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4411 Agenda 2030 saúde e sistemas alimentares em tempos de sindemia da vulnerabilização à transformação necessária 2030 Agenda health and food systems in times of syndemics from vulnerabilities to necessary changes Resumo O artigo uma mescla de ensaio e re visão narrativa analisa a relação entre a Agen da 2030 os sistemas alimentares e sua relevância para a saúde global e coletiva O conceito de sin demia contextualiza a pandemia de COVID19 em relação com a pobreza e com a injustiça so cial mas também revela a sinergia com outras pandemias relacionadas ao avanço do sistema alimentar global de desnutrição de obesidade e das mudanças climáticas as quais possuem forte influência do modelo dominante de agricultura Lançamos mão também de quatro conceitos es tratégicos para pensar a transição em direção a sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis sistema alimentar segurança alimentar e nu tricional SAN direito humano à alimentação adequada DHAA e agroecologia Em seguida cotejamos relatórios e dados internacionais que sistematizam estudos sobre as crescentes ameaças decorrentes do modelo dominante de agricultura frequentemente negadas por setores econômicos poderosos e grupos neoconservadores Também destacamos desafios colocados em diferentes esca las do global ao local para que políticas públicas e mobilizações sociais desenvolvidas nas últimas duas décadas possam resistir e se reinventar na construção de sociedades mais justas Palavraschave Desenvolvimento sustentável Alimento dieta e nutrição Promoção da saúde Agricultura sustentável Agroecologia Abstract This article an essay and narrative re view analyzes the relationship between the 2030 Agenda food systems and their relevance to glob al and collective health The concept of syndem ics contextualizes the COVID19 pandemic in relation to poverty and social injustice as it also reveals the synergy with other pandemics relat ed to the advancement of the global food system malnutrition obesity and climate change which all have strong influence of the dominant model of agriculture We also use four strategic concepts to think about the transition towards healthy and sustainable food systems food system food and nutrition security FNS human right to ade quate food HRAF and agroecology Then we gather international reports and data that sys tematize studies on the growing threats imposed by the dominant agricultural model often denied by powerful economic sectors and neoconservative groups We also highlight challenges imposed at different scales from global to local so that public policies and social mobilizations developed in the last two decades can resist and reinvent themselves in the construction of fairer societies Key words Sustainable development Diet food and nutrition Health promotion Sustainable ag riculture Agroecology André Campos Burigo httporcidorg0000000216406289 1 Marcelo Firpo Porto httpsorcidorg0000000290070584 2 DOI 101590141381232021261013482021 1 Vicepresidência de Ambiente Atenção e Promoção da Saúde Fundação Oswaldo Cruz Av Brasil 4365 Manguinhos 21040900 Rio de Janeiro RJ Brasil andreburigogmailcom 2 Núcleo Ecologias Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro RJ Brasil ARTIGO ARTICLE 4412 Burigo AC Porto MF Introdução Este artigo que mescla ensaio acadêmico e re visão narrativa busca lançar luz sobre a impor tância estratégica dos sistemas alimentares para a promoção da saúde em diferentes dimensões e escalas no diálogo com as grandes mudanças que vêm acontecendo no mundo e a Agenda de transformações necessárias pactuadas a nível global 20152030 Nesse sentido a partir de reflexões sobre a Agenda 2030 em conexão com conceitos como saúde global e sindemia buscase evidenciar a importância dos sistemas alimentares agroeco lógicos considerados simultaneamente susten táveis e promotores de dietas saudáveis para a promoção da saúde nas diferentes escalas local regional nacional e global A perspectiva da Agenda 2030 também in fluencia e serve de importante alicerce à noção de Saúde Global Esta pode ser considerada como uma questão emergente na Saúde Pública que congrega princípios éticopolíticos e conheci mentos voltados para enfrentar iniquidades em saúde no mundo globalizado Em termos aca dêmicos pode ser definida como uma área de caráter multiprofissional e interdisciplinar envol vendo questões e problemas de saúde supraterri toriais e multiescalares que extrapolam fronteiras geográficopolíticas nacionais Seus determinan tes sociais e ambientais podem ter origem em quaisquer lugares assim como as suas possíveis soluções necessitam de intervenções e acordos entre diversos atores sociais incluindo países governos e instituições internacionais públicas e privadas p3701 Consideramos esse tema estratégico para o potencial avanço do conjunto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ODS Para tanto apresentase ao longo do texto uma sistematiza ção de conceitos considerados centrais e privile giase como referências e fontes de informações dez relatórios internacionais produzidos desde a pactuação da Agenda 2030 Os documentos sele cionados apresentam sistematizações de literatu ra com análises sobre sistemas alimentares desde focos distintos e foram produzidos por diferen tes grupos internacionais de especialistas em se gurança alimentar e nutricional ou por especia listas em biodiversidade e mudanças climáticas a serviço de organizações vinculadas à ONU Con siderase que a revisão desses relatórios contribui para mapear o debate atual sobre uma proble mática ampla e complexa levantando questões e colaborando para a atualização do conhecimento em temas ainda pouco trabalhados em publica ções de artigos nos periódicos da saúde coletiva Os diversos estudos presentes nas referên cias selecionadas agregam um conjunto de evi dências científicas que ajudam a delinear um entendimento da perigosa situação que o siste ma alimentar dominante produz atualmente no mundo mas também propiciam consistência ar gumentativa sobre a relevância e as alternativas que impulsionam outros sistemas alimentares com destaque para a agroecologia Por fim ainda que de forma sintética apontamos aspectos crí ticos da realidade brasileira concluindose que ao lado da gravidade dos retrocessos em anda mento também existem potencialidades expres sas nas resistências e nos avanços em direção a sistemas alimentares agroecológicos Agenda 2030 conexões entre saúde e alimentação em tempos de sindemia Na 70ª Assembleia Geral da Nações Unidas ONU em setembro de 2015 representantes dos seus 193 Estadosmembros se comprome teram com a Resolução Transformando Nosso Mundo A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável Reconheceram que a erradicação da pobreza em todas as suas formas é o maior desafio global e um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável nas dimensões econômicas social e ambiental2 A Resolução tem respaldo em propósitos e princípios consagrados na Carta de fundação das Nações Unidas 1945 da Declaração Uni versal dos Direitos Humanos 1948 na Decla ração do Rio sobre o Meio Ambiente 1992 na Declaração do Milênio 2000 na Declaração fi nal da Conferência Rio20 2012 entre outros tratados e acordos internacionais O contexto da Rio20 e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 20002015 serviram de base para a for mulação da nova Agenda para os anos seguintes considerada mais participativa e envolvendo de zenas de países e diversos setores das sociedades A Agenda 2030 parte de um diagnóstico abran gente e incisivo dos desafios para a humanidade neste início do século XXI concluindo que a so brevivência de muitas sociedades e dos sistemas biológicos do planeta está em risco2 Bilhões de cidadãos continuam a viver na po breza e a eles é negada uma vida digna Há cres centes desigualdades dentro dos e entre os países Há enormes disparidades de oportunidades rique za e poder A desigualdade de gênero continua a ser um desafio fundamental O desemprego particu 4413 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 larmente entre os jovens é uma grande preocupa ção Ameaças globais de saúde desastres naturais mais frequentes e intensos conflitos em ascensão o extremismo violento o terrorismo e as crises huma nitárias relacionadas e o deslocamento forçado de pessoas ameaçam reverter grande parte do progres so do desenvolvimento feito nas últimas décadas O esgotamento dos recursos naturais e os impac tos negativos da degradação ambiental incluindo a desertificação secas a degradação dos solos a escassez de água doce e a perda de biodiversidade acrescentam e exacerbam a lista de desafios que a humanidade enfrenta A mudança climática é um dos maiores desafios do nosso tempo e seus efeitos negativos minam a capacidade de todos os países de alcançar o desenvolvimento sustentável p 6 Acrescentese ao cenário a tendência de ur banização crescente da população mundial que deve alcançar 70 em 2050 com um aumento em dois bilhões de habitantes3 Diante de desa fios tão contundentes os países presentes com prometeramse em angariar esforços transfor madores nos quinze anos seguintes tais como acabar com a fome combater as desigualdades construir sociedades pacíficas justas e inclusivas proteger os direitos humanos e promover a igual dade de gênero assegurar a proteção duradoura do planeta e seus recursos naturais A Agenda 2030 está organizada em 17 obje tivos de desenvolvimento sustentável ODS e 169 metas associadas com forte relação entre si e que devem ser analisadas de forma integrada e indissociável Esta compreensão é coerente com a perspectiva ampliada e socialmente produzida de saúde consagrada no Brasil na lei orgânica de saúde 80801990 de que saúde é socialmente produzida e se expressa de forma desigual em distintos grupos dadas as suas inserções na so ciedade Os processos saúdedoençacuidado e a distribuição de morbimortalidade num dado país ou região contém um conjunto de determi nantes e condicionantes nos quais as desigual dades sociais correspondem às iniquidades em saúde4 O atual contexto internacional coloca gran des barreiras para o avanço da Agenda 2030 dado o processo de fortalecimento do neolibera lismo e do neoconservadorismo em várias partes do mundo que ameaçam os valores da solidarie dade5 Isso afeta o compromisso da humanidade com os direitos humanos e a superação de injus tiças sociais econômicas e ambientais e abala diretamente os sistemas de proteção social o que inclui as políticas nacionais de saúde que impac tam diretamente o ODS 3 Saúde e BemEstar Apesar da dimensão global desta Agenda a estra tégia política para a implementação dos ODS é de responsabilidade nacional2 cabendo ao gover no de cada país determinar prioridades estrutu ras de governança monitoramento de resultados e formas de financiamento6 Um dos destaques da Agenda é o ODS 2 de dicado ao tema Fome Zero e Agricultura Susten tável Porém desde a Resolução de 2015 quando o mundo se comprometeu a acabar com a fome a insegurança alimentar melhorar a nutrição e pro mover a agricultura sustentável os dados indicam que não há o que se comemorar pelo contrário O número de pessoas afetadas pela fome tem au mentado lentamente desde 20147 no contexto de uma crise global de múltiplas dimensões social ética econômica democrática ecológica e sani tária Há um amplo reconhecimento que com a chegada e o avanço da pandemia de COVID19 as desigualdades e as vulnerabilidades sociais preexistentes têm se agravado afetando espe cialmente além dos grupos de risco com comor bidades certos países territórios e populações Destacamse os mais pobres negros indígenas trabalhadores precarizados e ainda os profissio nais de saúde que se encontram na linha de fren te do atendimento à população Nesse sentido autores como Boaventura Santos8 aponta a atual crise como civilizatória sendo a pandemia um marco que efetivamente inicia o tempo histórico do século XXI com seus desafios para a huma nidade Existem relações intrínsecas entre o conjun to de metas do ODS 2 Fome Zero e Agricultura Sustentável e do ODS 3 Saúde e BemEstar Isso fica evidente nas conexões entre as metas de acabar com a fome 21 e todas as formas de desnutrição 22 com aquelas de reduzir a taxa de mortalidade materna global 31 e de aca bar com as mortes evitáveis de recémnascidos e crianças menores de 5 anos 32 O tema da alimentação possui especial transversalidade no conjunto dos ODS sendo considerado funda mental para a saúde das pessoas e do planeta Há razoável consenso de que grande parte dos problemas sociais e sanitários no mundo será resolvida somente na medida em que diversas ações articuladas em múltiplas escalas garantam alimentação saudável acessível e de qualidade ao conjunto da população mundial O avanço da COVID19 e as diversas crises que assolam o país vem reforçando o conceito de sindemia9 o qual se aproxima do de vulne rabilidade10 amplamente usado pelas ciências 4414 Burigo AC Porto MF ambientais e da saúde desde os anos 1990 A vulnerabilidade é um conceito polissêmico de senvolvido por diversas disciplinas e campos de conhecimento voltados ao estudo de temas como desenvolvimento e sustentabilidade pobreza e segurança alimentar e nutricional desastres na turais e tecnológicos mudanças climáticas glo bais e problemas de saúde pública entre outros Ele é utilizado para analisar porque certos países regiões e grupos populacionais possuem conse quências ou impactos mais graves frente a even tos de características similares como desastres e epidemias Já o conceito de sindemia amplia e complexi fica os de epidemia e pandemia ao mesmo tem po que complementa o de vulnerabilidade Foi desenvolvido de forma interdisciplinar por epi demiologistas e antropólogos médicos nos EUA no diálogo entre a saúde a economia política e a ecologia política O conceito foi criado na década de 199011 a partir de trabalhos pioneiros realiza dos com populações de periferias urbanas mo radores de rua e usuários de drogas Posterior mente passou a ser usado num amplo espectro de problemas de saúde pública e saúde comunitária cujos efeitos das condições sociais interferem e agravam certas doenças combinadas em parti cular as crônico degenerativas e transmissíveis como diabetes hipertensão obesidade e HIV em associação com outros fatores de risco9 O conceito de sindemia possui forte conver gência com os princípios e bases conceituais da Saúde Coletiva incluindo o diálogo com a teoria da determinação social As pandemias relacio nadas à fome obesidade e mudanças climáticas foram considerados recentemente uma Sindemia Global12 pois interagem umas com as outras compartilham de determinantes socioambientais comuns e exercem uma influência mútua em sua carga de saúde para a sociedade Nesse sentido a COVID19 deve ser consi derada uma nova sindemia que se soma às an teriores sendo simultaneamente causa e conse quência que se retroalimentam numa perspectiva complexa tornando ainda mais difícil alcançar as metas negociadas globalmente pela Agenda 2030 Sistemas alimentares sustentáveis conceitoschave e documentos de referência Vem crescendo rapidamente o número de relatórios oficiais que pedem mudanças funda mentais nos sistemas alimentares para tornálos mais saudáveis sustentáveis e equitativos12 Com diferentes abordagens tais documentos têm ana lisado as relações complexas entre alimentação saúde meio ambiente e agricultura demonstran do a interdependência dos objetivos da Agenda 2030 em especial os ODS 2 e 3 As resoluções aprovadas pela Assembleia Ge ral da ONU que proclamaram as Década de Ação pela Nutrição 20162025 Década da Agricul tura Familiar 20192028 e Década para a Res tauração do Ecossistema 20212030 bem como a declaração das nações unidas sobre os direitos dos camponeses e de outras pessoas que traba lham em áreas rurais 2018 reforçam e estimu lam esforços para a transformação de sistemas alimentares ao mesmo tempo que indicam que relatórios internacionais seguirão se acumulando sobre o tema nos próximos anos Temas tão complexos exigem uma aborda gem sistêmica que incorpore conceitos estraté gicos desenvolvidos nas últimas décadas e no artigo destacamos quatro deles O primeiro é o de sistema alimentar compreendido como o conjunto de elementos ambiente pessoas in sumos processos infraestrutura instituições e organizações da sociedade civil dentre outros e atividades que se interrelacionam na produção processamento distribuição preparação e con sumo de alimentos o que inclui as características e os resultados dos sistemas socioeconômicos e ambientais dessas atividades13 Muitos autores consideram mais apropriado o termo Sistemas Agroalimentares Neste ensaio trataremos os termos como sinônimos e adotaremos sistemas alimentares que é a forma como tem sido mais adotado em relatórios internacionais documen tos de suporte para este texto Um sistema alimentar pode ser mais ou me nos complexo a depender da distância entre pro dutores e consumidores bem como o número de passagens por intermediários diversos incluindo comerciantes industriais e transportadores São constituídos por circuitos alimentares diversos e superpostos os quais podem formar desde um modelo de comunidades camponesas vivendo em autoconsumo em agricultura de subsistên cia passando por circuitos de mercados locais regionais eou nacionais com transformação dos alimentos ou não Em escalas maiores podem ser formados circuitos de economias planificadas com maior intervenção do Estado eou circuito internacional caso típico do comércio de com modities característico do agronegócio de expor tação o qual constitui o modelo hegemônico no Brasil em termos de poder econômico e político Em uma mesma região ou país vários circuitos podem funcionar ao mesmo tempo a depender 4415 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 dos produtos alimentícios das relações entre populações rurais e urbanas da penetração de grandes empresas e indústrias das características econômicas mais relacionadas ao mercado exter no ou interno ou ainda de aspectos ecológicos e culturais que conformam a complexidade dos circuitos alimentares em diferentes sociedades e agroecossistemas14 Considerase um sistema alimentar sustentá vel SAS aquele que cumpre sua função social isto é que proporciona Segurança Alimentar e Nutricional SAN para todas as pessoas sem comprometer as bases econômicas sociais e am bientais que geram segurança alimentar e nutri cional para as gerações futuras13 O conceito de SAN é o segundo estratégico por nós adotado Consagrado no Brasil desde 2006 no final do primeiro governo Lula como um dos marcos do seu Programa Fome Zero e consiste na realização do direito de todos ao aces so regular e permanente a alimentos de qualida de em quantidade suficiente sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais Tem como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental cultural econômica e social mente sustentáveis Art 315 Esse referencial foi construído com base na participação social formulação de políticas pú blicas e pesquisas acadêmicas que passam pela recriação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional Consea e desenvolvi mento do programa Fome Zero em 2003 e um conjunto de políticas públicas correlatas incluin do a realização da II Conferência Nacional de Se gurança Alimentar e Nutricional 2004 Todos esses processos sedimentaram as noções de sobe rania alimentar e de garantia ao direito humano à alimentação adequada e saudável fundamen tais para a organização de sistemas alimentares justos e sustentáveis16 O terceiro conceito estratégico é o de agroe cologia que tem ganhado reconhecimento global a partir de um conjunto significativo de evidên cias científicas e empíricas que contribuem para tornar efetivo o direito humano à alimentação adequada Este último completa o conjunto dos quatro conceitos estratégicos e é caracterizado a partir de suas cinco dimensões disponibilida de acessibilidade adequação sustentabilidade e participação17 A realização de dois Simpósios Internacionais sobre Agroecologia para a SAN organizados pela FAO em 2014 e 2018 bem como a III Conferência Internacional Agricultu ra e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada 2018 realizada no Brasil possuem no centro das reflexões a necessidade de mudanças no sis tema alimentar global e de aumentar a escala da agroecologia para atingir ODS18 A agroecologia pode ser compreendida como uma forma de redesenhar sistemas alimentares desde o estudo e manejo de agroecossistemas rurais ou urbanos até a mesa dos consumidores com o objetivo de alcançar sustentabilidade com preservação ambiental viabilidade econômica e justiça social Por meio de pesquisas e ações orientadas para a mudança de natureza transdis ciplinar intercultural e participativa a agroeco logia une ciência práticas agrícolas movimentos da sociedade civil e políticas públicas focadas na transformação social19 20 sendo estratégica no redesenho e transição dos sistemas e circuitos alimentares Selecionamos nesse artigo dez relatórios in ternacionais publicados entre 2016 e 2020 que contribuem com abordagens sobre sistemas ali mentares e possibilitam um diálogo transversal entre o ODS 2 da Agenda 2030 e a saúde São dois documentos de cada um dos três grupos in ternacionais de especialistas em SAN 1 Painel de Especialistas em SAN HLPE do Comitê de Segurança Alimentar MundialONU 2 Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Ali mentares Sustentáveis IPESFood 3 Comis são EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde Nos casos do HLPE e do IPESFood em que há mais relatórios publicados no período foram priorizados aqueles que trazem abordagens mais amplas de sistemas alimentares Adicionamos à seleção relatórios oficiais que contribuem com um panorama geral sobre sistemas alimenta res seja com focos mais em SAN e impactos de dietas a versão de 2020 de O estado da Segu rança Alimentar e Nutricional no Mundo e a de 2019 do Situação Mundial da Infância que tem como tema Crianças Alimento e Nutrição Por fim foram incluídos dois documentos que contribuem para a compreensão complexa e pro funda das relações entre sistemas alimentares e sustentabilidade ambiental um sobre mudanças climáticas outro sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos Quadro 1 A importância de sistemas alimentares para a Saúde Global e a Agenda 2030 Entre 1990 e meados da segunda década do século XXI houve avanços significativos na dimi nuição da proporção mundial de adultos e crian ças que sofrem de algum grau de desnutrição Ses 4416 Burigo AC Porto MF Quadro 1 Relatórios internacionais selecionados sobre Sistemas Alimentares por ano de publicação Autoria Título Ano IPESFood Da Uniformidade à Diversidade Mudança de paradigma da agricultura industrial para sistemas agroecológicos diversificados 2016 IPESFood Desvendando a relação alimentosaúde Abordando práticas economia política e relações de poder para construir sistemas alimentares saudáveis 2017 HLPE A nutrição e os sistemas alimentares 2018 Comissão EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde A sindemia global da obesidade desnutrição e mudanças climáticas 2019 Comissão EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde Alimentos no Antropoceno a Comissão EATLancet sobre dietas saudáveis a partir de sistemas alimentares sustentáveis 2019 HLPE Enfoques agroecológicos e outros enfoques inovadores em favor da sustentabilidade da agricultura e os sistemas alimentares que melhoram a segurança alimentar e nutriciona 2019 Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF Situação Mundial da Infância 2019 Crianças alimentação e nutrição Crescendo saudável em um mundo em transformação 2019 Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos IPBES Relatório de avaliação global sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos 2019 FAO OMS FIDA PMA e UNICEF O estado da segurança alimentar e nutricional no mundo Transformação dos sistemas alimentares para que promovam dietas acessíveis e saudáveis 2020 Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre o Cambio Climático IPCC A mudança climática e a terra Relatório especial do IPCC sobre mudanças climáticas desertificação degradação da terra gestão sustentável da terra segurança alimentar e fluxos de gases de efeito estufa em ecossistemas terrestres 2020 os títulos dos relatórios documentos desse quadro foram traduzidos de forma livre pelos autores FAO Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação OMS Organização Mundial da Saúde FIDA Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola PMA Programa Mundial de Alimentos Fonte Elaborado pelos autores senta países considerados em desenvolvimento cumpriram ou superaram as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 20002015 de reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem de fome21 Porém o número de pessoas afetadas por insegurança alimentar grave em ní vel mundial vem aumentando lentamente desde 2014 atingindo cerca de 750 milhões de pessoas em 20197 Estimativas para 2015 indicavam que cerca de dois bilhões de pessoas eram afetadas pela deficiência de micronutrientes DMNs ou fome oculta e outros quase dois bilhões por sobrepeso ou obesidade22 Há pelo menos quatro décadas a pandemia de obesidade vem mudando o padrão de má nutrição e atualmente avança em todas as regiões do mundo em ritmo constante afetando países de alta média e baixa renda7 12 A má nutrição em todas as suas formas in cluindo a desnutrição a obesidade e outros riscos alimentares para doenças crônicas não transmis síveis DCNTs representa atualmente a principal causa de doenças e mortes prematuras no mundo todo12 23 A Comissão The Lancet destaca que a obesidade e seus determinantes guardam relação com três das quatro principais causas de DCNTs no planeta incluindo doenças cardiovasculares diabetes tipo 2 e certos tipos de câncer p 17 e que os custos econômicos anuais globais da obe sidade são de aproximadamente US 2 trilhões 28 do PIB mundial12 As crianças e mulheres em gestação são par ticularmente vulneráveis a tripla carga da má nutrição desnutrição DMNs e sobrepeso que ameaça a sobrevivência e prejudica a capacidade 4417 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 Quadro 2 Como a tripla carga de má nutrição prejudica crianças adolescentes e mulheres Crianças e adolescentes Subnutrição desnutrição crônica baixa estatura para a idade e desnutrição aguda baixo peso para a altura Baixo crescimento infecção e morte Baixo desenvolvimento cognitivo falta de atenção escolar e desempenho escolar fraco Baixo potencial de ganho financeiro na vida adulta Fome oculta deficiências em micronutrientes Baixo crescimento e desenvolvimento Imunidade fraca e fraco desenvolvimento de tecidos Saúde precária e risco de morte Sobrepeso incluindo obesidade A curto prazo problemas cardiovasculares infecções e baixa autoestima A longo prazo obesidade diabetes e outros distúrbios metabólicos Mulheres grávidas Subnutrição déficit de crescimento e baixo peso Complicações perinatais Parto prematuro e baixo peso ao nascer Doenças crônicas para a criança ao longo da vida Fome oculta deficiências em micronutrientes Mortalidade e morbidade materna Defeitos no tubo neural em recémnascidos Parto prematuro baixo peso ao nascer e comprometimento do desenvolvimento cognitivo em recémnascidos Sobrepeso incluindo obesidade Diabetes gestacional e préeclâmpsia Complicações obstétricas Excesso de peso e doença crônica nas crianças ao longo da vida Fonte UNICEF 2019 de milhões de crianças e adolescentes de crescer e desenvolver todo o seu potencial impacta de forma relevante a saúde materna com conse quências imediatas e de médio e longo prazos Quadro 2 Pelo menos uma em cada três crian ças menores de 5 anos no mundo está desnutrida ou com sobrepeso e uma em cada duas sofre de fome oculta Esse cenário perpetua a pobreza en tre as gerações e as regiões tendo em vista que a maior carga de todas as formas de má nutrição em crianças e adolescentes se concentra nas co munidades mais pobres e marginalizadas23 Os relatórios analisados apontam que os sis temas alimentares globais na atualidade são inca pazes de oferecer dietas saudáveis122125 Tratase de um sistema hegemonizado pela agricultura capitalista global que conforma os impérios ali mentares formado pelo agronegócio produtor de commodities pelas corporações transnacio nais industriais e logísticas responsáveis pelos insumos beneficiamento transporte e comercia lização incluindo as cadeias de supermercados bem como o setor financeiro26 O controle sobre a produção processamen to e comercialização de alimentos assim como estratégias de marketing possibilitou as cor porações a induzirem o consumo de alimentos industrializados e processados que são ricos em gorduras trans açúcar sal e aditivos químicos que cresce na maioria dos países e corresponde a principal razão para o aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade A grande escala da produ ção e os benefícios fiscais obtidos em vários pa íses tendem a tornar mais baratos tais alimentos em relação aos alimentos nutritivos e frescos12 Estimouse que mais de três bilhões de pessoas no mundo não possuem recursos para pagar por dietas saudáveis que custam em média cinco vezes mais que as dietas que só atendem as neces sidades energéticas por meio de alimentos ricos em amido e pobres em nutrientes7 Os sistemas alimentares globais são também considerados a principal causa de mudança am biental no planeta A expansão das áreas agrícolas de pecuária e de florestais plantadas nas últimas décadas contribuíram para o desmatamento e aumentar as emissões líquidas de Gases de Efeito Estufa GEE com a degradação de ecossistemas naturais como florestas savanas pastagens na turais e pântanos e declínio da biodiversidade Atividades de agricultura silvicultura e outros usos da terra representam 1627 das emissões de GEE ou de 2137 se considerarmos ativida des de pré e pósprodução do sistema alimentar sendo que a pecuária em pastagens foi responsá vel por mais da metade das emissões antropogê nicas totais de N2O em 201427 O IPCC considera que a mudança climática já afetou a SAN devido ao aquecimento mudan ças nos padrões de precipitação e maior frequên 4418 Burigo AC Porto MF cia de alguns eventos extremos A produção de frutas e legumes elemento chave de dietas sau dáveis é particularmente vulnerável a mudan ças climáticas Extremos climáticos têm impac tos sobre meios de subsistência de comunidades mais pobres e vulneráveis contribuindo para as migrações Diversas pesquisas indicam que níveis aumentados de dióxido de carbono na atmosfera estão reduzindo os níveis de nutrientes em ali mentos12 A perda de biodiversidade é o limite planetá rio mais impactado pela ação humana e estima se que isso poderá prejudicar o progresso em até 80 das metas avaliadas dos ODS relacionadas à pobreza alimentação saúde água cidades clima oceanos e terra A produção de alimentos pode ser comprometida pela perda de polinizadores naturais pois 75 dos tipos de culturas alimen tares globais contam com a polinização animal mas os métodos agrícolas intensivos agrotóxico dependentes ameaçam extinguir esses tais serviços ecossistêmicos28 Considerase que toda dieta tem custos ocul tos e que guardam sinergias por suas consequên cias com a saúde ODS 3 e com o clima ODS 13 a depender dos alimentos consumidos e os sistemas alimentares dos quais fazem parte7 Uma abordagem a partir dos sistemas alimen tares permite identificar cinco canaischave que influenciam a saúde 1 riscos ocupacionais 2 contaminação ambiental 3 alimentos contami nados inseguros e alterados 4 padrões alimen tares não saudáveis e 5 insegurança alimentar O sistema alimentar global hegemônico contri bui decisivamente para tais canais provocando prejuízos humanos e econômicos que ameaçam o desenvolvimento da humanidade e a saúde do planeta A contaminação do solo ar e águas com fertilizantes agrotóxicos e antibióticos por exem plo expõe diferentes seres vivos a inúmeras con sequências Estimase que somente nos EUA por ano a resistência a antimicrobianos tenha gerado oito milhões de dias adicionais de internação e custos à saúde entre US 20 a 34 bilhões21 Os diferentes relatórios considerados neste artigo convergem para um consenso de que mu danças profundas e transformadoras no sistema alimentar global são necessárias e urgentes12 Os esforços dos diferentes grupos em analisar os dados de forma integrada e propor caminhos de transição reúne acúmulos bastante significativos A Comissão EATLancet defende um pacto de reorganização do sistema alimentar global com o compromisso de avançar para dietas que pro movam saúde planetária para quase dez bilhões de pessoas em 2050 A proposta envolve mais que dobrar o consumo de alimentos saudáveis como frutas vegetais legumes e nozes e uma redução de mais de 50 no consumo global de alimentos me nos saudáveis como açúcares adicionados e carne vermelha p 12 além de reduzir pela metade o desperdício de alimentos no mundo e conter para que a área destinada a produção de alimentos não avance24 A UNICEF reivindica que as neces sidades nutricionais das crianças devem estar no centro dos sistemas alimentares nacionais como condição fundamental para o desenvolvimento sustentável23 Contudo para isso será necessário transformar não apenas as bases argumentativas mas as políticas públicas econômicas e simbólicas dominantes que sustentam o atual regime alimen tar global29 O reconhecimento internacional crescente da importância da agroecologia para a promoção de sistemas alimentares sustentáveis se expressa de forma heterogênea em alguns dos relatórios Curiosamente a Comissão EATLancet sequer cita agroecologia em seus estudos O IPCC e o IPBES destacam em seus documentos as contribuições da agroecologia na promoção da SAN desde o manejo de agroecossistemas à reorganização de sistemas alimentares que possibilitam a mitigação das mudanças climáticas e a preservação da biodi versidade através de sistemas mais diversificados e resilientes26 27 O painel de especialistas em SAN vinculado a FAO HLPE defende um enfoque agroecológico de sistemas alimentares sustentáveis para promo ção do direito humano à alimentação adequada30 O HLPE apresenta 13 princípios da abordagem agroecológica Quadro 3 em diálogo com com pilados anteriores entre eles Os 10 elementos da Agroecologia31 com uma visão holística que co loca a agroecologia como alternativa central para o futuro do planeta e da humanidade As abordagens agroecológicas favorecem o uso de processos naturais limitam o uso de insumos adquiridos promovem ciclos fechados com externa lidades negativas mínimas e enfatizam a importân cia do conhecimento local e processos participativos que desenvolvem conhecimentos e práticas através da experiência bem como métodos científicos mais convencionais e enfrentam as desigualdades sociais As abordagens agroecológicas reconhecem que os sis temas agroalimentares são sistemas sociais e ecoló gicos combinados que vão da produção ao consumo de alimentos e envolvem a participação da ciência da prática e de um movimento social bem como sua integração holística para abordar a segurança ali mentar e a nutrição p 43 tradução nossa 4419 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 Quadro 3 Princípios agroecológicos desde compilação do HLPE Princípio Os 10 elementos da Agroecologia FAO Escala de aplicação Melhorar a eficiência na utilização de recursos 1 Reciclagem Utilizar preferivelmente recursos locais renováveis e na medida do possível fechar os ciclos de recursos de nutrientes e biomassa Reciclagem CA AA 2 Redução de insumos Reduzir ou eliminar a dependência de insumos comprados e aumentar a autossuficiência Eficiência AA SA Fortalecer a resiliência 3 Saúde dos solos Garantir a saúde e o funcionamento dos solos e fortalecêlos para melhorar o crescimento das plantas em particular fazendo a gestão da matéria orgânica e reforçando a atividade biológica do solo Diversidade Resiliência CA 4 Saúde animal Garantir a saúde e o bem estar dos animais Resiliência CA AA 5 Biodiversidade Manter e melhorar a diversidade de espécies diversidade funcional e recursos genéticos e assim manter a biodiversidade geral do agroecossistema no tempo e no espaço no campo nas atividades agrícolas e no território Diversidade CA AA 6 Sinergias Melhorar a interação ecológica positiva a sinergia a integração e a complementaridade entre os elementos dos agroecossistemas animais cultivos árvores solo e água Sinergia CA AA 7 Diversificação econômica Diversificar a renda agrícola garantindo que os pequenos agricultores tenham maior independência financeira e possibilidades de agregar valor ao mesmo tempo que lhes permite responder à demanda de consumidores Diversidade AA SA Garantir equidade e responsabilidade social 8 Criação conjunta de conhecimentos Melhorar a cocriação e o intercâmbio horizontal de conhecimento incluindo inovação local e científica especialmente por meio do intercâmbio entre agricultores Criação conjunta e intercâmbio de conhecimentos AA SA 9 Valores sociais e dietas Construir sistemas alimentares baseados na cultura identidade tradição e equidade social e de gênero das comunidades locais que proporcionem dietas saudáveis diversificadas e adequadas do ponto de vista sazonal e cultural Valores humanos e sociais Cultura e tradições alimentares AA SA 10 Imparcialidade Apoiar meios de subsistência decentes e sólidos para todos os atores envolvidos nos sistemas alimentares especialmente os pequenos produtores de alimentos com base no comércio justo no emprego equitativo e no tratamento imparcial dos direitos de propriedade intelectual Resiliência AA SA 11 Conectividade Garantir a proximidade e a confiança entre produtores e consumidores através da promoção de redes de distribuição justas e curtas e da reincorporação dos sistemas alimentares nas economias locais Economia circular e solidária AA 12 Governança da terra e dos recursos naturais Fortalecer os arranjos institucionais para melhorar o reconhecimento e o apoio aos agricultores familiares camponeses e pequenos produtores de alimentos como gestores sustentáveis dos recursos naturais e genéticos Governança responsável AA SA 13 Participação Promover a organização social e uma maior participação de produtores e consumidores no processo de tomada de decisão para apoiar a governança descentralizada e a gestão de sistemas agrícolas e alimentares adaptados às condições locais Governança responsável Resiliência SA Escala de aplicação CA campo AA atividade agropecuária agroecossistema SA sistema alimentar Fonte Traduzido e adaptado de HLPE 2019 O IPESFood atua com foco nos elementos que propiciam avanços da transição para siste mas alimentares agroecológicos SAA disponí veis em um conjunto de publicações Em estudo comparado ao sistema alimentar global22 ficam evidentes como os SAA produzem respostas a 4420 Burigo AC Porto MF um conjunto de problemas interligados com o potencial de contribuir para o avanço de várias das metas dos ODS Destacamos duas necessidades fundamentais para as mudanças almejadas 1 defender e for talecer a integridade da pesquisa científica como um bem público21 livre de conflitos de interesses com setores econômicos interessados em manter suas taxas de lucro a despeito dos impactos so ciais ambientais e sanitários Esforços interdisci plinares incluindo a Saúde Coletiva são necessá rios para melhor compreender e impulsionar os sistemas alimentares sustentáveis e a agroecolo gia 2 é necessário enfrentar as desigualdades de poder dentro dos sistemas alimentares em todos os níveis e diferentes dimensões o que inclui pro teger países e grupos populacionais vulneráveis a práticas exploratórias e predatórias de empresas de alimentos e bebidas25 Isso implica a participa ção da sociedade civil organizada em processos de governança horizontalizados Devese mobi lizar e garantir o protagonismo de mulheres jo vens consumidores entre outros Considerações finais Dietas de baixa qualidade nutricional são o prin cipal fator de risco para a carga global de doenças e estão intrinsecamente relacionadas com impac tos antrópicos nas mudanças climáticas e perda de biodiversidade aceleradas nas últimas décadas Os grupos populacionais mais pobres e vulnerá veis sofrem as maiores cargas desses impactos condenandoos à pobreza ao mesmo tempo que grupos poderosos concentram riqueza Os siste mas alimentares globais resultados do neolibe ralismo da expansão da agricultura industrial capitalista e dos impérios alimentares26 contri buem decisivamente para esse cenário Tratase portanto de um tema estratégico para a saúde global nas próximas décadas ou mesmo séculos A origem do conceito de sistemas alimentares é localizada no contexto da crise alimentar mun dial de 1972 que se desdobrou na Conferência Mundial de Alimentos de 1974 e na Declaração Universal para Eliminação Definitiva da Fome e da Desnutrição14 Após cinco décadas o pro blema não foi resolvido em que pese a atuação de vários países existe uma sindemia global de desnutrição obesidade e mudanças climáticas Para piorar o avanço da pandemia de COVID19 trouxe grandes repercussões para a saúde da hu manidade incluindo o agravamento de desigual dades e vulnerabilidades sociais preexistentes Estimase que dentre os efeitos negativos desta pandemia o número de pessoas em situação de fome no mundo em 2020 tenha aumentado entre 83 a 132 milhões7 Por suas dimensões continentais produção agropecuária concentração de riquezas naturais e ampla diversidade sociocultural o Brasil tem se destacado nos debates sobre sistemas alimenta res porém nos últimos anos tem havido retro cessos importantes A reprimarização da econo mia brasileira nas últimas décadas apoiada pelo Estado se expressou no boom de commodities com a expansão do gado de corte e os cultivos de soja milho e canadeaçúcar especialmente Tais monocultivos ameaçam ainda mais biomas ricos em sociobiodiversidade e vitais para os equilí brios hídrico e climático como a Amazônia e o Cerrado O Censo Agropecuário de 2017 revelou em comparação com o de 2006 as consequências negativas do avanço do agronegócio cujos agen tes econômicos lucram bilhões de reais por ano a concentração fundiária e de renda aumentou com redução de 95 dos estabelecimentos agro pecuários da agricultura familiar redução em postos de trabalho e pessoal ocupado aumento do uso de agrotóxicos e diminuição da produção de alimentos diversificados32 Do outro lado da cadeia de alimentos os grandes supermercados concentram cada vez mais poder e renda refor çando o consumo de alimentos ultraprocessados e contaminados33 em uma sociedade cada vez mais urbanizada Ao mesmo tempo agricultores familiares fornecedores de alimentos mais saudá veis deixam de ser apoiados O até recentemente ministro do meio am biente do Brasil defendeu que a atenção concen trada na COVID19 seja aproveitada para mu danças infralegais que orientam a atuação do Estado brasileiro O termo passada da boiada se reflete no desmonte da proteção ambiental nos recordes de liberação de agrotóxicos e no des matamento e queimadas que marcam o Governo Bolsonaro Este no primeiro dia de mandato ex tinguiu o Conselho Nacional de Segurança Ali mentar e Nutricional além de ter fragilizado um conjunto de políticas de SAN da qual o país já foi referência internacional34 Enquanto o agro negócio comemora seus ganhos econômicos a insegurança alimentar avança de forma acelera da no país35 No contexto da Década de Ações para o al cance dos ODS até 2030 a ONU realizará em 2021 a Cúpula Mundial de Sistemas Alimentares Relatores Especiais da ONU para o Direito à Ali mentação denunciaram a apropriação da condu 4421 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 ção da Cúpula por atores articulados ao Fórum Econômico Mundial com um esvaziamento do lugar central do Comitê de Segurança Alimentar Mundial da ONU enquanto espaço de governan ça dos sistemas alimentares globais Com a parti cipação da sociedade civil prejudicada a Cúpula tem sua legitimidade comprometida36 Se por um lado a Agenda 2030 representa um pacto em torno dos direitos humanos e da saúde do pla neta de outro o poder econômico concentrado em grandes corporações atua para obstaculizar o avanço das mudanças pactuadas sendo este um dos impasses centrais Mas existem esperanças a agroecologia re presenta um paradigma emergente que continua a avançar no século XXI sendo o movimento agroecológico brasileiro uma referência mun dial de mudança22 Destacamos os resultados de duas pesquisas realizadas em 2020 para ilustrar a riqueza dos esforços para a construção de sis temas alimentares locais diversos sustentáveis e saudáveis com participação decisiva do campo agroecológico O projeto Ação Coletiva Comida de Verdade aprendizagem em tempos de pandemia mapeou 310 iniciativas criadas ou adaptadas e adensadas durante os primeiros meses da pandemia no país Protagonizadas por organizações populares co letivos redes e movimentos sociais de todo o país do campo e da cidade essas experiências revelam a resiliência e a diversidade de sistemas alimenta res locais comprometidos em garantir comida de verdade37 A pesquisa Municípios Agroecológi cos e Políticas de Futuro iniciativas municipais de apoio à agricultura familiar e à agroecologia e de promoção da SAN identificou 721 iniciativas em 531 municípios de 26 estados que apoiam direta ou indiretamente a agroecologia A diver sidade dessas experiências envolve 41 temas38 que reforçam a coerência de pensar a agroecologia como ecologia de sistemas alimentares19 A análise dessas experiências revela estraté gias desafios perspectivas limites e avanços O trabalho em rede na condução dessas pesquisas comprometidas com a ação segue em curso bus cando promover interação entre essas experiên cias para fortalecimento e criação de novas ini ciativas e formas de produção de conhecimento Alimentar a humanidade com dietas nutri tivas garantir o direito ao meio ambiente equi librado reduzir as desigualdades e injustiças so ciais sanitárias e ambientais promover a saúde e o bem estar são metas complementares e interde pendentes que podem ser promovidas por meio de sistemas alimentares sustentáveis Defendese que os enfoques de segurança alimentar e nutri cional direito humano à alimentação adequada e agroecologia são fundamentais para a redemo cratização e a sustentabilidade dos sistemas ali mentares Tratase de uma abordagem orgânica para um conjunto de problemas e desafios que impactam a saúde global Neste artigo defendemos a importância dos sistemas alimentares para a saúde e a Agenda 2030 no contexto de uma sindemia que já estava em curso e se retroalimenta com a COVID19 Reconhecemos os limites desse artigo em tratar do conjunto de questões abordadas em relató rios tão complexos e complementares Há outros relatórios disponíveis dos mesmos grupos e or ganizações selecionados que complementam e ampliam contribuições críticas sobre os sistemas alimentares bem como recomendações para mu danças Questões como desperdício de alimentos contaminação dos oceanos exploração dos ali mentos do mar e a importância da pesca artesa nal são exemplos de lacunas desse texto Defen demos uma atenção mais estratégica do campo da saúde coletiva para os sistemas alimentares aproximando mais e mais seu envolvimento com o campo agroecológico no Brasil intensificando suas contribuições em prol das transformações necessárias para a saúde do planeta18 Colaboradores AC Burigo participou de todas as etapas do arti go e MFS Porto participou da análise e interpre tação dos dados revisão e aprovação da versão final do texto 4422 Burigo AC Porto MF Referências 1 Fortes PAC Ribeiro H Saúde Global em tempos de globalização Saúde e Sociedade 2014 232366375 2 Organização das Nações Unidas ONU Transfor mando nosso mundo A Agenda 2030 para o Desen volvimento Sustentável 2015 acessado 2020 nov 03 Disponível em httpsbrasilunorg 3 FAO Marco de la FAO para la Agenda Alimentaria Ur bana Roma FAO 2019 4 Barreto LM Desigualdades em Saúde uma perspec tiva global Cien Saude Colet 2020 22720972108 5 Machado CV Conill EM Lobato LVC International context and national policies challenges facing social protection and health systems in a changing edito rial Cien Saude Colet 2018 23720782078 6 Moreira MR Kastrup E Ribeiro JM Carvalho AI Braga AP O Brasil rumo a 2030 Percepções de espe cialistas brasileirosas em saúde sobre o potencial de o País cumprir os ODS Saude Debate 2019 43n spe 72235 7 FAO FIDA OMS PMA y UNICEF Versión resumida de El estado de la seguridad alimentaria y la nutrici ón en el mundo 2020 Transformación de los sistemas alimentarios para que promuevan dietas asequibles y saludables Roma FAO 2020 8 Santos BS A Cruel Pedagogia do Vírus Coimbra Al medina 2020 32 p 9 Horton R Offline COVID19 is not a pandemic The Lancet 2020 Correspondence 396874 10 Turner II BL Kasperson RE Matson PA McCarthy JJ Corell RW Christensen L Eckley N Kasperson JX Luers A Martello ML Polsky C Pulsipher A Schiller A A Framework for Vulnerability Analysis in Sustai nability Science Proceedings of the National Aca demy of Sciences of the United States of America 2003 1001480748079 11 Singer M Clair S Syndemics and Public Health Re conceptualizing Disease in BioSocial Context Medi cal Anthropology Quarterly 2003 174423441 12 Swinburn BA Kraak VI Allender S Atkins VJ Baker PI Bogard JR Brinsden H Calvillo A De Schutter O Devarajan R Ezzati M Friel S Goenka S Hammond RA Hastings G Hawkes C Herrero M Hovmand PS Howden M Jaacks LM Kapetanaki AB Kasman M Kuhnlein HV Kumanyika SK Larijani B Lobstein T Long MW Matsudo VKR Mills SDH Morgan G Morshed A Nece PM Pan A Patterson DW Sacks G Shekar M Simmons GL Smit W Tootee A Vande vijvere S Waterlander WE Wolfenden L Dietz WH The Global Syndemic of Obesity Undernutrition and Climate Change The Lancet Commission report The Lancet 2019 393791846 13 HLPE Las perdidas y el desperdício de alimentos en el contexto de sistemas alimentarios sostenibles Un infor me del Grupo de alto nivel de expertos en seguridade alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Ali mentaria Mudial Roma 2014 14 Chonchol J O Desafio Alimentar a fome no mundo São Paulo Marco Zero 1989 Agradecimento Agradecemos o apoio do Programa de PósGra duação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz ENSPFiocruz 4423 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 15 Brasil DecretoLei n 11346 de 15 de setembro de 2006 Dispõe sobre a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências Diário Oficial da União Brasília 18 set 2006 16 Almeida DAO Araujo ML Ornelas GM Agroecolo gia e sistemas alimentares em cidadesregiões refle xões acerca de redes internacionais e redes na Região Metropolitana de Belo Horizonte Cadernos de Agroe cologia 2020 152 17 ONU Consejo de Derechos Humanos La agroecolo gía y el derecho a la alimentación informe del Relator Especial sobre el derecho a la alimentación Sr Olivier De Schutter 2010 24p AHRC1649 Acceso 2020 Nov 02 Disponible en httpwwwsrfoodorges informesoficiales 18 Burigo AC Porto MFS Trajetórias e aproximações entre a saúde coletiva e a agroecologia Saude Debate 2019 43n spe 8248262 19 Francis C Lieblein G Gliessman S Breland TA Cre amer N Harwood R Salomonsson L Helenius J Ri ckerl D Salvador R Wiedenhoeft M Simmons S Al len P Altieri M Flora C Poincelot R Agroecology the ecology of food systems J Sust Agric 2003 22399118 20 Gliessman SR La agroecología Un movimiento global para la seguridad y la soberanía alimentaria In Agro ecología para la Seguridad Alimentaria y Nutricional Actas del Simposio Internacional de la FAO Roma Itália FAO 2014 21 IPESFood Unravelling the FoodHealth Nexus Ad dressing practices political economy and power rela tions to build healthier food systems La Global Alliance for the Future of Food y IPESFood 2017 22 IPESFood From uniformity to diversity a paradigm shift from industrial agriculture to diversified agroeco logical systems International Panel of Experts on Sus tainable Food systems 2016 23 Fundo de Emergência Internacional das Nações Uni das para a Infância UNICEF Crianças alimentação e nutrição crescendo saudável em um mundo em trans formação Sumário Executivo Situação Mundial da Infância 2019 24 Willett W Rockström J Loken B Springmann M Lang T Vermeulen S Garnett T Tilman D DeClerck F Wood A Jonell M Clark M Gordon LJ Fanzo J Hawkes C Zurayk R Rivera JA De Vries W Sibanda LM Afshin A Chaudhary A Herrero M Agustina R Branca F Lartey A Fan S Crona B Fox E Bignet V Troell M Lindahl T Singh S Cornell SE Reddy KS Narain S Nishtar S Murray CJL Food in the anthro pocene the EATLancet Commission on healthy diets from sustainable food systems The Lancet 2019 39310170 447492 25 HLPE La nutrición y los sistemas alimentarios Un in forme del Grupo de alto nivel de expertos en seguridad alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Ali mentaria Mundial Roma 2017 26 Ploeg JDVD Camponeses e impérios alimentares lutas por autonomia e sustentabilidade na era da globaliza ção Porto Alegre UFRGS Editora 2008 27 Intergovernmental Panel on Climate Change IPCC El cambio climático y la tierra Informe especial del IPCC sobre el cambio climático la desertificación la de gradación de las tierras la gestión sostenible de las tier ras la seguridad alimentaria y los flujos de gases de efec to invernadero en los ecosistemas terrestres Resumen para responsables de políticas Genebra IPCC 2020 28 Intergovernmental SciencePolicy Platform on Biodi versity and Ecosystem Services IPBES Summary for policymakers of the global assessment report on biodi versity and ecosystem services of the Intergovernmental SciencePolicy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services IPBES Bonn Germany IPBE 2019 56 pp cited 2020 Nov 03 Available from httpsipbesnet globalassessmentreportbiodiversityecosystemser vices 29 McMichael P Regimes Alimentares e Questões Agrá rias São Paulo Editora Unesp e Editora UFRG 2016 256p 30 High Level Panel of Experts HLPE Enfoques agroe cológicos y otros enfoques innovadores en favor de la sos tenibilidad de la agricultura y los sistemas alimentarios que mejoran la seguridad alimentaria y la nutrición Un informe del Grupo de alto nivel de expertos en segu ridad alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Alimentaria Mundial Roma HLPE 2019 31 FAO Los 10 elementos de la agroecología Guía para la transición hacia sistemas alimentarios y agrícolas soste nibles FAO 2018 acceso 2020 Nov 02 Disponible en httpwwwfaoorg3i9037esI9037ESpdf 32 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE Censo Agropecuário 2017 Resultados definitivos aces sado 2020 nov 03 Disponível em httpscensos ibgegovbragro2017resultadoscensoagro2017 html 33 Peres J Matioli V Donos do Mercado Como os grandes supermercados exploram trabalhadores fornecedores e a sociedade São Paulo Editora Elefante 2020 34 Organização PanAmericana da Saúde OPAS Sis temas alimentares e nutrição a experiência brasileira para enfrentar todas as formas de má nutrição Brasília OPAS 2017 35 Rede PENSSAN Insegurança alimentar e Covid19 no Brasil Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Se gurança Alimentar e Nutricional Relatório de pesquisa 2021 acessado 2020 nov 03 Disponível em http olheparaafomecombr 36 Fakhri M Elver H De Schutter O The UN food sys tems summit how not to respond to the urgency of re form New York 22 mar 2021 cited 2020 Nov 03 Available from httpwwwipsnewsnet202103un foodsystemssummitnotrespondurgencyreform 37 Viana P Mapeamento de experiências em comida de verdade destaca aprendizados essenciais sobre o abas tecimento alimentar no Brasil Ação Coletiva Comida de Verdade acessado 2020 nov 03 Disponível em httpsacaocoletivacomidadeverdadeorg 4424 Burigo AC Porto MF 38 Articulação Nacional de Agroecologia ANA Mu nicípios agroecológicos e políticas de futuro iniciativas municipais de apoio à agricultura familiar e à agroe cologia e de promoção da segurança alimentar e nutri cional Londres F Monteiro D Brochardt V Maselli M Jomalinis E organizadores Rio de Janeiro ANA 2021 Artigo apresentado em 20112020 Aprovado em 28062021 Versão final apresentada em 30062021 Editoreschefes Romeu Gomes Antônio Augusto Moura da Silva Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons BY CC
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Texto de pré-visualização
4411 Agenda 2030 saúde e sistemas alimentares em tempos de sindemia da vulnerabilização à transformação necessária 2030 Agenda health and food systems in times of syndemics from vulnerabilities to necessary changes Resumo O artigo uma mescla de ensaio e re visão narrativa analisa a relação entre a Agen da 2030 os sistemas alimentares e sua relevância para a saúde global e coletiva O conceito de sin demia contextualiza a pandemia de COVID19 em relação com a pobreza e com a injustiça so cial mas também revela a sinergia com outras pandemias relacionadas ao avanço do sistema alimentar global de desnutrição de obesidade e das mudanças climáticas as quais possuem forte influência do modelo dominante de agricultura Lançamos mão também de quatro conceitos es tratégicos para pensar a transição em direção a sistemas alimentares saudáveis e sustentáveis sistema alimentar segurança alimentar e nu tricional SAN direito humano à alimentação adequada DHAA e agroecologia Em seguida cotejamos relatórios e dados internacionais que sistematizam estudos sobre as crescentes ameaças decorrentes do modelo dominante de agricultura frequentemente negadas por setores econômicos poderosos e grupos neoconservadores Também destacamos desafios colocados em diferentes esca las do global ao local para que políticas públicas e mobilizações sociais desenvolvidas nas últimas duas décadas possam resistir e se reinventar na construção de sociedades mais justas Palavraschave Desenvolvimento sustentável Alimento dieta e nutrição Promoção da saúde Agricultura sustentável Agroecologia Abstract This article an essay and narrative re view analyzes the relationship between the 2030 Agenda food systems and their relevance to glob al and collective health The concept of syndem ics contextualizes the COVID19 pandemic in relation to poverty and social injustice as it also reveals the synergy with other pandemics relat ed to the advancement of the global food system malnutrition obesity and climate change which all have strong influence of the dominant model of agriculture We also use four strategic concepts to think about the transition towards healthy and sustainable food systems food system food and nutrition security FNS human right to ade quate food HRAF and agroecology Then we gather international reports and data that sys tematize studies on the growing threats imposed by the dominant agricultural model often denied by powerful economic sectors and neoconservative groups We also highlight challenges imposed at different scales from global to local so that public policies and social mobilizations developed in the last two decades can resist and reinvent themselves in the construction of fairer societies Key words Sustainable development Diet food and nutrition Health promotion Sustainable ag riculture Agroecology André Campos Burigo httporcidorg0000000216406289 1 Marcelo Firpo Porto httpsorcidorg0000000290070584 2 DOI 101590141381232021261013482021 1 Vicepresidência de Ambiente Atenção e Promoção da Saúde Fundação Oswaldo Cruz Av Brasil 4365 Manguinhos 21040900 Rio de Janeiro RJ Brasil andreburigogmailcom 2 Núcleo Ecologias Epistemologias e Promoção Emancipatória da Saúde Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca Fundação Oswaldo Cruz Rio de Janeiro RJ Brasil ARTIGO ARTICLE 4412 Burigo AC Porto MF Introdução Este artigo que mescla ensaio acadêmico e re visão narrativa busca lançar luz sobre a impor tância estratégica dos sistemas alimentares para a promoção da saúde em diferentes dimensões e escalas no diálogo com as grandes mudanças que vêm acontecendo no mundo e a Agenda de transformações necessárias pactuadas a nível global 20152030 Nesse sentido a partir de reflexões sobre a Agenda 2030 em conexão com conceitos como saúde global e sindemia buscase evidenciar a importância dos sistemas alimentares agroeco lógicos considerados simultaneamente susten táveis e promotores de dietas saudáveis para a promoção da saúde nas diferentes escalas local regional nacional e global A perspectiva da Agenda 2030 também in fluencia e serve de importante alicerce à noção de Saúde Global Esta pode ser considerada como uma questão emergente na Saúde Pública que congrega princípios éticopolíticos e conheci mentos voltados para enfrentar iniquidades em saúde no mundo globalizado Em termos aca dêmicos pode ser definida como uma área de caráter multiprofissional e interdisciplinar envol vendo questões e problemas de saúde supraterri toriais e multiescalares que extrapolam fronteiras geográficopolíticas nacionais Seus determinan tes sociais e ambientais podem ter origem em quaisquer lugares assim como as suas possíveis soluções necessitam de intervenções e acordos entre diversos atores sociais incluindo países governos e instituições internacionais públicas e privadas p3701 Consideramos esse tema estratégico para o potencial avanço do conjunto dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável ODS Para tanto apresentase ao longo do texto uma sistematiza ção de conceitos considerados centrais e privile giase como referências e fontes de informações dez relatórios internacionais produzidos desde a pactuação da Agenda 2030 Os documentos sele cionados apresentam sistematizações de literatu ra com análises sobre sistemas alimentares desde focos distintos e foram produzidos por diferen tes grupos internacionais de especialistas em se gurança alimentar e nutricional ou por especia listas em biodiversidade e mudanças climáticas a serviço de organizações vinculadas à ONU Con siderase que a revisão desses relatórios contribui para mapear o debate atual sobre uma proble mática ampla e complexa levantando questões e colaborando para a atualização do conhecimento em temas ainda pouco trabalhados em publica ções de artigos nos periódicos da saúde coletiva Os diversos estudos presentes nas referên cias selecionadas agregam um conjunto de evi dências científicas que ajudam a delinear um entendimento da perigosa situação que o siste ma alimentar dominante produz atualmente no mundo mas também propiciam consistência ar gumentativa sobre a relevância e as alternativas que impulsionam outros sistemas alimentares com destaque para a agroecologia Por fim ainda que de forma sintética apontamos aspectos crí ticos da realidade brasileira concluindose que ao lado da gravidade dos retrocessos em anda mento também existem potencialidades expres sas nas resistências e nos avanços em direção a sistemas alimentares agroecológicos Agenda 2030 conexões entre saúde e alimentação em tempos de sindemia Na 70ª Assembleia Geral da Nações Unidas ONU em setembro de 2015 representantes dos seus 193 Estadosmembros se comprome teram com a Resolução Transformando Nosso Mundo A Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável Reconheceram que a erradicação da pobreza em todas as suas formas é o maior desafio global e um requisito indispensável para o desenvolvimento sustentável nas dimensões econômicas social e ambiental2 A Resolução tem respaldo em propósitos e princípios consagrados na Carta de fundação das Nações Unidas 1945 da Declaração Uni versal dos Direitos Humanos 1948 na Decla ração do Rio sobre o Meio Ambiente 1992 na Declaração do Milênio 2000 na Declaração fi nal da Conferência Rio20 2012 entre outros tratados e acordos internacionais O contexto da Rio20 e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 20002015 serviram de base para a for mulação da nova Agenda para os anos seguintes considerada mais participativa e envolvendo de zenas de países e diversos setores das sociedades A Agenda 2030 parte de um diagnóstico abran gente e incisivo dos desafios para a humanidade neste início do século XXI concluindo que a so brevivência de muitas sociedades e dos sistemas biológicos do planeta está em risco2 Bilhões de cidadãos continuam a viver na po breza e a eles é negada uma vida digna Há cres centes desigualdades dentro dos e entre os países Há enormes disparidades de oportunidades rique za e poder A desigualdade de gênero continua a ser um desafio fundamental O desemprego particu 4413 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 larmente entre os jovens é uma grande preocupa ção Ameaças globais de saúde desastres naturais mais frequentes e intensos conflitos em ascensão o extremismo violento o terrorismo e as crises huma nitárias relacionadas e o deslocamento forçado de pessoas ameaçam reverter grande parte do progres so do desenvolvimento feito nas últimas décadas O esgotamento dos recursos naturais e os impac tos negativos da degradação ambiental incluindo a desertificação secas a degradação dos solos a escassez de água doce e a perda de biodiversidade acrescentam e exacerbam a lista de desafios que a humanidade enfrenta A mudança climática é um dos maiores desafios do nosso tempo e seus efeitos negativos minam a capacidade de todos os países de alcançar o desenvolvimento sustentável p 6 Acrescentese ao cenário a tendência de ur banização crescente da população mundial que deve alcançar 70 em 2050 com um aumento em dois bilhões de habitantes3 Diante de desa fios tão contundentes os países presentes com prometeramse em angariar esforços transfor madores nos quinze anos seguintes tais como acabar com a fome combater as desigualdades construir sociedades pacíficas justas e inclusivas proteger os direitos humanos e promover a igual dade de gênero assegurar a proteção duradoura do planeta e seus recursos naturais A Agenda 2030 está organizada em 17 obje tivos de desenvolvimento sustentável ODS e 169 metas associadas com forte relação entre si e que devem ser analisadas de forma integrada e indissociável Esta compreensão é coerente com a perspectiva ampliada e socialmente produzida de saúde consagrada no Brasil na lei orgânica de saúde 80801990 de que saúde é socialmente produzida e se expressa de forma desigual em distintos grupos dadas as suas inserções na so ciedade Os processos saúdedoençacuidado e a distribuição de morbimortalidade num dado país ou região contém um conjunto de determi nantes e condicionantes nos quais as desigual dades sociais correspondem às iniquidades em saúde4 O atual contexto internacional coloca gran des barreiras para o avanço da Agenda 2030 dado o processo de fortalecimento do neolibera lismo e do neoconservadorismo em várias partes do mundo que ameaçam os valores da solidarie dade5 Isso afeta o compromisso da humanidade com os direitos humanos e a superação de injus tiças sociais econômicas e ambientais e abala diretamente os sistemas de proteção social o que inclui as políticas nacionais de saúde que impac tam diretamente o ODS 3 Saúde e BemEstar Apesar da dimensão global desta Agenda a estra tégia política para a implementação dos ODS é de responsabilidade nacional2 cabendo ao gover no de cada país determinar prioridades estrutu ras de governança monitoramento de resultados e formas de financiamento6 Um dos destaques da Agenda é o ODS 2 de dicado ao tema Fome Zero e Agricultura Susten tável Porém desde a Resolução de 2015 quando o mundo se comprometeu a acabar com a fome a insegurança alimentar melhorar a nutrição e pro mover a agricultura sustentável os dados indicam que não há o que se comemorar pelo contrário O número de pessoas afetadas pela fome tem au mentado lentamente desde 20147 no contexto de uma crise global de múltiplas dimensões social ética econômica democrática ecológica e sani tária Há um amplo reconhecimento que com a chegada e o avanço da pandemia de COVID19 as desigualdades e as vulnerabilidades sociais preexistentes têm se agravado afetando espe cialmente além dos grupos de risco com comor bidades certos países territórios e populações Destacamse os mais pobres negros indígenas trabalhadores precarizados e ainda os profissio nais de saúde que se encontram na linha de fren te do atendimento à população Nesse sentido autores como Boaventura Santos8 aponta a atual crise como civilizatória sendo a pandemia um marco que efetivamente inicia o tempo histórico do século XXI com seus desafios para a huma nidade Existem relações intrínsecas entre o conjun to de metas do ODS 2 Fome Zero e Agricultura Sustentável e do ODS 3 Saúde e BemEstar Isso fica evidente nas conexões entre as metas de acabar com a fome 21 e todas as formas de desnutrição 22 com aquelas de reduzir a taxa de mortalidade materna global 31 e de aca bar com as mortes evitáveis de recémnascidos e crianças menores de 5 anos 32 O tema da alimentação possui especial transversalidade no conjunto dos ODS sendo considerado funda mental para a saúde das pessoas e do planeta Há razoável consenso de que grande parte dos problemas sociais e sanitários no mundo será resolvida somente na medida em que diversas ações articuladas em múltiplas escalas garantam alimentação saudável acessível e de qualidade ao conjunto da população mundial O avanço da COVID19 e as diversas crises que assolam o país vem reforçando o conceito de sindemia9 o qual se aproxima do de vulne rabilidade10 amplamente usado pelas ciências 4414 Burigo AC Porto MF ambientais e da saúde desde os anos 1990 A vulnerabilidade é um conceito polissêmico de senvolvido por diversas disciplinas e campos de conhecimento voltados ao estudo de temas como desenvolvimento e sustentabilidade pobreza e segurança alimentar e nutricional desastres na turais e tecnológicos mudanças climáticas glo bais e problemas de saúde pública entre outros Ele é utilizado para analisar porque certos países regiões e grupos populacionais possuem conse quências ou impactos mais graves frente a even tos de características similares como desastres e epidemias Já o conceito de sindemia amplia e complexi fica os de epidemia e pandemia ao mesmo tem po que complementa o de vulnerabilidade Foi desenvolvido de forma interdisciplinar por epi demiologistas e antropólogos médicos nos EUA no diálogo entre a saúde a economia política e a ecologia política O conceito foi criado na década de 199011 a partir de trabalhos pioneiros realiza dos com populações de periferias urbanas mo radores de rua e usuários de drogas Posterior mente passou a ser usado num amplo espectro de problemas de saúde pública e saúde comunitária cujos efeitos das condições sociais interferem e agravam certas doenças combinadas em parti cular as crônico degenerativas e transmissíveis como diabetes hipertensão obesidade e HIV em associação com outros fatores de risco9 O conceito de sindemia possui forte conver gência com os princípios e bases conceituais da Saúde Coletiva incluindo o diálogo com a teoria da determinação social As pandemias relacio nadas à fome obesidade e mudanças climáticas foram considerados recentemente uma Sindemia Global12 pois interagem umas com as outras compartilham de determinantes socioambientais comuns e exercem uma influência mútua em sua carga de saúde para a sociedade Nesse sentido a COVID19 deve ser consi derada uma nova sindemia que se soma às an teriores sendo simultaneamente causa e conse quência que se retroalimentam numa perspectiva complexa tornando ainda mais difícil alcançar as metas negociadas globalmente pela Agenda 2030 Sistemas alimentares sustentáveis conceitoschave e documentos de referência Vem crescendo rapidamente o número de relatórios oficiais que pedem mudanças funda mentais nos sistemas alimentares para tornálos mais saudáveis sustentáveis e equitativos12 Com diferentes abordagens tais documentos têm ana lisado as relações complexas entre alimentação saúde meio ambiente e agricultura demonstran do a interdependência dos objetivos da Agenda 2030 em especial os ODS 2 e 3 As resoluções aprovadas pela Assembleia Ge ral da ONU que proclamaram as Década de Ação pela Nutrição 20162025 Década da Agricul tura Familiar 20192028 e Década para a Res tauração do Ecossistema 20212030 bem como a declaração das nações unidas sobre os direitos dos camponeses e de outras pessoas que traba lham em áreas rurais 2018 reforçam e estimu lam esforços para a transformação de sistemas alimentares ao mesmo tempo que indicam que relatórios internacionais seguirão se acumulando sobre o tema nos próximos anos Temas tão complexos exigem uma aborda gem sistêmica que incorpore conceitos estraté gicos desenvolvidos nas últimas décadas e no artigo destacamos quatro deles O primeiro é o de sistema alimentar compreendido como o conjunto de elementos ambiente pessoas in sumos processos infraestrutura instituições e organizações da sociedade civil dentre outros e atividades que se interrelacionam na produção processamento distribuição preparação e con sumo de alimentos o que inclui as características e os resultados dos sistemas socioeconômicos e ambientais dessas atividades13 Muitos autores consideram mais apropriado o termo Sistemas Agroalimentares Neste ensaio trataremos os termos como sinônimos e adotaremos sistemas alimentares que é a forma como tem sido mais adotado em relatórios internacionais documen tos de suporte para este texto Um sistema alimentar pode ser mais ou me nos complexo a depender da distância entre pro dutores e consumidores bem como o número de passagens por intermediários diversos incluindo comerciantes industriais e transportadores São constituídos por circuitos alimentares diversos e superpostos os quais podem formar desde um modelo de comunidades camponesas vivendo em autoconsumo em agricultura de subsistên cia passando por circuitos de mercados locais regionais eou nacionais com transformação dos alimentos ou não Em escalas maiores podem ser formados circuitos de economias planificadas com maior intervenção do Estado eou circuito internacional caso típico do comércio de com modities característico do agronegócio de expor tação o qual constitui o modelo hegemônico no Brasil em termos de poder econômico e político Em uma mesma região ou país vários circuitos podem funcionar ao mesmo tempo a depender 4415 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 dos produtos alimentícios das relações entre populações rurais e urbanas da penetração de grandes empresas e indústrias das características econômicas mais relacionadas ao mercado exter no ou interno ou ainda de aspectos ecológicos e culturais que conformam a complexidade dos circuitos alimentares em diferentes sociedades e agroecossistemas14 Considerase um sistema alimentar sustentá vel SAS aquele que cumpre sua função social isto é que proporciona Segurança Alimentar e Nutricional SAN para todas as pessoas sem comprometer as bases econômicas sociais e am bientais que geram segurança alimentar e nutri cional para as gerações futuras13 O conceito de SAN é o segundo estratégico por nós adotado Consagrado no Brasil desde 2006 no final do primeiro governo Lula como um dos marcos do seu Programa Fome Zero e consiste na realização do direito de todos ao aces so regular e permanente a alimentos de qualida de em quantidade suficiente sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais Tem como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental cultural econômica e social mente sustentáveis Art 315 Esse referencial foi construído com base na participação social formulação de políticas pú blicas e pesquisas acadêmicas que passam pela recriação do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional Consea e desenvolvi mento do programa Fome Zero em 2003 e um conjunto de políticas públicas correlatas incluin do a realização da II Conferência Nacional de Se gurança Alimentar e Nutricional 2004 Todos esses processos sedimentaram as noções de sobe rania alimentar e de garantia ao direito humano à alimentação adequada e saudável fundamen tais para a organização de sistemas alimentares justos e sustentáveis16 O terceiro conceito estratégico é o de agroe cologia que tem ganhado reconhecimento global a partir de um conjunto significativo de evidên cias científicas e empíricas que contribuem para tornar efetivo o direito humano à alimentação adequada Este último completa o conjunto dos quatro conceitos estratégicos e é caracterizado a partir de suas cinco dimensões disponibilida de acessibilidade adequação sustentabilidade e participação17 A realização de dois Simpósios Internacionais sobre Agroecologia para a SAN organizados pela FAO em 2014 e 2018 bem como a III Conferência Internacional Agricultu ra e Alimentação em uma Sociedade Urbanizada 2018 realizada no Brasil possuem no centro das reflexões a necessidade de mudanças no sis tema alimentar global e de aumentar a escala da agroecologia para atingir ODS18 A agroecologia pode ser compreendida como uma forma de redesenhar sistemas alimentares desde o estudo e manejo de agroecossistemas rurais ou urbanos até a mesa dos consumidores com o objetivo de alcançar sustentabilidade com preservação ambiental viabilidade econômica e justiça social Por meio de pesquisas e ações orientadas para a mudança de natureza transdis ciplinar intercultural e participativa a agroeco logia une ciência práticas agrícolas movimentos da sociedade civil e políticas públicas focadas na transformação social19 20 sendo estratégica no redesenho e transição dos sistemas e circuitos alimentares Selecionamos nesse artigo dez relatórios in ternacionais publicados entre 2016 e 2020 que contribuem com abordagens sobre sistemas ali mentares e possibilitam um diálogo transversal entre o ODS 2 da Agenda 2030 e a saúde São dois documentos de cada um dos três grupos in ternacionais de especialistas em SAN 1 Painel de Especialistas em SAN HLPE do Comitê de Segurança Alimentar MundialONU 2 Painel Internacional de Especialistas em Sistemas Ali mentares Sustentáveis IPESFood 3 Comis são EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde Nos casos do HLPE e do IPESFood em que há mais relatórios publicados no período foram priorizados aqueles que trazem abordagens mais amplas de sistemas alimentares Adicionamos à seleção relatórios oficiais que contribuem com um panorama geral sobre sistemas alimenta res seja com focos mais em SAN e impactos de dietas a versão de 2020 de O estado da Segu rança Alimentar e Nutricional no Mundo e a de 2019 do Situação Mundial da Infância que tem como tema Crianças Alimento e Nutrição Por fim foram incluídos dois documentos que contribuem para a compreensão complexa e pro funda das relações entre sistemas alimentares e sustentabilidade ambiental um sobre mudanças climáticas outro sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos Quadro 1 A importância de sistemas alimentares para a Saúde Global e a Agenda 2030 Entre 1990 e meados da segunda década do século XXI houve avanços significativos na dimi nuição da proporção mundial de adultos e crian ças que sofrem de algum grau de desnutrição Ses 4416 Burigo AC Porto MF Quadro 1 Relatórios internacionais selecionados sobre Sistemas Alimentares por ano de publicação Autoria Título Ano IPESFood Da Uniformidade à Diversidade Mudança de paradigma da agricultura industrial para sistemas agroecológicos diversificados 2016 IPESFood Desvendando a relação alimentosaúde Abordando práticas economia política e relações de poder para construir sistemas alimentares saudáveis 2017 HLPE A nutrição e os sistemas alimentares 2018 Comissão EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde A sindemia global da obesidade desnutrição e mudanças climáticas 2019 Comissão EATLancet sobre Alimentos Planeta Saúde Alimentos no Antropoceno a Comissão EATLancet sobre dietas saudáveis a partir de sistemas alimentares sustentáveis 2019 HLPE Enfoques agroecológicos e outros enfoques inovadores em favor da sustentabilidade da agricultura e os sistemas alimentares que melhoram a segurança alimentar e nutriciona 2019 Fundo das Nações Unidas para a Infância UNICEF Situação Mundial da Infância 2019 Crianças alimentação e nutrição Crescendo saudável em um mundo em transformação 2019 Plataforma Intergovernamental de Política Científica sobre Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos IPBES Relatório de avaliação global sobre biodiversidade e serviços ecossistêmicos 2019 FAO OMS FIDA PMA e UNICEF O estado da segurança alimentar e nutricional no mundo Transformação dos sistemas alimentares para que promovam dietas acessíveis e saudáveis 2020 Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre o Cambio Climático IPCC A mudança climática e a terra Relatório especial do IPCC sobre mudanças climáticas desertificação degradação da terra gestão sustentável da terra segurança alimentar e fluxos de gases de efeito estufa em ecossistemas terrestres 2020 os títulos dos relatórios documentos desse quadro foram traduzidos de forma livre pelos autores FAO Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação OMS Organização Mundial da Saúde FIDA Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola PMA Programa Mundial de Alimentos Fonte Elaborado pelos autores senta países considerados em desenvolvimento cumpriram ou superaram as metas dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio 20002015 de reduzir pela metade a proporção de pessoas que sofrem de fome21 Porém o número de pessoas afetadas por insegurança alimentar grave em ní vel mundial vem aumentando lentamente desde 2014 atingindo cerca de 750 milhões de pessoas em 20197 Estimativas para 2015 indicavam que cerca de dois bilhões de pessoas eram afetadas pela deficiência de micronutrientes DMNs ou fome oculta e outros quase dois bilhões por sobrepeso ou obesidade22 Há pelo menos quatro décadas a pandemia de obesidade vem mudando o padrão de má nutrição e atualmente avança em todas as regiões do mundo em ritmo constante afetando países de alta média e baixa renda7 12 A má nutrição em todas as suas formas in cluindo a desnutrição a obesidade e outros riscos alimentares para doenças crônicas não transmis síveis DCNTs representa atualmente a principal causa de doenças e mortes prematuras no mundo todo12 23 A Comissão The Lancet destaca que a obesidade e seus determinantes guardam relação com três das quatro principais causas de DCNTs no planeta incluindo doenças cardiovasculares diabetes tipo 2 e certos tipos de câncer p 17 e que os custos econômicos anuais globais da obe sidade são de aproximadamente US 2 trilhões 28 do PIB mundial12 As crianças e mulheres em gestação são par ticularmente vulneráveis a tripla carga da má nutrição desnutrição DMNs e sobrepeso que ameaça a sobrevivência e prejudica a capacidade 4417 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 Quadro 2 Como a tripla carga de má nutrição prejudica crianças adolescentes e mulheres Crianças e adolescentes Subnutrição desnutrição crônica baixa estatura para a idade e desnutrição aguda baixo peso para a altura Baixo crescimento infecção e morte Baixo desenvolvimento cognitivo falta de atenção escolar e desempenho escolar fraco Baixo potencial de ganho financeiro na vida adulta Fome oculta deficiências em micronutrientes Baixo crescimento e desenvolvimento Imunidade fraca e fraco desenvolvimento de tecidos Saúde precária e risco de morte Sobrepeso incluindo obesidade A curto prazo problemas cardiovasculares infecções e baixa autoestima A longo prazo obesidade diabetes e outros distúrbios metabólicos Mulheres grávidas Subnutrição déficit de crescimento e baixo peso Complicações perinatais Parto prematuro e baixo peso ao nascer Doenças crônicas para a criança ao longo da vida Fome oculta deficiências em micronutrientes Mortalidade e morbidade materna Defeitos no tubo neural em recémnascidos Parto prematuro baixo peso ao nascer e comprometimento do desenvolvimento cognitivo em recémnascidos Sobrepeso incluindo obesidade Diabetes gestacional e préeclâmpsia Complicações obstétricas Excesso de peso e doença crônica nas crianças ao longo da vida Fonte UNICEF 2019 de milhões de crianças e adolescentes de crescer e desenvolver todo o seu potencial impacta de forma relevante a saúde materna com conse quências imediatas e de médio e longo prazos Quadro 2 Pelo menos uma em cada três crian ças menores de 5 anos no mundo está desnutrida ou com sobrepeso e uma em cada duas sofre de fome oculta Esse cenário perpetua a pobreza en tre as gerações e as regiões tendo em vista que a maior carga de todas as formas de má nutrição em crianças e adolescentes se concentra nas co munidades mais pobres e marginalizadas23 Os relatórios analisados apontam que os sis temas alimentares globais na atualidade são inca pazes de oferecer dietas saudáveis122125 Tratase de um sistema hegemonizado pela agricultura capitalista global que conforma os impérios ali mentares formado pelo agronegócio produtor de commodities pelas corporações transnacio nais industriais e logísticas responsáveis pelos insumos beneficiamento transporte e comercia lização incluindo as cadeias de supermercados bem como o setor financeiro26 O controle sobre a produção processamen to e comercialização de alimentos assim como estratégias de marketing possibilitou as cor porações a induzirem o consumo de alimentos industrializados e processados que são ricos em gorduras trans açúcar sal e aditivos químicos que cresce na maioria dos países e corresponde a principal razão para o aumento da prevalência de sobrepeso e obesidade A grande escala da produ ção e os benefícios fiscais obtidos em vários pa íses tendem a tornar mais baratos tais alimentos em relação aos alimentos nutritivos e frescos12 Estimouse que mais de três bilhões de pessoas no mundo não possuem recursos para pagar por dietas saudáveis que custam em média cinco vezes mais que as dietas que só atendem as neces sidades energéticas por meio de alimentos ricos em amido e pobres em nutrientes7 Os sistemas alimentares globais são também considerados a principal causa de mudança am biental no planeta A expansão das áreas agrícolas de pecuária e de florestais plantadas nas últimas décadas contribuíram para o desmatamento e aumentar as emissões líquidas de Gases de Efeito Estufa GEE com a degradação de ecossistemas naturais como florestas savanas pastagens na turais e pântanos e declínio da biodiversidade Atividades de agricultura silvicultura e outros usos da terra representam 1627 das emissões de GEE ou de 2137 se considerarmos ativida des de pré e pósprodução do sistema alimentar sendo que a pecuária em pastagens foi responsá vel por mais da metade das emissões antropogê nicas totais de N2O em 201427 O IPCC considera que a mudança climática já afetou a SAN devido ao aquecimento mudan ças nos padrões de precipitação e maior frequên 4418 Burigo AC Porto MF cia de alguns eventos extremos A produção de frutas e legumes elemento chave de dietas sau dáveis é particularmente vulnerável a mudan ças climáticas Extremos climáticos têm impac tos sobre meios de subsistência de comunidades mais pobres e vulneráveis contribuindo para as migrações Diversas pesquisas indicam que níveis aumentados de dióxido de carbono na atmosfera estão reduzindo os níveis de nutrientes em ali mentos12 A perda de biodiversidade é o limite planetá rio mais impactado pela ação humana e estima se que isso poderá prejudicar o progresso em até 80 das metas avaliadas dos ODS relacionadas à pobreza alimentação saúde água cidades clima oceanos e terra A produção de alimentos pode ser comprometida pela perda de polinizadores naturais pois 75 dos tipos de culturas alimen tares globais contam com a polinização animal mas os métodos agrícolas intensivos agrotóxico dependentes ameaçam extinguir esses tais serviços ecossistêmicos28 Considerase que toda dieta tem custos ocul tos e que guardam sinergias por suas consequên cias com a saúde ODS 3 e com o clima ODS 13 a depender dos alimentos consumidos e os sistemas alimentares dos quais fazem parte7 Uma abordagem a partir dos sistemas alimen tares permite identificar cinco canaischave que influenciam a saúde 1 riscos ocupacionais 2 contaminação ambiental 3 alimentos contami nados inseguros e alterados 4 padrões alimen tares não saudáveis e 5 insegurança alimentar O sistema alimentar global hegemônico contri bui decisivamente para tais canais provocando prejuízos humanos e econômicos que ameaçam o desenvolvimento da humanidade e a saúde do planeta A contaminação do solo ar e águas com fertilizantes agrotóxicos e antibióticos por exem plo expõe diferentes seres vivos a inúmeras con sequências Estimase que somente nos EUA por ano a resistência a antimicrobianos tenha gerado oito milhões de dias adicionais de internação e custos à saúde entre US 20 a 34 bilhões21 Os diferentes relatórios considerados neste artigo convergem para um consenso de que mu danças profundas e transformadoras no sistema alimentar global são necessárias e urgentes12 Os esforços dos diferentes grupos em analisar os dados de forma integrada e propor caminhos de transição reúne acúmulos bastante significativos A Comissão EATLancet defende um pacto de reorganização do sistema alimentar global com o compromisso de avançar para dietas que pro movam saúde planetária para quase dez bilhões de pessoas em 2050 A proposta envolve mais que dobrar o consumo de alimentos saudáveis como frutas vegetais legumes e nozes e uma redução de mais de 50 no consumo global de alimentos me nos saudáveis como açúcares adicionados e carne vermelha p 12 além de reduzir pela metade o desperdício de alimentos no mundo e conter para que a área destinada a produção de alimentos não avance24 A UNICEF reivindica que as neces sidades nutricionais das crianças devem estar no centro dos sistemas alimentares nacionais como condição fundamental para o desenvolvimento sustentável23 Contudo para isso será necessário transformar não apenas as bases argumentativas mas as políticas públicas econômicas e simbólicas dominantes que sustentam o atual regime alimen tar global29 O reconhecimento internacional crescente da importância da agroecologia para a promoção de sistemas alimentares sustentáveis se expressa de forma heterogênea em alguns dos relatórios Curiosamente a Comissão EATLancet sequer cita agroecologia em seus estudos O IPCC e o IPBES destacam em seus documentos as contribuições da agroecologia na promoção da SAN desde o manejo de agroecossistemas à reorganização de sistemas alimentares que possibilitam a mitigação das mudanças climáticas e a preservação da biodi versidade através de sistemas mais diversificados e resilientes26 27 O painel de especialistas em SAN vinculado a FAO HLPE defende um enfoque agroecológico de sistemas alimentares sustentáveis para promo ção do direito humano à alimentação adequada30 O HLPE apresenta 13 princípios da abordagem agroecológica Quadro 3 em diálogo com com pilados anteriores entre eles Os 10 elementos da Agroecologia31 com uma visão holística que co loca a agroecologia como alternativa central para o futuro do planeta e da humanidade As abordagens agroecológicas favorecem o uso de processos naturais limitam o uso de insumos adquiridos promovem ciclos fechados com externa lidades negativas mínimas e enfatizam a importân cia do conhecimento local e processos participativos que desenvolvem conhecimentos e práticas através da experiência bem como métodos científicos mais convencionais e enfrentam as desigualdades sociais As abordagens agroecológicas reconhecem que os sis temas agroalimentares são sistemas sociais e ecoló gicos combinados que vão da produção ao consumo de alimentos e envolvem a participação da ciência da prática e de um movimento social bem como sua integração holística para abordar a segurança ali mentar e a nutrição p 43 tradução nossa 4419 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 Quadro 3 Princípios agroecológicos desde compilação do HLPE Princípio Os 10 elementos da Agroecologia FAO Escala de aplicação Melhorar a eficiência na utilização de recursos 1 Reciclagem Utilizar preferivelmente recursos locais renováveis e na medida do possível fechar os ciclos de recursos de nutrientes e biomassa Reciclagem CA AA 2 Redução de insumos Reduzir ou eliminar a dependência de insumos comprados e aumentar a autossuficiência Eficiência AA SA Fortalecer a resiliência 3 Saúde dos solos Garantir a saúde e o funcionamento dos solos e fortalecêlos para melhorar o crescimento das plantas em particular fazendo a gestão da matéria orgânica e reforçando a atividade biológica do solo Diversidade Resiliência CA 4 Saúde animal Garantir a saúde e o bem estar dos animais Resiliência CA AA 5 Biodiversidade Manter e melhorar a diversidade de espécies diversidade funcional e recursos genéticos e assim manter a biodiversidade geral do agroecossistema no tempo e no espaço no campo nas atividades agrícolas e no território Diversidade CA AA 6 Sinergias Melhorar a interação ecológica positiva a sinergia a integração e a complementaridade entre os elementos dos agroecossistemas animais cultivos árvores solo e água Sinergia CA AA 7 Diversificação econômica Diversificar a renda agrícola garantindo que os pequenos agricultores tenham maior independência financeira e possibilidades de agregar valor ao mesmo tempo que lhes permite responder à demanda de consumidores Diversidade AA SA Garantir equidade e responsabilidade social 8 Criação conjunta de conhecimentos Melhorar a cocriação e o intercâmbio horizontal de conhecimento incluindo inovação local e científica especialmente por meio do intercâmbio entre agricultores Criação conjunta e intercâmbio de conhecimentos AA SA 9 Valores sociais e dietas Construir sistemas alimentares baseados na cultura identidade tradição e equidade social e de gênero das comunidades locais que proporcionem dietas saudáveis diversificadas e adequadas do ponto de vista sazonal e cultural Valores humanos e sociais Cultura e tradições alimentares AA SA 10 Imparcialidade Apoiar meios de subsistência decentes e sólidos para todos os atores envolvidos nos sistemas alimentares especialmente os pequenos produtores de alimentos com base no comércio justo no emprego equitativo e no tratamento imparcial dos direitos de propriedade intelectual Resiliência AA SA 11 Conectividade Garantir a proximidade e a confiança entre produtores e consumidores através da promoção de redes de distribuição justas e curtas e da reincorporação dos sistemas alimentares nas economias locais Economia circular e solidária AA 12 Governança da terra e dos recursos naturais Fortalecer os arranjos institucionais para melhorar o reconhecimento e o apoio aos agricultores familiares camponeses e pequenos produtores de alimentos como gestores sustentáveis dos recursos naturais e genéticos Governança responsável AA SA 13 Participação Promover a organização social e uma maior participação de produtores e consumidores no processo de tomada de decisão para apoiar a governança descentralizada e a gestão de sistemas agrícolas e alimentares adaptados às condições locais Governança responsável Resiliência SA Escala de aplicação CA campo AA atividade agropecuária agroecossistema SA sistema alimentar Fonte Traduzido e adaptado de HLPE 2019 O IPESFood atua com foco nos elementos que propiciam avanços da transição para siste mas alimentares agroecológicos SAA disponí veis em um conjunto de publicações Em estudo comparado ao sistema alimentar global22 ficam evidentes como os SAA produzem respostas a 4420 Burigo AC Porto MF um conjunto de problemas interligados com o potencial de contribuir para o avanço de várias das metas dos ODS Destacamos duas necessidades fundamentais para as mudanças almejadas 1 defender e for talecer a integridade da pesquisa científica como um bem público21 livre de conflitos de interesses com setores econômicos interessados em manter suas taxas de lucro a despeito dos impactos so ciais ambientais e sanitários Esforços interdisci plinares incluindo a Saúde Coletiva são necessá rios para melhor compreender e impulsionar os sistemas alimentares sustentáveis e a agroecolo gia 2 é necessário enfrentar as desigualdades de poder dentro dos sistemas alimentares em todos os níveis e diferentes dimensões o que inclui pro teger países e grupos populacionais vulneráveis a práticas exploratórias e predatórias de empresas de alimentos e bebidas25 Isso implica a participa ção da sociedade civil organizada em processos de governança horizontalizados Devese mobi lizar e garantir o protagonismo de mulheres jo vens consumidores entre outros Considerações finais Dietas de baixa qualidade nutricional são o prin cipal fator de risco para a carga global de doenças e estão intrinsecamente relacionadas com impac tos antrópicos nas mudanças climáticas e perda de biodiversidade aceleradas nas últimas décadas Os grupos populacionais mais pobres e vulnerá veis sofrem as maiores cargas desses impactos condenandoos à pobreza ao mesmo tempo que grupos poderosos concentram riqueza Os siste mas alimentares globais resultados do neolibe ralismo da expansão da agricultura industrial capitalista e dos impérios alimentares26 contri buem decisivamente para esse cenário Tratase portanto de um tema estratégico para a saúde global nas próximas décadas ou mesmo séculos A origem do conceito de sistemas alimentares é localizada no contexto da crise alimentar mun dial de 1972 que se desdobrou na Conferência Mundial de Alimentos de 1974 e na Declaração Universal para Eliminação Definitiva da Fome e da Desnutrição14 Após cinco décadas o pro blema não foi resolvido em que pese a atuação de vários países existe uma sindemia global de desnutrição obesidade e mudanças climáticas Para piorar o avanço da pandemia de COVID19 trouxe grandes repercussões para a saúde da hu manidade incluindo o agravamento de desigual dades e vulnerabilidades sociais preexistentes Estimase que dentre os efeitos negativos desta pandemia o número de pessoas em situação de fome no mundo em 2020 tenha aumentado entre 83 a 132 milhões7 Por suas dimensões continentais produção agropecuária concentração de riquezas naturais e ampla diversidade sociocultural o Brasil tem se destacado nos debates sobre sistemas alimenta res porém nos últimos anos tem havido retro cessos importantes A reprimarização da econo mia brasileira nas últimas décadas apoiada pelo Estado se expressou no boom de commodities com a expansão do gado de corte e os cultivos de soja milho e canadeaçúcar especialmente Tais monocultivos ameaçam ainda mais biomas ricos em sociobiodiversidade e vitais para os equilí brios hídrico e climático como a Amazônia e o Cerrado O Censo Agropecuário de 2017 revelou em comparação com o de 2006 as consequências negativas do avanço do agronegócio cujos agen tes econômicos lucram bilhões de reais por ano a concentração fundiária e de renda aumentou com redução de 95 dos estabelecimentos agro pecuários da agricultura familiar redução em postos de trabalho e pessoal ocupado aumento do uso de agrotóxicos e diminuição da produção de alimentos diversificados32 Do outro lado da cadeia de alimentos os grandes supermercados concentram cada vez mais poder e renda refor çando o consumo de alimentos ultraprocessados e contaminados33 em uma sociedade cada vez mais urbanizada Ao mesmo tempo agricultores familiares fornecedores de alimentos mais saudá veis deixam de ser apoiados O até recentemente ministro do meio am biente do Brasil defendeu que a atenção concen trada na COVID19 seja aproveitada para mu danças infralegais que orientam a atuação do Estado brasileiro O termo passada da boiada se reflete no desmonte da proteção ambiental nos recordes de liberação de agrotóxicos e no des matamento e queimadas que marcam o Governo Bolsonaro Este no primeiro dia de mandato ex tinguiu o Conselho Nacional de Segurança Ali mentar e Nutricional além de ter fragilizado um conjunto de políticas de SAN da qual o país já foi referência internacional34 Enquanto o agro negócio comemora seus ganhos econômicos a insegurança alimentar avança de forma acelera da no país35 No contexto da Década de Ações para o al cance dos ODS até 2030 a ONU realizará em 2021 a Cúpula Mundial de Sistemas Alimentares Relatores Especiais da ONU para o Direito à Ali mentação denunciaram a apropriação da condu 4421 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 ção da Cúpula por atores articulados ao Fórum Econômico Mundial com um esvaziamento do lugar central do Comitê de Segurança Alimentar Mundial da ONU enquanto espaço de governan ça dos sistemas alimentares globais Com a parti cipação da sociedade civil prejudicada a Cúpula tem sua legitimidade comprometida36 Se por um lado a Agenda 2030 representa um pacto em torno dos direitos humanos e da saúde do pla neta de outro o poder econômico concentrado em grandes corporações atua para obstaculizar o avanço das mudanças pactuadas sendo este um dos impasses centrais Mas existem esperanças a agroecologia re presenta um paradigma emergente que continua a avançar no século XXI sendo o movimento agroecológico brasileiro uma referência mun dial de mudança22 Destacamos os resultados de duas pesquisas realizadas em 2020 para ilustrar a riqueza dos esforços para a construção de sis temas alimentares locais diversos sustentáveis e saudáveis com participação decisiva do campo agroecológico O projeto Ação Coletiva Comida de Verdade aprendizagem em tempos de pandemia mapeou 310 iniciativas criadas ou adaptadas e adensadas durante os primeiros meses da pandemia no país Protagonizadas por organizações populares co letivos redes e movimentos sociais de todo o país do campo e da cidade essas experiências revelam a resiliência e a diversidade de sistemas alimenta res locais comprometidos em garantir comida de verdade37 A pesquisa Municípios Agroecológi cos e Políticas de Futuro iniciativas municipais de apoio à agricultura familiar e à agroecologia e de promoção da SAN identificou 721 iniciativas em 531 municípios de 26 estados que apoiam direta ou indiretamente a agroecologia A diver sidade dessas experiências envolve 41 temas38 que reforçam a coerência de pensar a agroecologia como ecologia de sistemas alimentares19 A análise dessas experiências revela estraté gias desafios perspectivas limites e avanços O trabalho em rede na condução dessas pesquisas comprometidas com a ação segue em curso bus cando promover interação entre essas experiên cias para fortalecimento e criação de novas ini ciativas e formas de produção de conhecimento Alimentar a humanidade com dietas nutri tivas garantir o direito ao meio ambiente equi librado reduzir as desigualdades e injustiças so ciais sanitárias e ambientais promover a saúde e o bem estar são metas complementares e interde pendentes que podem ser promovidas por meio de sistemas alimentares sustentáveis Defendese que os enfoques de segurança alimentar e nutri cional direito humano à alimentação adequada e agroecologia são fundamentais para a redemo cratização e a sustentabilidade dos sistemas ali mentares Tratase de uma abordagem orgânica para um conjunto de problemas e desafios que impactam a saúde global Neste artigo defendemos a importância dos sistemas alimentares para a saúde e a Agenda 2030 no contexto de uma sindemia que já estava em curso e se retroalimenta com a COVID19 Reconhecemos os limites desse artigo em tratar do conjunto de questões abordadas em relató rios tão complexos e complementares Há outros relatórios disponíveis dos mesmos grupos e or ganizações selecionados que complementam e ampliam contribuições críticas sobre os sistemas alimentares bem como recomendações para mu danças Questões como desperdício de alimentos contaminação dos oceanos exploração dos ali mentos do mar e a importância da pesca artesa nal são exemplos de lacunas desse texto Defen demos uma atenção mais estratégica do campo da saúde coletiva para os sistemas alimentares aproximando mais e mais seu envolvimento com o campo agroecológico no Brasil intensificando suas contribuições em prol das transformações necessárias para a saúde do planeta18 Colaboradores AC Burigo participou de todas as etapas do arti go e MFS Porto participou da análise e interpre tação dos dados revisão e aprovação da versão final do texto 4422 Burigo AC Porto MF Referências 1 Fortes PAC Ribeiro H Saúde Global em tempos de globalização Saúde e Sociedade 2014 232366375 2 Organização das Nações Unidas ONU Transfor mando nosso mundo A Agenda 2030 para o Desen volvimento Sustentável 2015 acessado 2020 nov 03 Disponível em httpsbrasilunorg 3 FAO Marco de la FAO para la Agenda Alimentaria Ur bana Roma FAO 2019 4 Barreto LM Desigualdades em Saúde uma perspec tiva global Cien Saude Colet 2020 22720972108 5 Machado CV Conill EM Lobato LVC International context and national policies challenges facing social protection and health systems in a changing edito rial Cien Saude Colet 2018 23720782078 6 Moreira MR Kastrup E Ribeiro JM Carvalho AI Braga AP O Brasil rumo a 2030 Percepções de espe cialistas brasileirosas em saúde sobre o potencial de o País cumprir os ODS Saude Debate 2019 43n spe 72235 7 FAO FIDA OMS PMA y UNICEF Versión resumida de El estado de la seguridad alimentaria y la nutrici ón en el mundo 2020 Transformación de los sistemas alimentarios para que promuevan dietas asequibles y saludables Roma FAO 2020 8 Santos BS A Cruel Pedagogia do Vírus Coimbra Al medina 2020 32 p 9 Horton R Offline COVID19 is not a pandemic The Lancet 2020 Correspondence 396874 10 Turner II BL Kasperson RE Matson PA McCarthy JJ Corell RW Christensen L Eckley N Kasperson JX Luers A Martello ML Polsky C Pulsipher A Schiller A A Framework for Vulnerability Analysis in Sustai nability Science Proceedings of the National Aca demy of Sciences of the United States of America 2003 1001480748079 11 Singer M Clair S Syndemics and Public Health Re conceptualizing Disease in BioSocial Context Medi cal Anthropology Quarterly 2003 174423441 12 Swinburn BA Kraak VI Allender S Atkins VJ Baker PI Bogard JR Brinsden H Calvillo A De Schutter O Devarajan R Ezzati M Friel S Goenka S Hammond RA Hastings G Hawkes C Herrero M Hovmand PS Howden M Jaacks LM Kapetanaki AB Kasman M Kuhnlein HV Kumanyika SK Larijani B Lobstein T Long MW Matsudo VKR Mills SDH Morgan G Morshed A Nece PM Pan A Patterson DW Sacks G Shekar M Simmons GL Smit W Tootee A Vande vijvere S Waterlander WE Wolfenden L Dietz WH The Global Syndemic of Obesity Undernutrition and Climate Change The Lancet Commission report The Lancet 2019 393791846 13 HLPE Las perdidas y el desperdício de alimentos en el contexto de sistemas alimentarios sostenibles Un infor me del Grupo de alto nivel de expertos en seguridade alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Ali mentaria Mudial Roma 2014 14 Chonchol J O Desafio Alimentar a fome no mundo São Paulo Marco Zero 1989 Agradecimento Agradecemos o apoio do Programa de PósGra duação em Saúde Pública da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca da Fundação Oswaldo Cruz ENSPFiocruz 4423 Ciência Saúde Coletiva 261044114424 2021 15 Brasil DecretoLei n 11346 de 15 de setembro de 2006 Dispõe sobre a criação do Sistema Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional SISAN com vistas em assegurar o direito humano à alimentação adequada e dá outras providências Diário Oficial da União Brasília 18 set 2006 16 Almeida DAO Araujo ML Ornelas GM Agroecolo gia e sistemas alimentares em cidadesregiões refle xões acerca de redes internacionais e redes na Região Metropolitana de Belo Horizonte Cadernos de Agroe cologia 2020 152 17 ONU Consejo de Derechos Humanos La agroecolo gía y el derecho a la alimentación informe del Relator Especial sobre el derecho a la alimentación Sr Olivier De Schutter 2010 24p AHRC1649 Acceso 2020 Nov 02 Disponible en httpwwwsrfoodorges informesoficiales 18 Burigo AC Porto MFS Trajetórias e aproximações entre a saúde coletiva e a agroecologia Saude Debate 2019 43n spe 8248262 19 Francis C Lieblein G Gliessman S Breland TA Cre amer N Harwood R Salomonsson L Helenius J Ri ckerl D Salvador R Wiedenhoeft M Simmons S Al len P Altieri M Flora C Poincelot R Agroecology the ecology of food systems J Sust Agric 2003 22399118 20 Gliessman SR La agroecología Un movimiento global para la seguridad y la soberanía alimentaria In Agro ecología para la Seguridad Alimentaria y Nutricional Actas del Simposio Internacional de la FAO Roma Itália FAO 2014 21 IPESFood Unravelling the FoodHealth Nexus Ad dressing practices political economy and power rela tions to build healthier food systems La Global Alliance for the Future of Food y IPESFood 2017 22 IPESFood From uniformity to diversity a paradigm shift from industrial agriculture to diversified agroeco logical systems International Panel of Experts on Sus tainable Food systems 2016 23 Fundo de Emergência Internacional das Nações Uni das para a Infância UNICEF Crianças alimentação e nutrição crescendo saudável em um mundo em trans formação Sumário Executivo Situação Mundial da Infância 2019 24 Willett W Rockström J Loken B Springmann M Lang T Vermeulen S Garnett T Tilman D DeClerck F Wood A Jonell M Clark M Gordon LJ Fanzo J Hawkes C Zurayk R Rivera JA De Vries W Sibanda LM Afshin A Chaudhary A Herrero M Agustina R Branca F Lartey A Fan S Crona B Fox E Bignet V Troell M Lindahl T Singh S Cornell SE Reddy KS Narain S Nishtar S Murray CJL Food in the anthro pocene the EATLancet Commission on healthy diets from sustainable food systems The Lancet 2019 39310170 447492 25 HLPE La nutrición y los sistemas alimentarios Un in forme del Grupo de alto nivel de expertos en seguridad alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Ali mentaria Mundial Roma 2017 26 Ploeg JDVD Camponeses e impérios alimentares lutas por autonomia e sustentabilidade na era da globaliza ção Porto Alegre UFRGS Editora 2008 27 Intergovernmental Panel on Climate Change IPCC El cambio climático y la tierra Informe especial del IPCC sobre el cambio climático la desertificación la de gradación de las tierras la gestión sostenible de las tier ras la seguridad alimentaria y los flujos de gases de efec to invernadero en los ecosistemas terrestres Resumen para responsables de políticas Genebra IPCC 2020 28 Intergovernmental SciencePolicy Platform on Biodi versity and Ecosystem Services IPBES Summary for policymakers of the global assessment report on biodi versity and ecosystem services of the Intergovernmental SciencePolicy Platform on Biodiversity and Ecosystem Services IPBES Bonn Germany IPBE 2019 56 pp cited 2020 Nov 03 Available from httpsipbesnet globalassessmentreportbiodiversityecosystemser vices 29 McMichael P Regimes Alimentares e Questões Agrá rias São Paulo Editora Unesp e Editora UFRG 2016 256p 30 High Level Panel of Experts HLPE Enfoques agroe cológicos y otros enfoques innovadores en favor de la sos tenibilidad de la agricultura y los sistemas alimentarios que mejoran la seguridad alimentaria y la nutrición Un informe del Grupo de alto nivel de expertos en segu ridad alimentaria y nutrición del Comité de Seguridad Alimentaria Mundial Roma HLPE 2019 31 FAO Los 10 elementos de la agroecología Guía para la transición hacia sistemas alimentarios y agrícolas soste nibles FAO 2018 acceso 2020 Nov 02 Disponible en httpwwwfaoorg3i9037esI9037ESpdf 32 Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE Censo Agropecuário 2017 Resultados definitivos aces sado 2020 nov 03 Disponível em httpscensos ibgegovbragro2017resultadoscensoagro2017 html 33 Peres J Matioli V Donos do Mercado Como os grandes supermercados exploram trabalhadores fornecedores e a sociedade São Paulo Editora Elefante 2020 34 Organização PanAmericana da Saúde OPAS Sis temas alimentares e nutrição a experiência brasileira para enfrentar todas as formas de má nutrição Brasília OPAS 2017 35 Rede PENSSAN Insegurança alimentar e Covid19 no Brasil Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Se gurança Alimentar e Nutricional Relatório de pesquisa 2021 acessado 2020 nov 03 Disponível em http olheparaafomecombr 36 Fakhri M Elver H De Schutter O The UN food sys tems summit how not to respond to the urgency of re form New York 22 mar 2021 cited 2020 Nov 03 Available from httpwwwipsnewsnet202103un foodsystemssummitnotrespondurgencyreform 37 Viana P Mapeamento de experiências em comida de verdade destaca aprendizados essenciais sobre o abas tecimento alimentar no Brasil Ação Coletiva Comida de Verdade acessado 2020 nov 03 Disponível em httpsacaocoletivacomidadeverdadeorg 4424 Burigo AC Porto MF 38 Articulação Nacional de Agroecologia ANA Mu nicípios agroecológicos e políticas de futuro iniciativas municipais de apoio à agricultura familiar e à agroe cologia e de promoção da segurança alimentar e nutri cional Londres F Monteiro D Brochardt V Maselli M Jomalinis E organizadores Rio de Janeiro ANA 2021 Artigo apresentado em 20112020 Aprovado em 28062021 Versão final apresentada em 30062021 Editoreschefes Romeu Gomes Antônio Augusto Moura da Silva Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons BY CC