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108 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 MOOCA MEMÓRIA E IDENTIDADE Márcia de Oliveira Lupia RESUMO O processo de imigração ocorrido no século XIX na cidade de São Paulo trouxe à capital grupos de diversas nacionalidades que ajudaram a desenvolver os bairros Uma grande quantidade de italianos acabou se instalando no bairro da Mooca onde colaboraram não somente com seu trabalho braçal mas com a formação cultural do bairro As lembranças desses ancestrais são trazidas ao presente por meio de narrativas e transmitidas de geração para geração Essa memória das origens fortalece a identidade do bairro e a identificação dos seus residentes com a cultura italiana Utilizando o arcabouço teórico sobre memória e identidade de pesquisadores como Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 e Ecléa Bosi 2003 este estudo pretende demonstrar que a bemsucedida transmissão da memória do bairro devese ao ciclo memórianarrativastransmissãoidentidade A pesquisa perpassa a importância dos lugares como canvas memoriais evoca os tipos de memória enfatizandose a memória olfativa por estar muito presente no bairro e arremata expondo o funcionamento do ciclo acima mencionado As reflexões advindas deste estudo podem gerar futuras pesquisas sobre a memória coletiva e a identidade de bairros descendentes de grupos imigratórios em São Paulo abrindo outras perspectivas sobre a cultura e sociedade paulistanas PALAVRASCHAVE Mooca Memória Identidade Transmissão Narrativas ABSTRACT The immigration process that occurred in the nineteenth century in the city of São Paulo brought to the city groups of different nationalities who helped develop the neighborhoods A lot of Italians ended up settling in the neighborhood of Mooca which collaborated not only with his legwork but with the cultural background of the neighborhood The memories of these ancestors are brought to this through narratives and transmitted from generation to generation This memory of the origins strengthens the identity of the neighborhood and the identification of its residents with Italian culture Using the theoretical framework of memory and identity of researchers like Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 and Ecléa Bosi 2003 this study aims to demonstrate that the successful memory transmission in the neighborhood due to the cycle memory narratives transmissionidentity The research permeates the importance of places like memorial canvas and evokes the memory types with emphasis on the olfactory memory since it is very present in the neighborhood and concludes exposing the operation of the above cycle The resulting reflections of this study can generate future research on collective memory and 109 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 identity of the neighborhoods of immigration groups in São Paulo opening other perspectives on culture and society of this city KEYWORDS Mooca Memory Identity Transmission Narratives OS PRIMEIROS PASSOS Em meio às mudanças trazidas com o tempo parecenos que as lembranças do passado estão cada vez mais distantes de nós Entretanto existem alguns grupos de pessoas que mantêm viva a chama da transmissão da memória absorvendo de suas raízes as lembranças que os auxiliam a reconstruir suas identidades O grupo de residentes do bairro paulistano da Mooca possui essa característica e acaba fortalecendo a identificação com seus ancestrais imigrantes italianos Essa identificação pode ser vista em muitos dos imóveis e vilas que preservam as características de outrora nos jogos do clube do Juventus onde gerações de famílias se encontram para torcer pelo time grená da Rua Javari no falar dos mooquenses que deixam vazar em seus discursos um português cantado e com palavras italianas que só ficam completas com o gesticular que as acompanham Utilizando as teorias de memória e identidade de pesquisadores como Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 e Ecléa Bosi 2003 pretendemos mostrar a importância da preservação dos espaços que são canvas memoriais dos sujeitos e da transmissão da memória através de narrativas as quais ganham força graças ao laço social A engrenagem memórianarrativastransmissãoidentidade é que faz da Mooca um bairro onde se respira nos dias de hoje uma identificação ainda muito forte com as origens por conta de um passado que está presente e é zelado e velado para alcançar o futuro UM POUCO SOBRE A MOOCA A Mooca situase na zona leste de São Paulo Fundada em 17 de agosto de 110 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 1556 leva em seu nome a herança indígena de seus primeiros habitantes Mooca é originária da palavra tupiguarani mũoka e significa casa de parente junção dos termos mũ parente e oka casa NAVARRO 2005 Seus 77km² de extensão e aproximadamente 63 mil habitantes possuem grande influência dos imigrantes vindos da Itália Com a imigração do século XIX São Paulo tornouse reduto de imigrantes europeus que vieram para o Brasil fazer a América em busca do trabalho advindo das plantações de café e da indústria Na Hospedaria de Imigrantes grande parte dos recémchegados obteve morada e cuidados médicos situavase na Mooca Ainda hoje o prédio é mantido no mesmo local abrigando as histórias das mais de 25 milhões de pessoas que por lá passaram como Museu da Imigração Grande parte dos imigrantes italianos fixouse no distrito A topografia plana da região o rio Tamanduateí cortando o bairro a implantação da ferrovia SantosJundiaí em 1867 e a concentração próxima de mão de obra imigrante na Hospedaria acabaram por alavancar o crescimento industrial na Mooca tornandoa de extrema importância no cenário paulistano Grandes indústrias ocuparam os solos mooquenses Companhia Antarctica Paulista Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo Moinho MinettiGamba São Paulo Alpargatas Companhia União de Refinadores Café Moka Tecelagem do Cotonifício Rodolfo Crespi entre outras A última além de sua importância econômica sendo na época a maior tecelagem da América Latina historicamente foi palco da primeira greve de trabalhadores no Brasil em 1917 Hoje o edifício abriga em suas dependências um hipermercado mas mantém sua fachada restaurada de maneira semelhante à época de seu auge Não só de trabalho viviam os imigrantes o Jóquei Clube de SP teve o início de suas atividades na Mooca Construíram cinemas e teatro O Footing passeios feitos pelos jovens solteiros em busca de um flerte entre as Ruas Olímpio Portugal Visconde de Laguna e a Avenida Paes de Barros era muito popular O bairro teve ainda a construção do estádio de futebol da Rua Javari pela família de Rodolfo 111 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Crespi1 na época para diversão de seus operários onde até hoje são realizados jogos de futebol do Clube Atlético Juventus O time é tão popular quanto os canolli2 vendidos no estádio A gastronomia desenvolveuse regada às receitas italianas Festas como a de San Gennaro e estabelecimentos como a Doceria Di Cunto3 provém da época da imigração e são sucesso até hoje A Língua Portuguesa também sofreu muita influência dos italianos e consequentemente a Mooca adquiriu um sotaque e vocábulos que distingue seus moradores do resto dos paulistanos o mooquês Em 2009 um vereador da cidade apresentou ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo Conpresp o projeto para tombamento do mooquês como patrimônio cultural A Mooca é atualmente um bairro predominantemente residencial que abriga uma das maiores colônias de descendentes de italianos em São Paulo Muitos prédios foram construídos substituindo as casas das velhas vilas de operários e as fábricas Sua culinária italiana é recomendada e apreciada por diversas pessoas Seus moradores são conhecidos pelo fanatismo ao bairro pelo seu sotaque e pelas intermináveis conversas familiares que passaram de geração a geração nos almoços aos domingos ESPAÇO CANVAS DA MEMÓRIA A cidade de São Paulo cresceu em meio a uma avalanche de acontecimentos que passou a modificála desde o ciclo do café e os imigrantes vindos da Europa para tentar uma vida melhor nas lavouras à Revolução Industrial e desenvolvimento do comércio Abruptamente a onda da modernidade tentou levar consigo as velhas paisagens das praças das estreitas ruas de paralelepípedos dos 1 Importante imigrante italiano fixado na Mooca Fundou o Cotonifício Rodolfo Crespi onde funcionou o primeiro estabelecimento brasileiro de fiação industrial de algodão em grande escala 2 Doce tipicamente italiano da região da Sicília Consiste em uma massa frita em formato de cano recheada com creme à base de ricota ou baunilha 3 Famosa doceria do bairro da Mooca fundada em 1935 pelos irmãos Vicente Lorenzo Roberto e Alfredo Di Cunto 112 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 bondes e das casas nas vilas para trazer à tona os shoppings centers as gigantescas avenidas os carros e os enormes edifícios As famílias foram crescendo desde então fazendo a migração entre bairros amontoandose aos andares de edifícios residenciais desagregandose de sua antiga vizinhança e escravizandose à rotina casatrabalhocasa Esse é o cenário da grande maioria dos bairros da cidade Porém alguns deles tentaram se agarrar aos resquícios do passado a fim de manter as origens da época da imigração A manutenção e o tombamento de alguns lugares são prova disso Esse esforço de seus habitantes é muito significativo para a sua preservação identitária Existem regiõesmemória Vendeia Alsacia Cevenol ou cidades memória Jerusalém Roma etc e mesmo bairros onde se afirmam com força as identidades regionais ou locais CANDAU 2014 p 157 Nós seres humanos precisamos de um canvas para pintar os traços das lembranças que formarão nossa memória lugar onde a pincelaremos e a repincelaremos Maurice Halbwachs 1990 afirma que não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial e que o espaço é uma realidade que dura Joël Candau cita a premissa do espaço como fundamental para o exercício da memória Memória e a identidade se concentram em lugares e em lugares privilegiados quase sempre com um nome e que se constituem como referências perenes percebidas como um desafio ao tempo A razão fundamental de ser um lugar de memória observa Pierre Nora é a de deter o tempo bloquear o trabalho de esquecimento fixar um estado de coisas imortalizar a morte A função identitária desses lugares fica explícita na definição que é dada a eles pelo historiador toda unidade significativa de ordem material ou ideal da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio memorial de uma comunidade qualquer Um lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha o que mostrou Halbwachs desde 1941 em relação aos lugares santos De acordo com a sugestão de Willem Frijhoff um lugar de memória pode ser chamado em holandês geheugeboei ou seja baliza da memória que é ao mesmo tempo baliza identitária CANDAU 2014 p 156157 grifo do autor 113 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Entre espaços físicos e virtuais os moradores da Mooca elegeram lugares onde depositar as lembranças que fortalecem a memória do bairro e a identidade do seu grupo Esses lugares fazem a mediação entre passado e presente Um homem para evocar seu próprio passado tem frequentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele e que são fixados pela sociedade Mas ainda o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e ideias que o indivíduo não inventou e que emprestou de seu meio HALBAWACHS 1990 p 54 Em maio de 2004 na Biblioteca Pública Affonso Taunay Mooca foram realizados encontros da oficina de memória para elaboração do espaço de relatos Mooca memória viva do site Portal do Envelhecimento O projeto envolveu dois profissionais da Subprefeitura da Mooca Carmem Silvia de Cápua pela Coordenadoria de Assistência Social e Desenvolvimento e Edriana Regina Consorti pela Unidade de Referência de Saúde ao idoso URSI da Mooca Colheramse relatos de idosos sobre suas memórias do bairro Os lugares aparecem em sua grande parte como referenciais de lembranças Foram extraídos desse sítio eletrônico trechos dos relatos de Sr Amaro e Sra Arlete sobre o salão de bailes Cupido Lembro também dos bailinhos realizados nas casas de famílias do bairro onde tinha jovens como na Rua João Caetano Hipódromo Pereira da Silva e num clube na casa de uma família na Rua Orville Derby chamado Cupido Nos reuníamos nos fins de semana para um baile muito gostoso onde rolava muita paquera ao som de boleros de Gregório Barros Cauby Peixoto e tantos outros Sr Amaro apud BRANDÃO 2004 não paginado Existia um clube chamado Cupido perto do Largo São Rafael e às vezes íamos ao baile nos divertir o que mais tocavam eram as músicas românticas como Blue Moon Only You os boleros samba canção Eram ritmos que eu mais gostava pois se dançava juntinho com o rosto colado e a gente se deixava levar pela música Sra Arlete apud BRANDÃO 2004 não paginado 114 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Nos depoimentos acima a marcação dos locais onde ocorreram os fatos corrobora a importância dos lugares para a evocação da lembrança Esse salão de bailes não aparece somente nas narrativas memoriais por conta do espaço de convívio ele é que permite trazer à tona as lembranças as marcas da memória dos jovens daquela época Os lugares são os cenários das lembranças de uma cidade de um bairro O caso do tombamento de uma das chaminés da Refinaria União em meio aos prédios do novo condomínio construído no local onde a fábrica funcionava servenos como outro exemplo O boom imobiliário que aconteceu em São Paulo no início nos anos 2000 atingiu o bairro da Mooca que viu a construção de diversos prédios em locais que antes abrigaram indústrias de grande porte como a Refinaria União na Rua Borges de Figueiredo FORTUNATO 2016 A indústria em questão fundada pelos irmãos Nicola e Giuseppe Carbone em 1910 mantevese em funcionamento no bairro até 2006 quando o prédio foi desativado Em 2012 uma construtora resolveu erguer um conjunto de prédios no local porém um grupo de moradores decidiu lutar para manter o patrimônio histórico Desse debate o Conpresp resolveu tombar uma das chaminés da refinaria como marca de sua importância no cenário industrial do país GOMES 2016 Para esses grupos de preservação O bairro é uma totalidade estruturada comum a todos que se vai percebendo pouco a pouco e que nos traz um sentido de identidade É um lugar nosso e um lugar nosso deve ter como ensina a Psicologia da Gestalt fechamento e proximidade de elementos deve ser mais denso que seu entorno e permitir a dialética da partida e do retorno Há nos habitantes do bairro o sentimento de pertencer a uma tradição a uma maneira de ser que anima a vida das ruas e das praças dos mercados e das esquinas A paisagem do bairro tem uma história conquistada numa longa adaptação BOSI 2013 p 7576 O sentimento de pertencimento dos habitantes do bairro da Mooca tem raízes italianas costumes festas dialetos culinária e aromas inesquecíveis 115 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 A MEMÓRIA DOS AROMAS As memórias individuais coletivas e históricas se interpenetram e se contaminam de maneira a desenhar a representação da identidade do grupo Um elemento muito importante nesse processo é a linguagem Mas não só de relatos escritos e orais formamse as memórias Tão pouco são restritas às imagens Ecléa Bosi 2003 sustenta que os sons de uma rua durante 24 horas no decorrer do tempo podem ser formadores de memória do grupo que está inserido nesse espaço Eles são responsáveis por gerar uma sequência identitária confortante aos seus moradores Claramente existem as memórias orais as visuais as auditivas e por que não as olfativas e as do paladar Os costumes italianos e as indústrias fizeram da Mooca um lugar rico nesses sentidos Recorrentemente nas leituras de relatos extraídos do Portal do Envelhecimento seção Mooca memória viva e do Portal da Mooca seção Eu me lembro sobre as lembranças do bairro o cheiro do café produzido no distrito foi personagem principal Houve identificação imediata por minha parte já que vivenciei tal experiência lembrome do aroma do café na Rua Borges de Figueiredo quando ia com meu avô à Doceria Di Cunto Essa lembrança é tão viva na minha memória que todas as vezes que passo por essa rua tenho a sensação de sentir o cheiro do café vindo da extinta fábrica Seguem mais relatos sobre a memória olfativa Lembrome ainda do café Seleto situado na Rua Padre Adelino exalando o cheiro de café moído a quase toda hora do dia Sua chaminé anunciava a moagem soltando uma fumacinha cheirosa formavase um corredor perfumado em toda a área A Rua Taquari tinha cheiro de anilina e outras químicas hoje ao passar no trecho sentimos o odor de tudo isto é o cheiro da Mooca recordação da Vila que foi e será sua memória Em 1956 conheci o cheiro da Mooca nos aromas das comidas principalmente o cheirinho dos panelaços de macarronada do bairro Sr Amaro apud BRANDÃO 2004 não paginado Falar sobre o cheiro da Mooca é falar do cheiro de fumaça quando os trens passavam pelas ruas dos Trilhos Um cheiro mais gostoso e agradável o do pó de café Sra Angelina apud BRANDÃO 2004 não paginado 116 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Ao cheiro do café Sucesso misturavase o cheiro gostoso do açúcar União Das altas chaminés da Souza Cruz na Rua do Oratório saía o cheiro de fumo usado na fabricação de cigarros Ainda hoje conforme a direção do vento sentese o cheiro de doces feitos com coco das fábricas nas travessas da Rua do Hipódromo e da Rua Bresser Sra Shirley apud BRANDÃO 2004 não paginado Ainda lembrome dos sons dos odores e sabores da Mooca Os sons dos apitos das fábricas os sons dos vendedores de rua olha o piruliteiroooo o cheiro do refino do açúcar UNIÃO o cheiro da fábrica de bolacha RAUCCI os sabores dos pães e dos pães doces trazidos de porta em porta pelos padeiros em suas carroças Que saudades Sr Valdir Terezzino apud BRANDÃO 2004 não paginado A memória olfativa é articulada com outras lembranças agregandose às memórias que são responsáveis pela referência identitária dos habitantes do bairro A transmissão por meio de narrativas dos mais antigos e a sua preservação são de extrema importância nesse processo MEMÓRIANARRATIVASTRANSMISSÃOIDENTIDADE A linguagem tem papel fundamental nas interações humanas Os relatos das pessoas não possuem somente a função de trazer o passado para o presente são instrumentos pelos quais a memória é trazida à tona e a identidade é construída Rememorar é se narrar é fazer uma autoanalise Segundo Coracini Por meio da escrita o sujeito se coloca em cena se narra impregnado pela subjetividade constituinte das relações sociais que nos inserem desde que nascemos ou já no ventre materno no mundo préorganizado carregado de memória impulsionado pelos desejos culturalmente adquiridos e culturalmente recalcados 2005 p 23 apud GALLI 2010 p 61 A construção discursiva atribui os sentidos das lembranças rememoradas As conversas entre os mais velhos de uma família ou um grupo de vizinhos muito contribuem para esse processo de reconstrução da identidade Ademais quando as narrativas permanecem expostas em veículo de informação podem ser 117 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 acessadas a qualquer tempo por qualquer um podem garantir a continuidade na transmissão O sentimento de pertencimento do morador da Mooca é que faz suas memórias continuarem vivas mas não bastava apenas ter as memórias ou lembranças e guardálas para si Maurice Halbwachs 1990 diz que quanto mais compartilhada a memória mais ela permanece Daí a importância do papel da transmissão Sem essa mobilização da memória que é a transmissão já não há nem socialização nem educação e ao mesmo tempo se admitimos como diz E Leach que a cultura é uma tradição transmissível de comportamentos apreendidos toda identidade cultural se torna impossível CANDAU 2014 p 105 grifo do autor A transmissão é vital para a memória mesmo não sendo feita de maneira pura No entanto essa transmissão jamais será pura ou uma autêntica transfusão memorial ela não é assimilada como um legado de significados nem como a conservação de uma herança pois para ser útil às estratégias identitárias ela deve atuar no complexo jogo da reprodução e da invenção da restituição e da reconstrução da fidelidade e da traição da lembrança e do esquecimento A transmissão está por consequência no centro de qualquer abordagem antropológica da memória Sem ela a que poderia então servir a memória CANDAU 2014 p 106 grifo do autor Ainda sobre a questão da transmissão Candau questiona se memorizar serve para transmitir é o conteúdo transmitido ou o laço social que gera a transmissão 2014 p 106 Na Mooca o laço social O vínculo entre os familiares vizinhos donos dos pequenos comércios professores entre outros é vívido Os mooquenses se veem como uma grande família Quando um grupo está inserido numa parte do espaço ele transforma à sua imagem ao mesmo tempo em que se sujeita e se adapta às coisas materiais que a ele resistem Ele se fecha no quadro que constituiu HALBWACHS 1990 p 133 Da mesma maneira que os lugares os costumes a língua etc receberam as influências de seus moradores por gerações esses por sua vez foram sendo contaminados pelo bairro por suas 118 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 memórias Um hábito desse contágio por parcela significativa de seu grupo são as exaltações bairristas escritas em camisetas vestidas pelos moradores com frases como Sou da Mooca Bello Mooca é Mooca Eu amo a Mooca entre outras tantas que podem ser adquiridas em estabelecimentos no bairro e até por meio de web pages como a Camiseteria di Mooca4 Outra marca da identidade do bairro está ligada ao uso da língua Na Mooca por influência dos imigrantes italianos que vieram para trabalhar como operários nas indústrias da região a pronúncia de muitas palavras e alguns vocábulos acabaram dando origem ao que é chamado de mooquês A Língua Portuguesa foi afetada e esse dialeto cantado e italianado surgiu no bairro e perdura Comumente os moradores do bairro não utilizam o s de plural no final das palavras já que os italianos não o fazem em sua língua e os primeiros italianos da Mooca também não o faziam falando as pizza os trem entre outros Palavras como nonna são mais frequentes em referência à avó assim como empinar capuchetta no lugar de empinar pipa O sentimento de pertencimento a esse dialeto é tão grande que em 2009 o vereador Juscelino Gadelha enviou ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Ambiental da Cidade de São Paulo Conpresp um pedido de tombamento do sotaque da Mooca FAVORETTO 2011 Pensando em Stuart Hall e suas colocações sobre identidades nacionais e adaptando o conceito a grupos como de cidades ou bairros podemos ter uma explicação desse laço do mooquense ao seu bairro Nós só sabemos o que significa ser inglês devido ao modo como a inglesidade veio a ser representada HALL 2014 p 49 Só se sabe como é a Mooca pela forma como ela é vista em relação aos outros bairros Hall continua desenvolvendo as ideias e afirma que a identidade nacional é uma comunidade imaginada E os mooquenses afirmam que a Mooca não é um bairro é uma nação O ponto essencial desse empréstimo de ideias de Stuart Hall encontrase em narrativas nacionais A transmissão apoderase das narrativas com o intuito de fornecerem uma série de estórias imagens panoramas cenários eventos históricos símbolos e rituais nacionais que 4 Notese que o nome da empresa possui traços italianos em sua escrita maneira de registrar as origens italianas 119 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 representam as experiências partilhadas as perdas os triunfos e os desastres que dão sentido à nação HALL 2014 p 52 A fim de arrematar os fios da trama memórianarrativastransmissão identidade no bairro da Mooca recorremos a Michael Pollak 1992 Ele ressalta que a construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros 1992 p 204 Ainda reforça a ligação indissolúvel entre memória e identidade A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade tanto individual como coletiva na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si POLLAK 1992 p 203 A matéria intitulada O mais bairrista dos bairros publicada na Folha Online em 30032007 5 foi escolhida com o objetivo de ilustrar a exposição acima a respeito do sentimento de pertencimento do grupo de moradores do bairro e do fenômeno de que a identidade é construída sempre com referência aos outros O subtítulo da matéria aponta a Mooca como sendo uma grande família e um dos melhores lugares para se viver em São Paulo segundo pesquisa do Datafolha Os entrevistados falavam sobre como é viver em um dos melhores bairros em São Paulo Algumas das frases desses relatos descrevem o sentimento de identidade construído pelos moradores do bairro Quem nasce ou vive aqui só se sente bem aqui O mooquense quando muda no máximo troca de quarteirão Somos bairristas sim E com muito orgulho Conservadores Também Acima de tudo a Mooca é um bairro onde todos se conhecem como uma irmandade Não conseguiria morar em outro lugar de São Paulo Minha origem história e todas as referências estão espalhadas e perpetuadas nessa terra Na mesma matéria o Professor de geografia da USP e especialista no bairro André Roberto Martin afirma A Mooca tem um histórico de luta social dentro de 5 Folha Online O mais bairrista dos bairros Artigo de Roberto Oliveira A matéria em questão foi selecionada por conter não somente relatos dos habitantes do bairro mas dados de pesquisas do Datafolha e colaboração de pesquisador especialista sobre o distrito 120 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 São Paulo Por isso seus moradores são tão orgulhosos de viver numa espécie de mundo à parte com identidade e códigos próprios A preservação de canvas memoriais no bairro funciona como suporte às lembranças e criam a ilusão de raízes identitárias confortando o sujeito As narrativas que evocam as origens as conquistas e as memórias do bairro e o laço social de seu grupo são responsáveis pela transmissão O ciclo memórianarrativa transmissãoidentidade é a engrenagem que torna a Mooca essa locomotiva que traz o passado ao presente e vai seguindo em direção ao futuro CONSIDERAÇÕES FINAIS Há uma esperança comum em um grupo de pessoas que humaniza seu bairro não permitindo que as mudanças trazidas com o tempo cortem todas as suas raízes com o passado elas procuram através da cultura exorcizar o fim do mundo que é o desastre de todo o projeto a dispersão a agonia da cidade a ruptura da vida cotidiana que nos é tão cara BOSI 2003 p 208 Trazer as memórias do passado dos ancestrais italianos que fizeram história e estória na Mooca é muito mais que apenas mostrálas às novas gerações Os mooquenses transmitemnas em narrativas memoriais em ações como a do tombamento da chaminé da Refinaria União ou do complexo da antiga cervejaria da Antarctica Paulista6 e em símbolos que fazem da Mooca a Mooca um dos poucos bairros onde os residentes têm a preocupação com a manutenção das lembranças de origem Esta pesquisa deixa reflexões sobre a importância do estudo da memória coletiva e da identidade de bairros que descendem de grupos imigratórios em São Paulo onde o processo de imigração deixou profundas marcas na cultura local O estudo dos processos de transmissão da memória bairro a bairro pode vir a nos levar a respostas de algumas perguntas sobre costumes cultura memória e identidade da cidade 6 Tombamento feito pelo Conpresp ocorreu em 17 de setembro de 2016 Processo 200701626263 121 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 REFERÊNCIAS BOSI E O tempo vivo da memória ensaios de Psicologia Social São Paulo Ateliê 2003 BRANDÃO Vera Mooca memória viva In PORTAL DO ENVELHECIMENTO sua rede de comunicação e solidariedade São Paulo 2004 Disponível em httpwwwportaldoenvelhecimentocomvozdoleitoritem1678mooca memC3B3riaviva Acesso em 18 abr 2015 CAMISETERIA di Mooca São Paulo c2017 Disponível em httpwwwcamiseteriadimoocacombr Acesso em 10 out 2016 CANDAU J Memória e identidade São Paulo Contexto 2014 FAVORETTO B Na Mooca o dialeto é o Mooquês VejaSãoPaulo São Paulo 4 jun 2011 Disponível em httpvejaspabrilcombrmateriamoocadialeto moques Acesso em 02 out 2016 FORTUNATO Ivan Mooca ou como a verticalização devora a paisagem e a memória de um bairro Arquitextos São Paulo ano 12 n 14005 jan 2012 httpwwwvitruviuscombrrevistasreadarquitextos121404189 Acesso em 02 out 2016 GALLI F Escrita Reconstrução de vozes sentidos eus In ECKERTHOFF B M CORACINI MJ Orgs Escritura de si e alteridade no espaço papeltela alfabetização formação de professores línguas materna e estrangeira São Paulo Mercado das Letras 2010 p 5165 GOMES G São Paulo antiga a chaminé da Refinaria do Açúcar União Não siga um roteiro siga seus sonhos São Paulo 03 jun 2015 Disponível em httpsxglgomeswordpresscom20150603saopauloantigaachamineda refinariadoacucaruniao Acesso em 21 set 2016 HALBWACHS M Memória Coletiva São Paulo Vértice 1990 HALL S A identidade cultural na PósModernidade Rio de Janeiro DPA Editora 2014 MUSEU DA IMIGRAÇÂO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórico São Paulo 201 Disponível em httpmuseudaimigracaoorgbromuseuhistorico Acesso em 18 abr 2015 JOCKEY CLUB DE SÃO PAULO Jockey Club de São Paulo uma rica história São Paulo 20 Disponível em httpwwwjockeyspcombrhistoriaasp Acesso em 19 abr 2015 MOOCA In WIKIPÉDIA a enciclopédia livre Flórida Wikimedia Foundation 2015 Disponível em httpsptwikipediaorgwindexphptitleMoocaoldid43723979 Acesso em 18 abr 2015 NAVARRO E A Método Moderno de Tupi Antigo a língua do Brasil dos primeiros séculos 3 ed São Paulo Global 2005 OLIVEIRA Roberto de O mais bairrista dos bairros FolhaOnline São Paulo 30 mar 2007 Disponível em httpwww1folhauolcombrfolhaespecial2007morar2rf3003200705shtml Acesso em 20 abr 2015 POLLAK M Memória e Identidade Social Estudos Históricos Rio de Janeiro v 5 n 10 p 200212 1992 122 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 PORTAL da Mooca Eu me lembro São Paulo c2016 Disponível em httpwwwportaldamoocacombr Acesso em 18 abr 2015 PORTAL da Mooca História do bairro São Paulo c2016 Disponível em httpwwwportaldamoocacombr Acesso em 18 abr 2015 RODOLFO CRESPI In WIKIPÉDIA a enciclopédia livre Flórida Wikimedia Foundation 2015 Disponível em httpsptwikipediaorgwindexphptitleRodolfoCrespioldid43834602 Acesso em 18 abr 2015 SALVO Maria Paola de ALVES JUNIOR Dirceu Vereador quer tombar sotaque da Mooca Veja SãoPaulo São Paulo 15 out 2009 Disponível em httpvejaspabrilcombrmateriavereadorquertombarsotaquedamooca Acesso em 20 abr 2015 SÃO PAULO SP Prefeitura Mooca Região Leste sumário de dados 2004 São Paulo 2004 p 281291 Disponível em httpww2prefeituraspgovbrarquivossecretariasgovernosumariodadosZLM OOCACaderno24pdf Acesso em 02 out 2016 SÃO PAULO SP Resolução nº 05CONPRESP2010 de 27 de agosto de 2010 Diário Oficial da Cidade de São Paulo São Paulo n 161 p 11 2010 SÃO PAULO SP Resolução nº 17CONPRESP2016 de 13 de setembro de 2016 Diário Oficial da Cidade de São Paulo São Paulo n 172 p 44 2016 SOBRE A AUTORA Márcia de Oliveira Lupia Mestranda em Linguística na Universidade Cruzeiro do Sul UNICSUL Servidora pública na Universidade Federal do ABC UFABC
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108 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 MOOCA MEMÓRIA E IDENTIDADE Márcia de Oliveira Lupia RESUMO O processo de imigração ocorrido no século XIX na cidade de São Paulo trouxe à capital grupos de diversas nacionalidades que ajudaram a desenvolver os bairros Uma grande quantidade de italianos acabou se instalando no bairro da Mooca onde colaboraram não somente com seu trabalho braçal mas com a formação cultural do bairro As lembranças desses ancestrais são trazidas ao presente por meio de narrativas e transmitidas de geração para geração Essa memória das origens fortalece a identidade do bairro e a identificação dos seus residentes com a cultura italiana Utilizando o arcabouço teórico sobre memória e identidade de pesquisadores como Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 e Ecléa Bosi 2003 este estudo pretende demonstrar que a bemsucedida transmissão da memória do bairro devese ao ciclo memórianarrativastransmissãoidentidade A pesquisa perpassa a importância dos lugares como canvas memoriais evoca os tipos de memória enfatizandose a memória olfativa por estar muito presente no bairro e arremata expondo o funcionamento do ciclo acima mencionado As reflexões advindas deste estudo podem gerar futuras pesquisas sobre a memória coletiva e a identidade de bairros descendentes de grupos imigratórios em São Paulo abrindo outras perspectivas sobre a cultura e sociedade paulistanas PALAVRASCHAVE Mooca Memória Identidade Transmissão Narrativas ABSTRACT The immigration process that occurred in the nineteenth century in the city of São Paulo brought to the city groups of different nationalities who helped develop the neighborhoods A lot of Italians ended up settling in the neighborhood of Mooca which collaborated not only with his legwork but with the cultural background of the neighborhood The memories of these ancestors are brought to this through narratives and transmitted from generation to generation This memory of the origins strengthens the identity of the neighborhood and the identification of its residents with Italian culture Using the theoretical framework of memory and identity of researchers like Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 and Ecléa Bosi 2003 this study aims to demonstrate that the successful memory transmission in the neighborhood due to the cycle memory narratives transmissionidentity The research permeates the importance of places like memorial canvas and evokes the memory types with emphasis on the olfactory memory since it is very present in the neighborhood and concludes exposing the operation of the above cycle The resulting reflections of this study can generate future research on collective memory and 109 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 identity of the neighborhoods of immigration groups in São Paulo opening other perspectives on culture and society of this city KEYWORDS Mooca Memory Identity Transmission Narratives OS PRIMEIROS PASSOS Em meio às mudanças trazidas com o tempo parecenos que as lembranças do passado estão cada vez mais distantes de nós Entretanto existem alguns grupos de pessoas que mantêm viva a chama da transmissão da memória absorvendo de suas raízes as lembranças que os auxiliam a reconstruir suas identidades O grupo de residentes do bairro paulistano da Mooca possui essa característica e acaba fortalecendo a identificação com seus ancestrais imigrantes italianos Essa identificação pode ser vista em muitos dos imóveis e vilas que preservam as características de outrora nos jogos do clube do Juventus onde gerações de famílias se encontram para torcer pelo time grená da Rua Javari no falar dos mooquenses que deixam vazar em seus discursos um português cantado e com palavras italianas que só ficam completas com o gesticular que as acompanham Utilizando as teorias de memória e identidade de pesquisadores como Maurice Halbwachs 1990 Joël Candau 2014 Stuart Hall 2014 Michael Pollak 1992 e Ecléa Bosi 2003 pretendemos mostrar a importância da preservação dos espaços que são canvas memoriais dos sujeitos e da transmissão da memória através de narrativas as quais ganham força graças ao laço social A engrenagem memórianarrativastransmissãoidentidade é que faz da Mooca um bairro onde se respira nos dias de hoje uma identificação ainda muito forte com as origens por conta de um passado que está presente e é zelado e velado para alcançar o futuro UM POUCO SOBRE A MOOCA A Mooca situase na zona leste de São Paulo Fundada em 17 de agosto de 110 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 1556 leva em seu nome a herança indígena de seus primeiros habitantes Mooca é originária da palavra tupiguarani mũoka e significa casa de parente junção dos termos mũ parente e oka casa NAVARRO 2005 Seus 77km² de extensão e aproximadamente 63 mil habitantes possuem grande influência dos imigrantes vindos da Itália Com a imigração do século XIX São Paulo tornouse reduto de imigrantes europeus que vieram para o Brasil fazer a América em busca do trabalho advindo das plantações de café e da indústria Na Hospedaria de Imigrantes grande parte dos recémchegados obteve morada e cuidados médicos situavase na Mooca Ainda hoje o prédio é mantido no mesmo local abrigando as histórias das mais de 25 milhões de pessoas que por lá passaram como Museu da Imigração Grande parte dos imigrantes italianos fixouse no distrito A topografia plana da região o rio Tamanduateí cortando o bairro a implantação da ferrovia SantosJundiaí em 1867 e a concentração próxima de mão de obra imigrante na Hospedaria acabaram por alavancar o crescimento industrial na Mooca tornandoa de extrema importância no cenário paulistano Grandes indústrias ocuparam os solos mooquenses Companhia Antarctica Paulista Indústrias Reunidas Francisco Matarazzo Moinho MinettiGamba São Paulo Alpargatas Companhia União de Refinadores Café Moka Tecelagem do Cotonifício Rodolfo Crespi entre outras A última além de sua importância econômica sendo na época a maior tecelagem da América Latina historicamente foi palco da primeira greve de trabalhadores no Brasil em 1917 Hoje o edifício abriga em suas dependências um hipermercado mas mantém sua fachada restaurada de maneira semelhante à época de seu auge Não só de trabalho viviam os imigrantes o Jóquei Clube de SP teve o início de suas atividades na Mooca Construíram cinemas e teatro O Footing passeios feitos pelos jovens solteiros em busca de um flerte entre as Ruas Olímpio Portugal Visconde de Laguna e a Avenida Paes de Barros era muito popular O bairro teve ainda a construção do estádio de futebol da Rua Javari pela família de Rodolfo 111 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Crespi1 na época para diversão de seus operários onde até hoje são realizados jogos de futebol do Clube Atlético Juventus O time é tão popular quanto os canolli2 vendidos no estádio A gastronomia desenvolveuse regada às receitas italianas Festas como a de San Gennaro e estabelecimentos como a Doceria Di Cunto3 provém da época da imigração e são sucesso até hoje A Língua Portuguesa também sofreu muita influência dos italianos e consequentemente a Mooca adquiriu um sotaque e vocábulos que distingue seus moradores do resto dos paulistanos o mooquês Em 2009 um vereador da cidade apresentou ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico Cultural e Ambiental da cidade de São Paulo Conpresp o projeto para tombamento do mooquês como patrimônio cultural A Mooca é atualmente um bairro predominantemente residencial que abriga uma das maiores colônias de descendentes de italianos em São Paulo Muitos prédios foram construídos substituindo as casas das velhas vilas de operários e as fábricas Sua culinária italiana é recomendada e apreciada por diversas pessoas Seus moradores são conhecidos pelo fanatismo ao bairro pelo seu sotaque e pelas intermináveis conversas familiares que passaram de geração a geração nos almoços aos domingos ESPAÇO CANVAS DA MEMÓRIA A cidade de São Paulo cresceu em meio a uma avalanche de acontecimentos que passou a modificála desde o ciclo do café e os imigrantes vindos da Europa para tentar uma vida melhor nas lavouras à Revolução Industrial e desenvolvimento do comércio Abruptamente a onda da modernidade tentou levar consigo as velhas paisagens das praças das estreitas ruas de paralelepípedos dos 1 Importante imigrante italiano fixado na Mooca Fundou o Cotonifício Rodolfo Crespi onde funcionou o primeiro estabelecimento brasileiro de fiação industrial de algodão em grande escala 2 Doce tipicamente italiano da região da Sicília Consiste em uma massa frita em formato de cano recheada com creme à base de ricota ou baunilha 3 Famosa doceria do bairro da Mooca fundada em 1935 pelos irmãos Vicente Lorenzo Roberto e Alfredo Di Cunto 112 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 bondes e das casas nas vilas para trazer à tona os shoppings centers as gigantescas avenidas os carros e os enormes edifícios As famílias foram crescendo desde então fazendo a migração entre bairros amontoandose aos andares de edifícios residenciais desagregandose de sua antiga vizinhança e escravizandose à rotina casatrabalhocasa Esse é o cenário da grande maioria dos bairros da cidade Porém alguns deles tentaram se agarrar aos resquícios do passado a fim de manter as origens da época da imigração A manutenção e o tombamento de alguns lugares são prova disso Esse esforço de seus habitantes é muito significativo para a sua preservação identitária Existem regiõesmemória Vendeia Alsacia Cevenol ou cidades memória Jerusalém Roma etc e mesmo bairros onde se afirmam com força as identidades regionais ou locais CANDAU 2014 p 157 Nós seres humanos precisamos de um canvas para pintar os traços das lembranças que formarão nossa memória lugar onde a pincelaremos e a repincelaremos Maurice Halbwachs 1990 afirma que não há memória coletiva que não se desenvolva num quadro espacial e que o espaço é uma realidade que dura Joël Candau cita a premissa do espaço como fundamental para o exercício da memória Memória e a identidade se concentram em lugares e em lugares privilegiados quase sempre com um nome e que se constituem como referências perenes percebidas como um desafio ao tempo A razão fundamental de ser um lugar de memória observa Pierre Nora é a de deter o tempo bloquear o trabalho de esquecimento fixar um estado de coisas imortalizar a morte A função identitária desses lugares fica explícita na definição que é dada a eles pelo historiador toda unidade significativa de ordem material ou ideal da qual a vontade dos homens ou o trabalho do tempo fez um elemento simbólico do patrimônio memorial de uma comunidade qualquer Um lugar de memória é um lugar onde a memória trabalha o que mostrou Halbwachs desde 1941 em relação aos lugares santos De acordo com a sugestão de Willem Frijhoff um lugar de memória pode ser chamado em holandês geheugeboei ou seja baliza da memória que é ao mesmo tempo baliza identitária CANDAU 2014 p 156157 grifo do autor 113 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Entre espaços físicos e virtuais os moradores da Mooca elegeram lugares onde depositar as lembranças que fortalecem a memória do bairro e a identidade do seu grupo Esses lugares fazem a mediação entre passado e presente Um homem para evocar seu próprio passado tem frequentemente necessidade de fazer apelo às lembranças dos outros Ele se reporta a pontos de referência que existem fora dele e que são fixados pela sociedade Mas ainda o funcionamento da memória individual não é possível sem esses instrumentos que são as palavras e ideias que o indivíduo não inventou e que emprestou de seu meio HALBAWACHS 1990 p 54 Em maio de 2004 na Biblioteca Pública Affonso Taunay Mooca foram realizados encontros da oficina de memória para elaboração do espaço de relatos Mooca memória viva do site Portal do Envelhecimento O projeto envolveu dois profissionais da Subprefeitura da Mooca Carmem Silvia de Cápua pela Coordenadoria de Assistência Social e Desenvolvimento e Edriana Regina Consorti pela Unidade de Referência de Saúde ao idoso URSI da Mooca Colheramse relatos de idosos sobre suas memórias do bairro Os lugares aparecem em sua grande parte como referenciais de lembranças Foram extraídos desse sítio eletrônico trechos dos relatos de Sr Amaro e Sra Arlete sobre o salão de bailes Cupido Lembro também dos bailinhos realizados nas casas de famílias do bairro onde tinha jovens como na Rua João Caetano Hipódromo Pereira da Silva e num clube na casa de uma família na Rua Orville Derby chamado Cupido Nos reuníamos nos fins de semana para um baile muito gostoso onde rolava muita paquera ao som de boleros de Gregório Barros Cauby Peixoto e tantos outros Sr Amaro apud BRANDÃO 2004 não paginado Existia um clube chamado Cupido perto do Largo São Rafael e às vezes íamos ao baile nos divertir o que mais tocavam eram as músicas românticas como Blue Moon Only You os boleros samba canção Eram ritmos que eu mais gostava pois se dançava juntinho com o rosto colado e a gente se deixava levar pela música Sra Arlete apud BRANDÃO 2004 não paginado 114 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Nos depoimentos acima a marcação dos locais onde ocorreram os fatos corrobora a importância dos lugares para a evocação da lembrança Esse salão de bailes não aparece somente nas narrativas memoriais por conta do espaço de convívio ele é que permite trazer à tona as lembranças as marcas da memória dos jovens daquela época Os lugares são os cenários das lembranças de uma cidade de um bairro O caso do tombamento de uma das chaminés da Refinaria União em meio aos prédios do novo condomínio construído no local onde a fábrica funcionava servenos como outro exemplo O boom imobiliário que aconteceu em São Paulo no início nos anos 2000 atingiu o bairro da Mooca que viu a construção de diversos prédios em locais que antes abrigaram indústrias de grande porte como a Refinaria União na Rua Borges de Figueiredo FORTUNATO 2016 A indústria em questão fundada pelos irmãos Nicola e Giuseppe Carbone em 1910 mantevese em funcionamento no bairro até 2006 quando o prédio foi desativado Em 2012 uma construtora resolveu erguer um conjunto de prédios no local porém um grupo de moradores decidiu lutar para manter o patrimônio histórico Desse debate o Conpresp resolveu tombar uma das chaminés da refinaria como marca de sua importância no cenário industrial do país GOMES 2016 Para esses grupos de preservação O bairro é uma totalidade estruturada comum a todos que se vai percebendo pouco a pouco e que nos traz um sentido de identidade É um lugar nosso e um lugar nosso deve ter como ensina a Psicologia da Gestalt fechamento e proximidade de elementos deve ser mais denso que seu entorno e permitir a dialética da partida e do retorno Há nos habitantes do bairro o sentimento de pertencer a uma tradição a uma maneira de ser que anima a vida das ruas e das praças dos mercados e das esquinas A paisagem do bairro tem uma história conquistada numa longa adaptação BOSI 2013 p 7576 O sentimento de pertencimento dos habitantes do bairro da Mooca tem raízes italianas costumes festas dialetos culinária e aromas inesquecíveis 115 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 A MEMÓRIA DOS AROMAS As memórias individuais coletivas e históricas se interpenetram e se contaminam de maneira a desenhar a representação da identidade do grupo Um elemento muito importante nesse processo é a linguagem Mas não só de relatos escritos e orais formamse as memórias Tão pouco são restritas às imagens Ecléa Bosi 2003 sustenta que os sons de uma rua durante 24 horas no decorrer do tempo podem ser formadores de memória do grupo que está inserido nesse espaço Eles são responsáveis por gerar uma sequência identitária confortante aos seus moradores Claramente existem as memórias orais as visuais as auditivas e por que não as olfativas e as do paladar Os costumes italianos e as indústrias fizeram da Mooca um lugar rico nesses sentidos Recorrentemente nas leituras de relatos extraídos do Portal do Envelhecimento seção Mooca memória viva e do Portal da Mooca seção Eu me lembro sobre as lembranças do bairro o cheiro do café produzido no distrito foi personagem principal Houve identificação imediata por minha parte já que vivenciei tal experiência lembrome do aroma do café na Rua Borges de Figueiredo quando ia com meu avô à Doceria Di Cunto Essa lembrança é tão viva na minha memória que todas as vezes que passo por essa rua tenho a sensação de sentir o cheiro do café vindo da extinta fábrica Seguem mais relatos sobre a memória olfativa Lembrome ainda do café Seleto situado na Rua Padre Adelino exalando o cheiro de café moído a quase toda hora do dia Sua chaminé anunciava a moagem soltando uma fumacinha cheirosa formavase um corredor perfumado em toda a área A Rua Taquari tinha cheiro de anilina e outras químicas hoje ao passar no trecho sentimos o odor de tudo isto é o cheiro da Mooca recordação da Vila que foi e será sua memória Em 1956 conheci o cheiro da Mooca nos aromas das comidas principalmente o cheirinho dos panelaços de macarronada do bairro Sr Amaro apud BRANDÃO 2004 não paginado Falar sobre o cheiro da Mooca é falar do cheiro de fumaça quando os trens passavam pelas ruas dos Trilhos Um cheiro mais gostoso e agradável o do pó de café Sra Angelina apud BRANDÃO 2004 não paginado 116 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 Ao cheiro do café Sucesso misturavase o cheiro gostoso do açúcar União Das altas chaminés da Souza Cruz na Rua do Oratório saía o cheiro de fumo usado na fabricação de cigarros Ainda hoje conforme a direção do vento sentese o cheiro de doces feitos com coco das fábricas nas travessas da Rua do Hipódromo e da Rua Bresser Sra Shirley apud BRANDÃO 2004 não paginado Ainda lembrome dos sons dos odores e sabores da Mooca Os sons dos apitos das fábricas os sons dos vendedores de rua olha o piruliteiroooo o cheiro do refino do açúcar UNIÃO o cheiro da fábrica de bolacha RAUCCI os sabores dos pães e dos pães doces trazidos de porta em porta pelos padeiros em suas carroças Que saudades Sr Valdir Terezzino apud BRANDÃO 2004 não paginado A memória olfativa é articulada com outras lembranças agregandose às memórias que são responsáveis pela referência identitária dos habitantes do bairro A transmissão por meio de narrativas dos mais antigos e a sua preservação são de extrema importância nesse processo MEMÓRIANARRATIVASTRANSMISSÃOIDENTIDADE A linguagem tem papel fundamental nas interações humanas Os relatos das pessoas não possuem somente a função de trazer o passado para o presente são instrumentos pelos quais a memória é trazida à tona e a identidade é construída Rememorar é se narrar é fazer uma autoanalise Segundo Coracini Por meio da escrita o sujeito se coloca em cena se narra impregnado pela subjetividade constituinte das relações sociais que nos inserem desde que nascemos ou já no ventre materno no mundo préorganizado carregado de memória impulsionado pelos desejos culturalmente adquiridos e culturalmente recalcados 2005 p 23 apud GALLI 2010 p 61 A construção discursiva atribui os sentidos das lembranças rememoradas As conversas entre os mais velhos de uma família ou um grupo de vizinhos muito contribuem para esse processo de reconstrução da identidade Ademais quando as narrativas permanecem expostas em veículo de informação podem ser 117 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 acessadas a qualquer tempo por qualquer um podem garantir a continuidade na transmissão O sentimento de pertencimento do morador da Mooca é que faz suas memórias continuarem vivas mas não bastava apenas ter as memórias ou lembranças e guardálas para si Maurice Halbwachs 1990 diz que quanto mais compartilhada a memória mais ela permanece Daí a importância do papel da transmissão Sem essa mobilização da memória que é a transmissão já não há nem socialização nem educação e ao mesmo tempo se admitimos como diz E Leach que a cultura é uma tradição transmissível de comportamentos apreendidos toda identidade cultural se torna impossível CANDAU 2014 p 105 grifo do autor A transmissão é vital para a memória mesmo não sendo feita de maneira pura No entanto essa transmissão jamais será pura ou uma autêntica transfusão memorial ela não é assimilada como um legado de significados nem como a conservação de uma herança pois para ser útil às estratégias identitárias ela deve atuar no complexo jogo da reprodução e da invenção da restituição e da reconstrução da fidelidade e da traição da lembrança e do esquecimento A transmissão está por consequência no centro de qualquer abordagem antropológica da memória Sem ela a que poderia então servir a memória CANDAU 2014 p 106 grifo do autor Ainda sobre a questão da transmissão Candau questiona se memorizar serve para transmitir é o conteúdo transmitido ou o laço social que gera a transmissão 2014 p 106 Na Mooca o laço social O vínculo entre os familiares vizinhos donos dos pequenos comércios professores entre outros é vívido Os mooquenses se veem como uma grande família Quando um grupo está inserido numa parte do espaço ele transforma à sua imagem ao mesmo tempo em que se sujeita e se adapta às coisas materiais que a ele resistem Ele se fecha no quadro que constituiu HALBWACHS 1990 p 133 Da mesma maneira que os lugares os costumes a língua etc receberam as influências de seus moradores por gerações esses por sua vez foram sendo contaminados pelo bairro por suas 118 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 memórias Um hábito desse contágio por parcela significativa de seu grupo são as exaltações bairristas escritas em camisetas vestidas pelos moradores com frases como Sou da Mooca Bello Mooca é Mooca Eu amo a Mooca entre outras tantas que podem ser adquiridas em estabelecimentos no bairro e até por meio de web pages como a Camiseteria di Mooca4 Outra marca da identidade do bairro está ligada ao uso da língua Na Mooca por influência dos imigrantes italianos que vieram para trabalhar como operários nas indústrias da região a pronúncia de muitas palavras e alguns vocábulos acabaram dando origem ao que é chamado de mooquês A Língua Portuguesa foi afetada e esse dialeto cantado e italianado surgiu no bairro e perdura Comumente os moradores do bairro não utilizam o s de plural no final das palavras já que os italianos não o fazem em sua língua e os primeiros italianos da Mooca também não o faziam falando as pizza os trem entre outros Palavras como nonna são mais frequentes em referência à avó assim como empinar capuchetta no lugar de empinar pipa O sentimento de pertencimento a esse dialeto é tão grande que em 2009 o vereador Juscelino Gadelha enviou ao Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico e Ambiental da Cidade de São Paulo Conpresp um pedido de tombamento do sotaque da Mooca FAVORETTO 2011 Pensando em Stuart Hall e suas colocações sobre identidades nacionais e adaptando o conceito a grupos como de cidades ou bairros podemos ter uma explicação desse laço do mooquense ao seu bairro Nós só sabemos o que significa ser inglês devido ao modo como a inglesidade veio a ser representada HALL 2014 p 49 Só se sabe como é a Mooca pela forma como ela é vista em relação aos outros bairros Hall continua desenvolvendo as ideias e afirma que a identidade nacional é uma comunidade imaginada E os mooquenses afirmam que a Mooca não é um bairro é uma nação O ponto essencial desse empréstimo de ideias de Stuart Hall encontrase em narrativas nacionais A transmissão apoderase das narrativas com o intuito de fornecerem uma série de estórias imagens panoramas cenários eventos históricos símbolos e rituais nacionais que 4 Notese que o nome da empresa possui traços italianos em sua escrita maneira de registrar as origens italianas 119 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 representam as experiências partilhadas as perdas os triunfos e os desastres que dão sentido à nação HALL 2014 p 52 A fim de arrematar os fios da trama memórianarrativastransmissão identidade no bairro da Mooca recorremos a Michael Pollak 1992 Ele ressalta que a construção da identidade é um fenômeno que se produz em referência aos outros 1992 p 204 Ainda reforça a ligação indissolúvel entre memória e identidade A memória é um elemento constituinte do sentimento de identidade tanto individual como coletiva na medida em que ela é também um fator extremamente importante do sentimento de continuidade e de coerência de uma pessoa ou de um grupo em sua reconstrução de si POLLAK 1992 p 203 A matéria intitulada O mais bairrista dos bairros publicada na Folha Online em 30032007 5 foi escolhida com o objetivo de ilustrar a exposição acima a respeito do sentimento de pertencimento do grupo de moradores do bairro e do fenômeno de que a identidade é construída sempre com referência aos outros O subtítulo da matéria aponta a Mooca como sendo uma grande família e um dos melhores lugares para se viver em São Paulo segundo pesquisa do Datafolha Os entrevistados falavam sobre como é viver em um dos melhores bairros em São Paulo Algumas das frases desses relatos descrevem o sentimento de identidade construído pelos moradores do bairro Quem nasce ou vive aqui só se sente bem aqui O mooquense quando muda no máximo troca de quarteirão Somos bairristas sim E com muito orgulho Conservadores Também Acima de tudo a Mooca é um bairro onde todos se conhecem como uma irmandade Não conseguiria morar em outro lugar de São Paulo Minha origem história e todas as referências estão espalhadas e perpetuadas nessa terra Na mesma matéria o Professor de geografia da USP e especialista no bairro André Roberto Martin afirma A Mooca tem um histórico de luta social dentro de 5 Folha Online O mais bairrista dos bairros Artigo de Roberto Oliveira A matéria em questão foi selecionada por conter não somente relatos dos habitantes do bairro mas dados de pesquisas do Datafolha e colaboração de pesquisador especialista sobre o distrito 120 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 São Paulo Por isso seus moradores são tão orgulhosos de viver numa espécie de mundo à parte com identidade e códigos próprios A preservação de canvas memoriais no bairro funciona como suporte às lembranças e criam a ilusão de raízes identitárias confortando o sujeito As narrativas que evocam as origens as conquistas e as memórias do bairro e o laço social de seu grupo são responsáveis pela transmissão O ciclo memórianarrativa transmissãoidentidade é a engrenagem que torna a Mooca essa locomotiva que traz o passado ao presente e vai seguindo em direção ao futuro CONSIDERAÇÕES FINAIS Há uma esperança comum em um grupo de pessoas que humaniza seu bairro não permitindo que as mudanças trazidas com o tempo cortem todas as suas raízes com o passado elas procuram através da cultura exorcizar o fim do mundo que é o desastre de todo o projeto a dispersão a agonia da cidade a ruptura da vida cotidiana que nos é tão cara BOSI 2003 p 208 Trazer as memórias do passado dos ancestrais italianos que fizeram história e estória na Mooca é muito mais que apenas mostrálas às novas gerações Os mooquenses transmitemnas em narrativas memoriais em ações como a do tombamento da chaminé da Refinaria União ou do complexo da antiga cervejaria da Antarctica Paulista6 e em símbolos que fazem da Mooca a Mooca um dos poucos bairros onde os residentes têm a preocupação com a manutenção das lembranças de origem Esta pesquisa deixa reflexões sobre a importância do estudo da memória coletiva e da identidade de bairros que descendem de grupos imigratórios em São Paulo onde o processo de imigração deixou profundas marcas na cultura local O estudo dos processos de transmissão da memória bairro a bairro pode vir a nos levar a respostas de algumas perguntas sobre costumes cultura memória e identidade da cidade 6 Tombamento feito pelo Conpresp ocorreu em 17 de setembro de 2016 Processo 200701626263 121 ISSN 16762924 REVISTA MORPHEUS ESTUDOS INTERDISCIPLINARES EM MEMÓRIA SOCIAL RIO DE JANEIRO V 9 N 16 AGODEZ 2016 REFERÊNCIAS BOSI E O tempo vivo da memória ensaios de Psicologia Social São Paulo Ateliê 2003 BRANDÃO Vera Mooca memória viva In PORTAL DO ENVELHECIMENTO sua rede de comunicação e solidariedade São Paulo 2004 Disponível em httpwwwportaldoenvelhecimentocomvozdoleitoritem1678mooca memC3B3riaviva Acesso em 18 abr 2015 CAMISETERIA di Mooca São Paulo c2017 Disponível em httpwwwcamiseteriadimoocacombr Acesso em 10 out 2016 CANDAU J Memória e identidade São Paulo Contexto 2014 FAVORETTO B Na Mooca o dialeto é o Mooquês VejaSãoPaulo São Paulo 4 jun 2011 Disponível em httpvejaspabrilcombrmateriamoocadialeto moques Acesso em 02 out 2016 FORTUNATO Ivan Mooca ou como a verticalização devora a paisagem e a memória de um bairro Arquitextos São Paulo ano 12 n 14005 jan 2012 httpwwwvitruviuscombrrevistasreadarquitextos121404189 Acesso em 02 out 2016 GALLI F Escrita Reconstrução de vozes sentidos eus In ECKERTHOFF B M CORACINI MJ Orgs Escritura de si e alteridade no espaço papeltela alfabetização formação de professores línguas materna e estrangeira São Paulo Mercado das Letras 2010 p 5165 GOMES G São Paulo antiga a chaminé da Refinaria do Açúcar União Não siga um roteiro siga seus sonhos São Paulo 03 jun 2015 Disponível em httpsxglgomeswordpresscom20150603saopauloantigaachamineda refinariadoacucaruniao Acesso em 21 set 2016 HALBWACHS M Memória Coletiva São Paulo Vértice 1990 HALL S A identidade cultural na PósModernidade Rio de Janeiro DPA Editora 2014 MUSEU DA IMIGRAÇÂO DO ESTADO DE SÃO PAULO Histórico São Paulo 201 Disponível em httpmuseudaimigracaoorgbromuseuhistorico Acesso em 18 abr 2015 JOCKEY CLUB DE SÃO PAULO Jockey Club de São Paulo uma rica história São Paulo 20 Disponível em httpwwwjockeyspcombrhistoriaasp Acesso em 19 abr 2015 MOOCA In WIKIPÉDIA a enciclopédia livre Flórida Wikimedia Foundation 2015 Disponível em httpsptwikipediaorgwindexphptitleMoocaoldid43723979 Acesso em 18 abr 2015 NAVARRO E A Método Moderno de Tupi Antigo a língua do Brasil dos primeiros séculos 3 ed São Paulo Global 2005 OLIVEIRA Roberto de O mais bairrista dos bairros FolhaOnline São Paulo 30 mar 2007 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