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Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 1 p 292 311 janjun 2013 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Pieces of Time the legacy of Social Work Paulo Freire GRAZIELA SCHEFFER RESUMO O ensaio traz um estudo exploratório de cunho bibliográfico acerca das contribuições de Paulo Freire no Serviço Social abrangendo o período de 1950 a 1979 Apresenta ainda a análise das obras Pedagogia do Oprimido Educação e Mudança em relação à perspectiva ontológica e as críticas ao assistencialismo no processo de reconceituação latinoamericana Palavraschave Reconceituação Paulo Freire Serviço Social Marxismo Subjetividade Assistencialismo ABSTRACT The test brings an exploratory study of literature concerning nature of the contributions of Paulo Freire Social Work covering the period 19501979 It also presents the analysis of works Oppressed Pedagogy and Education and Change in relation to the ontological perspective and criticism of welfarism in the process of reconceptualization of Latin American Keywords Reconceptualization Paulo Freire Social Services Marxism Subjectivity Welfarism Mestra e doutoranda em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ Coordenadora do Grupo de Estudos e Extensão em Saúde Interdisciplinariedade e Cidadania GESIC Colaborado do Projeto Transversões UFRJ Miracema TO Brasil Email graziemailibestcombr Submetido em junho2013 Aprovado em setembro2013 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 293 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Pedaços do tempo que de fato se acham em mim desde quando os vivi à espera de outro tempo que até poderia não ter vindo como veio em que aqueles se alongaram na composição da trama maior Às vezes nós é que não percebemos o parentesco entre os tempos vividos e perdemos a possibilidade de soldar conhecimentos desligados e ao fazêlo iluminar com os segundos a precária claridade dos primeiros FREIRE 2003 p 19 Notas introdutórias Escrever a respeito do legado de Paulo Freire neste momento de ofensiva neoliberal que atinge impiedosamente a política educacional em nosso país proporcionanos recordar de lições importantes acerca do papel do educador e da educação comprometida com a liberdade e a autonomia cimento para construção da justiça social na sociedade brasileira O ato recordação por conseguinte jamais é puramente objetivo por sua própria natureza não pode ser um ato frio A palavra recordar que vem de cor coração já indica a forte presença do sentimento na ação O sentimento leva o sujeito em boa medida a construir seu passado a partir da necessidade que o marcam no presente KONDER 2009 p 68 Assim esse ato de recordar é oriundo do presente marcado por inquietações dos rumos da educação universitária no país No contexto da reforma da educação o governo do momento em sangria desatada tem inundado o país com decretos medidas provisórias leis resoluções e portarias quase sempre sem debate prévio KOIKE sd p 7 Foi em meio aos acontecimentos que buscamos estudar as obras de Freire para que talvez pudéssemos usufruir e compartilhar a vitalidade do seu pensamento radical Tão mais radical quanto mais se inscreve nesta realidade para conhecendoa melhor melhor poder transformála Não teme enfrentar não teme ouvir não teme o desvelamento do mundo Não teme o encontro com povo Não teme o diálogo com ele de que resulta o crescente saber de ambos Não sente dono do tempo nem dono dos homens nem liberador dos oprimidos Com eles se compromete dentro do tempo para que com eles lutar FREIRE 1987 p 14 Paulo Freire foi um dos mais importantes pedagogos seu pensamento atingiu diferentes saberes e profissões Suas obras influenciaram inúmeros processos democráticos no Brasil e mundo afora No caso do Serviço Social a vanguarda brasileira do Método de Belo Horizonte BH em sua maioria era oriunda dos movimentos da Juventude Universitária Católica JUC e da Ação Popular AP que incluem vivências na Movimento de Educação Básica MEB na sindicalização rural nos Centros Popular de Cultura CPC e nos Círculos de Cultura que tiveram contatos o próprio Paulo Freire GOMES 2011 Consuelo Quiroga integrante do Método de BH relata sobre a influência freiriana que No bojo de toda essa discussão Paulo Freire e Educação como Prática de Liberdade e Pedagogia do Oprimido trouxeram para o Serviço Social inquietações no que se refere ao homem como sujeito de sua história à discussão da prática pedagógica do Serviço Social colocando para a profissão algumas indagações políticas que se desdobram em uma aproximação ao marxismo QUIROGA 1991 p 86 Portanto resgatar o legado de suas obras no Serviço Social significa entender a processualidade da ruptura com o pensamento conservador elitista na profissão e sua aproximação com o referencial marxiano e marxista Neste trabalho buscamos analisar o legado freiriano por meio de uma análise Graziela Scheffer 294 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 histórica do Serviço Social nos pedaços do tempo de 1950 até 1979 O estudo foi organizado nos seguintes itens no primeiro apontamos o contexto histórico do pensamento freiriano e sua interlocução com Serviço Social no segundo analisamos as obras Pedagogia do oprimido e Educação e mudança visando identificar a contribuição do legado de Paulo Freire na profissão O contexto do pensamento freiriano e os enlaces com Serviço Social em dois tempos A educação é um ato de amor por isso um ato de coragem Não pode temer o debate A análise da realidade Não pode fugir à discussão criadora sob pena de ser farsa FREIRE 2000 p 11 Para compreender o legado de Paulo Freire é necessário localizarmos sua produção no contexto histórico político e cultural do Brasil e da América Latina Nesse sentido analisamos o pensamento freiriano em dois momentos históricos distintos O primeiro é o período desenvolvimentistanacionalista que marcou a fase inicial do autor que vai aproximadamente do fim da década 1940 até 1960 no Brasil O segundo é pós 1964 quando Freire é preso e exilado no Chile Paralelamente a esses períodos estabelecemos uma interlocução com Serviço Social Achados e perdidos desenvolvimento de comunidade e Paulo Freire A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca E ensinar e aprender não pode darse fora da procura fora da boniteza e da alegria FREIRE 1996 p 23 Em 1946 Freire assume a direção do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social da instituição do Serviço Social da Indústria 1 SESI no Estado de Pernambuco onde o trabalho era voltado para analfabetos pobres Naquela época envolveuse no movimento da Teologia da Libertação2 que enfatizava a necessidade de que os pobres aprendessem a ler e a escrever para que tivessem o direito de votar No Brasil o analfabetismo atingia aproximadamente 50 da população A questão do enfrentamento ao analfabetismo era uma questão eminentemente política diretamente articulada com os projetos de modernização econômica e social do Brasil PAIVA 2000 Portanto a finalidade era mais que a superação do analfabetismo era superamos também a nossa inexperiência democrática FREIRE 2000 p 102 Cabe ressaltar que naquele momento se observa a existência de importantes modificações no pensamento social da Igreja Católica O II Congresso Brasileiro de Direito Social 1946 aparece como marco de consolidação de novas posições da Ação Social Católica O Direito Social terá agora o papel de articular os diferentes grupos sociais de forma a que estes se submetam ao bem comum Esse direito deverá independentemente da ação do Estado integrar os indivíduos dentro de uma ordem comunitária em que capital e trabalho consumidor e fornecedor terão sua apetividade pautada através do lucro e salários justos a fim de atender às necessidades materiais e espirituais da sociedade IAMAMOTO CARVALHO 2003 p 271 Outro aspecto importante é compreender a criação do SESI pois além de ser locus no qual Paulo Freire iniciou suas ações foi também cenário expressivo de disputas de projetos societários O SESI era permeado por uma correlação de forças formada tanto por esquerdistas considerados como trincheira Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 295 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 comunista quanto por os idealistas ortodoxos anticomunistas Alicerçados nesses grupos bem diferenciados os segmentos minoritários formados por idealistas e dirigentes da instituição tinham a tarefa cristã de promover o nivelamento social através das condições de vida do proletariado e um outro muito maior de homens realistas e práticos que visavam tirar partido de sua contribuição IAMAMOTO CARVALHO 2003 p 276 Na década de 1950 as elaborações de Paulo Freire estavam numa fina sintonia com as ideias nacionalista e desenvolvimentista As ideias do autor expressavam uma interpretação da sociedade brasileira vista como arcaica que precisava mudar para uma sociedade moderna e democrática A pedagogia freiriana nessa fase visava adequar o homem à mudança por meio de uma formação de um sujeito democrático PAIVA 2000 No final de 1950 era possível identificar no âmbito da Igreja Católica emergências de três segmentos os tradicionalistas os modernizadores e os reformistas de forma que a figura mais progressista era Dom Hélder Câmara arcebispo de Olinda que representava de certa forma a teologia do desenvolvimento e colocava a questão da pobreza do povo nordestino LOWY 2000 Ainda na década de 1950 e início dos anos 60 a sociedade brasileira passava por profundas transformações em cujas perspectivas a intelectualidade brasileira estava ancorada na pedagogia freiriana Na concepção de Paiva 2000 a mudança exigia reformas sociais promovidas por meio do consenso entre grupos e classes sociais O conceito de conscientização do autor nessa primeira fase não era uma forma de consciência de classe mas um tipo de consciência que permitisse a compreensão global do país de modo a gerar ações que promovessem o desenvolvimento nacional e consolidassem a democracia O capitalismo era visto pelos integrantes católicos como um mal necessário ao desenvolvimento país já a via comunista era interpretada como restrição às liberdades humanas e aos direitos individuais A saída dessas duas posições antagônicas foi a tomada de posição gestada na democracia cristã combatente dos aspectos morais da atitude materialista e individualizada egoísta da lógica mercantil ANDRADE 2008 Neste sentido observase uma conexão do pensamento de Paulo Freire com o nacional desenvolvimentismo propugnado pelos intelectuais do ISEB3 Instituto Superior de Estudos Brasileiros Observemos a descrição de Freire sobre esse período O desenvolvimento envolvendo não apenas questões técnicas ou políticas mas guardando em si também é a passagem de uma para outra mentalidade Adesão à necessidade profunda como fundamento para desenvolvimento e este para a própria democracia Quanto mais se falava da necessidade de reformas na ascensão do povo em termos muitas vezes emocionais e com parecia desprezar totalmente vigência do poder das elites como tivessem elas descoberto já que ter privilégios não é só ter direitos mas sobretudo deveres com sua nação mais se arregimentavam essas elites irracionalmente na defesa de seus privilégios inautênticos FREIRE 2000 p 95 Até 1965 percebese uma relação entre a ação pedagógica e a produção teórica de Paulo Freire com as ideologias nacionalistas e desenvolvimentistas de cariz populista desenvolvida e divulgada por um núcleo de intelectuais agrupados institucionalmente no ISEB PAIVA 2000 Para Ferreira 1946 apud ANDRADE 2008 a visão de democracia do pensamento cristão era o mesmo do Serviço Social pois ambos fundamentavamse na ideia de bem comum Os assistentes sociais nessa fase trabalham na trilogia metodológica caso grupo e comunidade visando à integração do homem ao meio social A partir de 1940 ocorreu forte presença norteamericana na difusão da base técnica dos métodos de caso e grupo e desenvolvimento de comunidade DC Esses modelos do Serviço Social tradicional na segunda metade da década de cinquenta desenhavam um processo de crise que Graziela Scheffer 296 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 se efetivado sem travas e sem traumatismos também acabaria por derrauir as formas tradicionais do exercício profissional NETTO 2011 p 137 Essa atmosfera do desenvolvimentismo nacionalista repercutiu no Serviço Social pois a ideologia dominante estava em plena reciprocidade com as perspectivas profissionais emergentes que contribuíram na legitimação profissional Portanto o assistente social quer deixar de ser um apóstolo para investirse da condição de agente da mudança NETTO 2011 p 138 Os projetos desenvolvimentistas nacionalistas foram impulsionados por uma conjuntura da política internacional favorável ao desenvolvimentismo que estava atrelado à visão de resposta ao perigo do alargamento da área de influência soviética sob manto da guerra fria4 PAIVA 2000 Apesar do revestimento conservador teóricoideológico do desenvolvimento de comunidade esse exercício profissional fruto da experiência do Serviço Social proporcionou rachaduras no tradicionalismo da intervenção do Serviço Social centradas principalmente do trabalho individual de caso Netto 2011 destaca que o amadurecimento do Serviço Social nesse momento estava relacionado a quatro aspectos 1 inserção dos assistentes sociais nas equipes multiprofissionais e convivência com grupos politicamente organizados 2 emersão de católicos progressistas e de uma esquerda católica com ativa militância cívica e política 3 movimento estudantil no Serviço Social 4 referencial das ciências sociais vinculadas às dimensões críticas da vertente nacional popular No Brasil no começo dos anos 60 surgiu Esquerda Católica sob a inspiração da teologia francesa humanista e influenciada pela Revolução Cubana que contribuiu para radicalização do movimento estudantil católico JUC Essa radicalização compreendeu uma seleção das posições mais avançadas nos textos franceses uma incorporação cada vez maior de elementos marxistas e uma mudança radical de perspectiva substituindo o ângulo europeu por uma perspectiva da oprimida periferia do sistema capitalista mundial Essa radicalização estava intimamente ligada às novas práticas sociais culturais e políticas dos ativistas católicos participação no movimento estudantil muitas vezes com aliança com a esquerda secular apoio às lutas sociais e compromisso com a educação popular LOWY 2000 p 139 Em 1961 Paulo Freire foi indicado para diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e em 1962 ele teve a primeira oportunidade para uma aplicação significante de seu método quando ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em apenas 45 dias Devido ao êxito do método o governo ampliou centenas de círculos de cultura no país atendendo à situação de transição vivida pela sociedade brasileira PAIVA 2000 Nos primeiros anos da década de 19605 militantes católicos com apoio da igreja formaram o Movimento pela Educação Básica MEB a primeira tentativa católica de criar uma prática pastoral radical entre as classes populares Tendo como base a pedagogia de Paulo Freire o MEB tinha como objetivo não só alfabetizar os pobres mas conscientizálos e ajudálos a tornaremse agentes de sua própria história Em 1962 os militantes da JUC e do MEB criaram a Ação Popular AP o movimento político não confessional dedicado à luta pelo socialismo e ao uso do método marxista Depois de 1964 a AP Ação Popular se distanciou não só da Igreja como do próprio cristianismo e a maioria de seus membros entrou para Partido Comunista do Brasil de tendência maoísta PC do B LOWY 2000 p 140 A respeito do trabalho de Paulo Freire a esquerda católica e o Serviço Social na maré de 19601964 no Brasil evidenciouse que Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 297 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 os assistentes sociais comprometidos com essa nova perspectiva muitos assumindo o posicionamento dos cristãos de esquerda engajamse no MEB organizado pela Conferência Nacional dos Bispos no Brasil voltandose inicialmente para um trabalho de alfabetização passando depois para animação popular e para trabalho de sindicalização Dáse também a participação de alguns assistentes sociais nos trabalhos de cultura popular de Paulo Freire despontando o emergir de uma prática questionadora do status quo SILVA 2009 p 29 No II Encontro das Escolas do Nordeste de Serviço Social 1964 Paulo Freire participou como convidado principal na mesa de abertura o que significou uma aliança simbólica da categoria profissional com pensamento freiriano Essa afinidade entre Freire e o Serviço Social estaria em princípio ancorada na efervescência que a cultura católica teve com eventos políticos dos anos 1960 A pedagogia dos oprimidos nasce no contexto mesmo em que Serviço Social começa a criticar seus próprios métodos ambos partem de uma leitura crítica da realidade latinoamericana e ambos se alimentam de uma base filosófica cristã Em resumo Freire pensa que a vida em sociedade é impossível sem que setores dominados se tornem consciente da lógica de dominação Tais ideias irão nutrir a adesão de muitos profissionais a um novo projeto de Serviço Social PINHEIRO 2010 p 49 Em suma as primeiras aproximações do Serviço Social com as ideias de Freire se deram em dois aspectos a vinculação do autor ao movimento católico e por meio das propostas e ações de desenvolvimento de comunidades ligadas à educação de base de adultos Sabemos que Paulo Freire não foi o único responsável pela mudança nas questões do analfabetismo As mudanças já vinham sendo gestadas na sociedade brasileira no pósguerra na aceleração das transformações de infraestrutura na expansão urbana na crescente migração do rural para as cidades na industrialização na falência dos mecanismos tradicionais da dominação política na radicalização das lutas políticas e ideológicas BEISIEGEL 2010 p 18 Esse processo foi cortado pelo golpe de abril de 1964 Durante a ditadura militar mudouse substancialmente o cenário de lutas em que vinha se desenvolvendo A repressão no primeiro momento buscou a neutralização dos protagonistas sociopolíticos engajados com a democratização da sociedade e do Estado Com o golpe militar Freire foi considerado traidor ficando preso por 70 dias e logo após foi exilado inicialmente na Bolívia país em que não ficou muito tempo pois houve outro golpe militar agora em terras bolivianas e teve que ir ao Chile No item seguinte aprofundaremos a elaboração da obra freiriana no percurso da renovação do Serviço Social até meados de 1979 A Reconceituação ideias freirianas um panorama histórico pós1964 A Reconceituação tem como marco fundador o I Seminário Regional LatinoAmericano de Serviço Social realizado em Porto Alegre no ano de 1965 O Movimento de Reconceituação era unidade diversa que visava adequar a profissão à superação do subdesenvolvimento e ao rompimento com as práticas tradicionais Para Iamamoto 2004 o Movimento de Reconceituação era um fenômeno tipicamente latinoamericano que contestava o tradicionalismo do profissional o que implicou em um questionamento global da profissão fundamentos ideopolíticos matrizes sociopolíticas da direção social e seu exercício profissional Graziela Scheffer 298 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Em um dia qualquer de 1965 E assumimos um certo grau de liberdade o que nos permitiu optarmos entre muitas possibilidades e nos colocamos onde nossa consciência histórica nos indicava Nesse dia soubemos o que é ruptura Nesse dia começamos a negar para criar Nesse dia descobrimos que toda a disciplina social é gerada por uma ideologia e que toda ideologia sustenta uma teoria que por sua vez foi gerada numa determinada sociedade Descobrimos a contradição entre o ideal da verdade e as construções teóricas ideológicas para ocultar a verdade Então fomos considerados suspeitos pelos técnicos do malestar social zelosos guardiães de sua estabilidade mental e material Mas já tínhamos encontrado a resposta para o porquê de nossas vidas que inclui o porquê de nossa profissão E não podíamos nem queríamos retroceder KISNERMAN 1972 p 56 As preocupações do Movimento de Reconceituação estavam pautadas em reconhecimento e busca da compreensão do desenvolvimento dependente dos países latinoamericanos em relação aos países centrais por meio de uma leitura histórica da ação do assistente social construção de um projeto profissional pautado nas particularidades latinoamericanas politização do fazer profissional no sentido da libertação dos oprimidos e comprometidas com transformação social busca de referenciais de cientificidade para o Serviço Social que se desdobrou numa reelaborarão de formação articulada ao tripé ensino pesquisa e extensão As formulações reconceituadas tinham um traço eclético e recusa por teorias importadas que foi uma das motivações que conduziu a incorporação da pedagogia do oprimido NETTO 2011 A apreensão do pensamento freiriano no Movimento de Reconceituação na América Latina tinha uma prática característica da reconceituação em sua origem a exigência moral de assumir um posicionamento em face da desigualdade do oprimido Para Kisnerman a opção ideológica é imperativo categórico como diz ele apoiandose em Paulo Freire BARROCO 2006 p 144 Atentemos para a posição do pedagogo brasileiro com relação ao Serviço Social na sua afirmação que o trabalhador social não pode ser um homem neutro frente à desumanização ou humanização frente à permanência do que já não representa caminhos humanos ou à mudança destes caminhos O trabalhador social como homem tem de fazer sua opção FREIRE 2011 p 63 Logo o autor afirma ruptura com suposta neutralidade positivista embargada na profissão e aponta necessidade do engajamento e crítica à sociedade capitalista opressora e exploradora Não há dúvidas de que como no caso das propostas contestadoras aqui também se registra a influência de Paulo Freire entretanto examinados os conteúdos que se atribuem aos objetivosmeios verificase que os formuladores de Belo Horizonte ao contrário do que se constata em outras produções da reconceptualização latinoamericana como a de Clark 1974 não se limitam a simples incorporação de freirianas avançando para uma visão e uma ação sociocêntricas mais radicais NETTO 2011 p 279 Em 1967 Freire publicou a obra Educação como prática da liberdade e no ano seguinte produziu a mais importante obra de sua carreira intelectual Pedagogia do oprimido Esses livros foram frutos da trajetória de trabalho e militância Durante seu exílio trabalhou por cinco anos no Chile junto ao Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e na Organização de Agricultura e Alimentos da Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 299 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Organização das Nações Unidas Acreditamos que essas obras expressam um giro dialético à esquerda demarcando uma forma de rupturacontinuidade com sua primeira fase desenvolvimentista Identificase um giro dialéticoteórico de Freire no sentido da ruptura na publicação da Pedagogia do oprimido a partir de sua aproximação com pensamento marxista entre os autores citados encontravam se além de Hegel Marx Engels Lenin Fromm Sartre Marcuse Fanon Memmi Lukács Debray Freyer Kossic Goldman e Althusser Além disso havia ainda repetidas menções a escritos e pronunciamentos de Mao Tsétung Fidel Castro Ernesto Guevara Camilo Torres BEISIEGEL 2010 p 85 Podemos então identificar um novo ângulo de análise representado na ruptura com a lógica de conciliação das classes ou seja assumiu a radicalidade voltada ao fortalecimento da classe trabalhadora vista como explorada e oprimida cujo conhecimento crítico da realidade e de sua condição é a alavanca para engajamento na transformação social chegando em seus argumentos até o ápice do reconhecimento do uso da força dos oprimidos nesse processo revolucionário o educador passara a movimentarse num universo teórico bem diferente Agora sob esses novos pontos de vista a educação ou a conscientização dificilmente poderia continuar a ser entendida como o instrumento privilegiado de transformação dos modos de coexistência Acima dela condicionandoa e determinando os limites de sua possibilidade de interferência na organização do social estava a própria organização social que a envolvia Esse conflito entre os interesses antagônicos das classes sociais opressoras e oprimidas impregnava a vida social em sua totalidade Nessas sociedades assentadas na opressão e no conflito nem mesmo o conhecimento poderia ser neutro Socialmente condicionado o conhecimento constituíase em ideologia E também não haveria neutralidade no processo educativo BEISIEGEL 2010 p 85 A centralidade da pedagogia do oprimido são as práticas pedagógicas ligadas aos processos sociais como mediações na construção de novos saberes e novas práticas A concepção freiriana rejeita explicitamente a perspectiva positivista da ciência e na pesquisa Refuta a educação como um processo de adequação do sujeito à sociedade O ato de educar é visto enquanto processo político que extrapola muros escolares Sua elaboração teórica visa entender o povo e lidar com ele daí a relevância para as profissões que intervêm no social GOMES 2011 STRECK 2009 Sabemos que o pensamento freiriano e sua relação com marxismo6 é cercado de polêmicas pois muitos apontam que sua elaboração não tem relação com a vertente marxista contudo para outros se percebe claramente esta interlocução principalmente no livro Pedagogia do oprimido BEISIEGEL 2010 GADOTTI 2011 PRAXEDES 2002 Nesse sentido concordamos que Embora a importância do marxismo no período em questão anos 70 seja constatável na influência intensa extensiva e difusa exercida sobre uma variada produção teórica de difícil mensuração poderíamos cair no erro de atribuir a origem de uma noção ou conceito a Marx quando na realidade poderia ser proveniente de outra fonte Entraríamos então numa polêmica sem fim Um autor como Paulo Freire por exemplo que recebe influência do marxismo nos setenta sem recusar as influências cristãs recebidas anteriormente dificilmente poderia ser considerado como marxista em sentido estrito PRAXEDES 2002 p 45 Muitos críticos da obra de Paulo Freire apontam uma composição teórica eclética nas suas formulações No entanto em nosso ponto de vista as análises freirianas têm uma construção plural que a tornou original no pensamento social da América Latina e do Brasil A pedagogia do diálogo que praticava fundamentase numa filosofia pluralista O pluralismo não significa ecletismo ou posições adocicadas como ele costumava Graziela Scheffer 300 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 dizer Significa ter um ponto de vista e a partir dele dialogar com os demais É o que mantinha a coerência da sua prática e da sua teoria Paulo era acima de tudo um humanista Seria a única forma de classificálo hoje GADOTTI 2007 p 347 grifos nossos Esclarecemos que o pluralismo abrange o respeito à diversidades religiosa política cultural teórica orientação sexual etc Ou seja pluralismo é princípio democrático que consiste na convivência entre diferentes sujeitos e projetos societários COUTINHO 2000 O ecletismo se caracteriza pela mistura indiscriminada das ideias e teorias de diversos autores que obedecem à lógica de serventia do escritor Estamos em concordância que o pensamento de Paulo Freire que articula a perspectiva de pluralidade que se reflete na compreensão do oprimido O oprimido é o ser humano alijado da condição de ser mais no sentido de realização da vocação de ser capaz de pronunciar o seu mundo como sujeito É um ser histórico com uma subjetividade complexa cujos níveis de profundidade requerem para a sua apreensão uma arqueologia da consciência Embora seja o portador da esperança de um futuro diferente ele não está isento ou acima dos conflitos e das contradições da sociedade em que vive STRECK 2009 p 543 Acreditamos ser difícil enquadrar a produção teórica de Paulo Freire dentro das vertentes clássicas da sociologia mas sim reconhecer as diferentes influências que se fazem presentes em diferentes momentos de sua obra portanto é um teórico que condensa diversas matrizes teóricas e outros autores da filosofia cristã O autor estabelece um diálogo com os teóricos de esquerda e com vertente do humanismo cristão mas mantendo sua autonomia e seu diferencial em sua interpretação ressaltando a particularidade da realidade social do homem da América Latina e no seu sistema histórico de reprodução da opressão Sua posição intelectual não é um processo neutro mas instrumento de luta de modo que suas obras são atravessadas por uma constante tentativa de desvelamentos dos mecanismos de opressãolibertação tecidas nas formas estruturais e sutis vivenciadas no cotidiano do homem latinoamericano Seu método é visto enquanto instrumento de luta social que visa contribuir com a ruptura da opressão e com a transformação societária No entanto e apesar das acusações de ecletismo das ideias freirianas não podemos obscurecer a relevância histórica do lugar do pensamento crítico de Paulo Freire no Serviço Social brasileiro e latino americano pois representou uma importante interlocução com os movimentos sociais de esquerda na luta pela democracia Cabe observar a abrangente e profunda influência do pensamento do pedagogo brasileiro sobre as vanguardas profissionais neste período salvo erro nosso boa parcela da produção latinoamericana do Serviço Social nestes anos no que tem de proposta interventiva depende inteiramente das formulações contidas em Freire NETTO 2011 p 149 No Brasil esse movimento durante a ditadura militar impossibilitou a contestação política de forma que o que se destacou foi a vertente do tecnocráticomodernizadora Já em outros países latino americanos a reconceituação tomou rumos abertamente críticos de contestação política visando à transformação social YAZBEK 2000 Desse modo as críticas latinoamericanas penetraram tardiamente no Serviço Social brasileiro só se consolidando após a crise da ditadura A renovação brasileira teve horizonte à modernização instrumental da profissão marcado pelo aprofundamento tecnicista e pragmático que visava avançar e ampliar suas bases legitimadoras na sociedade brasileira IAMAMOTO 2004 No decorrer do nosso estudo verificamos que as elaborações de Paulo Freire no Serviço Social sofreram ao longo do tempo diferentes apreensões e interpretações sob espectro multicolor da Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 301 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Reconceituação na América Latina e no processo de renovação no Brasil por meio das três correntes teóricas presentes em seu interior7 no período pós64 No Brasil as ideias freirianas sobressaíram na formulação do Método de Belo Horizonte vinculado à vertente Intenção de Ruptura As obras de Paulo Freire no Serviço Social nas décadas de 1960 e 70 foram forças vitais para criar uma nova moralidade profissional ancorada na participação política no trabalho com os movimentos sociais populares fruto das críticas da reconceituação latinoamericana na aproximação com o marxismo e com a militância católica progressista Seu legado impactou profundamente na elaboração do Método de Belo Horizonte de 1975 BARROCO 2006 O Método de BH tinha como objetivo a transformação do homem e da sociedade pautada no processo de conscientização A base do método utilizado era a perspectiva dialética entretanto o esforço de sua sistematização acabou levando à lógica formalista que tantos de seus integrantes pretendiam romper Contudo a experiência significou um avanço na profissão no intento de romper com conservadorismo pois contribuiu na denúncia ao teoricismo e ao método de pesquisa positivista buscando demonstrar a necessidade de articular a investigação ao processo imediato de organização e mobilização popular Notase que os elementos identificados na criação do Método de BH são fruto da fase teórica de Freire em exílio GOMES 2011 Na realidade na experiência de Belo Horizonte todos objetivosmeios surgem articulados ao pensamento de Paulo Freire filtrados com uma lente maoista O centro da concepção dos formuladores é que a ação profissional é fundamentalmente política Essa postura confunde atribuições profissionais com as do militante político é a redefinição do papel da profissão uma dimensão políticopedagógica colocando como objeto da atuação profissional a ação social da classe oprimida recorrendo à teoria da aprendizagem de Paulo Freire A despeito de qualquer crítica o Método de BH tem mérito de pela primeira vez explicitar o caráter político da profissão GOMES 2011 p 63 grifos nossos Entretanto Netto 2011 p 149 coloca que o pensamento de inspiração marxiana nos meandros da reconceituação sofreu equívocos ecléticos grosseiros que chegou a supor uma congruência teórico metodológica com o substrato das propostas de Paulo Freire Por sua vez Quiroga 1991 também traz uma interessante análise da apreensão enviesada da ótica voluntarista da matriz marxista aliada ao pensamento freiriano no Serviço Social Esse tratamento representa de uma certa continuidade agora dentro da perspectiva marxista da visão humanista predominante historicamente no Serviço Social e que encontrou mais recentemente nas lições de Paulo Freire a sua reciclagem Tal antecedente humanista que pretende valorizar a ação dos homens ressalta outra deformação tratase da abordagem do papel histórico dos homens considerados muitas vezes como indivíduos e não como sujeitos históricos as classes sociais QUIROGA 1991 p 116 Conforme abordamos anteriormente as obras freirianas impactaram no Movimento de Reconceituação trazendo importantes reflexões sobre concepção do homem enquanto sujeito de sua história a dimensão educadora da profissão e os questionamentos sobre os elementos políticos da prática que posteriormente se consolidaram numa aproximação ao marxismo Outra forma de exemplificar a apreensão do pensamento freiriano no Brasil é a vertente da reatualização conservadora no Brasil presente na construção da professora Ana Maria Pavão aliada ao viés fenomenológico que enfatizou a visão existencial do trabalho social NETTO 2011 A autora utilizou como subsídio a concepção de diálogo consciência articulada na visão humanista de Freire Graziela Scheffer 302 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Para Pavão 1988 p 40 Sendo a conscientização um processo eminentemente educativo tomamos como ponto de partida o pensamento pedagógico de Paulo Freire cuja postura se apoia numa concepção de homem e de mundo com nítida influência fenomenológica Em nossa visão a autora da reatualização conservadora despolitiza a perspectiva do autor visto que o referencial freiriano da época afirmava claramente que toda a educação é em si política e que estava circunscrita na luta entre opressores e oprimidos cuja revolução somente era possível pela libertação do oprimido No próximo item analisaremos duas obras de Paulo Freire visando identificar e aprofundar suas contribuições ao Serviço Social Aproximações analíticas América Latina e Brasil Nesta etapa do ensaio analisaremos duas obras do autor Pedagogia do oprimido e Educação e mudança focadas em dois eixos perspectiva ontológica e crítica ao assistencialismo enfatizando seus desdobramentos no debate do trabalho profissional Optamos por nos limitar nesses pontos levando em consideração a amplitude do pensamento do autor e a importância desses aspectos no processo de renovação crítica da profissão8 O objetivo é apresentar um estudo exploratório enfatizando as produções latinoamericanas por meio de comparação entre o pensamento freiriano e os teóricos do Serviço Social Também introduzimos breves reflexões contemporâneas do Serviço Social brasileiro acerca da temática da subjetividade e do assistencialismo Perspectiva ontológica a subjetividade forjada na opressãolibertação os homens são seres da busca e sua vocação ontológica é humanizase FREIRE 1987 p 35 O autor constrói sua abordagem ontológica partindo da discussão da humanização versus a desumanização ou seja para falar de humanização implica em reconhecer a desumanização não apenas como visibilidade ontológica mas como realidade histórica FREIRE 1987 p 16 Portanto a desumanização é negação da vocação ontológica de ser mais Cabe ressaltar que a visão de desumanização é histórica e não destino dado podendo ser mudada pois é produto de uma ordem injusta criada por meio da violência dos opressores A ontologia freiriana que o Serviço Social recebeu foi fruto da conciliação entre humanismo cristão e o humanismo marxista que proporcionou por um lado uma compreensão do caráter humanista do pensamento marxista entretanto por outro subordinou seus princípios à metafísica da filosofia cristã impedindo naquele momento que se efetuasse uma crítica ontológica no interior do próprio marxismo BARROCO 2006 Ilustrando a tentativa de conciliação do humanismo cristão e marxista observemos o trecho a opressão real ainda opressora acrescentandolhe a consciência da opressão a que Marx se refere corresponde à relação dialética subjetividade e objetividade Somente na sua solidariedade em que o subjetivo constituise com o objetivo uma unidade dialética é possível a práxis autêntica FREIRE 1987 p 21 A luta pela humanização pelo trabalho livre pela desalienação pela afirmação dos homens como pessoas como seres para si não teria significação Essa somente é possível porque a desumanização mesmo que um fato concreto na história não é porém destino dado mas resultado de uma ordem Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 303 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 injusta que gera violência dos opressores e esta o ser menos FREIRE 1987 p 16 O autor aborda também a dinâmica contraditória entre opressores e oprimidos visando à superação dialética na consolidação da libertação do oprimido O problema está em como os oprimidos que hospedam ao opressor em si participar da elaboração como seres duplos inautênticos da pedagogia de sua libertação Somente na medida em que se descubram hospedeiros de opressor poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora Enquanto vivam a dualidade na qual ser é parecer e parecer é parecer com opressor é impossível fazêlo A estrutura de seu pensar se encontra condicionada pela contradição vivida na situação concreta existencial em que se formam FREIRE 1987 p 17 Nesse trecho podese identificar na visão do autor ênfase na reprodução das estruturas externas sociedade na interiorização do sujeito subjetividade ou seja o oprimido absorve a visão do opressor e a espelha no seu cotidiano O mecanismo dessa interação é permeado pela dinâmica contraditória e conflituosa entre opressor e oprimido A questão da hospedam do opressor pelo oprimido foi interpretada no contexto de reconceituação do Serviço Social na crítica da incorporação dos valores e teorias estrangeiras alienadas da realidade social latinoamericana colocando que nossa região latinoamericana empregando juízos de valor estranhos do século XIX e de um Ocidente que apenas em nossas mentes funcionava como cultura unificada Assim ao invés de nos orgulharmos de ser criativos lamentamosnos de ser desorganizados ao invés de oportunos consideramonos impontuais confundimos dignidade com intransigência originalidade com rebeldia emoção genuína com falta de amadurecimento Aceitamos como lastro e não como tesouro nossa relação com sol com a água com as arvores e com os pássaros nosso amor à vida e nossa aceitação da morte Nunca nos detivemos em pensar se nossos valores eram importados porque nunca aceitamos a ideia de nossa existência como latinoamericanos Acreditamos existirmos como europeus ou como nativos A língua a religião e a literatura nos fizeram sentir durante quatro séculos Ocidente RUZO 1975 p 9 Com apoio na explanação acima podemos verificar que a concepção de homem oprimido latino americano e o mecanismo de absorção do opressor na sua consciência justificaram em certa medida o trabalho de base que proporcione a conscientização dos sujeitos sobre sua condição de oprimido superando assim a incorporação da sombra dos opressores rompendo com esse ciclo Vejamos a afirmação abaixo Libertação a que não chegarão pelo acaso mas pela práxis da sua busca pelo conhecimento da necessidade de lutar por ela Pedagogia do Oprimido aquela que tem de ser forjada com ele e não para ele enquanto homens ou povos na luta incessante de sua humanidade Pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação FREIRE 1987 p 17 Dando sequência outra crítica realizada no período foi a concepção abstrata e idealista de sujeito gestada no conceito de dignidade humana usada pelo Serviço Social tradicional imbricada no entendimento de subjetividade e as particularidades formação social e cultural dos países latino americanos observemos então Somos uma cultura mestiça e católica Não podemos continuar dizendo que nos preocupamos com dignidade do ser humano se negamos ao ser humano da América Latina de ser genuíno Esse homem e essa mulher da América Latina a quem me refiro não é especialmente o índio nem preto nem pai de santo nem Graziela Scheffer 304 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 caboclo Somos também nós que temos alguma coisa de tudo isso mas que além disso somos o branco o missionário o patriarca e que mesmo renegamos e nos envergonhamos ora por nos sentirmos inferiores ora por sentirmos superiores Faltanos o orgulho de sermos física e intelectualmente mestiços porque não analisamos e não aceitamos nossos valores RUZO 1975 p 8 Com base na citação supracitada podemos identificar elementos do pensamento freiriano em dois sentidos o primeiro em mostrar nosso diferencial na formação social e o segundo na tentativa de demonstrar a incorporação da visão dos opressores colonizadores pelos oprimidos povo latino americano A questão da opressão e do opressor está implicada na concepção de classe dominante ou seja para os opressores o que vale é ter mais e cada vez mais à custa inclusive do ter menos ou nada ter dos oprimidos Ser para eles é ter como classe que tem Não podem perceber a situação opressora em que estão com usufrutuários que se ter é condição para ser esta condição é necessária a todos os homens Não podem perceber que na busca egoísta do ter como classe que tem se afogam na posse e já não são FREIRE 1987 p 26 Consequentemente o desvelamento da realidade e a historicidade das contraditórias e das opressões vivenciadas pelo homem latinoamericano são essenciais para processo de libertação do oprimido Portanto o processo de libertação assume um pertencimento com pensamento crítico das contradições não apenas na teoria nem apenas na prática mas na práxis que integra ação e reflexão como dois movimentos complementares em permanente tensão STRECK 2009 p 555 A libertação é caminho árduo do conhecimento da realidade que envolve uma dimensão educativa e participativa dos oprimidos A liberdade que é uma conquista e não uma doação exige uma permanente busca Ninguém tem liberdade para ser livre pelo contrário luta por ela porque não a tem Não é também liberdade um ponto ideal fora dos homens ao qual inclusive eles se alienam É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos FREIRE 1987 p 18 Demonstrando essa inspiração da dimensão ontológica do autor embargada no debate da reconceituação latinoamericano citamos também outro autor destacado na produção acadêmica do período a fim de reafirmar sua influência no Serviço Social latino americano Para o Serviço Social tradicional o homem era objeto quando apresentasse problemas sociais e o objetivo era adaptálo a uma sociedade equilibrada Para o Serviço Social reconceituado o homem é um transformador do mundo um fazedor de si mesmo e do mundo Portanto o sujeito O homem objeto é impulsionado pelos demais massificado coisificado em situação de dependência O homem sujeito é um ser dentro do mundo e com o mundo está situado e fechado aberto aos desafios inconcluso um programador de sua vida na qual totaliza seus projetos É um ser livre enquanto tem a capacidade de optar e histórico como homem de sua época KISNERMAN 1972 p 51 Trazendo os elementos da opressão e do opressor apontados pelo autor podemos destacar o processo de coisificação atrelado ao controle social e a desumanização na formação social brasileira Essa visão do autor desemboca na discussão do controle social dos opressores sobre oprimidos vejamos Se humanização dos oprimidos é subversão sua liberdade também o é Daí a necessidade de seu constante controle E quando mais controlam os oprimidos mais os transformam em coisa em algo que fosse inanimado Essa tendência Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 305 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 dos opressores de inanimar tudo e todos que se encontra em sua ânsia de posse se identifica indiscutivelmente com a tendência sadista O sadismo aparece assim como uma da consciência opressora na sua necrófila do mundo FREIRE 1987 p 26 Podemos identificar no processo de colonização no Brasil o sadismo enquanto uma faceta psicossocial da classe dominante descrita por Gilberto Freyre Resultado da ação persistente desse sadismo de conquistador de senhor sobre escravo parecenos o fato ligado naturalmente à circunstância econômica da nossa formação patriarcal em nossa vida política onde mandonismo tem sempre encontrado vítimas em que exercerse com requintes sádicos a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando disfarçando em princípio da Autoridade ou defesa da Ordem FREYRE G 1986 p 8687 Avançando no ponto de vista do autor podemos identificar sua compreensão acerca da dialética subjetividade e objetividade elementos latentes do entendimento ontológico Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade Não há uma sem a outra que não podem ser dicotomizadas A objetividade dicotomizadas da subjetividade a negação desta na análise da realidade ou na ação sobre ela é objetivismo Da mesma forma a negação da objetividade na análise como ação conduzindo ao subjetivismo que se alonga em posições solipsistas nega a ação da mesma por negar a realidade objetiva desde que esta passa a ser criação da consciência Nem objetivismo nem subjetivismo ou psicologismo mas subjetividade e objetividade em permanente dialeticidade FREIRE 1987 p 20 No sentido freiriano a estrutura social é uma construção históricocultural do homem cujo movimento do real é um jogo dialético de mudança e estabilidade Dessa forma a estrutura não é a mudança nem o estático tomados isoladamente mas a duração da contradição entre ambos deste universo criado pelo homem a mudança e a estabilidade da sua própria criação aparecem como tendências que se contradizem Esta é a razão pelo qual não há mundo humano isento de contradição Enquanto a estrutura social se renova através das mudanças de suas formas a estabilidade representa a tendência à normalização da estrutura FREIRE 2011 p 48 grifos nossos Mais adiante o autor esclarece a diferença de subjetivismopsicologismo e subjetividade Confundir subjetividade com subjetivismo com psicologismo e negarlhe a importância que tem no processo de transformação do mundo da história é cair num simplismo É admitir o impossível um mundo sem homens tal outra ingenuidade a do subjetivismo que implica em homens sem mundo FREIRE 1987 p 20 Podemos perceber a partir dos trechos acima elementos polêmicos9 do debate atual na profissão sobre a subjetividade e o marxismo que na visão do pedagogo Em Marx como em nenhum pensador crítico realista jamais se encontrará dicotomia O que Marx criticou e cientificamente destruiu não foi a subjetividade mas o subjetivismo o psicologismo FREIRE 1987 p 20 grifos nossos O entendimento freiriano sobre subjetividade e a crítica ao subjetivismopsicologicismo encarnados no Serviço Social tradicional foram fundamentais na renovação da profissão no Brasil pois inaugurou uma nova abordagem de subjetividade que será materializada no código ético da profissão de 1993 tendo liberdade enquanto valor central Graziela Scheffer 306 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Consideramos que a dimensão subjetiva atravessa todos os processos de trabalho em que o Serviço Social se insere Entretanto sofreu metamorfoses no decorrer da história da sociedade e da profissão de sua base conservadora de ajuda psicossocial para os dias atuais no exercício da cidadania Essa dimensão esteve efetivamente ligada aos processos educativos e culturais que serviram para o controleconsenso da população mas veio sendo reapropriada de forma crítica e engajada pelos movimentos sociais e por produções acadêmicas contemporâneas principalmente as produções ligadas à Reforma Psiquiátrica brasileira MACHADO 2009 Em suma os elementos da ontologia freiriana no entendimento opressoroprimido no entendimento da subjetividade proporcionaram reflexões ainda não resolvidas no Serviço Social na contemporaneidade que precisam ser amplamente dialogadas e entendidas e cujo legado freiriano pode ser marco dialético para um novo jeito de caminhar sobre a temática da subjetividade Acreditamos que o debate freiriano avançou na ruptura com o pensamento conservador no olhar da subjetividade acima das relações sociais orientada na perspectiva idealizada e essencialista da dignidade humana propagada pelo Serviço Social tradicional Crítica ao assistencialismo uma reflexão do processo de ruptura As primeiras obras freirianas originalmente foram publicadas em 1959 no Brasil sendo reelaboradasexpandidas nos livros Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido Essas obras trazem a contundente crítica ao assistencialismo da época Paulo Freire a partir de sua experiência no trabalho assistencial no SESI formulou uma crítica e recusa ao assistencialismo que transparecem claramente nas análises do educador BEISIEGEL 2010 Opúnhamonos a estas soluções assistencialistas ao mesmo tempo em que não aceitávamos as demais porque guardam em si uma dupla contradição Em primeiro lugar contradizem a vocação natural da pessoa a de ser sujeito e não ser objeto e o assistencialismo faz de quem recebe a assistência objeto passivo O grande perigo do assistencialismo está na violência do seu antidiálogo não lhe oferece condições para desenvolvimento de sua consciência que nas democracias autênticas há de ser cada vez mais crítica FREIRE 1987 p 65 Em nosso ponto de vista o debate limítrofe do assistencialismo e a educação popular construído pelo pensador também foi fruto da convivência com as pioneiras da primeira geração conforme entrevista do autor concedido para Revista Serviço Social e Sociedade n 3 em 1980 Inclusive há algo que eu gostaria de sublinhar numa conversa numa publicação de serviço social que corresponde a uma espécie de dever ou até de gratidão de minha parte ao Serviço Social Quer dizer é a presença de assistentes sociais na minha prática de educador e até eu diria na minha visão mesma do trabalho pedagógico popular Muito moço em Recife indiscutivelmente marcado por mulheres de forte e amável personalidade e também pela competência e seriedade de pessoas como por exemplo Lourdes Moraes Dolores Coelho Maria Hermínia Hebe Gonçalves Heloísa Bezerra de uma geração já destas e de outras mais como Evany Mendonça também filha da primeira geração Conversei muito discuti sempre muito com elas aprendi e acho que ensinei FREIRE 1980 p 73 Nesse testemunho inquietante de Paulo Freire podemos considerar um momento singular da história do Serviço Social nas interceções dos debates da educação popular que nos possibilita identificar que fomos inspiradores inspirados e sujeitoobjeto nessa travessia da primeira geração de assistentes Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 307 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 sociais ao processo de consolidação do legado freiriano na profissão marcados nos fluxos teóricos da intenção de ruptura As críticas freirianas ao assistencialismo geraram certas indagações do pensamento latino americano que muitas vezes levaram as respostas enviesadas entretanto foram extremamente relevantes pois possibilitaram abrir a Caixa de Pandora da intervenção profissional Imamoto 2008 apresentando um balanço do impacto da crítica ao assistencialismo na América Latina relata que a assistência social tornouse um tema maldito na reconceituação do Serviço Social latinoamericano que procurava romper com as históricas ações de cunho paternalista e assistencialista que manchavam a imagem social e acadêmica dos assistentes sociais Contudo no conduzir do debate a assistência social acabou ficando presa numa dupla cilada a primeira desconsiderava o caráter contraditório da assistência social e a segunda continuava em conferir o caráter assistencialista da profissão exclusivamente nas atividades realizadas no âmbito do Serviço Social de caso Portanto o exercício profissional foi analisado no processo de reprodução da dominação opressão Atrelado à critica ao assistencialismo e ao paternalismo agregase o debate do Serviço Social de caso que foi comparado à prática bancária das práticas bancárias da educação a que se junta toda uma ação social de caráter paternalista em oprimidos recebem o nome simpático de assistidos são casos individuais meros marginalizados que discrepam da fisionomia da sociedade Esta é boa organizada e justa Oprimidos como casos individuais são patologias da sociedade sã que precisa por isso mesmo ajustálos a ela mudandolhes a mentalidade de ineptos e preguiçosos FREIRE 1987 p 35 grifos nossos No supracitado podemos identificar claramente a crítica ao modelo adotado pelo Serviço Social tradicional O Serviço Social de caso tinha como referencial o positivismofuncionalista fluído de parâmetros psiquiátricos e psicologizantes que determinaram uma concepção profissional sujeito pobrezadoença objeto x estudotratamentoajustamento social intervenção O posicionamento reconceituado latinoamericano sobre o Serviço Social de caso era A única esperança do Serviço Social na verdade o único caminho adequado a tomar é participar da corrente atuante da ação social é compreender o quanto é completamente irrelevante atuar como psiquiatra de indigente a maioria das tensões na vida do indivíduo são causados direta ou indiretamente por circunstâncias sociais pela pobreza Portanto como um estudante de Serviço Social escreveu na parede de sua sala de aula precisamos arrancar o serviço social dos nossos corações YOUNGHUSBAND 1975 p 30 Freire em seu artigo sobre O papel do trabalhador social no processo de mudança expõe o papel do trabalhador social não se dá no processo de mudança em si mas num domínio mais amplo Domínio no qual a mudança é uma das dimensões Naturalmente este domínio específico no qual atua o trabalhador social é a estrutura social FREIRE 2011 p 45 Diante desses pressupostos o educador coloca que Falar do papel do trabalhador social implica na análise da mudança e da estabilidade como expressões da forma de ser da estrutura social trabalhador social atua numa realidade qual mudando permanece para mudar novamente como homem somente pode entender ou explicar a si mesmo como um ser de relações com esta realidade realidade se dá com outros homens tão condicionados como ele pela realidade dialeticamente permanente e mutável e que finalmente precisa conhecer na qual atua com os outros homens FREIRE 2011 p 48 Graziela Scheffer 308 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 O segundo ponto que destacamos foi qual problematização de Freire acerca da autointitulação do assistente social enquanto agente da mudança reconhecerse como agente da mudança atribui a si a exclusividade da ação transformadora que sem dúvida numa concepção humanista cabe também aos demais homens realizarem Se sua opção é pela humanização não pode então aceitar que seja o agente da mudança mas um de seus agentes FREIRE 2011 p 52 Podemos identificar a absorção da herança do autor no debate do agente da mudança no texto do autor latinoamericano A alienação é sustentada pelos declaradores da alienação revolucionários de confeitaria pelos pregadores de sua verdade pelos que fogem da realidade com seus sonhos edificantes hippies pelos intelectuais e profissionais neutros pelos ativistas autosustentados em si mesmo alimentados pela utopia social que criam agentes de mudança e não encontram visibilidade em seus atos O homem sujeito exposto ou propenso a alguma coisa é o homem que se descobre no mundo o que dá sentido ao mundo e às coisas KISNERMAN 1972 p 54 Segundo Barroco 2006 foi por meio da militância que a ética emergiu como elemento motivador da opção política pelas lutas populares que se vinculou à educação popular inspirada em Paulo Freire Sua constituição inicial esteve articulada à ideia de agente da mudança ao posterior compromisso com classe trabalhadora Desse modo a busca de ruptura com o Serviço Social tradicional foi gerida pela elaboração de uma nova identidade permeada pelo engajamento político e a ação educativa voltada à libertação dos oprimidos Exemplificando a análise da presença do pensamento freiriano atrelado à concepção de militância no trabalho profissional na AméricaLatina observamos que De acordo com Freire a ação profissional deve se encaminhar essencialmente para a organização das massas tarefa que implica o testemunho que lhes oferecer para demonstrar que o esforço é uma tarefa executada em comum Um grupo como organização é eficiente quando conseguiu estabelecer o diálogo entre seus membros quando acima das reivindicações pessoas ou das minorias tomou consciência da reivindicação de todos os homens KISNERMAN 1972 p60 Identificamos que as interpretações freirianas no Movimento de Reconceituação Latino Americana foi contraditória pois de um lado rompeu com a suposta neutralidade do assistente social condenou os métodos tradicionais e o controle dos oprimidos No entanto a apreensão levou a profissão a assumir uma postura politicista da intervenção desvinculada da análise das condições objetivas do assalariamento do Serviço Social Entretanto esse ethos da esquerda seja socialista ou católica progressista produziu no âmbito profissional uma postura militante por meio de ações educativas junto aos movimentos populares Esse fato contribui para que os assistentes sociais conseguissem desenvolver intervenções políticoorganizativas pautadas em novas bases agora educase para libertar donde a influência de Paulo Freire nesse momento foi primordial BARROCO 2006 p 145 Em síntese do percurso analítico apresentado acreditamos que tenha ficado explícita a importância do pensamento freiriano na renovação crítica do Serviço Social no Brasil e na América Latina que a nosso ver contribuiu nos seguintes aspectos a na ruptura da neutralidade e afirmação de seu caráter político da intervenção profissional b na busca de uma prática comprometida com libertação dos oprimidos c na valorização da militância política e da cultura popular d na colaboração no recebimento das teorias marxistas e na mudança na concepção de homemsubjetividade Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 309 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Ao término deste último tópico do estudo da herança de Freire no Serviço Social fechamos com esperança de ter colaborado para retomada da leitura das obras do educador na atualidade Algumas considerações Se nada ficar destas páginas algo pelo menos esperamos que permaneça nossa confiança no povo Nossa fé nos homens e na criação de um mundo em que seja menos difícil de amar FREIRE 1987 p 108 Nesse ensaio de cunho bibliográfico buscamos demonstrar a importância do pensamento freiriano no Serviço Social articulado ao processo de renovação crítica na América Latina e no Brasil O legado freiriano na profissão que percorreu um sinuoso trajeto sofrendo desvios subjetivistas e despolitizantes pela vertente fenomenológica bem como articulações ecléticas com o marxismo que vão desde situações grosseiras de elaborações até os desdobramentos mais maduros explicitados no Método de BH Também contribuiu para constituição de uma nova moralidade profissional centrada na liberdade e na militância política em favor dos oprimidos e explorados rompendo o tradicionalismo abstrato da ética e da neutralidade no Serviço Social centrado principalmente no trabalho de caso Na elaboração do artigo observamos que muitos autores do Serviço Social indicam a importância de Paulo Freire na profissão todavia encontramos parcas análises do impacto do pensamento freiriano Em nosso ponto de vista o estudo do pensamento freiriano poderia ser valioso no entendimento da constituição da vertente intenção de ruptura no Brasil e da Reconceituação latinoamericana pois se desdobrou numa aproximação com os movimentos sociais e com o marxismo Também proporcionou numa autoanálise da dimensão políticopedagógica do fazer profissional Fazendo um breve apontamento acerca das conformações neoliberais na política de educação e estudo do arcabouço de Paulo Freire consideramos que o ensino público de nível superior principalmente nas universidades federais recémcriadas vem assumido uma tendência de focalização no processo de ensinoaprendizagem ou seja atualmente temos uma ênfase assoberbada na via ensino na sala de aula objetivando atender o maior número de discentes Consequentemente a focalização na sala aula como único recurso de formação dos discentes tende a limitar os espaços formativos de crítica autônoma e universalista da pesquisa e da extensão É nesse sentido que as críticas freirianas categorizadas na educação bancária na desumanizaçãohumanização e no processo oprimidoopressor continuam relevantes na contemporaneidade a sua pedagogia continua válida não só porque ainda há opressão no mundo mas porque ela responde a necessidades fundamentais da educação de hoje o pensamento de Paulo Freire é mais atual do que nunca pois em toda a sua obra ele insistiu nas metodologias nas formas de aprender e ensinar nos métodos de ensino e pesquisa nas relações pessoais enfim no diálogo Há algo que permanece constante no pensamento dele a sua preocupação ética seu compromisso com os condenados da Terra Pedagogia do oprimido com os excluídos Pedagogia da Autonomia GADOTTI 2002 p 345 Em tempos do capital financeiro as críticas às práticas bancárias são um caminho fecundo no entendimento das configurações da educação universitária na contemporaneidade A crítica e a transformação da realidade social na formação vêm submergindo em exigências massificadas do mercado capitalista na contemporaneidade Freire 1996 p 14 nos alerta que formar é muito mais do puramente treinar o educando no desempenho de destrezas Entretanto a perspectiva neoliberal prega a ideologia que só há uma Graziela Scheffer 310 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 saída para prática educativa adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada é o treino técnico indispensável á adaptação do educando à sua sobrevivência FREIRE 1996 p 20 Refletir sobre o legado de Paulo Freire nos permitiu captar elementos históricos que contribuíram na renovação do Serviço Social crítico Além disso nos trouxe reflexões sobre a educação comprometida na construção de uma sociedade justa e combatente a todas as formas opressãoexploração Referências AMMANN S B Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil 10 ed São Paulo Cortez 2003 ANDRADE M A de O metodologismo e desenvolvimentismo no Serviço Social brasileiro 1946 a 1961 Serviço Social Realidade Franca v 17 n 1 p 268299 2008 Disponível em httpperiodicosfrancaunespbrindexphpSSRarticledownload1378 Acesso em 05 de abril de 2012 BARROCO M L S Ética e Serviço Social fundamentos ontológicos 4 ed São Paulo Cortez 2006 BEISIEGEL R C de Paulo Freire Brasília MEC Fundação Joaquim Nabuco Editora Massangana 2010 Coleção Educadores COUTINHO C Contra corrente ensaios sobre a democracia e o socialismo São Paulo Cortez 2000 FALEIROS V P Estratégias em Serviço Social São Paulo Cortez 1999 FREIRE P A prática de pensar a prática é a melhor maneira de aprender a pensar Revista de Serviço Social e Sociedade São Paulo Cortez n 3 1980 A educação como prática da liberdade 24 ed São Paulo Paz e Terra 2000 Pedagogia do oprimido São Paulo Paz e Terra 1987 Pedagogia da autonomia saberes necessários à prática educativa São Paulo Paz e Terra 1996 Pedagogia da esperança um reencontro com a pedagogia do oprimido 11 ed São Paulo Paz e Terra 2003 Educação e mudança São Paulo Paz e Terra 2011 FREYRE G Casagrande senzala formação da família brasileira sobre o regime patriarcal São Paulo Círculo do Livro 1986 GADOTTI M Por que continuar lendo Freire O Estado de S Paulo 27052007 Disponível em httpwwwihuunisinosbrnoticiasnoticiasanteriores7426porquecontinuarlendopaulofreireartigodemoacirgadotti Acesso em 7 jan 2011 Educação e ordem classista In FREIRE Paulo Educação e mudança São Paulo Paz e Terra 2011 GOMES M F Paulo Freire e Serviço Social no Brasil elementos do pensamento freiriano para superação do conservadorismo na profissão Em Pauta Disponível em httpwwwepublicacoesuerjbrindexphprevistaempautaarticleview24981931 2011 Acesso em 10 out 2012 IAMAMOTO M V Serviço Social na contemporaneidade 7 ed São Paulo Cortez 2004 Serviço Social em tempo de capital fetiche capital financeiro trabalho e questão social São Paulo Cortez 2008 CARVALHO R de Relações sociais e Serviço Social no Brasil Esboço de uma interpretação históricometodológica 15 ed São Paulo Cortez 2003 KISNERMAN N Sete estudos sobre Serviço Social São Paulo Cortez Moraes 1972 KOIKE Maria M Formação profissional em Serviço Social exigências atuais Disponível em httpwwwprofjoaodantasnombrmaterialdidaticomaterial5FormacaoprofissionalemServicoSocialexigenciasatuais pdf Acesso em 07 set 2012 KONDER L O marxismo na batalha das ideias São Paulo Expressão Popular 2009 LOWY M O marxismo dos anos 60 na França a corrente humanista revolucionária Revista Serviço Social Sociedade São Paulo Cortez n 30 1989 A guerra dos deuses religião e política na América Latina Petrópolis Vozes 2000 MACHADO G S Reforma psiquiátrica e Serviço Social o trabalho dos assistentes sociais na equipe dos CAPS In Vasconcelos E M Org Abordagens psicossociais São Paulo Hucitec 2009 v 3 Perspectivas para o Serviço Social NETTO J P Ditadura e Serviço Social uma análise do Serviço Social no Brasil pós64 São Paulo Cortez 2011 PAIVA V Paulo Freire e o nacionalismo desenvolvimentista Revista de Ciências da Educação São Paulo Graal 2000 n 2 p 8386 Disponível em httpsisifofpceulpt Acesso em 20 dez 2011 PAVÃO Ana Maria Braz O Princípio de autodeterminação no serviço Social São Paulo Cortez 1988 PINHEIRO L F Serviço Social religião e movimentos sociais no Brasil Rio de Janeiro GrammaFAPERJ 2010 PRAXEDES W L de A Repensando a recepção do marxismo no pensamento educacional brasileiro Revista Espaço Acadêmico Maringá ano 2 n 12 maio 2002 Disponível em wwwespacoacademicocombr Acesso em 08 dez 2011 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 311 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 QUIROGA C Invasão positivista no marxista manifestação no ensino da metodologia no Serviço Social São Paulo Cortez 1991 VASCONCELOS E M Org Saúde mental e Serviço Social o desafio da subjetividade e da interdisciplinaridade São Paulo Cortez 2000 RUZO Elya C C Uma filosofia latinoamericana de Serviço Social Revista Debates Sociais Rio de Janeiro CBSSI maio 1975 SILVA M Ozamira da Silva e Org O Serviço Social e popular São Paulo Cortez 2009 STRECK D R Da pedagogia do oprimido às pedagogias da exclusão um breve balanço crítico Educação Sociedade Campinas v 30 n 107 p 539560 maioago 2009 Disponível em httpwwwcedesunicampbr Acesso em 07 set 2012 WANDERLEY L E W Educação popular metamorfoses e veredas São Paulo Cortez 2010 WEFFORT F Educação e política reflexões sociológicas sobre a pedagogia da liberdade Prefácio In FREIRE Paulo A educação como prática da liberdade 24 ed São Paulo Paz e Terra 2000 YAZBEK M C Os fundamentos do Serviço Social na contemporaneidade In UNIVERSIDADE NACIONAL DE BRASÍLIA Capacitação em serviço social e política social módulo 4 Brasília UNBCEAD 2000 YOUNGHUSBAND E O futuro do Serviço Social Debates Sociais Rio de Janeiro CBSSI maio 1975 1 A criação e expansão as instituições na década de 1940 visavam garantir o controle social e sua legitimação O Estado Novo por meio de uma política de massa faz gestão à proteção e simultaneamente reprime os movimentos reivindicatórios Suas ações vão desde as legislações sociais e sindicais até a criação de um aparato institucional assistencial de forma a se estender desde a regulamentação do trabalho até a uma política social e assistencial aliada muitas vezes à própria classe produtora e à burguesia industrial O surgimento e desenvolvimento das grandes instituições assistenciais na década de 1940 coincidiram com o momento de legitimação e institucionalização do Serviço Social ANDRADE 2008 p 270 2 A Igreja Católica brasileira é um caso único na América Latina na medida em que é única Igreja do continente sobre qual a teologia da libertação e seus seguidores das pastorais conseguiram exercer uma influência decisiva A importância desse fato é evidente se considerarmos que a Igreja Católica brasileira é a maior do mundo LOWY 2000 p 135 3 Para Paiva 2000 existe uma relação entre a ação pedagógica e a produção teórica de Paulo Freire até 1965 e a ideologia nacionalista e desenvolvimentista de cariz populista desenvolvida e divulgada por um núcleo de intelectuais agrupados institucionalmente no ISEB Essa ideologia é apresentada à tradução política e intelectual para a realidade brasileira dos anos 50 e 60 zona periférica do mundo capitalista do keynesianismo e das ideias sociais que serviram de base aos Estados Providência 4 O DC foi uma estratégia lançada para garantir a prosperidade o progresso social e a hegemonia ideológica americana capitalismo cuja política visava preservar o mundo livre de ideologias não democráticas Durante os anos de 1950 a ONU empenhase em sistematizar e divulgar o DC como uma medida para solucionar o complexo problema de integrar esforços da população aos planos regionais e nacionais de desenvolvimento ANDRADE 2008 p 284 5 Para Barroco 2006 a relação do cristianismo com marxismo na América Latina teve dois momentos nos anos 60 a vertente cristã apropriouse do marxismo mediada pelo pensamento católico francês aliado à filosófica humanista do personalismo que busca o diálogo a autenticidade o compromisso social a intersubjetividade a liberdade o amor a solidariedade e o engajamento éticopolítico Esse encontro é manifestado por sistematização articulada entre cristianismo e marxismo Nos anos 70 o marxismo cristão é praticamente fusão entre os princípios cristãos e o ideário socialista 6 Paulo Freire no livro Pedagogia da esperança reencontro com pedagogia do oprimido 2003 responde às críticas marxistas feitas nos anos 70 Interessados consultar a página 89 do referido livro 7 Netto 2011 aponta a constituição de três vertentes teóricas e prática na profissão a modernização conservadora a reatualização do conservadorismo e a intenção de ruptura A primeira vertente denominada modernizadora era pautada no estruturalfuncionalismo que tinha as propostas de adequação da profissão referentes aos instrumentos técnicas formulações para atendimento técnicoinstrumental e tecnologia de planejamento de administração que possibilitassem a operacionalização nos marcos das estratégias de desenvolvimento capitalista A segunda vertente camada de reatualização do conservadorismo emerge na metade dos anos 70 amparada na teoria e nos debates filosóficos da Fenomenologia e do Existencialismo cristãos Essa perspectiva enfatiza a dimensão psicologista e a retórica irracionalista da humanização num sentido abstrato A terceira vertente intitulada intenção de ruptura surge em meados dos anos de 1970 inspirada em fontes marxista e marxiana visando romper com a herança conservadora em suas dimensões teóricometodológica e técnicooperativa 8 Utilizamos alguns autores latinoamericanos do período a que tivemos acesso bibliográfico de nossa própria aquisição Encontramos dificuldade em consultar um número maior de obras da época visto que a universidade em que trabalhamos não tem um acervo histórico das obras do Serviço Social 9 O debate sobre subjetividade no âmbito acadêmico aparece no final dos anos de 90 tendo como marco dois livros Estratégias em Serviço Social FALEIROS 1999 e Serviço Social e Saúde Mental desafio da subjetividade e da interdisciplinaridade VASCONCELOS E 2000 Esses dois autores enfatizam a necessidade de aprofundamento do entendimento sobre os processos subjetivos universais e os processos subjetivos forjados no âmbito singular articulados aos valores universais e aos processos subjetivos circunscritos nas relações sociais econômicas políticas e culturais e introduzem a discussão sobre empoderamento dos sujeitos em nível individual e coletivo MACHADO 2009 1 O LEGADO DE PAULO FREIRE NO SERVIÇO SOCIAL UMA RESENHA CRÍTICA DO ARTIGO DE GRAZIELA SCHEFFER SCHEFFER Graziela Pedaços do tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Textos Contextos Porto Alegre Porto Alegre v 12 n 1 p 292311 janjun 2013 O artigo Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social de Graziela Scheffer apresenta uma reconstrução analítica densa do diálogo entre o pensamento freiriano e o processo de renovação do Serviço Social brasileiro e latinoamericano A autora não se limita a identificar influências conceituais mas situa essa interlocução no interior das transformações históricas políticas e profissionais que atravessaram a profissão ao longo de décadas marcadas por disputas ideológicas e projetos societários antagônicos A abordagem adotada confere centralidade à historicidade compreendendo o legado de Paulo Freire como resultado de mediações concretas entre teoria e prática O pensamento freiriano é tratado como produção situada atravessada por contextos específicos e não como referencial abstrato passível de aplicação imediata Essa opção metodológica permite à autora evitar leituras simplificadoras e estabelecer uma análise crítica sobre os usos e apropriações do pensamento do educador no Serviço Social A noção de tempo mobilizada como categoria interpretativa sustenta a estrutura do texto e permite compreender a coexistência de permanências e rupturas no interior da profissão A autora demonstra que o diálogo entre Paulo Freire e o Serviço Social não se dá de forma linear mas por meio de deslocamentos teóricos que acompanham mudanças nas condições históricas e nas formas de intervenção profissional No período desenvolvimentistanacionalista o artigo evidencia que a pedagogia freiriana se articulava a projetos de modernização social e democratização política A conscientização nesse momento aparecia vinculada à formação de sujeitos aptos a participar do processo democrático sem ainda incorporar uma leitura aprofundada das contradições estruturais do capitalismo dependente latinoamericano Essa fase inicial encontra correspondência no Serviço Social tradicional cujos instrumentais técnicooperativos estavam organizados em torno da adaptação do indivíduo à ordem social A utilização do estudo de caso do trabalho com grupos e das ações comunitárias visava à integração social reforçando uma prática profissional orientada pela harmonia social e pela neutralidade técnica 2 A autora demonstra que o desenvolvimento de comunidade apesar de seu revestimento conservador abriu fissuras importantes no tradicionalismo profissional A atuação em territórios populares e a inserção em equipes multiprofissionais ampliaram o contato do assistente social com sujeitos coletivos organizados criando condições objetivas para a problematização da realidade social O texto evidencia que essas experiências contribuíram para tensionar o uso dos instrumentais profissionais deslocando gradualmente o foco do indivíduo isolado para a dimensão coletiva dos problemas sociais Esse movimento ainda que contraditório preparou o terreno para a incorporação de práticas educativas e participativas inspiradas no pensamento freiriano O golpe civilmilitar de 1964 representa um ponto de inflexão decisivo na análise A repressão política interrompeu processos em curso e impôs limites severos às práticas críticas Simultaneamente o exílio de Paulo Freire produziu uma inflexão teórica relevante marcada pela aproximação sistemática com o marxismo e pela radicalização de sua crítica à sociedade de classes Nesse novo momento a educação deixa de ser concebida como mecanismo autônomo de transformação social A pedagogia freiriana passa a reconhecer os limites objetivos da ação educativa diante da estrutura social reposicionando a conscientização como mediação inserida na luta de classes O Movimento de Reconceituação do Serviço Social emerge nesse contexto como resposta às insuficiências do modelo tradicional A profissão passa a questionar seus fundamentos teóricometodológicos suas bases ideológicas e o sentido político de sua intervenção buscando referências que permitissem romper com o conservadorismo histórico A autora demonstra que o pensamento freiriano ofereceu subsídios importantes para essa ruptura sobretudo ao problematizar a neutralidade técnica e a suposta objetividade dos instrumentais profissionais A prática passa a ser compreendida como intervenção social situada atravessada por escolhas éticopolíticas A metodologia do diálogo proposta por Freire tensiona profundamente o uso dos instrumentos técnicooperativos A entrevista a visita domiciliar e o trabalho com grupos deixam de operar como mecanismos de coleta de dados ou controle social passando a constituir espaços de escuta problematização e produção coletiva de sentidos Essa reconfiguração metodológica redefine a relação entre assistente social e usuários das políticas sociais O sujeito atendido deixa de ser concebido como objeto de intervenção 3 para ser reconhecido como sujeito histórico portador de saberes construídos na experiência concreta de vida e trabalho A dimensão ontológica do pensamento freiriano ocupa lugar central na análise da autora A relação opressoroprimido é apresentada como categoria explicativa da produção histórica da desumanização permitindo compreender como as estruturas sociais se reproduzem no plano da subjetividade Nesse sentido o artigo contribui de forma relevante para o debate sobre subjetividade no Serviço Social A crítica ao subjetivismo psicologizante permite superar leituras individualizantes dos problemas sociais afirmando a subjetividade como dimensão histórica socialmente produzida e atravessada por relações de poder A interiorização da opressão pelos sujeitos aparece como elemento fundamental para compreender a reprodução das desigualdades sociais Essa leitura justifica a centralidade da educação popular como mediação capaz de promover o desvelamento das determinações sociais e a construção de práticas coletivas de resistência A crítica ao assistencialismo constitui um dos eixos analíticos mais densos do texto pois permite explicitar as bases ideológicas que historicamente orientaram determinadas formas de intervenção no Serviço Social O assistencialismo é compreendido como prática que ao invés de fortalecer a autonomia dos sujeitos reforça relações assimétricas de poder convertendo necessidades sociais em objetos de tutela institucional Mesmo quando revestido por discursos humanitários ou por uma retórica de cuidado esse tipo de intervenção tende a operar pela negação da capacidade crítica dos usuários limitando sua participação nos processos decisórios e reproduzindo mecanismos de subordinação social A autora evidencia que nesse modelo a ação profissional se estrutura a partir de uma lógica verticalizada na qual o saber técnico se impõe sobre a experiência concreta dos sujeitos esvaziando o potencial transformador da prática social Essa crítica incide de maneira direta sobre o Serviço Social de caso cuja matriz positivista e funcionalista orientou durante décadas a leitura da pobreza como desvio individual ou patologia social Nesse modelo as expressões da questão social eram tratadas como problemas isolados dissociados das determinações históricas e estruturais que as produzem A comparação com a educação bancária formulada por Paulo Freire revela o caráter autoritário dessas práticas nas quais soluções previamente definidas eram aplicadas aos sujeitos sem qualquer mediação dialógica O atendimento profissional assumia assim uma função disciplinadora voltada à adaptação do indivíduo à ordem social vigente 4 naturalizando desigualdades e obscurecendo os conflitos de classe que atravessam a realidade social A autora reconhece que a apropriação das ideias freirianas no Movimento de Reconceituação não ocorreu de forma homogênea nem isenta de tensões internas Em determinados contextos a incorporação do pensamento de Paulo Freire resultou em leituras simplificadas nas quais a dimensão política da prática profissional foi confundida com militância direta desconsiderando as mediações institucionais e as condições objetivas do exercício profissional assalariado A supervalorização da vontade subjetiva desvinculada de uma análise rigorosa da totalidade social produziu formulações fragilizadas que acabaram por deslocar o foco da crítica estrutural para a ação voluntarista comprometendo a consistência teóricometodológica de algumas propostas interventivas Apesar desses limites o texto sustenta que o legado freiriano desempenhou papel decisivo ao explicitar o caráter político da prática profissional rompendo com a ilusão da neutralidade técnica que marcou o Serviço Social tradicional A recusa dessa neutralidade permitiu reconhecer que toda intervenção profissional se insere em relações sociais historicamente determinadas e expressa escolhas éticopolíticas concretas Essa inflexão contribuiu para a construção de uma nova identidade profissional comprometida com a leitura crítica da realidade social e com a defesa de projetos societários orientados pela ampliação dos direitos e pela emancipação da classe trabalhadora A articulação entre a metodologia freiriana e os instrumentais técnicooperativos do Serviço Social se expressa de maneira concreta na revalorização do planejamento participativo da pesquisa social crítica e do trabalho de base junto aos sujeitos coletivos Esses instrumentos deixam de ser compreendidos como procedimentos técnicos isolados e passam a integrar um processo pedagógico mais amplo orientado pela problematização da realidade e pela construção compartilhada de conhecimentos A prática profissional assume nesse sentido uma dimensão educativa que não se limita à transmissão de informações mas promove a reflexão crítica sobre as condições de vida trabalho e organização social dos sujeitos envolvidos O artigo evidencia que a Reconceituação latinoamericana não constituiu um movimento uniforme mas um campo heterogêneo atravessado por diferentes projetos teóricos e políticos As apropriações do pensamento freiriano variaram conforme os contextos nacionais as correlações de forças existentes e as tradições profissionais consolidadas em cada país Essa diversidade explica tanto a potência quanto as contradições do processo uma 5 vez que o legado de Paulo Freire foi reinterpretado à luz de distintas matrizes teóricas produzindo leituras ora mais críticas ora mais conciliatórias No contexto brasileiro a autora demonstra que a renovação profissional assumiu contornos específicos durante a ditadura civilmilitar marcada pela repressão política e pela restrição das práticas abertamente contestatórias Nesse período a modernização tecnicista ganhou centralidade favorecendo a ampliação dos instrumentos administrativos e de planejamento em detrimento da dimensão crítica da intervenção Ainda assim as influências freirianas não desapareceram permanecendo latentes em determinados espaços acadêmicos e profissionais reaparecendo com maior força no processo de redemocratização A atualidade do legado freiriano é discutida a partir das transformações contemporâneas das políticas educacionais e sociais marcadas pela mercantilização do ensino e pela focalização das políticas públicas Esse cenário recoloca no centro do debate a crítica à educação bancária e às práticas assistencialistas que tendem a reduzir a formação profissional e a intervenção social a respostas imediatistas e instrumentais O pensamento de Paulo Freire oferece nesse contexto fundamentos teóricos para resistir a essas tendências reafirmando a centralidade do diálogo da participação e da crítica social O texto permite compreender que o pensamento freiriano permanece relevante na medida em que fornece bases teóricometodológicas para práticas profissionais orientadas pela emancipação social Sua contribuição ultrapassa o campo educacional alcançando de forma consistente o Serviço Social especialmente no que se refere à compreensão do trabalho profissional como prática social política e pedagógica inserida em disputas de projetos societários A resenha evidencia que o artigo de Graziela Scheffer contribui de maneira significativa para a compreensão das bases políticopedagógicas do Serviço Social crítico A articulação entre história teoria social e prática profissional confere ao texto densidade analítica permitindo ao leitor apreender o legado freiriano como parte constitutiva do processo de renovação da profissão e não como referência externa ou acessória Ao reconstruir o percurso do pensamento freiriano no interior do Serviço Social a autora demonstra que os instrumentais técnicooperativos expressam concepções de mundo e posicionamentos éticopolíticos o que exige reflexão crítica permanente sobre seu uso nesse sentido o legado de Paulo Freire permanece como referência fundamental para práticas profissionais orientadas pela participação social pela autonomia dos sujeitos e pela transformação das relações sociais 1 O LEGADO DE PAULO FREIRE NO SERVIÇO SOCIAL UMA RESENHA CRÍTICA DO ARTIGO DE GRAZIELA SCHEFFER SCHEFFER Graziela Pedaços do tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Textos Contextos Porto Alegre Porto Alegre v 12 n 1 p 292311 janjun 2013 O artigo Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social de Graziela Scheffer apresenta uma reconstrução analítica densa do diálogo entre o pensamento freiriano e o processo de renovação do Serviço Social brasileiro e latinoamericano A autora não se limita a identificar influências conceituais mas situa essa interlocução no interior das transformações históricas políticas e profissionais que atravessaram a profissão ao longo de décadas marcadas por disputas ideológicas e projetos societários antagônicos A abordagem adotada confere centralidade à historicidade compreendendo o legado de Paulo Freire como resultado de mediações concretas entre teoria e prática O pensamento freiriano é tratado como produção situada atravessada por contextos específicos e não como referencial abstrato passível de aplicação imediata Essa opção metodológica permite à autora evitar leituras simplificadoras e estabelecer uma análise crítica sobre os usos e apropriações do pensamento do educador no Serviço Social A noção de tempo mobilizada como categoria interpretativa sustenta a estrutura do texto e permite compreender a coexistência de permanências e rupturas no interior da profissão A autora demonstra que o diálogo entre Paulo Freire e o Serviço Social não se dá de forma linear mas por meio de deslocamentos teóricos que acompanham mudanças nas condições históricas e nas formas de intervenção profissional No período desenvolvimentistanacionalista o artigo evidencia que a pedagogia freiriana se articulava a projetos de modernização social e democratização política A conscientização nesse momento aparecia vinculada à formação de sujeitos aptos a participar do processo democrático sem ainda incorporar uma leitura aprofundada das contradições estruturais do capitalismo dependente latinoamericano Essa fase inicial encontra correspondência no Serviço Social tradicional cujos instrumentais técnicooperativos estavam organizados em torno da adaptação do indivíduo à ordem social A utilização do estudo de caso do trabalho com grupos e das ações comunitárias visava à integração social reforçando uma prática profissional orientada pela harmonia social e pela neutralidade técnica 2 A autora demonstra que o desenvolvimento de comunidade apesar de seu revestimento conservador abriu fissuras importantes no tradicionalismo profissional A atuação em territórios populares e a inserção em equipes multiprofissionais ampliaram o contato do assistente social com sujeitos coletivos organizados criando condições objetivas para a problematização da realidade social O texto evidencia que essas experiências contribuíram para tensionar o uso dos instrumentais profissionais deslocando gradualmente o foco do indivíduo isolado para a dimensão coletiva dos problemas sociais Esse movimento ainda que contraditório preparou o terreno para a incorporação de práticas educativas e participativas inspiradas no pensamento freiriano O golpe civilmilitar de 1964 representa um ponto de inflexão decisivo na análise A repressão política interrompeu processos em curso e impôs limites severos às práticas críticas Simultaneamente o exílio de Paulo Freire produziu uma inflexão teórica relevante marcada pela aproximação sistemática com o marxismo e pela radicalização de sua crítica à sociedade de classes Nesse novo momento a educação deixa de ser concebida como mecanismo autônomo de transformação social A pedagogia freiriana passa a reconhecer os limites objetivos da ação educativa diante da estrutura social reposicionando a conscientização como mediação inserida na luta de classes O Movimento de Reconceituação do Serviço Social emerge nesse contexto como resposta às insuficiências do modelo tradicional A profissão passa a questionar seus fundamentos teóricometodológicos suas bases ideológicas e o sentido político de sua intervenção buscando referências que permitissem romper com o conservadorismo histórico A autora demonstra que o pensamento freiriano ofereceu subsídios importantes para essa ruptura sobretudo ao problematizar a neutralidade técnica e a suposta objetividade dos instrumentais profissionais A prática passa a ser compreendida como intervenção social situada atravessada por escolhas éticopolíticas A metodologia do diálogo proposta por Freire tensiona profundamente o uso dos instrumentos técnicooperativos A entrevista a visita domiciliar e o trabalho com grupos deixam de operar como mecanismos de coleta de dados ou controle social passando a constituir espaços de escuta problematização e produção coletiva de sentidos Essa reconfiguração metodológica redefine a relação entre assistente social e usuários das políticas sociais O sujeito atendido deixa de ser concebido como objeto de intervenção 3 para ser reconhecido como sujeito histórico portador de saberes construídos na experiência concreta de vida e trabalho A dimensão ontológica do pensamento freiriano ocupa lugar central na análise da autora A relação opressoroprimido é apresentada como categoria explicativa da produção histórica da desumanização permitindo compreender como as estruturas sociais se reproduzem no plano da subjetividade Nesse sentido o artigo contribui de forma relevante para o debate sobre subjetividade no Serviço Social A crítica ao subjetivismo psicologizante permite superar leituras individualizantes dos problemas sociais afirmando a subjetividade como dimensão histórica socialmente produzida e atravessada por relações de poder A interiorização da opressão pelos sujeitos aparece como elemento fundamental para compreender a reprodução das desigualdades sociais Essa leitura justifica a centralidade da educação popular como mediação capaz de promover o desvelamento das determinações sociais e a construção de práticas coletivas de resistência A crítica ao assistencialismo constitui um dos eixos analíticos mais densos do texto pois permite explicitar as bases ideológicas que historicamente orientaram determinadas formas de intervenção no Serviço Social O assistencialismo é compreendido como prática que ao invés de fortalecer a autonomia dos sujeitos reforça relações assimétricas de poder convertendo necessidades sociais em objetos de tutela institucional Mesmo quando revestido por discursos humanitários ou por uma retórica de cuidado esse tipo de intervenção tende a operar pela negação da capacidade crítica dos usuários limitando sua participação nos processos decisórios e reproduzindo mecanismos de subordinação social A autora evidencia que nesse modelo a ação profissional se estrutura a partir de uma lógica verticalizada na qual o saber técnico se impõe sobre a experiência concreta dos sujeitos esvaziando o potencial transformador da prática social Essa crítica incide de maneira direta sobre o Serviço Social de caso cuja matriz positivista e funcionalista orientou durante décadas a leitura da pobreza como desvio individual ou patologia social Nesse modelo as expressões da questão social eram tratadas como problemas isolados dissociados das determinações históricas e estruturais que as produzem A comparação com a educação bancária formulada por Paulo Freire revela o caráter autoritário dessas práticas nas quais soluções previamente definidas eram aplicadas aos sujeitos sem qualquer mediação dialógica O atendimento profissional assumia assim uma função disciplinadora voltada à adaptação do indivíduo à ordem social vigente 4 naturalizando desigualdades e obscurecendo os conflitos de classe que atravessam a realidade social A autora reconhece que a apropriação das ideias freirianas no Movimento de Reconceituação não ocorreu de forma homogênea nem isenta de tensões internas Em determinados contextos a incorporação do pensamento de Paulo Freire resultou em leituras simplificadas nas quais a dimensão política da prática profissional foi confundida com militância direta desconsiderando as mediações institucionais e as condições objetivas do exercício profissional assalariado A supervalorização da vontade subjetiva desvinculada de uma análise rigorosa da totalidade social produziu formulações fragilizadas que acabaram por deslocar o foco da crítica estrutural para a ação voluntarista comprometendo a consistência teóricometodológica de algumas propostas interventivas Apesar desses limites o texto sustenta que o legado freiriano desempenhou papel decisivo ao explicitar o caráter político da prática profissional rompendo com a ilusão da neutralidade técnica que marcou o Serviço Social tradicional A recusa dessa neutralidade permitiu reconhecer que toda intervenção profissional se insere em relações sociais historicamente determinadas e expressa escolhas éticopolíticas concretas Essa inflexão contribuiu para a construção de uma nova identidade profissional comprometida com a leitura crítica da realidade social e com a defesa de projetos societários orientados pela ampliação dos direitos e pela emancipação da classe trabalhadora A articulação entre a metodologia freiriana e os instrumentais técnicooperativos do Serviço Social se expressa de maneira concreta na revalorização do planejamento participativo da pesquisa social crítica e do trabalho de base junto aos sujeitos coletivos Esses instrumentos deixam de ser compreendidos como procedimentos técnicos isolados e passam a integrar um processo pedagógico mais amplo orientado pela problematização da realidade e pela construção compartilhada de conhecimentos A prática profissional assume nesse sentido uma dimensão educativa que não se limita à transmissão de informações mas promove a reflexão crítica sobre as condições de vida trabalho e organização social dos sujeitos envolvidos O artigo evidencia que a Reconceituação latinoamericana não constituiu um movimento uniforme mas um campo heterogêneo atravessado por diferentes projetos teóricos e políticos As apropriações do pensamento freiriano variaram conforme os contextos nacionais as correlações de forças existentes e as tradições profissionais consolidadas em cada país Essa diversidade explica tanto a potência quanto as contradições do processo uma 5 vez que o legado de Paulo Freire foi reinterpretado à luz de distintas matrizes teóricas produzindo leituras ora mais críticas ora mais conciliatórias No contexto brasileiro a autora demonstra que a renovação profissional assumiu contornos específicos durante a ditadura civilmilitar marcada pela repressão política e pela restrição das práticas abertamente contestatórias Nesse período a modernização tecnicista ganhou centralidade favorecendo a ampliação dos instrumentos administrativos e de planejamento em detrimento da dimensão crítica da intervenção Ainda assim as influências freirianas não desapareceram permanecendo latentes em determinados espaços acadêmicos e profissionais reaparecendo com maior força no processo de redemocratização A atualidade do legado freiriano é discutida a partir das transformações contemporâneas das políticas educacionais e sociais marcadas pela mercantilização do ensino e pela focalização das políticas públicas Esse cenário recoloca no centro do debate a crítica à educação bancária e às práticas assistencialistas que tendem a reduzir a formação profissional e a intervenção social a respostas imediatistas e instrumentais O pensamento de Paulo Freire oferece nesse contexto fundamentos teóricos para resistir a essas tendências reafirmando a centralidade do diálogo da participação e da crítica social O texto permite compreender que o pensamento freiriano permanece relevante na medida em que fornece bases teóricometodológicas para práticas profissionais orientadas pela emancipação social Sua contribuição ultrapassa o campo educacional alcançando de forma consistente o Serviço Social especialmente no que se refere à compreensão do trabalho profissional como prática social política e pedagógica inserida em disputas de projetos societários A resenha evidencia que o artigo de Graziela Scheffer contribui de maneira significativa para a compreensão das bases políticopedagógicas do Serviço Social crítico A articulação entre história teoria social e prática profissional confere ao texto densidade analítica permitindo ao leitor apreender o legado freiriano como parte constitutiva do processo de renovação da profissão e não como referência externa ou acessória Ao reconstruir o percurso do pensamento freiriano no interior do Serviço Social a autora demonstra que os instrumentais técnicooperativos expressam concepções de mundo e posicionamentos éticopolíticos o que exige reflexão crítica permanente sobre seu uso nesse sentido o legado de Paulo Freire permanece como referência fundamental para práticas profissionais orientadas pela participação social pela autonomia dos sujeitos e pela transformação das relações sociais
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Texto de pré-visualização
Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 1 p 292 311 janjun 2013 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Pieces of Time the legacy of Social Work Paulo Freire GRAZIELA SCHEFFER RESUMO O ensaio traz um estudo exploratório de cunho bibliográfico acerca das contribuições de Paulo Freire no Serviço Social abrangendo o período de 1950 a 1979 Apresenta ainda a análise das obras Pedagogia do Oprimido Educação e Mudança em relação à perspectiva ontológica e as críticas ao assistencialismo no processo de reconceituação latinoamericana Palavraschave Reconceituação Paulo Freire Serviço Social Marxismo Subjetividade Assistencialismo ABSTRACT The test brings an exploratory study of literature concerning nature of the contributions of Paulo Freire Social Work covering the period 19501979 It also presents the analysis of works Oppressed Pedagogy and Education and Change in relation to the ontological perspective and criticism of welfarism in the process of reconceptualization of Latin American Keywords Reconceptualization Paulo Freire Social Services Marxism Subjectivity Welfarism Mestra e doutoranda em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro UFRJ Coordenadora do Grupo de Estudos e Extensão em Saúde Interdisciplinariedade e Cidadania GESIC Colaborado do Projeto Transversões UFRJ Miracema TO Brasil Email graziemailibestcombr Submetido em junho2013 Aprovado em setembro2013 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 293 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Pedaços do tempo que de fato se acham em mim desde quando os vivi à espera de outro tempo que até poderia não ter vindo como veio em que aqueles se alongaram na composição da trama maior Às vezes nós é que não percebemos o parentesco entre os tempos vividos e perdemos a possibilidade de soldar conhecimentos desligados e ao fazêlo iluminar com os segundos a precária claridade dos primeiros FREIRE 2003 p 19 Notas introdutórias Escrever a respeito do legado de Paulo Freire neste momento de ofensiva neoliberal que atinge impiedosamente a política educacional em nosso país proporcionanos recordar de lições importantes acerca do papel do educador e da educação comprometida com a liberdade e a autonomia cimento para construção da justiça social na sociedade brasileira O ato recordação por conseguinte jamais é puramente objetivo por sua própria natureza não pode ser um ato frio A palavra recordar que vem de cor coração já indica a forte presença do sentimento na ação O sentimento leva o sujeito em boa medida a construir seu passado a partir da necessidade que o marcam no presente KONDER 2009 p 68 Assim esse ato de recordar é oriundo do presente marcado por inquietações dos rumos da educação universitária no país No contexto da reforma da educação o governo do momento em sangria desatada tem inundado o país com decretos medidas provisórias leis resoluções e portarias quase sempre sem debate prévio KOIKE sd p 7 Foi em meio aos acontecimentos que buscamos estudar as obras de Freire para que talvez pudéssemos usufruir e compartilhar a vitalidade do seu pensamento radical Tão mais radical quanto mais se inscreve nesta realidade para conhecendoa melhor melhor poder transformála Não teme enfrentar não teme ouvir não teme o desvelamento do mundo Não teme o encontro com povo Não teme o diálogo com ele de que resulta o crescente saber de ambos Não sente dono do tempo nem dono dos homens nem liberador dos oprimidos Com eles se compromete dentro do tempo para que com eles lutar FREIRE 1987 p 14 Paulo Freire foi um dos mais importantes pedagogos seu pensamento atingiu diferentes saberes e profissões Suas obras influenciaram inúmeros processos democráticos no Brasil e mundo afora No caso do Serviço Social a vanguarda brasileira do Método de Belo Horizonte BH em sua maioria era oriunda dos movimentos da Juventude Universitária Católica JUC e da Ação Popular AP que incluem vivências na Movimento de Educação Básica MEB na sindicalização rural nos Centros Popular de Cultura CPC e nos Círculos de Cultura que tiveram contatos o próprio Paulo Freire GOMES 2011 Consuelo Quiroga integrante do Método de BH relata sobre a influência freiriana que No bojo de toda essa discussão Paulo Freire e Educação como Prática de Liberdade e Pedagogia do Oprimido trouxeram para o Serviço Social inquietações no que se refere ao homem como sujeito de sua história à discussão da prática pedagógica do Serviço Social colocando para a profissão algumas indagações políticas que se desdobram em uma aproximação ao marxismo QUIROGA 1991 p 86 Portanto resgatar o legado de suas obras no Serviço Social significa entender a processualidade da ruptura com o pensamento conservador elitista na profissão e sua aproximação com o referencial marxiano e marxista Neste trabalho buscamos analisar o legado freiriano por meio de uma análise Graziela Scheffer 294 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 histórica do Serviço Social nos pedaços do tempo de 1950 até 1979 O estudo foi organizado nos seguintes itens no primeiro apontamos o contexto histórico do pensamento freiriano e sua interlocução com Serviço Social no segundo analisamos as obras Pedagogia do oprimido e Educação e mudança visando identificar a contribuição do legado de Paulo Freire na profissão O contexto do pensamento freiriano e os enlaces com Serviço Social em dois tempos A educação é um ato de amor por isso um ato de coragem Não pode temer o debate A análise da realidade Não pode fugir à discussão criadora sob pena de ser farsa FREIRE 2000 p 11 Para compreender o legado de Paulo Freire é necessário localizarmos sua produção no contexto histórico político e cultural do Brasil e da América Latina Nesse sentido analisamos o pensamento freiriano em dois momentos históricos distintos O primeiro é o período desenvolvimentistanacionalista que marcou a fase inicial do autor que vai aproximadamente do fim da década 1940 até 1960 no Brasil O segundo é pós 1964 quando Freire é preso e exilado no Chile Paralelamente a esses períodos estabelecemos uma interlocução com Serviço Social Achados e perdidos desenvolvimento de comunidade e Paulo Freire A alegria não chega apenas no encontro do achado mas faz parte do processo da busca E ensinar e aprender não pode darse fora da procura fora da boniteza e da alegria FREIRE 1996 p 23 Em 1946 Freire assume a direção do Departamento de Educação e Cultura do Serviço Social da instituição do Serviço Social da Indústria 1 SESI no Estado de Pernambuco onde o trabalho era voltado para analfabetos pobres Naquela época envolveuse no movimento da Teologia da Libertação2 que enfatizava a necessidade de que os pobres aprendessem a ler e a escrever para que tivessem o direito de votar No Brasil o analfabetismo atingia aproximadamente 50 da população A questão do enfrentamento ao analfabetismo era uma questão eminentemente política diretamente articulada com os projetos de modernização econômica e social do Brasil PAIVA 2000 Portanto a finalidade era mais que a superação do analfabetismo era superamos também a nossa inexperiência democrática FREIRE 2000 p 102 Cabe ressaltar que naquele momento se observa a existência de importantes modificações no pensamento social da Igreja Católica O II Congresso Brasileiro de Direito Social 1946 aparece como marco de consolidação de novas posições da Ação Social Católica O Direito Social terá agora o papel de articular os diferentes grupos sociais de forma a que estes se submetam ao bem comum Esse direito deverá independentemente da ação do Estado integrar os indivíduos dentro de uma ordem comunitária em que capital e trabalho consumidor e fornecedor terão sua apetividade pautada através do lucro e salários justos a fim de atender às necessidades materiais e espirituais da sociedade IAMAMOTO CARVALHO 2003 p 271 Outro aspecto importante é compreender a criação do SESI pois além de ser locus no qual Paulo Freire iniciou suas ações foi também cenário expressivo de disputas de projetos societários O SESI era permeado por uma correlação de forças formada tanto por esquerdistas considerados como trincheira Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 295 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 comunista quanto por os idealistas ortodoxos anticomunistas Alicerçados nesses grupos bem diferenciados os segmentos minoritários formados por idealistas e dirigentes da instituição tinham a tarefa cristã de promover o nivelamento social através das condições de vida do proletariado e um outro muito maior de homens realistas e práticos que visavam tirar partido de sua contribuição IAMAMOTO CARVALHO 2003 p 276 Na década de 1950 as elaborações de Paulo Freire estavam numa fina sintonia com as ideias nacionalista e desenvolvimentista As ideias do autor expressavam uma interpretação da sociedade brasileira vista como arcaica que precisava mudar para uma sociedade moderna e democrática A pedagogia freiriana nessa fase visava adequar o homem à mudança por meio de uma formação de um sujeito democrático PAIVA 2000 No final de 1950 era possível identificar no âmbito da Igreja Católica emergências de três segmentos os tradicionalistas os modernizadores e os reformistas de forma que a figura mais progressista era Dom Hélder Câmara arcebispo de Olinda que representava de certa forma a teologia do desenvolvimento e colocava a questão da pobreza do povo nordestino LOWY 2000 Ainda na década de 1950 e início dos anos 60 a sociedade brasileira passava por profundas transformações em cujas perspectivas a intelectualidade brasileira estava ancorada na pedagogia freiriana Na concepção de Paiva 2000 a mudança exigia reformas sociais promovidas por meio do consenso entre grupos e classes sociais O conceito de conscientização do autor nessa primeira fase não era uma forma de consciência de classe mas um tipo de consciência que permitisse a compreensão global do país de modo a gerar ações que promovessem o desenvolvimento nacional e consolidassem a democracia O capitalismo era visto pelos integrantes católicos como um mal necessário ao desenvolvimento país já a via comunista era interpretada como restrição às liberdades humanas e aos direitos individuais A saída dessas duas posições antagônicas foi a tomada de posição gestada na democracia cristã combatente dos aspectos morais da atitude materialista e individualizada egoísta da lógica mercantil ANDRADE 2008 Neste sentido observase uma conexão do pensamento de Paulo Freire com o nacional desenvolvimentismo propugnado pelos intelectuais do ISEB3 Instituto Superior de Estudos Brasileiros Observemos a descrição de Freire sobre esse período O desenvolvimento envolvendo não apenas questões técnicas ou políticas mas guardando em si também é a passagem de uma para outra mentalidade Adesão à necessidade profunda como fundamento para desenvolvimento e este para a própria democracia Quanto mais se falava da necessidade de reformas na ascensão do povo em termos muitas vezes emocionais e com parecia desprezar totalmente vigência do poder das elites como tivessem elas descoberto já que ter privilégios não é só ter direitos mas sobretudo deveres com sua nação mais se arregimentavam essas elites irracionalmente na defesa de seus privilégios inautênticos FREIRE 2000 p 95 Até 1965 percebese uma relação entre a ação pedagógica e a produção teórica de Paulo Freire com as ideologias nacionalistas e desenvolvimentistas de cariz populista desenvolvida e divulgada por um núcleo de intelectuais agrupados institucionalmente no ISEB PAIVA 2000 Para Ferreira 1946 apud ANDRADE 2008 a visão de democracia do pensamento cristão era o mesmo do Serviço Social pois ambos fundamentavamse na ideia de bem comum Os assistentes sociais nessa fase trabalham na trilogia metodológica caso grupo e comunidade visando à integração do homem ao meio social A partir de 1940 ocorreu forte presença norteamericana na difusão da base técnica dos métodos de caso e grupo e desenvolvimento de comunidade DC Esses modelos do Serviço Social tradicional na segunda metade da década de cinquenta desenhavam um processo de crise que Graziela Scheffer 296 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 se efetivado sem travas e sem traumatismos também acabaria por derrauir as formas tradicionais do exercício profissional NETTO 2011 p 137 Essa atmosfera do desenvolvimentismo nacionalista repercutiu no Serviço Social pois a ideologia dominante estava em plena reciprocidade com as perspectivas profissionais emergentes que contribuíram na legitimação profissional Portanto o assistente social quer deixar de ser um apóstolo para investirse da condição de agente da mudança NETTO 2011 p 138 Os projetos desenvolvimentistas nacionalistas foram impulsionados por uma conjuntura da política internacional favorável ao desenvolvimentismo que estava atrelado à visão de resposta ao perigo do alargamento da área de influência soviética sob manto da guerra fria4 PAIVA 2000 Apesar do revestimento conservador teóricoideológico do desenvolvimento de comunidade esse exercício profissional fruto da experiência do Serviço Social proporcionou rachaduras no tradicionalismo da intervenção do Serviço Social centradas principalmente do trabalho individual de caso Netto 2011 destaca que o amadurecimento do Serviço Social nesse momento estava relacionado a quatro aspectos 1 inserção dos assistentes sociais nas equipes multiprofissionais e convivência com grupos politicamente organizados 2 emersão de católicos progressistas e de uma esquerda católica com ativa militância cívica e política 3 movimento estudantil no Serviço Social 4 referencial das ciências sociais vinculadas às dimensões críticas da vertente nacional popular No Brasil no começo dos anos 60 surgiu Esquerda Católica sob a inspiração da teologia francesa humanista e influenciada pela Revolução Cubana que contribuiu para radicalização do movimento estudantil católico JUC Essa radicalização compreendeu uma seleção das posições mais avançadas nos textos franceses uma incorporação cada vez maior de elementos marxistas e uma mudança radical de perspectiva substituindo o ângulo europeu por uma perspectiva da oprimida periferia do sistema capitalista mundial Essa radicalização estava intimamente ligada às novas práticas sociais culturais e políticas dos ativistas católicos participação no movimento estudantil muitas vezes com aliança com a esquerda secular apoio às lutas sociais e compromisso com a educação popular LOWY 2000 p 139 Em 1961 Paulo Freire foi indicado para diretor do Departamento de Extensões Culturais da Universidade do Recife e em 1962 ele teve a primeira oportunidade para uma aplicação significante de seu método quando ensinou 300 cortadores de cana a ler e a escrever em apenas 45 dias Devido ao êxito do método o governo ampliou centenas de círculos de cultura no país atendendo à situação de transição vivida pela sociedade brasileira PAIVA 2000 Nos primeiros anos da década de 19605 militantes católicos com apoio da igreja formaram o Movimento pela Educação Básica MEB a primeira tentativa católica de criar uma prática pastoral radical entre as classes populares Tendo como base a pedagogia de Paulo Freire o MEB tinha como objetivo não só alfabetizar os pobres mas conscientizálos e ajudálos a tornaremse agentes de sua própria história Em 1962 os militantes da JUC e do MEB criaram a Ação Popular AP o movimento político não confessional dedicado à luta pelo socialismo e ao uso do método marxista Depois de 1964 a AP Ação Popular se distanciou não só da Igreja como do próprio cristianismo e a maioria de seus membros entrou para Partido Comunista do Brasil de tendência maoísta PC do B LOWY 2000 p 140 A respeito do trabalho de Paulo Freire a esquerda católica e o Serviço Social na maré de 19601964 no Brasil evidenciouse que Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 297 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 os assistentes sociais comprometidos com essa nova perspectiva muitos assumindo o posicionamento dos cristãos de esquerda engajamse no MEB organizado pela Conferência Nacional dos Bispos no Brasil voltandose inicialmente para um trabalho de alfabetização passando depois para animação popular e para trabalho de sindicalização Dáse também a participação de alguns assistentes sociais nos trabalhos de cultura popular de Paulo Freire despontando o emergir de uma prática questionadora do status quo SILVA 2009 p 29 No II Encontro das Escolas do Nordeste de Serviço Social 1964 Paulo Freire participou como convidado principal na mesa de abertura o que significou uma aliança simbólica da categoria profissional com pensamento freiriano Essa afinidade entre Freire e o Serviço Social estaria em princípio ancorada na efervescência que a cultura católica teve com eventos políticos dos anos 1960 A pedagogia dos oprimidos nasce no contexto mesmo em que Serviço Social começa a criticar seus próprios métodos ambos partem de uma leitura crítica da realidade latinoamericana e ambos se alimentam de uma base filosófica cristã Em resumo Freire pensa que a vida em sociedade é impossível sem que setores dominados se tornem consciente da lógica de dominação Tais ideias irão nutrir a adesão de muitos profissionais a um novo projeto de Serviço Social PINHEIRO 2010 p 49 Em suma as primeiras aproximações do Serviço Social com as ideias de Freire se deram em dois aspectos a vinculação do autor ao movimento católico e por meio das propostas e ações de desenvolvimento de comunidades ligadas à educação de base de adultos Sabemos que Paulo Freire não foi o único responsável pela mudança nas questões do analfabetismo As mudanças já vinham sendo gestadas na sociedade brasileira no pósguerra na aceleração das transformações de infraestrutura na expansão urbana na crescente migração do rural para as cidades na industrialização na falência dos mecanismos tradicionais da dominação política na radicalização das lutas políticas e ideológicas BEISIEGEL 2010 p 18 Esse processo foi cortado pelo golpe de abril de 1964 Durante a ditadura militar mudouse substancialmente o cenário de lutas em que vinha se desenvolvendo A repressão no primeiro momento buscou a neutralização dos protagonistas sociopolíticos engajados com a democratização da sociedade e do Estado Com o golpe militar Freire foi considerado traidor ficando preso por 70 dias e logo após foi exilado inicialmente na Bolívia país em que não ficou muito tempo pois houve outro golpe militar agora em terras bolivianas e teve que ir ao Chile No item seguinte aprofundaremos a elaboração da obra freiriana no percurso da renovação do Serviço Social até meados de 1979 A Reconceituação ideias freirianas um panorama histórico pós1964 A Reconceituação tem como marco fundador o I Seminário Regional LatinoAmericano de Serviço Social realizado em Porto Alegre no ano de 1965 O Movimento de Reconceituação era unidade diversa que visava adequar a profissão à superação do subdesenvolvimento e ao rompimento com as práticas tradicionais Para Iamamoto 2004 o Movimento de Reconceituação era um fenômeno tipicamente latinoamericano que contestava o tradicionalismo do profissional o que implicou em um questionamento global da profissão fundamentos ideopolíticos matrizes sociopolíticas da direção social e seu exercício profissional Graziela Scheffer 298 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Em um dia qualquer de 1965 E assumimos um certo grau de liberdade o que nos permitiu optarmos entre muitas possibilidades e nos colocamos onde nossa consciência histórica nos indicava Nesse dia soubemos o que é ruptura Nesse dia começamos a negar para criar Nesse dia descobrimos que toda a disciplina social é gerada por uma ideologia e que toda ideologia sustenta uma teoria que por sua vez foi gerada numa determinada sociedade Descobrimos a contradição entre o ideal da verdade e as construções teóricas ideológicas para ocultar a verdade Então fomos considerados suspeitos pelos técnicos do malestar social zelosos guardiães de sua estabilidade mental e material Mas já tínhamos encontrado a resposta para o porquê de nossas vidas que inclui o porquê de nossa profissão E não podíamos nem queríamos retroceder KISNERMAN 1972 p 56 As preocupações do Movimento de Reconceituação estavam pautadas em reconhecimento e busca da compreensão do desenvolvimento dependente dos países latinoamericanos em relação aos países centrais por meio de uma leitura histórica da ação do assistente social construção de um projeto profissional pautado nas particularidades latinoamericanas politização do fazer profissional no sentido da libertação dos oprimidos e comprometidas com transformação social busca de referenciais de cientificidade para o Serviço Social que se desdobrou numa reelaborarão de formação articulada ao tripé ensino pesquisa e extensão As formulações reconceituadas tinham um traço eclético e recusa por teorias importadas que foi uma das motivações que conduziu a incorporação da pedagogia do oprimido NETTO 2011 A apreensão do pensamento freiriano no Movimento de Reconceituação na América Latina tinha uma prática característica da reconceituação em sua origem a exigência moral de assumir um posicionamento em face da desigualdade do oprimido Para Kisnerman a opção ideológica é imperativo categórico como diz ele apoiandose em Paulo Freire BARROCO 2006 p 144 Atentemos para a posição do pedagogo brasileiro com relação ao Serviço Social na sua afirmação que o trabalhador social não pode ser um homem neutro frente à desumanização ou humanização frente à permanência do que já não representa caminhos humanos ou à mudança destes caminhos O trabalhador social como homem tem de fazer sua opção FREIRE 2011 p 63 Logo o autor afirma ruptura com suposta neutralidade positivista embargada na profissão e aponta necessidade do engajamento e crítica à sociedade capitalista opressora e exploradora Não há dúvidas de que como no caso das propostas contestadoras aqui também se registra a influência de Paulo Freire entretanto examinados os conteúdos que se atribuem aos objetivosmeios verificase que os formuladores de Belo Horizonte ao contrário do que se constata em outras produções da reconceptualização latinoamericana como a de Clark 1974 não se limitam a simples incorporação de freirianas avançando para uma visão e uma ação sociocêntricas mais radicais NETTO 2011 p 279 Em 1967 Freire publicou a obra Educação como prática da liberdade e no ano seguinte produziu a mais importante obra de sua carreira intelectual Pedagogia do oprimido Esses livros foram frutos da trajetória de trabalho e militância Durante seu exílio trabalhou por cinco anos no Chile junto ao Movimento de Reforma Agrária da Democracia Cristã e na Organização de Agricultura e Alimentos da Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 299 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Organização das Nações Unidas Acreditamos que essas obras expressam um giro dialético à esquerda demarcando uma forma de rupturacontinuidade com sua primeira fase desenvolvimentista Identificase um giro dialéticoteórico de Freire no sentido da ruptura na publicação da Pedagogia do oprimido a partir de sua aproximação com pensamento marxista entre os autores citados encontravam se além de Hegel Marx Engels Lenin Fromm Sartre Marcuse Fanon Memmi Lukács Debray Freyer Kossic Goldman e Althusser Além disso havia ainda repetidas menções a escritos e pronunciamentos de Mao Tsétung Fidel Castro Ernesto Guevara Camilo Torres BEISIEGEL 2010 p 85 Podemos então identificar um novo ângulo de análise representado na ruptura com a lógica de conciliação das classes ou seja assumiu a radicalidade voltada ao fortalecimento da classe trabalhadora vista como explorada e oprimida cujo conhecimento crítico da realidade e de sua condição é a alavanca para engajamento na transformação social chegando em seus argumentos até o ápice do reconhecimento do uso da força dos oprimidos nesse processo revolucionário o educador passara a movimentarse num universo teórico bem diferente Agora sob esses novos pontos de vista a educação ou a conscientização dificilmente poderia continuar a ser entendida como o instrumento privilegiado de transformação dos modos de coexistência Acima dela condicionandoa e determinando os limites de sua possibilidade de interferência na organização do social estava a própria organização social que a envolvia Esse conflito entre os interesses antagônicos das classes sociais opressoras e oprimidas impregnava a vida social em sua totalidade Nessas sociedades assentadas na opressão e no conflito nem mesmo o conhecimento poderia ser neutro Socialmente condicionado o conhecimento constituíase em ideologia E também não haveria neutralidade no processo educativo BEISIEGEL 2010 p 85 A centralidade da pedagogia do oprimido são as práticas pedagógicas ligadas aos processos sociais como mediações na construção de novos saberes e novas práticas A concepção freiriana rejeita explicitamente a perspectiva positivista da ciência e na pesquisa Refuta a educação como um processo de adequação do sujeito à sociedade O ato de educar é visto enquanto processo político que extrapola muros escolares Sua elaboração teórica visa entender o povo e lidar com ele daí a relevância para as profissões que intervêm no social GOMES 2011 STRECK 2009 Sabemos que o pensamento freiriano e sua relação com marxismo6 é cercado de polêmicas pois muitos apontam que sua elaboração não tem relação com a vertente marxista contudo para outros se percebe claramente esta interlocução principalmente no livro Pedagogia do oprimido BEISIEGEL 2010 GADOTTI 2011 PRAXEDES 2002 Nesse sentido concordamos que Embora a importância do marxismo no período em questão anos 70 seja constatável na influência intensa extensiva e difusa exercida sobre uma variada produção teórica de difícil mensuração poderíamos cair no erro de atribuir a origem de uma noção ou conceito a Marx quando na realidade poderia ser proveniente de outra fonte Entraríamos então numa polêmica sem fim Um autor como Paulo Freire por exemplo que recebe influência do marxismo nos setenta sem recusar as influências cristãs recebidas anteriormente dificilmente poderia ser considerado como marxista em sentido estrito PRAXEDES 2002 p 45 Muitos críticos da obra de Paulo Freire apontam uma composição teórica eclética nas suas formulações No entanto em nosso ponto de vista as análises freirianas têm uma construção plural que a tornou original no pensamento social da América Latina e do Brasil A pedagogia do diálogo que praticava fundamentase numa filosofia pluralista O pluralismo não significa ecletismo ou posições adocicadas como ele costumava Graziela Scheffer 300 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 dizer Significa ter um ponto de vista e a partir dele dialogar com os demais É o que mantinha a coerência da sua prática e da sua teoria Paulo era acima de tudo um humanista Seria a única forma de classificálo hoje GADOTTI 2007 p 347 grifos nossos Esclarecemos que o pluralismo abrange o respeito à diversidades religiosa política cultural teórica orientação sexual etc Ou seja pluralismo é princípio democrático que consiste na convivência entre diferentes sujeitos e projetos societários COUTINHO 2000 O ecletismo se caracteriza pela mistura indiscriminada das ideias e teorias de diversos autores que obedecem à lógica de serventia do escritor Estamos em concordância que o pensamento de Paulo Freire que articula a perspectiva de pluralidade que se reflete na compreensão do oprimido O oprimido é o ser humano alijado da condição de ser mais no sentido de realização da vocação de ser capaz de pronunciar o seu mundo como sujeito É um ser histórico com uma subjetividade complexa cujos níveis de profundidade requerem para a sua apreensão uma arqueologia da consciência Embora seja o portador da esperança de um futuro diferente ele não está isento ou acima dos conflitos e das contradições da sociedade em que vive STRECK 2009 p 543 Acreditamos ser difícil enquadrar a produção teórica de Paulo Freire dentro das vertentes clássicas da sociologia mas sim reconhecer as diferentes influências que se fazem presentes em diferentes momentos de sua obra portanto é um teórico que condensa diversas matrizes teóricas e outros autores da filosofia cristã O autor estabelece um diálogo com os teóricos de esquerda e com vertente do humanismo cristão mas mantendo sua autonomia e seu diferencial em sua interpretação ressaltando a particularidade da realidade social do homem da América Latina e no seu sistema histórico de reprodução da opressão Sua posição intelectual não é um processo neutro mas instrumento de luta de modo que suas obras são atravessadas por uma constante tentativa de desvelamentos dos mecanismos de opressãolibertação tecidas nas formas estruturais e sutis vivenciadas no cotidiano do homem latinoamericano Seu método é visto enquanto instrumento de luta social que visa contribuir com a ruptura da opressão e com a transformação societária No entanto e apesar das acusações de ecletismo das ideias freirianas não podemos obscurecer a relevância histórica do lugar do pensamento crítico de Paulo Freire no Serviço Social brasileiro e latino americano pois representou uma importante interlocução com os movimentos sociais de esquerda na luta pela democracia Cabe observar a abrangente e profunda influência do pensamento do pedagogo brasileiro sobre as vanguardas profissionais neste período salvo erro nosso boa parcela da produção latinoamericana do Serviço Social nestes anos no que tem de proposta interventiva depende inteiramente das formulações contidas em Freire NETTO 2011 p 149 No Brasil esse movimento durante a ditadura militar impossibilitou a contestação política de forma que o que se destacou foi a vertente do tecnocráticomodernizadora Já em outros países latino americanos a reconceituação tomou rumos abertamente críticos de contestação política visando à transformação social YAZBEK 2000 Desse modo as críticas latinoamericanas penetraram tardiamente no Serviço Social brasileiro só se consolidando após a crise da ditadura A renovação brasileira teve horizonte à modernização instrumental da profissão marcado pelo aprofundamento tecnicista e pragmático que visava avançar e ampliar suas bases legitimadoras na sociedade brasileira IAMAMOTO 2004 No decorrer do nosso estudo verificamos que as elaborações de Paulo Freire no Serviço Social sofreram ao longo do tempo diferentes apreensões e interpretações sob espectro multicolor da Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 301 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Reconceituação na América Latina e no processo de renovação no Brasil por meio das três correntes teóricas presentes em seu interior7 no período pós64 No Brasil as ideias freirianas sobressaíram na formulação do Método de Belo Horizonte vinculado à vertente Intenção de Ruptura As obras de Paulo Freire no Serviço Social nas décadas de 1960 e 70 foram forças vitais para criar uma nova moralidade profissional ancorada na participação política no trabalho com os movimentos sociais populares fruto das críticas da reconceituação latinoamericana na aproximação com o marxismo e com a militância católica progressista Seu legado impactou profundamente na elaboração do Método de Belo Horizonte de 1975 BARROCO 2006 O Método de BH tinha como objetivo a transformação do homem e da sociedade pautada no processo de conscientização A base do método utilizado era a perspectiva dialética entretanto o esforço de sua sistematização acabou levando à lógica formalista que tantos de seus integrantes pretendiam romper Contudo a experiência significou um avanço na profissão no intento de romper com conservadorismo pois contribuiu na denúncia ao teoricismo e ao método de pesquisa positivista buscando demonstrar a necessidade de articular a investigação ao processo imediato de organização e mobilização popular Notase que os elementos identificados na criação do Método de BH são fruto da fase teórica de Freire em exílio GOMES 2011 Na realidade na experiência de Belo Horizonte todos objetivosmeios surgem articulados ao pensamento de Paulo Freire filtrados com uma lente maoista O centro da concepção dos formuladores é que a ação profissional é fundamentalmente política Essa postura confunde atribuições profissionais com as do militante político é a redefinição do papel da profissão uma dimensão políticopedagógica colocando como objeto da atuação profissional a ação social da classe oprimida recorrendo à teoria da aprendizagem de Paulo Freire A despeito de qualquer crítica o Método de BH tem mérito de pela primeira vez explicitar o caráter político da profissão GOMES 2011 p 63 grifos nossos Entretanto Netto 2011 p 149 coloca que o pensamento de inspiração marxiana nos meandros da reconceituação sofreu equívocos ecléticos grosseiros que chegou a supor uma congruência teórico metodológica com o substrato das propostas de Paulo Freire Por sua vez Quiroga 1991 também traz uma interessante análise da apreensão enviesada da ótica voluntarista da matriz marxista aliada ao pensamento freiriano no Serviço Social Esse tratamento representa de uma certa continuidade agora dentro da perspectiva marxista da visão humanista predominante historicamente no Serviço Social e que encontrou mais recentemente nas lições de Paulo Freire a sua reciclagem Tal antecedente humanista que pretende valorizar a ação dos homens ressalta outra deformação tratase da abordagem do papel histórico dos homens considerados muitas vezes como indivíduos e não como sujeitos históricos as classes sociais QUIROGA 1991 p 116 Conforme abordamos anteriormente as obras freirianas impactaram no Movimento de Reconceituação trazendo importantes reflexões sobre concepção do homem enquanto sujeito de sua história a dimensão educadora da profissão e os questionamentos sobre os elementos políticos da prática que posteriormente se consolidaram numa aproximação ao marxismo Outra forma de exemplificar a apreensão do pensamento freiriano no Brasil é a vertente da reatualização conservadora no Brasil presente na construção da professora Ana Maria Pavão aliada ao viés fenomenológico que enfatizou a visão existencial do trabalho social NETTO 2011 A autora utilizou como subsídio a concepção de diálogo consciência articulada na visão humanista de Freire Graziela Scheffer 302 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Para Pavão 1988 p 40 Sendo a conscientização um processo eminentemente educativo tomamos como ponto de partida o pensamento pedagógico de Paulo Freire cuja postura se apoia numa concepção de homem e de mundo com nítida influência fenomenológica Em nossa visão a autora da reatualização conservadora despolitiza a perspectiva do autor visto que o referencial freiriano da época afirmava claramente que toda a educação é em si política e que estava circunscrita na luta entre opressores e oprimidos cuja revolução somente era possível pela libertação do oprimido No próximo item analisaremos duas obras de Paulo Freire visando identificar e aprofundar suas contribuições ao Serviço Social Aproximações analíticas América Latina e Brasil Nesta etapa do ensaio analisaremos duas obras do autor Pedagogia do oprimido e Educação e mudança focadas em dois eixos perspectiva ontológica e crítica ao assistencialismo enfatizando seus desdobramentos no debate do trabalho profissional Optamos por nos limitar nesses pontos levando em consideração a amplitude do pensamento do autor e a importância desses aspectos no processo de renovação crítica da profissão8 O objetivo é apresentar um estudo exploratório enfatizando as produções latinoamericanas por meio de comparação entre o pensamento freiriano e os teóricos do Serviço Social Também introduzimos breves reflexões contemporâneas do Serviço Social brasileiro acerca da temática da subjetividade e do assistencialismo Perspectiva ontológica a subjetividade forjada na opressãolibertação os homens são seres da busca e sua vocação ontológica é humanizase FREIRE 1987 p 35 O autor constrói sua abordagem ontológica partindo da discussão da humanização versus a desumanização ou seja para falar de humanização implica em reconhecer a desumanização não apenas como visibilidade ontológica mas como realidade histórica FREIRE 1987 p 16 Portanto a desumanização é negação da vocação ontológica de ser mais Cabe ressaltar que a visão de desumanização é histórica e não destino dado podendo ser mudada pois é produto de uma ordem injusta criada por meio da violência dos opressores A ontologia freiriana que o Serviço Social recebeu foi fruto da conciliação entre humanismo cristão e o humanismo marxista que proporcionou por um lado uma compreensão do caráter humanista do pensamento marxista entretanto por outro subordinou seus princípios à metafísica da filosofia cristã impedindo naquele momento que se efetuasse uma crítica ontológica no interior do próprio marxismo BARROCO 2006 Ilustrando a tentativa de conciliação do humanismo cristão e marxista observemos o trecho a opressão real ainda opressora acrescentandolhe a consciência da opressão a que Marx se refere corresponde à relação dialética subjetividade e objetividade Somente na sua solidariedade em que o subjetivo constituise com o objetivo uma unidade dialética é possível a práxis autêntica FREIRE 1987 p 21 A luta pela humanização pelo trabalho livre pela desalienação pela afirmação dos homens como pessoas como seres para si não teria significação Essa somente é possível porque a desumanização mesmo que um fato concreto na história não é porém destino dado mas resultado de uma ordem Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 303 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 injusta que gera violência dos opressores e esta o ser menos FREIRE 1987 p 16 O autor aborda também a dinâmica contraditória entre opressores e oprimidos visando à superação dialética na consolidação da libertação do oprimido O problema está em como os oprimidos que hospedam ao opressor em si participar da elaboração como seres duplos inautênticos da pedagogia de sua libertação Somente na medida em que se descubram hospedeiros de opressor poderão contribuir para o partejamento de sua pedagogia libertadora Enquanto vivam a dualidade na qual ser é parecer e parecer é parecer com opressor é impossível fazêlo A estrutura de seu pensar se encontra condicionada pela contradição vivida na situação concreta existencial em que se formam FREIRE 1987 p 17 Nesse trecho podese identificar na visão do autor ênfase na reprodução das estruturas externas sociedade na interiorização do sujeito subjetividade ou seja o oprimido absorve a visão do opressor e a espelha no seu cotidiano O mecanismo dessa interação é permeado pela dinâmica contraditória e conflituosa entre opressor e oprimido A questão da hospedam do opressor pelo oprimido foi interpretada no contexto de reconceituação do Serviço Social na crítica da incorporação dos valores e teorias estrangeiras alienadas da realidade social latinoamericana colocando que nossa região latinoamericana empregando juízos de valor estranhos do século XIX e de um Ocidente que apenas em nossas mentes funcionava como cultura unificada Assim ao invés de nos orgulharmos de ser criativos lamentamosnos de ser desorganizados ao invés de oportunos consideramonos impontuais confundimos dignidade com intransigência originalidade com rebeldia emoção genuína com falta de amadurecimento Aceitamos como lastro e não como tesouro nossa relação com sol com a água com as arvores e com os pássaros nosso amor à vida e nossa aceitação da morte Nunca nos detivemos em pensar se nossos valores eram importados porque nunca aceitamos a ideia de nossa existência como latinoamericanos Acreditamos existirmos como europeus ou como nativos A língua a religião e a literatura nos fizeram sentir durante quatro séculos Ocidente RUZO 1975 p 9 Com apoio na explanação acima podemos verificar que a concepção de homem oprimido latino americano e o mecanismo de absorção do opressor na sua consciência justificaram em certa medida o trabalho de base que proporcione a conscientização dos sujeitos sobre sua condição de oprimido superando assim a incorporação da sombra dos opressores rompendo com esse ciclo Vejamos a afirmação abaixo Libertação a que não chegarão pelo acaso mas pela práxis da sua busca pelo conhecimento da necessidade de lutar por ela Pedagogia do Oprimido aquela que tem de ser forjada com ele e não para ele enquanto homens ou povos na luta incessante de sua humanidade Pedagogia que faça da opressão e de suas causas objeto da reflexão dos oprimidos de que resultará o seu engajamento necessário na luta por sua libertação FREIRE 1987 p 17 Dando sequência outra crítica realizada no período foi a concepção abstrata e idealista de sujeito gestada no conceito de dignidade humana usada pelo Serviço Social tradicional imbricada no entendimento de subjetividade e as particularidades formação social e cultural dos países latino americanos observemos então Somos uma cultura mestiça e católica Não podemos continuar dizendo que nos preocupamos com dignidade do ser humano se negamos ao ser humano da América Latina de ser genuíno Esse homem e essa mulher da América Latina a quem me refiro não é especialmente o índio nem preto nem pai de santo nem Graziela Scheffer 304 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 caboclo Somos também nós que temos alguma coisa de tudo isso mas que além disso somos o branco o missionário o patriarca e que mesmo renegamos e nos envergonhamos ora por nos sentirmos inferiores ora por sentirmos superiores Faltanos o orgulho de sermos física e intelectualmente mestiços porque não analisamos e não aceitamos nossos valores RUZO 1975 p 8 Com base na citação supracitada podemos identificar elementos do pensamento freiriano em dois sentidos o primeiro em mostrar nosso diferencial na formação social e o segundo na tentativa de demonstrar a incorporação da visão dos opressores colonizadores pelos oprimidos povo latino americano A questão da opressão e do opressor está implicada na concepção de classe dominante ou seja para os opressores o que vale é ter mais e cada vez mais à custa inclusive do ter menos ou nada ter dos oprimidos Ser para eles é ter como classe que tem Não podem perceber a situação opressora em que estão com usufrutuários que se ter é condição para ser esta condição é necessária a todos os homens Não podem perceber que na busca egoísta do ter como classe que tem se afogam na posse e já não são FREIRE 1987 p 26 Consequentemente o desvelamento da realidade e a historicidade das contraditórias e das opressões vivenciadas pelo homem latinoamericano são essenciais para processo de libertação do oprimido Portanto o processo de libertação assume um pertencimento com pensamento crítico das contradições não apenas na teoria nem apenas na prática mas na práxis que integra ação e reflexão como dois movimentos complementares em permanente tensão STRECK 2009 p 555 A libertação é caminho árduo do conhecimento da realidade que envolve uma dimensão educativa e participativa dos oprimidos A liberdade que é uma conquista e não uma doação exige uma permanente busca Ninguém tem liberdade para ser livre pelo contrário luta por ela porque não a tem Não é também liberdade um ponto ideal fora dos homens ao qual inclusive eles se alienam É condição indispensável ao movimento de busca em que estão inscritos os homens como seres inconclusos FREIRE 1987 p 18 Demonstrando essa inspiração da dimensão ontológica do autor embargada no debate da reconceituação latinoamericano citamos também outro autor destacado na produção acadêmica do período a fim de reafirmar sua influência no Serviço Social latino americano Para o Serviço Social tradicional o homem era objeto quando apresentasse problemas sociais e o objetivo era adaptálo a uma sociedade equilibrada Para o Serviço Social reconceituado o homem é um transformador do mundo um fazedor de si mesmo e do mundo Portanto o sujeito O homem objeto é impulsionado pelos demais massificado coisificado em situação de dependência O homem sujeito é um ser dentro do mundo e com o mundo está situado e fechado aberto aos desafios inconcluso um programador de sua vida na qual totaliza seus projetos É um ser livre enquanto tem a capacidade de optar e histórico como homem de sua época KISNERMAN 1972 p 51 Trazendo os elementos da opressão e do opressor apontados pelo autor podemos destacar o processo de coisificação atrelado ao controle social e a desumanização na formação social brasileira Essa visão do autor desemboca na discussão do controle social dos opressores sobre oprimidos vejamos Se humanização dos oprimidos é subversão sua liberdade também o é Daí a necessidade de seu constante controle E quando mais controlam os oprimidos mais os transformam em coisa em algo que fosse inanimado Essa tendência Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 305 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 dos opressores de inanimar tudo e todos que se encontra em sua ânsia de posse se identifica indiscutivelmente com a tendência sadista O sadismo aparece assim como uma da consciência opressora na sua necrófila do mundo FREIRE 1987 p 26 Podemos identificar no processo de colonização no Brasil o sadismo enquanto uma faceta psicossocial da classe dominante descrita por Gilberto Freyre Resultado da ação persistente desse sadismo de conquistador de senhor sobre escravo parecenos o fato ligado naturalmente à circunstância econômica da nossa formação patriarcal em nossa vida política onde mandonismo tem sempre encontrado vítimas em que exercerse com requintes sádicos a tradição conservadora no Brasil sempre se tem sustentado do sadismo do mando disfarçando em princípio da Autoridade ou defesa da Ordem FREYRE G 1986 p 8687 Avançando no ponto de vista do autor podemos identificar sua compreensão acerca da dialética subjetividade e objetividade elementos latentes do entendimento ontológico Não se pode pensar em objetividade sem subjetividade Não há uma sem a outra que não podem ser dicotomizadas A objetividade dicotomizadas da subjetividade a negação desta na análise da realidade ou na ação sobre ela é objetivismo Da mesma forma a negação da objetividade na análise como ação conduzindo ao subjetivismo que se alonga em posições solipsistas nega a ação da mesma por negar a realidade objetiva desde que esta passa a ser criação da consciência Nem objetivismo nem subjetivismo ou psicologismo mas subjetividade e objetividade em permanente dialeticidade FREIRE 1987 p 20 No sentido freiriano a estrutura social é uma construção históricocultural do homem cujo movimento do real é um jogo dialético de mudança e estabilidade Dessa forma a estrutura não é a mudança nem o estático tomados isoladamente mas a duração da contradição entre ambos deste universo criado pelo homem a mudança e a estabilidade da sua própria criação aparecem como tendências que se contradizem Esta é a razão pelo qual não há mundo humano isento de contradição Enquanto a estrutura social se renova através das mudanças de suas formas a estabilidade representa a tendência à normalização da estrutura FREIRE 2011 p 48 grifos nossos Mais adiante o autor esclarece a diferença de subjetivismopsicologismo e subjetividade Confundir subjetividade com subjetivismo com psicologismo e negarlhe a importância que tem no processo de transformação do mundo da história é cair num simplismo É admitir o impossível um mundo sem homens tal outra ingenuidade a do subjetivismo que implica em homens sem mundo FREIRE 1987 p 20 Podemos perceber a partir dos trechos acima elementos polêmicos9 do debate atual na profissão sobre a subjetividade e o marxismo que na visão do pedagogo Em Marx como em nenhum pensador crítico realista jamais se encontrará dicotomia O que Marx criticou e cientificamente destruiu não foi a subjetividade mas o subjetivismo o psicologismo FREIRE 1987 p 20 grifos nossos O entendimento freiriano sobre subjetividade e a crítica ao subjetivismopsicologicismo encarnados no Serviço Social tradicional foram fundamentais na renovação da profissão no Brasil pois inaugurou uma nova abordagem de subjetividade que será materializada no código ético da profissão de 1993 tendo liberdade enquanto valor central Graziela Scheffer 306 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Consideramos que a dimensão subjetiva atravessa todos os processos de trabalho em que o Serviço Social se insere Entretanto sofreu metamorfoses no decorrer da história da sociedade e da profissão de sua base conservadora de ajuda psicossocial para os dias atuais no exercício da cidadania Essa dimensão esteve efetivamente ligada aos processos educativos e culturais que serviram para o controleconsenso da população mas veio sendo reapropriada de forma crítica e engajada pelos movimentos sociais e por produções acadêmicas contemporâneas principalmente as produções ligadas à Reforma Psiquiátrica brasileira MACHADO 2009 Em suma os elementos da ontologia freiriana no entendimento opressoroprimido no entendimento da subjetividade proporcionaram reflexões ainda não resolvidas no Serviço Social na contemporaneidade que precisam ser amplamente dialogadas e entendidas e cujo legado freiriano pode ser marco dialético para um novo jeito de caminhar sobre a temática da subjetividade Acreditamos que o debate freiriano avançou na ruptura com o pensamento conservador no olhar da subjetividade acima das relações sociais orientada na perspectiva idealizada e essencialista da dignidade humana propagada pelo Serviço Social tradicional Crítica ao assistencialismo uma reflexão do processo de ruptura As primeiras obras freirianas originalmente foram publicadas em 1959 no Brasil sendo reelaboradasexpandidas nos livros Educação como prática da liberdade e Pedagogia do oprimido Essas obras trazem a contundente crítica ao assistencialismo da época Paulo Freire a partir de sua experiência no trabalho assistencial no SESI formulou uma crítica e recusa ao assistencialismo que transparecem claramente nas análises do educador BEISIEGEL 2010 Opúnhamonos a estas soluções assistencialistas ao mesmo tempo em que não aceitávamos as demais porque guardam em si uma dupla contradição Em primeiro lugar contradizem a vocação natural da pessoa a de ser sujeito e não ser objeto e o assistencialismo faz de quem recebe a assistência objeto passivo O grande perigo do assistencialismo está na violência do seu antidiálogo não lhe oferece condições para desenvolvimento de sua consciência que nas democracias autênticas há de ser cada vez mais crítica FREIRE 1987 p 65 Em nosso ponto de vista o debate limítrofe do assistencialismo e a educação popular construído pelo pensador também foi fruto da convivência com as pioneiras da primeira geração conforme entrevista do autor concedido para Revista Serviço Social e Sociedade n 3 em 1980 Inclusive há algo que eu gostaria de sublinhar numa conversa numa publicação de serviço social que corresponde a uma espécie de dever ou até de gratidão de minha parte ao Serviço Social Quer dizer é a presença de assistentes sociais na minha prática de educador e até eu diria na minha visão mesma do trabalho pedagógico popular Muito moço em Recife indiscutivelmente marcado por mulheres de forte e amável personalidade e também pela competência e seriedade de pessoas como por exemplo Lourdes Moraes Dolores Coelho Maria Hermínia Hebe Gonçalves Heloísa Bezerra de uma geração já destas e de outras mais como Evany Mendonça também filha da primeira geração Conversei muito discuti sempre muito com elas aprendi e acho que ensinei FREIRE 1980 p 73 Nesse testemunho inquietante de Paulo Freire podemos considerar um momento singular da história do Serviço Social nas interceções dos debates da educação popular que nos possibilita identificar que fomos inspiradores inspirados e sujeitoobjeto nessa travessia da primeira geração de assistentes Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 307 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 sociais ao processo de consolidação do legado freiriano na profissão marcados nos fluxos teóricos da intenção de ruptura As críticas freirianas ao assistencialismo geraram certas indagações do pensamento latino americano que muitas vezes levaram as respostas enviesadas entretanto foram extremamente relevantes pois possibilitaram abrir a Caixa de Pandora da intervenção profissional Imamoto 2008 apresentando um balanço do impacto da crítica ao assistencialismo na América Latina relata que a assistência social tornouse um tema maldito na reconceituação do Serviço Social latinoamericano que procurava romper com as históricas ações de cunho paternalista e assistencialista que manchavam a imagem social e acadêmica dos assistentes sociais Contudo no conduzir do debate a assistência social acabou ficando presa numa dupla cilada a primeira desconsiderava o caráter contraditório da assistência social e a segunda continuava em conferir o caráter assistencialista da profissão exclusivamente nas atividades realizadas no âmbito do Serviço Social de caso Portanto o exercício profissional foi analisado no processo de reprodução da dominação opressão Atrelado à critica ao assistencialismo e ao paternalismo agregase o debate do Serviço Social de caso que foi comparado à prática bancária das práticas bancárias da educação a que se junta toda uma ação social de caráter paternalista em oprimidos recebem o nome simpático de assistidos são casos individuais meros marginalizados que discrepam da fisionomia da sociedade Esta é boa organizada e justa Oprimidos como casos individuais são patologias da sociedade sã que precisa por isso mesmo ajustálos a ela mudandolhes a mentalidade de ineptos e preguiçosos FREIRE 1987 p 35 grifos nossos No supracitado podemos identificar claramente a crítica ao modelo adotado pelo Serviço Social tradicional O Serviço Social de caso tinha como referencial o positivismofuncionalista fluído de parâmetros psiquiátricos e psicologizantes que determinaram uma concepção profissional sujeito pobrezadoença objeto x estudotratamentoajustamento social intervenção O posicionamento reconceituado latinoamericano sobre o Serviço Social de caso era A única esperança do Serviço Social na verdade o único caminho adequado a tomar é participar da corrente atuante da ação social é compreender o quanto é completamente irrelevante atuar como psiquiatra de indigente a maioria das tensões na vida do indivíduo são causados direta ou indiretamente por circunstâncias sociais pela pobreza Portanto como um estudante de Serviço Social escreveu na parede de sua sala de aula precisamos arrancar o serviço social dos nossos corações YOUNGHUSBAND 1975 p 30 Freire em seu artigo sobre O papel do trabalhador social no processo de mudança expõe o papel do trabalhador social não se dá no processo de mudança em si mas num domínio mais amplo Domínio no qual a mudança é uma das dimensões Naturalmente este domínio específico no qual atua o trabalhador social é a estrutura social FREIRE 2011 p 45 Diante desses pressupostos o educador coloca que Falar do papel do trabalhador social implica na análise da mudança e da estabilidade como expressões da forma de ser da estrutura social trabalhador social atua numa realidade qual mudando permanece para mudar novamente como homem somente pode entender ou explicar a si mesmo como um ser de relações com esta realidade realidade se dá com outros homens tão condicionados como ele pela realidade dialeticamente permanente e mutável e que finalmente precisa conhecer na qual atua com os outros homens FREIRE 2011 p 48 Graziela Scheffer 308 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 O segundo ponto que destacamos foi qual problematização de Freire acerca da autointitulação do assistente social enquanto agente da mudança reconhecerse como agente da mudança atribui a si a exclusividade da ação transformadora que sem dúvida numa concepção humanista cabe também aos demais homens realizarem Se sua opção é pela humanização não pode então aceitar que seja o agente da mudança mas um de seus agentes FREIRE 2011 p 52 Podemos identificar a absorção da herança do autor no debate do agente da mudança no texto do autor latinoamericano A alienação é sustentada pelos declaradores da alienação revolucionários de confeitaria pelos pregadores de sua verdade pelos que fogem da realidade com seus sonhos edificantes hippies pelos intelectuais e profissionais neutros pelos ativistas autosustentados em si mesmo alimentados pela utopia social que criam agentes de mudança e não encontram visibilidade em seus atos O homem sujeito exposto ou propenso a alguma coisa é o homem que se descobre no mundo o que dá sentido ao mundo e às coisas KISNERMAN 1972 p 54 Segundo Barroco 2006 foi por meio da militância que a ética emergiu como elemento motivador da opção política pelas lutas populares que se vinculou à educação popular inspirada em Paulo Freire Sua constituição inicial esteve articulada à ideia de agente da mudança ao posterior compromisso com classe trabalhadora Desse modo a busca de ruptura com o Serviço Social tradicional foi gerida pela elaboração de uma nova identidade permeada pelo engajamento político e a ação educativa voltada à libertação dos oprimidos Exemplificando a análise da presença do pensamento freiriano atrelado à concepção de militância no trabalho profissional na AméricaLatina observamos que De acordo com Freire a ação profissional deve se encaminhar essencialmente para a organização das massas tarefa que implica o testemunho que lhes oferecer para demonstrar que o esforço é uma tarefa executada em comum Um grupo como organização é eficiente quando conseguiu estabelecer o diálogo entre seus membros quando acima das reivindicações pessoas ou das minorias tomou consciência da reivindicação de todos os homens KISNERMAN 1972 p60 Identificamos que as interpretações freirianas no Movimento de Reconceituação Latino Americana foi contraditória pois de um lado rompeu com a suposta neutralidade do assistente social condenou os métodos tradicionais e o controle dos oprimidos No entanto a apreensão levou a profissão a assumir uma postura politicista da intervenção desvinculada da análise das condições objetivas do assalariamento do Serviço Social Entretanto esse ethos da esquerda seja socialista ou católica progressista produziu no âmbito profissional uma postura militante por meio de ações educativas junto aos movimentos populares Esse fato contribui para que os assistentes sociais conseguissem desenvolver intervenções políticoorganizativas pautadas em novas bases agora educase para libertar donde a influência de Paulo Freire nesse momento foi primordial BARROCO 2006 p 145 Em síntese do percurso analítico apresentado acreditamos que tenha ficado explícita a importância do pensamento freiriano na renovação crítica do Serviço Social no Brasil e na América Latina que a nosso ver contribuiu nos seguintes aspectos a na ruptura da neutralidade e afirmação de seu caráter político da intervenção profissional b na busca de uma prática comprometida com libertação dos oprimidos c na valorização da militância política e da cultura popular d na colaboração no recebimento das teorias marxistas e na mudança na concepção de homemsubjetividade Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 309 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 Ao término deste último tópico do estudo da herança de Freire no Serviço Social fechamos com esperança de ter colaborado para retomada da leitura das obras do educador na atualidade Algumas considerações Se nada ficar destas páginas algo pelo menos esperamos que permaneça nossa confiança no povo Nossa fé nos homens e na criação de um mundo em que seja menos difícil de amar FREIRE 1987 p 108 Nesse ensaio de cunho bibliográfico buscamos demonstrar a importância do pensamento freiriano no Serviço Social articulado ao processo de renovação crítica na América Latina e no Brasil O legado freiriano na profissão que percorreu um sinuoso trajeto sofrendo desvios subjetivistas e despolitizantes pela vertente fenomenológica bem como articulações ecléticas com o marxismo que vão desde situações grosseiras de elaborações até os desdobramentos mais maduros explicitados no Método de BH Também contribuiu para constituição de uma nova moralidade profissional centrada na liberdade e na militância política em favor dos oprimidos e explorados rompendo o tradicionalismo abstrato da ética e da neutralidade no Serviço Social centrado principalmente no trabalho de caso Na elaboração do artigo observamos que muitos autores do Serviço Social indicam a importância de Paulo Freire na profissão todavia encontramos parcas análises do impacto do pensamento freiriano Em nosso ponto de vista o estudo do pensamento freiriano poderia ser valioso no entendimento da constituição da vertente intenção de ruptura no Brasil e da Reconceituação latinoamericana pois se desdobrou numa aproximação com os movimentos sociais e com o marxismo Também proporcionou numa autoanálise da dimensão políticopedagógica do fazer profissional Fazendo um breve apontamento acerca das conformações neoliberais na política de educação e estudo do arcabouço de Paulo Freire consideramos que o ensino público de nível superior principalmente nas universidades federais recémcriadas vem assumido uma tendência de focalização no processo de ensinoaprendizagem ou seja atualmente temos uma ênfase assoberbada na via ensino na sala de aula objetivando atender o maior número de discentes Consequentemente a focalização na sala aula como único recurso de formação dos discentes tende a limitar os espaços formativos de crítica autônoma e universalista da pesquisa e da extensão É nesse sentido que as críticas freirianas categorizadas na educação bancária na desumanizaçãohumanização e no processo oprimidoopressor continuam relevantes na contemporaneidade a sua pedagogia continua válida não só porque ainda há opressão no mundo mas porque ela responde a necessidades fundamentais da educação de hoje o pensamento de Paulo Freire é mais atual do que nunca pois em toda a sua obra ele insistiu nas metodologias nas formas de aprender e ensinar nos métodos de ensino e pesquisa nas relações pessoais enfim no diálogo Há algo que permanece constante no pensamento dele a sua preocupação ética seu compromisso com os condenados da Terra Pedagogia do oprimido com os excluídos Pedagogia da Autonomia GADOTTI 2002 p 345 Em tempos do capital financeiro as críticas às práticas bancárias são um caminho fecundo no entendimento das configurações da educação universitária na contemporaneidade A crítica e a transformação da realidade social na formação vêm submergindo em exigências massificadas do mercado capitalista na contemporaneidade Freire 1996 p 14 nos alerta que formar é muito mais do puramente treinar o educando no desempenho de destrezas Entretanto a perspectiva neoliberal prega a ideologia que só há uma Graziela Scheffer 310 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 saída para prática educativa adaptar o educando a esta realidade que não pode ser mudada é o treino técnico indispensável á adaptação do educando à sua sobrevivência FREIRE 1996 p 20 Refletir sobre o legado de Paulo Freire nos permitiu captar elementos históricos que contribuíram na renovação do Serviço Social crítico Além disso nos trouxe reflexões sobre a educação comprometida na construção de uma sociedade justa e combatente a todas as formas opressãoexploração Referências AMMANN S B Ideologia do desenvolvimento de comunidade no Brasil 10 ed São Paulo Cortez 2003 ANDRADE M A de O metodologismo e desenvolvimentismo no Serviço Social brasileiro 1946 a 1961 Serviço Social Realidade Franca v 17 n 1 p 268299 2008 Disponível em httpperiodicosfrancaunespbrindexphpSSRarticledownload1378 Acesso em 05 de abril de 2012 BARROCO M L S Ética e Serviço Social fundamentos ontológicos 4 ed São Paulo Cortez 2006 BEISIEGEL R C de Paulo Freire Brasília MEC Fundação Joaquim Nabuco Editora Massangana 2010 Coleção Educadores COUTINHO C Contra corrente ensaios sobre a democracia e o socialismo São Paulo Cortez 2000 FALEIROS V P Estratégias em Serviço Social São Paulo Cortez 1999 FREIRE P A prática de pensar a prática é a melhor maneira de aprender a pensar Revista de Serviço Social e Sociedade São Paulo Cortez n 3 1980 A educação como prática da liberdade 24 ed São Paulo Paz e Terra 2000 Pedagogia do oprimido São Paulo Paz e Terra 1987 Pedagogia da autonomia saberes necessários à prática educativa São Paulo Paz e Terra 1996 Pedagogia da esperança um reencontro com a pedagogia do oprimido 11 ed São Paulo Paz e Terra 2003 Educação e mudança São Paulo Paz e Terra 2011 FREYRE G Casagrande senzala formação da família brasileira sobre o regime patriarcal São Paulo Círculo do Livro 1986 GADOTTI M Por que continuar lendo Freire O Estado de S Paulo 27052007 Disponível em httpwwwihuunisinosbrnoticiasnoticiasanteriores7426porquecontinuarlendopaulofreireartigodemoacirgadotti Acesso em 7 jan 2011 Educação e ordem classista In FREIRE Paulo Educação e mudança São Paulo Paz e Terra 2011 GOMES M F Paulo Freire e Serviço Social no Brasil elementos do pensamento freiriano para superação do conservadorismo na profissão Em Pauta Disponível em httpwwwepublicacoesuerjbrindexphprevistaempautaarticleview24981931 2011 Acesso em 10 out 2012 IAMAMOTO M V Serviço Social na contemporaneidade 7 ed São Paulo Cortez 2004 Serviço Social em tempo de capital fetiche capital financeiro trabalho e questão social São Paulo Cortez 2008 CARVALHO R de Relações sociais e Serviço Social no Brasil Esboço de uma interpretação históricometodológica 15 ed São Paulo Cortez 2003 KISNERMAN N Sete estudos sobre Serviço Social São Paulo Cortez Moraes 1972 KOIKE Maria M Formação profissional em Serviço Social exigências atuais Disponível em httpwwwprofjoaodantasnombrmaterialdidaticomaterial5FormacaoprofissionalemServicoSocialexigenciasatuais pdf Acesso em 07 set 2012 KONDER L O marxismo na batalha das ideias São Paulo Expressão Popular 2009 LOWY M O marxismo dos anos 60 na França a corrente humanista revolucionária Revista Serviço Social Sociedade São Paulo Cortez n 30 1989 A guerra dos deuses religião e política na América Latina Petrópolis Vozes 2000 MACHADO G S Reforma psiquiátrica e Serviço Social o trabalho dos assistentes sociais na equipe dos CAPS In Vasconcelos E M Org Abordagens psicossociais São Paulo Hucitec 2009 v 3 Perspectivas para o Serviço Social NETTO J P Ditadura e Serviço Social uma análise do Serviço Social no Brasil pós64 São Paulo Cortez 2011 PAIVA V Paulo Freire e o nacionalismo desenvolvimentista Revista de Ciências da Educação São Paulo Graal 2000 n 2 p 8386 Disponível em httpsisifofpceulpt Acesso em 20 dez 2011 PAVÃO Ana Maria Braz O Princípio de autodeterminação no serviço Social São Paulo Cortez 1988 PINHEIRO L F Serviço Social religião e movimentos sociais no Brasil Rio de Janeiro GrammaFAPERJ 2010 PRAXEDES W L de A Repensando a recepção do marxismo no pensamento educacional brasileiro Revista Espaço Acadêmico Maringá ano 2 n 12 maio 2002 Disponível em wwwespacoacademicocombr Acesso em 08 dez 2011 Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social 311 Textos Contextos Porto Alegre v 12 n 2 p 292 311 juldez 2013 QUIROGA C Invasão positivista no marxista manifestação no ensino da metodologia no Serviço Social São Paulo Cortez 1991 VASCONCELOS E M Org Saúde mental e Serviço Social o desafio da subjetividade e da interdisciplinaridade São Paulo Cortez 2000 RUZO Elya C C Uma filosofia latinoamericana de Serviço Social Revista Debates Sociais Rio de Janeiro CBSSI maio 1975 SILVA M Ozamira da Silva e Org O Serviço Social e popular São Paulo Cortez 2009 STRECK D R Da pedagogia do oprimido às pedagogias da exclusão um breve balanço crítico Educação Sociedade Campinas v 30 n 107 p 539560 maioago 2009 Disponível em httpwwwcedesunicampbr Acesso em 07 set 2012 WANDERLEY L E W Educação popular metamorfoses e veredas São Paulo Cortez 2010 WEFFORT F Educação e política reflexões sociológicas sobre a pedagogia da liberdade Prefácio In FREIRE Paulo A educação como prática da liberdade 24 ed São Paulo Paz e Terra 2000 YAZBEK M C Os fundamentos do Serviço Social na contemporaneidade In UNIVERSIDADE NACIONAL DE BRASÍLIA Capacitação em serviço social e política social módulo 4 Brasília UNBCEAD 2000 YOUNGHUSBAND E O futuro do Serviço Social Debates Sociais Rio de Janeiro CBSSI maio 1975 1 A criação e expansão as instituições na década de 1940 visavam garantir o controle social e sua legitimação O Estado Novo por meio de uma política de massa faz gestão à proteção e simultaneamente reprime os movimentos reivindicatórios Suas ações vão desde as legislações sociais e sindicais até a criação de um aparato institucional assistencial de forma a se estender desde a regulamentação do trabalho até a uma política social e assistencial aliada muitas vezes à própria classe produtora e à burguesia industrial O surgimento e desenvolvimento das grandes instituições assistenciais na década de 1940 coincidiram com o momento de legitimação e institucionalização do Serviço Social ANDRADE 2008 p 270 2 A Igreja Católica brasileira é um caso único na América Latina na medida em que é única Igreja do continente sobre qual a teologia da libertação e seus seguidores das pastorais conseguiram exercer uma influência decisiva A importância desse fato é evidente se considerarmos que a Igreja Católica brasileira é a maior do mundo LOWY 2000 p 135 3 Para Paiva 2000 existe uma relação entre a ação pedagógica e a produção teórica de Paulo Freire até 1965 e a ideologia nacionalista e desenvolvimentista de cariz populista desenvolvida e divulgada por um núcleo de intelectuais agrupados institucionalmente no ISEB Essa ideologia é apresentada à tradução política e intelectual para a realidade brasileira dos anos 50 e 60 zona periférica do mundo capitalista do keynesianismo e das ideias sociais que serviram de base aos Estados Providência 4 O DC foi uma estratégia lançada para garantir a prosperidade o progresso social e a hegemonia ideológica americana capitalismo cuja política visava preservar o mundo livre de ideologias não democráticas Durante os anos de 1950 a ONU empenhase em sistematizar e divulgar o DC como uma medida para solucionar o complexo problema de integrar esforços da população aos planos regionais e nacionais de desenvolvimento ANDRADE 2008 p 284 5 Para Barroco 2006 a relação do cristianismo com marxismo na América Latina teve dois momentos nos anos 60 a vertente cristã apropriouse do marxismo mediada pelo pensamento católico francês aliado à filosófica humanista do personalismo que busca o diálogo a autenticidade o compromisso social a intersubjetividade a liberdade o amor a solidariedade e o engajamento éticopolítico Esse encontro é manifestado por sistematização articulada entre cristianismo e marxismo Nos anos 70 o marxismo cristão é praticamente fusão entre os princípios cristãos e o ideário socialista 6 Paulo Freire no livro Pedagogia da esperança reencontro com pedagogia do oprimido 2003 responde às críticas marxistas feitas nos anos 70 Interessados consultar a página 89 do referido livro 7 Netto 2011 aponta a constituição de três vertentes teóricas e prática na profissão a modernização conservadora a reatualização do conservadorismo e a intenção de ruptura A primeira vertente denominada modernizadora era pautada no estruturalfuncionalismo que tinha as propostas de adequação da profissão referentes aos instrumentos técnicas formulações para atendimento técnicoinstrumental e tecnologia de planejamento de administração que possibilitassem a operacionalização nos marcos das estratégias de desenvolvimento capitalista A segunda vertente camada de reatualização do conservadorismo emerge na metade dos anos 70 amparada na teoria e nos debates filosóficos da Fenomenologia e do Existencialismo cristãos Essa perspectiva enfatiza a dimensão psicologista e a retórica irracionalista da humanização num sentido abstrato A terceira vertente intitulada intenção de ruptura surge em meados dos anos de 1970 inspirada em fontes marxista e marxiana visando romper com a herança conservadora em suas dimensões teóricometodológica e técnicooperativa 8 Utilizamos alguns autores latinoamericanos do período a que tivemos acesso bibliográfico de nossa própria aquisição Encontramos dificuldade em consultar um número maior de obras da época visto que a universidade em que trabalhamos não tem um acervo histórico das obras do Serviço Social 9 O debate sobre subjetividade no âmbito acadêmico aparece no final dos anos de 90 tendo como marco dois livros Estratégias em Serviço Social FALEIROS 1999 e Serviço Social e Saúde Mental desafio da subjetividade e da interdisciplinaridade VASCONCELOS E 2000 Esses dois autores enfatizam a necessidade de aprofundamento do entendimento sobre os processos subjetivos universais e os processos subjetivos forjados no âmbito singular articulados aos valores universais e aos processos subjetivos circunscritos nas relações sociais econômicas políticas e culturais e introduzem a discussão sobre empoderamento dos sujeitos em nível individual e coletivo MACHADO 2009 1 O LEGADO DE PAULO FREIRE NO SERVIÇO SOCIAL UMA RESENHA CRÍTICA DO ARTIGO DE GRAZIELA SCHEFFER SCHEFFER Graziela Pedaços do tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Textos Contextos Porto Alegre Porto Alegre v 12 n 1 p 292311 janjun 2013 O artigo Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social de Graziela Scheffer apresenta uma reconstrução analítica densa do diálogo entre o pensamento freiriano e o processo de renovação do Serviço Social brasileiro e latinoamericano A autora não se limita a identificar influências conceituais mas situa essa interlocução no interior das transformações históricas políticas e profissionais que atravessaram a profissão ao longo de décadas marcadas por disputas ideológicas e projetos societários antagônicos A abordagem adotada confere centralidade à historicidade compreendendo o legado de Paulo Freire como resultado de mediações concretas entre teoria e prática O pensamento freiriano é tratado como produção situada atravessada por contextos específicos e não como referencial abstrato passível de aplicação imediata Essa opção metodológica permite à autora evitar leituras simplificadoras e estabelecer uma análise crítica sobre os usos e apropriações do pensamento do educador no Serviço Social A noção de tempo mobilizada como categoria interpretativa sustenta a estrutura do texto e permite compreender a coexistência de permanências e rupturas no interior da profissão A autora demonstra que o diálogo entre Paulo Freire e o Serviço Social não se dá de forma linear mas por meio de deslocamentos teóricos que acompanham mudanças nas condições históricas e nas formas de intervenção profissional No período desenvolvimentistanacionalista o artigo evidencia que a pedagogia freiriana se articulava a projetos de modernização social e democratização política A conscientização nesse momento aparecia vinculada à formação de sujeitos aptos a participar do processo democrático sem ainda incorporar uma leitura aprofundada das contradições estruturais do capitalismo dependente latinoamericano Essa fase inicial encontra correspondência no Serviço Social tradicional cujos instrumentais técnicooperativos estavam organizados em torno da adaptação do indivíduo à ordem social A utilização do estudo de caso do trabalho com grupos e das ações comunitárias visava à integração social reforçando uma prática profissional orientada pela harmonia social e pela neutralidade técnica 2 A autora demonstra que o desenvolvimento de comunidade apesar de seu revestimento conservador abriu fissuras importantes no tradicionalismo profissional A atuação em territórios populares e a inserção em equipes multiprofissionais ampliaram o contato do assistente social com sujeitos coletivos organizados criando condições objetivas para a problematização da realidade social O texto evidencia que essas experiências contribuíram para tensionar o uso dos instrumentais profissionais deslocando gradualmente o foco do indivíduo isolado para a dimensão coletiva dos problemas sociais Esse movimento ainda que contraditório preparou o terreno para a incorporação de práticas educativas e participativas inspiradas no pensamento freiriano O golpe civilmilitar de 1964 representa um ponto de inflexão decisivo na análise A repressão política interrompeu processos em curso e impôs limites severos às práticas críticas Simultaneamente o exílio de Paulo Freire produziu uma inflexão teórica relevante marcada pela aproximação sistemática com o marxismo e pela radicalização de sua crítica à sociedade de classes Nesse novo momento a educação deixa de ser concebida como mecanismo autônomo de transformação social A pedagogia freiriana passa a reconhecer os limites objetivos da ação educativa diante da estrutura social reposicionando a conscientização como mediação inserida na luta de classes O Movimento de Reconceituação do Serviço Social emerge nesse contexto como resposta às insuficiências do modelo tradicional A profissão passa a questionar seus fundamentos teóricometodológicos suas bases ideológicas e o sentido político de sua intervenção buscando referências que permitissem romper com o conservadorismo histórico A autora demonstra que o pensamento freiriano ofereceu subsídios importantes para essa ruptura sobretudo ao problematizar a neutralidade técnica e a suposta objetividade dos instrumentais profissionais A prática passa a ser compreendida como intervenção social situada atravessada por escolhas éticopolíticas A metodologia do diálogo proposta por Freire tensiona profundamente o uso dos instrumentos técnicooperativos A entrevista a visita domiciliar e o trabalho com grupos deixam de operar como mecanismos de coleta de dados ou controle social passando a constituir espaços de escuta problematização e produção coletiva de sentidos Essa reconfiguração metodológica redefine a relação entre assistente social e usuários das políticas sociais O sujeito atendido deixa de ser concebido como objeto de intervenção 3 para ser reconhecido como sujeito histórico portador de saberes construídos na experiência concreta de vida e trabalho A dimensão ontológica do pensamento freiriano ocupa lugar central na análise da autora A relação opressoroprimido é apresentada como categoria explicativa da produção histórica da desumanização permitindo compreender como as estruturas sociais se reproduzem no plano da subjetividade Nesse sentido o artigo contribui de forma relevante para o debate sobre subjetividade no Serviço Social A crítica ao subjetivismo psicologizante permite superar leituras individualizantes dos problemas sociais afirmando a subjetividade como dimensão histórica socialmente produzida e atravessada por relações de poder A interiorização da opressão pelos sujeitos aparece como elemento fundamental para compreender a reprodução das desigualdades sociais Essa leitura justifica a centralidade da educação popular como mediação capaz de promover o desvelamento das determinações sociais e a construção de práticas coletivas de resistência A crítica ao assistencialismo constitui um dos eixos analíticos mais densos do texto pois permite explicitar as bases ideológicas que historicamente orientaram determinadas formas de intervenção no Serviço Social O assistencialismo é compreendido como prática que ao invés de fortalecer a autonomia dos sujeitos reforça relações assimétricas de poder convertendo necessidades sociais em objetos de tutela institucional Mesmo quando revestido por discursos humanitários ou por uma retórica de cuidado esse tipo de intervenção tende a operar pela negação da capacidade crítica dos usuários limitando sua participação nos processos decisórios e reproduzindo mecanismos de subordinação social A autora evidencia que nesse modelo a ação profissional se estrutura a partir de uma lógica verticalizada na qual o saber técnico se impõe sobre a experiência concreta dos sujeitos esvaziando o potencial transformador da prática social Essa crítica incide de maneira direta sobre o Serviço Social de caso cuja matriz positivista e funcionalista orientou durante décadas a leitura da pobreza como desvio individual ou patologia social Nesse modelo as expressões da questão social eram tratadas como problemas isolados dissociados das determinações históricas e estruturais que as produzem A comparação com a educação bancária formulada por Paulo Freire revela o caráter autoritário dessas práticas nas quais soluções previamente definidas eram aplicadas aos sujeitos sem qualquer mediação dialógica O atendimento profissional assumia assim uma função disciplinadora voltada à adaptação do indivíduo à ordem social vigente 4 naturalizando desigualdades e obscurecendo os conflitos de classe que atravessam a realidade social A autora reconhece que a apropriação das ideias freirianas no Movimento de Reconceituação não ocorreu de forma homogênea nem isenta de tensões internas Em determinados contextos a incorporação do pensamento de Paulo Freire resultou em leituras simplificadas nas quais a dimensão política da prática profissional foi confundida com militância direta desconsiderando as mediações institucionais e as condições objetivas do exercício profissional assalariado A supervalorização da vontade subjetiva desvinculada de uma análise rigorosa da totalidade social produziu formulações fragilizadas que acabaram por deslocar o foco da crítica estrutural para a ação voluntarista comprometendo a consistência teóricometodológica de algumas propostas interventivas Apesar desses limites o texto sustenta que o legado freiriano desempenhou papel decisivo ao explicitar o caráter político da prática profissional rompendo com a ilusão da neutralidade técnica que marcou o Serviço Social tradicional A recusa dessa neutralidade permitiu reconhecer que toda intervenção profissional se insere em relações sociais historicamente determinadas e expressa escolhas éticopolíticas concretas Essa inflexão contribuiu para a construção de uma nova identidade profissional comprometida com a leitura crítica da realidade social e com a defesa de projetos societários orientados pela ampliação dos direitos e pela emancipação da classe trabalhadora A articulação entre a metodologia freiriana e os instrumentais técnicooperativos do Serviço Social se expressa de maneira concreta na revalorização do planejamento participativo da pesquisa social crítica e do trabalho de base junto aos sujeitos coletivos Esses instrumentos deixam de ser compreendidos como procedimentos técnicos isolados e passam a integrar um processo pedagógico mais amplo orientado pela problematização da realidade e pela construção compartilhada de conhecimentos A prática profissional assume nesse sentido uma dimensão educativa que não se limita à transmissão de informações mas promove a reflexão crítica sobre as condições de vida trabalho e organização social dos sujeitos envolvidos O artigo evidencia que a Reconceituação latinoamericana não constituiu um movimento uniforme mas um campo heterogêneo atravessado por diferentes projetos teóricos e políticos As apropriações do pensamento freiriano variaram conforme os contextos nacionais as correlações de forças existentes e as tradições profissionais consolidadas em cada país Essa diversidade explica tanto a potência quanto as contradições do processo uma 5 vez que o legado de Paulo Freire foi reinterpretado à luz de distintas matrizes teóricas produzindo leituras ora mais críticas ora mais conciliatórias No contexto brasileiro a autora demonstra que a renovação profissional assumiu contornos específicos durante a ditadura civilmilitar marcada pela repressão política e pela restrição das práticas abertamente contestatórias Nesse período a modernização tecnicista ganhou centralidade favorecendo a ampliação dos instrumentos administrativos e de planejamento em detrimento da dimensão crítica da intervenção Ainda assim as influências freirianas não desapareceram permanecendo latentes em determinados espaços acadêmicos e profissionais reaparecendo com maior força no processo de redemocratização A atualidade do legado freiriano é discutida a partir das transformações contemporâneas das políticas educacionais e sociais marcadas pela mercantilização do ensino e pela focalização das políticas públicas Esse cenário recoloca no centro do debate a crítica à educação bancária e às práticas assistencialistas que tendem a reduzir a formação profissional e a intervenção social a respostas imediatistas e instrumentais O pensamento de Paulo Freire oferece nesse contexto fundamentos teóricos para resistir a essas tendências reafirmando a centralidade do diálogo da participação e da crítica social O texto permite compreender que o pensamento freiriano permanece relevante na medida em que fornece bases teóricometodológicas para práticas profissionais orientadas pela emancipação social Sua contribuição ultrapassa o campo educacional alcançando de forma consistente o Serviço Social especialmente no que se refere à compreensão do trabalho profissional como prática social política e pedagógica inserida em disputas de projetos societários A resenha evidencia que o artigo de Graziela Scheffer contribui de maneira significativa para a compreensão das bases políticopedagógicas do Serviço Social crítico A articulação entre história teoria social e prática profissional confere ao texto densidade analítica permitindo ao leitor apreender o legado freiriano como parte constitutiva do processo de renovação da profissão e não como referência externa ou acessória Ao reconstruir o percurso do pensamento freiriano no interior do Serviço Social a autora demonstra que os instrumentais técnicooperativos expressam concepções de mundo e posicionamentos éticopolíticos o que exige reflexão crítica permanente sobre seu uso nesse sentido o legado de Paulo Freire permanece como referência fundamental para práticas profissionais orientadas pela participação social pela autonomia dos sujeitos e pela transformação das relações sociais 1 O LEGADO DE PAULO FREIRE NO SERVIÇO SOCIAL UMA RESENHA CRÍTICA DO ARTIGO DE GRAZIELA SCHEFFER SCHEFFER Graziela Pedaços do tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social Textos Contextos Porto Alegre Porto Alegre v 12 n 1 p 292311 janjun 2013 O artigo Pedaços do Tempo legado de Paulo Freire no Serviço Social de Graziela Scheffer apresenta uma reconstrução analítica densa do diálogo entre o pensamento freiriano e o processo de renovação do Serviço Social brasileiro e latinoamericano A autora não se limita a identificar influências conceituais mas situa essa interlocução no interior das transformações históricas políticas e profissionais que atravessaram a profissão ao longo de décadas marcadas por disputas ideológicas e projetos societários antagônicos A abordagem adotada confere centralidade à historicidade compreendendo o legado de Paulo Freire como resultado de mediações concretas entre teoria e prática O pensamento freiriano é tratado como produção situada atravessada por contextos específicos e não como referencial abstrato passível de aplicação imediata Essa opção metodológica permite à autora evitar leituras simplificadoras e estabelecer uma análise crítica sobre os usos e apropriações do pensamento do educador no Serviço Social A noção de tempo mobilizada como categoria interpretativa sustenta a estrutura do texto e permite compreender a coexistência de permanências e rupturas no interior da profissão A autora demonstra que o diálogo entre Paulo Freire e o Serviço Social não se dá de forma linear mas por meio de deslocamentos teóricos que acompanham mudanças nas condições históricas e nas formas de intervenção profissional No período desenvolvimentistanacionalista o artigo evidencia que a pedagogia freiriana se articulava a projetos de modernização social e democratização política A conscientização nesse momento aparecia vinculada à formação de sujeitos aptos a participar do processo democrático sem ainda incorporar uma leitura aprofundada das contradições estruturais do capitalismo dependente latinoamericano Essa fase inicial encontra correspondência no Serviço Social tradicional cujos instrumentais técnicooperativos estavam organizados em torno da adaptação do indivíduo à ordem social A utilização do estudo de caso do trabalho com grupos e das ações comunitárias visava à integração social reforçando uma prática profissional orientada pela harmonia social e pela neutralidade técnica 2 A autora demonstra que o desenvolvimento de comunidade apesar de seu revestimento conservador abriu fissuras importantes no tradicionalismo profissional A atuação em territórios populares e a inserção em equipes multiprofissionais ampliaram o contato do assistente social com sujeitos coletivos organizados criando condições objetivas para a problematização da realidade social O texto evidencia que essas experiências contribuíram para tensionar o uso dos instrumentais profissionais deslocando gradualmente o foco do indivíduo isolado para a dimensão coletiva dos problemas sociais Esse movimento ainda que contraditório preparou o terreno para a incorporação de práticas educativas e participativas inspiradas no pensamento freiriano O golpe civilmilitar de 1964 representa um ponto de inflexão decisivo na análise A repressão política interrompeu processos em curso e impôs limites severos às práticas críticas Simultaneamente o exílio de Paulo Freire produziu uma inflexão teórica relevante marcada pela aproximação sistemática com o marxismo e pela radicalização de sua crítica à sociedade de classes Nesse novo momento a educação deixa de ser concebida como mecanismo autônomo de transformação social A pedagogia freiriana passa a reconhecer os limites objetivos da ação educativa diante da estrutura social reposicionando a conscientização como mediação inserida na luta de classes O Movimento de Reconceituação do Serviço Social emerge nesse contexto como resposta às insuficiências do modelo tradicional A profissão passa a questionar seus fundamentos teóricometodológicos suas bases ideológicas e o sentido político de sua intervenção buscando referências que permitissem romper com o conservadorismo histórico A autora demonstra que o pensamento freiriano ofereceu subsídios importantes para essa ruptura sobretudo ao problematizar a neutralidade técnica e a suposta objetividade dos instrumentais profissionais A prática passa a ser compreendida como intervenção social situada atravessada por escolhas éticopolíticas A metodologia do diálogo proposta por Freire tensiona profundamente o uso dos instrumentos técnicooperativos A entrevista a visita domiciliar e o trabalho com grupos deixam de operar como mecanismos de coleta de dados ou controle social passando a constituir espaços de escuta problematização e produção coletiva de sentidos Essa reconfiguração metodológica redefine a relação entre assistente social e usuários das políticas sociais O sujeito atendido deixa de ser concebido como objeto de intervenção 3 para ser reconhecido como sujeito histórico portador de saberes construídos na experiência concreta de vida e trabalho A dimensão ontológica do pensamento freiriano ocupa lugar central na análise da autora A relação opressoroprimido é apresentada como categoria explicativa da produção histórica da desumanização permitindo compreender como as estruturas sociais se reproduzem no plano da subjetividade Nesse sentido o artigo contribui de forma relevante para o debate sobre subjetividade no Serviço Social A crítica ao subjetivismo psicologizante permite superar leituras individualizantes dos problemas sociais afirmando a subjetividade como dimensão histórica socialmente produzida e atravessada por relações de poder A interiorização da opressão pelos sujeitos aparece como elemento fundamental para compreender a reprodução das desigualdades sociais Essa leitura justifica a centralidade da educação popular como mediação capaz de promover o desvelamento das determinações sociais e a construção de práticas coletivas de resistência A crítica ao assistencialismo constitui um dos eixos analíticos mais densos do texto pois permite explicitar as bases ideológicas que historicamente orientaram determinadas formas de intervenção no Serviço Social O assistencialismo é compreendido como prática que ao invés de fortalecer a autonomia dos sujeitos reforça relações assimétricas de poder convertendo necessidades sociais em objetos de tutela institucional Mesmo quando revestido por discursos humanitários ou por uma retórica de cuidado esse tipo de intervenção tende a operar pela negação da capacidade crítica dos usuários limitando sua participação nos processos decisórios e reproduzindo mecanismos de subordinação social A autora evidencia que nesse modelo a ação profissional se estrutura a partir de uma lógica verticalizada na qual o saber técnico se impõe sobre a experiência concreta dos sujeitos esvaziando o potencial transformador da prática social Essa crítica incide de maneira direta sobre o Serviço Social de caso cuja matriz positivista e funcionalista orientou durante décadas a leitura da pobreza como desvio individual ou patologia social Nesse modelo as expressões da questão social eram tratadas como problemas isolados dissociados das determinações históricas e estruturais que as produzem A comparação com a educação bancária formulada por Paulo Freire revela o caráter autoritário dessas práticas nas quais soluções previamente definidas eram aplicadas aos sujeitos sem qualquer mediação dialógica O atendimento profissional assumia assim uma função disciplinadora voltada à adaptação do indivíduo à ordem social vigente 4 naturalizando desigualdades e obscurecendo os conflitos de classe que atravessam a realidade social A autora reconhece que a apropriação das ideias freirianas no Movimento de Reconceituação não ocorreu de forma homogênea nem isenta de tensões internas Em determinados contextos a incorporação do pensamento de Paulo Freire resultou em leituras simplificadas nas quais a dimensão política da prática profissional foi confundida com militância direta desconsiderando as mediações institucionais e as condições objetivas do exercício profissional assalariado A supervalorização da vontade subjetiva desvinculada de uma análise rigorosa da totalidade social produziu formulações fragilizadas que acabaram por deslocar o foco da crítica estrutural para a ação voluntarista comprometendo a consistência teóricometodológica de algumas propostas interventivas Apesar desses limites o texto sustenta que o legado freiriano desempenhou papel decisivo ao explicitar o caráter político da prática profissional rompendo com a ilusão da neutralidade técnica que marcou o Serviço Social tradicional A recusa dessa neutralidade permitiu reconhecer que toda intervenção profissional se insere em relações sociais historicamente determinadas e expressa escolhas éticopolíticas concretas Essa inflexão contribuiu para a construção de uma nova identidade profissional comprometida com a leitura crítica da realidade social e com a defesa de projetos societários orientados pela ampliação dos direitos e pela emancipação da classe trabalhadora A articulação entre a metodologia freiriana e os instrumentais técnicooperativos do Serviço Social se expressa de maneira concreta na revalorização do planejamento participativo da pesquisa social crítica e do trabalho de base junto aos sujeitos coletivos Esses instrumentos deixam de ser compreendidos como procedimentos técnicos isolados e passam a integrar um processo pedagógico mais amplo orientado pela problematização da realidade e pela construção compartilhada de conhecimentos A prática profissional assume nesse sentido uma dimensão educativa que não se limita à transmissão de informações mas promove a reflexão crítica sobre as condições de vida trabalho e organização social dos sujeitos envolvidos O artigo evidencia que a Reconceituação latinoamericana não constituiu um movimento uniforme mas um campo heterogêneo atravessado por diferentes projetos teóricos e políticos As apropriações do pensamento freiriano variaram conforme os contextos nacionais as correlações de forças existentes e as tradições profissionais consolidadas em cada país Essa diversidade explica tanto a potência quanto as contradições do processo uma 5 vez que o legado de Paulo Freire foi reinterpretado à luz de distintas matrizes teóricas produzindo leituras ora mais críticas ora mais conciliatórias No contexto brasileiro a autora demonstra que a renovação profissional assumiu contornos específicos durante a ditadura civilmilitar marcada pela repressão política e pela restrição das práticas abertamente contestatórias Nesse período a modernização tecnicista ganhou centralidade favorecendo a ampliação dos instrumentos administrativos e de planejamento em detrimento da dimensão crítica da intervenção Ainda assim as influências freirianas não desapareceram permanecendo latentes em determinados espaços acadêmicos e profissionais reaparecendo com maior força no processo de redemocratização A atualidade do legado freiriano é discutida a partir das transformações contemporâneas das políticas educacionais e sociais marcadas pela mercantilização do ensino e pela focalização das políticas públicas Esse cenário recoloca no centro do debate a crítica à educação bancária e às práticas assistencialistas que tendem a reduzir a formação profissional e a intervenção social a respostas imediatistas e instrumentais O pensamento de Paulo Freire oferece nesse contexto fundamentos teóricos para resistir a essas tendências reafirmando a centralidade do diálogo da participação e da crítica social O texto permite compreender que o pensamento freiriano permanece relevante na medida em que fornece bases teóricometodológicas para práticas profissionais orientadas pela emancipação social Sua contribuição ultrapassa o campo educacional alcançando de forma consistente o Serviço Social especialmente no que se refere à compreensão do trabalho profissional como prática social política e pedagógica inserida em disputas de projetos societários A resenha evidencia que o artigo de Graziela Scheffer contribui de maneira significativa para a compreensão das bases políticopedagógicas do Serviço Social crítico A articulação entre história teoria social e prática profissional confere ao texto densidade analítica permitindo ao leitor apreender o legado freiriano como parte constitutiva do processo de renovação da profissão e não como referência externa ou acessória Ao reconstruir o percurso do pensamento freiriano no interior do Serviço Social a autora demonstra que os instrumentais técnicooperativos expressam concepções de mundo e posicionamentos éticopolíticos o que exige reflexão crítica permanente sobre seu uso nesse sentido o legado de Paulo Freire permanece como referência fundamental para práticas profissionais orientadas pela participação social pela autonomia dos sujeitos e pela transformação das relações sociais