente vos viram que imitemos vossa contrição que choremos nossos pecados que façamos verdadeira penitência que acabemos uma vez de nos arrepender e emendar de todo coração E nesta semana tão sagrada lançainos do céu uma bênção e concedeinos uma indulgência plenária que nos absolva de todas nossas culpas Sobretudo perseverança na graça nos propósitos na dor no arrependimento para que chorando o que só devemos chorar vejamos finalmente o que só devemos desejar ver que é a Deus nessa glória SERMÃO DO MANDATO EM ROMA NA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1670 Sciens Jesus quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo ad Patrem cum dilexisset suos qui erant in mundo infinem dilexit eos1 I O mais extremo do amor de Cristo para conosco foi ausentarse de nós Este é aquele texto saudoso e suavíssimo este é aquele mistério ou enigma grande do amor tantas vezes repetido nesta hora tantas vezes e por tantos modos encarecido tantas vezes e tão sutilmente interpretado mas nunca assaz entendido Diz o evangelista S João que se porte Cristo e que nos ama Que se porte Ut transeat ex hoc mundo que nos ama Infinem dilexit eos Mas se nos ama como se porte Se nos ama como se ausenta de nós Mais diz o evangelista Não só diz que nos ama Cristo e que se porte não só diz que nos ama e que se ausenta de nós senão que nesta mesma hora em que se partiu nesta mesma hora em que se ausentou havendonos amado sempre tanto então ou agora nos amou mais Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo cum dilexisset suos infinem dilexit eos Se dissera isto outro evangelista não me admirara tanto Mas João a águia do entendimento e a fênix do amor João o secretário do peito de Cristo João aquele discípulo que entre todos soube melhor amar e mereceu ser mais amado que me diga que se porte Cristo que se ausenta que nos deixa que se vai de nós e que nos ama Que nos ama e que agora nos amou mais Não a entendo Se me dissera S João que se ausentava Cristo porque estava arrependido de nos amar que se ausentava porque aqueles primeiros extremos do seu amor o tempo que acaba tudo os acabara se me dissera que obrigado de nossas más correspondências que ofendido de nossos desprimores que cansado de nossas ingratidões que desenganado de nossa pouca fé já nos aborrecia ou já nos desamava e que por isso deixa a mundo e se ausenta dos homens se isto me dissera S João sentirao eu muito mas conhecera a razão e a conseqüência Confessaria e confessaríamos todos que obrava Cristo como quem é e que nos tratava como quem somos Amounos sem a merecermos ausenta se porque lhe merecemos O amor o trouxe e desamor o leva por isso se vai e nos deixa Mas que diga a evangelista constantemente que não é desamor senão amor e que quando Cristo se ausenta de nós então obrou a maior fineza então subiu ao maior extremo então chegou ao último fim aonde podia chegar amando Cum dilexisset suas infinem dilexit eos O verdadeiro entendimento desta amorosa implicação será a matéria do nosso discurso e a mesma razão de duvidar nas dará a solução da dúvida Veremos com assombro de todas as leis do amor como o maior extremo do amor de Cristo para conosco foi o ausentarse de nós É o que dizem as palavras do texto Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo eis aí o ausentarse de nós Cum dilexisset suas in finem dilexit eos eis aí o maior extremo de seu amor Porece paradoxo mas é extremo Amou Cristo tanto aos homens que os deixou e se foi porece paradoxo Amou Cristo tanto aos homens que chegou por eles a aportarse deles este é o extremo e isto é o que diz o evangelista Nos homens a hora da portida é o fim do amor em Cristo o fim do amor foi a hora da portida Sciens quia venit hora ejus infinem dilexit eos Dizer menos é descer subir mais não há para onde E como este foi o ponto mais alto onde pode chegar o amor de Cristo este será também o ponto único em que começará e acabará nosso discurso Peçamos ao mesmo amor pelos merecimentos daquele coração que só o soube corresponder dignamente nos assista nesta hora sua com a sua graça Ave Maria II Três poderosos opositores ao pensamento do autor o amor a morte o Sacramento O amor forte no dizer de Salomão é como a morte e como ela separa O amor unitivo causa da Encarnação de Cristo o amor forte causa do aportamento de Cristo Aportarse quem ama de quem ama eis o último extremo a que pode chegar o amor O estranho cântico da Esposa dos Cantares Finezas do Esposo e da Esposa dos Cânticos S João conclui o livro de Salomão Ut transeat ex hoc mundo in finem dilexit eos Amou Cristo tanto aos homens que chegou por eles a aportarse deles Este é o meu assunto e este digo que foi o maior extremo do amor de Cristo Mas que vejo Naquele monumento sagrado naquele mistério sacrossanto que é a cifra do amor e o memorial da morte de Cristo vejo postos em campo contra este meu pensamento três poderosos opositores o Sacramento a morte e o mesmo amor O amor diz que não pode ser amor o aportarse Cristo de nós o Sacramento diz que o deixarse conosco foi a maior fineza a morte diz que o morrer por nós foi o maior extremo de todos Estes são os assombros com que as ações mais heróicas do amor de Cristo hoje e com que as mesmas leis do amor se opõem à novidade do nosso assunto Mas essas mesmas nos dividirão o discurso e nos servirão de degraus para mais o subir de ponto Começando pelo amor O amor essencialmente é união e naturalmente a busca para ali pesa para ali caminha e só ali pára Tudo são palavras de Platão e de Santo Agostinho Pois se a natureza do amor é unir como pode ser efeito do amor o aportar Assim é quando o amor não é extremado e excessivo As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários A dor faz gritar mas se é excessiva faz emudecer a luz faz ver mas se é excessiva cega a alegria alenta e vivifica mas se é excessiva mata Assim o amor naturalmente une mas se é excessivo divide Fortis est ut mors dilectio Cânt 86 O amor diz Salomão é como a morte Como a morte rei sábio Como a vida dissera eu O amor é união de almas a morte é separação da alma pois se o efeito do amor é unir e o efeito da morte é separar como pode ser o amor semelhante à morte O mesmo Salomão se explicou Não fala Salomão de qualquer amor senão do amor forte Fortis est ut mors dilectio2 e o amor forte o amor intenso o amor excessivo produz efeitos contrários É união e produz aportamentos Sabese o amor atar e sabese desatar como Sansão afetuoso deixase atar forte rompe as ataduras O amor sempre é amoroso mas umas vezes é amoroso e unitivo outras vezes amoroso e forte Enquanto amoroso e unitivo ajunta os extremos mais distantes enquanto amoroso e forte divide os extremos mais unidos Quais são os extremos mais distantes e mais unidos que há no mundo O nosso corpo e a nossa alma São os extremos mais distantes porque um é carne outro espírito são os extremos mais unidos porque nunca jamais se aportam Juntos nascem juntos crescem juntos vivem juntos caminham juntos páram juntos trabalham juntos descansam de noite e de dia dormindo e velando em todo o tempo em toda a idade em toda a fortuna sempre amigos sempre companheiros sempre abraçados sempre unidos E esta união tão natural esta união tão estreita quem a divide A morte Tal é o amor Fortis est ut mors dilectio O amor enquanto unitivo é como a vida enquanto forte é como a morte Enquanto unitivo por mais distantes que sejam os extremos ajuntaos enquanto forte por mais unidos que estejam aportaos Antes da Encarnação do Verbo quais eram os extremos mais distantes Deus e o homem E que fez o amor unitivo Trouxe a Deus do céu à terra e uniu a Deus com os homens Depois da Encarnação quais eram os extremos mais unidos Cristo e os homens E que fez o amor forte Leva hoje a Cristo da terra ao céu Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem3 e aportou a Cristo dos homens Exivi a Patre et veni in mundum eis ai o amor unitivo Iterum relinquo mundum et vado ad Patrem4 eis aí o amor forte É o que diz o evangelista Cum dilexisset dilexit Houve diferença nos tempos mas não houve mudança no amor Cristo unido com os homens amor Cum dilexisset Cristo aportado dos homens também amor e maior amor In finem dilexit eos Já temos mostrado ao amor que pode ser amor e grande amor o aportarse Agora abra mais os olhos o mesmo amor e veja que não só é amor e grande amor senão o maior de todos In finem Em uma hora que era representação desta mesma hora como notou S Bernardo estando a esposa em um horto que também era figura de outro horto pediulhe o Esposo divino que cantasse alguma letra porque a queriam ouvir seus amigos Quate habitas in hortis amici auscultant fac me audire vocem tuam5 Os amigos que escutam somos nós o esposo é Cristo a esposa é a Igreja qual será a letra Cantou a esposa em verso pastoril o que S João em prosa evangélica Toma a esposa uma cítara na mão e tocando docemente as cordas cantou assim Heu fuge dilecte mi Ai idevos amado meu Assimilare capreae hinnuloque cervorum super montes aromatum6 Porti como cervo ligeiro deixai os vales da terra ide vos para os montes do céu Disse a esposa quebrou a cítara e emudeceu para sempre Assim foi porque este é o último verso e a última cláusula do último capítulo dos Cânticos Todos sabemos que a matéria dos Cânticos de Salomão é a história do amor ou dos amores de Cristo com sua esposa a Igreja Pois esposa santa este é o fim com que dais fim à história do amor de vosso esposo Ou quereis encarecer o seu amor ou o vosso ou o de ambos Se o seu dizeislhe que se vá Se o vosso dizeislhe que vos deixe Se o de ambos concluís com o aportamento de ambos Sim porque este é o último fim este é o último extremo a que pode chegar o amor aportarse quem ama de quem ama Enquanto não chegou a este ponto sempre a sabedoria de Salomão teve mais e mais que escrever dos extremos do amor de Cristo mas tanto que disse Heu fuge tanto que disse que havia Cristo de deixar o mundo tanto que disse que se havia de aportar dos homens por amor dos homens Salomão suspendeu a pena a esposa quebrou a cítara o amor rompeu o arco e aqui deu fim a história de suas finezas porque até aqui pode chegar o amor e não pode passar daqui Salomão acabou o livro e S João pôs o finis In finem dilexit eos E se não comporemos este fim com os princípios do mesmo amor Nos princípios do amor as finezas do esposo eram buscar a esposa por montes e vales Ecce ipse veniet saliens in montibus transiliens colles7 nos princípios do amor as finezas da esposa eram ter o esposo sempre consigo e não se aportar um momento dele Inveni quem diligit anima mea tenui eun nec dimittatem8 Porém depois que o amor principiante passou a amor perfeito depois que o amor proficiente chegou a amor consumado já as presenças se trocam pelas ausências e todos os extremos do amor se reduzem a quê A um ai E um idevos Heu Fuge O heu significa a dor o fuge o aportamento o heu significa a violência o fuge a resolução o heu significa o afeto o fuge o sacrifício o heu significa o amor o fuge a fineza e o extremo Heu e fuge Ai e ide vos Oh que extremos tão encontrados Non optando loquitur diz Bedá9 Mas destes dois extremos tão encontrados se compunha o extremo do amor de Cristo e o encontro e repugnância destes dois extremos eram os torcedores que nesta hora de sua portida lhe portiam o coração O afeto pedia que ficasse a conveniência instava que se fosse Expedit vobis ut ego vadam10 mas como o afeto era seu e a conveniência era nossa pôde mais a conveniência que o afeto Vença a conveniência pois é vossa pelo que tem de vós cortese pelo afeto pois é meu pelo que tem de mim e seja este o último fim e o extremo último do meu amor Heu fuge dilecte mi Infinem dilexit eos III Desde Adão e Eva o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa Jacó e Raquel figuras de Cristo e da Igreja Cristo não tendo mais em si ou fora de si o que deixar por amor dos homens só podia deixar por amor dos homens os mesmos homens Só resta para inteira satisfação do amor que lhe demos a razão desta altíssima filosofia Qual é a razão por que aportarse Cristo de nós e aportarse quem ama de quem ama é o maior extremo a que pode chegar o amor A razão é esta Porque o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa e não pode deixar mais o amor que chegar a deixar pelo amado ao mesmo amado A pedra de toque do amor é um amor com outro Quis Deus provar o amor de Abraão tocouo com o amor de Isac a quem amava como filho quis Davi provar o amor de Jônatas tocouo com o amor de Saul a quem amava como pai Da mesma maneira quem quiser apurar os quilates do amor toque o amor do que se ama como amor do que se deixa e logo conhecerá quão fino é Desde o primeiro amor que houve no mundo ficou estabelecida esta regra No ponto em que Eva saiu das mãos de Deus amoua logo Adão tão extremadamente quanto ela por si e por seu autor merecia ser amada Quis encarecer este seu amor o novo desposado mas como então não havia no mundo outro amor nem outrem a quem amar que faria Adão para provar o amor que desejava encarecer Vede o artifício Propter hoc relinquet homo patrem et matrem Gên 2 24 Por amor desta deixará o homem a seu pai e a sua mãe Adão não tinha pai nem mãe era homem mas o primeiro homem Pois se não tinha pai nem mãe por que prova Adão o seu amor com o amor do pai e da mãe que os outros homens haviam de deixar por suas esposas Por isso mesmo Porque o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa E como Adão não tinha outro amor que deixar provou o amor com que amava a sua esposa pelo amor do pai e mãe que os outros homens haviam de deixar pelas suas Propter hoc relinquet homo patrem et matrem Provou Adão o amor presente pelo futuro e o próprio pelo alheio e provou bem porque o amor do pai e mãe que nos deram o ser é o mais natural e o mais devido e quando se deixa por amor da esposa o que tanto se ama é prova que se ama mais a esposa por amor de quem se deixa Isto é o que fez e o que disse Adão mas ainda que soube provar não soube encarecer porque o verdadeiro encarecimento do amor não era para o primeiro Adão estava reservado para o segundo Se Adão soubesse encarecer o seu amor que havia de dizer Havia de dizer assim Eu esposa minha não posso qualificar o amor que vos tenho porque não tenho outro amor que deixar por ele e ainda que tivera pai e mãe a quem muito amara como hão de ter meus descendentes deixar o pai e a mãe por amor de vós não era bastante prova do meu amor mas para que conheçais quanto vos amo amovos tanto que chegara a vos deixar a vós por amor de vós Isto é o que não soube dizer Adão e isto é o que fez Cristo Chegou a nos deixar a nós por amor de nós Deixar os pais por amor da esposa foi o ponto mais alto que soube imaginar o amor de Adão mas Cristo chegou a fazer o que ele não chegou a imaginar porque chegou a deixar a esposa por amor da esposa Sacramentum magnum in Christo et in Ecclesia11 A esposa de Cristo é a Igreja a Igreja somos nós e Cristo chegou a nos deixar a nós por amor de nós Quando Cristo veio ao mundo pareceuse o amor divino com o amor humano porque deixou o Padre por amor da esposa mas quando hoje Cristo se vai do mundo Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem não teve o seu amor com quem se parecer porque deixou a esposa por amor da esposa Saiu Jacó peregrino da casa de seus pais para se desposar com Raquel e neste caminho viu aquela misteriosa escada que chegava da terra ao céu Voltou Jacó outra vez com Raquel para a pátria mas neste segundo caminho ainda que teve aparições de anjos não viu a escada Todos sabeis que Jacó não só foi figura de Cristo as expressamente figura de Cristo amante Agora pergunto se Jacó viu a escada na primeira visão e no primeiro caminho por que a não viu no segundo Se Jacó viu a escada quando veio por que não viu a escada quando tornou Porque aquela escada como dizem comumente os Padres significava a descida de Cristo e a subida a descida quando veio ao mundo a subida quando tornou para Padre E quando Jacó veio viu a escada porque Cristo quando veio pareceuse com Jacó mas quando Jacó tornou não viu a escada porque quando Cristo tornou não se pareceu com ele nem teve com quem se parecer Quando Cristo veio pareceuse com Jacó porque assim como Jacó deixou os pais por amor de Raquel assim deixou o Padre por amor da esposa porém quando Cristo tornou não se pareceu com Jacó porque Jacó não deixou a Raquel por amor de Raquel e Cristo sim Deixou a sua Raquel por amor da mesma Raquel deixou a sua esposa por amor da mesma esposa deixou os seus homens Cum dilexisset suos por amor dos mesmos homens E este foi o último e o maior extremo do seu amor porque chegou a deixar os amados por amor dos mesmos amados Cum dilexisset suos in finen dilexit eos Quem deixa tudo pelo amado deixa tudo mas quem deixa pelo amado ao mesmo amado ainda deixa mais porque chega a deixar aquele por quem tem deixado tudo Quando Cristo veio ao mundo deixou o céu por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o céu Quando veio ao mundo deixou os anjos por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado os anjos Quando veio ao mundo deixou a glória por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado a glória Finalmente quando veio ao mundo deixou o Padre por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o Padre E neste mundo que deixou Cristo Nascendo pobre deixou por amor dos homens a riqueza desterrandose deixou por amor dos homens a pátria trabalhando deixou por amor dos homens o descanso entregandose deixou por amor dos homens a liberdade padecendo afrontas deixou por amor dos homens a honra morrendo deixou por amor dos homens a vida sacramentandose deixou por amor dos homens a si mesmo mas hoje ausentandose dos homens e partindo do mundo Ut transeat ex hoc mundo deixou mais que as riquezas mais que a pátria mais que o descanso mais que a liberdade mais que a honra mais que a vida mais que a si mesmo porque deixou os mesmos homens por quem tudo isto tinha deixado De maneira que havendo Cristo deixado por amor dos homens tudo o que tinha no céu até o mesmo Padre e tudo o que tinha e podia ter na terra até a si mesmo não tendo já nem no céu nem na terra não tendo já em si nem fora de si outra coisa que deixar por amor dos homens para chegar ao non plus ultra do amor chega a deixar por amor dos homens ao mesmos homens Ut transeat ex hoc mundo in finem eos IV Foi maior fineza de Cristo deixarse no Sacramento que apartarse de nós Cristo e a amizade de Rut Noemi e Orfa Cristo deixandose no Sacramento satisfez a um seu desejo ausentando se dos homens violentou sua inclinação Cristo o Jordão divino Por que S João passa totalmente em silêncio a instituição da Eucaristia Haverá ainda quem se oponha a este extremo de fineza Haverá ainda quem se oponha a este extremo de amor Ainda Ainda se opõe e resiste o mesmo amor defendendose com o escudo do Sacramento e com a espada da morte Fortes armas Mas também as há de render o amor ainda que tão fortes e tão finas Alega por parte do Sacramento o amor e defende constantemente que foi maior fineza em Cristo o deixarse que o deixarnos o ficar conosco que o apartarse de nós E como o prova Em um caso temos ambos os casos Na terra de Moab houve três amigas muito celebradas na Escritura Noemi Rut e Orfa Viveram muito tempo juntas essas amigas como amigas e parentas que eram até que veio uma hora como esta hora em que se houveram de ausentar Abraçaramse choraram muito fizeram as exéquias à sua despedida com todas as solenidades que costuma o amor mas tanto que chegou o ponto preciso em que se haviam de apartar sucedeu uma diferença notável Orfa diz o texto que se aportou e que se foi para a sua pátria e para o seu Deus porém Rut enterneceuse tanto que de nenhum modo se pôde aportar da companhia de Noemi e se deixou ficar com ela por toda a vida Eis aqui quanto vai de amar a amar e de ficar a partirse Quem ama pouco aportase quem ama muito não se pode aportar Orfa que amava pouco aportouse e deixou a Noemi Rut que amava muito não a pôde deixar nem aportarse dela São os termos do nosso caso Chegou a hora precisa em que Cristo se havia de aportar dos homens Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo mas nesta amorosa despedida neste rigoroso aportamento quem foi a Orfa que se aportou Quem foi a Rut que se não pôde aportar Uma e outra por modo admirável foi a mesma humanidade sacratíssima de Cristo Ela foi a que nesta mesma hora se aportou ela foi a que nesta mesma hora se não pôde aportar Ela foi a Orfa que se aportou e se foi para a sua pátria e para o seu Deus Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem e ela foi a Rut que se não pôde aportar e recolhendo as espigas se deixou naquele Sacramento debaixo das espécies de pão Logo maior amor foi em Cristo o deixarse que o deixarnos logo maior amor foi em Cristo o ficar conosco que o aportarse de nós Que grosseiros são os afetos humanos para avaliar as finezas do amor divino Se Cristo se aportara como Orfa amando como Orfa fora menor o seu amor mas Cristo aportouse como Orfa amando como Rut Amar muito e aportarse esta é a fineza Orla amou pouco Rut amou muito mas nem uma nem outra finamente porque Orfa aportandose de Noemi seguiu a sua conveniência e Rut não se podendo aportar seguiu a sua inclinação Perdoaime sacramentado amor mas não me perdoeis Deixar se Cristo com os homens no Sacramento foi seguir o amor o seu afeto e a sua inclinação foi satisfazer ao desejo Desiderio desideravi hoc pasha manducare vobiscum12 foi gosto foi alívio foi satisfação foi descanso foi comodidade sim que fineza não Obrou o amor como amor mas não obrou como fino Cair a pedra para o centro correr a fonte para o mar voar o fogo para a sua esfera é natureza é inclinação é descanso não é fineza e isso foi deixarse Cristo com os homens no Sacramento Ainda o coração de Cristo não era humano lá naquele princípio sem princípio de sua eternidade e quais eram já então os seus gostos as suas recreações as suas delicias Eram estar no mundo com os homens Ludens ia orbe terrarum et deliciae meae essa rum filiis hominum13 Notável dizer Naquele tempo antes de todo o tempo ainda não havia mundo nem havia homens Pois se não havia homens nem mundo como eram as delícias do Verbo estar com os homens no mundo Essa é a força da minha razão e da minha conseqüência Se quando não havia homens nem mundo eram as delícias de Cristo estar no mundo com os homens que não eram quais seriam depois as suas delícias estar no mundo com os homens que eram Suos qui erant in mundo14 Deixarse Cristo no mundo com os homens foi buscar o amor as suas delícias e por isso não foi fineza a fineza foi deixar o mundo e aportarse dos homens Ut transeat ex hoc mundo porque foi violentar a inclinação foi sacrificar o gosto foi martirizar o desejo foi vencer em si e contra si a maior repugnância Para Cristo se aportar de nós e juntamente se deixar conosco dividiuse Cristo de si mesmo Grande fineza Grande maravilha Mas nesta prodigiosa divisão o amor que fez a maravilha e a fineza não foi o amor que deixou a Cristo no mundo senão o amor que o levou do mundo Ut transeat ex hoc mundo Vedeo com os olhos Para dar passo à Arca do Testamento aportouse o rio Jordão e dividiuse de si mesmo uma porte do rio assim dividido correu para o mar e a outra porte suspendeu a corrente e tornou para a fonte donde tinha saído Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordanis quia conversus es retrorsum15 Dizeime agora Portido assim o Jordão e dividido de si mesmo qual destas duas portes fez a maravilha Qual destas duas portes obrou a fineza A porte que correu para o mar ou a que voltou para a fonte Claro está diz Agostinho e não era necessário que ele o dissesse claro está que a porte que voltou para a fonte foi a que fez a fineza e a maravilha porque a porte que correu para o mar seguiu a inclinação natural e foi buscar o seu centro porém a porte que tornou para a fonte violentou essa mesma inclinação rebateu e quebrou o ímpeto da corrente e contra o peso das águas e da natureza a fez outra vez subir para donde descera Por isso como agudamente notou Lorino quando o rio desceu disselhe Davi Quid est tibi e quando subiu não porque o correr para o mar foi buscarse a si e o voltar para a fonte foi ir contra si Conversus est retrorsum Ah Jordão divino que assim vos chamou profundamente Orígenes vejovos dividido de vós mesmo nesta hora e dividido de vós mesmo com duas correntes contrárias Com uma corrente ides para o Padre que é o princípio fontanal como dizem os teólogos donde nascestes Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem com outra corrente idevos meter nesse mar imenso do Sacramento onde verdadeiramente estais sem aporecer assim como os rios entram no mar e desaporecem Quid est tibi mare quod fugisti O Jordão fugiu de si e vós fugistes de vós Vendo que vos ausentáveis dos homens fugistes de vós para nós e escondestevos neste mistério Mas qual foi aqui a fineza Qual foi aqui a maravilha Milagre dos milagres qual foi aqui o milagre O ficar Cristo conosco no Sacramento foi milagre da natureza porque correu o rio para o mar correu o amor para o centro mas o aportarse Cristo de nós Ut transeat ex hoc mundo esse foi o milagre sobre a natureza e contra a natureza porque foi voltar o rio para a fonte donde nascera foi romper contra o ímpeto da inclinação foi não só vencer a corrente senão quebrar as correntes ao amor Assim que a maravilha e a fineza não foi o sacramentarse Cristo para ficar conosco senão o aportarse e ausentarse de nós E se não perguntemos ao mesmo evangelista nestas suas reflexões tão ponderosas do amor de Cristo por que não fez menção nem memória alguma da instituição do Sacramento Não fundo o reporo na relação tão copiosa que de todos os outros evangelistas fizeram deste sagrado mistério mas na que S João não quis fazer E vede se se argüi bem do seu mesmo texto In finem dilexit eos et caena facta16 Ponderou o extremo do amor com que nos amou Cristo no fim In finem dilexit eos fez menção da ceia Et coena facta porém do Sacramento instituído na mesma ceia nem palavra falou Pois se pondera o extremo do amor e faz menção da ceia imediatamente depois por que passa totalmente em silêncio a instituição de um mistério tão soberano tão admirável tão amoroso Porque falou e calou como divino retórico que era Disse o que fazia ao seu intento e calou o que não servia O intento de S João neste Evangelho não era só provar o amor de Cristo senão realçar a fineza do mesmo amor Cum dilexisset infinem dilexit E a instituição do Sacramento ainda que foi amor e grande amor em rigor não era fineza Por isso não diz que se sacramentou senão que se ausentou por isso não diz que se deixou conosco senão que se aportou de nós por isso não diz que ficou no mundo senão que se foi do mundo Ut transeat ex hoc mundo logo concluiu In finem dilexil eos porque ainda que o sacramento foi amor o ausentarse foi fineza ainda que o deixarse foi amor o deixarnos foi o extremo ainda que o ficar conosco foi amor o aportarse de nós foi amor sobre amor Cum dilexisset dilexit V Foi maior fineza de Cristo aportarse de nós que morrer por nós A despedida de Cristo no Horto mais violenta que sua própria morte Os dois cálices da paixão de Cristo o do Horto e o do Calvário O cálix da morte e o da ausência Temos rendido o braço do escudo só nos resta o da espada que é a morte Muito confia nesta espada o amor porque traz escrito e gravado nela Majore charitatem nemo habet ut animam suam ponat quis pro amicis suis17 Mas saiba a morte e o amor se o não sabem que o nemo não compreende a Cristo Nemo te condemnavit mulier neque ego18 O ego singular de Cristo não se compreende debaixo do universal de nemo O nemo em respeito do Filho é como o omnes em respeito da Mãe Nem o omnes faz argumento contra a pureza da Mãe nem o nemo contra a caridade do Filho E para que julgue a mesma vista dos olhos de que carece a morte e o amor quanto maior fineza foi no amor de Cristo o aportarse de nós que o morrer por nós ponhamos o Horto defronte do Cal vário e ajuntemos o teatro da despedida com o teatro da morte O teatro da última despedida ou aportamento de Cristo foi o vale de Getsêmani coberto das sombras da noite onde tudo aspirava amor tudo silêncio tudo tristeza tudo saudade Aqui se aportou o amoroso Senhor de seus discípulos não de todos juntamente senão de uns primeiro e depois dos outros Como o golpe lhe chegava tanto à alma não se atreveu a leválo todo de uma vez foi dividindo por portes Assim se aportou o Senhor mas não digo bem Avulsus est ab eis diz S Lucas Lc 22 41 Não se aportou arrancouse Tão violentamente se aportava Cristo dos homens que o aportarse deles era arrancarse Tão dentro deles estava e tão dentro de si os tinha que não se aportava dos seus olhos nem se aportava de seus braços arrancavase de seus corações e arrancavaselhe o coração Avulsus est ab eis Saia agora a morte com algum semelhante encarecimento se o tem do muito que fizesse Cristo em padecer e diga o que dizem dela os evangelistas Porventura chegou a dizer algum evangelista que quando Cristo morreu se lhe arrancou a alma Não por certo O Evangelista que mais disse foi S Mateus E que disse Emisit spiritum despediu a alma Mt 2750 De sorte que quando Cristo morre despede a alma e quando Cristo se despede arrancase dos homens Tão fácil lhe foi morrer tão dificultoso o aportarse O laço com que a alma de Cristo estava atada ao como desatouse os laços com que o mesmo Cristo estava atado aos homens não se puderam desatar romperamse Romperamse rasgaramse arrancouse Avulsus est Quantos eram os homens que havia no mundo tantas eram as raízes que prendiam o coração de Cristo Eram raízes de trinta e três anos eram raízes de uma eternidade inteira profundadas com tanto amor regadas com tantas lágrimas endarecidas com tantos trabalhos e que todas essas raízes tantas e tão fortes se houvessem de arrancar juntas na mesma hora Sciens quia venit hora ejus Oh que dor Oh que violência Oh que tormento Cada palavra do evangelista é uma profunda ponderação desta força e desta repugnância É possível que hão de ficar no mundo os homens que hão de ficar no mundo os meus Suos qui erant in mundo É possível que eu me hei de aportar para sempre deste mundo onde os vim buscar Ut transeat ex hoc mundo Ex hoc mundo Oh que terrível aportamento Hora ejus Oh que terrível hora Infinem Oh que terrível fim Ut transeat Oh que terrível transe Assim aportado ou arrancado Cristo dos discípulos começa a orar ao Padre Pater si possibile est transeat a me calix iste Mt 2639 Eterno Pai se é possível passe de mim este cálix Tornemos agora ao Calvário ou torne o Calvário ao Horto Pregado Cristo no duro madeiro da cruz e já vizinho à morte Sciens quia omnia consummata sunt dixit sitio Jo 1928 Vendo que todos os tormentos se tinham acabado disse Tenho sede Sede agora Senhor meu Sois outro ou o mesmo Reparai que estes ecos do monte não respondem bem aos clamores do vale No Horto repugnáveis com tantas instâncias o cálix Transeat a me calix iste e agora no Calvário depois de ter bebido todas as amarguras dele publicais a vozes que tendes sede de mais Sitio Sim Porque o cálix do Calvário era um o cálix do Horto era outro Calix iste este este e não aquele Ora vede S João Crisóstomo S Cirilo Eutímio e outros Padres entendem do cálix da paixão e morte de Cristo aquele famoso texto do Salmo setenta e quatro Calix in manu Domini et inclinavit ex hoc in hoc Estava o cálix na mão do Senhor diz Davi e lançou de um no outro Se era cálix Calix in manu Domini era um se lançou de um no outro Incuinavit ex hoc in hoc eram dois Que cálices eram logo estes na morte e paixão de Cristo tão unidos que compunham um só cálix e tão distintos que se dividiam em dois Era a mesma morte diversamente considerada como o Senhor a considerava no Horto e no Calvário Toda a morte é justamente morte e ausência é morte porque nos tira a vida é ausência porque nos aporta para sempre daqueles que neste mundo amamos E estes são os dois cálices que Cristo distinguia no mesmo cálix fazendo grande diferença entre a sua morte enquanto morte e a mesma morte enquanto ausência Enquanto morte era o cálix do Calvário onde deu a vida enquanto ausência era o cálix do Horto onde se aportou dos seus E este e não aquele era o cálix que seu amor recusava quando disse Transeat a me calix iste Prova Sim que me não empenhara eu em tal pensamento sem ela e muito forte Primeiramente assim o entendeu S Basílio de Selêucia quando disse Ut ascensum praepediat Christus passionem subbit illubens19 Mas eu o provo do mesmo texto Calix iste Aquele iste é distintivo é demonstrativo e é relativo Enquanto distintivo distingue um cálix do outro enquanto demonstrativo demonstra cálix presente e não futuro enquanto relativo referese ao que ficava dito imediatamente antes E que é o que dizem imediatamente antes os evangelistas Todos referem o sentimento de Cristo naquele passo e a repugnância e violência excessiva com que se aportava dos discípulos S Lucas Avulsus est ab eis et positis genibus orabat dicens Pater si vis transfer calicem istum a me20 S Mateus Sustinete hic et vigilate mecum et progressus pusillum procidit in faciem suam orans et dicens Pater mi si possibile est transeat a me calix iste21 Assim que a ação ou sentimento atual sobre que caiu o transeat a me calix iste era a dor a dificuldade a repugnância a violência com que o Senhor se aportava ou provava a se aportar dos discípulos logo este mesmo aportamento e a apreensão dele tão presente tão viva e tão rigorosa era o cálix que o seu amor e o seu coração tanto recusava Confirmase admiravelmente do mesmo texto porque dele consta que três vezes no mesmo tempo e no mesmo Horto se aportou o Senhor dos discípulos e três vezes imediatamente tanto que se aportava repetia a mesma petição Assim o pondera S Mateus A primeira vez no texto que acabamos de referir a segunda Secundo abiit et oravit dicens Pater mi si non potest hic calix transire e a terceira Iterum abiit et oravit tertio eundem sermonem dicens22 Em suma que a cada novo aportamento se seguia nova resistência a cada novo aportamento nova instância a cada novo aportamento nova apelação do cálix Logo este era e não outro E verdadeiramente que se o mesmo aportamento não fora o cálix ou a matéria dele nunca os evangelistas se puseram ao descrever e encarecer com tão particulares e miúdas advertências O avulsus est ab eis de S Lucas já o ponderamos O progressus pusillum de S Mateus não é digno de menor ponderação e piedade Diz o evangelista que se aportou o Senhor pusillum um pequenino Vede a dificuldade vede o tento vede o receio com que se aportara Pusillum um pequenino Não contava os passos mas media e pesava os indivisíveis porque em cada um se dividia Pusillum um pequenino Como quem tocava o cálix para provar se o poderia beber e não se atrevendo a o levar parava e não ia por diante E como este aportamento mínimo era tão violento para o coração de Cristo e lhe parecia coisa impossível o poderse aportar de todo por isso intentava impossíveis pelo estorvar e abraçado com a terra clamava Pater si possibile est transeat a me calix iste Este este e não aquele este do Horto e não aquele do Calvário este da ausência e não aquele da morte este do aportamento e não aquele da Cruz Assim como eram dois os cálices assim também eram duas as sedes mas muito contrárias na Cruz a sede de padecer por nós no Horto a sede de estar conosco Mas como a morte podia matar aquela sede e estoutra sede com a morte crescia mais por isso no Calvário dizia Sitio e no Horto repugnava o cálix Transeal a me calix iste E que se seguiu a esta repugnância tão estranha Que se seguiu a esta violência tão violenta Et factus in agonia Lc 2244 ali mesmo começou o Senhor a entrar em agonia Cristo em agonia Cristo agonizante no Horto Acuda por si a morte A agonia e o agonizar é ação ansiosa e acidente terrível próprio da morte mas Cristo na morte não agonizou Vede como expirou placidamente Inclinato capite tradidit spiritum23 Pois se Cristo não agoniza na Cruz se não agoniza no Calvário como agoniza no Horto Porque no Calvário morria no Horto ausentavase no Calvário dividiase de si no Horto dividiase de nós e esta era a sua agonia Por isso no Calvário passou pelo artigo da morte sem agonizar e no Horto quando entrou em artigos da ausência então agonizou Et factus in agonia Morreu Cristo enquanto homem e ausentouse enquanto homem mas nem morreu como os homens morrem nem se ausentou como os homens se ausentam porque não amava como os homens amam Morreu e ausentouse mas com os acidentes trocados morreu como se se ausentara sem agonizar ausentouse como se morrera agonizando Oh que amor Oh que fineza Oh que extremo A ausência agonizante e a morte sem agonia Agora se entenderá o que Cristo lançou de um cálix no outro cálix quando inclinou um no outro Inclinavit ex hoc in hoc Um cálix como dissemos era o da morte o outro era o da ausência e como o cálix da ausência era muito mais amargo para o seu coração e muito mais terrível que o da morte para que constasse aos homens quanto menos fazia em morrer por eles que em aportar e ausentar deles que fez Todas as agonias e ânsias que naturalmente havia de padecer na morte verteuas do cálix da morte e passou ao cálix da ausência Na morte segundo as leis do amor da vida havia Cristo de padecer todo aquele tropel de penas toda aquela tormenta de aflições todo aquele combate ou conflito de angústias que padecem e mais na idade robusta aqueles que por isso se chamam agoni zantes e todas essas se passaram do cálix do Calvário ao do Horto porque no Horto se ausentava Assim o dizem os evangelistas falando expressamente daquele último aportamento Que padecem os homens no transe da morte Padecem agonias Et factus in agonia Padecem tristezas Tristis est anima mea Padecem tédios e temores Caepit pavere et taedere24 De sorte que todas as aflições e angústias que se padecem na morte as traspassou o Senhor do cálix da morte e as refundiu no cálix da ausência E se a alguém porecer dificultoso que voltandose o cálix do Calvário sobre o cálix do Horto não levasse de mistura algumas portes de sangue essas foram aquelas gotas de sangue que no suor mais que mortal do Horto derramou a violência da mesma agonia Et factus est sudor ejus tanquam guttae sanguinis decurrentis in terram25 Confesse logo a morte o testemunho de seus próprios despojos que muito mais sentiu Cristo o aportarse de nós que o morrer por nós e que se o morrer nos homens é a maior prova do amor em Cristo o ausentarse dos homens foi a maior fineza E para que nem a morte nem outrem por ela tenha que replicar contra esta amorosa verdade concluamos com uma justificação autêntica do secretário do mesmo amor que dentro e fora do coração de Cristo foi presente a tudo e acabemos por onde começamos Sciens Jesus quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo Sabendo o Senhor Jesus que era chegada a hora de partir deste mundo Esta hora de que fala o evangelista era a hora da morte Assim o declarou o mesmo S João no capítulo sete falando desta mesma hora Nemo misit in illum manus quia nondum venerat hora ejus26 E no capítulo oitavo tornou a declarar o mesmo Et nemo apprehendit eum quia necdum venerat hora ejus27 Pois se esta hora era a hora de morrer o Senhor e dar a vida pelos homens por que não diz Sabendo que era chegada a hora de morrer senão Sabendo que era chegada a hora de se ausentar Se o intento do evangelista era encarecer o amor do fim In finem dilexit eos declare o fim do amor pelo fim da vida e diga que amou Cristo tanto aos homens que chegou a morrer por eles Mas para prova e encarecimento do amor calar o nome da morte e ostentar o da ausência e da portida Sim porque como S João tinha as chaves do coração de Cristo sabia o lugar que tinham nele estes dois afetos e o preço com que lá se avaliava um e outro extremo O preço da morte era muito alto porque pesava tanto como a vida mas o da ausência era muito mais subido porque pesava tanto como aqueles por quem se dava a vida Por isso diz que quando chegou a hora de partir então amou e não quando chegou a hora de morrer porque era muito mais dura para o coração de Cristo a mesma hora enquanto hora da ausência que enquanto hora da morte A hora da morte era um fim que acabava a vida a hora da ausência era o fim que consumava o amor Ut transeat ex hoc mundo influem dilexit eos Concluído temos logo não a pesar senão a prazer de Cristo morto de Cristo sacramentado e de Cristo amante que o chegar a aportarse dos homens por amor dos homens foi o último e mais subido extremo com que os amou Cum dilexisset suos in finem dilexit eos VI Obrigações de nosso amor Propósito final aportarse cada um de tudo o que o aporta de Cristo Oração Tenho acabado fiéis o meu discurso e não sei se tendes também concluído o vosso Se me ouvistes com discurso se me ouvistes com a devida consideração com os mesmos argumentos com que ponderei os extremos do amor de Cristo devíeis vós também ter ponderado e conhecido as obrigações do vosso E que obrigações são essas Porventura porque o amor de Cristo chegou a nos deixar a nós por amor de nós obriganos este mesmo amor a que nós também deixemos a Cristo por amor de Cristo Se eu pregara noutro tempo e noutro lugar facilmente o inferira e persuadira assim A maior fineza que fez por Cristo aquela grande alma de S Paulo foi deixar a Cristo por amor de Cristo Cupio dissolvi et esse cum Christo manere autem necessarium proptervos28 Assim o fizeram saindo dos desertos os Arsênios e não saindo das cidades os Martinhos e em todas as idades e ainda na nossa tantos outros varões de extremado amor e zelo a quem a mitra era peso a vida tormento a morte desejo e só Cristo a ambição e a saudade Mas deixados àqueles heróicos espíritos o primor tão pouco imitado destas correspondências falemos com o desamor com a ingratidão e com o pouco juízo das nossas É possível que sinta tanto Cristo o aportarse de nós e que haja homens que não sintam o aportarse de Cristo antes tenham por gosto e por vida e ainda por felicidade o que os aporta dele Cristão ingrato e infeliz que há tantos anos vives tão aportado de Cristo que juízo é o teu neste dia do juízo do teu amor Cristo sente tanto aportarse de ti indo para o céu Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem e tu sentes tão pouco aportarse de Cristo indo para o inferno Antes queres o inferno sem Cristo que o céu e a bem aventurança com Cristo Se como cristão não te lembras de Cristo ao menos como homem lembrate de ti Dizeme dizeme Fazes conta de te aportar alguma hora de tudo o que te aporta de tua salvação Se não fazes essa conta que tanto devias fazer não falo contigo porque nem és cristão nem homem nem tens fé nem tens juízo Mas se fazes conta como é certo que fazes e se tens propósitos como é certo que tens de alguma hora te converter a Cristo de alguma hora te chegar a Cristo de alguma hora te aportar de tudo o que te aporta de Cristo quando há de ser esta hora Esta é a hora cristão esta é a hora Sciens quia venit hora ejus Esta é a hora de acabar com o mundo Ut transeat ex hoc mundo Esta é a hora de romper as cadeias desse mau vicio qualquer que seja que tão preso te tem e tanto te tiraniza Esta é a hora de acabar de conhecer e te desenganar desse falso e enganoso amor Esta é a hora de abrir os olhos a esse amor cego Esta é a hora de reformar esse amor escandaloso Esta é a hora de purificar esse amor impuro e de o pôr todo em Cristo Aproveitemonos cristãos desta hora pois não sabemos se teremos outra hora Aproveitemonos torno a dizer desta hora pois não sabemos se teremos outra Ah Senhor como se há de converter noutra hora quem se não converte a vós nessa hora vossa Como vos há de amar noutra hora quem vos não ama nesta hora de vosso amor Por reverência desta hora por honra e glória desta hora por amor do amor desta hora que triunfe nesta hora vosso poderoso amor desta dureza tão dura de nossos corações Não permitais Senhor por vossa bondade que saia deste cenáculo nesta hora vossa algum coração que não seja vosso Basta um Judas basta um ingrato basta um inimigo basta um traidor Oh triste alma Oh miserável alma Oh desventurada alma Oh alma que melhor te fora não ser criada e que nesta hora se não rende ao amor de Cristo Amoroso Jesus todos nesta hora estamos rendidos ao vosso amor Todos nesta hora e desde esta hora vos queremos amar de todo nosso coração Só a vós Senhor só a vós só a vós queremos amar para nunca mais vos ofender só a vós queremos amar para nunca mais vos ser ingratos só a vós queremos amar para nunca mais nos aportarmos de vós só a vós queremos amar para desta hora em diante nos aportarmos para sempre de tudo o que aporta de vosso amor Seja esta hora o fim de todo o amor que não é vosso e seja o princípio de vos amarmos sem fim assim como vós sem fim nos amastes Infinem dilexit eos SERMÃO DA BULA DA S CRUZADA NA CATEDRAL DE LISBOA ANO DE 1647 Unus militum lancea latus ejus aperuit et continuo exivit sanguis et aqua1 I Do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja A escritura de nossos pecados e a nova escritura de graças a bula do Papa Inocêncio Décimo Razão pela qual um soldado é quem deveria franquear com a lança os tesouros do lado de Cristo Como do lado do primeiro Adão dormindo foi formada Eva assim do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja Daquele lado ferido saíram e manaram os sacramentos e daquele lado aberto se derramaram os tesouros das graças com que o mundo depois de remido se enriquece Mas se bem todas as graças da Igreja se representam admiravelmente na história deste mistério reparando eu com atenção em todas as circunstâncias dele ainda acho com maior propriedade as da Bula da Santa Cruzada que hoje se concedem e publicam solenemente ao Reino e Reinos de Portugal Saíram estas graças do lado de Cristo não antes nem depois senão quando estava pregado na Cruz porque da Cruz trouxeram o merecimento e da Cruz tomou a mesma Bula o nome que por isso se chama da Cruzada Saíram em figura de sangue e água Exivit sanguis et aqua de água para apagar o que estava escrito e de sangue para se escrever de novo o que naquele sagrado papel se lê Diz S Paulo que Cristo morrendo apagou a escritura de nossos pecados e que assim apagada a pregou na sua Cruz Delens quod contra nos erat chirographum et ipsum tulit de medio affigens illud cruci2 Mas se Cristo então apagou uma escritura e a fixou na Cruz para o remédio hoje escreve outra escritura e fixa nela a mesma cruz para o efeito Isto é o que significa aquela cruz e isto o que contém aquela escritura tudo graça e tudo graças Vejo porém que me estão perguntando todos e com razão se estes tesouros e graças manaram do lado de Cristo aberto como os abriu não outrem senão um soldado Unus militum lancea latus ejus aperuit Esta é a maior circunstância da história e a mais viva energia do mistério O princípio e primeira instituição da Bula da Cruzada foi em tempo do Concílio Lateranense quando se concederam estas graças e indulgências a todos os que tomando a insígnia da cruz se alistassem por soldados para a conquista da Terra Santa E como elas foram concedidas não a outros senão aos soldadas daquela sagrada empresa por isso com a mesma propriedade não outrem senão um soldado foi o que abriu o lado de Cristo Unus militum Mas não porou aqui o mistério como também não pararam aqui as graças O motivo que teve primeiro o Papa Gregório Décimo Tércio e depois seus sucessores e hoje o Santíssimo Padre Inocêncio Décimo Nosso Senhor para conceder as mesmas indulgências da Cruzada aos Reinos de Portugal foi como se contém na mesma bula o subsidio dos nossos soldados da África que armados sempre e em velas naquelas fronteiras defendem as portas de Espanha e da Cristandade contra a invasão dos mouros E como os soldados da África propriamente são soldados de lança e os cavaleiros que lá servem servem ou com uma ou com muitas lanças para cumprimento e realce do mistério em toda a sua propriedade o soldado que abriu o lado de Cristo e franqueou os tesouros das mesmas graças não foi só nem devia ser de qualquer modo soldado senão soldado de lança e com lança Lancea latus ejus aperuit Temos declarado o tema e proposta a matéria em comum Para descer aos porticulares dela publicando as graças da Santa Bula e descobrindo um por um os inestimáveis tesouros que nelas se encerram o mesmo tema nos dará o discurso Em todo ele não seguirei outra ordem nem outra divisão que as das mesmas palavras Ave Maria II Unus As graças dos reis da terra dependem de muitos as do rei do céu dependem de um só Como aconteceu a Davi com Saul nos despachos dos reis da terra mais custa o requerimento que o merecimento O leproso do Evangelho e o Príncipe dos Sacerdotes Na Bula da Cruzada cada um pode eleger o confessor de que mais se contentar mesmo que seja estrangeiro e cego como Longuinhos Unus militum lancea latus ejus aperuit A primeira excelência que acho na Bula da Santa Cruzada é ser um o que abre estes tesouros do lado de Cristo Unus Se estas graças e indulgências dependeram de muitos para mim quase deixaram de ser graças Esta é a grande diferença que há entre as graças e mercês dos reis da terra e as do Rei do céu As graças dos reis da terra sendo por merecimentos nossos dependem de muitos ministros as do Rei do céu sendo por merecimentos seus dependem de um só Unus Antes de Davi entrar em desafio com o gigante perguntou que prêmio se havia de dar a quem tirasse do mundo aquele opróbrio de Israel 1 Rs 1723 E foilhe respondida que o rei lhe havia de dar sua própria filha em casamento 1 Rs 17 25 Saiu Davi a campa matou o filisteu mas quando aos aplausos da famosa vitória porece que se haviam de seguir logo as bodas nada menos lhe passava pelo pensamento a Saul Puxava Davi pela palavra real requeria o prêmio não arbitrário senão certo de um tão singular e notório serviço e a resposta por muito tempo como se costuma eram dilações e palavras frívolas 1 Rs 18 25 Finalmente mandoulhe responder o rei que se queria com efeito a satisfação que se lhe prometera matasse mais um cento de filisteus Servi lá arriscaivos lá e fiaivos de promessas e mercês de homens De maneira que para Davi merecer a mercê bastoulhe pelejar e vencer um filisteu e para fazer a mercê efetiva foilhe necessário pelejar e vencer um cento de filisteus Isto é o que vos acontece em todas as promessas e despachos dos reis da terra Muito mais custa o requerimento que o merecimento Para o merecimento basta batalhar com um inimigo para o requerimento é necessário batalhar com um cento de ministros que as mais vezes não são amigos Para render o filisteu de Davi bastou uma pedra para render estes filisteus tão estirados tão sombrios tão armados não basta uma pedreira nem muitas pedreiras e se alguns se rendem com pedras não são os do rio Mas quando não foram tão duros e tão dificultosos bastava serem tantos Esta é pois a primeira graça que Deus nas faz na Bula da Santa Cruzada Tantas enchentes de mercês tantos tesouros de misericórdias e favores e todos despachados por um só ministro um confessor Para as mercês dos reis da terra que não importam nada tantas papeladas e tantas ministros para as graças do Rei do céu que importam tudo uma só folha de papel e um só ministro uma Bula e um sacerdote Unus Mas porque para tirar toda a dificuldade e repugnância não basta só ser o ministro um se for certo e determinado concedevos mais a bula que este um seja à vossa eleição aquele que vós escolherdes Esta é a maior circunstância de graça que se encerra nesta graça Quando Cristo sarou aquele leproso do Evangelho mandoulhe segundo o texto de S Marcos que se fosse presentar ao Príncipe dos Sacerdotes Vade ostende te Principi Sacerdotum3 Contra este mandado está que a lei universal do Levítico como consta do capítulo treze só obrigava aos leprosos que se manifestassem a qualquer sacerdote aos quais pertencia julgar da lepra Lev 131 Pois se qualquer sacerdote ordinário podia conhecer da lepra porque manda Cristo a este leproso que nomeadamente se presente ao Príncipe dos Sacerdotes Respondem os expositores que antigamente assim era mas que esta lei geral se tinha restringido depois e estava reservada a caso da lepra ao conhecimento e juíz do Príncipe dos Sacerdotes somente E por isso Cristo mandou o leproso não a outra sacerdote senão ao Príncipe Principi Sacerdotum O mesmo passa hoje nos casos e pecados reservados de que não podem absolver os sacerdotes ordinários e só pertence a absolução ao prelado de toda a diocese e talvez ao príncipe supremo de toda a Igreja E posto que semelhantes reservações sejam muito justas e necessárias para refrear a temeridade não há dúvida que também são ocasionadas para precipitar a fraqueza Que haja um homem de descobrir a sua lepra e manifestar a sua miséria de que só Deus é sabedor não só a outro homem como ele senão determinadamente a tal homem Grave e dificultosa pensão E muito mais quando pela distância dos lugares se acrescenta o trabalho e a despesa e pela grandeza e dignidade da pessoa se faz maior a repugnância o pejo e o horror É verdade que os meios da salvação se hão de procurar e aceitar de qualquer mão ainda que seja a mais aborrecida e repugnante Salutem ex inimicis nostris et de manu omnium qui oderunt nos4 Mas ainda mal porque é tal a fraqueza e pusilanimidade humana que estão ardendo muitos no inferno não por não confessar seus pecados senão pelos não confessar a tal homem sem reparar que no dia do juízo hão de ser manifestos todos a todos os homens A este inconveniente porém acode hoje a misericórdia divina e a benignidade do Sumo Pastor por meio da Santa Cruzada concedendo a todos os que a tomarem faculdade de eleger cada um o confessor aprovado de que mais se contentar e satisfizer Por isso o ministro que abriu o lado se não nomeia no texto e só se diz que era unus militum um indeterminadamente E posto que da História Eclesiástica conste que foi Longino ou como o vulgo lhe chama Longuinhos neste mesmo homem concorriam duas circunstâncias dignas de grande reporo para o nosso caso Era Langino estrangeiro e cego Estrangeiro porque sendo romano servia nos presídios de Jerusalém cego porque como afirma S Gregório Nazianzeno de ambos os olhos não via5 E por que quis Cristo que lhe abrisse o lado e fosse o dispensador destas graças um estrangeiro e cego Para tirar toda a ocasião e escusa ao pejo e repugnância humana Tendes pejo de manifestar a vossa miséria tendes repugnância de descobrir o vosso pecado O remédio está na vossa eleição buscai um estrangeiro que vos não conheça buscai um cego que vos não veja Unus militum Passemos à segunda palavra III Militum O descaminho dos soldos O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem se dá senão em que se dê para que eles a comam Abraão e os anjos peregrinos Judas e as esmolas dos discípulos de Cristo Militum Sobre esta palavra saldados a primeira coisa que ocorre é o soldo E este se paga pontualmente e se despende todo com os nossos soldados cavaleiras da África tão beneméritos da fé e da Igreja esse é o fim para que os Sumos Pontífices concederam o subsídio da bula Da pureza das mãos em que se recebe nunca houve nem pode haver dúvida Mas como passa por tantas outras e há tanta mar e sumidouros em meio não sei se poderá ser justificada a queixa comum É certo que nos escritores da África sem serem Tertulianos nem Agastinhos se lêem de tempos passados graves lamentações deste descaminho O dinheiro santo da bula que cá se recolhe em vinténs dizem que torna de lá em meticais e que a muita fome que de cá se leva é a causa da que lá se padece Mas isto toca a quem toca O que a mim me pertence é desfazer este escrúpulo e assegurar a todos os que tomam a bula que ainda que o dinheiro da esmola se desencaminhe e os saldados da África os não comam sempre as graças concedidas se ganham com infalível certeza No dia do juízo dirá Cristo Venite benedicti Patris mei esurivi enim et dedistis mihi manducare Mt 25 35 Vinde benditos de meu Padre porque tive fome e me destes de comer Notai muito aquele porque Não diz Porque comi o que me destes senão Porque me destes de comer Aqui está o ser da obra O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem a dais senão em que vós a deis para que eles a comam E isto é a que se verifica na esmola da bula em qualquer acontecimento Pode acontecer que a não comam nem se sustentem com ela os soldados para que está aplicada E pode também acontecer que em porte não haja tais saldados porque há praças fantásticas Mas ainda que a praça e o soldado seja fantástico a esmola que se dá para seu sustento sempre é verdadeira e o merecimento certo Grande exemplo na História Sagrada Vieram à casa de Abraão três anjos em figura de peregrinos e diz o texto que Abraão os hospedou e lhes pôs a mesa e os tratou com grande agasalho e regalo Gên 42 Agora pergunta Aqueles anjos comeram verdadeiramente o que lhes deu Abraão Claro está que não porque os anjos não comem e aqueles corpos com que aporeceram eram corpos fantásticos Contudo diz o mesmo texto que Deus pagou esta obra a Abraão muito de contado e lhe fez grandes mercês por ela como foi o do filho Isac e outras Gên 1518 Pois por uma obra que se fez a homens fantásticos a homens que não havia tais homens no mundo e pelo comer que se lhes deu o qual eles não comeram nem podiam comer faz Deus tantas graças e tantas mercês a Abraão Sim Porque ainda que os homens eram fantásticos a esmola era verdadeira e ainda que eles não comeram o que lhes deu Abraão Abraão deuo para que eles comessem A esmola da Bula que dais para os saldados de África pode acontecer que eles a não comam ou porque alguns as não há ou porque fica cá o dinheiro ou porque se lá vai eles como dizeis ficam anjos mas como Deus só respeita o merecimento da esmola e o fim dela ainda que os homens a divirtam e desencaminhem o paga que naquela escritura se vos promete sempre está segura Tenho notado a este propósito um lanço da providência e governo de Cristo que sempre me admirou muito e deve admirar a todos Cristo e seus discípulos como não possuíam nada deste mundo viviam das esmolas com que a devoção dos fiéis socorria o Sagrado Colégio Para receber estas esmolas e as despender e distribuir houve o Senhor de eleger um deles Jo 12 6 e quem se não admirara e pasmara de que este eleito fosse Judas Senhor daime licença Vós não conheceis muito bem a Judas Sim conheço Não sabeis que é ladrão e que há de furtar Sim sei Estas esmolas que lhe entregais e fiais dele não são para sustento dos outros discípulos que vos servem e que hão de defender com a vida vossa fé e vossa igreja Sim são Sobretudo a esmola não é aquela obra de caridade tão estimada de vós a que tendes prometido tantos prêmios tantas mercês tantas graças e a mesma bemaventurança Sim é Pois nas mãos de Judas meteis tudo isso para que ele se aproveite e os outros padeçam Para que ele coma e os outros morram de fome Não foi esse o fim de Cristo que Deus não favorece ladrões ainda que os permita Mas permitiu neste caso com alta providência que as esmolas dadas para sustento dos que a serviam corressem por mãos de quem as havia de roubar para que constasse então e agora a toda sua Igreja que ainda que as esmolas se roubem e se desencaminhem e não se apliquem ao fim para que se dão apreço e merecimento delas e o prêmio que se promete a quem as dá sempre está seguro Neste contrato há duas pagas uma a paga dos soldados para quem dais a esmola que corre por mão dos homens e outra a paga da mesma esmola que dais que corre pela mão de Deus A que corre por mão dos homens pode faltar aos soldados a que corre por mão de Deus nunca vos pode faltar a vós Os soldados não serão pagos vós sempre sois pago Satisfeito este escrúpulo vulgar respondamos a outra de mais bem fundada objeção a que nos chama o texto IV Lancea As lanças dos soldados da África e os tesouros da Igreja O Papa tesoureiro da monarquia de Cristo Como Cristo atribui seus milagres não à própria onipotência senão à fé dos que os recebem assim atribuímos os benefícios da Bula mais à lança dos soldados que às Chaves de Pedro Nas leis da terra dãose os prêmios só a quem milita e serve nas leis do céu têm o mesmo prêmio tanto o que milita e serve como o que o sustenta Lanceu Assim como a lança do soldado do Calvário foi a que abriu o lado de Cristo assim dissemos que as lanças dos nossos soldados de África são as que abrirão e abrem os tesouros da Igreja que se nos concedem na Bula Mas esta aplicação ou modo de dizer porece que se encontra com a propriedade e verdade do que cremos neste mesmo ponto É verdade católica de nossa santa fé romana que quem abre e só pode abrir os tesouros espirituais da Igreja são as chaves de S Pedro logo mal o atribuímos às lanças dos nossos soldados Direi Para abrir estes sagrados tesouros necessariamente concorrem duas coisas da porte de quem os concede que é o Papa o poder e da porte de quem os recebe que somos nós a justa causa Mas de tal sorte dependem desta justa causa as mesmas graças concedidas que sem elas seriam totalmente inválidas e de nenhum efeito A razão disto é como está decidido em muitos cânones porque o Pontífice não é senhor dos bens espirituais da Igreja senão despenseiro e como tal só os pode despender racionavelmente e com causa justa De outra maneira seria a monarquia espiritual de Cristo tão malgovernada como são os temparais de muitos príncipes Por isso vemos tantos tesouros mais esperdiçados que reportidos e tantas graças e mercês imódicas concedidas sem nenhuma causa e muitas vezes com a contrária Digamno as prodigalidades de elrei Assuero com o seu mau valido Amã Est 3 1 E no mesmo tempo o fiel Mardoqueu benemérito de tantos serviços feitos à coroa e à pessoa do mesmo rei pregado manhã e tarde aos postes de palácio subindo e descendo aquelas cansadas escadas sem haver quem pusesse nele os olhos salvo o mesmo Amã para o destruir Não assim os tesouros da monarquia de Cristo de que tem as chaves o seu Vigário Eles só os pode despender sim mas só com justa causa E como a justa causa das graças que se nos concedem na bula é a defensa dos lugares e fortalezas da África os quais os nossos soldados sustentam contra a invasão e forças de toda a barbaria por isso a abertura das mesmas graças se artibui justamente às suas lanças Vede se falo conforme a doutrina e leis do Senhor e autor da mesma Igreja Quando Cristo concedia perdão de pecados ou dava saúde milagrosa aos enfermos tudo atribuía comumente à fé dos que o recebiam À Madalena Fides tua te salvam fecit6 à cananéia O mulier magna est fides tua 7 ao centurião Sicut credidisti fiat tibi8 ao pai do surdo e mudo Omnia possibilia sunt credenti9 E assim a outros muitos Mas porque razão Essas obras sobrenaturais Senhor e essas mercês extraordinárias ou da graça ou da saúde não são todas efeito da vossa onipotência São Pois porque as não atribuis à mesma onipotência que as obra senão à fé dos que as recebem Porque segundo a regra geral da Providência de Cristo queria o Senhor que assentassem estas mercês e graças que fazia sobre o merecimento da fé dos que as logravam E como para as mesmas graças concorriam duas causas uma eficiente que era a onipotência e outra meritória que era a fé atribuise o efeito à meritória e não à eficiente porque a eficiente naquela suposição dependia da meritória O mesmo passa no nosso caso O poder de abrir os tesouros da Igreja está nas chaves de S Pedro mas elas os não podem abrir validamente senão com justa causa e toda a justa causa das graças que se nos concedem na bula é a conservação das praças católicas que os nossos soldados e cavaleiros da África defendem às lançadas por isso sem ofensa do poder das chaves que reconhecemos não atribuímos os efeitos delas às mesmas cha ves quanto às lanças Lancea tatus ejus aperuit Mas veja que voltais contra mim a mesma lança e me argüis com a minha mesma razão Se a causa das indulgências que se concedem na bula é a defensa dos lugares da África e daquelas muralhas da Cristandade com que impedimos os passos aos infiéis e pomos freio ao orgulho e fúria de seus exércitos será justa e justíssima causa para os soldados e cavaleiros que com as armas às costas vigiando de noite e pelejando de dia defendem às lançadas e com o sangue e as vidas as mesmas muralhas Mas para nós que estamos em Portugal muito seguros e descansados sem vigiar nem acudir a rebate nem ver mouro nem empunhar lança que só com a contribuição de uma esmola tão tênue tenhamos justa causa de se nos concederem as mesmas graças Parece que não pode ser Prova se com a experiência das nossas fronteiras Para os soldados que nelas militam e as defendem todos pagamos a décima mas quando vêm ao requerimento das mercês só os soldados e capitães as pedem e as recebem os demais ainda que os sustentem com os seus tributos nem recebem nem pedem nem esperam mercê por isso Não é assim Assim é e assim havia de ser se Deus fora como os homens e o Rei do céu como os da terra Nas leis da terra dãose os prêmios ao que milita e serve mas não a quem o sustenta nas leis do céu aquele que milita e serve e mais aquele que o sustenta todos têm o mesmo prêmio Lei expressa do Evangelho promulgada por Cristo Qui recipit prophetam in nomine prophetae mercedem prophetae accipiet qui recipit justum in nomine justi mercedem justi accipiet10 Eu diz Cristo mando meus pregadores que são os meus soldados a conquistar o mundo e pelejar contra os infiéis mas porque eu lhes não dou sustento nem soldo com que o comprar saibam todos que a mercê que lhes tenho tachado a eles por me servirem a mesma hei de fazer aos que os sustentarem Mercedem prophetae mercedem justi accipiet Pode haver texto mais claro e promessa mais infalível Pois isto é o que se nos promete naquela escritura fundada na mesma lei da munificência divina Os soldados e cavaleiros da África passam o mar mudam o clima e deixam a pátria vós ficais nela eles vigiam nas atalaias vós dormis eles defendem as tranqueiras saem ao campo andam às lançadas com os b V Latus ejus Não há graças mais dificultosas e duras de conseguir que as que dependem dos lados dos reis O lado de Cristo ajuntou em si mas para nós tudo o que sobejou a Christo os sacramentos A costa de Adão e a formação da Igreja Latus ejus Se esta segunda palavra não limitara ou ampliara a primeira grande oposição se nos oferecia nela contra tudo o que temos dito e nas resta por dizer Cristo na cruz estava com título e representação de rei mas não de rei universal que era de todo o mundo senão de rei porticular de uma nação Rex judeorum E não há graças mais dificultosas e duras de conseguir que as que dependem dos lados dos reis Latus ejus Olhemos bem para esta figura exterior e veremos nela uma imagem natural do que os vassalos têm nos reis e do que padecem com os lados Primeiramente no estado em que Cristo se achava na cruz tudo o que pertencia ao rei estava feito só o que corria por conta do lado estava por fazer O que houve de fazer o rei era pedir perdão pelos inimigos e já estava pedido era dar o paraíso ao ladrão penitente ejá estava dado era entregar o discípulo à Mãe e a Mãe ao discípulo e já estavam entregues era beber ou gostar o fel e já estava gostado era principalmente remir o mundo e já estava remido Enfim tudo o que tocava ao rei estava feito Consummatum est Jo 19 30 Ao lado pertencia dar os sacramentos e só isso estava por fazer O rei estava patente a todos com quatro portas abertas duas para os inferiores nos pés e duas para os mais altos nas mãos e os lados no mesmo tempo estavam fechados por uma e por outra porte sem haver por onde entrar nem penetrar a eles O corpo estava ferido e lastimado e só os lados sãos e sem lesão alguma Nem chegaram lá os golpes dos açoites como às costas nem os carregou o peso da cruz como aos ombros nem os rasgava ou suspendia a dureza dos cravos como aos pés e mãos nem os molestava o estirado e desconjuntado dos membros como aos nervos e ossos nem os atenuava o vazio e exausto do sangue como às veias nem os amargava o fel como à boca e o que é mais que tudo nem os picavam os espinhos como à cabeça tendo tanto da coroa Finalmente o que excede toda a razão e toda a admiração é que estava junto e recolhido nos lados tudo o que faltava ao rei De duas coisas padeceu Cristo extrema falta no Calvário falta de sangue e falta de água Faltoulhe o sangue porque o tinha derramado ali e em tantas outras partes faltoulhe a água porque da mesma falta de sangue se seguiu aquela extraordinária sede que o obrigou a dizer Sitio11 É porém muito de notar que quando se abriu o lado do mesmo lado saiu sangue e água Exivit sanguis et aqua Pois se o rei padecia tanta falta de sangue e tanta falta de água como agora lhe sai do lado sangue e mais água Porque tudo o que falta aos reis está junto e recolhido nos lados Oh se houvesse não digo uma lança ou uma lançada senão uma chave mestra que abrisse estes lados como é certo que achariam neles junto os reis ou tudo ou grande porte do que lhes falta e que fazendo dois atos de justiça em um mesmo ato poderiam socorrer remediar e ainda enriquecer a muitos com o que não basta a poucos Estes são os lados dos reis mas não assim o lado de Cristo Passemos do exterior da alegoria ao interior da realidade Latus ejus Toda a diferença de lado a lados está na limitação do ejus dele de Cristo Os lados dos reis da terra dilatam porque não querem fazer o lado de Cristo dilatou para poder fazer mais do que estava feito Os lados dos reis estando todo o corpo chagado só eles se vêem sãos o lado de Cristo esteve são para ser ele o mais chagado antes a maior chaga de todas Os lados dos reis fechamse porque se não querem comunicar o lado de Cristo esperou fechado para se comunicar com maior abundância e para ficar sempre aberto Finalmente os lados dos reis ajuntam em si e para si tudo o que falta aos reis o lado de Cristo ajuntou em si mas para nós tudo o que sobejou a Cristo Notai muito O sangue de Cristo foi o preço de nossa redenção e como este preço era infinito porque uma só gota bastava para remir mil mundos tão infinito foi o que sobejou depois de remido como era infinito o que se despendeu para o remir E que se fez deste preço que sobejou Assim como do que se despendeu se pagou o resgate assim do que sobejou se fez um depósito E este depósito de preço e valor infinito são os tesouros da Igreja que misteriosamente estavam encerrados no lado de Cristo Daqui se entenderá a razão porque tendo o Senhor derramado tanto sangue até a morte ainda reservou no lado mais sangue para o derramar depois de morto E porque se no ponto da morte de Cristo ficou o mundo remido Porque o sangue derramado até a morte significava o preço necessário à redenção que se despendeu e o sangue que se derramou depois da morte significava o preço superabundante que sobejou Do que se despendeu na paixão como de resgate se remiu o mundo do que sobejou no lado como de depósito se formou e enriqueceu a Igreja Dormiente Adam fit Heva de latere mortua Christo peforatur latus ut supereffluant sacramenta unde formetur Ecclesia12 Assim como do lado de Adão diz Santo Agostinho se formou Eva assim do lado de Cristo saíram os sacramentos para que deles como de matéria superabundante se formasse a Igreja Isso quer dizer a palavra supereffluant que significa sair como coisa superabundante supérflua e que sobeja Falou Agostinho com tão grande lume da teologia porque estes são os próprios termos de que usam os teólogos quando falam do tesouro da Igreja que se compõe principalmente da satisfação infinita do sangue de Cristo que superabundou e sobejou do preço da redenção Thesaurus satisfactionum Christi supereffluentium13 diz com todos os doutores ortodoxos o Cardeal Belarmino E este é o tesouro donde a Igreja tira as graças e indulgências que concede e aplica aos fiéis para que satisfaçam à justiça divina pelas culpas ou penas de que lhe são devedores E se alguém desejar na semelhança de Santo Agostinho que também é de S Paulo Ef 532 a perfeita proporção da figura com o figurado e me perguntar como se verifica ou pode verificar do lado de Adão ser formada Eva não da porte ou matéria necessária senão da superabundante e supérflua eu o direi satisfazendo a esta e a outra grande dúvida Diz o texto sagrado que tirou Deus uma costa do lado de Adão e que desta costa formou a Eva mas duvidam e com muito fundamento os teólogos que costa de Adão foi esta porque se era uma das costas de que naturalmente se compõe o corpo humano seguese que o corpo de Adão ficou defeituoso e imperfeito o que se não deve admitir sendo Adão o primeiro homem e o modelo original de todos os homens que dele haviam de nascer E se o corpo de Adão ficou perfeito antes perfeitíssimo como era bem que fosse que costa foi esta sua de que Eva se formou Responde Santo Tomás que o corpo de Adão quando ao princípio foi criado tinha uma costa demais em um dos lados e que deste lado e desta costa que nele sobejava foi formada Eva14 Pois assim como no lado de Adão criou Deus uma porte superabundante e supérflua de que tirou a matéria necessária à formação de Eva assim no lado de Cristo depositou outra parte também superabundante e supérflua necessária à formação e reformação da Igreja que foi o que sobejou do preço infinito da redenção E estes são os tesouros das graças que hoje se nos concedem tirados do depósito infinito e inexausto do lado de Cristo aberto Latus ejus aperuit VI Aperuit Abriuse o lado de Cristo O livro fechado do Apocalipse excelente representação da Bula da Santa Cruzada Os sete selos do livro e os sete impedimentos à sua abertura pecados reservados excomunhões interditos votos enfermidades dívidas temporais aos homens e espirituais a Deus Universalidade das graças do lado de Cristo Aperuit Abriuse o lado de Cristo mas porque se podia abrir mais ou menos para que saibamos a largueza com que se abriu e quão imensos são os tesouros que dele se nos comunicam vejamo los patentes e declarados não por outro intérprete senão pela mesma bula Diz S João no princípio de seu Apocalipse que viu diante do trono de Deus um pergaminho escrito por dentro e por fora envolta e cerrado com sete selos Isto é o que ele chama livro porque assim eram e se chamavam os livros daquele tempo Desejava como profeta saber o que continha aquela escritura tão cerrada Apc 51 E diz que chorava muita por se não achar quem a abrisse Mas logo se chegou a ele um velho dos vinte e quatro anciãos que assistem ao trono de Deus o qual o consolou dizendo que o Leão da tribo de Judá tinha poder para abrir Então viu S João um cordeiro que estava em pé como morto o qual desfechando os sete selos abriu e estendeu o pergaminho e fez patente o que nele estava escrito Grande mistério verdadeiramente e grande e excelente representação ou figura da Bula da Santa Cruzada Primeiramente isto significam os selos que são os que dão autoridade à bula e dos mesmos selos pendentes é que ela tem e tomou o nome porque bula quer dizer selo Estava o pergaminho escrita por dentro e por fora porque as graças que contém a bula não só pertencem aos bens interiores e espirituais senão também aos temporais e exteriores e não só aos vivos que estamos neste mundo senão também aos defuntos que estão fora dele Não se achava quem abrisse o que ali estava fechado e publicasse o que estava escrito porque este poder é só de Cristo e do seu Vigário e por isso o velho que consolou S João como tem para si Lirana foi S Pedro Disse que a abriria o Leão da tribo de Judá que é Cristo o qual logo apareceu em figura de cordeiro em pé e como morto Agnum stantem tanquam occisum Apc 56 tudo com o mesmo mistério Em figura de cordeiro porque esta obra sendo de seu poder é muito mais de sua benignidade e misericórdia Em pé e como morto porque Cristo morreu na cruz não jazendo senão em pé e da cruz acresceu à bula o nome de Cruzada E finalmente não morto senão como morto porque correr sangue do lado de Cristo o que só acontece aos vivos foi ação de faculdade vital e vivificante como gravemente notou S Hipólito Ut ne ipsum corpus mortuum aliis simile apporeat nobis autem ea quae sunt vitae causa possit profundere15 Correu sangue do lado de Cristo morto diz este antiquíssimo Padre para que entendêssemos que o mesma lado ainda morto tinha potência de vivificar e que dele manavam todas as graças que nos haviam de dar vida Vamos agora metendo a mão neste sagrado lado aberto não como Tomé incrédulo mas fiel e abrindo os sete selos um por um como o mesmo cordeiro crucificado os abriu vejamos os divinos tesouros de graças que naquela larga escritura se nos prometem e comunicam Em uma alma ou consciência embaraçada podem geralmente concorrer sete impedimentos para não conseguir prontamente os meios de sua salvação pecados reservados excomunhões interditos votos enfermidades dívidas temporais aos homens e espirituais a Deus E todos estes impedimentos com poucas exceções em que me não possa deter e se contêm na mesma bula se nos tiram e facilitam por ela Achase carregada vossa alma não só com pecados mas com pecados de dificultosa absolução quais são os reservados Tomai a Bula da Santa Cruzada abri o primeiro selo Aperuit e ela dá poder ao confessor que elegerdes para vos absolver de todos por graves e enormes que sejam e não só reservados aos prelados ordinários mas à mesma Sé Apostólica Estais ligado com a gravíssima censura da excomunhão tendes horror como deveis ter de vós mesmo vendovos da comunicação dos fiéis Abri o segundo selo Aperuit e por graça e faculdade da mesma bula sereis absolto da excomunhão ou seja a jure ou ab homine e restituído ao antigo estado Fecharamsevos as portas da Igreja por estar interdita a paróquia a cidade ou reino onde viveis Nomeia desta tristeza e desconsolação pública abri o terceiro selo Aperuit e pelo privilégio que debaixo dele se vos concede não só podereis assistir privadamente aos divinos ofícios e receber os sacramentos mas se durante o interdito morrerdes gozareis de eclesiástica sepultura Fizestes votos com que vos obrigastes a Deus e aos santos mais do que o tempo as ocupações e a pouca devoção vos dão lugar Abri o quarto selo Aperuit e o confessor por virtude da bula volos comunicará de modo que facilmente os possais cumprir Sois enfermo ou achacado fazem vos dano à saúde os comeres quadragesimais Abri o quinto selo Aperuit e de conselho do médico e confessor não só na quaresma mas em todos os outros dias proibidos podereis comer licitamente o que julgardes conveniente à vossa fraqueza Adquiristes e possuís bens alheios não sabeis a quem os haveis de restituir porque ou foram adquiridos vagamente ou não aparece o dano não podeis restituir inteiramente por pobreza ou não quereis por avareza como é mais certo Abri o sexto selo Aperuit e a tudo vos dará a bula tão fácil remédio que com pouca despesa satisfaçais muita dívida Finalmente deveis a Deus as penas de vossos pecados que sois obrigado a pagar ou nesta ou na outra vida como as estão pagando os do purgatório dos quais igualmente vos compadeceis ou pelas obrigações do sangue ou pelas de cristão Abri o sétimo selo Aperuit e acharvoseis rico de tantas abundâncias de graças e indulgências que plenamente e plenissimamente possais satisfazer para vós e por todos os defuntos a quem se estender a vossa caridade Oh misericórdia do lado de Cristo Oh tesouros da Madre Igreja que dele se enriqueceu Ele tão infinito em lhos entregar e ela tão liberal em nolos repartir Agora entendereis a cláusula desta visão do Apocalipse Diz S João que quando o cordeiro abriu os sete selos daquela misteriosa escritura prostrados diante do seu trono lhe deram infinitas graças todos os que estavam no céu e na terra e debaixo da terra e no mar e debaixo do mar Et omnem creaturam quae in coelo est et super terram et quae in eo omnes audivi dicentes sedenti in throno et Agno Benedictio et honor et gloria E quem são estes que davam tantas graças a Deus e ao cordeiro que abriu os sete selos não só no céu senão na terra e no mar senão também debaixo da terra e debaixo do mar São todos aqueles que por diversos modos gozam os benefícios da bula Os do céu são os bemaventurados os da terra e do mar são os vivos os de debaixo da terra e debaixo do mar são os defuntos E todos davam graças a Deus e a Cristo morto pela abertura dos sete selos da Santa Cruzada porque bemaventurados vivos e defuntos todos por diverso modo lhe devem o maior benefício Os bem aventurados porque por meio da bula subiram direitos à glória Os vivos porque por meio da bula se restituem à graça Os defuntos e do purgatório porque por meio da bula se livram das penas Vede atém onde alcançam e se são grandes e universais para todos as graças daquele l rcês e graças não basta só estarem impetradas e concedidas nem basta terdes em vosso poder as portarias os alvarás e as provisões para que entre o dado e o efetivo entre a escritura e a posse entre o papel e o que ele diz não se atravessem muitos embaraços e muito tempo de esperas e ainda de desesperações com muita razão me perguntareis Estas graças e indulgências tão grandes que se nos concedem nas bula quando se alcançam Já pagamos a esmola já se escreveu o nosso nome na bula já temos em nosso poder mas o efeito ou o efetivo quando há de ser A palavra que se segue o diz Et continuo Logo sem dilação logo sem tardança logo verdadeiramente logo E digo verdadeiramente por que não cuide ou receie alguém que o logo da Santa Cruzada é como os logos dos vossos tribunais Não há palavra mais equivoca nem advérbio de mais duvidosa significação que o logo em matéria de despachos Apenas há remissão que não desça comum logo e quase não há consulta que não suba dois logos e alguma com três Mas estes logos quão são longos são quando tardam e quando duram Há logo de dois anos e de quatro e de dez e de toda a vida Estais despachado para a Índia sobem vossos papéis com três logos dispara a capitânea peça de leva cortamse as amarras embarcaivos e que vos sucede Estivestes parado muitos dias nas calmas Guiné destes volta ao Cabo de Boa Esperança invernastes em Moçambique passastes duas vezes a linha chegais finalmente a Goa a cabo de um ano e meio e os logos ainda não chegaram Se lá morrestes chegarão para o dia do juízo e se tornastes daí a oito ou dez anos ainda os logos estão lá em cima ou não há já memória donde estejam E isto é o que significavam aqueles logos Muitas vezes me pus a considerar que quer dizer logo Logo Porque se o primeiro logo significa logo o segundo que significação tem Parece que um logo sobre outro logo é como um não sobre outro não Um não sobre outro não quer dizer sim e um logo sobre outro logo muitas vezes quer dizer nunca e quase sempre tarde Isto porém se entende quando os logos são para remunerar e premiar beneméritos que quando são para os destruir e aniquilar um logo e dois e três todos voam Vedeo na tragédia do grande precursor de Cristo Fez elrei Herodes aquele solene convite ao dia dos seus anos saiu a dançar a filha de Herodias disselhe o rei que pedisse ainda que fosse a metade do seu reino E que pediu A cabeça do Batista com três logos Cunque introisset statim cum fesatinatione ad regem petivit dicens volo ut protinus des mihi in disco caput Joannis Baptistae16 Contai os logos e vede se foram três Statim logo cum festinatione logo protinus logo E foram os logos tão prontos e tão logos que logo entre os pratos da mesa apareceu em um deles a cabeça do maior dos nascidos Estes são os logos da justiça ou tirania do mundo Quatro significações todas formidáveis Para o bem um nunca para o mal três logos Statim cum festinatione protinus Só o logo da Santa Cruzada sendo para bem e para tão grandes bens verdadeiramente e com infalível certeza é logo Et continuo Para um logo não ser logo podemno impedir e retardar ou as distâncias do tempo ou as dos lugares Mas nem as distâncias do tempo ainda que sejam de muitos anos nem as distâncias dos lugares ainda que sejam de muitos centos de léguas podem impedir ou suspender o logo da Santa Cruzada para que não seja logo Vamos à mesma bula e ide comigo O jubileu do Ano Santo antigamente era de cem em cem anos e depois foi de cinqüenta em cinqüenta hoje é de vinte e cinco em vinte e cinco Mas esta mesma distância de tempo tão comprido se estreita e abrevia de tal modo por graça e privilégio da bula que sem esperar vinte e cinco anos nem dez nem dois nem um neste mesmo dia podeis ganhar o jubileu do Ano Santo e neste mesmo ano duas vezes Nas distâncias dos lugares ainda é mais maravilhoso este logo Et continuo Quereis ganhar as indulgências de São Tiago haveis de peregrinar cem léguas a Compostela Quereis fazer as estações de Roma e correr as sete igrejas dentro e fora dos muros haveis de peregrinar quinhentas léguas à Itália Quereis visitar a Santo Sepulcro o calvário o Monte Olivete a Casa Santa haveis de peregrinar mil léguas a Jerusalém Não são grandes distâncias de lugares estas Grandes por certo e ainda maiores se lhes ajuntarmos que haveis de passar por terras habitadas de infiéis e por mares infestados de infinitos corsários onde é mais certa a escravidão e o remo que os perdões e indulgências que ides buscar Mas para todos estes perigos eu vos darei um passaporte muito seguro e para todos estes caminhos um atalho muito breve Tomai a Bula da Santa Cruzada e sem sair de Lisboa fostes a Compostela fostes a Roma fostes a Jerusalém porque as graças que lá haveis de ir buscar aqui se vos concedem não diversas nem menores senão as mesmas Quereilas alcançar logo Visitai cinco igrejas Quereis mais logo Visitai na mesma igreja cinco altares Quereis mais logo Visitai o mesmo altar cinco vezes e sem vos bulir de um lugar fostes à Galiza fostes à Itália fostes à Palestina e vos achais rico de todos os tesouros de graças que tão longe se vão buscar com trabalho Mas ouço que me diz algum pobre Padre não são indulgências o que eu só quero maior mal e maior pena é a minha Fui tão desgraciado que incorri uma excomunhão da Bula da Ceia E quem me há de levar aos pés do Padre Santo e mais em tempo de tantas guerras Também cometi um pecado muito grave reservado ao meu bispo e agora não há bispos Além de que eu sou de uma aldeia de entre Douro e Minho e depois que faltou o santo frei Bartolomeu dos Mártires já os prelados não conhecem o meu lugar Assim que me vejo com o remédio quando menos mui dilatado a morte pode vir mais cedo não sei que há de ser de mim Quê Eu vos dou o remédio logo Tomai a Bula da Santa Cruzada elegei um confessor e logo tendes o bispo na vossa igreja e o Papa na vossa terra porque o confessor com uma bula na mão é bispo e é Papa Pode haver maior felicidade e maior brevidade que esta para os pecados para as censuras para as indulgências De maneira que sem a Bula da Cruzada haveis de ir buscar o Bispo e o Papa e com a bula o bispo e o Papa vêmvos buscar a vós Sem a bula havíeis de ir tão longe a Compostela a Roma a Jerusalém com a bula tendes Compostela tendes Roma tendes Jerusalém dentro de Lisboa Vede quanto vai deste sagrado tribunal aos outros Nos outros tribunais tratamse os negócios em Lisboa como se estiveram em Roma ou em Jerusalém neste tratamse e conseguemse os de Roma e de Jerusalém como se estiveram em Lisboa Em Lisboa digo mas não como em Lisboa porque o despacho e as graças não estão na mão dos ministros senão na vossa E se vos parece coisa dificultosa que naquela folha de papel como se fora um mapa do mundo se ajuntem lugares tão distantes e terras tão remotas como são Roma Jerusalém e Lisboa e que para se conseguirem tantos tesouros de graças se contente Deus e o seu Vigário com que vos ponhais de joelhos numa igreja respondeime a uma pergunta Quem é mais liberal Deus em dar ou o demônio em prometer Não há dúvida que Deus em dar Lembraivos agora do que fez o demônio e do que prometeu e do que pediu a Cristo na tentação do monte O que fez foi trazer ali todo o mundo o que prometeu foi a glória de todos os reinos o que pediu foi somente que se pusesse Cristo de joelhos diante dele Pois se o demônio trouxe todos os reinos do mundo a um monte porque não trará Deus por modo mais fácil Jerusalém Roma e as outras cidades santas à vossa E se o demônio prometeu todas as glórias daqueles reinos porque não prometerá Deus todas as graças daqueles lugares E se o demônio se contenta e não quer mais nem põe outra condição senão que se lhe ajoelhem porque se não contentará Deus com vos ver de joelhos diante de si contrito arrependido e arando Finalmente se o demônio fez tudo isto como diz o evangelista em um momento In momento Lc 45 porque o não fará Deus em um logo que seja logo Et continuo Mas já é tempo de concluirmos Vão juntas as duas últimas palavras VIII Exivit sanguis et aqua Por que do lado de Cristo morto saiu sangue e água O Mar Vermelho e o Jordão figuras do martírio e do batismo Vantagens da Bula sobre o martírio e o batismo A indulgência plenária batismo com repetição e martírio sem tormento Exivit sanguis et aqua Jerônimo que por testemunho da Igreja na interpretação das Sagradas Escrituras é o Máximo de todos os doutores declarando o mistério porque do lado de Cristo morto saiu sangue e água disse com singular propriedade que foi para significar no sangue o martírio e na água o batismo Latus Christi percutitur lancea et baptismi atque martyrii pariter sacramenta funduntur17 E por que razão mais o martírio e o batismo que algum dos outros sacramentos A razão deste pensamento não a deu S Jerônimo mas posto que seja altíssima não é dificultosa de entender Entre todos os sacramentos só o batismo e o martírio que também é batismo de tal modo purificam a alma e a absolvem de toda a culpa e pena que no mesmo ponto ao mártir por meio do sangue próprio e ao batizado por meio da água batismal se lhes abrem as portas do céu e se lhes franqueia a vista de Deus Esse foi o mistério com que ao soldado que abriu o lado tanto que dele saiu o sangue e água logo sendo cego se lhe abriram os olhos e viu ao mesmo Cristo que não podia ver E como o fim da encarnação do Verbo foi destruir o pecado reparar o estado da inocência e abrir e restituir ao homem o Paraíso perdido por isso o último ato da vida e morte de Cristo e a última cláusula com que cerrou a obra da Redenção foi tirar do sacrário de seu próprio peito aquelas duas chaves douradas do céu e darnos as duas prendas mais seguras de sua graça e glória que são no sangue a do martírio e na água a do batismo Baptismi atque martyrii poriter sacramenta funduntur Quando os filhos de Israel passaram do Egito à Terra de Promissão passaram pelo Mar Vermelho e pelo Rio Jordão mas por um e outro a pé enxuto E que Egito que Terra de Promissão que filhos de Israel que Mar Vermelho que Rio Jordão foi este O Egito é o mundo a Terra de Promissão é a glória os filhos de Israel são os fiéis o Mar Vermelho é o martírio o Rio Jordão é o batismo e passaram por um e outra milagrosamente a pé enxuto porque só pelo Mar Vermelho do martírio e só pelo Rio Jordão do batismo se pode passar à glória a pé enxuto isto é sem tocar as penas do purgatório Mas com isto ser assim debaixo das mesmas figurações de martírio e Batismo acho eu que ainda nos deu mais o lado de Cristo e foi mais liberal conosco nas graças da Santa Cruzada Comparado o martírio com o Batismo não tem conhecida vantagem ambos se excedem um ao outro e ambos são excedidos O batismo como é sacramento do princípio da vida deixanos capazes de merecer mas também capazes de pecar O martírio como se consuma com a morte e acaba a vida deixanos incapazes de pecar mas também incapazes de merecer E nesta vantagem recíproca com que o martírio e o batismo se excedem e são excedidos só poderá resolver qual é maior graça quem primeiro averiguar se é melhor o merecimento com perigo ou a segurança sem merecimento tão iguais ou problemáticas são as prerrogativas do batismo e do martírio comparados entre si Mas comparados com as graças da Santa Cruzada não há dúvida que a indulgência e indulgências plenárias que tão facilmente e por tantos modos se nos concedem nela ainda têm circunstâncias de vantagem com que não só igualam mas excedem ao mesmo batismo e ao mesmo martírio Igualam o batismo e o martírio porque se o batismo e o martírio purificam e livram a alma de toda a culpa e pena o mesmo faz a indulgência plenária verdadeiramente ganhada E excedem o mesmo batismo e o mesmo martírio porque a indulgência plenária é como o martírio mas como martírio sem tormento e é como o batismo mas como batismo com repetição Ora vede O martírio como lhe chama a Igreja é um compêndio ou atalho brevíssimo do caminho da glória porque o mártir sem dar mais que um passo com um pé na terra e outro no céu entra da morte à bem aventurança Por aquela morte se lhe não pede conta da vida por aquela pena se lhe perdoam todas as penas que devia por seus pecados E posto que tivesse sido o maior pecador no mesmo ponto fica santo Grande felicidade por certo e muito para desejar Mas os mártires que assim passaram ao céu por onde passaram Uns por cruzes outros por grelhas outros por rodas de navalhas outros pelas unhas e dentes das feras e todos por tantos e tão atrozes tormentos que muitos por medo e horror de tão cruéis mortes se escondiam e fugiam do martírio e outros estando já nele por não lhes bastar a fortaleza e constância para sofrer desmaiavam e retrocediam Vede agora quanto mais fácil é ir direito ao céu por uma indulgência da Bula da Cruzada que de cruz não tem mais que o nome O mártir sobe direito ao céu mas por tantos tormentos e tão arriscados vós com a indulgência plenária também subis direito ao céu mas sem tormento nem risco Por isso o sangue que significava o martírio não saiu do lado de Cristo vivo com dor senão do lado morto e insensível porque as graças que manaram daquela fonte divina se bem logram os privilégios de martírio são martírio sem tormento E se é grande prerrogativa a da indulgência plenária por ser como o martírio mas sem tormento não é menor nem menos privilegiada por ser como o Batismo mas com repetição A graça do sacramento do Batismo é tão maravilhosa por grande como por fácil Que maior maravilha e que maior facilidade que um homem carregado de pecados e obrigado por eles a penas eternas purificar se de toda a culpa e livrarse de toda a pena só com se lavar ou o lavarem com uma pouca de água Mas esta mesma graça tão grande e esta mesma maravilha e facilidade se é lícito falar assim tem um notável defeito E qual é Não se poder o batismo reiterar nem repetir O homem uma vez batizado não se pode batizar outra vez Essa foi a razão como lemos em Santo Agostinho porque muitos dos antigos catecúmenos conhecendo esta limitação e que não se podiam batizar mais que uma só vez ou dilatavam o batismo para a morte ou quando menos para a velhice reservando e como poupando a eficácia daquele remédio para o tempo da maior necessidade Era abuso e por isso se proibiu justificadamente Mas se o Batismo se pudera repetir e um homem se pudesse rebatizar todas as vezes que quisesse não há dúvida que seria graça sobre graça e um excesso de favor muito mais para estimar Pois isto mesmo que Deus não concedeu a todos pelo sacramento do batismo nos concede hoje a nós pela bula da Santa Cruzada Porque sendo a indulgência plenária como batismo em purificar de culpa e pena é juntamente como Batismo com repetição porque se pode repetir e reiterar muitas vezes O batismo é fonte que se abre uma só vez e se torna a cerrar para sempre mas a indulgência da Bula é fonte que se abre hoje e todos os anos e não se torna a cerrar antes fica continuamente aberta Por isso o lado de que saiu a água que significava o batismo de tal maneira se abriu estando Cristo morto que não se tornou a cerrar nem depois de ressuscitado Aberto uma vez e sempre aberto Lancea latus ejus aperuit et continuo exivit sanguis et aqua IX A segunda lançada e as queixas de Cristo à sua Igreja Naamã Siro e o desprezo do remédio pela facilidade Tenho acabado o meu discurso e sei senhores que vos tenho cansado mas não sei se vos tenho persuadido Se estais resolutos todos a vos aproveitar de tão inestimáveis tesouros isto é o que Cristo deseja e esta a correspondência que espera de vossa devoção o amor e liberalidade com que para vos encher de graças abriu e tem aberto o lado Mas se houver algum cristão indigno de tal nome que por fraqueza de fé ou falta de piedade não agradeça ao mesmo Senhor as mercês que tão de graça lhe oferece ao menos com as aceitar e estimar como merecem saiba que esta será a segunda lançada com que lhe penetrará mais dentro o peito aberto e lhe ferirá o coração A lançada do Calvário não diz o texto que feriu senão que abriu o lado esta segunda lançada é a que só pode ferir e penetrar tão dentro que lhe chegue ao coração Vulnerasti cor meum soror mea sponsa vulnerasti cor meum in uno oculorum tuorum18 São queixas de Cristo à sua Igreja que se compõe de maus e bons de devotos e indevotos e de fiéis e infiéis Diz pois o amoroso Senhor que sua esposa lhe feriu o coração com um dos olhos In uno oculorum E por que não com ambos Porque os dois olhos da Igreja são a fé e o entendimento e só com um deles se se dividem ferem os homens neste caso o coração de Cristo Os hereges ferem o coração de Cristo com o olho da fé In uno oculorum porque negam a verdade das indulgências e o poder do pontífice para as conceder Assim as negou Lutero por sinal que raivoso de se dar a outro pregador o sermão da cruzada que ele pretendia pregar E este foi o primeiro erro com que depois se precipitou a tantos Os católicos que somos nós ferem também o coração de Cristo mas com o olho do entendimento In uno oculorum porque crendo o poder do pontífice e a verdade das indulgências têm alguns tão pouco juízo que por negligência e pouco cuidado da alma e por desprezo dos bens do céu deixam de se aproveitar de tamanhos tesouros Oh que ferida esta para o coração de Cristo tão cruel da nossa parte e tão sensível da sua É possível que há de haver no mundo homem com fé que podendose purificar de todos seus pecados e pagar a Deus as penas de que lhe é devedor e uma e outra coisa tão facilmente o não faça Mas a mesma facilidade é a causa É tal a condição vil de nossa natureza que só estimamos o dificultoso e desprezamos o fácil A primeira vez que se concederam as indulgências do Ano Santo foi tal o concurso de todo o mundo a Roma que não cabendo a multidão das gentes na cidade inundava os campos Se esta mesma bula se concedera uma só vez em cem anos e no cabo do mundo lá a havíamos de ir tomar Pois porque Deus nos facilita tanto este bem e nos vem buscar com ele à nossa casa o havemos nós de estimar menos O que o havia de fazer mais precioso lhe há de tirar o preço Tais como isto somos os homens Quando Eliseu mandou a Naamã Siro que se lavasse no Jordão para sarar da lepra quisse ele voltar logo para a sua terra desprezando o remédio pela facilidade e não crendo que podia ter tanta virtude o que tão pouco custava Mas que lhe disseram a este príncipe os seus criados e como o persuadiram a que fizesse o que Eliseu lhe ordenava Pater et si rem grandem dixisset tibi propheta certe facere debueras quanto magis quia nunc dixit tibi lavare et mundarebis 4 Rs 513 Senhor se o profeta vos mandasse fazer uma coisa muito dificultosa é certo que a havíeis de fazer para sarar da lepra pois se vos pede uma coisa tão fácil como lavarvos no Jordão por que o não fareis Isto diziam a Naamã os prudentes criados e o mesmo digo eu aos que não quiserem curar suas consciências e acudir a suas almas para esta e para a outra vida com um remédio tão fácil Se para nos purificar de tantas lepras tão feias tão asquerosas e tão mortais como são os pecados de todo gênero e para nos livrar das penas devidas por eles ou eternas no inferno ou de muitos anos no purgatório devíamos aceitar qualquer partido e oferecernos muito de grado a qualquer satisfação por dura e dificultosa que fosse uma tão fácil como esta em que tudo se nos concede e perdoa de graça por que a desprezareinos Se há alguém que saiba responder a este porquê deixe embora de tomar a Bula Mas porque estou certo que nenhum entendimento que tenha fé lhe pode achar resposta querovos deixar com a mesma pergunta nos ouvidos esperando que por eles nos abra os corações aquele mesmo Senhor que para nos encher de tantas graças se deixou abrir o peito Unus militum lancea latus ejus aperuit SERMÃO DE QUARTAFEIRA DE CINZA EM ROMA NA IGREJA DE S ANTÔNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1673 AOS 15 DE FEVEREIRO DIA DA TRASLADAÇÃO DO MESMO SANTO Pulvis es et in pulverem reverteris1 I Duas coisas prega hoje a Igreja pó e pó Um é a triaga e corretivo do outro como os pós venenosos com que se quis envenenar o imperador Valente Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais ambas grandes ambas tristes ambas temerosas ambas certas Assim comecei eu o ano passado quando todos estávamos mais longe da morte mas hoje que também estamos todos mais perto dela importa mais tratar do remédio que encarecer o perigo Adiantando pois o mesmo pensamento e sobre as mesmas palavras digo senhores que duas coisas prega hoje a Igreja a todos os vivos uma grande outra maior uma triste outra alegre uma temerosa outra segura uma certa e necessária outra contingente e livre E que duas coisas são estas Pó e pó O pó que somos Pulvis es e o pó que havemos de ser In pulverem reverteris O pó que havemos de ser é triste é temeroso é certo e necessário porque ninguém pode escapar da morte o pó que somos é alegre é seguro é voluntário e livre porque se nós o quisermos entender e aplicar como convém o pó que somos será o remédio será a triaga será o corretivo do pó que havemos de ser Notável foi o caso sucedido em tempo do imperador Valente do qual disse então com elegante juízo o poeta Ausônio aquela tão celebrada sentença Et cum fata volunt bina venena juvan2 Quis uma inimiga doméstica tirar a vida com veneno ao senhor da casa e depois de ter medicado a bebida com certos pós venenosos duvidando ainda se teriam bastante eficácia para segurar melhor o efeito mandou buscar outros Vieram os segundos pós lançaos na mesma taça a traidora bebe o inocente marido mas quando ela esperava que caísse subitamente morto ele ficou tão vivo e sem lesão como dantes Admirável acontecimento Se os primeiros pós bastavam para matar e os segundos também ambos juntos por que não mataram Este homem não era Mitrídates que se alimentasse com veneno Se bebia só os primeiros pós morria se bebia só os segundos também morria Pois por que não morreu bebendo uns e mais os outros Porque os segundos pós foram corretivos dos primeiros A guerra que haviam de fazer ao coração fizeramna entre si e em vez de matar mataramse Tais são os dois pós com que hoje nos ameaça a sentença universal de Adão Pulvis es um pó In pulverem reverteris outro pó ambos mortais ambos venenosos mas se nós quisermos não está na mão dos fados senão na nossa que um seja a triaga e o corretivo do outro Isto é o que determino pregar hoje A Igreja põevos sobre a cabeça uma cinza feita de palmas eu heivos de meter na mão uma palma feita de cinzas Havemos de vencer um pó com outro pó havemos de curar um veneno com outro veneno havemos de matar uma morte com outra morte a morte do pó que havemos de ser com a morte do pó que somos Pulvis es et in pulverem reverteris Para que eu saiba preparar estes pós de modo que venham a ter uma tão grande virtude e para que vós e eu saibamos aplicar como convém não por cerimônia que não é o dia disso senão muito de coração peçamos a assistência da divina graça Ave Maria II Ser pó por eleição antes de ser pó por necessidade os que morrem quando morrem segundo Davi e os que morrem antes de morrer segundo S JoãoOs três perigos da morte ser uma ser incerta ser momentânea Pulvis es et in pulverem reverteris Homem cristão com quem fala a Igreja és pó e hás de ser pó Que remédio Fazer que um pó seja corretivo do outro Sê desde logo o pó que és e não temerás depois ser o pó que hás de ser Sabeis senhores por que tememos o pó que havemos de ser É porque não quereinos ser o pó que somos Sou pó e hei de ser pó pois antes de ser o pó que hei de ser quero ser o pó que sou Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade Não é melhor que faça desde já a razão o que depois há de fazer a natureza Se a natureza me há de resolver em pó eu querome resolver a ser pó e faça a razão por remédio o que há de fazer a natureza sem remédio Não sei se entendestes toda a metáfora Quer dizer mais claramente que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer Este é o meu pensamento e envergonhome sendo pensamento tão cristão que o dissesse primeiro um gentio Considera quam pulchra res sit consummare vitam ante mortem deinde expectare securum reliquam temporís sui partem3 Lucílio meu diz Sêneca escrevendo de Roma à Sicília O pensamento saiu de Roma e fora melhor que não saísse Lucílio meu considera com atenção o que agora te direi e toma um conselho que te dou como mestre e como amigo Se queres morrer seguro e viver o que te resta sem temor acaba á vida antes da morte Ó grande e profundo conselho merecedor verdadeiramente de melhor autor e digno de ser abraçado de todos os que tiverem fé e entendimento Consumare vitam ante mortem Acabar á vida antes de morrer e ser pó por eleição antes de ser pó por necessidade Isto disse e ensinou um homem gentio porque para conhecer esta verdade não é necessário ser cristão basta ser homem Memento homo Suba agora a fé sobre a razão venha a autoridade divina sobre a humana e ouçamos o que diz o céu à terra Audivi vocem de caelo dicentem mihi Scribe Beati mortui qui in domino moriuntur Apc 1413 Ouvi diz S João uma voz do céu que me dizia e me mandava escrever esta sentença Bemaventurados os mortos que morrem em o Senhor Celestial oráculo mas dificultoso Quis mortuus mori potest argüi a pergunta S Ambrósio Que morto há que possa morrer Nullus procul dubio Nenhum Tudo acaba a morte e tudo se acaba com a morte até a mesma morte Quem morreu já não pode morrer Só os mortos têm este privilégio contra a jurisdição e império universal da morte São sujeitos à morte os príncipes os reis os monarcas só os mortos depois que uma vez lhe pagaram tributo ficarão isentos de sua jurisdição Por isso Tertuliano chamou judiciosamente a sepultura mortis asylum asilo e sagrado da morte Contra a alçada da morte nem o Vaticano é sagrado mas a sepultura sim porque os mortos já não podem morrer Como diz logo a voz do céu a S João Bemaventurados os mortos que morrem em o Senhor Mortos que morrem Que mortos são estes São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer Os que acabam a vida com a morte são vivos que morrem porque os tomou a morte vivos os que acabam a vida antes de morrer são mortos que morrem porque os achou a morte já mortos Illi sunt beati et illi in Domino moriuntur qui prius moriuntur mundo postea carne responde o mesmo S Ambrósio Sabeis quais são os mortos que morrem São aqueles que acabaram a vida antes de morrer aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo Qui prius moriuntur mundo postea carne Estes são os mortos que morrem estes são os que morrem em o Senhor estes são os que a voz do céu canoniza por bemaventurados Beati mortui E se os que morrem mortos são bemaventurados os que morrem vivos que serão Sem dúvida malaventurados Grande texto de Davi Veniat mors super illos et descendant in infernum viventes Sl 54 16 Venha a morte sobre eles e desçam vivos ao inferno A primeira parte desta sentença faz estranha e dificultosa a segunda Que possam homens descer vivos ao inferno exemplo temos em Datã e Abiron abriuse a terra e engoliuos o inferno vivos Núm 1632 Mas o caso do nosso texto ainda encerra maior maravilha Diz que virá a morte sobre eles Veniat mors super illos e que assim descerão vivos ao inferno Et descendant in infernum viventes Se a morte veio sobre eles já os matou e se já são mortos como diz o profeta que desceram ao inferno vivos Porque esse é o estado em que os achará a morte Não fala o profeta do estado em que hão de chegar ao inferno senão do estado em que os achará e tomará a morte quando lá der com eles A morte quando vem mata a cada um no estado em que o acha Aos que acabaram a vida antes de morrer mataos já mortos aos que não quiseram acabar a vida antes da morte mataos vivos Estes tais vem a morte sobre eles os outros vão eles sobre a morte E vai tanta diferença de vir a morte sobre vós ou irdes vós sobre ela vai tanta diferença de morrer assim vivo ou já morto que os que morrem mortos são os que têm seguro o céu Beati mortui qui in Domino moriuntur e os que morrem vivos são os que vão ao inferno Veniat mors super illos et descendant ia infernum viventes Senhores meus o dia é de desenganos Morrer em o Senhor ou não morrer em o Senhor haver de ser bemaventurado ou não haver de ser bemaventurado é o ponto único a que se reduz toda esta vida e todo este mundo todas as obras da natureza e todas as da graça tudo o que somos e tudo o que havemos de ser porque é salvar ou não salvar Este é o negócio de todos os negócios este é o interesse de todos os interesses esta é a importância de todas as importâncias e esta é e deve ser na cúria e fora dela a pretensão de todas as pretensões porque este é o meio de todos os meios e o fim de todos os fins morrer em graça e segurar a bemaventurança E se me perguntardes essa bemaventurança e esse seguro e essa graça por que a não promete a voz do céu aos vivos que morrem senão aos mortos que morrem Mortui qiu moriuntur A razão verdadeira e natural e provada com a experiência de todos os que viveram e morreram é porque aqueles que morrem quando morrem hão de contrastar com todos os perigos e com todas as dificuldades da morte que é coisa muito arriscada naquela hora porém os que morrem antes de morrer já levam vencidos e superados todos esses perigos e todas essas dificuldades porque na primeira morte desarmaram e venceram a segunda Três coisas dividamos o discurso para que declareinos e apartemos bem este ponto três coisas fazem duvidosa perigosa e terrível a morte ser uma ser incerta e ser momentânea Estas são as três cabeças horrendas deste Cérbero estas são as três gargantas por onde o inferno engole o um ndo E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só quem Quem não guarda a morte para a morte quem acaba a vida antes de morrer quem se resolve a ser pó antes de ser pó Pulvis es III Primeira terrível condição da morte ser uma Razão da morte de Lázaro Deus deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição O inferno morte segunda para aqueles que só morrem uma só vez A dupla morte das árvores Primeiramente é terrível e terrivelíssima condição da morte ser uma Statutum est hominibus semel mori4 Hei de morrer e uma só vez A lei geral de Adão diz Morte morieris Morrerás Gên 2 17 A glosa de S Paulo acrescenta Semel Uma vez E sendo a lei tão temerosa muito mais terrível é a glosa que a mesma lei Os males desta vida quanto mais se multiplicam tanto são maiores Multiplicabo aerumnas tuas5disse Deus a Eva O maior mal da morte é não se poder multiplicar Se a unidade da morte se multiplicara e se pudera morrer mais de uma vez apelarase de uma para a outra Quando Davi saiu a desafio com o gigante meteu cinco pedras no surrão porque se errasse a primeira pedrada pudesse apelar para as outras pedras 1 Rs 1740 Todos havemos de sair a desafio com este grãogigante com este Golias da morte mas o vencer ou não vencer está em um só tiro Quem disse Non licet in bello bis errare errou6 Oque se erra em uma batalha pode se emendar na outra e o que se perdeu em uma rota podese recuperar em uma vitória só a morte é aquela em que não é lícito errar duas vezes Ergo erravimus Sab 56 Enfim erramos diziam depois de mortos aqueles que tinham dito pouco antes Coronemus nos rosis antequam marcescant Sab 28 Coroemo nos de rosas antes que se murchem Pois se errastes por que não emendais o erro Porque já não é tempo somos mortos Muito mais temerosa é nesta parte a morte do corpo que a morte da alma Para a morte da vida espiritual há contrição há penitência para a morte da vida corporal não instituiu Deus sacramento nem há remédio Quem a errou uma vez erroua para sempre A transmigração deste mundo para o outro não é como a transmigração de Pitágoras Se a alma depois de viver em um corpo pudera animar outro depois de o homem morrer a primeira vez em um ladrão pudera morrer a segunda em um anacoreta Mas quem uma vez morreu Judas não lhe resta outra morte para morrer Paulo Uma só morte ou boa para sempre ou má para sempre Semel Não há dúvida que é terrível condição esta da morte Mas para quem terrível Para quem morre quando morre Porém quem morre antes de morrer zomba desta condição e rise desta terribilidade Ridebit in die novissimo7 Que se me dá a mim que a morte seja uma se eu posso fazer que sejam duas A morte não tem remédio depois mas tem remédio antes Constituisti terminos ejus qui praeteriri non poterunt8 Notai a palavra praeteriri A morte é um termo que se não pode passar da parte dalém mas podese antecipar da parte daquém Não tem remédio depois poque depois de uma morte não há outra morte mas tem remédio antes porque antes de uma morte pode haver outra Por lei e por estatuto hei de morrer uma vez mas na minha mão e na minha eleição está morrer duas e este é o remédio Morreu Lázaro enterraramno as irmãs chegou Cristo ao sepulcro e chorou À vista destas lágrimas e da sepultura de Lázaro admirados os circunstantes diziam Non poterat hic qui aperuit oculos coeci nati facere ut hic non moreretur Jo 1137 Este que chora não é o mesmo que deu a vista ao cego de seu nascimento Sim Pois como não impediu que morresse Lázaro Se chora é seu amigo se deu vista ao cego é poderoso é amigo e poderoso e não faz por seu amigo o que pode Se o podia sarar por que o deixou morrer e não fez o que podia Não fez Cristo neste caso o que podia porque nos quis ensinar com este caso a fazer o que podemos Quisnos ensinar Cristo a morrer duas vezes Altamente Santo Agostinho Ut unus homo semel nasci et bis mori disceret Deixou Cristo morrer a Lázaro e não o quis sarar enfermo senão ressuscitar morto para que à vista deste exemplar morrendo Lázaro agora e tornando a morrer depois aprendessem e soubessem os homens que nascendo uma só vez podem morrer duas Semel nasci et bis mori Oh divino documento do divino Mestre Nascer uma vez e morrer duas vezes Bem creio eu que haverá bem poucos que quiseram antes trocados estes termos e poder nascer duas vezes para escolher nascimento Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo para a verdade e não para a vaidade deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição No nascer em que todos somos iguais não pode haver erro e por isso basta nascer uma vez no morrer em que o erro ou acerto importa tudo e há de durar para sempre era justo que o homem pudesse morrer duas vezes para eleger a morte que mais quisesse e para aprender morrendo a saber morrer Nenhuma coisa se faz bem da primeira vez quanto mais a maior de todas que é morrer bem Reparo é digno de toda a admiração que sendo tantas as meditações da morte e tantos os espertadores deste desengano sejam tão poucos os que sabem morrer Mas a razão desta experiência e desta desgraça é porque as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando senão exercitando Como se aprende a escrever Escrevendo Como se aprende a esgrimir Esgrimindo Como se aprende a navegar Navegando Assim também se há de aprender a morrer não só meditando mas morrendo Por isso Cristo nos ensinou em Lázaro a morrer duas vezes uma vez para que aprendêssemos outra para que soubéssemos morrer Ao paralítico e a outros a quem o Senhor deu saúde milagrosa depois de os sarar pregavalhes a Lázaro e aos demais que ressuscitou nenhum documento lhes deu E por quê Porque eram homens que já morreram uma vez e haviam de morrer outra e quem morre antes da morte não há mister mais doutrina para bem morrer O inferno e a condenação eterna que é o paradeiro dos que morrem mal chamase no Apocalipse morte segunda E faz menção ali S João de certas almas em quem a morte segunda não tem poder In his secunda mors non habet potestatem Apc 206 E que almas venturosas são estas em quem não tem poder a morte segunda Todos enquanto estamos sujeitos à morte primeira que é a morte temporal estamos também arriscados à morte segunda que é a morte eterna porque todos nos podemos condenar e ir ao inferno Que almas são logo estas privilegiadas que totalmente se isentam do poder e jurisdição da morte segunda São as almas daqueles que com verdadeira resolução e perseverança souberam acabar a vida antes da morte e morrer antes de morrer Das mesmas palavras de S João se colhe se bem as consideramos E se não pergunto Por que se chama a morte eterna precisa e determinadamente morte segunda e não mais que segunda Porque não pode ser morte senão daqueles que uma só vez Morte segunda referese à morte primeira e supõe antes de si outra morte mas uma só e não mais que uma porque se as mortes antecedentes fossem duas já não seria morte segunda senão morte terceira E como os que morrem em vida morrem duas vezes uma quando morrem e outra antes de morrer já não tem neles lugar morte segunda Para quem morre uma só vez há no inferno morte segunda para quem morre duas vezes não há lá morte terceira Por isso a que se chama segunda não tem sobre eles poder In bis secunda mors non habet potestatem Oh ditosos aqueles que para evitar o perigo da morte segunda souberem meter outra morte diante da primeira Cristãos e senhores meus se quereis morrer bem como é certo que quereis não deixeis o morrer para a morte morrei em vida não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama morrei na saúde e em pé E se quiserdes para esta grande empresa um corpo ou hieroglífico natural não notado por Plínio ou Marco Varro senão por autor divino e canônico eu volo darei Foi notar S Judas Tadeu naquela sua admirável epístola que as árvores morrem duas vezes Arbores autumnales infrutuosae bis mortuae9 A primeira vez morrem as árvores em pé a segunda deitadas a primeira quando se secam a segunda quando caem Platão disse que os homens são árvores às avessas e eu acrescento que se morrerem como as árvores serão homens às direitas Na árvore enquanto lhe dura a vida ou a verdura tudo são galas tudo pompa tudo novidades morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez e daquele corpo tão formoso e vário que vestiam as folhas que guarneciam as flores que enriqueciam os frutos não se vê mais que um cadáver seco triste e destroncado Neste despojo de tudo o que tinha sido presa ainda pelas raízes e sustentandose na terra mas não da terra espera a árvore em pé a última caída e esta é a segunda morte com que de todo acaba Assim deve acabar antes de acabar quem quer acabar bem Quantas primaveras têm passado por nós quantos verões e quantos outonos e pode ser que com menos fruto que folha e flores O que fazem os anos nas árvores bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos E é bem que a razão e o desengano o faça em todos pois são mais fracas as nossas raízes Espereinos mortos pela morte e esperemola em pé antes que ela nos deite na sepultura Oh ditosa sepultura a daqueles na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto Semel sepultus bis mortuus Uma vez sepultado e duas morto10 IV Segunda condição da morte ser incerta O pedido de Davi e a morte de Josias Catão e o oráculo de Júpiter Declarações de S Paulo O edito de Amã condenando à morte os hebreus S Pedro e a incerteza da morte O despacho de Davi poderia ser atendido por ele próprio Vencida assim esta primeira dificuldade de ser a morte uma seguese a segunda não menos perigosa nem menos terrível que é o ser incerta Certa a morte porque todos certa e infalivelmente havemos de morrer mas nessa mesma certeza incerta porque ninguém sabe o quando Repartimos a vida em idades em anos em meses em dias em horas mas todas estas partes são tão duvidosas e tão incertas que não há idade tão florente nem saúde tão robusta nem vida tão bem regrada que tenha um só momento seguro Perplexo no meio desta incerteza e temeroso dela Davi fez esta petição a Deus Notum fac mihi Domine finem meum et numerum dierum meorum ut sciam quid desit mihi Sl 38 5 Senhor não vos peço larga vida mas estes dias poucos ou muitos que hei de viver peçovos que me digais quantos são para saber o que me resta Assim o pediu Davi mas é a lei da incerteza da morte tão indispensável que nem a Davi o concedeu Deus Era Davi aquele homem que com verdade dizia de si Incerta et oculta sapientiae tuae manifestasti mihi11 e manifestandolhe Deus todos seus segredos e as outras coisas mais incertas e ocultas de sua providência só o incerto e oculto de sua morte lhe não quis revelar Tão reservado é só para Deus o certo desta incerteza Mas dado caso que Deus revelara a Davi a certeza da sua morte ainda depois de revelada e certificada por Deus digo que ficaria incerta Temos o caso em outro rei não menos santo nem menos favorecido de Deus que Davi Havendo elrei Josias feito grandes serviços a Deus em observância e aumento de religião prometeu lhe o mesmo Deus em prêmio destas boas obras que morreria em paz Idcirco colligam te ad patres tuos et colligeris ad sepulchrum tuum in pace12 Muito contente Josias com esta revelação e muito animado com este seguro divino como mancebo que era de trinta e nove anos desejoso de glória arma exército contra os assírios metese em campanha e tanto que os dois exércitos estiveram à vista põese na testa dos esquadrões com o bastão na mão e o cartaz de Deus no peito Eu hei de morrer na paz seguro estou na guerra Cerram nisto os esquadrões travase a batalha voam as setas senão quando uma delas atravessa pelo coração do rei Josias e cai morto Morto elrei Não pode ser Não tinha Josias uma revelação e um assinado de Deus que havia de morrer em paz Colligeris ad sepulchrum tuum in pace Pois como morre na guerra e na batalha Aqui vereis qual é a incerteza da morte É certo que Josias morreu na guerra é certo que Deus lhe tinha prometido que havia de morrer em paz é certo que a palavra de Deus não pode faltar e no meio de todas estas certezas foi incerto o dia incerto o lugar e incerto o gênero de morte de que havia de morrer e morreu Josias Mas como pode estar esta incerteza e tantas incertezas com a certeza infalível da palavra divina Disseo Davi nas mesmas palavras com que pouco há fez a sua petição Locutus sum in lingua mea notum fac mihi Domine finem meum13 Quando eu pedi a Deus que me revelasse o fim de minha vida falei na minha língua Locutus sum in lingua mea E assim como Davi falou a Deus na sua língua assim Deus falou a Josias na sua A língua de Deus não a entendem bem os homens porque pode ter muitos sentidos E que importa que tenha eu palavra de Deus e que a palavra de Deus seja certa se o sentido da mesma palavra de Deus pode ser incerto como aqui foi Por isso fala Deus de propósito com palavras de sentido duvidoso e incerto ainda quando revela os futuros da morte para que a certeza dela fique reservada sempre à sua sabedoria somente e para nós seja sempre duvidosa e sempre incerta Tal é senhores a incerteza da morte mas na nossa mão está fazêla certa se nos resolvemos a acabar a vida antes de morrer Que bem vem caindo neste lugar aquele dito verdadeiramente romano do vosso Catão Estava ele na África sustentando só como bom cidadão as partes da república contra César estava também ali o famosíssimo oráculo de Júpiter Amon Disseramlhe que o consultasse E que responderia Catão Respondeu mais sabiamente do que pudera responder o mesmo Júpiter Me non oracula certum sed mors cert facit Do meu fim não me certificamos oráculos o meu oráculo certo é a morte certa Falou barbaramente como gentio mas generosamente como estóico Era dogma da seita estóica nos perigos de morrer indignamente tirarse a si mesmos a vida antes da morte Assim o fez Catão tomando a morte certa por suas próprias mãos por antecipar a morte duvidosa vindo às mãos de César Melhor o cristão que o estóico O estóico matase para que o não matem o cristão morre para morrer Morrer mal para não morrer pior como faz o estóico parece valor e prudência mas é temeridade e fraqueza Morrer bem para morrer melhor como faz o cristão é valor e verdadeira prudência E se o estóico morre uma morte certa o cristão morre duas também certas porque na certeza da primeira segura a incerteza da segunda Que se lhe dá logo ao cristão que a morte seja incerta se ele morrendo antes a pode fazer certa Ouvi S Paulo Ego curro non quasi incertum 1 Cor 926 Eu passo a carreira da vida como os outros homens mas não corro como eles ao incerto senão ao certo Alude o apóstolo aos jogos daquele tempo em que os contendores corriam até certa baliza ou meta incertos de quem havia chegar primeiro ou depois A meta é a morte a carreira é a vida E por que diz Paulo que ele corria ao certo e não ao incerto como os demais Porque os demais acabam a carreira quando chegam à meta Paulo antes de chegar à meta tinha já acabado a carreira Os demais acabam a vida quando chegam à morte Paulo tinha acabado a vida antes de morrer O mesmo Apóstolo o disse persistindo na mesma metáfora Bonum certamen certavi cursum consumimavi 2 Tim 47 Já tenho vencido o certame já tenho acabado a carreira Já Para bem vos seja apóstolo sagrado mas quando Aqui está a dúvida Disse isto S Paulo na segunda epístola que escreveu a Timóteo a qual como nota o Cardeal Barônio foi escrita no ano quinto de Nero oito anos antes que o mesmo Nero lhe tirasse a cabeça Pois se a S Paulo lhe restavam ainda tantos anos de vida e podia viver muitos mais como diz que já tinha acabado a sua carreira Cursum consumimavi Porque não esperou pela morte para acabar a vida já tinha acabado a vida antes de morrer E como tanto tempo antes podia dizer com verdade Cursum consumniavi por isso disse também com a mesma verdade Ego curro non quasi in incertum porque já tinha feito certo o incerto da morte Para quem acaba a carreira da vida quando morre é a morte incerta mas para quem a soube acabar antes de morrer não é incerta é certa E para que vejais quão certa é notai que entre todas as mortes certas só esta com que acabamos a vida antes de morrer tem infalível e total certeza Todas as outras mortes ou no ser ou no modo ou no tempo têm suas incertezas só esta em si e em todas suas circunstâncias é certamente certa Quando por traça de Amã se publicou edito de morte contra todos os hebreus que viviam nas cento e dezessete províncias sujeitas a elrei Assuero diz o texto sagrado que todo Israel clamou a Deus vendose condenados sem remédio à morte certa Omnis Israel clamavit ad Dominum e o quod eis certa mors impenderet Est 13 18 Era certa esta morte porque estava sentenciada era certa porque estava determinado o dia e sobretudo era certa porque os decretos dos reis por lei inviolável dos persas e medos eram irrevogáveis Mas esta mesma morte tão certa e que por tantas razões carecia de toda a defesa e remédio humano alfim mostrou o efeito que não tinha infalível certeza porque descoberto o engano e maldade de Amã pela rainha Ester Assuero revogou o edito e todos os que estavam condenados e sujeitos à morte ficaram livres e vivos Est 16 Tão incerta é a morte ainda quando mais certa E se alguém me disser que era decreto humano e falível e que por isso houve incerteza na morte certa vamos a outra morte certa por decreto divino e vereis que também nela pode haver circunstâncias de incerteza Certus quod velox est depositio tabernaculi mei secundum quod et Dominus noster Jesus Christus significavit mihi 2 Pdr 114 Estou certo diz S Pedro na sua segunda epístola estou certo que hei de morrer brevemente porque assim mo significou o mesmo Cristo Pode haver maior certeza nem mais bem provada Não pode Mas ainda assim perguntara eu a S Pedro Apóstolo e pontífice santo a brevidade dessa mesma morte de que estais tão certo sabernoseis dizer quão breve há de ser Se será neste ano ou no seguinte Se será neste mês ou em algum dos outros Se será neste mesmo dia e nesta mesma hora e neste mesmo lugar em que estais escrevendo Nada disto podia dizer nem afirmar S Pedro porque debaixo daquela certeza particular significada e declarada por Cristo estava ainda encoberta e duvidosa e igualmente infalível aquela outra incerteza geral pronunciada pelo mesmo Cristo Quia nescitis diem neque horam14 De sorte que sabia S Pedro que havia de morrer brevemente mas o quando e onde não o sabia estava certo da morte e da brevidade mas do dia e da hora não estava nem podia estar certo e esta é a certeza da morte que se acaba com a vida Porém a morte em que se acaba a vida antes de morrer é tão certa em si e em todas as suas circunstâncias que se eu me resolvo neste ponto como devo resolver não só sei com certeza o lugar e o dia senão com certeza a hora e com certeza o momento E a razão desta diferença é a que notou Jó Breves dies hominis sunt numerus mensium ejus apud te est15 O quando daquela morte não o posso saber certamente porque está em Deus o quando de estoutra morte possoo saber com toda a certeza porque está em mim Aquele está em Deus porque depende só da sua vontade este está em mim porque a graça do mesmo Deus que nunca falta depende da minha Agora me não espanto que Deus não deferisse a petição de Davi porque o despacho se ele quisesse estava na sua mão Que dizia Davi e que pedia a Deus Pedia que Deus lhe revelasse o fim de sua vida Notum fac mihi Domine finem meum Sl 38 5 E para Davi ou qualquer outro homem sem ser profeta saber o fim de sua vida não é necessário que Deus lho revele Se eu quero saber o fim de minha vida ponhalhe eu o fim e logo o saberei Então será verdadeiramente fim meu Finem meum porque será livre e não necessário será voluntário e não forçoso será da minha eleição e do meu merecimento será enfim fim da minha vida e não da vida que não é minha porque só é minha a presente e não a futura Que mais pedia e queria Davi Et numerum dierum meorum queria saber a conta dos seus dias Inútil desejo e escusada petição Pedia o que não importa nada e deixava o que só importa Não quero saber a conta aos dias da vida futura quero saber conta e tomar conta aos dias da vida passada Não quero saber de Deus a conta dos dias que hei de viver quero saber de mim a conta que hei de dar a Deus dos dias que tenho vivido Esta é a necessária e verdadeira conta dos nossos dias Finalmente a que fim pedia Davi esta revelação Ut sciam quid desit mihi Para saber diz ele o que me falta E que importa saberdes o que vos falta se é melhor não o saber Não quero saber da vida o que me falta quero ignorar o que me sobeja Quem sabe quando há de morrer sabe os dias que lhe faltam quem morre antes de morrer ignora os dias que lhe sobejam e esta ignorância é melhor que aquela ciência Que maior felicidade na incerteza da morte que sobejarme a vida Aos que acabam a vida com a morte faltalhes a vida aos que acabam a vida antes de morrer sobejalhes E sequer estes sobejos da vida não os dareinos de barato a Deus e a alma Mas vamos à última dificuldade V O maior perigo da morte ser momentânea A morte instante que se desata do tempo que foi e não se ata com o tempo que há de ser O exemplo de Carlos Quinto de Davi e de Jó S Antônio e sua preparação para a morte Meter tempo entre a vida e a morte A última dificuldade e o maior perigo e aperto da morte é ser momentânea Que coisa é morte Momentum unde pendet eternitas um momento donde pende a eternidade ou por melhor dizer as eternidades O momento é um e as eternidades que dele pendem são duas ou de ver a Deus para sempre ou de carecer de Deus para sempre É uma linha indivisível que divide este mundo do outro mundo é um horizonte extremo donde para cima se vê o hemis fério do céu e para baixo o do inferno é um ponto preciso e resumido em que se ajunta o fim de tudo o que acaba e o princípio do que não há de acabar Oh que terrível ponto este e mais terrível para os que nesta vida se chamam felizes Ducunt in bonis dies suos et in punto ad inferna descendunt16 Se este ponto tivera partes fora menos temeroso porque entre uma e outra pudera caber alguma esperança alguma consolação algum recurso algum remédio mas este ponto não tem partes nem ata ou se ata com partes porque é o último O instante da morte não é como os instantes da vida Os instantes da vida ainda que não têm partes unemse com partes porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro O instante da morte é um instante que se desata do tempo que foi e não se ata com o tempo que há de ser porque já não há de haver tempo Et tempus non erit amplius Apc 106 Não vos parece que é terrível coisa ser a morte momentânea Não vos parece que é terrível momento este Pois eu vos digo que nem é terrível nem é momento para quem souber fazer pé atrás a acabar a vida antes de morrer porque ainda que a morte é momento e não é tempo quem acaba a vida antes de morrer mete tempo entre a vida e a morte Não vos quero alegar para isto com autoridades de Jerônimo ou Agostinho nem com exemplos de Hilariões e Pacômios senão com o exemplo e com a autoridade de um homem de capa e espada ou de espada sem capa que é ainda mais Entrou um soldado veterano a Carlos Quinto e pediulhe licença com um memorial para deixar seu serviço e se retirar das armas Admirouse o imperador e parecendolhe que seria descontentamento e pouca satisfação do tempo que havia servido respondeulhe chamandoo por seu nome que ele conhecia muito bem o seu valor eu seu merecimento que tinha na lembrança as batalhas em que se achara e as vitórias que lhe ajudara a ganhar e que as mercês que lhe determinava fazer lhas faria logo efetivas com grandes vantagens de posto de honra de fazenda Oh venturoso soldado com tal palavra e de um príncipe que a sabia guardar Mas era muito melhor e muito maior a sua ventura Sacra e real majestade disse não são essas as mercês que quero nem essas as vantagens que pretendo o que só peço e desejo da grandeza da Vossa Majestade é licença para me retirar porque quero meter tempo entre a morte e a vida Inter vitae negotia et mortis diem oportere spatium intercedere17 diz o vosso e nosso Lívio na História De BeIlo Belgico E que vos parece que faria o César neste caso Concedeu enternecido a licença retirouse ao gabinete tornou a ler o memorial do soldado e despachouse a si mesmo Oh soldado mais valente mais guerreiro mais generoso mais prudente e mais soldado que eu Tu até agora foste meu soldado eu teu capitão desde este ponto tu serás meu capitão e eu teu soldado quero seguir tua bandeira Assim discorreu consigo César e assim o fez Arrima o bastão renuncia o império despe a púrpura e tirando a coroa imperial da cabeça pôs a coroa a todas suas vitórias porque saber morrer é a maior façanha Resolveuse animosamente Carlos a acabar ele primeiro a vida antes que a morte o acabasse a ele Recolheuse ou acolheuse ao convento de Juste meteu tempo entre a vida e a morte e porque a primeira vez soube morrer imperador a segunda morreu santo Oh generoso príncipe e prudente general que soubeste seguir e aprender do teu soldado Oh valente e sábio soldado que soubeste ensinar e vencer o maior general Ambos tocaram a recolher a tempo e por isso seguraram a maior vitória porque fizeram a seu tempo a retirada Estes são os exemplos senhores que vos prometi E se porventura quereis outros mais antigos e mais sagrados ouvi o de outro general também coroado e de outro soldado igualmente valoroso e sábio a quem ele imitou e seguiu Desenganado Davi como vimos de não poder alcançar de Deus o número que lhe restava de seus dias e o fim e o termo certo de sua vida reformou o memorial e pediu assim nas últimas palavras do mesmo salmo Remitte mihi ut refrigerer priusquam abeam et amplius non ero Sl 38 14 Já que Senhor não sois servido que eu saiba a certeza de minha morte e os dias que na vossa Providência me tendes determinado de vida ao menos vos peço que me concedais algum espaço de quietação e sossego em que possa meter tempo entre a vida e a morte Sine me refrigerari et quiescere priusquam moriar et non existam in vivis sic enim postea placide exibo ex hac vita et sine terroribus conscientiae qui tunc exoriri solent comenta Genebrardo18 De maneira que desenganado Davi mudou e melhorou de pensamento e a sua última resolução foi segurar o estreito passo e momento da morte com meter tempo entre ela e a vida E de quem aprendeu Davi de quem aprendeu o rei general dos exércitos de Deus esta lição Aprendeua daquele famoso soldado que pela experiência de suas batalhas dizia Militia est hominis vita super terram19 Quase pelas mesmas palavras de Davi o tinha já dito e pedido Jó Nunquid non paucitas dierum meorum finietur brevi Dimitte me ut plangam paululum dolorem meum antequam vadam et non revertar20 Os dias da minha vida diz Jó ou eu queira ou não queira hãose de acabar brevemente O que pois vos peço Senhor é que antes da morte me concedais algum tempo em que chore meus pecados em que trate só de compor a minha consciência e aparelhar a minha alma Vede quão conformes foram nesta galharda resolução o soldado primeiro e o general depois Jó tinha dito Antequam vadam et non revertar Davi disse Priusquam abeam et amplius non ero Um diz prius outro diz ante e nenhum deles se atreveu a deixar a morte para a morte ambos trataram de ter tempo e meter tempo entre a morte e a vida Mas quem era este general quem era este soldado Este Davi e este Jó que homens eram Oh miséria e conlusão de nosso descuido e de nossa pouca fé Davi era aquele homem que sendo ungido por Deus quis antes perdoar a seu maior inimigo que pór na cabeça a coroa e empunhar o cetro 1 Rs 247 era aquele que depois de ser rei tinha entre noite e dia sete horas de oração trazendo debaixo da púrpura cingido o cilício e domando ou humilhando como ele dizia seu corpo com perpétuo jejum Sl 3413 aquele que dos despojos de suas vitórias ajuntava tesouros não para si e para a vaidade senão para a fábrica do Templo 2 Rs 7 aquele que sendo leigo ordenou o canto eclesiástico 2 Par 76 distinguiu os ministros reformou as cerimônias e pôs em perfeição todo o culto divino e coisas sagradas 1 Par 233 aquele que se cometeu um pecado 3 Rs 751 ainda depois de absolto e perdoado o chorou com rio de lágrimas por todos os dias e noites de sua vida Sl 414 aquele finalmente de quem disse o mesmo Deus que tinha achado nele um homem à medida do seu coração At 1322 Este era Davi E Jó quem era O espelho da paciência a coluna da constância a regra da conformidade com a vontade divina aquele a quem Deus pôs em campo contra todo o poder astúcias e máquinas do inferno Jó 112 aquele que na próspera e adversa fortuna com a mesma igualdade de ânimo recebia da mão de Deus os bens e lhe agradecia os males Jó 210 aquele com quem nasceu e crescia juntamente com a idade a compaixão dos trabalhos alheios a misericórdia a piedade com todos Jó 2915 aquele que como ele dizia era os olhos do cego os pés do manco o pai dos órfãos o amparo das viúvas o remédio dos necessitados e que nunca comeu uma fatia de pão que não partisse dela com os pobres Jó 3117 aquele finalmente a quem canonizou o mesmo Deus não só por inocente mas pelo maior justo e santo de todo o mundo Jó 18 Este era Jó e este Davi e cada um deles muito mais do que eu tenho dito e do que se pode dizer Agora pergunto E se qualquer de nós se achara com a vida de um destes dois homens não se atrevera a esperar pela morte muito confiadamente Se vivemos como os que vivem e como os que vemos morrer certo é que sim E contudo nem Davi nem Jó com tanto cabedal de virtudes com tantos tesouros de merecimento e o que é mais com tantos testemunhos do céu tiveram confiança para que os tomasse de repente o momento da morte ambos pediram tempo a Deus para meter tempo entre a morte e a vida Mas para que me dilato eu em buscar exemplos estranhos quando tenho presente em sua casa e no seu dia o mais nosso e mais admirável de todos Acabou Santo Antônio a vida em tempo que a idade lhe prometia ainda muitos anos porque não tinha mais de trinta e seis E que fez muitos dias antes Despedese de todas as ocupações ainda que tão santas e tão suas deixa a cidade vaise a um deserto e ali só com Deus e consigo dispôs muito devagar e muito de propósito para quando o Senhor o chamasse Verdadeiramente que nenhuma consideração me faz fazer maior conceito da morte nem me causa maior horror daquele perigoso momento que esta última ação de Santo Antônio Que corte Santo Antônio o fio ordinário de sua vida e que sendo a sua vida qual era faça mudança de vida para esperar pela morte Dizeime Santo meu que vida era a vossa Não era a mais inocente a mais pura a mais rigorosa O vosso vestido não era um cilício inteiro atado com uma corda A vossa mesa não era um perpétuo jejum e uma pobre e continuada abstinência A vossa cama não era uma dura tábua ou a terra nua Não passáveis a maior parte da noite em oração e contemplação dos mistérios divinos Os dias não gastáveis em pregar em converter pecadores em reduzir hereges Os vossos pensamentos não eram sempre do céu e de Deus As vossas palavras não eram raios de luz e de fogo com que alumiáveis entendimentos e abrasáveis corações As vossas obras não eram saúde a enfermos vista a cegos vida a mortos finalmente prodígios e milagres estupendos em testemunho da fé que pregáveis Pois com esta vida ainda fugis do mundo para um deserto Com esta vida ainda vos retirais de vós para vós e para vos unirdes mais com Deus Com esta vida ainda vos não atreveis a morrer Ainda quereis acabar esta vida e fazer outra Ainda quereis meter tempo entre esta vida e a morte Pare o discurso nesta admiração porque nem eu sei como ir por diante nem haverá quem deseje maior mais apertada e mais temerosa prova de quão necessária seja esta antecipada prevenção para quem sabe que há de morrer e o que é morrer Este é o único antídoto contra o veneno da morte este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades acabar a vida antes que a vida se acabe Se a morte é terrível por ser uma com esta prevenção serão duas se é terrível por ser incerta com esta prevenção será certa se é terrível ser momentânea com esta prevenção será tempo e dará tempo Desta maneira fareinos da mesma víbora a triaga e o mesmo pó que somos será o corretivo do pó que havemos de ser Pulvis es in pulverem reverteris VI Quantos mortos que ainda lhes faltam por viver muitos anos Propósitos À imitação de Elias seguindo o conselho do Espírito Santo demos a Deus o tempo que sempre é seu enquanto é também nosso e não quando já não temos parte nele Pareceme senhores meus que tenho satisfeito ao meu argumento e tanto em comum como em cada uma das suas partes demonstrado a verdade dele mais pela evidência da matéria que pela força das razões menos necessárias a um auditório de tanto juízo e letras Para o que se deve colher desta demonstração quisera eu que subisse agora a este lugar quem com diferente espírito e eficácia perorasse Mas já que hei de ser eu ajudaime a pedir de novo à divina bondade o favor e auxílio de sua graça que para matéria de tanto peso nos é necessária Tudo o que temos dito e ouvido é o que nos ensina nas Escrituras a fé nos santos o exemplo e ainda nos gentios o lume e razão natural Mas quando eu vejo e considero o modo com que comumente vivemos cristãos e o modo com que morrem acho que em vez de acabarmos a vida antes da morte ainda depois da morte continuamos a vida Parece paradoxo mas é experiência de cada dia Que morto há nestas sepulturas e mais nas mais altas em quem a morte se não antecipasse à vida Que morto há que não esperasse e presumisse que havia de viver mais do que viveu Dum adhuc ordirer succidit me21 Nós urdimos a teia a vida a tece a morte a corta e quem há ou quem houve a quem não sobejasse depois da morte muita parte da urdidura É possível dizia Ezequias quando o profeta o avisou para morrer é possível que hei de acabar a vida no meio dos meus dias In dimidio dierum meorum vadam ad portas inferni22 E quem lhe disse a este enganado rei que aquele era o meio e não o fim de seus dias Disselho a sua imaginação e a sua esperança Cuidava que havia de viver oitenta anos e a morte veio aos quarenta Eis aqui como continuava e estendia a vida quarenta anos além da morte Quantos estão já debaixo da terra que ainda lhes faltam por viver muitos anos Ouçamos a um destes Anima mea habes multa bona in annos plurimos Lc 1219 Alma minha tens muitos bens para muitos anos Comede bibe epulare Lc ibid 20 Levate boa vida regalate gasta largamente e a teu prazer já que tiveste tão boa fortuna Não tinha acabado de pronunciar estas palavras quando ouviu uma voz que lhe dizia Stulte hac nocte animam tuam repetent a te Lc ibid Néscio ignorante insensato este dia que passou foi o último de tua vida e nesta mesma noite hás de morrer Morreu naquela mesma noite e os muitos anos que se prometia de vida In annos plurimos que foi feito deles Ainda se continuaram e foram correndo em vão depois da sua morte Verdadeiramente néscio e pior que néscio stulte Os anos de que fazias conta não eram teus e os bens que eram teus serão de outrem Mas ainda que os anos não foram teus para a vida serão teus para a conta porque hás de dar conta a Deus do modo com que fazias conta de os viver Quanto melhor conselho fora acabar antes da morte os anos que vivestes para o remédio que continuar depois da morte os anos que não viveste para o castigo Agora acabo eu de entender aquele dificultoso conselho do Espírito Santo Ne moriaris in tempore non tuo Eclo 718 Não morras no tempo que não é teu Ne moriaris Não morras Logo na minha mão está a morte In tempore non tuo No tempo que não é teu Logo há tempo que é meu e tempo que não é meu Assim é Mas qual é o tempo meu em que é bem que morra e qual o tempo não meu em que é bem que não morra O tempo meu é o tempo antes da morte o tempo não meu é o tempo depois da morte E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte que não é tempo meu é ignorância é loucura é estultícia como a deste néscio stulte mas antecipar a morte e morrer antes de se acabar a vida que é o tempo meu esse é o prudente e o sábio e o bem entendido morrer E isto é o que nos aconselha quem só tem na sua mão a morte e a vida Ne moriaris in tempore non tuo Quem haverá logo se tem juízo que se não persuada a um tão justo tão necessário e tão útil partido como acabar a vida antes da morte Faça a nossa alma com o nosso corpo e o nosso corpo com a nossa alma o concerto que fez Elias Ia Elias fugindo pelo deserto à perseguição da Rainha Jesabel que o queria matar e vendo quão dificultosa coisa era escapar à fúria de uma mulher poderosa e irada diz o texto que pediu a morte à sua alma Petivi animae suae ut moreretur 3 Rs 194 Alma minha morramos já que se há de morrer por força morramos por vontade Isto pedia o corpo à alma e isto deve também pedir a alma ao corpo porque ambos vão igualmente interessados no mesmo partido Alma minha diga o corpo à alma corpo meu diga a alma ao corpo Se havemos de morrer depois por força e com perigo morramos agora e logo de grado e com segurança Eu bem vejo que o vir facilmente neste concerto é mais para os desertos que para as cortes Na corte fugia Elias da morte no deserto chamava por ela Mas se uma tal resolução no deserto é mais fácil na corte é mais necessária por que nas cortes é muito mais arriscado o esperar pela morte para acabar a vida Suposto pois que o ditame é certo conveniente e forçoso desçamos à prática dele sem a qual tudo o demais é nada Isto de acabar a vida antes da morte como se há de fazer Respondo que fazendo resolutamente por própria eleição na morte antecipada e voluntária tudo aquilo que se faz prudente e cristãmente na morte forçosa e precisa Que faz um cristão quando o avisam para morrer Primeiramente que isto deve ser o primeiro confessase geralmente de toda sua vida arrependese de seus pecados compõe do melhor modo que pode suas dívidas faz seu testamento deixa sufrágios pela sua alma põena inteiramente nas mãos do padre espiritual abraçase com um Cristo crucificado e dizendo como ele Consummatum est Jo 1930 espera pela morte Este é o mais feliz modo de morrer que se usa Mas como é forçoso e não voluntário e aqueles poucos e perturbados atos que então se fazem não bastam para desfazer os maus hábitos da vida passada assim como a contrição é pouco verdadeira e pouco firme e as tentações então mais fortes assim a morte é pouco segura e muito arriscada A contrição diz Santo Agostinho na enfermidade é enferma e na morte diz o mesmo santo temo muito que seja morta Deixemos logo os pecados quando nós os deixamos e não quando eles nos deixam a nós e acabemos a vida quando ainda podemos viver e não quando ela se tem acabado Que damos a Deus quando ele no la tira Demos a vida a Deus enquanto ele nola dá demos a Deus o tempo que sempre é seu enquanto é também nosso e não quando já não temos parte nele Que propósitos são aqueles de não ofender mais a Deus se eu já não tenho lugar de o ofender A confissão nos tratos não é jurídica háse de ratificar fora dela para fazer fé e pois se não pode ratificar depois ratifiquese antes A fazenda que se há de alijar ao mar no meio da tempestade não é mais são conselho que fique no porto e com ganância Se eu posso ser o testador do meu e mais o testamenteiro por que o não serei Se o meu testamento há de dizer Item deixo por que não dirá Item levo Não é melhor levar obras pias que deixar demandas Se se há de dizer de mim em dúvida Fulano que Deus tem não é melhor que seja desde logo e com certeza VII E os negócios e gostos da vida Só para os que acabaram a vida antes da morte o mundo é paraíso na terra como para Henoc e Elias De quantas semrazões se livra quem está já morto Quais são os que seguramente gozam de paz e descanso Para a outra vida ninguém haverá se crê que há outra vida que não tenha por bom este conselho e que só ele no negócio de maior importância é o verdadeiro o sólido o seguro Mas que direinos ao amor deste mundo a que tão pegados estamos É possível que de um golpe hei de cortar por todos os gostos e interesses da vida Aqueles meus pensamentos aqueles meus desenhos aquelas minhas esperanças com tudo isto hei de acabar desde logo e para sempre e por minha vontade e que hei de tomar a morte por minhas mãos antes que ela me mate e quando ainda pudera lograr do mundo e da mesma vida muitos anos Sobretudo tenho muitos negócios em aberto muitas dependências muitos embaraços comporei primeiro minhas coisas e depois que tiver acabado com elas então tomarei esse conselho e tratarei de acabar a vida antes da morte Eis aqui o engano e a tentação com que o demônio nos vence depois de convencidos e com que o inferno está cheio de bons propósitos Primeiramente estes vossos negócios e embaraços não devem de ser tão grandes e de tanto peso como os de Carlos Quinto mas dado que o fossem e ainda maiores se no meio de todos eles e neste mesmo dia viesse a febre maligna que havíeis de fazer Não havíeis de cortar por tudo e tratar de vossa alma Pois o que havia de fazer a febre não o fará a razão Se hoje tendes muitos embaraços amanhã haveis de ter muitos mais e ninguém se desembaraçou nunca desta meada senão cortandoa E quanto aos anos que ainda podeis ter e lograr de vida perguntese cada um a si mesmo quantos anos tem Eu quantos anos tenho vivido Sessenta E quantos morreram de quarenta Quantos anos tenho vivido Quarenta E quantos morreram de vinte Quantos anos tenho vivido Vinte E quantos morreram de dez e de dois e de um e de nenhum De utero translatus ad tumulum23 E se eu tenho vivido mais que tantos que injúria faço à minha vida em a querer acabar Que injúria faço aos meus anos em renunciar aos poucos e duvidosos pelos seguros e eternos Finalmente se tanto amo e tão pegado estou aos dias da vida presente por isso mesmo os devo dar a Deus para que ele me não tire os que ainda naturalmente posso viver segundo aquela regra geral da providência sua e aquele justo castigo dos que os gastam mal Viri sanguinum et dolosi non dimidiabunt dies suos24 Só resta o mais dificultoso laço de desatar ou cortar que são os que vós chamais gostos da vida os quais se ela se acaba também acabam Post mortem nulla voluptas25 Ajudeme Deus a vos desenganar deste ponto e seja ele como é o último Se nesta vida vede o que digo se nesta vida e neste miserável mundo cheio para todos os estados de tantos pesares pode haver gosto algum puro e sincero só os que acabam a vida antes de morrer a gozam Para todos os outros é a vida e o mundo vale de lágrimas só para os que acabaram a vida antes da morte é paraíso na terra Dois homens houve só neste mundo que verdadeira e realmente acabaram a vida antes da morte Henoc e Elias Ambos acabaram esta vida há muitos anos e ambos hão de morrer ainda no fim do mundo E onde estão estes dois homens que acabaram a vida antes de morrer Ambos e só eles estão no paraíso terreal e com grande mistério Porque se há e pode haver paraíso na terra se há e pode haver paraíso neste mundo e nesta vida só os que acabam a vida antes de morrer o logram Oh que vida tão quieta Oh que vida tão descansada Oh que vida tão feliz e tão livre de todas as perturbações de todos os desgostos de todos os infortúnios do mundo Depois que Henoc acabou a vida no mundo sucedeu logo nele a maior calamidade que nunca se viu nem verá o dilúvio universal O mundo grande estava já afogado debaixo daquele imenso mar sem porto nem ribeira o mundo pequeno metido em uma arca já subindo às estrelas já descendo aos abismos sem piloto sem leme sem luz flutuava atonitamente naquela tempestade Os montes soçobrados as cidades sumidas o céu de todas as partes chovendo lanças e fulminando raios E só Henoc no meio de tudo isto como estava Sem perigo sem temor sem cuidado Porque ainda que lhe chegassem lá os ecos dos trovões e o ruído da tormenta nada disto lhe tocava Eu já acabei com o mundo o mundo já acabou para mim que importa que se acabe para os outros Lá se avenham com os seus trabalhos pois vivem que eu já acabei a vida Neste tempo não era ainda nascido Elias Nasceu Elias viveu anos e antes de morrer acabou a vida do mesmo modo Mas que não padeceu o mundo e a terra onde Elias vivia depois deste seu apartamento Veio contra Samaria Senaquerib e Salmanasar veio contra Jerusalém Nabucodonosor tudo guerra tudo fomes tudo batalhas ruínas incêndios cativeiros desterros As dez tribos de Israel levadas aos assírios donde nunca tornaram as duas tribos de Judá e Benjamim transmigradas à Babilônia donde voltaram despedaçadas depois de setenta anos Porém Elias que noutro tempo o comia tanto o zelo e amor da pátria estavase no seu paraíso em suma paz em suma quietação em sumo sossego em suma felicidade Voltese o mundo debaixo para cima reine Joaquim ou reine Salmanasar reine Nabuco ou reine Ciro vença Jerusalém ou vença Babilônia vão uns e tornem e vão outros para não tornar que se lhe dá disso Elias Quem tem acabado a vida de todos esses vaivéns da fortuna está seguro O mesmo acontece senhores meus e o mesmo experimenta todo aquele que deveras se resolve a deixar o mundo ao mundo e acabar a vida antes da morte Não são necessários para isso arrebatamentos como os de Henoc nem carros de fogo como o de Elias senão uma valente resolução Quem assim se resolve goza como Henoc e Elias todos os privilégios de morto Corra o mundo por onde correr nenhuma coisa lhe empece nem lhe dá cuidado Um dos professores deste estado foi como vimos S Paulo e por isso ainda vivo dizia Vivo autem jam non ego Gál 220 E que quer dizer Eu vivo mas já não sou eu Quer dizer diz S Bernardo Ad alia quidem omnia mortuus sum non sentio non atrendo nou curo Todas as coisas deste mundo são para mim como para os mortos nem as sinto nem me dão cuidado nem faço mais caso delas que se não foram porque se elas ainda são eu já não sou Considerai as imunidades dos mortos e vereis o descanso de que gozam e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte Vieram ao Calvário os executores de Pilatos para quebrar as canelas aos crucificados e assim o fizeram a Dimas e Gestas com grandes dores daquele tormento porque estavam ainda vivos Jo 1931 s Ad Jesum autem cum venissent Ibid 32 mas quando chegaram a Cristo Ut viderunt eum jam mortuum non fregerunt ejus crura Como viram que estava já morto não executaram nele aquela crueldade De quantos quebrantamentos de quantas moléstias de quantas semrazões se livra quem está já morto O epitáfio que eu pusera a um morto destes é aquele verso de Davi Inter mortuos liber Sl 87 6 Entre os mortos livre Livre dos cuidados do mundo porque já está fora do mundo Livre de emulações e invejas porque a ninguém faz oposição Livre de esperanças e temores porque nenhuma coisa deseja Livre de contingências e mudanças porque se isentou da jurisdição da fortuna Livre dos homens que é a mais dificultosa liberdade porque se descativou de si mesmo Livre finalmente de todos os pesares e moléstias e inquietações da vida porque já é morto A todos os mortos se canta piamente por costume Requiescant in pace Mas esta paz e este descanso só o logram seguramente os que morreram antes de morrer Vedeo no mesmo texto de Davi donde a Igreja tomou aquelas palavras In pace in idipsum dormiam et requiescam26 Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo In idipsum Nesta cláusula in idipsum está o mistério que sendo a sentença tão clara a faz dificultosa mas admirável Que quer dizer Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo Se dissera Morre rei para descansar em paz bem se entendia mas Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo Se há de morrer e descansar em paz para isso mesmo há de morrer e descansar em paz para morrer e descansar em paz Assim é e esse foi o profundo pensamento de Davi Como se dissera Eu quero morrer e descansar em paz na vida E por que ou para quê Para isso mesmo para morrer e descansar em paz na morte ln pace in idipsum dormiam et requiescam Por isso com grande propriedade significou o morrer pela frase de dormir dormiam porque o sono é morte em vida Daqui se seguem duas conseqüências últimas ambas notáveis e de grande consolação para os que morrem antes de morrer A primeira que só eles como há pouco dissemos gozam seguramente de paz e descanso A segunda que da paz e descanso desta morte se segue também seguramente a paz e descanso da outra que é o argumento de todo o nosso discurso Os que morrem quando morrem perdem o descanso da vida e não conseguem ordinariamente o da eternidade porque passam de uns trabalhos a outros maiores Assim diziam no inferno aqueles miseráveis que já tinham sido felizes Lassati sumos in via iniquitatis27 Chegamos cansados ao inferno Ao inferno e cansados porque lá não tivemos descanso e cá tereinos tormentos eternos Pelo contrário os que morrem antes de morrer morrem descansados e morrem para descansar In pace in idipsum dormiam et requiescam Oh que paz oh que descanso para a vida e para a morte Creio que ninguém haverá se tem juízo que se não resolva desde logo a viver e morrer assim ou a morrer assim para morrer assim Acabando desta maneira a vida esperareinos confiadamente a morte e por benefício do pó que somos Pulvis es não temereinos o pó que havemos de ser ln pulverem reverteris LAUS DEO SEGUNDA PARTE Dedicada No Panegírico da Rainha Santa Ao sereníssimo nome Da princesa N S D Isabel EM LISBOA Na Oficina de MIGUEL DESLANDES E à sua custa e de Antônio Leite Pereira Mercador de Livros M DC LXXXII Com todas as licenças e privilégio Real LICENÇAS DO ORDINÁRIO Podemse imprimir estes sermões do Padre Antônio Vieira E depois tornarão para se dar licença para correrem E sem ela não correrão Lisboa 7 de fevereiro de 1682 Serrão DO PAÇO Que se possa imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário E depois de impresso tornará à Mesa para se taxar e conferir E sem isso não correrá Lisboa 22 de fevereiro de 1682 Roxas Lamprea Rêgo Noronha Visto constar da folha atrás estar este livro conforme com seu original pode correr Lisboa 24 novembro 1682 Manoel Pimentel de Souza Jerônimo Soares João da Costa Pimenta Manoel de Moura Manoel Fr Valério de S Raimundo Bento de Beja de Noronha Podese correr Lisboa 25 de novembro 1682 Serrão Taxam este livro em doze tostões Lisboa 24 de novembro de 1682 Roxas Basto Rêgo Lamprea Noronha APROVAÇÃO DO M R P M Fr JOÃO DE DEUS da Seráfica Ordem de S Francisco Qualificador do Santo Ofício etc Vi este livro que contém os Sermões do P Antônio Vieira da Companhia de Jesus de vários assuntos pregados em várias partes e geralmente aplaudidos em todas E entre as agudezas deste grande pregador não há coisa contra nossa Santa Fé ou bons costumes S Francisco da Cidade 17 de janeiro de 1682 Fr João de Deus APROVAÇÃO DO M R P M Fr TOMÉ DA CONCEIÇÃO Qualificador do Santo Ofício etc Vi esta Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da Companhia de Jesus pregador de S Alteza Em nenhum deles achei coisa alguma contra nossa Santa Fé ou bons costumes e me parecem digníssimos da licença que se pede para que por meio da estampa se comunique a todos a fecundidade de tão fundo e claro engenho Carmo de Lisboa em 3 de fevereiro de 1682 Fr Tomé da Conceição APROVAÇÃO DO M R P M Fr JOÃO DA MADRE DE DEUS provincial que foi da Província de Portugal da Seráfica Ordem de S Francisco pregador de S Alteza Examinador das Três Ordens Militares e hoje digníssimo Arcebispo da Bahia etc SENHOR Mandame V A que veja a Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da sagrada religião da Companhia de Jesus digníssimo pregador de VA havendome já concedido a honra de o informar com o meu parecer sobre a impressão do primeiro tomo E é esta a primeira ventura que segunda vez se repetiu As suas obras são em tudo tão iguais que o mesmo juízo que se fez de umas se deve fazer de todas E se se lhes pode notar diferença é a que se acha nas veias das minas que quanto mais abertas dão a prata mais acendrada e o ouro mais puro Eu os li com gosto igual à admiração com que este máximo pregador é venerado em todas as partes do mundo por oráculo de todos os pregadores Ordinariamente os sermões lidos são menos agradáveis do que ouvidos porque lhes falta no papel aquela alma que o espírito dá às palavras e com que as vozes acompanham as ações Porém neste papel estão tão animadas as palavras e tão viva a eloqüência que lhes dá tanta vida a pena como lhes tinha dado a boca A linguagem tersa sem afetação os conceitos sentenciosos sem artifício a eloqüência fecunda sem demasia tudo tão ajustado às leis de um grande orador que em reduzilo a termos praticáveis é este orador tão singular que Deus o fez primeiro E não sei quando fará o segundo Unir o eloqüente com o sentencioso é felicidade de que só pode presumir sem vaidade o Pe Antônio Vieira pois admirando a fama repartidas em Túlio a eloqüência e em Sêneca as sentenças vemos nele juntos o sentencioso de um Sêneca e o eloqüente de um Túlio Disse Filo Hebreu que Abraão entre os eteus foi respeitado por seu príncipe porque não usava de palavras que fossem vulgares mas de razões que pareciam divinas Honorabantur eum quasi suum principem neque enim sermonibus utebatur vulgaribus sed divinitatem quandam praese ferentibus Nascendo bem a dívida deste respeito ao autor destes sermões pois estilo razões e conceitos tudo é tão sobre ao que tem chegado o humano que se deixa conhecer neles com singularidade uma influência divina Salomão repetidas vezes avaliou as letras em maior preço que o ouro Omne aurum in comparatione illius arena est exigua E assim se fora consultado sobre a impressão destes sermões creio que havia de ser de parecer que ao menos se deviam imprimir com letras de ouro Eu digo o que ele havia de dizer V A como príncipe tão sábio mandará o que for mais servido mandar S Francisco da Cidade 26 de fevereiro de 1682 Fr João da Madre de Deus LICENÇAS DA RELIGIÃO Eu Antônio de Oliveira da Companhia de Jesus provincial da Província do Brasil por comissão especial que tenho de nosso muito Reverendo Padre João Paulo Oliva propósito geral dou licença para que se possa imprimir este livro da Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da mesma Companhia pregador de S A O qual foi revisto examinado e aprovado por religiosos doutos dela por nós deputados para isso E em testemunho da verdade dei esta subscrita com meu sinal e selada como selo de meu ofício Dada na Bahia aos 30 de junho de 1681 Antônio de Oliveira DO SANTO OFÍCIO Vistas as informações podese imprimir a Segunda Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira conteúdos nesta petição e depois de impressos tornarão para se conferirem e dar licença que corram E sem ela não correrão Lisboa 4 de fevereiro de 1682 Manoel Pimentel de Sousa Fr Valério de S Raimundo SERMÃO DA RAINHA SANTA ISABEL PREGADO EM ROMA NA IGREJA DOS PORTUGUESES NO ANO DE 1674 Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerentibus bonas margaritas inventa autem una pretiosa abiit et vendidit omnia quae habuit et emit eam1 I Rainha e santa os dois pólos do discurso As três qualidades do negociante da parábola cabedal diligência e ventura encontradas em Santa Isabel A mulher forte de que fala Salomão é uma mulher negociante No Livro dos Provérbios a descrição da Rainha de Portugal e Aragão 1 A uma rainha duas vezes coroada coroada na terra e coroada no céu coroada com uma das coroas que dá a fortuna e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas se dedica a solenidade deste dia O mundo a conhece com o nome de Isabel a nossa pátria que lhe não sabe outro nome a venera com a antono másia de Rainha Santa Com este título que excede todos os títulos a canonizou em vida o pregão de suas obras a este pregão se seguiram as vozes de seus vassalos a estas vozes a adoração os altares os aplausos do mundo rainha e santa Este será o argumento e estes os dois pólos do meu discurso 2 No texto do Evangelho que propus temos a parábola de um negociante em que concorreram todas aquelas três qualidades ou boas partes que poucas vezes se concordam cabedal diligência e ventura Cabedal Omnia quae habuit diligência Quaerenti bonas margaritas ventura Inventa una pretiosa Rico diligente ventu roso E que negociante é este É todo aquele que com os bens da terra sabe negociar o reino do céu Simile est regnum caelorum homini negotiatori 3 Este mundo senhores composto de tanta variedade de estados ofícios e exercícios públicos e particulares políticos e econômicos sagrados e profanos nenhuma outra coisa é senão uma praça ou feira universal instituída e franqueada por Deus a todos os homens para negociarmos nela o reino do céu Assim o ensinou Cristo na parábola daquele rei que repartiu diferentes talentos ou cabedais a seus criados para que negociassem com eles até sua vinda Negotiamini dum venio Lc 1913 Para as negociações da terra a muitos falta o cabedal outros têm cabedal mas faltalhes a diligência outros têm cabedal e diligência mas faltalhes a ventura Na negociação do céu não é assim A todos dá Deus o cabedal a todos oferece a ventura e a todos pede a diligência O cabedal são os talentos da natureza a ventura são os auxílios da graça a diligência é a cooperação das obras Quando o rei disse Negotiamini dum venio os criados a quem entregou a sua fazenda para que negociassem com ela eram três todos três tiveram cabedal dois tiveram diligência um não teve ventura E por que não teve ventura este último Porque não teve diligência enterrou o talento Bem o conhecia o rei pois fiou dele o menos E que sucedeu aos outros dois O que tinha cinco talentos negociou e granjeou outros cinco O que tinha dois talentos negociou e granjeou outros dois Ambos tiveram igual ventura porque fizeram igual diligência mas o que entrou com maior cabedal saiu com maior ganância 4 Ninguém entrou na praça deste mundo com maior cabedal que a nossa Rainha Santa uma coroa e outra coroa a de Aragão e a de Portugal O mercante do Evangelho tratava em pérolas Santa Isabel em coroas Grande cabedal De uma grande rainha de Lacedemônia disse Plínio no livro De Summa Felicitate este elogio Una faeminarum in omni aevo Lacedemonia reperitur quae regis filia regis uxor regis mater fuit2 Isabel não só foi filha de rei mulher de rei e mãe de rei mas que filha que mulher que mãe Filha de um rei em quem estavam unidos os brasões de todos os reis da Europa Pedro Segundo de Aragão mulher de um rei que foi árbitro dos reis em todos os pleitos que tiveram em seu tempo as coroas de Espanha Dionísio de Portugal mãe de um rei Afonso Quarto de quem descendem todos os monarcas e príncipes da Cristandade não vivendo hoje nenhum que o melhor sangue que tem nas veias não seja de Isabel Grande fortuna de mulher grande cabedal Mas parece que não havia de ser mulher porque o negociar é ofício de homem Homini negotiatori O reparo é do Evangelho a solução será da epístola 5 Mulierem fortem quis inveniet Prov 3110 111S18 etc Quem achará no mundo uma mulher forte uma mulher varonil uma mulher como homem Tudo isso quer dizer o texto Fortem virilem viraginem Quando eu li as bravezas desta proposta e pergunta de Salomão estava esperando ou por uma Judite com a espada na mão direita e a cabeça de Olofernes na esquerda ou por uma Jael com o cravo e com o martelo atravessando as fontes de Sisara por uma Débora plantada na testa de um exército capitaneando esquadrões e vencendo batalhas Mas não é isto o que responde Salomão Diz que a mulher forte a mulher varonil a mulher mais que mulher era uma mulher negocianteAgrum emit syndonem vendit et vidit quia bona est negotiatio eius3 E como negociava esta mulher Como o homem do Evangelho com cabedal com diligência com ventura Com cabedal Dedit praedam domesticis suis4 com diligência Non extinguetur in nocte lucerna ejus5 com ventura e ventura sobre todas Multae filiae congregaverunt divitias tu supergressa es universos6 Já temos uma mulher negociante como homem Só nos faltava para Santa Isabel que nos dissesse Salomão o nascimento a pátria e o estado desta notável mulher Também isso disse Disse que era rainha e espanhola e aragonesa Rainha Purpura et byssus indumentum ejus7 porque naquele tempo só às pessoas reais era lícito vestir púrpura Espanhola Procul et de ultimis finibus pretium ejus8 porque na antiga cosmografia e na frase da Escritura o fim da terra é Espanha Finalmente aragonesa e tal aragonesa que é mais Et spoliis non indigebit9 porque os aragoneses entre todas as nações de Espanha foram os primeiros que enobreceram e enriqueceram com despojos a sua coroa conquistando novas terras novos mares e novas gentes E Santa Isabel em particular foi nascida e criada nos braços de elrei Dom Jaime de Aragão por sobrenome o Conquistador o qual e seu filho elrei Dom Pedro pai de Isabel foram os que conquistaram em Espanha o Reino de Valença em Itália o Reino de Sicília no Mediterrâneo as Ilhas de Evisa e Malhorca E não pararam aqui os despojos A estes se seguiram sucessivamente primeiro os reinos de Córsega e Sardenha depois o fiorentíssimo e belicosíssimo reino de Nápoles e ultimamente quê A mesma Jerusalém onde Salomão escrevia e onde estava vendo a mulher forte de que falava entre despojos nascida entre despojos criada e de tão gloriosos despojos herdeira Et spoliis non indigebit 6 Isto suposto e suposto que eu não sei dizer o que me diz o Evangelho o tema será o sermão e o assunto dele a melhor negociante do reino do céu Simile est regnum caelorun homini negotiatori Negociou Isabel de um reino para outro reino e de uma coroa para outra coroa não do reino e coroa de Aragão para o reino e coroa de Portugal senão do reino e coroa da terra para o reino e coroa do céu que vem a ser em menos palavras Rainha e Santa Estes dois nomes somente havemos de complicar um com o outro e vereinos a nossa rainha tão industriosa negociante no manejo destas duas coroas que com a coroa de rainha negociou ser maior santa e com a coroa de santa negociou ser maior rainha Maior rainha porque santa e maior santa porque rainha A rainha de todos os santos nos alcançará a graça Ave Maria II Rainha e santa e porque santa maior rainha As coroas não são mercadoria de lei Os reis nas parábolas de Cristo Os três reis santos das Escrituras Por que não há rainhas santas nas Escrituras Simile est regnum caelorum homini negotiatori Rainha e santa e porque santa maior rainha Esta é a primeira parte do nosso discurso e este foi o primeiro lanço da melhor negociante do reino do céu 7 O maior cabedal que pode dar o mundo é uma coroa Mas ainda que as coroas são as que dão as leis não são mercadoria de lei Ao menos eu não havia de assegurar esta mercadoria de fogo mar e corsário porque as mesmas coroas muitas vezes elas são o roubo elas o incêndio elas o naufrágio Para conquistar reinos da terra o melhor cabedal é uma coroa mas para negociar o reino do céu é gênero que quase não tem valor Ponde uma coroa na cabeça de Ciro conquistará os reinos de Baltasar ponde uma coroa na cabeça de Alexandre conquistará os reinos de Dario ponde uma coroa não na cabeça senão no pensamento de César e oprimirá a liberdade da pátria e da mais florente república fará o mais soberbo e violento império Mas para negociar o reino do céu nem a Baltasar nem a Dario nem a Alexandre nem a César nem ao mesmo Ciro a quem Deus chamava o seu rei e o seu ungido Christo meo Cyro Is 451 valeram nada as coroas 8 Ora eu andei buscando no nosso Evangelho alguma coroa e ainda que Cristo nunca multiplicou tantas semelhanças e tantos modos de adquirir o reino do céu em diversos estados e ofícios o de rei não se acha ali Achareis um lavrador um mercante um pescador um letrado mas rei não E por quê Não são personagens os reis que pudessem entrar também em uma parábola e autorizar muito a cena com a pompa e majestade da púrpura Claro está que sim E assim o fez Cristo muitas vezes Mas vede o que dizem as parábolas dos reis Regi qui fecit nuptias filio suo10 Intravit rex ut videret discumbentes11 Quis rex iturus committere bellum adversus alium regem12 Abiit in regionem longinquam accipere sibi regnum13 Reis que fazem bodas que fazem banquetes que fazem guerras que mandam exércitos que conquistam reinos da terra isso achareis no Evangelho mas reis que se empreguem em adquirir o reino do céu parece que não é ocupação de personagens tão grandes Ao menos Cristo disse que o reino do céu era dos pequenos Sinite parvulos ad me venire talium est enim regnum caelorum14 Tais são o lavrador no campo o mercador na praça o pescador no mar o letrado na banca e sobre o livro Mas nas cortes nos palácios nos tronos e debaixo dos dosséis que achareis Bodas banquetes festas comédias e por cobiça ou ambição exércitos guerras conquistas Eis aqui por que as coroas não são boa mercadoria ao menos muito arriscada para negociar o reino do céu Reis e belicosos reis e políticos reis e deliciosos quantos quiserdes mas reis e santos muito poucos Vedeo nas letras divinas onde só se pode ver com certeza De tantos reis quantos houve no povo de Deus só três achareis santos Davi Ezequias Josias Houve naquele tempo grande quantidade de santos grande sucessão de reis mas reis e santos santidade e coroa Três 9 E se é coisa tão dificultosa ser rei e santo muito mais dificultoso é ser rainha e santa No mesmo exemplo o temos De todos os reis de Israel e Judá três santos de todas as rainhas nenhuma Ainda não está ponderado O número das rainhas naquele tempo era muito maior sem comparação que o dos reis porque era permitida e usada a poligamia e assim como hoje é grandeza e majestade terem os reis muitos criados e muitos ministros assim então era parte da mesma majestade e da mesma grandeza terem muitas rainhas Das rainhas que teve Davi além de outras muitas sabemos o nome a sete Jeroboão teve dezoito e só Salomão setecentas Fueruntque ei uxores quase reginae septigentae15 E sendo tão inumerável o número das rainhas santa nenhuma Finalmente desde o princípio do mundo até Cristo em que passaram quando menos quatro mil anos em todos os reinos e todas as nações não achareis rainha santa mais que unicamente Ester 10 E qual é a razão disto Porque é mais dificultoso ser rainha santa que rei santo porque ainda que no rei e na rainha é igual a fortuna na mulher é maior a vaidade Os fumos da coroa não sobem para o céu descem para a cabeça Ponde a mesma coroa na cabeça de Davi e na cabeça de Micol na de Micol tantas fumaradas na de Davi nenhum fumo E se me disserdes que Davi era humilde e santo tomemos outras parelhas O mais vão rei que houve no mundo foi elrei Assuero mas a rainha Vasti muito mais fumosa que Assuero O mais soberbo rei que houve em Israel foi elrei Acab mas a rainha Jezabel muito mais fumosa que Acab Lembrai vos de Atália que foi a segunda Medéia ou a segunda Semíramis do povo hebreu Era mãe e avó que é mais e por muito vã e muito fumosa não duvidou tirar a vida a todos os filhos de seu filho elrei Ocosias De nenhum homem se lê semelhante resolução E buscando a causa os padres e expositores não acham outra nem dão outra senão o ser mulher Quia faemina erat diz com todos Abulense Mulher Atália mulher Jezabel mulher Vasti mulher Micol mulher Bersabé mulher finalmente Eva E em todas estas sempre pôde mais a vaidade que a virtude III Menos santa fora Isabel se sua santidade não assentara sobre mulher e coroa O modo de negociar o reino do céu diz Cristo que há de ser dando deixando e renunciando o negociante tudo o que tiver o que aparentemente não fez Santa Isabel S Paulo e a Encarnação do Verbo Por que Davi precede Abraão na genealogia de Cristo Santidade assentada sobre coroa ainda em grau igual é maior santidade Em Maria os contrários da virgindade fazemna duplamente virgem A visão do Apocalipse figura de Isabel Santa e rainha As duplas vestes da rainha na visão de Davi 11 Perdoaime Rainha Santa este discurso mas não mo perdoeis porque todo ele foi ordenado a avaliar o preço a encarecer a singularidade e a sublimar a grandeza de vossas glórias Menos santa fora Isabel se a sua santidade não assentara sobre mulher e coroa Destes dois metais um tão frágil outro tão precioso deste vidro e deste ouro se formou se fabricou a peanha que levantou a estátua de Isabel até as estrelas Mas antes que mais nos empenhemos na ponderação desta verdade acudamos às vozes do Evangelho que parece estão bradando contra ela O modo de negociar o reino do céu e a forma ou contrato desta negociação diz Cristo que há de ser dando deixando e renunciando o negociante tudo quanto tiver Dedit omnia sua et emit eam16 Se Isabel renunciara à coroa e deixara de ser rainha então disséramos justamente que com a coroa da terra comprou e negociou a coroa do céu mas ela viveu rainha e morreu rainha e não renunciou à coroa Eu bem sei que renunciar uma coroa assim como é a maior coisa do mundo assim é também a mais dificultosa mas não por isso impossível Exemplo temos no nosso século posto que o não vissem os passados Roma o viu e Roma o vê Uma das maiores coroas da Europa renunciada com tanto valor e deixada com tanta glória só por seguir a fé do Evangelho e segurar debaixo das chaves de Pedro aquele reino que só elas podem abrir Pois por que não deixou Isabel este tudo que verdadeiramente é o tudo do mundo Omnia quae habuit Por que não renunciou e demitiu de si a coroa para se conformar com o Evangelho 12 Primeiramente digo que sim deixou Isabel a coroa mas deixoua sem a deixar demitiua sem a demitir e renuncioua sem a renunciar Era Isabel rainha mas que rainha Uma rainha que debaixo da púrpura trazia perpetuamente o cilício uma rainha que assentada à mesa real jejuava quase todo o ano a pão e água uma rainha que quando se representavam as comédias os saraus os festins ela estava arrebatada no céu orando e contemplando uma rainha que por dentro da sua coroa lhe estavam atravessando a cabeça e o coração os espinhos da coroa de Cristo uma rainha que adorada e servida dos grandes de seu reino ela servia de joelhos aos pobres e lhes lavava os pés com suas mãos e lhes curava e beijava as chagas Desta maneira usava Isabel da coroa ajuntando e unindo na pessoa da rainha dois extreinos tão distantes e dois exercícios tão contrários e isto digo que foi deixar a coroa sem a deixar Tenho para prova um texto de S Paulo muito vulgar e sabido mas de tão dificultosa inteligência que tendose empregado variamente nele todos os expositores sagrados ainda se lhe deseja mais própria e adequada exposição 13 Qui cum in forma Dei esset exinanivit semetipsum formam servi accipiens17 Quer dizer sendo o Verbo Eterno por essência e igualdade ao Padre Deus quando tomou e uniu a si a natureza humana despiuse e despojouse de tudo quanto era e quanto tinha Ainda o diz com maior energia o apóstolo Exinanivit semetipsum assim como quando um vaso quando se emborca e se esgota lança de si quanto tem e fica vazio assim o fez e ficou Deus fazendose homem Já estais vendo a dificuldade não só os teólogos mas todos Deus fazendose homem não perdeu nada do que tinha nem deixou nada do que era Era Deus e ficou Deus era infinito e ficou infinito era eterno e imenso e ficou eterno e imenso era impassível e imortal e ficou imortal e impassível Pois se Deus não deixou nem renunciou nem demitiu de si nada do que era nem do que tinha como diz S Paulo que se despojou e se esgotou a si mesmo e de si mesmo Exinanivit semetipsum Assim o disse profundamente o Apóstolo e também diz o como isto podia ser e como foi Formam servi accipiens cum in forma Dei esset É verdade que Deus fazendose homem não perdeu nada do que era nem deixou nada do que tinha porém tomou e uniu ao que era tudo o contrário do que era tomou e uniu ao que tinha tudo o contrário do que tinha e tomar e unir na mesma pessoa extreinos tão contrários e tão distantes foi despojarse de tudo o que era sem se despojar Era Deus e fezse homem era eterno e nasceu em tempo era imenso e determinouse a lugar era impassível e padecia era imortal e morreu era supremo senhor e fezse servo e servir o senhor morrer o imortal padecer o impassível limitarse o imenso e humanarse o divino não só foi tomar o que não era senão deixar o que era Não deixar deixando que isso não podia ser mas deixar retendo deixar conservando deixar sem deixar Exinanivit semetipsum formam servi accipiens cum in forma Dei esset Isto é o que fez o Verbo e isto é o que fez Isabel conformandose altíssimamente com o Evangelho ao modo do mesmo autor do Evangelho Rainha com majestade e coroa mas que coroa que majestade que rainha Coroa sim mas coroa sem a deixar deixada porque deixou toda a pompa e esplendor do mundo com que se engrandecem as coroas Majestade sim mas majestade sem a renunciar renunciada porque renunciou toda a ostentação toda a altiveza e toda a idolatria com que se adoram as majestades Rainha sim mas rainha nãorainha porque tirada a soberania do título nenhuma outra coisa se via em Isabel das que se admiram nas rainhas sendo por isso mesmo a mais admirável de todas 14 Desta maneira deixou a nossa rainha a coroa e o tudo que pedia o Evangelho Omnia quae habuit Mas assim como a deixou sem a deixar por que a não deixou deixando Por que não abdicou a majestade por que não deixou de ser rainha ou não aceitando a coroa quando se lhe ofereceu ou renunciandoa depois de aceitada Respondo que esta foi a maior indústria de sua negociação conservar o cabedal de rainha para granjear ser maior santa O maior bem ou o único bem que têm as supremas dignidades do mundo é serem um degrau sobre o qual se levanta mais a virtude é serem um cunho real com que sobe a maior valor a santidade Santo foi Davi e santo Abraão e primeiro Abraão que Davi Contudo S Mateus referindo a genealogia de Cristo antepõe Davi a Abraão Filii David filii Abraham Mt 11 Pois se Abraão também era santo e santo da primeira classe como Davi e precedia na antigüidade por que se lhe antepõe Davi Dá a razão Santo Tomás angelicamente Porque ainda que Abraão era santo e tão santo como Davi Davi era santo e rei juntamente o que não concorria em Abraão A santidade de Abraão posto que grande era santidade sem coroa a santidade de Davi era santidade coroada e santidade assentada sobre coroa ainda em grau igual é maior santidade 15 E por quê Porque na majestade na grandeza no poder na adoração e em todas as outras circunstâncias que acompanham as coroas concorrem todos os contrários que pode ter a virtude e a santidade e a virtude conservada entre os seus contrários é dobrada virtude Ouvi uma das mais notáveis sentenças de Santo Agostinho Audiat omnis aetas quod nunquam audivit Ouçam todas as idades o que nunca ouviram diz Agostinho E que hão de ouvir Fala do parto virginal e diz assim Virgo partu suo crevit virginitatem dum pareret duplicavit Nestas últimas palavras reparo Diz Santo Agostinho que Maria Santíssima concebendo parindo e ficando Virgem não só conservou mas dobrou a virgindade Virginitatem dum pareret duplicavit Se falara de qualquer outra virtude não tinha dificuldade esta doutrina Mas da virgindade parece que não pode ser porque a virgindade consiste em ser indivisível É uma inteireza perfeita incorrupta intemerata que não pode crescer nem minguar nem admite mais ou menos Pois se esta virtude soberana e angélica não admite diminuição nem aumento se quando é sempre é igual e sempre a mesma como diz Santo Agostinho que cresceu que se aumentou e que se dobrou e foi dobrada no parto da Virgem Porque foi virtude que se conservou inteira entre seus contrários A conceição o parto o ter filho o ser mãe são os contrários da virgindade e conservarse Maria virgem sendo juntamente mãe foi ser dobradamente virgem Virginitatem dum pareret duplicavit Tais foram as virtudes de Isabel O maior contrário e o maior inimigo da virtude é uma grande fortuna e quanto maior figura tanto maior inimigo A humildade o desprezo do mundo a moderação a abstinência a pobreza voluntária na outra gente são simples virtudes mas estas mesmas com uma coroa na cabeça com um cetro na mão debaixo de um dossel e assentadas em um trono são dobradas virtudes porque são virtudes juntas com seus contrários A humildade junta com a majestade é dobrada humildade a moderação junta com o supremo poder é dobrada moderação o desprezo do mundo junto com o mesmo mundo aos pés é dobrado desprezo do mundo a pobreza com a riqueza a abstinência com a abundância a mortificação com o regalo a modéstia com a lisonja é dobrada pobreza é dobrada abstinência é dobrada mortificação é dobrada modéstia porque é cada uma delas não uma rosa entre os espinhos mas uma sarça verde entre as chamas E porque a nossa negociante do céu sabia que debaixo do risco está a ganância por isso teve por maior conveniência não deixar senão ajuntar a coroa com a virtude não deixar senão ajuntar a majestade com a santidade para que sendo rainha e juntamente santa fosse também maior santa porque rainha 16 E se quereis ver tudo isto com os olhos em uma admirável figura pondeos comigo ou com S João no céu No capítulo doze do Apocalipse diz S João que apareceu no céu um grande prodígio Signum magnum apparuit in caelo e declarando logo qual fosse este prodígio e sua grandeza diz que era uma mulher que tinha os pés no primeiro céu que é o céu da lua Luna sub pedibus ejus o corpo no quarto céu que é o céu do sol Amicta sole e a cabeça no oitavo céu que é o céu das estrelas Et in capite ejus corona stellarum duodecim18 Grande mulher grande prodígio e grande retrato de Isabel Mulher que vivendo na terra já seus méritos a tinham canonizado e colocado no céu Signum magnum apparuit in caelo mulher tão desprezadora das grandezas do mundo que todas as coisas sublunares as pisou e meteu debaixo dos pés Luna sub pedibus ejus mulher tão alumiada e ilustrada das luzes da graça que aos olhos de Deus e dos homens resplandecia como um sol Amicta sole mulher tão adornada de todas as perfeições e dotes sobrenaturais que todo o coro das virtudes como outras tantas estrelas lhe teciam e esmaltavam a coroa Et in capite ejus corona stellarum duodecim Até aqui Isabel santa E sendo esta prodigiosa mulher tão grande poderá ser maior Estando tão alta poderá subir mais Estando no céu poderá ser mais celeste Sim E como Se ao celeste se ajunta o real e às suposições de santa as circunstâncias de rainha Assim foi e assim o viu o mesmo profeta 17 Et datae sunt mulieri alae duae aquilue magnae ut volaret Apc 1214 E a esta mulher diz S João foramlhe dadas duas asas da águia grande para que voasse com elas A águia é a rainha das aves e mulher com asas de águia é mulher com prerrogativas reais é mulher com circunstâncias de rainha Mas notai que não só diz que se deram à mulher duas asas de águia senão duas asas de águia grande Datae sunt mulieri alae duae aguilae magnae Agora pergunto Qual é neste mundo a águia grande e quais são as duas asas desta águia A águia grande não há dúvida que é Espanha a mais dilatada monarquia de todo o universo águia real coroada de tantas coroas As duas asas desta águia também não há dúvida que são o Reino de Aragão de uma parte o Reino de Portugal de outra Não é divisão ou distinção minha senão de todos os cosmógrafos os quais dividem a Espanha em três partes ou três Espanhas Hispania Betica Hispania Tarraconensis Hispania Lusitanica O corpo e a cabeça desta grande águia é a Espanha Bética que compreende as duas Castelas Uma das asas é a Espanha Tarraconense isto é Aragão que de Tarragona se disse Aragona a outra asa é a Espanha Lusitânica isto é Portugal que de Luso se disse Lusitânia Ao ponto agora Tendo o céu engrandecido tanto a Isabel tendoa sublimado a um lugar tão alto de perfeição tendo depositado nela tudo o precioso e lustroso de seus tesouros e graças que fez Deus Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae ajuntou e acrescentou a esta prodigiosa mulher as duas asas reais da grande águia de Espanha por nascimento a de Aragão e por casamento a de Portugal E para quê Ut volaret para que levantada sobre estas duas asas a santidade de Isabel o grande dela crescesse à maior grandeza o alto subisse à maior altura o luminoso à maior luz o celeste à mais celeste e à mesma santidade a mais santa Santa Isabel porque santa e maior santa porque rainha Santa porque santa por isso colocada no céu Signum magnum apparuit in caelo e maior santa porque rainha por isso depois de colocada no céu acrescentada com asas de águia e com circunstâncias reais Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae 18 E se não voemos nós também com as mesmas asas e subamos do céu estrelado onde a viu S João ao céu empíreo onde a viu Davi Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato circumdata varietate Sl 44 10 Vi diz Davi uma rainha colocada à destra de Deus a qual estava vestida com duas galas diferentes por dentro com uma roupa bordada de ouro In vestitu deaurato por fora com outra roupa de cor vária Cincumamicta varietate Eis aqui como está a nossa rainha santa no céu vestida e adornada com duas galas uma por baixo e por dentro que é o vestido de rainha que vestiu primeiro e por isso bordado de ouro In vestitu deaurato outra por cima e por fora que é o hábito de Santa Clara que vestiu depois e por isso de cor vária pardo e branco circumamicta varietate E qual destas duas galas a faz mais majestosa e mais gloriosa no céu a de dentro ou a de fora a de brocado ou a de burel a de rainha ou a de religiosa Digo que ambas mas porque uma assentou sobre a outra Porque o hábito de religiosa assentou sobre o de rainha porque o burel assentou sobre o brocado porque o vestido de fora assentou sobre o de dentro daí é que lhe vem toda a graça e toda a formosura O mesmo Davi o disse Omnis gloria ejus ab intus in fimbriis aureis circumamicta vatietate19 a graça e a formosura ao vestido de fora toda lhe vem do vestido de dentro O hábito de S Francisco e de Santa Clara é uma das mais vistosas e mais bizarras galas que se trajam no céu Mas esta mesma gala em Isabel assentada sobre vestiduras reais é muito mais vistosa muito mais bizarra e muito mais formosa porque toda a graça e formosura lhe vem das guarnições e bordaduras de ouro que por baixo da orla estão reluzindo Omnis gloria ejus ab intus in fimbriis aureis 19 E se perguntarmos mais curiosamente a Davi qual era o lavor dessas guarnições e dessa bordadura da orla também o disse milagrosamente In fimbriis aureis lê o hebreu In scutulatis A guarnição e bordadura que aparecia na orla do vestido real por baixo do burel de que a rainha estava revestida era um lavor e recamo de ouro formado e enlaçado de escudos In scutulatis E que escudos são estes São aqueles dois escudos que vedes pintados ao lado de Isabel o escudo das armas de Aragão e o escudo das armas de Portugal De maneira que a bordadura da orla que faz sair e sobressair a gala com que Isabel se ostenta gloriosa à destra de Deus é composta admiravelmente e tecida destes dois escudos travados e alternados um com o outro as barras entre as quinas e as quinas entre as barras In scutulatis E nestes escudos reais cobertos e sobrevestidos de burel áspero e grosseiro diz Davi que consiste todo o realce da gala e toda a formosura e glória da filha do rei Omnis gloria ejus filiae regis ab intus porque se Isabel é gloriosa e exaltada no céu por santa muito mais exaltada é por santa sobre rainha Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato circumdata varietate IV Isabel maior rainha porque santa porque senhora da saúde e da vida de seus súditos Mentem os judeus em dizer que Cristo se fez rei como César deviam dizer que se fez rei maior que César pelos milagres que realizava 20 Temos vista a Isabel maior santa porque rainha seguese que a vejamos agora maior rainha porque santa Este foi o segundo lanço da melhor negociante do reino do céu e nisso mesmo parecida ao negociante do Evangelho A fortuna nunca iguala os desejos dos homens mas se houvesse uma fortuna tão grande que não só igualasse mas vencesse e excedesse os desejos esta seria a maior fortuna que se pode imaginar Tal foi a fortuna do negociante do Evangelho Ele desejava e procurava pérolas boas Quaerenti bonas margaritas E quando só desejava pérolas boas e de preço e estimação ordinária foi tal a sua fortuna que achou uma pérola tão preciosa que excedia o valor de quanto buscava e de quanto tinha Inventa una pretiosa margarita dedit omnia sua et comparavit eam Ainda foi maior fortuna a de Isabel Isabel não buscava coroas antes as coroas a buscavam a ela e porque buscada das coroas ela buscou a santidade por isso essa mesma santidade lhe acrescentou à coroa e a fez muito maior rainha A dignidade de rainha é tão alta e tão soberana que parece não admite maioria Mas Isabel pelos privilégios de santa foi rainha maior que rainha porque foi rainha com maior poder rainha com maior jurisdição rainha com maior império 21 Uma das acusações que se deram contra Cristo e a que venceu a causa foi dizerem que se fazia rei e que tomava a jurisdição de César Si hunc dimittis non es amicus Caesaris omnis enim qui se regem facit contradicit Caesaris20 Todos os padres e expositores sagrados impugnam esta calúnia e a provam com cinco mil testemunhas contestes Estes foram aqueles cinco mil homens que depois de Cristo lhes matar a fome no milagroso banquete do deserto o reconheceram pelo verdadeiro Messias e o quiseram aclamar por rei quando o senhor para mostrar que não era rei dos que fazem ou podem fazer os homens os deixou e se retirou para o monte Grande prova de Cristo se não fazer rei como era acusado Mas São Leão Papa com mais alto pensamento apresentase entre os mesmos acusadores diante de Pilatos e argumenta assim por parte deles Ne in totum videatur inanis judeorum objectio discute diligenter praeses Examine Pilatos diligentemente a causa e achará que não é totalmente falsa a acusação Em dizerem os judeus que Cristo se fez rei falam verdade em dizerem que se fez rei como César aqui é que mentiram Haviam de dizer que se fez rei maior que César e maior que todos os reis E por quê Ouvi a razão do eloqüentíssimo pontífice que é divina Caecis visum surdis auditum claudis gressum mutis donavit eloquim febres abegit dolores resolvit mortuus suscitavit magnum prorsus regem ista demonstrant Este homem acusado de se fazer rei deu olhos a cegos ouvidos a surdos pés a mancos fala a mudos sarou febres resolveu dores ressuscitou mortos e com todas estas coisas ainda que não provou que era rei como César e como os outros reis que não têm tal poder mostrou porém e demonstrou que era maior rei que todos eles 22O mesmo digo de Isabel Entrava Isabel nos hospitais que ela e seus antecessores tinham edificado concorriam a Isabel os enfermos de todas as enfermidades E que sucedia Ia Isabel fazendo o sinal da cruz sobre eles os cegos viam os mudos falavam os surdos ouviam os mancos e aleijados saltavam os mortos os que estavam para morrer ressuscitavam Magnum prorsus reginam ista demonstrant Dizei às outras rainhas e aos outros reis que façam isto com todo seu poder Fazer mancos fazer aleijados fazer cegos fazer estropiados isso fazem os reis e isso podem E se não ide a essas campanhas a estes exércitos e a essas cortes uns em muletas outros arrastando uns sem pernas outros sem braços uns sem olhos outros sem orelhas outros pedindo esmola com os dedos porque não têm língua outros sem casco na cabeça meio atontados outros sem queixadas no rosto horríveis e disformes Homens miseráveis homens que não sois homens senão parte de homens quem vos pôs neste estado Padre o serviço de el rei Fomos à guerra e dela escapamos desta maneira Isto é o que podem fazer os reis e tanto mais quanto mais poderosos Não assim Isabel Era rainha que restituía braços e pés e olhos e ouvidos Ver a majestade e pompa com que se diz dos reis que são senhores da vida Senhores da vida Leiam à margem destes títulos à glosa de Cristo Nolite timere eos qui occidunt corpus21 São senhores da vida para a tirar para a dar não Se sois delinqüente podemvos matar por justiça se sois inocente podemvos matar por tirania se tendes pouco juízo e pouco coração podemvos matar com uma carranca ou com um voltar de olhos mas dar vida ou saúde não é da jurisdição dos reis Assim o confessou um rei mais verdadeiro que todos Nolite confidere in principibus in quibus non est salus22 Isabel sim que era senhora da saúde e da vida e por isso maior rainha que todas as rainhas Mognum prorsus reginam ista demonstrant V A reverência do Tejo a Isabel e a irreverência do Jordão à Arca 23 Outra demonstração em maiores corpos Chega Santa Isabel a Santarém para atravessar o Tejo Estava prevenida uma galé real para a pessoa gôndolas e bargantins toldados para a corte mas em aparecendo Isabel na praia abrese o rio de repente levantamse dois muros de Cristal de uma e outra parte os peixes como às janelas em cardumes e atônitos pasmando da maravilha e Isabel caminhando sobre o seu bordão por aquela rua nova juncada de limos verdes mas sobre areias de ouro Não é afetação minha que já o disse o Espírito Santo em caso semelhante Campus germinans de profundo ninio23 Passemos agora de Portugal à Palestina e do Tejo ao Jordão Para o Jordão à vista da Arca do Testamento cabeça também coroada Facies que supra coronam aureum per circuntum24 Pinta o caso Davi e exclama Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordanis quia conversus es retrorsum Sl 113 5 Rio que paras mar que foges que é o que viste Bizarra e elegante prosopopéia de Davi mas em pequeno teatro maior é o nosso Que rio e que mar eram aqueles com quem falava Davi O mar era o Mar Morto chamado por outro nome Vallis Salivarum porque era uma saliva do oceano25 Cuspiu o Oceano e fez aquele mar O rio era o Jordão composto de dois regatos um o Jor outro o Dan que para terem cabedal com que ir morrer no Mar Morto se ajuntaram e fizeram companhia um com outro Esta era a grandeza do rio a quem aquele pequeno lago engolia de um bocado como diz o profeta Et fiduciam habet quod influat Jordanis in os ejus26 24 Comparaime agora rio com rio e mar com mar Assim como a Arca do Testamento passou por aquela parte onde as águas do Jordão se misturam com as do Mar Morto assim passou Isabel por aquela parte onde as águas do Tejo se confundem com as do Oceano O Oceano é aquele pego vastíssimo e imenso que ele só é todo o elemento da água e estendendo infinitos braços está recebendo como nas pontas dos dedos o tributo de todos os rios do universo Este foi o mar que se retirou e fez pé atrás à vista de Isabel E o rio qual era Aquele soberbíssimo Tejo primeiro domador do mesmo Oceano a quem pagaram páreas em pérolas o Indo e o Ganges não coroados de juncos e espadanas como o Padre Tibre mas com grinaldas de rubis e capelas de diamantes Este soberbo mar este soberbo rio são os que fizeram praça a Isabel e lhe descobriram nova terra para que pisasse Davi respondendo à sua pergunta disse Afacie Domini mota est terra afacie Dei Jacob27 E aqui está o maior excesso de maravilha Lá o Jordão parado cá o Tejo parado lá a Arca coroada cá Isabel coroada lá a Arca caminhando a pé enxuto cá Isabel a pé enxuto mas lá porque o rio viu a face de Deus cá porque viu a face de Isabel lá porque viu a face do Senhor de Israel cá porque viu a face da Rainha de Portugal Afacie Domini afacie Dei Jacob Que Deus visto refreie a corrente dos rios isso é ser Deus mas que à presença de Isabel lhe façam os rios a mesma reverência vede se é ser rainha mais que rainha E se não perguntai ao mesmo Tejo quantas vezes passaram por ele as outras rainhas quais eram as suas cortesias Passavam as Teresas passavam as Dulces passavam as Mafaldas passavam as Urracas as Leonoras as Luísas as Catarinas e o Tejo que fazia Corria como dantes Porém a Isabel falemos em frase de Roma a Isabel firmavase o Tejo às outras não se firmava porque as outras eram rainhas Isabel era rainha e santa e por isso maior rainha VI O milagre das rosas e a conversão de uma substância em outra poder divino reconhecido pelo demônio na tentação do monte e provado por Cristo na instituição do Sacramento Os arremedos dos reis O mais a que pode chegar um rei é pôr nomes como Adão aos animais O corpo incorrupto da santa e o corpo incorrupto de Cristo 25 Eu já quisera acabar mas estáme chamando a nova primavera que vemos a que repare naquelas rosas Levava Isabel na aba do vestido grande cópia de moedas de ouro e prata para repartir aos pobres e era inverno Perguntoulhe elrei que levava e respondeu que rosas Rosas neste tempo como pode ser diz el rei Abriu a santa e eram rosas Há rainha há rei no mundo que tenha tais poderes Gastar muito dinheiro e grandes tesouros em flores em jardins e ainda em sombras que é menos isto podem fazer e fazem os reis mas fazer de um dobrão uma rosa converter uma substância em outra ainda que seja um grão de ouro em um grão de areia nem todos os reis do mundo juntos o podem fazer é outra jurisdição mais alta Manda Deus a Moisés sobre o Egito e o título que lhe deu foi de Deus de Faraó Constitui te Deum Pharaonis28 Parece demasiado título e não necessário Faraó era rei de Egito seja Moisés rei de Faraó e basta Pois por que lhe não dá Deus título de rei senão de Deus Porque era razão que o título se conformasse com os poderes Moisés havia de converter a vara em serpente o Nilo em sangue a água em rãs o pó em mosquitos e converter umas substâncias em outras é poder e jurisdição mais alta que a dos reis Chamase logo Moisés não rei de Faraó senão Deus Esta foi a discrição do demônio no formulário das suas tentações Quando disse a Cristo que convertesse as pedras em pão acrescentou Si Filius Dei es29 quando lhe ofereceu todos os reinos do mundo não falou em ser Filho de Deus Pois se lhe chama Filho de Deus quando lhe diz que converta as pedras em pão por que lhe não chama também Filho de Deus quando lhe oferece os reinos de todo o mundo Porque o domínio de um reino e de muitos reinos e de todos os reinos cabe na jurisdição de um homem rei mas converter uma substância em outra é poder mais que humano é poder mais que real é poder divino Tais foram neste caso os poderes daquela rainha sobre todos os reis e rainhas do mundo Mas ainda não está ponderado o fino da maravilha 26 Não esteve a maravilha em converter as moedas em rosas senão em quê Em dizer são rosas e serem rosas Serem rosas só porque Isabel lhe chamou rosas é maravilha só da boca de Deus Ponderação admirável de São Paulo Qui vocat ea quae non sunt tanquam ea quae sunt Rom 4 17 Deus chama com tanta verdade as coisas que não são como aquelas que são E esta é a maior glória do seu poder e o maior poder da sua palavra porque basta que ele mude os nomes às coisas para que elas mudem a natureza e o que era deixe de ser e o que não era seja Mas quantas vezes fez Deus esta maravilha Uma só vez e no maior milagre dos seus milagres e na maior obra de sua onipotência Na instituição do Diviníssimo Sacramento quis Cristo que o pão se convertesse e transubstanciasse em seu corpo e o que fez para isso Disse que opão que tinha nas mãos era seu corpo Hoc est corpus meum Lc 2219 e bastou que chamasse seu corpo ao pão para que o que era pão deixasse de serpão e o que não era seu corpo fosse seu corpo Na criação do mundo não fez Deus semelhante maravilha Mandou que se fizessem as coisas e fizeramse Ipse díxit et facta sunt Sl 32 9 porém no Diviníssimo Sacramento para o qual tinha reservado os maiores poderes do seu poder fez que fosse seu corpo o que era pão só com lhe chamar seu corpo Vocat ea quae non sunt tanquam ea quae sunt O mesmo fez Isabel Não levantou as mãos não orou não pediu não mandou só disse que eram rosas as moedas e foram rosas O chamar foi produzir e o dizer que eram foi fazer que fossem o que não eram Vocat ea quae non sunt tanqamo ea quae sunt Em Cristo foi poder ordinário em Isabel poder delegado mas infinitamente maior que todos os poderes reais 27 Os reis também arremedam ou querem arremedar a Deus na soberania deste poder Cobrivos marquês assentaivos duque Só com o rei vos chamar marquês sois marquês só com vos chamar duque sois duque Mas tudo isso que vem a ser Um nome no demais sois o mesmo que dantes éreis Podemos reis dar nomes sim mas dar ser ou tirar ser ou mudar ser não chega lá a sua jurisdição por mais poderosos que sejam Depois que Deus criou o mundo e o povoou e fez a Adão rei e senhor de todo ele mandou que todos os animais viessem à presença do mesmo Adão para que ele lhes pusesse os nomes Adduxit ea ad Adam ut videret quid vocaret ea Gên 219 E por que não pôs Deus os nomes aos animais e quis que lhos pusesse Adão Judiciosamente S Basílio de Selêucia Partiamur hujus fictricis solertiae gratiam me cognoscant artificem naturae lege te dominum intelligant apellatione nominis Quis Deus que Adão pusesse os nomes aos animais para partir com ele o império e mostrar a diferença que havia de um a outro Eu Deus e tu rei do universo eu Deus porque dei o ser aos animais tu rei porque lhes pusestes os nomes De maneira que o mais a que pode chegar um rei ainda que rei de todo o mundo é pôr nomes e dar nomes fazer que vos chamais dali por diante o que ele vos chamou Omine quod vocavit Adam animae viventis ipsum est nomem ejus30 Porém fazer com esse nome que o que não era seja e que esse mesmo chamar seja dar ser é jurisdição incomparavelmente mais soberana por natureza só de Deus por delegação só de Isabel Enquanto rainha podia dar nomes mas nomes que não eram mais que nomes enquanto santa deu nomes que davam ser e mudavam ser e por isso maior rainha que todas as rainhas 28 Por fim dos poderes de Isabel quero acabar com aquele poder que tudo acaba e que pode mais que os que tudo podem a morte A morte pode mais que todas as rainhas e todos os reis mas também este poder todopoderoso foi sujeito à nossa rainha A morte matou a Isabel mas Isabel pôde mais porque matou a morte E como a matou Não podendo a morte desfazer o corpo em que vivia aquela alma o qual há trezentos anos se conserva incorrupto Ameaçava Cristo pelo profeta Oséias a morte e dizialhe Ero mors tua o mors Os 1314 Deixate estar morte que eu te matarei eu serei a tua morte Esta era a profecia mas o sucesso parece que foi o contrário porque a morte matou a Cristo Pois se Cristo morreu e a morte o matou como diz o mesmo Cristo que havia de ser morte da morte Assim foi em dois sentidos Foi morte da morte em nós porque matou a morte da alma que é o pecado e foi morte da morte em si porque matou a morte do corpo não podendo a morte corromper nem desfazer o corpo morto de Cristo Quaniam non dabis sanctum tuum videre corruptionem31 Quando a morte mata e fica viva depois de matar o homem desfazlhe o corpo porém quando a morte morre matando quando a morte mata e fica morta não pode desfazer o corpo do mesmo a quem matou e assim não pode desfazer o de Cristo mais poderoso que ela Tam potentem adversarium nostrum dum occideres occidiso disse S Jerônimo com elegância de palavras que não cabe nas nossas E isto que se viu no corpo de Cristo em três dias é o mesmo que está vendo o mundo no corpo de Isabel há trezentos anos Mas donde lhe veio a Isabel a soberania deste privilégio Não da coroa senão da santidade não por rainha mas por santa Non dabis sanctum tomo videre corruptionem VII Paralelo entre duas rainhas Que aprendam os reis com a santa a negociar o reino do céu 29 Esta imagem senhores de Isabel morta mas com dotes de imortalidade é a que eu hoje desejo levemos todos retratados na alma E para que fique nela mais altamente impressa ponhamos à vista deste retrato o retrato de outra Isabel também de Portugal também coroada e também morta Quando S Francisco de Borja abriu a arca em que ia a depositar o corpo da nossa imperatriz Dona Isabel mulher de Carlos Quinto vendo a corrupção daquele cadáver e daquele rosto que pouco antes era um milagre da natureza ficou tão penetrado e tão atônito daquela vista que ela bastou para o fazer santo Se um só destes retratos obrou tais efeitos em um juízo racional e cristão que farão ambos os retratos juntos e um defronte do outro Acolá Isabel aqui Isabel acolá uma coroa aqui outra coroa acolá um corpo morto e todo corrupção aqui outro corpo morto mas incorruptível e como imortal Oh que mudança Oh que diferença Oh que desengano Assim se morre senhores e assim se pode morrer 30 Com razão escreveu Roma sobre aquela imagem e retrato de Isabel Et nunc reges intelligite erudimini qui judicatis terram32 Até agora parece que tinham alguma desculpa os monarcas da terra em não entender a diferença que há do aparente ao verdadeiro do real ou imperial ao santo de uma coroa a outra coroa e de reinar a reinar Porém agora et nunc à vista de um prodígio e testemunho do céu tão manifesto e tão constante à vista do respeito que guardou a morte ou do poder que não teve sobre os despojos mortais e já mortos de Isabel e muito mais se a esta vista ajuntamos o paralelo tão notável de uma e outra majestade ambas do mesmo nome ambas do mesmo sangue e ambas da mesma dignidade soberana e suprema que rei haverá que não acabe de entender o que tão mal se entende que príncipe que não queira aprender o que tão pouco se estuda Intelligite et erudimini Não digo pois nem Deus o manda que as cabeças ou testas coroadas façam o que fez Carlos convencido de uma que só parte deste exemplo nem que renunciem e se despojem como ele se despojou das coroas o que só digo e diz Deus a todos os reis é que aprendam a não as perder e se perder mas a negociar com elas e que com o exemplo canonizado de Isabel Rainha e Santa entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis e que então serão maiores reis quando forem santos Não consiste a negociação do reinar em acrescentar o círculo às coroas da terra que maiores ou menores todas acabam mas em granjear e assegurar e amplificar com elas o que há de durar para sempre Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do reino do céu agora maior mais poderosa e mais verdadeira rainha Assim está reinando e reinará para sempre assim goza e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação na terra enquanto durar o mundo sobre os altares e no céu por toda a eternidade em sublime trono de glória SERMÃO DA GLÓRIA DE MARIA MÃE DE DEUS EM DIA DA SUA GLORIOSA ASSUNÇÃO PREGADO NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA EM LISBOA NO ANO DE 1644 Maria optimam partem elegit1 I A Casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora A palavra optimam sendo superlativa põe as coisas no sumo lugar do qual se não exclui o mesmo Deus antes se inclui essencialmente 31 Bem se concordam neste dia e neste lugar o título da casa com o da festa e o da festa com o da casa a Casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora O Evangelho que deve ser o fundamento de tudo o que se há de dizer também eu o quisera concordar com esta glória mas o que dele e dela se tem dito até agora não concorda com o meu desejo nem com o meu pensamento O Evangelho diz que escolheu Maria a melhor parte Maria optimam partem elegit E os santos e teólogos que mais se alargaram aplicando esta escolha e esta parte à glória da Senhora só dizem que verdadeiramente foi a melhor porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no céu é melhor e maior glória que a de todos os bemaventurados Os bemaventurados da glória ou são homens ou anjos e não só em cada uma destas comparações senão em ambas dizem que é maior a glória de Maria que a de todos os homens e a de todos os anjos e não divididos mas juntos Grande glória Grande incomparável imensa O sol não só excede na luz a cada uma das estrelas e a cada um dos planetas senão a todas e a todos incomparavelmente Por isso a Senhora neste dia se chama escolhida como o sol Quae est ista quae ascendit electa ut sol2 O mar não só excede na grandeza a cada uma das fontes e a cada um dos rios senão a todas e a todos imensamente por isso a Senhora se chama Maria que quer dizer mar e só por este nome que não tem outra coisa no Evangelho se lhe aplicam as palavras dele Maria optimam partem elegit Isto é como dizia tudo o que dizemos santos e teólogos mas nem o Evangelho assim entendido nem a glória da Senhora assim declarada nem a comparação dela assim deduzida concordam com o meu pensamento O Evangelho dizendo Optimam partem pareceme que quer dizer muito mais a glória de Maria sendo de Maria Mãe de Deus pareceme que é muito maior e a comparação com os outros bemaventurados somente pareceme muito estreita e quase indigna O meu pensamento é Deus me ajude nele que a comparação de glória a glória não se deve fazer só entre a glória de Maria com a glória de todas as outras criaturas humanas e angélicas senão com a glória do mesmo Criador delas a quem Maria criou O texto e a palavra optimam a tudo se estende porque sendo superlativa põe as coisas no sumo lugar do qual se não exclui Deus antes se inclui essencialmente Neste tão remontado sentido pretendo provar e mostrar hoje que comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus e fazendo da glória de Maria duas partes a melhor parte é a de Maria Maria optimam partem elegit Até não me ouvirdes não me condeneis E espero que me não haveis de condenar se a mesma Senhora da Glória me assistir com sua graça Ave Maria II Como pode ser maior a glória de Maria que a de Deus e como diz a Igreja que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte se ela é que foi a escolhida Provao o autor com os filósofos os Santos Podres as Escrituras Divinas e com o mesmo Deus 32 Maria optimam partem elegit Suspensos considero todos os que me ouvem na expectação do assunto que propus os curiosos com indiferença os devotos com alvoroço os críticos com a censura já prevenida e todos com razão É certo e de fé que por grande e grandíssima que seja a glória de Maria Senhora nossa a glória de Deus é infinitamente maior assim como eleque só se compreende é por natureza infinito Pois se a glória de Maria como glória de pura criatura posto que criatura a mais excelente de todas é glória finita e infinitamente menor que a glória de Deus como me atrevo eu a afirmar e como se pode entender que ainda em comparação da glória do mesmo Deus se verifiquem as palavras do Evangelho na glória de Maria e que goze Maria a melhor parte Maria optimam partem elegit 33 Para inteligência desta verdade nas mesmas palavras do Evangelho temos outra dúvida não menos dificultosa que se deve averiguar primeiro Esta que o texto chama a melhor parte diz o mesmo texto que Maria a escolheu Maria optimam partem elegit E também esta escolha não tem lugar nem se pode verificar na glória da Senhora A eleição para a glória é só de Deus Deus é o que elegeu e escolheu para a glória a todos os bemaventurados que por isso se chamam escolhidos E ainda que entre todos os escolhidos a Senhora tenha o primeiro e mais sublime lugar ela também foi escolhida e não a que escolheu Assim a canta a Igreja quando canta a mesma entrada da Senhora no céu Elegit eam Deus et praeelegit eam in tabernaculo suo habitare facit eam Pois se Maria foi escolhida para a glória que tem no céu e a escolha foi de Deus e não sua como diz a mesma Igreja nas palavras que lhe aplica que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte Maria optimam partem elegit Na inteligência desta segunda dúvida consiste a solução da primeira Ora vede e com atenção É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora e contudo diz o Evangelho que Maria foi a que escolheu e que escolheu a melhor parte uma e outra coisa com grande mistério e energia Diz que Maria foi a que escolheu porque ainda que a eleição não foi da Senhora a grandeza de sua glória é tão imensa que não parece que foi a glória escolha para ela senão que ela foi a que a escolheu para si E diz que Maria escolheu a melhor parte porque ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua a melhor parte que pode escolher uma mãe é que a glória de seu filho seja a maior Como Maria é mãe de Deus e Deus filho de Maria mais se gloria a Senhora de que seu Filho goze esta infinidade de glória e de ela a gozar em seu Filho do que se a gozara em si mesma E daqui se segue que considerada a glória de Deus e a glória de Maria em duas partes porque a parte de Deus é a máxima por isso a parte de Maria é a ótima Maria oprimam partem elegit 34 Para todos os que sois pais e mães não hei mister maior nem melhor prova do que digo que os vossos próprios afetos e o ditame natural dos vossos corações Dizeime se houvera neste mundo uma dignidade uma honra uma glória maior que todas e se pusera na vossa eleição e na vossa escolha querêla para vós ou para vosso filho para quem a havíeis de querer Não há dúvida que para vosso filho Pois isto mesmo é o que devemos considerar na glória da Senhora É verdade que a glória de Deus é infinitamente maior que a de sua Mãe mas como todo esse excesso de glória é de seu filho e está em seu filho ela a possui e goza em melhor parte que se a gozara em si mesma Assim entendo e suponho que o entendem todos os que são pais e mães Mas porque muitos dos que me ouvem não têm esta experiência e porque em algum coração humano ainda que paterno ou materno pode estar este mesmo afeto menos bem ordenado para a glória da Senhora da Glória e para maior evidência de que mais gloriosa é pela glória de seu Filho que pela sua e que gozando nele toda essa glória a goza na melhor parte ouçamos e provemos esta mesma verdade pelo testemunho universal e concorde de todas as letras sagradas eclesiásticas e profanas No primeiro lugar ouvireinos os filósofos no segundo os Santos Padres da Igreja no terceiro as Escrituras divinas e no último ao mesmo Deus na pessoa do Pai E vereinos quão conforme foi o seu afeto como desta soberana Mãe pois ambos são Pai e Mãe do mesmo Filho III Em primeiro lugar os filósofos A dúvida de Sêneca pode um filho vencer em benefício a seu pai Os exemplos de Enéias e de Antígono Paralelo de Ovídio entre os dois primeiros Césares Não pode haver maior glória para um pai que verse vencido de seu filho Plutarco e o exemplo de Filipe de Macedônia e Alexandre Magno Apóstrofe de Claudiano ao imperador Teodósio 35 Comecemos pelos filósofos Põe em questão Sêneca3 e disputa sutilíssimamente no livro terceiro dos cinco que intitulou De Beneficiis se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser e havendo o pai dado o ser ao filho o filho não pode dar o ser a seu pai Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso porque falamos de um pai e de sua filha em que o pai é justamente pai e filho da mesma mãe e a mãe é justamente mãe e filha do mesmo Pai Abstraindo porém deste impossível da natureza que os filósofos gentios não conheceram resolve o mesmo Sêneca que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai e o prova com o exemplo de Enéias o qual por meio das lanças dos gregos e do incêndio e labaredas de Tróia levando sobre os seus ombros ao velho Anquises deu mais heroicamente a vida a seu pai do que dele a recebera À vista deste famoso espetáculo de valor e de piedade não há dúvida que venceu o filho ao pai mas qual foi então mais glorioso o filho vencedor ou o pai vencido A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antígono e de outros que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam e conclui assim Felices qui vicerint felices qui vincentur quid autem est felicius quam sic cedere Quando os filhos vencem os pais e se ostentam maiores que eles felizes são os que vencem e felizes os vencidos mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores porque não pode haver maior gosto nem maior glória para um pai que verse vencido de seu filho Grande glória é do filho que vença ao pai que lhe deu o ser mas muito maior glória é do mesmo pai ver que deu o ser a um tal filho que o vença a ele 36 Isto que disse Sêneca falando dos benefícios corre igualmente e muito mais em todas as outras ações ou grandezas em que os pais se vêem vencidos dos filhos Ouçamos a outro filósofo que melhor ainda que Sêneca conheceu os afetos naturais e não só em mais harmonioso estilo mas com mais profunda especulação que todos penetrou a anatomia do coração humano Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares Júlio e Augusto e aquele pai e este filho e depois de assentar que a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto Nec enim de Caesaris actis ullum majus opus quam quod pater extitit hujus supõe com a comum opinião de Roma que um cometa que na morte de Júlio César apareceu era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses como um deles E no meio daquela imaginada bem aventurança qual vos parece que seria a maior glória de um homem que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o mundo Diz o mesmo Ovídio tão falso na suposição como poeta mas tão certo no discurso como filósofo que o que fazia lá de cima Júlio César era olhar para seu filho Augusto e que considerando as grandezas do mesmo filho e reconhecendo e confessando que eram maiores que as suas o seu maior gosto e a sua maior glória era verse vencido dele Natique videns benefacta fatetur esse suis majora et vinci gaudet ab illo Ah Virgem gloriosíssima no céu estais verdadeiramente como crê e adora a nossa fé mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento que consideração haverá que não reconheça quais são lá os mais intensos afetos e as maiores glórias do vosso Estais vendo e contemplando como em um espelho claríssimo o infinito ser os infinitos atributos a infinita e imensa majestade de vosso unigênito Filho conheceis e confessais que as suas grandezas excedem e são também infinitamente maiores que as vossas Fatetur esse suis majora mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória é a melhor parte da mesma glória vossa e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele Et vinci gaudet ab illo Quem pudera imaginar que Júlio César vencedor de Cipião e de Pompeu e de tantos outros capitães famosos que junto a estes perdem o nome triunfador da África do Egito das Gálias e das Espanhas e da mesma Roma aquele enfim de tão altivo coração que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no mundo quem pudera imaginar digo que havia de gostar e gloriarse de ser vencido de outro Mas como Augusto que o vencia era filho seu o ser vencido dele era a sua maior vitória este o maior triunfo de seus triunfos esta a maior glória de suas glórias Et vinci gaudet ob illo 37 Mas por que neste exemplo não nos fique o escrúpulo de ser adulação poética posto que tão conforme ao afeto natural confirmemolo com testemunho histórico e verdadeiro em nada menor que o passado e porventura mais notável Celebra Plutarco tão insigne historiador como filósofo o grande extremo com que Filipe rei de Macedônia amava a seu filho Alexandre já digno do nome de Grande em seus primeiros anos pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos ditos e ações resplandecia4 E para prova deste extremado afeto refere uma experiência que nos vassalos pudera ser tão arriscada como do rei mal recebida se o amor de pai a filho a não interpretara doutra sorte Foi o caso que os macedônios sem embargo da fé que deviam a Filipe publicamente chamavam a Alexandre o rei e Filipe o capitão Mas como castigaria Filipe este agravo Não há ciúmes mais impacientes mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no cetro e na coroa Apenas tem havido púrpura antiga nem moderna que por leves suspeitas neste gênero se não tingisse em sangue E que sofre Filipe aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedônia que seus próprios vassalos em sua vida e em sua presença lhe tirem o nome de rei e o dêem a Alexandre Muito fora que o sofresse mas muito mais foi que não só o sofria senão que o estimava e se gloriava muito disso Ouvi a Plutarco Hunc filium non immerito Philippus dilexit ut etiam gauderet cum Alexandrum Macedones regem Philippum appellarent ducem Era Filipe pai e Alexandre filho e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho que antes o tinha por lisonja e glória e esse era o seu maior gosto Ut etiam gauderet Quando lhe tiravam a coroa para a darem a seu filho então se tinha Filipe por mais coroado quando já faziam Alexandre herdeiro do reino antes de lhe esperarem pela morte então se tinha por imortal quando o apelidavam com menor nome então se tinha por maior e quando lhe diziam que ele só era capitão então aceitava esta gloriosa injúria como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho Et vinci gaudet ab illo 38 A razão e filosofia natural deste afeto é porque ao maior desejo quando se consegue seguese naturalmente o maior gosto e o maior desejo que tem e devem ter os pais é serem tais seus filhos que não só os igualem mas os vençam e excedam a eles Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio Claudiano tão insigne na filosofia como na poética Descreve copiosamente as virtudes imperiais militares e políticas com que seu filho Honório se adiantava admiravelmente aos anos e não só igualava mas excedia a seu pai e fazendo uma apóstrofe a Teodósio lhe diz confiadamente assim Aspice nunc quacumque micas seu circulus Austri magne parens gelidi seu te meruere Triones aspice completur votum jam natus adaequat te meritis et quod magis est optabile vincit De lá onde como estrela de Marte ilustrais o mundo com vossas vitórias ou seja no círculo do Austro ou no frio Setentrião olhai felicíssimo César para Honório vosso filho e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande chamando vos a voz pública Teodósio o Magno a minha diz Claudiano não vos invoca com o nome de grande imperador senão com o de grande pai Magne parens e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista é que vejais e torneis a ver Aspice aspice que chegastes a ter um filho o qual não só vos iguala que é o que desejam os pais mas que já vos excede e vence que é o que mais devem desejar Et quod magis est optabile vincit Notai muito as palavras Quod magis est optabile e aplicaias ao nosso caso O que mais se deve desejar é o melhor que se pode escolher E como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam bem se conclui que se entre a glória de Deus e a da sua Mãe fora a escolha da mesma Mãe o que a Senhora havia de escolher para si é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma glória como verdadeiramente a excede e vence Et quod magis est optabile vincit Vence Deus incomparavelmente a sua Mãe na glória infinita que goza mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar e o melhor que podia escolher como Mãe por isso se diz com razão que Maria escolheu a melhor parte Mariam optimam partem elegit IV Opinião dos Santos Padres São Sidônio Apolinar Epístolas de S Gregório Nazianzeno a Nicóbulo e a seu filho Carta de Santo Agostinho a Juliana mãe da virgem Demetríade 39 Temos ouvido os filósofos que falam pela boca da natureza ouçamos agora os Santos Padres que falam pela da Igreja São Sidônio Apolinar bispo arvernense e Padre do quinto século escrevendo a Audaz prefeito dos reis godos no tempo em que dominaram Itália prometelhe suas orações e conclui com estas palavras Deum posco ut te fillii consequantul et quod magis decet velle transcendant Rogo a Deus por vós e por vossos filhos diz o eloqüentíssimo Padre e o que peço para eles é que vos imitem o que peço para vós é que vos excedam5 Que vos imitem porque isso é o que eles devem fazer que vos excedam porque isso é o que vós deveis desejar Et quod magis decet velle transcendant Oh quisesse Deus que fossem hoje tais os pais e tal a criação dos filhos que por uns e outros lhe pudéssemos fazer esta oração Mas é tanto pelo contrário que podemos chorar da nossa idade o que o outro gentio lamentava da sua Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores mox daturos progeniem vitiosiorem6 Os avós foram maus os filhos são piores os netos serão péssimos Haviamse de prezar os pais não só de ser bons mas de dar tal criação aos filhos que se pudessem gloriar de serem eles melhores Mas deixadas estas lamentações que não são para dia tão alegre continuemos a ouvir os Santos Padres e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina Nazianzeno e Agostinho 40 Faz duas elegantes epístolas S Gregório Nazianzeno uma a Nicóbulo famoso letrado em nome de um seu filho e outra ao filho em nome do mesmo Nicóbulo7 E na primeira pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para freqüentar as escolas e seguir as letras diz assim Gratia quam posco genitor charissime patris est magis quam nati a graça que vos peço pai meu é mais para vós que para mim e mais é vossa que minha Se isto dissera o moço que ainda não tinha mais que o desejo de saber não me admirara o dito mas falando por boca dele o grande Nazianzeno do qual com singular elogio afirma a Igreja que em nenhuma coisa das que escreveu errou como pode ser verdade que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho Patris est magis quam nati E se esta proposição é verdadeira seguese dela aplicada ao nosso intento que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus porque Deus é Filho e ela Mãe E por que não faça dúvida o falarmos da glória de um e outro com a mesma palavra se explica o Santo Padre nas que logo acrescenta Gloria namque patris natorum est fama decusque ut rursus natis est gloria fama parentum Como pode ser logo neste caso ou em algum outro que a glória do filho seja mais do pai que do filho Patris est magis quam nati Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a sutileza dos afetos humanos entre os quais o amor paterno como é o mais eficaz e mais forte é também o mais fino Diz que a glória do filho é glória do pai e mais sua do pai que do mesmo filho porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos ou de a gozarem neles que se a gozaram em si mesmos E neste sentido se pode dizer com verdade e propriedade natural que a glória de Deus em certo modo é mais de Maria que do mesmo Deus porque não sendo sua como não é é do Filho unicamente seu em que ela mais a estima e da qual mais se gloria que se pudera ser ou fora sua 41 Isto é o que disse Nazianzeno ao pai por boca do filho vejamos agora o que diz e responde ao filho por boca do pai Sis sane praestantior ipse parente Queres filho seguirme na profissão e ser grande como o mundo e a fama diz que sou na ciência e nas letras Sou contente mas não me contento só com isso o que peço a Deus é que saias tão eminente nelas que me faças grandes vantagens e sejas muito maior que teu pai Sis sane praestantior ipse parente Assim diz Nicóbulo ou Nazianzeno por ele e dá a razão tão própria do nosso caso como se eu a dera Gaudet enim genitor cum palmami proeripit ipsi virtutis sua progenies majorque voluptas hinc oritur quam si rediquos praeverteret omnas Desejo filho que sejas maior que eu porque não há gosto para um pai como ver que seu filho lhe leva a palma e de se ver assim vencido dele se glória muito mais que se vencera e se avantajara a todos quantos houve no mundo Mudai agora o nome de genitor em genitríx e entendei que falou Nazianzeno da glória de Maria no céu onde tão gloriosamente se vê vencida da glória de seu Filho Gaudet enitn Genitrtx cum palmam praeripit ipsi virtutis sua progenies Vêse Maria quando vê a Deus infinitamente vencida da imensidade de sua glória mas como é glória não de outrem senão de seu Filho sua progenies o verse vencida dele é a sua vitória e a sua palma Cum palmam praeripit ipsi Nas outras contendas a palma é do vencedor mas quando contende o filho com o pai ou com a mãe a palma é do pai ou da mãe vencida porque a sua maior glória é ter um filho que a vença nela Este dia de Senhora da Glória chamase também da Senhora da Palma porque como é tradição dos que assistiram a seu glorioso trânsito o anjo embaixador de seu Filho que lhe trouxe a alegre nova lhe meteu juntamente na mão uma palma com a qual como vencedora da morte e do mundo entre as aclamações e vivas de toda a corte beata entrasse triunfante no céu Subi Senhora subi subi ao trono da glória que vos está aparelhado sobre todas as hierarquias que lá vos espera outra palma infinitamente mais gloriosa E que palma Não aquela com que venceis em glória a todos os espíritos bemaventurados senão aquela com que na mesma glória sois vencida de vosso Filho Cum palma praeripit ipsi sua progenties Grande glória da Senhora é como lhe canta a igreja verse exaltada no céu sobre todos os coros e hierarquias dos espíritos angélicos grande glória que os principados e potestades que os querubins e serafins lhe ficam muito abaixo e que no lugar na dignidade na honra na glória excede incomparavelmente a todos porém o ver que nesse mesmo excesso de glória é excedida infinitamente de seu Filho isso é o de que naquele mar imenso de glória mais se gloria isso é o que naquele verdadeiro paraíso dos deleites eternos mais a deleita Majorque voluptas hinc oritur quam si reliquios praeverteret omnes 42 Mas ouçamos já a Agostinho que mais sutilmente ainda penetrou os efeitos e causas desta tão verdadeira como racional complacência8 Escreve Santo Agostinho em seu nome e no de Elvidio a Juliana mãe da virgem Demetriade bem celebrada nas epístolas de S Jerônimo e porque esta senhora romana de nobreza consular desprezadas as grandezas riquezas e pompas do mundo se tinha dedicado toda a Deus no estado mais sublime da perfeição evangélica da o parabém Agostinho à mãe com estas ponderosas palavras Te volentem gaudenteinque vincit genere ex te honore supra te in qua etiam tuum esse caepit quodi in te esse non potuit Vossa filha Demetríade ó Juliana vencevos sim na alteza do estado a que a vedes sublimada mas muito por vossa vontade e muito por vosso gosto vos vence Volentem gaudentenque vincit porque é filha vossa aquela de quem vos vedes vencida Genere ex te honore supra te a honra que goza é muito sobre vós mas como a geração que tem é de vós também esta mesma honra é vossa porque o que não podíeis ter nem alcançarem vós e por vósjá o tendes e gozais nela por ser vossa filha In qua etiam tuum esse caepit quod in te esse non potuit Vai por diante Agostinho ainda com mais profundo pensamento Illa carnaliter non nupsit ut non tantum sibi sed etiam tibi ultra te spiritualiter augeretur quoniam tu compensatione minor illa es quod ita nupsisti ut nasceletur Demetríade vossa filha é maior que vós e vós menor que ela mas se ela vos excedeu a vós no que tem de maior não vos excedeu só para si senão também para vós porque esse excesso se compensa com nascer de vós Non tantum sibi sed etiam tibi ultra te ea compensatione ut nasceretur Em uma só coisa não vem própria a semelhança porque Maria pode ser mãe como Juliana e virgem juntamente como Demetríade mas em tudo o mais especulou e ponderou a agudeza de Agostinho quanto se pode dizer no nosso caso 43 Te volentem gaudenteque vincit Vencevos vosso Filho na glória Virgem Mãe mas muito por vossa vontade e por vosso gosto porque esse mesmo excesso de glória por ser sua é o que mais quereis e de que mais gozais Genere ex te honore supra te a sua honra a sua grandeza a sua majestade a sua glória imensa e infinita é muito sobre vós porque ele é Deus e vós criatura Honore supra te mas a geração desse mesmo Deus que é tanto sobre vós é de vós Genere ex te E que se segue daqui Seguese que tendes o que não podíeis ter e que toda a glória que é sua começa também a ser vossa Etiam tuum esse caepit quod in te esse non potuit Vós não podíeis ser Deus mas como Deus pôde fazer que fôsseis sua Mãe tudo o que não podíeis terem vos tendes nele Ele é maior que vós e vós menor Minor es mas tudo o que tem de maior que é tudo não só o tem para si senão também para vós Non tantum sibi sed tibi ultra te Oh Quem pudera declarar dignamente a união destes termos Ultra te et tibi Enquanto a glória de Deus é infinita e imensa estendese muito além de vós ultra te mas enquanto é glória de vosso Filho toda se contrai e reflete a vós tibi Para os raios do sol fazerem reflexão é necessário que tenham limite onde parem mas a glória da divindade de vosso Filho que não tem nem pode ter limite por isso se limitou à humanidade que recebeu de vós para refletir sobre vós nascendo de vós Ea compensatione ut nasceretur E chamase este nascer de vós compensação ou recompensa com que Deus vos compensou toda a grandeza e glória que tem mais que vós porque nascendo de vós é vosso verdadeiro Filho e sendo toda essa glória de vosso Filho também é vossa e vossa naquela parte onde atendes por melhor Optimam partem elegit V O que dizem as Escrituras Sagradas o exemplo de Barcelai Por que foi o sacrifício de Isac premiado em Isac e não em Abraão Os cumprimentos recebidos por Davi quando Salomão foi ungido rei e os cumprimentos recebidos por Maria no céu 44 Parece que não podia falar mais concordemente ao nosso intento nem a filosofia nos gentios nem a teologia nos Santos Padres vejamos agora o que dizem as Escrituras Sagradas O primeiro exemplo que elas nos oferecem é o famoso de Barcelai 2 Rs 1938 No tempo em que Absalão se rebelou contra Davi que tão mal pagam os filhos a seus pais o amor que lhes devem um dos senhores que seguiram as pautes do rei foi este Barcelai o qual o assistiu sempre tão liberal e poderosamente que ele só como refere o texto lhe sustentava os arraiais Restituído pois Davi à coroa e lembrado deste serviço ou gentileza de que outros príncipes se esquecem com a mudança da fortuna quilo ter junto a si na corte e fazerlhe a mercê e honra que sua fidelidade merecia e para o vencer na liberalidade ou não ser vencido dele disselhe que ele mesmo se despachasse porque tudo quanto quisesse lhe concederia Quidquid tibi placuerit quod petieris a me impetrabis Generoso rei Venturoso vassalo Mas para quem vos parece que quereria toda esta ventura Era Barcelai pai tinha um filho que se chamava Camaam escusouse de aceitar o lugar e mercê que o rei lhe oferecia e o que só lhe pediu foi que a fizesse a seu filho Est servus tuus Chamam ipse vadat tecum et fac ei quidquid tibi lonum videtur9 Dirão os que têm lido esta história que se escusou Barcelai porque se via carregado de anos como ele mesmo disse mas isso só foi um desvio e modo de não aceitar cortesmente e não é razão que satisfaça pois vemos tantas velhices decrépitas tão enfeitiçadas das paredes de palácio que tropeçando nas escadas sem vista e sem respiração as sobem todos os dias bem esquecidos dos que lhes restam de vida E quando Barcelai não fosse tocado deste contágio ao menos podia dividir a mercê entre si e o filho e aparecerem ambos na corte como vemos muitos títulos com duas caras a modo do deus Jano uma com muitas cãs e outra sem barba Mas a verdadeira razão por que este honrado pai não aceitou a mercê do rei para si e a pediu para seu filho nem a dividiu entre ambos podendo pois estava na sua eleição foi como dizem literalmente Lira e Abulense porque era pai e entendeu que tanto lograva aquela honra em seu filho como em si mesmo Eu acrescento que mais a lograva nele do que em si porque nele era mais sua como acima disse S Gregório Nazianzeno E porque o santo não deu a razão desta sua sentença nós a dareinos e provareinos agora com outro mais notável exemplo da Escritura 45 Quando Abraão sacrificou seu filho Isac é coisa muito notável e mui notada que sendo Isac a vítima do sacrifício os louvores desta ação e desta obediência se dêem a Abraão e não a Isac Gên 1710 Isac não se ofereceu com grande prontidão ao ofício Não se deixou atar Não se inclinou sobre o altar e se lançou sobre a lenha Não viu sem horror desembainhar a espada Não aguardou sem resistência o golpe Que mais fez logo Abraão para que a obediência de Isac se passe em silêncio e a de Abraão se estime se louve se encareça com tanto excesso Nenhuma diferença houve no caso senão ser Abraão pai e Isac filho Amava Abraão mais a vida de Isac que a sua e vivia mais nela que em si mesmo E posto que ambos sacrificaram a vida e a mesma vida o sacrifício de Abraão foi maior e mais heróico que o de Isac porque se Isac sacrificou a sua vida Abraão sacrificou a vida que era mais que sua porque era de seu filho Até aqui está dito e bem dito mas eu passo avante e noto o que a meu ver é digno ainda de maior reparo Premiou Deus esta famosa ação de Abraão e como a premiou e em quem Não a premiou no mesmo Abraão senão em Isac Quia fecisti rem hanc benedicentur in semine tuo omnes gentes in Isaac vocabitur ti semen10 Pois se a ação do sacrifício foi celebrada em Abraão e não em Isac por que foi premiada em Isac e não em Abraão por isso mesmo A ação foi celebrada em Abraão e não em Isac porque Isac sacrificou a sua vida e Abraão sacrificou a vida que estimava mais que a sua porque era de seu filho e estimava mais que a sua porque era de seu filho e da mesma maneira foi premiada em Isac e não em Abraão para que o prêmio sendo de seu filho fosse também mais estimado dele do que se fora seu A vida que sacrificastes era mais que vossa porque era de vosso filho Pois seja o prêmio também de vosso filho para que seja mais que vosso E como os pais estimam mais os bens dos filhos que os seus próprios e os logram e gozam mais neles que em si mesmos vede se escolheria ou quereria a Senhora a imensa glória de seu Filho antes para ele que para si se a terá por sua e mais que sua e se as mesmas vantagens de glória em que infinitamente se vê excedida serão as que mais gloriosa a fazem e de que mais se gloria 46 0 mesmo filho de Maria por ser filho seu se chama também Filho de Davi e na história do mesmo Davi nos dá a Escritura Sagrada o maior e mais universal testemunho que para prova desta verdade se pode desejar nem ainda inventar Chegado Davi aos fins da vida quis nomear sucessor do reino e mandou ungir a seu filho Salomão por rei Deu esta ordem a Banaias capitão dos guardas da pessoa real o qual lhe beijou a mão pela eleição que não era pouco controversa e o cumprimento com que falou ao rei foi este Quomodo fuit Dominus cum domino meo rege sic sit cum Salomone et sublimius faciat soliuim ejus a solio domini mei regis David 3 Rs 137 Assim como Deus assistiu sempre e favoreceu a Vossa Majestade assim assista e favoreça o reinado de Salomão e sublime e exalte o seu trono muito mais que o trono de Vossa Majestade Executouse prontamente a ordem ungiram a Salomão no Monte Gion com todas as cerimônias que então se usavam em semelhante celebridade Entrou o novo rei por Jerusalém a cavalo com trombetas e atabales diante entre vivas e aclamações de todo o povo e exército vieram todos os príncipes e ministros maiores das doze Tribos congratularse com Davi e as palavras com que lhe deram o parabém foram outra vez as mesmas Amplificet Deus nomem Salomanis super nomem tuum et magnificet thronum ejus super thronum tuum 3 Rs 147 Seja maior o nome de Salomão Senhar que o vosso nome e mais alto e glorioso o seu trono do que foi o vosso O que me admira sobretudo neste caso é que todos dissessem a mesma coisa Estas são as ocasiões em que a discrição o engenho e a cortesania dos que dão o parabém ao rei se esmera em buscar cada um novos modos de congratulação novos motivos de alegria e ainda novos conceitos de lisonja e mais os que fazem a fala em nome dos seus tribunais ou repúblicas Como logo em tantas tribos tantos ministros tantos príncipes e senhores que como diz o texto vieram todos não houve quem falasse por outro estilo nem dissesse outra coisa a Davi senão que Deus fizesse a seu filho maior que ele e sublimasse e exaltasse o trono de Salomão mais que o seu trono Isto disseram todos porque a um rei tão famoso e glorioso como Davi nenhuma outra felicidade nem glória lhe restava para desejar senão que tivesse um filho que em tudo se lhe avantajasse e o excedesse e que o trono do mesmo filho fosse muito mais levantado e sublimado que o seu A Davi enquanto Davi bastavalhe por glória ter sido Davi mas enquanto pai não lhe bastava Ainda lhe restava outra maior glória que desejar e esta era ter um tal filho que na majestade na grandeza na glória e no mesmo trono o vencesse e excedesse muito Et magnificet thronum ejus super thronum tuum 47 Dois tronos há no céu mais sublimes que todos o de Deus e o de sua Mãe o de Deus infinitamente mais alto que o de sua Mãe e o de sua Mãe quase infinitamente mais alto que o de todas as criaturas Mas a maior glória de Maria não consiste em que o seu trono exceda o de todas as hierarquias criadas senão em ter um filho cujo trono excede infinitamente o seu E este é o parabém que no céu lhe estão dando hoje e lhe darão por toda a eternidade todos os espíritos bemaventurados sem haver em todos os coros de homens e anjos quem diga nem possa dizer outra coisa senão Thronum ejus super thronum tuum Vence Maria no céu a todas as virgens na glória que se deve à pureza a todos os confessores na que se deve à humildade a todos os mártires na que se deve à paciência a todos os apóstolos patriarcas e profetas na que se deve à fé à religião ao zelo e culto da honra de Deus Mas assim os confessores como as virgens assim os mártires como os apóstolos assim o patriarcas como os profetas deixadas todas essas prerrogativas em que gloriosamente se vêem vencidos os louvores e euges eternos com que exaltam a gloriosíssima Mãe é ser inferior o seu trono ao de seu Filho Thronum ejus super thronum tuum Vence Maria a todos os anjos e arcanjos a todos os principados e potestades a todos os querubins e serafins na virtude no poder na ciência no amor na graça na glória mas todos esses espíritos angélicos passando em silêncio os outros dons sobrenaturais que tocam a cada uma das hierarquias em que veneram e reconhecem a soberana superioridade com que a Senhora como Rainha de todas incomparavelmente as excede todos como tão discretos e entendidos o que só dizem e sabem dizer o que sobretudo admiram e apregoam é Thronum ejus super thronum tuum Assim que homens e anjos unidos no mesmo conceito e enlevados no mesmo pensamento o que cantam o que louvam o que celebram prostrados diante do trono da segunda majestade da glória e os vivas que lhe dão concordemente é ser Mãe de um Filho que excedendo ela a todos em tão sublime grau na mesma glória ele a vence e excede infinitamente E isto é o que divididos em dois coros de inumeráveis vozes e unidos em uma só voz aplaudem aclamam festejam e tudo o mais calam conformandose nesta eleição com a parte da mesma glória que a Senhora elegeu como a melhor Optiman partem elegir VI O exemplo do Eterno Pai com as novas glórias do Filho O que recebeu o Verbo Eterno do Pai necessariamente e o que recebeu por própria eleição Atenções do Eterno Padre submetendo a Maria a eleição da Maternidade divina 48 E porque a preferência não fique só nos juízos e nos entendimentos criados subamos aos arcanos do entendimento divino e vejamos como o Eterno Pai em tudo o que teve liberdade para eleger e escolher também escolheu esta parte e a teve por melhor Para inteligência deste ponto havemos de supor que tudo quanto tem e goza o Filho de Deus o recebeu de seu Padre mas por diferente modo O que pertence à natureza e atributos divinos recebeu o Verbo Eterno do Eterno Padre não por eleição e vontade livre do mesmo Padre senão natural e necessariamente E a razão é porque a geração divina do Verbo procede por ato do entendimento antecedente a todo ato de vontade sem o qual não há eleição É verdade que ainda que a geração do Verbo não precede por vontade nem é voluntária nem por isso é involuntária ou contra vontade E daqui se ficará entendendo a energia e propriedade daquelas dificultosas palavras de S Paulo onde diz que a igualdade que o Filho tem como Padre na natureza e atributos divinos não foi furto nem o mesmo Verbo o reputou por tal Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo Flp 26 E por que declarou S Paulo o modo da geração do Verbo pela semelhança ou metáfora do furto dizendo que não foi furto nem como furtado ou roubado o que recebeu do Padre Divinamente por certo e não se podia declarar melhor O furto é aquilo que se toma ou se retém e possui invito domino contra vontade de seu dono E a divindade que o Verbo recebeu do Padre ainda que da parte do mesmo Padre não fosse voluntária contudo não foi invita não foi voluntária sim mas não foi contra vontade e como o Padre não foi invito na geração do Verbo e na comunicação da sua divindade posto que fosse necessária e não livrepor isso a igualdade que o Verbo tem com ele é verdadeirarente sua e não roubada Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo 49 Até aqui o Filho recebeu do Padre necessariamente e sem eleição sua E que é o que recebeu por vontade livre e por verdadeira e própria eleição O que logo se segue e acrescentou o mesmo S Paulo Sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo propter quod et Deus exaltavit illum et donavit illi momem quod est super omne nomem11 Recebeu o Filho do Padre por verdadeira e própria eleição o ofício e dignidade de Redentor do gênero humano fazendose juntamente homem e com esta nova e inefável dignidade recebeu um nome sobre todo nome que é o nome de Jesus mais sublime e mais venerável pelo que é e pelo que signifi ca que o mesmo nome de Deus Ut in nomine Jesu omne genu flectatur12 Recebeu a potestade judiciária que o Padre demitiu de si competindo ao Filho privativamente o juízo universal e particular de vivos e mortos Pater non judicat quem quam sed omne judicium dedit Filio13 Recebeu o primeiro trono entre as três pessoas da Santíssima Trindade assentandose à mão direita do mesmo Padre Dixit Dominus Domino meo Sede a dextris meis14 Tudo isto e o que disto se segue com imensa exaltação e glória recebeu o Filho de Deus de seu Eterno Padre por vontade livre e própria eleição 50 Mas se toda esta nova exaltação e toda esta nova glória não era devida à pessoa do Filho por força ou direito da geração eterna em que somente era igual ao Padre na natureza e atributos divinos e a eleição livre de dar ou tomar a mesma exaltação e glória estava e dependia da vontade do mesmo Padre por que a não tomou para si Assim como encarnou a pessoa do Filho assim pudera encarnar a pessoa do Padre E no tal caso a nova dignidade de redentor o nome sobre todo o nome a maior veneração e adoração de homens e anjos e todas as outras prerrogativas e glórias que pelo mistério da Encarnação e Redenção sobrevieram e acresceram ao Filho não haviam de ser do Filho senão do mesmo Padre Pois se a eleição voluntária e livre de tudo isso estava na mão do Padre e podia tomar para si toda essa exaltação e glória por que a quis antes para a pessoa do Filho Por nenhuma outra razão senão porque era Filho e ele Pai Ego autem constitutus sum rex ab eo super Sion montem sanctum ejus Dominus dixit ad me Filius meus es tu15 Assim como o Eterno Padre para encarecer o amor que tinha aos homens não se nos deu a si senão a seu Filho Sic Deus ditexit mundum ut Filium suum unigenitum daret16 assim para manifestar o amor que tinha ao mesmo Filho não tomou para si essas novas glórias senão que todas as quis para ele e lhas deu a ele entendendo que quando fossem de seu Filho então eram mais suas e que mais e melhor as gozava nele que em si mesmo 51 E que Filho é este Virgem gloriosíssima senão o mesmo Filho vosso Filho unigênito do Eterno Padre e Filho unigênito de Maria E se o Eterno Padre em tudo o que pode ter eleição própria escolheu os excessos de sua glória para seu Filho essa mesma glória que ele goza em si e vós nele em que infinitamente vos vedes excedida quem pode duvidar se tem inteiro juízo que seria também vossa a mesma eleição Toda a Igreja triunfante no céu e toda a militante na terra reconhece e confessa que entre todas as puras criaturas ou sobre todas elas nenhuma há mais parecida a Deus Padre que aquela singularíssima Senhora que ele criou e predestinou ab aeterno para Mãe de seu unigênito Filho porque era justo que o Pai e a Mãe de quem ele recebeu as duas naturezas de que inefavelmente é composto fossem quanto era possível em tudo semelhantes E se o amor do pai por ser amor de Pai e pai sem mãe escolheu para seu Filho e não para si as glórias que cabiam na sua eleição não há dúvida que o amor da Mãe e mãe sem pai escolheria para o mesmo Filho também e não para si toda a glória infinita que ele goza E esta é a eleição que teria por melhor Maria optimam partem elegit 52 Assim o entendeu da mesma Mãe o mesmo Pai e o provou maravilhosamente o juízo e amor da mesma Senhora para com seu Filho onde a eleição foi propriamente sua Quando o Eterno Padre quis dar Mãe a seu Unigênito foi com tal miramento e atenção à grandeza e majestade da que sublimava a tão estreito e soberano parentesco que não só quis que fosse sua isto é do mesmo Pai a eleição da Mãe senão que também fosse da Mãe a eleição do Filho Bem pudera o Eterno Padre formar a humanidade de seu Filho nas entranhas puríssimas da Virgem Maria sem consentimento nem ainda conhecimento da mesma Virgem assim como formou a Eva da costa de Adão não acordado e estando em si senão dormindo Mas para que o Filho que havia de ser seu posto que era Deus não só fosse seu senão da sua eleição por isso como diz Santo Tomás lhe destinou antes por embaixador um dos maiores príncipes da sua corte o qual de sua parte lhe pedisse a sime negociasse e alcançasse o consentimento e o aceitasse em seu nome Este foi como lhe chamou S Paulo o maior negócio que nunca houve nem haverá entre o céu e a terra dificultado primeiro pela Senhora e depois persuadido e concluído por S Gabriel Mas quais foram as razões e os motivos de que usou o anjo para o persuadir e concluir É caso digno de admiração e que singularmente prova da parte de Deus do anjo e da mesma Virgem qual é na sua eleição a melhor parte 53 Repara Maria na embaixada insta o celeste embaixador e as promessas que alegou para conseguir o consentimento foram estas Ecce concipies et paries Filium et vocabis nomem ejus Jesum hic erit magnus et Filius Altissimi vocabitur dabit illi Dominos Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob et regni ejus non erit finis Lc 131 O Filho de que sereis Mãe terá por nome Jesus que quer dizer o Redentor do mundo este será grande chamarseá Filho de Deus darlheá o mesmo Deus o trono de Davi seu pai reinará em toda a casa de Jacó e seu reino e império não terá fim Não sei se advetis no que diz o anjo e no que não diz no que promete e no que não promete Tudo o que promete são grandezas altezas e glórias do Filho e da Mãe com quem fala nenhuma coisa diz e à mesma a quem pretende persuadir nada lhe promete Não pudera Gabriel dizer à Senhora com a mesma verdade que ela seria a florescente vara de Jessé que nela ressuscitaria o cetro de Davi que a sua casa se levantaria e estenderia mais que a de Jacó que seria rainha sua e de todas as hierarquias dos anjos senhora dos homens imperatriz de todo o criado e que esta majestade e grandeza também a lograria sem fim Tudo isto e muito mais podia e sabia dizer o anjo Pois por que diz e promete só o que há de ser o Filha e não diz nem promete o que há de ser a Mãe Porque falou como anjo conforme a sua ciência e como embaixador conforme às suas instruções Por isso nem ele diz nem Deus lhe manda dizer senão o que há de ser seu Filho porque nas matérias onde Maria tem a eleição livre o que mais pesa no seu juízo e o que mais move e enche o seu afeto são as grandezas e glórias de seu Filho e não as suas As de seu Filho e não as suas porque as tem mais por suas sendo de seu Filho as de seu Filha e não as suas porque as estima mais nele e as goza mais nele que em si mesma Isto é o que segundo o conhecimento de Deus e o do anjo e o seu elegeu Maria na terra e isto é o que na presença de Deus dos anjos e de todos as bemaventurados tem por melhor no céu Maria optimam partem elegit VII Parabém à Senhora da Glória e oração final 54 E nós Senhora que como filhos de Eva ainda gememos neste desterro e como filhos posto que indignos vossos esperamos subir convosco e por vós a essa bemaventurada pátria o que só nos resta depois desta consideração de vossa glória é darvos o parabém dela Parabém vos seja a eleição parabém vos seja a parte e parabém a melhoria Parabém a eleição que ainda que não foi nem podia ser vossa na predestinação com que fostes escolhida para a glória de Mãe de Deus foi vossa no consentimento voluntário e livre que se vos pediu e destes para o ser Parabém vos seja a parte que compreende aquele todo incompreensível de glória que só pode abarcar e abraçar o ser imensa e conter dentro em si o infinito que vós também com maior capacidade que a do céu tivestes dentro em vós Parabém vos seja finalmente a melhoria pois melhor vos está como Mãe que toda essa imensidade e infinidade de glória seja de vossa Filha e melhor a gozais por esse modo segundo as leis do perfeito amor que se a gozareis em vós mesma E assim como vos damos o parabém e nos alegramos com todo o afeto de nossos corações de que a estejais gozando e hajais de gozar por toda a eternidade assim vos pedimos humildemente prostrados ao trono de vossa gloriosíssima Majestade que como Senhora da Glória e liberalíssima dispensadora de todas as graças de vosso benditíssimo Filho alcançadas e merecidas pelo sangue preciasíssimo que de vós recebeu nos comuniqueis aumenteis e conserveis até o último dia em que passarmos como vós hoje desta vida àquela graça que nos é necessária para vos louvarmos eternamente na glória SERMÃO DA PRIMEIRA DOMINGA DA QUARESMA PREGADO NA CAPELA REAL NO ANO DE 1655 Ostendit ei omnia regna mundi et gloriam eorum et dixit ei Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me1 I Como o demônio dos remédios faz tentações nós das tentações façamos remédio sendo liberais com o demônio fazendo das pedras pão e dos precipícios caminhos Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio o autor ensinanos a vencer qual quer tentação usando das mesmas tentações 55 Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações por que não sereinos nós tão prudentes que até das suas tentações façamos remédios Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho Quarenta dias havia e quarenta noites que jejuava Cristo em um deserto Sucedeu ao jejum naturalmente a fome e sobre a fome veio logo a tentação Si Filius Dei es dic ut lapides isti panes fiant Mt 43 Se és Filho de Deus diz o demônio manda a estas pedras que se convertam em pães Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação com as pedras se defendia das suas tentações S Jerônimo os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia converter pedras em pão com uma palavra é onipotência ser Filho de Deus é divindade Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação De pedras de deserto de jejum de obra de misericórdia de onipotência de divindade De pedras lapides isti de deserto ductus est Jesus in desertum de jejum cum jejunasset de obra de misericórdia panes fiant de onipotência dic de divindade Si Filius Dei es Se o demônio tenta com as pedras que fará com condições menos duras Se tenta com o deserto que será com o povoado e com a corte Se tenta com o jejum que será com o regalo Se tenta com a obra de misericórdia que será com a injustiça Se tenta com a onipotência que será com a fraqueza E se até com a divindade tenta com a humanidade e com a desumanidade que será 56 Vencido o demônio nesta primeira tentação diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém e pondoo sobre o mais alto do Templo lhe disse desta maneira Mitte te deorsum Scriptum est enim quia angelis suis Deus maadavit de te ut custodiant te in omnibus viis tuis Deitate daqui abaixo porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te guardem em todos teus caminhos2 Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações e nesta segunda tentação ainda com circunstâncias mais notáveis E quais foram A Cidade Santa o Templo de Jerusalém as Sagradas Escrituras os Mandamentos de Deus os Anjos da Guarda e também o descer para baixo Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações Pois disto fez o demônio uma tentação Da Cidade Santa Assumpsit eum in sanctam civitatem do templo de Jerusalém Et statuit eum super pinaculum Templi da Sagrada Escritura Scriptum est enim dos mandamentos de Deus Deus mandavit de te dos Anjos da GuardaAngelis suis ut custodiant te do descer para baixo Mitte te deorsum Se o demônio tenta com a Cidade Santa que será com a cidade escandalosa Se tenta com o Templo de Deus que será com as casas dos ídolos Se tenta com as Sagradas Escrituras que será com os livros profanos Se tenta com os Mandamentos de Deus que será com as leis do mundo Se tenta com os Anjos da Guarda que será com os anjos da perdição Se tenta finalmente com o descer que será com o subir 57 Eis aqui como o demônio dos remédios faz tentações Mas como será possível que nós das tentações façamos remédios O demônio na primeira tentação pediu a Cristo que fizesse das pedras pão e na segunda que fizesse dos precipícios caminhos Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios Pedras em que tropeçamos e precipícios donde caímos Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos Isto havemos de ver hoje e hei de ser tão liberal com o demônio que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou Que queres demônio Que te faça das pedras pão Sou contente Que queres mais Que dos precipícios faça caminhos Também farei isso hoje O demônio do pão fez pedras e dos caminhos fez precipícios porque dos remédios fez tentações Eu às avessas das pedras hei de fazer pão e dos precipícios caminho porque das tentações hei de fazer remédios 58 Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal tomei por fundamento a terceira tentação que propus que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo e a maior que nunca se fez nem há de fazer nem pode fazer no mundo Vencido primeira e segunda vez o demônio não desesperou da vitória porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo e mostrandolhe dali todos os reinos e monarquias do mundo com todas suas glórias e grandezas com todas suas riquezas e delícias com todas suas pampas e majestades apontando em roda para todo este mapa universal tão grande tão formoso tão vária disse assim Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me Tudo isto que vês te darei se com o joelho em terra me adorares Esta foi a última tentação do diabo e esta foi a terceira vitória de Cristo As armas com que o Senhor se defendeu e o remédio que tomou nesta tentação como nas outras foram as palavras da Escritura Sagrada Dominum Deum tuum adorabis et illi soli servies3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas é uma oficina medicinal onde se acham todos os remédios esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão Mile clypei pendent ex ea omnis armatura fortium4 porque como comenta S Gregório Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur5 Esta é aquela botica universal da qual diz S Basílio Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria Neque herba neque malagma sanavit sed tuus Domine sermo qui sanat omnia7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras Mas como eu prego para todos e nem todos podem menear estas armas nem usar destes remédios é o meu intento hoje inculcarvos outras armas mais prontas e outros remédios mais fáceis com que todos possais resistir a todas as tentações Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha e juntamente a triaga Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação bem considerada por nós é remédio Isto hei de pregar hoje II Só esta última tentação nos pertence propriamente a nós porque nela o demônio tentou a Cristo como se tentara a qual quer homem O caso notável do cerco de Ostende Por confissão do demônio nossa alma vale mais que todo o mundo A resposta de Demétrio a César Esaú um homem que vendeu e não pesou o que vendia 59 Na primeira e na segunda tentação tentou o demônio a Cristo como Filho de Deus na terceira como a puro homem Por isso na terceira tentação não disse Si Filius Dei es como tinha dito na primeira e na segunda Tentou a Cristo como se tentara a qualquer homem Esta é a razão e a diferença porque só esta última tentação nos pertence propriamente a nós Mas como poderá um homem como poderá um filho de Adão resistir a uma tentação tão poderosa e tão imensa como esta que o demônio fez a Cristo A Adão fezlhe tiro o demônio com uma maçã e derrubouo a Cristo fezlhe tiro com o mundo todo Ostendit ei omnia regna mundi Mas sendo esta bala tirada a Cristo como homem e dando em um peito de carne foi tão fortemente rebatida que voltou com maior força contra o mesmo tentador Vade retro8 Um dos casos mais notáveis que sucederam em nossos dias no famoso cerco de Ostende foi este9 Estava carregada uma peça no exército católico entra pela boca da mesma peça uma bala do inimigo concebe fogo a pólvora sai outra vez a bala com dobrada fúria e como veio e voltou pelos mesmos pontos foise empregar no mesmo que a tinha tirado Oh que bizarra e venturoso Vade retro Assim havemos de fazer aos tiros do demônio Volte outra vez a bala contra o inimigo e vençamos ao tentador com a sua própria tentação Não cortou Davi a cabeça ao gigante com a sua própria espada Judite sendo mulher não degolou a Holofernes com a sua Pois assim o havemos nós de fazer nem necessitamos de outras armas mais que as mesmas com que o demônio nos tenta 60 Mostrou o demônio a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias disselhe que tudo aquilo lhe daria de uma vez se lhe dobrasse o joelho Parece que faz estremecer a grandeza desta tentação Mas o demônio é o que havia de tremer dela Desarmou se a si e armounos a nós Tu demônio oferecesme de um lanço todo o mundo para que caia para que peque para que te dê a minha alma logo a minha alma por confissão tua vale mais que todo o mundo A minha alma vale mais que todo o mundo Pois não te quero dar o que vale mais pelo que vale menos Vade retro Pode nos o demônio dar ou prometer alguma coisa que não seja menos que o mundo Claro está que não Pois aqui se desarmou para sempre nesta tentação perdeu todas se nós não temos perdido o juízo Ouvi a Salviano Quis ergo furor est viles a nobis animas nostras haberi quas etiam diabolus putat esse pretiosas Homens loucos homens furiosos homens sem entendimento nem juízo é possível que sendo as nossas almas na estimação do mesmo demônio tão preciosas no vosso conceito e no vosso desprezo hão de ser tão vis O demônio quando me quer roubar quando me quer perder quando me quer enganar não pode deixar de confessar que a minha alma vale mais que todo o mundo e eu sendo essa alma minha não há de haver no mundo coisa tão baixa tão vã e tão vil pelo qual a não dê sem nenhum reparo Quis furor est Que loucura que demência que furor é este nosso Muito mais obrigada está a nossa alma ao demônio muito mais lhe deve que a nós Ele a honra nós a afrontamos Envergonhouse o demônio no primeiro lanço de oferecer menos por uma alma que o mundo todo 61 Caio César como refere Sêneca mandou de presente a Demétrio duzentos talentos de prata que fazem hoje da nossa moeda mais de duzentos mil cruzados Não creio que haveria na nossa corte quem não beijasse a mão real e aceitasse com ambas as mãos a mercê Era porém Demétrio filósofo estóico como se disséssemos cristão daquele tempo E que respondeu Si tentare me constituerat toto illi fui experiundus imperio Andai levai os seus talentos ao imperador e dizeilhe que se me queria tentar que havia de ser com todo o seu império É e chamase senhor de todo o mundo Com todo o mundo me havia de tentar Não nos fez assim o César porque não conhecia a Demétrio mas fêlo assim o demônio Princeps hujus mundi porque sabe o que vale uma alma Se vos tentar o demônio com menos que todo o mundo daivos por afrontado e se vos tentar com todo o mundo fique vencido Quid prodest homini si universum mundum lucretur animae vero suae detrimentum patiatur Mt 1626 Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo adquirir todo o mundo senhorear e dominar todo o mundo se há de perder a sua almaAut quam dabit homo commutationem pro anima sua Ou que coisa pode haver de tanto peso e de tanto preço pela qual se haja de vender a alma ou se haja de trocar Este é o caso e a suposição em que estamos nem mais nem menos Oferecenos o demônio o mundo e pedenos a alma Considere e pese bem cada um se lhe está bem este contrato se lhe está bem esta venda se lhe está bem esta troca Mas nós trocamos e vendemos porque não pesamos 62 Chegou Esaú do campo cansado e com fome de todo o dia e chegou a desastrada hora porque estava no mesmo tempo seu irmão Jacó cozinhando diz o texto umas lentilhas Estes eram os grandes homens e estes os grandes regalos daquele tempo Pediu Esaú a seu irmão um pouco daquela vianda mas ele aproveitandose da ocasião e da necessidade respondeu que dar não mas vender sim que se Esaú lhe vendesse o seu morgado começaria desde logo a lhe dar aqueles alimentos Deus nos livre de se ajuntar no mesmo tempo a fome e a tentação O sucesso foi que Esaú aceitou o contrato deu o morgado Pois valhame Deus o morgado de Isac a herança de Abraão a bênção dos patriarcas que foi a maior coisa que desde Adão houve no mundo por uma escudela de lentilhas Este homem era cego Era louco Era vil Nada disto era mas era um homem diz a Escritura que vendeu e não pesou o que vendia Abiit parvi pendens quod primo genita vendidisset10 E homem que vende sem pesar o que vende não é muito que por uma escudela de grosserias desse o maior morgado do mundo Se Esaú antes de vender tomara a balança na mão e pusera de uma parte o morgado e da outra a escudela parecevos que venderia Pois eis aí porque há tantas almas venais Esta história de Esaú e Jacó aconteceu uma só vez antigamente mas cada dia se representa no mundo o papel de Jacó fálo o demônio o de Esaú fazemolo nós O demônio oferecenos um gosto ou um interesse vil e pedenos o morgado que nos ganhou Cristo e nós porque contratamos sem a balança na mão e não pesamos a vileza do que recebemos com a grandeza do que damos consentimos no contrato e ficamos sem bênção Quando Esaú vendeu o morgado não o sentiu nem fez caso disso mas depois quando viu que Jacó levava a bênção e ele ficava sem ela diz o texto que irrugit clamore magno et consternatus est Gên 27 34 que tudo era encher o céu de clamores e gemidos e despedaçarse a si mesmo e desfazerse com dor Ah malaconselhados Esaús Agora vendemos a alma e o morgado do céu pela vileza de um gosto pelo engano de um apetite pela grosseria de um manjar de brutos e disto não fazemos caso Mas quando vier aquele dia em que Cristo dê a bênção aos que estiverem à sua mão direita e nós virmos que ficamos sem ela por umas coisas tão vis Oh que dor oh que desesperação Oh que circunstância de inferno será esta tão grande para nós 63 Pois que havemos de fazer para não cometer um erro tão grande e tão sem remédio Fazer remédio da mesma tentação Tomar na mão a balança que faltou a Esaú e pesar o que o demônio nas promete e o que nos pede O que nos promete não é todo o mundo o que nos pede e o que lhe havemos de dar é a alma Ponhamos de uma parte da balança o mundo todo e da outra parte uma alma e vejamos qual pesa mais Oh se Deus me ajudasse a vos mostrar com evidência a diferença destes dois pesos Vamos ponderando uma por uma as mesmas palavras da tentação III O mundo fantástico que o demônio mostrou a Cristo era nada mais que uma vaidade composta de muitas vaidades como diz Salomão As balanças do juízo humano segundo Davi O peso das coisas não estão nas coisas senão no coração com que as amamos A brevidade momentânea das tentações As riquezas e glórias do mundo um trabalho para antes um cuidado para logo um sentimento para depois Andou muito néscio o demônio em mostrar o mundo a quem queria tentar 64 Ostendit ei omnia regna mundi et gloriam eorum Desde aquele monte alto onde o demônio subiu a Cristo lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória Isto que tão facilmente se diz não é tão fácil de entender De um monte por alto que seja não se pode descobrir todos os reinos do mundo O sol está levantado na quarta esfera e contudo descobre um só hemisfério e nem vê nem pode ver os antípodas Pois como foi possível que o demônio desde aquele monte mostrasse todo o mundo a Cristo A sentença mais certa e mais seguida é que o mundo que o demônio mostrou a Cristo não foi este mundo verdadeiro senão um mundo fantástico e aparente uma aparência e representação do mundo Assim como os anjos quando aparecem aos homens se vestem de corpos fantásticos que parecem corpos formosíssimos e não são corpos assim o demônio que no poder natural é igual aos anjos em toda o ar que se estendia daquele monte até os horizontes com cores com sombras com aparências pintou e levantou em um momento montes vales campos terras cidades castelos reinos enfim um mundo De maneira que todo aquele mundo todo aquele mapa de reinos e de grandezas bem apertado vinha a ser um pouco de vento E com ser assim esta representação notai agora com ser o que o demônio mostrava uma só representação fantástica uma aparência contudo diz o evangelista que o demônio mostrou a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias por que todas as glórias e todas as grandezas do mundo bem consideradas sãa o que estas eram ar vento sombras cores aparentes Antes diga que mais verdadeiro e mais próprio mundo era este mundo aparente que o mundo verdadeiro porque o mundo aparente eram aparências verdadeiras e o mundo verdadeiro são as aparências falsas E se não dizeime de todos aqueles reinos de todas aquelas majestades e grandezas que havia no tempo de Cristo quando sucedeu esta tentação há hoje alguma coisa no mundo Nenhuma Pois que é feito de tantos reinos que é feito de tantas monarquias que é feito de tantas grandezas Eram vento passaram eram sombra sumiram se eram aparências desapareceram Ainda agora são o que de antes eram eram nada são nada Até dos mármores daquele tempo não há mais que pó e cinza e os homens como bem notou Filo Hebreu vendo isto com os nossos olhos somos tão cegos que fazemos mais caso deste pó e desta cinza que da própria alma Qui cinerem et pulverem pluris factis quam animam 65 Isto são hoje os reinos daquele tempo e os reinos de hoje que são São porventura outra coisa Digaa o rei do reino mais flarente e o mais sábio de todos os reis Verba Ecclesiastae filii David regis Hierusalem Vanitas vanitatum et omnia vanitas11 Eu fui rei e filho de rei diz Salomão experimentei tudo o que era e tudo o que podia dar de si o poder a grandeza o senhorio do mundo e achei que tudo o que parece que há nele é vão e nada sólido e que bem pesado e apertado não vem a ser mais que uma vaidade composta de muitas vaidades Vanitas vanitatum et omnia vanitas Vaidade os cetros vaidade as coroas vaidade os reinos e monarquias e o mesmo mundo que delas se compõe vaidade das vaidades Vanitas vanitatum Esta é a verdade que não sabemos ver por estar escondida e andar enfeitada debaixo das aparências que vemos E este é o conhecimento e desengano com que devemos rebater e desprezar o tudo ou o nada com que nos tenta o mundo Oh como ficariam desvanecidas as maiores tentações se soubéssemos responder ao omnia do demônio com o omnia de Salomão Omnia regna mundi Omnia vanitas Omnia tibi dabo Omnia vanitas 66 Mas se todo este mundo e tudo o que nele mais avulta é vão antes a mesma vaidade como é possível que tenha tanto valor e tanto peso com os homens que pese para com eles mais que o céu mais que a alma e mais que o mesmo Deus Tão falsas são as balanças do juízo humano Não são elas as falsas somos nós Mendaces filii hominum in stateris ut decipiant de vanitate in idipsum12 São tais os homens diz Davi que com a balança na mão trocam o peso às coisas Não diz que as balanças são falsas senão que os homens são falsos nelas Mendaces filii hominum in stateris E a razão desta falsidade ou desta falsificação é porque os mesmos homens se querem enganar a si mesmos com a vaidade Ut decipiant de vanitate in idipsum Não é o nosso juízo o que nos engana é o nosso afeto o qual pendendo e emclinando para a parte da vaidade leva após si o fiel do juízo Nestas balanças que são como as de S Miguel em que se pesam as almas de uma parte está a alma da outra o mundo de uma parte está o temporal da outra o eterno de uma parte está a verdade da outra a vaidade E porque nós pomos o nosso afeto e o nosso coração da parte do mundo e da vaidade esse afeto e esse coração é o que dá à vaidade do mundo o peso que ela não tem nem pode ter A vaidade não amada não tem peso porque é vaidade mas essa mesma vaidade amada pesa mais que tudo porque o nosso amor e o nosso afeto é o que falsamente lhe dá peso De maneira que o peso não está nas coisas está no coração com que as amamos 670 mesmo Davi o disse admiravelmente Filii hominum usquequo gravi corde Ut quid diligitis vanitatem SI 4 3 Filhos dos homens até quando haveis de ter os corações pesados Até quando haveis de amar a vaidade Notai a conseqüência Queixa se de amarem os homens a vaidade Ut quid diligitis vanitatem E acusaos de terem os corações pesados Usquequo gravi corde Porque o peso que achamos na vaidade não está na mesma vaidade senão no coração com que a amamos Amamos e estimamos a vaidade e por isso a balança inclina a ela e com ela enos mostra falsamente o peso onde o não há Oh se pesássemos bem e fielmente com o coração livre de todo o afeto como veríamos logo que a inclinação e movimento da balança pendia todo para a parte da alma e que todo o mundo contrapesado a ela não pesa um átomo 68 Agora entendereis a astúcia da tentação do demônio no modo com que hoje mostrou a Cristo todos os reinos do mundo Diz S Lucas que lhos mostrou em um instante Ostendit e iomnia regna orbis terrae in momento Lc 45 E por que razão em um instante Porque não deu mais espaço de tempo a quem tentava com uma tão grande ostentação Seria porventura porque ainda o demônio quando engana não pode encobrir a brevidade momentânea com que passa e se muda esta cena das coisas do mundo aparecendo e desaparecendo todas em um instante Assim o diz S Ambrósio Non tam conspectus celeritas indicatur quam caduca fragilitas potestatis exprimitur in momento enim cuncta illa praetereunt Mostrou o demônio todos os reinos e grandezas do mundo em um instante porque as mostrou assim como elas são e tudo o que há neste mundo não tem mais ser que um instante O que foi já não é o que há de ser ainda não é e o que é não é mais que no instante em que passa In momento cuncta illa praetereunt Boa razão e verdadeira como de tal autor Mas ainda debaixo dela se encobria outra astúcia do tentador o qual não quis dar tempo ao tentado para pesar o que lhe oferecia O peso das coisas vêse pela inclinação e movimento da balança E como em instante não pode haver movimento por isso lhe mostrou tudo em um instante Veja o tentado o mundo que lhe ofereço mas veja o em instante somente e não em tempo para que não possa averiguar o pouco que pesa In momento omnia regna mundi 69 Juntamente com os reinos do mundo mostrou também o demônio a Cristo todas as suas glórias Et gloriam eorum Mas ainda que autorizadas com tão especioso nome nenhum pendor fazem à balança porque são tão vãs como o mesmo mundo e ainda mais se pode ser E se não discorrei por elas com qualquer átomo de consideração O que mais pesa e o que mais luz no mundo são as riquezas E que coisas são as riquezas senão um trabalho para antes um cuidado para logo e um sentimento para depois As riquezas diz S Bernardo adquiremse com trabalho conservamse com cuidado e perdemse com dor Que coisa é o ouro e a prata senão uma terra de melhor cor E que coisa são as pérolas e os diamantes senão uns vidros mais duros Que coisas são as galas senão um engano de muitas cores Cabelos de Absalão que pareciam madeixas e eram laços Que coisa é a formosura senão uma caveira com um volante por cima Tirou a morte aquele véu e fugis hoje do que ontem adoráveis Que coisa são os gostos senão as vésperas dos pesares Quem mais as canta esse as vem a chorar mais Que coisa são as delícias senão o mel da lança de Jônatas Juntamente vai à boca o favo e o ferro Que coisa são todos os passatempos da mocidade senão arrependimentos depositados para a velhice E o melhor bem que podem ter é chegarem a ser arrependimentos Que coisa são as honras e as dignidades senão fumo Fumo que sempre cega e muitas vezes faz chorar Que coisa é a privança senão um vapor de pouca dura Um raio do sol a levanta e outro raio o desfaz Que coisas são as provisões e os despachos grandes senão umas cartas de Urias Todas parecem cartas de favor e quantas foram sentença de morte Que coisa é a fama senão uma inveja comprada Uma funda de Davi que derruba o gigante com a pedra e ao mesmo Davi como estralo Que coisa é toda a prosperidade humana senão um vento que corre todos os rumos Se diminui não é bonança se cresce é tempestade Finalmente que coisa é a mesma vida senão uma a lâmpada acesa vidro e fogo Vidro que com um assopro se faz fogo que com um assopro se apaga Estas são as glórias do vosso mundo e dos vossos reinos Omnia regina mundi et gloriam eorum E por estas glórias falsas vãs e momentâneas damos aquela alma imortal que Deus criou para a glória verdadeira e eterna 70 Certo que andou o demônio muito néscio em mostrar o mundo e suas glórias a quem queria tentar com elas Havia de encobrir a mercadoria se queria que lha comprassem O mundo prometido forte tentação parece mas visto não é tentação Quereis que vos não tente o mundo ou que vos não vença se vos tentar Olhai bem para ele Mordiam as serpentes no deserto venenosamente aos filhos de Israel E que fez Moisés Mandou levantar em lugar alto uma daquelas serpentes feita de bronze olhavam para ela os mordidos e saravam Todos nesta vida andais mordidos uns mordidos do valimento outros mordidos da ambição outros mordidos da honra outros mordidos da inveja outros mordidos do interesse outros mordidos da afeição enfim todos mordidos Pois que remédio para sarar destas mordeduras do mundo Pôr o mesmo mundo diante dos olhos e olhar bem para ele Quem haverá que olhe para o mundo com os olhos bem abertos que veja como todo é nada como todo é mentira como todo é inconstância como hoje não são os que ontem foram como amanhã não hão de ser os que hoje são como tudo acabou e tudo acaba como havemos de acabar e todos mas acabando enfim que veja ao mundo bem como é em si que se não desengane com ele e se não desengane dele A serpente de Moisés era de bronze o mundo também é serpente mas de barro mas de vidro mas de fumo que ainda são melhores metais para o desengano IV Vimos quanto pesa o mundo vejamos agora quanto pesa uma alma A cruz balança justa em que Deus pesou o preço da alina Só Deus se pode contrapesar com a alma Toda a desgraça está em que o mundo com que o demônio nos tenta é visível e a alma invisível Pela diferença do corpo morto podemos avaliar o que é a alma 71 Mas demos já uma volta à balança Vimos quanto pesa o mundo vejamos agora quanto pesa uma alma Neste peso entramos todos O peso do mundo não pertence a todos porque muitos têm pouco mundo o peso da alma ninguém há a quem não pertença o rei o vassalo o grande o pequeno o rico o pobre todos têm alma Ora vejamos quanto pesa e quanto vale isto que todos trazemos e temos dentro em nós Onde porém achareinos nós uma balança tal que se possa pesar nela uma alma Quatro mil anos durou o mundo sem haver em todo ele esta balança E porventura essa foi a ocasião de se perderem naquele tempo tantas almas Chegou finalmente o dia da Redenção pôsse o Filho de Deus em uma cruz e ela foi a verdadeira e fiel balança que a divina justiça levantou no Monte Calvário para que o homem conhecesse quão imenso era o peso e preço da alma que tinha perdido Assim o canta e nolo ensina a Igreja Beata cujus brachiis Pretium pependit saeculi Statera facta corporis Tulit que praedam tartari13 Vês homem aquela cruz em que está pendente e morto o Filho de Deus Pois sabe que ela é a balança justa em que Deus pesou o preço da tua alma para que tu a não desprezes O braço direito desceu tanto com o peso que não só trouxe Deus do céu à terra mas do céu até o inferno e o braço esquerdo subiu tanto que estando a alma no inferno pelo pecado não só a levantou do inferno mas a pôs no céu De maneira que quem fielmente quiser pesar uma alma não há de pôr de uma parte da balança a alma e da outra o mundo senão de uma parte a alma e da outra a Deus O mundo custou a Deus uma palavra a alma custou a Deus o sangue custou a Deus a vida custou a Deus o mesmo Deus Qui dedit semetipsum redemptionem pro omnibus14 Ouvi agora a Eusébio Emisseno Tam copioso munere ipsa redemptio agitur ut homo Deum valere videatur É tal o preço que Deus deu pelas almas que posta de uma parte a alma e da outra o preço parece que vale tanto a alma como Deus Parece diz porque Deus verdadeiramente vale e pesa mais que toda a alma Mas a divina justiça não pôs em balança com a alma outro peso nem aceitou por ela outro preço que o do mesmo Deus porque de peso a peso só Deus se pode contrapesar com a alma e de preço a preço só Deus se pode avaliar com ela Ut Deum valere videatur Sendo pois esta a verdadeira balança e sendo este o peso e o preço da alma que tão cara comprou Deus e nós tão barata vendemos ao demônio não vos quero persuadir que a não vendais só vos peço e vos aconselho que o não façais sem a pôr primeiro em leilão O demônio no primeiro lanço ofereceu por ela o mundo Deus no segundo lanço deu por ela a si mesmo Se achardes quem vos dê mais pela vossa alma daia embora 72 Toda a desgraça da pobre alma tão falsamente avaliada e tão vilmente trocada e vendida é porque a não vemos como vemos o mundo O demônio mostrou todos os reinos do mundo Ostendit ei omnia regna mundi Se eu também vos pudera mostrar uma alma estavam acabadas todas as tentações e não eram necessários mais discursos O demônio dá todo o mundo por uma alma porque a vê e a conhece é espírito vê as almas Nós como somos corpo vemos o mundo e não vemos a alma e porque a não conhecemos por isso a desestimamos Oh se Deus nos mostrasse uma alma Que pasmo que estimação seria a nossa e que desprezo de quanto há no mundo e na vida Mostrou Deus uma alma a Santa Madalena de Pazzi e oito dias ficou fora de si arrebatada de assombro de pasmo de estranheza só na memória na admiração na novidade do que vira Isto é uma alma Isto é A Santa Catarina de Sena mostroulhe Deus também uma alma e dizia como refere Santo Antônio que nenhum homem haveria se tivesse visto uma alma que não desse por ela a vida cem vezes cada dia e não pela própria senão pela alheia De sorte que toda a diferença e toda a desgraça está em que o mundo com que o demônio nos engana é visível e a alma invisível Mas por isso mesmo havíamos nós de estimar muito mais a alma se tivéramos juízo O mundo é visível a alma é invisível o mundo vêse a alma não se vê Logo muito mais preciosa é a alma muito mais vale que todo o mundo Ouvi a S Paulo Non contemplantibus nobis quae videntur sed quae non videntur quae enim videntur temporalia sunt quae non videntur aeterna 2 Cor 4 18 Não havemos de admirar nem estimar o que se vê senão o que se não vê diz S Paulo porque o visível o que se vê é temporal o invisível o que se não vê é eterno O mundo que o demônio me mostra é visível porque é temporal como o corpo a alma que o demônio não pode mostrar nem me havia de mostrar se pudera é invisível porque é eterna como Deus e assim como os olhos não podem ver a Deus por sua soberania assim não podem ver a nossa alma Não é a nossa alma tão baixa que a houvessem de ver os olhos Vêem o mundo vêem o céu vêem as estrelas vêem o sol a alma não a podem ver porque não chega lá a sua esfera 73 Mas já que somos tão corporais e damos tanto crédito aos olhos os mesmos olhos quero que nos digam e que confessem o que é a alma Quereis ver o que é uma alma Olhai diz Santo Agostinho para um corpo sem alma Se aquele corpo era de um sábio onde estão as ciências Foramse com a alma porque eram suas A retórica a poesia a filosofia as matemáticas a teologia a jurisprudência aquelas razões tão fortes aqueles discursos tão deduzidos aquelas sentenças tão vivas aqueles pensamentos tão sublimes aqueles escritos humanos e divinos que admiramos e excedem a admiração tudo isto era a alma Se o corpo é de um artífice quem fazia viver as tábuas e os mármores Quem amolecia o ferro quem derretia os bronzes quem dava nova forma e novo ser à mesma natureza Quem ensinou naquele corpo regras ao fogo fecundidade à terra caminhos ao mar obediência aos ventos e a unir as distâncias do universo e meter todo o mundo venal em uma praça A alma 74 Se o corpo morto é de um soldado a ordem dos exércitos a disposição dos arraiais a fábrica dos muros os engenhos e máquinas bélicas o valor a bizarria a audácia a constância a honra a vitória o levar na lâmina de uma espada a vida própria e a morte alheia quem fazia tudo isto A alma Se o corpo é de um príncipe a majestade o domínio a soberania a moderação no próspero a serenidade no adverso a vigilância a prudência a justiça todas as outras virtudes políticas com que o mundo se governa de quem eram governadas e de quem eram Da alma Se o corpo é de um santo a humildade a paciência a temperança a caridade o zelo a contemplação altíssima das coisas divinas os êxtases os raptos subido o mesmo peso do corpo e suspendido no ar que maravilha Mas isto é alma Finalmente os mesmos vícios nossos nos dizem o que ela é Uma cobiça que nunca se farta uma soberba que sempre sobe uma ambição que sempre aspira um desejo que nunca aquieta uma capacidade que todo o mundo a não enche como a de Alexandre uma altiveza como a de Adão que não se contenta menos que com ser Deus Tudo isto que vemos com nossos olhos é aquele espírito sublime ardente grande imenso a alma Até a mesma formosura que parece dote próprio do corpo e tanto arrebata e cativa os sentidos humanos aquela graça aquela proporção aquela suavidade de cor aquele ar aquele brio aquela vida que é tudo senão alma E se não vede o corpo sem ela insta Agostinho Non facit corpus unde ametur nisi animus Aquilo que amáveis e admiráveis não era o corpo era a alma Recessit quod non videtur remansit quod cum dobre videatur Apartouse o que se não via ficou o que se não pode ver A alma levou tudo o que havia de beleza como de ciência de arte de valor de majestade de virtude porque tudo ainda que a alma se não via era a alma Viu S Francisco de Borja o corpo defunto e disforme da nossa imperatriz Dona Isabel e que lhe sucedeu Pela diferença do corpo morto viu naquele espelho o que era a alma e como viu o que era a alma deixou o mundo Não nos enganara o demônio com o mundo se nós víramos e conhecêramos bem o que é a alma Mas já que a não podemos ver em si vejamola em nós no que o corpo há de sei vejamos o que ela é V O verdadeiro tudo deste mundo e do outro é a alma não é o mundo Deus o negociador do Evangelho que deu tudo o que tinha por uma alma Depois desta última tentação quando torna o diabo a tentar a Cristo Como se ajoelha Cristo diante de Judas se já o demônio tinha entrado nele Quantos não dobram o joelho ao demônio não pelo mundo todo senão por umas partes tão pequenas dele 75 Então que vos diga o demônio com a boca muito cheia e muito inchada Haec omnia tibi dabo Mente o diabo e troque as balanças o omnia não há de estar na balança do mundo senão na balança da alma O tudo deste mundo e do outro é a alma não é o mundo No capítulo doze de São João diz Cristo Et ego cum exaltatus fuero aterra omnia traham adme ipsum Jo 1232 E eu quando for levantado na cruz hei de trazer a mim tudo Omnia Digamme agora os doutos que tudo é este que Cristo havia de trazer a si Cristo desde o instante da Encarnação foi Senhor universal de tudo pela união hipostática pelo direito hereditário da filiação como Filho natural de Deus e por outros muitos títulos S Paulo Quem constituit haeredem universorum15 S João Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus16 e o mesmo Cristo Omnia mihi tradita sunt a Patre meo17 Pois se Cristo era e sempre foi Senhor de tudo que tudo era este que diz que há de adquirir e trazer a si na cruz Era o tudo que só é tudo as almas Assim a resolve S Crisóstomo S Cirilo Teofilato Beda Leôncio e todos Desde o instante da Encarnação foi Cristo absoluto Senhor de todas as criaturas quanto ao domínio e quanto à sujeição só das almas ainda que era Senhor quanto ao domínio quanto à sujeição não o era porque estavam cativas e escravas do demônio e do pecado E como Cristo na cruz havia de redimir adquirir sujeitar e trazer a si as almas este é o tudo a que absolutamente chama tudo Omnia traham ad me ipsum 76 E se me perguntardes porque na cruz não trouxe a si atualmente mais que uma só alma a da bom ladrão foi porque entendêssemos que o tudo de que falava não eram só todas as almas coletivamente senão qualquer e cada uma delas Assim o declarou admiravelmente a versão siríaca Unum quem que traham ad me ipsum18 Todas tudo cada uma tudo A vossa alma é tudo a minha tudo a de Dimas e a de qualquer homem tudo omnia unum quem que Mas para que são versões nem exposições se temos o mesmo autor da texto Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerenti bonas margaritas inventa una pretiosa margarita dedit omnia sua et comparavit eam Mt 1345 s Um mercador diz Cristo que negociava e tratava em pérolas achando uma deu tudo quanto tinha e comproua Quem é o mercador qual é a pérola e que é o tudo que deu por ela O mercador diz Haymo é Cristo a pedra preciosa é a alma o tudo que deu por ela é tudo o que Deus tinha e tudo o que era De maneira que não por todas nem por muitas senão por uma só alma Una pretiosa margarita deu Deus tudo o que tinha e tudo o que era e não uma só vez nem por um só modo senão por tantos Se nascens dedit socium convescens in edulium se moriens in pretium se regnans dat in praemium Deu se na Encarnação deuse no Sacramento deuse na cruz dáse na glória E aquilo porque Deus tantas vezes e por tantos modos deu tudo vede se é tudo Omnia traham ad me ipsum A alma a alma tentador é o verdadeiro tudo e não o mundo a que tu falsamente dás esse nome Haec omnia tibi dabo 77 Que bem o entendeu assim o mesmo demônio que para tudo nos dá armas Terceira vez vencido o tentador diz São Lucas que se retirou por então não para desistir totalmente de tentar a Cristo mas reservando a tentação para outro tempo Et consummata omni tentatione diabolus recessit ab illo usque ad tempus Lc 413 Contudo nem S Lucas nem algum dos outros evangelistas dizem expressamente quando o diabo tornasse a tentar a Cristo Que tempo foi logo este e que tentação Santa Atanásio e comumente os Padres e expositores resolvem que o tempo foi no último dia e hora da morte de Cristo que é a ocasião em que o demônio faz o última esforça para tentar aos homens e que a tentação foi por boca dos judeus quando disseram Si Filius Dei est descendat nunc de cruce et credimus ei Mt 2742 Se é Filho de Deus desça da cruz e crereinos nele E verdadeiramente a frase e modo da tentação bem mostra ser do mesmo artífice que tinha tentado a Cristo no deserto e no Templo onde sempre começou dizendo Si Filius Dei es Vede agora a astúcia e conseqüência do demônio em que fundou toda sua esperança Como na última tentação em que se retirou vencida tinha oferecido a Cristo todos os reinos do mundo fez este discurso Este homem oferecilhe todo o mundo e não o pude render necessário é logo acrescentar e reforçar a tentação e oferecerlhe coisa que pese e valha mais que todo o mundo Coisa de maior preço e de maior valor que todo o mundo não há senão a alma Heio de tentar com almas E assim o fez Descendat de cruce et credimus ei De sorte que só com o oferecimento daquelas almas que o demônio tanto possuía lhe pareceu que podia render a quem não tinha rendida com o oferecimento de todo o mundo 78 Esta foi a tentação que o demônio reservou para a última batalha Mas ainda que nesta ocasião fez o tiro a Cristo com muitas almas já antes dela o tinha feito com uma só não oferecendolha mas querendolha roubar Para o demônio roubar a Cristo a alma de Judas persuadiulhe a traição E que fez o bom pastor para tirar dos dentes deste lobo aquela ovelha Lançouse aos pés do mesmo Judas para lhas lavar Cum jam diabolus misisset in cor ut traderet eum Judas caepit lavare pedes discipulorum19 Senhor meu vós aos pés de Judas persuadido pelo demônio a vos entregar Vós aos pés de Judas a quem chamastes demônio Ex vobis unus diabolus est20 Ainda é maior e mais fundada a minha admiração Diz expressamente S Lucas que antes deste ato e deste dia já o demô nio tinha entrado em Judas Intravit Satanas in Judam et quaerebat oportunitatem ut traderet illum Venit autem dies azymorum in quo oportebat occidi Pascha21 Pois se Judas não só é demônio por maldade mas em Judas está por realidade o mesmo demônio como se ajoelha Cristo diante de Judas A figura em que o demônio tentou a Cristo quando disse Si cadens adoraveris me era de homem e não de demônio Judas em quem agora está o demônio também é homem Como pois se ajoelha Cristo a um homem que é demônio e dentro do qual está o demônio Aqui vereis quanto vale uma alma e quanto vale mais que o mundo todo Por todo o mundo não dobrou Cristo o joelho nem o podia dobrar a um demônio transfigurado em homem e por uma alma lançouse de joelhos aos pés de um homem que era demônio e tinha dentro de si o demônio Por todo o mundo não conseguiu o demônio que Cristo se ajoelhasse a ele por uma alma se não conseguiu que se ajoelhasse a ele conseguiu que se ajoelhasse diante dele 79 Ah idólatras do mundo que tantas vezes dais a alma e dobrais o joelho ao demônio não pelo mundo todo senão por umas partes tão pequenas dele que nem migalhas do mundo se podem chamar Quantos príncipes dão a alma e tantas almas ao demônio por uma cidade por uma fortaleza Quantos títulos por uma vila Quantos nobres por uma quinta por uma vinha por uma casa Que palmo de terra há no mundo que não tenha levado muitas almas ao inferno pela demanda pelo testemunho falso pela escritura su posta pela sentença injusta pelos ódios pelos homicídios e por infinitas maldades Se o mundo todo não pesa uma alma como pesam tanto estes pedacinhos do mundo Barro alfim Deitai ao mar um vaso de barro inteiro nada por cima da água quebrai esse mesmo vaso fazeio em pedaços e todos até o mais pequeno se vão ao fundo Se o mundo todo inteiro pesa tão pouco como pesam tanto estes pedaços do mundo que todos se vão ao fundo e nos levam a alma após si Quisera acabar aqui e já há muito que devera mas como estamos em um ponto de tanta importância que é a maior e a única e toca igualmente a todos e a cada um daime licença com que acabe de desarmar ao demônio dandolhe muitas mais armas das que ele tem e concedendolhe tudo o que hoje prometeu e tudo o que se não atreveu a prometer Se alguma hora me destes atenção seja neste último argumento que desejo apertar de maneira que não haja coração tão duro nem entendimento tão rebelde que não dê as mãos e fique convencido VI Se o demônio nos mostrasse procurações de Deus para nos dar todos os reinos do mundo aceitáloíamos Réplicas a esse oferecimento a brevidade da vida a inconstância dos reinos e a limitação da natureza humana Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida A túnica interior e as vestiduras exteriores de Cristo símbolos da alma e dos bens temporais divididos ou lançados à sorte 80 Quando o demônio ofereceu o mundo a Cristo disselhe juntamente como refere S Lucas que ele tinha poderes de Deus para dar o que oferecia Tibi dabo potestatem hanc universam et gloriam eorum quia mihi tradita sunt et cui volo do illa22 Estes poderes que o demônio alegava eram tão falsos como as mesmas promessas Mas para apertarmos este ponto suponhamos que os poderes eram verdadeiros e que eram ainda maiores Suponhamos que tinha o demônio poderes de Deus para verdadeiramente dar este mundo a um homem e demais destes poderes que tinha também delegação da onipotência para prometer cumprir e executar tudo o que quisesse Neste caso se o demônio nos propusesse o mesmo contrato que hoje propôs a Cristo se nos oferecesse todos os reinos e grandezas do mundo e nos mostrasse procurações de Deus para tudo aceitáloíamos Eu entendo que neste caso qualquer homem bem entendido podia pôr três réplicas ou três instâncias a este oferecimento a primeira na brevidade da vida a segunda na inconstância dos reinos a terceira na limitação da natureza humana Ora discorrei comigo e falemos com o demônio Tu demônio me ofereces todos os reinos do mundo Grande oferecimento é mas bem sabes tu que Alexandre Magno não durou mais que seis anos no império e outros imperadores duraram muito menos e algum houve que durou só três dias Pois por seis anos ou por vinte anos ou por quarenta anos que posso viver e esses incertos hei eu de entregar a minha alma Não é bom partido Não seja essa a dúvida diz o demônio eu te seguro com os poderes que tenho cem mil anos de vida e esses sem dor sem velhice sem enfermidade Há mais Outra dúvida Ainda que eu haja de ter cem mil anos de vida quem me segurou a mim a duração e permanência desses reinos e dessa monarquia 81 Não há coisa mais inconstante no mundo que os reinos nem menos durável que sua glória e felicidade Sem recorrer aos exemplos passados digamno as mudanças que vindos nestes nossos dias em que tão pouco segura tiveram os reis a obediência dos vassalos e a coroa e ainda a mesma cabeça sobre que assentam as coroas23 Pois se os vassalos mesmos se me houvessem de rebelar ou os estranhos me houvessem de conquistar os reinos que me importaria a mim ter o nome e o domínio deles Não seja essa também a dificuldade diz o demônio eu te asseguro a duração e perpetuidade da monarquia e todos os reinos que te mostrei por espaço de cem mil anos e te prometo que as possuirás sempre quietos e pacíficos Há mais ainda alguma coisa em que reparar Ainda há uma Sendo eu rei de todo o mundo não me posso gozar de todo ele ao mesmo tempo Quando tiver a corte em Lisboa não a posso ter em Paris quando a tiver em Roma não a posso ter em Constantinopla se lograras terras da Europa não posso lograr as da América se lograr as delícias de Itália não possa gozar as da Índia Pois se eu não hei de ter mais capacidade para os gozos da vida do que tem qualquer outro homem que me importa ter tanto poder e tanta matéria para eles Também isso tem remédio diz o demônio Assim como Cristo no Sacramento está em todos as lugares do mundo sendo um só e o mesmo assim farei eu pela onipotência delegada que tu sendo um só estejas juntamente em todos os lugares do mundo para que em todos possas gozar tudo o que quiseres 82 Eis aqui as condições com que suponho que nos oferece o demônio o seu contrato Parecevos que são boas condições estas e dignas de se aceitarem Um homem com cem mil anos de vida seguras sem dor nem enfermidade um homem monarca universal de todos os reinos do mundo com certeza de não se mudarem um homem multiplicado em todas as partes do mundo para poder gozar no mesmo tempo as delícias de todo ele Parece que a imaginação não pode inventar mais nem querer mais o desejo Dizeime agora se este contrato volo oferecesse o demônio assinado por Deus aceitaríeis esta vida esta majestade estas delícias de cem mil anos com condição de no cabo deles perder a alma e ir ao inferno É certo que nenhum de nós aceitaria tal contrato Ao menos eu não Pois se não aceitaríamos ao demônio um tal contrato como aceitamos tentações tão diferentes Dizeime quando o demônio vos tenta prometevos larga vida Antes são muitas vezes tais as tentações que sabeis de certo que caindo nelas quando menos haveis de encurtar a vida e perder a saúde Mais Quando o demônio vos tenta prometevos reinos e monarquias universais do mundo Não um governo uma privança um título um morgado uma herança e outros interesses menores Mais Quando o demônio vos tenta multiplicavos a capacidade dos sentidos para que possais gozar com maior largueza e sem limite os gostos e delícias do mundo Nada disto Pois se fora loucura e rematada loucura entregar um homem a sua alma por aquele contrato que será entregarmola cada dia e cada hora por tentações de tanto menos porte Por uma vaidade por um desejo por uma representação por um apetite que no instante de antes o desejais e no instante de depois o aborreceis Tomara que me respondêsseis a esta evidência para ver que razão me dais 83 Só uma vos pode ocorrer que tenha alguma aparência e é o que nos engana a todos Padre entre aquele contrato e as tentações ordinárias do demônio há uma diferença grande Consentindo naquele contrato ficava eu perdendo a minha alma de certo consentindo nas outras tentações somente ponho a minha alma em dúvida porque depois de aceitar a tentação e lograr o que o diabo ou o apetite me promete posso arrependerme e salvarme Primeiramente essa mesma conta fizeram todos os cristãos que estão no inferno Mas sem chegar a essa suposição tão leve negócio é pôr a alma e a salvação em dúvida Aprendamolo do mesmo demônio e torne a tentação a ser remédio Quando o diabo tentou a Cristo bem via que aquele homem quem quer que fosse depois de aceitar o partido e se ficar com os reinos do mundo assim como se houvesse posto de joelhos diante da demônio para o adorar assim se podia pôr de joelhos diante de Deus para pedir perdão e se restituir à graça e salvarse Pois se isto era assim por que lhe oferecia o demônio todo o mundo só por aquela adoração só por aquele pecado Porque aquele pecado em um homem ainda que lhe não tirava a salvação com certeza punhalhe a salvação em dúvida e só por pôr em dúvida a salvação de uma alma dará e dá o demônio todo o mundo Pois se a demônio que não é interessado como eu dá o mundo só por pôr a minha salvação em dúvida eu por que porei em dúvida a minha alma e a minha salvação ainda que seja por todo o mundo 84 Cristãos Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida ainda que seja pelo preço de todo o mundo e de mil mundos O que se põe em dúvida pode ser e não pode ser E se for Se a dúvida inclinar para a pior parte se eu me não salvar e me condenar como se condenaram tantos que lhe fizeram esta mesma conta será bem que fique a alma nestas contingências Oh tristes almas as nossas que não sei que nas têm feito que tanto mal lhes queremos Por certo que não nos havemos nós assim nas temporalidades O negócio em que vos vai a vida ou a fazenda ou a honra ou o gosto contentaisvos com o deixar nessas dúvidas Não buscais sempre a mais segura Pois só a Deus e à ventura hão de ser para a triste alma Vede como se queixava Cristo desta sem razão Diviserunt sibi vestimenta mea et super vestem meam miserirut sortem Mt 2735 As minhas vestiduras exteriores dividiramnas para si e a minha túnica interior lançaramna a sortes Os vestidos exteriores de Cristo dividiramnos entre si os soldados em partes iguais a túnica interior jogaramna a ver quem a levava inteira Que é esta túnica interior e que vestiduras exteriores são estas que os homens receberam de Deus As vestiduras exteriores são os bens temporais a túnica interior é a alma Vede agora com quanta razão se queixa Cristo Diviserunt sibi vestimenta mea as vestiduras exteriores os bens temporais estimamnos os homens tanto que os não querem pôr na dúvida de uma sorte dividemnos com grande tento reparando em um fio e cada um segura a sua parte Et super vestem meam miserunt sortem porém a túnica interior a alma fazem tão pouco caso dela os homens que a lançam a sortes e à ventura ao tombo de um dado Atrevemonos a estar eternamente no inferno Para quando guardamos os nossos juízos Para quando guardamos os nossos entendimentos Por que cuidais que foram prudentes as cinco virgens do Evangelho Por que eram muito entendidas Por que falavam com grande discrição Não Porque quando as compa nheiras lhes pediram do óleo para acompanhar o esposo às bodas elas responderam Ne forte non sufficiat nobis et vobis Mt 24 9 Não amigas porque não sabemos se nos bastará o que temos Pôr em dúvida a entrada do céu pôr em dúvida a salvação da alma nem por amor das amigas nem por amor das bodas nem por amor do esposo VII É tão grande o valor das almas por si mesmas que mesmo quando condenadas como a de Judas deu Deus por bem empregado nelas o preço infinito de seu sangue Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tão mal Tomemos meia hora por dia para tratar de nossa alma Por que não haverá também uma irmandade para a salvação das almas que se perdem Proposta de Cristo ao Reino de Portugal 85 Não digo eu pôr a salvação da alma em dúvida Ainda que algum de nós soubera de certo e tivera revelação que a sua alma se não havia de salvar só por ser alma a não havia de dar por nenhum preço do mundo Ouvi uma ponderação que me faz tremer É de fé que o Filho de Deus morreu por todos os homens Assim o definiu Inocêncio Décimo em nossos dias contra o erro dos jansenistas e assim o diz expressamente S Paulo em dois lugares de suas epístolas na segunda ad Chorinthios capítulo cinco Christus pro omnibus mortuus est24 e na primeira ad Thimotheum capítulo dois Qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus25 Todos os homens quantos há e houve e há de haver no mundo ou são predestinados que se hão de salvar ou são precitos que se hão de perder Que Cristo morresse pelas almas dos predestinados bem está são almas que se hão de salvar e que hão de ver e gozar e amar a Deus por toda a eternidade mas morrer Cristo e dar o preço infinito de seu sangue também pelas almas dos precitos Sim Morreu pelas almas dos predestinados porque são almas que se hão de salvar e morreu também pelas almas dos precitos porque ainda que se não hão de salvar são almas Nos predestinados morreu Cristo pela salvação das almas nos precitos morreu pelas almas sem salvação porque é tão grande o valor das almas por si mesmas ainda sem o respeito de se haverem de salvar que deu Deus por bem empregado ou por bem perdido nelas o preço infinito de seu sangue Grande exemplo em uma alma particular 86 Fez Cristo por Judas os extremos que todos sabem mas nem todos os ponderam como merecem Se Cristo tiver certeza de que Judas se havia de salvar bem empregadas estavam todas aquelas despesas de trabalho e de amor E se quando menos a salvação de Judas estivera duvidosa também era bemaventurar todas aquelas diligências na contingência dessa dúvida Mas Cristo sabia de certo que Judas era precito e se havia de condenar Pois Senhor como empregais e despendeis tantas vezes o preço infinito de vossas palavras de vossas ações e de vossas lágrimas com esse infeliz homem Não sabeis que se há de perder a sua alma Sim sei mas ainda que se há de perder é alma A certeza da sua perdição não lhe tirou o ser antes acrescenta a dor de tamanha perda E que haja ainda almas que se queiram perder certamente Que haja ainda tantos Judas que dêem entrada ao demônio em suas almas não por todo o mundo nem por trinta dinheiros mas por outros preços mais vis e mais vergonhosos 87 Ora cristãos se uma alma ainda sem o respeito da salvação vale tanto as nossas almas que pela misericórdia de Deus ainda estão em estado de salvação por que as estimamos tão pouco Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tanto mal para as desprezarmos tanto Cristo estima infinitamente a minha alma mais que todo o mundo o mesmo demônio estima também mais a minha alma que todo o mundo e só eu hei de estimar todas as coisas do mundo mais que a minha alma Que coisa há neste mundo tão vil ou seja da vida ou seja da honra ou seja do interesse ou seja do gosto que a não estimemos mais que a alma e que não vendamos a alma por ela Ponhamos os olhos em um Cristo crucificado e aprendamos naquela balança a pesar e estimar nossa alma Como está Cristo na cruz Despido afrontado atormentado morto despido pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que o interesse afrontado pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que a honra atormentado pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que os gostos morto pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que a vida Oh pesemos e pesemos bem o que é e o que há de ser o mundo o que é e o que há de ser a nossa alma Seja esta a principal devoção desta quaresma e seja também a principal penitência Não vos peço que nesta quaresma acrescenteis as devoções nem as penitências só uma comutação delas vos peço e é que tomeis na mão aquela balança Tomemos sequer meia hora cada dia para nos fecharmos conosco e com a nossa alma e para tratarmos dela e com ela Diz S João no Apocalipse Factum est silentium in caelo quasi media hora Apc 81 que se fez silêncio no céu por espaço de meia hora enquanto se tratava das petições da terra Se no céu onde tudo é segurança é felicidade se toma meia hora para tratar da terra na terra onde nada é seguro e tudo é miséria porque se não tomará meia hora para tratar do céu De vinte e quatro horas do dia não lhe bastaram ao corpo vinte e três e meia e a pobre alma não terá sequer meia hora E que seja necessário que isto se vos esteja rogando e pedindo e que não baste Ora fiéis cristãos façamolo assim todos nesta quaresma para que também a quaresma seja cristã Consideremos que a nossa alma é uma só que esta alma é imortal e eterna que a união que tem esta alma com o corpo a que chamamos vida pode desatarse hoje que todas as coisas deste mundo cá hão de ficar e só a nossa alma há de ir conosco que a esta alma a espera uma de duas eternidades se formos bons eternidade de glória se formos maus eternidade de pena É isto verdade ou mentira Cremos que temos alma ou não o cremos São estas almas nossas ou são alheias Pois que fazemos 88 Também das alheias nos devemos lastimar muito Todo o mundo que o demônio hoje ofereceu a Cristo foi por uma alma alheia Se dá todo o mundo o demônio por perder uma alma porque não daremos nós e porque não faremos alguma coisa por tantas almas que se perdem Neste mesmo instante se estão perdendo infinitas almas na África infinitas almas na Ásia infinitas almas na América cujo remédio venho buscar tudo por culpa e por negligência nossa Verdadeiramente não há reino mais pio que Portugal mas não sei entender a nossa piedade nem a nossa fé nem a nossa devoção Para as almas que estão no purgatório há tantas irmandades tantas confrarias tantas despesas tantos procuradores tantos que as encomendem de noite e de dia só aquelas pobres almas que estão indo ao inferno não têm nada disto As almas do purgatório ainda que padeçam têm o céu seguro as que vivem e morrem na gentilidade não só têm o céu duvidoso mas o inferno e a condenação certa sem haver quem lhes acuda Não é maior obra de misericórdia esta Pois por que não haverá também uma irmandade por que não haverá também uma congregação por que não haverá também uma junta porque não haverá também um procurador daquelas pobres almas Senhor estas almas não são todas remidas com o vosso sangue Senhor estas almas não são todas remidas com o sangue de Cristo26 Senhor a conversão destas almas não a entregastes aos reis e reino de Portugal Senhor estas almas não estão encarregadas por Deus a Vossa Majestade com o reino Senhor será bem que estas almas se percam e se vão ao inferno contra o vosso desejo Senhor será bem que aquelas almas se percam se vão ao inferno por nossa culpa Não o espero eu assim da Vossa Majestade divina nem da humana Já que há tantos expedientes para os negócios do mundo haja também um expediente para os negócios das almas pois valem mais que o mundo Desenganemonos quanto mais se adiantar o negócio da salvação das almas tanto os do mundo irão mais por diante O demônio ofereceu todos os reinos do mundo a Cristo pela perdição de uma alma e Cristo porque tratou da salvação das almas está hoje Senhor de todos os reinos do mundo Assim nos sucederá a nós também e assim o prometo em nome do mesmo Deus Deixaime santificar as palavras do demônio e pôlas na boca de Cristo Ostendit ei omnia regna mundi Estános Deus mostrando todos os reinos desse novo mundo que por sua liberalidade nos deu e por nossa culpa nos tem tirado em tanta parte E apontando para a África para a Ásia para a América nos está dizendo Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me Reino de Portugal eu te prometo a restituição de todos os reinos que te pagavam tributo e a conquista de outros muitos e mui opulentos desse novo mundo se tu pois te escolhi para isso fizeres que creia em mim e me adore Si cadens adoraverit me Assim o prometa da bondade de Deus assim o espera do grande zelo e piedade de sua majestade assim o confio da muita Cristandade de todos os ministros e se tratarmos das almas alheias este meio de que tanto se serve Deus será o mais eficaz de conseguirmos a salvação das próprias nesta vida com grandes aumentos de graça e na outra com o prêmio da glória SERMÃO DA TERCEIRA QUARTAFEIRA DA QUARESMA PREGADO NA CAPELA REAL NO ANO DE 1670 Non est meum dare vobis sed quibus paratum esta Patre meo1 1 Sermão dos pretendentes Os filhos de Zebedeu e os descobridores portugueses Onon e a serpente de Moisés Não palavra dura para quem a ouve e para quem a diz O anjo de Deus e as petições de Abraão em favor das cinco cidades condenadas à destruição É decente a um rei dizer não No caso em que convenha qual é o modo com que o deve dizer 89 Estamos em sermão de pretendentes e segundo a experiência e queixa comum ou seja com razão ou sem ela acho eu que os pretendentes das cortes em seus requerimentos são como os nossos argonautas e primeiros descobridores da Índia senão que navegam ao revés e fazem a viagem às avessas Os nossos descobridores primeiro passaram o Cabo de Não e depois o Cabo de Boa Esperança os pretendentes pelo contrário começam pelo Cabo de Boa Esperança e acabam pelo Cabo de Não Assim sucedeu hoje aos filhos do Zebedeu que também eram navegantes Começaram pelo Cabo de Boa Esperança e com tão boa monção que o passaram em uma sangradura porque o vento era Galerno e o mar bonança Fundavam a esperança na graça de Cristo na eleição que deles tinha feito e na prontidão com que tinham deixado não só as barcas e as redes como Pedro e André senão também o próprio pai fundavam a esperança no valimento de João conhecidamente o mais aceito a Cristo e descobertamente o amado entre todos os discípulos fundavam a esperança na propinqüidade do sangue por serem primos do mesmo Senhor não reparando que os príncipes não têm parentes e muito menos ao perto fundavam finalmente a esperança na intercessão de sua mãe que por mulher era digna de todo o respeito e por viúva de toda a piedade Mas ainda que passaram tão felizmente o Cabo de Boa Esperança e se prometiam pronto e inteiro despacho alfim acabaram como os demais pelo Cabo de Não Non est meum dare vobis 90 Terrível palavra é um non Não tem direito nem avesso por qualquer lado que a tomeis sempre soa e diz o mesmo Ledeo do princípio para o fim ou do fim para o princípio sempre é non Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz que fugia dela por que o não mordesse disselhe Deus que a tornasse ao revés e logo perdeu a figura a ferocidade e a peçonha O mar não é assim por qualquer parte que o tomeis sempre é serpente sempre morde sempre fere sempre leva o veneno consigo Mata a esperança que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males Não há corretivo que o modere nem arte que o abrande nem lisonja que o adoce Por mais que enfeiteis um não sempre amarga por mais que o enfeiteis sempre é feio por mais que o doureis sempre é de ferro Em nenhuma solfa o podeis pôr que não seja malsoante áspero e duro Quereis saber qual é a dureza de um não A mais dura coisa que tem a vida é chegar a pedir e depois de chegar a pedir ouvir um não Vede o que será A língua hebraica que é a que falou Adão e a que mais naturalmente significa e declara a essência das coisas chama ao negar o que se pede envergonhar a face Assim disse Bersabe a Salomão Petitionem unam precor a te ne confundas faciem meam 3 Rs 216 Tragovos Senhor uma petição não me envergonheis a face E por que se chama envergonhar a face negar o que se pede Porque dizer não a quem pede é darlhe uma bofetada com a língua tão dura tão áspera tão injuriosa palavra é um não Para a necessidade dura para a honra afrontosa e para o merecimento insofrível 91 E se um não é tão duro para quem o ouve creio eu que não é menor a sua dureza para quem o diz e tanto mais quanto mais generoso for o coração e mais soberano o ânimo que o houver de pronunciar Dos três anjos que apareceram a Abraão no vale de Mambré os dois que representavam ministros partiram a executar o castigo nas cidades infames e o terceiro ou primeiro que representava a Deus ficou com Abraão E porque o estar só por só com Deus é o melhor tempo e modo de negociar com ele animou se então o santo patriarca a pedir a revogação da sentença Eram as cidades cinco e disse assim Senhor se naquelas cinco cidades houver cinqüenta justos não lhes perdoará Vossa Majestade Sim perdoarei respondeu Deus ou o anjo em seu nome E se não chegarem a cinqüenta e forem somente quarenta e cinco Também perdoarei Alentado com esta partida continuou Abraão a outras menores E se forem só quarenta Perdoarei por quarenta E se trinta Senhor Também por trinta E se vinte Por vinte E se dez somente Também perdoarei por dez E dizendo isto desapareceu o anjo Abiitque Dominus Gên 1833 Notável despedida Não aguardou o anjo a que Abraão instasse mais e oferecesse ou rogasse com menor partido A submissão o comedimento e a santa cortesania com que Abraão instava e passava de uma petição a outra é admirável e digníssima de que todos a leiam e de que o anjo só pelo ouvir se detivesse Pois se tinha aguardado não só com paciência mas com tão particular agrado desde a primeira instância até a sexta por que não esperou a sétima por que se retirou e escondeu tão súbita e improvisamente Por não chegar a dizer um não A comissão que trazia o anjo eram dois decretos um condicional outro absoluto O condicional que se nas cinco cidades houvesse até dez justos suspendesse o castigo o absoluto que se fossem menos de dez executasse e ardessem E como o anjo que a seis petições de Abraão tão benevolamente tinha sempre dito sim se ele continuasse e instasse com a sétima era forçado a dizer não por se não atrever a pronunciar esta duríssima palavra desapareceu e escondeuse Naquelas cinco cidades não há mais que quatro justos de que consta a família de Lot sobrinho de Abraão se Abraão como é certo descer a este número eu diz o anjo não lhe posso conceder o partido e é força responderlhe de não Pois para que nem eu tenha o dissabor de dizer tal palavra nem ele o desgosto e pena de a ouvir fugir e desaparecer é o melhor meio Abiitque Dominus 92 Os reis e príncipes soberanos representam e têm as vezes de Deus na terra como tinha esse anjo Também como o mesmo anjo neste caso não podem deixar de ouvir petições e ser importunados de requerimentos a que não devem deferir E porque dizer não aos pretendentes é coisa tão dura para eles como para o mesmo príncipe será matéria mui própria deste lugar e deste Evangelho pôr hoje em questão e averiguar duas coisas Primeira se é conveniente e decente a um rei dizer não Segunda qual é o modo com que o deve dizer no caso que convenha Uma e outra resolução nos darão as palavras do tema Non est meum dare vobis sed quibus paratum esta Patre meo II Não é conveniente nem decente à majestade que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não Tão vil é na mentira o sim como honrado na verdade o não A resposta dos atenienses a Filipe de Macedônia D João Segundo e as mercês do não dito a seu tempo 93 Dos imperadores que precederam ao império de Trajano diz o seu panegirista Plínio que desejavam muito ser rogados e que todos lhes pedissem só pelo gosto que tinham de dizer não Priores principes a singulis rogari gestiebant non tam praestandi animo quam negandi Mas como estes que ele chama príncipes verdadeiramente eram tiranos e mais monstros da natureza humana que homens excluído sem controvérsia este escândalo da razão e da humanidade e começando a nossa questão pelas razões prováveis de duvidar parece que não é conveniente nem decente à majestade e autoridade de um rei que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não Ou o rei diz não porque não quer ou porque não pode se porque não quer ofende o amor se porque não pode desacredita a grandeza E se as petições e requerimentos são tais que se não devem conceder entendam os pretendentes o não mas não o ouçam seja discurso seu e não resposta ou resolução real Mais decente negativa é para o governo e menos descoberta desconsolação para os que requerem que eles tomem por si o desengano Desenganeos a dilação desenganeos o tempo e se de dia não cuidam nem de noite sonham mais que no seu despacho os mesmos dias e noites lhes digam o que se lhes não diz e por elas saibam o que não querem entender Sustentemse na sua esperança posto que falsa e fique sempre inteiro ao príncipe o pundonor de que não negou Se por este modo se estendem os requerimentos e se entretêm e multiplicamos que vêm requerer isso mesmo é um certo gênero de grandeza e autoridade haver muitos pretendentes O que eles gastam e despendem sustenta a majestade da corte e também as cortes dos que não são majestade Já que pretendem sem merecimento paguem as custas da sua ambição e sirvalhes a eles de castigo e aos mais de exemplo 94 Contra o sofístico destas razões que verdadeiramente tem muito da vaidade parece que são mais sólidas as do ditame contrário Tão vil é na mentira o sim como honrado na verdade o não A verdade que por isso se pinta despida não sabe encobrir nem fingir nem enfeitar nem corar e muito menos enganar e a primeira virtude do trono ou seja da justiça ou da graça é a verdade Todo o artifício é coisa mecânica e não nobre quanto mais real O sol abranda a cera e endurece o barro porque obra conforme a disposição dos sujeitos mas em todos e com todos descobertamente por isso o calor é inseparável da luz Importa distinguir o bastão do cetro Os estratagemas não são para o despacho sejam embora para a campanha mas não para a corte para os inimigos e não para os vassalos Saibam os pretendentes se podem esperar ou não para que no fim não desesperem Quem diz que é arte de não desgostar não diz nem cuida bem Melhor é dar um desgosto que muitos Queixemse de que os não satisfizeram mas não possam dizer justamente que os enganaram Se é dura palavra um não mais duras são as boas palavras que suspendem e encobrem o mesmo não até que o descobre o efeito Quem fez o não tão breve não quis que se dilatasse 95 Pediu Filipe rei de Macedônia à República de Atenas o deixasse passar com o exército pelas suas terras o que o senado lhe não quis conceder E porque o estilo dos atenienses que ainda hoje se chama estilo lacônico era resumir tudo o que se havia de dizer às palavras mais breves tomaram um grande pergaminho que era o papel daquele tempo e escreveram nele um não com tamanhas letras que o enchia todo e cerrado e selado esta foi a resposta que deram aos embaixadores de Filipe É mui célebre nas histórias gregas este breve e grandíssimo não mas na nossa Atenas ainda os há maiores Tantas petições tantas remissões tantas provisões tantas patentes tantas certidões tantas justificações tantas folhas corridas tantas vistas tantas informações podidas muitas vezes à Ásia e à América tantas consultas tantas interlocutórias tantas réplicas e tantas outras cerimônias e mistérios por escrito a que não se sabe o número nem o nome e ao cabo de quatro de seis e de dez anos ou o despacho ou o que significa o despacho em meia resma de papel é um não Não fora melhor este desengano ao princípio E as despesas deste injusto entretenimento que se devem restituir nesta vida ou se hão de pagar na outra por cuja conta correm Já que não haveis de fazer ao pretendente a mercê que pede por que não lha fareis ao menos do que há de gastar inutilmente na pretensão Ao outro que presentava o seu memorial disse elrei D João Segundo na primeira audiência que não tinha lugar no que pedia e ele beijoulhe a mão Entendestesme replicou elrei Senhor sim Por que me beijais logo a mão Porque me fez Vossa Alteza mercê do dinheiro que trazia para gastar na corte e agora o torno a levar para minha casa Estas são as mercês do desengano e os despachos do não dito a seu tempo Não o dizer será maior política maior autoridade e decência mas dizêlo em muitos casos é obrigação e consciência III Como evitar as ocasiões de dizer não Primeiro meio não conceder aos validos as suas petições como o fez Deus quando castigou o povo de Israel O não do Senhor à pretensão dos apóstolos A petição de S Paulo Os dois gêneros de negações as puras negações e as privações 96 Disputada assim problematicamente a nossa questão de umas e outras razões de duvidar se conclui com certeza que o não sem ser coisa alguma é como as outras coisas deste mundo que todas têm seus bens e seus males suas utilidades e seus inconvenientes Para não cair ou tropeçar nestes que a cada passo se oferecem ou atravessam em tanta multidão de requerimentos o primeiro cuidado ou cautela do prudente príncipe deve ser evitar quanto for possível as ocasiões de dizer não Mas como se podem evitar ou atalhar estas ocasiões sendo os pretendentes e as pretensões os requerentes e os requerimentos tantos Digo que fazendo com destreza e constância que sejam menos e muito menos e usando para isso dos meios que agora apontarei e nos ensina o nosso Evangelho 97 O primeiro meio é que os validos ou privados por mais juntos que estejam à pessoa real e por mais dentro que estejam na graça sejamos primeiros a que se não conceda o que pretenderem A razão ou conseqüência é manifesta Porque se os que estão de fora virem que os que estão de dentro e tão de dentro não alcançam o que pretendem como se atreverão eles a pretender nem pedir Tinha Deus determinado castigar o povo de Israel com quatro pragas ou açoites de fome de guerra de peste e de bestasferas e para que entendessem que por nenhuns rogos ou intercessões se suspenderia a execução destes castigos acrescenta que ainda que lho pedisse Noé Jó e Daniel não lho havia de conceder O modo desta cominação pelo profeta Ezequiel é muito singular por que diz assim Se mandar fome ainda que interceda Noé Jó e Daniel hão se de secar os campos e as searas se mandar guerra ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo há de levar a espada se mandar peste ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo há de consumir a morte se mandar bestasferas ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo hão de destruir e devastar as feras Com razão chamei a este modo de cominação singular porque se não lê outro semelhante em toda a Escritura Pois porque o faz Ezequiel e o manda fazer Deus com tão expressa e tão multiplicada repetição de que não hão de valer ao povo as orações de Noé de Jó e de Daniel Porque estes três em diferentes séculos foram os maiores validos de Deus e para persuadir e desenganar a todos de que se lhes não há de conceder o que pedirem o meio e exemplo mais eficaz é negar e não conceder aos validos as suas petições Se a Noé se a Jó se a Daniel se nega o que pedirem como se me há de conceder a mim Não quero pedir No nosso texto o temos 98 Os apóstolos antes de descer sobre eles o Espírito Santo eram muito tocados da ambição e apetite de ser como homens alfim levantados do pó da terra ou das areias da praia Daqui nasceu aquela contenda tão indigna do Sagrado Colégio Facia est contentio inter eos quis eorum viteretur esse majo2 Descobertamente disputaram e altercaram entre si sobre a preferência cuidando e defendendo cada um que ele era o maior E tão aferrados estavam todos à própria opinião que ainda consultando a seu Divino Mestre sobre a matéria não se sujeitaram a que ele absolutamente a definisse circunstância digna de grande ponderação Quis putas major est in regno caelorum Mt 181 Não disseram quem de nós é o maior Senão Quis putas Quem vos parece que o é Para que ainda depois da resposta ficasse a maioria em opinião e cada um seguisse a sua e se não descesse dela Pois se esta ambição era de todos e não só de João e Diogo como foram só estes dois os que pretenderam e pediram as primeiras cadeiras e nenhum dos outros que tanto como eles o desejavam intentou tal coisa Por isso mesmo João e Diogo eram conhecidamente os maiores validos de Cristo e os mais entrados na sua graça e as que a tinham mais bem fundada ainda naquela razão natural que corre pelas veias e como os outros apóstolos viram que os lugares que todos apeteciam se negaram aos válidos todos amainaram as velas e recolheram os reinos da sua ambição e nenhum teve confiança nem atrevimento para pretender nem pedir quando a eles se tinha negado Vede a virtude de um não para evitar muitos Como Senhor dizer uma vez não Non est meum dare vobis se livrou de o dizer oitenta e duas vezes Se Cristo concedera ou condescendera com esta petição dos dois apóstolos logo os outros dez haviam de vir com as suas e após os dez apóstolos os setenta e dois discípulos que todos se haviam de querer aproveitar de tão boa maré mas com um não que disse aos validos se livrou o Senhor de dizer dez nãos e setenta nãos 99 Porque os reis não imitam o exemplo do Rei dos Reis e por isso se vêem tão perseguidos de petições e tão atribulados de requerimentos de que se não podem desembaraçar mais constrangidos da conseqüência que obrigados da razão devendo e querendo negar a muitos e não o podendo fazer pelo que têm concedido a poucos Digase um não a João e a Diogo ainda que sejam validos e logo não só se poderá dizer com liberdade aos mais mas cessarão as ocasiões de ser necessário dizerse Dirão porém os mesmos validos ou alguém por eles que não parece nem é justiça nem ainda bom exemplo e crédito do mesmo rei que aos que servem e trabalham junto à sua pessoa e sustentam o peso da monarquia devendo ser os primeiros e mais remunerados fiquem sem mercê e sem prêmio E é pouca mercê e pouco prêmio o ser validos E pouca mercê e pouco prêmio estar sempre junto à pessoa real O prêmio que Cristo prometeu a seus ministros foi que estariam onde ele está Ubi ego sum illic et minister meus erit3 Nem o rei pode dar maior prêmio nem o ministro desejar mais avantajada mercê É verdade que isto mesmo se concedeu a um ladrão venturoso Hodie mecum ens4 o que também pode ter sua propriedade e sua aplicação Mas ouçamos o que sucedeu a S Paulo e como Cristo o tratou em uma só petição que lhe fez sendo o ministro que mais trabalhou que todos em seu serviço 100 Pediu São Paulo a Cristo que o isentasse de certa pensão que pagava por conta de uma pouca de terra que herdara de seus pais e nossos cujo exator o apertava e molestava muito e fazendo três vezes esta petição Propter quod ter Dominum rogavi5 nem à primeira nem à segunda nem à terceira se serviu o Senhor de lhe deferir sempre saiu escusado Pois a Paulo que se não era o primeiro valido não era o segundo porque dos dois primeiros ministros da casa e reino de Cristo ele era um a Paulo que só para o meter em seu serviço desceu o mesmo Cristo segunda vez do céu à terra e o levou em vida ao céu para lhe comunicar seus segredos a este ministro a este valido a este que tanto privava como seu príncipe nega o Senhor uma pretensão tão justa e tão fácil e não uma só vez na petição senão outra vez na nova instância e terceira na réplica Sim para que nem os validos estranhem as negativas nem os príncipes se encolham e desanimem ou cuidem que os agravam e faltam à sua obrigação em lhes negar o que pedirem Não era Paulo ministro que servisse em palácio à sombra de tetos dourados sem molhar o pé no mar nem o meter na campanha mas era um ministro que em serviço e honra de seu príncipe pere grinava e corria o mundo em rodaviva desde levante até poente sempre com o montante na mão em perpétuas batalhas e conquistas por mar e por terra e suportando no mar tais tempestades e naufrágios que talvez passou um dia e uma noite debaixo das ondas Die ac nocte in profundo maris fui 2 Cor 1125 E com que rosto para que o digamos assim ou com que palavras se atreveu Cristo a negar a um tal ministro o que lhe pedia O mesmo S Paulo as referiu e são digníssimas de quem as disse Et dixit mihi Sufficit tibi gratia mea 2 Cor 129 Negate Paulo o que me pedes porque te basta a minha graça Aos validos e que logram a graça do príncipe bastalhes a mercê da mesma graça e todas as outras se lhes podem negar confiadamente Confiadamente digo e pudera dizer que com ressaibos de desconfiança porque o ministro que se não contenta com a graça e além da graça quer outra mercê não só é indigno da mercê senão também da graça Mas há muitos que não conhecem o preço dela e por isso com injúria da mesma graça e do príncipe fazem da graça degrau para outros interesses que é o mesmo que pisála 101 Mas ouçamos o que diz S Paulo da sua graça que pode ser tenha alguma escusa Gratia Dei sum id quod som 2 Cor 1410 Todo o ser que tenho o devo à graça de meu Senhor Assim o devem dizer e confessar ainda os que por merecimentos seus e não por nossos pecados estiverem na graça porque o contrário seria muita soberba e maior ingratidão Por diante Et gratia ejus continua Paulo in me vacua non fuit e a sua graça não foi em mim vazia Aqui parece que entra a escusa Logo se a graça não há de ser vazia háse de encher Por isso vemos os cheios da graça tão cheios para se encher se aproveitam da graça Mas Paulo não diz que se encheu a si com a graça senão que a graça se encheu nele Gratia ejus in me vacua non fuit E como se encheu nele a graça Muito havia mister para se encher porque o vaso era muito grande Vas electionis est mihi iste6 e assim o fez o famoso Paulo Gratia ejus in me vacua non fuit sed abundantius omnibus laboravi7 O modo com que a graça se encheu em mim foi trabalhando e servindo não só muito senão mais que todos Porque essa é a diferença que hão de fazer aos demais os que estão na graça Não se hão de encher com a graça nem hão de encher a graça com mercês senão com novos e maiores serviços E segundo esta obrigação bem lhes pode o príncipe negar o que pedirem e eles prezaremse muito dessas negações 102 Os filósofos distinguem dois gêneros de negações umas que se chamam puras negações e outras a que deram nome de privações A pura negação nega o ato e mais a aptidão a privação supõe a aptidão e nega o ato O silêncio é negação de falar mas com grande diferença no homem e na estátua porque a estátua não fala nem é apta para falar senão inepta porém no homem é negação e privação porque ainda que o homem não fale é apto e capaz de falar Daqui se segue que assim como o silêncio na estátua é incapacidade e no homem virtude assim o que se nega ao indigno é pura negação a qual o afronta e o que se nega ao digno é privação que o honra e acredita e tanto mais quanto for mais digno Tais são as negações que os príncipes fizeram e devem fazer aos seus validos São privações com que não só se acredita a si senão também a eles porque o maior crédito do valido é que a sua privança seja privação Por isso os validos com mais nobre e heróica etimologia se chamam privados E quando eles folgarem de o ser ou o príncipe fizer que o sejam ainda que não folguem as privações dos privados farão mais toleráveis as negações dos que o não são E desenganados os demais com este exemplo nem eles se atreverão a pedir o que se lhes deve negar nem o príncipe será forçado a negar o que lhe pedirem ficando livre por este meio de muitas e molestas ocasiões em que contra o decoro e agrado da majestade seja obrigado a dizer não IV Segundo meio de atalhar o não a justiça e inteireza do príncipe em seus despachos A inteireza de Catão Resposta de elrei Acab a Isaías Salomão e o castigo de Adonias Razão da negativa de Cristo O dar por justiça e o dar por graça Não cuidem os príncipes que podem tudo porque podem tudo 103O segundo meio ou indústria de prevenir e atalhar o não e as ocasiões de o dizer é que o príncipe em todos seus despachos e resoluções seja inteiro justo e reto e conhecido por tal Desta justiça e inteireza que por outra parte é a sua primeira obrigação se seguirão dois efeitos notáveis O primeiro que ninguém se atreverá a pedir senão o que for justo o segundo que pedindo todos somente o justo a todos concederá o príncipe o que pedirem e nunca dirá não 104O mais justo reto inteiro e constante homem que houve entre os romanos foi Marco Pórcio Catão E que conseguiu com esta inteireza e constância de sua justiça inflexível Conseguiu como refere Plínio que ninguém no seu consulado se atreveu a lhe pedir coisa que não fosse justa Assim lho disse com admiração a eloqüência de Túlio O te felicem Marce Porce a quo rem improbam petere nemo audet Tal será a reverência do governo e tal a felicidade do rei que em todas suas resoluções e despachos observar constantemente a justiça A justiça como a definem os teólogos e juristas não é outra coisa que uma perpétua e constante vontade de dar a cada um o que merece Se esta vontade que ordinariarnente é tão mudável nos afetos humanos for constante e perpétua no príncipe todos se desenganarão que não hão de alcançar dele senão o que for devido a seus serviços e proporcionado a seus merecimentos E por meio deste desengano conseguirá a felicidade de que ninguém se atreva a lhe pedir senão o que for justo O te felicem a quo rem improbam petere nemo audet Feliz porque não se atrevendo ninguém a pedir senão o justo serão muito menos as petições e requerimentos feliz porque não pedindo ninguém senão o que lhe é devido haverá com que satisfazer a todos feliz porque sendo as petições e requerimentos justificados sempre o príncipe concederá o que se lhe pedir e nunca dirá não Não é melhor e mais decente e mais breve e mais útil que o não o digam a si mesmos aqueles que haviam de pedir do que dizerlho a eles o príncipe depois de pedirem Pois isso é o que sucederá se ninguém se atrever a pedir senão o que merecer 105 Disse Isaías a elrei Acab que em prova do que lhe tinha anunciado desde o céu até o inferno pedisse livremente o sinal que quisesse Pete tibi signum a Domino in profundum inferni sive in excelsum supra Is 711 E que responderia Acab Non petam Não pedirei tal coisa Assim o disse resolutamente e assim o cumpriu Mas porquê Se o profeta o assegurava e exortava a que pedisse aquele sinal e com tanta largueza de eleição quanto vai do céu ao centro da terra porque não quer pedir Acab Ele mesmo deu a razão Non petam e non tentabo Dominum Não pedirei tal coisa porque não quero tentar a Deus Tentar a Deus é querer que Deus faça o que não deve assim como o demônio nos tenta para que façamos o que não devemos E fez este discurso Acab Deus é justo e justíssimo antes a mesma justiça eu não lhe tenho feito nenhuns serviços porque sirvo a outros deuses para que me faça tamanhas mercês pois como terei eu atrevimento para lhe pedir o que me promete Isaías Isto será tentar a Deus e querer que o justo e justíssimo faça o que não deve E assim me resolvo a não pedir Nan peram Seja o príncipe justo e tão constantemente justo que por nenhum outro motivo nem respeito dê a ninguém senão o que merecer e lhe for devido e logo os vassalos se não atreverão a pretender as semrazões e exorbitâncias que vemos e se benzerão de pedir como de tentação Non petam et non tentabo Daminum Is 712 106 Oh se os reis tantas vezes e tão injuriosamente tentados ao menos não consentissem na tentação Não digo que castiguem severamente algumas petições posto que imitariam nisto a Salomão o qual por uma petiçãozinha que assim lhe chamou a intercessora Petitionem parvo Iam 3 Rs 2 20 mandou cortar a cabeça a Adanias E verdadeiramente há petições que bem interpretadas são libelos infamatórios dos mesmos príncipes em cujas mãos se metem Porque se são dolosas como era esta de Adanias supõem que são néscios se são exorbitantes supõem que são pródigos se são contra os cânones apostólicos como são muitas supõem que não são católicos E de qualquer modo que peçam o que não é justo supõem que são injustos Mas se antes de fazerem as petições supuserem e se desenganarem que nenhuma coisa hão de conseguir senão o que ditar a inteira e reta justiça eles se comporão com a sua ambição e tomarão por partido o não pedir Non petam Notai onde está o non e vede quanto mais conveniente é para o vassalo e mais expediente para o governo e mais decente para o rei o não antes do petam que depois da petição É mais conveniente para o vassalo porque melhor lhe está que desenganado torne por si mesmo o não e a ponha antes das suas petições que ouvilo depois delas É mais expediente para o governo porque cessando o tumulto e inundação dos requerimen tos que verdadeiramente afogam terão mais fácil expedição os negócios E finalmente é mais decente e decoroso para o rei porque nenhum que vier buscar o prêmio ou o remédio aos pés da majestade se apartará deles descontente Virão a ser por essa via todas as petições da nossa corte como as que se despacham na do céu Davi dizia a Deus Intret postulatio mea in conspectu tuo SI 118170 Entre Senhor a minha petição ao vosso conspecto Nas cortes da terra deseja o pretendente que saia a sua petição na do céu deseja que entre porque uma vez que a petição foi tal que pudesse entrar infalivelmente sai despachada Assim será cá também se ninguém pedir senão o que for justo porque o rei justo à petição justa nunca pode dizer não 107 Mas que fará o rei para adquirir este crédito e reputação universal de justo e por meio dela evitar as petições e requerimentos injustos sem os quais fique livre das inconvenientes e dissabores do não Digo que só a poderá conseguir aplicando o não também a si e primeiro a si que aos súditos É um grande documentado nosso texto e digno de se reparar muito nele Non est meum dare vobis diz o Senhor que o dar não é seu e o não primeiro cai sobre ele que sobre os dois a quem negou a que pretendiam primeiro sobre o meum e depois sobre o vobis Assim há de fazer o rei que quer ser justo e ter opinião de tal Cuidam os reis que o dar é seu e o Rei dos Reis diz que não é seu o dar Non est meum dare Pois Cristo enquanto Deus e enquanto homem não é Senhor de tudo Sim é Logo pode dar a quem quiser e como quiser Distingo com justiça sim sem justiça não Santo Ambrósio Non est meum qui justitiam servio non gratiam Eu dou por justiça e não por graça por justiça é meu o dar por graça como vós quereis não é meu Non est meum dare vobis A razão disto é porque Cristo fundou e ordenou o seu reino em tal forma que nenhuma coisa se desse nele de graça e por graça senão por merecimento e por justiça Por isso S Paulo chamou à coroa que o esperava coroa de justiça e que lha havia de dar o Senhor não como Senhor mas como justo juiz Reposita est mihi corona justitiae quam reddet mihi Dominus justus judex8 Os lugares da mão direita e esquerda que pretendiam os dois irmãos eram do reino de Cristo Ad dexteram et sinistram in regno tuo Mt 20 2t O modo porque o pediam não era por merecimento e por justiça senão por graça e por parentesco Dic ut sedeant hi duo filii mei9 e por isso respondeu o Senhor que não era seu o dar porque o dar por justiça é seu o dar por graça não é seu Non est meum dare qui justitiam servo non gratiam 108 Nenhuma coisa anda mais malentendida e pior praticada nas cortes que a distinção entre a justiça e a graça Donde se segue que apenas há mercê da que se chamam graça que não seja injustiça e contenha muitas injustiças Não nega que os reis podem fazer graças e que o fazêlas é muito próprio da beneficência e magnificência real mas isso há de ser depois de satisfeitas as obrigações da justiça Zaqueu disse que daria a metade da sua fazenda aos pobres e que da outra metade pagaria as suas dívidas e os danos delas Ecce dimidium bonarum meorum da pauperibus et si quid aliquem defraudavi reddo quadruplum10 Disse bem mas perverteu e trocou a ordem porque em primeiro lugar estava o pagar as dívidas que é obrigação de justiça e depois o dar as esmolas que é ato de liberalidade E que desordem seria se se tomasse aos pobres e não se pagasse aos credores Que desordem seria por lhe não dar outro nome se a uns se tomasse violentamente o necessário para se dar a outros prodigamente o supérfluo Como o pagar é espécie de sujeição e o dar é soberania e grandeza gostam mais os príncipes de dar que de pagar Dêem mas dêem do seu se o tiverem que dar e não pagar é dar do alheio E se os Zebedeus que são os que levam as graças os importunarem que dêem respondam com Cristo Non est meum dare O que perde não só o governo mas as consciências e almas dos príncipes é cuidarem que podem tudo porque podem tudo Se assim lho dizem é lisonja e se o crêem é engano O rei pode tudo o que é justo para o que for injusto nenhum poder tem Esta é a verdadeira e maior lisonja que se pode dizer aos reis porque é fazê los poderosos como Deus Deus é onipotente e poderá Deus fazer uma injustiça De nenhum modo Pois assim devem entender os reis que são poderosos E se os súditos se persuadirem que o rei assim o entende e assim o observa nem eles desenganados pedirão senão o que for justo nem o rei importunado terá ocasiões de dizer não V Terceiro meio de se cortarem as ocasiões de dizer não a observância inviolável das leis A inviolabilidade da lei da morte e a árvore da vida A dispensação que se concede a um porque a pede não se pode negar a outro ainda que a não peça O pedido do filho pródigo Jacó e os pedidos de Raquel e Lia 1090 terceiro meio de se cortarem as ocasiões de dizer não é a observância inviolável das leis Se as leis se conservarem em todo seu vigor sem dispensação sem privilégio sem exceção de pessoa o não diloá a lei e não o rei As leis de Deus proibitivas todas começam por não Noir occides non maecaberis non furaberis non falsum testimonium dices11 Houve algum homem até hoje por atrevido e insolente que seja que fizesse petição a Deus para matar para adulterar para furtar para levantar falso testemunho Nenhum porque estas leis são invioláveis e indispensáveis Pois o mesmo sucederá ao príncipe se conservar e mantiver as suas inviolável e indispensavelmente E por este modo tão decoroso e tão fácil se livrará de muitas ocasiões de dizer não porque já o tem dito a lei 110 Pronunciou Deus depois do primeiro pecado a lei universal da morte à qual quis que ficasse sujeito Adão e todo o gênero humano e no mesmo ponto em que fez a lei fez também que fosse inviolável A lei da morte parece inviolável de sua mesma natureza mas naquele tempo podiase violar facilmente porque comendo Adão e qualquer outro homem do fruto da Árvore da Vida ficava isento de morrer E que fez DeusNefortte sumat etiam de ligno vitae et comedat ei vivat in aeternum Gên 322 Por que não aconteça que Adão assim como quebrou a primeira lei comendo da árvore da ciência quebre também a segunda comendo da árvore da vida e fique imortal Collocavit ante paradisum cherubim et flammeum gladium ad custodiendam viam ligni vitae12 Pôs à porta do paraíso um querubim com uma espada de fogo para que sem exceção defendesse a entrada a todos e se algum intentasse eximir se da lei de morrer morresse primeiro Esta foi a ordem cerrada do querubim e este o rigor indispensável da lei da qual não quis Deus que fosse privilegiado nem seu próprio Filho O privilégio chamase em Direito vulnus legis ferida da lei E o poder e espada do legislador não há de ser para ferir as leis senão para ferir matar e queimar a quem intentar quebrálas que por isso a espada do querubim era espada e de fogo Bem pudera Deus cortar a Árvore da Vida com que se escusavam todos aqueles aparatos de horror quis porém que a árvore ficasse em pé e a lei se guardasse contudo inviolavelmente para que entendessem os legisladores que ainda que eles possam dispensar nas leis e o modo da dispensação seja fácil nem por isso o hão de permitir Mas Senhor a árvore da vida está carregada de frutos uns nascem outros caem e todos se perdem podendose aproveitar com tanta utilidade Oh malditas utilidades Este é o engano que perde aos príncipes Dispensamse as leis por utilidades que ordinariarnente são dos particulares e não suas e abrese a porta à ruína universal que só se pode evitar com a observância inviolável das leis Percamse os frutos da árvore da vida que são a mais preciosa coisa que Deus criou percamse as mesmas vidas e não se recupere a imortalidade morra e sepultese o mundo todo mas a lei não se quebre nem se dispense 111 E que se seguiu deste rigor indispensável da lei Seguiuse aquele desengano universal que pregou Davi Quis est homo qui vivet et non videbit mortem Sl 88 4 Que homem há que viva e não haja de morrer E desenganados uma vez os homens de que a lei era inviolável sendo a morte a coisa mais aborrecida e a vida a mais amada ninguém houve jamais que se atrevesse nem lhe viesse ao pensamento intentar ser dispensado para não morrer Guardemse as leis tão severa e inviolavelmente que se desenganem todos que se não hão de dispensar e com o não que elas dizem se livrarão os príncipes de o dizer Mas porque alguns príncipes são de tão bom coração ou de tão pouco que nem à mãe dos Zebedeus nem a seus filhos se atrevem a dizer Nescitis quid peratie13 eles tomam confiança para pedir as petições saem despachadas e o não das leis caem sobre elas e não sobre o que proíbem Tanto que o proibido se dispensa logo a lei não é lei não só porque o que se concede o um não se pode negar a outros senão também e muito mais porque o que se concede a um que o pede também se há de conceder aos outros ainda que o não peçam 112 Pediu o filho pródigo a seu pai que lhe desse em vida a parte da herança que lhe pertencia Pater da mihi portionem substantiae quae me contingit Lc 1512 Bem mostrou na petição o que havia de ser ou o que já era Vem cá moço louco e atrevido não sabes que os filhos não herdam a seus pais senão depois da morte Pois como te atreves a pedir a teu pai que te dê a tua herança estando vivo e como se te mete em cabeça que ele te há de conceder uma coisa tão alheia de toda a razão e de toda a lei Fiou se no grande amor que o pai lhe tinha e o amor assim como é cego para conceder assim é fraco para negar Enfim o bom velho dispensou na lei comum e deulhe a parte da herança que lhe pertencia mas com uma circunstância notável porque os filhos eram dois e quando deu a sua parte a este deu também a sua ao outro Divisit illis substantiam14 Repara muito no caso S Pedro Crisólogo e admirase com razão de que sendo um só filho o que pediu esta dispensação o pai a concedeu logo a ambos Uno petente ambobus totam substantiam mox divisit Que o pai em sua vida dê a parte da herança a um filho porque lha pede muito tinha que duvidar mas passe porém o outro filho que não teve tal desejo nem pediu tal coisa porque lhe dá também logo a sua parte e não o deixa esperar pelo fim de seus dias É certo que o pai não obrou prudentemente no que concedeu àquele filho e mais quando o devia conhecer mas uma vez que lhe deu a ele a sua parte procedeu coerentemente em dar também ao outro a sua porque a dispensação que se concede a um porque a pede não se pode negar a outro ainda que a não peça Uno petente ambobus mox divisit É o caso do nosso Evangelho mas decidido mais altamente por Cristo Os apóstolos eram doze dois pediram dez não pediram e se o Senhor concedesse aos dois o que pediam porque pediram também o havia de conceder aos dez posto que não pedissem Pois assim como o pai do pródigo obrou coerentemente em conceder ao filho que não pediu o que tinha concedido ao que pedira assim o Senhor com mais alta coerência negou aos dois que pediram o que se não devia conceder nem a eles nem aos dez que não tinham pedido O pai pela petição de um despachou a ambos e Cristo pelo despacho dos dois respondeu a todos mas o pai imprudentemente porque relaxou a lei concedendo e a Senhor divinamente porque a estabeleceu negando 113 Eu não nego que em matéria de conceder e negar pode haver maior razão em uns que em outros mas a conseqüência de concederdes a outro logo não me haveis de negar a mim é argumento que se não solta com maior razão Vendose Raquel estéril e que sua irmã Lia tinha muitos filhos pediu a Jacó que admitisse ao tálamo uma escrava sua por nome Bala para que as filhos que dela houvesse por serem da sua escrava fossem de algum modo seus Gên 30459 Já o casamento de Raquel lhe tinha custado a Jacó o casamento aborrecido de Lia e agora lhe havia de custar o indecente de Bala mas a tudo se sujeita quem ama Nasceram filhos a Bala e não contente Lia com quatro legítimos que já tinha pediu também a Jacó que admitisse outra escrava sua chamada Zelfa Há tal perseguição de mulheres Que vos parece que faria Jacó neste caso Para conceder aquela con solação a Raquel além das obrigações do amor alguma razão tinha mas a Lia não amada e cercada de filhos Contudo concedeu Jacó com esta segunda petição e admitiu a Zelfa Pois se Lia nenhuma razão tinha para o que pedia e pedia só por emulação e apetite um homem tão racional e tão justo como Jacó porque lhe concede o que pede Porque já o tinha concedido a Raquel Se Jacó negara a Lia esta petição haviao de reconvir com a de sua irmã e não havia de sofrer que se lhe negasse a ela o que a Raquel se tinha concedido E posto que a disparidade era tão manifesta como ser Raquel estéril e Lia fecunda Lia ter tantos filhos e Raquel nenhum nenhuma destas considerações havia de bastar para que Lia sossegasse porque contra o argumenta de negar a um o que se concede a outro e contra a força ou forçosa ou forçada desta conseqüência não valem soluções de maior razão 114 Persuadase o príncipe que o que se concede a um porque o pede também se há de conceder aos outros ainda que o não peçam Entenda que as dispensações e privilégios não só são feridas da lei mas feridas mortais e que a lei morta não pode dar vida à república considere que as leis são os muros dela e que se hoje se abriu uma brecha por onde possa entrar um só homem amanhã será tão larga que entre um exército inteiro Olhe para as leis políticas para as ordenanças militares e para tantas pragmáticas econômicas que sendo instituídas para remédio vieram por esta causa a ser descrédito E seja a última e única resolução do príncipe justo tratar as suas leis como suas sustentandoas e mantendoas em seu vigor inviolável e indispensavelmente porque o que a lei nega a todos sem injúria depois que se concede a um ainda que seja com razão não se pode negar a outro sem agravo E é melhor mais fácil e mais decente que as mesmas leis digam o não conservandose do que quebrálas o príncipe pelo não dizer VI Quarto meio de evitar o não antecipar os provimentos e não ter lugares vagos Diligência da natureza em impedir o vácuo S Pedro e o lugar vago de Judas O provimento da sucessão de Davi D João Segundo o rei do Bom Memorial Cristo aos Zebedeus responde que os lugares a que pretendiam já estavam providos A política do céu criar antes os oficiais que os ofícios 115O quarto e último meio ou indústria de evitar o não é antecipar os provimentos e não ter lugares vagos porque tanto que o lugar está provido cessam as pretensões Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo e que em todo o universo não haja lugar vazio A este fim vemos subir a água descer o ar moverse a terra romperse os mármores estalarem os brasões e correrem todas as criaturas com ímpeto contra suas próprias inclinações Daqui nascem os freqüentes terremotos e os extraordinários e horrendos que não poucas vezes derrubaram e destruíram cidades inteiras O mesmo que faz a natureza por impedir o vácuo faz a ambição pelo ocupar Em havendo lugares vagos de todas as partes concorrem tumultuariamente a eles os pretendentes não por impedir que só se impedem uns a outros mas por ocupar o vácuo e tanto com maior e mais violento ímpeto quanto a natureza acode ao bem comum do universo e a ambição ao particular de cada um E quais sejamos terremotos e perturbações da república que aqui se levantam basta que o digam as batalhas interiores de Roma no concurso dos consulados No governo monárquico é muito fácil atalhar todos estes inconvenientes antecipando o vácuo de tudo aquilo que se pode pretender ou pedir com prevenir vigilantemente que não haja lugares vagos E assim o deve fazer todo o prudente príncipe 116 Partindose Cristo para o céu mandou a seus apóstolos e discípulos que se recolhessem a Jerusalém e que assim esperassem a vinda do Espírito Santo que não tardaria muitos dias Fizeramno assim recolhidos ao cenáculo E S Pedro que já tinha recebido a investidura de Príncipe da Igreja sem esperar que o Espírito Santo viesse a primeira e única coisa que logo fez foi prover como proveu em S Matias o lugar que estava vago pela morte de Judas Ninguém haverá que se não admire desta notável resolução e ação de S Pedro em tal lugar e tal tempo O tempo em que os apóstolos se haviam de repartir pelo mundo não era chegado nem havia de ser como não foi senão daí a alguns anos depois de compostos e bem assentados os fundamentos de um tão grande edifício como era o da nova e universal Igreja Pois por que não dilata S Pedro este provimento ao menos por alguns dias e por que não espera que desça o Espírito Santo sobre ele para fazer com mais infalível acerto a eleição daquele lugar Porque tanto importa e tanto entendeu S Pedro que importava que os lugares não estejam vagos nem por um momento Oportet foi a primeira palavra com que começou a sua proposta o grande Príncipe do Apostolado e as últimas com que concluiu a sua oração Accipere locum ministerii hujus et apostolatus de quo praevaricatus est Judas ul abiret in locum suum15 Os que ali se achavam como nota o evangelista eram cento e vinte homens que bastava serem homens para se temer algum inconveniente Erat autem curba hominum simul fere centum viginti At 1 15 Os que se converteram e se lhes agregaram no mesmo dia em que desceu o Espírito Santo foram três mil Et appositae sunt in die illa animae circiter tria millia At 2 41 O número que depois acresceu foi muito maior e em tanta multidão de gente toda capaz de aspirar e pretender aquele lugar se estivesse vago bem se vê quão perigosa ocasião podia ser perturbar a paz e esfriar a união dos que convinha que fossem como verdadeiramente diz o Evangelho que eram Cor unum et anima una16 Pois para prevenir este perigo e os inconvenientes que dele humanamente se podiam temer provejase logo o lugar diz S Pedro e não esteja um momento vago donde se seguirá que vendoo os presentes e achandoo os que vierem provido a todos se tire a ocasião de o pretender ou pedir Nem se podia duvidar que o provimento que parecia antecipado e a eleição dele seria acertada porque como S Pedro por razão do seu ofício tinha segura a assistência do Espírito Santo posto que o mesmo Espírito Santo desceu sobre todos visivelmente ao décimo dia naquele mesmo dia desceu invisivelmente sobre S Pedro como já tinha descido quando eficazmente lhe inspirou que não dilatasse o provimento 117 Se assim o fizerem os príncipes seculares a quem também por seu modo não falta a assistência do Espírito Santo esta será uma discreta política com que livrem aos pretendentes do trabalho ou tentação de pedir e a si mesmos das ocasiões de negar A maior e mais dificultosa ocasião que tem havido neste gênero foi o provimento da sucessão de Davi Queria Davi e sabia que era conveniente ao bem do reino que o seu sucessor fosse Salomão e que assim o tinha Deus decretado Contra isto estava ser Salomão ilegítimo e menor e Adonias seu competidor não só legítimo mas de todos os filhos de Davi que então viviam o primogênito e como tal assistido do séquito comum do Eclesiástico e popular e de grande parte da milícia Era chegado o negócio a termos que em um banquete que naquele dia tinha dado Adonias a todos os príncipes e senhores da sua parcialidade já se lhe faziam os brindes à saúde de elrei Teve notícia disto naquela mesma hora Davi e que resolução tomaria Selese diz a minha mula que eram os cavalos de que então usavam os reis monte nela Salomão e ungido pelo profeta Natã saia por Jerusalém com trombetas e atabales diante e digam todos Viva elrei Assim se executou no mesmo ponto Ouviuse no banquete com assombro o som das trombetas soubese o que se passava retiraramse cheios de medo os convidados e todos no mesmo dia beijaram a mão a Salomão Mas que razão deu de si Davi e do que tinha mandado Como respondeu ao direito e pretensão de Adonias E como enfeitou ou adoçou o não de o não ter nomeado a ele Nenhuma coisa lhe disse nem teve necessidade de lha dizer porque vendo Adonias o lugar provido compôsse com sua fortuna foi beijar a mão a Salomão e nem a ele nem a seu pai replicou uma só palavra Tanto importa o pronto provimento dos lugares para pôr silêncio à ambição dos pretendentes e também ao não dos príncipes 118 A praxe desta política exercitou gloriosamente no nosso reino elrei Dom João o Segundo digno de ser chamado Dom João o do Bom Memorial assim como Dom João o Primeiro se chamou o de Boa Memória Tinha este prudentíssimo rei um memorial secreto no qual trazia apontados todos os que se avantajavam em seu serviço ou fossem ministros do estado ou da justiça ou da fazenda ou da guerra e segundo o merecimento de cada um lhes tinha destinado os lugares e prêmios assim como fossem vagando Era provérbio dos hebreus de que também usou Cristo Ubicumque fuerit corpus illic congregabuntur et aquilae Lc 17 37 Onde houver corpo morto logo ali correrão as águias Fala das águias vulturinas que são aves de rapina as quais têm agudíssima vista e sutilíssimo olfato e em vendo ou cheirando corpo morto logo correm a empolgar e cevarse nele Assim sucede com a ambição dos pretendentes a todos aqueles por cuja morte vaga ofício comenda vara cadeira mitra governo ou outro emolumento útil e pingue em que empregar não digo as unhas as mãos Mas que fazia nestes casos cotidianos o rei do bom memorial Como nele tinha já destinadas as pessoas a quem havia de fazer o provimento respondia que já o lugar ofício ou benefício estava provido e as águias que corriam famintas aos despojos do morto encolhiam as asas embainhavam as unhas e ainda que queriam grasnar tapavam o bico 119 É o que aconteceu hoje aos nossos dois pretendentes A razão com que Cristo lhes tapou a boca foi com dizer que aqueles lugares já estavam destinados e dados a outrem Non vobis sed quibus paratum esta Patre meo17 Se vós soubéreis que para se proverem os lugares do meu reino não se espera que concorram os pretendentes a pedilos senão que muito antes disso estão já destinados é certo que os não pretendereis nem pedireis mas porque não sabeis este estilo do meu governo por isso pedis e não sabeis o que pedis Nescitis quid petatis No mesmo caminho em que se fez esta petição acabava Cristo de dizer que ia a Jerusalém a morrer João era a águia e Diogo seu irmão e como lhe cheirou o corpo morto também quiseram empolgar e aproveitarse da oca sião mas ainda que os lugares que pediam tivessem sido do morto e ele fora como os outros mortos que morrem e não ressuscitam nem por isso sabiam o que pediam porque o segredo altíssimo de destinar os lugares antes que vaguem faz que ainda que morram as pessoas os ofícios sempre ficam e estão vivos Imitem pois os príncipes aquela regra universal da natureza Corruptio unius est generatio altenius18 E assim como ela não permite que a matéria esteja sem forma nem por um instante assim eles tirem do mundo a vacância dos lugares e não consintam que vaguem ou estejam vagos um só momento senão sempre providos e vivos 120 Podem replicar a isto os nossos pretendentes que os lugares que pediam não eram vacantes senão criados ou que se haviam de criar de novo Mas também esta instância se desfaz como quibus paratum est e com a prevenção ou predestinação dos providos Deus quando cria ofícios de novo primeiro cria os oficiais que os ofícios e assim já nascem providos sem terem instante de vagos No princípio do mundo criou três presidências duas no céu e uma na terra mas primeiro criou os presidentes que as presidências A primeira presidência do céu foi a do sol para que presidisse ao dia e a segunda a da lua para que presidisse à noite mas antes que criasse estas presidências já tinha criado um e outro presidente Fecit duo luminaria magna luminare majus ut praeesset diei luminare minus ut praeesset nocti Gênl 16 A presidência da terra foi a do homem sobre todos os animais do mar do ar e da mesma terra mas também estava já criado o presidente antes que criasse a presidência Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram et praesit piscibus maris et volatilibus coeli et bestiis universae que terrae19 O mesmo estilo observou Deus em todos os ofícios que criou de novo Houve de criar de novo o reino de Israel e primeiro criou o rei e mandou ungir a Saul por Samuel do que criasse e lhe desse a reino Houve de criar de novo o ofício de restaurador do mundo e primeiro e cem anos primeiro nomeou a Noé e lhe mandou fabricar a arca do que lhe desse e exercitasse o ofício Não posso deixar de me lembrar neste passo de quantas vezes se têm visto as naus da Índia de vergas de alto sem se saber nem estar nomeado quem as há de governar Nós começamos as nossas naus pela quilha Deus começou a sua pelo piloto Assim o fez também Cristo Muito antes de morrer nomeou a S Pedro e depois de ressuscitar lhe entregou a barca Imitem esta política do céu os príncipes da terra dos oficios que se criarem façam primeiro os oficiais que os ofícios e nos ordinárias e de sucessão tenham lhes prevenidos os sucessores para que vagando não estejam vagos E desta sorte ativa e passivamente cessará em grande parte o desagradado não VII Como dizer não quando é forçoso negar A cizânia e a resposta do pai de famílias aos criados zelosos Escusar um não com outro como fez Labão a Jacó Razões da escusa de elrei Aquis a Davi 121 Temos apontado os meios com que antecipadamente se podem atalhar ou diminuir as ocasiões de se dizer nem ouvir este tão dura advérbio Mas porque se podem oferecer contudo algumas em que seja forçosa negar vejamos agora o modo ou modos com que nos tais casos com menos sentimento dos vassalos e menor mortificação do príncipe se há de dizer não Elrei que está no céu disse a um seu confidente que tinha vinte e quatro modos de negar Teve esta notícia um embaixador que havia tempos requeria certo despacho e com a confiança de criado antigo que tinha sido de Sua Majestade deu uma nova instância com estas palavras Cá ouço que Vossa Majestade tem vinte e quatro modas de negar Senhor se Vossa Majestade tem vinte e quatro modos de negar eu tenha vinte e cinco de pedir Quais fossem estes vinte e quatro modos de negar eu o não sei nem me ocorrem mas como são e podem ser mais os modos de pedir necessário será contra a importunidade dos pretendentes repulsálos talvez com um não mais ou menos desenganado segundo o que pedir a matéria 122 Primeiramente me parece que são merecedores de um não muito claro e muito seco certo gênero de alvitreiros que inventando e oferecendo novos arbítrios e indústrias de acrescentar o erário ou fazenda real juntamente dizem e aqui bate o ponto que eles hão de ser também os executores e para isso pedem meios e jurisdições Nasceu cizânia diz Cristo entre a seara de um pai de famílias o que vendo os criados vieram lago mui zelosos encarecendo aquela perda da fazenda de seu amo e oferecendose a ir mondar a seara e arrancar a cizânia Vis imus et colligimus ea Quereis senhor que a vamos colher Mt 1328 Colher disseram e não arrancar porque estes zelos e oferecimentos sempre se encaminham à colheita Respondeu o pai de famílias sem lhes agradecer o cuidado E que respondeu Ait illis Non Disselhes Não Mt 1329 Assim se há de responder com um não muito seco e muito resoluto a semelhantes propostas O pai de famílias entendia melhor da lavoura que os criados Os criados representavam a utilidade e o amo reconhecia as inconvenientes eles diziam que queriam mondar a seara e ele reconheceu que haviam de arrancar o trigo Ne colligentes zizania eradicetis simul et triticum Mt 1329 Nem se há de fazer o que quereis nem o haveis de fazer vós farseá a seu tempo e fáloão os segadores que é seu ofício e o entendem In tempore messis dicam messoribus20 Quando os que não entendem as coisas nem têm experiência delas oferecem alvitres e se oferecem para os executar sendo as utilidades só aparentes as ocasiões intempestivas e os danos certos como ordinariarnente acontece despidaos o pai de famílias a eles e às suas propostas e digalhes um não muito resumido e muito claro Ait illis Non 123 Em outras ocasiões de negar se costuma escusar um não com outro e por que é modo muito ordinário e usado não é bem que passe sem exame e sem censura Negou Labão a Jacó o prêmio de sete anos de serviço em que se concertaram e em lugar de Raquelque foi pior que negar como quem paga com moeda falsa lhe introduziu a Lia Descobriu à luz do dia o engano queixouse Jacó a Labão de lhe não ter dado a Raquel Nonne pro Raquel servivi tibi21 E que satisfação lhe daria Labão que quer dizer o cândido Desculpou um não com outro não dizendo que não era costume da sua terra casarem em primeiro lugar as filhas segundas Non est in loco nostro consuetudinis ut minores ante tradmus ad nuptias Gên 2926 É costume da vossa terra não cumprir o prometido É costume da vossa terra enganar É costume da vossa terra mentir É costume da vossa terra faltar à justiça e à razão e dar por escusa que não é costume Passemos da terra de Labão à nossa Em toda a terra como demonstra Aristóteles é lei natural que os sábios governem e mandem e que os que menos sabem obedeçam e sirvam Em toda a terra é lei natural confirmada com as civis que os que forem mais eminentes em cada gênero subam aos maiores lugares e tenham os primeiros prêmios Mas tirase por exceção a nossa terra na qual para alcançar estes prêmios e para subir a estes lugares não basta a eminência dos talentos nem dos merecimentos se falta certo grau de qualidade bastando só esta qualidade sem outro merecimento nem talento para pretender e alcançar ou alcançar sem pretender os mesmos lugares E se os estrangeiros se admiram e pasmam de ver que os homens que eles e o mundo venera não ocupem aqueles postos respondese a este não com outro não Non est in loco nostro consuetodinis 124 Se um dos nossos pretendentes do Evangelho e seja S Tiago que veio a Portugal viera hoje e em lugar da cadeira que pediu pretendera a de qualquer bispado do Reino haviamlhe de responder que no reino não porque era filho de um pescador que o maior favor que se lhe podia fazer era darlhe um bispado ultramarino e logo lhe nomeariam satiricamente o de Meliapor por ser na Costa da Pescaria Se Josué conquistador de trinta e três reinos e de quem se prezou o sol de ser soldado quisesse ser capitãogeneral também lhe haviam de opor que tinha sido criado de Moisés e José o qual teve maior indústria que todos os homens para adquirir fazenda a seu rei e maior fidelidade para a conservar se quisesse ser vedor da fazenda vede se lho consentiriam as ovelhas que tinha guardado seu pai Não falo em Bartolo se lhe viesse ao pensamento a regência da justiça ou a Navarro a da consciência porque o segundo tendo ensinado em Portugal com assombro de todas as universidades o que aprendeu na de Coimbra foi a tomar por si o não e ir morrer em terras estranhas por que se lhe não dissesse na nossa Non est in loco nostro consuetudinis A censura deste que se chama costume é que não é costume senão abuso contrário à natureza à razão à virtude e prejudicial à república e que os príncipes que se escusam com este modo de não ele não só os não escusa mas acusa e condena mais fazendo os odiosos aos vassalos ao mundo e ao mesmo Deus o qual por isso fez a todos os homens filhos do mesmo pai e da mesma mãe 125 Excluído pois este abuso particular da nossa terra o modo que em todas e todos aprovam e os melhores políticos ensinam como o mais decente é que nas ocasiões de negar para abrandar a dureza do não depois de mandar consultar as matérias se escuse o sábio príncipe com seus conselhos É necessário porém advertir neste meio que deve ser aplicado com tal moderação e cautela que por enfeitar o não não se afeie a autoridade do rei nem o crédito dos conselhos nem as mesmas razões da escusa Negou elrei Aquis a Davi a licença que lhe pedia para o servir em certa guerra como aventureiro entre suas mesmas tropas e escusou o não com os seus conselheiros Non places satrapis22 Porém antes de chegar a pronunciar este não e depois dele fez com juramento em protesto mais honrado para quem o ouvia que para quem o jurava Vivit Dominus quia rectus es tu et bonus in conspectu meo sed non ploces satrapis Scio quia bonus es tu in oculis meis sicut angelus Domini 1 Rs 2969 Jurovos Davi que no meu conceito sois reto e bom e me pareceis tão bom e tão reto como um anjo de Deus mas não contentais aos do meu conselhoQuantas coisas se negam aos grandes sujeitos como Davi não porque não sejam dignos e digníssimos delas mas porque não contentam ao conselho dos reis Se dissera que lhes não contentavam os oferecimentos de Davi motivos podiam ter para isso mas que lhes não contentava a pessoa Non places E se o conceito do rei era tão diverso que o tem por homem justo e bom e que mais lhe parece anjo que homem por que se não conforma orei antes com o seu parecer e com o seu juízo que como descontentamento dos conselheiros E já que se conforma com eles na resolução porque a intima a Davi floreada de tantos louvores que os mesmos louvares confutam e condenam a negativa Tudo isso disse Aquis para enfeitar o não com que negava a Davi o que lhe pedia mas com estes mesmos enfeites asseou primeiramente a autoridade e soberania de rei porque seguindo o voto dos conselheiros contra o juízo e experiência própria mostrou que era súdito dos seus conselhos e não superior e senhor asseou também o crédito dos mesmos conselhos porque dizendo que Davi lhes não contentava mostrou que se governavam mais pelo aspecto das pessoas que pelo merecimento das causase asseou finalmente a mesma razão com que se escusava porque sendo os procedimentos de Davi tão retos como ele reconhecia jurava e tinha experimentados eles mesmos desfaziam toda a chamada razão da escusa e convenciam ser pretexto Havendo pois o príncipe de se escusar ou escudar com os seus conselhos diga que mandou considerar a matéria e que se conformou com eles e não diga mais VIII Aleguem os príncipes herdeiros os decretos e disposições dos pais como fez Cristo aos dois irmãos Zebedeus Causas do infausto reinado de Roboão filho de Salomão Jacó e a bênção de Manassés e Efraim 126 Isto é Senhor o que prudentemente ensina a política humana confirmada mais altamente com os documentos da sagrada que tenho referido o meio porém que sobre todos repre sento e ofereço a Vossa Alteza para a feliz administração do cetro que com particular providência pôs nas reais mãos de Vossa Alteza a divina é o exemplo do Filho de Deus nas palavras que tomei por tema tão próprias do tempo circunstâncias e ocasião presente que parecem ditadas e escritas só para ela Negou Cristo aos dois irmãos os lugares que pediam e o meio com que lhes adoçou a eles o não e com que o fez decoroso e decentíssimo para si foi com alegar os decretos e disposições de seu pai Non est meum dare vobis sed quibus paratum est a Patre meo Não é meu diz o Senhor concedervos o que pedis porque esses lugares já meu Pai os decretou para outros e assim como dele herdei o poder assim dele hei de seguir e confirmar os decretos Isto é o que devem imitar os príncipes herdeiros e tanto mais gloriosamente quanto filhos de pais mais gloriosos É conseqüência natural que com o sol que se põe se escureçam uns lugares e com o que nasce se alumiem outros e esta é a alva ou o alvo das pretensões no oriente dos reis que começam e ocaso dos reis que acabam Mas o príncipe que teve a fortuna de suceder a um pai tão digno das saudades dos vassalos como da imitação dos filhos com se referir às eleições de seu pai se livra de inovar outras Se João e Diogo o a por si ou por outrem fizerem instâncias responda com o formulário do Rei dos Reis Non vobis sed quibus paratum est a Patre meo e serlheá tão fácil o não como decoroso e reverente 127 Haverá não duvido como sempre há nos novos reinados ambições desejosas de se introduzir que aconselhem e persuadam o contrário Mas quais sejam os efeitos destas novidades que tão docemente se ouvem e tão facilmente se abraçam bem o podem ver os conselheiros e os aconselhados e sacramentar se quiserem no novo e infausto reinado de Roboão filho de elrei Salomão por cuja morte o juraram todas as doze tribos de Israel nas cortes de Siquém Assentaram também nas mesmas cortes pedir ao novo rei os aliviasse dos tributos que pagavam no tempo de seu pai os quais por ocasião das fábricas assim do Templo como dos palácios reais e muito mais pela excessiva despesa com que Salomão sustentava tanto número de rainhas chegaram a ser insuportáveis Feita esta petição diz o texto sagrado que chamou Roboão a conselho os velhos do tempo de seu pai e que todos lhe aconselharam concedesse benignamente aos povos o que tão justamente pediam porque assim lhes ganharia as vontades e se conservaria no reino Não se aquietando porém Roboão com este conselho diz o mesmo texto que consultou o negócio com os moços com quem se tinha criado e o assistiam e que aconselhado por eles respondeu ao povo que o seu dedo meiminho era mais grosso que seu pai pela cintura e que conforme esta diferença da sua grandeza não só lhes não havia de moderar o açoite dos tributos mas que se as correias no tempo de seu pai eram de couro no seu haviam de ser de ferro Pater meus caecidit vos flagellis ego autem caedam vos scorpionibus23 Este foi o conselho e esta a resposta e o sucesso em suma qual se podia esperar de tal resposta e de tal conselho Porque das doze tribos que juraram a Roboão por rei as dez lhe negaram logo a obediência e a deram a Jeroboão criado que tinha sido de seu pai querendo antes ser vassalo de um criado de Salomão que de um tal filho de Salomão 128 E se buscarmos a origem de tão infeliz e desastrado sucesso em que um rei sem batalha perdeu as dez partes do seu reino para si e para todos seus descendentes em uma hora acharemos que foi por não querer conservar os ministros antigos que assistiam ao lado de seu pai e tomar outros Assim o diz e pondera a Escritura Reliquit consilium senum qui assistebant coram Salomone patre ejus cum adhuc viveret et adhibuit adolescentes qui nutriti fuerant cum eo et assistebant illi24 Notai este e aquele assistebant A causa próxima da ruína de Roboão foi deixar o maduro conselho dos velhos experimentados e tornar o dos moços orgulhosos e sem experiência Mas a origem dessa mesma causa esteve num passo mais atrás que foi mudar os ministros que assistiam ao lado de seu pai Qui assistebant coram Salomone patre ejus e criar de novo aqueles com que se tinha criado para que o assistissem a ele Qui nutriti fuerant cum eo et assistebant illi A última decocção dos negócios fazse entre ministros que estão ao lado dos reis como se viu neste mesmo caso e se os mesmos que assistiam a Salomão assistissem a seu filho o voto destes havia de ser o que prevalecesse e os povos ficariam contentes o reino inteiro o rei obedecido e amado e Roboão que dizia que era maior que seu pai tão grande como ele 129 Nem deve passar sem advertência a repetição enfática com que o texto sagrado depois de dizer Assistebant corom Salomane acrescenta Patre ejus Parece desnecessário esta nova expressão pois de toda a narração da história constava ser Salomão pai de Roboão Mas foi nota e ponderação digníssima de se não dissimular como de uma maior circunstância que notavelmente agrava o caso Porque ainda que os ministros de quem Salomão em sua vida se tinha servido junto à sua pessoa por serem ministros do rei mais sábio que teve o mundo mereciam ser estimados honrados e conservados no lugar que com ele tinham só por serem ministros de seu pai ainda que esse pai não fora Salomão se devia Roboão servir deles e têlos sempre junto a si e fazer maior confiança da sua fidelidade da sua verdade do seu zelo e do seu amor que do de todos os outros Amicum tuum et amicum patris tui ne dimiseris Prov 2710 diz o Espírito Santo por boca do mesmo Salomão O amigo que foi amigo de teu pai não o apartes de ti E que mais têm os amigos que foram amigos dos pais do que os amigos novos e particulares dos filhos Têm de mais aquela diferença que há entre o certo e o duvidoso Os amigos novos que os filhos elegem poderá ser que sejam bons e fiéis amigos mas os que foram amigos dos pais já é certo que o são porque estes já estão experimentados e provados aqueles ainda não Até em Deus tem sua força esta conseqüência Quando Deus apareceu a Moisés na sarça não sabendo ele quem era disselhe Ego sum Deus Patris tui Êx 36 Eu sou o Deus de teu pai irás libertara povo e dirlheás para que te dêem credito que o Deus de seus pais te manda Deus patrum vestrorum misiti me ad vos Êx 313 Queriaos libertar do cativeiro de Faraó e para os assegurar deste grande benefício não só disse que era Deus que o podia fazer mas que era Deus de seus pais para que estivessem certos que o faria Por isso disse sabiamente Isócrates que os mais seguros amigos são os que se herdaram A amizade dos que se fazem de novo é duvidosa a dos que se herdaram e vem de pais a filhos certa E daqui conclui este famosíssimo filósofo Liberos haeredes esse non nodo facultatum sed amicitiarum paternarum Que os filhos não só são e devem ser herdeiros da fazenda dos pais senão também dos amigos Se Roboão assim como herdou a coroa herdara também os amigos de seu pai ele não perdera o reino mas porque herdando o reino quis fazer novos amigos eles o perderam 130 Quando estes se quiseram introduzir à assistência da pessoa e lugares do lado de Roboão facilmente e sem os escandalizar lhes pudera ele dizer que estavam diante os que tinham servido a seu pai e de quem ele tinha feito eleição Non vobis sed quibus paratum est a Patre mea Mas o erro de Roboão esteve em que os que se tinham criado com ele a primeira coisa que lhe persuadiram foi que as suas eleições haviam de ser melhores Porque se puderam tanto com as suas lisonjas e se cegou tanto com elas o pobre moço que se persuadiu e se atreveu a dizer que o seu anel tinha maior roda que o cinto de seu pai como lhe não meteriam também em cabeça que sendo seu pai Salomão sabia mais que ele Esta é a cegueira em que ordinariamente caem os filhos dos reis e por isso em sucedendo no governo mudam criados e ofícios e quanto seus pais tinham ordenado não advertindo que em matéria de prover lugares sabem mais os pais com os olhos fechados que os filhos por mais sábios que sejam com eles abertos Estava Jacó já cego com a velhice quando seu filho José lhe presentou os dois netos Manassés e Efraim para que lhes lançasse a bênção Era Manassés o maior e por isso lho pós José à mão direita como a Efraim porque era o menor à esquerda porém Jacó cruzou e trocou as mãos e pôs a direita sobre a cabeça de Efraim e a esquerda sobre a de Manassés Não senhor replicou José que este sobre que pondes a mão direita é o menor e o maior fica à esquerda E que responderia Jacó Que responderia o pai cego Scio fili mi scio Gên 4819 Bem sei filho meu qual é o maior e o menor e bem sei também o que faço Sei qual é o maior e o menor porque sei o que vós vedes e sei também o que faço porque sei o que não vedes Vós vedes só as idades desses dois meninos eu vejolhes as idades e mais as fortunas E porque a fortuna de Efraim há de ser muito maior que a de Manassés por isso ponho a mão direita sobre o que vós tendes por menor e a esquerda sobre o outro José era tão sábio como todos sabem e como experimentou e admirou o Egito onde sucedeu este caso E contudo Jacó estando cego via duas vezes mais que José e sabia duas vezes mais que ele Scio fili mi scio porque mais sabe como dizia um pai com os olhos fechados que o mais sábio filho com eles abertos Cuidem os filhos e não desconfiem de que se cuide que seus pais sabem mais que eles 131 Uma vez perguntaram os discípulos a Cristo quando havia de restituir o Reino de Israel e outra vez quando havia de ser o dia do Juízo e de ambas as vezes se escusou o Senhor com responder que estes segredos só os sabia seu pai Pois Mestre divino em quem o mesmo pai têm depositado os tesouros de sua sabedoria não sabeis vós também estes dois segredos Sim sei mas seios para os guardar não os sei para os dizer Excelente solução e esta é a verdadeira destes dois textos Será bem contudo Senhor que cuidem os vossos discípulos que não sabeis tudo Como a comparação não é mais que entre meu Pai e mim cuidem embora Nenhum filho deve desconfiar de que se cuide que seu pai sabe mais que ele E assim o há de entender e supor como também Cristo o supunha enquanto homem E se alguém me replicar que este ou seja conhecimento ou modéstia não é tão decente nem tão decoroso nos outros filhos como em Cristo porque seu pai é Deus diga que os outros pais em respeito de seus filhos também são deuses ou quando menos que os filhos os devem estimar e venerar como tais para seguir seus ditames Filii probi parentes suos tanquam deos quosdam visibiles colunt et observant diz Filo Os bons filhos reveneram a seus pais como deuses visíveis e como de tais observam seus exemplos Esta sentença tomoua o Platão dos hebreus do Platão dos gregos o qual chamou aos pais domestica numina deuses domésticas e acrescenta que os ditames dos pais como de deuses hão de ser recebidos e observados dos filhos não como conselhos ou preceitos senão como oráculos Parentum dogomata afiliis velut oracula excipienda sunt Finalmente porque não faça dúvida esta doutrina que Platão ditou sem fé de Deus e Filho sem fé de Cristo e para que dela possamos colher e gozar os abundantes e felicíssimas frutos que nossas esperanças nos prometem fechemos este tão importante discurso com o oráculo irrefragável do Espírito Santo o qual mandou pregar pelo filho de Sirac a todos os filhos Judicium patris audite filii et sic facite ut salvi sitis25 Filhos ouvi o juízo de vosso pai e fazeio assim para que vos conserveis nesta vida e vos salveis na outra NOTAS Sermão da Sexagésima 1 A semente é a palavra de Deus Lc 811 2 O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus e vir chuva sobre justos e injustos Mt 545 3 Que coisa há que eu devesse ainda fazer à minha vinha que lhe não tenha feito Is 54 4 Ferindo duas vezes com a vara a pederneira saíram dela águas copiosíssimas Núm 2011 E endureceuse o coração de Faraó Ex 713 5 E partiramse as pedras Mt 2751 E tecendo uma coroa de espinhos ha puseram sobre a cabeça Mt 2729 6 E a pedra se encravou na sua testa 1 Rs 1749 7 Davi tomava a harpa e a tocava com a sua mão1 Rs 1623 8 E o Verbo se fez carne Jo 1 14 9 Nós outros o veremos bem como ele é 1 Jo 32 10 A fé é pelo ouvido Rom 1017 11 Punham as ovelhas os olhos nas varas e pariam as suas crias manchadas e várias e pintadas de diversas cores Gên 30 39 12 Os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos SI 181 13 Não há linguagem nem fala por quem não sejam entendidas as suas vozes SI 184 14 Aparelhai o caminho do Senhor Mt 33 15 Daqui a quarenta dias será Nínive subvertida Jon 34 16 Pátroclo com as armas de Aquiles foi vencido e morto 17 Farei que vós sejais pescadores de homens Mt 419 18 E lhes apareceram repartidas umas como línguas de fogo que repousaram sobre cada um deles At 23 19 Sete trovões fizeram ouvir as suas vozes Apc 103 20 Pregando o batismo de penitência para remissão de pecados como está escrito no livro das palavras do profeta Isaias Lc 33s 21 Quem são estes que voam como nuvens Is 60 8 22 Tardo de língua Êx 410 Voce gracili segundo os Setorta Am 11 23 O que tem a minha palavra anuncie a minha palavra verdadeiramente Jer 2328 24 Não só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus Mt 44 25 D Hieronymus in Prólogo Galeato Sola o scripturarum aes est quam sibi possim omines vinditant et cum oures populi sermone composite mulserint hoc legem Dei putant nec scire dignantur quid Prophetae quid Apostoli senserit sed ad sensum suum incogrua optant testimonia quasi grande sit et non viyiosissimum dicendi genus depravare sententias et ad voluntatem suam scripturam trahere repugnantem 26 E dão fruto pela paciência Lc 8 15 27 Porque somos feitos espetáculo ao mundo e aos anjos e aos homens 1 Cor 49 A Vulgata traz mundo e não Deo Sermão da QuartaFeira de Cinza 1 Lembrate homem que és pó e em pó te hás de converter 2 Aquele que é e que era e que há de vir Apc 14 3 Eu disse Sois deuses Mas vós como homens morrereis SI 816s 4 Desde o ventre trasladado para a sepultura Jó l0 19 5 Mas vós como homens morrereis e caireis como um dos príncipes SI 817 6 Moço eu te mando levantate Lc 714 7 Não dês crédito ao demasiado colorido 8 Lv Hieronymus hic iii quoestHebraic Lyran Hugo Abul etc 9 Augustinus in sentent ultima 10 Aug ibid 11 Também as pedras e os nomes morrem 12 Hier Aug Ambr Tertullian Ecumen Cossiod Betior Suar et plures apud Cornelium ibi 13 As portas do inferno não prevalecerão contra ela Mt 1618 14 Eu dormi e estive sepultado no sono e levanteime SI 36 15 In textu graeco Job 2918 16 Eu disse à podridão Tu és meu pai e aos bichos Vós sois minha mãe e minha irmã Jó 17 14 17 Porque eu sei que o meu Remidor vive e que eu no derradeiro dia surgirei da terra Jó 1925 18 PIat in Timaeo Philabo Menon Et lib de Rep Aristotel I de Animo cap 4 et Iib 3 cop 4 et Iib 2 de Gen anim 19 Surgirei da terra e serei novamente revestido da minha pele e na minha própria carne verei a meu Deus a quem eu mesmo hei de ver e meus olhos hão de contemplar e não outro Jó 1925 ss 20 Crês isto Sim SenhorJó 1126 21 Sêneca De Consolat ad Marciam Ep 57 et Ep 117 22 Tu que me retiras das portas da morte SI 9 15 23 Disse Agora começo SI 76 11 Sermão do Nascimento da Virgem Maria 1 Minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida JÓ 6 56 2 Tendes convosco a Arão e a Hur se sobrevier alguma disputa consultáloseis Êx 24 14 3 Gên 19 26 Ex 43 717 4 Gen 1 4 Ita S Basil Naz Theodoret et alii apud Suar de op sex dier 5 Êx 16 18 6 Jos 10 12 Obediente Deo voci hominis Núm 20 8 7 Fazei isto em memória de mim Lc 2219 8 Sen in Tyest Act 4 9 Tertul Apol Cap 21 et 23 10 Tare pai de Abraão e de Nacor serviram a deuses estranhos Jos 242 Ita Masius hic Phil de Abrah Genebrard ei Hebraei 11 Ovid 1 et 3 Metamorph Stat in Sylu Ovid 10 Metamorph Lib 4 Fast 12 Virg Aeneid 8 13 Ovid de Remed L 2 14 Virg Aeneid 4 15 Horat L 3 Ode 16 16 Ovid 14 Metamorph 17 Contaramme os ímpios coisas frívolas mas não como tua lei SI11885 18 Na Vulgata Non enim doctas fabulas secuti notam fevirtutem et praesentiam cimus vobis Domini nostri Jesu Christi Porque não vos temos leito conhecer a virtude e a presença de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosas 2 Pdr 1 16 19 Aqui está o pão que desceu do céu O que come deste pão viverá eternamente Jo 659 20 Porque um anjo do Senhor desceu do céu e chegando revoltou a pedra e estava sentado sobre ela Mt 282 21 Bebiam da pedra misteriosa que os seguia e esta pedra era Cristo 1 Cor 104 22 Eis aqui o Cordeiro de Deus eis aqui o que tira o pecado do mundo Jo 129 23 Eu sou a videira vós outros as varas Jo 155 24 Este é o meu corpo que se dá por vós Lc 2219 25 Na Vulgata Este cálice é o Novo Testamento em meu sangue que será derramado por vós Lc 2220 26 Jo 2 l Mt l4 19 27 Aug Tract 24 in Joan 28 SI 14717 Eccles in Officio de Sacrameirio 29 Esse fica em mim e eu nele Jo 6 57 30 Ele em nenhum lugar tomau aos anjos mas tomau a descendência de Abraão Hebr 2 16 31 Pela tua mesma boca te condeno eu Lc 1922 32 Deixou um consolo singular aos que se entristeciam com sua ausência D Thomas Opusc 57 33 Eilo aí está posto por detrás da nossa parede olhando pelas janelas estendendo a vista por entre as gelosias Cânt 29 34 Tendo desejo de ser desatado da carne e estar com Cristo Flp 123 35 A Sabedoria edificou para si uma casa preparou o vinho e dispôs a sua mesa Enviou as suas escravas a chamar à fortaleza e às muralhas da cidade Prov 9 1 ss 36 E ele tomou a serpente antiga que é o diabo e Satanás e meteuo no abismo e fechouo para que não engane mais as gentes Apc 2025 Até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus a estado de varão perfeito etc Ef 4 13 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1 Da qual nasceu Jesus Mt 116 2 Aug Lib III de coas Evang c 24 3 Porque o sol pode nascer de duplo modo de modo perfeito quando nasce e aparece sobre a terra e de outro modo quando sua luz começa a aparecer com a aurora e neste sentido é aqui tomado o nascimento do sol 4 D Thom q 67 art 4 et q 70 art 2 ad 3 sequutus Dion Areop c 4 de Div Nom Suar de Op sex Dier L 2 c 8 et alii 5 É vontade de Deus que nada tenhamos senão pelas mãos de Maria 6 Amb in Hexam Lib 1 c 9 7 A noite passou e o dia vem chegando Rom 1312 8 D Basil in Hexamerou 9 O homem quando estava na honra não o entendeu foi comparado aos brutos irracionais Sl48 13 10 D Dionys Areopag de D nomim Cap 4 11 Hiero Athan Basil 12 Bern Vestis eum et vestiris ab eo 13 No sol pôs o seu tabernáculo SI 186 Tinha a lua debaixo dos pés Apc 12 1 Sermão de Santo Inácio 1 Não sabeis o que pedis Mt 2022 2 Não há quem a console Jer Tren 117 3 Sereis como uns deuses Gên 3 5 4 Dize que estes meus dois filhos se assentem etc Não me pertence a mim o darvolo Mt 202123 5 Sen De Beneficiis lib IV cap 1 6 In vita Joan 7 Sent Tulii Loudata a Hiero 8 Virg Aeneid 12 9 Quantos jornaleiros há em casa de meu pai que têm pão em abundância e eu aqui pereço à fome Lc 1517 10 Nem todos compreendem esta palavra Mt 19 11 11 Rogovos que ma deis por esposa Jz 142 12 Ovid Metamorph 2 13 Os bilhetes da sorte lançamse numa dobra do vestido mas o Senhor é quem os tempera Prov 1633 14 Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber É verdade que vós haveis de beber o meu cálice Mt 2022ss 15 Val Max 17 c 2 16 Mas pelo que toca a terdes assento à minha mão direita ou à esquerda não me pertence a mim o darvolo Mt 2023 17 Senhor darseá o caso que restituas neste tempo o reino a Israel At 1 6 Sermão da Terceira Dominga da Quaresma 1 E sede vós outros semelhantes aos homens que esperam a seu senhor Lc 12 36 2 O santo que há de nascer de ti Lc 1 35 3 Sede meus imitadores bem como eu também o sou de Cristo 1 Cor 111 4 Plinius Liv 35 c 9 5 Fazendose semelhante aos homens e sendo reconhecido na condição como homem Flp 27 6 Euseb in ejus vita Processões De proceder 7 Desde os seus lombos e daí para cima e desde os seus lombos até baixo vi uma como aparência de fogo resplandescente ao redor Ez 127 8 Salva o povo a quem remiste Apud Theoph in Cabala 9 Não foi encontrado outro semelhante a ele guardou a lei do Excelso Eclo 4420 10 Não há semelhante a ele na terra Jó 18 11 Mas não se achava para Adão adjutório semelhante a ele Gên 220 12 Prega a toda a criatura Mc 1615 13 Em sua carne ratificou a aliança Eclo 4421 14 Na prova foi achado fiel Eclo 4421 Jz 1134 15 Ele se multiplicaria como o pó da terra Eclo 4422 Gên 4922 16 Lhe daria por herança o continente de mar a mar e desde o rio Eufrates até às extremidades da terra Eclo 4423 SI 718 17 Abençoou nele todas as nações Eclo 4425 Gên 264 18 Claudian 19 Ovid de Ponto 20 Senec Ep 55 21 Aug Serm 109 de Temp 22 D Th Opiusc 60 et 3 p q 1 Art I Doam Serm 1 De Nativits Virg 23 S Thereza in epistol propria manuscripta apud Eusebium in vita S Ignat c 40 er saepe se vocat filiam Societatis A Puente in vira P Balthazaris Alvares er alii 24 No espírito e virtude de Elias Lc 117 25 Não julgou que fosse nele uma usurpação o ser igual a Deus mas ele se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo Flp 26 5 26 Fizme tudo para todos 1 Cor 922 27 Afeite adorno enfeite Sermão do Santíssimo Sacramento 1 Depois de ter expelido o demônio falou o mudo e se admiraram as gentes Lc 1114 2 Irei buscar a meu pai e dirIheei Pai pequei contra o céu e diante de ti Lc 1518 3 Deus te salve Mestre E deulhe um ósculo Mt 2649 4 Bemaventurado o ventre que te trouxe Lc 1127 5 Ele expele os demônios em virtude de Belzebu Lc 1115 6 Marcela segundo a tradição cristã foi a mulher que exaltou a Mãe de Jesus no milagre da cura de um possesso Luc 1127 7 Quem O que Onde Com que meios Por quê Por que modo Quando 8 Fez Deus pois dois grandes luzeiros um maior que presidisse ao dia outro mais pequeno que presidisse a noite Gên 116 9 Irejiaeus Cyrillius Epiphanius Efren et communtler Patres 10 Eu acendo o lume com a metade desta madeira e então do resto farei eu um ídolo Is 4419 11 Arrojou da sua mão as tábuas e as quebrou Êx 3219 12 Pois Arão o tinha despojado e o tinha deixado nu Êx 3225 13 E foram quase vinte e três mil homens os que caíram mortos Êx 3228 14 Não subirei contigo visto seres um povo de cerviz dura Êx 333 15 Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles e que eu os consuma Ex 32 10 16 Eu vos criei e eu vos sustentarei Is 464 17 Se dormirdes entre o meio das sortes herdades sereis como as penas da pomba argentadas e os remates do lombo dela em amarelidão de ouro SI 67 14 18 O poder da terra está na mão de Deus e ele a seu tempo suscitará um governador útil A prosperidade do homem está na mão de Deus e e ele que põe o sinal da sua majestade sobre a fronte do escriba Eclo 104 19 Cornelius hic Scribae vocabantur qui erant proximi a rege quorum erat nomine regis decreta concipere scribere promulgare conservare 20 Nascerá o sol da justiça e estará a salvação nas suas asas Mal 42 21 Verdadeiramente o ponteiro mentiroso dos escribas gravou a mentira Jer 8 8 22 A fé é pelo ouvido Rom 1017 23 Permitiulhes que fizessem de Jesus o que quisessem Lc 23 25 Que me quereis vós dar e eu volo entregarei Mt 2615 24 Eu sou inocente do sangue deste justo Mt 2724 Pequei entregando o sangue inocente Mt 274 25 Reinará na casa de Jacó Lc 132 26 Habitava em tendas Gên 25 27 27 Sem competência sem rival 28 Temo não cuide ele que eu o quis enganar e não chame eu sobre mim a sua maldição em lugar de tenção Gên 2712 29 Seu marido será ilustre na assembléia dos juizes quando estiver assentado com os senadores da terra Prov 3123 30 E veiohe um suor como de gotas de sangue que corria sobre a terra Lc 2244 31 Pai meu se é possível Mt2639 32 Não te envergonhes de confessar os teus pecados mas não te submetas a ninguém para pecar EcIo 4 31 Sermão da QuintaFeira da Quaresma 1 0 Senhor vosso Deus vos tenta para se fazer manifesto se o amais ou não Deut 13 3 2 Provera a Deus que nós fôssemos mortos no Egito quando lá estávamos assentados junto às panelas das carnes Êx 163 3 Eis aí vou eu fazer chover para vós pães do céu Êx 164 4 A nossa alma se enfastia já deste manjar Núm 215 5 Acomodandose à vontade de cada um Sab 1621 6 A alma deles aborreceu toda a comida Sl 106 1 8 7 Vemnos à memória os pepinos os melões os porros e as cebolas e os alhos Núm 115 8 O Em Card Barberino instituidor desta devoção 9 Bom é que nós estejamos aqui Mt 174 Lc 933 10 Mestre bom é que nós aqui estejamos e façamos três tendas uma para ti e outra para Moisés e outra para Elias não sabendo o que dizia Lc 933 11 E o seu rosto ficou refulgente como o sol ML 172 12 Uma nuvem os cobriu Mt 175 13 E eis que saiu uma voz da nuvem que dizia Ouviuo ML 175 14 Nenhum homem me verá e depois viverá Ex 3320 15 Porque esteve firme como se visse ao invisível Hebr 1127 16 Os serafins estavam sobre ele seis asas tinha um e seis asas outro com duas cobriam a sua face Is 62 17 Cheia está toda a terra da sua glória Is 63 18 E as coisas que estavam debaixo dele enchiam o templo Is 6 1 19 E a casa se encheu de fumo Is 64 20 Cinge a tua espada ao teu lado ó poderosíssimo Com a tua beleza e com a tua formosura entesa o arco vai adiante felizmente e reina SI 44 45 21 Que tiveste tu ó mar que fugiste E tu Jordão para retrocederes SI 1135 22 Na presença do Senhor perante o Deus de Jacó SI 1137 23 De Deus não se zomba Gál 67 24 Ai de vós os que agora rides porque gemereis e chorareis Lc 6 25 25 Por onde ele o recobrou também nesta representação Hebr 119 26 Hier contra Jovenianum 27 De grandes asas Sermão de Nossa Senhora de Penha de França 1 Viu um homem que era cego Jo 91 2 De entre as trevas e a escuridão verão os olhos dos cegos Is 29 18 3 E te pus para ser a reconciliação do povo para luz das gentes para abrires os olhos dos cegos Is 4265 4 Tu és o que hás de vir ou é outro o que esperamos Mt 113 5 Ide contar a João o que ouvistes e vistes Os cegos vêem Mt 114 s 6 Quem é o cego senão o meu servo Quem é o cego senão o que foi vendido E quem é o cego senão o servo do Senhor 7 Is 1015 17 192lss 8 Conhecido é Deus na Judéia SI 75 1 9 De sorte que não puderam mais atinar com a porta Gên 19 1 10 Que apertado é o caminho que guia para a via Mt 7 14 11 E os seus sepulcros serão as suas casas para sempre SI 48 12 12 Esta é a porta do Senhor os justos entrarão por ela SI 117 20 13 Arist Polit 10 14 Mas os olhos dos dois estavam como fechados para o não conhecerem Lc 2416 15 Esse é que é prendeio E o prenderam E não me prendestes Mt 26485055 16 Que é isso que vós ides praticando e conferindo um como outro e porque estais tristes Lc 2417 17 Este homem não é de Deus Jo 916 18 Ai de vós os que ao mau chamais bom e ao bom mau Is 520 19 Os teus profetas viram para ti coisas falsas Lam 214 20 É sangue derramado pela espada os reis pelejaram contra si e de parte a parte se mataram 4 Rs 323 21 Até estando eu presente quer na minha mesma casa fazer violência à rainha Est 78 22 Se um cego guia a outro cego Mt 15 14 23 Em Roma ninguém pode viver de outro modo 24 Senhor que eu veja Lc 1841 25 E o pai levantandose começou a correr cego tropeçando com os pés Tob II 10 26 E no mesmo ponto se lhes abriram os olhos Gên 3 10 27 Sabemos que Deus não ouve a pecadores Jo 931 Nós sabemos que esse homem é um pecador Jo 924 28 Logo também nós somos cegos Jo 940 29 Como viram que estava já morto não lhe quebraram as pernas Jo 19 33 30 Sabe desde agora que a tua posteridade será peregrina numa terra estrangeira e será reduzida à escravidão e aflita por quatrocentos anos Gên 15 13 31 Ita omnes interpretes Sermão no Sábado Quarto da Quaresma 1 Livro da geração de Jesus Cristo Filho de Davi Filho de Abraão Mt 1 1 2 Jó 3338 3 Ez 173 Prado Corn et alii ibi 4 Não sei para que lado voltarme 5 Pois que foram na verdade muitos os que empreenderam pôr em ordem a narração das coisas que entre nós se viram cumpridas Lc 11 6 Gilb Serm47 in Cant S Maxim In praef Ad Mistagog Ecclesiast 7 Falai à pedra Núm 208 8 Não havia enfermo nas tribos deles SI 10437 9 E dividiu a luz das trevas e se fez o dia primeiro Façase o firmamento no meio das águas e se fez o dia segundo Produza a terra erva verde e se fez o dia terceiro Gên 1456811 13 10 Descansou no dia sétimo de toda a obra que fizera Gên 23 11 Meu Pai até agora não cessa de obrar e eu obro também Jo 517 12 Os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos Um dia diz uma palavra a outro dia SI 18ls 13 Apud Theophilum Rayn 14 A Glosa Interlineal de Anselme de Laen um dos mais célebres glosadores latinos morto em 1117 tem esse nome por ter o autor explicado entre os linhos da Vulgata as palavras mais ou menos obscuras ou equívocas das Escrituras Sagradas 15 Deixou memória das suas maravilhas o Senhor que é misericordioso e compassivo Deu sustento aos que o temem SI 11O4s 16 Obceca o coração deste povo para que não suceda que veja com seus olhos Is 610 17 Por isso vós não as ouvis porque não sois de Deus Jo 847 18 Tens a reputação de que vives e tu estás morto Apc 31 19 Deixa que os mortos sepultem os seus mortos Mt 822 20 Eu sou a ressurreição e a vida Jo 1125 Sermão das Lágrimas de São Pedro 1 Diziam pois isto os judeus tentandoo para o poderem acusar Jo 8 6 2 Lev 2010 Deut 22202124 Dan 1362 3 E não sabia que do seu rosto saíam uns raios Êx 3429 4 E servirá de pedra de tropeço e de pedra de escândalo laço de ruína E tropeçarão e cairão e serão quebrantados e enredados e presos Is 814 s 5 Dize que estas pedras se convertam em pães Mt 43 6 Para que não suceda tropeçares em pedra como teu pé Mt 46 7 Não só de pão vive o homem Mt 44 8 Não tentarás ao Senhor teu Deus Mt 47 9 Por que me tentais Mt 22 ít 10 Como o surpreenderiam no que falasse Mt 2215 11 Consultaram entre si como o surpreenderiam no que falasse Mt 2215 12 A força do pecado é a lei 1 Cor 1556 13 Dificultosa coisa pediste 4 Rs 210 14 Mas seja o vosso falar Sim sim Não não Mt 537 15 O homem não vive só do pão Deut 83 16 Não tentarás ao Senhor teu Deus Deut 616 17 Temerás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás Deut 613 18 Dela estão pendentes mil escudos toda a amadura dos esforçados Cânt 44 19 E como eles perseveravam em fazerlhe perguntas Jo 87 20 Apareceram uns dedos como de mão de homem que escrevia Dan 55 21 Porque ainda não entendiam a Escritura que importava que ele ressuscitasse dentre os mortos Jo 209 22 Não digais a pessoa alguma o que vistes enquanto o Filho do homem não ressurgir dos mortos Mt 179 23 Ver notas 151617 24 Tábuas escritas com o dedo de Deus Deut 910 25 Pelo dedo de Deus lanço os demônios Lc 1120 26 Segundo o príncipe das potestades deste ar Ef 22 27 E espadas de dois fios nas suas mãos para fazer vingança nas nações castigos nos povosSl1496s 28 Firamolos à espada Lc2249 29 Esta é a vossa hora e o poder das trevas Lc 2253 30 S August Tract 33 In Joan S Ambr Ep 76 Ad Stud 31 Foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo Mt 4 1 32 Tentandoo para o poderem acusar Jo 8 6 33 O Senhor o deu o Senhor o tirou Bendito seja o nome do Senhor Jó 121 34 Em todas estas coisas não pecou Jó pelos seus lábios nem falou coisa alguma indiscreta contra Deus Jó 122 35 Tenho falado nesciamente por isso me repreendo a mim mesmo e faço penitência no pó e na cinza Jó 4236 36 Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que o atrai e alícia Tg 1 14 37 A serpente me enganou Gên 313 38 Porque não temos um pontífice que não possa compadecerse das nossas enfermidades mas que foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança exceto o pecado Cheguemonos pois confiada mente ao trono da graça a fim de alcançar misericórdia Hebr 415 s 39 Nem eu tampouco te condenarei Jo 811 Não peques mais Jo 811 40 Será acaso que alguém lhe trouxesse de comer Jo 433 41 E eis que chegaram os anjos e o serviram Mt 411 42 E ficou só Jesus e a mulher que estava em pé Jo 89 43 E a levarei à soledade e lhe falarei ao coração Os 214 Sermão do Mandato 1 Cantou o galo e voltandose o Senhor pôs os olhos em Pedro E tendo saído para fora chorou amargamente Lc 2260 ss 2 Não basta a voz do pregador se não houver juntamente o olhar de Cristo para o pecador 3 As minhas lágrimas foram o meu pão SI 414 4 Viu uma mulher 2 Rs 112 5 Viu pois a mulher que a árvore era boa para comer Gên 3 6 6 Que coisa há de pior que semelhante olho Ecl 3115 7Banhará de lágrimas todo o seu rosto quando olhar Ecl 3115 8 Para ver em que parava o caso Mt 2658 9 Abriramselhe os olhos para o que antes não se tinham aberto 10 O meu olho quase me roubou a vida Lam 351 11 Se o teu olho for mau todo o teu corpo estará em trevas Mt 623 12 Do coração é que saem os maus pensamentos Mt 1519 13 Se o meu coração seguiu os meus olhos Jó 317 14 Aporta os meus olhos para que não vejam a vaidade SI 11837 15 Nem os seus olhos se fartam de riquezas Ecl 48 16 O meu olho se turvou à vista do furor Sl 6 8 17 Não te deixarás tocar de compaixão Deut 7 16 18 Seja ele preso no laço dos seus olhos Jdt 913 19 E não neguei aos meus olhos coisa alguma de quanto eles desejaram Ecl 210 20 Pela concupiscência dos seus olhos Ez 2316 21 Os meus olhos olharam com desprezo SI 53 9 22 Não via com bons olhos 1 Rs 189 23 Humilharás os olhos dos soberbos SI 1728 24 O olho do avaro não se sacia Eclo 149 25 Olhos prostituídos pela fornicação Ez 69 26 Conturbado como pesar está o meu olho SI 30 10 27 O olho do invejoso é mau Eclo 148 28 0s nossos olhos não vêem senão maná Núm 116 29 Os meus olhos desfaleceram SI 87 10 30 Lance de si os tropeços dos seus olhos Ez 207 31 As abominações dos seus olhos Ez 20 8 32 Da mesma fonte de onde se originou o pecado correm incessantes lágrimas 33 Não o sou Lc 22 58 34 Não conheço tal homem Mt 2672 35 Homem eu não sei que é o que tu dizes Lc 2260 36 Aturamos o peso do dia e da calma Mt 2012 37 Estes que vieram últimos não trabalharam senão uma hora Mt 2012 38 Tu os igualaste conosco Mt 2012 39 Acaso o teu olho é mau Mt 20 15 40 Ovid Ep 10 41 Todas as noites regarei com minhas lágrimas o meu estrado SI 6 7 42 Quem dará água à minha cabeça e uma fonte de lágrimas a meus olhos e eu chorarei de dia e de noite Jer 91 43 Nem a menina do teu olho se cale Lam 211 44 Fiz concerto com os meus olhos de certamente não cogitar nem ainda em uma virgem Jó 31 1 45 Lugar dos que choram Jz 25 46 Ali haverá choro Mt 812 47 E foram abertos os livros Apc 2012 Sermão da Bula da S Cruzada 1 Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai como tinha amado os seus que estavam no mundo amouos até o fim Jo 13 1 2 O amor é valente como a morte Cânt 86 3 De passar deste mundo ao Pai Jo 131 4 Eu saí do Pai e vim ao mundo outra vez deixo o mundo e torno para o Pai Jo 1628 5 Ó tu a que habitas nos jardins os teus amigos estão atentos fazeme ouvir a tua voz Cânt 813 6 Foge amado meu e fazete semelhante a uma cabra montesa e aos veadinhos sobre os montes dos aromas Cânt 814 7 Eilo aí vem saltando sobre os montes atravessando os outeiros Cânt 28 8 Achei eu aquele a quem ama a minha alma aferrei dele nem o largarei Cânt 34 9 Não fala em preferências 10 A vós convémvos que eu vá Jo 167 11 Este sacramento é grande mas eu o digo em Cristo e na Igreja Ef 5 32 12 Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa Lc 2215 13 Achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens Prov 831 14 Os seus que estavam no mundo Jo 13 1 15 Que tiveste tu ó mar que fugiste E tu Jordão para retrocederes SI 1135 16 Amouos até o fim e acabada a ceia Jo 131 5 17 Ninguém tem maior amor do que este de dar alguém a própria vida por seus amigos Jo 1513 18 Ninguém te condenou mulher nem eu tampouco Jo 8 l0s 19 Basil Sel Orat 32 20 Se arrancou deles e posto de joelhos orava dizendo Pai se é do teu agrado transfere de mim este cálice Lc 2241 s 21 Demoraivos aqui e vigiai comigo E adiantandose uns poucos de passos se prostrou como rosto em terra fazendo oração e dizendo Pai meu se é possível passe de mim este cálice Mt 26 38 s 22 De novo se retirou segunda vez e orou dizendo Pai meu se este cálice não pode passar Mt 2642 E deixandoos de novo foi orar terceira vez dizendo as mesmas palavras Mt 2644 23 Abaixando a cabeça rendeu o espírito Jo 1930 24 A minha alma se acha numa tristeza mortal Mc 1434 E começou a ter pavor e a angustiarse Mc 1433 25 E veiolhe um suor como de gotas de sangue que corria sobre a terra Lc 2244 26 Ninguém lhe lançou as mãos porque não era ainda chegada a sua hora Jo 7 30 27 E ninguém o prendeu porque nau era ainda chegada a sua hora Jo 820 28 Tenho desejo de ser desatado da carne e estar com Cristo mas o permanecer em carne é necessário por amor de vos Flp 1 23 Sermão da Bula da S Cruzada 1 Um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água Jo 1934 2 Cancelando a cédula do decreto que havia contra nós a qual nos era contrária e a aboliu inteiramente encravandoa na cruz Col 214 3 Vai mostrate ao Príncipe dos Sacerdotes Mc 1 44 4 Que nos havia de livrar das mãos de nossos inimigos e das mãos de todos os que nos tivessem ódio Lc 1 75 5 Naz in Trag 6 A tua fé te salvou Lc 750 7 Ó mulher grande é a tua fé Mt 1528 8 Façasete segundo tu creste Mt 813 9 Tudo é possível ao que crê Mc 922 10 O que recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta e o que recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo Mt 1041 11 Tenho sede Jo 1928 12 Aug in sentent 328 13 Tesouro das satisfações superabundantes de Cristo Bellarmin de Indulg L I Cap 2 14 D Thom p 1 q 92 ati 3 15 S Hypol Epist ad Regin 16 E tornando logo a entrar com grande pressa onde estava o rei pediu dizendo Quero que sem mais demora me dês num prato a cabeça de João Batista Mc 6 25 17 D Hier Ep 83 18 Tu feriste o meu coração irmã minha esposa tu feriste o meu coração com um dos teus olhos Cant 49 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1 Tu és pó e em pó te hás de tornar Gên 3 19 2 Quando os fados o querem 3 Sêneca Ep 32 4 Está decretado aos homens que morram uma só vez Hebr 927 5 Multiplicarei os teus trabalhos Gên 316 6 Na guerra não se pode errar duas vezes 7 Rirá no último dia Prov 3125 8 Tu lhe demarcaste os limites dos quais ele não pode passar Jó 145 9 Árvores do outono sem fruto duas vezes mortas Jud 12 10 Extat hioc epitaph in Lib Sales Musarum Quidquid sit de veritate historiae vide Spondanum an 1308 11 E me revelaste o segredo e o escondido do teu saber Sl 50 8 12 Por isso eu te farei descansar com teus pais e serás sepultado em paz no teu sepulcro 4 Rs 2220 13 Falei com a minha língua Fazeme conhecer Senhor o meu fim Sl 385 14 Porque não sabeis o dia nem a hora Mt 2513 15 Breves são os dias do homem em teu poder está o número dos seus meses Jó 145 16 Passam os seus dias em prazeres e num momento descem à sepultura Jó 2113 17 É necessário meter tempo entre os afazeres da vida e o dia da morte 18 Daime quietação e sossego antes de morrer e assim sairei desta vida em paz sem os terrores de consciência que então costumam aparecer 19 A vida do homem sobre a terra é uma guerra Jó 71 20 Porventura o pequeno número de meus dias não acabará em breve Deixame pois que eu chore um pouco a minha dor antes que vá para não tornar Jó 10 20 21 Quando eu ainda a estava urdindo ele me cortou Is 3812 22 Na metade de meus dias irei para as portas do inferno Jó 3810 23 Desde o ventre trasladado para a sepultura Jó 1019 24 Homens sanguinários e enganadores não chegarão à metade de seus dias Sl 5424 25 Depois da morte não há mais prazer 26 Em paz dormirei nele mesmo e repousarei Sl 49 27 Cansamonos no caminho da iniquidade Sab 5 7 Sermão da Rainha Santa Isabel 1 O reino dos céus é semelhante a um homem negociante que busca boas pérolas E tendo achado uma de grande preço vai vender tudo o que tem e a compraMt 1345s 2 Em toda a história de Lacedemônia encontrase apenas uma mulher de rei esposa de rei e mãe de rei Pin Lib De Suinmo FeL 3 Comprou um campo vendeu lenços e viu que a sua negociação é boa Prov31162418 4 Repartiu a presa a seus domésticos Prov 3115 5 A sua candeia não se apagará de noite Prov 3118 6 Muitas filhas ajuntaram riquezas tu excedeste a todas Prov 3129 7 Ela se vestiu de finíssimo linho e de púrpura Prov 3122 8 Seu preço excede a tudo quanto vem de remontadas distâncias e dos últimos confins da terra Prov 3110 9 Não necessitará de despojos Prov 3111 10 O reino dos céus é semelhante a um homem rei que fez as bodas a seu filho Mt 22 2 11 Entrou o rei para ver os que estavam à mesa Mt 2211 12 Querei há que estando para ir para a campanha contra outro rei Lc 1431 13 Foi para um país muito distante tomar posse de um reino Lc 19 12 14 Deixai vir a mim os pequeninos porque dos tais é o reino dos céus Mc 1014 15 E ele teve setecentas mulheres que eram como rainhas 3 Rs 113 16 Deu tudo o que tinha e a comprou 17 O qual tendo a natureza de Deus se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo FIp 26s 18 Apareceu um grande sinal no céu uma mulher vestida do sol que tinha a lua debaixo de seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça Apc 121 19 Toda a glória da que é filha do rei é de dentro em franjas de ouro toda vestida de vários adornos Sl 4414s 20 Se livras a este não és amigo do César porque todo o que se faz rei contradiz ao César Jo 19 12 21 Não temais aos que matam o corpo Mt 10 28 22 Não queirais confiar nos príncipes em quem não há salvação Sl 145 3 23 Um campo viçoso no profundo abismo Sab 197 24 Farás sobre ela uma coroa de ouro em roda Ex 2511 25 Vallis Salivarum a respeito desta observação anotamos aqui outra observação de Vieira sobre o mesmo Mar Morto no Sermão do Santíssimo Sacramento neste volume onde diz o que nós hoje chamamos Mar Morto e naquele tempo se chamava Vallis Sallinarum porque só se tirava dele sal No Dictionnaire de la Bible de Vigouroux entre os vários nomes por que é designado o Mar Morto não consta esta denominação de Vallis Sallivarum 26 Ele se promete que o Jordão entrará pela sua boca Jó 40 18 27 Comoveuse a terra na presença do Senhor perante o Deus de Jacó Sl 1137 28 Eis aí te constituí Deus de Faraó Êx 71 29 Se és Filho de Deus Mt 43 30 Todo o nome que Adão pôs de alma vivente esse é o seu nome Gên 219 31 O Não permitirás que o teu santo veja a corrupção Sl 15 10 32 E agora ó reis entendei instruívos os que julgais a terra Sl 2 10 Sermão da Glória de Maria Mãe de Deus 1 Maria escolheu a melhor parte Lc 10 42 2 Quem é esta que se levanta escolhida como o sol Cânt 69 3 Sêneca De Offic Lib 2 4 Plutarco in AIexandro 5 Sidon Apol Epist ad Audac 6 Horatius 7 Nazianzen ad Nicobulum 1 e 2 8 Aug ad julian 9 Aqui está Camaam teu servo vá ele mesmo contigo e faze dele o que lor mais do teu gosto 2 Rs 1937 10 Já que fizeste esta ação todas as gentes da terra serão benditas naquele que há de proceder de ti Gên 2217 s de Isac é que há de sair a estirpe Gên 21 12 11 Mas ele se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo fazendose semelhante aos homens e sendo reconhecido na condição como homem pelo que Deus também o exaltou e lhe deu um nome que é sobre todo o nome Flp 279 12 Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho Flp 2 l0 13 Pai a ninguém julga mas todo o juízo deu ao Filho Jo 522 14 Disse o Senhor ao meu Senhor Sentate à minha mão direita SI 109 1 15 Eu porém fui por ele constituído rei sobre Sião seu monte santo O Senhor disse para mim Tu és meu filho SI 26s 16 Assim amou Deus ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito Jo 3 16 Sermão da Primeira Dominga da Quaresma 1 E lhe mostrou todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse Tudo isto te darei se prostrado me adorares Mt 48 s 2 Na Vulgata Porque escrito está que mandou a seus anjos que cuidem de ti e eles te tomarão nas palmas para que não suceda tropeçares em pedra com o teu pé Mt 46 Lc 4 10s 3 Ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só servirás Mt 410 4 Dela estão pendentes mil escudos toda a armadura dos esforçados Cânt 44 5 Todas as nossas armas estão contidas nas Sagradas Escrituras 6 Na Escritura como em uma botica cada um poderá encontrar o remédio certo para a sua enfermidade 7 Porquanto nem foi erva que os sarou nem lenitivo algum mas sim a tua palavra Senhor que sara todas as coisas Sab 1612 8 Vaite Satanás Mt 410 9 Londin in Hist Flandr 10 Foise dandoselhe pouco de ter vendido o seu direito de primogenitura Gên 2534 11 Palavras do Eclesiastes filho de Davi rei de Jerusalém Vaidade de vaidades e tudo vaidade Ecl 11 12 Mentirosos são os filhos dos homens em balanças eles conspiram concordemente em vaidade para usar de enganos SI 618 13 Bendita cruz transformada em balança de cujos braços pende a salvação do mundo roubando ao inferno a presa 14 Que se deu a si mesmo para redenção de todos Tim 26 15 Ao qual constituiu herdeiro de tudo Hebr 12 16 Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas Jo 13 3 17 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai Mt 1127 18 Trarei cada um até mim 19 Como já o diabo tinha metido no coração a Judas começou a lavar os pés aos discípulos Jo 1325 20 Um de vós é o diabo Jo 671 21 Satanás entrou em Judas e buscava ocasião oportuna de lho entregar Entretanto chegou o dia dos pães asmos no qual era necessário imolarse a Páscoa Lc 22367 22 Darteei todo este poder e a glória destes reinos porque eles me foram dados e eu os dou a quem bem me parecer Lc 46 23 Neste tempo foi degolado elrei de Inglaterra 24 Cristo morreu por todos 1 Cor 515 25 Que se deu a si mesmo para redenção de todos 1 Tim 26 26 Fala alternadamente com Deus e com o rei Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1 Não me pertence a mim o darvolo mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai Mt 2023 2 Excitouse entre eles a questão sobre qual deles se devia reputar o maior Lc 2224 3 Onde eu estiver estará ali também o que me serve Jo 12 26 4 Hoje serás comigo no Paraíso Lc 2343 5 Por cuja causa roguei ao Senhor três vezes 2 Cor 128 6 Este é para mim um vaso escolhido At 9 15 7 A sua graça não tem sido vã em mim antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos 2 Cor 15 10 8 Pelo mais me está reservada a coroa da justiça que o Senhor justo juiz me dará 2 Tim 48 9 Dize que estes meus dois filhos se assentem no teu reino um à tua direita e outro à tua esquerda Mt 20 2t 10 Estou para dar aos pobres metade dos meus bens e naquilo em que eu tiver defraudado a alguém pagarlhoei quadruplicado Lc 198 11 Não matarás não fornicarás não furtarás não dirás falso testemunho Êx 2013 ss 12 Pôs diante do Paraíso um querubim com uma espada de fogo para guardar o caminho da árvore da vida Gên 324 13 Não sabeis o que pedis Mt 2022 14 Repartiu entre ambos a fazenda Lc 1512 15 Para que tome o lugar deste ministério e apostolado do qual pela sua prevaricação caiu Judas para ir ao seu lugar At 125 16 O coração era um e a alma uma AL 432 17 Não me pertence a mim o darvolo mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai Mt 2023 18 A corrupção de uns é a geração de outros 19 Façamos o homem à nossa imagem e semelhança o qual presida aos peixes do mar às aves do céu aos animais selváticos e a toda terra Gên t 26 20 No tempo da ceifa direi aos segadores Mt 1330 21 Porventura não te servi eu por amor de Raquel Gên 2925 22 Tu não agradas aos príncipes 1 Rs 29 6 23 Meu pai açoitouvos com correias e eu açoitarvosei com escorpiões 3 Rs 1214 24 Abandonou aconselho dos velhos que faziam corte a Salomão seu pai quando este ainda vivia e consultou os moços que tinham sido criados com ele e que lhe assistiam 3 Rs 126 8 25 Ouvi filhos os avisos RocketEdition TM eBooksBrasil wwwebooksbrasilcom Março 2000 pdf eBooksBrasilorg Maio 2008 Sermão de QuartaFeira de Cinzas Padre Antônio Vieira 1 Trecho sobre A memória da morte Padre Vieira afirma a importância de manter a memória da morte viva Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte 2 Trecho sobre a relação de oposição entre estacidade e movimento Padre Vieira cria uma oposição entre movimento e estaticidade ao falar sobre os vivos e os mortos Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet 3 Trecho em que faz uso de metáfora como estilo discursivo Um exemplo de metáfora utilizada por Vieira ocorre na passagem que compara a vida humana ao pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído 4 O que é a morte para Antônio Vieira com trecho de comprovação Para Vieira a morte é uma reversão inevitável ao estado original de pó um ciclo entre o pó da vida e o da morte Ele vê a morte como parte natural da existência humana e um retorno ao pó como se refere na passagem Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser Sermão de QuartaFeira de Cinzas Padre Antônio Vieira 1 Trecho sobre A memória da morte Padre Vieira afirma a importância de manter a memória da morte viva Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte 2 Trecho sobre a relação de oposição entre estacidade e movimento Padre Vieira cria uma oposição entre movimento e estaticidade ao falar sobre os vivos e os mortos Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet 3 Trecho em que faz uso de metáfora como estilo discursivo Um exemplo de metáfora utilizada por Vieira ocorre na passagem que compara a vida humana ao pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído 4 O que é a morte para Antônio Vieira com trecho de comprovação Para Vieira a morte é uma reversão inevitável ao estado original de pó um ciclo entre o pó da vida e o da morte Ele vê a morte como parte natural da existência humana e um retorno ao pó como se refere na passagem Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser

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Padre Antônio Vieira SERMÕES edição eBooksBrasil Sermões Parte 1 Vieira Padre Antônio 16081697 Fonte digital Ministério da Cultura Fundação BIBLIOTECA NACIONAL Departamento Nacional do Livro wwwbnbr httpwwwbnbrbibvirtualacervo RocketEditionTM eBooksBrasilcom Copyright Domínio Público ÍNDICE Nota Informativa O Autor Sermões Sermão da Sexagéssima 1655 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1672 Sermão do Nascimento da Virgem Maria 1657 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1669 Sermão de Santo Inácio 1669 Sermão da Terceira Dominga da Quaresma 1655 Sermão do Santíssimo Sacramento 1674 Sermão da QuintaFeira da Quaresma 1669 Sermão de Nossa Senhora de Penha de França 1652 Sermão no Sábado Quarto da Quaresma 1652 Sermão das Lágrimas de São Pedro 1669 Sermão do Mandato 1670 Sermão da Bula da S Cruzada 1647 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1673 Segunda Parte Sermão da Rainha Santa Isabel 1674 Sermão da Glória de Maria Mãe de Deus 1644 Sermão da Primeira Dominga da Quaresma 1655 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1670 Notas MINISTÉRIO DA CULTURA Fundação Biblioteca Nacional Departamento Nacional do Livro SERMÕES Parte 1 Padre Antônio Vieira Nota Informativa O padre Antônio Vieira é das personagens mais importantes da história do Brasil e de Portugal no século XVII Qualquer que seja a posição que se tenha quanto à sua atuação não é negada sua intensa atividade em variadíssimo campo que vai da religião à política à diplomacia É possível que essa notável capacidade de ter participação significativa em áreas múltiplas e por vezes de articulação difícil e implicando grandes distâncias geográficas tenha sido preponderante para a perpetuação de seu nome até nossos dias Poucos têm tido a faculdade de suscitar tanto ódio e tanta admiração poucos tem sido tão lidos repetidos e analisados poucos são tão conhecidos por pessoas de origem social e cultural tão diversificada O acesso amplamente democrático dos Sermões via Biblioteca Virtual da Fundação Biblioteca Nacional permitirá que novas gerações de leitores e igualmente aqueles que já o conheciam parcialmente tenham à disposição uma parte fundamental da obra de Vieira Obra que não se restringe a sua atividade de pregador mas que se volta para o século que viveu quase que por inteiro 16081697 Não se deve entretanto confundir as idéias de autor e obra com uma noção abusivamente totalizante de unidade Não só vida e obra não são continuidades perfeitas que se explicam entre si de modo reflexo e imediato como a obra não constitui uma homogeneidade perfeita Assim é inútil tentar imaginar princípios organizadores únicos externos ou internos à escrita vieiriana que servissem de fundamento ou fórmula geral de compreensão a tudo que o jesuíta deixou Os Sermões que se seguem têm entre outras qualidades a de evidenciar a inconsistência deste imaginário conservador que insiste em não ver o que na teoria da história aponta para a descontinuidade a ruptura ou a complexidade Vieira trata aqui de leque temático excepcional em um número igualmente espantoso de intervenções que se dão em dispersão temporal e geográfica rara Examina freqüentemente por muitas vezes e de modos eventualmente distintos assuntos que tocam à teologia à organização política e social à correta elaboração dos sermões à moral à origem das cores à atuação de outras ordens religiosas enfim a um semnúmero de questões que ora nos surpreendem por seu caráter a nós contemporâneo ora que parecem extravagantes ou distantes Essa variedade e dispersão requerem portanto que sejam observados seus diferentes aspectos em relação aos conjuntos de saber e poder a que se articulam Análise histórica e cultural que evita assim interpretações reducionistas e lineares Características importantes dos sermões de Vieira é sua constante preocupação com os efeitos da pregação na vida social Sermões são ou devem ser como ele próprio diz no sermão da Sexagésima um instrumento de origem divina voltado para a expansão do cristianismo para a correção dos erros dos cristãos para edificação de uma sociedade efetivamente católica para a salvação eterna Muitos sermões e cartas do grande jesuíta evidenciam seu pragmatismo seu amor pela ação e pela construção da cidade celeste na terra Exemplo dessa extrema atenção de Vieira quanto à correta construção da sociedade cristã é sua atividade missionária no Brasil Se admite a escravidão negra especialmente como instrumento indispensável à ocupação cristã das terras e gentes brasileiras não deixa de criticar acerbamente os excessos pecaminosos de ganância luxúria e crueldade dos senhores e de seus aliados Luta então por estabelecer uma ordem social que regulada por documentos legais e por uma política moderada da metrópole seguisse atentamente princípios cristãos Os ataques de Vieira aos senhores de escravos a cobrança de obediência às determinações de Lisboa quanto à liberdade indígena por parte de governadores e capitãesmor a hostilidade de outras ordens religiosas são fatores determinantes para a expulsão de Vieira e outros jesuítas do Brasil E nos ajudam a compreender a complexidade da situação colonial e a rejeitar explicações simplistas que se limitam a apontar sem matizes ou contradições a aliança entre Igreja e colonialismo Seria pois fazer bom uso destes sermões se os tomássemos como feixe de múltiplos caminhos que podem ajudar a compreender melhor mais atenta e complexamente a sociedade brasileira do século XVII e de nossos dias E isto sem perder o prazer da leitura que sua escrita incomparável oferece A presente obra oferecida aos leitores do site da Fundação Biblioteca Nacional é a recente edição dos Sermões de Vieira em sua totalidade publicada em doze volumes na cidade de Erechim Rio Grande do Sul pela Edelbra em 1998 sob a supervisão do professor doutor Luiz Felipe Baêta Neves Tal edição tem como base os Sermões editados por Frederico Ozanam Pessoa de Barros sob a supervisão do padre Antônio Charbel SDB e do professor A Della Nina publicados em vinte e quatro volumes em São Paulo pela Editora das Américas em 1957 Uma das coleções da edição princeps dos sermões de Vieira publicada em Lisboa em quinze tomos entre 1679 e 1748 se encontra atualmente no acervo da Biblioteca Nacional LF Baêta Neves Mônica Giraldo Hortegas O AUTOR Nome literário VIEIRA PADRE ANTÔNIO Nome completo ANTÔNIO VIEIRA Nascimento 06 de Fevereiro de 1608 Lisboa Falecimento 18 de Julho de 1697 Salvador BA BIOGRAFIA Em 1614 com seis anos de idade Antônio Vieira vem com a família para o Brasil destinado à Bahia Aí em 1623 no Colégio dos Jesuítas em Salvador tirou o grau de Mestre em Artes e entrou no noviciado da Companhia de Jesus Em 1633 um ano antes de se ordenar estréia no púlpito na igreja da Conceição BA com o sermão Maria Rosa Mística Em 1634 foi ordenado e lecionou Teologia no Colégio em que se formou Em 1641 embarcou para Portugal onde veio a ser pregador régio conselheiro e embaixador de D João IV Ele foi embaixador junto à França e à Holanda e em Roma Em 1649 sofreu pressão do Santo Ofício Em 1652 foi transferido para as missões jesuíticas do Maranhão e aí prega e batalha em defesa da liberdade dos índios contra os colonos escravocratas Em 1654 ele retorna à metrópole e em 1655 obtida a Lei da Liberdade dos Índios volta ao Maranhão Em 1661 hostilizado pelos colonos expulso do Maranhão com outros jesuítas volta a Lisboa Em 1662 devido à revolta palaciana é desterrado para o Porto Em 1665 é preso pela Inquisição por acreditar na ressurreição de D João e profetizar em Portugal o Quinto Império sob custódia em Coimbra Em 1667 o Santo Ofício lhe cassa a palavra e o condena à reclusão restituindoo à liberdade no ano seguinte Em 1669 parte para Roma onde retoma a carreira de orador insigne no Vaticano e nos saraus literários da Rainha Cristina da Suécia de quem foi confessor De volta a Portugal em 1675 iniciou pouco depois em 1679 a edição de seus Sermões Completos Em 1681 volta ao Brasil definitivamente Foi comprometido com o irmão Vieira Ravasco e o sobrinho no crime do alcaidemor da Bahia porém se reabilita Os Sermões continuaram a ser publicados em Lisboa O êxito de escritor compensa as agruras do homen público Faleceu com 89 anos no Colégio em que estudara e começara sua extraordinária vida de intelectual de pregador e de cidadão do mundo SERMÕES Padre Antônio Vieira AO PRÍNCIPE NOSSO SENHOR Senhor A obediência com que V A foi servido mandarme dar à estampa os meus sermões é a que põe aos pés de V A esta primeira parte deles tão diferentes na matéria e lugares em que foram recitados como foi vária e perpétua a peregrinação de minha vida Se V A por sua benignidade e grandeza se dignar de os passar sob os olhos entenderei que com a Coroa e Estados de ei Rei que está no céu passou também a V A o agrado com que Majestade e o Príncipe D Teodósio enquanto Deus quis os ouviam Mas porque os afetos se não herdam com os impérios ainda será maior a mercê que receberei de V A se estas folhas que ofereço cerradas e mudas se conservarem no mesmo silêncio a que os meus anos me têm reduzido Então ficará livre a rudeza destes discursos da forçosa temeridade com que os ponho à suprema censura do juízo de V A tanto mais para temer por sua agudeza e compreensão quanto o mundo presente o admira sobre todos os que o passado tem conhecido Deus nos guarde e conserve a Real Pessoa de V A por muitos anos para que nas gloriosas ações de V A se desempenhe a nossa esperança do que em tantos dotes da natureza e graça nos está prometendo Colégio de Santo Antão em 21 de julho de 1677 LEITOR Da folha que fica atrás se a leste haverás entendido a primeira razão ou obrigação por que começo a tirar da sepultura estes meus borrões que sem a voz que os animava ainda ressuscitados são cadáveres A esta obrigação que chamei primeira como vassalo se ajuntou outra também primeira como religioso que foi a obediência do maior de meus prelados o Reverendíssimo P João Paulo Oliva PrepósitoGeral de nossa Companhia Se conheces a Eminência desta grãocabeça pela lição de seus escritos como não podes deixar de a conhecer pela fama sendo o oráculo do púlpito Vaticano em quatro sucessivos Pontificados esta só aprovação te bastará para que me comeces a ler com melhor conceito daquele que formarás depois de lido Assim lisonjeia aos pais o amor dos filhos e assim honram os sumamente grandes aos pequenos Sobre estas duas razões acrescentarão outros outras para mim de menos momento E não era a menor delas a corrupção com que andam estampados debaixo de meu nome e traduzidos em diferentes línguas muitos sermões ou supostos totalmente não sendo meus ou sendo meus na substância tomados só de memória e por isso informes ou finalmente impressos por cópias defeituosas e depravadas com que em todos ou quase todos vieram a ser maiores os erros dos que eu conheci sempre nos próprios originais Este conhecimento que ingenuamente te confesso foi a razão total por que nunca me persuadi a sair à luz com semelhante gênero de Escritura de que o mundo está tão cheio Nem me animava a isto posto que muitos mo alegassem o rumo particular que segui sem outro exemplo porque só dos que são dignos de imitação se fizeram os exemplares Se chegar a receber a última forma um livro que tenho ideado com título de Pregador e Ouvinte Cristão nele verás as regras não sei se da arte se do gênio que me guiaram por este novo caminho Entretanto se quiseres saber as cousas por que me apartei do mais seguido e ordinário no sermão de Semen et Verbum Dei as acharás o qual por isso se põe em primeiro lugar como prólogo dos demais Se gostas da afetação e pompa de palavras e do estilo que chamam culto não me leias Quando este estilo mais florescia nasceram as primeiras verduras do meu que perdoarás quando as encontrares mas valeume tanto sempre a clareza que só porque me entendiam comecei a ser ouvido e o começaram também a ser os que reconheceram o seu engano e mal se entendiam a si mesmos O nome de Primeira Parte com que sai este tomo promete outras Se me perguntas quantas serão só te pode responder com certeza o Autor da vida Se esta durar à proporção da matéria a que se acha nos meus papéis bastante é a formar doze corpos desta mesma e ainda maior estatura Em cada um deles irei metendo dois ou três sermões dos já impressos restituidos à sua original inteireza e os que se não reimprimirem entre os demais supõe que não são meus Os que de presente tens nas mãos e mais ainda os seguintes serão todos diversos e não continuados esperando tu porventura que saísse com os que chamas quaresmais santorais e mariais inteiros como se usa Mas o meu intento não é fazer sermonários é estampar os sermões que fiz Assim como foram pregados acaso e sem ordem assim tos ofereço porque hás de saber que havendo trinta e sete anos que as voltas do mundo me arrebataram da minha província do Brasil e me trazem pelas da Europa nunca pude professar o ofício de pregador e muito menos o de pregador ordinário por não ter lugar certo nem tempo já aplicado a outras ocupações em serviço de Deus e da Pátria já impedido de minhas freqüentes enfermidades por ocasião das quais deixei de recitar alguns sermões não poucos que já tinha prevenidos e também agora se darão à estampa Além dessa diversidade geral acharás ainda neles outra maior pelas diversas ocasiões em que os sucessos extraordinários de nossa idade e os das minhas peregrinações por diferentes terras e mares me obrigaram a falar em público E assim uns serão panegíricos outros gratulatórios outros apologéticos outros políticos outros bélicos outros náuticos outros funerais outros totalmente ascéticos mas todos quanto a matéria o permitia e mais do que em tais casos se costuma morais O meu primeiro intento era dividir estas matérias e reduzilas a tomos particulares havendo número em cada uma para justo volume mas como seriam necessários muitos mais dias para esta separação e para estender e vestir os que estão só em apontamentos por não dilatar o teu desejo o qual tanto mais te agradeço quanto menos mo deves irão saindo diante e à desfilada os que estiverem mais prontos E creio que te não será menos grata esta mesma variedade para alternar assim e aliviar o fastio que costuma causar a semelhança Por fim não te quero empenhar com a promessa de outras obras porque se bem entre o pó das minhas memórias ou dos meus esquecimentos se acham como na oficina de Vulcano muitas peças meio forjadas nem elas se podem já bater por falta de forças e muito menos aperfeiçoar e polir por estar embotada a lima com o gosto e gastada como tempo Só sentirei que este me falte para pôr a última mão aos quatro Livros Latinos de Regno Christi in terris consummato por outro nome Clavis Prophetarum em que se abre nova estrada à fácil inteligência dos profetas e tem sido o maior emprego de meus estudos Mas porque estes vulgares são mais universais o desejo de servir a todos lhes dá agora a preferência Se tirares deles algum proveito espiritual que é o que só pretendo rogame a Deus pela vida e se ouvires que sou morto lê o último sermão deste Livro para que te desenganes dela e tomarás o conselho que tenho tomado Deus te guarde Dos sermões que andam impressos com nome do autor em várias línguas para que se conheça quais são próprios e legítimos e quais alheios e supostos Outra vez leitor me hás de ouvir outra vez não só peço mas imploro tua atenção E se te faltar paciência bem a podes aprender da minha pelo que agora direi Saberás que devo grandes obrigações aos impressores principalmente de Espanha No ano de 1662 imprimiram em Madri debaixo de meu nome um livro intitulado Sermones Varios e no ano de 1664 outro a que chamaram Segunda Parte As mais intoleráveis injúrias são aquelas a que se deve agradecimento e tal foi este benefício Muitos dos ditos sermões como já te adverti são totalmente alheios e supostos E os que verdadeiramente são ou tinham sido meus ou por vício dos exemplares ou por outros respeitos não ocultos se estamparam pela maior parte em tal figura que eu mesmo os não conheço E porque de presente ouço que ainda se continua a estampa de outros os quais devem ser mais dignos de sair à luz pois lhes fazem esta honra para que eu a não logre roubada a seus verdadeiros autores e os que os lerem se não enganem com eles e comigo me pareceu no princípio deste primeiro tomo escreverte esta como carta de guia pela qual sem equivocação do nome saibas a quem lês e como Outras diligências tenho feito para que os ditos livros se recolham mas como este favor posto que tão justo é incerto o que só posso entretanto é pôrte diante dos olhos esta lista de todos os sermões que até agora têm chegado à minha notícia distribuídos com a maior distinção e ordem que em matéria tão desordenada e confusa me foi possível SERMÕES ESTAMPADOS DE CONSENTIMENTO DO AUTOR Sermão do Espírito Santo nos anos da Rainha nossa Senhora Sermão ao Te Deum no nascimento da sereníssima Princesa Estes dois sermões se traduziram em francês e se imprimiram em Paris Cinco sermões das Pedras de Davi em língua italiana estampados em Roma Mião e Veneza e depois de traduzidos em castelhano impressos em Madri Saragoça Valência Barcelona e Flandres Sermão das Chagas de São Francisco em italiano estampado em Roma Milão e Veneza Sermão do Beato Estanislou em italiano estampado em Roma Estes dois sermões se traduziram em Castela e Portugal de verbo ad verbum isto é mal e como não deveram pela dissonância das línguas Todos os outros sermões que andam estampados com nome do autor em língua portuguesa castelhana e outras se imprimiram sem consentimento seu nem ainda notícia SERMÕES DA PRIMEIRA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO DE 1662 Sermon del Juizio p 1 Sermon de las lIa gas de Francisco pág 310 primeiro destes sermões tem muitos erros e o segundo muitos mais por culpa dos manuscritos que andam mui viciados e também da tradução que mudou em algumas partes o verdadeiro sentido Sermon de S Juan Baptista y Profession pág 52 Sermon en las Exequias de Doña Maria de Ataide pág 93 Estes dois sermões por serem primeiro estampados em Portugal trazem menos erros No segundo falta um discurso Sermon de S Juan Evangelista pág 118 No fim se diz com razão Hic multa desiderantur porque se não estampou a primeira parte que contem a ocasiao e motivo da matéria demais de outros muitos defeitos Sermon de Jueves Santo pág 137 Sermon de la Exaltación de ia Cruz pág 169 Ambos trocados e truncados e defeituosos em muitos lugares A estes sermões se seguem no mesmo livro três fragmentos de outros com título de Pensamientos predicables sacados de papees dei Autor a saber Discurso sobre las caidades de un ânimo real pág 192 Discurso sobre la buena politica de los tributos pág 204 Discurso sobre la immunidad de la Iglesia pág 2120 primeiro foi tirado do sermão dos anos de ElRei em dia de São José o segundo do sermão de S Antônio nas Cortes o terceiro do sermão de S Roque impressos em Portugal mas nenhum deles é nem merece nome de discurso porque lhes falta o fundamento e intento e a conexão de tudo e lhes sobeja o que acrescentaram os tradutores SERMÕES DA SEGUNDA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO DE 1664 Esta segunda parte contém vinte e dois sermões onze totalmente alheios e onze do autor Uns e outros são os seguintes Sermon de la Feria quarta Miércoies de ceniza pág 83 Sermon para el Miércoles segundo de Quaresma pág 117 Sermon en la Domínica quarta de Quaresma pág 136 Sermon para el Sábbado sexto de Quaresma pág 157 Sermon del Mandato en el Jueves Santo pág 179 Sermon de la Soiedadde la VN S pág 193 Sermon de las Lágrimas de la Madalena pág 208 Sermon de S Ougustin pág 298 Sermon de S Francisco pág 313 Sermon de la Expectación pág 323 Sermon de S Juan Evangelista pág 333 Entram neste número os dois sermões das Lágrimas da Madalena e de Santo Agostinho porque bem que o assunto de ambos seja do autor e também alguns lugares da Escritura no primeiro não há palavra sua e no segundo que só é um fragmento mui poucas SERMÕES DO AUTOR Sermon de la segunda Dominga de Adviento pág 1 Sermon de la Domínica tercera de Adviento pág 24 Sermon de la Domínica quarta de Adviento pág 41 Sermon de la Domínica de Sexagésima pág 56 Sermon en eI primer Domingo de Quaresma pág 98 Sermon en el segundó dia de Pascua de Ressurrección pág 220 Sermon de S Pedro Nolasco pág 253 Sermon de la Visitación de N Senora pág 261 Sermon de S Roque pág 284 Sermon de N Senora de la Gracia pág 348 Sermon para el buen successo de las armas dei Brasil pág 369 Estes sermões reconhece o autor por seus mais pela matéria que pela forma que em muitos está totalmente pervertida e adulterada como se verá quando saírem tirados dos verdadeiros originais O de S Pedro Nolasco é composto de duas ametades diversas e não diz a cabeça com os membros No de S Roque falta a metade no de N S da Graça dois discursos E assim neste como nos demais há muitas coisas diminuídas muitas acrescentadas muitas mudadas não falando em infinitos outros erros ou do texto ou da tradução ou da sentença e sentido natural Vejase e combinese o sermão da Sexagésima que sai neste tomo com ser este entre todos o que se traduziu por exemplar mais correto e com menos defeitos SERMÕES DA TERCEIRA PARTE ESTAMPADA EM MADRI ANO 1678 Quando em suposição da graça que pedi e me foi concedida de que os dois tomos antecedentes impressos debaixo do meu nome se recolhessem cuidava eu que com este exemplo se absteriam os impressores de Madri de prosseguir com este injurioso favor eis que aparece em Portugal outro terceiro tomo estampado na mesma corte com nome de Sermones del Padre Antonio Vieira Assim me vendem com boa tenção os fabricadores desta falsa moeda não aparecendo entre ela alguns papéis verdadeiros e legítimos que por roubados se me puderam e deviam restituir É bem verdade que na mesma tela dos discursos que me perfilham reconheço eu alguns remendos da minha pobreza que só para isso servem fora da urdidura em que foram tecidos Deixados porém estes reparos e outros que não é justo me queixe de quem me honra saiba terceira vez o leitor que de dezenove sermões que contém este tomo entrando no mesmo número um problema de S Francisco Xavier somente cinco são meus De uns e outros se põe aqui a lista para maior clareza Sermon de Ceniza pág 1 Sermon de l0S Inimigos pág 21 Sermon de la quarta Dominga de Quaresma pág 49 Sermon del Mandato pág 100 Sermon de las Lágrimas de 5 Pedro pág 161 Sermon de la Venida del Espirito Santo pág 184 Sermon de la Epifania pág 203 Sermon de S Thomé Apostol pág 219 Sermon de S Francisco de Assis pág 241 Sermon de S Antonio de Padua pág 256 Sermon de S Francisco Xavier pág 273 Sermon de una Prosession en dia de S Joseph pág 294 Sermon de S Úrsula y sus companeras pág 325 Question de la fineza deI amor de S Francisco Xavier pág 361 SERMÕES DO AUTOR Sermon del quarto miércoles de Quaresma pág 35 Sermon del Ciego pág 81 Sermon del Mandato pág 119 Sermon del Santíssimo Sacramento pág 136 Sermon de S Thereza de Jesus pág 325 Estes cinco sermões e com mais razão três deles se puderam também contar entre os alheios pela notável corrupção que em alguns se vê foi indústria com que saem deformados Mas enquanto a estampa os não restitui todos à sua origem leiamse nesta o do Cego e dos Zebedeus que já estavam impressos quando cá apareceram em tão dessemelhante figura e verseá a diferença APROVAÇÃO DO MUITO REVERENDO PADRE MESTRE frei João da Madre de Deus provincial da Província de Portugal da Seráfica Ordem de S Francisco pregador de S Alteza Examinador das Ordens Militares etc Senhor Se em alguma ocasião se achou obediência sem merecimento foi nesta em que por mandado de V Alteza vi a primeira parte dos sermões do Padre Antônio Vieira da Sagrada Companhia de Jesus meritíssimo pregador de tal Príncipe por príncipe de todos os pregadores tirados das imperfeições com que os adulteraram as mãos por onde corriam e reduzidos a parto legítimo de seu supremo engenho A censura mais acertada é pôrlhes o nome de seu autor por censura pois sem competência de nenhuma posto que com inveja de todas é respeitado pelo oráculo do púlpito entre as nações do mundo aonde a experiência ou a fama de seus escritos o têm levado nas asas da sua pena Tinha eu um grande desejo de que o autor desse princípio às obras a que anela a nossa bem fundada esperança e promete o seu grande talento para que por benefício da imprensa ficasse imortal na memória dos vindouros a glória que logra a admiração dos presentes e que soubesse o mundo que não tinha que invejar Portugal à erudição latina e à eloqüência grega e muitas vezes me repetia a mim mesmo aquelas palavras de Jó capítulo 31 vers 35 Desiderium meum oudiat omnipotens et librum scribat ipse quijudicat ut in humero meo portem illum et circundem illum quasi coronam mihi Ouça Deus o meu desejo e escreva um livro o mesmo que julga para que eu o traga por estimação nos ombros e por coroa na cabeça Deus com a inspiração e V Alteza com a obediência me cumpriram este desejo Que juiz poderia escrever um livro de sermões senão o Padre Antônio Vieira juiz por antonomásia do ofício em a arte e regras da prédica e de quem todos os pregadores nos contentáramos de ser aprendizes para nos podermos chamar mestres Só se podia duvidar em que sendo o juiz o escritor do livro fosse Jó o coroado com ele e que o livro que haja de ser glória para quem o compôs fosse glória para quem o lesse Mas quem abrir o livro achará solução à dúvida porque em cada um dos sermões que contém verá que podendo só ser glória de quem os escreve são juntamente coroa de quem os lê Não são só glória de quem os fez mas também ventura dos que os têm Ao menos para comigo assim o julga com Jó o meu afeto Coronam mihi Digo pois de cada um destes sermões o que disse Plínio no II livro das suas Epístolas Ep 3 Proemiatur apte narrat aperte pugnat acriter colligit fortiter ornat excelse Começa com energia viva que atrai prossegue com claridade singular que deleita prova com viveza grave que admira recolhe com variedade eloqüente que ensina adorna com excelência sentenciosa que suspende e o que é mais dificultoso Postremo docet deíectat afficit Diverte como se não advertisse ensina como se não recreasse deleita como se não repreendesse aproveita como se não deleitasse Não só não há neles coisa que encontre ao serviço real mas muitas para que V Alteza continue a obediência com que obrigou ao autor a dar à estampa este livro para que saia à luz com os mais trabalhos tão luzidos de seus estudos e engenho para a glória de Deus e honra destes remos Isto sinto isto digo e o que não sei dizer é o que mais sinto Em 5 Francisco de Lisboa 29 de agosto de 1678 Fr João da Madre de Deus LICENÇAS DA RELIGIÃO Eu Luís Álvares da Companhia de Jesus provincial da Província de Portugal por particular concessão que para isso me foi dada de nosso muito reverendo Padre João Paulo Oliva prepósito geral dou licença para que se imprima este livro Primeira Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira da mesma Companhia pregador de S Alteza O qual foi examinado e aprovado por pessoas doutas e graves da mesma Companhia E por verdade dei esta assinada com meu sinal e selada com o selo de meu Ofício Dada em Lisboa aos 18 de setembro de 1677 Luís Álvares DO SANTO OFÍCIO Vistas as informações que se houveram podese imprimir esta Primeira Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus e impressos tornarão para serem conferidos com o original e se dar licença para correrem e sem ela não correrão Lisboa 15 de julho de 1678 Manoel de Magalhães de Meneses Manoel Pimentel de Souza Manoel de Maura Manoel Fr Valério de S Raimundo DO ORDINÁRIO Podese imprimir o primeiro tomo dos Sermões do Reverendo Padre Antônio Vieira da Companhia de Jesus e pregador de S Alteza Lisboa 6 de agosto de 1678 Fr Cristóvão Bispo de Martíria DO PAÇO Podese imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário e depois de impresso tornará a esta mesa para se conferir e taxar e sem isso não correrá em Lisboa 30 de agosto de 1678 Marquês Presidente Magalhães de Menezes Mausinho Carneiro Está conforme com seu original Convento de N Senhora da Graça 15 de setembro de 1679 Fr Diogo de Teive Pode correr em Lisboa 15 de setembro de 1679 Taxam este livro de SERMÕES do Padre Antônio Vieira em mil e duzentos réis Lisboa 18 de setembro de 1679 Marquês R Magalhães de Menezes Roxas Basto Rêgo Lampréia FCB PRIVILÉGIO REAL Eu o príncipe como Regente e Governador dos Remos e Senhorios de Portugal e Algarves faço saber que o Padre Antônio Vieira me representou por sua petição que tinha impresso com as licenças necessárias a Primeira Parte dos Sermões que oferece em um tomo que contém quinze pedindome lhe fizesse mercê conceder privilégio na forma do estilo e visto o que alegou hei por bem que por tempo de dez anos nenhum livreiro nem impressor possa imprimir nem vender o Livro dos Sermões referidos nem mandálo vir de fora do Reino sob pena de perdimento dos volumes que lhe forem achados e de cinqüenta cruzados a metade para a minha câmera e a outra para o acusador Este alvará se cumprirá como nele se contém e valerá posto que seu efeito haja de durar mais de um ano sem embargo da Ordem do Livro 2 tit 40 em contrário E pagou de novos direitos quinhentos e quarenta réis que se carregaram ao tesoureiro deles Pedro Soares à Fol 63 do Liv 4 de sua receita Luis Goudinho de Niza o fez em Lisboa a trinta de setembro de mil seiscentos e setenta e nove José Fagundes Bezerra o fez escrever PRÍNCIPE Marquês MordomoMor Alvará do Padre Antônio Vieira por que V A há por bem de lhe conceder privilégio por tempo de dez anos para nenhum livreiro ou impressor vender nem imprimir ou mandar vir de fora do Reino o Livro dos Sermões de que trata na maneira acima declarada SERMÃO DA SEXAGÉSIMA PREGADO NA CAPELA REAL Este sermão pregou o Autor no ano de 1655 vindo da Missão do Maranhão onde achou as dificuldades que nele se apontam as quais vencidas com novas ordens reais voltou logo para a mesma Missão Semen est Verbum Dei1 I O pregador evangélico será pago não só pelo que semeia como pelas distâncias que percorre e não volta nem mesmo diante das dificuldades que a natureza lhe apresenta as pedras os espinhos as aves o homem Cristo ordenou que se pregasse a todas as criaturas porque há homensbrutos homenspedras e homens homens O que aconteceu com a semente do Evangelho aconteceu com os missionários do Maranhão Não age mal o pregador que volta à busca de melhores instrumentos Este sermão servirá de prólogo aos outros sermões quaresmais E se quisesse Deus que este tão ilustre e tão numeroso ouditório saísse hoje tão desenganado da pregação como vem enganado com o pregador Ouçamos o Evangelho e ouçamolo todo que todo é do caso que me levou e trouxe de tão longe Ecce exiit qui seminat seminare Diz Cristo que saiu o pregador evangélico a semear a palavra divina Bem parece este texto dos livros de Deus Não só faz menção do semear mas faz também caso de sair Exiit porque no dia da messe hãonos de medir a semeadura e hãonos de contar os passos O mundo aos que lavrais com ele nem vos satisfaz o que despendeis nem vos paga o que andais Deus não é assim Para quem lavra com Deus até o sair é semear porque também das passadas colhe fruto Entre os semeadores do Evangelho há uns que saem a semear há outros que semeiam sem sair Os que saem a semear são os que vão pregar à Índia à China ao Japão os que semeiam sem sair são os que se contentam com pregar na pátria Todos terão sua razão mas tudo tem sua conta Aos que têm a seara em casa pagarlhesão a semeadura aos que vão buscar a seara tão longe hãolhes de medir a semeadura e hãolhes de contar os passos Ah dia do juízo Ah pregadores Os de cá acharvoseis com mais paço os de lá com mais passos Exiit seminare Mas daqui mesmo vejo que notais e me notais que diz Cristo que o semeador do Evangelho saiu porém não diz que tornou porque os pregadores do Evangelho os homens que professam pregar e propagar a fé é bem que saiam mas não é bem que tornem Aqueles animais de Ezequiel que tiravam pelo carro triunfal da glória de Deus e significavam os pregadores do Evangelho que propriedades tinham Nec revertebantur cum ambularent uma vez que iam não tornavam Ez 112 As rédeas por que se governavam era o ímpeto do espírito como diz o mesmo texto mas esse espírito tinha impulsos para os levar não tinha regresso para os trazer porque sair para tornar melhor é não sair Assim argúis com muita razão e eu também assim o digo Mas pergunto e se esse semeador Evangélico quando saiu achasse o campo tomado se se armassem contra ele os espinhos se se levantassem contra ele as pedras e se lhe fechassem os caminhos que havia de fazer Todos estes contrários que digo e todas estas contradições experimentou o semeador do nosso Evangelho Começou ele a semear diz Cristo mas com pouca ventura Uma parte do trigo caiu entre espinhos e afogaramno os espinhos Aliud cecidit inter spinas et sim ul exortae spinae suffocaverunt iílud Outra parte caiu sobre as pedras e secouse nas pedras por falta de umidade Aliud cecidit super petram et natum aruil quia non habebat humorem Outra parte caiu no caminho e pisaramno os homens e comeramno as aves Aliud cecidit secus viam ei concuícatum esi ei volucres coeli comederuni illud Ora vede como todas as criaturas do mundo se armaram contra esta sementeira Todas as criaturas quantas há no mundo se reduzem a quatro gêneros criaturas racionais como os homens criaturas sensitivas como os animais criaturas vegetativas como as plantas criaturas insensíveis como as pedras e não há mais Faltou alguma destas que se não armasse contra o semeador Nenhuma A natureza insensível o perseguiu nas pedras a vegetativa nos espinhos a sensitiva nas aves a racional nos homens E notai a desgraça do trigo que onde só podia esperar razão ali achou maior agravo As pedras secaramno os espinhos afogaramno as aves comeramno e os homens Pisaramno Concuícatum est ab hominibus diz a glosa Quando Cristo mandou pregar os apóstolos pelo mundo disselhes desta maneira Euntes in mundum universum praedicate omni creaturae Ide e pregai a toda a criatura Mc 1615 Como assim Senhor Os animais não são criaturas As árvores não são criaturas As pedras não são criaturas Pois hão os apóstolos de pregar às pedras Hão de pregar aos troncos Hão de pregar aos animais Sim diz S Gregório depois de Santo Agostinho porque como os apóstolos iam pregar a todas as nações do mundo muitas delas bárbaras e incultas haviam de achar os homens degenerados em todas as espécies de criaturas haviam de achar homenshomens haviam de achar homensbrutos haviam de achar homenstroncos haviam de achar homenspedras E quando os pregadores evangélicos vão pregar a toda a criatura que se armem contra eles todas as criaturas Grande desgraça Mas ainda a do semeador do nosso Evangelho não foi a maior A maior é a que se tem experimentado na seara aonde eu fui e para onde venho Tudo o que aqui padeceu o trigo padeceram lá os semeadores Se bem advertirdes houve aqui trigo mirrado trigo afogado trigo comido e trigo pisado Trigo mirrado Natum aruil quia non habebat humorem trigo afogado Exortae spinae suifocaveruni iííud trigo comido Volucres coeli comederuni iílud trigo pisado Concuícatum est Tudo isto padeceram os semeadores evangélicos da Missão do Maranhão de doze anos a esta parte Houve missionários afogados porque uns se afogaram na boca do grande rio Amazonas houve missionários comidos porque a outros comeram os bárbaros na Ilha dos Aroás houve missionários mirrados porque tais tornaram os da jornada dos Tocantins mirrados da fome e da doença onde tal houve que andando vinte e dois dias perdido nas brenhas matou somente a sede com o orvalho que lambia das folhas Vede se lhe quadra bem o Natum aruit quja non habebat humorem E que sobre mirrados sobre afogados sobre comidos ainda se vejam pisados e perseguidos dos homens Concuícatum est Não me queixo nem o digo Senhor pelos semeadores só pela seara o digo só pela seara o sinto Para os semeadores isto são glórias mirrados sim mas por amor de vós mirrados afogados sim mas por amor de vós afogados comidos sim mas por amor de vós comidos pisados e perseguidos sim mas por amor de vós perseguidos e pisados Agora torna a minha pergunta E que faria neste caso ou que devia fazer o semeador evangélico vendo tão mal logrados seus primeiros trabalhos Deixaria a lavoura Desistiria da sementeira Ficarseia ocioso no campo só porque tinha lá ido Parece que não Mas se tornasse muito depressa a casa a buscar alguns instrumentos com que alimpar a terra das pedras e dos espinhos seria isto desistir Seria isto tornar atrás Não por certo No mesmo texto de Ezequiel com quem argílistes temos a prova Já vimos como dizia o texto que aqueles animais da carroça de Deus quando iam não tornavam Nec revertebantur cum ambuíarent Ez 112 Lede agora dois versos mais abaixo e vereis que diz o mesmo texto que aqueles animais tornavam à semelhança de um raio ou corisco Ibant et revertebantur in simil itud inem fuíguris coruscantis Ez 114 Pois se os animais iam e tornavam à semelhança de um raio como diz o texto que quando iam não tornavam Porque quem vai e volta como um raio não torna Ir e voltar como raio não é tornar é ir por diante Assim o fez o semeador do nosso Evangelho Não o desanimau nem a primeira nem a segunda nem a terceira perda continuou por diante no semear e foi com tanta felicidade que nesta quarta e última parte do trigo se restouraram com vantagem as perdas dos demais nasceu cresceu espigou amadureceu colheu se mediuse achouse que por um grão multiplicara cento Etfecitfructum centuplum Oh que grandes esperanças me dá esta sementeira Oh que grande exemplo me dá este semeador Dáme grandes esperanças a sementeira porque ainda que se perderam os primeiros trabalhos lograrseão os últimos dáme grande exemplo o semeador porque depois de perder a primeira a segunda e a terceira parte do trigo aproveitou a quarta e última e colheu dela muito fruto Já que se perderam as três partes da vida já que uma parte da idade a levaram os espinhos já que outra parte a levaram as pedras já que outra parte a levaram os caminhos e tantos caminhos esta quarta e última parte este último quartel da vida por que se perderá também Por que não dará fruto Por que não terão também os anos o que tem o ano O ano tem tempo para as flores e tempo para os frutos Por que não terá também o seu outono a vida As flores umas caem outras secam outras murcham outras leva o vento aquelas poucas que se pegam ao tronco e se convertem em fruto só essas são as venturosas só essas são as discretas só essas são as que duram só essas são as que aproveitam só essas são as que sustentam o mundo Será bem que o mundo morra à fome Será bem que os últimos dias se passem em flores Não será bem nem Deus quer que seja nem há de ser Eis aqui por que eu dizia ao princípio que vindes enganados como pregador Mas para que possais ir desenganados como sermão tratarei nele uma matéria de grande peso e importância Servirá como de prólogo aos sermões que vos hei de pregar e aos mais que ouvirdes esta quaresma II Semen est verbum Dei O trigo do Evangelho é a palavra de Deus os espinhos as pedras os caminhos e a terra boa os diversos estados do coração do homem Se a palavra de Deus é tão eficaz por que vemos tão pouco fruto O trigo que semeou o pregador evangélico diz Cristo que é a palavra de Deus Os espinhos as pedras o caminho e a terra boa em que o trigo caiu são os diversos corações dos homens Os espinhos são os corações embaraçados com cuidados com riquezas com delícias e nestes afogase a palavra de Deus As pedras são os corações duros e obstinados e nestes secase a palavra de Deus e se nasce não cria raízes Os caminhos são os corações inquietos e perturbados com a passagem e tropel das coisas do mundo umas que vão outras que vêm outras que atravessam e todas passam e nestes é pisada a palavra de Deus porque ou a desatendem ou a desprezam Finalmente a terra boa são os corações bons ou os homens de bom coração e nestes prende e frutifica a palavra divina com tanta fecundidade e abundância que se colhe cento por um Et fructum fecit centuplum Este grande frutificar da palavra de Deus é o em que reparo hoje e é uma dúvida ou admiração que me traz suspenso e confuso depois que subo ao púlpito Se a palavra de Deus é tão eficaz e tão poderosa como vemos tão pouco fruto da palavra de Deus Diz Cristo que a palavra de Deus frutifica cento por um e já eu me contentara com que frutificasse um por cento Se com cada cem sermões se convertera e emendara um homem já o mundo fora santo Este argumento da fé fundado na autoridade de Cristo se aperta ainda mais na experiência comparando os tempos passados com os presentes Lede as histórias eclesiásticas e achálaseis todas cheias de admiráveis efeitos da pregação da palavra de Deus Tantos pecadores convertidos tanta mudança de vida tanta reformação de costumes os grandes desprezando as riquezas e vaidades do mundo os reis renunciando os cetros e as coroas as mocidades e as gentilezas metendose pelos desertos e pelas covas E hoje Nada disto Nunca na igreja de Deus houve tantas pregações nem tantos pregadores como hoje Pois se tanto se semeia a palavra de Deus como é tão pouco o fruto Não há um homem que em um sermão entre em si e se resolva não há um moço que se arrependa não há um velho que se desengane que é isto Assim como Deus não é hoje menos onipotente assim a sua palavra não é hoje menos poderosa do que dantes era Pois se a palavra de Deus é tão poderosa se a palavra de Deus tem hoje tantos pregadores por que não vemos hoje nenhum fruto da palavra de Deus Esta tão grande e tão importante dúvida será a matéria do sermão Quero começar pregandome a mim A mim será e também a vós a mim para aprender a pregar a vós para que aprendais a ouvir III Tal deficiência pode provir ou de Deus com a graça ou do pregador com a doutrina ou do ouvinte com entendimento Deus porém não falta ele é o sol e a chuva e o Evangelho não fala das sementes que se perdem por falta das influências do céu A culpa portanto é ou do pregador ou dos ouvintes Mas mesmo os piores ouvintes os espinhos e as pedras hão de aceitar a palavra de Deus Seguese pois que a culpa é do pregador Fazer pouco fruto a palavra de Deus no mundo pode proceder de um de três princípios ou da parte do pregador ou da parte do ouvinte ou da parte de Deus Para uma alma se converter por meio de um sermão há de haver três concursos há de concorrer o pregador com a doutrina persuadindo há de concorrer o ouvinte com o entendimento percebendo há de concorrer Deus com a graça alumiando Para um homem se ver a si mesmo são necessárias três coisas olhos espelho e luz Se tem espelho e é cego não se pode ver por falta de olhos se tem espelho e tem olhos e se é de noite não se pode ver por falta de luz Logo há mister luz há mister espelho e há mister olhos Que coisa é a conversão de uma alma senão entrar um homem dentro em si e verse a si mesmo Para esta vista são necessários olhos é necessária luz e é necessário espelho O pregador concorre com o espelho que é a doutrina Deus concorre com a luz que é a graça o homem concorre com os olhos que é o conhecimento Ora suposto que a conversão das almas por meio da pregação depende destes três concursos de Deus do pregador e do ouvinte por qual deles havemos de entender que falta Por parte do ouvinte ou por parte do pregador ou por parte de Deus Primeiramente por parte de Deus não falta nem pode faltar Esta proposição é de fé definida no Concílio Tridentino e no nosso Evangelho a temos Do trigo que deitou à terra o semeador uma parte se logrou e três se perderam E por que se perderam estas três A primeira perdeuse porque a afogaram os espinhos a segunda porque a secaram as pedras a terceira porque a pisaram os homens e a comeram as aves Isto é o que diz Cristo mas notai o que não diz Não diz que parte alguma daquele trigo se perdesse por cousa do sol ou da chuva A cousa por que ordinariamente se perdem as sementeiras é pela desigualdade e pela intemperança dos tempos ou porque falta ou sobeja a chuva ou porque falta ou sobeja o sol Pois por que não introduz Cristo na parábola do Evangelho algum trigo que se perdesse por cousa do sol ou da chuva Porque o sol e a chuva são as influências da parte do céu e deixar de frutificar a semente da palavra de Deus nunca é por falta do céu sempre é por culpa nossa Deixará de frutificar a sementeira ou pelo embaraço dos espinhos ou pela dureza das pedras ou pelos descaminhos dos caminhos mas por falta das influências do céu isso nunca é nem pode ser Sempre Deus está pronto de sua parte com o sol para aquentar e com a chuva para regar com o sol para alumiar e com a chuva para amolecer se os nossos corações quiserem Qui solem suum oriri facit super bonos et malos et pluit super justos et injustos2 Se Deus dá o seu sol e a sua chuva aos bons e aos maus que se quiserem fazer bons como a negará Este ponto é tão claro que não há para que nos determos em mais prova Quid debui facere vineae meae et nonfeci disse o mesmo Deus por Isaias3 Sendo pois certo que a palavra divina não deixa de frutificar por parte de Deus seguese que ou é por falta do pregador ou por falta dos ouvintes Por qual será Os pregadores deitam a culpa aos ouvintes mas não é assim Se fora por falta dos ouvintes não fizera a palavra de Deus muito grande fruto mas não fazer nenhum fruto e nenhum efeito não é por falta dos ouvintes Provo Os ouvintes ou são maus ou são bons se são bons faz neles grande fruto a palavra de Deus se são maus ainda que não faça neles fruto faz efeito No Evangelho o temos O trigo que caiu nos espinhos nasceu mas afogaramno Simul exortae spinae suffocaverunt illud O trigo que caiu nas pedras nasceu também mas secouse Et natum aruiL O trigo que caiu na terra boa nasceu e frutificou com grande multiplicação Et natum frcitfiuctum centuplum De maneira que o trigo que caiu na boa terra nasceu e frutificou o trigo que caiu na má terra não frutificou mas nasceu porque a palavra de Deus é tão fecunda que nos bons faz muito fruto e é tão eficaz que nos maus ainda que não faça fruto faz efeito lançada nos espinhos não frutificou mas nasceu até nos espinhos lançada nas pedras não frutificou mas nasceu até nas pedras Os piores ouvintes que há na Igreja de Deus são as pedras e os espinhos E por quê Os espinhos por agudos as pedras por duras Ouvintes de entendimentos agudos e ouvintes de vontades endurecidas são os piores que há Os ouvintes de entendimentos agudos são maus ouvintes porque vêm só a ouvir sutilezas a esperar galantarias a avaliar pensamentos e às vezes também a picar a quem os não pica Aliud cecidit inter spinas O trigo não picou os espinhos antes os espinhos o picaram a ele o mesmo sucede cá Cuidais que o sermão vos picou a vós e não é assim vós sois o que picais o sermão Por isso são maus ouvintes os de entendimentos agudos Mas os de vontades endurecidas ainda são piores porque um entendimento agudo pode se ferir pelos mesmos fios e vencerse uma agudeza com outra maior mas contra vontades endurecidas nenhuma coisa aproveita a agudeza antes dana mais porque quanto as setas são mais agudas tanto mais facilmente se despontam na pedra Oh Deus nos livre de vontades endurecidas que ainda são piores que as pedras A vara de Moisés abrandou as pedras e não pôde abrandar uma vontade endurecida Percutiens virga bis silicem et egressae sunt aquae largissimae Induratum est cor Phamonis4 E com os ouvintes de entendimentos agudos e os ouvintes de vontades endurecidas seremos mais rebeldes é tanta a força da divina palavra que apesar da agudeza nasce nos espinhos e apesar da dureza nasce nas pedras Pudéramos argüir ao lavrador do Evangelho de não cortar os espinhos e de não arrancar as pedras antes de semear mas de indústria deixou no campo as pedras e os espinhos para que se visse a força do que semeava E tanta a força da divina palavra que sem cortar nem despontar espinhos nasce entre espinhos E tanta a força da divina palavra que sem arrancar nem abrandar pedras nasce nas pedras Corações embaraçados como espinhos corações secos e duros como pedras ouvi a palavra de Deus e tende confiança tomai exemplo nestas mesmas pedras e nestes espinhos Esses espinhos e essas pedras agora resistem ao semeador do Céu mas virá tempo em que essas mesmas pedras o aclamem e esses mesmos espinhos o coroem Quando o semeador do céu deixou o campo saindo deste mundo as pedras se quebraram para lhe fazerem aclamações e os espinhos se teceram para lhe fazerem coroa5E se a palavra de Deus até dos espinhos e das pedras triunfa se a palavra de Deus até nas pedras até nos espinhos nasce não triunfar dos alvedrios hoje a palavra de Deus nem nascer nos corações não é por culpa nem por indisposição dos ouvintes Supostas estas duas demonstrações suposto que o fruto e efeito da palavra de Deus não fica nem por parte de Deus nem por parte dos ouvintes seguese por conseqüência clara que fica por parte do pregador E assim é Sabeis cristãos por que não faz fruto a palavra de Deus Por culpa dos pregadores Sabeis pregadores por que não faz fruto a palavra de Deus Por culpa nossa IV No pregador devese considerar a pessoa a ciência a matéria o estilo a voz A pessoa uma coisa é o semeador outra o que semeia uma coisa é o pregador outra o que prega As ações é que dão ser ao pregador Hoje pregamse palavras e pensamentos antigamente pregavamse palavras e obras De nada vale a funda de Davi sem as pedras Até o Filho de Deus enquanto Deus não é obra de Deus é palavra de Deus No céu Deus é necessariamente amado porque é Deus visto o que não acontece na terra onde é apenas Deus ouvido Os sermões fazem pouco efeito porque não são pregados aos olhos mas aos ouvidos Seguir o exemplo do Batista Os ouvintes e as ovelhas de Jacó Contra esse argumento lá o exemplo do profeta Jonas Mas como em um pregador há tantas qualidades e em uma pregação há tantas leis e os pregadores podem ser culpados em todas em qual consistirá esta culpa No pregador podemse considerar cinco circunstâncias a pessoa a ciência a matéria o estilo a voz A pessoa que é a ciência que tem a matéria que trata o estilo que segue a voz com que fala Todas estas circunstâncias temos no Evangelho Vamolas examinando uma por uma e buscando esta cousa Será porventura o não fazer fruto hoje a palavra de Deus pela circunstância da pessoa Será porque antigamente os pregadores eram santos eram varões apostólicos e exemplares e hoje os pregadores são eu e outros como eu Boa razão é esta A definição do pregador é a vida e o exemplo Por isso Cristo no Evangelho não o comparou ao semeador senão ao que semeia Reparai Não diz Cristo saiu a semear o semeador senão saiu a semear o que semeia Ecce exiit qai seminat semiitare Entre o semeador e o que semeia há muita diferença uma coisa é o soldado e outra coisa o que peleja uma coisa é o governador e outra o que governa Da mesma maneira uma coisa é o semeador e outra o que semeia uma coisa é o pregador e outra o que prega O semeador e o pregador é nome o que semeia e o que prega é ação e as ações são as que dão o ser ao pregador Ter nome de pregador ou ser pregador de nome não importa nada as ações a vida o exemplo as obras são as que convertem o mundo O melhor conceito que o pregador leva ao púlpito qual cuidais que é E o conceito que de sua vida têm os ouvintes Antigamente convertiase o mundo hoje por que se não converte ninguém Porque hoje pregamse palavras e pensamentos antigamente pregavamse palavras e obras Palavras sem obras são tiro sem bala atroam mas não ferem A funda de Davi derrubou o gigante mas não o derrubou com o estalo senão com a pedra infixus est lapis in fronte ejus6 As vozes da harpa de Davi lançavam fora os demônios do corpo de Soul mas não eram vozes pronunciadas com a boca eram vozes formadas com a mão David tollebat citharam et percutiebat manu sua7 Por isso Cristo comparou o pregador ao semeador O pregar que é falar fazse com a boca o pregar que é semear fazse com a mão Para falar ao vento bastam palavras para falar ao coração são necessárias obras Diz o Evangelho que a palavra de Deus multiplicou cento por um Que quer isso dizer Quer dizer que de uma palavra nasceram cem palavras Não Quer dizer que de poucas palavras nasceram muitas obras Pois palavras que frutificam obras vede se podem ser só palavras Quis Deus converter o mundo e que fez Mandou ao mundo seu Filho feito homem Notai O Filho de Deus enquanto Deus é palavra de Deus não é obra de Deus Gertitum nonfactum O Filho de Deus enquanto Deus e Homem é palavra de Deus e obra de Deus juntamente Verbum caro factum est8 De maneira que até de sua palavra desacompanhada de obras não fiou Deus a conversão dos homens Na união da palavra de Deus com a maior obra de Deus consistiu a eficácia da salvação do mundo Verbo divino é palavra divina mas importa pouco que as nossas palavras sejam divinas se forem desacompanhadas de obras A razão disto é porque as palavras ouvemse as obras vêemse as palavras entram pelos ouvidos as obras entram pelos olhos e a nossa alma rendese muito mais pelos olhos que pelos ouvidos No céu ninguém há que não ame a Deus nem possa deixar de o amar Na terra há tão poucos que o amem todos o ofendem Deus não é o mesmo e tão digno de ser amado no céu como na terra Pois como no céu obriga e necessita a todos ao amarem e na terra não A razão é porque Deus no céu é Deus visto Deus na terra é Deus ouvido No céu entra o conhecimento de Deus à alma pelos olhos Videbimus eum sicut est9 na terra entralhe o conhecimento de Deus pelos ouvidos Fides ex ouditu10 E o que entra pelos ouvidos crêse o que entra pelos olhos necessita Viram os ouvintes em nós o que nos ouvem a nós e o abalo e os efeitos do sermão seriam muito outros Vai um pregador pregando a Paixão chega ao pretório de Pilatos conta como a Cristo o fizeram rei de zombaria diz que tomaram uma púrpura e lha puseram aos ombros ouve aquilo o ouditório muito atento Diz que teceram uma coroa de espinhos e que lha pregaram na cabeça ouvem todos com a mesma atenção Diz mais que lhe ataram as mãos e lhe meteram nela uma cana por cetro continua o mesmo silêncio e a mesma suspensão nos ouvintes Correse neste passo uma cortina aparece a imagem do Ecce homo eis todos prostrados por terra eis todos a bater nos peitos eis as lágrimas eis os gritos eis os alaridos eis as bofetadas Que é isto Que apareceu de novo nesta igreja Tudo o que descobriu aquela cortina tinha já dito o pregador Já tinha dito daquela púrpura já tinha dito daquela coroa e daqueles espinhos já tinha dito daquele cetro e daquela cana Pois se isto então não fez abalo nenhum como faz agora tanto Porque então era Ecce homo ouvido e agora é Ecce homo visto a relação do pregador entrava pelos ouvidos a representação daquela figura entra pelos olhos Sabem padres pregadores porque fazem pouco abalo os nossos sermões Porque não pregamos aos olhos pregamos só aos ouvidos Porque convertia o Batista tantos pecadores Porque assim como as suas palavras pregavam aos ouvidos o seu exemplo pregava aos olhos As palavras do Batista pregavam penitência Agite poenitentiam Homens fazei penitência Mt 32 e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem que é o retrato da penitência e da aspereza As palavras do Batista pregavam jejum e repreendiam os regalos e demasias da gula e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem que se sustenta de gafanhotos e mel silvestre As palavras do Batista pregavam composição e modéstia e condenavam a soberba e a vaidade das galas e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui está o homem vestido de peles de camelo com as cerdas e cilicio à raiz da carne As palavras do Batista pregavam despegos e retiros do mundo e fugir das ocasiões e dos homens e o exemplo clamava Ecce homo eis aqui o homem que deixou as cortes e as cidades e vive num deserto e numa cova Se os ouvintes ouvem uma coisa e vêem outra como se hão de converter Jacó punha as varas manchadas diante das ovelhas quando concebiam e daquii procedia que os cordeiros nasciam manchados11 Se quando os ouvintes percebem os nossos conceitos têm diante dos olhos as nossas manchas como hão de conceber virtudes Se a minha vida é apologia contra a minha doutrina se as minhas palavras vão já refutadas nas minhas obras se uma coisa é o semeador e outra o que semeia como se há de fazer fruto Muito boa e muito forte razão era esta de não fazer fruto a palavra de Deus mas tem contra si o exemplo e experiência de Jonas Jon 124 Jonas fugitivo de Deus desobediente contumaz e ainda depois de engolido e vomitado iracundo impaciente pouco caritativo pouco misericordioso e mais zeloso e amigo da própria estimação que da honra de Deus e salvação das almas desejoso de ver sovertida a Nínive e de a ver soverter com seus olhos havendo nela tantos mil inocentes Contudo este mesmo homem com um sermão converteu o maior rei a maior corte e o maior reino do mundo e não de homens fiéis senão de gentes idólatras Outra é logo a cousa que buscamos Qual será V O estilo deve ser muito fácil e muito natural Por isso Cristo compara o pregar ao semear uma arte sem arte A coisa está no cair está na queda na cadência no caso O mais antigo pregador o céu semeador de estrelas Devese pregar como quem semeia e não como quem azuleja ou ladrilha Não fazer do sermão um xadrez As palavras devem ser como as estrelas claras e distintas O enigma dos nomes próprios desbatizando os santos O argumento é bom mas há autores que o contradizem Será porventura o estilo que hoje se usa nos púlpitos Um estilo tão empeçado um estilo tão dificultoso um estilo tão afetado um estilo tão encontrado a toda a arte e a toda a natureza Boa razão é também esta O estilo há de ser muito fácil e muito natural Por isso Cristo comparou o pregar ao semear Exiit qui seminat seminare Compara Cristo o pregar ao semear porque o semear é uma arte que tem mais de natureza que de arte Nas outras artes tudo é arte na música tudo se faz por compasso na arquitetura tudo se faz por regra na aritmética tudo se faz por conta na geografia tudo se faz por medida O semear não é assim É uma arte sem arte caia onde cair Vede como semeava o nosso lavrador do Evangelho Caía o trigo nos espinhos e nascia Aliud cecidit inter spinas et simul exortae spinae Caía o trigo nas pedras e nascia Aliud cecidit super petram et natum Caía o trigo na terra boa e nascia Aliud cecidit in terrwn boiram et natum Ia o trigo caindo e ia nascendo Assim há de ser o pregar Hão de cair as coisas e hão de nascer tão naturais que vão caindo tão próprias que venham nascendo Que diferente é o estilo violento e tirânico que hoje se usa Ver vir os tristes passos da Escritura como quem vem ao martírio uns vêm acorrentados outros vêm arrastados outros vêm estirados outros vêm torcidos outros vêm despedaçados só atados não vêm Há tal tirania Então no meio disto Que bem levantado está aquilo Não está a coisa no levantar está no cair Cecidit Notai uma alegoria própria de nossa língua O trigo do semeador ainda que caiu quatro vezes só de três nasceu para o sermão vir nascendo há de ter três modos de cair Há de cair com queda há de cair com cadência há de cair com caso A queda é para as coisas a cadência para as palavras o caso para a disposição A queda é para as coisas porque hão de vir bem trazidas e em seu lugar hão de ter queda A cadência é para as palavras porque não hão de ser escabrosas nem dissonantes hão de ter cadência O caso é para a disposição porque há de ser tão natural e tão desafetado que pareça caso e não estudo Cecid ii cecidit cecidit Já que falo contra os estilos modernos quero alegar por mimo estilo do mais antigo pregador que houve no mundo E qual foi ele O mais antigo pregador que houve no mundo foi o céu Coeli enarrant gloriam Dei et opera manuom ejus annuntiat firmamentum diz Davi12Suposto que o céu é pregador deve de ter sermões e deve de ter palavras Se tem diz o mesmo Davi tem palavras e tem sermões e mais muito bem ouvidos Non sunt loquelbe neque sermones quorum nou oudiantur voces eorum13 E quais são estes sermões e estas palavras do céu As palavras são as estrelas os sermões são a composição a ordem a harmonia e o curso delas Vede como diz o estilo de pregar do céu como estilo que Cristo ensinou na terra Um e outro é semear a terra semeada de trigo o céu semeado de estrelas O pregar há de ser como quem semeia e não como quem ladrilha ou azuleja Ordenado mas como as estrelas Stellae manentes in ordine suo Jz 520 Todas as estrelas estão por sua ordem mas é ordem que faz influência não é ordem que faça lavor Não fez Deus o céu em xadrez de estrelas como os pregadores fazem o sermão em xadrez de palavras Se de uma parte está branco da outra há de estar negro se de uma parte está dia da outra há de estar noite se de uma parte dizem luz da outra hão de dizer sombra se de uma parte dizem desceu da outra hão de dizer subiu Basta que não havemos de ver num sermão duas palavras em paz Todas hão de estar sempre em fronteira com o seu contrario Aprendamos do céu o estilo da disposição e também o das palavras Como hão de ser as palavras Como as estrelas As estrelas são muito distintas e muito claras Assim há de ser o estilo da pregação muito distinto e muito claro E nem por isso temais que pareça o estilo baixo as estrelas são muito distintas e muito claras e altíssimas O estilo pode ser muito claro e muito alto tão claro que o entendam os que não sabem e tão alto que tenham muito que entender nele os que sabem O rústico acha documentos nas estrelas para a sua lavoura e o mareante para a sua navegação e o matemático para as suas observações e para os seus juízos De maneira que o rústico e o mareante que não sabem ler nem escrever entendem as estrelas e o matemático que tem lido quantos escreveram não alcança a entender quanto nelas há Tal pode ser o sermão estrelas que todos as vêem e muito poucos as medem Sim padre porém esse estilo de pregar não é pregar culto Mas fosse Este desventurado estilo que hoje se usa os que o querem honrar chamamlhe culto os que o condenam chamamlhe escuro mas ainda lhe fazem muita honra O estilo culto não é escuro é negro e negro boçal e muito ceirado É possível que somos portugueses e havemos de ouvir um pregador em português e não havemos de entender o que diz Assim como há léxicon para o grego e calepino para o latim assim é necessário haver um vocabulário do púlpito Eu ao menos o tomara para os nomes próprios porque os cultos têm batizados os santos e cada autor que alegam é um enigma Assim o disse o Cetro penitente assim o disse o Evangelista Apeles assim o disse a Águia de África o Favo de Claraval a Púrpura de Belém a Boca de Ouro Há tal modo de alegar O Cetro penitente dizem que é Davi como se todos os cetros não foram penitentes o Evangelista Apeles que és Lucas o Favo de Claraval S Bernardo a Águia de Africa Santo Agostinho a Púrpura de Belém S Jerônimo a Boca de Ouro S Crisóstomo E quem quitaria ao outro cuidar que a Púrpura de Belém é Herodes que a Águia de África é Cipião e que a Boca de Ouro é Midas Se houvesse um advogado que alegasse assim a Bartolo e Baldo havíeis de fiar dele o vosso pleito Se houvesse um homem que assim falasse na conversação não o havíeis de ter por néscio Pois o que na conversação seria necedade como há de ser discrição no púlpito Boa me parecia também esta razão mas como os cultos pelo polido e estudado se defendem com o grande Nazianzeno com Ambrósio com Crisólogo com Leão e pelo escuro e duro com Clemente Alexandrino com Tertuliano com Basfiio de Sclêucia com Zeno Veronense e outros não podemos negar a reverência a tamanhos autores posto que desejáramos nos que se prezam de beber destes rios a sua profundidade Qual será logo a cousa de nossa queixa VI A matéria o sermão deve ter um só assunto uma só matéria O semeador semeava trigo e só Se lançasse à terra grande variedade de sementes nada colheria Exemplos do Batista e de Jonas O sermão e a árvore Os ensinamentos dos clássicos pagãos e dos Padres da Igreja Esta porém não é ainda a cousa da falta de frutos da palavra de Deus Será pela matéria ou matérias que tomamos pregadores Usase hoje o modo que chamam de apostilar o Evangelho em que tomam muitas matérias levantam muitos assuntos e quem levanta muita caça e não segue nenhuma não é muito que se recolha com as mãos vazias Boa razão é também esta O sermão há de ter um só assunto e uma só matéria Por isso Cristo disse que o lavrador do Evangelho não semeara muitos gêneros de sementes senão uma só Exiit qui seminat seminare semen Semeou uma semente só e não muitas porque o sermão há de ter uma só matéria e não muitas matérias Se o lavrador semeara primeiro trigo e sobre o trigo semeara centeio e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo e sobre o milho semeara cevada que havia de nascer Uma mata brava uma confusão verde Eis aqui o que acontece aos sermões deste gênero Como semeiam tanta vanedade não podem colher coisa certa Quem semeia misturas mal pode colher trigo Se uma nou fizesse um bordo para o Norte outro para o Sul outro para Leste outro para Oeste como poderia fazer viagem Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco Um assunto vai para um vento outro assunto vai para outro vento que se há de colher senão vento O Batista convertia muitos em Judéia mas quantas matérias tomava Uma só matéria Parate viam Domini14 a preparação para o reino de cristo Jonas converteu os ninivitas mas quantos assuntos tomau Um só assunto Adhuc quadraginta dies et Ninive subvertetur15 a subversão da cidade De maneira que Jonas em quarenta dias pregou um só assunto e nós queremos pregar quarenta assuntos em uma hora Por isso não pregamos nenhum O sermão há de ser de uma só cor há de ter um só objeto um só assunto uma só matéria Há de tomar o pregador uma só matéria há de definila para que se conheça há de dividila para que se distinga há de provála com a Escritura há de declarála com razão há de confirmála com o exemplo há de amplificála com as cousas com os efeitos com as circunstâncias com as conveniências que se hão de seguir com os inconvenientes que se hão de seguir com os inconvenientes que se devem evitar há de responder às dúvidas há de satisfazer às dificuldades há de impugnar e refutar com toda a força de eloqüência os argumentos contrários e depois disto há de colher há de apertar há de concluir há de persuadir há de acabar Isto é sermão isto é pregar e o que não é isto é falar demais alto Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos mas esses hão de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela Quereis ver tudo isto com os olhos Ora vede Uma árvore tem raízes tem troncos tem ramos tem folhas tem varas tem flores tem frutos Assim há de ser o sermão há de ter raízes fortes e sólidas porque há de ser fundado no Evangelho há de ter um tronco porque há de ter um só assunto e tratar uma só matéria Deste tronco hão de nascer diversos ramos que são diversos discursos mas nascidos da mesma matéria e continuados nela Estes ramos não hão de ser secos senão cobertos de folhas porque os discursos hão de ser vestidos e ornados de palavras Há de ter esta árvore varas que são a repreensão dos vícios há de ter flores que são as sentenças e por remate de tudo há de ter frutos que é o fruto e o fim a que se há de ordenar o sermão De maneira que há de haver frutos há de haver flores há de haver varas há de haver folhas há de haver ramos mas tudo nascido e fundado em um só tronco que é uma só matéria Se tudo são troncos não é sermão é madeira Se tudo são ramos não é sermão são maravalhas Se tudo são folhas não é sermão são versas Se tudo são varas não é sermão é feixe Se tudo são flores não é sermão é ramalhete Serem tudo frutos não pode ser porque não há frutos sem árvore Assim que nesta árvore a que podemos chamar Árvore da vida há de haver o proveitoso do fruto o formoso das flores o rigoroso das varas o vestido das folhas o estendido dos ramos mas tudo isto nascido e formado de um só tronco e esse não levantado no ar senão fundado nas raízes do Evangelho Semimore semen Eis aqui como hão de ser os sermões eis aqui como não são E assim não é muito que se não faça fruto com eles Tudo o que tenho dito pudera demonstrar largamente não só com os preceitos de Aristóteles dos Túlios dos Quintilianos mas com a prática observada do principe dos oradores evangélicos S João Crisóstomo de S Basílio Magno S Bernardo S Cipriano e com as famosíssimas orações de S Gregório Nazianzeno mestre de ambas as Igrejas E posto que nestes mesmos Padres como em Santo Agostinho S Gregório e muitos outros se achamos Evangelhos apostilados com nomes de sermões e homilias uma coisa é expor e outra é pregar uma ensinar e outra persuadir E desta última é que eu falo com a qual tanto fruto fizeram no mundo Santo Antônio de Pádua e S Vicente Ferrer Mas nem por isso entendo que seja ainda esta a verdadeira cousa que busco VII A Ciência será a falta de ciência a cousa da esterilidade da palavra de Deus O pregador deve pregar do seu e não do alheio deve lutar com as próprias armas como Davi que recusou as armas de Soul Cristo encontrou os apóstolos refazendo as suas redescomo as redes a pregação deve ter chumbo e cortiça Na descida do Espírito Santo as línguas de fogo desceram sobre a cabeça dos apóstolos e não sobre as línguas para significar que o que sai da boca pára nos ouvidos mas o que sai pela boca mas da cabeça convence o entendimento Razão por que desceu uma língua sobre cada apóstolo O Batista entretanto contraria esta asserção do autor Será porventura a falta de ciência que há em muitos pregadores Muitos pregadores há que vivem do que não colheram e semeiam o que não trabalharam Depois da sentença de Adão a terra não costuma dar fruto senão a quem come o seu pão como suor do seu rosto Boa razão parece também esta O pregador há de pregar o seu e não o alheio Por isso diz Cristo que semeou o lavrador do Evangelho o trigo seu Semen suum Semeou o seu e não o alheio porque o alheio e o furtado não é bom para semear ainda que o furto seja de ciência Comeu Eva o pomo da ciência e queixavame eu antigamente desta nossa Mãe já que comeu o pomo por que lhe não guardou as pevides Não seria bem que chegasse a nós a árvore já que nos chegaram os encargos dela Pois por que o não fez assim Eva Porque o pomo era furtado e o alheio é bom para comer mas não é bom para semear é bom para comer porque dizem que é saboroso não é bom para semear porque não nasce Alguém terá experimentado que o alheio lhe nasce em casa mas esteja certo que se nasce não há de deitar raízes e o que não tem raízes não pode dar frutos Eis aqui por que muitos pregadores não fazem fruto porque pregam o alheio e não o seu Semen soum O pregar é entrar em batalha com os vícios e armas alheias ainda que sejam as de Aquiles a ninguém deram vitória16 Quando Davi saiu a campo como gigante ofereceulhe Soul as suas armas mas ele não as quis aceitar Com armas alheias ninguém pode vencer ainda que seja Davi As armas de Soul só servem a Soul as de Davi a Davi e mais aproveita um cajado e uma funda própria que a espada e a lança alheia Pregador que peleja com as armas alheias não hajais medo que derrube gigante Fez Cristo aos apóstolos pescadores de homens que foi ordená los de pregadores E que faziam os apóstolos Diz o texto que estavam Reficientes retia sua Refazendo as redes suas17 Eram as redes dos apóstolos e não eram alheias Notai Retia sua Não diz que eram suas porque as compraram senão que eram suas porque as faziam não eram suas porque lhes custaram o seu dinheiro senão porque lhes custaram o seu trabalho Desta maneira eram as redes suas e porque desta maneira eram suas por isso eram redes de pescadores que haviam de pescar homens Com redes alheias ou feitas por mão alheia podemse pescar peixes homens não se podem pescar A razão disto é porque nesta pesca de entendimentos só quem sabe fazer a rede sabe fazer o lanço Como se faz uma rede Do fio e do nó se compõe a malha Quem não enfia nem ata como há de fazer rede E quem não sabe enfiar nem sabe atar como há de pescar homens A rede tem chumbada que vai ao fundo e tem cortiça que nada em cima da água A pregação tem umas coisas de mais peso e de mais fundo e tem outras mais superficiais e mais leves e governar o leve e o pesado só o sabe fazer quem faz a rede Na boca de quem não faz a pregação até o chumbo é cortiça As razões não hão de ser enxertadas hão de ser nascidas O pregar não é recitar As razões próprias nascem do entendimento as alheias vão pegadas à memória e os homens não se convencem pela memória senão pelo entendimento Veio o Espírito Santo sobre os apóstolos e quando as línguas desciam do céu cuidava eu que lhes haviam de pôr na boca mas elas foramse pôr na cabeça Pois por que na cabeça e não na boca que é o lugar da língua Porque o que há de dizer o pregador não lhe há de sair só da boca hálhe de sair pela boca mas da cabeça O que sai só da boca pára nos ouvidos o que nasce do juízo penetra e convence o entendimento Ainda têm mais mistério estas línguas do Espírito Santo Diz o texto que não se puseram todas as línguas sobre todos os apóstolos senão cada uma sobre cada um Apparuerunt dispertitae linguae tanquam ignis seditque supra singulos eorum18 E por que cada uma sobre cada um e não todas sobre todos Porque não servem todas as línguas a todos senão a cada um a sua Uma língua só sobre Pedro porque a língua de Pedro não serve a André outra língua só sobre André porque a língua de André não serve a Filipe outra língua só sobre Filipe porque a língua de Filipe não serve a Bartolomeu e assim dos mais E se não vede o estilo de cada um dos apóstolos sobre que desceu o Espírito Santo Só de cinco temos escrituras mas a diferença com que escreveram como sabem os doutos é admirável As penas todas eram tiradas das asas daquela Pomba Divina mas o estilo tão diverso tão particular e tão próprio de cada um que bem mostra que era seu Mateus fácil João misterioso Pedro grave Jacó forte Tadeu sublime e todos com tal valentia no dizer que cada palavra era um trovão cada cláusula um raio e cada razão um triunfo Ajuntai a estes cinco S Lucas e S Marcos que também ali estavam e achareis o número daqueles sete trovões que ouviu S João no Apocalipse Locuta sunt septem tonitrua voces suas19 Eram trovões que falavam e dearticulavam as vozes mas estas vozes eram suas Voces suas suas e não alheias como notou Ansberto Non alienas sed suas Enfim pregar o alheio é pregar o alheio e com o alheio nunca se fez coisa boa Contudo eu não me firmo de todo nesta razão porque do grande Batista sabemos que pregou o que tinha pregado Isaías como notou S Lucas e não com outro nome senão de sermões Praedicans baptismum poenitentiae in remissionem peccatorum sicut scriptum est in libto sermonun Jsaiae Pmphetae20 Deixo o que tomau S Ambrósio de S Basilio S Próspero e Beda de Santo Agostinho Teofilato e Eutímio de S João Crisóstomo VIII A voz antigamente a primeira qualidade do pregador era bom peito Como se definiu o Batista O pregador voz que arrazoa e não voz que brada Contudo às vezes valem mais os brados que a razão como no julgamento de Cristo Definição de Isaias contrária ao exemplo de Jesus de Moisés e de outros patriarcas e profetas Conclusão a cousa da falta de fruto dos sermões não está nem na pessoa nem no estilo nem na matéria nem na ciência nem na voz do pregador Será finalmente a cousa que há tanto buscamos a voz com que hoje falam os pregadores Antigamente pregavam bradando hoje pregam conversando Antigamente a primeira parte do pregador era boa voz e bom peito E verdadeiramente como o mundo se governa tanto pelos sentidos podem às vezes mais os brados que a razão Boa era também esta mas não a podemos provar com o semeador porque já dissemos que não era oficio de boca Porém o que nos negou o Evangelho no semeador metafórico nos deu no semeador verdadeiro que é Cristo Tanto que Cristo acabou a parábola diz o Evangelho que começou o Senhor a bradar Haec dicens clamabat Lc 88 Bradou o Senhor e não arrazoou sobre a parábola porque era tal o ouditório que fiou mais dos brados que da razão Perguntaram ao Batista quem era Respondeu ele Ego vox clainantis in deserto Jo 123 Eu sou uma voz que anda bradando neste deserto Desta maneira se definiu o Batista A definição do pregador cuidava eu que era voz que arrazoa e não voz que brada Pois porque se definiu o Batista pelo bradar e não pelo arrazoar não pela razão senão pelos brados Porque há muita gente neste mundo com quem podem mais os brados que a razão e tais eram aqueles a quem o Batista pregava Vedeo claramente em Cristo Depois que Pilatos examinou as acusações que contra ele se davam lavou as mãos e disse Ego nullam cousam invenio in homine isto Lc 2314 Eu nenhuma cousa acho neste homem Neste tempo todo o povo e os escribas bradavam de fora que fosse crucificado At illi magis clamabant crucifigatur Mt 2723 De maneira que Cristo tinha por si a razão e tinha contra si os brados E qual pôde mais Puderam mais os brados que a razão A razão não valeu para o livrar os brados bastaram para o pôr na cruz E como os brados no mundo podem tanto bem é que bradem alguma vez os pregadores bem é que gritem Por isto Isaias chamau aos pregadores nuvens Qui sunt isti qui ut nubes volant21 A nuvem tem relâmpago tem trovão e tem raio relâmpago para os olhos trovão para os ouvidos raio para o coração com o relâmpago alumia com o trovão assombra com o raio mata Mas o raio fere a um o relâmpago a muitos a trovão a todos Assim há de ser a voz da pregador um trovão da céu que assombre e faça tremer o mundo Mas que diremos à oração de Moisés Concresat ut pluvia doctrina meo fluat ut ros elo quium meum Dt 322 Desça minha doutrina como chuva da céu e a minha voz e as minhas palavras como orvalho que se destila brandamente e sem ruído Que diremos ao exemplo ordinário de Cristo tão celebrado par Isaias Non clamabit neque oudietur vox ejusforis Is 422 Não clamará não bradará mas falará com uma voz tão moderada que se não possa ouvir fora E não há dúvida que o praticar familiarmente e o falar mais ao ouvido que aos ouvidos não só concilia maior atenção mas naturalmente e sem força se insinua entra penetra e se mete na alma Em conclusão que a cousa de não fazerem hoje fruto os pregadores com a palavra de Deus nem é a circunstância da pessoa Qui seminat nem a do estilo Seminare nem a da matéria Semen nem a da ciência Suum nem a da voz Clamabat Moisés tinha fraca voz Amós tinha grosseiro estilo Salomão multiplicava e variava os assuntos Balaão não tinha exemplo de vida o seu animal não tinha ciência e contudo todos estes falando persuadiam e convenciam22 Pois se nenhuma destas razões que discorremos nem todas elas juntas são a cousa principal nem bastante do pouco fruto que hoje faz a palavra de Deus qual diremos finalmente que é a verdadeira cousa IX A verdadeira razão as palavras dos pregadores são palavras de Deus mas não são a palavra de Deus As Escrituras quando não tomadas em seu verdadeiro sentido podem transformarse em palavras do demônio como no caso da tentação de Cristo Analogia entre o pináculo do Templo e o púlpito Os pregadores e as duas falsas testemunhas do julgamento de Cristo Admoestação de S Paulo Excelência dos comediógrafos pagãos sobre os maus pregadores As palavras que tomei por tema o dizem Semen est Verbum Dei Sabeis cristãos a cousa por que se faz hoje tão pouco fruto com tantas pregações É porque as palavras dos pregadores são palavras mas não são palavras de Deus Falo do que ordinariamente se ouve A palavra de Deus como dizia é tão poderosa e tão eficaz que não só na boa terra faz fruto mas até nas pedras e nos espinhos nasce Mas se as palavras dos pregadores não são palavra de Deus que muito que não tenham a eficácia e os efeitos de palavra de Deus Ventum seminabunt et turbinem colligent Os 87 diz o Espírito Santo Quem semeia ventos colhe tempestades Se os pregadores semeiam vento se o que se prega é vaidade se não se prega a palavra de Deus como não há a Igreja de Deus de correr tormenta em vez de colher frutos Mas dirmeeis padre os pregadores de hoje não pregam do Evangelho não pregam das Sagradas Escrituras Pois como não pregam a palavra de Deus Esse é o mal Pregam palavras de Deus mas não pregam a palavra de Deus Qui habet sennonem meum loquatur serutonem meus23 disse Deus por Jeremias As palavras de Deus pregadas no sentido em que Deus as disse são palavra de Deus mas pregadas no sentido que nós queremos não são palavras de Deus antes podem ser palavra do demônio Tentou o demônio a Cristo a que fizesse das pedras pão Respondeulhe o Senhor Non in solo pane vivit homo sed in omni verbo quod procedit de Dei24 Esta sentença era tirada do capítulo oitavo do Deuteronômio Vendo o demônio que o Senhor se defendia da tentação com a Escritura levao ao templo e alegando o lugar do salmo novento dizlhe desta maneira Mitte de aeorsum scriptum est enim quia Angelis suis Deus mandavit de te ut custodiant te in omnibus viis tuis SI 9011 Deitate daí abaixo porque prometido está nas Sagradas Escrituras que os anjos te tomarão nos braços para que te não faças mal De sorte que Cristo defendeuse do diabo com a Escritura e o diabo tentou a Cristo com a Escritura Todas as Escrituras são palavra de Deus pois se Cristo toma a Escritura para se defender do diabo como toma o diabo a Escritura para tentar a Cristo A razão é porque Cristo tomava as palavras da Escritura em seu verdadeiro sentido e o diabo tomava as palavras da Escritura em sentido alheio e torcido E as mesmas palavras que tomadas em verdadeiro sentido são palavras de Deus tomadas em sentido alheio são armas do diabo As mesmas palavras que tomadas no sentido em que Deus as disse são defesa tomadas no sentido em que Deus as não disse são tentação Eis aqui a tentação com que então o diabo quis derrubar a Cristo e com que hoje lhe faz a mesma guerra do pináculo do Templo O pináculo do Templo é o púlpito porque é o lugar mais alto dele O diabo tentou a Cristo no deserto tentouo no monte tentouo no Templo no deserto tentouo com a gula no monte tentouo com a ambição no Templo tentouo com as Escrituras mal interpretadas e essa é a tentação de que mais padece hoje a Igreja e que em muitas partes tem derrubado dela senão a Cristo a sua fé Dizeime pregadores aqueles com quem eu falo indignos verdadeiramente de tão sagrado nome dizeime estes assuntos inúteis que tantas vezes levantais essas empresas ao vosso parecer agudas que prosseguis achastelas alguma vez nos profetas do Testamento Velho ou nos apóstolos e evangelistas do Testamento Novo ou no Autor de ambos os Testamentos Cristo É certo que não porque desde a primeira palavra do Gênesis até a última do Apocalipse não há tal coisa em todas as Escrituras25 Pois se nas Escrituras não há o que dizeis e o que pregais como cuidais que pregais a palavra de Deus Mais Nesses lugares nesses textos que alegais para prova do que dizeis é esse o sentido em que Deus os disse É esse o sentido em que os entendemos Padres da Igreja É esse o sentido da mesma gramática das palavras Não por certo porque muitas vezes as tomais pelo que soam e não pelo que significam e talvez nem pelo que soam Pois se não é esse o sentido das palavras de Deus seguese que não são palavras de Deus E se não são palavras de Deus que nos queixamos de que não façam fruto as pregações Basta que havemos de trazer as palavras de Deus a que digam o que nós queremos e não havemos de querer dizer o que elas dizem E então ver cabecear o ouditório a estas coisas quando devíamos de dar com a cabeça pelas paredes de as ouvir Verdadeiramente não sei de que mais me espante se dos nossos conceitos se dos vossos aplousos Oh que bem levantou o pregador Assim é mas que levantou Um falso testemunho ao texto outro falso testemunho ao santo outro ao entendimento e ao sentido de ambos Então que se converta o mundo com falsos testemunhos da palavra de Deus Se a alguém parecer demasiada a censura ouçame Estava Cristo acusado diante de Caifás e diz o evangelista S Mateus que por fim vieram duas testemunhas Novissime venerunt duo falsi testes Mt 2660 Estas testemunhas referiram que ouviram dizer a Cristo que se os judeus destruíssem o Templo ele o tomaria a reedificar em três dias Se lermos o evangelista S João acharemos que Cristo verdadeiramente tinha dito as palavras referidas Pois se Cristo tinha dito que havia de reedificar o Templo dentro de três dias e isso mesmo é o que referiram as testemunhas como lhes chama o evangelista testemunhas falsas Duo falsi testes O mesmo S João deu a razão Loquebatur de templo corporis sui Jo 221 Quando Cristo disse que em três dias reedificaria o templo falava o Senhor do templo místico de seu corpo o qual os judeus destruíram pela morte e o Senhor o reedificou pela ressurreição e como Cristo falava do templo místico e as testemunhas o referiram ao templo material de Jerusalém ainda que as palavras eram verdadeiras as testemunhas eram falsas Eram falsas porque Cristo as dissera em um sentido e eles as referiram em outro e referir as palavras de Deus em diferente sentido do que foram ditas é levantar falso testemunho a Deus é levantar falso testemunho às Escrituras Ah Senhor quantos falsos testemunhos vos levantam Quantas vezes ouço dizer que dizeis o que nunca dissestes Quantas vezes ouço dizer que são palavras vossas o que são imaginações minhas que me não quero excluir deste número Que muito logo que as nossas imaginações e as nossas vaidades e as nossas fábulas não tenham a eficácia de palavra de Deus Miseráveis de nós e miseráveis dos nossos tempos Pois neles se veio a cumprir a profecia de S Paulo Erit tempus curo sanam doctrinam non sustinebunt 2 Tim 43 Virá tempo diz S Paulo em que os homens não sofrerão a doutrina sã Sed ad sua desideria coacervabunt sibi magistros prurientes ouribus mas para seu apetite terão grande número de pregadores feitos a montão e sem escolha os quais não façam mais do que adularlhes as orelhas A veritate quidem ouditun avertent ad fabulas outem convertentur fecharão os ouvidos à verdade e abrilosão às fábulas Fábula tem duas significações quer dizer fingimento e quer dizer comédia e tudo são muitas pregações deste tempo São fingimento porque são subtilezas e pensamentos aéreos sem fundamento de verdade são comédia porque os ouvintes vêm à pregação como à comédia e há pregadores que vêm ao púlpito como comediantes Uma das felicidades que se contava entre as do tempo presente era acabaremse as comédias em Portugal mas não foi assim Não se acabaram mudaramse passaramse do teatro ao púlpito Não cuideis que encareço em chamar comédias a muitas pregações das que hoje se usam Tomara ter aqui as comédias de Plouto de Terêncio de Sêneca e veríeis se não acháveis nelas muitos desenganos da vida e vaidade do mundo muitos pontos de doutrina moral muito mais verdadeiros e muito mais sólidos do que hoje se ouvem nos púlpitos Grande miséria por certo que se achem maiores documentos para a vida nos versos de um poeta profano e gentio que nas pregações de um orador cristão e muitas vezes sobre cristão religioso Pouco disse S Paulo em lhes chamar comédia porque muitos sermões há que não são comédia são farsa Sobe talvez ao púlpito um pregador dos que professam ser mortos ao mundo vestido ou amortalhado em um hábito de penitência que todos mais ou menos ásperos são de penitência e todos desde o dia em que os professamos mortalhas a vista é de horror o nome de reverência a matéria de compunção a dignidade de oráculo o lugar e a expectação de silêncio E quando este se rompeu que é o que se ouve Se neste auditório estivesse um estrangeiro que nos não conhecesse e visse entrar este homem a falar em público naqueles trajas e em tal lugar cuidaria que havia de ouvir uma trombeta do céu que cada palavra sua havia de ser um raio para os corações que havia de pregar com o zelo e com o fervor de um Elias que com a voz com o gesto e com as ações havia de fazer em pó e em cinza os vícios Isto havia de cuidar o estrangeiro E nós que é o que vemos Vemos sair da boca daquele homem assim naqueles trajos uma voz muito afetada e muito polida e logo começar com muito desgarro a quê A motivar desvelos a acreditar empenhos a requintar finezas a lisonjear precipícios a brilhar auroras a derreter Cristais a desmaiar jasmins a toucar primaveras e outras mil indignidades destas Não é isto farsa a mais digna de riso se não fora tanto para chorar Na comédia o rei veste como rei e fala como rei o lacaio veste como lacaio e fala como lacaio o rústico veste como rústico e fala como rústico mas um pregador vestir como religioso e falar como não o quero dizer por reverência ao lugar Já que o púlpito é teatro e o sermão comédia sequer não faremos bem a figura Não dirão as palavras com o vestido e com o ofício Assim pregava S Paulo assim pregavam aqueles patriarcas que se vestiram e nos vestiram destes hábitos Não louvamos e não admiramos o seu pregar não nos prezamos de seus filhos Pois por que os não imitamos Por que não pregamos como eles pregavam Neste mesmo púlpito pregou S Francisco Xavier neste mesmo púlpito pregou S Francisco de Borja e eu que tenho o mesmo hábito por que não pregarei a sua doutrina já que me falta o seu espírito X Não fazer caso das zombarias dos ouvintes a doutrina que eles desestimam essa é a mais proveitosa é como o trigo que caiu no caminho O pregador é o médico não deve procurar agradar mas curar Diferença entre dois famosos pregadores de Coimbra Esperança de melhores frutos para a quaresma que se inicia Dirmeeis o que a mim me dizem e o que já tenho experimentado que se pregamos assim zombam de nós os ouvintes e não gostam de ouvir Oh boa razão para um servo de Jesus Cristo Zombem e não gostem embora e façamos nosso ofício A doutrina de que eles zombam a doutrina que eles desestimam essa é a que lhes devemos pregar e por isso mesmo porque é a mais proveitosa e a que mais hão mister O trigo que caiu no caminho comeramno as aves Estas aves como explicou o mesmo Cristo são os demônios que tiram a palavra de Deus dos corações dos homens Venit diabolus et tollit verbum de corde eorum Pois por que não comeu o diabo o trigo que caiu entre os espinhos ou o trigo que caiu nas pedras senão o trigo que caiu no caminho Porque o trigo que caiu no caminho Conculcatum est ab hominibus pisaramno os homens e a doutrina que os homens pisam a doutrina que os homens desprezam essa é a de que o diabo se teme Desses outros conceitos desses outros pensamentos dessas outras subtilezas que os homens estimam e prezam dessas não se teme nem se acoutela o diabo porque sabe que não são essas as pregações que lhe hão de tirar as almas das unhas Mas daquela doutrina que cai secos viam daquela doutrina que parece comum secas viam daquela doutrina que parece trivial secas viam daquela doutrina que parece trilhada secos viam daquela doutrina que nos põe em caminho e em via da nossa salvação que é a que os homens pisam e a que os homens desprezam essa é a de que o demônio se receia e se acoutela essa é a que procura comer e tirar do mundo E por isso mesmo essa é a que deviam pregar os pregadores e a que deviam buscar os ouvintes Mas se eles não o fizerem assim e zombarem de nós zombemonos tanto de suas zombarias como dos seus aplousos Per infamiam et bonan famam diz S Paulo 2 Cor 68 O pregador há de saber pregar com fama e sem fama Mais diz o apóstolo há de pregar com fama e com infâmia Pregar o pregador para ser afamado isso é mundo mas infamado e pregar o que convém ainda que seja com descrédito de sua fama isso é ser pregador de Jesus Cristo Pois o gostarem ou não gostaremos ouvintes Oh que advertência tão digna Que médico há que repare no gosto do enfermo quando trata de lhe dar saúde Sarem e não gostem salvemse e amarguelhes que para isso somos médicos das almas Quais vos parecem que são as pedras sobre que caiu parte do trigo do Evangelho Explicando Cristo a parábola diz que as pedras são aqueles que ouvem a pregação com gosto Hi sunt qui cum goudio suscipiunt verbum Pois será bem que os outros ouvintes gostem e que no cabo fiquem pedras Não gostem e abrandemse não gostem e quebremse não gostem e frutifiquem Este é o modo com que frutificou o trigo que caiu na boa terra Et fructum afferunt in patientia conclui Cristo26 De maneira que o frutificar não se ajunta com o gostar senão com o padecer frutifiquemos nós e tenham eles paciência A pregação que frutifica a pregação que aproveita não é aquela que dá gosto ao ouvinte é aquela que lhe dá pena Quando o ouvinte a cada palavra do pregador treme quando cada palavra do pregador é um torcedor para o coração do ouvinte quando o ouvinte vai do sermão para casa confuso e atônito sem saber parte de si então é a pregação qual convém então se pode esperar que faça fruto Et frucium afferunt in patientia Enfim para que os pregadores saibam como hão de pregar e os ouvintes a quem hão de ouvir acabo com um exemplo de nosso Reino e quase de nossos tempos Fregavam em Coimbra dois famosos pregadores ambos bem conhecidos por seus escritos não os nomeio porque os hei de desigualar Altercouse entre alguns doutores da Universidade qual dos dois fosse maior pregador e como não há juízo sem inclinação uns diziam este outros aquele Mas um lente que entre os mais tinha maior autoridade concluiu desta maneira Entre dois sujeitos tão grandes não me atrevo a interpor juízo só direi uma diferença que sempre experimento quando ouço um saio do sermão muito contente do pregador quando ouço outro saio muito descontente de mim Com isto tenho acabado Algum dia vos enganastes tanto comigo que saíeis do sermão muito contentes do pregador agora quisera eu desenganar vos tanto que saíreis muito descontentes de vós Semeadores do Evangelho eis aqui o que devemos pretender dos nossos sermões não que os homens saiam contentes de nós senão que saiam muito descontentes de si não que lhes pareçam bem os nossos conceitos mas que lhes pareçam mal os seus costumes as suas vidas os seus passatempos as suas ambições e enfim todos os seus pecados Contanto que se descontentem de si descontentemse embora de nós Si hominibus placerem Christi servus non essem Gal 1 10 dizia o maior de todos os pregadores S Paulo Se eu contentara aos homens não seria servo de Deus Oh contentemos a Deus e acabemos de não fazer caso dos homens Advirtamos que nesta mesma igreja há tribunas mais altas que as que vemos Spetaculum facti suminus Deo angelis et hominibus27 Acima das tribunas dos reis estão as tribunas dos anjos está a tribuna e o tribunal de Deus que nos ouve e nos há de julgar Que conta há de dar a Deus um pregador no dia do juízo O ouvinte dirá não mo disseram mas o pregador Vae mihi quia tacui Is 65 Ai de mim que não disse o que convinha Não seja mais assim por amor de Deus e de nós Estamos às portas da quaresma que é o tempo em que principalmente se semeia a palavra de Deus na Igreja e em que ela se arma contra os vícios Preguemos e armemonos todos contra os pecados contra as soberbas contra os ódios contra as ambições contra as invejas contra as cobiças contra as sensualidades Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus e saiba a mesma terra que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto Et fecit fructum centuplum SERMÃO DE QUARTAFEIRA DE CINZA EM ROMA NA IGREJA DE S ANTÓNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1672 Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverentis1 I O pó futuro em que nos havemos de converter é visível à vista mas o pó presente o pó que somos como poderemos entender essa verdade A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais ambas grandes ambas tristes ambas temerosas ambas certas Mas uma de tal maneira certa e evidente que não é necessário entendimento para crer outra de tal maneira certa e dificultosa que nenhum entendimento basta para a alcançar Uma é presente outra futura mas a futura vêemna os olhos a presente não a alcança o entendimento E que duas coisas enigmáticas são estas Pulvis es tu in pulverem reverteris Sois pó e em pó vos haveis de converter Sois pó é a presente em pó vos haveis de converter é a futura O pó futuro o pó em que nos havemos de converter vêemno os olhos o pó presente o pó que somos nem os olhos o vêem nem o entendimento o alcança Que me diga a Igreja que hei de ser pó Jn pulverem reverteris não é necessário fé nem entendimento para o crer Naquelas sepulturas ou abertas ou cerradas o estão vendo os olhos Que dizem aquelas letras Que cobrem aquelas pedras As letras dizem pó as pedras cobrem pó e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser tudo pó Vamos para maior exemplo e maior horror a esses sepulcros recentes do Vaticano Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas respondervosão os epitáfios que só as distinguem Aquele pó foi Urbano aquele pó foi Inocêncio aquele pó foi Alexandre e este que ainda não está de todo desfeito foi Clemente De sorte que para eu crer que hei de ser pó não é necessário fé nem entendimento basta a vista Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja regra da fé e da verdade que não só hei de ser pó de futuro senão que já sou pó de presente Pulvis es Como o pode alcançar o entendimento se os olhos estão vendo o contrário É possível que estes olhos que vêem estes ouvidos que ouvem esta língua que fala estas mãos e estes braços que se movem estes pés que andam e pisam tudo isto já hoje é pó Pulvis es Argumento à Igreja com a mesma Igreja Memento homo A Igreja dizme e supõe que sou homem logo não sou pó O homem é uma substância vivente sensitiva racional O pó vive Não Pois como é pó o vivente O pó sente Não Pois como é pó o sensitivo O pó entende e discorre Não Pois como é pó o racional Enfim se me concedem que sou homem Memento homo como me pregam que sou pó Quia pulvis es Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano peçamos àquela Senhora que só foi exceção deste pó se digne de nos alcançar graça Ave Maria II O homem foi pó e há de ser pó logo é pó pois tudo o que vive não é o que é é o que foi e o que há de ser O exemplo da vara de Arão que se converte em serpente Deus se definiu a Moisés como aquele que é o que é porque só ele é o que foi e o que há de ser Se alguém puder afirmar o mesmo de si próprio também é digno de ser adorado Enfim senhores não só havemos de ser pó mas já somos pó Pulvis es Todos os embargos que se podiam pôr contra esta sentença universal são os que ouvistes Porém como ela foi pronunciada definitiva e declaradamente por Deus ao primeiro homem e a todos seus descendentes nem admite interpretação nem pode ter dúvida Mas como pode ser Como pode ser que eu que o digo vós que o ouvis e todos os que vivemos sejamos já pó Pulvis es A razão é esta O homem em qualquer estado que esteja é certo que foi pó e há de tornar a ser pó Foi pó e há de tomar a ser pó Logo é pó Porque tudo o que vive nesta vida não é o que é é o que foi e o que há de ser Ora vede No dia aprazado em que Moisés e os magos do Egito haviam de fazer prova e ostentação de seus poderes diante de eI rei Faraó Moisés estava só com Arão de uma parte e todos os magos da outra Deu sinal o rei mandou Moisés a Arão que lançasse a sua vara em terra e converteuse subitamente em uma serpente viva e tão temerosa como aquela de que o mesmo Moisés no deserto se não dava por seguro Fizeram todos os magos o mesmo começam a saltar e a ferver serpentes porém a de Moisés investiu e avançou a todas elas intrépida e senhorilmente e assim vivas como estavam sem matar nem despedaçar comeu e engoliu a todas Refere o caso a Escritura e diz estas palavras Devoravit virga Aaron virgas eorum a vara de Arão comeu e engoliu as dos egípcios Êx 712 Parece que não havia de dizer a vara senão a serpente A vara não tinha boca para comer nem dentes para mastigar nem garganta para engolir nem estômago para recolher tanta multidão de serpentes A serpente em que a vara se converteu sim porque era um dragão vivo voraz e terrível capaz de tamanha batalha e de tanta façanha Pois por que diz o texto que a vara foi a que fez tudo isto e não a serpente Porque cada um é o que foi e o que há de ser A vara de Moisés antes de ser serpente foi vara e depois de ser serpente tornou a ser vara a serpente que foi vara e há de tornar a ser vara não é serpente é vara Virga Aaron E verdade que a serpente naquele tempo estava viva e andava e comia e batalhava e vencia e triunfava mas como tinha sido vara e havia de tornar a ser vara não era o que era era o que fora e o que havia de ser Virga Ah serpentes astutas do mundo vivas e tão vivas Não vos fieis da vossa vida nem da vossa viveza não sois o que cuidais nem o que sois sois o que fostes e o que haveis de ser Por mais que vós vejais agora um dragão coroado e vestido de armas douradas com a couda levantada e retorcida açoitando os ventos o peito inchado as asas estendidas o colo encrespado e soberbo a boca aberta dentes agudos língua trifitricada olhos cintilantes garras e unhas rompentes por mais que se veja esse dragão já tremular na bandeira dos lacedemônios já passear nos jardins das hespéridesjá guardar os tesouros de Midas ou seja dragão volante entre os meteoros ou dragão de estrelas entre as constelações ou dragão de divindade afetada entre as hierarquias se foi vara e há de ser vara é vara se foi terra e há de ser terra é terra se foi nada e há de ser nada é nada porque tudo o que vive neste mundo é o que foi e o que há de ser Só Deus é o que é mas por isso mesmo Por isso mesmo Notai Apareceu Deus ao mesmo Moisés nos desertos de Midiã manda o que leve a nova da liberdade ao povo cativo e perguntando Moisés quem havia de dizer que o mandava para que lhe dessem crédito respondeu Deus e definiuse Ego sum qui sum Eu sou o que sou Êx 314 Dirás que o que é te manda Qui est misit me ad vos Qui est O que é E que nome ou que distinção é esta Também Moisés é o que é também Faraó é o que é também o povo com que há de falar é o que é Pois se este nome e esta definição toca a todos e a tudo como a toma Deus só por sua E se todos são o que são e cada um é o que é por que diz Deus não só como atributo senão como essência própria da sua divindade Ego sum qui sum Eu sou o que sou Excelentemente S Jerônimo respondendo com as palavras do Apocalipse Qui est et qui erat et qui venturus est2 Sabeis por que diz Deus Ego sum qui sum Sabeis por que só Deus é o que é Porque só Deus é o que foi e o que há de ser Deus é Deus e foi Deus e há de ser Deus e só quem é o que foi e o que há de ser é o que é Qui est et qui erat et qui venturus est Ego sum qui sum De maneira que quem é o que foi e o que há de ser é o que é e este é só Deus Quem não é o que foi e o que há de ser não é o que é é o que foi e o que há de ser e esses somos nós Olhemos para trás que é o que fomos Pó Olhemos para diante que é o que havemos de ser Pó Fomos pó e havemos de ser pó Pois isso é o que somos Pulvis es Eu bem sei que também há deuses da terra e que esta terra onde estamos foi a pátria comum de todos os deuses ou próprios ou estrangeiros Aqueles deuses eram de diversos metais estes são de barro ou cru ou mal cozido mas deuses Deuses na grandeza deuses na majestade deuses no poder deuses na adoração e também deuses no nome Ego dixi dii estis Mas se houver que pode haver se houver algum destes deuses que cuide ou diga Ego sum qui sum olhe primeiro o que foi e o que há de ser Se foi Deus e há de ser Deus é Deus eu o creio e o adoro mas se não foi Deus nem há de ser Deus se foi pó e há de ser pó faça mais caso da sua sepultura que da sua divindade Assim lho disse e os desenganou o mesmo Deus que lhes chamau deuses Ego dixi dii estis Vos outem sicut homines moremini3 Quem foi pó e há de ser pó seja o que quiser e quanto quiser é pó Pulvis es III Jó definese como quem foi pó e há de ser pó Abraão definese como quem é pó O texto sagrado não diz convertervoseis em pó mas tornareis a ser pó O que chamamos vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó Pareceme que tenho provado a minha razão e a conseqüência dela Se a quereis ver praticada em próprios termos sou contente Praticaram este desengano dois homens que sabiam mais de nós que nós Abraão e Jó com outro memento como o nosso dizia a Deus Memento quaeso quod sicuit lutum feceris me et in pulverem deduces me Lembraivos Senhor que me fizestes de pó e que em pó me haveis de tornar Jó l0 9 Abraão pedindo licença ou atrevimento para falar a Deus Loquar ad Dominum cum sim pulvis et cinis Falarvosei Senhor ainda que sou pó e cinza Gên 18 27 Já vedes a diferença dos termos que não pode ser maior nem também mais natural ao nosso intento Jó diz que foi pó e há de ser pó Abraão não diz que foi nem que há de ser senão que já é pó Cum sim pulvis et cinis Se um destes homens fora morto e outro vivo falavam muito propriamente porque todo o vivo pode dizer Eu fui pó e hei de ser pó e um morto se falar havia de dizer Eu já sou pó Mas Abraão que disse isto não estava morto senão vivo como Jó e Abraão e Jó não eram de diferente metal nem de diferente natureza Pois se ambos eram da mesma natureza e ambos estavam vivos como diz um que já é pó e outro não diz que o é senão que o foi e que o há de ser Por isso mesmo Porque Jó foi pó e há de ser pó por isso Abraão é pó Em Jó falou a morte em Abraão falou a vida em ambos a natureza Um descreveuse pelo passado e pelo futuro o outro definiuse pelo presente um reconheceu o efeito o outro considerou a cousa um disse o que era o outro declarou o porquê Porque Jó e Abraão e qualquer outro homem foi pó por isso já é pó Fostes pó e haveis de ser pó como Jó Pois já sois pó como Abraão Cum sim pulvis et cinis Tudo temos no nosso texto se bem se considera porque as segundas palavras dele não só contêm a declaração senão também a razão das primeiras Pulvis es sois pó E por quê Porque in pulverem mverteris porque fostes pó e haveis de tomar a ser pó Esta é a força da palavra reverteris a qual não só significa o po que havemos de ser senão também a pó que somos Por isso não diz convertetis convertervoseis em pó senão reverteris tomareis a ser o pó que fostes Quando dizemos que os mortos se convertem em pó falamos impropriamente porque aquilo não é conversão é reversão reverteris É tornar a ser na morte a pó que somos no nascimento é tornar a ser na sepultura a pó que somos no campo damasceno E porque somos pó e havemos de tomar a ser pó Ia pulverem neverteris por isso já somos pó Pulvis es Não é exposição minha senão formalidade do mesmo texto com que Deus pronunciou a sentença de morte contra Adão Donec reverteris in terram de qua sumptus es quia pulvis es Gên 319 Até que tomes a ser a tenra de que fostes formado porque és pó De maneira que a razão e o porquê de sermos pó Qutíapulvis es é porque somos pó e havemos de tomar a ser pó Donec revertaris in terram de qua sumptus es Só parece que se pode opor ou dizer em contrário que aquele donec até que significa tempo em meio entre o pó que somos e o pó que havemos de ser e que neste meio tempo não somos pó Mas a mesma verdade divina que disse donec disse também pulvis es E a razão desta conseqüência está no reverteris porque a reversão com que tornamos a ser a pó que fomos começa circularmente não do último senão do primeiro ponto da vida Notai Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser Uns fazem o círculo maior outros menor outros mais pequeno outros mínimo De utero transíatus ad tumulum4 Mas ou a caminho seja largo ou breve ou brevíssimo como é círculo de pó a pó sempre e em qualquer parte da vida somos pó Quem vai circularmente de um ponto para o mesmo ponto quanto mais se aparta dele tanto mais se chega para ele e quem quanto mais se aparta mais se chega não se aparta O pó que foi nosso princípio esse mesmo e não outro é o nosso fim e porque caminhamos circularmente deste pó para este pó quanto mais parece que nos apartamos dele tanto mais nos chegamos para ele o passo que nos aparta esse mesmo nos chega o dia que faz a vida esse mesmo a desfaz E como esta roda que anda e desanda juntamente sempre nos vai moendo sempre somos pó Por isso quando Deus intimau a Adão a reversão ou revolução deste circulo Donec revertaris das premissas pó foste e pó serás tirou por conseqüência pó és Quia pulvis es Assim que desde o primeiro instante da vida até o último nos devemos persuadir e assentar conosco que não só somos e havemos de ser pó senão que já a somos e por isso mesmo Foste pó e hás de ser pó És pó Pulvis es IV Se já somos pó qual a diferença existente entre vivos e mortos Os vivos são o pó levantado pelo vento os mortos são o pó caído Adão frito de pó recebendo o vento do sopro divino tornase vivo Nas Escrituras levantar é viver cair é morrer Assim como distingue Davi há o pó da morte e o pó da vida Ora suposto que já somos pó e não pode deixar de ser pois Deus o disse perguntarmeeis e com muita razão em que nos distinguimos logo os vivos dos mortos Os mortos são pó nós também somos pó em que nos distinguimos uns dos outros Distinguimonos os vivos dos mortos assim como se distingue o pó do pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet Estão essas praças no verão cobertas de pó dá um pédevento levantase o pó no ar e que faz O que fazem as vivos e muitos vivos Não aquieta o pó nem pode estar queda anda corre voa entrapar esta rua sai por aquela já vai adiante já torna atrás tudo enche tudo cobre tudo envolve tudo perturba tudo cega tudo penetra em tudo e por tudo se mete sem aquietar nem sossegar um momento enquanto o vento dura Acalmau o vento cai o pó e onde o vento parou ali fica ou dentro de casa ou na rua ou em cima de um telhado ou no mar ou no rio ou no monte ou na campanha Não é assim Assim é E que pó e que vento é este O pó somos nós Quia pulvis es o vento é a nossa vida Quia ventus es vita mea Jó 77 Deu o vento levantouse o pó parou a vento caiu Deu o vento eis o pó levantado esses são os vivos Parou o vento eis o pó caído estes são os mortos Os vivos pó os mortos pó os vivos pó levantado os mortos pó caído os vivos pó com vento e por isso vãos os mortos pó sem vento e por isso sem vaidade Esta é a distinção e não há outra Nem cuide alguém que é isto metáfora ou comparação senão realidade experimentada e certa Forma Deus de pó aquela primeira estátua que depois se chamau carpa de Adão Assim o diz o texto original Formavit Deus hominem de pulvere terrae Gên 27 A figura era humana e muito primorosamente delineada mas a substância ou a matéria não era mais que pó A cabeça pó o peito pó os braços pó os olhos a boca a língua o coração tudo pó Chegase pais Deus à estátua e que fez Jnspiravit in faciem ejus Assoproua Gên 27 E tanto que o vento do assopro deu no pó Et factus est homo in animam viventem eis o pó levantado e vivo já é homemjá se chama Adão Ah pó se aquietaras e pararas aí Mas pó assoprada e com vento como havia de aquietar Eila abaixa eilo acima e tanto acima e tanto abaixo dando uma tão grande volta e tantas voltas Já senhor do universo já escravo de si mesma já só já acompanhado já nu já vestido já coberta de folhas já de peles já tentada já vencido já homiziada já desterrada já pecador já penitente e para maior penitência pai chorando os filhos lavrando a terra recolhendo espinhos por frutos suando trabalhando lidando fatigando com tantos vaivéns do gosto e da fortuna sempre em uma roda viva Assim andou levantado o pó enquanto durou o vento O vento durou muito porque naquele tempo eram mais largas as vidas mas alfim parou E que lhe sucedeu no mesmo ponto a Adão O que sucede ao pó Assim como o vento a levantou e o sustinha tanto que o vento parou caiu Pó levantado Adão vivo pó caído Adão morto Et mortus est Este foi o primeiro pó e o primeiro vivo e o primeiro condenado à morte e esta é a diferença que há de vivos a mortos e de pó a pó Por isso na Escritura o morrer se chama cair e o viver levantarse O morrer cair Vos outem sicut hominas moriemini et sicut unus de principibus cadetis5 O viver levantarse Adolescens tibi dico surget6 Se levantados vivos se caídos mortos mas ou caídos ou levantados ou mortos ou vivos pó os levantados pó da vida os mortos pó da morte Assim a entendeu e notou Davi e esta é a distinção que fez quando disse Jn pulvere mortis deduxisti me Levastesme Senhor ao pó da morte Não bastava dizer Jn pulverem deduxisti assim como In pulverem reverteris Se bastava mas disse com maior energia Ia pulverem mortis ao pó da morte porque há pó da morte e pó da vida os vivos que andamos em pé somos o pó da vida Pulvis es os mortos que jazem na sepultura são o pó da morte In pulverem reverteris V O memento dos vivos lembrese o pó levantado que há de ser pó caído O vento da vida e o vento da fortuna A estátua de Nabucodonosor o ouro a prata o bronze o ferro tudo se converte em pó de terra Significado do nome de Adão Santo Agostinho e a glória de Roma Roma a caveira do mundo ainda está sujeita a novas destruições Salomão e o espelho do passado e do futuro À vista desta distinção tão verdadeira e deste desengano tão certo que posso eu dizer ao nosso pó senão o que lhe diz a Igreja Memento homo Dois mementos hei de fazer hoje ao pó um memento ao pó levantado outro memento ao pó caído um memento ao pó que somos outro memento ao pó que havemos de ser um memento ao pó que me ouve outra memento ao pó que não pode ouvir O primeiro será o memento dos vivos o segundo o dos mortos Aos vivos que direi eu Diga que se lembre o pó levantado que há de ser pó caído Levantase o pó com a vento da vida e muito mais como vento da fortuna mas lembrese o pó que o vento da fortuna não pode durar mais que o vento da vida e que pode durar muito menos porque é mais inconstante O vento da vida por mais que cresça nunca pode chegar a ser bonança o vento da fortuna se cresce pode chegar a ser tempestade e tão grande tempestade que se afogue nela o mesmo vento da vida Pó levantado lembrate outra vez que hás de ser pó caído e que tudo há de cair e ser pó contigo Estátua de Nabuco ouro prata bronze ferro lustre riqueza fama poder lembrate que tudo há de cair de um golpe e que então se verá o que agora não queremos ver que tudo é pó e pó de terra Eu não me admiro senhores que aquela estátua em um momento se convertesse toda em pó era imagem de homem isso bastava O que me admira e admirou sempre é que se convertesse como diz o texto em pó de terra In favilíam aestivae areae Dan 235 A cabeça da estátua não era de ouro Pois porque se não converte o ouro em pó de ouro O peito e os braços não eram de prata Porque se não converte a prata em pó de prata O ventre não era de bronze e ademais de ferro Porque se não converte o bronze em pó de bronze e o ferro em pó de ferro Mas o ouro a prata a bronze o ferro tudo em pó de terra Sim Tudo em pó de terra Cuida a ilustre desvanecida que é de ouro e todo esse resplendor em caindo há de ser pó e pó de terra Cuida o rico inchado que é de prata e toda essa riqueza em caindo há de ser pó e pó de terra Cuida o robusto que é de bronze cuida o valente que é de ferro um confiado outro arrogante e toda essa fortaleza e toda essa valentia em caindo há de ser pó e pó de terra In favilíam aestivae areae Senhor pó Nimium ne crede colori7 A pedra que desfez em pó a estátua é a pedra daquela sepultura Aquela pedra é como a pedra do pintor que mói todas as cores e todas as desfaz em pó O negro da sotaina o branco da cota o pavonaço do mantelete o vermelho da púrpura tudo ali se desfaz em pó Adão quer dizer ruber o vermelho porque o pó da campa damasceno de que Adão foi formado era vermelho e parece que escolheu Deus o pó daquela cor tão prezada para nela e com ela desenganar a todas as cores8 Desenganese a escarlata mais fina mais alta e mais coroada e desenganemse dai abaixo todas as cores que todas se hão de moer naquela pedra e desfazer em pó e o que é mais todas em pó da mesma cor Na estátua o ouro era amarelo a prata branca o bronze verde o ferro negro mas tanto que a tocou a pedra tudo ficou da mesma cor tudo da cor da terra In favilíam aestivae areae O pó levantado como vão quis fazer distinções de pó a pó e porque não pôde distinguir a substância pôs a diferença nas cores Porém a morte como vingadora de todos os agravos da natureza a todas essas cores faz da mesma cor para que não distinga a vaidade e a fortuna os que fez iguais a razão Ouvi a Santo Agostinho Respice sepulchra et vide quis dominus quis servus quis poupei quis dives Discerne si potes regem a vincto fartem a debili pulchrum a deformit9 Abri aquelas sepulturas diz Agostinho e vede qual é ali o senhor e qual o servo qual é ali o pobre e qual o rico Discerne si potes distinguime ali se podeis o valente do fraco o formoso do feio o rei coroado de ouro do escravo de Argel carregado de ferros Distinguilos Conheceilos Não por certo O grande e o pequeno o rico e o pobre o sábio e o ignorante o senhor e o escravo o príncipe e o cavador o alemão e o etíope todos ali são da mesma cor Passa Santo Agostinho da sua África à nossa Roma e pergunta assim Ubi sunt quos ambiebant civium potentatus Ubi insuperabiles imperatores Ubi exercituum duces Ubi satrapae et tyranni10 Onde estão os cônsules romanos Onde estão aqueles imperadores e capitães famosos que desde o Capitólio mandavam o mundo Que se fez dos Césares e dos Pampeus dos Mários e dos Silas dos Cipiões e dos Emílios Os Augustos os Cláudios os Tibérios os Vespasianos os Titos os Trajanos que é deles Nunc omnia pulvis tudo pó Nunc omnia favillae tudo cinza Nunc in poucis versibus eorum memoria est não resta de todos eles outra memória mais que os poucos versos das suas sepulturas Meu Agostinho também esses versos que se liam então já os não há apagaramse as letras comeu o tempo as pedras também as pedras morrem Mors etiam saxis nominibus que veni11 Oh que memento este para Roma Já não digo como até agora lembrate homem que és pó levantado e hás de ser pó caído O que digo é lembrate Roma que és pó levantado e que és pó caído juntamente Olha Roma daqui para baixo e verteás caída e sepultada debaixo de ti olha Roma de lá para cima e verteás levantada e pendente em cima de ti Roma sobre Roma e Roma debaixo de Roma Nas margens do Tibre a Roma que se vê para cima vêse também para baixo mas aquilo são sombras Aqui a Roma que se vê em cima vêse também embaixo e não é engano da vista senão verdade a cidade sobre as ruínas o corpo sobre o cadáver a Roma viva sobre a morta Que coisa é Roma senão um sepulcro de si mesma Embaixo as cinzas em cima a estátua embaixo os ossos em cima o vulto Este vulto esta majestade esta grandeza é a imagem e só a imagem da que está debaixo da terra Ordenou a Providência divina que Roma fosse tantas vezes destruída e depois edificada sobre suas ruínas para que a cabeçada mundo tivesse uma caveira em que se ver Um homem podese ver na caveira de outro homem a cabeça do mundo não se podia ver senão na sua própria caveira Que é Roma levantada A cabeça do mundo Que é Roma caída A caveira do mundo Que são esses pedaços de Termas e Coliseus senão os ossos rotos e truncados desta grande caveira E que são essas colunas essas agulhas desenterradas senão os dentes mais duros desencaixadas dela Oh que sisuda seria a cabeça do mundo se se visse bem na sua caveira Nabuco depois de ver a estátua convertida em pó edificou outra estátua Louco Que é o que te disse o profeta Tu rex es caput Tu rei és a cabeça da estátua an 238 Pois se tu és a cabeça e estás viva olhe a cabeça viva para a cabeça defunta olhe a cabeça levantada para a cabeça caída olhe a cabeça para a caveira Oh se Roma fizesse o que não soube fazer Nabuco Oh se a cabeça da mundo olhasse para a caveira do mundo A caveira é maior que a cabeça para que tenha menos lugar a vaidade e maior matéria a desengana Isto fui e isto sou Nisto parou a grandeza daquele imenso todo de que hoje sou tão pequena parte Nisto parou E a pior é Roma minha se me dás licença para que tu diga que não há de parar só nisto Este destroça e estas ruínas que vês tuas não são as últimas ainda te espera outra antes do fim do mundo profetizada nas Escrituras Aquela Babilônia de que fala S João quando diz na Apocalipse Cedidit cedidit Babylon Apoc 148 é Roma não pela que hoje é senão pela que há de ser Assim o entendem S Jerônimo Santo Agostinho S Ambrósia Tertuliano Ecumênio Cassiadara e outros Padres a quem seguem concordemente intérpretes e teólogos12 Roma a espiritual é eterna porque Portae infrri non praevalebunt adversus eam13 Mas Roma a temporal sujeita está coma as outras metrópoles das monarquias e não só sujeita mas condenada à catástrofe das coisas mudáveis e aos eclipses do tempo Nas tuas ruínas vês a que foste nos teus oráculos lês a que hás de ser e se queres fazer verdadeiro juízo de ti mesma pelo que foste e pelo que hás de ser estima a que és Nesta mesma roda natural das coisas humanas descobriu a sabedoria de Salomão dois espelhos recíprocos que podemos chamar do tempo em que se vê facilmente o que foi e o que há de ser Quid est quod fuit Ipsum quod futu rum est Quid est quod factun est Ipsum quod faciendunt est Que é o que foi Aquilo mesma que há de ser Que é o que há de ser Aquilo mesmo que foi EcI 19 Ponde estes dois espelhos um defronte do outro e assim coma os raios do ocaso ferem o oriente e os do oriente o ocaso assim por reverberação natural e recíproca achareis que no espelho da passada se vê o que há de ser e no do futuro o que foi Se quereis ver o futuro lede as histórias e olhai para o passado se quereis ver o passado lede as profecias e olhai para o futuro E quem quiser ver o presente para ande há de olhar Não o disse Salomão mas eu o direi Diga que olhe juntamente para um e para outro espelho Olhai para o passado e para o futuro e vereis o presente A razão ou conseqüência é manifesta Se no passado se vê o futuro e no futuro se vê o passado seguese que no passado e no futuro se vê o presente porque o presente é o futuro do passado e o mesmo presente é o passado do futuro Quid est quod fuit Ipsum quod futurum est Quid est quod est Ipsum quod fuit et quod futurum est Roma o que foste isso hás de ser e o que foste e o que hás de ser isso és Vête bem nestes dois espelhos do tempo e conhecerteás E se a verdade deste desengana tem lugar nas pedras quanto mais nos homens No passado foste pó No futuro hás de ser pó Logo no presente és pó Pulvis es VI O memento dos mortos lembrese o pó caído que há de ser pó levantado O pó que foi homem há de tornar a ser homem Jó comparase à fênix e não à águia O autor não teme a morte teme a imortalidade já reconhecida pelos filósofos pagãos Nem vivemos como mortais nem vivemos como imortais A observação de Sêneca Este foi o memento dos vivos acaba com o memento dos mortos Aos vivos disse lembrese o pó levantado que há de ser pó caído Aos mortos digo lembrese o pó caído que há de ser pó levantado Ninguém morre para estar sempre morto par isso a morte nas Escrituras se chama sana Os vivos caem em terra com o sono da morte os mortos jazem na sepultura dormindo sem movimento nem sentido aquele profundo e dilatado letargo mas quando o pregão da trombeta final os chamar o juízo todos hão de acordar e levantarse outra vez Então dirá cada um com Davi Ego dormivi et soporatus sum et esxurrexi14 Lembrese pois o pó caído que há de ser pó levantado Este segundo memento é muito mais terrível que o primeiro Aos vivos disse Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris aos mortos digo com as palavras trocadas mas com sentido igualmente verdadeiro Memento pulvis quia homo es et in hominem reverteris lembrate pó que és homem e que em homem te hás de tornar Os que me ouviram já sabem que cada um é o que foi e o que há de ser Tu que jazes nesta sepultura sabeo agora Eu vivo tu estás morto eu falo tu estás mudo mas assim como eu sendo homem porque fui pó e hei de tornar a ser pó sou pó assim tu sendo pó porque foste homem e hás de tornar a ser homem és homem Morre a águia morre a fênix mas a águia morta não é águia a fênix morta é fênix E porquê A águia morta não é águia porque foi águia mas não há de tornar a ser águia A fênix morta é fênix porque foi fênix e há de tornar a ser fênix Assim és tu que jazes nessa sepultura Morto sim desfeito em cinzas sim mas em cinzas como as da fênix A fênix desfeita em cinzas é fênix porque foi fênix e há de tornar a ser fênix E tu desfeito também em cinzas és homem porque foste homem e hás de tornar a ser homem Não é a proposição nem comparação minha senão da Sabedoria e Verdade eterna Ouçam os mortos a um morto que melhor que todos os vivos conheceu e pregou a fé da imortalidade In nidulo meo morias et sicut phoenix multiplicabo dies meos Morrerei no meu ninho diz Jó e como fênix multiplicarei os meus dias15Os dias somaos a vida diminuios a morte e multiplicaos a ressurreição Por isso Jó como vivo como morto e como imortal se compara à fênix Bem pudera este grande herói pois chamau ninho à sua sepultura compararse à rainha das aves como rei que era Mas falando de si e conosco naquela medida em que todos somos iguais não se comparou à águia senão à fênix porque o nascer águia é fortuna de poucos o renascer fênix é natureza de todos Todos nascemos para morrer e todos morremos para ressuscitar Para nascer antes de ser tivemos necessidade de pai e mãe que nos gerasse para renascer depois de morrer como a fênix o mesmo pó em que se corrompeu e desfez o corpo é o pai e a mãe de que havemos de tornar a ser gerados Putredini dixi pater meus es mater mea et soror mea vermibus16 Sendo pois igualmente certa esta segunda metamorfose como a primeira preguemos também aos mortos como pregou Ezequiel para que nos ouçam mortos e vivos Ez 37 4 Se dissermos aos vivos lembrate homem que és pó porque foste pó e hás de tornar a ser pó brademos com a mesma verdade aos mortos que já são pó lembrate pó que és homem porque foste homem e hás de tornar a ser homem Memento pulvis quia homo es et in hominem reverteris Senhores meus não seja isto cerimônia falemos muito seriamente que o dia é disso Ou cremos que somos imortais ou não Se o homem acaba com o pó não tenho que dizer mas se o pó há de tornar a ser homem não sei o que vos diga nem o que me diga A mim não me faz medo o pó que hei de ser faz medo o que há de ser o pó Eu não temo na morte a morte temo a imortalidade eu não temo hoje o dia de cinza temo hoje o dia de Páscoa porque sei que hei de ressuscitar porque sei que hei de viver para sempre porque sei que me espera uma eternidade ou no céu ou no inferno Scio enim quod Redemptor meus vivit et in novissimo die de terra surrecturus sum17 Scio diz Notai Não diz Creio senão Scio sei Porque a verdade e certeza da imortalidade do homem não só é fé senão também ciência Por ciência e por razão natural a conheceram Platão Aristóteles e tantos outros filósofos gentios18 Mas que importava que o não alcançasse a razão onde está a fé Que importa a autoridade dos homens onde está o testemunho de Deus O pó daquela sepultura está clamando De terra surrecturus sum et rursum circundabor pelle mea et in carne mea videbo Deum meum quem visurus sum ego ipse et oculi mei conspecturi sunt et non alius19 Este homem este corpo estes ossos esta carne esta pele estes olhos este eu e não outro é o que há de morrer Sim mas reviver e ressuscitar à imortalidade Mortal até o pó mas depois do pó imortal Credis hoc Utique Domine20Pois que efeito faz em nós este conhecimento da morte e esta fé da imortalidade Quando considero na vida que se usa acho que não vivemos como mortais nem vivemos como imortais Não vivemos como mortais porque tratamos das coisas desta vida como se esta vida fora eterna Não vivemos como imortais porque nos esquecemos tanto da vida eterna como se não houvera tal vida Se esta vida fora imortal e nós imortais que havíamos de fazer senão o que fazemos Estai comigo Se Deus assim como fez um Adão fizera dois e o segundo fora mais sisudo que o nosso nós havíamos de ser mortais como somos e os filhos de outro Adão haviam de ser imortais E estes homens imortais que haviam de fazer neste mundo Isto mesmo que nós fazemos Depois que não coubessem no Paraíso e se fossem multiplicando haviamse de estender pela terra haviam de conduzir de todas as partes do mundo todo o bom precioso e deleitoso que Deus para eles tinha criado haviam de ordenar cidades e palácios quintas jardins fontes delícias banquetes representações músicas festas e tudo aquilo que pudesse formar uma vida alegre e deleitosa Não é isto o que nós fazemos E muito mais do que eles haviam de fazer porque o haviam de fazer com justiça com razão com modéstia com temperança sem luxo sem soberba sem ambição sem inveja e com concórdia com caridade com humanidade Mas como se ririam de nós e como pasmariam de nós aqueles homens imortais Como se ririam das nossas loucuras como pasmariam da nossa cegueira vendonos tão ocupados tão solícitos tão desvelados pela nossa vidazinha de dois dias e tão esquecidos e descuidados da morte como se fôramos tão imortais como eles Eles sem dor nem enfermidade nós enfermos e gemendo eles vivendo sempre nós morrendo eles não sabendo o nome à sepultura nós enterrando uns a outros eles gozando o mundo em paz e nós fazendo demandas e guerras pelo que não havemos de gozar Homenzinhos miseráveis haviam de dizer homenzinhos miseráveis loucos insensatos não vedes que sois mortais Não vedes que haveis de acabar amanhã Não vedes que vos hão de meter debaixo de uma sepultura e que de tudo quanto andais afanando e adquirindo não haveis de lograr mais que sete pés de terra Que doidice que cegueira é logo a vossa Não sendo como nós quereis viver como nós Assim é Morimur ut mortales vivimus ut imortales morreremos como mortais que somos e vivemos como se fôramos imortais21 Assim o dizia Sêneca gentio à Roma gentia Vós a isto dizeis que Sêneca era um estóico E não é mais ser cristão que ser estóico Sêneca não conhecia a imortalidade da alma o mais a que chegou foi a duvidá la e contudo entendia isto VII Cuidar da vida imortal As duas portas da morte Opinião de Aristóteles A escada do sonho de Jacó No momento da morte não se teme a morte temese a vida Resolução Ora senhores já que somos cristãos já que sabemos que havemos de morrer e que somos imortais saibamos usar da morte e da imortalidade Tratemos desta vida como mortais e da outra como imortais Pode haver loucura mais rematada pode haver cegueira mais cega que empregarme todo na vida que há de acabar e não tratar da vida que há de durar para sempre Cansarme afligirme matarme pelo que forçosamente hei de deixar e do que hei de lograr ou perder para sempre não fazer nenhum caso Tantas diligências para esta vida nenhuma diligência para a outra vida Tanto medo tanto receio da morte temporal e da eterna nenhum temor Mortos mortos desenganai estes vivos Dizeinos que pensamentos e que sentimentos foram os vossos quando entrastes e saístes pelas portas da morte A morte tem duas portas Qui exaltas me de portis mortis22 Uma porta de vidro por onde se sai da vida outra porta de diamante por onde se entra à eternidade Entre estas duas portas se acha subitamente um homem no instante da morte sem poder tornar atrás nem parar nem fugir nem dilatar senão entrar para onde não sabe e para sempre Oh que transe tão apertado Oh que passo tão estreito Oh que momento tão terrível Aristóteles disse que entre todas as coisas terríveis a mais terrível é a morte Disse bem mas não entendeu o que disse Não é terrível a morte pela vida que acaba senão pela eternidade que começa Não é terrível a porta por onde se sai a terrível é a porta por onde se entra Se olhais para cima uma escada que chega até o céu se olhais para baixo um precipício que vai parar no inferno e isto incerto Dormindo Jacó sobre uma pedra viu aquela escada que chegava da terra até o céu e acordou atônito gritando Terribilis est locus iste Oh que terrível lugar é este Gên 1817 E por que é terrível Jacó Non est híc aliud nisi domus Dei et porta caeli Porque isto não é outra coisa senão a porta do céu Pois a portado céu a porta da bemaventurança é terrível Sim Porque é uma porta que se pode abrir e que se pode fechar E aquela porta que se abriu para as cinco virgens prudentes e que se fechou para as cinco néscias Et clousa est janua Mt 2510 E se esta porta é terrível para quem olha só para cima quão terrível será para quem olhar para cima e mais para baixo Se é terrível para quem olha só para o céu quanto mais terrível será para quem olhar para o céu e para o inferno juntamente Este é o mistério de toda a escada em que Jacó não reparou inteiramente como quem estava dormindo Bem viu Jacó que pela escada subiam e desciam anjos mas não reparou que aquela escada tinha mais degraus para descer que para subir para subir era escada da terra até o céu para descer era escada do céu até o inferno para subir era escada por onde subiram anjos a ser bem aventurados para descer era escada por onde desceram anjos a ser demônios Terrível escada para quem não sobe porque perde o céu e a vista de Deus e mais terrível para quem desce porque não só perdeu o céu e a vista de Deus mas vai arder no inferno eternamente Esta é a visão mais que terrível que todos havemos de ver este o lugar mais que terrível por onde todos havemos de passar e por onde já passaram todos os que ali jazem Jacó jazia sobre a pedra ali a pedra jaz sobre Jacó ou Jacó debaixo da pedra Já dormiram o seu sono Dormierunt somnum suum SI 75 6já viram aquela visão já subiram ou desceram pela escada Se estão no céu ou no inferno Deus o sabe mas tudo se averiguou naquele momento Oh que momento torno a dizer oh que passo oh que transe tão terrível Oh que temores oh que aflição oh que angústias Ali senhores não se teme a morte temese a vida Tudo o que ali dá pena é tudo o que nesta vida deu gosto e tudo o que buscamos por nosso gosto muitas vezes com tantas penas Oh que diferentes parecerão então todas as coisas desta vida Que verdades que desenganos que luzes tão claras de tudo o que neste mundo nos cega Nenhum homem há naquele ponto que não desejara muito uma de duas ou não ter nascido ou tornar a nascer de novo para fazer uma vida muito diferente Mas já é tarde já não há tempo Quia tempus non erit amplius Apc 106 Cristãos e senhores meus por misericórdia de Deus ainda estamos em tempo É certo que todos caminhamos para aquele passo é infalível que todos havemos de chegar e todos nos havemos de ver naquele terrível momento e pode ser que muito cedo Julgue cada um de nós se será melhor arrependerse agora ou deixar o arrependimento para quando não tenha lugar nem seja arrependimento Deus nos avisa Deus nos dá estas vozes não deixemos passar esta inspiração que não sabemos se será a última Se então havemos de desejar em vão começar outra vida comecemola agora Dixi nunc caepi23 Comecemos de hoje em diante a viver como quereremos ter vivido na hora da morte Vive assim como quiseras ter vivido quando morras Oh que consolação tão grande será então a nossa se o fizermos assim E pelo contrário que desconsolação tão irremediável e tão desesperada se nos deixarmos levar da corrente quando nos acharmos onde ela nos leva E possível que me condenei por minha culpa e por minha vontade e conhecendo muito bem o que agora experimento sem nenhum remédio É possível que por uma cegueira de que me não quis apartar por um apetite que passou em um momento hei de arder no inferno enquanto Deus for Deus Cuidemos nisto cristãos cuidemos nisto Em que cuidamos e em que não cuidamos Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte Resolução resolução uma vez que sem resolução nada se faz E para que esta resolução dure e não seja como outras tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora De vinte e quatro horas que tem o dia por que se não dará uma hora à triste alma Esta é a melhor devoção e mais útil penitência e mais agradável a Deus que podeis fazer nesta quaresma Tomar uma hora cada dia em que só por só com Deus e conosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho quero acabar deixandovos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora Primeiro quanto tenho vivido Segundo como vivi Terceiro quanto posso viver Quarto como é bem que viva Torno a dizer para que vos fique na memória Quanto tenho vivido Como vivi Quanto posso viver Como é bem que viva Memento hom Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus1 I Por que somente na instituição do sacramento da Eucaristia Jesus usou e por duas vezes o advérbio verdadeiramente O Mistério da Fé por antonomásia tornase para o autor o mistério da razão Os sete inimigos dessa verdade o judeu o gentio o herege o filósofo o político o devoto e o demônio Duas palavras de mais ou uma duas vezes repetida achava eu com fácil reparo na cláusula que propus do Evangelho Vere cibus vere potus Jo 656 Todos os mistérios da fé todos os sacramentos da Igreja são verdadeiros mistérios e verdadeiros sacramentos contudo se atentamente lermos todos os Evangelhos se atentamente advertirmos todas as palavras de Cristo acharemos que em nenhum outro mistério em nenhum outro sacramento senão no da Eucaristia ratificou o Senhor aquela palavra Vere verdadeiramente Instituiu Cristo o sacramento da Penitência e disse Quorum remiseritis peccata remittuntur eis A quem perdoardes os pecados serão perdoados Jo 2023 E não disse vere verdadeiramente perdoados Instituiu o sacramento do Batismo e disse Qui crediderit et baptizatus fuerit salvus erit Quem crer e for batizado será salvo Mc 16 15 Mas não disse vere verdadeiramente salvo Pois se nos outros mistérios se nos outros sacramentos não expressou o soberano Senhor nem ratificou a verdade de seus efeitos no sacramento de seu corpo e sangue por que confirma com tão particular expressão Por que a ratifica uma e outra vez Vere est cibus vere est potus Nas maiores alturas sempre são mais ocasionados os precipícios e como o mistério da Eucaristia é o mais alto de todos os mistérios como o sacramento do corpo e sangue de Cristo é o mais levantado de todos os sacramentos previu o Senhor que havia de achar nele a fraqueza e descobrir a malícia maiores ocasiões de duvidar Haviamno de duvidar os sentidos e haviamno de duvidar as potências haviao de duvidar a ciência e haviao de duvidar a ignorância haviao de duvidar o escrúpulo e haviao de duvidar a curiosidade e onde estava mais ocasionada a dúvida era bem que ficasse mais expressa e mais ratificada a verdade Por isso ratificou a verdade de seu corpo debaixo das espécies da hóstia Caro mea vere est cibus por isso ratificou a verdade de seu sangue debaixo das espécies do cálix Et sanguis meus vere est potus Suposta esta inteligência que não é menos que do Concílio Tridentino e suposta a ocasião desta solenidade instituída para desagravar a verdade deste soberano mistério vendome eu hoje neste verdadeiramente grande teatro da fé determino sustentar contra todos os inimigos dela a verdade infalível daquele vere Vere est cibus vere est potus Estas duas conclusões de Cristo havemos de defender hoje com sua graça E porque os princípios da fé contra aqueles que a negam ou não valem ou não querem que valham ainda que infalíveis pondo de parte o escudo da mesma fé e saindo a campo em tudo com armas iguais argumentarei somente hoje com as da razão O mistério da Eucaristia chamase Mistério da Fé por antonomásia Hic est calix sanguinis mei novi et aeterni testamenti mysterium fidei mas hoje com novidade pode ser que nunca ouvida faremos o Mistério da Fé mistério da razão Sairão a argumentar contra a verdade deste mistério não só os inimigos declarados dela mas todos os que por qualquer via a podem dificultar e serão sete Um judeu um gentio um herege um filósofo um político um devoto e o mesmo demônio Todos estes porão suas dúvidas e a todos satisfará a razão E para que a vitória seja mais gloriosa vencendo a cada um com suas próprias armas ao judeu responderá a razão com as Escrituras do Testamento Velho ao gentio com as suas fábulas ao herege com o Evangelho ao filósofo com a natureza ao político com a conveniência ao devoto com os seus afetos e ao demônio com as suas tentações Temos a matéria Para que seja a glória de nossa santa fé e honra do diviníssimo Sacramento peçamos àquela Senhora que deu a Deus a carne e sangue de que se instituiu este mistério e não é menos interessada na vitória de seus inimigos nos alcance a luz o esforço a graça que para tão nova batalha havemos mister Ave Maria II O primeiro inimigo o judeu Primeira objeção a possibilidade do sacramento Por que Cristo em vez de atenderlhes a dúvida ameaçoulhe a malícia Para os judeus apoiandose nas Escrituras é impossível Deus imenso limitarse ao pão e invisível limitarse ao visível Por que então no deserto pediram a Arão sacerdote que lhes fizesse um Deus visível O que eles pediram nós recebemos Um argumento a nosso favor os judeus adoraram o bezerro e foram castigados nós adoramos a hóstia e não o somos embora os primeiros cristãos tenham sido judeus Se o judeu crê nos outros milagres da Escritura por que não crer na Eucaristia Se crê no poder das palavras de Josué ao sol e de Moisés à rocha por que não acreditar no poder das palavras do sacerdote Para o judeu crer na Eucaristia não lhe é necessária nova fé Cristo ao instituir a Eucaristia não pediu entendimento pediu memória Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus O primeiro inimigo de Cristo que temos em campo contra a verdade daquele sacrossanto mistério é o judeu Judaica perfídia foi como se crê a que deu cousa à dor e ocasião à glória deste grande dia Mas para convencer o judeu e o sujeitar à fé do mistério da Eucaristia não há mister a razão as nossas Escrituras bastamlhe as suas mesmas A primeira e maior dúvida que tiveram os judeus contra a verdade deste sacramento foi a possibilidade dele Quomodo potest hic nobis carnem suam dare ad manducandum Como pode este diziam darnos a comer sua carne Jo 653 Não é possível E Cristo que lhes respondeu Nisi manducaveritis carnem Filii hominis et biberitis ejus sanguinem non habebitis vitam in vobis Jo 654 Se não comerdes a minha carne e beberdes o meu sangue não tereis vida Senhor com licença de vossa sabedoria divina a questão dos judeus era duvidarem da possibilidade deste mistério e as dúvidas postas em presença do mestre soltamse com a explicação e não com o castigo Se estes homens duvidam da possibilidade do mistério dizeilhes como é possível e declarailhes o modo com que pode ser e ficarão satisfeitos Pois por que seguiu Cristo neste caso outro caminho tão diferente e em lugar de lhes dar a explicação os ameaçou com castigo A razão foi porque os que duvidavam neste passo eram os judeus Litigabant ergo judaei Jó 653 e para os judeus conhecerem a possibilidade daquele mistério não é necessária a doutrina de Cristo bastalhes as suas Escrituras e a razão Provo do mesmo texto Litigabant ergo judaei Diz que os judeus litigavam uns contra os outros sobre o caso Se litigavam logo uns diziam que sim outros que não os que diziam que sim davam razões para ser possível os que diziam que não davam razões para o não ser e eram tão eficazes as razões dos que diziam que sim que não teve Cristo necessidade de dar as suas Por isso acudiu à pertinácia como castigo e não à dúvida com a explicação Três coisas concorriam nesta demanda a dúvida do mistério a malícia dos que o negavam e a razão dos que o defendiam E quando Cristo parece que havia de acudir à dúvida com a explicação acudiu à malícia como castigo porque os argumentos dos que negavam o mistério já estavam convencidos na razão dos que o defendiam De maneira que para convencer ao judaísmo da possibilidade do Sacramento da Eucaristia não é necessária a fé nem a doutrina de Cristo basta a fé e a razão dos mesmos judeus E se não desçamos em particular aos impossíveis que neste mistério reconhece ou se lhe representam ao judeu Quomodo potest Diz o judeu que o mistério da Eucaristia na forma em que o cremos os cristãos nem é possível quanto à substância nem quanto ao modo Não é possível quanto à substância porque como diz Moisés no Êxodo e Salomão no terceiro dos Reis Êx 3320 3 Rs 827 Deus é imenso e invisível e o imenso não se pode limitar a tão pequena esfera nem o invisível reduzirse ao que se vê E não é possível quanto ao modo porque como diz Davi nos salmos SI 7118 1354 o autor dos milagres é só Deus e o sujeito dos milagres são as criaturas sendo logo o sacerdote criatura como pode fazer milagres em Deus e converter em corpo de Deus a substância do pão Quomodo potest Para satisfazer a razão as aparências destes dois impossíveis não tem necessidade de ir buscar razões a outros entendimentos porque no entendimento dos mesmos judeus as tem ambas concedidas e convencidas Enquanto Moisés se detinha no monte recebendo a lei cansados os judeus que agora não cansam de esperar disseram assim a Arão Fac nobis Eloim qui nos praecedat Êx 32 1 Arão fazei nos um Deus que possamos ver e seguir e vá diante de nós nesta viagem Notai a palavra Eloim que não só significa Deus senão o Deus verdadeiro que criou o céu e a terra Assim o escreveu Moisés nas primeiras palavras que escreveu In principio creavit Eloim caelum et terram Gên 11 Esta proposta pois dos judeus tinha dois grandes reparos o primeiro que pediram a um homem que lhes fizesse Deus o segundo que pediram isto a Arão e não a outro homem Não sabiam os hebreus que Deus é imenso e que ocupa todo o lugar Pois como lhe pediam que fizesse um Deus que pudesse mudar lugar e ir diante Não sabiam que Deus é invisível e fora da esfera e objeto dos olhos humanos Pois como pediam que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir Tudo isto quer dizer Qui nos praecedat E já que pediam esta grande obra e este grande milagre a um homem não estavam ali outras grandes pessoas cabeças das tribos e governadores do povo e sobre todos não estava Hur nomeado pelo mesmo Moisés por adjunto de Arão enquanto durasse a sua ausência Habetis Aaron et Hur si quid natum fuerit quaestionis referetis ad eos2 Pois por que não pediram a Hur ou a algum dos outros que obrasse essa maravilha senão a Arão e só a Arão Aqui vereis quão racionais são e quão conformes ao entendimento humano os mistérios da fé católica Ainda quando os judeus foram hereges da sua fé não puderam negar a razão da nossa Pediram os judeus a Arão que lhes fizesse um Deus que pudessem ver e seguir porque entenderam que ainda que Deus era imenso e invisível sem menoscabo de sua grandeza se podia limitar a menor esfera e sem perigo de sua invisibilidade se podia encobrir debaixo de alguma figura e sinal visível E escolheram por ministro desta maravilha a Arão que era sacerdote e não a outrem porque entenderam também que ação tão sobrenatural e milagrosa como pôr a Deus debaixo de espécies criadas não podia competir a outro senão ao sacerdote Eis aqui o que os judeus pediram então e eis aqui o que nós adoramos hoje um Deus debaixo de espécies visíveis posto nelas milagrosamente por ministério dos sacerdotes Os judeus foram os que traçaram o mistério e nós somos os que o gozamos eles fizeram a petição e nós recebemos o despacho eles erraram e nós não podemos errar E em que esteve a diferença Esteve só a diferença em que eles creram que se podia fazer esta maravilha por autoridade humana Fac nobis Eloim qui nos praecedat e nós cremos que só se faz e se pode fazer por autoridade divina Hoc facite in mean commemorationem Lc 2219 E que crendo o judeu que se podia fazer por poder humano não creia que se possa fazer por onipotência divina Quomodo potest Não é isto só erro da fé é cegueira da razão E se não ajudese a razão da experiência Quando os judeus neste caso adoraram o bezerro no mesmo dia os castigou Deus matando mais de vinte mil deles Êx 3218 É assim Logo bem se segue que está Deus na hóstia consagrada Provo a conseqüência Se Deus ponhamos este impossível se Deus não está naquela hóstia todos os cristãos somos idólatras como o foram os judeus quando adoraram o bezerro É certo porque em tal caso reconhecemos divindade onde a não há Pois se somos idólatras por que nos não castiga Deus assim como castigou aos judeus Aperto a dúvida porque os judeus adoraram o bezerro uma só vez os cristãos adoramos a hóstia consagrada há mil e seiscentos anos os judeus adoraram o bezerro em um só lugar os cristãos adoramos o Sacramento em todas as partes do mundo os judeus que adoraram o bezerro eram de uma só nação e os cristãos que adoram o Sacramento são de todas as nações do universo Ainda falta o mais forçoso argumento Muitos dos que crêem e adoram este soberano mistério são hebreus da mesma nação verdadeiramente convertidos à fé o mesmo autor e instituidor dele Cristo Redentor e Senhor nosso era hebreu os primeiros que o adoraram creram e comungaram que foram os apóstolos e os discípulos eram também hebreus e esses mesmos hebreus foram os primeiros sacerdotes que o consagraram e os primeiros pregadores que o levaram promulgaram fundaram e estabeleceram por todo o mundo Pois se Deus é o mesmo e os adoradores deste mistério os mesmos por que os não castiga Deus a eles e a nós como castigou aos antigos hebreus Se adorar aquela hóstia é idolatria como foi adorar o bezerro por que sofre Deus mil e seiscentos anos na face de todo o mundo o que não sofreu um dia em um deserto É porque eles foram verdadeiramente idólatras e nós somos verdadeiros fiéis é porque eles adorando o bezerro reconheciam divindade onde não havia e nós adorando aquela hóstia consagrada reconhecemos divindade onde verdadeiramente está Deus De maneira judeu que com o teu mesmo castigo com as tuas mesmas Escrituras e com o teu mesmo entendimento te está convencendo a razão a mesma verdade que negas e os mesmos impossíveis e dificuldades que finges Mas vamos continuando e discorrendo por todas as dificuldades deste mistério e veremos como os judeus as têm já crido todas nas suas Escrituras O Sacramento da Eucaristia por antonomásia é mistério do Testamento Novo Hic calix novum testamentum est in meo sanguine 1 Cor 1125 Mas de tal modo é mistério novo e do Testamento Novo que todas as suas dificuldades se creram e se tiraram no Velho Grande dificuldade é desse mistério que o pão se converta em corpo de Cristo e o vinho em seu sangue mas se o judeu crê nas suas Escrituras que a mulher de Jó se converteu em estátua se crê que a vara de Moisés se converteu em serpente se crê que o Rio Nilo se converteu em sangue que razão tem para não crer que o pão se converte em corpo de Cristo3 Grande dificuldade é deste mistério que se conservem os acidentes fora do sujeito e que subsistam por si sem o arrimo da substância mas se o judeu crê que a luz que é acidente do sol foi criada ao primeiro dia e o sol que é a substância da luz foi criado ao quarto que razão tem para não crer que existam os acidentes de pão que vemos onde não tem substância de pão que os sustente4 Grande dificuldade é neste mistério que receba tanto o que comungou toda a hóstia como o que recebeu uma pequena parte mas se o judeu crê que quando seus pais iam colher o maná ao campo os que colhiam muito e os que colhiam pouco todos se achavam igualmente com a mesma medida que razão tem para não crer que assim os que recebem parte como os que recebem toda a hóstia comungam todo Cristo5 Finalmente é grande dificuldade neste mistério que todas as maravilhas dele se obrem com quatro palavras e que esteja Deus sujeito e como obediente às do sacerdote mas se o judeu crê que a três palavras de Josué obedeceu Deus e parou o sol e que por não crer Moisés que bastavam palavras para converter a penha em fonte foi condenado a não entrar na Terra de Promissão que razão tem para não crer que bastam as palavras do sacerdote para que Cristo desça e o pão se mude6 De maneira que para o judeu confessar a possibilidade no mistério da Eucaristia em que tropeça não lhe é necessário nova fé nem a nossa bastalhe a velha a sua ajudada só da razão O que creu nas suas Escrituras é o que aqui lhe manda crer a fé só com esta diferença que aqui mandamselhe crer por junto os milagres que lá creu repartidos A seu profeta o disse Memoriam fecit mirabilium suorum escam dedit timentibus se SI 1104 Fez uma memória Deus das suas maravilhas no pão que deu a comer aos que o temem De sorte que a memória é nova mas as maravilhas são antigas lá estavam divididas aqui estão compendiadas Donde é muito para notar acerca do Memoriam fecit que quando Cristo instituiu e se deixou no Sacramento não pediu mais que memória In mei memoriam facietis7E por que não pediu entendimento e vontade Cristo neste mistério pretendia amor e fé para o amor era necessária vontade para a fé entendimento pois por que se cansa em encomendar a memória Porque o lugar onde Cristo instituiu este mistério era Jerusalém e as pessoas diante de quem o instituiu eram os judeus e para Jerusalém e os judeus crerem e amarem este mistério não lhes é necessário discorrerem como entendimento nem aplicarem nova vontade basta que se lembrem com a memória Lembremse do que creram na sua lei e não duvidarão de adorar o que nós cremos na nossa Nenhuma nação do mundo tem mais facilitada a fé do Santíssimo Sacramento que os judeus porque as outras nações para crerem hão mister entendimento e vontade o judeu para crer bastalhe a memória Lembremse e crerão De sorte que a infidelidade nos judeus não é tanto infidelidade quanto esquecimento não crêem porque se não lembram E se basta a memória para crerem quanto mais bastará o discurso e a razão Confessem pois convencidos dela a verdade infalível daquele Vere Vere est cibus vere est potus III Segundo inimigo o gentio O exemplo de Atreu dando a comer as carnes de seu filho Averróis horrorizase com as palavras de Cristo Apoiandose em Tertuliano o autor usa contra os gentios suas próprias fábulas A idolatria é degrau para a fé Vários exemplos tirados da mitologia Nada há de descrédito para nossa religião nessas semelhanças Davi e S Pedro encarecem os mistérios da fé comparandoos com as fábulas pagãs Se o gentio crê na fábula que é arremedo por que não crer na existência verdadeira de suas fábulas Ao gentio também lhe parece impossível este mistério e a maior dificuldade que acha nele são as mesmas palavras de Cristo Caro mea vere est cibus et sanguis meus vere est potus Como é possível diz o gentio que seja Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue Quando Atreu deu a comer a Tiestes a carne de seu filho diz a gentilidade que fez tal horror este caso à mesma natureza que o sol contra seu curso tornou atrás por não contaminar a pureza de seus raios dando luz a tão abominável mesa8 Como pode logo ser Deus quem diz que lhe comam a carne e lhe bebam o sangue E como podem ser homens os que comem a carne e bebem o sangue a seu próprio Deus Pareceu tão forçoso este argumento tão desumana esta ação a Averróis comentador de Aristóteles que só por não ser de uma lei em que era obrigado a comer seu Deus não quis ser cristão e se deixou morrer gentio Aos argumentos dos gentios prometeu a razão que responderia com as suas fábulas e por que não pareça pouco sólido este novo modo de responder ouçamos primeiro a Tertuliano9 Argumentando contra a gentilidade Tertuliano no seu Apologético disse que as fábulas dos gentios faziam mais criveis os mistérios dos cristãos Parece proposição dificultosa porque as fábulas dos gentios são mentiras são fingimentos os mistérios dos cristãos são verdades infalíveis como logo pode ser que a mentira acrescente crédito à verdade O mesmo Tertuliano se explicou como juízo que costuma Fideliora sunt nostra magisque credenda quorum imagines quoque fidem invenerunt As fábulas dos gentios se bem se consideram são uns arremedos são umas semelhanças são umas imagens ou imaginações dos mistérios dos cristãos E se os gentios deram fé ao arremedado somente dos nossos mistérios por que a não hão de dar ao verdadeiro deles Se creram e adoraram os retratos por que hão de duvidar a crença e negar a adoração aos originais Fideliora magisque credenda quarum imagines quoque fidem invenerunt Com a sua mesma idolatria está convencendo a razão aos gentios para que não possam negar a fé porque nenhuma coisa lhes propõe tão dificultosa de crer a fé que eles a não tenham já concedido e confessado nas suas fábulas Daqui se entenderá a razão e providência altíssima que Deus teve para permitir a idolatria no mundo E qual foi Para que a mesma idolatria abrisse o caminho à fé e facilitasse no entendimento dos homens a crença de tão altos e tão secretos mistérios como os que Deus tinha guardado para a lei da graça Assim como Deus neste mundo criou um homem para pai de todos os homens que foi Adão assim fez outro homem para pai de todos os crentes que foi Abraão A um deu o primado da natureza a outro a primazia da fé Mas esse mesmo Abraão se bem lhe examinarmos a vida acharemos que antes de crer no verdadeiro Deus foi idólatra Thare pater Abrahae et Nachor servierunt que diis alienis10 Pois idólatra Abraão que há de ser pai de todos os crentes Sim e por isso mesmo Permitiu Deus que o pai da fé fosse filho da idolatria porque a idolatria é degrau e sucessão para a fé A porta da fé é a credulidade como dizem os teólogos porque antes de uma coisa ser crida há de julgar o entendimento que é críveI E isto é o que fez a idolatria no mundo vindo diante da fé A idolatria semeou a credibilidade e a fé colheu a crença a idolatria com as fábulas começou a fazer os gentios crédulos e a fé com os mistérios acabou de os fazer crentes Como a fé é crença de coisas verdadeiras e dificultosas a idolatria facilitou o dificultoso e logo a fé introduziu o verdadeiro As repugnâncias que tem a fé e o grande o árduo o escuro e o sobrenatural dos mistérios crer o que não vejo e confessar o que não entendo E estas repuguâncias já a idolatria as tinha vencido nas fábulas quando a fé as convenceu nos mistérios Suposta esta verdade ficam mui fáceis de crer aos gentios quaisquer dificuldades que se lhes representem no Sacramento do Altar porque tudo o que nós cremos neste mistério creram eles primeiro nas suas fábulas Se os gentios criam que no pão comiam um deus e no vinho bebiam outro no pão a Ceres e no vinho a Baco que dificuldade lhes fica para crerem que debaixo das espécies do pão comemos a carne e debaixo das espécies do vinho bebemos o sangue do nosso Deus Se comêssemos a carne e sangue em própria espécie seria horror da natureza mas debaixo de espécies alheias tão naturais como as de pão e vinho nenhum horror faz nem pode fazer ainda a quem tenha a vista tão mimosa e o gosto tão achacado como Averróis Em todos os outros impossíveis que se representam ao gentio neste mistério corre o mesmo Parece impossível neste mistério que a substância do pão passe a ser corpo de Cristo parece impossível que a quantidade do pão ocupe um só lugar na mesma hóstia parece impossível que o mesmo manjar cause morte e cause vida parece impossível que o mesmo Cristo esteja juntamente no céu e mais na terra parece impossível que desça Deus cada dia à terra para se unir com o homem e o levar ao céu e parece finalmente impossível que o homem comendo se transforme com um bocado de homem em Deus Mas se os gentios criam desfaçamos todos esses impossíveis se os gentios criam que Dafne se converteu em louro que Narciso se converteu em flor que Niobe se converteu em mármore Hipomenes em leão e Aretusa em fonte que razão lhes fica para duvidar que o pão se converte em corpo e o vinho em sangue de Cristo11 Se os gentios criam que no corpo de Gerião havia três corpos que razão têm para duvidar que a quantidade do corpo de Cristo e a quantidade do pão sendo duas ocupem um só lugar na mesma hóstia12 Se os gentios criam que a espada de Aquiles feriu a Telefo quando inimigo e que a mesma espada o sarou depois quando reconciliado que razão têm para duvidar que o mesmo corpo de Cristo é morte para os obstinados e vida para os arrependidos13 Se os gentios criam que Hecate estava juntamente no céu na terra e no inferno no céu com e nome de Lua na terra com o nome de Diana no inferno com o nome de proserpina14 que razão têm para duvidar que o mesmo Cristo está no céu e na terra e em diversos lugares dela juntamente Se os gentios criam que Júpiter desceu à terra em chuva de ouro para render e obrigar a Danae e em figura de águia para levar ao céu a Ganímedes15 que razão lhes fica para duvidar que desça Deus à tenra em outros dois disfarces para render e se unir com os homens nesta vida e para os levar ao céu na outra Finalmente se os gentios crêem que Glauco mastigando uma erva mudou a natureza e se converteu em Deus do mar16 que dificuldade têm para crer que por meio daquele manjar soberano mudem os cristãos a natureza e de humanos fiquem divinos Assim que não lhes fica razão nenhuma de duvidar neste mistério aos gentios porque tudo o que se manda crer no Sacramento creram eles primeiro nas suas fábulas Nem cuide alguém que é descrédito de nossa religião parecerem se os seus mistérios com as fábulas dos gentios porque antes esse é o maior crédito da fé e o maior abono da onipotência Louva Davi os mistérios da lei escrita e encareceos por comparação às fábulas dos gentios Narraverunt mihi iniqui jabulationes sed non ut lex tua17 Louva S Pedro os mistérios da lei da graça e encareceos por comparação às fábulas da mesma gentilidade Non enim doctas fabulas secuti notam facimus vobis virtutem et praesentiam Jesu Christi18 Notável comparação e notável conformidade entre as duas maiores colunas da lei velha e nova Se Davi e Pedro querem encarecer os mistérios divinos da fé por comparação à gentilidade por que os não comparam com as histórias dos gentios senão com as suas fábulas A profissão da história é dizer verdade e as histórias dos gentios tiveram feitos heróicos e casos famosíssimos como se vê nas dos gregos e dos romanos Pois por que comparam Davi e Pedro os mistérios sagrados não às histórias senão às fábulas Porque as histórias contam o que os homens fizeram e as fábulas contam o que os homens fingiram e vencer Deus aos homens no que puderam fazer não é argumento de sua grandeza mas vencer Deus aos homens no que souberam fingir esse é o louvor cabal de seu poder Que chegassem as obras de sua onipotência onde chegaram os fingimentos de nossa imaginação que chegasse a onipotência divina obrando onde chegou a imaginação humana fingindo Grande poder Grande sabedoria Grande Deus Isto é o que adoramos e confessamos naquele mistério As fábulas dos gentios foram imaginações fingidas das maravilhas daquele mistério e as maravilhas daquele mistério são existências verdadeiras das suas fábulas Pois se as creram na imaginação por que as hão de negar na realidade Confesse logo o gentio convencido da razão a verdade manifesta daquele Vere e diga Vere est cibus vere est potus IV Terceiro inimigo o herege Objeção Cristo muitas vezes chama pão a este mistério logo é pão É preciso estudarse a terminologia dos livros sagrados As Escrituras dão nome as coisas ou pelo que foram ou pelo que parecem ou pelo que são Segunda objeção se assim é Cristo poderia ter chamado corpo ao pão sem que isto viesse alterar a substância do pão Ainda mais é chamado vide pedra e cordeiro sem ser nenhuma dessas três coisas Razão da palavra vere Distinção entre sentido metafórico e verdadeiro O herege como inimigo doméstico argumenta com o Evangelho e das palavras de Cristo forma armas contra o mesmo Cristo Crê e pretende provar que o que está debaixo das espécies sacramentais é verdadeira substância de pão e argüi desta maneira Cristo no Evangelho chama muitas vezes pão a este mistério Hic est panis qui de caelo descendit Qui manducat hunc panem vivet in aeternum19 Cristo chamalhe pão Logo é pão Provo a conseqüência diz o herege Porque a razão por que os católicos cremos que na hóstia está a substância do corpo de Cristo é porque Cristo disse Hoc est corpus meum Este é meu corpo Mt 2626 Pois se na hóstia está a substância do corpo porque Cristo disse Hoc est corpus meum também na hóstia está a substância de pão porque Cristo disse Hic est panis Responde a razão facilmente Chama Cristo pão à hóstia consagrada sem ser pão porque ainda que não é pão foi pão ainda que não é pão parece pão e para ter o nome não é necessário ser basta haver sido não é necessário ser basta parecer Prova a razão com o mesmo Evangelho Panis quem dabo caro mea est Jo 652 O pão que eu vos hei de dar diz Cristo é meu corpo Pois se é corpo por que lhe chama pão E se lhe chama pão por que lhe chama corpo Chamalhe corpo pelo que é e chamalhe pão pelo que foi Chamalhe corpo pelo que é e chamalhe pão pelo que parece Aquela hóstia não é pão mas foi pão e parece pão e basta o parecer e o haver sido para se chamar assim E por que não possa dizer o herege que isto é explicação humana e nossa veja ele e vejam todos como esta é a frase e o modo de falar de Deus e de suas Escrituras Convertida a vara de Moisés que também se chama de Arão em serpente convertidas também em serpentes as varas dos magos de Faraó investiu a serpente de Moisés as outras e diz assim o texto Virga Aaron devoravit virgas eorum a vara de Moisés comeu as varas dos egípcios Êx 712 Parece que não havia de dizer assim As serpentes dos egípcios não as comeu a vara de Moisés senão a serpente de Moisés porque a vara não podia comer senão a serpente Pois se a serpente foi a que comeu por que se diz que comeu a vara Porque a serpente de Moisés tinha sido vara de Moisés e para a serpente se chamar vara basta que tenha sido vara ainda que seja serpente O mesmo passa neste mistério A hóstia consagrada que agora é corpo de Cristo tinha sido pão e para a hóstia que é corpo de Cristo se chamar pão basta que tenha sido pão ainda que seja corpo de Cristo De sorte que sem ser pão se pode chamar pão não porque o é senão porque o foi Da mesma maneira se chama pão não porque o é senão porque o parece Refere o texto sagrado a criação dos planetas e astros celestes e diz que fez Deus duas luzes ou lumieiras como lhes chama o texto maiores que todas que são o sol e a lua Fecit duo luminaria magna Gên 116 Se consultarmos a astrologia havemos de achar que a maior de todas as luzes celestes é o sol e a menor de todas é a lua Pois se a lua é o menor de todos os astros por que se chama maior Que se chame maior o sol é devido esse nome à sua grandeza mas chamarse maior a lua Sim O sol chamase maior porque o é a lua chamase maior porque o parece Todos os astros são maiores que a lua mas a lua parece maior que todos e basta que pareça maior ainda que o não seja para que se chame maior Assim nem mais nem menos aquela sagrada hóstia não é pão mas parece pão porque ficaram nela os acidentes de pão em que topam os nossos sentidos e basta que pareça pão ainda que o não seja para que se chame pão Hic est panis E se acaso algum herege se não deixar convencer destes exemplos por serem do Testamento Velho que alguns deles negaram como os maniqueus no Testamento Novo temos os mesmos e ainda se pode ver mais claros Nas bodas de Caná de Galiléia quando o arquitriclino ou regente da mesa provou o vinho milagroso diz o evangelista S João que gostou a água feita vinho Gustavit architriclinus aquam vinum factam Jo 29 Na manhã da ressurreição quando as Marias entraram no sepulcro diz o evangelista S Marcos que viram um mancebo vestido de branco assentado à parte direita viderunt juvenem sedentam a dextris coopertum stola candida Mc 165 E este mancebo diz S Mateus que era um anjo Angelus enim Domini descendit de caelo et revolvit lapidem et sedebat super eum20 Nestes dois casos tem o herege ambos os seus reparos o vinho milagroso depois da conversão era verdadeiro vinho o anjo que viram as Marias vestido de branco também era verdadeiro anjo Pois se o vinho verdadeiramente e na substância era vinho como lhe chama ainda água o evangelista S João Aquam vinum factam E se o anjo verdadeiramente e na substância era anjo como lhe chama homem o evangelista S Marcos Viderunt juvenem sedentem Ambos falaram como evangelistas e ambos com verdade e propriedade natural S João chamau água ao vinho porque ainda que já não era água senão vinho tinha sido água Aquam vinum factam E S Marcos chamau ao anjo homem porque ainda que não era homem senão anjo na figura e no trajo parecia homem Juvenem sedentem coopertum stola candida O mesmo acontece na hóstia consagrada e por isso falou dela Cristo como os seus evangelistas falaram do vinho milagroso e do anjo disfarçado Assim como a substância da água se tinha convertido em substância de vinho e contudo se chama água depois da conversão não porque fosse ainda água senão porque o tinha sido assim o corpo de Cristo no Sacramento se chama pão não porque seja pão senão porque o foi E assim como o anjo na substância era verdadeiro anjo e contudo se chama homem porque vinha disfarçado em trajos de homens e parecia homem assim o corpo de Cristo debaixo das espécies sacramentais se chama pão não porque seja pão senão porque parece pão Hic est panis Sim Mas daqui mesmo insta e argumenta o herege que assim como Cristo chamau pão à hóstia sem ser pão assim lhe podia chamar seu corpo sem ser seu corpo Não podia diz a razão e daí mesmo o prova e convence admiravelmente À hóstia podese chamar pão sem ser pão porque foi pão e parece pão mas não se pode chamar corpo de Cristo sem ser corpo de Cristo porque nem o foi nem o parece De um de três modos se pode chamar a hóstia corpo de Cristo ou porque o é ou porque o foi ou porque o parece Porque o parece não porque aquela hóstia depois de consagrada não parece corpo de Cristo Porque o foi não porque aquela hóstia antes de consagrada não foi corpo de Cristo Logo se se chama corpo de Cristo é porque verdadeiramente o é e porque não fica outro verdadeiro sentido em que as palavras de Cristo se possam verificar Contrareplica ainda o herege obstinadamente Cristo na Escritura chamase pedra chamase cordeiro chamase vide Chamase pedra porque assim o disse S Paulo Bibebant de consequente eos petra petra outem erat Christus21 Chamase cordeiro porque assim o disse S João Batista Ecce Agnus Dei ecce qui tollit peccata mundi22 Chamase vide porque o mesmo Cristo o disse falando de si Ego sum vitis vos palmites23 E contudo nem Cristo foi pedra nem parece pedra nem é pedra nem foi cordeiro nem parece cordeiro nem é cordeiro nem foi vide nem parece vide nem é vide logo ainda que o Sacramento se chame pão porque foi pão e parece pão bem se pode chamar corpo de Cristo sem ser Corpo de Cristo assim como se chama pedra cordeiro e vide sem ser vide cordeiro nem pedra Bendita seja Senhor a vossa sabedoria e providência que contra toda a pertinácia e astúcia de tão obstinados inimigos de nossa fé deixastes armada vossa Igreja e defendida a verdade desse soberano mistério com uma só palavra Vere Entre o sentido verdadeiro e o metafórico há esta diferença que o sentido metafórico significa somente semelhança o verdadeiro significa realidade E para tirar toda esta equivocação e qualquer outra dúvida o mesmo instituidor do Sacramento Cristo declarou e repetiu uma e outra vez que o sentido em que falava assim de seu corpo como de seu sangue não era metafórico senão verdadeiro Verdadeiro na significação do corpo Caro mea vere est cibus e verdadeiro na significação do sangue Et sanguis meus vere est potus Se eu dissera a Lutero e Calvino que eram homens claro está que haviam de entender que falava em sentido verdadeiro porque ainda que foram dois monstros tão irracionais eram compostos de alma e corpo Mas se eu lhes dissera que eram duas serpentes venenosas que eram dois lobos do rebanho de Cristo que eram duas pestes do mundo e da Igreja também haviam de entender que falava em sentido metafórico Pois a mesma diferença vai do texto de Cristo a esses textos mal interpretados que eles alegam contra a verdade do Sacramento Chama S Paulo a Cristo pedra porque assim como da pedra do deserto de que ele falava brotou a fonte perene de que bebia o povo de Deus assim de Cristo manaram e manam as fontes da graça de que se alimenta o povo cristão Chama o Batista a Cristo cordeiro porque assim como na lei antiga se sacrificavam cordeiros para aplacar a Deus ofendido assim Cristo figurado neles se sacrificou na cruz pelos pecados do mundo E chamase finalmente o mesmo Cristo vide porque assim como a vara cortada ou separada da vide não pode dar fruto assim os que se separam de Cristo e de sua Igreja como os hereges não podem fazer obra boa nem meritória Deste modo é Cristo pedra é cordeiro é vide mas não por realidade senão por semelhança e não em sentido verdadeiro senão no metafórico Porém quando o mesmo Senhor fala de seu corpo e de seu sangue como o corpo e sangue de sua sagrada humanidade era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue e não metafórico também o sentido em que fala não pode ser metafórico senão verdadeiro E se não respondam estes dois heresiarcas e digamme se o corpo de Cristo que foi imolado na cruz e o sangue que foi derramado no Calvário era verdadeiro corpo e verdadeiro sangue de Cristo Ambos eles confessam que sim pois esse mesmo corpo que foi imolado na cruz éo que nos deu Cristo a comer na hóstia e por isso disse Hoc est corpus meum quod pro vobis tradetur24 E esse mesmo sangue que foi derramado no Cal vário é o que nos deu a beber no cálix e por isso disse Hic est calix sanguinis mei Qui pro vobis effundentur25 Emudeça logo o herege tape a boca ímpia e blasfema e creia e confesse com as mãos atadas a verdade daquele vere Vere est cibus vere est potus V Quarto inimigo o filósofo O filósofo usa contra a Eucaristia argumentos tirados da natureza e com a mesma natureza mestra da fé replica o autor I objeção as substâncias das coisas são imutáveis Resposta na nutrição do corpo humano os alimentos se transformam em substância de carne e sangue em menos de oito horas o que a natureza faz devagar Deus faz depressa e nisto é que está o milagre II objeção o todo é maior que a parte e a parte menor que o todo logo Cristo não pode estar todo em uma parte da hóstia Prova em contrário o espelho quebrado Comparação de Davi III objeção o entendimento julga pelos sentidos Mas se a vista se engana nas obras da natureza como o arcoíris como não se enganar nas que são sobre a natureza O filósofo que é gente tão cega pela presunção como os que até agora vimos pela infidelidade cuida que tem fortíssimos argumentos contra este mistério e diz que não pode ser verdadeiro por muitos princípios Primeiro porque as naturezas e substâncias das coisas são imutáveis logo o que era substância de pão não se pode converter em substância de Cristo Segundo porque o todo é maior que a parte e a parte menor que o todo logo se todo Cristo está em toda a hóstia todo Cristo não pode estar em qualquer parte dela Terceiro porque o entendimento deve julgar conforme as espécies dos sentidos que são as portas de todo o conhecimento humano os sentidos cheiram gostam e apalpam pão logo pão é e não corpo de Cristo o que está naquela hóstia Com a natureza argumenta o filósofo e com a mesma natureza o há de convencer a razão e muito facilmente e sem trabalho porque com a fé ser sobrenatural a melhor ou mais fácil mestra da fé é a natureza Os profetas que foram os que pregaram e ensinaram os mistérios da fé aos homens não os mandou Deus ao mundo no tempo da lei da natureza senão no tempo que se seguiu depois dela que foi o da Escrita E por quê Douta e avisadamente Tertuliano Praemisit tibi naturam magistrain submissurus et prophetiam quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae Deu Deus primeiro aos homens por mestra a natureza havendolhes de dar depois a profecia porque as obras da natureza são rudimentos dos mistérios da graça e muito mais facilmente aprenderiam os homens o que se lhes ensinasse na escola da fé tendo sido primeiro discípulos da natureza Quo facilius crederes prophetiae discipulus naturae Se queres ser mestre na fé fazete discípulo da natureza porque os exemplos da natureza te desatarão as dificuldades da fé Ouça pois o filósofo discípulo da natureza por mais graduado que seja nela e verá como lhe desfaz a razão com os princípios de sua mesma escola todos os argumentos que tem contra a fé daquele mistério À primeira dificuldade responde a razão que não tem a filosofia que se espantar de lhe dizer a fé que a substância do pão se converte na substância do corpo e a substância do vinho na substância do sangue de Cristo porque este milagre vemos sensivelmente cada dia na nutrição natural do corpo humano Na nutrição natural do corpo humano a substância do pão e do vinho não se converte em substância de carne e sangue Pois se a natureza é poderosa para converter pão e vinho em carne e sangue em espaço de oito horas por que não será poderoso Deus a converter pão e vinho em substância de carne e sangue em menos tempo Para confessar este milagre não é necessário crer que Deus é mais poderoso que a natureza basta conceder que é mais apressado O que a natureza faz devagar por que o não fará Deus um pouco mais depressa Os dois milagres célebres que Cristo fez em pão e vinho foram as bodas de Caná e o do deserto nas bodas converteu a água em vinho no deserto com cinco pães deu de comer a cinco mil homens26 Um reparo a ambos os casos Para Cristo dar pão no deserto não tinha necessidade de se aproveitar dos cinco pães para Cristo dar vinho nas bodas não tinha necessidade de que as jarras se enchessem de água Pois por que não quis dar vinho senão convertido de água Por que não quis dar pão senão multiplicado de pães A razão foi diz Santo Agostinho porque quis que nos exemplos da natureza se facilitasse a fé das suas maravilhas27 Na multiplicação dos pães fez o que faz a terra na conversão do vinho fez o que fazem as vides Na multiplicação dos pães fez o que faz a terra porque a terra semeiamlhe pouco pão e dá muito na conversão do vinho fez o que fazem as vides porque as vides a água que chove do céu convertem em vinho Isto fez Cristo no deserto isto fez Cristo nas bodas No deserto de pouco pão fez muito nas bodas de água fez vinho Mas se Cristo fez o que faz a terra se Cristo fez o que fazem as vides em que esteve o milagre Esteve o milagre em que Cristo fez em um instante o que a terra e as vides fazem em seis meses Oh que boa doutrina esta se fora hoje o seu dia De maneira que o que distingue as obras de Deus enquanto autor sobrenatural das obras da natureza é a pressa ou o vagar com que se fazem Milagres feitos devagar são obras da natureza obras da natureza feitas depressa são milagres Isto é o que passa no nosso mistério Converter pão e vinho em carne e sangue assim como o faz Cristo no Sacramento assim o faz a natureza na nutrição mas com esta diferença que a natureza fálo em muitas horas e Cristo em um instante Pois filósofo o que a natureza faz devagar o autor da natureza e da graça por que o não fará depressa O impossível de estar todo em todo e todo em qualquer parte também o descrerá o filósofo e confessará facilmente que é possível se tornar à escola da natureza Tome o filósofo nas mãos um espelho de Cristal vejase nele e verá uma só figura Quebre logo esse espelho e que verá Verá tantas vezes multiplicada a mesma figura quantas são as partes do Cristal e tão inteira e perfeita nas partes grandes e maiores como nas pequenas como nas menores como nas mínimas Pois assim como um Cristal inteiro é um só espelho e dividido são muitos espelhos assim aquele circulo branco de pão inteiro é uma só hóstia e partido são muitas E assim como se parte o Cristal sem se partir a figura assim se parte a hóstia sem partir o corpo de Cristo E assim como a figura está em todo o Cristal e toda em qualquer parte dele ainda que seja muito pequena assim em toda a hóstia está todo Cristo e todo em qualquer parte dela por menor e por mínima que seja E assim finalmente como o rosto que se vê no Cristal dividido em tantas partes é sempre um só e o mesmo e somente se multiplicam as imagens dele assim também o corpo de Cristo que está na hóstia dividido em tantas partes é sempre um só corpo e somente se multiplicam as suas presenças Lá o objeto é um só e as imagens são muitas cá da mesma maneira as presenças são muitas mas o objeto é um só Pode haver semelhança mais viva Pode haver propriedade mais própria Parece que criou Deus o mistério do Cristal só para espelho do sacramento Assim o disse Davi e o entendeu a Igreja Mittit crystallum suam sicut bucelías Deita Deus os seus Cristais do céu à terra como bocados de pão28 Notável como peregrina comparação Que semelhança têm os bocados de pão com o Cristal ou o Cristal com os bocados de pão Com os bocados do pão usual da vossa mesa nenhum mas com os bocados do Pão Sacramental da mesa eucarística toda aquela semelhança maravilhosa que vistes Porque tudo o que no Cristal se vê como por vidraças é o que passa dentro no Sacramento com as cortinas corridas Assim como no Cristal se vê por milagre manifesto da natureza o todo sem ocupar mais que a parte a divisão sem destruir a inteireza e a multiplicação sem exceder a singularidade assim na hóstia com oculta e sobrenatural maravilha o mesmo corpo de Cristo é um e infinitamente multiplicado dividido e sempre inteiro e tão todo na parte como no todo E que não haja o filósofo de crer aos olhos ainda que lhe digam contestemente que ali está pão a mesma natureza lho ensina com um notável exemplo Na íris ou arco celeste todos os nossos olhos jurarão que estão vendo variedade de cores e contudo ensina a verdadeira filosofia que naquele arco não há cores senão luz e água Pois se a filosofia ensina que não há cor onde os olhos estão vendo cor que muito que ensine a fé que não há pão onde os olhos parece que vêem pão Por isso dizia Davi falando de seus olhos uma coisa muito digna de reparar em que ninguém repara Revela oculos meos et considerabo mirabilia de lege tua SI 118 18 Senhor revelaime os olhos e considerarei vossas maravilhas Parece que havia de dizer o profeta Senhor revelaime vossas maravilhas para que eu as conheça mas revelaime os olhos para que conheça vossas maravilhas Sim porque muitas vezes os olhos contradizem as maravilhas de Deus como se vê no mistério da Eucaristia E para entender semelhantes maravilhas são necessárias duas revelações uma revelação nas maravilhas para que o entendimento as conheça outra revelação nos olhos para que a vista as não contradiga Mas esta segunda revelação não é necessário que a faça Deus basta que a faça a razão Se a vista se engana nas obras da natureza nas que são sobre a natureza como se não há de enganar E se em um arco de luz e nuvem assim erram e desatinam os olhos em um círculo de nuvem sem luz que crédito lhes há de dar Emende logo o filósofo a vista com o discurso e confesse ensinado da natureza e convencido da razão a verdade indubitável daquele Vere Vere est cibus vere est potus VI Quinto inimigo trocase mui acertadamente o político pelo demônio Objeção é impossível que os homens que comungam a Cristo no sacramento sejam como Deus visto como o demônio apenas querendo assemelharse a Deus foi por isso castigado Se o maná era pão de anjos como o corpo do Filho de Deus há de ser pão de homens Deus unindose à natureza humana e não à angélica preferiu os homens aos anjos O primeiro inventor da Eucaristia foi o próprio demônio no Paraíso terrestre Cristo apenas fez verdadeira a sua mentira consagrando debaixo das espécies de pão o que ele fingira debaixo das aparências de pomo Agora se seguia o político mas fique para o fim e entre em seu lugar o diabo que talvez não seria desacertada esta troca Tempos houve em que os demônios falavam e o mundo os ouvia mas depois que ouviu os políticos ainda é pior mundo O diabo como soberbo e como ciente que é dobrada soberba ou dobrada inchação como lhe chamau S Paulo Scientia inflat 1 Cor 81 argumenta assim Se os homens comungaram a Cristo no Sacramento foram como Deus os homens não podem ser como Deus logo não comungam a Cristo no Sacramento A conseqüência diz o diabo é tão evidente como minha a suposição não a podem negar os homens porque é sua Se os homens comungaram a Cristo foram como Deus o seu mesmo texto o diz In me manet et ego in illo29 E que os homens não possam ser como Deus eu o digo e eu o padeço diz o demônio que se eu não intentara no céu ser como Deus não pagara hoje este impossível como o estou pagando Pois se a mim se a Lúcifer se à mais nobre de todas as criaturas é impossível a semelhança do Altíssimo Similis ero Altissimo Is 1414 ao homem vil feito de barro como há de ser possível não só a semelhança mas a transformação que isto quer dizer Ele em mim e eu nele Crerem os homens esta loucura é não se conhecerem a si nem nos conhecerem a nós Nós ainda que perseguidos somos anjos que quem nos pode roubar o lugar não nos pode tirar a natureza E se o maná que tanto era menos nobre se chamau pão de anjos o corpo do Filho de Deus que excede ao maná com infinita nobreza como há de ser pão de homens SI 77 15 A última parte deste soberbo argumento do demônio responde a razão com a cousa de sua mesma caída Depois que Cristo uniu a si a natureza humana e não a angélica Nus quam angelos apprehendit sed semen Abrahae apprehendit30 não há que espantar que os homens sejam em tudo preferidos aos anjos Nesta primeira admiração e neste primeiro assombro se sumirão todos os espantas E quanto ao impossível de os homens comendo poderem ser como Deus não argumenta o diabo contra nós argumenta contra si O primeiro inventor ninguém se espante do que digo o primeiro inventor da traça ou do desenho do mistério da Eucaristia foi o demônio Quando o demônio tentou a Eva disselhe assim In quocumque die comederitis eritis sicut Dii Gên 35 Comei do pomo vedado porque no dia que comerdes ficareis como Deus Eis aqui o mistério da Eucaristia não só quanto à substância senão também quanto aos efeitos Quanto à substância porque diz o demônio que está a divindade em um pomo quanto aos efeitos porque diz que comendo o homem há de ficar como Deus Pois vem cá diabo De ore tuo tejudico31 Se tu dizes que o homem comendo ficará como Deus e que no pomo daquela árvore está encoberta a divindade como negas que pode estar encoberta a divindade debaixo das espécies de pão e que comendo o homem pode ficar como Deus O que Cristo nos concedeu neste mistério é o que o diabo nos prometeu no paraíso Fez Cristo verdadeira a mentira do diabo para desta maneira o vencer a ele e nos desafrontar a nós Naquele encontro do paraíso ficou o demônio vencedor e o homem afrontado vencedor o demônio porque enganou afrontado o homem porque ficou enganado despojado perdido Pois que remédio para desafrontar o homem e o vingar do demônio O remédio foi fazer Cristo da sua promessa dádiva e da sua tentação sacramento e assim o fez Da promessa do demônio fez dádiva porque nos deu a comer a divindade que ele nos prometera comendo e fez da sua tentação sacramento porque consagrou debaixo das espécies de pão o que ele fingira debaixo das aparências do pomo De sorte que o demônio ficou vencido porque a sua mentira ficou verdade e o homem desafrontado porque o seu engano ficou fé O que creram nossos primeiros pais no paraíso é o que nós cremos no Sacramento eles erradamente ao diabo nós acertadamente a Deus Daqui se segue que neste mistério nem o diabo pede ser tentador nem o homem tentado O diabo não pede ser tentador porque se o diabo me quiser tentar na fé do mistério da Eucaristia respondolhe eu assim Quando tu diabo falaste a Eva ou mentiste ou disseste verdade Se mentiste não te devo crer porque quem mentiu então também mentirá agora E se falaste verdade também te não devo crer porque se falaste verdade pede Deus pôr divindade naquele pomo Pois se Deus pede pôr divindade em um bocado isso mesmo que tu concedes é o que eu creio Vaite embora ou na má hora Também o homem não pode ser tentado porque se o homem é pensamento de Ruperto se o homem creu ao diabo quando lhe disse que comendo seria como Deus como há de deixar de crer a Deus quando lhe diz o mesmo Principalmente que o que o diabo dizia não cabia na esfera da onipotência e o que diz Cristo sim A onipotência de Deus enquanto autor da natureza tem menor esfera que a mesma onipotência de Deus enquanto autor da graça porque a onipotência de Deus enquanto autor da natureza só pode produzir efeitos naturais e por virtude natural não pedia estar a divindade em um pomo A onipotência de Deus enquanto autor da graça pode produzir efeitos sobrenaturais e por virtude sobrenatunal pode a divindade estar em um bocado Pois se os homens foram tão inocentes que creram um impossível ao diabo porque hão de ser tão irracionais que neguem um possível a Deus Desenganese logo o demônio que neste mistério não só nos não pede vencer mas nem ainda nos pode tentar e confesse obrigado de sua mesma tentação a verdade daquele Vere que como pai da mentira tem feito negar a tantos Vere est cibus vere est potus VII Sexto inimigo o devoto Mais por excesso de amor que por falta de fé queixase o devoto dos acidentes que encobrem Cristo a seus olhos Razão os homens amam mais finamente a Cristo desejado por saudades do que gozado por vista O desejo de S Paulo O devoto não por falta de fé mas por excesso de amor e mais queixoso dos acidentes que duvidoso da substância por parte do seu afeto argüi assim com o mesmo Cristo a minha fé com os olhos fechados crê firmemente Senhor que estais nesse Sacramento mas o meu amor com os olhos abertos não pode entender nem penetrar como seja possível esta verdade Se partindovos da terra quisestes ficar na terra foi para satisfação do vosso amor e para alívio do nosso para crédito de vossas finezas e para remédio de nossas saudades Assim o disse aquele grande intérprete dos segredos de vosso coração neste mistério De sua contristatis absen tia solatium singulare reliquit32 Pois se ficastes para nossa consolação como vos encobris a nossos olhos Se foi amor o ficar como pode ser amor o ficar desse modo Ficar e ficar encoberto antes é martírio do desejo que alívio da saudade Por certo que não eram esses antigamente os estilos de vosso amor nem da sua paciência En ipse stat post parietem nostrum respiciens perfenestras prospiciens per cancellos33 Havia sim entre vós e a alma vossa querida uma parede mas com a parede ser sua havia nela uma gelosia vossa por onde a víeis e por onde vos via Para não podermos ver vossa divindade é nossa a parede deste corpo mas para não vermos vossa humanidade vossa é a parede desses acidentes Pois se os impedimentos e estorvos da vista são vossos e vosso amor é onipotente como quereis que creia o meu amor uma tão grande implicação do vosso como é amarme tanto e não vos deixardes ver A fé o crê muito a seu pesar mas o amor não o sofre nem o alcança nem o pode deixar de ter por impossível Assim argüi amorosamente queixosa a devoção mas tem fácil e mui inteira resposta a sua piedade A um afeto amoroso da alma responde a razão com outro afeto mais amoroso de Cristo e diz que maior amor é em Cristo o não se deixar ver do que na devoção o desejar vêlo Ainda que Cristo se não deixa ver de nós é certo que se deixou conosco mas deixouse de maneira que o não possamos ver porque fiou mais seu amor de nossos desejos que de nossos olhos O fim para que Cristo se deixou no Sacramento foi para que os homens o amássemos E sendo que o maior conhecimento é cousa do maior amor amam os homens mais finamente a Cristo desejado por saudades do que gozado por vista Se eu me não engano tenho bem imaginada a prova desta verdade Saudoso S Paulo de se ver com Cristo dizia assim Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo34 Oh quem me dera que a minha alma se desatara e desunira do corpo para poder estar com Cristo Tendo isto assim se perguntarmos aos teólogos se as almas que estão vendo a Cristo têm algum desejo resolvem todos que sim e que desejam unirse com seus corpos Pois dificulto agora e parece que apertadamente se as almas que estão vendo a Cristo desejam unir se a seus corpos por que diz a alma de S Paulo que desejara desatarse de seu corpo para ir ver a Cristo Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo Flp 1 23 A razão é porque Cristo em respeito das almas dos bemaventurados é gozado por vista e em respeito da alma de S Paulo era desejado por saudades e o amor de Cristo desejado por saudades é muito mais eficaz nesta parte ou mais afetuoso ou mais impaciente que o mesmo amor de Cristo gozado por vista Cristo gozado por vista ainda deixa amor a uma alma para desejar unirse a seu corpo mas Cristo desejado por saudades até a união de seu próprio corpo lhe faz aborrecível Desiderium habens dissolvi et esse cum Christo E como a Cristo lhe vai melhor com as nossas saudades que com os nossos olhos por isso se quis deixar em disfarce de desejado e não em trajos de visto Descoberto para os olhos não encoberto sim para as saudades Conheça logo a nossa devoção que é fineza e não implicação do amor de Cristo o deixarse invisível naquele mistério e confesse não só a nossa fé com os olhos fechados senão o nosso amor com os olhos abertos a verdade amorosa daquele Vere Vere est cibus vere est potus VIII Sétimo inimigo o político Os políticos argumentam com a autoridade Como é possível que o monarca ao universo se exponha assim a todos cercado só de uns acidentes de pão Razão Onde se conquisiam venerações não se perde autoridade A lançada da lado de Cristo e a Igreja A construção da igreja de Santa Eustáquia e os muros de Lisboa Ultimamente argumenta o político e do mesmo caso que deu ocasião a esta solenidade infere não estar a pessoa soberana de Cristo naquela hóstia Os príncipes de nenhuma coisa são nem devem ser mais zelosos que de sua autoridade Já arriscar e expor a soberania da própria pessoa a perder vir às mãos de seus inimigos antes perderá um príncipe a vida e mil vidas que consentir tal afronta E se não lembrese a fé do primeiro rei de Israel Perdida a batalha dos montes de Gelboé contra os filisteus achavase Saul tão malferido que nem se pedia retirar nem defender E que resolução tomau neste caso Tirame por esta espada disse ao seu pajem da lança e matame Ne forte veniant incircumsisi isti et interficiant illudentes mihi Por que não venham estes infiéis e me tirem a vida perdendo o respeito 1 Rs 31 4 Pelo respeito e pela autoridade o havia e não pela vida pois se mandava matar Não teve ânimo o criado para o executar e lançandose o mesmo Soul sobre a ponta da sua espada caiu morto por não cair nas mãos de seus inimigos Assim estimam os príncipes e assim devem estimar mais a autoridade que a vida Pois se tanto preço tem na estimação dos monarcas supremos a autoridade e soberania de suas pessoas se antes quer um rei generoso tirarse a vida por suas mãos que poder vir às de seus inimigos como é possível nem crível que o príncipe da glória Cristo que o rei dos homens e dos anjos que o monarca universal do céu e da terra deixasse tão mal guardada sua autoridade e tão pouco defendido seu respeito como é força que o esteja cercado só de uns acidentes de pão Como é possível nem crível que deixasse tão arriscada e exposta a majestade divina de sua pessoa a cair nas mãos infiéis e sacrílegas de seus inimigos como publicam as memórias deste dia e a ocasião e o nome destes desagravos Aos outros argumentos respondi pela razão com o que estudei a este respondo com o que vejo Onde se conquistam venerações não se perde autoridade Estes são os ditames de Deus esta foi sempre sua razão de estado Permitiu o que choramos para conseguir o que vemos Que maior exaltação de fé que maior confusão de heresia que maior honra de Cristo Tanto rende a Deus uma ofensa quando é a cristandade a que sente e a nobreza a que a desagrava As majestades e altezas do mundo os grandes os títulos os prelados as religiões todos prostrados por terra todos servindo de joelhos todos confessandose por escravos humildes e adorando como a supremo Senhor aquela soberana majestade sempre venerável e sempre veneranda mas muito mais quando ofendida Veja agora o político se perde Deus autoridade ou se conquista honra e glória quando permite uma indecência Dizia esse mesmo Senhor que sempre é o mesmo e sempre se parece consigo Si exaltatus fuero a terra omnia traham ad me ipsum Quando eu for levantado da terra em uma cruz hei de trazer tudo a mim Jo 1232 A afronta da cruz foi a maior que padeceu nem pedia padecer Cristo a mãos da infidelidade e temeridade humana mas as conseqüências dessa mesma afronta diz o Senhor que haviam de ser as suas maiores glórias trazendo tudo a si Assim o mostrou e vai ainda mostrando o cumprimento desta profecia pelo discurso dos tempos da fé universal do mundo quase todo já trazido ao conhecimento obediência e veneração de Cristo Mas se quisermos apertar mais a significação e energia daquele Si Si exaltatus fuero a terra nos obséquios de José e Nicodemos se verificou na mesma cruz o Omnia trabani adme ipsum José como notou S Marcos era nobre Nobilis decurio Mc 15 43 Nicodemos como notou S João era príncipe Princeps judaeorum Jo 31 E como Cristo desde a sua cruz havia de trazer a si a nobreza e os príncipes por isso diz que havia de trazer a si tudo Onmia traham ad me ipsum porque os príncipes e a nobreza é o tudo dos reinos Escolheu Cristo aos nobres e senhores para que o tirassem do afrontoso suplício e fizessem as honras a seu corpo porque honrar o corpo de Cristo afrontado é ação que anda avinculada à nobreza E quando assim trouxe a si a nobreza diz que havia de trazer a si omnia e não omnes tudo e não todos porque os nobres não são todos mas são tudo Bem se cumpriu esta promessa então mas muito melhor cumprida a vemos agora Omnia traham ad me ipsum Tudo o que há em Portugal aqui o tem Cristo a seus pés Que fez este dia tão solene e esta igreja tão célebre senão uma injúria a Cristo Quando o soldado infiel deu a lançada a Cristo saíram do lado ferido todos os sacramentos E disse judiciosamente Tertuliano Ut de injuria lateris ejus tota formaretur Ecclesia Que de uma injúria do corpo de Cristo se formau toda a Igreja O que Tertuliano disse da Igreja universal podemos nós dizer desta material que se fundou esta nova igreja de uma injúria do corpo de Cristo Mas são muito de reparar os termos de Tertuliano que da injúria do corpo de Cristo não diz que se formaram só os fundamentos senão toda a Igreja Tota formaretur Ecclesia Vemos levantados os fundamentos desta nova igreja muito nobres muito suntuosos muito magníficos e muito conformes aos ânimos generosos de seus ilustres fundadores mas sente muito a piedade cristã e portuguesa ver a fábrica parada há tantos anos Quando no interrompido ou ameaçado desta obra se pudera presumir descuido assaz desculpado ficava com a variedade e estreiteza dos tempos mas quanto esta estreiteza é mais pública e conhecida tanto maior louvor merece o novo e presente zelo com que se trata de levar a fábrica por diante e não parar até se pôr em sua perfeição sendo o primeiro exemplo o de sua majestade que Deus nos guarde cuja real liberalidade quer ter uma grande parte nesta obra como em todas as de piedade Os tempos parece que estão pedindo que se edifiquem antes muros e castelos que templos mas esse privilégio têm nomeadamente os templos do Santíssimo Sacramento que são as melhores fortificações dos remos Edificou a divina Sabedoria um templo Sapientia aedificavit sibi domum Prov 91 Dedicou este templo ao Santíssimo Sacramento Miscuit vinum et proposuit mensam E que se seguiu daqui Misit ancillas suas ut vocarent ad arcem et ad moenia civitatis35 Os que serviam naquele templo como os que servem neste era com nome de escravos e a esses escravos mandou o Senhor que chamassem para a fortaleza e para os muros da cidade Pois como O que se edificou era templo ao Santíssimo Sacramento e o recado com que se convocava a gente para o templo dizia que viesse para os muros e para as fortalezas da cidade Ad arcem et ad moenia civitatis Sim que os templos do Santíssimo Sacramento são os mais fortes muros são as mais inexpugnáveis fortalezas das cidades e dos remos Edifiquese leve se por diante esta fábrica que ela será os mais fortes muros de Lisboa ela será a mais inexpugnável fortaleza de Portugal E acabará de conhecer o político a razão de estado de Deus que quando se expõe a cair nas mãos de seus inimigos é para mais nos defender dos nossos e para fundar sobre suas injúrias o edifício de suas glórias aprendendo e confessando na política deste altíssimo conselho de Cristo a verdade secretíssima e sacratíssima daquele Vere Vere est cibus vere est potus IX Súplica em favor dos inimigos da Eucaristia Diviníssimo Sacramento real e verdadeiro corpo de Cristo Deus encoberto debaixo de substância de carne homem encoberto debaixo de acidentes de pão o filósofo o devoto o político corno cristãos e católicos e com o filósofo toda a nossa ciência e todas as ciências com o devoto toda a nossa piedade e todos os nossos afetos com o político toda a nossa conveniência e todos os nossos interesses e todos os que estamos presentes com tudo o que sabemos o que amamos e o que esperamos obedientes à fé e guiados pela razão às escuras e com luz com os olhos fechados mas abertos profundamente prostrados ante a majestade tremenda de vosso divino e humano acatamento cremos confessamos e adoramos a verdade infalível de vossa real presença debaixo da cortina sem substância desses acidentes visíveis E com confiança Senhor da clemência com que nos sofre vosso amor e da benignidade com que aceita a tibieza de nossos obséquios nos oferecemos nos dedicamos nos entregamos todos a ele em perpétua obrigação de o servir como escravos posto que indigníssimos desse soberano Sacramento Aumentai Senhor pela grandeza de vossa misericórdia esta família vossa e pois que o judeu obstinado o herege cego e o gentio ignorante não sabem nem querem orar por si nós oramos e pedimos por eles a vós soberano pastor que de todos haveis de fazer um rebanho Ensinai Senhor a ignorância do gentio alumiai a cegueira do herege abrandai a obstinação do judeu E para que a maldade e astúcia do demônio tentador os não engane chegue já a execução de vossa justiça e acabe o mundo de ver atada sua rebeldia naquelas cadeias e fechada naquele cárcere que há tantos anos lhe está ameaçado e prometido para que desta maneira unidas todas as seitas do mundo na concórdia de uma só fé e religião36 se forme de todas essas seis vozes uma total consonância e perpétua harmonia cantando todas em todas as quatro partes do mundo até o fim dele e confessando alternadamente a muitas vozes e juntas em uma só voz a sagrada e consagrada verdade daquele Vere Vere est cibus vere est potus SERMÃO DO NASCIMENTO DA VIRGEM MARIA DEBAIXO DA INVOCAÇÃO DE N SENHORA DA LUZ TÍTULO DA IGREJA E COLÉGIO DA COMPANHIA DE JESUS NA CIDADE DE S LUÍS DO MARANHÃO ANO DE 1657 De qua natus est Jesus1 I Por que no dia do nascimento da Virgem nos propõe a Igreja o Evangelho do nascimento de Cristo O sol nasce duas vezes quando aparece a luz e quando aparece o astro Desse modo é que se deve interpretar o que dizem os evangelistas e o Gênesis Quem é o sol duas vezes nascido É Cristo que nasceu quando nasceu Maria em Nazaré e quando ele próprio nasceu em Belém Celebramos hoje o nascimento mas que nascimento celebramos Se o perguntarmos à Igreja responde que o nascimento de Maria se consultarmos o Evangelho lemos nele o nascimento de Jesus De qua natus est Jesus Assim temos encontrados nas mesmas palavras que propus o texto com o mistério o tema com o sermão e um nascimento com outro Se a Igreja celebrara neste dia o nascimento glorioso de Cristo muito acomodado Evangelho nos mandava ler mas o dia e o nascimento que festejamos não é o do Filho é o da Mãe Pois se ainda hoje nasce a Mãe como nos mostra já a igreja e o Evangelho não a Mãe senão o Filho nascido De qua natus est Jesus Só no dia de Nossa Senhora da Luz se pudera responder cabalmente a esta dúvida O sol se bem advertirdes tem dois nascimentos um nascimento com que nasce quando nasce e outro nascimento com que nasce antes de nascer Aquela primeira luz da manhã que apaga ou acende as sombras da noite cuja luz é É luz do sol E esse sol então está já nascido Não e sim Não porque ainda não está nascido em si mesmo Sim porque já está nascido na sua luz De sorte que naturalmente vêem os nossos olhos ao sol duas vezes nascido nascido quando nasce e nascido antes de nascer Grande prova temos desta filosofia na mesma história evangélica e é um dos mais aparentes encontros que se acham em toda ela Partiram as Marias ao sepulcro na manhã do terceiro dia e referindo o evangelista S Marcos a hora a que chegaram diz assim Valde mane una subbatorum veniunt ad monumentum orto jam sole Ao domingo muito de madrugada chegaram ao sepulcro sendo já o sol nascido Mc 162 Notável dizer Se era já o sol nascido Orto jam sole como era muito de madrugada Valde mane E se era muito de madrugada Valde mane como era já o sol nascido Orto jam sole Tudo era e tudo podia ser diz Santo Agostinho porque era o sol nascido antes de nascer2 Ora vede O tempo em que vieram as Marias ao sepulcro era muito de madrugada Valde mane diz S Marcos Valde diluculo diz S Lucas Lc 242 Era muito de madrugada Valde mane Logo já havia alguma luz que isso quer dizer diluculo Havia luz Logo já o sol estava nascido Orto jam sole Provo a conseqüência porque o sol como dizíamos tem dois nascimentos um nascimento quando vem arraiando aquela primeira luz da manhã a que chamamos aurora outro nascimento quando o sol descobre ou acaba de desaparecer em si mesmo E como o sol não só nasce quando nasce em si mesmo senão também quando nasce na sua luz por isso disse o evangelista com toda a verdade que era de madrugada e que era o sol nascido Nenhuma destas palavras é minha todas são da glosa de Lirano seguindo a Santo Agostinho Valde mane orto jam soIe Sol enim potest oriri dupliciter uno modo perfecte quando primo egreditur et apparet super terram alio modo quando lur ejus incipit apparerere scilicet in aurora et sic accipitur hic ortus solis3 Não o podia dizer mais em português De maneira que àquela primeira luz com que se rompem as trevas da noite chamau S Marcos nascimento do sol porque em todo o rigor da verdade evangélica não só nasce o sol quando nasce em si mesmo senão quando nasce na sua luz Um nascimento do sol é quando nasce em si mesmo e aparece sobre a terra Quando primo egreditur et apparet super terram o outro nascimento é antes de nascer em si mesmo quando nasce e aparece a sua luz Quando lux ejus incipit apparere É o que estamos vendo neste dia e o que nos está pregando a Igreja neste Evangelho O dia mostranos nascida a luz o Evangelho mostranos nascido o sol e tudo é Não é o dia em que o sol apareceu nascido sobre a terra Quando primo egreditur et apparet super terram mas é o dia em que aparece nascido na luz da sua aurora Quando lux eius incipit apparere scilicet in aurora porque se o sol não está ainda nascido em si mesmo já está nascido na luz de que há de nascer De qua natus est Jesus Estava dito Mas porque parecerá novidade dar dois nascimentos e dois dias de nascimentos a Cristo saibam os curiosos que não é novidade nova senão mui antiga e uma das mais bem retratadas verdades que o Criador do mundo nos pintou no princípio dele No primeiro dia do mundo criou Deus a luz no quarto dia criou o sol Sobre estes dois dias e estas duas criações há grande batalha entre os doutores porque se o sol é a fonte da luz que luz é esta que foi criada antes do sol Ou é a mesma luz do sol ou é outra luz diferente Se é a mesma por que não foi criada no mesmo dia E se é diferente que luz é ou que luz pode haver diferente da luz do sol Santo Tomás e com ele o sentir mais comum dos teólogos resolve que a luz que Deus criou o primeiro dia foi a mesma luz de que formau o sol ao dia quarto De modo que em ambos estes dias e em ambas estas criações foi criado o sol No primeiro dia foi criado o sol informe no quarto dia foi criado o sol formado São os termos de que usa Santo Tomás No primeiro dia foi criado o sol informe porque foi criado em forma de luz no quarto dia foi criado o sol formado porque foi criado em forma de sol4 Em conclusão que entre todas as criaturas só o sol teve dois dias de nascimento o primeiro dia e o quarto dia O quarto dia em que nasceu em si mesmo e o primeiro em que nasceu na sua luz O quarto dia em que nasceu sol formado e o primeiro em que nasceu na luz de que se formau Pode haver propriedade mais própria Agora pergunto eu se alguém me não entendeu ainda quem é este sol duas vezes nascido E quem é esta luz de que se formau este sol O sol é Jesus a luz é Maria diz Alberto Magno E não era necessário que ele o dissesse Assim como o sol nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento assim como o sol nasceu uma vez quando nascido e outra antes de nascer assim como o sol uma vez nasceu em si mesmo e outra na sua luz assim nem mais nem menos o sol Divino Cristo nasceu duas vezes e teve dois dias de nascimento Um dia em que nasceu em Belém outro em que nasceu em Nazaré Um dia em que nasceu quando nascido que foi em vinte e cinco de dezembro e outro dia em que nasceu antes de nascer que foi neste venturoso dia Um dia em que nasceu de sua Mãe outro dia em que nasceu com ela Um dia em que nasceu em si mesmo outro dia em que nasceu naquela de quem nasceu De qua natus est Jesus Temos introduzido e concordado o Evangelho que não é a menor dificuldade deste dia Para satisfazermos à segunda obrigação que não é senão a primeira peçamos à Senhora da Luz nos comunique um raio da sua Ave Maria II Razões por que devemos festejar este dia antes por nascimento da luz que por nascimento do sol Cristo sol de justiça e a Senhora da Luz Mãe de misericórdia De qua natus est Jesus Suposto que temos neste natus do Evangelho dois nascidos e nesse nascimento dois nascimentos o nascimento da luz Maria nascida em si mesma e o nascimento do sol Cristo nascido na sua luz qual destes nascimentos faz mais alegre este dia E por qual deles o devemos mais festejar Por dia do nascimento da luz ou por dia do nascimento do sol Com licença do mesmo sol ou com lisonja sua digo que por dia do nascimento da luz E por quê Não por uma razão nem por duas senão por muitas Só quatro apontarei porque desejo ser breve Primeira razão porque a luz é mais privilegiada que o sol Segunda porque é mais benigna Terceira porque é mais universal Quarta porque é mais apressada para nosso bem Por todos estes títulos é mais para festejar este dia por dia do nascimento da luz que por dia ou por véspera do nascimento do sol Mas porque este sol e esta luz entre os quais havemos de fazer a comparação parecem extremos incomparáveis como verdadeiramente é incomparável Cristo sobre todas as puras criaturas entrando também neste número sua mesma mãe antes que eu comece a me desempenhar deste grande assunto ou a empenhar me nele declaro que em tudo o que disser procede a comparação entre Cristo como Sol de justiça e a Senhora da Luz como Mãe de misericórdia e que assim como os efeitos da luz se referem à primeira fonte dela que é o sol assim todos os que obra a Senhora em nosso favor são nascidos e derivados do mesmo Cristo cuja bondade e providência ordenou que todos passassem e se nos comunicassem por mão de sua Mãe como advogada e medianeira nossa e dispensadora universal de suas graças Assim o supõe com S Bernardo a mais pia e bem recebida teologia Nihil Deus nos habere voluit quod per manus Mariae non tronsisset5 Isto posto III Primeira razão a luz é mais privilegiada que o sol A luz e não o sol é a chave que abre as portas do dia O dia é filho da luz e não do sol O papel importante da luz na criação do mundo O nascimento da Virgem e a criação da luz Começando pelo primeiro titulo de ser a luz mais privilegiada digo que é mais privilegiada a luz que o sol porque o dia que é a vida e a formosura do mundo não o faz o nascimento do sol senão o nascimento da luz É advertência de Santo Ambrósio e advertência que quis o grande doutor que soubéssemos que era sua Advertimus quod lucis ortus antequam solis diem videatur aperire Tenho advertido diz Santo Ambrósio que o que primeiro abre e faz o dia é o nascimento da luz e não o do sol6 Está esta grande máquina e variedade do universo coberta de trevas está o mundo todo fechado no cárcere da noite e qual é a chave que abre as portas ao dia O sol Não senão a luz porque ao aparecer do sol já o mundo está patente e descoberto Diem sol clarificat lux facit O sol faz o dia mais claro mas a luz é a que faz o dia E se não vede diz o santo Frequenter coelum nubibus texitur ut sol tegatur nec ullus radius ejus appareat lux tamen diem demonstrat Quantas vezes acontece forrarse o céu de nuvens espessas com que não aparece o sol nem o menor de seus raios e contudo ainda que não vemos o sol vemos o dia Por quê Porque nolo mostra a luz Bem se segue logo que o dia tão necessário e tão proveitoso ao mundo é filho da luz e não filho do sol Parece que tem alguma coisa de sofístico este discurso de Santo Ambrósio porque sendo a luz efeito do sol quem faz a luz faz o dia Assim parece mas não é assim E quero dar uma prova valente a uma razão que parece fraca Noutras ocasiões declaramos a Escritura com o santo agora declararemos o santo com a Escritura Diz Santo Ambrósio que o dia é filho da luz e não do sol Provo e pergunto O sol em que dia o criou Deus Diz a Sagrada Escritura que criou Deus o sol ao dia quarto Luminare majus ut praeesset diei et factum est dies quartus Gên 1 1619 Deus criou o sol ao dia quarto Logo antes de haver sol já havia dias Antes de haver sol já havia dias Logo o dia não é filho do sol Pois de quem é filho É filho da luz O mesmo texto sagrado In principio creavit Deus caelum et terram Gên 11 No princípio antes de haver dia nem noite nem tempo criou Deus o céú e a terra Et tenebrae erant super faciem abyssi E o mundo todo estava sepultado em um abismo de trevas Dixitque Deus fiat lux et facta est lux Disse Deus façase a luz e foi feita a luz Appellavitque lucem diem et tenebras noctem et factus est dies unus E chamau Deus à luz dia e às trevas noite deste modo se fez o primeiro dia que houve no mundo Gên 1235 De maneira como bem dizia Santo Ambrósio que o dia é filho da luz e não do sol ao nascimento da luz e não ao do sol deve o mundo o beneficio do dia O tempo ditosíssimo da lei da graça em que estamos é o dia do mundo o tempo da lei da natureza e da lei escrita que já passou foi a noite Assim o diz S Paulo Nox praecessit dies outem appropinquavit7 E quem foi a aurora que amanheceu ao mundo este dia tão alegre tão salutífero e tão vital senão aquela luz divina O sol fez o dia mais claro mas a luz a que rompeu as trevas a luz foi a que venceu e despojou a noite a luz foi a que fez o dia Diem sol clarificat lux facit Grande privilégio da luz sobre o sol que ela e não ele ou ao menos que ela primeiro que ele seja a autora do dia Mas eu sem me sair do mesmo passo ainda hei de dizer outro privilégio maior da mesma luz Criou Deus a luz três dias antes de criar o sol Tanto que houve sol no mundo logo houve também olhos que o vissem e que gozassem de seus resplendores porque o sol foi criado ao quarto dia e as aves e os peixes ao quinto os animais da terra e os homens ao sexto De sorte que como notou S Basilio todos os três dias em que a luz esteve criada antes da criação do sol não havia olhos no mundo8 Pois se não havia olhos no mundo para que criou Deus a luz Que crie Deus o sol ao quarto dia bem está porque no quinto e no sexto dia havia de criar os olhos de todos os viventes mas se no segundo no terceiro e no quarto dia não houve nem havia de haver olhos por que cria Deus a luz no primeiro Porque o sol criouo Deus para os olhos dos homens e dos animais a luz crioua Deus para os seus olhos E assim foi Fiat lux et facta est lux et vidit Deus lucem quod esset bona Gên 14 Disse Deus Façase a luz e fezse a luz e no mesmo ponto que nasceu e apareceu a luz logo foi o emprego e suspensão dos olhos de Deus Vidit Deus lucem Digo emprego e suspensão porque quando Deus criou a luz já estava criado o céu a terra os elementos os anjos e nada disto levou após si os olhos de Deus senão a luz Ela encheu os olhos de Deus de maneira que sendo os olhos de Deus imensos parece que não deixou neles lugar para os pôr noutra coisa Assim era a luz criada para os olhos de Deus como o sol para os dos homens e dos animais Não cuideis que digo injúrias ao Sol Encarnado que assim quis Ele que fosse Aparece no mundo o sol encarnado Cristo e que olhos o viram nascido Olhos de homens e olhos de animais Para o verem nascido olhos de animais ele mesmo foi buscar os animais a um presépio e para o verem nascido olhos de homens ele os mandou buscar por uma estrela entre os reis e por um anjo entre os pastares Os homens pelo pecado estavam convertidos em animais Homo cum in honore esset non intellexit comparatus est jumentis9 Por isso se mostra o sol nascido aos olhos dos homens e dos animais porque nascia para fazer de animais homens Porém a luz como nascia para Mãe de Deus ocultase a todos os olhos criados e só nasce manifesta aos divinos Vidit Deus lucem Os olhos de Deus foram os que festejaram o nascimento desta soberana luz e festejaramna aqueles três dias em que não houve sol nem outros olhos porque tomau cada pessoa da Santíssima Trindade um dia da festa por sua conta Ipse est enim lux quae primam distinxit dierum nostrorum trinitatem disse S Dionisio Areopagita10 Os olhos do Padre festejaram o nascimento da luz o primeiro dia Et vidit Deus luceni quod esset bona E viu Deus Padre que a luz era boa para filha Os olhos do Filho festejaram o nascimento da luz o segundo dia Et vidit Deus lucein quod esset bona E viu Deus Filho que a luz era boa para Mãe Os olhos do Espírito Santo festejaram o nascimento da luz o terceiro dia Et vidit Deus lucem quod esset bona E viu Deus Espírito Santo que a luz era boa para Esposa Assim festejou toda a Santíssima Trindade o nascimento daquela soberana luz e assim o devemos festejar nós Ponde os olhos cristãos naquela luz e pedilhe que os ponha em vós e vereis como é boa para tudo Vidit lucem quo desset bona Boa para a consolação se estiveres afligido boa para o remédio se estiveres necessitado boa para a saúde se estiveres enfermo boa para a vitória se estiveres tentado e se estiveres caído e fora da graça de Deus boa e só ela boa para vos conciliar com Ele Tão cheia de privilégios de Deus nasce hoje esta luz de quem Ele há de nascer De qua natus est Jesus IV Segunda razão a luz é mais benigna que o sol O sol e a nuvem que guiava os filhos de Israel pelo deserto Os rigores do sol da justiça e as benignidades da luz O nascimento de Maria é a passagem do sol do signo do Leão para o signo da Virgem Maria e a sarça ardente do deserto S João o novo signa celeste e a humanização do sol O segundo título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais benigna É a luz mais benigna que o sol porque o sol alumia mas abrasa a luz alumia e não ofende Quereis ver a diferença da luz ao sol Olhai para o mesmo sol e para a mesma luz de que ele nasce a aurora A aurora é o riso do céu a alegria dos campos a respiração das flores a harmonia das aves a vida e alento do mundo Começa a sair e a crescer o sol eis o gesto agradável do mundo e a composição da mesma natureza toda mudada O céu acendese os campos secamse as flores murchamse as aves emudecem os animais buscam as covas os homens as sombras E se Deus não cortara a carreira ao sol com a interposição da noite fervera e abrasarase a terra arderam as plantas secaramse os rios sumiramse as fontes e foram verdadeiros e não fabulosos os incêndios de Faetonte A razão natural desta diferença é porque o sol como dizem os filósofos ou verdadeiramente é fogo ou de natureza mui semelhante ao fogo elemento terrível bravo indômito abrasador executivo e consumidor de tudo Pelo contrário a luz em sua pureza é uma qualidade branda suave amiga enfim criada para companheira e instrumento da vista sem ofensa dos olhos que são em toda a organização do corpo humano a parte mais humana mais delicada e mais mimosa Filósofos houve que pela sutileza e facilidade da luz chegaram a cuidar que era espírito e não corpo Mas porque a filosofia humana ainda não tem alcançado perfeitamente a diferença da luz ao sol valhamonos da ciência dos anjos Aquele anjo visível que guiava os filhos de Israel pelo deserto diz o texto que marchava com duas colunas de prodigiosa grandeza uma de nuvem de dia e outra de fogo de noite Per diem in columna nubis per noctem in columna ignis Êx 1321 E por que e para que levava o anjo estas duas colunas de nuvem e fogo A de nuvem para reparo do sol a de fogo para continuação da luz Tanto que anoitecia acendia o anjo a coluna de fogo sobre os arraiais para que tivessem sempre luz E tanto que amanhecia atravessava o anjo a coluna de nuvem para que ficassem reparados e defendidos do sol De maneira que todo o cuidado do anjo sobre os seus encomendados consistia em dois pontos o primeiro que nunca lhes tocasse o sol o segundo que nunca lhes faltasse a luz Tão benignas qualidades reconhecia o anjo na luz e tão rigorosas no sol Estas são as propriedades rigorosas e benignas do sol e da luz natural E as mesmas se bem o considerarmos acharemos no Sol e na Luz divina Cristo é sol mas sol de justiça como lhe chamau o profeta Sol justitiae Mal 42 E que muito que no sol haja raios e na justiça rigores Todos os rigores que tem obrado no mundo o sol natural tantas secas tantas esterilidades tantas sedes tantas fomes tantas doenças tantas pestes tantas mortandades tudo foram execuções do sol de justiça o qual as fez ainda maiores O sol material nunca queimau cidades e o sol de justiça queimau e abrasou em um dia as cinco cidades de Pentápolis inteiras sem deixar homem à vida nem dos mesmos edifícios e pedras mais que as cinzas Tais são os rigores daquele sol divino Mas a benignidade da luz que hoje nasce e de que ele nasceu como a poderei eu explicar Muitas e grandes coisas pudera dizer desta soberana benignidade mas direi só uma que vale por todas É tão benigna aquela divina luz que sendo tão rigorosos e tão terríveis os raios do divino sol ela só basta para os abrandar e fazer também benignos Por que vos parece que nasce a Virgem Maria em tal dia como hoje Se o dia do nascimento de Cristo foi misterioso e misterioso o dia do nascimento do Batista por ser o precursor de Cristo quanto mais o dia da Mãe de Cristo Pois que mistério tem nascer a Senhora neste dia Muito grande mistério O mistério do dia do nascimento de Cristo como notou Santo Agostinho foi porque naquele tempo volta o sol para nós e começam os dias a crescer O mistério do dia do nascimento do Batista foi porque naquele tempo se aparta o sol de nós e começam os dias a diminuir E o mistério do dia do nascimento da Senhora é porque neste tempo passa o sol do signo do Leão para o signo da Virgem e começa o mesmo sol a abrandar O caminho do sol é pelos doze signos celestes em que tem diferentes efeitos conforme a constelação e qualidades de cada um Quando o sol anda no signo de Leão como se tomara a natureza daquele animal colérico e assanhado tais são os seus efeitos calores securas enfermidades malignas tresvarios sangue mortes Porém tanto que o sol passa do signo do Leão ao signo de Virgem já o Leão começa a abrandar já vai manso já vai pacífico já vai cordeiro O mesmo sucedeu aos rigores do nosso sol Lede o Testamento Velho e achareis que Deus antigamente afogava exércitos queimava cidades alagava mundos despovoava paraísos E hoje sendo os pecados dignos de maior castigo pela circunstância do tempo da fé e dos benefícios não se vêem em Deus semelhantes rigores Pois por que se Deus é O mesmo e a sua justiça a mesma Porque então estava o sol no signo do Leão agora está no signo de Virgem Como o sol entrou no signo de Virgem logo aquela benigna luz lhe amansou os rigores lhe embargou as execuções e lhe temperou de tal maneira os raios que ao mesmo fogo abrasador de que eram compostos lhe tirou as atividades com que queimava e só lhe deixou os resplendores com que luzia Grande caso mas provado Vê Moisés no deserto uma sarça que ardia em fogo e não se queimava Êx 3 3 Pasma da visão parte a vêla de mais perto e quanto mais caminha e vê tanto mais pasma Ser fogo o que estou vendo não há dúvida aquela luz intensa aquelas chamas vivas aquelas labaredas ardentes de fogo são mas a sarça não se consome a sarça está inteira a sarça está verde Que maravilha é esta Grande maravilha para quem não conhecia o fogo nem a sarça mas para quem sabe que o fogo era Deus e a sarça Maria ainda era maravilha maior ou não era maravilha O fogo era Deus que vinha libertar o povo Assim diz o texto A sarça era Maria em quem Deus tomau forma visível quando veio libertar o gênero humano Assim o diz S Jerônimo Santo Atanásio S Basílio e a mesma Igreja11 Como o fogo estava na sarça como Deus estava em Maria já o seu fogo não tinha atividades para queimar Luzir sim resplender sim que são efeitos de luz mas queimar abrasar consumir que são efeitos de fogo isso não que já lhos tirou Maria Já Maria despontou os raios do sol por isso luzem e não ferem ardem e não queimam resplandecem e não abrasam Parecevos maravilha que assim abrandasse aquela benigna luz os rigores do sol Parecevos grande maravilha que assim lhe apagasse o fogoso e abrasado e lhe deixasse só o respíandescente e luminoso Pois ainda fez mais Não só abrandou ou apagou no sol os rigores do fogo senão também os rigores da luz O sol não é só rigoroso e terrível no fogo com que abrasa senão também na luz com quê alumia Em aparecendo no Oriente os primeiros raios do sol como se foram archeiros da guarda do grande rei dos planetas vereis como vão diante fazendo praça e como em um momento alimpam o campo do céu sem guardar respeito nem perdoar a coisa luzente O vulgo das estrelas que andavam como espalhadas na confiança da noite as pequeninas somemse as maiores retiramse todas fogem todas se escondem sem haver nenhuma por maior luzeiro que seja que se atreva a parar nem a aparecer diante do sol descoberto Vedes esta majestade severa Vedes este rigor da luz do sol com que nada lhe pára com que tudo escurece em sua presença Ora deixaio vir ao signo de Virgem e vereis como essa mesma luz fica benigna e tratável Viu S João no Apocalipse um novo signo celeste Signun magnun apparuit in caelo Apc 121 Era uma mulher vestida do sol calçada da lua e coroada de estrelas Mulier amicta sole luna sub pedibus ejus et in capite ejus corona stellarum duodecim Ibid Não reparo no sol e na lua no sol e nas estrelas reparo Calçada da lua e vestida de sol bem pode ser porque diante do sol também aparece a lua Mas vestida de sol e coroada de estrelas Sol e estrelas juntamente Não é possível como acabamos de ver Pois se na presença do sol fogem e desaparecem as estrelas e o sol estava presente e tão presente no vestido da mesma mulher como apareciam nem podiam aparecer as estrelas da coroa Aí vereis quão mudado está o sol depois que vestiu uma mulher ou depois que uma mulher o vestiu a ele12 Este signo em que o sol apareceu a S João era o signo de Virgem Signum magnum apparuit in caelo Mulier amicta sole E depois que o sol entrou no signo de Virgem depois que o sol se humanou nas entranhas da Virgem Maria logo os seus raios não foram temerosos logo a sua majestade não foi terrível logo a grandeza de soberania da sua mesma luz foi tão benigna que já não fogem nem se escondem dela as estrelas antes lhes consente que possam luzir e brilhar em sua presença Assim amansou aquela luz divina o sol noutro tempo tão severo assim humanou a intolerável grandeza de sua luz assim temperou e quebrou a força de seus raios Para que vejamos quanto se deve alegrar neste dia e quanto deve festejar o nascimento desta benigna luz o gênero humano todo e mais aqueles que mais têm ofendido o Sol Quantas vezes havia de Ter o Sol de justiça abrasado o mundo Quantas havia de ter fulminado com os seus raios as rebeldias de nossas ingratidões e as abominações de nossos vícios se não fora pela benignidade daquela luz Para isso nasceu e para isso nasce hoje para o fazer humano antes de nascer e para lhe atar as mãos e os braços depois de nascido De qua natus est Jesus V Terceira razão a luz é mais universal o sol é limitado no tempo e no lugar Diversidades entre o sol material e o sol de justiça O sol de justiça e as trevas do Egito O papa Inocêncio III e a comparação do Cântico dos Cânticos O terceiro título por que se deve mais festejar o dia deste nascimento é por ser a luz mais universal É a luz mais universal que o sol porque o sol nunca alumia mais que meio mundo e meio tempo a luz alumia em todo o tempo e a todo o mundo O sol nunca alumia mais que meio mundo porque quando amanhece para nós anoitece para os nossos antípodas e quando amanhece aos antípodas anoitece para nós E nunca alumia mais que meio tempo porque das vinte e quatro horas do dia natural as doze assiste em um hemisfério as doze no outro Não assim a luz A luz não tem limitação de tempo nem de lugar sempre alumia e sempre em toda parte e sempre a todos Onde está o sol alumia com o sol onde está a lua alumia com a lua e onde não há sol nem lua alumia com as estrelas mas sempre alumia De sorte que não há parte do mundo nem movimento de tempo ou seja dia ou seja noite em que maior ou menor não haja sempre luz Tal foi a disposição de Deus no principio do mundo Ao sol limitoulhe Deus a jurisdição no tempo e no lugar à luz não lhe deu jurisdição limitada senão absoluta para todo o lugar e para todo o tempo Ao sol limitoulhe Deus tempo porque mandou que alumiasse o dia Luminare majus ut praeesset diei Gên 116 e limitoulhe lugar porque só quis que andasse dentro dos trópicos de Câncer e Capricórnio e que deles não saísse Porém à luz não lhe limitou tempo porque mandou que alumiasse de dia por meio do sol e de noite por meio da lua e das estrelas Luminare majus ut praeesset diei luminare minus ut praeesset nocti et stellas ibid E não lhe pôs limitação de lugar porque quis que alumiasse não só dentro dos trópicos senão fora deles como faz a luz que dentro dos trópicos alumia por meio do sol e da lua e fora dos trópicos por meio das estrelas para que por este modo de dia e de noite no claro e no escuro na presença e na ausência do sol sempre houvesse luz como há Esta mesma diferença se acha na verdadeira luz e no verdadeiro sol Cristo e sua mãe Cristo é sol do mundo mas sol que tem certo hemisfério sol que tem seus antípodas sol que quando nasce nasce para alguns e não para todos Assim o disse Deus por boca do profeta Malaquias Orietur vobis timentibus nomem meum sol justitiae Mal 42 Nascerá o sol de justiça para vós os que temeis o meu nome Fala o profeta não da graça da redenção ou suficiente que é universal para todos senão da santificante e eficaz de que muitos por sua culpa são excluídos e por isso diz que o sol de justiça não nasce para todos senão só para aqueles que o temem Todo este mundo tomado nesta consideração se divide em dois hemisférios um hemisfério dos que temem a Deus outro hemisfério dos que o não temem No hemisfério dos que temem a Deus só nasce o sol da justiça e só para eles há dia só eles são alumiados No hemisfério dos que não temem a Deus nunca jamais amanhece o sol sempre há perpétua noite todos estão em trevas e às escuras Neste sentido chamau o profeta a este sol sol de justiça Sol justitiae O sol material se bem se considera é sol sem justiça porque trata a todos pela mesma forma e tanto amanhece para os bons como para os maus Qui solem suum oriri facit super bonos et malos Mt 545 É possível que tanto sol há de haver para o bom como para o mau Para o cristão como para o infiel Para o que adora a Deus como para o que adora o ídolo Tanto há de amanhecer o sol para o diligente como para o preguiçoso Tanto para o que lhe abre a janela como para o quelha fecha Tanto para o lavrador que o espera como para o ladrão que o aborrece Notável injustiça do sol material Não assim o Sol da Justiça É Sol da Justiça porque trata a cada um conforme o que merece Só para os bons amanhece e para os maus escondese só alumia aos que o temem e aos que o não temem sempre os tem às escuras Parece coisa dificultosa que no mesmo hemisfério na mesma cidade e talvez na mesma casa estejam uns alumiados e outros às escuras mas assim passa e já isto se viu com os olhos no mundo algum dia Uma das pragas do Egito foram as trevas E descrevendoas o texto diz assim Factae sunt tenebrae horribiles in universa terra Aegypti Nemo vidit fratrem suum nec movit se de loco in quo erat ubicumque outem habitabant filii Israel lux erat Êx 1022 s Houve em toda a terra do Egito umas trevas tão horríveis que nenhum egípcio via ao outro e nenhum se podia mover do lugar onde estava mas onde habitavam as hebreus no mesmo tempo havia luz Brava maravilha Em toda a terra do Egito havia umas casas que só eram habitadas de egípcios outras que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente Nas que eram habitadas de egípcios todos estavam em trevas nas que eram habitadas de hebreus todos estavam em luz nas que eram habitadas de hebreus e de egípcios juntamente os hebreus estavam alumiados e as egípcios às escuras Isto que fez no Egito a vara de Moisés faz em todo mundo a vara do Sol de Justiça Muitas casas há no mundo em que todos são pecadores algumas casas haverá em que todos sejam justos outras há e é o mais ordinário em que uns são justos e outros pecadores E com toda esta diversidade de casas e de homens executa a vara do Sol de Justiça o que a de Moisés no Egito Na casa onde todos são justos todos estão em luz na casa onde todos são pecadores todos estão em trevas na casa onde há pecadores e justos os justos estão alumiados e os pecadores às escuras De sorte que o Sol de Justiça nesta consideração em que falamos é sol tão particular e tão parcial que não só no mundo tem diferentes hemisférios mas até na mesma casa tem antípodas Não assim aquela luz que hoje nasce que para todos e para todo o tempo e para todo lugar é sempre luz Viram os anjos nascer hoje aquela formosa luz e admirados de sua beleza disseram assim Quae est ista quae progreditur quasi aurora consurgens pulchra ut luna electa ut sol Quem é esta que nasce e aparece no mundo diligente como a aurora formosa como a lua escolhida como o sol Cant 69 À aurora à lua e ao sol comparam os anjos esta Senhora e parece que dizem menos em três comparações do que diriam em uma Se disseram só que era semelhante ao sol diriam mais porque de sol à lua é minguar de sol à aurora é descer Pois por que razão que não podia ser sem grande razão uns espíritos tão bem entendidos como os anjos ajustam umas semelhanças tão desiguais e comparam a Senhora quando nasce à aurora à lua e ao sol juntamente Deu no mistério advertidamente o papa Inocêncio III Comparam os anjos a Maria quando nasce juntamente ao sol à lua e à aurora para mostrar que aquela Senhora é luz de todos as tempos Todos os tempos ou são dia ou são noite ou são aquela hora de luz duvidosa que há entre a noite e o dia Ao dia alumia o sol à noite alumia a lua à hora entre noite e dia alumia a aurora Pois por isso chamam os anjos juntamente à Senhora aurora lua e sol para mostrarem que é luz que alumia em todos os tempos Luz que alumia de dia como sol luz que alumia de noite como lua luz que alumia quando não é noite nem dia como aurora E que são ou que significam estes três tempos Ouvi agora a Inocência Lusa lucet in nocte aurora in diluculo sol in die Nox outem est culpa diluculun poenitentia dies gratia A lua alumia de noite e a noite é a culpa a aurora alumia de madrugada e a madrugada é a penitência o sol alumia de dia e o dia é a graça E para todos estes tempos e para todos estes estados é Maria luz universal Luz para os justos que estão em graça luz para os pecadores que estão na culpa e luz para os penitentes que querem passar da culpa à graça Qui ergo jacet in nocte culpae respiciat lunam deprecetur Mariam qui surgit ad diluculum poenitentiae respiciat auroram deprecetur Mariam qui vivit in die gratiae respiciat solem deprecetur Mariam Pelo que conclui exortando o grande pontífice se sois pecador se estais na noite do pecado olhai para a lua fazei oração a Maria para que vos alumie e vos tire da noite da pecado para a madrugada da penitência Se sois penitente estais na madrugada do arrependimento ponde os olhos na aurora fazei oração a Maria para que vos alumie e vos passe da madrugada da penitência ao dia da graça Se sois justo se estais no dia da graça ponde os olhos no sol fazei oração a Maria para que vos sustente e vos aumente nesse dia porque desse dia ditoso não há para onde passar Assim alumia aquela soberana luz universalmente a todos sem exceção de tempo nem de estado o Sol de justiça alumia só aos que o temem Timentibus nomen meum mas a Luz de misericórdia alumia aos que o temem porque o temem e aos que o não temem para que o temam e a todos alumia O Sol de justiça nasce só para as justos mas a Luz de misericórdia nasce para os justos e mais para as pecadores E por este modo é mais universal para todos a luz que hoje nasce do que o mesmo sol que dela nasceu De qua natus est Jesus VI Quarta e última razão a diligência de Maria Em Caná ainda não era chegada a hora de Jesus e já era chegada a hora de Maria A presteza de Cristo e de Maria declaradas por Davi e S João Maria e o sacramento do batismo A cousa da perdição das cinco virgens néscias Admoestação de Habacuc Maria e a mãe de Jacó O quarto e último título porque se deve mais festejar este dia é por ser a luz mais apressada para nosso bem Ser mais apressada a luz que o sol é verdade que vêem os olhos Parte o sol do oriente e chega ao ocidente em doze horas Aparece no oriente a luz e em um instante fere o ocidente oposto e se dilata e se estende por todos os horizontes alumiando em um momento o mundo O sol como dizem os astrólogos corre em cada hora trezentas e oitenta mil léguas Grande correr Mas toda esta pressa e ligeireza do sol em comparação da luz são vagares O sol faz seu cursa em horas em dias em anos em séculos a luz sempre em um instante O sol no inverno parece que anda mais tardo no amanhecer e no verão mais diligente mas nunca se levanta tão cedo o sol que não madrugue a luz muito diante dele Ó luz divina como vos pareceis nesta diligência à luz natural Foram convidados a umas bodas a luz e o sol Cristo e Maria Faltou no meio do convite aquele licor que noutra mesa depois de o sol posto e antes de o sol se pôr deu matéria a tão grandes mistérios Quis a piedosa Mãe acudir à falta falou ao Filho mas respondeu o senhor tão secamente como se negara sêlo Quid mihi et tibi est mulier Nondum venit hora mea Jo 2 4 Que há de mim para ti mulher Ainda não chegou a minha hora Aqui reparo esta hora não era de fazer bem Não era de encobrir e acudir a uma falta Não era de remediar uma necessidade Pois como responde Cristo que não era chegada a sua hora Nondum venit hora mea E se não era chegada a sua hora como trata a Senhora do remédio Era chegada a hora de Maria e não era chegada a hora de Cristo Sim que Maria é luz e Cristo é sol e a hora do sol sempre vem depois da hora da luz Nondum venit hora mea Ainda não era vinda a hora do sol e a hora da luz já tinha chegado Por isso disse Cristo à sua mãe com grande energia Quid mihi et tibi Como se dissera Reparai Senhora na diferença que há de mim a vós na matéria de socorrer aos homens como agora quereis que eu faça Vós os socorreis e eu os socorro vós lhes acudis e eu lhes acudo vós os remediais e eu os remedeio mas vós primeiro e eu depois vós logo e eu mais devagar vós na vossa hora que é antes da minha e eu na minha que é depois da vossa Nondum venit hora mea É aquela gloriosa diferença que Santo Anselmo se atreveu a dizer uma vez e todos depois dele a repetiram tantas Velocior nonnunquam salus memorato nomine Mariae quam invocato nomine Jesus Que algumas vezes é mais apressado o remédio nomeado o nome de Maria que invocado o de Jesus Algumas vezes disse o santo e quisera eu que dissera sempre ou quase sempre Vede se tenho razão Todos os caminhos de Cristo e os de Maria foram para remédio do homem mas tenho eu notado que são mui diferentes as carroças que este Rei e Rainha do céu escolheram para correr à posta em nosso remédio Cristo escolheu por carroça o sol e Maria escolheu a luz O primeiro viuo Davi In sole possuit tabernaculum suum O segundo viuo S João Et luna sub pedibus ejus13 Cá nas cortes da terra vemos o rei e a rainha quando saem passearem juntos na mesma carroça o Rei e a Rainha do céu por que o não fariam assim Por que razão não aparece a Rainha do céu na mesma carroça do sol como seu Filho Por que divide carroça e escolheu para si a da lua Eu o direi A lua é muito mais ligeira que o sol em correr o mundo O sol corre o mundo pelos signos do zodíaco em um ano a lua em menos de trinta dias O sol corre o mundo em um ano uma só vez a lua doze vezes e ainda lhe sobejam dias e horas E como as manchadas pias que rodam a carroça da lua são muito mais ligeiras que os cavalos fogosos que tiram pelo carro do sol por isso Cristo aparece no carro do sol e Maria no da lua Não é consideração minha senão verdade profética confirmada com o testemunho de uma e outra visão e com os efeitos de ambas Tomau Cristo para si o carro do sol e que se seguiu Exultavit ur gigas ad currendam viam diz Davi Sl186 Largou o sol as rédeas ao carro e correu Cristo com passos de gigante Tomau Maria para si a carroça da lua e que se seguiu Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae ut volaret diz S João Apc 1214 Estando com a lua debaixo dos pés deramse a Maria duas asas de águia para que voasse De sorte que Cristo no carro do sol corre com passos de gigante e Maria na carroça da lua voa com asas de águia E quanto vai das águias aos gigantes e das asas aos pés e do voar ao correr tanto excede a ligeireza velocíssima com que nos socorre Maria à presteza posto que grande com que nos socorre Cristo Não vos acode primeiro nas vossas cousas o advogado que o juiz Pois Cristo é o juiz e Maria a advogada Mas não deixemos passar sem ponderação aquela advertência do evangelista Aquilae magnae Que as asas com que viu a Senhora não só eram de águia senão de águia grande De maneira que Cristo para correr em nosso remédio com passos mais que de homem tomau pés de gigante Exultavit ut gigas e a Senhora para correr em nosso remédio com passos mais que de gigante tomau asas de águia Datae sunt mulieri alae duae aquilae Mas essas asas não foram de qualquer águia senão de águia grande Aquilae magnae para que a competência ou a vantagem fosse de gigante a gigante Que coisa é uma águia grande senão um gigante das aves Cristo correndo como gigante mas como gigante dos homens a Senhora correndo como gigante mas como gigante das aves Cristo como gigante com pés a Senhora como gigante com asas Cristo como gigante que corre a Senhora como gigante que voa Cristo como gigante da terra a Senhora como gigante do ar Mas assim havia de ser para fazer a Senhora em nosso remédio os encarecimentos verdades O maior encarecimento de acudir com a maior presteza é acudir pelo ar Assim o faz a piedosa Virgem Cristo com passos de gigante acode aos homens a toda a pressa mas a Senhora com asas de águia acodelhes pelo ar Isto mesmo é ser luz que pelo ar nos vem toda E para que de uma vez vejamos a diferença com que esta soberana luz é avantajada ao divino sol na diligência de acudir a nosso remédio consideremolos juntos e comparemolos divididos E que acharemos Coisa maravilhosa Acharemos que quando o nosso remédio mais se apressa é por diligência da luz e quando alguma vez se dilata é por tardanças do sol Vestese de carne o Verbo nas entranhas da Virgem Maria e diz o evangelista que logo com muita pressa se partiu a Senhora com seu Filho a livrar o menino Batista do pecado original Exurgens outem Maria abiit in montana cumfestinatione Lc 139 Nasce enfim Cristo cresce vive morre ressuscita e do mesmo dia da Encamação a trinta e quatro anos institui o sacramento do Batismo Baptizantes eos in nomine Patris et Filii et Spiritus Sancti Mt 28 19 O batismo já sabeis que é o remédio do pecado original que foi o que Cristo principalmente veio remediar ao mundo como restaurador das ruínas de Adão Pois se Cristo veio ao mundo principalmente a remediar o pecado original e se em chegando ao mundo o foi remediar logo no menino Batista como agora dilata tantos anos o remédio do mesmo pecado Então parte no mesmo instante e depois dilatase tanto tempo Sim Porque então estava Cristo dentro em sua Mãe Exurgens Maria e agora estava fora e apartado dela E para remediar os males do gênero humano é mui diferentemente apressado Cristo em si mesmo ou Cristo em sua Mãe Cristo em sua Mãe obra por ela e ela como luz obra em instante Cristo fora de sua Mãe obra por si mesmo e ele como sol obra em tempo e em muito tempo Vede se mostra a experiência o que eu dizia que quando o nosso remédio mais se apressa é por diligências daquela divina luz e da mesma maneira quando se dilata ou quando se perde bem que por culpa nossa é com tardanças do sol Das dez virgens do Evangelho com desgraça não imaginada perderamse cinco e posto que a cousa de sua perdição foi a sua imprudência a ocasião que teve essa cousa foi a tardança dos desposados Se os desposados não tardaram até a meianoite não se apagaram as lâmpadas e se as lâmpadas se não apagaram não ficaram excluídas as cinco virgens Agora pergunto E qual dos desposados foi o que tardou O esposo nesta parábola é Cristo a esposa é Maria Qual foi logo dos dois o que tardou se acaso não foram ambos Foi o esposo ou a esposa Foi Cristo ou sua Mãe Não é necessário que busquemos a resposta nos comentadores o mesmo texto o diz Moram autem faciente sponso dormitaverunt omnes et dormierunt Mt 255 E como tardasse o esposo adormeceram todas e dormiram De modo que o que tardou foi o esposo É verdade que o esposo e a esposa estavam juntos mas o que tardou ou o que foi cousa da tardança não foi a esposa senão o esposo Moram outem faciente sponso Atemos agora esta desgraça das virgens com a ventura do Batista No Batista conseguiuse o remédio por diligências mas cujas foram as diligências Estavam juntos Maria e Cristo mas as diligências foram de Maria Exurgens Maria abiit in montana cum festinatione Nas virgens perdeuse o remédio como sempre se perde por tardanças mas cujas foram as tardanças Estavam juntos o esposo e a esposa mas a tardança foi do esposo Moram autem faciente sponso O divino esposo de nossas almas é certo que nunca falta nem tarda nós somos os que lhe faltamos e lhe tardamos As suas diligências e as de sua Santíssima Mãe todas nascem da mesma fonte que é o excessivo amor de nosso remédio mas é a Senhora por mais agradar e mais se conformar com o desejo do mesmo Cristo tão solícita tão cuidadosa tão diligente em acudir em socorrer em remediar aos homens que talvez como aconteceu neste caso as diligências de seu Filho comparadas com as suas parecem tardanças Tudo é ser ele sol e ela luz O sol nunca tarda ainda quando sai mais tarde porque quem vem a seu tempo não tarda Assim o disse o profeta Habacuc falando à letra não de outrem senão do mesmo Cristo Simoram fecerit expecta illum quia veniens veniet et non tardabit Se tarda esperai por ele porque virá sem dúvida e não tardará Hab 23 Como não tardará se já tem tardado e ainda está tardando Simoram fecerit non tardabit São tardanças de sol que ainda quando parece que tarda não tarda porque vem quando deve vir Mas esse mesmo sol que regulado com suas obrigações nunca tarda comparado com as diligências da luz nunca deixa de tardar Sempre a luz vem diante sempre a luz sai primeiro sempre a luz madruga e se antecipa ao sol Ó divina luz Maria ditoso aquele que merecer os lumes de vosso favor Ditoso aquele que entrar no número dos vossos favorecidos ou dos vossos alumiados Tendovos de uma parte a vós e da outra a vosso Filho dizia aquele grande servo e amante de ambos Positus in medio quo me vertam Nescio Posto em meio dos dois não sabe Agostinho para que parte se há de voltar E quando Agostinho confessa que não sabe sofrível é em qualquer homem qualquer ignorância Ut minus sapiens dico como ignorante digo Virgem Santíssima perdoeme vosso Filho ou não me perdoe que eu me quero voltar a vós Já ele alguma hora deixou a seu Pai por sua Mãe não estranhará que eu faça o mesmo Tenha a prerrogativa de Esaú quem quiser que eu quero antes a dita de Jacó Esaú era mais amado e mais favorecido de seu pai Jacó era mais favorecido e mais amado de sua Mãe ruas a bênção levoua Jacó E por que levou Jacó a bênção Pelo que temos dito até agora porque as diligências da Mãe foram mais apressadas que as do pai Quomodo tam cito invenire potuisti fili mi Como pudeste achar tão cedo disse Isac o que eu mandei prevenir para lançar a bênção ao meu primogênito Gên 2720 E que respondeu Jacó Sendo que tudo tinham sido prevenções e diligências de sua Mãe respondeu que fora vontade de Deus Voluntas Dei fuit ibid E assim é A mãe de Jacó representava neste passo a Mãe Santíssima e quem tem de sua parte as diligências desta mãe sempre tem de sua parte a vontade de Deus Esaú teve de sua parte as diligências do pai mas quando chegou chegou tarde porque por mais diligências que faça o sol sempre as da luz chegam mais cedo Quomodo tam cito As diligências da mãe já tinham chegado e as do pai ainda haviam de chegar Assim como hoje a luz já tem nascido e o sol ainda há de nascer De Qua natus est Jesus VII Admoestação final Santo Tomás pela luz mede a perfeição das coisas São Tiago e os dons de Deus pai dos lumes Oração Ora cristãos suposto que aquela soberana luz é tão apressada e diligente para nosso remédio suposto que é tão universal para todos e para tudo suposto que é tão piedosa e benigna para nos querer fazer bem suposto que é tão privilegiada e favorecida por graça e benignidade do mesmo sol metamonos todos hoje debaixo das asas desta soberana protetora para que nos faça sombra e nos dê luz para que nos faça sombra e nos defenda dos raios do Sol de justiça que tão merecidos temos por nossos pecados e para que nos dê luz para sair deles pois é Senhora da Luz Aquela mulher prodigiosa do Apocalipse que S João viu com as asas estendidas toda a Igreja reconhece que era a Virgem Maria E nós podemos acrescentar que era a Virgem debaixo do nome e invocação de Senhora da Luz A mesma luz o dizia e o mostrava que da peanha até a coroa toda era luzes a peanha lua o vestido sol a coroa estrelas toda luzes e toda luz E pois a Senhora da Luz está com as asas abertas metamonos debaixo delas e muito dentro delas para que sejamos filhos da luz Dum lucem habetis credite in lucem ut filii lucis sitis diz Cristo Jo 1236 Enquanto se vos oferece a luz crede na luz para que sejais filhos da luz Sabeis cristãos por que não acabamos de ser filhos da luz É porque não acabamos de crer na luz Creiamos na luz e creiamos que não há maior bem no mundo que a luz e ajudemnos a esta fé os nossos mesmos sentidos Por que estimam os homens o ouro e a prata mais que os outros metais Porque têm alguma coisa de luz Por que estimam os diamantes e as pedras preciosas mais que as outras pedras Porque têm alguma coisa de luz Por que estimam mais as sedas que as lãs Porque têm alguma coisa de luz Pela luz avaliam os homens a estimação das coisas e avaliam bem porque quanto mais têm de luz mais têm de perfeição Vede o que notou Santo Tomás Neste mundo visível umas coisas são imperfeitas outras perfeitas outras perfeitíssimas e nota ele com sutileza e advertência angélica que as perfeitíssimas têm luz e dão luz as perfeitas não têm luz mas recebem luz as imperfeitas nem têm luz nem a recebem Os planetas as estrelas e o elemento do fogo que são criaturas sublimes e perfeitíssimas têm luz e dão luz o elemento do ar e o da água que são criaturas diáfanas e perfeitas não têm luz mas recebem luz a terra e todos os corpos terrestres que são criaturas imperfeitas e grosseiras nem têm luz nem recebem luz antes a rebatem e deitam de si Ora não sejamos terrestres já que Deus nos deu uma alma celestial recebamos a luz amemos a luz busquemos a luz e conheçamos que nem temos nem podemos nem Deus nos pode dar bem nenhum que seja verdadeiro bem sem luz Ouvi umas palavras admiráveis do apóstolo S Tiago na sua epístola Omne datum optim um et omne donum perfectum de sursum est descendens a Patre luminum Tg 117 Toda dádiva boa e todo dom perfeito descende do Pai dos lumes Notável dizer De maneira que quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente bom quando Deus nos dá um bem que seja verdadeiramente perfeito não se chama Deus pai de misericórdias nem fonte das liberalidades chamase pai dos lumes e fonte da luz porque no lume e na luz que Deus nos dá com os bens consiste a bondade e a perfeição deles Muitos dos que nós chamamos bens de Deus sem luz são verdadeiramente males e muitos dos que nós chamamos males com luz são verdadeiros bens Os favores sem luz são castigos e os castigos com luz são favores as felicidades sem luz são desgraças e as desgraças com luz são felicidades as riquezas sem luz são pobreza e a pobreza com luz são as maiores riquezas a saúde sem luz é doença e a doença com luz é saúde Enfim na luz ou falta de luz consiste todo o bem ou mal desta vida e todo o da outra Por que cuidais que foram santos os santos senão porque tiveram a luz que a nós nos falta Eles desprezaram o que nós estimamos eles fugiram do que nós buscamos eles meteram debaixo dos pés o que nós trazemos sobre a cabeça porque viam as coisas com diferente luz do que nós as vemos Por isso Davi em todos os salmos por isso os profetas em todas suas orações e a Igreja nas suas não cessam de pedir a Deus luz e mais luz Esse é o dia cristãos de despachar estas petições Peçamos hoje luz para nossas trevas peçamos luz para nossas escuridades peçamos luz para nossas cegueiras luz com que conheçamos a Deus luz com que conheçamos o mundo e luz com que nos conheçamos a nós Abramos as portas à luz para que alumie nossas casas abramos os olhos à luz para que alumie nossos corações abramos os corações à luz para que more perpetuamente neles Venhamos venhamos a buscar luz a esta fonte de luz e levemos daqui cheias de luz nossas almas Com esta luz saberemos por onde havemos de ir com esta luz conheceremos donde nos havemos de guardar com esta luz enfim chegaremos àquela luz onde mora Deus a que o apóstolo chamau luz inacessível Qui lucem inhabitat inaccessibilem I Tim 616 que só por meio da luz que hoje nasce se pode chegar à vista do sol que dela nasceu De qua natus est Jesus SERMÃO DA TERCEIRA QUARTAFEIRA DA QUARESMA NA CAPELA REAL ANO 1669 Nescitis quid petatis1 I Assunto um remédio para os males de todas as cortes do mundo a consolação dos maldespachados baseandose no pedido indefinido da mãe dos Zebedeus Dois lugares e dois pretendentes um memorial e uma intercessora um príncipe e um despacho são a representação política e a história cristã deste Evangelho Nos lugares temos as mercês nos pretendentes as ambições na intercessora as valias no memorial os requerimentos no príncipe o poder e a justiça no despacho o desengano e o exemplo Este último há de ser a veia que hoje havemos de sangrar Queira Deus que a acertemos que é muito funda A enfermidade mais geral de que adoecem as cortes e a dor e o achaque de que todos comumente se queixam é de maldespachados Em alguns se queixa o merecimento em outros a necessidade em muitos a própria estimação e em todos o costume O benemérito chamalhe semrazão o necessitado diz que é crueldade o presumido tomao por agravo e o mais modesto dálhe nome de desgraça e pouca ventura E que não houvesse até agora no púlpito quem tomasse por assunto a consolação desta queixa o alívio desta melancolia o antídoto deste veneno e a cura desta enfermidade Muitos dos enfermos bem haviam mister um hospital Mas à obrigação desta cadeira que é de medicina das almas só lhe toca disputar a doença e receitar o remédio E se este for provado e pouco custoso será fácil de aplicar Ora eu movido da obrigação e da piedade e parecendome esta matéria uma das mais importantes para todas as cortes do mundo e a mais necessária para a nossa no tempo presente determino pregar hoje a consolação dos maldespachados Nem com a ambição dos Zebedeus hei de condenar os pretendentes nem com a negociação da mãe hei de argüir os intercessores nem com a resolução de Cristo hei de abonar os príncipes e os ministros só com o desengano do requerimento Nescitis quid petatis pretendo consolar eficazmente a todos os que se queixam dos seus despachos ou se sentem dos alheios Consolar um maldespachado é o assunto do sermão Se com a graça divina se conseguir o intento sairão hoje daqui os pretendentes comedidos os ministros aliviados os bem despachados confusos e os maldespachados contentes Ajude Deus o zelo com que ele sabe que fiz eleição deste ponto II Os que devem ser excluídos da lista dos mal despachados Considerar o que éreis e o que sois Adão transformado de barro em homem ainda pretende ser Deus O que tínheis e o que tendes a estranha ordem do Faraó aos irmãos de José Onde estáveis e onde estais a origem humilde de Davi Por que não se queixaram os apóstolos ante a negativa de Cristo Nescitis quid petatis Havendo pois de consolar hoje os maldespachados aquela gente muita e não vulgar de quem se pode dizer Non est qui consoletur eam2 para que procedamos distintamente e falemos só com quem devemos falar é necessário excluir primeiro desta honrada lista os que importunamente e sem razão se querem meter nela E quem são estes São aqueles que sendo hoje tanto mais do que eram e tendo tanto mais do que tinham e estando tanto mais levantados do que estavam ainda se queixam e se chamam maldespachados Adão antes de Deus o formar não era nada formado era uma estátua de barro lançada naquele chão bafejouo Deus pôsse Adão em pés começou a ser homem e foi com tão extraordinária fortuna que tinha diz o texto ele só três presidências a presidência da terra sobre todos os animais a presidência do ar sobre todas as aves a presidência do mar sobre todos os peixes Estava bem despachado Adão Parece que não podia ser mais nem melhor Contudo nem ele nem sua mulher ficaram contentes ainda pretendiam E quê Não mais que ser como Deus Eritis sicut dii3 Há tal ambição de subir Há tal desatino de crescer Anteontem nada ontem barro hoje homem amanhã Deus Não se lembrará Adão do que era ontem e muito mais do que era anteontem Quem ontem era barro não se contentará com ser hoje homem e o primeiro homem Quem anteontem era nada não se contentará com ser hoje tudo e mandar tudo Não porque já então era Adão como hoje são muitos de seus filhos que saem como ele ao barro e ao nada de que foram criados Malcriados e maus criados Por isso descontentes e ingratos quando deveram estar muito contentes e mui agradecidos E a razão desta semrazão é porque dos sentidos perderam a vista e das potências a memória nem olham para o que são nem se lembram do que foram Mas do que éreis e do que sois passemos ao que tínheis e ao que tendes Entronizado José no governo e império do Egito soube el rei Faraó que tinha pai e irmãos na terra de Canaã e mandouos logo chamar para que viessem ser companheiros da fortuna de seu irmão O recado foi notável e dizia assim Properate nec dimittatis quidquam de supellectili vestra quia omnes opes Aegypti vestrae erunt Vinde logo e não deixeis coisa alguma das vossas alfaias porque todas as riquezas do Egito hão de ser vossas Gên 4520 Este porquê não entendo Antes porque todas as riquezas do Egito haviam de ser suas não era necessário que trouxessem coisa alguma do que tinham em Canaã Pois por que lhes manda Faraó que tragam todas as suas alfaias Por isso mesmo para que cotejando as alfaias da fortuna presente com as da fortuna passada conhecessem melhor a mercê que o rei lhes fizera Eram os irmãos de José uns pobres lavradores e pastores saiam de cabanas e telhados de colmo para virem morar em palácios dourados debaixo das pirâmides e obeliscos do Egito Pois tragam as suas peles as suas mantas os seus pelotes de pano da serra tragam as suas samarras as suas alparcas as suas gualteiras tragam as suas escudelas de pão e os seus tarros de cortiça para que quando se virem com as paredes ricamente entapizadas a prata rodar pelas mesas a seda e ouro das galas as pérolas e os diamantes das jóias os criados os cavalos as carroças conheçam quanto vai de tempo a tempo e de fortuna a fortuna e dêem graças a Faraó Quer cada um conhecer e ver e apalpar a muita mercê que o rei lhe tem feito Coteje as suas alfaias as de casa e as da rua as suas e as dos seus A comparação deste muito com aquele pouco Oh quanto serviria para o agradecimento e para a modéstia e ainda para fazer lastro a mesma fortuna Visto já o que éreis e o que sois o que tínheis e o que tendes resta a combinação dos lugares onde estáveis e onde estais No segundo livro dos Reis capítulo sétimo estão registradas as mercês que Deus tinha feito a Davi e diz assim o registo Ego tuli te de pascuis sequentem greges ut esses dux super populum meum 2 Rs 78 Eu diz Deus tirei a Davi de entre pastores onde guardava as ovelhas de seu pai e o fiz capitão e governador sobre todo o meu povo Não só diz Deus o lugar onde o pôs senão também o lugar donde o tirou o onde e mais o donde Pois Senhor meu que tão grandioso sois se quereis que fiquem registadas em vossos livros as mercês que fizestes a Davi por que mandais que se registe também neles o exercício de que vivia e o lugar humilde de que o levantastes Para que à vista deste lugar conheça melhor Davi a grande mercê que lhe tenho feito Quando se vir com o bastão na mão lembrese que na mesma mão trazia o cajado Se algum dia que tudo se pode temer dos homens lhe parecerem pequenas a Davi as mercês que lhe fiz lembrarseá do lugar que tinha antes e do que tem agora lembrarseá donde o tirei e onde o pus e logo lhe parecerão grandes Estes ondes e estes dondes não se costumam registar nos livros das mercês Seria bem que ao menos se registasse nas memórias dos que as recebem Já que tivestes tanta estrela pondelhe uma estrelinha à margem Lembrese o descontente com Davi onde estava e onde está lembrese com os irmãos de José do que tinha e do que tem lembrese com Adão do que era e do que é e logo verá qual deve ser o queixoso se o despacho ou o despachado Não despachou Cristo hoje os nossos pretendentes mas eu noto que nenhum deles se queixou Pediram as duas supremas cadeiras do reino pediram que Cristo os despachasse logo com três letras Dic dic ut sedeant hi duo filii mei E foram respondidos logo com outras três Non non est meum dare vobis4 E sendo este não tão claro tão seco tão desenfeitado queixouse porventura a intercessora Queixaramse os pretendentes Nem uma palavra disseram E por quê Porque eram gente que sabia tomar as medidas à sua fortuna Compararam o que tinham sido como que eram e o que eram como que pretendiam ser Na comparação do que tinham sido com o que eram viam a melhoria do seu estado na comparação do que eram como que pretendiam sei reconheciam o excesso da sua ambição E estas duas comparações lhes taparam a boca de maneira que não teve por onde brotar a queixa Ontem remando a barca e remendando as redes hoje despachados cada um de nós com uma das doze cadeiras do reino de Cristo E que ainda não estejamos contentes e nos atrevamos a pretender os dois lugares supremos Mais razão tem logo nosso Mestre de negar do que nossa mãe e nós de pedir Ele negou como justo nós pedimos como demasiados e néscios Nescitis quid petatis III Os beneméritos maldespachados Consolações humanas as ações honradas como já o reconhecia Sêneca são satisfações de si mesmas A fama O servo inútil do Evangelho e o Venerável Beda Catão e o reconhecimento dos romanos A injustiça dos prêmios e a opinião de Marco Túlio Os nãopremiados e o glorioso epitáfio ditado pelo filho pródigo Excluídos já os queixosos e descontentes sem cousa e que porventura são a cousa de haver tantos descontentes ouçam agora os beneméritos maldespachados a muita razão que têm de se consolar A do Evangelho como logo mostrarei é a mais forte de todas Mas sem recorrer a motivos da fé se eu fora um dos beneméritos em mim mesmo e no meu próprio merecimento achara tão grandes razões de me consolar que sem outra mercê nem despacho me dera por mui contente e satisfeito Discorrei um pouco comigo Ou mereceis os prêmios que vos faltam e com que vos faltam ou não se os não mereceis não tendes de que vos queixar se os mereceis muito menos Ainda não sabíeis que não há virtude nem merecimento sem prêmio Assim como o vicio é o castigo assim a virtude é o prêmio de si mesma O maior prêmio das ações heróicas é fazêlas Com melhores palavras o disse Sêneca porque falava em melhor língua Quid consequar inquis si hoc fortiter si hoc grate fecero Quod feceris Se me perguntas que hás de conseguir pelo que fizeste ou forte ou generosamente respondote que têlo feito5 Rerum honestarum pretium in ipsis est O prêmio das ações honradas elas o têm em si e o levam logo consigo nem tarda nem espera requerimentos nem depende de outrem são satisfação de si mesmas No dia em que as fizestes vos satisfizestes E se fora de vós mesmo esperáveis outro prêmio contentaivos com o da opinião e da honra Se vossos serviços são mal premiados bastevos saber que são bem conhecidos Este prêmio mental assentado no juízo das gentes ninguém volo pode tirar nem diminuir Que importa que subais mal consultado dos ministros se estais bem julgado da fama Que importa que saísseis escusado do tribunal se o tribunal fica acusado Passai pela chancelaria este despacho deixaio por brasão a vossos descendentes sereis duas vezes glorioso Só vos dou licença que vos arrependais de ter pretendido Pouco fez ou baixamente avalia suas ações quem cuida que lhas podiam pagar os homens Se servistes à pátria que vos foi ingrata vós fizestes o que devíeis ela o que costuma Mas que paga maior para um coração honrado que ter feito o que devia Quando fizestes o que devíeis então vos pagastes Ouvi ao Mestre divino que tudo nos ensinou Dizia Cristo a seus soldados a quem encarregou não menos que a conquista do mundo em que todos deram a vida Cum feceritis omnia dicite servi inutiles summus Quando fizerdes tudo dizei que sois servos inúteis Lc 1710 Notável sentença O servo inútil é aquele que não faz nada mas o que faz muito e muito mais o que faz tudo há de cuidar e dizer que é servo inútil Sim Ninguém entendeu melhor este texto que o Venerável Beda Não fala Cristo da utilidade que recebe o Senhor senão da utilidade que não recebe o servo O servo não recebe utilidade do seu serviço porque é obrigado a servir e assim há de servir quem serve generosamente O mesmo Cristo se declarou e deu a razão muito como sua Quod debuimus facere fecimus O que devíamos fazer isso fizemos Quem fez o que devia devia o que fez e ninguém espera paga de pagar o que deve Se servi se pelejei se trabalhei se venci fiz o que devia ao rei fiz o que devia à pátria fiz o que me devia a mim mesmo e quem se desempenhou de tamanhas dívidas não há de esperar outra paga Alguns há tão desvanecidos que cuidam que fizeram mais do que deviam Enganamse Quem mais é e mais pode mais deve O sol e as estrelas servem sem cessar e sempre com grande utilidade mas esta toda é do universo e nada sua Prezaivos lá de filhos do sol e tão ilustres como as estrelas e abstendevos a mendigar outra paga Eu não pretendo com isto escusar os que vós acusais Porque vós sois benemérito não devem esses ser injustos antes aprender da vossa generosidade a ser generosos e liberais Que dão ou que podem dar a quem deu por eles o sangue Mas por que ainda com o pouco que podem faltam ao agradecimento quero eu que vos não falte a consolação Se vossos feitos foram romanos consolaivos com Catão que não teve estátua no Capitólio Vinham os estrangeiros a Roma viam as estátuas daqueles varões famosos e perguntavam pela de Catão Esta pergunta era a maior estátua de todas Aos outros pôslhes estátua o senado a Catão o mundo Deixai perguntar ao mundo e admirarse de vos não ver premiado Essa pergunta e essa admiração é o maior e melhor de todos os prêmios O que vos deu a virtude não volo pode tirar a inveja o que vos deu a fama não volo pode tirar a ingratidão Deixaios ser ingratos para que vós sejais mais glorioso Um grande merecimento sobre uma grande ingratidão fica muito mais subido Se não houvesse ingratidões como haveria finezas Não deis logo queixas ao desagradecimento dailhe graças Dirmeeis que vedes diferentemente premiados os que fizeram menos ou não fizeram nada Dor verdadeiramente grande Já disse uma rainha de Castela que os seus serviam como vassalos os nossos como filhos6 E não pode deixar de ser grande escândalo do amor e grande monstruosidade da natureza que fossem uns os filhos e sejam outros os herdeiros Mas essa mesma injustiça vos deve servir de consolação Se o mundo e o tempo fora tão justo que distribuíra os prêmios pela medida do merecimento então tínheis muita razão de queixa porque vos faltava o testemunho da virtude para que os mesmos prêmios foram instituídos Mas quando as mercês não são prova de ser homem senão de ter homem e quando não significam valor senão valia pouca injúria se faz a quem se não fazem Dizia com verdadeiro juízo Marco Túlio que as mercês feitas a indignos não honram os homens afrontam as honras7 E assim é As comendas em semelhantes peitos não são cruz são aspa e quando se vêem tantos ensambenitados da honra bem vos podeis honrar de não ser um deles Sejam esses embora exemplos da fortuna sedeo vós da virtude virtutem ex me fortunam ex aliis8 Finalmente se os homens vos são ingratos não sejais vós ingrato a Deus Se os reis vos não dão o que podem contentaivos com que vos deu Deus o que não podem dar os reis Os reis podem dar títulos rendas estados mas ânimo valor fortaleza constância desprezo da vida e outras virtudes de que se compõe a verdadeira honra não podem Se Deus vos fez estas mercês fazei poucocaso das outras que nenhuma vale o que custa Sobretudo lembrese o capitão e soldado famoso de quantos companheiros perdeu e morreram nas mesmas batalhas e não se queixam Os que morreram fizeram a maior fineza porque deram a vida por quem lha não pode dar E quem por mercê de Deus ficou vitorioso e vivo como se queixará de maldespachado Se não beijastes a mão real pelas mercês que vos não fez beijai a mão da vossa espada que vos fez digno delas Olhe o rei para vós como para um perpétuo credor e gloriaivos de que se não possa negar de devedor vosso o que é senhor de tudo Se tivestes ânimo para dar o sangue e arriscar a vida mostrai que também vos não falta para o sofrimento Então batalhastes com os inimigos agora é tempo de vos vencer a vós Se o soldado se vê despido folgue de descobrir as feridas e de envergonhar com elas a pátria por quem as recebeu Se depois de tantas cavalerias se vê a pé tenha esta pela mais ilustre carroça de seus triunfos E se assim se vê morrer à fome deixese morrer e vinguese Perdêloá quem o não sustenta e perderá outros muitos com esse desengano Não faltará quem diga por ele Quanti mercenarii abundant panibus ego outem hic fame pereo9 E este ingrato e escandaloso epitáfio será para sua memória muito maior e mais honrada comenda de quantas podem dar os que as dão em uma e muitas vidas IV Consolações divinas Não sabemos o que pedimos O pedido de Raquel a Jacó é cousa de sua morte Os pedidos de Sansão e do filho pródigo cousas de sua desventura Ovídio e o pedido de Faetonte Estes são os motivos gloriosos com que eu não só me consolara mas ainda me desvanecera se fora um dos mais beneméritos Mas porque Non omnes capiunt verbum istud10 vamos à razão divina do Evangelho com que se não podem deixar de consolar e conformar todos os que têm fé e ainda os que a não têm Ouvime ao princípio como homens e depois como cristãos Nescitis quid petatis Não sabeis o que pedis Nenhum homem há neste mundo falando do céu abaixo que saiba o que deseja nem o que pede Fundemos esta verdade na experiência para que as conseqüências dela sejam de maior e mais segura consolação E porque a petição do Evangelho foi de uma mãe e dois filhos ponhamos também o exemplo em dois filhos e uma mãe A mais encarecida a mais empenhada e a mais importuna e impaciente petição que fez mulher neste mundo foi a de Raquel a seu marido Jacó Da mihi liberos alioquim moriar Jacó daime filhos senão hei de morrer Gên 301 Respondeulhe Jacó que os filhos só Deus os dá e só ele os pode dar E com ser esta razão tão certa e tão experimentada não se conformava com ela Raquel Instava Da mihi liberos Dizialhe que advertisse como estava na primavera de seus anos e que ainda lhe restavam muitos em que podia ter naturalmente o que tanto desejava Mas esta mesma esperança a inquietava mais Da mihi liberos Animavaa com o exemplo de sua avó Sara que depois de tão comprida esterilidade houvera a Isac seu pai Mas Raquel sempre mais impaciente Da mihi liberos Ajuntava Jacó a estas razões as da lisonja mais poderosa muitas vezes com a fraqueza e presunção daquele sexo dizialhe que olhasse para si e se consolasse com a rosa a qual sendo a beleza dos prados e a rainha das flores é flor que não dá fruto Mas nem a lisonja nem a razão nem o exemplo nem a esperança bastava a lhe moderar as ânsias nem as vozes Da mihi liberos Da mihi liberos Esta era a petição este o aperto estas as instâncias Mas qual foi o despacho e o sucesso Caso verdadeiramente admirável O despacho foi assim como Raquel pedia e o sucesso em tudo contrário ao que pedia O que pedia Raquel não só era filho senão filhos Da mihi liberos e assim lho concedeu Deus porque a fez mãe de José e de Benjamin Mas o sucesso foi em tudo contrário ao que pedia porque parindo felizmente o primeiro filho morreu de parto e no mesmo parto do segundo Lembraivos agora dos termos com que Raquel pedia os filhos Da mihi liberos alioquim moriar Daime filhos dizia senão hei de morrer E quando cuidava que havia de morrer se não tivesse filhos porque teve filhos e no mesmo ponto em que os teve morreu Cuidava que pedia a vida e pedia a morte cuidava que pedia a alegria sua e de sua casa e pedia a tristeza o luto a orfandade dela e os que lhe haviam de trocar a mesma casa em sepultura Tão errados são os pensamentos e desejos humanos e tão certo é que no que pedimos com maiores ânsias não sabemos o que pedimos Nescitis quid petatis Confirmado o desengano da mãe dos Zebedeus com o exemplo desta mãe confirmemos o de seus dois filhos com o exemplo de outros dois posto que filhos de diferentes pais Sabida é a história de Sansão e sabida a do pródigo ambos famosos por seus excessos Deixados pois os princípios e progressos de uma e outra tragédia ponhamonos ao fim de ambas e vejamos o estado de extrema miséria a que os passos de cada um os levaram por tão diversos caminhos Vedes aquele homem robusto e agigantado que com aspecto ferozmente triste tosquiados os cabelos cavados os olhos e correndo sangue atado dentro em um cárcere a duas fortes cadeias anda morrendo em uma atafona Pois aquele é Sansão Vedes aquele mancebo macilento e pensativo que roto e quase despido com uma corneta pendente do ombro arrimado sobre um cajado está guardando um rebanho vil do gado mais asqueroso Pois aquele é o pródigo Quem haverá que se não admire de uma tal volta de fortuna em dois sujeitos tão notáveis um tão valente outro tão altivo É possível que nisto pararam as façanhas e vitórias de Sansão É possível que nisto pararam as riquezas e bizarrias do pródigo Nisto pararam ou para melhor dizer não pararam só nisto porque o pródigo perecendo à fome no meio da montanha não tinha licença para se sustentar das bolotas com que apascentava o seu gado e Sansão tirado em público para ludibrio do povo foi tratado com tais escárnios e indecências que de corrido e afrontado com suas próprias mãos se tirou a vida Mas qual seria a cousa destes sucessos e de suas mudanças tão estranhas Agora não vos peço admiração senão pasmo Ambas estas mudanças de fortuna não tiveram outra cousa que o bom despacho de suas petições em que Sansão e o pródigo se empenharam Pediu Sansão a seus pais que lhe dessem por mulher uma filistéia Quam quaeso ut accipiatis mihi uxorem11 Concederamlhe os pais o que pedia e esta filistéia foi a cousa das guerras que Sansão teve com os filisteus e dos enganos e traições de Dalila e da sua prisão e do seu cativeiro e da sua cegueira e das suas afrontas e do fim lastimoso e trágico de seu valor Da mesma maneira pediu o pródigo a seu pai lhe desse em vida a herança que lhe havia de caber por sua morte Da mihi partionem substantiae quae me contingit Lc 15 12 Concedeulhe o pai o que pedia e esta herança consumida em larguezas e vícios da mocidade foi cousa da sua pobreza da sua vileza da sua miséria da sua fome da sua servidão da sua desonra que só tiveram de desconto o pesar e arrependimento Tome agora Raquel e perguntemos àquela mãe e a estes dois filhos se pediriam depois de tão pesadas e contrárias experiências o que antes delas pediram Pediria Raquel filhos se soubesse que o ter filhos lhe havia de custar a vida Pediria Sansão a filistéia se soubesse que lhe havia de ser a cousa de sua afronta de sua morte e de perder os olhos com que a vira Pediria o Pródigo a herança antecipada se soubera que com ela havia de comprar a miséria a servidão a desonra Claro está que não Pois se agora não haviam de pedir nada do que pediram senão antes o contrário por que o pediram então Já sabeis a resposta Pediramno porque não sabiam o que pediam pediramno porque ninguém sabe o que pede e pediramno porque foram aquela mãe e aqueles dois filhos como a mãe e os dois filhos de nosso Evangelho Nescitis quid petatis Suposto este princípio certo e infalível que ninguém sabe o que pede tirem agora a conseqüência os que se têm por maldespachados Se vós soubésseis que vos estava bem o que pedistes então tínheis razão de estar contentes se volo concederam ou descontentes se volo negaram Mas quando ignorais igualmente se vos estava bem ou mal o que pretendíeis por que vos desconsolais Se me desconsolo porque cuido que me podia estar bem por que me não consolo considerando que me podia estar mal e mais quando nas coisas deste mundo o mal é o mais certo Consolaivos com a desgraça de Raquel consolaivos com a tragédia de Sansão consolaivos com o arrependimento do Pródigo E se estes exemplos vos movem menos por serem de longe consolaivos com os de mais perto e com os que vistes e vedes com vossos olhos Quantos vistes que cuidavam que estava o seu remédio onde acharam a sua perdição Quantos vistes que cuidavam que estava a sua honra donde tiraram o seu descrédito Quantos vistes que cuidavam que estava o seu aumento onde experimentaram a sua ruína Quantos finalmente vistes que os esperava a morte onde eles esperavam os maiores interesses e felicidades desta vida Alcançaram o que pediram aceitaram muito contentes o parabém do despacho mas o despacho não era para bem Poenam pro munere poscis disse o sol a Faetonte quando lhe pediu o governo do seu carro12 Olha filho que cuidas que pedes mercê e pedes castigo O autor é fabuloso mas a sentença verdadeira E se não perguntai aos nossos Faetontes aos do oriente na Ásia aos do meiodia na África aos do ocidente na América O mesmo carro que pediram foi o seu precipício e o mesmo excesso dos raios o seu incêndio Se lhes buscardes os ossos fulminados como se buscaram os de Faetonte uns achareis nas ondas outros nas areias outros nos hospitais outros nos cárceres e nos desterros e poucos nas mesmas terras que perderam que fora mais honrada sepultura Estes são os vossos bemdespachados Quando partiram levavam após si as invejas quando tornaram ou não tornaram trouxeram as lágrimas E se eles se enganaram com o seu desejo e com a sua fortuna porque não souberam o que pediram vós que também o não sabeis por que vos haveis de enganar Desenganai vos com o seu engano e consolaivos com o seu erro pois nem eles nem vós sabeis o que pedis Nescitis quid petatis V Na ciência de Deus e na nossa ignorância devemos estribar a indiferença de nossas petições Como conciliar com essas verdades o Pedi e recebereis Exemplos dados por Cristo no Evangelho Por pecados acedeu Deus ao pedido dos hebreus no deserto por merecimentos negou Cristo as petições dos Zebedeus Oh se soubéssemos o que pedimos Oh se soubéssemos o que nos está bem ou mal Como nos havíamos de dar muitas vezes por bemdespachados com aquele mesmo que chamamos mau despacho O que nos está bem ou mal só Deus o sabe todos o mais o ignoramos E esta ciência de Deus e esta ignorância nossa são os dois pólos em que há de estribar toda a indiferença de nossas petições e também a resignação nos despachos As petições havemolas de fazer como quem não sabe o que pede e os despachos havemolos de aceitar como de quem só sabe o que dá Cuidamos que os homens são os que nos despacham e por isso murmuramos e nos queixamos deles e não advertimos que em todos os conselhos assiste invisivelmente Deus como presidente supremo e que ele é o que nos dá ou nega o que pedimos como quem só sabe o que nos está bem ou mal As sortes diz Salomão não dependem da mão do homem que as tira senão da mão de Deus que as governa Sortes mittuntur in sinum et a Domino temperatur13 Se vos saiu a sorte em branco se vos não responderam como pedíeis consolaivos e aceitai este despacho como da mão de Deus que só sabe o que vos convém Os homens só fazem mercê quando dão Deus não só faz mercê quando dá senão também quando nega Petite et dabitur vobis Pedi e recebereis diz Cristo Lc 119 E para maior confirmação desta promessa acrescenta Omnis qui petit accipit Porque todo o que pede recebe A proposição não pode ser mais universal nem mais clara mas tem a réplica e a instância muito à flor da terra e apenas haverá neste mesmo auditório quem não possa testemunhar nela com a própria experiência Quantos senhores de ricas e grandes casas pediram a Deus um herdeiro e não o alcançaram Quantos pobres carregados de filhos pediram para eles o sustento e não têm com que lhes matar a fome Quantos na enfermidade fizeram votos pela saúde e morreram sem remédio Quantos na tempestade bradando ao céu foram comidos das ondas Quantos no cativeiro orando continuamente pela liberdade acabaram a miserável vida nos ferros e nas masmorras E para que não vamos mais longe no mesmo caso do nosso texto temos a mãe dos filhos de Zebedeu pedindo e pedindo de joelhos Adorans et petens aliquid ab eo E a resposta da sua petição sendo o mesmo Cristo a quem pediam foi um não muito desenganado e muito liso Non est meum dare vobis Pois se é verdade certa e evangélica experimentada ordinária e manifesta que muitos pedem a Deus e não alcançam o que pedem como diz Cristo Pedi e recebereis E como afirma absoluta e universalmente que todos os que pedem recebem A dúvida não pode ser mais apertada mas é da casta daquelas que se fundam na falta de inteligência ou errada apreensão do texto Ponderai e reparai bem no que dizem as palavras e no que não dizem Petite et accipietis Omnis enim Qui petit accipit Não diz Cristo Pedi e recebereis o que pedi senão Pedi e recebereis Nem diz Todo o que pede recebe o que pede senão Todo o que pede recebe E que é o que recebe O que Deus sabe que lhe está melhor Se pedis o que vos convém recebeis o que pedis mas se pedis o que vos não convém recebeis o não se vos dar o que pedíeis Deste modo todo o que pede recebe Omnis qui petit accipit porque ou recebe o que pede ou recebe o que havia de pedir se soubera o que pedia Quando um homem pede o que lhe não convém se soubera o que pedia havia de pedir que lho negassem e porque só Deus sabe o que nos convém supre com a sua ciência a nossa ignorância e por isso nos responde como aos Zebedeus com um não e nos nega o que pedimos O mesmo Cristo declarou a sua proposição e a fez evidente com três exemplos familiares e caseiros que se eu os trouxera havíeis de dizer que eram baixos tão altiva é a nossa rudeza e tão humana a sabedoria divina Quis outem ex vobis patrem petit panem nunquíd lapidem dabit illi Aut piscem nunquid pro pisce serpentem dabit illi Aut si petierit ovum nunquid porriget illi scorpionem Se um filho diz Cristo pedir pão a seu pai darlheá uma pedra Se lhe pedir peixe darlheá uma serpente Ou se lhe pedir um ovo dar lheá um escorpião Pois esta é a razão por que Deus que nos trata como filhos nos diz muitas vezes de não e nos nega o que pedimos porque pedimos pedras porque pedimos serpentes porque pedimos escorpiões Cuidamos que pedimos o necessário e pedimos o inútil cuidamos que pedimos o proveitoso e pedimos o nocivo isto é pedir pedras Cuidamos que pedimos sustento e pedimos veneno cuidamos que pedimos o que havemos de comer e pedimos o que nos há de comer cuidamos que pedimos com que viver e pedimos o que nos há de matar e isto é pedir serpentes e escorpiões Quando somos tão néscios ou tão meninos que não distinguimos o escorpião do ovo nem a serpente do peixe nem o pão da pedra Deus que é pai e tão bom pai por que nos não há de negar o que tão ignorante e tão perigosamente pedimos Oh ditosos aqueles a quem Deus assim despacha porque sabe que não sabem o que pedem Nescitis quid petatis E por que vos consoleis dobradamente não tenho nenhumas invejas aos que o mundo chama bemdespachados sabei e saibam eles que Deus assim como tem um não para as mercês também tem um sim para os castigos Entre os homens o melhor despacho das petições é como pede No tribunal de Deus muitas vezes é o contrário Deus nos livre de um como pede de Deus quando os homens não sabem o que pedem Caminhavam pelo deserto os filhos de Israel e enfastiados do maná e lembrados das olhas do Egito pediram carne Levou Moisés a Deus a petição não porque ele a aprovasse mas importunado do povo E que responderia Deus Pedem carne Sou muito contente façase assim como pedem Não só lhes darei carne senão muita e muito regalada No mesmo ponto à maneira de chuva começaram a cair sobre os arraiais infinitas aves de pena que assim fala o texto Pluit super eos sicut pulverem carnes et sicut arenam maris volatilia pennata SI 77 27 Ora grande é a paciência e liberalidade de Deus A uns homens tão ingratos desprezadores do maná do céu assim lhes concede o que pedem A um apetite tão desordenado tanto favor A uma petição tão descomedida tanta mercê Esperai um pouco pelo fim e logo vereis Muito contente o povo com a chuva nunca vista das aves de pena começam a matar a depenar a guisar de vários modos assentamse às mesas com grande festa E que sucedeu Adhuc escae eorum erant in ore ipsorum et ira Dei ascendit super eos SI 77 30 s Ainda tinham o comer na boca quando veio a ira de Deus sobre eles Comiam das aves e como se foram serpentes ou escorpiões cada bocado era outro tanto veneno e caíam mortos Eis aqui o fim do como pedem Parecia favor e era castigo parecia mercê de Deus e era ira de Deus Et ira Dei ascendit super eos Por este e outros exemplos disse altamente Santo Agostinho Multa Deus concedit iratus quae negaret propitius Deus irado concede muitas coisas as quais havia de negar se estivera propicio Se Deus estivera propicio ao povo havialhe de negar o que pedia concedeulho porque estava irado contra ele Cuidais que esse despacho tão venturoso e tão invejado é mercê Esperailhe pelo fim e vereis que é castigo E se Deus concede por pecados para que os bemdespachados se não desvaneçam também nega por merecimentos para que os maldespachados se consolem Ouvi um grande reparo sobre o nosso Evangelho Pedem os Zebedeus as cadeiras não lhas quer Cristo conceder porque não sabiam o que pediam como pouco há dissemos mas antes de lhas negar perguntalhes se se atreviam a beber o cálix isto é se se atreviam a morrer por ele e como ele Potestis bibere calicem quem ego bibiturus sum Responderam ambos animosamente que sim E porque o testemunho deste valor e serviço não ficasse só na fé dos pretendentes o mesmo Cristo o qualificou e justificou e lhes deu certidão autêntica de que assim era ou havia de ser Calicem quidem meum bibetis14 E depois destas provações tão miúdas e tão exatas então lhes respondeu Non est meum dare vobis Pois se o Senhor lhes havia de negar o que pediam para que lhes pede serviços Para que lhes examina merecimentos Para que lhes prova o valor Para que lhes certifica a morte e o sangue do cálix Se todas estas diligências foram feitas para sobre elas lhes fazer a mercê bem estava mas para negar o que pediam Sim Porque também o negar é mercê E porque mercês e mais se são grandes se não devem fazer senão por grandes serviços e muito justificados por isso Cristo lhes pediu primeiro os serviços e os justificou por verdadeiros para lhes fazer a mercê de lhes negar o que pediam De maneira que aos filhos de Israel concedeulhes Deus a sua petição por pecados e aos filhos de Zebedeu negoulhes Cristo a sua por merecimentos porque no primeiro caso o conceder era castigo e no segundo o negar foi mercê E como o despacho dos que se têm por bemdespachados pode ser castigo e grande castigo e pelo contrário o dos que se têm por maldespachados pode ser mercê e grande mercê tão pouca razão têm uns de se desvanecer como outros de se desconsolar pois uns e outros não sabem o que lhes deram assim como não sabem o que pedem Nescitis quid petatis VI Platão Sócrates e a oração Os pedidos de bens temporais e os males eternos S Paulo escusado e o demônio atendido S João Crisóstomo e o pedido dos Zebedeus Os maus ministros e a justiça divina A condenação de Cristo e dos ladrões e a absolvição de Barrabás Deus tem na sua mão os corações dos reis S Francisco Xavier e o pedido do Padre Simão Doutrina de S Paulo sobre a oração A carta de Urias A negação de Cristo e a predestinação Estou vendo senhores que já me haveis desempenhado do que ao principio prometi entendendo que na primeira parte deste discurso vos preguei como a homens e na segunda como a cristãos Não é assim posto que nesta segunda parte falei tantas vezes em Deus atribuindo à sua justiça e providência os vossos bons ou maus despachos Até os gentios falaram deste modo e conheceram isto mesmo só pelo lume da razão e por serem homens posto que sem fé Sócrates aquele grande filósofo da Grécia dizia que nenhuma coisa em particular se havia de pedir aos deuses senão em geral o que estivesse bem a cada um porque isto só eles o sabem e os homens ordinariamente apetecemos o que nos fora melhor não alcançar Nihil ultra petendum a diis immortalibus arbitrabatur quam ut bona tribuerent quia ii demum scirent quid unicuique esset utile nos outem plerumque id votis expetere quod non impetrasse melius foret diz Valério Máximo falando de Sócrates15 E Platão para ensinar o método com que havíamos de pedir a Deus compôs esta oração Jupiter da nobis bona sive ea petamus sive non arce vero mala etiam si ea ex errore petamus Quer dizer Júpiter daime o bem ainda que volo não peça e livraime do mal ainda que volo peça Não conheciam a Deus aqueles filósofos mas sabiam o que se deve pedir e como se deve pedir a Deus Pedirlhe que nos dê o bem ainda que lho não peçamos e que nos livre do mal ainda que Iho peçamos porque muitas vezes pedimos o mal cuidando que é bem e não pedimos o bem cuidando que é mal e só Deus que sabe o que nos está bem ou mal nos pode dar o que nos convém Assim que até agora somente preguei como a homens e por isso todos os bens ou males de que falei foram do céu abaixo Agora subamos mais acima e daime atenção como cristãos ao que brevemente me resta por dizer que é o que sobre tudo importa Nescitis quid petatis São tão néscias cristãos as nossas petições são tão arriscadas e tão perigosas muitas vezes que cuidando que pedimos os bens temporais pedimos os males eternos cuidando que pedimos nossas conveniências pedimos a nossa condenação Não é conseqüência ou consideração minha senão doutrina e conclusão expressa do mesmo Cristo Sedere outem ad dexteram meam vel sinistram non est meum dare vobis sed quibus paratum est a Patre meo16 Notável e profunda resposta Os dois discípulos e sua mãe pediam as duas primeiras cadeiras do reino temporal de Cristo entendendo erradamente que o Senhor havia de reinar temporalmente neste mundo assim como Davi Salomão e outros reis seus primogenitores Este era o seu pensamento e esta a sua petição conforme a esperança vulgar a que todos estavam persuadidos ainda depois da ressurreição de Cristo quando perguntaram Domine si in tempore hoc restitues regnum Israel17 Pois se pediam lugares e dignidades temporais como lhes responde Cristo quando Ihas nega com os decretos da predestinação do Padre Sed quibus paratum est a Patne meo Porque os despachos das nossas petições ainda que sejam de coisas temporais são efeitos muitas vezes da predestinação eterna Muitas vezes sai despachado o pretendente porque é precito e não sai despachado porque é predestinado Pediu o demônio a Deus que lhe desse poder sobre os bens e pessoa de Jó e concedeu Deus ao demônio o que pedia o demônio Pediu S Paulo a Deus e pediulhe três vezes que o livrasse de uma tentação e negou Deus a S Paulo o que pedia S Paulo Pois a Paulo se nega o que pede e ao demônio se concede Sim diz Santo Agostinho Ao demônio para maior confusão a Paulo para maior glória a Paulo como o predestinado ao demônio como a precito Quantos precitos estão hoje no inferno arrenegando dos seus despachos E quantos predestinados estão no céu dando eternas graças a Deus porque os não despacharam Dois destes predestinados não despachados eram os dois apóstolos do nosso Evangelho que por isso lhes disse Cristo que não sabiam o que pediam Cuidavam que pediam dignidades e honras do mundo e pediam sem saber o que pediam a sua condenação Unus ad dexteram et unus ad sinistram A mão direita de Cristo como se verá no dia do juízo é o lugar dos que se hão de salvar a mão esquerda é o lugar dos que se hão de condenar E como cada um dos dois apóstolos pedia indiferentemente a mão direita ou esquerda ambos se expunham e se ofereciam sem o saberem ao lugar da condenação S João Crisóstomo Ego vos elegi ad dexteram et vos vestro judicio curritis ad sinistram Eu diz Cristo escolhivos para a mão direita e vós por vosso juízo e por vossa vontade sem saber o que pedis pedis e fazeis instâncias pela mão esquerda Oh quantos requerentes da mão esquerda Oh quantos pretendentes da condenação andam hoje em todas as cortes da Cristandade sem saberem o que pedem e o que requerem Andam requerendo e solicitando e contendendo sobre quem há de levar o inferno E os que o alcançam ficam muito contentes e os que o não conseguem muito tristes Então tudo é queixar e infamar os ministros e talvez com tanto excesso e atrevimento que ainda sobem as queixas mais acima Eu não tenho tanta opinião dos nossos tribunais na justiça distributiva como noutras espécies desta virtude mas para o fim da predestinação e salvação que é o último despacho e o que só importa tanto se serve Deus de ministros justos como de injustos e tanto da sua justiça se a observam como da sua injustiça Quis Deus salvar o gênero humano naquele dia fatal em que deu a vida por ele e de que ministros se serviu sua providência Caso estupendo Serviuse de Judas de Anás de Caifás de Pilatos de Herodes e por meio da injustiça e impiedade de homens tão abomináveis se conseguiu a salvação de todos os predestinados Se esperais ser um deles não vos queixeis E se me dizeis que foram injustos os ministros convosco também vôlo concedo posto que o não creio Mas que importa que ou neste conselho fossem Judas ou naquele Anases e Caifases ou noutro Herodes e Pilatos se por meio da sua injustiça tinha Deus predestinado a vossa salvação Eles irão ao inferno pela injustiça que vos fizeram e vós por ocasião da mesma injustiça ireis ao céu Notai neste mesmo dia dois concursos dignos de toda a ponderação para que vos não queixeis de ver preferidos os que concorreram convosco O primeiro concurso foi de Cristo com Barrabás e ambos foram julgados com suma injustiça porque Barrabás ladrão adúltero homicida e traidor saiu absolto e Cristo sumamente inocente e sumamente benemérito condenado O segundo concurso foi de Dimas e Cestas o bom e o mau ladrão e ambos foram condenados com igual justiça porque ambos como ladrões mereciam a forca E que tirou Deus destes dois concursos e destes dois juízos tão encontrados O primeiro foi por ambas as partes injusto o segundo por ambas as partes justo e de ambos tirou Deus igualmente a condenação dos precitos e a salvação dos predestinados Do primeiro tirou a condenação de Barrabás e a glória de Cristo do segundo tirou a glória do bom ladrão e o inferno do mau porque para salvar ou não salvar tanto se serve Deus da justiça dos homens como da sua injustiça Concedovos que podeis ser consultado julgado e despachado ou injustamente como vós dizeis ou justamente como não confessais mas nem da justiça nem da injustiça dos ministros vos deveis queixar se tendes fé porque tanto pode pender dessa justiça a vossa condenação saindo bem despachados para o inferno como depender dessa injustiça a vossa salvação saindo mal despachados para o céu E se não tendes razão para vos queixar dos ministros muito menos a tem a vossa temeridade para subirem talvez as queixas até o sagrado onde se decretam as resoluções E por quê Porque ainda que os reis são homens Deus é o que tem na sua mão os corações dos reis Cor regis in manu Domini quocumque voluerit inclinabit illud Prov 211 O coração do rei diz Salomão está na mão de Deus e a mão de Deus é a que o move e inclina a uma ou outra parte segundo a disposição de sua providência Como o coração do rei está na mão de Deus se Deus abre e alarga a mão alargase também o coração do rei e fazvos mercê com grande liberalidade e se Deus aperta e estreita a mão estreitase do mesmo modo o coração do rei e ou vos dá muito menos ou nada do que pedíeis De maneira que ainda que o rei é o senhor que dá ou não dá tem sobre si outro senhor maior que é o que lhe alarga ou estreita o coração para que dê ou não dê Rei era Ciro e rei era Faraó Ciro dominava os hebreus no cativeiro da Babilônia e Faraó dominava os mesmos hebreus no cativeiro do Egito mas a cousa superior de serem tão diferentemente tratados não foi Ciro nem Faraó senão Deus Como Deus tinha na mão o coração daqueles reis alargou a mão ao coração de Ciro e deu Ciro liberdade aos hebreus e estreitou a mão ao coração de Faraó e não só os não libertou Faraó antes lhes apertou mais o cativeiro Adverti porém para consolação vossa que este mesmo aperto e esta mesma estreiteza e dureza do coração de Faraó foi a última disposição que Deus traçava para levar os hebreus como levou à Terra de Promissão Se o coração do rei tão largo e tão liberal com outros é para convosco estreito e ainda duro alargai vós o vosso coração e consolaivos e entendei que por esse meio vos quer Deus levar à Terra de Promissão do céu para que vos tem predestinado Pode haver maior consolação que esta Não pode Agora acabaremos de entender a providência que está escondida em uma desigualdade que cada dia experimentamos e não sei se advertimos bem nela Requer um pretendente solicita negoceia insta e talvez peita e suborna e sai despachado O outro seu competidor que não tem tanta valia nem tanto do que vale encomenda o seu negócio a Deus mete a sua petição na mão de Santo Antônio manda dizer missas a Nossa Senhora do Bom Despacho e sai escusado Pois este é o fruto de negociar com Deus Estes são os poderes da oração Esta a valia e a intercessão dos santos Sim esta é Porque eles intercederam por vós por isto não saístes despachado Um santo que pregou neste mesmo púlpito nos há de dar a prova Havia na Índia um fidalgo mui devoto de S Francisco Xavier Tinha as suas pretensões com o Senhor Rei D João o III Pediu uma carta de favor ao santo para seu companheiro Padre Mestre Simão que era mestre do príncipe e muito bem visto de elrei Escreveu S Francisco Xavier e dizia assim o capítulo da carta Dom fulano é muito amigo da Companhia tem requerimentos com S Alteza Peço a Vossa Reverência pelas obrigações que devemos a este fidalgo que procure desviar os seus despachos quanto for possível porque todo o que vem despachado para a Índia vai bem despachado para o inferno Eis aqui as intercessões dos santos Sabeis por que saiu o outro despachado e vós não Porque ele teve a valia dos homens e vós a intercessão dos santos Esperáveis que vos despachassem bem para o inferno quanto tínheis encomendado o vosso requerimento à Senhora do Bom Despacho Dai graças a Deus e à sua Mãe e ouvi tudo o que tenho dito e tudo o que se pode dizer nesta matéria em um texto estupendo de S Paulo Quid oremus sicut oportet nescimus ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus Rom 826 Nós não sabemos o que pedimos Nescitis quid petatis Nós não sabemos pedir o que nos convém Quid oremus sicut oportet nescimus E que faz Deus autor de nossa predestinação e salvação quando pedimos o que é contrário a ela Ipse outem Spiritus postulat pro nobis gemitibus inenarrabilibus O mesmo Espírito Santo diz S Paulo por sua infinita bondade e misericórdia troca emenda e ordena as nossas petições e ele mesmo pede por nós a si mesmo com gemidos que se não podem declarar Gemiribus inenarrabilibus De sorte que quando pretendemos o que encontra a nossa salvação nós pedimos na terra e o Espírito Santo geme no céu nós fazemos instâncias e ele dá ais Ai homem cego que não sabes o perigo em que te metes Ai que se quer perder aquela pobre alma Ai que anda solicitando sua condenação Ai que pretende aquele oficio Ai que pretende aquela judicatura Ai que pretende aquele concelho Ai que pretende aquele governo Ai que se alcança o que pretende vai para o inferno Pretende o Brasil se vai ao Brasil perdese pretende Angola se vai à Angola condenase pretende a Índia se passa o Cabo de Boa Esperança lá vai a esperança da sua salvação Assim geme o Espírito Santo por nos desviar do que pretendemos com tantas ânsias porque não sabemos o que pedimos Quid oremus sicut oportet nescimus Pois que há de fazer um homem depois de servir tantos anos Não há de pretender Não há de requerer Pode ser que esse fora o melhor conselho Mas não digo tanto porque não vejo tanto espírito O que só digo é pelo que cada um deve à sua salvação que o nosso modo de requerer seja este Ponde a petição na mão do ministro e o despacho nas mãos de Deus Senhor eu não sei o que peço o que mais convém à minha salvação só vós o sabeis vós o encaminhai vós o disponde vós o resolvei Com isto ou saireis despachado ou não se sairdes despachado aceitai embora a vossa portaria ou a vossa provisão e começai a temer e tremer porque pode ser que aquela folha de papel seja uma carta de Urias 2 Rs 1715 Urias levava no seio a sua carta cuidando que era um grande despacho e era a sentença da sua morte Cuidais que levais no vosso despacho o vosso remédio e o vosso oumento e pode ser que leveis nele a sentença de vossa condenação Não lhe fora melhor a Pilatos não ser julgador Não lhe fora melhor a Caifás não ser pontífice Não lhe fora melhor a Herodes não ser rei Todos esses se condenaram pelo ofício e mais com Cristo diante dos olhos Mas se fordes tão venturosamente desgraçado que não consigais o despacho consolaivos com esses exemplos e com o de S João e São Tiago Se Cristo não despacha a dois vassalos tão beneméritos folgai de ser assim benemérito Se Cristo não despacha a dois criados tão familiares de sua casa folgai de ser assim da casa de Cristo Se Cristo não despacha os dois discípulos tão amados folgai de ser assim amado seu e entendei que vos não despachou Deus nem quis que vos despachassem porque não sabíeis o que pedíeis e porque sois predestinado Lá na outra vida haveis de viver mais que nesta se aqui tiverdes trabalhos lá tereis descanso se aqui não tiverdes grandes lugares lá tereis o lugar que só é grande e se até aqui vos faltar a graça dos homens lá tereis a graça de Deus e o prêmio desta graça que é a glória SERMÃO DE SANTO INÁCIO FUNDADOR DA COMPANHIA DE JESUS Em Lisboa no Real Colégio de S Antão Ano 1669 Et vos similes hominibus expectantibus dominum suum1 I O mandamento de Cristo aos santos e a Santo Inácio em particular Santo Inácio e a Vida dos Santos Admirável é Deus em seus santos mas no santo que hoje celebra a igreja singularmente admirável A todos os Santos manda Cristo neste Evangelho que sejam semelhantes a homens Et vos similes hominibus Lc 1236 Mas assim como há grande diferença de homens a homens assim vai muito de semelhanças a semelhanças Aos outros santos manda Cristo que sejam semelhantes aos homens que servem aos senhores da terra Hominibus expectantibus dominum suum a Santo Inácio mandalhe Cristo que seja semelhante aos homens que serviram ao Senhor do céu Quanto vai do céu à terra tanto vai de semelhança a semelhança Aos outros santos meteulhes Cristo na mão este Evangelho e disselhes Servime assim como os homens servem aos homens a Santo Inácio metelhe na mão um livro da vida de todos os santos e diz lhe Serveme assim como estes homens me serviram a mim Foi o caso Jazia Santo Inácio não digo bem jazia Dom Inácio de Loiola malferido de uma bala francesa no sítio de Pamplona e picado como valente de ter perdido um castelo fabricava no pensamento outros castelos maiores pelas medidas de seus espíritos Já lhe parecia pouca defensa Navarra pouca muralha os Pireneus e pouca conquista França Consideravase capitão e espanhol e rendido e a dor lhe trazia à memória como Roma em Cipião e Cartago em Aníbal foram despojos de Espanha Os Cides os Pelaios os Viriatos os Lusos os Geriões os Hércules eram os homens com cujas semelhanças heróicas o animava e inquietava a fama mais ferido da reputação da pátria que das suas próprias feridas Cansado de lutar com pensamentos tão vastos pediu um livro de cavalerias para passar o tempo Mas ó providência divina Um livro que só se achou era das vidas dos santos Bem pagou depois Santo Inácio em livros o que deveu a este Mas vede quanto importa a lição de bons livros Se o livro fora de cavalerias sairia Santo Inácio um grande cavaleiro foi um livro de vidas de santos saiu um grande santo Se lera cavalerias sairia Santo Inácio um cavaleiro da ardente espada leu vidas de santos saiu um santo da ardente tocha Et lucernae ardentes in manibus vestris Toma Inácio o livro nas mãos lêo ao princípio com dissabor pouco depois sem fastio ultimamente com gosto e dali por diante com fome com ânsia com cuidado com desengano com devoção com lágrimas Estava atônito Inácio do que lia e de ver que havia no mundo outra milícia para ele tão nova e tão ignorada porque os que seguem as leis do apetite como se rendem sem batalha não têm conhecimento da guerra Já lhe pareciam maiores aqueles combates mais fortes aquelas resistências mais ilustres aquelas façanhas mais gloriosas aquelas vitórias e mais para apetecer aqueles triunfos Resolvese a trocar as armas e alistase debaixo das bandeiras de Cristo e a espada de que tanto se prezava foi o primeiro despojo que ofereceu a Deus e à sua Mãe nos altares de Monserrate Aceitai Senhora esta espada que como se hão de rebelar contra vós tantos inimigos tempo virá em que seja bem necessária para defensa de vossos atributos Lia Inácio as vidas dos confessores e começando como eles pelo desprezo da vaidade tira o colete despe as galas e assim como se ia despindo o corpo se ia armando o espírito Lia as vidas dos anacoretas e já suspirava pelos desertos e por se ver metido em uma cova de Manresa onde sepultado acabasse de morrer ao mundo e começasse a viver ou a ressuscitar a si mesmo Lia as vidas dos doutores e pontífices e ainda que o não afeiçoaram as mitras nem as tiaras deliberase a aprender para ensinar e a começar os rudimentos da gramática entre os meninos conhecendo que em trinta e três anos de corte e guerra ainda não começara a ser homem Lia as vidas ou as mortes valorosas dos mártires e com sede de derramar o sangue próprio quem tinha derramado tanto alheio sacrificase a ir buscar o martírio a Jerusalém oferecendo as mãos desarmadas às algemas os pés aos grilhões o corpo às masmorras e o pescoço aos alfanjes turquescos Lia finalmente as vidas e as peregrinações dos apóstolos e soandolhe melhor que tudo aos ouvidos as trombetas do Evangelho toma por empresa a conquista de todo o mundo para dilatar a fé para o sujeitar à Igreja e para levantar novo edifício sobre os alicerces e ruínas do que eles tinham fundado Isto era o que Inácio ia lendo e isto o que juntamente ia trasladando em si e imprimindo dentro na alma Mas quem lhe dissera então ao novo soldado de Cristo que notasse naquele livro o dia de trinta e um de julho que advertisse bem que aquele lugar estava vago e que soubesse que a vida de santo que ali faltava havia de ser a sua e que este dia feriado e sem nome havia de ser o dia de Santo Inácio de Loiola fundador e patriarca da Companhia de Jesus Tais são os segredos da providência tão grandes os poderes da graça e tanta a capacidade da nossa natureza Para satisfazer às obrigações de tamanho dia nem quero mais matéria que o caso que propus nem mais livros que o mesmo livro nem mais texto que as mesmas palavras Et vos similes hominibus Veremos em dois discursos Inácio semelhante a homens e Inácio homem sem semelhante Mais breve ainda o semelhante sem semelhante Este será o assunto Peçamos a graça Ave Maria II Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos como exemplar de todos eles Santo Inácio o foi porque todos os santos lhe serviram de exemplar A pintura de Zêuxis e a santidade de Santo Inácio Cristo e a diversidade de opiniões a seu respeito Santo Inácio embora um era feito à semelhança de muitos Temos Santo Inácio com o seu livro nas mãos com os exemplares de todos os santos diante dos olhos e Deus dizendolhe ao ouvido Et vos similes hominibus Tantos instrumentos juntos Grande obra intenta Deus Quando Deus quer converter homens e fazer santos lavra um diamante com outro diamante e faz um santo com outro Santo foi Davi converteuo Deus com outro santo o profeta Natã Santo foi Cornélio Centurião converteuo Deus com outro santo S Pedro Santo foi Dionísio Areopagita converteuo Deus com outro santo S Paulo Santo foi Santo Agostinho converteuo Deus com outro santo S Ambrósio Santo foi S Francisco Xavier converteuo Deus com outro santo o mesmo Santo Inácio Pois se para fazer um santo basta outro santo por que ajuntou Deus os santos de todas as idades do mundo por que ajunta os santos de todos os estados da Igreja por que ajunta as vidas as ações as virtudes os exemplos de todos os santos para fazer Santo Inácio Porque tanto era necessário para fazer um grande santo Para fazer outros santos basta um só santo para fazer um Santo Inácio são necessários todos Para ser Santo Enós basta que seja semelhante a Set para ser S José basta que seja semelhante a Jacó para ser São Josué basta que seja semelhante a Moisés para ser Santo Tobias basta que seja semelhante a Jó para ser Santo Eliseu basta que seja semelhante a Elias para ser Santo Timóteo basta que seja semelhante a Paulo mas para Inácio ser santo tão grande e tão singular como Deus o queria fazer não basta ser semelhante a um santo não basta ser semelhante a muitos santos é necessário ser semelhante a todos Por isso lhe mete Cristo nas mãos em um livro as vidas e ações heróicas de todos os santos para que os imite e se forme à semelhança de todos Et vos similes hominibus Falando Deus de seu unigênito Filho por boca de Davi diz que o gerou nos resplendores de todos os santos In splendoribus sanctorum genui te Sl 1093 Estas palavras ou se podem entender da geração eterna do Verbo antes da Encarnação ou da geração temporal do mesmo Verbo enquanto encarnado E neste segundo sentido as entendem Santo Agostinho Tertuliano Hesíquio S Justino S Próspero S Isidoro e muitos outros Diz pois o Eterno Padre que quando mandou seu Filho ao mundo o gerou nos resplendores de todos os santos porque Cristo como ensina a Teologia não só foi a cousa meritória de toda a graça e santidade mas também a cousa exemplar e protótipo de todos os santos enquanto todos foram santos à semelhança de Cristo imitando nele e dele todas as virtudes e graças com que resplandeceram e isto quer dizer In splendoribus sanctorum Assim como todos os astros recebem a luz do sol e cada um deles é juntamente um espelho e retrato resplandecente do mesmo rei dos planetas assim todos os santos recebem de Cristo a graça e do mesmo Cristo retratam em si todos os dotes e resplendores da santidade com que se ilustram Por isso o anjo quando anunciou a Encarnação não disse Qui nascetur ex te sanctus senão Quod nascetur ex te sanctum2 porque Cristo não só foi santo mas o Santo dos santos O Santo dos santos como fonte de toda a santidade por origem e o Santo dos santos como exemplar de toda a santidade para a imitação Este é o modo universal com que Cristo faz a todos os santos Mas a Santo Inácio a quem quis fazer tão singular santo fêlo também por modo singular podendo dizer dele em tão excelente sentido como verdadeiro In splendoribus sanctorum genui te Cristo foi gerado nos resplendores de todos os santos porque é o exemplar de todos os santos e Inácio foi gerado nos resplendores de todos os santos porque todos os santos foram o exemplar de Santo Inácio Cristo não só santo mas Santo dos santos porque de sua imitação receberam todos os santos a santidade e Inácio não só santo mas santo dos santos porque todos os santos concorreram a formar a santidade de Santo Inácio Bem sei que é melhor exemplar Cristo só que todos os santos juntos mas também sei que para ser santo basta imitar um só santo que imitou a Cristo Assim dizia S Paulo a todos os que vieram depois dos apóstolos Imitatores mei estote sicut et ego Christi3 Mas Cristo para formar a Santo Inácio ajuntou as imitações de todos os santos para que o imitasse ele só como todos Houvese Deus na formação de Santo Inácio como zêuxis na pintura de Juno deusa das deusas Fez vir diante de si aquele famoso pintor todas as formosuras que então havia mais celebradas em Agrigentina e imitando de cada uma a parte mais excelente de que as dotara a natureza venceu a mesma natureza com a arte porque ajuntando o melhor de cada uma saiu com uma imagem mais perfeita que todas4 Se assim sucedeu foi caso e fortuna mas não ciência porque como a formosura consiste na proporção ainda que cada uma das partes em si fosse de extremada beleza todas juntas podiam compor um todo que não fosse formoso Na formosura das virtudes é o contrário Como todas as virtudes entre si são concordes e não podem deixar de fazer harmonia de qualquer parte que sejam imitadas sempre há de resultar delas um composto excelente e admirável qual foi o que Deus quis formar em Santo Inácio E aqui entra com toda a sua propriedade a versão do mesmo texto In pulchritudinibus sanctorum genui te Pôs Deus diante dos olhos a Inácio estampados naquele livro os mais famosos e os mais formosos originais da santidade não de um reino ou de uma idade senão de todas as idades e de toda a Igreja e copiando Inácio em si mesmo de um a humildade de outro a penitência de um a temperança de outro a fortaleza de um a paciência de outro a caridade e de todos e cada um aquela virtude e graça em que foram mais eminentes saiu Inácio com quê Com um Santo Inácio com uma imagem da mais heróica virtude com uma imagem da mais consumada perfeição com uma imagem da mais prodigiosa santidade enfim com um santo não semelhante e parecido a um só santo senão semelhante e parecido a todos Et vos similes hominibus Perguntou Cristo uma hora a seus discípulos Quem dicunt homines esse Filium hominis Mt 2613 Quem dizem os homens que sou eu E responderam os discípulos Alii Joannem Baptistam alii vero Eliam alii vem Jenemiam aut unum ex prophetis Senhor uns dizem que sois o Batista outros que sois Elias outros que sois Jeremias ou algum dos outros profetas e santos antigos Notáveis pareceres dos homens e mais notável o parecer de Cristo Se Cristo se parecia com o Batista como se parecia com Elias Se se parecia com Elias como se parecia com Jeremias Se se parecia com Jeremias como se parecia com o Batista Nos outros santos e profetas antigos Aut unum ex prophetis ainda é maior a admiração porque era maior o número e a diferença Pois se Cristo era um só homem como se parecia com tantos homens Porque não só no natural senão também no moral como logo veremos era feito à semelhança de muitos In similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo5 Onde notas Bernardo que disse o apóstolo Hominum non hominis E se era feito à semelhança de muitos que muito se parecesse com eles Quem via a Cristo instituir o batismo dizia Este é o Batista Alii Joannem Baptistam Quem via a Cristo jejuar quarenta dias em um deserto dizia Este é Elias Alii vero Eliam Quem via a Cristo chorar sobre Jerusalém dizia Este é Jeremias Alii vero Jeremiam Do mesmo modo filosofavam os que diziam que era algum dos outros santos ou profetas antigos Aut unum ex prophetis Quem via a sabedoria admirável de Cristo não estudada senão intusa dizia Este é Salomão Quem o via publicar lei nova em um monte dizia Este é Moisés Quem o via converter os homens com parábolas dizia Este é Natã Quem o via admitir os obséquios de uma mulher pecadora dizia Este é Oséias Quem o via passar as noites em oração dizia Este é Davi Quem o via aplaudido do povo e perseguido dos grandes dizia Este é Daniel Quem o via sofrer as afrontas com tanta humildade dizia Este é Miquéias Quem o via sarar os enfermos e ressuscitar os mortos dizia Este é Eliseu De maneira que a multidão e maravilha das obras causava a diversidade das opiniões e sendo Cristo na realidade um só homem na opinião era muitos homens Mas era muitos homens na opinião sendo um só na realidade porque verdadeiramente ainda que era um era feito à semelhança de muitos In similitudinem hominum factus Ah glorioso patriarca meu Se a vida de Santo Inácio se escrevera sem nome e se dele se excitara a questão Quem dicunt homines não há dúvida que o mundo se houvera de dividir em opiniões e que ninguém havia de atinar facilmente que santo era aquele Eram tão contínuas as lágrimas que Santo Inácio chorava pelos pecados da vida passada que de puro chorar chegou a perder a vista e havia de dizer o mundo Este é S Pedro Oito dias inteiros esteve Santo Inácio arrebatado em um êxtase em que Deus lhe revelou o instituto da religião que havia de fundar e havia de dizer o mundo Este é S Paulo Nenhum santo teve maiores inimigos nem mais pertinazes Mas como a vingança que Santo Inácio tomava de seus inimigos e a que deixou por instituto a seus filhos era rogar por eles a Deus havia de dizer o mundo Este é S Estevão Era tal o magistério espiritual de Santo Inácio e as regras de perfeição que ensinou tão fundadas e sólidas que todos os santos quantos depois canonizou a Igreja ou foram discípulos do seu espírito ou se conformaram com ele6 e havia de dizer o mundo Este é S Basílio Era tal o domínio que Santo Inácio tinha sobre o inferno que em ouvindo o seu nome os demônios uns se prostravam de joelhos outros começavam a tremer outros saíam amortecidos e todos saíam dos corpos e havia de dizer o mundo Este é Santo Antônio o Grande Quando os pecadores tinham repugnância de confessar seus pecados contavalhes Inácio os pecados da sua vida passada confessandose primeiro o confessor ao penitente e à vista destas confissões havia de dizer o mundo Este é Santo Agostinho Não houve gênero de necessidade ou de miséria que a caridade de Santo Inácio não remediasse os pobres os enfermos os órfãos as viúvas as mulheres perdidas e as que estavam a risco de se perder e havia de dizer o mundo Este é S Nicolau Aquele grande varão doutíssimo e religiosíssimo o Padre Frei Luís de Granada dizia que uma das maiores maravilhas que Deus fez no mundo foi Santo Inácio e o seu instituto E como a esta religião por tantos títulos grande deu Santo Inácio o nome não de sua mas de mínima havia de dizer o mundo Este é S Francisco de Paula Mas antes que vá por diante se a alguém parecerem muitos estes pareceres do mundo e grande o encontro e variedade de opiniões para se juntarem todas em um homem lembrese da multidão dos exemplares a que Deus o mandou ser semelhante quando com aquele livro nas mãos lhe disse Et vos similes hominibus Em cada página daquele livro se podia ler indecisamente uma nova opinião deste glorioso e numeroso problema Não uma vez senão muitas viu Santo Inácio quanto se pode ver nesta vida a essência os atributos as pessoas e processões divinas E quem não cuidaria e diria Este é S Bento Foi tal a compreensão que das Escrituras Sagradas teve Santo Inácio ainda antes de estudar que se as Escrituras como no tempo de Esdras se perdessem se achariam na sua memória E quem não cuidaria e diria Este é S Bernardo Obedeciam ao império de Santo Inácio os incêndios as tempestades a terra o mar o fogo os ventos E quem não cuidaria e diria Este é S Gregório Taumaturgo No mesmo tempo esteve Santo Inácio em Roma e em Colônia só para satisfazer à devoção de um seu filho que muito o desejava ver E quem não cuidaria e diria Este é S Antônio de Pádua Ressuscitou Santo Inácio não menos que nove mortos E quem não cuidada e diria Este é S Patrício Ele foi o Morte da Igreja e o martelo das heresias e diriam com razão Este é S Atanásio Ele foi o diamante da constância contra o poder dos vícios e contra a resistência dos poderosos e diriam Este é S Crisóstomo Ele foi o reformador do culto divino e da freqüência dos santos sacramentos e diriam Este é S Silvestre Ele foi o que instituiu seminários da fé em Roma e em toda a Cristandade e diriam Este é S Gregório Ele foi o que abraçou a conquista de todas as gentilidades em ambos os mundos e diriam e perguntariam de novo ambos os mundos Que santo é este ou que santos em um santo Enfim que se o mundo não soubera que este grande santo era Santo Inácio não havia de haver santo insigne na Igreja que não tivesse opinião por si de que era ele Mas eram todos parecidos a Inácio porque era Inácio semelhante a todos Et vos similes hominibus III O retrato de Santo Inácio As diversas faces do santo Os retratos de Cristo Ezequiel e os quatro rostos dos animais enigmáticos O carro da glória de Deus e a Companhia de Jesus O homem abrasado em fogo Interpretação da palavra chasmal Mal pudera eu provar de uma vez tão grande discurso se o céu cujo é o assunto não tomara por sua conta a prova Vede se o provou evidente elegante e engenhosamente Enfermo Inácio e já nos últimos dias da vida veio a visitálo seu grande devoto o eminentíssimo cardeal Pacheco e trouxe consigo um pintor insigne o qual de parte donde visse o santo e não fosse visto dele o furto de sua humildade o retratasse Põese encoberto o pintor olha para Santo Inácio forma idéia aplica os pincéis ao quadro e começa a delinearlhe as feições do rosto Toma a olhar coisa maravilhosa o que agora viu já não era o mesmo homem já não era o mesmo rosto já não era a mesma figura senão outra muito diferente da primeira Admirado o pintor deixa o desenho que tinha começado lança segundas linhas começa segundo retrato e segundo rosto olha terceira vez nova maravilha o segundo original já tinha desaparecido e Santo Inácio estava outra vez transtornado com novo aspecto com novas feições com nova cor com nova proporção com nova figura Já o pintor se pudera desenganar e cansar mas a mesma maravilha o instigava a insistir Insista repetidamente olha e torna a olhar desenha e torna a desenhar mas sendo o objeto o mesmo nunca pode tornar a ver o mesmo que tinha visto porque quantas vezes aplicava e divertia os olhos tantos eram os rostos diversos e tantas as figuras novas em que o santo se lhe representava Pasmou o pintor e desistiu do retrato pasmaram todos vendo a variedade dos desenhos que tinha começado e eu também quero pasmar um pouco à vista deste prodígio Santo Inácio nunca teve dois rostos quanto mais tantos Foi cortesão foi soldado foi religioso e nunca mudou de cores nem de semblante Serviu em palácio a elrei D Fernando o Católico e a sua maior gala era trajar sempre da mesma cor e trazer o coração no rosto Os amigos viamlhe no rosto o amor os inimigos a desafeição o príncipe a verdade e ninguém lisonja Quando soldado nunca entre as balas mudou as cores na comédia e na batalha estava com o mesmo desenfado Teve uma pendência com certo poderoso e diz a história que contra uma rua de espadas sem fazer um pé atrás se sustentou só com a sua o braço mudava os talhos e os reveses mas o rosto não mudou as cores Depois de religioso ficou fora da jurisdição da fortuna mas nem por isso fora das variedades do mundo Era porém tão igual a constância e serenidade de seu ânimo que ninguém lhe divisou jamais perturbação nem mudança no semblante o mesmo nos sucessos prósperos o mesmo nos adversos nos prósperos sem sinal de alegria nos adversos sem sombra de tristeza Pois se Inácio teve sempre o mesmo rosto cortesão soldado religioso se teve sempre e conservou o mesmo semblante como agora se transfigura em tantas formas Como se transforma em tantas figuras quando querem copiar o seu retrato Por isso mesmo Era Inácio um mas semelhante a muitos e quem era semelhante a muitos só se podia retratar em muitas figuras Antes de Cristo vir e aparecer no mundo mandou diante o seu retrato para que o conhecessem e amassem os homens E qual foi o retrato de Cristo Admirável caso ao nosso intento O retrato de Cristo como ensinam todos os Padres foi um retrato composto de muitas figuras Uma figura de Cristo foi Abel outra figura de Cristo foi Noé Uma figura foi Abraão outra figura foi Isaac uma figura José outra figura Moisés outra Sansão outra Jó outra Samuel outra Davi outra Salomão e outros Pois se o retratado era um só e o retrato também um como se retratou em tantas e tão diversas figuras Porque as perfeições de Cristo ainda em grau muito inferior não se achavam nem se podiam achar juntas em um só homem e como estavam divididas por muitos homens por isso se retratou em muitas figuras Era Cristo a mesma inocência por isso se retratou em Abel Era Cristo a mesma pureza por isso se retratou em José Era a mesma mansidão por isso se retratou em Moisés Era a mesma fortaleza por isso se retratou em Sansão Era a mesma caridade a mesma obediência a mesma paciência a mesma constância a mesma justiça a mesma piedade a mesma sabedoria por isso se retratou em Abraão em Isaac em Noé em Jó em Samuel em Davi em Salomão De sorte que sendo o retrato um só estava dividido em muitas figuras porque só em muitas figuras podiam caber as perfeições do retrato Tal o retrato de Santo Inácio como feito à semelhança de muitos Et vos similes hominibus Mas não me detenho na acomodação porque estou vendo que aconteceu a Ezequiel com o retrato de Santo Inácio o mesmo que ao pintor de Roma Viu Ezequiel um carro misterioso que se movia sobre quatro rodas vivas e tinha por nome o carro da glória de Deus Tiravam por este carro quatro animais enigmáticos cada um com quatro rostos de homem de águia de leão de boi com que olhavam para as quatro partes do mundo Em cima sobre trono de safiras aparecia um homem todo abrasado em fogo ou vestido de labaredas A lumbis desuper et a lumbis deorsum quasi species ignis splendentis7 Que representasse este carro a religião da Companhia de Jesus muitos autores o disseram Chamavase carro da glória de Deus porque esta foi a empresa de Santo Inácio Ad majorem Dei gloriam Assentava sobre quatro rodas porque essa é a diferença da Companhia As outras religiões geralmente estribam em três rodas isto é em três votos essenciais mas a Companhia em quatro Em voto de pobreza em voto de castidade em voto de obediência como as demais e em quarto voto de obediência particular ao Sumo Pontífice Olhavam os animais juntamente para as quatro partes do mundo porque este é o fim e instituto da Companhia ir viver ou morrer em qualquer parte do mundo onde se espera maior serviço de Deus e proveito das almas Tinham rosto de homem de águia de leão de boi de homem pelo trato familiar com os próximos de águia pela ciência com que ensinam e escrevem de leão pela fortaleza com que resistem aos inimigos da fé de boi pelo trabalho com que cultivam a seara de Cristo passando tantas vezes do arado ao sacrifício No povoado homens no campo bois no bosque leões nas nuvens águias E para que a explicação não fique à cortesia dos ouvintes onde a Escritura falando desses animais diz Animalia tua Sl6711 leu Arias Montano Viri societatis tuae os varões da vossa Companhia Senhor O homem abrasado em fogo que se via no alto do carro não tem necessidade de declaração isso quer dizer Inácio o fogoso o abrasado o ardente Isto suposto Viu Ezequiel este homem de fogo que ia triunfante no carro e querendo descrever a semelhança que tinha Et de medio ignis quasi species escreveu estas sete letras C H A S M A L Assim estão no original hebreu em cujo texto falo E posto que estas letras juntas fazem Chasmal palavra de duvidosa significação e que só esta vez se acha nas Escrituras os cabalistas como refere Cornélio querem que sejam letras simbólicas de que se acham muitos exemplos e mistérios no texto sagrado Nas letras que viu Baltasar e interpretou Daniel três palavras significavam três sentenças e não estava escrito mais que o princípio de cada uma Nas quatro letras do nome Adão como notou S Justino e depois dele em diversos lugares Santo Agostinho significou Moisés as quatro partes do mundo porque as quatro letras do nome Adão conforme o texto grego são as quatro primeiras com que se escreve oriente poente setentrião e meiodia Do mesmo modo lemos no terceiro Livro dos Reis que Semei amaldiçoou a Davi maledicione pessima 3 Rs 28 e no hebreu como declara S Jerônimo contém esta palavra cinco letras cada uma das quais significa dicção inteira e cada uma uma maldição particular que começa pela mesma letra Finalmente se havemos de dar fé a Corásio este foi o mistério com que as sibilas escreveram aquelas quatro letras S P Q R as quais os romanos aplicaram às suas bandeiras entendendo por elas Senatus Populus Que Romanus sendo que a verdadeira significação era Salva Populum Quem Redemisti8 Ao nosso ponto agora e às nossas letras Seja o sentido alegórico ou acomodatício como mais quiserem os doutos Viu Ezequiel o homem de fogo que ia no alto do carro quis escrever a semelhança que tinha De medio ignis quasi species Ez 14 e o que fez foi deixar somente apontado naquelas letras misteriosas não a semelhança que tinha senão os princípios das semelhanças com que se lhe representara como se sucedera a Ezequiel com Inácio o mesmo que ao pintor de Roma Pôs os olhos Ezequiel no homem de fogo pôs os olhos em Inácio e viuo primeiro que tudo cercado de perseguições perseguido dos naturais e perseguido dos estranhos perseguido dos hereges e perseguido dos católicos perseguido dos viciosos e perseguido dos espirituais perseguido em si e perseguido em seus filhos perseguido na vida e perseguido depois da morte perseguido na terra e até no céu perseguido E como os olhos proféticos penetram todos os tempos pareceulhe que aquele santo tão perseguido era S Clemente e escreveu um C Torna a olhar para se firmar mais no que via e já a representação era outra Viu a Inácio em uma cova com uma cruz e uma caveira diante lançado em terra cingido de cilícios chorando infinitas lágrimas jejuando vigiando orando disciplinandose com cadeias de ferro lutando fortemente contra as tentações e ferindo os peitos nus com uma pedra dura persuadiuse Ezequiel que era S Hierônimo e já tinha escrito um H quando Inácio de repente transfigurado se lhe mostrou em nova aparência Era o santo naquele tempo tão leigo que não sabia mais que as letras do A B C mas alumiado com um raio do céu estava escrevendo um livro do mistério altíssimo da Santíssima Trindade com a definição da essência como número e unidade dos atributos com a igualdade das pessoas com a distinção das relações com a propriedade das noções com a ordem das emanações e processões divinas e tudo com umas inteligências tão claras e tão profundas que se resolveu o profeta que devia ser Santo Atanásio que estava compondo o símbolo Pôs um A mas apenas tinha formado a letra quando já Inácio estava outra vez transformado Representavase vestido em ornamentos sacerdotais e comum Menino Jesus vivo nas mãos caso que lhe sucedeu muitas vezes Naquele passo da Missa em que com maiores afetos de devoção havia de consumir a Sagrada Hóstia corria o Senhor a cortina dos acidentes e para se mostrar mais amoroso a seu servo era em forma de menino Como Ezequiel o viu revestido de sacerdote com o Menino Jesus nas mãos entendeu que era o santo Simeão e escreveu um S Porém logo o desenganou o prodigioso original porque já se tinha mudado em outra figura Mostravase em hábito de soldado bizarro Inácio trajado de galas e plumas tinha junto a si um pobre mendigo tirava o chapéu tirava a capa e despojandose das próprias roupas cobria com elas o pobre soldado e despindose a si para cobrir o pobre Este é S Martinho diz o profeta Formou um M se bem já com receio de alguma nova transformação e de que se lhe variasse outra vez o objeto e assim foi Estava Inácio arrebatado no ar com os braços caídos como rosto inflamado com os olhos pregados no céu acusando com suspiros a brevidade da noite e dando queixas ao sol de que havendo tão poucos momentos que lhe amanhecera no ocaso já lhe anoitecia no oriente persuadido o profeta que o grande Inácio era o grande Antônio escreveu o segundo A Mas o divino Proteu não se descuidava Viu subitamente um incêndio que chegava da terra ao céu e no meio dele a Inácio abrasado em vivas chamas de fogo e zelo de amor de Deus de fogo e zelo de amor do próximo E ainda que Ezequiel parecendolhe que seria S Lourenço formou um L foram tantas as transfigurações e tão diversas as figuras em que Inácio variou o rosto o gesto as ações que acabaram de se desenganar os olhos do profeta como se tinham desenganado os do pintor Ali ficaram ambos os retratos suspensos e imperfeitos e acabou de conhecer o céu e a terra que o retrato de Inácio se não podia reduzir a uma só figura e que não podia ser copiado em uma só imagem como os outros santos quem era feito à semelhança de todos Et vos similes hominibus IV Inácio tomado por partes tinha semelhantes tomado no todo não tinha semelhantes O homem compêndio universal de todas as criaturas considerado por partes é semelhante a todas mas considerado o homem todo não tem seme1hantes como diz o Gênesis Abraão os patriarcas e Santo Inácio O possesso livre do demônio com a invocação de Santo Inácio A espada de Golias e o santo Temos visto a Inácio semelhante a homem resta ver a Inácio homem sem semelhante Mas do mesmo que temos dito nasce a dificuldade e a dúvida do que temos para dizer Se Inácio semelhante a tantos homens como pode ser que Inácio fosse homem sem semelhante Se era tão semelhante a tantos como não tinha nem teve semelhante Santo Tomás dando a razão por que a Igreja aplica a muitos santos aquelas mesmas palavras que o Eclesiástico disse de Abraão Non est inventus similis illi qui conservavit legem excelsi9 diz que se verificam daquela graça ou prerrogativa particular em que Deus costuma singularizar a cada um dos santos e fazêlo respectivamente mais excelente que os outros Mas esta razão não tem lugar em Santo Inácio porque já vimos que lhe deu Deus por exemplar a todos os santos e que ele foi semelhante não a um senão a todos imitando a cada um naquela graça e perfeição em que foi mais excelente Hugo cardeal diz que se hão de entender as palavras Non est inventus similis illi daquela idade em que cada um dos santos floresceu e assim vemos que tendose dado este elogio a Abraão se deu também a Jó Quod non sit sinilis ilii in terra10 porque cada um na sua idade foi singular e não teve semelhante Mas também esta razão não convém a Santo Inácio porque os santos que Deus lhe propôs naquela crônica universal em cujo espelho ele compôs e retratou a sua vida não foram os santos particulares de uma só idade senão os de todas as idades e de todos os séculos Pois se Santo Inácio foi semelhante a tantos como pode ser que não tivesse semelhante Digo que muito facilmente se distinguirmos as partes e o todo Tomado Santo Inácio por partes era semelhante todo Santo Inácio não tinha semelhante Vede se o provo Criado o céu e os elementos no céu criou Deus os anjos no ar as aves no mar os peixes na terra as plantas os animais e ultimamente o homem Estando porém desta maneira o universo cheio povoado e ornado de tanta imensidade e variedade de criaturas diz o texto sagrado que em todas elas não se achava uma que fosse semelhante ao homem Adae vero non inveniebatur adiutor similis ejus11 A mim pareciame que antes se havia de dizer o contrário porque demonstrativamente se convence que não se acha criatura alguma em todo o mundo que não tenha semelhança com o homem Todas as criaturas deste mundo não falando no homem ou são viventes ou não viventes Se não são viventes são os céus os elementos as pedras Se são viventes ou vivem vida vegetativa e são as plantas ou vivem vida sensitiva e são os animais ou vivem vida racional e são os anjos e tudo isso se acha no homem porque o homem dos elementos tem o corpóreo das plantas tem o vegetativo dos animais tem o sensitivo dos anjos tem o racional Esta foi a razão e o sentido como notou Santo Agostinho com que Cristo chamou ao homem toda criatura quando disse aos apóstolos Praedicate omni criaturue12 porque o homem é um compêndio universal de todas as criaturas e todas as criaturas cada uma segundo sua própria natureza estão recompiladas e retratadas no homem Pois se todas as criaturas quantas Deus criou neste mundo têm tanta semelhança como homem e o homem por sua própria natureza é semelhante não a uma ou algumas senão a todas as criaturas como diz o texto sagrado que entre todas as criaturas não se achava semelhante ao homem Non inveniebatur similis ejus Porque ainda que o homem considerado por partes era semelhante a todas as criaturas considerado todo o homem ou o homem todo nenhuma outra criatura era semelhante a ele As partes eram semelhantes o todo não tinha semelhante De maneira que a mesma semelhança que as criaturas tinham com Adão dividida e por partes era semelhança unida e por junto era diferença Assim também Santo Inácio em respeito dos outros santos a quem eu sempre respeito Santo Inácio parte por parte era semelhante todo Santo Inácio não tinha semelhante Adão semelhante sem semelhante entre todas as criaturas Inácio semelhante sem semelhante entre todos os santos No mesmo texto do Eclesiástico que se nos opunha temos uma confirmação admirável desta dessemelhança composta e fundada em muitas semelhanças Diz o texto que Abraão não teve semelhante Non est inventus similis illi Eclo 4420 e em prova deste elogio e desta proposição tão singular vai logo o mesmo texto contando as excelências e prerrogativas de Abraão Mas é muito digno de notar que em todas as coisas que assim se dizem deste grande patriarca houve outros patriarcas que foram semelhantes a ele Diz o texto que recebeu Abraão e observou o pacto da circuncisão In carne ejus stare fecit testamentum13 e isso mesmo fez Moisés Diz que foi fiel em sacrificar a seu filho Fidelis in tentatione inventus est14 e isso mesmo fez Jefté Diz que o fez crescer no mundo Crescere illum dedit quasi terrae cumulum15 e isso mesmo teve José Diz que lhe deu Deus por herança de mar a mar e do rio até os fins da terra Haereditare a mari usque ad mare et a flumine usque ad terminos terrae16 e isso mesmo se lê expressamente de Salomão Diz que lhe deu Deus a bênção de todas as gentes Benedictionem omnium gentium dedit illi17 e essa mesma benção pelas mesmas palavras deu o mesmo Deus a Isac Pois se Moisés Jefté José Salomão Isac foram semelhantes a Abraão nas mesmas graças nas mesmas excelências nas mesmas prerrogativas como diz o oráculo divino Non est inventus similis illi que nenhum se achou semelhante a Abraão Porque vai muito de se acharem as prerrogativas divididas em muitos ou estarem juntas em um só Et quae divisa beatos efficiunt collectatenes18 Abraão dividido e por partes teve muitos semelhantes todo Abraão e por junto ninguém lhe foi semelhante As semelhanças de Abraão divididas faziam a cada um semelhante a Abraão as semelhanças de Abraão unidas faziam a Abraão dessemelhante a todos Non est inventus similis illi Ó Abraão ó Inácio Abraão semelhante a todos os patriarcas mas entre todos os patriarcas sem semelhante Inácio semelhante a todos os santos mas entre todos os santos sem semelhante E se não vejamolo nos efeitos Para prova efetiva desta diferença tenho um testemunho muito legal e muito desapaixonado por ser testemunho do maior inimigo Em Germânia tendose o demônio apoderado de um homem estava tão forte e tão rebelde que a tudo resistia Aplicaramselhe todos os remédios naturais e divinos repetiramse por muitas vezes os exor cismos mas o demônio sem se render a nada Resolveuse o exorcista a invocar todo o exército do céu contra aquele soberbo espírito e começou assim pela ordem das ladainhas Sancte Michael Sancte Gabriel Omnes Sancti Angeli et Archangeli O demônio zombando Sancte Joannes Baptista Omnes Sancti Patriarchae et Prophetae O demônio sem fazer caso Soocte Petre Sancte Paule Omnes Sancti Apostoli et Evangelistae Nenhum efeito Sancte Stephane Sancte Laurenti Omnes Sancti Martyres Cada vez mais rebelde Sancte Gregori Sancte Ambrosi Omnes Sancti Ponttfices et Confessores Omnes Sancti Doctores Mais aterrado mais pertinaz mais furioso Sancte Antoni Nada Sancte Benedicte Como dantes Sancte Bernarde Nenhum abalo Sancte Dominice A ter mão fortemente Sancte Francisce A mesma pertinácia Sancte Ignati Em soando o nome de Santo Inácio desampara o demônio deixa o homem desaparece e nunca mais tornou Torna cá demônio espera Ainda que maligno e soberbo tu não és racional Não és entendido Sim Pois se resistes aos anjos que te lançaram do céu se resistes aos apóstolos a quem Cristo deu domínio sobre ti se resistes aos patriarcas e profetas aos confessores aos pontífices aos doutores aos mártires como te rendes só ao nome de Inácio Se cuidas que hei de cuidar por isso que Santo Inácio é maior que os outros santos enganaste nem eu cuido tal coisa nem seria filho de Santo Inácio se o cuidara Ser sem semelhante que é o que eu digo não significa maioria significa somente diferença E esta é a diferença que o demônio muito a seu pesar confessou com o efeito não obedecendo à invocação dos outros santos e rendendose só ao nome de Inácio para que conhecesse o mundo por este testemunho público do inferno ou verdadeiramente da providência e onipotência divina que ainda no concurso de todos os santos é Inácio sem semelhante Aquela espada com que Davi matou ao gigante Golias disse o mesmo Davi que não havia outra semelhante a ela Non est alter huic similis 1 Rs 219 E que fez aquela espada para que se diga dela que não tinha semelhante Fez no desafio de Davi o que neste caso fez Santo Inácio que também em algum tempo foi espada do mesmo a quem depois cortou a cabeça Plantouse armado no campo o soberbíssimo gigante desafiou a todo o exército de Saul a todas as doze tribos de Israel e em todas não houve uma espada que se atrevesse contra tão poderoso deliberado e belicoso inimigo Entre os demônios também há gigantes e tão valentes e belicosos que contra o poder dos maiores santos se mostram invencíveis Assim o experimentaram os apóstolos naquele terrível demônio de quem disseram a Cristo que o não puderam arrancar do posto Non potuimus ejicere eum Mc 9 27 O Golias destes gigantes do inferno era este soberbíssimo espírito a quem rendeu Santo Inácio Provocou o exorcista contra ele a todo o exército dos bem aventurados e todas as doze tribos do céu Contai se foram doze Provocou os anjos e os arcanjos os patriarcas e os profetas os apóstolos e os evangelistas os confessores e os pontífices os dou tores e os mártires os sacerdotes e os levitas E houve algum neste caso que o rendesse que o sujeitasse que o vencesse Nenhum Só Inácio sendo tão rebelde o rendeu Só Inácio sendo tão obstinado o sujeitou Só Inácio sendo tão invencível o venceu Confesse logo o demônio confesse o inferno e também o céu que Inácio entre todos os santos é espada de Davi e que a ele como a ela se deve o elogio e glória de não ter semelhante Non est alter huic similis V O verdadeiro retrato do santo o livro de seu Instituto A Companhia de Jesus e a Encarnação do Verbo Santo Inácio e os patriarcas fundadores de ordens Elias Paulo Jerônimo Agostinho Bento Bruno Bernardo João e Félix Domingos Francisco Caitano João de Deus e Santa Teresa E para que esta diferença e dessemelhança se conheça com toda a evidência e se veja com os olhos olhemos para o verdadeiro retrato de Santo Inácio Ninguém pôde retratar a Santo Inácio como vimos mas só Santo Inácio se retratou a si mesmo E qual é o verdadeiro retrato Qual é a vera efígie de Santo Inácio A vera efígie de Santo Inácio é aquele livro de seu Instituto que tem nas mãos O melhor retrato de cada um é aquilo que escreve O corpo retratase com o pincel a alma com a pena Quando Ovidio estava desterrado no Ponto um seu amigo traziao retratado na pedra do anel mas ele mandoulhe os seus verses dizendo que aquele era o seu verdadeiro retrato Grata tua est pietas sed carmina rnajor imago sunt mea quae mando19 Sêneca quando lia as cartas de Lucílio diz que o via Video te mi Lucili cum maxime audio20 E melhor autor que estes Santo Agostinho disse altamente que enquanto não vemos Deus em sua própria face o podemos ver como imagem nas Escrituras Pro facie Dei pone interim Scripturam Dei21 A primeira imagem de Deus é o Verbo gerado a segunda o verbo escrito O verbo gerado é retrato de Deus ad intra o verbo escrito é retrato de Deus ad extra E assim como Deus se retratou no livro das suas Escrituras a si Inácio se retratou no livro das suas Retratouse Inácio por um livro em outro livro O livro das vidas dos santos foi o original de que Santo Inácio é cópia o livro do Instituto da Companhia é a copia de que Santo Inácio é o original Mas com isso ser assim é certo que o Instituto de Santo Inácio é muito diferente e muito dessemelhante dos outros institutos Pois se o patriarca foi feito à semelhança dos outros patriarcas e o instituto à semelhança dos outros institutos como saiu o patriarca tão diferente e o instituto tão dessemelhante Porque Santo Inácio no que imitou dos outros patriarcas e no que imitou dos outros institutos ainda que tomou os gêneros não tomou as diferenças os gêneros eram alheios as diferenças foram suas Fezse Deus homem pelo mistério altíssimo da Encarnação e notou profundamente SantoTomás como já o tinha notado S João Damasceno que fazendose Deus homem não só tomou e uniu a si a natureza humana senão também todas as outras naturezas que tinha criado22 Pela criação saíram de Deus todas as naturezas pela Encarnação tomaram todas as naturezas a unirse a Deus Mas como se fez esta universal união Como uniu Deus a si todas as naturezas Santo Tomás Communicavit se Christo homini et per consequens omnibus generibus singulorum Tomou Deus no homem diz Santo Tomás não só a natureza humana senão também todas as naturezas mas não tomou as diferenças delas senão os gêneros Tomou o gênero dos elementos no corpóreo e ainda que pudera ser um elemento como o fogo da sarça não tomou a diferença de elemento Tomou o gênero das plantas no vegetativo e ainda que pudera ser uma planta como a Arvore da Vida não tomou a diferença de planta Tomou o gênero dos animais no sensitivo e ainda que pudera ser um animal como a pomba do Jordão não tomou diferença de animal Tomou o gênero dos anjos no racional e ainda que pudera ser um anjo como Gabriel não tomou a diferença de anjo De modo que tomou Deus no homem todas as outras naturezas quanto aos gêneros mas não quanto às diferenças porque os gêneros eram das criaturas as diferenças eram de Cristo Assim o fez o grande imitador de Cristo Inácio Uniu em si todos os patriarcas uniu no seu instituto todos os institutos mas o que tomou foram os gêneros o que acrescentou foram as diferenças o que tomou foram os gêneros e por isto é semelhante o que acrescentou foram as diferenças e por isso não tem semelhante Para glória universal de todos os patriarcas e para glória singular do nosso patriarca pois o dia é seu vejamos em uma palavra os gêneros e estas diferenças Falarei só dos patriarcas que têm religião em Portugal e seguirei a ordem de antigüidade Do grande patriarca e pai de todos os patriarcas Elias tomou Santo Inácio o zelo da honra de Deus Ambos tinham espada de fogo mas o fogo de Elias queimava o fogo de Inácio acendia o fogo de Elias abrasava o fogo de Inácio derretia Ambos como dois raios artificiais subiam direitos ao céu mas o de Elias acabava em estrondo o de Inácio em lágrimas De S Paulo primeiro pai dos eremitas tomou Santo Inácio a contemplação mas Paulo no deserto para si Inácio no povoado para todos Ambos elegeram o meio mais alto e mais divino mas com diferentes fins Paulo para evitar a perseguição de Décio Inácio para resistir aos Décios e às perseguições Paulo recolheuse ao sagrado da contemplação para escapar à tirania Inácio armouse do peito forte da contemplação para debelar os tiranos Do patriarca e doutor máximo S Jerônimo tomou Santo Inácio a assistência inseparável da Sede Apostólica no serviço universal da Igreja S Jerônimo era a mão direita da Igreja com que os pontífices escreviam Santo Inácio é o braço direito da Igreja com que os pontífices se defendem Assim o disse o Papa Clemente VIII à Companhia Vos estis brachium dextrun Ecclesiae Dei Vós sois o braço direito da Igreja de Deus Do único sol da Igreja Santo Agostinho porque os raios do entendimento não eram imitáveis tomou Inácio as labaredas do coração O amor de Agostinho chegou a dizer que se ele fora Deus deixara de o ser para que Deus o fosse Inácio com suposição menos impossível dizia que entre a certeza e a dúvida de ver a Deus escolheria a dúvida de o ver pela certeza de o servir Do patriarca pai de tantos patriarcas S Bento estendendo o Monte Cassino por todo o mundo tomou Santo Inácio as escolas e a criação dos moços Para quê Para que na prensa das letras se lhes imprimam os bons costumes e estudando as humanas aprendam a ser homens O senhor arcebispo último de Lisboa tão grande português como prelado e tão grande prelado como douto dizia que todos os homens grandes que teve Portugal no século passado saíram do pátio de Santo Antão Agora o não freqüentam tanto seus netos depois veremos se são tão grandes como seus avós Do patriarca S Bruno aquele horror sagrado pela natureza que tomaria Santo Inácio Tomou o perpétuo cilício Não o cuida assim o mundo mas sabemno as enfermarias e as sepulturas O cilício que anda entre o corpo e o linho não é o que mais pica o que cega o entendimento e nega a vontade este é o que afoga a alma e tira a vida Os outros cilícios mortificam este mata Do patriarca S Bernardo anjo em carne e por isso irmão de leite de Cristo tomou Santo Inácio a angélica pureza Em ambos foi favor especial da Mãe de Deus mas em Santo Inácio tão singular que desde o dia de sua conversão nunca mais nem no corpo nem na alma sentiu pensamento contrário E sendo os maiores inimigos da castidade os olhos naqueles em quem punha os olhos Santo Inácio infundia castidade Dos gloriosos patriarcas 5 João e S Félix a cuja religião deu o seu nome a mesma Trindade tomou Santo Inácio o ofício de redentor E porque a esta trindade humana faltava a terceira pessoa quis ele ser a terceira Desta maneira permitime que o explique assim o Redentor do gênero humano que tinha só uma subsistência divina ficou como subsistindo em três subsis tências humanas redentor em João redentor em Félix e redentor em Inácio mas naqueles imediatamente redentor dos corpos neste imediatamente redentor das almas Do ilustríssimo patriarca S Domingos a quem com razão podemos chamar o grande pai das luzes tomou Santo Inácio a devoção da Rainha dos anjos e a doutrina do Doutor Angélico A primeira devoção que fazia Santo Inácio todos os dias era rezar o Rosário e o farol que quis seguissem na teologia as bandeiras da sua Companhia foi a doutrina de Santo Tomás Mas concordou Santo Inácio essa mesma doutrina e essa mesma devoção com tal preferência que no caso em que uma se encontrasse com a outra a devoção da Senhora prevalecesse à doutrina e não a doutrina à devoção Assim se começou a praticar nas primeiras conclusões públicas que em Roma defendeu a Companhia e depois sustentou com tantos livros Do serafim dos patriarcas S Francisco tomou Santo Inácio por dentro as chagas por fora a pobreza E estimou tanto Inácio a estreiteza da pobreza seráfica que atou a pobreza com um voto e a estreiteza com outro Fazemos um voto de guardar a pobreza e outro voto de a estreitar Aos professos mandou Santo Inácio que pedissem esmola aos não professos que lhes desse a esmola a religião para que a não fossem buscar fora dela Por isso têm rendas os colégios e não as casas Do patriarca S Caitano ilustre glória do estado clerical e quase contemporâneo de Santo Inácio ainda que em algumas partes da Europa quiseram honrar com o mesmo nome a seus filhos não tomou Santo Inácio o nome porque o tinha dado a Jesus O que tomou deste apostólico instituto foi a divina providência e porque não fosse menos providência nem menos divina não só a tomou entre a caridade dos fiéis senão entre a barbaria dos gentios Finalmente do nosso insigne português S João de Deus tomou Santo Inácio a caridade pública dos próximos Ambos se uniram na caridade e a caridade se dividiu em ambos Tomaram ambos por empresa o remédio do gênero humano enfermo João de uma parte curando o corpo Inácio de outra parte curando a alma João com o nome de Deus que formou o barro Inácio com o nome de Jesus que reformou o espírito Não falo naquele grande prodígio da nossa idade a Santa Madre Teresa de Jesus porque veio ao mundo depois de Santo Inácio Mas assim como Deus para dar semelhante a Adão do lado do mesmo Adão formou a Eva assim para dar semelhante a Santo Inácio do lado do mesmo Santo Inácio formou a Santa Teresa O texto desta gloriosa verdade é a mesma santa Assim o deixou escrito de sua própria mão afirmando que do espírito de Santo Inácio formou parte do seu espírito e do instituto de Santo Inácio parte do seu Instituto23 E este foi o modo maravilhoso com que o patriarca Santo Inácio veio a sair semelhante sem semelhante Semelhante porque tomou os gêneros sem semelhante porque acrescentou as diferenças Semelhante porque imitou a semelhança de cada um sem semelhante porque uniu em si as semelhanças de todos Et vos similes hominibus VI Protesta o autor que as diferenças que ponderou entre Santo Inácio e os outros fundadores posto que pareçam vantagens não são mais que semelhanças Santo Inácio como Moisés se não excedera a glória dos outros patriarcas fora menor porque veio depois Como diz S Paulo o Verbo para mostrar a igualdade que tem com o Pai tornouse dessemelhante fazendose homem a fim de que no excesso ficasse proporcionada a igualdade e na diferença a semelhança Tenho acabado as duas partes do meu discurso mas temo que não falte quem me argüa de que nesta última excedi os limites dele porque as diferenças que acrescentei às semelhanças parece que desfazem as mesmas semelhanças Comparei Santo Inácio com os patriarcas santíssimos das outras religiões sagradas e na mesma comparação parece que introduzi ou distingui alguma vantagem mas isso é o que eu nego Ainda que faço de meu santo patriarca a estimação que devo e sua santidade merece e ainda que sei as licenças que concede o dia próprio ao encarecimento dos louvores dos santos conheço porém e reconheço que nem eu podia pretender tal vantagem nem desejarlhe maior grandeza que a semelhança de tão esclarecidos exemplares e isso o que só fiz Digo pois e protesto que as diferenças que ponderei posto que pareçam vantagens não são mais que semelhanças antes acrescento que nenhuma delas fora semelhança se não tivera alguma coisa de vantagem porque essa é a prerrogativa dos que vieram primeiro Santo Inácio veio depois e muito depois daqueles gloriosíssimos patriarcas e quem vem depois se não excede não iguala se não é mais que semelhante não é semelhante No capítulo 44 e no 45 do Eclesiástico faz o texto sagrado um elogio geral de todos os patriarcas antigos começando desde Enoc E chegando a Moisés diz assim Similem illum fecit in gloria sanctorum Eclo 452 Fêlo Deus semelhante aos outros santos na glória de suas obras Este é o elogio de Moisés que não só parece moderado e curto senão muito inferior e quase indigno da fama e das ações de um herói tão singularmente grande Se lermos as histórias dos antigos patriarcas acharemos que as ações e as maravilhas de Moisés excederam quase incomparavelmente às de todos os passados Não me detenho em o demonstrar porque fora matéria muito dilatada e me mortifico assaz em não fazer um paralelo de Moisés com Santo Inácio Um que falava com Deus facie ad faciem Gên 3230 outro que o viu tantas vezes Um legislador famoso outro singularíssimo legislador um conquistador da Terra de Promissão outro conquistador de novos mundos Um domador do Mar Vermelho outro do oceano e de tantos mares Um que cedeu a glória de seus trabalhos a Josué outro a Jesus Um que tirou do cativeiro seiscentas mil famílias outro famílias cidades e reinos sem conta Um que pelo zelo das almas não duvidou em ser riscado dos livros de Deus outro que não ficou atrás em semelhante excesso Pois se Moisés excedeu tanto as glórias dos outros patriarcas como não diz a Escritura que lhes foi avantajado senão somente semelhante Similem illum fecit in gloria sanctorum Tudo isto não avançou mais que a fazer uma semelhança Não Porque os outros patriarcas foram primeiro Moisés veio depois e ainda que excedesse muito aos primeiros não chegou mais que a ser semelhante Se não excedera fora menor porque excedeu foi igual O excesso fez a semelhança a maioria a igualdade De todos os patriarcas das sagradas religiões só um temos na Escritura que é Elias S João Batista foi o maior dos nascidos e essa maioria comparada com Elias onde o chegou Não a ser maior que Elias senão a ser como ele Venit Joannes Baptista in Spiritu et virtute Eliae24 Os que vêm depois comparados com os que vieram antes não se medem tanto por tanto senão tanto por mais Se fizestes mais sois igual se fizestes tanto sois menos E qual é a razão deste modo de medir que verdadeiramente parece desigual O igual ficar menor e o maior ficar igual não é desigualdade Não quando a comparação se faz com os que foram primeiro porque essa é a prerrogativa da prioridade Os primeiros sempre têm a vantagem de ser primeiros e esta primazia ou prio ridade tem de si mesma tal excelência que comparada entre igual e igual sempre fica superior e é necessário que a mesma igualdade se supra com algum excesso para não ser ou parecer menos que igualdade Não há nem se pode conceber maior desigualdade que a das Pessoas Divinas Vede agora o que fez a Segunda Pessoa não para ser mas para provar que é igual à primeira Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens25 Sendo o Verbo diz S Paulo imagem substancial do Padre e igual a ele em tudo para mostrar que esta desigualdade era sua e não alheia própria e não roubada natural verdadeira e não fingida tomou a forma de servo fezse homem padeceu e remiu o mundo Esta conseqüência de S Paulo tem dado muito que entender a todos os Padres e expositores Porque para o Verbo mostrar a igualdade que tem com o Pai parece que se havia de deixar estar à sua destra no mesmo trono e para mostrar que era imagem e veraefígie sua como leu Tertuliano parece que como espelho do mesmo Padre havia de retratar em si mesmo todas as suas ações somente e nenhuma outra Se o Padre criou o mundo crieo também como criou o Filho se governa governe se decreta decrete se manda mande E se o Padre se não fez homem nem remiu o mundo não seja ele também homem nem Redentor porque tomar o Filho outra forma isto é a forma humana que o Padre não tomou e fazer o que ele não fez parece que era desigualar a igualdade e desfazer a proporção e mudar a seme lhança de verdadeira e perfeita imagem Pois se o Verbo se quer mostrar igual por que se desiguala Se se quer mostrar semelhante por que se desassemelha e por que faz o que o Padre não fez Porque o Padre era a primeira pessoa e o Filho a segunda e para se mostrar igual e semelhante havia de fazer mais No Padre não há prioridade de tempo nem de natureza mas há prioridade de origem o Pai é a primeira fonte da divindade de quem o Filho a recebeu o Pai é o primeiro exemplar de quem o Filho é imagem enfim o Pai é a primeira pessoa e o Filho a segunda e é tal a prerrogativa da prioridade qualquer que seja ainda que não seja nem possa ser maioria que para o Verbo mostrar ao mundo a inteireza da sua igualdade e a perfeição da sua semelhança foi conveniente que fizesse mais de que o Padre fizera Desta maneira a nosso modo de entender supriu o Verbo com o excesso das ações a prioridade da origem e proporcionou a prerrogativa do exemplar com os novos resplendores da semelhança E se isto foi decente e conveniente na igualdade de Deus entre a segunda pessoa e a primeira bem se vê quão necessário será na desigualdade dos homens Excedeu o Batista a Elias para lhe ser igual excedeu Moisés aos outros patriarcas para lhes ser semelhante Logo ainda que Santo Inácio pareça que excedeu aos exemplares santíssimos que imitou necessariamente havia de ser assim sendo eles primeiro para que no excesso ficasse proporcionada a igualdade e na diferença a semelhança Et vos similes hominibus VII O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as pefeições de todos os santos foi para que nele achássemos junto o que nos outros se acha dividido Como o maná tinha o sabor de todos os manjares Santo Inácio é um compêndio de todos os santos Acabemos com o fim O fim para que Deus ajuntou em Santo Inácio as semelhanças e perfeições de todos os santos foi para que neste grande santo achássemos junto o que nos outros santos se acha dividido Santo Inácio se bem se consideram os princípios e fins de sua vida foi o fruto do Flos Sanctorum O Flos Sanctorum era a flor Santo Inácio foi o fruto Se de todas as flores se compusesse uma só flor esta flor havia de ter o cheiro de todas as flores e se desta flor nascesse um fruto este fruto havia de ter os sabores de todos os frutos E esta maravilha fez Deus em Santo Inácio O livro foi a flor ele o fruto um fruto que contém em si todos os sabores um santo que sabe a tudo o que cada um deseja e há mister O maná era semelhante sem semelhante semelhante porque tinha o sabor de todos os manjares sem semelhante porque nenhum manjar sabia a tudo como ele Por isso se chamou maná ou manhu Êx 1615 que quer dizer Quid est hoc Que é isto E a esta pergunta se respondia é tudo o que quiserdes O mesmo digo eu de Santo Inácio Tudo o que quiserdes tudo o que desejardes tudo o que houverdes mister achareis neste santo ou neste compêndio de todos os santos Essa foi a razão por que ordenou a Providência divina que concorressem e se ajuntassem neste grande exemplar tanta diversidade de estados de exercícios de fortunas Nasceu fidalgo foi cortesão foi soldado foi mendigo foi peregrino foi preso foi estudante foi graduado foi escritor foi religioso foi pregador foi súdito foi prelado foi legislador foi mestre de espírito e até pecador foi em sua mocidade depois arrependido penitente e santo Para quê Para que todos achem tudo em Santo Inácio Omnibus omnia factus sum26 O fidalgo achará em Santo Inácio uma idéia da verdadeira nobreza o cortesão os primores da verdadeira polícia o soldado os timbres do verdadeiro valor O pobre achará em Santo Inácio que o não desejar é mais certa riqueza o peregrino que todo o mundo é pátria o perseguido que a perseguição é o caráter dos escolhidos o preso que a verdadeira liberdade é a inocência O estudante achará em Santo Inácio o cuidado sem negligência o letrado a ciência sem ambição o pregador a verdade sem respeito o escritor a utilidade sem afeite27 O religioso achará em Santo Inácio a perfeição mais alta o súdito a obediência mais cega o prelado a prudência mais advertida o legislador as leis mais justas O mestre de espírito achará em Santo Inácio muito que aprender muito que exercitar muito que ensinar e muito para onde crescer Finalmente o pecador por mais metido que se veja no mundo e nos enganos de suas vaidades achará em Santo Inácio o verdadeiro norte de sua salvação achará o exemplo mais raro da conversão e mudança de vida achará o espelho mais vivo da resoluta e constante penitência e achará o motivo mais eficaz da confiança em Deus e na sua misericórdia para pretender para conseguir para perseverar e para subir ao mais alto cume da santidade e graça com a qual se mede a glória SERMÃO DA TERCEIRA DOMINGA DA QUARESMA NA CAPELA REAL ANO 1655 Cum ejecisset daemonium locutus est mutus et admiratae sunt turbae1 I O milagre deste dia representa o mistério da Confissão perfeita o mudo fala depois da expulsão do demônio Na parábola das bodas o pecador é condenado por não falar Na parábola do filho pródigo auto sacramental da confissão o pecador é condenado antes de falar As piores confissões as em que o mudo fala e o demônio fica como no caso de Judas A confissão das confissões será a matéria do presente sermão Como a turba que presenciou o milagre o autor se admira das confissões malfeitas Quando ou as cortes eram mais cristãs ou os pregadores menos de corte quando se fazia menos caso da graça dos ouvintes para que eles só fizessem caso da graça de Deus quando a doutrina que se tirava do Evangelho eram verdades sólidas e evangélicas e não discursos vãos e inúteis quando finalmente as vozes dos pre cursores de Cristo chamavam os pecadores ao Jordão e os levavam às fontes dos sacramentos o argumento comum deste Evangelho e a matéria utilíssima deste dia era a confissão Esta antigüidade determino desenterrar hoje esta velhice determino pregar e só me pesa que há de ser ainda que eu não queira com grande novidade O pior estado desta vida e o mais infeliz de todos é o pecado Mas se neste extremo de mal pode haver ainda outro mal maior é o de pecado e mudo O mais desventurado homem de que Cristo nos quis deixar um temeroso exemplo foi aquele da parábola das bodas a quem o rei atado de pés e mãos mandou lançar para sempre no cárcere das trevas O rei era Deus o cárcere o infemo e o homem foi o mais desventurado de todos os homens porque no dia e no lugar em que todos se salvaram só ele se condenou E em que esteve a sua desgraça Só em pecar Não porque muitos depois de pecar se salvaram Pois em que esteve Em emudecer depois de pecar Estranhoulhe o rei o descomedimento de se assentar à sua mesa e em tal dia com vestido indecente e ele em vez de solicitar o perdão da sua culpa confessandoa confirmou a sua condenação emudecendo At ilIe obinutuit Mt 2212 E ele diz o evangelista emudeceu Aqui esteve o remate da desgraça Mais mofino em emudecer que em pecar porque cometido o pecado tinha ainda o remédio da confissão mas emudecida a confissão nenhum remédio lhe ficava ao pecado Pecar é enfermar mortalmente pecar é emudecer é cair na enfermidade é renunciar o remédio Pecar é fazer naufrágio o navegante pecar e emudecer é irse com o peso ao fundo e não lançar mão da tábua em que se pode salvar Pecar é apagaremse as lâmpadas às virgens néscias pecar e emudecer é apagarselhes as lâmpadas e fecharselhes as portas O pecado tem muitas portas para entrar e uma só para sair que é a confissão Pecar é abrir as portas ao demônio para que entre à alma pecar e emudecer é abrirlhe as portas para que entre e cerrarlhe a porta para que não possa sair Isto é o que em alegoria comum temos hoje no Evangelho Um homem endemoninhado e mudo Endemoninhado porque abriu o homem as portas ao pecado mudo porque fechou o demônio a porta à confissão E que fez Cristo neste caso Maior caso ainda Erat ejiciens daemonium Lc 11 14 Não diz o evangelista que lançou Cristo o demônio fora senão que o estava lançando Achava Cristo repugnância achava força achava resistência porque não há coisa que resista a Deus neste mundo senão um pecador mudo Tantas vozes de Deus aos ouvidos e o pecador mudo Tantos raios e tantas luzes aos olhos e o pecador mudo Tantas razões ao entendimento tantos motivos à vontade tantos exemplos e tão desastrados e tão repetidos à memória e o pecador mudo Que fez aí fim Cristo Aplicou a virtude de seu poder eficaz bateu à porta porque não bastou bater à porta insistiu apertou venceu saiu rendido o demônio e falou o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus Este foi o fim da batalha glorioso para Cristo venturoso para o homem afrontoso para o demônio maravilhoso para os circunstantes e só para o nosso intento parece que menos próprio e menos airoso Diz que primeiro saiu o demônio e depois falou o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus E nesta circunstância parece que se encontra a ordem do milagre com a essência do mistério Na confissão primeiro fala o mudo e depois sai o demônio primeiro se confessa o pecador e depois se absolve o pecado Logo se neste milagre se representa o mistério da confissão primeiro havia de falar o mudo e depois havia de sair o demônio Antes não e por isso mesmo porque aqui não só se representa a confissão senão a confissão perfeita e a confissão perfeita não é aquela em que primeiro se confessa o pecado e depois se perdoa senão aquela em que primeiro se perdoa e depois se confessa Resolveuse o pródigo a tomar para casa do pai e confessar sua culpa e como bom penitente dispôs e ordenou primeiro a sua confissão Ibo ad patrem meum et dicam ei Pater peccavi in coelum et coram te2 Feita esta primeira diligência pôsse a caminho e estando ainda muito longe Cum adhuc longe esset eis que subitamente se acha entre os braços do pai apertandoo estreitamente neles e chegandoo ao rosto com as maiores carícias Accurrens cecidit super collum ejus et osculatius est eum Então se lançou o pródigo a seus pés e fez a sua confissão como a trazia prevenida Et dixit ei filius Pate peccavi in coelum et coram te Pois agora filho pródigo Não era isso o que vós tínheis ensaiado Enfim temos a comédia turbada O pai saiu cedo o filho falou tarde Perderam as figuras as deixas erraram a história trocaram o mistério Esta história do pródigo não é a comédia ou o ato sacramental da confissão Sim Logo primeiro havia o pródigo de lançarse aos pés do pai e fazer o papel da sua confissão como a trazia estudada e depois havia o pai de lançarlhe os braços e restituilo à sua graça Pois por que se troca toda a ordem e primeiro lhe lança os braços o pai e depois se confessa o filho Porque representavam ambos não só o ato sacramental da confissão senão da confissão perfeitíssima Na confissão menos perfeita primeiro se confessa o pecado e depois se recebe a graça na confissão perfeitíssima primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado A confissão menos perfeita começa pelos pés de Deus e acaba pelos braços a confissão perfeitíssima começa pelos braços e acaba pelos pés como aconteceu ao pródigo A razão é clara porque a confissão perfeitíssima é aquela em que o pecador vai aos pés de Deus verdadeiramente contrito e arrependido de seus pecados Vai verdadeiramente contrito e arrependido Logo já vai em graça já vai perdoado já vai absolto E esta é a confissão que hoje temos no milagre do Evangelho Confissão em que primeiro se recebe a graça e depois se confessa o pecado confissão em que primeiro sai o demônio e depois fala o mudo Cum ejecisset daemonium locutus est mutus Se não houvera no mundo mais modos de confissões que estes dois que tenho dito não me ficava a mim para fazer hoje mais que seguir como dizia as pisadas dos nossos pregadores antepassados e exortar à freqüência deste sacramento e à confissão e arrependimento dos pecados Mas se me não engano ainda há outro modo de confissão e mui própria da corte Deve ser como os trajos confissão à la moda Dissemos que havia confissão em que primeiro sai o demônio e depois fala o mudo e confissão em que primeiro fala o mudo e depois sai o demônio Ainda há mais confissão E qual é Confissão em que o mudo fala e o demônio não sai con fissão em que o mudo fala e o demônio fica Judas quer dizer confessio confissão E assim como no apostolado de Cristo houve um Judas traidor e outro Judas santo assim há hoje na Igreja confissões santas e confissões traidoras Judas o traidor não foi traidor mudo antes a boca e a língua foi o principal instrumento de sua traição Ave Rabbi et osculatus est eum3 Desta sorte são muitas das confissões que hoje vemos no mundo e por isso eu há muito que me temo muito mais das confissões que dos pecados E de fé que toda a verdadeira confissão causa graça na alma Nunca houve tanta freqüência de confissões como hoje contudo vemos muito poucos efeitos da graça Qual será a causa disto tanta confissão e tão pouca graça Eu não sei a causa que é mas sei a causa que só pode ser A causa que só pode ser é que são confissões em que falam os mudos mas não saem os demônios A confissão bem feita é sacramento a malfeita é sacrilégio a confissão bem feita tira todos os pecados a malfeita acrescenta mais um pecado a confissão bem feita lança o demônio fora a malfeita meteo mais dentro E se cada dia vos vemos mais entrados e mais penetrados do demônio que fé quereis que tenhamos nas vossas confissões Ora eu hoje hei de tratar da confissão como prometi Mas porque o remédio se deve aplicar conforme a chaga não hei de tratar da confissão dos pecados senão da confissão das confissões Eis aqui a velhice e a novidade do assunto que trago hoje Não vos hei de exortar a que confesseis os pecados senão a que confesseis as confissões Os escrúpulos que a isto me movem irei discorrendo em um exame particular Eu farei o exame para que vós façais a confissão eu serei o escrupuloso para que vós sejais os confessados Mas como a matéria é tanto das portas a dentro da alma e poderia parecer temeridade e querela julgar de fora direi primeiro qual é a minha tenção em tudo o que disser Este milagre do diabo mudo fez diferentes efeitos nos ânimos dos presentes Houve quem louvou houve quem condenou e houve quem admirou Uma mulher devota louvou Beatus venter quite portavit4 Os escribas e fariseus condenaram In Beelzebub principe daemoniorum ejiciit daemonia5 As turbas a gente do povo admirou Et admiratae sunt turbae A estes últimos me hei de acostar hoje Não hei de ser dos que louvam nem hei de ser dos que condenam só hei de ser dos que admiram As vossas confissões vistas a uma luz parece que têm que louvar vistas a outra luz parece que têm que condenar eu nem as louvarei nem as condenarei somente me admirarei delas Estas minhas admirações são as que haveis de ouvir Não será o sermão admirável mas será admirativo Et admiratae sunt turbae II As confissões em que o mudo fala e o demônio fica Há homens que ainda depois de falar continuam mudos porque falam no que dizem e são mudos no que calam O pecado e a confissão de Arão Cum ejecisset daemonium locutus est mutus et admiratae sunt turbae Hão de se confessar as confissões como dizíamos e as confissões que se hão de confessar são aquelas em que o mudo fala e o demônio fica Mas como pode ser falando em termos de confissão que o demônio fique se o mudo fala No material das palavras temos a resposta Locutus est mutus falou o mudo Se ele falou como lhe chamam mudo Porque na confissão há homens que ainda depois de falar são mudos Falam pelo que dizem e são mudos pelo que calam falam pelo que declaram e são mudos pelo que dissimulam falam pelo que confessam e são mudos pelo que negam Fez o Batista aquela sua famosa confissão posto que confissão em outro gênero e diz o evangelista Confessus est et non negavit et confessus est Jo 1 20 Confessou e não negou e confessou Notável duplicação de termos Se tinha dito que confessou por que acrescenta que não negou Confessus est et non negavit E depois de dizer que confessou e não negou por que torna a repetir que confessou Confessus est et non negavit et confessus est Não bastava dizer que confessou Não porque nem todo o confessar é confessar Quem confessa e nega não confessa só confessa quem confessa sem negar E porque João confessou e não negou por isso diz o evangelista que confessou Confessus est et non negavit et confessus est Ah quantas confissões negadas Ah quantas confissões não confessadas se absolvem sem absolvição neste sacramento Virá o dia do Juízo virá o dia daquele grande cadafalso do mundo quantos se verão ali confessos e negativos confessos e diminutos confessos e não confessos e por isso condenados Admirável coisa é ver muitos pecados como se fazem e ouvir como se confessam Vistos fora da confissão e em si mesmos são pecados e graves pecados ouvidos na confissão e com as cores de que ali se revestem ou não parecem pecados ou parecem virtudes Seja exemplo para que nos acomodemos ao lugar o pecado e a confissão de um grande ministro Trataram os hebreus de ter um Deus ou um ídolo que em lugar de Moisés os guiasse pelo deserto Vãose ter com Arão e dizem lhe Fac nobis deos qui nos praecedant Êx 321 Arão fazeinos um deus ou uns deuses que vão diante de nós Arão neste tempo era supremo ministro eclesiástico e secular porque em ausência de Moisés ficara com o governo do povo e como cabeça espiritual e temporal tinha dobrada obrigação de não consentir com os intentos ímpios dos idólatras e de os repreender e castigar como um atrevimento tão sacrílego merecia e de defender e sustentar a fé a religião o culto divino e quando mais não pudesse dar a vida e mil vidas em sua defesa Isto é o que Arão tinha obrigação em consciência de fazer Mas que é o que fez Ide advertindo as palavras porque todas importam muito para o caso Respondeu Arão em conseqüência da proposta daquela gente que fossem às suas casas que tirassem as arrecadas das orelhas a suas mulheres a suas filhas e a seus filhos conforme o uso da Ásia e que lhas trouxessem todas Tollite inaures aureas de uxorum filiorumque etfiliarum vestrarum et afferte ad me Trazidas as arrecadas tomouas Arão derreteu o ouro e feitas suas formas segundo a arte fundiu e fez um bezerro Quas cum ilIe accepisset formavit opere fusorio fecitque ex eis vitulum conflatibilem Tanto que apareceu acabada a nova imagem aclamaram logo todos em presença de Arão que aquele era o Deus que os tinha livrado do cativeiro do Egito E por se não mostrar menos religioso o sacerdote supremo Aedificavit altare coram eo et praeconis voce clamavit dicens Cras solemnitas Domini est Edificou Arão um altar pôs sobre ele o ídolo e mandou lançar pregão por todos os arraiais que no dia seguinte se celebrava a festa do Senhor chamando Senhor ao bezerro Há ainda mais blasfêmias e mais indignidades Ainda Surgentesque mane obtulerunt holocausta et hostias pacificas et sedit populus manducare et surrexerunt ludere Amanheceu o dia soleníssimo fizeram os sacerdotes muitos sacrifícios seguiramse aos sacrifícios banquetes e aos banquetes festas e danças tudo em honra e louvor do novo deus Até aqui ao pé da letra a primeira parte da história Pergunto agora E se Arão houvesse de confessar este pecado parecevos que tinha bem que confessar Pois assim aconteceu Houve de confessar o seu pecado Arão confessouo mas vede como o confessou que é muito para ver e para aprender Desceu Moisés do monte no mesmo ponto em que se estavam fazendo as festas vê o ídolo acendese em zelo argüi a Arão de todo o sucedido Quid tibi fecit hic populus ut induceres super eum peccatum maximum Que te fez este pobre povo para o fazeres réu diante de Deus do maior de todos os crimes Confessou Arão a sua culpa e confessoua por estes termos Tu nosti populum istum quod pronus sit ad malum Vós senhor sabeis que este povo é inclinado ao mal Dixeruntque mihi Fac nobis deos qui praecedant nos Disseramme que lhes fizesse deuses a quem seguissem Agora vai a confissão Idevos lembrando de tudo o que temos dito Quibus ego dlxi Quis vestrum habet aurum Tulerunt et dederunt mihi et projeci illud in ignem egressusque est hic vitulus Perguntei quem tinha ouro Foramno buscar e trouxerammo e eu lanceio no fogo e saiu este bezerro Há tal confissão Há tal caso no mundo Vinde cá Arão estai a contas comigo diante de Deus Vós não mandastes a todos estes homens mandado lhe chama o texto Fecit populus quae jusserat vós não mandastes a todos estes homens que fossem buscar as arrecadas de ouro de suas mulheres de suas filhas e de seus filhos e que lhas tirassem das orelhas e vo las trouxessem Pois como agora na confissão dizeis que perguntastes somente quem tinha ouro Dixi illis Quis vestrum habet aurum Mais Vós não tomastes o ouro não o derretestes não o fundistes não o formastes e fizestes o bezerro Formavit opere fusorio fecitque vitulum conflatibilem Pois como dizeis agora na confissão que lançastes o ouro no fogo e que o ídolo se fez a si mesmo e não vós a ele Projeci illud in ignem egressusque est hic vitulus Mais ainda Vós não fabricastes o altar Não pusestes nele o ídolo Não lhe dedicastes dia santo Não lhe chamastes Senhor Não lhe fizestes ou mandastes fazer sacrifícios holocaustos banquetes jogos festas Pois como na confissão agora calais tudo isto e não se vos ouve uma só palavra em matéria de tanto peso Eis aqui como dizem os pecados com as confissões e as confissões com os pecados E assim confessou os seus o maior ministro eclesiástico e secular do povo de Deus Falou Arão no que disse e foi mudo no que calou Locutus est mutus Mas notai que se fez grande injúria à pureza da confissão no que calou muito maior injúria lhe fez no que disse pelo modo com que o disse porque no que calou calou pecados no que disse fez de pecados virtudes Que é que calou Arão Calou o altar que levantara ao ídolo a adoração que lhe dera o nome do Senhor com que o honrara os pregões o dia solene as ofertas os sacrifícios as festas e sobretudo abrir a primeira porta e dar princípio às idolatrias do povo de Israel que duraram com infinitos castigos por mais de dois mil anos São boas venialidades estas para se calarem na confissão Pois isto é o que calou Arão E que é o que confessou ou como o confessou O que confessou foi o seu pecado mas o modo com que o confessou foi tão diverso que sendo o maior pecado parecia a maior virtude De maneira que se Deus não tivesse revelado a Moisés o que passava pudera Moisés por esta confissão de Arão pôlo no mesmo altar que ele tinha edificado O que Arão disse a Moisés foram estas palavras formais Dixi illis Quis vestrum habet aurum et tulerunt mihi et projeci illud in ignem Pediramme que lhes fizesse um ídolo pergunteilhes se tinham ouro trouxeramno e eu arremesseio no fogo Olhai como referiu a história Olhai como despintou a ação Olhai como enfeitou o pecado Pedir o ouro para fazer o ídolo e derretêlo e fundilo e formálo e expôlo para ser adorado isso não era só concorrer para a idolatria mas ser autor e dogmatista dela E isto é o que fez Arão Pelo contrário pedir o ouro de que o povo cego queria se formasse o ídolo e arremessálo no fogo era pôr o fogo à idolatria era abrasála era queimála era fazêla em pó e em cinza E isto é o que Arão confessou que fizera Julgai agora se têm muito que confessar semelhantes confissões e se são boas para lançar o demônio fora da alma ou para o meter mais dentro Falo da confissão de Arão cada um examine as suas Se as vossas confissões são como a de Arão têm muito que condenar se são como as do Batista têm muito que louvar Mas eu nem louvo com Marcela6 nem condeno com os fariseus admirome somente com as turbas Et admiratae sunt turbae III Confessionário geral de um ministro cristão Quis Quem sou eu O escrúpulo dos cargos Quantos ofícios tenho Assim como o sol o homem não pode presidir a mais de um hemisfério A Adão foram dados três ofícios dos quais não soube dar conta Escrúpulos da alma santa dos Cânticos e de Moisés grãoministro de Deus e de sua república Suposto pois que há confissões que merecem ser confessadas bem será que desçamos com a nossa admiração a fazer um exame particular delas para que cada um conheça melhor os defeitos das suas E para que o exame se acomode ao auditório não será das consciências de todos os estados senão só dos que têm o estado à sua conta Será um confessionário geral de um ministro cristão Os teólogos morais reduzem ordinariamente este modo de exame a sete títulos Quis Quid Ubi Quibus auxilus Cur Quomodo Quando7 A mesma ordem seguiremos eu para maior clareza do discurso vós para maior firmeza de memória Deus nos ajude Quis Quem sou eu Isto se deve perguntar a si mesmo um ministro ou seja Arão secular ou seja Arão eclesiástico Eu sou um desembargador da casa da suplicação dos agravos do paço Sou um procurador da coroa Sou um chancelermor Sou um regedor da justiça Sou um conselheiro de Estado de guerra do ultramar dos três estados Sou um vedor da fazenda Sou um presidente da câmara do paço da mesa da consciência Sou um secretário de estado das mercês do expediente Sou um inquisidor Sou um deputado Sou um bispo Sou um governador de um bispado etc Bem está já temos o ofício mas o meu escrúpulo ou a minha admiração não está no ofício senão no um Tendes um só destes ofícios ou tendes muitos Há sujeitos na nossa corte que têm lugar em três e quatro tribunais que têm quatro que têm seis que têm oito que têm dez ofícios Este ministro universal não pergunto como vive nem quando vive Não pergunto como acode a suas obrigações nem quando acode a elas Só pergunto como se confessa Quando Deus deu forma ao governo do mundo pôs no céu aqueles dois grandes planetas o sol e a lua e deu a cada um deles uma presidência ao sol a presidência do dia Luminare niajus ut praeesset diei e à lua a presidência da noite Luminare minus utpraeesset nocti8 E por que fez Deus esta repartição Porventura por que se não queixasse a lua e as estrelas Não porque com o sol ninguém tinha competência nem podia ter justa queixa Pois se o sol tão conhecidamente excedia a tudo quanto havia no céu por que não proveu Deus nele ambas as presidências Por que lhe não deu ambos os ofícios Porque ninguém pode fazer bem dois ofícios ainda que seja o mesmo sol O mesmo sol quando alumia um hemisfério deixa o outro às escuras E que haja de haver homem com dez hemisférios e que cuide ou se cuide que em todos pode alumiar Não vos admiro a capacidade do talento a da consciência sim Dirmeeis como doutos que deveis ser que no mesmo tempo em que Deus deu uma só presidência e um só hemisfério ao sol deu três presidências e três hemisférios a Adão Uma presidência no mar para que governasse os peixes outra presidência no ar para que governasse as aves outra presidência na terra para que governasse os outros animais Et praesit piscibus maris et volatilibus caeli et bestiis universaeque terrae Gên 126 E o mesmo é governar a animais que governar a homens E o mesmo é o estado da inocência em que então estava Adão e o estado da natureza corrupta e corruptíssima em que estamos hoje Mas quando tudo fora igual o exemplo nem faz por vós nem contra mim Por vós não porque naquele tempo não havia mais que um homem no mundo e era força que ele tivesse muitos ofícios Contra mim não antes muito por mim porque Adão com esses ofícios bem se vê a boa conta que deles deu Gên 323 Não eram passadas vinte quatro horas em que Adão servia os três ofícios quando já tinha perdidos os ofícios e perdido o mundo e perdido a si e perdidos a nós9 Se isto aconteceu a um homem que saía flamante das mãos de Deus com justiça original e com ciência infusa que será aos que não são tão justos nem tão cientes e aos que tem outros originais e outras infusões Não era cristão Platão e mandava na sua república que nenhum oficial pudesse aprender duas artes E a razão que dava era porque nenhum homem pode fazer bem dois ofícios Se a capacidade humana é tão limitada que para fazer este barrete são necessários oito homens de artes e ofícios diferentes um que crie a lã outro que a tosquie outro que a carde outro que a fie outro que a teça outro que a tinja outro que a tose e outro que a corte e a cosa se nas cidades bem ordenadas o oficial que molda o ouro não pode lavrar a prata se o que lavra a prata não pode bater o ferro se o que bate o ferro não pode fundir o cobre se o que funde o cobre não pode moldar o chumbo nem tornear o estanho no governo dos homens que são metais com uso de razão no governo dos homens que é a arte das artes como se hão de ajuntar em um só homem ou se hão de confundir nele tantos ofícios Se um mestre com carta de examinação dá má conta de um ofício mecânico um homem que muitas vezes não chegou a ser obreiro como há de dar boa conta de tantos ofícios políticos E que não faça disto consciência este homem Que se confesse pela quaresma e que continue a servir os mesmos ofícios ou a servirse deles depois da Páscoa Isto me admira Em semelhantes obrigações se viu metida uma hora a Alma Santa mas vede como ela confessou a sua insuficiência e depôs o seu escrúpulo Posuerunt me custodem in vineis vineam ineam non custodivi Puseramme por guarda das vinhas e eu não guardei a minha vinha Cânt 16 Pois ao menos Alma Santa a vossa vinha por vossa por que a não guardaste Porque a quem entregam muitas vinhas não pode guardar nenhuma Assim o confessa uma alma que se quer salvar Confessou a sua insuficiência e confessa a sua culpa Se alguém parece que pudera ter desculpa em tal caso era essa alma pelo que ela mesma diz Posuerunt me Puseramme Ainda quando vos pusessem nesses ofícios tínheis obrigação de depor os ofícios e confessar os erros E que será quando vós sois o que vos pusestes neles o que pretendestes o que buscastes o que os subornastes e o que porventura os tirastes a outrem para os pôr em vós Moisés aquele grãoministro de Deus e da sua república metendolhe o mesmo Deus na mão a vara e mandandoo que fosse libertar o povo respondeu Quis ego sum ut vadam ad pharaonem Ex 311 E quem sou eu Senhor ou que capacidade há em mim para esta comissão Mitte quem missurus es Êx 414 Mandai a quem vos possa servir como convém Oh ministro verdadeiramente de Deus Antes de aceitar o cargo representou a insuficiência e para que se visse que esta representação era consciência e não cortesia repugnou uma e outra vez e não aceitou senão depois que Deus lhe deu Arão por adjunto Tinha já Moisés muitos anos de governo do povo muitas cãs e muita experiência tornou a fazer outra proposta a Deus e quero referir os termos do memorial para que se veja quão apertados foram Non possum solus sustinere omnem hunc populum Núm 1114 Eu Senhor não posso só com o peso do governo deste povo Sin aliter tibi videtui obsecro ut inteficias me et inveniam gratiam in oculis tuis E quando vossa divina majestade não for servido de me aliviar peço e protesto a vossa divina majestade me tire a vida e receberei nisto muito grande mercê Não pediu o oficio para toda a vida nem para muitas vidas senão que lhe tirasse a vida só para não ter o ofício e com muita razão porque melhor é perder o ofício e a vida que reter o oficio e perder a consciência E que fez Deus neste caso Mandou a Moisés que escolhesse setenta anciãos dos mais prudentes e autorizados do povo e diz o texto que tirou Deus do espírito de Moisés e repartiu dele por todos os setenta Auferens de spiritu qui erat in Moyse et dans septuaginta viris Núm 1125 Eis aqui quem era aquele homem que se escusou do oficio De maneira que um homem que vale por setenta homens não se atreve a servir um só ofício E vós que vos fará Deus muita mercê que sejais um homem atreveisvos a servir setenta ofícios Não louvo nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae IV Quid O quê O que faz Que eleições O escrúpulo das eleições A predestinação e a parábola do profeta Isaías A confissão de Arão e as conseqüências desastrosas do seu pecado Quid Quê Depois de o ministro examinar que ministro ou que ministros é seguese ver o que faz Um dia do juízo inteiro era necessário para este exame Quid Que sentenças Que despachos Que votos Que consultas Que eleições Mas paremos nesta última palavra que é a de maiores escrúpulos e que envolve comumente todo o quid Não me atrevo a falar nesta matéria senão por uma parábola e ainda esta não há de ser minha senão do profeta Isaías Foi um homem ao mato diz Isaías ou fosse escultor de ofício ou imaginário de devoção Levava o seu machado ou a sua acha às costas e o seu intento era ir buscar um madeiro para fazer um ídolo Olhou para os cedros para as faias para os pinhos para os ciprestes cortou donde lhe pareceu um tronco e trouxeo para casa Partido o tronco em duas partes ou em dois cepos a um destes cepos meteulhe o machado e a cunha fendeuo em achas fez fogo com elas e aquentouse e cozinhou o que havia de comer O outro cepo pôslhe a regra lançoulhe as linhas desbastouo e tomando já o maço e o escopro já a goiva e o buril foio afeiçoando em forma humana Alisoulhe uma testa rasgoulhe uns olhos afiloulhe um nariz abriulhe uma boca ondeoulhe uns cabelos ao rosto foilhe seguindo os ombros os braços as mãos o peito e o resto do corpo até os pés E feito em tudo uma figura de homem pôlo sobre o altar e adorouo Pasma Isaías da cegueira deste escultor e eu também me admiro dos que fazem o que ele fez Um cepo conhecido por cepo feito homem e posto em lugar onde há de ser adorado Medietatem ejus combussi igni et de reliquo ejus idolumfaciam10 Duas ametades do mesmo tronco uma ao fogo outra ao altar Se são dois cepos por que os não haveis de tratar ambos como cepos Mas que um cepo haja de ter a fortuna de cepo e vá em achas ao fogo e que o outro cepo tão madeiro tão tronco tão informe e tão cepo como o outro o haveis de fazer à força homem e lhe haveis de dar autoridade respeito adoração divindade Dirmeeis que este segundo cepo que está muito feito e que tem partes Sim tem mas as que vós fizestes nele Tem boca porque vós lhe fizestes boca tem olhos porque vós lhe fizestes olhos tem mãos e pés porque vós lhe fizestes pés e mãos E se não dizeilhe que ande com esses pés ou que obre com essas mãos ou que fale com essa boca ou que veja com esses olhos Pois se tão cepo é agora como era dantes por que não vai também este para o fogo Ou por que não vem também o outro para o altar Há quem leve à confissão estas desigualdades Há quem se confesse dos que fez e dos que desfez A um queimastes a outro fizestes e de ambos deveis restituição igualmente Ao que queimastes deveis restituição do mal que lhe fizestes ao que fizestes deveis restituição dos males que ele fizer Fizesteslhe olhos não sendo capaz de ver restituireis os danos das suas cegueiras Fizesteslhe boca não sendo capaz de falar restituireis os danos das suas palavras Fizesteslhe mãos não sendo capaz de obrar restituireis os danos das suas omissões Fizesteslhe cabeça não sendo capaz de juízo restituireis os danos de seus desgovernos Eis aqui o encargo de ter feituras Então prezaivos de poder fazer e desfazer homens Quanto melhor fora fazer consciência dos que fizestes e dos que desfizestes Deus tem duas ações que reservou só para si criar e predestinar A ação de criar já os poderosos a têm tomado a Deus fazendo criaturas de nada a de predestinar também lha vejo tomada neste caso um para o fogo e outro para o altar Basta que também haveis de ter precitos e predestinados Se fostes precitos não sei de quê fostes mofino haveis de arder se fostes seu predestinado fostes ditoso haveis de reinar E haverá algum destes onipotentes que se tenha acusado alguma hora deste pecado de predestinação Acusado não escusado sim E por galante modo Saiu fulano com tal despacho saiu fulano com tal mercê E o que fez a mercê e o que fez o despacho e o que fez fulano é o mesmo que isto diz Se vós o fizestes para que dizeis que saiu O nosso Arão ao pé da letra Que fez Arão e que disse no caso do outro ídolo O que Arão fez foi que fundiu e forjou e formou o bezerro Formavit fecitque vitulum conflatilem Êx 32 4 E o que o mesmo Arão disse foi que o bezerro saíra Egressus que est hic vitulus Saiu Pois se vós o fizestes e se vós o fundistes e se vós o forjastes e vós o limastes se é certo que vós pedistes o ouro das arrecadas ou arrecadastes o ouro que não pedistes por que dizeis que saiu Egressus est Porque assim dizemos que fazem bezerros São tais as vossas feituras que vos afrontais de dizer que vós as fizestes Mas já que as negais aos olhos dos homens por que as não confessastes aos pés de Deus Pois credeme que o bezerro de ouro tem muito mais que confessar que ouro e bezerro E que tem mais que confessar Os danos particulares e públicos que dali se seguiram Seguiuse deste pecado quebrar Moisés as tábuas da lei escrita pela mão de Deus Projecit de manu tabulas et confregit eas11 Seguiuse ficar o povo pobre e despojado das suas jóias que eram o preço de quatrocentos anos de serviço seu e de seus antepassados no Egito Spoliaverat enim eum Aaron et nudum constituerant12 Seguiuse morrerem naquele dia à espada a mãos de Moisés e dos levitas vinte e três mil homens Cecideruntque in die illa quasi virginti tria millia hominum13 Seguiuse deixar Deus o povo e não o querer acompanhar nem assistir com sua presença como até ali fizera Non ascendam tecum quia populus durae cervicis es14 Seguiuse querer Deus acabar para sempre o mesmo povo como sem dúvida fizera se as orações de Moisés não aplacaram sua justa ira Dimitte me ut irascatur furor meus et deleam eos15 Seguiuse finalmente e seguiramse todos os outros castigos que Deus então lhes ameaçou e reservou para seu tempo de que em muitas centenas de anos e de horrendas calamidades se não viram livres os hebreus Ego autem in die ultionis visitabo et hoc peccatum eorum Que vos parecem as conseqüências daquele pecado Cuidais que não há mais que fazer um bezerro Cuidais que não há mais que entronizar um bruto ou seja cepo de pau ou cepo de ouro As mesmas conseqüências se seguem dos indignos que vós fazeis e pondes nos lugares supremos E se não olhai para elas As leis divinas e humanas quebradas os povos despojados e empobrecidos as mortes de homens a milhares uns na guerra por falta de governo outros na paz por falta de justiça outros nos hospitais por falta de cuidado sobretudo a ira de Deus provocada a assistência de sua proteção desmerecida as províncias o reino e a mesma nação inteira arriscada a uma extrema ruína que se não fora pelas orações de alguns justos já estivera acabada mas não estão ainda acabados os castigos E sobre quem carrega o peso de todas estas conseqüências Sobre aqueles que fazem e que sustentam os autores e causadores delas Ego feci ego feram16 Vós o fizestes vós o pagareis E que com esta carga às costas andem tão leves como andam Que lhes não pese este peso na consciência Que os não morda este escrúpulo na alma Que os não inquiete que os não assombre que os não traga fora de si esta conta que hão de dar a Deus E que sejam cristãos E que se confessem Mas não condeno nem louvo admirome com as tur bas Et admiratae sunt turbae V Ubi Onde Escrúpulo dos que assinalam o onde e dos que o aceitam Onde põe Portugal seus ministros da fé e dos estados Quanto mais longe tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança A parábola dos talentos e a honestidade dos criados nas regiões longínquas O profeta Habacuc e o escrúpulo dos escolhidos Ubi Onde Esta circunstância onde tem muito que reparar em toda a parte mas no Reino de Portugal muito mais porque ainda que os seus ubis ou os seus ondes dentro em si podem compreenderse facilmente os que tem fora de si são os mais diversos os mais distantes e os mais dilatados de todas as monarquias do mundo Tantos remos tantas nações tantas províncias tantas cidades tantas fortalezas tantas igrejas catedrais tantas particulares na África na Ásia na América onde põe Portugal vicereis onde põe governadores onde põe generais onde põe capitães onde põe justiças onde põe bispos e arcebispos onde põe todos os outros ministros da fé da doutrina das almas E quanto juízo quanta verdade quanta inteireza quanta consciência e necessária para distribuir bem estes ondes e para ver onde se põe cada um Se pondes o cobiçoso onde há ocasião de roubo e o fraco onde há ocasião de defender e o infiel onde há ocasião de renegar e o pobre onde há ocasião de desempobrecer que há de ser das conquistas e dos que com tanto e tão honrado sangue as ganharam Oh que os sujeitos que se põem nestes lugares são pessoas de grande qualidade e de grande autoridade fidalgos senhores títulos Por isso mais Os mesmos ecos de uns nomes tão grandes em Portugal parece que estão dizendo onde se hão de pôr Um conde Onde Onde obre proezas dignas de seus antepassados onde despenda liberalmente o seu com os soldados e beneméritos onde peleje onde defenda onde vença onde conquiste onde faça justiça onde adiante a fé e a Cristondade onde se honre a si e à pátria e ao príncipe que fez eleição de sua pessoa E não onde se aproveite e nos arruine onde se enriqueça a si e deixe pobre o estado onde perca as vitórias e venha carregado de despojos Este há de ser o onde Ubi E quanto este onde for mais longe tanto hão de ser os sujeitos de maior confiança e de maiores virtudes Quem há de governar e mandar três e quatro mil léguas longe do rei onde em três anos não pode haver recurso de seus procedimentos nem ainda notícias que verdade que justiça que fé que zelo deve ser o seu Na parábola dos talentos diz Cristo que os repartiu o rei Unicuique secundum propriam virtutem Mt 2515 A cada um conforme a sua virtude e que se partiu para outra região dali muito longe a tomar posse de um reino Abiit in regionem longinquam accipene sibi negnum Lc 1912 Se isto fora história pudera ter sucedido assim mas se não era história senão parábola porque não introduz Cristo ao rei e aos criados dos talentos na mesma terra senão ao rei em uma região muito longe e aos criados dos talentos em outra Porque os criados dos talentos ao longe do rei é que melhor se experimentam e ao longe do rei é que são mais necessários Nos Brasis nas Angolas nas Goas nas Malacas nos Macaus onde o rei se conhece só por fama e se obedece só por nome aí são necessários os criados de maior fé e os talentos de maiores virtudes Se em Portugal se em Lisboa onde os olhos do rei se vêem e os brados do rei se ouvem faltam a sua obrigação homens de grandes obrigações que será in regionem longinquam Que será naquelas regiões remotíssimas onde orei onde as leis onde a justiça onde a verdade onde a razão e onde até o mesmo Deus parece que está longe Este é o escrúpulo dos que assinalam o onde e qual será o dos que o aceitam Que me mandem onde não convém culpa será ou desgraça de quem me manda mas que eu não repare aonde vou Ou eu sei aonde vou ou o não sei Se o não sei como vou onde não sei E se o sei como vou onde não posso fazer o que devo Tudo temos em um profeta não em profecia senão em história Ia o profeta Habacuc com uma cesta de pão no braço em que levava de comer para os seus segadores quando lhe sai ao caminho um anjo e dizlhe que leve aquele comer a Babilônia e que o dê a Daniel que estava no lago dos leões Que vos parece que responderia o profeta neste caso Domine Babylonem non vidi et lacum nescio Dan 1435 Senhor se eu nunca vi Babilônia nem sei onde está tal lago como hei de levar de comer a Daniel ao lago de Babilônia Eu digo que o profeta respondeu prudente vós direis que não respondeu bizarro e segundo os vossos brios assim é Se os segadores andaram aqui nas lezírias e o recado se vos dera a vós como havíeis de aceitar sem réplica Como vos havíeis de arrojar ao lago a Babilônia e aos leões Avisamvos para a armada para capitãode mareguerra para almirante para general e sendo o lagozinho o mar oceano na costa onde ele é mais soberbo e mais indômito ver como vos arrojais ao lago Acenamvos com o governo do Brasil de Angola da Índia com a embaixada de Roma de Paris de Inglaterra de Holanda e sendo estas as Babilônias das quatro partes do mundo ver como vos arrojais a Babilônia Há de se prover a gineta a bengala o bastão para as fronteiras mais empenhadas do reino e sendo a guerra contra os leões de Espanha tanto valor tanta ciência tanto exercício ver como vos arremessais aos leões Se vós não vistes o mar mais que no Tejo se não vistes o mundo mais que no mapa se não vistes a guerra mais que nos panos de Tunes como vos arrojais ao governo da guerra do mar do mundo Mas não é ainda este o mais escandaloso reparo Habacuc levava no braço a sua cesta de pão mas ele não reparou no pão nem na cesta reparou somente na Babilônia e no lago vós às avessas na Babilônia e no lago nenhum reparo no pão e na cesta aí está toda a dúvida toda a dificuldade toda a demanda Babilônia Daniel lago leões tudo isso é mui conforme ao meu espírito ao meu talento ao meu valor Eu irei a Babilônia eu libertarei a Daniel eu desqueixarei os leões se for necessário não é essa a dificuldade mas há de ser com as conveniências de minha casa Não está a dúvida na Babilônia está a dúvida e a Babilônia na cesta O pão desta cesta é para os meus segadores ir e vir a Babilônia e sustentar a Daniel à custa do meu pão não é possível nem justo Os meus segadores estão no campo a minha casa fica sem mim Babilônia está daqui tantos centos de léguas tudo isso se há de compor primeiro hãome de dar pão para os segadores e pão para a minha casa e pão para a ida e pão para a volta e para se acaso lá me comer um leão que só neste caso se supõe o caso e por se acaso eu morrer na jornada esse pão háme de ficar de juro e quando menos em três ou quatro vidas Não é isto assim O ponto está em encher a cesta e segurar o pão E o de mais Suceda o que suceder confundase Babilônia pereça Daniel fartemse os leões e leve o pecado tudo Por isso leva tudo o pecado E quantos pecados vos parece que vão envoltos nesta envolta de que nem vós nem outros fazem escrúpulo Mas dirmeeis se acaso vos quereis salvar Pois padre como me hei de haver neste caso Como se houve o profeta Primeiro escusar como se ele escusou e se não valer a escusa ir como ele foi E como foi Habacuc Tomouo o anjo pelos cabelos e pôlo em Babilônia Se vos não aproveitar uma e outra escusa ide mas com anjo e pelos cabelos com anjo que vos guie que vos encaminhe que vos alumie que vos guarde que vos ensine que vos tenha mão e ainda assim muito contra vossa vontade pelos cabelos Mas que seria se em vez de ir pelos cabelos fôsseis por muito gosto por muito desejo e por muita negociação E em vez de vos levar da mão um anjo vos levassem da mão dois diabos um da ambição outro da cobiça Se estes dois espíritos infernais são os que vos levam a toda a parte onde ides como não quereis que vos levem ao inferno E que nestes mesmos caminhos seja uma das alfaias deles o confessor E que vos confesseis quando ides assim e quando estais assim e quando tornais assim Não quero condenar nem louvar porque o prometi mas não posso deixar de me admirar com as turbas Et admiratae sunt turbae VI Quibus auxiliis Com que meios Três dedos e uma pena o ofício mais arriscado do governo humano A escrita fatal do festim de Baltasar Os ministros da pena e as parteiras do Egito O texto obscuro de Davi Importância dos escribas Comparação do profeta Malaquias Etimologia de calamidade As penas dos quatro evangelistas Os massoretas e a pontuação das Escrituras Sagradas As arrecadas da Esposa do Cântico dos Cânticos Quibus auxiliis E com que meios se fazem e se conseguem todas estas coisas que temos dito Com um papel e com muitos papéis com certidões com informações com decretos com consultas com despachos com portarias com provisões Não há coisa mais escrupulosa no mundo que papel e pena Três dedos com uma pena na mão é o oficio mais arriscado que tem o governo humano Aquela escritura fatal que apareceu a elrei Baltasar na parede diz o texto que a formaram uns dedos como de mão de homem Apparuerunt digiti quasi manus hominis Dan 55 E estes dedos quem os movia Dizem todos os intérpretes com S Jerônimo que os movia um anjo De maneira que quem escrevia era um anjo e não tinha de homem mais que três dedos Tão puro como isto há de ser quem escreve Três dedos com uma pena podem ter muita mão por isso não há de ser mais que dedos Com estes dedos não há de haver mão não há de haver braço não há de haver ouvidos não há de haver boca não há de haver olhos não há de haver coração não há de haver homem Quasi manus hominis Não há de haver mão para a dádiva nem braço para o poder nem ouvidos para a lisonja nem olhos para o respeito nem boca para a promessa nem coração para o afeto nem finalmente há de haver homem porque não há de haver carne nem sangue A razão disto é porque se os dedos não forem muito seguros com qualquer jeito da pena podem fazer grandes danos Quis Faraó destruir e acabar os filhos de Israel no Egito e que meio tomou para isto Mandou chamar as parteiras egipcianas e encomendoulhes que quando assistissem o parto das hebréias se fosse homem o que nascesse que lhe torcessem o pescoço e o matassem sem que ninguém o entendesse Eis aqui quão ocasionado oficio é o daqueles em cujas mãos nascem os negócios O parto dos negócios são as resoluções e aqueles em cujas mãos nascem estes partos ou seja escrevendo ao tribunal ou seja escrevendo ao príncipe são os ministros da pena E é tal o poder a ocasião e a sutileza deste ofício que com um jeito de mão e com um torcer de pena podem dar vida e tirar vida Com um jeito podemos dar com que vivais e com outro jeito podemos tirar o com que viveis Vede se é necessário que tenham muito escrupulosas consciências estas egipcianas quando tanto depende delas a buena dicha dos homens e não pelas riscas da vossa mão senão pelos riscos das suas Si dormiatis inter medios cleros hoc est inter medias sortes pennae columbae deargentatae SI 6714 Se estais duvidoso da vossa sorte penas prateadas diz Davi O sentido deste texto ainda se não sabe ao certo mas tomado pelo que soa terrível coisa é que a boa ou má sorte de uns dependa das penas de outros E muito mais terrível ainda se essas penas por algum reflexo se puderem pratear ou dourar Pennae columbae deargentate et posteriora dorsi ejus in pallore auri17 Estas penas são as que escrevem as sortes estas as que as tiram e as que as dão e talvez a boa aos maus e a má aos bons Quantos delitos se enfeitam com uma penada Quantos merecimentos se apagam com uma risca Quantas famas se escurecem com um borrão Para que vejam os que escrevem de quantos danos podem ser causa se a mão não for muito certa se a pena não for muito aparada se a tinta não for muito fina se a regra não for muito direita se o papel não for muito limpo Eu não sei como não treme a mão a todos os ministros de pena e muito mais àqueles que sobre um joelho aos pés do rei recebemos seus oráculos e os interpretam e estendem Eles são os que com um advérbio podem limitar ou ampliar as fortunas eles os que com uma cifra podem adiantar direitos e atrasar preferências eles os que com uma palavra podem dar ou tirar peso à balança da justiça eles os que com uma cláusula equívoca ou menos clara podem deixar duvidoso e em questão o que havia de ser certo e efetivo eles os que com meter ou não meter um papel podem chegar e introduzir a quem quiserem e desviar e excluir a quem não quiserem eles finalmente os que dão a última forma às resoluções soberanas de que depende o ser ou não ser de tudo Todas as penas como as ervas têm a sua virtude mas as que estão mais chegadas à fonte do poder são as que prevalecem sempre a todas as outras São por oficio ou artifício como as penas da águia das quais dizemos naturais que postas entre as penas das outras aves a todas comem e desfazem Ouçam estas penas pelo que têm de reais o que delas diz o Espírito Santo In manu Dei potestas terrae et utilem rectorem suscitabit in tempus super illam In manu Dei prosperitas hominis et super faciem scribae ponet honorem suum18 Escriba neste lugar como notam os expositores significa o ofício daqueles que junto à pessoa do rei escrevem e distribuem os seus decretos Assim se chama na Escritura Saraias escriba do rei Davi e Sobna escriba del elrei Ezequias19 Diz poiso Espírito Santo O poder e império dos reis está na mão de Deus porém a honra de Deus pôla o mesmo Deus na mão dos que escrevem aos reis Et super faciem scribae imponet honorem suum Pode haver ofício mais para gloriar por uma parte e mais para tremer por outra Grande crédito e grande confiança argúi que nestas mãos e nestas penas ponham os reis a sua honra mas muito maior crédito e muito maior confiança é que diga o mesmo Deus que põe nelas a sua Quantas empresas de grande honra de Deus puderam estar muito adiantadas se estas penas sem as quais se não pode dar passo as zelaram e assistiram como era justo E quantas pelo contrário se perdem e se sepultam ou porque falta o zelo e diligência ou porque sobeja o esquecimento e o descuido quando não seja talvez a oposição Do rei que logo direi falava o profeta Malaquias debaixo do nome de Sol de Justiça quando disse que nas suas penas estava a saúde do mundo Orietur vobis sol justitiae et sanitas in pennis ejus20 Chama penas aos raios do sol porque assim como o sol por meio de seus raios alumia aquenta e vivifica a todas as partes da terra assim o rei que não pode sair do seu zodíaco por meio das penas que tem junto a si dá luz dá calor e dá vida a todas as partes da monarquia ainda que ela se estenda fora de ambos os trópicos como a do sol e a nossa Et sanitas in pennis ejus Se as suas penas forem sãs e tão puras como os raios do sol delas nascerá todo o bem e felicidade pública mas se em vez de serem sãs forem corruptas e não como raios do sol senão como raios elas serão a causa de todas as ruínas e de todas as calamidades Se perguntardes aos gramáticos donde se deriva este nome calamidade calamitas respondervosão que de calamo E que quer dizer calamo Quer dizer cana e pena porque as penas antigamente faziamse de certas canas delgadas Por sinal que diz Plínio que as melhores do mundo eram as da nossa Lusitânia Esta derivação ainda é mais certa na política que na gramática Se as penas de que se serve o rei não forem sãs destes cálamos se derivarão todas as calamidades públicas e serão o veneno e enfermidade mortal da monarquia em vez de serem a saúde dela Sanitas in pennis ejus O rei de que fala neste lugar Malaquias é o Rei dos Reis Cristo e as penas com que ele deu saúde ao mundo todos sabemos que são as dos quatro evangelistas e essas assistidas do Espírito Santo Para que advirtamos evangelistas dos príncipes a verdade a pureza a inteireza que devem imitar as suas penas e como em tudo se hão de mover pelo impulso soberano e em nada por afeto próprio Se as suas escrituras as pomos sobre a cabeça como sagradas seja cada uma delas um evangelho humano Porém se sucedesse alguma vez não ser assim ou por desatenção das penas maiores ou por corrupção das inferiores de que elas se ajudam julguem as consciências sobre que carregam estes escrúpulos se têm muito que examinar e muito que confessar e muito que restituir em negócios e matérias tantas e de tanto peso Que possa isto suceder e que tenha já sucedido o profeta Jeremias o afirma Vere mendacium operatus est stylus mendax scribarum Ou como lê o caldaico Fecit calamum mendacii ad falsandas scripturas21 E suposto que isto não só é possível mas já foi praticado e visto naquele tempo bem é que saiba o nosso quanto bastará para falsificar uma escritura Bastará mudar um nome Bastará mudar uma palavra Bastará mudar uma cifra Digo que muito menos basta Não é necessário para falsificar uma escritura mudar nomes nem palavras nem cifras nem ainda letras basta mudar um ponto ou uma vírgula Perguntam os controversistas se assim como nas Sagradas Escrituras são de fé as palavras serão também de fé os pontos e vírgulas E respondem que sim porque os pontos e vírgulas determinam o sentido das palavras e variados os pontos e vírgulas também o sentido se varia Por isso antigamente havia um conselho chamado dos massoretas cujo ofício era conservar incorruptamente em sua pureza a pontuação da Escritura Esta é a galantaria misteriosa daquele texto dos Cânticos Murenulas aureas faciemus tibi vermiculatas argento Cânt 110 Diz o Esposo divino que fará à sua esposa umas arrecadas de ouro esmaltadas de prata e o esmalte segundo se tira da raiz hebraica era de pontos e vírgulas porque em lugar de vermiculatas lêem outros punctatas virgulatas argento Mas se as arrecadas eram de ouro por que eram os esmaltes de prata e formados de pontos e vírgulas Porque as arrecadas são ornamento das orelhas onde está o sentido da fé Fides ex auditu22 Rom 10 17 e nas palavras de fé ainda que os pontos e vírgulas pareçam de menos consideração assim como a prata é de menos preço que o ouro também pertencem à fé tanto como as mesmas palavras As palavras porque formam o sig nificado os pontos e vírgulas porque distinguem e determinam o sentido Exemplo Surrexit non est hic Mc 166 Ressuscitou não está aqui Com estas palavras diz o evangelista que Cristo ressuscitou e com as mesmas palavras se se mudar a pontuação pode dizer um herege que Cristo não ressuscitou Surrexit Non Est hic Ressuscitou Não Está aqui De maneira que só com trocar pontos e vírgulas com as mesmas palavras se diz que Cristo ressuscitou e é fé e com as mesmas se diz que Cristo não ressuscitou e é heresia Vede quão arriscado ofício o de uma pena na mão Ofício que com mudar um ponto ou uma vírgula da heresia pode fazer fé e da fé pode fazer heresia Oh que escrupuloso ofício E se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode fazer tantos erros e tantos danos que seria se se mudassem palavras Que seria se se diminuíssem palavras Que seria se se acrescentassem palavras Torno a dizer se a mudança de um ponto e de uma vírgula pode ser causa de tantos danos que seria se se calassem regras Que seria se faltassem capítulos Que seria se se sepultassem papéis e informações inteiras E que seria se em vez de se presentarem a quem havia de pôr o remédio se entregassem a quem havia de executar a vingança Tudo isto pode caber em uma pena e eu não sei como pode caber em uma confissão Pois é certo que se confessam e muitas vezes os que isso fazem e que não falta quem absolva estas confissões ou quem se queira condenar pelas absolver Mas eu nem absolvo os confessados nem condeno os confessores porque só me admiro com as turbas Et admiratae sunt turbae VII Cur Por quê Por dinheiro O escrúpulo dos motivos O respeito pior que o dinheiro Pilatos e o respeito a César Os juízes de Samaria e a condenação de Nabot Pilatos Judas e a condenação de Cristo Cur Por quê Esta matéria dos porquês era bem larga mas vai nos faltando o tempo ou vou eu sobejando a ele e assim neste ponto e nos seguintes usarei mais cortesmente da paciência com que ouvis mas não há confissão sem penitência Cur Por quê De todas estas semrazões que temos referido ou admirado quais são as causas Quais são os motivos Quais são os porquês Não há coisa no mundo por que um homem deva ir ao inferno contudo ninguém vai ao inferno sem seu porquê Que porquês são logo estes que tanto cegam que tanto arrastam que tanto precipitam aos maiores homens do mundo Já vejo que a primeira coisa que acorre a todos é o dinheiro Cur Por quê Por dinheiro que tudo pode por dinheiro que tudo vence por dinheiro que tudo acaba Não nego ao dinheiro os seus poderes nem quero tirar ao dinheiro os seus escrúpulos mas o meu não é tão vulgar nem tão grosseiro como este Não me temo tanto do que se furta como do que se não furta Muitos ministros há no mundo e em Portugal mais que muitos que por nenhum caso os peitareis com dinheiro Mas estes mesmos deixamse peitar da amizade deixamse peitar da recomendação deixamse peitar da independência deixamse peitar do respeito E não sendo nada disto ouro nem prata são os porquês de toda a injustiça do mundo A maior sem justiça que se cometeu no mundo foi a que fez Pilatos a Cristo condenando à morte a mesma inocência E qual foi o porquê desta grande injustiça Peitaramno Deramlhe grandes somas de dinheiro os príncipes dos sacerdotes Não Um respeito uma dependência foi a que condenou a Cristo Si hunc dimittis non es amicus Caesaris Jo 1912 Se não condenais a este não sois amigo de César E por não arriscar a amizade e graça do César perdeu a graça e amizade de Deus não reparando em lhe tirar a vida Isto fez por este respeito Pilatos e no mesmo tempo Aqua lavit manus suas Mt 2724 Pediu água e lavou as mãos Que importa que as mãos de Pilatos estejam lavadas se a consciência não está limpa Que importa que o ministro seja limpo de mãos se não é limpo de respeitos A maior peita de todas é o respeito Se se puser em questão qual tem perdido mais consciências e condenado mais almas se o respeito se o dinheiro eu sempre dissera que o respeito por duas razões Primeira porque as tentações do respeito são mais e maiores que as do dinheiro São mais porque o dinheiro é pouco e os respeitos muitos São maiores porque em ânimos generosos mais fácil é desprezar muito dinheiro que cortar por um pequeno respeito Segunda e principal porque o que se fez por respeito tem muito mais dificultosa restituição que o que se fez por dinheiro Na injustiça que se fez ou se vendeu por dinheiro como dinheiro é coisa que se vê e que se apalpa o mesmo dinheiro chama pelo escrúpulo o mesmo dinheiro intercede pela restituição A luz do diamante dávos nos olhos a cadeia tira por vós o contador lembravos a conta a lâmina e o quadro peregrino ainda que sejam figuras mudas dá brados à consciência mas no que se fez por respeito por amizade por dependência como estas apreensões são coisas que se não vêem como são coisas que vos não armam a casa nem se penduram pelas paredes não tem o escrúpulo tantos despertadores que façam lembrança à alma Sobretudo se eu vendi a justiça por dinheiro quando quero restituir se quero dou o que me deram pago o que recebi desembolso o que embolsei que não é tão dificultoso Mas se eu vendi a justiça ou a dei de graça pelo respeito haver de restituir sem ter adquirido haver de pagar sem ter recebido haver de desembolsar sem ter embolsado oh que dificuldade tão terrível Quem restitui o dinheiro paga com o alheio quem restitui o respeito há de pagar com o próprio e para o tirar de minha casa para o arrancar de meus filhos para o sangrar de minhas veias oh quanto valor oh quanta resolução oh quanto poder da graça divina é necessário Os juizes de Samaria por respeito de Jesabel condenaram inocentes a Nabot e foilhe confiscada a vinha para Acab que a desejava 3 Rs 2111 Assim Acab como os juizes deviam restituição da vinha porque assim ele como eles a tinham roubada E a quem era mais fácil esta restituição A Acab era muito fácil e aos juizes muito dificultosa porque Acab restituia a vinha tendo recebido a vinha e os juizes haviam de restituir a vinha não a tendo recebido Acab restituia tanto por tanto porque pagava a vinha pela vinha os juizes restituiam tudo por nada porque haviam de pagar a vinha por um respeito Quase estou para vos dizer que se houverdes de vender a alma seja antes por dinheiro que por respeitos porque ainda que o dinheiro se restitui poucas vezes os respeitos nunca se restituem Torne Pilatos Entregou Pilatos a Cristo e Judas também o entregou Pilatos Tradidit eum voluntati eorum Judas Quid vultis mihi dare et ego eum vobis tradam23 Conheceu Pilatos e confessou a inocência de Cristo e Judas também a conheceu e confessou Pilatos Innocens ego sum a sanguine justi hujus Judas Peccavi tradens sanguinem justum24 Fez mais alguma coisa Pilatos Fez mais alguma coisa Judas Judas sim Pilatos não Judas restituiu o dinheiro lançandoo no Templo Pilatos não fez restituição alguma Pois por que restitui Judas e por que não restitui Pilatos Porque Judas entregou a Cristo por dinheiro Pilatos entregouo por respeitos As restituições do dinheiro alguma vez se fazem as dos respeitos nenhuma E se não dizeio vós Fazemse nesta corte muitas coisas por respeitos Não perguntei bem Fazse alguma coisa nesta corte que não seja por respeitos Ou nenhuma ou muito poucas E há alguém na vida ou na morte que faça restituição disto que fez por respeitos Nem o vemos nem o ouvimos Pois como se confessam disto os que o fazem ou como os absolvemos que os confessam Se eu estivera no confessionário eu vos prometo que eu os não houvera de absolver senão condenar mas como estou no púlpito não absolvo nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae VIII Quomodo Por que modos O labirinto mais intrincado da consciência O morgado de Jacó os direitos de Esaú e os sete enganos de Rebeca Davi e a corte de Saul Falta de escrúpulos de Jacó Quomodo Por que modo ou por que modos Somos entrados no labirinto mais intrincado das consciências que são os modos as traças as artes as invenções de negociar de entremeter de insinuar de persuadir de negar de anular de provar de desviar de encontrar de preferir de prevalecer finalmente de conseguir para si ou alcançar para outrem tudo quanto deixamos dito Para eu me admirar e nos assombrarmos todos do artifício e sutileza do engenho ou do engano com que estes modos se fiam com que estes teares se armam com que estes enredos se tramam com que estas negociações se tecem não nos serão necessárias as teias de Penélope nem as fábulas de Ariadne porque nas Histórias Sagradas temos uma tal tecedeira que na casa de um pastor honrado nos mostrará quanto disto se tece na corte mais corte do mundo O maior morgado que houve no mundo foi o de Jacó em que sucedeu Cristo Regnabit iit domo Jacob25 Sobre este morgado pleitearam desde o ventre da mãe os dois irmãos Jacó e Esaú Esaú tinha por si todo o direito tinha por si a natureza e a idade tinha por si o talento e o merecimento tinha por si o favor o amor a vontade e o decreto e a promessa do pai que lhe havia de dar a bênção ou a investidura De maneira que de irmão a irmão de homem a homem e de favorecido a favorecido tudo estava da parte de Esaú e contra Jacó Tinha da sua parte Esaú a idade e a natureza porque ainda que eram gêmeos e batalharam no ventre da mãe sobre o lugar Esaú nasceu primeiro Tinha mais da sua parte Esaú o talento e o valor porque era forte robusto valente animoso inclinado ao campo e às armas e que com a aljava pendente do ombro e o arco e setas na mão se fazia temer do leão no monte do urso e javali no bosque Pelo contrário Jacó Habitabat in tabemaculis26 nunca saía do estrado da mãe mais para a almofada que para a lança mais para as bainhas que para a espada Finalmente Esaú tinha da sua parte o favor o amor e o agrado porque era as delícias da velhice de Isac seu pai a quem ele sabia muito bem merecer a vontade porque quando vinha do campo ou da montaria com a caça miúda lhe fazia o prato e da maior enramada lhe dedicava os despojos Este era Esaú este era o competidor de Jacó este era o seu direito estes eram os seus servi ços este era o seu merecimento estas eram as vantagens com que a natureza e a graça o tinham feito herdeiro sem controvérsia da casa de Isac E contudo quem tal cuidara Jacó foi o que venceu a demanda Jacó o que levou a bênção Jacó o que ficou com o morgado Pois se o morgado por lei da natureza se deve ao primogênito e Esaú nasceu primeiro se o primeiro lugar por lei da razão se deve ao de melhor talento e o talento e valor de Esaú era tão avantajado se a vantagem e a maioria do prêmio por lei de justiça se deve ao maior merecimento e os serviços de Esaú eram tão conhecidamente maiores e sem competência27 se finalmente a bênção e a investidura do morgado dependia do pai e o pai era tão afeiçoado a Esaú e lho tinha prometido e com efeito lho queria dar como foi possível que prevalecesse Jacó sem direito Jacó sem talento Jacó sem serviços Jacó sem favor Porque tudo isto pode a traça a arte a manha o engano o enredo a negociação Naquele mesmo dia tinha determinado Isac dar a bênção a Esaú e porque esta solenidade havia de ser sobremesa quis o bom velho para mais sazonar o gosto que se lhe fizesse um guisado do que matasse na caça o mesmo filho Parte ao campo alegre e alvoroçado Esaú porém Rebeca que queria o morgado para Jacó a quem mais amava aproveitandose da ausência do irmão e da cegueira do pai já sabeis o que traçou Manda a Jacó ao rebanho vêm cabritos em vez de lebres da carne faz o guisado das peles guisa o engano e vestido Jacó das roupas de Esaú e calçado que é mais de mãos também de Esaú aparece em presença do cego pai e põelhe o prato diante Perguntou Isac quem era E respondeu mui bem ensaiado Jacó que era seu primogênito Esaú Admirouse de que tão depressa pudesse ter achado a caça e respondeu com singeleza tanta que fora vontade de Deus E com estas duas respostas depois de lhe tentar as mãos lhe lançou Isac a bênção e ficou o bendito Jacó com o morgado e casa de seu pai e Esaú com o que tivesse no cinto Há tal engano Há tal fingimento Há tal crueldade Pois estes são os modos de negociar e vencer Sete enganos fingiu Rebeca para tirar a casa a cuja era Fingiu o nome a Jacó porque disse que era Esaú Fingiulhe a idade porque disse que era o primogênito Fingiulhe os vestidos porque eram os do irmão Fingiulhe as mãos porque a pele e o pêlo era das luvas Fingiulhe o guisado porque era do rebanho e não do mato Fingiu a diligência porque Jacó não tinha ido à caça E para que nem a suma verdade ficasse fora do fingimento fingiu que fora vontade de Deus sendo duas vontades de Rebeca uma com que queria a Jacó e outra com que desqueria a Esaú E com nome fingido com idade fingida com vestidos fingidos com mãos fingidas com obras e serviços fingidos e até com Deus fingido se tirou o direito a justiça a fazenda a honra a sucessão a quem a tinha dado o nascimento uma vez e o merecimento muitas Parecevos grande semrazão esta Tendes muita razão Mas esta tragédia que uma vez se ensaiou em Hebron quantas vezes se representa na nossa corte Quantas vezes com nomes supostos com merecimentos fingidos e com abonações falsificadas se roubam os prêmios ao benemérito e triunfa com eles o indigno Quantas vezes rende mais a Jacó a sua Rebeca que a Esaú o seu arco Quantas vezes alcança mais Jacó com as luvas calçadas que Esaú com as armas nas mãos Se no ócio da paz se medra mais que nos trabalhos da guerra quem não há de trocar os sóis da campanha pela sombra destas paredes Não o experimentou assim Davi e mais servia a um rei injusto e inimigo Davi serviu em palácio e serviu na guerra em palácio com a harpa na guerra com a funda E onde lhe foi melhor Em palácio medrou tão pouco que da harpa tornou ao cajado na guerra montou tanto que da funda subiu à coroa Se se visse que Davi crescia mais à sombra das paredes de palácio que com o sol da campanha se se visse que medrava mais lisonjeando as orelhas com a harpa que defendendo e honrando o rei com a funda se se visse que merecia mais galanteando a Micol que servindo a Saul não seria uma grande injustiça e um escândalo mais que grande Pois isto é o que padecem os Esaús nas preferências dos Jacós Mas eu não me queixo tanto de Jacó e de Rebeca que fizeram o engano quanto de Isac que o não desfez depois de conhecido Que Esaú padeça Jacó possua Rebeca triunfe e que Isac dissimule Que esteja tão poderosa a arte de furtar bênçãos que tire Jacó a bênção da algibeira de Esaú não só depois de prometida e decretada senão depois de firmada e passada pelas chancelarias E que haja tanta paciência em Isac que lhe não troque a bênção em maldição O mesmo Jacó o temeu assim Quando a mãe o quis meter nestes enredos disse ele que temia que seu pai descobrisse o engano e que em lugar da bênção lhe deitaria alguma maldição Timeo ne putet me sibi voluisse illudere et inducam super me maledictionem pro benedictione28 Mas Rebeca não fez caso deste reparo porque conhecia bem a Isac e sabia que não tinha o velho cólera para tanto Se Isac tivera outro valor a bênção se restituira a Esaú e Rebeca sentira o fingimento e Jacó amargara o engano Mas nem Isac era pai para aquele Jacó nem marido para aquela Rebeca E que Esaú fique privado do seu morgado para sempre e que nem Rebeca que lho tira nem Jacó que lho possui nem Isac que lho consente façam escrúpulo deste caso Doutores há que condenam tudo isto e outros há que o escusam Eu não escuso nem condeno admirome com as turbas Et admiratae sunt turbae IX Quando Quando fazem os ministros o que fazem e quando fazem o que devem fazer Antigamente estavam os tribunais às portas das cidades agora estão as cidades às portas dos tribunais Efeitos terríveis das dilações no atender os requerimentos Cristo e seu requerimento ao Pai no Horto das Oliveiras O desengano grande alívio para os não despachados Quando Esta é a última circunstância do nosso exame E quando acabaria eu se houvera de seguir até o cabo este quando Quando fazem os ministros o que fazem e quando fazem o que devem fazer Quando respondem Quando deferem Quando despacham Quando ouvem Que até para uma audiência são necessários muitos quandos Se fazerse hoje o que se pudera fazer ontem se fazerse amanhã o que se devera fazer hoje é matéria em um reino de tantos escrúpulos e de danos muitas vezes irremediáveis aqueles quandos tão dilatados aqueles quandos tão desatendidos aqueles quandos tão eternos quanto devem inquietar a consciência de quem tiver consciência Antigamente na República Hebréia e em muitas outras os tribunais e os ministros estavam às portas das cidades Isso quer dizer nos Provérbios Nobilis in portis vir ejus quando sederit cum senatoribus terrae29 Para qualificar a nobreza do marido da mulher forte diz que tinha assento nas portas com os senadores e conselheiros da terra A isto aludiu também Cristo quando disse da Igreja que fundava em S Pedro Portae inferi non praevalebunt adversus eam Mt 1618 Que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela entendendo por portas do inferno os conselhos do inferno porque os conselhos os ministros os tribunais tudo costumava estar às portas das cidades Mas que razão tiveram aqueles legisladores para situarem este lugar aos tribunais e para porem às portas das cidades os seus ministros Várias razões apontam os historiadores e políticos mas a principal em que todos convêm era a brevidade do despacho Vinha o lavrador vinha o soldado vinha o estrangeiro com a sua demanda com a sua pretensão com o seu requerimento e sem entrar na cidade voltava respondido no mesmo dia para sua casa De sorte que estavam tão prontos aqueles ministros que nem ainda dentro da cidade estavam para que os requerentes não tivessem o trabalho nem a despesa nem a dilação de entrarem dentro Não saibam os requerentes a diferença daquela era à nossa para que se não lastimem mais Antigamente estavam os ministros às portas das cidades agora estão as cidades às portas dos ministros Tanto coche tanta liteira tanto cavalo que os de a pé não fazem conto nem deles se faz conta As portas os pátios as ruas rebentando de gente e o ministro encantado sem se saber se está em casa ou se o há no mundo sendo necessária muita valia só para alcançar de um criado a revelação deste mistério Uns batem outros não se atrevem a bater todos a esperar e todos a desesperar Sai finalmente o ministro quatro horas depois do sol aparece e desaparece de corrida olham os requerentes para o céu e uns para os outros apartase desconsolada a cidade que esperava junta E quando haverá outro quando E que vivam e obrem com esta inumanidade homens que se confessam quando procediam com tanta razão homens sem fé nem sacramentos Aqueles ministros ainda quando despachavam mal os seus requerentes faziamlhes três mercês poupavamlhes o tempo poupavamlhes o dinheiro poupavamlhes as passadas Os nossos ministros ainda quando vos despacham bem fazemvos os mesmos três danos o do dinheiro porque o gastais o do tempo porque o perdeis o das passadas porque as multiplicais E estas passadas e este tempo e este dinheiro quem os há de restituir Quem há de restituir o dinheiro a quem gasta o dinheiro que não tem Quem há de restituir as passadas a quem dá as passadas que não pode Quem há de restituir o tempo a quem perde o tempo que havia mister Oh tempo tão precioso e tão perdido Dilata o julgador oito meses a demanda que se pudera concluir em oito dias dilata o ministro oito anos o requerimento que se devera acabar em oito horas E o sangue do soldado as lágrimas do órfão a pobreza da viúva a aflição a confusão a desesperação de tantos miseráveis Cristo disse que o que se faz a estes se faz a ele E em ninguém melhor que nele se podem ver os efeitos terríveis de uma dilação Três horas requereu Cristo no horto Nestas três horas fez três petições sobre a mesma proposta a nenhuma delas foi respondido E como o sentiu ou que lhe sucedeu Foi tal a sua dor a sua aflição a sua agonia que chegou a suar sangue por todas as veias Factus est sudor ejus sicut guttae sanguinis decurrentis in terram30 Toda a vida de Cristo em trinta e três anos foi um contínuo exercício de heróica paciência mas nenhum trabalho lhe fez suar gotas de sangue senão este de requerer uma outra e três vezes sem ser respondido Se três horas de requerimento sem resposta fazem suar sangue a um HomemDeus tantos anos de requerimentos e de repulsas que efeitos causarão em um homemhomem e tanto mais quanto for mais homem O requerimento de Cristo Pater si possibile est31 suposto o decreto do Padre e a presciência do mesmo Cristo era de matéria não possível E se não ser respondido a um impossível custa tanto não ser respondido no que talvez se faz a todos quanto lastimará O que mais se deve sentir nestas desatenções dos que têm ofício de responder são os danos públicos que delas se seguem Não estivera melhor a república que o sangue que se sua no requerimento se derramara na campanha Pois isso mesmo sucedeu neste caso Se Cristo não suara sangue no Horto havia de derramar mais sangue no Calvário porque havia de derramar o sangue que derramou e mais o que tinha suado Se no requerimento se esgotarem as veias a quem há de ficar sangue para a batalha Nem fica sangue nem fica frio nem fica gosto nem fica vontade tudo aqui se perde Começou Cristo a orar ou a requerer no Horto e começou juntamente a quê A enfastiarse a temer a entristecerse Coepit pavere et taedere constristari et maestus esse Mc 1433 Mt 26 37 O mesmo acontece na corte ao mais valoroso capitão ao mais brioso soldado Vai um soldado servir na guerra e levs três coisas leva vontade leva ânimo leva alegria Torna da guerra a requerer e todas estas três coisas se lhe trocam A vontade trocase em fastio taedere o ânimo trocase em temor pavere a alegria trocase em tristeza et maestus esse E que tem a culpa de toda esta mudança tão danosa ao bem público As dilações as suspensões as irresoluções o hoje o amanhã o outro dia o nunca dos vossos quandos E faz consciência destes danos algum dos causadores deles Pois saibam ainda que o não queiram saber e desenganaremse ainda que se queiram enganar que a restituição que devem não é só uma senão dobrada Uma restituição ao particular e outra restituição à república Ao particular porque serviu à república porque não terá quem a sirva Dirmeeis que não há com que despachar e com que premiar a tantos Por esta escusa esperava Primeiramente eles dizem que há para quem quereis e não há para quem não quereis Eu não digo isso porque o não creio mas se não há com que por que lhe não dizeis que não há Por que os trazeis suspensos Por que os trazeis consumidos e consumindose Esta pergunta não tem resposta porque ainda que pareça meio de não desconsolar os pretendentes muito mais os desconsola a dilação e a suspensão do que os havia de desconsolar o desengano No mesmo passo o temos Estando Cristo na maior aflição do seu requerimento desceu um anjo do céu a confortálo Apparuit illi angelus de caelo confortans eum Lc 22 43 E em que consistiu o conforto se a resposta foi que bebesse o cálix contra o que Cristo pedia Nisso mesmo esteve o conforto porque ainda que lhe respondesse com o despacho responderamlhe com o desengano Vede quanto melhor é desenganar aos homens que ditálos e suspendelos A dilação e a suspensão para Cristo era agonia o desengano foi alento A dilação sem despacho são dois males o desengano sem dilação é um mal temperado com um bem porque se me não dais o que peço ao menos livraisme do que padeço Livraisme da suspensão livrais me do cuidado livraisme do engano livraisme da ausência de minha casa livraisme da corte e das despesas dela livraisme do nome e das indignidades de requerente livraisme do vosso tribunal livraisme das vossas escadas livraisme dos vossos criados enfim livraisme de vós E é pouco Pois se com um desengano dado a tempo os homens ficam menos queixosos o governo mais reputado o rei mais amado e o reino mais bem servido por que se há de entreter por que se há dilatar por que se não há de desenganar o pobre pretendente que tanto mais o empobreceis quanto mais o dilatais Se não há cabedal de fazenda para o despacho não haverá um não três letras para o desengano Será melhor que ele se desengane depois de perdido e que seja o vosso engano a causa de se perder Quereis que se cuide que os sustentais na falsa esperança porque são mais rendosos os que esperam que os desenganados Se lhe não podeis dar o que lhe negais quem lhe dá de restituir o que lhe perdeis Oh restituições Oh consciências Oh almas Oh exames Oh confissões Seja a última admiração esta pois não louvo nem condeno e só me admiro com as turbas Et admiratae sunt turbae X Confessar as confissões é dobrar o remédio sobre si mesmo Como fazêlo bem Com tempo suficiente e confessar douto timorato e de valor De todo este discurso se colhe se eu me não engano com evidência que há muitos escrúpulos no mundo de que se faz pouco escrúpulo que há confissões em que fala o mudo e não sai o demônio e que suposta a obrigação de se confessarem todos os pecados se devem também confessar estas confissões Grande mal é não sarar com os remédios mas adoecer dos remédios ainda é mal maior E quando se adoece dos remédios que remédio O remédio é curarse um homem dos remédios assim como se cura das enfermidades Este é o caso em que estamos O remédio do pecado é a confissão mas se as minhas confissões em lugar de me tirarem os pecados por minha desgraça nos acrescentam mais não há outro remédio senão dobrar o remédio sobre si mesmo e confessar as confissões assim como se confessam os pecados Daqueles que tornam a recair nos pecados passados dizia Tertuliano que faziam penitência da penitência e que se arrependiam Se os maus se arrependem dos arrependimentos os que devem e querem ser bons por que se não confessarão das confissões Uns o devem fazer pela certeza outros o deverão fazer pela dúvida e todos é bem que o façam pela maior segurança Para que esta confissão das confissões saia tal que não seja necessário tornar a ser confessada devemos seguir em tudo o exemplo presente de Cristo na expulsão deste diabo mudo Primeiramente Erat ejiciens Lc 1114 Todos os outros milagres faziaos Cristo em um instante este de lançar fora o demônio não o fez em instante nem com essa pressa senão devagar e em tempo É necessário primeiro que tudo a quem houver de reconfessar as suas confissões tomar tempo competente livre e desembargado de todos os outros cuidados para o ocupar só neste pois é o maior de todos Cum accepero tempus ego justitias judicabo SI 743 Eu tomarei tempo diz Deus para julgar as justiças Se Deus para examinar e julgar as consciências dos que governam diz que há de tomar tempo como poderão os mesmos que governam julgar as suas consciências e examinar os seus exames se não tomarem tempo para isto Dirá algum que é tão ocupado que não tem este tempo E há tempo para o jogo E há tempo para a quinta E há tempo para a conversação E há tempo e tantos tempos para outros divertimentos de tão pouca importância e só para a confissão não há tempo Se não houver outro tempo tomese o do ofício tomese o do tribunal tomese o do concelho O tempo que se toma para fazer melhor o ofício não se tira do ofício Mas para acurtar de razões pergunto Se agora vos dera a febre maligna como pode dar havíeis de cortar por tudo para acudir à vossa alma para tratar de vossa consciência Sim Pois o que havia de fazer a febre por que o não fará a razão O que havia de fazer o medo e a falsa contrição na enfermidade por que o não fará a verdadeira resolução na saúde Tomado o tempo e tomado a qualquer força e qualquer preço seguese a eleição do confessor Quem aqui obrou o milagre foi Cristo Erat Jesus ejiciens daemonium Lc 1114 O confessor está em lugar de Cristo e quem há de estar em lugar de Deushomem é necessário que seja muito homem e que tenha muito de Deus Non confundaris confiteri peccata et ne subjicias te omni homni pro peccato32 Não vos corrais de confessar os vossos pecados diz o Espírito Santo mas adverti que na confissão deles não vos sujeiteis a qualquer homem Se a saúde do corpo que alfim é mortal e há de acabar a não fiais de qualquer médico a saúde da alma de que depende a eternidade por que a haveis de fiar de qualquer confessor Indouto claro está que não deve ser mas não basta só que seja douto senão douto e timorato Confessor que saiba guiar a vossa alma e que tema perder a sua Confessou Judas o seu pecado aos príncipes dos sacerdotes Peccavi tradens sanguinem justum Mt 274 E eles que lhe responderam Quid ad nos Tu videris E a nós que se nos dá disto Lá te avém Vede que sacerdotes que nem se lhes dava da sua consciência nem da do penitente que se lhes ia confessar Haveis de escolher confessor que se lhe dê tanto da vossa consciência como da sua E basta que seja douto e timorato Não basta Há de ser douto e timorato e de valor É tal a fraqueza humana que até no tribunal de Cristo se olha para os grandes como grandes e se lhes guardam respeitos quando se lhes não faça lisonja Andando Filipe II à caça foilhe necessário sangrarse logo e chamaram o sangrador de uma aldeia porque não havia outro Perguntoulhe o rei se sabia a quem havia de sangrar Respondeu Sim a um homem Estimou o grande rei este homem como merecia e serviuse dele dali em diante Com semelhantes homens se hão de curar no corpo e na alma os grandes homens Com homens que sangrem a um rei como a um homem Posto aos pés deste homem e nele aos pés de Deus fale o mudo com tal verdade com tal inteireza e com tal distinção do que confessou ou não confessou dos propósitos que teve ou não teve da satisfação que fez ou deixou de fazer que de uma vez e por uma vez acabe de sair o demônio fora E seja com tão viva detestação de todos os pecados passados com tão firme resolução da emenda de todos eles e com tão verdadeira e íntima dor de haver ofendido a um Deus infinitamente amável e sobre todas as coisas amado que não só saia o demônio para sempre e para nunca mais tornar mas que já esteja lançado da alma quando falar o mudo Et cum ejecisset daemonium locutus est mutus SERMÃO DO SANTÍSSIMO SACRAMENTO EXPOSTO NA IGREJA DE S LOURENÇO IN DAMASO NOS DIAS DO CARNAVAL EM ROMA ANO DE 1674 TRADUZIDO DO ITALIANO Tentat vos Dominus Deus vester ut palam fiat utrum diligatis eum an non1 I Nos outros tempos eram três os tentadores dos homens agora não só tenta a carne o diabo e o mundo mas Deus também nos tenta a fim de provar e descobrir quais são seus amigos Maior espetáculo ó Tibre vês estes dias tu nas margens soberbamente habitadas de tuas ribeiras daquele que viu antigamente o Jordão nas soledades do seu deserto quando o demônio tentou a Cristo Ali se viu Deus tentado aqui se vê Deus tentador Tentat vos Dominus Deus vester Maior espetáculo ó Roma vês estes dias tu nas tuas praças palácios e templos daquele que viste antigamente no teu bárbaro anfiteatro quando os novos professores do Cristianismo eram deitados às feras Ali com tormentos e mortes se provava a fé aqui entre jogos e passatempos se prova o amor Ut palam fiat utrun diligatis eum an non Terríveis dias são estes e terrível concurso de tempo senhores meus Nos outros tempos e por toda a roda do ano os tentadores dos homens são três nestes dias são quatro e o quarto maior e mais poderoso que todos Nos outros tempos tenta o mundo tenta o diabo tenta a carne nestes dias não só tenta a carne o diabo o mundo e mais fortemente que nunca mas Deus também nos tenta Tentat vos Dominus Deus vester Porque cuidais que sai Deus de seus sacrários Por que cuidais que se põe Deus em público nestes dias senão para tentar também ele publicamente no tempo das tentações públicas Os três tentadores universais sempre tentam como inimigos mas não sempre como inimigos descobertos porém nestes dias quando os homens com tão estranhos disfarces se cobrem a cara o mundo o diabo a carne tentam à cara descoberta Por isso no mesmo tempo se descobre Deus para tentar ele também descobertamente Mas a que fim Não a fim de ajudar tentando a nossos inimigos mas a fim de provar e descobrir tentando quais são os seus amigos Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Esta é a propriedade natural das palavras que propus e esta será a matéria não menos própria do meu discurso Deus tentador Roma tentada os que amam ou não amam a Deus publicamente conhecidos Os pontos são três mas eu por brevidade os reduzirei a um só E comecemos II Deus tentador no carnaval O maná figura da Eucaristia remédio e tentação Os hebreus se enfastiaram do maná não pelo gosto mas pela vista tentação idêntica à que nos submete Deus na Eucaristia Tentat vos Dominus Deus vester Deus nos tenta Deus tentador Estupenda e temerosa palavra e ao parecer indigna e indecente Mas não é ainda esta a minha maior admiração Deus tentador e tentador no Sacramento Aqui está a dificuldade aqui o assombro O Santíssimo Sacramento do altar não é o peito forte com que Deus nos arma contra todas as tentações Aquela hóstia consagrada não é o escudo dobrado humano e divino juntamente com que se defende a Igreja E que nos atrevamos a dizer sem escândalo da piedade que o toma Deus por instrumento de nos tentar Tentat vos Dominus Deus vester Nestes dias sim Tumultuou o povo no deserto contra Moisés e foi o tumulto de carnaval Utinam mortui essemus in Aegypto quando sedebamus super ollas carnium2 Egito memórias da gentilidade gosto e apetite depravado intemperanças de gula enfim carne E que fez Deus então para apagar a rebelião e moderar a desordem deste apetite bruto Dixitautem Dominus ad Moysen Ego pluam vobis panes de caelo3 Moisés não é bem que o meu povo se lembre do Egito e daquilo que tinha e o deleitava quando vivia entre gentios eu lhe darei pão do céu De maneira que a primeira origem do maná e a primeira instituição do sacramento em figura foi para apartar e descarnar os homens dos apetites e costumes que chamais carnavalescos e para desarraigar do seu povo as memórias e relíquias da gentilidade quais são as que ainda se conservam entre os cristãos nestes dias Bem E teve mais algum outro fim Deus em dar o maná ao povo Sim o que eu digo Não só lhe deu o maná para o tirar daquele vício senão também para o tentar Ouvi o que ajuntou Deus às palavras referidas Ego pluam vobis panes de caelo egrediatur populus et colligat ut tentem eum utrum ambulet in lege mea an non Êx 16 4 Eu darei o maná ao povo ele sairá a recolher e eu com isto o tentarei se obedece à minha lei ou não Este foi o segundo fim por que deu Deus o maná O primeiro para remédio o segundo para tentação o primeiro para apartar a povo dos costumes profanos do Egito o segundo para tentar e provar o mesmo povo se obedecia e amava a Deus ou não Ut tentem eum utrum ambulet in lege mea an non que é em próprios termos o fim e sentido das nossas palavras Tentat vos Dominus Deus vester ut palam ilat utrun diligatis eum an non Já temas a Deus tentador e tentador no carnaval e tentador como sacramento e que o fim de nos tentar neste tempo e com este mistério é para provar nosso amor Mas em que consiste a energia desta tentação o exame desta dúvida e a averiguação desta prova Consiste em se conhecer e constar publicamente se pode mais em nós a fé que a vista e se deixamos a gosto do que se vê pelo amor do que se não vê Tornemos ao deserto e prossigamos a mesma história Depois de alguns dias que não foram muitos tornou aquele povo malacostumado e rebelde a cair na mesma tentação Lembravamse como dantes dos comeres profanos do Egito e das grosserias vis que lá tinham por regala e diziam com grande aborrecimento que o maná os enfastiava Anima nostra nauseat super cibo isto4 Este é um dos lugares da Escritura mais dificultosos de entender porque o maná como consta do mesmo texto sagrado continha em si os sabores de todos os manjares Deserviens uniuscujusque voluntati diz a sabedoria5 E Davi Omnem escam abominata est anima eorum6 Pois se o maná continha todos os sabores como podia causar fastio Aquele fastio não era por demasiada fartura nem por falta de fome ou vontade de comer porque no mesmo tempo suspiravam pelos olhos do Egito Logo se o maná não só de prato a prato mas de bocado a bocado podia variar os sabores e os hebreus quando comiam se assentavam sempre a uma mesa mais abundante e esquisitamente provida que a do seu Faraó e tinham nela juntas as sabores de quanta nada na mar voa no ar e pasce ou nasce na terra como não tiravam o fastio de um sabor com a mudança e variedade do outro E se alguém me disser que a delicadeza de manjares tão preciosos não era para o paladar grosseiro e servil de uma gente pouca antes escrava donde vinha dizerem eles In mentem nobis veniunt cucumeres et pepones porrique et caepe et allia7 os sabores destas verduras rústicas e de quaisquer outras baixezas vilãs e grosseiras também se continham no mesmo maná Como logo lhes causava nem podia causar fastio Os doutos terão lido muitas soluções desta grande dúvida mas eu cuido que vos hei de dar a literal e verdadeira Diga que o fastio do maná não estava no gosto estava nos olhos O que gostavam os hebreus era tudo quanto queriam mas o que viam era somente maná Maná ao jantar maná à ceia maná hoje maná amanhã sempre maná E como toda a variedade era para o gasto e para os olhos não havia variedade nem diferença os olhos eram os que se enfastiavam Não é exposição minha senão confissão sua Eles o dizem no mesmo texto Nihil aliud respiciunt oculi nostri nisi man Núm 116 Os nossos olhos não vêem outra coisa mais que maná E como não viam mais que maná por isso o não podiam ver por isso se enfastiavam dele e tornavam com os desejos ao Egito Oh divino maná e verdadeiro pão do céu Cremos e confessamos que estão encerrados debaixo desses acidentes todos os gostos e delícias da alma mas Anima nostra nauseat super cibo isto porque Nihil respiciunt oculi nostri nisi man Esta foi a tentação antigamente com que Deus tentou o povo israelítico no maná Ut tentem eum Esta é hoje a tentação com que tenta o povo católico no Sacramento Tentat vos Dominus Deus vester Os hebreus exceto um Moisés e os poucos que o seguiam os cristãos exceto outro Moisés8 e os poucos que o seguem todos vemos rendidos à tentação porque todos gostam mais das mesas profanas e abomináveis do Egito que daquele pão do céu A razão desta sem razão tão grande em uns e outros é a mesma nos hebreus porque não viam mais que maná nos cristãos porque não vemos mais que aqueles acidentes brancos Nihil respiciunt oculi nostri nisi man Oh fraqueza da fé oh cegueira e tirania dos olhos humanos Tenta Deus nestes dias e tenta o mundo e uma e outra tentação põe o laço nos olhos mas a de Deus nos olhos fechados a do mundo nos olhos abertos Deus tenta com a sua presença encoberta o mundo tenta com as suas representações públicas E como aquelas representações se vêem e esta presença não se pode ver em vez de triunfar a fortaleza da fé contra os apetites e enganos da vista triunfa a tirania da vista contra as obrigações da fé Se Cristo como está presente corresse aquela cortina que o encobre subitamente se veria nesta igreja a transfiguração do Tabor e toda a cidade de Pedro diria como mesmo Pedro Bonum est nos hic esse9 Mas Cristo não quer vencer o mundo com armas iguais Põese em campo contra ele invisível a nossos olhos porque vem a fazer prova de nossa fé e do nosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non III O Tabor e a exclamação de S Pedro Fineza natural do heliotrópio e fineza sobrenatural de Moisés Os serafins de Isaías e a visão de Deus Conselhos de Davi a Deus Notável caso é que quando S Pedro disse Bonum est nos hic esse digam os evangelistas que estava fora de si Nesciens quid diceret10 Quer estar sempre com Cristo e está fora de si Antes dissera eu que nunca esteve mais em si que quando quis estar sempre com Cristo Pois por que mereceu uma tal censura o fervor e amor de Pedro Porque disse que queria estar com Cristo quando viu descobertos os resplendores de sua glória sendo que isso havia de dizer quando depois se lhe encobriram com a nuvem que sobreveio No teatro do Tabor representaramse sucessivamente duas cenas muito diversas Na primeira apareceu a majestade de Cristo como sol resplandecente descoberto e coroado de raios Resplenduit facies ejus sicut sol11 Na segunda desceu e atravessou se uma nuvem que eclipsou toda aquela glória e a encobriu aos olhos dos apóstolos Nubes obumbravit eos12 E que disse agora Pe dro Nada Pois agora é que ele havia de dizer Bonum est nos hic esse porque querer estar com Cristo quando se mostra e deixa ver com toda a sua glória e majestade nem é fé nem é amor nem é pensamento digno da cabeça da Igreja Por isso a mesma nuvem que lhe tolheu o sentido da vista lhe abriu e espertou logo o sentido da fé Et ecce vox de nube dicens Ipsum audite13 A prova da verdadeira fé e a fineza do verdadeiro amor não é seguir ao sol quando ele se deixa ver claro e formoso com toda a pompa de seus raios senão quando se nega aos olhos escondido e encoberto de nuvens Vedeo no espelho da natureza Aquela flor a que o giro do sol deu o nome chamada dos gregos heliotrópio imóvel e com perpétuo movimento jamais deixa de seguir e acompanhar a seu amado planeta Quando o sol nasce se lhe inclina e o saúda quando sobe se levanta com ele quando está no zênite o contempla direita quando desce se torna a dobrar e quando finalmente chega ao ocaso com nova e profunda inclinação se despede dele Grande milagre da natureza Grande fineza de amor Mas onde está o mais fino desta fineza Descobriuo e ponderouo Plínio com uma reflexão tão admirável como a da mesma flor Heliotropii miraculum saepius diximus cum sole se circumagentis etiam nubilo die Tantus sideris amor est Maravilha é e fineza prodigiosa que aquela flor amante do sol sem se poder mover de um lugar o siga sempre em roda acompanhando seu curso mas o mais maravilhoso desta maravilha e o mais fino desta fineza diz Plínio é que não só segue e acompanha o sol quando se lhe mostra claro e resplandecente senão quando se esconde e se cobre de nuvens Etiam nubilo die tantus sideris amor est Mas passemos da escola da natureza à da graça e vejamos se há nela alguma flor semelhante Desejou Moisés ver a Deus e pediulhe que lhe mostrasse seu rosto Ostende mihi faciem tuam Êx 3313 Foilhe respondido que não era possível nesta vida Non videbit me homo et vivet14 E que vos parece que faria Moisés com este desengano Não o disse ele na sua história mas disseo por ele S Paulo com altíssima ponderação Invisibilem tanquam videns sustinuit15 Desenganado Moisés de poder ver a Deus foi tal a sua fineza que fazia não o vendo o que havia de fazer se o vira Que havia de fazer Moisés se vira a Deus Havia de estar sempre com os olhos fixos nele sem jamais se apartar de sua vista e de sua presença Pois isto que havia de fazer se o vira isso mesmo fazia não o vendo Invisibilem tanquam videns sustinuit Assim provou Moisés o seu amor e assim prova Deus nestes dias e quer provemos o nosso Ut palam fiat utrum diligatis eum Mostrasenos o Sol Divino encoberto com aquela nuvem que o faz invisível para provar se pode tanto em nós a fé como a vista e se o assistimos e acompanhamos não o vendo como se o víramos Os que assim o fizeram bem podem tomar por divisa de seu amor a fineza natural do heliotrópio e a sobrenatural de Moisés E será o corpo e a alma da empresa igualmente discreta O corpo um heliotrópio voltado ao sol coberto de nuvens e a alma a letra de S Paulo Invisibilem tanquam videns Não cuide que ama a Cristo quem não antepõe sua presença invisível a tudo quanto se vê e pode ver no mundo Lá vos chama a ver aqui a não ver porque a prova do verdadeiro amor não está em amar vendo senão em amar sem ver Amar e ver é bemaventurança amar sem ver é amor O mesmo mundo o contesta Toda a gala do amor qual é Vós o pintais nu como a verdade e assim há de ser se é amor Qual é logo a sua gala Toda a gala do amor é a sua venda Vendado e despido porque quando não tem uso dos olhos então se descobre o amor Ut palam fiat utrum diligatis eum Daime agora licença para que examine um passo vulgar de Isaías o qual cada dia aparece nos púlpitos mas para mim ainda é oculto e novo Viu Isaías aqueles serafins que todos sabem e o que eu não sei entender é como os ditos serafins assistiam a Deus e não viam a Deus Assistiam a Deus porque estavam diante do trono de Deus Seraphim stabant super illud Não viam a Deus porque com a interposição das asas cobriam os olhos próprios e a face do mesmo Deus Velabant faciem ejus16 Aqui está o ponto da minha dificuldade E folgara que me disseram os doutos que serafins são aqueles que assistem a Deus e não vêem a Deus É certo e de fé que todos os espíritos angélicos estão sempre vendo a face de Deus Angeli eorum semper vident faciem Patris qui in caelis est Mt 1810 Os serafins não só são anjos senão os supremos anjos da suprema hierarquia logo também é certo que todos os serafins vêem sempre a Deus e com visão mais alta e mais imediata que todos os outros anjos Que serafins são logo estes que assistem a Deus e não vêem a Deus Senhores meus estes serafins não vêem a Deus mas eu vejo estes serafins Dizeime Todos os que concorreis a esta igreja a adorar e acompanhar a Cristo sacramentado naquele trono assistis a Deus Sim Vedes a Deus Não Pois estes são os serafins que assistem a Deus e não vêem a Deus Não são serafins do céu são serafins da terra não são serafinsanjos são serafins homens E porque estes serafins vêm a assistir e vem a não ver por isso as mesmas asas que os trazem os param e os cegam juntamente Volabant stabant velabant Neste sentido interpretam a visão de Isaías dos Padres gregos S Cirilo e dos latinos S Jerônimo Mas eu não quero outro expositor que o mesmo texto Digo que a visão não era no céu senão na terra Assim diz o texto Plena est omnis terra gloria ejus17 Digo que o lugar da terra era a igreja Et ea quae sub ipso erant replebant templum18 Digo que nessa igreja estava impedida a vista e o uso dos olhos Assim diz o texto Et domus repleta est fumo19 Mas se os chamados serafins que assistiam nessa terra nessa igreja e nessa invisibilidade de Deus são os homens porque lhes não chama Isaías homens nem anjos nem arcanjos nem querubins senão serafins Por isso mesmo Porque assistem a Deus sem o ver Os serafins são aqueles espíritos ardentes a quem o amor a Deus deu o nome porque entre todas as hierarquias e sobre todas amam a Deus mais que todos E porque a circunstância de amar e assistir a Deus sem o ver é a maior prova a maior fineza e o grau mais alto e mais sublime a que pode subir ou voar o amor por isso lhe chama o profeta serafins mas serafins com os olhos vendados Perdoaime serafins do céu Vós tendes lá o nome e cá está o amor Vós lá assistis e amais mas vedes Cá assistimos e amamos e não vemos Esta única glória é própria da terra e própria de Deus Própria da terra Plena est omnis terra porque amar sem ver a Deus é glória que não há nem houve nem haverá nunca no céu E própria de Deus Gloria ejus porque Deus no céu da glória aqui recebea Esta é a força daquele ejus No céu dá Deus a glória aos bem aventurados na terra vós que o assistis dais a glória a Deus Deus no céu dá a glória aos bemaventurados porque deixandose ver e amar faz aos bemaventurados gloriosos Vós na terra dais a glória a Deus porque amandoo sem o ver vós o glorificais No céu Deus é o glorificador e os bemaventurados os glorificados na terra vós sois os glorificadores e Deus o glorificado e glorioso Plena est omnis terra gloria ejus Tanto vai de amar vendo a amar sem ver E porque o intento de Cristo nestes dias é tentar e provar o nosso amor Tentat vos utrum diligatis eum an non por isso se apresenta à nossa fé e não a nossos olhos não vestido de majestade e glória senão armado de invisibilidade Aquele grande guerreiro Davi aconselhava a Deus se queria render e trazer tudo a si que se armasse de sua formosura e que a beleza de seu rosto fosse a sua espada Accingere gladio tuo super femur tuum potentissime Specie tua et pulchritudine tua intende prospere procede et regna20 Mas assim como Davi não aceitou as armas de Saul assim Cristo não aceita estas armas de Davi E quando o mundo para nos levar após si faz público e pomposo teatro aos olhos de tudo o que o engenho e novidade pode inventar agradável e deleitoso ele pelo contrário debaixo daqueles disfarces esconde todos os tesouros de sua formosura confiado de nossa fé e de nosso amor que invisível será adorado que não visto será assistido e que escondido e encoberto será descobertamente amado Ut palam fiat utrum diligatis eum IV Toca a nós ou resistir e vencer a tentação ou cair Roma e o milagre do Jordão Davi interpela a parte superior do Jordão que parou à passagem da Arca O autor com o profeta interroga a parte inferior do rio que lhe voltou as costas Esta é senhores a tentação com que Deus nos tenta digna da generosidade e grandeza e do coração amoroso de tão soberano tentador Tentat vos Dominus Deus vester Agora toca a nós ou resistir e vencer a tentação ou cair ou ser da multidão vulgar dos que por suma fraqueza e indignidade seguem o mundo ou ser do mundo generoso e verdadeiramente cristão dos que deixando ao mundo as suas loucuras seguem e assistem a Cristo e professam publicamente nestes dias ser do partido dos que o amam Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Toda a tentação e toda a vitória está entre um sim e um não Ou ver ou não ver ou amar ou não amar Até agora Utrum diligatis eum an non é problema Vós o haveis de resolver e os vossos olhos De boa vontade o disputara eu largamente por uma e outra parte Mas porque a brevidade do tempo mo não permite eu volo proporei já disputado e resoluto na Escritura e prodigiosamente representado Tornemos às ribeiras do Jordão Entrou no Jordão a Arca do Testamento e subitamente as águas do rio se dividiram em duas partes ou em duas parcialidades A parte superior como estática e atônita à presença da Arca tornou atrás e parou e assim esteve imóvel A parte inferior deixandose levar da inclinação natural e ímpeto da corrente não parou e correu ao mar Esta é a famosa história que todos os anos nestes dias se representa em Roma A Arca do Testamento na qual se encerrava toda a grandeza e majestade de Deus é o digníssimo Sacramento o Jordão que se dividiu não é o Tibre mas a cidade do Tibre que também tem suas correntes e suas divisões A parte superior que reverente parou à presença da Arca são aqueles que assistem e acompanham a este Senhor A parte inferior que se retirou e correu ao mar são os que o deixam e desacompanham e se vão com a corrente onde os chama o mundo À vista desta diferença tão notável fala Davi com o rio e diz assim Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordane quia conversus es retratsum21 Jordão parado Jordão fugitivo que divisão é esta e que resolução tão diversa Tu que paras por que paras E tu que foges de quem foges Se a causa é a mesma o rio e mesmo e a natureza de uma e de outra parte a mesma por que são os movimentos tão contrários Responde Davi pela parte do Jordão superior e parado e diz que parou cortês e obsequioso porque reconheceu e reverenciou na Arca a presença do Deus de Jacó Afacie Domini afacie Dei Jacob22 Chamavase a Arca face de Deus pela particular assistência com que Deus invisivelmente residia nela E daqui se segue também que todo o verso de Davi se há de entender como nós o entendemos da passagem do Jordão porque na passagem do Mar Vermelho ainda não havia arca Mas se bastava dizer que parou o Jordão A facie Domini por que acrescentou nomeadamente o profeta que esse Deus era Deus de Jacó A facie Dei Jacob Seria porventura para diferenciar o Deus verdadeiro qual era o de Jacó dos deuses falsos e fabulosos que em diversas figuras adoravam naquele tempo os gentios Verdadeiramente senhores que quem não pára aqui a reverenciar e assistir àquela divina Arca ou não crê que está ali o verdadeiro Deus ou tem outros deuses falsos e torpes a quem mais ama e adora Mas não é este só o mistério nem foi esta só a fineza do Jordão Nota neste passo a glosa que não disse o profeta A facie Dei Israel senão A facie Dei Jacob Este patriarca tinha dois nomes o de Jacó que lhe puseram os homens e o de Israel que lhe deu Deus Pois por que se não chama Deus neste caso Deus de Israel senão Deus de Jacó Com grande mistério Jacó quer dizer Luctator o lutador Israel quer dizer Videns Deum o que vê a Deus E como Deus estava invisivelmente na Arca e o Jordão parou a Deus invisível por isso Deus se não chama aqui Deus do que vê a Deus Deus Israel porque foi Deus reverenciado e não visto chamase porém com segundo mistério e com maior energia Deus Jacob Deus lutador porque o Jordão resistindo ao peso das águas e refreando o ímpeto da corrente lutou fortemente contra a inclinação precipitosa da própria natureza e a venceu gloriosa mente De maneira que se ajustaram neste milagre do Jordão as duas circunstâncias que necessariamente concorrem nos que assistem a Cristo sacramentado nestes dias A primeira lutar como Jacó e vencer o ímpeto da inclinação natural que os leva a seguir a corrente A segunda parar e assistir aqui imovelmente a Deus mas não a Deus visto como Deus de Israel senão a Deus invisível como Deus de Jacó Assim respondeu Davi pela parte superior do Jordão que parou e reverenciou a Arca Mas pela parte inferior que correu ao mar e lhe voltou as costas como foi ação tão irracional tão precipitada e tão feia condenoua e afrontoua o profeta com a admiração da sua mesma indignidade perguntandolhe por que fugia de Deus Quid est tibi mare quod fugisti Mas se era rio por que lhe chama mar E se era o Jordão por que lhe não chama Jordão O nome que lhe tirou e o que lhe deu ambos foram declaração da censura que merecia O rio que corre ao mar seguindo a própria natureza vai buscar sua perdição ali perde o nome e o ser porque já não é rio é mar Assim foi buscar o seu naufrágio e o seu castigo aquela indigna parte do Jordão que voltou as costas à Arca E posto que esta razão bastava para lhe negar o profeta o nome de Jordão ainda o fez com maior mistério e mais claro documento e repreensão dos que nestes dias o imitam Jordanis quer dizer fluvius judicii o rio do juízo E como podia ser digno de tal nome uma parte do mesmo rio tão precipitada tão furiosa e sem juízo que por seguir o ímpeto e costume da natureza deixou de assistir à Arca de Deus e fugiu de sua presença Prezemse agora de entendidos e discretos os que se apartam ou fogem da mesma presença para ver e autorizar com a sua as loucuras do mundo nos dias em que ele mais que nunca perde o siso E se quereis ver quão alheia de juízo é semelhante resolução ponderaia comigo debaixo da alegoria do mesmo rio e ouvime falar com ele com as mesmas palavras do profeta Quid est tibi mare quod fugisti Rio precipitado e infeliz que te deixaste arrebatar da fúria da corrente e fugiste da presença da Arca de Deus dizeme de que foges tu e por quê Que mal te tem feito aquele Senhor para fugir dele De um Deus que te busca que vem em pessoa a santificarte de um Deus que sendo tu dos amorreus te quer fazer seu de um Deus que te quer livrar da servidão da gentilidade de um Deus que se mete todo dentro de ti mesmo deste Deus tão amoroso foges tu Dizeme assim eu te veja tomar atrás Quid est tibi Que fruto que proveito que interesse tens em deixar e te apartar de Deus Se te move o costume inveterado da tua corrente não vês tu que é melhor e mais são conselho emendar os costumes maus antes de chegar ao Mar Morto onde tu caminhas Se te leva o ímpeto e inclinação natural não vês que a outra parte de ti mesmo sendo da mesma natureza Conversus est retrorsum Se ele não seguiu teu exemplo por que não imitarás tu o seu Se o não fazes por virtude ao menos o deves fazer por reputação e por honra Não vês que aquele Jordão que teve mão em si e parou à presença da Arca quanto mais está parado tanto mais cresce e se exalta Não vês que ele é o milagroso o admirado o reverenciado o louvado o chamado santo Que é logo o que te leva Que é o que vais buscar aonde tão arrebatadamente caminhas Quid est tibi more quod fugisti V O Mar Morto Vallis Salinarum e o carnaval A tentação do riso e o sacrifício de Isac Roma e Sara mãe dos crentes Naquela palavra mare temos todo o quid est ou todo o porquê da admiração do profeta e isso mesmo tanto para admirar e estranhar que apenas se pode dizer sem indecência Mas não é muito que se diga pois se vê Aquele mar aonde foi parar a parte do Jordão que não parou é o que nós hoje chamamos Mar Morto e naquele tempo se chamava Vallis Salinarum porque sendo estéril de pescado e de toda a coisa vivente só se tirava dele sal Pois para correr ao Vale do Sal se há de deixar a presença e reverência da Arca Para correr ao Vale do Sal se há de fugir de Deus Assim é Para correr ao Vale do Sal e do sal que algumas vezes é assaz mordaz e picante Tudo o que vai ver e ouvir a passatempo e gosto vão destes dias que outras coisas são senão aquelas que a antiga Roma chamava sales e a moderna sali Graças chistes motes facécias bufonarias metamorfoses de trajos equívocos de pessoas transfigurações dos sexos e da espécie máquinas jocosas invenções ridículas enfim quanto sabe excogitar o engenho a sutileza e a ociosidade para mover a riso Que diria a severidade do vosso Catão se tal visse Para isto se vêem cheias as praças as ruas os balcões os teatros todos a rir e tudo para rir E que sendo em suma tão leve e tão ridícula a tentação triunfe contudo o mundo de nós e pareça que triunfa do mesmo Deus Senhor Senhor quase estava para vos representar a minha dor que seria maior decência de vossa divina autoridade retirarvos ao Sancta Sanctorum de vossos sacrários que aparecer em público nestes dias Seja riso aquele riso mas não seja irrisão vossa Riamse os homens do que vêem e do que fazem mas não pareça que se riem de vós pois fazem tão pouca conta de vossa presença Saibam porém os que assim deixam a Deus e o trocam ou vendem por tão vil preço que Deus como pregou S Paulo non irridetur23 e que lá está guardado um Vae da divina justiça para este riso Vae vobis qui ridetis quia plorabitis24 Esta é senhores a representação que vos prometi do vosso problema Utrum diligatis eum an non disputado na história do Jordão e resoluto diversamente por ambas as partes uma que parou reverente à presença da Arca outra que voltou as costas e correu ao mar Veja agora cada um qual destas partes ou partidos se resolve a seguir E porque toda a tentação de amar ou não amar a Deus nestes dias se vem a resumir no que se resume a religião ou vaidades deles que é sacrificar ou não sacrificar o riso disponhamonos animosamente para o sacrifício e tomemos por exemplar dele um vencedor famoso de semelhante tentação e tentação também de Deus como a nossa Tentou Deus a Abraão para provar seu amor São os termos com que fala a Escritura Tentavit Deus Abraham Gên 22 1 A tentação foi que lhe sacrificasse Isac o seu amado E diz S Paulo que esta tentação de Abraão e sacrifício de Isac foi parábola de Deus Unde eum in parabolam accepit25 Mas como foi parábola se é história verdadeira Não quer dizer o apóstolo que não fosse verdadeira história Quer dizer que foi história e parábola juntamente história pelo que era parábola pelo que significava Saibamos agora E que significa Isac e o seu sacrifício Isac significa riso E ainda que pareça matéria de riso este riso na significação de Deus é a matéria de toda a tentação e este riso é o que Deus nos manda sacrificar S Bernardo Dicitur tibi ut immoles Isaac tuum Isaac enim interpretatur risus Sabeis diz Bernardo o que Deus manda que lhe sacrifiquemos quando manda sacrificar Isac Manda que lhe sacrifiquemos o riso Quando mandou a Abraão que sacrificasse o seu Isac mandoulhe que sacrificasse o seu filho e esta foi a história Quando nos manda que sacrifiquemos o nosso Isac mandanos que sacrifiquemos o nosso riso e esta foi a parábola Eum in parabolam accepit Todos estamos tentados por Deus como Abraão Tentat vos Dominus Deus vester Todos estamos tentados como ele para fazer prova do nosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non Se há quem se atreva a sacrificar o seu Isac suba com Abraão ao monte para o imitar E note bem a gentileza daquele grande coração e daquele braço O formidabile spetaculum Amor in prolem Deique dilectio judicio contendunt et judex ensifer instat Abrahamus et gladio jus dicit O formidável espetáculo diz S Basílio de Selêucia Litigavam no coração de Abraão dois amores ambos grandes ambos fortes ambos dificultosos de vencer o amor de Deus e o amor de Isac Por parte de Deus advogava a fé por parte de Isac contradizia toda a natureza E Abraão posto no meio destes dois afetos era o juiz que com a espada havia de pronunciar a sentença Tal é a controvérsia ó cristão que tu hás de decidir neste ponto Utrum diligatis eum an non Se amas verdadeiramente a Deus há de morrer Isac se Isac vive não amas a Deus O céu por parte de Deus a terra por parte da mundo esperam suspensos a tua resolução Tu és o juiz dá a sentença Que dizes Sim ou não Oh como me parece fiéis amadores de Cristo estar vendo em cada um de vós outro Abraão com o braço e com a espada levantada para cortar a cabeça a este Isac não inocente mas réu não legítimo mas adulterino não digno de viver mas de morrer de uma vez e acabar para sempre Morra morra Isac viva viva Cristo viva o Diviníssimo Sacramento Mas que é o que vejo Não um anjo do céu como o de Abraão mas um anjo do inferno que da parte do mundo e do apetite vos brada vos tem mão no braço e vos faz cair a espada Tal é a fraqueza de nossa fé tal a covardia de nossos corações Enfim este ano será como os demais e se cumprirá a parábola inteiramente Viverá Isac e o sacrificado será o Cordeiro Vós Senhor sereis o deixado e o mundo o buscado e o seguido Vós estareis aqui quase só e Roma no corso e nos teatros Notou o mesmo S Basílio como já o tinha escrito Josefo que Abraão teve sempre o caso em segredo e nem quando recebeu o mandamento de Deus nem quando aparelhou e partiu ao sacrifício deu conta ou notícia dele a Sara E a razão foi diz o santo porque ainda que Abraão venerava e tinha grande conceito da fé da devoção e da piedade de Sara considerou contudo o gênio feminil e temeu que como mulher e mãe não tivesse valor para consentir no sacrifício Ego quidem ejus animum suspicio sed genium vereor Conheceu o ânimo mas temeu o gênio Esta é também a razão da minha desconfiança reverencio mas receio Suspicio sed vereor Abraão era o pai dos crentes e Sara a mãe O pai dos crentes teve valor para fazer o sacrifício a mãe dos crentes não E quem é a mãe dos crentes senão tu ó Roma VI O autor com S Jerônimo incita Roma para que interprete seu nome As águias e o corpo de Cristo Roma eu não tenho autoridade nem confiança nem língua para te dizer neste caso o que sinto mas ouve tu o que te diz com igual autoridade e eloqüência o teu Doutor Máximo Jerônimo No mesmo tempo em que S Dâmaso edificava esta mesma igreja em que estamos escreveu S Jerônimo a Roma a qual então andava em grande parte enganada com as larguezas e delícias que aprovava o ímpio Joveniano mais conformes aos idólatras de Jove de quem ele tinha o nome que aos adoradores de Cristo e diz assim o grande Padre26 Urbs potens urbs orbis domina urbs Apostoli voce laudata interpretare tuum vocabulum Cidade potentíssima cidade dominadora e senhora do mundo cidade louvada não por boca do teu Apolo senão pelo oráculo de Paulo Te alIoquor contigo falo e não te digo outra coisa senão que interpretes o teu nome Interpretare tuum vocabulum Roma aut fortitudinis nomen est apud graecos aut celsitudinis juxta hebraecos Serva quod diceris virtus te excelsam faciat non voluptas humilem O grego quando diz Roma quer dizer a forte o hebreu quando diz Roma quer dizer a excelsa o cristão acrescentemos nós quando diz Roma quer dizer a santa E será bem que Roma a forte não resista a uma tentação tão leve Será bem que Roma a excelsa se abata a uma indecência tão ridícula Será bem que Roma a santa deixe a fonte da santidade por seguir a corrente da vaidade Rirseá e mofará o grego rirseá e zombará o hebreu chorará e envergonharseá o cristão Pelo que Roma minha diz S Jerônimo serva quod diceris Se te chamas Roma sê Roma sê forte sê excelsa sê santa E vós senhores romanos generosos filhos desta águia magnarum alarum27 lembraivos das palavras que a vós em primeiro lugar e a todos os que reconhecem por mãe e cabeça esta Santa Cidade disse em confiança de vossa piedade o Senhor que está presente Ubicumque fuerit corpus illic congregábuntur et aquilae Aonde estiver meu corpo ali correrão as águias Mt 2428 Corpus in altari aquilae vos estis diz Santo Ambrósio Não se tenha por águia que tudo o mais de quem tenho falado até agora é vulgo não se tenha por águia legítima e verdadeira a que aqui não vier fazer prova da agudeza de sua vista e da fineza de seu amor A águia natural prova os seus verdadeiros filhos aos raios do sol descoberto a Águia divina prova os seus nas sombras do sol escon dido Com esta nobilíssima circunstância sacrifiquem os vossos olhos a Deus tudo o que nestes dias deixarem de ver Se assim o fizerdes como de vossa generosidade e piedade se deve esperar será o vosso sacrifício por esta circunstância ainda mais precioso e mais grato a Deus que o de Abraão Notai Quando Deus mandou a Abraão que lhe sacrificasse o seu Isac disse desta maneira Vade in terram visionis atque ibi offeres Gên 222 Vai à terra da visão vai à terra onde me viste e onde me vês e aí oferece o sacrifício Na diferença de ibi a ibi está a vantagem da fineza Fazer sacrifício a Deus no lugar onde se vê Deus não é maravilha mas fazêlo no lugar onde Deus não se vê essa é a maravilha essa a fineza e esta será a glória do vosso sacrifício Se o não ver a Deus que temos presente é a tentação com que ele vos tenta Tentat vos Dominus Deus vester não o ver e amálo não o ver e assistilo não o ver e acompanhálo sempre seja a prova manifesta e pública de vosso amor Ut palam fiat utrum diligatis eum an non SERMÃO DA QUINTAFEIRA DA QUARESMA NA MISERICÓRDIA DE LISBOA ANO DE 1669 Vidit hominem caecum1 I Um cego de nascimento e muitos cegos de inveja e perfídia os escribas e fariseus Destes últimos cuidará o autor neste sermão Um cego e muitos cegos um cego curado e muitos cegos incuráveis um cego que não tendo olhos viu e muitos cegos que tendo olhos não viram é a substância resumida de todo este largo Evangelho Deu Cristo vista milagrosa em Jerusalém a um cego de seu nascimento examinaram o caso os escribas e fariseus como coisa nunca vista nem ouvida até aqueles tempos convenceuos o mesmo cego com argumentos com razões e muito mais com a evidência do milagre E quando eles haviam de reconhecer e adorar ao obrador de tamanha maravilha por verdadeiro Filho de Deus e Messias prometido como fez o cego cegos de inveja obstinados na perfídia e rebeldes contra a mesma onipotência negaram blasfemaram e condenaram a Cristo De maneira que a mesma luz manifesta da divindade a um homem deu olhos e aos outros deu nos olhos para um foi luz e para os outros foi raio a um alumiou aos outros feriu a um sarou aos outros adoeceu ao cego fez ver e aos que tinham vista cegou Não é a ponderação minha nem de alguma autoridade humana senão toda do mesmo Cristo Vendo o milagroso Senhor os efeitos tão encontrados daquela sua maravilha concluiu assim Ego in hunc mundum veni ut qui non vident videant et qui vident caeci fiant Jo 9 39 Ora o caso é diz Cristo que eu vim a este mundo para que os cegos vejam e os que têm olhos ceguem Não porque este fosse o fim de sua vinda senão porque estes foram os efeitos dela Os cegos viram porque o cego recebeu a vista e os que tinham olhos cegaram porque os escribas e fariseus ficaram cegos Supostas estas duas partes do Evangelho deixando a primeira tratarei só da segunda O homem que não tinha olhos e viu já está remediado os que têm olhos e não vêem estes são os que hão mister o remédio e com eles se empregará todo o meu discurso Vidit hominem caecum Cristo viu um homem cego sem olhos nós havemos de ver muitos homens cegos com olhos Cristo viu um homem sem olhos que não via e logo viu nós havemos de ver muitos homens com olhos que não vêem e também poderão ver se quiserem Deus me é testemunha que fiz eleição deste assunto para ver se se pode curar hoje alguma cegueira Bem conheço a fraqueza e a desproporção do instrumento mas o mesmo com que Cristo obrou o milagre me anima a esta esperança Inclinouse o Senhor à terra fez com a mão onipotente um pouco de lodo aplicouo aos olhos do cego e quando parece que lhos havia de escurecer e cegar mais com o lodo com o lodo lhos abriu e alumiou Se Cristo com lodo dá vista que cego haverá tão cego e que instrumento tão fraco e inábil que da eficácia e poderes de sua graça não possa esperar semelhantes efeitos Prostremonos como fez o cego a seus divinos pés e peçamos para nossos olhos um raio da mesma luz por intercessão da Mãe de Misericórdia em cuja casa estamos Ave Maria II Os cegos de olhos abertos Segundo Isaías dar vista aos cegos era a mais evidente prova da divindade do Messias A cegueira de Paulo Os católicos como antigamente os hebreus os únicos cegos Maldição de Davi contra os fabricadores de ídolos A idolatria e a missão de Portugal Vidit hominem caecum O cego que hoje viu Cristo padecia uma só cegueira os cegos que nós havemos de ver sendo as suas cegueiras muitas não as padecem antes as gozam e amam delas vivem delas se alimentam por elas morrem e com elas Estas cegueiras irá descobrindo o nosso discurso Assim o ajude Deus como ele é importante O maior desconcerto da natureza ou a maior circunstância de malícia que Cristo ponderou na cegueira dos escribas e fariseus que será o triste exemplar da nossa foi ser cegueira de homens que tinham os olhos abertos Ut videntes caeci fiant Os escribas e fariseus eram os sábios e letrados da lei eram os que liam as Escrituras eram os que interpretavam os profetas e por isso mesmo eram mais obrigados que todos a conhecer o Messias e nunca tão obrigados como no caso presente Isaías no capítulo trinta e dois falando da divindade do Messias e de sua vinda ao mundo diz assim Ouçam este texto os incrédulos Deus ipse veniet et salvabit vos Tunc aperientur oculi caecorum Is 35 4s Virá Deus em pessoa a salvarvos E em sinal de sua vinda e prova de sua divindade dará vista a cegos O mesmo tinha já dito no capítulo vinte e nove De tenebris et caligine oculi caecorum videbunt2 E o mesmo tornou a dizer no capítulo quarenta e dois Dedi te in faedus populi in lucem gentium ut aperires oculos caecorum3 Por isso quando o Batista mandou perguntar a Cristo se era ele o Messias Tu es qui venturus es an alium expectamus4 querendo o Senhor antes responder com obras que com palavras o primeiro milagre que obrou diante dos que trouxeram a embaixada foi dar vista a cegos Renunciate Joanini quae audistis et vidistis caeci vident5 Pois se o primeiro e mais evidente sinal da vinda do Messias se a primeira e mais evidente prova de sua divindade e onipotência era dar vista a cegos e se entre todos os cegos a que Cristo deu vista nenhum era mais cego que este e nenhuma vista mais milagrosa por ser cego de seu nascimento e a vista não restituída senão criada de novo como se alucinaram tanto os escribas e fariseus que vendo o milagre não viam nem conheciam o milagroso Aqui vereis qual era a cegueira destes homens A cegueira que cega cerrando os olhos não é a maior cegueira a que cega deixando os olhos abertos essa é a mais cega de todas E tal era a dos escribas e fariseus Homens com olhos abertos e cegos Com olhos abertos porque como letrados liam as Escrituras e entendiam os profetas e cegos porque vendo cumpridas as profecias não viam nem conheciam o profetizado Um destes letrados cegos era Saulo antes de ser Paulo e vede como lhe mostrou o céu qual era a sua cegueira Ia Saulo caminhando para Damasco armado de provisões e de ira contra os discípulos de Cristo quando ao entrar já na cidade eis que fulminado da mão do mesmo Senhor cai do cavalo em terra assombrado atônito e subitamente cego Mas qual foi o modo desta cegueira Apertis oculis diz o texto nihil videbat At 98 Com os olhos abertos nenhuma coisa via A cidade os muros as torres a estrada os campos os companheiros à vista e Saulo com os olhos abertos sem ver nenhuma coisa destas nem se ver a si Aqui esteve o maravilhoso da cegueira Se o raio lhe tirara os olhos ou lhos fechara não era maravilha que não visse mas não ver nada estando com os olhos abertos Apertís oculis nihil videbat Tal era a cegueira de Saulo quando perseguia a Cristo tal a dos escribas e fariseus quando a não criam e tal a nossa que é mais depois de o crermos Muito mais maravilhosa é esta nossa cegueira que a mesma vista do cegado Evangelho Aquele cego quando não tinha olhos não via nós temos olhos e não vemos Naquele cego houve cegueira e vista mas em diversos tempos em nós no mesmo tempo está junta a vista com a cegueira porque somos cegos com os olhos abertos e por isso mais cegos que todos Se lançarmos os olhos portado o mundo acharemos que todo ou quase todo é habitado de gente cega O gentio cego o judeu cego o herege cego e o católico que não devera ser também cego Mas de todos estes cegos quais vos parece que são os mais cegos Não há dúvida que nós os católicos Porque os outros são cegos com olhos fechados nós somos cegas com os olhos abertos Que o gentio corra sem freio após os apetites da carne que o gentio siga as leis depravadas da natureza corrupta cegueira é mas cegueira de olhos fechados não lhe abriu a fé os olhos Porém o cristão que tem fé que conhece que há Deus que há céu que há inferno que há eternidade e que viva como gentio é cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesmo gentio Que o judeu tenha por escândalo a cruz e por não confessar que crucificou a Deus não queira adorar a um Deus crucificado cegueira é manifesta mas cegueira de olhos fechados Por isso mordidos das serpentes no deserto só saravam os que viam a serpente de Moisés exaltada e os que não tinham olhos para a ver não saravam Núm 218 Porém que o cristão como chorava S Paulo seja inimigo da cruz Flp 318 e que adorando as chagas do crucificado não sare as suas é cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesma judeu Que o herege sendo batizado e chamandose cristão se não conforme com a lei de Cristo e despreze a observância de seus mandamentos cegueira é mas cegueira também de olhos fechados Crê erradamente que basta para a salvação o sangue de Cristo e que não são necessárias obras próprias Porém o católico que crê e conhece evidentemente pelo lume da fé e da razão que fé sem obras é morta e que sem obrar e viver bem ninguém se pode salvar que viva nos costumes como Lutero e Calvino É cegueira de olhos abertos e por isso mais cego que o mesmo herege Logo nós somos mais cegos que todos os cegos E se a alguém parecer que me alargo muito em dizer que a nossa cegueira dos católicos é maior que a do herege e a do judeu e a do gentio que seria se eu dissesse que entre todas as cegueiras só a nossa é a cegueira e que entre todos esses cegos só nós somos os cegos Pois assim o digo e assim é para maior horror e confusão nossa Ouvi o mesmo Deus por boca de Isaías Quis cuecus nisi servus meus Quis caecus nisi qui venundatus est Quis caecus nisi servus Domini6 Fala Deus com o povo de Israel o qual naquele tempo como nós hoje era o que só tinha a verdadeira fé e diz não uma senão três vezes que só ele entre todas as nações do mundo era o cego Não reparo no cego senão no só Que fosse cego aquele povo no tempo de Isaías ele e todos os outros profetas o lamentam porque devendo servir e adorar ao verdadeiro Deus serviam e adoravam aos ídolos Mas dessa mesma cegueira e dessa mesma idolatria se segue que não eram só os hebreus os cegos senão também todas as nações daquele tempo e daquele mundo Cegos e idólatras eram no mesmo tempo os assírios cegos e idólatras os babilônios cegos e idólatras os egípcios os etíopes os moabitas os idumeus os árabes os tinos contra os quais todos profetizou e denunciou castigos o mesmo Isaías em pena de sua idolatria7 Pois se a idolatria era a cegueira e não só os hebreus senão todas as nações de que estavam cercados e também as mais remotas eram idólatras como diz Deus que só o povo de Israel é cego Quis cuecus quis caecus quis caecus nisi servus Domini Todos os outros são cegos e só o povo de Israel é cego Sim Porque todos os outros povos eram cegos com os olhos fechados só o povo de Israel era cego com os olhos abertos O mesmo profeta o disse Populum caecum et oculos habentem Is 43 8 Povo cego e com olhos Os outros povos adoravam os ídolos e os deuses falsos porque não tinham conhecimento do Deus verdadeiro e isso mais era ignorância que cegueira Porém o povo de Israel era o que só tinha fé e conhecimento do verdadeiro Deus Notus in Judaea Deus8 Que um povo com fé e conhecimento do Deus verdadeiro adorasse os deuses falsos Isso nele não era nem podia ser ignorância senão mera cegueira e por isso só ele o cego Quis caecus nisi servus Domini Deixaime agora fazer a mesma pergunta ou as mesmas três perguntas ao nosso mundo e ao nosso tempo Quis caecus Quem é hoje o cego O gentio Não Quis caecus Quem é hoje o cego O judeu Não Quis caecus Quem é hoje o cego O herege Não Pois quem é hoje este cego que só merece nome de cego Triste e temerosa coisa é que se diga mas é forçosa conseqüência dizerse que somos nós os católicos Porque o gentio o judeu o herege são cegos sem fé e com os olhos fechados e só nós os católicos somos cegos com a verdadeira fé e com os olhos abertos Populum caecum et oculos habentem Grande miséria e confusão para todos os que dentro do grêmio da Igreja professamos a única e verdadeira religião católica e para nós os portugueses se bem olharmos para nós ainda maior No salmo cento e treze zomba Davi dos ídolos da gentilidade e uma das coisas de que principalmente os moteja é que têm olhos e não vêem Oculos habent et non videbunt SI 113 5 Bem pudera dizer que não tinham olhos porque olhos abertos em pedra ou fundidos em metal ou coloridos em pintura verdadeiramente não são olhos Também pudera dizer e mais brevemente que eram cegos Mas disse com maior ponderação e energia que tinham olhos e não viam porque o encarecimento de uma grande cegueira não consiste em não ter olhos ou em não ver senão em não ver tendo olhos Oculos habent et non videbunt Depois disto voltase o profeta com a mesma galantaria contra os fabricadores e adoradores dos ditos ídolos e a bênção que lhes deita ou a maldição que lhes roga é que sejam semelhantes a eles os que os fazem Similes illis fiant Qui faciunt ea Porque assim como a maior bênção que se pode desejar aos que adoram ao verdadeiro Deus é serem semelhantes ao Deus que os fez assim a maior praga e maldição que se pode rogar aos que adoram os deuses falsos é serem semelhantes aos deuses que eles fazem Similes illisflant Qui faciunt ea Agora dizeime E não seria muito maior desgraça não seria miséria e semrazão nunca imaginada se esta maldição caísse não já sobre os adoradores dos ídolos senão sobre os que crêem e adoram o verdadeiro Deus Pois isso é o que com efeito nos tem sucedido Que coisa são pela maior parte hoje os cristãos senão umas estátuas mortas do cristianismo e umas semelhanças vivas dos idolos da gentilidade com os olhos abertos e cegos Oculos habent et non videbunt Miséria é grande que sejam semelhantes aos ídolos os que os fazem mas muito maior miséria é e muito mais estranha que sejam semelhantes aos ídolos os que os desfazem e estes somos nós Estes somos nós torno a dizer por cristãos por católicos e muito particularmente por portugueses Para que fez Deus Portugal e para que levantou no mundo esta monarquia senão para desfazer ídolos para converter idólatras para desterrar idolatrias Assim o fizemos e fazemos com glória singular do nome cristão nas Àsias nas Áfricas nas Américas Mas como se os mesmos ídolos se vingaram de nós derrubamos as suas estátuas e eles pegaramnos as suas cegueiras Cegos e com os olhos abertos como ídolos Oculos habent et non videbunt Cegos e com os olhos abertos como o povo de Israel Populum caecum et oculos habentem Cegos e com olhos abertos como Saulo Apertis oculis nihil videbat E cegos finalmente e com os olhos abertos como os escribas e fariseus Ut videntes caeci fiant III Primeira espécie de cegueira causada pela desatenção a dos cegos que vêem e não vêem juntamente contradição já anunciada por Cristo O profeta Eliseu e a cegueira dos cavaleiros do rei da Síria Os anjos de Deus e a cegueira dos habitantes de Sodoma Os discípulos de Emaús e a inadvertência do olhar Admoestação dos profetas Jeremias e Isaías Está dito em comum o que basta agora para maior distinção e clareza desçamos ao particular Esta mesma cegueira de olhos abertos dividese em três espécies de cegueira ou falando medicamente em cegueira da primeira da segunda e da terceira espécie A primeira é de cegos que vêem e não vêem juntamente a segunda de cegos que vêem uma coisa por outra a terceira de cegos que vendo o demais só a sua cegueira não vêem Todas estas cegueiras se acharam hoje nos escribas e fariseus e todas por igual ou maior desgraça nossa se acham também em nós Vamos discorrendo por cada uma e veremos no nosso ver muita coisa que não vemos Começando pela cegueira da primeira espécie digo que os olhos abertos dos escribas e fariseus eram olhos que juntamente viam e não viam E por quê Não porque vendo o milagre não viam o milagroso como já dissemos mas porque vendo o milagre não viam o milagre e vendo o milagroso não viam o milagroso O milagre viamno nos olhos do cego o milagroso viamno em sua própria pessoa e muito mais nas suas obras que é o mais certo modo de ver e contudo nem viam o milagre nem viam o milagroso O milagre porque o não queriam ver o milagroso porque o não podiam ver Bem sei que ver e não ver implica contradição mas a cegueira dos escribas e fariseus era tão grande que podiam caber nela ambas as partes desta contradição Os filósofos dizem que uma contradição não cabe na esfera dos possíveis eu digo que cabe na esfera dos olhos Não me atrevera ao dizer se não fora proposição expressa da primeira e suma verdade Assim o disse Cristo falando destes mesmos homens no capítulo quarto de S Marcos Ut videntes videant et non videant Mc 412 Para que vendo vejam e não vejam Agora esperáveis que eu saísse com grandes espantos Se viam como não viam E se não viam como viam Dificultar sobre tal autoridade seria irreverência Cristo o diz e isso basta Eu porém não me quero escusar por isso de dar a razão deste que parece impossível Mas antes que lá cheguemos vejamos esta mesma implicação de ver e não ver praticada em dois casos famosos ambos da História Sagrada Estando elrei de Síria em campanha sobre o Reino de Israel experimentou por muitas vezes que quanto deliberava no seu exército se sabia no do inimigo 4 Rs 613 E imaginando ao princípio que devia de haver no seu conselho alguma espia comprada que fazia estes avisos soube dos capitães e dos soldados mais práticos daquela terra que o profeta Eliseu era o que revelava e descobria tudo ao seu rei Oh se os reis tiveram a seu lado profetas Achavase neste tempo Eliseu na cidade de Dotã resolve o rei mandálo tomar dentro nela por uma entrepresa e marchando a cavalaria secretamente em uma madrugada eis que sai o mesmo Eliseu a encontrarse com eles dizlhes que não era aquele o caminho de Dotã levaos à cidade fortíssima de Samaria meteos dentro dos muros fechamse as portas e ficaram todos tomados e perdidos É certo que estes soldados de elrei de Síria conheciam muito bem a cidade de Dotã e a de Samaria e as estradas que iam a uma e a outra e muitos deles ao mesmo profeta Eliseu Pois se conheciam tudo isto e viam as cidades e os caminhos e ao mesmo profeta como se deixaram levar onde não pretendiam ir Como não prenderam a Eliseu quando se lhes veio meter nas mãos E como consentiram que ele os metesse dentro dos muros e debaixo das espadas de seus inimigos Diz o texto sagrado que toda esta comédia foi efeito da oração de Eliseu o qual pediu a Deus que cegasse aquela gente Percute oro gentem hanc caecitate 4 Rs 6 18 E foi a cegueira tão nova tão extraordinária e tão maravilhosa que juntamente viam e não viam Viam a Eliseu e não viam a Eliseu viam a Samaria e não viam a Samaria viam os caminhos e não viam os caminhos viam tudo e nada viam Pode haver cegueira mais implicada e mais cega e de homens com os olhos abertos Tal foi por vontade de Deus a daqueles bárbaros e tal é contra a vontade de Deus a nossa sendo cristãos Eliseu quer dizer Saúde de Deus Samaria quer dizer cárcere e diamante E que é a saúde de Deus senão a salvação Que é o cárcere de diamante senão o inferno Pois assim como os assírios indo buscar a Eliseu se acharam em Samaria assim nós buscando a salvação nos achamos no inferno E se buscarmos a razão deste erro e desta cegueira é porque eles e nós vemos e não vemos Não vês cristão que este é o caminho do inferno Sim Não vês que este outro é o caminho da salvação Sim Pois como vais buscar a salvação pelo caminho do inferno Porque vemos os caminhos e não vemos os caminhos vemos onde vão parar e não vemos onde Tanta é com os olhos abertos a nossa cegueira Percute gentem hanc caecitate Segundo caso e maior Mandou Deus dois anjos à cidade de Sodoma para que salvassem a Ló e abrasassem a seus habitadores e eram eles tão merecedores do fogo que lhes foi necessário aos mesmos anjos defenderem a casa onde se tinham recolhido Mas como a defenderam Diz o texto sagrado que o modo que tomaram para defender a casa foi cegarem toda aquela gente desde o maior até o mais pequeno Percusserunt eos caecitat ea maximo usque ad minorem Gên 19 11 Quando eu li que os anjos cegaram a todos cuidei que lhes fecharam os olhos e que ficaram totalmente cegos e sem vista e que a razão de cegarem não só os homens senão também os meninos fora por que os meninos não pudessem guiar os homens Mas não foi assim Ficaram todos com os seus olhos abertos e inteiros como dantes Viam a cidade viam as ruas viam as casas e só com a casa e com a porta de Ló que era o que buscavam nenhum deles atinava Buscavam na cidade a rua de Ló viam a rua e não atinavam com a rua buscavam na rua a casa de Ló viam a casa e não atinavam com a casa buscavam na casa a porta de Ló viam a porta e não atinavam com a porta Ita ut ostium invenire non possent diz o texto9 E para que cesse a admiração de um caso tão prodigioso isto que fizeram naqueles olhos os anjos bons fazem nos nossos os anjos maus Estamos na quaresma tempo de rigor e penitência e sendo que a penitência é a rua estreita por onde se vai para o céu Arcta via est quae ducit ad vitam10 vemos a rua e não atinamos com a rua Entramos e freqüentamos agora mais as igrejas pomos os pés por cima dessas sepulturas e sendo que a sepultura é a casa onde havemos de morar para sempre Sepulchra eorum domus illorum in aeternum11 vemos a casa e não atinamos com a casa Sobem os pregadores ao púlpito põemnos diante dos olhos tantas vezes a lei de Deus esquecida e desprezada e sendo que a lei de Deus é a porta por onde só se pode entrar à bem aventurança Haec porta Domimi justi intrabunt in eam12 vemos a porta e não atinamos com a porta Ita ut ostium invenire non possent Paremos a esta porta ainda das telhas abaixo Andam os homens cruzando as cortes revolvendo os reinos dando voltas ao mundo cada um em demanda das suas pretensões cada um para se introduzir ao fim dos seus desejos todos aos encontrões uns sobre os outros os olhos abertos a porta à vista e ninguém atina com a porta Andais buscando a honra com olhos de lince e sendo que para a verdadeira honra não há mais que uma porta que é a virtude ninguém atina com a porta Andaisvos desvelando pela riqueza com mais olhos que um Argos e sendo que a porta certa da riqueza não é acrescentar fazenda senão diminuir cobiça ninguém atina com a porta Andaisvos matando por achar a boa vida e sendo que a porta direita por onde se entra à boa vida é fazer boa vida ninguém atina com a porta Andaisvos cansando por achar o descanso e sendo que não há nem pode haver outra porta para o verdadeiro e seguro descanso senão acomodar com o estado presente e conformar com o que Deus é servido não há quem atine com a porta Há tal desatino Há tal cegueira Mas ninguém vê o mesmo que está vendo porque todos desde o maior ao menor somos como aqueles cegos Percusserunt eos caecitate a maximo usque ad minorem Sobre estes dois exemplos tão notáveis entre agora a razão por que estais esperando Que seja possível ver e não ver juntamente já o tendes visto Direis que sim mas por milagre Eu digo que também sem milagre e muito fácil e naturalmente13 Não vos tem acontecido alguma vez ter os olhos postos e fixos em uma parte e porque no mesmo tempo estais com o pensamento divertido ou na conversação ou em algum cuidado não dar fé das mesmas coisas que estais vendo Pois esse é o modo e a razão por que naturalmente e sem milagre podemos ver e não ver juntamente Vemos as coisas porque as vemos e não vemos essas mesmas coisas porque as vemos divertidos Iam para Emaús os dois discípulos praticando com grande tristeza na morte de seu Mestre Lc 24 e foi coisa maravilhosa que aparecendolhes o mesmo Cristo e indo caminhando e conversando com eles não o conhecessem Alguns quiseram dizer que a razão deste engano ou desta cegueira foi porque o Senhor mudara as feições do rosto e ainda a voz ou tom da fala Mas esta exposição como bem notou Santo Agostinho é contra a propriedade do texto o qual diz expressamente que o engano não foi da parte do objeto senão da potência não da parte do visto senão da vista Oculi illorum tenebantur ne eum agnoscerent14 Como é possível logo que não conhecessem a quem tão bem conheciam e que não vissem a quem estavam vendo Na palavra tenebantur está a solução da dúvida Diz o Evangelista que não conheceram os discípulos ao mesmo Senhor que estavam vendo porque tinham os olhos presos Isto quer dizer tenebantur E da mesma frase usa o evangelista falando da prisão de Cristo Ipse est tenete eum Tenuerunt eum Non me tenuisti15 Mas se os olhos estavam presos como viam E se viam como estavam presos Não estavam presos pela parte da vista estavam presos pela parte da advertência Iam os discípulos divertidos na sua prática e muito mais divertidos na sua tristeza Qui sunt hi sermones quos confertis ad invicem et estis tristes16 E esta diversão do pensamento era a que lhes prendia a advertência dos olhos Como tinham livre a vista viam a Cristo como tinham presa a advertência não conheciam que era ele E desta maneira estando os olhos dos discípulos juntamente livres e presos vinham a ser um composto de vista e de cegueira de vista com que viam e de cegueira com que não viam Vede a força que tem o pensamento para a diversão da vista Os olhos estavam no caminho com Cristo vivo o pensamento estava na sepultura com Cristo morto e pode tanto a força do pensamento que o mesmo Cristo ausente em que cuidavam os divertia do mesmo Cristo presente que estavam vendo Tanto vai de ver com atenção e advertência ou ver com desatenção e divertimento Por isso Jeremias bradava Attendite et videte Sam 1 12 Atendei e vede Não só pede o profeta vista mas vista e atenção e primeiro a atenção que a vista porque ver sem atenção é ver e não ver Ainda é mais próprio este ver e não ver do que o modo com que viam e não viam aqueles cegos tão cegos nos dois casos mila grosos que referimos Eles não viam o que viam porque lhes confundiu Deus as espécies Nós sem confusão nem variedade das espécies não vemos o que vemos só por desatenção e divertimento da vista Agora entendereis a energia misteriosa e discreta com que o profeta Isaías nos manda olhar para ver Intuemini ad videndum Is 41 18 Quem há que olhe senão para ver E quem há que veja senão olhando Por que diz logo o profeta como se nos inculcara um documento particular Intuemini ad videndum Olhai para ver Porque assim como há muitos que olham para cegar que são os que olham sem tento assim há muitos que vêem sem olhar porque vêem sem atenção Não basta ver para ver é necessário olhar para o que se vê Não vemos as coisas que vemos porque não olhamos para elas Vemolas sem advertência e sem atenção e a mesma desatenção é a cegueira da vista Divertemnas a atenção os pensamentos suspendemnos a atenção os cuidados prendemnos a atenção os desejos roubamnos a atenção os afetos e por isto vendo a vaidade da mundo imas após ela como se fora muito sólida vendo o engano da esperança confiamos nela como se fora muito certa vendo a fragilidade da vida fundamos sobre ela castelos como se fora muito firme vendo a inconstância da fortuna seguimos suas promessas como se foram muito seguras vendo a mentira de todas as coisas humanas cremos nelas como se foram muito verdadeiras E que seria se os afetos que nos divertem a atenção da vista fossem da casta daqueles que tanto divertiram e perturbaram hoje os escribas e fariseus Divertiaos o ódio divertia os a inveja divertiaos a ambição divertiaos o interesse divertia os a soberba divertiaos a autoridade e ostentação própria e como estava a atenção tão divertida tão embaraçada tão perturbada tão presa por isso não viam o que estavam vendo Ut videntes caeci fiant IV Segunda espécie de cegueira causada pela paixão a dos cegos que vêem uma coisa por outra O cego do Evangelho que via os homens como árvores A cegueira de nossos primeiros pais e dos falsos profetas da República dos Hebreus Enganos dos moabitas do rei Assuero e dos apóstolos perturbados por paixões diversas A cegueira da segunda espécie ou a segunda espécie da cegueira dos escribas e fariseus era serem tais os seus olhos que não viam as coisas às direitas senão às avessas não viam as coisas como eram senão como não eram Viam os olhos milagrosos e diziam que era engano viam a virtude sobrenatural e diziam que era pecado viam uma obra que só podia ser dos braços de Deus e diziam que não era de Deus senão contra Deus Non est hic homo a Deo17 De maneira que não só não viam as coisas como eram mas viamnas como não eram e por isso muito mais cegos que se totalmente as não viram Na cidade de Belém curou Cristo outro cego como este de Jerusalém mas não o curou pelo mesmo modo porque as mesmas enfermidades quando os sujeitos não são os mesmos muitas vezes requerem diversa cura Pôs o Senhor a mão nos olhos a este cego e perguntoulhe se via Olhou ele e disse Video homines velut arbores ambulantes Mc 824 Senhor vejo os homens como umas árvores que andam de uma parte para outra Torna Cristo a aplicarlhe outra vez a mão e diz o texto que desta segunda vez começou o homem a ver Iterum imposuit manus super oculos ejus et coepit videre Neste coepit videre reparo e é muito para reparar Este homem é certo que começou a ver da primeira vez que Cristo lhe pôs a mão nos olhos porque até ali não via nada e então começou a ver os homens como árvores Pois se o cego da primeira vez começou a ver os homens como árvores como diz o evangelista que não começou a ver senão da segunda vez Iterum imposuit manus super oculos ejus et coepit videre Porque da primeira vez via as coisas como não eram da segunda vez já as via como eram da primeira vez via os homens como árvores da segunda vez via as árvores como árvores e os homens como homens E ver as coisas como são isso é ver mas vêlas como não são não é ver é estar cego Sim Mas este homem estava cego quando não via nada e se estava também cego quando via as coisas como não eram quando estava mais cego Quando as via ou quando as não via Quando as via estava muito mais cego porque quando não via nada tinha privação da vista quando via as coisas às avessas tinha erro na vista e muito maior cegueira é o erro que a privação A privação era um defeito inocente que não mentia nem enganava o erro era uma mentira com aparência de verdade era um engano com representação de certeza era um falso testemunho com assinado de vista E se não vamos ao caso É filosofia bemfundada de Filo Hebreu que os olhos não só vêem a cor senão a cor afigura e o movimento e em todas estas três coisas errou a primeira vista daquele homem representandolhe os homens como árvores Errou na cor porque as árvores são verdes e os homens cada um é da cor de seu rosto e do seu vestido Errou na figura porque as árvores têm um pé e os homens dois os homens têm dois braços e as árvores muitos Errou no movimento porque os homens movemse progressivamente e mudam de lugares e as árvores estão sempre firmes e se movem com o vento não mudam de lugar Eis aqui quantos erros quantos enganos e quantas cegueiras se envolviam naquela primeira vista Por isso o evangelista disse que quando o cego via desta maneira ainda não tinha começado a ver porque ver umas coisas por outras não e vista é cegueira e mais que cegueira Os mais cegos homens que houve no mundo foram os primeiros homens Disselhes Deus não por terceira pessoa senão por si mesmo e não por enigmas ou metáforas senão por palavras expressas que aquela fruta da árvore que lhes proibia era venenosa e que no mesmo dia em que a comessem haviam de perder a imortalidade em que foram criados não só para si senão para todos seus filhos e descendentes e contudo comeram Há homem tão cego que coma o veneno conhecido como veneno para se matar Há homem tão cego que dê o veneno conhecido como veneno a seus filhos para os ver morrer diante de seus olhos Tal foi a cegueira dos primeiros homens e não cegueira de olhos meio abertos como a daquele cego senão de olhos totalmente abertos porque tudo isto viam muito mais clara e muito mais evidentemente do que nós o vemos e admiramos Pois como caíram em uma cegueira tão estranha como foram ou como puderam ser tão cegos Não foram cegos porque não viram que tudo viam mas foram cegos porque viram uma coisa por outra O mesmo texto o diz Vidit mulier quod bonum esset lignum ad vescendum Gên 36 Viu a mulher que aquela fruta era boa para comer Mulher cega e cega quando viste e porque viste vê o que vês e não vejas o que não vês Assim havia de ser Mas Eva com os olhos abertos estava tão cega que não via o que via e via o que não via A fruta vedada era má para comer e boa para não comer Má para comer porque comida era veneno e morte boa para não comer porque não comida era vida e imortalidade Pois se a fruta só para não comer era boa e para comer não era boa senão muito má como viu Eva que era boa para comer Este homem não é de Deus Jo 916 Este homem não é de Deus Jo 916 Vidit quod bonum esset ad vescendum Porque era tão cega a sua vista ou tão errada a sua cegueira que olhando para a mesma fruta não via o que era e via o que não era Não via que era má para comer sendo má e via que era boa para comer não sendo boa Vidit quod bonum esset Esta foi a cegueira de Eva e esta é a dos filhos de Eva Vae qui dicitis malum bonum et bonum malum18 Andam equivocados dentro em nós o mal com o bem e o bem com o mal não por falta de olhos mas por erro e engano da vista No Paraíso havia uma só árvore vedada no mundo há infinitas Tudo o que veda a lei natural a divina e as humanas tudo o que proíbe a razão e condena a experiência são árvores e frutas vedadas E tal é o engano e ilusão da nossa vista equivocada nas cores com que se disfarça o veneno que em vez de vermos o mal certo para o fugir vemos o bem que não há para o apetecer Vidit quod bonum esset Daqui nasce como da vista de Eva a ruína original do mundo não só nas consciências e almas particulares mas muito mais no comum dos estados e das repúblicas Caiu a mais florente e bemfundada república que houve no mundo qual era antigamente a dos hebreus fundada governada assistida defendida pelo mesmo Deus E qual vos parece que foi a origem ou causa principal de sua ruína Não foi outra senão a cegueira dos que tinham por oficio ser olhos da república E não porque fossem olhos de tal maneira cegos que não vissem mas porque viam trocadamente uma coisa por outra e em vez de verem o que era viam o que não era Assim o lamentou o profeta Jeremias nas lágrimas que chorou em tempo do cativeiro de Babilônia sobre a destruição e ruína de Jerusalém Prophetae tui viderunt tibi falsa19 Os olhos daquela república que não só tinham por ofício ver o presente senão também o futuro eram os profetas que por isso se chamavam videntes E diz Jeremias à enganada e já desenganada Jerusalém que os seus profetas lhe viam as coisas falsas Prophetae tui viderunt tibi falsa Notai muito a palavra viderunt Se dissera que profetizavam ou pregavam ou aconselhavam ou finalmente diziam coisas falsas bem estava mas dizer que as viam viderunt tibi Se as coisas eram falsas não eram e se não eram como as viam Porque essa era a cegueira dos olhos da triste república olhos que não viam o que era e viam o que não era nem havia de ser Os profetas verdadeiros viam o que era os profetas falsos viam o que não era e porque a cega república se deixou governar por estes olhos por isso se perdeu Jeremias profeta verdadeiro dizia que se sujeitassem a Nabucodonosor porque se assim o não fizessem havia de tomar segunda vez sobre Jerusalém e destruíla de todo Pelo contrário Ananias profeta falso pregava e prometia que Nabuco não havia de tornar antes havia de restituir os vasos sagrados do templo que tinha saqueado Jer 28 E porque estes oráculos falsos como mais plausíveis foram os cridos foi Jerusalém de todo destruída e assolada e as relíquias de sua ruína levadas a Babilônia Miquéias profeta verdadeiro consultado sobre a guerra de Ramot Galaad disse que via o exército de Israel derramado pelos campos como ovelhas sem pastor 3 Rs 22 Pelo contrário Sedecias com outros quatrocentos profetas falsos persuadiam à guerra e asseguravam a vitória E porque elrei Acab quis antes seguir a falsidade lisonjeira de muitos que a verdade provada e conhecida de um posto que entrou na batalha sem coroa e disfarçado para não ser conhecido um só tiro de uma seta perdida matou o rei desbaratou o exército e sentenciou a vitória pelos inimigos Assim viram Miquéias e Jeremias o que havia de ser e os demais o que não foi para que abram os olhos os príncipes e vejam quais são os olhos por cuja vista se guiam Guiemse pelos olhos dos poucos que vêem as coisas como são e não pelos dos muitos e cegos que vêem uma coisa por outra Viderunt tibi falsa Mas como pode ser para que demos a razão desta segunda cegueira como a demos da primeira como pode ser que haja homens tão cegos que com os olhos abertos não vejam as coisas como são Dirá alguém que este engano de vista procede da ignorância O rústico porque é ignorante vê que a lua é maior que as estrelas mas o filósofo porque é sábio e mede as quantidades pelas distâncias vê que as estrelas são maiores que a lua O rústico porque é ignorante vê que o céu é azul mas o filósofo porque é sábio e distingue o verdadeiro do aparente vê que aquilo que parece céu azul nem é azul nem é céu O rústico porque é ignorante vê muita variedade de cores no que ele chama arcodavelha mas o filósofo porque é sábio e conhece que até a luz engana quando se dobra vê que ali não há cores senão enganos corados e ilusões da vista E se a ignorância erra tanto olhando para o céu que será se olhar para a terra Eu não pretendo negar à ignorância os seus erros mas os que do céu abaixo padecem comumente os olhos dos homens e com que fazem padecer a muitos digo que não são da ignorância senão da paixão A paixão é a que erra a paixão a que os engana a paixão a que lhes perturba e troca as espécies para que vejam umas coisas por outras E esta é a verdadeira razão ou sem razão de uma tão notável cegueira Os olhos vêem pelo coração e assim como quem vê por vidros de diversas cores todas as coisas lhe parecem daquela cor assim as vistas se tingem dos mesmos humores de que estão bem ou mal afetos os corações Tinham os moabitas assentado os seus arraiais defronte a fronte com os de Josafá e Jorão reis de Israel e Judá e vendo ao amanhecer que por entre eles corria uma ribeira julgaram que a água ferida dos raios do sol era sangue e persuadiramse que os dois reis amigos por alguma súbita discórdia tinham voltado as armas um contra o outro Dixerunt sanguis gladii est pugnaverunt reges contra se et caesi sunt mutuo20 Caído da graça de elrei Assuero seu grande valido Amã e condenado à morte lançouse aos pés da rainha Ester no trono onde estava pedindo perdão e misericórdia e como Assuero o visse naquela postura foi tal o juízo que formou e tão alheio de sua própria honra que não há palavras decentes com que se possa declarar Etiam reginam vult opprimere me praesente21 Corria fortuna a barca de S Pedro no Mar de Tiberíades derrotada da fúria dos ventos e quase soçobrada do peso das ondas quando apareceu sobre elas Cristo caminhando a grandes passos a socorrêla Viramno os apóstolos e então tiveram o naufrágio por certo e se deram por totalmente perdidos julgando diz o texto que era algum fantasma Putaverunt phantasma esse Mc 6 49 Voltemos agora sobre estes três casos tão notáveis e saibamos a causa de tantos desenganos da vista Os apóstolos Assuero os moabitas todos estavam com os olhos abertos todos viram o que viam e todos julgaram uma coisa por outra Pois se os apóstolos viam a Cristo como julgavam que era fantasma Se Assuero viu a Amã em ato de pedir misericórdia como julgou que lhe fazia adultério Se os moabitas viam a água da ribeira como julgaram que era sangue Porque assim confundem e trocam as espécies da vista os olhos perturbados com alguma paixão Os apóstolos estavam perturbados com a paixão do temor Assuero com a paixão da ira os moabitas com a paixão do ódio e da vingança e como os moabitas desejavam verter o sangue dos dois exércitos inimigos a água lhes parecia sangue como Assuero queria tirar a vida a Amã a contrição lhe parecia pecado como os apóstolos estavam medrosos com o perigo o remédio e o mesmo Cristo lhes parecia fantasma Fiaivos lá de olhos que vêem com paixão As paixões do coração humano como as divide e enumera Aristóteles são onze mas todas elas se reduzem a duas capitais amor e ódio E estes dois afetos cegos são os dois pólos em que se revolve o mundo por isso tão malgovernado Eles são os que pesam os merecimentos eles os que qualificam as ações eles os que avaliam as prendas eles os que repartem as fortunas Eles são os que enfeitam ou descompõem eles os que fazem eu aniquilam eles os que pintam ou despintam os objetos dando e tirando a seu arbítrio a cor a figura a medida e ainda o mesmo ser e substância sem outra distinção ou juízo que aborrecer ou amar Se os olhos vêem com amor o corvo é branco se com ódio o cisne é negro se com amor o demônio é formoso se com ódio o anjo é feio se com amor o pigmeu é gigante se com ódio o gigante é pigmeu se com amor o que não é tem ser se com ódio o que tem ser e é bem que seja não é nem será jamais Por isso se vêem com perpétuo clamor da justiça os indignos levantados e as dignidades abatidas os talentos ociosos e as incapacidades com mando a ignorância graduada e a ciência sem honra a fraqueza com bastão e o valor posto a um canto o vício sobre os altares e a virtude sem culto os milagres acusados e os milagrosos réus Pode haver maior violência da razão Pode haver maior escândalo da natureza Pode haver maior perdição da república Pois tudo isto é o que faz e desfaz a paixão dos olhos humanos cegos quando se fecham e cegos quando se abrem cegos quando amam e cegos quando aborrecem cegos quando aprovam e cegos quando condenam cegos quando não vêem e quando vêem muito mais cegos Ut videntes caeci fiant V Terceira espécie de cegueira causada pela presunção a dos cegos que vendo o demais só a sua cegueira não vêem A parábola do cego que guiava a outro cego Repreensão de S João ao bispo de Laodicéia Harpastes a criada de Sêneca A queda do velho Tobias e a de nossos primeiros pais A cega presunção dos escribas e fariseus A cegueira de Longuinhos e a presunção de ofício Temos chegado posto que tarde à cegueira da terceira espécie na qual estavam confirmados os escribas e fariseus porque sendo tão cegos como temos visto não viam nem conheciam a sua própria cegueira O cego que conhece a sua cegueira não é de todo cego porque quando menos vê o que lhe falta o último extremo da cegueira é padecêla e não a conhecer Tal era o estado mais que cego destes homens dos quais disse agudamente Orígenes que chegaram a perder o sentido da cegueira Caecitatis sensu carentes A natureza quando tira o sentido da vista deixa o sentido da cegueira para que o cego se ajude dos olhos alheios Porém os escribas e fariseus estavam tão pagos dos seus e tão rematadamente cegos que não só tinham perdido o sentido da vista senão também o sentido da cegueira o da vista porque não viam o da cegueira porque a não viam Argüiuos Cristo hoje tacitamente dela e eles que entenderam o remoque responderam Nunquid et nos caeci sumos Jo 940 Porventura somos nós também cegos Como se disseram Os outros são os cegos porém nós que somos os olhos da república nós que somos as sentinelas da casa de Davi nós que temos por ofício vigiar sobre a observância da fé e da lei só nós temos luz só nós temos vista só nós somos os que vemos Mas por isso mesmo era maior a sua cegueira que todas as cegueiras e eles mais cegos que todos os cegos porque não pode haver maior cegueira nem mais cega que ser um homem cego e cuidar que o não é Introduz Cristo em uma parábola um cego que ia guiando a outro cego Si caeco ducatum praestet22 O que ia guiado era cego o que ia guiando também era cego Mas qual destes dois cegos vos parece que era mais cego o guia ou o guiado Muito mais cego era o guia porque o cego que se deixava guiar via e conhecia que era cego mas o que se fez guia do outro tão fora estava de ver e conhecer que era cego que cuidava que podia emprestar olhos O primeiro era cego uma vez o segundo duas vezes cego uma vez porque o era outra vez porque o não conhecia São João no seu Apocalipse escreve uma carta de repreensão ao bispo de Laodicéia e diz nela assim Nescis quia miser es et miserabilis et caecus Não sabes que és miserável e miserável e cego Que lhe chame miserável porque era cego bem clara está a miséria mas por que lhe chama não só uma senão duas vezes miserável Miser et miserabilis Chamalhe duas vezes miserável porque era duas vezes cego uma vez cego porque o era e outra vez cego porque o não conhecia O mesmo evangelista o disse Nescis quia miser es et miserabilis et caecus Notai o nescis era uma vez cego porque o era caecus era outra vez cego porque o não conhecia nescis E porque era duas vezes cego era duas vezes miserável miser et miserabilis Ser cego era miséria porque era cegueira mas ser cego e não o conhecer era miséria dobrada porque era cegueira dobrada A primeira cegueira tiravalhe a vista das outras coisas a segunda cegueira tiravalhe a vista da mesma cegueira e por isso era cego sobre cego e miserável sobre miserável Miser et miserabilis et caecus Oh quantos miseráveis sobre miseráveis e quantos cegos sobre cegos há como este no mundo Refere Sêneca um caso notável sucedido na sua família e diz a seu discípulo Lucílio que lhe contará uma coisa incrível mas verdadeira Incredibilem tibi narro rem sed veram Tinha uma criada chamada Harpastes a qual sendo fátua de seu nascimento perdeu subitamente a vista Haec fatua subito desiit videre E que vos parece que fazia Harpastes cega e sem juízo Aqui entra a coisa incrível Nescit esse se caecam era cega e não o sabia Paedagogum suum rogat ut migret quando o que tinha cuidado dela lhe dava a mão para a guiar lançavao de si Ait domum tenebrosam esse dizia que estava a casa às escuras que abrissem as janelas e as janelas que tinha fechadas não eram as da casa eram as dos olhos Pode haver cegueira mais fátua e mais digna de riso Pois hás de saber Lucílio diz Sêneca que desta maneira somos todos cegos e fátuos Cegos porque não vemos e fátuos porque não conhecemos a nossa cegueira Hoc quod in ea ridemus omnibus nobis accidere liqueat tibi Não é cegueira a soberba Não é cegueira a inveja Não é cegueira a cobiça Não é cegueira a ambição a pompa o luxo Não é cegueira a lisonja e a mentira Sim Mas a nossa fatuidade é tanta como a de Harpastes que sendo a cegueira e a escuridade nossa atribuímola à casa e dizemos que não se pode viver de outro modo neste mundo e muito menos na corte Nemo aliter Romae potest vivere23 Se somos cegos por que o não conhecemos Isac era cego mas conhecia a sua cegueira por isto tocou as mãos de Jacó para suprir a falta da vista como tato O mendigo de Jericó era cego mas conhecia que o era por isso a esmola que pediu a Cristo não foi outra senão a da vista Domine ut videam24 Como havemos nós de suprir as nossas cegueiras ou como lhes havemos de buscar remédio se as não conhecemos Pois por certo que não nos faltam experiências muito claras e muito caras para as conhecer se não fôramos cegos sobre cegos Olhai para as vossas quedas e vereis as vossas cegueiras Quando Tobias ouviu que vinha chegando seu filho de cuja vinda e vida já quase desesperava foi tal o seu alvoroço que levantandose remeteu a correr para o ir encontrar e receber nos braços Tende mão velho enganado Não vedes que sois cego Não vedes que não podeis andar por vós mesmo quanto mais correr Não vedes que podeis cair e que pode ser tal a queda que funeste um dia tão alegre e entristeça todo este prazer vosso e de vossa casa Assim foi em parte porque a poucos passos titubantes e malseguros tropeçou Tobias e deu consigo em terra Consurgens caecus pater ejus caepit offendens pedibus currere et pralapsus est diz o texto grego25 Levantado porém em braços alheios deu a mão o cego já menos cego a um criado e com este arrimo sem novo risco chegou a receber o filho Et data manu puero occurrit filio suo De maneira que o alvoroço a alegria súbita e o amor cegaram de tal sorte a Tobias que não viu nem reparou na sua cegueira porém depois que caiu a mesma queda o fez conhecer que era cego e que como cego se devia pôr nas mãos de quem o sustentasse e guiasse Todas as coisas se vêem com os olhos abertos e só a própria cegueira se pode ver com eles fechados Mas quando ela é tão cega que não se vê a si mesma as quedas lhe abrem os olhos para que se veja Caíram os primeiros pais tão cegamente como vimos e quando se lhes abriram os olhos para verem a sua cegueira Depois que se viram caídos Et aperti sunt oculi amborum26 O apetite os cegou e a caída lhes abriu os olhos Que filho há de Adão que não seja cego E que cego que não tenha caído uma e muitas vezes E que não bastem tantas caídas e recaídas para conhecermos a nossa cegueira Se caís em tantos tropeços quantas são as vaidades e loucuras do mundo por que não acabais de cair em que sois cego e por que não buscais quem vos levante e vos guie Só vos digo que se derdes a mão para isso a algum criado como fez Tobias que seja tão seguro criado e de tão boa vista que saiba por onde põe os pés e que vos possa guiar e suster E quando ainda assim lhe derdes a mão adverti que não seja tanta que se cegue também ele com a vossa graça e vos leve a maiores precipícios Mas já é tempo que demos a razão desta última cegueira como das demais Parece coisa incrível e impossível que um cego não conheça que é cego Mas como já temos visto que há muitos cegos desta espécie resta saber a causa de tão estranha e tão cega cegueira Se algum cego pudera haver que se não conhecesse era o nosso cego do Evangelho porque era cego de seu nascimento e quem não conhece a vista não é muito que não conhecesse a cegueira Ele porém é certo que a conhecia e nós falamos de cegos com os olhos abertos que sabem o que é ver e não ver Qual é logo ou qual pode ser a causa por que estes cegos se ceguem tanto com a sua cegueira e que a não conheçam Outros darão outras causas que para errar há muitas A que eu tenho por certa e infalível é a muita presunção dos mesmos cegos A causa da primeira cegueira como vimos é a desatenção a da segunda a paixão e a desta terceira e maior de todas a presunção Nos mesmos escribas e fariseus temos a prova Deles disse Cristo noutra ocasião a seus discípulos Sinite eos caeci sunt et duces caecorum Mt 1514 Deixaios que são cegos e guias de cegos Mas por isso mesmo é bem que nós os não deixemos agora Se eram cegos e não viam como eram ou se faziam guias de cegos Porque tanta como isto era a sua presunção Para um cego guiar cegos é necessário que tenha dois conhecimentos contrários um com que conheça os outros por cegos e outro com que conheça ou tenha para si que ele o não é E tal era a presunção dos escribas e fariseus Nos outros conheciam que a cegueira era cegueira em si estimavam que a sua cegueira era vista Por isso sendo tão cegos como os outros cegos em vez de buscarem guias para si faziamse guias dos outros e se vendiam por tais Se víssemos que um cego andasse apregoando e vendendo olhos não seria riso das gentes e da mesma natureza Pois essa era a farsa que representava nos tribunais de Jerusalém a cegueira e presunção daqueles gravíssimos ministros e esse era o altíssimo conceito que eles tinham dos seus olhos Toupeiras com presunção de linces Ainda passou muito avante esta presunção no caso de hoje O cego depois que Cristo o alumiou ficou um lince na vista e as toupeiras queriam guiar o lince Que um cego queira guiar outro cego e uma toupeira outra toupeira cegueira é muito presumida mas que as toupeiras quisessem guiar o lince e os cegos dar lições de ver a quem tinha olhos e olhos milagrosos foi a mais louca presunção que podia caber em todas as cegueiras Todo o intento hoje dos escribas e fariseus e todas as diligências e instâncias com que perseguiam o cego alumiado e com que o queriam persuadir que agora estava mais cego que dantes eram a fim de o apartarem da luz e conhecimento de Cristo e o tirarem e trazerem à sua errada opinião Ele dizia Scimus quia peccatores Deus non audit Eles diziam Nos scimus quia hic homo peccator est27 E sendo estas duas proposições tão encontradas toda a diferença por que condenavam a ciência do cego e canonizavam a sua era serem eles os que diziam Nos scimus Aquele nós tão presumido e tantas vezes inculcado nesta demanda era todo o fundamento da sua censura Nós o dizemos e tudo o mais é ignorância e erro Nós como se não houvera nós cegos e como se não fora certo o que eles já tinham inferido Nunquid et nos caeci sumus28 O homem dos olhos milagrosos confutavaos confundiaos e tomavaos às mãos e eles porque não sabiam responder aos argumentos tornavamse contra o argumentante e fixados no seu nós diziam mui inchados Et tu doce nos E quem és tu para nos ensinar a nós Eu perguntara a estes grandes letrados E quem sois vós para não aprender dele Ele arrazoa vivamente vós não dais razão ele prova o que diz vós falais e não provais ele convence com o milagre que Cristo é santo vós blasfemais que é pecador ele demonstra com evidência quem é ele vós buscais testemunhas falsas que digam que é outro ele é uma águia que fita os olhos no sol vós sois aves noturnas que cegais com a luz ele enfim é lince e vós toupeiras e no cabo vós tão vãos e tão presumidos que cuidais que vedes mais com a vossa cegueira do que ele com os seus olhos Viuse jamais presunção tão cega Só uma acho nas Escrituras semelhante mas também em Jerusalém que só em uma terra onde se crucifica a Cristo se podem criar e sofrer tais monstros Os soldados que guardavam o Calvário tendo ordem que acabassem de matar aos crucificados tanto que viram que Cristo estava já morto passaram adiante Ut viderunt eum iam mortuum non fregerunt ejus crura29 Isto fizeram os soldados que tinham olhos E Longuinhos que era cego que fez Deulhe a Cristo a lançada Quem mete a lança na mão de um cego quer que ele a meta no peito de Cristo Pois se os que tinham olhos viram que Cristo estava já morto o cego por que o quis ainda matar como se estivera vivo Porque sendo cego e tão cego era tão presumido da vista que cuidava que via melhor com os seus olhos fechados que os outros com os olhos abertos Oh quantos Longuinhos há destes no mundo e tão longos e tão estirados e tão presumidos Mas a culpa não é sua senão dos generais Se Longuinhos era cego por que havia de comer praça de soldado Se acaso tinha muitos anos de serviço dêemlhe uma mercearia Já que é cego seja rezador Mas sem olhos e com a lança na mão Sem vista e com a praça aclarada E como não havia de presumir muito dos seus olhos se sendo cego o não reformavam Ele foi muito presumido mas tinha a presunção por si Ouvi a Isaías falando com a mesma República de Jerusalém Speculatores tui caeci omines Is 5610 as tuas sentinelas ó Jerusalém todas são cegas A cidade muito fortificada porque tinha três ordens de muros mas as sentinelas todas tão mal providas que em cada uma punham a vigiar um cego E se o cego se via levantado sobre uma torre e posto numa guarita como não havia de presumir muito da sua vista Eles tinham a presunção por si mas a presunção e o posto não lhes diminuíam a cegueira Os postos não costumam dar vista antes a tiram a quem a tem e tanto mais quanto mais altos Por isso aos escribas e fariseus se lhes foi o lume dos olhos Cegos coma presunção do ofício e porque era ofício de ver muito mais cegos Ut videntes caeci fiant VI Ver sem remediar não é ver vendo é ver sem ver Apelo final à cristandade Oração Esta era a última e mais rematada cegueira dos escribas e fariseus E a nossa qual é Eles eram cegos sobre cegos porque não viam as suas cegueiras e nós acaso vemos as nossas Se as remediamos confessamos que as vemos mas se as não remediamos é certo e certíssimo que as não vemos Ver e não remediar não é ver Apareceu Deus a Moisés naquele disfarce da sarça disselhe quem era e a que vinha e as palavras com que se declarou a divina majestade foram estas Vidi afflictionem populi mei in Aegypto et sciens dolorem ejus descendi ut liberem eum Ex 37 s Vi a aflição do meu povo no Egito e conhecendo o muito que padece venho a libertálo E essa aflição que há tantos anos padece o vosso povo ainda agora a vistes Senhor Sei eu que antes de haver tal povo no mundo revelastes vós ao avô de seu fundador que o mesmo povo havia de peregrinar quatrocentos anos em terras estranhas e que nelas havia de ser cativo e afligido Assim o disse ou predisse Deus a Abraão muito antes do nascimento de Jacó que foi o pai das doze tribos e de todo o povo hebreu cativo no Egito Scito prenoscens quod perigrinum futurum sit semen tuum in terra non sua et subijicient eos servituti et affligent eos quadringentis annis 30 Pois se havia mais de quatrocentos anos que Deus tinha revelado este cativeiro e se desde o primeiro dia em que começou antes desde toda a sua eternidade o estava sempre vendo como diz que agora viu a aflição do seu povo Vidi afflictionem populi mei Diz que agora a viu porque agora a vinha remediar Vidi et descendi ut liberem eum O que se vê e não se remedeia ainda que se esteja vendo quatrocentos anos ainda que se esteja vendo uma eternidade inteira ou não se vê ou se vê como se se não vira Por isso Ana mãe de Samuel falando como mesmo Deus e pedindolhe remédio para outra aflição sua disse Si respiciens videris afflictionem mean 1 Rs 111 Se vendo virdes a minha aflição E que quer dizer se vendo virdes Quer dizer se remediardes porque ver sem remediar não é ver vendo é ver sem ver31 Quem duvida que neste mesmo dia viu Cristo pelas ruas de Jerusalém muitos outros cegos mancos e aleijados que concorrem a pedir esmolas às cortes mas não dizem os evangelistas que os viu porque os não remediou Só dizem que viu este cego a quem remediou e por isso dizem que o viu Vtdit hominem caecum Oh quem me dera ter agora neste auditório a todo o mundo Quem me dera que me ouvira agora Espanha que me ouvira França que me ouvira Alemanha que me ouvira a mesma Roma Príncipes reis imperadores monarcas do mundo vedes a ruína das vossos reinos vedes as aflições e misérias de vossos vassalos vedes as violências vedes as opressões vedes os tributos vedes as pobrezas vedes as fomes vedes as guerras vedes as mortes vedes os cativeiros vedes a assolação de tudo Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Príncipes eclesiásticos grandes maiores supremos e vós ó prelados que estais em seu lugar vedes as calamidades universais e particulares da Igreja vedes os destroços da fé vedes o descaimento da religião vedes o desprezo das leis divinas vedes a irreverência dos lugares sagrados vedes o abusados costumes vedes os pecados públicos vedes os escândalos vedes as simonias vedes os sacrilégios vedes a falta da doutrina sã vedes a condenação e perda de tantas almas dentro e fora da Cristondade Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Ministros da república da justiça da guerra do estado do mar da terra vedes as obrigações que se descarregam sobre o vosso cuidado vedes o peso que carrega sobre vossas consciências vedes as desatenções do governo vedes as injustiças vedes os roubos vedes os descaminhos vedes os enredos vedes as dilações vedes os subornos vedes os respeitos vedes as potências dos grandes e as vexações dos pequenos vedes as lágrimas dos pobres os clamores e gemidos de todos Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Pais de família que tendes casa mulher filhos criados vedes o desconcerto e descaminho de vossas famílias vedes a vaidade da mulher vedes o pouco recolhimento das filhas vedes a liberdade e más companhias dos filhos vedes a soltura e descamedimento dos criados vedes como vivem vedes o que fazem e o que se atrevem a fazer fiados muitas vezes na vossa dissimulação no vosso consentimento e na sombra do vosso poder Ou o vedes ou o não vedes Se o vedes como o não remediais E se o não remediais como o vedes Estais cegos Finalmente homem cristão de qualquer estado e de qualquer condição que sejas vês a fé e o caráter que recebeste no Batismo vês a obrigação da lei que professas vês o estado em que vives há tantos anos vês os encargos de tua consciência vês as restituições que deves vês a ocasião de que te não apartas vês o perigo de tua alma e de tua salvação vês que estás atualmente em pecado mortal vês que se te toma a morte nesse estado que te condenas sem remédio vês que se te condenas hás de arder no inferno enquanto Deus for Deus e que hás de carecer do mesmo Deus por toda a eternidade Ou vemos tudo isso cristãos ou não o vemos Se o não vemos como somos tão cegos E se o vemos como o não remediamos Fazemos conta de o remediar alguma hora ou não Ninguém haverá tão ímpio tão bárbaro tão blasfemo que diga que não Pois se o havemos de remediar alguma hora quando há de ser esta hora Na hora da morte Na última velhice Essa é a conta que lhe fizeram todos os que estão no inferno e lá estão e estarão para sempre E será bem que façamos nós também a mesma conta e que nos vamos após eles Não não não queiramos tanto mal a nossa alma Pois se algum dia há de ser se algum dia havemos de abrir os olhos se algum dia nos havemos de resolver porque não será neste dia Ah Senhor que não quero persuadir aos homens nem a mim pois somos tão cegos a vós me quero tornar Não olheis Senhor para nossas cegueiras lembraivos dos vossos olhos lembraivos do que eles fizeram hoje em Jerusalém Ao menos um cego saia hoje daqui alumiado Ponde em nós esses olhos piedosos ponde em nós esses olhos misericordiosos ponde em nós esses olhos onipotentes Penetrai e abrandai com eles a dureza destes corações rasgai e alumiai a cegueira destes olhos para que vejam o estado miserável de suas almas para que vejam quanto lhes merece essa Cruz e essas chagas e para que lançandonos todos a vossos pés como hoje fez o cego arrependidos com uma firmíssima resolução de nossos pecados nos façamos dignos de ser alumiados com vossa graça e de vos ver eternamente na glória SERMÃO DE NOSSA SENHORA DE PENHA DE FRANÇA NA SUA IGREJA E CONVENTO DA SAGRADA RELIGIÃO DE SANTO AGOSTINHO Em Lisboa no primeiro dia do tríduo de sua festa com o Santíssimo Sacramento exposto Ano de 1652 Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abraham1 I Na Penha de França reúnemse dois tronos de duas majestades o de Maria e o de Cristo Com digno pensamento Senhor de vossa divina sabedoria e com bem merecida correspondência de vosso amor vemos juntos hoje como antigamente os ajuntou Salomão 3 Rs 219 os dois tronos de ambas as majestades o de vossa santíssima Mãe subida a esta penha e o vosso descido a ela Sobre uma penha diz Jó que havia de fabricar seu ninho a águia que moraria nas rochas mais altas e inacessíveis e que dali contemplaria o corpo morto para voar e se pôr com ele In arduis ponet nidum suum in petris manet et in accessis rupibus inde contemplatur escam et ubicumque fuerit cadaver statim adest2 Que águia que penha e que corpo morto é este senão tudo o que estamos vendo A águia Maria Santíssima a penha Penha de França o corpo morto vosso corpo sacramentado vivo mas em forma de morto Esta águia como a viu Ezequiel é a que vos tirou das entranhas do eterno Padre e vos trasladou às suas3 Ela é a que vestiu vossa divindade deste mesmo corpo e ele o que reciprocamente com sua real presença vem honrar hoje e divinizar a celebridade de sua Mãe e fazer maior este grande dia Para que eu nos arcanos secretíssimos desse mistério e nos que com igual secreto encerra o Evangelho possa descobrir os motivos de nossa obrigação e agradecimento e para que de algum modo alcance a ponderar as mercês tão prodigiosas e tão contínuas que em todas as partes da terra do mar e do mundo deve Portugal a este soberano propiciatório debaixo do glorioso nome de Penha de França por intercessão da mesma Senhora peço e da mesma presença de vossa divina e humana majestade espero aquelas assistências de graça que para tão imenso assunto me é necessária Ave Maria II Sermão sem livro e sem história Na observação final do Evangelho de S João a Águia dos evangelistas a razão pela qual não existe o Livro dos milagres da Penha Santo Agostinho águia entre os doutores negase a escrever o Livro dos Milagres Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abraham Mt 1 1 A primeira palavra que diz o evangelista e a primeira coisa que me oferece o tema é a primeira e a única que me falta neste dia Liber o livro Quando esta sagrada religião me fez a honra de que subisse hoje a este lugar quando me encomendou ou mandou que tomasse por minha conta este sermão como a matéria para todos é tão grande e para mim sobre tão grande era tão nova para ter mais que por fama as notícias e documentos do que havia de dizer deste santuário pedi o livro da sua história e dos seus milagres E que vos parece que me responderiam Esperava eu que me dissessem que eram tantos os volumes que faziam uma livraria inteira Responderamme que não havia livro Não há livro da história e milagres de Nossa Senhora de Penha de França Pois seja esta a matéria do sermão já que me não dão outra Assim o disse assim o venho cumprir Os outros sermões estudamse pelos livros este será sermão sem livro mas não sem estudo Se este caso sucedera em outra parte pudera parecer descuido Mas na religião do pai dos patriarcas Santo Agostinho tão pontual tão advertida tão observante tão ordenada que ela foi a que deu ordem e regras a todas ou quase todas as religiões do mundo claro está que não foi descuido Se sucedera em outra parte pudera parecer menos devoção Mas na religião do serafim da terra Agostinho que deixou por herança a seus filhos o coração abrasado que traz na mão e entre o amor de Jesus e Maria aquela piedosa indiferença Quo me vertam nescio4 claro está que não foi falta de devoção Se sucedera em outra parte pudera parecer menos suficiência Mas na religião da Águia dos doutores Agostinho de cujas asas tirou a Igreja em todas as idades as mais bem cortadas penas com que se ilustra as mais delgadas com que se apura e as mais doutas e copiosas com que se dilata claro está que não é insuficiência Pois se não é insuficiência se não é indevoção se não é descuido por que razão não há livro da história e milagres de Penha de França deste nome deste templo desta imagem deste assombro do mundo a que justamente podemos chamar o maior e mais público teatro da onipotência Sabeis por quê Porque do que não cabe em livros não há livro Toma por empresa S Mateus escrever a vida e ações de Cristo e escreve o seu Evangelho Segue o mesmo exemplo S Marcos e escreve o seu Chegaram às mãos de S Lucas estes dois evangelhos e outros que naquele tempo saíram que a Igreja não admitiu e parecendolhe a S Lucas que todos diziam pouco resolvese a fazer terceiro Evangelho e começa assim falando com Teófilo a quem o dedicou Quoniam multi conati sunt ordinare narrationem quae in nobis completae sunt rerum5 Como se dissera Não vos espanteis ó Teófilo de que eu escreva Evangelho de que eu escreva a história e maravilhas de Cristo depois de o haverem feito quantos sabeis e tendes lido porque todos esses que escreveram ainda que tantos e tanto não chegaram mais que a intentar Quoniam multi conati unt Escreveu enfim o seu Evangelho S Lucas Chegam todos os três Evangelhos às mãos de S João e parecendolhe como verdadeiramente era que lhes faltava muito por dizer resolve o discípulo amado a escrever quarto Evangelho Assim o fez e assentou a pena S João porque esta foi a última obra sua ainda depois do Apocalipse Mas que vos parece que lhe sucederia a S João com o seu Evangelho Leuo depois de o haver escrito e sucedeulhe com o seu o que tinha sucedido com os outros pareceulhe que era muito pouco o que tinha dito em comparação do infinito que lhe ficara por dizer Torna a tomar a pena e acrescenta no fim do seu Evangelho estas duas regras Sunt et alia multa quae fecit Jesus quae si scribantur per singula nec ipsum arbitror mundum capere posse eos qai scribendi sunt libros Jo 2125 Saibam todos os que lerem este livro que nele não estão escritas todas as obras e maravilhas de Cristo nem a menor parte delas porque se todas se houveram de escrever nem em todo o mundo couberam todos os livros Pergunto agora Em que disse mais S João nestas duas últimas regras ou em todo o seu Evangelho Parece a pergunta temerária Ao menos nenhum expositor levantou até agora tal questão Mas responde tácita e admiravelmente a ela aquele que entre todos os expositores na minha opinião é singular o doutíssimo Maldonado Quod dum dicit et se excusat et res Christi magis quodammodo quam si eas perscripsisset amplificat Muito mais disse S João só nestas duas regras últimas do que disse em todo o livro do seu Evangelho e do que dissera em muitos outros seus se os escrevera Notável resolução É possível que disse mais S João nestas duas regras que em todo o seu Evangelho e em um mundo inteiro de livros quando os tivera escrito Sim Porque em todo esse Evangelho e em todos esses livros escrevera S João as maravilhas de Cristo nestas duas regras confessou que se não podiam escrever E muito maior louvor e encarecimento é das coisas grandes confessar que se não podem escrever que escrevêlas O que se escreve ainda que seja muito cabe na pena o que se não pode escrever é maior que tudo o que cabe nela O que se escreve tem número e fim o que se não pode escrever confessase por inumerável e infinito Muito mais disse logo S João no que não escreveu que no que escreveu No que escreveu disse muitas maravilhas de Cristo mas não disse todas no que não escreveu disse todas porque mostrou que eram tantas que se não podiam escrever No que escreveu venceu aos três evangelistas porque disse muito mais que todos eles no que não escreveu venceuse a si mesmo porque disse muito mais do que tinha escrito Daqui se estenderá uma dúvida do texto de Ezequiel em que muitos têm reparado mas a meu ver ainda não está estendido Viu Ezequiel aquele misterioso carro por que tiravam quatro animais um homem um leão uma águia e um boi Todos estes quatro animais tinham asas mas a águia diz o texto que voava sobre todos quatro Desuper ipsorum quatuor Ez 1 10 Dificultosa proposição Se dissera que a águia voava sobre todos os outros três animais claro estava e assim havia de ser naturalmente porque as asas nos outros eram postiças e a águia nascera com elas Vede vós agora um boi com asas como havia de voar Mas porque muitas vezes a águia e o boi andam no mesmo jugo por isso o carro faz tão pouco caminho As asas no leão e no homem ainda que vemos voar tanto a tantos homens vêm a ser quase o mesmo De maneira que voar a águia sobre os outros três animais não é maravilha Mas dizer que voava sobre todos quatro sendo a águia um deles como pode ser A nossa razão nos descobriu este grande mistério Estes animais como dizem conformemente todos os doutores eram os quatro evangelistas as asas eram as penas com que escreveram a águia era S João E diz o profeta que a águia voava não só sobre os outros três senão sobre todos quatro Desuper ipsorum porque assim foi Quando S João escreveu o seu Evangelho voou sobre os três evangelistas porque disse muito mais que eles mas quando no fim do seu Evangelho acrescentou aquelas duas regras em que disse que as maravilhas de Cristo não se podiam escrever voou sobre todos quatro porque voou sobre si mesmo e disse muito mais do que tinha dito De maneira que muita mais voou aquela águia quando encolheu as penas que quando as estendeu Quando estendeu as penas para escrever as coisas de Cristo voou sobre os três evangelistas quando encolheu as penas confessando que se não podiam escrever voou sobre todos quatro porque voou sobre si mesmo Desuper ipsorum quatuor Passemos agora de uma águia a outra águia em sentido também literal porque assim como S João é a águia entre os evangelistas assim Santo Agostinho é a águia entre os doutores Se as penas de Santo Agostinho se estenderam se as penas de Santo Agostinho se aplicaram a escrever a História e milagres de Penha de França muito disseram como elas costumam Mas encolhendose essas penas e confessando que as maravilhas deste prodígio do mundo são tão grandes que se não podem escrever não há dúvida que dizem muito mais Dum se excusat magis res Mariae quam si eas perscripsisset amplifcat Nas matérias grandes o atreverse a escrever é engrandecer a pena não se atrever a escrever é engrandecer a matéria Se as penas da águia Agostinho se atreveram a uma empresa tão grande como reduzir a escritura o número sem número das maravilhas desta Senhora ficaram mui engrandecidas as penas mas não se atrevendo a empreender tal assunto e confessandose desiguais para tão grande empresa fica mais engrandecida a Senhora Aquela mulher vestida do sol e coroada de estrelas que viu S João no Apocalipse diz o texto que lhe deram as asas de uma águia grande para voar Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae utr volaret Apc 12 14 Que mulher é a vestida de sol e coroada de estrelas senão a Virgem Santíssima E que asas são as da grande águia senão as penas os escritores de Santo Agostinho Nas outras ocasiões dãose a esta Senhora as penas daquela águia para voar muito nesta ocasião negamselhe as penas para voar mais E assim é muito mais voa a grandeza desta Senhora encolhendose estas penas e não se atrevendo a escrever suas maravilhas que se todas se empregaram a escrever Quam si eas perscripsisset Este foi o generoso pensamento e a discretíssima advertência com que se não escreveu Livro da História e Milagres de Penha de França sendo mais eloqüente o silêncio do que a escritura em muitos livros III Os milagres da Penha de França não hão mister livros para conservarlhes a memória A Penha de França e a penha de Israel Quem não é sujeito às leis do tempo não há mister a fé das escrituras A razão por que não é necessário que haja livro direi agora e é tão clara e manifesta que por ela por si mesma se está inculcando O fim para que os homens inventaram os livros foi para conservar a memória das coisas passadas contra a tirania do tempo e contra o esquecimento dos homens que ainda é maior tirania Por isso Gilberto chamou os livros reparadores da memória e S Máximo medicina do esquecimento Scriptura memoriae reparatrix est oblivionis medicamentum6 E como os livros foram inventados para conservadores das coisas passadas por isso os milagres de Penha de França não hão mister livros porque são milagres que não passam Esta é uma excelência com que a Virgem Maria quis singularizar os privilégios desta sua casa sobre todas as que tem milagrosas no mundo e sobre todas as que tem nesta cidade Deixemos as do mundo porque fora discurso mui dilatado Vamos às de Lisboa Foi milagrosa em Lisboa a Casa de Nossa Senhora da Natividade mas passaram os milagres da Natividade Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Amparo mas passaram os milagres do Amparo Foi milagrosa a Casa de Nossa Senhora do Desterro mas passaram os milagres do Desterro Foi milagrosa a Casa da Senhora da Luz mas passaram os milagres da Luz Só a casa de Nossa Senhora de Penha de França foi milagrosa e há de ser milagrosa porque os seus milagres nunca passam e as coisas que não passam nem acabam as coisas que permanecem sempre não hão mister livros Duas leis fez Deus neste mundo uma foi a lei de Moisés outra a de Cristo A lei de Moisés escreveuse que por isso se chama lei escrita a lei de Cristo não se escreveu E por quê A lei de Cristo não é lei mais pura não é lei mais santa não é lei mais estimada e amada de Deus que a lei de Moisés Sim Pois se se escreve a lei de Moisés a lei de Cristo por que se não escreve Porque a lei de Moisés era lei que havia de passar a lei de Cristo era lei que havia de permanecer para sempre e as coisas que passam essas são as que se escrevem as que permanecem não hão mister que se escrevam Escrevamse os milagres da Natividade escrevamse os da Luz escrevamse os do Amparo e do Desterro para que lhes não acabe o tempo as memórias assim como os acabou a eles Os milagres de Penha de França não hão mister a fé das escrituras porque eles são a fé de si mesmos Quem quiser saber os milagres de Penha de França não é necessário que os vá ler no papel venhaos ver com os olhos Esta casa não é milagrosa por papéis não é necessário que se passem certidões onde os milagres não passam Os rios sempre estão a passar e nunca passam Assim são os milagres de Penha de França um rio de milagres Quereis ver este rio e esta penha Pondevos nos desertos do Egito com os filhos de Israel caminhando para a Terra de Promissão Perecendo ali de sede aquele numeroso exército mandou Deus a Moisés que dissesse a uma penha que desse água Loquimini ad petram7 Excedeu Moisés o mandamento deu com a vara na penha mas pagou o excesso tão rigorosamente que o castigou Deus com que não entrasse na Terra de Promissão Para a penha socorrer milagrosamente a necessidade do povo basta dizer lho Loquere Não quer Deus que se cuide que o milagre é de vara quer que se saiba que o milagre e o benefício é da penha E assim foi Saiu a água milagrosa com tanta abundância e com tal continuação que diz S Paulo Bibebant de consequente eos petra 1 Cor 10 4 que bebiam da penha que os ia seguindo E como os ia seguindo a penha Não os seguia movendose do lugar onde estava mas seguiaos com um rio milagroso que dela manava e ia acompanhando o povo e o sarava de todas as enfermidades Non erat infirnus in tribubus eorum8 Na penha brotava a fonte perene e da fonte manava perenemente o rio que corria e socorria a todos E acrescentou logo S Paulo que tudo isto era figura do que depois havia de suceder e bem o vemos Naquele altar está a Penha transplantada de França a Castela e de Castela a Portugal daquela Penha sai a fonte que é a imagem milagrosa da Virgem Maria e daquela fonte nasce o rio de seus milagres e benefícios que não parando nem podendo parar corre perenemente e acode a todas as necessidades do mundo Assim o disse S João Damasceno falando desta Senhora Petra quae sitientibus vitam tribut Penha que a todos os que têm sede dá vida Fons universo orbi medicinam afferens Fonte que é medicina universal para todas as enfermidades do mundo A mesma Senhora o tinha já dito e prometido de si no capítulo oitavo dos Provérbios Qui me invenerit inveniet vitam et hauriet salutem a Domino Prov 8 36 Aquele que me buscar acharmeá e aquele que me achar achará a vida e beberá a saúde Não diz que receberá a saúde senão que a beberá porque beberá do rio dos milagres e da fonte da saúde que sai desta penha Mas vejo que me dizem os mais versados nas Escrituras que os milagres daquela antiga penha não só se escreveram em um livro senão em muitos e pelas três penas mais ilustres de ambos os Testamentos Moisés Davi S Paulo Pois assim como a história e milagres da penha de Israel se escreveram em tão multiplicados livros não seria justo também que se escrevesse a História e Milagres da Penha de França Não Pois que vai muito de penha a penha de rio a rio e de milagres a milagres Ali a penha desfezse o rio secouse e os milagres cessaram e onde o tempo acaba as coisas é bem que as perpetue a memória dos livros Na nossa Penha de França não passa assim A penha é sempre a mesma o rio sempre corre os milagres nunca param e milagres sobre que não tem jurisdição o tempo não hão mister remédios contra o tempo eles são a sua própria escritura eles os anais eles os diários de si mesmos Criou Deus distinguiu e ornou esta formosa máquina do universo em espaço de sete dias E é admirável a pontualidade e exação com que Moisés dia por dia escreveu as criaturas e obras de cada um Divisit lucem a tenebris et factum est dies unus Fiat firmamentum in medio aquarum et factum est dies secundus Germinet terra herbam virentem et factum est dies tertius9 E assim dos mais De maneira que fez Moisés um diário exatíssimo de todas as obras da criação As obras de conservação isto é da Providência com que Deus conserva e governa o universo em nada são inferiores às da criação nem no poder nem na sabedoria nem na majestade e grandeza Pois se Moisés escreveu as obras da criação e compôs um diário tão diligente de todas elas por que razão nem ele nem outro escritor sagrado escreveu as obras da conservação havendo nestas tanto concurso de causas e tanta variedade de efeitos tanta contrariedade com tanta harmonia tanta mudança com tanta estabilidade tanta confusão com tanta ordem e tantas outras circunstâncias de sabedoria de poder de providência tão novas e tão admiráveis A razão é porque as obras da criação pararam e cessaram ao sétimo dia Requievit die septimo et cessavit ab universo opere quod patrarat10 Pelo contrário as obras da conservação continuam sempre desde o princípio continuam e hão de continuar até o fim do mundo Pater meus usque modo operatur et ego operor11 E as obras que passaram e pararam era bem que se escrevesse história e ainda diário delas porém as obras que não acabam que perseveram que continuam e se vão sucedendo sempre não necessitam de história nem de memória nem de escritura porque elas são uma perpétua história e um continuado diário de si mesmas Que bem o disse Davi Caeli enarrant gloriam Dei et opera manuum ejus annuntiat firmamentum Dies diei eructat verbum12 Essa revolução dos céus esse curso dos planetas essa ordem do firmamento que outra coisa fazem continuamente senão anunciar ao mundo as obras maravilhosas de Deus E que coisa são os mesmos dias que se vão sucedendo senão uns historiadores mudos e uns cronistas diligentíssimos dessas mesmas obras que não por anais senão por diários perpétuos as estão publicando Dies diei eructat verbum Tais são as maravilhas de Penha de França Se passaram e cessaram e houvera algum sábado como aquele da criação em que constasse que tinham parado então seria bem que se escrevessem mas como não param nem cessam como aqui se vê e consta todos os sábados em que se resumem os milagres daquela semana não é necessário que se escrevam nem se historiem porque a sua história é a mesma continuação e os seus diários os mesmos dias Dies diei eructat verbum os milagres de hoje são o instrumento autêntico dos milagres de ontem e os milagres de amanhã dos milagres de hoje e assim como se vão sucedendo os dias se vão também testemunhando uns aos outros lendo a vista sem escritura o que na escritura havia de crer a memória Os gregos em um dos seus hinos com elogio singular chamaram à Virgem Maria diário da divina Onipotência Diarium unicum Domini creaturas Diário único do Senhor das criaturas13 Mas em nenhum lugar em nenhum trono de quantos esta Senhora tem no mundo se pode insculpir com mais razão este titulo que no pé daquela Penha Diário porque as suas maravilhas são de cada dia único porque só nelas não tem jurisdição o tempo Qual vos parece que é o maior milagre de Penha de França É não ter jurisdição o tempo sobre os seus milagres Não há poder maior no mundo que o do tempo tudo sujeita tudo muda tudo acaba Não só tem poder o tempo sobre a natureza mas até sobre as coisas sobrenaturais tem poder que é o que mais me admira Os milagres são coisas sobrenaturais e não lhes vale o ser superiores à natureza para não serem sujeitos ao tempo Grandes milagres foram os da serpente do deserto todos os enfermos de qualquer enfer midade que olhavam para ela saravam logo Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a serpente Grandes milagres foram os da vara de Moisés ela foi o instrumento com que se obraram todos os prodígios do Egito contra Faraó Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a vara Grandes foram os milagres da capa de Elias em virtude dela sustentava Eliseu os vivos sarava os enfermos e ressuscitava os mortos Andou o tempo e acabaram os milagres e mais acapa Grandes milagres foram os da Arca do Testamento diante dela tornavam atrás os rios caíam os muros despedaçavam se os ídolos e morriam subitamente os que se lhe atreviam Andou o tempo e acabaram os milagres e mais a Arca Finalmente foram grandes e maiores que grandes os milagres da primitiva Igreja em que todos os que se batizavam falavam todas as línguas curavam de todas as enfermidades lançavam os demônios domavam as serpentes e bebiam sem lesão os venenos Passou o tempo cresceu a Igreja e como já não eram necessários para fundar a fé cessaram aqueles milagres De sorte que sobre todos os milagres teve jurisdição o tempo E que só sobre os milagres de Penha de França não tenha jurisdição Grande milagre Os outros acabam com o tempo os milagres de Penha de França crescem com o tempo O maior encarecimento do tempo é que tem poder até sobre as penhas o maior louvor daquela Penha é que tem poder até sobre o tempo E se os livros são remédio contra o tempo quem não é sujeito às leis do tempo não há mister livros IV Quais os livros da História e Milagres da Penha de França O primeiro é o Evangelho do dia Significação mística e historial da genealogia da Virgem Significação mística das gerações da Senhora Estas são as razões que se me ofereceram de não haver livro da história e milagres de Nossa Senhora da Penha de França e de não ser necessário que o houvesse suposta a resposta que me deram de que o não havia Mas com licença vossa e de todos eu não o suponho nem o entendo assim senão muito pelo contrário Digo que não só há livro senão livros da história e milagres desta casa E qual é o livro e quais são os livros Agora o ouvireis daime atenção O primeiro livro de Penha de França é o Evangelho que ali se leu Liber generationis Jesu Christi Filii David Filii Abrabam Mt 11 Poiso livro da geração de Jesus Cristo Filho de Davi e Filho de Abraão é o livro da história e milagres de Penha de França Sim Todo este Evangelho de S Mateus desde a primeira até a última palavra está cheio daquela variedade e multidão de nomes que ouvistes Abraão Isac Jacó Jessé Davi Salomão etc Comentando estes nomes diz S João Crisóstomo estas palavras Causa quidem et ratione providentiaque Dei posita sunt haec nomina qua autem causa et ratione posita sint vere ipsi scierunt qui posuerunt et Deus cujus providentia ponebantur Nos vero quid intelligere possumus in nominibus ipsis hoc loquimur Todos aqueles nomes foram escritos neste Evangelho com grande causa e grande mistério mas qual seja a causa e qual o mistério só o sabem aqueles que os escreveram e Deus por cuja providência foram mandados escrever Nós os interpretamos conforme o que podemos entender Isto diz S João Crisóstomo e o mesmo diz Santo Anselmo e outros Padres De maneira que cada nome deste Evangelho tem duas significações uma historial e outra mística A significação historial significa pessoas a significação mística significa coisas As pessoas que se significam na significação historial são os progenitores da Virgem Maria as coisas que se significam na significação mística são as graças da mesma Senhora Os progenitores dizem o que a Senhora recebeu dos homens que é o sangue e nobreza dos patriarcas as graças dizem o que os homens recebem da Senhora que são os favores e benefícios com que enche a todo o gênero humano De sorte que ditou o Espírito Santo este primeiro capítulo de S Mateus com tal mistério e artifício que lido por fora quanto aos nomes é livro de gerações de pais e avós Liber generationis construído por dentro quanto às significações é livro de graças de favores de benefícios de remédios Admiravelmente o disse a mesma Senhora naquelas palavras do Eclesiástico que a Igreja lhe aplica In me est omnis gratia viae et virtutis transite ad me omnes qui concupiscitis me et a generationibus meis implemini Eclo 24 26 Em mim há todas as graças e todas as virtudes vinde a mim todos os que as desejais e enchervosei de minhas gerações Notáveis palavras e muito mais notável a conseqüência delas Em mim há todas as graças vinde a mim e enchervosei de minhas gerações Que conseqüência é esta Muito grande à vista desse livro Diz que se encham de suas gerações todos os que desejam suas graças porque as suas graças estão depositadas dentro das suas gerações As gerações da Senhora são todos os seus progenitores que se contam neste livro Liber generationis Mt 12 Abraão é uma geração Abraham genuit Isaac Isac é outra geração Isac genuit Jacob e assim dos mais E como debaixo de cada geração destas e de cada nome destes progenitores se contém uma particular graça e uma particular virtude com que a mesma Senhora nos socorre e remedeia por isso diz altíssimamente que todos os que desejam suas graças se venham encher de suas gerações In me est omnis gratia venite ad me et a generationibus meis implemini A glosa interlineal explicou o modo como isto é com uma comparação de grande propriedade Hic liber est apotheca gratiarum in quo omnis anima quidquid necesse habet inveniet Sabeis como é este livro diz a glosa é como uma botica de remédios sobrenaturais onde todos os homens acham tudo o de que têm necessidade para seus males14 A comparação pudera ser mais levantada mas não pode ser mais própria Que é o que tem uma botica por fora e por dentro Por fora não aparecem mais que uns títulos de nomes gregos e arábicos e por dentro debaixo deles estão os remédios com que se curam todas as enfermidades O mesmo passa neste Liber generationis de S Mateus Por fora não se vê mais que estes nomes de patriarcas uns hebraicos outros siríacos mas por dentro debaixo deles está a sua significação que contém os remédios miraculosos com que a Senhora acode a todos os males do gênero humano Ora ide comigo e vereis toda a história e milagres de Penha de França escritos neste livro Caístes enfermo em uma cama experimentastes os remédios da arte sem proveito socorrestesvos à Virgem de Penha de França fizesteslhe um voto e no mesmo ponto vos achastes com perfeita saúde Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo no livro de seus milagres Genuit josiam Josias id est salus Domini Saúde de Deus Mt 110 Foi a enfermidade que padecestes mortal desconfiaramvos os médicos recebestes os últimos sacramentos não fizestes vós oração à Virgem de Penha de França porque já não podíeis mas fizeramna os que vos assistiam e vos sustentavam a candeia na mão subitamente melhorastes tomastes da morte à vida e pendurastes ali a vossa mortalha Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo no livro dos seus milagres Genuit Eliacim Eliacim id est Dei ressurrectio Mt 113 Ressurreição obrada por Deus Estáveis todo entrevado com os membros tolhidos e entorpecidos não vos podíeis mover nem dar um passo mandastesvos trazer em ombros alheios a esta casa Pedistes com grande confiança à Virgem de Penha de França que usasse convosco de suas misericórdias no mesmo ponto tomastes para vossa casa por vossos pés e pendurastes em memória as vossas muletas Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Ezechiam Ezechias id est confortatio Domini Mt 19 Confortação do Senhor Fezvos Deus mercê de vos dar abundância de bens com que sustentar uma casa muito honrada mas não vos deu filhos com que a perpetuar Viestes a Nossa Senhora de Penha de França fizestes uma novena e acabados os nove dias de vossa devoção não tardaram os nove meses que não tivésseis sucessor para vossa casa Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Filii Abraham Abraham id es pater multarum gentium Mt 11 Pai de muita descendência Havendo muitos anos que sendo casada vivíeis como viúva e vossos filhos como órfãos porque o pai fez uma viagem para as conquistas e nunca mais houve novas dele Tomastes por devoção vir aos sábados à Penha de França ou rezar o rosário em vossa casa que às vezes é a devoção mais segura e quando menos o esperáveis vedes entrar o pai dos vossos órfãos pela porta dentro Que foi isto Milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Abiam Abias id est pater veniens hic Mt 1 7 este é o pai que veio Caístes em pobreza vistesvos com trabalhos e misérias e com a casa cheia de obrigações e de bocas a que matar a fome não houve diligência que não fizésseis não houve indústria que não experimentásseis todas sem proveito Acolhestesvos por última esperança à sombra desta casa que cobre e sustenta a tantos pobres e sem saber donde nem por onde achastesvos com remédio e com descanso Que foi isto Milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Naasson Naasson refectio et requies Domini Mt 1 4 Refeição e descanso dado por Deus Fostes tão desgraçado que vos foi necessário pleitear para viver quiseramvos tirar a vossa fazenda com demandas com calúnias com falsos testemunhos e violências andastes tantos anos arrastado por tribunais cada vez a vossa justiça mais escura e vós mais desesperado apelastes finalmente para o tribunal de Penha de França e fezvos Deus a justiça que nos homens não acháveis Que foi isto Foi milagre daquela Senhora Ledeo escrito no livro Genuit Josaphat id est Deus judex Mt 1 8 Deus feito juiz por vós Éreis um moço louco e cego andáveis enredado nos labirintos do amor profano que vos prendiam o alvedrio que vos destruíam a vida e vos levavam ao inferno Vivíeis sem lembrança da morte nem da honra nem da salvação Oh valhame Deus Quantos milagres eram necessários para vos arrancar daquele miserável estado Era necessário apartar porque a ocasião era próxima era necessário esquecer porque a lembrança era contínua era necessário ver porque os olhos estavam cegos era necessário aborrecer porque o apetite estava entregue era necessário confessar porque a consciência estava perdida era necessário perseverar por que a recaída não fosse mais arriscada Todos estes milagres havíeis mister que todos são necessários a quem vive em semelhante estado e por isso saem dele tão poucos Enfim fizestesvos devoto da Virgem de Penha de França oferecesteslhe um coração todo de cera e todo de mármore que tal era o vosso de mármore para com Deus de cera para com o mundo E quando vós mesmo cuidáveis que seria impossível haver nunca mudança em vós achastes que o mármore se abrandou que a cera se endureceu e que o vosso coração se trocou totalmente Que foi isto Foram milagres daquela Senhora Ledeos todos no livro de seus milagres Era necessário apartar Genuit Phares Phares id est divisio apartamento Era necessário esquecer Genuit Manassem Manasses id est oblivio esquecimento Era necessário ver Genuit Obet ex Ruth Ruth id est videns o que vê Era necessário aborrecer Genuit Zaram de Thamar Thamar id est amaritudo aborrecimento Era necessário confessar Genuit Judam Judas id est confessio confissão Era necessário perseverar Genuit Achas Achas id est firmamentum Domini Firmeza dada por Deus Finalmente todos os milagres que a Senhora faz que são todos os que pede a necessidade e o desejo todos estão escritos naquele seu livro Andáveis afligido e angustiado acudistes à Virgem de Penha de França e achastes refrigério e alívio Jess refrigerium Andáveis triste e desconsolado pusestes o vosso coração nas mãos da Virgem de Penha de França e tomastes com consolação e alegria Isaac risus Andáveis confuso sem vos saber resolver recorrestes à Virgem de Penha de França e livrouvos da confusão Zorobabel alienus a confusione Andáveis em guerra e dissensões tomastes por medianeira a Virgem de Penha de França e pôsvos em paz Salomon pacificus Tínheis inimigos e não sabíeis de quem vos havíeis de guardar tomastes uma carta de seguro da devoção da Virgem de Penha de França e prevenistes todos os perigos Hefron jaculum videns Sois tentado chamastes pela Virgem de Penha de França em vossas tentações e deuvos fortaleza para lutar animosamente contra o demônio Jacob luctator Sois soldado pedistes socorro à Virgem de Penha de França no conflito e deuvos valor com que vencer ao inimigo Booz praevalens Sois conselheiro recorrestes à Virgem de Penha de França e deuvos luz e prudência para acertar Salmon omnia discernis Sois mercador encomendastes as vossas encomendas à Virgem de Penha de França e recebestes em tomo com grandes aumentos Joseph argmentum Sois mareante chamastes pela Virgem de Penha de França nas tempestades e reconheceram as ondas a virtude daquele sagrado nome Maria domina maris Enfim que o primeiro livro da História e Milagres de Nossa Senhora de Penha de França é o nosso Evangelho Liber generationis V O segundo livro da História e Milagres da Penha de França o Santíssimo Sacramento do altar O livro e o Sacramento O livro misterioso do profeta Ezequiel e o memorial de que fala o profeta Davi A Casa de Penha de França Sacramento com as cortinas corridas O segundo livro desta história e milagres qual vos parece que será Também o não havemos de ir buscar fora de casa É o Santíssimo Sacramento do altar Bem dizia eu logo que os milagres desta casa não só têm livro senão livros Apareceu ao profeta Ezequiel um braço com um livro na mão e disselhe uma voz Comede volumen istud Ez 31 Ezequiel come este livro Abriu a boca Ezequiel comeu o livro e sucedeulhe uma coisa notável Porque quando o tomou na boca sentiu um sabor depois que o levou para baixo experimentou outro Admirável livro Admirável manjar que nem parece manjar nem livro Livro não porque os livros não se comem e este comiase Manjar não porque o manjar tem um só sabor e este na boca e este tinha dois sabores um exterior quando se tomou na boca e outro interior quando se passou ao peito Pois manjar que tem dois sabores manjar que se come com a boca e com o coração manjar que sabe de uma maneira aos sentidos e de outra ao interior da alma que manjar é nem pode ser este senão o Santíssimo Sacramento Por isso o profeta quando lhe disseram que o comesse não o comeu comungou não o tomou primeiro com a mão como se faz ao que se come mas abriu a boca com grande reverência e recebeuo A cerimônia o modo e os efeitos tudo é de sacramento não se pode negar Mas a figura não o parece Comede volumen istud Que tem que ver o livro com o Sacramento Agora o vereis O livro é a mais perfeita imagem de seu autor tão perfeita que não se distingue dele nem tem outro nome o livro visto por fora não mostra nada por dentro está cheio de mistérios o livro se se imprimem muitos volumes tanto tem um como todos e não tem mais todos que um o livro está juntamente em Roma na Índia e em Lisboa e é o mesmo o livro sendo o mesmo para todos uns percebem dele muito outros pouco outros nada cada um conforme a sua capacidade o livro é um mudo que fala um surdo que responde um cego que guia um morto que vive e não tendo ação em si mesmo move os ânimos e causa grandes efeitos Quem há que não reconheça em todas estas propriedades o Santíssimo Sacramento do altar Livro é e livro com grande propriedade Comede volumen istud Mas de que matéria trata este livro Disse o profeta Davi bem claramente Memoriam fecit mirabilium suorum misericors et miserator Dominus escam dedit timentibus se15 Sabeis que o livro é este soberano manjar que Deus dá aos que o temem É o livro das memórias dos milagres da misericórdia de Deus E quais são os milagres da misericórdia de Deus pergunto eu agora senão os que se obram nesta casa Que lugar há no mundo onde Deus se mostre mais misericordioso e onde sua misericórdia seja mais milagrosa que neste Ali estão os milagres e as misericórdias fechadas aqui estão os milagres e as misericórdias patentes Que cuidais que é a Casa de Penha de França com as suas maravilhas É o Sacramento com as cortinas corridas Se Deus correra as cortinas àquele mistério e nos abrira aquele livro divino havíamos de ler ali o que aqui vemos Ali estão os milagres de Penha de França encobertos aqui estão os milagres do Sacramento desencerrados Ali as paredes cobrem os milagres aqui os milagres cobrem as paredes Os milagres e inscrições de que estas paredes ordinariamente estão armadas que imaginais que são São as folhas daquele livro desencadernadas Viu S João no Apocalipse um livro que não se achou nunca quem o pudesse abrir no mundo até que o abriu Cristo Apc 51 Assim esteve fechado tantos centos de anos aquele livro do Diviníssimo Sacramento até que o abriu a Virgem de Penha de França O que ali se lê é o que aqui se vê o que ali cremos é o que aqui experimentamos Nas outras igrejas é o Sacramento mistério da fé aqui é desengano dos sentidos Se os sentidos aqui vêem tantos milagres que muito é que a fé creia ali tantos milagres Cantese nas outras igrejas Praestet fides supplementum sensuum defectui Supra a fé o defeito dos sentidos Em Penha de França cantese ao contrário Praestet sensus supplementum fidei defectui supramos sentidos o defeito da fé se porventura o houvesse Se os sentidos vêem os milagres por que os há de duvidar a fé e ainda a infidelidade O milagre em que mais tropeça e embaraça a infidelidade no Divino Sacramento é sendo Cristo um estar em tão diferentes lugares E quantos olhos há no mundo que podem testemunhar de vista este milagre na Senhora de Penha de França Vedes entrar por aquela porta um homem carregado de grilhões e de cadeias e levá las ao pé daquele altar e se lhe perguntais a causa diz que estando nas masmorras de Argel ou Tetuão lhe apareceu aquela mesma Senhora de Penha de França a que se encomendava e que em sinal da liberdade que lhe deu lhe vem oferecer as mesmas cadeias Vereis entrar por aquela porta o indiático e oferecer ricos ornamentos a este templo porque pelejando na Índia contra os aquéns ou contra os rumes invocou a Virgem de Penha de França que sendo vista diante do nosso exército pelos mesmos inimigos as suas balas nos caíam aos pés e as suas setas se convertiam contra eles Vereis entrar por aquela porta uma procissão de homens descalços com aspecto mais de ressuscitados que de vivos e dir vosão que se vêm prostrar por terra diante daquela Senhora porque vendose comidos do mar chamaram pela Virgem de Penha de França e logo a viram no ar entre as suas antenas e cessou num momento a tempestade De maneira que a Senhora de Penha de França como se debaixo dos acidentes deste glorioso nome se sacramentara também por amor de nós sendo uma só está em Lisboa está em Argel está na Índia está em todas as partes do mar e da terra onde a invocamos Vemme ao pensamento neste passo que as palavras da invocação ou têm ou participam a mesma virtude das palavras da consagração A virtude das palavras da con sagração é tão poderosa que em se pronunciando as palavras logo Cristo ali está presente Tal é a virtude das palavras da invocação Ouvi a Isaías Invocabis et Dominus exaudiet clamabis et dicet Ecce assum Is 589 Invocarmeeis e chamareis por mim e no mesmo ponto serei presente Assim o faz a Virgem piedosíssima a todos os que a invocam em todas as partes do mundo Cristo presente em toda a parte pelas palavras com que o sacerdote consagra a hóstia Maria presente em toda a parte pelas palavras com que o necessitado a invoca S Gregório Taumaturgo chamou a esta Senhora Omnium miracalorum officina Oficina de todos os milagres E como estes dois livros de milagres foram impressos na mesma oficina não é muito que sejam semelhantes nos mesmos caracteres Só com esta diferença por não dizer vantagem que no Sacramento está a oficina e o livro cerrado em Penha de França está a oficina e o livro aberto excedendo nesta parte ao Livro Gerado o Livro da Geração Liber generationis VI As enfermidades espirituais os mancos de Elias os cegos de Isaías os surdos de Davi e os mortos do Apocalipse e de S Mateus O sepulcro de Cristo e a Penha de França Ora senhores já que estamos na casa dos milagres e no dia em que a Senhora de Penha de França deve estar mais liberal que nunca de seus favores e misericórdias o que importa e o que Deus e a mesma Senhora quer é que nenhum de nós hoje se vá desta igreja sem o seu milagre Nenhum de nós há tão perfeitamente são que não tenha alguma enfermidade e muitas de que sarar Quantos estão hoje nesta igreja mancos e aleijados Quantos cegos quantos surdos quantos entrevados e o pior de tudo quantos mortos Quereis saber quem são os mancos Ouvi a Elias Usquequo claudicatis in duas partes 3 Rs 1821 Até quando povo errado hás de manquejar para duas partes adorando juntamente a Deus e mais a Baal Quantos há debaixo do nome de cristãos que dobram um joelho a Deus e outro ao ídolo Perguntaio a vossas torpes adorações Os que fazem isto são os mancos Quereis saber quais são os cegos Não são aqueles que não vêem são aqueles que vendo e tendo os olhos abertos obram como se não viram Excaeca cor populi hujus diz Isaías ut videntes non videant16 Vemos que todo este mundo é vaidade que a vida é um sonho que tudo passa que tudo acaba e que nós havemos de acabar primeiro que tudo e vivemos como se fôramos imortais ou não houvera eternidade Que reis saber quem são os surdos São aqueles de quem disse Davi Aures habent et non audient Terão ouvidos e não ouvirão SI 113 6 Não ouvir por não ter ouvidos não é grande miséria mas ter ouvidos para não ouvir é a maior enfermidade de todas Nenhuma coisa me desconsola e está desconsolando tanto como verme ouvir O que vai ao entendimento ouvilo com grande atenção e satisfação e com maior aplauso do que merece o que vai à vontade e mais importa ou não lhe dais ouvidos ou vos não soa bem neles Quanto temo que é evidente sinal da reprovação Propterea vos non auditis quia ex Deo non estis17 Estes são os surdos Quereis finalmente saber quem são os mortos São aqueles de quem disse S João Nomen habes quod vivus et mortuus es18 e aqueles de quem disse Cristo Sinite mortuos sepelire mortuos suos19 Os mortos são todos aqueles que estão em pecado mortal Haverá algum morto ou alguma morta nesta igreja Ainda mal porque tantos e tantas Vede quanto pior morte é o pecado que a mesma morte Os homens temos três vidas vida corporal vida espiritual vida eterna A morte tira somente a vida corporal o pecado tira a vida eterna e também tira a corporal porque do pecado nasceu a morte Per peccatum mors Rom 512 Todas as mortes quantas há quantas houve e quantas há de haver foram causadas de um só pecado de Adão e não bastando todas para o pagar foi necessário que o mesmo Deus morresse para satisfazer por ele A morte mata o corpo que é mortal o pecado mata a alma que é imortal e morte que mata o imortal vede que morte será Os estragos que faz a morte no corpo consomeos em poucos dias a terra os estragos que faz o pecado na alma não basta uma eternidade para os consumir no fogo E sendo sobre todo o excesso de comparação tanto mais para temer a morte da alma que a morte do corpo e tendo mais para amar e para estimar a vida espiritual e eterna que a vida temporal em que fé e em que juízo cabe que pela vida e saúde do corpo se façam tão extraordinários extremos e que da vida e saúde da alma se faça tão pouco caso Verdadeiramente senhores que quando considero no que aqui estamos vendo não há coisa para mim no mundo tão temerosa como o mesmo concurso e devoção desta casa e ainda os mesmos milagres dela Oh se ouvíramos os brados que nos estão dando à consciência estas paredes Queixamse de nós com Deus e queixamse de nós conosco e cada voto cada milagre dos que aqui se vêem pendurados é um brado é um pregão do céu contra o nosso descuido É possível estão bradando estas paredes é possível que faz tantos milagres Deus por nos dar a saúde e vida temporal e que os homens não queiram fazer o que Deus lhes manda sendo tão fácil para alcançar a saúde espiritual e a vida eterna É possível que esteja Deus empenhando toda a sua onipotência em vos dar a vida do corpo e vós que estejais empregando todas as vossas potências em perder a vida da alma Dizeime em que empregais a vossa memória Em que empregais o vosso entendimento Em que empregais a vossa vontade e todos os vossos sentidos senão em coisas que vos apartam da salvação É possível tornam a bradar contra nós estas paredes e a argumentarnos a nós conosco mesmos é possível que havemos de fazer tanto pela saúde e pela vida temporal e que pela saúde da alma e pela vida eterna não queremos fazer coisa alguma Se adoeceis se estais em perigo tanto acudir àqueles altares tantos votos tantas missas tantas romarias tantas novenas tantas promessas tantas ofertas gastese o que se gastar percase o que se perder empenhese o que se empenhar e pela saúde da alma pela vida eterna como se tal coisa não houvera nem se crerá Vede o que diz Santo Agostinho Si tantum ut aliquanto plus vivatur quanto magis ut sempre vivatur Se tanto se faz para viver um pouco mais quanto mais se deve fazer para viver sempre Pois desenganaivos que por mais que não façais caso da outra vida ela há de durar eternamente e por mais que façais tanto caso desta vida ela há de acabar e em mui poucos dias Uma vez escapareis da morte e pendurareis a mortalha em Penha de França mas alfim há de vir dia em que a morte vos não há de perdoar e em que vós não pendurareis a mortalha mas ela vos leve à sepultura Lázaro ressuscitou uma vez valeulhe Maria mas depois morreu alfim como os demais O que importa é tratar daquela vida que há de durar para sempre e procurar sarar a alma se está enferma e sobretudo ressuscitála se está morta Cristo para ressuscitar escolheu uma sepultura aberta em uma penha ln monumento quod erat excisum in petra Mac 15 46 e ressuscitou ao terceiro dia Tudo aqui temos a penha os três dias e o ressuscitador Ego sum ressurrectio et vita20 Já que a alma está morta sepultese naquela penha para que ressuscite Ó alma infelizmente morta e felizmente sepultada se ali sepultares de uma vez e para sempre tudo o que te mata Tu ressuscitarás e ressuscitarás se quiseres neste mesmo momento Que felicidade a nossa e que glória daquela Senhora e de seu sacramentado Filho se todos os que hoje entraram em Penha de França mortos saíssem ressuscitados Não ama ao Filho nem é verdadeiro devoto da Mãe quem assim o não fizer Não guardemos o ressuscitar para o terceiro dia nem para o segundo que não sabemos o dia nem a hora Cristo ressuscitou ao terceiro dia para provar a verdade da sua morte os mortos que então ressuscitaram ressuscitaram logo e no primeiro momento dos três dias para provar a eficácia da virtude de Cristo Não é esta a matéria em que se hajam de perder momentos porque pode ser que seja esta a última inspiração e este aquele último momento de que pende a eternidade Ouçam estas vozes do céu os que hoje aqui vieram surdos abram os olhos e vejam seu perigo os que vieram cegos tornem por outro caminho e com outros passos os que vieram mancos e todos levem vivas e ressuscitadas as almas que trouxeram mortas deixando em Penha de França por memória deste dia cada um a sua mortalha Estes são os mais gloriosos troféus com que se podem ornar estas miraculosas paredes E este o FINIS de maior louvor de Deus e de sua Mãe com que devemos cerrar um e outro livro pois é o fim que só nos há de levar à vida sem fim SERMÃO NO SÁBADO QUARTO DA QUARESMA EM LISBOA ANO DE 1652 Hoc autem dicebant tentantes eum ut possent accusare eum1 I Cristo tentado pelos homens no caso da mulher adúltera Outra vez quem tal imaginara outra vez tentado a Cristo Não há que fiar em vitórias A mais estabelecida paz é trégua Quando cessam batalhas então se fabricam as máquinas A máquina da tentação que hoje temos é admirável juntamente e formidável e não foi o maquinador nem o tentador o demônio foram os homens Destes tentadores e destas tentações hei de tratar Ouçamos primeiro o caso Tal dia ou tal noite como a deste dia diz S João que foi Cristo orar no Monte Olivete Sabia que havia de ser tentado foise armar para a batalha com a oração Em Cristo foi exemplo em nós é necessidade Não tem armas a fraqueza humana se as não pede a Deus Até aqui não houve perigo Do monte e muito de madrugada veio o Senhor ao Templo a pregar como costumava E diz o evangelista que concorreu todo o povo a ouvilo Et omnis populus venit ad eum Jo 82 Tanto concurso pregador divino Já temo que vos hão de tentar Veio o povo todo àquela hora porque os que não são povo não madrugam tanto põeselhes o sol à meianoite e amanhecelhes ao meiodia Estava o Senhor ensinando diz o texto quando chegaram os escribas e fariseus a perguntar um caso Traziam uma pobre mulher atada e disseram assim Magister haec mulier modo deprehensa est in adulterio Jo 8 4 Esta mulher nesta mesma hora foi achada em adultério Esta mulher E o cúmplice Foram dois os pecadores e é uma só a culpada Sempre a justiça é zelosa contra os que podem menos Moisés dizem manda na lei que os que cometerem adultério sejam apedrejados e vós Mestre que dizeis Os escribas e fariseus eram os doutores daquele tempo Bem me parecia a mim que quando os doutos e presumidos perguntam não é para saber senão para tentar Assim o diz o evangelista nas palavras que propus Hoc autem dicebant tentantes eum Em que consistiu a tentação e onde estava armado o laço diremos depois E que respondeu o Senhor Levantouse da cadeira sem falar palavra e inclinandose inclinans se Alvíssaras pecadora enxuga as lágrimas Cristo começa inclinandose Tu sairás perdoada porque a sua inclinação não é de condenar Deus nos livre de juízes inclinados se não são Deus Aonde vai a inclinação lá vai a sentença Não quis o Senhor responder por palavra quiçá por que lhas não trocassem respondeu por escrito Digito scribebat in terra Escrevia com o dedo na terra Ibid 6 Não vos espanteis que no templo lajeado de mármores houvesse terra literalmente porque era muito o concurso e pouco o cuidado moralmente porque não há lugar tão santo e tão sagrado ainda que seja a mesma igreja em que não haja terra O que Cristo escrevesse não se sabe de certo Entendem comumente os Padres que foram os pecados dos acusadores Que acuse o homicida ao homicida o ladrão ao ladrão o adúltero ao adúltero Homem acusate a ti olha que quando acusas os pecados alheios te condenas nos próprios Assim sucedeu Depois que o Senhor escreveu o processo não da acusada senão dos acusadores levantouse e não lhes disse mais que estas palavras Qui sine pecato est vestrum primus in ilíam lapidem mittat Ibid 7 Aquele de vós que se achar sem pecado seja o primeiro que atire as pedras Aqui me lembram as de S Jerônimo As pedras que traziam aparelhadas contra a delinqüente converteuas cada um contra o peito e os que tinham entrado tão zelosos começaram a se sair confusos Saíramse porque entraram na própria consciência E nota o evangelista que os que saíram primeiro foram os mais velhos Incipientes a senioribus Ibid 9 Miserável condição da vida humana Quantos mais anos mais culpas Todos se devem arrepender das suas mas com mais razão e mais depressa os que estão mais perto da conta Ficou só Cristo e a delinqüente isto é a misericórdia e a miséria Perguntoulhe Onde estão os que te acusam Condenoute alguém Nemo Doinine Ibid 11 Ninguém senhor Pois se ninguém te condena nem eu te condenarei vaite e não peques mais Este foi o fim da história admirável na justiça admirável na misericórdia admirável na sabedoria admirável na onipotência A lei ficou em pé os acusadores confusos a delinqüente perdoada e Cristo livre dos que o vieram tentar Esta tentação como dizia será a matéria do nosso discurso Peçamos a graça a quem a dá tão facilmente até aos que a não merecem Ave Maria II Antes de tratar com os homens Cristo convive com os animais e é tentado pelo demônio Hoc autem dicebant tentantes eum Que os homens sejam maiores inimigos que os demônios é verdade que eu tenho muito averiguada Busque cada um os exemplos em si e achálosá por agora bastenos a todos o de Cristo Depois de trinta anos de retiro houve Cristo de sair a tratar com os homens ou a lidar com eles E porque não basta ciência sem experiência nem há vitória sem batalha nem se peleja bem sem exercício antes de entrar nesta tão perigosa campanha quisse exercitar primeiro com outros inimigos Partese o Senhor depois de batizado ao desterro e diz S Marcos que estava e vivia ali com as feras Eratque cum bestiis Mc 113 Passados assim quarenta dias seguiramse as tentações do demônio Et accedens tentator Mt 43 tentado Cristo no mesmo deserto tentado no templo tentado no monte E depois destas duas experiências então finalmente saiu e apareceu no mundo e começou a tratar com os homens Exinde caepit praedicare Ibid 17 Não sei se reparastes na ordem destes ensaios Parece que primeiro se havia de exercitar o Senhor com os homens como racionais e humanos depois com as feras como irracionais e indômitas e ultimamente com os demônios como tão desumanos tão cruéis e tão horrendos Mas não foi assim senão ao contrário Primeiro com as feras depois com o demônio e ultimamente com os homens E por quê Porque o exercício e ensaio há de ser do menor inimigo para o maior e os homens não só são inimigos mais feros que as feras senão mais diabólicos que os mesmos demônios Vedeo na experiência Que aconteceu a Cristo com as feras com o demônio e com os homens As feras nem lhe quiseram fazer mal nem lho fizeram o demônio quislhe fazer mal mas não lho fez os homens quiseramlhe fazer mal e fizeramlho Olhai para aquela cruz As feras não o comeram o demônio não o despenhou os que lhe tiraram a vida foram os homens Julgai se são piores inimigos que o demônio Do demônio defendeisvos com a cruz os homens põemvos nela De maneira que não há dúvida que os homens são piores inimigos que os demônios A minha dúvida hoje é se são piores tentadores Hoc autem dicebant tentantes eum Os demônios tentam os homens tentam o demônio tentou a Cristo os homens tentaram a Cristo quais são os maiores e piores tentadores os homens ou os demônios A questão é muito alta e muito útil e para que não gastemos o tempo em esperar pela conclusão digo que comparada como se deve comparar astúcia com astúcia pertinácia com pertinácia e tentação com tentação piores tentadores são os homens que os demônios Comecemos pelo Evangelho com o qual também havemos de continuar e acabar III Os homens piores inimigos que os demônios As tentações do demônio vencemse com um sim ou um não as tentações dos homens são como os laços de que fala Isaías escondidos debaixo de pedras Sutileza de Pedro ao responder aos cobradores do tributo Hoc autem dicebant tentates eum Vieram os escribas e fariseus como dizíamos ao Templo que contra o ódio e a inveja humana não lhe vale sagrado à inocência Presentaram diante de Cristo a adúltera tomada em flagrante delito e alegaram o texto que é do capítulo vinte do Levítico em que a lei mandava que fosse apedrejada Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare2 Pois se a lei era expressa e o delito notório se no caso não havia dúvida de feito nem de direito por que não executam eles a lei Se é delinqüente castiguemna se a pena é de morte tiremlhe a vida se o gênero da pena são pedras apedrejemna levemna ao campo e não ao Templo E se aguardam a sentença requeiramna aos juízes e não a Cristo Isto era o que pedia a justiça o zelo e a razão Mas não o fizeram assim diz o evangelista porque o seu intento não era castigar a acusada senão acusar a Cristo Ut possent accusare eum Traziam uma acusação para levar outra Vede a maldade mais que infernal e a astúcia mais que diabólica O demônio no juízo universal e no particular háme de acusar a toim para me condenar a mim e hávos de acusar a vós para vos condenar a vós porém estes tentadores não só acusavam um para condenar outro mas acusavam a pecadora para condenar o justo acusavam a delin qüente para condenar o inocente Mas como havia isto de ser ou como queriam que fosse Como tinham urdido a trama Onde estava armado o laço Onde vinha escondida a tentação Descobriua maravilhosamente Santo Agostinho Ut si diceret non lapidetur adultera injustus convinceretur si diceret lapidetur mansuetus non videretur Ou Cristo havia de dizer que fosse apedrejada a adúltera ou não se dizia que não fosse apedrejada convenciamno de injusto se dizia que a apedrejassem parecia que não era misericordioso E ou faltasse à justiça ou à misericórdia concluíam que não era o Messias Cristo como Deus e humanado era todo mansidão todo benignidade todo misericórdia as suas entranhas e as suas ações todas eram de fazer bem de remediar de consolar e de perdoar de livrar a todos e por isso todos o amavam todos o veneravam todos o aclamavam todos o seguiam que era o que mais lhes doía aos escribas e fariseus Acrescentavase a isto o que o mesmo Senhor dizia de si de seu espírito e das causas que o trouxeram ao mundo Aos discípulos que queriam que descesse fogo do céu sobre os samaritanos disse Filius hominis non venit animas perdere sed salvare Lc 9 56 Que não tinha vindo a matar homens senão a salválos Sobretudo naquele mesmo Templo abrindo o Senhor a Escritura ensinou publicamente que dele se entendia o famoso lugar do capítulo sessenta e um de Isaías Ad annuntiandum mansuetis misit me ut mederer contritis corde et praedicarem captivis indulgentiam ut consolarer omnes lugentes Is 61 1s Quer dizer Mandoume Deus ao mundo para curar corações para remediar afligidos para consolar os que choram e dar liberdade e perdão aos que estão presos Parece que tinha o profeta diante dos olhos tudo o que concorria no estado e fortuna desta pobre mulher Assim a apresentaram diante de Cristo presa afligida angustiada chorando irremediavelmente sua miséria e aqui e mais na lei vinha armada a tentação Se diz que não seja apedrejada a adúltera é transgressor da lei se diz o que não dirá que a apedrejem perde a opinião de misericordioso e a estimação do povo e sobretudo contradizse a si mesmo e às escrituras do Messias que interpreta de si Logo ou diga que se execute a lei ou que se não execute ou que seja apedrejada a delinqüente ou que o não seja sempre o temos colhido porque não pode escapar de um laço sem cair no outro A este modo de argüir que é fortíssimo e apertadíssimo chamam os dialéticos dilema ou argumento comuto porque vai nele uma contraditória com tal artifício dividida em duas pontas que se escapais de uma necessariamente haveis de cair na outra Assim investiram hoje a Cristo os escribas e fariseus com Moisés De Moisés diz a Escritura Quod facies ejus esset comuta3 e nesta forma opuseram no campo como no corro contra Cristo Moyses mandavit nobis hujusmodi lapidare Moisés dizem mandounos apedrejar a quem cometesse este delito E para que a lei se porecesse com a testa do legislador ia disposta e dividida em duas pontas tão bem armadas que ou Cristo dissesse sim ou dissesse não se escapasse de uma levavamno na outra De maneira que as pedras de que vinham prevenidos os escribas e fariseus não eram para apedrejar a adúltera senão para que Cristo tropeçasse e caísse nelas no laço que ali lhe tinham armado Deste modo de laços armados em pedras faz elegante menção Isaías no capítulo oitavo Et erit in lapidem offensionis et petram scandali in laqueum et in ruinam Et offendent et cadent et conterentur et irretientur et capientur4 Alude o profeta ao uso dos caçadores daquele tempo os quais armavam as suas redes e laços cercados de pedras para que tropeçando nelas a caça caísse incautamente e ficasse enredada e presa Tal era o laço que os escribas e fariseus traziam hoje armado debaixo das pedras da lei ou da lei das pedras Moyses mandavit hujusmodi lapidare para que tropeçando Cristo nas pedras caísse e o tomassem no laço Lembrados estareis que o demônio no deserto e no pináculo do Templo também armou o laço a Cristo com pedras No deserto Dic ut lapides isti panes fiant5 No pináculo do Templo Ne forte offendas ad lapidem pedem tuum6 Mas com os laços e as tentações porecerem tão semelhantes vede quanto mais astutos tentadores foram os homens que o demônio Da primeira tentação do diabo livrouse Cristo facilmente com um não Non in solo pane vivit homo7 Da segunda tentação livrouse com outro não Non tentabis Dominum Deum tuum8 Porém da tentação que hoje lhe armaram os homens não bastava dizer não para se livrar porque ou dissesse não ou dissesse sim sempre ficava no laço Ou Cristo havia de dizer Sim apedrejai ou havia de dizer Não não apedrejeis Se dizia não ia contra a justiça se dizia sim ia contra a piedade Se dizia não ia contra a lei se dizia sim ia contra si mesmo Se dizia não ofendia o magistrado se dizia sim ofendia o povo De sorte que lhe armaram os paus ou as pedras em tal forma que ou quisesse observar a lei ou não quisesse sempre ficava réu Se se mostra rigoroso falta à piedade se se mostra piedoso falta à justiça e se falta ou à justiça ou à piedade não é Messias Outra tentação semelhante urdiram os mesmos escribas e fariseus contra Cristo sobre o tributo de César quando o Senhor lhes disse Quid me tentatis9 Mandaram juntas duas escolas a sua e a dos herodianos e depois de uma longa prefação de louvores falsos propuseram esta questão Licet censum dare Caesari an non Mt 22 17 Mestre é licito dar o tributo a César ou não Notai a apertura dos termos O que pediam era um sim ou um não é lícito ou não é lícito E por que com tanta formalidade e com tanto aperto O evangelista o disse Ut caperent eum in sermone10 Porque com qualquer destas duas respostas ou Cristo dissesse sim ou dissesse não sempre ficava encravado Se dizia não era contra a regalia do imperador se dizia sim era contra a liberdade e imunidade da nação se dizia não crucificavao César se dizia sim apedrejavao povo E de qualquer modo diziam eles se perde e o temos apanhado e destruído Isto é o que se maquinou e resolveu naquele conselho injusto ímpio e tirânico Consilium inierunt ut caperent eum in sernone11 Houve algum dia demônio que urdisse tal tentação e metesse um homem em tais talas Nem houve tal demônio nunca nem o pode haver porque não há nem pode haver tentação nenhuma do demônio da qual vos não possais livrar facilmente ou com um sim ou com um não Ora vede O demônio sempre arma os seus laços ao pé dos Mandamentos ali só põe a tentação porque só ali pode haver o pecado Virtus peccati lex12 Os mandamentos todos ou são positivos ou negativos e se o demônio me tenta nos Mandamentos positivos basta para me defender um sim se me tenta nos Mandamentos negativos basta para me defender um não Exemplo os Mandamentos positivos como sabeis são Amarás a Deus guardarás as festas honrarás os pais Os negativos são Não jurarás não matarás não furtarás não levantarás falso testemunho e os demais Agora ao posto Se o diabo me tenta nos Mandamentos positivos dizme Não ames a Deus não guardes as festas não honres a teu pai E se eu digo sim resolutamente sim hei de amar sim hei de guardar sim hei de honrar basta este sim para que a tentação fique desvanecida e o diabo frustrado Do mesmo modo nos Mandamentos negativos Diz o demônio que jure que mate que furte que levante falso testemunho E se eu digo não não quero jurar não quero matar não quero furtar basta este não para que o tentador e a tentação fiquem vencidos De maneira que das tentações do demônio basta um sim ou um não para ficar livre mas das tentações dos homens como estas nem basta o sim nem basta o não para me livrar porque vão armadas com tal astúcia e maquinadas com tal arte e tecidas e tramadas com tal enredo que ou digais sim ou digais não sempre ficais no laço Se dizeis que se apedreje a adúltera e que se pague o tributo incorreis no ódio do povo e hãovos de apedrejar a vós se dizeis que se não apedreje nem se pague incorreis no crime da lei e na indignação do César e hãovos de pôr em uma cruz E ainda que o tentado seja Jesus Cristo sempre os tentadores hão de ter um cabo por onde lhe possam pegar e lha possam pegar Ut possent accusare eum Vejo que me perguntais E que remédio padre para escapor de tais tentadores e de tão terríveis tentações Rem difficilem postulasti13 Nenhum teólogo escolástico ou ascético lhe deu até agora remédio Eu direi o que me ocorre Digo que não há outro remédio senão buscar um sim que seja juntamente sim e não ou um não que seja juntamente não e sim Não tenho menos autor para a prova que o príncipe dos apóstolos S Pedro E notai que quando S Pedro deu nesta sutileza ainda estava em Jerusalém e na Judéia para que não cuide alguém que a fineza desta política fosse romana Vieram ter com S Pedro os cobradores de certo tributo imposto por Augusto em que cada um por cabeça pagava duas dracmas e fizeramlhe esta pergunta Magister vester non solvit didrachma Mt 17 23 O vosso mestre não paga o tributo Viuse perplexo e atalhado S Pedro porque não sabia qual fosse a tentação de seu Mestre neste ponto de tanta conseqüência E o que respondeu foi Etiam Sim Agora pergunto eu E este etiam este sim de São Pedro que significava Significava sim e significava não Construí o com a pergunta e vereis se tem correntemente ambos os sentidos Vosso mestre não paga o tributo Sim assim é não paga Vosso mestre não paga o tributo Sim sim paga De sorte que o mesmo sim era sim e não Entendido de um modo era sim porque significava sim paga e entendido de outro modo era não porque significava não paga E com esta equivocação se escapou S Pedro dos tributeiros enquanto seu Mestre não resolvia deixando a porta aberta e cerrada juntamente e o sim aporelhado e indiferente para ser sim ou ser não conforme se resolvesse Cristo tinha ensinado ao mesmo S Pedro e a todos seus discípulos que o seu sim fosse sim e o seu não fosse não Sit sermo vester est est non non14 Mas chegado Pedro a perguntas e metido na tentação foilhe necessário fazer um sim que fosse sim e não juntamente para poder escapor dos homens Isto é o que fez S Pedro naquela ocasião E Cristo que fez no nosso caso que era muito mais apertado Viu que os cordéis com que traziam presa a adúltera eram laços com que o pretendiam atar viu que as pedras da lei que alegavam vinham cheias de fogo por dentro e que ao toque de qualquer resposta sua não só haviam de brotar faíscas mas um incêndio de calúnias viu que suposta à tenção e astúcia dos tentadores tanto se condenava condenando como absolvendo e que um e outro perigo era inevitável que conselho tomaria Não dizer sim nem não era forçoso porque até a Sabedoria infinita quando são tais as tentações dos homens se não pode livrar delas respondendo em próprios termos E como entre não e sim não há meio que meio tomaria Cristo para se livrar de uma tal tentação Agora o veremos IV Para que Cristo se defendesse de três tentações do demônio bastoulhe um só livro das Escrituras para se defender de uma tentação dos homens não lhe bastaram todas as Escrituras foilhe necessário fazer novas Escrituras A escritura de Jesus e as palavras misteriosas do festim de Baltasar Para vencer os homens quis Cristo escrever com seu próprio dedo e na terra Levantouse o divino Mestre da cadeira sem responder palavra Não havia ali outro papel senão a terra inclinase e começa a escrever nela Digito scribebat in terra Esta foi a única vez que sabemos da História Sagrada que Cristo escrevesse de seu punho Mas enquanto Cristo escreve e estes tentadores esperam tomemos ao deserto e às tentações do demônio Tentou o demônio a primeira vez a Cristo e rebate o Senhor a tentação com as palavras do capítulo oitavo do Deuteronômio Non in solo pane vivit homo15 Tentou a segunda vez e foi rebatido com as palavras do capítulo sexto do mesmo livro Non tentabis Dominum Deum tuum16 Instou a terceira vez e terceira vez o lançou Cristo de si com outras palavras do mesmo capítulo Dominum Deus tuum timebis et illi soli servies17 Quem haverá que não se admire à vista destas três tentações e da que temos presente Estes homens eram letrados de profissão eram lidos e versados nas Escrituras e atualmente estavam alegando textos da lei de Moisés Pois se Cristo se defendeu das tentações do demônio com as Escrituras Sagradas e com os textos da mesma lei por que se não defende também destes tentadores com as mesmas Escrituras Mais Resistindo ao demô nio defendeuse Cristo de três tentações com um só livro da Escritura e só com dois capítulos dele Nas Escrituras que então havia que são todas as do Testamento Velho há trinta e nove livros com mais de mil capítulos Pois se Cristo tinha tantas armas tão fortes tão diversas e tão prevenidas por que se não defende com elas desta tentação Aqui vereis quanto mais terríveis tentadores são os homens que o demônio Para Cristo se defender de três tentações do demônio bastoulhe um só livro da Escritura para se defender de uma tentação dos homens não lhe bastaram todas quantas Escrituras havia foilhe necessário fazer escrituras de novo Digito scribebat in terra As Escrituras Sagradas como notou S Gregório são os armazéns de Deus Destas disse Salomão comparandoas à torre de seu pai Davi MilIe clypei pendent ex ea omnis armatura fortium18 E são tais tão novas tão esquisitas e nunca imaginadas pelo demônio as astúcias e máquinas que os homens inventam para tentar que em todos os armazéns de Deus se não acharam armas com que as resistir e foi necessário que a Sabedoria encarnada forjasse outras de novo e se pusesse a compor e a escrever contra estes tentadores Digito scribebat in terra Mas qual foi o efeito desta escritura Agora acabareis de entender quanto mais dura é a pertinácia dos homens quando tentam que a do demônio Escreveu e escrevia a mão onipotente e os tentadores a escritura diante dos olhos nem se rendem nem desistem nem fazem caso dela nem da mão que a escreve ainda instam e apertam que responda à pergunta Cum perseverarent interrogantes19 Oh Escritura Oh Baltasar Oh Babilônia Aporeceram três dedos em uma porede sem mão sem braço sem corpo Digiti quasi manus hominis scribentis20 e com três palavras que escreveram sem saber o que significavam começa Baltasar a tremer de pés e mãos sem cor sem coração sem alento Treme o mais poderoso rei do mundo e quatro homens sem mais poder que a sua malícia não tremem Viam os dedos viam o braço que escrevia sabiam e tinham obrigação de saber pelas maravilhas que obrava e de que eles tanto se doíam que era homem e Deus juntamente e à vista de uma escritura tão larga de sua mão em que se viam processados a si mesmos não tremem nem se movem antes perseveram obstinados a perguntar e tentar Cum perseverarent Digam agora os escribas e fariseus se é o gentio Baltasar ou eles Mas o meu intento não é comparar homens senão homens com o demônio Três circunstâncias porticulares notou o Evangelista nesta ação de Cristo Notou que escrevia e com que escrevia e onde escrevia Digito scribebat in terra Escrevia Cristo e escrevia com o dedo e escrevia na terra E em todas estas circuns tâncias venceram os homens ao demônio na pertinácia de tentadores Primeiramente Scribebat Escrevia E por que quis escrever As mesmas coisas que Cristo escreveu podia dizer em voz e mais facilmente Pois por que as não quis dizer em voz senão por escrito Porque as mesmas palavras divinas têm mais eficácia para vencer as tentações escritas que ditas Na morte de Cristo tentou o demônio aos discípulos na fé da ressurreição e todos ou foram vencidos ou fraquearam na tentação como o mesmo Senhor lhes tinha predito E dando causa desta fraqueza São João diz que foi porque ignoravam as Escrituras da ressurreição Nondum sciebant Scripturam quia oportebat eum a mortuis resurgere21 Contra Evangelista sagrado Cristo tinha dito muitas vezes que havia de ressuscitar e porticularmente o disse ao mesmo S João e a S Pedro e São Tiago no monte Tabor Nemini dixeritis visionem donec Filius hominis a mortuis ressurgat22 Por que escusa logo o evangelista a fraqueza de não resistirem à tentação com a ignorância das Escrituras Porque ainda que as palavras divinas ou ditas ou escritas tenham a mesma autoridade escritas movem mais e têm mais eficácia para resistir às tentações Vedeo no modo com que Cristo resistiu ao demônio em todas as suas Em todas as três tenta ções se defendeu Cristo do demônio com a palavra divina mas não sei se tendes reparado que em todas e em cada uma advertiu que era palavra escrita Na primeira tentação Scriptum est Non in solo pane vivit homo Na segunda Scriptum est Non tentabis Dominum Deum tuum Na terceira Scriptum est Dominum Deum tuum timebis23 Porece que para resistir à tentação e rebater ao demônio bastava referir as sentenças e palavras sagradas por que acrescenta logo o Senhor e deita diante de cada uma delas a declaração de que eram escritas repetindo uma duas e três vezes Scriptum est scriptum est scriptum est Porque sendo palavra de Deus e escritas tinham não só a virtude e eficácia das palavras senão também a das letras Assim como o demônio para encantar e render aos homens põe a eficácia do encanto em certos caracteres diabólicos assim Deus para o encantar e ligar a ele tem posto maior eficácia não só nas palavras sagradas senão também nos caracteres com que são escritas Por isso Cristo neste caso vendo se tão apertadamente tentado dos homens não tardou de se defender deles dizendo senão escrevendo Scribebat Mas se tanta é a força e eficácia de um Scriptum est e Cristo hoje escrevia Scribebat e os seus tentadores o estavam vendo escrever e viam e liam a escritura por que persistem ainda e perseveram na tentação Cum perseverarent Não persiste o demônio e persistem os homens Sim porque o demônio é demônio e os homens são homens e por isso mais teimosos e mais pertinazes tentadores Onde muito se deve advertir a diferença desta escritura de Cristo às Escrituras com que resistiu ao demônio As Escrituras que o Senhor referiu ao demônio eram escrituras gerais feitas a outro intento e para outrem As escrituras que hoje escreveu eram porticulares e escritas somente para os que o estavam tentando e dirigidas ao coração e à consciência de cada um O demônio podia responder que as Escrituras do Deuteronômio eram feitas para os homens e não para os demônios mas bastou serem escrituras de Deus para o demônio ou as reverenciar ou as temer posto que não falassem com ele Os homens pelo contrário falando com todos e com cada um deles a escritura de Cristo nem a reverência os refreia nem a força os quebranta nem a consciência os intimida nem a certeza com que se vêem feridos os rende conti nuam instam e perseveram obstinados Cum perseverarent Que mais Digito Escrevia Cristo com o dedo As Escrituras com que o Senhor rebateu as tentações do demônio não eram escritas com o dedo de Deus Deus só escreveu com o dedo as duas Tábuas da Lei Tabulas scriptas digito Dei24 Os outros textos eram escritos por Moisés com mão humana Mas bastou serem Escrituras Sagradas e canônicas para que o demônio se não atrevesse a lhes resistir Vede se se podia e devia esperar hoje que os tentadores de Cristo se rendessem às suas escrituras pois eram escrituras não só de Deus mas escritas com o seu dedo Digito scribebat Claro está que se haviam de render se os tentadores fossem demônios mas não se renderam porque eram homens Quando os magos de Faraó viram o que obrava a vara de Moisés disseram Digitus Dei est hic Êx 819 Esta obra é do dedo de Deus e logo se deram por vencidos Mas como assim A arte mágica não é arte diabólica Os magos do Egito não eram ministros e instrumentos do demônio Pois como cedem tão prontamente e não se atrevem a resistir ao dedo de Deus Por isso mesmo Se as suas artes foram humanas e eles obraram como homens haviam de teimar e persistir mas como as artes eram diabólicas e eles obravam como ministros do demônio nem eles nem os demônios se atreveram a resistir à força do dedo de Deus Hoje porém vêse o dedo de Deus resistido sendo dedo de Deus não invisível e encoberto em uma vara mas visível vivo e animado porque as artes com que os escribas e fariseus vieram tentar e queriam derrubar a Cristo não eram artes diabólicas senão humanas nem eles demônios mas homens Dos demônios dizia Cristo In digito Dei ejicio daemonia25 Mas esse mesmo dedo de Deus que lançava dos corpos os demônios não lhe bastava agora para lançar de si os homens Os demônios ao menor impulso do dedo de Cristo fugiam os homens contra tantos e tão repetidos impulsos do mesmo dedo quantas eram as letras que escrevia não faziam de si nenhum abalo Os demônios deixavam os homens os homens não deixavam a Cristo os demônios não podiam parar os homens persistiam firmes os demônios desistiam os homens perseveravam Cum perseverarent Que mais In terra Nota finalmente o evangelista que escrevia Cristo na terra E por que na terra Para que os que esquecidos da própria fragilidade acusavam tão rigorosamente uma fraqueza no sexo mais fraco considerassem e advertissem que ela era terra e eles terra E tão própria do caso e tão natural esta consideração que daqui veio a ter para si Cartusiano que as palavras que Cristo escreveu foram estas Terra terram judicat A terra acusa a terra Se os acusadores foram céu não era de estranhar que acusassem a terra mas que a terra acuse a terra Ainda faziam mais estes tentadores A terra acusava a terra para condenar o céu porque acusava a adúltera para condenar a Cristo Pois se a terra muda e por si mesma estava dando brados contra estes acusadores formados da mesma terra agora que já não é muda com as palavras e vozes de Cristo que tem escritas e estampadas em si por que os não confunde por que os não convence por que os não rende Já me canso de dizer porque eram homens E se não tornemos a comparar esta tentação com a do demônio Assim como o elemento do homem é a terra assim o elemento do demônio é a ar Neste ar habitam os demônios neste ar andam neste ar nos tentam e por isso S Paulo lhes chamou potestades do ar Secuadum principem potestatis aeris hujus26 As palavras com que Cristo se defendeu do demônio foram pronunciadas no ar que é incapaz de escritura as com que se quis defender destes homens foram escritas e impressas na terra As palavras pronunciadas passam as escritas permanecem as pronunciadas entram pelos ouvidos as escritas pelos olhos E sendo aquelas só pronunciadas e estas escritas aquelas sucessivas e estas permanentes aquelas ouvidas e estas vistas aquelas breves e poucas e estas muitas e continuadas que isso quer dizer scribebat aquelas formadas no ar bastaram para vencer potestades do ar e estas impressas na terra bastaram para render os homens formados de terra Digito scribebat in terra V Os homens ainda quando desistem são piores tentadores que o demônio As duas espadas dos discípulos do Senhor Por que Cristo escreveu duas vezes Razões de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio A escritura de Cristo e os heresiarcas O demônio como mais sábio não voltou contra Cristo as Escrituras Cristo quando foi tentado preferiu ser tentado pelo demônio a ser tentado pelos homens Assim resistido Cristo e assim rebatida por não dizer afrontada a força de sua mão e da sua escritura que novo meio buscaria a Sabedoria onipotente para se defender de tão pertinazes tentadores Assim como eles perseveraram em tentar assim ele perseverou em escrever porque a pertinácia da tentação só se vence com a constância da resistência E quando os remédios são proporcionados mudálos é perdêlos Torna Cristo a inclinarse e a escrever outra vez Iterum inclinans se digito scribebat in terra E foi tal a eficácia desta segunda escritura que alfim se renderam a ela os que tinham resistido à primeira Então se foram retirando uns após outros mas se vencidos de Cristo na retirada vencedores contudo do demônio na arte da tentação Ainda quando desistem são piores tentadores os homens que o demônio O demônio tentou a Cristo três vezes mas notai que respondendo o Senhor a cada tentação com uma Escritura nunca o demônio esperou a segunda Em o demônio ouvindo uma Escritura calava desistia não resistia nem replicava mudava logo de tentação e ainda de lugar Vencido de Cristo ainda presumia e esperava vencer a Cristo refutado com uma Escritura nunca teve atrevimento para resistir nem esperar outra Escritura E os homens Olhai para eles Os homens porém mais pertinazes mais impudentes mais duros e mais feros tentadores que o mesmo demônio vêem uma vez escrever a Cristo e não se movem vêem e entendem o que escreve e não se rendem É necessário que a Sabedoria divina multiplique Escrituras sobre Escrituras que tendo escrito uma vez torne outra vez a escrever Iterum scribebat não já para persuadir os tentadores mas para se defender e se livrar a si mesmo de suas tentações Na última e mais forte tentação que padeceram os discípulos de Cristo que foi na véspera de sua morte anuncioulhes o divino Mestre que era chegado o tempo em que tinham necessidade de armas E respondendo eles que tinham duas espadas Ecce duo gladii hic Lc 2238 contentouse a Senhor com a prevenção e disselhes que essas bastavam Satis est Todos os Padres e expositores entendem concordemente que falou Cristo neste passo alegórica e metaforicamente e que as espadas com que os apóstolos se haviam de defender eram as Escrituras Sagradas O mesmo tinha declarado muito antes Davi falando dos mesmos apóstolos e das mesmas espadas Et gladii ancipites in manibus eorum ad faciendam vindictam in nationibus increpationes inpopulis27 Sendo pois este o sentido e intento das palavras de Cristo é muito para reparar que destas duas espadas naquele grande conflito se não desembainhasse mais que uma que foi a de S Pedro e que querendo os outros discípulos usar da segunda quando disseram Si percutimus in gladio28 o Senhor lho não permitisse Pois se as espadas eram duas e ambas aceitadas e aprovadas por Cristo como necessárias por que proibiu o Senhor a segunda e não quis que se usasse mais que de uma nesta tentação O mesmo Cristo o disse Haec est hora vestra et potestas tenebrarum29 Esta tentação como aquela em que se empenhou e empregou todo o poder do inferno era tentação do demônio ainda que para ela concorreram também os homens como ministros e instrumentos do mesmo demônio e do mesmo inferno e para as tentações do demônio por mais fortes e poderosas que sejam basta uma só espada isto é uma só Escritura não são necessárias duas Assim bastou uma só Escritura contra a tentação do deserto e uma só contra a tentação do Templo e uma só contra a tentação do monte E como então lhe não foi necessário a Cristo lançar mão da segunda espada por isso também neste conflito não permitiu aos apóstolos que usassem dela porque ainda que a tentação era tão forte e tão apertada era alfim tentação do demônio Haec est hora vestra et potestas tenebrarum Logo a segunda espada que o Senhor não permitiu se desembainhasse era escusada e inútil Não porque essa ficou reservada para as tentações dos homens Assim o experimentou o mesmo Senhor na tentação de hoje em que não lhe bastando uma só escritura contra a pertinácia dos seus tentadores foi forçado a se valer de segunda escritura e escrever outra vez Iterum scribebat E porque esta Segunda espada assim como foi necessária assim bastou para dar fim à batalha por isso o Senhor com o mesmo mistério quando os discípulos lhe disseram que tinham duas espadas respondeu que essas bastavam Satis est porque ainda que contra os homens não bastasse uma só Escritura como basta e bastou para o demônio contudo bastariam duas como finalmente bastaram Ao passo que os segundos caracteres uns após outros se iam formando os tentadores também após outros se iam saindo Unus post unum exibant Jo 89 O que não venceu uma Escritura venceram duas Escrituras Iterum scribebat Mas que direi eu neste passo tirando os olhos dos ministros da Sinagoga e pondoos em muitos que se chamam cristãos Já me não queixa dos escribas e fariseus nem Cristo se podia queixar tanto porque haviam de vir ao mundo tais homens que com sua pertinácia os haviam de fazer menos duros e com as suas tentações menos tentadores Os escribas e fariseus não se renderam às primeiras escrituras do dedo de Cristo mas renderamse às segundas e largaram as pedras Os hereges com nome de cristãos nem às primeiras nem às segundas escrituras se rendem antes das mesmas Escrituras adulteradas que também trazem consigo a adúltera fazem pedras com que atirar a Cristo Santo Agostinho e Santo Ambrósio dizem que escreveu Cristo duas vezes para mostrar que ele era o autor e legislador de ambas as Escrituras das Escrituras do Velho Testamento e das Escrituras do novo e que as primeiras Escrituras foram escritas em pedra porque haviam de ser estéreis as segundas escritas na terra porque haviam de ser fecundas e haviam de dar fruto como alfim deram hoje30 Mas estou vendo Senhor meu que esta terra em que escreveis e escrevestes arada duas vezes pela vossa mão e semeada duas vezes com a vossa palavra em lugar de dar fruto há de produzir espinhos Esta foi a maldição que lançastes a Adão que não só se cumpriu e estendeu mas cresceu e crescerá sempre em seus filhos Os escribas e fariseus foram piores que o demônio Virão homens que sejam piores que os escribas e fariseus O diabo rendeuse a uma Escritura os escribas e fariseus renderamse a duas virão homens que nem a duas Escrituras se rendam e pertinazes contra ambos os Testamentos com ambos vos façam guerra Daime licença para que vos repita a minha dor porte do que está antevendo vossa Sabedoria Escrevestes em ambos os Testamentos a verdade e fé de vossa divindade tão expressa no Testamento Novo e tão convencida por vós mesmo no Velho e virá um Ébion um Cerinto um Paulo Samosateno um Fotino que impudentemente neguem que fostes e sois Deus Escrevestes em ambos os Testamentos e não era necessário que se escrevesse a verdade de vossa humanidade em tudo semelhante à nossa e virá um Maniqueu um Prisciliano um Valentino que contra a evidência dos olhos e das mesmas mãos que a tocaram digam que vossa carne não foi verdadeira senão fantástica celeste e não humana Escrevestes em ambos os Testamentos a unidade de vossa pessoa uma em duas naturezas humana e divina e virá um Nestório que reconhecendo as duas naturezas diga pertinazmente que também houve em vós duas pessoas e um Eutiques e um Dioscoro que confessando a vossa humanidade e a vossa divindade digam que de ambas se formou ou transformou uma só convertendose uma na outra Escrevestes em ambos os Testamentos a perfeição e inteireza de vosso ser humano composto de corpo e alma e virá um Ario e um Apolinar que digam que tivestes somente corpo de homem e que a alma desse corpo era a divindade Escrevestes em ambos os Testamentos e demonstrastes contra os saduceus a fortuna ressurreição nossa e de todos os mortais e virá um Simão Mago um Basilides um Hemineu um Fileto que merecedores de morrer para sempre como os brutos neguem a esperança e a fé da ressurreição Escrevestes em ambos os Testamentos bastando só a experiência a verdade e absoluto domínio do livre alvedrio humano e virá um Bardasanes um Pedro Abailardo e modernamente um Eculampádio e um Male ththon que dizendo uma liberdade tão inaudita neguem que há liberdade Escrevestes em ambos os Testamentos que sem graça não há mérito e que do concurso de vossa graça e do nosso alvedrio procedem as obras dignas e só elas dignas da vida eterna e virá um Pelágio um Celestino um Juliano que impotentemente concedam todo este poder ao alvedrio acrescentando as forças do primeiro benefício com que nos criastes para vos negarem ingratissimamente o maior e segundo com que nos justificais Escrevestes em ambos os Testamentos a necessidade e merecimento das boas obras e virá um Lutero que não só negue serem necessárias as boas obras para a salvação mas se atreva a dizer que todas as boas obras são pecado e pudera acrescentar pecado em que nunca pecou Lutero Assim o ensinaram ele e Calvino aqueles dois monstros mais que infernais do nosso século para tirar do mundo a oração o jejum a esmola a castidade a penitência os sufrágios os sacramentos pregando contra o que Cristo pregou e escrevendo contra o que duas vezes escreveu e formando novas tentações contra o mesmo Cristo das mesmas Escrituras com que ele se defendeu das tentações para que se veja quanto se adiantaram os homens nas artes de tentar e quanto atrás deixaram ao mesmo demônio O demônio vendo na primeira tentação que Cristo se defendia com a Escritura para o tentar pelos mesmos fios alegou na segunda tentação outra Escritura Mas o que é muito para admirar e ainda para reverenciar foi que nem contra o primeiro nem contra o segundo nem contra o terceiro texto alegado por Cristo argüísse nem instasse o demônio uma só palavra O demônio é mais letrado mais teólogo mais filósofo mais agudo e mais sutil que todos os homens Pois se os homens e tantos homens têm argüido tanto e por tantos modos contra umas e outras Escrituras de Cristo antes se atreveram a lhe fazer guerra com elas voltando as mesmas Escrituras contra o mesmo Cristo e interpretandoas não só em sentido falso mas totalmente contrário por que não fez também isto o mesmo demônio Porque era demônio e não homem Porque era demônio tentou como sábio porque não era homem não tentou como néscio e impudente Tentar e argüir e teimar contra a verdade conhecida das Escrituras não é insolência que se ache na maldade do demônio na do homem sim Agora entendereis a energia com que na porábola da cizânia respondeu o pai de famílias Inimicus homo hoc fecit Mt 13 28 O trigo que ele tinha semeado é a doutrina pura e sã das Escrituras Sagradas a cizânia que se semeou sobre o trigo são as falsas interpretações com que se perverte o verdadeiro sentido das mesmas Escrituras E quem é ou foi o autor desta maldade e deste desengano tão pernicioso à seara de Cristo Inimicus homo o inimigo homem Notai Porece que bastava dizer o inimigo mas acrescentou e declarou que esse inimigo era homem para distinguir o inimigohomem do inimigo demônio O demônio é inimigo e grande inimigo porém o inimigodemônio nunca foi tão demônio nem tão inimigo que se atrevesse a voltar contra Cristo as Escrituras que ele alegava por si como se viu em todas as três tentações mas isto que nunca fez o inimigodemônio isto é o que fizeram e fazem os inimigoshomens Inimicus homo hoc fecit Bem sei que alguns santos por este Inimicus homo entenderam o demônio E quando esta inteligência seja verdadeira aí vereis quem são os homens Assim como nós quando queremos encarecer a maldade de um homem lhe chamamos demônio assim Deus quando quis encarecer a maldade do demônio chamoulhe homem Inimicus homo Ao menos eu se houvera de escolher tentador antes havia de querer ser tentado pelo demônio que pelos homens Cristo guiado pelo Espírito Santo escolheu tentador Ductus est a Spiritu ut tentaretur E que tentador escolheu Ut tentaretur a diabolo31 escolheu tentadordiabo e não tentadorhomem O certo é que quando o diabo tentou a Cristo Cristo foi buscar o diabo mas quando os homens hoje tentaram a Cristo os homens o buscaram a ele Tentantes eum ut possent accusare eum32 VI Guardaivos dos homens O diabo anda pelos desertos porque nas cortes os homens lhe tomaram o ofício Guardaivos dos inimigos Saul tenta contra a vida de Davi depois de livre do demônio Guardaivos dos amigos tentações dos três amigos de Jó Sobretudo cada um se guarde de si mesmo Suposto isto senhores suposto que os homens são maiores e piores tentadores que o demônio que havemos de fazer Não é necessário gastar muito tempo em consultar a resolução porque o mesmo Cristo a decidiu e nola deixou expressa e mui recomendada como tão importante Cavete ab hominibus Mt 1017 Guardai vos dos homens Se eu pregasse no deserto a anacoretas dirlhes ia que se guardassem do diabo mas como prego no povoado e a cortesãos digovos que vos guardeis uns dos outros O diabo já não tenta no povoado nem é necessário porque os homens lhe tomaram o ofício e o fazem muito melhor que ele Cristo como pouco há dizíamos quis ser tentado do diabo e foio buscar ao deserto Senhor se quereis ser tentado do demônio por que o não ides buscar à cidade à corte Porque nas cidades e nas cortes já não há demônios E não se saíram por força de exorcismos senão porque o seu talento não tem exercício Se à corte vêem alguns artífices estrangeiros mais insignes e de obra mais prima os oficiais da terra ficam à pá vão se fazer lavradores Assim lhe aconteceu ao demônio Ele era o que tinha por ofício ser tentador mas como sobrevieram os homens mais industriosos mais astutos mais sutis e mais primos na arte ficou o diabo ocioso se tenta por si mesmo é lá a um ermitão solitário onde não há homens por isso se anda pelos desertos onde Cristo o foi buscar Não digo que vos não guardeis do demônio que alguma vez dará cá um salto o que vos digo é que vos guardeis muito mais dos homens e vede se tenho razão Depois que a inveja entiou na alma de Saul indigna mancha de um rei entroulhe também o demônio no corpo Fora causa da inveja a funda de Davi e não havia outro remédio contra aquele demônio senão a sua harpa Vinha Davi tocava a harpa em presença de Saul e deixavao o demônio Fêlo assim uma vez e depois que o demônio se saiu deita mão Saul a uma lança e fez tiro a Davi diz o texto para o pregar com ela a uma porede Que um rei cometesse tal excesso de ingratidão contra um vassalo a quem devia a honra e a coroa não me admira Assim se pagam os serviços que são maiores que todo o prêmio O que me admirou sempre e o que pondera muito S Basílio de Selêucia é que não tentasse Saul esta aleivosia enquanto tinha o demônio no corpo senão depois que se saiu dele Quando Saul tem o demônio no corpo modera a inveja o ódio a fúria e depois que o demônio o deixa agora comete uma traição e uma aleivosia tão enorme Sim agora Porque agora está Saul em si dantes estava o demônio nele dantes obrava como endemoninhado agora obrava como homem Se Saul intentara esta infame ação enquanto estava possuído do demônio havíamos de dizer que obrava o demônio nele mas quis a providência do céu que o não fizesse Saul senão depois que esteve livre para que soubéssemos que obrava como homem e nos guardássemos dos homens mais ainda que do demônio O novum injuriumque facinus exclama Basílio Daemon pellitur et daemone liberatus arma capiebat Daemon vincebatur et hominis mores plus sumebant audaciae Era pior Saul livre do demônio que possuído dele porque possuído obrava pelos impulsos do demônio livre obrava pelos seus pelos de homem Et hominis mores plus sumebant audaciae Por isso o demônio vendo tão feiamente inclinado a Saul se saiu fora envergonhandose que pudesse o mundo cuidar que aquela tentação era sua Oh que bem lhe estivera ao mundo que entrasse o demônio em alguns homens para que fossem menos maus e menos tentadores Compadeçome de Davi honrado valoroso fiel mas enganado com o seu amor e com o seu príncipe Se não sabes ó Davi a quem serves vê ao teu rei no espelho da tua harpa emudecea destemperalhe as cordas fazea em pedaços Enquanto Saul estiver endemoninhado estarás seguro se tornar em si olha por ti Não é Saul homem que queira junto a si tamanho homem Bem provado cuido que está com o horror deste exemplo que nos devemos guardar e recatar dos homens mais ainda que do diabo Mas vejo que me dizeis que Saul era inimigo capitalíssimo de Davi e que dos homens que são inimigos bem é que nos guardemos com toda a cautela porém dos amigos porece que não São eles homens Pois ainda que sejam amigos guardaivos deles e credeme porque os amigos também tentam e de mais perto e se vos tentarem hão de fazer e poder mais que o diabo para vos derrubar Nunca o diabo teve mais ampla jurisdição para tentar com todas suas artes e com todo seu poder que quando tentou a Jó Tentouo na fazenda tirandolha toda em um momento tentouo nos filhos matandolhos todos de um golpe tentouo na própria carne cobrindoo de lepra e câncer e fazendoo todo uma chaga viva E que fez ou que disse Jó Dominus dedid Dominus obstulit sit nomem Domini benedictum33 Paciência humildade resignação na vontade divina graças e mais graças a Deus dando testemunho a mesma Escritura que em todas estas tentações não lhe pôde tirar da boca o demônio uma palavra que não fosse de um ânimo muito constante muito reto muito pio muito timorato muito santo In omnibus his non peccavit Job labiis suis neque stultum ali quid locutus est contra Deum34 Neste estado de tanta miséria e de tanta virtude vieram os amigos de Jó a visitálo e consolálo Eram estes amigos três todos príncipes todos sábios e que todos professavam estreita amizade com Jó Ao princípio estiveram mudos por espaço de sete dias depois falaram e falaram muito E que lhe sucedeu a Jó com estes amigos O que não pôde o diabo com todas as suas tentações Fizeramlhe perder a constância fizeramlhe perder a paciência fizeramlhe perder a conformidade e até a consciência lhe fizeram perder porque se puseram a altercar contra ele e o argüíram e o caluniaram e o aportaram de tal sorte que Jó deixou de ser Jó Não só amaldiçoou a sua vida e a sua fortuna mas ainda em respeito da justiça e da Providência divina disse coisas muito indignas da sabedoria e muito alheias da piedade de um homem santo pelas quais foi asperamente repreendido de Deus O mesmo Jó as confessou depois e se arrependeu e fez penitência delas coberto de cinza Insipienter locutus sum idcirco ipse me reprehendo et ago poenitentiam in favilla et cinere35 Eis aqui quão pouco lustroso saiu das mãos dos homens o espelho da paciência tendo saído das tentações do demônio vencedor glorioso triun fante O demônio era demônio e inimigo os homens eram amigos mas homens e bastou que fossem homens para que tentassem mais fortemente a Jó que o mesmo demônio As tentações do demônio foram para ele coroa e as consolações dos amigos não só tentação mas ruína E se isto fazem amigos sábios zelosos da honra de Deus e da alma de seu amigo como aqueles eram quando o vêm consolar em seus trabalhos que farão amigos perdidos e loucos que só se buscam a si e não a vós que estimam mais a vossa fortuna que a vossa alma e que fazem dela tão pouco caso como da sua Há mais algum homem de quem nos devamos guardar Sim O maior tentador de todos E quem é este Cada um de si mesmo O homem de que mais nos devemos guardar é eu de mim e vós de vós Unusquisque tentatur a concupiscentia sua abstractus et illectus36 Sabeis diz São Tiago Apóstolo quem vos tenta Sabeis quem vos faz cair Vós a vós cada um a si Unusquisque tentatur Nós como filhos de Eva tudo é dizer Serpens decepit me37 Tentoume o diabo enganoume o diabo e vós sois o que vos tentais e vos enganais porque quereis enganarvos O vosso diabo sois vós o vosso apetite a vossa vaidade a vossa ambição o vosso esquecimento de Deus do inferno do céu da alma Guardaivos de vós se vos quereis guardado Pôs Deus a Adão no Paraíso terreal e cuidamos que o pôs naquele lugar tão ameno e deleitoso só para que gozasse suas delícias e todo se regalasse e banhasse nelas sem nenhum outro cuidado Mas vede o que diz o texto Possuit eum in paradiso voluptatis ut operaretur et custodiret illum Gên 215 Pôs diz a Adão no Paraíso para que o cultivasse e guardasse Nesta última palavra reporei sempre muito Ut custodiret illum De quem havia de guardar o Paraíso Adão Dos animais Não porque todos lhe eram obedientes e sujeitos Dos homens Não porque não havia homens Pois se o não havia de guardar dos homens nem dos animais de quem o havia de guardar De quem o não guardou de si mesmo Guardese Adão de Adão e guardará o Paraíso Sois homem Guardaivos desse homem guardaivos do seu entendimento que vos há de enganar guardaivos da sua vontade que vos há de trair guardaivos dos seus olhos e dos seus ouvidos e de todos os seus sentidos que vos hão de entregar Guardouse Davi de Saul e caiu porque se não guardou de Davi Guardouse Sansão dos filisteus e perdeuse porque se não guardou de Sansão Guardese Davi de Davi guardese Sansão de Sansão guardese cada um de si mesmo De todos os homens nos havemos de guardar porque todos tentam mas deste homem mais que de todos porque é o maior tentador Por isso dizia Santo Agostinho como santo como douto e como experimentado Liberet te Deus a te ipso Livrete Deus de ti Cristo livrouse hoje dos homens que o tentaram mas eles não se livraram de si porque quando vieram a tentar já vinham tentados quando vieram a derrubar já vinham caídos Para si e para Cristo homens e por isso contra si e contra Cristo tentadores Tentantes eum VII Cristo o único homem de quem não nos devemos guardar Por que não fugiu a adúltera depois que se afastaram seus acusadores Como a pecadora e a samaritana devemos cada dia ficar um momento só por só com Cristo para que nos convertamos Ninguém me pode negar que é muito verdadeira e muito certa esta doutrina mas porece que eu também não posso negar que é muito triste e mui desconsolada O homem é animal sociável nisso nos distinguimos dos brutos e porece coisa dura que havendo necessariamente um homem de tratar com homens se haja de guardar de todos os homens Não haverá um homem com quem outro homem tratar sem temor sem cautela e sem se guardar dele Sim há E que homem é este Aquele Homem a quem hoje vieram tentar os homens aquele Homem que juntamente é Deus e Homem aquele Homem em quem só achou refúgio e remédio aquela mise rável mulher de quem não se compadeceram e a quem acusavam os homens Argüiu sutilissimamente Santo Agostinho que esta mulher depois que se viu livre de seus acusadores porece que devia fugir de Cristo A razão é manifesta porque Cristo tinha dito na sua sentença que quem não tivesse pecado lhe atirasse as pedras logo só de Cristo se podia temer porque só Cristo não tinha pecado Mas porque só ele não tinha pecado por isso mesmo se não temeu de tal homem e por isso mesmo só daquele homem e naquele homem se devia fiar e confiar Primeiramente Cristo na sua sentençajá se tinha excetuado a si Qui sine peccato est vestrum Jo 87 Quem de vós não tem pecado esse atire as pedras Não disse quem absolutamente senão quem de vós para se excetuar a si que é a exceção de todos os homens E o mesmo não haver em Cristo pecado era a maior segurança da pecadora Duas condições concorriam em Cristo neste caso para se compadecer e usar de misericórdia com aquela pobre mulher A primeira e universal o ser isento de pecado verificandose só nele o Qui sine peccato est A segunda e porticular o estar naquela ocasião tentado pelos homens Tentantes eum Como tentado não podia deixar de se compadecer como isento de pecado não podia deixar de perdoar A tentação o fazia compassivo e a isenção de pecado misericordioso Tudo disse admiravelmente S Paulo falando de Cristo Non enim habemus pontificem qui non possit compati infirmitatibus nostris tentatum per omn ia pro similitudine obsque peccato adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae ut misericordiam cansequamura38 Notai todas as palavras e porticularmente aquelas tentatum e absque peccato Como tentado tentatum não podia deixar de se compadecer Qui non possit compati Como isento de pecado obsque peccato não podia deixar de ser misericordioso Adeamus ergo cumfiducia ut misericordiam conse quamur Na verdade neste ergo de S Paulo esteve toda a confiança da delinqüente e por isso não quis fugir como se interpretara a sentença de Cristo e dissera Se só me há de atirar as pedras quem não tem pecado ninguém mas há de atirar Os fariseus que têm pecado não porque têm pecado Cristo que não tem pecado também não porque o não tem Quem não tem pecado não atira pedras Assim foi e assim lho disse Cristo Nemo te condemnavit mulier Neque ego te condemnabo Jo 811 Se ninguém te condenou nem eu te condenarei Eles não te condenaram porque tinham pecado eu não te condenarei porque o não tenho Eis aqui por que este Homem é tão diferente de todos os outros homens Os homens que tinham pecado tentavam acusavam perseguiam o Homem que não tinha pecado escusou defendeu compadeceuse perdoou livrou e de tal modo condenou o pecado que absolveu a pecadora Vade et noli amplius peccare Senhores meus conclusão Pois que os homens são piores tentadores que o demônio guardemonos dos homens e pois que entre todos os homens não há outro homem de quem seguramente nos possamos fiar senão este Homem que juntamente é Deus tratemos só deste Homem e tratemos muito familiarmente com este Homem Toda a fortuna daquela tão desgraciada criatura esteve em a trazerem diante de tal Homem e a primeira mercê que lhe fez foi livrála dos outros homens Por que cuidais que fez Deus homem Não só para remir os homens senão para que os homens tivessem um Homem de quem se pudessem fiar a quem pudessem acudir e com quem pudessem tratar sem receio sem cautela com segurança Só neste Homem se acha a verdadeira amizade só neste Homem se acha o verdadeiro remédio E nós a buscar homens a comprar homens a pôr a confiança em homens Maledictus homo qui confidit in homine Jer 7 5 Maldito o homem que confia em homem e bendito o homem que confia neste Homem e só neste Homem e muito só por só com este Homem trata do que lhe convém Levai este ponto para casa e não quero outro fruto do sermão Depois que se aportaram aqueles maus homens que bastava serem homens ainda que não fossem maus diz o evangelista que ficou só Cristo e diante dele a venturosa pecadora Remansit Jesus solus et mulier in medio stans Jo 89 Esta foi a maior ventura daquela alma e esta a melhor hora daquele dia aquele breve tempo em que esteve só por só com Cristo Neste breve tempo remediou o passado mais o futuro O passado Neque ego te condemnabo o futuro Noli amplius peccare39 Já que os homens nos levam tanta porte do dia tomemos todos os dias sequer um breve espaço em que a nossa alma se recolha com Deus e consigo e esteja só por só com Cristo com este Homem Oh se o fizéramos assim quão verdadeiramente nos convertêramos a ele Chegado Cristo à fonte de Sicar mandou todos os apóstolos que fossem à cidade buscar de comer porque era diz o evangelista a hora do meiodia Jo 4 7 Veio neste tempo a samaritana converteua o Senhor e tornando os apóstolos e pondolhe diante o que traziam não quis comer Duas grandes dúvidas tem este lugar Primeira por que mandou Cristo à cidade os apóstolos todos sendo que para trazer de comer bastava um ou dois Segunda se os mandou buscar de comer e o traziam e lho ofereceram e era meio dia por que não comeu Primeiramente não comeu porque já tinha comido Assim o suspeitaram os discípulos dizendo entre si Nunquid aliquis attulit ei manducare40 Mas não entenderam que quem tinha trazido de comer era a mesma samaritana Aquela alma convertida foi para Cristo não só a mais regalada iguaria mas o melhor e o mais esplêndido banquete que lhe podia dar o céu quanto mais a terra Tal foi o que também hoje lhe deu na conver são desta pecadora Notai Quando Cristo venceu no deserto as tentações do demônio banqueteou o céu a Cristo vencedor com iguarias da terra porém hoje como as tentações foram maiores e maiores os tentadores e a vitória maior foi também maior e melhor o banquete Lá a Cristo vencedor das tentações do demônio servi ramno os anjos com manjares do corpo Et ecce angeli ministrabant ei41 e a Cristo vencedor das tentações dos homens banqueteou a convertida com a sua alma que é para Cristo o prato mais regalado e aquele que só lhe podem dar os homens e não os anjos Esta foi a razão por que o Senhor disse que tinha comido E a razão por que mandou à cidade não porte dos apóstolos senão todos foi porque havia de converter ali a samaritana e para uma alma se converter verdadeiramente a Cristo é necessário que estejam muito a solas Cristo só por só com a alma a alma só por só com Cristo Remansit Jesus solus et mulier in medio stans42 Jesus e a alma sós Esta é a solidão que Deus quer para falar às almas e ao coração Ducam eam ia solitudinem et loquar ad cor ejus43 Não é a solidão dos ermos e dos desertos é a solidão em que a alma está só por só com Jesus Nesta solidão só por só lhe fala nesta solidão só por só ouve nesta solidão só por só lhe representa as suas misérias e lhe pede e alcança o remédio delas e ainda sem o pedir o alcança só com o silêncio e conhecimento humilde de suas culpas como aconteceu a esta solitária pecadora Façamolo assim cristão por amor de Cristo que tanto o deseja e por amor de nossas almas que tanto arriscadas andam e tão esquecidas de si Não digo que deixeis o mundo e que vos vades meter em um deserto só digo que façais o deserto dentro no mesmo mundo e dentro de vós mesmos tomando cada dia um espaço de solidão só por só com Cristo e vereis quanto vos aproveita Ali se lembra um homem de Deus e de si ali se faz resenha dos pecados e da vida passada ali se libera e compõe a futura ali se contam os anos que não hão de tornar ali se mede a eternidade que há de durar para sempre ali diz Cristo à alma eficazmente e a alma a si mesma um nunca mais muito firme e muito resoluto Noli amplius peccare ali enfim se segura aquela tão duvidosa sentença do último juiz Neque ego te condemnabo Nem eu te condenarei Esta é a absolução das absoluções esta é a indulgência das indulgências e esta a graça das graças sem a qual é infalível o inferno e com a qual é certa a glória SERMÃO DAS LÁGRIMAS DE S PEDRO EM SEGUNDAFEIRA DA SEMANA SANTA NA CATEDRAL DE LISBOA ANO DE 1669 Cantavit gallus et conversus Dominus respexit Petrum et egressus foras flevit amare1 I Fez Cristo sete pregações a Judas e não se converte Judas canta o galo uma vez e convertese Pedro tudo dependeu do olhar de Cristo Do pregador são as vozes de Cristo é toda a eficácia As lágrimas de Pedro manaram nos olhos de Cristo como um dilúvio salvador A conversão dos ouvintes e as águas que brotaram do penhasco Cantou o galo olhou Cristo chorou Pedro Que pregador haverá em tal dia que não fale com confiança de converter Que ouvinte haverá em tal hora que não ouça com esperança de chorar Na ceia de Betânia e na do Cordeiro que foram as duas ocasiões últimas em que Cristo teve juntos a seus discípulos sete vezes falou o Senhor com Judas e sete vezes lhe pregou para o converter As palavras umas foram de amor outras de compaixão outras de terror e porventura que nenhumas disse jamais Cristo tão temerosas Vae autem homini illi per quem Filius hominis tradetur Mt 26 24 Ai daquele homem por quem for entregue o Filho do Homem Bonum erat ei si natus non juisset homo ille Melhor lhe fora a tal homem nunca haver nascido Ainda ditas a Judas fazem tremer estas palavras Mas nem as amorosas o abrandaram nem as compassivas o enterneceram nem as temerosas o compungiram a nada se rendeu Judas Negou S Pedro na mesma noite a Cristo negou uma negou duas negou três vezes cantou na última negação o galo Et statim gaílus cantavit Jo 18 27 e no mesmo ponto sai Pedro da casa de Caifás convertido e põese a chorar amargamente seu pecado Egressus foras flevit amare Lc 2263 Notável caso De maneira que faz Cristo sete pregações a Judas e não se converte Judas canta o galo uma vez e convertese Pedro Sim porque tanto vai de olhar Cristo ou não olhar A Pedro pôslhe os olhos Cristo Respexit Petrum Lc 2261 a Judas não lhe pôs os olhos Se Cristo põe os olhos basta a voz irracional de um galo para converter pecadores se Cristo não põe os olhos não basta a voz nem bastam sete vozes de mesmo Cristo para converter Non est satis concionatoris vox nisi simul adsit Christi in peccatorem respectus disse gravemente neste caso S Gregório Papa2 Do pregador são só as vozes dos olhos de Cristo é toda a eficácia E quando temos hoje os olhos de Cristo tão propícios que pregador haverá tão tíbio e que ouvinte tão duro que não espere grandes efeitos ao brado de suas vozes Senhor os vossos olhos são os que hão de dar as lágrimas aos nossos As mais bem nascidas lágrimas que nunca se choraram no mundo foram as de S Pedro porque tiveram o seu nascimento nos olhos de Cristo nos olhos de Cristo nasceram dos olhos de Pedro manaram nos de Cristo quando viu Respexit Petrum dos de Pedro quando chorou Flevit amare Rios de lágrimas foram hoje as lágrimas de S Pedro mas as fontes desses rios foram os olhos de Cristo Ao Nilo antigamente viamselhe as correntes mas não se lhe sabia a origem tais em Pedro hoje os dois rios ou os dois Nilos de suas lágrimas A origem era oculta porque tinham as fontes nos olhos de Cristo as correntes eram públicas porque manavam dos olhos de Pedro Para o dilúvio universal diz o texto sagrado que se abriram as janelas do céu e se romperam as fontes dos abismos Apertae sunt cataratae caeli rupti sunt fontes abyssi Gên 7 11 Assim também para este dilúvio em que hoje fora tão ditoso o mundo se se afogara abriramse as janelas do céu que são os olhos de Cristo romperamse as fontes do abismo que são os olhos de Pedro Desta maneira inundou aquele imenso dilúvio em que depois de fazer naufrágio se salvou o melhor Noé Esta é a lastimosa e gloriosa representação com que a igreja dá feliz princípio neste dia a uma semana que devera ser santa na compunção como é santa no nome Faltando água no deserto a um povo que era figura deste nosso chegouse Moisés a um penhasco deulhe um golpe com a vara e não saiu água deu o segundo golpe e saíram rios Egrissae sunt aquae largissimae Num 20 11 Que penhasco duro é este senão o meu coração e os vossos Deu a Igreja o primeiro golpe no dia das lágrimas da Madalena mas não deram as pedras água da hoje o segundo golpe no dia das lágrimas de S Pedro e no dia em que tanto chorou Pedro como não chorarão as pedras Mas não são estes os golpes que eu trago posta a confiança Os dos vossos olhos Senhor que fizeram rios os olhos de Pedro são os que hão de abrandar a dureza dos nossos Pelas lágrimas daquela Senhora que não teve pecados que chorar nos concedei hoje lágrimas com que choremos nossos pecados E pois ela chorou só por nós e para nós sua piedade nos alcance de vossos piedosos olhos esta graça Ave Maria II Os olhos único sentido que tem dois ofícios ver e chorar Por que a natureza e a providência ajuntou nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários Origem das lágrimas de Davi de Siquém de Jacó e de Sansão A vista de Eva princípio de todas as lágrimas O elogio das lágrimas Queixa do Espírito Santo contra os nossos olhos Egressus foras Petrus flevit amare Notável criatura são os olhos Admirável instrumento da natureza Prodigioso artifício da Providência Eles são a primeira origem da culpa eles a primeira fonte da graça São os olhos duas víboras metidas em duas covas em que a tentação pôs o veneno e a contrição a triaga São duas setas com que o demônio se arma para nos ferir e perder e são dois escudos com que Deus depois de feridos nos repara para nos salvar Todos os sentidos do homem têm um só ofício só os olhos têm dois O ouvido ouve o gosto gosta o olfato cheira o tato apalpa só os olhos têm dois ofícios ver e chorar Estes serão os dois pólos do nosso discurso Ninguém haverá se tem entendimento que não deseje saber por que ajuntou a natureza no mesmo instrumento as lágrimas e a vista e por que uniu na mesma potência o ofício de chorar e o de ver O ver é a ação mais alegre o chorar a mais triste Sem ver como dizia Tobias não há gosto porque o sabor de todos os gostos é o ver Tob 512 pelo contrário o chorar é o estilado da dor o sangue da alma a tinta do coração o fel da vida o líquido do sentimento Por que ajuntou logo a natureza nos mesmos olhos dois efeitos tão contrários ver e chorar A razão e a experiência é esta ajuntou a natureza a vista e as lágrimas porque as lágrimas são conseqüência da vista ajuntou a Providência o chorar com o ver porque o ver é a causa do chorar Sabeis por que choram os olhos Porque vêem Chorou Davi toda a vida e chorou tão continuamente que com as lágrimas sustentava a mesma vida Fuerunt mihi lacrymae meae panes3 E por que chorou tanto Davi Porque viu Vidit mulierem4 Chorou Siquém chorou Jacó chorou Sansão um príncipe outro pastor outro soldado e por que pagaram este tributo tão igual às lágrimas os que tinham tão desigual fortuna Porque viram Siquém a Dina Jacó a Raquel Sansão a Dalila Choraram os que com suas lágrimas acrescentaram as águas do dilúvio e por que choraram Porque tendo o nome de filhos de Deus viram as que se chamavam filhas dos homens Videntes filii Dei filias hominum Gên 62 Mas para que são exemplos porticulares em uma causa tão comum e tão universal de todos os olhos Todas as lágrimas que se choram todas as que se têm chorado todas as que se hão de chorar até o fim do mundo onde tiveram seu princípio Em uma vista Vidit muliei quod bonum esset lignum ad vescendiim5 Viu Eva o pomo vedado e assim como aquela vista foi a origem do pecado original assim foi o princípio de todas as lágrimas que choramos os que também então começamos a ser mortais Digamme agora os teólogos se os homens se conservaram na justiça original em que foram criados os primeiros pais havia de haver lágrimas no mundo Nem lágrimas nem uma só lágrima Nem havíamos de entrar neste mundo chorando nem havíamos de chorar enquanto nele vivêssemos nem havíamos de ser chorados quando dele portíssemos Aquela vista foi a que converteu o paraíso de deleites em vale de lágrimas por aquela vista choramos todos Mas que diriam sobre esta ponderação os que neste dia fazem panegiricos às lágrimas Diriam que estima Deus tanto as lágrimas choradas por pecados que permitiu Deus o pecado de Adão só por ver chorar pecadores Diriam que permitiu Deus o pecado da sua porte para que os homens vissem a Deus derramar sangue da nossa porte para que Deus visse aos homens derramar lágrimas Não é o meu intento dizer estas coisas Que importa em semelhantes dias que as lágrimas fiquem louvadas se os olhos ficam enxutos O melhor elogio das lágrimas é chorálas Chorou Eva porque viu e choramos os filhos de Eva porque vemos Mas eu não me admiro de que os nossos olhos chorem porque vêem o que me admira muito é que sejam tão cegos os nossos olhos que vejam para chorar Só os olhos racionais choram e se é efeito da razão chorar porque viram não pode haver maior semrazão que verem para chorar É queixa do Espírito Santo e invectiva que fez contra os nossos olhos no capítulo trinta e um do Eclesiástico Nequius oculo quid creatum est6 Entre todas as coisas criadas nenhuma há mais desarrazoada no mundo nenhuma mais perversa que os olhos E por quê Porque são tais diz o mesmo Espírito Santo que vêem para chorar Ab omni facie sua lacrymabitur cum viderit7 Põemse os olhos a ver a uma porte e a outra e depois põemse a chorar porque viram Pois olhos cegos olhos maladvertidos olhos inimigos de vós mesmos se a vossa vista vos há de custar lágrimas se vedes para chorar ou haveis de chorar porque vistes para que vedes É possível que haveis de chorar porque vistes e haveis de ver para chorar Lacrymabitur cum viderit Assim é e estes são os nossos olhos choram porque vêem e vêem para chorar O chorar é o lastimoso fim do ver e o ver é o triste princípio do chorar Chorou hoje S Pedro e chorou tão amargamente como logo veremos E donde nasceu este chorar Nasceu do ver Naquela trágica noite da Paixão de Cristo entrou Pedro no átrio do pontífice Caifás e o fim com que entrou foi para ver Ut videret finem8 E vós Pedro entrais aqui para ver Pois vós saireis para chorar Quisestes ver o fim Vereis o fim do ver Egressus foras flevit amare III Do ver seguese o pecar do pecar seguese o chorar Todos os pecados são conseqüência do ver Pecam os olhos em todos os pecados e é justo que paguem por todos chorando Quer a Igreja que os olhos fonte da culpa sejam também fonte da penitência Basta o dito para sabermos que o chorar é efeito ou conseqüência do ver Mas como se segue esta conseqüência Seguese de um meiotermo terrível que se complica com o ver e com o chorar sendo conseqüente de um e antecedente de outro Do ver seguese o pecar do pecar seguese o chorar e por isso o chorar é conse qüência do ver Depois que Eva e Adão pecaram diz o texto que a ambos se lhes abriram os olhos Aperti sunt oculi amborum Gên 3 7 Pergunto Antes desta hora Adão e Eva não tinham os olhos abertos Sim tinham viram o paraíso viram a serpente viram a árvore viram o pomo viramse a si mesmos tudo viram e tudo viam Pois se viam e tinham os olhos abertos como diz o texto que agora se lhes abriram os olhos Abriramselhes para começar a chorar porque até ali não tinham chorado Aperti sunt oculi ad quod antea non patebant diz Santo Agostinho9 Criou Deus os olhos humanos com as portas do ver abertas mas com as portas do chorar fechadas Viram e pecaram e o pecado que entrou pelas portas do ver saiu pelas portas do chorar Estas são as portas dos olhos que se abriram Aperti sunt oculi amborum Pecaram porque viram choraram porque pecaram Pagaram os olhos o que fizeram os olhos porque justo era que se executasse nos olhos o castigo pois os olhos foram a causa e ocasião do delito Dirmeeis porventura que em Eva e no seu pecado teve lugar esta conseqüência em nós e nos nossos olhos não ao menos em todos Em Eva sim porque entrou o seu pecado pelos olhos em nós não porque ainda que alguns dos nossos pecados entrem pelos olhos muitos têm outras entradas Digo que em todos os pecados é o chorar conseqüência do ver e não quero outra prova senão as mesmas lágrimas Daime atenção Coisa é digna não só de reporo senão de espanto que queira Deus e aceite as lágrimas por satisfação de todos os pecados É misericórdia grande mas misericórdia que não porece justiça Que paguem os olhos os pecados dos olhos que paguem os olhos chorando o que os olhos pecaram vendo castigo é muito justo e justiça muito igual mas que os olhos hajam de pagar pelos pecados de todas as potências da alma e pelos pecados de todos os sentidos e membros do corpo que justiça e que igualdade é esta Se o homem peca nos maus passos paguem os pés se peca nas más obras paguem as mãos se peca nas más palavras pague a língua se peca nos maus pensamentos pague a memória se peca nos maus juízos pague o entendimento se peca nos maus desejos e nos maus afetos pague a vontade mas que os tristes olhos hajam de pagar tudo e por todos Sim porque é justo que pague por todos quem é causa ou instrumento dos pecados de todos Lede as Escrituras e ledeas todas que não é necessária menos lição para este assunto e achareis que em todos os pecados do corpo e da alma são cúmplices os olhos Pecou a alma os olhos são os culpados Oculus meus depraedatus est animam mean10 Pecou o corpo os olhos são os delinqüentes Si oculus tuus fuerit nequam totus corpus tuum tenebrosum erit11 Todos os pecados do homem os de pensamento os de palavra os de obra saem imediatamente do coração De corde exeunt cogitationes malae12 eis aí os pecados do pensamento Homicidia adulteria furta eis aí os pecados de obra Falsa testimonia blasphemiae eis aí os pecados de palavra E para todos esses pecados a quem segue o coração Aos olhos Si secutunt est oculos meos corneum13 Se seguis com tantas ânsias as vaidades do mundo os vossos olhos são os que vos levam à vaidade Averte oculos meos ne videant vanitatem14 Se seguis tão insaciavelmente as riquezas os vossos olhos são os desta sede insaciável Nec satiantur oculi ejus divitiis15 Se vos cegais e vos deixais arrebatar e enfurecer da paixão os vossos olhos são os apaixonados Turbatus est afurore oculus meus16 Se vos vingais e não perdoais o agravo os vossos olhos são os vingativos e os que não perdoam Non porcet eis oculus tuus17 Se estais preso e cativo da má afeição os vossos olhos são os laços que vos prenderam e vos cativaram Capiatur laqueo oculorum suorum18 Se desejais o que não deveis desejar e apeteceis o que não deveis apetecer os vossos olhos são os que desejam Desideraverunt oculi mei19 e os vossos olhos são os que apetecem Concupiscentia oculorum suorum20 Se desprezais o que deveis estimar e aborreceis o que devereis amar os vossos olhos são os que desprezam Despexit oculus meus21 os vossos olhos são os que aborrecem Non rectis oculis aspiciebat22 Infinita matéria fora se houvéramos de discorrer por todos os movimentos viciosos e por todas as ações de pecado em que são cúmplices os olhos Mas pois todos os pecados e suas espécies estão reduzidas a sete cabeças vede como pecam os olhos em todos os pecados capitais Se pecais no pecado da soberba os vossos olhos são os soberbos Oculos superborum humiliabis23 Se pecais no pecado da avareza e da cobiça os vossos olhos são os avarentos e os cobiçosos Insatiabilis oculus cupidi24 Se pecais no pecado da luxúria os vossos olhos são os torpes e sensuais Oculos eorum fornicantes25 Se pecais no pecado da ira os vossos olhos são os impacientes e irados Conturbatus est in ira oculus meus26 Se pecais no pecado da inveja os vossos olhos são os invejosos do bem alheio Nequam et oculus lividi27 Se pecais no pecado da gula os vossos olhos são os apetitosos e os malsatisfeitos Nihil respiciunt oculi nostri nisi man28 Se pecais no pecado da acídia os vossos olhos são os negligentes e os tíbios Oculi mei languerunt29 Finalmente se ofendeis a Deus e à sua lei em qualquer pecado os vossos olhos são os que ofendem Offensiones oculorum abuciat30 E não há pecado tão feio nem maldade tão abominável no mundo que não sejam os olhos a causa dessa abominação Abominationes oculorum suorum31 E pois os olhos pecam em todos os pecados vendo que muito é que paguem em todos e por todos chorando Assim como provei a verdade da culpa com toda a Escritura assim hei de provar a justificação da pena com toda a Igreja Quo fonte manavit nefas fluent perennes lacrymae32 Sabeis filhos diz a Igreja por que vos manda Deus que chorem os olhos por todos os pecados É porque os olhos são a fonte de todos Quo fonte manavit nefas fluent perennes lacrymae Chorai pois diz a Santa Igreja chorai e chorem perenemente os vossos olhos e pois esses olhos foram a fonte do pecado sejam também a fonte da contrição pois esses foram a fonte da culpa sejam também a fonte da penitência foram a fonte da culpa enquanto instrumento de ver sejam a fonte da penitência enquanto instrumentos de chorar e já que pecaram vendo paguem chorando De maneira que são os nossos olhos se bem se considera duas fontes cada uma com dois canais e com dois registros um canal que corre para dentro e se abre com o registro do ver outro canal que corre para fora e se solta com o registro do chorar Pelos canais que correm para dentro se os registros se abrem entram os pecados pelos canais que correm para fora se os registros ou as presas se soltam saem as lágrimas E pois as correntes do pecado entram pelos olhos vendo justo é que as correntes das lágrimas saiam pelos mesmos olhos chorando Vede que misteriosamente puseram as lágrimas nos olhos a natureza a justiça a razão a graça A natureza para remédio a justiça para castigo a razão para arrependimento a graça para triunfo Como pelos olhos se contrai a mácula do pecado pôs a natureza nos olhos as lágrimas para que com aquela água se lavassem as manchas como pelos olhos se admite a culpa pôs a justiça nos olhos as lágrimas para que estivesse o suplício no mesmo lugar do delito como pelos olhos se concebe a ofensa pôs a razão nos olhos as lágrimas para que onde se fundiu a ingratidão a desfizesse o arrependimento e como pelos olhos entram os inimigos à alma pôs a graça nos olhos as lágrimas para que pelas mesmas brechas por onde entraram vencedores os fizesse sair correndo Entrou Jonas pela boca da baleia pecador saia Jonas pela boca da baleia arrependido Razão é logo e justiça e não só graça senão natureza que pois os olhos são a fonte universal de todos os pecados sejam os rios de suas lágrimas a satisfação também universal de todos e que paguem os olhos por todos chorando já que pecaram em todos vendo Quo fonte manavit nefas fluent pereanes lacrymae IV Os olhos e não a língua os primeiros culpados nas negações de Pedro O pai de famílias da porábola das vinhas não se queixou das línguas dos cavadores senão de seus olhos Assim Pedro chorou amargamente para que os olhos pagassem o ver e a amargura pagasse o negar Agora se entenderá facilmente uma dúvida não fácil entre as negações de S Pedro e as suas lágrimas As negações de S Pedro todas foram pecado de língua A língua foi a que na primeira negação disse Non sum33 A língua foi a que na segunda tentação disse Non novi hominem34 A língua foi a que na terceira negação disse Homo nescio quid dicis35 Pois se a língua foi a que pecou por que foram os olhos os que pagaram o pecado Por que não condenou S Pedro a língua a perpétuo silêncio senão os olhos a perpétuas lágrimas Porque ainda que a língua foi a que pronunciou as palavras os olhos foram os primeiros culpados nas negações a língua foi o instrumento os olhos deram a causa Na porábola das vinhas foram chamados os cavadores a diferentes horas Ao pôrdosol mandou o pai de famílias que se pagasse a todos o seu jornal mas vendo os primeiros que lhes igualavam os últimos Murmurabant adversus patrem familias Mt 2011 começaram a murmurar contra o pai de famílias O que agora noto e não sei se se notou até agora é que repreendendo o pai de famílias aos murmuradores não se queixou das suas línguas senão dos seus olhos An oculus tuus nequam est quia ego bonus sum Mt 2015 Basta que porque eu sou bom os vossos olhos hão de ser maus Assim o disse e assim se queixou o pai de famílias mas eu não vejo a razão desta sua queixa A sua queixa era dos murmuradores e da murmuração os olhos não são os que murmuram senão a língua Pois por que se não queixa da língua senão dos olhos Porque ainda que das línguas saiu a murmuração os olhos e maus olhos deram a causa Muitos murmuradores murmuram o que não vêem mas estes só murmuraram o que viram Viram que eles tinham trabalhado todo o dia isso murmuraram Portavimus pondus diei et aestus36 Viram que os outros vieram tarde e muito tarde isso murmuraram Hi novissimi unam horam fecerunt37 Viram que sendo desiguais no trabalho lhos igualavam no prêmio isso murmuravam Pores illos nobis fecisti38 E como a murmuração ainda que saiu pela língua teve a ocasião nos olhos por isso são repreendidos e castigados os olhos e não a língua An oculus tuus nequam est39 Assim o julgou contra os olhos daqueles murmuradores o pai de famílias e assim se sentenciou também S Pedro contra os seus As suas negações saíram pela língua mas a causa e a ocasião deramna os olhos Negou porque quis ver porque se não quisera ver não negara pois ainda que a língua foi o instrumento da negação castiguemse os olhos que foram a causa Se os olhos não foram curiosos para ver não fora a língua fraca para negar E pois os olhos por quererem ver puseram a língua em ocasião de negar paguem os olhos por si e paguem pela língua pela língua paguem o negar e por si paguem o ver E se não pergunto Por que dizem os evangelistas com tão porticular advertência que chorou Pedro amargamente Flevit amare Se queriam encarecer as lágrimas de Pedro pela cópia digam que se fizeram seus olhos duas fontes perenes de lágrimas digam que chorou rios digam que chorou mares digam que chorou dilúvios E se queriam encarecer esses dilúvios de lágrimas não pela cópia senão pela dor digam que chorou tristemente digam que chorou sentidamente digam que chorou lastimosamente digam que chorou irremediavelmente ou busquem outros termos de maior tristeza de maior lástima de maior sentimento de maior pena de maior dor Mas que deixado tudo isto só digam e ponderem que chorou amargamente Flevit amare Sim e com muita razão porque o chorar pertence aos olhos a amargura pertence à língua e como os olhos de Pedro choravam por si e mais pela língua era bem que a amargura se passasse da língua aos olhos e que não só chorasse Pedro senão que chorasse amargamente Flevit amare Como à culpa dos olhos em ver se ajuntou com a culpa da língua em negar ajuntouse também o castigo da língua que é a amargura com o castigo dos olhos que são as lágrimas para que as lágrimas pagassem o ver e a amargura pagasse o negar e os olhos chorando amargamente pagassem por tudo Flevit amare V Se S Pedro chora porque negou por que não chora quando negou ou depois de negar senão só depois de sair Ver e chorar dois ofícios incompatíveis no mesmo tempo Davi no enterro de Abne Ovídio e o pranto de Ariadne Pedro como os portugueses na morte de D Manoel cobre o rosto para chorar Mas se o ver em Pedro foi ocasião de negar e o negar foi a causa de chorar por que não chorou Pedro quando negou senão depois que saiu Egressus foras flevit Negou a primeira vez e ficou com os olhos enxutos como dantes negou a segunda vez e ficou do mesmo modo negou a terceira vez e nem ainda então chorou Sai Pedro finalmente fora e depois que saiu então saíram também as lágrimas Egressus foras flevit amare Pois se Pedro chora porque negou por que não chora quando negou ou depois de negar senão quando saiu e depois de sair Porque enquanto Pedro não saiu fora persistia na ocasião de ver e querer ver e os olhos enquanto vêem não podem chorar O ver e o chorar como dizíamos são os dois ofícios dos olhos mas são ofícios incompatíveis no mesmo tempo enquanto vêem não podem chorar e se querem chorar hão de deixar de ver Por isso saiu fora Pedro não só para chorar senão para poder chorar porque para os seus olhos exercitarem o ofício de chorar haviam de cessar do exercício de ver Notável filosofia é a dos nossos olhos no chorar e não chorar Se choramos o nosso ver foi a causa e se não choramos o nosso ver é o impedimento Como estes nossos olhos são as portas do ver e do chorar encontramse nestas portas as lágrimas com as vistas as vistas para entrar as lágrimas para sair E porque as lágrimas são mais grossas e as vistas mais sutis entram de tropel as vistas e não podem sair as lágrimas Vistes já nas barras do mar encontrarse a força da maré com as correntes dos rios E porque o peso do mar é mais poderoso vistes como as ondas entram e os rios param Pois o mesmo passa nos nossos olhos Todos os objetos deste mar imenso do mundo e mais os que mais amamos são as ondas que umas sobre as outras entram pelos nossos olhos e ainda que as lágrimas dos mesmos olhos tenham tantas causas para sair como o sentido do ver pode mais que o sentimento do chorar vemos quando havíamos de chorar e não choramos porque não cessamos de ver Vejamos tudo nos olhos de Davi que do ver nos deixou tantos desenganos e do chorar tantos exemplos Morto lastimosamente o príncipe Abner mandou Davi que todo o exército vestido de luto e arrastando as armas o acompanhasse até a sepultura e o mesmo rei o acompanhou também Porro David sequebatur feretrum 2 Rs 3 31 Desta maneira foi marchando e continuando o enterro até o lugar do sepulcro mas ninguém chorava Tiram o corpo do esquife e ainda aqui se não viram nem ouviram lágrimas metem finalmente o cadáver na sepultura cerram a porta eis que começa Davi a rebentar em lágrimas e todos como ele em pranto desfeito Cumque sepellissent Abner levavit David vocem suam et flevit super tumulum fievit autem et omnis populus 2 Rs 332 Pois se no enterro e antes de enterrado Abner nem Davi nem o exército chora por que chora tanto Davi e choram todos com ele no mesmo ponto em que foi metido na sepultura Porque no enterro e antes de enterrado viam a Abner depois de enterrado já o não viam Como a ação de chorar se impede pela resistência do ver enquanto os olhos viram estiveram represadas as lágrimas tanto que não tiveram que ver começaram as lágrimas a sair Não puderam chorar os olhos enquanto viram tanto que não viram choraram Sirvam as letras humanas às divinas e ouçamos aquele engenho que melhor que todos soube exprimir os afetos da dor e da natureza Iamque oculis ereptus eras tum deni que flevi40 A história pode ser fabulosa mas a filosofia é verdadeira Enquanto Ariadne pôde seguir com os olhos a Teseu estiveram as lágrimas suspensas embargadas pela vista mas tanto que já o não pôde ver Iamque oculis ereptus eras tirado o impedimento da vista começaram as lágrimas a correr Tum denique flevi Esta foi a razão ainda natural por que Pedro saiu do lugar onde via e onde entrara para ver Saiu para que as suas lágrimas saíssem Et egressus foras flevit amare Entrou para ver saiu para chorar porque enquanto a vista tinha entrada não podiam as lágrimas ter saída E para que o mesmo S Pedro nos prove a verdade desta filosofia diz S Marcos no texto grego conforme a interpretação de Teofilato que saindo S Pedro do átrio lançou a capa sobre o rosto e então começou a chorar Cum caput obvelasset flevit Mc 1430 Para Pedro poder chorar cobriu primeiro os olhos para não ver Saiu para não ver o que via e cobriu os olhos para que nenhuma coisa vissem e quando não viu nem pôde ver então pôde chorar e chorou Flevit O pranto mais público que se viu na nação portuguesa foi quando chegaram à Índia as novas da morte de elrei Dom Manoel primeiro e verdadeiro pai daquela monarquia Estava o vicerei na Sé como nós agora ouvindo sermão e tanto que lhe deram a triste nova diz a história que lançou a capa sobre o rosto e que fazendo todo o auditório o mesmo começaram a chorar em grito e se levantou o maior e mais lastimoso pranto que jamais se vira Este era o uso dos capuzes portugueses quando também se usava o chorar Metiam os capuzes na cabeça até o peito cobriam e escureciam os olhos e assim choravam e lamentavam o defunto Depois que as mortes se não choram trazemse os capuzes por detrás das costas para que nem os olhos os vejam Não foi assim o luto que Pedro fez pela morte da sua alma mas porque a quis logo chorar cobriu os olhos para não ver Cum caput obvelasset flevit VI Para onde se retirou S Pedro depois da negação Davi o Pedro da lei escrita Pedro o Davi da lei da graça As lágrimas de Pedro e o desejo de Jeremias Assim saiu Pedro do lugar da sua desgraça Mas para onde saiu Diz Nicéforo e outros autores eclesiásticos mais vizinhos daquele tempo que se foi S Pedro meter em uma cova entre Jerusalém e o Monte Sião Tinha prometido morrer com Cristo mas porque não tivera ânimo para morrer teve resolução para se sepultar Nesta sepultura triste solitária escura como os olhos não tiveram luz para ver tiveram maior liberdade para chorar Só na suposição de um paralelo se pode conhecer este excesso ou este artifício das lágrimas de S Pedro Os dois exemplares da penitência que Deus pôs neste mundo em uma e outra lei foi S Pedro e Davi Davi foi o Pedro da lei escrita Pedro foi o Davi da lei da graça E assim como S Pedro escolheu lugar porticular para as suas lágrimas assim Davi escolheu tempo porticular para as suas Mas qual escolheu melhor e mais finamente Agora o veremos O tempo que Davi escolheu para as suas lágrimas foi o que diz mais com os tristes o tempo escuro da noite Per singulas noctes lacrymis meis stratum meum rigabo41 De dia governava de noite chorava o dia dava aos negócios a noite às lágrimas Oh que exemplo este para reis para ministros e para todos os que gastam o dia em ocupações ou públicas ou porticulares As flores anoitecem murchas e quase secas mas com o orvalho da noite amanhecem frescas vigorosas ressuscitadas Assim o fazia Davi e assim regava a sua alma todas as noites Per singulas noctes lacrymis meis stratum meum rigabo Mas tornemos ao motivo desta eleição E por que razão escolhia Davi o tempo escuro da noite para chorar Porque de dia com a luz como está livre o uso do ver fica embaraçado o exercício do chorar mas de noite com a sombra e escuridade das trevas fica livre e desembaraçado o exercício do chorar porque está impedido o uso de ver A mesma razão seguiu S Pedro na eleição da sua cova mas com maior crédito da sua dor e para maior excesso das suas lágrimas Davi escolheu o tempo da noite e assim chorava de noite mas de dia não chorava porém Pedro escolheu uma cova escura em que de dia e de noite sempre fosse noite para que de dia e de noite sempre chorasse Os olhos de Davi alternando o dia com a noite alternavam também o ver com o chorar porém os olhos de Pedro metidos naquela noite sucessiva e continuada nem de dia nem de noite viam e de dia e de noite sempre choravam Só Pedro pôde conseguir para as suas lágrimas o que só Jeremias soube desejar para as suas Quis dabit capiti meo aquam et oculis meis fontem lacrymarum et plorabo die ac nocte42 Oh quem dera fontes de lágrimas a meus olhos dizia Jeremias para chorar de dia e de noite Vede quão discreta e quão encarecidamente pedia Jeremias Não só pedia lágrimas senão fontes de lágrimas Fontem lacrymarum E por que pedia fontes Porque desejava chorar de dia e de noite Et plorabo die ac nocte As fontes não fazem diferença de noite a dia de dia e de noite sempre correm e como Jeremias desejava chorar de dia e de noite Plorabo die ac nocte por isso pedia fontes de lágrimas ou lágrimas como fontes Et oculis meis fontem lacrymarum Tais eram as fontes dos olhos de Pedro naquela cova escura Não havia ali diferença de noite a dia porque não havia luz e como a luz não interrompia a noite a vista não interrompia as lágrimas a noite suspendia perpetuamente o ver as lágrimas continuavam perpetuamente a chorar Chorava amargamente porque vira chorava continuamente porque não via fora do paço onde vira para não ver dentro da cova onde não via para sempre chorar Egressus foras flevit amare VII Que dizem os olhos de Pedro O concerto de Jó com seus olhos As três tentações representadas pelas ancilas e pelo soldado O escândalo dos olhos e a admoestação de Cristo Até agora falamos com os olhos de Pedro agora falem os olhos de Pedro com os nossos Os olhos também falam Neque taceat pupilla oculi tui43 E que dizemos olhos de Pedro Que dizem aqueles dois grandes pregadores aos nossos olhos Olhos aprendei de nós nós vimos e porque vimos choramos do nosso ver aprendei a não ver do nosso chorar aprendei a chorar Oh que grandes duas lições para os nossos olhos Se Pedro quando quis ver a Cristo negou três vezes a Cristo os olhos que querem ver as criaturas quantas vezes o negarão Se nega a Cristo Pedro quando quer ver levado do amor de Cristo como não negarão a Cristo os que querem ver levados de outro amor Se quem entrou a ver uma tragédia da paixão de Cristo teve tanto que chorar os que entram a ver outras representações e outros teatros que fruto hão de colher daquelas vistas Diz S Leão Papa que os olhos de Pedro se batizaram hoje nas suas lágrimas Bem se podem batizar os nossos olhos outra vez porque não têm nada de cristãos Comparai aquela cova de Chipre com a de Jerusalém comparai as nossas vistas ou as nossas cegueiras com a de S Pedro Não digo que se metam os nossos olhos em uma cova porque não há hoje tanto espírito no mundo mas ao menos não comporemos os nossos olhos Não faremos ao menos com os nossos olhos aquele concerto que fez Jó com os seus Pepigi faedus cum oculis meis ut ne cogitarem quidem de virgine44 Falava Jó do vício contra a honestidade em que tanta porte têm os olhos e diz que fez concerto com os seus para não admitir o pecado no consentimento nem ainda na imaginação Este concerto porece que não se havia de fazer com os olhos senão com o entendimento e com a vontade O consentimento pertence à vontade a imaginação pertence ao entendimento façase logo o concerto com a vontade que consente e com o entendimento que cuida e imagina e não com os olhos que somente vêem Não diz Jó Com os olhos se há de fazer o concerto porque o pecado ou o que há de ser pecado entra pela vista da vista passa à imaginação e da imaginação ao consentimento logo para que não chegue ao consentimento nos olhos onde está o primeiro perigo se há de pôr a cautela nos olhos a resistência nos olhos o remédio Notou advertidamente Salmeirão que sucede aos homens nos pecados desta casta o mesmo que sucedeu a São Pedro nas suas negações Para as negações de São Pedro concorreram duas tentadoras e um tentador a primeira e a segunda tentadora foram as duas ancilas e o terceiro tentador foi o soldado da guarda de Caifás Assim também as nossas negações A primeira ancia e a primeira tentadora é a vista a segunda ancila e a segunda tentadora é a imaginação e o terceiro tentador é o consentimento em que se consuma o pecado E assim como nas negações de Pedro a primeira tentadora foi a ancila ostiaria a porteira assim nas nossas negações a primeira tentadora é a vista que é a porteira e a que tem nos olhos as chaves das outras potências Por isso Jó fez concerto com os seus olhos para que estas portas estivessem sempre fechadas Não fecharemos estas portas tão arriscadas da nossa alma ao menos nestes dias em reverência dos olhos de Cristo No mesmo tempo em que Pedro estava negando a Cristo estava Cristo com os olhos tapados padecendo tantas afrontas Consente Cristo que lhe tapem os olhos tão afrontosamente por amor de mim e eu por amor de Cristo não fecharei os olhos Consente Cristo que lhe tapem os olhos para me salvar e eu abrirei os olhos para me perder Olhai quanto mais encarecida é a doutrina de Cristo neste caso Si oculus tuus scandalizat te erue eum et projice abs te Mt 129 Se os vossos olhos vos servem de escândalo se vos fazem cair arrancaios e lançaios fora Se fora resolução muito bem empregada arrancar os olhos por amor da salvação e para esses mesmos olhos verem a Deus por que há de ser coisa dificultosa o fechálos A Sansão arrancaramlhe os olhos os filisteus porque os entregou a Dalila Jz 14116 21 Não lhe fora melhor a Sansão fechar os olhos para não ver que perdêlos porque viu Não lhe fora melhor a Siquém não ver a Dina Gên 3425 s Não lhe fora melhor a Amnon não ver a Tamar 2 Rs 13 Não lhe fora melhor a Holofernes não ver a Judite Jdt 1019 Todos estes pereceram às mãos de seus olhos Demócrito filósofo gentio como diz Tertuliano arrancou voluntariamente os olhos por se livrar de pensamentos menos honestos Que tivesse resolução um gentio para arrancar os olhos por amor da pureza e que não tenha ânimo nem valor um cristão para os fechar Cristãos por amor daqueles olhos que Cristo hoje pôs em S Pedro e para que ele os ponha em nós que se havemos de fazer esta semana alguma penitência se havemos de fazer esta semana alguma mortificação se havemos de fazer esta semana algum ato de Cristandade seja cerrar os olhos por amor de Cristo Aquelas pestana cerradas sejam as sedas de que teçamos um cilício muito apertado a nossos olhos Não são os olhos aqueles grandes pecadores que pecam em todos os pecados Pois tragam esta semana este cilício VIII Esta vida não é lugar de ver senão de chorar Davi e o livro das dívidas e das satisfações Se pecamos como Pedro por que não choramos como Pedro Oração Como os olhos estiverem cerrados que é o segundo documento dos olhos de S Pedro como os olhos não virem logo chorarão Lembremonos que estamos em um vale de lágrimas lembremonos que esta vida não é lugar de ver senão de chorar Locus flentium45 Esta vida diz S Crisóstomo é para os nossos olhos chorarem a outra é para verem Nós nesta vida trocamos aos nossos olhos os tempos e os lugares mas também na outra vida os acharemos trocados Os olhos que chorarem na terra verão no céu os olhos que quiserem ver na terra chorarão no inferno Ibi erit fletus46 Também no inferno há lágrimas mas lágrimas sem fruto Não é melhor chorar aqui poucos dias para nosso remédio que chorar eternamente no inferno sem nenhum remédio Que contas lhe fazemos Que contas faz a nossa fé com a nossa vida Que contas fazem os que fazem conta de dar conta a Deus Olhai as contas que Deus faz com as nossas lágrimas e com os nossos pecados É passo admirável e que podendo ser de grande consolação é de grande terror Posuisti lacrymas meas ia conspectu tua SI 55 9 diz Davi Senhor vós sempre tendes postas as minhas lágrimas diante dos vossos olhos E estas lágrimas que Deus tem postas diante dos olhos onde estão Elas correm elas passam elas enxugamse elas secamse onde estão postas estas lágrimas O texto original o declarou admiravelmente Posuisti lacrymas meas in libro rationum tuarum Tem Deus posto as nossas lágrimas nos seus livros da razão tem Deus posto as nossas lágrimas nos seus livros de deve e há de haver Estes são os livros dos quais diz S João que se hão de abrir no dia do juízo Et libri aperti sunt47 e assim o resolvem todos os teólogos Um é o livro do deve outro o livro do há de haver um o livro das dividas outro o livro das satisfações no das dívidas estão os pecados no das satisfações estão as lágrimas In libro rationum tuarum Faça agora cada um as suas contas pois há de dar conta a Deus por estes livros Some cada um quantos pecados tem no livro das dívidas e some quantas lágrimas tem no livro das satisfações Haverá quando menos para cada pecado uma lágrima Oh tristes dos nossos olhos Oh miseráveis das nossas almas S Pedro no livro do deve tem três negações e no livro do há de haver tem infinitas lágrimas Quantos cristãos haverá que no livro do deve tenham infinitos pecados e no livro do há de haver não tenham três lágrimas choradas de coração Pois como havemos de aporecer diante do tribunal de Deus Como lhe havemos de dar boa conta E se estamos tão alcançados nas contas como não nos resolvemos a chorar nossos pecados desde logo pois o não fizemos até agora S Pedro não chegou a estar duas horas no seu pecado e chorou toda a vida até a morte e nós que toda a vida temos gastado em pecados e muitos estamos no cabo da vida e todos não sabemos quanto nos há de durar a vida quando fazemos conta de chorar S Pedro sabia de certo que Deus lhe tinha perdoado e contudo não cessava de chorar continuamente Sabemos de certo que Deus nos tem perdoado Sabemos de certo que temos ofendido a Deus e muitos sabem também de certo que não estão perdoados porque também sabem de certo que estão atualmente em pecado mortal e com toda esta evidência nem uns nem outros choram Dizeime pelas chagas de Cristo Fazeis conta de vos salvar como S Pedro Sim Pecastes como S Pedro Muito mais Chorastes como S Pedro Não Pois se pecastes como Pedro e não chorais como Pedro como fazeis conta de vos salvar como Pedro Tem Deus para vós outra lei Tem Deus para vós outra justiça Tem Deus para vós outra misericórdia Cristo perdoou a Pedro porque chorou e se Pedro não chorara não lhe havia Cristo de perdoar como não perdoou a Judas Pois se Cristo não perdoa a Pedro sem chorar como nos há de perdoar a nós se não choramos Somos mais discípulos de Cristo que Pedro Somos mais favorecidos de Cristo que Pedro Somos mais mimosos de Cristo que Pedro Somos mais de casa e do seio de Cristo Somos mais amigos e mais amados e mais prezados de Cristo que Pedro Pois que confiança cega e diabólica é esta nossa Senhor Senhor Judas não chorou porque lhe não pusestes os olhos Pedro chorou porque lhe pusestes os olhos Respice in nos et miserene nostri Olhai para nós piedoso Jesus olhai para nós com aqueles piedosos olhos com que hoje olhastes para Pedro Abrandai esta dureza impenetrável de nossos corações Alumiai esta cegueira obstinada de nossos olhos Fechainos estes olhos para que não vejam as vaidades e loucuras do mundo Abrinos estes olhos para que se desfaçam em lágrimas por vos terem negado e por vos terem tanto ofendido São Pedro divino apóstolo divino penitente pontífice divino lembraivos desta vossa Igreja que tão cega está e tão impenitente Lembraivos destas vossas ovelhas Lembraivos destes vossos filhos e dessas lágrimas que vos sobejaram derramai sobre nós as que tanto havemos mister Alcançainos daqueles olhos que tão benignamente vos viram que imitemos vossa contrição que choremos nossos pecados que façamos verdadeira penitência que acabemos uma vez de nos arrepender e emendar de todo coração E nesta semana tão sagrada lançainos do céu uma bênção e concedeinos uma indulgência plenária que nos absolva de todas nossas culpas Sobretudo perseverança na graça nos propósitos na dor no arrependimento para que chorando o que só devemos chorar vejamos finalmente o que só devemos desejar ver que é a Deus nessa glória SERMÃO DO MANDATO EM ROMA NA IGREJA DE SANTO ANTÔNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1670 Sciens Jesus quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo ad Patrem cum dilexisset suos qui erant in mundo infinem dilexit eos1 I O mais extremo do amor de Cristo para conosco foi ausentarse de nós Este é aquele texto saudoso e suavíssimo este é aquele mistério ou enigma grande do amor tantas vezes repetido nesta hora tantas vezes e por tantos modos encarecido tantas vezes e tão sutilmente interpretado mas nunca assaz entendido Diz o evangelista S João que se porte Cristo e que nos ama Que se porte Ut transeat ex hoc mundo que nos ama Infinem dilexit eos Mas se nos ama como se porte Se nos ama como se ausenta de nós Mais diz o evangelista Não só diz que nos ama Cristo e que se porte não só diz que nos ama e que se ausenta de nós senão que nesta mesma hora em que se partiu nesta mesma hora em que se ausentou havendonos amado sempre tanto então ou agora nos amou mais Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo cum dilexisset suos infinem dilexit eos Se dissera isto outro evangelista não me admirara tanto Mas João a águia do entendimento e a fênix do amor João o secretário do peito de Cristo João aquele discípulo que entre todos soube melhor amar e mereceu ser mais amado que me diga que se porte Cristo que se ausenta que nos deixa que se vai de nós e que nos ama Que nos ama e que agora nos amou mais Não a entendo Se me dissera S João que se ausentava Cristo porque estava arrependido de nos amar que se ausentava porque aqueles primeiros extremos do seu amor o tempo que acaba tudo os acabara se me dissera que obrigado de nossas más correspondências que ofendido de nossos desprimores que cansado de nossas ingratidões que desenganado de nossa pouca fé já nos aborrecia ou já nos desamava e que por isso deixa a mundo e se ausenta dos homens se isto me dissera S João sentirao eu muito mas conhecera a razão e a conseqüência Confessaria e confessaríamos todos que obrava Cristo como quem é e que nos tratava como quem somos Amounos sem a merecermos ausenta se porque lhe merecemos O amor o trouxe e desamor o leva por isso se vai e nos deixa Mas que diga a evangelista constantemente que não é desamor senão amor e que quando Cristo se ausenta de nós então obrou a maior fineza então subiu ao maior extremo então chegou ao último fim aonde podia chegar amando Cum dilexisset suas infinem dilexit eos O verdadeiro entendimento desta amorosa implicação será a matéria do nosso discurso e a mesma razão de duvidar nas dará a solução da dúvida Veremos com assombro de todas as leis do amor como o maior extremo do amor de Cristo para conosco foi o ausentarse de nós É o que dizem as palavras do texto Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo eis aí o ausentarse de nós Cum dilexisset suas in finem dilexit eos eis aí o maior extremo de seu amor Porece paradoxo mas é extremo Amou Cristo tanto aos homens que os deixou e se foi porece paradoxo Amou Cristo tanto aos homens que chegou por eles a aportarse deles este é o extremo e isto é o que diz o evangelista Nos homens a hora da portida é o fim do amor em Cristo o fim do amor foi a hora da portida Sciens quia venit hora ejus infinem dilexit eos Dizer menos é descer subir mais não há para onde E como este foi o ponto mais alto onde pode chegar o amor de Cristo este será também o ponto único em que começará e acabará nosso discurso Peçamos ao mesmo amor pelos merecimentos daquele coração que só o soube corresponder dignamente nos assista nesta hora sua com a sua graça Ave Maria II Três poderosos opositores ao pensamento do autor o amor a morte o Sacramento O amor forte no dizer de Salomão é como a morte e como ela separa O amor unitivo causa da Encarnação de Cristo o amor forte causa do aportamento de Cristo Aportarse quem ama de quem ama eis o último extremo a que pode chegar o amor O estranho cântico da Esposa dos Cantares Finezas do Esposo e da Esposa dos Cânticos S João conclui o livro de Salomão Ut transeat ex hoc mundo in finem dilexit eos Amou Cristo tanto aos homens que chegou por eles a aportarse deles Este é o meu assunto e este digo que foi o maior extremo do amor de Cristo Mas que vejo Naquele monumento sagrado naquele mistério sacrossanto que é a cifra do amor e o memorial da morte de Cristo vejo postos em campo contra este meu pensamento três poderosos opositores o Sacramento a morte e o mesmo amor O amor diz que não pode ser amor o aportarse Cristo de nós o Sacramento diz que o deixarse conosco foi a maior fineza a morte diz que o morrer por nós foi o maior extremo de todos Estes são os assombros com que as ações mais heróicas do amor de Cristo hoje e com que as mesmas leis do amor se opõem à novidade do nosso assunto Mas essas mesmas nos dividirão o discurso e nos servirão de degraus para mais o subir de ponto Começando pelo amor O amor essencialmente é união e naturalmente a busca para ali pesa para ali caminha e só ali pára Tudo são palavras de Platão e de Santo Agostinho Pois se a natureza do amor é unir como pode ser efeito do amor o aportar Assim é quando o amor não é extremado e excessivo As causas excessivamente intensas produzem efeitos contrários A dor faz gritar mas se é excessiva faz emudecer a luz faz ver mas se é excessiva cega a alegria alenta e vivifica mas se é excessiva mata Assim o amor naturalmente une mas se é excessivo divide Fortis est ut mors dilectio Cânt 86 O amor diz Salomão é como a morte Como a morte rei sábio Como a vida dissera eu O amor é união de almas a morte é separação da alma pois se o efeito do amor é unir e o efeito da morte é separar como pode ser o amor semelhante à morte O mesmo Salomão se explicou Não fala Salomão de qualquer amor senão do amor forte Fortis est ut mors dilectio2 e o amor forte o amor intenso o amor excessivo produz efeitos contrários É união e produz aportamentos Sabese o amor atar e sabese desatar como Sansão afetuoso deixase atar forte rompe as ataduras O amor sempre é amoroso mas umas vezes é amoroso e unitivo outras vezes amoroso e forte Enquanto amoroso e unitivo ajunta os extremos mais distantes enquanto amoroso e forte divide os extremos mais unidos Quais são os extremos mais distantes e mais unidos que há no mundo O nosso corpo e a nossa alma São os extremos mais distantes porque um é carne outro espírito são os extremos mais unidos porque nunca jamais se aportam Juntos nascem juntos crescem juntos vivem juntos caminham juntos páram juntos trabalham juntos descansam de noite e de dia dormindo e velando em todo o tempo em toda a idade em toda a fortuna sempre amigos sempre companheiros sempre abraçados sempre unidos E esta união tão natural esta união tão estreita quem a divide A morte Tal é o amor Fortis est ut mors dilectio O amor enquanto unitivo é como a vida enquanto forte é como a morte Enquanto unitivo por mais distantes que sejam os extremos ajuntaos enquanto forte por mais unidos que estejam aportaos Antes da Encarnação do Verbo quais eram os extremos mais distantes Deus e o homem E que fez o amor unitivo Trouxe a Deus do céu à terra e uniu a Deus com os homens Depois da Encarnação quais eram os extremos mais unidos Cristo e os homens E que fez o amor forte Leva hoje a Cristo da terra ao céu Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem3 e aportou a Cristo dos homens Exivi a Patre et veni in mundum eis ai o amor unitivo Iterum relinquo mundum et vado ad Patrem4 eis aí o amor forte É o que diz o evangelista Cum dilexisset dilexit Houve diferença nos tempos mas não houve mudança no amor Cristo unido com os homens amor Cum dilexisset Cristo aportado dos homens também amor e maior amor In finem dilexit eos Já temos mostrado ao amor que pode ser amor e grande amor o aportarse Agora abra mais os olhos o mesmo amor e veja que não só é amor e grande amor senão o maior de todos In finem Em uma hora que era representação desta mesma hora como notou S Bernardo estando a esposa em um horto que também era figura de outro horto pediulhe o Esposo divino que cantasse alguma letra porque a queriam ouvir seus amigos Quate habitas in hortis amici auscultant fac me audire vocem tuam5 Os amigos que escutam somos nós o esposo é Cristo a esposa é a Igreja qual será a letra Cantou a esposa em verso pastoril o que S João em prosa evangélica Toma a esposa uma cítara na mão e tocando docemente as cordas cantou assim Heu fuge dilecte mi Ai idevos amado meu Assimilare capreae hinnuloque cervorum super montes aromatum6 Porti como cervo ligeiro deixai os vales da terra ide vos para os montes do céu Disse a esposa quebrou a cítara e emudeceu para sempre Assim foi porque este é o último verso e a última cláusula do último capítulo dos Cânticos Todos sabemos que a matéria dos Cânticos de Salomão é a história do amor ou dos amores de Cristo com sua esposa a Igreja Pois esposa santa este é o fim com que dais fim à história do amor de vosso esposo Ou quereis encarecer o seu amor ou o vosso ou o de ambos Se o seu dizeislhe que se vá Se o vosso dizeislhe que vos deixe Se o de ambos concluís com o aportamento de ambos Sim porque este é o último fim este é o último extremo a que pode chegar o amor aportarse quem ama de quem ama Enquanto não chegou a este ponto sempre a sabedoria de Salomão teve mais e mais que escrever dos extremos do amor de Cristo mas tanto que disse Heu fuge tanto que disse que havia Cristo de deixar o mundo tanto que disse que se havia de aportar dos homens por amor dos homens Salomão suspendeu a pena a esposa quebrou a cítara o amor rompeu o arco e aqui deu fim a história de suas finezas porque até aqui pode chegar o amor e não pode passar daqui Salomão acabou o livro e S João pôs o finis In finem dilexit eos E se não comporemos este fim com os princípios do mesmo amor Nos princípios do amor as finezas do esposo eram buscar a esposa por montes e vales Ecce ipse veniet saliens in montibus transiliens colles7 nos princípios do amor as finezas da esposa eram ter o esposo sempre consigo e não se aportar um momento dele Inveni quem diligit anima mea tenui eun nec dimittatem8 Porém depois que o amor principiante passou a amor perfeito depois que o amor proficiente chegou a amor consumado já as presenças se trocam pelas ausências e todos os extremos do amor se reduzem a quê A um ai E um idevos Heu Fuge O heu significa a dor o fuge o aportamento o heu significa a violência o fuge a resolução o heu significa o afeto o fuge o sacrifício o heu significa o amor o fuge a fineza e o extremo Heu e fuge Ai e ide vos Oh que extremos tão encontrados Non optando loquitur diz Bedá9 Mas destes dois extremos tão encontrados se compunha o extremo do amor de Cristo e o encontro e repugnância destes dois extremos eram os torcedores que nesta hora de sua portida lhe portiam o coração O afeto pedia que ficasse a conveniência instava que se fosse Expedit vobis ut ego vadam10 mas como o afeto era seu e a conveniência era nossa pôde mais a conveniência que o afeto Vença a conveniência pois é vossa pelo que tem de vós cortese pelo afeto pois é meu pelo que tem de mim e seja este o último fim e o extremo último do meu amor Heu fuge dilecte mi Infinem dilexit eos III Desde Adão e Eva o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa Jacó e Raquel figuras de Cristo e da Igreja Cristo não tendo mais em si ou fora de si o que deixar por amor dos homens só podia deixar por amor dos homens os mesmos homens Só resta para inteira satisfação do amor que lhe demos a razão desta altíssima filosofia Qual é a razão por que aportarse Cristo de nós e aportarse quem ama de quem ama é o maior extremo a que pode chegar o amor A razão é esta Porque o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa e não pode deixar mais o amor que chegar a deixar pelo amado ao mesmo amado A pedra de toque do amor é um amor com outro Quis Deus provar o amor de Abraão tocouo com o amor de Isac a quem amava como filho quis Davi provar o amor de Jônatas tocouo com o amor de Saul a quem amava como pai Da mesma maneira quem quiser apurar os quilates do amor toque o amor do que se ama como amor do que se deixa e logo conhecerá quão fino é Desde o primeiro amor que houve no mundo ficou estabelecida esta regra No ponto em que Eva saiu das mãos de Deus amoua logo Adão tão extremadamente quanto ela por si e por seu autor merecia ser amada Quis encarecer este seu amor o novo desposado mas como então não havia no mundo outro amor nem outrem a quem amar que faria Adão para provar o amor que desejava encarecer Vede o artifício Propter hoc relinquet homo patrem et matrem Gên 2 24 Por amor desta deixará o homem a seu pai e a sua mãe Adão não tinha pai nem mãe era homem mas o primeiro homem Pois se não tinha pai nem mãe por que prova Adão o seu amor com o amor do pai e da mãe que os outros homens haviam de deixar por suas esposas Por isso mesmo Porque o amor do que se ama provase pelo amor do que se deixa E como Adão não tinha outro amor que deixar provou o amor com que amava a sua esposa pelo amor do pai e mãe que os outros homens haviam de deixar pelas suas Propter hoc relinquet homo patrem et matrem Provou Adão o amor presente pelo futuro e o próprio pelo alheio e provou bem porque o amor do pai e mãe que nos deram o ser é o mais natural e o mais devido e quando se deixa por amor da esposa o que tanto se ama é prova que se ama mais a esposa por amor de quem se deixa Isto é o que fez e o que disse Adão mas ainda que soube provar não soube encarecer porque o verdadeiro encarecimento do amor não era para o primeiro Adão estava reservado para o segundo Se Adão soubesse encarecer o seu amor que havia de dizer Havia de dizer assim Eu esposa minha não posso qualificar o amor que vos tenho porque não tenho outro amor que deixar por ele e ainda que tivera pai e mãe a quem muito amara como hão de ter meus descendentes deixar o pai e a mãe por amor de vós não era bastante prova do meu amor mas para que conheçais quanto vos amo amovos tanto que chegara a vos deixar a vós por amor de vós Isto é o que não soube dizer Adão e isto é o que fez Cristo Chegou a nos deixar a nós por amor de nós Deixar os pais por amor da esposa foi o ponto mais alto que soube imaginar o amor de Adão mas Cristo chegou a fazer o que ele não chegou a imaginar porque chegou a deixar a esposa por amor da esposa Sacramentum magnum in Christo et in Ecclesia11 A esposa de Cristo é a Igreja a Igreja somos nós e Cristo chegou a nos deixar a nós por amor de nós Quando Cristo veio ao mundo pareceuse o amor divino com o amor humano porque deixou o Padre por amor da esposa mas quando hoje Cristo se vai do mundo Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem não teve o seu amor com quem se parecer porque deixou a esposa por amor da esposa Saiu Jacó peregrino da casa de seus pais para se desposar com Raquel e neste caminho viu aquela misteriosa escada que chegava da terra ao céu Voltou Jacó outra vez com Raquel para a pátria mas neste segundo caminho ainda que teve aparições de anjos não viu a escada Todos sabeis que Jacó não só foi figura de Cristo as expressamente figura de Cristo amante Agora pergunto se Jacó viu a escada na primeira visão e no primeiro caminho por que a não viu no segundo Se Jacó viu a escada quando veio por que não viu a escada quando tornou Porque aquela escada como dizem comumente os Padres significava a descida de Cristo e a subida a descida quando veio ao mundo a subida quando tornou para Padre E quando Jacó veio viu a escada porque Cristo quando veio pareceuse com Jacó mas quando Jacó tornou não viu a escada porque quando Cristo tornou não se pareceu com ele nem teve com quem se parecer Quando Cristo veio pareceuse com Jacó porque assim como Jacó deixou os pais por amor de Raquel assim deixou o Padre por amor da esposa porém quando Cristo tornou não se pareceu com Jacó porque Jacó não deixou a Raquel por amor de Raquel e Cristo sim Deixou a sua Raquel por amor da mesma Raquel deixou a sua esposa por amor da mesma esposa deixou os seus homens Cum dilexisset suos por amor dos mesmos homens E este foi o último e o maior extremo do seu amor porque chegou a deixar os amados por amor dos mesmos amados Cum dilexisset suos in finen dilexit eos Quem deixa tudo pelo amado deixa tudo mas quem deixa pelo amado ao mesmo amado ainda deixa mais porque chega a deixar aquele por quem tem deixado tudo Quando Cristo veio ao mundo deixou o céu por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o céu Quando veio ao mundo deixou os anjos por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado os anjos Quando veio ao mundo deixou a glória por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado a glória Finalmente quando veio ao mundo deixou o Padre por amor dos homens porém hoje deixa os mesmos homens por quem tinha deixado o Padre E neste mundo que deixou Cristo Nascendo pobre deixou por amor dos homens a riqueza desterrandose deixou por amor dos homens a pátria trabalhando deixou por amor dos homens o descanso entregandose deixou por amor dos homens a liberdade padecendo afrontas deixou por amor dos homens a honra morrendo deixou por amor dos homens a vida sacramentandose deixou por amor dos homens a si mesmo mas hoje ausentandose dos homens e partindo do mundo Ut transeat ex hoc mundo deixou mais que as riquezas mais que a pátria mais que o descanso mais que a liberdade mais que a honra mais que a vida mais que a si mesmo porque deixou os mesmos homens por quem tudo isto tinha deixado De maneira que havendo Cristo deixado por amor dos homens tudo o que tinha no céu até o mesmo Padre e tudo o que tinha e podia ter na terra até a si mesmo não tendo já nem no céu nem na terra não tendo já em si nem fora de si outra coisa que deixar por amor dos homens para chegar ao non plus ultra do amor chega a deixar por amor dos homens ao mesmos homens Ut transeat ex hoc mundo in finem eos IV Foi maior fineza de Cristo deixarse no Sacramento que apartarse de nós Cristo e a amizade de Rut Noemi e Orfa Cristo deixandose no Sacramento satisfez a um seu desejo ausentando se dos homens violentou sua inclinação Cristo o Jordão divino Por que S João passa totalmente em silêncio a instituição da Eucaristia Haverá ainda quem se oponha a este extremo de fineza Haverá ainda quem se oponha a este extremo de amor Ainda Ainda se opõe e resiste o mesmo amor defendendose com o escudo do Sacramento e com a espada da morte Fortes armas Mas também as há de render o amor ainda que tão fortes e tão finas Alega por parte do Sacramento o amor e defende constantemente que foi maior fineza em Cristo o deixarse que o deixarnos o ficar conosco que o apartarse de nós E como o prova Em um caso temos ambos os casos Na terra de Moab houve três amigas muito celebradas na Escritura Noemi Rut e Orfa Viveram muito tempo juntas essas amigas como amigas e parentas que eram até que veio uma hora como esta hora em que se houveram de ausentar Abraçaramse choraram muito fizeram as exéquias à sua despedida com todas as solenidades que costuma o amor mas tanto que chegou o ponto preciso em que se haviam de apartar sucedeu uma diferença notável Orfa diz o texto que se aportou e que se foi para a sua pátria e para o seu Deus porém Rut enterneceuse tanto que de nenhum modo se pôde aportar da companhia de Noemi e se deixou ficar com ela por toda a vida Eis aqui quanto vai de amar a amar e de ficar a partirse Quem ama pouco aportase quem ama muito não se pode aportar Orfa que amava pouco aportouse e deixou a Noemi Rut que amava muito não a pôde deixar nem aportarse dela São os termos do nosso caso Chegou a hora precisa em que Cristo se havia de aportar dos homens Sciens quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo mas nesta amorosa despedida neste rigoroso aportamento quem foi a Orfa que se aportou Quem foi a Rut que se não pôde aportar Uma e outra por modo admirável foi a mesma humanidade sacratíssima de Cristo Ela foi a que nesta mesma hora se aportou ela foi a que nesta mesma hora se não pôde aportar Ela foi a Orfa que se aportou e se foi para a sua pátria e para o seu Deus Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem e ela foi a Rut que se não pôde aportar e recolhendo as espigas se deixou naquele Sacramento debaixo das espécies de pão Logo maior amor foi em Cristo o deixarse que o deixarnos logo maior amor foi em Cristo o ficar conosco que o aportarse de nós Que grosseiros são os afetos humanos para avaliar as finezas do amor divino Se Cristo se aportara como Orfa amando como Orfa fora menor o seu amor mas Cristo aportouse como Orfa amando como Rut Amar muito e aportarse esta é a fineza Orla amou pouco Rut amou muito mas nem uma nem outra finamente porque Orfa aportandose de Noemi seguiu a sua conveniência e Rut não se podendo aportar seguiu a sua inclinação Perdoaime sacramentado amor mas não me perdoeis Deixar se Cristo com os homens no Sacramento foi seguir o amor o seu afeto e a sua inclinação foi satisfazer ao desejo Desiderio desideravi hoc pasha manducare vobiscum12 foi gosto foi alívio foi satisfação foi descanso foi comodidade sim que fineza não Obrou o amor como amor mas não obrou como fino Cair a pedra para o centro correr a fonte para o mar voar o fogo para a sua esfera é natureza é inclinação é descanso não é fineza e isso foi deixarse Cristo com os homens no Sacramento Ainda o coração de Cristo não era humano lá naquele princípio sem princípio de sua eternidade e quais eram já então os seus gostos as suas recreações as suas delicias Eram estar no mundo com os homens Ludens ia orbe terrarum et deliciae meae essa rum filiis hominum13 Notável dizer Naquele tempo antes de todo o tempo ainda não havia mundo nem havia homens Pois se não havia homens nem mundo como eram as delícias do Verbo estar com os homens no mundo Essa é a força da minha razão e da minha conseqüência Se quando não havia homens nem mundo eram as delícias de Cristo estar no mundo com os homens que não eram quais seriam depois as suas delícias estar no mundo com os homens que eram Suos qui erant in mundo14 Deixarse Cristo no mundo com os homens foi buscar o amor as suas delícias e por isso não foi fineza a fineza foi deixar o mundo e aportarse dos homens Ut transeat ex hoc mundo porque foi violentar a inclinação foi sacrificar o gosto foi martirizar o desejo foi vencer em si e contra si a maior repugnância Para Cristo se aportar de nós e juntamente se deixar conosco dividiuse Cristo de si mesmo Grande fineza Grande maravilha Mas nesta prodigiosa divisão o amor que fez a maravilha e a fineza não foi o amor que deixou a Cristo no mundo senão o amor que o levou do mundo Ut transeat ex hoc mundo Vedeo com os olhos Para dar passo à Arca do Testamento aportouse o rio Jordão e dividiuse de si mesmo uma porte do rio assim dividido correu para o mar e a outra porte suspendeu a corrente e tornou para a fonte donde tinha saído Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordanis quia conversus es retrorsum15 Dizeime agora Portido assim o Jordão e dividido de si mesmo qual destas duas portes fez a maravilha Qual destas duas portes obrou a fineza A porte que correu para o mar ou a que voltou para a fonte Claro está diz Agostinho e não era necessário que ele o dissesse claro está que a porte que voltou para a fonte foi a que fez a fineza e a maravilha porque a porte que correu para o mar seguiu a inclinação natural e foi buscar o seu centro porém a porte que tornou para a fonte violentou essa mesma inclinação rebateu e quebrou o ímpeto da corrente e contra o peso das águas e da natureza a fez outra vez subir para donde descera Por isso como agudamente notou Lorino quando o rio desceu disselhe Davi Quid est tibi e quando subiu não porque o correr para o mar foi buscarse a si e o voltar para a fonte foi ir contra si Conversus est retrorsum Ah Jordão divino que assim vos chamou profundamente Orígenes vejovos dividido de vós mesmo nesta hora e dividido de vós mesmo com duas correntes contrárias Com uma corrente ides para o Padre que é o princípio fontanal como dizem os teólogos donde nascestes Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem com outra corrente idevos meter nesse mar imenso do Sacramento onde verdadeiramente estais sem aporecer assim como os rios entram no mar e desaporecem Quid est tibi mare quod fugisti O Jordão fugiu de si e vós fugistes de vós Vendo que vos ausentáveis dos homens fugistes de vós para nós e escondestevos neste mistério Mas qual foi aqui a fineza Qual foi aqui a maravilha Milagre dos milagres qual foi aqui o milagre O ficar Cristo conosco no Sacramento foi milagre da natureza porque correu o rio para o mar correu o amor para o centro mas o aportarse Cristo de nós Ut transeat ex hoc mundo esse foi o milagre sobre a natureza e contra a natureza porque foi voltar o rio para a fonte donde nascera foi romper contra o ímpeto da inclinação foi não só vencer a corrente senão quebrar as correntes ao amor Assim que a maravilha e a fineza não foi o sacramentarse Cristo para ficar conosco senão o aportarse e ausentarse de nós E se não perguntemos ao mesmo evangelista nestas suas reflexões tão ponderosas do amor de Cristo por que não fez menção nem memória alguma da instituição do Sacramento Não fundo o reporo na relação tão copiosa que de todos os outros evangelistas fizeram deste sagrado mistério mas na que S João não quis fazer E vede se se argüi bem do seu mesmo texto In finem dilexit eos et caena facta16 Ponderou o extremo do amor com que nos amou Cristo no fim In finem dilexit eos fez menção da ceia Et coena facta porém do Sacramento instituído na mesma ceia nem palavra falou Pois se pondera o extremo do amor e faz menção da ceia imediatamente depois por que passa totalmente em silêncio a instituição de um mistério tão soberano tão admirável tão amoroso Porque falou e calou como divino retórico que era Disse o que fazia ao seu intento e calou o que não servia O intento de S João neste Evangelho não era só provar o amor de Cristo senão realçar a fineza do mesmo amor Cum dilexisset infinem dilexit E a instituição do Sacramento ainda que foi amor e grande amor em rigor não era fineza Por isso não diz que se sacramentou senão que se ausentou por isso não diz que se deixou conosco senão que se aportou de nós por isso não diz que ficou no mundo senão que se foi do mundo Ut transeat ex hoc mundo logo concluiu In finem dilexil eos porque ainda que o sacramento foi amor o ausentarse foi fineza ainda que o deixarse foi amor o deixarnos foi o extremo ainda que o ficar conosco foi amor o aportarse de nós foi amor sobre amor Cum dilexisset dilexit V Foi maior fineza de Cristo aportarse de nós que morrer por nós A despedida de Cristo no Horto mais violenta que sua própria morte Os dois cálices da paixão de Cristo o do Horto e o do Calvário O cálix da morte e o da ausência Temos rendido o braço do escudo só nos resta o da espada que é a morte Muito confia nesta espada o amor porque traz escrito e gravado nela Majore charitatem nemo habet ut animam suam ponat quis pro amicis suis17 Mas saiba a morte e o amor se o não sabem que o nemo não compreende a Cristo Nemo te condemnavit mulier neque ego18 O ego singular de Cristo não se compreende debaixo do universal de nemo O nemo em respeito do Filho é como o omnes em respeito da Mãe Nem o omnes faz argumento contra a pureza da Mãe nem o nemo contra a caridade do Filho E para que julgue a mesma vista dos olhos de que carece a morte e o amor quanto maior fineza foi no amor de Cristo o aportarse de nós que o morrer por nós ponhamos o Horto defronte do Cal vário e ajuntemos o teatro da despedida com o teatro da morte O teatro da última despedida ou aportamento de Cristo foi o vale de Getsêmani coberto das sombras da noite onde tudo aspirava amor tudo silêncio tudo tristeza tudo saudade Aqui se aportou o amoroso Senhor de seus discípulos não de todos juntamente senão de uns primeiro e depois dos outros Como o golpe lhe chegava tanto à alma não se atreveu a leválo todo de uma vez foi dividindo por portes Assim se aportou o Senhor mas não digo bem Avulsus est ab eis diz S Lucas Lc 22 41 Não se aportou arrancouse Tão violentamente se aportava Cristo dos homens que o aportarse deles era arrancarse Tão dentro deles estava e tão dentro de si os tinha que não se aportava dos seus olhos nem se aportava de seus braços arrancavase de seus corações e arrancavaselhe o coração Avulsus est ab eis Saia agora a morte com algum semelhante encarecimento se o tem do muito que fizesse Cristo em padecer e diga o que dizem dela os evangelistas Porventura chegou a dizer algum evangelista que quando Cristo morreu se lhe arrancou a alma Não por certo O Evangelista que mais disse foi S Mateus E que disse Emisit spiritum despediu a alma Mt 2750 De sorte que quando Cristo morre despede a alma e quando Cristo se despede arrancase dos homens Tão fácil lhe foi morrer tão dificultoso o aportarse O laço com que a alma de Cristo estava atada ao como desatouse os laços com que o mesmo Cristo estava atado aos homens não se puderam desatar romperamse Romperamse rasgaramse arrancouse Avulsus est Quantos eram os homens que havia no mundo tantas eram as raízes que prendiam o coração de Cristo Eram raízes de trinta e três anos eram raízes de uma eternidade inteira profundadas com tanto amor regadas com tantas lágrimas endarecidas com tantos trabalhos e que todas essas raízes tantas e tão fortes se houvessem de arrancar juntas na mesma hora Sciens quia venit hora ejus Oh que dor Oh que violência Oh que tormento Cada palavra do evangelista é uma profunda ponderação desta força e desta repugnância É possível que hão de ficar no mundo os homens que hão de ficar no mundo os meus Suos qui erant in mundo É possível que eu me hei de aportar para sempre deste mundo onde os vim buscar Ut transeat ex hoc mundo Ex hoc mundo Oh que terrível aportamento Hora ejus Oh que terrível hora Infinem Oh que terrível fim Ut transeat Oh que terrível transe Assim aportado ou arrancado Cristo dos discípulos começa a orar ao Padre Pater si possibile est transeat a me calix iste Mt 2639 Eterno Pai se é possível passe de mim este cálix Tornemos agora ao Calvário ou torne o Calvário ao Horto Pregado Cristo no duro madeiro da cruz e já vizinho à morte Sciens quia omnia consummata sunt dixit sitio Jo 1928 Vendo que todos os tormentos se tinham acabado disse Tenho sede Sede agora Senhor meu Sois outro ou o mesmo Reparai que estes ecos do monte não respondem bem aos clamores do vale No Horto repugnáveis com tantas instâncias o cálix Transeat a me calix iste e agora no Calvário depois de ter bebido todas as amarguras dele publicais a vozes que tendes sede de mais Sitio Sim Porque o cálix do Calvário era um o cálix do Horto era outro Calix iste este este e não aquele Ora vede S João Crisóstomo S Cirilo Eutímio e outros Padres entendem do cálix da paixão e morte de Cristo aquele famoso texto do Salmo setenta e quatro Calix in manu Domini et inclinavit ex hoc in hoc Estava o cálix na mão do Senhor diz Davi e lançou de um no outro Se era cálix Calix in manu Domini era um se lançou de um no outro Incuinavit ex hoc in hoc eram dois Que cálices eram logo estes na morte e paixão de Cristo tão unidos que compunham um só cálix e tão distintos que se dividiam em dois Era a mesma morte diversamente considerada como o Senhor a considerava no Horto e no Calvário Toda a morte é justamente morte e ausência é morte porque nos tira a vida é ausência porque nos aporta para sempre daqueles que neste mundo amamos E estes são os dois cálices que Cristo distinguia no mesmo cálix fazendo grande diferença entre a sua morte enquanto morte e a mesma morte enquanto ausência Enquanto morte era o cálix do Calvário onde deu a vida enquanto ausência era o cálix do Horto onde se aportou dos seus E este e não aquele era o cálix que seu amor recusava quando disse Transeat a me calix iste Prova Sim que me não empenhara eu em tal pensamento sem ela e muito forte Primeiramente assim o entendeu S Basílio de Selêucia quando disse Ut ascensum praepediat Christus passionem subbit illubens19 Mas eu o provo do mesmo texto Calix iste Aquele iste é distintivo é demonstrativo e é relativo Enquanto distintivo distingue um cálix do outro enquanto demonstrativo demonstra cálix presente e não futuro enquanto relativo referese ao que ficava dito imediatamente antes E que é o que dizem imediatamente antes os evangelistas Todos referem o sentimento de Cristo naquele passo e a repugnância e violência excessiva com que se aportava dos discípulos S Lucas Avulsus est ab eis et positis genibus orabat dicens Pater si vis transfer calicem istum a me20 S Mateus Sustinete hic et vigilate mecum et progressus pusillum procidit in faciem suam orans et dicens Pater mi si possibile est transeat a me calix iste21 Assim que a ação ou sentimento atual sobre que caiu o transeat a me calix iste era a dor a dificuldade a repugnância a violência com que o Senhor se aportava ou provava a se aportar dos discípulos logo este mesmo aportamento e a apreensão dele tão presente tão viva e tão rigorosa era o cálix que o seu amor e o seu coração tanto recusava Confirmase admiravelmente do mesmo texto porque dele consta que três vezes no mesmo tempo e no mesmo Horto se aportou o Senhor dos discípulos e três vezes imediatamente tanto que se aportava repetia a mesma petição Assim o pondera S Mateus A primeira vez no texto que acabamos de referir a segunda Secundo abiit et oravit dicens Pater mi si non potest hic calix transire e a terceira Iterum abiit et oravit tertio eundem sermonem dicens22 Em suma que a cada novo aportamento se seguia nova resistência a cada novo aportamento nova instância a cada novo aportamento nova apelação do cálix Logo este era e não outro E verdadeiramente que se o mesmo aportamento não fora o cálix ou a matéria dele nunca os evangelistas se puseram ao descrever e encarecer com tão particulares e miúdas advertências O avulsus est ab eis de S Lucas já o ponderamos O progressus pusillum de S Mateus não é digno de menor ponderação e piedade Diz o evangelista que se aportou o Senhor pusillum um pequenino Vede a dificuldade vede o tento vede o receio com que se aportara Pusillum um pequenino Não contava os passos mas media e pesava os indivisíveis porque em cada um se dividia Pusillum um pequenino Como quem tocava o cálix para provar se o poderia beber e não se atrevendo a o levar parava e não ia por diante E como este aportamento mínimo era tão violento para o coração de Cristo e lhe parecia coisa impossível o poderse aportar de todo por isso intentava impossíveis pelo estorvar e abraçado com a terra clamava Pater si possibile est transeat a me calix iste Este este e não aquele este do Horto e não aquele do Calvário este da ausência e não aquele da morte este do aportamento e não aquele da Cruz Assim como eram dois os cálices assim também eram duas as sedes mas muito contrárias na Cruz a sede de padecer por nós no Horto a sede de estar conosco Mas como a morte podia matar aquela sede e estoutra sede com a morte crescia mais por isso no Calvário dizia Sitio e no Horto repugnava o cálix Transeal a me calix iste E que se seguiu a esta repugnância tão estranha Que se seguiu a esta violência tão violenta Et factus in agonia Lc 2244 ali mesmo começou o Senhor a entrar em agonia Cristo em agonia Cristo agonizante no Horto Acuda por si a morte A agonia e o agonizar é ação ansiosa e acidente terrível próprio da morte mas Cristo na morte não agonizou Vede como expirou placidamente Inclinato capite tradidit spiritum23 Pois se Cristo não agoniza na Cruz se não agoniza no Calvário como agoniza no Horto Porque no Calvário morria no Horto ausentavase no Calvário dividiase de si no Horto dividiase de nós e esta era a sua agonia Por isso no Calvário passou pelo artigo da morte sem agonizar e no Horto quando entrou em artigos da ausência então agonizou Et factus in agonia Morreu Cristo enquanto homem e ausentouse enquanto homem mas nem morreu como os homens morrem nem se ausentou como os homens se ausentam porque não amava como os homens amam Morreu e ausentouse mas com os acidentes trocados morreu como se se ausentara sem agonizar ausentouse como se morrera agonizando Oh que amor Oh que fineza Oh que extremo A ausência agonizante e a morte sem agonia Agora se entenderá o que Cristo lançou de um cálix no outro cálix quando inclinou um no outro Inclinavit ex hoc in hoc Um cálix como dissemos era o da morte o outro era o da ausência e como o cálix da ausência era muito mais amargo para o seu coração e muito mais terrível que o da morte para que constasse aos homens quanto menos fazia em morrer por eles que em aportar e ausentar deles que fez Todas as agonias e ânsias que naturalmente havia de padecer na morte verteuas do cálix da morte e passou ao cálix da ausência Na morte segundo as leis do amor da vida havia Cristo de padecer todo aquele tropel de penas toda aquela tormenta de aflições todo aquele combate ou conflito de angústias que padecem e mais na idade robusta aqueles que por isso se chamam agoni zantes e todas essas se passaram do cálix do Calvário ao do Horto porque no Horto se ausentava Assim o dizem os evangelistas falando expressamente daquele último aportamento Que padecem os homens no transe da morte Padecem agonias Et factus in agonia Padecem tristezas Tristis est anima mea Padecem tédios e temores Caepit pavere et taedere24 De sorte que todas as aflições e angústias que se padecem na morte as traspassou o Senhor do cálix da morte e as refundiu no cálix da ausência E se a alguém porecer dificultoso que voltandose o cálix do Calvário sobre o cálix do Horto não levasse de mistura algumas portes de sangue essas foram aquelas gotas de sangue que no suor mais que mortal do Horto derramou a violência da mesma agonia Et factus est sudor ejus tanquam guttae sanguinis decurrentis in terram25 Confesse logo a morte o testemunho de seus próprios despojos que muito mais sentiu Cristo o aportarse de nós que o morrer por nós e que se o morrer nos homens é a maior prova do amor em Cristo o ausentarse dos homens foi a maior fineza E para que nem a morte nem outrem por ela tenha que replicar contra esta amorosa verdade concluamos com uma justificação autêntica do secretário do mesmo amor que dentro e fora do coração de Cristo foi presente a tudo e acabemos por onde começamos Sciens Jesus quia venit hora ejus ut transeat ex hoc mundo Sabendo o Senhor Jesus que era chegada a hora de partir deste mundo Esta hora de que fala o evangelista era a hora da morte Assim o declarou o mesmo S João no capítulo sete falando desta mesma hora Nemo misit in illum manus quia nondum venerat hora ejus26 E no capítulo oitavo tornou a declarar o mesmo Et nemo apprehendit eum quia necdum venerat hora ejus27 Pois se esta hora era a hora de morrer o Senhor e dar a vida pelos homens por que não diz Sabendo que era chegada a hora de morrer senão Sabendo que era chegada a hora de se ausentar Se o intento do evangelista era encarecer o amor do fim In finem dilexit eos declare o fim do amor pelo fim da vida e diga que amou Cristo tanto aos homens que chegou a morrer por eles Mas para prova e encarecimento do amor calar o nome da morte e ostentar o da ausência e da portida Sim porque como S João tinha as chaves do coração de Cristo sabia o lugar que tinham nele estes dois afetos e o preço com que lá se avaliava um e outro extremo O preço da morte era muito alto porque pesava tanto como a vida mas o da ausência era muito mais subido porque pesava tanto como aqueles por quem se dava a vida Por isso diz que quando chegou a hora de partir então amou e não quando chegou a hora de morrer porque era muito mais dura para o coração de Cristo a mesma hora enquanto hora da ausência que enquanto hora da morte A hora da morte era um fim que acabava a vida a hora da ausência era o fim que consumava o amor Ut transeat ex hoc mundo influem dilexit eos Concluído temos logo não a pesar senão a prazer de Cristo morto de Cristo sacramentado e de Cristo amante que o chegar a aportarse dos homens por amor dos homens foi o último e mais subido extremo com que os amou Cum dilexisset suos in finem dilexit eos VI Obrigações de nosso amor Propósito final aportarse cada um de tudo o que o aporta de Cristo Oração Tenho acabado fiéis o meu discurso e não sei se tendes também concluído o vosso Se me ouvistes com discurso se me ouvistes com a devida consideração com os mesmos argumentos com que ponderei os extremos do amor de Cristo devíeis vós também ter ponderado e conhecido as obrigações do vosso E que obrigações são essas Porventura porque o amor de Cristo chegou a nos deixar a nós por amor de nós obriganos este mesmo amor a que nós também deixemos a Cristo por amor de Cristo Se eu pregara noutro tempo e noutro lugar facilmente o inferira e persuadira assim A maior fineza que fez por Cristo aquela grande alma de S Paulo foi deixar a Cristo por amor de Cristo Cupio dissolvi et esse cum Christo manere autem necessarium proptervos28 Assim o fizeram saindo dos desertos os Arsênios e não saindo das cidades os Martinhos e em todas as idades e ainda na nossa tantos outros varões de extremado amor e zelo a quem a mitra era peso a vida tormento a morte desejo e só Cristo a ambição e a saudade Mas deixados àqueles heróicos espíritos o primor tão pouco imitado destas correspondências falemos com o desamor com a ingratidão e com o pouco juízo das nossas É possível que sinta tanto Cristo o aportarse de nós e que haja homens que não sintam o aportarse de Cristo antes tenham por gosto e por vida e ainda por felicidade o que os aporta dele Cristão ingrato e infeliz que há tantos anos vives tão aportado de Cristo que juízo é o teu neste dia do juízo do teu amor Cristo sente tanto aportarse de ti indo para o céu Ut transeat ex hoc mundo ad Patrem e tu sentes tão pouco aportarse de Cristo indo para o inferno Antes queres o inferno sem Cristo que o céu e a bem aventurança com Cristo Se como cristão não te lembras de Cristo ao menos como homem lembrate de ti Dizeme dizeme Fazes conta de te aportar alguma hora de tudo o que te aporta de tua salvação Se não fazes essa conta que tanto devias fazer não falo contigo porque nem és cristão nem homem nem tens fé nem tens juízo Mas se fazes conta como é certo que fazes e se tens propósitos como é certo que tens de alguma hora te converter a Cristo de alguma hora te chegar a Cristo de alguma hora te aportar de tudo o que te aporta de Cristo quando há de ser esta hora Esta é a hora cristão esta é a hora Sciens quia venit hora ejus Esta é a hora de acabar com o mundo Ut transeat ex hoc mundo Esta é a hora de romper as cadeias desse mau vicio qualquer que seja que tão preso te tem e tanto te tiraniza Esta é a hora de acabar de conhecer e te desenganar desse falso e enganoso amor Esta é a hora de abrir os olhos a esse amor cego Esta é a hora de reformar esse amor escandaloso Esta é a hora de purificar esse amor impuro e de o pôr todo em Cristo Aproveitemonos cristãos desta hora pois não sabemos se teremos outra hora Aproveitemonos torno a dizer desta hora pois não sabemos se teremos outra Ah Senhor como se há de converter noutra hora quem se não converte a vós nessa hora vossa Como vos há de amar noutra hora quem vos não ama nesta hora de vosso amor Por reverência desta hora por honra e glória desta hora por amor do amor desta hora que triunfe nesta hora vosso poderoso amor desta dureza tão dura de nossos corações Não permitais Senhor por vossa bondade que saia deste cenáculo nesta hora vossa algum coração que não seja vosso Basta um Judas basta um ingrato basta um inimigo basta um traidor Oh triste alma Oh miserável alma Oh desventurada alma Oh alma que melhor te fora não ser criada e que nesta hora se não rende ao amor de Cristo Amoroso Jesus todos nesta hora estamos rendidos ao vosso amor Todos nesta hora e desde esta hora vos queremos amar de todo nosso coração Só a vós Senhor só a vós só a vós queremos amar para nunca mais vos ofender só a vós queremos amar para nunca mais vos ser ingratos só a vós queremos amar para nunca mais nos aportarmos de vós só a vós queremos amar para desta hora em diante nos aportarmos para sempre de tudo o que aporta de vosso amor Seja esta hora o fim de todo o amor que não é vosso e seja o princípio de vos amarmos sem fim assim como vós sem fim nos amastes Infinem dilexit eos SERMÃO DA BULA DA S CRUZADA NA CATEDRAL DE LISBOA ANO DE 1647 Unus militum lancea latus ejus aperuit et continuo exivit sanguis et aqua1 I Do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja A escritura de nossos pecados e a nova escritura de graças a bula do Papa Inocêncio Décimo Razão pela qual um soldado é quem deveria franquear com a lança os tesouros do lado de Cristo Como do lado do primeiro Adão dormindo foi formada Eva assim do lado do segundo Adão morto se formou a Igreja Daquele lado ferido saíram e manaram os sacramentos e daquele lado aberto se derramaram os tesouros das graças com que o mundo depois de remido se enriquece Mas se bem todas as graças da Igreja se representam admiravelmente na história deste mistério reparando eu com atenção em todas as circunstâncias dele ainda acho com maior propriedade as da Bula da Santa Cruzada que hoje se concedem e publicam solenemente ao Reino e Reinos de Portugal Saíram estas graças do lado de Cristo não antes nem depois senão quando estava pregado na Cruz porque da Cruz trouxeram o merecimento e da Cruz tomou a mesma Bula o nome que por isso se chama da Cruzada Saíram em figura de sangue e água Exivit sanguis et aqua de água para apagar o que estava escrito e de sangue para se escrever de novo o que naquele sagrado papel se lê Diz S Paulo que Cristo morrendo apagou a escritura de nossos pecados e que assim apagada a pregou na sua Cruz Delens quod contra nos erat chirographum et ipsum tulit de medio affigens illud cruci2 Mas se Cristo então apagou uma escritura e a fixou na Cruz para o remédio hoje escreve outra escritura e fixa nela a mesma cruz para o efeito Isto é o que significa aquela cruz e isto o que contém aquela escritura tudo graça e tudo graças Vejo porém que me estão perguntando todos e com razão se estes tesouros e graças manaram do lado de Cristo aberto como os abriu não outrem senão um soldado Unus militum lancea latus ejus aperuit Esta é a maior circunstância da história e a mais viva energia do mistério O princípio e primeira instituição da Bula da Cruzada foi em tempo do Concílio Lateranense quando se concederam estas graças e indulgências a todos os que tomando a insígnia da cruz se alistassem por soldados para a conquista da Terra Santa E como elas foram concedidas não a outros senão aos soldadas daquela sagrada empresa por isso com a mesma propriedade não outrem senão um soldado foi o que abriu o lado de Cristo Unus militum Mas não porou aqui o mistério como também não pararam aqui as graças O motivo que teve primeiro o Papa Gregório Décimo Tércio e depois seus sucessores e hoje o Santíssimo Padre Inocêncio Décimo Nosso Senhor para conceder as mesmas indulgências da Cruzada aos Reinos de Portugal foi como se contém na mesma bula o subsidio dos nossos soldados da África que armados sempre e em velas naquelas fronteiras defendem as portas de Espanha e da Cristandade contra a invasão dos mouros E como os soldados da África propriamente são soldados de lança e os cavaleiros que lá servem servem ou com uma ou com muitas lanças para cumprimento e realce do mistério em toda a sua propriedade o soldado que abriu o lado de Cristo e franqueou os tesouros das mesmas graças não foi só nem devia ser de qualquer modo soldado senão soldado de lança e com lança Lancea latus ejus aperuit Temos declarado o tema e proposta a matéria em comum Para descer aos porticulares dela publicando as graças da Santa Bula e descobrindo um por um os inestimáveis tesouros que nelas se encerram o mesmo tema nos dará o discurso Em todo ele não seguirei outra ordem nem outra divisão que as das mesmas palavras Ave Maria II Unus As graças dos reis da terra dependem de muitos as do rei do céu dependem de um só Como aconteceu a Davi com Saul nos despachos dos reis da terra mais custa o requerimento que o merecimento O leproso do Evangelho e o Príncipe dos Sacerdotes Na Bula da Cruzada cada um pode eleger o confessor de que mais se contentar mesmo que seja estrangeiro e cego como Longuinhos Unus militum lancea latus ejus aperuit A primeira excelência que acho na Bula da Santa Cruzada é ser um o que abre estes tesouros do lado de Cristo Unus Se estas graças e indulgências dependeram de muitos para mim quase deixaram de ser graças Esta é a grande diferença que há entre as graças e mercês dos reis da terra e as do Rei do céu As graças dos reis da terra sendo por merecimentos nossos dependem de muitos ministros as do Rei do céu sendo por merecimentos seus dependem de um só Unus Antes de Davi entrar em desafio com o gigante perguntou que prêmio se havia de dar a quem tirasse do mundo aquele opróbrio de Israel 1 Rs 1723 E foilhe respondida que o rei lhe havia de dar sua própria filha em casamento 1 Rs 17 25 Saiu Davi a campa matou o filisteu mas quando aos aplausos da famosa vitória porece que se haviam de seguir logo as bodas nada menos lhe passava pelo pensamento a Saul Puxava Davi pela palavra real requeria o prêmio não arbitrário senão certo de um tão singular e notório serviço e a resposta por muito tempo como se costuma eram dilações e palavras frívolas 1 Rs 18 25 Finalmente mandoulhe responder o rei que se queria com efeito a satisfação que se lhe prometera matasse mais um cento de filisteus Servi lá arriscaivos lá e fiaivos de promessas e mercês de homens De maneira que para Davi merecer a mercê bastoulhe pelejar e vencer um filisteu e para fazer a mercê efetiva foilhe necessário pelejar e vencer um cento de filisteus Isto é o que vos acontece em todas as promessas e despachos dos reis da terra Muito mais custa o requerimento que o merecimento Para o merecimento basta batalhar com um inimigo para o requerimento é necessário batalhar com um cento de ministros que as mais vezes não são amigos Para render o filisteu de Davi bastou uma pedra para render estes filisteus tão estirados tão sombrios tão armados não basta uma pedreira nem muitas pedreiras e se alguns se rendem com pedras não são os do rio Mas quando não foram tão duros e tão dificultosos bastava serem tantos Esta é pois a primeira graça que Deus nas faz na Bula da Santa Cruzada Tantas enchentes de mercês tantos tesouros de misericórdias e favores e todos despachados por um só ministro um confessor Para as mercês dos reis da terra que não importam nada tantas papeladas e tantas ministros para as graças do Rei do céu que importam tudo uma só folha de papel e um só ministro uma Bula e um sacerdote Unus Mas porque para tirar toda a dificuldade e repugnância não basta só ser o ministro um se for certo e determinado concedevos mais a bula que este um seja à vossa eleição aquele que vós escolherdes Esta é a maior circunstância de graça que se encerra nesta graça Quando Cristo sarou aquele leproso do Evangelho mandoulhe segundo o texto de S Marcos que se fosse presentar ao Príncipe dos Sacerdotes Vade ostende te Principi Sacerdotum3 Contra este mandado está que a lei universal do Levítico como consta do capítulo treze só obrigava aos leprosos que se manifestassem a qualquer sacerdote aos quais pertencia julgar da lepra Lev 131 Pois se qualquer sacerdote ordinário podia conhecer da lepra porque manda Cristo a este leproso que nomeadamente se presente ao Príncipe dos Sacerdotes Respondem os expositores que antigamente assim era mas que esta lei geral se tinha restringido depois e estava reservada a caso da lepra ao conhecimento e juíz do Príncipe dos Sacerdotes somente E por isso Cristo mandou o leproso não a outra sacerdote senão ao Príncipe Principi Sacerdotum O mesmo passa hoje nos casos e pecados reservados de que não podem absolver os sacerdotes ordinários e só pertence a absolução ao prelado de toda a diocese e talvez ao príncipe supremo de toda a Igreja E posto que semelhantes reservações sejam muito justas e necessárias para refrear a temeridade não há dúvida que também são ocasionadas para precipitar a fraqueza Que haja um homem de descobrir a sua lepra e manifestar a sua miséria de que só Deus é sabedor não só a outro homem como ele senão determinadamente a tal homem Grave e dificultosa pensão E muito mais quando pela distância dos lugares se acrescenta o trabalho e a despesa e pela grandeza e dignidade da pessoa se faz maior a repugnância o pejo e o horror É verdade que os meios da salvação se hão de procurar e aceitar de qualquer mão ainda que seja a mais aborrecida e repugnante Salutem ex inimicis nostris et de manu omnium qui oderunt nos4 Mas ainda mal porque é tal a fraqueza e pusilanimidade humana que estão ardendo muitos no inferno não por não confessar seus pecados senão pelos não confessar a tal homem sem reparar que no dia do juízo hão de ser manifestos todos a todos os homens A este inconveniente porém acode hoje a misericórdia divina e a benignidade do Sumo Pastor por meio da Santa Cruzada concedendo a todos os que a tomarem faculdade de eleger cada um o confessor aprovado de que mais se contentar e satisfizer Por isso o ministro que abriu o lado se não nomeia no texto e só se diz que era unus militum um indeterminadamente E posto que da História Eclesiástica conste que foi Longino ou como o vulgo lhe chama Longuinhos neste mesmo homem concorriam duas circunstâncias dignas de grande reporo para o nosso caso Era Langino estrangeiro e cego Estrangeiro porque sendo romano servia nos presídios de Jerusalém cego porque como afirma S Gregório Nazianzeno de ambos os olhos não via5 E por que quis Cristo que lhe abrisse o lado e fosse o dispensador destas graças um estrangeiro e cego Para tirar toda a ocasião e escusa ao pejo e repugnância humana Tendes pejo de manifestar a vossa miséria tendes repugnância de descobrir o vosso pecado O remédio está na vossa eleição buscai um estrangeiro que vos não conheça buscai um cego que vos não veja Unus militum Passemos à segunda palavra III Militum O descaminho dos soldos O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem se dá senão em que se dê para que eles a comam Abraão e os anjos peregrinos Judas e as esmolas dos discípulos de Cristo Militum Sobre esta palavra saldados a primeira coisa que ocorre é o soldo E este se paga pontualmente e se despende todo com os nossos soldados cavaleiras da África tão beneméritos da fé e da Igreja esse é o fim para que os Sumos Pontífices concederam o subsídio da bula Da pureza das mãos em que se recebe nunca houve nem pode haver dúvida Mas como passa por tantas outras e há tanta mar e sumidouros em meio não sei se poderá ser justificada a queixa comum É certo que nos escritores da África sem serem Tertulianos nem Agastinhos se lêem de tempos passados graves lamentações deste descaminho O dinheiro santo da bula que cá se recolhe em vinténs dizem que torna de lá em meticais e que a muita fome que de cá se leva é a causa da que lá se padece Mas isto toca a quem toca O que a mim me pertence é desfazer este escrúpulo e assegurar a todos os que tomam a bula que ainda que o dinheiro da esmola se desencaminhe e os saldados da África os não comam sempre as graças concedidas se ganham com infalível certeza No dia do juízo dirá Cristo Venite benedicti Patris mei esurivi enim et dedistis mihi manducare Mt 25 35 Vinde benditos de meu Padre porque tive fome e me destes de comer Notai muito aquele porque Não diz Porque comi o que me destes senão Porque me destes de comer Aqui está o ser da obra O merecimento da esmola não consiste em que o comam aqueles para quem a dais senão em que vós a deis para que eles a comam E isto é a que se verifica na esmola da bula em qualquer acontecimento Pode acontecer que a não comam nem se sustentem com ela os soldados para que está aplicada E pode também acontecer que em porte não haja tais saldados porque há praças fantásticas Mas ainda que a praça e o soldado seja fantástico a esmola que se dá para seu sustento sempre é verdadeira e o merecimento certo Grande exemplo na História Sagrada Vieram à casa de Abraão três anjos em figura de peregrinos e diz o texto que Abraão os hospedou e lhes pôs a mesa e os tratou com grande agasalho e regalo Gên 42 Agora pergunta Aqueles anjos comeram verdadeiramente o que lhes deu Abraão Claro está que não porque os anjos não comem e aqueles corpos com que aporeceram eram corpos fantásticos Contudo diz o mesmo texto que Deus pagou esta obra a Abraão muito de contado e lhe fez grandes mercês por ela como foi o do filho Isac e outras Gên 1518 Pois por uma obra que se fez a homens fantásticos a homens que não havia tais homens no mundo e pelo comer que se lhes deu o qual eles não comeram nem podiam comer faz Deus tantas graças e tantas mercês a Abraão Sim Porque ainda que os homens eram fantásticos a esmola era verdadeira e ainda que eles não comeram o que lhes deu Abraão Abraão deuo para que eles comessem A esmola da Bula que dais para os saldados de África pode acontecer que eles a não comam ou porque alguns as não há ou porque fica cá o dinheiro ou porque se lá vai eles como dizeis ficam anjos mas como Deus só respeita o merecimento da esmola e o fim dela ainda que os homens a divirtam e desencaminhem o paga que naquela escritura se vos promete sempre está segura Tenho notado a este propósito um lanço da providência e governo de Cristo que sempre me admirou muito e deve admirar a todos Cristo e seus discípulos como não possuíam nada deste mundo viviam das esmolas com que a devoção dos fiéis socorria o Sagrado Colégio Para receber estas esmolas e as despender e distribuir houve o Senhor de eleger um deles Jo 12 6 e quem se não admirara e pasmara de que este eleito fosse Judas Senhor daime licença Vós não conheceis muito bem a Judas Sim conheço Não sabeis que é ladrão e que há de furtar Sim sei Estas esmolas que lhe entregais e fiais dele não são para sustento dos outros discípulos que vos servem e que hão de defender com a vida vossa fé e vossa igreja Sim são Sobretudo a esmola não é aquela obra de caridade tão estimada de vós a que tendes prometido tantos prêmios tantas mercês tantas graças e a mesma bemaventurança Sim é Pois nas mãos de Judas meteis tudo isso para que ele se aproveite e os outros padeçam Para que ele coma e os outros morram de fome Não foi esse o fim de Cristo que Deus não favorece ladrões ainda que os permita Mas permitiu neste caso com alta providência que as esmolas dadas para sustento dos que a serviam corressem por mãos de quem as havia de roubar para que constasse então e agora a toda sua Igreja que ainda que as esmolas se roubem e se desencaminhem e não se apliquem ao fim para que se dão apreço e merecimento delas e o prêmio que se promete a quem as dá sempre está seguro Neste contrato há duas pagas uma a paga dos soldados para quem dais a esmola que corre por mão dos homens e outra a paga da mesma esmola que dais que corre pela mão de Deus A que corre por mão dos homens pode faltar aos soldados a que corre por mão de Deus nunca vos pode faltar a vós Os soldados não serão pagos vós sempre sois pago Satisfeito este escrúpulo vulgar respondamos a outra de mais bem fundada objeção a que nos chama o texto IV Lancea As lanças dos soldados da África e os tesouros da Igreja O Papa tesoureiro da monarquia de Cristo Como Cristo atribui seus milagres não à própria onipotência senão à fé dos que os recebem assim atribuímos os benefícios da Bula mais à lança dos soldados que às Chaves de Pedro Nas leis da terra dãose os prêmios só a quem milita e serve nas leis do céu têm o mesmo prêmio tanto o que milita e serve como o que o sustenta Lanceu Assim como a lança do soldado do Calvário foi a que abriu o lado de Cristo assim dissemos que as lanças dos nossos soldados de África são as que abrirão e abrem os tesouros da Igreja que se nos concedem na Bula Mas esta aplicação ou modo de dizer porece que se encontra com a propriedade e verdade do que cremos neste mesmo ponto É verdade católica de nossa santa fé romana que quem abre e só pode abrir os tesouros espirituais da Igreja são as chaves de S Pedro logo mal o atribuímos às lanças dos nossos soldados Direi Para abrir estes sagrados tesouros necessariamente concorrem duas coisas da porte de quem os concede que é o Papa o poder e da porte de quem os recebe que somos nós a justa causa Mas de tal sorte dependem desta justa causa as mesmas graças concedidas que sem elas seriam totalmente inválidas e de nenhum efeito A razão disto é como está decidido em muitos cânones porque o Pontífice não é senhor dos bens espirituais da Igreja senão despenseiro e como tal só os pode despender racionavelmente e com causa justa De outra maneira seria a monarquia espiritual de Cristo tão malgovernada como são os temparais de muitos príncipes Por isso vemos tantos tesouros mais esperdiçados que reportidos e tantas graças e mercês imódicas concedidas sem nenhuma causa e muitas vezes com a contrária Digamno as prodigalidades de elrei Assuero com o seu mau valido Amã Est 3 1 E no mesmo tempo o fiel Mardoqueu benemérito de tantos serviços feitos à coroa e à pessoa do mesmo rei pregado manhã e tarde aos postes de palácio subindo e descendo aquelas cansadas escadas sem haver quem pusesse nele os olhos salvo o mesmo Amã para o destruir Não assim os tesouros da monarquia de Cristo de que tem as chaves o seu Vigário Eles só os pode despender sim mas só com justa causa E como a justa causa das graças que se nos concedem na bula é a defensa dos lugares e fortalezas da África os quais os nossos soldados sustentam contra a invasão e forças de toda a barbaria por isso a abertura das mesmas graças se artibui justamente às suas lanças Vede se falo conforme a doutrina e leis do Senhor e autor da mesma Igreja Quando Cristo concedia perdão de pecados ou dava saúde milagrosa aos enfermos tudo atribuía comumente à fé dos que o recebiam À Madalena Fides tua te salvam fecit6 à cananéia O mulier magna est fides tua 7 ao centurião Sicut credidisti fiat tibi8 ao pai do surdo e mudo Omnia possibilia sunt credenti9 E assim a outros muitos Mas porque razão Essas obras sobrenaturais Senhor e essas mercês extraordinárias ou da graça ou da saúde não são todas efeito da vossa onipotência São Pois porque as não atribuis à mesma onipotência que as obra senão à fé dos que as recebem Porque segundo a regra geral da Providência de Cristo queria o Senhor que assentassem estas mercês e graças que fazia sobre o merecimento da fé dos que as logravam E como para as mesmas graças concorriam duas causas uma eficiente que era a onipotência e outra meritória que era a fé atribuise o efeito à meritória e não à eficiente porque a eficiente naquela suposição dependia da meritória O mesmo passa no nosso caso O poder de abrir os tesouros da Igreja está nas chaves de S Pedro mas elas os não podem abrir validamente senão com justa causa e toda a justa causa das graças que se nos concedem na bula é a conservação das praças católicas que os nossos soldados e cavaleiros da África defendem às lançadas por isso sem ofensa do poder das chaves que reconhecemos não atribuímos os efeitos delas às mesmas cha ves quanto às lanças Lancea tatus ejus aperuit Mas veja que voltais contra mim a mesma lança e me argüis com a minha mesma razão Se a causa das indulgências que se concedem na bula é a defensa dos lugares da África e daquelas muralhas da Cristandade com que impedimos os passos aos infiéis e pomos freio ao orgulho e fúria de seus exércitos será justa e justíssima causa para os soldados e cavaleiros que com as armas às costas vigiando de noite e pelejando de dia defendem às lançadas e com o sangue e as vidas as mesmas muralhas Mas para nós que estamos em Portugal muito seguros e descansados sem vigiar nem acudir a rebate nem ver mouro nem empunhar lança que só com a contribuição de uma esmola tão tênue tenhamos justa causa de se nos concederem as mesmas graças Parece que não pode ser Prova se com a experiência das nossas fronteiras Para os soldados que nelas militam e as defendem todos pagamos a décima mas quando vêm ao requerimento das mercês só os soldados e capitães as pedem e as recebem os demais ainda que os sustentem com os seus tributos nem recebem nem pedem nem esperam mercê por isso Não é assim Assim é e assim havia de ser se Deus fora como os homens e o Rei do céu como os da terra Nas leis da terra dãose os prêmios ao que milita e serve mas não a quem o sustenta nas leis do céu aquele que milita e serve e mais aquele que o sustenta todos têm o mesmo prêmio Lei expressa do Evangelho promulgada por Cristo Qui recipit prophetam in nomine prophetae mercedem prophetae accipiet qui recipit justum in nomine justi mercedem justi accipiet10 Eu diz Cristo mando meus pregadores que são os meus soldados a conquistar o mundo e pelejar contra os infiéis mas porque eu lhes não dou sustento nem soldo com que o comprar saibam todos que a mercê que lhes tenho tachado a eles por me servirem a mesma hei de fazer aos que os sustentarem Mercedem prophetae mercedem justi accipiet Pode haver texto mais claro e promessa mais infalível Pois isto é o que se nos promete naquela escritura fundada na mesma lei da munificência divina Os soldados e cavaleiros da África passam o mar mudam o clima e deixam a pátria vós ficais nela eles vigiam nas atalaias vós dormis eles defendem as tranqueiras saem ao campo andam às lançadas com os b V Latus ejus Não há graças mais dificultosas e duras de conseguir que as que dependem dos lados dos reis O lado de Cristo ajuntou em si mas para nós tudo o que sobejou a Christo os sacramentos A costa de Adão e a formação da Igreja Latus ejus Se esta segunda palavra não limitara ou ampliara a primeira grande oposição se nos oferecia nela contra tudo o que temos dito e nas resta por dizer Cristo na cruz estava com título e representação de rei mas não de rei universal que era de todo o mundo senão de rei porticular de uma nação Rex judeorum E não há graças mais dificultosas e duras de conseguir que as que dependem dos lados dos reis Latus ejus Olhemos bem para esta figura exterior e veremos nela uma imagem natural do que os vassalos têm nos reis e do que padecem com os lados Primeiramente no estado em que Cristo se achava na cruz tudo o que pertencia ao rei estava feito só o que corria por conta do lado estava por fazer O que houve de fazer o rei era pedir perdão pelos inimigos e já estava pedido era dar o paraíso ao ladrão penitente ejá estava dado era entregar o discípulo à Mãe e a Mãe ao discípulo e já estavam entregues era beber ou gostar o fel e já estava gostado era principalmente remir o mundo e já estava remido Enfim tudo o que tocava ao rei estava feito Consummatum est Jo 19 30 Ao lado pertencia dar os sacramentos e só isso estava por fazer O rei estava patente a todos com quatro portas abertas duas para os inferiores nos pés e duas para os mais altos nas mãos e os lados no mesmo tempo estavam fechados por uma e por outra porte sem haver por onde entrar nem penetrar a eles O corpo estava ferido e lastimado e só os lados sãos e sem lesão alguma Nem chegaram lá os golpes dos açoites como às costas nem os carregou o peso da cruz como aos ombros nem os rasgava ou suspendia a dureza dos cravos como aos pés e mãos nem os molestava o estirado e desconjuntado dos membros como aos nervos e ossos nem os atenuava o vazio e exausto do sangue como às veias nem os amargava o fel como à boca e o que é mais que tudo nem os picavam os espinhos como à cabeça tendo tanto da coroa Finalmente o que excede toda a razão e toda a admiração é que estava junto e recolhido nos lados tudo o que faltava ao rei De duas coisas padeceu Cristo extrema falta no Calvário falta de sangue e falta de água Faltoulhe o sangue porque o tinha derramado ali e em tantas outras partes faltoulhe a água porque da mesma falta de sangue se seguiu aquela extraordinária sede que o obrigou a dizer Sitio11 É porém muito de notar que quando se abriu o lado do mesmo lado saiu sangue e água Exivit sanguis et aqua Pois se o rei padecia tanta falta de sangue e tanta falta de água como agora lhe sai do lado sangue e mais água Porque tudo o que falta aos reis está junto e recolhido nos lados Oh se houvesse não digo uma lança ou uma lançada senão uma chave mestra que abrisse estes lados como é certo que achariam neles junto os reis ou tudo ou grande porte do que lhes falta e que fazendo dois atos de justiça em um mesmo ato poderiam socorrer remediar e ainda enriquecer a muitos com o que não basta a poucos Estes são os lados dos reis mas não assim o lado de Cristo Passemos do exterior da alegoria ao interior da realidade Latus ejus Toda a diferença de lado a lados está na limitação do ejus dele de Cristo Os lados dos reis da terra dilatam porque não querem fazer o lado de Cristo dilatou para poder fazer mais do que estava feito Os lados dos reis estando todo o corpo chagado só eles se vêem sãos o lado de Cristo esteve são para ser ele o mais chagado antes a maior chaga de todas Os lados dos reis fechamse porque se não querem comunicar o lado de Cristo esperou fechado para se comunicar com maior abundância e para ficar sempre aberto Finalmente os lados dos reis ajuntam em si e para si tudo o que falta aos reis o lado de Cristo ajuntou em si mas para nós tudo o que sobejou a Cristo Notai muito O sangue de Cristo foi o preço de nossa redenção e como este preço era infinito porque uma só gota bastava para remir mil mundos tão infinito foi o que sobejou depois de remido como era infinito o que se despendeu para o remir E que se fez deste preço que sobejou Assim como do que se despendeu se pagou o resgate assim do que sobejou se fez um depósito E este depósito de preço e valor infinito são os tesouros da Igreja que misteriosamente estavam encerrados no lado de Cristo Daqui se entenderá a razão porque tendo o Senhor derramado tanto sangue até a morte ainda reservou no lado mais sangue para o derramar depois de morto E porque se no ponto da morte de Cristo ficou o mundo remido Porque o sangue derramado até a morte significava o preço necessário à redenção que se despendeu e o sangue que se derramou depois da morte significava o preço superabundante que sobejou Do que se despendeu na paixão como de resgate se remiu o mundo do que sobejou no lado como de depósito se formou e enriqueceu a Igreja Dormiente Adam fit Heva de latere mortua Christo peforatur latus ut supereffluant sacramenta unde formetur Ecclesia12 Assim como do lado de Adão diz Santo Agostinho se formou Eva assim do lado de Cristo saíram os sacramentos para que deles como de matéria superabundante se formasse a Igreja Isso quer dizer a palavra supereffluant que significa sair como coisa superabundante supérflua e que sobeja Falou Agostinho com tão grande lume da teologia porque estes são os próprios termos de que usam os teólogos quando falam do tesouro da Igreja que se compõe principalmente da satisfação infinita do sangue de Cristo que superabundou e sobejou do preço da redenção Thesaurus satisfactionum Christi supereffluentium13 diz com todos os doutores ortodoxos o Cardeal Belarmino E este é o tesouro donde a Igreja tira as graças e indulgências que concede e aplica aos fiéis para que satisfaçam à justiça divina pelas culpas ou penas de que lhe são devedores E se alguém desejar na semelhança de Santo Agostinho que também é de S Paulo Ef 532 a perfeita proporção da figura com o figurado e me perguntar como se verifica ou pode verificar do lado de Adão ser formada Eva não da porte ou matéria necessária senão da superabundante e supérflua eu o direi satisfazendo a esta e a outra grande dúvida Diz o texto sagrado que tirou Deus uma costa do lado de Adão e que desta costa formou a Eva mas duvidam e com muito fundamento os teólogos que costa de Adão foi esta porque se era uma das costas de que naturalmente se compõe o corpo humano seguese que o corpo de Adão ficou defeituoso e imperfeito o que se não deve admitir sendo Adão o primeiro homem e o modelo original de todos os homens que dele haviam de nascer E se o corpo de Adão ficou perfeito antes perfeitíssimo como era bem que fosse que costa foi esta sua de que Eva se formou Responde Santo Tomás que o corpo de Adão quando ao princípio foi criado tinha uma costa demais em um dos lados e que deste lado e desta costa que nele sobejava foi formada Eva14 Pois assim como no lado de Adão criou Deus uma porte superabundante e supérflua de que tirou a matéria necessária à formação de Eva assim no lado de Cristo depositou outra parte também superabundante e supérflua necessária à formação e reformação da Igreja que foi o que sobejou do preço infinito da redenção E estes são os tesouros das graças que hoje se nos concedem tirados do depósito infinito e inexausto do lado de Cristo aberto Latus ejus aperuit VI Aperuit Abriuse o lado de Cristo O livro fechado do Apocalipse excelente representação da Bula da Santa Cruzada Os sete selos do livro e os sete impedimentos à sua abertura pecados reservados excomunhões interditos votos enfermidades dívidas temporais aos homens e espirituais a Deus Universalidade das graças do lado de Cristo Aperuit Abriuse o lado de Cristo mas porque se podia abrir mais ou menos para que saibamos a largueza com que se abriu e quão imensos são os tesouros que dele se nos comunicam vejamo los patentes e declarados não por outro intérprete senão pela mesma bula Diz S João no princípio de seu Apocalipse que viu diante do trono de Deus um pergaminho escrito por dentro e por fora envolta e cerrado com sete selos Isto é o que ele chama livro porque assim eram e se chamavam os livros daquele tempo Desejava como profeta saber o que continha aquela escritura tão cerrada Apc 51 E diz que chorava muita por se não achar quem a abrisse Mas logo se chegou a ele um velho dos vinte e quatro anciãos que assistem ao trono de Deus o qual o consolou dizendo que o Leão da tribo de Judá tinha poder para abrir Então viu S João um cordeiro que estava em pé como morto o qual desfechando os sete selos abriu e estendeu o pergaminho e fez patente o que nele estava escrito Grande mistério verdadeiramente e grande e excelente representação ou figura da Bula da Santa Cruzada Primeiramente isto significam os selos que são os que dão autoridade à bula e dos mesmos selos pendentes é que ela tem e tomou o nome porque bula quer dizer selo Estava o pergaminho escrita por dentro e por fora porque as graças que contém a bula não só pertencem aos bens interiores e espirituais senão também aos temporais e exteriores e não só aos vivos que estamos neste mundo senão também aos defuntos que estão fora dele Não se achava quem abrisse o que ali estava fechado e publicasse o que estava escrito porque este poder é só de Cristo e do seu Vigário e por isso o velho que consolou S João como tem para si Lirana foi S Pedro Disse que a abriria o Leão da tribo de Judá que é Cristo o qual logo apareceu em figura de cordeiro em pé e como morto Agnum stantem tanquam occisum Apc 56 tudo com o mesmo mistério Em figura de cordeiro porque esta obra sendo de seu poder é muito mais de sua benignidade e misericórdia Em pé e como morto porque Cristo morreu na cruz não jazendo senão em pé e da cruz acresceu à bula o nome de Cruzada E finalmente não morto senão como morto porque correr sangue do lado de Cristo o que só acontece aos vivos foi ação de faculdade vital e vivificante como gravemente notou S Hipólito Ut ne ipsum corpus mortuum aliis simile apporeat nobis autem ea quae sunt vitae causa possit profundere15 Correu sangue do lado de Cristo morto diz este antiquíssimo Padre para que entendêssemos que o mesma lado ainda morto tinha potência de vivificar e que dele manavam todas as graças que nos haviam de dar vida Vamos agora metendo a mão neste sagrado lado aberto não como Tomé incrédulo mas fiel e abrindo os sete selos um por um como o mesmo cordeiro crucificado os abriu vejamos os divinos tesouros de graças que naquela larga escritura se nos prometem e comunicam Em uma alma ou consciência embaraçada podem geralmente concorrer sete impedimentos para não conseguir prontamente os meios de sua salvação pecados reservados excomunhões interditos votos enfermidades dívidas temporais aos homens e espirituais a Deus E todos estes impedimentos com poucas exceções em que me não possa deter e se contêm na mesma bula se nos tiram e facilitam por ela Achase carregada vossa alma não só com pecados mas com pecados de dificultosa absolução quais são os reservados Tomai a Bula da Santa Cruzada abri o primeiro selo Aperuit e ela dá poder ao confessor que elegerdes para vos absolver de todos por graves e enormes que sejam e não só reservados aos prelados ordinários mas à mesma Sé Apostólica Estais ligado com a gravíssima censura da excomunhão tendes horror como deveis ter de vós mesmo vendovos da comunicação dos fiéis Abri o segundo selo Aperuit e por graça e faculdade da mesma bula sereis absolto da excomunhão ou seja a jure ou ab homine e restituído ao antigo estado Fecharamsevos as portas da Igreja por estar interdita a paróquia a cidade ou reino onde viveis Nomeia desta tristeza e desconsolação pública abri o terceiro selo Aperuit e pelo privilégio que debaixo dele se vos concede não só podereis assistir privadamente aos divinos ofícios e receber os sacramentos mas se durante o interdito morrerdes gozareis de eclesiástica sepultura Fizestes votos com que vos obrigastes a Deus e aos santos mais do que o tempo as ocupações e a pouca devoção vos dão lugar Abri o quarto selo Aperuit e o confessor por virtude da bula volos comunicará de modo que facilmente os possais cumprir Sois enfermo ou achacado fazem vos dano à saúde os comeres quadragesimais Abri o quinto selo Aperuit e de conselho do médico e confessor não só na quaresma mas em todos os outros dias proibidos podereis comer licitamente o que julgardes conveniente à vossa fraqueza Adquiristes e possuís bens alheios não sabeis a quem os haveis de restituir porque ou foram adquiridos vagamente ou não aparece o dano não podeis restituir inteiramente por pobreza ou não quereis por avareza como é mais certo Abri o sexto selo Aperuit e a tudo vos dará a bula tão fácil remédio que com pouca despesa satisfaçais muita dívida Finalmente deveis a Deus as penas de vossos pecados que sois obrigado a pagar ou nesta ou na outra vida como as estão pagando os do purgatório dos quais igualmente vos compadeceis ou pelas obrigações do sangue ou pelas de cristão Abri o sétimo selo Aperuit e acharvoseis rico de tantas abundâncias de graças e indulgências que plenamente e plenissimamente possais satisfazer para vós e por todos os defuntos a quem se estender a vossa caridade Oh misericórdia do lado de Cristo Oh tesouros da Madre Igreja que dele se enriqueceu Ele tão infinito em lhos entregar e ela tão liberal em nolos repartir Agora entendereis a cláusula desta visão do Apocalipse Diz S João que quando o cordeiro abriu os sete selos daquela misteriosa escritura prostrados diante do seu trono lhe deram infinitas graças todos os que estavam no céu e na terra e debaixo da terra e no mar e debaixo do mar Et omnem creaturam quae in coelo est et super terram et quae in eo omnes audivi dicentes sedenti in throno et Agno Benedictio et honor et gloria E quem são estes que davam tantas graças a Deus e ao cordeiro que abriu os sete selos não só no céu senão na terra e no mar senão também debaixo da terra e debaixo do mar São todos aqueles que por diversos modos gozam os benefícios da bula Os do céu são os bemaventurados os da terra e do mar são os vivos os de debaixo da terra e debaixo do mar são os defuntos E todos davam graças a Deus e a Cristo morto pela abertura dos sete selos da Santa Cruzada porque bemaventurados vivos e defuntos todos por diverso modo lhe devem o maior benefício Os bem aventurados porque por meio da bula subiram direitos à glória Os vivos porque por meio da bula se restituem à graça Os defuntos e do purgatório porque por meio da bula se livram das penas Vede atém onde alcançam e se são grandes e universais para todos as graças daquele l rcês e graças não basta só estarem impetradas e concedidas nem basta terdes em vosso poder as portarias os alvarás e as provisões para que entre o dado e o efetivo entre a escritura e a posse entre o papel e o que ele diz não se atravessem muitos embaraços e muito tempo de esperas e ainda de desesperações com muita razão me perguntareis Estas graças e indulgências tão grandes que se nos concedem nas bula quando se alcançam Já pagamos a esmola já se escreveu o nosso nome na bula já temos em nosso poder mas o efeito ou o efetivo quando há de ser A palavra que se segue o diz Et continuo Logo sem dilação logo sem tardança logo verdadeiramente logo E digo verdadeiramente por que não cuide ou receie alguém que o logo da Santa Cruzada é como os logos dos vossos tribunais Não há palavra mais equivoca nem advérbio de mais duvidosa significação que o logo em matéria de despachos Apenas há remissão que não desça comum logo e quase não há consulta que não suba dois logos e alguma com três Mas estes logos quão são longos são quando tardam e quando duram Há logo de dois anos e de quatro e de dez e de toda a vida Estais despachado para a Índia sobem vossos papéis com três logos dispara a capitânea peça de leva cortamse as amarras embarcaivos e que vos sucede Estivestes parado muitos dias nas calmas Guiné destes volta ao Cabo de Boa Esperança invernastes em Moçambique passastes duas vezes a linha chegais finalmente a Goa a cabo de um ano e meio e os logos ainda não chegaram Se lá morrestes chegarão para o dia do juízo e se tornastes daí a oito ou dez anos ainda os logos estão lá em cima ou não há já memória donde estejam E isto é o que significavam aqueles logos Muitas vezes me pus a considerar que quer dizer logo Logo Porque se o primeiro logo significa logo o segundo que significação tem Parece que um logo sobre outro logo é como um não sobre outro não Um não sobre outro não quer dizer sim e um logo sobre outro logo muitas vezes quer dizer nunca e quase sempre tarde Isto porém se entende quando os logos são para remunerar e premiar beneméritos que quando são para os destruir e aniquilar um logo e dois e três todos voam Vedeo na tragédia do grande precursor de Cristo Fez elrei Herodes aquele solene convite ao dia dos seus anos saiu a dançar a filha de Herodias disselhe o rei que pedisse ainda que fosse a metade do seu reino E que pediu A cabeça do Batista com três logos Cunque introisset statim cum fesatinatione ad regem petivit dicens volo ut protinus des mihi in disco caput Joannis Baptistae16 Contai os logos e vede se foram três Statim logo cum festinatione logo protinus logo E foram os logos tão prontos e tão logos que logo entre os pratos da mesa apareceu em um deles a cabeça do maior dos nascidos Estes são os logos da justiça ou tirania do mundo Quatro significações todas formidáveis Para o bem um nunca para o mal três logos Statim cum festinatione protinus Só o logo da Santa Cruzada sendo para bem e para tão grandes bens verdadeiramente e com infalível certeza é logo Et continuo Para um logo não ser logo podemno impedir e retardar ou as distâncias do tempo ou as dos lugares Mas nem as distâncias do tempo ainda que sejam de muitos anos nem as distâncias dos lugares ainda que sejam de muitos centos de léguas podem impedir ou suspender o logo da Santa Cruzada para que não seja logo Vamos à mesma bula e ide comigo O jubileu do Ano Santo antigamente era de cem em cem anos e depois foi de cinqüenta em cinqüenta hoje é de vinte e cinco em vinte e cinco Mas esta mesma distância de tempo tão comprido se estreita e abrevia de tal modo por graça e privilégio da bula que sem esperar vinte e cinco anos nem dez nem dois nem um neste mesmo dia podeis ganhar o jubileu do Ano Santo e neste mesmo ano duas vezes Nas distâncias dos lugares ainda é mais maravilhoso este logo Et continuo Quereis ganhar as indulgências de São Tiago haveis de peregrinar cem léguas a Compostela Quereis fazer as estações de Roma e correr as sete igrejas dentro e fora dos muros haveis de peregrinar quinhentas léguas à Itália Quereis visitar a Santo Sepulcro o calvário o Monte Olivete a Casa Santa haveis de peregrinar mil léguas a Jerusalém Não são grandes distâncias de lugares estas Grandes por certo e ainda maiores se lhes ajuntarmos que haveis de passar por terras habitadas de infiéis e por mares infestados de infinitos corsários onde é mais certa a escravidão e o remo que os perdões e indulgências que ides buscar Mas para todos estes perigos eu vos darei um passaporte muito seguro e para todos estes caminhos um atalho muito breve Tomai a Bula da Santa Cruzada e sem sair de Lisboa fostes a Compostela fostes a Roma fostes a Jerusalém porque as graças que lá haveis de ir buscar aqui se vos concedem não diversas nem menores senão as mesmas Quereilas alcançar logo Visitai cinco igrejas Quereis mais logo Visitai na mesma igreja cinco altares Quereis mais logo Visitai o mesmo altar cinco vezes e sem vos bulir de um lugar fostes à Galiza fostes à Itália fostes à Palestina e vos achais rico de todos os tesouros de graças que tão longe se vão buscar com trabalho Mas ouço que me diz algum pobre Padre não são indulgências o que eu só quero maior mal e maior pena é a minha Fui tão desgraciado que incorri uma excomunhão da Bula da Ceia E quem me há de levar aos pés do Padre Santo e mais em tempo de tantas guerras Também cometi um pecado muito grave reservado ao meu bispo e agora não há bispos Além de que eu sou de uma aldeia de entre Douro e Minho e depois que faltou o santo frei Bartolomeu dos Mártires já os prelados não conhecem o meu lugar Assim que me vejo com o remédio quando menos mui dilatado a morte pode vir mais cedo não sei que há de ser de mim Quê Eu vos dou o remédio logo Tomai a Bula da Santa Cruzada elegei um confessor e logo tendes o bispo na vossa igreja e o Papa na vossa terra porque o confessor com uma bula na mão é bispo e é Papa Pode haver maior felicidade e maior brevidade que esta para os pecados para as censuras para as indulgências De maneira que sem a Bula da Cruzada haveis de ir buscar o Bispo e o Papa e com a bula o bispo e o Papa vêmvos buscar a vós Sem a bula havíeis de ir tão longe a Compostela a Roma a Jerusalém com a bula tendes Compostela tendes Roma tendes Jerusalém dentro de Lisboa Vede quanto vai deste sagrado tribunal aos outros Nos outros tribunais tratamse os negócios em Lisboa como se estiveram em Roma ou em Jerusalém neste tratamse e conseguemse os de Roma e de Jerusalém como se estiveram em Lisboa Em Lisboa digo mas não como em Lisboa porque o despacho e as graças não estão na mão dos ministros senão na vossa E se vos parece coisa dificultosa que naquela folha de papel como se fora um mapa do mundo se ajuntem lugares tão distantes e terras tão remotas como são Roma Jerusalém e Lisboa e que para se conseguirem tantos tesouros de graças se contente Deus e o seu Vigário com que vos ponhais de joelhos numa igreja respondeime a uma pergunta Quem é mais liberal Deus em dar ou o demônio em prometer Não há dúvida que Deus em dar Lembraivos agora do que fez o demônio e do que prometeu e do que pediu a Cristo na tentação do monte O que fez foi trazer ali todo o mundo o que prometeu foi a glória de todos os reinos o que pediu foi somente que se pusesse Cristo de joelhos diante dele Pois se o demônio trouxe todos os reinos do mundo a um monte porque não trará Deus por modo mais fácil Jerusalém Roma e as outras cidades santas à vossa E se o demônio prometeu todas as glórias daqueles reinos porque não prometerá Deus todas as graças daqueles lugares E se o demônio se contenta e não quer mais nem põe outra condição senão que se lhe ajoelhem porque se não contentará Deus com vos ver de joelhos diante de si contrito arrependido e arando Finalmente se o demônio fez tudo isto como diz o evangelista em um momento In momento Lc 45 porque o não fará Deus em um logo que seja logo Et continuo Mas já é tempo de concluirmos Vão juntas as duas últimas palavras VIII Exivit sanguis et aqua Por que do lado de Cristo morto saiu sangue e água O Mar Vermelho e o Jordão figuras do martírio e do batismo Vantagens da Bula sobre o martírio e o batismo A indulgência plenária batismo com repetição e martírio sem tormento Exivit sanguis et aqua Jerônimo que por testemunho da Igreja na interpretação das Sagradas Escrituras é o Máximo de todos os doutores declarando o mistério porque do lado de Cristo morto saiu sangue e água disse com singular propriedade que foi para significar no sangue o martírio e na água o batismo Latus Christi percutitur lancea et baptismi atque martyrii pariter sacramenta funduntur17 E por que razão mais o martírio e o batismo que algum dos outros sacramentos A razão deste pensamento não a deu S Jerônimo mas posto que seja altíssima não é dificultosa de entender Entre todos os sacramentos só o batismo e o martírio que também é batismo de tal modo purificam a alma e a absolvem de toda a culpa e pena que no mesmo ponto ao mártir por meio do sangue próprio e ao batizado por meio da água batismal se lhes abrem as portas do céu e se lhes franqueia a vista de Deus Esse foi o mistério com que ao soldado que abriu o lado tanto que dele saiu o sangue e água logo sendo cego se lhe abriram os olhos e viu ao mesmo Cristo que não podia ver E como o fim da encarnação do Verbo foi destruir o pecado reparar o estado da inocência e abrir e restituir ao homem o Paraíso perdido por isso o último ato da vida e morte de Cristo e a última cláusula com que cerrou a obra da Redenção foi tirar do sacrário de seu próprio peito aquelas duas chaves douradas do céu e darnos as duas prendas mais seguras de sua graça e glória que são no sangue a do martírio e na água a do batismo Baptismi atque martyrii poriter sacramenta funduntur Quando os filhos de Israel passaram do Egito à Terra de Promissão passaram pelo Mar Vermelho e pelo Rio Jordão mas por um e outro a pé enxuto E que Egito que Terra de Promissão que filhos de Israel que Mar Vermelho que Rio Jordão foi este O Egito é o mundo a Terra de Promissão é a glória os filhos de Israel são os fiéis o Mar Vermelho é o martírio o Rio Jordão é o batismo e passaram por um e outra milagrosamente a pé enxuto porque só pelo Mar Vermelho do martírio e só pelo Rio Jordão do batismo se pode passar à glória a pé enxuto isto é sem tocar as penas do purgatório Mas com isto ser assim debaixo das mesmas figurações de martírio e Batismo acho eu que ainda nos deu mais o lado de Cristo e foi mais liberal conosco nas graças da Santa Cruzada Comparado o martírio com o Batismo não tem conhecida vantagem ambos se excedem um ao outro e ambos são excedidos O batismo como é sacramento do princípio da vida deixanos capazes de merecer mas também capazes de pecar O martírio como se consuma com a morte e acaba a vida deixanos incapazes de pecar mas também incapazes de merecer E nesta vantagem recíproca com que o martírio e o batismo se excedem e são excedidos só poderá resolver qual é maior graça quem primeiro averiguar se é melhor o merecimento com perigo ou a segurança sem merecimento tão iguais ou problemáticas são as prerrogativas do batismo e do martírio comparados entre si Mas comparados com as graças da Santa Cruzada não há dúvida que a indulgência e indulgências plenárias que tão facilmente e por tantos modos se nos concedem nela ainda têm circunstâncias de vantagem com que não só igualam mas excedem ao mesmo batismo e ao mesmo martírio Igualam o batismo e o martírio porque se o batismo e o martírio purificam e livram a alma de toda a culpa e pena o mesmo faz a indulgência plenária verdadeiramente ganhada E excedem o mesmo batismo e o mesmo martírio porque a indulgência plenária é como o martírio mas como martírio sem tormento e é como o batismo mas como batismo com repetição Ora vede O martírio como lhe chama a Igreja é um compêndio ou atalho brevíssimo do caminho da glória porque o mártir sem dar mais que um passo com um pé na terra e outro no céu entra da morte à bem aventurança Por aquela morte se lhe não pede conta da vida por aquela pena se lhe perdoam todas as penas que devia por seus pecados E posto que tivesse sido o maior pecador no mesmo ponto fica santo Grande felicidade por certo e muito para desejar Mas os mártires que assim passaram ao céu por onde passaram Uns por cruzes outros por grelhas outros por rodas de navalhas outros pelas unhas e dentes das feras e todos por tantos e tão atrozes tormentos que muitos por medo e horror de tão cruéis mortes se escondiam e fugiam do martírio e outros estando já nele por não lhes bastar a fortaleza e constância para sofrer desmaiavam e retrocediam Vede agora quanto mais fácil é ir direito ao céu por uma indulgência da Bula da Cruzada que de cruz não tem mais que o nome O mártir sobe direito ao céu mas por tantos tormentos e tão arriscados vós com a indulgência plenária também subis direito ao céu mas sem tormento nem risco Por isso o sangue que significava o martírio não saiu do lado de Cristo vivo com dor senão do lado morto e insensível porque as graças que manaram daquela fonte divina se bem logram os privilégios de martírio são martírio sem tormento E se é grande prerrogativa a da indulgência plenária por ser como o martírio mas sem tormento não é menor nem menos privilegiada por ser como o Batismo mas com repetição A graça do sacramento do Batismo é tão maravilhosa por grande como por fácil Que maior maravilha e que maior facilidade que um homem carregado de pecados e obrigado por eles a penas eternas purificar se de toda a culpa e livrarse de toda a pena só com se lavar ou o lavarem com uma pouca de água Mas esta mesma graça tão grande e esta mesma maravilha e facilidade se é lícito falar assim tem um notável defeito E qual é Não se poder o batismo reiterar nem repetir O homem uma vez batizado não se pode batizar outra vez Essa foi a razão como lemos em Santo Agostinho porque muitos dos antigos catecúmenos conhecendo esta limitação e que não se podiam batizar mais que uma só vez ou dilatavam o batismo para a morte ou quando menos para a velhice reservando e como poupando a eficácia daquele remédio para o tempo da maior necessidade Era abuso e por isso se proibiu justificadamente Mas se o Batismo se pudera repetir e um homem se pudesse rebatizar todas as vezes que quisesse não há dúvida que seria graça sobre graça e um excesso de favor muito mais para estimar Pois isto mesmo que Deus não concedeu a todos pelo sacramento do batismo nos concede hoje a nós pela bula da Santa Cruzada Porque sendo a indulgência plenária como batismo em purificar de culpa e pena é juntamente como Batismo com repetição porque se pode repetir e reiterar muitas vezes O batismo é fonte que se abre uma só vez e se torna a cerrar para sempre mas a indulgência da Bula é fonte que se abre hoje e todos os anos e não se torna a cerrar antes fica continuamente aberta Por isso o lado de que saiu a água que significava o batismo de tal maneira se abriu estando Cristo morto que não se tornou a cerrar nem depois de ressuscitado Aberto uma vez e sempre aberto Lancea latus ejus aperuit et continuo exivit sanguis et aqua IX A segunda lançada e as queixas de Cristo à sua Igreja Naamã Siro e o desprezo do remédio pela facilidade Tenho acabado o meu discurso e sei senhores que vos tenho cansado mas não sei se vos tenho persuadido Se estais resolutos todos a vos aproveitar de tão inestimáveis tesouros isto é o que Cristo deseja e esta a correspondência que espera de vossa devoção o amor e liberalidade com que para vos encher de graças abriu e tem aberto o lado Mas se houver algum cristão indigno de tal nome que por fraqueza de fé ou falta de piedade não agradeça ao mesmo Senhor as mercês que tão de graça lhe oferece ao menos com as aceitar e estimar como merecem saiba que esta será a segunda lançada com que lhe penetrará mais dentro o peito aberto e lhe ferirá o coração A lançada do Calvário não diz o texto que feriu senão que abriu o lado esta segunda lançada é a que só pode ferir e penetrar tão dentro que lhe chegue ao coração Vulnerasti cor meum soror mea sponsa vulnerasti cor meum in uno oculorum tuorum18 São queixas de Cristo à sua Igreja que se compõe de maus e bons de devotos e indevotos e de fiéis e infiéis Diz pois o amoroso Senhor que sua esposa lhe feriu o coração com um dos olhos In uno oculorum E por que não com ambos Porque os dois olhos da Igreja são a fé e o entendimento e só com um deles se se dividem ferem os homens neste caso o coração de Cristo Os hereges ferem o coração de Cristo com o olho da fé In uno oculorum porque negam a verdade das indulgências e o poder do pontífice para as conceder Assim as negou Lutero por sinal que raivoso de se dar a outro pregador o sermão da cruzada que ele pretendia pregar E este foi o primeiro erro com que depois se precipitou a tantos Os católicos que somos nós ferem também o coração de Cristo mas com o olho do entendimento In uno oculorum porque crendo o poder do pontífice e a verdade das indulgências têm alguns tão pouco juízo que por negligência e pouco cuidado da alma e por desprezo dos bens do céu deixam de se aproveitar de tamanhos tesouros Oh que ferida esta para o coração de Cristo tão cruel da nossa parte e tão sensível da sua É possível que há de haver no mundo homem com fé que podendose purificar de todos seus pecados e pagar a Deus as penas de que lhe é devedor e uma e outra coisa tão facilmente o não faça Mas a mesma facilidade é a causa É tal a condição vil de nossa natureza que só estimamos o dificultoso e desprezamos o fácil A primeira vez que se concederam as indulgências do Ano Santo foi tal o concurso de todo o mundo a Roma que não cabendo a multidão das gentes na cidade inundava os campos Se esta mesma bula se concedera uma só vez em cem anos e no cabo do mundo lá a havíamos de ir tomar Pois porque Deus nos facilita tanto este bem e nos vem buscar com ele à nossa casa o havemos nós de estimar menos O que o havia de fazer mais precioso lhe há de tirar o preço Tais como isto somos os homens Quando Eliseu mandou a Naamã Siro que se lavasse no Jordão para sarar da lepra quisse ele voltar logo para a sua terra desprezando o remédio pela facilidade e não crendo que podia ter tanta virtude o que tão pouco custava Mas que lhe disseram a este príncipe os seus criados e como o persuadiram a que fizesse o que Eliseu lhe ordenava Pater et si rem grandem dixisset tibi propheta certe facere debueras quanto magis quia nunc dixit tibi lavare et mundarebis 4 Rs 513 Senhor se o profeta vos mandasse fazer uma coisa muito dificultosa é certo que a havíeis de fazer para sarar da lepra pois se vos pede uma coisa tão fácil como lavarvos no Jordão por que o não fareis Isto diziam a Naamã os prudentes criados e o mesmo digo eu aos que não quiserem curar suas consciências e acudir a suas almas para esta e para a outra vida com um remédio tão fácil Se para nos purificar de tantas lepras tão feias tão asquerosas e tão mortais como são os pecados de todo gênero e para nos livrar das penas devidas por eles ou eternas no inferno ou de muitos anos no purgatório devíamos aceitar qualquer partido e oferecernos muito de grado a qualquer satisfação por dura e dificultosa que fosse uma tão fácil como esta em que tudo se nos concede e perdoa de graça por que a desprezareinos Se há alguém que saiba responder a este porquê deixe embora de tomar a Bula Mas porque estou certo que nenhum entendimento que tenha fé lhe pode achar resposta querovos deixar com a mesma pergunta nos ouvidos esperando que por eles nos abra os corações aquele mesmo Senhor que para nos encher de tantas graças se deixou abrir o peito Unus militum lancea latus ejus aperuit SERMÃO DE QUARTAFEIRA DE CINZA EM ROMA NA IGREJA DE S ANTÔNIO DOS PORTUGUESES ANO DE 1673 AOS 15 DE FEVEREIRO DIA DA TRASLADAÇÃO DO MESMO SANTO Pulvis es et in pulverem reverteris1 I Duas coisas prega hoje a Igreja pó e pó Um é a triaga e corretivo do outro como os pós venenosos com que se quis envenenar o imperador Valente Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais ambas grandes ambas tristes ambas temerosas ambas certas Assim comecei eu o ano passado quando todos estávamos mais longe da morte mas hoje que também estamos todos mais perto dela importa mais tratar do remédio que encarecer o perigo Adiantando pois o mesmo pensamento e sobre as mesmas palavras digo senhores que duas coisas prega hoje a Igreja a todos os vivos uma grande outra maior uma triste outra alegre uma temerosa outra segura uma certa e necessária outra contingente e livre E que duas coisas são estas Pó e pó O pó que somos Pulvis es e o pó que havemos de ser In pulverem reverteris O pó que havemos de ser é triste é temeroso é certo e necessário porque ninguém pode escapar da morte o pó que somos é alegre é seguro é voluntário e livre porque se nós o quisermos entender e aplicar como convém o pó que somos será o remédio será a triaga será o corretivo do pó que havemos de ser Notável foi o caso sucedido em tempo do imperador Valente do qual disse então com elegante juízo o poeta Ausônio aquela tão celebrada sentença Et cum fata volunt bina venena juvan2 Quis uma inimiga doméstica tirar a vida com veneno ao senhor da casa e depois de ter medicado a bebida com certos pós venenosos duvidando ainda se teriam bastante eficácia para segurar melhor o efeito mandou buscar outros Vieram os segundos pós lançaos na mesma taça a traidora bebe o inocente marido mas quando ela esperava que caísse subitamente morto ele ficou tão vivo e sem lesão como dantes Admirável acontecimento Se os primeiros pós bastavam para matar e os segundos também ambos juntos por que não mataram Este homem não era Mitrídates que se alimentasse com veneno Se bebia só os primeiros pós morria se bebia só os segundos também morria Pois por que não morreu bebendo uns e mais os outros Porque os segundos pós foram corretivos dos primeiros A guerra que haviam de fazer ao coração fizeramna entre si e em vez de matar mataramse Tais são os dois pós com que hoje nos ameaça a sentença universal de Adão Pulvis es um pó In pulverem reverteris outro pó ambos mortais ambos venenosos mas se nós quisermos não está na mão dos fados senão na nossa que um seja a triaga e o corretivo do outro Isto é o que determino pregar hoje A Igreja põevos sobre a cabeça uma cinza feita de palmas eu heivos de meter na mão uma palma feita de cinzas Havemos de vencer um pó com outro pó havemos de curar um veneno com outro veneno havemos de matar uma morte com outra morte a morte do pó que havemos de ser com a morte do pó que somos Pulvis es et in pulverem reverteris Para que eu saiba preparar estes pós de modo que venham a ter uma tão grande virtude e para que vós e eu saibamos aplicar como convém não por cerimônia que não é o dia disso senão muito de coração peçamos a assistência da divina graça Ave Maria II Ser pó por eleição antes de ser pó por necessidade os que morrem quando morrem segundo Davi e os que morrem antes de morrer segundo S JoãoOs três perigos da morte ser uma ser incerta ser momentânea Pulvis es et in pulverem reverteris Homem cristão com quem fala a Igreja és pó e hás de ser pó Que remédio Fazer que um pó seja corretivo do outro Sê desde logo o pó que és e não temerás depois ser o pó que hás de ser Sabeis senhores por que tememos o pó que havemos de ser É porque não quereinos ser o pó que somos Sou pó e hei de ser pó pois antes de ser o pó que hei de ser quero ser o pó que sou Já que hei de ser pó por força quero ser pó por vontade Não é melhor que faça desde já a razão o que depois há de fazer a natureza Se a natureza me há de resolver em pó eu querome resolver a ser pó e faça a razão por remédio o que há de fazer a natureza sem remédio Não sei se entendestes toda a metáfora Quer dizer mais claramente que o remédio único contra a morte é acabar a vida antes de morrer Este é o meu pensamento e envergonhome sendo pensamento tão cristão que o dissesse primeiro um gentio Considera quam pulchra res sit consummare vitam ante mortem deinde expectare securum reliquam temporís sui partem3 Lucílio meu diz Sêneca escrevendo de Roma à Sicília O pensamento saiu de Roma e fora melhor que não saísse Lucílio meu considera com atenção o que agora te direi e toma um conselho que te dou como mestre e como amigo Se queres morrer seguro e viver o que te resta sem temor acaba á vida antes da morte Ó grande e profundo conselho merecedor verdadeiramente de melhor autor e digno de ser abraçado de todos os que tiverem fé e entendimento Consumare vitam ante mortem Acabar á vida antes de morrer e ser pó por eleição antes de ser pó por necessidade Isto disse e ensinou um homem gentio porque para conhecer esta verdade não é necessário ser cristão basta ser homem Memento homo Suba agora a fé sobre a razão venha a autoridade divina sobre a humana e ouçamos o que diz o céu à terra Audivi vocem de caelo dicentem mihi Scribe Beati mortui qui in domino moriuntur Apc 1413 Ouvi diz S João uma voz do céu que me dizia e me mandava escrever esta sentença Bemaventurados os mortos que morrem em o Senhor Celestial oráculo mas dificultoso Quis mortuus mori potest argüi a pergunta S Ambrósio Que morto há que possa morrer Nullus procul dubio Nenhum Tudo acaba a morte e tudo se acaba com a morte até a mesma morte Quem morreu já não pode morrer Só os mortos têm este privilégio contra a jurisdição e império universal da morte São sujeitos à morte os príncipes os reis os monarcas só os mortos depois que uma vez lhe pagaram tributo ficarão isentos de sua jurisdição Por isso Tertuliano chamou judiciosamente a sepultura mortis asylum asilo e sagrado da morte Contra a alçada da morte nem o Vaticano é sagrado mas a sepultura sim porque os mortos já não podem morrer Como diz logo a voz do céu a S João Bemaventurados os mortos que morrem em o Senhor Mortos que morrem Que mortos são estes São aqueles mortos que acabam a vida antes de morrer Os que acabam a vida com a morte são vivos que morrem porque os tomou a morte vivos os que acabam a vida antes de morrer são mortos que morrem porque os achou a morte já mortos Illi sunt beati et illi in Domino moriuntur qui prius moriuntur mundo postea carne responde o mesmo S Ambrósio Sabeis quais são os mortos que morrem São aqueles que acabaram a vida antes de morrer aqueles que morreram ao mundo antes que a morte os tire do mundo Qui prius moriuntur mundo postea carne Estes são os mortos que morrem estes são os que morrem em o Senhor estes são os que a voz do céu canoniza por bemaventurados Beati mortui E se os que morrem mortos são bemaventurados os que morrem vivos que serão Sem dúvida malaventurados Grande texto de Davi Veniat mors super illos et descendant in infernum viventes Sl 54 16 Venha a morte sobre eles e desçam vivos ao inferno A primeira parte desta sentença faz estranha e dificultosa a segunda Que possam homens descer vivos ao inferno exemplo temos em Datã e Abiron abriuse a terra e engoliuos o inferno vivos Núm 1632 Mas o caso do nosso texto ainda encerra maior maravilha Diz que virá a morte sobre eles Veniat mors super illos e que assim descerão vivos ao inferno Et descendant in infernum viventes Se a morte veio sobre eles já os matou e se já são mortos como diz o profeta que desceram ao inferno vivos Porque esse é o estado em que os achará a morte Não fala o profeta do estado em que hão de chegar ao inferno senão do estado em que os achará e tomará a morte quando lá der com eles A morte quando vem mata a cada um no estado em que o acha Aos que acabaram a vida antes de morrer mataos já mortos aos que não quiseram acabar a vida antes da morte mataos vivos Estes tais vem a morte sobre eles os outros vão eles sobre a morte E vai tanta diferença de vir a morte sobre vós ou irdes vós sobre ela vai tanta diferença de morrer assim vivo ou já morto que os que morrem mortos são os que têm seguro o céu Beati mortui qui in Domino moriuntur e os que morrem vivos são os que vão ao inferno Veniat mors super illos et descendant ia infernum viventes Senhores meus o dia é de desenganos Morrer em o Senhor ou não morrer em o Senhor haver de ser bemaventurado ou não haver de ser bemaventurado é o ponto único a que se reduz toda esta vida e todo este mundo todas as obras da natureza e todas as da graça tudo o que somos e tudo o que havemos de ser porque é salvar ou não salvar Este é o negócio de todos os negócios este é o interesse de todos os interesses esta é a importância de todas as importâncias e esta é e deve ser na cúria e fora dela a pretensão de todas as pretensões porque este é o meio de todos os meios e o fim de todos os fins morrer em graça e segurar a bemaventurança E se me perguntardes essa bemaventurança e esse seguro e essa graça por que a não promete a voz do céu aos vivos que morrem senão aos mortos que morrem Mortui qiu moriuntur A razão verdadeira e natural e provada com a experiência de todos os que viveram e morreram é porque aqueles que morrem quando morrem hão de contrastar com todos os perigos e com todas as dificuldades da morte que é coisa muito arriscada naquela hora porém os que morrem antes de morrer já levam vencidos e superados todos esses perigos e todas essas dificuldades porque na primeira morte desarmaram e venceram a segunda Três coisas dividamos o discurso para que declareinos e apartemos bem este ponto três coisas fazem duvidosa perigosa e terrível a morte ser uma ser incerta e ser momentânea Estas são as três cabeças horrendas deste Cérbero estas são as três gargantas por onde o inferno engole o um ndo E de todas estas dificuldades e perigos se livra seguramente só quem Quem não guarda a morte para a morte quem acaba a vida antes de morrer quem se resolve a ser pó antes de ser pó Pulvis es III Primeira terrível condição da morte ser uma Razão da morte de Lázaro Deus deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição O inferno morte segunda para aqueles que só morrem uma só vez A dupla morte das árvores Primeiramente é terrível e terrivelíssima condição da morte ser uma Statutum est hominibus semel mori4 Hei de morrer e uma só vez A lei geral de Adão diz Morte morieris Morrerás Gên 2 17 A glosa de S Paulo acrescenta Semel Uma vez E sendo a lei tão temerosa muito mais terrível é a glosa que a mesma lei Os males desta vida quanto mais se multiplicam tanto são maiores Multiplicabo aerumnas tuas5disse Deus a Eva O maior mal da morte é não se poder multiplicar Se a unidade da morte se multiplicara e se pudera morrer mais de uma vez apelarase de uma para a outra Quando Davi saiu a desafio com o gigante meteu cinco pedras no surrão porque se errasse a primeira pedrada pudesse apelar para as outras pedras 1 Rs 1740 Todos havemos de sair a desafio com este grãogigante com este Golias da morte mas o vencer ou não vencer está em um só tiro Quem disse Non licet in bello bis errare errou6 Oque se erra em uma batalha pode se emendar na outra e o que se perdeu em uma rota podese recuperar em uma vitória só a morte é aquela em que não é lícito errar duas vezes Ergo erravimus Sab 56 Enfim erramos diziam depois de mortos aqueles que tinham dito pouco antes Coronemus nos rosis antequam marcescant Sab 28 Coroemo nos de rosas antes que se murchem Pois se errastes por que não emendais o erro Porque já não é tempo somos mortos Muito mais temerosa é nesta parte a morte do corpo que a morte da alma Para a morte da vida espiritual há contrição há penitência para a morte da vida corporal não instituiu Deus sacramento nem há remédio Quem a errou uma vez erroua para sempre A transmigração deste mundo para o outro não é como a transmigração de Pitágoras Se a alma depois de viver em um corpo pudera animar outro depois de o homem morrer a primeira vez em um ladrão pudera morrer a segunda em um anacoreta Mas quem uma vez morreu Judas não lhe resta outra morte para morrer Paulo Uma só morte ou boa para sempre ou má para sempre Semel Não há dúvida que é terrível condição esta da morte Mas para quem terrível Para quem morre quando morre Porém quem morre antes de morrer zomba desta condição e rise desta terribilidade Ridebit in die novissimo7 Que se me dá a mim que a morte seja uma se eu posso fazer que sejam duas A morte não tem remédio depois mas tem remédio antes Constituisti terminos ejus qui praeteriri non poterunt8 Notai a palavra praeteriri A morte é um termo que se não pode passar da parte dalém mas podese antecipar da parte daquém Não tem remédio depois poque depois de uma morte não há outra morte mas tem remédio antes porque antes de uma morte pode haver outra Por lei e por estatuto hei de morrer uma vez mas na minha mão e na minha eleição está morrer duas e este é o remédio Morreu Lázaro enterraramno as irmãs chegou Cristo ao sepulcro e chorou À vista destas lágrimas e da sepultura de Lázaro admirados os circunstantes diziam Non poterat hic qui aperuit oculos coeci nati facere ut hic non moreretur Jo 1137 Este que chora não é o mesmo que deu a vista ao cego de seu nascimento Sim Pois como não impediu que morresse Lázaro Se chora é seu amigo se deu vista ao cego é poderoso é amigo e poderoso e não faz por seu amigo o que pode Se o podia sarar por que o deixou morrer e não fez o que podia Não fez Cristo neste caso o que podia porque nos quis ensinar com este caso a fazer o que podemos Quisnos ensinar Cristo a morrer duas vezes Altamente Santo Agostinho Ut unus homo semel nasci et bis mori disceret Deixou Cristo morrer a Lázaro e não o quis sarar enfermo senão ressuscitar morto para que à vista deste exemplar morrendo Lázaro agora e tornando a morrer depois aprendessem e soubessem os homens que nascendo uma só vez podem morrer duas Semel nasci et bis mori Oh divino documento do divino Mestre Nascer uma vez e morrer duas vezes Bem creio eu que haverá bem poucos que quiseram antes trocados estes termos e poder nascer duas vezes para escolher nascimento Mas Deus que nos fez para a eternidade e não para o tempo para a verdade e não para a vaidade deixou o nascer à natureza e o morrer à eleição No nascer em que todos somos iguais não pode haver erro e por isso basta nascer uma vez no morrer em que o erro ou acerto importa tudo e há de durar para sempre era justo que o homem pudesse morrer duas vezes para eleger a morte que mais quisesse e para aprender morrendo a saber morrer Nenhuma coisa se faz bem da primeira vez quanto mais a maior de todas que é morrer bem Reparo é digno de toda a admiração que sendo tantas as meditações da morte e tantos os espertadores deste desengano sejam tão poucos os que sabem morrer Mas a razão desta experiência e desta desgraça é porque as artes ou ciências práticas não se aprendem só especulando senão exercitando Como se aprende a escrever Escrevendo Como se aprende a esgrimir Esgrimindo Como se aprende a navegar Navegando Assim também se há de aprender a morrer não só meditando mas morrendo Por isso Cristo nos ensinou em Lázaro a morrer duas vezes uma vez para que aprendêssemos outra para que soubéssemos morrer Ao paralítico e a outros a quem o Senhor deu saúde milagrosa depois de os sarar pregavalhes a Lázaro e aos demais que ressuscitou nenhum documento lhes deu E por quê Porque eram homens que já morreram uma vez e haviam de morrer outra e quem morre antes da morte não há mister mais doutrina para bem morrer O inferno e a condenação eterna que é o paradeiro dos que morrem mal chamase no Apocalipse morte segunda E faz menção ali S João de certas almas em quem a morte segunda não tem poder In his secunda mors non habet potestatem Apc 206 E que almas venturosas são estas em quem não tem poder a morte segunda Todos enquanto estamos sujeitos à morte primeira que é a morte temporal estamos também arriscados à morte segunda que é a morte eterna porque todos nos podemos condenar e ir ao inferno Que almas são logo estas privilegiadas que totalmente se isentam do poder e jurisdição da morte segunda São as almas daqueles que com verdadeira resolução e perseverança souberam acabar a vida antes da morte e morrer antes de morrer Das mesmas palavras de S João se colhe se bem as consideramos E se não pergunto Por que se chama a morte eterna precisa e determinadamente morte segunda e não mais que segunda Porque não pode ser morte senão daqueles que uma só vez Morte segunda referese à morte primeira e supõe antes de si outra morte mas uma só e não mais que uma porque se as mortes antecedentes fossem duas já não seria morte segunda senão morte terceira E como os que morrem em vida morrem duas vezes uma quando morrem e outra antes de morrer já não tem neles lugar morte segunda Para quem morre uma só vez há no inferno morte segunda para quem morre duas vezes não há lá morte terceira Por isso a que se chama segunda não tem sobre eles poder In bis secunda mors non habet potestatem Oh ditosos aqueles que para evitar o perigo da morte segunda souberem meter outra morte diante da primeira Cristãos e senhores meus se quereis morrer bem como é certo que quereis não deixeis o morrer para a morte morrei em vida não deixeis o morrer para a enfermidade e para a cama morrei na saúde e em pé E se quiserdes para esta grande empresa um corpo ou hieroglífico natural não notado por Plínio ou Marco Varro senão por autor divino e canônico eu volo darei Foi notar S Judas Tadeu naquela sua admirável epístola que as árvores morrem duas vezes Arbores autumnales infrutuosae bis mortuae9 A primeira vez morrem as árvores em pé a segunda deitadas a primeira quando se secam a segunda quando caem Platão disse que os homens são árvores às avessas e eu acrescento que se morrerem como as árvores serão homens às direitas Na árvore enquanto lhe dura a vida ou a verdura tudo são galas tudo pompa tudo novidades morre finalmente a árvore com o tempo a primeira vez e daquele corpo tão formoso e vário que vestiam as folhas que guarneciam as flores que enriqueciam os frutos não se vê mais que um cadáver seco triste e destroncado Neste despojo de tudo o que tinha sido presa ainda pelas raízes e sustentandose na terra mas não da terra espera a árvore em pé a última caída e esta é a segunda morte com que de todo acaba Assim deve acabar antes de acabar quem quer acabar bem Quantas primaveras têm passado por nós quantos verões e quantos outonos e pode ser que com menos fruto que folha e flores O que fazem os anos nas árvores bem o puderam já ter feito em muitos de nós os mesmos anos E é bem que a razão e o desengano o faça em todos pois são mais fracas as nossas raízes Espereinos mortos pela morte e esperemola em pé antes que ela nos deite na sepultura Oh ditosa sepultura a daqueles na qual se possa escrever com verdade o epitáfio vulgar do grande Escoto Semel sepultus bis mortuus Uma vez sepultado e duas morto10 IV Segunda condição da morte ser incerta O pedido de Davi e a morte de Josias Catão e o oráculo de Júpiter Declarações de S Paulo O edito de Amã condenando à morte os hebreus S Pedro e a incerteza da morte O despacho de Davi poderia ser atendido por ele próprio Vencida assim esta primeira dificuldade de ser a morte uma seguese a segunda não menos perigosa nem menos terrível que é o ser incerta Certa a morte porque todos certa e infalivelmente havemos de morrer mas nessa mesma certeza incerta porque ninguém sabe o quando Repartimos a vida em idades em anos em meses em dias em horas mas todas estas partes são tão duvidosas e tão incertas que não há idade tão florente nem saúde tão robusta nem vida tão bem regrada que tenha um só momento seguro Perplexo no meio desta incerteza e temeroso dela Davi fez esta petição a Deus Notum fac mihi Domine finem meum et numerum dierum meorum ut sciam quid desit mihi Sl 38 5 Senhor não vos peço larga vida mas estes dias poucos ou muitos que hei de viver peçovos que me digais quantos são para saber o que me resta Assim o pediu Davi mas é a lei da incerteza da morte tão indispensável que nem a Davi o concedeu Deus Era Davi aquele homem que com verdade dizia de si Incerta et oculta sapientiae tuae manifestasti mihi11 e manifestandolhe Deus todos seus segredos e as outras coisas mais incertas e ocultas de sua providência só o incerto e oculto de sua morte lhe não quis revelar Tão reservado é só para Deus o certo desta incerteza Mas dado caso que Deus revelara a Davi a certeza da sua morte ainda depois de revelada e certificada por Deus digo que ficaria incerta Temos o caso em outro rei não menos santo nem menos favorecido de Deus que Davi Havendo elrei Josias feito grandes serviços a Deus em observância e aumento de religião prometeu lhe o mesmo Deus em prêmio destas boas obras que morreria em paz Idcirco colligam te ad patres tuos et colligeris ad sepulchrum tuum in pace12 Muito contente Josias com esta revelação e muito animado com este seguro divino como mancebo que era de trinta e nove anos desejoso de glória arma exército contra os assírios metese em campanha e tanto que os dois exércitos estiveram à vista põese na testa dos esquadrões com o bastão na mão e o cartaz de Deus no peito Eu hei de morrer na paz seguro estou na guerra Cerram nisto os esquadrões travase a batalha voam as setas senão quando uma delas atravessa pelo coração do rei Josias e cai morto Morto elrei Não pode ser Não tinha Josias uma revelação e um assinado de Deus que havia de morrer em paz Colligeris ad sepulchrum tuum in pace Pois como morre na guerra e na batalha Aqui vereis qual é a incerteza da morte É certo que Josias morreu na guerra é certo que Deus lhe tinha prometido que havia de morrer em paz é certo que a palavra de Deus não pode faltar e no meio de todas estas certezas foi incerto o dia incerto o lugar e incerto o gênero de morte de que havia de morrer e morreu Josias Mas como pode estar esta incerteza e tantas incertezas com a certeza infalível da palavra divina Disseo Davi nas mesmas palavras com que pouco há fez a sua petição Locutus sum in lingua mea notum fac mihi Domine finem meum13 Quando eu pedi a Deus que me revelasse o fim de minha vida falei na minha língua Locutus sum in lingua mea E assim como Davi falou a Deus na sua língua assim Deus falou a Josias na sua A língua de Deus não a entendem bem os homens porque pode ter muitos sentidos E que importa que tenha eu palavra de Deus e que a palavra de Deus seja certa se o sentido da mesma palavra de Deus pode ser incerto como aqui foi Por isso fala Deus de propósito com palavras de sentido duvidoso e incerto ainda quando revela os futuros da morte para que a certeza dela fique reservada sempre à sua sabedoria somente e para nós seja sempre duvidosa e sempre incerta Tal é senhores a incerteza da morte mas na nossa mão está fazêla certa se nos resolvemos a acabar a vida antes de morrer Que bem vem caindo neste lugar aquele dito verdadeiramente romano do vosso Catão Estava ele na África sustentando só como bom cidadão as partes da república contra César estava também ali o famosíssimo oráculo de Júpiter Amon Disseramlhe que o consultasse E que responderia Catão Respondeu mais sabiamente do que pudera responder o mesmo Júpiter Me non oracula certum sed mors cert facit Do meu fim não me certificamos oráculos o meu oráculo certo é a morte certa Falou barbaramente como gentio mas generosamente como estóico Era dogma da seita estóica nos perigos de morrer indignamente tirarse a si mesmos a vida antes da morte Assim o fez Catão tomando a morte certa por suas próprias mãos por antecipar a morte duvidosa vindo às mãos de César Melhor o cristão que o estóico O estóico matase para que o não matem o cristão morre para morrer Morrer mal para não morrer pior como faz o estóico parece valor e prudência mas é temeridade e fraqueza Morrer bem para morrer melhor como faz o cristão é valor e verdadeira prudência E se o estóico morre uma morte certa o cristão morre duas também certas porque na certeza da primeira segura a incerteza da segunda Que se lhe dá logo ao cristão que a morte seja incerta se ele morrendo antes a pode fazer certa Ouvi S Paulo Ego curro non quasi incertum 1 Cor 926 Eu passo a carreira da vida como os outros homens mas não corro como eles ao incerto senão ao certo Alude o apóstolo aos jogos daquele tempo em que os contendores corriam até certa baliza ou meta incertos de quem havia chegar primeiro ou depois A meta é a morte a carreira é a vida E por que diz Paulo que ele corria ao certo e não ao incerto como os demais Porque os demais acabam a carreira quando chegam à meta Paulo antes de chegar à meta tinha já acabado a carreira Os demais acabam a vida quando chegam à morte Paulo tinha acabado a vida antes de morrer O mesmo Apóstolo o disse persistindo na mesma metáfora Bonum certamen certavi cursum consumimavi 2 Tim 47 Já tenho vencido o certame já tenho acabado a carreira Já Para bem vos seja apóstolo sagrado mas quando Aqui está a dúvida Disse isto S Paulo na segunda epístola que escreveu a Timóteo a qual como nota o Cardeal Barônio foi escrita no ano quinto de Nero oito anos antes que o mesmo Nero lhe tirasse a cabeça Pois se a S Paulo lhe restavam ainda tantos anos de vida e podia viver muitos mais como diz que já tinha acabado a sua carreira Cursum consumimavi Porque não esperou pela morte para acabar a vida já tinha acabado a vida antes de morrer E como tanto tempo antes podia dizer com verdade Cursum consumniavi por isso disse também com a mesma verdade Ego curro non quasi in incertum porque já tinha feito certo o incerto da morte Para quem acaba a carreira da vida quando morre é a morte incerta mas para quem a soube acabar antes de morrer não é incerta é certa E para que vejais quão certa é notai que entre todas as mortes certas só esta com que acabamos a vida antes de morrer tem infalível e total certeza Todas as outras mortes ou no ser ou no modo ou no tempo têm suas incertezas só esta em si e em todas suas circunstâncias é certamente certa Quando por traça de Amã se publicou edito de morte contra todos os hebreus que viviam nas cento e dezessete províncias sujeitas a elrei Assuero diz o texto sagrado que todo Israel clamou a Deus vendose condenados sem remédio à morte certa Omnis Israel clamavit ad Dominum e o quod eis certa mors impenderet Est 13 18 Era certa esta morte porque estava sentenciada era certa porque estava determinado o dia e sobretudo era certa porque os decretos dos reis por lei inviolável dos persas e medos eram irrevogáveis Mas esta mesma morte tão certa e que por tantas razões carecia de toda a defesa e remédio humano alfim mostrou o efeito que não tinha infalível certeza porque descoberto o engano e maldade de Amã pela rainha Ester Assuero revogou o edito e todos os que estavam condenados e sujeitos à morte ficaram livres e vivos Est 16 Tão incerta é a morte ainda quando mais certa E se alguém me disser que era decreto humano e falível e que por isso houve incerteza na morte certa vamos a outra morte certa por decreto divino e vereis que também nela pode haver circunstâncias de incerteza Certus quod velox est depositio tabernaculi mei secundum quod et Dominus noster Jesus Christus significavit mihi 2 Pdr 114 Estou certo diz S Pedro na sua segunda epístola estou certo que hei de morrer brevemente porque assim mo significou o mesmo Cristo Pode haver maior certeza nem mais bem provada Não pode Mas ainda assim perguntara eu a S Pedro Apóstolo e pontífice santo a brevidade dessa mesma morte de que estais tão certo sabernoseis dizer quão breve há de ser Se será neste ano ou no seguinte Se será neste mês ou em algum dos outros Se será neste mesmo dia e nesta mesma hora e neste mesmo lugar em que estais escrevendo Nada disto podia dizer nem afirmar S Pedro porque debaixo daquela certeza particular significada e declarada por Cristo estava ainda encoberta e duvidosa e igualmente infalível aquela outra incerteza geral pronunciada pelo mesmo Cristo Quia nescitis diem neque horam14 De sorte que sabia S Pedro que havia de morrer brevemente mas o quando e onde não o sabia estava certo da morte e da brevidade mas do dia e da hora não estava nem podia estar certo e esta é a certeza da morte que se acaba com a vida Porém a morte em que se acaba a vida antes de morrer é tão certa em si e em todas as suas circunstâncias que se eu me resolvo neste ponto como devo resolver não só sei com certeza o lugar e o dia senão com certeza a hora e com certeza o momento E a razão desta diferença é a que notou Jó Breves dies hominis sunt numerus mensium ejus apud te est15 O quando daquela morte não o posso saber certamente porque está em Deus o quando de estoutra morte possoo saber com toda a certeza porque está em mim Aquele está em Deus porque depende só da sua vontade este está em mim porque a graça do mesmo Deus que nunca falta depende da minha Agora me não espanto que Deus não deferisse a petição de Davi porque o despacho se ele quisesse estava na sua mão Que dizia Davi e que pedia a Deus Pedia que Deus lhe revelasse o fim de sua vida Notum fac mihi Domine finem meum Sl 38 5 E para Davi ou qualquer outro homem sem ser profeta saber o fim de sua vida não é necessário que Deus lho revele Se eu quero saber o fim de minha vida ponhalhe eu o fim e logo o saberei Então será verdadeiramente fim meu Finem meum porque será livre e não necessário será voluntário e não forçoso será da minha eleição e do meu merecimento será enfim fim da minha vida e não da vida que não é minha porque só é minha a presente e não a futura Que mais pedia e queria Davi Et numerum dierum meorum queria saber a conta dos seus dias Inútil desejo e escusada petição Pedia o que não importa nada e deixava o que só importa Não quero saber a conta aos dias da vida futura quero saber conta e tomar conta aos dias da vida passada Não quero saber de Deus a conta dos dias que hei de viver quero saber de mim a conta que hei de dar a Deus dos dias que tenho vivido Esta é a necessária e verdadeira conta dos nossos dias Finalmente a que fim pedia Davi esta revelação Ut sciam quid desit mihi Para saber diz ele o que me falta E que importa saberdes o que vos falta se é melhor não o saber Não quero saber da vida o que me falta quero ignorar o que me sobeja Quem sabe quando há de morrer sabe os dias que lhe faltam quem morre antes de morrer ignora os dias que lhe sobejam e esta ignorância é melhor que aquela ciência Que maior felicidade na incerteza da morte que sobejarme a vida Aos que acabam a vida com a morte faltalhes a vida aos que acabam a vida antes de morrer sobejalhes E sequer estes sobejos da vida não os dareinos de barato a Deus e a alma Mas vamos à última dificuldade V O maior perigo da morte ser momentânea A morte instante que se desata do tempo que foi e não se ata com o tempo que há de ser O exemplo de Carlos Quinto de Davi e de Jó S Antônio e sua preparação para a morte Meter tempo entre a vida e a morte A última dificuldade e o maior perigo e aperto da morte é ser momentânea Que coisa é morte Momentum unde pendet eternitas um momento donde pende a eternidade ou por melhor dizer as eternidades O momento é um e as eternidades que dele pendem são duas ou de ver a Deus para sempre ou de carecer de Deus para sempre É uma linha indivisível que divide este mundo do outro mundo é um horizonte extremo donde para cima se vê o hemis fério do céu e para baixo o do inferno é um ponto preciso e resumido em que se ajunta o fim de tudo o que acaba e o princípio do que não há de acabar Oh que terrível ponto este e mais terrível para os que nesta vida se chamam felizes Ducunt in bonis dies suos et in punto ad inferna descendunt16 Se este ponto tivera partes fora menos temeroso porque entre uma e outra pudera caber alguma esperança alguma consolação algum recurso algum remédio mas este ponto não tem partes nem ata ou se ata com partes porque é o último O instante da morte não é como os instantes da vida Os instantes da vida ainda que não têm partes unemse com partes porque unem a parte do tempo passado com a parte do futuro O instante da morte é um instante que se desata do tempo que foi e não se ata com o tempo que há de ser porque já não há de haver tempo Et tempus non erit amplius Apc 106 Não vos parece que é terrível coisa ser a morte momentânea Não vos parece que é terrível momento este Pois eu vos digo que nem é terrível nem é momento para quem souber fazer pé atrás a acabar a vida antes de morrer porque ainda que a morte é momento e não é tempo quem acaba a vida antes de morrer mete tempo entre a vida e a morte Não vos quero alegar para isto com autoridades de Jerônimo ou Agostinho nem com exemplos de Hilariões e Pacômios senão com o exemplo e com a autoridade de um homem de capa e espada ou de espada sem capa que é ainda mais Entrou um soldado veterano a Carlos Quinto e pediulhe licença com um memorial para deixar seu serviço e se retirar das armas Admirouse o imperador e parecendolhe que seria descontentamento e pouca satisfação do tempo que havia servido respondeulhe chamandoo por seu nome que ele conhecia muito bem o seu valor eu seu merecimento que tinha na lembrança as batalhas em que se achara e as vitórias que lhe ajudara a ganhar e que as mercês que lhe determinava fazer lhas faria logo efetivas com grandes vantagens de posto de honra de fazenda Oh venturoso soldado com tal palavra e de um príncipe que a sabia guardar Mas era muito melhor e muito maior a sua ventura Sacra e real majestade disse não são essas as mercês que quero nem essas as vantagens que pretendo o que só peço e desejo da grandeza da Vossa Majestade é licença para me retirar porque quero meter tempo entre a morte e a vida Inter vitae negotia et mortis diem oportere spatium intercedere17 diz o vosso e nosso Lívio na História De BeIlo Belgico E que vos parece que faria o César neste caso Concedeu enternecido a licença retirouse ao gabinete tornou a ler o memorial do soldado e despachouse a si mesmo Oh soldado mais valente mais guerreiro mais generoso mais prudente e mais soldado que eu Tu até agora foste meu soldado eu teu capitão desde este ponto tu serás meu capitão e eu teu soldado quero seguir tua bandeira Assim discorreu consigo César e assim o fez Arrima o bastão renuncia o império despe a púrpura e tirando a coroa imperial da cabeça pôs a coroa a todas suas vitórias porque saber morrer é a maior façanha Resolveuse animosamente Carlos a acabar ele primeiro a vida antes que a morte o acabasse a ele Recolheuse ou acolheuse ao convento de Juste meteu tempo entre a vida e a morte e porque a primeira vez soube morrer imperador a segunda morreu santo Oh generoso príncipe e prudente general que soubeste seguir e aprender do teu soldado Oh valente e sábio soldado que soubeste ensinar e vencer o maior general Ambos tocaram a recolher a tempo e por isso seguraram a maior vitória porque fizeram a seu tempo a retirada Estes são os exemplos senhores que vos prometi E se porventura quereis outros mais antigos e mais sagrados ouvi o de outro general também coroado e de outro soldado igualmente valoroso e sábio a quem ele imitou e seguiu Desenganado Davi como vimos de não poder alcançar de Deus o número que lhe restava de seus dias e o fim e o termo certo de sua vida reformou o memorial e pediu assim nas últimas palavras do mesmo salmo Remitte mihi ut refrigerer priusquam abeam et amplius non ero Sl 38 14 Já que Senhor não sois servido que eu saiba a certeza de minha morte e os dias que na vossa Providência me tendes determinado de vida ao menos vos peço que me concedais algum espaço de quietação e sossego em que possa meter tempo entre a vida e a morte Sine me refrigerari et quiescere priusquam moriar et non existam in vivis sic enim postea placide exibo ex hac vita et sine terroribus conscientiae qui tunc exoriri solent comenta Genebrardo18 De maneira que desenganado Davi mudou e melhorou de pensamento e a sua última resolução foi segurar o estreito passo e momento da morte com meter tempo entre ela e a vida E de quem aprendeu Davi de quem aprendeu o rei general dos exércitos de Deus esta lição Aprendeua daquele famoso soldado que pela experiência de suas batalhas dizia Militia est hominis vita super terram19 Quase pelas mesmas palavras de Davi o tinha já dito e pedido Jó Nunquid non paucitas dierum meorum finietur brevi Dimitte me ut plangam paululum dolorem meum antequam vadam et non revertar20 Os dias da minha vida diz Jó ou eu queira ou não queira hãose de acabar brevemente O que pois vos peço Senhor é que antes da morte me concedais algum tempo em que chore meus pecados em que trate só de compor a minha consciência e aparelhar a minha alma Vede quão conformes foram nesta galharda resolução o soldado primeiro e o general depois Jó tinha dito Antequam vadam et non revertar Davi disse Priusquam abeam et amplius non ero Um diz prius outro diz ante e nenhum deles se atreveu a deixar a morte para a morte ambos trataram de ter tempo e meter tempo entre a morte e a vida Mas quem era este general quem era este soldado Este Davi e este Jó que homens eram Oh miséria e conlusão de nosso descuido e de nossa pouca fé Davi era aquele homem que sendo ungido por Deus quis antes perdoar a seu maior inimigo que pór na cabeça a coroa e empunhar o cetro 1 Rs 247 era aquele que depois de ser rei tinha entre noite e dia sete horas de oração trazendo debaixo da púrpura cingido o cilício e domando ou humilhando como ele dizia seu corpo com perpétuo jejum Sl 3413 aquele que dos despojos de suas vitórias ajuntava tesouros não para si e para a vaidade senão para a fábrica do Templo 2 Rs 7 aquele que sendo leigo ordenou o canto eclesiástico 2 Par 76 distinguiu os ministros reformou as cerimônias e pôs em perfeição todo o culto divino e coisas sagradas 1 Par 233 aquele que se cometeu um pecado 3 Rs 751 ainda depois de absolto e perdoado o chorou com rio de lágrimas por todos os dias e noites de sua vida Sl 414 aquele finalmente de quem disse o mesmo Deus que tinha achado nele um homem à medida do seu coração At 1322 Este era Davi E Jó quem era O espelho da paciência a coluna da constância a regra da conformidade com a vontade divina aquele a quem Deus pôs em campo contra todo o poder astúcias e máquinas do inferno Jó 112 aquele que na próspera e adversa fortuna com a mesma igualdade de ânimo recebia da mão de Deus os bens e lhe agradecia os males Jó 210 aquele com quem nasceu e crescia juntamente com a idade a compaixão dos trabalhos alheios a misericórdia a piedade com todos Jó 2915 aquele que como ele dizia era os olhos do cego os pés do manco o pai dos órfãos o amparo das viúvas o remédio dos necessitados e que nunca comeu uma fatia de pão que não partisse dela com os pobres Jó 3117 aquele finalmente a quem canonizou o mesmo Deus não só por inocente mas pelo maior justo e santo de todo o mundo Jó 18 Este era Jó e este Davi e cada um deles muito mais do que eu tenho dito e do que se pode dizer Agora pergunto E se qualquer de nós se achara com a vida de um destes dois homens não se atrevera a esperar pela morte muito confiadamente Se vivemos como os que vivem e como os que vemos morrer certo é que sim E contudo nem Davi nem Jó com tanto cabedal de virtudes com tantos tesouros de merecimento e o que é mais com tantos testemunhos do céu tiveram confiança para que os tomasse de repente o momento da morte ambos pediram tempo a Deus para meter tempo entre a morte e a vida Mas para que me dilato eu em buscar exemplos estranhos quando tenho presente em sua casa e no seu dia o mais nosso e mais admirável de todos Acabou Santo Antônio a vida em tempo que a idade lhe prometia ainda muitos anos porque não tinha mais de trinta e seis E que fez muitos dias antes Despedese de todas as ocupações ainda que tão santas e tão suas deixa a cidade vaise a um deserto e ali só com Deus e consigo dispôs muito devagar e muito de propósito para quando o Senhor o chamasse Verdadeiramente que nenhuma consideração me faz fazer maior conceito da morte nem me causa maior horror daquele perigoso momento que esta última ação de Santo Antônio Que corte Santo Antônio o fio ordinário de sua vida e que sendo a sua vida qual era faça mudança de vida para esperar pela morte Dizeime Santo meu que vida era a vossa Não era a mais inocente a mais pura a mais rigorosa O vosso vestido não era um cilício inteiro atado com uma corda A vossa mesa não era um perpétuo jejum e uma pobre e continuada abstinência A vossa cama não era uma dura tábua ou a terra nua Não passáveis a maior parte da noite em oração e contemplação dos mistérios divinos Os dias não gastáveis em pregar em converter pecadores em reduzir hereges Os vossos pensamentos não eram sempre do céu e de Deus As vossas palavras não eram raios de luz e de fogo com que alumiáveis entendimentos e abrasáveis corações As vossas obras não eram saúde a enfermos vista a cegos vida a mortos finalmente prodígios e milagres estupendos em testemunho da fé que pregáveis Pois com esta vida ainda fugis do mundo para um deserto Com esta vida ainda vos retirais de vós para vós e para vos unirdes mais com Deus Com esta vida ainda vos não atreveis a morrer Ainda quereis acabar esta vida e fazer outra Ainda quereis meter tempo entre esta vida e a morte Pare o discurso nesta admiração porque nem eu sei como ir por diante nem haverá quem deseje maior mais apertada e mais temerosa prova de quão necessária seja esta antecipada prevenção para quem sabe que há de morrer e o que é morrer Este é o único antídoto contra o veneno da morte este é o único e só eficaz remédio contra todos seus perigos e dificuldades acabar a vida antes que a vida se acabe Se a morte é terrível por ser uma com esta prevenção serão duas se é terrível por ser incerta com esta prevenção será certa se é terrível ser momentânea com esta prevenção será tempo e dará tempo Desta maneira fareinos da mesma víbora a triaga e o mesmo pó que somos será o corretivo do pó que havemos de ser Pulvis es in pulverem reverteris VI Quantos mortos que ainda lhes faltam por viver muitos anos Propósitos À imitação de Elias seguindo o conselho do Espírito Santo demos a Deus o tempo que sempre é seu enquanto é também nosso e não quando já não temos parte nele Pareceme senhores meus que tenho satisfeito ao meu argumento e tanto em comum como em cada uma das suas partes demonstrado a verdade dele mais pela evidência da matéria que pela força das razões menos necessárias a um auditório de tanto juízo e letras Para o que se deve colher desta demonstração quisera eu que subisse agora a este lugar quem com diferente espírito e eficácia perorasse Mas já que hei de ser eu ajudaime a pedir de novo à divina bondade o favor e auxílio de sua graça que para matéria de tanto peso nos é necessária Tudo o que temos dito e ouvido é o que nos ensina nas Escrituras a fé nos santos o exemplo e ainda nos gentios o lume e razão natural Mas quando eu vejo e considero o modo com que comumente vivemos cristãos e o modo com que morrem acho que em vez de acabarmos a vida antes da morte ainda depois da morte continuamos a vida Parece paradoxo mas é experiência de cada dia Que morto há nestas sepulturas e mais nas mais altas em quem a morte se não antecipasse à vida Que morto há que não esperasse e presumisse que havia de viver mais do que viveu Dum adhuc ordirer succidit me21 Nós urdimos a teia a vida a tece a morte a corta e quem há ou quem houve a quem não sobejasse depois da morte muita parte da urdidura É possível dizia Ezequias quando o profeta o avisou para morrer é possível que hei de acabar a vida no meio dos meus dias In dimidio dierum meorum vadam ad portas inferni22 E quem lhe disse a este enganado rei que aquele era o meio e não o fim de seus dias Disselho a sua imaginação e a sua esperança Cuidava que havia de viver oitenta anos e a morte veio aos quarenta Eis aqui como continuava e estendia a vida quarenta anos além da morte Quantos estão já debaixo da terra que ainda lhes faltam por viver muitos anos Ouçamos a um destes Anima mea habes multa bona in annos plurimos Lc 1219 Alma minha tens muitos bens para muitos anos Comede bibe epulare Lc ibid 20 Levate boa vida regalate gasta largamente e a teu prazer já que tiveste tão boa fortuna Não tinha acabado de pronunciar estas palavras quando ouviu uma voz que lhe dizia Stulte hac nocte animam tuam repetent a te Lc ibid Néscio ignorante insensato este dia que passou foi o último de tua vida e nesta mesma noite hás de morrer Morreu naquela mesma noite e os muitos anos que se prometia de vida In annos plurimos que foi feito deles Ainda se continuaram e foram correndo em vão depois da sua morte Verdadeiramente néscio e pior que néscio stulte Os anos de que fazias conta não eram teus e os bens que eram teus serão de outrem Mas ainda que os anos não foram teus para a vida serão teus para a conta porque hás de dar conta a Deus do modo com que fazias conta de os viver Quanto melhor conselho fora acabar antes da morte os anos que vivestes para o remédio que continuar depois da morte os anos que não viveste para o castigo Agora acabo eu de entender aquele dificultoso conselho do Espírito Santo Ne moriaris in tempore non tuo Eclo 718 Não morras no tempo que não é teu Ne moriaris Não morras Logo na minha mão está a morte In tempore non tuo No tempo que não é teu Logo há tempo que é meu e tempo que não é meu Assim é Mas qual é o tempo meu em que é bem que morra e qual o tempo não meu em que é bem que não morra O tempo meu é o tempo antes da morte o tempo não meu é o tempo depois da morte E guardar ou esperar a morte para o tempo depois da morte que não é tempo meu é ignorância é loucura é estultícia como a deste néscio stulte mas antecipar a morte e morrer antes de se acabar a vida que é o tempo meu esse é o prudente e o sábio e o bem entendido morrer E isto é o que nos aconselha quem só tem na sua mão a morte e a vida Ne moriaris in tempore non tuo Quem haverá logo se tem juízo que se não persuada a um tão justo tão necessário e tão útil partido como acabar a vida antes da morte Faça a nossa alma com o nosso corpo e o nosso corpo com a nossa alma o concerto que fez Elias Ia Elias fugindo pelo deserto à perseguição da Rainha Jesabel que o queria matar e vendo quão dificultosa coisa era escapar à fúria de uma mulher poderosa e irada diz o texto que pediu a morte à sua alma Petivi animae suae ut moreretur 3 Rs 194 Alma minha morramos já que se há de morrer por força morramos por vontade Isto pedia o corpo à alma e isto deve também pedir a alma ao corpo porque ambos vão igualmente interessados no mesmo partido Alma minha diga o corpo à alma corpo meu diga a alma ao corpo Se havemos de morrer depois por força e com perigo morramos agora e logo de grado e com segurança Eu bem vejo que o vir facilmente neste concerto é mais para os desertos que para as cortes Na corte fugia Elias da morte no deserto chamava por ela Mas se uma tal resolução no deserto é mais fácil na corte é mais necessária por que nas cortes é muito mais arriscado o esperar pela morte para acabar a vida Suposto pois que o ditame é certo conveniente e forçoso desçamos à prática dele sem a qual tudo o demais é nada Isto de acabar a vida antes da morte como se há de fazer Respondo que fazendo resolutamente por própria eleição na morte antecipada e voluntária tudo aquilo que se faz prudente e cristãmente na morte forçosa e precisa Que faz um cristão quando o avisam para morrer Primeiramente que isto deve ser o primeiro confessase geralmente de toda sua vida arrependese de seus pecados compõe do melhor modo que pode suas dívidas faz seu testamento deixa sufrágios pela sua alma põena inteiramente nas mãos do padre espiritual abraçase com um Cristo crucificado e dizendo como ele Consummatum est Jo 1930 espera pela morte Este é o mais feliz modo de morrer que se usa Mas como é forçoso e não voluntário e aqueles poucos e perturbados atos que então se fazem não bastam para desfazer os maus hábitos da vida passada assim como a contrição é pouco verdadeira e pouco firme e as tentações então mais fortes assim a morte é pouco segura e muito arriscada A contrição diz Santo Agostinho na enfermidade é enferma e na morte diz o mesmo santo temo muito que seja morta Deixemos logo os pecados quando nós os deixamos e não quando eles nos deixam a nós e acabemos a vida quando ainda podemos viver e não quando ela se tem acabado Que damos a Deus quando ele no la tira Demos a vida a Deus enquanto ele nola dá demos a Deus o tempo que sempre é seu enquanto é também nosso e não quando já não temos parte nele Que propósitos são aqueles de não ofender mais a Deus se eu já não tenho lugar de o ofender A confissão nos tratos não é jurídica háse de ratificar fora dela para fazer fé e pois se não pode ratificar depois ratifiquese antes A fazenda que se há de alijar ao mar no meio da tempestade não é mais são conselho que fique no porto e com ganância Se eu posso ser o testador do meu e mais o testamenteiro por que o não serei Se o meu testamento há de dizer Item deixo por que não dirá Item levo Não é melhor levar obras pias que deixar demandas Se se há de dizer de mim em dúvida Fulano que Deus tem não é melhor que seja desde logo e com certeza VII E os negócios e gostos da vida Só para os que acabaram a vida antes da morte o mundo é paraíso na terra como para Henoc e Elias De quantas semrazões se livra quem está já morto Quais são os que seguramente gozam de paz e descanso Para a outra vida ninguém haverá se crê que há outra vida que não tenha por bom este conselho e que só ele no negócio de maior importância é o verdadeiro o sólido o seguro Mas que direinos ao amor deste mundo a que tão pegados estamos É possível que de um golpe hei de cortar por todos os gostos e interesses da vida Aqueles meus pensamentos aqueles meus desenhos aquelas minhas esperanças com tudo isto hei de acabar desde logo e para sempre e por minha vontade e que hei de tomar a morte por minhas mãos antes que ela me mate e quando ainda pudera lograr do mundo e da mesma vida muitos anos Sobretudo tenho muitos negócios em aberto muitas dependências muitos embaraços comporei primeiro minhas coisas e depois que tiver acabado com elas então tomarei esse conselho e tratarei de acabar a vida antes da morte Eis aqui o engano e a tentação com que o demônio nos vence depois de convencidos e com que o inferno está cheio de bons propósitos Primeiramente estes vossos negócios e embaraços não devem de ser tão grandes e de tanto peso como os de Carlos Quinto mas dado que o fossem e ainda maiores se no meio de todos eles e neste mesmo dia viesse a febre maligna que havíeis de fazer Não havíeis de cortar por tudo e tratar de vossa alma Pois o que havia de fazer a febre não o fará a razão Se hoje tendes muitos embaraços amanhã haveis de ter muitos mais e ninguém se desembaraçou nunca desta meada senão cortandoa E quanto aos anos que ainda podeis ter e lograr de vida perguntese cada um a si mesmo quantos anos tem Eu quantos anos tenho vivido Sessenta E quantos morreram de quarenta Quantos anos tenho vivido Quarenta E quantos morreram de vinte Quantos anos tenho vivido Vinte E quantos morreram de dez e de dois e de um e de nenhum De utero translatus ad tumulum23 E se eu tenho vivido mais que tantos que injúria faço à minha vida em a querer acabar Que injúria faço aos meus anos em renunciar aos poucos e duvidosos pelos seguros e eternos Finalmente se tanto amo e tão pegado estou aos dias da vida presente por isso mesmo os devo dar a Deus para que ele me não tire os que ainda naturalmente posso viver segundo aquela regra geral da providência sua e aquele justo castigo dos que os gastam mal Viri sanguinum et dolosi non dimidiabunt dies suos24 Só resta o mais dificultoso laço de desatar ou cortar que são os que vós chamais gostos da vida os quais se ela se acaba também acabam Post mortem nulla voluptas25 Ajudeme Deus a vos desenganar deste ponto e seja ele como é o último Se nesta vida vede o que digo se nesta vida e neste miserável mundo cheio para todos os estados de tantos pesares pode haver gosto algum puro e sincero só os que acabam a vida antes de morrer a gozam Para todos os outros é a vida e o mundo vale de lágrimas só para os que acabaram a vida antes da morte é paraíso na terra Dois homens houve só neste mundo que verdadeira e realmente acabaram a vida antes da morte Henoc e Elias Ambos acabaram esta vida há muitos anos e ambos hão de morrer ainda no fim do mundo E onde estão estes dois homens que acabaram a vida antes de morrer Ambos e só eles estão no paraíso terreal e com grande mistério Porque se há e pode haver paraíso na terra se há e pode haver paraíso neste mundo e nesta vida só os que acabam a vida antes de morrer o logram Oh que vida tão quieta Oh que vida tão descansada Oh que vida tão feliz e tão livre de todas as perturbações de todos os desgostos de todos os infortúnios do mundo Depois que Henoc acabou a vida no mundo sucedeu logo nele a maior calamidade que nunca se viu nem verá o dilúvio universal O mundo grande estava já afogado debaixo daquele imenso mar sem porto nem ribeira o mundo pequeno metido em uma arca já subindo às estrelas já descendo aos abismos sem piloto sem leme sem luz flutuava atonitamente naquela tempestade Os montes soçobrados as cidades sumidas o céu de todas as partes chovendo lanças e fulminando raios E só Henoc no meio de tudo isto como estava Sem perigo sem temor sem cuidado Porque ainda que lhe chegassem lá os ecos dos trovões e o ruído da tormenta nada disto lhe tocava Eu já acabei com o mundo o mundo já acabou para mim que importa que se acabe para os outros Lá se avenham com os seus trabalhos pois vivem que eu já acabei a vida Neste tempo não era ainda nascido Elias Nasceu Elias viveu anos e antes de morrer acabou a vida do mesmo modo Mas que não padeceu o mundo e a terra onde Elias vivia depois deste seu apartamento Veio contra Samaria Senaquerib e Salmanasar veio contra Jerusalém Nabucodonosor tudo guerra tudo fomes tudo batalhas ruínas incêndios cativeiros desterros As dez tribos de Israel levadas aos assírios donde nunca tornaram as duas tribos de Judá e Benjamim transmigradas à Babilônia donde voltaram despedaçadas depois de setenta anos Porém Elias que noutro tempo o comia tanto o zelo e amor da pátria estavase no seu paraíso em suma paz em suma quietação em sumo sossego em suma felicidade Voltese o mundo debaixo para cima reine Joaquim ou reine Salmanasar reine Nabuco ou reine Ciro vença Jerusalém ou vença Babilônia vão uns e tornem e vão outros para não tornar que se lhe dá disso Elias Quem tem acabado a vida de todos esses vaivéns da fortuna está seguro O mesmo acontece senhores meus e o mesmo experimenta todo aquele que deveras se resolve a deixar o mundo ao mundo e acabar a vida antes da morte Não são necessários para isso arrebatamentos como os de Henoc nem carros de fogo como o de Elias senão uma valente resolução Quem assim se resolve goza como Henoc e Elias todos os privilégios de morto Corra o mundo por onde correr nenhuma coisa lhe empece nem lhe dá cuidado Um dos professores deste estado foi como vimos S Paulo e por isso ainda vivo dizia Vivo autem jam non ego Gál 220 E que quer dizer Eu vivo mas já não sou eu Quer dizer diz S Bernardo Ad alia quidem omnia mortuus sum non sentio non atrendo nou curo Todas as coisas deste mundo são para mim como para os mortos nem as sinto nem me dão cuidado nem faço mais caso delas que se não foram porque se elas ainda são eu já não sou Considerai as imunidades dos mortos e vereis o descanso de que gozam e os trabalhos de que se livram os que antecipam a morte Vieram ao Calvário os executores de Pilatos para quebrar as canelas aos crucificados e assim o fizeram a Dimas e Gestas com grandes dores daquele tormento porque estavam ainda vivos Jo 1931 s Ad Jesum autem cum venissent Ibid 32 mas quando chegaram a Cristo Ut viderunt eum jam mortuum non fregerunt ejus crura Como viram que estava já morto não executaram nele aquela crueldade De quantos quebrantamentos de quantas moléstias de quantas semrazões se livra quem está já morto O epitáfio que eu pusera a um morto destes é aquele verso de Davi Inter mortuos liber Sl 87 6 Entre os mortos livre Livre dos cuidados do mundo porque já está fora do mundo Livre de emulações e invejas porque a ninguém faz oposição Livre de esperanças e temores porque nenhuma coisa deseja Livre de contingências e mudanças porque se isentou da jurisdição da fortuna Livre dos homens que é a mais dificultosa liberdade porque se descativou de si mesmo Livre finalmente de todos os pesares e moléstias e inquietações da vida porque já é morto A todos os mortos se canta piamente por costume Requiescant in pace Mas esta paz e este descanso só o logram seguramente os que morreram antes de morrer Vedeo no mesmo texto de Davi donde a Igreja tomou aquelas palavras In pace in idipsum dormiam et requiescam26 Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo In idipsum Nesta cláusula in idipsum está o mistério que sendo a sentença tão clara a faz dificultosa mas admirável Que quer dizer Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo Se dissera Morre rei para descansar em paz bem se entendia mas Morrerei e descansarei em paz para isso mesmo Se há de morrer e descansar em paz para isso mesmo há de morrer e descansar em paz para morrer e descansar em paz Assim é e esse foi o profundo pensamento de Davi Como se dissera Eu quero morrer e descansar em paz na vida E por que ou para quê Para isso mesmo para morrer e descansar em paz na morte ln pace in idipsum dormiam et requiescam Por isso com grande propriedade significou o morrer pela frase de dormir dormiam porque o sono é morte em vida Daqui se seguem duas conseqüências últimas ambas notáveis e de grande consolação para os que morrem antes de morrer A primeira que só eles como há pouco dissemos gozam seguramente de paz e descanso A segunda que da paz e descanso desta morte se segue também seguramente a paz e descanso da outra que é o argumento de todo o nosso discurso Os que morrem quando morrem perdem o descanso da vida e não conseguem ordinariamente o da eternidade porque passam de uns trabalhos a outros maiores Assim diziam no inferno aqueles miseráveis que já tinham sido felizes Lassati sumos in via iniquitatis27 Chegamos cansados ao inferno Ao inferno e cansados porque lá não tivemos descanso e cá tereinos tormentos eternos Pelo contrário os que morrem antes de morrer morrem descansados e morrem para descansar In pace in idipsum dormiam et requiescam Oh que paz oh que descanso para a vida e para a morte Creio que ninguém haverá se tem juízo que se não resolva desde logo a viver e morrer assim ou a morrer assim para morrer assim Acabando desta maneira a vida esperareinos confiadamente a morte e por benefício do pó que somos Pulvis es não temereinos o pó que havemos de ser ln pulverem reverteris LAUS DEO SEGUNDA PARTE Dedicada No Panegírico da Rainha Santa Ao sereníssimo nome Da princesa N S D Isabel EM LISBOA Na Oficina de MIGUEL DESLANDES E à sua custa e de Antônio Leite Pereira Mercador de Livros M DC LXXXII Com todas as licenças e privilégio Real LICENÇAS DO ORDINÁRIO Podemse imprimir estes sermões do Padre Antônio Vieira E depois tornarão para se dar licença para correrem E sem ela não correrão Lisboa 7 de fevereiro de 1682 Serrão DO PAÇO Que se possa imprimir vistas as licenças do Santo Ofício e Ordinário E depois de impresso tornará à Mesa para se taxar e conferir E sem isso não correrá Lisboa 22 de fevereiro de 1682 Roxas Lamprea Rêgo Noronha Visto constar da folha atrás estar este livro conforme com seu original pode correr Lisboa 24 novembro 1682 Manoel Pimentel de Souza Jerônimo Soares João da Costa Pimenta Manoel de Moura Manoel Fr Valério de S Raimundo Bento de Beja de Noronha Podese correr Lisboa 25 de novembro 1682 Serrão Taxam este livro em doze tostões Lisboa 24 de novembro de 1682 Roxas Basto Rêgo Lamprea Noronha APROVAÇÃO DO M R P M Fr JOÃO DE DEUS da Seráfica Ordem de S Francisco Qualificador do Santo Ofício etc Vi este livro que contém os Sermões do P Antônio Vieira da Companhia de Jesus de vários assuntos pregados em várias partes e geralmente aplaudidos em todas E entre as agudezas deste grande pregador não há coisa contra nossa Santa Fé ou bons costumes S Francisco da Cidade 17 de janeiro de 1682 Fr João de Deus APROVAÇÃO DO M R P M Fr TOMÉ DA CONCEIÇÃO Qualificador do Santo Ofício etc Vi esta Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da Companhia de Jesus pregador de S Alteza Em nenhum deles achei coisa alguma contra nossa Santa Fé ou bons costumes e me parecem digníssimos da licença que se pede para que por meio da estampa se comunique a todos a fecundidade de tão fundo e claro engenho Carmo de Lisboa em 3 de fevereiro de 1682 Fr Tomé da Conceição APROVAÇÃO DO M R P M Fr JOÃO DA MADRE DE DEUS provincial que foi da Província de Portugal da Seráfica Ordem de S Francisco pregador de S Alteza Examinador das Três Ordens Militares e hoje digníssimo Arcebispo da Bahia etc SENHOR Mandame V A que veja a Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da sagrada religião da Companhia de Jesus digníssimo pregador de VA havendome já concedido a honra de o informar com o meu parecer sobre a impressão do primeiro tomo E é esta a primeira ventura que segunda vez se repetiu As suas obras são em tudo tão iguais que o mesmo juízo que se fez de umas se deve fazer de todas E se se lhes pode notar diferença é a que se acha nas veias das minas que quanto mais abertas dão a prata mais acendrada e o ouro mais puro Eu os li com gosto igual à admiração com que este máximo pregador é venerado em todas as partes do mundo por oráculo de todos os pregadores Ordinariamente os sermões lidos são menos agradáveis do que ouvidos porque lhes falta no papel aquela alma que o espírito dá às palavras e com que as vozes acompanham as ações Porém neste papel estão tão animadas as palavras e tão viva a eloqüência que lhes dá tanta vida a pena como lhes tinha dado a boca A linguagem tersa sem afetação os conceitos sentenciosos sem artifício a eloqüência fecunda sem demasia tudo tão ajustado às leis de um grande orador que em reduzilo a termos praticáveis é este orador tão singular que Deus o fez primeiro E não sei quando fará o segundo Unir o eloqüente com o sentencioso é felicidade de que só pode presumir sem vaidade o Pe Antônio Vieira pois admirando a fama repartidas em Túlio a eloqüência e em Sêneca as sentenças vemos nele juntos o sentencioso de um Sêneca e o eloqüente de um Túlio Disse Filo Hebreu que Abraão entre os eteus foi respeitado por seu príncipe porque não usava de palavras que fossem vulgares mas de razões que pareciam divinas Honorabantur eum quasi suum principem neque enim sermonibus utebatur vulgaribus sed divinitatem quandam praese ferentibus Nascendo bem a dívida deste respeito ao autor destes sermões pois estilo razões e conceitos tudo é tão sobre ao que tem chegado o humano que se deixa conhecer neles com singularidade uma influência divina Salomão repetidas vezes avaliou as letras em maior preço que o ouro Omne aurum in comparatione illius arena est exigua E assim se fora consultado sobre a impressão destes sermões creio que havia de ser de parecer que ao menos se deviam imprimir com letras de ouro Eu digo o que ele havia de dizer V A como príncipe tão sábio mandará o que for mais servido mandar S Francisco da Cidade 26 de fevereiro de 1682 Fr João da Madre de Deus LICENÇAS DA RELIGIÃO Eu Antônio de Oliveira da Companhia de Jesus provincial da Província do Brasil por comissão especial que tenho de nosso muito Reverendo Padre João Paulo Oliva propósito geral dou licença para que se possa imprimir este livro da Segunda Parte dos Sermões do P Antônio Vieira da mesma Companhia pregador de S A O qual foi revisto examinado e aprovado por religiosos doutos dela por nós deputados para isso E em testemunho da verdade dei esta subscrita com meu sinal e selada como selo de meu ofício Dada na Bahia aos 30 de junho de 1681 Antônio de Oliveira DO SANTO OFÍCIO Vistas as informações podese imprimir a Segunda Parte dos Sermões do Padre Antônio Vieira conteúdos nesta petição e depois de impressos tornarão para se conferirem e dar licença que corram E sem ela não correrão Lisboa 4 de fevereiro de 1682 Manoel Pimentel de Sousa Fr Valério de S Raimundo SERMÃO DA RAINHA SANTA ISABEL PREGADO EM ROMA NA IGREJA DOS PORTUGUESES NO ANO DE 1674 Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerentibus bonas margaritas inventa autem una pretiosa abiit et vendidit omnia quae habuit et emit eam1 I Rainha e santa os dois pólos do discurso As três qualidades do negociante da parábola cabedal diligência e ventura encontradas em Santa Isabel A mulher forte de que fala Salomão é uma mulher negociante No Livro dos Provérbios a descrição da Rainha de Portugal e Aragão 1 A uma rainha duas vezes coroada coroada na terra e coroada no céu coroada com uma das coroas que dá a fortuna e coroada com aquela coroa que é sobre todas as fortunas se dedica a solenidade deste dia O mundo a conhece com o nome de Isabel a nossa pátria que lhe não sabe outro nome a venera com a antono másia de Rainha Santa Com este título que excede todos os títulos a canonizou em vida o pregão de suas obras a este pregão se seguiram as vozes de seus vassalos a estas vozes a adoração os altares os aplausos do mundo rainha e santa Este será o argumento e estes os dois pólos do meu discurso 2 No texto do Evangelho que propus temos a parábola de um negociante em que concorreram todas aquelas três qualidades ou boas partes que poucas vezes se concordam cabedal diligência e ventura Cabedal Omnia quae habuit diligência Quaerenti bonas margaritas ventura Inventa una pretiosa Rico diligente ventu roso E que negociante é este É todo aquele que com os bens da terra sabe negociar o reino do céu Simile est regnum caelorum homini negotiatori 3 Este mundo senhores composto de tanta variedade de estados ofícios e exercícios públicos e particulares políticos e econômicos sagrados e profanos nenhuma outra coisa é senão uma praça ou feira universal instituída e franqueada por Deus a todos os homens para negociarmos nela o reino do céu Assim o ensinou Cristo na parábola daquele rei que repartiu diferentes talentos ou cabedais a seus criados para que negociassem com eles até sua vinda Negotiamini dum venio Lc 1913 Para as negociações da terra a muitos falta o cabedal outros têm cabedal mas faltalhes a diligência outros têm cabedal e diligência mas faltalhes a ventura Na negociação do céu não é assim A todos dá Deus o cabedal a todos oferece a ventura e a todos pede a diligência O cabedal são os talentos da natureza a ventura são os auxílios da graça a diligência é a cooperação das obras Quando o rei disse Negotiamini dum venio os criados a quem entregou a sua fazenda para que negociassem com ela eram três todos três tiveram cabedal dois tiveram diligência um não teve ventura E por que não teve ventura este último Porque não teve diligência enterrou o talento Bem o conhecia o rei pois fiou dele o menos E que sucedeu aos outros dois O que tinha cinco talentos negociou e granjeou outros cinco O que tinha dois talentos negociou e granjeou outros dois Ambos tiveram igual ventura porque fizeram igual diligência mas o que entrou com maior cabedal saiu com maior ganância 4 Ninguém entrou na praça deste mundo com maior cabedal que a nossa Rainha Santa uma coroa e outra coroa a de Aragão e a de Portugal O mercante do Evangelho tratava em pérolas Santa Isabel em coroas Grande cabedal De uma grande rainha de Lacedemônia disse Plínio no livro De Summa Felicitate este elogio Una faeminarum in omni aevo Lacedemonia reperitur quae regis filia regis uxor regis mater fuit2 Isabel não só foi filha de rei mulher de rei e mãe de rei mas que filha que mulher que mãe Filha de um rei em quem estavam unidos os brasões de todos os reis da Europa Pedro Segundo de Aragão mulher de um rei que foi árbitro dos reis em todos os pleitos que tiveram em seu tempo as coroas de Espanha Dionísio de Portugal mãe de um rei Afonso Quarto de quem descendem todos os monarcas e príncipes da Cristandade não vivendo hoje nenhum que o melhor sangue que tem nas veias não seja de Isabel Grande fortuna de mulher grande cabedal Mas parece que não havia de ser mulher porque o negociar é ofício de homem Homini negotiatori O reparo é do Evangelho a solução será da epístola 5 Mulierem fortem quis inveniet Prov 3110 111S18 etc Quem achará no mundo uma mulher forte uma mulher varonil uma mulher como homem Tudo isso quer dizer o texto Fortem virilem viraginem Quando eu li as bravezas desta proposta e pergunta de Salomão estava esperando ou por uma Judite com a espada na mão direita e a cabeça de Olofernes na esquerda ou por uma Jael com o cravo e com o martelo atravessando as fontes de Sisara por uma Débora plantada na testa de um exército capitaneando esquadrões e vencendo batalhas Mas não é isto o que responde Salomão Diz que a mulher forte a mulher varonil a mulher mais que mulher era uma mulher negocianteAgrum emit syndonem vendit et vidit quia bona est negotiatio eius3 E como negociava esta mulher Como o homem do Evangelho com cabedal com diligência com ventura Com cabedal Dedit praedam domesticis suis4 com diligência Non extinguetur in nocte lucerna ejus5 com ventura e ventura sobre todas Multae filiae congregaverunt divitias tu supergressa es universos6 Já temos uma mulher negociante como homem Só nos faltava para Santa Isabel que nos dissesse Salomão o nascimento a pátria e o estado desta notável mulher Também isso disse Disse que era rainha e espanhola e aragonesa Rainha Purpura et byssus indumentum ejus7 porque naquele tempo só às pessoas reais era lícito vestir púrpura Espanhola Procul et de ultimis finibus pretium ejus8 porque na antiga cosmografia e na frase da Escritura o fim da terra é Espanha Finalmente aragonesa e tal aragonesa que é mais Et spoliis non indigebit9 porque os aragoneses entre todas as nações de Espanha foram os primeiros que enobreceram e enriqueceram com despojos a sua coroa conquistando novas terras novos mares e novas gentes E Santa Isabel em particular foi nascida e criada nos braços de elrei Dom Jaime de Aragão por sobrenome o Conquistador o qual e seu filho elrei Dom Pedro pai de Isabel foram os que conquistaram em Espanha o Reino de Valença em Itália o Reino de Sicília no Mediterrâneo as Ilhas de Evisa e Malhorca E não pararam aqui os despojos A estes se seguiram sucessivamente primeiro os reinos de Córsega e Sardenha depois o fiorentíssimo e belicosíssimo reino de Nápoles e ultimamente quê A mesma Jerusalém onde Salomão escrevia e onde estava vendo a mulher forte de que falava entre despojos nascida entre despojos criada e de tão gloriosos despojos herdeira Et spoliis non indigebit 6 Isto suposto e suposto que eu não sei dizer o que me diz o Evangelho o tema será o sermão e o assunto dele a melhor negociante do reino do céu Simile est regnum caelorun homini negotiatori Negociou Isabel de um reino para outro reino e de uma coroa para outra coroa não do reino e coroa de Aragão para o reino e coroa de Portugal senão do reino e coroa da terra para o reino e coroa do céu que vem a ser em menos palavras Rainha e Santa Estes dois nomes somente havemos de complicar um com o outro e vereinos a nossa rainha tão industriosa negociante no manejo destas duas coroas que com a coroa de rainha negociou ser maior santa e com a coroa de santa negociou ser maior rainha Maior rainha porque santa e maior santa porque rainha A rainha de todos os santos nos alcançará a graça Ave Maria II Rainha e santa e porque santa maior rainha As coroas não são mercadoria de lei Os reis nas parábolas de Cristo Os três reis santos das Escrituras Por que não há rainhas santas nas Escrituras Simile est regnum caelorum homini negotiatori Rainha e santa e porque santa maior rainha Esta é a primeira parte do nosso discurso e este foi o primeiro lanço da melhor negociante do reino do céu 7 O maior cabedal que pode dar o mundo é uma coroa Mas ainda que as coroas são as que dão as leis não são mercadoria de lei Ao menos eu não havia de assegurar esta mercadoria de fogo mar e corsário porque as mesmas coroas muitas vezes elas são o roubo elas o incêndio elas o naufrágio Para conquistar reinos da terra o melhor cabedal é uma coroa mas para negociar o reino do céu é gênero que quase não tem valor Ponde uma coroa na cabeça de Ciro conquistará os reinos de Baltasar ponde uma coroa na cabeça de Alexandre conquistará os reinos de Dario ponde uma coroa não na cabeça senão no pensamento de César e oprimirá a liberdade da pátria e da mais florente república fará o mais soberbo e violento império Mas para negociar o reino do céu nem a Baltasar nem a Dario nem a Alexandre nem a César nem ao mesmo Ciro a quem Deus chamava o seu rei e o seu ungido Christo meo Cyro Is 451 valeram nada as coroas 8 Ora eu andei buscando no nosso Evangelho alguma coroa e ainda que Cristo nunca multiplicou tantas semelhanças e tantos modos de adquirir o reino do céu em diversos estados e ofícios o de rei não se acha ali Achareis um lavrador um mercante um pescador um letrado mas rei não E por quê Não são personagens os reis que pudessem entrar também em uma parábola e autorizar muito a cena com a pompa e majestade da púrpura Claro está que sim E assim o fez Cristo muitas vezes Mas vede o que dizem as parábolas dos reis Regi qui fecit nuptias filio suo10 Intravit rex ut videret discumbentes11 Quis rex iturus committere bellum adversus alium regem12 Abiit in regionem longinquam accipere sibi regnum13 Reis que fazem bodas que fazem banquetes que fazem guerras que mandam exércitos que conquistam reinos da terra isso achareis no Evangelho mas reis que se empreguem em adquirir o reino do céu parece que não é ocupação de personagens tão grandes Ao menos Cristo disse que o reino do céu era dos pequenos Sinite parvulos ad me venire talium est enim regnum caelorum14 Tais são o lavrador no campo o mercador na praça o pescador no mar o letrado na banca e sobre o livro Mas nas cortes nos palácios nos tronos e debaixo dos dosséis que achareis Bodas banquetes festas comédias e por cobiça ou ambição exércitos guerras conquistas Eis aqui por que as coroas não são boa mercadoria ao menos muito arriscada para negociar o reino do céu Reis e belicosos reis e políticos reis e deliciosos quantos quiserdes mas reis e santos muito poucos Vedeo nas letras divinas onde só se pode ver com certeza De tantos reis quantos houve no povo de Deus só três achareis santos Davi Ezequias Josias Houve naquele tempo grande quantidade de santos grande sucessão de reis mas reis e santos santidade e coroa Três 9 E se é coisa tão dificultosa ser rei e santo muito mais dificultoso é ser rainha e santa No mesmo exemplo o temos De todos os reis de Israel e Judá três santos de todas as rainhas nenhuma Ainda não está ponderado O número das rainhas naquele tempo era muito maior sem comparação que o dos reis porque era permitida e usada a poligamia e assim como hoje é grandeza e majestade terem os reis muitos criados e muitos ministros assim então era parte da mesma majestade e da mesma grandeza terem muitas rainhas Das rainhas que teve Davi além de outras muitas sabemos o nome a sete Jeroboão teve dezoito e só Salomão setecentas Fueruntque ei uxores quase reginae septigentae15 E sendo tão inumerável o número das rainhas santa nenhuma Finalmente desde o princípio do mundo até Cristo em que passaram quando menos quatro mil anos em todos os reinos e todas as nações não achareis rainha santa mais que unicamente Ester 10 E qual é a razão disto Porque é mais dificultoso ser rainha santa que rei santo porque ainda que no rei e na rainha é igual a fortuna na mulher é maior a vaidade Os fumos da coroa não sobem para o céu descem para a cabeça Ponde a mesma coroa na cabeça de Davi e na cabeça de Micol na de Micol tantas fumaradas na de Davi nenhum fumo E se me disserdes que Davi era humilde e santo tomemos outras parelhas O mais vão rei que houve no mundo foi elrei Assuero mas a rainha Vasti muito mais fumosa que Assuero O mais soberbo rei que houve em Israel foi elrei Acab mas a rainha Jezabel muito mais fumosa que Acab Lembrai vos de Atália que foi a segunda Medéia ou a segunda Semíramis do povo hebreu Era mãe e avó que é mais e por muito vã e muito fumosa não duvidou tirar a vida a todos os filhos de seu filho elrei Ocosias De nenhum homem se lê semelhante resolução E buscando a causa os padres e expositores não acham outra nem dão outra senão o ser mulher Quia faemina erat diz com todos Abulense Mulher Atália mulher Jezabel mulher Vasti mulher Micol mulher Bersabé mulher finalmente Eva E em todas estas sempre pôde mais a vaidade que a virtude III Menos santa fora Isabel se sua santidade não assentara sobre mulher e coroa O modo de negociar o reino do céu diz Cristo que há de ser dando deixando e renunciando o negociante tudo o que tiver o que aparentemente não fez Santa Isabel S Paulo e a Encarnação do Verbo Por que Davi precede Abraão na genealogia de Cristo Santidade assentada sobre coroa ainda em grau igual é maior santidade Em Maria os contrários da virgindade fazemna duplamente virgem A visão do Apocalipse figura de Isabel Santa e rainha As duplas vestes da rainha na visão de Davi 11 Perdoaime Rainha Santa este discurso mas não mo perdoeis porque todo ele foi ordenado a avaliar o preço a encarecer a singularidade e a sublimar a grandeza de vossas glórias Menos santa fora Isabel se a sua santidade não assentara sobre mulher e coroa Destes dois metais um tão frágil outro tão precioso deste vidro e deste ouro se formou se fabricou a peanha que levantou a estátua de Isabel até as estrelas Mas antes que mais nos empenhemos na ponderação desta verdade acudamos às vozes do Evangelho que parece estão bradando contra ela O modo de negociar o reino do céu e a forma ou contrato desta negociação diz Cristo que há de ser dando deixando e renunciando o negociante tudo quanto tiver Dedit omnia sua et emit eam16 Se Isabel renunciara à coroa e deixara de ser rainha então disséramos justamente que com a coroa da terra comprou e negociou a coroa do céu mas ela viveu rainha e morreu rainha e não renunciou à coroa Eu bem sei que renunciar uma coroa assim como é a maior coisa do mundo assim é também a mais dificultosa mas não por isso impossível Exemplo temos no nosso século posto que o não vissem os passados Roma o viu e Roma o vê Uma das maiores coroas da Europa renunciada com tanto valor e deixada com tanta glória só por seguir a fé do Evangelho e segurar debaixo das chaves de Pedro aquele reino que só elas podem abrir Pois por que não deixou Isabel este tudo que verdadeiramente é o tudo do mundo Omnia quae habuit Por que não renunciou e demitiu de si a coroa para se conformar com o Evangelho 12 Primeiramente digo que sim deixou Isabel a coroa mas deixoua sem a deixar demitiua sem a demitir e renuncioua sem a renunciar Era Isabel rainha mas que rainha Uma rainha que debaixo da púrpura trazia perpetuamente o cilício uma rainha que assentada à mesa real jejuava quase todo o ano a pão e água uma rainha que quando se representavam as comédias os saraus os festins ela estava arrebatada no céu orando e contemplando uma rainha que por dentro da sua coroa lhe estavam atravessando a cabeça e o coração os espinhos da coroa de Cristo uma rainha que adorada e servida dos grandes de seu reino ela servia de joelhos aos pobres e lhes lavava os pés com suas mãos e lhes curava e beijava as chagas Desta maneira usava Isabel da coroa ajuntando e unindo na pessoa da rainha dois extreinos tão distantes e dois exercícios tão contrários e isto digo que foi deixar a coroa sem a deixar Tenho para prova um texto de S Paulo muito vulgar e sabido mas de tão dificultosa inteligência que tendose empregado variamente nele todos os expositores sagrados ainda se lhe deseja mais própria e adequada exposição 13 Qui cum in forma Dei esset exinanivit semetipsum formam servi accipiens17 Quer dizer sendo o Verbo Eterno por essência e igualdade ao Padre Deus quando tomou e uniu a si a natureza humana despiuse e despojouse de tudo quanto era e quanto tinha Ainda o diz com maior energia o apóstolo Exinanivit semetipsum assim como quando um vaso quando se emborca e se esgota lança de si quanto tem e fica vazio assim o fez e ficou Deus fazendose homem Já estais vendo a dificuldade não só os teólogos mas todos Deus fazendose homem não perdeu nada do que tinha nem deixou nada do que era Era Deus e ficou Deus era infinito e ficou infinito era eterno e imenso e ficou eterno e imenso era impassível e imortal e ficou imortal e impassível Pois se Deus não deixou nem renunciou nem demitiu de si nada do que era nem do que tinha como diz S Paulo que se despojou e se esgotou a si mesmo e de si mesmo Exinanivit semetipsum Assim o disse profundamente o Apóstolo e também diz o como isto podia ser e como foi Formam servi accipiens cum in forma Dei esset É verdade que Deus fazendose homem não perdeu nada do que era nem deixou nada do que tinha porém tomou e uniu ao que era tudo o contrário do que era tomou e uniu ao que tinha tudo o contrário do que tinha e tomar e unir na mesma pessoa extreinos tão contrários e tão distantes foi despojarse de tudo o que era sem se despojar Era Deus e fezse homem era eterno e nasceu em tempo era imenso e determinouse a lugar era impassível e padecia era imortal e morreu era supremo senhor e fezse servo e servir o senhor morrer o imortal padecer o impassível limitarse o imenso e humanarse o divino não só foi tomar o que não era senão deixar o que era Não deixar deixando que isso não podia ser mas deixar retendo deixar conservando deixar sem deixar Exinanivit semetipsum formam servi accipiens cum in forma Dei esset Isto é o que fez o Verbo e isto é o que fez Isabel conformandose altíssimamente com o Evangelho ao modo do mesmo autor do Evangelho Rainha com majestade e coroa mas que coroa que majestade que rainha Coroa sim mas coroa sem a deixar deixada porque deixou toda a pompa e esplendor do mundo com que se engrandecem as coroas Majestade sim mas majestade sem a renunciar renunciada porque renunciou toda a ostentação toda a altiveza e toda a idolatria com que se adoram as majestades Rainha sim mas rainha nãorainha porque tirada a soberania do título nenhuma outra coisa se via em Isabel das que se admiram nas rainhas sendo por isso mesmo a mais admirável de todas 14 Desta maneira deixou a nossa rainha a coroa e o tudo que pedia o Evangelho Omnia quae habuit Mas assim como a deixou sem a deixar por que a não deixou deixando Por que não abdicou a majestade por que não deixou de ser rainha ou não aceitando a coroa quando se lhe ofereceu ou renunciandoa depois de aceitada Respondo que esta foi a maior indústria de sua negociação conservar o cabedal de rainha para granjear ser maior santa O maior bem ou o único bem que têm as supremas dignidades do mundo é serem um degrau sobre o qual se levanta mais a virtude é serem um cunho real com que sobe a maior valor a santidade Santo foi Davi e santo Abraão e primeiro Abraão que Davi Contudo S Mateus referindo a genealogia de Cristo antepõe Davi a Abraão Filii David filii Abraham Mt 11 Pois se Abraão também era santo e santo da primeira classe como Davi e precedia na antigüidade por que se lhe antepõe Davi Dá a razão Santo Tomás angelicamente Porque ainda que Abraão era santo e tão santo como Davi Davi era santo e rei juntamente o que não concorria em Abraão A santidade de Abraão posto que grande era santidade sem coroa a santidade de Davi era santidade coroada e santidade assentada sobre coroa ainda em grau igual é maior santidade 15 E por quê Porque na majestade na grandeza no poder na adoração e em todas as outras circunstâncias que acompanham as coroas concorrem todos os contrários que pode ter a virtude e a santidade e a virtude conservada entre os seus contrários é dobrada virtude Ouvi uma das mais notáveis sentenças de Santo Agostinho Audiat omnis aetas quod nunquam audivit Ouçam todas as idades o que nunca ouviram diz Agostinho E que hão de ouvir Fala do parto virginal e diz assim Virgo partu suo crevit virginitatem dum pareret duplicavit Nestas últimas palavras reparo Diz Santo Agostinho que Maria Santíssima concebendo parindo e ficando Virgem não só conservou mas dobrou a virgindade Virginitatem dum pareret duplicavit Se falara de qualquer outra virtude não tinha dificuldade esta doutrina Mas da virgindade parece que não pode ser porque a virgindade consiste em ser indivisível É uma inteireza perfeita incorrupta intemerata que não pode crescer nem minguar nem admite mais ou menos Pois se esta virtude soberana e angélica não admite diminuição nem aumento se quando é sempre é igual e sempre a mesma como diz Santo Agostinho que cresceu que se aumentou e que se dobrou e foi dobrada no parto da Virgem Porque foi virtude que se conservou inteira entre seus contrários A conceição o parto o ter filho o ser mãe são os contrários da virgindade e conservarse Maria virgem sendo juntamente mãe foi ser dobradamente virgem Virginitatem dum pareret duplicavit Tais foram as virtudes de Isabel O maior contrário e o maior inimigo da virtude é uma grande fortuna e quanto maior figura tanto maior inimigo A humildade o desprezo do mundo a moderação a abstinência a pobreza voluntária na outra gente são simples virtudes mas estas mesmas com uma coroa na cabeça com um cetro na mão debaixo de um dossel e assentadas em um trono são dobradas virtudes porque são virtudes juntas com seus contrários A humildade junta com a majestade é dobrada humildade a moderação junta com o supremo poder é dobrada moderação o desprezo do mundo junto com o mesmo mundo aos pés é dobrado desprezo do mundo a pobreza com a riqueza a abstinência com a abundância a mortificação com o regalo a modéstia com a lisonja é dobrada pobreza é dobrada abstinência é dobrada mortificação é dobrada modéstia porque é cada uma delas não uma rosa entre os espinhos mas uma sarça verde entre as chamas E porque a nossa negociante do céu sabia que debaixo do risco está a ganância por isso teve por maior conveniência não deixar senão ajuntar a coroa com a virtude não deixar senão ajuntar a majestade com a santidade para que sendo rainha e juntamente santa fosse também maior santa porque rainha 16 E se quereis ver tudo isto com os olhos em uma admirável figura pondeos comigo ou com S João no céu No capítulo doze do Apocalipse diz S João que apareceu no céu um grande prodígio Signum magnum apparuit in caelo e declarando logo qual fosse este prodígio e sua grandeza diz que era uma mulher que tinha os pés no primeiro céu que é o céu da lua Luna sub pedibus ejus o corpo no quarto céu que é o céu do sol Amicta sole e a cabeça no oitavo céu que é o céu das estrelas Et in capite ejus corona stellarum duodecim18 Grande mulher grande prodígio e grande retrato de Isabel Mulher que vivendo na terra já seus méritos a tinham canonizado e colocado no céu Signum magnum apparuit in caelo mulher tão desprezadora das grandezas do mundo que todas as coisas sublunares as pisou e meteu debaixo dos pés Luna sub pedibus ejus mulher tão alumiada e ilustrada das luzes da graça que aos olhos de Deus e dos homens resplandecia como um sol Amicta sole mulher tão adornada de todas as perfeições e dotes sobrenaturais que todo o coro das virtudes como outras tantas estrelas lhe teciam e esmaltavam a coroa Et in capite ejus corona stellarum duodecim Até aqui Isabel santa E sendo esta prodigiosa mulher tão grande poderá ser maior Estando tão alta poderá subir mais Estando no céu poderá ser mais celeste Sim E como Se ao celeste se ajunta o real e às suposições de santa as circunstâncias de rainha Assim foi e assim o viu o mesmo profeta 17 Et datae sunt mulieri alae duae aquilue magnae ut volaret Apc 1214 E a esta mulher diz S João foramlhe dadas duas asas da águia grande para que voasse com elas A águia é a rainha das aves e mulher com asas de águia é mulher com prerrogativas reais é mulher com circunstâncias de rainha Mas notai que não só diz que se deram à mulher duas asas de águia senão duas asas de águia grande Datae sunt mulieri alae duae aguilae magnae Agora pergunto Qual é neste mundo a águia grande e quais são as duas asas desta águia A águia grande não há dúvida que é Espanha a mais dilatada monarquia de todo o universo águia real coroada de tantas coroas As duas asas desta águia também não há dúvida que são o Reino de Aragão de uma parte o Reino de Portugal de outra Não é divisão ou distinção minha senão de todos os cosmógrafos os quais dividem a Espanha em três partes ou três Espanhas Hispania Betica Hispania Tarraconensis Hispania Lusitanica O corpo e a cabeça desta grande águia é a Espanha Bética que compreende as duas Castelas Uma das asas é a Espanha Tarraconense isto é Aragão que de Tarragona se disse Aragona a outra asa é a Espanha Lusitânica isto é Portugal que de Luso se disse Lusitânia Ao ponto agora Tendo o céu engrandecido tanto a Isabel tendoa sublimado a um lugar tão alto de perfeição tendo depositado nela tudo o precioso e lustroso de seus tesouros e graças que fez Deus Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae ajuntou e acrescentou a esta prodigiosa mulher as duas asas reais da grande águia de Espanha por nascimento a de Aragão e por casamento a de Portugal E para quê Ut volaret para que levantada sobre estas duas asas a santidade de Isabel o grande dela crescesse à maior grandeza o alto subisse à maior altura o luminoso à maior luz o celeste à mais celeste e à mesma santidade a mais santa Santa Isabel porque santa e maior santa porque rainha Santa porque santa por isso colocada no céu Signum magnum apparuit in caelo e maior santa porque rainha por isso depois de colocada no céu acrescentada com asas de águia e com circunstâncias reais Datae sunt mulieri alae duae aquilae magnae 18 E se não voemos nós também com as mesmas asas e subamos do céu estrelado onde a viu S João ao céu empíreo onde a viu Davi Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato circumdata varietate Sl 44 10 Vi diz Davi uma rainha colocada à destra de Deus a qual estava vestida com duas galas diferentes por dentro com uma roupa bordada de ouro In vestitu deaurato por fora com outra roupa de cor vária Cincumamicta varietate Eis aqui como está a nossa rainha santa no céu vestida e adornada com duas galas uma por baixo e por dentro que é o vestido de rainha que vestiu primeiro e por isso bordado de ouro In vestitu deaurato outra por cima e por fora que é o hábito de Santa Clara que vestiu depois e por isso de cor vária pardo e branco circumamicta varietate E qual destas duas galas a faz mais majestosa e mais gloriosa no céu a de dentro ou a de fora a de brocado ou a de burel a de rainha ou a de religiosa Digo que ambas mas porque uma assentou sobre a outra Porque o hábito de religiosa assentou sobre o de rainha porque o burel assentou sobre o brocado porque o vestido de fora assentou sobre o de dentro daí é que lhe vem toda a graça e toda a formosura O mesmo Davi o disse Omnis gloria ejus ab intus in fimbriis aureis circumamicta vatietate19 a graça e a formosura ao vestido de fora toda lhe vem do vestido de dentro O hábito de S Francisco e de Santa Clara é uma das mais vistosas e mais bizarras galas que se trajam no céu Mas esta mesma gala em Isabel assentada sobre vestiduras reais é muito mais vistosa muito mais bizarra e muito mais formosa porque toda a graça e formosura lhe vem das guarnições e bordaduras de ouro que por baixo da orla estão reluzindo Omnis gloria ejus ab intus in fimbriis aureis 19 E se perguntarmos mais curiosamente a Davi qual era o lavor dessas guarnições e dessa bordadura da orla também o disse milagrosamente In fimbriis aureis lê o hebreu In scutulatis A guarnição e bordadura que aparecia na orla do vestido real por baixo do burel de que a rainha estava revestida era um lavor e recamo de ouro formado e enlaçado de escudos In scutulatis E que escudos são estes São aqueles dois escudos que vedes pintados ao lado de Isabel o escudo das armas de Aragão e o escudo das armas de Portugal De maneira que a bordadura da orla que faz sair e sobressair a gala com que Isabel se ostenta gloriosa à destra de Deus é composta admiravelmente e tecida destes dois escudos travados e alternados um com o outro as barras entre as quinas e as quinas entre as barras In scutulatis E nestes escudos reais cobertos e sobrevestidos de burel áspero e grosseiro diz Davi que consiste todo o realce da gala e toda a formosura e glória da filha do rei Omnis gloria ejus filiae regis ab intus porque se Isabel é gloriosa e exaltada no céu por santa muito mais exaltada é por santa sobre rainha Astitit regina a dextris tuis in vestitu deaurato circumdata varietate IV Isabel maior rainha porque santa porque senhora da saúde e da vida de seus súditos Mentem os judeus em dizer que Cristo se fez rei como César deviam dizer que se fez rei maior que César pelos milagres que realizava 20 Temos vista a Isabel maior santa porque rainha seguese que a vejamos agora maior rainha porque santa Este foi o segundo lanço da melhor negociante do reino do céu e nisso mesmo parecida ao negociante do Evangelho A fortuna nunca iguala os desejos dos homens mas se houvesse uma fortuna tão grande que não só igualasse mas vencesse e excedesse os desejos esta seria a maior fortuna que se pode imaginar Tal foi a fortuna do negociante do Evangelho Ele desejava e procurava pérolas boas Quaerenti bonas margaritas E quando só desejava pérolas boas e de preço e estimação ordinária foi tal a sua fortuna que achou uma pérola tão preciosa que excedia o valor de quanto buscava e de quanto tinha Inventa una pretiosa margarita dedit omnia sua et comparavit eam Ainda foi maior fortuna a de Isabel Isabel não buscava coroas antes as coroas a buscavam a ela e porque buscada das coroas ela buscou a santidade por isso essa mesma santidade lhe acrescentou à coroa e a fez muito maior rainha A dignidade de rainha é tão alta e tão soberana que parece não admite maioria Mas Isabel pelos privilégios de santa foi rainha maior que rainha porque foi rainha com maior poder rainha com maior jurisdição rainha com maior império 21 Uma das acusações que se deram contra Cristo e a que venceu a causa foi dizerem que se fazia rei e que tomava a jurisdição de César Si hunc dimittis non es amicus Caesaris omnis enim qui se regem facit contradicit Caesaris20 Todos os padres e expositores sagrados impugnam esta calúnia e a provam com cinco mil testemunhas contestes Estes foram aqueles cinco mil homens que depois de Cristo lhes matar a fome no milagroso banquete do deserto o reconheceram pelo verdadeiro Messias e o quiseram aclamar por rei quando o senhor para mostrar que não era rei dos que fazem ou podem fazer os homens os deixou e se retirou para o monte Grande prova de Cristo se não fazer rei como era acusado Mas São Leão Papa com mais alto pensamento apresentase entre os mesmos acusadores diante de Pilatos e argumenta assim por parte deles Ne in totum videatur inanis judeorum objectio discute diligenter praeses Examine Pilatos diligentemente a causa e achará que não é totalmente falsa a acusação Em dizerem os judeus que Cristo se fez rei falam verdade em dizerem que se fez rei como César aqui é que mentiram Haviam de dizer que se fez rei maior que César e maior que todos os reis E por quê Ouvi a razão do eloqüentíssimo pontífice que é divina Caecis visum surdis auditum claudis gressum mutis donavit eloquim febres abegit dolores resolvit mortuus suscitavit magnum prorsus regem ista demonstrant Este homem acusado de se fazer rei deu olhos a cegos ouvidos a surdos pés a mancos fala a mudos sarou febres resolveu dores ressuscitou mortos e com todas estas coisas ainda que não provou que era rei como César e como os outros reis que não têm tal poder mostrou porém e demonstrou que era maior rei que todos eles 22O mesmo digo de Isabel Entrava Isabel nos hospitais que ela e seus antecessores tinham edificado concorriam a Isabel os enfermos de todas as enfermidades E que sucedia Ia Isabel fazendo o sinal da cruz sobre eles os cegos viam os mudos falavam os surdos ouviam os mancos e aleijados saltavam os mortos os que estavam para morrer ressuscitavam Magnum prorsus reginam ista demonstrant Dizei às outras rainhas e aos outros reis que façam isto com todo seu poder Fazer mancos fazer aleijados fazer cegos fazer estropiados isso fazem os reis e isso podem E se não ide a essas campanhas a estes exércitos e a essas cortes uns em muletas outros arrastando uns sem pernas outros sem braços uns sem olhos outros sem orelhas outros pedindo esmola com os dedos porque não têm língua outros sem casco na cabeça meio atontados outros sem queixadas no rosto horríveis e disformes Homens miseráveis homens que não sois homens senão parte de homens quem vos pôs neste estado Padre o serviço de el rei Fomos à guerra e dela escapamos desta maneira Isto é o que podem fazer os reis e tanto mais quanto mais poderosos Não assim Isabel Era rainha que restituía braços e pés e olhos e ouvidos Ver a majestade e pompa com que se diz dos reis que são senhores da vida Senhores da vida Leiam à margem destes títulos à glosa de Cristo Nolite timere eos qui occidunt corpus21 São senhores da vida para a tirar para a dar não Se sois delinqüente podemvos matar por justiça se sois inocente podemvos matar por tirania se tendes pouco juízo e pouco coração podemvos matar com uma carranca ou com um voltar de olhos mas dar vida ou saúde não é da jurisdição dos reis Assim o confessou um rei mais verdadeiro que todos Nolite confidere in principibus in quibus non est salus22 Isabel sim que era senhora da saúde e da vida e por isso maior rainha que todas as rainhas Mognum prorsus reginam ista demonstrant V A reverência do Tejo a Isabel e a irreverência do Jordão à Arca 23 Outra demonstração em maiores corpos Chega Santa Isabel a Santarém para atravessar o Tejo Estava prevenida uma galé real para a pessoa gôndolas e bargantins toldados para a corte mas em aparecendo Isabel na praia abrese o rio de repente levantamse dois muros de Cristal de uma e outra parte os peixes como às janelas em cardumes e atônitos pasmando da maravilha e Isabel caminhando sobre o seu bordão por aquela rua nova juncada de limos verdes mas sobre areias de ouro Não é afetação minha que já o disse o Espírito Santo em caso semelhante Campus germinans de profundo ninio23 Passemos agora de Portugal à Palestina e do Tejo ao Jordão Para o Jordão à vista da Arca do Testamento cabeça também coroada Facies que supra coronam aureum per circuntum24 Pinta o caso Davi e exclama Quid est tibi mare quod fugisti et tu Jordanis quia conversus es retrorsum Sl 113 5 Rio que paras mar que foges que é o que viste Bizarra e elegante prosopopéia de Davi mas em pequeno teatro maior é o nosso Que rio e que mar eram aqueles com quem falava Davi O mar era o Mar Morto chamado por outro nome Vallis Salivarum porque era uma saliva do oceano25 Cuspiu o Oceano e fez aquele mar O rio era o Jordão composto de dois regatos um o Jor outro o Dan que para terem cabedal com que ir morrer no Mar Morto se ajuntaram e fizeram companhia um com outro Esta era a grandeza do rio a quem aquele pequeno lago engolia de um bocado como diz o profeta Et fiduciam habet quod influat Jordanis in os ejus26 24 Comparaime agora rio com rio e mar com mar Assim como a Arca do Testamento passou por aquela parte onde as águas do Jordão se misturam com as do Mar Morto assim passou Isabel por aquela parte onde as águas do Tejo se confundem com as do Oceano O Oceano é aquele pego vastíssimo e imenso que ele só é todo o elemento da água e estendendo infinitos braços está recebendo como nas pontas dos dedos o tributo de todos os rios do universo Este foi o mar que se retirou e fez pé atrás à vista de Isabel E o rio qual era Aquele soberbíssimo Tejo primeiro domador do mesmo Oceano a quem pagaram páreas em pérolas o Indo e o Ganges não coroados de juncos e espadanas como o Padre Tibre mas com grinaldas de rubis e capelas de diamantes Este soberbo mar este soberbo rio são os que fizeram praça a Isabel e lhe descobriram nova terra para que pisasse Davi respondendo à sua pergunta disse Afacie Domini mota est terra afacie Dei Jacob27 E aqui está o maior excesso de maravilha Lá o Jordão parado cá o Tejo parado lá a Arca coroada cá Isabel coroada lá a Arca caminhando a pé enxuto cá Isabel a pé enxuto mas lá porque o rio viu a face de Deus cá porque viu a face de Isabel lá porque viu a face do Senhor de Israel cá porque viu a face da Rainha de Portugal Afacie Domini afacie Dei Jacob Que Deus visto refreie a corrente dos rios isso é ser Deus mas que à presença de Isabel lhe façam os rios a mesma reverência vede se é ser rainha mais que rainha E se não perguntai ao mesmo Tejo quantas vezes passaram por ele as outras rainhas quais eram as suas cortesias Passavam as Teresas passavam as Dulces passavam as Mafaldas passavam as Urracas as Leonoras as Luísas as Catarinas e o Tejo que fazia Corria como dantes Porém a Isabel falemos em frase de Roma a Isabel firmavase o Tejo às outras não se firmava porque as outras eram rainhas Isabel era rainha e santa e por isso maior rainha VI O milagre das rosas e a conversão de uma substância em outra poder divino reconhecido pelo demônio na tentação do monte e provado por Cristo na instituição do Sacramento Os arremedos dos reis O mais a que pode chegar um rei é pôr nomes como Adão aos animais O corpo incorrupto da santa e o corpo incorrupto de Cristo 25 Eu já quisera acabar mas estáme chamando a nova primavera que vemos a que repare naquelas rosas Levava Isabel na aba do vestido grande cópia de moedas de ouro e prata para repartir aos pobres e era inverno Perguntoulhe elrei que levava e respondeu que rosas Rosas neste tempo como pode ser diz el rei Abriu a santa e eram rosas Há rainha há rei no mundo que tenha tais poderes Gastar muito dinheiro e grandes tesouros em flores em jardins e ainda em sombras que é menos isto podem fazer e fazem os reis mas fazer de um dobrão uma rosa converter uma substância em outra ainda que seja um grão de ouro em um grão de areia nem todos os reis do mundo juntos o podem fazer é outra jurisdição mais alta Manda Deus a Moisés sobre o Egito e o título que lhe deu foi de Deus de Faraó Constitui te Deum Pharaonis28 Parece demasiado título e não necessário Faraó era rei de Egito seja Moisés rei de Faraó e basta Pois por que lhe não dá Deus título de rei senão de Deus Porque era razão que o título se conformasse com os poderes Moisés havia de converter a vara em serpente o Nilo em sangue a água em rãs o pó em mosquitos e converter umas substâncias em outras é poder e jurisdição mais alta que a dos reis Chamase logo Moisés não rei de Faraó senão Deus Esta foi a discrição do demônio no formulário das suas tentações Quando disse a Cristo que convertesse as pedras em pão acrescentou Si Filius Dei es29 quando lhe ofereceu todos os reinos do mundo não falou em ser Filho de Deus Pois se lhe chama Filho de Deus quando lhe diz que converta as pedras em pão por que lhe não chama também Filho de Deus quando lhe oferece os reinos de todo o mundo Porque o domínio de um reino e de muitos reinos e de todos os reinos cabe na jurisdição de um homem rei mas converter uma substância em outra é poder mais que humano é poder mais que real é poder divino Tais foram neste caso os poderes daquela rainha sobre todos os reis e rainhas do mundo Mas ainda não está ponderado o fino da maravilha 26 Não esteve a maravilha em converter as moedas em rosas senão em quê Em dizer são rosas e serem rosas Serem rosas só porque Isabel lhe chamou rosas é maravilha só da boca de Deus Ponderação admirável de São Paulo Qui vocat ea quae non sunt tanquam ea quae sunt Rom 4 17 Deus chama com tanta verdade as coisas que não são como aquelas que são E esta é a maior glória do seu poder e o maior poder da sua palavra porque basta que ele mude os nomes às coisas para que elas mudem a natureza e o que era deixe de ser e o que não era seja Mas quantas vezes fez Deus esta maravilha Uma só vez e no maior milagre dos seus milagres e na maior obra de sua onipotência Na instituição do Diviníssimo Sacramento quis Cristo que o pão se convertesse e transubstanciasse em seu corpo e o que fez para isso Disse que opão que tinha nas mãos era seu corpo Hoc est corpus meum Lc 2219 e bastou que chamasse seu corpo ao pão para que o que era pão deixasse de serpão e o que não era seu corpo fosse seu corpo Na criação do mundo não fez Deus semelhante maravilha Mandou que se fizessem as coisas e fizeramse Ipse díxit et facta sunt Sl 32 9 porém no Diviníssimo Sacramento para o qual tinha reservado os maiores poderes do seu poder fez que fosse seu corpo o que era pão só com lhe chamar seu corpo Vocat ea quae non sunt tanquam ea quae sunt O mesmo fez Isabel Não levantou as mãos não orou não pediu não mandou só disse que eram rosas as moedas e foram rosas O chamar foi produzir e o dizer que eram foi fazer que fossem o que não eram Vocat ea quae non sunt tanqamo ea quae sunt Em Cristo foi poder ordinário em Isabel poder delegado mas infinitamente maior que todos os poderes reais 27 Os reis também arremedam ou querem arremedar a Deus na soberania deste poder Cobrivos marquês assentaivos duque Só com o rei vos chamar marquês sois marquês só com vos chamar duque sois duque Mas tudo isso que vem a ser Um nome no demais sois o mesmo que dantes éreis Podemos reis dar nomes sim mas dar ser ou tirar ser ou mudar ser não chega lá a sua jurisdição por mais poderosos que sejam Depois que Deus criou o mundo e o povoou e fez a Adão rei e senhor de todo ele mandou que todos os animais viessem à presença do mesmo Adão para que ele lhes pusesse os nomes Adduxit ea ad Adam ut videret quid vocaret ea Gên 219 E por que não pôs Deus os nomes aos animais e quis que lhos pusesse Adão Judiciosamente S Basílio de Selêucia Partiamur hujus fictricis solertiae gratiam me cognoscant artificem naturae lege te dominum intelligant apellatione nominis Quis Deus que Adão pusesse os nomes aos animais para partir com ele o império e mostrar a diferença que havia de um a outro Eu Deus e tu rei do universo eu Deus porque dei o ser aos animais tu rei porque lhes pusestes os nomes De maneira que o mais a que pode chegar um rei ainda que rei de todo o mundo é pôr nomes e dar nomes fazer que vos chamais dali por diante o que ele vos chamou Omine quod vocavit Adam animae viventis ipsum est nomem ejus30 Porém fazer com esse nome que o que não era seja e que esse mesmo chamar seja dar ser é jurisdição incomparavelmente mais soberana por natureza só de Deus por delegação só de Isabel Enquanto rainha podia dar nomes mas nomes que não eram mais que nomes enquanto santa deu nomes que davam ser e mudavam ser e por isso maior rainha que todas as rainhas 28 Por fim dos poderes de Isabel quero acabar com aquele poder que tudo acaba e que pode mais que os que tudo podem a morte A morte pode mais que todas as rainhas e todos os reis mas também este poder todopoderoso foi sujeito à nossa rainha A morte matou a Isabel mas Isabel pôde mais porque matou a morte E como a matou Não podendo a morte desfazer o corpo em que vivia aquela alma o qual há trezentos anos se conserva incorrupto Ameaçava Cristo pelo profeta Oséias a morte e dizialhe Ero mors tua o mors Os 1314 Deixate estar morte que eu te matarei eu serei a tua morte Esta era a profecia mas o sucesso parece que foi o contrário porque a morte matou a Cristo Pois se Cristo morreu e a morte o matou como diz o mesmo Cristo que havia de ser morte da morte Assim foi em dois sentidos Foi morte da morte em nós porque matou a morte da alma que é o pecado e foi morte da morte em si porque matou a morte do corpo não podendo a morte corromper nem desfazer o corpo morto de Cristo Quaniam non dabis sanctum tuum videre corruptionem31 Quando a morte mata e fica viva depois de matar o homem desfazlhe o corpo porém quando a morte morre matando quando a morte mata e fica morta não pode desfazer o corpo do mesmo a quem matou e assim não pode desfazer o de Cristo mais poderoso que ela Tam potentem adversarium nostrum dum occideres occidiso disse S Jerônimo com elegância de palavras que não cabe nas nossas E isto que se viu no corpo de Cristo em três dias é o mesmo que está vendo o mundo no corpo de Isabel há trezentos anos Mas donde lhe veio a Isabel a soberania deste privilégio Não da coroa senão da santidade não por rainha mas por santa Non dabis sanctum tomo videre corruptionem VII Paralelo entre duas rainhas Que aprendam os reis com a santa a negociar o reino do céu 29 Esta imagem senhores de Isabel morta mas com dotes de imortalidade é a que eu hoje desejo levemos todos retratados na alma E para que fique nela mais altamente impressa ponhamos à vista deste retrato o retrato de outra Isabel também de Portugal também coroada e também morta Quando S Francisco de Borja abriu a arca em que ia a depositar o corpo da nossa imperatriz Dona Isabel mulher de Carlos Quinto vendo a corrupção daquele cadáver e daquele rosto que pouco antes era um milagre da natureza ficou tão penetrado e tão atônito daquela vista que ela bastou para o fazer santo Se um só destes retratos obrou tais efeitos em um juízo racional e cristão que farão ambos os retratos juntos e um defronte do outro Acolá Isabel aqui Isabel acolá uma coroa aqui outra coroa acolá um corpo morto e todo corrupção aqui outro corpo morto mas incorruptível e como imortal Oh que mudança Oh que diferença Oh que desengano Assim se morre senhores e assim se pode morrer 30 Com razão escreveu Roma sobre aquela imagem e retrato de Isabel Et nunc reges intelligite erudimini qui judicatis terram32 Até agora parece que tinham alguma desculpa os monarcas da terra em não entender a diferença que há do aparente ao verdadeiro do real ou imperial ao santo de uma coroa a outra coroa e de reinar a reinar Porém agora et nunc à vista de um prodígio e testemunho do céu tão manifesto e tão constante à vista do respeito que guardou a morte ou do poder que não teve sobre os despojos mortais e já mortos de Isabel e muito mais se a esta vista ajuntamos o paralelo tão notável de uma e outra majestade ambas do mesmo nome ambas do mesmo sangue e ambas da mesma dignidade soberana e suprema que rei haverá que não acabe de entender o que tão mal se entende que príncipe que não queira aprender o que tão pouco se estuda Intelligite et erudimini Não digo pois nem Deus o manda que as cabeças ou testas coroadas façam o que fez Carlos convencido de uma que só parte deste exemplo nem que renunciem e se despojem como ele se despojou das coroas o que só digo e diz Deus a todos os reis é que aprendam a não as perder e se perder mas a negociar com elas e que com o exemplo canonizado de Isabel Rainha e Santa entendam que também podem ser santos sem deixar de ser reis e que então serão maiores reis quando forem santos Não consiste a negociação do reinar em acrescentar o círculo às coroas da terra que maiores ou menores todas acabam mas em granjear e assegurar e amplificar com elas o que há de durar para sempre Assim negociou com as suas duas coroas a nossa negociante do reino do céu agora maior mais poderosa e mais verdadeira rainha Assim está reinando e reinará para sempre assim goza e gozará sem fim os lucros incomparáveis da sua prudente e venturosa negociação na terra enquanto durar o mundo sobre os altares e no céu por toda a eternidade em sublime trono de glória SERMÃO DA GLÓRIA DE MARIA MÃE DE DEUS EM DIA DA SUA GLORIOSA ASSUNÇÃO PREGADO NA IGREJA DE NOSSA SENHORA DA GLÓRIA EM LISBOA NO ANO DE 1644 Maria optimam partem elegit1 I A Casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora A palavra optimam sendo superlativa põe as coisas no sumo lugar do qual se não exclui o mesmo Deus antes se inclui essencialmente 31 Bem se concordam neste dia e neste lugar o título da casa com o da festa e o da festa com o da casa a Casa da Senhora da Glória e a festa da glória da Senhora O Evangelho que deve ser o fundamento de tudo o que se há de dizer também eu o quisera concordar com esta glória mas o que dele e dela se tem dito até agora não concorda com o meu desejo nem com o meu pensamento O Evangelho diz que escolheu Maria a melhor parte Maria optimam partem elegit E os santos e teólogos que mais se alargaram aplicando esta escolha e esta parte à glória da Senhora só dizem que verdadeiramente foi a melhor porque a glória a que a Senhora hoje subiu e está gozando no céu é melhor e maior glória que a de todos os bemaventurados Os bemaventurados da glória ou são homens ou anjos e não só em cada uma destas comparações senão em ambas dizem que é maior a glória de Maria que a de todos os homens e a de todos os anjos e não divididos mas juntos Grande glória Grande incomparável imensa O sol não só excede na luz a cada uma das estrelas e a cada um dos planetas senão a todas e a todos incomparavelmente Por isso a Senhora neste dia se chama escolhida como o sol Quae est ista quae ascendit electa ut sol2 O mar não só excede na grandeza a cada uma das fontes e a cada um dos rios senão a todas e a todos imensamente por isso a Senhora se chama Maria que quer dizer mar e só por este nome que não tem outra coisa no Evangelho se lhe aplicam as palavras dele Maria optimam partem elegit Isto é como dizia tudo o que dizemos santos e teólogos mas nem o Evangelho assim entendido nem a glória da Senhora assim declarada nem a comparação dela assim deduzida concordam com o meu pensamento O Evangelho dizendo Optimam partem pareceme que quer dizer muito mais a glória de Maria sendo de Maria Mãe de Deus pareceme que é muito maior e a comparação com os outros bemaventurados somente pareceme muito estreita e quase indigna O meu pensamento é Deus me ajude nele que a comparação de glória a glória não se deve fazer só entre a glória de Maria com a glória de todas as outras criaturas humanas e angélicas senão com a glória do mesmo Criador delas a quem Maria criou O texto e a palavra optimam a tudo se estende porque sendo superlativa põe as coisas no sumo lugar do qual se não exclui Deus antes se inclui essencialmente Neste tão remontado sentido pretendo provar e mostrar hoje que comparada a glória de Maria com a glória do mesmo Deus e fazendo da glória de Maria duas partes a melhor parte é a de Maria Maria optimam partem elegit Até não me ouvirdes não me condeneis E espero que me não haveis de condenar se a mesma Senhora da Glória me assistir com sua graça Ave Maria II Como pode ser maior a glória de Maria que a de Deus e como diz a Igreja que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte se ela é que foi a escolhida Provao o autor com os filósofos os Santos Podres as Escrituras Divinas e com o mesmo Deus 32 Maria optimam partem elegit Suspensos considero todos os que me ouvem na expectação do assunto que propus os curiosos com indiferença os devotos com alvoroço os críticos com a censura já prevenida e todos com razão É certo e de fé que por grande e grandíssima que seja a glória de Maria Senhora nossa a glória de Deus é infinitamente maior assim como eleque só se compreende é por natureza infinito Pois se a glória de Maria como glória de pura criatura posto que criatura a mais excelente de todas é glória finita e infinitamente menor que a glória de Deus como me atrevo eu a afirmar e como se pode entender que ainda em comparação da glória do mesmo Deus se verifiquem as palavras do Evangelho na glória de Maria e que goze Maria a melhor parte Maria optimam partem elegit 33 Para inteligência desta verdade nas mesmas palavras do Evangelho temos outra dúvida não menos dificultosa que se deve averiguar primeiro Esta que o texto chama a melhor parte diz o mesmo texto que Maria a escolheu Maria optimam partem elegit E também esta escolha não tem lugar nem se pode verificar na glória da Senhora A eleição para a glória é só de Deus Deus é o que elegeu e escolheu para a glória a todos os bemaventurados que por isso se chamam escolhidos E ainda que entre todos os escolhidos a Senhora tenha o primeiro e mais sublime lugar ela também foi escolhida e não a que escolheu Assim a canta a Igreja quando canta a mesma entrada da Senhora no céu Elegit eam Deus et praeelegit eam in tabernaculo suo habitare facit eam Pois se Maria foi escolhida para a glória que tem no céu e a escolha foi de Deus e não sua como diz a mesma Igreja nas palavras que lhe aplica que a Senhora foi a que escolheu e elegeu esta melhor parte Maria optimam partem elegit Na inteligência desta segunda dúvida consiste a solução da primeira Ora vede e com atenção É certo que a Senhora foi escolhida por Deus para a glória e também é certo que a glória de Deus é infinitamente maior que a glória da Senhora e contudo diz o Evangelho que Maria foi a que escolheu e que escolheu a melhor parte uma e outra coisa com grande mistério e energia Diz que Maria foi a que escolheu porque ainda que a eleição não foi da Senhora a grandeza de sua glória é tão imensa que não parece que foi a glória escolha para ela senão que ela foi a que a escolheu para si E diz que Maria escolheu a melhor parte porque ainda que a glória de Deus é infinitamente maior que a sua a melhor parte que pode escolher uma mãe é que a glória de seu filho seja a maior Como Maria é mãe de Deus e Deus filho de Maria mais se gloria a Senhora de que seu Filho goze esta infinidade de glória e de ela a gozar em seu Filho do que se a gozara em si mesma E daqui se segue que considerada a glória de Deus e a glória de Maria em duas partes porque a parte de Deus é a máxima por isso a parte de Maria é a ótima Maria oprimam partem elegit 34 Para todos os que sois pais e mães não hei mister maior nem melhor prova do que digo que os vossos próprios afetos e o ditame natural dos vossos corações Dizeime se houvera neste mundo uma dignidade uma honra uma glória maior que todas e se pusera na vossa eleição e na vossa escolha querêla para vós ou para vosso filho para quem a havíeis de querer Não há dúvida que para vosso filho Pois isto mesmo é o que devemos considerar na glória da Senhora É verdade que a glória de Deus é infinitamente maior que a de sua Mãe mas como todo esse excesso de glória é de seu filho e está em seu filho ela a possui e goza em melhor parte que se a gozara em si mesma Assim entendo e suponho que o entendem todos os que são pais e mães Mas porque muitos dos que me ouvem não têm esta experiência e porque em algum coração humano ainda que paterno ou materno pode estar este mesmo afeto menos bem ordenado para a glória da Senhora da Glória e para maior evidência de que mais gloriosa é pela glória de seu Filho que pela sua e que gozando nele toda essa glória a goza na melhor parte ouçamos e provemos esta mesma verdade pelo testemunho universal e concorde de todas as letras sagradas eclesiásticas e profanas No primeiro lugar ouvireinos os filósofos no segundo os Santos Padres da Igreja no terceiro as Escrituras divinas e no último ao mesmo Deus na pessoa do Pai E vereinos quão conforme foi o seu afeto como desta soberana Mãe pois ambos são Pai e Mãe do mesmo Filho III Em primeiro lugar os filósofos A dúvida de Sêneca pode um filho vencer em benefício a seu pai Os exemplos de Enéias e de Antígono Paralelo de Ovídio entre os dois primeiros Césares Não pode haver maior glória para um pai que verse vencido de seu filho Plutarco e o exemplo de Filipe de Macedônia e Alexandre Magno Apóstrofe de Claudiano ao imperador Teodósio 35 Comecemos pelos filósofos Põe em questão Sêneca3 e disputa sutilíssimamente no livro terceiro dos cinco que intitulou De Beneficiis se pode um filho vencer em algum benefício a seu pai A razão de duvidar é porque o primeiro e maior benefício é o ser e havendo o pai dado o ser ao filho o filho não pode dar o ser a seu pai Mas esta diferença não tem lugar no nosso caso porque falamos de um pai e de sua filha em que o pai é justamente pai e filho da mesma mãe e a mãe é justamente mãe e filha do mesmo Pai Abstraindo porém deste impossível da natureza que os filósofos gentios não conheceram resolve o mesmo Sêneca que bem pode um filho vencer no maior benefício a seu pai e o prova com o exemplo de Enéias o qual por meio das lanças dos gregos e do incêndio e labaredas de Tróia levando sobre os seus ombros ao velho Anquises deu mais heroicamente a vida a seu pai do que dele a recebera À vista deste famoso espetáculo de valor e de piedade não há dúvida que venceu o filho ao pai mas qual foi então mais glorioso o filho vencedor ou o pai vencido A este exemplo ajunta o mesmo filósofo o de Antígono e de outros que deram a seus pais mais ainda que o ser e a vida que lhes deviam e conclui assim Felices qui vicerint felices qui vincentur quid autem est felicius quam sic cedere Quando os filhos vencem os pais e se ostentam maiores que eles felizes são os que vencem e felizes os vencidos mas muito mais felizes os pais vencidos que os filhos vencedores porque não pode haver maior gosto nem maior glória para um pai que verse vencido de seu filho Grande glória é do filho que vença ao pai que lhe deu o ser mas muito maior glória é do mesmo pai ver que deu o ser a um tal filho que o vença a ele 36 Isto que disse Sêneca falando dos benefícios corre igualmente e muito mais em todas as outras ações ou grandezas em que os pais se vêem vencidos dos filhos Ouçamos a outro filósofo que melhor ainda que Sêneca conheceu os afetos naturais e não só em mais harmonioso estilo mas com mais profunda especulação que todos penetrou a anatomia do coração humano Faz paralelo Ovídio entre os dois primeiros Césares Júlio e Augusto e aquele pai e este filho e depois de assentar que a maior obra de Júlio César foi ter um tal filho como Augusto Nec enim de Caesaris actis ullum majus opus quam quod pater extitit hujus supõe com a comum opinião de Roma que um cometa que na morte de Júlio César apareceu era a alma do mesmo Júlio colocada entre os deuses como um deles E no meio daquela imaginada bem aventurança qual vos parece que seria a maior glória de um homem que nesta vida tinha logrado todas as que pode dar o mundo Diz o mesmo Ovídio tão falso na suposição como poeta mas tão certo no discurso como filósofo que o que fazia lá de cima Júlio César era olhar para seu filho Augusto e que considerando as grandezas do mesmo filho e reconhecendo e confessando que eram maiores que as suas o seu maior gosto e a sua maior glória era verse vencido dele Natique videns benefacta fatetur esse suis majora et vinci gaudet ab illo Ah Virgem gloriosíssima no céu estais verdadeiramente como crê e adora a nossa fé mas nas sombras escuras e falsas deste fabuloso pensamento que consideração haverá que não reconheça quais são lá os mais intensos afetos e as maiores glórias do vosso Estais vendo e contemplando como em um espelho claríssimo o infinito ser os infinitos atributos a infinita e imensa majestade de vosso unigênito Filho conheceis e confessais que as suas grandezas excedem e são também infinitamente maiores que as vossas Fatetur esse suis majora mas a mesma evidência de que vosso Filho vos vence e excede na glória é a melhor parte da mesma glória vossa e a de que mais vós gozais e gozareis eternamente com ele Et vinci gaudet ab illo Quem pudera imaginar que Júlio César vencedor de Cipião e de Pompeu e de tantos outros capitães famosos que junto a estes perdem o nome triunfador da África do Egito das Gálias e das Espanhas e da mesma Roma aquele enfim de tão altivo coração que ninguém sofreu lhe fosse superior ou igual no mundo quem pudera imaginar digo que havia de gostar e gloriarse de ser vencido de outro Mas como Augusto que o vencia era filho seu o ser vencido dele era a sua maior vitória este o maior triunfo de seus triunfos esta a maior glória de suas glórias Et vinci gaudet ob illo 37 Mas por que neste exemplo não nos fique o escrúpulo de ser adulação poética posto que tão conforme ao afeto natural confirmemolo com testemunho histórico e verdadeiro em nada menor que o passado e porventura mais notável Celebra Plutarco tão insigne historiador como filósofo o grande extremo com que Filipe rei de Macedônia amava a seu filho Alexandre já digno do nome de Grande em seus primeiros anos pela índole e generosidade real que em todos seus pensamentos ditos e ações resplandecia4 E para prova deste extremado afeto refere uma experiência que nos vassalos pudera ser tão arriscada como do rei mal recebida se o amor de pai a filho a não interpretara doutra sorte Foi o caso que os macedônios sem embargo da fé que deviam a Filipe publicamente chamavam a Alexandre o rei e Filipe o capitão Mas como castigaria Filipe este agravo Não há ciúmes mais impacientes mais precipitados e mais vingativos que os que tocam no cetro e na coroa Apenas tem havido púrpura antiga nem moderna que por leves suspeitas neste gênero se não tingisse em sangue E que sofre Filipe aquele que tanto tinha dilatado o império de Macedônia que seus próprios vassalos em sua vida e em sua presença lhe tirem o nome de rei e o dêem a Alexandre Muito fora que o sofresse mas muito mais foi que não só o sofria senão que o estimava e se gloriava muito disso Ouvi a Plutarco Hunc filium non immerito Philippus dilexit ut etiam gauderet cum Alexandrum Macedones regem Philippum appellarent ducem Era Filipe pai e Alexandre filho e tão fora estava o pai de sentir que lhe antepusessem o filho que antes o tinha por lisonja e glória e esse era o seu maior gosto Ut etiam gauderet Quando lhe tiravam a coroa para a darem a seu filho então se tinha Filipe por mais coroado quando já faziam Alexandre herdeiro do reino antes de lhe esperarem pela morte então se tinha por imortal quando o apelidavam com menor nome então se tinha por maior e quando lhe diziam que ele só era capitão então aceitava esta gloriosa injúria como os vivas e aplausos da mais ilustre vitória porque a maior glória de um pai é ser vencido de seu filho Et vinci gaudet ab illo 38 A razão e filosofia natural deste afeto é porque ao maior desejo quando se consegue seguese naturalmente o maior gosto e o maior desejo que tem e devem ter os pais é serem tais seus filhos que não só os igualem mas os vençam e excedam a eles Assim o disse ou cantou ao Imperador Teodósio Claudiano tão insigne na filosofia como na poética Descreve copiosamente as virtudes imperiais militares e políticas com que seu filho Honório se adiantava admiravelmente aos anos e não só igualava mas excedia a seu pai e fazendo uma apóstrofe a Teodósio lhe diz confiadamente assim Aspice nunc quacumque micas seu circulus Austri magne parens gelidi seu te meruere Triones aspice completur votum jam natus adaequat te meritis et quod magis est optabile vincit De lá onde como estrela de Marte ilustrais o mundo com vossas vitórias ou seja no círculo do Austro ou no frio Setentrião olhai felicíssimo César para Honório vosso filho e se como imperador tendes conseguido o nome de Grande chamando vos a voz pública Teodósio o Magno a minha diz Claudiano não vos invoca com o nome de grande imperador senão com o de grande pai Magne parens e o que celebro mais entre todas as glórias de vossa felicidade e o que tenho por mais digno do emprego de vossa vista é que vejais e torneis a ver Aspice aspice que chegastes a ter um filho o qual não só vos iguala que é o que desejam os pais mas que já vos excede e vence que é o que mais devem desejar Et quod magis est optabile vincit Notai muito as palavras Quod magis est optabile e aplicaias ao nosso caso O que mais se deve desejar é o melhor que se pode escolher E como o que mais devem desejar os pais é que os filhos os vençam e os excedam bem se conclui que se entre a glória de Deus e a da sua Mãe fora a escolha da mesma Mãe o que a Senhora havia de escolher para si é que seu Filho a excedesse e vencesse na mesma glória como verdadeiramente a excede e vence Et quod magis est optabile vincit Vence Deus incomparavelmente a sua Mãe na glória infinita que goza mas como este mesmo excesso é o mais que Maria podia desejar e o melhor que podia escolher como Mãe por isso se diz com razão que Maria escolheu a melhor parte Mariam optimam partem elegit IV Opinião dos Santos Padres São Sidônio Apolinar Epístolas de S Gregório Nazianzeno a Nicóbulo e a seu filho Carta de Santo Agostinho a Juliana mãe da virgem Demetríade 39 Temos ouvido os filósofos que falam pela boca da natureza ouçamos agora os Santos Padres que falam pela da Igreja São Sidônio Apolinar bispo arvernense e Padre do quinto século escrevendo a Audaz prefeito dos reis godos no tempo em que dominaram Itália prometelhe suas orações e conclui com estas palavras Deum posco ut te fillii consequantul et quod magis decet velle transcendant Rogo a Deus por vós e por vossos filhos diz o eloqüentíssimo Padre e o que peço para eles é que vos imitem o que peço para vós é que vos excedam5 Que vos imitem porque isso é o que eles devem fazer que vos excedam porque isso é o que vós deveis desejar Et quod magis decet velle transcendant Oh quisesse Deus que fossem hoje tais os pais e tal a criação dos filhos que por uns e outros lhe pudéssemos fazer esta oração Mas é tanto pelo contrário que podemos chorar da nossa idade o que o outro gentio lamentava da sua Aetas parentum peior avis tulit nos nequiores mox daturos progeniem vitiosiorem6 Os avós foram maus os filhos são piores os netos serão péssimos Haviamse de prezar os pais não só de ser bons mas de dar tal criação aos filhos que se pudessem gloriar de serem eles melhores Mas deixadas estas lamentações que não são para dia tão alegre continuemos a ouvir os Santos Padres e sejam os dois maiores da Igreja grega e latina Nazianzeno e Agostinho 40 Faz duas elegantes epístolas S Gregório Nazianzeno uma a Nicóbulo famoso letrado em nome de um seu filho e outra ao filho em nome do mesmo Nicóbulo7 E na primeira pedindo o filho ao pai que lhe dê licença para freqüentar as escolas e seguir as letras diz assim Gratia quam posco genitor charissime patris est magis quam nati a graça que vos peço pai meu é mais para vós que para mim e mais é vossa que minha Se isto dissera o moço que ainda não tinha mais que o desejo de saber não me admirara o dito mas falando por boca dele o grande Nazianzeno do qual com singular elogio afirma a Igreja que em nenhuma coisa das que escreveu errou como pode ser verdade que a glória do filho seja mais do pai que do mesmo filho Patris est magis quam nati E se esta proposição é verdadeira seguese dela aplicada ao nosso intento que a glória de Deus é mais de Maria que do mesmo Deus porque Deus é Filho e ela Mãe E por que não faça dúvida o falarmos da glória de um e outro com a mesma palavra se explica o Santo Padre nas que logo acrescenta Gloria namque patris natorum est fama decusque ut rursus natis est gloria fama parentum Como pode ser logo neste caso ou em algum outro que a glória do filho seja mais do pai que do filho Patris est magis quam nati Não há dúvida que falou nesta sentença Nazianzeno como quem tão altamente penetrava e distinguia a sutileza dos afetos humanos entre os quais o amor paterno como é o mais eficaz e mais forte é também o mais fino Diz que a glória do filho é glória do pai e mais sua do pai que do mesmo filho porque mais se gloriam os pais de a gozarem seus filhos ou de a gozarem neles que se a gozaram em si mesmos E neste sentido se pode dizer com verdade e propriedade natural que a glória de Deus em certo modo é mais de Maria que do mesmo Deus porque não sendo sua como não é é do Filho unicamente seu em que ela mais a estima e da qual mais se gloria que se pudera ser ou fora sua 41 Isto é o que disse Nazianzeno ao pai por boca do filho vejamos agora o que diz e responde ao filho por boca do pai Sis sane praestantior ipse parente Queres filho seguirme na profissão e ser grande como o mundo e a fama diz que sou na ciência e nas letras Sou contente mas não me contento só com isso o que peço a Deus é que saias tão eminente nelas que me faças grandes vantagens e sejas muito maior que teu pai Sis sane praestantior ipse parente Assim diz Nicóbulo ou Nazianzeno por ele e dá a razão tão própria do nosso caso como se eu a dera Gaudet enim genitor cum palmami proeripit ipsi virtutis sua progenies majorque voluptas hinc oritur quam si rediquos praeverteret omnas Desejo filho que sejas maior que eu porque não há gosto para um pai como ver que seu filho lhe leva a palma e de se ver assim vencido dele se glória muito mais que se vencera e se avantajara a todos quantos houve no mundo Mudai agora o nome de genitor em genitríx e entendei que falou Nazianzeno da glória de Maria no céu onde tão gloriosamente se vê vencida da glória de seu Filho Gaudet enitn Genitrtx cum palmam praeripit ipsi virtutis sua progenies Vêse Maria quando vê a Deus infinitamente vencida da imensidade de sua glória mas como é glória não de outrem senão de seu Filho sua progenies o verse vencida dele é a sua vitória e a sua palma Cum palmam praeripit ipsi Nas outras contendas a palma é do vencedor mas quando contende o filho com o pai ou com a mãe a palma é do pai ou da mãe vencida porque a sua maior glória é ter um filho que a vença nela Este dia de Senhora da Glória chamase também da Senhora da Palma porque como é tradição dos que assistiram a seu glorioso trânsito o anjo embaixador de seu Filho que lhe trouxe a alegre nova lhe meteu juntamente na mão uma palma com a qual como vencedora da morte e do mundo entre as aclamações e vivas de toda a corte beata entrasse triunfante no céu Subi Senhora subi subi ao trono da glória que vos está aparelhado sobre todas as hierarquias que lá vos espera outra palma infinitamente mais gloriosa E que palma Não aquela com que venceis em glória a todos os espíritos bemaventurados senão aquela com que na mesma glória sois vencida de vosso Filho Cum palma praeripit ipsi sua progenties Grande glória da Senhora é como lhe canta a igreja verse exaltada no céu sobre todos os coros e hierarquias dos espíritos angélicos grande glória que os principados e potestades que os querubins e serafins lhe ficam muito abaixo e que no lugar na dignidade na honra na glória excede incomparavelmente a todos porém o ver que nesse mesmo excesso de glória é excedida infinitamente de seu Filho isso é o de que naquele mar imenso de glória mais se gloria isso é o que naquele verdadeiro paraíso dos deleites eternos mais a deleita Majorque voluptas hinc oritur quam si reliquios praeverteret omnes 42 Mas ouçamos já a Agostinho que mais sutilmente ainda penetrou os efeitos e causas desta tão verdadeira como racional complacência8 Escreve Santo Agostinho em seu nome e no de Elvidio a Juliana mãe da virgem Demetriade bem celebrada nas epístolas de S Jerônimo e porque esta senhora romana de nobreza consular desprezadas as grandezas riquezas e pompas do mundo se tinha dedicado toda a Deus no estado mais sublime da perfeição evangélica da o parabém Agostinho à mãe com estas ponderosas palavras Te volentem gaudenteinque vincit genere ex te honore supra te in qua etiam tuum esse caepit quodi in te esse non potuit Vossa filha Demetríade ó Juliana vencevos sim na alteza do estado a que a vedes sublimada mas muito por vossa vontade e muito por vosso gosto vos vence Volentem gaudentenque vincit porque é filha vossa aquela de quem vos vedes vencida Genere ex te honore supra te a honra que goza é muito sobre vós mas como a geração que tem é de vós também esta mesma honra é vossa porque o que não podíeis ter nem alcançarem vós e por vósjá o tendes e gozais nela por ser vossa filha In qua etiam tuum esse caepit quod in te esse non potuit Vai por diante Agostinho ainda com mais profundo pensamento Illa carnaliter non nupsit ut non tantum sibi sed etiam tibi ultra te spiritualiter augeretur quoniam tu compensatione minor illa es quod ita nupsisti ut nasceletur Demetríade vossa filha é maior que vós e vós menor que ela mas se ela vos excedeu a vós no que tem de maior não vos excedeu só para si senão também para vós porque esse excesso se compensa com nascer de vós Non tantum sibi sed etiam tibi ultra te ea compensatione ut nasceretur Em uma só coisa não vem própria a semelhança porque Maria pode ser mãe como Juliana e virgem juntamente como Demetríade mas em tudo o mais especulou e ponderou a agudeza de Agostinho quanto se pode dizer no nosso caso 43 Te volentem gaudenteque vincit Vencevos vosso Filho na glória Virgem Mãe mas muito por vossa vontade e por vosso gosto porque esse mesmo excesso de glória por ser sua é o que mais quereis e de que mais gozais Genere ex te honore supra te a sua honra a sua grandeza a sua majestade a sua glória imensa e infinita é muito sobre vós porque ele é Deus e vós criatura Honore supra te mas a geração desse mesmo Deus que é tanto sobre vós é de vós Genere ex te E que se segue daqui Seguese que tendes o que não podíeis ter e que toda a glória que é sua começa também a ser vossa Etiam tuum esse caepit quod in te esse non potuit Vós não podíeis ser Deus mas como Deus pôde fazer que fôsseis sua Mãe tudo o que não podíeis terem vos tendes nele Ele é maior que vós e vós menor Minor es mas tudo o que tem de maior que é tudo não só o tem para si senão também para vós Non tantum sibi sed tibi ultra te Oh Quem pudera declarar dignamente a união destes termos Ultra te et tibi Enquanto a glória de Deus é infinita e imensa estendese muito além de vós ultra te mas enquanto é glória de vosso Filho toda se contrai e reflete a vós tibi Para os raios do sol fazerem reflexão é necessário que tenham limite onde parem mas a glória da divindade de vosso Filho que não tem nem pode ter limite por isso se limitou à humanidade que recebeu de vós para refletir sobre vós nascendo de vós Ea compensatione ut nasceretur E chamase este nascer de vós compensação ou recompensa com que Deus vos compensou toda a grandeza e glória que tem mais que vós porque nascendo de vós é vosso verdadeiro Filho e sendo toda essa glória de vosso Filho também é vossa e vossa naquela parte onde atendes por melhor Optimam partem elegit V O que dizem as Escrituras Sagradas o exemplo de Barcelai Por que foi o sacrifício de Isac premiado em Isac e não em Abraão Os cumprimentos recebidos por Davi quando Salomão foi ungido rei e os cumprimentos recebidos por Maria no céu 44 Parece que não podia falar mais concordemente ao nosso intento nem a filosofia nos gentios nem a teologia nos Santos Padres vejamos agora o que dizem as Escrituras Sagradas O primeiro exemplo que elas nos oferecem é o famoso de Barcelai 2 Rs 1938 No tempo em que Absalão se rebelou contra Davi que tão mal pagam os filhos a seus pais o amor que lhes devem um dos senhores que seguiram as pautes do rei foi este Barcelai o qual o assistiu sempre tão liberal e poderosamente que ele só como refere o texto lhe sustentava os arraiais Restituído pois Davi à coroa e lembrado deste serviço ou gentileza de que outros príncipes se esquecem com a mudança da fortuna quilo ter junto a si na corte e fazerlhe a mercê e honra que sua fidelidade merecia e para o vencer na liberalidade ou não ser vencido dele disselhe que ele mesmo se despachasse porque tudo quanto quisesse lhe concederia Quidquid tibi placuerit quod petieris a me impetrabis Generoso rei Venturoso vassalo Mas para quem vos parece que quereria toda esta ventura Era Barcelai pai tinha um filho que se chamava Camaam escusouse de aceitar o lugar e mercê que o rei lhe oferecia e o que só lhe pediu foi que a fizesse a seu filho Est servus tuus Chamam ipse vadat tecum et fac ei quidquid tibi lonum videtur9 Dirão os que têm lido esta história que se escusou Barcelai porque se via carregado de anos como ele mesmo disse mas isso só foi um desvio e modo de não aceitar cortesmente e não é razão que satisfaça pois vemos tantas velhices decrépitas tão enfeitiçadas das paredes de palácio que tropeçando nas escadas sem vista e sem respiração as sobem todos os dias bem esquecidos dos que lhes restam de vida E quando Barcelai não fosse tocado deste contágio ao menos podia dividir a mercê entre si e o filho e aparecerem ambos na corte como vemos muitos títulos com duas caras a modo do deus Jano uma com muitas cãs e outra sem barba Mas a verdadeira razão por que este honrado pai não aceitou a mercê do rei para si e a pediu para seu filho nem a dividiu entre ambos podendo pois estava na sua eleição foi como dizem literalmente Lira e Abulense porque era pai e entendeu que tanto lograva aquela honra em seu filho como em si mesmo Eu acrescento que mais a lograva nele do que em si porque nele era mais sua como acima disse S Gregório Nazianzeno E porque o santo não deu a razão desta sua sentença nós a dareinos e provareinos agora com outro mais notável exemplo da Escritura 45 Quando Abraão sacrificou seu filho Isac é coisa muito notável e mui notada que sendo Isac a vítima do sacrifício os louvores desta ação e desta obediência se dêem a Abraão e não a Isac Gên 1710 Isac não se ofereceu com grande prontidão ao ofício Não se deixou atar Não se inclinou sobre o altar e se lançou sobre a lenha Não viu sem horror desembainhar a espada Não aguardou sem resistência o golpe Que mais fez logo Abraão para que a obediência de Isac se passe em silêncio e a de Abraão se estime se louve se encareça com tanto excesso Nenhuma diferença houve no caso senão ser Abraão pai e Isac filho Amava Abraão mais a vida de Isac que a sua e vivia mais nela que em si mesmo E posto que ambos sacrificaram a vida e a mesma vida o sacrifício de Abraão foi maior e mais heróico que o de Isac porque se Isac sacrificou a sua vida Abraão sacrificou a vida que era mais que sua porque era de seu filho Até aqui está dito e bem dito mas eu passo avante e noto o que a meu ver é digno ainda de maior reparo Premiou Deus esta famosa ação de Abraão e como a premiou e em quem Não a premiou no mesmo Abraão senão em Isac Quia fecisti rem hanc benedicentur in semine tuo omnes gentes in Isaac vocabitur ti semen10 Pois se a ação do sacrifício foi celebrada em Abraão e não em Isac por que foi premiada em Isac e não em Abraão por isso mesmo A ação foi celebrada em Abraão e não em Isac porque Isac sacrificou a sua vida e Abraão sacrificou a vida que estimava mais que a sua porque era de seu filho e estimava mais que a sua porque era de seu filho e da mesma maneira foi premiada em Isac e não em Abraão para que o prêmio sendo de seu filho fosse também mais estimado dele do que se fora seu A vida que sacrificastes era mais que vossa porque era de vosso filho Pois seja o prêmio também de vosso filho para que seja mais que vosso E como os pais estimam mais os bens dos filhos que os seus próprios e os logram e gozam mais neles que em si mesmos vede se escolheria ou quereria a Senhora a imensa glória de seu Filho antes para ele que para si se a terá por sua e mais que sua e se as mesmas vantagens de glória em que infinitamente se vê excedida serão as que mais gloriosa a fazem e de que mais se gloria 46 0 mesmo filho de Maria por ser filho seu se chama também Filho de Davi e na história do mesmo Davi nos dá a Escritura Sagrada o maior e mais universal testemunho que para prova desta verdade se pode desejar nem ainda inventar Chegado Davi aos fins da vida quis nomear sucessor do reino e mandou ungir a seu filho Salomão por rei Deu esta ordem a Banaias capitão dos guardas da pessoa real o qual lhe beijou a mão pela eleição que não era pouco controversa e o cumprimento com que falou ao rei foi este Quomodo fuit Dominus cum domino meo rege sic sit cum Salomone et sublimius faciat soliuim ejus a solio domini mei regis David 3 Rs 137 Assim como Deus assistiu sempre e favoreceu a Vossa Majestade assim assista e favoreça o reinado de Salomão e sublime e exalte o seu trono muito mais que o trono de Vossa Majestade Executouse prontamente a ordem ungiram a Salomão no Monte Gion com todas as cerimônias que então se usavam em semelhante celebridade Entrou o novo rei por Jerusalém a cavalo com trombetas e atabales diante entre vivas e aclamações de todo o povo e exército vieram todos os príncipes e ministros maiores das doze Tribos congratularse com Davi e as palavras com que lhe deram o parabém foram outra vez as mesmas Amplificet Deus nomem Salomanis super nomem tuum et magnificet thronum ejus super thronum tuum 3 Rs 147 Seja maior o nome de Salomão Senhar que o vosso nome e mais alto e glorioso o seu trono do que foi o vosso O que me admira sobretudo neste caso é que todos dissessem a mesma coisa Estas são as ocasiões em que a discrição o engenho e a cortesania dos que dão o parabém ao rei se esmera em buscar cada um novos modos de congratulação novos motivos de alegria e ainda novos conceitos de lisonja e mais os que fazem a fala em nome dos seus tribunais ou repúblicas Como logo em tantas tribos tantos ministros tantos príncipes e senhores que como diz o texto vieram todos não houve quem falasse por outro estilo nem dissesse outra coisa a Davi senão que Deus fizesse a seu filho maior que ele e sublimasse e exaltasse o trono de Salomão mais que o seu trono Isto disseram todos porque a um rei tão famoso e glorioso como Davi nenhuma outra felicidade nem glória lhe restava para desejar senão que tivesse um filho que em tudo se lhe avantajasse e o excedesse e que o trono do mesmo filho fosse muito mais levantado e sublimado que o seu A Davi enquanto Davi bastavalhe por glória ter sido Davi mas enquanto pai não lhe bastava Ainda lhe restava outra maior glória que desejar e esta era ter um tal filho que na majestade na grandeza na glória e no mesmo trono o vencesse e excedesse muito Et magnificet thronum ejus super thronum tuum 47 Dois tronos há no céu mais sublimes que todos o de Deus e o de sua Mãe o de Deus infinitamente mais alto que o de sua Mãe e o de sua Mãe quase infinitamente mais alto que o de todas as criaturas Mas a maior glória de Maria não consiste em que o seu trono exceda o de todas as hierarquias criadas senão em ter um filho cujo trono excede infinitamente o seu E este é o parabém que no céu lhe estão dando hoje e lhe darão por toda a eternidade todos os espíritos bemaventurados sem haver em todos os coros de homens e anjos quem diga nem possa dizer outra coisa senão Thronum ejus super thronum tuum Vence Maria no céu a todas as virgens na glória que se deve à pureza a todos os confessores na que se deve à humildade a todos os mártires na que se deve à paciência a todos os apóstolos patriarcas e profetas na que se deve à fé à religião ao zelo e culto da honra de Deus Mas assim os confessores como as virgens assim os mártires como os apóstolos assim o patriarcas como os profetas deixadas todas essas prerrogativas em que gloriosamente se vêem vencidos os louvores e euges eternos com que exaltam a gloriosíssima Mãe é ser inferior o seu trono ao de seu Filho Thronum ejus super thronum tuum Vence Maria a todos os anjos e arcanjos a todos os principados e potestades a todos os querubins e serafins na virtude no poder na ciência no amor na graça na glória mas todos esses espíritos angélicos passando em silêncio os outros dons sobrenaturais que tocam a cada uma das hierarquias em que veneram e reconhecem a soberana superioridade com que a Senhora como Rainha de todas incomparavelmente as excede todos como tão discretos e entendidos o que só dizem e sabem dizer o que sobretudo admiram e apregoam é Thronum ejus super thronum tuum Assim que homens e anjos unidos no mesmo conceito e enlevados no mesmo pensamento o que cantam o que louvam o que celebram prostrados diante do trono da segunda majestade da glória e os vivas que lhe dão concordemente é ser Mãe de um Filho que excedendo ela a todos em tão sublime grau na mesma glória ele a vence e excede infinitamente E isto é o que divididos em dois coros de inumeráveis vozes e unidos em uma só voz aplaudem aclamam festejam e tudo o mais calam conformandose nesta eleição com a parte da mesma glória que a Senhora elegeu como a melhor Optiman partem elegir VI O exemplo do Eterno Pai com as novas glórias do Filho O que recebeu o Verbo Eterno do Pai necessariamente e o que recebeu por própria eleição Atenções do Eterno Padre submetendo a Maria a eleição da Maternidade divina 48 E porque a preferência não fique só nos juízos e nos entendimentos criados subamos aos arcanos do entendimento divino e vejamos como o Eterno Pai em tudo o que teve liberdade para eleger e escolher também escolheu esta parte e a teve por melhor Para inteligência deste ponto havemos de supor que tudo quanto tem e goza o Filho de Deus o recebeu de seu Padre mas por diferente modo O que pertence à natureza e atributos divinos recebeu o Verbo Eterno do Eterno Padre não por eleição e vontade livre do mesmo Padre senão natural e necessariamente E a razão é porque a geração divina do Verbo procede por ato do entendimento antecedente a todo ato de vontade sem o qual não há eleição É verdade que ainda que a geração do Verbo não precede por vontade nem é voluntária nem por isso é involuntária ou contra vontade E daqui se ficará entendendo a energia e propriedade daquelas dificultosas palavras de S Paulo onde diz que a igualdade que o Filho tem como Padre na natureza e atributos divinos não foi furto nem o mesmo Verbo o reputou por tal Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo Flp 26 E por que declarou S Paulo o modo da geração do Verbo pela semelhança ou metáfora do furto dizendo que não foi furto nem como furtado ou roubado o que recebeu do Padre Divinamente por certo e não se podia declarar melhor O furto é aquilo que se toma ou se retém e possui invito domino contra vontade de seu dono E a divindade que o Verbo recebeu do Padre ainda que da parte do mesmo Padre não fosse voluntária contudo não foi invita não foi voluntária sim mas não foi contra vontade e como o Padre não foi invito na geração do Verbo e na comunicação da sua divindade posto que fosse necessária e não livrepor isso a igualdade que o Verbo tem com ele é verdadeirarente sua e não roubada Non rapinam arbitratus est esse se aequalem Deo 49 Até aqui o Filho recebeu do Padre necessariamente e sem eleição sua E que é o que recebeu por vontade livre e por verdadeira e própria eleição O que logo se segue e acrescentou o mesmo S Paulo Sed semetipsum exinanivit formam servi accipiens in similitudinem hominum factus et habitu inventus ut homo propter quod et Deus exaltavit illum et donavit illi momem quod est super omne nomem11 Recebeu o Filho do Padre por verdadeira e própria eleição o ofício e dignidade de Redentor do gênero humano fazendose juntamente homem e com esta nova e inefável dignidade recebeu um nome sobre todo nome que é o nome de Jesus mais sublime e mais venerável pelo que é e pelo que signifi ca que o mesmo nome de Deus Ut in nomine Jesu omne genu flectatur12 Recebeu a potestade judiciária que o Padre demitiu de si competindo ao Filho privativamente o juízo universal e particular de vivos e mortos Pater non judicat quem quam sed omne judicium dedit Filio13 Recebeu o primeiro trono entre as três pessoas da Santíssima Trindade assentandose à mão direita do mesmo Padre Dixit Dominus Domino meo Sede a dextris meis14 Tudo isto e o que disto se segue com imensa exaltação e glória recebeu o Filho de Deus de seu Eterno Padre por vontade livre e própria eleição 50 Mas se toda esta nova exaltação e toda esta nova glória não era devida à pessoa do Filho por força ou direito da geração eterna em que somente era igual ao Padre na natureza e atributos divinos e a eleição livre de dar ou tomar a mesma exaltação e glória estava e dependia da vontade do mesmo Padre por que a não tomou para si Assim como encarnou a pessoa do Filho assim pudera encarnar a pessoa do Padre E no tal caso a nova dignidade de redentor o nome sobre todo o nome a maior veneração e adoração de homens e anjos e todas as outras prerrogativas e glórias que pelo mistério da Encarnação e Redenção sobrevieram e acresceram ao Filho não haviam de ser do Filho senão do mesmo Padre Pois se a eleição voluntária e livre de tudo isso estava na mão do Padre e podia tomar para si toda essa exaltação e glória por que a quis antes para a pessoa do Filho Por nenhuma outra razão senão porque era Filho e ele Pai Ego autem constitutus sum rex ab eo super Sion montem sanctum ejus Dominus dixit ad me Filius meus es tu15 Assim como o Eterno Padre para encarecer o amor que tinha aos homens não se nos deu a si senão a seu Filho Sic Deus ditexit mundum ut Filium suum unigenitum daret16 assim para manifestar o amor que tinha ao mesmo Filho não tomou para si essas novas glórias senão que todas as quis para ele e lhas deu a ele entendendo que quando fossem de seu Filho então eram mais suas e que mais e melhor as gozava nele que em si mesmo 51 E que Filho é este Virgem gloriosíssima senão o mesmo Filho vosso Filho unigênito do Eterno Padre e Filho unigênito de Maria E se o Eterno Padre em tudo o que pode ter eleição própria escolheu os excessos de sua glória para seu Filho essa mesma glória que ele goza em si e vós nele em que infinitamente vos vedes excedida quem pode duvidar se tem inteiro juízo que seria também vossa a mesma eleição Toda a Igreja triunfante no céu e toda a militante na terra reconhece e confessa que entre todas as puras criaturas ou sobre todas elas nenhuma há mais parecida a Deus Padre que aquela singularíssima Senhora que ele criou e predestinou ab aeterno para Mãe de seu unigênito Filho porque era justo que o Pai e a Mãe de quem ele recebeu as duas naturezas de que inefavelmente é composto fossem quanto era possível em tudo semelhantes E se o amor do pai por ser amor de Pai e pai sem mãe escolheu para seu Filho e não para si as glórias que cabiam na sua eleição não há dúvida que o amor da Mãe e mãe sem pai escolheria para o mesmo Filho também e não para si toda a glória infinita que ele goza E esta é a eleição que teria por melhor Maria optimam partem elegit 52 Assim o entendeu da mesma Mãe o mesmo Pai e o provou maravilhosamente o juízo e amor da mesma Senhora para com seu Filho onde a eleição foi propriamente sua Quando o Eterno Padre quis dar Mãe a seu Unigênito foi com tal miramento e atenção à grandeza e majestade da que sublimava a tão estreito e soberano parentesco que não só quis que fosse sua isto é do mesmo Pai a eleição da Mãe senão que também fosse da Mãe a eleição do Filho Bem pudera o Eterno Padre formar a humanidade de seu Filho nas entranhas puríssimas da Virgem Maria sem consentimento nem ainda conhecimento da mesma Virgem assim como formou a Eva da costa de Adão não acordado e estando em si senão dormindo Mas para que o Filho que havia de ser seu posto que era Deus não só fosse seu senão da sua eleição por isso como diz Santo Tomás lhe destinou antes por embaixador um dos maiores príncipes da sua corte o qual de sua parte lhe pedisse a sime negociasse e alcançasse o consentimento e o aceitasse em seu nome Este foi como lhe chamou S Paulo o maior negócio que nunca houve nem haverá entre o céu e a terra dificultado primeiro pela Senhora e depois persuadido e concluído por S Gabriel Mas quais foram as razões e os motivos de que usou o anjo para o persuadir e concluir É caso digno de admiração e que singularmente prova da parte de Deus do anjo e da mesma Virgem qual é na sua eleição a melhor parte 53 Repara Maria na embaixada insta o celeste embaixador e as promessas que alegou para conseguir o consentimento foram estas Ecce concipies et paries Filium et vocabis nomem ejus Jesum hic erit magnus et Filius Altissimi vocabitur dabit illi Dominos Deus sedem David patris ejus et regnabit in domo Jacob et regni ejus non erit finis Lc 131 O Filho de que sereis Mãe terá por nome Jesus que quer dizer o Redentor do mundo este será grande chamarseá Filho de Deus darlheá o mesmo Deus o trono de Davi seu pai reinará em toda a casa de Jacó e seu reino e império não terá fim Não sei se advetis no que diz o anjo e no que não diz no que promete e no que não promete Tudo o que promete são grandezas altezas e glórias do Filho e da Mãe com quem fala nenhuma coisa diz e à mesma a quem pretende persuadir nada lhe promete Não pudera Gabriel dizer à Senhora com a mesma verdade que ela seria a florescente vara de Jessé que nela ressuscitaria o cetro de Davi que a sua casa se levantaria e estenderia mais que a de Jacó que seria rainha sua e de todas as hierarquias dos anjos senhora dos homens imperatriz de todo o criado e que esta majestade e grandeza também a lograria sem fim Tudo isto e muito mais podia e sabia dizer o anjo Pois por que diz e promete só o que há de ser o Filha e não diz nem promete o que há de ser a Mãe Porque falou como anjo conforme a sua ciência e como embaixador conforme às suas instruções Por isso nem ele diz nem Deus lhe manda dizer senão o que há de ser seu Filho porque nas matérias onde Maria tem a eleição livre o que mais pesa no seu juízo e o que mais move e enche o seu afeto são as grandezas e glórias de seu Filho e não as suas As de seu Filho e não as suas porque as tem mais por suas sendo de seu Filho as de seu Filha e não as suas porque as estima mais nele e as goza mais nele que em si mesma Isto é o que segundo o conhecimento de Deus e o do anjo e o seu elegeu Maria na terra e isto é o que na presença de Deus dos anjos e de todos as bemaventurados tem por melhor no céu Maria optimam partem elegit VII Parabém à Senhora da Glória e oração final 54 E nós Senhora que como filhos de Eva ainda gememos neste desterro e como filhos posto que indignos vossos esperamos subir convosco e por vós a essa bemaventurada pátria o que só nos resta depois desta consideração de vossa glória é darvos o parabém dela Parabém vos seja a eleição parabém vos seja a parte e parabém a melhoria Parabém a eleição que ainda que não foi nem podia ser vossa na predestinação com que fostes escolhida para a glória de Mãe de Deus foi vossa no consentimento voluntário e livre que se vos pediu e destes para o ser Parabém vos seja a parte que compreende aquele todo incompreensível de glória que só pode abarcar e abraçar o ser imensa e conter dentro em si o infinito que vós também com maior capacidade que a do céu tivestes dentro em vós Parabém vos seja finalmente a melhoria pois melhor vos está como Mãe que toda essa imensidade e infinidade de glória seja de vossa Filha e melhor a gozais por esse modo segundo as leis do perfeito amor que se a gozareis em vós mesma E assim como vos damos o parabém e nos alegramos com todo o afeto de nossos corações de que a estejais gozando e hajais de gozar por toda a eternidade assim vos pedimos humildemente prostrados ao trono de vossa gloriosíssima Majestade que como Senhora da Glória e liberalíssima dispensadora de todas as graças de vosso benditíssimo Filho alcançadas e merecidas pelo sangue preciasíssimo que de vós recebeu nos comuniqueis aumenteis e conserveis até o último dia em que passarmos como vós hoje desta vida àquela graça que nos é necessária para vos louvarmos eternamente na glória SERMÃO DA PRIMEIRA DOMINGA DA QUARESMA PREGADO NA CAPELA REAL NO ANO DE 1655 Ostendit ei omnia regna mundi et gloriam eorum et dixit ei Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me1 I Como o demônio dos remédios faz tentações nós das tentações façamos remédio sendo liberais com o demônio fazendo das pedras pão e dos precipícios caminhos Tomando por fundamento a terceira tentação do demônio o autor ensinanos a vencer qual quer tentação usando das mesmas tentações 55 Se o demônio é tão astuto que até dos nossos remédios faz tentações por que não sereinos nós tão prudentes que até das suas tentações façamos remédios Esta é a conclusão que tiro hoje de toda a história do Evangelho Quarenta dias havia e quarenta noites que jejuava Cristo em um deserto Sucedeu ao jejum naturalmente a fome e sobre a fome veio logo a tentação Si Filius Dei es dic ut lapides isti panes fiant Mt 43 Se és Filho de Deus diz o demônio manda a estas pedras que se convertam em pães Vede se inferi bem que dos nossos remédios faz o demônio tentação com as pedras se defendia das suas tentações S Jerônimo os desertos e soledades são as fortalezas dos anacoretas o jejum de quarenta dias foi uma penitência prodigiosa procurar de comer aos que hão fome é obra de misericórdia converter pedras em pão com uma palavra é onipotência ser Filho de Deus é divindade Quem cuidara que de tais ingredientes como estes se havia de compor uma tentação De pedras de deserto de jejum de obra de misericórdia de onipotência de divindade De pedras lapides isti de deserto ductus est Jesus in desertum de jejum cum jejunasset de obra de misericórdia panes fiant de onipotência dic de divindade Si Filius Dei es Se o demônio tenta com as pedras que fará com condições menos duras Se tenta com o deserto que será com o povoado e com a corte Se tenta com o jejum que será com o regalo Se tenta com a obra de misericórdia que será com a injustiça Se tenta com a onipotência que será com a fraqueza E se até com a divindade tenta com a humanidade e com a desumanidade que será 56 Vencido o demônio nesta primeira tentação diz o texto que levou a Cristo à Cidade Santa de Jerusalém e pondoo sobre o mais alto do Templo lhe disse desta maneira Mitte te deorsum Scriptum est enim quia angelis suis Deus maadavit de te ut custodiant te in omnibus viis tuis Deitate daqui abaixo porque prometido está na Sagrada Escritura que mandará Deus aos seus anjos te guardem em todos teus caminhos2 Vede outra vez como tornam os remédios a ser tentações e nesta segunda tentação ainda com circunstâncias mais notáveis E quais foram A Cidade Santa o Templo de Jerusalém as Sagradas Escrituras os Mandamentos de Deus os Anjos da Guarda e também o descer para baixo Podia haver coisas menos ocasionadas para tentações Pois disto fez o demônio uma tentação Da Cidade Santa Assumpsit eum in sanctam civitatem do templo de Jerusalém Et statuit eum super pinaculum Templi da Sagrada Escritura Scriptum est enim dos mandamentos de Deus Deus mandavit de te dos Anjos da GuardaAngelis suis ut custodiant te do descer para baixo Mitte te deorsum Se o demônio tenta com a Cidade Santa que será com a cidade escandalosa Se tenta com o Templo de Deus que será com as casas dos ídolos Se tenta com as Sagradas Escrituras que será com os livros profanos Se tenta com os Mandamentos de Deus que será com as leis do mundo Se tenta com os Anjos da Guarda que será com os anjos da perdição Se tenta finalmente com o descer que será com o subir 57 Eis aqui como o demônio dos remédios faz tentações Mas como será possível que nós das tentações façamos remédios O demônio na primeira tentação pediu a Cristo que fizesse das pedras pão e na segunda que fizesse dos precipícios caminhos Que coisa são as tentações senão pedras e precipícios Pedras em que tropeçamos e precipícios donde caímos Pois como é possível que das pedras em que tropeçamos se faça pão com que nos sustentemos e dos precipícios donde caímos se façam caminhos por onde subamos Isto havemos de ver hoje e hei de ser tão liberal com o demônio que lhe hei de conceder tudo o que Cristo lhe negou Que queres demônio Que te faça das pedras pão Sou contente Que queres mais Que dos precipícios faça caminhos Também farei isso hoje O demônio do pão fez pedras e dos caminhos fez precipícios porque dos remédios fez tentações Eu às avessas das pedras hei de fazer pão e dos precipícios caminho porque das tentações hei de fazer remédios 58 Para reduzir todo este ponto tão grande e tão importante a uma só máxima universal tomei por fundamento a terceira tentação que propus que é a maior que o demônio fez hoje a Cristo e a maior que nunca se fez nem há de fazer nem pode fazer no mundo Vencido primeira e segunda vez o demônio não desesperou da vitória porque lhe faltava ainda por correr a terceira lança em que mais confiava Levou a Cristo ao cume de um monte altíssimo e mostrandolhe dali todos os reinos e monarquias do mundo com todas suas glórias e grandezas com todas suas riquezas e delícias com todas suas pampas e majestades apontando em roda para todo este mapa universal tão grande tão formoso tão vária disse assim Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me Tudo isto que vês te darei se com o joelho em terra me adorares Esta foi a última tentação do diabo e esta foi a terceira vitória de Cristo As armas com que o Senhor se defendeu e o remédio que tomou nesta tentação como nas outras foram as palavras da Escritura Sagrada Dominum Deum tuum adorabis et illi soli servies3 É a Escritura Sagrada um armazém divino ande se acham todas as armas é uma oficina medicinal onde se acham todos os remédios esta é aquela torre de Davi da qual disse Salomão Mile clypei pendent ex ea omnis armatura fortium4 porque como comenta S Gregório Universa nostra munitia in sacro eloquio continetur5 Esta é aquela botica universal da qual diz S Basílio Ab Scriptura unusquisque tanquam ab officina medicinae appositum suae infirmitati medicamentum invenire poterit6 E muito antes o tinha dito a Sabedoria Neque herba neque malagma sanavit sed tuus Domine sermo qui sanat omnia7 Poderosíssimas armas e eficasíssimos remédios contra as tentações do demônio são as divinas Escrituras Mas como eu prego para todos e nem todos podem menear estas armas nem usar destes remédios é o meu intento hoje inculcarvos outras armas mais prontas e outros remédios mais fáceis com que todos possais resistir a todas as tentações Na boca da víbora pôs a natureza a peçonha e juntamente a triaga Se quando a semente tentou aos primeiros homens souberam eles usar bem das suas mesmas palavras não haviam mister outras armas para resistir nem outro remédio para se conservar no paraíso O mais pronto e mais fácil remédio contra qualquer tentação do demônio é a mesma tentação A mesma coisa oferecida pelo demônio é tentação bem considerada por nós é remédio Isto hei de pregar hoje II Só esta última tentação nos pertence propriamente a nós porque nela o demônio tentou a Cristo como se tentara a qual quer homem O caso notável do cerco de Ostende Por confissão do demônio nossa alma vale mais que todo o mundo A resposta de Demétrio a César Esaú um homem que vendeu e não pesou o que vendia 59 Na primeira e na segunda tentação tentou o demônio a Cristo como Filho de Deus na terceira como a puro homem Por isso na terceira tentação não disse Si Filius Dei es como tinha dito na primeira e na segunda Tentou a Cristo como se tentara a qualquer homem Esta é a razão e a diferença porque só esta última tentação nos pertence propriamente a nós Mas como poderá um homem como poderá um filho de Adão resistir a uma tentação tão poderosa e tão imensa como esta que o demônio fez a Cristo A Adão fezlhe tiro o demônio com uma maçã e derrubouo a Cristo fezlhe tiro com o mundo todo Ostendit ei omnia regna mundi Mas sendo esta bala tirada a Cristo como homem e dando em um peito de carne foi tão fortemente rebatida que voltou com maior força contra o mesmo tentador Vade retro8 Um dos casos mais notáveis que sucederam em nossos dias no famoso cerco de Ostende foi este9 Estava carregada uma peça no exército católico entra pela boca da mesma peça uma bala do inimigo concebe fogo a pólvora sai outra vez a bala com dobrada fúria e como veio e voltou pelos mesmos pontos foise empregar no mesmo que a tinha tirado Oh que bizarra e venturoso Vade retro Assim havemos de fazer aos tiros do demônio Volte outra vez a bala contra o inimigo e vençamos ao tentador com a sua própria tentação Não cortou Davi a cabeça ao gigante com a sua própria espada Judite sendo mulher não degolou a Holofernes com a sua Pois assim o havemos nós de fazer nem necessitamos de outras armas mais que as mesmas com que o demônio nos tenta 60 Mostrou o demônio a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias disselhe que tudo aquilo lhe daria de uma vez se lhe dobrasse o joelho Parece que faz estremecer a grandeza desta tentação Mas o demônio é o que havia de tremer dela Desarmou se a si e armounos a nós Tu demônio oferecesme de um lanço todo o mundo para que caia para que peque para que te dê a minha alma logo a minha alma por confissão tua vale mais que todo o mundo A minha alma vale mais que todo o mundo Pois não te quero dar o que vale mais pelo que vale menos Vade retro Pode nos o demônio dar ou prometer alguma coisa que não seja menos que o mundo Claro está que não Pois aqui se desarmou para sempre nesta tentação perdeu todas se nós não temos perdido o juízo Ouvi a Salviano Quis ergo furor est viles a nobis animas nostras haberi quas etiam diabolus putat esse pretiosas Homens loucos homens furiosos homens sem entendimento nem juízo é possível que sendo as nossas almas na estimação do mesmo demônio tão preciosas no vosso conceito e no vosso desprezo hão de ser tão vis O demônio quando me quer roubar quando me quer perder quando me quer enganar não pode deixar de confessar que a minha alma vale mais que todo o mundo e eu sendo essa alma minha não há de haver no mundo coisa tão baixa tão vã e tão vil pelo qual a não dê sem nenhum reparo Quis furor est Que loucura que demência que furor é este nosso Muito mais obrigada está a nossa alma ao demônio muito mais lhe deve que a nós Ele a honra nós a afrontamos Envergonhouse o demônio no primeiro lanço de oferecer menos por uma alma que o mundo todo 61 Caio César como refere Sêneca mandou de presente a Demétrio duzentos talentos de prata que fazem hoje da nossa moeda mais de duzentos mil cruzados Não creio que haveria na nossa corte quem não beijasse a mão real e aceitasse com ambas as mãos a mercê Era porém Demétrio filósofo estóico como se disséssemos cristão daquele tempo E que respondeu Si tentare me constituerat toto illi fui experiundus imperio Andai levai os seus talentos ao imperador e dizeilhe que se me queria tentar que havia de ser com todo o seu império É e chamase senhor de todo o mundo Com todo o mundo me havia de tentar Não nos fez assim o César porque não conhecia a Demétrio mas fêlo assim o demônio Princeps hujus mundi porque sabe o que vale uma alma Se vos tentar o demônio com menos que todo o mundo daivos por afrontado e se vos tentar com todo o mundo fique vencido Quid prodest homini si universum mundum lucretur animae vero suae detrimentum patiatur Mt 1626 Que aproveita ao homem ganhar todo o mundo adquirir todo o mundo senhorear e dominar todo o mundo se há de perder a sua almaAut quam dabit homo commutationem pro anima sua Ou que coisa pode haver de tanto peso e de tanto preço pela qual se haja de vender a alma ou se haja de trocar Este é o caso e a suposição em que estamos nem mais nem menos Oferecenos o demônio o mundo e pedenos a alma Considere e pese bem cada um se lhe está bem este contrato se lhe está bem esta venda se lhe está bem esta troca Mas nós trocamos e vendemos porque não pesamos 62 Chegou Esaú do campo cansado e com fome de todo o dia e chegou a desastrada hora porque estava no mesmo tempo seu irmão Jacó cozinhando diz o texto umas lentilhas Estes eram os grandes homens e estes os grandes regalos daquele tempo Pediu Esaú a seu irmão um pouco daquela vianda mas ele aproveitandose da ocasião e da necessidade respondeu que dar não mas vender sim que se Esaú lhe vendesse o seu morgado começaria desde logo a lhe dar aqueles alimentos Deus nos livre de se ajuntar no mesmo tempo a fome e a tentação O sucesso foi que Esaú aceitou o contrato deu o morgado Pois valhame Deus o morgado de Isac a herança de Abraão a bênção dos patriarcas que foi a maior coisa que desde Adão houve no mundo por uma escudela de lentilhas Este homem era cego Era louco Era vil Nada disto era mas era um homem diz a Escritura que vendeu e não pesou o que vendia Abiit parvi pendens quod primo genita vendidisset10 E homem que vende sem pesar o que vende não é muito que por uma escudela de grosserias desse o maior morgado do mundo Se Esaú antes de vender tomara a balança na mão e pusera de uma parte o morgado e da outra a escudela parecevos que venderia Pois eis aí porque há tantas almas venais Esta história de Esaú e Jacó aconteceu uma só vez antigamente mas cada dia se representa no mundo o papel de Jacó fálo o demônio o de Esaú fazemolo nós O demônio oferecenos um gosto ou um interesse vil e pedenos o morgado que nos ganhou Cristo e nós porque contratamos sem a balança na mão e não pesamos a vileza do que recebemos com a grandeza do que damos consentimos no contrato e ficamos sem bênção Quando Esaú vendeu o morgado não o sentiu nem fez caso disso mas depois quando viu que Jacó levava a bênção e ele ficava sem ela diz o texto que irrugit clamore magno et consternatus est Gên 27 34 que tudo era encher o céu de clamores e gemidos e despedaçarse a si mesmo e desfazerse com dor Ah malaconselhados Esaús Agora vendemos a alma e o morgado do céu pela vileza de um gosto pelo engano de um apetite pela grosseria de um manjar de brutos e disto não fazemos caso Mas quando vier aquele dia em que Cristo dê a bênção aos que estiverem à sua mão direita e nós virmos que ficamos sem ela por umas coisas tão vis Oh que dor oh que desesperação Oh que circunstância de inferno será esta tão grande para nós 63 Pois que havemos de fazer para não cometer um erro tão grande e tão sem remédio Fazer remédio da mesma tentação Tomar na mão a balança que faltou a Esaú e pesar o que o demônio nas promete e o que nos pede O que nos promete não é todo o mundo o que nos pede e o que lhe havemos de dar é a alma Ponhamos de uma parte da balança o mundo todo e da outra parte uma alma e vejamos qual pesa mais Oh se Deus me ajudasse a vos mostrar com evidência a diferença destes dois pesos Vamos ponderando uma por uma as mesmas palavras da tentação III O mundo fantástico que o demônio mostrou a Cristo era nada mais que uma vaidade composta de muitas vaidades como diz Salomão As balanças do juízo humano segundo Davi O peso das coisas não estão nas coisas senão no coração com que as amamos A brevidade momentânea das tentações As riquezas e glórias do mundo um trabalho para antes um cuidado para logo um sentimento para depois Andou muito néscio o demônio em mostrar o mundo a quem queria tentar 64 Ostendit ei omnia regna mundi et gloriam eorum Desde aquele monte alto onde o demônio subiu a Cristo lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua glória Isto que tão facilmente se diz não é tão fácil de entender De um monte por alto que seja não se pode descobrir todos os reinos do mundo O sol está levantado na quarta esfera e contudo descobre um só hemisfério e nem vê nem pode ver os antípodas Pois como foi possível que o demônio desde aquele monte mostrasse todo o mundo a Cristo A sentença mais certa e mais seguida é que o mundo que o demônio mostrou a Cristo não foi este mundo verdadeiro senão um mundo fantástico e aparente uma aparência e representação do mundo Assim como os anjos quando aparecem aos homens se vestem de corpos fantásticos que parecem corpos formosíssimos e não são corpos assim o demônio que no poder natural é igual aos anjos em toda o ar que se estendia daquele monte até os horizontes com cores com sombras com aparências pintou e levantou em um momento montes vales campos terras cidades castelos reinos enfim um mundo De maneira que todo aquele mundo todo aquele mapa de reinos e de grandezas bem apertado vinha a ser um pouco de vento E com ser assim esta representação notai agora com ser o que o demônio mostrava uma só representação fantástica uma aparência contudo diz o evangelista que o demônio mostrou a Cristo todos os reinos do mundo e suas glórias por que todas as glórias e todas as grandezas do mundo bem consideradas sãa o que estas eram ar vento sombras cores aparentes Antes diga que mais verdadeiro e mais próprio mundo era este mundo aparente que o mundo verdadeiro porque o mundo aparente eram aparências verdadeiras e o mundo verdadeiro são as aparências falsas E se não dizeime de todos aqueles reinos de todas aquelas majestades e grandezas que havia no tempo de Cristo quando sucedeu esta tentação há hoje alguma coisa no mundo Nenhuma Pois que é feito de tantos reinos que é feito de tantas monarquias que é feito de tantas grandezas Eram vento passaram eram sombra sumiram se eram aparências desapareceram Ainda agora são o que de antes eram eram nada são nada Até dos mármores daquele tempo não há mais que pó e cinza e os homens como bem notou Filo Hebreu vendo isto com os nossos olhos somos tão cegos que fazemos mais caso deste pó e desta cinza que da própria alma Qui cinerem et pulverem pluris factis quam animam 65 Isto são hoje os reinos daquele tempo e os reinos de hoje que são São porventura outra coisa Digaa o rei do reino mais flarente e o mais sábio de todos os reis Verba Ecclesiastae filii David regis Hierusalem Vanitas vanitatum et omnia vanitas11 Eu fui rei e filho de rei diz Salomão experimentei tudo o que era e tudo o que podia dar de si o poder a grandeza o senhorio do mundo e achei que tudo o que parece que há nele é vão e nada sólido e que bem pesado e apertado não vem a ser mais que uma vaidade composta de muitas vaidades Vanitas vanitatum et omnia vanitas Vaidade os cetros vaidade as coroas vaidade os reinos e monarquias e o mesmo mundo que delas se compõe vaidade das vaidades Vanitas vanitatum Esta é a verdade que não sabemos ver por estar escondida e andar enfeitada debaixo das aparências que vemos E este é o conhecimento e desengano com que devemos rebater e desprezar o tudo ou o nada com que nos tenta o mundo Oh como ficariam desvanecidas as maiores tentações se soubéssemos responder ao omnia do demônio com o omnia de Salomão Omnia regna mundi Omnia vanitas Omnia tibi dabo Omnia vanitas 66 Mas se todo este mundo e tudo o que nele mais avulta é vão antes a mesma vaidade como é possível que tenha tanto valor e tanto peso com os homens que pese para com eles mais que o céu mais que a alma e mais que o mesmo Deus Tão falsas são as balanças do juízo humano Não são elas as falsas somos nós Mendaces filii hominum in stateris ut decipiant de vanitate in idipsum12 São tais os homens diz Davi que com a balança na mão trocam o peso às coisas Não diz que as balanças são falsas senão que os homens são falsos nelas Mendaces filii hominum in stateris E a razão desta falsidade ou desta falsificação é porque os mesmos homens se querem enganar a si mesmos com a vaidade Ut decipiant de vanitate in idipsum Não é o nosso juízo o que nos engana é o nosso afeto o qual pendendo e emclinando para a parte da vaidade leva após si o fiel do juízo Nestas balanças que são como as de S Miguel em que se pesam as almas de uma parte está a alma da outra o mundo de uma parte está o temporal da outra o eterno de uma parte está a verdade da outra a vaidade E porque nós pomos o nosso afeto e o nosso coração da parte do mundo e da vaidade esse afeto e esse coração é o que dá à vaidade do mundo o peso que ela não tem nem pode ter A vaidade não amada não tem peso porque é vaidade mas essa mesma vaidade amada pesa mais que tudo porque o nosso amor e o nosso afeto é o que falsamente lhe dá peso De maneira que o peso não está nas coisas está no coração com que as amamos 670 mesmo Davi o disse admiravelmente Filii hominum usquequo gravi corde Ut quid diligitis vanitatem SI 4 3 Filhos dos homens até quando haveis de ter os corações pesados Até quando haveis de amar a vaidade Notai a conseqüência Queixa se de amarem os homens a vaidade Ut quid diligitis vanitatem E acusaos de terem os corações pesados Usquequo gravi corde Porque o peso que achamos na vaidade não está na mesma vaidade senão no coração com que a amamos Amamos e estimamos a vaidade e por isso a balança inclina a ela e com ela enos mostra falsamente o peso onde o não há Oh se pesássemos bem e fielmente com o coração livre de todo o afeto como veríamos logo que a inclinação e movimento da balança pendia todo para a parte da alma e que todo o mundo contrapesado a ela não pesa um átomo 68 Agora entendereis a astúcia da tentação do demônio no modo com que hoje mostrou a Cristo todos os reinos do mundo Diz S Lucas que lhos mostrou em um instante Ostendit e iomnia regna orbis terrae in momento Lc 45 E por que razão em um instante Porque não deu mais espaço de tempo a quem tentava com uma tão grande ostentação Seria porventura porque ainda o demônio quando engana não pode encobrir a brevidade momentânea com que passa e se muda esta cena das coisas do mundo aparecendo e desaparecendo todas em um instante Assim o diz S Ambrósio Non tam conspectus celeritas indicatur quam caduca fragilitas potestatis exprimitur in momento enim cuncta illa praetereunt Mostrou o demônio todos os reinos e grandezas do mundo em um instante porque as mostrou assim como elas são e tudo o que há neste mundo não tem mais ser que um instante O que foi já não é o que há de ser ainda não é e o que é não é mais que no instante em que passa In momento cuncta illa praetereunt Boa razão e verdadeira como de tal autor Mas ainda debaixo dela se encobria outra astúcia do tentador o qual não quis dar tempo ao tentado para pesar o que lhe oferecia O peso das coisas vêse pela inclinação e movimento da balança E como em instante não pode haver movimento por isso lhe mostrou tudo em um instante Veja o tentado o mundo que lhe ofereço mas veja o em instante somente e não em tempo para que não possa averiguar o pouco que pesa In momento omnia regna mundi 69 Juntamente com os reinos do mundo mostrou também o demônio a Cristo todas as suas glórias Et gloriam eorum Mas ainda que autorizadas com tão especioso nome nenhum pendor fazem à balança porque são tão vãs como o mesmo mundo e ainda mais se pode ser E se não discorrei por elas com qualquer átomo de consideração O que mais pesa e o que mais luz no mundo são as riquezas E que coisas são as riquezas senão um trabalho para antes um cuidado para logo e um sentimento para depois As riquezas diz S Bernardo adquiremse com trabalho conservamse com cuidado e perdemse com dor Que coisa é o ouro e a prata senão uma terra de melhor cor E que coisa são as pérolas e os diamantes senão uns vidros mais duros Que coisas são as galas senão um engano de muitas cores Cabelos de Absalão que pareciam madeixas e eram laços Que coisa é a formosura senão uma caveira com um volante por cima Tirou a morte aquele véu e fugis hoje do que ontem adoráveis Que coisa são os gostos senão as vésperas dos pesares Quem mais as canta esse as vem a chorar mais Que coisa são as delícias senão o mel da lança de Jônatas Juntamente vai à boca o favo e o ferro Que coisa são todos os passatempos da mocidade senão arrependimentos depositados para a velhice E o melhor bem que podem ter é chegarem a ser arrependimentos Que coisa são as honras e as dignidades senão fumo Fumo que sempre cega e muitas vezes faz chorar Que coisa é a privança senão um vapor de pouca dura Um raio do sol a levanta e outro raio o desfaz Que coisas são as provisões e os despachos grandes senão umas cartas de Urias Todas parecem cartas de favor e quantas foram sentença de morte Que coisa é a fama senão uma inveja comprada Uma funda de Davi que derruba o gigante com a pedra e ao mesmo Davi como estralo Que coisa é toda a prosperidade humana senão um vento que corre todos os rumos Se diminui não é bonança se cresce é tempestade Finalmente que coisa é a mesma vida senão uma a lâmpada acesa vidro e fogo Vidro que com um assopro se faz fogo que com um assopro se apaga Estas são as glórias do vosso mundo e dos vossos reinos Omnia regina mundi et gloriam eorum E por estas glórias falsas vãs e momentâneas damos aquela alma imortal que Deus criou para a glória verdadeira e eterna 70 Certo que andou o demônio muito néscio em mostrar o mundo e suas glórias a quem queria tentar com elas Havia de encobrir a mercadoria se queria que lha comprassem O mundo prometido forte tentação parece mas visto não é tentação Quereis que vos não tente o mundo ou que vos não vença se vos tentar Olhai bem para ele Mordiam as serpentes no deserto venenosamente aos filhos de Israel E que fez Moisés Mandou levantar em lugar alto uma daquelas serpentes feita de bronze olhavam para ela os mordidos e saravam Todos nesta vida andais mordidos uns mordidos do valimento outros mordidos da ambição outros mordidos da honra outros mordidos da inveja outros mordidos do interesse outros mordidos da afeição enfim todos mordidos Pois que remédio para sarar destas mordeduras do mundo Pôr o mesmo mundo diante dos olhos e olhar bem para ele Quem haverá que olhe para o mundo com os olhos bem abertos que veja como todo é nada como todo é mentira como todo é inconstância como hoje não são os que ontem foram como amanhã não hão de ser os que hoje são como tudo acabou e tudo acaba como havemos de acabar e todos mas acabando enfim que veja ao mundo bem como é em si que se não desengane com ele e se não desengane dele A serpente de Moisés era de bronze o mundo também é serpente mas de barro mas de vidro mas de fumo que ainda são melhores metais para o desengano IV Vimos quanto pesa o mundo vejamos agora quanto pesa uma alma A cruz balança justa em que Deus pesou o preço da alina Só Deus se pode contrapesar com a alma Toda a desgraça está em que o mundo com que o demônio nos tenta é visível e a alma invisível Pela diferença do corpo morto podemos avaliar o que é a alma 71 Mas demos já uma volta à balança Vimos quanto pesa o mundo vejamos agora quanto pesa uma alma Neste peso entramos todos O peso do mundo não pertence a todos porque muitos têm pouco mundo o peso da alma ninguém há a quem não pertença o rei o vassalo o grande o pequeno o rico o pobre todos têm alma Ora vejamos quanto pesa e quanto vale isto que todos trazemos e temos dentro em nós Onde porém achareinos nós uma balança tal que se possa pesar nela uma alma Quatro mil anos durou o mundo sem haver em todo ele esta balança E porventura essa foi a ocasião de se perderem naquele tempo tantas almas Chegou finalmente o dia da Redenção pôsse o Filho de Deus em uma cruz e ela foi a verdadeira e fiel balança que a divina justiça levantou no Monte Calvário para que o homem conhecesse quão imenso era o peso e preço da alma que tinha perdido Assim o canta e nolo ensina a Igreja Beata cujus brachiis Pretium pependit saeculi Statera facta corporis Tulit que praedam tartari13 Vês homem aquela cruz em que está pendente e morto o Filho de Deus Pois sabe que ela é a balança justa em que Deus pesou o preço da tua alma para que tu a não desprezes O braço direito desceu tanto com o peso que não só trouxe Deus do céu à terra mas do céu até o inferno e o braço esquerdo subiu tanto que estando a alma no inferno pelo pecado não só a levantou do inferno mas a pôs no céu De maneira que quem fielmente quiser pesar uma alma não há de pôr de uma parte da balança a alma e da outra o mundo senão de uma parte a alma e da outra a Deus O mundo custou a Deus uma palavra a alma custou a Deus o sangue custou a Deus a vida custou a Deus o mesmo Deus Qui dedit semetipsum redemptionem pro omnibus14 Ouvi agora a Eusébio Emisseno Tam copioso munere ipsa redemptio agitur ut homo Deum valere videatur É tal o preço que Deus deu pelas almas que posta de uma parte a alma e da outra o preço parece que vale tanto a alma como Deus Parece diz porque Deus verdadeiramente vale e pesa mais que toda a alma Mas a divina justiça não pôs em balança com a alma outro peso nem aceitou por ela outro preço que o do mesmo Deus porque de peso a peso só Deus se pode contrapesar com a alma e de preço a preço só Deus se pode avaliar com ela Ut Deum valere videatur Sendo pois esta a verdadeira balança e sendo este o peso e o preço da alma que tão cara comprou Deus e nós tão barata vendemos ao demônio não vos quero persuadir que a não vendais só vos peço e vos aconselho que o não façais sem a pôr primeiro em leilão O demônio no primeiro lanço ofereceu por ela o mundo Deus no segundo lanço deu por ela a si mesmo Se achardes quem vos dê mais pela vossa alma daia embora 72 Toda a desgraça da pobre alma tão falsamente avaliada e tão vilmente trocada e vendida é porque a não vemos como vemos o mundo O demônio mostrou todos os reinos do mundo Ostendit ei omnia regna mundi Se eu também vos pudera mostrar uma alma estavam acabadas todas as tentações e não eram necessários mais discursos O demônio dá todo o mundo por uma alma porque a vê e a conhece é espírito vê as almas Nós como somos corpo vemos o mundo e não vemos a alma e porque a não conhecemos por isso a desestimamos Oh se Deus nos mostrasse uma alma Que pasmo que estimação seria a nossa e que desprezo de quanto há no mundo e na vida Mostrou Deus uma alma a Santa Madalena de Pazzi e oito dias ficou fora de si arrebatada de assombro de pasmo de estranheza só na memória na admiração na novidade do que vira Isto é uma alma Isto é A Santa Catarina de Sena mostroulhe Deus também uma alma e dizia como refere Santo Antônio que nenhum homem haveria se tivesse visto uma alma que não desse por ela a vida cem vezes cada dia e não pela própria senão pela alheia De sorte que toda a diferença e toda a desgraça está em que o mundo com que o demônio nos engana é visível e a alma invisível Mas por isso mesmo havíamos nós de estimar muito mais a alma se tivéramos juízo O mundo é visível a alma é invisível o mundo vêse a alma não se vê Logo muito mais preciosa é a alma muito mais vale que todo o mundo Ouvi a S Paulo Non contemplantibus nobis quae videntur sed quae non videntur quae enim videntur temporalia sunt quae non videntur aeterna 2 Cor 4 18 Não havemos de admirar nem estimar o que se vê senão o que se não vê diz S Paulo porque o visível o que se vê é temporal o invisível o que se não vê é eterno O mundo que o demônio me mostra é visível porque é temporal como o corpo a alma que o demônio não pode mostrar nem me havia de mostrar se pudera é invisível porque é eterna como Deus e assim como os olhos não podem ver a Deus por sua soberania assim não podem ver a nossa alma Não é a nossa alma tão baixa que a houvessem de ver os olhos Vêem o mundo vêem o céu vêem as estrelas vêem o sol a alma não a podem ver porque não chega lá a sua esfera 73 Mas já que somos tão corporais e damos tanto crédito aos olhos os mesmos olhos quero que nos digam e que confessem o que é a alma Quereis ver o que é uma alma Olhai diz Santo Agostinho para um corpo sem alma Se aquele corpo era de um sábio onde estão as ciências Foramse com a alma porque eram suas A retórica a poesia a filosofia as matemáticas a teologia a jurisprudência aquelas razões tão fortes aqueles discursos tão deduzidos aquelas sentenças tão vivas aqueles pensamentos tão sublimes aqueles escritos humanos e divinos que admiramos e excedem a admiração tudo isto era a alma Se o corpo é de um artífice quem fazia viver as tábuas e os mármores Quem amolecia o ferro quem derretia os bronzes quem dava nova forma e novo ser à mesma natureza Quem ensinou naquele corpo regras ao fogo fecundidade à terra caminhos ao mar obediência aos ventos e a unir as distâncias do universo e meter todo o mundo venal em uma praça A alma 74 Se o corpo morto é de um soldado a ordem dos exércitos a disposição dos arraiais a fábrica dos muros os engenhos e máquinas bélicas o valor a bizarria a audácia a constância a honra a vitória o levar na lâmina de uma espada a vida própria e a morte alheia quem fazia tudo isto A alma Se o corpo é de um príncipe a majestade o domínio a soberania a moderação no próspero a serenidade no adverso a vigilância a prudência a justiça todas as outras virtudes políticas com que o mundo se governa de quem eram governadas e de quem eram Da alma Se o corpo é de um santo a humildade a paciência a temperança a caridade o zelo a contemplação altíssima das coisas divinas os êxtases os raptos subido o mesmo peso do corpo e suspendido no ar que maravilha Mas isto é alma Finalmente os mesmos vícios nossos nos dizem o que ela é Uma cobiça que nunca se farta uma soberba que sempre sobe uma ambição que sempre aspira um desejo que nunca aquieta uma capacidade que todo o mundo a não enche como a de Alexandre uma altiveza como a de Adão que não se contenta menos que com ser Deus Tudo isto que vemos com nossos olhos é aquele espírito sublime ardente grande imenso a alma Até a mesma formosura que parece dote próprio do corpo e tanto arrebata e cativa os sentidos humanos aquela graça aquela proporção aquela suavidade de cor aquele ar aquele brio aquela vida que é tudo senão alma E se não vede o corpo sem ela insta Agostinho Non facit corpus unde ametur nisi animus Aquilo que amáveis e admiráveis não era o corpo era a alma Recessit quod non videtur remansit quod cum dobre videatur Apartouse o que se não via ficou o que se não pode ver A alma levou tudo o que havia de beleza como de ciência de arte de valor de majestade de virtude porque tudo ainda que a alma se não via era a alma Viu S Francisco de Borja o corpo defunto e disforme da nossa imperatriz Dona Isabel e que lhe sucedeu Pela diferença do corpo morto viu naquele espelho o que era a alma e como viu o que era a alma deixou o mundo Não nos enganara o demônio com o mundo se nós víramos e conhecêramos bem o que é a alma Mas já que a não podemos ver em si vejamola em nós no que o corpo há de sei vejamos o que ela é V O verdadeiro tudo deste mundo e do outro é a alma não é o mundo Deus o negociador do Evangelho que deu tudo o que tinha por uma alma Depois desta última tentação quando torna o diabo a tentar a Cristo Como se ajoelha Cristo diante de Judas se já o demônio tinha entrado nele Quantos não dobram o joelho ao demônio não pelo mundo todo senão por umas partes tão pequenas dele 75 Então que vos diga o demônio com a boca muito cheia e muito inchada Haec omnia tibi dabo Mente o diabo e troque as balanças o omnia não há de estar na balança do mundo senão na balança da alma O tudo deste mundo e do outro é a alma não é o mundo No capítulo doze de São João diz Cristo Et ego cum exaltatus fuero aterra omnia traham adme ipsum Jo 1232 E eu quando for levantado na cruz hei de trazer a mim tudo Omnia Digamme agora os doutos que tudo é este que Cristo havia de trazer a si Cristo desde o instante da Encarnação foi Senhor universal de tudo pela união hipostática pelo direito hereditário da filiação como Filho natural de Deus e por outros muitos títulos S Paulo Quem constituit haeredem universorum15 S João Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus16 e o mesmo Cristo Omnia mihi tradita sunt a Patre meo17 Pois se Cristo era e sempre foi Senhor de tudo que tudo era este que diz que há de adquirir e trazer a si na cruz Era o tudo que só é tudo as almas Assim a resolve S Crisóstomo S Cirilo Teofilato Beda Leôncio e todos Desde o instante da Encarnação foi Cristo absoluto Senhor de todas as criaturas quanto ao domínio e quanto à sujeição só das almas ainda que era Senhor quanto ao domínio quanto à sujeição não o era porque estavam cativas e escravas do demônio e do pecado E como Cristo na cruz havia de redimir adquirir sujeitar e trazer a si as almas este é o tudo a que absolutamente chama tudo Omnia traham ad me ipsum 76 E se me perguntardes porque na cruz não trouxe a si atualmente mais que uma só alma a da bom ladrão foi porque entendêssemos que o tudo de que falava não eram só todas as almas coletivamente senão qualquer e cada uma delas Assim o declarou admiravelmente a versão siríaca Unum quem que traham ad me ipsum18 Todas tudo cada uma tudo A vossa alma é tudo a minha tudo a de Dimas e a de qualquer homem tudo omnia unum quem que Mas para que são versões nem exposições se temos o mesmo autor da texto Simile est regnum caelorum homini negotiatori quaerenti bonas margaritas inventa una pretiosa margarita dedit omnia sua et comparavit eam Mt 1345 s Um mercador diz Cristo que negociava e tratava em pérolas achando uma deu tudo quanto tinha e comproua Quem é o mercador qual é a pérola e que é o tudo que deu por ela O mercador diz Haymo é Cristo a pedra preciosa é a alma o tudo que deu por ela é tudo o que Deus tinha e tudo o que era De maneira que não por todas nem por muitas senão por uma só alma Una pretiosa margarita deu Deus tudo o que tinha e tudo o que era e não uma só vez nem por um só modo senão por tantos Se nascens dedit socium convescens in edulium se moriens in pretium se regnans dat in praemium Deu se na Encarnação deuse no Sacramento deuse na cruz dáse na glória E aquilo porque Deus tantas vezes e por tantos modos deu tudo vede se é tudo Omnia traham ad me ipsum A alma a alma tentador é o verdadeiro tudo e não o mundo a que tu falsamente dás esse nome Haec omnia tibi dabo 77 Que bem o entendeu assim o mesmo demônio que para tudo nos dá armas Terceira vez vencido o tentador diz São Lucas que se retirou por então não para desistir totalmente de tentar a Cristo mas reservando a tentação para outro tempo Et consummata omni tentatione diabolus recessit ab illo usque ad tempus Lc 413 Contudo nem S Lucas nem algum dos outros evangelistas dizem expressamente quando o diabo tornasse a tentar a Cristo Que tempo foi logo este e que tentação Santa Atanásio e comumente os Padres e expositores resolvem que o tempo foi no último dia e hora da morte de Cristo que é a ocasião em que o demônio faz o última esforça para tentar aos homens e que a tentação foi por boca dos judeus quando disseram Si Filius Dei est descendat nunc de cruce et credimus ei Mt 2742 Se é Filho de Deus desça da cruz e crereinos nele E verdadeiramente a frase e modo da tentação bem mostra ser do mesmo artífice que tinha tentado a Cristo no deserto e no Templo onde sempre começou dizendo Si Filius Dei es Vede agora a astúcia e conseqüência do demônio em que fundou toda sua esperança Como na última tentação em que se retirou vencida tinha oferecido a Cristo todos os reinos do mundo fez este discurso Este homem oferecilhe todo o mundo e não o pude render necessário é logo acrescentar e reforçar a tentação e oferecerlhe coisa que pese e valha mais que todo o mundo Coisa de maior preço e de maior valor que todo o mundo não há senão a alma Heio de tentar com almas E assim o fez Descendat de cruce et credimus ei De sorte que só com o oferecimento daquelas almas que o demônio tanto possuía lhe pareceu que podia render a quem não tinha rendida com o oferecimento de todo o mundo 78 Esta foi a tentação que o demônio reservou para a última batalha Mas ainda que nesta ocasião fez o tiro a Cristo com muitas almas já antes dela o tinha feito com uma só não oferecendolha mas querendolha roubar Para o demônio roubar a Cristo a alma de Judas persuadiulhe a traição E que fez o bom pastor para tirar dos dentes deste lobo aquela ovelha Lançouse aos pés do mesmo Judas para lhas lavar Cum jam diabolus misisset in cor ut traderet eum Judas caepit lavare pedes discipulorum19 Senhor meu vós aos pés de Judas persuadido pelo demônio a vos entregar Vós aos pés de Judas a quem chamastes demônio Ex vobis unus diabolus est20 Ainda é maior e mais fundada a minha admiração Diz expressamente S Lucas que antes deste ato e deste dia já o demô nio tinha entrado em Judas Intravit Satanas in Judam et quaerebat oportunitatem ut traderet illum Venit autem dies azymorum in quo oportebat occidi Pascha21 Pois se Judas não só é demônio por maldade mas em Judas está por realidade o mesmo demônio como se ajoelha Cristo diante de Judas A figura em que o demônio tentou a Cristo quando disse Si cadens adoraveris me era de homem e não de demônio Judas em quem agora está o demônio também é homem Como pois se ajoelha Cristo a um homem que é demônio e dentro do qual está o demônio Aqui vereis quanto vale uma alma e quanto vale mais que o mundo todo Por todo o mundo não dobrou Cristo o joelho nem o podia dobrar a um demônio transfigurado em homem e por uma alma lançouse de joelhos aos pés de um homem que era demônio e tinha dentro de si o demônio Por todo o mundo não conseguiu o demônio que Cristo se ajoelhasse a ele por uma alma se não conseguiu que se ajoelhasse a ele conseguiu que se ajoelhasse diante dele 79 Ah idólatras do mundo que tantas vezes dais a alma e dobrais o joelho ao demônio não pelo mundo todo senão por umas partes tão pequenas dele que nem migalhas do mundo se podem chamar Quantos príncipes dão a alma e tantas almas ao demônio por uma cidade por uma fortaleza Quantos títulos por uma vila Quantos nobres por uma quinta por uma vinha por uma casa Que palmo de terra há no mundo que não tenha levado muitas almas ao inferno pela demanda pelo testemunho falso pela escritura su posta pela sentença injusta pelos ódios pelos homicídios e por infinitas maldades Se o mundo todo não pesa uma alma como pesam tanto estes pedacinhos do mundo Barro alfim Deitai ao mar um vaso de barro inteiro nada por cima da água quebrai esse mesmo vaso fazeio em pedaços e todos até o mais pequeno se vão ao fundo Se o mundo todo inteiro pesa tão pouco como pesam tanto estes pedaços do mundo que todos se vão ao fundo e nos levam a alma após si Quisera acabar aqui e já há muito que devera mas como estamos em um ponto de tanta importância que é a maior e a única e toca igualmente a todos e a cada um daime licença com que acabe de desarmar ao demônio dandolhe muitas mais armas das que ele tem e concedendolhe tudo o que hoje prometeu e tudo o que se não atreveu a prometer Se alguma hora me destes atenção seja neste último argumento que desejo apertar de maneira que não haja coração tão duro nem entendimento tão rebelde que não dê as mãos e fique convencido VI Se o demônio nos mostrasse procurações de Deus para nos dar todos os reinos do mundo aceitáloíamos Réplicas a esse oferecimento a brevidade da vida a inconstância dos reinos e a limitação da natureza humana Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida A túnica interior e as vestiduras exteriores de Cristo símbolos da alma e dos bens temporais divididos ou lançados à sorte 80 Quando o demônio ofereceu o mundo a Cristo disselhe juntamente como refere S Lucas que ele tinha poderes de Deus para dar o que oferecia Tibi dabo potestatem hanc universam et gloriam eorum quia mihi tradita sunt et cui volo do illa22 Estes poderes que o demônio alegava eram tão falsos como as mesmas promessas Mas para apertarmos este ponto suponhamos que os poderes eram verdadeiros e que eram ainda maiores Suponhamos que tinha o demônio poderes de Deus para verdadeiramente dar este mundo a um homem e demais destes poderes que tinha também delegação da onipotência para prometer cumprir e executar tudo o que quisesse Neste caso se o demônio nos propusesse o mesmo contrato que hoje propôs a Cristo se nos oferecesse todos os reinos e grandezas do mundo e nos mostrasse procurações de Deus para tudo aceitáloíamos Eu entendo que neste caso qualquer homem bem entendido podia pôr três réplicas ou três instâncias a este oferecimento a primeira na brevidade da vida a segunda na inconstância dos reinos a terceira na limitação da natureza humana Ora discorrei comigo e falemos com o demônio Tu demônio me ofereces todos os reinos do mundo Grande oferecimento é mas bem sabes tu que Alexandre Magno não durou mais que seis anos no império e outros imperadores duraram muito menos e algum houve que durou só três dias Pois por seis anos ou por vinte anos ou por quarenta anos que posso viver e esses incertos hei eu de entregar a minha alma Não é bom partido Não seja essa a dúvida diz o demônio eu te seguro com os poderes que tenho cem mil anos de vida e esses sem dor sem velhice sem enfermidade Há mais Outra dúvida Ainda que eu haja de ter cem mil anos de vida quem me segurou a mim a duração e permanência desses reinos e dessa monarquia 81 Não há coisa mais inconstante no mundo que os reinos nem menos durável que sua glória e felicidade Sem recorrer aos exemplos passados digamno as mudanças que vindos nestes nossos dias em que tão pouco segura tiveram os reis a obediência dos vassalos e a coroa e ainda a mesma cabeça sobre que assentam as coroas23 Pois se os vassalos mesmos se me houvessem de rebelar ou os estranhos me houvessem de conquistar os reinos que me importaria a mim ter o nome e o domínio deles Não seja essa também a dificuldade diz o demônio eu te asseguro a duração e perpetuidade da monarquia e todos os reinos que te mostrei por espaço de cem mil anos e te prometo que as possuirás sempre quietos e pacíficos Há mais ainda alguma coisa em que reparar Ainda há uma Sendo eu rei de todo o mundo não me posso gozar de todo ele ao mesmo tempo Quando tiver a corte em Lisboa não a posso ter em Paris quando a tiver em Roma não a posso ter em Constantinopla se lograras terras da Europa não posso lograr as da América se lograr as delícias de Itália não possa gozar as da Índia Pois se eu não hei de ter mais capacidade para os gozos da vida do que tem qualquer outro homem que me importa ter tanto poder e tanta matéria para eles Também isso tem remédio diz o demônio Assim como Cristo no Sacramento está em todos as lugares do mundo sendo um só e o mesmo assim farei eu pela onipotência delegada que tu sendo um só estejas juntamente em todos os lugares do mundo para que em todos possas gozar tudo o que quiseres 82 Eis aqui as condições com que suponho que nos oferece o demônio o seu contrato Parecevos que são boas condições estas e dignas de se aceitarem Um homem com cem mil anos de vida seguras sem dor nem enfermidade um homem monarca universal de todos os reinos do mundo com certeza de não se mudarem um homem multiplicado em todas as partes do mundo para poder gozar no mesmo tempo as delícias de todo ele Parece que a imaginação não pode inventar mais nem querer mais o desejo Dizeime agora se este contrato volo oferecesse o demônio assinado por Deus aceitaríeis esta vida esta majestade estas delícias de cem mil anos com condição de no cabo deles perder a alma e ir ao inferno É certo que nenhum de nós aceitaria tal contrato Ao menos eu não Pois se não aceitaríamos ao demônio um tal contrato como aceitamos tentações tão diferentes Dizeime quando o demônio vos tenta prometevos larga vida Antes são muitas vezes tais as tentações que sabeis de certo que caindo nelas quando menos haveis de encurtar a vida e perder a saúde Mais Quando o demônio vos tenta prometevos reinos e monarquias universais do mundo Não um governo uma privança um título um morgado uma herança e outros interesses menores Mais Quando o demônio vos tenta multiplicavos a capacidade dos sentidos para que possais gozar com maior largueza e sem limite os gostos e delícias do mundo Nada disto Pois se fora loucura e rematada loucura entregar um homem a sua alma por aquele contrato que será entregarmola cada dia e cada hora por tentações de tanto menos porte Por uma vaidade por um desejo por uma representação por um apetite que no instante de antes o desejais e no instante de depois o aborreceis Tomara que me respondêsseis a esta evidência para ver que razão me dais 83 Só uma vos pode ocorrer que tenha alguma aparência e é o que nos engana a todos Padre entre aquele contrato e as tentações ordinárias do demônio há uma diferença grande Consentindo naquele contrato ficava eu perdendo a minha alma de certo consentindo nas outras tentações somente ponho a minha alma em dúvida porque depois de aceitar a tentação e lograr o que o diabo ou o apetite me promete posso arrependerme e salvarme Primeiramente essa mesma conta fizeram todos os cristãos que estão no inferno Mas sem chegar a essa suposição tão leve negócio é pôr a alma e a salvação em dúvida Aprendamolo do mesmo demônio e torne a tentação a ser remédio Quando o diabo tentou a Cristo bem via que aquele homem quem quer que fosse depois de aceitar o partido e se ficar com os reinos do mundo assim como se houvesse posto de joelhos diante da demônio para o adorar assim se podia pôr de joelhos diante de Deus para pedir perdão e se restituir à graça e salvarse Pois se isto era assim por que lhe oferecia o demônio todo o mundo só por aquela adoração só por aquele pecado Porque aquele pecado em um homem ainda que lhe não tirava a salvação com certeza punhalhe a salvação em dúvida e só por pôr em dúvida a salvação de uma alma dará e dá o demônio todo o mundo Pois se a demônio que não é interessado como eu dá o mundo só por pôr a minha salvação em dúvida eu por que porei em dúvida a minha alma e a minha salvação ainda que seja por todo o mundo 84 Cristãos Deus nos livre de pôr a salvação de nossa alma em dúvida ainda que seja pelo preço de todo o mundo e de mil mundos O que se põe em dúvida pode ser e não pode ser E se for Se a dúvida inclinar para a pior parte se eu me não salvar e me condenar como se condenaram tantos que lhe fizeram esta mesma conta será bem que fique a alma nestas contingências Oh tristes almas as nossas que não sei que nas têm feito que tanto mal lhes queremos Por certo que não nos havemos nós assim nas temporalidades O negócio em que vos vai a vida ou a fazenda ou a honra ou o gosto contentaisvos com o deixar nessas dúvidas Não buscais sempre a mais segura Pois só a Deus e à ventura hão de ser para a triste alma Vede como se queixava Cristo desta sem razão Diviserunt sibi vestimenta mea et super vestem meam miserirut sortem Mt 2735 As minhas vestiduras exteriores dividiramnas para si e a minha túnica interior lançaramna a sortes Os vestidos exteriores de Cristo dividiramnos entre si os soldados em partes iguais a túnica interior jogaramna a ver quem a levava inteira Que é esta túnica interior e que vestiduras exteriores são estas que os homens receberam de Deus As vestiduras exteriores são os bens temporais a túnica interior é a alma Vede agora com quanta razão se queixa Cristo Diviserunt sibi vestimenta mea as vestiduras exteriores os bens temporais estimamnos os homens tanto que os não querem pôr na dúvida de uma sorte dividemnos com grande tento reparando em um fio e cada um segura a sua parte Et super vestem meam miserunt sortem porém a túnica interior a alma fazem tão pouco caso dela os homens que a lançam a sortes e à ventura ao tombo de um dado Atrevemonos a estar eternamente no inferno Para quando guardamos os nossos juízos Para quando guardamos os nossos entendimentos Por que cuidais que foram prudentes as cinco virgens do Evangelho Por que eram muito entendidas Por que falavam com grande discrição Não Porque quando as compa nheiras lhes pediram do óleo para acompanhar o esposo às bodas elas responderam Ne forte non sufficiat nobis et vobis Mt 24 9 Não amigas porque não sabemos se nos bastará o que temos Pôr em dúvida a entrada do céu pôr em dúvida a salvação da alma nem por amor das amigas nem por amor das bodas nem por amor do esposo VII É tão grande o valor das almas por si mesmas que mesmo quando condenadas como a de Judas deu Deus por bem empregado nelas o preço infinito de seu sangue Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tão mal Tomemos meia hora por dia para tratar de nossa alma Por que não haverá também uma irmandade para a salvação das almas que se perdem Proposta de Cristo ao Reino de Portugal 85 Não digo eu pôr a salvação da alma em dúvida Ainda que algum de nós soubera de certo e tivera revelação que a sua alma se não havia de salvar só por ser alma a não havia de dar por nenhum preço do mundo Ouvi uma ponderação que me faz tremer É de fé que o Filho de Deus morreu por todos os homens Assim o definiu Inocêncio Décimo em nossos dias contra o erro dos jansenistas e assim o diz expressamente S Paulo em dois lugares de suas epístolas na segunda ad Chorinthios capítulo cinco Christus pro omnibus mortuus est24 e na primeira ad Thimotheum capítulo dois Qui dedit redemptionem semetipsum pro omnibus25 Todos os homens quantos há e houve e há de haver no mundo ou são predestinados que se hão de salvar ou são precitos que se hão de perder Que Cristo morresse pelas almas dos predestinados bem está são almas que se hão de salvar e que hão de ver e gozar e amar a Deus por toda a eternidade mas morrer Cristo e dar o preço infinito de seu sangue também pelas almas dos precitos Sim Morreu pelas almas dos predestinados porque são almas que se hão de salvar e morreu também pelas almas dos precitos porque ainda que se não hão de salvar são almas Nos predestinados morreu Cristo pela salvação das almas nos precitos morreu pelas almas sem salvação porque é tão grande o valor das almas por si mesmas ainda sem o respeito de se haverem de salvar que deu Deus por bem empregado ou por bem perdido nelas o preço infinito de seu sangue Grande exemplo em uma alma particular 86 Fez Cristo por Judas os extremos que todos sabem mas nem todos os ponderam como merecem Se Cristo tiver certeza de que Judas se havia de salvar bem empregadas estavam todas aquelas despesas de trabalho e de amor E se quando menos a salvação de Judas estivera duvidosa também era bemaventurar todas aquelas diligências na contingência dessa dúvida Mas Cristo sabia de certo que Judas era precito e se havia de condenar Pois Senhor como empregais e despendeis tantas vezes o preço infinito de vossas palavras de vossas ações e de vossas lágrimas com esse infeliz homem Não sabeis que se há de perder a sua alma Sim sei mas ainda que se há de perder é alma A certeza da sua perdição não lhe tirou o ser antes acrescenta a dor de tamanha perda E que haja ainda almas que se queiram perder certamente Que haja ainda tantos Judas que dêem entrada ao demônio em suas almas não por todo o mundo nem por trinta dinheiros mas por outros preços mais vis e mais vergonhosos 87 Ora cristãos se uma alma ainda sem o respeito da salvação vale tanto as nossas almas que pela misericórdia de Deus ainda estão em estado de salvação por que as estimamos tão pouco Que nos fizeram as nossas almas para lhes querermos tanto mal para as desprezarmos tanto Cristo estima infinitamente a minha alma mais que todo o mundo o mesmo demônio estima também mais a minha alma que todo o mundo e só eu hei de estimar todas as coisas do mundo mais que a minha alma Que coisa há neste mundo tão vil ou seja da vida ou seja da honra ou seja do interesse ou seja do gosto que a não estimemos mais que a alma e que não vendamos a alma por ela Ponhamos os olhos em um Cristo crucificado e aprendamos naquela balança a pesar e estimar nossa alma Como está Cristo na cruz Despido afrontado atormentado morto despido pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que o interesse afrontado pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que a honra atormentado pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que os gostos morto pela minha alma para que eu estime mais a minha alma que a vida Oh pesemos e pesemos bem o que é e o que há de ser o mundo o que é e o que há de ser a nossa alma Seja esta a principal devoção desta quaresma e seja também a principal penitência Não vos peço que nesta quaresma acrescenteis as devoções nem as penitências só uma comutação delas vos peço e é que tomeis na mão aquela balança Tomemos sequer meia hora cada dia para nos fecharmos conosco e com a nossa alma e para tratarmos dela e com ela Diz S João no Apocalipse Factum est silentium in caelo quasi media hora Apc 81 que se fez silêncio no céu por espaço de meia hora enquanto se tratava das petições da terra Se no céu onde tudo é segurança é felicidade se toma meia hora para tratar da terra na terra onde nada é seguro e tudo é miséria porque se não tomará meia hora para tratar do céu De vinte e quatro horas do dia não lhe bastaram ao corpo vinte e três e meia e a pobre alma não terá sequer meia hora E que seja necessário que isto se vos esteja rogando e pedindo e que não baste Ora fiéis cristãos façamolo assim todos nesta quaresma para que também a quaresma seja cristã Consideremos que a nossa alma é uma só que esta alma é imortal e eterna que a união que tem esta alma com o corpo a que chamamos vida pode desatarse hoje que todas as coisas deste mundo cá hão de ficar e só a nossa alma há de ir conosco que a esta alma a espera uma de duas eternidades se formos bons eternidade de glória se formos maus eternidade de pena É isto verdade ou mentira Cremos que temos alma ou não o cremos São estas almas nossas ou são alheias Pois que fazemos 88 Também das alheias nos devemos lastimar muito Todo o mundo que o demônio hoje ofereceu a Cristo foi por uma alma alheia Se dá todo o mundo o demônio por perder uma alma porque não daremos nós e porque não faremos alguma coisa por tantas almas que se perdem Neste mesmo instante se estão perdendo infinitas almas na África infinitas almas na Ásia infinitas almas na América cujo remédio venho buscar tudo por culpa e por negligência nossa Verdadeiramente não há reino mais pio que Portugal mas não sei entender a nossa piedade nem a nossa fé nem a nossa devoção Para as almas que estão no purgatório há tantas irmandades tantas confrarias tantas despesas tantos procuradores tantos que as encomendem de noite e de dia só aquelas pobres almas que estão indo ao inferno não têm nada disto As almas do purgatório ainda que padeçam têm o céu seguro as que vivem e morrem na gentilidade não só têm o céu duvidoso mas o inferno e a condenação certa sem haver quem lhes acuda Não é maior obra de misericórdia esta Pois por que não haverá também uma irmandade por que não haverá também uma congregação por que não haverá também uma junta porque não haverá também um procurador daquelas pobres almas Senhor estas almas não são todas remidas com o vosso sangue Senhor estas almas não são todas remidas com o sangue de Cristo26 Senhor a conversão destas almas não a entregastes aos reis e reino de Portugal Senhor estas almas não estão encarregadas por Deus a Vossa Majestade com o reino Senhor será bem que estas almas se percam e se vão ao inferno contra o vosso desejo Senhor será bem que aquelas almas se percam se vão ao inferno por nossa culpa Não o espero eu assim da Vossa Majestade divina nem da humana Já que há tantos expedientes para os negócios do mundo haja também um expediente para os negócios das almas pois valem mais que o mundo Desenganemonos quanto mais se adiantar o negócio da salvação das almas tanto os do mundo irão mais por diante O demônio ofereceu todos os reinos do mundo a Cristo pela perdição de uma alma e Cristo porque tratou da salvação das almas está hoje Senhor de todos os reinos do mundo Assim nos sucederá a nós também e assim o prometo em nome do mesmo Deus Deixaime santificar as palavras do demônio e pôlas na boca de Cristo Ostendit ei omnia regna mundi Estános Deus mostrando todos os reinos desse novo mundo que por sua liberalidade nos deu e por nossa culpa nos tem tirado em tanta parte E apontando para a África para a Ásia para a América nos está dizendo Haec omnia tibi dabo si cadens adoraveris me Reino de Portugal eu te prometo a restituição de todos os reinos que te pagavam tributo e a conquista de outros muitos e mui opulentos desse novo mundo se tu pois te escolhi para isso fizeres que creia em mim e me adore Si cadens adoraverit me Assim o prometa da bondade de Deus assim o espera do grande zelo e piedade de sua majestade assim o confio da muita Cristandade de todos os ministros e se tratarmos das almas alheias este meio de que tanto se serve Deus será o mais eficaz de conseguirmos a salvação das próprias nesta vida com grandes aumentos de graça e na outra com o prêmio da glória SERMÃO DA TERCEIRA QUARTAFEIRA DA QUARESMA PREGADO NA CAPELA REAL NO ANO DE 1670 Non est meum dare vobis sed quibus paratum esta Patre meo1 1 Sermão dos pretendentes Os filhos de Zebedeu e os descobridores portugueses Onon e a serpente de Moisés Não palavra dura para quem a ouve e para quem a diz O anjo de Deus e as petições de Abraão em favor das cinco cidades condenadas à destruição É decente a um rei dizer não No caso em que convenha qual é o modo com que o deve dizer 89 Estamos em sermão de pretendentes e segundo a experiência e queixa comum ou seja com razão ou sem ela acho eu que os pretendentes das cortes em seus requerimentos são como os nossos argonautas e primeiros descobridores da Índia senão que navegam ao revés e fazem a viagem às avessas Os nossos descobridores primeiro passaram o Cabo de Não e depois o Cabo de Boa Esperança os pretendentes pelo contrário começam pelo Cabo de Boa Esperança e acabam pelo Cabo de Não Assim sucedeu hoje aos filhos do Zebedeu que também eram navegantes Começaram pelo Cabo de Boa Esperança e com tão boa monção que o passaram em uma sangradura porque o vento era Galerno e o mar bonança Fundavam a esperança na graça de Cristo na eleição que deles tinha feito e na prontidão com que tinham deixado não só as barcas e as redes como Pedro e André senão também o próprio pai fundavam a esperança no valimento de João conhecidamente o mais aceito a Cristo e descobertamente o amado entre todos os discípulos fundavam a esperança na propinqüidade do sangue por serem primos do mesmo Senhor não reparando que os príncipes não têm parentes e muito menos ao perto fundavam finalmente a esperança na intercessão de sua mãe que por mulher era digna de todo o respeito e por viúva de toda a piedade Mas ainda que passaram tão felizmente o Cabo de Boa Esperança e se prometiam pronto e inteiro despacho alfim acabaram como os demais pelo Cabo de Não Non est meum dare vobis 90 Terrível palavra é um non Não tem direito nem avesso por qualquer lado que a tomeis sempre soa e diz o mesmo Ledeo do princípio para o fim ou do fim para o princípio sempre é non Quando a vara de Moisés se converteu naquela serpente tão feroz que fugia dela por que o não mordesse disselhe Deus que a tornasse ao revés e logo perdeu a figura a ferocidade e a peçonha O mar não é assim por qualquer parte que o tomeis sempre é serpente sempre morde sempre fere sempre leva o veneno consigo Mata a esperança que é o último remédio que deixou a natureza a todos os males Não há corretivo que o modere nem arte que o abrande nem lisonja que o adoce Por mais que enfeiteis um não sempre amarga por mais que o enfeiteis sempre é feio por mais que o doureis sempre é de ferro Em nenhuma solfa o podeis pôr que não seja malsoante áspero e duro Quereis saber qual é a dureza de um não A mais dura coisa que tem a vida é chegar a pedir e depois de chegar a pedir ouvir um não Vede o que será A língua hebraica que é a que falou Adão e a que mais naturalmente significa e declara a essência das coisas chama ao negar o que se pede envergonhar a face Assim disse Bersabe a Salomão Petitionem unam precor a te ne confundas faciem meam 3 Rs 216 Tragovos Senhor uma petição não me envergonheis a face E por que se chama envergonhar a face negar o que se pede Porque dizer não a quem pede é darlhe uma bofetada com a língua tão dura tão áspera tão injuriosa palavra é um não Para a necessidade dura para a honra afrontosa e para o merecimento insofrível 91 E se um não é tão duro para quem o ouve creio eu que não é menor a sua dureza para quem o diz e tanto mais quanto mais generoso for o coração e mais soberano o ânimo que o houver de pronunciar Dos três anjos que apareceram a Abraão no vale de Mambré os dois que representavam ministros partiram a executar o castigo nas cidades infames e o terceiro ou primeiro que representava a Deus ficou com Abraão E porque o estar só por só com Deus é o melhor tempo e modo de negociar com ele animou se então o santo patriarca a pedir a revogação da sentença Eram as cidades cinco e disse assim Senhor se naquelas cinco cidades houver cinqüenta justos não lhes perdoará Vossa Majestade Sim perdoarei respondeu Deus ou o anjo em seu nome E se não chegarem a cinqüenta e forem somente quarenta e cinco Também perdoarei Alentado com esta partida continuou Abraão a outras menores E se forem só quarenta Perdoarei por quarenta E se trinta Senhor Também por trinta E se vinte Por vinte E se dez somente Também perdoarei por dez E dizendo isto desapareceu o anjo Abiitque Dominus Gên 1833 Notável despedida Não aguardou o anjo a que Abraão instasse mais e oferecesse ou rogasse com menor partido A submissão o comedimento e a santa cortesania com que Abraão instava e passava de uma petição a outra é admirável e digníssima de que todos a leiam e de que o anjo só pelo ouvir se detivesse Pois se tinha aguardado não só com paciência mas com tão particular agrado desde a primeira instância até a sexta por que não esperou a sétima por que se retirou e escondeu tão súbita e improvisamente Por não chegar a dizer um não A comissão que trazia o anjo eram dois decretos um condicional outro absoluto O condicional que se nas cinco cidades houvesse até dez justos suspendesse o castigo o absoluto que se fossem menos de dez executasse e ardessem E como o anjo que a seis petições de Abraão tão benevolamente tinha sempre dito sim se ele continuasse e instasse com a sétima era forçado a dizer não por se não atrever a pronunciar esta duríssima palavra desapareceu e escondeuse Naquelas cinco cidades não há mais que quatro justos de que consta a família de Lot sobrinho de Abraão se Abraão como é certo descer a este número eu diz o anjo não lhe posso conceder o partido e é força responderlhe de não Pois para que nem eu tenha o dissabor de dizer tal palavra nem ele o desgosto e pena de a ouvir fugir e desaparecer é o melhor meio Abiitque Dominus 92 Os reis e príncipes soberanos representam e têm as vezes de Deus na terra como tinha esse anjo Também como o mesmo anjo neste caso não podem deixar de ouvir petições e ser importunados de requerimentos a que não devem deferir E porque dizer não aos pretendentes é coisa tão dura para eles como para o mesmo príncipe será matéria mui própria deste lugar e deste Evangelho pôr hoje em questão e averiguar duas coisas Primeira se é conveniente e decente a um rei dizer não Segunda qual é o modo com que o deve dizer no caso que convenha Uma e outra resolução nos darão as palavras do tema Non est meum dare vobis sed quibus paratum esta Patre meo II Não é conveniente nem decente à majestade que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não Tão vil é na mentira o sim como honrado na verdade o não A resposta dos atenienses a Filipe de Macedônia D João Segundo e as mercês do não dito a seu tempo 93 Dos imperadores que precederam ao império de Trajano diz o seu panegirista Plínio que desejavam muito ser rogados e que todos lhes pedissem só pelo gosto que tinham de dizer não Priores principes a singulis rogari gestiebant non tam praestandi animo quam negandi Mas como estes que ele chama príncipes verdadeiramente eram tiranos e mais monstros da natureza humana que homens excluído sem controvérsia este escândalo da razão e da humanidade e começando a nossa questão pelas razões prováveis de duvidar parece que não é conveniente nem decente à majestade e autoridade de um rei que pronuncie de palavra ou firme com a pena um não Ou o rei diz não porque não quer ou porque não pode se porque não quer ofende o amor se porque não pode desacredita a grandeza E se as petições e requerimentos são tais que se não devem conceder entendam os pretendentes o não mas não o ouçam seja discurso seu e não resposta ou resolução real Mais decente negativa é para o governo e menos descoberta desconsolação para os que requerem que eles tomem por si o desengano Desenganeos a dilação desenganeos o tempo e se de dia não cuidam nem de noite sonham mais que no seu despacho os mesmos dias e noites lhes digam o que se lhes não diz e por elas saibam o que não querem entender Sustentemse na sua esperança posto que falsa e fique sempre inteiro ao príncipe o pundonor de que não negou Se por este modo se estendem os requerimentos e se entretêm e multiplicamos que vêm requerer isso mesmo é um certo gênero de grandeza e autoridade haver muitos pretendentes O que eles gastam e despendem sustenta a majestade da corte e também as cortes dos que não são majestade Já que pretendem sem merecimento paguem as custas da sua ambição e sirvalhes a eles de castigo e aos mais de exemplo 94 Contra o sofístico destas razões que verdadeiramente tem muito da vaidade parece que são mais sólidas as do ditame contrário Tão vil é na mentira o sim como honrado na verdade o não A verdade que por isso se pinta despida não sabe encobrir nem fingir nem enfeitar nem corar e muito menos enganar e a primeira virtude do trono ou seja da justiça ou da graça é a verdade Todo o artifício é coisa mecânica e não nobre quanto mais real O sol abranda a cera e endurece o barro porque obra conforme a disposição dos sujeitos mas em todos e com todos descobertamente por isso o calor é inseparável da luz Importa distinguir o bastão do cetro Os estratagemas não são para o despacho sejam embora para a campanha mas não para a corte para os inimigos e não para os vassalos Saibam os pretendentes se podem esperar ou não para que no fim não desesperem Quem diz que é arte de não desgostar não diz nem cuida bem Melhor é dar um desgosto que muitos Queixemse de que os não satisfizeram mas não possam dizer justamente que os enganaram Se é dura palavra um não mais duras são as boas palavras que suspendem e encobrem o mesmo não até que o descobre o efeito Quem fez o não tão breve não quis que se dilatasse 95 Pediu Filipe rei de Macedônia à República de Atenas o deixasse passar com o exército pelas suas terras o que o senado lhe não quis conceder E porque o estilo dos atenienses que ainda hoje se chama estilo lacônico era resumir tudo o que se havia de dizer às palavras mais breves tomaram um grande pergaminho que era o papel daquele tempo e escreveram nele um não com tamanhas letras que o enchia todo e cerrado e selado esta foi a resposta que deram aos embaixadores de Filipe É mui célebre nas histórias gregas este breve e grandíssimo não mas na nossa Atenas ainda os há maiores Tantas petições tantas remissões tantas provisões tantas patentes tantas certidões tantas justificações tantas folhas corridas tantas vistas tantas informações podidas muitas vezes à Ásia e à América tantas consultas tantas interlocutórias tantas réplicas e tantas outras cerimônias e mistérios por escrito a que não se sabe o número nem o nome e ao cabo de quatro de seis e de dez anos ou o despacho ou o que significa o despacho em meia resma de papel é um não Não fora melhor este desengano ao princípio E as despesas deste injusto entretenimento que se devem restituir nesta vida ou se hão de pagar na outra por cuja conta correm Já que não haveis de fazer ao pretendente a mercê que pede por que não lha fareis ao menos do que há de gastar inutilmente na pretensão Ao outro que presentava o seu memorial disse elrei D João Segundo na primeira audiência que não tinha lugar no que pedia e ele beijoulhe a mão Entendestesme replicou elrei Senhor sim Por que me beijais logo a mão Porque me fez Vossa Alteza mercê do dinheiro que trazia para gastar na corte e agora o torno a levar para minha casa Estas são as mercês do desengano e os despachos do não dito a seu tempo Não o dizer será maior política maior autoridade e decência mas dizêlo em muitos casos é obrigação e consciência III Como evitar as ocasiões de dizer não Primeiro meio não conceder aos validos as suas petições como o fez Deus quando castigou o povo de Israel O não do Senhor à pretensão dos apóstolos A petição de S Paulo Os dois gêneros de negações as puras negações e as privações 96 Disputada assim problematicamente a nossa questão de umas e outras razões de duvidar se conclui com certeza que o não sem ser coisa alguma é como as outras coisas deste mundo que todas têm seus bens e seus males suas utilidades e seus inconvenientes Para não cair ou tropeçar nestes que a cada passo se oferecem ou atravessam em tanta multidão de requerimentos o primeiro cuidado ou cautela do prudente príncipe deve ser evitar quanto for possível as ocasiões de dizer não Mas como se podem evitar ou atalhar estas ocasiões sendo os pretendentes e as pretensões os requerentes e os requerimentos tantos Digo que fazendo com destreza e constância que sejam menos e muito menos e usando para isso dos meios que agora apontarei e nos ensina o nosso Evangelho 97 O primeiro meio é que os validos ou privados por mais juntos que estejam à pessoa real e por mais dentro que estejam na graça sejamos primeiros a que se não conceda o que pretenderem A razão ou conseqüência é manifesta Porque se os que estão de fora virem que os que estão de dentro e tão de dentro não alcançam o que pretendem como se atreverão eles a pretender nem pedir Tinha Deus determinado castigar o povo de Israel com quatro pragas ou açoites de fome de guerra de peste e de bestasferas e para que entendessem que por nenhuns rogos ou intercessões se suspenderia a execução destes castigos acrescenta que ainda que lho pedisse Noé Jó e Daniel não lho havia de conceder O modo desta cominação pelo profeta Ezequiel é muito singular por que diz assim Se mandar fome ainda que interceda Noé Jó e Daniel hão se de secar os campos e as searas se mandar guerra ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo há de levar a espada se mandar peste ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo há de consumir a morte se mandar bestasferas ainda que interceda Noé Jó e Daniel tudo hão de destruir e devastar as feras Com razão chamei a este modo de cominação singular porque se não lê outro semelhante em toda a Escritura Pois porque o faz Ezequiel e o manda fazer Deus com tão expressa e tão multiplicada repetição de que não hão de valer ao povo as orações de Noé de Jó e de Daniel Porque estes três em diferentes séculos foram os maiores validos de Deus e para persuadir e desenganar a todos de que se lhes não há de conceder o que pedirem o meio e exemplo mais eficaz é negar e não conceder aos validos as suas petições Se a Noé se a Jó se a Daniel se nega o que pedirem como se me há de conceder a mim Não quero pedir No nosso texto o temos 98 Os apóstolos antes de descer sobre eles o Espírito Santo eram muito tocados da ambição e apetite de ser como homens alfim levantados do pó da terra ou das areias da praia Daqui nasceu aquela contenda tão indigna do Sagrado Colégio Facia est contentio inter eos quis eorum viteretur esse majo2 Descobertamente disputaram e altercaram entre si sobre a preferência cuidando e defendendo cada um que ele era o maior E tão aferrados estavam todos à própria opinião que ainda consultando a seu Divino Mestre sobre a matéria não se sujeitaram a que ele absolutamente a definisse circunstância digna de grande ponderação Quis putas major est in regno caelorum Mt 181 Não disseram quem de nós é o maior Senão Quis putas Quem vos parece que o é Para que ainda depois da resposta ficasse a maioria em opinião e cada um seguisse a sua e se não descesse dela Pois se esta ambição era de todos e não só de João e Diogo como foram só estes dois os que pretenderam e pediram as primeiras cadeiras e nenhum dos outros que tanto como eles o desejavam intentou tal coisa Por isso mesmo João e Diogo eram conhecidamente os maiores validos de Cristo e os mais entrados na sua graça e as que a tinham mais bem fundada ainda naquela razão natural que corre pelas veias e como os outros apóstolos viram que os lugares que todos apeteciam se negaram aos válidos todos amainaram as velas e recolheram os reinos da sua ambição e nenhum teve confiança nem atrevimento para pretender nem pedir quando a eles se tinha negado Vede a virtude de um não para evitar muitos Como Senhor dizer uma vez não Non est meum dare vobis se livrou de o dizer oitenta e duas vezes Se Cristo concedera ou condescendera com esta petição dos dois apóstolos logo os outros dez haviam de vir com as suas e após os dez apóstolos os setenta e dois discípulos que todos se haviam de querer aproveitar de tão boa maré mas com um não que disse aos validos se livrou o Senhor de dizer dez nãos e setenta nãos 99 Porque os reis não imitam o exemplo do Rei dos Reis e por isso se vêem tão perseguidos de petições e tão atribulados de requerimentos de que se não podem desembaraçar mais constrangidos da conseqüência que obrigados da razão devendo e querendo negar a muitos e não o podendo fazer pelo que têm concedido a poucos Digase um não a João e a Diogo ainda que sejam validos e logo não só se poderá dizer com liberdade aos mais mas cessarão as ocasiões de ser necessário dizerse Dirão porém os mesmos validos ou alguém por eles que não parece nem é justiça nem ainda bom exemplo e crédito do mesmo rei que aos que servem e trabalham junto à sua pessoa e sustentam o peso da monarquia devendo ser os primeiros e mais remunerados fiquem sem mercê e sem prêmio E é pouca mercê e pouco prêmio o ser validos E pouca mercê e pouco prêmio estar sempre junto à pessoa real O prêmio que Cristo prometeu a seus ministros foi que estariam onde ele está Ubi ego sum illic et minister meus erit3 Nem o rei pode dar maior prêmio nem o ministro desejar mais avantajada mercê É verdade que isto mesmo se concedeu a um ladrão venturoso Hodie mecum ens4 o que também pode ter sua propriedade e sua aplicação Mas ouçamos o que sucedeu a S Paulo e como Cristo o tratou em uma só petição que lhe fez sendo o ministro que mais trabalhou que todos em seu serviço 100 Pediu São Paulo a Cristo que o isentasse de certa pensão que pagava por conta de uma pouca de terra que herdara de seus pais e nossos cujo exator o apertava e molestava muito e fazendo três vezes esta petição Propter quod ter Dominum rogavi5 nem à primeira nem à segunda nem à terceira se serviu o Senhor de lhe deferir sempre saiu escusado Pois a Paulo que se não era o primeiro valido não era o segundo porque dos dois primeiros ministros da casa e reino de Cristo ele era um a Paulo que só para o meter em seu serviço desceu o mesmo Cristo segunda vez do céu à terra e o levou em vida ao céu para lhe comunicar seus segredos a este ministro a este valido a este que tanto privava como seu príncipe nega o Senhor uma pretensão tão justa e tão fácil e não uma só vez na petição senão outra vez na nova instância e terceira na réplica Sim para que nem os validos estranhem as negativas nem os príncipes se encolham e desanimem ou cuidem que os agravam e faltam à sua obrigação em lhes negar o que pedirem Não era Paulo ministro que servisse em palácio à sombra de tetos dourados sem molhar o pé no mar nem o meter na campanha mas era um ministro que em serviço e honra de seu príncipe pere grinava e corria o mundo em rodaviva desde levante até poente sempre com o montante na mão em perpétuas batalhas e conquistas por mar e por terra e suportando no mar tais tempestades e naufrágios que talvez passou um dia e uma noite debaixo das ondas Die ac nocte in profundo maris fui 2 Cor 1125 E com que rosto para que o digamos assim ou com que palavras se atreveu Cristo a negar a um tal ministro o que lhe pedia O mesmo S Paulo as referiu e são digníssimas de quem as disse Et dixit mihi Sufficit tibi gratia mea 2 Cor 129 Negate Paulo o que me pedes porque te basta a minha graça Aos validos e que logram a graça do príncipe bastalhes a mercê da mesma graça e todas as outras se lhes podem negar confiadamente Confiadamente digo e pudera dizer que com ressaibos de desconfiança porque o ministro que se não contenta com a graça e além da graça quer outra mercê não só é indigno da mercê senão também da graça Mas há muitos que não conhecem o preço dela e por isso com injúria da mesma graça e do príncipe fazem da graça degrau para outros interesses que é o mesmo que pisála 101 Mas ouçamos o que diz S Paulo da sua graça que pode ser tenha alguma escusa Gratia Dei sum id quod som 2 Cor 1410 Todo o ser que tenho o devo à graça de meu Senhor Assim o devem dizer e confessar ainda os que por merecimentos seus e não por nossos pecados estiverem na graça porque o contrário seria muita soberba e maior ingratidão Por diante Et gratia ejus continua Paulo in me vacua non fuit e a sua graça não foi em mim vazia Aqui parece que entra a escusa Logo se a graça não há de ser vazia háse de encher Por isso vemos os cheios da graça tão cheios para se encher se aproveitam da graça Mas Paulo não diz que se encheu a si com a graça senão que a graça se encheu nele Gratia ejus in me vacua non fuit E como se encheu nele a graça Muito havia mister para se encher porque o vaso era muito grande Vas electionis est mihi iste6 e assim o fez o famoso Paulo Gratia ejus in me vacua non fuit sed abundantius omnibus laboravi7 O modo com que a graça se encheu em mim foi trabalhando e servindo não só muito senão mais que todos Porque essa é a diferença que hão de fazer aos demais os que estão na graça Não se hão de encher com a graça nem hão de encher a graça com mercês senão com novos e maiores serviços E segundo esta obrigação bem lhes pode o príncipe negar o que pedirem e eles prezaremse muito dessas negações 102 Os filósofos distinguem dois gêneros de negações umas que se chamam puras negações e outras a que deram nome de privações A pura negação nega o ato e mais a aptidão a privação supõe a aptidão e nega o ato O silêncio é negação de falar mas com grande diferença no homem e na estátua porque a estátua não fala nem é apta para falar senão inepta porém no homem é negação e privação porque ainda que o homem não fale é apto e capaz de falar Daqui se segue que assim como o silêncio na estátua é incapacidade e no homem virtude assim o que se nega ao indigno é pura negação a qual o afronta e o que se nega ao digno é privação que o honra e acredita e tanto mais quanto for mais digno Tais são as negações que os príncipes fizeram e devem fazer aos seus validos São privações com que não só se acredita a si senão também a eles porque o maior crédito do valido é que a sua privança seja privação Por isso os validos com mais nobre e heróica etimologia se chamam privados E quando eles folgarem de o ser ou o príncipe fizer que o sejam ainda que não folguem as privações dos privados farão mais toleráveis as negações dos que o não são E desenganados os demais com este exemplo nem eles se atreverão a pedir o que se lhes deve negar nem o príncipe será forçado a negar o que lhe pedirem ficando livre por este meio de muitas e molestas ocasiões em que contra o decoro e agrado da majestade seja obrigado a dizer não IV Segundo meio de atalhar o não a justiça e inteireza do príncipe em seus despachos A inteireza de Catão Resposta de elrei Acab a Isaías Salomão e o castigo de Adonias Razão da negativa de Cristo O dar por justiça e o dar por graça Não cuidem os príncipes que podem tudo porque podem tudo 103O segundo meio ou indústria de prevenir e atalhar o não e as ocasiões de o dizer é que o príncipe em todos seus despachos e resoluções seja inteiro justo e reto e conhecido por tal Desta justiça e inteireza que por outra parte é a sua primeira obrigação se seguirão dois efeitos notáveis O primeiro que ninguém se atreverá a pedir senão o que for justo o segundo que pedindo todos somente o justo a todos concederá o príncipe o que pedirem e nunca dirá não 104O mais justo reto inteiro e constante homem que houve entre os romanos foi Marco Pórcio Catão E que conseguiu com esta inteireza e constância de sua justiça inflexível Conseguiu como refere Plínio que ninguém no seu consulado se atreveu a lhe pedir coisa que não fosse justa Assim lho disse com admiração a eloqüência de Túlio O te felicem Marce Porce a quo rem improbam petere nemo audet Tal será a reverência do governo e tal a felicidade do rei que em todas suas resoluções e despachos observar constantemente a justiça A justiça como a definem os teólogos e juristas não é outra coisa que uma perpétua e constante vontade de dar a cada um o que merece Se esta vontade que ordinariarnente é tão mudável nos afetos humanos for constante e perpétua no príncipe todos se desenganarão que não hão de alcançar dele senão o que for devido a seus serviços e proporcionado a seus merecimentos E por meio deste desengano conseguirá a felicidade de que ninguém se atreva a lhe pedir senão o que for justo O te felicem a quo rem improbam petere nemo audet Feliz porque não se atrevendo ninguém a pedir senão o justo serão muito menos as petições e requerimentos feliz porque não pedindo ninguém senão o que lhe é devido haverá com que satisfazer a todos feliz porque sendo as petições e requerimentos justificados sempre o príncipe concederá o que se lhe pedir e nunca dirá não Não é melhor e mais decente e mais breve e mais útil que o não o digam a si mesmos aqueles que haviam de pedir do que dizerlho a eles o príncipe depois de pedirem Pois isso é o que sucederá se ninguém se atrever a pedir senão o que merecer 105 Disse Isaías a elrei Acab que em prova do que lhe tinha anunciado desde o céu até o inferno pedisse livremente o sinal que quisesse Pete tibi signum a Domino in profundum inferni sive in excelsum supra Is 711 E que responderia Acab Non petam Não pedirei tal coisa Assim o disse resolutamente e assim o cumpriu Mas porquê Se o profeta o assegurava e exortava a que pedisse aquele sinal e com tanta largueza de eleição quanto vai do céu ao centro da terra porque não quer pedir Acab Ele mesmo deu a razão Non petam e non tentabo Dominum Não pedirei tal coisa porque não quero tentar a Deus Tentar a Deus é querer que Deus faça o que não deve assim como o demônio nos tenta para que façamos o que não devemos E fez este discurso Acab Deus é justo e justíssimo antes a mesma justiça eu não lhe tenho feito nenhuns serviços porque sirvo a outros deuses para que me faça tamanhas mercês pois como terei eu atrevimento para lhe pedir o que me promete Isaías Isto será tentar a Deus e querer que o justo e justíssimo faça o que não deve E assim me resolvo a não pedir Nan peram Seja o príncipe justo e tão constantemente justo que por nenhum outro motivo nem respeito dê a ninguém senão o que merecer e lhe for devido e logo os vassalos se não atreverão a pretender as semrazões e exorbitâncias que vemos e se benzerão de pedir como de tentação Non petam et non tentabo Daminum Is 712 106 Oh se os reis tantas vezes e tão injuriosamente tentados ao menos não consentissem na tentação Não digo que castiguem severamente algumas petições posto que imitariam nisto a Salomão o qual por uma petiçãozinha que assim lhe chamou a intercessora Petitionem parvo Iam 3 Rs 2 20 mandou cortar a cabeça a Adanias E verdadeiramente há petições que bem interpretadas são libelos infamatórios dos mesmos príncipes em cujas mãos se metem Porque se são dolosas como era esta de Adanias supõem que são néscios se são exorbitantes supõem que são pródigos se são contra os cânones apostólicos como são muitas supõem que não são católicos E de qualquer modo que peçam o que não é justo supõem que são injustos Mas se antes de fazerem as petições supuserem e se desenganarem que nenhuma coisa hão de conseguir senão o que ditar a inteira e reta justiça eles se comporão com a sua ambição e tomarão por partido o não pedir Non petam Notai onde está o non e vede quanto mais conveniente é para o vassalo e mais expediente para o governo e mais decente para o rei o não antes do petam que depois da petição É mais conveniente para o vassalo porque melhor lhe está que desenganado torne por si mesmo o não e a ponha antes das suas petições que ouvilo depois delas É mais expediente para o governo porque cessando o tumulto e inundação dos requerimen tos que verdadeiramente afogam terão mais fácil expedição os negócios E finalmente é mais decente e decoroso para o rei porque nenhum que vier buscar o prêmio ou o remédio aos pés da majestade se apartará deles descontente Virão a ser por essa via todas as petições da nossa corte como as que se despacham na do céu Davi dizia a Deus Intret postulatio mea in conspectu tuo SI 118170 Entre Senhor a minha petição ao vosso conspecto Nas cortes da terra deseja o pretendente que saia a sua petição na do céu deseja que entre porque uma vez que a petição foi tal que pudesse entrar infalivelmente sai despachada Assim será cá também se ninguém pedir senão o que for justo porque o rei justo à petição justa nunca pode dizer não 107 Mas que fará o rei para adquirir este crédito e reputação universal de justo e por meio dela evitar as petições e requerimentos injustos sem os quais fique livre das inconvenientes e dissabores do não Digo que só a poderá conseguir aplicando o não também a si e primeiro a si que aos súditos É um grande documentado nosso texto e digno de se reparar muito nele Non est meum dare vobis diz o Senhor que o dar não é seu e o não primeiro cai sobre ele que sobre os dois a quem negou a que pretendiam primeiro sobre o meum e depois sobre o vobis Assim há de fazer o rei que quer ser justo e ter opinião de tal Cuidam os reis que o dar é seu e o Rei dos Reis diz que não é seu o dar Non est meum dare Pois Cristo enquanto Deus e enquanto homem não é Senhor de tudo Sim é Logo pode dar a quem quiser e como quiser Distingo com justiça sim sem justiça não Santo Ambrósio Non est meum qui justitiam servio non gratiam Eu dou por justiça e não por graça por justiça é meu o dar por graça como vós quereis não é meu Non est meum dare vobis A razão disto é porque Cristo fundou e ordenou o seu reino em tal forma que nenhuma coisa se desse nele de graça e por graça senão por merecimento e por justiça Por isso S Paulo chamou à coroa que o esperava coroa de justiça e que lha havia de dar o Senhor não como Senhor mas como justo juiz Reposita est mihi corona justitiae quam reddet mihi Dominus justus judex8 Os lugares da mão direita e esquerda que pretendiam os dois irmãos eram do reino de Cristo Ad dexteram et sinistram in regno tuo Mt 20 2t O modo porque o pediam não era por merecimento e por justiça senão por graça e por parentesco Dic ut sedeant hi duo filii mei9 e por isso respondeu o Senhor que não era seu o dar porque o dar por justiça é seu o dar por graça não é seu Non est meum dare qui justitiam servo non gratiam 108 Nenhuma coisa anda mais malentendida e pior praticada nas cortes que a distinção entre a justiça e a graça Donde se segue que apenas há mercê da que se chamam graça que não seja injustiça e contenha muitas injustiças Não nega que os reis podem fazer graças e que o fazêlas é muito próprio da beneficência e magnificência real mas isso há de ser depois de satisfeitas as obrigações da justiça Zaqueu disse que daria a metade da sua fazenda aos pobres e que da outra metade pagaria as suas dívidas e os danos delas Ecce dimidium bonarum meorum da pauperibus et si quid aliquem defraudavi reddo quadruplum10 Disse bem mas perverteu e trocou a ordem porque em primeiro lugar estava o pagar as dívidas que é obrigação de justiça e depois o dar as esmolas que é ato de liberalidade E que desordem seria se se tomasse aos pobres e não se pagasse aos credores Que desordem seria por lhe não dar outro nome se a uns se tomasse violentamente o necessário para se dar a outros prodigamente o supérfluo Como o pagar é espécie de sujeição e o dar é soberania e grandeza gostam mais os príncipes de dar que de pagar Dêem mas dêem do seu se o tiverem que dar e não pagar é dar do alheio E se os Zebedeus que são os que levam as graças os importunarem que dêem respondam com Cristo Non est meum dare O que perde não só o governo mas as consciências e almas dos príncipes é cuidarem que podem tudo porque podem tudo Se assim lho dizem é lisonja e se o crêem é engano O rei pode tudo o que é justo para o que for injusto nenhum poder tem Esta é a verdadeira e maior lisonja que se pode dizer aos reis porque é fazê los poderosos como Deus Deus é onipotente e poderá Deus fazer uma injustiça De nenhum modo Pois assim devem entender os reis que são poderosos E se os súditos se persuadirem que o rei assim o entende e assim o observa nem eles desenganados pedirão senão o que for justo nem o rei importunado terá ocasiões de dizer não V Terceiro meio de se cortarem as ocasiões de dizer não a observância inviolável das leis A inviolabilidade da lei da morte e a árvore da vida A dispensação que se concede a um porque a pede não se pode negar a outro ainda que a não peça O pedido do filho pródigo Jacó e os pedidos de Raquel e Lia 1090 terceiro meio de se cortarem as ocasiões de dizer não é a observância inviolável das leis Se as leis se conservarem em todo seu vigor sem dispensação sem privilégio sem exceção de pessoa o não diloá a lei e não o rei As leis de Deus proibitivas todas começam por não Noir occides non maecaberis non furaberis non falsum testimonium dices11 Houve algum homem até hoje por atrevido e insolente que seja que fizesse petição a Deus para matar para adulterar para furtar para levantar falso testemunho Nenhum porque estas leis são invioláveis e indispensáveis Pois o mesmo sucederá ao príncipe se conservar e mantiver as suas inviolável e indispensavelmente E por este modo tão decoroso e tão fácil se livrará de muitas ocasiões de dizer não porque já o tem dito a lei 110 Pronunciou Deus depois do primeiro pecado a lei universal da morte à qual quis que ficasse sujeito Adão e todo o gênero humano e no mesmo ponto em que fez a lei fez também que fosse inviolável A lei da morte parece inviolável de sua mesma natureza mas naquele tempo podiase violar facilmente porque comendo Adão e qualquer outro homem do fruto da Árvore da Vida ficava isento de morrer E que fez DeusNefortte sumat etiam de ligno vitae et comedat ei vivat in aeternum Gên 322 Por que não aconteça que Adão assim como quebrou a primeira lei comendo da árvore da ciência quebre também a segunda comendo da árvore da vida e fique imortal Collocavit ante paradisum cherubim et flammeum gladium ad custodiendam viam ligni vitae12 Pôs à porta do paraíso um querubim com uma espada de fogo para que sem exceção defendesse a entrada a todos e se algum intentasse eximir se da lei de morrer morresse primeiro Esta foi a ordem cerrada do querubim e este o rigor indispensável da lei da qual não quis Deus que fosse privilegiado nem seu próprio Filho O privilégio chamase em Direito vulnus legis ferida da lei E o poder e espada do legislador não há de ser para ferir as leis senão para ferir matar e queimar a quem intentar quebrálas que por isso a espada do querubim era espada e de fogo Bem pudera Deus cortar a Árvore da Vida com que se escusavam todos aqueles aparatos de horror quis porém que a árvore ficasse em pé e a lei se guardasse contudo inviolavelmente para que entendessem os legisladores que ainda que eles possam dispensar nas leis e o modo da dispensação seja fácil nem por isso o hão de permitir Mas Senhor a árvore da vida está carregada de frutos uns nascem outros caem e todos se perdem podendose aproveitar com tanta utilidade Oh malditas utilidades Este é o engano que perde aos príncipes Dispensamse as leis por utilidades que ordinariarnente são dos particulares e não suas e abrese a porta à ruína universal que só se pode evitar com a observância inviolável das leis Percamse os frutos da árvore da vida que são a mais preciosa coisa que Deus criou percamse as mesmas vidas e não se recupere a imortalidade morra e sepultese o mundo todo mas a lei não se quebre nem se dispense 111 E que se seguiu deste rigor indispensável da lei Seguiuse aquele desengano universal que pregou Davi Quis est homo qui vivet et non videbit mortem Sl 88 4 Que homem há que viva e não haja de morrer E desenganados uma vez os homens de que a lei era inviolável sendo a morte a coisa mais aborrecida e a vida a mais amada ninguém houve jamais que se atrevesse nem lhe viesse ao pensamento intentar ser dispensado para não morrer Guardemse as leis tão severa e inviolavelmente que se desenganem todos que se não hão de dispensar e com o não que elas dizem se livrarão os príncipes de o dizer Mas porque alguns príncipes são de tão bom coração ou de tão pouco que nem à mãe dos Zebedeus nem a seus filhos se atrevem a dizer Nescitis quid peratie13 eles tomam confiança para pedir as petições saem despachadas e o não das leis caem sobre elas e não sobre o que proíbem Tanto que o proibido se dispensa logo a lei não é lei não só porque o que se concede o um não se pode negar a outros senão também e muito mais porque o que se concede a um que o pede também se há de conceder aos outros ainda que o não peçam 112 Pediu o filho pródigo a seu pai que lhe desse em vida a parte da herança que lhe pertencia Pater da mihi portionem substantiae quae me contingit Lc 1512 Bem mostrou na petição o que havia de ser ou o que já era Vem cá moço louco e atrevido não sabes que os filhos não herdam a seus pais senão depois da morte Pois como te atreves a pedir a teu pai que te dê a tua herança estando vivo e como se te mete em cabeça que ele te há de conceder uma coisa tão alheia de toda a razão e de toda a lei Fiou se no grande amor que o pai lhe tinha e o amor assim como é cego para conceder assim é fraco para negar Enfim o bom velho dispensou na lei comum e deulhe a parte da herança que lhe pertencia mas com uma circunstância notável porque os filhos eram dois e quando deu a sua parte a este deu também a sua ao outro Divisit illis substantiam14 Repara muito no caso S Pedro Crisólogo e admirase com razão de que sendo um só filho o que pediu esta dispensação o pai a concedeu logo a ambos Uno petente ambobus totam substantiam mox divisit Que o pai em sua vida dê a parte da herança a um filho porque lha pede muito tinha que duvidar mas passe porém o outro filho que não teve tal desejo nem pediu tal coisa porque lhe dá também logo a sua parte e não o deixa esperar pelo fim de seus dias É certo que o pai não obrou prudentemente no que concedeu àquele filho e mais quando o devia conhecer mas uma vez que lhe deu a ele a sua parte procedeu coerentemente em dar também ao outro a sua porque a dispensação que se concede a um porque a pede não se pode negar a outro ainda que a não peça Uno petente ambobus mox divisit É o caso do nosso Evangelho mas decidido mais altamente por Cristo Os apóstolos eram doze dois pediram dez não pediram e se o Senhor concedesse aos dois o que pediam porque pediram também o havia de conceder aos dez posto que não pedissem Pois assim como o pai do pródigo obrou coerentemente em conceder ao filho que não pediu o que tinha concedido ao que pedira assim o Senhor com mais alta coerência negou aos dois que pediram o que se não devia conceder nem a eles nem aos dez que não tinham pedido O pai pela petição de um despachou a ambos e Cristo pelo despacho dos dois respondeu a todos mas o pai imprudentemente porque relaxou a lei concedendo e a Senhor divinamente porque a estabeleceu negando 113 Eu não nego que em matéria de conceder e negar pode haver maior razão em uns que em outros mas a conseqüência de concederdes a outro logo não me haveis de negar a mim é argumento que se não solta com maior razão Vendose Raquel estéril e que sua irmã Lia tinha muitos filhos pediu a Jacó que admitisse ao tálamo uma escrava sua por nome Bala para que as filhos que dela houvesse por serem da sua escrava fossem de algum modo seus Gên 30459 Já o casamento de Raquel lhe tinha custado a Jacó o casamento aborrecido de Lia e agora lhe havia de custar o indecente de Bala mas a tudo se sujeita quem ama Nasceram filhos a Bala e não contente Lia com quatro legítimos que já tinha pediu também a Jacó que admitisse outra escrava sua chamada Zelfa Há tal perseguição de mulheres Que vos parece que faria Jacó neste caso Para conceder aquela con solação a Raquel além das obrigações do amor alguma razão tinha mas a Lia não amada e cercada de filhos Contudo concedeu Jacó com esta segunda petição e admitiu a Zelfa Pois se Lia nenhuma razão tinha para o que pedia e pedia só por emulação e apetite um homem tão racional e tão justo como Jacó porque lhe concede o que pede Porque já o tinha concedido a Raquel Se Jacó negara a Lia esta petição haviao de reconvir com a de sua irmã e não havia de sofrer que se lhe negasse a ela o que a Raquel se tinha concedido E posto que a disparidade era tão manifesta como ser Raquel estéril e Lia fecunda Lia ter tantos filhos e Raquel nenhum nenhuma destas considerações havia de bastar para que Lia sossegasse porque contra o argumenta de negar a um o que se concede a outro e contra a força ou forçosa ou forçada desta conseqüência não valem soluções de maior razão 114 Persuadase o príncipe que o que se concede a um porque o pede também se há de conceder aos outros ainda que o não peçam Entenda que as dispensações e privilégios não só são feridas da lei mas feridas mortais e que a lei morta não pode dar vida à república considere que as leis são os muros dela e que se hoje se abriu uma brecha por onde possa entrar um só homem amanhã será tão larga que entre um exército inteiro Olhe para as leis políticas para as ordenanças militares e para tantas pragmáticas econômicas que sendo instituídas para remédio vieram por esta causa a ser descrédito E seja a última e única resolução do príncipe justo tratar as suas leis como suas sustentandoas e mantendoas em seu vigor inviolável e indispensavelmente porque o que a lei nega a todos sem injúria depois que se concede a um ainda que seja com razão não se pode negar a outro sem agravo E é melhor mais fácil e mais decente que as mesmas leis digam o não conservandose do que quebrálas o príncipe pelo não dizer VI Quarto meio de evitar o não antecipar os provimentos e não ter lugares vagos Diligência da natureza em impedir o vácuo S Pedro e o lugar vago de Judas O provimento da sucessão de Davi D João Segundo o rei do Bom Memorial Cristo aos Zebedeus responde que os lugares a que pretendiam já estavam providos A política do céu criar antes os oficiais que os ofícios 115O quarto e último meio ou indústria de evitar o não é antecipar os provimentos e não ter lugares vagos porque tanto que o lugar está provido cessam as pretensões Admirável é a diligência e cuidado que a natureza põe em impedir o vácuo e que em todo o universo não haja lugar vazio A este fim vemos subir a água descer o ar moverse a terra romperse os mármores estalarem os brasões e correrem todas as criaturas com ímpeto contra suas próprias inclinações Daqui nascem os freqüentes terremotos e os extraordinários e horrendos que não poucas vezes derrubaram e destruíram cidades inteiras O mesmo que faz a natureza por impedir o vácuo faz a ambição pelo ocupar Em havendo lugares vagos de todas as partes concorrem tumultuariamente a eles os pretendentes não por impedir que só se impedem uns a outros mas por ocupar o vácuo e tanto com maior e mais violento ímpeto quanto a natureza acode ao bem comum do universo e a ambição ao particular de cada um E quais sejamos terremotos e perturbações da república que aqui se levantam basta que o digam as batalhas interiores de Roma no concurso dos consulados No governo monárquico é muito fácil atalhar todos estes inconvenientes antecipando o vácuo de tudo aquilo que se pode pretender ou pedir com prevenir vigilantemente que não haja lugares vagos E assim o deve fazer todo o prudente príncipe 116 Partindose Cristo para o céu mandou a seus apóstolos e discípulos que se recolhessem a Jerusalém e que assim esperassem a vinda do Espírito Santo que não tardaria muitos dias Fizeramno assim recolhidos ao cenáculo E S Pedro que já tinha recebido a investidura de Príncipe da Igreja sem esperar que o Espírito Santo viesse a primeira e única coisa que logo fez foi prover como proveu em S Matias o lugar que estava vago pela morte de Judas Ninguém haverá que se não admire desta notável resolução e ação de S Pedro em tal lugar e tal tempo O tempo em que os apóstolos se haviam de repartir pelo mundo não era chegado nem havia de ser como não foi senão daí a alguns anos depois de compostos e bem assentados os fundamentos de um tão grande edifício como era o da nova e universal Igreja Pois por que não dilata S Pedro este provimento ao menos por alguns dias e por que não espera que desça o Espírito Santo sobre ele para fazer com mais infalível acerto a eleição daquele lugar Porque tanto importa e tanto entendeu S Pedro que importava que os lugares não estejam vagos nem por um momento Oportet foi a primeira palavra com que começou a sua proposta o grande Príncipe do Apostolado e as últimas com que concluiu a sua oração Accipere locum ministerii hujus et apostolatus de quo praevaricatus est Judas ul abiret in locum suum15 Os que ali se achavam como nota o evangelista eram cento e vinte homens que bastava serem homens para se temer algum inconveniente Erat autem curba hominum simul fere centum viginti At 1 15 Os que se converteram e se lhes agregaram no mesmo dia em que desceu o Espírito Santo foram três mil Et appositae sunt in die illa animae circiter tria millia At 2 41 O número que depois acresceu foi muito maior e em tanta multidão de gente toda capaz de aspirar e pretender aquele lugar se estivesse vago bem se vê quão perigosa ocasião podia ser perturbar a paz e esfriar a união dos que convinha que fossem como verdadeiramente diz o Evangelho que eram Cor unum et anima una16 Pois para prevenir este perigo e os inconvenientes que dele humanamente se podiam temer provejase logo o lugar diz S Pedro e não esteja um momento vago donde se seguirá que vendoo os presentes e achandoo os que vierem provido a todos se tire a ocasião de o pretender ou pedir Nem se podia duvidar que o provimento que parecia antecipado e a eleição dele seria acertada porque como S Pedro por razão do seu ofício tinha segura a assistência do Espírito Santo posto que o mesmo Espírito Santo desceu sobre todos visivelmente ao décimo dia naquele mesmo dia desceu invisivelmente sobre S Pedro como já tinha descido quando eficazmente lhe inspirou que não dilatasse o provimento 117 Se assim o fizerem os príncipes seculares a quem também por seu modo não falta a assistência do Espírito Santo esta será uma discreta política com que livrem aos pretendentes do trabalho ou tentação de pedir e a si mesmos das ocasiões de negar A maior e mais dificultosa ocasião que tem havido neste gênero foi o provimento da sucessão de Davi Queria Davi e sabia que era conveniente ao bem do reino que o seu sucessor fosse Salomão e que assim o tinha Deus decretado Contra isto estava ser Salomão ilegítimo e menor e Adonias seu competidor não só legítimo mas de todos os filhos de Davi que então viviam o primogênito e como tal assistido do séquito comum do Eclesiástico e popular e de grande parte da milícia Era chegado o negócio a termos que em um banquete que naquele dia tinha dado Adonias a todos os príncipes e senhores da sua parcialidade já se lhe faziam os brindes à saúde de elrei Teve notícia disto naquela mesma hora Davi e que resolução tomaria Selese diz a minha mula que eram os cavalos de que então usavam os reis monte nela Salomão e ungido pelo profeta Natã saia por Jerusalém com trombetas e atabales diante e digam todos Viva elrei Assim se executou no mesmo ponto Ouviuse no banquete com assombro o som das trombetas soubese o que se passava retiraramse cheios de medo os convidados e todos no mesmo dia beijaram a mão a Salomão Mas que razão deu de si Davi e do que tinha mandado Como respondeu ao direito e pretensão de Adonias E como enfeitou ou adoçou o não de o não ter nomeado a ele Nenhuma coisa lhe disse nem teve necessidade de lha dizer porque vendo Adonias o lugar provido compôsse com sua fortuna foi beijar a mão a Salomão e nem a ele nem a seu pai replicou uma só palavra Tanto importa o pronto provimento dos lugares para pôr silêncio à ambição dos pretendentes e também ao não dos príncipes 118 A praxe desta política exercitou gloriosamente no nosso reino elrei Dom João o Segundo digno de ser chamado Dom João o do Bom Memorial assim como Dom João o Primeiro se chamou o de Boa Memória Tinha este prudentíssimo rei um memorial secreto no qual trazia apontados todos os que se avantajavam em seu serviço ou fossem ministros do estado ou da justiça ou da fazenda ou da guerra e segundo o merecimento de cada um lhes tinha destinado os lugares e prêmios assim como fossem vagando Era provérbio dos hebreus de que também usou Cristo Ubicumque fuerit corpus illic congregabuntur et aquilae Lc 17 37 Onde houver corpo morto logo ali correrão as águias Fala das águias vulturinas que são aves de rapina as quais têm agudíssima vista e sutilíssimo olfato e em vendo ou cheirando corpo morto logo correm a empolgar e cevarse nele Assim sucede com a ambição dos pretendentes a todos aqueles por cuja morte vaga ofício comenda vara cadeira mitra governo ou outro emolumento útil e pingue em que empregar não digo as unhas as mãos Mas que fazia nestes casos cotidianos o rei do bom memorial Como nele tinha já destinadas as pessoas a quem havia de fazer o provimento respondia que já o lugar ofício ou benefício estava provido e as águias que corriam famintas aos despojos do morto encolhiam as asas embainhavam as unhas e ainda que queriam grasnar tapavam o bico 119 É o que aconteceu hoje aos nossos dois pretendentes A razão com que Cristo lhes tapou a boca foi com dizer que aqueles lugares já estavam destinados e dados a outrem Non vobis sed quibus paratum esta Patre meo17 Se vós soubéreis que para se proverem os lugares do meu reino não se espera que concorram os pretendentes a pedilos senão que muito antes disso estão já destinados é certo que os não pretendereis nem pedireis mas porque não sabeis este estilo do meu governo por isso pedis e não sabeis o que pedis Nescitis quid petatis No mesmo caminho em que se fez esta petição acabava Cristo de dizer que ia a Jerusalém a morrer João era a águia e Diogo seu irmão e como lhe cheirou o corpo morto também quiseram empolgar e aproveitarse da oca sião mas ainda que os lugares que pediam tivessem sido do morto e ele fora como os outros mortos que morrem e não ressuscitam nem por isso sabiam o que pediam porque o segredo altíssimo de destinar os lugares antes que vaguem faz que ainda que morram as pessoas os ofícios sempre ficam e estão vivos Imitem pois os príncipes aquela regra universal da natureza Corruptio unius est generatio altenius18 E assim como ela não permite que a matéria esteja sem forma nem por um instante assim eles tirem do mundo a vacância dos lugares e não consintam que vaguem ou estejam vagos um só momento senão sempre providos e vivos 120 Podem replicar a isto os nossos pretendentes que os lugares que pediam não eram vacantes senão criados ou que se haviam de criar de novo Mas também esta instância se desfaz como quibus paratum est e com a prevenção ou predestinação dos providos Deus quando cria ofícios de novo primeiro cria os oficiais que os ofícios e assim já nascem providos sem terem instante de vagos No princípio do mundo criou três presidências duas no céu e uma na terra mas primeiro criou os presidentes que as presidências A primeira presidência do céu foi a do sol para que presidisse ao dia e a segunda a da lua para que presidisse à noite mas antes que criasse estas presidências já tinha criado um e outro presidente Fecit duo luminaria magna luminare majus ut praeesset diei luminare minus ut praeesset nocti Gênl 16 A presidência da terra foi a do homem sobre todos os animais do mar do ar e da mesma terra mas também estava já criado o presidente antes que criasse a presidência Faciamus hominem ad imaginem et similitudinem nostram et praesit piscibus maris et volatilibus coeli et bestiis universae que terrae19 O mesmo estilo observou Deus em todos os ofícios que criou de novo Houve de criar de novo o reino de Israel e primeiro criou o rei e mandou ungir a Saul por Samuel do que criasse e lhe desse a reino Houve de criar de novo o ofício de restaurador do mundo e primeiro e cem anos primeiro nomeou a Noé e lhe mandou fabricar a arca do que lhe desse e exercitasse o ofício Não posso deixar de me lembrar neste passo de quantas vezes se têm visto as naus da Índia de vergas de alto sem se saber nem estar nomeado quem as há de governar Nós começamos as nossas naus pela quilha Deus começou a sua pelo piloto Assim o fez também Cristo Muito antes de morrer nomeou a S Pedro e depois de ressuscitar lhe entregou a barca Imitem esta política do céu os príncipes da terra dos oficios que se criarem façam primeiro os oficiais que os ofícios e nos ordinárias e de sucessão tenham lhes prevenidos os sucessores para que vagando não estejam vagos E desta sorte ativa e passivamente cessará em grande parte o desagradado não VII Como dizer não quando é forçoso negar A cizânia e a resposta do pai de famílias aos criados zelosos Escusar um não com outro como fez Labão a Jacó Razões da escusa de elrei Aquis a Davi 121 Temos apontado os meios com que antecipadamente se podem atalhar ou diminuir as ocasiões de se dizer nem ouvir este tão dura advérbio Mas porque se podem oferecer contudo algumas em que seja forçosa negar vejamos agora o modo ou modos com que nos tais casos com menos sentimento dos vassalos e menor mortificação do príncipe se há de dizer não Elrei que está no céu disse a um seu confidente que tinha vinte e quatro modos de negar Teve esta notícia um embaixador que havia tempos requeria certo despacho e com a confiança de criado antigo que tinha sido de Sua Majestade deu uma nova instância com estas palavras Cá ouço que Vossa Majestade tem vinte e quatro modas de negar Senhor se Vossa Majestade tem vinte e quatro modos de negar eu tenha vinte e cinco de pedir Quais fossem estes vinte e quatro modos de negar eu o não sei nem me ocorrem mas como são e podem ser mais os modos de pedir necessário será contra a importunidade dos pretendentes repulsálos talvez com um não mais ou menos desenganado segundo o que pedir a matéria 122 Primeiramente me parece que são merecedores de um não muito claro e muito seco certo gênero de alvitreiros que inventando e oferecendo novos arbítrios e indústrias de acrescentar o erário ou fazenda real juntamente dizem e aqui bate o ponto que eles hão de ser também os executores e para isso pedem meios e jurisdições Nasceu cizânia diz Cristo entre a seara de um pai de famílias o que vendo os criados vieram lago mui zelosos encarecendo aquela perda da fazenda de seu amo e oferecendose a ir mondar a seara e arrancar a cizânia Vis imus et colligimus ea Quereis senhor que a vamos colher Mt 1328 Colher disseram e não arrancar porque estes zelos e oferecimentos sempre se encaminham à colheita Respondeu o pai de famílias sem lhes agradecer o cuidado E que respondeu Ait illis Non Disselhes Não Mt 1329 Assim se há de responder com um não muito seco e muito resoluto a semelhantes propostas O pai de famílias entendia melhor da lavoura que os criados Os criados representavam a utilidade e o amo reconhecia as inconvenientes eles diziam que queriam mondar a seara e ele reconheceu que haviam de arrancar o trigo Ne colligentes zizania eradicetis simul et triticum Mt 1329 Nem se há de fazer o que quereis nem o haveis de fazer vós farseá a seu tempo e fáloão os segadores que é seu ofício e o entendem In tempore messis dicam messoribus20 Quando os que não entendem as coisas nem têm experiência delas oferecem alvitres e se oferecem para os executar sendo as utilidades só aparentes as ocasiões intempestivas e os danos certos como ordinariarnente acontece despidaos o pai de famílias a eles e às suas propostas e digalhes um não muito resumido e muito claro Ait illis Non 123 Em outras ocasiões de negar se costuma escusar um não com outro e por que é modo muito ordinário e usado não é bem que passe sem exame e sem censura Negou Labão a Jacó o prêmio de sete anos de serviço em que se concertaram e em lugar de Raquelque foi pior que negar como quem paga com moeda falsa lhe introduziu a Lia Descobriu à luz do dia o engano queixouse Jacó a Labão de lhe não ter dado a Raquel Nonne pro Raquel servivi tibi21 E que satisfação lhe daria Labão que quer dizer o cândido Desculpou um não com outro não dizendo que não era costume da sua terra casarem em primeiro lugar as filhas segundas Non est in loco nostro consuetudinis ut minores ante tradmus ad nuptias Gên 2926 É costume da vossa terra não cumprir o prometido É costume da vossa terra enganar É costume da vossa terra mentir É costume da vossa terra faltar à justiça e à razão e dar por escusa que não é costume Passemos da terra de Labão à nossa Em toda a terra como demonstra Aristóteles é lei natural que os sábios governem e mandem e que os que menos sabem obedeçam e sirvam Em toda a terra é lei natural confirmada com as civis que os que forem mais eminentes em cada gênero subam aos maiores lugares e tenham os primeiros prêmios Mas tirase por exceção a nossa terra na qual para alcançar estes prêmios e para subir a estes lugares não basta a eminência dos talentos nem dos merecimentos se falta certo grau de qualidade bastando só esta qualidade sem outro merecimento nem talento para pretender e alcançar ou alcançar sem pretender os mesmos lugares E se os estrangeiros se admiram e pasmam de ver que os homens que eles e o mundo venera não ocupem aqueles postos respondese a este não com outro não Non est in loco nostro consuetodinis 124 Se um dos nossos pretendentes do Evangelho e seja S Tiago que veio a Portugal viera hoje e em lugar da cadeira que pediu pretendera a de qualquer bispado do Reino haviamlhe de responder que no reino não porque era filho de um pescador que o maior favor que se lhe podia fazer era darlhe um bispado ultramarino e logo lhe nomeariam satiricamente o de Meliapor por ser na Costa da Pescaria Se Josué conquistador de trinta e três reinos e de quem se prezou o sol de ser soldado quisesse ser capitãogeneral também lhe haviam de opor que tinha sido criado de Moisés e José o qual teve maior indústria que todos os homens para adquirir fazenda a seu rei e maior fidelidade para a conservar se quisesse ser vedor da fazenda vede se lho consentiriam as ovelhas que tinha guardado seu pai Não falo em Bartolo se lhe viesse ao pensamento a regência da justiça ou a Navarro a da consciência porque o segundo tendo ensinado em Portugal com assombro de todas as universidades o que aprendeu na de Coimbra foi a tomar por si o não e ir morrer em terras estranhas por que se lhe não dissesse na nossa Non est in loco nostro consuetudinis A censura deste que se chama costume é que não é costume senão abuso contrário à natureza à razão à virtude e prejudicial à república e que os príncipes que se escusam com este modo de não ele não só os não escusa mas acusa e condena mais fazendo os odiosos aos vassalos ao mundo e ao mesmo Deus o qual por isso fez a todos os homens filhos do mesmo pai e da mesma mãe 125 Excluído pois este abuso particular da nossa terra o modo que em todas e todos aprovam e os melhores políticos ensinam como o mais decente é que nas ocasiões de negar para abrandar a dureza do não depois de mandar consultar as matérias se escuse o sábio príncipe com seus conselhos É necessário porém advertir neste meio que deve ser aplicado com tal moderação e cautela que por enfeitar o não não se afeie a autoridade do rei nem o crédito dos conselhos nem as mesmas razões da escusa Negou elrei Aquis a Davi a licença que lhe pedia para o servir em certa guerra como aventureiro entre suas mesmas tropas e escusou o não com os seus conselheiros Non places satrapis22 Porém antes de chegar a pronunciar este não e depois dele fez com juramento em protesto mais honrado para quem o ouvia que para quem o jurava Vivit Dominus quia rectus es tu et bonus in conspectu meo sed non ploces satrapis Scio quia bonus es tu in oculis meis sicut angelus Domini 1 Rs 2969 Jurovos Davi que no meu conceito sois reto e bom e me pareceis tão bom e tão reto como um anjo de Deus mas não contentais aos do meu conselhoQuantas coisas se negam aos grandes sujeitos como Davi não porque não sejam dignos e digníssimos delas mas porque não contentam ao conselho dos reis Se dissera que lhes não contentavam os oferecimentos de Davi motivos podiam ter para isso mas que lhes não contentava a pessoa Non places E se o conceito do rei era tão diverso que o tem por homem justo e bom e que mais lhe parece anjo que homem por que se não conforma orei antes com o seu parecer e com o seu juízo que como descontentamento dos conselheiros E já que se conforma com eles na resolução porque a intima a Davi floreada de tantos louvores que os mesmos louvares confutam e condenam a negativa Tudo isso disse Aquis para enfeitar o não com que negava a Davi o que lhe pedia mas com estes mesmos enfeites asseou primeiramente a autoridade e soberania de rei porque seguindo o voto dos conselheiros contra o juízo e experiência própria mostrou que era súdito dos seus conselhos e não superior e senhor asseou também o crédito dos mesmos conselhos porque dizendo que Davi lhes não contentava mostrou que se governavam mais pelo aspecto das pessoas que pelo merecimento das causase asseou finalmente a mesma razão com que se escusava porque sendo os procedimentos de Davi tão retos como ele reconhecia jurava e tinha experimentados eles mesmos desfaziam toda a chamada razão da escusa e convenciam ser pretexto Havendo pois o príncipe de se escusar ou escudar com os seus conselhos diga que mandou considerar a matéria e que se conformou com eles e não diga mais VIII Aleguem os príncipes herdeiros os decretos e disposições dos pais como fez Cristo aos dois irmãos Zebedeus Causas do infausto reinado de Roboão filho de Salomão Jacó e a bênção de Manassés e Efraim 126 Isto é Senhor o que prudentemente ensina a política humana confirmada mais altamente com os documentos da sagrada que tenho referido o meio porém que sobre todos repre sento e ofereço a Vossa Alteza para a feliz administração do cetro que com particular providência pôs nas reais mãos de Vossa Alteza a divina é o exemplo do Filho de Deus nas palavras que tomei por tema tão próprias do tempo circunstâncias e ocasião presente que parecem ditadas e escritas só para ela Negou Cristo aos dois irmãos os lugares que pediam e o meio com que lhes adoçou a eles o não e com que o fez decoroso e decentíssimo para si foi com alegar os decretos e disposições de seu pai Non est meum dare vobis sed quibus paratum est a Patre meo Não é meu diz o Senhor concedervos o que pedis porque esses lugares já meu Pai os decretou para outros e assim como dele herdei o poder assim dele hei de seguir e confirmar os decretos Isto é o que devem imitar os príncipes herdeiros e tanto mais gloriosamente quanto filhos de pais mais gloriosos É conseqüência natural que com o sol que se põe se escureçam uns lugares e com o que nasce se alumiem outros e esta é a alva ou o alvo das pretensões no oriente dos reis que começam e ocaso dos reis que acabam Mas o príncipe que teve a fortuna de suceder a um pai tão digno das saudades dos vassalos como da imitação dos filhos com se referir às eleições de seu pai se livra de inovar outras Se João e Diogo o a por si ou por outrem fizerem instâncias responda com o formulário do Rei dos Reis Non vobis sed quibus paratum est a Patre meo e serlheá tão fácil o não como decoroso e reverente 127 Haverá não duvido como sempre há nos novos reinados ambições desejosas de se introduzir que aconselhem e persuadam o contrário Mas quais sejam os efeitos destas novidades que tão docemente se ouvem e tão facilmente se abraçam bem o podem ver os conselheiros e os aconselhados e sacramentar se quiserem no novo e infausto reinado de Roboão filho de elrei Salomão por cuja morte o juraram todas as doze tribos de Israel nas cortes de Siquém Assentaram também nas mesmas cortes pedir ao novo rei os aliviasse dos tributos que pagavam no tempo de seu pai os quais por ocasião das fábricas assim do Templo como dos palácios reais e muito mais pela excessiva despesa com que Salomão sustentava tanto número de rainhas chegaram a ser insuportáveis Feita esta petição diz o texto sagrado que chamou Roboão a conselho os velhos do tempo de seu pai e que todos lhe aconselharam concedesse benignamente aos povos o que tão justamente pediam porque assim lhes ganharia as vontades e se conservaria no reino Não se aquietando porém Roboão com este conselho diz o mesmo texto que consultou o negócio com os moços com quem se tinha criado e o assistiam e que aconselhado por eles respondeu ao povo que o seu dedo meiminho era mais grosso que seu pai pela cintura e que conforme esta diferença da sua grandeza não só lhes não havia de moderar o açoite dos tributos mas que se as correias no tempo de seu pai eram de couro no seu haviam de ser de ferro Pater meus caecidit vos flagellis ego autem caedam vos scorpionibus23 Este foi o conselho e esta a resposta e o sucesso em suma qual se podia esperar de tal resposta e de tal conselho Porque das doze tribos que juraram a Roboão por rei as dez lhe negaram logo a obediência e a deram a Jeroboão criado que tinha sido de seu pai querendo antes ser vassalo de um criado de Salomão que de um tal filho de Salomão 128 E se buscarmos a origem de tão infeliz e desastrado sucesso em que um rei sem batalha perdeu as dez partes do seu reino para si e para todos seus descendentes em uma hora acharemos que foi por não querer conservar os ministros antigos que assistiam ao lado de seu pai e tomar outros Assim o diz e pondera a Escritura Reliquit consilium senum qui assistebant coram Salomone patre ejus cum adhuc viveret et adhibuit adolescentes qui nutriti fuerant cum eo et assistebant illi24 Notai este e aquele assistebant A causa próxima da ruína de Roboão foi deixar o maduro conselho dos velhos experimentados e tornar o dos moços orgulhosos e sem experiência Mas a origem dessa mesma causa esteve num passo mais atrás que foi mudar os ministros que assistiam ao lado de seu pai Qui assistebant coram Salomone patre ejus e criar de novo aqueles com que se tinha criado para que o assistissem a ele Qui nutriti fuerant cum eo et assistebant illi A última decocção dos negócios fazse entre ministros que estão ao lado dos reis como se viu neste mesmo caso e se os mesmos que assistiam a Salomão assistissem a seu filho o voto destes havia de ser o que prevalecesse e os povos ficariam contentes o reino inteiro o rei obedecido e amado e Roboão que dizia que era maior que seu pai tão grande como ele 129 Nem deve passar sem advertência a repetição enfática com que o texto sagrado depois de dizer Assistebant corom Salomane acrescenta Patre ejus Parece desnecessário esta nova expressão pois de toda a narração da história constava ser Salomão pai de Roboão Mas foi nota e ponderação digníssima de se não dissimular como de uma maior circunstância que notavelmente agrava o caso Porque ainda que os ministros de quem Salomão em sua vida se tinha servido junto à sua pessoa por serem ministros do rei mais sábio que teve o mundo mereciam ser estimados honrados e conservados no lugar que com ele tinham só por serem ministros de seu pai ainda que esse pai não fora Salomão se devia Roboão servir deles e têlos sempre junto a si e fazer maior confiança da sua fidelidade da sua verdade do seu zelo e do seu amor que do de todos os outros Amicum tuum et amicum patris tui ne dimiseris Prov 2710 diz o Espírito Santo por boca do mesmo Salomão O amigo que foi amigo de teu pai não o apartes de ti E que mais têm os amigos que foram amigos dos pais do que os amigos novos e particulares dos filhos Têm de mais aquela diferença que há entre o certo e o duvidoso Os amigos novos que os filhos elegem poderá ser que sejam bons e fiéis amigos mas os que foram amigos dos pais já é certo que o são porque estes já estão experimentados e provados aqueles ainda não Até em Deus tem sua força esta conseqüência Quando Deus apareceu a Moisés na sarça não sabendo ele quem era disselhe Ego sum Deus Patris tui Êx 36 Eu sou o Deus de teu pai irás libertara povo e dirlheás para que te dêem credito que o Deus de seus pais te manda Deus patrum vestrorum misiti me ad vos Êx 313 Queriaos libertar do cativeiro de Faraó e para os assegurar deste grande benefício não só disse que era Deus que o podia fazer mas que era Deus de seus pais para que estivessem certos que o faria Por isso disse sabiamente Isócrates que os mais seguros amigos são os que se herdaram A amizade dos que se fazem de novo é duvidosa a dos que se herdaram e vem de pais a filhos certa E daqui conclui este famosíssimo filósofo Liberos haeredes esse non nodo facultatum sed amicitiarum paternarum Que os filhos não só são e devem ser herdeiros da fazenda dos pais senão também dos amigos Se Roboão assim como herdou a coroa herdara também os amigos de seu pai ele não perdera o reino mas porque herdando o reino quis fazer novos amigos eles o perderam 130 Quando estes se quiseram introduzir à assistência da pessoa e lugares do lado de Roboão facilmente e sem os escandalizar lhes pudera ele dizer que estavam diante os que tinham servido a seu pai e de quem ele tinha feito eleição Non vobis sed quibus paratum est a Patre mea Mas o erro de Roboão esteve em que os que se tinham criado com ele a primeira coisa que lhe persuadiram foi que as suas eleições haviam de ser melhores Porque se puderam tanto com as suas lisonjas e se cegou tanto com elas o pobre moço que se persuadiu e se atreveu a dizer que o seu anel tinha maior roda que o cinto de seu pai como lhe não meteriam também em cabeça que sendo seu pai Salomão sabia mais que ele Esta é a cegueira em que ordinariamente caem os filhos dos reis e por isso em sucedendo no governo mudam criados e ofícios e quanto seus pais tinham ordenado não advertindo que em matéria de prover lugares sabem mais os pais com os olhos fechados que os filhos por mais sábios que sejam com eles abertos Estava Jacó já cego com a velhice quando seu filho José lhe presentou os dois netos Manassés e Efraim para que lhes lançasse a bênção Era Manassés o maior e por isso lho pós José à mão direita como a Efraim porque era o menor à esquerda porém Jacó cruzou e trocou as mãos e pôs a direita sobre a cabeça de Efraim e a esquerda sobre a de Manassés Não senhor replicou José que este sobre que pondes a mão direita é o menor e o maior fica à esquerda E que responderia Jacó Que responderia o pai cego Scio fili mi scio Gên 4819 Bem sei filho meu qual é o maior e o menor e bem sei também o que faço Sei qual é o maior e o menor porque sei o que vós vedes e sei também o que faço porque sei o que não vedes Vós vedes só as idades desses dois meninos eu vejolhes as idades e mais as fortunas E porque a fortuna de Efraim há de ser muito maior que a de Manassés por isso ponho a mão direita sobre o que vós tendes por menor e a esquerda sobre o outro José era tão sábio como todos sabem e como experimentou e admirou o Egito onde sucedeu este caso E contudo Jacó estando cego via duas vezes mais que José e sabia duas vezes mais que ele Scio fili mi scio porque mais sabe como dizia um pai com os olhos fechados que o mais sábio filho com eles abertos Cuidem os filhos e não desconfiem de que se cuide que seus pais sabem mais que eles 131 Uma vez perguntaram os discípulos a Cristo quando havia de restituir o Reino de Israel e outra vez quando havia de ser o dia do Juízo e de ambas as vezes se escusou o Senhor com responder que estes segredos só os sabia seu pai Pois Mestre divino em quem o mesmo pai têm depositado os tesouros de sua sabedoria não sabeis vós também estes dois segredos Sim sei mas seios para os guardar não os sei para os dizer Excelente solução e esta é a verdadeira destes dois textos Será bem contudo Senhor que cuidem os vossos discípulos que não sabeis tudo Como a comparação não é mais que entre meu Pai e mim cuidem embora Nenhum filho deve desconfiar de que se cuide que seu pai sabe mais que ele E assim o há de entender e supor como também Cristo o supunha enquanto homem E se alguém me replicar que este ou seja conhecimento ou modéstia não é tão decente nem tão decoroso nos outros filhos como em Cristo porque seu pai é Deus diga que os outros pais em respeito de seus filhos também são deuses ou quando menos que os filhos os devem estimar e venerar como tais para seguir seus ditames Filii probi parentes suos tanquam deos quosdam visibiles colunt et observant diz Filo Os bons filhos reveneram a seus pais como deuses visíveis e como de tais observam seus exemplos Esta sentença tomoua o Platão dos hebreus do Platão dos gregos o qual chamou aos pais domestica numina deuses domésticas e acrescenta que os ditames dos pais como de deuses hão de ser recebidos e observados dos filhos não como conselhos ou preceitos senão como oráculos Parentum dogomata afiliis velut oracula excipienda sunt Finalmente porque não faça dúvida esta doutrina que Platão ditou sem fé de Deus e Filho sem fé de Cristo e para que dela possamos colher e gozar os abundantes e felicíssimas frutos que nossas esperanças nos prometem fechemos este tão importante discurso com o oráculo irrefragável do Espírito Santo o qual mandou pregar pelo filho de Sirac a todos os filhos Judicium patris audite filii et sic facite ut salvi sitis25 Filhos ouvi o juízo de vosso pai e fazeio assim para que vos conserveis nesta vida e vos salveis na outra NOTAS Sermão da Sexagésima 1 A semente é a palavra de Deus Lc 811 2 O qual faz nascer o seu sol sobre bons e maus e vir chuva sobre justos e injustos Mt 545 3 Que coisa há que eu devesse ainda fazer à minha vinha que lhe não tenha feito Is 54 4 Ferindo duas vezes com a vara a pederneira saíram dela águas copiosíssimas Núm 2011 E endureceuse o coração de Faraó Ex 713 5 E partiramse as pedras Mt 2751 E tecendo uma coroa de espinhos ha puseram sobre a cabeça Mt 2729 6 E a pedra se encravou na sua testa 1 Rs 1749 7 Davi tomava a harpa e a tocava com a sua mão1 Rs 1623 8 E o Verbo se fez carne Jo 1 14 9 Nós outros o veremos bem como ele é 1 Jo 32 10 A fé é pelo ouvido Rom 1017 11 Punham as ovelhas os olhos nas varas e pariam as suas crias manchadas e várias e pintadas de diversas cores Gên 30 39 12 Os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos SI 181 13 Não há linguagem nem fala por quem não sejam entendidas as suas vozes SI 184 14 Aparelhai o caminho do Senhor Mt 33 15 Daqui a quarenta dias será Nínive subvertida Jon 34 16 Pátroclo com as armas de Aquiles foi vencido e morto 17 Farei que vós sejais pescadores de homens Mt 419 18 E lhes apareceram repartidas umas como línguas de fogo que repousaram sobre cada um deles At 23 19 Sete trovões fizeram ouvir as suas vozes Apc 103 20 Pregando o batismo de penitência para remissão de pecados como está escrito no livro das palavras do profeta Isaias Lc 33s 21 Quem são estes que voam como nuvens Is 60 8 22 Tardo de língua Êx 410 Voce gracili segundo os Setorta Am 11 23 O que tem a minha palavra anuncie a minha palavra verdadeiramente Jer 2328 24 Não só de pão vive o homem mas de toda a palavra que sai da boca de Deus Mt 44 25 D Hieronymus in Prólogo Galeato Sola o scripturarum aes est quam sibi possim omines vinditant et cum oures populi sermone composite mulserint hoc legem Dei putant nec scire dignantur quid Prophetae quid Apostoli senserit sed ad sensum suum incogrua optant testimonia quasi grande sit et non viyiosissimum dicendi genus depravare sententias et ad voluntatem suam scripturam trahere repugnantem 26 E dão fruto pela paciência Lc 8 15 27 Porque somos feitos espetáculo ao mundo e aos anjos e aos homens 1 Cor 49 A Vulgata traz mundo e não Deo Sermão da QuartaFeira de Cinza 1 Lembrate homem que és pó e em pó te hás de converter 2 Aquele que é e que era e que há de vir Apc 14 3 Eu disse Sois deuses Mas vós como homens morrereis SI 816s 4 Desde o ventre trasladado para a sepultura Jó l0 19 5 Mas vós como homens morrereis e caireis como um dos príncipes SI 817 6 Moço eu te mando levantate Lc 714 7 Não dês crédito ao demasiado colorido 8 Lv Hieronymus hic iii quoestHebraic Lyran Hugo Abul etc 9 Augustinus in sentent ultima 10 Aug ibid 11 Também as pedras e os nomes morrem 12 Hier Aug Ambr Tertullian Ecumen Cossiod Betior Suar et plures apud Cornelium ibi 13 As portas do inferno não prevalecerão contra ela Mt 1618 14 Eu dormi e estive sepultado no sono e levanteime SI 36 15 In textu graeco Job 2918 16 Eu disse à podridão Tu és meu pai e aos bichos Vós sois minha mãe e minha irmã Jó 17 14 17 Porque eu sei que o meu Remidor vive e que eu no derradeiro dia surgirei da terra Jó 1925 18 PIat in Timaeo Philabo Menon Et lib de Rep Aristotel I de Animo cap 4 et Iib 3 cop 4 et Iib 2 de Gen anim 19 Surgirei da terra e serei novamente revestido da minha pele e na minha própria carne verei a meu Deus a quem eu mesmo hei de ver e meus olhos hão de contemplar e não outro Jó 1925 ss 20 Crês isto Sim SenhorJó 1126 21 Sêneca De Consolat ad Marciam Ep 57 et Ep 117 22 Tu que me retiras das portas da morte SI 9 15 23 Disse Agora começo SI 76 11 Sermão do Nascimento da Virgem Maria 1 Minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida JÓ 6 56 2 Tendes convosco a Arão e a Hur se sobrevier alguma disputa consultáloseis Êx 24 14 3 Gên 19 26 Ex 43 717 4 Gen 1 4 Ita S Basil Naz Theodoret et alii apud Suar de op sex dier 5 Êx 16 18 6 Jos 10 12 Obediente Deo voci hominis Núm 20 8 7 Fazei isto em memória de mim Lc 2219 8 Sen in Tyest Act 4 9 Tertul Apol Cap 21 et 23 10 Tare pai de Abraão e de Nacor serviram a deuses estranhos Jos 242 Ita Masius hic Phil de Abrah Genebrard ei Hebraei 11 Ovid 1 et 3 Metamorph Stat in Sylu Ovid 10 Metamorph Lib 4 Fast 12 Virg Aeneid 8 13 Ovid de Remed L 2 14 Virg Aeneid 4 15 Horat L 3 Ode 16 16 Ovid 14 Metamorph 17 Contaramme os ímpios coisas frívolas mas não como tua lei SI11885 18 Na Vulgata Non enim doctas fabulas secuti notam fevirtutem et praesentiam cimus vobis Domini nostri Jesu Christi Porque não vos temos leito conhecer a virtude e a presença de nosso Senhor Jesus Cristo seguindo fábulas engenhosas 2 Pdr 1 16 19 Aqui está o pão que desceu do céu O que come deste pão viverá eternamente Jo 659 20 Porque um anjo do Senhor desceu do céu e chegando revoltou a pedra e estava sentado sobre ela Mt 282 21 Bebiam da pedra misteriosa que os seguia e esta pedra era Cristo 1 Cor 104 22 Eis aqui o Cordeiro de Deus eis aqui o que tira o pecado do mundo Jo 129 23 Eu sou a videira vós outros as varas Jo 155 24 Este é o meu corpo que se dá por vós Lc 2219 25 Na Vulgata Este cálice é o Novo Testamento em meu sangue que será derramado por vós Lc 2220 26 Jo 2 l Mt l4 19 27 Aug Tract 24 in Joan 28 SI 14717 Eccles in Officio de Sacrameirio 29 Esse fica em mim e eu nele Jo 6 57 30 Ele em nenhum lugar tomau aos anjos mas tomau a descendência de Abraão Hebr 2 16 31 Pela tua mesma boca te condeno eu Lc 1922 32 Deixou um consolo singular aos que se entristeciam com sua ausência D Thomas Opusc 57 33 Eilo aí está posto por detrás da nossa parede olhando pelas janelas estendendo a vista por entre as gelosias Cânt 29 34 Tendo desejo de ser desatado da carne e estar com Cristo Flp 123 35 A Sabedoria edificou para si uma casa preparou o vinho e dispôs a sua mesa Enviou as suas escravas a chamar à fortaleza e às muralhas da cidade Prov 9 1 ss 36 E ele tomou a serpente antiga que é o diabo e Satanás e meteuo no abismo e fechouo para que não engane mais as gentes Apc 2025 Até que todos cheguemos à unidade da fé e ao conhecimento do Filho de Deus a estado de varão perfeito etc Ef 4 13 Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1 Da qual nasceu Jesus Mt 116 2 Aug Lib III de coas Evang c 24 3 Porque o sol pode nascer de duplo modo de modo perfeito quando nasce e aparece sobre a terra e de outro modo quando sua luz começa a aparecer com a aurora e neste sentido é aqui tomado o nascimento do sol 4 D Thom q 67 art 4 et q 70 art 2 ad 3 sequutus Dion Areop c 4 de Div Nom Suar de Op sex Dier L 2 c 8 et alii 5 É vontade de Deus que nada tenhamos senão pelas mãos de Maria 6 Amb in Hexam Lib 1 c 9 7 A noite passou e o dia vem chegando Rom 1312 8 D Basil in Hexamerou 9 O homem quando estava na honra não o entendeu foi comparado aos brutos irracionais Sl48 13 10 D Dionys Areopag de D nomim Cap 4 11 Hiero Athan Basil 12 Bern Vestis eum et vestiris ab eo 13 No sol pôs o seu tabernáculo SI 186 Tinha a lua debaixo dos pés Apc 12 1 Sermão de Santo Inácio 1 Não sabeis o que pedis Mt 2022 2 Não há quem a console Jer Tren 117 3 Sereis como uns deuses Gên 3 5 4 Dize que estes meus dois filhos se assentem etc Não me pertence a mim o darvolo Mt 202123 5 Sen De Beneficiis lib IV cap 1 6 In vita Joan 7 Sent Tulii Loudata a Hiero 8 Virg Aeneid 12 9 Quantos jornaleiros há em casa de meu pai que têm pão em abundância e eu aqui pereço à fome Lc 1517 10 Nem todos compreendem esta palavra Mt 19 11 11 Rogovos que ma deis por esposa Jz 142 12 Ovid Metamorph 2 13 Os bilhetes da sorte lançamse numa dobra do vestido mas o Senhor é quem os tempera Prov 1633 14 Podeis vós beber o cálice que eu hei de beber É verdade que vós haveis de beber o meu cálice Mt 2022ss 15 Val Max 17 c 2 16 Mas pelo que toca a terdes assento à minha mão direita ou à esquerda não me pertence a mim o darvolo Mt 2023 17 Senhor darseá o caso que restituas neste tempo o reino a Israel At 1 6 Sermão da Terceira Dominga da Quaresma 1 E sede vós outros semelhantes aos homens que esperam a seu senhor Lc 12 36 2 O santo que há de nascer de ti Lc 1 35 3 Sede meus imitadores bem como eu também o sou de Cristo 1 Cor 111 4 Plinius Liv 35 c 9 5 Fazendose semelhante aos homens e sendo reconhecido na condição como homem Flp 27 6 Euseb in ejus vita Processões De proceder 7 Desde os seus lombos e daí para cima e desde os seus lombos até baixo vi uma como aparência de fogo resplandescente ao redor Ez 127 8 Salva o povo a quem remiste Apud Theoph in Cabala 9 Não foi encontrado outro semelhante a ele guardou a lei do Excelso Eclo 4420 10 Não há semelhante a ele na terra Jó 18 11 Mas não se achava para Adão adjutório semelhante a ele Gên 220 12 Prega a toda a criatura Mc 1615 13 Em sua carne ratificou a aliança Eclo 4421 14 Na prova foi achado fiel Eclo 4421 Jz 1134 15 Ele se multiplicaria como o pó da terra Eclo 4422 Gên 4922 16 Lhe daria por herança o continente de mar a mar e desde o rio Eufrates até às extremidades da terra Eclo 4423 SI 718 17 Abençoou nele todas as nações Eclo 4425 Gên 264 18 Claudian 19 Ovid de Ponto 20 Senec Ep 55 21 Aug Serm 109 de Temp 22 D Th Opiusc 60 et 3 p q 1 Art I Doam Serm 1 De Nativits Virg 23 S Thereza in epistol propria manuscripta apud Eusebium in vita S Ignat c 40 er saepe se vocat filiam Societatis A Puente in vira P Balthazaris Alvares er alii 24 No espírito e virtude de Elias Lc 117 25 Não julgou que fosse nele uma usurpação o ser igual a Deus mas ele se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo Flp 26 5 26 Fizme tudo para todos 1 Cor 922 27 Afeite adorno enfeite Sermão do Santíssimo Sacramento 1 Depois de ter expelido o demônio falou o mudo e se admiraram as gentes Lc 1114 2 Irei buscar a meu pai e dirIheei Pai pequei contra o céu e diante de ti Lc 1518 3 Deus te salve Mestre E deulhe um ósculo Mt 2649 4 Bemaventurado o ventre que te trouxe Lc 1127 5 Ele expele os demônios em virtude de Belzebu Lc 1115 6 Marcela segundo a tradição cristã foi a mulher que exaltou a Mãe de Jesus no milagre da cura de um possesso Luc 1127 7 Quem O que Onde Com que meios Por quê Por que modo Quando 8 Fez Deus pois dois grandes luzeiros um maior que presidisse ao dia outro mais pequeno que presidisse a noite Gên 116 9 Irejiaeus Cyrillius Epiphanius Efren et communtler Patres 10 Eu acendo o lume com a metade desta madeira e então do resto farei eu um ídolo Is 4419 11 Arrojou da sua mão as tábuas e as quebrou Êx 3219 12 Pois Arão o tinha despojado e o tinha deixado nu Êx 3225 13 E foram quase vinte e três mil homens os que caíram mortos Êx 3228 14 Não subirei contigo visto seres um povo de cerviz dura Êx 333 15 Deixa que se acenda o furor da minha indignação contra eles e que eu os consuma Ex 32 10 16 Eu vos criei e eu vos sustentarei Is 464 17 Se dormirdes entre o meio das sortes herdades sereis como as penas da pomba argentadas e os remates do lombo dela em amarelidão de ouro SI 67 14 18 O poder da terra está na mão de Deus e ele a seu tempo suscitará um governador útil A prosperidade do homem está na mão de Deus e e ele que põe o sinal da sua majestade sobre a fronte do escriba Eclo 104 19 Cornelius hic Scribae vocabantur qui erant proximi a rege quorum erat nomine regis decreta concipere scribere promulgare conservare 20 Nascerá o sol da justiça e estará a salvação nas suas asas Mal 42 21 Verdadeiramente o ponteiro mentiroso dos escribas gravou a mentira Jer 8 8 22 A fé é pelo ouvido Rom 1017 23 Permitiulhes que fizessem de Jesus o que quisessem Lc 23 25 Que me quereis vós dar e eu volo entregarei Mt 2615 24 Eu sou inocente do sangue deste justo Mt 2724 Pequei entregando o sangue inocente Mt 274 25 Reinará na casa de Jacó Lc 132 26 Habitava em tendas Gên 25 27 27 Sem competência sem rival 28 Temo não cuide ele que eu o quis enganar e não chame eu sobre mim a sua maldição em lugar de tenção Gên 2712 29 Seu marido será ilustre na assembléia dos juizes quando estiver assentado com os senadores da terra Prov 3123 30 E veiohe um suor como de gotas de sangue que corria sobre a terra Lc 2244 31 Pai meu se é possível Mt2639 32 Não te envergonhes de confessar os teus pecados mas não te submetas a ninguém para pecar EcIo 4 31 Sermão da QuintaFeira da Quaresma 1 0 Senhor vosso Deus vos tenta para se fazer manifesto se o amais ou não Deut 13 3 2 Provera a Deus que nós fôssemos mortos no Egito quando lá estávamos assentados junto às panelas das carnes Êx 163 3 Eis aí vou eu fazer chover para vós pães do céu Êx 164 4 A nossa alma se enfastia já deste manjar Núm 215 5 Acomodandose à vontade de cada um Sab 1621 6 A alma deles aborreceu toda a comida Sl 106 1 8 7 Vemnos à memória os pepinos os melões os porros e as cebolas e os alhos Núm 115 8 O Em Card Barberino instituidor desta devoção 9 Bom é que nós estejamos aqui Mt 174 Lc 933 10 Mestre bom é que nós aqui estejamos e façamos três tendas uma para ti e outra para Moisés e outra para Elias não sabendo o que dizia Lc 933 11 E o seu rosto ficou refulgente como o sol ML 172 12 Uma nuvem os cobriu Mt 175 13 E eis que saiu uma voz da nuvem que dizia Ouviuo ML 175 14 Nenhum homem me verá e depois viverá Ex 3320 15 Porque esteve firme como se visse ao invisível Hebr 1127 16 Os serafins estavam sobre ele seis asas tinha um e seis asas outro com duas cobriam a sua face Is 62 17 Cheia está toda a terra da sua glória Is 63 18 E as coisas que estavam debaixo dele enchiam o templo Is 6 1 19 E a casa se encheu de fumo Is 64 20 Cinge a tua espada ao teu lado ó poderosíssimo Com a tua beleza e com a tua formosura entesa o arco vai adiante felizmente e reina SI 44 45 21 Que tiveste tu ó mar que fugiste E tu Jordão para retrocederes SI 1135 22 Na presença do Senhor perante o Deus de Jacó SI 1137 23 De Deus não se zomba Gál 67 24 Ai de vós os que agora rides porque gemereis e chorareis Lc 6 25 25 Por onde ele o recobrou também nesta representação Hebr 119 26 Hier contra Jovenianum 27 De grandes asas Sermão de Nossa Senhora de Penha de França 1 Viu um homem que era cego Jo 91 2 De entre as trevas e a escuridão verão os olhos dos cegos Is 29 18 3 E te pus para ser a reconciliação do povo para luz das gentes para abrires os olhos dos cegos Is 4265 4 Tu és o que hás de vir ou é outro o que esperamos Mt 113 5 Ide contar a João o que ouvistes e vistes Os cegos vêem Mt 114 s 6 Quem é o cego senão o meu servo Quem é o cego senão o que foi vendido E quem é o cego senão o servo do Senhor 7 Is 1015 17 192lss 8 Conhecido é Deus na Judéia SI 75 1 9 De sorte que não puderam mais atinar com a porta Gên 19 1 10 Que apertado é o caminho que guia para a via Mt 7 14 11 E os seus sepulcros serão as suas casas para sempre SI 48 12 12 Esta é a porta do Senhor os justos entrarão por ela SI 117 20 13 Arist Polit 10 14 Mas os olhos dos dois estavam como fechados para o não conhecerem Lc 2416 15 Esse é que é prendeio E o prenderam E não me prendestes Mt 26485055 16 Que é isso que vós ides praticando e conferindo um como outro e porque estais tristes Lc 2417 17 Este homem não é de Deus Jo 916 18 Ai de vós os que ao mau chamais bom e ao bom mau Is 520 19 Os teus profetas viram para ti coisas falsas Lam 214 20 É sangue derramado pela espada os reis pelejaram contra si e de parte a parte se mataram 4 Rs 323 21 Até estando eu presente quer na minha mesma casa fazer violência à rainha Est 78 22 Se um cego guia a outro cego Mt 15 14 23 Em Roma ninguém pode viver de outro modo 24 Senhor que eu veja Lc 1841 25 E o pai levantandose começou a correr cego tropeçando com os pés Tob II 10 26 E no mesmo ponto se lhes abriram os olhos Gên 3 10 27 Sabemos que Deus não ouve a pecadores Jo 931 Nós sabemos que esse homem é um pecador Jo 924 28 Logo também nós somos cegos Jo 940 29 Como viram que estava já morto não lhe quebraram as pernas Jo 19 33 30 Sabe desde agora que a tua posteridade será peregrina numa terra estrangeira e será reduzida à escravidão e aflita por quatrocentos anos Gên 15 13 31 Ita omnes interpretes Sermão no Sábado Quarto da Quaresma 1 Livro da geração de Jesus Cristo Filho de Davi Filho de Abraão Mt 1 1 2 Jó 3338 3 Ez 173 Prado Corn et alii ibi 4 Não sei para que lado voltarme 5 Pois que foram na verdade muitos os que empreenderam pôr em ordem a narração das coisas que entre nós se viram cumpridas Lc 11 6 Gilb Serm47 in Cant S Maxim In praef Ad Mistagog Ecclesiast 7 Falai à pedra Núm 208 8 Não havia enfermo nas tribos deles SI 10437 9 E dividiu a luz das trevas e se fez o dia primeiro Façase o firmamento no meio das águas e se fez o dia segundo Produza a terra erva verde e se fez o dia terceiro Gên 1456811 13 10 Descansou no dia sétimo de toda a obra que fizera Gên 23 11 Meu Pai até agora não cessa de obrar e eu obro também Jo 517 12 Os céus publicam a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos Um dia diz uma palavra a outro dia SI 18ls 13 Apud Theophilum Rayn 14 A Glosa Interlineal de Anselme de Laen um dos mais célebres glosadores latinos morto em 1117 tem esse nome por ter o autor explicado entre os linhos da Vulgata as palavras mais ou menos obscuras ou equívocas das Escrituras Sagradas 15 Deixou memória das suas maravilhas o Senhor que é misericordioso e compassivo Deu sustento aos que o temem SI 11O4s 16 Obceca o coração deste povo para que não suceda que veja com seus olhos Is 610 17 Por isso vós não as ouvis porque não sois de Deus Jo 847 18 Tens a reputação de que vives e tu estás morto Apc 31 19 Deixa que os mortos sepultem os seus mortos Mt 822 20 Eu sou a ressurreição e a vida Jo 1125 Sermão das Lágrimas de São Pedro 1 Diziam pois isto os judeus tentandoo para o poderem acusar Jo 8 6 2 Lev 2010 Deut 22202124 Dan 1362 3 E não sabia que do seu rosto saíam uns raios Êx 3429 4 E servirá de pedra de tropeço e de pedra de escândalo laço de ruína E tropeçarão e cairão e serão quebrantados e enredados e presos Is 814 s 5 Dize que estas pedras se convertam em pães Mt 43 6 Para que não suceda tropeçares em pedra como teu pé Mt 46 7 Não só de pão vive o homem Mt 44 8 Não tentarás ao Senhor teu Deus Mt 47 9 Por que me tentais Mt 22 ít 10 Como o surpreenderiam no que falasse Mt 2215 11 Consultaram entre si como o surpreenderiam no que falasse Mt 2215 12 A força do pecado é a lei 1 Cor 1556 13 Dificultosa coisa pediste 4 Rs 210 14 Mas seja o vosso falar Sim sim Não não Mt 537 15 O homem não vive só do pão Deut 83 16 Não tentarás ao Senhor teu Deus Deut 616 17 Temerás ao Senhor teu Deus e só a ele servirás Deut 613 18 Dela estão pendentes mil escudos toda a amadura dos esforçados Cânt 44 19 E como eles perseveravam em fazerlhe perguntas Jo 87 20 Apareceram uns dedos como de mão de homem que escrevia Dan 55 21 Porque ainda não entendiam a Escritura que importava que ele ressuscitasse dentre os mortos Jo 209 22 Não digais a pessoa alguma o que vistes enquanto o Filho do homem não ressurgir dos mortos Mt 179 23 Ver notas 151617 24 Tábuas escritas com o dedo de Deus Deut 910 25 Pelo dedo de Deus lanço os demônios Lc 1120 26 Segundo o príncipe das potestades deste ar Ef 22 27 E espadas de dois fios nas suas mãos para fazer vingança nas nações castigos nos povosSl1496s 28 Firamolos à espada Lc2249 29 Esta é a vossa hora e o poder das trevas Lc 2253 30 S August Tract 33 In Joan S Ambr Ep 76 Ad Stud 31 Foi levado pelo Espírito ao deserto para ser tentado pelo diabo Mt 4 1 32 Tentandoo para o poderem acusar Jo 8 6 33 O Senhor o deu o Senhor o tirou Bendito seja o nome do Senhor Jó 121 34 Em todas estas coisas não pecou Jó pelos seus lábios nem falou coisa alguma indiscreta contra Deus Jó 122 35 Tenho falado nesciamente por isso me repreendo a mim mesmo e faço penitência no pó e na cinza Jó 4236 36 Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que o atrai e alícia Tg 1 14 37 A serpente me enganou Gên 313 38 Porque não temos um pontífice que não possa compadecerse das nossas enfermidades mas que foi tentado em todas as coisas à nossa semelhança exceto o pecado Cheguemonos pois confiada mente ao trono da graça a fim de alcançar misericórdia Hebr 415 s 39 Nem eu tampouco te condenarei Jo 811 Não peques mais Jo 811 40 Será acaso que alguém lhe trouxesse de comer Jo 433 41 E eis que chegaram os anjos e o serviram Mt 411 42 E ficou só Jesus e a mulher que estava em pé Jo 89 43 E a levarei à soledade e lhe falarei ao coração Os 214 Sermão do Mandato 1 Cantou o galo e voltandose o Senhor pôs os olhos em Pedro E tendo saído para fora chorou amargamente Lc 2260 ss 2 Não basta a voz do pregador se não houver juntamente o olhar de Cristo para o pecador 3 As minhas lágrimas foram o meu pão SI 414 4 Viu uma mulher 2 Rs 112 5 Viu pois a mulher que a árvore era boa para comer Gên 3 6 6 Que coisa há de pior que semelhante olho Ecl 3115 7Banhará de lágrimas todo o seu rosto quando olhar Ecl 3115 8 Para ver em que parava o caso Mt 2658 9 Abriramselhe os olhos para o que antes não se tinham aberto 10 O meu olho quase me roubou a vida Lam 351 11 Se o teu olho for mau todo o teu corpo estará em trevas Mt 623 12 Do coração é que saem os maus pensamentos Mt 1519 13 Se o meu coração seguiu os meus olhos Jó 317 14 Aporta os meus olhos para que não vejam a vaidade SI 11837 15 Nem os seus olhos se fartam de riquezas Ecl 48 16 O meu olho se turvou à vista do furor Sl 6 8 17 Não te deixarás tocar de compaixão Deut 7 16 18 Seja ele preso no laço dos seus olhos Jdt 913 19 E não neguei aos meus olhos coisa alguma de quanto eles desejaram Ecl 210 20 Pela concupiscência dos seus olhos Ez 2316 21 Os meus olhos olharam com desprezo SI 53 9 22 Não via com bons olhos 1 Rs 189 23 Humilharás os olhos dos soberbos SI 1728 24 O olho do avaro não se sacia Eclo 149 25 Olhos prostituídos pela fornicação Ez 69 26 Conturbado como pesar está o meu olho SI 30 10 27 O olho do invejoso é mau Eclo 148 28 0s nossos olhos não vêem senão maná Núm 116 29 Os meus olhos desfaleceram SI 87 10 30 Lance de si os tropeços dos seus olhos Ez 207 31 As abominações dos seus olhos Ez 20 8 32 Da mesma fonte de onde se originou o pecado correm incessantes lágrimas 33 Não o sou Lc 22 58 34 Não conheço tal homem Mt 2672 35 Homem eu não sei que é o que tu dizes Lc 2260 36 Aturamos o peso do dia e da calma Mt 2012 37 Estes que vieram últimos não trabalharam senão uma hora Mt 2012 38 Tu os igualaste conosco Mt 2012 39 Acaso o teu olho é mau Mt 20 15 40 Ovid Ep 10 41 Todas as noites regarei com minhas lágrimas o meu estrado SI 6 7 42 Quem dará água à minha cabeça e uma fonte de lágrimas a meus olhos e eu chorarei de dia e de noite Jer 91 43 Nem a menina do teu olho se cale Lam 211 44 Fiz concerto com os meus olhos de certamente não cogitar nem ainda em uma virgem Jó 31 1 45 Lugar dos que choram Jz 25 46 Ali haverá choro Mt 812 47 E foram abertos os livros Apc 2012 Sermão da Bula da S Cruzada 1 Sabendo Jesus que era chegada a sua hora de passar deste mundo ao Pai como tinha amado os seus que estavam no mundo amouos até o fim Jo 13 1 2 O amor é valente como a morte Cânt 86 3 De passar deste mundo ao Pai Jo 131 4 Eu saí do Pai e vim ao mundo outra vez deixo o mundo e torno para o Pai Jo 1628 5 Ó tu a que habitas nos jardins os teus amigos estão atentos fazeme ouvir a tua voz Cânt 813 6 Foge amado meu e fazete semelhante a uma cabra montesa e aos veadinhos sobre os montes dos aromas Cânt 814 7 Eilo aí vem saltando sobre os montes atravessando os outeiros Cânt 28 8 Achei eu aquele a quem ama a minha alma aferrei dele nem o largarei Cânt 34 9 Não fala em preferências 10 A vós convémvos que eu vá Jo 167 11 Este sacramento é grande mas eu o digo em Cristo e na Igreja Ef 5 32 12 Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa Lc 2215 13 Achando as minhas delícias em estar com os filhos dos homens Prov 831 14 Os seus que estavam no mundo Jo 13 1 15 Que tiveste tu ó mar que fugiste E tu Jordão para retrocederes SI 1135 16 Amouos até o fim e acabada a ceia Jo 131 5 17 Ninguém tem maior amor do que este de dar alguém a própria vida por seus amigos Jo 1513 18 Ninguém te condenou mulher nem eu tampouco Jo 8 l0s 19 Basil Sel Orat 32 20 Se arrancou deles e posto de joelhos orava dizendo Pai se é do teu agrado transfere de mim este cálice Lc 2241 s 21 Demoraivos aqui e vigiai comigo E adiantandose uns poucos de passos se prostrou como rosto em terra fazendo oração e dizendo Pai meu se é possível passe de mim este cálice Mt 26 38 s 22 De novo se retirou segunda vez e orou dizendo Pai meu se este cálice não pode passar Mt 2642 E deixandoos de novo foi orar terceira vez dizendo as mesmas palavras Mt 2644 23 Abaixando a cabeça rendeu o espírito Jo 1930 24 A minha alma se acha numa tristeza mortal Mc 1434 E começou a ter pavor e a angustiarse Mc 1433 25 E veiolhe um suor como de gotas de sangue que corria sobre a terra Lc 2244 26 Ninguém lhe lançou as mãos porque não era ainda chegada a sua hora Jo 7 30 27 E ninguém o prendeu porque nau era ainda chegada a sua hora Jo 820 28 Tenho desejo de ser desatado da carne e estar com Cristo mas o permanecer em carne é necessário por amor de vos Flp 1 23 Sermão da Bula da S Cruzada 1 Um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água Jo 1934 2 Cancelando a cédula do decreto que havia contra nós a qual nos era contrária e a aboliu inteiramente encravandoa na cruz Col 214 3 Vai mostrate ao Príncipe dos Sacerdotes Mc 1 44 4 Que nos havia de livrar das mãos de nossos inimigos e das mãos de todos os que nos tivessem ódio Lc 1 75 5 Naz in Trag 6 A tua fé te salvou Lc 750 7 Ó mulher grande é a tua fé Mt 1528 8 Façasete segundo tu creste Mt 813 9 Tudo é possível ao que crê Mc 922 10 O que recebe um profeta na qualidade de profeta receberá a recompensa de profeta e o que recebe um justo na qualidade de justo receberá a recompensa de justo Mt 1041 11 Tenho sede Jo 1928 12 Aug in sentent 328 13 Tesouro das satisfações superabundantes de Cristo Bellarmin de Indulg L I Cap 2 14 D Thom p 1 q 92 ati 3 15 S Hypol Epist ad Regin 16 E tornando logo a entrar com grande pressa onde estava o rei pediu dizendo Quero que sem mais demora me dês num prato a cabeça de João Batista Mc 6 25 17 D Hier Ep 83 18 Tu feriste o meu coração irmã minha esposa tu feriste o meu coração com um dos teus olhos Cant 49 Sermão da QuartaFeira de Cinza 1 Tu és pó e em pó te hás de tornar Gên 3 19 2 Quando os fados o querem 3 Sêneca Ep 32 4 Está decretado aos homens que morram uma só vez Hebr 927 5 Multiplicarei os teus trabalhos Gên 316 6 Na guerra não se pode errar duas vezes 7 Rirá no último dia Prov 3125 8 Tu lhe demarcaste os limites dos quais ele não pode passar Jó 145 9 Árvores do outono sem fruto duas vezes mortas Jud 12 10 Extat hioc epitaph in Lib Sales Musarum Quidquid sit de veritate historiae vide Spondanum an 1308 11 E me revelaste o segredo e o escondido do teu saber Sl 50 8 12 Por isso eu te farei descansar com teus pais e serás sepultado em paz no teu sepulcro 4 Rs 2220 13 Falei com a minha língua Fazeme conhecer Senhor o meu fim Sl 385 14 Porque não sabeis o dia nem a hora Mt 2513 15 Breves são os dias do homem em teu poder está o número dos seus meses Jó 145 16 Passam os seus dias em prazeres e num momento descem à sepultura Jó 2113 17 É necessário meter tempo entre os afazeres da vida e o dia da morte 18 Daime quietação e sossego antes de morrer e assim sairei desta vida em paz sem os terrores de consciência que então costumam aparecer 19 A vida do homem sobre a terra é uma guerra Jó 71 20 Porventura o pequeno número de meus dias não acabará em breve Deixame pois que eu chore um pouco a minha dor antes que vá para não tornar Jó 10 20 21 Quando eu ainda a estava urdindo ele me cortou Is 3812 22 Na metade de meus dias irei para as portas do inferno Jó 3810 23 Desde o ventre trasladado para a sepultura Jó 1019 24 Homens sanguinários e enganadores não chegarão à metade de seus dias Sl 5424 25 Depois da morte não há mais prazer 26 Em paz dormirei nele mesmo e repousarei Sl 49 27 Cansamonos no caminho da iniquidade Sab 5 7 Sermão da Rainha Santa Isabel 1 O reino dos céus é semelhante a um homem negociante que busca boas pérolas E tendo achado uma de grande preço vai vender tudo o que tem e a compraMt 1345s 2 Em toda a história de Lacedemônia encontrase apenas uma mulher de rei esposa de rei e mãe de rei Pin Lib De Suinmo FeL 3 Comprou um campo vendeu lenços e viu que a sua negociação é boa Prov31162418 4 Repartiu a presa a seus domésticos Prov 3115 5 A sua candeia não se apagará de noite Prov 3118 6 Muitas filhas ajuntaram riquezas tu excedeste a todas Prov 3129 7 Ela se vestiu de finíssimo linho e de púrpura Prov 3122 8 Seu preço excede a tudo quanto vem de remontadas distâncias e dos últimos confins da terra Prov 3110 9 Não necessitará de despojos Prov 3111 10 O reino dos céus é semelhante a um homem rei que fez as bodas a seu filho Mt 22 2 11 Entrou o rei para ver os que estavam à mesa Mt 2211 12 Querei há que estando para ir para a campanha contra outro rei Lc 1431 13 Foi para um país muito distante tomar posse de um reino Lc 19 12 14 Deixai vir a mim os pequeninos porque dos tais é o reino dos céus Mc 1014 15 E ele teve setecentas mulheres que eram como rainhas 3 Rs 113 16 Deu tudo o que tinha e a comprou 17 O qual tendo a natureza de Deus se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo FIp 26s 18 Apareceu um grande sinal no céu uma mulher vestida do sol que tinha a lua debaixo de seus pés e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça Apc 121 19 Toda a glória da que é filha do rei é de dentro em franjas de ouro toda vestida de vários adornos Sl 4414s 20 Se livras a este não és amigo do César porque todo o que se faz rei contradiz ao César Jo 19 12 21 Não temais aos que matam o corpo Mt 10 28 22 Não queirais confiar nos príncipes em quem não há salvação Sl 145 3 23 Um campo viçoso no profundo abismo Sab 197 24 Farás sobre ela uma coroa de ouro em roda Ex 2511 25 Vallis Salivarum a respeito desta observação anotamos aqui outra observação de Vieira sobre o mesmo Mar Morto no Sermão do Santíssimo Sacramento neste volume onde diz o que nós hoje chamamos Mar Morto e naquele tempo se chamava Vallis Sallinarum porque só se tirava dele sal No Dictionnaire de la Bible de Vigouroux entre os vários nomes por que é designado o Mar Morto não consta esta denominação de Vallis Sallivarum 26 Ele se promete que o Jordão entrará pela sua boca Jó 40 18 27 Comoveuse a terra na presença do Senhor perante o Deus de Jacó Sl 1137 28 Eis aí te constituí Deus de Faraó Êx 71 29 Se és Filho de Deus Mt 43 30 Todo o nome que Adão pôs de alma vivente esse é o seu nome Gên 219 31 O Não permitirás que o teu santo veja a corrupção Sl 15 10 32 E agora ó reis entendei instruívos os que julgais a terra Sl 2 10 Sermão da Glória de Maria Mãe de Deus 1 Maria escolheu a melhor parte Lc 10 42 2 Quem é esta que se levanta escolhida como o sol Cânt 69 3 Sêneca De Offic Lib 2 4 Plutarco in AIexandro 5 Sidon Apol Epist ad Audac 6 Horatius 7 Nazianzen ad Nicobulum 1 e 2 8 Aug ad julian 9 Aqui está Camaam teu servo vá ele mesmo contigo e faze dele o que lor mais do teu gosto 2 Rs 1937 10 Já que fizeste esta ação todas as gentes da terra serão benditas naquele que há de proceder de ti Gên 2217 s de Isac é que há de sair a estirpe Gên 21 12 11 Mas ele se aniquilou a si mesmo tomando a natureza de servo fazendose semelhante aos homens e sendo reconhecido na condição como homem pelo que Deus também o exaltou e lhe deu um nome que é sobre todo o nome Flp 279 12 Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho Flp 2 l0 13 Pai a ninguém julga mas todo o juízo deu ao Filho Jo 522 14 Disse o Senhor ao meu Senhor Sentate à minha mão direita SI 109 1 15 Eu porém fui por ele constituído rei sobre Sião seu monte santo O Senhor disse para mim Tu és meu filho SI 26s 16 Assim amou Deus ao mundo que lhe deu seu Filho unigênito Jo 3 16 Sermão da Primeira Dominga da Quaresma 1 E lhe mostrou todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse Tudo isto te darei se prostrado me adorares Mt 48 s 2 Na Vulgata Porque escrito está que mandou a seus anjos que cuidem de ti e eles te tomarão nas palmas para que não suceda tropeçares em pedra com o teu pé Mt 46 Lc 4 10s 3 Ao Senhor teu Deus adorarás e a ele só servirás Mt 410 4 Dela estão pendentes mil escudos toda a armadura dos esforçados Cânt 44 5 Todas as nossas armas estão contidas nas Sagradas Escrituras 6 Na Escritura como em uma botica cada um poderá encontrar o remédio certo para a sua enfermidade 7 Porquanto nem foi erva que os sarou nem lenitivo algum mas sim a tua palavra Senhor que sara todas as coisas Sab 1612 8 Vaite Satanás Mt 410 9 Londin in Hist Flandr 10 Foise dandoselhe pouco de ter vendido o seu direito de primogenitura Gên 2534 11 Palavras do Eclesiastes filho de Davi rei de Jerusalém Vaidade de vaidades e tudo vaidade Ecl 11 12 Mentirosos são os filhos dos homens em balanças eles conspiram concordemente em vaidade para usar de enganos SI 618 13 Bendita cruz transformada em balança de cujos braços pende a salvação do mundo roubando ao inferno a presa 14 Que se deu a si mesmo para redenção de todos Tim 26 15 Ao qual constituiu herdeiro de tudo Hebr 12 16 Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas Jo 13 3 17 Todas as coisas me foram entregues por meu Pai Mt 1127 18 Trarei cada um até mim 19 Como já o diabo tinha metido no coração a Judas começou a lavar os pés aos discípulos Jo 1325 20 Um de vós é o diabo Jo 671 21 Satanás entrou em Judas e buscava ocasião oportuna de lho entregar Entretanto chegou o dia dos pães asmos no qual era necessário imolarse a Páscoa Lc 22367 22 Darteei todo este poder e a glória destes reinos porque eles me foram dados e eu os dou a quem bem me parecer Lc 46 23 Neste tempo foi degolado elrei de Inglaterra 24 Cristo morreu por todos 1 Cor 515 25 Que se deu a si mesmo para redenção de todos 1 Tim 26 26 Fala alternadamente com Deus e com o rei Sermão da Terceira QuartaFeira da Quaresma 1 Não me pertence a mim o darvolo mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai Mt 2023 2 Excitouse entre eles a questão sobre qual deles se devia reputar o maior Lc 2224 3 Onde eu estiver estará ali também o que me serve Jo 12 26 4 Hoje serás comigo no Paraíso Lc 2343 5 Por cuja causa roguei ao Senhor três vezes 2 Cor 128 6 Este é para mim um vaso escolhido At 9 15 7 A sua graça não tem sido vã em mim antes tenho trabalhado mais copiosamente que todos 2 Cor 15 10 8 Pelo mais me está reservada a coroa da justiça que o Senhor justo juiz me dará 2 Tim 48 9 Dize que estes meus dois filhos se assentem no teu reino um à tua direita e outro à tua esquerda Mt 20 2t 10 Estou para dar aos pobres metade dos meus bens e naquilo em que eu tiver defraudado a alguém pagarlhoei quadruplicado Lc 198 11 Não matarás não fornicarás não furtarás não dirás falso testemunho Êx 2013 ss 12 Pôs diante do Paraíso um querubim com uma espada de fogo para guardar o caminho da árvore da vida Gên 324 13 Não sabeis o que pedis Mt 2022 14 Repartiu entre ambos a fazenda Lc 1512 15 Para que tome o lugar deste ministério e apostolado do qual pela sua prevaricação caiu Judas para ir ao seu lugar At 125 16 O coração era um e a alma uma AL 432 17 Não me pertence a mim o darvolo mas isso é para aqueles para quem está preparado por meu Pai Mt 2023 18 A corrupção de uns é a geração de outros 19 Façamos o homem à nossa imagem e semelhança o qual presida aos peixes do mar às aves do céu aos animais selváticos e a toda terra Gên t 26 20 No tempo da ceifa direi aos segadores Mt 1330 21 Porventura não te servi eu por amor de Raquel Gên 2925 22 Tu não agradas aos príncipes 1 Rs 29 6 23 Meu pai açoitouvos com correias e eu açoitarvosei com escorpiões 3 Rs 1214 24 Abandonou aconselho dos velhos que faziam corte a Salomão seu pai quando este ainda vivia e consultou os moços que tinham sido criados com ele e que lhe assistiam 3 Rs 126 8 25 Ouvi filhos os avisos RocketEdition TM eBooksBrasil wwwebooksbrasilcom Março 2000 pdf eBooksBrasilorg Maio 2008 Sermão de QuartaFeira de Cinzas Padre Antônio Vieira 1 Trecho sobre A memória da morte Padre Vieira afirma a importância de manter a memória da morte viva Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte 2 Trecho sobre a relação de oposição entre estacidade e movimento Padre Vieira cria uma oposição entre movimento e estaticidade ao falar sobre os vivos e os mortos Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet 3 Trecho em que faz uso de metáfora como estilo discursivo Um exemplo de metáfora utilizada por Vieira ocorre na passagem que compara a vida humana ao pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído 4 O que é a morte para Antônio Vieira com trecho de comprovação Para Vieira a morte é uma reversão inevitável ao estado original de pó um ciclo entre o pó da vida e o da morte Ele vê a morte como parte natural da existência humana e um retorno ao pó como se refere na passagem Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser Sermão de QuartaFeira de Cinzas Padre Antônio Vieira 1 Trecho sobre A memória da morte Padre Vieira afirma a importância de manter a memória da morte viva Homens mortais homens imortais se todos os dias podemos morrer se cada dia nos imos chegando mais à morte e ela a nós não se acabe com este dia a memória da morte 2 Trecho sobre a relação de oposição entre estacidade e movimento Padre Vieira cria uma oposição entre movimento e estaticidade ao falar sobre os vivos e os mortos Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído os vivos são pó que anda os mortos são pó que jaz Hic jacet 3 Trecho em que faz uso de metáfora como estilo discursivo Um exemplo de metáfora utilizada por Vieira ocorre na passagem que compara a vida humana ao pó Os vivos são pó levantado os mortos são pó caído 4 O que é a morte para Antônio Vieira com trecho de comprovação Para Vieira a morte é uma reversão inevitável ao estado original de pó um ciclo entre o pó da vida e o da morte Ele vê a morte como parte natural da existência humana e um retorno ao pó como se refere na passagem Esta nossa chamada vida não é mais que um círculo que fazemos de pó a pó do pó que fomos ao pó que havemos de ser

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