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844 844856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 ISSN 16793951 Uberização do trabalho e acumulação capitalista David Silva Franco ¹ Deise Luiza da Silva Ferraz ² ¹ Instituto Federal de Minas Gerais IFMG Departamento de Ensino Básico Técnico e Tecnológico Ribeirão das Neves MG Brasil ² Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Ciências Econômicas Departamento de Ciências Administrativas Belo Horizonte MG Brasil Resumo O avanço das forças produtivas apropriadas pelo capital aliado ao contexto de transformação das relações socioculturais que abarcam as esferas da produção e do consumo tem possibilitado a ascensão do fenômeno da uberização do trabalho termo derivado da forma de organização da empresa Uber Esse fenômeno tem sido usualmente associado aos negócios da denominada economia de compartilhamento e abre o debate acerca das especificidades das categorias estruturantes da acumulação capitalista que abarcam relações de trabalho virtualizadas Neste artigo buscamos lançar as bases teóricas para a defesa do seguinte argumento a uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva Partindo do aporte teórico marxiano traçamos uma análise crítica acerca do fenômeno da uberização que está intrinsecamente relacionado às inovadoras formas de gestão enquanto por outro lado intensifica a precarização do trabalho Palavraschave Uberização Acumulação Capitalista Relações de Trabalho Precarização Uberization of labor and capitalist accumulation Abstract The development of the productive forces appropriated by capital combined with the context of changes on sociocultural relations that encompasses the spheres of production and consumption has enabled the rise of the phenomenon of uberization of labor a term derived from the way the company Uber is organized This phenomenon is usually associated with the business of socalled sharing economy and it opens the debate to the specificities of the structuring categories of capitalist accumulation that encompass online labor relations This article lays the theoretical basis to advocate for the following argument the uberization of labor represents a particular capitalist accumulation by producing a new form of mediation of the subsumption of the worker which takes on the responsibility for the main means of production in the productive activity Based on the Marxian theoretical contribution a critical analysis about the phenomenon of uberization is presented which is intrinsically related to the innovative forms of management while it also acts to intensify the work precariousness Keywords Uberization Capitalist Accumulation Labor Relations Precariousness Uberización del trabajo y acumulación capitalista Resumen El avance de las fuerzas productivas de las cuales el capital se ha apoderado aliado al contexto de transformación de las relaciones socioculturales que abarcan las esferas de la producción y del consumo ha posibilitado el ascenso del fenómeno de la uberización del trabajo término derivado de la forma de organización de la empresa Uber Este fenómeno ha sido usualmente asociado a los negocios de la denominada economía colaborativa y abre el debate en cuanto a las especificidades de las categorías estructurantes de la acumulación capitalista que abarcan relaciones de trabajo virtualizadas En este ensayo buscamos lanzar las bases teóricas para la defensa del siguiente argumento la uberización del trabajo representa un modo particular de acumulación capitalista al producir una nueva forma de mediación de la subsunción del trabajador el cual asume la responsabilidad por los principales medios de producción de la actividad productiva A partir del aporte teórico marxiano trazamos un análisis crítico acerca del fenómeno de la uberización que está intrínsecamente relacionado a las innovadoras formas de gestión mientras que por otro lado intensifica la precarización del trabajo Palabras clave Uberización Acumulación Capitalista Relaciones de trabajo Precarización Artigo submetido em 05 de setembro de 2018 e aceito para publicação em 16 de outubro de 2018 DOI httpdxdoiorg1015901679395176936 Uberização do trabalho e acumulação capitalista 845856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz INTRODUÇÃO O trabalho enquanto categoria ontológica é aquilo que difere os seres humanos dos demais animais sendo o elemento determinante e dialeticamente determinado dos diversos aspectos da vida social É por meio da atividade sensível que o indivíduo expressa sua humanidade reproduz sua existência e interage com a natureza da qual ele próprio é parte constituinte O trabalho é assim uma condição de existência do homem independente de todas as formas sociais eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e portanto da vida humana MARX 2013 p 98 Como destaca Antunes 2000 sob o sistema do capital o trabalho é esvaziado de sentido uma vez que se torna uma atividade mediada para a produção de valor ao capitalista Enquanto manifestação de fenômenos políticoeconômicos e culturais os modelos de organização do trabalho se transmutam continuamente para dar conta das mudanças que ocorrem no sistema de sociometabolismo do capital cuja tendência é sempre de expansão MÉSZÁROS 2011 Nesse sentido as estratégias de controle do trabalho para além das inovações tecnológicas invariavelmente abarcam diferentes formas para a exploração da força de trabalho O desenvolvimento de forças produtivas para proceder a valorização do valor dá origem a fenômenos de proporções globais como a relativamente recente uberização do trabalho termo de referência ao pioneirismo da empresa Uber em relação ao seu particular modelo de organização do trabalho A Uber desenvolveu uma plataforma digital disponível para smartphones que conecta os clientes aos prestadores de serviços A empresa atua na promoção de atividades de transporte urbano e difere dos demais concorrentes do segmento por meio de elementos como preço mais acessível em relação aos táxis convencionais vinculação do percurso ao trajeto indicado no GPS da telefonia móvel maior capacidade de controle sobre o prestador de serviço e pagamento do serviço de transporte diretamente lançado no cartão de crédito do passageiro Sem qualquer vínculo empregatício os motoristas da Uber trabalham como profissionais autônomos e assumem diversos riscos para oferecer o serviço detendo quase a totalidade dos meios de produção necessários à execução da atividade e por eles integralmente se responsabilizando Levando em conta que o Direito do Trabalho brasileiro recalcitra em classificar o motorista como empregado esse trabalhador está além de impelido a investir nos instrumentos de trabalho desprotegido nessa relação de trabalho Na medida em que já não necessita contratar o trabalhador como empregado e sequer necessita investir na maioria dos meios físicos que constituem o capital constante o maisvalor apropriado pelo capitalista se torna maximizado em um patamar inimaginável para as empresas tradicionais o que se revela um imperativo para que outras empresas passem a adotar modelos semelhantes de estruturação de seus negócios SRNICEK 2017 Diante da problemática defendemos neste artigo o seguinte argumento A uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva Dada a escassez de estudos sobre a temática uberização no Brasil nenhum artigo foi identificado nas bases SPELL e SciELO ao buscar o termo uberização intentamos clarear alguns aspectos desse fenômeno pujante com potencial de promover rupturas sobre as relações de trabalho no contexto nacional Sem a pretensão de aparentar neutralidade o que frequentemente se exibe como um recurso ideológico para a manutenção do status quo almejamos ampliar o debate sobre a exploração que as relações de trabalho uberizadas engendram e consequentemente tornar mais favoráveis as condições subjetivas que a mobilização coletiva por melhorias e conquistas de direitos demandam É importante ressaltar contudo que esses tipos de insatisfações e conflitos não são plenamente superáveis haja vista que a regulação das relações de trabalho proporciona apenas um melhor convívio social nos marcos do sistema capitalista mas não supera a relação contraditória capitaltrabalho Para a transformação do real concreto em real pensado considerando o modo de produção do conhecimento do materialismo histórico dialético este artigo apresenta uma aproximação de um fenômeno que faz parte de uma totalidade de mediações mais amplas do que aqui seríamos capazes de abarcar Consideramos essa primeira aproximação do fenômeno de grande relevância para posteriores apreciações críticas de uma das faces da tendência global de flexibilização das relações de trabalho Uberização do trabalho e acumulação capitalista 846856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz SOBRE A ACUMULAÇÃO CAPITALISTA Seguindo os termos marxianos expomos aqui as categorias centrais do processo de produção capitalista de modo que possamos posteriormente analisar a manifestação delas no contexto da uberização Iniciamos retomando que a sociabilidade capitalista se constitui sobre o antagonismo de duas classes a trabalhadora e a capitalista abstraindo neste momento a heterogeneidade sociocultural das diferentes estratificações dentro de cada uma dessas categorias as quais interagem e confrontam entre si na dinâmica de produção de mercadorias e na produção das diversas mediações que emergem desse processo constitutivo da sociabilidade humana sob o capital Sob o sistema do capital a força de trabalho é aquela mercadoria que o trabalhador possui e é impelido a vender para garantir assim sua subsistência Tal como qualquer outra mercadoria o valor da força de trabalho é representado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua reprodução ou seja o quanto o trabalhador precisa trabalhar diariamente para arcar com as necessidades próprias da produção e reprodução da força de trabalho sejam elas do estômago ou da fantasia MARX 2013 Cabe portanto ao próprio sujeito que trabalha se reproduzir como força de trabalho e produzir a força de trabalho futura eis uma das razões de Karl Marx denominar a classe trabalhadora classe proletária Já o capitalista aquele que possui o dinheiro para o investimento produtivo é o comprador dos fatores necessários à produção de mercadorias objetivando obter um valor superior ao inicialmente dispendido como expresso na seguinte fórmula D M Mp T P M D Com o capitalmonetário D do capitalista são compradas as mercadorias que compõem os fatores de produção ou seja os meios de produção Mp e a força de trabalho T a relação entre o capital adiantado em Mp e T compõe o que Karl Marx denomina composição de valor do capital Com o emprego desses fatores no processo produtivo P temse a criação de novas mercadorias M ou seja o capitalmercadoria que é resultado da produção O capitalmercadoria incorpora o valor da matériaprima consumida o valor do desgaste de utilização dos meios de produção não consumidos em um único ciclo produtivo o valor da força de trabalho e o maisvalor Vale destacar que os meios de produção cujo valor demora mais de um ciclo para ser consumido é para Marx 2014 capital fixo a exemplo do capital constante investido em maquinaria e demais estruturas físicas utilizadas em vários ciclos produtivos enquanto aqueles fatores de produção cujo valor se incorpora integralmente à mercadoria em um único ciclo é reconhecido como capital circulante inclui as matériasprimas que também são parte do capital constante e a força de trabalho ou capital variável Com a circulação das mercadorias e a realização das trocas o capitalista efetiva o maisvalor e obtém um novo capital monetário D o qual deverá ser reinvestido em parte ou todo ele em fatores de produção meios de produção e força de trabalho para que haja o efetivo movimento de acumulação capitalista O movimento de acumulação ocorre porque o valor em posse do capitalista ao fim do processo de produção é maior do que o originalmente adiantado ainda que parte desse valor permaneça fixado em meios de produção A força de trabalho é o único elemento empregado na produção que é capaz de gerar mais valor do que o seu próprio logo o maisvalor também conhecido como maisvalia representa o tempo de trabalho que o trabalhador dispende não para si não para produzir o valor que corresponde à reprodução de sua força de trabalho mas para o acúmulo de valor do capitalista A consolidação dessa forma de produção possibilitou ao capitalista ter um papel estratégico de controle sobre o processo de trabalho e ocuparse em como aumentar o maisvalor seja ele de forma absoluta ou relativa Essa ocupação não se trata apenas de uma racionalidade instrumental voltada à ganância mas da necessidade socialmente condicionada de manutenção de seu capital que só se mantém se estiver em um movimento de expansão Enquanto o maisvalor absoluto é obtido por meio do prolongamento da jornada de trabalho o maisvalor relativo deriva da redução do tempo de trabalho socialmente necessário para a reprodução da força de trabalho por meio de melhoria dos métodos dos instrumentos eou da intensidade das atividades na indústria em Marx indústria é entendida como o conjunto de atividades produtivas do capital envolve portanto o que denominamos grosseiramente serviços o trabalhador produz o valor de sua força de trabalho em menos tempo logo mais tempo de sua jornada é destinada à produção de maisvalor ao capitalista O trabalhador operando em cooperação aparece como uma forma específica do processo de produção capitalista contraposta ao processo de produção de trabalhadores autônomos e isolados ou mesmo de pequenos mestres sendo essa a primeira Uberização do trabalho e acumulação capitalista 847856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz transformação do trabalho em sua condição de subsunção ao capital MARX 2013 p 236 O trabalho subsumido ao capital significa que a atividade produtiva é exercida em caráter subordinado de modo que os saberes o domínio e as finalidades das funções dos trabalhadores são determinados pelo capital Essa subsunção é fruto de processos históricos que envolvem a própria constituição da força de trabalho enquanto tal ABÍLIO 2011 transformando a execução da atividade sensível em uma mercadoria que deve ser vendida pelo trabalhador para sua subsistência O advento da indústria manufatureira promoveu a passagem da forma de subsunção formal para a forma de subsunção real do trabalhador ao capital o que significa um novo estágio de alienação MÉSZÁROS 2016 A instauração da cooperação enquanto meio necessário ao movimento de expansão do capital apresenta um caráter duplo ao mesmo tempo que fomenta o potencial de formação de uma nova consciência de classe e de uma nova compreensão histórica do trabalho enquanto processo social também promove o parcelamento da atividade produtiva e maior capacidade de determinação pelo capitalista sobre a forma de atuação do trabalhador Nesse sentido Marx 2013 analisa que o enriquecimento da força produtiva social do trabalhador coletivo na manufatura é condicionado pelo empobrecimento do trabalhador em suas forças produtivas individuais Como próximo estágio da acumulação capitalista temos o desenvolvimento da maquinaria aplicada ao processo produtivo A evolução tecnológica de incorporação da maquinaria para aplicação da força de trabalho traz diversas consequências ao ambiente produtivo tais como possibilidade de ampliação da jornada de trabalho para além do limite natural anteriormente necessário à reprodução da força de trabalho menor dependência do capitalista em relação aos saberes do trabalhador e barateamento do custo do produto considerando que a produção ou compra dessa maquinaria custe menos trabalho do que aquele que seu aproveitamento substitui MARX 2013 A maquinaria e a grande indústria ensejaram metamorfoses no ambiente socioprodutivo que permanecem em movimento até os dias atuais como renovação e incremento contínuo das tecnologias produtivas expansão das cadeias de valor globalmente fragmentadas maior fluxo monetário entre capitalistas e rentistas do mercado financeiro o qual está contraditoriamente imbricado e autonomizado em relação ao mercado produtivo e ascensão do setor de serviços enquanto indústria produtiva No livro II dO Capital Marx 2014 p 145 destaca que uma mercadoria não é necessariamente um objeto físico também pode ser alguma atividade prestada tal como ilustrado em seu exemplo da indústria de transportes Mas o que a indústria dos transportes vende é o próprio deslocamento de lugar O efeito útil obtido é indissoluvelmente vinculado ao processo de transporte isto é ao processo de produção da indústria dos transportes Mas o valor de troca desse efeito útil é determinado como o de toda e qualquer mercadoria pelo valor dos elementos de produção nele consumidos força de trabalho e meios de produção acrescido do maisvalor criado pelo maistrabalho dos trabalhadores ocupados na indústria dos transportes Assim há a supressão de M sendo o processo de produção concomitante ao processo de consumo podendo ser esquematizado da seguinte forma D M Mp T P D Em uma primeira abstração quando a atividade de serviços é voltada à circulação de mercadorias a exemplo de empresas atacadistas e varejistas ela contribui para a acumulação capitalista na medida em que reduz o período de rotação do capital produtivo eou reduz a quantidade de capital monetário adiantado necessário à realização de valor do capitalista produtivo essas atividades são por Marx 2017 tratadas no livro III dO Capital sob a discussão do capital comercial Não sendo nosso objeto de discussão neste artigo basta destacarmos que neste caso não há produção de valor nem maisvalor Contudo em um segundo momento temos de considerar as novas mercadorias que estão sendo produzidas como deslocamento armazenagem entretenimento etc que estão sob a insígnia do setor de serviços Nesse caso há força de trabalho produzindo valor e há capitalistas apropriando maisvalor Seguindo a própria tendência do capital esses capitalistas da indústria de serviços igualmente buscam formas de aumentar constantemente o maisvalor Como destaca Marx 2013 as inovações tecnológicas eou de organização produtiva adotadas em larga escala por agentes produtivos tendem a provocar a queda tendencial da taxa de lucro Portanto para recuperar as possibilidades de aumento do maisvalor o capitalista se vê forçado a buscar ininterruptamente novas formas de superar seus concorrentes Como Uberização do trabalho e acumulação capitalista 848856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz ressalta Oliveira 2003 a tendência recente é de que o capitalista dependa cada vez menos do adiantamento de capital para a efetivação do valor momento necessário para o surgimento do lucro Nesse sentido há o movimento para que a remuneração do trabalhador ocorra apenas quando ocorre a efetivação das vendas dos produtosmercadorias postos em circulação além do esforço para o rebaixamento do custo da força de trabalho Tal esforço abrange as diversas formas de terceirização e de desregulamentação da relação capitaltrabalho com redução de alguns direitos trabalhistas cujos custos fazem parte do capital variável e a redução da necessidade de repartição do maisvalor com o Estado a reforma trabalhista ocorrida no Brasil em 2017 é um exemplo disso Nesse ínterim temos o contexto para discutir as categorias da acumulação diante do processo de uberização do trabalho Afinal como se reconhece a subsunção do trabalhador que aparece como não subordinado já que ele define a própria jornada de trabalho e aparentemente não tem chefe O que é a propriedade dos meios de produção do capitalista nesse contexto se o trabalhador uberizado dispõe dos principais recursos físicos necessários à atividade produtiva Como o trabalho de um motorista que presta serviço ao Uber se vincula ao processo de acumulação capitalista Buscamos trazer análises argumentativas para elucidar essas questões nas seções seguintes O CONTEXTO DA UBERIZAÇÃO DO TRABALHO A DESCRIÇÃO A partir da década de 1970 o desenvolvimento das forças produtivas nas grandes indústrias foi gradativamente incorporando a utilização da microeletrônica e da conectividade em rede ao sistema produtivo Com isso houve significativa alteração da composição orgânica do capital de diversas empresas principalmente na indústria de bens com a redução da quantidade de força de trabalho empregada menor investimento em capital variável e maior investimento em aparatos tecnológicos e maquinaria maior investimento em capital constante principalmente os relacionados aos componentes computacionais Além dos ganhos proporcionados pelas inovações tecnológicas há o movimento de rebaixamento do custo do valor da força de trabalho forçando os processos de desregulamentação das proteções trabalhistas legais e o aumento das terceirizações É importante ressaltar que a disseminação dos computadores e da internet promoveu alterações não somente no ambiente produtivo mas em toda a sociabilidade humana integrada ao movimento do capital Nesse sentido um ponto fundamental para refletirmos quanto à ascensão do trabalho envolto ao processo da uberização o qual depende invariavelmente do ambiente virtual das plataformas digitais é que tal processo só pôde se iniciar a partir da tecnologia da conectividade amplamente adotada pelas organizações produtivas e massivamente disponível para um significativo contingente da população a qual engloba os prestadores de serviços e os consumidores dessas atividades O ambiente virtual amparado pela internet ensejou como movimento prévio ao da uberização o trabalho do tipo crowdwork ou seja o trabalho da multidão que se torna integrado ao sistema produtivo podendo atuar direta ou indiretamente no processo de valorização do valor Também conhecido como crowdsourcing tal modalidade se refere ao tipo de trabalho em que a função normalmente desempenhada por um único trabalhador ou pequeno grupo de trabalhadores se torna indefinidamente descentralizada de modo que possa ser realizada uma convocatória para que o serviço seja executado por uma ampla quantidade de pessoas as quais se responsabilizam por uma reduzida parte da tarefa HOWE 2006 O crowdwork conta normalmente com três elementos os solicitantes que representam as companhias ou as pessoas que demandam o serviço as plataformas virtuais as quais permitem que haja um local digital para reunir a oferta e a demanda e por isso recebem um percentual do valor que é pago aos trabalhadores que se engajam na tarefa e os trabalhadores prestadores de serviço SIGNES 2017 Um caso emblemático de crowdwork é o da empresa Amazon que lançou o segmento Mechanical Turk em 2005 A Amazon Mechanical Turk é uma plataforma de mercado que auxilia as empresas a encontrar pessoas para executar tarefas online as quais os computadores ainda executam de modo insatisfatório como a identificação de itens em uma fotografia a análise de documentos imobiliários para a identificação de informações as pequenas descrições de produtos ou a transcrição de áudios de arquivos digitais A Amazon as denomina tarefas de inteligência humana human intelligence tasks HITs o que chega a ser irônico já que não exigem grande esforço cognitivo de seus executantes Talvez por isso e também por serem concebidas para tomar pouco tempo dos prestadores de serviços a remuneração para a execução dessas tarefas seja normalmente baixa de alguns centavos a poucos dólares HOWE 2006 Uberização do trabalho e acumulação capitalista 849856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz Contudo há nesse tipo de atividade mais do que apenas tarefas que exigem pouca qualificação No site InnoCentive por exemplo diversas empresas como Procter Gamble e Exxon lançam desafios que ficam disponíveis para pessoas do mundo todo que queiram se aventurar a solucionálos Caso o objetivo seja atingido a pessoa vencedora recebe um prêmio em dinheiro e a empresa lançadora do desafio ganha os direitos sobre a solução apresentada podendo inclusive patenteála caso tal solução esteja relacionada a uma inovação passível de proteção concorrencial Assim até a área de Pesquisa e Desenvolvimento de uma empresa pode ser terceirizada para pessoas que sequer são reconhecidas como suas trabalhadoras Afinal qual é o desdobramento mais aparente da ampliação das atividades do tipo crowdwork Aparentemente as empresas solicitantes ficam satisfeitas já que têm uma considerável redução de custos quando se compara o quanto teriam de dispender caso precisassem contratar empregados para realizar as atividades Os prestadores de serviços também ficam satisfeitos pois tal tipo de trabalho é executado no momento definido por eles e com o período de duração por eles estabelecido representando apenas um dinheiro extra obtido com o dispêndio de tempo nas horas vagas Sob a ótica da classe trabalhadora contudo devemos levar em conta que a expansão de tais serviços pode acarretar ao atingir seu grau máximo o cenário em que essas atividades deixem de ser bicos esporádicos e autodeterminados passando a ser a fonte de renda principal de uma quantidade expressiva de trabalhadores sem qualquer proteção jurídica a propósito Paralelamente ao desenvolvimento das atividades produtivas do crowdwork ou até dentro do movimento de conectividade voltada ao ganho econômico emerge o sistema da economia do compartilhamento sharing economy o qual vem a tratar do compartilhamento de recursos bens físicos ou prestação serviços intermediado por uma plataforma online Há diversos nomes que abarcam conceitos semelhantes ao da economia do compartilhamento tais como economia colaborativa collaborative economy consumo colaborativo collaborative consumption economia sob demanda ondemand economy e até economia de igual para igual peertopeer economy Não aprofundamos o exame desses conceitos pois embora haja quem associe a atividade uberizada como parte da economia do compartilhamento ela é considerada aqui algo distinto A uberização não consiste em compartilhar um objeto um espaço ou uma troca de serviços mas a própria venda da força de trabalho ainda que a aparência imediata não deixe explícita tal relação econômica Acreditamos inclusive não haver um movimento generalizado de economia do compartilhamento pautado em valores cooperativos tal como usualmente defendido na mídia e até em trabalhos acadêmicos Empresas como Airbnb locação de imóveis particulares e RelayRides locação de carros de pessoas físicas se tornaram indústrias gigantes altamente capitalizadas e profissionalizadas sendo seus supostos membros compartilhadores majoritariamente constituídos por prestadores de serviços que buscam formas de ganhar dinheiro e os investidores cobram para que o modelo de negócios dessas empresas tenha um bom retorno como aponta Slee 2017 Assim no contexto de aplicativos de smartphones de amplo acesso à população e de organizações ingressantes no sistema de crowdwork a empresa Uber surge nos Estados Unidos da América EUA na cidade de São Francisco em 2008 A ideia por trás da Uber parece ser bem simples nas cidades há pessoas que têm tempo disponível para trabalhar como motorista freelance seja porque estão desempregadas seja porque querem complementar sua renda para além da ocupação principal e há passageiros em potencial Quem precisa se deslocar pela cidade analisa as opções disponíveis Escolhendo o serviço da Uber com poucos toques no smartphone o motorista surge e deixa o solicitante no destino ordenado O pagamento é abatido no cartão de crédito cadastrado pelo cliente e o motorista recebe o valor já com o desconto percentual do Uber Com esse simples modelo de negócio a Uber já alcançava em 2017 um valor de mercado de 70 bilhões de dólares SLEE 2017 Saindo da superfície da descrição apresentada aprofundamos na próxima seção os diferentes aspectos que concernem a esse tipo de trabalho defendendo o argumento de que a uberização se torna uma alternativa socialmente posta de acumulação capitalista e subsunção do trabalhador Embora a uberização não se restrinja à atividade da empresa Uber aprofundamos a particularidade dessa organização não por ser a que dá o nome ao fenômeno mas por sua abrangência global e maior disponibilidade de estudos sobre a atuação da empresa Uberização do trabalho e acumulação capitalista 850856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz O MOVIMENTO DE ACUMULAÇÃO CAPITALISTA DO TRABALHO UBERIZADO Em um cenário de redução dos postos de trabalho ou até de atividades produtivas que não garantem uma remuneração satisfatória a venda de força de trabalho via aplicativos deve ser considerada não apenas mera opção do trabalhador mas também resultado do contexto socioeconômico que condiciona essas opções Considerando o cenário de reestruturação produtiva Oliveira 2003 ressalta que os salários considerados enquanto capital variável eram um custo para o capitalista Contudo quando a remuneração do trabalhador se torna dependente da efetivação do valor dos produtosmercadorias ela deixa de ser um custo de adiantamento do capital estando sua existência condicionada à realização efetiva do valor O conjunto de trabalhadores é transformado em uma soma indeterminada de exército da ativa e da reserva que se intercambiam não nos ciclos de negócios mas diariamente Disso decorre que os postos de trabalho não podem ser fixos que os trabalhadores não podem ter contratos de trabalho e que as regras do Welfare tornaramse obstáculos à realização do valor e do lucro pois persistem em fazer dos salários e dos salários indiretos um adiantamento do capital e um custo do capital OLIVEIRA 2003 p 136 Retomemos o caso do Uber o trabalhador dispõe do automóvel do celular e de todos os principais meios físicos para a execução da atividade Ainda assim há efetivação de maisvalor pelos capitalistas da Uber Para discutir tal questão relembremos que enquanto mercadoria a força de trabalho apresenta valor de uso No contexto da grande indústria toyotista o trabalhador para manter o valor de uso de sua mercadoria força de trabalho viuse impelido a adotar uma postura de maior criatividade investimento em si para a capacitação contínua atualização tecnológica e adesão emocional para com a organização produtiva Quando consideramos agora esse novo contexto da Uber o trabalhador deve investir nos equipamentos e na maquinaria necessários à execução do trabalho de transporte de passageiros de modo a tornar sua força de trabalho vendável Esses equipamentos portanto em vez de capital constante do capitalista para a execução da atividade de transporte tornamse os instrumentos necessários para que o trabalhador possa continuar mantendose O fato de a jornada de trabalho não ser previamente fixada não retira assim do capitalista o papel de comprador de força de trabalho nem do trabalhador o papel de vendedor de força de trabalho pois o que se altera é a necessidade de capital adiantado pelo capitalista Marx 2013 declara que o salário por peça é a forma por excelência de remuneração do capitalismo Temos agora o salário por corrida No livro II dO Capital Marx 2014 discute as alterações no tempo de rotação do capital e no montante de capital a ser adiantado pelo capitalista em função das diferenças entre capital fixo meio de produção que conserva parte de seu valor durante o processo de produção e capital circulante aquele meio de produção cujo valor é incorporado integralmente na mercadoria produzida dentro de um mesmo ciclo produtivo Na indústria baseada em relações de trabalho uberizadas o valor necessário à compra dos meios de produção está dividido entre capitalista e trabalhador O capitalista adianta seu capital na aquisição dos meios de produção digitais o que envolve tanto capital fixo quanto capital circulante Por sua vez o trabalhador necessita como já dito ingressar na relação trabalhista possuindo os meios de produção vinculados à efetivação do trabalho fora do meio digital O que seria capital adiantado para por exemplo ser materializado em uma frota de carros não é mais necessário ser desembolsado pelo capitalista Nem mesmo a manutenção dos meios de produção do trabalho não digital necessita ser considerado no capital adiantado pelo capitalista isso porque cabe ao trabalhador cuidar da manutenção dos seus meios de produção Segundo Marx 2014 o tempo que leva para que o capital fixo complete seu ciclo é o tempo que corresponde à demanda de novo adiantamento de capital pelo capitalista isto é para a aquisição dos meios de produção duráveis Durante esse tempo portanto o capitalista entesoura maisvalor para recolocálo no ciclo produtivo no momento adequado aqui entra o setor financeiro discussão para outro estudo Entretanto no setor industrial baseado em relações uberizadas quando os meios de produção pertencentes ao trabalhador perderem seu valor de uso o capitalista não necessitará reinvestir em capital fixo podendo apenas desvincular o trabalhador de sua plataforma o que é assegurado pelo mecanismo de avaliação do próprio aplicativo Qual é o meio de produção necessário ao capitalista da Uber portanto para lhe garantir subsumir o trabalho do motorista Ora a própria plataforma digital de sua propriedade e que é necessária ao trabalhador para a utilização de sua força de trabalho Para a construção da plataforma e sua disponibilização em amplo ambiente geográfico a Uber teve ao menos de investir e captou investimentos do mercado financeiro com esse fim em desenvolvimentoaprimoramento de sua tecnologia Uberização do trabalho e acumulação capitalista 851856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz gestão financeira e ações de marketing pesquisa de mercado propaganda descontos de preço etc Isso demandou a compra de força de trabalho diretamente ligada aos setores de tecnologia finanças e marketing Ao mesmo tempo que a empresa se esforça para que a plataforma se torne disseminada entre consumidores e prestadores de serviço ela foca a gestão do trabalho pelo aplicativo que já conta com diversos concorrentes tendo grande poder de controle sobre o trabalhador que executa o serviço Nessa relação de trabalho os meios de produção do trabalhador não o tornam menos subsumido podendo aliás significar o contrário uma subsunção ainda maior em um cenário de subordinação estrutural CHAVES JUNIOR MENDES e OLIVEIRA 2017 Isso porque com o alto desemprego e os postos de trabalho altamente precarizados somados à ausência de perspectivas de melhores ocupações esse tipo de venda de força de trabalho se torna efetivamente uma opção viável uma escolha em um panorama de restrições condicionadas A uberização reforça o grau máximo de influência do capital industrial detido pela Uber sobre o processo de trabalho subsumido ao capital agora em uma espécie de subsunção virtual nova forma de mediação de subsunção real ao capital O capital industrial é o único modo de existência do capital em que este último tem como função não apenas a apropriação de maisvalor ou de maisproduto mas também sua criação Esse capital condiciona portanto o caráter capitalista da produção sua existência inclui a existência da oposição de classes entre capitalistas e trabalhadores assalariados À medida que o capital se apodera da produção social a técnica e a organização social do processo de trabalho são revolucionadas e com isso o tipo históricoeconômico da sociedade MARX 2014 p 146 No processo de trabalho sob os moldes da uberização os elementos físicos do custo de produção necessário para desenvolver a atividade produtiva são transferidosterceirizados para os próprios trabalhadores motoristas sendo portanto parte do valor de reprodução da sua força de trabalho Na compra dessa força de trabalho a Uber todavia não necessariamente paga o valor necessário à reprodução do trabalhador além de haver remuneração apenas quando há a afetiva prestação do serviço que se não ocorrer não isentará o trabalhador de arcar com os custos de manutenção do veículo por exemplo O produtomercadoria o transporte de passageiros pode apresentar portanto um maisvalor que se torna potencializado com a mitigação do capital constante necessário ao capitalista o que reflete na taxa de lucro do setor em Karl Marx taxa de lucro é a relação entre o maisvalor produzido e o capital total investido pelo capitalista Nessa nova mediação da subsunção real que consideramos a subsunção virtual do trabalho ao capital os trabalhadores são controlados e conduzidos tanto sutilmente quanto ostensivamente ao aumento de produtividade A atividade em si dos motoristas é altamente individualizante Contudo devemos considerálos parte de um trabalhador coletivo que é fundamental para as práticas de promoção gerenciamento e distribuição do produtomercadoria promovido pela empresa deslocamento É um tipo de cooperação que é gerido pela empresa buscando distribuir os motoristas entre as áreas de maior demanda Considerados em conjunto os motoristas atuam como engrenagens necessárias à produção do serviço de transporte urbano só que nesse caso o maquinário que coloca as engrenagens para funcionar é em sua maior parte adquirido por eles próprios restando ao capitalista o controle de apertar o botão digital que as faz girar Explicitamos tais práticas de gestão e controle na seção seguinte A SUBSUNÇÃO DO TRABALHADOR A PARTIR DO MODO DE GESTÃO DA UBER Os autores no campo da administração no Brasil em geral ainda não têm se aprofundado sobre as particularidades em relação às estratégias e práticas de gestão das empresas que gerem sua força de trabalho inteiramente a distância especialmente quando se trata de trabalhadores sem vínculos formais de trabalho como os motoristas de Uber Aqui buscamos lançar luz sobre algumas dessas práticas já identificadas na literatura acadêmica com o intuito de ampliar a apreensão sobre elas e reforçar nosso argumento de subsunção do trabalhador o qual é pressionado não apenas pela organização de trabalho mas também pelo contexto socioeconômico de competição e de escassez de postos de trabalho Segundo Slee 2017 o projeto da Uber a permitiu em dois anos de 2013 a 2015 ampliar o número de motoristas de 10 mil para 150 mil Tal expansão foi facilitada pelos grandes aportes de fundos de capitais de risco ao longo do tempo O recurso captado via mercado financeiro contribuiu fortemente com as estratégias de expansão da empresa visto que nas cidades onde ela está em estágio inicial dos negócios é comum que sejam oferecidas grandes vantagens tanto aos clientes descontos Uberização do trabalho e acumulação capitalista 852856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz e corridas gratuitas quanto aos motoristas gratificações remuneração atrativa bônus por indicação de novos condutores Conforme a Uber vai ficando conhecida e estável nas novas localidades a consistente tendência é de que a remuneração dos motoristas seja diminuída o preço pago por quilômetro rodado se torna menor eou há aumento do percentual da corrida retido pela empresa e os descontos aos clientes sejam reduzidos SLEE 2017 Os motoristas do aplicativo devem responsabilizarse pelos custos da adição de categoria na Carteira Nacional de Habilitação CNH para o exercício de atividade remunerada caso não a tenham além dos custos de prestação da atividade como carro combustível seguro manutenção do veículo e eventuais gastos com agrados aos clientes água e guloseimas Para atrair novos motoristas as propagandas da empresa trazem estratégias discursivas que reforçam valores sociais voltados às características usualmente atribuídas a empreendedores como ausência de chefe liberdade de horário ganhos progressivos e aventuras no desbravamento das cidades Com a estratégia de indicação de novos motoristas em uma espécie de esquema de pirâmide a Uber cria formas do motorista buscar concorrentes para si Seguindo os moldes do crowdwork esses motoristas praticamente não têm contato personalizado com os representantes da Uber o que de fato pode ser um diferencial para ser uma opção de ocupação para os trabalhadores com dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal Não são currículos dinâmicas orientadas pelos Recursos Humanos aparência inteligência emocional entre outros fatores publicamente pouco mensuráveis que hoje medeiam a entrada e saída do mercado de trabalho que definem as conquistas da crowd A indistinção é o ponto de partida Sua formulação deixa explícita uma relação entre uma nova gestão de pessoas e acumulação Uma gestão que se realiza na dispersão na ausência de definições e medidas ABÍLIO 2011 p 205206 Se a admissão desse trabalhador é pouco criteriosa sua manutenção na prestação do serviço não o é como explicitaremos Na gestão de suas atividades a Uber utiliza algoritmos para buscar incentivos personalizados aos motoristas e distribuílos pelas áreas de maior ou menor demanda das cidades Os algoritmos que caracterizam o método utilizado para a realização de um cálculo utilizado principalmente para decisões automatizadas transpassam uma visão de imparcialidade contudo são facilmente manipuláveis para direcionar os motoristas às ações almejadas pela empresa PASQUALE 2015 A função declarada da tarifa dinâmica da empresa por exemplo é regular oferta e demanda de clientes e motoristas A Uber distribui o produtomercadoria pelas cidades mostrando aos motoristas as áreas onde os preços estão mais altos em uma estratégia de condução indireta Por outro lado não é possível que o cliente e o trabalhador conheçam a exata fórmula do cálculo Sobre a tarifa dinâmica esclareceu o gerentegeral que o preço dinâmico era ativado por um algoritmo o preço máximo e a vigência na cidade determinados pelos gerentes Contudo o gerente de operações informou que uma de suas funções era desligar esse sistema em casos excepcionais como por exemplo no dia das manifestações dos taxistas para evitar que o preço ficasse mais caro Tais dados apontam que o preço cobrado não é diretamente relacionado à demanda afastando mais uma vez o modelo de negócios da Uber de economia colaborativa LEME 2017 p 84 O trabalhador coletivo emoldurado pela Uber é fundamental para seu sucesso elevando sua imagem empresarial a partir da satisfação do cliente que tem um serviço rápido a preço acessível com trajetória controlada e pagamento facilitado No Brasil do valor pago pelo cliente à plataforma a empresa reduz da remuneração do motorista a tarifa de 25 na categoria UberX a mais comum e de 20 na categoria UberBlack carros de padrão mais elevado e mais novos Dada a decisão unilateral da Uber sobre como e quanto cobrar do cliente atualmente o motorista não tem mais acesso à informação do preço da corrida a partir do qual o referido percentual é calculado há casos em que a remuneração auferida pelo motorista mal cobre todos os seus custos sobretudo quando levamos em consideração que muitos financiam um carro para poder exercer a atividade caso sejam desligados da plataforma ficam com o custo de pagamento do veículo perdem essa fonte de renda e não têm assegurados direitos trabalhistas e previdenciários Se o pagamento é realmente tão baixo por que tantas pessoas dirigem para a Uber Para quem tem carro dirigir para a Uber é uma maneira de converter esse capital em dinheiro alguns subestimam os custos envolvidos em dirigir em tempo integral para alguns flexibilidade é uma vantagem para outros dirigir para a Uber oferece o que ser taxista ofereceu por muitos anos um trabalho que requer pouca habilidade e que tem um baixo custo de largada é melhor do que ficar em casa sem fazer nada Além Uberização do trabalho e acumulação capitalista 853856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz disso à medida que a Uber reduziu a demanda por táxis em muitas cidades as rendas dos taxistas caíram deixando a Uber como a melhor opção SLEE 2017 p 119 Aqui cabe apenas uma ressalva a Slee 2017 já que o motorista não dispõe de capital mas de força de trabalho e de instrumentos de trabalho pois o carro por exemplo é massa de meios de produção mas não é expressão de valor a ser valorizado para o trabalhador Para gerir essa força de trabalho e aumentar a produtividade do trabalhador as práticas da Uber são ainda mais sofisticadas Segundo reportagem do The New York Times SCHEIBER 2017 considerando que a empresa não pode cobrar diretamente por produtividade dos motoristas visto que não são seus empregados ela realiza métodos de manipulação psicológica por meio de seus algoritmos Antes de concluir uma corrida o motorista já recebe a chamada para aceitar uma próxima corrida de modo que isso se reverta em uma quase euforia por mais dinheiro Além disso com o intuito de manter os motoristas em atividade a empresa explorou a tendência de algumas pessoas de estabelecer metas pessoais assim quando o motorista aperta o botão para se desconectar do aplicativo ele recebe antes um alerta da Uber de que está próximo de atingir seu objetivo o que frequentemente o faz desistir da decisão de se desconectar Percebemos assim o uso da maquinaria da Uber com seus softwares que se integram ao celular utilizada para aumento do maisvalor absoluto expansão da jornada de trabalho e relativo à medida que rebaixa o valor da força de trabalho com o aumento do número de motoristas e redução da remuneração a despeito da redução efetiva do valor da força de trabalho Também há métodos de controle mais explícitos Caso rejeite muitas corridas o motorista pode ser suspenso ou desligado da plataforma Por meio do aplicativo são registrados os clientes as avaliações por eles dadas as críticas apontadas os trajetos percorridos os tempos de rota e até se houve manobras arriscadas no trânsito Os motoristas devem seguir uma série de padrões estabelecidos pela empresa como a não priorização de atendimentos a pessoas conhecidas o não repasse do número pessoal aos clientes para a realização de corridas particulares a não divulgação de outros aplicativos e a obrigação de seguir o preço da corrida determinado pelo aplicativo O supervisor presencial do trabalho em vez de ser contratado pela empresa tornase o próprio cliente Sendo o serviço uma mercadoria consumida concomitantemente à sua produção ninguém melhor do que o cliente para avaliar o prestador Segundo o site da Uber O IDEAL é que você sempre mantenha um ótimo padrão de atendimento aos passageiros em todas as viagens sempre ligando o arcondicionado oferecendo balas e água e principalmente mantendo o carro sempre limpo e aspirado por dentro Dessa forma VOCÊ CONSEGUIRÁ sem dúvida alguma MANTER A SUA NOTA ACIMA DE 46 UBER 2018 grifos do autor Assim com o máximo de 5 estrelas na avaliação de cada cliente o motorista deve manter no mínimo a nota média de 46 Caso não consiga manter esse padrão de desempenho o qual depende também da subjetividade do cliente que o avalia o motorista pode ser temporariamente suspenso ou até instantaneamente desligado da plataforma sem qualquer aviso prévio da Uber O sistema de avaliações reforça ainda a valorização do gerencialismo pela sociedade GAULEJAC 2007 que não mais se limita ao mercado de trabalho formal e terceiriza parte da atividade de controle ao próprio consumidor Assim o trabalhador é autônomo mas é a empresa que define a meta e o pune caso não a alcance Essa situação não sustenta portanto o discurso comum que atribui ao trabalhador uberizado o status de ser o próprio chefe A nota ou avaliação assume nítido cariz de controle quando se verifica que ela tem como destinatária a Uber e não os clientes Não há possibilidade de se escolher um motorista pela sua nota O algoritmo da Uber seleciona e encaminha sem possibilidade de escolha o motorista que mais perto estiver do cliente Aqui a Uber se afasta de outras plataformas como Mercado Livre eBay e até Airbnb nos aplicativos dessas empresas tanto o cliente quanto os vendedores escolhemse mutuamente servindo a classificação por nota de critério para suas escolhas Na Uber tanto cliente quanto motorista são automaticamente interligados CARELLI 2017 p 143 No modo de gestão da Uber percebemos portanto que o controle é habilmente praticado pela empresa Se o motorista detém a maior parte dos meios de produção para executar sua atividade fica claro que no trabalho uberizado a plataforma virtual é o meio de produção suficiente para garantir a subsunção do trabalhador nesse tipo de atividade Os motoristas precisam manter um padrão de desempenho definido unilateralmente pela empresa e são estimulados a produzir e criar tanto valor quanto possível o trabalhador produz valor ao produzir o equivalente ao valor de sua força de trabalho e cria valor ao produzir maisvalor Em um ambiente de relações de trabalho flexíveis esse cenário demonstra que pela correlação de forças assimétricas a flexibilidade e o risco são dos trabalhadores Já a empresa surge blindada de responsabilidades Uberização do trabalho e acumulação capitalista 854856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz trabalhistas e de riscos com a maior parte do que seria capital constante mesmo que possa ganhar até 25 dos rendimentos do trabalhador que lhe presta serviços CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O FENÔMENO AINDA QUE FINAIS DESTE ARTIGO A TENDÊNCIA DA UBERIZAÇÃO DO TRABALHO Neste artigo defendemos o argumento de que a uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva A subsunção virtual do trabalho ao capital indica que o trabalhador está subordinado na relação de trabalho sob os moldes da uberização ainda que a aparência imediata seja de autonomia e liberdade sobre a forma produtiva A determinação sobre como executar o trabalho sobre os padrões e as metas produtivas se centra na empresa detentora da plataforma de intermediação enquanto o trabalhador em vez de submetido diretamente a um contrato de trabalho formal submetese às imposições estabelecidas sob o risco de desligamento da ocupação O cenário de subordinação estrutural reforça sua necessidade de venda da força de trabalho para a autossubsistência No contexto da uberização do trabalho embora sejam os EUA o berço dessa tecnologia socioprodutiva a abrangência das atividades que seguem esse molde no mundo se torna cada vez maior especialmente nos países emergentes Na particularidade brasileira já se nota uma tendência para a migração eou criação de diversas atividades produtivas que adotam essa forma de trabalho já são cerca de 500 mil motoristas cadastrados na Uber segundo dados da própria empresa UBER 2018 Nesse mesmo ramo de atuação surgiram outras empresas que já operam no Brasil como a espanhola Cabify a indiana WillGo e as brasileiras 99Taxi e Televo Em comum todas essas empresas de transporte urbano oferecem aos trabalhadores um sistema de trabalho pautado pela informalidade e mais do que isso exigem dos motoristas que eles tenham as condições objetivas de desempenhar a atividade Nesse sentido é de responsabilidade dos motoristas que operam por meio dos aplicativos de mobilidade urbana possuírem os principais meios de produção da atividade como carro smartphone conectado à internet combustível seguro manutenção do veículo e eventuais gastos com acidentes ou agrados aos clientes reconhecemos que essa transferência não é uma novidade setores produtivos já contavam com a presença de alguns trabalhadores que para ser inseridos no processo deveriam ter seus meios de produção setor calçadista e suas costureiras em domicílio por exemplo todavia é por meio da introdução da plataforma digital que isso pode tornarse um setor produtivo por si só Ressaltamos ainda que não somente empresas de transporte urbano têm adotado relações de trabalho similares A empresa DogHero por exemplo construiu uma plataforma online para que as pessoas possam deixar seus cachorros durante uma viagem por exemplo com alguém que se proponha a cuidar do animal pelo período estabelecido de modo que essa prestação de serviço remunere o cuidador temporário e a empresa A Chefex permite a contratação por aplicativo de um chefe de cozinha previamente cadastrado pela empresa para preparar pratos para um pequeno grupo de pessoas na residência do contratante Já a Sontra Cargo empresa detentora do aplicativo que promove o encontro entre transportadoras e caminhoneiros autônomos permite que caminhoneiros encontrem fretes disponíveis em qualquer estado brasileiro Também destacamos a Fitfly que intermedeia o serviço de professores de educação física e clientes que buscam um personal trainer diferente da Uber a empresa não cobra percentuais sobre o valor recebido pelos profissionais mas mensalidades para que sejam apresentados como prestadores de serviços e também exige padrões de qualidade para que se mantenham na plataforma Nessa direção ainda podemos destacar a existência de aplicativos que permitem a contratação de serviços sexuais O capital avança em todas as direções Em um primeiro momento podemos enxergar a uberização apenas como uma solução remediadora do desemprego visto o potencial de absorção de mão de obra não inserida no mercado de trabalho formal e uma possibilidade de maior satisfação do mercado consumidor Contudo aprofundando a análise sobre tendências do mercado de trabalho concorrência capitalista e avanços tecnológicos podemos perceber que empresas uberizadas apresentam vantagem competitiva em relação às demais com redução de capital constante adiantado pelo capitalista redução do maisvalor compartilhado com o Estado e atrelamento da remuneração do trabalhador à efetiva realização do valor o que de certa maneira propensa Uberização do trabalho e acumulação capitalista 855856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz o perecimento das organizações tradicionais nos ramos onde atuam eou a migração delas para formas semelhantes de operação Assim há a tendência de ampliação progressiva desse tipo de relação de trabalho a qual facilita a acumulação capitalista ao mesmo tempo que aumenta o trabalho precário sem proteção jurídica e com aumento dos riscos da atividade ao próprio trabalhador A reflexão aqui apresentada não esgota as possibilidades de estudos que busquem se aprofundar na compreensão das nuances da uberização Como sugestão para novas investigações recomendamos pesquisas teóricoempíricas que utilizem dados de entrevistas com trabalhadores uberizados eou com empregadores que seguem essa orientação de contrato in formal analisando as possibilidades de resistência e formação de consciência de classe bem como o aprofundamento da relação entre uberização e financeirização da economia Assim esperamos que os apontamentos aqui conduzidos fomentem novas análises que aclarem as ofensivas do capital ressaltando o papel da ciência junto à busca pela emancipação humana ou não das relações de trabalho alienadas 856856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 Uberização do trabalho e acumulação capitalista David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz REFERÊNCIAS ABÍLIO L C O make up do trabalho uma empresa e um milhão de revendedoras de cosméticos 2018 307 f Tese Doutorado em Sociologia Universidade Estadual de Campinas Campinas 2011 ANTUNES R Os sentidos do trabalho 3 ed São Paulo Boitempo 2000 CARELLI R L O caso Uber e o controle por programação de carona para o Século XIX In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 130146 CHAVES JUNIOR J E R MENDES M M B OLIVEIRA M C S Subordinação dependência e alienidade no trânsito para o capitalismo tecnológico In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 166179 GAULEJAC V Gestão como doença social ideologia poder gerencialista e fragmentação social Aparecida Ideias Letras 2007 HOWE J The rise of crowdsourcing Wired Magazine n 14 p 15 2006 LEME A C R P Uber e o uso do marketing da economia colaborativa In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 7788 MARX K O capital crítica da economia política Livro I o processo de produção do capital São Paulo Boitempo 2013 MARX K O capital crítica da economia política Livro II o processo de circulação do capital São Paulo Boitempo 2014 MARX K O capital crítica da economia política Livro III o processo global da produção capitalista São Paulo Boitempo 2017 MÉSZÁROS I Para além do capital rumo a uma teoria da transição São Paulo Boitempo 2011 MÉSZÁROS I A teoria da alienação em Marx São Paulo Boitempo 2016 OLIVEIRA F Crítica à razão dualistaO ornitorrinco São Paulo Boitempo 2003 PASQUALE F The black box society the secret algorithms that control money and information Cambridge Harvard University Press 2015 SCHEIBER N How Uber uses psychological tricks to push its drivers buttons 2017 Disponível em httpswwwnytimescominteractive20170402 technologyuberdriverspsychologicaltrickshtml Acesso em 02 jan 2018 SIGNES A T O mercado de trabalho no século XXI ondemand economy crowdsourcing e outras formas de descentralização produtiva que atomizam o mercado de trabalho In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p xy SLEE T Uberização a nova onda do trabalho precarizado São Paulo Elefante 2017 SRNICEK N Platform capitalism CambridgeMalden Polity 2017 UBER Afinal qual é a nota mínima exigida pela Uber 2018 Disponível em httpsuberbracomafinalqualeanotaminimaexigidapela uber Acesso em 02 maio 2018 David Silva Franco ORCID httpsorcidorg000000020108431X Doutorando e Mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Professor EBTT no Instituto Federal de Minas Gerais IFMG Ribeirão das Neves MG Brasil Email davidfrancoifmgedubr Deise Luiza da Silva Ferraz ORCID httpsorcidorg0000000242678261 Doutora e Mestra em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Professora Adjunta na Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Belo Horizonte MG Brasil Email deiseluizafaceufmgbr UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL SUAMY RAFAELY SOARES FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Recife 2019 SUAMY RAFAELY SOARES FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Tese apresentada ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco para obtenção de grau de doutora em Serviço Social Área de concentração Serviço Social Movimentos Sociais e Direitos Sociais Orientadora Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Recife 2019 Catalogação na Fonte Bibliotecária Ângela de Fátima Correia Simões CRB4773 S676f Soares Suamy Rafaely Feminismo no sertão as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Suamy Rafaely Soares 2019 119 folhas il 30 cm Orientadora Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Dissertação Mestrado em Serviço Social Universidade Federal de Pernambuco CCSA 2019 Inclui referências 1 Movimentos feministas 2 Sertão 3 Sujeito coletivo I Costa Mônica Rodrigues Orientadora II Título 361 CDD 22 ed UFPE CSA 2019 105 Suamy Rafaely Soares FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Tese apresentada ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco PPGSSUFPE para obtenção de grau de doutora em Serviço Social Linha de pesquisa Relações Sociais de Gênero Geração RaçaEtnia e Sexualidade Área de concentração Serviço Social Movimentos Sociais e Direitos Sociais Aprovada em 26 08 2019 pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Orientadora e Examinadora Interna Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Ana Cristina de Souza Vieira Examinadora Interna Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Vivian Matias dos Santos Examinadora Externa Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Telma Gurgel da Silva Examinadora Externa Universidade Estadual do Rio Grande do Norte Profª Drª Verônica Maria Ferreira Examinadora Externa SOS CORPO Instituto Feminista para a Democracia Recife 26 de agosto de 2019 Às mulheres que me inspiraram e me conduziram no projeto de tornarme mulher minhas mães Helena e Maria minhas tias Santana e Nenen minha irmã Sabatta e minha prima Wênia Às militantes da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Aprendi com vocês que uma sobe e puxa a outra A todas as mulheres do Cariri que foram assassinadas e silenciadas pelo patriarcado particularmente a Rayane e Silvany in memorian que se tornaram símbolos da luta contra o feminicídio na região Escrevo para aquelas mulheres que não falam pelas que não têm voz pois estão muito aterrorizadas porque se ensina a respeitar o medo mais que a nós mesmas Ensinaramnos que o silencio nos salvaria mas não o faremos Audre Lorde A todas as mulheres que gritam e se negam a silenciar Dedico AGRADECIMENTOS Tudo começou com um sim como bem disse Clarice Lispector 1977 p24 No dia que eu disse sim ao doutorado não imaginava como seria espinhoso esse caminho Uma história com começo meio e gran finale seguido de silêncio e de chuva caindo Não se trata apenas de narrativa é antes de tudo vida primária que respira respira respira O que escrevo é mais do que invenção é minha obrigação LIPECTOR 1977 p 25 Sim é essa minha tarefa escrever sobre mulheres que admiro profundamente e que me encorajaram dialogicamente a trilhar os caminhos em busca de minha transcendência Não foi fácil escrever essa narrativa primeiro porque eu sempre tive um profundo medo de ser lida e segundo porque a escrita desta tese aconteceu num contexto de profundas mudanças em minha vida Assim que entrei no doutorado fui aprovada em um concurso me separei mudei três vezes de estado e de trabalho fui perseguida e ameaçada em virtude da militância feminista fiquei depressiva e perdi meu pai no cenário político o impeachment o Fora Temer o assassinato de Marielle a prisão política de Lula as eleições e a vitória do atual presidente Só para constar Lula Livre Que anos difíceis Por isso me desnudo para agradecer a todas e todos que me deram apoio colo risos abraços cervejas e compartilharam seus sonhos e suas poesias comigo À minha família que me apoiou em todos os momentos de minha formação acadêmica e experiências pessoais Vocês são aconchego riso e força Uma família de petralha que adora se reunir para falar de política e tomar cachaça Levo vocês para onde for Ao meu pai Domingos in memorian um grande homem aliás o homem mais frágil doce e sensível que conheci De uma bondade tão profunda que chegava a ser ingênuo A maior tragédia da minha vida foi seu adoecimento e posterior partida mas alegrome sempre pelos dias que em silêncio caminhamos lado a lado Meu pai me ensinou a compartilhar silêncios com quem nos ama e amamos Aprendi Ao meu padrasto Assis pelas partilhas risos cervejas geladas aos domingos e companheirismo A Fidel Joel e Julia meus gatos por me ensinarem que o amor se faz na presença e na independência Ao Programa de PósGraduação em Serviço Social da UFPE por ser espaço de aprendizagem exercício de autonomia e de paciência À minha orientadora Mônica por ter contribuído profundamente com esse trabalho Grata pela acolhida escuta ativa paciência sororidade e disposição Você renova minha fé na docência Você é uma mulher que inspira outras mulheres Uma inundação lilás A professora Delâine pelas grandes contribuições que deu na banca de qualificação Às professoras Ana Vieira e Vivian que se disponibilizaram a estar presentes em minha banca À Telma Gurgel uma mulher que espalha rebeldia e feminismo por onde passa Grata pelos conselhos puxões de orelha cervejas atos e poesia Você me ensinou que a liberdade é lilás que dias mulheres virão e a saída sempre será coletiva Me espelho em você como feminista bruxa militante e professora À Veronica Ferreira pelos encontros sempre inspiradores e que me fazem ter fé na vida e a esperança de que só a luta muda o mundo Ao corpo docente da UERN pela acolhida e troca de saberes e afetos AsAos minhasmeus camaradas de turma de doutorado por terem tornado essa jornada mais leve e risonha Ao professor Roberto Marques por ter enriquecido de maneira significativa a minha vida acadêmica Agradeço pela amizade incentivo tiradas e ironias na hora certa pelas aulas em mesa de bar conversas boas jogadas ao pé da chapada do Araripe e regadas à cerveja piscina e muita comida Você e Raulino estarão sempre em meu coração Aos meus amores recifenses que estão sempre dispostos a dividir os pesos e as alegrias do mundo em especial Heloisa Junior Aquino Junior Rios Israel Natalia e Clara sempre abertos a bons papos conversas filosóficas crises existenciais dramas afetivoemocionais lutas sociais e abraços afáveis sejam eles acompanhados de café na convivência da UFPE ou de cerveja no buraco das noites Grata por vocês aguentarem meus dramas de geminiana nesses 5 anos de desassossego Aos meus amores paraibanos Alison Cleiton Patrycia Karla Darlania Pinheiro e Mauricelia Cordeira Vocês são afago e tempestade Amo vocês Sigamos juntos Aos meus amores do Cariri meu sertão mar amores que são muitos e diversos a primeira leva de amigos irmãos Daniel Batata Ythallo Rodrigues Italo Coelho Edson Xavier Elandia e Thiago Carminatti Dos Kaosdos à poesia vocês são parte do meu coração A Daniel Batata meu amigoirmão poeta preferido e abraço mais aconchegado Meu herói do sertão e vocalista de banda de rock instrumental preferido que bom que eu te encontrei na vida É com você que eu gosto de falar de política poesia música filosofia amor e treta É com você que eu me sinto eu sem medos ou subterfúgios Cem palavras ao redor de você é esquisito como eu fico sem palavras ao redor de você Te amo Aos meus amores da terra encantada do Crato também conhecida como Craterdam Distrito de Avalon Joseph Franklin Ohana e Renne Gratidão por todas as alegrias risos e interlocuções políticas teóricas afetivas e etílicas As melhores segundas são com vocês no Primavera A Fernanda e Constance por serem festa poesia e carnaval A Tiago Coutinho e Alexandre Nunes por serem porto seguro ombro amigo e riso constante Amo vocês mais do que a Marx Durval Lelis e cuscuz A Claudio Reis por ser o melhor vizinho do mundo e por ter me mostrado que o Cariri é território mágico para acertar contas comigo mesma e com o mundo Te amo e sinto saudades de você chegar no meu portão me chamando para tomar banho de cachoeira comer uma tapioca no calçadão ou tomar uma cerveja Te amo AsAos minhasmeus companheiros do Valha Jimenna Rocha Samuel Dias Eduardo Pordeus Jailton e Daniel Guedes vocês são muito especiais na minha vida e me mostraram que as flores podem nascer no asfalto Como diria Drummond uma flor nasceu na rua Passem de longe bondes ônibus rio de aço do tráfego Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia rompe o asfalto Façam completo silêncio paralisem os negócios garanto que uma flor nasceu A Samuel Dias a pessoa mais linda do mundo Que nossos caminhos se encontrem sempre A Eduardo Pordeus por toda a acolhida e afeto proporcionado na minha experiência de cativeiro egípcio em Sousa Que a gente continue por todo sempre a tomar Heineken cortando o véu das noites A Leonardo Ferreira por todo o carinho e cuidado que construímos um pelo outro Minha casa será sempre a tua À Andrea e Gabriel por todo apoio que me deram no processo de separação e por espalharem tanta luz pelo mundo À Pamela por nossa parceria reciprocidade e amor Um amor que passou por inúmeras mudanças do réveillon de 2016 até hoje e agora é amoramigo Um poema sensível e dolorido entre os espinhos de um cacto na porta de minha casa decretou o fim mas uma conversa desnudada reconfigurou tudo e fez renascer o amor em nós Para onde quer que eu caminhe estaremos entrançadas Te amo Aos meus amigos constituídos pelo Carnaval Fernando Poser Ellen Garcia e Zé Nosso carinho ultrapassou as fronteiras do carnaval e hoje ancorase nas praias em Teresina em Caetanos em Canoa em Natal ao som de Baiana System e regado a muitas cervejas e risos Que venha o carnaval sem tese PS Vocês estão ligados que não serei mais a pomba gira doutoranda Era uma boa fantasia Ao corpo docente da UFCG pelo acolhimento na minha experiência docente na instituição em especial a Juliana Oliveira Clariça Ribeiro André Menezes e Tatiana Raulino que estiveram ao meu lado na luta no riso e no sonho de uma universidade pública gratuita laica e socialmente referenciada no sertão paraibano Nós somos feitos do tecido que são feitos os sonhos A todos os amigos que fiz em Sousa PB osas estudantes da UFCG osas camaradas dos movimentos sociais os comparsas dos bares e do Centro Cultural Banco do Nordeste em especial meus parceiros de vida e farra Wescley Dutra e Arthur Patrícia mãozinha Cibelly Clara Zé e Leivas Natarajan e Éllida Aparecida Rafael Gomes Flávio Eufrazio Bruno Cesarino Rafael Formiga e Rosi Vocês fizeram meus dias no sertão serem mais bonitos e festivos A Murilo pelas conversas amigas cervejas sem limites almoços em São Gonçalo rolês com os seus pivetes cafezinhos no CCBNB cumplicidade aprendizado e vácuos Nossa amizade é algo que nos sustentou em Sousa e fez os nossos dias mais leves Te amo Sou profundamente grata a todos vocês aos caminhos que percorri e às interlocuções que constitui na busca de minha escrita Como bem disse Bert HellingerAtrás de mim estão todos os meus ancestrais me dando força A vida passou através deles até chegar a mim E em honra a eles eu a viverei plenamente Uso a palavra para compor meus silêncios Não gosto das palavras fatigadas de informar Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo Entendo bem o sotaque das águas Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes Prezo insetos mais que aviões Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis Tenho em mim um atraso de nascença Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos Tenho abundância de ser feliz por isso Meu quintal é maior do que o mundo Sou um apanhador de desperdícios Amo os restos como as boas moscas Queria que a minha voz tivesse um formato de canto Porque eu não sou da informática eu sou da invencionática Só uso a palavra para compor meus silêncios BARROS 2016 p 45 RESUMO A presente tese objetiva apreender as particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri Cearense a partir da experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri A investigação teve como pressuposto a experiência de resistência das mulheres do sertão que estão longe dos grandes centros urbanos e convivem com relações sociais de sexo raçaetnia e classe atravessadas por profundas desigualdades regionais O Cariri cearense constituído por 28 municípios entre os quais estão Juazeiro do Norte Crato e Barbalha é um território heterogêneo conformado por relações de ruralidade e urbanidade em que ainda prevalecem os traços constitutivos da propriedade senhorial do coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade convivendo com a modernização das relações de produção na região potencializada pela chegada das indústrias e pelo processo de interiorização das universidades que ampliaram o setor de serviços e tensionaram as relações sociais de sexo raça e classe na região imprimindo trações de urbanidade modernidade e metropolização Cabe dizer que o Cariri é uma região demarcada pela violência silenciamento e apagamento das mulheres com altos índices de feminicídio forte interdição à mobilidade e participação política das mulheres tutela e vigilância das corporalidades e vivências sexuais assim como precariedade das políticas públicas de proteção e atenção às mulheres mas também é um território demarcado pelas resistências destas de forma individual e coletiva O estudo foi feito a partir da observação participante pesquisa documental e entrevista com as militantes do Cariri Dentre os resultados identifiquei que o sujeito coletivo feminista Frente de Mulheres consegue constituir mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos materializandose enquanto corpo político com identidade diversa Unidade diversa expressa na ideia de se fazer singular respeitando as diversas diferenças e se fazer universal a partir de pontos comuns de opressão Palavraschave Movimentos feministas Sertão Sujeito coletivo ABSTRACT This thesis aims to apprehend particularities of the feminist collective subject constitution in Cariri Cearense from the militant experience of Cariri Movements Womens Front The research was based on the experience of womens resistance from Ceará backlands who are far from the big urban centers and live with social relations of gender race ethnicity and class marked by deep regional inequalities Cariri of Ceara state consisting of 28 municipalities among which are Juazeiro do Norte Crato and Barbalha is a heterogeneous territory formed by rurality and urbanity relations in which the prevailing constitutive traces are still manorial property coronelismo messianism cangaço tradition and religiosity which coexist with the modernization of the production relations in the region boosted by the arrival of industries and the process of internalization of universities which expanded the service sector and tensioned the social relations of sex race and class in the region creating traction of urbanity modernity and metropolization It is worth mentioning that Cariri is a region demarcated by violence silencing and erasure of women with high rates of violence and feminicide strong interdiction to womens mobility and political participation tutelage and vigilance of corporeality and sexual experiences as well as by precariousness on public policies of protection and attention to women but it is also a territory demarcated by the resistance of women individually and collectively This study was based on participant observation documentary research and interviews with Cariri activists Among the results I identified that the feminist collective subject Front of Women can constitute mediation between the unique experiences of women while aggregating a multiplicity of individual and collective subjects selfmaterializing as a political body with diverse identity Diverse unity expressed in the idea of being singular respecting the various differences and becoming universal because of common points of oppression Key words Collective subject Feminist movements Brazils Northeastern backlands LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1 Ato contra os feminicídio no Cariri Nem todas estão aqui falta as mortas 138 Imagem 2 Ilustração da Beata Maria do Araújo Encontreme onde eu estiver 142 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 15 2 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO COLETIVO 25 21 O SUJEITO COLETIVO NA TRADIÇÃO MARXISTA 27 211 A constituição do sujeito coletivo feminista nós falamos por nós 58 3 O MOVIMENTO FEMINISTA E O SUJEITO COLETIVO FEMINISTA 72 31 A IMBRICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO RAÇA E CLASSE E O PATRIARCADO 73 32 PARTICULARIDADES DA CONSTITUIÇÃO DOS MOVIMENTOS FEMINISTAS NO BRASIL 86 4 AS PARTICULARIDADES DA FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI 120 41 O TERRITÓRIO CARIRI um sertão banhado de águas reisados romarias violências e resistências 121 42 UM CARIRI QUE ODEIA AS MULHERES quadro geral das relações patriarcais de sexo na região 137 43 A FRENTE DE MUHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI ENQUANTO SUJEITO COLETIVO FEMINISTA 150 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 183 REFERÊNCIAS 188 15 11111INTRODUÇÃO Narrar é resistir ROSA 1986 Em 2011 me mudei para o Cariri para ensinar em uma faculdade privada Quando aportei na rodoviária de Juazeiro do Norte em período de romaria estava tocando os versos de uma canção popular do grupo musical Coco Raízes do Arcoverde que diziam A vida tava tão boa pra quê mandou me chamar Parti para o Juazeiro pensando em trabalhar a vida tava tão boa pra quê mandou me chamar A primeira impressão que tive do Cariri foi assustadora e ao mesmo tempo arrebatadora uma rodoviária lotada várias imagens de Padre Cícero vendedores com bugigangas religiosas um coco no rádio um monte de gente vestida com túnicas marrons romeiros chegando e saindo apressadamente Que narrativa Pouco a pouco fui me ambientando a esse território e apreendendo suas cartografias de violências e resistências protagonizadas em sua maioria por mulheres Elas apareciam nas romarias nas rodas de cultura popular nos saraus nos cordéis e nas manchetes dos jornais e programas de televisão As imagens das mulheres espancadas assediadas e assassinadas me perseguiam naquele sertão contradição e eu não podia esquecer uma citação de Susan Sontag 1986 p 83 que dizia Deixemos que as imagens atrozes nos persigam Mesmo que sejam símbolos e não possam de forma alguma abarcar a maior parte da realidade a que se referem as imagens dizem é isto que os seres humanos são capazes de fazer e ainda por cima voluntariamente Pois bem deixei as imagens atrozes me perseguirem e comecei a observar atentamente as mulheres que resistiam a um Cariri que lhes imputava tanto ódio A minha inserção no cotidiano dessa região apontou pistas sobre a sua constituição enquanto uma expressão do patriarcado O Cariri não odiava as mulheres pois não era sujeito de tantas violências mas ganhava uma representação de sujeito no imaginário feminino De fato o sujeito das múltiplas exploraçõesdominaçõesapropriações destinadas às mulheres é o patriarcado que toma sua expressão particular no território contraditório do Cariri Cearense Um patriarcado demarcado pelo patrimonialismo das elites locais uma religiosidade capturada pela figura do Padre Cícero e a imposição de valores tradicionais que pouco a pouco se diluem e se reforçam no caldo das transformações societárias contemporâneas Nesse Cariri que odeia as mulheres elas se insurgem e se rebelam rasgando as entranhas desse território 16 A partir da década de 1990 as mulheres do Cariri começaram a reflexionar acerca das violências as quais são acometidas e a impetrar ações de enfrentamento à questão constituindo um movimento de mulheres de base popular articulado às Comunidades Eclesiais de Base e às lutas pela terra Paulatinamente vão aglutinando energias e interesses somando forças sociais diversas produzindo conexões e trocas identificando potências possibilidades e contradições estabelecendo um elo comum na luta até se reconhecerem enquanto feministas Feministas sertanejas em movimento Em 2014 parte das feministas em movimento constituem uma Frente de Mulheres enquanto articulação feminista antipatriarcal anticapitalista antirracista laica e suprapartidária É sobre essas memórias pessoais e coletivas que pretendo versar A presente investigação científica partiu da aproximação com as mulheres em movimento no Cariri Cearense precisamente a partir da construção da Marcha das Vadias no ano de 2012 e posteriormente com seu esgotamento e conformação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Minha intenção inicial era problematizar como o corpo e a sexualidade das mulheres ganha contornos diferenciados quando acrescentamos marcadores de regionalidade cultura e tradição Emergiu nesse momento a questão do aborto como problema central Como essa pauta vem sendo conduzida pelos movimentos feministas na região e quais as particularidades na constituição das lutas feministas Me perguntava confusamente Meu ponto de partida se apresentava de forma muito abstrusa e no processo da banca de qualificação fui tensionada a pensar meu objeto a partir de outro caminho Como Delâine bem disse na pré banca é a força do que era para ser A partir daí tomei a decisão metodológica de mudar o caminho e reflexionar sobre como o território do Cariri produzia formas tão potentes de mobilização e organização feministas ao mesmo tempo em que copiosamente silenciava violentava e matava as mulheres de forma individual e enquanto classe Então me deparei com a potência da Frente de Mulheres do Cariri e comecei a recuperar as memórias de sua constituição Como essas mulheres conseguiram dentro de condições tão limitadoras constituir uma força política tão efetiva Quais as particularidades que produziram esse sujeito coletivo Por que se organizar enquanto Frente O que sustentou a passagem da Marcha das Vadias à Frente de Mulheres Por que a auto organização emerge como condição necessária para esse novo sujeito coletivo Observando a pluralidade de mulheres que constituíam a Frente uma pluralidade intensamente conflituosa eu problematizava será que a experiência em comum a força dessas mulheres em dizer nós 17 e acionar um projeto coletivo de atuação é o que conforma o sujeito feminista Frente de Mulheres Diante do exposto e inebriada com a força de irrupção da Frente defini como objetivo central apreender as particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri Cearense Como objetivos específicos pontuei a Recuperar a memória social e a história das resistências das mulheres do Cariri a partir da conformação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri b Apreender as pautas de reivindicação as tendências e divergências políticas da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri c Descrever as estratégias alianças desafios e possibilidades da atuação da Frente de Mulheres no Cariri A análise das particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri cearense ancorase ao materialismo histórico dialético enquanto método de análise do real bem como nas perspectivas teóricas e ideopolíticas do feminismo materialista que apreende as desigualdades entre homens e mulheres como uma relação social material concreta e histórica Mulheres e homens se definem a partir de uma relação social de classe hierárquica e antagônica CURIEL FALQUET 2014 Com efeito utilizei as categorias relações sociais de sexo e patriarcado para desvelar as condições de apropriação material das mulheres bem como para destacar a imbricação destas em relação às relações sociais de classe e raçaetnia Com efeito a investigação científica não se circunscreve à repetição do que já foi elucidado já que não existe nada eterno fixo transhistórico absoluto ou imutável pois todos os processos estão em constante movimento e transformação Assim a construção do conhecimento é um processo de desvelamento da realidade e apropriação do mundo que parte do pressuposto que o real é inesgotável e sua compreensão se dá de maneira aproximativa e não conclusiva O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações isto é unidade do diverso Por isso o concreto aparece no pensamento como processo de síntese como resultado não como ponto de partida embora seja o verdadeiro ponto de partida e portanto o ponto de partida também da intuição e da representação MARX 2003 p 257 18 Nessa perspectiva a produção do conhecimento pode ser sintetizada em um processo de apreensão pelo pensamento da dinâmica que engendra o real O movimento do real por sua vez é dotado de uma dinamicidade que permeia os fenômenos e busca desvelar suas relações contradições e determinações Esse movimento tenta ultrapassar o dado o aparente o isolado e apreender o fundamento e a razão de ser dos fenômenos Segundo Kosik 1969 o pensamento dialético é aquele que procura apropriarse da coisa em si superando a forma isolada e independente dos fenômenos em nível aparente tratase pois por um lado de destacar os fenômenos da sua forma dada como imediata de encontrar as mediações pelas quais podem ser referidos ao seu núcleo e a sua essência e captados na sua própria essência e por outro lado atingir a compreensão deste caráter fenomenal desta aparência fenomenal consideradas a sua forma de manifestação necessária LUKÁCS 2003 p 23 Assim a tarefa de produção do conhecimento consiste em uma busca de superação do factual do isolado e do naturalizado articulando as múltiplas determinações das relações e captando o caráter mediato e determinado dos fenômenos Portanto o recurso à dialética configurase pois como uma consequência da pergunta sobre a realidade e de seu entendimento como totalidade concreta síntese de múltiplas determinações que não se apresenta imediatamente ao sujeito Saliento o percurso para o conhecimento da totalidade concreta é identificado com a viagem do pensamento que vai do concreto ao abstrato Já que para Marx 2003 p 260 as leis do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo correspondem ao processo histórico real Em linhas gerais para se atingir à síntese das múltiplas determinações que balizam o real exigese um longo trabalho de explicitação progressiva das categorias partindo de suas determinações mais simples e abstratas até alcançar suas determinações mais ricas complexas e intensas e assim chegar à sua unidade onde o real reproduzido então é a síntese de múltiplas determinações TEIXEIRA 1995 p 35 Apenas depois de concluído este trabalho é que se pode explicitar de forma adequada o movimento do real enquanto concreto pensado Para Lukács 1974 a legalidade do método não reside nele próprio enquanto tal mas em sua capacidade de apreensão do movimento do real e de transformação da realidade superando pois perspectivas contemplativas do mundo 19 Analisar os fenômenos sob essa perspectiva significa compreender o ser histórico como fundamento do conhecimento e perceber os fenômenos individuais para além da aparência e imediaticidade do cotidiano relacionandoos com o campo das grandes determinações da relação capitaltrabalho através da articulação existente entre a singularidade a particularidade e a universalidade dos fenômenos Pelo exposto entendo que o método dialético então deve acompanhar a realidade como seu autêntico reflexo e portanto adotar essas mesmas características O pensamento dialético deve ser concreto variável sempre arejado e fluido como um riacho pronto para detectar e usar as contradições que se lhe apresentem Todas as fórmulas devem ser provisórias limitadas aproximadas porque todas as formas de existência são transitórias e limitadas Uma vez que a dialética é manipulada com uma realidade sempre variante complexa e contraditória suas fórmulas têm limitações intrínsecas Em suas interações com a realidade objetiva e em seu próprio processo de evolução relacionado com esta atividade o pensamento dialético cria fórmulas as mantém e logo as descarta em cada etapa de seu crescimento NOVACK 2006 p 62 Convém ressaltar que a perspectiva dialética efetiva a superação da dualidade entre objetividade e subjetividade já que entende que a realidade objetiva e a realidade subjetiva são dois momentos indissociáveis do ser social Como alude Saffioti 1992 p 208 uma epistemologia feminista não despreza a emoção enquanto via de conhecimento mesmo porque a emoção pode muito bem fecundar a razão Convém mencionar que os elementos ferramentas e instrumentos de pesquisa devem ser capazes de se adaptar à realidade pesquisada pretendendo assim alcançar uma reprodução conceitual e analítica da realidade material Para responder às questões levantadas desde o projeto de pesquisa realizei uma pesquisa de campo compreendida por Soriano 2004 para além de um lugar separado demarcado ou delineado onde ao pesquisadorapesquisador vai coletar dados ou fazer observações O termo campo referese a um tipo de pesquisa realizado nos espaços da vida cotidiana indicando a materialidade do território e das relações sociais desiguais ali vivenciadas tanto a posição dado pesquisadorapesquisador frente ao todo caótico como parte deste Defini a observação participante e a entrevista como técnicas e instrumentos de produção de dados por entender que ambos foram mais apropriados para apreender as particularidades do real A escolha da observação participante se deu por ser uma técnica que possibilita o intercâmbio de experiências e uma base comum de comunicação Particularizase na presença dado 20 pesquisadorapesquisador como partícipe das ações que acontecem com os sujeitos sociais investigados Segundo Soriano A observação participante permite adentrar nas tarefas realizadas pelos indivíduos no seu dia a dia conhecendo mais de perto as expectativas das pessoas suas atitudes e condutas diante de determinados estímulos as situações que fazem com que elas ajam de um modo ou de outro e as maneiras de resolver os problemas familiares ou da comunidade Neste caso o pesquisador age com naturalidade dentro do grupo incorporandose plenamente às atividades que desenvolvem seus integrantes SORIANO 2013 p 147 Tal observação foi produzida no diálogo constante entre os sujeitos da pesquisa e a pesquisadora que tinha uma experiência com as mulheres as quais estava investigando e uma relação com o território estudado Eu era parte ativa do grupo estudado participei de uma parcela de sua constituição Segundo Soriano 2004 a técnica de observação participante permite aao pesquisadorapesquisador uma apreensão mais ampla sobre os comportamentos padrões de conduta representações sociais símbolos artefatos escutas tradições e o cotidiano dos sujeitos pesquisados Também se pode efetuar a observação estando dentro do grupo sendo parte ativa dele Nesse caso o pesquisador submetese às regras formais e informais do grupo social isto é participa nos diversos atos e manifestações da vida do grupo e tem acesso a seus locais de reunião exclusivos Esta técnica é uma das mais importantes no campo da antropologia social entretanto por vezes apresenta sérias dificuldades SORIANO 2004 p 147 Haguete 2013 alude sobre a importância da observação participante enquanto técnica de captação de dados mesmo que ela não seja a mais estruturada no espectro das ciências sociais aplicadas apontando alguns elementos que podem dificultar a materialização de tal técnica a saber i As percepções socioculturais doda observadorobservadora ii O viés profissionalideológico que pode induzir à seletividade da observação iii A interpessoalidade doda observadorobservadora iv A possibilidade de adequar o real às hipóteses de estudo prévias e v Os juízos de valor doda observadorobservadora Tendo consciência das dificuldades limites e potências da observação participante constitui um guia de observação para coleta de dados e registrei os dados em um diário de campo como ferramenta de registro das informações para análise posterior anotando inclusive os meus atos escutas e representações durante o processo de observação 21 Aqui não centralizei minha observação a partir da acepção de epistemologia ocular que me separa das sujeitas pesquisadas mas de um diálogo com elas na tentativa de produzir em conjunto a memória social dos feminismos no Cariri uma memória em movimento Memória viva Como aponta Cordeiro 2004 É abrir mão da romântica imagem doa pesquisadora se aventurando solitariamente em terras estranhas para descobrir dados inusitados portando além do caderno de notas os equipamentos que permitem registrar o que é observado a partir de normas e dos parâmetros científicos É lançarse em caminhos tortuosos e improvisados e trocar uma série de dificuldades bem mapeadas por outra de dificuldades quase desconhecidas É admitir a complexidade deste tipo de prática que demanda na atualidade reflexões não só sobre a validade dos procedimentos adotados mas sobretudo sobre as implicações éticas políticas e epistemológicas desse fazer CORDEIRO 2004 p 62 O lócus da pesquisa foi o Movimento Feminista do Cariri Cearense especificamente a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri por esta se referenciar enquanto espaço feminista de articulação organização e formação em defesa dos direitos das mulheres aglutinando um conjunto de movimentos sociais coletivos entidades associações partidos políticos e sujeitos sem atrelamento institucional Para a realização da observação participante foram fundamentais o roteiro de observação específico e o uso do diário de campo As primeiras aproximações com as sujeitas da pesquisa processaramse concomitante a minha inserção política na Frente de Mulheres tendo como questão norteadora de pesquisa a análise das determinações e contradições dos movimentos feministas do Cariri em relação à luta pelo direito ao aborto posteriormente redefinida por meio das problematizações da banca de qualificação que pontuava a impossibilidade de apreender as determinações de uma pauta ainda emergente na região Tais questões desvelaram o meu objeto real de estudo a constituição dos movimentos feministas na região enquanto sujeito coletivo feminista Partindo de levantamento teóricometodológico e documental do objeto de estudo constitui aproximações sucessivas com as mulheres estudadas e com sua realidade objetiva A partir disso paulatinamente fui mapeando as militantes da Frente as com atuação fixa e as mais descontinuadas as lideranças as ações concretas as formas organizativas e as alianças estratégicas Para isso acompanhei de 2016 a maio de 2017 as reuniões ampliadas os encontros formativos planejamentos semestrais atos e manifestações palestras das lideranças na região reuniões de coordenação executiva festas e confraternizações assim como os 22 documentos de domínio público da Frente material de divulgação digital notas técnicas notas de protesto cartas de denúncia e moções de repúdio Esse acompanhamento sistemático das ações da Frente não se deu de forma passiva e distanciada pelo contrário eu também era parte ativa dos processos Em maio de 2017 me mudei do Cariri para outro estado mas continuei a mapear a Frente agora de forma menos sistemática e com menor facilidade de mobilidade entre as mulheres Nessa segunda parte mapeei fotos vídeos relatórios de reunião a produção teórico e artísticoperformáticas1 das feministas da Frente e finalizei o processo de observação no final do primeiro semestre de 2018 com a participação nas reuniões de formação e planejamento de atividades da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri e do Piquenique Feminista Foi preciso apreender os fragmentos da memória das vivências e ancestralidades dessas mulheres a partir da constituição de um mosaico de conversações e de determinações concretas da experiência de ser mulher individual e coletivamente dentro do território Cariri apreender a partir de conversas conversas do presente conversas do passado conversas presentes nas materialidades conversas que já viraram eventos artefatos e instituições conversas ainda em formação e mais importante ainda conversas sobre conversas SPINK 2003 p 37 Diante de todo esse acervo empírico documental bibliográfico e artísticoperformático fui elegendo categorias para análise das militantes da Frente da constituição do sujeito feminista coletivo e da identidade organizativa da ação articulação e aliança política Esses artefatos sociais foram ampliados a partir da decisão metodológica de realizar entrevistas com 9 mulheres lideranças da Frente com um pequeno roteiro sistematizado em torno de como elas se constituíram enquanto feministas e Frente de Mulheres bem como as pautas demandas e alianças estratégicas forjadas na luta coletiva Para a definição das entrevistadas considerei a heterogeneidade da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri definindo mulheres que agregam múltiplas especificidades lésbicas jovens partidarizadas negras universitárias e de organizações populares 1A Frente realizou atividades no campo artísticoperformático muito diversificadas com constantes Saraus de poesia performances constituição de um bloco para as prévias carnavalescas no Crato intitulado Craterdamas exposição de cinema ações de literatura e eventos de música 23 As sujeitas da pesquisa revelaram trajetórias pessoais e políticas bastante distintas ocupam posições de liderança e podem apontar um certo perfil da Frente de Mulheres Falo com imprecisão em virtude da dinâmica da Frente que agrega um conjunto múltiplo de mulheres que oscilam no grau de participação 9 mulheres 7 do Cariri e 2 de outros estados que migraram em busca de trabalho 2 estão na faixa etária de até 25 anos as outras variam entre 36 e 66 anos 4 mulheres negras 4 lésbicas 5 partidarizadas sendo 2 do Partido dos Trabalhadores PT e 3 do Partido Socialismo e Liberdade PSOL 4 moradoras da periferia 7 com trabalhos formalizados sendo 1 professora do ensino médio 2 professoras universitárias 2 trabalhadoras em ONGs 1 assistente social e 1 jornalista 4 têm militância política oriunda das organizações populares e 5 a partir da interlocução com a universidade Organizei este trabalho em 4 capítulos No primeiro capítulo busco situar como se processou a aproximação com o objeto de estudo as questões de pesquisa os objetivos o percurso metodológico e a estrutura final da tese No segundo apresento o debate acerca da constituição do sujeito coletivo partindo do entendimento do papel da ação dos homens e das mulheres na história enquanto sujeitos no interior de uma classe com potencial revolucionário de transformar as relações sociais de exploração no modo de produção capitalista Potencial revolucionário dado não pela vontade individual dos homens e das mulheres mas pelas formas concretas da luta de classes que determinam a consciência de classe De outra parte também problematizo o sujeito coletivo postulado pela tradição marxista e apresento a constituição do sujeito coletivo feminista sob o ponto de vista situado das mulheres em especial de Simone de Beauvoir 1949 Kergoart 2018 Camurça 2007 e Gurgel 2004 2014 Nessa égide a constituição do sujeito coletivo feminista se conforma a partir da elaboração de conceitos que especifiquem a opressão exploraçãoapropriação das mulheres enquanto grupo social No terceiro capítulo aponto as análises acerca das relações sociais de sexo e do patriarcado elencando o debate materialista francês sobre a imbricação das relações sociais de sexo classe e raça enquanto um entrecruzamento dinâmico e complexo do conjunto das relações sociais cada uma imprimindo sua marca nas outras ajustandose às outras e construindose de maneira reciproca KERGOART 2010 p 98 Essa perspectiva de análise apreende as relações sociais de sexo como relações de caráter estrutural que pressupõe antagonismos entre grupos sociais e tem como fundamento a divisão sexual racializada do trabalho FALQUET 2014 KERGOART 2018 Ainda identificamos as particularidades da 24 constituição dos movimentos feministas no Brasil enquanto sujeito político do coletivo de mulheres que baliza suas ações na construção de um projeto societário fincado na liberdade autonomia e autodeterminação das mulheres PIERROT 2007 No penúltimo capítulo exponho as cartografias das resistências feministas no Cariri e a formação do sujeito coletivo feminista encarnado na experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Descrevo a conformação do território Cariri e de suas relações sociais de classe raçaetnia e gênero bem como suas particularidades geopolíticas culturais e religiosas Ainda recupero a memória social da constituição da Frente de Mulheres enquanto sujeito coletivo feminista apresentando as pautas alianças estratégicas divergências políticas desafios e potencialidades dessas mulheres em coletivo Remato o capítulo afirmando a minha tese de que o sujeito coletivo Frente de Mulheres que se faz na autodesignação das mulheres enquanto feministas no reconhecimento de um nós comum e na conformação de uma ação coletiva a partir de uma experiência una e diversa constitui mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos se materializando enquanto corpo político com identidade plural Um sujeito coletivo total atravessado pelo contexto do sertão Por fim sistematizo as principais inflexões e sínteses possíveis sobre a direção sociopolítica dos movimentos feministas no Cariri na particularidade da Frente de Mulheres analisando alguns entraves e possibilidades políticas para as resistências feministas locais Parafraseando Beauvoir 2009 descrevi do ponto de vista situado das mulheres sertanejas o mundo que lhes foi imposto e que elas bravamente ousam a serem vozes insurgentes 25 2222 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO COLETIVO Posso sair daqui pra me organizar Posso sair daqui pra desorganizar Da lama ao caos do caos à lama Um homem roubado nunca se engana SCIENCE 1994 O objetivo deste capítulo é apreender como se constitui o sujeito coletivo e o sujeito coletivo feminista Parto do pressuposto de que há grandes divergências nas elaborações teóricas acerca da noção de sujeito no interior das ciências sociais e também da teoria social crítica No pensamento liberal sob a ótica do iluminismo constituiuse uma noção de sujeito como ser universal dotado de liberdade autonomia e racionalidade corporificado na imagem do homem do cidadão grafado em masculino do homogêneo e da unidade O pensamento crítico marxista alarga a percepção de sujeito a partir do reconhecimento dos homens enquanto demiurgos de sua própria história tendo a classe social como seu fundamento entretanto a noção de sujeito universal e masculino permanece O sujeito coletivo na tradição marxista é histórico e material e se efetiva na dinâmica da luta de classes seja através das organizações classistas ou do partido revolucionário Tal assertiva acerca do sujeito coletivo em minha percepção não dá conta da experiência das mulheres Qual a grande dificuldade das mulheres em pensar sobre o mundo e sobre si mesmas Ouso dizer que as mulheres pensam o mundo a partir de categorias elaboradas por um mundo que as oprimemexploramapropriam Construir novos conceitos e categorias a partir dessa experiência em grande medida silenciada e apagada é a grande contribuição do feminismo como pensamento crítico como teoria Eis o desafio do feminismo no interior da ciência descolonizar e criar categorias de pensamento que rompam com o pensamento hegemônico branco burguês masculino e cartesiano construído para garantir a dominação exploração dos grupos subalternos De certo as pensadoras feministas vêm apontando sistematicamente que o conhecimento sobre sujeito coletivo construído pelos homens ao generalizar o sujeito como a classe não faz a distinção entre mulheres e homens não apresenta na vivência desse sujeito coletivo as desigualdades existentes na sociedade no modo de inserção na divisão sexual racializada do trabalho Pois o sujeito da tradição marxista é masculino portanto sua pretensa universalidade esconde na verdade sua especificidade 26 É preciso considerar que a experiência particular de ser mulher é atravessada pelo patriarcado enquanto pacto formalizado pelos homens para manter o controle sobre as mulheres constituindose enquanto expressão do poder político dos homens que não se limita à esfera privada mas também se faz presente na pública e transforma as mulheres em objetos de satisfação sexual dos homens produtoras de herdeiros de força de trabalho e de novas reprodutoras SAFFIOTI 2004 p 105 É deste modo um sistema de dominação expropriação e de exploração que se dilata por todas as esferas da vida social sustentado pela violência e ideologia produzindo dissabores cotidianos para as mulheres que embora sejam vivenciados individualmente se constituem enquanto questões políticas e portanto são problemas coletivos As múltiplas expressões do patriarcado entendidas pelas mulheres na vida cotidiana como problemas de cunho pessoal são digeridas negligenciadas ou enfrentadas pela maioria das mulheres seja de formas individuais ou coletivas com respostas de acomodação ou de inconformismo Por isso o sujeito coletivo universal e masculino não é capaz de explicar a experiência da pluralidade das mulheres Rebelarse contra as imposições do patriarcado a sua experiência particular elaborando estratégias de enfrentamento ou de conciliação tem sido uma questão de sobrevivência histórica para as mulheres de forma singular ou enquanto sujeitos coletivos Konder 2009 p 45 apregoa que a primeira forma de superação de contextos de exploraçãodominação é o apelo à rebeldia a rebeldia anterior a qualquer racionalização elaborada pode possibilitar que individualmente o rebelde tente concretizar sua negação do presente ou constitua junto a outros rebeldes ações políticas de enfrentamento a este mesmo que de forma pontual ou assistemática Contudo tais ações de rebeldia e contestação das experiências de dominaçãoexploração marcam apenas um momento insurrecional sendo necessário a concretização da rebeldia no plano político no plano em que se elabora a consciência revolucionária KONDER 2009 p 47 Consciência revolucionária entendida por ele como a capacidade de se indignar com os processos de exploração mas ir além disso identificando as determinações desses processos os potenciais inimigos e aliados bem como de elaborar formas racionalizadas de superação das condições degradantes de existência e é parte constituinte do sujeito histórico e particularmente do sujeito feminista coletivo 27 21 O SUJEITO COLETIVO NA TRADIÇÃO MARXISTA Para a tradição marxista os homens produzem a sua própria história mas não a fazem de forma automática ou aleatória assim como não a conduzem de acordo com a sua própria vontade mas nas circunstâncias imediatamente encontradas dadas e transmitidas pelo passado MARX ENGELS 2007 p 95 Os homens e as mulheres se constituem como demiurgos e autores de sua própria história enquanto sujeitos coletivos no interior de uma classe Os homens são os únicos produtores de suas representações de suas ideias e assim por diante mas os homens reais ativos tal qual como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar às suas formações mais desenvolvidas A consciência não pode jamais ser outra coisa do que o ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real MAR ENGELS 2007 p 94 Assim os indivíduos manifestam em suas experiências particulares o reflexo daquilo que são o que coincide com a sua produção no sentido que são determinados pelas condições concretas da sociedade e têm seu pensamento determinado por elas O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social política e intelectual Não é a consciência dos homens que determina seu ser é o seu ser que determina a consciência MARX ENGELS 2007 p 95 De certo a categoria classe é elucidativa para o entendimento da formação da consciência dos homens e das mulheres O próprio Marx 2011 no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte analisou a partir da experiência francesa a constituição das classes sociais enquanto resultado do conjunto das determinações sociais de uma totalidade histórica Para isso tomou por base as dificuldades do campesinato francês em se estabelecer enquanto classe na medida em que constituem uma imensa massa cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecer relações multiformes entre si MARX 2011 p 142 nessa égide as famílias camponesas existem sob as mesmas condições econômicas que separam o seu modo de vida os seus interesses e a sua cultura ao modo de vida dos interesses e da cultura das demais classes contrapondose a elas como inimigas formam uma classe MARX 2011 p 143 Do contrário quando os camponeses instituem apenas uma relação local destituída da noção de 28 comunidade organização política e ligação nacional não se constituem uma classe pois são ainda incapazes de fazer valer seus interesses de classe em seu próprio nome e não podem representase têm que ser representados MARX 2011 p 143 Dessa forma o autor alemão defende que as classes sociais se diferenciam por seu modo de vida os seus interesses e sua cultura extrapolando a acepção de que classe se define pela posição em certas relações sociais de produção e diante da propriedade Aqui as classes sociais surgem como concreção da análise de determinado modo de produção Para Lênin 1987 as classes se constituem enquanto grandes grupos de homens que se diferenciam entre si pelo lugar que ocupam em um sistema de produção social historicamente determinado pelas relações em que se encontram com respeito aos meios de produção pelo papel que desempenham na organização social do trabalho e consequentemente pelo modo e proporção em que recebem a parte da riqueza social que dispõem As classes são grupos humanos um dos quais pode apropriarse do trabalho do outro por ocupar postos diferentes em um regime determinado de economia social LÊNIN 1987 p 79 As classes sociais são ontologicamente definidas a partir de determinadas relações sociais de produção e reprodução social entretanto sua constituição não está restrita às relações de propriedade embora esta seja um elemento fundante e determinante Nas palavras de Iasi 2006 p 321 classe não é tornase Os positivistas que insistem na pergunta o que é classe social se desorientam diante do movimento em que classe não é tornase Aquilo que aparece como duas essências diversas e confunde os analistas nada mais são que os momentos do ser da classe em movimento de modo que a classe não é somente a condição comum partilhada pela posição comum no interior de certas relações sociais de produção ou um sujeito histórico numa ação decisiva em que se apresenta como universalidade Entendendo a classe como universalidade histórica não a reconhecemos quando de sua manifestação cotidiana fragmentada subordinada ao capital pulverizada em interesses pessoais e imersa na serialidade Compreendendoa como esta manifestação imediata e fragmentada não a reconhecemos quando irrompe no cenário histórico como sujeito revolucionário em formação IASI 2006 p 321 grifo nosso Ademais é preciso considerar outros elementos para que as classes sejam capazes de representar seus interesses em seu próprio nome quer por meio do parlamento de uma convenção de um coletivo ou um partido Nas reflexões do 18 Brumário os camponeses não podem representarse porque não se constituem enquanto classe tendo por conseguinte que 29 serem representados o que possibilita o aparecimento de um representante denominado por Marx de herói crápula devasso e canalha que se apresenta como uma autoridade governamental com poder ilimitado e incontestável instituído como salvador e guardião da sociedade que os protege das demais classes a partir do resgate de valores da antiga sociedade formando a falange sagrada da ordem propriedade família religião e ordem MARX 2011 p 97 Marx e Engels 2007 reconheciam a existência de outras formas de conflito e antagonismos de classes entretanto o primordial no modo de produção capitalista se estabelece entre burguesia e proletariado Para os autores a relação direta entre proprietários não produtores e não proprietários produtores é fundamental para a constituição do proletariado em classe De todas as classes que hoje em dia se opõem à burguesia só proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria o proletariado pelo contrário é seu produto mais autêntico O trabalho industrial moderno a subjugação do operário ao capital tanto na Inglaterra como na França na América como na Alemanha despoja o proletário de todo caráter nacional Os proletários não podem apoderarse das forças produtivas sociais senão abolindo o modo de apropriação a elas correspondente e por conseguinte todo modo de apropriação existente até hoje Os proletários não têm nada de seu a salvaguardar sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade privada até aqui existentes Todos os movimentos históricos têm sido até hoje movimentos de minorias ou em proveito de minorias O movimento proletário é o movimento autônomo da imensa maioria em proveito da imensa maioria O proletariado a camada mais baixa da sociedade atual não pode erguerse pôrse de pé sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial A luta do proletariado contra a burguesia embora não seja na essência uma luta nacional revestese dessa forma num primeiro momento É natural que o proletariado de cada país deva antes de tudo liquidar a sua própria burguesia MARX ENGELS 2007 p 50 As análises de Marx e Engels consideravam a historicidade das classes sociais e as formas como estas se expressavam em distintas formações sociohistóricas já que as classes se fazem em condições históricas concretas e transitórias constituindose enquanto uma relação social instituída entre os sujeitos através das formas de produção e apropriação do trabalho que a partir da revolução industrial assumiu forma específica trabalho assalariado e alienado Aqui a subsunção do trabalho ao capital se efetiva mediante o desenvolvimento das forças produtivas as inovações tecnológicas e o trabalhador coletivo agora sob um controle mais 30 eficiente que busca permanentemente anular a sua subjetividade e precarizar suas condições de vida tendo em vista a constante diminuição do valor de troca da força de trabalho e a ampliação da extração da maisvalia O caráter relacional entre as classes e a relação entre indivíduo e classe no seu processo de formação é explicitado nos escritos da Ideologia Alemã 2007 Os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm de promover uma luta contra uma outra classe de resto eles mesmos se posicionam uns contra os outros como inimigos na concorrência Por outro lado a classe se autonomiza por sua vez em face dos indivíduos de modo que estes encontram suas condições de vida predestinadas e recebem já pronta da classe a sua posição na vida e com isso seu desenvolvimento pessoal são subsumidos a ela É o mesmo fenômeno que o da subsunção dos indivíduos singulares à divisão do trabalho e ele só pode ser suprimido pela superação da propriedade privada e do próprio trabalho De que modo essa subsunção dos indivíduos à classe transformase ao mesmo tempo numa subsunção a toda forma de representações etc já o indicamos várias vezes Essa subsunção dos indivíduos a determinadas classes não pode ser superada antes que se forme uma classe que já não tenha nenhum interesse particular de classe a impor à classe dominante MARX ENGELS 2007 p 63 Também é preciso analisar as transformações constantes no modo de produção e reprodução capitalista e as suas repercussões na conformação e composição das classes sociais Aqui se coloca a questão da heterogeneidade da classe trabalhadora que não pode mais ser compreendida apenas pelo viés do proletariado fabril do século XIX mas que se amplia e complexifica unificada pela imposição da venda da força de trabalho para a sobrevivência de todos os trabalhadores e trabalhadoras Os processos de crise sociometabólica do capital e de recuperação de seu ciclo produtivo nos séculos XX e XXI modificaram a composição das classes sociais e a morfologia do trabalho ao impor processos de reestruturação produtiva e de ofensiva ao trabalho e ao Estado afetando de forma contundente a materialidade e subjetividade da classe trabalhadora ANTUNES 2007 Para Antunes 2011 as metamorfoses no mundo do trabalho na contemporaneidade efetivaram processos de desproletarização do trabalho industrial fabril expansão do assalariamento no setor de serviços subproletarização com trabalhos parciais terceirizados e subcontratados bem como a expansão do desemprego estrutural em escala internacional Esse contexto aponta a heterogeneidade da classe trabalhadora no capitalismo contemporâneo e a impossibilidade de restringir o conceito de classe ao proletariado industrial tradicional assim como possibilita análises teóricas que propõem noções ampliadas de classe trabalhadora que 31 inclui os trabalhadores produtivos no sentido atribuído por Marx no Capítulo VI do Capital e os trabalhadores improdutivos incorporando a totalidade do trabalho social a totalidade do trabalho coletivo assalariado Como bem apregoa Iasi 2006 a classe tornase de modo que não podemos apreendêla de forma estática fixa imutável sob pena de não estar operando sob a dialética marxiana Uma noção ampliada de classe trabalhadora inclui então todos aqueles e aquelas que vendem sua força de trabalho em troca de salários incorporando além do proletariado industrial dos assalariados do setor de serviços também o proletariado rural que vende sua força de trabalho para o capital Essa noção incorpora o proletariado precarizado o subproletariado moderno part time o novo proletariado dos Mc Donalds os trabalhadores hifenizados os trabalhadores terceirizados e precarizados das empresas liofilizadas os trabalhadores assalariados da chamada economia informal que muitas vezes são indiretamente subordinados ao capital além dos trabalhadores desempregados expulsos do processo produtivo e do mercado de trabalho pela reestruturação do capital e que hipertrofiam o exército industrial de reserva na fase de expansão do desemprego estrutural ANTUNES 2007 p 104 Da mesma forma que as transformações contemporâneas no mundo do trabalho repercutiram em mudanças na composição e conformação das classes sociais em especial das classes trabalhadoras também possibilitaram modificações na organização das entidades classistas e no entendimento do proletariado como portador do verdadeiro caráter revolucionário Na acepção clássica do marxismo nas práticas das lutas concretas como as ocorridas no decurso da Revolução de Fevereiro de 1848 a organização do proletariado em classe e em partido é reflexionada nos seguintes termos O proletariado ao impor a República ao Governo Provisório e através do Governo Provisório a toda a França apareceu imediatamente em primeiro plano como partido independente mas ao mesmo tempo lançou o desafio a toda a França burguesa O que o proletariado conquistava era o terreno para lutar pela sua emancipação revolucionária mas não de modo algum a própria emancipação MARX 2012 p 75 É relevante analisar que o campesinato francês se constituía enquanto classe inserido em um desenvolvimento industrial capitalista deficitário e intencionado em preservar a sua pequena propriedade portanto a relação capital versus trabalho ainda se gestava de forma embrionária muitas vezes corporificando um comportamento mais conservador que 32 propriamente revolucionário Mesmo assim o proletariado francês conseguiu se impor como partido independente da burguesia e do Estado burguês mesmo sem ter força política à altura de suas mobilizações as barricadas levantadas com o propósito de derrubar a monarquia e impor a república social sob domínio do proletariado Na compreensão de Marx e Engels somente o proletariado é portador de interesses universais que se traduzem na emancipação humana Em As lutas de classes na França Marx avalia o processo de luta dos proletários e as condições materiais de sua organização como classe O desenvolvimento do proletariado industrial tem por condição geral o desenvolvimento da burguesia industrial sob cujo domínio adquire ele existência nacional que lhe permite elevar sua revolução à categoria de revolução nacional criando os meios modernos de produção que hão de transformarse em outros tantos meios para a sua emancipação revolucionária Somente o domínio da burguesia industrial extirpa as raízes materiais da sociedade feudal e prepara o único terreno em que é possível uma revolução proletária A luta contra o capital em sua forma moderna desenvolvida a luta contra o capital em sua fase culminante isto é a luta do assalariado industrial contra o burguês industrial constitui na França um fato parcial que depois das jornadas de fevereiro não podia fornecer o conteúdo nacional da revolução tanto mais que a luta contra os métodos secundários da exploração capitalista a luta do camponês contra a usura nas hipotecas do pequeno burguês contra o grande comerciante o banqueiro e o industrial numa palavra contra a bancarrota permanecia dissimulada no levante geral contra a aristocracia financeira em geral Nada mais explicável portanto que a tentativa do proletariado de Paris para trazer à tona seus interesses ao lado dos da burguesia ao invés de apresentálos como o interesse revolucionário de toda a sociedade e que tenha arriado a bandeira vermelha diante da bandeira tricolor Os operários franceses não podiam dar um passo à frente não podiam sequer tocar num fio de cabelo da ordem burguesa enquanto a marcha da revolução não sublevasse contra esta ordem contra o domínio do capital a massa da nação camponeses e pequenos burgueses que se interpunha entre o proletariado e a burguesia enquanto não a obrigasse a unirse aos proletários com a vanguarda sua MARX 2012 pp 119120 As lutas encampadas na França de 1848 entre capital e trabalho eram secundárias e dessa maneira o proletariado não tinha condições históricas concretas de apresentar sua jornada em nome de toda a sociedade francesa Os remates da revolução de 1848 se materializaram com a derrota do proletariado que não se tornou a vanguarda de seus supostos aliados o campesinato e a pequena burguesia De outra parte o campesinato se transformou na base social e política do bonapartismo já que optou por conservar sua pequena propriedade 33 No Manifesto do Partido Comunista Marx e Engels 2011b vão reafirmar a necessidade do proletariado de se constituir enquanto classe que representa o interesse geral para a derrubada da burguesa e a conquista do poder político pelos trabalhadores o movimento proletário moderno é o movimento autônomo da imensa maioria em proveito da imensa maioria MARX ENGELS 1998 p 50 Contudo a destituição dos meios de produção da burguesia e o fracionamento de seu poder político não estabelece garantias automáticas ao proletariado de se tornar classe para si mesmo Pode ser apenas para o capital Mesmo tal possibilidade tendo sua potência política afinal é o primeiro elemento de identificação da condição de exploradodominadoexpropriado ela não é suficiente Por si só a percepção de pertencimento a uma classe não leva automaticamente a se ter consciência sobre ela nem à tomada do poder burguês podendo inclusive haver uma identificação com padrões de vida e consumo valores e interesses das outras classes Como apregoava Marx e Engels 2007 p 67 As ideias da classe dominante são em todas as épocas as ideias dominantes ou seja a classe que é o poder material dominante da sociedade é ao mesmo tempo o seu poder espiritual dominante As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes portanto das relações que precisamente tornam dominante uma classe portanto as ideias de seu domínio Essa assertiva de Marx e Engels é central para apreender que nas lutas entre as classes o proletariado pode reproduzir valores e projetos que representam os interesses das classes antagônicas ou viceversa nesse caso o proletariado enquanto verdadeiro portador do caráter revolucionário é uma possibilidade histórica objetiva e em movimento dialético Todavia as transformações no mundo do trabalho nos séculos XX e XXI foram decisivas para fragmentar heterogeneizar e complexificar a classe trabalhadora que nas palavras de Antunes 2007 p 191 criaram uma classe trabalhadora ainda mais diferenciada entre qualificadosdesqualificados mercado formalinformal homensmulheres jovensvelhos estáveisprecários imigrantesnacionais etc e que tal contexto dificultou a constituição de pertencimento de classe e contestou a ideia de um proletariado tradicional com a tarefa revolucionária de emancipar o conjunto dos trabalhadores da exploração capitalista inclusive porque operacionalizouse processos intensos de enxugamento do chão da fábrica e diminuição do proletariado fabril associados ao aprofundamento do desemprego estrutural e acirramento das desigualdades 34 Ademais a constituição do proletariado em classe é um fenômeno processual também pode ser descontínuo já que as classes podem vir a se desconstituir nos processos de enfrentamento A destituição do proletariado enquanto classe não o inviabiliza materialmente pois embora destruído política e ideologicamente ele permanece como classe para o capital isto é classe em si mas não uma classe para si de forma que tal processo se refere fundamentalmente as suas formas organizativas e de luta como a presença de sindicatos fortes e partidos políticos revolucionários As organizações de classe também sofreram os rebatimentos da reestruturação produtiva pós1970 a partir de uma ofensiva ideológica que operou no sentido de pulverizar fragmentar e descredibilizar partidos de esquerda e sindicatos ao ponto de eles não se apresentarem aos trabalhadores e trabalhadoras como seus legítimos representantes e interlocutores Nas jornadas de julho de 2016 no Brasil podese perceber de forma explícita essa ofensiva ideológica a partir da ideia de não se sentir representado o partido não me representa o sindicato não me representa o meu partido é o Brasil Para Iasi 2006 o movimento de entificação da classe distinguese em classe em si e para si A classe em si seria aquela que em sua finitude definese como ser determinado por suas relações com as outras coisas nesse caso na relação com o capital IASI 2006 p 321 Aqui o ser da classe é autorreferenciado por sua posição frente ao capital como vendedor ou comprador de força de trabalho De outra parte a classe para si é aquela que além de ser uma classe do capital pode se reconhecer como uma classe do capital IASI 2006 p 322 Para Marx e Engels 2011 ao se contrapor conscientemente à burguesia em defesa de seus interesses de classe o proletariado que já era uma classe em si se apresenta forçosamente como classe A oposição à burguesia nem sempre ocorre nestes termos ou seja como classe para si Mas quando acontece aumentam as possibilidades históricas de ele constituir uma revolução social Se tiver força política e ideológica suficiente para imprimir uma derrota à burguesia pode então tornarse classe revolucionária em direção à tomada do Estado burguês Disso deduzimos três níveis de classe que estão imbricados em um movimento dialético i Classe em si quando se opõe espontaneamente ao capital ii Classe para si quando se opõe conscientemente ao capital e iii Classe revolucionária quando além de se opor organizadamente ao capital também se opõe a sua expressão jurídicopolítica o Estado burguês e isto ocorre nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva MARX ENGELS 1998 p 49 35 Na perspectiva do proletariado revolucionário podese levantar outra questão a luta de classes não é uniforme estável e nem linear Ela se apresenta em condições concretas historicamente dialéticas e em diversos níveis de desenvolvimento político nos quais o seu grau máximo é quando o proletariado tem possibilidade de impor como classe dominante Em termos menos abstratos na revolução de 1848 se o proletariado tentou impor a república social a burguesia impôs a república burguesa e derrotou o proletariado O fato de terse tornado classe revolucionária em fevereiro não lhe impediu o retrocesso em junho principalmente naquelas condições históricas Os operários não tinham opção morrer de fome ou iniciar a luta Responderam a 22 de junho de 1848 com aquela formidável insurreição em que travou a primeira grande batalha entre as duas classes em que se divide a sociedade moderna Foi uma luta pela conservação ou o aniquilamento da ordem burguesa Descerrouse o véu que envolvia a República É sabido que os operários com valentia e engenho incomparáveis sem chefes sem plano comum sem meios desprovidos de armas na sua maioria mantiveram em xeque durante cinco dias o exército a Guarda Móvel a Guarda Nacional de Paris e a que veio em tropel das províncias É sabido que a burguesia vingou se com brutalidade inaudita do medo brutal por que passara exterminando mais de três mil prisioneiros MARX 2011 p 129 O movimento dialético de fusão de classe em si e para si é um processo que se materializa sob a mediação de determinadas condições econômicas políticas sociais e ideológicas submetido ao fenômeno de reificação que incide no conjunto das relações sociais o ser da classe não se define apenas por sua posição no interior desta materialidadedestino que nada mais é que a totalidade estranhada das relações do capital porém nada mais presente e cotidianamente reproduzido que tal destino O ser da classe não se resume a este momento pelo caráter contraditório que implica uma vez que a máquina capitalista simultaneamente cria e nega o operário como operário a classe como classe Por este motivo aquilo que consiste a identidade e o interesse do ser da classe trabalhadora não pode estar nos limites do presente que o cria e nega mas no futuro no projeto de negar aquilo que o nega Neste sentido a força totalizadora da fusão de classe está ao mesmo tempo no presente da negação e no futuro como projeto de negação da negação está simultaneamente na classe em si como classe do capital e na classe para si que reconhecendo o papel que ocupa nas relações do capital coloca como seu projeto a superação das relações do capital constituindose em um seremeparasi numa classe que projeta sobrepujar se a si mesma em uma sociedade sem classes IASI 2006 p 325 36 É sabido que ao produzir sua existência os homens e as mulheres tornam a existência humana em si mesma social Existência essa determinada pela realidade material A consciência assim só pode ser verdadeiramente entendida se tomada como um processo que inscreve formas de consciência que se desenvolvem dialeticamente constituídas por contradições superações e refluxos Assim os homens e mulheres fazem a sua própria história em circunstâncias dadas encontradas e transmitidas pelo passado MARX 2008 p 205 Nesse ponto de vista a consciência social é herdada das relações sociais que se fundaram a partir de valores juízos concepções de mundo e experiências em comum partilhadas num dado momento histórico Mas é mais do que isto é a expressão ideal de uma substância que corresponde à essência das próprias relações que constituem uma sociedade dada e neste sentido é uma singularidade ou seja uma singular visão do mundo própria de uma forma singular de vida IASI 2006 p 520 Nesse sentido na construção da consciência social as mulheres e os homens se apropriam e corporificam das objetivaçõessubjetivações concretas existentes em sua sociedade e as que chegaram a elaseles pelo intercâmbio com o passado Posto isso cabe dizer que as raízes das relações sociais encontramse nas condições materiais de existência que por um lado guardam as determinações das ideologias dominantes e por outro abrem espaço para a afirmação de ideais revolucionários MARX 2008 Na produção social da própria existência os homens entram em relações determinadas necessárias independentes de sua vontade essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social política e intelectual Não é a consciência dos homens que determina o seu ser ao contrário é o seu ser social que determina a sua consciência MARX 2008 p 47 Ademais para Marx as relações materiais e todas as formas e produtos da consciência são transformadas pela subversão prática das relações sociais reais isto é por processos revolucionários que em certa medida têm na tomada de consciência um elemento fundamental Assim sendo a consciência não pode ser analisada apenas como algo do campo subjetivo ou como uma introjeção do mundo objetivo mas um movimento initerrupto e social de sínteses 37 das relações estabelecidas entre os indivíduos e a sociedade A consciência é pois logo desde o começo um produto social e continuará a sêlo enquanto existirem homens e mulheres MARX ENGELS 2009 p 44 De acordo com Iasi 2002 p 52 a consciência em sua forma mais simples singular seria a capacidade humana de representar a si mesma e o mundo por imagens e signos mentais e portanto em sua aparência a consciência tem sido sempre associada ao universo subjetivo Entretanto analisando mais profundamente a consciência implica na concepção marxiana e de certa forma também para Hegel uma unidade entre os aspectos subjetivos ou internos e objetivos ou externos Entretanto é sabido que no processo de autorrepresentação de si mesmo e do mundo as mulheres e os homens em suas relações serão mediados por instituições sociais que poderão ser a base sobre a qual instituem suas concepções de mundo Tais instituições como família igrejas escola movimentos sociais partidos políticos mídia e meios de comunicação agências de cultura redes sociais entre outras incidirão de formas distintas em cada indivíduo ou grupo social inclusive alargando ou diminuindo sua influência a depender dos contextos históricos ou trajetórias pessoais Portanto ainda que a consciência seja acionada de forma individual resulta de múltiplas interações entre os sujeitos e a sociedade e em certa medida tais interações são impactadas pelo modo de produção capitalista e pela reprodução das ideologias dominantes A ideologia a partir da concepção marxista e apreendida como distorção de conhecimento e inseparável do conceito de exploraçãodominação relação de dominação na qual a classe dominante expressa sua superioridade em um conjunto de ideias IASI 2010 p 81 Para Marx e Engels 2007 a ideologia está relacionada à divisão da sociedade em classes e à forma particular que a classe dominante elabora e difunde suas visões de mundo buscando tornálas universais por isso na ideologia as ideias estão sempre fora do lugar tomadas como determinantes do processo quando na verdade são determinadas por ele CHAUÍ 2006 p 15 De acordo com Konder 2002 p 10 esse processo de ocultamento e dissimulação da realidade não se reduziria a uma racionalização cínica grosseira tosca bisonha ou canhestra dos interesses de uma determinada classe ou de determinado grupo Muitas vezes ela falseia as proporções na visão do conjunto ou deforma o sentido global do movimento de uma totalidade no entanto respeita a riqueza dos fenômenos que aparecem nos pormenores KONDER 2002 p 43 38 Já na perspectiva de Lukács 2013 a ideologia é a elaboração ideal da realidade que responde às necessidades sociais dos sujeitos e nesse sentido pode servir para tornar a práxis humana consciente e capaz de agir LUKÁCS 2013 p 465 Essa acepção positiva do conceito de ideologia também é utilizada por Gramsci e Lenin que demarcam a possibilidade de constituir uma ideologia historicamente orgânica às classes revolucionárias distanciando se da alienação e confrontando as ideologias arbitrárias uma ideologia dos subalternos capaz de formular uma contrahegemonia os valores sociais as religiões as ideologias as concepções de mundo na medida em que são fenômenos de massa em que se tornam momentos ideais da ação de sujeitos coletivos são uma verdade socialmente objetiva dotados da mesma espessura ontológica de fenômenos como o estado e a maisvalia COUTINHO 2008 p 105 Ademais no processo de divisão da sociedade em classes sociais a composição da consciência por meio de ideias representações e valores de um lado representa as relações sociais a que se submetem e de outro pressupõe inversão velamento da realidade naturalização e justificação das relações de dominação Nas palavras de Iasi 2010 p 85 a consciência pode se tornar ideologia e essa ideologia para se transformar em dominação necessita da alienação como base fundamental A alienação não é o mesmo que ideologia e dela se diferencia substancialmente A alienação que se expressa na primeira forma de consciência é subjetiva profundamente enraizada como carga efetiva baseada em modelos de identificações de fundo psíquico A ideologia agirá sobre esta base e servirá de suas características fundamentais para exercer uma dominação que agindo de fora para dentro encontra nos indivíduos um suporte para estabelecerse subjetivamente IASI 2010 p 35 O mundo das ideias passa a explicar o real no sentido de elaborar um imaginário em que as ideias e concepções de mundo particulares sejam apresentadas como sendo universais De certo na ideologia as relações materiais de exploração e dominação são expostas como ideias sendo fundadas na divisão social do trabalho na sociedade de classes quando o ser social anteriormente um ser autocriativo e autoprodutivo ser da práxis e produto da criação da sua autoatividade fragmenta sua capacidade de apreensão da totalidade de seus processos de trabalho 39 A constituição de produtos obras e valores começa a aparecer de forma invertida pois a criatura passa a dominar o criador em processos complexos de estranhamento entre o trabalho material e espiritual manual e intelectual A alienação dessa maneira penetra no conjunto das relações sociais manifestandose primariamente nas relações de trabalho e produzindo a alienação dos homens e mulheres em relação à natureza a si mesmosmesmas e a sua espécie MARX 2009 MESZAROS 2014 Dessa maneira o trabalho enquanto objetivação primária e ineliminável do ser social que possibilita a constituição de novas objetivações e funda o ser social passa a ser um meio de alienação e não de autorrealização e exercício da liberdade Transformase assim em uma atividade obrigatória para a garantia da sobrevivência por intermédio da venda de sua da força de trabalho na produção de riquezas que lhes serão expropriadas Essa exteriorização do trabalhador em relação a um objeto que não lhe pertence e que parece existir independente do seu trabalho provoca nos trabalhadorestrabalhadoras a ideia de autosacrifício de mortificação a atividade do trabalhador não é sua autoatividade Ela pertence a outro é a perda de si mesmo MARX 2009 p 82 A tomada de consciência para a superação da alienação e da ideologia passa necessariamente pela ação política concreta das classes trabalhadoras na luta pelo fim da divisão social do trabalho e da propriedade privada dos meios de produção fundamentais Entretanto as objetivações humanas mediadas pela alienação e ideologia deixam de promover a humanização dos seres humanos e passam a estimular regressões do ser social a partir da constituição de uma cultura alienada Para Marx 2009 p 47 quanto mais os homens e as mulheres se enriquecem de objetivações mais complexa se torna a relação entre os homens tomados singularmente e a genericidade humana de modo que a riqueza subjetiva de cada homem resulta da riqueza de objetivações que ele pode se apropriar Do lado inverso os sujeitos individuais são socializados em processos de trabalho que empobrecem suas capacidades humanogenéricas dimensionandoos à condição de coisas De certo sem condições iguais e emancipadas para a construção da individualidade a formação da consciência terá como sustentação as distorções ideológicas acerca da apreensão da realidade Por isso a alienação será apreendida como primeira forma de consciência e caracterizada por 40 1 A vivência de relações que já estavam preestabelecidas como realidade dada 2 A percepção da parte pelo todo em que o que é vivido particularmente como uma realidade pontual tornase realidade 3 Por esse mecanismo as relações vividas perdem o seu caráter histórico e cultural para se tornarem naturais levando a percepção de que sempre foi assim e sempre será 4 A satisfação das necessidades seja da sobrevivência ou do desejo deve respeitar a forma e a ocasião que não são definidas por quem sente mas pelo outro que tem o poder de determinar o quando e como 5 Essas relações não permanecem externas mas se interiorizam como normas valores e padrões de comportamento formando com o superego um componente que o indivíduo vê como dele como autocobrança e não como uma exigência externa 6 Na luta entre a satisfação do desejo e a sobrevivência o indivíduo tende a garantir a sobrevivência reprimindo ou deslocando o desejo 7 Assim o indivíduo submetese às relações dadas e interioriza os valores como seus zelando por sua aplicação desenvolvimento e reprodução IASI 2008 p 18 Essa consciência desenvolvida em um nível imediato e individual é processual e pode ser superada de forma parcial ou total a partir das múltiplas relações que os indivíduos podem desenvolver suas experiências singulares e as distintas formas de interiorização Essa primeira forma de consciência é espaço privilegiado para a reprodução e naturalização das ideologias dominantes mas a partir de uma crise ideológica que consiste na contraposição entre as relações interiorizadas como ideologia e a forma concreta como se efetivam os indivíduos podem expressar suas revoltas e constituir passagens para novos momentos do processo de consciência A segunda forma de consciência será a consciência em si ou consciência de reivindicação que expressa as primeiras contradições entre os valores interiorizados e a realidade vivida a partir da mediação do sujeito coletivo no enfrentamento de relações imediatas Aqui se constitui um reconhecimento no outro das mesmas injustiças que até então eram vivenciadas individualmente e essa identidade na revolta pode criar condições materiais de ações concretas de enfrentamento Essas formas de consciência e de luta podem isolar os aspectos das manifestações dos demais fundamentos do modo de produção e reprodução da vida social e apesar da negação de uma parte da ideologia acabarem não alterando as relações anteriormente interiorizadas A consciência ainda reproduz o mecanismo pelo qual a satisfação do desejo cabe ao outro Agora ela manifesta o inconformismo e não a submissão reivindica a solução de um problema ou injustiça mas quem reivindica ainda 41 reivindica de alguém temos que nos submeter às formas e condições estabelecidas por outros para manifestar esse inconformismo Esses não são apenas limites de uma certa forma de consciência mas também limites dos instrumentos políticos que correspondem a essa consciência as greves e os sindicatos IASI 2007 p 31 Embora as reivindicações sejam limitadas às demandas imediatas a consciência em si permite aos indivíduos o reconhecimento de si e da ação coletiva o que em alguma medida pode possibilitar o reconhecimento para além de um grupo particular da sua existência enquanto classe e dos seus antagonistas Portanto pode acionar espaços para a tomada da consciência revolucionária da consciência para si enquanto sujeitos enquanto classe Nesse sentido uma consciência revolucionária está imbricada à capacidade dos indivíduos e das classes de apreender a causalidade da sociedade e encontrar seu movimento próprio MARX 2007 Portanto na passagem da classe em si para a classe para si é que identificamos o germe da consciência revolucionária Há o reconhecimento da exploração do trabalhador assalariado e do proletariado enquanto classe bem como da necessidade de superação das classes sociais a partir da eliminação do modo de produção capitalista e a construção de um projeto societário para a efetivação da emancipação humana compreendidas como tarefa revolucionária do sujeito coletivo e histórico caracterizado pela tradição marxista como a classe trabalhadora e centralmente o proletariado Essa consciência revolucionária não se conforma de maneira estanque ou permanente pelo contrário os homens e mulheres estão sempre passíveis a fluxos e refluxos dado o caráter processual e de constante movimento dos níveis de consciência Assim como a classe a consciência tornase Para Lukács 1979 a consciência de classe do proletariado consiste na compreensão da totalidade históricosocial já que o proletariado é ao mesmo tempo sujeito e objeto de seu próprio conhecimento A essa possibilidade objetiva de conhecimento da totalidade e autoconhecimento corresponde a consciência de classe como categoria adjudicada FREDERICO 1979 p 26 Cabe dizer que a consciência de classe não corresponde à consciência psicológica e individualizada dos trabalhadores e trabalhadoras mas à consciência das classes situadas na história determinadas pelas condições materiais e de antagonismo entre as classes e portanto uma expressão racionalizada dos interesses e lutas históricas do proletariado em constante movimento Por isso a consciência de classe também pode ser submetida à alienação seja de forma provisória ou em momentos históricos de refluxo das lutas 42 dos trabalhadores e dos direitos sociais assim como da agudização das expressões da chamada questão social Ainda dentro do espectro do marxismo mas confrontando com as perspectivas que superdimensionam as estruturas na determinação da história das sociedades a agência dos homens e mulheres reais como sujeitos da história temos a contribuição de Thompson 1980 O autor considera as determinações objetivas da realidade concreta e o papel de sujeitos ativos dos coletivos humanos as classes sociais especialmente gerando uma atualização pertinente da perspectiva marxiana da determinação da consciência pelo ser social A consciência de classe a partir do conceito de experiência é entendida enquanto a reflexão dos homens e mulheres sobre os acontecimentos de suas vidas e o seu mundo nesse sentido agencia a resposta mental e emocional seja de um indivíduo ou de um grupo social a muitos acontecimentos inter relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento THOMPSON 1981 p 15 Desta maneira os indivíduos se constituem enquanto sujeitos ativos e não autônomos que realizam ações contínuas vinculadas às relações de produção em que os homens se encontram em determinado tempo e espaço embora essas relações não determinem as ações do sujeito e a sua consciência É a partir da experiência construída na e pelas relações sociais que as identidades se formam mas não para caírem em algo essencialista mas para questionar as relações sociais que são constitutivas dessa própria experiência Com o conceito de experiência o autor indica homens e mulheres também retornam como sujeitos dentro deste termo não como sujeitos autônomos indivíduos livres mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos e em seguida tratam essa experiência em sua consciência e sua cultura das mais complexas maneiras e em seguida muitas vezes mas nem sempre através das estruturas de classe resultantes agem por sua vez sobre sua situação determinada THOMPSON 1980 p 182 O modo de produção capitalista se impõe de forma determinante na experiência dos sujeitos e isso é determinante no sentido de que exerce pressões sobre a consciência social existente propõe novas questões e proporciona grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais elaborados THOMPSON 1980 p 16 As transformações ocorridas no ser social resultam em uma experiência que processará uma reelaboração na consciência social seja nas esferas individuais eou coletivas vivenciada em 43 termos de classes sociais através das ideias representações sentimentos normas sociais valores arte ou convicções místicoreligiosas de modo que a experiência é conformada no movimento de mediação entre as pressões determinantes das relações de classe e os processos sociohistóricos sendo um fenômeno econômico e cultural As classes sociais são compreendidas por Thompson 1987 p 19 como formações que surgem do cruzamento da determinação e da autoatividade Portanto a constituição das classes é um processo articulado à ação humana e aos condicionamentos estruturais de um determinado modo de produção homens e mulheres em relações determinadas identificam seus interesses antagônicos e passam a lutar a pensar e valorar em termos de classes assim o processo de formação de classe é um processo de autoconfecção embora sob condições que são dadas A classe acontece quando alguns homens como resultado de suas experiências comuns herdadas ou partilhadas sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si e contra outros homens cujos interesses diferem e geralmente se opõem dos seus A experiência de classe é determinada em grande medida pelas relações de produção em que os homens nasceram ou entraram involuntariamente THOMPSON 1987 p 10 É a partir da categoria experiência que Thompson 1987 apreende as classes sociais e a consciência de classe enquanto instâncias inseparáveis e que se desenvolvem em processos inacabados no interior dos conflitos entre as classes Em sua concepção não são as relações de produção que determinam a unidade da classe mesmo que elas sejam relevantes neste processo a coesão da classe não é garantida pela contradição entre burgueses versus proletários Efetivamente não são os lugares ocupados pelos sujeitos dentro das relações de produção que garantem a constituição da classe e da consciência de classe pois é no processo dialético do fazerse da classe que os homens agenciam a consciência de que compartilham cultura e experiências comuns que os distanciam de outras classes Para Saffioti 1999 o conceito de experiência é muito relevante para a epistemologia feminista pois situa que na experiência e na agência mulheres e homens vivenciam as relações sociais de forma distinta mesmo quando são da mesma classe Ainda que reconhecendo a parcialidade de Thompson 1981 lançase mão aqui de seu conceito de experiência a experiência é um termo médio necessário entre o ser social e a consciência social é a experiência muitas vezes experiência de classe que dá cor à cultura aos valores e ao pensamento é por meio da experiência que o modo de produção exerce uma pressão determinante sobre outras atividades e é pela prática que a produção é mantida Se o olhar de Thompson tivesse sido sensibilizado pelas relações de gênero pelo menos quando analisou concretamente a formação da classe 44 operária inglesa em seu parêntese caberia a experiência de gênero já que homens e mulheres vivenciam diferencialmente inclusive quando pertencem à mesma classe social os fatos do cotidiano SAFFIOTI 1992 p 191 Retomado o leito do texto Thompson 1987 não apreende consciência no sentido de reconhecimento da condição de exploração enquanto trabalhador pelos proprietários dos meios de produção mas como reconhecimento das tradições símbolos linguagem e valores morais experienciados de forma comum que sofrem variações em cada tempo e lugar e de acordo com a posição de classe que os sujeitos ocupam Em outras palavras a consciência de classe seria a forma como as experiências de classe são tratadas em termos culturais encarnadas em tradições sistemas de valores ideias e formas institucionais THOMPSON 1987 p 10 O autor ainda alude que a consciência de classe desponta a partir das experiências semelhantes que são vivenciadas em comum e desencadeiam reações sociais em torno de interesses comuns que produzem ações coletivas quando os homens e mulheres estão adequadamente conscientes de sua posição e interesses reais Em sua concepção uma classe define a si mesma em termos históricos não porque foi feita por pessoas com relações comuns com os meios de produção e uma experiência de vida comum mas porque essas pessoas tornamse conscientes dos seus interesses comuns e desenvolvem formas apropriadas de organização e ações comuns THOMPSON 1987 p 10 Nas formulações teóricas de Thompson 1987 as classes sociais só são passíveis de análise através da observação empírica dos indivíduos e suas ações em sua existência real inserida em um processo dialético histórico e contínuo de fazerse em que a consciência de classe sofre pressões determinantes das relações de produção mas que se funda na consciência da cultura e das experiências em comum As ações constituídas pelos sujeitos singulares e coletivos enquanto sujeitos históricos se desenrolam no fazerse cotidiano das classes Na contramão da concepção de Thompson acerca da consciência de classe situamos a obra de Lênin que pontua a formação da consciência de classe dos operários como pressuposto para a materialização do projeto de revolução socialista Em sua concepção a consciência de classe pressupõe o reconhecimento da condição de trabalhador explorado dos interesses em comum entre os trabalhadores das classes antagônicas e a ação política organizada sobre o Estado Para Lenin o estado se constitui a partir de seus aparelhos coercitivos e repressivos 45 que deve ser derrubado pelos proletários por meio de uma revolução violenta Nessa égide os proletários precisam ser convencidos da necessidade de assumir todo o poder institucional estatal e se desvencilhar da influência dos democratas burgueses sobre os proletários COUTINHO 2008 p 32 e para isso a consciência de classe é um elemento fundante A consciência de classe dos operários é a compreensão de que o único meio de melhorar a sua situação e de conseguir a sua emancipação consiste na luta contra a classe dos capitalistas e industriais que foram criados pelas grandes fábricas Além disso a consciência de classe dos operários implica na compreensão de que os interesses de todos os operários de um país são idênticos solidários que todos eles formam uma classe diferente de todas as demais classes da sociedade Por último a consciência de classe dos operários significa que eles compreendam que para atingir seus objetivos necessitam conquistar influência nos assuntos políticos como a conquistaram e continuam tratando de conquistar os latifundiários e os capitalistas LENIN 1987 p 41 Segundo Lenin 2007 o processo de constituição da consciência de classe não emergia do imediatismo das lutas que os trabalhadores encampavam nas fábricas com os patrões mas das lutas mais amplas com vistas à tomada do poder do Estado pelo proletariado que daria condições para as massas serem conduzidas à consciência de amanhã uma mediação entre luta econômica e luta política de maneira que a formação da consciência de classe seria mediada por uma força externa na condução das massas corporificada pelo partido revolucionário com o papel de promover campanhas de denúncias políticas educação para a atividade revolucionária e agitação políticoideológica das massas LENIN 2010 p 135 O autor alude que essas denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida são uma condição indispensável e fundamental para educar a atividade revolucionária das massas LENIN 2010 p 136 e transformar o partido na vanguarda das forças revolucionárias Isto é no sujeito político da revolução que constrói a organização política através da mediação entre luta cotidiana e política Aqui pontuo o debate entre Lenin e Clara Zetkin 1979 sobre como a participação política das mulheres no movimento feminino seria parte constitutiva e decisiva para o movimento das massas no sentido da constituição do partido enquanto sujeito político da revolução Para Lenin o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres era crucial para a formação da consciência de classe das mulheres e sua entrada nas fileiras da luta contra o capitalismo na materialização da emancipação humana De acordo com Zetkin 1979 p 124 Escusado será dizer que ele Lenin considerava a plena igualdade social da mulher como 46 princípio incontestável do comunismo sendo que tal liberdade da mulher era entendida pelos dois a partir de sua inserção na esfera do trabalho produtivo Fazer a mulher participar do trabalho produtivo social libertandoa da escravidão doméstica libertandoa do jugo bruto e humilhante eterno e exclusivo da cozinha e do quarto dos filhos eis a tarefa principal Esta luta será longa Exige uma transformação radical da técnica e dos costumes Mas levará finalmente à vitória completa do comunismo ZETKIN 1979 p 105 Nessa égide compreendese que o reconhecimento da igualdade e da liberdade das mulheres é crucial para a existência do comunismo e da melhoria das condições de vida das mulheres inclusive no interior da democracia capitalista bem como que o capitalismo é um limite à emancipação das mulheres As mulheres operárias estão totalmente convencidas de que a questão da emancipação das mulheres não é uma questão isolada Sabem claramente que esta questão na sociedade atual não pode ser resolvida sem uma transformação básica da sociedade A emancipação das mulheres assim como de toda a humanidade só ocorrerá no marco da emancipação do trabalho do capital Só em uma sociedade socialista as mulheres assim como os trabalhadores alcançarão os seus plenos direitos ZETKIN 1979 apud FORNER 1984 pp 6450 Também analisase a necessidade do movimento feminino se articular dentro do partido operário no sentido de negar questões que sejam secundárias à luta contra o capitalismo Zetkin 1979 apreende a libertação da mulher como uma das fases da conquista do poder político pelo proletariado Por essa razão homens e mulheres devem combater juntos o inimigo comum o capitalismo ALEMBERT 1986 p 48 Para Alambert 1986 a Segunda Internacional avançou quando dimensionou como objetivo a questão da igualdade entre os sexos e a necessidade de defesa da condição de vida e trabalho da operária todavia tal preocupação não foi seguida de ações concretas a exemplo da luta pelo sufrágio universal que em muitos espaços foi reivindicado apenas para os homens assim como a secundarização das pautas das mulheres recorrentemente entendidas como alcançáveis quando a luta central foi efetivada a saber o fim do capitalismo e a emergência de uma sociedade comunista Na concepção de Clara e Lenin o movimento feminino comunista é uma atividade organizada de massas sob a direção dos comunistas ZETKIN 1979 p 127 É preciso frisar as condições sociohistóricas em que as conversas entre Zetkin e Lenin foram travadas no início da revolução bolchevique emersão da II Internacional Comunista 47 disputas ideológicas acirradas no interior do Partido Comunista e consolidação do Estado operário Nesse contexto as mulheres passaram a ser reconhecidas como revolucionárias ao passo que Zetkin pautava a necessidade de pensálas para além de operárias da revolução Em sua concepção as mulheres tinham que ser pensadas e mobilizadas também a partir do debate do privado da vida doméstica do pessoal dentro do político de forma que o grande debate de Zetkin com Lenin dentro da construção e consolidação de um partido revolucionário era tensionar a forma de reprodução da vida doméstica do casamento da violência da sexualidade debate que ela fazia nas portas das fábricas e nos sovietes sendo duramente criticado por Lenin que identificava um problema para a luta de classes já que podia fazer com que as mulheres secundarizassem sua participação nos movimentos da revolução para se debruçarem em temas supostamente ligados à moral burguesa Em contraposição Zetkin sustentava que era imprescindível para o fortalecimento da revolução o reconhecimento da liderança e força política das mulheres no interior da revolução sua força econômica na construção do Estado e o tensionamento sobre a reprodução social e o privado para não reproduzir na experiência socialista as violências e interdições às mulheres Enfatizava portanto a impossibilidade de ruptura com a burguesia sem mudar a perspectiva de família sem acabar a violência contra as mulheres e a desigualdade nas condições de trabalho sendo um marco para o feminismo no interior do marxismo A grande questão era a pauta que as mulheres traziam para o movimento operário revolucionário que precisava ser observado na construção do partido para a sociedade se constituir de forma igualitária e com novos paradigmas na política de esquerda Retomando o leito do texto para Lenin o partido como sujeito político realiza movimentos dialéticos de se contrapor à espontaneidade das massas ao mesmo tempo em que considera tal elemento como parte constitutiva da consciência de classe que se efetiva no enfrentamento ao poder estatal burguês a partir de um trabalho sistemático de ação políticoeducativa É preciso demarcar que a força externa que conduz o proletário à condição de sujeito da revolução não se trata dos intelectuais de partido mas está fora da relação imediata entre operário e patrão a consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior isto é de fora da luta econômica de fora da esfera das relações entre operários e patrões A única esfera de onde se poderá extrair esses conhecimentos é a das relações de todas as classes e camadas com o Estado e o governo na esfera das relações de todas as classes entre si LENIN 2010 p 145 48 Para Coutinho 2008 a condução do sujeito para a consciência do amanhã dáse via partido enquanto direção de massa para a quebra do poder estatal a partir da aceitação pelas massas operárias e camponesas graças à ação educadora do partido de vanguarda da necessidade de superar a dualidade de poderes por meio de uma revolução violenta COUTINHO 2008 p 33 A noção de vanguarda sintetizada por Lenin apregoa que para chegar a ser aos olhos do público uma força política fazse necessário trabalhar muito e com obstinação para elevar o nosso nível de consciência o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia para tanto não basta colar o rótulo de vanguarda numa teoria e numa prática de retaguarda Essa ampla e abrangente agitação política será realizada por um partido que articula num todo indissolúvel a ofensiva em nome de todo o povo contra o governo a educação revolucionária do proletariado salvaguardando ao mesmo tempo a sua independência política a direção da luta econômica da classe operária e a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores conflitos que fazem levantar novas camadas do proletariado atraindoas incessantemente para o nosso campo LENIN 2010 p 157 Cabe dizer que a concepção de Lenin acerca do partido como vanguarda da luta revolucionária agrega a ideia de que a classe operária se constitui enquanto protagonista das lutas de classes mas que a consciência de classe só se forma a partir da ação do partido na formação de quadros políticos para a educação das massas e na participação de tais quadros nas lutas objetivas do proletariado transformandose em dirigentes revolucionários já que os trabalhadores não reúnem em si espontaneamente as condições para superar a consciência de classe determinada pelas relações capitalistas embora defenda que a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores LENIN 2010 p 98 Posto isto algumas questões se tornam importantes para o autor a questão da organização estratégia e programa do partido assim como a formulação de uma teoria de vanguarda só um partido orientado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda LENIN 2010 p 82 no sentido de ter condições concretas de fazer de seu projeto político o horizonte do conjunto dos trabalhadores Aqui a concepção de partido não é mas vem a ser no próprio processo revolucionário para o qual deve estar preparado para dirigir LUKÁCS 2012 p 52 e para isso deve ter em sua composição revolucionários profissionais que possam mediar as múltiplas particularidades das classes operárias 49 não pode haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes que assegure a continuidade que quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada à luta massa que constitui a base do movimento e nele participa mais presente será a necessidade de tal organização e mais sólida ela deverá ser LENIN 2010 p 195 A formação do sujeito está portanto articulada a uma organização estável de revolucionários profissionais capazes de unificar o partido na condução e ampliação das massas militantes Tais postulações de Lenin foram contestadas por Rosa Luxemburgo que dimensionava a vanguarda partidária como portadora de um papel secundário frente às massas Para a autora o partido é um elemento importante que se conforma no interior da luta de classes mas a luta de classes independe da existência do partido que através de sua direção política na organização esclarecimento e luta pode possibilitar a tomada do poder político estatal e a superação do modo de produção capitalista Portanto o partido é parte do processo histórico social tanto quanto as classes sociais e se transmuta com ele concretizandose enquanto partidoprocesso capaz de universalizar a luta da classe operária nas esferas econômica política e teórica LUXEMBURGO 1991 Nesse caso a social democracia precisa articular as lutas cotidianas dosdas trabalhadorestrabalhadoras com a perspectiva socialista identificando o alargamento da democracia como parte constitutiva da luta socialista Dividese a luta prática propriamente dita em três partes principais luta sindical luta pelas reformas e luta pela democratização do Estado capitalista São essas três formas de nossa luta de fato socialismo Absolutamente não O que é então que faz de nós em nossa luta cotidiana um partido socialista Só e unicamente a relação entre essas três formas de luta prática e o nosso objetivo final Somente a finalidade dá à nossa luta socialista espírito e conteúdo e faz dela uma luta de classe E não devemos compreender por finalidade como o disse Heine tal ou qual representação da sociedade futura e sim o que deve preceder a qualquer sociedade futura isto é a conquista do poder político LUXEMBURGO 1974 p 97 Nesse sentido o partido como vanguarda tem um papel relevante de organização direção e agitação em situações que colocam em questão a tomada do poder político pela ação da massa dosdas trabalhadorestrabalhadoras Para a autora quando o partido tem táticas sistemáticas e coerentes de agitação das massas produz um sentimento de segurança de confiança em si mesmos e desejo de lutar uma tática vacilante fraca baseada na subestimação do proletariado paralisa e confunde as massas LUXEMBURGO 1991 p 294 O sujeito da tomada de poder político é a socialdemocracia enquanto partido classista do proletariado 50 2003 p 36 que se compõe a partir da unidade de setores bastantes heterogêneos proletariado urbano e rural pequena burguesia e pequenos proprietários de terra Este tem na formação política operária seu portavoz na superação da barbárie capitalista Portanto a social democracia tem a missão de tornar possível não o direito dos povos à autodeterminação mas o direito da classe operária da classe explorada e perseguida o proletariado à autodeterminação LUXEMBURGO 2003 p 44 A partir da autodeterminação da experiência da luta operária Rosa analisa a relação entre o espontaneísmo e a ação das vanguardas partidárias no interior das lutas de classes em que se constituem respostas heterogêneas e não organizadas às demandas concretas dos trabalhadores e à própria luta sendo estas respostas inerentes ao desenvolvimento do ser social e da sua luta Como bem pontua a autora a consciência de classe se funda na ação direta das massas contra a ordem estabelecida na espontaneidade na ação criadora e livre do proletariado A concepção rígida e mecânica da burocracia só admite a luta como resultado da organização que atinja um certo grau de força Pelo contrário a revolução dialética viva faz nascer a organização como produto da luta Vimos já um exemplo magnífico deste fenômeno na Rússia onde um proletariado quase desorganizado começou a criar uma vasta rede de organizações depois de um ano e meio de lutas revolucionárias tumultuosas LUXEMBURGO 1974 p 76 Muitos críticos de Rosa identificam dois elementos contraditórios em sua obra a supervalorização da ação espontânea das massas operárias e a subestimação do papel das vanguardas partidárias Na concepção de Lukács 2003 Luxemburgo constituiu sua obra em uma sólida concepção de totalidade que articulou teoria política e práxis revolucionária todavia critica a compreensão da autora sobre o espontaneísmo das massas na luta de classes já que para ele o partido tem um papel determinante frente às classes e à formação da consciência de classe a partir de uma vanguarda proletária O ponto de vista da totalidade não determina todavia somente o objeto determina também o sujeito do conhecimento A ciência burguesa de maneira consciente ou inconsciente ingênua ou sublimada considera os fenômenos sociais sempre do ponto de vista do indivíduo E o ponto de vista do indivíduo não pode levar a nenhuma totalidade quando muito pode levar a aspectos de um domínio parcial mas na maioria das vezes somente a algo fragmentário a fatos desconexos ou a leis parciais abstratas A totalidade só pode ser determinada se o sujeito que a determina é ele mesmo uma totalidade 51 e se o sujeito deseja compreender a si mesmo ele tem de pensar o objeto como totalidade Somente as classes representam esse ponto de vista da totalidade como sujeito na sociedade moderna LUKÁCS 2003 p 107 Assim para Lukács o partido comunista é o grande responsável pela direção do processo revolucionário possibilitando que o proletariado acesse a verdadeira consciência de classe entendida enquanto totalidade dialética do processo histórico pois o caráter processual e dialético da consciência de classe transformase na teoria do partido em dialética conscientemente manipulada LUKÁCS 2003c pp 575576 ou ainda O Partido Comunista é uma forma autônoma da consciência de classe do proletariado que serve ao interesse da revolução LUKÁCS 2003c p 579 Aqui aponto a contribuição gramsciana para a análise da constituição do sujeito coletivo que precisa expressar uma vontade coletiva nacional popular capaz de concretizar uma reforma intelectual e moral articulada a um programa de reforma econômica em que a ação dos sujeitos materializada em uma vontade coletiva seja decisiva na gestação das estruturas e objetividades sociais Para ele a vida social não pode ocorrer independentemente da vontade e da consciência humanas a vida social é produto da ação dos sujeitos e nessa medida tanto a consciência quanto a vontade dos homens são fatores decisivos ainda que não absolutos na construção da objetividade social COUTINHO 2008 p 105 Nesse sentido a consciência social é um elemento importante na construção da vida social efetivada a partir da passagem do momento econômico ao éticopolítico compreendido pelo autor como momento catártico em que os homens e as mulheres afirmam sua liberdade frente às estruturas sociais ao mesmo tempo em que utilizam o conhecimento dessas estruturas como fundamento para uma práxis autônoma para a criação de novas estruturas ou para gerar novas iniciativas COUTINHO 2008 p 106 A concepção de homem em Gramsci 2017 é a de bloco histórico composto de elementos subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais com os quais os indivíduos estão em relação ativa Destarte o indivíduo aparece como produto do conjunto das relações com os demais e com a natureza com os quais interage de forma ativa e orgânica aqui a individualidade constitui o que poderia se chamar de singular coletivo capaz de conhecer saber e querer 52 Para ele a transformação do mundo exterior e das relações sociais de produção implicam necessariamente no fortalecimento do próprio homem a partir da mediação de um dirigente que possa contribuir para a transformação da realidade e construção de novos tipos de institucionalidades Esse dirigente é um sujeito coletivo o partido político que não se reduz ao parlamento mas que deve realizar uma mediação políticouniversal que os sindicatos e organizações sociais não conseguem alcançar Tal reflexão está contida nos Cadernos do Cárcere volume 3 nas Breves notas sobre a política de Maquiavel em que o autor aponta o alargamento da política e do protagonismo das classes e suas instituições representativas tomando como referência as formações capitalistas ocidentais que desde meados do século XIX vêm experimentando este fenômeno bastante significativo a ponto de imprimir novas exigências às práticas políticas na perspectiva de construção do socialismo a emergência das grandes massas na cena política como os partidos os sindicatos as associações e organismos de capitalistas e de trabalhadores como instrumentos de luta por seus interesses em sua maioria antagônicos Assumindo como referência O Príncipe de Maquiavel Gramsci 2017 apontava o papel fundamental de um condottiero enquanto símbolo de líder capaz de libertar a Itália dos bárbaros e conduzir seu povo para a fundação de um novo Estado dito de outra forma o príncipe seria uma expressão concreta da vontade coletiva A questão da vontade aparece como resposta ao positivismo e naturalismo em um artigo conhecido A revolução contra O capital 1917 a história diz ele diz respeito não aos fatos econômicos brutos e sim aos homens que ao desenvolver uma vontade social coletiva compreendem os fatos econômicos e os julgam e os adequam à sua vontade até que essa vontade se torne o motor da economia a plasmadora da realidade objetiva a qual vive e se move e adquire o caráter de matéria telúrica em ebulição que pode ser dirigida para onde a vontade quiser do modo como a vontade quiser GRAMSCI 2017 p 127 Para Gramsci 2017 o príncipe se constituiria enquanto uma exemplificação do mito e autorreflexão do povo na formação de uma determinada vontade coletiva para um determinado fim político A possibilidade de transformar um pensamento sobre a política em ação política decorria da capacidade de constituir uma ideologiamito 53 uma ideologia política que se apresenta não como fria utopia nem como raciocínio doutrinário mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar sua vontade coletiva GRAMSCI 2017 p 14 Dessa forma na compreensão de Gramsci o príncipe para Maquiavel aparece como como uma abstração doutrinária A pergunta de Gramsci a partir da leitura do manifesto político maquiavélico foi Nas sociedades capitalistas avançadas qual deveria ser o caráter do príncipe Responder a esta pergunta significa para Gramsci recuperar para seu presente as preocupações de Maquiavel e adaptálas a outra realidade O Príncipe moderno já não pode ser um indivíduo carismático uma pessoa concreta mas um organismo um elemento complexo de sociedade no qual já se tenha início a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação GRAMSCI 2017 p 16 Este organismo é o partido político a primeira célula na qual se sintetizam germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais GRAMSCI 2017 p 16 Posto isto o partido político será o dirigente e organizador de uma vontade coletiva Isso implica dimensionálo como um organismo coletivo marcado pela presença das massas e que materializa uma ação política no sentido de superação dos interesses econômicocorporativos e que tenda a uma perspectiva universal O partido político como portador da autorreflexão do povo e conservando seu caráter jacobino ou revolucionário tem duas tarefas fundamentais a formação de uma vontade coletiva e uma reforma intelectual e moral em que seja gestada uma nova concepção de mundo O príncipe toma o lugar nas consciências da divindade ou do imperativo categórico tornase a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costumes GRAMSCI 2017 p 19 O príncipe moderno tornase dessa maneira o anunciador e o organizador de uma reforma intelectual e moral o que significa de resto criar o terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacionalpopular no sentido da realização de uma forma superior e total de civilização moderna GRAMSCI 2017 p 18 Também fica estabelecida indissociável relação entre estrutura e superestrutura entre reforma econômica e reforma intelectual e moral quando se questiona que pode haver reforma cultural ou seja elevação civil das camadas mais baixas da sociedade sem uma anterior reforma econômica e uma modificação na posição social e no mundo econômico É por isso que uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica mais precisamente o programa de reforma econômica é 54 exatamente o modo concreto através do qual se apresenta toda a reforma intelectual e moral GRAMSCI 2017 p 19 Na execução de suas tarefas fundamentais o príncipe moderno representado na figura do partido precisa analisar as determinações e possibilidades concretas para o desenvolvimento da vontade coletiva nacionalpopular bem como as tentativas históricas de sua construção com ênfase para a formação econômica e social determinada e na articulação entre grupos sociais urbanos e massas camponesas Por isso indagase sobre quando é possível dizer que existem as condições para que se possa criar e se desenvolver uma vontade coletiva nacionalpopular GRAMSCI 2017 p 17 O processo de constituição da vontade em vontade coletiva tem um componente jacobino no sentido de materializar uma ação do sujeito coletivo que identificando as necessidades concretas de uma classe determinada pelo tempo e formação social projeta rupturas com os espontaneísmos através de uma direção política de uma classe que pretende ser hegemônica Assim a vontade coletiva é um constructo que também pressupõe um certo ajustamento das vontades individuais A afirmação da vontade coletiva como necessidade histórica é elevada à consciência e é convertida em práxis Na construção da hegemonia das classes subalternas o partido político cumpre o papel de intelectual coletivo na medida em que promove o exercício político das massas populares em sua estrutura democratizando o poder e na forma como consegue quando isto ocorre tornarse a expressão de uma vontade coletiva e atuar sobre o conjunto da sociedade O homem coletivo corporificado no partido político tem como objetivo fundar um novo tipo de Estado e novos tipos de humanidade mesmo que se constitua enquanto expressão de um determinado grupo social dirigente pode representar interesses de diversos grupos sociais a partir da obtenção políticoideológica do consenso enquanto expressão de um novo bloco histórico pluriclassista GRAMSCI 2017 p 58 Assim embora todo partido seja a expressão de um grupo social e de um só grupo social ocorre que em determinadas condições determinados partidos representam um só grupo social na medida em que exercem uma função de equilíbrio e de arbitragem entre os interesses de seu próprio grupo e os outros grupos fazendo com que o desenvolvimento do grupo representativo ocorra com o consenso e com a ajuda dos grupos aliados se não mesmo dos grupos decididamente adversários GRAMSCI 2017 p 59 Aqui Gramsci situa a importância da grande política na reorganização radical do estado examinando as questões referentes à autoridade ditadura do proletariado e hegemonia Em sua 55 concepção a hegemonia relacionada ao conceito de bloco histórico se apresenta como espaço de disputa entre as forças sociais podendo fomentar o desenvolvimento políticopedagógico do sujeito Nesse conceito o coletivo é um sujeito permanente qualificado a autoeducar as massas que politicamente elevam esse sujeito coletivo no sentido de classe para si articulada organicamente a um projeto societário O lugar da consciência na hegemonia é determinante A tomada da consciência concreta precede as vivências de cada sujeito e essa hegemonia que é orgânica operacionaliza o encontro da consciência e da práxis que de acordo com Sader 2005 p 21 tal movimento se dá por meio de experiências sucessivas quando toma consciência pelos fatos de que nada do que é é natural Nessa égide o partido transmutase em educador político das massas no sentido de elaborar e divulgar as concepções de mundo atreladas a seu projeto societário atuando portanto como os elaboradores das novas intelectualidades integrais e totalitárias isto é o crisol da unificação de teoria e prática entendida como processo histórico real GRAMSCI 2017 p 105 Essa pedagogia que permite que as multidões saiam da passividade se efetiva por meio de uma adesão individual e não ao modo laborista já que se se trata de dirigir organicamente toda a massa economicamente ativa GRAMSCI 2017 p 105 com a sua adesão orgânica à vida mais íntima econômicoprodutiva da própria massa o processo de estandardização dos sentimentos populares que era mecânico e casual isto é produzido pela existência ambiente de condições e pressões similares tornase consciente e crítico GRAMSCI 2017 p 145 Estabelecese assim uma articulação entre massa partido e direção formando assim uma estreita ligação entre grande massa partido e grupo dirigente e todo o conjunto bem articulado pode se movimentar como um homem coletivo GRAMSCI 1999 p 145 Cabe dizer que os intelectuais2 assumem função essencial no fomento de uma nova vontade coletiva 2 Gramsci identifica que existem várias categorias de intelectuais destacandose duas formas importantes os intelectuais orgânicos e os intelectuais tradicionais Os primeiros seriam aqueles vinculados às classes fundamentais no campo da produção econômica pois para Gramsci 2000b p 15 Todo grupo social nascendo no terreno originário da produção econômica cria para si ao mesmo tempo organicamente uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função não apenas no campo econômico mas também no social e no político Podese observar que os intelectuais orgânicos que cada classe cria consigo e elabora em seu desenvolvimento progressivo são na maioria dos casos especializações de aspectos parciais da atividade primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz Feita tal distinção Gramsci 2017 p 18 afirma que de algum modo todos os homens são intelectuais mas nem todos desempenham a função de intelectual Para ele seria possível dizer que todos os homens são intelectuais mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais assim o fato de que alguém possa em determinado momento fritar dois 56 enquanto elaboradores de novas concepções de mundo e organizadores da cultura Sendo o partido considerado como um dirigente coletivo no campo da política ele deve ser também um educador coletivo que tem de pensar a sociedade em todas as suas determinações Ademais a capacidade de uma classe se constituir enquanto hegemônica é indicada por sua disposição de formar seus próprios intelectuais orgânicos tornando possível a assimilação e conquista ideológica dos intelectuais tradicionais Quando o partido político passa a ser compreendido pela sociedade inteira ele se converte no mecanismo que realiza na sociedade civil a mesma função desempenhada pelo Estado de modo mais vasto e mais sintético na sociedade política GRAMSCI 20017 p 24 Assim tal partido favorece a estreita articulação entre intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais Isso é possível por meio do desempenho de sua função fundamental que é a de produzir seus próprios intelectuais organicamente vinculados aos grupos economicamente determinados que são nos termos de Gramsci 2017 p 24 os próprios componentes elementos de um grupo social nascido e desenvolvido como econômico até transformálos em intelectuais políticos qualificados dirigentes organizadores de todas as atividades e funções inerentes ao desenvolvimento da sociedade integral civil e política GRAMSCI 2017 p 24 Nesse sentido é possível depreender que aqueles integrantes de um partido político em diferentes níveis podem ser considerados intelectuais na medida em que o mais importante é a função política que desempenham que é diretiva e organizativa isto é educativa isto é intelectual tornandose agentes de atividades gerais de caráter nacional e internacional GRAMSCI 2017 p 25 e ainda conseguem superar a atividade econômicocorporativa percebida como limite da prática sindical ou de outra organização de caráter corporativo A ideia de um novo intelectual concebida por Gramsci distanciase da concepção de intelectual baseada na sua capacidade de eloquência nas palavras e paixões ou de uma oratória desprovida de prática política Muito mais do que um especialista o novo intelectual deve ter ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates Formamse assim historicamente categorias especializadas para o exercício da função intelectual formamse em conexão com todos os grupos sociais mais importantes e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante 57 uma inserção ativa na vida prática como construtor organizador persuasor permanente GRAMSCI 2017 p 53 ou seja tornarse dirigente conjugando especialização e política E do processo de formação educação ainda nos cabe perguntar Por que o investimento na formação do sujeito tem pauta nas formulações de Gramsci No período de sua atuação revolucionária Gramsci vê a emergência do fascismo na Itália e sua reverberação entre as massas o qual define como uma dominação da burguesia industrial condicionada por grupos intermediários armados A hegemonia seria a tentativa de espaços de autogovernança versus o autoritarismo Esse último afastava as massas e a classe operária de qualquer possibilidade de exercício ou tomada de vanguarda nos espaços de poder Nas palavras de Gramsci temos todo o alcance da hegemonia na formação do sujeito 1 A capacidade de autogoverno das massas sua capacidade de definir para si novos dirigentes 2 Sua capacidade de manter a produção e mesmo superar o nível alcançado anteriormente 3 Enfim sua capacidade ilimitada de iniciativa e de criação em todas as frentes tanto a da autodefesa quanto a das representações teatrais organizadas pelos operários nas fábricas ocupadas GRAMSCI 2017 p 213 Na tradição marxista a noção de sujeito coletivo está articulada à classe social como seu fundamento Todavia mesmo entendendo a importância das análises em torno da classe produção e reprodução do modo de produção capitalista parte do pensamento crítico feminista elucidou que a classe enquanto categoria de análise do sujeito centrase em um essencialismo do sujeito universalizandoo no interior de cada classe Esse pensamento totalizante e universal é também masculino e não faz distinção entre mulheres e homens assim como não apresenta na vivência desse sujeito coletivo as desigualdades existentes na sociedade no modo de inserção na divisão sexual racializada do trabalho Um sujeito universal e único não é encontrado nem mesmo em laboratório BANDEIRA 2008 p 213 A posição aqui assumida é a de que as classes sociais embora fundamentais para a explicação sociológica não são suficientes para a análise das relações sociais de sexo e das relações de raça Assim como não resolvese o problema com o universalismo o essencialismo e o binarismo apenas postulando que homens e mulheres compõem as classes sociais 58 211 A constituição do sujeito coletivo feminista nós falamos por nós Como já pontuamos no subitem anterior é necessário articular o conceito de sujeito coletivo ao de classe social amplamente analisado no interior da teoria marxista assim como reflexionar sobre o papel da ação humana na história e o protagonismo da classe operária na superação da sociedade de classes mas também é preciso reconhecer que tal noção de sujeito apresenta uma percepção de mundo totalizante universal e masculina Para Marx 2011 os homens fazem sua própria história mas não fazem segundo sua livre vontade mas nas circunstâncias imediatamente encontradas dadas e transmitidas Também é sabido que os homens e as mulheres fazem sua própria história enquanto sujeitos coletivos de forma que são produtos de sua própria atividade e história coletiva O movimento dialético de passagem da classe em si à classe para si pressupõe o enfrentamento da alienação e a apreensão por parte do proletariado das determinações concretas do real momento decisivo na sua constituição como sujeito coletivo revolucionário Tal conceito está relacionado às condições do modo de produção capitalista na época de Marx bem como à concepção moderna que compreende o sujeito como sendo definido a partir de sua racionalidade A questão colocada pelos feminismos desde o século XIX perpassa pela crítica a razão objetiva moderna que articula o papel de sujeito coletivo à classe social e elabora uma ideia de sujeito universal da história de forma que tal crítica indica a necessidade de uma reflexão sobre a história das mulheres e a definição de um sujeito coletivo feminista Parto da concepção elaborada por Beauvoir 2009 de sujeito em situação que define sua identidade a partir do agir e do fazer considerando os determinantes sociais e ação do sujeito em situações específicas extrapolando a ideia de essência contida no pensamento de Sartre Nesse caso a existência humana se explicita em relação não em contraposição desta forma biologia ideologia política vida privada corpo mente Outro Um homem mulher transcendência imanência não são esferas antagônicas mas dialéticorelacionais Para a autora a situação singular dos sujeitos é determinada por forças institucionais exteriores a eles mas que operam de formas distintas considerando que as situações humanas não são equivalentes Mulheres e homens proletários e burgueses brancos e negros elaboram sua subjetividade nas relações sociais e essas relações não possibilitam condições igualitárias de ação individual e coletiva Portanto na compreensão de Beauvoir as relações sociais são 59 capazes de suprimir a liberdade que na concepção existencialista existe em potência em todo ser humano Nas mais distintas situações a nossa liberdade se revela não há liberdade a não ser em situação e não há situação a não ser pela liberdade SARTRE 2005 p602 Tal percepção pode ser explicitada na autobiografia A Força das Coisas 2010b em que Beauvoir dimensiona o conceito de situação distinto do de Sartre Nos dias seguintes discutimos certos problemas particulares e sobretudo a relação da situação com a liberdade Eu sustentava que do ponto de vista da liberdade tal qual Sartre a definia não resignação estoica e sim superação ativa do dado as situações não são equivalentes qual a superação possível para uma mulher encerrada em um harém Mesmo essa claustração há diferentes maneiras de vivêla diziame Sartre Obstineime durante muito tempo e só cedi superficialmente No fundo eu tinha razão Mas para defender minha posição fora preciso abandonar o terreno da moral individualista logo idealista em que nos colocávamos BEAUVOIR 2010b p 425 A concepção de liberdade em Beauvoir era situada no sentido em que as possibilidades concretas que se abrem às pessoas são desiguais BEAUVOIR 2005 p 37 mas seria possível atingir a transcendência Portanto pode ser absoluta e se efetiva em duas dimensões a assunção da liberdade e a demissão da condição de ser livre A existência humana se funda enquanto produto do movimento dialético entre duas escolhas que o ser pode realizar constituirse um sujeito livre ou demitirse dessa liberdade Para Beauvoir 2005 o ser é quando é livre para ser Entretanto quando escolhe não ser demitese de sua liberdade mas continua existindo sendo alguma coisa mas negandose enquanto soberano de sua existência Esses movimentos ontológicos definem o projeto do sujeito realizarse como transcendência em si superando o estado de imanência em que a passividade ontológica define o não exercício da liberdade de constituirse Ademais a imanência é compreendida pela autora tanto como um produto das múltiplas opressões vivenciadas pelo sujeito situado quanto uma escolha corporificada na ação do ser em demitirse de sua condição de sujeito O agir e o fazer do sujeito está articulado ao modo como efetiva sua liberdade existencial que por se tratar de um movimento ontológico é constituído de momentos de intencionalidade De outra parte a transcendência associase ao movimento subjetivo de superação do dado do mundo e lançamento de si ao novo enquanto que a imanência é atribuída à ausência do movimento a não realização do lançamento do ser em direção ao não constituído ainda Por isso o ser quer superarse para não se perceber coincidindo consigo mesmo no instante 60 além do instante atual O fato de ser livre dá ao sujeito a única possibilidade de superação do mesmo De acordo com Beauvoir 2005 p 35 O que constitui o meu ser é primeiramente o que faço Mas desde que já o fiz eis que o objeto se separa de mim me escapa Nesse sentido estar livre conduz o sujeito a um projeto novo por vislumbrar nele uma possibilidade de felicidade que tem o significado de realização ontológica Para Sartre somos assim um eterno projeto Não podemos compreender capturar nossas decisões senão a partir dos nossos desejos Em suma ninguém é determinado todos somos livres em nossas decisões em situação Nossos juízos e nossas ações devem ser postos em relação com nossa representação no mundo Nós vamos além nós transcendemos sempre aquilo que somos diante daquilo que queremos ser Somos sujeitos livres no presente e nos definimos pelos nossos atos ALLOUCHE 2019 p45 A ação humana é impulsionada pelo desejo do ser em desvelarse em lançarse ao mundo e revelarse na possibilidade de ser que o mundo dado oferece Este desvelamento do ser que acaba por definilo enquanto existente é portanto um movimento que propicia as escolhas ontológicas uma vez que tal movimento mostra as possibilidades de realização Entretanto ao lado do fato de esta liberdade ser uma realidade um dado existencial do humano ela também precisa ser confirmada o que significa que o sujeito só se mantém livre pelo movimento próprio em confirmarse livre A confirmação da liberdade é o movimento ontológico que o sujeito empreende e é constituído por dois momentos o de desvelarse e o de desvelar o dado do mundo que contém uma intencionalidade ontológica minha liberdade não deve buscar captar o ser mas desvelálo o desvelamento é a passagem do ser à existência a meta visada por minha liberdade é conquistar a existência através da espessura sempre faltosa do ser BEAUVOIR 2005 p 46 A compreensão sobre liberdade ambiguidade sujeito situado e a rejeição de todo tipo de determinismo seja ele biológico ou econômico levaram Beauvoir a pensar na constituição do sujeito considerando a noção de Outro Para ela ser sujeito é posicionarse em condição de reciprocidade com outro sujeito efetivando uma liberdade autoconsciente e autodeterminada De outra parte o Outro é designado por Um sujeito na posição de um objeto com possibilidades fixas Daí para a autora a noção de outro materializa uma forma de degradação existencial do próprio ser do sujeito A situação é certamente contraditória Ao ser colocado na posição de Outro o sujeito vivencia a si mesmo como um objeto em seu próprio ser 61 Para ela as mulheres partilham essa degradação existencial do próprio ser do sujeito porque são constituídas na condição de Outro na relação com os homens e o mundo todavia a mulher não é apenas o Outro é o Outro desigual impensável sem a presença masculina e entendida pelo Um como um ser sexuado A mulher determinase e diferenciase em relação ao homem e não este em relação a ela a fêmea é o inessencial perante o essencial O homem é o Sujeito o Absoluto ela é o outro BEAUVOIR 2009 p 17 Nesse sentido as mulheres não vivenciam a condição de ser humano em razão de si mesmas e em sua busca de autonomia e liberdade mas se definem em relação a experiência masculina Para ela o que define de maneira singular a situação da mulher é que sendo como todo ser humano uma liberdade autônoma descobrese e escolhese num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro BEAUVOIR 2009 p 30 Entretanto as mulheres não se colocam de forma espontânea na condição de objeto já que não é o Outro que se definindo como Outro define o Um ele é posto como o Outro pelo Um definindo se como Um Mas para que o outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio Como bem alude a autora francesa Todo indivíduo que se preocupa em justificar sua existência a sente como uma necessidade indefinida de se transcender Ora o que define de maneira singular a situação da mulher é que sendo como todo ser humano uma liberdade autônoma descobrese e escolhese num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro Pretendese tornála objeto votála à imanência porquanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial Como pode realizarse um ser humano dentro da condição feminina BEAUVOIR 2009 p 23 Para situar a historicidade da condição feminina e da possibilidade de realização enquanto ser humano integral Beauvoir indica a necessidade de reconhecimento da condição de Outro e das instituições sociais enquanto espaços de produção de assimetrias O encontro com o Outro aparece mediado por mitos códigos morais normas jurídicas e educacionais bem como instituições sociais que acomodam as mulheres sistematicamente na categoria de objeto posição que só poderá ser superada no reconhecimento de sua opressão e reivindicação de sua autodeterminação a partir de um projeto de tornarse sujeito tornarse mulher Isso se contrapõe à concepção de Outro em Sartre que embora identifique a necessidade do Outro 62 reivindicarse enquanto sujeito operacionaliza tal processo reduzindo o Outro à condição de objeto Em outras palavras apenas um sujeito pode existir A característica principal dessa cena alterada é a ausência de reciprocidade Ou seja é um cenário em que o que está em questão não é apenas a alteridade mas a subordinação a reificação que não é recíproca O reconhecimento mútuo não é possível uma vez que para afirmarme como sujeito preciso negar essa condição ao Outro e viceversa BAUER 2001 p 109 A análise de Beauvoir sobre a condição da mulher enquanto Outro vai na contramão das postulações de Sartre identificando como já mencionei a mulher enquanto um Segundo sexo atravessado por determinações desiguais mas com a possibilidade de constituir bases para uma integralidade das mulheres como ser humano e ter direito à transcendência na afirmação de uma existência autenticamente assumida no projeto de tornarse sujeito Para Beauvoir ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito há também a tentação de fugir de sua liberdade e transformarse em coisa É um caminho nefasto porque alienado perdido e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas cortado de sua transcendência frustrado de todo valor Mas é um caminho fácil evitamse com ele a angustia e a tensão da existência autenticamente assumida BEAUVOIR 2009 p 21 A experiência vivida de opressão das mulheres não é apenas um produto de determinações externas mas a condição de uma subjetividade corporificada associada a uma alienação corporal Entendo experiência vivida como uma dimensão política da existência pois sugere uma posição e uma ação em relação aos demais sujeitos Aqui o sujeito se constrói na mediação do individual e do coletivo Beauvoir referese à liberdade como um projeto também de ambiguidade A mulher se faz enquanto sujeito a partir de experiências históricas diversas comportando uma ambiguidade corporal assujeitada à natureza à cultura e à história não é enquanto corpo mas enquanto corpo submetido a tabus a leis que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza BEAUVOIR 2009 p 63 Esse corpo apropriado não é algo que o sujeito possui é o que o sujeito é ser o Outro implica necessariamente ser apartado de seu próprio corpo Convém enfatizar que o corpo assujeitado é uma situação é nossa tomada de posse do mundo e um esboço de nossos projetos BEAUVOIR 2009 p 49 mas tem se caracterizado dentro de uma concepção de Eterno feminino que naturaliza a feminilidade enquanto mito e encerra a anatomia como um destino para as mulheres A existência emerge 63 como uma experiência sexuada de um corpo enquanto espaço de ambiguidades como uma situação Desta maneira o corpo afinca o ser no mundo não apenas como materialidade mas como condição social histórica sexual de tal modo que consciência e corpo estão simultaneamente imbricados no pensamento A consciência em Beauvoir é corporificada encarnada e por isso a percepção da experiência humana é sexuada O sujeito situado é transpassado pelas relações sociais e as várias formas de poder instituído não se inscrevem nos corpos da mesma forma ao contrário baseiamse em especificidades produzidas socialmente para produzir tipos diferentes de privilégio e de opressão enfatizando e restringindo as possibilidades de cada existência de modos específicos Nessas especificidades é importante destacar que o corpo tem grande importância porque ele é em si mesmo uma situação uma materialização de diversos elementos que produzem a diferença e é por meio dele que a experiência se faz subjetividade No Segundo Sexo a feminilidade é colocada como uma invenção histórica que encerra a subjetividade feminina na anatomia no corpo apresentando o masculino como corpo que abriga a objetividade e o feminino materializandose na amputação Em sua crítica à natureza feminina alude que o homem encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo que acredita apreender em sua subjetividade ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica um obstáculo uma prisão BEAUVOIR 2009 p 27 A ruptura com o eterno feminino é para Simone imprescindível na constituição do sujeito mulher já que nós não somos por causa de nosso sexo mas nos tornamos através de uma aprendizagem coletiva um processo de socialização patriarcal que não é necessariamente decorrência de nosso sexo Nenhum destino biológico psíquico econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino BEAUVOIR 2009 p 79 O projeto de tornarse pressupõe a compreensão do patriarcado enquanto elemento que constituiu concretamente a mulher enquanto Outro e efetivou a divisão entre as esferas pública e privada articulado ao processo de emergência da propriedade privada e do direito paterno Para essa análise recorre às postulações teóricas de Engels sobre a família a propriedade privada e o Estado mas critica a compreensão de que a origem da propriedade privada coincide mecanicamente com a submissão das mulheres por entender que tal acepção reduz homens e 64 mulheres a seres econômicos e não é capaz de apreender as determinações da reprodução das corporalidades e do erotismo De outra parte o tornarse depende também do reconhecimento da condição de Outro e da identificação enquanto grupo social subordinado nas palavras de Beauvoir depende da capacidade de dizer nós Para a autora as mulheres têm a tarefa de operar o retorno do inessencial ao essencial e isso só é possível a partir do momento em que tomam parte da elaboração do mundo e recusam o lugar de Outro É pois um processo contínuo de construção e reconstrução que se processa por meio de escolhas préreflexivas e posteriormente se transformam em ações conscientes Para ela a subjetividade não se realiza senão como presença no mundo BEAUVOIR 2005 p 15 pressupõe portanto ação constituise nas e pelas relações sociais de forma que é sempre intersubjetividade o social transpassa o indivíduo assim como e ao mesmo tempo em que o indivíduo integra a sociedade Dessa maneira a ação se faz a partir de escolhas de identidades singulares e se realiza em objetivos específicos não gerais Ao fazermos uma escolha estabelecemos nossos vínculos com sujeitos que têm os mesmos interesses que nós e procuram transcender a própria situação de opressão Nos colocamos em oposição àqueles cujos desejos são obstáculo ao nosso projeto Portanto a ação não é objetiva no sentido de universal se dá a partir de particularidades dos indivíduos e se configura na relação do indivíduo com o mundo com o social com o tempo o espaço e com as outras pessoas A escolha da ação diz ainda Beauvoir se faz no e para o tempo presente tornandose presença do sujeito no mundo superação do isolamento e possibilidade de engajar a própria liberdade na relação com os outros são eles que irão reconhecer ou negar minha ação meu projeto É isso que constitui a liberdade do sujeito escolher em situação Ação e projeto são portanto delimitadoras da identidade do sujeito que nem sempre é livre para realizar suas escolhas inclusive muitos não possuem nenhum meio de quebrar este teto sobre suas cabeças como a própria criança podem exercer sua liberdade mas somente no seio deste universo constituído antes deles sem eles BEAUVOIR 2005 p 37 Para Beauvoir as experiências situadas de opressão fundamentamse no cerceamento do sujeito de sua possibilidade de desejar e almejar a transcendência associado à ideia de objetificação dos Outros como negação de suas condições de sujeitos O projeto é trazer o outro a partir de sua identificação com minha experiência situada a apoiar a minha liberdade e juntos constituirmos uma relação de busca por esse desejo compartilhado de liberdade e transcendência Dessa forma tornarse mulher é um projeto de 65 reconhecimento da condição de Outro e autoconstrução como sujeito individual e coletivo que efetiva a passagem dialética do eu ao nós do individual ao coletivo Esses movimentos pressupõem a compreensão das mulheres como indivíduos na luta de classes e das classes como espaços não homogêneos e que portanto também se constituem a partir das dimensões de sexogênero e raçaetnia Falo portanto de uma classe engendrada e racializada A ideia de unidade no conceito de unidade da classe operária confundese com a ideia de identidade que exclui a noção de diferença É por isso que a constatação da discriminação diferença parece ameaçar a unidade de classe operária daí a necessidade de integração das lutas a força de trabalho masculina aparece como força livre a força de trabalho feminina como sexuada Ou seja as condições de negociação da força de trabalho não são as mesmas o que nos permite concluir pela sexualização das relações e das práticas de trabalho SOUZALOBO 2010 p 45 Para Kergoat 2018 a passagem do eu para o nós do individual para o coletivo é essencial para a análise do sujeito coletivo em movimento e para isso aponta a aprendizagem coletiva como subjacente à passagem de um grupo ao coletivo Aqui é importante a distinção entre grupo e coletivo já que não se passa automaticamente da condição de indivíduo a de sujeito coletivo Em sua compreensão é preciso acionar uma instância intermediária que seria o grupo Na perspectiva das relações sociais de sexo isto é importante temos indivíduos homens e mulheres grupos de sexo que retomam categorias biologizantes ou grupos profissionais e coletivos sistemas com grande capacidade de ação que são transversais às categorias mesmo que sejam distintos por gênero isto é de um lado ou de outro da hierarquia por sexo e atores históricos de seu próprio devir o que os grupos não são KERGOAT 2018 p 100 Corroboro Kergoart 2018 na acepção de coletivo enquanto a passagem de um grupo fracionado e com pouca capacidade mobilizatória para ação a um grupo com consciência de ser coletivo Em outras palavras podese dizer que o coletivo é o exercício possível da potência ou seja de um poder não hierárquico não coercitivo e condição necessária para a constituição da consciência militante assim como da produção da autonomia e emancipação 2018 p 100 Também a autonomia é um elemento importante à constituição da noção de coletivo e de sujeito coletivo e parte constitutiva da ação política feminista como exercício individual grupal e coletivo de liberdade e autodeterminação das mulheres 66 Ao incorporar a autonomia como parte constituinte de sua ação política o movimento feminista imprimiu novas referências que materializam a autonomia das mulheres como realidade que deve ser criada formulada Sendo assim a teoria política feminista parte de um princípio que situado fora da ordem dominante de pensar possui potencialidades para promover rupturas com a tradição O princípio da autodeterminação das mulheres Autonomia neste contexto pode ser sintetizada na perspectiva apresentada pelo grupo Nenhuma nem Outras é a capacidade de comprometerse com as reivindicações e necessidades como mulheres Um processo pessoal para a tomada de decisões mas também de expressão coletiva Um meio de ganhar espaço a partir do qual transformar a realidade das mulheres e elaborar proposta de mudança para a sociedade em seu conjunto GURGEL 2010 p 4 O entendimento acerca do coletivo passa também pela apreensão da consciência militante enquanto consciência política potencializadora de relações entre sujeitos que se reconhecem enquanto coletivo a fim de construir as transformações necessárias Nas palavras de Cisne 2014 p 152 a consciência militante está radicalmente articulada com o processo de formação de um sujeito coletivo Cumpre dizer que militância aqui é entendida na perspectiva da feminista negra Gomes 2010 p 508 como produção de um conhecimento que não se esgota em si mesmo mas propõe reflexões teóricas que induzem ações emancipatórias e de transformação da realidade E a realidade das mulheres é de constante expropriação dos seus corpos e suas vidas As coisas que combatemos enquanto movimento social são degradantes da condição humana tais como violações expropriações e apropriações de forma que militar vai ser colocado às mulheres de forma individual e coletiva enquanto uma tarefa de resistência e de confronto com sistemas de exploraçãoopressão porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente Para militar acionamos a nossa consciência revolucionária no sentido de identificar nossas dores pessoais e os sistemas que nos subordinam Somos reprimidas pelo estado ideologias dominantes corporações médicas e financeiras igrejas mídias e pelos homens inclusive os que estão do nosso lado nas fileiras dos movimentos sociais Para resistir é preciso força e compreensão do ser mulher no plural como uma experiência socialmente compartilhada e historicamente situada CAMURÇA 2007 p 16 No caso particular dos movimentos feministas a consciência militante tem o caráter de reconhecimento das múltiplas exploraçõesexpropriaçõesopressões as quais as mulheres foram historicamente submetidas de pertencimento a si e de constituição de ações políticas concretas 67 no campo teóricoorganizativo Essa tomada de consciência sobre a própria opressão e exploração é resultante e pressuposto do processo de formarse mulher feminista Sem o que não há movimento CAMURÇA 2007 p 13 Para tanto fazse necessário que o movimento feminista amplie suas bases sociais e organize politicamente o nós mulheres no sentido de cumprir a tarefa central de mobilizar as mulheres conscientes de sua força de oprimidas O feminismo como sujeito político se faz somente através das mulheres e de sua movimentação É imprescindível termos um nós mulheres a partir do qual é possível analisar o contexto identificar as contradições fixar objetivos para esta movimentação CAMURÇA 2007 p 13 Os movimentos de mulheres e particularmente os movimentos feministas se formaram a partir de reivindicações em torno da ideia de direitos e da possibilidade das mulheres ocuparem os espaços públicos e políticos Para além do reconhecimento de uma relação de injustiça as mulheres das elites ou classes intermediárias tiveram que romper com o confinamento doméstico e com a vida privada Para SousaLobo 2011 p 183 Por suas conquistas às vezes por sua simples presença as mulheres nos movimentos subvertem a ordem dos gêneros vigentes nos espaços da sociedade A autora ainda alude acerca da formação dos feminismos como sujeito político situando que passa pela construção da noção de direito pelo reconhecimento de uma coletividade de iguais São várias faces inseparáveis que juntas fazem do movimento não apenas portador de reivindicações mas um sujeito político SOUZALOBO 2011 p 223 Dessa maneira as mulheres a partir do processo de tomada de consciência agenciam a superação da alienação de si mesmas da natureza e como seres humanos Processo que só pode acontecer pela construção da identidade coletiva ao tentar superar os espontaneísmos e reivindicações isoladas e imediatas constituindo ações coletivas Toda revolução foi precedida por um intenso e continuado trabalho de crítica de penetração cultural de impregnação de ideias em agregados de homens que eram inicialmente refratários e que só pensavam em resolver por si mesmos dia a dia hora a hora seus próprios problemas econômicos e políticos sem vínculos de solidariedade com os que se encontravam na mesma situação GRAMSCI 2011 p 55 Na tentativa de ultrapassar a consciência em si as mulheres construíram uma identidade coletiva a partir da ocupação dos espaços públicos e da análise concreta da realidade social pela via da crítica contundente ao patriarcado capitalismo racismo e heteronormatividade mesmo 68 que tal crítica não tenha acontecido ao mesmo tempo e tenha sido perpassada por inúmeros tensionamentos no interior do movimento Mas tal momento incidiu na construção de uma agenda comum voltada para a elaboração de uma nova cultura ao considerar as diferentes desigualdades vivenciadas pelas mulheres Cabe dizer que os movimentos feministas estando no interior da sociedade civil no campo contrahegemônico disputam a hegemonia para dirigir moral intelectual e politicamente a sociedade Como produtor e difusor de ideologias historicamente orgânicas ou contrahegemônicas interesses e valores ele é portador material de uma visão de mundo em disputa para a criação e desenvolvimento de uma nova cultura Retomando ao leito do texto Cisne 2014 sintetiza alguns elementos indispensáveis para a formação da consciência militante 1 a apropriação de si e a ruptura com a naturalização do sexo 2 o sair de casa 3 a identificação na outra da sua condição de mulher 4 a importância do grupo e da militância política em um movimento social 5 a formação política associada às lutas concretas de reivindicação e de enfrentamento CISNE 2014 p 177 A autora coloca como primeiro passo para a formação dessa consciência o processo de ruptura com as naturalizações do sexo e com a família que ela denominou de apropriação de si Essa percepção das mulheres enquanto sujeitos capazes de exercitar a autonomia corporal a liberdade o autocuidado traduz uma importância individual dos feminismos na vida das mulheres Esse processo do apropriarse de si está radicalmente articulado com o descobrirse feministas CISNE 2014 p 177 Não ter a propriedade de si faz parte do destino biológico que Beauvoir propunha que as mulheres transgredissem no Segundo Sexo Na mulher há no início um conflito entre a sua existência autônoma e seu seroutro ensinamlhe que para agradar é preciso procurar agradar fazerse objeto ela deve portanto renunciar a sua autonomia pois quanto menos exercer sua liberdade para compreender apreender e descobrir o mundo que a cerca menos encontrará nele recursos menos ousará afirmarse como sujeito se a encorajasse a isso ela poderia manifestar a mesma exuberância viva a mesma curiosidade o mesmo espírito de iniciativa a mesma ousadia que o menino BEAUVOIR 2009 p 9 grifo nosso A autonomia individual mesmo que conflituosa para as mulheres é a primeira forma de contestação aos padrões de feminilidade e masculinidade instituídos pelo patriarcado e dos homens enquanto privilegiados A feminilidade é uma invenção histórica consolidada na 69 identidade das mulheres em um determinado corpo sexuado que aprisiona a mulher enquanto categoria social Nesse sentido o devir histórico das mulheres é a ruptura com o eterno feminino com um modelo normatizado de existência para a mulher que as submete a normas estatutos e valores de dominação exploração expropriação e despossessão Ousar questionar o lugar de Outro e o destino feminino coloca às mulheres a possibilidade de através do autoconhecimento e da desnaturalização do corpo conduzir o processo de descobrirse feminista e romper com a alienação de si A crítica à ideia de anatomia como destino e a afirmação à transcendência para além do reino da biologia são grandes legados e bases centrais do feminismo até hoje Não seremos iguais e continuaremos a ser o segundo sexo enquanto a transcendência a capacidade de reflexão sobre a vida e enquanto o mundo for uma possibilidade aceita apenas para os homens Por esta razão a obra de Simone e sua vida como filósofa em um ambiente dominado pelos homens é em si uma conquista das mulheres no enfrentamento ao patriarcado O segundo ponto está associado à ruptura das mulheres com o confinamento doméstico como condição indispensável à apropriação de si conseguir se afirmar como sujeitos de si e de suas vidas o sair de casa envolve processos de ruptura com a alienação e o enfrentamento com instituições como a família e a Igreja bem como com toda a construção ideológica que a mulher deve estar necessariamente voltada para servir ao outro ainda que passe por cima de si CISNE 2014 p 183 Tratase da desnaturalização da divisão sexual do trabalho que separa as esferas públicas das privadas e responsabiliza as mulheres pela reprodução social aqui entendida como ser força de trabalho reprodutoras de novas forças de trabalho responsáveis pelos cuidados domésticos socialização das crianças e serviços domésticos além de funcionarem como amortecedor dos problemas psicológicos e afetivos do núcleo familiar Segundo Firestone 1976 p 255 a família não é nem privada nem é um refúgio está sim diretamente relacionada sendo até a sua causa aos males da sociedade em geral males que o indivíduo não é capaz mais de enfrentar O reconhecimento na outra da sua condição de mulher e a importância do grupo e da militância política em um movimento social se articulam e retroalimentam já que fomenta processos de rebeldia no campo individual que gradativamente vão se corporificando em reivindicações coletivas e posteriormente em ações políticas coletivas com perspectivas de transformação social e emancipação humana 70 A ação do grupo portanto assume a forma via de regra de transgressão de negação do que está estabelecido de subversão IASI 2006 p 521 A construção desse processo grupal contudo não elimina a dimensão individual do ser social permeado por subordinações crises negações e rupturas no movimento de consciência CISNE 2014 p 185 Para a autora é no movimento de reconhecimento nas outras que a experiência individual de cada mulher vai se politizando e ganhando força pública para o enfrentamento das opressões CISNE 2014 p 185 De forma que é nessa identificação com a outra que a capacidade de dizer nós é fortalecida e potencializa uma consciência feminista coletiva que permite a autodesignação da mulher e sua autonomia no plano individual e coletivo Aqui a experiência das mulheres nas relações concretas da sociedade heteropatriarcal racistaclassista fundamenta uma práxis feminista comprometida com a transformação da vida das mulheres Por fim Cisne 2014 aponta a necessidade de associar as lutas concretas aos processos de formação política Acontece que a identificação por parte das mulheres de sua condição de exploradaexpropriadaoprimida e das outras como um nós comum passa pelo questionamento da mulher como sujeito universal e do reconhecimento da diversidade de experiências de opressões enquanto corpos individualizados e sujeitos sociais Assim é fundamental que as diversas objetividades que movem a resistência das mulheres sejam reconhecidas e assumam a mesma visibilidade e potencial de articulação interna do feminismo como sujeito de emancipação GURGEL 2014 p 12 Para isso é preciso considerar que durante muito tempo houve uma negligência ou omissão presumida por parte dos feminismos hegemônicos leiase branco letrado e classe média em reconhecer as experiências de mulheres em outros contextos geopolíticos étnico raciais de sexualidades dissidentes e classes periféricas que só será sanado ainda que provisoriamente pela contribuição das feministas latinoamericanas lésbicas negras e populares As mulheres feministas sabem agora o que nos diz Delphy a cartografia da opressão nunca está terminada nem mesmo agora CAMURÇA 2007 p 15 Para Camurça 2007 p 15 é preciso sem dúvida afirmar as mulheres como identidade política de uma parte recusando tendências teóricas que essencializam as mulheres a partir da constituição de um sujeito feminino universal de outra recusando a constituição de uma identidade comum entre as mulheres Como afirma Silva 2010 p 23 A dialética de ser sujeito implica em compreender as mulheres como pessoas na singularidade de suas 71 experiências e compreender o grupo social mulheres como tendo algo em comum apesar de suas diferenças e desigualdades internas Para Gurgel 2010 a construção do sujeito feminista coletivo parte da mediação entre totalidades parciais de opressãodominaçãoapropriação das mulheres com a totalidade social que demanda um sujeito político de ação Essa perspectiva confere ao feminismo um duplo processo de construção como sujeito coletivo o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade diversa identitária GURGEL 2014 p 72 que a autora tem chamado de o feminismo como sujeito coletivo total Essa mediação reconhece a heterogeneidade dos feminismos no que diz respeito à formação experiência das mulheres contextos geopolíticos socioeconômicos culturais e religiosos propondo o reconhecimento de um sujeito múltiplo e ao mesmo tempo com demandas específicas que reflita a aceitação das experiências particulares dentro da identidade coletiva Compreendemos que a categoria de coletivo total permite uma leitura das diversas singularidades no feminismo sem hierarquização pois ao dar o ultimato do total exige a descoberta das totalidades parciais Ao mesmo tempo reivindicar o total distancia dos riscos da fragmentação eou isolamento nas especificidades Tratase portanto do reconhecimento das particularidades no todo da diversidade que compõe o sujeito múltiplo GURGEL 2014 p 73 Esse sujeito múltiplo com demandas específicas congrega em si a necessidade de constituir espaços de aglutinação de diversos sujeitos feministas bem como de mediar as tensões dos mais diversos campos ideopolíticos dos feminismos corporificando uma certa unidade na diversidade no que diz respeito à ação e à produção do conhecimento É relevante reflexionar sobre a acepção de Gurgel 2014 de totalidades parciais e totalidade social no sentido de não corroborar com a percepção de que as mulheres constroem uma luta específica ou que as lutas políticas das mulheres são uma fase da conquista do poder político pelas classes trabalhadoras ou ainda que são um sujeito específico e que fazem a luta de classes entendida como a síntese de todas as lutas As mulheres ao se construírem como sujeito coletivo se constroem na imbricação das relações de classe raça sexo em um processo de confrontação das relações de sexo e das outras relações sociais ao mesmo tempo Portanto as mulheres não fazem sua luta para a partir daí se sintetizarem na luta de classes nem contribuem para a luta de classes nem tampouco realizam lutas específicas elas fazem também a luta de classes ao fazerem a luta confrontando o patriarcado e o racismo 72 33333O MOVIMENTO FEMINISTA E O SUJEITO COLETIVO FEMINISTA O feminismo é a ideia radical que as mulheres são gente DAVIS 2016 p 32 O presente capítulo objetiva apresentar o debate sobre a imbricação das relações de sexo raçaetnia e classe na esteira das contribuições teóricas das feministas francófonas que a partir da década de 1970 elaboram a categoria relações sociais de sexo como explicativa das relações materiais que estruturam a exploração dominação e apropriação material das mulheres e que tem como fundamento a divisão sexual racializada do trabalho FALQUET 2013 KERGOART 2018 As relações sociais de sexo raçaetnia e classe são conformadas enquanto um nó que se produz e reproduz mutuamente sendo portanto imbricadas consubstanciais e coextensivas nas palavras de Kergoart 2010 p 100 é o entrecruzamento dinâmico e complexo do conjunto das relações sociais cada uma imprimindo sua marca nas outras ajustandose às outras e construindose de maneira recíproca Como bem disse Roland Pfefferkorn essas relações estão envolvidas intrinsecamente umas com as outras Elas interagem e estruturam assim a totalidade do campo social Mas o fato de as relações sociais formarem um sistema não exclui a existência de contradições entre elas não há relação circular a metáfora da espiral serve para dar conta do fato de que a realidade não se fecha em si mesma Portanto não se trata de fazer um tour de todas as relações sociais envolvidas uma a uma mas de enxergar os entrecruzamentos e as interpenetrações que formam um nó no seio da individualidade ou um grupo KERGOAT 2010 P 100 Tais relações sociais se enovelam entre si conformandose na dinâmica entre os sistemas de exploraçãodominaçãoapropriação patriarcal capitalista e racista em um processo simbiótico que sofre alterações a partir dos contextos históricos específicos das formações sociais não sendo passível de hierarquizações Aqui também apresento o patriarcado como categoria explicativa da subordinação histórica das mulheres e base estruturante dos processos de exploraçãodominaçãoapropriação Para Delphy 2009 p 174 o patriarcado designa uma formação social em que os homens detêm o poder ou ainda mais simplesmente o poder é dos homens Ele é assim quase sinônimo de dominação masculina ou opressão das mulheres Por fim analiso a constituição dos feminismos na particularidade brasileira enquanto projeto de autonomia e liberdade das mulheres e um movimento social que desenvolve ações 73 de ruptura estruturalsimbólica com os mecanismos que perpetuam as desigualdades sociais e estruturam os pilares da dominação patriarcal capitalista GURGEL 2010 p 1 31 A IMBRICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO RAÇA E CLASSE E O PATRIARCADO Como bem nos apontou Simone de Beauvoir 2009 p 108 na obra o Segundo Sexo a história mostrounos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos dentre eles o de universalizar a sua própria história de forma que nós mulheres temos como tarefa prioritária tomar parte da elaboração do mundo já que somos cotidianamente exploradas oprimidas e apropriadas por uma lógica de mundo patriarcal racista e capitalista A afirmação de SousaLobo 2011 de que a classe operária tem dois sexos conectada às abordagens das feministas socialistas e marxistas a partir da década de 1970 representou um ganho substancial para a compreensão das relações sociais de opressão dominação e apropriação vivenciadas pelas mulheres enquanto determinações sociais para além do conceito restrito de classe já que apregoavam que a crítica ao capitalismo e o recurso à noção de classe não poderiam apagar as especificidades da posição de mulheres e homens na sociedade capitalista Mas se a classe operária tem dois sexos certamente ela também é perpassada por determinações estruturais de raçaetnia que impõem especificidades às experiências vivenciadas por brancos e negros A posição assumida aqui é que classe sexo e raçaetnia se constituem enquanto relações sociais estruturais de exploração opressão e apropriação que produzem e organizam as determinações da realidade social Relação social definida pelo antagonismo entre grupos sociais organizados em torno de uma questão sexo classe raçaetnia mas que também são os modos como os grupos sociais produzem seus contatos e trocas Na perspectiva defendida por Kergoat 2018 p 93 uma relação social é uma relação antagônica entre dois grupos sociais instaurada em torno de uma disputa É uma relação de produção material e ideal Tal relação não pode ser compreendida a partir apenas de sua dimensão intersubjetiva já que é constituída no movimento dialético entre o microssocial e o macroestrutural que nas palavras de Falquet 2008 p 142 permite pensar por meio da sociedade os indivíduos e as classes 74 As relações sociais podem efetivamente ser vistas como tensões dinâmicas sem cessar em recomposição que constroem oposições e polarizam o campo social com mais ou menos força segundo o ponto em que se encontra a relação de origem dessas tensões Nesse sentido elas permitem também compreender melhor a posição relativa de diferentes sujeitos sociais submissos simultaneamente a várias dessas relações de força que exercem sobre diferentes planos permitindo uma visão multidimensional e histórica das coisas FALQUET 2008 p 142 Essas relações sociais são constituídas a partir de três contradições fundantes classe sexo e raça Em outras palavras podese recorrer ao pensamento feminista materialista francês para analisar as relações de sexo e de raça como relações sociais estruturais associadas às de classe que são demarcadas por antagonismos entre grupos sociais em torno de uma questão contudo não podem ser apreendidas como contradições sobrepostas mas imbricadas na produção e reprodução da vida social Portanto classe raça sexo são relações sociais coextensivasconsubstanciaisimbricadas No decurso da tese assumo a categoria relações sociais de sexo para a explicação das desigualdades constituídas entre homens e mulheres mas considerando as formas como tais rapports sociais são produzidos em contextos de países colonizados e situados na periferia do capitalismo internacional farei uso também da expressão relações patriarcais de sexo3 a fim de demarcar as particularidades do patriarcado brasileiro nordestino cearense e caririense O debate acerca da consubstancialidade das relações de raça sexo e classe pressupõe segundo Kergoat 2018 a identificação das raízes e engrenagens dos sistemas de exploração opressão dominação que em certo grau determinam as relações de poder mas também podem indicar rupturas com tais sistemas tendo em vista a emancipação humana Conceito proposto na década de 1970 pelas materialistas francesas para articular as categorias relações sociais de sexo e classe não sobrepostas ou aditivas Daí surgiu consubstancialidade Certamente o termo surgiu por carência Mas significando a unidade de substância entre três entidades distintas ele convida a pensar o mesmo e o diferente em um só movimento 1 as relações sociais embora distintas possuem propriedades comuns donde o empréstimo do conceito marxista de relação social com seu conteúdo dialético e materialista para pensar o sexo e a raça 2 as relações sociais 3 A expressão relações patriarcais de sexo vem sendo reflexionada pelas componentes do Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte especialmente por Mirla Cisne e Janaike Almeida 75 embora distintas não podem ser entendidas separadamente sob pena de reificálas KERGOAT 2018 p 149 Destaco que o grupo norteamericano de mulheres negras lésbicas e proletárias Combahee River Collective foi pioneiro no debate acerca da imbricação das relações sociais de sexo raça e classe quando em 1977 lançaram um manifesto problematizando o sujeito universal do feminismo hegemônico tecendo uma crítica sobre a ausência de debate feminista no movimento negro e a invisibilidade da questão racial para os movimentos feministas Para Silva 2018 p 35 o manifesto do grupo apresenta críticas à uniformização da forma de opressão para todas as mulheres e embrionariamente aborda as experiências simultâneas com o racismo sexismo e classe na vida das mulheres negras de forma que a partir daí propõem a ideia de imbricação entre as rapports sociais estruturadoras do capitalismoracismo patriarcado Operar análises concretas da realidade a partir da consubstancialidade não significa apenas considerar as categorias raça classe e sexo mas imbricar as três a partir da perspectiva que elas se forjam em formações sociais distintas Ademais o patriarcado o capitalismo e o racismo são produzidos e reproduzidos por relações sociais em constante movimento dialético que repercutem em práticas sociais variáveis no tempo e no espaço Portanto nos parece indispensável pensar os processos que produzem categorias de sexo classe e raça em termos de relações sociais ao invés de partir do tríptico gênero classe e raça KERGOAT 2018 p 152 Para Ferreira 2017 as relações entre homens e mulheres são relações sociais de caráter estrutural constituídas por uma divisão social do trabalho que produz exploração dominaçãoapropriação e antagonismo a partir da separação entre esferas pública e privada Nessa égide a produção se coloca como espaço destinado aos homens e a reprodução às mulheres com apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado políticos religiosos militares etc HIRATA KERGOAT 2007 p 596 Na perspectiva materialista as relações sociais de sexo são relações sociais estruturais de exploraçãodominação duas dimensões inextricáveis duas faces de uma mesma relação Duas grandes consequências teóricopolíticas decorrem desta concepção 1 Não se trata de questões específicas mas que estão relacionadas com a totalidade da vida social 2 Não se trata de questões ideoculturais ou de uma dominação puramente simbólica a exploração dominação das mulheres repousa sobre uma base material concreta KERGOAT 2010 a divisão sexual do trabalho embora se reproduza como 76 todas as relações sociais pela mediação da ideologia e da cultura GUILLAUMIN 2014 FERREIRA 2017 p 34 Tabet 2014 expõe as condições materiais e históricas da constituição da divisão do trabalho desigual entre os sexos a partir da constatação de que nas sociedades de caça e coleta o acesso desigual a instrumentos de trabalho armas e matériasprimas confinaram as mulheres produtoras ao espaço doméstico e dificultaram o desenvolvimento de seu trabalho nas esferas técnica e intelectual mesmo quando realizavam maior parte das tarefas que garantiam a sustentabilidade da comunidade Isso porque a divisão sexual do trabalho foi se constituindo a partir do controle masculino dos materiais indispensáveis para a fabricação de armas e instrumentos de trabalho além da impossibilidade feminina de fabricar armas e sua dependência dos homens para a quase totalidade dos instrumentos de produção TABET 2008 p 165 Nesse sentido a dominação dos homens sobre as mulheres se fundamentou na violência e no subaparelhamento delas entendido aqui como a exclusão da mulher da fabricação e utilização de armas e instrumentos de trabalho impondo a elas tarefas mais longas monótonas e contínuas ligadas à limpeza e geralmente realizadas com instrumentos rudimentares ou com as mãos A tarefa masculina tornase estratégica na medida em que os homens podem efetuar a sequência feminina e o inverso não é verdadeiro as mulheres acabam dependendo dos homens TABET 2008 p 148 Nenhuma produção é possível sem um instrumento de produção ainda que este instrumento seja somente a mão Marx Grundrisse cad 7M Vimos que nas sociedades de caça e coleta o monopólio das armas tem uma importância decisiva nas relações entre homens e mulheres de fato é na tecnologia que cria as armas e nas próprias armas que ocorrem os progressos mais importantes no campo da mecânica aqueles que marcam a distância entre instrumentos masculinos e instrumentos femininos pois nestas sociedades as armas são ao mesmo tempo instrumentos de produção privilegiados Mas o fator predominante é o controle da força daí a rigorosa interdição do uso de armas pelas mulheres a disputa é entre quem tem armas e quem não as tem O poder dos homens sobre as mulheres é garantido pelo monopólio das armasinstrumentos TABET 2014 p 156 Dessa forma o subaparelhamento das mulheres e o controle dos homens sobre as armas definiram o trabalho feminino como essencialmente de consumo doméstico e as mulheres como sujeitos apropriados enquanto corpos apropriados 77 dizer que as mulheres são limitadas aos próprios corpos seria descrever a situação em termos bastante otimistas as mulheres são usadas enquanto corpos A apropriação material das mulheres pelos homens não se limita ao uso sexual e reprodutivo mas atinge com frequência de outro modo a própria integridade desse corpo e sua expressão física Agem nesse sentido todos os fatores que limitam o movimento e o pleno uso do próprio corpo das formas de deseducação motora à indumentária saltos altos etc das formas de enclausuramento ou confinamento em espaços internos às formas quase universalmente difundidas de delimitação do espaço e da interdição das viagens por terra ou por mar às formas de degradação física irreversível da amarração dos pés à engorda forçada às mutilações sexuais etc TABET 2014 p 159 Assim a divisão sexual do trabalho se coloca como conceitochave para o entendimento da apropriação material das mulheres e a superexploração de sua força de trabalho na produção e reprodução do capital e do trabalho seja na esfera do público ou do privado A diferenciação entre tarefas femininas e masculinas sustentadas na subalternidade histórica das mulheres não é um dado natural mas uma noção política técnica e econômica que articula tarefas masculinas à esfera do público ao sentido de virilidade e razão em detrimento das femininas que estão associadas ao doméstico às emoções e à natureza Nesse sentido quanto mais masculinizada é a atividade mais estratégica ela aparenta ser e uma vez feminilizada a tarefa passa a ser classificada como menos complexa LOBO 1991 p 150 Nesse caso a divisão sexual do trabalho tem como especificidade reservar às mulheres a esfera reprodutiva e aos homens a esfera produtiva assim como oferecer aos homens trabalhos mais bem pagos e valorizados socialmente Nesse sentido a responsabilização com o lar o cuidado com asos filhasfilhos idosasidosos e doentes é funcional e integrado ao modo de produção capitalista Mesmo partindose do pressuposto de que houve anteriores ao capitalismo outras formas de divisão do trabalho entre homens e mulheres essa divisão estava marcada por outra relação entre produção e reprodução pois essa que se expressa nesse sistema está diretamente relacionada à formação social capitalista na qual a força de trabalho é vendida como uma mercadoria e o espaço doméstico passa a ser uma unidade familiar e não mais uma unidade familiar e produtiva Do ponto de vista histórico segundo Kergoat 2002 é possível observar que a estruturação atual da divisão sexual do trabalho surgiu simultaneamente ao capitalismo pg 234 e que a relação do trabalho assalariado não teria podido se estabelecer na ausência do trabalho doméstico A conformação dessa divisão sexual do trabalho evidencia que a nova ordem social estabelecida a partir dos interesses do capital reestruturou a dominação patriarcal O que nos leva também a considerar que o conceito de patriarcado deve estar situado social e historicamente ÁVILA FERREIRA 2014 p 16 78 Tal problemática é produto das relações sociais de sexo e do patriarcado que materializam a apropriação das mulheres e sua redução ao estado de objeto material Segundo Guillaumin 2014 p 35 as expressões particulares dessa relação de apropriação são a a apropriação do tempo b a apropriação dos produtos do corpo c a obrigação sexual d o encargo físico dos membros inválidos do grupo inválidos por idade bebês crianças e velhos ou doentes e deficientes bem como dos membros válidos do sexo masculino GUILLAUMIN 2014 p 35 Nessa perspectiva as mulheres são ferramentas de produção e reprodução social criadas para a exploração de sua força de trabalho e de sua própria materialidade A compreensão da desigualdade entre homens e mulheres a partir da concepção francófona de relações sociais de sexo está relacionada à concepção de relações sociais de classe e expõem o antagonismo entre dois grupos sociais É portanto uma relação ligada ao sistema de produção ao trabalho e à exploração de uma classe por outra FALQUET 2014 p 15 Saffioti 2011 aponta o traço de servidão contido no trabalho doméstico seja este gratuito ou remunerado Salientamos que o trabalho doméstico realizado pelas mulheres não é contabilizado pelo capitalista Em outras palavras os custos da reprodução da força de trabalho são contados a partir da satisfação das necessidades básicas à manutenção e reprodução da classe trabalhadora tais como alimentação vestuário habitação lazer educação entre outras Entretanto está excluído dessa conta todo o trabalho investido na gestão e execução dessas tarefas domésticas assim como o fato de que essas atividades são atribuições das mulheres Por tudo isso seria impossível a manutenção do trabalho assalariado na produção sem a sustentação do trabalho reprodutivo e não remunerado na esfera doméstica CARRASCO 2001 O conceito relações sociais de sexo foi elaborado na tentativa de se contrapor a percepções ideopolíticas que definiam a identidade feminina a partir da natureza cultura e ideologia de modo que determinavam as mulheres e os homens por uma relação social material concreta e histórica Uma relação de antagonismo entre a classe das mulheres e a dos homens É importante dizer que as feministas materialistas usam classes para todas as definições de relações sociais sejam de sexo classe social ou raça mas aqui vou adotar a acepção de grupo social em antagonismo Como alude Falquet 2014 p 15 79 as mulheres não são uma categoria biológica mas uma classe social definida por rapports sociais de sexo historicamente e geograficamente variáveis centralmente organizados em torno da apropriação individual e coletiva da classe de mulheres pela classe dos homens por meio do que Colette Guillaumin 1978 1992 denominou de sexagem Esses rapports são solidamente apoiados no que ela chamou de ideologia da Natureza na qual estão subjacentes também as rapports sociais de raça FALQUET 2014 p 15 Essa perspectiva de imbricação entre as relações sociais de sexo raça e classe tem como aporte principal a desnaturalização dessas relações e a identificação de sua centralidade na produção da sociedade levando em consideração o fato de que são constantemente recriadas e perpetuadas Portanto oferece a possibilidade de pensar de maneira não naturalizada historicizada e dialética as contradições centrais que movem a sociedade É uma superação da ideia das mulheres como sendo naturais e da sociedade como organismo fixo e dado Aqui os homens e as mulheres não são um grupo natural ou biológico não se definem pela cultura tradição ou ideologia mas social concreta e historicamente elaborados enquanto grupos sociais antagônicos Tais relações sociais de sexo só podem ser apreendidas e transformadas de forma coletiva embora possam existir fissuras das desigualdades no campo individual As relações rapports sociais surgem de um nível macroestrutural Elas se articulam entre grupos e só podem ser percebidas ou transformadas indiretamente coletivamente Assim para entendermos o conceito de rapports sociaux de sexe é necessário compreender a concepção de relação no sentido de rapport social a que está associado AnneMarie Devreux localiza a categoria rapport sociaux na perspectiva marxista e afirma que a mesma é uma oposição estrutural de duas classes com interesses antagônicos Para Devreux 2015 p 564 não se pode haver relação social como categoria única Não se pode haver relação social sem confrontação Por isso a relação social de sexo nomeia os sujeitos uma vez que designa a confrontação entre as consideradas categorias de homens e mulheres que envolvem conflitos e antagonismo de ordem estrutural ainda que também reflitam nas relações relations pessoais CISNE 2016 p 62 Desse modo asseveramos a articulação da categoria relações sociais de sexo aos estudos marxistas sobre a centralidade do trabalho bem como sua precisão teórica em identificar a natureza da opressão das mulheres que é sua apropriação enquanto grupo social e além disso a necessidade de utilização do conceito de patriarcado enquanto sistema político econômico cultural hierárquico e com base material que dispõe direitos sexuais políticos e econômicos aos homens e interdições múltiplas às mulheres por meio da violência eou da ideologia SAFFIOTI 2004 80 O patriarcado é estruturado a partir da dominação do pai sobre a mulher e asos filhasfilhos na lei do pai comportando a noção de autoridade independentemente de filiação biológica Nessa perspectiva os homens detêm o poder de vida e morte sobre as mulheres O poder é masculino e institui formas de dominação ao grupo antagônico Para Pateman 1993 o homem se institucionaliza enquanto sujeito universal da história e por conseguinte a doutrina da universalidade dos princípios de liberdade e igualdade não vai incluir as mulheres A rigor as mulheres são apenas objetos do contrato social já que não têm status de indivíduo e por isso os seus direitos estão articulados ao âmbito privado As bases de constituição do patriarcado estão ligadas ao controle e tutela sobre o corpo das mulheres e os produtos do corpo à exploração da força de trabalho feminina e ao confinamento das mulheres processos que instituíram a monogamia para as mulheres e a família patriarcal como modelo Para Saffioti Nesse regime as mulheres são objetos da satisfação dos homens reprodutoras de herdeiros de força de trabalho e de novas reprodutoras Diferentemente dos homens como categoria social a sujeição das mulheres também como grupo envolve prestação de serviços sexuais a seus dominadores SAFFIOTI 2004 p 12 É preciso pontuar que a despossessão das mulheres extrapola as interdições na esfera privada também alcançando a esfera pública materializandose na pouca participação política e científica na pauperização na mercantilização do corpo e no uso da violência Digase de passagem que a violência perpetrada contra as mulheres se constitui no ápice do disciplinamento feminino De acordo com Hartmann 1994 p 256 o patriarcado pode ser compreendido como un conjunto de relaciones sociales que tiene una base material y en el cual hay relaciones jerárquicas entre los hombres y una solidaridad entre ellos que permiten controlar a las mujeres El patriarcado es por lo tanto el sistema de opresión de las mujeres por los hombres HARTMANN 1994 p 256 Nesse sentido o patriarcado qualifica as relações sociais de sexo e expõe a apropriação das mulheres como um processo de dupla face a exploração e a dominação que se entrelaçam num único processo Para Saffioti 1987 p 50 enquanto a dominação pode para efeitos de análise ser situada essencialmente nos campos político e ideológico a exploração diz respeito diretamente ao terreno econômico Portanto dominação e exploração constituem 81 um único fenômeno apresentando duas faces Desta sorte a base econômica do patriarcado não consiste apenas na intensa discriminação salarial das trabalhadoras em sua segregação ocupacional e em sua marginalização de importantes papéis econômicos e políticodeliberativos mas também no controle de sua sexualidade e por conseguinte de sua capacidade reprodutiva Seja para induzir as mulheres a ter grande número de filhos seja para convencêlas a controlar a quantidade de nascimentos e o espaço de tempo entre filhos o controle está sempre em mãos masculinas embora elementos femininos possam intermediar e mesmo implementar estes projetos SAFFIOTI 2004 p 106 Nessa linha de análise entendese o patriarcado como um conceito que se refere especificamente à sujeição das mulheres e à forma de direito político exercida pelos homens pelo fato de serem homens PATEMAN 1993 uma espécie de pacto masculino de controle sobre as mulheres que tem sua base material na ideologia e na violência mantendo a dominaçãoexploraçãoopressão mediante a existência de uma economia doméstica ou domesticamente organizada 1 não se trata de uma relação privada mas civil 2 dá direitos sexuais aos homens sobre as mulheres praticamente sem restrições 3 configura um tipo hierárquico de relação que invade todos os espaços da sociedade 4 tem uma base material 5 corporificase 6 representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência SAFFIOTI 2004 pp 5758 Posto isso cabe dizermos que o patriarcado pode ser compreendido como eixo explicativoanalítico da subsunção feminina e uma forma historicamente específica de relações desiguais entre os sexos sendo que a recusa em sua utilização enquanto categoria teórico explicativa é uma forma de fortalecer a engrenagem desse regime operar com a ideologia patriarcal e denotar a força desse sistema Esse sistema de dominação é tão inerente às relações sociais que nem sequer a presença do patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado A legitimidade atribui sua naturalização SAFFIOTI 2004 p 101 E pode ser acionado inclusive por mulheres4 Assim 4 Como bem mostra Zhang Yimou no filme Lanternas Vermelhas nem sequer a presença do patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado levando à forca a terceira esposa pela transgressão cometida 82 sendo o patriarcado caracterizase como uma relação estrutural e superestrutural que pode ser analisada no sentido de rapport sociaux CISNE 2014 Cabe afirmarmos que o sistema sociopolítico do patriarcado não se constrói de forma isolada ao contrário relacionase com mais dois eixos estruturantes da sociedade o modo de produção capitalista e o racismo a que Saffioti 1987 1992 2004 denominou de nó Com efeito na realidade concreta o tripé não é separável já que se articula de tal forma num processo dialético formando um único sistema de dominaçãoexploração sendo pois uma unidade profundamente contraditória e dialética Cada haste desse tripé contraditório se produz e reproduz de maneira própria e articulada Retroalimentandose Assim sendo fundiramse de tal forma que seria impossível transformar um deles deixando intacto os demais Desse modo qualquer projeto de transformação societária necessita incluir todas as contradições postas na sociabilidade sendo portanto inviável um projeto societário cego para o gênero Como assevera Saffioti 2014 p 51 burgueses brancos e homens necessitam de suas ideologias e do nó em sua totalidade para convencer os dominados explorados da legitimidade da ordem social implantada Entretanto não se trata de realizar a somatória das três contradições referidas mas de apreender a realidade contraditória e dialética que resulta dessa simbiose tendo em vista que não existem apenas discriminações quantitativas Não se pode tratar determinações que complexificam e agudizam a situação de dominaçãoexploração das mulheres como variáveis quantitativas e equações numéricas Conforme Saffioti 2008 p 21 efetivamente uma mulher não é duplamente discriminada porque além de mulher é ainda uma trabalhadora assalariada Ou triplamente discriminada Nesse sentido como já apontei desde o início do subitem as relações sociais de sexo de raçaetnia e de classe são consubstanciais e coextensivas contra a ordem patriarcal de gênero além do patriarcado fomentar a guerra entre as mulheres funciona como uma engrenagem quase automática pois pode ser acionada por qualquer um inclusive por mulheres Quando a quarta esposa em estado etílico denuncia a terceira que estava com seu amante à segunda é esta que faz o flagrante e que toma as providências para que se cumpra a tradição assassinato da traidora O patriarca nem sequer estava presente no palácio no qual se desenrolaram os fatos Durante toda a película não se vê o rosto deste homem Quer se trate de Pedro João ou Zé Ninguém a máquina funciona até mesmo acionada por mulheres Aliás imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado mulheres desempenham com maior frequência e com mais ou menos rudeza as funções do patriarca disciplinando filhos e outras crianças ou adolescentes segundo a lei do pai Ainda que não sejam cúmplices deste regime colaboram para alimentálo SAFFIOTI 2004 p 102 83 As relações sociais são consubstanciais elas formam um nó que não pode ser sequenciado ao nível das práticas sociais apenas em uma perspectiva analítica da sociologia e elas são coextensivas implantando as relações sociais de classe de gênero e de raça se reproduzem e se coproduzem mutuamente KERGOAT 2012 p 126 Tal posição apresentada se confronta com a concepção de que estas relações seriam superpostas interconexas interseccionais CRENSHAW 1989 1993 e que uma relação poderia ser priorizada em detrimento das outras Para Cisne 2014 p 142 Ao considerar por exemplo que elas seriam relações adicionais ou seja somáveis cairíamos na segmentação positivista de entendêlas como relações separadas e não enoveladas Para Kergoat 2012 o conceito de interseccionalidade considera uma multiplicidade de articulações tais como nacionalidade religiosidade sistemas de castas fluxos migratórios deslocamentos entre outras que levam a um perigo de fragmentação das práticas sociais e à dissolução da violência das relações sociais com o risco de contribuir à sua reprodução Para Cisne 2014 é preciso destacar que muitas teóricas dessa vertente continuam a raciocinar em termos de categorias e não de relações sociais privilegiando uma ou outra categoria sem historicizálas e por vezes não levando em consideração as dimensões concretas da dominação Aqui aludo seguindo as análises postuladas por Kergoart 2018 que o conceito de interseccionalidade é extenso e agrega um conjunto de acepções acerca da imbricação das relações de poder inclusive com algumas aproximações das análises em termos de relações sociais de sexo Muitas teóricas da perspectiva descolonial agregam as suas análises à impossibilidade de apreender a opressão e a exploração desarticulada dos processos de colonização e expropriação da América Latina e África Mesmo assim as referências à abordagem interseccional mascaram oposições persistentes no campo da teoria crítica em geral e dos estudos feministas em particular categorias X relações sociais identidades X classes subversão X emancipação Eis o que diz Sirma Bilge a respeito dos debates que atravessam a pesquisa interseccional se a interação das categorias da diferença constitui um ponto de consenso na literatura interseccional conforme demonstra o uso disseminado de termos alusivos a categoriasidentidadesprocessos mutuamente constitutivos a questão ontológica o que é e a questão epistemológica como é visto estão sujeitas a controvérsias De fato uma certa imprecisão cerca este mutuamente constitutivo Elsa Dorlin argumenta por sua vez que as teorias de interseccionalidade por hesitarem entre o analítico e o fenomenológico da dominação não conseguem conciliar estas duas abordagens de um lado a dominação é interseccional De outro determinadas experiências vividas da dominação é que são interseccionais E estas hesitações têm um custo precisa 84 ela quando somente as experiências das hiperdominadas são vistas como interseccionais KERGOAT 2018 p 146 Corroboramos a perspectiva de Falquet 2012 quando aponta a análise de relações sociais de classe raça e sexo como capazes de apreender as expropriações contemporâneas e a mundialização do capital Além disso reafirmamos a necessidade de aprofundar as análises sobre o racismo enquanto relação social estruturante no sentido de rapport Na particularidade brasileira o racismo se constituiu enquanto elemento estruturante das relações sociais e da formação da sociedade brasileira O Brasil é um país formado na linguagem da escravidão e da colônia que concentrava a produção por meio da monocultura latifundiária do trabalho escravo e do patriarcalismo rural do qual a casa grande e a senzala foram símbolos e que instituiu a relação de coisificação dos negros enquanto grupo social e a apropriação das mulheres negras em particular No Brasil e na América Latina a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional estruturando o decantado mito da democracia racial latinoamericana que no Brasil chegou até as últimas consequências Essa violência sexual colonial é também o cimento de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades configurando aquilo que Ângela Gilliam define como a grande teoria do esperma em nossa formação nacional através da qual segundo Gilliam O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance CARNEIRO 1995 p 549 Não é demais reafirmar que asos negrasnegros constituem os segmentos populacionais que ocupam os espaços menos prestigiados são incorporados em trabalhos precários informais terceirizados e mal remunerados apresentam os mais baixos graus de escolaridade e pouco adentram à educação superior mesmo após a efetivação do sistema de cotas para as universidades federais assim como participam pouco do poder político CARNEIRO 1995 SCHWARCZ 2012 No Brasil o racismo inclui discriminações violentas contra negros de modo a fecharlhes portas de acesso a determinadas posições sociais preservando assim privilégios das brancas e dos brancos SAFFIOTI 2004 p 53 Para a presente análise as relações sociais de sexo e o patriarcado dão sustentação para a apropriação das mulheres individual e coletivamente Nesse horizonte há uma apropriação física direta que segundo Guillaumin 2014 p 33 compreende o açambarcamento da força 85 de trabalho e é através da forma assumida por esse açambarcamento que se pode discernir que se trata de uma apropriação material do corpo A posse material do corpo das mulheres se expressa na apropriação do tempo dos produtos do corpo na obrigação sexual e no encargo físico dos membros inválidos do grupo inválidos por idade bebês crianças velhos ou doentes e deficientes bem como dos membros válidos do sexo masculino Enquanto posses materiais as mulheres estão à disposição de seus proprietários como ferramentas de trabalho e cuidado Segundo Guillaumin 2014 os meios de apropriação da classe de mulheres são i O mercado de trabalho ii O confinamento no espaço iii Demonstração de força iv Coação sexual v Arsenal jurídico e direito consuetudinário Para o entendimento do processo de apropriação material e despossessão mental das mulheres GUILLAUMIN 2014 precisamos apreender o significado sociohistórico da família enquanto uma unidade de produção A origem etimológica da palavra vem do latim famulus e de acordo com Saffioti 2004 p 89 significa escravo doméstico e família é o número total de escravos pertencentes a um homem O surgimento e consolidação da família tem relação com a derrocada das sociedades préclassistas e reconfigura o lugar da mulher na sociedade Na família patriarcal monogâmica asos filhasfilhos e as terras passaram a ser propriedades privadas do homem ficando bem definidos os papéis sociais e sexuais entre eles Ao homem era dado o poder de vida e morte sobre a mulher filhos escravos e animais ou seja sobre todos que estavam sob seu domínio no famulus De acordo com Reed na nova sociedade os homens se converteram em principais produtores enquanto as mulheres eram trancadas em casa e ficaram limitadas à servidão familiar Desalojadas de seu antigo lugar na sociedade não somente se viram privadas de sua independência econômica como inclusive de sua antiga liberdade sexual A nova instituição do matrimônio monogâmico surgiu para servir as necessidades da propriedade que a partir de então era possuída pelo homem REED 2008 p 42 A família patriarcal monogâmica pode ser entendida como uma instituição econômica DELPHY 2009 lugar obrigatório de afetos de sentimentos de amor FOUCAULT 1980 p 103 espaço de privação PATEMAN 1993 ou um microcosmo insubstituível de reprodução e consumo MESZAROS 2011 p 278 que cumpre funções procriativas reprodutivas e ideológicas que são estruturantes na nova sociabilidade de classes Funções que passam a ser consideradas como naturais Para Delphy 1998 p 34 o modo de produção 86 familiar regido pelo patriarcado organiza as relações sexuais a educação das crianças os serviços domésticos e a produção de certos bens como pequenas produções mercantis Assim a reprodução física e emocional da força de trabalho a socialização dasdos filhasfilhos e o trabalho doméstico serão atribuições entendidas como femininas e sob responsabilidade das mulheres O trabalho doméstico não pago é crucial para a reprodução da força de trabalho pois centraliza as funções de alimentar vestir procriar e domesticar essa força De outra parte a socialização das mulheres no trabalho doméstico é uma das formas de interditálas à esfera pública diminuir o valor de sua força de trabalho e responsabilizálas pela reproduçãodomesticação de novas forças de trabalho Por certo a família também cumpre a função ideológica estratégica de difusão do conservadorismo e manutenção do status quo da sociedade burguesa Nas palavras de Cisne A família patriarcal realiza o papel ideológico na difusão do conservadorismo ao ensinar as crianças que devem aceitar as estruturas e premissas básicas da sociedade de classes Waters 1979 p 88 Há assim por meio desse modelo familiar uma internalização de valores conservadores ou melhor desvalores junto às crianças desigualdade competitividade autoridade e hierarquia preconceitos e funções sexistas Waters 1979 Logo concordamos com esse autor que o sistema familiar é também um pilar indispensável ao Estado Claro que juntamente com a família foi necessário criar seja para o aspecto ideológico seja para manter a divisão de riqueza por meio da força outras instituições como a Igreja a polícia as leis as prisões CISNE 2014 p 83 Outra função da família se dá na afirmação da heterossexualidade enquanto sistema político e instrumento ideológico e na maternidade como destino das mulheres Há uma produção do amor materno que transforma a condição reprodutiva das mulheres em uma obrigação inscrito em seu corpo e em sua subjetividade VILLELLA 2011 p 23 3222PARTICULARIDADES DA CONSTITUIÇÃO DOS MOVIMENTOS FEMINISTAS NO BRASIL Quando aportei no Cariri Cearense em 2011 duas coisas me chamaram a atenção de um lado a presença indigesta de fortes relatos de violência e assassinato de mulheres e de outro o histórico de lutas sociais na região e a organicidade dos partidos de esquerda e movimentos sociais locais inclusive com forte protagonismo das mulheres Tal contexto me revelou a priori a realização pelos movimentos locais de ações pontuais de enfrentamento ao feminicídio e 87 às múltiplas violências as quais as mulheres da região são submetidas cotidianamente No entanto sem a presença de um movimento feminista articulado O protagonismo das mulheres caririenses que reinterpretavam o mundo a partir de uma postura de resistência frente aos constantes processos de expropriaçõesdominações explorações também não aparecia nas elaborações científicas dasdos pesquisadoraspesquisadores da região Havia um profundo silêncio sobre as narrativas das mulheres militantes e de suas resistências Como alude Perrot 2017 p 16 escrever a história das mulheres é sair do silêncio em que elas estavam confinadas de forma que o silêncio das fontes e dos relatos funcionava naquele momento como um obstáculo concreto para a auto organização e formação de um sujeito militante feminista Nas palavras de Beauvoir 2009 p 23 No momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens Tudo que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito porque eles são a um tempo juiz e parte escreveu no século XVII Poulain de La Barre feminista pouco conhecida Em toda parte e em qualquer época os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação O rompimento do silêncio sobre as narrativas particulares das resistências das mulheres caririenses requer redimensionálas como sujeitos dos relatos e construtoras de uma memória feminina e feminista bem como o entendimento sobre a constituição das relações sociais de sexo raçaetnia e classe particulares ao Nordeste ao interior ao sertão ao mundo rural que precisam ser desvendados para a apreensão das múltiplas determinações do real a fim de melhor compreender a interiorização das resistências feministas e a atuação dos movimentos de mulheres As mulheres foram e ainda têm sido esquecidas não só em suas reivindicações em suas lutas em seus direitos mas em suas ações Suprimidas da História foram alocadas na figura da passividade do silêncio da sombra na esfera desvalorizada do privado O feminismo aponta para a crítica da grande narrativa da História mostrando as malhas de poder que sustentam as redes discursivas universalizantes O feminismo denuncia e crítica Logo deve ser pensado e lembrado RAGO 1996 p 15 Assim publicizar a história das mulheres e da constituição dos movimentos de mulheres e feministas no Cariri passou a ser parte de minha história enquanto militante e pesquisadora 88 Pesquisar as mulheres em movimento no Cariri é em última instância constituir uma apropriação de mim e da minha condição de ser mulher ou de tornarme mulher Parafraseando Beauvoir 2009 2012 2013 perguntar constantemente sobre o ser mulher e pensar sobre a condição de desigualdades a que as mulheres enquanto coletivo estão submetidas é tornarse o fio condutor de sua própria obra É refletir sobre sua própria condição inclusive subvertendo a lógica masculina do pensamento O feminismo deve reafirmarse como um movimento social que se originou da ousadia libertária contra os cânones reivindicando a materialização no imediato de utopias o investimento em desidentificações identificações CASTRO 1997 p 10 Penso ser necessário fazer uma distinção entre movimento feminista e movimento de mulheres para melhor compreender as particularidades da constituição dos movimentos feministas no sertão caririense e a experiência militante da Frente de Mulheres colocada aqui enquanto sujeito de estudo e de inquietações militantes Há um debate intenso sobre a relação entre movimentos feministas e movimento de mulheres por um lado analisados como espaços distintos e por outro enquanto partes constitutivas dos processos de lutas das mulheres que se retroalimentam Desta maneira o feminismo seria dimensionado enquanto uma parte do movimento de mulheres em geral De acordo com Silva 2016 p 20 o movimento de mulheres pode ser caracterizado como um conjunto de ações de enfrentamento mobilizações sociais formas organizativas e de protestos que são coletivamente realizados por mulheres Corroboro Federici 2017 quando afirma que as raízes de um movimento de mulheres estão assentadas nas lutas antifeudais nas quais a expropriação do poder e dos conhecimentos das mulheres via caça às bruxas estruturaram os primeiros cercamentos e o processo contraditório de acumulação primitiva A luta contra o poder feudal produziu também as primeiras tentativas organizadas de desafiar as normas sexuais dominantes e estabelecer relações mais igualitárias entre mulheres e homens Combinadas à recusa do trabalho servil e das relações comerciais estas formas conscientes de transgressão social construíram uma poderosa alternativa não só ao feudalismo mas também à ordem capitalista que estava substituindo o feudalismo FEDERICI 2017 p 46 Não tenho dúvidas de que as mulheres que resistiram de forma individual e coletiva constituíram suas lutas em diversos espaços geopolíticos e que suas narrativas ainda são 89 insuficientes porém já começam a ganhar visibilidade nas cartografias feministas contra a hegemônicas Portanto o movimento de mulheres é aqui entendido como um conjunto heterogêneo de mulheres que romperamrompem com o confinamento do espaço doméstico em torno de diferentes formas de luta e organização alimentandose por diversas perspectivas teóricas e ideopolíticas feminista popular políticopartidária e sindical Dentro do campo mais amplo dos movimentos de mulheres os movimentos feministas na literatura hegemônica formamse na instituição das mulheres enquanto um sujeito político manifestandose como tal na segunda metade do século XIX e demarcando uma concepção de luta política e de projeto de vida Constituise portanto como um movimento político cultural social e econômico que redefine o campo da política e da vida cotidiana bem como estrutura um pensamento crítico e subversivo que procura desnaturalizar as relações patriarcais de sexo bellhooks 2010 p 12 logo na introdução de seu livro O feminismo é para todo mundo define feminismo ou feminismos como um movimento que almeja o fim do sexismo e das opressões de classe de raça de etnia entre outras Aqui o feminismo pode ser apreendido como um caleidoscópio através do qual distintas experiências das mulheres podem ser analisadas criticamente no sentido de reinventar as relações sociais entre homens e mulheres fora dos padrões que estabelecem a inferioridade de um em relação ao outro As perspectivas hegemônicas no interior dos feminismos têm situado a constituição das lutas por emancipação feminina nos marcos das reivindicações por igualdade no século XVIII elaborando uma história das mulheres a partir do desenvolvimento do modo capitalista de produção no contexto da Europa e posteriormente dos Estados Unidos da América Tais perspectivas em certa medida desconsideram as particularidades de outras formações sociais e os processos de desenvolvimento combinado e desigual do capitalismo Nessa lógica os movimentos de mulheres e dentro deles os feminismos desenvolveramse a partir de três ondas organizativas a saber as lutas por inserção no mundo do trabalho da educação e da política as reivindicações pela autonomia do corpo das práticas sexuais e do enfrentamento à violência nos marcos do maio de 1968 e o aparecimento de novos feminismos PINTO 2003 Esta acepção clássica identifica no bojo das transformações políticas e econômicas da Europa setecentista as primeiras ideias feministas em torno da reivindicação por igualdade e liberdade Nesse sentido o feminismo emerge como uma ação coletiva estruturada a partir do fenômeno da modernidade acompanhando seus fluxos e refluxos desde o século XVIII 90 tomando corpo no século XIX também como um instrumento de críticas da sociedade moderna e do homem enquanto sujeito universal desta modernidade SADENBERG COSTA 1991 As mulheres não estavam incluídas na concepção de sujeito e estavam excluídas do contrato social já que seu estatuto social era semelhante ao dos escravos Nesse sentido a crítica das feministas centravase nas contradições da modernidade que se estabeleceu entre o universalismo dos direitos políticos e individuais e o universalismo da diferença sexual legitimada pela justificativa ideológica de que essa diferença era decorrência da natureza Dentre os textos fundadores destaco a obra de Mary Wollstonecraft Reivindicação dos direitos das mulheres publicada em 1792 que a partir da doutrina liberal dos direitos inalienáveis do homem apontava a necessidade de alargamento dos direitos políticos das mulheres por meio de sua inclusão no campo da cidadania No campo das feministas socialistas temos a publicação em 1843 do livro União Operária de Flora Tristan que identifica as opressões sofridas pelas mulheres no interior das classes trabalhadoras bem como a necessidade de acesso destas à educação A autora articula essa pauta com as lutas de classe indicando a criação de uma Associação Internacional de trabalhadores e trabalhadoras que posteriormente foi proposta por Marx e Engels Segundo Tristan 2017 p 98 Eu reclamo direitos para a mulher porque estou convencida de que todas as desgraças do mundo provêm desse esquecimento e desprezo que sofreram até aqui os direitos naturais e imprescritíveis do ser feminino Eu reclamo direitos para a mulher porque é a única maneira de conseguir que se ocupem de sua educação e da educação da mulher depende a do homem em geral e particularmente da do homem do povo Eu reclamo direitos para a mulher porque é o único meio de obter sua reabilitação diante da igreja da lei e da sociedade e que é necessária essa reabilitação antecipada para que os próprios operários sejam reabilitados desde a declaração dos direitos do homem ato solene que proclamava o esquecimento e o desprezo que os novos homens demonstraram em relação a elas esse protesto investiuse de um caráter de energia e de violência que prova que a exasperação do escravo atingiu o ápice Portanto essa onda feminista centravase na reivindicação das mulheres em serem reconhecidas como sujeitos aptos a participarem da vida política do mundo do trabalho e da educação Aqui também aponto a luta das mulheres pelo direito de alistamento à carreira militar e ao acesso às armas a fim de tomar parte da defesa da revolução Essas reivindicações eram direcionadas às estruturas estatais e às organizações dos trabalhadores no sentido de criar um consenso em torno da igualdade e da liberdade para todos Entretanto existia uma negação 91 dessas pautas por parte dos homens inclusive dos que encampavam a luta por projetos revolucionários de sociedade seja sob a alegação de que não eram pautas centrais e posteriormente seriam alcançadas a partir da vitória dos trabalhadores ainda bastante usual no século XXI seja com o argumento de que traziam prejuízos ao conjunto dos trabalhadores rebaixando seus salários expresso na resistência dos homens às mulheres se inserirem no mundo do trabalho fabril Ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX a defesa dos direitos das mulheres passou a assumir formas organizativas diversificadas e heterogêneas conforme a assimilação do ideário feminista em cada contexto geopolítico O desenvolvimento do modo de produção capitalista e os processos de industrialização provocaram um conjunto de transformações societárias que impactaram a vida das mulheres europeias Destaco que a colonização das terras da América e a escravidão dos povos africanos impactaram decisivamente para as reivindicações das mulheres nãoeuropeias e norteamericanas É nesse contexto que se fortalece a luta sufragista com os objetivos de acessar ao parlamento para tensionar as leis e as instituições assim como alargar os direitos políticos e de cidadania Cabe dizer que a luta por sufrágio universal e acesso à educação condensou ao seu redor um conjunto de mulheres com posições políticas e ideológicas bastante distintas e de várias regiões do mundo Na formação social brasileira as lutas das mulheres por acesso à educação formal e ao voto se constituíram entre meados do século XIX até os anos 1940 e foram marcadas pelo fato de que até o final do século XIX bem poucas mulheres tinham aprendido a ler e a escrever O acesso à educação continua sendo uma pauta relevante para as mulheres e que até o século XXI ainda mobiliza esforços para a sua materialização Considero importante pontuar o lugar que o Brasil ocupava na organização internacional do trabalho no século XIX enquanto um estadonação que nasce à sombra do poder monárquico de raízes portuguesas com bênçãos do poder monárquico britânico garantindose assim a legitimidade metafórica do estadonação e dos governantes IANNI 2000 p 66 Ademais o país tem como traço constituinte e constitutivo de suas relações sociais o processo de escravidão que deixou profundas marcas estruturais na sociedade brasileira Por outra parte teremos a constituição de uma sociedade agrária fundada no latifúndio escravidão e na constituição da família patriarcal monogâmica e de um Estado autoritário e tutelar IANNI 2000 1966 CHAUÍ 2006 Esses traços fundadores estão articulados ao catolicismo como 92 argamassa intelectual cultural e ideológica da história brasileira no sentido de aniquilamento da ideia de laicidade e na elaboração de uma história oficial e oficiosa que ideologicamente cria a ideia de país católico Tudo isso circunscreve as mulheres dentro de uma sociedade fortemente patriarcalreligiosa que visualiza os avanços da mulher como ameaças concretas à ordem e à paz social Neste contexto as lutas por participação política se deram fundamentalmente na tentativa de mudanças jurídicolegislativas para garantir o voto das mulheres das classes abastadas e brancas e não necessariamente na elaboração de um projeto político contestatório do lugar das mulheres na sociedade um traço do movimento feminista brasileiro que perdurará durante muito tempo não sem tensionamentos O acesso à educação superior para as mulheres foi conquistado em 1879 com a lei da reforma educacional e o direito ao voto nas primeiras décadas do século XX Todavia representaram conquistas para as mulheres pertencentes à classe média e à elite brasileira destacandose também o protagonismo individual5 ou de uma vanguarda de tais ganhos políticos Esta luta esteve associada ao nome de Berta Lutz que exerceu uma inegável liderança durante a década de 1920 e se manteve ligada às causas da mulher até sua morte em avançada idade na década de 1970 Entretanto não se pode reduzir a presença de manifestações feministas na época ao sufragismo de Berta Lutz Algumas dessas manifestações são organizadas outras são vozes solitárias de mulheres que se rebelam contra as condições que viviam na época O feminismo daquele período esteve intimamente associado a personalidades Mesmo quando apresentou algum grau de organização esta deriva do esforço pessoal de alguma mulher que por sua excepcionalidade na maioria das vezes intelectual rompia com os papéis para ela estabelecidos e se coloca no mundo público na defesa de novos direitos para as mulheres PINTO 2003 p 14 Pinto 2003 identifica três vertentes no feminismo brasileiro do início do século XX a primeira é encampada por Berta Lutz tendo como centralidade a luta por direitos políticos e um forte grau de institucionalização sendo considerada uma face bem comportada do feminismo brasileiro por não questionar as relações desiguais entre homens e mulheres a 5 Destaco nesse período o protagonismo de Nísia Floresta Nascida no Rio Grande do Norte foi uma das primeiras feministas brasileiras a romper o confinamento doméstico e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa Em 1832 publica a obra Direito das mulheres e injustiça dos homens uma tradução livre da obra de Mary Wollstonecraft que é reconhecido como um dos textos fundadores do feminismo brasileiro Também em uma perspectiva personalista temos a professora mossoroense Celina Guimarães que recorreu à justiça do estado para garantir o direito ao voto e se tornou a primeira eleitora do Brasil em 1927 93 segunda expressase na imprensa feminista alternativa caracterizandose por tensionar a dominação masculina e pontuar as questões de educação participação política e transformações no campo da vida cotidiana inclusive tematizando o divórcio e a sexualidade sendo denominada de feminismo difuso e a terceira se articula às perceptivas dos movimentos feministas anarquistas e comunistas tratando a questão das mulheres articulada à questão da exploração capitalista do trabalho e à necessidade de um projeto de revolução dos trabalhadores e trabalhadoras Nesse sentido o século XX iniciase com uma movimentação inédita de mulheres que pressionam os aparatos jurídicoinstitucionais pelo direito ao voto à inserção nas universidades e no mundo do trabalho questionando inclusive as esferas privadas da vida social Entretanto a partir da conquista ao voto o movimento feminista sofreu uma desmobilização em vários países inclusive na maioria dos países latinoamericanos Tal desarticulação pode ser explicada pela conjuntura da crise econômica de 1930 e a eclosão da Primeira Guerra Mundial A reorganização do movimento feminista acompanhou visivelmente os processos de desenvolvimento político social cultural e econômico do mundo ocidental em distintas formações sociais Qualificada de neofeminismo a segunda onda feminista cobre metade dos anos 1960 e começo dos anos 1970 e extrapola a reivindicação por igualdade jurídica reconhecendo a impossibilidade de alcançar tal igualdade no seio de relações sociais fundamentalmente desiguais estruturadas pelo sistema patriarcal Esse contexto é demarcado por intensas contestações ao imperialismo norteamericano a divisão do mundo em dois blocos de poder socialista e capitalista pela Guerra Fria e a crise sociometabólica do capital que aglomera um conjunto de estudantes mulheres negrosnegras operários intelectuais e artistas da Europa e dos Estados Unidos em torno de grandes mobilizações populares questionadoras do autoritarismo totalitarismo colonialismo e militarismo De outra parte também há uma intensa contestação dos valores padrões comportamentos e práticas reproduzidas nessa ordem social A irrupção desse novo universo ideopolítico de contestação à ordem em suas especificidades questionava as desigualdades entre as nações impostas pelo colonialismo imperialista a Guerra do Vietnã a repressão aos movimentos de independência das colônias a centralização políticoestatal do socialismo real e as estruturas clássicas de organização partidáriasindical Ademais repercutiu em uma revolução cultural no sentido de recusa aos padrões morais instituídos que se expressou na informalidade nos estilos de vida na defesa da legalização do uso de drogas e na livre prática 94 da sexualidade e de orientação sexual corporificadas no movimento hippie feminista homossexual e negro Uma revolução cultural e sexual com grandes impactos para as lutas sociais e para a constituição de novos sujeitos políticos que fortemente afetou as lutas feministas HOBSBAWN 1999 LEFEBVRE 1968 No espectro dos movimentos de contracultura dos anos 1960 os movimentos feministas vão além da reivindicação por direitos e igualdade constituindo lutas em torno da politização das esferas privadas e da transformação das relações afetivas e sexuais Aqui a noção burguesa de intimidade que dimensiona o espaço privado como de acolhimento e expressão das afetividades em contraposição ao mundo público moderno vai ser amplamente questionada A partir da afirmação de que o pessoal é político propunham problematizações em torno do domínio do político e dos limites da dicotomia entre o público e o privado Criticando a noção de vanguarda e considerando às vezes o engajamento político como um engajamento do conjunto da vida das militantes o feminismo dos anos 70 se caracteriza por grupos não mistos negando aos homens o direito de falar em nome das mulheres Ampliando as reivindicações dos movimentos negros norteamericanos Black Power Poder Negro e depois Black Panthers Panteras Negras as feministas abrem assim o caminho aos movimentos multiculturalistas das décadas de 1980 e 1990 ao denunciarem os valores universalistas como aqueles dos grupos dominantes FOUGEYROLLASSCHWEBEL 2009 p 146 As feministas portanto dimensionaram as opressões que perpassavam o cotidiano das mulheres na vida doméstica familiar e sexual como relações políticas que eram vivenciadas de forma isolada e individualizada no confinamento do mundo doméstico mas que precisavam de ações políticas na esfera pública para serem superadas Dar visibilidade a temas que politizam as relações do mundo doméstico tais como o direito ao aborto maternidade como escolha práticas sexuais livres lesbiandade violência contra a mulher e educação sexista provocou contraposições às lutas feministas e de certa forma resistências da esquerda socialista às lutas das mulheres entendidas como específicas e capazes de fragmentar a unidade de classe Destarte cumpre ressaltar que os movimentos feministas comportam vários ciclos de movimentação inclusive por se construir a partir de uma heterogeneidade de experiências e práticas de mulheres demarcadas seja pela raçaetnia classe sexualidades regionalidades religiosidades orientações sexuais gerações entre outras questões que podem até não serem percebidas ou consideradas pelo feminismo hegemônico mas que constroem outros feminismos mesmo que marginais periféricos ou contrahegemônicos Segundo Silva 2016 95 nos países centrais também existem vivências contrahegemônicas no feminismo a exemplo das materialistas francesas das radicais e do feminismo negro norteamericano No que diz respeito ao feminismo norteamericano destaco o seu ressurgimento na década de 1960 após os recuos das mulheres no processo de desmobilização do movimento Seja no campo da produção teórica ou da prática política as liberais reorganizam suas ações a partir da Organização Nacional para as Mulheres criada em 1966 com foco no processo educativo das mulheres fundamentadas na obra de Bety Friedman A mística feminina Em um outro caminho as radicais sustentavam a luta política no questionamento à apropriação do corpo e na conquista da autonomia Friso que as bases teóricas e as ações políticas dessa perspectiva estavam ancoradas em uma ampla heterogeneidade teórica e prática a partir do diálogo com o marxismo e com a psicanálise a fim de desvelar as origens das desigualdades entre homens e mulheres e no patriarcado enquanto sistema de opressão das mulheres Como assevera Millett 1975 p 47 O patriarcado é a instituição que operacionaliza a divisão sexista fornecendo os princípios e valores que organizam a sociedade com base em diferenças hierarquizadas Talvez nenhum outro sistema tenha exercido um controle tão completo sobre os seus súditos Para as feministas radicais o sistema patriarcal encontra seu lugar de reprodução na família no Estado e na Igreja entendidos como um tripé de dominaçãoopressãoapropriação da vida social e portanto instrumentos de sustentação ideológica do capitalismo Nesse sentido propõem uma revolução das mulheres para a tomada do controle da reprodução e da propriedade do corpo à recusa de formas tradicionais de organização política e da estrutura dos partidos políticos assim como a eliminação dos privilégios dos homens a partir da constituição da autonomia das mulheres e de sua representatividade nos espaços políticos De certo nos escritos teóricos de Shulamith Firestone A dialética do Sexo Kate Millet Política Sexual e Simone de Beauvoir Segundo Sexo tidos como centrais para as radicais há uma desnaturalização da desigualdade de sexos inscrita na negação do essencialismo biológico e no dimensionamento da questão das mulheres como da ordem da política e da história Aqui a apropriação do corpo e a conquista da autonomia são centrais para a formação do ser mulher enquanto um sujeito político capaz de transformar as relações microssociais e tensionar as estruturais 96 A luta política voltada ao conhecimento valorização e emancipação do corpo feminino fomentou uma das principais realizações do feminismo radical que foi a formação de grupos de autoconsciência e autoconhecimento uma práxis política constituída a partir da troca de experiências e vivências de mulheres e sua reflexão para a realização de ações coletivas Inspiradas em técnicas chinesas especialmente o speakbitterness falar da dor para superála mulheres ativistas a maioria de inclinação socialista e autoidentificadas como radicais se reuniam para discutir questões pertinentes ao ser mulher e intercambiar suas vivências e experiências concluindo que suas relações afetivas sexuais e familiares também se caracterizavam como relações de poder e desvantagem Portanto não eram naturais casuais e isoladas mas sociais históricopolíticas ideológicas e coletivas Assim requeriam enfrentamento coletivo mesmo que o fortalecimento da autodeterminação a partir desses grupos pudesse impulsionar micro estratégias de enfrentamento ao patriarcado Por ter vivido tão intimamente com nossos opressores isoladas uma das outras ficamos impedidas de ver nosso sofrimento pessoal como uma condição política Isso cria a ilusão de que o relacionamento de uma mulher com seu homem é uma questão de interação entre duas personalidades únicas e pode ser elaborado individualmente Na realidade cada tipo de relacionamento é um relacionamento de classe e os conflitos entre homens e mulheres individuais são conflitos políticos que só podem ser resolvidos coletivamente MANIFESTO DE REDSTOCKINGS 1969 p 534 A partir daí a palavra de ordem o pessoal é político se expressa na problematização não apenas de uma suposta separação entre a esfera privada e a esfera pública mas também da noção do político que toma as relações sociais na esfera pública como sendo diferentes em conteúdo e teor das relações e interações na vida familiar na vida privada Isso abre uma ampla agenda política corporificada na resistência e contestação a valores tradicionais de família sexualidade corpo e maternidade na defesa da legalização do divórcio e reconhecimento dos filhos ilegítimos na reivindicação de creches lavanderias e restaurantes públicos na descriminalização do aborto e enfrentamento à violência contra a mulher Aqui também aponto a importância do feminismo negro norteamericano para a ampliação da práxis feminista no sentido de questionar a universalidade da categoria mulher amplamente pleiteada pelo movimento feminista e a invisibilidade das mulheres negras nos seus estudos e ações Nesse sentido foram precursoras na incorporação da raçaetnia enquanto categoria de análise da exploraçãoopressão das mulheres ocupandose em discutir a presença 97 do racismo bem como o entrecruzamento entre gênero raça e classe como elemento representativo das distintas experiências das mulheres A crítica ao feminismo branco hegemônico se deu fundamentalmente na dificuldade deste em reconhecer a heterogeneidade intrínseca ao movimento em particular à questão racial dimensões que também são evidenciadas pelas feministas negras brasileiras Assim o desenvolvimento de uma crítica feminista negra nos anos 1970 e com maior amplitude nas décadas de 1980 e 1990 foi de fundamental importância para aprofundar as análises em torno do lugar social ocupado pelas mulheres negras e dos processos de desigualdade social econômica e política que elas são constantemente inseridas Essa contestação das mulheres negras às feministas brancas nos EUA já vinha acontecendo desde o século XIX a partir do desvelamento das experiências das mulheres negras na sociedade escravocrata e pós escravidão principalmente a partir das reflexões de Sojourner Truth Maria W Stewart Anna Julia Cooper e Ida B WellsBarnett Nas percepções de Davis 2016 e hooks 2018 mulheres negras e brancas compartilham as múltiplas opressões operacionalizadas pelo patriarcado todavia tais experiências não são universais e nem agenciam as mesmas formas de resistência para todas as mulheres já que inexiste um universalismo na condição da mulher A teoria feminista branca ocidental desconsiderou que ser mulher é uma experiência socialmente compartilhada e historicamente situada CAMURÇA 2007 p 16 Também ignorou a relação entre patriarcado colonização e racismo nas Américas bem como as particularidades das mulheres asiáticas africanas latinoamericanas e indígenasaborígenes em suas formações sociais específicas E para a constituição de um nós mulheres é imprescindível que se considere o ponto de vista das mulheres em suas pluralidades sustentado na concepção de que as repercussões do colonialismo do imperialismo da escravidão do apartheid e de outros sistemas de dominação racial operacionalizaram experiências diversas de opressãoexploração dominação em várias partes da África Caribe América do Sul e América do Norte Portanto a contribuição das mulheres negras na constituição da práxis feminista é de suma importância especialmente na particularidade brasileira dado o longo período de escravidão e as formas que se organizaram a libertação dos escravos e o pósescravidão marcando o racismo como traço constitutivo e constituinte das relações sociais Esse contexto de efervescência dos movimentos feministas em nível internacional nas décadas de 1960 e 1970 materializouse na América Latina a partir da resistência das mulheres 98 às ditaduras militares articulandose lutas contra as opressões específicas com foco nos direitos sexuais e reprodutivos além do enfrentamento à violência contra a mulher No que diz respeito à particularidade brasileira a autocracia foi uma ação articulada por frações burguesas locais militares e países imperialistas dominantes no sentido de obstacularizar a participação política das classes trabalhadoras fortalecer uma política econômica que favorecesse a entrada e a consolidação das empresas multinacionais no Brasil bem como inibir a expansão dos ideais comunistas e de esquerda que poderiam ameaçar a dominação econômica imperialista sobre os países periféricos FERNANDES 2005 p 111 Nesse sentido o estado brasileiro em nome do grande capital adotou uma política autoritária que usou da violência para impor medo e terror nos setores populares e nas lutas sociais em que a principal ferramenta da ação policial foi o uso da tortura para obrigar presos políticos a repassarem informações sobre as lideranças e os planos dos movimentos e segmentos que se colocavam contra o regime civilmilitar Para Netto 2014 p 74 O golpe não foi puramente um golpe militar foi um golpe civilmilitar e o regime dele derivado com a instrumentalização das Forças Armadas pelo grande capital e pelo latifúndio configurou a solução que para a crise do capitalismo no Brasil à época interessava aos maiores empresários e banqueiros aos latifundiários e às empresas estrangeiras NETTO 2014 p 74 No primeiro momento da ditadura civilmilitar foi possível visualizar uma intensa participação popular em que variados sujeitos coletivos resistiram e se posicionaram contra o regime com diversas ações no âmbito políticocultural e com a forte presença do movimento sindical popular estudantil e de mulheres bem como de setores da Igreja Católica congregados em torno dos valores da Teologia da Libertação e do circuito universitário imbuídos pela efervescência das ciências sociais e do maio francês Todavia o recrudescimento dos instrumentos de repressão e tortura impuseram aos opositores do regime a clandestinidade a perseguição e a prisão das lideranças comprometidas com ideais democráticos de forma que as lutas pela redemocratização tiveram que assumir outras formas através da constituição da luta armada via guerrilhas urbanas e rurais o exílio ou a retomada dos projetos de educação popular nas periferias As lutas dos movimentos de mulheres e dentro destes a emersão dos feministas na década de 1960 e 1970 se inscrevem nesse contexto de reivindicação contra o regime militar e reestabelecimento da democracia em que o protagonismo das mulheres demarcou uma 99 mudança profunda na política brasileira principalmente porque transgredia os papéis que historicamente foram designados à mulher rompendo com o confinamento doméstico e acessando a esfera pública Para Pinto 2003 p 45 A grande maioria das militantes feministas dos primórdios do feminismo no Brasil esteve envolvida ou foi simpatizante da luta contra a ditadura no país tendo algumas delas sido presas perseguidas e exiladas pelo regime A maior parte destas advinham de classes médias intelectualizadas que pleiteavam nas palavras de Rago 1996 p 37 novas formas de expressão de suas individualidades Em luta contra a ditadura militar defrontavamse também com o poder masculino dentro das organizações de esquerda que obstaculizavam sua participação em condições de igualdade com os homens Todavia é importante visibilizar a presença contundente das mulheres de classes populares nas lutas contra a ditadura e pela redemocratização do país mas fundamentalmente na esfera da reprodução social seja nos movimentos contra o aumento do custo de vida nos clubes de mães ou nas reivindicações por direitos sociais serviços de saúde moradia educação e transporte Segundo Sader 1998 essas mulheres foram influenciadas por agentes pastorais que a partir da inserção no cotidiano das comunidades possibilitaram a participação ativa das mulheres muito a partir de suas vivências de mães esposas e católicas subsidiando suas reflexões sobre as injustiças com referências nos evangelhos e formalizaram meios necessários para a mobilização social Como assevera o autor nada disso nega o fato de que efetivamente tratavase de uma organização pela base e por elas mesmas SADER 1998 p 204 A autoorganização das mulheres populares muitas vezes não era compreendida pelas que se intitulavam feministas como uma movimentação feminista em virtude de não questionar as opressões patriarcais distância que foi paulatinamente diminuída nas últimas décadas do século XX Na perspectiva de Pinto 2003 p 44 São inúmeros os relatos de aproximação do movimento de mulheres com o movimento feminista Se o primeiro muitas vezes se aproximava inicialmente apenas para se utilizar dos serviços promovidos pelo segundo suas integrantes a partir desta aproximação passavam a problematizar a própria condição de mulher 100 É inconteste que os movimentos de mulheres e feministas construíram uma complexa relação com a Igreja católica enquanto foco de oposição ao regime militar O trabalho com grupos de mulheres como parte do trabalho pastoral possibilitou intensas mudanças na vida das mulheres e nas organizações de bairro o que em certa medida colocava as feministas em constante processo de enfrentamento com a Igreja na disputa pela hegemonia dentro dos movimentos populares Mas em virtude da necessidade de fortalecer as alianças estratégicas contra o regime civilmilitar desviavamse de conflitos especialmente com pautas feministas que geravam polêmicas como era o caso dos direitos sexuais e reprodutivos a autonomia sobre o corpo e as sexualidades dissidentes que acabavam sendo debates nos grupos de reflexão portanto considerados clandestinos e impertinentes pela ditadura Igreja e pela própria esquerda revolucionária Para Soares 1994 p 14 as mulheres pobres a partir da ação política para melhorar suas vidas e as de seus familiares se redefiniam a si mesmas como legítimas atrizes públicas e modificavam as normas tradicionais que limitam a mulher neste âmbito privado do lar Entretanto essas mulheres mesmo que organizadas em suas ações de sobrevivência que as fazem sair do seu encerramento doméstico identificar interlocutores aumentar seu sentimento de autoestima podem não modificar no essencial a profunda segregação sexual da sociedade nem alterar a direcionalidade dos projetos sociais Elas se constituíram e ainda se constituem nas interlocutoras privilegiadas das feministas As trabalhadoras rurais também foram protagonistas dos processos de organização das mulheres de maneira expressiva e peculiar nos anos de ditadura civilmilitar e redemocratização do país Fazem parte de uma realidade demarcadamente heterogênea proveniente da inserção do capital na agricultura em que as lutas pela reforma agrária e pelo acesso à terra por melhores condições de produção e melhores preços agrícolas direitos sociais trabalhistas e previdenciários que em tese unificam homens e mulheres do campo se aliam à luta particular das camponesas por cidadania e visibilidade como trabalhadoras Ainda no quadro das resistências à ditadura militar Soares 1994 e Pinto 2003 apontam que as feministas brasileiras inspiradas pelas europeias e norteamericanas constituíram grupos de reflexão a partir do início dos anos 1970 para compartilhamento de suas experiências em comum acerca do lugar social do feminino na sociedade das corporalidades e dos direitos sexuais Realizavam suas reuniões na clandestinidade e a partir de convites privativos em torno das relações de afinidades intelectuais políticas e pessoais As brasileiras exiladas no exterior também se organizavam em grupos de reflexão sendo que o mais 101 importante foi o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris que durou de 1975 a 1979 constituindo espaços públicos de reflexão e produzindo materiais teóricopolíticos para as que estavam no Brasil Os grupos de reflexão expressavam uma questão polêmica no interior do feminismo brasileiro que era a dicotomia entre as que articulavam a questão das mulheres necessariamente à luta de classes e as que compreendiam a necessidade de fissurar as relações de dominação das mulheres de forma a dar ênfase ao corpo à sexualidade e ao prazer De acordo com Pinto 2003 p 52 os grupos de reflexão e as pautas feministas sofriam severas críticas do regime militar e da esquerda marxista seja ela em território brasileiro ou no exílio por representarem ameaça à unidade da luta do proletariado para a revolução socialista e ao poder dos homens no interior das organizações Um dado relevante sobre os movimentos de mulheres no período da ditadura civil militar é que estes não se posicionaram apenas contra o regime e a luta pela democracia mas também notase a presença de mulheres organizadas na legitimação da ditadura Como bem assevera Biroli 2018 p 179 houve uma presença marcante de mulheres na Marcha da Família com Deus pela Liberdade antessala do golpe de 1964 capitaneadas por organizações como a Campanha da Mulher pela Democracia Camde e a União Feminina De outra parte é importante enfatizar a importância da definição em 1975 pela Organização das Nações Unidas ONU do Ano Internacional da Mulher e da Década da Mulher que proporcionou o lançamento de vários eventos referentes à questão das mulheres e uma conjuntura favorável para a emersão do movimento feminista organizado dado que quando a ONU dimensionou a questão das mulheres como um problema social criou um espaço para que os sujeitos políticos feministas que atuavam na clandestinidade pudessem existir abertamente Também é importante dizer que a iniciativa da ONU em certa medida apenas potencializou as lutas feministas que já estavam acontecendo na Europa e Estados Unidos O Ano Internacional da Mulher também representou uma possibilidade para os partidos e grupos políticos no sentido de se constituirem enquanto um espaço autorizado para reuniões e atuação sob proteção da ONU embora representasse uma dispersão para os setores da esquerda que consideravam os debates sobre a mulher secundários e apontavam a necessidade de centralizar forças em uma luta prioritária a luta de classes Para algumas feministas o evento patrocinado pelo Centro de Informação da ONU em julho de 1975 no Rio de Janeiro realizado na Associação Brasileira de Imprensa intitulado de O papel e o comportamento da mulher na 102 realidade brasileira e a constituição do Centro da Mulher Brasileira seriam fundadores do feminismo brasileiro possibilitando sua expressão em outros territórios geopolíticos PINTO 2003 SOARES 1998 Sem desconsiderar a importância do ano internacional da mulher penso ser relevante desconstruir as narrativas fundadoras do feminismo no sentido de situálo como um movimento plural que se constitui a partir de variadas resistências dos movimentos de mulheres articulando mulheres brancas dos segmentos médios intelectualizados e de classes populares em organizações de bairro O fato é que na passagem da década de 1970 para 1980 ampliaramse os grupos feministas no país alguns alinhados aos grupos de autoconsciência norteamericanos outros de reflexãoação Também aprofundaramse as problematizações da relação com os partidos políticos os setores progressistas da Igreja e o Estado principalmente na recusa da tutela dessas organizações na condução das lutas das mulheres dimensionando a questão da autonomia como central nesse momento Para Biroli 2018 p 180 entendeuse que sua autonomia e o potencial crítico dos feminismos dependiam necessariamente da distinção e da distância em relação ao Estado e aos partidos políticos Assim a ruptura das feministas com a esquerda partidarizada aconteceu na esfera organizativa Contudo os vínculos ideológicos e o compromisso com a transformação das relações sociais de produção mantiveramse concomitantes à luta contra o patriarcado Contraditoriamente os processos de redemocratização dos países da América Latina materializaram um período de alargamento da participação política e a possibilidade de intervenção mais direta na nova institucionalidade de modo que a subrepresentação das mulheres na esfera políticoinstitucional se transformou em uma questão de ordem para os movimentos feministas e de mulheres Isso demarcou uma forte atuação desses grupos nas lutas pela aprovação da nova Constituição em 1988 na elaboração de políticas públicas para as mulheres e de mecanismos de controle social que coadunam com a lógica do momento de ressignificação do conceito de sociedade civil Na esteira do processo de abertura política com a anistia dasdos presaspresos políticaspolíticos e o retorno dasdos exiladasexilados associado à reforma partidária os movimentos feministas ao passo que ampliaram seus espaços de atuação também conviveram com profundos tensionamentos internos que vão forjar o surgimento de uma nova divisão entre as feministas de um lado as institucionalizadaspartidarizadas e de outro as autônomas 103 Este é o cenário no qual se desenvolveram os acontecimentos da década de 1980 Se para muitos analistas da economia brasileira a década foi perdida para a política esse definitivamente não foi o caso O movimento feminista particularmente tomou novos rumos A volta à normalidade política foi a grande questão daquele momento político pois levou as militantes feministas até então identificadas com o MDB a se dividirem entre o PMDB Partido do Movimento Democrático sucedâneo do MDB e o PT Partido dos Trabalhadores A questão política parecia dominar o feminismo em 1982 quando das primeiras eleições gerais do país exceto para presidente da República Com o processo de redemocratização mais avançado surgia uma nova divisão entre as feministas de um lado ficaram as que lutavam pela institucionalização do movimento e por uma aproximação da esfera estatal e de outro as autonomistas que viam nessa aproximação um sinal de cooptação PINTO 2003 p 68 Essa cisão das feministas na transição da década de 1980 a de 1990 apontava dois caminhos que àquele momento apresentavamse como inconciliáveis a intervenção nos espaços institucionais do Estado como possibilidade de elaborar executar e monitorar políticas públicas para as mulheres e a noção de que a relação com o Estado poderia ser um espaço de cooptação de militantes e institucionalização do movimento e portanto amortizar a força das mulheres em movimento Na minha compreensão é salutar constituir mediações entre os dois caminhos supracitados já que as mulheres se constituem enquanto uma pluralidade de sujeitos advindos de classes sociais raçasetnias territorialidades gerações sexualidades religiosidades e orientações sexuais também diversas e que são afetadas de formas distintas tanto por esses marcadores sociais quanto pelo aprofundamento das expressões da questão social a precariedade das políticas sociais e a dificuldade de acesso aos serviços públicos Dito isto convém dizer que a ação das feministas institucionalizadas tensionou a implementação de políticas públicas que afetam a cotidianidade das mulheres das classes subalternas através da eleição de partidos de esquerda para gestões municipais e estaduais bem como a criação dos Conselhos de Direitos da Mulher É central em minha análise que esta aproximação de parte do movimento com o Estado repercute na radicalidade das pautas e não é capaz de engendrar transformações estruturais nas relações desiguais entre homens e mulheres contudo é também fundante considerar que essa relação com o Estado poderia ser uma aposta na construção de instituições políticas democráticas capazes de dar conta das demandas represadas da sociedade ao longo dos anos de regime militar PINTO 2003 p 69 Nesse sentido é possível articular a percepção que a ocupação do Estado tem rebatimentos para 104 a condição de vida das mulheres e por outro lado que tal processo tem limites visíveis pois o Estado é essencialmente patriarcal Foi nesse processo que emergiu o Conselho Nacional de Direitos da Mulher CNDM vinculado ao Ministério da Justiça com o objetivo de promover políticas para a mitigação da discriminação contra as mulheres garantindolhes igualdade de direitos e liberdade Constituía se enquanto um canal permanente de interlocução com as distintas tendências e pautas dos movimentos feministas e de mulheres operacionalizando lutas importantes em defesa da participação das mulheres nos espaços públicos inclusive na Assembleia Nacional Constituinte A partir da ação política que ficou conhecida como Lobby do Batom o CNDM expôs as demandas dos movimentos de mulheres aosàs constituintes principalmente através da Carta das Mulheres à Assembleia Constituinte da articulação com a bancada feminina e com intensas campanhas publicitárias Mesmo com toda a ebulição política provocada nesse momento a participação das mulheres nos espaços públicos sofria fortes entraves dado o caráter patriarcal do estado brasileiro em suas esferas legislativa executiva e judiciária dos partidos e dos movimentos sociais Aqui houve uma transmutação do autoritarismo do período de ditadura civilmilitar em um conservadorismo que se apresentava fortemente na esfera da política Por certo o CNDM precisou construir uma articulação substancial com os conselhos estaduais e municipais de direitos das mulheres com organizações de trabalhadoras rurais e domésticas sindicatos associações profissionais grupos feministas movimentos sociais diversos e partidos políticos em uma frente suprapartidária para a aprovação das demandas comuns do movimento PINTO 2003 Nesse contexto foi elaborada no Encontro Nacional Mulher e Constituinte em 1986 a carta das mulheres que representava a organização de distintas tendências em torno de pautas e demandas unificadoras em geral mais próximas dos movimentos populares de mulheres do que das postulações propriamente feministas e que em muitos momentos se expuseram como limites à construção de uma agenda comum como no caso das emendas que pleiteavam o direito ao aborto A carta é um documento representativo da radicalidade e da abrangência das demandas encampadas naquele momento Seu preâmbulo prometia desobediência civil ainda que indiretamente por meio da citação de palavras de Abigail Adams se não for dada a devida atenção às mulheres estamos decididas a fomentar uma rebelião e não nos sentiremos obrigadas a cumprir 105 leis para as quais não tivemos voz e nem representação Nos seis eixos específicos em que foram organizadas as reivindicações família trabalho saúde educação e cultura violência questões nacionais e internacionais os problemas de gênero apareciam entrelaçados aos de classe raça e sexualidade com atenção à propriedade de terra no campo aos direitos trabalhistas e a exigências específicas de acesso universal à saúde e à seguridade BIROLI 2018 p 183 Tal assertiva expunha a composição profundamente heterogênea dos movimentos feministas as disputas por sua direção assim como a variedade de concepções ideopolíticas e organizativas no interior do movimento Aqui situo três momentos complexos e profundamente múltiplos que encorpavam o caldo cultural do feminismo brasileiro na década de 1980 e fortaleceram as lutas pelo alargamento do campo político para as mulheres a saber i A constituição dos encontros nacionais ii A expansão das organizações feministas e iii O feminismo acadêmico processos que se gestaram com profundas contradições e confrontamentos Os encontros nacionais feministas surgem como uma dissidência dos que eram realizados no interior das reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SBPC durante o período de 1975 a 1985 por mulheres universitárias e majoritariamente brancas Nesse momento também temos a expansão de inúmeros grupos feministas que buscavam uma linguagem própria capaz de orientar seus rumos na construção da identidade da mulher como novo ator político RAGO 1996 p 26 Daí foram criadas algumas organizações feministas que articuladas aos movimentos sociais e à tradição da esquerda questionavam a forma como os encontros nacionais feministas estavam sendo organizados Desta experiência surgiram inúmeras associações feministas no país como o Centro Brasileiro da Mulher no Rio de Janeiro a Associação de Mulheres de São Paulo futuramente denominada Sexualidade e Política o Coletivo Feminista do Rio de Janeiro o Coletivo Feminista de Campinas o SOS Violência de São Paulo o SOS Campinas o SOS Corpo no Recife o Maria Mulher em João Pessoa o Brasília Mulher o Brasil Mulher o Grupo Sexo Finalmente Explícito o Centro de Informação da Mulher ou CIM de São Paulo entre outros Todos eles mesclavam exmilitantes partidárias marxistas e exmarxistas assim como feministas das novas gerações que defendiam prioritariamente as políticas do corpo e as questões da sexualidade A despeito das tendências políticas diferenciadas estes grupos buscavam total autonomia em relação aos partidos políticos de esquerda como o PT que acabava de ser fundado muito embora muitas das ativistas fossem também militantes partidárias RAGO 1996 p 35 106 Essas organizações feministas se compuseram como parte orgânica da militância feminista mas também começam a promover ações políticoprofissionais no campo da pesquisa formação política e educação popular com enfoque em sexualidade saúde e trabalho tendo como público alvo as mulheres periféricas e camponesas Como se sabe o enfrentamento à violência contra as mulheres também foi foco de inúmeras dessas organizações sendo a primeira delas o SOS Mulher6 no Rio de Janeiro Segundo Pinto 2003 p 80 a trajetória desse tipo de ação feminista é particularmente interessante na medida em que aponta para uma tendência que será predominante na década de 1980 e que será hegemônica na década de 1990 a tendência de profissionalização do feminismo via organizações não governamentais ONGs Retornando ao leito do texto os encontros nacionais feministas tiveram suas formas organizativas reestruturadas a partir do III Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe EFLAC realizado em 1985 em São Paulo com a presença de mulheres de variados lugares e movimentos sociais Silva 2018 p 73 acena que as organizadoras do evento alegaram que a incorporação de novos sujeitos femininos se relacionava ao entendimento das especificidades da condição feminina por parte dos setores populares da adesão das pautas feministas pelos sindicatos partidos e movimentos da popularização do feminismo através dos meios de comunicação e portanto do aumento da legitimidade deste movimento no interior da sociedade brasileira Entretanto Cardoso 2012 vai situar que tais modificações só puderam ser visibilizadas a partir do estranhamento entre o movimento feminista e o movimento de mulheres negras Tal tensão se deu a partir da necessidade das feministas negras de confrontarem as brancas para garantir sua presença no III EFLAC As dificuldades em construir pontes entre diferentes expressões do movimento de mulheres e feministas marcadas pelas imensas desigualdades estruturais e diferenças políticas vieram claramente à tona no Terceiro Encontro em Bertioga Brasil 1985 quando um grupo de mulheres de uma favela do Rio de Janeiro chegou em um ônibus pedindo para poder participar apesar de não 6Para Pinto 2003 p 80 O objetivo do SOS Mulher era constituir um espaço de atendimento de mulheres vítimas de violência e também um espaço de reflexão da condição de vida dessas mulheres No entanto logo nos primeiros anos as feministas entraram em crise pois seus esforços não resultavam em mudança de atitude das mulheres atendidas que passado o primeiro momento do acolhimento voltavam a viver com seus maridos e companheiros violentos não retornando aos grupos de reflexão promovidos pelo SOS Mulher Nesse cenário as mulheres agredidas não queriam se tornar militantes feministas queriam apenas não ser mais agredidas O encontro entre essas duas realidades tão diversas fez com que esse tipo de militância feminista tomasse uma nova forma renunciando à identificação com seu grupo alvo e passando a organizarse de forma profissional surge um feminismo de prestação de serviço 107 ter condições de pagar a taxa de inscrição Mesmo com um número significativo de mulheres negras e pobres já participando a crise persistente do feminismo com relação à inclusão e exclusão literalmente se estacionou na porta desse Encontro muitas das participantes especialmente militantes do então emergente movimento de mulheres negras insistiram que as questões de raça e classe não ocupavam um lugar central na agenda do Encontro e que as mulheres negras e pobres não haviam tido uma participação significativa na elaboração dessa agenda ALVAREZ 2003 pp 547548 As feministas latinoamericanas e caribenhas à moda do primeiro mundo estabeleceram as suas relações com as mulheres negras e populares como público alvo das ações assistenciais das organizações feministas e não como sujeitos feministas em si e para si De acordo com Cardoso 2012 p 175 a relação com ambos os movimentos foi geralmente tensa porque as mulheres negras sempre apareceram como sujeitos implícitos Dessa maneira as feministas negras enfrentavam no interior do próprio movimento feminista as desigualdades e discriminações que o racismo produz entre as mulheres e a concepção ingênua de que a identidade entre as mulheres se desdobrava natural e necessariamente em solidariedade racial Tais questões fizeram as mulheres negras se fortalecerem politicamente na década de 1980 ao elaborar uma agenda própria de luta pautar as desigualdades entre homens e mulheres no interior do movimento negro nacional e problematizar a organização dos encontros nacionais feministas Nas palavras de Cardoso 2012 p 210 discutindo e precisando conceitos para explicar as nossas opressões para registrar as nossas histórias ou seja fizemos da autodefinição o lastro para a construção da autonomia política Ainda destaca enfaticamente sobre o movimento de mulheres negras a capacidade de mobilização das mulheres pobres e negras a divergência com o movimento feminista branco e classe média na definição da agenda política e o distanciamento do feminismo hegemônico com mulheres pobres trabalhadoras e negras ou seja da discussão de raça e classe As duas últimas questões são melhores compreendidas quando inseridas no contexto desenhado por Céli Pinto anteriormente citado sobre o feminismo brasileiro nos anos 1980 ou seja à moda do Primeiro Mundo PINTO 2003 p 65 CARDOSO 2012 p 190 A partir do III EFLAC os encontros nacionais de feministas procuraram incorporar as categorias de classe raçaetnia e gênero na sua estrutura políticoorganizativa ainda que de forma bastante embrionária o que pôde ser observado no IX Encontro Nacional Feminista que ocorreu em 1987 em GaranhunsPE majoritariamente composto por mulheres dos movimentos populares incorporando também o marcador das territorialidades ao sair do eixo RioSão Paulo 108 Essa questão expõe também a presença das mulheres negras e populares na formação do feminismo brasileiro e seu apagamento da história oficial e oficiosa Cumpre afirmar que as mulheres negras foram crescentemente fortalecendo os seus espaços políticos a partir dos diálogos com as teorias dos feminismos negros e na construção de organizações próprias que pautavam a representatividade as corporalidades e a ancestralidade negra assim como dimensionavam a questão racial como central para o entendimento das desigualdades entre os sexos na sociabilidade brasileira Esses elementos culminaram na organização de Encontros nacionais e estaduais com o pioneirismo do I Encontro Nacional de Mulheres Negras em Valença e transformou o enfrentamento ao racismo como uma prioridade política para as mulheres negras como também denunciou o racismo reproduzido pelas feministas brancas e a urgência em enegrecer os movimentos sociais os partidos políticos e o espaço acadêmico Enegrecer o feminismo tornouse uma necessidade visceral e um desafio para a luta antipatriarcal Enegrecendo o feminismo é a expressão que vimos utilizando para designar a trajetória das mulheres negras no interior do movimento feminista brasileiro Buscamos assinalar com ela a identidade branca e ocidental da formulação clássica feminista de um lado e de outro revelar a insuficiência teórica e prática política para integrar as diferentes expressões do feminino construídos em sociedades multirraciais e pluriculturais Com essas iniciativas pôdese engendrar uma agenda específica que combateu simultaneamente as desigualdades de gênero e intragênero afirmamos e visibilizamos uma perspectiva feminista negra que emerge da condição específica do ser mulher negra e em geral pobre delineamos por fim o papel que essa perspectiva tem na luta antiracista no Brasil CARNEIRO 2003 p 127 Ainda nesse período temos o crescimento do feminismo nos espaços universitários prioritariamente no interior das ciências sociais e humanidades com a emersão dos grupos e núcleos de pesquisa sobre a condição da mulher Como já mencionei anteriormente os movimentos feministas se caracterizaram por sistematizar as experiências de mulheres da classe média afeitas com a cultura do mundo erudito o que explica a aproximação com a universidade A rigor a chegada das classes populares no interior do movimento feminista ocorre como uma escolha política estratégica arrodeada de fluxosrefluxos embates e contradições que de certa maneira impactaram o feminismo acadêmico alargando suas percepções O campo do feminismo acadêmico também não pode ser compreendido como um espaço homogêneo já que convivia com distintas perspectivas teóricas ideológicas e políticas uma pluralidade de mulheres e os tensionamentos internos da vida das universidades 109 constituídas a partir de uma lógica branca masculina elitista classista e sudestina Costa 1990 identifica dois grandes campos um mais aproximado com as metodologias da pedagogia popular e outro mais incorporado à lógica dominante da produção do conhecimento O fato é que esses grupos e núcleos de pesquisa se ampliaram fortemente na década de 1980 realizando uma vasta produção científica na área dos estudos sobre a mulher que na década seguinte migrariam para os estudos de gênero Pinto 2003 chama atenção para os concursos de dotação de recursos para pesquisas nessa área promovidos pela Fundação Carlos Chagas e financiados pela Fundação Ford entre os anos de 1978 e 1998 e as apresentações de trabalhos de pesquisas nas reuniões anuais das associações nacionais das diversas áreas do conhecimento com destaque para a ANPOCS Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduação em Ciências Sociais ANPED Associação Nacional de Pesquisa em Educação e ANPOL Associação Nacional de Pesquisa em Letras A autora ainda trata da forma como os estudos sobre a mulher adentram a universidade brasileira não institucionalizados em cursos departamentos e programas de pósgraduação mas a partir de núcleos de estudos sobre a mulher como foi o caso do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher NEIM e o Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir NEM Outro elemento particular desse período foi a expansão da imprensa feminista com a publicação dos jornais Nós Mulheres 19761978 Brasil Mulher 19751980 Mulherio 19811988 Nzinga Informativo 1985 Lampião da Esquina 19781981 entre outros que em perspectivas ideopolíticas distintas vocalizavam as demandas dos movimentos feministas e de mulheres Tais proposições acima levantadas apontam a virada da década de 1970 a 1980 como de muito protagonismo dos movimentos feministas e de mulheres no sentido de recusa da política como um espaço masculino e de promoção de inúmeras ações políticoorganizativas do sujeito coletivo feminista Para Rago 1996 p 41 as mulheres se afirmam no mundo público revelando uma criatividade e uma potencialidade indiscutíveis Aqui destacase a participação das mulheres na aprovação da Constituição de 1988 Todavia em 1989 teremos a renúncia coletiva das integrantes do CDNM substituídas por quadros técnicos exteriores aos movimentos feministas e a sua desarticulação no início da década seguinte Para Alvarez 1998 Gurgel 2010 e Castro 1997 esses processos pressionaram as feministas a repensarem a questão da autonomia e reatualizarem suas críticas frente ao Estado e aos partidos políticos 110 O feminismo na América Latina tem teorizado sobre a autonomia levando em consideração três aspectos 1 o reconhecimento do sistema patriarcal como estruturante da opressão e dominação da mulher 2 a autodeterminação das mulheres como condição ontológica do feminismo como sujeito coletivo 3 a emancipação humana como princípio constitutivo do ser político feminista GURGEL 2010 p 17 Para a autora o debate sobre autonomia também incorporou o reconhecimento das múltiplas opressões vivenciadas pelas mulheres e do seu núcleo comum que possibilita a construção de uma identidade coletiva Tal reflexão alargou as demandas e pautas feministas reorganizando os questionamentos sobre a totalidade da vida social com a centralidade do confronto ao patriarcado ao racismo ao capitalismo e às formas tradicionais do fazer política radicalizando a contradição entre os interesses das mulheres o papel do Estado e os interesses de classe A partir desse acúmulo de experiências na ocupação das esferas públicopolíticas e também da produção de conhecimento os movimentos feministas na entrada dos anos 1990 foram marcados pelo avanço da profissionalização e especialização principalmente com a consolidação das organizações nãogovernamentais feministas Pinto 2003 caracteriza esse momento como feminismo difuso focado nos processos de institucionalização na reflexão sobre as diferenças entre as mulheres e da emersão de novas formas organizativas Aqui expandese um conjunto de articulações e organizações nacionais e regionais da política feminista de identidades feministas dissidentes negras lésbicas populares sindicalistas rurais entre outras a participação política na esfera eleitoral e os diálogos com o Estado e um conjunto de instituições políticas e sociais Também é relevante a ampliação dos estudos de gênero no âmbito da academia Esse feminismo plural incidirá sobre o Estado seja em nível nacional ou internacional no campo da participação controle social e pressão por elaboração monitoramento avaliação de políticas sociais efetivação de serviços públicos e equipamentos de proteção às mulheres Todavia o cenário dessa arena de disputas será de ofensiva neoliberal e de contrarreformas no Estado brasileiro que tem como tendência o enxugamento da máquina estatal reduzindo de um lado investimentos em políticas sociais de cunho redistributivo e de outro transferindo para a sociedade civil a responsabilidade com o atendimento das demandas sociais Essa lógica neoliberal objetiva transformar o cidadão portador de direitos em cidadãoconsumidor MOTA 2008 p 115 que satisfaz suas necessidades pela via do mercado a partir de uma lógica individual e privatista Acrescentase 111 a isso o apelo ideológico do Estado em torno da participação e solidariedade social como forma de enfrentar as problemáticas sociais e reestabelecer a coesão social em um processo denominado por Iamamoto 2010a p 43 de refilantropização da questão social Cumpre afirmar que a implementação do neoliberalismo no Brasil se deu por vias completamente adversas do que se configurou nos países de capitalismo central ainda que mantendo suas características essenciais devido à formação socioeconômica diferenciada do país Neste sentido Netto 1996 p 104 acrescenta que à particularidade brasileira colocada face ao projeto neoliberal apresentamse feições singulares dentre as quais vale assinalar Não há aqui um WelfareState a destruir a efetividade dos direitos sociais é residual não há gorduras nos gastos sociais de um país com indicadores sociais que temos indicadores absurdamente assimétricos à capacidade industrial instalada à produtividade do trabalho aos níveis de desenvolvimento dos sistemas de comunicação e às efetivas demandas e possibilidades naturais e humanas do Brasil NETTO 1996 p 104 Ademais a década de 1980 marcou a implementação do ideário neoliberal no Brasil ao passo que o país passava pela transição democrática consubstanciada na promulgação da Constituição Federal de 1988 que se constituiu em um processo duro de fluxos e refluxos de projetos e interesses mais específicos configurando campos definidos e distintos de forças Na década subsequente o Banco Mundial o Fundo Monetário Internacional FMI e as agências de cooperação multilaterais começaram a investir em projetos de desenvolvimento locais nos países emergentes impondo as diretrizes para a mitigação da extrema pobreza via programas sociais que enfocassem a participação popular a transparência e a cidadania ativa sendo as ONGs as executoras privilegiadas A pobreza entendida como vulnerabilidade falta de voz poder e representação seria uma ameaça ao desenvolvimento econômico e à segurança mundial de forma que a transferência de capitais e tecnologias associadas à promoção de atividades vinculadas à assistência social era pontochave da questão Aqui as mulheres são apresentadas como sujeitos vulneráveis e públicoalvo prioritário para a execução de tais projetos É sabido que as contrarreformas aprofundaram as desigualdades socioeconômicas com o aumento da pobreza esboçando o fenômeno designado de feminização da pobreza termo que expõe os impactos desiguais da crise sociometabólica do capital sobre a vida das mulheres especialmente as dos segmentos mais pobres e racializados Desse modo a noção de gênero no pósConsenso de Washington é incorporada na agenda dos organismos internacionais no interior dos núcleos de pesquisa e extensão universitários e nas 112 conferências sociais da ONU pautando também os projetos de desenvolvimento e combate à pobreza Para Biroli 2018 p 190 a agenda mais radical dos feminismos latinoamericanos pôde assim ser transfigurada em pautas como a do empoderamento de mulheres As décadas de 1980 e 1990 foram palco de grandes contradições no interior do feminismo latinoamericano com o alargamento dos espaços institucionais de participação política e da sociedade civil que ocorreu concomitante à reestruturação produtiva e à ofensiva ideológica contra a organização das classes trabalhadoras e o Estado De certa maneira tal conjuntura possibilita uma ampliação da ação dos movimentos via institucionalidades seja nos organismos de controle social na formulação e execução de políticas públicas no interior do Estado ou na consolidação das organizações não governamentais Conjuntura que demarca transformações nas identidades organizativas dos movimentos sociais Segundo Gurgel 2010 o projeto neoliberal tinha como pressuposto o controle e a fragmentação do potencial reivindicatório dos movimentos sociais a partir de um processo de sucessivas tentativas de esvaziamento e despolitização das organizações sociais No campo dos feminismos a redemocratização mediante reformas do Estado e alargamento dos espaços de participação da sociedade civil foi acompanhada da ampliação das ONGs e da reatualização da crítica frente ao Estado Por outro lado há uma nova fase de mundialização das lutas sociais e ações coletivas com a organização de novas formas de confrontação social com a lógica destrutiva do capital O feminismo em particular acompanhou essa tendência hegemônica já iniciada na década passada no processo de redemocratização E passou por vários dilemas internos ao se deparar com um grande número de ONGs em substituição aos antigos grupos feministas Além do enfrentamento desse conflito interno o feminismo buscou se contrapor à ofensiva regressiva conservadora da década de 1990 mediante à construção de amplas articulações entre si e com outras organizações do campo antiglobalização Iniciando um novo momento de internacionalização de suas demandas GURGEL 2010 p 8 O processo de transnacionalização das lutas com fortes ações mobilizatórias possibilitou a constituição de articulações nacionais e organizações por área de política pública ou demanda social muitas vezes agregadas a ONGs e com percepções divergentes sobre identidade organizativa e relação com o Estado mas com capacidade de ação conjunta quando apareciam oportunidades políticas Convém dizer que a ampliação das ONGs feministas eou voltadas para o atendimento às demandas das mulheres não eram homogêneas e constituíam relações distintas com o Estado 113 e as agências de cooperação internacional infligindo muitos dilemas no interior dos feminismos fundamentalmente centrados na sua autonomia frente ao Estado e nos processos de institucionalização das demandas Na acepção de Gurgel 2014 tal quadro é complexificado com o financiamento por parte das agências do governo e do capital internacional a projetos de pesquisa e serviços assistenciais Esse cenário teria consolidado uma ideia de ONGs como entidades para governamentais voltadas para a execução de serviços públicos no atendimento direto à população e para a participação institucional Esta nova orientação associada à crise de paradigmas e o questionamento à ideia de sujeitos políticos e de perspectiva de transformação social que se instalou com ela teria gerado uma visão teórica e política de integração ao sistema É também deste período a proeminência de um debate na área social sobre setores excluídos que remete para a necessidade de políticas de inclusão social e enfraquece a discussão sobre classes socais a qual ficou relegada a análises especializadas eou à sociologia do trabalho Esta nova forma de pensamento teria tido incidência também sobre as entidades feministas SILVA 2016 p 135 Aqui utilizo o conceito de onguização de Gurgel 2004 para definir o processo de institucionalização de setores dos movimentos sociais em particular dos feministas que passam a atuar segundo uma organização jurídica e política associada com o formato de ONGs e efetuam determinadas formas de representatividade e pressão diante do Estado embora seja importante apontar a heterogeneidade das ONGs e dos movimentos feministas bem como o caráter hibrido de algumas delas a exemplo do SOS Corpo Gurgel 2014 aponta duas críticas a esse processo que repercute na constituição das mulheres e dos movimentos feministas como sujeito coletivo A primeira diz respeito à transformação da identidade institucional que trouxe como consequência imediata uma redução política e quantitativa da base social do movimento de mulheres que constituía a anterioridade política da ONG A segunda crítica se centra na estrutura administrativa que transferiu as decisões políticoinstitucionais para as equipes de profissionais das ONGs que na maioria dos casos se apresentam como ativistas e confundem o papel de assessoria com o de representatividade O problemático desse quadro é a contradição entre o princípio da autonomia no processo de autodeterminação com o crescimento individual e coletivo das mulheres no exercício da política e a centralidade de poder nas estruturas das ONGs GURGEL 2014 p 63 As ações feministas financiadas por organizações internacionais e repasse de fundo público prestavam assessorias enquanto especialistas das questões de gênero que se 114 transformou em uma linha de financiamento das agências de cooperação multilaterais Para Pinto 2003 p 35 o trabalho das ONGs poderia ser compreendido como uma espécie de terceirização de serviços e responsabilidades que pelo caráter de institucionalização e burocratização transforma a natureza da militância e do movimento feminista despolitizando as e instituindo critérios para a inserção nos grupos Gurgel 2014 ainda chama atenção para o alinhamento discursivo das ONGs feministas às diretrizes de financiamento das organizações de cooperação internacional e do Estado produzindo uma certa concorrência entre as feministas em busca de recursos financeiros Nesse sentido a aproximação com esse tipo de financiamento além de contribuir para a quebra do princípio de sororidade que fundamenta o feminismo igualmente provocou o desenvolvimento de práticas políticas de invisibilidade da crítica GURGEL 2014 p 64 Ademais em grande parte dos projetos financiados por organismos internacionais eou pelo fundo público do Estado as mulheres definidas enquanto públicoalvo são motivadas a criar e tomar parte de ações e estratégias de desenvolvimento local em geral vinculados à reprodução sob a lógica geral da produção capitalista e que portanto não questionam os determinantes das desigualdades de sex tampouco deixam espaço para as lutas de classes diferentemente das ações promovidas na década anterior que mesmo ligadas à reprodução possibilitavam as mulheres a saírem do confinamento doméstico com potencial para o fomento de ações organizativas e de politização das mulheres populares Percebo que a forma de atuação das ONGs na década de 1990 para além de despolitizar as lutas feministas acaba tornando as mulheres responsáveis por gerir a miséria e como tal amortecem a crise ao mesmo tempo em que prolongam o mais tradicional de seus papéis Atento para o fato de que as ONGs feministas passaram a ter um papel importante na efetivação de políticas públicas no mesmo momento em que o Estado passou por um esvaziamento ideológico e orçamentário de sua função social Cabe dizer que o repasse do fundo público às organizações da sociedade civil foi tensionado no governo de Fernando Henrique Cardoso que recomendou a elaboração de um marco legal para regular as parcerias com entidades não estatais na realização de ações de interesse público não exclusivas do Estado no sentido de substituir a execução direta dessas atividades pelo Estado por meio de transferência para entidades de direito privado Essa proposição intentava transformar as ONGs em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público OSCIP Entretanto as ONGS situadas no campo político progressista e vinculadas à Associação Brasileira de Organizações 115 não Governamentais ABONG encamparam críticas contundentes ao processo e evidenciaram via pesquisa que uma pequena parcela das organizações havia se transformado em OSCIPs para acessar os fundos públicos Mas também é relevante dizer que na década de 1990 muitas organizações já nascem como OSCIPs e portanto têm um perfil distinto das ONGs efetivando serviços sociais e assessoria técnica com uma perspectiva liberal e desarticulada das lutas sociais Consta dizer que mesmo com as divergências teóricas políticas e ideológicas a plataforma de atuação das organizações seguia na década de 1990 pautada fundamentalmente na agenda das financiadoras internacionais em função dos critérios estabelecidos para a dotação de fundos da análise dos indicadores sociais e do impacto social produzido pelo trabalho das ONGs além de favorecer o processo de implantação de medidas de ajustes impostas pelo receituário neoliberal de minimização e focalização das políticas sem maiores resistências das mulheres garante o barateamento do processo de reprodução social com efetiva substituição do Estado pelas ONGs na execução das políticas GURGEL 2014 p 66 Contraditoriamente a atuação das ONGs também atravessou a constituição dos encontros feministas nos anos 1990 as conferências sociais da ONU e a inserção nos conselhos gestores das políticas públicas e nas experiências de Orçamento Participativo A participação efetiva das feministas nos fóruns políticos internacionais como a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento Conferência do Cairo em 1994 e a IV Conferência Mundial sobre a Mulher Conferência de Beijing em 1995 consolidaram a tendência de participação institucional e articulação internacional presentes na década de 1990 Inclusive com vistas a unificar e fortalecer uma agenda comum para as mulheres brasileiras criouse a Articulação de Mulheres Brasileiras para Beijing95 que se manteve posteriormente para monitorar a aplicação das recomendações da conferência e na contemporaneidade transformouse na Articulação de Mulheres Brasileiras AMB Isso colocou em relevo a pluralidade dos feminismos e as tensões presentes no interior dos movimentos principalmente marcadas pela polarização entre as institucionalizadas pertencentes às organizações que estabeleciam canais formais de atuação com governos e agências financiadoras além das autônomas que eram integrantes de coletivos e grupos feministas críticos do feminismo institucional e do recebimento de recursos financeiros dos 116 estados organismos internacionais e partidos embora algumas das autônomas fossem partidarizadas A questão da autonomia dos movimentos feministas é reatualizada Se na década de 1980 o debate sobre autonomia estava centrado na relação entre feminismos movimentos de mulheres e partidos políticos no sentido de reflexionar sobre a secundarização das práticas organizativas das mulheres e a tendência de hegemonização das lutas no confronto entre as classes no interior das esquerdas na década subsequente a questão centrase na consolidação das ONGs e a relação destas com o Estado É preciso problematizar a questão do Estado na medida em que como movimento social ou ONG as ações desenvolvidas pelo feminismo têm em grande parte como ponto de interseção a interlocução direta com o Estado GURGEL 2014 p 66 Daí a necessidade de apreender as múltiplas determinações que compõem o Estado e a relação deste na reprodução ampliada do capital e da força de trabalho bem como os dispositivos de poder por ele acionados O Estado como expressão do homem socializado é sobretudo um espaço de disputa e correlação de forças Na acepção de Coutinho 2008 p 65 o Estado representa o interesse político a longo prazo do conjunto da burguesia sob hegemonia de uma de suas frações assim não precisa ser considerado como uma entidade em si mas como a condensação material de uma correlação de forças entre as classes e frações de classe tal como essa se expressa no seio do Estado de modo que se o Estado se apresenta como espaço de correlação de forças deve ser disputado no que diz respeito à efetivação de direitos sociais e melhoria das condições de vida e trabalho garantindo a autonomia dos movimentos nessa relação e entendendo que não é possível os movimentos se constituírem no modo de produção capitalista alheios à intervenção do Estado Retornando ao leito das ações feministas na década de 1990 via participação institucional e ações das ONGs destaco que o ciclo de conferências sociais da ONU e a Plataforma de Beijing produziram avanços significativos no âmbito jurídicoestatal e na confrontação de discursos conservadores nos países latinoamericanos As novas constituições democráticas nos países periféricos e em processo recente de redemocratização incorporaram a noção de igualdade de gênero as legislações políticas públicas e equipamentos estatais de atenção às mulheres foram expandidas tais como as delegacias especializadas leis de cotas para a representação política políticas de saúde e contracepção entre outras Entretanto a incorporação das pautas feministas nas plataformas de atuação dos Estados não representou a sua implementação efetiva pelo contrário a maioria dos governos latinoamericanos 117 materializaram as diretrizes macroeconômicas neoliberais de restrição dos direitos econômicos sociais culturais e políticos No processo de mobilização social para as conferências da ONU constituiuse uma das principais coalizões feministas de abrangência nacional a Articulação de Mulheres Brasileiras AMB com o objetivo de coordenar as ações dos movimentos de mulheres com vistas à sua consolidação enquanto sujeitos políticos De outra parte a década de 1990 também foi marcada por uma fase de transnacionalização das lutas sociais e ações coletivas com a organização de novas formas de confrontação social anticapitalistas O movimento feminista passou a ser cada vez mais praticado como política transnacional atravessando as fronteiras dos Estados territoriais Cypriano 2013 p 11 define o feminismo transnacional como movimento atento às interseções entre nacionalidade raça gênero sexualidade e exploração econômica numa escala mundial em decorrência principalmente da emergência do capitalismo global Nesse contexto os movimentos feministas brasileiro e latinoamericanos estabeleceram articulações políticas e laços com o feminismo internacional na luta contra o neoliberalismo e por justiça social Ademais outros movimentos feministas emergiram focados na crítica às políticas de ajuste neoliberal como a Marcha Mundial de Mulheres originada do movimento 2000 razões para marchar contra a pobreza e a violência revigorando as pautas políticas dos feminismos fundamentalmente a partir de ações de rua no contexto de emergência de movimentos antiglobalização e da construção do Fórum Social Mundial compreendido como um espaço de criação de uma agenda comum e global contrahegemônica Nessa linha de constituir uma agenda comum contrahegemônica setores importantes dos movimentos feministas organizaram a Conferência Nacional dos Movimentos de Mulheres para a formulação de uma Plataforma Política Feminista Segundo Silva 2018 a conferência articulou 10 redes de movimentos de mulheres com a participação de 1408 mulheres de forma autônoma e com encontros estaduais preparatórios Não participaram da conferencia a Marcha Mundial de Mulheres a Secretaria Nacional de Mulheres da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura CONTAG e a Secretaria de Mulheres do PT em função de divergências políticas fundamentalmente centradas na relação destes movimentos com os governos petistas A Plataforma Política Feminista documento aprovado na Conferência Nacional dos Movimentos de Mulheres realizada de 6 a 7 de junho de 2002 em Brasília analisa a sociedade brasileira com base na crítica a nossa formação social e afirma o movimento de mulheres com seus vários 118 segmentos e expressões organizativas como sujeito da luta pela transformação social A plataforma é o resultado de um processo histórico que gerou uma confluência entre movimento feminista e outros movimentos de mulheres nitidamente demarcado por um marco interpretativo que considera o capitalismo racismo e patriarcado como sistemas que estruturam a vida social SILVA 2018 p 124 De uma forma geral essa Plataforma é significativa para o feminismo brasileiro no sentido de constituir diretrizes de atuação comuns de recusa às políticas neoliberais e de formação de um projeto nacional de desenvolvimento autônomo e democrático que vise materializar direitos econômicos sociais políticos culturais e ambientais Mesmo parte do movimento feminista não tendo participado da elaboração da Plataforma esta seguiu atuando junto em inúmeras frentes de luta e processos mobilizatórios como a luta pela previdência social legalização do aborto e na Marcha das Margaridas Os feminismos nos anos 2000 conquistaram uma grande visibilidade entre os mais diversos segmentos sociais tendo seus discursos e práticas organizativas associados a outros movimentos que se mobilizavam pela livre expressão de experiências sexuais dissidentes e também no meio de comunidades étnicoraciais e rurais assim como em variados espaços sociais acadêmicos e culturais em um momento que vem sendo intitulado de primavera feminista Destaco aqui a proliferação de coletivos de feministas jovens grandes mobilizações de rua a exemplo da Marcha das Vadias e da expansão do ciberativismo Na particularidade brasileira a chegada do Partido dos Trabalhadores PT ao governo federal provocou novas problematizações na relação entre os movimentos feministas e o Estado O PT tinha nos movimentos sociais suas bases históricas com parte dos feminismos engajandose na campanha eleitoral e posteriormente na gestão do governo federal operacionalizando profundas contradições e reatualizando o debate sobre autonomia Cabe apontar que a vitória do PT em 2002 se dá em um momento de fortalecimento da ofensiva ideológica neoliberal nos campos da política da cultura e da economia assim como de refluxo dos movimentos sociais desgastados pela criminalização imposta pelos governos de FHC e pelo pouco retorno do investimento nos mecanismos de controle social e participação política Silva 2018 chama atenção para a ambiguidade da relação entre os governos do PT e os movimentos sociais Muitos militantes serão incorporados aos quadros técnicos da gestão e paulatinamente se afastam dos movimentos A autora assevera 119 Essa configuração cria as condições para que em dadas circunstâncias os movimentos manifestemse em apoio aos governos e em outras realizem mobilizações para pressionálos pelo cumprimento das demandas negociadas e não efetivadas SILVA 2018 p 108 As gestões federais petistas foram marcadas por avanços e retrocessos no campo dos direitos sociais particularmente dos direitos das mulheres Entre os avanços situo a Lei Maria da Penha e a elaboração de um Plano Nacional de Políticas para as mulheres como determinantes para mudanças concretas na realidade destas Biroli 2018 destaca a PEC das domésticas 2015 a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio as normas e políticas públicas para a garantia de direitos sexuais e reprodutivos adoção de políticas educacionais para igualdade entre os gêneros Programa Brasil sem homofobia e Programa Mulher e Ciência como ganhos concretos mas aponta inflexões na agenda dos direitos sexuais e reprodutivos e estreitamento de políticas e campanhas que almejavam a redução da LGBTTQIAfobia e a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis A permeabilidade do Estado brasileiro à agenda feminista a partir do trabalho especializado das mulheres na Secretaria de Política para as Mulheres criada em 2003 e destituída em 2015 no auge da crise políticoinstitucional do governo de Dilma e dos espaços de participação institucionalizada foi um processo de intensas contradições e tensionamentos produzindo contraditoriamente a expansão do movimento feminista no Brasil em sua forma institucionalizada e autônoma Aqui destaco os conselhos e as quatro Conferências de Políticas Públicas para as Mulheres CNPMs ocorridas nos anos 2000 2004 2007 2011 e 2016 as Marchas das Margaridas 2000 2003 2007 e 2011 levando milhares de trabalhadoras rurais a Brasília a Marcha Nacional de Mulheres Negras 2015 e a Marcha das Vadias a partir de 2012 120 4 AS PARTICULARIDADES DA FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI Se não fosse Cariri Não existia Ceará Alemberg Quindis 1980 Neste quarto capítulo trato do processo de conformação do sujeito coletivo feminista Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri apontando as suas trajetórias continuidades descontinuidades rupturas tensionamentos e desafios Para isso começo situando ao leitoraleitor acerca das particularidades do território Cariri região localizada no interior do Ceará que assume a função de um dos principais polos comerciais do Nordeste sendo referência para cidades dos estados do Piauí Paraíba e Pernambuco O Cariri é um território marcado pela tradição religiosidade e resistência articulando elementos do patriarcado rural e da urbanidade estruturadores de ordens morais de gênero recorrentemente violentas mas também de ações coletivas provocadoras de fissuras nas relações assimétricas entre mulheres e homens Exponho também um quadro das relações patriarcais de sexo na região e de como a violência atravessa a experiência socialmente compartilhada e historicamente situada de ser mulher Aqui a violência se expressa como instrumento de interdição da potência das mulheres e de sua limitação à condição de objeto de posse constituindo um itinerário de silenciamento apagamento e regulação moral para as mulheres caririenses De outra parte essa conformação de um Cariri perigoso para as mulheres possibilitou a emergência de ações coletivas de enfrentamento à violência e ao patriarcado inicialmente articuladas às Comunidades Eclesiais de Base e aos movimentos de trabalhadoras rurais posteriormente articuladas em torno de um projeto feminista de luta pela autonomia liberdade e igualdade das mulheres Este capítulo se propõe a examinar resistências das mulheres no Cariri cearense e a particularidade da constituição do sujeito coletivo feminista na região a partir da experiência militante da Frente de Mulheres Aqui sintetizo minha experiência e as das mulheres do Cariri com todos os atravessamentos que observei na pesquisa Parafraseando Clarice Lispector 1977 p 11 Tudo no mundo começou com um sim A experiência militante das mulheres caririenses que aqui sintetizo sem pretensão de esgotála começou com um sim no momento em que essas mulheres se identificaram umas nas outras assim como identificaram as bases que assentiam suas interdições e decidiram juntas com todos os atravessamentos e pluralidades construir ações de enfrentamento ao patriarcado que se expressa de forma tão 121 contundente no sertão do Ceará Porque há o direito ao grito Então eu grito LISPECTOR 1977 p 13 Elas gritaram e suas vozes dissidentes se insurgiram 41 O TERRITÓRIO CARIRI um sertão banhado de águas reisados romarias violências e resistências O sertão já foi muito cantado decantado poetizado e discursivamente fabricado como um lugar contraposto ao litoral e ao progresso o interior do país caracterizado pela falta de água e de perspectivas pela aridez e o subdesenvolvimento Aqui o sertanejo entendido antes de tudo como um forte convive com baixos indicadores sociais a tradição a religiosidade popular e o coronelismo É pois narrado como um lugar do esquecimento e do tempo imobilizado uma espécie de deserto que conta vagarosamente a história da eternidade embaixo do sol escaldante João Guimaraes Rosa 2015 p 150 alertava o sertão é isto o senhor empurra para trás mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados Sertão é quando menos se espera É o sozinho Essa percepção também está presente em Euclides da Cunha 2017 quando identifica o sertão com a caatinga a seca e o ermo Ajustase sobre os sertões o cautério das secas empedrase o chão gretando recrestado ruge o Nordeste nos ermos e como um cilício dilacerador a caatinga estende sobre a terra as ramagens de seus espinhos CUNHA 1985 p 120 Esse sertão desértico em que o homem está condenado à civilização CUNHA 2017 é o lugar da diáspora entoada nos versos das poesias do cordel e das músicas tal qual a Asa Branca de Luiz Gonzaga que migrou em virtude da seca ou do Retirante de Jacson do Pandeiro fugido por cansaço e fome O sertão é pobre pardo espinhento pedregoso e empoeirado é por isso mesmo que o acho belo e bruto grandioso e austero SUASSUNA 1977 p 26 Criouse uma ideia de homogeneidade ahistoricismo e imutabilidade em torno dos sertões e do Nordeste que no imaginário nacional vai ser definido a partir de contraposições conhecidodesconhecido civilizadobárbaro litoralsertão migraçãoimigração modernoatrasado Como apregoa Pereira 2018 p 20 O sertão é o Brasil por enquanto e necessita ser domesticado pela civilização nos dois brasis um deve ceder e deixar espaço ao civilizado 122 Uma leitura extensa dos discursos sobre o sertão e sobre sertões particulares deixanos o registro desses lugares e comunidades como cenários onde se marca uma diferença Para se dizer sobre o sertão ou sobre sertões o narrador recorre à comparação e à diferenciação com lugares e modos de viver que se vê como não sertão A localização e a descrição do que é e do que não é sertão consiste no ato de nomear diferenças e de tentar impôlas como princípios de divisão e classificação do espaço nacional Tratase aqui de apontar os efeitos performativos da atividade de inúmeros intelectuais que escrevem sobre paisagens sociais e físicas ditas sertanejas VIDAL E SOUSA 2010 p 108 Cabe mencionar que desde o século XVII sertão e litoral foram se constituindo enquanto padrão para descrições do espaço nacional Dessa maneira a cartografia passou a utilizar o conceito de sertão como qualificativo de lugar que em geral era pouco ocupado Portanto estava implícita a ideia de ocupação daquele espaço supostamente vazio seja em busca de riquezas ou para incorporálo às regiões ditas civilizadas Indicava também uma espécie de fronteira que separava o mundo bárbaro do europeu civilizado Nesses sertões despovoados ignoravase a presença dos povos originários sentenciados pelos colonizadores a terem suas terras invadidas ao genocídio eou aldeamento Lidos como selvagens seus corpos eram passíveis de violência e abjeção mas não de luto Todavia a colonização do sertão se deu em um processo de intensas resistências dos povos indígenas e dos quilombolas que se refugiavam nesses territórios e que em certa medida tiveram suas confrontações paulatinamente apagadas da memória coletiva e da história oficial Memória é resistência portanto o apagamento dessas memórias rebeladas é muito eficiente para a conformação normatização e naturalização de relações sociais de sexo classe e raça assimétricas Para os colonos representava um empreendimento essencialmente comercial que visava através da mineração e das culturas agrícolas ao fornecimento de produtos primários de alto valor mercadológico Destacase aqui a pecuária como um elemento de integração do território que não conferia ao sertão ares de urbanidade sendo comumente compreendido como um mundo rural e portanto atrasado que recebia poucos investimentos políticos e econômicos No início do século XX o sertão volta a ser colocado como espaço geopolítico em disputa que precisa de investimentos para integrar a construção de um estadonação moderno e autônomo daí empreendese um projeto nacional para a sua modernização e revalorização processo intitulado por Pimentel 1998 p 17 como uma domesticação do sertão que aspira diminuir as distâncias entre dois brasis o sertão e o litoral o passado e o presente respectivamente Modernização que se concretizou como um reforço à condição histórica de inferioridade e desigualdade frente ao litoral 123 O estigma do atraso e do passado foi reatualizado aprofundando as desigualdades sociais políticas econômicas e a imagem estereotipada eou romantizada do sertanejo Inclusive muitos estudiosos dos fins do século XIX e início do XX inspirados por explicações biológicoraciais legitimavam a inferioridade da população sertaneja com o argumento supostamente científico de que a miscigenação racial ocorrida nos sertões havia degenerado o sertanejo de forma irreversível e que sua formação biológica os impedia de acompanhar os processos de modernização do país Cumpre dizer que a elaboração de uma identidade nacional foi instituidora de uma visão sobre o sertão que por vezes o entendia como berço dessa identidade e que precisava ser salvaguardado e por outras como um grande entrave para o desenvolvimento socioeconômico do país de forma que a tentativa de constituir essa identidade nacional fez do sertão e do sertanejo uma metáfora do que é ser brasileiro e um receptáculo dessa identidade Um sertão e um Nordeste inventado projetado pelo olhar do Outro e condenado por esse outro à imanência Nas palavras de Sena 1998 p 24 O que se busca no sertão é o Brasil e o brasileiro É por isso que menos que um lugar geográfico uma forma de organização social uma percepção da diferença como função do espaço ou do tempo o sertão é uma forma de ser é aquilo que dentro de nós nos distingue ontem e permanentemente como brasileiros SENA 1998 p 24 As tentativas de elaboração dessa identidade nacional e de um ethos para o habitante do sertão como depositário dela incidiu fortemente na elaboração de grandes arquétipos de sertanejo Aqui cito dois deles de um lado o cabra macho forte e retirante e de outro um caipira preguiçoso e acomodado à vida rural o Fabiano de Graciliano Ramos e o Jeca Tatu de Monteiro Lobato respectivamente Um fadado a desaparecer quando o moderno adentrasse ao sertão e o outro apegado ao passado rural incapaz de acompanhar a modernidade Ambos visceralmente distantes dos projetos de moderno e urbanidade Ambos fadados a serem colonizados explorados e despossuídos de sua própria imagem terra e identidade Arquétipos que tiveram vida longa e projetaram um imaginário do sertanejo como inferior e responsável pelas mazelas nacionais Interessante notar que esses arquétipos são resgatados de forma contundente vez por outra basta lembrar as marchas contra a corrupção ocorridas entre os anos de 2014 e 2016 que acionavam o Nordeste e o nordestino como responsáveis pela crise econômica em virtude de terem votado majoritariamente nos governos petistas de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma 124 Rousseff além dos discursos xenofóbicos direcionados aos nordestinos na eleição de 2018 Conformam assim uma visão do nordestino pouco ou não alfabetizado alheio ao desenvolvimento das tecnologias e fincado ao chão rachado pela seca Uma percepção de Nordeste que resiste no ponto de vista situado do SulSudeste As produções teóricas sobre o Nordeste e os sertões entre as décadas de 1980 e 1990 constituemse fundamentalmente em torno do coronelismo messianismo indústria da seca cangaço tradições e religiosidade como também contribuíram para forjar uma identidadediscurso regional que ignora a regionalização das relações capitalistas de produção e reprodução a interiorização das instituições de ensino superior as transformações na divisão sexual racializada do trabalho os avanços no âmbito das tecnologias e a influência dos meios de comunicação na vida social De outra parte constroem uma narrativa sobre o Nordeste como espaço destituído da presença de um Estado democrático e de políticas sociais constituindo a ideia de território abandonado No que diz respeito às narrativas que reapresentam conflitos entre movimentos sociais e gestão de políticas públicas a imagem de uma população vulnerável e abandonada pelo Estado é constantemente vinculada à região Seja em material jornalístico blogs da internet ou material acadêmico Nordeste é vinculado a programas de assistência à população carente à violência doméstica contra as mulheres à precariedade nas relações políticas e de trabalho Conjugase assim a palavra Nordeste para falar da margem de um ideal de nação Outro do desenvolvimento nacional desafio para as políticas públicas obstáculo para o desenvolvimento destino de financiamentos para assistência da população brasileira carente supostamente desenganada pela geografia MARQUES 2019 p 4 A designação de Nordeste como contraposição ao moderno e de sertão como interior portanto divide os espaços geopolíticos em mundo urbano versus mundo rural que não existe mais na organização geopolítica de um mundo globalizado e de capital financeirizado As fronteiras e territórios regionais não podem se situar num plano ahistórico porque são criações eminentemente históricas e esta dimensão histórica é multiforme dependendo de que perspectiva de espaço se coloca em foco se visualizando como espaço econômico político jurídico ou cultural ou seja o espaço regional é produto de uma rede de relações entre agentes que se reproduzem e agem com dimensões espaciais diferentes ALBUQUERQUE JUNIOR 1999 p 25 125 Ademais os grandes deslocamentos de capital financeiro e indústrias para o sertão nordestino modificaram as relações sociais de produção e reprodução além da relação entre urbano e rural diluindo suas supostas fronteiras De certa maneira embora o Nordeste ainda conserve as culturas agropecuárias e as tradições rurais há rupturas com novas formas de trabalho e sociabilidade que complexificam essa região Entretanto na perspectiva hegemônica do sudestesul o processo de modernização do sertão está em curso e o transforma em um mero receptor da modernidade ideia da qual discordo profundamente Aí se coloca a necessidade dasdos pensadoraspensadores do Nordeste constituírem e aprofundarem as elaborações teóricas acerca desse território tão implicado de contradições e desigualdades Nós falando por nós de nossa experiência particular Entendo o sertão como um mosaico produzido discursivamente por diferentes forças como unidade e homogeneidade CORDEIRO 2004 p 65 que não pode ser confundido com o semiárido já que o polígono das secas não se circunscreve ao sertão e agrega áreas próximas ao mar ANDRADE 1998 com distintas formações históricosociais disputas de poder entre oligarquias intervenções estatais lutas sociais e religiosidades diversas além de novas formas de sociabilidade articuladas à produção e reprodução do capitalismo contemporâneo De acordo com Cordeiro 2004 p 75 Na atualidade praticamente desapareceu a designação do sertão como interior de qualquer região do país Um dos usos mais correntes é aquele que se refere a uma vasta região geográfica do Nordeste com um certo clima o semiárido com uma vegetação a caatinga e com a ocorrência frequente de um fenômeno ambiental as secas Comumente o termo é também utilizado para falar de um lugar situado às entranhas do país marcado pelo atraso pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento Dessa região se conhecem sobretudo os baixos indicadores sociais Quem mora nessa região muitas vezes é chamado de sertanejoa e ainda ressoa a frase de Euclides da Cunha que ele é antes de tudo um bravo Há o sertão habitado pelas figuras míticas e lendárias Antônio Conselheiro Lampião Maria Bonita e Padim Ciço Aqui me interessa particularmente o sertão do Cariri Cearense território geopolítico situado no limite sul do estado envolvido pela Chapada do Araripe na fronteira com os estados de Pernambuco Paraíba e Piauí ocupando uma área de aproximadamente 147996 km² e 126 composto por 28 municípios7 IPCE 2018 Em 2009 foi criada a Região Metropolitana do Cariri a partir da Lei Estadual Complementar nº 78 de 26 de junho de 2009 DOE série 3 ano I nº 121 03 de julho de 2009 pp 12 formada pelos três municípios do polo conhecido como CRAJUBAR Crato Juazeiro do Norte e Barbalha e mais seis municípios limítrofes dessa aglomeração urbana a saber Santana do Cariri Nova Olinda Farias Brito Caririaçu Missão Velha e Jardim Ocupa uma área aproximada de 5460 km² e abriga uma população estimada em 601817 mil habitantes segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE Censo 2017 A Região Metropolitana do Cariri foi constituída com o objetivo de possibilitar o planejamento integrado dos municípios com ações conjuntas e permanentes dos poderes públicos e privados nas áreas de ordenação do território desenvolvimento econômico e políticas de incentivo ao turismo religioso e ambiental cultura e geração de renda Pressuponho que a região do Cariri é um conglomerado de significados culturaispolítico econômicos e religiosos que produzem saberes artefatos e subjetividades múltiplas Segundo Pinheiro 2009 p 8 o Cariri é um presente da Chapada do Araripe para a vida humana um oásis no interior do sertão nordestino uma estreita faixa de terreno sertanejo com fontes que nunca secam Há variadas formas de delimitar o Cariri seja pela formação histórica por seus limites territoriais pela relação com a Chapada do Araripe ou a partir de arranjos políticoadministrativos Na minha experiência o Cariri é um sertão mar como bem diz a poeta feminista assim ela gosta que as mulheres da poesia sejam chamadas Na Chapada intergaláctica desse plano Neturno conversava com Oxum A Mãe dágua batizou Geraldo Urano Numa pedra Cariri cor de urucum E o Mestre Patativa lá em cima Fez do vale um grande diluvi de rima Com as águas de Pessoa e de Alencar Como num caleidoscópio um videoclipe Já pensou se da chapada do Araripe Inda desse pra gente ver o mar REJANNE 2016 p 13 7 Abaiara Altaneira Antonina do Norte Araripe Assaré Barbalha Barro Brejo Santo Campos Sales Caririaçu Crato Farias Brito Granjeiro Jardim Juazeiro do Norte Jati Lavras da Mangabeira Mauriti Milagres Missão Velha Nova Olinda Penaforte Porteiras Potengi Santana do Cariri Várzea Alegre Salitre e Tarrafas 127 A historiografia tradicional do Cariri aponta a abundância de água o clima ameno e os solos férteis como elementos que possibilitaram a ocupação desse território durante seu processo de colonização em meados do século XVII A colonização contou com missões evangelizadoras da Ordem dos Capuchinhos sediada em Recife que fundaram na região um aldeamento indígena origem da cidade do Crato já nas primeiras décadas do século XVIII ARAÚJO 1971 Também aparece com certa insistência a ideia de Cariri enquanto território místicosagrado de fertilidade fartura e acerto de contas Para os índios que habitavam a região o vale do Cariri cearense já era território sagrado bem antes que os primeiros colonizadores católicos chegassem para a conquista a posse e o saque Foi em defesa dessa terra da fertilidade e da fartura onde se situava também o espaço mítico que os índios Cariri fizeram guerras contra os invasores brancos e mestiços colonizadores e bem antes contra as tribos dos Sertões que empurradas pela escassez de viveres e pelas secas periódicas tentavam se estabelecer na região Índios negros e mestiços do Nordeste já conheciam o Cariri cearense como terra da fertilidade como chão sagrado bem antes das pregações do padre Ibiapina e de Antônio Conselheiro do milagre da beata Maria de Araújo e da fama do padre Cícero ROSEMBERG CARIRY 2001 p 13 As águas que brotam da Chapada do Araripe também foram determinantes para o desenvolvimento de atividades agrícolas intensas disputas de terra e para a construção da identidade dos caririenses como não sertanejos visto que identificam o sertão com escassez de água e aridez sinônimo de interior e de ruralidade Apesar de ser bem interiorano o caririense sente que sua região é inteiramente fora do sertão propriamente dito FIGUEIREDO FILHO 2010 p 5 Por isso o caririense apesar de apegado às tradições e à religiosidade se compreende como moderno e inserido em um território metrópole um celeiro de cultura um espaço cosmopolitano Essa visão do Cariri como celeiro de cultura faz parte de um projeto de desenvolvimento econômico arquitetado pelas elites locais mas que vez ou outra é reivindicado por diversos sujeitos políticos inclusive os situados no campo das forças progressistas Tal projeto de desenvolvimento promovido pelas elites locais se sustentou na conformação de relações sociais de classe profundamente desiguais em que a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras se processou através do mando da perseguição e do cercamento dos minifúndios e posteriormente da informalidade como relação de trabalho O trabalho formal passa a ser uma relação concreta e palpável apenas com a chegada das indústrias calçadistas e de cerâmica na região De outra parte o Estado se faz presente tendo como base 128 o coronelismo e o patrimonialismo das oligarquias locais que instituem os direitos sociais como exceção e benevolência Para Marques 2016 a partir da década de 1950 os fluxos contínuos de pessoas tecnologias e capital modificaram a região e tensionaram as fronteiras entre o mundo rural e urbano Quando falamos da região do Cariri falamos portanto de uma experiência incomum de tensões contínuas entre as narrativas que dão forma às ideias de rural e urbano MARQUES 2016 p 460 Podese dizer que o Cariri se apresenta e é reapresentado ao mundo como um lugar de tradição Sua história está marcada por personagens emblemáticas como Padre Cícero liderança religiosa e política na Velha República DELLA CAVA 2014 SCHWARCZ 2012 pela poética de Patativa do Assaré e a saga da Tipografia São Francisco SLATER 1982 MELO 2010 referência na edição de folhetos de cordéis no Brasil bem como pelo canto de Luiz Gonzaga um dos principais agentes da visibilização de um Nordeste migrante MARQUES 2016 p 461 Nesse sentido entendemos o Cariri como um território heterogêneo e determinado por relações sociais de ruralidade e urbanidade tendo sido constituído com traços marcantes da grande propriedade senhorial coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade Cumpre afirmar que o campo e a cidade são realidades históricomateriais em movimento embora ainda se conserve a percepção de campocidade como realidades rigidamente separadas De outra parte também se constitui enquanto território de resistências individuais e coletivas que marcam sua história desde a colonização com os conflitos entre os índios Kariris e os invasores portugueses passando pela experiência do Caldeirão de Santa Cruz8 e a independência de Juazeiro Conforme Marques 2005 p 202 o Cariri se notabilizouse como região longe demais das capitais e perto demais da civilização constituindo signos particulares e forte 8 O Sítio Caldeirão situado a cerca de 30 km do centro do Crato foi o lugar em que formara na segunda década do século XX uma comunidade de devotos do Padre Cícero sob a liderança do beato José Lourenço Um movimento messiânico destruído pelas forças do Governo Getúlio Vargas após a morte de padre Cícero sob a alegação de se guiarem por ideais comunistas A estimativa é que o massacre tenha assassinado cerca de 400 pessoas que foram jogadas em uma vala comum sem que o Exército Brasileiro informasse a sua localização O beato José Lourenço fugiu para Pernambuco e morreu anos depois sendo levado por uma multidão a Juazeiro do Norte onde seu corpo foi sepultado como santo do povo Atualmente no território do Caldeirão encontrase o assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra 10 de abril Sobre o Caldeirão ver RAMOS F R L Caldeirão estudo histórico sobre o beato José Lourenço e suas comunidades Fortaleza NUDOCUFC 2011 O documentário Caldeirão de Santa Cruz do deserto 1985 de Rosemberg Cariry também é uma fonte interessante inclusive com depoimentos dos remanescentes do caldeirão 129 discurso regional Tal território desenvolveuse em torno da posse de terra e da cultura agrícola da canadeaçúcar e algodão O autor destaca a formação dos filhos e filhas dos latifundiários em Olinda e Recife como elemento fortalecedor das elites locais e da formação de profissionais liberais urbanos Também pontua o uso das terras do Cariri como pastagens para o gado durante as secas o que constituía elos de ligação entre as elites do interior do Nordeste e situava a região como importante centro comercial Para Reis Junior 2016 a formatação de um território como espaço privilegiado no extremo sul do Ceará que articula as expressões ideoculturais da ruralidade e aspectos do mundo urbano constituiuse historicamente como instrumento político de consolidação e reprodução das classes senhoriais latifundiárias na região O Cariri assim denominado passou a ter uma existência histórica de região vivida e representada Ou seja no decorrer da temporalidade o espaço regional ganhou sentidos diversos apropriações usos e práticas que foram e ainda são objetos de disputa em vários campos como política cultura história economia e representação simbólica No caso do Cariri a trajetória da identidade regional alterouse ganhou sentidos diferenciados conforme as percepções dos que viveram vivem estudaram ou estudam até hoje sua história Nos dias atuais compõe a estrutura administrativa do Estado do Ceará No século XIX a cidade do Crato destacavase como a mais importante localidade seja do ponto de vista econômico ou político Atualmente parte do território do Estado do Ceará é denominado descrito e identificado como Cariri seja do ponto de vista institucional administrativo seja do ponto de vista das manifestações artísticas de sua economia e práticas religiosas além das peculiaridades geográficas Administrativamente é identificado pelo governo como um território de identidade sendo uma subdivisão de uma Macrorregião de Planejamento a Macrorregião do CaririCentroSul Assim na política administrativa do Governo do Estado do Ceará o Cariri é uma microrregião como consta na documentação dos órgãos governamentais REIS JUNIOR 2016 p 245 Sob outra perspectiva as produções ideoculturais simbólicas e religiosas constituíram um discurso sobre a região que reforça a ideia de uma identidade própria e um sentimento de diferenciação quanto ao restante do Ceará e do país Os meios de comunicação os poetas os cordelistas as canções as produções de teatro cinema e acadêmicas os discursos eleitorais e religiosos difundem um forte pensamento regional sobre o Cariri9 Como apregoa Pinheiro 9 A região do Cariri tem intensa tradição no campo da poesia xilogravura e cordel aqui destacandose três grupos de cordelistas a Academia de Cordelistas do Crato os Cordelistas Mauditos e as mulheres feministas cordelistas em que destaco Jarid Arraes e Salete Maria Para Marques 2015 p 84 o verso a rima a forma como o fluxo sonoro é proferido são ainda hoje o estilo privilegiado de reflexão sobre uma imagem do Nordeste veiculado 130 2009 p 15 dos sertões do Ceará e Pernambuco avistase distante de léguas a serra do Araripe dános impressão em que ao longe se encontre o céu e o mar Essa tentativa de afirmação da singularidade do território cariri e do caririense pleiteava particularizálo como celeiro da cultura e da tradição histórica a partir de um conjunto de imagens representações e memórias que especificam o Crato como espaço de cultura e da boemia Barbalha como folclórica e o Juazeiro como capital da fé do trabalho e da religiosidade No dito popular Juazeiro é cidade para trabalhar o Crato para morar e Barbalha para passear Para Vianna 2017 p 102 Essa tradição foi inventada num meio restrito de intelectuais ligados à elite local preocupados em explicar o presente como resultado lógico do encadeamento de fatos e processos do passado Tal constatação se desdobrava em desejos políticos e necessidades culturais de aliar glórias do passado às iluminações do futuro com a tarefa de estimular e financiar projetos que teriam como preocupação salvar uma tradição cultural dita popular e autêntica por suposição ainda infensa ao cosmopolitismo mas que imaginavase estar em vias de desaparecer Para compreender melhor a ideia do território Cariri apreendo espaço como algo em constante movimento social e economicamente construído e historicamente determinado criado pelo trabalho humano como natureza segunda natureza transformadora natureza social ou socializada SANTOS 1980 p 163 no qual a intervenção é mediada pela técnica Nesse sentido o espaço não é entendido apenas como superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem O território é o chão e mais a população isto é uma identidade o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence O território é a base do pelos próprios nordestinos No campo artístico destacase a produção da contracultura no Cariri que tinha como objetivo a ruptura com a estética e conteúdo das formas tradicionais de expressão artística local e que de forma contundente marcou o território Cariri com festivais da canção jornais e revistas mostra de expressões artísticas filmes e circuitos de poesia com destaque para Rosemberg Cariry Abidoral Jamacaru Geraldo Urano João do Crato e Luiz Carlos Salatiel Para pensar o Cariri é preciso destacar as produções no campo das artes e do artivismo sejam as locais ou as circulações nacionais incentivadas pelo Centro Cultural Banco do Nordeste CCBNB e pelo Serviço Social do Comércio SESC bem como pelos coletivos autônomos de arte cultura e artivismo Frisamos a cultura do reisado maneiropau cantadores penitentes emboladores rabequeiros pau de fita tracelim xilogravura bandas de pífano bandas cabaçais que se misturam com a forte presença do graffiti dos lambelambes do pixo do stencil da fotografia do rap da performance entre outras linguagens artísticas Convém ainda mencionar a existência de considerável produção cinematográfica que tematiza inclusive questões referentes às relações patriarcais de sexo como o documentário Também sou teu povo e a ficção Travesthiller ambos dirigidos pelo militante LGBTTQIA Orlando Pereira 131 trabalho da residência das trocas materiais e espirituais e da vida sobre os quais ele influi SANTOS 1994 p 97 As relações que se estabelecem no espaço a integração de mulheres e homens em suas múltiplas relações e a divisão do território pela experiência cotidiana em suas relações com a vida social permitem a dissolução e composição de fronteiras revelando dimensões materiais e imateriais conferindo a sensação de pertencimento gerado pela apropriação simbólica do espaço através do princípio de identificação o que torna o território um construtor de identidade ACCIOLY 2011 p 2 A ideia do território em movimento em permanente transformação encontra suporte em um espaço socialmente organizado Território significa espaço e fluxos ou seja lugares e pessoas interagindo Território significa uma identidade histórica e cultural São fluxos econômicos sociais culturais institucionais políticos humanos São atores inteligentes organizados que podem fazer pactos planos projetos coletivos ARNS 2008 p 24 No coração do semiárido nordestino o Cariri assume as feições de território Um território contradição formado por contrastes de diversidade cultural intensas contradições de classes raças e relações de gênero e que coexiste entre projetos de modernidade e tradição constituindo intersecções entre passado e presente Nesse mosaico de contradições que é o território Cariri pontuamos o amplo crescimento econômico e populacional a partir do século XX muito potencializado pelo desenvolvimento do turismo religioso em torno da figura do Padre Cícero Isso trouxe investimentos públicos e privados para toda a região e repercutiu no alargamento de outras áreas econômicas como o comércio a indústria calçadista e recentemente a interiorização das universidades De acordo com Marques 2005 p 206 Particularidade de clima e relevo relações tradicionais de poder e posse de terra a essas características juntarseiam nas primeiras décadas do século XX a formação de um grande centro de religiosidade popular na cidade do Juazeiro do Norte e a utilização contínua das vivências da população rural folclorizadas pelos intelectuais locais Constituíase portanto um discurso específico sobre cultura popular local Temos portanto signos identitários do Nordeste brasileiro personificado no que Martins chama de a Santíssima Trindade Nordestina Padre Cícero Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré compondo um espaço profundamente marcado pela tradição ou como prefere Albuquerque Jr pelo discurso antimoderno MARQUES 2005 p 206 132 O fato é que a partir das primeiras décadas do século XX o Cariri ampliouse populacional e economicamente especialmente a partir do fenômeno do milagre do Padre Cicero que transforma profundamente a região A crença popular sugere que Jesus se manifestou por meio do milagre da hóstia consagrada pelo Padre Cícero e que se transformou em sangue na boca da beata Maria de Araújo10 em março de 1889 O milagre da hóstia ou milagre de Padre Cícero levou milhares de devotos ao vilarejo de Joaseiro e fomentou o crescimento populacional e econômico da região Ali o padre Cícero Romão concedia permissão para viver no povoado e encaminhava os romeiros para atividades laborativas seja o cultivo agrícola a produção de instrumentos de trabalho e de uso doméstico bem como o comércio de artigos religiosos A historiografia local e a tradição oral relatam como o Padre Cícero garantia o trabalho e a renda das famílias do vilarejo que para além de decisões político administrativas transformaramse em causos da tradição e do folclore local11 Segundo Marques 2005 p 208 A força da religiosidade popular faz com que a Igreja Católica institua em Crato uma Diocese na tentativa de contornar o fenômeno do milagre Entretanto Padre Cícero constitui novas relações de poder local evocando fortes disputas com as oligarquias cratenses e a cúpula da Igreja Católica A presença de Padre Cícero desestrutura as formas de poderio local Ainda que bem articulado com os coronéis ainda que vinculado à Igreja Católica Padre Cícero inaugura uma forma de fazer política Mantém com os cabras e flagelados de todo o Nordeste uma lealdade nunca vista entre patrão e moradores com os seus seguidores uma relação de lealdade e dependência pouco usual entre fiéis e representantes do clero Entre 1890 e 1909 o Juazeiro do Norte passa de 25 mil para 15 mil habitantes MARQUES 2005 p 208 A emancipação do Juazeiro em relação ao Crato em 1911 fortalece os antagonismos entre as duas cidades uma sustentada pela expansão das romarias e do comércio e a outra 10 Nas últimas décadas constituiuse no Cariri um debate em torno do milagre da hóstia relacionado ao corpo da Beata Maria do Araújo e independente do Padre Cícero Questionase o apagamento da beata da história do milagre de Juazeiro e um posterior deslocamento da crença para a figura do padre Cícero Romão Batista Consta que o corpo da beata foi retirado de seu túmulo e a Igreja nega informar sua localização 11 Um dos causos conhecidos do padim referese à procissão de Nossa Senhora das Candeias que no ano de 2018 reuniu cerca de 250 mil fiéis sendo organizada a partir de uma demanda de um romeiro recémchegado e que passava por problemas financeiros A partir de sua solicitação de ajuda o padim recomendou que produzisse o maior número de lamparinas e aos fiéis anunciou que deveriam comparecer à celebração de Nossa Senhora das Candeias com lamparinas indicando o local onde deveriam comprálas Esse caso teria sido o pontapé para a constituição de uma produção artesanal religiosa que paulatinamente foi transformada em lembranças passíveis de incrementar o comércio local 133 ancorada na tradição das oligarquias tensionamentos que persistem até hoje com novas roupagens É preciso afirmar que a expansão do Juazeiro repercutiu em toda a região fortalecendo a economia constituindo novas disputas de poder e reduzindo as fronteiras entre urbano e rural De acordo com o Instituto de Pesquisa e estratégia Econômica do Ceará IPECE atualmente o Cariri tem 11 da população do Ceará e as quatro maiores cidades da região metropolitana Juazeiro do Norte Crato Barbalha e Nova Olinda apresentam índices de crescimento populacional próximo a 18 que são superiores ao percentual do Brasil 12 do Nordeste 11 e do Ceará 14 Considerando a taxa de ruralidade da Região Metropolitana do Cariri apenas três municípios têm população acima de 50 mil habitantes Juazeiro do Norte Crato e Barbalha De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA os municípios de até 50 mil habitantes com densidade demográfica de até 80 habitantes por km² são considerados municípios rurais Conforme essa classificação somente Juazeiro do Norte Crato e Barbalha não são municípios rurais Dentro desse critério os maiores polos de desenvolvimento da região são justamente esses três municípios onde estão localizadas as principais indústrias majoritariamente de calçados e cerâmica e o comércio significativo de atacado e varejo A expansão populacional o volume de recursos em circulação sendo 8 do Produto Interno Bruto PIB do Ceará e os intensos fluxos migratórios fincaram um projeto de urbanidade que não rompe com a ruralidade e que faz os caririenses se autoafirmarem como a meca nordestina As principais atividades econômicas giram em torno do turismo religioso agroexportação comércio e indústria calçadista Nos últimos 20 anos os intensos processos de industrialização do Cariri especialmente fomentados pela indústria calçadista e de cerâmica que detêm 7 do volume total das indústrias do estado reorganizaram a dinâmica campocidade urbanizando as cidades do polo Crajubar e operacionalizando fluxos migratórios contínuos de outras cidades da região Essa chegada das indústrias em cidades de médio porte faz parte da reorganização dos processos produtivos póscrise de 1970 em uma conjuntura de enxugamento do chão da fábrica mobilidade de capitais ofensiva aos direitos dos trabalhadores e ao Estado Nesse sentido há uma tentativa de constituir novos territórios produtivos nas periferias do capitalismo que tenham abundância de força de trabalho a baixo custo incentivos fiscais dos estados e pouca 134 tradição de organização sindical Para Araújo 2005 p 28 o acesso ao trabalho formal industrializado no Cariri veio acompanhado de uma intensa precarização A busca por redução de custos e mão de obra abundante barata e desorganizada tornou a região um novo greenfield atraente a novos investimentos principalmente para aqueles setores industriais mais afetados com a internacionalização econômica como o vestuário Diversas unidades industriais de empresas gaúchas e paulistas foram transferidas ou abertas em cidades do interior da região atraídas por generosos incentivos fiscais além do custo da mão de obra Enquanto no resto do País discutiase o crescimento do desemprego industrial e a precarização das relações de trabalho assistiase em estados como Ceará e Bahia o surgimento de empregos industriais formais ou pelo menos institucionalizados em cooperativas de produção em cidades antes vistas como improváveis pois no máximo eram lugares com uma tradição artesanal na qual a indústria sempre teve um papel pouco significativo ARAÚJO 2005 p 28 Ademais esses novos territórios produtivos apesar de conviverem com processos bastante heterogêneos são marcados pela mobilidade do capital e das próprias indústrias que só ficam em tais lugares enquanto os incentivos fiscais permanecem ou até que outro estado proporcione mais garantias de lucro No que diz respeito à força de trabalho as indústrias recrutam trabalhadorestrabalhadoras pouco escolarizadosescolarizadas e de regiões onde o trabalho formal era pouco usual A ampliação do trabalho formal retirou osas trabalhadorestrabalhadoras do desemprego a falta de perspectivas em relação à empregabilidade na região e proporcionou a migração em busca de melhoria das condições de vida Mas também se articulou a processos de trabalho intensivos baixos salários informalidade terceirização constituição de unidades familiares de produção e trabalhos temporários destacandose a ampla requisição da força de trabalho feminina pelas indústrias calçadistas da região assim como a proliferação de trabalho infantil De outra parte impactou a organização social da cidade já que recebeu contingentes de trabalhadorestrabalhadoras de outras regiões em geral para realizar funções de gestão nas indústrias ampliou também o comércio local e incrementou novas formas de consumo e sociabilidade Para Araújo e Silva 2011 p 706 A chegada da fábrica e do trabalho assalariado funciona quase como um processo civilizatório com a abertura de maiores possibilidades no mercado de trabalho de especialização e mesmo qualificação no trabalho A fábrica provoca a construção de novos hábitos não apenas no trabalho mas também induz à mudança de valores que impactam as relações familiares e afetivas 135 A entrada massiva de mulheres nas fábricas tensionou as relações familiares especialmente as do âmbito doméstico já que os maridos ou companheiros em geral estavam inseridos na informalidade ou desemprego que na compreensão de Araújo 2011 p 707 acabou comprometendo a permanência de papéis tradicionais de gênero papéis estes em que o homem prevalece como provedor e autoridade máxima no grupo familiar Todo esse contexto impulsionou também a necessidade de qualificação da força de trabalho local e o surgimento de várias universidades públicas e privadas que intensificou o fluxo migratório e repercutiu na cultura local Até a década de 1990 a formação em nível superior dos caririenses era realizada fundamentalmente nas capitais sobretudo em Recife mesmo após a criação da Universidade Regional do Cariri URCA em 1987 Esses fluxos migratórios constantes dosdas jovens caririenses contribuiu fortemente para a aproximação com expressões culturais e modos de vidas cosmopolitanos que gradativamente incorporou novos elementos à identidade regional Nos anos 2000 acompanhando o processo de expansão e interiorização das instituições de ensino superior há uma efetiva ampliação das universidades e escolas técnicas profissionalizantes na região do Cariri fato que impulsionou um aumento populacional significativo redesenhando as paisagens locais12 inclusive pela chegada de novos sujeitos políticos Esse fluxo de jovens estudantes e docentes modificou a dinâmica da região ampliando não apenas o mercado imobiliário e o comércio mas também a vida noturna os relacionamentos afetivossexuais as manifestações culturais e de resistência A partir da chegada desses novos sujeitos começaram a ser sistematizadas ações de resistência feminista antirracistas e LGBTTQIA em consonância com fenômenos nacionais a exemplo da Marcha das Vadias das lutas pela legalização da maconha e dos escrachos a personalidades que cometessem machismos racismos e LGBTTQIAfobia De certo já existiam resistências locais mas é inconteste que a interiorização das universidades oxigenou lutas históricas da região 12 No âmbito público temse a ampliação dos cursos e dos campi da Universidade Regional do Cariri URCA a criação da Universidade Federal do Cariri UFCA a partir do desmembramento da Universidade Federal do Ceará e a transformação das escolas técnicas em Instituto Federal do Ceará com dois campi um no Crato e outro no Juazeiro Ainda temse por iniciativa do governo estadual a criação de escolas técnicas profissionalizantes na região Já na esfera privada muito a partir dos incentivos do PROUNI e REUNI foram criados o Centro Universitário Unileão a Faculdade Juazeiro do Norte FJN a Faculdade Paraíso do Ceará FAP a Universidade Estácio de Sá e a UNOPAR 136 O boom das Instituições de Ensino Superior Privadas acompanhada pela recentíssima interiorização da Universidade pública naquele estado da federação a babel de sotaques oriundos das mais diversas regiões do país o estranhamento dos costumes em relação à capital faz de Juazeiro uma metrópole em pleno nascimento de estranhos estrangeiros que muitas vezes chegam e incorporam a performance moderna de colocar o seu tijolo na construção daquela polis Juazeiro do Norte é a típica cidade formada pelos chamados forasteiros provenientes dos mais diversos locais do Brasil Com suas identidades em trânsito IDEM 2007 fazem emergir o que a poeta Ana Cristina Cesar chamou de o atravanco na contramão suspiro no contra fluxo Ali repousa se é possível assim dizer a expressão do híbrido Forasteiros não apenas no deslocamento geográfico mas também nos costumes que predominam naquela região NUNES 2010 p 23 Com os processos de urbanizaçãoindustrialização atrelados à interiorização das universidades e ampliação de investimentos públicos e privados a região fincou uma posição estratégica entre os principais polos comerciais e turísticos do Nordeste com relevância que ultrapassa os limites estaduais sendo referência para importantes cidades dos estados do Piauí Paraíba e Pernambuco No que diz respeito ao turismo houve uma ampliação no ramo do turismo de negócios ecoturismo e turismo culturalreligioso com forte preponderância do turismo religioso realizado por multidões predominantemente das classes trabalhadoras e do Nordeste atraídos para um dos maiores centros religiosos do Brasil pela fé em Padre Cícero Nas várias romarias que acontecem durante o ano há um fluxo de cerca de 15 milhão de peregrinos que potencializam a criação de empregos diretos e indiretos aumento do lucro dos empresários aumento da remuneração do trabalhador assalariado pelos efeitos multiplicadores das romarias em virtude dos estímulos internos dos setores constituídos pelo poder público até investimentos privados no comércio na indústria nas áreas de consumo religioso e cultural importantes na conjuntura econômica da região Para além da visitação à estátua de Padre Cícero e às romarias acrescentase a construção da maior estátua dedicada à Nossa Senhora de Fátima do Brasil e a visita à Pia Batismal em que Padre Cícero foi batizado no município do Crato além dos festejos de Santo 137 Antônio a Festa do Pau em Barbalha Na esfera do turismo profano destacase o circuito das águas e a visitação ao Geopark Araripe13 a Mostra Sesc Cariri de Cultura14 e a Expocrato15 42 UM CARIRI QUE ODEIA AS MULHERES quadro geral das relações patriarcais de sexo na região O cariri é um território perigoso para as mulheres dizia enfaticamente a corretora de imóveis logo quando aportei na região a trabalho Implicitamente ela dizia protejase Nos bares nos meios de comunicação nas escolas expressões artísticoculturais e em universidades essa sentença é cotidianamente repetida aqui não é seguro para as mulheres Faz parte do cotidiano de todas as mulheres e é amplamente naturalizada a ponto de uma missa ter continuidade mesmo após um feminicídio acontecer em sua calçada Todas as mulheres entrevistadas relataram o caso da mulher assassinada em frente à Praça da Sé para expressar o que o território Cariri significa para as mulheres Uma mulher é assassinada em frente à Praça da Sé pelo seu excompanheiro Ela estava observando seu filho brincar ENTREVISTADA III A missa continuou sobre o cadáver gritaram as feministas Advertência número um este texto trata repetidamente de casos de violência e de apagamento de mulheres Silvany apagada materialmente na frente da Igreja da Sé no horário da missa não dispôs de solidariedade dos cristãos ali presentes O corpo da pedagoga ficou durante quase uma hora exposto tal imagem foi compartilhada pelo seu filho mas a missa não parou Aos 26 anos Silvany virou estatística De janeiro a setembro 315 mulheres foram assassinadas no Ceará Silvany está entre elas Tia Silvany como era chamada estava começando a se cuidar mais a sair mais e a viver mais 13 O Geopark Arapipe envolve os municípios de Barbalha Crato Juazeiro do Norte Missão Velha Nova Olinda e Santana do Cariri apresentando uma área aproximada de 3441 km2 IBGEFUNCEME 2001 Este território está inserido em uma região caracterizada pelo importante registro geológico do período Cretáceo com destaque para seu conteúdo paleontológico com registros entre 150 e 90 milhões de anos que apresenta um excepcional estado de preservação e revela uma enorme diversidade paleobiológica Mais informações em wwwgeoparkaraipeorgbr 14 Acontece no mês de novembro e movimenta em torno de 200 mil pessoas por ano com atividades artístico culturais gratuitas distribuídas em 28 cidades 15 A Expocrato é uma feira agropecuária de animais e produtos derivados que movimenta cerca de 60 milhões de reais e mais de meio milhão de pessoas por ano 138 quando os disparos da arma de Elson Siebra de Deus 47 interromperam sua vida na noite de 19 de agosto de 2018 O corpo dela caiu no banco da Praça da Sé em meio a centenas de pessoas que acompanham a festa religiosa para Nossa Senhora da Penha padroeira do Crato entre elas o filho de 4 anos a quem Silvany havia levado para passear SOARES 2019 p 54 No dia 20 de agosto de 2018 um dia após o apagamento de Silvany 5 mil pessoas ocuparam a Praça da Sé e calaram a missa com palavras de ordem nem todas estão aqui falta as mortas Nossa Senhora da Penha protegei as mulheres da violência que trema a terra está aqui o feminismo do Cariri Imagem 1 Ato contra o feminicídio no Cariri nem todas estão aqui falta as mortas Fonte Agência Miséria 2018 Uma região demarcada pelo ódio mas também pelas lutas e resistências das mulheres No mito fundador da região ou no desaparecimento do corpo da beata Maria do Araújo esse 139 ódio se expressa contemporaneamente corporificado no feminicídio Para as mulheres o Cariri corporificase em seu imaginário como uma força que é preciso enfrentar mas aí o sujeito da exploraçãodominaçãoapropriação das mulheres é o patriarcado que toma sua expressão particular no Cariri Assim o Cariri como território e sua constituição e invenção é uma elaboração patriarcal É interessante como o mito que funda a região já vem atrelado ao ódio às mulheres e ao seu apagamento enquanto grupo social Chauí 2006 utiliza a acepção de mito fundador para distinguilo do conteúdo ideológico que carrega a palavra fundação que se refere ao passado estanque imutável ahistórico atemporal e natural e por isso na sua visão é um mito o mito fundador Ele comunica esse significado pois com novas roupagens pode repetirse indefinidamente e também difere da concepção de formação social que agrega a ideia de formaçãotransformação processualidade continuidade e descontinuidade dos acontecimentos e das determinações sociais políticas e econômicas A autora vai sintetizar que o processo de colonização da América Latina se deu a partir da invasão europeia jurídicoteocêntrica mas que é contado pelo discurso competente como se tivesse sido uma descoberta que compõe uma geografia do poder em que o espaço físico unificado constitui o lastro empírico sobre o qual os outros elementos constitutivos da nação se apoiam CHAUI 2006 p 69 No mito fundador encontramos os traços da violência e do autoritarismo estrutural da sociedade brasileira A delimitação do espaço social e dos territórios é feita pelo constante espelharse na magia do competente e isso foi possível porque as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas sem distinção entre público e privado como relações familiares e pessoais de mando e obediência corporificandose enquanto relações de violência e autoritarismo as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior que manda e um inferior que obedece As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mandoobediência As relações entre os que se julgam iguais são de parentesco isto é de cumplicidade ou de compadrio e entre os que são vistos como desiguais o relacionamento assume a forma ao favor da clientela da tutela da cooptação ou da violência CHAUI 2006 p 89 Isso faz com que a divisão entre classes o patriarcado e o racismo sejam naturalizados por um conjunto de práticas em geral extremamente violentas que camuflam as determinações históricas ou materiais da exploração sob o signo da nação una e indivisa solidificada na 140 imagem de uma boa sociedade e de um país pacato e feliz no mito da nãoviolência brasileira Por isso na sua visão temos o hábito de supor que o autoritarismo e a violência são um fenômeno político que afeta o Estado quando na verdade não percebemos que é a sociedade brasileira que é autoritária e violenta e dela provêm as diversas manifestações do autoritarismo político CHAUI 2006 Retomando ao Cariri segundo a tradição oral e a historiografia local os índios que aqui chegaram diziam vir de um lago encantado em que morava uma única mulher representada por uma serpente sagrada a Mãe dÁgua que habitava no Rio Granjeiro e dormia nas profundezas da terra guardando os segredos da vida da morte e da fecundação Essa única mulher foi assassinada e esquartejada para que nascessem os filhos da nação cariri O mito fundador do povo Kariri apresenta o território de Badzé o deus do fumo e civilizador do mundo No princípio era a Trindade Badzé era o Grande Pai Poditã era o filho maior e Warakidzã senhor do sonho o filho menor Badzé enviou seu filho predileto Poditã para a terra Kariri e esse ensinou os índios a reconhecer os frutos e raízes caçar animais fazer farinha preparar utensílios do cotidiano dançar cantar e fazer os rituais sagrados de pajelanças A Terra Sem Males habitada pelos Kariris tinha uma única mulher e eles queriam mais mulheres Desse modo Poditã orientou que eles matassem esta única mulher com um espinho mágico Depois eles deveriam cortar o corpo da ÚnicaMulher em tantos pedaços quantos fossem os homens e cada homem deveria envolver o seu pedaço da mulher com capuchos de algodão Os índios fizeram tudo conforme orientação de Poditã e depois seguiram para a caça Quando retornaram viram admirados que havia na aldeia muitas mulheres Elas alimentavam o fogo e tinham preparado uma grande quantidade de bebidas e comidas Saciadas a fome e a sede os índios e as índias sussurucaram em suas redes e tiveram muitos curumins GONÇALVES 2008 p 234 A constituição do povo cariri a partir da evocação desse mito fundador se dá pela via da violência e do apagamento da única mulher que morava na região Após sua morte e esquartejamento as mulheres aparecem na aldeia e foram colocadas na condição de objetos de satisfação sexual responsáveis pelas atividades reprodutivas e reprodutoras de herdeiros O mito fundador naturaliza a violência perpetrada contra as mulheres e a transforma em um evento um artefato ahistórico atemporal e pretensamente imutável por isso inscrito na natureza e não nas relações sociais constituídas por homens e mulheres O apagamento e o esquartejamento aparecem a partir desse aporte ideológico como elementos constitutivos do território Cariri e da forma como as mulheres apareceram na região No mito fundador as mulheres são apropriadas como corpo que produz trabalho têm seu tempo devotado ao cuidado 141 doméstico os produtos de seu corpo estão à disposição a partir de relações sexuais entendidas socialmente como compulsórias A partir disso subentendese que a mulher é uma posse reduzida ao estado de objeto material Guillaumin 2014 p 63 marca que a apropriação material do corpo das mulheres se manifesta pela tomada de posse física material o uso físico que sanciona no caso de desavença a coação os golpes O uso físico sem limites a utilização do corpo o não pagamento do trabalho exprimem que o corpo material individual de uma mulher pertence ao marido que com a exceção do assassinato tem direito contratual de fazer uso sem limites dele De outra parte temos o apagamento da beata Maria de Araújo da narrativa oficial e oficiosa do milagre de Juazeiro Consta que em 1889 Maria de Araújo estava reunida com outras mulheres na capela e ao receber a comunhão das mãos de Padre Cícero percebeu que a hóstia se transformou em sangue na sua boca O suposto milagre da hóstia impulsiona uma multidão de romeiros a Juazeiro entendido por eles como a terra santa a Nova Jerusalém Entretanto a beata na qual a hóstia fezse sangue não recebeu um lugar de destaque no interior do catolicismo popular passando os últimos anos de sua vida enclausurada até falecer em 1914 Ademais em 1931 seu túmulo que ficava na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Juazeiro foi violado e seus restos mortais foram saqueados e nunca mais encontrados Em maio de 2018 pesquisadoraspesquisadores da URCA e integrantes dos movimentos feministas do Cariri realizaram um seminário sobre a religiosa intitulado Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo onde está a beata 142 Imagem 2 Beata Maria de Araújo encontreme onde eu estiver Fonte Farias 2018 O que chama a atenção é que o milagre foi o elemento impulsionador das romarias e se ele aconteceu por intermédio da beata o que explica o fato de Padre Cícero ter sido considerado santo pela religiosidade popular Por que a beata praticamente desapareceu do cenário religioso Por que os romeiros e romeiras nem ao menos perguntam onde estão enterrados os restos mortais de Maria de Araújo mesmo sabendo de sua participação no milagre do Juazeiro Por que não cobram da Igreja explicações para o sumiço do corpo CAVA 1976 SILVA 2010 NOBRE 2014 O apagamento da imagem da beata Maria do Araújo faz parte de uma religiosidade alinhada às oligarquias locais constituída em torno da figura patriarcal de Padre Cícero que apagou e silenciou a beata utilizando a sua experiência mística para autopromoção econômica e religiosa Apontei esses dois elementos sobre a história das mulheres do Cariri o mito fundador do Cariri e a experiência mística de Maria de Araújo para sustentar que o assassinato e o apagamento das mulheres enquanto grupo social é um traço fundante das relações sociais e das particularidades do patriarcado na região O assassinato da primeira mulher do Cariri e seu brutal esquartejamento para dar origem a outras mulheres que serviriam como força de trabalho reprodutiva e parceiras sexuais assim como o enclausuramento e desaparecimento dos restos 143 mortais da beata demonstram que a violência o confinamento e o silenciamento são marcas da experiência das mulheres na região e agem naturalizando e positivando a violência e a apropriação material do corpo e da vida das mulheres Acrescentase a isso o fato de o Cariri se conformar como uma terra fortemente marcada pela religião tradição e violência que se unifica em torno de arquétipos morais sociais culturais e estéticos do sertão e do patriarcado rural A vigilância e a tutela dos corpos femininos se sustentam fundamentalmente pelos valores tradicionais do patriarcado dentre eles a separação entre público e privado a valorização da família e da maternidade bem como a centralidade na religiosidade Tal quadro estabelece as desigualdades entre os gêneros e a submissão das mulheres a essa desigualdade como também produz uma verdadeira invisibilidade do fenômeno da violência contra a mulher acompanhado da naturalização de sua impunidade Para Marques 2013 p 3 Em grupos mais hierarquizados como é o caso do Cariri a ideia de coesão está ligada também à manutenção da propriedade familiar e à perpetuação do status dentro e fora da comunidade A vigilância sobre as mulheres tornase uma parte da administração dos conflitos comunitários tal qual descrito por Bailey 1971 através da manutenção da reputação e a tentativa de manter se no mesmo lugar Outro elemento diz respeito à forte relevância social política cultural e econômica da religiosidade para o sertão caririense Friso a necessidade de compreender as religiões e a religiosidade como espaços contraditórios e de produçãoreprodução de relações sociais De acordo com Nunes 2009 p 213 as religiões são socialmente construídas As práticas religiosas certas expressões de fé as representações simbólicas e os discursos são reveladores de relações sociais Assim pertencer a uma classe uma raça ou um sexo determina e delimita as práticas religiosas inclusive as que são percebidas como mais íntimas Além disso as crenças práticas e representações religiosas agem sobre a realidade seja reforçando as estruturas sociais seja modificandoas Na particularidade do Cariri a religiosidade é exteriorizada com a preservação do misticismo que gira em torno dos santos católicos de superstições e de crenças populares que articulam constantemente o sagrado e o profano Um elemento interessante a se enfatizar é a grande quantidade de terreiros de religiões de matriz africana na região evocados no dito 144 popular Juazeiro Juazeiro em cada sala um altar Em cada quintal um terreiro uma cultura que sincretiza a teologia católica romana o catolicismo popular a cultura sertaneja rural e os traços de urbanidade As romarias em homenagem ao Padre Cícero trazem consigo muitas esperanças de cura das mais diversas patologias apresentando corpos sofridos e rostos enrugados que transitam espoliados e maltrapilhos pelas ruas a pé ou nos carros denominados de paus de arara Todos entoando seus benditos ou outros cantos espiritualistas Ali o sagrado se mistura com profano Durante o dia os romeiros pagam suas promessas e adorações como parte dos ritos religiosos À noite muitos deles visitam os becos bares em busca de animações Nesses espaços se relacionam e partem para os mais diversos encontros eróticos é importante pontuar desde já a existência de um mercado do sexo de travestis que demonstra tanto a existência do exercício da sexualidade com estes clientespassantes como também a existência de um mercado interno desenvolvido pelos próprios moradores da região NUNES 2010 p 4 Esse caldo cultural religioso também reafirma constantemente a vocação dos caririenses para a fé e o trabalho como apregoava Padim Ciço bem como a defesa constante das relações familiares e dos tradicionais papéis de gênero Portanto é inconteste que as desigualdades entre homens e mulheres também se produzem e reproduzem na religiosidade do povo Cariri As religiões existentes são espaços de dominação das mulheres e têm legitimado concepções de mundo e práticas misóginas16 A tradição judaicocristã cria representações múltiplas e contraditórias ao redor da figura feminina de um lado está Eva carregando os símbolos de pecado maldade e desobediência de outro está Maria reservada à bondade castidade e submissão17 Considero que essas construções simbólicas fixam produzem e reproduzem consciente ou inconscientemente a subordinação da mulher mas não agem isoladamente precisando das estruturas sociais para engendrar a dominação masculina dos burgueses dos brancos e dos jovens Um exemplo disso foi a campanha eleitoral de 2012 quando um dos candidatos a se tornar prefeito da cidade de Juazeiro do Norte apontava que seu diferencial era ter uma família 16 Não há consenso entre as feministas acerca do papel das religiões algumas defendem que a religião é espaço de dominação das mulheres enquanto que para outras o problema das religiões seria a apropriação das igrejas pelos homens 17 Segundo Albuquerque 2006 p 77 a emergência do marianismo enquanto representação simbólica da mulher que merece ser exaltada legitimou um forte controle da sexualidade feminina ao passo que a Igreja Católica em 1854 definiu Maria em seus dogmas como a Imaculada Concepção virgem por toda a vida 145 bem consolidada e uma fé inabalável no Padre Cícero fatos que contribuíram para sua chegada à prefeitura da cidade supracitada Em certa medida a religiosidade dessa região produz e reproduz relações patriarcais de sexo demarcadamente desiguais com altos índices de feminicídio violência contra as mulheres estupros coletivos e corretivos assédio moral entre outras expressões de violação ao corpo e à cidadania das mulheres Essa articulação entre os traços tradicionais da cultura patriarcal e a religiosidade caririense operacionaliza uma profunda naturalização e invisibilidade das problemáticas supracitadas inclusive no que tange ao Estado e à efetivação das políticas sociais bem como com relação à atuação dos movimentos de mulheres e feministas Embora nas últimas décadas tenhamse materializado profundas transformações societárias no Cariri tais como robustecimento de valores urbanos grandes fluxos migratórios em virtude do alargamento das indústrias calçadistas expansão do comércio em torno das romarias e do turismo religioso além da interiorização das universidades ainda prevalecem fortemente os traços do patriarcado rural e as tensões entre o mundo urbano e rural que repercutem em interdições múltiplas à vida das mulheres Essa conjuntura faz do Cariri um ser tão contradição que reatualiza o patriarcado cotidianamente e cria ao mesmo tempo grandes resistências Como assevera Marques 2013 p 6 Para ser caririense é preciso também ser moderno Esses elementos contribuem diretamente para a região ser marcada pelas múltiplas violências contra as mulheres e os altos índices de feminicídio De 2001 a 2014 228 mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros ou excompanheiros18 Advertência número dois cabe dizer que a maior parte dos assassinatos ocorrem com violência sexual e requintes de crueldade presença de indícios de tortura carbonização dos corpos decapitação de partes do corpo estrangulamentos uso de armas brancas havendo também registros de mulheres enterradas vivas ou apedrejadas até a morte Há um apagamento material das mulheres mas também um apagamento de suas imagens Caixões velados e corpos desaparecidos Em 2016 Cadê Rayane foi a pergunta que mais as feministas ecoaram Uma jovem de 24 anos negra e moradora de uma comunidade periférica ficou desaparecida durante dois meses quando as investigações policiais afirmaram que o seu ex 18 Esses números de assassinatos foram registrados nas delegacias de Juazeiro do Norte CE que é o município polo do Cariri cearense e catalogados pelas feministas que militam no Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense 146 namorado havia assassinado e jogado seu corpo no rio São Francisco Rayane não teve um sepultamento A Frente de Mulheres pressionou todas as instâncias estatais a fim de solucionar o caso assim como assessorou a família da jovem e atualmente acompanha o processo de prisão do acusado de assassinato Esse caso impactou fortemente a subjetividade das feministas da região Passamos dois meses junto com a família de Rayane acompanhando as investigações A gente ia lá na delegacia procurava pistas acolhíamos a mãe acionávamos a rede de proteção foi cansativo Teve ato para pressionar a polícia Teve caminhada da comunidade dela Conversamos com os homens da comunidade sobre violência contra a mulher Tudo que você possa imaginar nêga vea Mas ela já tava morta Quando a polícia descobriu nosso chão caiu Mas cadê o corpo de Rayane Mais uma Mais uma de nós morta Foi um baque pra Frente de Mulheres ENTREVISTADA I O movimento feminista local registrou um costume praticado entre as mulheres caririenses que expressa o impacto do patriarcado e do feminicídio na região quando uma mulher é assassinada seu corpo é enterrado junto com todos os boletins de ocorrência e solicitações de medidas protetivas Simbolicamente as mulheres enterram a impunidade e reafirmam a presença de microestratégias de enfrentamento às violências também se negando a serem apagadas enquanto classe A esses dados acresço a intensa incidência de violência sexual especialmente estupros com a ocorrência de estupros coletivos e corretivos bem como leilões de mulheres virgens em casas de prostituição da região No ano de 2016 foram notificados 4 casos de estupro em menos de 10 dias ocorridos no centro da cidade do Crato e durante o dia Segundo o Observatório da Violência e Direitos Humanos da Região do Cariri ligado à Universidade Regional do Cariri URCA entre janeiro e julho de 2016 Juazeiro do Norte apresentou taxa de 587 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres no Crato taxa de 916 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres e Barbalha taxa de 049 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres em um total de 61 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres no eixo CRAJUBAR CratoJuazeiro Barbalha Mesmo com dados de violência e feminicídio alarmantes a implantação de Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher teve início apenas em 2002 após uma onda de homicídios na cidade do Crato e na região ocorrida em 2001 que vitimou 13 mulheres em um 147 curto espaço de tempo Assim os movimentos sociais da região especialmente o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense CMDMC impetraram um conjunto de ações no sentido de denunciar a histórica violência contra a mulher no Cariri pressionar por punição aos culpados e efetivação de políticas públicas para as mulheres MARQUES QUIRINO ARAÚJO 2013 Essa conformação de um Cariri perigoso para as mulheres fez emergir inúmeras formas de resistência por partes destas ao longo do tempo em geral ligadas às demandas de violência contra a mulher mas ainda pouco exploradas historiograficamente e com movimentos intensos de fluxos e refluxos organizativos De acordo com a Entrevistada II O Cariri já era um território conhecido de resistência e de lutas sociais desde que eu nasci desde que eu me entendo por gente que eu já acompanhava vários atos de resistência das pessoas em vários aspectos ocupações urbanas ocupações rurais a organização dos sindicatos a luta por uma educação melhor então a gente tem a primeira Universidade no interior do Ceará Eu acho que isso é muito agregador do ponto de vista de quando a gente se reconhece como ser coletivo é muito agregador porque a gente tem uma base de uma coisa que já vinha anterior a gente que é essa força da organização ENTREVISTADA II 2018 Nesse panorama enfatizo as mulheres em luta pela anistia a Associação das Mulheres do Crato o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense bem como as lutas contra os assassinatos de mulheres como os germes para a constituição do sujeito feminista coletivo Dentre as lutas supracitadas cabe destacar o protagonismo da Associação das Mulheres do Crato e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense no sentido de compor um movimento de mulheres com organicidade política A Associação de Mulheres de Crato AMC foi um grupo estruturado a partir de 1979 dentro do espectro das lutas pela anistia geral e articulado ao Centro Popular da Mulher de Fortaleza19 que teve sua fundação oficial no ano de 1983 atuando até final dos anos 1990 com intercâmbios estabelecidos com várias cidades do Cariri Tal entidade protagonizou lutas em torno da questão da moradia e reivindicações por direitos sociais tais como escolas saneamento básico energia elétrica urbanização das periferias e enfrentamento à violência contra a mulher e ao mesmo tempo atuou na formação de uma luta feminina na região com pautas específicas das mulheres A questão da moradia foi preponderante nesse momento com 19 Organização de mulheres filiada ao PCdoB e que atuava clandestinamente no período ditatorial 148 ênfase na ocupação do conjunto habitacional Novo Crato II em 1983 e das ocupações dos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra Já o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense tem sua emergência em setembro de 1993 como uma entidade representativa de mulheres com o objetivo de elaborar e monitorar políticas públicas para elas Entretanto extrapola suas funções e limites territoriais consolidandose como uma entidade de extrema importância no enfrentamento à violência contra a mulher no Cariri articulando as lutas da região pressionando por políticas públicas para as mulheres e por punição dos acusados de feminicídio realizando inclusive o acompanhamento dos juris A atuação do Conselho entre os anos de 2001 e 2003 foi intensa em virtude do assassinato violento de 13 mulheres na região que ficou conhecido como escritório do crime e provocou movimentações em torno do enfrentamento à violência contra as mulheres e a necessidade de delegacias especializadas Para Marques 2019 p 6 as movimentações desse período possibilitaram a implementação de políticas públicas de proteção às mulheres com a chegada das Delegacias da Mulher em Crato e Juazeiro Posteriormente foram implantados o Centro de Referência Regional da Mulher CRRM em 2015 na cidade de Crato e em 2013 em Juazeiro do Norte Por fim o Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher NUDEM foi implantado em 2017 A visibilidade da violência letal ou não contra a mulher tornou mais visível uma rede de mulheres antenada a questões de Direitos Humanos e equidade de gênero ao mesmo tempo que concentrou grande parte das lutas sociais à questão da violência contra a mulher e à institucionalização dessas questões a partir de reivindicações em torno de equipamentos públicos para seu combate MARQUES 2019 p 6 Das mulheres entrevistadas 5 participaram das ações promovidas pelo Conselho da Mulher do Crato para pressionar o poder público a investigar o escritório do crime e punir os assassinos bem como pela implantação das delegacias especializadas e equipamentos sociais de proteção às mulheres da região embora reconheçam que tais ações ainda eram muito embrionárias e sem uma identificação com os movimentos feministas O escritório acabou fugindo daquilo que a gente vinha fazendo porque vai ter uma série de assassinatos o que era algo muito estranho para uma região do interior do Ceará num primeiro momento se dizia são essas meninas que namoram qualquer um mas aí as mortes passam a acontecer de maneira muito parecida e deixa de ser apenas moças solteiras com a morte da Edilene nós vamos ter uma mulher casada com filhos adolescentes e que morre como 149 as outras Até a gente compreender isso saber o que era isso e ter que estudar o que era isso foi muito importante a gente teve que se juntar porque a gente sofreu ameaças também Eu lembro que quando a gente começou a fazer o movimento na Praça da Sé todas as noites a gente ia para a Praça da Sé acendia velas as mulheres faziam orações a gente tinha faixas a gente gritava palavras de ordem a gente recebia recados do tipo vamos acabar com essas mulheres com esse movimento matando a cabeça a gente mata o resto então nós já sofremos ameaça a gente teve que pedir proteção da polícia mas a gente sabia também que se a gente tinha começado esse movimento não podia mais parar a gente sabia que não podia recuar mas nós ficamos muitas vezes só a diretoria do Conselho da Mulher porque as mulheres tinham medo as mães tinham medo as estudantes ainda não participavam ENTREVISTADA III Nós vamos ter o apoio muito grande do movimento feminista de Fortaleza elas vão vir para o Cariri nos momentos mais difícil das manifestações no momento dos julgamentos elas vão vir com um ônibus de Fortaleza elas vão se instalar aqui e vão estar conosco vão trazer faixas vão nos ensinar a fazer movimento mesmo a assistir julgamentos a participar Foi essa construção que as mulheres do Cariri começaram compreender que havia outras mulheres que havia um movimento estadual e que poderíamos ter um movimento nacional e gente foi abrindo horizontes de possibilidade de crescer e as menina sic lá vendo as jovens tiveram que aprender na pancada assistindo julgamento indo para as ruas então o feminismo aqui foi na porrada mesmo ou elas iam com a gente para o movimento ou elas iam ser as próximas a morrer Então foi um período que a gente conseguiu firmar que a gente precisava ter um movimento de mulheres não sei se a gente era feminista dentro do conceito de feminismo que a gente compreende hoje mas a gente constituiu um grupo e foi esse grupo que se consolidou e está na luta até hoje ENTREVISTADA II Contudo essa resistência feminina vai ganhar contornos diferenciados a partir de 2012 com a constituição da Marcha das Vadias no Cariri e posteriormente com sua dissolução e formação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Com isso teremos o movimento feminista de forma orgânica e multifacetada com a proliferação de grupos de mulheres debates feministas atos públicos contramarchas e emergência de grupos de estudo nas universidades em outras palavras a construção do sujeito feminista como um coletivo total que se constitui mediante um duplo processo o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade programática que reflita a aceitação das experiências particulares dentro da identidade coletiva GURGEL 2014 p 1 150 4333A FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI ENQUANTO SUJEITO COLETIVO FEMINISTA A experiência das mulheres no Cariri Cearense e sua constituição enquanto sujeito coletivo feminista perpassa fundamentalmente pelo reconhecimento dessas mulheres enquanto sujeitas apropriadasexploradasdominadas pelo patriarcado a partir de relações sociais racializadas de sexo assimétricas e profundamente violentas Tal reconhecimento se processa em um movimento dialético de constantes aproximações e distanciamentos das mulheres e de uma conjunção de grupos sociais e trajetórias individuais heterogêneas com preponderância das mulheres universitárias e trabalhadoras rurais que paulatinamente reivindicavam a reinvenção do espaço públicopolítico caririense existia manifestação de mulheres no Cariri mas hoje compreendendo o feminismo como eu o compreendo nós não éramos feministas nós éramos um movimento de mulheres que começava a lutar por uma pauta violência contra a mulher que até hoje é a pauta mais forte aqui A gente vai demarcar o feminismo depois eu acho que o feminismo vai se definir bem quando a gente forma a Frente ENTREVISTADA III Essas mulheres se agrupavam para a resolução de demandas urgentes em geral articuladas a reivindicações por melhores condições de vida e trabalho além de principalmente enfrentar a violência contra as mulheres na região inclusive no interior dos movimentos sociais mistos partidos e sindicatos Posteriormente o combate à violência se transformaria na pauta central da plataforma reivindicatória feminista local A pauta principal das mulheres do Cariri ainda é pelo direito da vida tem a ver com a defesa da vida das mulheres é como diz a palavra de ordem é pela vida das mulheres A questão do direito de existir depois de terminar um relacionamento é uma pauta central das feministas do Cariri ainda hoje ENTREVISTADA IV A violência contra a mulher é o que colocou as mulheres do Cariri em movimento a violência em si porque na verdade a gente tem medo passa o dia todinho com medo medo de andar na rua até mesmo medo de estar dentro de casa sozinha e entrar alguém ENTREVISTADA V Enfatizo que as mulheres organizadas no interior das lutas sociais começam a incorporar a percepção de que são sujeitos sexuados e que há necessidade de coletivos sexuados mas ainda sem o reconhecimento integral de sua condição de opressãoexploraçãoapropriação assim 151 como sem se autodesignarem feministas A centralidade estava em defender a vida das mulheres combater a violência e reivindicar justiça para as mulheres assassinadas com a instituição de inúmeras experiências de proteção autocuidado e acompanhamento das mulheres em situação de violência Durante a década de 1990 as mulheres em movimento acompanhavam os juris dos acusados de assassinato a fim de realizar pressão e reivindicar a sua punição faziam vigílias pelas mulheres assassinadas e grupos de autoconsciência Todas as mulheres entrevistadas identificaram nas ações contra o feminicídio e a violência das décadas de 1980 e 1990 uma espécie de vocação das caririenses para a constituição de ações diretas e de rua que entendem como sendo a principal estratégia de luta do movimento local até hoje Para a entrevistada IV Ação direta na rua no movimento contra o feminicídio a estratégia de estar no meio da rua tem nos fortalecido Esse movimento de luta por políticas públicas especialmente de enfrentamento à violência que as mulheres caririenses engendram nos anos 1980 e 1990 acompanhou as tendências dos movimentos de mulheres e de feministas em nível nacional e internacional adotando diversas estratégias de atuação na luta pela melhoria das condições de vida enfocando questões relativas ao corpo saúde sexualidade e violência Pinto 2001 sintetiza a atuação dos movimentos feministas e de mulheres na década de 1980 a partir de três temas i A questão da violência contra a mulher com o surgimento das organizações de apoio às mulheres em situação de violência como o SOS Mulher bem como a criação das primeiras delegacias especializadas ii A questão da saúde da mulher elencando os temas relacionados à maternidade aborto prevenção do câncer planejamento familiar e sexualidade tais temáticas possibilitaram o surgimento de grupos que buscavam formas alternativas de atenção à saúde da mulher e à pressão pela implementação do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher PAISM e iii A questão da sexualidade que ganhou centralidade a partir da constituição dos grupos de autorreflexão e autoconsciência Para Silva 2018 nesse momento os movimentos feministas romperam com a noção restrita de política e instituíram as mulheres enquanto sujeitos políticos A autora ainda destaca a importância das lutas pela redemocratização do país e por direitos sociais as articulações internacionais e o fortalecimento institucional das entidades e ONGs a partir de projetos apoiados por agências de cooperação multilaterais Na compreensão de Gurgel 2010 os anos 1980 apresentam grandes contradições já que os processos de redemocratização dos países latinoamericanos alargam os espaços de participação política e promovem uma 152 ressignificação do conceito de sociedade civil que lhe abstrai o caráter de arena de luta e interesses antagônicos entre as classes sociais GURGEL 2010 p 7 Para ela a década de 1980 é atravessada por tensionamentos no interior dos movimentos feministas que reivindicam a reatualização da crítica frente ao Estado partidos e ONGs bem como o debate sobre a autonomia que em seu entendimento considera 1 o reconhecimento do sistema patriarcal como estruturante da opressão e dominação da mulher 2 a autodeterminação das mulheres como condição ontológica do feminismo como sujeito coletivo3 a emancipação humana como princípio constitutivo do ser político feminista O questionamento em torno da autonomia também se desenvolveu em torno do reconhecimento das diferentes opressões vivenciadas pelas mulheres e do seu núcleo comum que possibilita a construção de uma identidade coletiva GURGEL 2010 p 7 Na particularidade caririense as lutas por melhores condições de vida e o enfrentamento à violência protagonizados pelas mulheres nas associações de bairro e nos sindicatos de trabalhadores rurais potenciadas pelas Comunidades Eclesiais de base e as professoras universitárias da região tinham as ações diretas e assistemáticas de rua como principal forma de atuação fato que só vai ser modificado com a emergência do Conselho Municipal da Mulher Cratense em 1993 Ao meu ver a participação em ações diretas é fundante na constituição de uma consciência militante que se processa no movimento duplo de reconhecimento das exploraçõesdominaçõesexpropriações e organização da luta Segundo Cisne 2014 p 192 a consciência militante feminista não resulta de uma simples reação às opressões ainda que essa reação seja fundamental para a formação da consciência Ela é um continuum que envolve um movimento dialético entre formação política organização e lutas que vai da dimensão individual da ruptura com o privado à dimensão coletiva de organização de um movimento social partido político ou outro tipo de sujeito coletivo CISNE 2014 p 192 A partir da análise das entrevistas das mulheres da observação participante da minha inserção como militante e dos documentos da Frente pude observar que o movimento de reconhecimento do nós comum e a passagem do indivíduo ao grupo e do grupo ao coletivo foi potencializada pelas ações de enfrentamento à violência e tiveram seu ápice na experiência da Marcha das Vadias como já mencionei no subitem anterior Nessa égide as mulheres 153 caririenses potencializaram a formação de sua consciência militante feminista articulando dialeticamente o tripé formaçãoorganizaçãoluta Eu acho que a Marcha das vadias foi um divisor de águas para a gente por que a gente até ficou questionando como vamos tratar as jovens vão tirar a roupa vão fazer como as mulheres fizeram no Canadá e a gente vinha de um movimento mais tradicional mas hoje eu compreendo bem porque a gente nasce dessa forma porque aqui você vai ter fortemente esse movimento liderado por mulheres da Universidade e por mulheres rurais dos sindicatos rurais temos sindicatos fortes no interior e aqui em especial ENTREVISTADA III Então para mim a questão da Marcha das Vadias teve um papel muito importante no sentido de construir o feminismo aqui eu até hoje sou apegada pra mim foi o pontapé inicial pro movimento de mulheres se reconhecer feminista Por mim não teria mudado eu continuaria sendo vadia e estava bem ótimo embora entenda que a Marcha não agregava as mulheres ENTREVISTADA VI Esse reconhecimento é constituído a partir do momento em que as mulheres apreendem as determinações de sua exploraçãoopressãoapropriação identificam umas nas outras um grupo social capaz de se contrapor a tais determinações nomeiam o adversário e através da ação coletiva irrompem no espaço público indicando uma consciência coletiva que se vê como sujeito coletivo de uma transformação necessária IASI 2006 p 39 e que está articulada à ação de classe Uma ação que não se restringe a reivindicações por direitos expansão de serviços públicos ou respostas às necessidades coletivas mas empreende fissuras nas esferas públicas e privadas da vida das mulheres constituindo novas formas de reivindicação participação e fazer político ao passo que estabelece novas formas organizativas nos grupos e coletivos SOUZALOBO 2011 Ainda na percepção de SouzaLobo 2011 a organização das mulheres em movimento está articulada ao reconhecimento enquanto coletividade e reivindicação por igualdade de direitos mas também é capaz de produzir tensões nas relações sociais de gênero na política e na vida cotidiana Por suas conquistas às vezes por sua simples presença as mulheres nos movimentos subvertem a ordem dos gêneros vigente nos espaços da sociedade SOUZALOBO 2011 p 183 Nesse sentido a formação do sujeito político feminista se estabelece na passagem das reivindicações imediatas e individuais a uma plataforma coletiva de ação que fundase a partir de uma noção de direito igualdade e liberdade assim como da identificação de uma experiência comum das mulheres em suas particularidades e ganha concretude no estabelecimento de um 154 coletivo um sujeito político que constrói experiências de luta comuns Como apregoa Camurça 2008 p 78 o movimento é a força política coletiva das mulheres para transformar as mulheres e o contexto do seu viver Assevero que as mulheres no Cariri a partir de suas experiências e agência superam as ações diretas imediatas e assistemáticas de enfrentamento à violência contra a mulher e produzem uma plataforma coletiva de ação a partir do esgotamento da experiência da Marcha das Vadias em 2014 e da elaboração da Frente de Mulheres enquanto sujeito político uno e plural Uma força política dinâmica e em constante movimento dialético Segundo Cisne 2014 a formação de um sujeito coletivo feminista pressupõe um processo de reconhecimento da condição de exploraçãodominaçãoapropriação e o rompimento das naturalizações as quais as mulheres são submergidas Desta forma é necessário um movimento dialético e dinâmico de apropriação de si que antes de tudo é uma reivindicação de cunho individual que aponta a necessidade de transgressão da mulher de seu destino biológico de seu cotidiano e do seu próprio corpo Apropriarse de si está radicalmente articulado a descobrirse feminista CISNE 2014 p 177 de forma que o entendimento das mulheres como categoria social grupo e coletivo ajunta projetos pessoais e pertencimento a projetos macrossocietários elaborando uma identidade social Para Camurça 2008 p 15 o processo de construção dos sujeitos políticos deve ser a afirmação e ao mesmo tempo a desconstrução de identidades é preciso afirmar as mulheres como identidade política O feminismo como sujeito político se faz somente através das mulheres e de sua movimentação É imprescindível termos um nós mulheres a partir do qual é possível analisar o contexto identificar as contradições fixar objetivos para esta movimentação CAMURÇA 2008 p 16 Posto isto cabe dizer que as mulheres feministas do Cariri operacionalizaram seu processo de reconhecimento enquanto feministas nas ações de enfrentamento à violência na região de forma que o sujeito coletivo feminista insurgiu no processo de identidade coletiva construída pela ação coletiva nas lutas sociais e ações de solidariedade entre indivíduos CAMURÇA 2008 p 135 Não sei se eu conseguiria definir um período histórico bem preciso em que eu me defini como feminista mas foi de 2015 para cá porque é quando o entendimento sobre sermos mulheres de várias formas ele vem se organizando mais e o entendimento de que sem o feminismo a gente não consegue desconstruir várias barreiras que impedem que a gente seguir na paz 155 Uma vez eu estava lendo e me deparei com aquela frase de Ângela Davis de que feminismo de não é nada mais do que a ideia de que mulher é gente eu gosto muito dessa frase porque o feminismo faz a gente refletir individualmente sobre nossa postura de ser mulher e agir coletivamente nessa perspectiva de se compreender como gente e de que as outras mulheres também são gente ENTREVISTADA II Eu me entendi enquanto feminista em 2014 inclusive com a Frente de Mulheres foi aí que eu consegui me enxergar como feminista Eu já lutava pelos direitos das mulheres mas ainda não tinha essa identidade foi dentro da Frente de mulheres que eu consegui perceber isso Perceber que meus problemas individuais tão ligados aos problemas de outras mulheres e que por isso precisamos da luta Por isso o feminismo pra mim é uma organização política e um projeto pessoal é um movimento de mulheres que lutam para acabar com a desigualdade que sofremos É um projeto de classe ENTREVISTADA VI Quando a entrevistada VI aponta a ideia de feminismo como uma organização política e um projeto pessoal está ai colocada a dimensão da formação da consciência militante da construção do sujeito individual e a sua passagem à condição de sujeito coletivo que redimensiona as suas relações na vida privada e passa a se colocar no espaço público enquanto sujeito em si e para si dentro de um contexto de classe raça e sexo particular a uma região tão violenta Um sujeito que funda um processo dialético de superação ou ruptura da imanência que se baseia na sua identificação como Outro e vindicação como Um inicialmente de forma individual e paulatinamente como sujeito coletivo situado e consciente de sua existência e da possibilidade de fincar um projeto de vir a ser mulher que nega o eterno feminino e desnaturaliza o ser mulher no espaço público e privado Um tornarse mulher em coletivo e no plural que é entendido pelas militantes da Frente como um fardo e um projeto de liberdade de transcendência Sublinho a impossibilidade de constituição do sujeito coletivo apartado de uma ação política coletiva capaz de contestar a configuração hegemônica da esfera pública e redesenhar as relações no âmbito privado Nesse sentido o sujeito coletivo feminista transforma as reivindicações das mulheres em lutas feministas baseadas nas contradições fundamentais de classesexoraçaetnia que são estruturantes da vida social e da condição das mulheres Feminismo entendido aqui enquanto um pensamento crítico que além de uma utopia demarca uma concepção de luta política e de projeto de vida SILVA 2018 p 20 capaz de reinterpretar o mundo e as relações sociais estruturais de exploraçãoopressãoapropriação Na particularidade do Cariri cearense convém dimensionar a importância da Marcha das Vadias para a constituição de um sujeito feminista coletivo no Cariri De um lado 156 contribuiu para o encontro de diversas mulheres que militavam na região posteriormente estabelecendo uma pluralidade de movimentos feministas e desse modo provocou inúmeros debates sobre as pautas reivindicatórias das mulheres na região De outro lado aglutinou ações de mulheres contra as opressões que as conectou à necessidade de pensar para além do movimento estabelecendo uma identidade feminista entre elas A Marcha das Vadias20 desde sua primeira expressão no ano de 2011 tem se consolidado enquanto uma movimentação massiva uma ofensiva contracultural às organizações políticas sexistas e na defesa da autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade Tais protestos chegam ao Brasil seguindo as tendências internacionais e concomitantemente incorporando pautas locais Aparecem como uma nova forma de intervenção política em que o corpo passa a ser elemento central e instrumento político de protesto é exposto nu e pintado com frases emblemáticas tais como Meu corpo minhas regras tirem seus rosários de nossos ovários nosso corpo nos pertence entre outras em que o corpo aparece se materializando em texto e território rebeldia e irreverência já que é nele que se escrevem as reivindicações e palavras de ordem contra o patriarcado A Marcha das vadias traz algumas novidades no modo de expressão da rebeldia e da contestação caracterizandose pela irreverência pelo deboche e pela ironia Se a caricatura da antiga feminista construía uma figura séria sisuda e nada erotizada essas jovens entram com outras cores outros sons e outros artefatos teatralizando e carnavalizando o mundo público Autodenominandose vadias ironizam a cultura dominante conservadora e asséptica e nesse sentido arejam os feminismos trazendo leveza na maneira de lidar com certos problemas mas estabelecendo continuidades com as experiências passadas mesmo que não explicitem esses vínculos nem reflitam sobre eles RAGO 2013 p 314 As Marchas das Vadias particularizamse em ações de rua estruturadas pelo uso de novas tecnologias de informação e comunicação com ênfase na insurgência das redes sociais como campo de militância para as mulheres no sentido de popularizar o debate acerca dos 20 As mulheres deviam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas A afirmação de um policial acerca dos inúmeros estupros que estavam acontecendo com estudantes universitárias no Canadá foi o estopim para movimentações massivas de mulheres na luta contra as inúmeras violências a que são submetidas enfocando principalmente a sexual Os protestos no Canadá iniciaramse em abril de 2011 e se estenderam por 10 países sendo articulados fundamentalmente nas redes sociais por universitários com o objetivo de apropriarse do conceito de vadia para se opor à culpabilização das mulheres pela violência contra elas e questionar as relações patriarcais que dispõem dos seus corpos como forma de dominação e poder ISIDORIO LIMA GRANGEIRO SOARES 2015 p 263 157 feminismos e mobilizar distintos sujeitos inclusive um grande contingente de jovens Ademais as Marchas são demarcadas pela ausência de hierarquizações partidos políticos e centros organizacionais de forma que não se constituem inicialmente como ações coletivas de fluxo contínuo e de longa duração questionando as formas de organização sindical político e partidária sendo inconteste que nos últimos anos as Marchas das Vadias constituíram inúmeros coletivos autônomos e sistemáticos de atuação É relevante analisar que as Marchas das Vadias foram mais visíveis e massificadas em capitais e cidades de médio porte com forte publicização nos meios de comunicação de massa e em geral importando o conteúdo performático e as pautas das Marchas dos países centrais especialmente do Canadá No caso do Cariri a Marcha mesmo incorporando pautas locais e promovendo canais de diálogo com a população não conseguiu ganhar uma força política que agregasse as mulheres em torno dela Pelo contrário potencializou muito mais divergências tensionamentos e rupturas sobretudo com as mulheres negras e trabalhadoras rurais que apesar de se identificarem com algumas de suas pautas não desejavam se autodesignar ou serem designadas como vadias Na minha concepção as Marchas das Vadias foram e continuam sendo muito importantes no sentido de problematizar a questão dos direitos sexuais e reprodutivos e os padrões sexuais impostos às mulheres brasileiras mas as suas formas organizacionais têm limites claros ao não constituir ações sistematizadas de enfrentamento às questões que expõem mesmo quando têm adaptações às realidades regionais Está posto ao meu ver uma questão de fundo ressignificar a palavra vadia e questionar os padrões impostos ao corpo e à sexualidade é extremamente importante mas em um espaço em que as mulheres têm interdições à vida pública e privada tão contundentes essa ação assistemática e pontual apesar de mobilizar o imaginário das pessoas e produzir variados discursos artefatos e representações em torno do corpo do sexo e da sexualidade é uma ação limitada Por isso afirmo que para a particularidade sertaneja a Marcha das Vadias demonstrou ter grandes limites em virtude de os movimentos de mulheres terem se constituído fundamentalmente de trabalhadoras rurais e estarem ligados aos movimentos de Comunidades Eclesiais de Base bem como das mulheres não conseguirem se autodesignarem vadias Isso tem relação com a formação judaicocristã e dos valores tradicionais do patriarcado rural que impõe a tutela dos corpos e da sexualidade das mulheres do Cariri De outra parte as mulheres da universidade tiveram bem mais proximidade com os espaços políticos da Marcha das Vadias 158 que também pode ser caracterizado como uma expressão dos intensos fluxos migratórios na região bem como da ampliação do contingente de estudantes universitárias como produto da interiorização das universidades Para as militantes da Marcha das Vadias ressignificar o termo vadia tornouse um ato político um ato de ocupação do espaço público que historicamente foi interditado às mulheres Assim autodesignarse vadia significava irromper em uma cidade em que a mobilidade das mulheres era entendida como um pecado Também expressava a reivindicação de exercício livre da sexualidade identidades de gênero e orientação sexual a partir do uso do corpo como lugar político instrumento de contestação às regras sociais e religiosas do Cariri Entretanto embora o questionamento sobre o corpo a sexualidade e o exercício da cidade unificasse as mulheres da Marcha o termo vadia as separava e causava constrangimentos às militantes mais históricas Se o reconhecimento enquanto coletividade de iguais é imprescindível para a formação do sujeito político então não se reconhecer enquanto vadia estabeleceu entraves nesse momento que posteriormente foram superados com o esgotamento da experiência das Vadias A primeira Marcha das Vadias intitulada de Falta teus passos na Marcha foi realizada em 2012 com foco no enfrentamento à violência contra a mulher e na autonomia e controle sobre o corpo e a sexualidade De acordo com o Manifesto da Marcha as principais pautas eram Por que as mulheres do Cariri saem às ruas em um evento chamado Marcha das Vadias Igualdade salarial Fim das exigências de laqueadura de trompas Punição às empresas por tais práticas Creches nos locais de trabalho e estudo Delegacias especializadas casas abrigo centros de referência de prevenção e proteção às mulheres em situação de violência Garantia dos direitos reprodutivos Políticas públicas de prevenção à gravidez na adolescência Descriminalização do aborto Políticas de prevenção e combate à homofobia lesbofobia transfobia e racismo A politização do corpo se constituía como pauta central das mulheres na Marcha das Vadias principalmente no que diz respeito ao exercício livre da sexualidade e autonomia do próprio corpo embora a questão da legalização e descriminalização do aborto tivessem sido pouco exploradas É preciso dizer que o corpo pode e deve ser instrumento político em que se inscrevem desigualdades de sexo raçaetnia e classe Para a Entrevistada IV 159 a marcha traz a política para o corpo o corpo é o foco o corpo é político Então quando o movimento traz essa coisa para o corpo denunciando essa coisa da vadia de que as mulheres que não são as mulheres normais aquelas senhoras mães de família aquela mulher tradicional é vadia eu acho uma coisa uma coisa extremamente revolucionária essa coisa das vadias Se somos todas vadias se as mulheres que merecem ser violentadas pelo discurso machista corriqueiro comum e corrente são as que merecem estupradas as que merecem ser violentadas então somos todas vadias Eu acho essa bandeira da Marcha das vadias interessantíssima Houveram os debates internos dentro do movimento em relação a essa questão de vadias principalmente frente às feministas negras que já tinham essa pecha historicamente já havia essa coisa da negra ser a mucama na cama do patrão de ser objeto de cama e mesa de já ter essa coisa de elas serem vadias elas não se identificavam dessa forma O que é interessante é que fizemos um debate no Baixio das palmeiras a gente fez esse debate uma vez com umas senhoras trabalhadoras rurais já de idade donas de casa e elas absorveram bem A gente perguntava o que é ser vadia para a senhora Lembro que uma responder eu acho que ser vadia é ser livre enfim a gente acha que seria um choque mas não era um choque tão grande ENTREVISTADA IV Como recorte destacase a realização de duas Marchas uma na cidade de Barbalha e a outra em Juazeiro do Norte com objetivos estratégias e sujeitos políticos distintos e em certa medida antagônicos É preciso mencionar que ocorreram várias disputas na construção da marcha pois uma parte das mulheres era organizada em movimentos sociais mistos e se contrapunham à lógica das universitárias de ocupar as ruas sem sistematizações e estratégias anteriormente estruturadas Cabe dizer que a primeira ocorreu em Barbalha na Festa de Santo Antônio popularmente conhecida como Festa do Pau que reúne elementos do sagrado e do profano mas que o culto popular tem preponderância sobre o litúrgico oficial Como já mencionei anteriormente tratase de uma festa popular que recebe uma multidão de visitantes em sua maioria jovens que aproveitam a ocasião para pedir um marido ao santo casamenteiro Existe uma crença popular de que as mulheres que pegam no pau sagrado de Santo Antônio conseguem se casar até a festa do ano seguinte Há um cortejo de aproximadamente 8 km que tem como ponto de partida o alto da Chapada do Araripe e que segue até o fincamento do pau em espaço localizado em frente à Igreja Matriz durando o dia inteiro O tempo de carregamento do pau depende do peso do mastro da quantidade de bebida do cansaço dos carregadores e de quantas vezes eles têm que parar o trajeto para moças e rapazes sentarem ou tirar cascas para fazer chás e beberagens casamenteiras Nesse contexto a Marcha das Vadias de 2012 entra no cortejo popular da Festa do Pau entoando a palavra de ordem Santo Antônio livrai as mulheres da violência com o objetivo de denunciar o caráter falocêntrico de tal espaço e as repercussões da cultura patriarcal para a 160 vida das mulheres Fundamentalmente reivindicava a possibilidade de recusa aos modelos patriarcais de matrimônio e maternidade reafirmados pelos festejos populares de Santo Antônio bem como inscrevia nos corpos a possibilidade de controle e autonomia sobre o corpo e conclamava as mulheres a construir o feminismo na região Seguem as características internacionais de estruturação das marchas criação de um evento em uma rede social para a mobilização das participantes espontaneísmo nas ações presença majoritária de mulheres jovens e ausência de articulação com movimentos sociais e partidos políticos da região Situada num horizonte diverso a Marcha das Vadias de Juazeiro do Norte teve outro processo de organização sendo constituída a partir de reuniões e plenárias com representações dos movimentos sociais partidos políticos coletivos de mulheres sindicatos e grupos de estudos das universidades Estruturouse a partir de ciclos de debates anteriores à Marcha nas universidades sensibilização da população via meios de comunicação e redes sociais bem como do atrelamento à perspectiva de classe raçaetnia e orientação sexual Contou com a presença dos militantes da região e das mulheres que historicamente compunham os movimentos de mulheres enfatizando a questão da violência contra as mulheres especialmente a sexual As Marchas realizadas no Cariri produziram grandes impactos ao problematizar o patriarcado a centralidade da família o conservadorismo a interdição ao espaço urbano e a religiosidade como traços estruturadores da região Tais impactos foram medidos pela repercussão que as ações tiveram nos meios de comunicação locais na proliferação de discursos de ódio nas redes sociais e na contramarcha realizada por grupos religiosos especialmente os católicos Grupos católicos organizaram várias intervenções na Marcha das Vadias de Barbalha em 2012 realizaram uma marcha pela vida e contra o aborto no mesmo dia e horário das Vadias com camisas que estampavam os seguintes dizeres Santo Antônio aborto não panfletaram contra as abortistas e rasgaram os lambes e panfletos feministas espalhados na cidade O curioso é que nenhuma das Marchas das Vadias realizadas no Cariri cearense pautou diretamente a questão do aborto ou entoou palavras de ordem acerca da questão mesmo que em seu manifesto estivesse presente a pauta da descriminalização do aborto No ano de 2013 as Marchas do Cariri aprofundaram seus processos de organização e mobilização com a expansão de ações preparatórias na tentativa de ampliar o debate para outros segmentos além dos universitários Para isso realizaram oficinas e palestras sobre violência contra a mulher e sobre direitos sexuais e reprodutivos nos Centros de Referência da Assistência 161 Social CRAS escolas de ensino médio e comunidades rurais do Juazeiro do Norte Crato e Barbalha Na ocasião agregaramse à luta contra a desapropriação dos moradores da comunidade Baixio das Palmeiras em virtude das obras do Cinturão das Águas21 o que possibilitou a participação das mulheres trabalhadoras rurais da região em uma das Marchas Durante a organização das Marchas de 2013 e nas suas avaliações as mulheres que estavam nesse processo começaram a questionar o formato das marchas em nível nacional e local bem como fomentaram o debate de superação dessa estratégia de luta a partir da constituição dos feminismos na região com ações organizadas e sistemáticas Esse processo de reconhecimento da necessidade de composição de ações políticas articuladas a um corpo teórico mais consistente e sistemático que a Marcha das Vadias foi potencializado pela intervenção dos coletivos de mulheres negras em especial o Pretas Simoa22 e da leitura do Manifesto uma carta aberta de mulheres Negras para a Marcha das Vadias que tensionavam o não reconhecimento das experiências vivenciadas pelas mulheres negras na autodeterminação enquanto vadias já que em seu entendimento a negritude não tinha o privilégio social de desmistificar o conceito de vadia ou ridicularizar as representações destrutivas que marcaram o imaginário social a corporalidade e a subjetividade das mulheres negras embora reconhecessem a importância de dimensionar o corpo enquanto instrumento político e a luta antiestupro como uma questão central ao movimento De forma que a Marcha das Vadias foi compreendida como um chamamento para a ação direta em torno dos direitos sexuais e reprodutivos mas como uma tática de luta limitada e que poderia ser superada para melhor incorporar as diversidades de mulheres 21Obra do Governo do Ceará que visa garantir a segurança hídrica do estado Para isso a estrutura permitirá que as águas do Rio São Francisco entrem no Ceará por meio do Riacho Seco sendo direcionadas ao Açude Castanhão Essa construção tem desapropriado muitas comunidades rurais inclusive de remanescentes de quilombolas e povos da floresta e suscitado muito debate em torno de formas menos agressivas de armazenamento de água e consolidação de uma política de segurança hídrica 22 A Preta Tia Simoa foi uma negra liberta que ao lado de seu marido José Luís Napoleão liderou os acontecimentos de 27 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza CE Episódio que ficou conhecido como a Greve dos Jangadeiros na qual decretouse o fim do embarque de escravizados naquele porto definindo os rumos para a abolição da escravidão na então Província do Ceará que se efetivaria três anos mais tarde No entanto apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos esta mulher negra teve sua participação invisibilizada na história deste Estado onde ainda hoje persiste a falsa premissa da ausência de negrs ALVES 2016 162 O Grupo de Mulheres Negras do Cariri Pretas Simoa nasce no interior do GRUNEC23 como uma ação estratégica de formação das mulheres negras Todavia após divergências internas entre as militantes houve uma cisão em dois grupos A partir daí o Pretas Simoa começa a se intitular enquanto um grupo de mulheres negras empoderadas atuantes e ativistas na região do Cariri interior do estado Ceará PRETAS SIMOA 2014 e a questionar as pautas feministas hegemônicas no sentido de enegrecer os movimentos feministas ao mesmo tempo em que não se reconhecem como feministas e problematizam a experiência das Marchas das Vadias Mesmo considerando que a Marcha das Vadias operacionalizou contundentes debates entre as lideranças femininas locais e se firmou como espaço de denúncia das violências sexuais e feminicídios na região as feministas do Cariri se colocam na condição de repensar a experiência e produzir uma nova forma de organização coletiva para as mulheres Nesse sentido formularam questões em torno da palavra de ordem central da Marcha Se ser livre é ser vadia então somos todas vadias Afinal todas as mulheres podem ou querem ser vadias Estas Marchas agregam as mulheres negras idosas transexuais e camponesas na particularidade caririense O espontaneísmo de tais manifestações traz ganhos concretos para as mulheres Seria a Marcha uma nova forma de organização feminista ou uma reedição do feminismo branco universitário e liberal que não dialoga com as reais necessidades das mulheres A marcha das vadias responde às necessidades das mulheres do Cariri Em resposta a tais problematizações as feministas caririenses decidiram exaurir a experiência da Marcha das Vadias em sua forma e conteúdo a partir do entendimento coletivo de que tal intervenção política não dialogava com as heterogeneidades e especificidades das mulheres bem como não avançava na construção de um feminismo anticapitalista antipatriarcal anti lesbohomobitransfóbico antirracista e sertanejo Foi em 2014 no começo do ano eu acho que era março gente já tirou que queria repensar aquela atividade de Barbalha e a gente queria romper com aquele movimento vadias que as mulheres negras do Cariri elas pediam 23 O Grupo de Valorização Negra do Cariri GRUNEC é uma entidade sem fins lucrativos formada na cidade do CratoCE no ano de 2001 com o objetivo principal de promover a igualdade étnicoracial e propagar a consciência sobre a afrodescendência valorizando a história e a cultura do povo negro no Cariri A partir de 2011 a entidade vem realizando o Congresso Artefatos da Cultura Negra um evento de abrangência nacional sobre negritude que tem se organizado enquanto espaço de formação política pedagógica e cultural antirracista bem como de proposição de políticas públicas para a superação das desigualdades étnicoraciais 163 que a gente acabasse com isso porque já era algo marcante para elas é uma marca para elas na verdade Então a gente correspondeu a essa exigência porque é isso que a gente deve fazer escutar nossas irmãs e nossas companheiras e aí a Frente de Mulheres surge nessa conjuntura ENTREVISTADA V O ponto de vista que assumo é o de que a Marcha das Vadias no Cariri cumpriu um papel político fundamental no sentido de mobilizar importantes setores e sujeitos políticos para a construção dos feminismos em uma região demarcadamente violenta para com as mulheres Todavia suas limitações políticoorganizativas e sua pouca eficácia no plano da pressão por efetivação de políticas públicas para as mulheres não podiam ser superadas na forma como ocorriam Aqui considero que a pressão por políticas públicas e a materialização dos direitos sociais é um elemento de fundamental importância quando se trata de Cariri tendo em vista a precariedade de tais políticas na região Portanto era urgente constituir outra forma de organização feminista e sob esta égide emerge a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri com o objetivo de materializar o que para elas é a tarefa estratégica do feminismo produzir fissuras no patriarcado a partir da compreensão das particularidades das mulheres do sertão É nesse momento que as entrevistadas reconhecem a emergência de um novo sujeito coletivo na região a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Eu acho que isso é muito agregador do ponto de vista de quando a gente se reconhece como ser coletivo é muito agregador porque a gente tem uma base de uma coisa que já vinha anterior à gente que é essa força da organização Quando a frente aparece quando a gente conversava Cláudia Rejane você eu e as outras pessoas sobre um movimento que conseguisse ampliar a participação das mulheres para rediscutir um projeto político que já estava organizado em contraponto aos megaprojetos já organizados pelo capital e a gente nessa perspectiva de que a mulher seria que nós mulheres seríamos as pessoas que deveriam estar dentro desse projeto rediscutindo reconstruindo e possibilitando que as outras chegassem Então nós já tínhamos esse território fértil pelas organizações sociais aqui da região mas precisava dar esse tom mais de mulher tínhamos apenas o Conselho da Mulher que fazia esse trabalho todo do enfrentamento à violência de denunciar de fazer essa luta mesmo sobre as questões das mulheres mas era como se faltasse um liga por exemplo que nos sindicatos nós tivéssemos mulheres que representassem mulheres que elas viessem para a frente discutir então a gente teve muito isso para se constituir como Frente de Mulheres A ideia central era feminizar e enegrecer os movimentos sociais do Cariri ENTREVISTADA II Eu considero que a criação da Frente de Mulheres vai ser o divisor de águas para a gente repensar o movimento de mulheres no Cariri e pensar um movimento de mulheres feministas Nesse momento a gente se reconhece 164 como um coletivo Um coletivo não apenas de mulheres Mas de mulheres feministas ENTREVISTADA III Quando acaba a Marcha das Vadias ai aparece a Frente A Frente é um levante de mulheres no Cariri Um levante de mulheres organizadas Agora a gente tem uma missão e se nutre no coletivo É um coletivo de mulheres Mulheres em movimento Uma sobe e puxa a outra É isso ENTREVISTADA I Esse sujeito coletivo feminista que reconhece as particularidades de sua exploração opressãoapropriação a partir de um desestranhamento como mulher começa a estabelecer conexões vínculos e elos com outras mulheres identificando suas heterogeneidades e reconhecendose enquanto grupo social sexuado que tem na emancipação das mulheres um projeto de sociedade viável Segundo Cisne 2014 p 186 há um processo de fortalecimento coletivo na medida em que as mulheres se percebem como tais desnaturalizando as opressões e subordinações vividas Com isso deslocase a acomodação para a ação coletiva e a descrença que é impossível mudar para força de luta pela transformação do que incomoda É por meio do conhecimento socialização e politização dessas experiências individuais e coletivas que o movimento vai ganhando forma e as mulheres se identificando como os seus sujeitos Na medida em que as mulheres socializam suas experiências e as politizam percebem que sua experiência individual é também coletiva CISNE 2014 p 186 Ao dizer nós e estabelecer ações sistemáticas de enfrentamento às assimetrias nas relações sociais de sexoraçaetniaclasse na região as mulheres do Cariri se instituem enquanto coletivo que articula uma práxis que agrega o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade diversa contraditória GURGEL 2014 p 72 Essa unidade diversa contraditória ou nas palavras de Gurgel 2014 esse coletivo total apreende as múltiplas determinações que fazem e refazem as relações sociais de sexoraçaetniaclasse na particularidade do Nordeste do sertão do mundo rural incidindo na elaboração de uma plataforma políticoreivindicatória articulada às necessidades das mulheres plurais locais a partir da apreensão da formação social do território Cariri em suas complexidades ao mesmo tempo em que instituem coalizões feministas de abrangência nacional Ademais organizam um discurso contrahegemônico sobre o território as resistências das mulheres e em torno da noção de feminismos Ao organizaremse como Frente o movimento feminista local parece disposto a manter um fluxo incessante de imagens que jamais encontra repouso ao 165 equacionar Cultura Popular feminismos jovens multicoloridos e de várias gerações e pertenças a Frente parece impulsionar novas formas de apropriação sobre o movimento e sobre o Cariri como espaço MARQUES 2019 p 13 A Frente se organiza segundo seus documentos como espaço feminista de articulação organização e formação FRENTE 2018 tendo como princípios a unidade na diversidade reconhecendo a heterogeneidade dos grupos sociais partidos coletivos associações entidades e sujeitos que a compõem assim como a democratização dos processos decisórios a partir da produção de consensos que em geral acontecem em reuniões ampliadas Assim é demarcada pela ausência de hierarquizações e centros organizacionais embora tenha uma coordenação executiva responsável por mobilizar as militantes Nós estamos com uma experiência não sei se única mas muito profícua muito profunda muito sólida que é a estratégia de ficarmos juntas porque a gente tem milhões de motivos para se separar mulheres de diferentes idades e formações de partidos diversos de orientações políticas das mais múltiplas mas a gente manteve um firme propósito por isso o nome é Frente de nos focar naquilo que nos une porque o que nos separa tem milhões de coisas ENTREVISTADA IV A ideia da Frente é possibilitar a autoorganização das mulheres na região inclusive no interior dos movimentos sociais mistos com o objetivo de lutar pela liberdade substantiva das mulheres enquanto grupo social Cabe dizermos que a Frente de Mulheres intenciona não interferir na organização política e na autonomia dos seus grupos integrantes já que o objetivo principal é contribuir com a construção da unidade nas lutas contra a exploraçãoopressão de classe gênero raça e orientação sexual na região afinal juntas potencializamos as ações que não possuem tanto peso se forem realizadas individualmente ou somente por um grupo ISIDORIO LIMA GRANGEIRO SOARES 2015 p 265 Essa tem sido uma tarefa que demanda bastante energia das militantes já que compõem a Frente vindo de espaços políticos experiências pessoais e perspectivas ideopolíticas muito distintas como por exemplo agregam as mulheres dos setoriais do PSOL PSTU e PT anarquistas sem filiação partidária jovens e idosas lésbicas transexuais de terreiro e da base da Igreja Católica urbanas e rurais da universidade dos sindicatos de trabalhadoras rurais e da educação das periferias negras entre outras diversidades que congregam um mosaico de experiências vividas articuladas em um projeto coletivo de tornase mulher no sertão 166 A frente de Mulheres ela hoje basicamente é constituída de mulheres que vêm de sindicatos com base fortemente dos sindicatos da educação sindicatos rurais estudantes Hoje a gente vê a partir dos coletivos que foram criados muitas estudantes e hoje a gente tem a presença muito marcante de mulheres de outras áreas profissionais liberais ou mulheres que não trabalham que são mães e que começam a se reconhecer por necessidade de formar suas filhas a gente hoje tem essa mistura grande é claro que acaba tendo o comando muito mais nós que militamos sindicatos e os coletivos das meninas mas a gente vê hoje a Frente muito aberta se você me perguntasse hoje quem é a maioria eu poderia dizer que pode até ser ainda as professoras ou as mulheres de sindicato pode até ser porque acaba que a gente está na diretoria a gente tendo mais disponibilidade e compreensão por conta nossas pautas sindicais Mas eu considero que hoje a Frente é um lugar que as mulheres veem é tanto que nessas eleições a Frente vai crescer porque as pessoas estão perguntando quem é a Frente nós vamos ter que fazer eventos sobre a Frente porque as mulheres estão perguntando ENTREVISTADA III Isso traz uma complexidade na organização feminista e provoca fluxos refluxos entradas e rupturas contínuas mesmo que elas apreendam a pluralidade de experiências como uma força impulsionadora da ação feminista capaz de ampliar o acesso a diversos grupos de mulheres e dar respaldo junto a outros movimentos sociais articulações de luta e ao poder público Tal diversidade também é provocadora de um limite prático para o alinhamento de objetivos discursos e aceitação das experiências específicas na materialização de uma unidade programática que nas palavras de Gurgel 2014 p 73 proporciona a inclusão horizontalizada das demandas específicas que compõem o sujeito mulheres ao assumir como princípio fundador as diversidades de mulheres Cabe mencionar que no processo de conformação da Frente houve duas grandes rupturas que repercutiram fortemente na subjetividade das mulheres a cisão com as anarquistas e com o Coletivo Pretas Simoa As primeiras contestavam as formas organizativas do primeiro ato público da Frente em julho de 2014 que denunciava a ocorrência de três feminicídios na mesma semana com uma passeata no centro da cidade do Juazeiro em que as mulheres levavam velas cruzes e se vestiam de preto Para as anarquistas o uso do carro de som microfone e articulação com as instâncias do poder público local descaracterizava completamente uma ação feminista radical Por sua vez as Pretas Simoa que era um coletivo de mulheres negras nascido no interior do GRUNEC romperam por não se reconhecerem na identidade de feministas para elas primeiro vinha o pertencimento enquanto negras e depois como mulheres 167 mas a gente teve muito enfrentamento muito conflito também com outros movimentos foi quando surgia o Preta Simoa que era um grupo de jovens negras e que de repente não dialogavam com toda pauta que a Frente colocava mas que não deveria chegar a ser uma coisa conflituosa porque havia um espaço há um espaço no Cariri para que todas as lutas aconteçam e que a gente consiga por fim convergir numa coisa só que é pela via e pela vida das mulheres em específico ENTREVISTADA II Essa ruptura das mulheres do coletivo Pretas Simoa já se desenhava no interior da organização das Marchas das Vadias quando elas denunciavam a marcação social que possibilitava às lideranças femininas locais a identificação com o termo vadia Para as Preta Simoa em um contexto de erotização do corpo negro a identificação com o termo seria um atraso MARQUES 2019 p 7 Mas se apresentou de forma mais contundente no ato do 8 de março de 2014 quando realizaram uma intervenção artística no interior do próprio ato de mulheres contestando a exclusão das mulheres negras nas pautas feministas hegemônicas A performance artística consistia em amarrar e amordaçar as integrantes do Pretas Simoa em postes monumentos e árvores enquanto o ato passava ao passo que entoavam palavras de ordem reivindicando que o lugar de fala das mulheres negras fosse respeitado empunhando um megafone declarou palavras de ordem e protesto diante do racismo dos movimentos de mulheres do Cariri e do Brasil exigindo que as feministas brancas se deslocassem de seus locais de conforto para ouvir e atender às demandas das mulheres negras A ativista usou termos como sinhá para gerar desconforto e tornar explícito o privilégio da branquitude feminina provocando a necessidade de se enegrecer as lutas de mulheres entre palavras de confronto e de combate ao machismo PRETAS SIMOA 2014 É preciso considerar que as mulheres negras foram historicamente secundarizadas e que há uma invisibilidade da raçaetnia no interior dos feminismos que se querem fazer hegemônicos Esse feminismo hegemônico tem reiterado processos de homogeneização e universalização do sujeito mulher ignorando o racismo como traço estruturante da sociedade brasileira e estruturador de relações assimétricas entre as mulheres Para Silva 2018 p 31 o feminismo brasileiro se coloca como colonizado em relação ao Norte global e colonizador interno em relação às mulheres negras indígenas trabalhadoras etc A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade Ser negro sem ser somente negro ser 168 mulher sem ser somente mulher ser mulher negra sem ser somente mulher negra Alcançar a igualdade de direitos é convertese em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero Esse é o sentido final dessa luta CARNEIRO 2013 p 4 Corroboro a acepção de Gonzalez 1988 p 65 de que nenhum movimento é realmente feminista se não tiver a análise do racismoclassesexo como premissa daí a necessidade de pensar as relações de raçaetniaclassesexo de forma imbricada coextensiva consubstancial enovelada Para Ávila 2011 p 65 a força de trabalho que se vende é indissociável do corpo que a porta e as suas formas de apropriação e exploração estão definidas não só pelas relações de classe como também de raça e gênero Quando as mulheres negras elencam suas pautas e reivindicam a centralidade do debate de raçaetnia no interior da Frente acabam por dimensionar a sua autoorganização como questão prioritária e geram tensionamentos no movimento feminista e na Frente enquanto espaço que se designa como plural Ademais expõem a dificuldade das mulheres brancas de perceberem as desigualdades entre as mulheres a partir da raçaetnia classe sexualidade e regionalidades Dificuldade essa fincada nos privilégios históricos que as mulheres brancas detêm em relação às negras e que nem sempre estão dispostas a problematizar O sujeito coletivo Frente de Mulheres emerge confrontando as relações patriarcais de sexo mas a sua pluralidade constitutiva acaba trazendo o enfrentamento das questões de raça e de classe como contradição que precisa ser dialeticamente pensada e incorporada como pauta central mesmo que isso aconteça com avanços e recuos Para Marques 2019 p 8 a relevância da Frente seria reforçada justamente pelo tensionamento de dizibilidades que antecedem sua conformação apontando projetos para futuras ações e a tessitura de novas gramáticas de forma que as rupturas e tensionamentos do processo de conformação da Frente e de sua autoorganização provocaram as militantes a pensar na ação feminista de uma maneira mais orgânica e ancorada num corpo teórico metodológico mais consistente Para tal começaram a pensar sobre a identidade da Frente no sentido de problematizar se era uma Frente feminista ou de mulheres organizadas as referências teóricopolíticas que podiam acionar o feminismo que queriam construir e as pautas centrais Nesse momento a formação política foi entendida como prioritária para elucidar a identidade missão e objetivos da Frente que empreendeu esforços para a realização de um Seminário de Formação intitulado Gênero Feminismo Raça e Classe que aconteceu durante quatro fins de semana consecutivos com um grande número de participantes com o objetivo de capacitar 169 as integrantes da Frente em 4 eixos 1 Gênero classe e divisão sexual do trabalho 2 Direitos sexuais e reprodutivos 3 Gênero e diversidade sexual e 4 Raça e gênero Contudo no último módulo da capacitação houve um esvaziamento na atividade que gerou um grande desgaste entre as militantes da Frente especialmente entre as negras e brancas Convém dizer que apenas sete pessoas compareceram à atividade formativa de raça e gênero as três facilitadoras das atividades duas adolescentes negras e duas militantes da Frente que suspenderam a formação levando as problematizações ali expostas para uma reunião ampliada Na ocasião questionavase o elemento determinante do esvaziamento do módulo de raça já que é uma questão estrutural da sociedade brasileira e tem contornos dramáticos na região Ademais reflexionavase como as mulheres presentes se colocavam frente à questão no sentido de autorreconhecimento de raçaetnia e de reconhecimento dos privilégios brancos As mulheres negras da Frente se questionavam com quantos esquecimentos se fazem um movimento social A partir daí a questão norteadora o que me move ao movimento de mulheres possibilitou uma autorreflexão acerca do porquê se movimentar em coletivo tinha se tornado uma escolha pessoal um projeto e uma atuação coletiva consciente e autônoma Também precipitou uma problematização acerca da necessidade de tornar central o debate de raçaetnia no interior da Frente e fora dela Esse momento foi compreendido pelas nossas entrevistadas como um espaço políticoafetivo de profunda comoção e partilha das experiências vividas pelas mulheres negras de resgatefortalecimento da ancestralidade e de indicação do enfrentamento ao racismo como pauta principal do ano de 2015 com a articulação da Marcha das Mulheres Negras do Cariri como momento preparatório para a Marcha de Brasília Eu considero que a criação da Frente também ampliou o debate de raça dentro e fora dela foi muito difícil a gente pensar tanta diversidade foi difícil a gente quebrou muito a cabeça naquelas formações Mas insistimos em fazer da formação um caminho para que a gente se entendesse entendesse o feminismo e entendesse as outras Outra coisa foi a reivindicação das mulheres negras de ter a sua pauta dentro desse movimento porque até então a gente não tinha feito muito isso como Conselho do Mulher como movimento de mulheres ligado ao Conselho mas quando a gente estabeleceu a Frente as mulheres negras reivindicaram sua existência sua pauta Eu penso que foi aí que a gente começou mesmo a compreender e a disputar esse feminismo ENTREVISTADA III Em 2014 teve aquele seminário que veio uma moça muito importante a Mirla teve esse seminário que foi para criar a Frente na verdade para capacitar as pessoas da Frente que deu em uma coisa muito massa porque eu acho que a Frente é hoje o movimento mais importante que a gente teve por aqui o mais atuante apesar de hoje estar atuando menos do que antes mas as 170 mulheres que estão na Frente atuam em todos os cantos que você possa imaginar ENTREVISTADA VII A incorporação da pauta de raça se deu gradativamente a partir da negação das mulheres brancas e de nossa problematização mas se impôs Nós nos impulsemos Ou vocês reconhecem seus privilégios e botam o racismo como pauta ou a gente corre daqui Vocês têm que nos escutar Ai dessa avaliação retiramos o combate ao racismo como pauta central da Frente para 2015 O bicho é voraz Ou a gente se junta ou a gente se ferra ENTREVISTADA II Nesse processo de formação políticoorganizativa vai emergir a necessidade de tecer elucidações teóricas e políticas acerca das particularidades das mulheres negras e do feminismo negro Para Carneiro 2011 p 34 O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance O que poderia ser considerado como história ou reminiscências Portanto cabe ao sujeito feminista afirmar no cotidiano das lutas sociais o projeto de enegrecer o feminismo e feminizar os movimentos compreendendo a simbiose contida no nó patriarcadoracismocapitalismo SAFFIOTI 2004 Assim a Frente de Mulheres reafirma em suas ações o protagonismo das mulheres negras e o enfrentamento ao racismo na região como pauta central O que não se deu de forma automática pelo contrário foi produto das pressões das mulheres negras no interior da organização como já mencionei anteriormente Embora seja preciso frisar que tal pauta seja efetivada com a presença constante de tensionamentos e conflitos internos dado que o racismo é um elemento estruturador das relações sociais e portanto perpassa a relação entre as mulheres da Frente requerendo um constante trabalho de formação antirracista e de reconhecimento dos privilégios brancos Desta maneira no ano de 2015 a pauta central foi a mulher negra e a estruturação da Marcha das Mulheres Negras no Cariri atendendo ao chamado do Grupo de Valorização Negra do Cariri GRUNEC Sob o lema uma sobe e puxa a outra as mulheres marcharam Pelo fim do feminicídio das mulheres negras Fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação Fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho Pela titulação e garantia das terras quilombolas especialmente em nome das mulheres negras Fim do desrespeito religioso e pela garantia de reprodução cultural de nossas práticas ancestrais da matriz africana MANIFESTO DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS DO CARIRI O Manifesto da Marcha das Mulheres Negras do Cariri foi assinado por mais de 30 entidades componentes do Comitê impulsor A Marcha aconteceu no dia 31 de março de 2015 171 e contou com a presença de mais de duas mil pessoas sendo considerado um momento vitorioso para os movimentos feministas e negro do Cariri Foi a primeira vez que o movimento enegreceu diz Veronica Carvalho SOARES 2018 p 52 e isso visibilizou a capacidade de mobilização da Frente de Mulheres junto a diversas forças do movimento social contando com uma heterogeneidade de mulheres trabalhadoras rurais mulheres da cultura de tradição mulheres de terreiro feministas dos coletivos jovens idosas dos grupos dos CRAS e SESC escolas municipais servidoras públicas e sindicatos Segundo Isidorio 2015 p 297 o maior legado da marcha foi o protagonismo das mulheres negras as mulheres negras no comando da marcha das falas do microfone na TV e no rádio Foi um acontecimento para marcar a história desta região As mulheres negras à frente na frente falando em seu próprio nome A marcha foi sucedida por formações em torno da questão racial seus impactos na formação social brasileira sua dimensão institucional e a consubstancialidade com as dimensões de gênero e classe Ademais pautouse a exploração do corpo das mulheres negras e sua objetificação assim como a ineficiência das políticas de combate à discriminação racial Desses processos formativos saiu a reafirmação da necessidade de fortalecer as ações de enfrentamento ao racismo e de evidenciar as mulheres negras como protagonistas dos processos formativosorganizativos da Frente de Mulheres Sobre a Marcha das mulheres negras Marques 2019 alude que Ao longo da concentração vêse a chegada de comunidades quilombolas de Souza em Porteiras e do Sítio Carcará em Potengi Chegam também jovens de uniforme escolar e militantes de dezenas de sítios ocupações bairros periféricos e grupos de Cultura Popular Mulheres do Coco da Batateira Irmãos Aniceto entre outros Entre 2017 e 2019 por mais de uma vez a líder quilombola Maria de Tiê esteve à frente das marchas com seu pandeiro saia florida e com uma capa azul onde estava bordada a imagem de Nossa Senhora Lideranças de casas de religiões afrobrasileiras participam da marcha com roupas de festa Luna 2018 chamou a atenção para a performance de um Cariri negro e quilombola evidenciado nessas marchas pela ação dos coletivos da região Nas manhãs de marcha periferias culturas e religiosidades populares compõem uma imagem de Cariri como diversidade étnica sexual de origem e de gênero Não fosse o trabalho contínuo ao longo do ano essa imagem seria impossível No entanto como dissemos acima essa imagem é também mediada por feminismos e ações políticas longe dali Em narrativas dispersas que ali se presentificam entrelaçadas a centralidades do corpo e do território na região MARQUES 2019 p 12 172 A Marcha também impulsiona a participação das mulheres de terreiro na Frente que agrega a defesa dos direitos dosdas praticantes das religiões de matriz africana e a luta contra a intolerância religiosa na região como pauta articulada organicamente à questão das periferias já que os terreiros se concentram nas localidades mais pobres e impactadas com a ausência de políticas públicas e o racismo institucional Nesse sentido para além da participação ativa da Frente nas tradicionais marchas contra a intolerância religiosa foi realizada em 2015 uma audiência pública sobre liberdade religiosa e um seminário de formação com os diversos terreiros no intuito de tirar uma pauta comum de reivindicações e reverberar o debate dos povos de axé ao conjunto dos movimentos sociais e poderes locais instituídos Assim como a luta antirracista24 foi forjada no tensionamento das mulheres negras no interior da Frente e acabou se transformando em pauta prioritária Foi necessária a pressão por parte das feministas jovens das LGBTQIA e de grupos de estudo das universidades da região para que houvesse a emergência do debate de diversidade sexual e da luta contra a LGBTTQIAfobia na Frente Consta que a região registra altos índices de violência contra esses segmentos especialmente com as travestis e as mulheres trans e o assassinato brutal de 3 travestis na região potencializou a conformação de um setorial LGBTTQIA no interior da Frente de Mulheres contando com a participação de homens trans e cisgênero na luta contra a opressão homolesbobitransfóbica e suas intersecções com o racismo e a classe pelo direito de usar os nomes sociais e acessar políticas de saúde eficazes assim como pela punição dos assassinos das travestis e por uma política de enfrentamento à violência O setorial organizou um ato de rua denominado Akuenda a diversidade25 que foi precedido por diversas atividades como saraus rodas de conversa formações e palestras nas escolas e produção de material para divulgação nos meios de comunicação O ato de rua contou com 24 Refirome ao feminismo negro para situar as mulheres negras que a partir de suas experiências como mulheres e negras elaboram sua militância e intervenção no mundo Um feminismo feito pelo sujeito mulher negra e que elabora um pensamento feminista negro enquanto um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afroamericanas que oferecem um ângulo particular de visão do eu e da comunidade e da sociedade que envolve interpretações teóricas da realidade de mulheres negras BAIRROS 1995 p 6 Já a luta antirracista é constituída por mulheres brancas a partir do reconhecimento do racismo enquanto traço estruturante da sociedade brasileira Nesse sentido o feminismo da Frente de Mulheres é antirracista porque é instituído por uma pluralidade de mulheres 25Akuenda é uma palavra do mainstream LGBTTQIA que significa se avexar se apressar se atentar Akuenda a diversidade seria um chamado ao segmento LGBTTTQIA da região para a ocupação das ruas O ato foi realizado dia 27 de junho de 2015 e contou com aproximadamente 400 pessoas tendo grande impacto social diferentemente das tradicionais paradas LGBTT da região não utilizou trio elétrico não estabeleceu parceria com o Estado e nem se autoafirmou como uma festa 173 aproximadamente 400 pessoas que empunhando as bandeiras LGBTQIA entoavam as palavras de ordem eu beijo homem beijo mulher tenho direito de beijar quem eu quiser o Cariri é travesti é travesti é travesti é travesti entre outras que publicizavam as questões relacionadas à identidade de gênero e orientação sexual Um aspecto importante a ser destacado é a diferença entre este movimento e as marchas do orgulho LGBT já tradicionais na região pelo teor politizado e pelos diversos sujeitos políticos que organizam bem como pelas bandeiras de luta registradas em seu manifesto Pelo fim de toda forma de opressão homolesbobitransfóbica racista e capitalista Pelo direito de utilizar nossos nomes sociais em todas as instâncias da sociedade Inclusão das transexuais e travestis no projeto de lei contra o feminicídio Implementação da Política Nacional de Saúde LGBT Pelo direito de doar sangue Por projetos locais de inclusão das transexuais e travestis no mercado formal de trabalho e nas diversas áreas da educação formal e informal Contra o assassinato das travestis e transexuais na região do Cariri Pelo direito de vivenciar nossos amores e identidades de gênero MANIFESTO AKUENDA A DIVERSIDADE 2015 Segundo relatório de avaliação da atividade 2015 houve uma intensa participação de militantes jovens na ação de rua e nas atividades preparatórias do Akuenda a diversidade mas registrouse pouca participação das militantes mais antigas momento que surgiu a problematização acerca da secundarização das lutas LGBTTQIA por parte das feministas da Frente que não são demarcadas por sexualidades orientações sexuais e identidades de gênero dissidentes Na minha percepção em virtude da heterogeneidade das experiências das mulheres da Frente o debate de diversidade sexual encontra algumas barreiras concretas no que diz respeito ao entendimento das distintas orientações sexuais e identidades de gênero e o dimensionamento desta pauta a uma posição secundária só voltado a ter centralidade quando irrompe casos de assassinatos de mulheres trans ou travestis ou ainda de LGBTQIAfobia eu acho que assim dentro do próprio movimento eu sinto que há uma hierarquia de temas de discussões que alguns temas são mais preponderantes que outros Por exemplo quando tem as coisas do movimento LGBT os movimentos são muito mais esvaziados pelas mulheres da frente do que quando tem as outras pautas de negritude de violência parece que a sororidade acontece mais quando as pautas são nesse nível e a gente consegue perceber o preconceito inclusive dentro tem um movimento de mulheres nessas questões ENTREVISTADA VI Então eu acho que é a questão da violência contra a mulher toma quase todo tempo e energia da gente que até as meninas falam que parece que não anda 174 a coisa porque não desenvolve para outros debates mas é esse o debate eu sei que as meninas do setorial LGBT fazem vários tipos de conversa sobre a questão LGBT inclusive bastante junto com o conselho de Juazeiro junto com a Brenda com a Ana Paula o nome da Frente está sempre vinculado Mas infelizmente ainda é uma pauta de segunda ordem aparece mais quando tem caso de morte ou de homofobia eu acho que é a questão da violência contra a mulher que toma todo nosso tempo ENTREVISTADA VII Também é relevante pontuar que as demandas em torno da violência contra a mulher acabam tomando muito tempo e energia das militantes da Frente principalmente porque têm grande incidência e impacto social assim como pela legitimidade que esse coletivo alcançou e acaba fazendo com que ele seja constantemente requisitado para essa pauta seja via sociedade civil meios de comunicação universidades e até mesmo pelo estado Um exemplo disso é que no ano de 2016 a Frente de Mulheres retorna o seu foco de atuação para o enfrentamento à violência contra a mulher e ao feminicídio em virtude do aumento dos casos na região destaca se aí o desaparecimento da Jovem Rayane Alves Machado na cidade do Crato o registro de 4 estupros em uma semana no centro da cidade do Crato e as ocupações dos estudantes secundaristas e universitários em apoio ao movimento grevista dos professoresprofessoras do estado e contra a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 241 que propunha a criação de um teto para gastos com despesas básicas de educação e saúde por 20 anos Nessa conjuntura o movimento acabou suspendendo as suas atividades formativas e de organização interna para responder a demandas de diversas ordens audiências públicas com o legislativo municipal e estadual para a construção de um plano de enfrentamento e prevenção à violência contra a mulher reuniões com a Ouvidoria Geral externa da Defensoria Pública do Estado do Ceará para o monitoramento das políticas públicas e implantação de um Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri acompanhamento sistemático do caso Rayane Alves e atos de rua para pressionar as autoridades policiais na resolução da questão assessoria às ocupações estudantis especialmente à ocupação da Escola Municipal José Alves Figueiredo26 que era constituída por adolescentes feministas participação das militantes da Frente nas greves dos servidores no âmbito municipal estadual e federal audiência com o 26A ocupação na Escola Municipal José Alves de Figueiredo intitulada de Ocupa JAF foi um momento de intenso ativismo das mulheres jovens da Frente já que tal ocupação foi constituída por feministas adolescentes que mobilizaram a escola e a comunidade reivindicando aquele espaço como público e a necessidade de uma educação contextualizada às necessidades da periferia Realizaram uma programação intensa de aulas públicas com professores da escola e das universidades cinedebates saraus feijoadas culturais oficinas de arte urbana e música rodas de conversas entre outros com intensa participação de diversos movimentos sociais artistas universidades e comunidade Para além de intensa participação das mulheres jovens da Frente SANTOS 2016 175 legislativo e a polícia militar do Crato para pautar a cultura do estupro na região ato público e atividades nas universidades sobre a cultura do estupro audiências públicas e seminário com os diversos terreiros De outra parte destacamse também a partir desse intenso ativismo político o protagonismo das feministas jovens e a proliferação de coletivos feministas e grupos de estudoextensão em gênero na região vistos como expressão do fortalecimento da Frente de Mulheres e elemento de oxigenação do feminismo inclusive elencando questões e demandas que não tinham tanto espaço tal como os direitos sexuais e reprodutivos corporalidades sexualidades e juventudes Entre esses grupos e coletivos destaco a relevância do Piquenique Feminista e do Coletivo Marias que realizam atividades autoorganizadas nas praças do eixo Juazeiro do Norte Crato Barbalha com adolescentes e jovens pautando novas formas de pensar a ocupação do espaço público e efetivando uma popularização das pautas feministas entre as meninas e mulheres jovens Atualmente o Coletivo Marias está desativado por questões de divergências entre as militantes e a incorporação de muitas delas ao Piquenique Feminista Segundo Soares 2018 p 53 o Piquenique Feminista começou como uma ação não sistemática para que as mulheres jovens dialogassem sobre suas subjetividades e questões que enfrentavam pelo fato de serem mulheres mas acabou se transformando em um espaço de autorreflexão feminista continuado Para as meninas o evento é um lugar onde uma pode conhecer e se reconhecer na outra e a partir disso saber que suas questões não são tão individuais quanto achavam que fossem SOARES 2018 p 52 Assim o Piquenique Feminista transformouse paulatinamente para as mulheres jovens como espaço de autodesignação enquanto feministas e de identificação com as militantes da região De voz meiga mas palavras decididas a militante universitária conta ao grupo sua jornada até ali da identificação com o feminismo até a afirmação de sua etnia negra SOARES 2018 p 53 Vejo com muita esperança e alegria que meninas tão jovens estejam nesse debate se emponderando discutindo as questões relativas ao que é ser mulher nesse mundo capitalista patriarcal e racista que temos Me reconheço nelas Entrevista de militante da Frente a Cariri Revista Todos esses elementos foram avaliados pela Frente de Mulheres em sua reunião de planejamento para 2017 como decisivo para o fortalecimento dos movimentos feministas na região e de forte ativismo político Esse ano a Frente se popularizou entre as mulheres e se colocou como referência de feminismo para o Ceará FRENTE DE MULHERES 2017 p 3 176 Tal referência se materializou em dois ganhos concretos a conquista do Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri e o Prêmio Maria Amélia Leite de Direitos Humanos do Fórum de Justiça do Ceará pela luta no enfrentamento à violência contra a mulher no Cariri Marques 2019 ao realizar uma análise sobre a participação da Frente na audiência pública da Defensoria do Estado do Ceará para a reivindicação do Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri percebeu que as táticas de ação política da Frente possibilitavam que ela pautasse os espaços que ocupava A efetividade do debate sobre o NUDEM junto à defensoria pública pode ser atribuída à sequência de falas de militantes que inauguraram o microfone na audiência A partir das primeiras falas todas as inscrições posteriores ainda que de pessoas e movimentos sociais distantes da frente repercutiam a pauta estabelecida pelas primeiras militantes a falar Em uma expressão bastante conhecida nos movimentos sociais A Frente pautou a reunião da Defensoria As inscrições das três militantes articuladoras centrais da Frente de Mulheres do Cariri foram seguidas pelas falas de mulheres vinculadas aos Povos de Terreiro ao movimento das trabalhadoras rurais a mediadoras locais com a defensoria pública Apesar de não possuírem vínculo direto com a Frente ou virem de associações sediadas em localidades distantes dali a consistência dos temas tratados nas primeiras inscrições garantiram que todas as inscritas reforçassem de algum modo os pontos levantados pelas militantes da Frente Ao mesmo tempo a repercussão dessas demandas apontadas por militantes advindas de diferentes associações e órgãos estabeleciam uma ideia de unidade e multiplicidade de atores MARQUES 2019 p 10 De fato a Frente de mulheres operacionalizou de 2014 a 2018 um aumento da legitimidade do movimento frente a outros movimentos sociais sociedade civil meios de comunicação e Estado a partir da ocupação de diversos espaços políticos e com a capacidade de estender a suas pautas aos demais movimentos De outra parte a ideia de ocupar vários espaços sociais repercutiu em um processo de superexposição das lideranças da Frente bem como de pressão por parte da sociedade civil para que se posicionem em diversas questões da região Isso traz à tona as dificuldades de se fazer feminismo no interior do Brasil considerando a existência de oligarquias locais que se reproduzem a partir do mando da perseguição e do coronelismo sendo portanto elas mesmas a própria expressão da violência Também considero que a conformação das relações sociais em uma cidade de médio e pequeno porte é completamente distinta dos grandes centros urbanos sendo possível identificar as militantes seus familiares ocupação e locais que frequenta Nesse sentido há possibilidade dos processos de criminalização e exposição das militantes serem mais intensos já que pertencem a uma Frente que nasce no interior do estado do Ceará em uma região com muita violência e se 177 insurgindo contra ela O que quero dizer é que no Cariri as militantes ficam marcadas socialmente como lutadoras sociais e isso é uma mediação importante na constituição do sujeito coletivo Paulatinamente todos esses eventos foram conformando a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri enquanto uma frente feminista anticapitalista antirracista antilesbo homobitransfóbica suprapartidária e laica que corporificase como um espaço feminista de articulação organização e formação em defesa dos direitos das mulheres aglutinando um conjunto de movimentos sociais coletivos entidades associações partidos políticos em torno da missão de articular e fortalecer os movimentos pelos direitos das mulheres e combate às opressões fomentar o surgimento de novos movimentos propor e cobrar efetivação de políticas públicas FRENTE DE MULHERES 2017 p 1 As militantes definem a Frente de mulheres como articulação e coletivo político mais contundente da região do Cariri que consegue constituir coalizões com diversas instâncias da sociedade civil e do estado o que potencializou a identificação delas enquanto feministas a Frente é antifascista que é importante hoje em dia a gente dizer isso ainda mais é antirracista anticapitalista e antilgbtfóbica nossas pautas surgem a partir dessa identidade A gente utiliza diversas estratégias de rua de ir à delegacia cobrar que efetive o trabalho cobrar do governo que traga políticas para nós mulheres a gente sabe o lugar que a gente milita que é à esquerda então existe partidos de esquerda existem movimentos existem coletivos então é esse povo todo junto lutando pelas pautas prioritárias ENTREVISTADA VII Eu acho que a Frente é importe demais é uma mobilização de uma fortaleza que você nem imagina a Frente é tão respeitada hoje em qualquer lugar que cheguemos como Frente mulheres de movimento do Cariri o olhar é o olhar de aceitação e de admiração Eu acho que nem tenho palavras para definir a Frente ENTREVISTADA VIII é tanto que hoje quando a gente fala da Frente de mulheres no Cariri e no Ceará todo a gente já consegue ter um reconhecimento da população e da sociedade no sentido de que a Frente é uma organização importante para estabelecer um espaço de debate e de construção da vida de um ser mulher na Região do Cariri Eu acho que veio muito disso de já se compreender que a coletividade é o espaço que a gente precisa fortalecer para conseguir mudar as estruturas porque sozinha a gente não consegue ENTREVISTADA II Desde a sua formação aos princípios políticos da Frente associase as pautas prioritárias de luta contra o feminicídio e à violência contra a mulher a questão do racismo da diversidade sexual e das identidades de gênero a luta pela descriminalização do aborto e por 178 direitos sexuais e reprodutivos a autoorganização das mulheres e a pressão por efetivação de políticas públicas para elas tais pautas são referências para a constituição de estratégias táticas e articulações Aqui o Conselho de Direitos da Mulher Cratense aparece como uma tática de luta importante sendo historicamente ocupado pelos movimentos de mulheres e atualmente tendo as cadeiras destinadas à sociedade civil ocupadas pela Frente de mulheres a partir do reconhecimento da necessidade desse espaço político na pressão por políticas públicas e efetivação dos serviços sociais destinados às mulheres O Conselho da Mulher é nossa tática ele uma organização da sociedade civil com aparato jurídico ligado ao poder público eu gosto muito de fazer essas comparações para a gente entender o papel da Frente então o Conselho é muito isso o Conselho é o espaço onde a gente luta por políticas públicas para as mulheres o Conselho vai defender as mulheres em seus objetivos qualquer classe social Daí vem a Frente a Frente vai fazer com que a gente compreenda nos estudos que a gente faz que a gente se compreenda como mulher trabalhadora Então a Frente é estratégica a Frente não é tática é tanto que hoje por que que a gente permanece e compreende que o lugar do movimento é na constituição da Frente porque nós vamos precisar ter táticas comuns por exemplo lutar contra a violência nós vamos lutar todas contra a violência uma mulher rica que estiver sofrendo violência nós compreendemos isso No conselho da mulher nós vamos fortalecer o Conselho para ir mas a nossa luta dentro da Frente é a luta feminista classista contra o machismo impregnado nessa nossa sociedade é antirracista e antilgbtfóbica Essa é a defesa maior por isso que eu considero que é estratégica eu acho que depois que a gente fez aqueles princípios o planejamento estratégico eu acho que não é só estratégico eles são os nossos princípios ENTREVISTADA III A nossa estratégia é algo a longo prazo é como nós vamos transformar esses princípios em ações daí é mudar as estruturas das instituições mudar o modo de ser do nosso sindicato mudar o nosso modo de ser no currículo nós enquanto professoras mudar a política a forma como o Conselho pensa disputar o Conselho então são as nossas estratégias disputar a pauta das mulheres trabalhadoras nos mais diversos organismos oficiais ou não oficiais É tático estar no Conselho é estratégico construir a Frente porque a frente vai ter os princípios que a gente compreende como mudança de estrutura da sociedade Nós estivemos mudanças de conjuntura mas não tivemos mudanças de estruturas e a frente nos fez observar isso nós tivemos políticas públicas para as mulheres no governo popular mas nós não conseguimos mexer com as estruturas da sociedade patriarcal machista feudal tudo que é al e que nos oprime a gente não conseguiu mexer com as estruturas dos sindicatos dos trabalhadores rurais de reconhecer as mulheres a gente não conseguiu mexer na estrutura do sindicato dos professores da educação superior de botar por exemplo 50 na diretoria de mulheres isso seria mudança de estrutura a gente pode ter uma conjuntura favorável a diretoria respeita as mulheres mas não mudança de estrutura mudança de estrutura é quando reconhecer que as mulheres podem sim estar dirigindo ser maioria e ser tranquilo para os homens ENTREVISTADA II 179 De outra parte a Frente por agregar distintas expressões organizativas e identidades políticas também convive com múltiplos métodos de ação que em geral têm sintonia com as metodologias de educação popular mas que ainda requer uma certa sistematização por parte de suas militantes Em 2018 a Frente realizou um planejamento semestral que dentre outras coisas apontou a necessidade de sistematizar a história e as ações realizadas a partir da elaboração de material midiático impresso e digital jornal revista site e boletim que não foi concretizado em virtude das demandas urgentes do feminicídio de Silvany que demandou a formatação de ato público da organização dos atos contra a campanha para presidente de Bolsonaro bem como no engajamento da Frente na campanha eleitoral a partir de uma candidatura dos movimentos sociais na figura de uma de suas militantes No que diz respeito às ações da Frente podemos sintetizálas em quatro dimensões que ao meu ver são inseparáveis e se retroalimentam mas que separei para fins didáticos i Organizativas centradas na formação de coletivos atos públicos manifestações passeatas ocupações articulação eletrônica via ciberativismo reuniões internas plenárias junto aos movimentos sociais ii Formativas com grupos de estudo e formações internas seminários locais e regionais articulação com grupos de pesquisa e extensão universitários performances artísticoculturais oficinas palestras e formações externas solicitadas pela sociedade civil e estado iii Articulações com movimentosagendas regionais e nacionais e iv Pontuais e emergenciais acompanhamentos de mulheres a delegacias especializadas de mulheres e equipamentos sociais em virtude da precariedade ou ausência do atendimento e de políticas públicas denúncia eou relato de casos de violência assédio ou violação de direitos demandas diversas de acolhimento Aqui é relevante elencar algumas ações pontuais e emergenciais que tiveram bastante impacto para luta das mulheres na região e na subjetividade das militantes da Frente como as atividades de constrangimento pedagógico aos professores da URCA e UFCA acusados de assédio pelas discentes o acompanhamento dos casos de estupro que aconteceram em 2016 no Crato o desaparecimento e posterior feminicídio da adolescente Rayane e o assassinato da pedagoga Silvany na Praça da Sé Essa questão das ações emergenciais e pontuais desde a formação da Frente exigiu muito tempo e reflexão das suas militantes Isso porque a publicização das ações políticas da Frente acabou dimensionandoa como espaço de acolhimento de mulheres em situações diversas de violência opressão e exploração assim como de concessão de assessoria técnica e formação política inclusive para órgãos do Estado De um lado isso demonstra que a Frente 180 se constituiu enquanto referência de luta feminista na região e em certa medida expõe a empatia e a aproximação que as mulheres construíram com as organizações feministas mas também demarca a precariedade das políticas públicas para as mulheres no Cariri fazendo emergir a questão do lugar dos movimentos sociais na relação com o Estado De certa forma com a popularização dos movimentos feministas na região as mulheres acabam trazendo as demandas da imediaticidade do cotidiano para serem solucionadas pela Frente ou na relação desta com o Estado A Frente é um lugar que as mulheres veem Nós vamos ter que fazer eventos sobre a Frente porque as mulheres estão perguntando Nesse período agora do Ele não nós comandamos esse movimento foi a gente que puxou o movimento em menos de vinte quatro horas a Frente colocou mais de cinco mil pessoas na rua numa cidade como o Crato que tem cento e vinte mil habitantes Em menos de vinte e quatro horas quando morre uma mulher a gente faz um movimento e a gente vai para as ruas e as mulheres veem para a gente isso é muito significativo 2018 foi muito significativo porque se a gente pensar que em 2001 quando a gente ia para praça e contava as mulheres isso mostra nosso crescimento e a compreensão das mulheres e homens que nós somos de confiança a gente já provou isso ENTREVISTADA III De vez em quando a gente recebe mensagens de pessoas querendo ingressar na frente Recentemente eu recebi uma mensagem de uma menina que esteve no ato que fizemos no Crato em homenagem a Silvany ela me perguntou como fazia para participar da Frente ela disse que viu a emoção da gente e disse que se sentia feminista mas que compreendeu que não seria feminista se não estivesse numa movimentação dessa Nossas redes sociais recebem esse feedback cotidianamente De mulheres querendo participar a mulheres procurando ajuda porque foi violentada foi na delegacia da mulher e não foi atendida que tá na calçada da maternidade porque não tem leito que precisa de orientação jurídica de meninas relatando casos de assédio sexual de professores ou estupro de pessoas com quem convive É uma superexposição Isso A Frente nos colocou em exposição individual e coletivamente ENTREVISTADA VIII quando teve aquele carro que sequestrava mulheres por algumas horas eu lembro de como foi a agonia em torno das mulheres da Frente para se criar uma rede de aviso de proteção e eu sei o quanto as mulheres vão em busca da casa da Verônica da Verônica Isidório que é de conselho atrás dessa proteção da Rayane principalmente do caso da Rayane que é um caso de violência um caso de feminicídio de violência doméstica que ela passava houve uma pressão pra gente muito grande Procuramos junto à polícia ENTREVISTADA VII esse último ato do feminicídio da professora Silvany em que nós conseguimos articular mais de cinco mil pessoas na praça Isso para nós também é uma ação formativa e de uma dimensão que a gente não consegue nem imaginar até onde ela pode ir porque no momento que a gente passa na rua com nossos cartazes falando com nossas faixas as pessoas estão ouvindo 181 e elas vão refletir uma outra vai refletir sobre aquilo que nós estamos falando Esse boca a boca tem criado uma referência das mulheres conosco Mas precisamos pensar em como isso está se dando ENTREVISTADA II É compreensível que a popularização dos feminismos na região e a aproximação de mulheres de localidades faixas etárias classes sociais religiões raças posições políticas e orientações sexuais e identidades de gênero distintas provocassem um conjunto de demandas complexas e específicas que demandam ser respondidas mesmo que a Frente enquanto sujeito político não tenha condições concretas de atendêlas inclusive por que muitas dessas demandas são de competência do estado e outras são expressões do nó patriarcadoracismocapitalismo Todavia a luta por cidadania igualdade e liberdade é pressuposto de um projeto feminista de transformação da sociedade no sentido de que as conquistas efetivas da Frente no que diz respeito ao acesso a políticas públicas conquista da autonomia e autodeterminação individual potencializam o fortalecimento do sujeito coletivo feminista Isso é um desafio para os feminismos porque articula a conquista cotidiana da autonomia individual ao mesmo tempo em que coletivamente se constitui a autonomia e a liberdade das mulheres enquanto coletivo total As mulheres que compõem a Frente saem de experiências singulares plurais e realizam seus processos de autodesignação enquanto feministas de formas distintas mas sustentadas no reconhecimento de um sujeito em si estranhado despossuído e apropriado Vêse como o Outro o inessencial Mas é preciso considerar que nenhum sujeito se define imediata e espontaneamente como o inessencial não é o Outro que se definindo como Outro define o Um ele é posto como Outro pelo Um definindose como Um BEAUVOIR 2009 p 18 Esse sujeito em si vai para além de se reconhecer enquanto estranhado de si reconhecer outros sujeitos estranhados de si conformando um grupo que em um primeiro momento realiza ações assistemáticas espontâneas e sem a análise concreta das relações de sexo raça e classe que determinam a condição de exploraçãodominaçãoapropriação das mulheres da região mas que paulatinamente empreende passos para efetivar um processo de identificação com os Outros e de desenvolvimento de uma percepção da história fundamentada na ideia de responsabilidade pelos outros e de engajamento em um projeto coletivo de afirmação das mulheres enquanto sujeito Um sujeito que é plural e uno assim como atravessado pela experiência particular de ser mulher no sertão do Cariri Essa adesão individual e coletiva a um projeto de liberdade e autonomia feminista inscrita na coletividade em que as mulheres descobremse e escolhemse em um mundo que os 182 homens por intermédio do patriarcado lhes imputam à condição de Outro é elementar na formação da consciência em si e para si na consciência enquanto sujeito coletivo que vai justificar sua existência individual e coletiva pela necessidade constante de transcender de dizer nós de construir coletividades e se autodesignar feministas Elas dizem que trema a terra porque aqui está presente o feminismo do Cariri Uma palavra de ordem que tem a força desse sujeito que se produz em diálogo com outras mulheres e outros sujeitos Friso que a formação dessa coletividade opera no sentido de reforçar a agência desses sujeitos e dotálos de condições de resistência às exploraçõesdominaçõesapropriações o que é a condição sine qua non para superar a própria alienação e transcender a situação A autodesignação enquanto feministas acompanhada da autotransformação das práticas cotidianas que repercutem no tensionamento da moral do confinamento nos espaços públicos e privados além do reconhecimento da formação política como elemento essencial para a compreensão dos sistemas de dominaçãoexploração das mulheres e a materialização de ações coletivas sistemáticas e organizadas instituem as mulheres do Cariri como sujeitos de sua própria luta por transcendência Remato o capítulo reafirmando a minha tese de que o sujeito coletivo Frente de Mulheres que se faz na autodesignação das mulheres enquanto feministas no reconhecimento de um nós comum e na conformação de uma ação coletiva a partir de uma experiência una e diversa constitui mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos materializandose enquanto corpo político com identidade plural e diversa Unidade diversa expressa à ideia de se fazer singular respeitando as diversas diferenças e se fazer universal a partir de pontos comuns de opressão Um sujeito coletivo total atravessado pelo contexto do sertão 183 5 fffCONSIDERAÇÕES FINAIS Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever LISPECTOR 1977 p 75 Difícil concluir esse trabalho Como diria Guimarães Rosa 2001 p 200 contar é muito muito dificultoso Não pelos anos que já se passaram Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê de se remexerem nos lugares Todavia é preciso fechar ciclos aqui está o desfecho da minha relação de amor e solidariedade feminista para com as mulheres do Cariri e de término dos percursos de pesquisa constituídos no doutoramento Também está escrito meu espanto com a conformação de relações patriarcais de sexo tão desiguais e violentas Enquanto escrevo essas considerações finais um homossexual foi assassinado a facadas dentro de sua casa em virtude de sua performance de gênero vista socialmente como feminina No solo sagrado do Cariri é um pecado mortal nascer mulher mas também é mortal ser identificado como uma Aqui retomarei os objetivos as questões formuladas e as principais sínteses constituídas a partir da metodologia feminista efetivada pelas militantes caririenses que é avaliar os aprendizados individuais e coletivos envolvidos no processo apontando propostas de encaminhamento das questões apresentadas Este trabalho é um produto coletivo que intenta autopreservar a memória social das mulheres feministas sertanejas mesmo sendo escrito por uma mulher com um ponto de vista situado branca acadêmica bissexual partidarizada e com raízes na periferia do semiárido nordestino A investigação partiu da observação das experiências cotidianas de violência e resistência das mulheres do Cariri cearense e objetivou apreender as particularidades de constituição do sujeito coletivo feminista a partir da experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos Sociais Muito já se falou sobre o sertão e talvez eu não apresente aqui nenhuma questão inédita entretanto a experiência particular dessas mulheres que estão longe dos grandes centros urbanos e convivem com relações sociais de sexo raçaetnia e classe atravessadas pela regionalidade interna ao país formadoras de desigualdades entre nortenordeste e sulsudeste marcando a vida das mulheres tem sido pouco analisada pelo feminismo hegemônico centrado no ponto de vista do sulsudeste Nisto agencio imagens de um Nordeste antimoderno que convive com as transformações contemporâneas do modo de produção capitalista que realoca indústrias dos 184 grandes centros urbanos para cidades do interior do semiárido nordestino redesenhando as cartografias regionais e impactando na conformação do nó patriarcadoracismocapitalismo Não é possível falar de um único Cariri pois ele se conforma a partir de uma heterogeneidade de cidades contextos geopolíticos culturais e econômicos não sendo pois um bloco estável A identidade cultural do Cariri foi politicamente fabricada pelas elites locais fundada em um discurso de integração e regionalismo que intenciona apagar os tensionamentos contidos entre as cidades que compõem a região Quando em 2009 o governo estadual por meio de lei complementar delimita a região metropolitana do Cariri o faz com a responsabilidade de integrar a organização o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum Esse projeto de desenvolvimento regional foi alavancado pela região deter bons indicadores socioeconômicos e potencial de se transformar em nicho produtivo para o capital a partir da chegada de indústrias e de políticas de investimento no turismo religioso cultural e ecológico Região apreendida assim enquanto um espaço vivido por tratarse de uma porção territorial usufruída por um determinado grupo social cuja permanência na área é suficiente para estabelecer usos e ocupação costumes especificidades da organização social cultural e econômica RIBEIRO 1993 p 214 O espaço do Cariri cearense socialmente produzido diferenciase de outros espaços por apresentar aspectos resultantes de experiências vividas e historicamente produzidas pelos moradores da região e também pelas classes dirigentes que se beneficiam com o discurso de regionalidade e integração cultural do Cariri Embora o Cariri seja um território heterogêneo conformado por relações de ruralidade e urbanidade ainda prevalecem os traços constitutivos da propriedade senhorial do coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade mesmo que estes convivam com novas relações de produção potenciadas pela chegada das indústrias e a interiorização das universidades que ampliaram o setor de serviços e modificaram as relações sociais de sexo raçaetnia e classe na região imprimindo traços de urbanidade modernidade e metropolização Para analisar essa experiência particular das mulheres caririenses acionei as categorias de relações sociais de sexo patriarcado e sujeito coletivo Cabe aqui dizer que utilizei o conceito de imbricação das relações se sexo raçaetnia e classe para analisar a realidade do Cariri cearense considerando sua formação social e a heterogeneidade da região Aqui o nó patriarcadoracismocapitalismo assume contornos diferenciados aprofundando as exploraçõesdominaçõesapropriações de raçaetnia classe e sexo Também repercute em uma 185 região demarcada pela violência silenciamento e apagamento das mulheres com altos índices de violência e feminicídio forte interdição à mobilidade e à participação política das mulheres tutela e vigilância das corporalidades e vivências sexuais assim como a precariedade das políticas públicas de proteção e atenção às mulheres Procurei pois situar na primeira parte do trabalho a constituição do sujeito coletivo e do sujeito coletivo feminista tendo como ponto de partida a noção de classe social inspirada na tradição marxista acrescida do ponto de vista situado da teoria feminista especialmente da noção de sujeito em Beauvoir 2009 que a propõe como uma tentativa de negar a existência de um sujeito universal masculino branco e essencialista Em Beauvoir o sujeito é determinado pelas relações sociais em que está inserido e congrega em si a capacidade de transcendência a partir de um projeto de liberdade e autonomia de forma que ao mobilizar a categoria do Outro para falar da situação da mulher a autora alude acerca de um tipo específico de alteridade a alteridade absoluta A condição de subordinação da mulher é equivalente a outras situações de alteridade marcadas pela opressão a dos negros a dos povos colonizados a do povo judeu e a do proletariado que também são constituídos como Outros nas relações sociais submetidos a condições de desigualdade objetificados e alienados de sua subjetividade e interditados ao exercício substantivo da transcendência Contudo há diferenças entre essas existências na alteridade Em todas essas situações a formação de coletividades opera no sentido de reforçar a agência desses sujeitos e dotálos de condições de resistência à objetificação e à opressão em todas exceto na situação das mulheres porque elas não formam uma coletividade o que para a feminista francesa é a condição indispensável para superar a própria alienação e transcender a situação Cabe ao indivíduo a sua identificação enquanto outro e o engajamento em um projeto coletivo de tornase mulher tornase sujeito por meio da ação coletiva Como ponto de chegada tentei descrever o fundo comum no qual se desenvolveram as particularidades da experiência militante das mulheres caririenses corporificadas na Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Uma experiência distante dos grandes centros urbanos e demarcada pelo patriarcado rural propriedade senhorial e a tradição místicoreligiosa que impôs às mulheres de forma individual e coletiva a constante fabricação de resistências enfrentamentos e estratégias de sobrevivência A Frente se constituiu a partir do esgotamento da experiência da Marcha das Vadias quando as mulheres começaram a problematizar as 186 estruturas que produziam uma região tão violenta para elas e a pensar em ações políticas sistemáticas para alcançar a emancipação das mulheres em coletivo As mulheres em movimento começam a reconhecerse enquanto sujeitas estranhadas despossuídas e apropriadas além de construírem uma adesão individual e coletiva a um projeto de liberdade e autonomia feminista caracterizado como antipatriarcal anticapitalista antirracista laico e suprapartidário Tal projeto ao meu ver constitui um nós comum entre as mulheres caririenses e estabelece em termos individuais e coletivos a formação de uma consciência de classe uma consciência enquanto sujeito coletivo que permite a autodesignação dessas mulheres enquanto feministas Para Cisne 2014 p 37 a identificação na outra de sua condição de mulher possui uma função fundamental para a formação da consciência pois contribui diretamente para a desnaturalização da opressão feminina além de fortalecer as mulheres individual e coletivamente CISNE 2014 p 37 A composição da Frente de Mulheres é extremamente heterogênea agregando mulheres dos movimentos associações e sindicatos de luta pela terra de militância articulada às pastorais e às Comunidades Eclesiais de Base professoras e estudantes universitárias mulheres negras de terreiro de axé de partidos de esquerda jovens sem nenhuma filiação partidária lésbicas bissexuais e nãobinárias Essas mulheres foram paulatinamente estabelecendo uma resistência feminista que articula as relações sociais de sexo raçaetnia e classe em uma perspectiva socialista que apreende que a classe além de ter sexo possui raçaetnia e essas dimensões imprimem condicionalidades que estruturam de forma diferente as vivências das formas de exploração e opressão nesta sociedade CISNE SANTOS 2018 p 123 A Frente é entendida enquanto uma articulação feminista autônoma mesmo que tenha em sua composição sindicatos e partidos políticos que ocupa a esfera pública de forma coletiva horizontalizada e autogestionada com forte capacidade organizativa e legitimidade frente à sociedade e ao Estado Ao meu ver os processos organizativos da Frente de Mulheres são estruturados por intermédio da autodesignação enquanto feministas da autotransformação de suas práticas cotidianas da formação política e das ações coletivas Um projeto individual e coletivo de apropriação de si e reconhecimento das outras para a conformação de um nós comum Apesar de entenderem que o projeto de tornarse mulher e feminista tem como sujeito histórico coletivo específico as mulheres em sua multiplicidade e diversidade não dispensam a participação masculina nas ações e formações políticas da Frente pois para elas o feminismo 187 é um projeto societário que diz respeito à coletividade dos sujeitos sociais e autorrealização dos indivíduos como sujeitos da liberdade O tempo de escrita deste trabalho foi também de expansão das movimentações feministas no Brasil intituladas de Primavera Feminista com constituição de inúmeros coletivos movimentos e grupos de pesquisa e extensão universitários feministas debates no interior dos partidos de esquerda e do Estado sobre feminismo gênero e políticas públicas para as mulheres bem como o fortalecimento do ciberativismo e do artivismo feminista Isso igualmente se expressou na particularidade do Cariri com um forte protagonismo das mulheres nas ações de rua ampliação dos coletivos de feministas jovens e popularização dos debates em torno dos feminismos De outra parte também foi um momento histórico de alargamento do conservadorismo no interior da sociedade brasileira com expansão do fundamentalismo neopentecostal e de práticas sociais misóginas racistas e LGBTQIAfóbicas O Cariri também não ficou imune a esse processo que pressionou as mulheres da Frente que estavam com inúmeras ações políticas a elaborarem estratégias de autocuidado proteção e combate ao medo da violência Aqui reflexiono acerca da superexposição das mulheres da Frente e de como isso repercute nas suas vidas especialmente na esfera privada já que têm sua mobilidade afetada e precisam repensar os seus itinerários individuais e coletivos em uma região tão demarcada pela violência e o feminicídio Como diria Lispector 1977 p 86 Silêncio O silêncio é tal que nem o pensamento pensa E agora agora só me resta acender um cigarro e ir para casa Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos Sim Tudo também termina com um sim Espero que as mulheres do Cariri continuem mapeando suas vivências narrando suas histórias e produzindo fotografias das relações patriarcais de sexo e da resistência a elas no Cariri 188 REFERÊNCIAS ABÍLIO L C Sem maquiagem o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos São Paulo Boitempo 2014 ACCIOLY C B da C Territorialidades e saberes locais muros e fronteiras na construção do saber acadêmico Caderno CRH v 24 n 63 pp 679691 2011 ALAMBERT Z Feminismo o ponto de vista marxista São Paulo Nobel 1986 ALBUQUERQUE JUNIOR D M de A invenção do Nordeste e outras artes RecifeSão Paulo FJNCortez 1999 ALVAREZ S E et al Construindo uma política feminista translocal da tradução Revista Estudos Feministas v 17 n 3 pp 743753 2009 ALVAREZ S E et al Encontrando os feminismos latinoamericanos e caribenhos Revista Estudos Feministas v 11 n 2 pp 541575 2003 ANDRADE M C A terra e o homem no Nordeste contribuição ao estudo da questão agrária no Nordeste Recife Editora Universitária da UFPE 1998 ANTUNES R Adeus ao trabalho Ensaios sobre as metamorfoses e a centralidade do mundo do trabalho São Paulo Cortez 2011 ANTUNES R O caracol e sua concha ensaios sobre a nova morfologia do trabalho São Paulo Boitempo 2005 ANTUNES R Os sentidos do trabalho Ensaio obre a afirmação e negação do trabalho São Paulo Boitempo 2007 ARAÚJO I M de Os novos espaços produtivos relações sociais e vida econômica no Cariri cearense 2005 229 f Tese Doutorado em Sociologia PPGS UFC Fortaleza 2005 ARAÚJO I M LIMA J C BORSOI I CF Operárias no Cariri Cearense fábrica família e violência doméstica Revista Estudos Feministas v 19 n 3 pp 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diversidade e serviço social São Paulo Cortez 2018 CORDEIRO M P J Entre chegadas e partidas dinâmicas das romarias em Juazeiro do Norte Fortaleza IMEPH 2011 CORDEIRO R L M Além das secas e das chuvas os usos da nomeação mulher trabalhadora rural no sertão central de Pernambuco São Paulo PUCSP 2004 COSTA A de O BRUSCHINI C Orgs Uma questão de gênero São Paulo FCC 1992 COUTINHO C N Contra a corrente ensaios sobre democracia e socialismo São Paulo Cortez 2008 COUTINHO C N Marxismo e política a dualidade de poderes e outros ensaios São Paulo Cortez 2008 CUNHA E da Os Sertões São Paulo Brasiliense 1985 DAVIS A Mulheres raça e classe São Paulo Boitempo 2016 FALQUET J Três questões aos movimentos sociais progressistas contribuições da teoria feminista à análise dos movimentos sociais Lutas resistências v 1 s n pp 212225 2006 191 FEDERICI S Calibã e a bruxa mulheres corpo e acumulação primitiva São Paulo Elefante 2017 FERNANDES F A Revolução Burguesa no Brasil ensaio de uma interpretação sociológica São Paulo Globo 2005 FERNANDES F Revolução um fantasma que não foi esconjurado Crítica Marxista v 1 n 2 pp 140145 1995 FERREIRA V Apropriação do tempo de trabalho das mulheres nas políticas de saúde e reprodução social uma análise de suas tendências 2017 201 f Tese Doutorado em Serviço Social PPGS UFPE Recife 2017 FERREIRA V ÁVILA M B FALQUET J ABREU M O patriarcado desvendado teorias de três feministas materialistas Recife SOS CORPO 2014 FIGUEIREDO FILHO J A História do Cariri Fortaleza UFC 2010 FIRESTONE S A dialética do Sexo um manifesto da revolução feminista Rio de Janeiro Labor do Brasil 1976 FREDERICO C Consciência operária no Brasil estudo com um grupo de trabalhadores São Paulo Ática 1979 FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI Carta de Princípios da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Crato 2017 Manifesto Racismo machismo e capitalismo matam Basta de Feminicídio Barbalha 2015 Manifesto da Marcha Regional das Mulheres Negras do Cariri 2015 Contra o racismo e pelo bem viver Cariri 2016 Manifesto do Akuenda a diversidade Juazeiro do Norte 2015 Manifesto da Marcha das Vadias do Cariri Por que as mulheres do Cariri saem às ruas em um evento chamado Marcha das Vadias Barbalha 2012 Nota de repúdio ao Centro de artes da Universidade Regional do Cariri URCA Crato 2016 Nota técnica do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense à Coordenadoria de Políticas para as Mulheres do Estado do Ceará cerca da situação das mulheres encarceradas no município do Crato Crato 2017 Pauta de reivindicações da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri para Audiência da Câmara de Vereadores de Juazeiro do Norte Crato 2017 192 Relatório do Seminário de Planejamento da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Crato 2017 GATTI B A Grupo focal na pesquisa em ciências sociais e humanas Brasília Líber Livro 2005 GONÇALVES C U A invenção da região do Cariri entre o messianismo e a ética capitalista In LIMA M V de MARQUES R Orgs Estudos regionais limites e possibilidades Crato NERECERES 2004 GRAMSCI A Cadernos do Cárcere Rio de Janeiro Civilização Brasileira 2017 GUILLAUMIN C Prática do poder e ideia de natureza In FERREIRA V ÁVILA M B FALQUET J ABREU M O patriarcado desvendado teoria de três feministas materialistas Recife SOS CORPO 2014 GURGEL T Feminismo e Liberdade seu sujeito total e tardio na América Latina 2004 166 f Tese Doutorado em Sociologia PPGS UFPB João Pessoa 2004 GURGEL T Feminismo e luta de classe história movimento e desafios teóricopolíticos do feminismo na contemporaneidade 2010 Disponível em httpwwwfazendogeneroufscbr9resourcesanais1277667680ARQUIVOFeminismoelut adeclassepdf Acesso em 9 nov 2019 GURGEL T Feminismos no Brasil Contemporâneo Apontamentos críticos e desafios organizativos Temporalis v 14 n 27 pp 2014 HAGUETTE T M F Metodologias qualitativas na sociologia Petrópolis Vozes 2003 HIRATA H Gênero classe e raça interseccionalidade e consubstancialidade das relações sociais Tempo Social v 26 n 1 pp 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4759 2002 KERGOAT D Dinâmica e Consubstancialidade das relações sociais Novos Estudos v 29 n 1 pp 93103 2010 KERGOAT D Lutar dizem elas Coordenação editorial de ÁVILA Maria Bethânia e FERREIRA Veronica Recife SOS CORPO 2018 KONDER L A derrota da dialética a recepção das ideias de Marx no Brasil até o começo dos anos 30 São Paulo Expressão Popular 2009 KOSÍK K Dialética do concreto Rio de Janeiro Paz e Terra 1976 LEFEBVRE H Org A irrupção a revolta dos jovens da sociedade industrial causas e efeitos São Paulo Documentos 1968 LENIN V I As três fontes e as três partes constitutivas do marxismo São Paulo Expressão Popular 2004 LENIN V I O estado e a revolução São Paulo Global Editora 1987 LENIN V I Que Fazer Problemas candentes do nosso movimento São Paulo Expressão Popular 2010 LHOMOND B Sexualidade In HIRATA H etal Orgs Dicionário Crítico Feminista São Paulo Editora UNESP 2009 LISPECTOR C A hora da estrela Rio de Janeiro Rocco 1977 LUKÁCS G História e consciência de classe estudos sobre a dialética marxista São Paulo Martins Fontes 2003 LUKÁCS G Lenin um estudo sobre a unidade de seu pensamento São Paulo Boitempo 2012 LUXEMBURGO R A revolução russa Petrópolis Vozes 1991 LUXEMBURGO R Greve de massas partido e sindicatos Coimbra Centelha 1974 LUXEMBURGO R Reforma ou Revolução São Paulo Expressão Popular 2003 194 MARQUES R A identidade como estratégia modernização memória e política no Cariri 1950 In LIMA M V de MARQUES R Orgs Estudos Regionais limites e possibilidades Crato NERECERES 2004 pp 3748 MARQUES R Cariri eletrônico paisagens sonoras no Nordeste São Paulo Intermeios 2015 MARQUES R Bodies and meanings in motion Feminisms and subjects of rights in Brazilian Northeast Congress of the Latin American Studies Association Boston USA May 24 May 27 2019 MARQUES R Como se faz uma região com ideias de atraso violência e vitimização gênero agência e trânsito de mulheres no Cariri contemporâneo In CORDEIRO D S Org Temas contemporâneos em sociologia Fortaleza Íris 2013 pp6872 MARQUES R Contracultura tradição e oralidade reinventando o sertão nordestino na década de 70 São Paulo Annablume 2004 MARQUES R Gênero e imaginário espacial no Cariri In CAVALCANTE M J M HOLANDA P H C QUEIROZ Z F de História de Mulheres amor violência e educação Fortaleza Edições UFC 2015 pp 549564 MARX K ENGELS F E A ideologia Alemã São Paulo Boitempo 2007 MARX K Contribuição à crítica da economia política São Paulo Martins Fontes 2003 MARX K Manuscritos econômicofilosóficos São Paulo Boitempo 2010 MARX K O 18 Brumário de Luís Bonaparte São Paulo Boitempo 2011 MARX K Para a questão judaica São Paulo Expressão Popular 2009 MARQUES R FACCHINI R A primavera feminista revisitada pelo feminismo sertanejo deslocando contextos empíricos e reflexões teóricometodológicas In ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 42 2018 Caxambu Anais Caxambu2018 pp 52 62 MARQUES R QUIRINO G da S ARAÚJO I M Acesso e apropriação de políticas públicas de gênero no Centrosul Cearense observações preliminares In SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 10 2013 Florianópolis Anais Florianópolis 2013 MILLETT K A política Sexual Lisboa Publicações Dom Quixote 1975 MINAYO M C O desafio do conhecimento pesquisa qualitativa em saúde São Paulo Hucitec 2010 195 MORAIS A M A mulher e a estatística Revista Bárbaras v 2 n 02 2019 MORAIS A M Pequena História da Ditadura Brasileira 19641985 São Paulo Cortez 2014 NETTO J P Ditadura e Serviço Social uma análise do Serviço Social no Brasil pós64 São Paulo Cortez 2011 NOBRE E dos S Incêndios da alma a beata Maria de Araújo e a experiência mística no Brasil do Oitocentos 2014 293 f Tese Doutorado em História Social PPGFS UFRJ Rio de Janeiro 2014 NUNES A Cariri queer um esboço da performatividade travesti nas terras de Padre Cícero ENCONTRO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES EM CULTURA 4 2010 Bahia Anais Bahia 2010 SILVA N C e A mulher sem túmulo vida romanceada da beata Maria de Araújo protagonista dos milagres de Juazeiro Ceará em 1889 Fortaleza Armazém da Cultura 2010 SOARES S ISIDORO V VIDAL D Dia 08 de março o que as feministas têm a dizer Entrevista cedida a Alan Maria Revista Cariri 8 mar 2016 Disponível em httpscaririrevistacombrdia08demarcooqueasfeministasdocariritemdizer Acesso em 9 nov 2019 PAZ R M O Santo que fica no Sol uma leitura etnográfica sobre a devoção ao Padre Cícero de Juazeiro do Norte In LIMA M V de MARQUES R Estudos Regionais limites e possibilidades Crato NERECERES 2004 pp 4962 PAZ R M O Para onde sopre o vento a Igreja Católica e as romarias de Juazeiro do Norte Fortaleza IMEPH 2011 PEREIRA P P G O sertão dilacerado outras histórias de Deus e o Diabo na terra do sol Légua e meia v 7 n 1 pp 107123 2016 PERROT M Minha história das mulheres São Paulo Contexto 2017 PINHEIRO I O CARIRI seu descobrimento povoamento costumes Fortaleza Fundação Waldemar Alcântara 2009 PINTO C R J Uma história do feminismo no Brasil São Paulo Fundação Perseu Abramo 2003 PISCITELLI A Interseccionalidades categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras Sociedade e Cultura v 11 n 2 pp 263274 2008 PLEKHANOV G O papel do indivíduo na história São Paulo Expressão Popular 2011 196 PORTELLA A P Novas e velhas questões sobre o corpo sexualidade e reprodução In ÁVILA M et al Orgs Textos e imagens do feminismo mulheres construindo a igualdade Recife SOS CORPO 2001 pp 80 125 RAGO M Adeus ao Feminismo Feminismo e Pós Modernidade no Brasil Cadernos AEL s v n 34 pp 1143 19951996 RAMOS F R L Caldeirão estudo histórico sobre o beato José Lourenço e suas comunidades Fortaleza NUDOCUFC 2011 RAMOS G Vidas secas São Paulo Martins 1969 REDSTOCKINGS Redstockings Manifesto New York s e 1969 Disponível em httpsapoiamutuamilharalorg20120802redstockingsmanifesto Acesso em 9 nov 2019 REED E Sexo contra sexo ou classe contra classe São Paulo Instituto José Luís e Sundermann 2008 REIS JUNIOR D de O A região como artefato o Cariri na segunda metade dos Oitocentos Cadernos de História v 17 n 27 pp 342367 2016 REIS JUNIOR D de O Natureza e trabalho no cariri cearense In SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA 26 2011 São Paulo Anais São Paulo ANPUH 2011 REVISTA BÁRBARAS Eu sou a luta Juazeiro do Norte UFCA 2018 Disponível em httpsissuucomrevistabarbarasufcadocsbarbaras2018 Acesso em 9 nov 2019 REVISTA CARIRI Quando uma mulher avança nenhum homem retrocede Edição especial Juazeiro do Norte Revista Cariri 2017 Disponível em httpsissuucomrevistabarbarasufcadocsbarbaras2018 Acesso em 9 nov 2019 ROCHA M C A P OLIVEIRA M L B Sororidade na praça educação movimentos sociais e direitos fundamentais no piquenique feminista Revista Juris UniToledo v 4 n 2 2019 pp 7082 ROSA J G Grande Sertão Veredas Rio de Janeiro Nova Fronteira 1986 SADER E Org Gramsci poder política e partido São Paulo Expressão popular 2005 SADER E Quando novos personagens entraram em cena experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo 19701980 Rio de Janeiro Paz e Terra 1988 SAFFIOTI H I B A mulher na sociedade de classes mito e realidade São Paulo Expressão Popular 2013 SAFFIOTI H I B Gênero patriarcado violência São Paulo Fundação Perseu Abramo 2004 197 Rearticulando gênero e classe social In COSTA A de O BRUSCHINI C Orgs Uma questão de gênero Rio de JaneiroSão Paulo Rosa dos TemposFCC 1992 SANTOS L A Uma ocupação feminina questões de gênero na ocupação da escola JAF em CratoCE In CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO 3 2016 Natal Anais Natal Realize 2016 pp 3545 SANTOS M A Natureza do Espaço Técnica e Tempo Razão e Emoção São Paulo Hucitec l997 SANTOS Pensando o espaço do homem São Paulo Edusp 1994 SANTOS Por uma nova geografia São Paulo Hucitec 1980 SARTRE JP O Ser e o Nada 13ª ed Petrópolis Vozes 2005 SCHWARCZ L M Nem preto nem branco muito pelo contrário cor e raça na sociabilidade brasileira São Paulo Claro Enigma 2012 SCIENCE C Da lama ao caos 1994 Disponível em httpswwwletrasmusbrnacao zumbi77655 Acesso em 9 nov 2019 SILVA C S M Feminismo popular e lutas antissistêmicas Recife SOS CORPO 2016 SOARES D O Cariri Crato Juazeiro do Norte estudo de Geografia Regional Crato Faculdade de Filosofia do Crato 1968 SOARES I de M SILVA I B M da Orgs Sentidos de devoção festa e carregamento em Barbalha Fortaleza IPHAN 2013 SOUZALOBO E A classe operária tem dois sexos trabalho dominação e resistência São Paulo Fundação Perseu Abramo 2011 SONTAG S Sob o signo de saturno São Paulo LPM 1986 SORIANO R R Manual de pesquisa social Petropólis Vozes 2004 TRISTAN F União dos Operários Florianópolis Insular 2017 VIDAL E SOUSA C O sertão amansado Sociedade e Cultura v 13 n 1 pp 101110 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL E DESENVOLVIMENTO REGIONAL MESTRADO ACADÊMICO SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Niterói 2021 SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre ao Programa de Pós graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense Orientadora Profª Drª Kátia Regina de Souza Lima Niterói 2021 Ficha catalográfica automática SDCBCG Gerada com informações fornecidas pelo autor B42r Elias Sílvia Karen dos Santos Racismo estrutural imparcialismo e proibicionismo cannabis medicinal e a luta pelo direito à vida Sílvia Karen dos Santos Elias Kátia Lima orientadora Niterói 2021 158 f il Dissertação mestrado Universidade Federal Fluminense Niterói 2021 DOI httpdxdoiorg1022409PPGSSDR2021m06591164642 1 Racismo 2 Imparcialismo 3 Proibicionismo 4 Produção intelectual I Lima Kátia orientadora II Universidade Federal Fluminense Escola de Serviço Social III Título CDD Bibliotecário responsável Debora do Nascimento CRB76368 SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense Aprovada em Agosto de 2021 BANCA EXAMINADORA Profª Dra Kátia Regina de Souza Lima OrientadoraPPGSSDRUFF Profª Dra Marcela Soares Silva PPGSSDRUFF Profª Dra Cristina Maria Brites UFF Profª Dra Roseli da Fonseca Rocha FIOCRUZ AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus e aos meus guias espirituais pelas intuições e serenidade nos momentos mais desafiadores Agradeço a minha mãe e vó mulheres negras que não tiveram a oportunidade de estudar mas que me deram força para que eu concluísse os meus estudos Agradeço aos trabalhadores e trabalhadoras que contribuíram para que essa pesquisa fosse realizada através do recebimento da Bolsa Capes pois sem ela seria impossível me dedicar totalmente a esse objeto de estudo Agradeço à minha companheira Vivi que foi a maior incentivadora desse estudo e que me encorajou dia após dia principalmente nos momentos mais difíceis Você é luz na minha caminhada e serei eternamente grata por tudo e por tanto Agradeço ao João filho amado reencontro da minha alma que me inspirou a escrever sobre essa temática tão desafiadora e ao mesmo tempo tão atual e necessária Seguimos juntos João Agradeço ao apoio amoroso de Dona Regina que me alegra e me fortalece diante dos momentos tortuosos Agradeço ao Pai João e Marcos por compartilharem comigo os seus ensinamentos sobre a espiritualidade e a umbanda de forma tão genuína e simples Vocês me fizeram enxergar o outro lado gratidão Agradeço a todos os meus amigos os de longe e os de perto não vou citar nomes para não incorrer no erro de esquecer algum mas todos que de alguma forma me apoiaram e me mandaram energias positivas para a concretização desse sonho Agradeço ao apoio da amiga querida Raquel Mota Mascarenhas eterna orientadora que mesmo de longe não deixa de me encorajar Agradeço a amada orientadora Kátia Lima que seguiu comigo me ensinando que pesquisar com afeto é revolucionário Agradeço as professoras que compõem a banca Roseli Rocha Marcela Soares e Cristina Brites que de forma muito singular e afetuosa contribuíram para aprimorar esse trabalho Agradeço ao Grupo de PesquisaGEPESS onde as trocas de conhecimentos foram fundamentais para a construção dessa dissertação MARIELLE PRESENTE EPÍGRAFE VozesMulheres Conceição Evaristo A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio ecoou lamentos de uma infância perdida A voz de minha avó ecoou obediência aos brancosdonos de tudo A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato O ontem o hoje o agora Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância O eco da vidaliberdade Poemas de recordação e outros movimentos p 1011 RESUMO O objetivo dessa dissertação é analisar a relação existente entre o racismo estrutural o imperialismo e o proibicionismo no que tange ao uso da cannabis medicinal no Brasil e a sua proibição Elaboramos como hipótese de pesquisa que a proibição da maconha no Brasil se constitui como um traço do racismo estrutural sendo este um elemento constitutivo e dinâmico no desenvolvimento do capitalismo brasileiro associado à composição de interesses econômicos da indústria farmacêutica estadunidense e brasileira na comercialização de medicamentos à base de cannabis sativa Imperialismo e capitalismo dependente constituem portanto duas faces de um mesmo projeto de dominação burguesa Partimos do pressuposto que por conta do sistema de opressão capitalismo racismopatriarcado há um objetivo de apagamento da memória dos povos originários negros as e indígenas que se mostra através da criminalização dos seus costumes e das suas práticas médicoreligiosas a classe dominante elege como conhecimento legítimo os saberes dos homens brancos e deslegitima a sabedoria das parteiras benzedeiras e mãesdesanto Palavraschave maconha criminalização povos originários ABSTRACT The objective of this dissertation is to analyze the relationship between structural racism imperialism and prohibitionism regarding medicinal cannabis in Brazil We elaborated as a research hypothesis that the prohibition of marijuana in Brazil constitutes a trait of structural racism which is a constitutive and dynamic element in the development of Brazilian capitalism associated with the composition of economic interests of the US pharmaceutical industry in the marketing of medicines based on cannabis sativa Imperialism and dependent capitalism are therefore two faces of the same project of bourgeois domination We assume that due to the capitalismracismpatriarchy system of oppression there is an objective of erasing the memory of native black and indigenous peoples which is translated through the criminalization of their customs and their medical religious practices the ruling class elects as legitimate knowledge the knowledge of white men and delegitimizes the wisdom of midwives healers and saintmothers Keywords marijuana criminalization native peoples LISTA DE SIGLAS ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária BPC Benefício de Prestação Continuada CBD Canabidiol CID Código Internacional de Doenças CNDSS Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNFE Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes COFEN Conselho Nacional de Entorpecentes CONAD Conselho Nacional Antidrogas CONFEN Conselho Federal de Entorpecentes CONITEC Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias DSS Determinantes Sociais da Saúde FMI Fundo Monetário Internacional FUNAI Fundação Nacional do Índio FUNAD Fundo Nacional Antidrogas FUNCAB Fundo de Prevenção Recuperação e de Combate às Drogas de Abuso INFOPEN Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias OMS Organização Mundial da Saúde ONU Organização das Nações Unidas PAF Programa Anemia Falciforme PNAD Política Nacional Antidrogas PSF Programa Saúde da Família PT Partido dos Trabalhadores SENAD Secretaria Nacional Antidrogas SISNAD Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SNC Sistema Nervoso Central SUS Sistema Único de Saúde THC Tetrahidrocanabinol UFMG Universidade Federal de Minas Gerais LISTA DE TABELAS Tabela 1 Levantamento etnobotânico das plantas medicinais65 Tabela 2 Despesas liquidadas totais e relativas à Lei de Drogas no Estado do Rio de Janeiro118 Tabela 3 Comissão Especial da Câmara dos Deputados PL3992015 136 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Propaganda dos cigarros Grimault ou cigarros Índios 26 Figura 2 Negros escravizados fumando maconha no cachimbo Pito de Pango27 Figura 3 Anúncio do Jornal Diário Popular 194740 Figura 4 Anúncio divulgado no site O tempo41 Figura 5 Ala da APEPI na Marcha da Maconha em 2014 Rio de Janeiro149 SUMÁRIO INTRODUÇÃO GERALp11 CAPÍTULO 1 NEGROS AS ESCRAVIZADOS AS MACONHA E RACISMO Introdução 11 Do Pito do Pango à cannabis medicinal a maconha no Brasil e no mundop18 12 Racismo na formação social brasileirap30 CAPÍTULO 2 PATRIARCADO EXPROPRIAÇÕES E SABERES Introdução 21 Negros as e indígenas os guardiões ães do saberp58 22 Expropriações e controle dos corpos femininos p87 CAPÍTULO 3 GUERRA ÀS DROGAS DIREITO À SAÚDE E O ACESSO A CANNABIS MEDICINAL NO BRASIL Introdução 31 Guerra às drogas Reflexões sobre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo brasileirop98 32 Direito à saúde e o acessodireito à cannabis medicinal em questão p121 Considerações Finaisp144 Referências Bibliográficasp150 13 INTRODUÇÃO GERAL A questão da democracia começa por ser um desafio a desobediência civil sistemática e generalizada gerando no presente a negação da ditadura de minorias poderosas e sua substituição por uma democracia organizada pela e para a maioria pois não poderá haver democracia em outras condições FERNANDES 1980 p 129 A cannabis sativa popularmente conhecida como maconha no Brasil apresenta na atualidade significativa melhora na sintomatologia de determinadas doenças como Fibromialgia Mal de Parkinson Epilepsia Refratária Dores Crônicas Ansiedade Depressão e Transtorno do Espectro Autista O termo sativo é originário do latim e significa o que se cultiva o que não é nativo ou o que não é selvagem CARNEIRO 2002 p 207 Hoje em dia no Brasil o uso da maconha é proibido de acordo com a Lei 11343 de 2006 conhecida como a Lei de Drogas que promulga em seu art 2º Ficam proibidas em todo o território nacional as drogas bem como o plantio a cultura a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar bem como o que estabelece a Convenção de Viena das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 a respeito de plantas de uso ritualísticoreligioso BRASIL 2006 Dessa forma mesmo com comprovação científica dos benefícios terapêuticos da planta a proibição representa um grande empecilho para pacientes que necessitam desse tipo de medicamento para o tratamento de determinadas doenças ou seja a luta pela cannabis medicinal se traduz em uma luta pelo direito à vida Assim começo essa dissertação com uma frase de Bertolt Brecht Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio A presente dissertação tem como objetivo compreender como se entrecruzam o racismo estrutural o imperialismo e o proibicionismo no que diz respeito à proibição da maconha no Brasil entendendo que o Brasil se insere na economia mundial como um país de capitalismo dependente de acordo com o sociólogo Florestan Fernandes e que o racismo estrutural perpassa todas as relações sociais e de produção Ressalto que esse trabalho não é somente sobre a luta pelo acesso à cannabis medicinal no Brasil é também e principalmente sobre o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado que tem suas bases na exploração e expropriação de corpos territórios e saberes principalmente de povos originários negros as e 14 indígenas que tiveram suas práticas médicoreligiosas criminalizadas pela classe dominante estigmatizando o uso das ervas medicinais entre elas a maconha O objeto desta pesquisa circunscrevese em torno do racismo estrutural que foi a base para a proibição da maconha no Brasil encabeçada pelos Estados Unidos através do que se convencionou chamar Guerra às Drogas já destacando que a guerra nunca foi e nunca será contra as drogas e sim contra um alvo predeterminado majoritariamente jovens negros e negras periféricos as Ressaltamos que nesse trabalho não utilizaremos o termo drogas e sim psicoativos por considerarmos que o termo droga ainda está socialmente carregado de estigmas e preconceitos o que lhe confere um caráter pejorativo Esse tema atravessa aspectos sociais econômicos e ideopolíticos uma vez que a proibição da maconha no Brasil se apresenta em duas faces por um lado promove o apagamento da memória de povos originários negros as e indígenas ao mesmo tempo em que alimenta a rica indústria farmacêutica estadunidense pois para ter acesso aos medicamentos à base de cannabis sativa é necessário importálos dos Estados Unidos ou da Europa A maconha chegou ao Brasil através dos as negros as africanos as escravizados as e por isso foi introduzida em rituais das religiões de matriz africana umbanda e candomblé o que agudizou a já tão dura perseguição e criminalização que se configura em uma das expressões do racismo estrutural na formação social brasileira Apesar da utilização de ervas medicinais em rituais de cura física e espiritual estarem presentes na vida cotidiana de inúmeros povos desde a Antiguidade a sabedoria popular também foi criminalizada e o exemplo disso foi a chamada Caça às bruxas que teve início na Europa e no Brasil ganhou o nome de Inquisição O principal alvo Mulheres negras curandeiras em sua maioria pertencente às camadas mais pauperizadas da população que utilizavam seus conhecimentos ancestrais nos processos de cura As práticas de cura realizadas pelos indígenas também foram exterminadas ou seja todo o conhecimento que difere da medicina dos homens brancos dos conhecimentos ditos hegemônicos pela classe dominante não são aceitos A criminalização tem sexo raça e classe e dessa forma por trás da relação entre o uso de psicoativos e o comportamento social considerado fora dos padrões pela classe dominante há os interesses econômicos e ideopolíticos camuflados no discurso de preocupação com a saúde e o bemestar da população Assim a classe 15 dominante é que define quais substâncias são consideradas remédios e quais são consideradas drogas Dessa forma queremos com esse trabalho denunciar que negros as indígenas e mulheres sofreram e sofrem expropriações de todo tipo desde suas terras até a sua sabedoria ancestral passando por diversas formas de extermínio do corpo físico de seus hábitos e costumes com o objetivo de tornálos invisíveis Com esse trabalho queremos resgatar a história e erguer a voz dos povos originários como nos chama o imperativo que é título do livro da escritora Bell Hooks1 Como mulher negra ressalto a importância da luta para que possamos ocupar todos os espaços principalmente os que são ocupados hegemonicamente por homens brancos Assim para entender a lógica de dominação do sistema capitalista e suas múltiplas determinações nos propomos a analisar a relação capitalismoracismo patriarcado isto é a interseção sexo raça e classe pois ao observar o racismo estrutural presente na proibição da maconha no Brasil destacamos três pontos o primeiro a proibição acentua o encarceramento em massa pois o principal alvo da Guerra às drogas é a população negra segundo a proibição impede que as classes mais pauperizadas tenham acesso aos tratamentos médicos à base de cannabis sativa pois tratase de um tratamento caro terceiro as mulheres negras e indígenas foram as primeiras curandeiras perseguidas e exterminadas e na contemporaneidade representam a parcela mais vulnerável da população considerando que em uma sociedade patriarcal a responsabilidade do cuidado com a casa e com os filhos recai sobre essas mulheres Ou seja sexo raça e classe estão historicamente relacionados de forma indissociada Veremos também que ocupando a última posição na hierarquia social vindo depois até mesmo dos homens negros para as mulheres negras muitos fatores vão impactar negativamente na sua saúde como falta de saneamento básico desemprego não acesso à educação Dessa forma o racismo é um determinante social da saúde e justamente por 80 da população usuária do SUS ser composta por negros as o 1 bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville uma cidade rural do estado de Kentucky no sul dos Estados Unidos Formouse em literatura inglesa na Universidade de Stanford fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia Seus principais estudos estão dirigidos à discussão sobre raça gênero e classe e às relações sociais opressivas com ênfase em temas como arte história feminismo educação e mídia de massas Alguns livros da autora Anseios raça gênero e políticas culturais Olhares negros raça e representação E eu não sou uma mulher Mulheres negras e feminismo Ensinando a transgredir a educação como prática da liberdade 16 racismo institucional se mostra através da falta de atendimento médico de medicamentos etc Desta feita construímos como hipótese da nossa pesquisa que a proibição da maconha no Brasil se constitui como um traço do racismo estrutural conceito elaborado pelo filósofo Silvio Almeida que será aprofundado posteriormente sendo este um elemento constitutivo e dinâmico no desenvolvimento do capitalismo brasileiro associado a composição de interesses econômicos da indústria farmacêutica estadunidense na comercialização de medicamentos à base de cannabis sativa Imperialismo e capitalismo dependente constituem portanto duas faces de um mesmo projeto de dominação burguesa O racismo estrutural perpassa pelo apagamento de personagens importantes da história do Brasil que são os indígenas negros as e mulheres considerados como inferiores ou primitivos pela historiografia oficial Dessa forma partimos da premissa que a história do Brasil foi construída por uma elite branca patriarcal e cristã que destituiu a sabedoria popular dos povos originários criminalizando suas práticas médicoreligiosas e exterminandoos Dito isso apesar do capitalismo ser posterior ao racismo e ao patriarcado ele se apropria deles para se reproduzir assim a condição social das mulheres tem determinações concretas ao longo da história e por isso é necessário buscar entender essas determinações históricas e econômicas numa perspectiva de totalidade Diante da hipótese apresentada surgiram algumas perguntas que são eixos estruturantes da pesquisa a criminalização da maconha é seletiva ou seja expressa uma perspectiva de sexo raça e classe Quais são os interesses econômicos e ideopolíticos por trás da proibição Como o racismo se expressa na Política de Saúde Perante essas perguntas o fio condutor dessa pesquisa é analisar o racismo estrutural no capitalismo dependente brasileiro que fomentou a criminalização da maconha como forma de retroalimentar a indústria farmacêutica estadunidense isto é a relação de subordinação consentida do Brasil ao imperialismo estadunidense A pesquisa tem como objetivo geral investigar como o racismo estrutural atravessa a criminalização do uso da cannabis e que atualmente constitui empecilho para os pacientes que precisam de tratamento2 à base dessa substância e como objetivos específicos analisar o racismo estrutural como eixo estruturante na formação social brasileira bem como identificar o uso ritualísticoreligioso das plantas 2 A cannabis sativa tem sido usada no tratamento de epilepsia refratária diabetes mal de Parkinson fibromialgia dores crônicas ansiedade autismo e depressão 17 particularmente da cannabis sativa principalmente entre os negros indígenas e mulheres identificar a relação entre o proibicionismo e o imperialismo estadunidense destacando os interesses econômicos e ideopolíticos da guerra às drogas e como essa realidade se manifesta na realidade brasileira apresentar os projetos de disputa diferentes e antagônicos da saúde no Brasil e as concepções de saúde para negros e indígenas e como o racismo institucional afeta as mulheresmães negras Para alcançar os objetivos propostos neste trabalho será utilizado um conjunto de procedimentos metodológicos que incluem o método e as técnicas de pesquisa No que tange ao método elegemos o materialismo histórico dialético método utilizado por Marx que propõe analisar a sociedade capitalista e suas múltiplas determinações Para Marx o objeto da pesquisa no caso a sociedade burguesa tem existência objetiva não depende do sujeito do pesquisador para existir O objetivo do pesquisador indo além da aparência fenomênica imediata e empírica por onde necessariamente se inicia o conhecimento sendo essa aparência um nível da realidade e portanto algo importante e não descartável é apreender a essência ou seja a estrutura e a dinâmica NETTO 2011 p 22 Essa pesquisa tem caráter bibliográfico que de acordo com Gil 2002 p 44 é desenvolvida com base em material já elaborado constituído principalmente de livros e artigos científicos O caminho percorrido foi a leitura de material bibliográfico utilizando também algumas notícias de jornais antigos que trazem reportagens sobre o livre comércio da maconha de forma medicinal em farmácias e boticas antes da proibição O trabalho está dividido em três momentos no primeiro capítulo abordaremos sobre a história da maconha no Brasil e no mundo e o racismo estrutural como fio condutor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro Para tanto utilizaremos a bibliografia dos seguintes autores Florestan Fernandes Silvio Almeida Clóvis Moura Henrique Carneiro e Luísa Saad O segundo capítulo tem como objetivo mostrar a relação entre o uso das plantas na medicina e nos rituais religiosos de cura ações protagonizadas por mulheres que foram duramente perseguidas pelo que se convencionou chamar Caça às bruxas tendo em vista o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado e as expropriações causadas pelo mesmo Nesse capítulo dialogamos com os autores Silvia Federici Mirla Cisne e Luiz Sávio Almeida O terceiro capítulo mostra a estreita ligação entre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo no que tange a proibição ao uso dos psicoativos bem como a relação dessa proibição com a criminalização da pobreza através do encarceramento 18 em massa e da Guerra às drogas mostrando como o racismo se manifesta na realidade brasileira na atualidade Analisamos também como as variadas facetas da criminalização incidem negativamente na saúde de negros as e indígenas e por último mostraremos como está se dando a luta pelo direito à cannabis medicinal no Brasil na contemporaneidade Para tal fim dialogamos com os autores Loïc Wacquant Virgínia Fontes Ellen Wood Cristina Brites e Daniela Ferrugem Destacamos nesse trabalho a importância desse tema para o Serviço Social e para a Saúde Coletiva pois de acordo com o art 196 da Constituição Federal de 1988 A saúde é direito de todos e dever do Estado garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção proteção e recuperação constituindo um dos deveres do Assistente Social de acordo com o art8º do Código de Ética Profissional empenharse na viabilização dos direitos sociais dasos usuáriasos através dos programas e políticas sociais O direito à saúde é dever do Estado porém quando se trata de medicamentos à base de maconha é a população por meio de associações que tem lutado para garantir esse acesso algumas através de atos de desobediência civil Que esse trabalho possa ser nos termos de Florestan Fernandes 1975 um escrito como peça de combate contra toda e qualquer forma de discriminação e preconceito em defesa da saúde pública e de políticas públicas que garantam que todos tenham acesso igualitário ao tratamento com a cannabis medicinal Esse trabalho é um convite para questionarmos as nossas próprias verdades 19 CAPÍTULO 1 NEGROS AS ESCRAVIZADOS AS MACONHA E RACISMO Introdução Esse capítulo tem como objetivo mostrar a história da maconha no Brasil e no mundo ressaltando que desde a Antiguidade ela representou uma mercadoria de grande valor econômico através das fibras de cânhamo foi e ainda é utilizada no tratamento de uma gama de doenças e representou um importante elemento em rituais das religiões de matriz africana umbanda e candomblé Nos fins do século XIX remédios à base de cannabis sativa eram comercializados livremente em farmácias e boticas brasileiras até o momento de sua proibição Como veremos a criminalização da maconha no Brasil teve como base uma legislação racista que tinha como objetivo proibir práticas e costumes dos povos originários negros as e indígenas Dessa forma a proibição da maconha no Brasil é expressão do racismo que é um elemento estruturante e estrutural na formação social brasileira que contorna as relações sociais e de produção 11 Do Pito do Pango à cannabis medicinal a maconha no Brasil e no mundo Maconha em pito faz negro sem vergonha Ditado oitocentista brasileiro Como podemos ver no dito popular supracitado que ficou conhecido no Brasil em 1830 a maconha desde os primórdios esteve carregada de estigmas e preconceitos associavase o seu uso à insubordinação e à preguiça dos as negros as escravizados as Segundo Carneiro 2019 a história da maconha no Brasil se manifesta em três dimensões diferentes a dos usos industriais a dos usos medicinais e a dos usos como forma de lazer em contextos clandestinos e de ilicitude e vinculada aos mecanismos de coerção repressão e controle das camadas populares subalternas especialmente por um viés racial evidente no encarceramento e nas vítimas de homicídios Ao aprofundar os estudos com relação à história da maconha verificamos a sua estreita ligação com a formação social brasileira não só pelo fato dos cordames3 das embarcações no período colonial serem feitas de fibras de cânhamo mas também pela sua aplicação no tratamento da sintomatologia de diversas doenças O uso ritualístico 3 Cordames é o conjunto de todos os cabos que pertencem ao aparelho de um navio 20 religioso nos cultos de matriz africana umbanda e candomblé apesar de pouco documentado também foi um elemento importante presente nessas religiões como veremos adiante A cannabis sativa recebendo vários nomes ao longo do tempo haxixe cânhamo diamba fumo de negro fumo dAngola erva do diabo pito de pango liamba riamba cânhamodaíndia entre outros ficou popularmente conhecida como maconha no Brasil De acordo com Silva 2010 biologicamente a maconha pertence à família Cannabacea que é uma família botânica de Angiospermas ou seja plantas com flores sendo que um dos mais famosos gêneros desta família é a Cannabis que inclui a espécie Cannabis Sativa cujo uso medicinal será estudado nesse trabalho Segundo Crippa Zuardi e Hallak 2010 o interesse na Cannabis Sativa diz respeito a uma molécula específica chamada canabidiol ou CBD4 Para sua produção é feita a extração da espécie cannabis sativa fêmea que contém várias substâncias entre elas o CBD e o THC tetrahidrocanabinol5 esse último é o que contém as substâncias psicoativas Tanto o cânhamo quanto a maconha são plantas da família cannabis o que os diferencia é a forma de extração para a produção do cânhamo são cultivadas as sementes fibras e caule Além disso ele contém no máximo 03 de THC tetrahidrocanabinol Esse número é bem reduzido se comparado a maconha e sua extração se faz através do cultivo de suas flores não utilizando caule nem fibras tem maior teor de THC e menor de CDB ou seja efeitos psicoativos mais presentes A cannabis sativa possui plantas femininas e masculinas mas a utilização da cannabis na forma medicinal é a que representa a floração feminina que produz terpenos terpenóides e canabinóides6 De uma certa maneira a história do Brasil está intimamente ligada à planta Cannabis sativa L desde a chegada à nova terra das primeiras caravelas portuguesas em 1500 Não só as velas mas também o cordame daquelas frágeis embarcações eram feitas de fibra de cânhamo como também é chamada a planta Aliás a palavra maconha em português seria um anagrama da palavra cânhamo CARLINI 2006 p1 Segundo documento oficial do Ministério das Relações Exteriores do Brasil 1959 A planta teria sido introduzida em nosso país a partir de 1549 pelos negros as africanos as escravizados as como alude Pedro Correa e as sementes de 4CBD ou Canabidiol é uma das substâncias químicas encontradas na cannabis sativa 5Tetrahidrocanabinol ou dronabinol é a principal substância psicoativa encontrada nas plantas do gênero Cannabis 6 Disponível em httpsapepiorglivreto Acesso em 20042020 21 cânhamo eram trazidas em bonecas de pano amarradas nas pontas das cangas7 De acordo com Cunha 2007 era comum os viajantes levarem dentro dos seus bolsos as diversas sementes Foi assim por exemplo que a soja saiu da China e foi para os Estados Unidos O ser humano ao viajar carregava consigo suas sementes As conquistas de territórios e as relações interpessoais o auxiliavam para que as mudanças de moradia fossem acompanhadas pelas mudanças de cultivares Os agricultores migravam e levavam consigo seus principais cultivos No Brasil diversas etnias de origem indígena e africanas possuem fortes relações culturais com as sementes crioulas especialmente com o milho o feijão e as cucurbitáceas CUNHA 2007 p 85 Para os as africanos as o ato de carregar sementes está ligado à sua ancestralidade origem e sobrevivência pois para qualquer lugar que fossem poderiam plantar essas sementes para o sustento e manutenção da saúde de suas famílias No período colonial a maconha tinha um grande valor econômico Em meados do século XVIII foi instalada no Rio Grande do Sul a Real Feitoria de Linho Cânhamo empreendimento da Coroa Portuguesa com o objetivo de melhorar a economia da metrópole o que demonstra as contradições e interesses econômicos e ideopolíticos por trás da planta Esse empreendimento não foi nada modesto como abordaremos ao longo desse capítulo A maconha também foi amplamente utilizada nos cultos de matriz africana tanto no candomblé quanto na umbanda Como forma do indivíduo se conectar com as entidades divinas era utilizada nos rituais de iniciação como a lavagem de cabeça Por esse motivo os que utilizavam foram perseguidos tendo alguns artigos médicos corroborado com as autoridades para criação de uma legislação com o objetivo de reprimir seu uso ligando a maconha e a umbanda à loucura e à feitiçaria BARROS NAPOLEÃO 2015 p171 De toda a história que envolve a maconha o uso do cânhamo foi o mais bem documentado a sua aplicação representou uma fonte de fibras resistente para a confecção de tecidos e de papéis que tinham excelente qualidade tanto que em 1830 Johannes Gutenberg8 utilizou papel de cânhamo para produzir as 135 primeiras Bíblias impressas do mundo inclusive um desses exemplares está localizado no acervo da Biblioteca Nacional na Cinelândia Rio de Janeiro 7 Trecho de documento oficial do Ministério das Relações Exteriores de 1959 E Carlini A História da Maconha no Brasil in E Carlini e outros Cannabis sativa L e substâncias canabinóides em medicina São Paulo CEBRID Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas 2006 p 1 8Johannes Gutenberg foi um inventor gravador e gráfico do Sacro Império RomanoGermânico 22 Das civilizações que floresceram na Ásia aquelas resultantes da colonização da América passando pelas que prosperaram na Europa na África e na Oceania praticamente todas em determinada altura de suas existências utilizaram por vezes em grande quantidade as fibras do cânhamo para entre tantas outras coisas vestir suas populações equipar os seus navios com cordas e velas FRANÇA 2015 p 7 No século XV o cânhamo foi cultivado na França em Portugal e na África destinado à confecção de cordas cabos velas e material de vedação dos barcos que inundavam com frequência em longas navegações O produto obtido de suas fibras dotado de rigidez e elasticidade proporcionava às caravelas uma enorme velocidade BARROS PERES 2015 No Brasil desde o início da colonização a planta cannabis sativa ou maconha cânhamo esteve presente já que as velas e os cordames das embarcações também eram feitas de cânhamo De acordo com Carlini 2006 não só as velas mas também o cordame daquelas frágeis embarcações eram feitas de fibra de cânhamo como também é chamada a planta Após o Reinado de Ouro de Dom João V a sobrevivência do Império Colonial passava por dificuldades a modernização da metrópole dependia basicamente da diversificação da produção agrícola do Brasil e foi assim que se introduziu a cultura do cânhamo no Brasil para fins comerciais Como dito anteriormente a tentativa se deu através do investimento em um grande empreendimento denominado Real Feitoria de Linho Cânhamo RFC instalada no Rio Grande do Sul em 1783 no período colonial No Vicereinado do Marquês do Lavradio fizeramse as primeiras experiências com pequenas sementeiras no Rio de Janeiro Santa Catarina e Rio Grande Contudo foi somente com a sucessão de Luiz de Vasconcellos Souza que as experiências iniciais com a planta deram lugar à formação da RFC no Rio Grande Assim em 10 de outubro de 1783 no distrito de Canguçu da Freguesia de Rio Grande extremosul da América Portuguesa instalouse a Feitoria MENZ 2005 p 141 Esse empreendimento teve como organizador e primeiro administrador o Padre Francisco Xavier Prates que era professor do Mosteiro de São Bento e do Convento Santo Antônio no Rio de Janeiro Faleceu em 1784 tendo seu irmão Paulo Xavier Rodrigues Prates se tornado mais tarde proprietário da região da cidade de Canguçu e da ilha da Feitoria e de todo o Rincão do Canguçu através da concessão do regime de sesmarias na cidade de Pelotas Para a organização da Real Feitoria Linho Cânhamo Para o trabalho foram enviados 21 casais de escravos pertencentes à Fazenda Real de Santa Cruz no Rio de Janeiro Os esforços deveriam ser concentrados no plantio pois de nenhum modo se devem formar fábricas de cordoaria ou de qualquer outro tecido e apenas se poderão fazer algumas experiências numa clara alusão à divisão colonial do trabalho MENZ 2005 p 141 23 Essa divisão colonial do trabalho consistiria em além da plantação do cânhamo e do trabalho na infraestrutura do empreendimento os as negros as escravizados deveriam cultivar os produtos para sua própria subsistência dessa forma os senhores diminuiriam os custos já que parte desse cultivo poderia ser vendido para os mercados locais com objetivo de instaurar um regime de plantation9 Os soldados europeus foram designados para trabalhar como feitores já que possuíam conhecimento da cultura do cânhamo isto é cada soldado ficaria responsável por 10 escravizados as Esses soldados tinham conhecimento da cultura do cânhamo mas pouco conhecimento sobre os produtos típicos do Brasil ou seja boa parte da produção ficaria dependente somente dos esforços dos as escravizados as A principal ação para o estabelecimento do regime de plantation é o afastamento dos negros as escravizados as do seu ambiente com o intuito de fazêlos esquecer suas origens e se adaptar o mais breve possível à nova vida a dessocialização do elemento servil processada pelo tráfico como um dado fundamental na constituição do escravismo ou seja o escravo deveria ser arrancado de sua comunidade original dessocializado para então ser ressocializado em um mundo totalmente novo a plantation Se sobrevivesse a sua passagem pela forma mercadoria ultrapassando o período de adaptação poderia receber um pedaço de terra fazer novas amizades integrandose no ritmo da empresa escravista MENZ 2005 p 143 grifos nossos Com essa experiência na agricultura local os as escravizados as começaram a trabalhar mais na produção que era de sua subsistência que na plantação do cânhamo o que provocou a ira dos organizadores e administradores do empreendimento Aos poucos iase construindo em torno deles uma rede de interesses privados governadores letrados artesãos comerciantes da capital todos interessados em subtrair os escravos da plantation Os escravos estimulavam este tipo de vínculo assim escapavam do trabalho mais duro na Feitoria para vender suas plantações e exercer trabalho doméstico ou urbano que lhes permitia uma maior liberdade Com estas práticas também ganhavam o apoio de homens poderosos da Corte portoalegrense em seus conflitos com os administradores da RFC MENZ 2005 p 147 Essa ação foi encarada pela classe dominante como desobediência dos as escravizados as chamados de insolentes Rafael Pinto Bandeira que era Governador do Rio Grande do Sul na época havia proibido os castigos aos escravizados as da Real Feitoria de Linho Cânhamo Insatisfeitos com as posturas dos escravizados as assume o empreendimento em 1801 o Padre Antônio Gonçales Cruz De acordo com Menz 9 O plantation proporcionava o chamado comércio triangular em que os produtos tropicais eram vendidos na Europa em troca de tecidos armas e álcool que por sua vez eram oferecidos aos mercadores africanos em troca de escravizados Estes eram levados às colônias para trabalhar nos latifúndios monocultores que produziam produtos tropicais mantendo dessa forma este ciclo comercial 24 2005 nessa época os as escravizados as da Feitoria estavam assim distribuídos as 21 oficiais 45 economia natural 84 cultura e benefício do cânhamo 79 inválidos as 4 doentes 3 em galés10 e 4 sotafeitores O que isso significa Na categoria de oficiais estão incluídos ferreiros carpinteiros alfaiates oleiros e aprendizes Consideramos trabalhadores da retaguarda natural os campeiros os empregados nos cultivos de sustento os empregados na fazenda as costureiras e as cozinheiras Na cultura e beneficiamento do cânhamo estão contabilizados os empregados no cultivo do linho as fiadeiras e as tecedeiras Temos ainda os sotafeitores feitores subordinados os doentes os presos em galés e os inválidos na maioria crianças de até dez anos MENZ 2005 p 148 Conforme ressalta o autor além dos doentes inválidos e cumprindo penas em galés os regimes de plantation também utilizavam o trabalho escravizado de crianças de até dez anos Desta feita o novo inspetor começou a realizar reformas com o objetivo de submeter toda a escravaria ao regime de plantation fato que causou a revolta dos as escravizados as que fizeram um requerimento ao Governador contra o Inspetor De acordo com Menz 2005 os as escravizados as atuavam tanto no campo legal com a formulação de requerimentos como fora dele com pressões e intimidações mas sem chegar à violência explícita Menz 2005 ressalta que em contrapartida começaram a punir com cinquenta açoites e prender os as escravizados as que fossem considerados as desobedientes O Pe Cruz tentou implementar uma prática muito comum no Brasil colonial que era o uso dos as próprios as escravizados as na punição de seus companheiros as o que causou repugnância e uma resistência passiva levando à punição dos recalcitrantes ressalta Menz 2005 Como não há documentos que comprovem supõese que o Padre Cruz foi assassinado pelos as escravizados as em 14 de dezembro de 1814 tamanha era a revolta e a falta de conciliação dos conflitos entre ele e os escravizados as Com a manifestação dos as escravizados as através das fugas e rebeliões e a falta de habilidade em lidar com as relações entre os as escravizados as a região do Rio Grande do Sul começou a destinar seus esforços à pecuária e pôs fim a Real Feitoria de Linho Cânhamo em 1824 que foi posteriormente transformada em uma colônia de alemães MENZ 2005 p 150 A matéria do jornalista Carlos Mosmann 2020 sobre a história da Real Feitoria de Linho Cânhamo aponta elementos do racismo estrutural na formação escolar e na relação com a maconha De acordo com reportagem 10 Entre os séculos XIII e XVII ser condenado a galés significava realizar trabalhos nos barcos de mesmo nome e era considerada uma pena muito severa devido ao trabalho pesado exercido em condições precárias o que geralmente reduzia o tempo de vida dos condenados 25 segundo aprendíamos nos bancos escolares era um empreendimento escravista decadente que não teria dado certo por serem os negros muito preguiçosos Cheguei a ouvir suposições de que o cânhamo é uma planta da família canabis e que isto teria agravado o problema da indolência negra Enfim da Feitoria teria sobrado apenas um prédio onde lá em 1824 foram abrigados os primeiros imigrantes alemães estes sim operosos e forjadores de um futuro próspero para o Rio Grande segundo nossa versão escolar da História MOSMANN 2015 p1 A importância desse grande empreendimento foi apagada dos livros de História como também foi invisibilizada a participação ativa dos negros as escravizados as para colocar fim no regime de plantation A Real Feitoria do Linho Cânhamo foi estabelecida pelo Governo Imperial tinha como objetivo incentivar o plantio do linhocânhamo em subst ituição à importação do linho de riga dos países bálticos Este empreendimento econômico utilizava mão de obra escrava que trabalhava na plantação do linho cânhamo e na produção de cordas e de velas para barcos sendo que o escoamento da produção ocorria pelo rio dos Sinos até Porto Alegre constituindose dessa forma na primeira economia da região MANFREDINI 2006 p 1 Ainda de acordo com Manfredini 2006 esse empreendimento contava com o trabalho de 321 escravizados dado que foi extraído da carta escrita por Jozé Feliciano Fernandes Pinheiro a Jozé Thomas de Lima Assim esse empreendimento tinha três vezes mais escravizados as que uma das maiores charqueadas de Pelotas e Rio Grande do Sul na época ou seja não era nada modesto As fugas ensinou longe de serem episódicas e individuais costumavam ser operações cuidadosamente planejadas antecipadas por uma série de cuidados Sempre havia um lugar onde previamente se deixava escondida uma provisão de alimento e se possível alguma arma E quase sempre o negro fugido levava consigo uma importante quantidade de sementes MOSMANN 2006 p2 Essa citação corrobora com a afirmação descrita acima de que para os as negros as era essencial carregar sementes em suas fugas e rebeliões como forma de se manter conectado à sua ancestralidade e como forma de sobrevivência O autor também chama atenção na referida matéria para o fato de que quando se trata de escravizados geralmente visualizase escravizados homens no entanto na Real Feitoria de Linho Cânhamo que contava com 321 escravizados a metade era composta de mulheres que participaram ativamente das lutas e que juntos conseguiram que não fosse implementado o regime de plantation De acordo com Fraga 2015 essa cultura de se instituir as Reais Feitorias de Linho Cânhamo aconteceram na Espanha França e Rússia chegando em Portugal no século XVII Essas Feitorias não possuíam terras próprias mas ficavam responsáveis 26 pelo recolhimento e armazenamento da produção Percebese que a tentativa de introduzir a cultura do cânhamo no Brasil foi mais uma frustrada tentativa de transplantação de padrões europeus em terras brasileiras utilizandose força de trabalho escravizada Começamos o capítulo com a história desse empreendimento justamente porque nela estão contidos traços importantes da formação social brasileira a qual vamos nos debruçar ao longo desse trabalho A maconha quando vista como fonte de fibras e de grande valor econômico representando um grande investimento para a economia utilizando força de trabalho escravizada era aceita sem rumores porém quando se tratava do uso que os as escravizados as faziam dela em seus momentos de ócio era visto como atos de insubordinação Destacamos também que primeiro os as escravizados as eram obrigados a trabalhar no cultivo do cânhamo para enriquecer os proprietários e qualquer ação fora disso era visto como desobediência indolência segundo o estigma da maconha ligandoa à insubordinação dos as escravizados as terceiro o ocultamento da história e o apagamento dos personagens homens negros e principalmente mulheres negras nos mostram como foi sendo construída no imaginário social tanto a história da maconha quanto a história sobre a escravidão Fatos que abordaremos como maior profundidade no próximo item Com relação ao uso medicinal da cannabis podese afirmar que tem origem na Antiguidade e teve início na China O seu uso medicinal foi utilizado também pelos indianos no combate a uma gama de doenças dentre as quais dor de cabeça dor de dentes reumatismo problemas respiratórios e cólicas menstruais Os registros escritos começam a aparecer no século I aC nos quais a planta é recomendada para combater inúmeros males dores reumáticas constipação intestinal desarranjos no sistema reprodutivo feminino malária e tantos outros Um pouco mais tarde no primeiro século da era cristã HuaTuo conhecido como o pioneiro da cirurgia chinesa utilizou um composto da planta misturado ao vinho para anestesiar pacientes durante suas experiências cirúrgicas FRANÇA 2015 p 12 De acordo com França 2015 da Índia as receitas à base de cannabis migraram para a Europa África e Oriente Médio os cirurgiões e boticários europeus utilizaram essas receitas do século XIII ao XVIII Com o passar do tempo e o surgimento de muitas dessas receitas a medicina começou a se interessar em estudar as possibilidades curativas dessa planta principalmente a partir da quarta década do século XIX Esses acontecimentos deram origem a dois importantes estudos um do 27 professor irlandês Willian OShaughnessy que foi o responsável por introduzir a erva e suas possibilidades terapêuticas no meio científico europeu em 1839 O professor irlandês sempre amparado em relatos de casos sugeria que a planta poderia ser utilizada com sucesso no tratamento do reumatismo da hidrofobia da cólera do tétano e da convulsão a infantil inclusive FRANÇA 2015 p 15 Logo depois em 1845 surgiu o estudo do Dr JJ Moreau Do haxixe e da alienação mental estudos psicológicos abriase então uma nova porta de estudos terapêuticos da planta sobre as doenças mentais Ao término do século XIX a Cannabis constava na lista de componentes de um semnúmero de medicamentos muitos produzidos por prósperas indústrias e disponíveis sem prescrição médica diretamente nos balcões de farmácias de diferentes cidades do mundo como os populares digestivos Chlorodyne e CornCollodium manufaturados pela Squibb Campany FRANÇA 2015 p 16 Após esses estudos as notícias sobre os efeitos inebriantes da erva chegaram ao Brasil de acordo com Carlini 2006 p 2 na segunda metade do século XIX ao Brasil chegaram as notícias dos efeitos hedonísticos da maconha principalmente após a divulgação dos trabalhos do Prof Jean Jacques Moreau da Faculdade de Medicina da Tour na França e de vários escritores e poetas do mesmo país Mas foi o uso medicinal da planta que teve maior penetração em nosso meio aceito que foi pela classe médica A produção da maconha no Brasil intimamente ligada a colonização se disseminou planta que foi considerada oriunda de negros as africanos as escravizados as se espargiu para os indígenas para o homem branco alcançando desde as classes sociais subalternas até as mais abastadas Com finalidades ritualísticas e recreativas a utilização da planta se expandiu para além da senzala sendo incorporada por tribos indígenas em contato com escravos fugidos dos engenhos nordestinos no lugar do nativo tabaco em certos rituais que eram encontrados em quilombos espalhados pelo interior de difícil acesso Entre as tribos que tiveram identificadas o cultivo da maconha aparecem grupos identificados no Baixo e Médio São Francisco guajajaras tenetehara no Maranhão mura no baixo Madeira fulniô de Águas Belas em Pernambuco saterê mawê no Amazonas krahô no Tocantins entre outras FRAGA 2015 p 149 Segundo Santos 2016 p 62 com o passar do tempo alguns grupos indígenas presentes nas Américas incorporaram o uso de maconha em suas práticas medicinais e religiosas Tribos indígenas como os Cuna do Panamá e os Cora Tepehuas e Tepecanos do México usam a maconha em seus rituais religiosos Até início do século XIX a maconha foi utilizada estritamente para fins medicinais e religiosos não sendo discutido nessa época sobre o uso psicoativo da 28 planta talvez por desconhecimento No Brasil em fins do século XIX circulavam livremente os Cigarros Índios vendidos pela Grimault e Cia que eram receitados no combate da asma Figura 1 Propaganda dos cigarros Grimault ou cigarros Índios De acordo com Fraga 2015 o medo da africanização e as iniciativas de embranquecimento da população já mostravam a evidência do seu uso que parecia tão naturalmente difundido Os estudos sobre o uso medicinal e ritualísticoreligioso no Brasil ainda são incipientes isso não deixa de ser um dado importante para a nossa pesquisa pois a história da maconha no Brasil ainda hoje permanece oculta Supostamente originária da Ásia Central e trazida para o Brasil pelos as negros as africanos as escravizados as a planta adaptouse plenamente ao clima tropical do Nordeste região que por conta da cultura açucareira abrigou muitos as escravizados as africanos as Sendo assim o seu uso foi rapidamente disseminado recebendo esse hábito o nome de Canabismo A autoria da introdução da Cannabis e do canabismo na América Portuguesa é pois incerta os africanos para cá trazidos como escravos a partir da metade do século XVI conheciam a planta e apreciavam seus efeitos inebriantes Isso contudo importa pouco já que foram sem dúvida os africanos e seus descendentes que consolidaram o hábito do canabismo na sociedade local Foi a eles que os brasileiros gradativamente associaram o gosto pela diamba bangue maconha fumo de Angola pito de pango riamba liamba etc e seu consumo regular recreativo e relaxante e foram eles que os doutores psiquiatras e juristas do início do século XX ao promoverem um combate feroz ao canabismo resolveram culpar por propagar o nefando vício pela sociedade brasileira FRANÇA 2015 p 2728 29 Com relação ao uso o autor Gilberto Freyre ressalta em sua obra Nordeste que o tabaco pertencia ao hábito aristocrático dos senhores enquanto a maconha fumo de negro era usada pelos as escravizados as Era comum encontrar manchas escuras de tabaco ou maconha entre o verdeclaro dos canaviais Os senhores toleravam a cultura dessas plantas volutuosas tão próprias para encher de langor os meses de ócio deixados ao homem pela monocultura da cana Freyre 1937 Carneiro 1966 reafirma o uso da maconha pelos as escravizados as no Quilombo dos Palmares Da fauna e da flora dos Palmares portanto os negros retiravam grande parte do seu sustento azeite luz a sua vestimenta os materiais com que construíam as suas choças e as cercas de pau a pique com que se fizeram famosos na guerra E nos momentos de tristeza de banzo de saudade da África os negros tinham ali à mão a liamba de cuja inflorescência retiravam a maconha que pitavam por um cachimbo de barro montado sobre um longo canudo de taquari atravessando uma cabaça de água onde o fumo se esfriava Os holandeses diziam que esses cachimbos eram feitos com os côcos das palmeiras Era o fumo de Angola a planta que dava sonhos maravilhosos 1966 p3 Figura 2 Negros escravizados fumando maconha no cachimbo Pito de Pango No interior do Brasil o hábito de fumar maconha se disseminou de tal forma que era possível ver clubes de diambistas que eram vistos algumas vezes como agressivos e perigosos ou como idiotas Já disseminado entre as classes mais pobres e quase incultas dos nossos sertões onde fazia sua obra destruidora a diamba tendia a entrar para o rol dos vícios elegantes Havia preocupação semelhante de que outros vícios do povo como o candomblé e a capoeira subissem para a dita boa sociedade O vício da maconha parecia seguir o caminho contrário 30 dos vícios elegantes ameaçando passar da esfera popular para as casas das famílias dos homens que garantiriam o sucesso da nação sugerindo a verdadeira ameaça aos homens de bem SAAD 2015 p 61 Podese dizer que até então a maconha não era vista exatamente como uma adversidade contanto que não atrapalhasse o trabalho dos nativos e escravizados as para o desenvolvimento da nação vindoura A sua estreita ligação com a cultura de negros as e indígenas veio a se tornar um problema social a partir das décadas iniciais do século XIX quando a elite branca alegava que a Cannabis afetava o comportamento dos as escravizados as tornavao por vezes violento e comprometia o desenvolvimento de suas atividades produtivas França 2015 p 28 fato que deu início às primeiras proibições ao uso da planta como abordaremos no capítulo 2 O problema do maconhismo como era denominado o fenômeno do ponto de vista da medicina seria repetidamente considerado como exclusivo das classes subalternas sobretudo do Norte e Nordeste do país território onde a maconha teria encontrado ainda segundo aquele ponto de vista condições humanas e ecológicas favoráveis de desenvolvimento SOUZA 2015 p30 Contudo em meados do século XX a classe médica brasileira iniciou os estudos sobre as propriedades terapêuticas da planta dando continuidade à sua utilização principalmente no tratamento da insônia bronquite e asma11 Porém apesar de todas as potencialidades descobertas na planta o fato dela estar associada à população negra escravizada e posteriormente indígena fez com que no mesmo século juristas médicos e botânicos vissem o hábito de consumir cannabis como um hábito funesto da raça negra que viera para o Brasil Os doutores brasileiros parecem ter optado por outro caminho concentrar os seus esforços no combate moral ainda que travestido de rigorosa avaliação científica a um hábito derivado do uso da planta que lhes parecia extremamente danoso para o futuro da civilização brasileira o canabismo12 FRANÇA 2015 p19 Segundo Gerber 2019 p 24 A cannabis era empregada em unguentos e pomadas durante a Idade Média CARNEIRO 1994 p 31 A maior parte dos processos de bruxaria na Europa era contra mulheres curandeiras GRAF 2011 p 27 Havia associação das curas realizadas a pactos com o demônio tanto em face de médicos judeus CAMARGO 2014 p 70 quanto em face das práticas de feitiçaria na colônia SOUZA 2014 Devese questionar em que medida este processo histórico foi femigenocida13 pelo assassinato massivo de mulheres na Idade Média Propõese questionar da mesma forma as origens etnocidas da proibição da maconha desde os processos da Inquisição no Brasil para se pensar na devida reparação pelos atos de desaparecimento forçado de saberes 11 12Hábito de fumar ou comer folhas de cannabis ou haxixe 31 crenças e práticas terapêuticas de mulheres diaspóricos e originários de modo a se fazer respeitar outras formas de conhecimento componentes que são do patrimônio comum da humanidade A questão é reconhecer tais saberes como complementares à medicina que desde seu surgimento condenou toda e qualquer prática popular de cura Diante do exposto percebese que a vinculação do uso da maconha à raça negra ao uso que dela faziam as mulheres negras curandeiras indígenas e os esforços empreendidos por médicos brasileiros para combatêla são expressões do racismo estrutural14 termo utilizado pelo filósofo Silvio Almeida e que desenvolveremos a análise no próximo item e de uma sociedade com princípios cristãos brancos e patriarcais Dessa forma mostraremos no próximo item como o racismo se expressa como um elemento estrutural e estruturante para a manutenção do status quo e promove o consequente extermínio de povos originários sendo fio condutor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro perpassando toda a formação social brasileira 12 Racismo na formação social brasileira Analisar a formação social brasileira requer esmiuçar os aspectos políticos econômicos e sociais adentrando as suas particularidades examinando o concreto como uma síntese de múltiplas determinações A colonização brasileira é marcada por uma complexa e dialética dinâmica que mescla os movimentos internos da economia e os dinamismos do mercado mundial relações que no Brasil se deram em caráter de dependência como veremos a seguir FERNANDES 2005 Na formação social brasileira o autoritarismo e o racismo sublinham a política a economia e embasaram o pensamento social brasileiro Alguns autores como Silvio Romero Nina Rodrigues Joaquim Nabuco e Oliveira Viana imbuídos das ideias que floresciam na Europa e nos Estados Unidos propuseram o branqueamento da sociedade como passagem para a modernidade pautado na concepção de que o sangue branco se sobrepunha a qualquer outro Dessa forma houve uma transplantação de projetos liberais de modernidade com base no racismo e na 14 Todo racismo é estrutural porque o racismo não é um ato o racismo é processo em que as condições de organização da sociedade reproduzem a subalternidade de determinados grupos que são identificados racialmente ALMEIDA 2015 32 eugenia15 que determinavam que somente com o autoritarismo e a intervenção estatal alcançaríamos a modernidade Mas como foi construída a tal modernidade Precisamos ressaltar que a história oficial do Brasil foi escrita por uma elite dominante branca cristã e patriarcal que demonstra através da escolha de seus heróis como o aparelho ideológico constrói uma verdadeira obstrução do passado mostrandonos que a história da humanidade é síntese de progresso quando na verdade é síntese de genocídios Destacamos que os objetivos do capitalismo estão ligados à propriedade privada acumulação de capital exploração da força de trabalho e busca pelo lucro e pela concentração de riqueza prestígio social e poder que implicam na captura da subjetividade dos de baixo16 FERNANDES 1975 Assim o processo de modernização custou a vida de muitos trabalhadores perpassando pela destruição da memória de negros as e indígenas até o seu extermínio em uma tentativa de destruir o saber popular da noção de viver em comunidade numa tentativa de afastálos da ancestralidade tudo em nome do desenvolvimento Portanto exploração econômica e dominação ideológica constituem duas faces do projeto burguês de sociabilidade A Europa o epicentro da tal modernidade no qual o colonialismo foi a condição indispensável de formação da própria modernidade a colonialidade do poder colocou a raça e o racismo como princípios organizadores da acumulação do capital Para Mignolo 2017 p 4 a modernidade não é um período histórico e sim a auto narração de atores e instituições que a partir do Renascimento conceberamse a si mesmos como o centro do mundo Walter Benjamim 1938 apud Löwy 2005 no texto Aviso de Incêndio analisado por Michael Löwy faz uma crítica ao ideal de modernidade analisando as Teses sobre o Conceito de História na qual Benjamin vê a necessidade de compreender a história não do ponto de vista dos vencedores e sim do ponto de vista dos vencidos das classes oprimidas mulheres indígenas e negros É imperativo escovar a História a contrapelo ou seja ir contra a versão oficial da História lutar contra a corrente permitindo assim que os verdadeiros heróis dos povos sejam conhecidos e homenageados BENJAMIM 1938 apud Löwy 2005 15 A palavra eugenia deriva do grego e significa bom em sua origem ou bem nascido Consiste em uma série de crenças e práticas cujo objetivo é melhorar a qualidade genética da população justificando que algumas raças são superiores às outras 16 Para Florestan Fernandes os de baixo são os pertencentes às classes sociais subordinadas 33 Conforme Benjamim apud Löwy 2005 a cultura não existiria sem o trabalho anônimo dos excluídos pois os tesouros culturais são construídos através da superexploração da força de trabalho daqueles que são marginalizados pelo sistema Assim o capitalismo promove o apagamento da memória dos de baixo bloqueando o acesso ao passado pois a rememoração serve à libertação pois conhecer sua própria história fortalece a luta dos oprimidos e a luta pode tornarse combustível para romper com a opressão Para a manutenção do status quo no capitalismo a tradição dos vencedores e a tradição dos oprimidos se opõem inevitavelmente É preciso portanto reescrever a história Escrever a história no sentido contrário expressão de Benjamin em sua própria tradução e recusar qualquer identificação afetiva com os heróis oficiais do V centenário os colonizadores ibéricos os poderosos europeus que levaram a religião a cultura e a civilização para os índios selvagens Isso significa considerar cada monumento da cultura colonial as catedrais do México ou de Lima O palácio de Cortez em Cuernavaca como também um produto da guerra da exterminação de uma opressão impiedosa BENJAMIM 1938 apud OWY 2005 p 18 Benjamim apud Lowy 2005 p20 faz uma crítica romântica à modernidade não no sentido de se conservar o passado e sim de através do seu conhecimento organizar uma revolução No que tange ao materialismo histórico dialético Benjamin não concebe a revolução como resultado natural do progresso mas como a interrupção de uma evolução histórica que leva a catástrofe a transformação dos seres humanos em máquinas de trabalho a degradação do trabalho a uma simples técnica a submissão desesperadora das pessoas ao mecanismo social a substituição dos esforços heroicorevolucionários do passado pela piedosa marcha semelhante a do caranguejo da evolução e do progresso Ainda de acordo com o autor em sua tese VIII a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção é a regra A teoria da soberania para a qual o caso de exceção ao desenvolver instâncias de ditadura tornase exemplar quase obriga que a imagem do soberano se realize no sentido do tiranoBENJAMIM 1938 apud LOWY 2005 p 21 Para contextualizar essas teses foram escritas em 1940 quando Benjamin voltase para uma crítica marxista das formas capitalistas de alienação se distanciando das ilusões do progresso Esse debate em torno da memória e do esquecimento é urgente e necessário e diz muito sobre o futuro a ser construído pois a nossa história oficial é um aparelho ideológico de dominação da elite branca patriarcal e cristã que utiliza o falseamento da história dos as negros as apagando por exemplo a história de Zumbi dos Palmares 34 que foi um dos responsáveis por desarticular estruturas de poder em momentos da história do Brasil e elegendo como heróis os escravistas e bandeirantes O Brasil inserese na economia mundial como um país de capitalismo dependente que é uma forma periférica e dependente do capitalismo monopolista associando as formas nacionais e internacionais do capital financeiro e tem o racismo como elemento estruturante que abarca todo o sistema isto é o Estado brasileiro se forja de forma a permitir e perpetuar o racismo como garantia de manutenção da classe dominante no poder De tal modo os as negro as tiveram um lugar social estabelecido com base na hierarquização por sexo e raça o lugar do negro era ocupando os piores empregos e o lugar da negra era a da empregada doméstica ama de leite e mulata do carnaval Para a autora Lélia Gonzalez 1979 o mito da democracia racial criou o racismo por denegação no Brasil o qual a existência é negada apesar de ser uma realidade impedindo a consciência objetiva do racismo e suas práticas cruéis O racismo é perpetuado de diversas formas a história oficial do Brasil coloca negros as e indígenas em posição de submissão e quase nunca de sujeitos políticos ativos vivendo a dinâmica da sociedade As pesquisas etnográficas majoritariamente evidenciam somente a sua cultura e religião retratando negros as e indígenas como objetos da pesquisa sem descrever sobre a sua real situação No que tange a construção do pensamento social brasileiro conservador aos indígenas foram dados adjetivos como infantis submissos subservientes tendo ocupado papel de destaque na história nacional formulada pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro IHGB somente a partir do século XIX Santos 2018 considera que duas frases uma de Francisco Adolfo de Varnhagen e outra de Karl Fridrich Philip von Martius elucidam bem o lugar que queriam que os indígenas ocupassem Elaborada por Francisco Adolfo de Varnhagen conhecido também por Visconde de Porto Seguro em seu livro História Geral do Brasil antes da sua Separação e Independência de Portugal De tais povos na infância não há história há só etnografia O autor referiase à ideia segundo a qual os povos indígenas estariam em um estado de barbárie e atraso por conseguinte não teriam uma história já que não eram civilizados Tal civilização apenas seria proporcionada pela colonização impulsionada por meio de contato com os europeus SANTOS 2018 p 32 Para Von Martius os indígenas ocupavam um papel inferior na formação social brasileira que precisava ser apagado para formar uma nação nova e organizada Autores brasileiros como Gilberto Freyre Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda 35 corroboraram para a imagem dos indígenas como raça subjugada que desapareceria não só por extermínio físico mas pela transformação do mesmo em mameluco17 Após a Segunda Guerra Mundial a Unesco Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura investiu em pesquisas com rigor acadêmico sobre preconceito de cor e discriminação racial na cidade de São Paulo Nessa pesquisa18 trabalharam o sociólogo Florestan Fernandes e o antropólogo francês Roger Bastide que apontaram para a real situação do negro em sua trajetória social e histórica e que acabaram por desmistificar e negar que no Brasil vivíamos a tal democracia racial Essa pesquisa foi realizada em fins da década de 1940 e início dos anos de 1950 Fernandes e Bastide se preocuparam em relatar a traumatizante passagem dos as ex escravizados as para a condição de homensmulheres teoricamente livres Longe de ser um ato de piedade da Princesa Isabel como romanticamente se diz a abolição da escravidão deve ser encarada como desdobramento das lutas anti escravocratas que faziam pressão através de rebeliões e insurreições e que teve adesão de alguns setores da classe média e profissionais liberais da época Essas revoltas mostram que os as negros as não eram aqueles sujeitos submissos dos livros de história e que participaram efetivamente do processo de abolição da escravidão Fernandes 2008 evidencia o caráter revolucionário dos as escravizados as no processo abolicionista mas pondera sobre a utilização dos mesmos como estratégia dos brancos De um lado a revolução abolicionista apesar de seu sentido e conteúdo humanitários fermentou amadureceu e eclodiu como um processo histórico de condenação do antigo regime em termos de interesses econômicos valores sociais e ideais políticos da raça dominante A participação do negro no processo revolucionário chegou a ser atuante intensa e decisiva principalmente a partir da fase em que a luta contra a escravidão assumiu feição especificamente abolicionistas Mas pela própria natureza da sua condição não passava de uma espécie de ariéte19 usado como massa de percussão pelos brancos que combatiam o antigo regime FERNANDES 2008 p 30 Clóvis Moura 1983 também avalia o papel revolucionário dos as negros as e destaca que eles as eram postergados perante as vitórias Dessa forma O Negro durante a escravidão lutou como escravo por objetivos próprios Mas lutou também em movimentos organizados por outros segmentos sociais e políticos A sua condição de escravo porém levava a que mesmo nesses movimentos ele não fosse aproveitado politicamente Após a Abolição o mesmo acontece O Negro exescravo é acionado em 17 Mamelucos são os filhos oriundos das relações entre brancos e indígenas 18 Essa pesquisa deu origem à obra Brancos e Negros em São Paulo 1955 19 Aríete é uma antiga máquina de guerra que foi utilizada nas Idades Antiga e Média para romper muralhas ou portões de castelos fortalezas e povoações fortificadas 36 movimentos de mudança social e política participa desses movimentos mas é preterido alijado pelas suas lideranças após a vitória dos mesmos MOURA 1993 p 125 Os indígenas também passaram por semelhante processo durante a segunda metade do século XVIII os portugueses criaram o Diretório dos Índios20 que foi responsável por várias intervenções nos hábitos indígenas como a miscigenação através dos casamentos interétnicos trabalho regular e ensino da língua portuguesa no que eles reagiram Entretanto os povos indígenas não ficaram apáticos às pretensões metropolitanas suas ações reações e manifestações foram diversas no mundo colonial agiram conforme a necessidade surgida em seu cotidiano fugindo guerreando negociando adaptandose entre outras Fixandose nas vilas não ficaram inertes à demanda colonial Ao depararem com algum abuso cometido por colonos sobre si ou suas famílias ou quando percebiam que a condição de livres que lhes fora impetrada pela legislação vigente não estava sendo respeitada desenvolveram estratégias na tentativa de mudar aquele panorama SANTOS 2018 p 83 Verificase nessas duas passagens que mesmo negros as e indígenas tendo participado ativamente dos movimentos abolicionistas em prol de sua liberdade e em busca dos seus direitos os as mesmos as eram denegados pela classe dominante branca que agia conforme os seus interesses excluindoos de qualquer possibilidade de emancipação Por conseguinte ainda que fornecendo ingredientes políticos para o movimento apesar de que todas as formas assumidas pelas tensões sociais expressas no comportamento do escravo propiciaram o substrato social para a ação dos abolicionistas é inegável que a atuação daquele não teve nem pode adquirir imediatamente caráter político Notase contudo que não teve mas assumiu configuração política Por intermédios de homens livres que organizam ou lideram o abolicionismo o comportamento do cativo acaba adquirindo uma significação política notável MOURA 1990 p 15 Com as fugas e rebeliões dos escravizados e a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 juridicamente deuse o fim da escravidão no Brasil o que não significa que na prática ela tenha acabado e que a situação do povo negro tenha melhorado muito pelo contrário A inserção dos as negros as na ordem social competitiva não constituía interesse dos senhores de escravizados as que estavam preocupados apenas com a crise da lavoura Desse modo a Proclamação da República em 1889 e a instituição de uma democracia só teoricamente colocou negros as como livres e cidadãos pois nem as leis emancipacionistas prepararam negros as para a sociedade de classes nem houve 20 Diretório dos Índios foi uma lei elaborada em 1755 e tornada pública em 1757 por D José I rei de Portugal através de seu ministro o Marquês de Pombal que dispunha regras sobre os aldeamentos indígenas administradas por um diretor 37 reparação histórica para as atrocidades sofridas por eles As relações de classe se entrecruzam com as de raça pois Aqueles que conseguem varar as barreiras sociais qualificandose como técnicos ou como profissionais liberais logo se defrontam com barreiras raciais Promoção reconhecimento de valor e acesso a vários empregos são negados por causa da condição racial embora os pretextos apresentados escondam as razões verdadeiras FERNANDES 2017 p41 A proibição do tráfico negreiro através de leis que extinguiam a mão de obra escravizada acabou gerando uma crise no sistema de produção era preciso força de trabalho para a nova ordem social Ao invés da inserção da força de trabalho dos ex escravizados as as oportunidades foram dadas ao imigrante que se ajustou perfeitamente ao desejo das elites de embranquecer a sociedade brasileira A importação da mão de obra do imigrante branco acabou substituindo a mão de obra escravizada lançando os as exescravizados as a situações degradantes sem oportunidades de inserção Isto é o mito da democracia racial e o embranquecimento fazem parte de mais um discurso racialista Logo se descobriu que a imigração punha à disposição dos fazendeiros e do crescimento econômico urbano outro tipo de reserva de mão de obra a custos baixos As leis emancipacionistas golpearam ainda mais o modo de produção escravista e fortaleceram as duas preocupações a da preparação do negro para o trabalho livre e da importação de imigrantes como mão de obra barata Por fim prevaleceu a última tendência FERNANDES 2017 p 38 Na transição para o modo de produção capitalista o trabalho era uma das maiores preocupações das autoridades a grande massa que crescia de brancos pobres imigrantes e exescravizados as lutavam por sobrevivência causando uma tensão permanente na classe dominante A inexorável penetração do capitalismo subvertia as regras estamentais de uma sociedade em que numa visão ideal do ponto de vista dos escravistas funções de brancos e negros eram explícitas e sem possibilidade de intercâmbios Brancos passavam a ocupar postos de trabalho historicamente reservados aos escravizados e não podiam ser impedidos porque eram livres Escravizados e forros em contrapartida tinham ocupações que não haviam sido pensadas para eles ainda que sua mobilidade estivesse condicionada à gradação cromática estabelecida por aquela sociedade JACINO 2012 p 22 grifos do autor Assim a modernização e urbanização ocorridas no final do século XIX e início do século XX colocaram negros as em uma posição ainda mais desfavorável e desigual Com uma legislação que restringia a sua oportunidade de inserção no mercado de trabalho livre impedindoos de exercer funções que já estavam habituados nos tempos de escravizados as eles tiveram como principal concorrente o imigrante branco o que dificultou ainda mais a sua inserção na nova ordem social 38 Em vez de uma solução para a alocação da massa de libertos optouse pela imigração europeia com um êxodo de grandes proporções materializando assim a ideologia do branqueamento resultado da transposição para a sociologia e antropologia das teorias de Charles Darwin Essa formulação creditava aos europeus qualidades que julgavamse ausentes nos negros e nos nativos tais como disciplina social saúde física e mental e capacidade de administração da sociedade com uma perspectiva evolucionista JACINO 2008 p 4041 Através da legislação elaborada para desconstruir a instituição escravista associada ao êxodo de imigrantes europeus tinhase como ideal a constituição de uma sociedade moderna nos moldes dos países europeus e o mais distante possível de tudo que para a elite branca significava as Américas e a África Nos estudos feitos por Florestan Fernandes e Roger Bastide sobre a situação de negros as na cidade de São Paulo reflexões que deram origem ao livro Brancos e Negros em São Paulo 1955 os autores afirmam que no período pósabolição as oportunidades ofertadas aos exescravizados as não eram em nada vantajosas nos lugares onde ainda era próspera a agricultura do café a realidade dos as escravizados as libertos as eram as seguintes os exescravos tinham de optar na quase totalidade entre a reabsorção no sistema de produção em condições substancialmente análogas às anteriores e a degradação de sua situação econômica incorporandose a massa de desocupados e de semiocupados da economia de subsistência do lugar ou de outra região FERNANDES 2008 p 35 Até mesmo nos lugares onde a produção gerava altos lucros influenciando nos padrões econômicos e na organização do trabalho os as exescravizados as tinham que concorrer ou com um exército de reserva mantido fora das atividades produtivas ou com a mão de obra europeia que se mostrava mais adaptada ao novo regime de trabalho livre Nenhuma dessas condições proporcionava aos exescravizados as oportunidade real e digna de inserção na nova ordem social competitiva O trabalho livre não contou como uma fonte de libertação do homem e da mulher negros ele os coloca em competição com os imigrantes em condições desiguais Os empregadores consideravam os trabalhadores livres recém chegados uma opção melhor mais racional e compensadora FERNANDES 2017 p 39 Jacino 2012 p 22 afirma que em São Paulo a ideia de modernidade e suas consequências foram maximizadas pelo novo e empreendedor grupo de ricos agricultores As transformações na metrópole implicavam na expulsão de negros as fortemente identificados com o escravismo a ser superado do trabalho e de certos 39 lugares da cidade dando espaço a estrangeiros ou permitindo a ocupação por setores médios e das elites nas regiões centrais então valorizadas Dessa forma não houve nenhum movimento de preparação para os as ex escravizados as Assim os negros as estavam livres porém foram jogados para as franjas da sociedade sem trabalho e sem meios de prover a sua própria subsistência não foram sequer inseridos na sociedade de classes o que acirrou a desigualdade não só social mas principalmente racial entre negros as e brancos no Brasil O processo de industrialização resultou para os as negros as o subemprego e a pobreza A escravidão se esboroou mas o substituto e o sucessor do escravo não foi o trabalhador negro livre mas o trabalhador branco livre estrangeiro ou então o homem pobre livre mestiço ou branco porém sempre marginalizado sob o regime de produção escravista FERNANDES 2017 p 38 O que restou para os as exescravizados as livres no entanto nem sempre assalariados as foi morar em lugares precários subúrbios contando com os piores empregos e mais baixos salários A vida acontecia em volta dessa população porém eles não faziam parte da cidade do desenvolvimento da modernidade Em suma o racismo estrutura o capitalismo dependente21 a manutenção dos condenados do sistema22 se faz retirando até mesmo a possibilidade de venda da sua força de trabalho e quando há a possibilidade é de forma bem precária Assim a expropriação manifestase como forma do capitalismo existir e se reproduzir as desigualdades são funcionais para a lógica de produção e reprodução do capitalismo na medida que se tem uma força de trabalho mais desvalorizada como no caso dos homens negros e na pior situação as mulheres negras O homem negro no entanto foi peneirado ou selecionado negativamente Empurrado para a franja dos piores trabalhos e de mais baixa remuneração ele se sentiu subjetivamente como se ainda estivesse condenado à escravidão FERNANDES 2017 p 39 As relações sociais e de exploração da força de trabalho foram se metamorfoseando ajustando as estruturas do sistema de forma a continuar garantindo o prestígio a renda e o poder da classe dominante deixando fora do processo a classe trabalhadora 21 Florestan Fernandes dialogando com Marx Lenin e Trótsky elaborou o conceito de capitalismo dependente a partir da análise que o desenvolvimento do capitalismo brasileiro não se deu apenas por uma imposição imperialista e sim por uma conjunção de interesses da burguesia nacional e internacional Teve por base a lei do desenvolvimento desigual e combinado onde não houve ruptura do sistema colonial e sim um amálgama entre o arcaico e o moderno 40 Em suma a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino deitando sobre os seu ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano criados pelo advento do trabalho livre do regime republicano e do capitalismo FERNANDES 2008 p 3536 Os as exescravizados as continuavam em condições de sobrevivência de escravizados as passando para um processo de dominação e exploração da classe trabalhadora sob a égide de uma ideologia racista e patriarcal Em síntese a mercantilização do trabalho concorre apenas moderadamente para a mobilização do fator humano muito pouco para a constituição de uma massa de consumidores de efetivo poder aquisitivo e quase nada para a introdução de tendências mais equitativas de distribuição de renda FERNANDES 1968 p 49 Com a imigração europeia há uma alteração na estrutura demográfica na cidade de São Paulo os dados demográficos que Florestan Fernandes traz são de 1893 período pós abolição Só que o fator humano preponderante passou a ser o agente por excelência do trabalho livre o imigrante Em função dos números arrolados os estrangeiros entravam ainda com 62 do contingente da população descrita como branca e correspondiam quase a cinco vezes a população negra e mulata da cidade composta de 14559 indivíduos FERNANDES 2008 p 40 Negros as e indígenas no pós abolição iriam sobreviver para alimentar o subdesenvolvimento as velhas estruturas sociais se manteriam a luta de raça e classe estaria no palco da tão almejada modernidade brasileira Os velhos dilemas se reproduziam O preconceito e a discriminação se ocultavam por trás do tratamento racial assimétrico do branco da classe dominante e de outros tipos de brancos das iniquidades sociais econômicas e culturais da concentração racial da renda e da desigualdade racial extrema e o negro era empurrado a aceitar e a engolir tudo isso Não tinha como lutar e como romper socialmente com a herança da escravidão FERNANDES 2017 p 8182 De acordo com Jacino 2012 a legislação urbana da época explicitava através dos códigos de posturas o desejo de modernizar civilizar isso também significava embranquecer ou seja para a civilização da cidade os as negros as tinham que ser expulsos dos espaços vistos como privilegiados e tinham os seus hábitos criminalizados por exemplo no Código de Posturas de 1850 havia a punição com multa no valor de 6000 seis mil réis se fosse livre e 50 açoites se escravizado aqueles que jogassem água uns nos outros A saúde e a higiene também tinham relevância especial de acordo com Jacino 2012 p 24 a Postura Municipal de maio de 1875 determinava que toda pessoa que tivesse em sua família ou sob sua proteção algum louco furioso o recolhesse ao 41 Hospício de Alienados O lazer era privilégio dos homens bons e de suas famílias divertimento de pobres e negros as eram vistos com desconfiança O ócio para o pobre era crime como adverte o artigo 189 que promulgava toda a pessoa de qualquer sexo ou idade que for encontrada sem ocupação em estado de vagabundagem será mandado se apresentar a autoridade policial para assinar o termo que trata o código do Processo Criminal Percebese então que negros as foram alijados de todas as formas no processo de desenvolvimento do capitalismo não tinham acesso a empregos e quanto tinha eram subalternizados não podiam se encontrar sem ocupação nem aproveitar momentos de lazer tendo as suas práticas médicoreligiosas também criminalizadas O objetivo era de extinguirexterminar a raça negra De acordo com Jacino 2012 p 36 Outro instrumental importante para a compreensão da transição é a tese de que o mercado de trabalho livre não se opôs ao mercado de trabalho escravo ao contrário somavamse e tinham caráter complementar O escravizado despontaria como trabalhador mas sua força de trabalho não era negociada por ele no mercado A condição de trabalhadores que não vendiam a sua força de trabalho teria a partir do fim do tráfico como consequência para os exescravizados um destino incerto como trabalhadores Isto é um processo de arcaização do moderno e modernização do arcaico elementos da velha estrutura social compondo a nova ordem FERNANDES 1975 Para mostrar a situação degradante em que viviam negros e negras na cidade de São Paulo no pósabolição recuperamos um anúncio de emprego do Jornal Diário Popular de 1947 onde anunciavase a contratação de uma empregada branca isso é as mulheres negras não eram contratadas nem para os trabalhos subalternizados 42 Figura 3 Anúncio do Jornal Diário Popular 1947 O anúncio acima é do ano de 1947 porém encontramos uma reportagem de 2019 no site do Jornal O Tempo23 no qual consta um anúncio na cidade de Belo Horizonte Minas Gerais onde o perfil a ser contratado para a vaga de cuidadora de idosos seria de mulheres que não sejam negras nem gordas Figura 4 Anúncio divulgado no site O tempo Percebese então que o racismo se reinventa se mostrando em novas formas expondo que sempre houve a diferença de sexo no que diz respeito ao trabalho algumas situações particulares ainda são vivenciadas pelas mulheres negras Fernandes 2017 ressalta que para os homens foram ofertados os trabalhos sujos trabalhos arriscados a mulher negra mantinha a posição de doméstica ora trabalhando nos afazeres domésticos ora satisfazendo os desejos sexuais do patrão À mulher negra foi dado o papel de objeto sexual de mulata do carnaval amadeleite de criar os filhos dos brancos enquanto os seus estavam sendo criados sozinhos Como todo mito o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra Numa primeira aproximação constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade É por aí também que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito A nomeação vai depender da situação em que somos vistas GONZALEZ 1984 p 228 Para Gonzalez 2020 p202 ainda hoje podemos constatar como as escolas de samba as gafieiras as festas de largo etc são transadas como modernas senzalas onde 23 Disponível em httpswwwotempocombrcidadesanunciodeempregoembhexigecandidatas quenaosejamnegrasougordas12261344 Acesso em 01022021 43 os sinhozinhos brancos vão exercitar sua dominação sexual e a indústria turística está aí mesmo para reforçar e lucrar com essa prática Não é por acaso que o sistema criou a moderna profissão de mulata para as jovens negras continuarem a ser exploradas agora como produtos de exportação Além disso a abordagem de Lélia Gonzalez 1984 traz uma reflexão relacionando sexo raça e classe denominada interseccionalidade inscrevendo para o debate o mito da democracia racial a partir da figura da mulher negra Para a autora o discurso produzido em torno dos negros colocava a mulher negra em uma tríade mulata doméstica e mãe preta Os textos só nos falavam da mulher negra numa perspectiva socioeconômica que elucidava uma série de problemas propostos pelas relações raciais Mas ficava e ficará sempre um resto que desafiava as explicações E isso começou a nos incomodar Exatamente a partir das noções de mulatas doméstica e mãe preta que estavam ali nos martelando com sua insistência GONZALEZ 1984 p225 Para Abdias do Nascimento 2016 os as africanos as escravizados as só tinham um papel na sociedade que era correspondente à sua função na economia ou seja força de trabalho isso quer dizer que eles não mereciam nenhuma consideração como seres humanos no que diz respeito à constituição de uma família A proporção entre homens e mulheres era de uma mulher para cinco homens e as poucas mulheres estavam impedidas de estabelecer qualquer estrutura familiar estável A norma consistia na exploração da africana pelo senhor escravocrata e este fato ilustra um dos aspectos mais repugnantes do lascivo indolente e ganancioso caráter da classe dirigente portuguesa O costume de manter prostitutas negroafricanas como meio de renda comum entre os escravocratas revela que além de licenciosos alguns se tornavam também proxenetas24 NASCIMENTO 2016 p 73 Além disso Jacino 2008 em seu livro O Branqueamento do trabalho apresenta elementos importantes para pensarmos as circunstâncias em que viviam as mulheres negras na transição do trabalho escravizado para o trabalho livre Uma das características do homem livre era a possibilidade de ser provedor da família mas a realidade histórica da mulher negra livre teria sido de garantir a sua própria sobrevivência Essa circunstância gerava tensões adicionais entre cônjuges pois aquela mulher não se enquadrava no padrão que a sociedade branca exigia dela que o homem negro buscava como símbolo do branqueamento que a possibilidade de ascensão social implicava JACINO 2008 p 30 Assim ponderamos que as mulheres negras além das expropriações sofridas ao longo do tempo sem emprego morando em locais insalubres e trabalhando como 24 Proxeneta vulgarmente conhecido como cafetão ou seja procura e administra clientes para uma prostituta 44 empregadas domésticas e amas de leite ainda sofriam a exploração sexual vinda dos escravocratas A mulher negra pagou e paga ainda hoje o preço da herança deixada por Portugal da estrutura patriarcal de família sendo como veremos mais adiante considerada na contemporaneidade a parcela mais vulnerável da população brasileira As mulheres negras brasileiras receberam uma herança cruel ser o objeto de prazer dos colonizadores O fruto desse covarde cruzamento de sangue é o que agora é aclamado e proclamado como o único produto nacional que merece ser exportado a mulata brasileira Mas se a qualidade do produto é dita ser alta o tratamento que ela recebe é extremamente degradante sujo e desrespeitoso NASCIMENTO 2016 p 20 A história do Brasil foi construída através do etnocídio das expropriações de povos originários promovendo o apagamento da memória e o extermínio de tudo que representa a cultura do povo negro indígenas e mulheres Nunca houve cidadania ou democracia para o povo negro os as negros as só estavam livres formalmente mas não eram considerados cidadãos e não estavam incluídos no processo de modernização das cidades o que nos leva ao seguinte questionamento desenvolvimento para quem Os negros viviam dentro dos muros da cidade e não participavam de seus dinamismos a não ser como exceção que confirma a regra Em consequência o negro engolfase em uma terrível tragédia Ele apenas estava presente sem ser participante ou sendo participante de maneira ocasional Essas condições históricosociais alimentaram a preservação de velhas estruturas sociais e mentais FERNANDES 2017 p 81 Ainda que o Brasil tenha sido o último país da América Latina a abolir a escravidão o racismo não deve ser visto como mera herança escravocrata pois ele estrutura as relações sociais no capitalismo brasileiro e revitalizase em elementos dinâmicos trazidos para a contemporaneidade Por ser um elemento estrutural e estruturante o que observamos é que nunca houve um real rompimento com a ordem social escravocrata mas a manutenção do racismo no contorno das relações sociais e de produção caracterizando a condição colonial permanente25 Podemos dizer que o racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos a depender do grupo racial ao qual pertençam ALMEIDA 2015 p 25 25 Para Florestan Fernandes 1968 p 26 essa condição se altera continuamente primeiro se prende ao antigo sistema colonial depois se associa ao tipo de colonialismo criado pelo imperialismo das primeiras grandes potências mundiais O que varia porque depende da calibração dos fatores externos envolvidos é a natureza do nexo da dependência a polarização da hegemonia e o poder de determinação do núcleo dominante 45 Com a Proclamação da República em 1889 instaurase o presidencialismo e o regime republicano e a promessa de um país democrático promulgase em 1891 a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil que decreta em seu artigo 72 inciso 2º que todos são iguais perante a lei Juridicamente não haveria mais diferença de raça sexo nem crença religiosa mas na prática a vida não funcionava dessa forma não para os as negros as e indígenas Desta feita o que podemos perceber é que o racismo é um elemento estruturante e estrutural das relações sociais e de produção do desenvolvimento do capitalismo no Brasil Isso porque o desenvolvimento do capitalismo brasileiro não ocorreu de forma clássica pois não houve uma Revolução Burguesa Clássica26 já que não vivemos o feudalismo como na Europa por exemplo O capitalismo no Brasil se deu pela via não clássica se forjando de acordo com Fernandes 2005 pelos padrões compósito de hegemonia burguesa e padrão dual de expropriação do excedente econômico ou seja houve uma superexploração da força de trabalho que alimentava tanto a economia interna como a externa e a burguesia local conciliando os seus interesses com o imperialismo A convergência de interesses burgueses internos e externos fazia da dominação burguesa uma fonte de estabilidade econômica e política sendo esta vista como um componente essencial para o tipo de crescimento econômico que ambos pretendiam e para o estilo de vida política posta em prática pelas elites e que servia de suporte ao padrão vigente de estabilidade econômica e política Portanto a dominação burguesa se associava a procedimentos autocráticos herdados do passado ou improvisados no presente e era quase neutra para a formação e a difusão de procedimentos democráticos alternativos que deveriam ser instituídos na verdade eles tinham existência legal ou formal mas eram socialmente inoperantes FERNANDES 2005 p 243 Isto é houve uma conciliação entre a burguesia e as oligarquias agrárias voltada para atender as demandas dos países de capitalismo central o que configurou o Brasil como país de capitalismo dependente Para garantir os preços da produção cafeeira o Estado comprava o excedente dessa produção com o dinheiro conseguido através do empréstimo feito aos organismos internacionais e mais uma vez para atender as demandas da oligarquia agrária Considerando que a revolução burguesa envolve rupturas que não foram realizadas pela burguesia brasileira o que observamos é que o desenvolvimento das 26 Em suas análises Florestan Fernandes procurou distinguir a forma clássica da revolução burguesa tal qual se operou nas sociedades capitalistas centrais e hegemônicas das transformações ocorridas nos países de economia dependente Nas revoluções burguesas clássicas como a Francesa e a Inglesa os mecanismos políticos econômicos e ideológicos garantiram à burguesia o desenvolvimento das relações capitalistas de produção e o exercício da dominação social e da hegemonia política sobre os demais segmentos da sociedade contemporânea 46 relações sociais foram dissociados da democracia de participação ampliada em detrimento de uma democracia restrita Desta feita no Brasil não se trata de restaurar a democracia mas de instaurar a democracia afirma Fernandes 1980 p 30 Dessa forma a constituição da burguesia brasileira se forjou em um estado de heteronomia econômica e cultural ou seja dependente e com a menor margem de autonomia possível em relação aos países imperialistas A burguesia brasileira emergia assim com fortes traços do regime colonial e subordinada aos países de capitalismo avançado A vista disso apesar de viver em uma ordem social competitiva e arfar pela modernização e pelo desenvolvimento a mentalidade da burguesia brasileira ainda era e ainda é a do senhor rural uma burguesia plutocrática27 que exaltava a propriedade privada fazendo com que a oligarquia cafeeira se transformasse na classe burguesa operando o processo que Fernandes 1975 identificou como o aburguesamento do senhor rural O esforço necessário para alterar toda a infraestrutura da economia parecia tão difícil e cara que esses setores sociais e suas elites no poder preferiram escolher um papel econômico secundário e dependente aceitando como vantajosa a perpetuação das estruturas econômicas constituídas sob o antigo sistema colonial FERNANDES 2009 p 11 Dialogando com a obra de Trotsky Florestan Fernandes 2005 considera que o capitalismo na dinâmica mundial se desenvolve de forma desigual e combinada pois o arcaico e o moderno se mesclam realçando a desigualdade e rompendo com a ideia etapista ou linear do desenvolvimento Há uma revitalização de elementos novos e velhos e por trás desse amálgama uma política sendo conduzida essa combinação é o próprio cálculo capitalista inerente ao desenvolvimento do capitalismo pela relação estabelecida entre imperialismo e capitalismo dependente como duas faces do mesmo projeto de dominação burguesa Essa inserção subordinada e dependente do Brasil na ordem capitalista e imperialista implicou a sua adequação aos padrões de acumulação de capital o que consequentemente intensificou a exploração e extração de maisvalor e precarizou as relações de trabalho Tal processo instituiu uma forma política com determinações pelo alto um Estado forte leiase violento e repressor se impondo a uma sociedade civil fraca O Estado não tinha apenas uma forma autocrática mas também um caráter autocrático isto é 27Plutocracia sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico 47 A burguesia brasileira estabeleceu uma associação mais íntima com o capitalismo financeiro reprimiu com violência qualquer ameaça operária e transformou o Estado no seu instrumento Assim configurou uma dominação heterogênea e compósita que não rompeu com a dependência e reorganizou o padrão de dominação externa fazendo com que o passado se repita no presente pelo caráter autocrático e opressivo da dominação burguesa FERNANDES 2005 p 255 O caráter autocrático opressivo e racista do capitalismo brasileiro pode ser verificado nos valores e ideologias das elites nativas do poder oligarquia e o pensar e agir fundamentados na mentalidade capitalista ou seja repressão aos movimentos organizados pela classe trabalhadora e de democracia para os mais iguais FERNANDES 2019 p 61 Assim a passagem para o sistema monopolista se deu fortalecendo o Estado burguês sem a participação da classe operária a burguesia oligárquica forjava uma aliança com o imperialismo e o latifúndio Essa junção teve como base a transplantação de padrões ibéricos adaptados ao trabalho dos nativos ou a escravidão ou seja havia uma expansão urbana forjada num pensamento colonial que defendia a ordem social competitiva e o sistema de castas e estamentos no qual não há mobilidade social As revoluções burguesas atrasadas caracterizamse pelo fato de que a sua direção política foi monopolizada por burguesias ultraconservadoras e dependentes que ao fechar o circuito político à participação das massas populares e selar uma associação estratégica com o imperialismo acabaram por associar capitalismo e subdesenvolvimento SAMPAIO JÚNIOR 2001 p2 Ao converter a apropriação privada dos meios de produção e a mercantilização do trabalho a organização capitalista condicionou a estratificação social que gerava a sociedade de classes dividida entre os detentores dos meios de produção e os possuidores apenas da força de trabalho sendo que as chances de ascensão social permaneciam quase inexistentes De fato a economia capitalista dependente está sujeita como um todo a uma depleção permanente de suas riquezas existentes ou potencialmente acumuláveis o que exclui a monopolização do excedente econômico por seus próprios agentes econômicos privilegiados Na realidade porém a depleção de riquezas se processa à custa dos setores assalariados e destituídos da população submetidos a mecanismos permanentes de sobreapropriação e sobreexpropriação capitalistas FERNANDES 1975 p45 Essa estratificação classifica quem entra e quem não entra no mercado de trabalho assalariado isto é quem não entra se transforma em condenado do sistema Todavia como a modernidade não rompe com o antigo sistema colonial pois os dinamismos da sociedade de classes no capitalismo dependente se relacionam com a tal modernidade em condições negativas a manutenção da ordem social competitiva só se 48 dá assegurando a renda o prestígio e o poder da classe dominante o que consequentemente aumenta ainda mais a desigualdade social e racial Doutro lado as novas fronteiras não escondem mais o que significa a liberdade inerente ao capitalismo dependente a persistência da satelitização numa era em que ela requer para manterse e alastrarse o endurecimento político e por vezes a militarização do Estado com a transformação do presidencialismo autoritário e das ditaduras tradicionais em formas dissimuladas de fascismo ou parafascismo A América Latina encontra sua modernidade o que alguns interpretam como o momento decisivo da história mas sob convulsões econômicas sociais e políticas perturbadoras FERNANDES 1975 p 66 Reforçando a estrutura colonial vivida na escravidão a modernidade custou um preço muito alto para aqueles que não foram inseridos na sociedade de classes os as negros as sempre sentiram o peso da estrutura de um Estado racista quer seja no regime escravista ou na ordem social competitiva não foram de forma alguma incluídos no desenvolvimento Por isso para Almeida 2015 o racismo é estrutural e uma relação de poder que se manifesta em circunstâncias históricas já que para que ele se perpetue é preciso o aparato do Estado que utiliza a política mas não se restringe a ela Mantendo a vigência do antigo sistema colonial para não destruir o caráter explorador da colonização acentuase o caráter autocrático racista e reacionário do Estado a favor da repressão e em nome da ordem agudizase o racismo estrutural O que quer dizer que o capitalismo selvagem da periferia contém a sua razão política intrínseca salta do tradicionalismo para uma modernização ultrarreacionária O mandonismo se converte com a modernidade em autoritarismo sem máscara o que transforma o caráter do despotismo burguês que se desprende da dominação racional com relação a fins e valores para se configurar como uma dominação abertamente autocrática FERNANDES 2006 p125 O racismo e o autoritarismo são constantes no pensamento social e político brasileiro a inferiorização social e racial dos as negros as e indígenas reproduzida pelo aparelho racista do Estado e endossado pelo racismo científico engendraram uma imagem de negros as e indígenas como raças selvagens e inferiores fazendo da miscigenação das raças uma alternativa de embranquecimento da sociedade O mito da democracia racial por muito tempo embasou a tese de que no Brasil negros as brancos indígenas e tantas outras raças conviviam harmonicamente essa teoria foi endossada por algumas obras escritas no século XX como a famigerada obra de Gilberto Freyre Casa GrandeSenzala que é uma das mais relevantes no que tange a afirmação da teoria da democracia racial 49 Gilberto Freyre antecipavase na elaboração de uma interpretação social do Brasil através das categorias casagrande e senzala colocando a nossa escravidão como composta de senhores bondosos e escravos submissos empaticamente harmônicos desfazendo com isso a possibilidade de se ver o período no qual perdurou o escravismo entre nós como cheio de contradições agudas sendo que a primeira e mais importante e que determinava todas as outras era a que existia entre senhores e escravosMOURA 2019 p 40 Esse mito foi utilizado pelas elites no intuito de esconder a realidade brasileira que mostrava desde cedo uma acentuada desigualdade não só econômica e social mas principalmente racial vivida no país A manutenção das estruturas coloniais que remetem à escravidão tinham como objetivo continuar garantindo riqueza prestígio social e poder à classe dominante Os fatos e não as hipóteses confirmam que o mito da democracia racial continua a retardar as mudanças estruturais As elites que se apegaram a ele numa fase confusa incerta e complexa de transição do escravismo para o trabalho livre continuam a usálo como expediente para tapar o sol com a peneira e de autocomplacência valorativa Pois consideremos o mito não os fatos permite ignorar a enormidade da preservação de desigualdades tão extremas e desumanas como são as desigualdades raciais no Brasil FERNANDES 2017 p3334 Clóvis Moura 2019 ressalta como a literatura e os romancistas ajudaram na construção dessa imagem estereotipada que é a reprodução desse pensamento social brasileiro o ideal de beleza e os valores dos brancos A finalidade dessa postura era de um lado descartar o negro como ser humano e heroico para colocálo como exóticobestial da nossa literatura e de outro fazerse uma idealização do índio em oposição ao negro Não se abordava o índio que se exterminava nas longínquas dimensões geográficas daquela época destruído pelo branco O índio do romantismo brasileiro era por tudo isso uma farsa ideológica literária e social MOURA 2019 p 51 A dominação tem várias facetas incluindo o campo ideológico pois há nesse processo uma captura da subjetividade do indivíduo que por ter a sua identidade e memória suprimidas o objetivo é que ele não se reconheça como negro e quando se reconhece começa um processo de negação das suas origens e de sua ancestralidade porque o padrão cultural e social não é um padrão negro e sim um padrão branco europeu Se a formação cultural é construída através da história de registros e os negros e os indígenas sofreram o apagamento dessa memória como se reconhecer A história é escrita por uma elite dominante branca Lélia Gonzalez 1984 utiliza a psicanálise para elucidar esse processo destacando a importância de conhecer as noções de memória e consciência Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento do encobrimento da alienação do esquecimento e até do saber É por aí que o discurso ideológico se faz presente Já a memória a gente considera como o 50 nãosaber que conhece esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita o lugar da emergência da verdade dessa verdade que se estrutura como ficção Consciência exclui o que memória inclui Daí na medida em que é o lugar da rejeição consciência se expressa como discurso dominante ou efeitos desse discurso numa dada cultura ocultando memória mediante a imposição do que ela consciência afirma como a verdade GONZALES 1984 p 226 O discurso dominante ou os efeitos desse discurso ocultam a memória e contam uma história que não é verdade pois existe um profundo silenciamento sobre a história do povo negro a partir da perspectiva das relações raciais Os as negros as e indígenas tiveram suas memórias destruídas a destruição dos quilombos o genocídio de indígenas e o aniquilamento das aldeias indígenas tudo isso que faz parte da memória foi apagado O capitalismo precisa promover esse apagamento para se desenvolver e reproduzir a história do Brasil é a história do genocídio e precisamos urgentemente recuperar a história desse povo A classe dominante se apropria até da história que conta uma versão açucarada dos acontecimentos passados ignorando as lutas do povo elegendo heróis da elite e deixando de lado aqueles saídos do povo BENEDITO 2011 p13 Para Moura 2019 e Gonzales 1984 o escritor Oliveira Vianna através de suas obras endossou a relação entre o autoritarismo e o racismo deixando nítido quais eram os objetivos das classes dominantes os mais altos interesses nacionais impõem que se faça entrar no país o maior número possível de elementos étnicos superiores a fim de que no epílogo do caldeamento possamos atingir um tipo racial capaz de arcar com as responsabilidades de uma grande situação28 Esse texto foi escrito após a implantação do Estado Novo como justificativa para o autoritarismo e para a continuação das estruturas oligárquicas Esta política fenotípica procurou e procura fazer com que os componentes de grupos específicos negros fujam das suas origens procurando assimilar a escala de valores e padrões brancos MOURA 1983 p 126 O autoritarismo racismo e superexploração da força de trabalho marcante nas relações de dominação no capitalismo dependente aniquilam as possibilidades de uma revolução contra a ordem e apresentam o mínimo possível de ações constitutivas da revolução dentro da ordem tendo como características o uso da violência e uma democracia restrita ou seja a repressão é imposta entre outras pela militarização do Estado excluindo qualquer possibilidade de aspiração democrática A questão da democracia começa por ser um desafio a desobediência civil sistemática e generalizada gerando no presente a negação da ditadura de 28 Retirado do livro O Estado Autoritário e a Realidade Nacional Rio de Janeiro José Olympio 1960 51 minorias poderosas e sua substituição por uma democracia organizada pela e para a maioria pois não poderá haver democracia em outras condições FERNANDES1980 p 129 Conforme Fernandes 1975 acentua a revolução dentro da ordem seria realizada dentro dos marcos das relações capitalistas possibilitando uma ampliação da participação política da classe trabalhadora com objetivo de superar a ordem burguesa Já a revolução contra a ordem seria no sentido do socialismo contra a ordem burguesa e contra o capitalismo transformando de forma estrutural a sociedade capitalista A burguesia ganhava assim as condições mais vantajosas possíveis em vista da situação interna 1º para estabelecer uma associação mais íntima com o capitalismo financeiro internacional 2º para reprimir pela violência ou pela intimidação qualquer ameaça operária ou popular de subversão da ordem mesmo como uma revolução democráticoburguesa 3º para transformar o Estado em instrumento exclusivo do poder burguês tanto no plano econômico quanto nos planos social e político FERNANDES 2005 p 255 No afã de expandir a ordem social competitiva algumas frações da burguesia transformaram a abolição da escravidão em uma revolução dos brancos para atingir objetivos dos brancos com o intuito não de extinguir a escravidão propriamente dita mas de através dela impulsionar a economia e se organizar como nação Não houve colapso e sim uma transição O que muitos autores chamam com extrema impropriedade de crise do poder oligárquico não é propriamente um colapso mas o início de uma transição que inaugurava ainda sob a hegemonia da oligarquia uma recomposição das estruturas do poder pela qual se configurariam historicamente o poder burguês e a dominação burguesa Essa recomposição marca o início da modernidade no Brasil FERNANDES 2005 p 239 Além de não inserir os as negros as na sociedade de classes o capitalismo promove o apagamento da memória desses povos como forma de se reproduzir e criminalizar a resistência para dessa forma impedir qualquer ameaça de revolução contra a ordem incluindo a queima de arquivos Ruy Barbosa manda queimar os arquivos e o governo entra em entendimento com países europeus para conseguir substituir a nossa população egressa da senzala por outra branca Entra então em funcionalidade a ideologia do branqueamento que nada mais é do que uma tática para desarticular ideológica e existencialmente o segmento negro a partir da sua autoanálise MOURA 1993 p 126 Pensamentos embasados no determinismo biológico ou geográfico deram início ao racismo científico ou seja a cor da pele e o clima da região que morava serviam para justificar certos tipos de comportamentos considerados imorais essas características coincidentemente eram pele olhos e cabelos escuros e mandíbulas 52 volumosas Esses estudos embasaram a criminologia científica no final do século XX Famoso pela obra O Homem Delinquente Cesare Lombroso ficou conhecido por ter sido forte influenciador do Direito Penal Brasileiro Para Almeida 2015 o termo raça é um fenômeno da modernidade que remonta a meados do século XVI sendo assim a história da raça é a história da constituição política e econômica das sociedades contemporâneas A expansão burguesa e a consequente cultura renascentista transformaram o europeu no homem universal e consequentemente os outros homens em versões menos evoluídas do ser humano Essa busca incessante pela civilização modernidade e liberdade desembocou no colonialismo o plano era levar civilização para os considerados primitivos mesmo que para isso houvesse mortes e expropriações Ora é nesse contexto que a raça emerge como um conceito central para que a aparente contradição entre a universalidade da razão e do legado iluminista o ciclo de morte e destruição do colonialismo e na escravidão possam operar simultaneamente como os fundamentos irremovíveis da sociedade contemporânea ALMEIDA 2015 p22 A classificação pela raça surgiu como justificativa para o extermínio das raças consideradas inferiores como aconteceu com negros as e indígenas que foram comparados com animais Sobre os indígenas americanos a obra de Cornelius de Pauw é emblemática Para o escritor holandês do século XVIII os indígenas americanos não têm história são infelizes degenerados animais irracionais e cujo temperamento é tão úmido quanto o ar e a terra que vegetam Já no século XIX um juízo parecido com o de Pauw seria feito pelo filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel acerca dos africanos que seriam sem história bestiais e envoltos em ferocidade e superstição ALMEIDA 2015 p 22 Dessa forma examinar a formação social brasileira pressupõe apreender que raça e classe estão imbricadas entre si e que o Estado utiliza o seu aparato ideológico para acentuar as desigualdades raciais e sociais As classes subalternadas passam pelo temor da coerção do Estado o uso do aparato repressivo não deixa para a classe trabalhadora nem os direitos fundamentais O período da Primeira República no Brasil que compreende os anos de 1889 a 1930 foi marcada pelo uso da coerção do Estado as expressões da questão social29 eram vistas como caso de polícia para garantir a hegemonia da classe que detinha o poder 29 não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado É a manifestação no cotidiano da vida social da contradição entre o proletariado e a burguesia a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão Iamamoto Carvalho 1995 p 77 53 econômico e político Para Carvalho 2000 o período pósabolição foi marcado por lançar a mão de obra escrava no mercado de trabalho livre que estava em formação o que fez aumentar o número de desempregados as e subempregados as Esses trabalhadores expropriados de suas terras a maioria expulsos as das fazendas de café foram morar nos grandes centros habitando cortiços moradias insalubres e precárias Como forma de resistência e reivindicando melhores condições de vida nesse mesmo período tiveram início as primeiras formas de organização da classe operária no final do século XIX tendo ocorrido dois importantes Congressos o primeiro Congresso Socialista Brasileiro em 1892 e em 1906 o primeiro Congresso Operário Brasileiro O Brasil passava por uma transformação rumo a industrialização e modernização dessa forma a nova ideologia do trabalho vinha acompanhada de vigilância e repressão por parte do Estado exercidos por autoridades policiais e judiciárias com o intuito de moldar a força de trabalho às exigências do capital Era necessário que o conceito de trabalho ganhasse uma valoração positiva articulandose então com conceitos vizinhos como os de ordem e progresso para impulsionar o país no sentido do novo da civilização isto é no sentido da constituição de uma ordem social burguesa O conceito de trabalho se erige então no princípio regulador da sociedade conceito este que aos poucos se reveste de roupagem dignificadora e civilizadora CHALHOUB 2001 p 48 No entanto o controle no que diz respeito ao trabalho se expandiu para os momentos e lugares de sociabilidade desses indivíduos Conforme indica Mattos 2008 esse processo atingiu também os espaços de sociabilidade e moradia da classe operária incidindo sobre os padrões de conduta familiar e social Chalhoub 2001 afirma que aqueles que não possuíam trabalho e apresentavam algum comportamento interpretado como rebeldia foram estigmatizados como sendo a classe perigosa vadios promíscuos indivíduos que precisavam ser corrigidos através do encarceramento para se transformarem em trabalhadores Qualquer ameaça de oposição da classe trabalhadora aos interesses hegemônicos da classe burguesa era enfrentada com repressão a frase questão social como caso de polícia dita pelo então Presidente da República Washington Luís sintetiza o pensar e agir do Estado No Brasil a desigualdade racial é marcante então os considerados vadios classe perigosa eram em sua esmagadora maioria negros as que desde os tempos da escravidão não tiveram oportunidades de trabalho dignas se vendo obrigados a procurar meios alternativos de sobrevivência 54 Como forma de punir os hábitos e costumes da população negra foi criada em 1937 a Seção de Entorpecentes Tóxicos e Mistificação para combater as práticas dos cultos de matriz africana umbanda e candomblé e o uso da maconha criminalizando o que eles denominaram de baixo espiritismo incluindo o samba e a capoeira como forma de apagar e reprimir a cultura afro e indígena BARROS PERES 2011 A criação da Inspetoria de Entorpecentes e Mistificações em 1937 denunciava o setor responsável por perseguir as religiões era o mesmo para reprimir o comércio e consumo de tóxicos A Inspetoria representava a repressão conjunta de tudo que pudesse levar à loucura à alienação à doença mental e ao crime A associação entre magia e loucura era absolutamente comum pois reinava a ideia de que o meio era promíscuo o local as pessoas a música a dança tudo era favorável à degeneração mental SAAD 2015 p 121 A repressão tinha caráter racial pois além da perseguição e intolerância religiosa com relação às religiões de matriz africana houve também a destruição de cortiços jogos de bicho a proibição de práticas como a capoeira e a obrigatoriedade das vacinas também faziam parte do mecanismo de controle dos pobres Com relação à economia após os anos 1930 há uma tripla pressão externa quando da expansão do capitalismo monopolista internacional interna através da pressão do proletariado e das massas populares e a terceira intervenção direta do Estado na esfera econômica que culminou no Golpe Militar de 1964 A tomada de poder por Getúlio Vargas 1930 1945 aconteceu após a Revolução de 1930 que destituiu o Presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes apoiado pela oligarquia e pelos tenentistas Governo marcado pelo populismo30 aprofundou a intervenção do Estado na economia a partir da legislação social e do trabalho atendendo a interesses de várias camadas da sociedade entre elas a burguesia oligárquica Do ponto de vista político a centralização do poder é a grande marca de Getúlio que implementa um governo forte e inaugura um discurso nacionalista tendo em vista transferir para si as bases de poder arraigadas nos regionalismos de que São Paulo é o exemplo mais típico A centralização já dá mostras a partir do governo provisório 19301934 e se acentua ainda mais com seu segundo golpe em 1937 conhecido como Estado Novo a pretexto da manutenção da segurança nacional que estaria ameaçada pelo levante comunista de 1935 SANTOS 2012 p 73 A ameaça do comunismo colocava em risco a ordem e o progresso dessa forma em nome da manutenção da segurança nacional o uso da militarização do 30 Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao povo geralmente contrapondo este grupo a uma elite Não existe uma única definição do termo que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então 55 Estado é frequente os militares davam o tom da conversa tendo papel fundamental na sua ascensão e queda 1930 marca também a mudança de orientação quanto às respostas estatais para a questão social Muito embora situe as primeiras medidas de legislação sobre o trabalho na República Velha o período que vai até 1945 é considerado como um marco em relação ao volume e perfil diferenciado que esta legislação vai assumir como resposta à questão social Na Constituição de 1934 o Estado tanto preservaria os direitos sociais quanto regularia os contratos de trabalho com a carteira de trabalho as profissões e os sindicatos através do Ministério do Trabalho e essas características ficariam conhecidas juntamente com o controle ideológico do governo sobre os sindicatos como corporativismo sindical SANTOS 2012 p 75 As lutas populares e a constante reivindicação dos direitos da classe trabalhadora mudavam a forma como o Estado tratava as expressões da questão social O objetivo do Estado era negar e reprimir a questão social como forma de escamotear a luta de classes e os conflitos existentes mas com a pressão vinda da classe trabalhadora essa época ficou marcada pelo reconhecimento oficial dos sindicatos dos trabalhadores O Brasil passava então para o período que ficou conhecido como republicano democrático 19451964 que tem início pela posse de Dutra e é regido pela Constituição aprovada em 1946 havia interesse na privatização do Estado e é quando o Brasil passa para a industrialização pesada O processo de redemocratização que sucede a queda do Estado Novo traz novamente o traço de uma transformação pelo alto de acordo com Vianna 1978 Para Fausto 1997 p 389 essas e outras circunstâncias fizeram com que a transição para o regime democrático representasse não uma ruptura com o passado mas uma mudança de rumos mantendose muitas continuidades SANTOS 2012 p 76 Para Fernandes 2006 p 14 Nesse momento constituemse concomitantemente as bases materiais sobre as quais repousa o poder da burguesia assim como as estruturas políticas o Estado através das quais a dominação e o poder burguês se expressarão e se exercitarão como um poder unificado como interesses especificamente de classe que podem ser universalizados impostos por mediação do Estado a toda comunidade nacional e tratados como se fossem os interesses da Nação como um todo Todo esse processo se consolida com o golpe civilmilitar de 1964 que tinha suporte na doutrina da Segurança Nacional e sob argumentação de purificar a democracia de seus elementos subversivos Santos 2012 p 85 Vários elementos sociopolíticos têm estreita relação com a estrutura econômica do capitalismo dependente é uma ordem social que se mostra antinacional e anti democrática evidenciando a cada momento a sua blindagem ultraconservadora e permanentemente dependente Essas características fazem parte da condição colonial permanente no qual as estruturas econômicas e sociais ficam intactas e essa condição 56 vai se redefinindo durante a história com a heteronomia econômica social e política constante Essa blindagem ultraconservadora juntamente com o caráter racista e opressor da burguesia brasileira é expressa através do Estado cada vez mais autocrático e violento que vai incidir diretamente nos rumos da construção da política de controle aos psicoativos leiase controle aos corpos negrospobresperiféricos De acordo com Boarini e Machado 2013 as políticas públicas de combate aos psicoativos no Brasil são recentes pois até a década de 20 não havia nenhuma regulamentação oficial com relação ao uso das substâncias consideradas ilícitas que teve o seu marco no processo de industrialização Segundo Carvalho 2011 a primeira lei específica sobre psicoativos no Brasil foi sancionada pelo Presidente Epitácio Pessoa O Decreto nº 4294 de 6 de julho de 1921 estabeleceu penalidades para os contraventores na venda de cocaína ópio morfina e seus derivados criou um estabelecimento especial para internação dos intoxicados pelo álcool ou substâncias venenosas estabeleceu as formas de processo e julgamento e mandou abrir os créditos necessários Diário Oficial da União 1921 p 13407 Com a criação da Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes CNFE em abril de 1936 e a criação do decreto 780 designavase ao Estado brasileiro cuidar da higiene mental e lutar contra os venenos sociais De acordo com Carvalho 2011 a CNFE encomendou várias pesquisas sobre o problema das drogas algumas foram publicadas entre elas a Maconha Coletânea de Trabalhos Brasileiros organizada pelo Serviço Nacional da Educação Sanitária mais precisamente em 1938 foi publicada uma regulamentação sobre drogas que reconhecia a necessidade de fiscalizar o uso de entorpecentes Essa regulamentação foi estabelecida no Decreto Lei nº 891 que reafirmava a condenação do ópio e da cocaína e incluía nessa classe drogas como a maconha e a heroína Quanto ao uso o mesmo documento classificou a toxicomania como doença de notificação compulsória que não podia ser tratada em domicílio Nesses casos ou até mesmo nos de intoxicação por bebidas alcoólicas a internação em hospital psiquiátrico era tida como obrigatória quando determinada pelo juiz ou facultativa como indica o artigo 29 parágrafo 1º do Decreto Brasil 1938 BOARINI MACHADO 2013 p 583 Esse decreto que definia que a internação compulsória se daria nos casos de toxicomania por entorpecentes ou em outros casos quando fosse adequado ao enfermo ou conveniente à ordem pública ia ao encontro às aspirações do Governo Getúlio Vargas para conter comportamentos desviantes e manter o foco no trabalho Em 1940 foi editado o Código Penal que previa o crime de tráfico e de posse de substâncias entorpecentes punido com reclusão de um a cinco anos As infrações 57 entraram na categoria dos crimes contra a saúde pública Em 1964 adicionouse ao crime a ação de plantar e em 1968 incluiuse preparar ou produzir explicitandose ainda que as mesmas penas se aplicariam a quem trouxesse consigo para uso próprio substâncias entorpecentes Segundo Boarini Machado 2013 criase em 1976 a lei 6368 que estimulava ações referentes à prevenção e à repressão ao tráfico e ao uso indevido de substâncias entorpecentes causadoras de dependência física ou psíquica Essa lei retirou o caráter compulsório dos tratamentos hospitalares mas intensificou a utilização de medicamentos no tratamento de usuários de psicoativos Essas primeiras décadas do século XX evidenciam que a problemática das drogas no Brasil esteve em grande parte de sua história mais conectada às questões de segurança do que às de saúde pública tendo como enfoque a repressão em detrimento da prevenção Esse posicionamento estava de acordo com o cenário internacional principalmente dos Estados Unidos que em 1971 através do Presidente Nixon declarou os psicoativos como o inimigo número um estava instaurada a Guerra às Drogas Em 1980 foi instituído o Sistema Nacional de Prevenção Fiscalização e Repressão de Entorpecentes através do Decreto nº 85110 o qual normatizou o Conselho Nacional de Entorpecentes COFEN O Fundo de Prevenção Recuperação e de Combate às Drogas de Abuso FUNCAB veio com a Lei nº 7560 de 1986 sendo constituído entre outros pelos bens e valores apreendidos no contexto do tráfico de drogas tanto aqueles utilizados para as atividades ilícitas como delas provenientes Este Fundo originou o atual Fundo Nacional Antidrogas FUNAD A Secretaria Nacional de Entorpecentes foi criada em 1993 através da Lei nº 8764 sendo um órgão de supervisão acompanhamento e fiscalização da execução das normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Entorpecentes bem como de promoção da integração do Sistema Nacional de Prevenção Fiscalização e Repressão de Entorpecentes aos órgãos dos Estados e Municípios que exerçam atividades nesses aspectos A Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Lei considere crime inafiançável e insuscetível de graça ou anistia o tráfico ilícito de entorpecentes art 5º XLIII O Conselho Federal de Entorpecentes CONFEN foi transformado no Conselho Nacional Antidrogas CONAD em 1998 e foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas SENAD que em 2002 mobilizou diversos atores envolvidos com o tema para a reformulação da política de drogas brasileira Assim por meio do Decreto 58 Presidencial nº 4345 de 26 de agosto de 2002 foi instituída pela primeira vez uma Política Nacional Antidrogas PNAD Em 2004 foi formulada uma nova Política Nacional sobre Drogas que baseada na Lei nº 104092002 estabeleceu os fundamentos os objetivos as diretrizes e as estratégias indispensáveis para que os esforços voltados para a redução da demanda e da oferta de drogas pudessem ser conduzidos de forma planejada e articulada Em 2006 foi aprovada a Lei nº 11343 que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SISNAD e prescreveu medidas para prevenção do uso indevido atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas Conhecida como a nova lei de drogas tem como principal destaque a diferença do tratamento penal entre usuários e traficantes Para os usuários essa lei despenalizou o consumo substituindo a pena privativa de liberdade pela perda restritiva de direitos Já para os traficantes elevou a pena mínima de três para cinco anos de reclusão De acordo com Braga 2017 a Lei 1134306 foi aprovada com a intenção dos legisladores de diferenciar a figura do traficante à figura do usuário e dependente deslocando esse para o sistema de saúde e assistência social enquanto o traficante seria firmemente penalizado Observase no texto legal o usuário de drogas através de uma perspectiva médicosocial visto como indivíduo vulnerável e que deve ser objeto de políticas de saúde e sociais porém a conduta permanece criminalizada Quanto ao traficante verificase uma perspectiva punitiva mantendo a antiga figura estigmatizada que simboliza o mal e fornece o desejo aos usuários vulneráveis O art 28 define quem é o usuáriodependente quem adquire guarda tem em depósito transporta ou traz consigo para consumo pessoal drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar sendo passivo de penas como advertência sobre os efeitos das drogas prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo Quanto ao traficante o art 33 o define enumerando as ações de importar exportar remeter preparar produzir fabricar adquirir vender expor à venda oferecer ter em depósito transportar trazer consigo guardar prescrever ministrar entregar a consumo ou fornecer drogas ainda que gratuitamente sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar No entanto a Lei prevê que para determinar se a droga se destina a consumo pessoal ou para traficar o juiz observará a natureza a quantidade da substância apreendida as condições em que se desenvolveu a ação as circunstâncias sociais e pessoais bem como a conduta e os antecedentes do agente Essa modificação na legislação teve um reflexo negativo no aumento dos índices do encarceramento em 59 massa que tem sexo raça e classe Esse abrandamento das penas com relação aos usuários e o acirramento das penas para traficantes é considerado fator chave para o aumento da população carcerária negra pois protege os as brancos as e encarcera os as negros as Dito isso no recorte de sexo de acordo com a INFOPEN 2018 de 2000 a 2017 o número de mulheres em situação de cárcere aumentou 675 nesse período Com relação à faixa etária 2522 têm entre 18 e 24 anos e 2211 entre 25 e 29 anos No que diz respeito ao recorte racial 6355 se declararam negras Dessas mulheres aproximadamente 64 foram presas por tráfico de drogas uma diferença alarmante com relação ao segundo motivo dos delitos que é o roubo que aparece com 15 Geralmente essas mulheres são presas levando psicoativos para os seus companheiros na prisão Como foi possível perceber essa violência sexista não é algo que começou agora tem raízes coloniais que se transfiguram na contemporaneidade As mulheres negras foram alijadas não só das oportunidades de conseguir um trabalho digno como também foram expropriadas das profissões que já exerciam como curandeiras benzedeiras e parteiras e atualmente representam grande parte da população carcerária brasileira Como veremos no próximo capítulo o capitalismo se estrutura a partir dos elementos de expropriação que oprimem e seccionam a divisão social do trabalho criminalizando hábitos e costumes como práticas médicoreligiosas de povos originários entre elas o uso medicinal da maconha ou seja tudo que representa ameaça a ordem social vigente CAPÍTULO 2 PATRIARCADO EXPROPRIAÇÕES E SABERES Introdução Esse capítulo objetiva demonstrar a relação existente entre o uso das plantas na medicina popular e nos rituais religiosos que tiveram as mulheres como protagonistas por terem sido as primeiras curandeiras Tendo em vista o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado analisaremos como o desenvolvimento do capitalismo brasileiro promove a expropriação de saberes e conhecimentos ancestrais como forma de exterminar elementos importantes da cultura negra e indígena 21 Negros as e indígenas os guardiões ães do saber Ó que lua tão bonita lá no céu vem clarear ele é caboclo é caboclo curador cura seus filhos com o galho de uma flor Ponto de cura de caboclo do Terreiro Vovó Maria Redonda 60 Seres humanos sempre dependeram da natureza para sua sobrevivência tanto para a satisfação das suas necessidades básicas comer beber e se vestir quanto para a cura dos seus males físicos e espirituais Para Marx 1845 a busca da satisfação das necessidades é o que leva à produção dos meios para satisfazêla para ele esse é o primeiro ato histórico Assim o uso das plantas medicinais corresponde a uma das práticas mais remotas utilizadas por mulheres e homens para a cura prevenção e tratamento de doenças O homem primitivo buscou na natureza as soluções para os diversos males que o assolava fossem esses de ordem espiritual ou física Aos feiticeiros considerados intermediários entres os homens e os deuses cabia a tarefa de curar os doentes unindose desse modo magia e religião ao saber empírico das práticas de saúde a exemplo do emprego de plantas medicinais A era Antiga inaugurou outro enfoque quando a partir do pensamento hipocrático que estabelecia relação entre ambiente e estilo de vida das pessoas os processos de cura deixaram de ser vistos apenas com enfoque espiritual e místico ALVIM et al 2006 As ervas medicinais sempre estiveram ligadas não só a saúde física mas também ao campo espiritual sendo o seu uso essencial na relação entre os homens e as divindades para a cura dos seus males De acordo com Simon 2001 o uso de remédios à base de ervas remonta às tribos primitivas em que as mulheres se encarregavam de extrair das plantas os princípios ativos para utilizálos na cura das doenças À medida que os povos dessa época se tornaram mais habilitados em suprir as suas necessidades de sobrevivência estabeleceramse papéis sociais específicos para os membros da comunidade em que viviam O primeiro desses papéis foi o de curandeira Essa personagem desenvolveu um repertório de substâncias secretas que guardava com zelo transmitindoo seletivamente a iniciados bem preparados As doenças não tinham a mesma conotação que têm atualmente na Grécia Antiga por exemplo entre 2500 a 600 aC as doenças eram consideradas ligadas as causas sobrenaturais a epilepsia era considerada uma doença sagrada acreditavam que quando uma pessoa tinha uma crise convulsiva na verdade ela estava sendo tocada pelos deuses Como a crença era na relação da doença com a espiritualidade o tratamento era feito com banhos e chás de ervas medicinais Moreira 2004 p1 Foi a chegada da Medicina Hipocrática que floresceu na Grécia em meados do século IV e século V aC que rompeu com o pensamento mágico que ligava a epilepsia e outras doenças às causas espirituais trazendo para o debate que o Sistema Nervoso Central SNC era o principal responsável por causar a epilepsia No entanto mesmo 61 com as descobertas da medicina moderna as ervas medicinais nunca deixaram de ser usadas sendo a sua utilização repassada de geração a geração Para Araújo 2007 o registro de literatura sobre medicina herbária chinesa conhecida também como medicina popular mais antigo é o Pen Tsao de 2800 aC escrito pelo herborista chinês Shen Numg que descreve o uso de centenas de plantas medicinais na cura de várias moléstias ele catalogou 365 ervas medicinais De acordo com o referido autor O conhecimento sobre as plantas medicinais sempre tem acompanhado a evolução do homem através dos tempos Remotas civilizações primitivas se aperceberam da existência ao lado das plantas comestíveis de outras dotadas de maior ou menor toxicidade que ao serem experimentadas no combate às doenças revelaram embora empiricamente o seu potencial curativo Toda essa informação foi sendo de início transmitida oralmente às gerações posteriores e depois com o aparecimento da escrita passou a ser compilada e guardada como um tesouro precioso A Shen Numg também se atribui o primeiro uso da cannabis como medicamento na forma de infusão em 2700 aC ela era recomendada no tratamento da malária dores reumáticas ciclos menstruais irregulares e dolorosos Grosso 2020 p 1 Na história mundial os egípcios são a primeira referência na utilização de plantas como remédios o estudo das plantas e sua aplicação no tratamento de doenças recebeu o nome de fitoterapia sendo o Papiro de Ebers considerado um dos mais importantes tratados médicos datado de aproximadamente 1550 aC ARAÚJO 2007 Muitas caravanas chegavam ao Egito para comercializar especiarias como incenso mirra gengibre romã sálvia e açafrão a maioria desses produtos saíam da ilha grega de Creta Para Almeida 2011 Paralelamente ao que ocorreu no Egito os sumérios próximo ao terceiro milênio aC detinham conhecimentos que foram repassados para a humanidade através de escrita cuneiforme em placas de argila Dessas placas várias receitas foram traduzidas como o uso da beladona fonte de atropina do Cânhamo da Índia chamado Quinabu a Cannabis Sativa Lindicada para dores em geral bronquite e insônia Notase que antes de ser considerada proibida a maconha ou cannabis sativa era livremente transportada fazendo parte dos tratamentos da medicina popular em todo o mundo indicada principalmente para bronquite e insônia As mulheres que realizavam procedimentos de cura física e espiritual através das ervas medicinais ficaram conhecidas como bruxas Na verdade as bruxas eram as parteiras curandeiras as que faziam o aborto que acabaram por desenvolver algumas habilidades na área da medicina e obstetrícia com o auxílio das ervas medicinais e 62 baseando seus conhecimentos em experiências empíricas Mas porque foram tão duramente perseguidas e exterminadas A Idade Média foi um período cruel para toda a humanidade marcada por crises políticas sociais e perseguições religiosas A Caça às Bruxas ocorreu na Europa entre 1450 e 1520 tendo seu apogeu entre 1600 e 1650 conforme abordaremos no próximo item A bruxaria era considerada uma prática demoníaca praticada pelas mulheres e a forma de exterminálas foi queimandoas em fogueiras Um grande exemplo foi Joana Darc que salvou a França da derrota na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra e que mesmo assim foi queimada Podemos dizer que a Caça às bruxas nunca teve fim ainda hoje as mulheres sofrem variadas expropriações dos seus corpos dos seus saberes hábitos e costumes A historiadora Silvia Federici 2017 em sua aclamada obra Calibã e a Bruxa faz um paralelo entre a chamada Caça às bruxas na Europa e a acumulação primitiva Para a autora a tentativa de destruição das mulheres agudizada na contemporaneidade está atrelada ao processo de acumulação do atual estágio do capitalismo Desta forma A caça às bruxas aprofundou a divisão entre mulheres e homens inculcou nos homens o medo do poder das mulheres e destruiu um universo de práticas crenças e sujeitos sociais cuja existência era incompatível com a disciplina do trabalho capitalista redefinindo assim os principais elementos da reprodução social Neste sentido de um modo similar ao ataque contemporâneo à cultura popular e ao Grande Internamento de pobres e vagabundos em hospícios e workhouses casas de trabalho a caça às bruxas foi um elemento essencial da acumulação primitiva e da transição ao capitalismo FEDERICI 2017 294 As práticas de bruxaria também foram vistas como ferramenta de insubordinação dos as escravizados as Os juristas magistrados e demonólogos31 criaram um aparato estatal de forma que a legislação penal criminalizasse essas práticas perseguição que tinha como objetivo o controle social Na Europa a Igreja Católica e o Estado deram vazão a essa perseguição que permitia o anonimato dos informantes que denunciavam essas práticas O desenvolvimento do capitalismo e o controle social através da intervenção estatal para manter a classe dominante no poder criou estratégias que aniquilassem toda e qualquer forma de resistência que fosse contrária a nova ordem social vigente do nascimento da ciência moderna e do desenvolvimento do racionalismo científico a bruxaria tornouse um dos temas de debates favoritos das elites intelectuais europeias Juízes advogados estadistas filósofos cientistas e teólogos se preocuparam com o problema escreveram panfletos e demonologias concluíram que este era o mais vil dos crimes e exigiram sua punição FEDERICI 2017 p301 31 Os demonólogos título concedido aos membros da ordem dominicana da Igreja tinham por objetivo desvendar a origem do mal assim como compreender toda a sistemática que circundava o diabo 63 As mulheres acusadas de bruxaria foram torturadas queimadas vivas acusadas de assassinarem crianças e de terem vendido sua alma ao diabo não tiveram nem a chance de dar o seu depoimento sabese apenas a versão do dominador Federici 2017 p 305 acredita que a Caça às bruxas foi um ataque à resistência que as mulheres apresentaram contra a difusão das relações capitalistas e contra o poder que obtiveram em virtude de sua sexualidade de seu controle sobre a reprodução e de sua capacidade de cura A batalha contra a magia sempre acompanhou o desenvolvimento do capitalismo até os dias de hoje O universo da magia ia na contramão dos ensejos do capitalismo visto que o domínio do conhecimento com relação aos elementos da natureza não era privilégio de todos e portanto representava algo que não poderia ser nem explorado nem dominado Dessa forma A magia constituía também um obstáculo para a racionalização do processo de trabalho e uma ameaça para o estabelecimento do princípio da responsabilidade individual Sobretudo a magia parecia uma forma de rejeição do trabalho de insubordinação e um instrumento de resistência de base ao poder O mundo devia ser desencantado para poder ser dominado FEDERICI 2017 p 313 O trabalho virou uma preocupação na Europa no século XVII pois havia uma espécie de colapso demográfico e uma das hipóteses é que a Caça às bruxas tenha sido uma tentativa de colocar o corpo feminino a serviço do aumento da população e da consequente acumulação da força de trabalho e como forma de controle da natalidade ou seja o capitalismo se apropriando do patriarcado As bruxas em sua maioria eram parteiras que tinham total conhecimento do controle reprodutivo feminino Contudo interpretar o declínio social da parteira como um caso de desprofissionalização feminina deixa escapar sua importância fundamental Há provas convincentes de que na verdade as parteiras foram marginalizadas porque não eram vistas como confiáveis e porque sua exclusão da profissão acabou com o controle das mulheres sobre a reprodução FEDERICI 2017 p330 Na Europa no período chamado Crise Geral nas décadas de 1620 e 1630 foi que o Estado produziu estratégias políticas através do regime de biopoder categoria utilizada por Foucault 1988 para sanar o problema da relação entre trabalho população e acumulação de riquezas Para o autor Biopoder é a crescente preocupação do Estado com o controle sanitário sexual e penal dos corpos dos indivíduos principalmente dos corpos femininos assim como a preocupação com o crescimento e os movimentos populacionais e sua inserção no âmbito econômico Nas relações de poder a sexualidade não é o elemento mais rígido mas um dos dotados de maior 64 instrumentalidade utilizável no maior número de manobras e podendo servir de ponto de apoio de articulação às mais variadas estratégias FOUCAULT 1988 p 98 Isto é havendo uma queda nos índices populacionais e isso significava uma futura escassez de força de trabalho para o desenvolvimento capitalista o Estado utilizou o seu poder para controlar as mulheres com relação à reprodução delas mesmas e das outras mulheres intensificando assim a perseguição às bruxas As provas desse argumento são circunstanciais e deve se reconhecer que outros fatores também contribuíram para aumentar a determinação da estrutura de poder europeia dirigida a controlar de forma mais estrita a função reprodutiva das mulheres Entre eles devemos incluir a crescente privatização da propriedade e as relações econômicas que dentro da burguesia geraram uma nova ansiedade com relação à paternidade e à conduta das mulheres FEDERICI 2017 p 170 Percebese que desde os primórdios o controle com relação ao corpo das mulheres esteve ligado à centralidade do trabalho para o desenvolvimento do capitalismo tornandose parte de estratégia do Estado para que além de reproduzir as curandeiras não fizessem o aborto daquelas que não desejassem continuar a gestação Coibindo a prática médica das parteiras expropriaram das mulheres a possibilidade de sua profissionalização enquanto médicas e obstetras pois a medicina dita científica hegemônica tomou esse lugar um lugar que era pouco acessível para as camadas pobres da população A substituição da bruxa e da curandeira popular pelo doutor levanta a questão sobre o papel que o surgimento da ciência moderna e da visão científica do mundo tiveram na ascensão e queda da caça às bruxas FEDERICI 2017 p 364 Percebese que toda essa perseguição tem a ver com valores determinados pela classe dominante isto é valores brancos cristãos e patriarcais quem ia contra esses valores era exterminado Quem eram esses sujeitos Negras negros mulheres e indígenas Na Europa e nas Américas uma das formas utilizadas pelo Estado para exterminar as práticas de bruxaria foi denominada Inquisição através do Tribunal do Santo Ofício agia em nome da Igreja Católica Romana com objetivo de combater a heresia sodomia adultério judaísmo e religiões de matriz africana O Tribunal do Santo Ofício instalarase em LisboaPortugal e o Brasil recebeu algumas visitas de Inquisidores que nomeavam clérigos que ficavam responsáveis por fiscalizar os hábitos e costumes que fossem divergentes do catolicismo GRAZIANI 2015 A perseguição 65 maior foi com relação às curandeiras que eram extraditadas para Portugal para serem julgadas e torturadas Federici 2017 p 413 afirma que a partir do século XVIII os inquisidores começaram a considerar que as práticas mágicas eram debilidades de pessoas ignorantes e que sendo assim já não representavam nenhuma ameaça para o domínio colonial A partir daí a preocupação com a adoração ao diabo se deslocou para as plantations que se desenvolviam com o emprego do trabalho escravo no Brasil no Caribe e na América do Norte onde a partir das guerras conduzidas pelo rei Felipe os colonos ingleses justificaram os massacres dos nativos americanos qualificandoos de servos do diabo FEDERICI 2017 p 413 A perseguição era a mesma os perseguidos mudavam ora mulheres livres ora escravizados as todos que representassem qualquer ameaça à ordem social vigente e atrapalhasse o desenvolvimento capitalista seria arduamente perseguido Segundo Souza 2014 o primeiro relato sobre pessoas que foram perseguidas pela Inquisição não por acaso foi de uma mulher negra presa em Minas Gerais De acordo com Souza 2014 p 466 Luzia Pinta preta forra solteira angolana moradora de Vila Sabará Minas Gerais foi presa em 16 de março de 1742 Era publicamente tida por calunduzeira32 posto que se vestia com trajes distintos dançava ao som dos atabaques entrava em transe receitava folhas do mato a pacientes adivinhava e cheirava a cabeça das pessoas para saber se tinham feitiços Foi condenada pela Inquisição de Lisboa por presunção de pacto Ainda segundo Souza 2014 a presença de variadas tradições culturais na colônia era intolerada pela Igreja Católica e pela metrópole o que impulsionou tentativas lusitanas de homogeneizar a humanidade animalesca e demoníaca no Brasil Federici 2017 acredita que a Caça às bruxas envolve muito mais do que crimes misóginos é um genocídio mesclado com intolerância religiosa e racismo que nunca teve fim pois representa uma das formas de reconfiguração do sistema capitalista para garantir a acumulação primitiva e criminalizar a resistência às imposições do sistema e parte dessa resistência vem da sabedoria ancestral do conhecimento das ervas da medicina popular do resguardo da memória tudo isso que o capitalismo quer apagar exterminar No Brasil os primeiros curandeiros foram os as indígenas e com o passar do tempo o mundo da magia se transformou em uma mistura de cultura europeia indígena 32 A matriz primordial dos rituais hoje denominados de umbanda nos quais persistiria ao lado dos orixás e cerimônias emprestadas ao candomblé como um traço a mais do sincretismo umbandista de origem afrolusoameríndiobrasileiro Luiz Mott op cit p 74 e p 81 66 e africana Destacamos nesse trabalho uma pesquisa etnobotânica realizada em 2012 com agricultores tradicionais Conhecimento popular de plantas medicinais do extremo sul da Bahia realizado por 180 sábios guardiões do conhecimento popular Esse projeto é fruto de uma articulação entre os Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST e o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo NACE PTECA ESALQUSP A ideia inicial desse projeto era elaborar a inserção de espécies medicinais em sistemas produtivos de assentamentos agroecológicos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra MST posteriormente a Fundação Oswaldo Cruz FIOCRUZ foi solicitada para elaborar propostas para integrar o projeto de plantas medicinais no Sistema Único de Saúde SUS em quatro municípios do extremo sul da Bahia Itamaraju Alcobaça Prado e Teixeira de Freitas Cada sábio guardião assim são chamados os possuidores do conhecimento popular foi convidado a participar do Encontro de Validação do Conhecimento Popular onde seriam discutidos as experiências e conhecimentos empíricos de cada planta medicinal a partir do levantamento etnobotânico Abaixo inserimos uma tabela com os resultados desse estudo Tabela 1 Levantamento etnobotânico das plantas medicinais Planta ou fruto Uso popular Abacaxi Contra gripe asma bronquite e tosse controle do colesterol e problemas renais Acerola Controla pressão é expectorante usada contra febre gripe e resfriado Agasalhodeanú Contra dor de coluna Água de colônia Calmante controla a pressão contra problemas no coração renais e dores no corpo Alecrim Controla a pressão contra problemas cardíacos falta de ar dores no corpo cólicas menstruais e antiinflamatório Alevante Contra diarreia febre gripe cólica má digestão gastrite sinusite tosse tuberculose e pneumonia inflamações no útero e ovário Alfazema Calmante relaxante muscular antibiótico contra gripe febre e dor de barriga Usada contra catapora e sarampo Algodão Expectorante antiinflamatório contra tuberculose gripe dor de ouvido 67 Alho Controla pressão antiinflamatório expectorante contra febre gripe dor de cabeça Alumã Contra infecção intestinal má digestão gases Anador Contra infecção intestinal dor de cabeça dores no corpo gripe febre resfriado inflamação na garganta Araçá Contra cólicas intestinais infecções gástricas e diarreia também é usada como cicatrizante Arco de barril Antiinflamatório e contra dores na coluna Arnica Antiinflamatório cicatrizante usada em contusões fraturas ósseas alergias micoses de pele Também é usada como vermífugo em caso de oxiurose Aroeira Antibiótico cicatrizante antiinflamatório contra alergias da pele infecções gástricas dores no corpo dor de cabeça doenças sexualmente transmissíveis inflamação no útero e contra catapora Arroizinho Contra problemas na bexiga nos rins e infecções vaginais e na uretra também usada contra inflamações de útero e em caso de corrimento vaginal Arruda Contra dores nos olhos conjuntivite piolho infecções gástricas pressão alta dores no corpo e problemas no útero Também é usada no pós parto para limpeza do útero e na diminuição das cólicas menstruais Babadeboi Contra problemas nos rins e na coluna Babosa Antiinflamatório contra febre tratamento de câncer contra gripe cicatrizante vermífugo tratamento de gastrite contra dores na coluna contra enxaquecas expectorante e no combate ao piolho e caspa Bálsamodomato Contra dores no corpo e inflamações Batatadepurga Antiinflamatório vermífugo depurativo do sangue laxante também usada contra má digestão e problemas intestinais Bemmequer Contra febre dor de estômago tosse e reumatismo Bicuíba Cicatrizante antibiótico antiinflamatório contra problemas na próstata dor de coluna má digestão e problemas cardíacos Boldo Contra má digestão gastrite e problemas no fígado Brilhantina Contra problemas cardíacos e no útero controla o fluxo menstrual e a pressão alta contra dor de ouvido e inflamações Buscopan Cefalexina Analgésico antibiótico expectorante contra cólicas intestinais 68 Novalgina Ampicilina diarreia dor de cabeça e febre Buta Problemas no estômago e intestino gases gastrite úlcera má digestão e diarreia febre e vermífugo Cacau Contra gripe e hemorroidas Camará Expectorante usada contra gripe bronquite tosse e febre Camomila Calmante laxante usada contra cólicas problemas no estômago e no controle da pressão arterial Canademacaco Antiinflamatório contra dores na coluna contra corrimento vaginal problemas na bexiga nos rins e no útero Usada no tratamento da diabetes Canela Calmante antiemético contra febre gripe e tosse usada no controle da pressão arterial e como repelente Cansanção Usada para tratar coceira no corpo e dor de dente Capéba Diurético depurativo do sangue usada contra problemas cardíacos no fígado rins bexiga uretra e útero Capimestrela Diurético contra infecção urinária inflamação no ovário e problemas na bexiga Usada para tratar bronquite tuberculose e coqueluche CapimSanto Expectorante calmante controle da pressão alta e contra problemas digestivos gripe e febre CardoSanto Contra bronquite pneumonia e tuberculose usada para problemas no fígado estômago intestino má digestão controle de colesterol e tratamento de diabetes Carqueja Tratar febre problemas no estomago fígado e intestino Caruru Usada no tratamento da anemia Cebola Expectorante usada contra febre gripe tosse e no tratamento da diabetes Chapéudecouro Diurético antiinflamatório usada para tratar problemas nos rins bexiga útero e fígado Usada contra reumatismo e tuberculose Chuchu Usada no controle da pressão alta e colesterol tratar problemas cardíacos e diabetes Cinco folhasIpê Roxo Antibiótico contra dores na coluna alergias na pele e pedra nos rins Cipócaboclo Tratamento de alergias na pele CocodaBahia Hidratante antiinflamatório contra problemas renais má digestão 69 infecção intestinal problemas na uretra Confrei Antibiótico antiinflamatório diurético cicatrizante usada contra gastrite úlcera infecções intestinais dores no corpo problemas no pulmão e pneumonia Couve Usada para tratar anemia gastrite e úlcera Cravodaíndia Usada contra tosse febre gripe dores no corpo tuberculose bronquite asmática Também usado como repelente de insetos Cupúba Contra inflamações na garganta infecções intestinais gastrite alergias na pele e tosse Usada no tratamento de sapinho que é uma infecção causada por um fungo que se acumula na boca Doutorembira Contra infecções intestinais dores no estomago má digestão dores no corpo dor de coluna e inflamações Doutorgraveto Cicatrizante antiinflamatório contra dores no corpo e problemas na próstata EmbaúbaBranca Contra febre diabetes problemas no ovário e bexiga Usada no controle da pressão e do colesterol EmbaúbaRoxa Usada contra problemas na próstata pressão alta urina presa tosse e coqueluche Ervacidreira Calmante controla pressão alta usada contra problemas no estomago gases intestinais e má digestão Ervadoce Expectorante calmante controla pressão alta usada contra gases intestinais prisão de ventre e para dor de barriga em crianças Ervamoura Cicatrizante e usada como desinfeccionante Escadademacaco Contra dores na coluna Eucaliptoverdadeiro Descongestionante usada contra a gripe tosse sinusite e rinite Fedegoso Antibiótico antiinflamatório expectorante usada contra a febre gripe gases intestinais má digestão prisão de ventre e também para regular o ciclo menstrual Frutapão Antiinflamatório regula a pressão arterial e o colesterol usada contra gases intestinais caxumba e hérnia Gaxeta Contra dor de coluna e problemas na próstata Gengibre Antibiótico expectorante usada contra inflamações na garganta asma gripe e febre Gervão Antibiótico expectorante usada contra inflamações na garganta asma gripe e febre 70 Gindiróba Antiinflamatório vermífugo usada contra dor muscular infecção intestinal má digestão diarreia e reumatismo Guanapú Antibiótico usada contra diarreia e no tratamento da febre infantil Hortelãgrosso Expectorante usada contra problemas respiratórios pneumonia sinusite febre gripe tosse e gastrite Hortelãmiúdo Expectorante vermífugo usada contra febre gripe tosse bronquite gases intestinais e má digestão Imburana Expectorante usada contra dores musculares gripe gases cólicas intestinais febre dor de cabeça e para tratar náusea e vomito Jaborandi Contra dor de dente reumatismo e queda de cabelo Jaboticaba Usada no tratamento de gastrite e pedra nos rins Jatobá Antiinflamatório usada contra dor na coluna problema nos rins na próstata bronquite asma e tuberculose Usada no tratamento da anemia e pneumonia Laranjalaranjada terra Expectorante calmante usada contra febre gripe dor de cabeça e tosse Losna Vermífugo usada contra cólicas menstruais dores no corpo inflamações no útero e ovários além de problemas no estomago e fígado Manjericão Expectorante calmante usada contra gases intestinais inflamações na garganta febre gripe tosse Usada no controle da pressão arterial Maracujá Calmante usada para tratar insônia diabetes e controle da pressão arterial Maroto Expectorante antibiótico antiinflamatório usada contra bronquite pneumonia asma tosse tuberculose dor de dente dor de coluna e problemas renais Mentruz Vermífugo cicatrizante antiinflamatório usada contra problemas urinários e gastrite Mertiolate rifocina Cicatrizante Mucunapreta Usada contra enxaqueca e sinusite Muricí Usada no tratamento da diabetes Murula Usada para tratar dor de cabeça Negramina Antiinflamatório usada contra febre dor de cabeça dor nos rins alergias reumatismo e dores de coluna 71 Onzehoras ou Mariquinha Usada para tratar dor de dente Orapronobis coraçãodehomem Usada para tratar anemia gastrite e impingem Paualho Expectorante usada contra febre gripe dor de cabeça anemia dor de coluna diabetes e reumatismo Pauferro Usada para tratar diabetes e ferimento na pele Perpétua flor roxa Tratar febre cólicas e infecções intestinais Peruguai Usada para tratar alergias na pele Picão Picodemina Picodeagulha carrapichodeagulha maroto Usada para tratar icterícia amarelão problemas renais hepatite pedra na vesícula e problemas no fígado Pinhãobranco Cicatrizante laxante vermífugo usada contra problemas nos rins e intestino Pitanga Expectorante antiinflamatório usada contra febre gripe tosse inflamação de garganta e tratar catapora Piteira Usada para tratar alergias e dores na coluna Poáia poalha Usada contra tuberculose e pneumonia Poejo Calmante expectorante usada contra febre gripe resfriado bronquite infecção intestinal gases e diarreia Usada na limpeza do útero pósparto e para tratar cólicas menstruais Purgadocampo Antiinflamatório antibiótico vermífugo laxante usada contra infecção intestinal infecção urinária corrimento vaginal e problemas no útero Quebrapedra Usada para tratar problemas renais Quitoco Usada contra febre dores no corpo dor de dente gripe e erisipela Remeladecachorro Usada para tratar febre infecção intestinal desinteria e problemas na próstata Rinzinho boldodo chile Usada contra dor de estomago problemas no fígado cirrose diabetes e gastrite Saião Expectorante cicatrizante usada contra febre gripe bronquite tosse pneumonia e problemas respiratórios Usada também para tratar aftas e furúnculos Sapê Usada contra infecção intestinal febre alergias bronquite reumatismo e auxiliar o nascimento de dentes em crianças 72 Sena Usada no tratamento da infecção intestinal desinteria diarreia com sangue Taióba Usada para tratar anemia e prisão de ventre Tioiô tioiôcravo tioiôcheiroso Expectorante usada contra alergias da pele problemas respiratórios gripe sinusite febre tosse inflamação na garganta e má digestão Transagem Antiinflamatório cicatrizante expectorante antibiótico usada para tratar dores musculares infecção intestinal gastrite gripe resfriado inflamação na garganta pneumonia problemas urinários corrimento vaginal e inflamações no útero e nos ovários Usada na limpeza do útero no pósparto Tabela elaborada pela autora com base no estudo Conhecimento popular de plantas medicinais do extremo sul da Bahia 2012 A agroecologia é um dos instrumentos de resistência utilizados pelo MST que propõe uma construção alternativa de desenvolvimento do campo contra as duras e violentas investidas do agronegócio O modelo de desenvolvimento capitalista tem se mostrado cada vez mais ineficiente para promover justiça ou igualdade o que põe em xeque a sua função civilizadora Para além disso esse estudo realizado em 2012 sobre as plantas medicinais e a inserção do mesmo no SUS nos mostra o rumo do desenvolvimento o capitalismo se apropria da natureza explora os seus recursos e os transforma em remédios isto é o que antes podia ser colhido no quintal das casas começa a ser vendido nas farmácias aumentando o lucro do capital e dificultando o acesso das classes subalternas Por isso o conhecimento popular de parteiras curandeiras mães e pais de santo são perseguidos porque esse conhecimento passado de geração para geração o capitalismo não pode se apropriar A canela o limão o sene e a cânfora também foram descobertas interessantes no que tange aos benefícios nos tratamentos de determinados males No final do século XV com a abertura das rotas marítimas para as Índias e Américas foram sendo descobertas outras especiarias como o chá preto e o café ALMEIDA 2011 Paracelso físico suíço ficou conhecido pelos seus esforços em conhecer as substâncias responsáveis pela atividade farmacológica e a resposta terapêutica para cada espécie vegetal Na Grécia Pedacius Dioscórides escreveu a obra que foi posteriormente traduzida para o latim por humanistas do século XV chamada de Matéria Médica que por mais de 1500 anos durante o período grecoromano e na Idade Média foi considerada a bíblia de médicos e farmacêuticos ALMEIDA 2011 p 30 73 Desde os primórdios a humanidade engendrou uma estreita relação com as plantas construindo através de experiência empírica a medicina popular saber que era transferido principalmente através da oralidade O mundo passou por um grande intercâmbio de plantas África Oriente e América fazem parte de um grande roteiro o qual as plantas de um continente foram introduzidas em outro No Brasil a medicina popular e a utilização de ervas medicinais na cura de doenças tiveram forte influência de negros as escravizados as trazidos da África e dos indígenas que aqui habitavam no entanto as noções de doença e cura são diferentes para cada um desses povos O saber popular e o uso das plantas medicinais no Brasil atravessam o debate em torno das religiões de matriz africana no Brasil umbanda e candomblé e os rituais indígenas Os conceitos de saúde e doença fazem parte de uma evolução histórica que se relaciona com os contextos históricos econômicos sociais e políticos de cada sociedade De acordo com Scliar 2007 os conceitos de saúde e doença variam e não representam a mesma coisa para todas as pessoas em todas as épocas Por exemplo houve uma época em que o desejo de fuga de escravizados as era considerado uma enfermidade mental denominada drapetomania do grego drapetes escravo A falta de motivação para o trabalho entre os as negros as escravizados as também foi diagnosticada como enfermidade e recebeu o nome de disestesia etiópica Esses diagnósticos foram propostos pelo médico Samuel A Cartwright médico da região escravagista sul dos Estados Unidos O tratamento proposto era o do açoite SCLIAR 2007 Além disso por muito tempo os as negros as escravizados as foram vistos as como indivíduos responsáveis pelo trânsito de doenças não porque eram naturalmente doentes e sim porque as suas condições de vida trabalho e moradia impactava na sua condição de saúde O discurso médico do século XIX vê no negro escravo33 a causa de muitos males sua presença no seio da família é corruptora representando perigo físico e moral Muito embora para o pensamento médico higienista do Século XIX não prevalecessem assertivas de origem racial pesam mais os fatores sociais os associados às condições de vida Maio 2004 Poucas foram as propostas oficiais de atenção à saúde dos escravos e menos ainda as que foram acompanhadas por medidas que nem sequer eram cumpridas como observou Mercês Somarriba em estudo pioneiro sobre a medicina no escravismo colonial Somarriba 1984 PÔRTO 2006 p 3 33 A autora utilizava o termo escravo não fizemos as correções na citação pois seguimos as normas da ABNT 74 Algumas considerações se fazem necessárias primeiro como analisamos no capítulo um os as negros as escravizados as eram vistos como mercadoria e não como sujeitos segundo os senhores de escravizados as tinham medo de perdêlos pela morte ou pela fuga ou seja os cuidados médicos eram dispensados apenas para garantir que eles continuassem vivos para o trabalho terceiro os sintomas que eles relatavam eram constantemente negligenciados pois os senhores consideravam como fingimento da parte dos as escravizados as Por essa razão os as negros as tinham o seu próprio tratamento médico embora a Corte os considerassem charlatães muitos brancos chegaram a usar os serviços oferecidos pelos as negros as De acordo com Pôrto 2006 As lojas de barbeiro abundam nas cidades e em geral seus proprietários são negros ou mulatos hábeis cirurgiões na arte de sangrar e aplicar sanguessugas Também a presença de sangradores e curandeiros nos quadros da Santa Casa de Misericórdia já foi atestada Pimenta 2003 e não se limitava apenas à aplicação de sanguessugas ou à sangria O sangrador de certa forma ilustra a permeabilidade entre dois pólos de medicina a acadêmica e a popular A prática médica no Brasil resulta de trocas e apropriações de experiências entre europeus índios e africanos Esse amálgama de saberes enriquece desde os tempos da Colônia o receituário de mezinhas domésticas que constitui prática bastante comum no Brasil no século XIX tanto na zona rural como nas cidades PÔRTO 2006 p 4 Segundo Pimenta 1998 em 1856 os membros da Academia Imperial de Medicina se revoltaram quando o Presidente da Província autorizou um curandeiro africano de nome Manuel a tratar os doentes de cólera no Hospital da Marinha de Recife Em 1815 aconteceu o contrário o curandeiro Adão na cidade de MacacuRJ apresentou um abaixoassinado com 44 assinaturas dentre elas de tenentes alferes capitães e sargentos que apoiavam o seu ofício de curador já que ele havia aprendido a sangrar e tinha conhecimento das ervas medicinais Pimenta 1998 chama atenção para o fato da relação entre a medicina oficial e a medicina popular ter mudado em curto espaço de tempo Não existem muitos trabalhos sobre a história da Medicina no início do século XIX a não ser os documentos da Fisicaturamor que regulamentava e fiscalizava as atividades que pudessem interferir na saúde pública e com relação as práticas médicas em Portugal e nos seus domínios Observando o regimento e a própria documentação pude identificar uma hierarquia de práticas de cura seguidas pela Fisicaturamor A posição mais conceituada era a dos médicos ocupando os curandeiros a menos valorizada a meio caminho entre estes dois grupos estavam os licenciados a curar da medicina prática Os curandeiros representavam a contrapartida do conhecimento dos boticários sobre medicamentos Analogamente os cirurgiões eram vistos como mais preparados que os sangradores e as parteiras que exerceriam apenas uma parte de um conhecimento muito mais amplo que era a arte da cirurgia Entre essas categorias a das parteiras é aquela sobre a qual dispomos de menos informações A sua principal 75 característica era a de ser constituída exclusivamente por mulheres De modo geral as que exerciam práticas de cura e oficializavam suas atividades limitavamse à condição de mulheres parteiras ou curandeiras PIMENTA 1998 p 2 Escravizados as forros34 e mulheres desenvolviam atividades menos prestigiadas como sangrador parteira ou curandeiros Essa hierarquia reafirmava a lugar de cada um na sociedade e as práticas de cura populares eram desvalorizadas pela Fisicaturamor Os médicos cirurgiões e boticários consideravam o seu saber superior ao dos terapeutas populares mas não os desqualificavam totalmente pois o conhecimento destes sobre a natureza da região era valorizado Durante o período de existência da Fisicaturamor o contexto não era de medicalização da sociedade de imposição de padrões científicos de higienização das cidades de modificação e normalização de condutas o que torna a documentação da Fisicaturamor mais importante vez que depois de seu término não se tem notícia de outro qualquer órgão público que tivesse o objetivo de fiscalizar e autorizar práticas médicas as mais variadas registrando assim práticas populares de cura A partir da década de 1830 a relação entre a medicina popular e a medicina acadêmica mudou paulatinamente já não se tratava então de enquadrar minimamente as práticas populares nas concepções da medicina acadêmica mas simplesmente de desautorizálas PIMENTA 1998 p 4 Para serem aprovados na Fisicaturamor os agentes de cura populares tinham que se adequar às linhas da medicina acadêmica o que seria quase impossível Apesar dos seus serviços serem essenciais para a medicina as suas práticas não eram oficializadas As práticas terapêuticas ditas oficiais tinham como base a matriz europeia no que tange as concepções de doença e cura porém alguns medicamentos utilizados pelos médicos acadêmicos também era utilizado pela medicina popular ocorrendo também o oposto No ofício de sangradores os africanos eram a maioria sendo que dos 64 21 foram nascidos em Portugal e 13 no Brasil algumas comunidades indígenas também utilizavam a técnica da sangria Setenta e nove por cento dos pedidos para o exercício da arte da sangria provinham do Brasil entre os quais a condição jurídica do sangrador foi explicitada como forro ou escravo em 84 o que corresponde a 101 escravos e 63 forros em 193 pedidos dos casos Os sangradores podiam ser pessoas livres que na maior parte das vezes obtinham esta habilitação antes ou junto com a de cirurgiões Mas os escravos e forros praticamente eram sempre sangradores não podendo aspirar a nível hierárquico mais alto dentro dos princípios estabelecidos pela Fisicaturamor PIMENTA1998 p5 34 A carta de alforria era um documento através do qual o proprietário de um escravizado a rescindia dos seus direitos de propriedade sobre o mesmo O a escravizado a liberto a por esse dispositivo era habitualmente chamado de negro a forro a 76 Os as negros as escravizados as não eram proibidos de serem sangradores muito pelo contrário os membros mais bem posicionados da sociedade se negavam ao exercício de algumas ocupações inclusive a de sangrador deixando para os negros escravizados tal função Os negros viam nesse ofício uma possibilidade de conseguir dinheiro para comprar a sua liberdade ofício que só podia ser realizado pelo sexo masculino A documentação da Fisicaturamor não explica o porquê da sangria do ponto de vista da medicina acadêmica e muito menos do ponto de vista de quem a praticava sendo sempre bem objetiva quanto à definição dessa prática tratavase de sangrar sarjar aplicar bichas ventosas e sanguessugas A bibliografia porém apresenta alguns dados que podem levar à hipótese de que as pessoas que exerciam tais atividades de tradição européia reinterpretavamnas segundo as suas concepções familiares de doença e cura Ewbank 1973 por exemplo relata a prática de sangria realizada pelos africanos como uma tentativa de sugar os espíritos malignos e não os humores que havia em excesso segundo a medicina oficial Por outro lado alguns podem ter trazido da África a técnica de sangrar com ventosas pois o termo é encontradiço entre as medicinas Bakongo e Obi no oeste do continente africano PIMENTA 1998 p7 Segundo Pimenta 1998 a Fisicaturamor tinha poucos registros da função de curandeiro A Fisicaturamor queria delimitar a prática de curas populares e segundo eles os curandeiros seriam apenas substitutos temporários dos médicos Era preciso passar por provas teóricas e práticas para oficializarse como curandeiro ou sangrador o curandeiro era chamado para curar com ervas as enfermidades mais comuns caso não houvesse médicos diplomados para socorrêlos José Gomes Cruz morador na localidade de Rebelo termo da Vila de Macacu encaixavase perfeitamente no perfil de curandeiro da Fisicatura mor pois pedia para ser examinado a fim de poder continuar aplicando o conhecimento de remédios indígenas aos infelizes que a ele recorressem uma vez que soube que até é proibido praticar semelhantes atos sem preceder tal qual habilitação Seu exame feito em agosto de 1819 na casa do delegado do físicomor José Maria Bomtempo também foi bastante ilustrativo fazendoselhe perguntas sobre os conhecimentos que tinha de curar as enfermidades que acometem os habitantes deste clima e sobre a maneira de preparar os medicamentos com as ervas do país a tudo respondeu com inteligência dando ao dito examinando por aprovado Fisicaturamor caixa 1194 PIMENTA 1998 p9 A maioria dos atestados da Fisicaturamor relatava o tratamento de doenças sérias pelos curandeiros as quais nenhum médico ou cirurgião conseguiu tratar dessa forma percebese a superioridade dos curandeiros frente aos médicos oficiais A busca por oficialização por parte dos terapeutas populares era reduzida já que muitos deles há tempos já exerciam essa função segundo as suas concepções de saúde e doença em lugar de apenas pensar que os curandeiros tinham bastante clientela porque existiam poucos médicos podese considerar também que a existência de curandeiros em número razoável para atender à população restringiria a atuação dos médicos PIMENTA 1998 p 11 77 Muitas das moléstias que acometiam os as negros as escravizados as não se referiam às questões genéticas e sim às péssimas condições de vida em que viviam como a má alimentação e os maustratos e o tratamento em sua maioria era feito através de rituais que fundiam a espiritualidade e as ervas medicinais como ressaltados no capítulo dois Os negros servemse em geral de remédios baseados nas crendices que trouxeram da pátria atravessando o mar e que conservam zelosamente escreve o médico Johann Emmanuel Pohl em 1818 As relações dos escravizados com a saúde estão associadas a outra lógica de explicação da doença Um estudo mais amplo do legado do negro à prática médica ainda está por fazer PÔRTO 2006 p6 A autora aponta que a falta de estudos sobre a saúde dos as escravizados as na historiografia brasileira talvez seja decorrência da desatenção que a questão da assistência médica a força de trabalho escravizada teve ao longo do período da escravidão Para os povos originários a doença e consequentemente a saúde também tiveram e ainda tem a sua concepção mágicoreligiosa a qual acreditase que a causa da doença está no pecado ou na maldição Assim na Idade Média A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino A enfermidade proclamava o pecado quase sempre em forma visível como no caso da lepra Tratase de doença contagiosa que sugere portanto contato entre corpos humanos contato que pode ter evidentes conotações pecaminosas O Levítico detémse longamente na maneira de diagnosticar a lepra mas não faz uma abordagem similar para o tratamento Em primeiro lugar porque tal tratamento não estava disponível em segundo porque a lepra podia ser doença mas era também e sobretudo um pecado O doente era isolado até a cura um procedimento que o cristianismo manterá e ampliará o leproso era considerado morto e rezada a missa de corpo presente após o que ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média em parte porque o rótulo de lepra era frequente sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças SCLIAR 2007 p 3031 Os guarani Kaiowá provenientes do estado do Mato Grosso do Sul por exemplo têm uma visão de mundo específica que é centrada no teko porâ que significa correto modo de ser e de viver Entre os Kaiowá as práticas de cura não podem ser entendidas como um processo voltado exclusivamente a recuperação das condições de saúde dos indivíduos Elas estão na verdade intimamente ligadas a equilíbrios sociais e cósmicos que devem ser garantidos ou restabelecidos em contextos históricos territoriais e ambientais específicos nos quais esses indígenas desenvolvem sua existência individual e coletiva implementando uma particular tradição do conhecimento baseada no xamanismo MURA SILVA 2012 p 129 78 Para os Kaiowá o estado de doença é interpretado como denotativo de anomias sociais e cósmicas transcendendo a dimensão individual isto é a doença é uma questão social e espiritual Para eles o corpo é são quando a mente é sã sendo que as deformidades corporais são uma condição precária da alma no corpo Dessa forma eles estabelecem uma hierarquia entre a cura espiritual e a do corpo As doenças que manifestam sintomas como dor de barriga inclusive diarreias dores musculares e das articulações são geralmente tratadas pelos índios com o uso de plantas medicinais bem como de diversos tipos de gorduras de animais de caça Para isto os Kaiowa possuem uma ampla e detalhada farmacopeia MURA SILVA 2012 p 144 Com relação às doenças relacionadas a área da cabeça região que representa o ayvualma o uso da cura espiritual é mais eficaz quando a doença ainda não alcançou o estágio crônico nesses casos de cura eles recorrem aos curandeiros indígenas ou não indígenas residentes nos territórios de ocupação Kaiowa como afirmam Mura e Silva 2012 Entre as condições que levam ao enfraquecimento da ayvu tornandoa vulnerável temse por um lado o comportamento da própria vítima com a transgressão de normas sociais especialmente as relacionadas às práticas e tabus referentes a momentos críticos considerados como estados quentes isto é teko aku como por exemplo a primeira menstruação a gravidez e o parto a mudança de voz nos meninos etc MURA SILVA 2012 p144 O enfraquecimento da alma tem relação ao cumprimento das obrigações e preceitos designados para os tratamentos de cura a falta de responsabilidade do índio com essas obrigações pode tornálo suscetível às doenças relacionadas com a área da cabeça O tratamento terapêutico privilegia a cura espiritual feita por curandeiros ou xamãs mas nem todos os casos necessitam da presença do xamã quando os sintomas ainda são leves geralmente o ritual de cura é feito pelos próprios familiares pois existe uma hierarquia familiar e esse procedimento geralmente é realizado pelo mais velho da família eles acreditam que as doenças da alma podem ser causadas também pela incorporação de espíritos malignos como técnica verbal utilizamse nemboe rezas específicas cujo objetivo é localizar esfriar e enfraquecer o poder de quem eou do que causa a doença O nemboe é coadjuvado pelo peju sopro que contribui para o esfriamento do ponto doentio e subtrair os objetos eou espíritos causadores da doença do corpo da vítima Por sua vez essa técnica é acompanhada de gestuais com as mãos denominadas jovasa em que nesse caso se captura e posteriormente se afasta a causa do mal MURA SILVA 2012 p145 Para os Kaiowá a saúde é um momento de crise em que deve haver uma profunda reflexão sobre os acontecimentos e comportamentos sociais e não individuais 79 que podem ter causado essa desordem no indivíduo Esse momento de crise envolve questões ambientais sociais e espirituais Ao contrário da medicina tradicional onde é o médico quem direciona os tratamentos os rituais de cura dos Kaiowa não estão nas mãos dos curandeiros ou xamãs e sim são norteados pelos usuários baseados em uma tradição de conhecimentos construídos diariamente através de experiências que os levem ao bom viver ou teko porã ALMEIDA 2004 p 30 Já para os KaririXocó área indígena localizada no município alagoano de Porto Real do Colégio o universo da doença envolve não só questões biológicas mas principalmente cósmicas e espirituais onde o indivíduo pode ser causador da doença produto de sua conduta Para eles as doenças se classificam em de cima para baixo e de baixo para cima e podem coexistir em uma mesma doença Existem entre os KaririXocó pelo menos duas categorias de doenças que eles distinguem quanto aos critérios etiológicos de cima para baixo e de baixo para cima As doenças de cima para baixo atingem a matéria enquanto as doenças de baixo para cima atingem o espírito Segundo eles as de baixo para cima não podem ser tratadas pela biomedicina pois os médicos não compreendem esse tipo de problema e agem somente sobre a matéria daí a ineficácia de certos tratamentos As doenças de cima para baixo podem ser tratadas simultaneamente pela biomedicina e por especialistas índios ALMEIDA 2004 p 36 As doenças de baixo para cima geralmente ocorrem quando o indivíduo está com o corpo aberto ou seja está em situação de vulnerabilidade sendo que um feiticeiro pode criar uma situação na qual o indivíduo fica com o corpo aberto Essas doenças podem ter vários agentes tanto visíveis feiticeiros e pessoas comuns como invisíveis espíritos Entre os KaririXocó as doenças de cima para baixo têm sua etiologia envolvendo forças superiores são consentidas por Deus podendo ou não estar relacionadas com a maldade dos homens Elas atingem as pessoas porque Deus quer assim eou porque somos pecadores e temos que sofrer e não por falta de cuidado As doenças de cima para baixo têm causas diversas e são tratadas concomitantemente pela biomedicina e pelos especialistas nativos ALMEIDA 2004 p 40 O tratamento xamânico35 registra as causas enquanto a biomedicina faz o registro dos efeitos O conhecimento e uso das plantas são essenciais nos tratamentos de cura dos KaririXocó essa sabedoria ancestral é passada de geração em geração Eles não excluem a biomedicina acreditam que a fitoterapia e a biomedicina em alguns casos devem caminhar juntas Para eles os remédios de farmácia têm eficácia mas causam efeitos colaterais quando a doença atinge não só o espírito mas também a 35 Xamanismo termo usado em referência a práticas etnomédicas mágicas religiosas e filosóficas que envolvem a cura através do contato entre corpos e espíritos 80 matéria eles orientam o indivíduo a procurar a biomedicina porém eles reclamam que o contrário não acontece pois os médicos não acreditam na medicina indígena Uma das ervas mais utilizadas pelos KaririXocó é a Jurema considerada por eles como a erva sagrada muito conhecida no Nordeste brasileiro utilizada tanto em beberagens como em outros rituais O chá feito de Jurema tornase uma bebida alucinógena utilizada pelos indígenas para se encontrar com os espíritos ancestrais de forma a adquirir mais sabedoria Os as negros as também têm uma forte relação com as ervas medicinais usadas na religião e na medicina popular como dissemos no item anterior era muito comum encontrar nos navios que traziam os as negros as escravizados as frutos ou suas sementes pois dessa forma poderiam continuar a consumir os alimentos que já estavam acostumados e promover a cura de suas doenças No processo histórico brasileiro os negros realizaram um duplo trabalho transplantaram um sistema de classificação botânica da África e introjetaram as plantas nativas do Brasil em sua cultura através de seu efeito médico simbólico ALMEIDA 2011 p 31 Segundo Nogueira 2016 em Minas Gerais os casos de calundu ficaram conhecidos pelas denúncias feitas ao Santo Ofício da Igreja Católica e mostram que o uso das ervas e os batuques nos rituais de cura eram frequentes Uma das denúncias sobre o calunduzeiro Barra mostra a variação de rituais presente no calundu O Barra não estava sozinho no uso de ervas e folhas em sua gamela para protagonizar batuques que tinham por objetivo curar de feitiços A presença desses recursos nos calundus mineiros repetese em diversas denúncias reportadas ao Santo Ofício eou à justiça do bispado NOGUEIRA 2016 p 23 O Nordeste brasileiro foi a região que mais recebeu negros as escravizados as do continente africano e entre esses povos a etnia JêjeNagôs provenientes da África Ocidental Essa etnia foi introduzida maciçamente no Nordeste no final do século XVIII muitas pessoas de cultura iorubá36 trazidas da África para a Bahia receberam o nome de nagôs e os que eram provenientes do Reino de Daomé foram nomeados Jêjes por isso o nome JêjeNagô Esses povos foram responsáveis por dar origem a várias comunidadesterreiro conhecidas como candomblés na cidade de Salvador Bahia BARROS 2011 p5 A utilização de ervas nos terreiros está ligada a processos de cura mas não se limitam a ele 36 Os iorubás iorubas iorubanos ou nagôs constituem um dos maiores grupos étnicolinguísticos da África Ocidental com mais de 30 milhões de pessoas em toda a região Tratase do segundo maior grupo étnico na Nigéria correspondendo a aproximadamente 21 da sua população total 81 Dentro da cosmovisão dos grupos de origem jêjenagô o conhecimento dos vegetais é fator preponderante nas relações destes com o mundo que os cerca É através desse relacionamento que o homem chega a uma forma de conhecer organizar classificar e experimentar integrando o mundo natural ao social dentro de uma lógica particular BARROS NAPOLEÃO 2015 p 12 Desses povos veio também a sabedoria iorubá que acredita na ancestralidade e nos espíritos e deuses envolvidos em processos de cura dessa forma Podese definir a medicina de origem Yorubá como uma síntese de todos os conhecimentos explicáveis ou não a luz da medicina ocidental hipocrática convencional usados em diagnóstico prevenção e eliminação de distúrbios físicos mentais ou sociais repassados a gerações verbalmente ou de qualquer outra forma ALMEIDA 2011 p 40 De acordo com Barros Napoleão 2015 com um clima semelhante ao do continente de origem os JêjeNagôs encontraram no nordeste brasileiro mais especificamente no Estado da Bahia vastas extensões de florestas nativas o que lhes facilitou uma boa adaptação ao meio em virtude da afinidade que possuíam com a natureza Nesta época também outras comunidades religiosas de origem africana e até ameríndias estavam em processo de expansão no Estado da Bahia Várias casas de nações jêje angola congo caboclo e até muçurumim hoje extinta ficaram famosas no cenário baiano BARROS NAPOLEÃO 2015 p 16 A participação dos terreiros de umbanda e candomblé foram essenciais na disseminação de muitos vegetais oriundos da cultura africana pois nessas religiões os babalorixás37 e yalorixás38 receitam folhas sementes e cascas com fins medicinais e espirituais em banhos e ebós39 Em resumo podese considerar que essa fitoterapia ainda parte integrante da vida cotidiana dos terreiros foi um dos aspectos relevantes da resistência cultural do negro no período escravocrata ervas que produziam envenenamentos abortos feitiços e é hoje uma estratégia de parcela significativa da população que se reconhece direta ou indiretamente portadora de um legado cultural negrobrasileiro BARROS NAPOLEÃO 2015 p 21 Dessa forma podemos interpretar que desde a Antiguidade o uso das plantas esteve ligado tanto à medicina popular quanto a religiosidade conectados aos processos 37 Pai de santo pai de terreiro babalorixá babaloxá ou babá é o sacerdote das religiões afrobrasileiras Seu equivalente feminino é a ialorixá ou mãe de santo 38 Uma ialorixá ou mãe de santo é a sacerdotisa de um terreiro seja ele de Candomblé Umbanda ou Quimbanda Outras grafias posíveis incluem iyalorixá iyá e ialaorixá Recebem ainda o nome de mãe de terreiro 39 Ebô é um prato de origem africana preparado com milho branco cozido sem tempero É uma comida sagrada sendo comum sua oferta e uso nos rituais das religiões de origem africana como o Candomblé Na umbanda é chamada de oferenda ofertada aos orixás 82 de cura física e espiritual conduzidos pelo saber popular e pelas experiências empíricas A conexão com a terra é uma das formas de resistência de indígenas e quilombolas pois para eles a terra não se reduz apenas a um meio de produção mas principalmente como um meio de ligação com a ancestralidade com as origens Em todas as culturas antigas ou modernas o vegetal é inquestionavelmente de suma importância na manutenção da vida humana Sem dúvida o homem desde tempos primitivos sempre dependeu da natureza para sobreviver e utilizava principalmente a flora como parte de sua alimentação para combater doenças ou em seus rituais para prover o bemestar social BARROS NAPOLEÃO 2015 p 1112 Sendo assim o uso das plantas nos processos de cura dentro dos terreiros além de representar uma forma de resistência da cultura negra é também um meio de manter viva a sua memória A comunidadeterreiro passa a ser então o lugar para onde está voltada a memória onde aqueles que vivenciaram a condição limite de escravo podiam pensarse como seres humanos exercer esta humanidade encontrar os elementos que lhes conferiam e garantiam uma identidade religiosa diferenciada com características próprias Ao longo do tempo essa religiosidade constituise como um patrimônio simbólico do negro brasileiro afirmouse aqui como território políticomíticoreligioso BARROS 2014 p 13 Por isso a memória tornase alvo de destruição do sistema capitalista que quer capturar também a subjetividade dos sujeitos porém a sabedoria popular passada de geração para geração essa não é capturável Os JêjeNagôs classificam os vegetais de acordo com compartimentos base relacionados aos quatro elementos ou seja folhas de ar folhas de fogo folhas de água e folhas da terra ou da floresta Esses elementos são utilizados de acordo com o que representa cada orixá40 por exemplo Exu e Xangô participam do compartimento fogo Ogum Oxóssi Ossaim e Obaluaiê ligados ao elemento Terra Iemanjá Oxum Obá Nanã e Yewá associadas às águas e Oxalá e Oiá ao Ar Assim como os vegetais e ervas a maconha ou cannabis sativa também foi amplamente utilizada nos rituais do candomblé e da umbanda No candomblé ela é considerada uma erva do orixá Exu ligada ao elemento fogo na linguagem iorubá ela é conhecida como Ewé Igbó Assim Nos candomblés de Angola a maconha é conhecida pelos nomes liamba ou diamba Folha que no passado foi muito utilizada atualmente devido às proibições legais seu uso é restrito aos trabalhos com Exu especialmente na sacralização dos seus objetos rituais BARROS NAPOLEÃO 2015 p 171 40 Designação das divindades cultuadas pelos iorubás do Sudoeste da atual Nigéria e de Benin e do Norte do Togo trazidas para o Brasil pelos negros escravizados dessas áreas e aqui incorporadas por outras seitas religiosas 83 Interessante apontar que um ditado Iorubá diz Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje que na mitologia significa que quando Exu joga a pedra por trás do ombro e mata o pássaro no dia anterior ele reinventa o passado ensina que as coisas podem ser reinauguradas a qualquer momento Exu é considerado o orixá que abre o caminho para o acontecimento ou seja é preciso rememorar o passado para construir outro futuro Existem ainda poucas obras que apontam sobre o uso da maconha nos rituais de cultos de matriz africana MacRae e Simões 2000 em sua obra Roda de Fumo fizeram entrevistas com praticantes das religiões afrobrasileiras e apontaram que há uma tentativa de camuflar o uso da maconha como forma de preservar a cultura negra Porém partimos da premissa que por conta da intolerância religiosa e do racismo circunscritos na história da maconha será que essa tentativa de camuflar não ocorreu também por conta das várias perseguições que as religiões afrobrasileiras sofreram e sofrem ainda hoje É também objeto de polêmica a utilização da cannabis nos cultos afro brasileiros e os escritos antropológicos sobre o assunto são marcados pela ambiguidade notandose certo movimento de dissimulaçãoocultação a seu respeito muitas vezes atribuindoo aos catimbós de origem indígena Essa postura inspirada provavelmente pelo desejo de mostrar a respeitabilidade da cultura negra provocou simpatizantes das causas indígenas a enfatizar por sua vez a origem africana desse costume religioso estigmatizado Dois dos entrevistados baianos falaram sobre o uso de folhas de canabis como oferenda ao orixá Exu em certos rituais do candomblé e há também referências à sua consagração a Oxalá Mas em geral o povo de santo sempre cioso dos segredos de sua religião e da necessidade de cultivar uma imagem respeitável costuma negar qualquer informação sobre o tema MACRAE SIMÕES 2015 p 91 Mauro Leno Silvestrin 2008 em sua monografia faz uma interessante interlocução entre a maconha e a umbanda com base nas músicas interpretadas por Bezerra da Silva Em três músicas Deixa uma paia pro veio queimar Vovô tiratira e Feitiço do Tião Bezerra trabalha um pouco da concepção que a religião pode te levar para perto dos deuses mas se mal utilizada pode levar para perto do diabo Ressalta também o uso da maconha nos rituais quando diz Ao invés dos médiuns baterem a cabeça faziam a cabeça pro santo descer Talvez por que a relação umbandamaconha quase sempre tenha se dado de forma clandestina é recorrente a associação destas duas práticas com o crime o estelionato e o charlatanismo Como estratégia de repressão esta associação foi muito propagada até a metade do século passado Mas a utilização ritual de maconha cessou em 1964 nos poucos terreiros que ainda a mantinham por conta de barganhas políticas para a legitimação da umbanda O samba se legitima e ajuda a umbanda a se legitimar A umbanda em seu processo de legitimação retira a maconha de sua liturgia A 84 maconha ainda proscrita batalha por sua legitimação SILVESTRIN 2008 p90 O caráter racista e moral da proibição da maconha no Brasil vinculados à intolerância religiosa é uma das causas de haver uma lacuna com relação às pesquisas sobre a sua utilização nos rituais sagrados Quando fora possível anotar a presença de maconha em ritos sagrados de populações específicas não tínhamos no Brasil a reflexão sobre o tema e quando a antropologia nacional dedicouse ao estudo de muitas dessas comunidades o maconhismo mergulhara na clandestinidade legal e moral o que tornou a pesquisa etnográfica grandemente impedida de tratar satisfatoriamente o assunto MACRAE SIMOES 2015 p 426 Percebemos que a intolerância religiosa não é um evento novo observase que por trás dos grandes conflitos vistos e vividos pela sociedade estava a intolerância religiosa como elemento fundante Devido ao racismo há a intolerância religiosa no caso das religiões de matriz africana a classe dominante queria que prevalece a religião dela no caso o Cristianismo em detrimento das religiões afrobrasileiras Estigmatizar é uma forma de exercer o poder sobre o outro O preconceito a discriminação a intolerância e no caso das tradições culturais e religiosas de origem africana o racismo se caracterizam pelas formas perversas de julgamentos que estigmatizam um grupo e exaltam outro valorizam e conferem prestígio e hegemonia a um determinado eu em detrimento de outrem sustentados pela ignorância pelo moralismo pelo conservadorismo e atualmente pelo poder político os quais culminam em ações prejudiciais e até certo ponto criminosas contra um grupo de pessoas com uma crença considerada não hegemônica NOGUEIRA 2020 p35 Para Nogueira 2020 renegar o Outro é uma autoafirmação é afirmar a própria identidade a partir dessa negação As Inquisições são um exemplo do que acontece quando da união do Estado e da Igreja Assim toda forma de preconceito emerge de uma postura social histórica e cultural que pretende a um só tempo segregar para dominar e proporcionalmente determinar e manter um padrão marcadores de prestígio e de poder NOGUEIRA 2020 p 41 A colonialidade do poder e do saber oculta segrega silencia e extermina tudo o que for do outro tudo que oferecer risco a manutenção do status quo tudo que ameace a manutenção do tripé prestígio renda e poder E com esse fim surge a Antropologia num contexto marcado pela expansão do imperialismo pois o discurso antropológico acabou criando uma visão depreciativa de outros países dando a ideia de 85 que o homem branco europeu precisava levar conhecimento aos outros Isso constrói para o ocidente uma autoimagem positiva mas negativa aos outros Clóvis Moura 2003 p70 corrobora com essa afirmação analisando que a antropologia tinha uma função neocolonizadora já que a utilização de termos como aculturação assimilação acomodação e sincretismo tiveram o encargo de colocar a religião do colonizador no caso do Brasil o catolicismo como superior e as religiões dos colonizados de origem africana e indígena como inferiores É como se fosse preciso que aqueles considerados pela classe dominante como primitivos precisassem assimilar se acomodar o padrão eurocêntrico para se tornar civilizados As religiões africanas ao serem transplantadas compulsoriamente para o Brasil faziam parte de padrões culturais daquelas etnias que foram transformadas em populações escravas Essas religiões assim transportadas eram por inúmeros mecanismos estabelecidos pelo aparelho de dominação ideológica colonial consideradas oriundas de populações bárbaras que por isso mesmo foram escravizadas MOURA 2003 p 72 O sincretismo religioso que é a reunião de doutrinas diferentes com a manutenção de traços perceptíveis das doutrinas originais na verdade vem afirmar que uma religião é superior designando as demais como inferiores utilizando o sincretismo de forma pejorativa Clóvis Moura analisa o conceito de sincretismo dessa forma Sobre o conceito de sincretismo tão usado pelos antropólogos brasileiros que estudam as relações interétnicas no particular da religião convém destacar que até hoje ele é usado quase sempre para definir um contato religioso prolongado e permanente entre membros de culturas superiores e inferiores A partir daí de um conceito de religiões animistas em contato com o catolicismo basicamente superior MOURA 2019 p 64 Como analisado anteriormente um dos artifícios para legitimar a escravidão de negros as e indígenas foi justamente a afirmação de que os europeus eram raças superiores como forma de aniquilar a prática sociocultural oriunda da África e da sabedoria indígena através do apagamento dessas memórias O capitalismo e o ideal de modernidade destroem a memória coletiva porque se nos conectamos ao passado temos sentido de pertencimento e conseguimos resistir e lutar contra as investidas do capitalismo Por isso quando negros as e indígenas escravizados as são expropriados de suas terras é justamente para se perderem da sua origem e a partir daquele momento servirem ao capital ao ideal de desenvolvimento Podese dizer portanto que o uso popular das plantas medicinais nessas condições constitui um complexo sistema de saúde não oficial em que participam erveiros centros religiosos e comunidade Durante muitos anos esse sistema paralelo de terapêutica foi duramente criticado pela sociedade e até mesmo alvo de perseguição policial ALMEIDA 2011 p 35 86 Assim a prática de cura realizada por intermédio dos espíritos denominada curandeirismo foi duramente perseguida pelas autoridades pelo Estado e pela classe médica que a transformaram em crime O saber popular era confrontado pelo cientificismo europeu que tinham como inimigos as classes dominantes juntamente com a Igreja De acordo com Camargo 2014 p 1 No Brasil de todos os tempos a medicina popular vem mantendo seu espaço lado a lado com o sistema médico oficial Porém por influência do viés etnocêntrico da medicina hegemônica hoje ela é entendida como produto de cultura inferior por não ter valor reconhecido cientificamente e fundamentalmente pelo seu vínculo com elementos doutrinários de cunho religioso de diferentes origens nos fazendo perceber tratarse de uma medicina sacralizada Segundo Vieira 2017 o Estado por meio do seu aparato repressivo mostrou se ávido no sentido de combater práticas consideradas por eles como baixo espiritismo As Ordenações Filipinas vigoraram no Brasil de 1603 até 1830 é uma compilação jurídica que veio substituir o Código Manuelino O livro V o mais longo do Código Penal Brasil ficou famoso pela dureza e crueldade de suas penas as ordenações tinham a finalidade de manter a ordem social a escravidão e a hegemonia da fé católica Reproduziremos parte do Título III Dos Feiticeiros Qualquer pessoa que em círculo ou fora dele ou em encruzilhada invocar espíritos diabólicos ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa para querer bem ou mal a outrem ou outrem a ele morra por isso morte natural E com essa mesma ideologia deram continuidade na legislação que não aceitava outras religiões que não fosse a Católica e que puniam principalmente as religiões de matriz africana A Constituição do Império de 1824 instituía em seu artigo 5º A religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas sem forma alguma exterior de templo VIEIRA 2017 p2 Isto é digamos que as religiões e suas práticas diferentes da Católica só eram toleradas e isso fez com que muitos terreiros de umbanda e candomblé fossem se instalar no interior dos Estados por medo de perseguições Nesse contexto o Código Penal de 189041 trazia o título Dos vadios e capoeiras em seu Capítulo XIII e na mesma época houve a criação da delegacia Seção de Entorpecentes Tóxicos e Mistificação ambos com o objetivo de punir e controlar os hábitos da população negra Constava em seu artigo 157 a seguinte interdição Praticar 41 Decreto nº 847 de 11 de outubro de 1890 87 o espiritismo a magia e seus sortilégios usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis enfim para fascinar e subjugar a credulidade pública BRASIL 1890 E no art 158 Ministrar ou simplesmente prescrever como meio curativo para uso interno ou externo e sob qualquer forma preparada substancia de qualquer dos reinos da natureza fazendo ou exercendo assim o ofício do denominado curandeiro Podemos verificar que a história do Brasil é a história do genocídio do povo negro e indígena o Estado agindo coercitivamente de forma a garantir a ordem social e eliminar quaisquer resquícios da cultura negra e indígena consideradas inferiores A medicina negra dos terreiros começou a incomodar a medicina científica como expressão da medicina dos homens brancos e ricos que passou a condenar os processos de cura realizados por pessoas não diplomadas O vasto conhecimento dos pais e mães de santo sobre as plantas medicinais suas qualidades efeitos e indicação para diversas doenças comuns não seriam aceitos pela sociedade essencialmente católica e encantada com os progressos da ciência como parte de uma religiosidade legítima nem de uma medicina eficaz A essas práticas terapêuticas práticas desabusadas da perniciosa feitiçaria realizadas pelos curandeiros eram associados os pejorativos termos de falsa medicina bruxaria e magia negra SAAD 2015 p 112 O que podemos perceber é que o capitalismo tenta destruir a memória de negros as inculcando sobre os indivíduos os valores que movem o sistema como o individualismo e o afastamento da natureza Na realidade brasileira o conhecimento dos pais e mães de santo sobre as plantas medicinais suas qualidades efeitos e indicação para diversas doenças por exemplo não poderiam ser aceitos por uma sociedade majoritariamente católica branca e patriarcal que arfava pela modernização e pelo embranquecimento da população A comunidadeterreiro portanto é o lugar da memória das origens e das tradições onde além de se preservar um conhecimento naturalístico e uma língua ancestral na qual são entoados os cantos e as louvações se celebra a vida de uma maneira muito particular isto é daqueles que decidiram juntos vivenciar uma visão de mundo comum BARROS 2014 p 12 Medicina eficaz e legítima só a da elite branca a qual as camadas pobres dificilmente teriam acesso Essa sabedoria popular colocava em risco a profissão dos médicos diplomados em sua maioria homens já que às mulheres não era permitido ingressar nas Universidades essa sabedoria representava uma grande ameaça a indústria farmacêutica vindoura Todavia essas religiões eram vistas pelos leigos como coisas demoníacas o que as tornou alvo de perseguição por parte da sociedade branca que através da força policial perseguia vários grupos religiosos negros 88 apreendendo objetos sagrados e fechando vários terreiros Os centros urbanos tornaramse lugares não indicados às práticas religiosas afrobrasileiras o que motivou a transferência das casasdesanto para lugares mais distantes BARROS NAPOLEÃO 2015 p 16 Em suma negros as e mulheres sofreram e sofrem todo tipo de expropriações pois o capitalismo utiliza esse conjunto de estratégias de dominação para reproduzirse como analisaremos a seguir 22 Expropriações e controle dos corpos femininos Ressaltamos que o patriarcado é anterior ao capitalismo e pode ser entendido como o poder que os homens exercem por meio dos papéis sexuais ou seja mesmo sendo anterior ao capitalismo no modo de produção capitalista ele vai assumir formas particulares de existência O controle sobre o corpo e a sexualidade a opressão e a exploração que o patriarcado desenvolveu e desenvolve sobre a mulher sob um modelo heterossexual obrigatório de naturalização dos sexos vieram atender a dois interesses Primeiro a garantia de controle sobre as os filhas os o que significava mais força de trabalho e portanto mais possibilidade de produção de riqueza Segundo ao garantir que a prole seria sua asseguravase aos homens a perpetuação da propriedade privada por meio da herança CISNE SANTOS 2018 p 44 A categoria trabalho é central para compreendermos que a propriedade privada e a apropriação não só dos meios de produção mas também da apropriação e dominação dos homens com relação às mulheres constituem formas do capitalismo se reproduzir Isto é engravidar as mulheres era garantir mais força de trabalho para produzir riqueza e ao mesmo tempo assegurar que essa riqueza seria sua através da herança Nas sociedades préindustriais já existia a divisão sexual do trabalho as mulheres do campo trabalhavam na terra cozinhavam criavam seus filhos e conduziam o comércio dos seus maridos não havia nessa época separação entre domicílio e local de trabalho isto é a produção doméstica era combinada com a produção feita fora de casa No entanto as mudanças econômicas necessariamente acarretavam mudanças em outros domínios da vida societal de forma que essas indústrias domésticas não tardaram a contribuir para diminuir a diferença entre o trabalho considerado feminino a ser realizado por mulheres e o considerado masculino a ser realizado por homens Essas mudanças no trabalho implicaram em mudanças na estrutura familiar que afetavam desde a forma como se davam os casamentos até o número de filhosas que cada casal podia ter SOUZA 2015 p 477 Isto é o controle e apropriação sobre o corpo das mulheres se tornou central no que tange ao trabalho o controle de natalidade se transformou em questão do Estado 89 Para Federici 2017 principalmente na Europa a expropriação dos meios de subsistência dos trabalhadores europeus e a escravização dos povos originários da América e África não foram os únicos meios pelos quais se formou e se acumulou o proletariado mundial esse processo transformou o corpo em uma máquina de trabalho e exigiu a destruição do corpo das mulheres através principalmente do que se convencionou chamar Caça às bruxas Para a autora a acumulação primitiva foi também uma acumulação de diferenças e divisões dentro da classe trabalhadora em que as hierarquias construídas sobre sexo e raça foram constitutivas da dominação de classe Na Europa entre os séculos XVI e XVII a privatização da terra e a mercantilização das relações sociais causaram uma enorme pobreza e mortalidade mas também uma grande resistência que ameaçou afundar a economia capitalista Sustento que esse é o contexto histórico em que se deve situar a história das mulheres e da reprodução na transição do feudalismo para o capitalismo porque as mudanças que a chegada do capitalismo introduziu na posição social das mulheres especialmente entre as proletárias seja na Europa seja na América foram impostas basicamente com a finalidade de buscar novas formas de arregimentar e dividir a força de trabalho FEDERICI 2017 p 126 Com a industrialização mesmo com as tarefas sendo ainda realizadas no interior das casas as famílias passaram a não depender mais exclusivamente da terra como meio de subsistência Com as novas relações econômicas surgiram também novas relações pessoais representando mudanças na vida das mulheres pois a partir do momento em que as indústrias domésticas se tornaram insuficientes para alimentar o capital o papel da mulher se desdobrou Assim como as indústrias domésticas não supriam mais as necessidades do capital essas perdiam o seu caráter de manufatura familiar e assumiam cada vez mais o caráter de trabalho executado por mulheres pois permitiam que essas exercessem o trabalho pago a gerência da casa e os cuidados com osas filhosas isto é que continuassem a exercer suas obrigações de gênero enquanto os homens se deslocavam para um local de trabalho fora da casa Essa passagem da história evidencia o papel crucial que o patriarcado exerce na implantação e perpetuação do capitalismo bem como de quaisquer outras sociedades de classe sempre de um modo apropriado à dominação vigente SOUZA 2015 p 478 O capitalismo se reinventa e utiliza formas de dominação para coexistir assim ao separar o local de produção do local de moradia o mundo da produção fábrica onde se extrai maisvalia foi automaticamente valorizado o mundo da reprodução da vida moradia onde não se extrai maisvalia foi portanto desvalorizado Isso é muito 90 importante para compreendermos a lógica de apropriação do capital bem como para entender como o trabalho tido como feminino foi e é visto como não produtivo Para Souza 2015 aí está a relação simbiótica pois ao separar mulheres em casa e homens na fábrica o capitalismo prepara o campo para quando o capital necessitasse pagar salários mais baixos e extrair mais maisvalia ele pudesse fazêlo sem contestação Quando o homem sai para trabalhar na fábrica sob um regime de assalariamento a mulher sofre mais uma vez a opressão da dependência econômica as mulheres e crianças passam a depender dos homens e não mais da terra É importante ressaltar que tal dependência é exercida diferentemente conforme a classe social à qual o homem pertence o patrão detém e exerce o poder sobre a totalidade da vida como um todo pública e privada o trabalhador detém o poder sobre a vida privada que exerce contra a mulher e filhos SOUZA 2015 p 479480 Porém como um dos objetivos do capitalismo é o aumento da extração de mais valia o trabalho das mulheres nas fábricas começa a ser necessário já que o salário dos homens é tão baixo que não consegue mais sustentar a sua família Assim com a industrialização quando conseguem ser inseridas como força de trabalho são desvalorizadas e sofrem vários tipos de expropriações são expulsas do trabalho assalariado e têm retirado tanto os seus direitos políticos quanto sexuais incluindo o direito ao voto Na Revolução Francesa as mulheres principalmente as mais pobres participaram das barricadas e revoluções porém quando ousaram estender os direitos humanos para si foram empurradas e guilhotinadas ARANTES 2013 No transcorrer da história o movimento das mulheres feministas ou não buscou ampliar suas estratégias assumindo reivindicações diversas mais arrojadas ou mais conservadoras de acordo com o período histórico vivido com as classes sociais em lutas e conforme as condições políticoeconômicas de cada período SOUZA 2015 p 483 É importante analisar a relação entre capitalismo e patriarcado de forma dialética e não fragmentada as complexas relações entre exploração de classe e a dominaçãoopressão existente nas relações sociais de sexo42 Dessa forma destacamos que o capitalismo está articulado às expropriações estruturais e estruturantes que se 42 O termo relações sociais de sexo tem origem na escola feminista francesa na língua original é chamado rapports sociaux de sexe surgiu no início dos anos 1980 e tem conexão com a divisão sexual do trabalho AnneMarie Devreux localiza a rapport sociaux no seio do marxismo que diz respeito não às simples relações entre indivíduos mas às relações sociais antagônicas Para a autora o uso de relações sociais de sexo nomeia explicitamente os sujeitos enquanto gênero evita mencionálos e o eufemiza 91 reinventam e se ressignificam incluindo as expropriações dos corpos e dos saberes principalmente femininos Para entender esse processo de expropriação é preciso destacar que através do processo nomeado por Marx 2013 p 787 como a assim chamada acumulação primitiva que se deu no intenso período de mercantilização da força de trabalho foi o momento em que o trabalhador foi apartado de suas condições de trabalho de forma coercitiva e violenta Na história da acumulação primitiva o que faz época são todos os revolucionamentos que servem de alavanca à classe capitalista em formação mas acima de tudo os momentos em que grandes massas humanas são despojadas súbita e violentamente de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como proletários absolutamente livres A expropriação da terra que antes pertencia ao produtor rural ao camponês constitui a base de todo o processo MARX 2013 p787 Desta feita o cercamento de terras a tomada dos meios de produção e de subsistência ofertou para a indústria trabalhadores livres de acordo com Fontes 2010 uma liberdade real e ilusória real pois os seres sociais estão defrontados de maneira direta à sua própria necessidade e ilusória pois vela as condições determinadas que subordinam os seres sociais às condições infligidas pelo sistema do capital ao trabalho Para Marx 2013 a violência e a coerção foram as formas utilizadas pelo Estado para impulsionar a transformação do feudalismo para o capitalismo abreviando a transição de um para o outro ou seja a violência é constitutiva e primordial para o capital assim os trabalhadores sofrem expropriações de variadas formas É preciso ressaltar que o capitalismo não é apenas um sistema econômico as relações humanas se transformam nas relações entre coisas e dessa forma FONTES 2010 é preciso incorporar tantos os elementos objetivos do processo quanto seus aspectos subjetivos aqueles que nos conformam como se fossemos moldados pela matéria contraditória da lógica dominante e destinados a vivem em função dela quando ao contrário somos seres sociais históricos e podemos nos assenhorarnos do que produzimos Apesar de uma das formas de lucro do capital ser a exploração da força de trabalho livre essa exploração não é meramente econômica mas também social a conversão de dinheiro em capital envolve toda a vida social numa complexa relação que repousa sobre a produção generalizada e caótica de trabalhadores cada vez mais livres expropriados de todos os freios à sua subordinação mercantil É por obscurecer por velar tal base social que a produção capitalista ou o momento da atividade produtiva de valorização do capital se apresenta como meramente econômico apesar de envolver toda a existência social FONTES 2010 p 42 grifos do autor 92 Para explicar no que consiste a tal base social do capital Fontes 2010 nos dá um exemplo que é a subsunção real do trabalho no capital que ocorre em primeiro lugar pela naturalidade que reveste a necessidade dos trabalhadores de venderem a sua força de trabalho para o mercado sob variadas condições em segundo lugar pelo fato de que é a lógica capitalista socialmente dominante que determina quem é ou não trabalhador pois essa produção não é voltada para a satisfação de suas necessidades e sim para a produção de maisvalor A classe trabalhadora se torna dependente do mercado pois necessita integrarse a ele para sobreviver e dessa forma a capacidade de trabalho é transformada em mercadoria essa necessidade vai se reatualizando e as formas de expropriações se reinventando A expropriação ora sob aspecto unicamente econômico ora demográfico abrange praticamente todas as dimensões da vida como uso de terras comunais direitos consuetudinários relação familiar mais extensa e entreajuda local conhecimento sobre plantas e ervas locais dentre outros aspectos e envolve profundas transformações culturais ideológicas e políticas FONTES 2010 p 51 grifos nossos Ainda segundo Fontes 2010 existem dois tipos de expropriações a primária que é a expropriação de grandes massas campesinas ou agrárias que podem se dar de boa vontade quando são atraídas para suas cidades ou quando são expulsas de suas terras ou incapacitadas de manter sua reprodução plena através de procedimentos tradicionais As expropriações secundárias são impulsionadas pelo capitalimperialismo contemporâneo Para Fontes 2010 as expropriações primárias continuam extirpando os recursos sociais das mãos dos trabalhadores rurais incidindo principalmente sobre a terra Porém as expropriações secundárias se abatem também sobre conhecimentos como já ocorreu no século XIX na introdução das grandes indústrias e no século XX com o fordismo sobre a biodiversidade sobre técnicas diversas desde formas de cultivo até formas de tratamento de saúde utilizadas por povos tradicionais No Brasil pelas particularidades do desenvolvimento do capitalismo citados no capítulo 1 as expropriações vão ocorrer por meio da violência da militarização do Estado do encarceramento em massa e do extermínio realizado pela Guerra às drogas que estão conectados diretamente ao racismo pois são formas de controle dos corpos negros Mas as expropriações não param por aí a expropriação de saberes principalmente femininos ao coibir práticas médicoreligiosas e o uso de plantas 93 medicinais em processos de cura envolve direitos consuetudinários como os hábitos e costumes dos povos originários por exemplo Para Fontes 2010 subsistem mesmo nas sociedades capitalistas mais avançadas certas formas de relação com a natureza que asseguram meios de vida parciais aos seres sociais ainda que não sejam capazes de lhes assegurar a completa subsistência como o acesso às águas ao ar às plantas e sua reprodução etc As expropriações contemporâneas denominadas de secundárias assumem exatamente o mesmo padrão anterior retiram dos seres sociais suas condições de existência e as convertem em capital Reconduzem seres sociais à condição de trabalhadores enquanto convertem meios de existência e de vida em capital Essas expropriações vão incidir sobre as mulheres de forma muito particular Para Federici 2017 Marx ao tratar da acumulação primitiva a analisou a partir da perspectiva dos trabalhadores proletários do sexo masculino e deixou de aprofundar fenômenos importantes como 1 o desenvolvimento de uma nova divisão sexual do trabalho 2 a construção de uma nova ordem patriarcal baseada na exclusão das mulheres do trabalho assalariado e em sua subordinação aos homens 3 a mecanização do corpo proletário e sua transformação no caso das mulheres em uma máquina de produção de novos trabalhadores Como vimos anteriormente a Caça às bruxas coincide com a origem do capitalismo na Europa sendo uma forma de insular das mulheres a relativa autonomia que elas tinham e garantir as bases para o capitalismo que estava começando ou seja a expropriação do corpo das mulheres é uma mediação central entre a acumulação primitiva e a violência contra as mulheres Para Federici 2017 p330 assim como os cercamentos expropriavam as terras comunais do campesinato a Caça às bruxas expropriou o corpo das mulheres corpos que deveriam estar liberados para produzir mão de obra para o sistema capitalista As relações de sexo são parte constitutiva das relações sociais e de produção não se separam e as discriminações de sexo no trabalho são a base da dominação da classe operária dessa forma é preciso analisar que as mulheres sofrem uma exploração particular diferente da exploração sofrida pelos homens da classe trabalhadora Cisne 2014 ressalta que dessa mesma forma o racismo também é um dos elementos fundamentais para desvelarmos os mecanismos de dominação e exploração de classe Para a autora ao elaborar estratégias coletivas de enfrentamento é necessário pensar nesse viés já que as formas de submissão são sempre atravessadas pelas relações de sociais de sexo e pela divisão sexual do trabalho 94 Dessa forma para o desenvolvimento do capitalismo através da sociedade competitiva é vantajoso que as mulheres representem força de trabalho mais desvalorizada o sexo fonte de inferiorização social da mulher passa a interferir de modo positivo para a atualização da sociedade competitiva na constituição das classes sociais Saffioti 1979 p 35 Para Cisne 2014 as particularidades como sexo raçaetnia imprimem implicações diferentes para as variadas frações da classe trabalhadora por isso as mulheres brancas ganham menos que os homens brancos e mais que as mulheres e homens negros há uma hierarquia Essa hierarquia segue a seguinte ordem homens brancos mulheres brancas homens negros e pardos e mulheres negras Diante dessas implicações temos a compreensão de como a dinâmica de exploraçãodominaçãoopressão do capitalismo se reproduz sobre mulheres e negros principalmente com relação às mulheres negras o que revela desigualdades dentro de uma mesma classe A autora cita outra dimensão importante Os homens brancos e heterossexuais possuem muito mais privilégio do que o outro lado extremo da hierarquia social a mulher negra lésbica e pobre Assim a dimensão da orientação sexual nessa sociedade patriarcal engendra opressões particulares Por exemplo um homem pobre e heterossexual possui muito mais respeitabilidade do que um homem pobre gay CISNE 2014 p30 Cisne 2014 seguindo a linha de pensamento de Falquet 22082012 destaca que as relações sociais de sexo e raça são elementos essenciais para entendermos a exploração no mundo do trabalho sendo denominado por ele como trabalho desvalorizado e trabalho considerado feminino Esses dois tipos de trabalho estão entre a extração de trabalho mediante salário e extração de trabalhos gratuitos ou seja a mão de obra desfavorecida se deixa apropriar para completar o salário baixo obtido através da exploração Além disso as mulheres são as maiores vítimas da precarização do trabalho e das políticas públicas colocadas na posição de cuidadoras de toda a família são elas que se encontram nos vínculos informais que enfrentam as filas nos hospitais públicos e que exercem sozinhas a maternidade A marca do sexo não esteve presente apenas na origem do antagonismo de classe mas ainda fazse fortemente presente Compreendemos assim que a classe operária tem dois sexos SouzaLobo 2011 do contrário como podemos explicar que as mulheres estão nos postos de trabalho mais precarizados e mal remunerados Como explicar a persistente divisão sexual do trabalho que não apenas diferencia trabalho feminino do masculino mas gera desigualdades entre homens e mulheres pertencentes a uma mesma classe Como explicar a jornada intensiva e extensiva de trabalho e o não reconhecimentodesvalorização do trabalho domésticoreprodutivo Como explicar o porquê de 70 dos pobres do mundo ser mulheres Mészáros 95 2002 Negar a dimensão de sexo no trabalho é negar a realidade em que vive a classe trabalhadora em especial a das mulheres em sua relação com o capital CISNE 2014 p 25 Assim por meio das apropriações advindas das relações de raça e sexo o capitalismo amplia o contingente humano disponível para os mais baixos salários aumentando portanto sua capacidade de exploração do trabalho associada a essas apropriações CISNE 2014 p 70 Essa é uma das expressões da base capitalismoracismopatriarcado que quer manter a mulher negra no último lugar na hierarquia retirando delas toda e qualquer forma de inserção no mercado de trabalho em condições dignas e submetendoas à precariedade da vida e da violência Uma das formas de expropriação é o encarceramento em massa da população feminina que atinge números alarmantes como veremos a seguir De acordo com o Relatório Temático sobre Mulheres Privadas de Liberdade de Junho2017 do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias INFOPEN43 a evolução das mulheres privadas de liberdade saltou de 17200 em 2006 para 40970 em 2016 sendo que dessas 6355 se autodeclaram da coretnia pretas e pardas ou seja em 10 anos da Lei 11343 de 2006 conhecida popularmente como lei de Drogas os resultados mostram que a questão do cárcere só se agravou principalmente entre a população negra Esses dados nos remetem a pensar na relação entre Estado e racismo Silvio Almeida 2015 utiliza alguns conceitos de Foucault ressaltando que a concepção de soberania principalmente a partir do século XIX diz respeito ao poder sobre o controle da vida o capitalismo quer controlar não só as relações sociais e de produção mas também os corpos Através da falta do saneamento básico segurança pública e desemprego o Estado acaba escolhendo quem vai morrer nesse caso negros as pobres moradores de periferia são os corpos marcados para morrer Assim o poder do Estado passa pelo racismo de duas formas uma na escolha de quem vai morrer e outra na naturalização da morte do outro já que o outro o corpo negro representa a raça ruim o degenerado Almeida 2015 afirma que nos países colonizados que passaram pelo regime escravista as configurações do racismo são outras como é o caso do Brasil O Direito não coloca limites no poder estatal sobre os corpos humanos e mais uma vez acontece 43 Disponível em httpdepengovbrDEPENdepensisdepeninfopen mulherescopyofInfopenmulheresjunho2017pdf 96 a naturalização e banalização da morte de jovens e crianças negros as assassinadas nas periferias dos grandes centros urbanos Todos esses fatos conduzem ao conceito de Necropolítica criado pelo filósofo negro historiador teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe Esse termo indica a política da morte adaptada pelo Estado ela é a regra não uma exceção Ele elabora esse conceito à luz do estado de exceção do estado de terror do terrorismo O que vemos nas favelas do Brasil principalmente no Rio de Janeiro não é um serviço de combate à criminalidade e sim a perseguição daquele que é considerado perigoso Os dados apresentados não revelam nenhuma novidade e sim uma continuidade de uma política que visa manter as estruturas de opressão e garantia de poder e capital nas mãos da burguesia que disputa entre si manter os seus privilégios O que vemos em termos gerais é um Estado que restringe cada vez mais a democracia e impõe o conservadorismo porém sob o verniz de um discurso democrático e através do medo desde os tempos de Brasil Colônia O mito da democracia racial no Brasil ignora de forma hipócrita as desigualdades existentes Os mitos existem para esconder a realidade FERNANDES 2017 Como dito anteriormente consideramos que o capitalismo não é apenas uma realidade econômica é um sistema que pressupõe um estilo de vida que se mostra autoritário e racista esse estilo de vida se associa a procedimentos autocráticos tendo o Estado como seu aliado São procedimentos oriundos do passado que se metamorfoseiam no presente que não se configuram somente em uma repetição mecânica se equilibrando entre novidades e continuidades ou entre elementos estruturantes e dinâmicos do próprio capitalismo O sistema escravocrata nunca teve fim Nesse sentido a condição colonial permanente FERNANDES 1968 impossibilita a mobilidade social a inserção no mercado de trabalho de forma não subalternizada a educação de qualidade socialmente referenciada e a moradia à população negra falta de estrutura que impacta negativamente nas condições de saúde da população negra e indígena como veremos no terceiro capítulo Tudo isso em um país que tem uma elite sem projeto nacional que nunca moveu as estruturas de desigualdades no país porque é isso que a mantém Assim como não houve rompimento com o passado ele se reapresenta na história e a questão racial sempre esteve presente mas emerge se reacomoda de outra forma Como não há ruptura definitiva com o passado a cada passo este se reapresenta 97 na cena histórica e cobra o seu preço embora sejam muito variáveis os artifícios da conciliação em regra uma autêntica negação ou neutralização da reforma FERNANDES 2005 p 238 Dessa forma olhar para o panorama atual da burguesia brasileira e a sua natureza racista a partir de raízes históricas compreendendo os interesses políticos econômicos e sociais por trás do mito da democracia racial e da Guerra às drogas significa entender que o racismo é constitutivo e funcional ao capitalismo dependente não representando somente uma herança escravocrata e sim uma revitalização das relações sociais e de produção do antigo regime que favorece a acumulação de capital O capitalismo o racismo e a necropolítica são inseparáveis e se sustentam entre si promovendo o extermínio ou genocídio da parcela da população marcada para morrer São formas de expropriação dos corpos negros e indígenas da cultura negra e indígena e o fantasma da escravidão e dos tempos de Brasil colônia orientam as políticas na contemporaneidade Desse ângulo o negro vem a ser a pedra de toque da revolução democrática na sociedade brasileira A democracia só será uma realidade quando houver de fato igualdade racial no Brasil e o negro não sofrer nenhuma espécie de discriminação de preconceito de estigmatização e de segregação seja em termos de classe seja em termos de raça Por isso a luta de classes para o negro deve caminhar juntamente com a luta racial propriamente dita FERNANDES 2017 p41 Examinando a forma como se constitui a formação social brasileira de acordo com as análises de Florestan Fernandes fica em evidência que a sociedade brasileira não está racista ela é racista No Brasil o que se tem é uma cidadania excludente a qual o nível de distribuição de renda e o acesso à educação são ineficientes de acordo com o IBGE44 os estudantes de 18 a 24 anos negros cursando ensino superior em 2018 foi de 55 6 e de brancos na mesma faixa etária 788 O Brasil adotou a postura de criminalização da pobreza onde a legislação tem recorte racial e de classe que sustenta a engrenagem do capitalismo dependente seguindo o tripé da manutenção da renda prestígio e poder da classe dominante A classificação racial da população que colocou a mulher negra em último lugar na pirâmide da hierarquia social também a colocou no lugar do silenciamento se as mulheres brancas pertencentes à elite tiveram que reivindicar os seus direitos à mulher negra restou o apagamento como se não existissem O saber e o conhecimento produzido pelas mulheres negras nunca foram vistos como conhecimento concreto até hoje é tão difícil encontrar obras de escritoras negras pois há uma intrínseca relação 44 Disponível em httpsbibliotecaibgegovbrvisualizacaolivrosliv101681informativopdf 98 entre o sexismo e o racimo como citado anteriormente à mulher negra foi dada a ligação ao corpo a mulata do carnaval e não ao pensar Dentro desse debate a filósofa Djamila Ribeiro analisando o pensamento de Lélia Gonzalez em seu livro Lugar de Fala traz uma importante reflexão sobre a hierarquização de saberes onde há uma equação quem possui privilégio social possui também o privilégio epistêmico A consequência dessa hierarquização legitimou como superior a explicação epistemológica eurocêntrica conferindo ao pensamento moderno ocidental a exclusividade do que seria conhecimento válido estruturandoo como dominante e assim inviabilizando outras experiencias do conhecimento RIBEIRO 2019 p24 Para as autoras o racismo se constituiu como a ciência da superioridade eurocristã branca e patriarcal e isso define quais vozes são legitimadas ou não ou seja as vozes negras e indígenas não são legitimadas pois a linguagem também é uma forma de manutenção de poder e quem detém o poder tem a sua voz legitimada Lélia Gonzalez provoca e desestabiliza a epistemologia dominante assim como Linda Alcoff Em Uma epistemologia para a próxima revolução a filósofa panamenha critica a imposição de uma epistemologia universal que desconsidera o saber de parteiras povos originários a prática médica de povos colonizados escrita de si na primeira pessoa e que se constitui como legítima e com autoridade para protocolar o domínio do regime discursivo RIBEIRO 2019 p 26 Por isso os saberes de curandeiras mães de santo Ialorixás saberes oriundos dos povos originários que possuem outra cosmogonia45 são desvalorizados e perseguidos pela elite dominante cristã branca e patriarcal Essa sabedoria ancestral que foi perseguida e literalmente apagada da história em nome do desenvolvimento Assim no próximo capítulo traçaremos um paralelo entre o racismo estrutural a Guerra às drogas a criminalização da pobreza e o rebatimento dessas expressões para o acesso a cannabis medicinal no Brasil O proibicionismo tem uma estreita ligação com o imperialismo estadunidense pois se de um lado acentua o encarceramento em massa e extermina principalmente a juventude negra através da Guerra às drogas de outro alimenta a indústria farmacêutica estadunidense 45 Cosmogonia é o conjunto de teorias princípios ou doutrinas com base científica religiosa ou meramente mítica que procura descrever e explicar a origem e a formação do Universo 99 CAPÍTULO 3 GUERRA ÀS DROGAS DIREITO À SAÚDE E O ACESSO A CANNABIS MEDICINAL NO BRASIL Mas a relação castigocorpo não é idêntica ao que ela era nos suplícios O corpo encontrase aí em posição de instrumento ou de intermediário qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao mesmo tempo como um direito e como um bem O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos Foucault Vigiar e Punir Introdução Esse capítulo tem como objetivo traçar um paralelo entre o estatuto do proibicionismo brasileiro que foi capitaneado pelos Estados Unidos e o imperialismo estadunidense como expressão do caráter dependente do capitalismo brasileiro mostrando como o racismo estrutural se expressa na proibição da maconha no Brasil A hegemonia dos Estados Unidos é essencial para entendermos não só como se configurou a relação entre imperialismo e capitalismo dependente mas como se conformou a Guerra às Drogas na realidade brasileira Além disso destacamos que essa guerra e a proibição impossibilitam o acesso das famílias de baixa renda ao tratamento com medicamentos à base de cannabis sativa pois por ser proibida para pesquisas e produção de medicamentos no Brasil as plantas tem que ser importadas dos Estados Unidos ou da Europa 31 Guerra às drogas Reflexões sobre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo brasileiro Lenin em seu ensaio Imperialismo estágio superior do capitalismo publicado em 1917 considera que o imperialismo constitui uma nova etapa do desenvolvimento do capitalismo quando predominam os monopólios e o capital financeiro ressaltando que há uma modificação no papel dos bancos que levou a uma privatização das relações sociais e uma socialização das relações privadas dandose o caráter contraditório dos monopólios Posteriormente surgem os cartéis que se baseiam na junção de empresas concorrentes com o objetivo de controlar a concorrência e aumentar os lucros Com o crescente avanço dos cartéis os monopólios começaram a representar uma quantia insignificante no modo de produção capitalista levando ao fortalecimento dos cartéis fortalecendo assim o imperialismo Para Lenin 2012 p 44 100 O resumo da história dos monopólios é o seguinte 1 de 1860 a 1870 o grau superior o ápice de desenvolvimento da livre concorrência Os monopólios não constituem mais do que germes quase imperceptíveis 2 depois da crise de 1873 longo período de desenvolvimento dos cartéis que ainda constituem apenas uma exceção ainda não são sólidos representando somente um fenômeno passageiro 3 auge dos fins do século XIX e crise de 1900 a 1903 os cartéis passam a ser uma das bases de toda a vida econômica O capitalismo transformouse em imperialismo Os bancos constituem facetas importantes para a fase do imperialismo pois eles eram responsáveis por converter o capitaldinheiro inativo em ativo isto é reunir os rendimentos em dinheiro e colocálos à disposição dos capitalistas Assim com o desenvolvimento dos bancos e o acúmulo de riquezas eles passaram de modestos intermediários a monopolistas onipotentes Para Lenin 2012 esse é um dos processos fundamentais da transformação do capitalismo em imperialismo pois os bancos começaram a concentrar os rendimentos não só dos grandes mas dos pequenos patrões também dos empregados O objetivo primeiro dos bancos era fazer com que o capital rendesse lucros Com o posterior aumento da acumulação de riquezas os bancos possuíam quase a totalidade de capital dos pequenos capitalistas e dos burgueses com esse crescimento no capital os pequenos bancos foram sendo incorporados pelos grandes que por sua vez se transformaram em um grupo de bancos os gigantes monopolistas Em nome da economia política burguesa dos nossos dias consiste na realidade na subordinação a um centro único de um número cada vez maior de unidades econômicas que antes eram relativamente independentes ou para sermos mais exatos que possuíam um caráter estritamente local Tratase pois com efeito de uma centralização de um reforço do papel da importância e do poder dos gigantes monopolistas LENIN 2012 p59 Para a manutenção do sistema capitalista os meios de produção se tornam cada vez mais privados enquanto a classe trabalhadora passa pela expropriação dos seus meios de sobrevivência e inevitavelmente é obrigada a vender a sua força de trabalho se submetendo à lógica capitalista A condição primeira e mais básica da expansão capitalista para além dos limites da dominação política e militar é a imposição de imperativos econômicos introduzindo as compulsões do mercado onde elas existem e sustentandoas onde existem O poder econômico do capital pode ser capaz de ir além do alcance do poder militar e político mas só o fará se e quando as leis da economia capitalista forem ampliadas e isso é algo que exige ajuda extraeconômica tanto nas relações internas de classe quanto na dominação imperial Na economia capitalista interna o Estado foi particularmente importante na criação e manutenção de uma classe de trabalhadores sem propriedade que justamente por isso é obrigada a entrar no mercado para vender a sua força de trabalho WOOD 2014 p 28 101 O imperialismo representa a fase da dominação externa por parte das grandes potências da partilha do mundo e o aumento da política colonial dos países capitalistas tendo como atores principais a Europa e os Estados Unidos Assim em seu estágio imperialista A produção passa a ser social mas a apropriação continua a ser privada Os meios sociais de produção continuam a ser propriedade privada de um reduzido número de indivíduos Mantémse o quadro geral da livre concorrência formalmente reconhecida e o jugo de uns quantos monopolistas sobre o resto da população tornase cem vezes mais pesado mais sensível mais insuportável LENIN 2012 p48 Desde o imperialismo e a partilha do mundo houve a segregação não apenas de uma classe social em detrimento da outra mas também dos países centrais em relação aos países periféricos Assim a expansão do capitalismo foi organizando a dominação externa dos países da América Latina a partir de dentro através da ação econômica dos bancos da militarização do poder da transplantação da tecnologia e da expansão da infraestrutura O capitalismo se distingue de todas as outras formas sociais precisamente por sua capacidade de estender seu domínio por meios puramente econômicos De fato o impulso do capital na busca incansável de auto expansão depende dessa capacidade única que se aplica não somente às relações de classe entre capital e trabalho mas também às relações entre Estados imperiais e subordinados O imperialismo capitalista exerce seu domínio por meios econômicos pela manipulação das forças do mercado inclusive da arma da dívida WOOD 2014 p 23 Para a autora Ellen Wood 2014 há um novo imperialismo e o seu principal impositor são os Estados Unidos que propõem entre outras coisas uma guerra sem fim contra o terrorismo e a promoção de uma política de defesa preventiva no qual o objetivo não é mais a conquista colonial e a dominação imperial direta Esse é o paradoxo do novo imperialismo É o primeiro imperialismo em que o poder militar foi criado não para conquistar território nem para derrotar rivais É um imperialismo que não busca expansão territorial nem dominação física de rotas territoriais Ainda assim ele produziu essa enorme e desproporcional capacidade militar com um alcance global sem precedentes Talvez seja precisamente por não ter nenhum objetivo claro e finito que o novo imperialismo exija força militar tão pesada A dominação ilimitada de uma economia global e dos múltiplos Estados que a administram exige ação militar sem fim em propósito ou tempo WOOD 2014 p 109 Dessa forma destacamos que o principal cliente da indústria bélica é o Estado pois compõe um elemento importante de contenção das crises inerentes ao modo de produção capitalista devido à superacumulação e destruição de forças produtivas para retomada de ciclos O Imperialismo se constitui então em uma política de expansão e dominação militar tecnológica econômica e ideopolítica 102 Como destacamos anteriormente para analisar a relação entre imperialismo e capitalismo dependente é preciso ressaltar que o desenvolvimento do capitalismo brasileiro teve suas particularidades se tornando o que o sociólogo Florestan Fernandes denominou como país de capitalismo dependente que tem como características intrínsecas a associação dependente com o capital imperialista externo e a manutenção de formas econômicas arcaicas Ou seja o desenvolvimento do capitalismo brasileiro se deu conservando o caráter colonial das relações sociais e de produção e mantendo o status quo da burguesia brasileira conforme analisado nos capítulos anteriores Cardoso 1994 explicita que o conceito de capitalismo dependente elucidado por Florestan Fernandes trata antes de mais nada de capitalismo numa das formas específicas de uma das fases do seu desenvolvimento isto é parte heterônoma ou dependente do capitalismo monopolista Florestan Fernandes em seu ensaio Revolução Burguesa no Brasil escrito em 1975 nos apresenta quatro fases da dominação externa Para o autor as nações latino americanas são produtos da expansão da civilização ocidental através de um tipo de colonialismo moderno que teve início com a conquista espanhola e portuguesa e que adquiriu uma forma mais complexa após a emancipação nacional daqueles países Uma das principais reflexões acerca da relação entre a economia brasileira e mundial diz respeito a dupla articulação e a conciliação de interesses entre a burguesia brasileira e a burguesia internacional A dupla articulação impõe a conciliação e a harmonização de interesses díspares tanto em termos de acomodação de setores econômicos internos quanto em termos de acomodação da economia capitalista dependente às economias centrais e pior que isso acarreta um estado de conciliação permanente de tais interesses entre si Formase assim um bloqueio que não pode ser superado e que do ponto de vista da transformação capitalista torna o agente econômico da economia dependente demasiado impotente para enfrentar as exigências da situação de dependência FERNANDES 1975 p 473 A dominação externa e a colonização de quase todas as nações latino americanas foram construídas com base no antigo sistema colonial apresentando um duplo fundamento legal e político Em termos jurídicos a legitimidade de dominação tinha um duplo fundamento legal e político Os colonizadores eram submetidos à vontade e ao poder das Coroas de Espanha e Portugal às quais deviam como vassalos obediência e lealdade Essa identidade de interesses das Coroas e dos colonizadores sofreu várias rupturas Não obstante permitiu tanto o endosso dos interesses dos colonizadores pelas Coroas como inversamente uma orientação de valores pela qual os colonizadores agiam em benefício dos interesses das Coroas FERNANDES 1975 p 13 103 O primeiro tipo de dominação externa tinha o objetivo de manter o status quo dos colonizadores e da Coroa o que foi conseguido através da transplantação dos padrões ibéricos de estrutura social adaptado ao trabalho dos nativos ou à escravidão Dessa forma escravizados as nativos as e mestiços as foram mantidos fora das estruturas estamentais em um sistema de castas sem mobilidade o que possibilitou à Coroa e aos colonizadores uma superexploração da força de trabalho Os interesses dos colonizadores e da Coroa sofreram rupturas ao longo do tempo porém sem abalar a conjugação de interesses entre ambos Para o referido autor 1975 alguns fatores desencadearam a crise desse tipo de dominação o próprio padrão de exploração colonial inerente ao sistema político e legal da dominação apresentava dificuldades pois as economias da Espanha e de Portugal não conseguiam sustentar o financiamento das atividades mercantis de descoberta exploração e crescimento das colônias A luta pelo controle econômico das colônias latinoamericanas na Europa e a ação dos vitimados pela rigidez da ordem social e interessados na destruição do antigo sistema colonial também representaram fatores preponderantes para a crise do antigo sistema colonial O segundo tipo de dominação externa foi identificado por Fernandes 1975 como neocolonialismo as nações europeias que conquistaram o controle dos negócios de exportação e importação na América Latina estavam mais interessadas no comércio que na produção local A produção com vistas à exportação imediata já estava organizada numa base bastante compensadora em termos de custos Por outro lado a ausência de produtos de alto valor econômico e a existência de um mercado consumidor relativamente amplo tornou mais atraente o controle de posições estratégicas nas esferas comerciais e financeiras A Inglaterra por exemplo iniciou uma política comercial que propiciou rápido impulso à emergência dos mercados capitalistas modernos nos centros urbanos das excolônias FERNANDES1975 p15 Houve uma expansão das agências comerciais e bancárias e uma monopolização dos mercados latinoamericanos já que as excolônias não possuíam recursos necessários para produzir os bens importados e a classe dominante tinha muito interesse na exportação Os efeitos estruturais e históricos dessa dominação foram agravados pelo fato de que os novos controles desempenhavam uma função reconhecida a manutenção do status quo ante da economia com o apoio e a cumplicidade das classes exportadoras os produtores rurais e os seus agentes ou os comerciantes urbanos FERNANDES 1975 p 15 Escolheram assim um papel econômico secundário e dependente com as estruturas econômicas construídas sob o antigo sistema colonial 104 O terceiro tipo de dominação externa foi uma consequência da reorganização da economia mundial vinda da Revolução Industrial na Europa O neocolonialismo foi uma fonte de acumulação de capital nos países europeus essenciais para o desenvolvimento do capitalismo industrial As influências externas atingiram todas as esferas da economia da sociedade e da cultura não apenas através de mecanismos indiretos do mercado mundial mas também através de incorporação maciça e direta de algumas fases dos processos básicos de crescimento econômico e de desenvolvimento sociocultural Assim a dominação externa tornouse imperialista e o capitalismo dependente surgiu como uma realidade histórica na América Latina FERNANDES 1975 p 16 grifos nossos Esse tipo de dominação realça o padrão dual de expropriação do excedente econômico ou seja há uma superexploração da força de trabalho para alimentar tanto a economia externa quanto a interna preservando o esquema de exportação importação baseado na produção de matériasprimas transfere o excedente econômico dos países de capitalismo dependente para os países hegemônicos Fernandes 1975 p65 considera que o que foi considerado idade de ouro do capitalismo estrangeiro só foi idade de ouro para os países europeus e para os Estados Unidos as economias dependentes foram transformadas em mercadorias tendo a sua integração nacional negligenciada O quarto tipo de dominação externa surge com a expansão das grandes empresas corporativas nos países latinoamericanos especialmente a indústria leve e pesada Essas empresas trouxeram um novo tipo de organização com novos padrões de planejamento propaganda de massa concorrência e controle interno das economias dependentes Os Estados Unidos como superpotência configurando o imperialismo total que organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social desde o controle da natalidade comunicação e consumo em massa até a educação FERNANDES 1975 Esse tipo de imperialismo demonstra que os países latinoamericanos mesmo os mais avançados não dispõem nem dos requisitos básicos para o rápido crescimento econômico os interesses são controlados a partir de fora e a burguesia só se preocupa em manter os seus interesses particularistas A dominação externa em todas as suas formas produz uma especialização geral das nações como fontes de excedente econômico e de acumulação de capital para as nações capitalistas avançadas FERNANDES 1975 Fernandes 1975 cita que essa dominação externa produz três realidades estruturais a concentração de renda prestígio social e poder dos estratos que possuem 105 importância estratégica para o núcleo hegemônico a existência de estruturas econômicas socioculturais e políticas em diferentes épocas históricas realçando o desenvolvimento desigual e combinado46 elucidado por Trotsky a exclusão de ampla parcela da sociedade condenados do sistema47 como requisito estrutural e dinâmico para o desenvolvimento do sistema Essa nova fase do imperialismo não se constitui apenas de fatores econômicos há mudanças nos padrões de consumo de propaganda de tecnologia que representa uma luta violenta pela sobrevivência do próprio capitalismo A erupção do moderno imperialismo iniciouse suavemente através de empresas corporativas norteamericanas ou europeias que pareciam corresponder aos padrões ou às aspirações de crescimento nacional auto sustentado conscientemente almejado pelas burguesias latinoamericanas e suas elites no poder ou pelos governos Por isso elas foram saudadas como uma contribuição efetiva para o desarrolismo ou o desenvolvimentismo recebendo um apoio econômico e político irracional FERNANDES 1975 p22 O imperialismo destruiu as possibilidades de desenvolvimento dos países capitalistas dependentes apresentando uma aparência de desenvolvimentismo com a submissão consentida da burguesia local que não passou de uma falácia uma revitalização de elementos antigos e a expropriação da riqueza de dentro para fora configurando o recolonialismo Os Estados Unidos desempenharam um papel pioneiro e dominante nesse processo devido às consequências de sua expansão econômica na América Latina principalmente pelo fato de os países latinoamericanos não possuírem recursos materiais e humanos para estabelecer limites à hegemonia estadunidense Em consequência o processo de modernização iniciado sob a influência e o controle dos Estados Unidos aparece como uma rendição total e incondicional propagandose por todos os níveis da economia da segurança e da política nacionais da educação e da cultura da comunicação em massa e da opinião pública e das aspirações ideais com relação ao futuro e ao estilo de vida desejável FERNANDES 1975 p 23 Além do mais para as elites econômicas a única alternativa para enfrentar a subversão a corrupção e evitar o comunismo foi ceder ao recolonialismo isto é essa rendição total ganha materialidade a partir do traço ou condição colonial permanente Segundo Fernandes 1975 p22 46 A lei do desenvolvimento desigual e combinado formulado por Trotsky compreende a ocorrência simultânea de aspectos avançados e atrasados no processo de desenvolvimento dos países Isso se revela especialmente nos países periféricos do sistema mundial nos quais um setor extremamente moderno da economia pode existir de forma combinada com o mais atrasado resultando numa formação social sem grandes contradições entre as classes dominantes 47 Segundo Florestan Fernandes os condenados do sistema são os agentes humanos que não se classificavam para o mercado de trabalho e assim ficavam mais vulneráveis à superexploração do trabalho O setor humano marginal de sua origem econômica 106 Está claro que essa condição se altera continuamente primeiro se prende ao antigo sistema colonial depois se associa ao tipo de colonialismo criado pelo imperialismo das primeiras grandes potências mundiais na atualidade vinculase aos efeitos do capitalismo monopolista na integração da economia internacional Ela se redefine no curso da história mas de tal modo que a posição heteronômica da economia do país em sua estrutura e funcionamento mantémse constante O que varia porque depende da calibração dos fatores externos envolvidos é a natureza do nexo da dependência a polarização da hegemonia e o poder de determinação do núcleo dominante Dessa forma o que torna a hegemonia dos Estados Unidos ainda mais forte é a concepção estadunidense de segurança fronteira econômica e ação conjunta contra mudanças radicais ou revolucionárias de países vizinhos ou seja o objetivo é incorporar os países latinoamericanos ao espaço econômico e sociocultural dos Estados Unidos e para isso coexistem Instituições oficiais semioficiais ou privadas encarregadas de conduzir a política de controle global das finanças da educação da pesquisa científica da inovação tecnológica dos meios de comunicação em massa do emprego extranacional das políticas das forças armadas e mesmo dos governos FERNANDES1975 p 24 Os valores culturais oriundos dessa hegemonia estadunidense influenciam o consumo em massa e consequentemente incentivam o desperdício a competição e o individualismo assegurando os interesses privados que vai ter influência direta no Brasil onde a renda o prestígio social e o poder continuam nas mãos da classe dominante pois não há democracia de participação ampliada garantidora da participação da classe trabalhadora só a democracia restrita que atende exclusivamente aos interesses da classe dominante ou seja nos termos de Florestan Fernandes democracia para os mais iguais FERNANDES 2019 p 61 Fernandes 1975 lembra que nesse processo os países latinoamericanos enfrentam duas duras realidades estruturas econômicas socioculturais e políticas internas que podem absorver as transformações do capitalismo mas que inibem a integração nacional e o desenvolvimento autônomo e a dominação externa que estimula a modernização e o crescimento nos estágios mais avançados do capitalismo mas que impede a revolução nacional e uma autonomia real Os dois aspectos constituem faces da mesma moeda De acordo com Lima 2009 o Brasil se insere na economia mundial subordinado econômica política e culturalmente à Europa e posteriormente aos EUA mantendo características dos ciclos econômicos anteriores combinando formas arcaicas e modernas de produção que articulam a industrialização por substituição de importações e a crescente urbanização com a ordem rural vigente Essa 107 subordinação conciliava os interesses da burguesia nacional e internacional que forjou uma democracia restrita isto é com a mínima participação da classe trabalhadora nas decisões políticas A estreita ligação do imperialismo ao proibicionismo se dá ao considerar que a Guerra às drogas48 é uma das formas de controle social pois declarando guerra aos psicoativos o Estado justifica suas intervenções na sociedade através do discurso da repressão à produção e consumo de substâncias tidas como ilícitas e assim a violência vai incidir principalmente nas classes sociais subalternas Como vimos anteriormente muitas substâncias eram naturalmente usadas e comercializadas para alívio de males físicos e espirituais e não sendo portanto proibidas Segundo Macrae 2003 p1 uma das razões pelas quais durante a maior parte da história o uso de psicoativos não apresentasse maiores ameaças à sociedade constituída é que ele geralmente se dava no bojo de rituais coletivos ou orientado por objetivos que a sociedade reconhecia como expressão de seus próprios valores No entanto a partir do século XVI esse quadro mudou com as Grandes Navegações os europeus entraram em contato com uma variedade de produtos entre eles as chamadas Substâncias Psicoativas SPA De acordo com Escohotado 1998 o uso de algumas dessas substâncias pelos povos originários tinha caráter de resistência cultural ao processo de colonização o que fez com que inicialmente seu uso fosse violentamente reprimido pelos colonizadores como foi o caso do ópio na Ásia e da folha de coca na América Latina Porém ao mesmo tempo em que havia repressão era possível perceber uma certa tolerância em relação ao uso das SPAs usadas como estratégia de dominação dos colonizadores pois por outro lado essas substâncias apresentavam um comércio bem lucrativo como é o caso do ópio Antes do início da Era Cristã o ópio era utilizado na China para fins medicinais o consumo para uso recreativo era restrito às elites e à nobreza porém a partir de meados do século XVII a situação mudou pois houve a introdução do hábito de fumar tabaco entre os marinheiros europeus Assim o comércio começou a florescer em dois sentidos mas a um alto preço para a China as quantidades maciças de tabaco desembarcadas popularizaram o hábito do fumo começando a causar um problema de saúde pública Prenunciando um padrão que se repetiria na China e no resto do mundo a partir de então um édito da época proibindo o hábito logrou agravar ainda mais a situação proibidos de fumar tabaco os chineses passaram a fumar ópio A expansão exponencial do hábito estimulou o 48 Guerra às drogas é um termo comumente aplicado a uma campanha liderada pelos Estados Unidos de proibição de drogas ajuda militar e intervenção militar com o intuito de definir e reduzir o comércio ilegal de drogas 108 aumento das importações de ópio indiano dando início a um lucrativo círculo vicioso SILVA 2013 p 65 Assim a Guerra do Ópio 1839 e 1865 foi o marco histórico do processo de mercantilização das SPA pois com a expansão global do capitalismo e em nome do livre comércio a Inglaterra declarou guerra à China garantindo assim o monopólio internacional sobre a distribuição do ópio Somente a partir do século XVII a questão do entorpecentes entrou na esfera das relações internacionais com a utilização do comércio do ópio pelas potências europeias como instrumento de sua política mercantil na Ásia China e Índia esta última já sob domínio britânico seriam as nações mais afetadas na fase inicial SILVA 2013 p 65 Percebese então que a proibição vai muito além da criminalização de substâncias representando não só o controle social das classes subalternas mas principalmente a lucratividade das grandes potências Segundo Torcato 2016 para entender o processo de criminalização dos psicoativos é necessário entender as particularidades desse consumo em um contexto de afirmação da sociedade moderna burguesa Sendo assim ele acredita que uma abordagem clássica se dá através da oposição entre liberalismo e antiliberalismo Com relação ao uso de psicoativos o liberalismo se opunha a interferência estatal ou da igreja no campo da consciência isto é o proibicionismo se ligava então ao antiliberalismo Assim com o desenvolvimento do conhecimento herbário e a identificação dos princípios ativos tentouse romper a relação das plantas com a magia Ao se consolidar o discurso médico como legítimo a partir de meados do século XIX o liberalismo começou a sofrer duras críticas Nesse sentido Torcato 2016 p 21 afirma que a patologização49 do consumo de álcool e outros psicoativos estariam ligados a emergência da medicina ao lugar anteriormente ocupado pela religião processo que levou ao que é denominado medicalização da sociedade ou seja a medicina conseguiu acomodar seus interesses corporativos nos dispositivos de controle instaurados pelo Estado que de certa forma reafirma a consolidação da medicina como ciência Como analisamos no item 21 algumas ervas até serem consideradas substâncias proibidas foram muito utilizadas na forma ritualísticareligiosa e medicinal O mundo antigo pareceu conhecer uma variedade de substâncias que eram utilizadas de forma terapêutica lúdica e enteógenas dependendo do 49 Patologização ato ou efeito de patologizar de transformar em doença ou anomalia mesmo que não seja 109 contexto o direito romano nesse aspecto tradicionalmente dividia a magia em branca que objetivava a cura e negra visando prejudicar as pessoas Os ocidentais conheciam e apreciavam muito o ópio principalmente na forma líquida as solanáceas meimendro mandrágora estramônio beladona a Cannabis incluindo o haschish além de outras substâncias visionárias o princípio ativo muito próximo ao LSD TORCATO 2016 p 31 grifos nossos Analisar a ascensão do Cristianismo é importante nesse contexto pois o paganismo considera a euforia tanto positiva quanto negativa como um fim em si mesmo já no Cristianismo é o oposto a dor e o prazer não podem ter fim em si mesmo pois são considerados pecados Então fazer uso de psicoativos que não seja o álcool o vinho era aceito que podem gerar euforia e outros sentimentos como prazer alegria era visto como pecado e por isso tão perseguido pela Inquisição Para Torcato 2016 apud Courtwright 2001 p9194 um dos motivos pelos quais os psicoativos eram restritos ao uso médico é porque eles eram desaprovados pelas religiões verdadeiras no caso o Cristianismo Islamismo e Hinduísmo As demais crenças seriam falsas religiões que utilizam ídolos químicos que distraem os fiéis e levandoos ao caminho da autodestruição Notase que além do racismo a afirmação da medicina como saber hegemônico e a intolerância religiosa estão presentes na maioria das justificativas para proibir o uso de substâncias psicoativas ou seja aplicase a moral cristã e o padrão biomédico para referenciar essas análises Com o desenvolvimento do capitalismo o comércio transoceânico foi responsável por transportar plantas animais microorganismos e claro substâncias psicoativas Ocorreu uma mundialização dos psicoativos mas não de todos Torcato 2016 destaca que essa mundialização seguiu os padrões culturais do Ocidente cristão grande inimigo das práticas tradicionais xamânicas e das substâncias de característica enteógena50 entendidas como demoníacas Além da rejeição aos fármacos com essas características outros fatores também foram relevantes para entender por que algumas substâncias se tornaram commodities globais e outras não 1 aversão inicial provocada pelo gosto ruim ou por formas de consumo desagradável 2º Efeitos estéticos indesejados como problemas para os dentes ou para as vísceras 3º Produtos que estragam muito rápido e apresentam problemas logísticos para o comércio de longa distância TORCATO 2016 p 37 apud COURTWRIGHT 2001 Assim durante a expansão do comércio transatlântico as substâncias foram separadas pelos europeus em dois grupos um grupo continha substâncias de enorme 50 Enteógenas substância alteradora da consciência que induz ao estado xamânico ou de êxtase É um neologismo que vem do grego foi proposto por Gordon Wasson em 1973 110 expansão e difícil proibição como o café açúcar tabaco e bebidas alcoólicas e o outro as substâncias de expansão limitada que possibilitaram intervenção pública como o ópio a cannabis e a coca e os derivados provenientes dessas plantas Torcato 2016 ressalta que esses psicoativos tiveram trajetórias similares iniciando pela forma medicinal e se popularizando posteriormente até serem proibidas Mas afinal quem determina se as substâncias são lícitas ou ilícitas Durante grande parte do século XX a proibição de dadas substâncias e a promoção de outras foi colocada por uma classe médica ansiosa em transformar a saúde em reserva de mercado Entretanto desde 1963 a Divisão da Farmacologia e Toxicologia da Organização Mundial da Saúde OMS é categórica em afirmar que era impossível estabelecer uma correlação entre dados biológicos e medidas administrativas Está claro desde então que essa divisão entre psicoativos lícitos e ilícitos responde a fatores outros que não técnicos Essa divisão não foi decidida por químicos médicos ou toxicologistas TORCATO 2016 apud SILVA 2013 p 375 Ou seja essas classificações não foram decididas por especialistas da área o que demonstra que os interesses econômicos e ideopolíticos por trás dessas substâncias é o que define quais serão proibidas e quais serão aceitas Para Torcato 2016 a caracterização dos psicoativos atualmente proibidos como ineficazes do ponto de vista terapêutico e prejudiciais do ponto de vista social e racial é outro pilar da percepção hegemônica que associa a restrição de acesso aos fármacos a uma atitude ética e humanitária Isto é a escolha do que é permitido ou proibido vai além das questões técnicas passando por fatores econômicos políticos e ideoculturais No Brasil o álcool também foi utilizado em sua forma terapêutica para curar doenças como tétano e intoxicação do sangue até meados da década de 1930 conforme Torcato 2016 Porém os discursos formados sobre essa questão portavam um caráter social voltados para a disciplinarização Importante destacar que o pensamento médico que condenava o uso excessivo do álcool como comportamento libertino que afetava gradativamente os órgãos se transformou no pensamento que entendia o uso do álcool como uma doença específica transferindo o uso terapêutico do álcool para a psiquiatria Durante o final do século XIX e a primeira metade do século XX as práticas psiquiátricas procuraram consolidar sua especialidade médica através da desqualificação do saber médico entendido como erudito e as práticas populares de automedicação Nessas disputas a emergência da patologização da ebriedade51 coexistiu com duas tradições médicas de uso do álcool que precisam ser destacadas a primeira delas é referente à clínica e a terapêutica e ao lado do tétano e das suas qualidades como depurador do 51 Ebriedade estado de uma pessoa ébria embriaguez 111 sangue o álcool tinha outras inúmeras outras potencialidades terapêuticas TORCATO 2016 p 173 Utilizado não só no preparo caseiro de remédios o álcool estava presente em vários tônicos energizantes e fortificantes inclusive no remédio Biotônico Fontoura entre o final do século XIX e início do século XX a partir da expansão da indústria farmacêutica do Brasil Destacamos que o termo droga tem origem na palavra droog holandês antigo que significa folha seca isto porque antigamente quase todos os medicamentos eram feitos à base de vegetais Atualmente a medicina define droga como sendo qualquer substância que é capaz de modificar a função dos organismos vivos resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento CEBRID Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas Ponderando sobre as características do que pode ser considerado como psicoativo o açúcar o café e o chocolate também estão incluídos nessa lista Segundo Carneiro 2002 os psicoativos atendem às necessidades humanas o seu uso em quase todas as culturas humanas está relacionado à medicina religião cura e prazer A maconha por exemplo nem sempre foi considerada um psicoativo tendo sido usada na forma ritualísticoreligiosa e medicinal desde a Antiguidade tendo início a proibição no Brasil somente em meados do século XIX Nesse sentido ressaltamos que o proibicionismo é uma forma de classificar o paradigma que rege a atuação dos Estados em relação a determinado conjunto de substâncias A proibição capitaneada pelos Estados Unidos se deu entre outros motivos para manter a ordem social levando em conta os interesses da nascente indústria médicofarmacêutica pela monopolização na produção de novos psicoativos e a radicalização do puritanismo estadunidense São do começo do século XX as raízes da atual conjuntura proibicionista Interessada no aproveitamento máximo da força de trabalho a coerção industrial estabeleceu como principais alvos o sexo e as drogas inclusive o álcool É daí que vêm as proibições estadunidenses contra a venda e consumo de ópio 1909 cocaína e heroína 1914 e finalmente das bebidas alcoólicas com a famosa Lei Seca de 1919 Além da questão econômica em tal onda proibicionista havia explícita conotação racista iniciada com o Decreto de Expulsão de Chineses em 188252 e a consequente estigmatização do ópio como agente agressor da cultura e da moral estadunidense O álcool era associado à população negra e a fusão dos dois álcool negros também seria um grande risco a ser combatido DELMANTO 2015 p3 52 Por meio da lei de exclusão dos chineses promulgada em 1882 a Casa Branca negou a entrada aos trabalhadores dessa procedência atraídos então pela febre do ouro na Califórnia e pelas possibilidades de emprego na ferrovia alegando que afundavam os salários da mãodeobra local 112 A Lei Seca criada em 1919 foi revogada em 1933 considerada inexequível De acordo com Marasciulo 2019 a partir dessa lei ficava proibida a produção e comercialização de bebidas alcoólicas lei que foi criada também por interesse de grupos religiosos protestantes Nessa mesma época nos Estados Unidos associavase o uso da maconha aos mexicanos uso que se disseminou entre a população dessa forma aproveitandose dos boatos de que a maconha induzia à promiscuidade e ao crime Harry Jacob Aslinger53 deu início à perseguição da erva Anslinger não estava motivado apenas por motivações pessoais e de ódio aos psicoativos as petrolíferas e fabricantes de fibras sintéticas estavam disputando espaço com a indústria do cânhamo fibra extraída da cannabis e que pode ser usada na fabricação de tecidos papel cordas resina e combustíveis de excelente qualidade e bom preço Assim um dos interesses de Anslinger na proibição da maconha era beneficiar empresas como a Dupont grande empresa de petróleo e Hearst imensa rede de jornais De acordo com Carneiro 2002 o fenômeno da Lei Seca se repete no final do século XX dessa vez em escala global que deu ênfase a comércios de altos lucros acentuando a violência Para ele o consumo de psicoativos ilícitos cresce principalmente devido ao proibicionismo pois cria uma demanda de investimentos em busca de lucros A crescente intervenção política e militar sob o pretexto da luta contra as drogas alcança com o Plano Colômbia as características de uma guerra neocolonial Tal situação que acentuouse a partir dos anos 70 quando Nixon lançou a guerra contra as drogas atingiu graus extremos nos anos 80 e 90 na entrada ao terceiro milênio parece tornarse ainda mais grave Diversos aspectos da degeneração da situação social relacionamse direta ou indiretamente ao estatuto do comércio de drogas na sociedade contemporânea aumento da violência urbana do número de encarcerados e das forças militares envolvidas com as drogas CARNEIRO 2002 p1 Outros interesses estão envolvidos na proibição dos psicoativos de acordo com Rybka Nascimento e Guzzo 2018 a medicalização e a criminalização dos psicoativos são os elementos chave que sustentam o proibicionismo A partir da legitimidade cientifica da medicina alcançada ao longo do século XIX houve uma instrumentalização desses saberes ou seja os saberes médicos se afirmavam e outros saberes foram sendo deslegitimados Essa intervenção da medicina e o controle que tinha sobre os corpos deu origem ao complexo industrial da saúde 53 Harry Jacob Aslinger foi um comissário do serviço de Narcóticos dos Estados Unidos cargo criado durante a gestão do Presidente Herbert Clarck Hoover Foi comissário de 1930 a 1962 113 Em vista disso exatamente nos anos finais do século XIX quando se constitui um mercado mundial no capitalismo monopolista é que o proibicionismo segue uma direção hegemônica com o protagonismo estadunidense sobre determinados psicoativos a começar pelo ópio Desde a segunda metade do século XIX os Estados Unidos conviviam em seu território com insatisfações advindas de movimentos puritanos de cariz abstêmio Ligas Associações Igrejas Representantes Políticos que destilavam reprovação moral e xenofobia a minorias e imigrantes que se deslocavam para os Estados Unidos em busca de oportunidade de trabalho BRITES 2017 p98 Para Carneiro 2002 o século XX foi o momento em que o consumo de psicoativos alcançou a sua maior extensão mercantil por um lado e o maior proibicionismo oficial por outro Embora sempre tenham existido em todas as sociedades mecanismos de regulamentação social do consumo das drogas até o início do século XX não existia o proibicionismo legal e institucional internacional A reprovação ao uso de substâncias psicoativas geralmente de caráter moral vinculava o uso dessas substâncias à alguns grupos sociais assim o ópio foi associado aos chineses que foram para os Estados Unidos trabalhar na construção de estradas de ferro a maconha foi ligada aos mexicanos vistos como insolentes aos negros as foi associada a cocaína e o álcool aos imigrantes irlandeses Com o fim de seu principal rival político e ideológico a União Soviética o imperialismo estadunidense requisitou novas formas de penetração e ingerência sobre os territórios ambicionados para controle direto ou indireto explícito ou não Sem um inimigo declarado para justificar as intervenções militares e econômicas a guerra ao tráfico vem bem a calhar como justificativa para a dilatação do perímetro defensivo do país que simplesmente passava a abarcar o mundo ARANTES 2004 Segundo Carneiro 2002 o estatuto do proibicionismo separou a indústria farmacêutica a indústria do tabaco a indústria do álcool entre outras da indústria clandestina das drogas proibidas num mecanismo que resultou na hipertrofia do lucro no ramo das substâncias interditas De acordo com Brites 2017 p 99 os Estados Unidos ingressaram nesse cenário motivados por pressões internas advindas daqueles movimentos puritanos e também pela perspectiva de imposição de sua liderança internacional Com o objetivo de se projetar como potência econômica e militar e ao mesmo tempo responder às pressões internas os Estados Unidos convocam duas Conferências Mundiais para tratar primeiramente do que eles consideravam o problema do ópio A primeira Conferência foi realizada em Xangai em 1909 e a segunda em Haia em 1912 A cada edição as Conferências Internacionais seguem ampliando suas pautas programáticas as medidas de controle as obrigações e sanções aos países 114 signatários que desconsiderem as resoluções aprovadas sempre sob a hegemonia estadunidense A lista de substâncias controladas cujo consumo tornase restrito a finalidades terapêuticas vai sendo alterada a cada Conferência e à medida que outros interesses entram na disputa gradativamente muitas substâncias tornamse proibidas BRITES 2017 p 101 A Conferência realizada em Haia em 1912 tinha como objetivo abordar o uso do ópio porém a inclusão da cocaína foi uma estratégia do governo inglês que queria desviar a atenção sobre sua participação no comércio do ópio e atingir os produtores alemães cuja indústria farmacêutica estava em plena expansão BRITES 2017 Em 1912 durante a Primeira Convenção Internacional do Ópio realizada em Haia a produção e a comercialização da morfina da heroína e da cocaína já haviam sido regulamentadas A reunião gerou repercussão por aqui sendo veiculada em jornais de circulação diária como uma grande campanha O Brazil adhere ao combate contra o opio a morphina e a cocaina Os signatários da Convenção se comprometiam a editar leis e regulamentos severos para as pharmacias e drogarias de modo a restringir o seu emprego aos seus usos medicos e legitimos SAAD 2015 p 61 grifos do autor O proibicionismo vai sendo assumido por diversos países quanto mais se restringe o uso da morfina ópio e cocaína para usos médicos tidos como legítimos mais avançam a produção de drogas sintéticas como as anfetaminas que por exemplo serviam para aumentar a disposição dos soldados durante as guerras À medida que se restringe de maneira cada vez mais acentuada o consumo de psicoativos a prescrições terapêuticas combatendo e transmutando os usos lúdicos hedonistas e contestatórios em hábitos ilegais e condenáveis como ocorre com os usos do ópio da cocaína da heroína e da maconha ampliam se a produção e o comércio de substâncias sintéticas como a metadona barbitúricos e anfetaminas BRITES 2017 p 102 Enquanto proibiase o uso da heroína e da cocaína por outro lado os laboratórios começaram a isolar quimicamente essas substâncias transformandoas em medicamentos de alto lucro para a indústria farmacêutica Ainda no século XIX com o avanço do conhecimento científico substâncias como a heroína e a cocaína foram isoladas quimicamente permitindo sua produção em laboratório em concentrações muito superiores às encontradas nas plantas cultivadas por milênios em seus territórios de origem Além das SPA já conhecidas e consumidas inúmeras novas substâncias passaram a ser sintetizadas em laboratório abrindo um mercado muito promissor O interesse econômico em torno das SPA evidenciase no crescimento vertiginoso dos valores movimentados em seu comércio ao longo do século XX tanto pelo tráfico internacional de drogas quanto pela produção e venda legal de medicamentos psicotrópicos através da indústria farmacêutica Se o primeiro se beneficia de taxas de lucro que somente podem ser obtidas na condição de ilegalidade a última conquistou o monopólio da produção e do comércio de grande parte das drogas legais em um processo contínuo de desenvolvimento de novos produtos legitimado pela ciência RYBKA NASCIMENTO GUZZO 2018 p 2 115 A Conferência do Ópio e outros psicoativos realizada em Genebra em 1924 contou com a participação do delegado brasileiro Dr Pernambuco Filho O Brasil tinha sido escolhido para fazer parte da composição arbitral na Conferência A ação da delegação do Brasil segundo Pernambuco Filho foi em defesa das propostas que visavam o benefício da humanidade ou combatiam de modo seguro o flagelo das drogas nocivas Assuntos referentes à heroína codeína láudano e haxixe foram cuidados pela delegação que conseguiu mesmo colocar a diamba haxixe brasileiro que tantos malefícios causa no norte do Brasil entre as drogas sujeitas à fiscalização da convenção Estava dado o primeiro passo na direção da proibição da maconha Com pés e esforço brasileiros SAAD 2015 p 7980 Com essa Conferência a cannabis entra na pauta de debate e passa juntamente como o ópio e a cocaína a integrar a lista de produtos controlados Nesse momento a maconha foi associada a atitudes subversivas que ganhava força no Egito No entanto antes mesmo de uma legislação mais rigorosa para criminalizar a maconha o Brasil já era pioneiro na proibição criando na Câmara Municipal do Rio de Janeiro a primeira lei que restringia o seu uso Foi inserido no Código de Posturas Municipais no dia 4 de outubro de 1830 na Seção Primeira Saúde Pública Título 2º Sobre a Venda de Gêneros e Remédios e sobre Boticário a seguinte interdição É proibida a venda e uso do pito de pango bem como a conservação dele em casas públicas os contraventores serão multados a saber o vendedor em 20 mil réis e os escravos e mais pessoas que dele usarem em oito dias de cadeia Pito de pango era como se denominava a maconha na época conforme analisamos anteriormente Essa primeira lei restritiva já mostrava o seu caráter racista Uma legislação proibitiva mais abrangente de caráter nacional sobre a maconha só apareceria mais de cem anos depois através da inclusão da planta na lista de substâncias proscritas em 1932 Porém mesmo antes de sua proibição a maconha era diretamente associada às classes baixas aos negros e mulatos e à bandidagem SAAD 2015 p 4 Ainda com relação à Conferência de 1924 em Genebra políticos e juristas brasileiros elaboravam projetos que regulassem o comércio e o consumo de psicoativos A Comissão de Saúde Pública da Câmara dos Deputados assinou em setembro de 1926 um projeto prevendo que portar importar e exportar substâncias de natureza analgésica ou entorpecente sem licença das unidades sanitárias ou policiais competentes acarretaria prisão e multa Já a Convenção Única de 1961 tinha uma tendência mais intolerante com relação ao aumento do consumo da heroína e a intensificação de sua política de segurança frente à ameaça comunista Ao mesmo tempo que aumentava o consumo de heroína 116 cresciam as manifestações públicas questionando a eficácia do proibicionismo e o reconhecimento de medidas de saúde que levassem em conta a dependência de psicoativos como doença BRITES 2017 p105 Para Fiore 2012 todas essas ações não foram desenvolvidas apenas por uma única motivação histórica Articulado ao racismo religioso estava o interesse da nascente indústria médicofarmacêutica pela monopolização da produção de psicoativos os novos conflitos geopolíticos do século XX e o desejo das elites de manter a ordem social transformando a Guerra às drogas em um objetivo do Estado O proibicionismo como ideologia serviu e serve a muitos usos Durante todo o século XX e neste início do XXI serviu para justificar cruzadas morais de corte étnicoracial e de classe repressões militares aos movimentos insurgentes contra a desigualdade nas sociedades de capitalismo periférico alguns de caráter anticapitalista a caça aos inimigos internos e externos as invasões militares e a associação entre narcotráfico e terrorismo BRITES 2017 p110 A declaração de uma Guerra às drogas nos Estados Unidos se adequou perfeitamente aos interesses de punir os pobres já que o uso abusivo dos psicoativos ilícitos era predominantemente associado às classes subalternas aos negros as imigrantes e desempregados as A guerra contra as drogas nascida do ventre da Lei Seca além de servir para o enriquecimento direto das máfias das polícias e dos bancos serve para o controle dos cidadãos até mesmo no íntimo de seus corpos vigiados com testes de urina e batidas policiais O interior do corpo como jurisdição química do Estado o controle aduaneiro pelo Estado das fronteiras da pele tornase uma dimensão de intervenção e vigilância extremada sobre as populações CARNEIRO 2002 p 1617 Ressaltamos que o atual sistema global de combate aos psicoativos se baseia nas recomendações de três Convenções realizadas pela Organização das Nações Unidas ONU que ocorreram respectivamente em 1961 1971 e 1988 KARAM 2017 A Guerra às drogas ficou popularmente conhecida em 1971 através de uma conferência de imprensa realizada pelo então Presidente dos Estados Unidos Richard Nixon e tomou proporção mundial O desenvolvimento global da guerra aos psicoativos é indissociável do desenvolvimento do imperialismo estadunidense e um produto direto do mesmo que tem em sua base o racismo a xenofobia e o ódio de classe já que o uso dos psicoativos foi associado aos negros as imigrantes desempregados as moradores de subúrbios transformando essa massa da população no alvo da Guerra às drogas 117 No Brasil não é diferente pois coloca em curso o genocídio da população negra jovem e periférica A Guerra às drogas na verdade não é uma guerra ao tráfico já que só no Brasil o narcotráfico movimenta 17 bilhões anualmente54 dessa forma inferese que há muitos interesses econômicos e ideopolíticos por trás da proibição articulada à indústria bélica e à indústria do encarceramento tendo como base o racismo como veremos a seguir No Brasil a Guerra às Drogas e o encarceramento em massa representam estratégias de extermínio principalmente da juventude negra pobre e periférica como forma de manutenção do status quo da classe dominante Dessa forma o estatuto do proibicionismo com relação aos psicoativos é pautado pelo racismo institucional já que com a justificativa de exterminar os psicoativos os policiais têm livrearbítrio para entrar nas favelas e exterminar corpos negros levando a cabo a hipocrisia da Guerra às drogas Em nome dessa guerra o Estado justifica uma série de violações de direitos de classes subalternas que sofrem todo tipo de expropriação Na guerra às drogas há uma sinergia entre o racismo e o ódio de classe A junção desses marcadores sociais determina as vítimas dessa guerra uma guerra que não é nem poderia ser contra as drogas é contra as pessoas mas não todas elas algumas parecem ter um alvo invisível que a maquinaria bélica do Estado sabe reconhecer Os corpos negros são controlados por políticas de Estado que os tornam descartáveis Um signo que o racismo atribuiu à corporeidade negra FERRUGEM 2020 p 46 Em pesquisa recente intitulada Um tiro no pé Impactos da proibição das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e São Paulo55 detalha pela primeira vez os custos da proibição para as instituições de justiça criminal dos dois estados ao longo de um ano o estudo também faz comparativos do que poderia ser feito com o orçamento investido na guerra se fosse investido em educação saúde e renda básica Foram estudados os gastos da Polícia Militar Polícia Civil Ministério Público Defensoria Pública Tribunal de Justiça Sistema Prisional e Sistema Socioeducativo A pesquisa foi realizada de janeiro a dezembro de 2017 Reproduzimos abaixo a tabela elaborada pela pesquisa referente às despesas liquidadas totais e relativas à lei de drogas com as instituições do sistema de justiça criminal no Estado do Rio de Janeiro 54 Disponível em httpsnoticiasuolcombrcotidianoultimasnotici as20181221traficodedroga mover17biporanodizgeneralquedefendelegalizacaohtm 55 Disponível em httpsdrogasquantocustaproibircombrsegurancaejustica Acesso em 20052021 118 Tabela 2 Despesas liquidadas totais e relativas à Lei de Drogas no Estado do Rio de Janeiro Rio de Janeiro Instituição Despesa Total Indicador Proporção do trabalho da instituição dedicada à Lei de Drogas Despesa com aplicação da Lei de Drogas em Reais R Em reais R Polícia Militar 4937492307 71 350561953 Polícia Civil 1736022323 37 64232825 Ministério Público 614303065 53 32558062 Defensoria Pública 224550866 184 41317359 Tribunal de Justiça 1323229808 81 107181614 Sistema Penitenciário 1142120245 302 344920314 Degase 264554029 416 110054476 Total 10242272643 103 1050826606 Tabela retirada da pesquisa Um tiro no pé impactos das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e São Paulo De acordo com a referida pesquisa em um único ano Rio de Janeiro e São Paulo gastaram cerca de R52 bilhões para manter a proibição dos psicoativos e travar guerra contra o varejo do tráfico nas favelas e periferias Sabemos que essa guerra não acaba com os psicoativos mas serve de justificativa racista para o extermínio da juventude negra Ferrugem 2020 cita Grada Kilomba ao dizer que no racismo existem três características a construção da diferença onde a branquitude é o ponto de referência ou seja o negro é o outro A segunda não é apenas uma diferenciação e sim uma hierarquia na qual o outro está num patamar inferior A terceira é a combinação das duas primeiras a ligação entre preconceito e poder que formaria o racismo O discurso que está no imaginário social é a imagem do negro nesse caso o homem negro agressivo perigoso a mídia associa a imagem dele ao uso de psicoativos assim todo esse discurso legitima a ação do Estado que violentamente tira a vida desses jovens e há um processo de culpabilização do jovem que é geralmente caracterizado pela polícia como traficante Assim há a naturalização da morte de jovens negros periféricos Como ressaltado anteriormente o Estado opera a necropolítica o poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer através não só da Guerra às drogas mas do encarceramento em massa que aprisiona em sua maioria corpos negros para Ferrugem 2020 o Brasil vive a realidade de um superencarceramento 119 O fato é que é impossível mensurarmos o número de pessoas atingidas pelo cárcere O impacto atinge as famílias dos presos e presas bem como as comunidades que sistematicamente veem seus moradores perdidos para a guerra às drogas seja pelas balas das disputas seja para o cárcere Mortes físicas e sociais permeiam as relações que pautam as conversas nas calçadas passando a ser matéria sistemática nas escolas ainda que não conste nos currículos já que obriga milhares de crianças a se esconderem de tiroteios Invadem os recreios das escolas as brincadeiras de crianças alteram as rotinas das famílias e torcem as perspectivas de futuro de um país inteiro FERRUGEM 2020 p 50 Desde os primórdios a questão da proibição dos psicoativos também esteve relacionada a manter uma força de trabalho focada na produção e no Brasil não foi diferente o que pudesse supostamente desviar esse foco seria criminalizado porque ia contra a ordem e o progresso A manutenção da ordem social era forjada na repressão da classe trabalhadora para continuar garantindo prestígio social renda e poder a classe dominante o racismo delineando todo o aparato repressivo do Estado O controle penal sobre a classe trabalhadora é um fenômeno orgânico ao advento das relações de produção capitalistas ou seja foi implementado desde a chamada acumulação primitiva para conter e punir as chamadas classes perigosas Na processualidade histórica do desenvolvimento e expansão da acumulação capitalista tornouse um fenômeno ineliminável do Estado para a manutenção da exploração e da dominação da burguesia sobre os trabalhadores O uso de medidas punitivas e repressivas foi assim desde sua origem marcadamente seletivo e classista tendo sua base ideológica em determinadas teorias científicas que afirmavam e difundiam que o crime é próprio dos estratos mais precarizados da sociedade como as teorias racistas das quais o darwinismo social e o movimento eugênico foram paradigmáticas DURIGUETTO 2017 p2 Podese presumir que a racionalização do trabalho e o proibicionismo estão intimamente ligados o controle sobre variados aspectos da vida da classe trabalhadora como controle sexual controle da moral e dos bons costumes se encaixam perfeitamente nas novas lógicas de trabalho que vão sendo desenhadas ao longo da história do desenvolvimento do capitalismo Além de representar um bom negócio para o mercado legal e ilegal das substâncias psicoativas o proibicionismo cumpre um papel importante que é a manutenção do status quo da classe dominante através da repressão e violência impostas às classes subalternas principalmente a negros as Essa guerra que mata homens negros e aprisiona mulheres negras é ainda mais perversa com as mulheres negras mães que perdem seus filhos para a guerra às drogas ou para o encarceramento em massa Ferrugem 2020 ressalta que se é dentro das periferias que a bala de fuzil apontada pelo Estado extermina corpos negros é também de dentro dela que nasce a luta e resistência das mulheres negras que operam não a 120 sororidade do feminismo branco mas a dororidade que carrega em seu significado a dor provocada em todas as mulheres pelo machismo mas quando se trata das mulheres negras essa dor é agravada Se o debate ainda não está de fato racializado a letalidade da guerra está Mas não só a raça também a classe o gênero e a geracionalidade estão inscritos na realidade social apontando para uma intersecção destes que se configuram como marcadores sociais FERRUGEM 2020 p 52 Criminalizar os psicoativos é criminalizar a pobreza a preocupação com a saúde é inexistente investese muitos recursos que poderiam ser alocados para a saúde educação e renda e o resultado que se tem é um genocídio cada vez maior da juventude negra pobre e periférica Então há de se considerar que existe um nexo indispensável entre o proibicionismo e o aumento dos lucros e da violência por trás do que se convencionou chamar Guerra às Drogas No Brasil devido ao caráter autocrático racista e opressor da burguesia brasileira as ações arbitrárias no combate ao uso de psicoativos são legitimadas pelo aparelho coercitivo do Estado Dessa forma o controle dos corpos são também estratégia de dominação por parte de grupos dominantes para se manter no poder Com relação aos psicoativos quando grupos em disputa pelo poder veem seus interesses ameaçados o controle sobre certas substâncias pode sofrer alterações ou seja dependendo da correlação de forças determinada substância passa a ser proibida Foi assim com o café álcool tabaco maconha ópio e cocaína que em determinados contextos sóciohistóricos foram alvo de dominação tornandose proibidas principalmente para as classes subalternas Inúmeros exemplos ao longo de toda Idade Média e do capitalismo concorrencial confirmam que a histórica relação dos indivíduos sociais com os psicoativos é afetada pela introdução de mecanismos repressivos e punitivos cujos reais propósitos eram a disputa pelo domínio de culturas povos e mercados por parte de imperadorescolonizadoresprodutores ou exportadores de matériaprima que dada a prioridade material da vida quase sempre representavam o mesmo grupo de poder BRITES 2017 p97 Como vimos nos indicadores do INFOPEN existe uma seletividade penal que tem sexo raça e classe ou seja o corpo negro é o corpo marcado para morrer No entanto não só existe o corpo marcado para morrer mas também o lugar onde essas mortes acontecem geralmente nas periferias e favelas Esse ponto nos faz pensar na questão territorial ou seja existe um racismo ambiental termo que foi cunhado pelo 121 líder afroamericano Benjamin Franklin Chavis Jr em 1981 quando o movimento negro lutava contra as injustiças ambientais O racismo ambiental tem uma relação direta de exploração da terra e das pessoas sendo que indígenas negros as e quilombolas são o grupo mais vulnerável pois lidam com as piores formas de poluição por viverem perto de lixões e locais sem saneamento básico A tomada de territórios para a construção de grandes empreendimentos acabam gerando grande degradação ambiental que afetam diretamente as comunidades que vivem no entorno São esses povos que sofrem uma série de violações de direitos por isso a Doutora em História e pesquisadora do tema Tânia Pacheco 2019 fez um levantamento com casos de injustiça ambiental e saúde no Brasil É um mapa de conflitos56 envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil Nesse mapa cada conflito é classificado segundo sua localização geográfica o processo produtivo associado o tipo de população afetada a partir de uma perspectiva de autoidentificação que leva em consideração a sociodiversidade que pode existir em uma mesma comunidade município ou região e a possibilidade de um mesmo conflito abranger territórios de um conjunto de comunidades socialmente diversas os impactos ou riscos ambientais identificados ou denunciados as consequências sobre a saúde das populações e as articulações que as comunidades constroem para enfrentamento dessas situações PACHECO 2019 O chamado racismo ambiental ocorre também em razão da explosão dos monocultivos com seus agrotóxicos da extração de recursos naturais do transporte de materiais e da produção de rejeitos que afeta principalmente parcelas mais vulneráveis da população como negros as indígenas e quilombolas Segundo Bullard o racismo ambiental se refere a políticas práticas ou diretrizes ambientais que afetam diferentemente ou de forma desvantajosa seja intencionalmente ou não indivíduos grupos ou comunidades com base na cor ou raça podendo ser reforçadas por instituições governamentais jurídicas econômicas políticas e militares Tendo em conta este caráter do racismo ambiental o autor defende se tratar de uma forma institucionalizada de discriminação a qual consiste em ações ou práticas realizadas por membros de grupos raciais ou étnicos dominantes que tem particular impacto desvantajoso em membros de grupos raciais ou étnicos subordinados ALMEIDA 2015 p8 No caso dos indígenas além de passarem por contextos socioambientais injustos processos históricos de expropriações discriminação e desestruturação dos 56 Disponível em httpmapadeconflitosenspfiocruzbr Acesso em 28012020 122 seus sistemas de subsistência e autocuidado levandoos a viver processos ininterruptos de vulnerabilização ainda são afetados pela produção de commodities Tais processos são intensificados por políticas de crescimento econômico baseadas no avanço das fronteiras da produção de commodities agrícolas e minerais bem como por programas federais para expansão da infraestrutura de transportes e geração de energia que desconsideram os impactos sobre os territórios ocupados pelos povos indígenas Esta tendência ao mesmo tempo em que permite a incorporação de novas áreas à economia de mercado global desestabiliza as organizações sociais preexistentes afetando o exercício de sua territorialidade e modos de vida ao ameaçar tanto as relações culturais e simbólicas estabelecidas com os territórios quanto as formas tradicionais de apropriação dos bens comuns ROCHA PORTO PACHECO 2019 p 4 Desta feita os riscos ambientais seguem uma lógica que se beneficia das desigualdades socioambientais para destinar as atividades perigosas ou que causam danos ao meio ambiente aos territórios de grupos discriminados As desigualdades econômicas raciais e sociais são determinantes que vão impactar negativamente na saúde dessas populações como veremos a seguir No que diz respeito ao acesso à cannabis medicinal no Brasil se por um lado transformamna em uma commoditie de alto valor por outro retiram a possibilidade de acesso das famílias pauperizadas a esse tipo de tratamento como analisaremos a seguir 32 Direito à saúde e o acessodireito à cannabis medicinal em questão Como foi possível identificar ao longo do trabalho a população negra e indígena após a abolição da escravidão não foi inserida na sociedade de classes isto é não teve acesso aos direitos fundamentais como moradia educação trabalho e principalmente saúde Percebemos também que como campo de disputa entre as classes dominantes a saúde se transformou em uma contenda no qual de um lado estava a sabedoria popular e de outro a sabedoria científica tida como hegemônica No que tange a saúde negros as e indígenas foram alijados de variadas formas primeiro pelas condições precárias de maustratos e má alimentação vividas desde a época da escravidão que influenciaram negativamente na sua saúde segundo o racismo institucional na contemporaneidade dificulta o acesso dessas populações aos serviços de saúde No sistema capitalista a saúde se transforma em mercadoria e nas sociedades capitalistas dependentes como o Brasil isso se dá de forma acentuada e se constitui em um grande campo de disputa entre classes Mesmo com a promulgação da Constituição 123 Federal de 1988 que institui em seu artigo 196 a saúde é direito de todos e dever do Estado garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção proteção e recuperação Na prática a saúde tem se constituído cada vez menos em um direito de todos o sucateamento proveniente das políticas neoliberais tem precarizado os serviços públicos de saúde com a nítida intenção de privatizar transformando a saúde em privilégio de quem pode pagar por ela De acordo com Bravo 2006 nos países centrais a conquista de alguns direitos sociais pela classe trabalhadora foi mediada pela interferência estatal que no Brasil só ocorreu mais efetivamente na década de 1930 Nos últimos anos do século XIX a questão da saúde apareceu como reivindicação do movimento operário que estava nascendo Com a emergência do trabalho assalariado e a crescente exportação da economia cafeeira a saúde emerge como questão social no Brasil A saúde pública na década de 1920 adquire novo relevo no discurso do poder Há tentativas de extensão dos seus serviços por todo país A reforma Carlos Chagas de 1923 tenta ampliar o atendimento à saúde por parte do poder central constituindo uma das estratégias da União de ampliação do poder nacional no interior da crise política em curso sinalizada pelos tenentes a partir de 1922 BRAVO 2006 p 3 Com o rápido crescimento da massa de trabalhadores o modelo de previdência teve uma orientação contencionista ou seja preocupouse mais com a acumulação de reservas financeiras do que com a ampla prestação de serviços houve então a separação entre assistência social e previdência o que não ocorria anteriormente na legislação A Política Nacional de Saúde que se esboçava desde 1930 foi consolidada no período de 19451950 O Serviço Especial de Saúde Pública SESP foi criado durante a 2ª Guerra Mundial em convênio com órgãos do governo americano e sob o patrocínio da Fundação Rockefeller No final dos anos 40 com o Plano Salte de 1948 que envolvia as áreas de Saúde Alimentação Transporte e Energia a Saúde foi posta como uma de suas finalidades principais O plano apresentava previsões de investimentos de 1949 a 53 mas não foi implementado BRAVO 2006 p 5 grifos nossos Cabe destacar que a Fundação Rockfeller é uma fundação criada em 1913 nos Estados Unidos que define sua missão como sendo a de promover no exterior o estímulo à saúde pública o ensino a pesquisa e a filantropia Ayuso 2014 É caracterizada como associação beneficente e não governamental que utiliza recursos próprios para realizar suas ações em vários países do mundo principalmente os subdesenvolvidos A família Rockfeller é uma das famílias mais ricas do mundo construindo sua herança no ramo do petróleo 124 Assim em 1913 a Fundação Rockfeller propôs o estabelecimento de uma escola para treinar os profissionais de saúde pública e decidiu em 1916 financiar sua implantação em Johns Hopkins que é uma Universidade de ensino superior privada e sem fins lucrativos localizada em Baltimore Maryland Estados Unidos segundo Buss Filho 2007 Esta decisão representou o predomínio do conceito da saúde pública orientada ao controle de doenças específicas fundamentada no conhecimento científico baseado na bacteriologia e contribuiu para estreitar o foco da saúde pública que passa a distanciarse das questões políticas e dos esforços por reformas sociais e sanitárias de caráter mais amplo A influência desse processo e do modelo por ele gerado não se limita à escola de saúde pública de Hopkins estendendose por todo o país e internacionalmente O modelo serviu para que nos anos seguintes a Fundação Rockefeller apoiasse o estabelecimento de escolas de saúde pública no Brasil Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo Bulgária Canadá Checoslováquia Inglaterra Hungria Índia Itália Japão Noruega Filipinas Polônia Romênia Suécia Turquia e Iugoslávia BUSS FILHO 2007 p 79 De acordo com Bravo 2006 no período entre 1945 e 1964 os gastos com saúde não conseguiram eliminar o quadro de doenças infecciosas e parasitárias o que elevou as taxas de mortalidade infantil e morbidade de forma geral e a partir dos anos 50 a corporação médica ligada aos interesses capitalistas já se organizavam para pressionar o financiamento através do Estado defendendo a privatização Enquanto isso as concepções com relação ao conceito de saúde iam sendo modificadas como consequência das reivindicações dos movimentos sociais surgidos no pósguerra a Organização Mundial da Saúde OMS divulgou na carta de princípios de 7 de abril de 1948 o reconhecimento do direito à saúde e a obrigação do Estado na promoção e proteção dessa forma a saúde passa a ser considerada como o estado do mais completo bemestar físico mental e social e não apenas a ausência de enfermidade A definição desse conceito foi útil para analisar os fatores que intervêm sobre a saúde e a partir de então poder intervir sobre eles A amplitude do conceito da OMS visível também no conceito canadense acarretou críticas algumas de natureza técnica a saúde seria algo ideal inatingível a definição não pode ser usada como objetivo pelos serviços de saúde outras de natureza política libertária o conceito permitiria abusos por parte do Estado que interviria na vida dos cidadãos sob o pretexto de promover a saúde Em decorrência da primeira objeção surge o conceito de Christopher Boorse 1977 saúde é ausência de doença SCLIAR 2007 p37 Com o período ditatorial o Estado interveio de forma a aumentar o poder de regulação sobre a sociedade suavizar as tensões legitimar o regime e acumular capital implantando um modelo de privilegiamento do produtor privado 125 A medicalização da vida social foi imposta tanto na Saúde Pública quanto na Previdência Social O setor saúde precisava assumir as características capitalistas com a incorporação das modificações tecnológicas ocorridas no exterior A saúde pública teve no período um declínio e a medicina previdenciária cresceu principalmente após a reestruturação do setor em 1966 BRAVO 2006 p 67 A partir da década de 1980 a saúde assumiu uma dimensão política como novos sujeitos políticos como os profissionais da saúde o movimento sanitário os partidos políticos da oposição e os movimentos sociais urbanos As principais propostas debatidas por esses sujeitos coletivos foram a universalização do acesso a concepção de saúde como direito social e dever do Estado a reestruturação do setor através da estratégia do Sistema Unificado de Saúde visando um profundo reordenamento setorial com um novo olhar sobre a saúde individual e coletiva a descentralização do processo decisório para as esferas estadual e municipal o financiamento efetivo e a democratização do poder local através de novos mecanismos de gestão os Conselhos de Saúde BRAVO 2006 p 9 A realização da 8º Conferência Nacional de Saúde realizada em março de 1986 em Brasília Distrito Federal foi de extrema importância nesse contexto pois deu início às preocupações em analisar a sociedade como um todo propondo não só o Sistema Único de Saúde mas a Reforma Sanitária A partir da Constituição Federal de 1988 alguns avanços foram notados porém incapaz de universalizar direitos tendo em vista a longa tradição de privatizar a coisa pública pelas classes dominantes BRAVO 2006 A Assembleia Constituinte com relação à Saúde transformouse numa arena política em que os interesses se organizaram em dois blocos polares os grupos empresariais sob a liderança da Federação Brasileira de Hospitais setor privado e da Associação de Indústrias Farmacêuticas Multinacionais e as forças propugnadoras da Reforma Sanitária representadas pela Plenária Nacional pela Saúde na Constituinte órgão que passou a congregar cerca de duas centenas de entidades representativas do setor BRAVO 2006 p 10 Ressaltamos então que o Sistema Único de Saúde SUS implementado pela Constituição Federal de 1988 é fruto de luta da classe trabalhadora para que a saúde se tornasse direito de todos e dever do Estado Um dos principais aspectos aprovados na Constituição foi a concepção da saúde como direito universal e dever do Estado que incorporou grande parte das reivindicações do movimento sanitário No entanto essas medidas tiveram pouco impacto na real melhoria das condições de saúde da população pois não ocorreu a sua operacionalização Já na década de 1990 presenciase um forte ataque por parte do grande capital o governo tinha como proposta o desmonte da proposta da Seguridade Social prevista na Constituição Federal A proposta de Política de Saúde construída na década de 1980 tem sido desconstruída A Saúde fica vinculada ao mercado enfatizandose as parcerias com a sociedade civil responsabilizando a mesma para assumir os 126 custos da crise A refilantropização é uma de suas manifestações com a utilização de agentes comunitários e cuidadores para realizarem atividades profissionais com o objetivo de reduzir os custos Com relação ao Sistema Único de Saúde SUS apesar das declarações oficiais de adesão ao mesmo verificouse o descumprimento dos dispositivos constitucionais e legais e uma omissão do governo federal na regulamentação e fiscalização das ações de saúde em geral BRAVO 2006 p 8 Dessa forma notase dois projetos em disputa o da Reforma Sanitária inscrito na Constituição Federal de 1988 e o Projeto de Saúde articulado ao mercado ou privatista Esse último tinha como objetivo garantir o mínimo a quem não pode pagar e aos que podem pagar ficam para o setor privado Percebese então como a Política de Saúde vem sendo construída de forma focalista e seletiva dando vazão às contra reformas instituídas por vários governos que tem como um dos objetivos recolocar o Brasil na área de influência prioritária dos Estados Unidos retomando a sua dominação imperialista Existiam dois projetos antagônicos um formado pela Federação Brasileira de Hospitais FBH e pela Associação das indústrias farmacêuticas internacionais que defendia a privatização dos serviços de saúde e outro denominado Plenária Nacional da Saúde que defendia os ideais da Reforma Sanitária que podem ser resumidos como a democratização do acesso a universalidade das ações e a descentralização com controle social BRAVO MATOS 2004 p7 Criase em 2006 a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNDSS impulsionada pelo movimento global da OMS que tem como principais objetivos produzir conhecimentos apoiar o desenvolvimento de políticas e programas e promover atividades de mobilização da sociedade civil em busca de maior equidade na saúde A Conferência de AlmaAta no final dos anos 70 e as atividades inspiradas no lema Saúde para todos no ano 2000 recolocam em destaque o tema dos determinantes sociais Na década de 80 o predomínio do enfoque da saúde como um bem privado desloca novamente o pêndulo para uma concepção centrada na assistência médica individual a qual na década seguinte com o debate sobre as Metas do Milênio novamente dá lugar a uma ênfase nos determinantes sociais que se afirma com a criação da Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde da OMS em 2005 BUSS FILHO 2007 p 80 Para a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNDSS os Determinantes Sociais da Saúde DSS são os fatores sociais econômicos culturais étnicosraciais psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população A comissão homônima da Organização Mundial da Saúde OMS adota uma definição mais curta segundo a qual os DSS são as condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham Esse consenso 127 de determinantes sociais da saúde foi sendo construído ao longo da história BUSS FILHO 2007 p 78 O próprio termo saúde coletiva expressa a necessária intervenção na vida política e social para reconhecer e eliminar os fatores que prejudicam a saúde da população reconhecendo que a medicina é essencialmente uma ciência social Para Buss Filho 2007 o principal desafio dos determinantes sociais em saúde é estabelecer uma hierarquia de determinações entre os fatores de natureza social econômica e política e as mediações através das quais esses fatores incidem sobre a situação de saúde de grupos e pessoas já que não há uma relação de causalidade direta entre eles Estudar essas mediações é necessário para identificar como devem ser feitas as intervenções na saúde com o objetivo de reduzir as iniquidades Dessa forma Há várias abordagens para o estudo dos mecanismos através dos quais os DSS provocam as iniquidades de saúde A primeira delas privilegia os aspectos físicomateriais na produção da saúde e da doença entendendo que as diferenças de renda influenciam a saúde pela escassez de recursos dos indivíduos e pela ausência de investimentos em infraestrutura comunitária educação transporte saneamento habitação serviços de saúde etc decorrentes de processos econômicos e de decisões políticas Outro enfoque privilegia os fatores psicossociais explorando as relações entre percepções de desigualdades sociais mecanismos psicobiológicos e situação de saúde com base no conceito de que as percepções e as experiências de pessoas em sociedades desiguais provocam estresse e prejuízos à saúde Os enfoques ecossociais e os chamados enfoques multiníveis buscam integrar as abordagens individuais e grupais sociais e biológicas numa perspectiva dinâmica histórica e ecológica Há também os enfoques que analisam as relações entre a saúde das populações as desigualdades nas condições de vida e o grau de desenvolvimento de vínculos e associações entre indivíduos e grupos Esses estudos mostram que não são as sociedades mais ricas que possuem os melhores níveis de saúde e sim as que são mais igualitárias No Brasil o racismo é considerado um determinante social da saúde pois ele perpassa todas as esferas da vida cotidiana se reproduz nas instituições racismo institucional e é constantemente naturalizado O emprego do conceito de discriminação indireta ou racismo institucional para a promoção de políticas de equidade racial já é utilizado desde o final dos anos 1960 em diversos países Nos Estados Unidos por exemplo o conceito surge no contexto da luta pelos direitos civis e com a implementação de políticas de ações afirmativas Na Inglaterra o conceito passa a ser incluído como instrumento para a proposição de políticas públicas na década de 1980 como resultado do crescimento da população não branca e das dificuldades observadas pelo Poder Judiciário em responder às demandas daquela população No Brasil a partir de meados dos anos 1990 esse conceito começa a ser apropriado para a formulação de programas e políticas de promoção da equidade racial Jaccoude 2008 p 141 128 Com relação ao racismo institucional Almeida 2015 p 29 destaca que o racismo não se resume a comportamentos individuais mas é tratado como o resultado do funcionamento das instituições que passam a atuar em uma dinâmica que confere ainda que indiretamente desvantagens e privilégios a partir da raça Como analisamos ao longo desse trabalho racismo é dominação e dessa forma para que haja manutenção desse poder a classe dominante precisa institucionalizar seus interesses impondo regras condutas que naturalizem o seu domínio No caso do racismo institucional o domínio se dá com estabelecimento de parâmetros discriminatórios baseados na raça que servem para manter a hegemonia do grupo racial no poder Isso faz com que a cultura a aparência e as práticas de poder de um determinado grupo tornemse o horizonte civilizatório do conjunto da sociedade ALMEIDA 2015 p 31 grifos do autor Assim a predominante presença de homens brancos em espaços como legislativo judiciário Ministério Público e afins se torna algo natural ao passo que existem regras mesmo que indiretas que dificultem a ascensão de negros as e mulheres e há a inexistência de espaço para discutir a desigualdade sexual e racial Alguns dados são interessantes para analisarmos como o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado se manifesta com relação à saúde De acordo com dados do Ministério da Saúde57 enquanto 462 das mulheres brancas tiveram acompanhante no parto apenas 27 das negras utilizaram esse direito Outro levantamento revela que 777 das mulheres brancas receberam informação sobre a importância do aleitamento materno e somente 625 das mulheres negras receberam essa informação Com relação às taxas de mortalidade materna infantil 60 das mortes maternas ocorrem com as mulheres negras e 34 entre mulheres brancas A desigualdade e preconceito aumentam o número de mortes MINISTÉRIO DA SAÚDE 2019 Em vista disso em novembro de 2014 o Ministério da Saúde58 criou uma campanha publicitária buscando envolver os usuários do SUS e os profissionais de saúde no enfrentamento ao racismo institucional com o slogan Racismo faz mal à saúde Denuncie 57 Segundo página oficial da campanha SUS sem Racismo do Ministério da Saúde em 2014 Disponível em httpswwwfacebookcomSUSnasRedes 58 Disponível em httpsagenciabrasilebccombrgeralnoticia201411saudelancacampanhacontra racismonosus Acesso em 18012021 129 Porém em resposta a essa campanha o Conselho Federal de Medicina CFM59 lançou no dia 27 de novembro de 2014 uma nota de repúdio dizendo que a campanha tem tom racista e desconsidera problemas estruturais que afetam toda a população Para Sidnei Ferreira secretário do CFM o problema do SUS está longe de ser o racismo justificando mesmo diante dos dados que morrem negros brancos morenos e amarelos porque o governo não cuida da saúde pública A classe médica ainda justificou que o mau atendimento para a população do SUS é devido às condições de trabalho No entanto os indicadores revelam que a diferença entre a mortalidade materna entre mulheres negras e brancas a dificuldade de acesso aos serviços de saúde até mesmo o uso de anestesia é maior no parto das mulheres brancas que das mulheres negras se constituem em formas expressas do racismo institucional De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE entre as 173 milhões de pessoas que utilizaram o Sistema Único de Saúde SUS nos últimos seis meses de agosto do ano passado 699 eram mulheres 609 pretas ou pardas 65 tinha cônjuges e 358 40 a 59 anos de idade Os resultados são da Pesquisa Nacional de Saúde 2019 PNS60 divulgada na quartafeira 21102019 De acordo com o IBGE 2019 esses números podem estar associados ao fato de as mulheres ainda serem as principais responsáveis pelos cuidados com ela mesma e com a família e por isso mais frequentes nos serviços públicos de saúde traços de uma sociedade patriarcal Grande parte das causas das doenças derivam de fatores como condições de vida de trabalho de moradia trajetória familiar desigualdades de raça etnia sexo e idade acesso a bens e serviços disponíveis Dessa forma As questões socioeconômicas raciais e de gênero estão associadas às iniquidades em saúde Embora nas últimas décadas as taxas de mortalidade na população em geral tenham diminuído e aumentado a expectativa de vida a população negra ainda apresenta altas taxas de morbimortalidade em todas as faixas etárias quando comparadas com a população geral BRASIL 2011 p 3 A elevada taxa de mortalidade de mulheres negras demonstrada nos perfis e indicadores evidenciam que as causas estão relacionadas ao grande número de gravidez com morbidade dificuldade de acesso e uso dos serviços de saúde que demonstra 59 Disponível em httpsmemoriaebccombrnoticiasbrasil201411cfmrepudiacampanhado governoqueecontraoracismo Acesso em 18012021 60 Disponível em httpswwwibgegovbrestatisticasdownloads estatisticashtmlcaminhoPNS2019MicrodadosDados Acesso em 08012021 130 novamente a intersecção entre sexo raça e classe Além disso como aponta a matéria da Fiocruz61 a mortalidade materna é maior entre as mulheres negras De acordo com Werneck 2016 a saúde da mulher negra não é uma área de conhecimento ou um campo relevante nas Ciências da Saúde sendo inexpressiva a produção de conhecimento nessa área O Movimento de Mulheres Negras e o Movimento Negro foram expressivos na luta por um sistema de saúde universal com integralidade equidade e participação social As reivindicações da população negra e de movimentos sociais especialmente o Movimento de Mulheres Negras e do Movimento Negro por mais e melhor acesso ao sistema de saúde participaram da esfera pública ao longo dos vários períodos da história das mobilizações negras principalmente no período pós abolição e se intensificaram na segunda metade do século XX com forte expressão nos movimentos populares de saúde chegando a participar dos processos que geraram a Reforma Sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde WERNECK 2016 p 536 No entanto todas essas reivindicações não foram suficientes para superar as barreiras enfrentadas pela população negra principalmente no que tange ao acesso à saúde Em 1996 milhares de ativistas fizeram uma marcha em Brasília que provocou a criação do Grupo Interministerial para a Valorização da População Negra GTI esse grupo realizou a Mesa Redonda sobre Saúde da População Negra que propôs algumas medidas entre elas a inserção do quesito corraça na Declaração de Nascidos Vivos e de Óbitos criação do Programa de Anemia Falciforme PAF reestruturação da atenção à hipertensão e diabetes mellitus e a extensão do Programa Saúde da Família PSF até as comunidades quilombolas Segundo Werneck 2016 em 2001 o Ministério da Saúde publicou o Manual de doenças mais importantes por razões étnicas na população brasileira afrodescendente esse manual incluía as doenças genéticas como diabetes mellitus e hipertensão arterial deixava de fora as doenças cuja origem genética não foi estabelecida como os miomas uterinos por exemplo e as doenças provenientes de condições sociais como desnutrição alcoolismo verminoses Essas doenças são mais incidentes na população negra e não por razões étnicas o acesso aos serviços de saúde é mais difícil e o uso de meios diagnósticos e terapêuticos é mais precário produzindo em geral evolução e prognóstico piores para as doenças que afetam negros no Brasil BRASIL 2001 p 910 O acesso à saúde no Brasil é privilégio de alguns e não direito de todos Diante desses indicadores o Ministério da Saúde lança em 2017 a Política Nacional de Saúde 61 Disponível em httpinformeenspfiocruzbrnoticias44418 Acesso em 14012021 131 Integral da População Negra PNSIPN com o objetivo de combater as desigualdades no SUS e promover a saúde da população negra considerando que as iniquidades em saúde são resultados de injustos processos socioeconômicos e culturais em destaque o racismo que corrobora com a morbimortalidade das populações negras brasileiras BRASIL 2017 p 7 Em vista disso atualmente vivemos a pandemia SARS COV 19 conhecida como Covid19 A Covid 19 não seleciona quem vai ser infectado mas seleciona quem vai morrer Em estudo realizado pela ONG Instituto Polis62 na cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho de 2020 os homens negros foram os que mais morreram pela Covid 19 sendo 250 óbitos a cada 100 mil habitantes entre os brancos foram 157 mortes a cada 100 mil habitantes Entre as mulheres as que tinham a pele negra foram 140 mortes por 100 mil habitantes enquanto as brancas foram 85 a cada 100 mil habitantes No dia 19 de junho de 2021 o Brasil bateu a triste marca de 500 mil mortos em decorrência do novo coronavírus provenientes não só da letalidade do vírus mas pela falta de medidas efetivas de proteção infraestrutura dos serviços de saúde descaso com a população tudo fruto do Governo negacionista do atual Presidente Jair Bolsonaro assolam o país de maneira lastimável Esse padrão é explicado pelo racismo institucional e pelas desigualdades sociais e econômicas Para o médico Unaí Tupinambás63 professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG durante a pandemia a desigualdade foi escancarada Para ele é importante considerar os determinantes sociais da doença que são importantes para a evolução de qualquer doença Assim a população negra e periférica é a mais afetada pois os fatores sociais e biológicos contribuem negativamente para a evolução da forma mais grave da doença Por viver em piores condições de moradia de trabalho e de alimentação a população negra é mais atingida com as comorbidades como hipertensão arterial diabetes mellitus tabagismo e sedentarismo a falta de acesso à saúde e a uma boa alimentação são expressões do racismo institucional que impactam negativamente na evolução da Covid 19 Além da Covid19 as chamadas doenças evitáveis como a tuberculose hanseníase morte materna e infecções sexualmente transmissíveis também têm maior 62 Disponível em httpspolisorgbrestudosracaecovidnomsp Acesso em 20082020 63 Disponível em httpswwwmedicinaufmgbrnegrosmorremmaispelacovid19 Acesso em 17012021 132 incidência na população negra Segundo informações coletadas pelo DATASUS64 mães que morrem por causas relacionadas à gravidez parto e pósparto são em sua maioria negras jovens e de baixa escolaridade Isto é a população negra é mais vulnerável à determinadas doenças pois está sob maior influência dos determinantes sociais da saúde o racismo a dificuldade no acesso ao sistema de saúde a má alimentação e a falta de dinheiro para comprar os medicamentos O racismo institucional se expressa por meio de práticas atitudes normas e formas organizativas discriminatórias e excludentes que criam barreiras ao cuidado com a saúde e são associados a baixos resultados terapêuticos Como ressaltado anteriormente desde o período escravista e no pósabolição as mulheres negras têm ocupado o último lugar na hierarquia social vindo até mesmo depois dos homens negros Como Lélia Gonzalez 1984 destacou a mulher negra foi a responsável por criar os filhos dos brancos deixando os seus sendo criados por outras pessoas No Brasil contemporâneo tornouse natural chamar as mães solteiras de chefes de família principalmente nas periferias pois são elas que sustentam na maioria das vezes sozinhas as suas famílias já que em grande parte dos casos a figura masculina abandonou o lar De acordo com pesquisa65 realizada pelo IBGE as mães negras e solteiras também são as que mais sofrem com a falta de saneamento básico e adensamento excessivo na casa isto é quando mais de três moradores da casa utilizam o mesmo cômodo como dormitório Mais de 40 das mães negras e solteiras não têm acesso a esgoto contra 27 das brancas Além disso as mulheres brancas ganham 70 mais que as negras Essas mulheres ficam sobrecarregadas pois além de trabalhar e receber remuneração mais baixa ainda tem que lidar com as demandas dos trabalhos reprodutivos como cuidar da casa e dos filhos IBGE 2019 Esse cotidiano que já tem as suas dificuldades muda quando essas mães recebem o diagnóstico de doença crônica dos seus filhos pois por se tratar de doença crônica geralmente a criança necessita de hospitalização recorrente o que aumenta a sobrecarga da família Segundo a Organização Mundial da Saúde OMS condições crônicas são aquelas que abarcam problemas de saúde que persistem com o tempo e requerem algum tipo de gerenciamento e cuidados permanentes As mesmas têm tido um crescimento 64 Disponível em httpbvsmssaudegovbrbvspopnegrapdfsaudepopnegpdf Acesso em 13072020 65 Disponível em httpsg1globocomeconomianoticia20200306maesnegrasesolteirassofrem maiscomfaltadesaneamentoecarenciasnascasasghtml Acesso em 20012021 133 vertiginoso e fazse necessário melhorar os serviços de saúde para tratálas adequadamente De acordo com Collet Silva e Moura 2010 p 360 a família pode apresentar despreparo psicológico para o enfrentamento da condição crônica na infância desfavorecendo a adaptação da criança e da própria família à nova situação As mudanças na vida da criança e da sua família ao se depararem com a doença crônica não englobam simplesmente alterações orgânicas ou físicas da criança doente mas perpassam este ângulo e promovem alterações emocionais e sociais em toda a família as quais exigem constantes cuidados e adaptações Os autores citados acima realizaram uma pesquisa exploratóriadescritiva na Clínica Pediátrica do Hospital Universitário Lauro Wanderley que é um hospitalescola vinculado à Universidade Federal da Paraíba UFPB realizada nos meses de junho e julho de 2008 Os sujeitos da pesquisa foram cinco mães e uma avó cuidadora principal no cotidiano de crianças com diagnóstico definido de doença crônica que estavam acompanhando as mesmas durante o período da coleta dos dados e que aceitaram participar da pesquisa Os diagnósticos das crianças eram Síndrome Nefrótica Anemia Falciforme Lúpus Eritematoso Sistêmico Síndrome de Edwards Trissomia do 18 Púrpura Trombocitopênica e Feocromocitoma Nos depoimentos das famílias algumas dificuldades relatadas apareceram com frequência como a dificuldade financeira e de transporte o distanciamento dos membros da família e os conflitos intrafamiliares reorganização do cotidiano da família Geralmente o tratamento da doença crônica requer constantes internações da criança e acompanhamento contínuo que além de tempo requer condições financeiras para conseguir mantêlo Uma das entrevistadas relatou que mesmo recebendo o Benefício de Prestação Continuada BPC os gastos com transporte alimentação remédios e outros cuidados o benefício não é suficiente Outro fator relevante é o abandono do vínculo empregatício já que são as mães que acompanham as crianças nas internações e tratamentos Para algumas famílias a dificuldade com o transporte é o principal fator pois morando no interior e o tratamento sendo realizado na capital o alto custo do transporte pode prejudicar o tratamento Outra dificuldade enfrentada com as frequentes hospitalizações é o fato de ter outros filhos e ter que se ausentar e não ter com quem deixálos se afastando também da vida conjugal do casal O afastamento dos membros da família pode alterar as relações familiares sobretudo a vida conjugal do casal desfavorecendo o enfrentamento da situação Porque ele marido tá com outra e ela não quer que ele veja eles eu me separei dele mas os meninos não têm nada a ver né às vezes ele liga mas ligá não é a mesma coisa né Separei porque eu vivia em hospital 134 por conta de T e também porque ele arranjou outra mulher pra ele Depois que a gente se separou eu sofri muito porque na hora que eu mais precisava ele me abandonou Ele devia entender que tem um filho doente COLLET SILVA MOURA 2010 p 362 A possibilidade de mudança do interior para a capital para o tratamento da criança mostrouse uma realidade difícil de ser enfrentada mas às vezes necessária A preocupação com o lar também é presente na vida dessas mulheres que ocasionalmente precisam delegar essa função para outra pessoa para acompanhar o filho no tratamento As mães que participaram do estudo assumem a responsabilidade pela adequação das suas atividades com as necessidades de seus filhos cabendo a elas inclusive quando necessário a desistência do emprego para melhor atender às demandas da criança doente Essa alteração na dinâmica familiar gera diminuição do orçamento podendo aumentar os níveis de estresse no relacionamento da família COLLET SILVA MOURA 2010 p 364 A realidade dessas e de outras mães poderia ser diferente se houvessem políticas públicas eficazes não com objetivo de alívio a pobreza e sim com ações que amenizassem esse abismo social e racial em que vivemos Quando se discute sobre tratamentos de doenças crônicas com medicamentos à base de cannabis sativa o que se percebe é uma desigualdade social racial e econômica muito mais acentuada Desde o ano de 1992 quando o israelense Raphael Mechoulan descobriu que o nosso corpo tem alguns receptores que são feitos para as substâncias presentes na cannabis os chamados canabinóides iniciouse uma série de estudos66 sobre o Sistema Endocanabinóide despertando o interesse em produzir medicamentos à base de cannabis sativa A partir desse momento muitas pessoas portadoras de patologias raras se viram diante de uma grande possibilidade de ter as suas dores e crises convulsivas amenizadas e portanto uma melhor qualidade de vida através do tratamento com o canabidiol Porém a legislação atual sobre psicoativos a Lei 11343 de 2006 promulga em seu artigo 2º Ficam proibidas em todo o território nacional as drogas bem como o plantio a cultura a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar bem como o que estabelece a Convenção de Viena das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 a respeito de plantas de uso estritamente ritualísticoreligioso BRASIL 2006 66 Em 1980 houve um estudo intitulado Chronic Administration of Cannabidiol to Healthy Volunteers and Epiletc Patients Administração crônica de canabidiol a voluntários saudáveis e pacientes com epilepsia produzido pelo Dr Mechoulam e pelo Dr Elisaldo Carlini entre outros estudiosos da área Esse estudo foi realizado em parceria com a UNIFESP Faculdade de Medicina da Santa Casa e Hebrew Universidade de Jerusalém 135 Diante dessa descoberta e da proibição algumas famílias brasileiras começaram a importar ilegalmente esses medicamentos O caso mais famoso é da Katiele de Bortoli Fischer 38 anos mãe de Anny Fischer que foi diagnosticada com a síndrome rara CDKL5 que chegou a causar até 80 convulsões por semana na criança Nenhum medicamento foi capaz de controlar as crises convulsivas assim com a importação ilegal do CBD e a melhora nunca vista nos sintomas em 2014 Katiele conseguiu a autorização pioneira para importar a cannabis medicinal67 Após essa autorização e pressão principalmente das mães que lutam pela legalização da cannabis medicinal para oferecer uma melhor qualidade de vida aos seus filhos as legislações da ANVISA referentes a esse assunto passaram por várias alterações no que tange a importação desses medicamentos Em 26 de janeiro de 2015 através da Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 368 a ANVISA tornou pública a decisão de retirar o Canabidiol CBD da relação de substâncias proibidas e o incluiu no rol de medicamentos da lista C1 de remédios controlados Essa decisão abriu caminho para o registro do primeiro medicamento à base de cannabis sativa no Brasil o Mevatyl da empresa Beaufour Ipsen Farmacêutica Ltda indicado para o tratamento da espasticidade oriunda da esclerose múltipla Esse medicamento tem o custo médio de R26449069 De acordo com o site CannabisSaúde70 com esse avanço em 23 de fevereiro de 2015 foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 3992015 pelo Deputado Federal Fábio Mitidieri do Partido Social Democrático PSD SE que propôs a alteração do art 2º da Lei nº 11343 de 23 de agosto de 2006 para viabilizar a comercialização de medicamentos que contenham extratos substratos ou partes da planta Cannabis sativa em sua formulação Já em 06 de maio de 2015 a ANVISA torna pública outra Resolução da Diretoria Colegiada a RDC nº 1771 que define os critérios e os procedimentos para a importação em caráter de excepcionalidade de produto à base de Canabidiol em 67 Disponível em httpswwwuolcombrecoaultimasnoticias20191206maequefoipioneiraem trazercanabidiolaopaisfestejadecisaodaanvisahtm Acesso em 10012021 68 Disponível em httpswwwingovbrmateria assetpublisherKujrw0TZC2Mbcontentid32132854do120150128resolucaordcn3de26de janeirode201532132677 Acesso em 10012021 69 Disponível em httpsloja4biocombrmevatyl27mgml25mgmlc3fr10mlcadaspraya Acesso em 10052021 70 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombraudienciapublicapl399cannabismedicinal Acesso em 10032021 71 Disponível em httpsbvsmssaudegovbrbvssaudelegisanvisa2015rdc001706052015pdf Acesso em 10012021 136 associação com outros canabinóides por pessoa física para uso próprio mediante prescrição de profissional legalmente habilitado para tratamento de saúde Isto é a partir dessa data a ANVISA tornou possível a importação de medicamentos à base de cannabis sativa para pessoa física sendo necessário enviar a documentação como laudo e receita médica para a ANVISA e assim conseguir a autorização Esse processo tornou a importação menos burocrática o que representou um avanço mas não alterou em nada com relação ao cultivo Segundo o Portal da Câmara dos Deputados72 em 21 de março de 2018 ficou decidido que esse Projeto de Lei seria distribuído às Comissões de Agricultura Pecuária Abastecimento e Desenvolvimento Rural Desenvolvimento Econômico Indústria Comércio e Serviços Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado Seguridade Social e Família e Constituição e Justiça e de Cidadania Art 54 RICD Em razão da distribuição a mais de três Comissões de mérito foi determinado a criação de Comissão Especial para analisar a matéria conforme o inciso II do art 34 do RICD Em outubro de 2019 foi instalada a Comissão Especial sob a presidência do Deputado Paulo Teixeira PTSP alvo de muito preconceito dentro e fora do Congresso a proposta finalmente ganhou impulso Em agosto de 2020 o Deputado Federal Luciano Ducci do Partido Socialista Brasileiro PSBPR apresentou um substitutivo ao Projeto de Lei 3992015 esse substitutivo exclui a possibilidade de auto cultivo ou seja o cultivo fica restrito às pessoas jurídicas incluindo as associações Essa tentativa que parece mais palatável frente a bancada conservadora na verdade privilegia a indústria e o poder econômico AMORIM 2020 Abaixo destacamos na tabela a lista de deputados que votaram contra e a favor ao plantio de cannabis para fins medicinais Tabela 3 Comissão Especial da Câmara dos Deputados PL3992015 deputados que votaram contra e a favor do plantio de maconha no país para fins medicinais Titulares a favor Partido Alex Manente CIDADANIASP 72 Disponível em httpswwwcamaralegbrproposicoesWebfichadetramitacaoidProposicao947642 Acesso em 20032021 137 Alexandre Padilha PTSP Alice Portugal PCDOBBA Ângela Amin PPSC Aureo Ribeiro SOLIDARIEDADE RJ Bacelar PODEBA Carla Zambelli PSLSP Chico DAngelo PDTRJ Eduardo Barbosa PSDBMG Eduardo Braide PODEMA Eduardo Costa PTBPA Evair Vieira de Melo PPES Fábio Henrique PDTSE Fábio Mitidieri PSDSE Fernando Coelho Filho DEMPE Giovani Cherini PLRS Hugo Motta REPUBLICANOSPB Luciano Ducci PSBPR Marcelo Calero CIDADANIARJ Marcelo Freixo PSOLRJ Natália Bonavides PTRN Paulo Teixeira PTSP Pedro Cunha Lima PSDBPB 138 Rafael Motta PSBRN Tiago Mitraud NOVOMG Suplentes a favor Partido Afonso Florence PTBA Alencar Santana Braga PTSP Assis Carvalho PTPI Átila Lira PPPI David Soares DEMSP Dr Zacharias Calil DEMGO Gervário Maia PSBPB Gutemberg Reis MDBRJ Hugo Leal PSDRJ Jandira Feghali PCdoBRJ Leur Lomanto Junior DEMBA Sâmia Bonfim PSOLSP Talíria Petrone PSOLRJ Túlio Gadelha PDTPE Vinícius Poit NOVOSP Titulares contra Partido Capitão Augusto PLSP Eneias Reis PSLMG 139 Osmar Terra MDBRS Otoni de Paula PSCRJ Pastor Eurico PATRIOTAPE Sóstenes Cavalcanti DEMRJ Suplentes contra Partido Diego Garcia PODEPR Hiran Gonçalves PPRR Tabela elaborada pela autora com base nos dados disponibilizados aos associados da APEPI Em 09 de dezembro de 2019 a ANVISA tornou pública a Resolução da Diretoria ColegiadaRDC nº 32773 que dispõe sobre os procedimentos para a concessão da Autorização Sanitária para a fabricação e a importação bem como estabeleceu requisitos para a comercialização prescrição a dispensação o monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais Já em 24 de janeiro de 2020 a ANVISA tornou pública outra RDC de nº 335 na qual forneceu os detalhes para a importação Diante de todas essas alterações não restam dúvidas de que há muitos interesses econômicos e ideopolíticos nessa guerra De acordo com reportagem no site da Revista Época74 intitulada E a cannabis ganha um novo aliado o Agronegócio lançada em novembro de 2019 Burgierman destaca o curioso fato de conter na capa da Revista Globo Rural do mês de novembro a folha que é reconhecida como a da maconha ou cannabis sativa Para ele a maconha não demora em se tornar uma commodity que pode gerar em torno de R47 bilhões por ano em negócios Isso partindo do pressuposto que há apenas 39 milhões de pacientes canábicos em potencial no país BUGIERMAN 2019 73 Disponível em httpswwwingovbrenwebdouresolucaodadiretoriacolegiadardcn327de9 dedezembrode2019232669072 Acesso em 10012021 74 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 01022021 140 A cannabis sativa tem se tornado a galinha dos ovos de ouro ou como dizem o ouro verde do mercado financeiro mundial muitas são as apostas nesse mercado O expresidente da Bayer Van der Loo fundou recentemente uma empresa de cannabis medicinal de nome NatuScience Também o fundo Greenfield criado em 2018 já levantou R140 milhões para investir na cadeia de cannabis medicinal no mundo metade desse valor já foi investido em treze empresas que atuam no plantio extração distribuição e desenvolvimento de medicamentos BRANCO 2019 Os estudos com relação a cientificidade da aplicação terapêutica da maconha no Brasil ainda são incipientes mas tem crescido o número de pesquisadores buscando analisar essa temática e suas diferentes nuances Porém esse silenciamento no que tange as pesquisas nos faz voltar para a centralidade do tema para pensar como nasce a Universidade Brasileira enquanto lócus privilegiado da realização de pesquisas científicas Para Fernandes 1979 nos países de capitalismo dependente a universidade no Brasil nasce para servir de elo entre o fluxo de cultura das nações desenvolvidas com o objetivo de tentar assimilar o padrão cultural moderno isto é serve para a transplantação de padrões externos A consequência deste processo de aprofundamento da heteronomia cultural é o caráter ultraconservador da burguesia brasileira reduzindo o papel da universidade pública à adaptação de conhecimento o que mantém as universidades muito abaixo do padrão que poderiam alcançar realçando a articulação entre o arcaico e o moderno Isto é no caso dos estudos com relação à cannabis medicinal a modernização e a chegada de novas tecnologias não têm contribuído para avançar nos estudos sobre a sua ação terapêutica pois o racismo e o preconceito juntamente com a estreita ligação do Brasil com o imperialismo estadunidense tornamse os empecilhos para o progresso dessas pesquisas ou seja a tecnologia é moderna a proibição arcaica O sucateamento das Universidades Públicas e a não valorização da Ciência levam a precarização da pesquisa que sem investimentos públicos ficam passíveis de investimentos de órgãos externos como FMI e Banco Mundial que querem a todo custo justificar sua privatização No entanto há luta e resistência por parte dos movimentos sociais e da sociedade que lutam por uma educação gratuita laica e de qualidade e pelo tripé de ensino pesquisa e extensão das Universidades Públicas No Brasil existem nesse momento duas associações que conseguiram liminar na justiça para a fabricação do óleo artesanal e outros produtos à base de cannabis a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança ABRACE ESPERANÇA associação sem fins lucrativos que está localizada na cidade de João Pessoa na Paraíba 141 E a Associação de Apoio à Pesquisa e à Pacientes de Cannabis Medicinal APEPI localizada na cidade do Rio de Janeiro Isto é o acesso ao tratamento com cannabis medicinal atualmente no Brasil se dá de três formas O tratamento pode ser feito através do óleo artesanal que é vendido pela associação ABRACE ESPERANÇA ou pela APEPI75 Os valores variam a concentração de 10 mg de THC custa atualmente R22500 Já o de 40 mg de THC custa R6000076 Já existe à venda nas farmácias brasileiras o canabidiol brasileiro produzido pela empresa PratiDonaduzzi que é o primeiro e único produto brasileiro à base de cannabis autorizado pela ANVISA O valor desse medicamento custa em média R265000 o vidro de 30 ml com concentração de 200 mg de CBD77 A terceira forma é a importação do canabidiol dos Estados Unidos ou da Europa para esse procedimento é necessário autorização da ANVISA De acordo com o site CannabisSaúde78 o valor da importação gira em torno de 800 dólares ou seja atualmente R425600 Esses valores podem ser maiores dependendo do tratamento e da doença Outra consequência da falta de regulação que permita o acesso terapêutico à cannabis é a situação de iniquidade entre aqueles que dispõem de recursos para comprar o medicamento em países estrangeiros e aqueles que não dispõem A situação é inadmissível sobretudo se for considerado o baixo custo da produção da cannabis e de seus extratos em comparação com outros medicamentos sintéticos Assim o Estado ao invés de proteger a saúde da população e dos indivíduos coloca em risco a saúde e a integridade das pessoas que fazem uso da substância sem controle de qualidade e que recorrem ao mercado ilegal Estas pessoas já estão em estado de vulnerabilidade por seus quadros patológicos e o Estado ao não cumprir com o seu papel coloca esses pacientes num estado ainda maior de vulnerabilidade BRITO CARVALHO GANDRA 2017 p 5 Diante desses dados entendese que estamos avançando na luta pela cannabis medicinal no Brasil mas tendo em vista o alto custo do tratamento há uma segregação racial e de classe As classes mais pauperizadas não terão acesso a esse tipo de tratamento que poderia ter seu custo reduzido se não fosse a proibição articulada ao preconceito o racismo com os interesses das indústrias farmacêuticas estadunidenses e da bancada ruralista no Brasil 75 Disponível em httpsabraceesperancaorgbrcatalogo Acesso em 20012021 77 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrcanabidiol comprartextComo20vocC3AA20agora20jC3A120sabepor20R242028332 C74 Acesso em 30032021 78 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrcanabidiolcomprar Acesso em 20012021 142 Desta feita em setembro de 2019 o Deputado Federal Fausto Pinato PPSP79 membro da bancada ruralista e Presidente da Comissão de Agricultura Pecuária Abastecimento e Desenvolvimento Rural propôs uma audiência pública para tratar do plantio da Cannabis para fins medicinais que foi aprovada por unanimidade Isso apesar de estar cheia de parlamentares conservadores e alinhados ao governo federal que se colocam contra o plantio Percebese então que além da indústria farmacêutica há um interesse do agronegócio e principalmente da bancada ruralista no mercado da cannabis tanto que em outra reportagem divulgada no site Folha de São Paulo80 dizia que a empresa brasileira Shoenmaker Humako pertencente ao grupo Terra Viva entrou na justiça contra a União e a ANVISA pelo direito de plantar cânhamo Já na correlação de forças o Conselho Federal de Medicina CFM e a Associação Brasileira de Psiquiatria ABP divulgaram um decálogo sobre a maconha81 com dez mandamentos que apontam contra o uso medicinal da cannabis e já no primeiro mandamento aponta que a cannabis sativa e a indica não podem ser consideradas medicamentos e que portanto não existe maconha medicinal Para Burgierman 822019 se a bancada ruralista abraçar o tema muda totalmente o debate no Congresso Nacional pois com 247 deputados e 38 senadores ela é a maior bancada do Congresso inclusive maior que a bancada evangélica que conta com 100 parlamentares Essa reportagem é de 2019 em agosto de 2020 o tema da cannabis entra na bancada ruralista como uma grande oportunidade de negócio no que rebate o Presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio Alceu Moreira MDBRS A Frente Parlamentar não aprovará nenhuma legislação que não dê absoluta segurança de que a produção seja especificamente para produtos medicinais ponderou Segundo reportagem no site da Revista Veja83 o deputado Osmar Terra MDB RS é o principal opositor da causa que argumenta que liberar o cultivo para fins medicinais fatalmente abriria as portas para que parte da maconha seja desviada para consumo como droga 79 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 02022020 80 Disponível em httpswww1folhauolcombrequilibrioesaude201910empresaentranajustica contrauniaoeanvisaparapoderplantarcannabisshtml Acesso em 01022021 81 Disponível em httpsstaticwixstaticcomugde0f082a5d3fbf46aaf4c4dae96adb1a4ca1d58pdf Acesso em 01022021 82 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 20032020 83 Disponível em httpsvejaabrilcombrblogradaronovoalvoideologicodedamaresesuaturmaa cannabismedicinal Acesso em 20032021 143 De acordo com o site Sechat a oposição começou antes mesmo de o texto substitutivo ser entregue O deputado Eros Biondini PROSMG durante sessão deliberativa citou as resoluções da ANVISA de nº 327 e nº 335 que preveem a fabricação importação e prescrição médica da Cannabis para lembrar que o Brasil já tem uma regulação E que por isso o texto substitutivo não faria sentido Classificou o texto de cavalo de Tróia Disse que a aprovação do PL 3992015 é uma armadilha para legalizar as drogas do país Ressaltamos que a proibição da maconha está cada vez mais ligada à questão moral pois se o comércio de cannabis representa uma grande possibilidade de lucro para grandes empresas e frações da burguesia o impedimento é a questão do controle social que vem desde a legislação de 1890 Isto posto destacamos que para quem detém poder econômico a maconha e outros psicoativos já estão legalizados basta comparar o número de negros periféricos e brancos moradores de bairros nobres que estão cumprindo pena por portar psicoativos No dia 10 de maio de 2020 chegou às farmácias o primeiro canabidiol fruto da parceria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto FMRP da Universidade de São Paulo USP e da empresa farmacêutica PratiDonaduzzi do Paraná De acordo com o site CannabisSaúde84 o produto foi liberado pela ANVISA em 22 de abril de 2020 e a venda está condicionada a apresentação do receituário azul o mesmo para remédios controlados O valor do frasco de 30 ml gira em torno de R2143 nas farmácias brasileiras De acordo com reportagem no site da Pfarma85 Os estudos tiveram um boom a partir de 2008 com a criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia INCT Translacional em Medicina que abriu caminho para parcerias com a indústria e com grupos de pesquisa internacionais importantes entre eles o do professor Raphael Mechoulam na Universidade Hebraica de Jerusalém descobridor do CBD e considerado a maior autoridade científica em canabinóides no mundo As plantas são importadas da Europa já que no Brasil o plantio continua proibido mesmo para fins terapêuticos PFARMA 2019 A parceria da USP com a PratiDonaduzzi começou em 2014 prevendo o desenvolvimento de produtos e o depósito conjunto de patentes com retornos financeiros para a Universidade e a construção de um Centro de Pesquisas em Canabinóides um prédio de dois andares pagos pela PratiDonaduzzi com apoio financeiro da FINEP Financiadora de Inovação e Pesquisa no campus da FMRP 84 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrprimeirocanabidiolbrasileiroautorizadopela anvisacustarr2143 Acesso em 21032021 85 Disponível em httpspfarmacombrnoticiasetorfarmaceuticomercado5587canabidiolprati donaduzziusphtml Acesso em 20082020 144 Ainda de acordo com a reportagem Os benefícios da parceria entre PratiDonaduzzi e USP Ribeirão Preto são imensuráveis pois a sinergia estratégica entre instituição pública e privada propiciou a união de recursos para agilizar o desenvolvimento de produtos contendo canabidiol altamente purificado e principalmente a realização de ensaios que comprovam a qualidade da formulação disse ao Jornal da USP o gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa Liberato Brum Junior Segundo reportagem no site da FINEP86 o desenvolvimento desse fármaco recebeu um aporte financeiro de R180 milhões A FINEP é uma empresa pública do MCTI Ministério da Ciência Tecnologia e Inovações do Governo Federal Ainda em parceria com a equipe da USP de Ribeirão Preto que estuda o uso terapêutico do canabidiol há mais de 30 anos a PratiDonaduzzi pesquisa com o apoio da Finep o desenvolvimento de uma fórmula utilizando canabidiol sintético que possa substituir o uso da planta na obtenção do medicamento Neste caso a ideia é produzir uma nova fórmula para ser utilizada no tratamento de outras doenças A opção sintética é uma prioridade na área da saúde já que abrangeria um número maior de consumidores FINEP 2019 A PratiDonaduzzi tem patentes depositadas no Brasil e em mais 12 países incluindo Estados Unidos China Japão e alguns países da Europa Segundo o site da FINEP a Prati Donaduzzi é a primeira empresa brasileira a participar do programa Finep Conecta destinado a apoiar projetos cooperativos envolvendo empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia ICTs Recentemente foram assinados com o grupo dois contratos de financiamento Um deles dará sequência aos estudos para obtenção do canabidiol com alto grau de pureza possibilitando a condução dos ensaios necessários para registro do medicamento O projeto receberá recursos no total de R 20 milhões do FinepConecta nova linha de crédito que opera com taxas de juros menores e prazos e carências mais longos Esses recursos serão repassados à Faculdade de Medicina da USPRibeirão Preto parceira do projeto De acordo com reportagem do site G187 no dia 02 de dezembro de 2020 a Comissão de Drogas Narcóticas da ONU reclassificou a maconha e a resina derivada da cannabis para um patamar que inclui substâncias consideradas menos perigosas de acordo com a Organização Mundial da Saúde OMS Com a reclassificação a maconha deixa de ocupar a lista de substâncias consideradas particularmente suscetíveis a abusos e produção de efeitos danosos e sem capacidade de produzir 86 Disponível em httpfinepgovbrnoticiastodasnoticias5985pesquisasempreconceito Acesso em 30032021 87 Disponível em httpsg1globocommundonoticia20201202comissaodaonuaprovaretirara maconhadelistadedrogasconsideradasmaisperigosasghtml Acesso em 25012021 145 vantagens terapêuticas A decisão teve aprovação de 27 países outros 25 votaram contra inclusive o Brasil CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando o exposto e tendo em vista a grande disputa que envolve a legalização da cannabis no Brasil teço as minhas considerações sem concluílas já que o debate não se extingue nessas linhas Muitos desafios surgiram ao construir uma dissertação sobre um tema tão polêmico e novo e por isso com tão pouco material bibliográfico para embasar a pesquisa mas aqui chegamos No primeiro capítulo concluímos que a história do Brasil está intimamente ligada a história da maconha e que o fato dela ter sido trazida por negros as africanos as escravizados as e ter sido utilizada nos rituais da umbanda e do candomblé ela ainda é estigmatizada sendo criminalizada por uma base moral e racista que foi utilizada por médicos brasileiros para encabeçar a proibição no Brasil capitaneada pelos Estados Unidos Verificamos também que analisar a formação social brasileira e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro e suas particularidades requer considerar o racismo como fio condutor já que ele é um elemento estrutural e estruturante que sustenta as relações sociais e de produção no Brasil Em relação ao segundo capítulo verificamos que o uso das plantas na cura dos males físicos e espirituais é usado por várias civilizações desde a Antiguidade e que as mulheres principalmente negras e indígenas foram pioneiras nessa prática Tanto na Europa quanto nas Américas a prática de curandeirismo foi extremamente perseguida num amálgama de racismo religioso ódio de classe e misoginia pois o capitalismo precisava retirar o controle que as mulheres tinham sobre o seu corpo principalmente o controle sobre a natalidade para que elas reproduzissem força de trabalho ou seja que tivessem filhos que se tornariam mão de obra para o sistema capitalista Além disso as práticas de curandeirismo foram recriminadas pela classe dominante pois também representavam ameaça à medicina científica Compreendemos então que o sistema capitalista não é um sistema meramente econômico mas também social que expropria não só os meios de sobrevivência dos trabalhadores e trabalhadoras mas principalmente captura a sua subjetividade tirandolhes até mesmo o conhecimento ancestral sobre plantas medicinais criminalizando suas práticas médicoreligiosas O terceiro capítulo mostrou o nexo existente entre o proibicionismo e o imperialismo estadunidense ressaltando que através da proibição justificase a 146 Guerra às drogas alimentase o narcotráfico e pune severamente a juventude negra pobre e periférica através da morte e do encarceramento em massa mostrando que essa guerra não é uma guerra às drogas e sim uma guerra com alvo determinado jovens negros as periféricos as Mostramos também que o racismo se constitui como determinante social da saúde pois a população negra é a que mais tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde traços que perpassam pelo racismo ambiental e institucional e que vão impactar negativamente na saúde da população negra É sabido que no SUS faltam medicamentos faltam médicos faltam remédios mas falta para quem Falta para os moradores de periferia para negros as indígenas e quilombolas Concluímos que criminalizar os psicoativos significa criminalizar a pobreza e com relação ao acesso a medicamentos à base de cannabis sativa mostramos que por causa da proibição se constitui em um tratamento burocrático e financeiramente inviável isto é para as classes subalternas esse acesso é inexistente Destacamos que pela imbricação capitalismoracismopatriarcado a tarefa do cuidado recai sobre as mulheres que na maioria das vezes cumprem essa função sem os seus companheiros criando seus filhos e mantendo a casa sozinhas Essa situação se agrava quando essas mulheres têm filhos com doenças crônicas e precisam redobrar os cuidados na maioria das vezes saindo de seus empregos para cuidar dos filhos A omissão do Estado na regulamentação do uso medicinal da maconha a restrição na regulamentação da ANVISA que autoriza aquisição somente via importação e o alto custo do canabidiol brasileiro violam o direito fundamental à saúde A supressão dos direitos é reconhecida por Marx como uma forma de expropriação pois a expropriação não diz respeito somente a tirar dos trabalhadores o seu único meio de subsistência A expropriação contemporânea diz respeito também a não dar às classes empobrecidas o direito à saúde dificultando o acesso desses à atendimentos médicos exames e medicamentos Morando em lugares insalubres com alimentação não adequada com vínculos de trabalho informais essas são as parcelas da população que passam mais frequentemente pelo processo de adoecimento Fontes 2010 considera que a expropriação não pode ser entendida como fenômeno meramente econômico já que possui um sentido propriamente social Trata se da imposição mais ou menos violenta de uma lógica da vida social pautada pela supressão de meios de existência ao lado da mercantilização crescente dos elementos necessários à vida dentre os quais figura centralmente a nova necessidade sentida objetiva e subjetivamente de venda da força de trabalho FONTES 2010 p 88 147 Destacamos que na Guerra às drogas o inimigo não são os psicoativos a guerra tem sexo raça e classe os alvos são principalmente jovens negros as periféricos as que todos os dias têm sua vida ameaçada por essa guerra Sabemos que a legalização dos psicoativos não é capaz de romper com a estrutura do capitalismo racismopatriarcado pois brancos e ricos continuam consumindo em formato medicinal ou não sem ser incomodados e os as negros as continuam sendo presos as e mortos as De acordo com reportagem no site G188 no dia 27 de fevereiro de 2021 o Ministério da Saúde abriu consulta pública para inclusão do canabidiol no SUS o uso é específico para tratamento de epilepsia refratária doença em que 30 dos pacientes são resistentes à medicamentos As opiniões podem ser enviadas até o dia 15 de março de 2021 Quem fez a solicitação para a inclusão do canabidiol no SUS foi a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias CONITEC no entanto o que poderia representar um avanço quando na verdade representa uma continuidade já que com essa medida a discussão sobre a regulamentação continua não sendo a pauta principal e como o pleito é feito apenas por uma empresa há uma grande possibilidade de monopólio dos produtos com o preço elevado Segundo a reportagem a substância em avaliação pelo Ministério é chamada comercialmente de PratiDonaduzzi um produto de cannabis que não tem tetrahidrocanabinol THC principal substância psicoactiva encontrada nas plantas do gênero cannabis O produto tem relatório técnico feito pela Conitec e um pedido de incorporação ao SUS produzido pela Secretaria de Ciência Tecnologia Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde SCTIEMS Além de todo o estigma que envolve a maconha ainda existe um preconceito muito grande com relação ao THC que é a substância presente na planta responsável por produzir os efeitos psicoativos Em torno dessas discussões o THC é visto pelos conservadores como coisa de maconheiro Porém um estudo89 realizado por Carolina Chaves Paulo Cesar Bittencourt e Andrea Pelegrini lançado em outubro de 2020 confirma que a ingestão do óleo rico em THC teve excelentes resultados em pacientes com fibromialgia tanto no tratamento das dores quanto na melhoria da qualidade de vida 88 Disponível em httpsg1globocomdfdistritofederalnoticia20210227canabidiolministerioda saudeabreconsultapublicasobreinclusaodesubstancianosusghtml Acesso em 07032021 89 Disponível em httpsacademicoupcompainmedicinearticle211022125942556 Acesso em 12022021 148 Isto posto analisamos que sem a regulamentação e mesmo que o canabidiol chegue no SUS os pacientes podem não conseguir ter acesso a eles pois como a Lei 11343 de 2006 ainda proíbe o uso e cultivo da planta as mesmas continuam tendo que ser importadas dos Estados Unidos ou da Europa e são direcionadas para a empresa PratiDonaduzzi ou seja o SUS que já está suficientemente sucateado ainda terá que arcar com alto custo para conseguir fornecer esse medicamento Além disso as associações que produzem artesanalmente os medicamentos à base de cannabis sativa vem sofrendo ataques que objetivam impedir o seu funcionamento Assim de acordo com reportagem no site Sechat90 no dia 27 de fevereiro de 2021 a ANVISA entrou com o pedido de suspensão da liminar que assegura a ABRACE Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança o direito de cultivar cannabis para fins medicinais e produzir produtos terapêuticos como óleo pomada e spray Esse pedido de suspensão feito pela ANVISA está a cargo do Desembargador Cid Marconi do Tribunal Regional Federal da 5ª Região TRF5 A ABRACE atende hoje 14 mil famílias pelo Brasil que precisam desses produtos para sobreviver No dia 04 de março de 2021 o Desembargador Cid Marconi revogou a decisão de suspender as atividades da ABRACE a medida foi tomada após vistoria realizada pelo Desembargador nas unidades da ABRACE em João Pessoa na Paraíba dessa forma a ONG terá quatro meses para se ajustar às exigências da ANVISA Por fim no dia 08 de junho de 2021 foi aprovado pela Comissão Especial na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 399201591 que regulamenta o plantio de maconha para fins medicinais e a comercialização de medicamentos que contenham extratos substratos ou partes da planta Foram 17 votos contra e 17 a favor sendo aprovada pelo voto do relator Luciano Ducci PSBPR e seguirá para o Senado A proposta altera o artigo 2 da Lei 11343 de 2006 para autorizar o plantio de vegetais como a cannabis para fins científicos ou medicinais em local e prazos determinados mediante fiscalização O relator Luciano Ducci ressaltou que desde 2015 quando a ANVISA passou a autorizar a importação de medicamentos à base de cannabis os pedidos aumentaram de maneira expressiva Segundo ele em 2015 foram 902 solicitações em 2019 até outubro 90 Disponível em httpssechatcombranvisapedeajusticasuspensaoliminarqueasseguraproducao deoleosmedicinaisdecannabisdaabrace Acesso em 11032021 91 Disponível em httpswwwcamaralegbrproposicoesWebfichadetramitacaoidProposicao947642 Acesso em 14062021 149 mais de 53 mil e no início de 2020 tinham 78 mil pacientes cadastrados para a importação desses medicamentos No texto apresentado a proposta é que não haja exigência de que se tenha esgotado todas as alternativas terapêuticas para o paciente para somente aí o médico poder prescrever o medicamento à base de cannabis sativa Além disso o projeto prevê que o cultivo da cannabis sativa seja realizado apenas por pessoa jurídica previamente autorizada pelo poder público E claro o texto também trata do uso do cânhamo industrial como um novo segmento comercial no Brasil que pode se tornar uma nova matriz agrícola O texto apresentado não inclui o cultivo para pessoas físicas beneficiando apenas a indústria farmacêutica e as associações ou seja apenas quem pode pagar por ela Em suma quem paga a conta da Guerra às drogas são as classes pauperizadas principalmente negros as pobres periféricos as que além de sofrer como alvo dessa guerra sofrem também com o encarceramento em massa e não tem acesso aos medicamentos à base de cannabis pelo seu alto custo então seria interessante que os benefícios da cannabis medicinal fossem auferidos às classes mais pobres Abordar sobre a regulamentação dos psicoativos de forma geral e não só da maconha é falar sobre a luta de classes pois para os ricos os psicoativos já estão legalizados A Lei 113432006 ao não distinguir traficante de usuário deixando a cargo do delegado decidir ela corrobora para que negros as periféricos as sejam o principal alvo do encarceramento em massa pois brancos as moradores dos bairros nobres são majoritariamente vistos como usuários as e os as negros as como traficantes isso explica os dados do encarceramento onde a maioria é composta de negros as Diante disso a nossa defesa é pela descriminalização da cannabis sativa e pela responsabilização do Estado enquanto garantidor de direitos e promotor de políticas públicas para o acesso democrático a esses medicamentos Atualmente muitas famílias têm lutado também pelo autocultivo que se dá através do pedido de habeas corpus à Justiça para que seja permitido importar sementes de cannabis sativ para a produção do próprio medicamento No entanto esse não é o horizonte a ser seguido já que como mostramos ao longo do trabalho em uma sociedade patriarcal o cuidado recai sempre sobre as mulheres e produzir esse medicamento seria mais uma tarefa de responsabilidade das mulheres 150 Figura 5 Ala da APEPI na Marcha da Maconha em 2014 Rio de Janeiro A figura supracitada foi retirada de uma reportagem no site G192 com o título Mães pedem remédio à base de maconha em marcha no Rio quando destacam que a luta pela cannabis é uma luta das mulheresmães é porque são elas que estão à frente dos espaços de luta das associações porém elas estão na frente não só por acreditarem nessa luta mas principalmente por não terem o apoio do companheiropai nessa mesma luta Então se torna impossível dissociar a luta pela liberdade da mulher da luta contra o proibicionismo já que a Bancada BBB93 bala boi e bíblia no Congresso Nacional e a indústria farmacêutica são quem ditam regras que vão impactar diretamente e principalmente a vida das mulheres pobres negras e periféricas Ressaltamos que mesmo com o avanço do conservadorismo desde 2016 a pauta da cannabis medicinal tem avançado ou seja apesar dos ataques a classe trabalhadora tem se movimentado de forma a pressionar o Governo mostrando que a pauta da cannabis medicinal é uma pauta de saúde pública e de defesa intransigente dos direitos humanos 92 Disponível em httpg1globocomriodejaneironoticia201405marchadamaconhaseguesob chuvaemipanemanoriohtml Acesso em 20082020 93 A Bancada BBB é um termo usado para referirse conjuntamente à bancada armamentista da bala bancada ruralista do boi e à bancada evangélica da bíblia no Congresso Nacional do Brasil As agendas das bancadas estão alinhadas à direita política e ao conservadorismo brasileiros 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA Daniela dos Santos Racismo ambiental e a distribuição racialmente desigual dos danos ambientais no Brasil Disponível em httpwwwpuc riobrpibicrelatorioresumo2015relatoriospdfccsDIRDIRDanielaAlmeidapdf Acesso em 29012021 ALMEIDA Luiz Sávio Índios do Nordeste temas e problemas 5 Vai te para onde não canta galo nem boi urra diagnóstico tratamento e cura entre os KaririXocó Maceió EDUFAL 2004 ALMEIDA Silvio O que é 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httpperiodicosestedubrindexphpgenero Memória Margarida Maria Alves Uma mulher muitas mulheres Sabrina Senger Margarida Maria Alves nasceu em Alagoa Grande na Paraíba no dia 05 de agosto de 1933 sendo a caçula de nove irmãos Ainda criança Margarida e sua família foram expulsas do sítio onde viviam por latifundiários fazendo com que se mudassem para a periferia paraibana Ela completou a quarta série do ensino primário em sua fase adulta e enquanto sindicalista lutou pela alfabetização de adultos a partir dos métodos de Paulo Freire Margarida Alves foi uma das primeiras mulheres a assumir a direção sindical no Brasil e lutou pelos direitos humanos e direitos trabalhistas especialmente de trabalhadoras e trabalhadores do campo1 Margarida foi assassinada por matadores de aluguel a mando de fazendeiros da região O crime aconteceu em sua casa na frente do seu único filho e do seu marido no dia 12 de agosto de 1983 Ela estava com 50 anos de idade e era presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande Trabalhadores e trabalhadoras rurais jovens estudantes intelectuais freiras e sacerdotes das Comissões Pastorais da Terra CPT lamentaram a morte de uma companheira A Teologia da Libertação ou Teologia da Enxada como ficou conhecida essa Teologia no Nordeste lamentava e clamava com firmeza por justiça e paz no campo Também se ouvia como um réquiem incessante o refrão da prece do hino católico Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão o cântico sagrado preferido por Margarida Maria Alves2 Possui graduação e mestrado em Teologia pela Faculdades EST 2020 Atualmente atua no Programa de Gênero e Religião Contato binasengerhotmailcom 1 PAIXÃO Mayara Conheça Margarida Alves símbolo da luta das trabalhadoras do campo por direitos Brasil de Fato São Paulo 12 ago 2019 Disponível em httpswwwbrasildefatocombr20190812conhecamargaridaalvessimbolodalutapordireitospara astrabalhadorasdocampo Acesso em 21 out 2020 2 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza Margarida Margaridas memória de Margarida Maria Alves 19331983 através das práticas educativas das Margaridas João Pessoa Editora da UFPB 2017 p 11 Disponível em 13 Coisas do Gênero São Leopoldo v 6 n 1 p 1214 Jan Jun 2020 Disponível em httpperiodicosestedubrindexphpgenero O crime que ceifou a vida de Margarida Alves continua impune Muitos outros importantes líderes sindicais da época foram assassinados e assassinadas e suas lutas contribuíram para direitos trabalhistas que usufruímos atualmente como o pagamento do 130 salário férias anuais carteira assinada para pessoas trabalhadoras da área rural o direito de cultivar suas terras e oferecer estudo para seus filhos e filhas e o combate ao trabalho infantil3 Uma das grandes preocupações de Margarida foi a educação do trabalhador e da trabalhadora rural Deste modo colaborou com a fundação do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural em que foi diretora de 1981 até 19834 Mesmo após a sua morte Margarida Alves continuou a inspirar mulheres e ativistas pelos direitos humanos de trabalhadoras e trabalhadores por sua coragem e ousadia Desde o ano 2000 milhares de mulheres urbanas e rurais se organizam em Marcha para reivindicar direitos justiça igualdade e dignidade5 A Marcha das Margaridas faz memória à luta de Margarida Aves e é a maior ação conjunta de mulheres na América Latina Uniuse à manifestação no ano de 2019 a I Marcha de Mulheres Indígenas ocupando as ruas de Brasília e a frente do Palácio do Planalto6 Esta edição da Revista Periódica Coisas do Gênero remete a arte de sua capa ao rosto de Margarida Maria Alves como forma de reconhecer sua luta como nossa contínua luta Referências CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO CIMI Marcha das Mulheres Indígenas divulga documento final lutar pelos nossos territórios e lutar pelo nosso direito a vida 15 ago 2019 Disponível em httpscimiorgbr201908marchamulheresindigenasdocumentofinallutar pelosnossosterritorioslutarpelonossodireitovida Acesso em 09 nov 2020 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza A trajetória políticoeducativa de Margarida Maria Alves Entre o velho e o novo sindicalismo rural 2010 146 f Tese Doutorado em Educação Centro de Educação Universidade Federal da Paraíba João Pessoa 2010 Disponível em httpsrepositorioufpbbrjspuibitstreamtede49221arquivototalpdf Acesso em 09 nov 2020 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza Margarida Margaridas memória de Margarida Maria Alves 19331983 através das práticas educativas das Margaridas João Pessoa Editora da UFPB 2017 Disponível em httpwwweditoraufpbbrsistemapress5indexphpUFPBcatalogview45173548931 Acesso em 21 out 2020 3 PAIXÃO 2019 4 SANTANA Irani FERRARI Milena COSTA Rayane Margarida Alves Uma mártir camponesa p 04 Disponível em httpneedunematbr4forumartigosiranipdf Acesso em 09 nov 2020 5 Mais informações em FERREIRA Ana Paula Romão de Souza A trajetória políticoeducativa de Margarida Maria Alves Entre o velho e o novo sindicalismo rural 2010 146 f Tese Doutorado em Educação Centro de Educação Universidade Federal da Paraíba João Pessoa 2010 Disponível em httpsrepositorioufpbbrjspuibitstreamtede49221arquivototalpdf Acesso em 09 nov 2020 6 CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO CIMI Marcha das Mulheres Indígenas divulga documento final lutar pelos nossos territórios e lutar pelo nosso direito a vida 15 ago 2019 Disponível em httpscimiorgbr201908marchamulheresindigenasdocumentofinallutarpelos nossosterritorioslutarpelonossodireitovida Acesso em 09 nov 2020 14 Coisas do Gênero São Leopoldo v 6 n 1 p 1214 Jan Jun 2020 Disponível em httpperiodicosestedubrindexphpgenero httpwwweditoraufpbbrsistemapress5indexphpUFPBcatalogview45173548931 Acesso em 21 out 2020 PAIXÃO Mayara Conheça Margarida Alves símbolo da luta das trabalhadoras do campo por direitos Brasil de Fato São Paulo 12 ago 2019 Disponível em httpswwwbrasildefatocombr20190812conhecamargaridaalvessimbolodalutapor direitosparaastrabalhadorasdocampo Acesso em 21 out 2020 SANTANA Irani FERRARI Milena COSTA Rayane Margarida Alves Uma mártir camponesa Disponível em httpneedunematbr4forumartigosiranipdf Acesso em 09 nov 2020 Recebido em novembro de 2020 Aceito em novembro de 2020 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE ARTES PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM ARTES CÊNICAS EDCEU BARBOZA DE SOUZA GRUPO NINHO DE TEATRO EXPERIÊNCIAS E USOS TÁTICOS NA PRODUÇÃO E NA GESTÃO EM TEATRO DE GRUPO NO CARIRI CEARENSE NATAL RIO GRANDE DO NORTE 2020 EDCEU BARBOZA DE SOUZA GRUPO NINHO DE TEATRO EXPERIÊNCIAS E USOS TÁTICOS NA PRODUÇÃO E NA GESTÃO EM TEATRO DE GRUPO NO CARIRI CEARENSE Dissertação apresentada ao Programa de pós graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em artes cênicas Linha de Pesquisa Interfaces da Cena Políticas Performances Cultura e Espaço Orientador Dr José Sávio Oliveira de Araújo NATAL RIO GRANDE DO NORTE 2020 Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN Sistema de Bibliotecas SISBI Catalogação de Publicação na Fonte UFRN Biblioteca Setorial do Departamento de Artes DEART Elaborado por Ively Barros Almeida CRB15482 Souza Edceu Barboza de Grupo Ninho de Teatro experiências e usos táticos na produção e na gestão em teatro de grupo no Cariri cearense Edceu Barboza de Souza 2020 199 f il Dissertação mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Norte Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Programa de PósGraduação em Artes Cênicas Natal 2020 Orientador Prof Dr José Sávio Oliveira de Araújo 1 Grupo Ninho de Teatro 2 Teatro Produção e direção 3 Trabalho de grupo na arte I Araújo José Sávio Oliveira de II Título RNUFBSDEART CDU 792 EDCEU BARBOZA DE SOUZA GRUPO NINHO DE TEATRO EXPERIÊNCIAS E USOS TÁTICOS NA PRODUÇÃO E NA GESTÃO EM TEATRO DE GRUPO NO CARIRI CEARENSE Dissertação apresentada ao Programa de pós graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em artes cênicas Aprovada em de de 2020 Dr José Sávio Oliveira de Araújo Presidente da banca orientador Dra Melissa dos Santos Lopes Universidade Federal do Rio Grande do Norte membro interno Dr Luiz Renato Gomes Moura Universidade Regional do Cariri membro externo AGRADECIMENTOS As mulheres que me deram todas as bases para ser e estar no mundo pensando e girando outros modos de existir minha mãe Maria Ivonete Ferreira de Souza Neta minha avó Maria de Lourdes Ferreira Lima minhas tias Vera Lúcia Ferreira de Souza Maria Ivoneide Ferreira de Souza Edna Ferreira de Souza e Berenice Ferreira de Souza minha irmã Elizangela Barboza de Souza mesmo longeperto acreditam em meus desejos vibram sempre minhas conquistas respeitando sempre minhas escolhas A meu pai Lazaro Barboza e Andrade meus irmãos Alexandre Barboza de Souza e Pedro Henrique Ferreira de Souza por serem uma parte espelho de mim Ao professor e orientador José Sávio Oliveira de Araújo pela orientação e por acreditar na efetivação desta pesquisa À Professora artista e amiga Cecília Maria por me guiar nos primeiros passos da pesquisa acadêmica e por ser incentivadora dessa jornada Ao Professor artista e amigo Luiz Renato Gomes Moura pelas contribuições generosas por acreditar ser guia e incentivador da caminhada Aos amigoscompanheirospassarinhosnarradoresas do Grupo Ninho de Teatro Elizieldon Dantas Fagner Fernandes Francisco Francieudes Joaquina Carlos Monique Cardoso Rita Cidade Sâmia Ramare que compartilham há doze anos desejos artísticos poéticos e pessoais Aos amigos e colegas de turma em especial Barbara Leite Faeina Jorge Franco Fonseca Júnior Nobrega Marcio Sá Mauro César Nanda Mélo Pablo Ferreira Roberto Viana Tatiane Araújo pelas trocas na vida e no trajeto acadêmico A José Filho amigo e colega de turma pelas conversas estradas e presença em mais um desafio Ao Programa de Pósgraduação em Artes Cênicas PPGArC da Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN seus professores coordenadores funcionários que colaboraram para essa formação À banca examinadora composta pelos professores Luiz Renato Gomes Moura e Melissa dos Santos Lopes pelas cuidadosas e generosas contribuições na leitura desta pesquisaescrita RESUMO Compondo um entendimento das práticas do Grupo Ninho de Teatro a partir de dada compreensão de experiência LARROSA E BENJAMIN e por meio de minha localização como sujeito e objeto desta pesquisa que tem como metodologia a História Oral PORTELLI elaboro uma construção que articula saber e fazer em produção e gestão teatral a partir do olhar para as práticas do teatro de grupo em diálogo com osas autoresas Flávia Janiaski Rosyane Trotta Samanta Cohen Danilo Castro e outrosas Com recorte na trajetória de doze anos do Grupo Ninho de Teatro e do espaço Casa Ninho no município de CratoCeará região do Cariri reflito sobre os procedimentos táticos CERTEAU que o grupo vem praticando para manter seu projeto sóciopolíticoestético de grupo Para tanto é descortinado o cotidiano do grupo evidenciando como este encontra no campo do teatro de grupo formas de gestar e produzir a manutenção de seu repertório projetos e sede artística Nesse campo de estudos me aproximo dos autores Romulo Avellar Teixeira Coelho Maria Helena Cunha Assim o objeto desta pesquisa se concentrou no teatro de grupo a partir do Grupo Ninho de Teatro e seu modo de produzir e gerir O objetivo dessa pesquisa é contribuir a partir de dado recorte para o registro de métodos e modos de fazer produção e gestão de um projeto de grupo considerando suas próprias táticas Busco ainda colaborar para os estudos contemporâneos da história do teatro no Ceará PALAVRASCHAVE Teatro de Grupo Gestão Teatral Produção Teatral Ninho de Teatro Casa Ninho ABSTRACT Composing an understanding of the practices of Grupo Ninho de Teatro based on a certain understanding of experience LARROSA AND BENJAMIN and through my location as the subject and object of this research which uses Oral History as methodology PORTELLI I elaborate a construction which articulates knowledge and doing in production and theatrical management from the perspective of group theater practices in dialogue with the authors Flávia Janiaski Rosyane Trotta Samanta Cohen Danilo Castro and others Based on the twelveyear trajectory of the Ninho de Teatro Group and the Casa Ninho space in the city of Crato Ceará Cariri region I reflect on the tactical procedures CERTEAU that the group has been practicing to maintain their groups sociopoliticalaesthetic project For that the groups daily life is revealed showing how the group finds ways to manage and produce the maintenance of its repertoire projects and artistic headquarters in the field of group theater In this field of studies I approach the authors Romulo Avelar Teixeira Coelho Maria Helena Cunha Therefore the object of this research focuses on group theater based on the Ninho de Teatro Group and its way of producing and managing The objective of this research is to contribute from a given point of view to the registration of methods and ways of producing and managing a group project considering its own tactics I also seek to collaborate for contemporary studies of the history of theater in Ceará Key Words Group Theater Theater Management Theater Production Ninho de Teatro Casa Ninho LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Imagem do espetáculo Bárbaro em cena o ator Edceu Barboza 57 Figura 2 Imagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo em cena Joaquina Carlos Rita Cidade e Edceu Barboza 59 Figura 3 Imagem do espetáculo Charivari em cena a atriz Zizi Telecio e Elizieldon Dantas 62 Figura 4 Imagem da Casa Ninho registro da primeira reforma em maio de 2011 65 Figura 5 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade Zizi Telecio 66 Figura 6 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Zizi Telecio e Elizieldon Dantas 69 Figura 7 Imagem do espetáculo Jogos na Hora da Sesta em cena Elizieldon Dantas e Rita Cidade 71 Figura 8 Espetáculo Jogos na hora da sesta em cena Edceu Barboza e Rita Cidade 72 Figura 9 Espetáculo A Lição Maluquinha em cena Sâmia Ramare 74 Figura 10 Espetáculo Poeira em cena Monique Cardoso 76 Figura 11 Espetáculo Poeira em cena Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Monique Cardoso Sâmia Ramare Rita Cidade Zizi Telecio 79 Figura 12 Casa Ninho em temporada com a Alysson Amâncio Cia de Dança 89 Figura 13 Casa Ninho após reforma 93 Figura 14 Casa Ninho evento Chá com Clarice 99 Figura 15 Nova estrutura de iluminação da Casa Ninho 100 Figura 16 Primeira arte de cartaz do espetáculo Bárbaro 193 Figura 17 Primeira arte de cartaz do espetáculo Avental todo sujo de ovo 193 Figura 18 Primeira arte de cartaz do espetáculo Charivari 193 Figura 19 Primeira arte de cartaz do espetáculo O menino fotógrafo 193 Figura 20 Primeira arte de cartaz do espetáculo Jogos na Hora da Sesta 193 Figura 21 Primeira arte de cartaz do espetáculo A Lição Maluquinha 193 Figura 22 Primeira arte de cartaz do espetáculo Poeira 193 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 9 1 TEATRO DE GRUPO E SEUS POSSÍVEIS 20 11 Cômpitos um apanhado histórico do teatro de grupo 23 12 Teatro de Grupo no Ceará Cariri 34 121 Instituições relevantes no âmbito da produção e gestão cultural na região do Cariri cearense 39 1211 CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI 39 1212 LICENCIATURA EM TEATRO DA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI URCA 41 1213 SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SESC MOSTRA SESC CARIRI DE CULTURAS 42 13 Produção Cultural Teatral 45 2 GRUPO NINHO DE TEATRO UM NINHO EM CONTÍNUA CONSTRUÇÃO 50 21 GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias 52 22 A Produção Cultural e Teatral na experiência do Grupo Ninho de Teatro 79 23 O Planejamento estratégico como meio de organização do grupo 82 24 A casa em movimento 88 25 Como nascem os projetos A Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS 105 REFERÊNCIAS 111 APÊNDICES Entrevistas realizadas com integrantes do Grupo Ninho de Teatro 117 ANEXOS 192 9 INTRODUÇÃO Esta dissertação tem como objeto de pesquisa o teatro de grupo e as táticas de produção e gestão com foco no Grupo Ninho de Teatro e as ações mobilizadas pelo mesmo para a manutenção de seu repertório e sua sede a Casa Ninho Nesta escrita construo um recorte historiográfico sobre os elementos que configuram um entendimento de práticas coletivas no solo do teatro de grupo com base no itinerário de doze anos do grupo na cidade de Crato1 na Região do Cariri Cearense O principal objetivo é comungar como nossas práticas de produzir e gerir foram se articulando nesse percurso e de que forma o grupo foi encontrando ruassaídas para driblar as adversidades locais e se manter por mais de uma década com ações contínuas desviadas da ausência de políticas públicas na área cultural sobretudo por estar deslocado de centrosmetrópoles em que os espaços de trabalho são historicamente maiores ainda que com suas complexidades Para escrever sobre a experiência do Grupo Ninho de Teatro me coloco dentro da escrita como sujeito e objeto me escrevo trazendo para o método de escrita os elementos que foram me afetando nessa travessia coletiva Por isso escolho escrever de forma poética e mesmo subjetiva de modo que oa leitora perceba os cruzamentos entre vida arte e pesquisa Falar de si é também falar de outrosas tendo essa compreensão é que resolvi escrever sobre a experiência do Grupo Ninho que é também a minha Não se trata pois de vaidades mas sim de um exercício de escrita histórica que busca inscrever as microhistórias na historiografia Essa compreensão me permite somar na construção de outros olhares para o teatro de grupo do Ceará por meio desse recorte entendendo que existem dezenas de outros grupos que também devem ter suas histórias contadas A escritora Grada Kilomba 2019 28 na introdução de Memórias de Plantação diz que escrever portanto emerge como ato político e acresce que enquanto escrevo eu me torno a narradora e a escritora da minha própria realidade Com isso a autora me provoca a compreender este estudo como uma escrita política 1 Crato cidade com 256 anos situada no Sul do Estado do Ceará na Região do Cariri Chamada por muitos como o oásis do sertão devido a sua natureza sempre verde e às muitas nascentes de água que brotam do pé da Chapada do Araripe A cidade é também rica em manifestações da Tradição Popular 10 na medida em que construo a possibilidade de inserilo dentro do painel de ideias que pensam o teatro de grupo do Ceará bem como suas práticas Situado esse posicionamento disserto nas páginas que se seguem sobre os atravessamentos que essa história foi me encruzilhando esta palavra aqui quer dizer de uma escrita que parte de entrecruzamentos uma escritaencruza tal como nos apresenta o autor Florêncio em seu texto Nativo Ausente e EscritaDespacho Aquela que faz tracejar invisíveis Aquela em que Exu2 ganha corpo e faz enxergar os desenhos que não são vistos com os olhos acostumados aos golpes de abstração aos golpes dos universais incorpóreos Aquela que brinca com as diferenças FLORÊNCIO 2018 p 8 Esses traços invisíveis como nos aponta Florêncio são as camadas que muitas vezes não são capturadas apenas na leitura em si pois é preciso ler expandido para que se encontre sentidos que o texto em si não dá conta Por isso defini como metodologia para a escrita desta dissertação trazer para construir junto comigo as vozes dosdas demais integrantes do Grupo Ninho Rita Cidade Elizieldon Dantas Sâmia Ramare Monique Cardoso Fagner Fernandes e Francisco Francieudes como narradoresaspássaros do grupo que ampliam ainda mais o que chamo de uma escritaencruza3 Com isso ficou estabelecido o lugar de escuta desse corpogrupo em suas ruasencruzasencruzilhamentos uma escrita a partir das diferenças Estabeleço também um diálogo com o método da História Oral a partir do historiador Alessandro Portelli 2016 o mesmo nos aponta que este método prescinde de uma real escuta não apenas do ouvir mas aquela que nos faz capturar o que o narrador não verbaliza ou seja expandir a presença na presença doda outroa para que assim outros sentidos e camadas apareçam Essas camadas 2 Exu é um orixá do candomblé e a figura mais controversa do panteão africano Seria o responsável pelo início de tudo a potência o movimento o contraditório o duplo o múltiplo o brincalhão que faz acontecer pelo avesso constrói ao desfazer arruma tudo gerando o caos Exu não permite certezas porque nunca pode ser alcançado Quando se pensa têlo alcançado que se chegou a algum lugar ele inverte o caminho e o fim passa a ser o começo que não é só um caminho mas uma encruzilhada de quatro caminhos multiplicados por milhares de outras possibilidades Para Exu não existe certo ou errado mas caminhos que podem levar a diversos lugares ou conduzir ao mesmo local por via diferente Chamar Exu para a rodatexto implica em mais que problematizar uma manifestação cultural afrobrasileira em pensar a produção de conhecimento a partir dos países periféricos KAWAHALA 2014 p 43 3 Essa junção de palavras escritaencruza e giro ou gira algumas vezes serão encontradas diz do meu lugar de vivência não iniciado em algumas religiões de matriz africana e afrobrasileiras como artistapesquisador preto escrevo a partir desse lugar de crença 11 podem ser as cores do entorno os cheiros o telhado os móveis do ambiente os sons internos e externos elementos que irão compor a escrita Este método também apresenta uma chave importante para a leitura desta dissertação pois ele articula os saberes locais na relação com o global fazendo uma ligação de pontos que nos permitem pensar uma epistemologia que não negue as experiências advindas do território de onde se escreve como nos acentua o autor ao dizer que A história oral em essência é uma tentativa de reconectar o ponto de vista nativo local vindo de baixo e o ponto de vista científico global visto de cima de contextuar aquilo que é local e de permitir que o global o reconheça A história oral então junta a história vinda de cima e a história vinda de baixo em um mesmo texto em uma mesa de negociação criando um diálogo igualitário entre a consciência que os historiadores têm dos padrões espaciais e temporais mais amplos e a narrativa pessoal mais pontualmente focada do narrador local PORTELLI 2016 p 150 Como nos aponta o autor a história oral nos permite estabelecer relações não hierárquicas ao pensar um objeto de pesquisa Assim reforço que ao recortar a pesquisa no Grupo Ninho de Teatro como lócus para o estudo do teatro de grupo foquei especificamente nos seus modos de produção e gestão teatral na cidade do Crato Cruzei histórias para romper camadas desiguais e construí um registro historiográfico no qual o Ninho age pelo local para cruzar com outros mundos Portanto tal método me ajudou a compreender a escrita a partir de minhas narrativas em diálogo com outras sem anulações de quem sou enquanto pesquisador pois essa metodologia me fez perceber que é a abertura do historiador para a escuta e para o diálogo e o respeito pelos narradores que estabelece uma aceitação mútua baseada na diferença e que abre o espaço narrativo para o entrevistador entrar Do outro lado é a disposição do entrevistado de falar e de se abrir em alguma medida que permite que os historiadores façam seu trabalho E a abertura dos historiadores sobre eles mesmos e sobre o propósito de seu trabalho é um fator crucial na criação desse espaço PORTELLI 2016 p15 Essa abertura teve que ser ampliada uma vez que eu faço parte do cotidiano do grupo mas ainda assim se fez importante atentar ainda mais para os narradoresas e companheirosas de grupo pois poderia deixar passar pela escuta questões 12 importantes no ato de pesquisa ademais esse ato de escuta no meu caso se deu sempre de forma aberta já que vivemos o mesmo cotidiano A seguir nesta introdução narro o que me fez e faz ser quem sou Atualmente sou ator encenador produtor e gestor do Grupo Ninho de Teatro e de sua sede a Casa Ninho Desempenho uma atuação polifônica MALETTA 2016 que vem propiciando diversas experiências que serão compartilhadas com o registro desta pesquisa Nesta dissertação discutirei as ruas veredas becos caminhos e encruzilhadas que me levaram ao ninho que hoje habito e que divido com vocês leitoresas Para nortear a narrativa utilizome do método sujeitotrajetoobjeto como instrumento para evidenciar o caminho que me trouxe a esta dissertação Inicio destacando a cidade de Acopiara4 Ceará década de 1980 O que mais marca esse período é a ausência da televisão Não acompanhei a rainha dos baixinhos nem a loira que exibia um sinal como marca e tampouco a que dizia que era indígena meus dias eram preenchidos por outros fazeres Minha infância foi brincar pelas ruas roubei bandeiras atirei bilas carimbei amigos com bola me escondia através do jogo dos trinta e um pulei em quadrados de nome amarelinha dancei em trancelins fui espectador de narrativas humanas sentado ao lado de minha avó que num movimento de sobe e desce do pé costurava madrugando histórias e me fazendo ser um sensível ouvidor de palavras A luz amarela o som da máquina de costuras o cheiro de café a fumaça do cigarro desenhando o espaço estão em mim pulsantes como se fosse o agora do ato Concomitantemente na escola gostava de imitar pessoas num ato inocente que anos depois se tornaria meu ofício Na década seguinte já percebendo o mundo com outro olhar me via sempre envolto a livros e um prazer único de estar naquele ambiente escolar era ali que eu me via sendo gente foi ali que recapitulando o tempo intuitivamente me sentia artista através do desenho e da pintura sempre às sextasfeiras era aula de Artes Poucos anos à frente conheci a linguagem artística que iria colorir ainda mais a minha vida o Teatro Aos treze anos era 1998 iniciei timidamente nesta linguagem cênica através do Projeto AABB5 Comunidade neste permaneci por três anos e a partir dessa experiência comecei a vivenciar o movimento teatral acopiarense 4 Acopiara é um município do Estado do Ceará localizado na região CentroSul com 98 anos de emancipação conhecido em todo o estado por realizar o mais antigo festival de teatro O município também tem forte presença de grupos de reisado de caretas 5 Associação Atlética Banco do Brasil AABB são clubes recreativos espalhados por diversas cidades brasileiras que tenham agências do Banco do Brasil 13 Em Acopiara cidade onde nasci existe o FETAC Festival de Teatro de Acopiara6 este foi um grande laboratório no qual durante anos pude ter acesso à formação técnica em diversas áreas da cena Já no ensino médio desejei formarme em Teatro naquela ocasião havia o Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas no IFCE7 mas por ausência de recursos financeiros não tive como arcar com esta mudança para a capital Fortaleza Na busca por uma formação encontrei razões e conexões com o curso de História da Universidade Regional do Cariri Era o ato libertador Parti em 08 de março de 2004 ainda um menino me lancei no mundo A sensação era de ter nascido naquele instante eu era universitário Foram dias turbulentos mas tinha um foco o teatro Assim que pisei meus pés nas terras caririenses busquei engajamento com grupos locais alguns inclusive eu já conhecia através do FETAC Segui no curso de História cruzando este com formações teatrais livres participava de oficinas montagens cênicas festivais grupos de estudos em teatro e com isso pude me aproximar de pessoas que se tornariam futuros companheirosas de trabalho e grupo Após terminar o curso e me tornar licenciado em História passo a ser graduando em Teatro na época a mais nova licenciatura da Urca8 concluída em 2016 Em 2008 encontrome com quatro amigosasartistas e juntos fundamos o Grupo Ninho de Teatro e Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas Esta constituise como associaçãoprodutora que busca contribuir para o desenvolvimento dos profissionais de teatro da região do Cariri situada no CaririSul do Ceará além de uma integração com profissionais experientes do mercado 6 O Festival de Teatro de Acopiara é o mais antigo do Ceará sendo criado em 1989 o Festival vem cumprindo um importante papel na democratização e descentralização do teatro para o interior do estado pois sua maior característica é que sua programação seja composta por grupos que atuam em cidades do interior cearense 7 O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará IFCE cuja reitoria é sediada em Fortaleza instituição criada nos termos da Lei N º 11892 de 29 de dezembro de 2008 mediante a integração do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará com as Escolas Agrotécnicas Federais de Crato e de Iguatu Vinculado ao Ministério da Educação é uma autarquia de natureza jurídica detentora de autonomia administrativa patrimonial financeira didáticopedagógica e disciplinar Para efeito da incidência das disposições que regem a regulação avaliação e supervisão da instituição e dos cursos de educação superior o IFCE é equiparado às universidades federais IFCE 2000 8 Criada em 2008 conforme o Projeto Político Pedagógico a Licenciatura Plena em Teatro do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau visa fortalecer a cultura artística regional com a formação superior de professores para preencher a lacuna existente no Ensino de Teatro na Região de abrangência desta IES A contemplação do curso de Teatro pela URCA proporcionará a formação específica em uma área que possui na região do Cariri importantes expoentes nas manifestações teatrais no âmbito regional e nacional URCA 2013 14 regionalnacional Sua formação se realiza através da junção de artistas residentes no Cariri cearense vindos de diferentes cidades e formações artísticas desejávamos apenas a montagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo do dramaturgo Marcos Barbosa Esse desejo nos aproximou com o objetivo inicial somente em montar e não de ser grupo mas conforme vocês verão adiante esse foi o disparador para o surgimento do grupo Ao longo de doze anos o grupo criou um repertório de sete espetáculos Bárbaro 2008 Avental todo sujo de ovo 2009 Charivari 2009 O Menino Fotógrafo 2012 Jogos na Hora da Sesta 2012 A Lição Maluquinha 2013 e Poeira 2016 Em 20192020 o grupo inicia a pesquisacriação da Trilogia Fractal GêneroS os dois primeiros episódios da trilogia estão sendo criados a partir dos universos femininos e masculinos Cada montagem irá abordar respectivamente esses temas com elencos de mulheres e homens No episódio 3 três todo o grupo estará em cena borrando as noções binárias de gênero e refletindo as muitas camadas e abordagens contidas no tema Ao vivenciar a trajetória do Grupo Ninho de Teatro que desde 2008 empreende uma experiência de gestão e produção teatral de forma autônoma é que surge meu interesse de pesquisar as minúcias das práticas e das táticas CERTEAU 1998 do grupo Como membro fundador percebo ao longo de doze anos como este vem amadurecendo seu modus de produção e de gestão de seus espetáculos e em seguida de sua sede a Casa Ninho A pesquisa registrada nesta dissertação está centrada na busca por revelar o cotidiano criativo e também de trabalho do Grupo Ninho de Teatro e assim ir compartilhando com oa leitora como se estrutura a dinâmica de produção e de gestão bem como suas formas de lidar com as poucas políticas públicas de cultura existentes A observação desses dois pilares no grupo produção e gestão me levou a formular a seguinte pergunta que norteará a construção dos capítulos Como se processa a produção e a gestão em teatro de grupo a partir da experiência do Grupo Ninho de Teatro e de sua sede a Casa Ninho A partir dessa pergunta como caminho de pesquisa investiguei o cotidiano do grupo em seus processos e procedimentos de produçãogestão num olhar mais atento enquanto pesquisador já que estou diretamente ligado à produçãogestão e ensaios do mesmo Busquei a partir da escuta e coleta das narrativas orais dosas integrantes o registro de suas práticas cotidianas com foco sobretudo nas suas táticas 15 organizativas e seus desenhos de produção e de gestão para sustentar seu repertório eou sua sede Compreendo a atuação do grupo como tático quando este consegue a partir dos sistemas burocráticos e da realidade de políticas públicas de cultura adversas9 manter seu projeto de grupo Para tanto se estabelece por meio da inventividade um verdadeiro quebra cabeça capaz de subverter certa lógica de poder que impede que as atividades de grupos de teatro não tenham estabilidade para seguir um fluxo contínuo de ações a longo prazo e é portanto nessa corda bamba que as diferentes maneiras de fazer vão ser acordadas como desvios possíveis para resistir Assim ainda que inseridos num lugar de poder quando pensamos as políticas dominantes vamos criando ou recriando espaços e assim transformando a adversidade em flechas ao inimigo Apresento a seguir o conceito de tática proposto pelo historiador francês Michel de Certeau sua compreensão é fundamental para a estruturação desta dissertação tático a ação calculada que é determinada pela ausência Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia A tática não tem por lugar senão o do outro E por isso deve jogar com o terreno que é imposto tal como organiza a lei de uma força estranha Não tem meios para se manter em si mesma à distância numa posição recuada de previsão e de convocação própria a tática é movimento dentro do campo de visão do inimigo como dizia von Bullow e no espaço por ele controlado Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto visível e objetivável Ela opera golpe por golpe lance por lance Aproveita as ocasiões e delas depende sem base para estocar benefícios aumentar a propriedade e prever saídas O que ela ganha não se conserva Este nãolugar lhe permite sem dúvida mobilidade mas numa docilidade aos azares do tempo para captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante Tem que utilizar vigilante as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário Aí vai caçar Cria ali surpresas Consegue estar onde ninguém espera É astúcia CERTEAU 1998 p 100 9 Essas adversidades foram se agravando ainda mais com os desmontes ocorridos no país a partir de 2016 e que destruiu o pouco de estrutura que tinha sido erguida com os ministros Gilberto Gil 20032008 que em sua gestão criou o Sistema Nacional de Cultura SNC o Conselho Nacional de Política Cultural CNPC o Programa de Desenvolvimento Econômico da Cultura Prodec e o Programa Cultura Viva em seguida Juca Ferreira 20082010 20142016 Ana de Holanda 20112012 e Marta Suplicy 20122014 voltando Juca novamente Após o golpe políticomidiáticojurídico sofrido pela expresidente Dilma Rousseff 2016 a política cultural assim como o próprio pais sofre com um incêndio incontrolável em suas estruturas como o ocorrido no Museu Nacional que tem tornado tudo cinza 16 Ao escrever sobre o Ninho busco o registro dessas capturas no voo esse ir à caça e inventar caminhos que nunca sendo um só se encruzam e nos faz artistas produtoresas que dentro desse cotidiano de teatro de grupo labutam em um campo de invenção provocando certo tombamento no sistema pelo lado interno numa espécie de contracorrente e para tanto é preciso estar dentro dele atento ao que se passa agir nas falhas do poder Para uma compreensão das práticas de produção e gestão do grupo articulei uma bibliografia no decurso histórico do teatro identificando elementos que compreendo como experiências que foram se conformando como teatro de grupo Essa identificação funciona como uma base para que o leitora estabeleça a contextualização da pesquisa quando de sua leitura o que permite localizar o Grupo Ninho em seus acionamentos e modos de fazer Essa revisão entorno do entendimento do ser teatro de grupo passa pela noção do fazer em que tais artistas se veem como um conjunto que articula as diversas frentes que mobilizam tal projeto A gente atua carrega baú tenta decidir nem sempre consegue junto sai para a cidade vai ao correio é officeboy é datilógrafo digitador é produtor e gestor é palestrista isso cria uma identidade Acho que própria forma de desamar o espetáculo na frente do público sutilmente passa uma unidade uma unidade que traz toda essa subjetividade É como ver o Ói Nóis na chegada deles na rodoviária você vê uma identidade que é do grupo E isso se transfere para o espetáculo a forma deles trabalharem a organização a forma de pensar teatro PELÚCIO apud TROTTA 1995 p 92 Acima o ator e gestor Chico Pelúcio do Grupo Galpão em entrevista para a pesquisadora Rosyane Trotta pontua de forma sintética o que escrevo enquanto experiências e práticas de grupo que vai ao longo do tempo gerando essa identidade da qual ele se refere ao Ói Nóis ou seja nas suas práticas já nos aponta o seu lócus de pensar e fazer teatro Essa identidade é então definida como um conjunto de artistas da cena que trabalham com o desenvolvimento de pesquisas de linguagem e projetos a longo prazo buscando um núcleo de trabalho fixo que vai desenhando práticas de autogestão encontrando o que identifico como táticas a partir do filósofo e historiador Michel de Certeau para produzir e gerir o projeto de grupo Como integrante do grupo me inquieta sempre compreender como nesses doze anos conseguimos construir tal experiência de produção e gestão tendo em vista que estamos situados numa região fora de grandes centros urbanos o que 17 somado à falta de uma política cultural efetiva para as artes poderia ser a razão que impedisse essa experiência no seu tempo de existência Daí decorre o olhar para compreender como o grupo se movimenta e se reinventa para se manter em seu cotidiano de trabalho A sustentabilidade foi sendo erguida de forma que o grupo conseguiu a partir de diversas ações seguir sua trajetória à revelia de qualquer adversidade e são muitas e diferentes Tais ações serão aqui registradas para oa leitora como se vocês entrassem no ninho de nossas reuniões e ensaios e descobrissem quais são e como se dão nossas maneiras de fazer na criação produção e gestão O principal objetivo estabelecido para esta dissertação é compreender de que forma o grupo Ninho de Teatro empreende sua experiência em produção e gestão teatral na região do Cariri cearense e quais as táticas usadas por esses artistas na manutenção de uma prática cultural para a cidade do Crato Agimos enquanto os investimentos em políticas culturais a nível nacional estão zerados no estadual em relativa subtração e o local sempre como um fantasma que de tanta mesmice não nos assusta na sua profunda inoperância e falta de recursos Para o desenvolvimento desta dissertação utilizei uma revisão bibliografia que deu suporte às discussões levantadas sobre gestão e produção no teatro de grupo Foram coletadas entrevistas com osas integrantesnarradoresaspassarinhos do Grupo Ninho de Teatro e usadas para potencializar a costura da escrita que tem como registrado nas primeiras páginas desta introdução no método da História Oral sua base metodológica Ao leitora adianto que as vozes partilhadas são o adubo maior para escrever essa história sem negar os demais autores com os quais dialogo que eu como pesquisador me faço sujeitoobjeto desta escrita sendo também uma voz direta nesse gesto de narrarpesquisar esses doze anos O leitora poderá ter acesso às entrevistas completas no apêndice deste trabalho já que devido ao montante de material de entrevistas não foi possível têlas todas no texto Adianto que as entrevistas foram transcritas mantendo a construção narrativa dos entrevistados numa tentativa de manter o mais próximo do fluxo do pensamento destes Diante do objeto de estudo no caso a produção e gestão no teatro de grupo e conduzido pela pergunta definida para a estruturação desta dissertação o trabalho foi organizado em dois capítulos conformes descritos a seguir 18 No primeiro capítulo que intitulo Teatro de Grupo e Seus Possíveis opto por trazer alguns apontamentos sobre teatro de grupo a fim de estabelecer conceitos registrados em momentos e movimentos da história do teatro a partir de autores como Rosyane Trotta Fernando Yamamoto André Carreira Iná Camargo Costa Samanta Cohen Danilo Castro para construir um entendimento do teatro de grupo na contemporaneidade Antecipo ao leitora que este capítulo se trata de um apanhado histórico portanto faz um recorte a partir da História do teatro ocidental em diferentes períodos na busca por encontrar pistas que hoje nos dão elementos para pensar o espaço de criação no teatro de grupo focando no que acredito ser importante para fundamentar esta pesquisa Mas para o leitora que já leu até aqui digo que temos nomes brasileiros nordestinos cearenses que contam e muito para a composição desse mosaico do teatro de grupo que ora me afeta e se faz objeto de pesquisa Na região do Cariri em que faço o recorte desta pesquisa temos nossas Mestras e Mestres da tradição popular que são de suma importância para também nos contar sobre o que veio antes do que está agora em nosso presente Dito isso eles também são referências para a história do teatro de grupo que aqui partilho Na sequência estruturo três subcapítulos que trazem importantes instituições situadas na região do Cariri Serviço Social do Comércio SESC Unidade Crato Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri URCA Elas são relevantes para a construção e fortalecimento da rede de grupos que existem nas cidades centrais da região Crato Juazeiro do Norte e Barbalha e são em dada medida suporte também para o estabelecimento do grupo aqui estudado pois duas destas funcionam como espaços de trabalho o que nos chega como uma saída para somar na manutenção de grupo ainda que os contratos se deem de modo pontual O segundo capítulo GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias abriga a experiência do Grupo Ninho de Teatro Aqui esmiúço o cotidiano de trabalho do grupo objeto maior da pesquisa elenco diversas escolhas feitas pelosas integrantes nos aspectos da criação produção e gestão situando dessa maneira oa leitora para a compreensão da história do Ninho de Teatro em seus doze anos de existência Com isso podemos ter acesso às ações desenvolvidas pelo grupo para gerar a manutenção de seussuas integrantes repertório e espaço cultural Na sequência seguem os subcapítulos que trazem aspectos da produção cultural e 19 teatral planejamento estratégico a Casa Ninho e suas dinâmicas e fechando o capitulo escrevo sobre como nascem os projetos do grupo Posteriormente estão as considerações finais as referências bibliográficas apêndice e anexos A partir da pesquisa registrada nesta dissertação espero contribuir para que outrosas pesquisadoresas registrem as experiências de outros grupos e assim se crie um acervo de escritos para a história recente do teatro no Cariri A pesquisa também poderá servir de inspiração para outros grupos que anseiam estruturar seus modos de produção teatral sendo este aqui estudado apenas um caminho dentre muitos outros possíveis Assim contar a experiência do grupo numa plataforma acadêmica pode servir como mais um ninho de abrigo daquelesas que se aventuram na paisagem da produção e da gestão teatral na seara do teatro de grupo 20 1 TEATRO DE GRUPO E SEUS POSSÍVEIS Quais os alicerces e as principais questões que dizem respeito ao Teatro de Grupo Rosyane Trotta Esta escrita tem espaço e tempo de poesia Ela costura e perfaz uma caminhada coletiva que no andar enxerga horizontes possíveis pois sim um grupo de teatro é feito de desejos e ao desejar vai criando realidades ou mesmo recriando pois estes estão operando no campo das impossibilidades sejam externas e internas mas sem fazer disso um freio para seus giros criativos produtivos e gestativos Ou seja o girar nunca cessa ainda que alguns fatores tentem impor tal freio Quando escrevo impossibilidades externas quero dizer o quanto os grupos de teatro estão na contramão das relações capitalistas e neoliberais embora estes façam com seus projetos economias no campo das artes Estão na contramão porque articulam outras formas e modos de sustentabilidades Convido para essa reflexão Ailton Krenak quando nos apresenta sua cosmovisão e dela me alimento de como ele e seus nossosancestrais sempre estiveram em luta para adiar o fim do mundo Assim penso que seja o ser de teatro de grupo estamos sempre produzindo possibilidades de continuar de existir e resistir fazendo e para seguir talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas Não eliminar a queda mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos divertidos teatrais inclusive prazerosos KRENAK 2019 p 63 No caso do Ninho de Teatro e também de tantos outros esses paraquedas provocam giros contrários ao do grande mercado e vão revelando microações que permitem às tais experiências deslocar noções hegemônicas econômicas e também sociais Veja bem não quero dizer com isso que grupos de teatro não se utilizam das leis do grande mercado porém pelo próprio modo que se organizam e compreendem o fazer teatro em grupo acabam por desviarem dessas lógicas para sustentar seus projetos dentro de suas escolhas e autonomias que além de artísticas articulam escolhas políticas Teatro de grupo me ocorre então como a criação de pequenos núcleos políticos que à revelia de certos sistemas de poder vão criar células de resistências em diferentes territórios e estabelecer ritos de convivências democráticas pois acredito que o ajuntamento de pessoas para a efetivação coletiva de qualquer projeto 21 passa pelo estabelecimento dos sentidos simbólicos e práticos do exercício democrático A pesquisadora Rosyane Trotta nos ajuda a pensar o espaço de grupo através das práticas de seussuas integrantes quando estes se dedicam ao mesmo tempo a manufatura de adereços bonecos máscaras e figurinos idealiza e executa cenários pesquisa e elabora textos escreve releases programas toca instrumentos carrega baús andaimes passa roupa e costura bate prego e faz faxina cozinha e vai ao banco azeita secretários de cultura e dá palestras vende seu produto participa de reuniões e movimentos mesmo que por vezes haja uma divisão de tarefas e nem todos façam tudo Em cada uma dessas atividades ele afirma sua autonomia sua responsabilidade e sua autoria sobre o espetáculo os destinos do grupo e o seu próprio E neste ponto é imprescindível afirmar que toda a atividade ainda que aparentemente mecânica é ou pode ser criadora 1995 p 44 Nessa profusão de acionamentos o grupo desperta sua autonomia e cria outras realidades sóciopoéticopolíticas outros possíveis dentro desse imaginário de teatro de grupo É estar o tempo inteiro disposto ao acesso de nossos sujeitos políticos e como vamos nos compondo dentro de uma visão de cidadania que nos permite traduzir nossas práticas grupais como agenciamentos de uma outra realidade histórica quando pensamos nas diferentes maneiras de se produzir teatro portanto ainda em acordo com a referida autora grupo é uma estrutura de organização produção e criação coletivas Não há nenhum integrante inerte e há pouquíssimos desníveis de engajamento Cada integrante deve estar apto a desempenhar as funções de administração quanto de atuar na concepção e na criação da cena Grupo aqui é uma entidade de participação social de estudos e difusão de elementos da cultura Não é uma microempresa mas uma sociedade não mantém financeiramente seus integrantes mas pagaos TROTTA 1995 p 42 É nesse espaço de participação social que a autora provoca que podemos pensar as práticas de teatro de grupo como um fazer teatral que evoca elementos que se estendem para seus entornos sobretudo àqueles que tenham sedes artísticas Essa expansão no modo de fazer é o que nos aponta tais práticas grupais como uma cultura teatral que se articula com camadas outras que não apenas a poética Meu mergulho nessa experiência parte do desejo de criar ou mesmo recriar constantemente a própria noção do que seja o ser ou fazer teatro de grupo Nesta 22 pesquisa em nenhum momento há a pretensão de se fechar qualquer noção ao contrário busco abrir uma gira10 e entrar numa roda que nos possibilite derivar e pegar outras ruas e encruzilhar os saberes e os fazeres que os muitos e diversos grupos nos dão como pequenos grandes mundos teatrais Isso porque teatro de grupo é uma vastíssima escola diversa e plural que a todo momento desestabiliza para então firmar novamente o passo Ser e estar e fazer teatro de grupo nos abre as veias do mundo para que nele nós tenhamos língua e possamos assim falar de nossos mais profundos brasis Aqui eu escrevo a partir da cidade de Crato no interior do estado do Ceará na região do Cariri Fazer teatro de grupo é compreenderse como sujeitoartistapolítico que vai construindo relações do seu fazer com os seus entornos é um fazer que vai tecendo redes que despertam autonomia de si e nessa microssociedade se reflete a macroestrutura em que tal grupo está inserido O contrário disso não quero ser pretencioso não se desenha como o gesto social que é ser grupo compreendendo assim que teatro de grupo dimensiona um fazer micropolítico que se relaciona a todo momento com as macroestruturas que o circunda Falo isso a partir da vivência de doze anos em que venho construindo essa travessia grupal no Ninho e também na leitura de outros grupos espalhados por todo o estado do Ceará para não ir muito longe Ao tentar materializar essa noção de grupo a partir da reflexão da experiência do Grupo Ninho de Teatro especialmente no que se refere a sua produção e sua gestão teatral acredito ser importante que o leitora dessa escrita atente para a escolha ou caminhos que fiz para a compreensão do campo de trabalhoatuação no teatro de grupo ainda que este seja como já escrevi um lugar de contínua construção um espaço aberto que se faz e refaz a todo instante e que passa por escolhas bem diferentes em cada grupo Opto por construir um caminho no tempo histórico do teatro ocidental que nos aponte dadas experiências e nos ajude a compreender essa composição que hoje entendemos por tais práticas Aqui eu disparo um alerta tudo passa por recortes de 10 Uso a palavra gira a partir da referência do ritual de preparação e abertura dos trabalhos na Umbanda religião brasileira de matriz africana A gira em formato de roda seria o contato com as entidades e também com todo o ritual preparatório para os cultos do dia na qual se cria uma corrente de energia conectando todostodas ao plano espiritual abrindo assim os canais de contato com Orixás e demais entidades Assim quando uso a palavra gira quero dizer de caminhos que se abrem para além dos que já conhecemos seria girar para encontrar outras saídas para o estado das coisas todas que estão postas 23 objeto para uma melhor compreensão deste Assim o apanhado que se apresenta adiante será como uma base para o afunilamento da pesquisa na experiência do Ninho Quem lê pode vir a inverter a compreensão e num movimento de gerar pensamento a partir de nossas narrativas ler o teatro a partir de um grupo que está no Crato Ceará Brasil Esse encadeamento não pretende negar outras experiências que se deram no resto do mundo apenas lança o olhar para o sul do Ceará para em dialogo equânime com os outros mundosgrupos lançar a experiência do Grupo Ninho de Teatro na historiografia do teatro brasileiro O que segue é a partir do eugrupo para o nósgrupos através do pensamento do filosofo e professor Peter Pál Pelbart que em diálogo com outros filósofos apresenta uma dada noção de potência e desejo que se expande a partir da coletividade O desejo que escrevo nas primeiras linhas é então uma criação de vidas pois nunca desejamos sozinhos sempre estaremos desejando a partir do ajuntamento de outras partes que nos atravessam como um grau de potência definido por nosso poder de afetar e de ser afetado e não sabemos o quanto podemos afetar e ser afetados é sempre uma questão de experimentação Não sabemos ainda o que pode o corpo diz Espinosa Vamos aprendendo a selecionar o que convém com o nosso corpo o que não convém o que com ele se compõe o que tende a decompôlo o que aumenta sua força de existir o que a diminui o que aumenta sua potência de agir o que a diminui e por conseguinte o que resulta em alegria ou tristeza Vamos aprendendo a selecionar nossos encontros e a compor é uma grande arte PELBART 2010 p 1 Pelbart nos lança uma dimensão para pensarmos potência como um misto de desejos que se multiplicam na coletividade Assim vamos aprendendo na jornada o que é o que pode e o que poderá ser Nesse aprendizado cotidiano o nósgrupo vai revisitando esse corpo teatro de grupo que ao produzir também o desconhece pois é constantemente afetado por novos desejos que o faz se experimentar em suas potencias de ser teatro de ser grupo O que segue como escrita é nessa perspectiva uma composição afetiva que junta corpos e desejos coletivos 11 Cômpitos um apanhado histórico do teatro de grupo 24 Podemos registrar a Commedia DellArte11 Italiana como uma das primeiras experiências que se relaciona com o que hoje compreendemos como uma prática de teatro de grupo Do século XVI até meados do século XVIII trupes ambulantes circulavam pela Europa levando em seu modus organizacional princípios que hoje se fazem presentes nas práticas de teatro de grupo A forma artesanal com que tais trupes desenvolviam seus espetáculos já estruturada num trabalho coletivo entre seussuas integrantes nos dá o indicativo de sua aproximação com o teatro de grupo como nos aponta Janiaski Uma característica que aproxima o modelo genérico de Commedia DellArte com as formas do teatro de grupo que representa o paradigma contemporâneo é o fato da criação dentro das trupes apresentar elementos de uma criação onde funcionava o sentido do coletivo 2008 p 19 É possível observar no modelo de organização de trabalho dos grupos de Commedia DellArte que todosas osas integrantes realizavam atividades diversas em conjunto estabelecendo assim uma relação de trabalho coletiva que se faz presente também nas práticas de teatro de grupo atuais Podemos citar aqui como exemplo de coletividade a criação dos Canovacci que eram os roteiros usados pelas trupes DellArte para estrutura de suas apresentações que tinham base maior na improvisação Com o tempo dado o apoio recebido pelos reis às companhias mambembes foram fixando seus roteiros deixando um pouco a prática da construção coletiva mas isso não retira delas a referência para modelos de trabalhos em grupo Um dos motivos que fazem da Commedia DellArte uma referência para pensar o teatro de grupo é que as companhias mantinham uma regularidade de trabalho com osas mesmos atoresatrizes e outros aspectos no processo de criação Ainda que estas tenham mantido relações com mecenas nobres reis etc elas eram diferentes do projeto estatal da polis grega ou por exemplo da igreja pois podem ser consideradas formas não institucionais 11 A Commedia dellarte era antigamente denominada commedia all improviso commedia a soggetto commedia di zanni ou na França comédia italiana comédia das máscaras Foi somente no século XVIII que essa forma teatral existente desde meados do século XVI passou a denominarse Commedia dellarte a arte significando ao mesmo tempo arte habilidade técnica e o lado profissional dosas comediantes que sempre eram pessoas do ofício PAVIS 1947 p 61 25 Um recorte mais atual sobre uma prática voltada para teatro de grupo pode ser observado a partir do legado de André Antoine12 18581943 que empreendeu através de sua experiência com o teatro naturalista13 uma perspectiva de trabalho que levava mais em conta o processo do que o resultado evidenciando uma clara oposição ao já presente teatro comercial de sua época Para tanto Antoine Exigia da companhia ensaios e reflexões coletivas para se chegar a uma cena naturalista sem a preocupação com prazos apertados característicos da urgência do mercado de entretenimento da época JANIASKI 2008 p20 Com isso Antoine colabora com um novo olhar para o trabalho do diretor em sua função de criar um espetáculo Para manter as atividades do Théâtre Livre seu espaço de trabalho na época o encenador buscou criar uma espécie de rede de sócios que acreditassem na forma que ele estava criando Garantindo dessa forma a sua liberdade de criação o que evidencia que o mesmo já tinha uma posição de resistência ao teatro com tendência comercial O naturalismo como movimento poético que rompeu com convenções na sua época revelou novos comportamentos dentro dos processos de criação retirando por exemplo a centralidade da cena de uma únicoa atoratriz Podemos dizer que com o naturalismo houve uma ruptura com as formas precedentes foi a partir dele que se potencializou o conjunto que compõe a criação tendo já no encenador a figura 12 Diretor encenador e crítico teatral francês André Antoine nasceu em 1858 em Limoges Aos 29 anos fundou o Théâtre Libre em Paris e sob sua direção foram encenadas obras representantes do realismo e do naturalismo de autores como Strindberg e o alemão Gerhart Hauptmann Mais tarde funda o Théâtre Antoine dirigindo também o Odéon A partir de 1914 abandona a atividade cênica para se voltar à crítica teatral e ao cinema Faleceu em Pouliguen em 1943 7LETRAS 200 13 O Naturalismo teve seu início na literatura com Émile Zola 18401902 na França com sua peça Teresa Raquin e seu manifesto Naturalismo no Teatro influenciando a muitos artistas da época alguns vindos do romantismo e outros já com tendências claras para a arte realista Muitos autores realistas chegaram a um extremo de objetividade a um exagero tal de descrições científicas que foram chamados de Naturalistas Foram citados pela crítica como pessoas muito dotadas para a ciência que se dedicaram à arte As características do Naturalismo são exagero do Realismo descrição minuciosa da natureza descrição minuciosa de aspectos crus e desagradáveis da vida tendência determinista representação objetiva da natureza sem interpretação subjetiva e o artista como um investigador num laboratório A quarta parede é uma criação teórica do realismo teatral devida a André Antoine criador e diretor do Teatro Livre em Paris Osas atoresatrizes deveriam mentalizar uma parede imaginária que se estenderia no mesmo plano vertical da boca de cena vedando ao público a visão do que ocorre no palco entre as quatro paredes de um cenário em gabinete ou de interior Essa parede seria removida pela convenção teatral dando ao espectador ocasião de testemunhar detalhes da ação dramática Dos autores do Teatro Naturalista merecem destaque Henry Becque França 18371899 que começou com tendências realistas mas chegou até o teatro naturalista em suas peças e Máximo Gorki Rússia 18681936 cuja primeira peça Asilo Noturno possuía grande tendência naturalista DESVENDANDO O TEATRO 2000 26 responsável pela condução deste novo modelo teatral que se preocupa com o desenvolvimento da companhia e com o processo de criação JANIASKI 2008 Podemos aqui dizer que pelo conjunto que trouxe o naturalismo e sua nova perspectiva para a cena e processo de criação foi inspirador para o conjunto de elementos que hoje configuram teatro de grupo Essa prática de criação que articula seus constituintes de forma coletiva rompimento da cena que se pauta no primeiro atoratriz cresce mais ainda no século XX com as experiências de nomes como Constantin Stanislavski14 ganhando maior espaço na proposta de Jerzy Grotowski15 É preciso registrar que só a partir da virada do século XIX para o século XX a figura do encenador começará a imprimir um trabalho autoral pensando a cena de forma mais autônoma sem a necessidade de uma fidelidade estrita ao texto que passa a ser tratado em função da concepção de uma escrita cênica criada coletivamente Não terá mais validade a centralidade dada a algunsalgumas atoresatrizes pois a cena passa a ser concebida de forma orgânica de modo que todo o conjunto tenha certa equipolência estabelecendo assim uma poética cênica do encenador Por compreender a necessidade de continuidade no processo de criação o rompimento com a noção de estrelas da cena e a estabilidade do elenco para a criação é que podemos dizer que Stanislavski foi quem deu alguns elementos para a compreensão de como hoje configurase os processos de criação em teatro de 14 Constantin Stanislavski nasceu em Moscou em 5 de janeiro de 1863 e desde muito cedo teve seu primeiro contato com o mundo das artes Em 22 de junho de 1897 ocorre um encontro histórico que influenciaria até hoje o teatro mundial Stanislavski e Dântchenco resolvem fundar o Teatro de Arte de Moscou com o objetivo de buscar uma unidade teatral inovando na forma de interpretação dosas atoresatrizes e proporcionando à plateia uma apresentação da realidade nos palcos quebrando paradigmas préimpostos baseandose em sérios e aprofundados estudos sobre expressão corporal vocal e técnicas de preparação doa atoratriz Sua vontade não se limitava a querer construir um sistema com verdades absolutas mas criar a acessibilidade aos atoresatrizes indagálos a respeito da capacidade de cada uma e de como o trabalho do atoratriz era capaz de atingir o público BENITES entre 2002019 15 Nascido em Rzeszów sudeste da Polônia inovador do teatro do século XX e cujas ideias deixaram marcas profundas nos movimentos de renovação teatral em várias partes do mundo inclusive nos Estados Unidos Graduouse na escola dramática estatal de Cracóvia 19511955 Em seguida foi estudar direção no Instituto de Artes Dramáticas Lunacharsky o GITIS em Moscou 19551956 Aprendeu técnicas de atuação e direção com grandes nomes do teatro soviético como Stanislavsky Vakhtangov Meyerhold e Tairov De volta à Polônia continuou estudando direção e debutou 1957 no Stary Teatr em Cracóvia colaborando com Aleksandra Mianowska na produção de Eugene Ionesco As cadeiras No ano seguinte 1958 dirigiu uma produção workshop de Prospero Mérimée O diabo feito uma mulher Depois de dirigir Bogowie deiszkzu de Jerzy Krzyszton no Teatr Kameralny e Uncle Vanya de Anton Chekhov no Stary Teatr ambos em Cracóvia passou a fazer parte do Teatro Laboratório fundado nesse mesmo ano 1959 em Opole Defendendo uma teoria teatral que ele mesmo definiu em seus escritos como teatro pobre o diretor polonês propôs maior participação do público ideia aplicada em suas primeiras montagens TOLENTINO entre 2001 e 2019 27 grupo Ele apostou na ideia que osas atoresatrizes deveriam dedicarse somente ao teatro ampliando assim as possibilidades de amadurecimento técnico de uma equipe de trabalho fixa Seu legado está presente até hoje nas práticas teatrais principalmente as de teatro de grupo como podemos perceber nos apontamentos deixados no livro A Construção da Personagem em que o mesmo nos lança algumas premissas para pensar a ética no fazer teatral Adriane Maciel em sua pesquisa sobre a ética nas práticas de Stanislavski nos aponta que o mestre russo exigia muita disciplina e fundamentalmente ética pois isto tudo era movido pelo seu grande amor a sua arte Amor consciente e exigente em que o talento e os desejos não bastavam era necessário acima de tudo estabelecer a fé no percurso que muitos artistas se propõem percorrer Esta fé deve ser movida pelo que há de melhor em nossas almas partindo de exigências particulares para podermos nos relacionar com o coletivo GOMES 2008 p 16 e 17 Se penso em como se dão as práticas grupais no contemporâneo verifico que a ética é um dos pilares básicos para o estabelecimento de confianças e a partir desse agenciamento se constrói cuidados nas relações internas que expandem e gerenciam os projetos de grupo Dito isso faço uma conexão com o princípio ético Stanislavskiano percebendo a presença deste nas práticas teatrais do agora como uma herança inspiradora para quem se desafia a fazer teatro com continuidade de criação e pesquisa seja na forma como pensou as relações de um coletivo de trabalho seja por sua pesquisa no trabalho do ator Stanislavski continua inspirando aquelesas que escolheram fazer um teatro com comprometimento ético Jacques Copeau16 e Antonin Artaud17 são dois nomes dentro da história moderna do teatro mundial que muito colaboraram para despertar práticas teatrais 16 Ator diretor teórico crítico e professor de Arte Dramática 18791949 Foi o mais influente diretor teatral de sua geração na França Já em 1905 ele escrevia que nada o deixava tão chocado quanto a preocupação com qualquer modo específico teatro poético teatro realista peça psicológica comédia de ideias comédia de maneiras comédia de caráter que a priori e sistematicamente exclui da arte dramática qualquer aspecto de verdade humana qualquer aspiração à beleza CASTRO 2006 17 Antonin Artaud nasceu em Marselha em de setembro de 1896 e faleceu em Paris em 4 de março de 1948 Foi um poeta ator roteirista e diretor de teatro francês Para Artaud o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de formas que refazem o ato criador formas capazes de dirigir ou derivar forças Em 1935 Artaud conclui o Teatro e seu Duplo Le Théâtre et son Double um dos livros mais influentes do teatro deste século Ele expõe o grito a respiração e o corpo do homem como lugar primordial do ato teatral denuncia o teatro digestivo e rejeita a supremacia da palavra Esse era o Teatro da Crueldade de Artaud no qual não haveria nenhuma distância entre atoratriz e plateia todosas seriam atoresatrizes e todosas fariam parte do processo ao mesmo tempo TOLENTINO entre 2001 e 2019 28 que precisariam de um coletivo continuado e organizado que desse sustentação a uma pesquisa Ambos enxergavam que oa atoratriz deveria dedicarse a um sistemático treinamento pois através dessa ação o teatro ganharia novos ares Para a efetivação destas transformações era necessário que existisse um coletivo de trabalho continuado Compreendese que os pensamentos de Copeau e Artaud conectamse com o que se constrói como um lugar de teatro feito em grupo Inspirado em diretores anteriores Jerzy Grotowski projeta sua pesquisa teatral acreditando desde o início que somente de forma coletiva seria possível sustentar uma experiência que transitava entre criação e pesquisa pois a noção de laboratório apontada pelo polonês radicalizou a forma de se criar e abriu um maior espaço para o grupo como lugar de exploração JANIASKI 2008 A noção de teatro de grupo como lugar de busca de estabilidade para pensar a criação ganha força a partir das experiências de Grotowski Eugênio Barba e do grupo norte americano Living Theatre18 Estes potencializaram a prática de teatro de grupo como um espaço que rompe a lógica de mercado acreditando em um projeto artístico com um grupo de atoresatrizes fixos sem pressão de tempo ou influência externa para o desenvolvimento de suas criações Essa noção fica mais compreendida quando o professor e diretor teatral André Carreira pontua O teatro de grupo é uma noção ampla que representa uma grande gama de modalidades organizativas mas que especialmente nos remete na atualidade a um imaginário cada vez mais forte entre os jovens realizadores teatrais Esse imaginário diz respeito a um modelo idealizado de organização grupal que funciona como um referente que mobiliza muitas ações criativas e de organização social no âmbito do teatro 2007 p 22 18 The living theatre é um grupo teatral offbroadway peças menores e comercialmente menos articuladas podendo ser portanto mais experimentais e aventureiras fundado em 1947 pelos alemães Judith Malina e Julian Beck O living theatre promoveu quase uma centena de peças em oito línguas distintas em 28 países e nos cinco continentes Durante os anos 1950 e início dos anos 1960 em Nova York foi pioneiro no preparo convencional do drama poético tanto de autores americanos como europeus mas a dificuldade de autossustentar um projeto cultural experimental levou ao fechamento de todas as suas repartições Em meados da década de 1960 a empresa iniciou uma nova vida como um conjunto de turismo nômade Na Europa evoluiu para uma coletiva viver e trabalhar juntos para a criação de uma nova forma de agir nãoficcional baseada no compromisso político e físico doa atoratriz com a utilização do teatro como um meio para promover mudanças sociais Na década de 1970 o Living Theatre começou a criar O Legado de Caim um ciclo de execuções para locais nãotradicionais Das prisões do Brasil para os portões das fábricas de aço em Pittsburgh e das favelas do Palermo para as escolas de Nova York Em 1980 foi o retorno do grupo ao teatro onde desenvolveu novas técnicas participativas que possibilitaram que o público se juntasse a eles no palco como intérpretes ESPAÇOFLUXO 2010 29 É importante ressaltar que Grotowski trabalhou com uma companhia estatal mas que dada a sua condição periférica no sentido geográfico tinha condições para desenvolver sua poética sem interferência do governo ainda que não pudesse sair do país Foi a partir de visitas de pesquisadores de outros países que ele consegue de fato se relacionar com a forma de trabalho de outros grupos independentes Isso se deve a Eugenio Barba que também faz o mesmo movimento de pesquisar o trabalho desenvolvido por Grotowski Em âmbito nacional veremos que importantes grupos de outros países foram inspiração para uma configuração brasileira de práticas de teatro de grupo passando pelas práticas de Grotowski como já mencionado e pelo Living Theatre Neste percurso de experiências que inspiraram práticas de teatro de grupo no Brasil temos o Living Theatre grupo norte americano que tinha como característica o teatro de protesto contrapondose a modelos fixos da época Com passagem pela Europa o grupo amadurece sua proposta ampliando o sentido de coletivo em seu trabalho Na década de 1970 o grupo vem para o Brasil mas com um ano de permanência foram expulsos pelo regime militar Discípulo de Grotowski Eugenio Barba19 e o seu grupo Odin Teatret com sua pesquisa sobre o teatro antropológico figura como uma organização grupal que sob base já vista na experiência de Grotowski estabelece na Dinamarca suas bases de pesquisa estruturada num senso de coletividade Dado esse recorte sobre práticas que se tornaram inspiradoras para o que chamamos de teatro de grupo é certo dizer que no Brasil esta prática tem seu embrião nos anos de 19301940 como afirma Janiaski Buscando exemplos de um embrião do modelo que hoje consideramos teatro de grupo no Brasil é interessante observar que temos no final da década de 1930 e começo da década de 1940 o surgimento de alguns grupos de teatro ainda que com atores amadores que compartilhavam do ideal de um novo teatro Este novo teatro deveria 19 Teórico da antropologia teatral Eugenio Barba nasceu em 1936 na Itália Em 1954 emigrou para a Noruega para trabalhar como soldador e marinheiro Formouse em Francês Literatura Norueguesa e História da Religião na Universidade de Oslo Em 1961 foi para Wroclaw Polônia estudar direção teatral na Escola Estadual de Teatro mas saiu um ano depois para unirse a Jerzy Grotowski que era líder do Teatr 13 Rzedow em Opole Barba ficou com Grotowski por três anos Em 1963 viajou para a Índia onde teve seu primeiro encontro com o Kathakali Quando retornou a Oslo em 1964 queria tornarse um diretor de teatro profissional mas como era estrangeiro não foi bemvindo na profissão Então ele começou seu próprio teatro Uniuse a um grupo de jovens que não tinham sido aprovados para a Escola Estatal de Teatro Oslos State Theatre School e criou o Odin Teatret em 1º de outubro de 1964 ARTE SECRETA DO ATOR BRASIL entre 2010 e 2019 30 primar pela construção de elencos estáveis e o desenvolvimento de projetos artísticos rompendo com uma tradição de elencos administrados pelo ator principal da companhia os atores empresários tais como Jaime Costa Dulcina de Morais Procópio Ferreira Abigail Maia e Dercy Gonçalves que faziam o chamado teatro comercial apresentavam comédias leves Estes novos grupos amadores que foram se formando se destacaram como ocupantes de um lugar de experimentação e resistência na cena teatral brasileira Ao buscar quebrar a lógica da produção vigente na época que seguia as estruturas de um mercado baseado na exposição das figuras dos primeiros atores estes grupos ansiavam por mudanças e acreditavam no funcionamento como um coletivo 2008 p 30 e 31 A partir das décadas de 1960 e 1970 podemos afirmar a presença de um teatro de grupo no Brasil Anteriormente na década de 1940 surge o Teatro Brasileiro de Comédia TBC projeto criado por Franco Zampari e que transformou o teatro moderno do Brasil O TBC recrutou diversos grupos amadores da época desenvolvendo com os artistas destes um repertório que supria o crescente público de São Paulo Do TBC saíram inúmeros artistas que formaram as primeiras companhias modernas na capital paulista Neste período concomitante ao TBC surgem dois grupos que até hoje mantêm sua importância para a história do teatro de grupo e do teatro brasileiro O primeiro é o Teatro de Arena fundado em 1953 por José Renato O grupo teve uma primeira fase na qual o desafio foi criar encenações num espaço de arena completa as primeiras montagens eram de textos modernos de autores estrangeiros A transformação do Arena se deu efetivamente com o ingresso de novos integrantes como Augusto Boal 19312009 Gianfrancesco Guarniere 19342006 e Oduvaldo Viana Filho 19361974 vindos em sua maioria do Teatro Paulista do Estudante TPE Essa nova formação ligada aos Centros Populares de Cultura CPC20 deu ao Arena a feição política com a qual se tornou conhecido nacionalmente A ação do grupo ia além da concepção de montagens realizando seminários de dramaturgia focando em autores brasileiros o que desenvolveu a emergência de um teatro político e social voltado para questões nacionais O grupo buscou com sua poética popularizar o teatro com textos que tinham conteúdo com crítica política e social empenhados assim em auxiliar na transformação concreta da sociedade O Arena como nos revela 20 O Centro Popular de Cultura CPC criado em 1961 no Rio de janeiro foi uma organização ligada à União Nacional de Estudantes UNE Reunia artistas de distintas procedências teatro música cinema literatura e artes plásticas objetivando criar uma cultura nacional popular e democrática por meio da conscientização das classes populares O objetivo central do projeto era criar uma arte engajada capaz de questionar a realidade e que fosse ao mesmo tempo popular e revolucionária 31 Lima 1994 principia um trabalho criativo em que oa atoratriz é vistoa como autora que se relaciona com outrosas pensadoresas da cena sobretudo na dramaturgia de Augusto Boal através do sistema curinga o que já aponta para mudanças formais e estruturais da cena brasileira Em função do parentesco entre a célula política e o grupo teatral o ator deixa de ser apenas o intérprete e assume a coautoria da criação cênica ombro a ombro com o dramaturgo o músico e o cenógrafo A autoria coletiva do teatro começa a exercitarse no Arena embora se radicalize apenas na década de 70 LIMA 1994 p 237 O segundo espaço alternativo à cena aburguesada do TBC é o Teatro Oficina fundado em 1958 este tem como diretor José Celso Martinez21 considerado por muitos um ícone do teatro nacional Inicialmente o Oficina é fortemente influenciado pelo existencialismo de Sartre e Camus criando nesta fase mais inicial peças em regime amador Mais tarde sob o patrocínio do Oficina o grupo norteamericano Living Theatre vem para o Brasil e trabalham juntos circulando posteriormente pelo país empreendendo novas experiências teatrais A partir da experiência com o grupo americano o Oficina é visto como agente catalizador das vanguardas teatrais do século XX sendo a encenação de Gracias Señor 1971 uma iniciativa pioneira no processo de criação coletiva no teatro brasileiro passeando pela construção de um teatro político como o Arena Integrantes dos dois grupos foram perseguidos torturados e exilados pelo regime ditatorial do país levando Augusto Boal que era do Arena e Zé Celso do Oficina respectivamente ao exílio sendo o primeiro em 1971 na Argentina Lisboa e Paris e o segundo em 1974 em Portugal Ambos continuam sendo dois mestres para o teatro brasileiro tendo significativa colaboração para a construção de uma cena nacional com engajamento sóciopolítico Arena e Oficina ainda que com diferentes processos estéticos nos dão perspectivas para compreendermos a importância do teatro para o entendimento das lutas de classe e das liberdades no Brasil estas duas experiências de teatro de grupo nos apontam as relações de poder na sociedade no 21 José Celso Martinez Corrêa Araraquara SP 1937 Diretor autor e ator Destacado encenador da década de 1960 inquieto e irreverente líder do Teatro Oficina uma das companhias mais conectadas com o seu tempo Encena espetáculos considerados antológicos tais como Pequenos Burgueses O Rei da Vela e Na Selva das Cidades Nos anos 1970 vivencia todas as experiências da contracultura transformandose em líder de uma comunidade teatral e das montagens de suas criações coletivas Ressurge nos anos 1990 numa nova organização da companhia propondo uma interação constante entre vida e teatro JOSÉ 2019 32 campo das instituições e também na percepção dos comportamentos sociais do povo brasileiro portanto sendo ambos acionadores de dramaturgias nacionais com conteúdo político rompendo com a camada tradicional burguesa que sempre imperou no país No ambiente da ditadura militar dos anos 19601970 surgiram diversos grupos motivados pelas práticas do Arena e do Oficina que com a mesma atitude de resistência se espalham por toda São Paulo e outros estados Vale mencionar que na década de 1970 as iniciativas de teatro coletivo começaram a despontar Silvia Fernandes 2000 visualiza na estrutura e na concepção estética de grupos desse período a origem de práticas comuns ao teatro contemporâneo como a gestão e produção coletiva e a concepção de um projeto estético de grupo A historiadora destaca a importância de grupos paulistas como o Pessoal do Victor 1975 a 1979 Vento Forte 1974 Pod Minoga 19721980 e Ornitorrinco 1977 como também salienta a relevância do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone 19741984 cuja exitosa montagem do texto Trateme Leão concebido coletivamente reverberou pelo país inteiro Outro marco de processo de criação coletiva vai se dar com a transcriação22 do romance Macunaíma de Mario de Andrade para os palcos que resultará no Centro de Pesquisa Teatral CPT capitaneado pelo diretor Antunes Filho A premiada montagem de Macunaíma 1978 de forte impacto visual na qual os corpos dosas atoresatrizes ganham uma centralidade maior como elementos da cena tornouse paradigmática na história de nosso teatro A década de 1980 também foi fértil no que concerne ao teatro de grupo trata se do momento em que apareceram grupos como o Galpão 1982 de Minas Gerais o Teatro de Anônimo 1986 no Rio de Janeiro o grupo Lume em Campinas 1985 Neste período destacase outro importante grupo da cena nacional o Ói Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre que já atuava desde 1978 entre outros O engajamento e a própria noção de grupo que estes defendem até hoje inspira e faz brotar uma renovação da cena poética e também grupal Os trabalhos do Lume Teatro na Universidade de Campinas UNICAMP do Galpão e seu Galpão Cine Horto e do Ói Nóis Aqui Traveiz com a Terreira da Tribo são de significativa importância para contar 22 Termo usado por Haroldo de Campos para conceituar traduções e transposições de linguagens CAMPOS 1987 p 5374 33 e inspirar o surgimento de grupos fora do eixo sulsudeste nas décadas seguintes como veremos adiante Nos anos 1990 o teatro de grupo de administração coletiva e a criação colaborativa tornaramse uma realidade nos palcos brasileiros sendo que em 1991 aconteceu em Ribeirão Preto o 1º Encontro Brasileiro de Teatro de Grupo que congregou 15 grupos interessados em buscar semelhanças características comuns desta modalidade teatral Passado o período da ditadura militar a subvenção estatal para grupos passa por transformações devido a uma mudança na política cultural da época o que também vivemos nos tempos atuais Nesta transição das décadas de oitenta para a noventa surge a Lei Rouanet 1991 esta acaba por agravar o quadro pois amplia as dificuldades que os grupos têm de conseguirem apoio uma vez que estes não se rendiam midiaticamente para as empresas patrocinadoras Janiaski nos explica que Diante disto salvo algumas exceções os grupos foram se situando à margem de um teatro comercial O que os levou a buscar novas alternativas de financiamento que possibilitariam assegurar sua autonomia tanto artística quanto financeira tais como a iniciativa do Movimento de Teatro de Grupo que passou a promover encontros oficinas e a editar a Revista Máscara e a criação da Cooperativa Paulista de Teatro em 1979 que nasceu com o intuito de romper a organização burocrática e administrativa empresariais 2008 p 35 Foi neste contexto que grupos surgiram no Brasil e numa alternativa para sobreviver estabeleceram pontes entre si gerando trocas de experiências que fortaleceu a prática do teatro de grupo nesse sentido potencializam essa prática como um espaço que atenta para a pesquisa de linguagem Estas pesquisas têm um forte investimento no treinamento do atoratriz articulando relações internas e externas que passam pela ética pela política quando da feitura e manutenção de seus cotidianos de grupo Carreira revela como tais elementos configurase atualmente quando nos diz que No final dos 80 a crescente relação dos grupos com companhias estrangeiras criou uma nova tensão criativa Neste contexto pensar as formas de organização dos grupos suas variações e o impacto que isso tem na consolidação de modelos de trabalho coletivo é importante porque atualmente o grupo parece ser ainda elemento de resistência às dinâmicas hegemônicas Nos dias que correm seria necessário resistir à pulverização dos vínculos interpessoais e às 34 ferozes dinâmicas de mercantilização que fazem de tudo um produto de compravenda CARREIRA 2007 p 3 Podemos assim pensar o teatro de grupo como lugar de resistência a um teatro comercial em alguns casos se organizando em associações e cooperativas dando a estes autonomia em seus processos coletivos de criação numa busca por romper uma divisão social do trabalho rígida dentro de suas produções É também notável nas práticas de teatro de grupo a busca por pesquisas de linguagem cênica focando na maioria das vezes no trabalho doa atoratriz como potência cênica na escolha por temáticas de relevância coletiva na manutenção de um núcleo fixo de integrantes o que potencializa o amadurecimento da cena É nessa resistência a uma lógica capitalista neoliberal sem pressão de tempo para a concretização de seus projetos que se estabelecem as bases estéticas e éticas desses grupos que acabam por gerar poéticas e formas próprias de criação e sustentabilidade estabelecendo através da experiência cotidiana de trabalho uma forma particular de operar a produção e a gestão de seus projetos artísticos 12 Teatro de Grupo no Ceará Cariri Chegando na cena estadual observase que o teatro praticado no Ceará nas décadas de 1960 e 1970 predominavam as organizações amadoras Este amadorismo se dava por vezes como forma de se opor ao sistema da época já que o país estava sob o regime militar bem como uma alternativa à falta de apoio estatal para a criação A exemplo do Arena e do Oficina no estado de São Paulo alguns grupos do Ceará também se empenhavam em manterse na resistência criando estratégias de fortalecimento de suas práticas fazendo oposição ao chamado teatrão O dito teatrão era realizado por grupos aliados ao governo da época que tinham relação direta com a Secretaria de Cultura de então sobre isso afirma o teatrólogo Oswald Barroso Tinhase assim como uma coisa bem oficial as pessoas do teatro chamavam isso de teatrão Então a Secretaria de Cultura estava empolgada com essas pessoas a representação oficial do teatro era esse chamado teatrão um teatro oficial que tinha o apoio e trabalhava sob a guarda das instituições a Secretaria de Cultura no caso para os projetos da Secretaria de Cultura eram convidados sempre as mesmas pessoas no caso a Comedia Cearense 35 fundamentalmente BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 23 Como observamos acima a Comédia Cearense marcante grupo na história do teatro do Ceará conseguia a continuidade de seus trabalhos graças ao apoio direto do governo o que não quer dizer que este possa praticar teatro de grupo a partir dos elementos que venho levantando O referido grupo tinha condição privilegiada para o contexto de trabalho da época bem como o fato deste ter se mantido por anos como administrador do Theatro José de Alencar o maior e melhor teatro da época deste estado Sendo este um exemplo apenas que nos aponta alguns modos de organização da época e não propriamente que estes estejam no que compreendo como teatro de grupo A partir do livro História do Teatro no Ceará através de grupos e companhias 1967 a 1997 organizado por Erotilde Honório podemos perceber que em todo o estado existem e resistem organizações grupais de teatro Esses grupos e seus representantes foram entrevistados no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 revelando como se davam as práticas de grupo no interior e na capital configurando assim um mosaico do teatro feito em boa parte do estado a partir da divisão geográfica vigente na época O movimento teatral amador é marcante neste recorte histórico revelando como os grupos se organizavam em diversas cidades do estado do Ceará Havia uma forte tendência à organização dentro de princípios do teatro de grupo Isso se dava muito pela falta de recursos para montagens o que obrigava tais grupos a buscarem alternativas para a montagem de seus espetáculos tendo no comércio local ou em instituições como a igreja a possibilidade de apoio nem sempre financeiro mas sobretudo de abrir espaço para ensaios e apresentações Nos anos 1970 ainda sob a poeira do impacto gerado pelo AI5 Ato Institucional nº5 1968 radicalizando a censura principalmente na arte o teatro sofreu com o ato vivendo uma fase de perseguição dando combustível para fortalecer um teatro alinhado ao pensamento do regime político Neste momento fica clara como já mencionado a hegemonia da Comédia Cearense no uso de recursos e equipamentos do governo O que se mantinha vivo e atuante além do curso de Arte Dramática da UFC era a Comédia Cearense elevada à condição por assim dizer 36 de grupo oficial da Secretaria de Cultura do Estado Sob seu controle estavam não apenas o Theatro José de Alencar como também o Teatro Móvel espécie de circo permanente instalado no Benfica sob o patrocínio do Estado BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 28 e 29 Ainda nos anos de 1970 irão surgir grupos independentes como é o caso do Grupo Independente de Teatro Amador GRITA Este grupo claramente se opõe à Comédia Cearense trabalhando em seus espetáculos conteúdos populares numa perspectiva política Nesta década surge um bom número de grupos que engajados fazem um movimento teatral de resistência que através da Federação Estadual de Teatro Amador FESTA23 se reúnem fortalecendo suas práticas dando voz e organização para o movimento Fundase neste momento grupos como o Pesquisa de Ricardo Guilherme o Grupo Raça de Fernando Piancó e Artur Guedes ambos em Fortaleza Já no interior temos o Grupo Teatral de Amadores Cratenses GRUTAC Grupo Teatral Amador de Iguatu e em Juazeiro do Norte nomes como o de Joaquina Carlos Jean Nogueira Renato Dantas e Fátima Morimitsu vão mover a cena local Como podemos observar um dado marcante desta época 1970 era o uso da nomenclatura amador que segundo Oswald Barroso se dava como uma forma de Ser independente das instituições oficiais e cerrar fileiras entre os opositores não apenas do regime autoritário mas do próprio sistema estatal Eram grupos notadamente o GRITA e o Cancela que viviam a contracultura das formas devidas comunitárias inspiradas certamente nos hippies e no movimento alternativo Neles a democracia era a mais completa e chegavase a decidir soluções cênicas por votação entre o elenco BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 30 Conforme nos aponta Barroso encontramos no movimento de teatro amador do Ceará elementos que podemos identificar nas décadas seguintes do que chamaremos de teatro de grupo o gesto democrático dentro dessa opção em fazer teatro é uma premissa básica 23 A Federação Estadual de Teatro do Ceará FESTA fundada em 1976 é uma sociedade civil com personalidade jurídica privada sem fins econômicos com sede na cidade de FortalezaCE Tem por objetivo contribuir com o desenvolvimento sociocultural e artístico para melhorar a qualidade de vida da população cearense através de ações que envolvam osas artistas e as artes cênicas do nosso Estado Em seu histórico vem desenvolvendo oficinas palestras debates festivais de teatro e outros eventos com intuito de promover através da arte a conscientização políticosocial dosas artistas de teatro e da população em geral do Ceará MOSTRA DE TEATRO DO ESTUDANTE 2013 37 Para a cena cearense os anos de 1980 parecem ser de afirmações e instabilidades entre o que se firmava como teatro amador e o início da busca por profissionalização O teatro de resistência marcado nos anos anteriores continua potente até a primeira metade da década de oitenta com o período conhecido como a abertura democrática A Federação Estadual de Teatro Amador continua com suas ações realizando diversos festivais em cidades do interior A desestabilidade mencionada um pouco acima surge na segunda metade da década quando tem fim o período ditatorial no Brasil Os grupos mais voltados para uma cena de resistência perdem força e o movimento amador se fragiliza compondo um quadro que claramente revela uma transição A ideologia vivida pelos grupos ditos amadores perde fôlego para o impulso profissional emergente Como busca de se profissionalizar alguns grupos dão início à prática de teatro de bonecos surgindo aí grupos presentes até hoje na cena cearense como é o caso do Grupo Formosura de Teatro para muitos referência na criação e pesquisa no teatro de bonecos do Ceará Já no final da década de 1990 a Comédia Cearense perde o domínio do Theatro José de Alencar que a partir daí se abre para outros grupos e se insere após sua reforma e ampliação como um centro formador e de convivência cultural essa mudança se dá sob a gestão de Violeta Arraes na Secretaria de Cultura do Estado Interessante registrar que neste final de década 1990 a formação através de oficinas ganha força e nomes até internacionais aportam no estado para fortalecer o movimento local como foi o caso do Théâtre du Soleil grupo francês dirigido por Ariane Mnouchkine Acredito que a presença do referenciado grupo na época deixou boas sementes no Ceará para o que temos hoje como prática de teatro de grupo já que o Théâtre du Soleil é uma inspiração para grupos do mundo inteiro pelo seu trabalho coletivo de criação gestão e produção teatral rigor no trabalho dosas atoresatrizes e a relação com temas ligados à sociedade Os anos que seguiram seriam uma ampliação do fio formativo iniciado com a mudança do Theatro José de Alencar Diferentes nomes do teatro nacional passaram pelo Ceará numa cadeia formativa que se amplia com a criação do Colégio de Dramaturgia e Direção Teatral no Instituto Dragão do Mar24 1996 Essa 24 O Centro Dragão do Mar está situado num dos mais boêmios bairros de Fortaleza a Praia de Iracema São 30 mil metros quadrados de área para vivenciar a arte e a cultura visitando exposições no Museu da Cultura Cearense no Museu de Arte Contemporânea do Ceará e na Multigaleria se encantando com espetáculos cênicos no Teatro Dragão do Mar no Espaço Rogaciano Leite Filho e Arena Dragão do Mar assistindo a grandes filmes nas modernas salas do Cinema do Dragão 38 efervescência formativa não se limitou à Fortaleza cidades de outras regiões receberam um bom número de oficinas estas ocorrendo em geral nos períodos que antecediam os festivais espalhados pelo estado bem como durante as edições dos mesmos Essa realidade pôde ser vista e comprovada no Festival de Teatro de Acopiara FETAC25 que através da reunião de grupos de várias cidades do interior oferecia oficinas gerando estímulos para os grupos continuarem em atividade além de aperfeiçoamento técnico Ainda neste período através dos Escambos Teatrais capitaneados por Júnio Santos sobretudo no litoral leste têmse um agitado intercâmbio cultural com maior presença de grupos de teatro de rua Destacase também o Projeto Teatro de Rua Contra a AIDS que por alguns anos movimenta o teatro de rua de grupo em todo o território cearense levando espetáculos para espaços urbanos e rurais A maioria dos grupos que participaram deste projeto já tinha uma longa estrada revelando que em diferentes cidades à revelia das dificuldades grupos resistiam consolidando a herança deixada pelo movimento amador dos anos anteriores sedimentando assim práticas com bases no teatro de grupo no sentido da continuidade de trabalho numa postura alternativa ao teatro de vertente comercial Outro fato relevante é o surgimento de diversos espaços em Fortaleza como o teatro Morro do Ouro anexo do Theatro José de Alencar o Teatro do Dragão do Mar e outros mais ligados a escolas privadas da capital No Cariri destacamos a atuação no campo da cultura do Serviço Social do Comércio SESC unidades Crato e Juazeiro do Norte bem como a construção do Teatro Marquise Branca 2001 em Juazeiro do Norte É no fim dos anos noventa que começa uma maior aproximação com as leis de incentivo como possibilidade para a produção Com a crescente instalação de espaços cênicos na capital e também com o surgimento de novos grupos se deu um momento crescente de formação técnica na área cênica iniciandose um ciclo que revelou um movimento de teatro de grupo que é composto por integrantes que passaram pelos cursos oferecidos As pessoas que Fundação Joaquim Nabuco desbravando o Universo no Planetário Rubens de Azevedo e ainda curtindo shows locais nacionais e internacionais no Anfiteatro Sérgio Mota no Auditório e na Praça Verde do Dragão SITE DRAGÃO DO MAR 200 25 Criado em 1989 o FETAC é o mais antigo festival de teatro do Ceará tendo sua história entrelaçada à trajetória de inúmeros grupos culturais de todo o Estado O evento surgiu com a missão de promover e fortalecer o movimento cênico no interior do Ceará sendo reconhecido como um dos principais espaços de organização e difusão dessa arte no interior cearense Com isso vem contribuindo para o aperfeiçoamento dos grupos a constituição de redes e para que a cena teatral local seja evidenciada DEGAGE 2016 39 viveram esse expressivo momento do teatro cearense que gerou uma vasta produção de espetáculos através dos resultados formativos criaram diversos grupos sobretudo em Fortaleza como o Grupo Expressões Humanas 1990 no interior a Cia Ortaet de Teatro 1999 IguatuCE Oficart Teatro 1990 RussasCE No Cariri na primeira década dos anos 2000 surgiram principalmente no eixo central metropolitano Crato Juazeiro do Norte e Barbalha os grupos Anjos da Alegria 2003 Cia Cearense de Teatro Brincante 2005 Grupo Louco em Cena 1999 Cia Mandacaru 2001 Grupo Mateu 2000 Grupo Teatral dos Estudantes da URCA GRUTEURCA 2002 e Wancilus GAT Produções 1999 Destaque para Cia de Teatro Livremente que antecede esse período e tem mais de trinta anos de atividades Aqui é preciso ainda que sinteticamente registrar que se nos últimos anos do século XX surgem os grupos acima citados isso se deve a uma cultura teatral que já povoava essas cidades sobretudo em Crato desde o século XIX tendo registros em jornais da época como O Araripe do Theatro de Todos os Santos que data de 1857 Esse registro nos indica um marco de que o movimento teatral no Cariri já remonta séculos VIEIRA 2005 Quanto a grupos também constam registros históricos que nos asseguram que o Romeiros do Porvir já atuava em finais do século XIX adentrando ao XX vale registrar também como importante marcador histórico para os grupos da região o Grupo Teatral de Amadores Cratenses GRUTAC que surge por volta dos anos de 1950 encerrando suas atividades em 1990 MATOS 2016 121 Instituições relevantes no âmbito da produção e gestão cultural na região do Cariri cearense Haja vista nossa área de atuação e pesquisa esteja situada na região do Cariri cearense nos aprofundaremos em três ambientes de fomento teatral na última década são estes Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri e Universidade Regional do Cariri URCA através do curso de Licenciatura em Teatro Temos ainda o Sesc Mostra SESC Cariri de Culturas como um terceiro ambiente com a mesma importância para o teatro mas que se insere há mais tempo nesta região 1211 CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI 40 Com quatorze anos de atuação no Cariri Cearense 2006 o Centro Cultural Banco do Nordeste chega numa região pulsante em produção artística se tornando mais um canal de promoção da arte local bem como receptor de trabalhos artísticos advindos do país inteiro Seu prédio está estrategicamente situado na cidade de Juazeiro do Norte pois esta se configura como centro econômico da região metropolitana do Cariri portandose como cidade com grande transição de pessoas vindas de todo o interior do Nordeste seja para os ciclos de romaria em devoção à Beata Maria do Araújo e Padre Cicero eou para realizar compras no comércio local Sua instalação como mais um espaço de trabalho no Cariri acaba por incentivar o surgimento de novos grupos artísticos na região seja porque se configura como mais um equipamento de recepção e promoção para as artes ou mesmo por ser uma das instituições que contrata os grupos locais para compor sua programação Assim podemos afirmar a partir do texto institucional que circula na agenda mensal do CCBNB Cariri que O centro Cultural é uma ação estratégica do Banco do Nordeste para o desenvolvimento do nível de percepção do homem nordestino indispensável ao exercício de sua cidadania O Centro Cultural atua como centro formador de plateias e espaço de difusão da cultura nordestina e universal feito para despertar em milhares de pessoas a curiosidade a valorização e o interesse pelos bens culturais AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI MÊS DE JUNHO 2016 Como se constata a partir do texto acima o Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri o primeiro equipamento desta natureza implantado no interior do Estado do Ceará revela sua potência de valorização da produção teatral feita no Cariri fazendo surgir novos grupos bem como profissionais de outras frentes da arte como oa produtora cultural A formação de plateia é como observamos outro forte objetivo do CCBNB Cariri tendo gerado centenas de novos espectadores em seus quatorze anos de atuação na região seja para a linguagem teatral seja para outras pois Num espaço de muita arte e cultura equipado com salão de exposição auditório teatro multifuncional e biblioteca o Centro Cultural Banco do Nordeste oferece a seus visitantes uma rica e variada programação diária nas áreas de museologia cinema artes visuais música artes cênicas e literatura Nele o público descobre o prazer de conhecer e apreciar a arte e a cultura e se habitua a 41 conviver com artistas e obras de reconhecida qualidade AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI MÊS DE JUNHO 2016 A chegada do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri em 2006 instigou osas artistas das artes cênicas a repensar determinados âmbitos de suas formas de organização pois reconfigurou em alguns aspectos o modo de produção teatral vigente até então Uma das mudanças ocorridas é que osas artistas que ocupam o teatro do CCBNB Cariri devem ter registro profissional ou no caso de grupos pelo menos 80 de seussuas integrantes o que gerou uma busca por fazer DRT e consequentemente por maior organização interna dos grupos que já atuavam na região e dos que surgiram Com isso notamos que as exigências feitas pela instituição despertam grupos e artistas em geral a um maior rigor profissional na relação de trabalho Outros aspectos que transformaram o cotidiano de trabalho dosas artistas e grupos foram as demandas burocráticas pois com o trabalho sob a assinatura de contrato e uma maior valorização por parte do CCBNB Cariri aos grupos que tinham o cadastro nacional de pessoa jurídica CNJP levou muitos grupos a se aproximarem dos aspectos burocráticos e administrativos gerados no campo da produção e da gestão cultural para assim ocupar artisticamente mais um espaço de trabalho que se abriu através do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri 1212 LICENCIATURA EM TEATRO DA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI URCA Com a abertura do curso de Licenciatura em Teatro do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri URCA em 2008 esta universidade se torna pioneira ao lançar a primeira licenciatura em teatro do Ceará suprindo uma lacuna há muito aberta na formação superior em artes no estado A licenciatura em teatro da URCA teve sua primeira turma no semestre letivo 20081 com campus situado inicialmente na cidade de Barbalha em seguida instalandose no Campus Pirajá em Juazeiro do Norte e hoje com campus próprio na cidade do Crato o Violeta Arraes Após doze anos de implantação o curso soma vinte e três turmas entre formandos e egressos Esse dado revela que a formação acadêmica em teatro além 42 de lançar dezenas de profissionais arteeducadoresas para atuar na rede de ensino básico público e particular também gera mais um espaço em que a criação teatral é fomentada rompe os limites da universidade e tem continuidade através de graduandosas e graduadosas que a partir das pesquisas e experimentações em disciplinas teóricopráticas continuam atuando em grupos ou individualmente fazendo com que o teatro feito na região do Cariri se fortaleça e amadureça a partir de variadas perspectivas poéticas A despeito deste recorte a implantação da licenciatura em teatro na região do Cariri nos direciona para afirmar que o curso e seus desdobramentos geraram e geram na formação não só de arteeducadoresas mas também de diversos grupos teatrais por duas vias de incentivo a abertura de um novo campo de trabalho e da ampliação das reflexões no campo da criação via academia A licenciatura em teatro da Urca em seu projeto pedagógico de curso PPC privilegia uma formação que ultrapassa a questão docente e abraça a tríade artistaprofessorpesquisadora dando portanto uma formação que rompe com uma noção estanque na formação doa arte educadora Nesse contexto surgem grupos como Coletivo Atuantes em Cena 2013 Coletivo Dama Vermelha 2013 Trupe dos Pensantes 2012 Armadilhas Cênicas 2010 Grupo Dois de Teatro 2014 Comum Unidade Oitão de Teatro 2009 e o Grupo Ninho de Teatro 2008 lócus deste estudo De todos esses grupos apenas o Armadilhas Cênicas não está mais em atividade 1213 SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SESC MOSTRA SESC CARIRI DE CULTURAS A unidade do Serviço Social do Comércio SESC Crato foi inaugurada no ano de 1972 tendo portanto mais de quatro décadas de atuação oferecendo serviços nas áreas de educação cultura saúde esportes lazer e assistência Seguindo a diretriz nacional do Sesc a referida unidade colabora para a melhoria da qualidade de vida da população principalmente para a classe de trabalhadoresas comerciáriosas pois assim como o nome já sugere o foco das ações do Sesc é oa trabalhadora do comércio e seus dependentes A unidade do Sesc Crato se destaca pelo seu forte trabalho na área da artecultura podemos aqui pontuar que a unidade contribuiu de forma significativa 43 para a artecultura da região do Cariri pois estende suas ações para todas as cidades da região Essa contribuição se deu de modo mais acentuado no ano de 1998 quando a gestora cultural Dane de Jade assume a coordenação de cultura da unidade e inicia um projeto de desenvolvimento e consolidação do teatro do Cariri o foco maior de sua gestão foi para a artes cênicas e também para a tradição popular Essa extensão ocorre também através da unidade Sesc Juazeiro do Norte que similarmente atua na região Todavia faço aqui um recorte dessa contribuição para o campo das artes cênicas a partir da unidade Sesc Crato pois acredito ter sido esta unidade que fomentou a partir de 1998 como supracitado uma série de programas e projetos que foram impulsores para a produção cênica da região Programas como temporadas teatrais banco de textos teatrais núcleo de estudos teatrais NET este sendo um projeto que inflamou de modo positivo o movimento teatral do eixo CraJuBar Crato Juazeiro do Norte e Barbalha pois trouxe a proposta da pesquisa de linguagem somada à criação teatral novidade na época atraindo desde artistas cênicos novosas a veteranosas da cidaderegião Em 1998 foi criado o projeto que muito impactou o movimento teatral da região a Mostra Sesc Cariri de Teatro hoje se chama Mostra Sesc Cariri de Culturas Através do efervescente movimento gerado pela mostra com espetáculos oficinas intercâmbios com grupos do país inteiro a cena local se ampliou se reciclou sendo oxigenada através de tais ações segundo Dane de Jade o principal objetivo era estimular a produção teatral na região proporcionando o desenvolvimento dos artistas e a participação do maior número possível de grupos espetáculos artistas estilos e visões distintas no fazer cênico fossem locais estaduais nacionais ou internacionais A proposta era incentivar a troca de informações ampliar o campo de referências e contribuir para a comunhão dos que fazem teatro no Ceará Ampliamos as linguagens e trouxemos para a Mostra ações nos diversos segmentos artísticos como literatura música tradição artes cênicas cinema e artes visuais DANE DE JADE apud MATIAS 2017 p 182 Como dito acima por Dane a Mostra Sesc Cariri de Culturas ainda que seja um evento anual tornouse por muitos anos impulsora e incentivadora do movimento de teatro do Cariri o que faz dela uma ação expressiva no âmbito da arte e da cultura local O pesquisador Mano Grangeiro NEVES 2011 que foi coordenador de cultura do SESC unidade Juazeiro do Norte e atuou de forma direta na produção deste evento no seu artigo Mostra SESC Cariri de Cultura um debate contemporâneo nos diz que 44 A Mostra SESC Cariri de Cultura em toda sua existência irrigou o Cariri com o que havia de mais contemporâneo na produção artística nacional e internacional Inseriu a região em um dos circuitos culturais mais privilegiados do Brasil Promoveu experiências diálogos intercâmbios Aproximou pessoas e culturas Talvez seja este o seu maior impacto a intervenção e a superação dialética NEVES 2011 p 68 69 Como se nota a Mostra Sesc como é chamada popularmente marca todo um período e de fato como diz Neves ela impacta tanto em seus aspectos artísticos quanto promove intercâmbios entre artistas de diversas linguagens do Brasil inteiro no território Cariri projetando a região como território de diversa e efervescente produtora de arte contemporânea e popular Outro impacto se dá em diversos setores da economia local provocados durante os dias de mostra uma vez que fomenta toda cadeia produtiva seja turística econômica em serviços oportunidades de intercâmbios vendas em estabelecimentos comerciais como hotéis bares e restaurantes diretamente ligados à dinâmica que a Mostra proporciona MATIAS 2017 p182 Pelo exposto acima percebemos o legado da Mostra Sesc Cariri de Culturas que completa em 2020 vinte e dois anos sofrendo transformações que a partir daqui descortinou um tanto dessas mudanças Para tanto tomo a palavra proporciona dita acima para evocar tal processo de desconstrução pelo qual a Mostra foi sofrendo ela inicia apenas como festival de teatro ganhando proporção gigantesca pois como vimos ampliou as linguagens e também seu alcance para um número cada vez maior de municípios carirenses Esse agigantamento começa a gerar uma certa distância da classe artista local que se antes se fazia presente dentro da programação começa a não se ver mais representada nesta causando incômodos que levaram à época diversos debates entre a gestão da Mostra e artistas A partir da edição de 2007 a Mostra perde o seu formato de programação que se estruturava por mostras existia a Mostra Cena Cariri composta por grupos locais Mostra Ceará com grupos das demais cidades do estado Mostra Nordeste e Mostra Brasil Nestes anos as artes cênicas tinham centralidade na programação o que também se perdeu com o avanço das edições 45 Os debates e embates da classe cênica com a organização da Mostra principalmente em relação a sua curadoria que em geral selecionava um número inexpressivo de espetáculos da cena local desencadeou num profundo incomodo gerando um evento chamado Guerrilha do Ato Dramático Carirense que como diz Cacá Araújo principal idealizador A Guerrilha não é exatamente um festival Tratase de um movimento de resistência e afirmação cultural que criamos em 2009 como vitrine da produção caririense e polo de discussão sobre políticas públicas para a cultura Na ocasião assim como atualmente os grandes eventos realizados na região não valorizam as produções realizadas no Cariri e o poder público não desenvolve políticas de fomento que favoreçam a formação produção difusão e intercâmbio ARAÚJO apud MATIAS 2017 p 180 Observemos que quando Cacá Araújo faz uso da palavra vitrine está reivindicando o espaço de visibilidade que a cena local tinha perdido fragilizando assim os grupos locais que para além dos intercâmbiosformação tinham na Mostra Sesc mais um espaço de fomento aos grupos da região ainda que esta ocorra anualmente A Guerrilha então se firma por alguns anos como espaço de resistência e afirmação para os grupos que não encontravam mais espaço na Mostra mas com o passar de algumas edições perde fôlego e deixa de acontecer Assim como vimos em seus vinte e dois anos a Mostra Sesc Cariri de Culturas foi perdendo um tanto dos seus objetivos iniciais mas ainda que passível de críticas figura como um dos eventos mais importantes para a artecultura da região do Cariri e para o calendário cultural do Ceará já que desde 2019 se espalha para outras regiões do estado como Sertão Central e Ibiapaba 13 Produção Cultural Teatral A produção cultural no Brasil é um campo de conhecimento recente que tem crescido muito nos últimos anos desvelando que a cultura é um vetor indispensável para o desenvolvimento humano social e econômico de uma nação pois se estabelece como um direito na constituição federal de 1988 em seu artigo 215 conforme assim descrito Título VIII Da Ordem Social 46 Capítulo III Da Educação da Cultura e do Desporto Seção II Da Cultura Art 215 O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares indígenas e afrobrasileiras e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura de duração plurianual visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro II produção promoção e difusão de bens culturais III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões IV democratização do acesso aos bens de cultura V valorização da diversidade étnica e regional BRASIL 1988 A partir do acima elucidado articulo o entendimento doa produtora de culturas como aquelea profissional que realiza a junção e faz uma mediação entre diversos segmentos que somados geram o ciclo de criações e ações culturais conforme o inciso II do artigo 215 Este artigo nos dá uma vez mais a dimensão da função produção que ligada ou ligando diversos agentes artistas poder público empresas mídia espaços culturais faz com que a cadeia da economia para o campo das artes seja efetivada Portanto a produção cultural e a função produçãogestão são responsáveis em grande medida pela democratização da cultura de um território na medida em que este faz acontecer o encontro dos produtos criativos com o público Podemos considerar a profissão doa produtora e gestora cultural um tanto quanto nova e portanto carente de espaços de formação embora já se tenha um crescimento em inciativas de formação para área Dito isto vale lembrar que tal crescimento não é suficiente se considerarmos o volume da produção de arte e cultura no Brasil penso que devido a isso ainda são profissões desconhecidas em suas funções até mesmo para quem passeia pelo campo da cultura A partir desse dado desenvolvo alguns pontos para que se possa compreender a função bem como a fusão que muitas vezes ocorre entre a figura doa produtora e doa gestora de cultura Essa mistura ocorre por vezes devido a essa carência de formação como dito o que faz com que nas práticas cotidianas se confundam Ademais alguns estudiosos da área como Rubim apontam que a defasagem na 47 formação doa produtora e gestora acarretou na pouca visibilidade da função logo ambas estariam praticamente no mesmo espaço de atuação com pequenas nuances que as diferenciam Podemos compreender uma vez mais os motivadores dessa confusãofusão de nomenclaturas quando Rubim diz que Apesar de ser possível falar em políticas culturais no Brasil desde os anos 30 com base nos experimentos de Mario de Andrade e de Gustavo Capanema não se pode afirmar o desenvolvimento de uma tradição de atenção e mesmo de formação na área da gestão cultural Esse descuido das políticas culturais inibiu a valorização da gestão seu reconhecimento e a consequente circulação entre nós da noção de gestão cultural Assim não só a predominância da noção de produção cultural pode começar a ser elucidada como simultaneamente a discussão faz emergir os graves sintomas associados a tal dominância apud CUNHA 2007 p 18 Como se percebe tal mistura se processa a partir da frágil política cultural do Brasil o que por consequência gera a desvalorização desses agentes Para desvendar um tanto mais dessas diferenças partilho também do entendimento de Rômulo Avelar importante pesquisador e gestor cultural mineiro com relevante contribuição na área Este nos aponta que é importante buscar entendimento claro sobre o perfil dos produtores e gestores culturais e sobre suas atribuições 2013 p 50 Verifico a partir do autor que os perfis têm diferenças mínimas entre um e outro quando este nos indica em seus estudos que o produtor cultural é agente que deve ocupar a posição central nesse processo desempenhando o papel de interface entre os profissionais da cultura e demais segmentos precisa atuar como tradutor das diferentes linguagens contribuindo para que o sistema funcione harmoniosamente Sua primeira função é a de cuidar para que a comunicação e a troca entre os agentes ocorram de modo eficiente AVELAR 2013 p 50 Assim definido oa produtora Avelar registra que o gestora cabe com frequência o papel de interface Isso ocorre quando ele se propõe a desenvolver projetos de cunho coletivo ou administrar grupos instituições ou empresas culturais que tenham que lidar em seu diaadia com artistas outros profissionais da cultura e patrocinadores públicos ou privados No entanto o gestor cultural pode estar presente também em outros contextos como contratado de uma empresa para o trato das questões relativas ao patrocínio à 48 cultura como agente vinculado a órgão público ou como administrador de um espaço cultural privado público ou pertencente a organização não governamental 2013 p 51 Essa mistura está bem acentuada na experiência do Grupo Ninho quando osas atoresatrizes como veremos adiante assumem polifonicamente essas funções com as artísticas Avelar nos leva ainda a pensar no quanto essa mistura não seria apenas uma questão de nomenclatura e nos alerta que diante das dificuldades de trabalho enfrentadas por produtoresas e gestoresas nos lança a pergunta seria perda de poder ou de espaço político separar profissionais cuja atuação é tão intimamente ligada Ao que respondo que dentro da experiência do Ninho seria sim uma fragilidade separar tais funções uma vez que dentro do cotidiano do grupo osas integrantes têm vivenciado uma prática que de fato fundem produção e gestão num movimento inerente tendo em vista que a Casa Ninho sede do Grupo nos leva ao exercício de criar administrar intermediar relações entre artistas poder público empresas privadas patrocinadores espaços culturais diversos e sobretudo com o público Assim essas funções apesar de serem identificadas como duas profissões diferentes elas se confundem em relação à ocupação de espaços de atuação no mercado cultural e principalmente aos saberes desenvolvidos em cada profissão coexistindo no mercado de trabalho CUNHA 2007 p 118 A partir do acima exposto compreendo que em nossas práticas esses saberes foram sendo articulados numa relação dentrofora ou seja a partir da sede Casa Ninho para outros espaços nos dando sempre a dimensão de que oa produtora e oa gestora no Grupo Ninho de Teatro e na Casa Ninho se cruzam e desta forma expandem as complementaridades que estas funções carregam potencializando a administração de nossos projetos de criação de manutenção de sede e das ações pedagógicas Dentro do entendimento construído até aqui sobre a função produçãogestão busco outras leituras nos pesquisadores Teixeira Coelho 2001 e André Carreira 2007 por compreender que ambos conceituam oa produtora cultural numa perspectiva que gera aproximações com as práticas do lócus desta pesquisa o Grupo Ninho de Teatro quando estes entendem que essas funções devem estar inseridas 49 dentro dos processos criativos ou seja oa produtora e oa gestora deve a partir desse olhar viver o cotidiano de criação produção e gestão do grupo Outrossim podemos dizer que produtoragestora cultural é aquelea que cuida da estrutura micro e macro da criação e promoção de um objetoprodutoevento artístico Entendemos como estrutura a criação de um campo de trabalho que dê as condições para oa artista desenvolver sua arteofício Tais condições passam pelo desenvolvimento de projetos com a finalidade de captar recursos que possibilitem custear as etapas da criação quais sejam pagar direitos autorais atoresatrizes diretoresas profissionais ligados às tecnologias da cena como figurinista maquiadora cenógrafoa iluminadora etc O produtoragestora deve ainda pensar na organização do marketing locação de teatros e todos os detalhes que sejam necessários para que a sede artística o espetáculo ou outra ação cultural qualquer chegue na audiência seu maior objetivo é fazer o encontro da arte com o público ou fazer com que este chegue até o espaço cultural Nesta perspectiva oa produtoragestora cultural é aquelea profissional que Está no centro de um cruzamento ligando diversas figuras normalmente afastadas umas das outras a arte o artista a coletividade o indivíduo e os recursos econômicos ou fontes financiadoras como o Estado ou a iniciativa privada que não produzem a cultura diretamente mas detêm o poder de tornála realidade Isto significa que através do agente cultural a arte se porá em contato com o indivíduo ou a comunidade tanto quanto o artista penetrará na comunidade e o inverso de modo particular assim como a comunidade alcançará os recursos necessários para uma certa prática cultural COELHO 2001 p 67 Analogamente podemos dizer que Teixeira Coelho fortalece a ideia do produtoragestora cultural chamado por ele também de agente cultural como aquelea que fará a função de articular partes para a construção de um projeto artísticocultural 50 2 GRUPO NINHO DE TEATRO UM NINHO EM CONTÍNUA CONSTRUÇÃO Será que o sol sai pra um voo melhor Eu vou esperar talvez na primavera O céu clareia e vem calor vê só O que sobrou de nós e o que já era Em colapso o planeta gira tanta mentira Aumenta a ira de quem sofre mudo A página vira o são delira então a gente pira E no meio disso tudo Tamo tipo Passarinhos soltos a voar dispostos A achar um ninho Nem que seja no peito um do outro Leandro Oliveira Emicida Um ninho se constrói a partir de muito trabalho e do uso de uma artesania que só os pássaros dominam tal técnica de muitos voos coleta de diversos materiais palhas gravetos barros assim numa trama dança ninhos são feitos para serem moradas de pássaros Uma construção onde se gesta vida e um modo de viver até que um novo voo surja em busca de apreender o mundo E a música nos lança a pergunta Será que sol sai pra um voo melhor Ao tempo em que sem reposta objetiva me leva a pensar em muitas maneiras de respondêla o sol sempre sai e de alguma maneira nos ilumina em nossas saídas e voos táticos dispostos a construir esse ninho que agora partilho Quando pulsa o desejo de partilhar essa experiência é por sentir o quanto ela tem ganhado sentidos a cada ano dessa uma dúzia que experimentamos até hoje Quando penso a história do Grupo Ninho26 a partir da partilha de experiências quero escrever a partir da compreensão de Larrosa quando diz que A experiência é o que nos passa o que nos acontece o que nos toca Não o que se passa não o que acontece ou o que toca A cada dia se passam muitas coisas porém ao mesmo tempo quase nada nos acontece 2015 p 18 Larrosa me ajuda a compreender esse espaço da experiência como um conjunto de ações que nos acontece e nos passa Aqui o nos passa tem a ver com os estados que as ações provocam interiormente e ficam latentes em nossa vida 26 Link do Portfólio do Grupo Ninho de Teatro httpswwwyoutubecomwatchvNK3uWlbwhvgt125s 51 ecoando em nossas ações Assim penso que escrever sobre uma experiência é dizer em palavras sobre aquilo que assentou em nosso corpo como algo muito forte e que portanto ganha um tempo de incubação provocando amadurecimentos nos modos de fazer Para que essa maturação se dê é preciso estar em desaceleração do tempo desse tempo cronológico que a tudo torna passageiro não nos permitindo mergulhar no que se passa em nosso entorno e que praticamente nos obriga a atualizar tudo a cada segundo sem ao menos compreender o que acabou de ser vivenciado Ainda em acordo com Larrosa os acontecimentos dentro dessa perspectiva me fazem pensar que essa velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade pelo novo que caracteriza o mundo moderno impedem a conexão significativa entre os acontecimentos Impedem também a memória já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento mas sem deixar qualquer vestígio 2015 p 22 Essa velocidade muito nos impede de adentrar mais profundamente nos nossos processos de construção seja da arte ou do próprio viver e que portanto fragiliza nossas memórias quando não ocorre uma entrega ao que nos passa A despeito disso agora narro e escrevo desse Ninho que passa por mim e do muito que fica guardado também minha própria experiência permeada pelo coletivo Espero conseguir pois como diz Benjamin 1994 p 98 a arte de narrar está em vias de extinção são raros os que sabem não sabendo se sei esforçome no gesto por intercambiar essa experiência Walter Benjamin nos lembra que A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte da que recorrem todos os narradores E entre as narrativas escritas as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores 1994 p 98 O autor me faz lembrar uma vez mais do aprender que se dá por meio das trocas entre narradoresas Lembro que para esta escrita tomo como metodologia a História Oral que tem como fonte maior as oralidades como um espaço primeiro de apreender o mundo que nos margeia por meio das trocas de experiências É como diz Mestra Naninha com sua ancestral dança do coco cantos de incelença e presença 52 brincante e que tem suas memórias e histórias poetizadas no espetáculo Poeira você pode acreditar pois tudo aquilo que eu disser ou eu vi ou passouse comigo ou eu vi ou passouse comigo Por fim ao escrever sobre e a partir da experiência do Grupo Ninho de Teatro me escrevo e escrevo como narrador de uma poesia coletiva tendo como fonte o vivido que nos atravessa 21 GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias Era 2008 quando tomamos voo vindos de diferentes lugares geográficos e de poéticas variáveis neste ano já trabalhávamos juntos Rita Cidade Joaquina Carlos eu Edceu Barboza e Jânio Tavares que tinha acabado de retornar para Juazeiro do Norte após concluir sua formação em Artes Cênicas no Instituto Federal de Educação e Tecnologia IFCE Nesse período nós quatro e outrosas artistas integrávamos um grupo de leituras de textos dramáticos que realizava encontros semanalmente com estudos acerca de dramaturgias O objetivo era produzir uma montagem no momento em que todosas osas participantes do grupo se sentissem comumente afetadosas pelo mesmo texto Esses variavam de autorias pois cada uma escolhia a partir de suas afinidades indo de Bertolt Brecht a Lourdes Ramalho Foram nestes encontros que apresentei o texto Avental todo Sujo de Ovo de Marcos Barbosa inicialmente algunsalgumas integrantes não simpatizaram com o texto mas em paralelo osas quatro integrantes aqui já citados resolvem realizar a montagem de Avental27 Certamente a decisão da montagem foi por empatia ao texto de Marcos Barbosa mas também pelo desejo de trabalhar juntos naquele momento Neste ponto a atriz Zizi Telecio é convidada para fechar o elenco do espetáculo que tem quatro personagens Ainda sobre o início a integrante Rita Cidade apresenta contribuições importantes para o registro da gênese do grupo nosso surgimento de grupo a gente fala muito pelo lado dos anos dos trabalhos e como tu Edceu conhece muito bem essa parte eu vou pular pra parte que eu acho mais interessante que é o motivo que nos uniu que tem a ver com os nossos desejos artísticos e que os nossos artísticos têm a ver com a nossa humanidade com o nosso ser humano e que tem a ver o nosso ser humano com o sentimento de amizade que aconteceu dentre boa parte de nós né Então acho interessante pensar esse surgimento por aí porque eu acho que é o 27 A partir deste momento ao citar o espetáculo Avental todo sujo de ovo irei abreviar para Avental 53 que nos alimenta até hoje e acho também que é o que nos alimenta cada vez mais pensando esse tempo de trajetória équando a gente se juntou e o ninho nasceu não foi um filho planejado né Foi uma surpresa da vida quando a gente se juntou A gente era um grupo de pessoas que faziam teatro que já tinham feito teatro juntos uns com os outros em ocasiões diferentes e que a gente se interessou por um determinado texto teatral que no caso era Avental todo sujo de ovo e que é interessante que a gente tá com esse trabalho até hoje Eu gosto de pensar né que o primeiro trabalho o trabalho que uniu a gente e a gente ainda vivencia ele até hojee que a gente foi se alimentando nesse começo e como eu disse eu penso que é o grande alimento até hoje dos nossos desejos artísticos que foram encontrando par que foram encontrando eco de uns nos outros E eu acho que é assim até hoje e eu acho que a gente vem se melhorando nisso a gente vem se afinizando nesse sentido Acho que isso fica muito claro no Poeira e e nos trabalhos novos que a gente tá em sala CIDADE 2020 Neste contexto que Rita detalha éramos três atrizes um ator e um diretor estudando possibilidades de realizar uma produção independente e já nos alimentando de outras camadas além do desejo da montagem O objetivo era montar o espetáculo nos moldes da chamada montagem de elenco28 realizar o circuito de apresentações conforme fosse acontecendo a recepção da peça Fato é que tínhamos determinado que não teríamos pretensões maiores com a montagem tendo em vista também que Jânio que assina a direção não passaria muito tempo residindo em Juazeiro do Norte O processo de criação iniciou em janeiro de 2008 nos encontrávamos pelo menos duas vezes por semana para ensaios e outro dia para experimentações extra sala O local mais utilizado para os ensaios era o Espaço Cultural Marcus Jussiê em Juazeiro do Norte Foram usadas também uma sala da unidade SESC Juazeiro do Norte e uma do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau URCA que na época tinha seu campus instalado em Barbalha Na continuidade dos dias da criação de Avental as afinidades foram aumentando e o desejo de continuar caminhando juntos nos levou a inscrever a montagem no edital Mecenas do Ceará Este foi o primeiro edital que nos inscrevemos sendo selecionadosas Aqui surge um dado sobre produção neste início com a inexperiência não conseguimos realizar a captação dos recursos pois este edital 28 Por montagem de elenco leiase um espetáculomontagem feita por atoresatrizes convidadoscontratados sem vínculo de grupo cumprindo assim temporadas com período pré determinado seja por contrato de trabalho ou acordos de outras naturezas 54 funcionava por meio de renúncia fiscal o que implica uma série de procedimentos burocráticos que à época não tínhamos noção nenhuma Neste ínterim abrese ainda inscrição para a XIX edição do Festival de Teatro de Acopiara FETAC a despeito de não termos um espetáculo montado resolvemos inscrever um trabalho composto por três esquetes Destes um já estava pronto com o título yyycomvc escrito por Rita Cidade e Joaquina Carlos e dirigido pela última Este esquete tinha como tema a violência virtual em seus disfarces e consequências Pegando então o fio temático do primeiro os outros dois esquetes sustentam a mesma linha abordando a homofobia com o texto Terçafeira Gorda de Caio F Abreu e o feminicídio com o cordel Embalando Meninas em Tempos de Violência da cordelista Salete Maria Para costurar os quadros têmse a presença dos elementos do Reisado de Caretas folguedo de tradição popular com máscaras chicotes e chocalhos Embora Bárbaro29 tenha sido o primeiro espetáculo do grupo a ser montado nunca deixou de ser revisitado sendo como verificamos acima somado mais um esquete a este revelando outro recorte da violência configurando um quadro que delata quatro diferentes violências praticadas em nosso cotidiano tal como acrescenta Elizieldon Dantas o repertório do Grupo Ninho posso dizer que inicia com quatro esquetes em julho de 2008 As esquetes que de uma de uma forma pensada naquele momento era tratada as múltiplas facetas da da violência Um panorama cinzento existencial que cada esquete traz um recorte dessa violência e o grupo viu viu a importância de comunicar e mostrar através da nossa arte que é a importância de comunicar é de denunciar e mostrar através da nossa arte e é perceptível quando os atores e atrizes estão nesse jogo de de cena essa violência é vivemos em em um mundo cada vez mais acelerado isso faz com que o homem fique mais estressado no ambiente nesse ambiente né Assim contribuímos é para vários assim contribuímos para vários sentimentos inclusive o da da violência As esquete Yyycomvc de autoria de Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade ela trata da violência no mundo virtual Na segunda esquete Embalando Meninas em Tempos de de Violência é uma livre adaptação do do cordel homônimo de de Salete Maria Nessa esquete a violência prevalece sobre o universo feminino Terçafeira Gorda também é uma adaptação do conto de Caio Fernando Abreu A homofobia leva um homem a a ser assassinado pelo é em pleno carnaval Passeio Noturno é uma adaptação também dos contos Passeio Noturno Parte 1 Passeio Noturno Parte 2 do Rubens Fonseca Então essas discussões da da 29 Link do espetáculo Bárbaro gravado no Teatro SESC Patativa do Assaré em 2008 httpswwwyoutubecomwatchv4LNCVHEgz4 55 violência contribuiu no desenvolvimento do primeiro espetáculo do Grupo Ninho é houve um alinha alinhavamento é uma costura né entre essas esquete pelas pelas figura dos dos brincantes do Cariri que é os Careta E assim dando origem ao primeiro espetáculo do Grupo Ninho que é Bárbaro Isso em 2008 No elenco Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade Na direção é Jânio Tavares e Joaquina Carlos DANTAS 2020 Como dito por Elizieldon integrante que entra no grupo em 2009 o primeiro espetáculo do grupo fez um recorte de diferentes violências presentes na sociedade contemporânea Esse fato nos levou a crer mais adiante que a poética e a ética do Grupo Ninho de Teatro já se faziam presentes desde seu nascimento sendo alimentadas e maturadas nos espetáculos seguintes de seu repertório escolhendo temas urgentes que brotavam no social e ganhavam pluralidades poéticas através de suas criações Em entrevista concedida ao Fernando Yamamoto pesquisador e encenador do Grupo Clowns de Shakespeare Natal RN Rita Cidade nos aponta um pouco sobre o ponto de partida dos processos do grupo É o texto pelo tema que ele suscita pelas discussões que ele suscita E geralmente essa discussão tem relação com um comprometimento social Não é por exemplo a vontade de se estudar determinado dramaturgo ou uma época É sempre pelo contexto social as reflexões que ele levanta YAMAMOTO 2012 p 90 Já na entrevista que fez para esta pesquisa Rita Cidade complementa a gente sempre se permitiu se não cem por cento mas eu acho que a gente sempre se permitiu bastante vivenciar temáticas estéticas diferentes E acho que a nossa poética se construiu nessa diversidade de propostas né que foram chegando primeiro A gente se junta em prol de um espetáculo que trata sobre amor sobre família sobre rejeição sobre moralismo né A gente embarcou nessa a princípio em seguida a gente vai tratar sobre violências Assim que os dois dialogam né Não deixa de ser uma violência também o que a gente vê em Avental mas em Bárbaro isso vai ficar mais forte CIDADE 2020 Nesse primeiro ano em que estreamos Bárbaro e ensaiávamos Avental fomos percebendo os diálogos que existiam entre as temáticas dos espetáculos ainda que com abordagens diferentes Nas linhas que seguem voltarei por vezes às questões 56 poéticas do grupo por entender que estas refletem outros aspectos de igual importância para a compreensão do objeto Como relatado nos parágrafos anteriores as duas inscrições citadas festival e edital foram aprovadas isso nos animou ainda que até aquele momento não nos entendêssemos como grupo estes fatores se somaram como motivadores a mais para a nossa decisão em nos tornarmos um grupo Muitos perguntam Por que o nome Grupo Ninho Inicialmente pensamos em dezenas de possibilidades até chegarmos em Grupo Ninho de Teatro como afirma a fala de Rita Cidade começamos a propor ideias para esse grupo fantasia e o nome que veio foi Ninho porque partiu do Avental Todo Sujo de Ovo e por ser a ideia de um lugar que agregasse pessoas que estavam vindo de lugares diferentes YAMAMOTO 2012 p 90 Assim surge o alicerce para o que viria a ser o Grupo Ninho de Teatro nessa formação inicial éramos cinco integrantes que vinham de diferentes lugares e com distintas experiências Nestes doze anos alguns passarinhos fizeram pouso no ninho e em seguida alçaram outros voos ficando nesta formação atual aqui descrita por sequência de chegada no grupo Joaquina Carlos Rita Cidade e eu Edceu desde 2008 Elizieldon Dantas em 2009 Sâmia Ramare chega em 2013 Monique Cardoso se firma em 2018 pois já era colaboradora desde 2013 Fagner Fernandes em 2018 e Francisco Francieudes em 2019 A recepção do primeiro espetáculo do grupo Bárbaro 2008 nos fortaleceu e incentivou a continuarmos juntos agora com maiores perspectivas Após o Festival de Teatro de Acopiara 2008 em setembro do mesmo ano o grupo fez sua segunda participação em festival desta vez no XV Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga Registro as participações nestes dois festivais por considerálas importantes para a construção da base do grupo em seu primeiro ano pois a ambiência e convivência nestes festivais nos fez observar outros grupos gerando ou despertando o desejo de vivenciar a experiência de se construir grupo Bárbaro como primeiro espetáculo a estrear nos aponta princípios de produção que se repetirão com camadas diferentes em todos os espetáculos do Ninho30 Neste a produção foi custeada pelosas integrantes do grupo que investiram 30 Leiase Grupo Ninho de Teatro abrevio pois o mesmo aparecerá com frequência na escrita 57 financeiramente para em seguida a partir do caixa do espetáculo quando este estreasse e realizasse apresentações reembolsasse o investimento feito Figura 1 Imagem do espetáculo Bárbaro em cena o ator Edceu Barboza Fonte Fotógrafo Cristóvão Teixeira Aqui já observamos os nossos modos de fazer a construção do espaço tático como diz Certeau 1998 pois sem fontes de financiamento públicoprivado Bárbaro foi montado com investimento financeiro dos atores e atrizes já que o grupo ainda não tinha reserva financeira para investir Esse investimento feito pelosas integrantes se deu a partir de outras fontes de trabalho que estesas tinham à época sendo alguns arteeducadoresas Joaquina Rita e Jânio em escolas da rede básica de ensino ou em espaços de ensino não formal como associações e ONGs que ofereciam ensino de teatro eu na época era servidor técnico de artes cênicas do Sesc Crato o que me possibilitou contribuir com o investimento 58 Seguimos com a criação de Avental Todo Sujo de Ovo31 que teve sua estreia em fevereiro de 2009 no Teatro do SESC Patativa do Assaré em Juazeiro do Norte Quando ocorreu a estreia de Avental já existia um sentimento de grupo no que diz respeito à organização O espetáculo seguiu fazendo o circuito local de apresentações Sobre Avental vale registrar que este se tornou o espetáculo que mais tem participado de festivais Seja pelo número maior de apresentações o que gera um maior amadurecimento do mesmo ou pela pesquisa poética e mesmo ética que o envolve Através dele o grupo rompeu os limites locais escoando sua produção em outras regiões do país A dramaturgia do cearense Marcos Barbosa e a encenação a ela conferida por esta montagem vêm conquistando público e crítica por sua simplicidade poética somada a um potente trabalho de atuação A casa da família de interior que é cenário da peça se redimensiona simbolicamente A angustiante espera de alguém que foi embora e seu surpreendente e desconcertante retorno são amenizados pelas engraçadas tiradas cotidianas que beiram o cômico Tais fatores conferem leveza ao espetáculo conforme acrescenta Elizieldon Uma relação familiar repleta de sentimentos limitações e cheiro de arroz doce da lembrança do filho que partiu é da presença constante da comadre e e o retorno surpreendente de alguém Esses são os temperos né da vida dessa família Avental Todo Sujo de Ovo DANTAS 2020 Com onze anos compondo o repertório do grupo o espetáculo expõe os conflitos presentes nas densas relações que se instalam quando os assuntos diversidade sexual e família se cruzam A história da travesti que retorna à casa de sua família dezenove anos após têla abandonado quando tinha nove anos de idade e o seu reencontro com sua mãe pai e madrinha é neste espetáculo contado a partir de um olhar universal e atemporal No momento em que transcorre a encenação o grupo partilha com o público um fato tal que não se pode definir onde se localiza e em que tempo acontece Avental fala desse homem simples dessa mulher simples das nossas mães das nossas avós Então o repertório do Grupo Ninho tá muito é quer dizer a poética do Grupo Ninho tá muito atrelada a 31 Link do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo gravado no Teatro SESC Patativa do Assaré em 2009 httpswwwyoutubecomwatchvokYRGx2GHE 59 às pessoas é às pessoas cearenses às pessoas simples é personagens da vida cotidiana mesmo RAMARE 2020 Esta é uma das peculiaridades de Avental todo sujo de ovo além disto neste espetáculo os sujeitos também são tipos universais a mãe o pai o filhofilha e a madrinha que nesta história possuem nome e características próprios mas representam seus estados e contradições do humano em suas relações ou funções sociais provocando no público uma aproximação crítica ao tencionar dialeticamente essas relações Figura 2 Imagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo em cena Joaquina Carlos Rita Cidade e Edceu Barboza Fonte Fotógrafo Samuel Macêdo Seja pela maturidade cênica que o espetáculo conquistou ou mesmo pelo misto de sua poética e temática este trabalho revelou ao grupo a possibilidade de chegar aos mais longínquos vilarejos e cidades da região do Cariri bem como para grandes metrópoles do país Avental Todo Sujo de Ovo foi o espetáculo que oportunizou ao Grupo Ninho participar do Projeto Palco Giratório Circuito 2015 Registro aqui esse dado por considerálo um marco na trajetória de aprendizagem e 60 amadurecimento de produção e gestão do grupo pois este projeto é a maior rede de circulação das artes cênicas do Brasil fazendo com que o teatro produzido nas mais diferentes e distantes regiões do país ultrapasse os limites regionais e se faça presente em outros territórios gerando um grande mapa da criação cênica brasileira Viver a experiência de circular o país com um recorte da produção teatral do Cariri nos impôs uma grande responsabilidade sabíamos que o olhar era não somente para o espetáculo ou grupo mas também para o estado região que representávamos Somando aí outro dado pois o Grupo Ninho foi o primeiro do interior do estado afora a região metropolitana de Fortaleza a compor a grade deste valioso projeto de circulação Pela grande teia gerada no âmbito da produção do grupo e o volume de trabalho que tivemos durante o circuito Palco Giratório as relações com as unidades e seusas técnicosas cronograma de viagens escalas de montagens e desmontagens contratos liberações de notas fiscais e recibos ensaios técnicos entrevistas ministrar oficinas intercâmbios com grupos locais das cidades que passamos por tudo isso esse projeto nos deu muito amadurecimento e ampliou nosso olhar para as relações dentro do campo da cultura Avental como segundo espetáculo do grupo a estrear já foi melhor pensado do ponto de vista da produção Seu projeto de montagem fora submetido ao edital Mecenas do Ceará 2008 e aprovado porém como dito dada a inexperiência dosas integrantes do grupo e de profissionais que trabalhassem com captação de recursos via dedução fiscal não conseguimos captar e a produção se deu mais uma vez em forma de autoinvestimento O grupo assumiu os gastos com cenário figurino para na sequência ser reembolsado Isto ia acontecendo na medida em que o espetáculo gerava renda através de vendas de sessões para instituições Aqui penso sobre os modos outros de articular financiamentos para as criações do grupo que não apenas via editais já que como temos observado o quanto essa política tem gerado precariedades haja vista suas absurdas burocracias e descumprimentos de prazos o que interfere diretamente nas dinâmicas de criação não se trata de não os acessar mas não os ter como única possibilidade de mover a produçãogestão Foi ainda nesse momento ou seja em 2009 que aconteceu a terceira montagem do grupo Charivari32 texto da dramaturga Lourdes Ramalho potiguar 32 Link do espetáculo Charivari gravado na Praça da Matriz da cidade de Mauriti em 2010 httpswwwyoutubecomwatchvelJqUYky78t651s 61 radicada na Paraíba A partir do desejo do diretor Duílio Cunha então professor do Departamento de Teatro da Universidade Regional do Cariri Urca que nos convidou a realizar a montagem e expõe a seguir os motivos para a escolha Por muitas razões o texto Charivari da dramaturga Lourdes Ramalho que mesmo premiado nacionalmente era tido como inédito nos palcos parecia o mais adequado para promover esse encontro de diferentes vivênciasexperiências no novo palco que se armava na rua para mim para os integrantes do Ninho e para outros artistas da região que logo tratei de chamar de aninhados CUNHA 2015 Aqui o grupo que tinha menos de dois anos se desafiou a experimentar a rua como espaço de atuação O processo nos aproximou ainda mais da Tradição Popular do Cariri como nos aponta o diretor Duílio Cunha 2015 Das muitas lembranças do rápido processo de montagem que poderiam ser recuperadas aqui nesse curto espaço do texto depoimento vou destacar como foi rica e produtiva a descoberta do brincante de cada atoratriz em meio aos antigos prédios da histórica cidade de BarbalhaCE como a cada vivência do ponto de vista individual e de forma coletiva aqueles corpos iam se descobrindo brincantes no diálogo com o texto de Dona Lourdes com as referências da cultura popular da região e com o espaço da rua Como revela Duílio diretor do espetáculo o grupo começou a amadurecer seu trabalho de pesquisa de atoratriz que em seu terceiro espetáculo buscou se relacionar com a interface atoratrizbrincante tendo como base a tradição popular da região do Cariri Elizieldon nos lembra um pouco sobre o campo poético de Charivari no seguinte trecho da entrevista realizada com o mesmo é o primeiro espetáculo de rua do Grupo Ninho de Teatro É um diabo disfarçado de padre cai dentro de uma igreja e um morcego faz amizade com o diabo Uma viúva chora feliz o cortejo fúnebre do defunto Uma beata apaixonada pelo padre e um sacristão gay Esses são os personagens de cunho hilariante que fazem um desfile público convidando quem está próximo a participar dessa narrativa É um espetáculo que passeia nas tradições carnavalescas medievais com pitadas dos elementos do teatro contemporâneo DANTAS2020 Para a montagem de Charivari o grupo contou em termos de produção com investimento do diretor Duílio Cunha Assim como nos espetáculos anteriores esse investimento é sempre feito em forma de empréstimo que com a circulação do 62 espetáculo e a renda gerada com esta é feito o reembolso Aqui o grupo já apontava para um olhar mais ampliado de sua produção pois já dialogava mais diretamente com as instituições locais que trabalham com arte e cultura no sentido de negociar sessões de seus espetáculos assim Charivari estreou com sessões vendidas para o SESC das unidades de Crato e Juazeiro do Norte Figura 3 Imagem do espetáculo Charivari em cena a atriz Zizi Telecio e Elizieldon Dantas Fonte Fotógrafo Cristóvão Teixeira Com Charivari o grupo aprovou o primeiro projeto de circulação através do extinto edital de patrocínio do Banco do Nordeste com projeto chamado Sessão Dupla do Grupo Ninho de Teatro Pudemos circular pelo Cariri cearense pernambucano e paraibano apresentando além de Charivari o Avental todo sujo de ovo No segundo semestre de 2009 o grupo tinha três espetáculos em repertório nos oficializamos como pessoa jurídica criamos a Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas que teve seu registro em 26 de junho do mesmo ano É uma pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos com caráter artístico cultural social e educacional A associação é uma espécie de guardachuva que faz a 63 representação jurídica de todos os contratos e convênios firmados pelo grupo Ainda neste ano o grupo teve seu segundo projeto aprovado desta vez no VI Edital de Incentivo às Artes da SecultCE na categoria de manutenção de grupo Com o recurso desta aprovação o grupo alugou sua sede a Casa Ninho33 que passou a ser também representada juridicamente pela associação Devido aos atrasos nos repasses dos recursos a sede só pode ser efetivamente aberta em 2011 adiante detalho essa história Nesse biênio 20092010 observo que a partir do momento que nos transformamos em pessoa jurídica os acessos aos espaços de trabalho e editais de incentivo se tornaram mais frequentes Isto me faz compreender que esse estatuto jurídico permitiu que as possibilidades se ampliassem pois este facilitou os trâmites jurídicos que acompanharam as contratações sendo inclusive uma saída para a diminuição de impostos outro ponto que nos fez pensar em se tornar associação pois os contratos através de pessoa física acarretam uma série de impostos com soma sempre maior Alerto ainda que tornarse uma pessoa jurídica é um passo importante e que expande possibilidades mas que carrega todo um arsenal de trabalho no trato com as legislações que regem a natureza legal de uma associação É uma tática de acesso que abre possibilidades mas nos impõe correr atrás de uma alfabetização jurídica Consideramos a abertura da sede como um momento que redimensionou o trabalho do grupo sob diversos aspectos como veremos adiante seja na criação ou na forma de administrar produzir e gerir o grupo como aponta um dosas integrantes quando nos fala sobre a importância da Casa Ninho A casa abriu em 2011 ela é muito importante para o grupo porque é lá onde a gente tem as reuniões temos os ensaios Depois que abrimos a casa temos quatro espetáculos e foi através dela se a gente não tivesse a sede talvez tivesse só com três espetáculos no repertório Charivari Avental e Bárbaro que foram criados antes da casa mas temos Jogos na hora da sesta O menino fotógrafo e A lição maluquinha e agora o Poeira Eu acho que você ter uma sede pra um grupo é muito importante porque é onde se tem o processo de colaboração de equipe DANTAS 2019 33 Link do vídeo de imagens da Casa Ninho produzido para Campanha Amigos da Casa httpswwwyoutubecomwatchv2gEkLdDoc14 64 Uma sede artística se faz importante para o grupo na medida em que amplia as possibilidades de produzir seus espetáculos seja na criação ou na promoção destes bem como de ampliar as relações com a produção e gestão da sede como nos revela Sâmia Ramare 2019 quando nos aponta que A Casa Ninho ela é aberta ao público nossos programas são sempre de acessibilidade ao público tanto no que diz questão ao preço do ingresso a gente tem um projeto chamado PQP Pague Quanto Puder O grupo sempre apresenta nesse projeto e alguns outros grupos que às vezes vão apresentar na Casa Ninho compõem a grade querem apresentar nesse projeto Os que não querem é cobrado valores populares de dez inteira e cinco meia E já houve casos de serem cobrados um preço um pouquinho mais alto do que esse mas sempre valores acessíveis Outros grupos quando pedem o espaço da Casa Ninho seja pra ensaiar ou pra apresentar também é muito acessível a gente pede só no caso de ensaios produtos de limpeza e uma contribuição pra água e no caso de apresentação de espetáculo é uma diária de vinte reais um preço simbólico e dez por cento da bilheteria A questão da gestão eu acho assim que a gente foi aprendendo durante o tempo porque como é uma casa e é dividido para sete pessoas a gente foi aprendendo que cada um tinha que dar o seu máximo e que nenhum é patrão de ninguém ao contrário nós somos patrões de nós mesmos E hoje eu vejo muito organizada essa questão porque a gente sabe que tem um dia de pagar as contas a gente sabe que precisa manter os espetáculos ativos pra manter a casa já que a gente não tem nenhum subsídio do governo e a gente vai cavando essas possibilidades Então foi tudo aprendendo e como eu entrei já tinha uma coisa organizada eu vim para somar essa organização Através da fala de Sâmia podemos observar como o grupo vem se organizando em termos administrativos e de gestão com a casa e como praticamos cotidianamente as demandas de trabalho para gerar a sustentabilidade Seja no aspecto da manutenção financeira ou na distribuição de funções internas aqui percebemos a maneira coletiva e compartilhada da gestão da casa que é autogerida pelosas integrantes do grupo ou seja nós mesmos criamos as diretrizes e as executamos Assim a autogestão torna todosas produtoresas e gestoresas da Casa evidenciando um valioso aspecto na trajetória do grupo todosas osas integrantes partilham das construções e decisões coletivamente de modo que a polifonia se faz mais uma vez aplicada dentro da nossa formação de grupo Esses detalhes das relações de trabalho e como estas reverberam em práticas de produção e de gestão esmiuçarei em subcapítulo mais à frente debatendo como o grupo foi se reinventando 65 a cada novo desafio para produzir e gerir a Casa de maneira autossustentável já que o incentivo direto e de longo prazo do poder público seja municipal estadual ou federal não existem Figura 4 Imagem da Casa Ninho registro da primeira reforma em maio de 2011 Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Quando entramos numa casa de arquitetura antiga de pronto sabemos sua divisão sala corredor quartos cozinha banheiro e quintal Imaginemos que assim seja a Casa Ninho não pela sua arquitetura em si pois ela é um galpão que foi dividido em diferentes espaços que analogamente podemos pensálos como esses cômodos mais familiares A partir daqui o cotidiano do grupo passa a ser nesta Casa que como diz Celso Junior a casa é um ninho para o teatro do Cariri quando de sua passagem pelo Crato para ministrar oficina de dramaturgia pelo Sesc Em 2011 já na Casa Ninho iniciase o processo de montagem do espetáculo O Menino Fotógrafo34 com encenação de Cecília Maria35 Essa nova montagem se 34 Link com trecho do espetáculo O Menino Fotógrafo gravado no Teatro do Sesc Patativa do Assaré em 2012 httpsyoutubejpkgYl2suS4 35 Professora Adjunta do Departamento de Teatro no Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Regional do Cariri URCA desde 2009 Doutora em Artes pela Universidade Federal 66 deu através do mesmo edital de manutenção que possibilitou o grupo abrir sua sede dentro das ações propostas no projeto intitulado Casa Ninho além do aluguel e custos da sede a manutenção previa a montagem de um novo espetáculo ainda que o aporte financeiro do edital não fosse suficiente para as duas ações naquele momento optamos por propor prospectando uma aprovação e assim buscar possibilidades internas e externas para que as duas ações ocorressem Figura 5 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade Zizi Telecio Fonte Fotógrafa Nívia Uchoa Do diálogo e parceria com a Cia de Teatro Engenharia Cênica36 nasceu O Menino Fotógrafo com processo criativo que durou um ano entre pesquisa e montagem com estreia em janeiro de 2012 Esse encontro ocorreu através do interesse do grupo em pesquisar como se dava a metodologia da criação colaborativa Cecília Maria trouxe sua experiência em criação de dramaturgia na sala de ensaio de Minas Gerais UFMG em 2017 na linha de pesquisa Arte e experiência interartes na educação Mestra em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia UFBA em 2009 na linha de pesquisa Poéticas e processos de encenação Especialista em ArteEducação pela Pontifícia Universidade Católica de Minhas Gerais PUCMINAS em 2008 Bacharela em Artes Cênicas com habilitação em Direção Teatral pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia ETUFBA em 2000 Encenadora Atriz Dramaturga e Produtora Teatral da Companhia de Teatro Engenharia Cênica Líder do Grupo de Pesquisa Laboratório de Criação e Recepção Cênica LaCrirCe CNPqURCA Desenvolve pesquisas em processo de criação artística em processo de ensinoaprendizagem do teatro e formação de professores de teatro Plataforma Lattes Acesso em jul 2020 36 Companhia de teatro criada em 2005 por Cecília Maria e Luiz Renato 67 por meio de improvisos e dos princípios do processo de criação colaborativa Da Engenharia também tivemos a presença do atoriluminador Luiz Renato que além de atuar no espetáculo criou a iluminação do mesmo Era mais um desafio pois até então nunca tínhamos criado dentro dos procedimentos do processo colaborativo entrar na sala de ensaio sem texto apenas com uma ideia sintetizada nas palavras vida e morte e no título O menino fotógrafo foi pedagogicamente instigador já que até então tínhamos experimentado processos criativos que embora não se fixassem nos textos os tinha como base Outro dado relevante desta parceria se deu em vivenciar outros lugares da criação teatral se relacionar com outros corpos e vozes isso nos fez rever o nosso lugar e refletir nosso fazer através do pensamento e da presença doa outrooutra pois como nos lembra Cecília Maria 2012 O teatro é uma arte do encontro que gera encontros entre ideias artistas criações ensaios experimentações e público pois acontece apenas presencialmente dentro do tempo e do espaço estabelecidos para a cena Nesta perspectiva o primeiro encontro aconteceu a Engenharia Cênica e o Grupo Ninho de Teatro dois coletivos de artistas resolveram montar no decorrer de 2011 um espetáculo Nosso processo durou um ano inteiro de descobertas experimentações troca de experiências e em colaboração criamos O Menino Fotógrafo Começamos o processo no dia 13 de janeiro e depois de um ano no dia 13 de janeiro entregamos a nossa criação para a plateia Como numa poesia Cecília Maria nos lembra do teatro como a arte do encontro nos dando espaços para gerar possibilidades de nos retirar do plano confortável conduzindo nosso corpo para se ampliar através de novas habitações e contatos Assim podemos afirmar através dos estudiosos da dança João Fiadeiro e Fernanda Eugenio 2012 p66 que O encontro só é mesmo encontro quando a sua aparição acidental é percebida como oferta aceite e retribuída Dessa implicação recíproca emerge um meio um ambiente mínimo cuja duração se irá aos poucos desenhando marcando e inscrevendo como paisagem comum O encontro então só se efectua só termina de emergir e começa a acontecer se for reparado e consecutivamente contra efectuado isto é assistido manuseado cuidado refeito a cada vez interminável Encontramos neste processo a partir da presença de outro grupo um ambiente tão desafiador quanto pedagógico pois a troca estabelecida nos fez pensar ou 68 mesmo repensar nossas práticas ocorrendo nestas um aprendizado particular para cada uma dosas envolvidosas num processo colaborativo como nesse desenhar e inscrever uma paisagem dito por Fiadeiro e Eugenio Para efeito da compreensão do processo colaborativo Antônio Araújo nos diz que A expressão processo colaborativo começou a ser usada na segunda metade da década de 90 dentro de um contexto de retomada do movimento de teatro de grupo na cena paulistana O retorno desta perspectiva grupal que aparece quase como um contraponto à hegemonia do encenador no teatro brasileiro da década anterior vai aos poucos ganhando uma dimensão nacional Não que os grupos tenham deixado de existir após a década de 70 entre outros coletivos importantes e atuantes nesse período poderíamos destacar o Grupo Galpão o Imbuaça o Ponka ou ainda o Ói Nóis Aqui Traveiz mas o forte da produção nacional orbitava em torno dos encenadores São desse período montagens importantes de Gerald Thomas Ulysses Cruz Bia Lessa Gabriel Vilella entre outros 2002 p 57 Ao longo de um ano nos desafiamos colaborativamente em diversos procedimentos práticos em sala de ensaio desde improvisos contações de histórias como disparadores para criar dramaturgias treinamento com facões inspirado na Dança de Severino Brabo da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto bem como uma vivência na Romaria das Candeias em Juazeiro do Norte Alguns atoresatrizes assumiram outras funções dentro das criações para além de atuar Eu criei o figurino e a identidade visual Luiz Renato a iluminação Cecília Maria assumiu encenação e dramaturgia nas práticas dessa montagem observamos novamente as noções doda artista polifônico MALETTA 2016 presentes nas criações do grupo O Menino Fotógrafo é um espetáculo de dramaturgia fragmentada com ecos de realismo fantástico sendo costurado a partir das memórias de dois fatos históricos ocorridos no Ceará o massacre do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto37 e os 37 O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto foi um dos movimentos messiânicos que surgiu nas terras no CratoCE A comunidade era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro José Lourenço Gomes da Silva conhecido por beato José Lourenço No Caldeirão osas romeirosas e imigrantes trabalhavam em favor da comunidade e recebiam uma quota da produção A comunidade era pautada no trabalho na igualdade e na Religião José Lourenço trabalhava com sua família em latifúndios no sertão da Paraíba Decidiu migrar para Juazeiro do Norte chegou em 1891 com uma cruz nas costas à procura dos pais saídos da Paraíba movidos pela fé no Padre Cícero Ao conhecer o Padre este ganhou sua simpatia e confiança Em Juazeiro conseguiu arrendar um lote de terra no sítio Baixa Dantas em Crato Com bastante esforço de José Lourenço e os demais romeiros em pouco tempo a terra prosperou e eles produziram bastante cereais e frutas Diferente das fazendas vizinhas na comunidade toda a produção era dividida igualmente CORDEIRO 2010 69 Campos de Concentração da Seca de 187738 As práticas religiosas encontradas no Cariri especialmente os ciclos de romaria em Juazeiro no Norte foram fonte de inspiração para a encenação O Menino Fotógrafo com suas imagens que povoam as ruas praças e igrejas como luzes de velas imagens de santos quebradas terços e muitas fitinhas coloridas Figura 6 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Zizi Telecio e Elizieldon Dantas Fonte Fotógrafa Nívea Uchoa Neste momento tendo o grupo aprovado projeto em edital que contemplava manutenção do mesmo o espetáculo O Menino Fotógrafo se tornou o primeiro a ser montado com recursos oriundos de incentivo público da SecultCeará sua produção fora compartilhada com a Cia de Teatro Engenharia Cênica mudando a forma como até então vínhamos produzindo e fazendo a gestão dos espetáculos sempre através de investimento próprio 38 Uma das maiores secas da história do Ceará que durou por três anos seguidos matando mais de quinhentas mil pessoas Muitos cearenses na tentativa de sobreviver seguiam em retiradas para cidades como Aracati Baturité e Fortaleza Na capital muitas frentes de trabalho são criadas para amenizar as mortes pela fome e doenças causadas pelas aglomerações Muitos cearenses migraram para Amazônia e cidades do Sudeste MIRANDA 2013 70 Os custos do espetáculo foram divididos entre os dois grupos que além dos gastos com visualidade comunicação gráfica investimos na compra de refletores e uma mesa de luz simples já que a Casa Ninho recémaberta não dispunha ainda de nenhum equipamento de iluminação Esse foi mais um modo de fazer que nos colocou em uma ação tática pois os dois grupos se juntaram para viabilizar a criação que neste caso tem ainda que pouco ampliado os investimentos que foram feitos com o que previa o projeto de manutenção pois como explicado os recursos eram baixos considerando a manutenção da sede e os custos de produção do espetáculo Ainda neste ano ou seja em 2012 estreamos o espetáculo Jogos na Hora da Sesta39 texto escrito por Roma Mahieu após quatro anos desde a montagem de Bárbaro e Avental que nenhuma integrante do grupo voltava a função de encenação Em Jogos na Hora da Sesta Jânio Tavares voltou a encenar Isso é importante para pensar o cotidiano do grupo e os seus acionamentos criativos bem como de gestão e produção o revezamento de funções ou o trânsito nestas revela um dado que certamente potencializa a experiência do grupo em sua manutenção pois sabemos que a formação de uma equipe é complexa e requer recursos maiores se pensarmos no aspecto da remuneração Esse revezamento foi se dando de modo orgânico a partir das necessidades que vão surgindo na caminhada nos fazendo muitas vezes nos aventurar em funções que não são expertises mas que com o tempo passamos a dominálas e isso supre tais necessidades voltarei nesse ponto Em Jogos na Hora da Sesta crianças brincam de imitar seus pais ditadores enquanto estes fazem a sesta Neste jogo de imitações são reveladas a crueldade que se esconde atrás da busca por poder Ao brincar de imitar comportamentos e ritos sociais do mundo adulto tocando em temas como a sexualidade religiosidade morte justiça relações de gênero as personagens crianças revelam a violência que o homem criou em suas relações cotidianas para dar sustentação ao seu lugar de poder 39 Link do espetáculo Jogos na Hora da Sesta gravado na Casa Ninho em 2012 httpswwwyoutubecomwatchvt35jlPiSOIEt512s 71 Figura 7 Imagem do espetáculo Jogos na Hora da Sesta em cena Elizieldon Dantas e Rita Cidade Fonte Fotógrafa Nívia Uchoa Neste espetáculo as personagens embora sejam crianças são interpretadas numa camada que rompe com a infantilização destas Esta opção poética para o trabalho de interpretação dosas atoresatrizes ajuda a revelar para oa espectadora que no processo de educação o comportamento tem grande e significativa importância pois oa adultoa sem perceber colabora para a construção de comportamentos das crianças fazendo destas pequenosas adultosas que acabam reproduzindo as diversas faces e jogos de manipulação e poder ou ainda contribui para a repetição de seus gestos quando estas tornaremse maiores Sobre Jogos Francisco integrante do grupo nos diz eu acho que todos os espetáculos são muito potentes ahn todos os espetáculos do grupo É inclusive eu fico até com com uma certa ahn eu não sei se se é pena mas assim um sentimento de que alguns espetáculos não deveriam ter parado como por exemplo Jogos na Hora da Sesta que é um um espetáculo que eu sempre curti muito assistir e quando me disseram que ele não tava mais ativo eu até tomei um susto porque é um espetáculo muito potente muito potente mesmo assim um um dos espetáculos do repertório do grupo que eu mais gosto Então eu eu achei eu sempre acho uma pena ele não tá mais mais apresentando É na realidade to todos os espetáculos né quando a gente para é a a gente a gente 72 tem esse sentimento né de certa forma mas eu acho que é bem isso mesmo assim cada espetáculo ele tem um um um tempo assim de vida é quando a gente percebe que que chegou a hora então então é saudável parar mesmo é apesar de que eu de que eu acho que o Jogos na Hora da Sesta não deveria ter parado mas enfim FRANCIEUDES 2020 O quinto espetáculo do repertório do grupo ainda que não esteja mais ativo como dito acima fora produzido com recursos de caixa diferenciandose dos três primeiros que precisaram de empréstimos para tal e do quarto que contou em partes com recursos de um edital Em seu quarto ano o grupo já tinha estruturado uma forma de administração financeira organizando em caixas específicos os recursos de cada espetáculo e ainda para investimentos internos na produção e manutenção da sede Esta reserva acontece com a dedução de dez por cento de todo recurso que entra no caixa geral do grupo isso é feito antes do pagamento dosas atoresatrizes desta porcentagem metade é destinada para o caixa do espetáculo que foi apresentadocontratado e a outra para o fundo de manutenção da Casa Ninho Desta forma o grupo tem conseguido fazer a manutenção do repertório bem como de parte dos gastos com a sede Figura 8 Espetáculo Jogos na hora da sesta em cena Edceu Barboza e Rita Cidade Fonte Fotógrafo Cristovão Teixeira 73 Neste momento já com quatro espetáculos em repertório as oportunidades de trabalhos se expandiram mais o que permitiu essa reserva e investimento com recursos internos Observemos aqui uma mudança que é fruto da organização do grupo pois se tivemos três produções que necessitaram de empréstimos dosas integrantes em Jogos o grupo já demonstrou uma maturidade em sua gestão financeira sendo certamente o que o possibilitou de cobrir os custos de sua quinta montagem estando na ocasião com quatro anos de existência No ano seguinte 2013 o repertório do grupo que já contava com cinco espetáculos todos adultos ganhou sua primeira peça feita para o público infanto juvenil A Lição Maluquinha40 inspirada na novela A Professora Maluquinha de Ziraldo A partir do desejo da atrizeducadoraprodutoragestora Rita Cidade quando cursou a disciplina Processo de Encenação III do Curso de Licenciatura em Teatro da URCA de que o repertório do Grupo Ninho contemplasse um espetáculo voltado para crianças e adolescentes já que temos uma carência de montagens infantis na região bem como no país A Lição Maluquinha fez um desenho de aula crítica das relações instituídas no núcleo gestor de uma escola alunoa professora diretora denunciando as relações de poder que interferem e ferem o processo autônomo de formação escolar Revelou ainda como a prática de uma pedagogia progressista encontra obstáculos dentro do sistema educacional brasileiro e nos ambientes escolares ao tencionar normas fixas Seguindo a mesma tática de montagem de Jogos o primeiro espetáculo infantil do grupo também teve sua produção custeada com recursos do próprio grupo O que nos leva a crer que mesmo não tendo incentivo direto de nenhum órgão público o grupo consegue de forma autônoma gerar fundos para a continuidade de suas atividades Como veremos adiante essa continuidade se dá a partir das diversas ações que o grupo empreende e pelas parcerias que tem feito com instituições locais com grupos e artistas 40 Link do espetáculo A Lição Maluquinha gravado no Teatro do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri em 2013 httpswwwyoutubecomwatchvJRhmdh2LBD8t352s 74 Figura 9 Espetáculo A Lição Maluquinha em cena Sâmia Ramare Fonte Fotógrafo Júlio César Após a estreia d A Lição Maluquinha o grupo resolveu investir na pesquisa através do projeto Memória de Mestres a mímeses corpórea dos mestres da tradição popular do Cariri aprovado no edital 2014 do Porto Iracema das Artes Escola de Criação e Formação do Ceará41 No segundo semestre deste mesmo ano o grupo iniciou a pesquisa que foi dividida em dois campos o poético e o técnico O primeiro se deu pela aproximação com os mestres da arte popular do Cariri o segundo pela orientação do Grupo Lume Teatro42 de CampinasSão Paulo através de Jesser de 41 O Porto Iracema das Artes é a escola de artes do Governo do Estado do Ceará ligada à Secretaria da Cultura e gerida em parceria pelo Instituto Dragão do Mar IDM Inaugurada em 29 de agosto de 2013 nestes seis anos vem se consolidando como a Escola de formação e criação artística do Ceará Sediada em Fortaleza conta com três esferas formativas Programa de Formação Básica Cursos Técnicos e Laboratórios de Criação Nos âmbitos do Programa de Formação Básica e dos Cursos Técnicos trabalha prioritariamente com jovens de idades entre 16 e 29 anos estudantes ou ex alunos da rede pública com ensino fundamental completo Os Laboratórios de Criação trabalham com faixa etária a partir de 18 anos e têm como foco a qualidade estética dos projetos apresentados A Escola tem como objetivo funcionar como um fértil espaço de trocas e experiências estéticas ancoradouro de ideias e pensamentos Ver mais em wwwportoiracemadasartesorgbr PORTO IRACEMA entre 2013 e 2020 42 O LUME é um coletivo de sete atoresatrizes que se tornou referência internacional para artistas e pesquisadoresas no redimensionamento técnico e ético do ofício de atoratriz Um espaço de multiplicidade de visões que refletem as diferenças impulsos e sonhos de cada ator Ao longo de 75 Souza e Carlos Simioni que durante cinco meses fizeram orientação teóricoprática para a aquisição da técnica da mímeses corpórea O grupo viveu um importante momento no aspecto da pesquisa de linguagem e treinamento de atoratriz pois a pesquisa possibilitou que mergulhássemos de forma mais estruturada nos elementos que até então estávamos exercitando nos processos poéticos fosse na composição de espetáculos ou no trabalho de pesquisa corpovoz dosas atoresatrizes Com as tutorias do Lume Teatro passamos por todo uma pesquisa corporal e vocal o que expandiu nossa consciência em torno das nossas corporeidades enquanto compreender e localizar de forma técnica suas potencialidades Durante a pesquisa tivemos encontros intensos em sala de trabalho pois nossos corpos precisavam estar minimamente preparados para a composição de figuras via mímeses corpórea essa técnica foi a base de criação para um experimento cênico que fazia uma homenagem ao saber e fazer dos mestres e mestras da tradição popular do Cariri A partir dos procedimentos partilhados por Jesser e Simioni passamos a nos aproximar dosas mestres e mestras partilhando o cotidiano destesas numa escuta cuidadosa e expandida de suas memórias43 Noutra etapa da pesquisa iniciamos as experimentações no corpo e voz a partir das vivências nas casas e terreiros dosas mestres e mestras neste momento pude perceber o quanto a consciência do corpo e voz faz diferença no processo de composição tendo a mímeses como técnica pois ela nos exige um rigor detalhado da composição Esse detalhamento é fundamental para que em seguida o corpo se torne mais fluído dentro da composição fazendo assim uma espécie de transição do corpo mais técnico para um mais orgânico dentro da composição estudada Como resultado desta pesquisa nasceu em 2016 após quase um ano e meio de continuidade da mesma que iniciou no Porto o espetáculo Poeira44 que de forma poética nos apresentou o olhar e narrativas dos atores e atrizes para alguns mestres quase 30 anos tornouse conhecido em mais de 26 países tendo atravessado quatro continentes desenvolvendo parcerias especiais com mestresas da cena artística mundial Criou mais de 20 espetáculos e mantém 14 em repertório com os quais atinge públicos diversos de maneiras não convencionais Com sede em Barão Geraldo Distrito de Campinas SP o grupo difunde sua arte e metodologia por meio de oficinas demonstrações técnicas intercâmbios de trabalho trocas culturais assessorias reflexões teóricas e projetos itinerantes que celebram o teatro como a arte do encontro Ver mais em wwwlumeteatrocombr LUME TEATRO 201 43 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa sudeste httpswwwyoutubecomwatchvfG2Cwshxqwt191s 44 Link do espetáculo Poeira gravado na Casa Ninho em 2016 httpswwwyoutubecomwatchvl4 Qikjq6gY 76 da cultura popular do Cariri cearense Esse olharaproximação se deu mediado pelos métodos de pesquisa do Grupo Lume Teatro entremeado pela relação de afeto ou admiração artística que os atores e atrizes tinham ou estabeleceram com osas mestres e mestras da cultura popular do Cariri Figura 10 Espetáculo Poeira em cena Monique Cardoso Fonte Fotógrafo Samuel Macedo Outra base do espetáculo é a memória seja dosdas mestresmestras ou dosas atoresatrizes ele é narrado para o público num jogo cênicopoético fazendo um trânsito entre atoresatrizes e mestresmestras É nesse espaço da escuta oral das narrativas que o espetáculo se constrói Benjamin nos lembra que A narrativa que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão no campo no mar e na cidade é ela própria num certo sentido uma forma artesanal de comunicação Ela não está interessada em transmitir o puro emsi da coisa narrada como uma informação ou um relatório Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirála dele Assim se imprime na narrativa a marca do narrador como a mão do oleiro na argila do vaso Os narradores gostam de começar sua história com uma descrição das circunstâncias em que foram informados dos fatos que vão contar a seguir a menos que prefiram atribuir essa história a uma experiência autobiográfica 1994 p 205 77 Esse cruzamento de memórias45 escutadas e compartilhadas documenta cenicamente o quanto dosdas mestresmestras estão presente em nossas vidas nos dando a oportunidade de nos encontrarmos com nossas ancestralidades46 pois que são verdadeirosas guardiões do tempo e da sabedoria que os atravessam A todo instante nos víamos mergulhadosas em suas histórias e através de suas narrativas fomos afetadosas como Benjamin nos escreve acima por suas experiências e biografias que se cruzam a todo instante com as histórias que nos contam Aliás para o Poeira são as descrições de suas vidas que tecem as dramaturgias do espetáculo O espetáculo a pesquisa e montagem foram e continuam sendo permeados pelo sentido de experiência tanto que escrevo sobre o grupo também a partir dessa noção Portanto precisávamos nos pensar e estar abertos para aprender e apreender a sabedoria dosas mestres e mestras eu lembro que cheguei em sua casa como numa espécie de gelo sólido cheio de minhas vaidades prepotências e chalaças achando que sabia de alguma coisa e aos poucos eu fui me liquefazendo Este trecho eu falo no espetáculo e diz sobre esse processo de desconstrução para mergulhar na poesia ancestral ocorre nesse encontro um acordar de minhas memórias ancestrais me fazendo lembrar que minha avó é minha primeira mestra narradora Para estar poroso e se deixar liquefazer Larrosa nos indica que O sujeito da experiência é um sujeito alcançado tombado derrubado Não um sujeito que permanece sempre em pé ereto erguido e seguro de si mesmo não um sujeito que alcança aquilo que se propõe ou que se apodera daquilo que quer não um sujeito definido por seus sucessos ou por seus poderes mas um sujeito que perde seus poderes precisamente porque aquilo de que faz experiência dele se apodera Em contrapartida o sujeito da experiência é também um sujeito sofredor padecente receptivo aceitante interpelado submetido 2015 p 28 Esse sujeito da experiência que derrubado se permite foi o estado que todosas vivenciaram nesse tombamento nos percebemos aprendizes e também aprofundamos as relações que temos com a tradição popular desde Bárbaro O espetáculo abriu muitos espaços para o grupo sobre ele Fagner nos fala o seguinte 45 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa sul httpswwwyoutubecomwatchvzADsBulmPEkt5s 46 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa centrooeste httpswwwyoutubecomwatchvMWhD2PZw8T4t78s 78 também me emocionei todas as vezes que eu vi Poeira sobretudo todas as ve todas as vezes que eu tomei a caipirinha do espetáculo E foi o espetáculo que me aproximou das manifestações da cultura popular né porque desde quando o trabalho tava ainda no início do processo de pesquisa pela minha relação com Joaquina pela minha proximidade com ela ela acabou me levando pra me levando na casa de mestra Naninha né E foi um grande presente pra mim porque foi a primeira vez que eu tive uma vivência mais próxima com uma mestra de cultura e também fiquei encantado com ela com com as histórias que ela contou ali com a forma como ela dizia as coisas com as frases que ela dizia e tudo revelava uma sabedoria muito grande É pelo que eu lembro até então eu não tinha eu não tinha a prática de ver as apresentações dos grupos de tradição popular é eu não entendia a importância da tradição popular e foi a partir do espetáculo Poeira que a minha perspectiva sobre os grupos de tradição popular sobre os mestres e mestras de cultura é foi transformada Hoje eu tenho uma relação de respeito mesmo e de de de admiração de apoiador e de frequentador dos eventos de tradição popular FERNANDES 2020 Percebemos o quanto Poeira expandiu espaços para o grupo em muitas frentes47 a fala de Fagner como integrante e espectador nos dá esse indicativo do quanto o espetáculo despertou seu olhar para a tradição e como esta nos atravessa e nos conduz para um lugar de aprendizagem que passa antes de tudo pela simplicidade e generosidade destes guerreiros Cariris De fato todo o processo de criação do espetáculo Poeira se deu como um atravessamento num chão de experiências ou melhor nos revelou o quanto a sabedoria popular tem para nos ensinar48 pois a experiência é antes a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque requer um gesto de interrupção um gesto que é quase impossível nos tempos que correm requer parar para pensar parar para olhar parar para escutar pensar mais devagar olhar mais devagar e escutar mais devagar parar para sentir sentir mais devagar demorarse nos detalhes suspender a opinião suspender o juízo suspender a vontade suspender o automatismo da ação cultivar a atenção e a delicadeza abrir os olhos e os ouvidos falar sobre o que nos acontece aprender a lentidão escutar aos outros cultivar a arte do encontro calar muito ter paciência e darse tempo e espaço LARROSA 2015 p 25 47 Link de entrevista sobre o espetáculo Poeira no Itaú Cultural São Paulo httpswwwyoutubecomwatchvxeSV97Qja6k 48 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa norte httpswwwyoutubecomwatchvb8lsmWUSg9ot364s 79 Com este espetáculo e todo o seu processo de pesquisa o grupo pôde experienciar aspectos de sua territorialidade e ancestralidade através do saber e fazer dosas mestres e mestras da Cultura Popular do Cariri que são verdadeirosas guardiõesguardiãs e narradoresas de nossa memória cultural e também artística Só suspendendo o tempo foi possível para o grupo parar para escutar nosso próprio chão e assim voltar nossos corpos para criar a partir de nosso lugar de pertencimento Poeira nos deu assim a possibilidade de amadurecer nossa poética cênica a partir da relação com nossa própria cultura e território Figura 11 Espetáculo Poeira em cena Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Monique Cardoso Sâmia Ramare Rita Cidade Zizi Telecio Fonte Fotógrafo Samuel Macedo A produção da última montagem do grupo se deu através de uma ajuda de custos da Escola Porto Iracema cada projeto recebeu um valor para investir nos custos do experimento 2014 que encerrava a participação na escola Já pensando na montagem futura investimos em figurinos e objetos de cenário que ficaram na montagem 2016 desta feita não tivemos que investir diretamente recursos do grupo 22 A Produção Cultural e Teatral na experiência do Grupo Ninho de Teatro 80 Em seus estudos sobre a produção teatral André Carreira 2007 num recorte para o estado de Santa Catarina define um perfil de produtora que está diretamente ligado ao cotidiano de trabalho do grupo Seu pensamento como já dito pode ser em partes observado dentro da dinâmica de produção do Grupo Ninho de Teatro pois mesmo este tendo uma parceria nos projetos maiores com uma produtora externa esta se dá de forma dialógica ou seja constróise uma metodologia de trabalho na qual o grupo está completamente inserido mantendo sempre uma relação direta com osas integrantes Esta parceria tem se dado com a Ato Marketing Cultural produtora inaugurada em 2009 a Ato nasceu da nossa inquietação e paixão por cultura arte e comunicação Com a vontade de conectar artistas produtores e empresários somamos a nossa experiência como comunicadores e produtores para realizar projetos culturais ATO MARKETING CULTURAL 2018 A relação de produção compartilhada com a Ato Marketing Cultural nasce desse desejo de conexão e soma de experiências como registrado no site da mesma Nossas parcerias iniciaram em 2013 quando a partir de diversos encontros e diálogos sobre as duas naturezas de pensar articular e praticar a produção e a gestão culturalteatral se estabeleceu tal relação Desse encontro surgiu a primeira edição do planejamento estratégico Sobre este e outros aspectos dessa junção escrevo no porvir da escrita A partir da experiência do Grupo Ninho pondero que um olhar atento para a produção e a gestão bem como o planejamento repercutem diretamente na qualidade assim como na expansão dos trabalhos do grupo pois estrutura os objetivos e busca concretizálos Logo percebo a importância da presença da função produção bem como da gestão pois elas garantem a organização do grupo sendo ainda um olhar direto para o que está por vir no que tange ao seu planejamento alimentando a continuidade dos processos de modo amplo internamente gerando ânimo e funcionalidade e consequente sustentabilidade A partir da fala da integrante Rita Cidade presente desde a formação inicial do grupo podemos compreender a importância do olhar da produção e da gestão nas ações bem como a forma como essa presença foi acontecendo na experiência do Grupo Ninho 81 Em 2011 também através de uma inscrição em um outro edital a gente abre a Casa Ninho que é um espaço cultural que a gente coordena e essa é que vai trazer mais funções mesmo porque é necessário abrir a casa mantêla do ponto de estrutura da casa do ponto de vista de limpeza é preciso manter a dinâmica dela no sentido de que a gente faz os trabalhos da gente os ensaios as reuniões as apresentações e ainda recebe e muito trabalhos de outros coletivos então tudo isso requer muita atenção e muito gerenciamento disso tudo Então aos poucos a gente foi descobrindo habilidades e desenvolvendo capacidades a partir dessas habilidades que a gente já tinha pra poder gerenciar tudo isso e hoje são sete trabalhos sete espetáculos teatrais e mais a casa pra gente gerenciar e mais todos os processos de editais e projetos aprovados e os processos anualmente da parte financeira declaração de imposto de renda por exemplo e outras coisas nesse sentido Então eu acho que hoje nós somos oito pessoas fora os parceiros que trabalham junto mas do Grupo Ninho mesmo somos oito Então eu acho que hoje depois de muitas vivências a gente está vivendo um momento mais tranquilo do ponto de vista de assumir essas funções porque no meu caso por exemplo eu tenho habilidade natural de organização financeira e as vivências até hoje se a gente começar de 2008 quando começou a ter esse movimento financeiro pequeno mas já tinha são dez anos quase de experiência as vivências foram me obrigando a ir entendendo um pouco mais das coisas do financeiro não é necessariamente pra mim a coisa mais prazerosa por exemplo falando de mim particularmente mas eu sei que eu tenho essa habilidade e que posso contribuir com o grupo nesse sentido CIDADE 2019 Ainda dentro de nossa experiência como relatado acima a função produçãogestão de certo modo passa por todos e todas como já desenvolvi no início deste capitulo já que tudo é refletido e construído coletivamente gerando uma espécie de assembleia que debate e amadurece toda e qualquer decisão a ser tomada Mas isso não torna dispensável a presença do produtora gestora pelo contrário este acaba fortalecendo seu repertório para as consequentes demandas e negociações O que é bem provocante nesse movimento é nos compreendermos como esses produtoresas e gestoresas Nesse entendimento todos nós do grupo transitamos entre práticas artísticas produção e gestão Aqui me aproximo dos estudos do artista e professor Ernani Maletta quando este nos apresenta o entendimento dosdas artistas que imprimem diferentes funções em suas práticas poéticas o que ele chama de artista polifônico Com isso quero dizer que ao me perceber sujeito desta escrita entendo que esse trânsito de funções em nosso cotidiano de trabalho nos torna polifônicos num exercício múltiplo de artistasprodutoresasgestoresas como nos diz Maletta que 82 a natureza polifônica do Teatro afirmo que cada artista teatral que é certamente uma das vozes da partitura teatral deveria apropriarse das diversas outras vozes responsáveis pelos vários discursos que acontecem simultaneamente no ato teatral as vozes dos atores do autor do diretorencenador do dramaturgo do diretor musicalsonoplasta dos preparadores vocal e corporal do cenógrafo do figurinista do iluminador do caracterizador e de todos os demais criadores do espetáculo Assim ao incorporar vários outros discursos ao seu próprio discurso apropriandose deles o artista cria para si um discurso polifônico 2016 p67 Nas páginas seguintes a percepção dessas muitas vozes que perfazem nossas práticas irá aparecer nos dando mais uma vez o entendimento que nos revezamos em muitos papeis quando da criação e também em produtoresprodutoras e gestorgestoras mesmo que o autor não tenha grafado a função produçãogestão afirmo que ela compõe com a mesma importância essa polifonia que pulsa em nossas criações e ações de grupo A partir dessa perspectiva no Grupo Ninho essas relações com a função produçãogestão se dão de modo um tanto diferente de outras experiências que observo em gruposartistas locais visto que nem todosas se envolvem nas funções da rede que se cria dentro da produçãogestão49 já que somos todosas produtoresas e gestoresas no sentido que planejamos as etapas e nos dividimos entre elas indo então para sua execução O planejamento está intimamente ligado à forma como o grupo se organiza administrativamente tendo como já dito o planejamento estratégico como um momento em que ocorre uma espécie de alinhamento de todo o processo que este viveu está vivendo e viverá sendo esta a função e importância do planejar estratégias e desenvolver táticas como veremos a seguir 23 O Planejamento estratégico como meio de organização do grupo Com sete espetáculos em repertório e uma sede para administrar gerir e produzir o Grupo Ninho de Teatro começou a refletir de forma mais ampla sobre os caminhos e táticas de produção e gestão Internamente começaram a surgir vozes que denunciavam essa necessidade pois a quantidade de trabalho administrativo a agenda de ensaios e criação demandas de produção e gestão revelavam a urgência 49 Devido já ter explicado as funções de produção e de gestão nos seus contextos práticos de trabalho e como estas têm pequenas diferenças opto por escrevêlas conjugadas por compreender que no Grupo Ninho o exercício destas se fazem misturadas denotando que de fato é complexo a sua divisão nos seus exercícios 83 do grupo pensar formas de sustentar a base trabalho até então gerado sem abrir mão da criação Neste contexto é que em 2013 o grupo é convidado pela Ato Marketing Cultural para experimentar desenvolver um Planejamento Estratégico para o grupo Este nos conduziria a refletir como até então estamos nos organizando e sustentando nossos projetos e como pretendíamos a médio e longo prazo manter as ações do grupo A parceria é então firmada tendo mais diretamente a presença de Monique Cardoso que só depois passa a integrar efetivamente o grupo à frente dos trabalhos do planejamento Sobre a importância do planejamento ela nos narra a grosso modo se eu fosse dividir esse planejamento estratégico em etapas eu diria que ele começa num diagnóstico que passa inclusive pelas subjetividades pelos afetos pelos pelos desgastes pelos pelas conquistas e ele se estrutura num plano de ação que envolve todas as esferas desse desse negócio desse empreendimento é a comunicação é a infraestrutura projetos gestão financeira é enfim todas as as esferas que envolvem esse negócio é também pode haver um plano de captação de mobilização de parcerias dentro desse plano de ação né E e outras e outras coisas também outros procedimentos outras perspectivas podem surgir a partir desse plano de ação E por último é uma um monitoramento e avaliação desses resultados né É preciso estabelecer metas é prazos e meios de verificação pra que a gente possa ter um entendimento se aquelas se aqueles objetivos estão sendo alcançados se estão sendo alcançados dentro do prazo se estão sendo alcançados é dentro dos recursos disponíveis e planejados pra isso e isso é fundamental pra isso é fundamental durante esse processo de de criação conjunta desse plano de ação que sejam estabelecidas metas exequíveis metas realistas com um pouco de ousadia mas também considerando todos os fatores internos externos os contextos políticos econômicos para que também não se gere uma frustração diante dos planos CARDOSO 2020 O planejamento estratégico é um tanto e mais que Monique diz acima ele reverberou de forma potente em nossa organização pois quando ela chegou para desenvolvêlo nós já estávamos praticando alguns elementos que ele propõe tal como o organograma que já era bem definido respeitando as afinidades de cada umuma Através da aplicação de dinâmicasprocedimentos como narrar o histórico de vida e artístico projetar desejos internos desabafar insatisfações fomos a partir daí descobrindo onde estávamos situadosas enquanto produção e gestão de que forma estávamos fazendo nossos investimentos não só financeiro mas sobretudo na maneira de mover as bases sustentáveis do grupo e da casa 84 O planejamento é uma ferramenta de trabalho que deve ser analisada como um processo que vem para estruturar instituições e grupos mas atinge seus objetivos se for construído de forma participativa e envolvendo todas as partes O desenvolvimento coletivo de processos de planejamento é possível pela própria característica do ambiente de formação social dos vários setores da cultura CUNHA 2020 p 2 Como ferramenta o planejamento provoca e propicia uma sacudida na estrutura e permite que muita roupa suja seja lavada e é nesse processo que muitos ajustes de convívio e de trabalho são feitos envolvendo todosas pois nem sempre ocorre de conseguirmos abrir todas as questões e tensões que nos passa no dia a dia do grupo Como bem pontua acima Maria Helena Cunha o ambiente cultural é favorável para esse tipo de procedimento mas não são todos os grupos que de fato estão dispostos a retirar o pó que vai se acumulando E é preciso que se retire para que se construa minimamente um ambiente social de convívio fluido ético e com respeito às individualidades bem como à coletividade pois a autora outra vez nos aponta que O planejamento é um processo de reflexão em que os participantes se colocam como indivíduos e como grupo diante de todos É um processo de abertura para falar sem receio dos seus desejos de suas ideias e de suas questões A riqueza do processo de planejamento está na sua capacidade de ser participativo de levantar os desejos individuais que só fazem sentido quando são comuns a todas e a todos garantindo a cooperação e a incorporação do coletivo Precisamos estar dispostos e ter a liberdade para lidar com mudanças e aperfeiçoamentos constantes mediante os resultados das avaliações pois cada ação ou projeto desencadeia novas demandas que exigem respostas dos gestores e provocam uma contínua adaptação e reformulação do próprio planejamento CUNHA 2020 p 23 Assim elencamos pontos frágeis e fortes e através destes traçamos metas em diversas linhas infraestrutura da casa ninho temporadas do repertório circulações locais regionais e nacionais definição de funções projeções de quanto cada integrante desejava receber mensalmente do grupo Refletimos como se deram as escolhas de produção de todos os espetáculos até então montados selecionando os pontos positivos para aplicar em próximas montagens A experiência na realização dos planejamentos estratégicos nos faz sempre rever toda a trajetória do grupo até então o que nos permite atualizála e nos lança 85 questionamentos para repensar práticas nos fazendo por vezes ampliar horizontes e romper limites pois nos aponta onde estão os pontos fracos ao passo que revela os pontos fortes A partir dessa cartografia do cotidiano do grupo nos lançamos para o porvir como num movimento de repaginação não deixando escapar as oportunidades que nos chegam e também as que podemos construir pois não podemos deixar de considerar que o planejamento vem para ampliar as possibilidades de criação ao passo que organizamos os recursos financeiros humanos e técnicos É preciso lembrar ainda que planejar é estar disposto e disponível para escuta e mudança como já se espera da dinâmica grupal Esta prática ao tempo em que nos proporciona uma organização e nos possibilita projetar a sustentabilidademanutenção também nos desafia a sempre sentar novamente e replanejar se assim for necessário É sempre preciso estar atento e forte como diz a letra de Caetano e Gil para não perdermos em nenhum segundo as oportunidades de sermos e agirmos de modo tático e o planejamento nos potencializa nesse estado de prontidão Nessa busca de nós mesmos através do planejamento estratégico foi que se iluminou onde cada integrante do grupo estava mais focado internamente em termos de trabalho burocrático seja no âmbito da produção ou na gestão do grupo e da Casa Ninho Ao passo que cada umuma revelava em que encontrava satisfação dentro das demandas do grupo me parecia que o lado burocrático se tornava mais leve pois em verdade percebo que mesmo sendo complexo pensar essas questões bem como seu ato desperta para compreensão e consciência da importância que cada setor tem para a condução do grupo e sede Com isso o respeito pelo trabalho doa outroa se amplia e o que por hora era peso se transforma em prazer isso reflete diretamente nas relações de trabalho dentro e no avesso da cena como aponta os estudos de Avelar 2013 pois ainda que o dia a dia de grupo nos conduza por vezes à incerteza nos fazendo perder o fio coletivo é nessa hora que segundo Fiadeiro e Eugenio precisamos Suspender o regime da urgência criando as condições para uma abertura desarmada e responsável à emergência Substituir a expectativa pela espera a certeza pela confiança a queixa pelo empenho a acusação pela participação a rigidez pelo rigor o escape pela comparência a competição pela cooperação a eficiência pela suficiência o necessário pelo preciso o condicionamento pela condição o poder pela força o abuso pelo uso a manipulação pelo 86 manuseamento o descartar pelo reparar Reparar no que se tem fazer com o que se tem E acolher o que emerge como acontecimento Reencontrar naquela matéria simples e quotidiana em relação à qual aprendemos a nos insensibilizar a matéria da secalharidade reencontrar aí nesse comparecer recíproco toda uma multiplicidade de vias contingentes para abrir uma brecha Uma brecha para a re existência 2012 p 67 Mais uma vez recorro a João Fiadeiro e Fernanda Eugenio para pôr lupa na natureza incerta de um projeto coletivo que no caso brasileiro tais incertezas se aprofundam a nível perigoso pois como sabemos temos uma aguda ausência de políticas públicas para a arte e cultura em todos os níveis de nossa federação O que observo ainda que tenhamos esse lamentável corredor histórico enquanto promoção do fazer cultural como dever do estado é que ainda que nessa tempestade estando no meio dela nos reinventamos seguidamente para sair de tais incertezas para construir outras possibilidades de certeza através dessa célula de cultura que é o grupo de teatro nesse caso a certeza quer dizer resistência Neste ponto mais uma vez recorro a Ailton Krenak e este nos lança a pergunta De que lugar se projetam os paraquedas ele diz que é do espaço dos sonhos Sonho como ação geradora de onde olhamos para estas com a sensibilidade e o cuidado que olhamos para nós mesmos como Um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra dura o lugar do sonho Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode se abrindo para outras visões da vida não limitada O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar 2019 p 66 Compreendo esse lugar dos sonhos de que nos fala Krenak como a ação de lançar paraquedas nessa dura realidade que vivemos como grupo porém estamos exercendo e movendo sonhoação que principia no que eu faço de mim que reverbera no outro no que fazemos de nós grupo e reverbera na sociedade fazendo disparar um movimento micropolítico que sem dúvidas tenciona os nossos entornos numa mudança dos estados duros Isso nos faz atentar para um não se render ao que é ditado pelas macropolíticas O grupo é então a materialidade de sonhos de um outro humano e sociedade possíveis Essa resposta pode ser encontrada no seu cotidiano e nos seus modos de se organizar como venho escrevendo até aqui que se desloca dessa forma que 87 temos enfrentado nos diferentes lugares de poder regidos em sobremaneira pelas gestões e instituições públicas Aqui Sâmia nos lembra de alguns projetos desenvolvidos pelo grupo que dão essa medida da materialização de sonhos em modos de fazer que ganham teia social uma micropolítica que se dá justamente por meio da transformação das oportunidades mínimas em táticas de sustentabilidade olhando pra história do Grupo Ninho esses doze anos a gente já conseguiu é aprovar vários projetos e executar vários projetos importantes é o primeiro projeto assim que eu lembro de de grande importância foi o projeto de de um curso livre de iniciação teatral né que eu pude fazer e desde aí o meu o meu contato com o Grupo Ninho ele aperta os laços eles apertam né que trazer vários profissionais do Nordeste é pra ministrar aulas pros artistas da região do Cariri tendo em vista que aqui é não assim a gente tem cursos é na tem curso de teatro na universidade mas quando você vai ver assim cursos mesmo de formação pros artistas da região nossa nossa região é muito carente Então o Grupo Ninho sempre é pensa em projetos que vão olhar pra pra sociedade né que que vão olhar pros artistas da região que vão olhar pras pras pessoas É então a gente consegue ver aí na nesses doze anos é projetos que sempre olharam né assim que as pessoas puderam ter contato puderam aproveitar Por exemplo o Sessão Dupla que é eu eu escuto muito falar desse projeto que eu acho encantador que é você circular com dois espetáculos olha que loucura circular com dois espetáculos por escolas por lugares inimagináveis assim com condições mínimas de se apresentar e iam lá apresentavam Lembro também de um projeto que que nós fomos aprovados da Petrobrás que a gente ia em lugares assim que não tinham nada fomos numa escolinha que não tinha nada levamos nossos refletores e apresentamos o Avental pra uma escola e pra pra pessoas que várias nunca tinham assistido um espetáculo teatral ai me emocionei desculpa É então e eu fui privilegiada por um projeto do Grupo Ninho né é então eu vejo a importância desses projetos é a forma como eles são pensados e executados Agora a gente tá com um projeto que é a Escola Carpintaria da Cena que você tem sete é módulos de artes cênicas de teatro e sete módulos com mestres e mestras da cultura popular do Cariri que as pessoas têm oportunidade de ver e ouvir é de fazer coisas de criar né você depois que passa por um um projeto tão extenso o quanto de material que você tem no seu corpo então os projetos do do Grupo Ninho eles são é muito importantes pra região do Cariri pra nós pra nós que fazemos o Grupo Ninho é sempre que a gente pensa num num num projeto é é pensando também nos desdobramentos que eles vão vão ter sabe RAMARE 2020 Ser grupo nessa perspectiva da resistência e reinvenção é desafiador cujo desafio se faz e desfaz a todo instante numa gangorra pois ser grupo sendo grupo é entrega de poucosas já que ser grupo nos impõe desconstruções e estas pedem 88 que olhemos para dentro de nós em um constante giro de nos repensarmos individual e coletivamente Essa atitude é cara para muitosas porém geradora de possibilidades transformadoras para os que corajosamente caminham em direção a ela fazer girar em movimento oposto ao que nos mina as forças Aqui me refiro a Eugênio Barba 1994 quando nos diz que pensamos constantemente que ser um grupo de teatro pressupõe uma unidade gerada pela semelhança de seussuas integrantes quando em verdade buscase uma reciprocidade de pares através das diferenças equacionadas de maneira equilibrada entres estes E no Ninho somos muito diversos pássaros que agregam diferente olhares e posicionamento na arte e na vida nascidos numa escada temporal que vem dos anos 60 70 80 e 90 o que nos permite uma mistura em muitas frentes que nos imprime força para se mover e gerar Ninhos no Ninho A construção de um Ninho em suas pequenas particularidades se faz com a junção de pequenos ramos que em muitos voos se compõe em ninho Nesses voos em suas idas e vindas ao local escolhido os passarinhos aqui artistas foram amadurecendo a feitura do que aqui partilho como uma experiência diante de tantos outros ramos e ninhos e locais escolhidos para fazer gerar teatros espalhados pelo mundo Em seguida nos próximos subcapítulos adentro nos cômodos da Casa Ninho e escrevo sobre estes como se fosse uma das muitas visitas que recebemos na casa para falar sobre a existência dela 24 A casa em movimento Neste momento descortino para oa leitora o dia a dia de trabalho na Casa Ninho como nos organizamos para gerir e produzir a sede do grupo em sua dinâmica como espaço cultural Como venho apontando as ações táticas de pronto registro da Casa Ninho como sede são uma tática do grupo Ela é espaço de expansão extensão e também de pedagogia na medida que nos impulsiona a aprofundar as práticas de gestão e produção artística e de projetos No entendimento de Certeau 1998 o espaço está para as construções de deslocamento e agenciamentos de modos diferentes de agir no cotidiano criando espaços nos lugares de poder ou seja agindo como desordenamento do que o poder impõe estando para isso oportunamente dentro dele 89 Figura 12 Casa Ninho em temporada com a Alysson Amâncio Cia de Dança Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Ao nos lançarmos em 2011 para viver a experiência de manter uma sede não tínhamos a noção ampla do que estava por trás dessa escolha mas ao passo que fomos vivenciando um mundo foi sendo revelado e junto com ele vieram as dificuldades desafios e aprendizados como nos detalha essa fala a casa ninho é aconteceu em 2011 uma necessidade que a gente já sentia mesmo tendo poucos anos de existência três anos de existência Pra mim a princípio eu acreditava que ia ser um lugar onde a gente ia guardar os nossos troços e onde a gente ia ensaiar não ia mais precisar ficar dependendo de outros espaços e passando por sufocos que a gente já tinha passado em muitas instituições de ter marcado pauta pra ensaiar porque tinha apresentação no dia seguinte e precisava ensaiar e chegar e essa pauta ter sido desmarcada sem ser nem avisado nem nada enfim né essa 90 situação que a gente já conhece bem Pra mim eu achava que ia ser isso e ao mesmo tempo também que isso pra mim era um alivio só isso pra mim era um alivio um lugar pra guardar a troçada e um lugar pra poder ensaiar tranquilos Ao mesmo tempo pra mim também era assustador ter que gerenciar esse espaço e que eu achava que ia ser uma coisa pequena né olhando hoje assim olhando pra trás isso que eu imaginava que a casa ninho seria era muito pequeno E mesmo assim mesmo sendo algo pequeno eu tinha muito medo quando a gente aprovou eu acho que sofri mais do que eu me alegrei quando a gente aprovou o projeto que deu a possibilidade da gente alugar um espaço E aí com o passar do tempo eu fui descobrindo um outro mundo de possibilidades Primeiro tem um parênteses aí que na mesma época em que a gente inaugurou a Casa Ninho eu tinha passado numa seleção do Sesc e eu tinha meio que optar ou viver a casa ninho cem por cento ou ir pro Sesc e viver a Casa Ninho no máximo cinquenta por cento porque eu sabia o que era o trabalho do Sesc principalmente por causa de Edceu que teve lá no início de Avental teve que sair inclusive de Avental achava que ia sair de vez por conta do trabalho do Sesc das exigências de disponibilidade pro Sesc Então eu sabia muito bem o que era E aí eu fiz a opção de viver a Casa Ninho cem por cento e não me arrependo de jeito nenhum e então tendo feito essa opção eu vivia diariamente dentro daquele espaço e aí eu fui percebendo que ele era muitas outras coisas muitas muitas mesmo do que eu imaginava a princípio E aí foi se tornando um lugar onde a gente podia apresentar também não só ensaiar foi se tornando um lugar pra outras pessoas pros outros artistas pros outros coletivos Foi se tornando um lugar pras outras linguagens foi se tornando um lugar pro público foi crescendo foi ampliando o trabalho foi aumentando e as possibilidades de retorno também E aí hoje eu vejo como um espaço incrível que a gente consegue manter as duras penas mas que é muito saudável ter esse espaço pra todo mundo pra nós artistas pra nós do Ninho principalmente pra nós artistas mais especial ainda é claro pro público pra quem nunca nem pisa na casa ninho ela continua tendo importância pra quem não sabe nem que ela existe ela tem uma importância muito grande CIDADE 2020 Por tudo que Rita nos diz penso que empreender um espaço artístico no Brasil e mais especificamente no interior do Ceará é antes de tudo um gesto político cultural justamente pela falta de uma política pública que se volte para a valorização das artes no Brasil Quando esse cenário se dá em regiões à margem as dificuldades se ampliam ainda mais pois sabemos que existe uma valorização maior para determinados centros geográficos É certo dizer que esse discurso parece passado dada a abertura mínima dos últimos anos para regiões historicamente desfavorecidas mas quem vive a realidade diretamente sente essa dificuldade de que as ações ainda que pontuais cheguem até aquelesas que não estão em centros que podemos ler também como centros de poder 91 É um fato que a região nordeste do Brasil sofre por décadas uma profunda ausência de investimentos quando se trata do campo da cultura esta se aprofunda ainda mais nos revelando um quadro em que muitos grupos artísticos acabam por encerrar suas atividades dada a tamanha escassez de recursos públicos em suas três esferas para projetos artísticos culturais Entretanto a despeito dessas dificuldades mora a resistência e a reinvenção estes são uns dos combustíveis para que experiências de grupos com trabalho continuado consigam romper as barreiras impostas pela ausência de políticas públicas para cultura geografia e economia e seguir construindo significativas experiências de artecultura Assim contribuem para que cidades de médio e pequeno porte tenham acesso à arte configurando um mapa de verdadeiros agentes culturais do país fazendo das dificuldades desafios para se reinventar e seguir no ofício de fomentar arte por todos os cantos país afora pois cultura é sempre viva e brota em todos os terrenos que tenham gente cultivandoa gente cultura é o que alimenta nossa alma é o que enche os nosso bucho minha gente assim nos diz a sabedoria de Mestre Raimundo Aniceto e me leva a pensar nessas sustentabilidades que se constroem a partir de outras centralidades tão batalhadas para se manterem na gira Sustentabilidade somos todas e todos nós assim todos os dias a gente tá pensando de como se manter em pé Tem uma uma frase que eu acho incrível que é o desafio é manterse de pé e é mesmo é mesmo porque é a gente na semana tem oito dias e a gente trabalha esses oito dias não tem feriado não tem final de semana não tem datas comemorativas até nos nossos próprios aniversários estamos trabalhando estamos pensando tanto a sustentabilidade desse grupo a sustentabilidade de cada um e cada uma de nós quanto a sustentabilidade da Casa Ninho Então é todo mundo se pegando se pegando no no sentido de dar as mãos pra manter isso de pé mesmo sabe É desde limpar a Casa Ninho até vender os ingressos desde escrever um projeto até postar ele no no correio desde lidar com todas as situações é burocráticas que as instituições nos colocam E nos colocam no sentido de às vezes é as vezes como prova mesmo sabe E aí a gente tem que ser artista tem que ser burocrata tem que ser uma multiplicidade de coisas em uma só pessoa RAMARE 2020 Na cidade de Crato o Grupo Ninho de Teatro vive a realidade que cabe à cidade enfrentando dificuldades várias para conseguir manter seu projeto de grupo e de sede de pé mas como já dito é da dificuldade que brotam possibilidades de expandirse fazer brotar driblar obstáculos é no desequilíbrio que encontramos um 92 eixo que ajuda a nos equilibrar do precário surgem descobertas Digo isso mas compreendo que tudo que Sâmia partilha acima como realidade que nós recriamos poderia ser equilibrado se o estado cumprisse seu papel na promoção de políticas que gerassem cidadania cultural para artistas fazedores e as gentes todas Desde a abertura da Casa Ninho intencionávamos que ela não fosse apenas uma sede para um grupo só isso seria fugir daquilo que um espaço cultural deve ser aberto a ocupação criação fruição em fluxo com o território Assim sedimentada como espaço de trabalhos administrativos criativos e pedagógicos a casa segue sendo arrumada para acolher ao Ninho e aninhar outros tantos coletivos e artistas que queiram ocupála Tem sido assim ao longo de seus nove anos através de uma organização simples de pauta o espaço é compartilhado com quem queira ocupar seguindo pequenos acertos que se estruturam como uma administração e política de pautas e hoje a gente consegue ter nossa pauta organizada por exemplo tem as taxas que as pessoas contribuem o nosso ingresso é bem popular né assim a gente tem um programa desde 2014 que chama PQP Pague Quanto Puder então alguns espetáculos dos grupos que compõem fazem a gestão da Casa Ninho você pode assistir desde não pagar nada até pagar o valor que você puder né Os espetáculos que fazem temporadas na Casa Ninho sempre são a preços populares é a gente faz de tudo pras pessoas assistirem mesmo os espetáculos até porque na cidade não tem um espaço é de formação e fruição público né assim os teatros da cidade do Crato estão fechados é a gente fica muito triste com isso e a gente vê a importância é da existência da Casa Ninho né ela ela ultrapassa esse lugar privado RAMARE 2020 Quando a atividade não tem cobrança de ingressos o pagamento da pauta pode ser feito em forma de doação de produtos de limpeza e descartáveis que são usados para a própria manutenção da casa ou uma taxa que cubra os custos de consumo de energia elétrica água e internet Essas possibilidades de contribuição com a casa foram sendo construídas a partir de diálogos internos do grupo pois refletimos sempre o quanto as instituições geram burocracias para uma simples liberação de espaço com isso sempre buscamos simplificar ao máximo as relações com aqueles gruposartistas que procuram a Casa Ninho para realização de ensaios reuniões temporadas ou eventos artísticos diversos Nesse tempo de nove anos o Grupo Ninho e seus oito integrantes foram aprendendo como gerir um espaço que requer tantos cuidados estes são variados 93 passando pela limpeza burocracia de contabilidade pagamento de contas manutenção da estrutura física e equipamentos etc Não é uma equação fácil mas temos conseguido numa sempre reinvenção estruturar uma forma de produzir e gerir a Casa Ninho Essa equação para chegar num resultado precisa de muito trabalho em conjunto e de muito estudo como já venho pontuando até aqui o grupo soma suas expertises e aposta sempre na construção de espaços de trocas e parcerias sejam internas ou externas A Ato Marketing e Produção Cultural é um exemplo de parceria que tem ao longo desses anos contribuído para o gerenciamento de projetos maiores que o grupo desenvolve como já disse fomos construindo um método de trabalho em que o grupo é completamente inserido nos processos e decisões dos projetos isso tem se estabelecido como um fecundo espaço de aprendizagem e amadurecimento dos processos de produção e de gestão pois a Ato enquanto produtora com experiência de anos na área está sempre reciclando os métodos de gestão de projetos Figura 13 Casa Ninho após reforma Fonte Fotógrafo Samuel Macedo A Casa Ninho tornouse um espaço de alimento das artes cênicas sobretudo para as cidades centrais do Cariri o que conhecemos por CraJuBar Crato Juazeiro do Norte e Barbalha essas cidades têm limites territoriais mínimos sendo forte o fluxo entre elas Pela localização da casa o acesso do público é facilitado pois temos ao lado um terminal de ônibus o que torna mais acessível às pessoas que se 94 deslocam dessas outras cidades ou mesmo de bairros mais afastados do centro Sobre ser alimento para as artes cênicas e público em geral seja através da promoção ou da recepção Fagner complementa eu vou falar sob duas perspectivas da Casa Ninho primeiro enquanto público e segundo enquanto integrante da Casa Eu não sei dizer qual foi a primeira vez que eu fui à Casa Ninho que eu conheci a Casa Mas eu sei que eu frequentei os eventos da Casa desde de o princípio E no início foi por conta mesmo da relação de paixão pelo trabalho do Grupo Ninho mas depois foi porque a Casa se se transformou pra mim num lugar onde eu podia vivenciar a arte num lugar que me oferecia oportunidades que outros lugares não me ofereciam É pelo menos não da mesma forma né não com o mesmo aconchego receptividade é e que ao longo dos anos foi construindo em mim a sensação de fazer parte de alguma forma Esse sentimento de casa mesmo sabe Como o próprio nome do espaço já diz Se a Casa Ninho tivesse outro nome ainda assim ela não ia deixar de ser ninho de ser casa que é até meio redundante né mas é porque isso diz muito do que ela representa e eu tenho certeza que não é só pra mim Então são alguns anos enquanto sendo público sendo espectador dos eventos que acontecem na Casa E há um ano e meio né fazendo parte enquanto trabalhador mesmo do espaço É e parar pra olhar pra o que aconteceu em todo esse tempo refletir as vivências que a Casa Ninho me proporcionou me revela muita coisa Inclusive sobre quem eu sou hoje né porque porque se às vezes é a gente assiste a um espetáculo e sai provocado cheio de sensações né s ou seja aquele espetáculo ele teve um impacto na nossa vida por aí se pode calcular o que representa pra mim ter um espaço cultural próximo onde eu tenho a oportunidade de acompanhar de frequentar a programação cotidianamente ao longo de anos É o que eu vivi na Casa Ninho por exemplo tá muito mais nítido na minha memória é do que o que eu vi e ouvi enquanto conteúdo na escola por exemplo É esse é o o poder da arte né do teatro Ele ele pode ser muito mais transformador do que o ensino formal né FERNANDES 2020 Nessa fala Fagner aponta para o quanto a casa vem se estabelecendo como espaço de respiro para as artes cênicas do eixo central do Cariri sobretudo para a cidade de Crato que não tem nenhum teatro nem espaço alternativo mantidos pelo poder público A casa se torna assim um Ninho que acolhe o máximo que consegue os artistas principalmente das cênicas E para isso tem muita coisa que é mobilizada do ponto de vista de um trabalhador da Casa Ninho quando eu entrei no Grupo Ninho eu já eu já olhava pra Casa com um respeito muito grande né exatamente por conta dessa relação anterior que eu acabei de de falar um pouco E eu lembro que num num dos meus primeiros expedientes na Casa não lembro se foi o primeiro ou o segundo expediente eu tava sozinho varrendo o salão e teve uma 95 hora que eu parei assim no meio do salão e fiquei olhando o espaço e me vieram muitas sensações do tipo caramba não acredito que eu tô fazendo parte desse lugar né Que responsabilidade mas também que presente É saber saber que naquela tarde de terça feira a Casa tinha sido aberta por mim tava sendo varrida e cuidada por mim ia ser fechada por mim ao final do expediente E também a partir dali isso foi cada vez mais frequente e eu pude ir contribuindo efetivamente com a Casa Ninho né através do meu trabalho E e é uma relação de troca porque eu contribuo com a Casa mas eu recebo um aprendizado muito grande a partir disso Se antes como público eu já aprendia agora eu aprendo muito mais e tenho a oportunidade de crescer muito mais na vida mesmo em diversos aspectos a partir da minha atuação na gestão da Casa Ninho E de fato é muita responsabilidade é muito desafiador mas é necessário sabe Não tem como olhar pra Casa Ninho sem dizer que é um espaço necessário É a existência da Casa Ninho ela é fundamental porque da mesma maneira que ela me trouxe outro olhar pra vida outra forma de me colocar no mundo ela também tem feito isso com com mais uma ruma de gente e e isso só é possível claro porque tem toda uma equipe de profissionais de funcionárias e funcionários trabalhando diariamente ralando muito pra fazer esse espaço existir dia a dia FERNANDES 2020 Essa mobilização de que falo pode ser compreendida em dois momentos nas falas de Fagner num primeiro momento como espectador e em seguida como integrante do Ninho e portanto gestor da Casa Mobilizar no nosso caso passa pelas funções de cada membro do grupo dentro desse espaço estas foram sendo afinadas ao longo desses doze anos de grupo e nove de casa Hoje percebemos que cada integrante se dedica dentro da área que tem prazer e habilidade Por exercitarmos a autogestão e não termos recursos que nos assegure pagamentos fixos compreendemos a importância de cada umuma exercer as funções que lhes dê prazer e desperte o desejo por praticálas Como uma casaninho habitada por um núcleo família artistas as relações dessesas moradoresaspassarinhos passam por tensões necessárias mas estas evidenciam fatores que têm sua importância para a construção do cuidar de um espaço pois Todo mundo acaba assumindo alguma coisa de técnica dentro do grupo e ainda questões de produção do financeiro então é um modelo bem particular de administração mesmo Até hoje eu não vi isso em nenhum outro âmbito É interessante conversar com o contador que faz esses serviços para gente e perceber que pra ele isso é totalmente inusitado nenhuma outra empresa das muitas empresas no mínimo umas duzentas empresas que ele ajuda a administrar e nenhuma tem modelo parecido com o nosso aí a gente 96 sabe que os outros grupos de teatro tem No caso dele é porque ele só ajuda a administrar na contabilidade de um grupo de teatro então é isso a gente acaba também dentro das funções se ajudando Na produção é uma delas alguns assumem mais outros vão ajudando com as experiências que vão percebendo A gente também se permite vivenciar o trabalho como artista em outros lugares que não só no Grupo Ninho e aí a gente vai trazendo também as experiências de outros lugares pra dentro do grupo principalmente do ponto de vista da produção vai percebendo como é que os outros se produzem e vai compartilhando essas experiências Fora as oportunidades de compartilhar com outros grupos de teatro seja pessoalmente no contato com esses outros grupos seja grupos locais ou sejam grupos de outras cidades outros estados e até de outras regiões do país ou pela leitura de experiências de outros grupos CIDADE 2019 Acima Rita Cidade nos ilustra como acontece a dinâmica das funções de forma que percebemos que cada um se dedica a uma área mas todos se ajudam A própria Rita tem se dedicado a supervisionar as escritas de projetos seja no aspecto da escrita ou mesmo em pensar a unidade e coerência dos mesmos Sâmia Ramare se dedica à gestão financeira e produção executiva junto à Joaquina Carlos Elizieldon Dantas foca muito na função de ver como está a manutenção da estrutura física da casa desde a construção de mezanino para acomodação de cenários troca de lâmpadas queimadas fixação de placa de sinalização na entrada e também do material técnico de iluminação da casa pois está de forma direta nas montagens de luz dos espetáculos do grupo ou de outros que estejam apresentando na casa Francisco Francieudes além de compartilhar com Elizieldon todas as demandas citadas assume a gestão de projetos com foco nos sistemas e questões jurídicas Monique Cardoso se dedica às metodologias de produção e de gestão bem como em aplicar o planejamento estratégico periodicamente e monitorar o cumprimento das metas estabelecidas Fagner Fernandes tem exercitado a escrita de projeto e a gestão de comunicação do grupo criando conteúdo para as mídias digitais Eu tenho me dedicado à área da produçãogestão do grupo estabelecendo relações e contatos com instituições grupos e artistas para parcerias com o grupo e a casa pensando táticas de sustentabilidade organizando inscrições em editais de incentivo As práticas dessas funções e suas misturas são potencializadas pelas formações acadêmicas bem variadas também é Biblioteconomia História Letras Pedagogia Marketing Artes Visuais Direito e Teatro isso permite uma mistura de ideias de conceitos amplia as possibilidades de criação de trocas FERNANDES 2020 97 Acima faço uma descrição de funções por entender que soma à leitura dessa escrita ademais reitero que exercitamos todas essas misturadas e em rotatividade por isso dialogo com Ernani Maletta para dizer que somos artistas polifônicos ao exercermos as funções de atoratriz produtora gestora Como já dito as táticas que o grupo foi construindo para produzirgerir certamente devem existir em outras práticas de grupos mas que para esta pesquisa não busquei estabelecer esses comparativos Acredito que em um comparativo deste estudo certamente encontraremos outros coletivos que vivam experiências parecidas Se pensarmos a região do Cariri ou mesmo Ceará teremos grupos que definem uma integrante que assume a função de produção Nossa experiência é uma espécie de trabalho em rede e polifônico ninguém fica aquém do que acontece ainda que exista um que assuma diretamente todosas em alguma medida contribuem para a efetivação das demandas Por vezes essa forma de gerir causa morosidade mas sua grande valia está no quanto amadurecemos as decisões a serem tomadas no quanto nos encorajamos a assumir potencialidades deixando o lugar de passividade nos colocando ativamente como peças importantes para o crescimento do coletivo Isso certamente desperta o olhar crítico e cuidadoso de cada uma dosas integrantes é uma forma de gerir e produzir que rompe com a lógica mais voltada para o mercado sem que deixemos de ser também Ocorre neste processo todo um despertar para a desalienação do trabalho posto que cada umuma sabe de cada passo dado para que as ações se tornem efetivas Para que a Casa Ninho se mantenha aberta ao público ao longo da semana o grupo criou uma escala em que para cada dia uma integrante abre a casa para o atendimento ao público geral e também para as ações internas quando pautadas Esse revezamento mantém a casa aberta para receber o público durante toda a semana favorecendo desse modo um intervalo para cada umuma assumir outras atividades De segunda a sábado das quinze as dezoito horas a casa fica aberta e cada integrante deve fazer uma limpeza do espaço Além desse dia de limpeza feita por cada um no seu dia de trabalho é também pensado um dia para limpeza geral do espaço para este dia todosas integrantes pensam um dia comum em que todosas possam colaborar 98 A segundafeira é outro dia coletivo em que todosas se reúnem para pensar a produção e a gestão Aqui são deliberadas questões que passam por financeiro ocupação da casa via solicitações de pauta produção dos espetáculos dialogar sobre a contabilidade da associação verificar quais editais estão com inscrições abertas parcerias projetos em desenvolvimento e toda e qualquer questão que algum membro do grupo queira discutir Outro dia fixo de trabalho é a sextafeira reservada para que o grupo faça treinamentos e trabalhos criativos Este dia foi pensado como uma forma do grupo não ficar só focado nas demandas burocráticas gerando assim um equilíbrio importante nas relações entre criação e gestãoprodução Neste dia agendamos os encontros dos processos de montagem e pesquisas os treinamentos são voltados para a corporeidade atmosfera que está se desenhando para o espetáculo mas a base desse treinamento tem forte presença dos princípios de energia e presença que experimentamos com o Lume Teatro o corpo estado de alma trabalho com camadas para sair do eixo central despertar o abdômen para a geração e controle de energia para então gerar o estado de presença O grupo também tem como treinamento os brinquedos populares dança do coco maneiro o pau jogo de espadas dança cabaçal A Casa Ninho e o Grupo Ninho de Teatro hoje são administrados juridicamente pela Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas De natureza privada sem fins lucrativos a associação tece todas as questões burocráticas da casa e do grupo sendo ainda um suporte para as ações de formação oferecidas pelo grupo casa Ela está estruturada numa mesa diretora que tem as funções de presidente vicepresidente coordenadora financeira secretário e segundasecretária tais funções são assumidas pelos membros do grupo que mais uma vez se multiplicam em funções Essa dinâmica gera uma formação multifacetada para osas integrantes do grupo que acabam experimentando o campo artístico criativo e também o lado burocrático da produção e da gestão que uma experiência de grupo exige essas diferenças elas se somam assim num formam um bolo bem interessante é que que aflora aí uma potência não só no campo criativo mas também na parte de produção de gestão é a gente tá sempre discutindo conversando refletindo é até chegar em em um entendimento seja pra pra criar uma cena um produto artístico seja pra pensar um projeto seja pra articular algo de gestão voltado pro grupo ou pra Casa E é isso eu acho que que essa 99 essa diversidade que a gente tem de integrantes ela gera uma potência é muito bom pro grupo FRANCIEUDES 2020 Dessa diversidade dita por Francisco brotam as ideias que se transformam em programas ações e projetos para manter a casa e o grupo em dinâmica O grupo cria projetos fixos para acontecerem na casa esses às vezes se dão através de parcerias com outras instituições ou são de iniciativa do próprio grupocasa Projetos como Dia dDramaturgia PQP pague quanto puder CineNinho Mostra de Repertório do Grupo Ninho de Teatro Escola Carpintaria da Cena formação livre em teatro e tradição sobre este aprofundo adiante são projetos fixos que acontecem uns com continuidade outros com edições alternadas ou anuais Figura 14 Casa Ninho evento Chá com Clarice Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Esses projetos somados a outros que são aprovados em editais de incentivo bem como as parcerias com algumas instituições como Sesc Universidade Federal do Cariri UFCA Centro Cultural BNB e ainda a venda dos espetáculos do repertório do grupo participação em festivais circulações regionais e nacionais são ações que geram a sustentabilidade financeira do grupo 100 Figura 15 Nova estrutura de iluminação da Casa Ninho Fonte Edceu Barboza Nestes doze anos o grupo foi conseguindo pensar formas de gerar fundos para ir conseguindo manter seu projeto de gruposede A jornada não é fácil pois cada mês é um recomeço nos mantendo atentos para estarmos sempre pensando previsivelmente táticas que gerem entrada de recursos bem como a reserva e melhor administração destes pois como nos diz Certeau a tática depende do tempo vigiando para captar no voo possibilidades de ganho O que ela ganha não o guarda Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para transformar em ocasiões Sem cessar o fraco deve tirar partido de forças que lhe são estranhas CERTEAU 1998 p 47 Captar no voo para coletivamente se reinventar ainda que exista um cenário que nos imponha inúmeras dificuldades Sabendo disso buscamos força na noção de grupo que compreende sua função social e política operando estas através da linguagem teatral numa criação de sustentabilidade que passa antes de tudo por 101 nossas subjetividades e como nos colocamos em gerúndios na relação com tudo que nos cerca logo Sustentabilidade olhando pra nós pra mim é suor é suor é poeira é pó é teia de aranha é peso é estrada é privações é saudade é tudo isso misturado porque somos nós que sustentamos né acho que essa é uma realidade de todos os grupos do Brasil ou de quase todos talvez de todos ou quase todos da América Latina E não consigo ir além dessa fronteira não consigo pensar além dela não consigo entender como são os grupo na Europa por exemplo mas enfim a nossa realidade é muito parecida com a realidade de muitos outros grupos dos que a gente conhece dos que a gente se espelha dos nossos amigos e amigas é quem sustenta somos nós né e vai ser sempre nós porque ainda que a gente tenha parcerias ainda que a gente tenha convênios vai ser sempre nós vai ser sempre o nosso trabalho que vai sustentar esse projeto então é dessa forma que eu vejo CIDADE 2020 Contudo o grupo tem caminhado com a teimosia o suor o pó as estradas de quem acredita que o desejo de ser faz as coisas se moverem ser artista em contextos adversos ser resistente para romper as inúmeras dificuldades ser ético para crescer sem ferir o projeto coletivo E ainda seguir acreditando na grande força que arte tem na relação com a sociedade e suas possibilidades de melhorála 25 Como nascem os projetos A Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição O projeto da Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição é aqui partilhado para compreensão de como se estrutura esse projeto que também evoca a prática pedagógica do grupo e possibilita ao leitora o entendimento de como estruturamos político filosófico e pedagogicamente a escola bem como um projeto Despertadosas por toda a pesquisa que foi o Poeira e o quanto este ecoa ainda em nós a partir desse atravessamento afeto encontro com a tradição popular com as mestras e mestres e essa descoberta de que nós temos uma identidade cultural um território um pertencimento e uma memória que está aqui nós pensamos no projeto da Escola Carpintaria da Cena formação livre em teatro e tradição Como que o ator e a atriz no geral acessa à formação A formação base a formação técnica as primeiras oficinas no geral são acessadas a partir dosas pesquisadoresas teóricosas mestresas do teatro 102 europeu A partir dessa percepção começamos a refletir pedagogicamente inspirado em tudo o que foi o Poeira e problematizamos mais uma vez será se não é o momento já que a gente passou por todo esse processo do Poeira de pensar uma formação do ator e da atriz que tenha o Cariri como referência que tenha a tradição popular como uma referência de criação vocal corporal energia presença E foi com essas perguntas que pensamos que juntar a linguagem do teatro com a da tradição popular provocaria noa atoratriz pesquisadora participante o estabelecer de dois mundos A formação seria a construção coletiva de pontes gerando entremundos do teatro com a tradição sem jamais hierarquizar um ou outro O que seria o entremundos É a mistura da linguagem do teatro com a tradição que vai gerar esse entre E esse entre é uma descoberta doa pesquisador doa atoratriz a partir do despertar do olhar para a percepção do quanto essas linguagens dialogam e do quanto os fundamentos do teatro estão presentes na tradição popular e o contrário Essa percepção deve acontecer de forma autônoma e vivencial ou seja não deve existir uma imposição de nenhum dos mundos o aprendizado se faz no entre O pensamento pedagógico filosófico políticopoéticoestético da Escola Carpintaria da Cena é exatamente o que escrevo acima ele passa também pela decolonialidade pensar a formação doa atoratriz a partir do mundoterritório em que estes vivem articulando um programa que esteja relacionado às suas matrizes culturais e territoriais e com esse pertencimento ampliar o repertório na relação com outros mundos Então a escola tem no Cariri cearense e sua tradição popular a referência para repensar a formação doa atoratriz Deste pensamento nasce a Escola Carpintaria da Cena sua organização se dá a partir de quatorze módulos destes sete são de poéticas diversas de artistas professoresas e pesquisadoresas da cena e sete mestras e mestres da tradição popular de várias manifestações Lapinha Reisado ManeiroPau Jogo de Espadas Nesses módulos de 20ha cada osas pesquisadoresas vão percebendo no corpo o que na dança do Reisado gera no corpo que nos treinamentos teatrais também despertam mas por outros métodos A energia e a presença que o Jogo de Espadas gera no corpo é uma energia e presença que são buscadas quando realizamos um treinamento corporal na sala de ensaio dentro dos treinos da linguagem teatral 103 Então começa o corpo a entender o entre o que tem de teatro na tradição e tem da tradição no teatro e a relação nunca é de desmedida enquanto linguagem elas se retroalimentam o tempo inteiro sem se negar A tradição alimenta o teatro o teatro alimenta a tradição no caso pensando osas pesquisadoresas dentro desse processo Estes vão vivenciando esses 14 módulos que acontecem no espaço da Casa Ninho e também nos terreiros dosdas mestres e mestras como mais uma camada de aprendizagem da escola que passa pela vivência antropológica do território A Escola Carpintaria da Cena é fruto dessa pesquisa que começa em 2014 na Escola Porto Iracema das Artes e que gera o espetáculo Poeira Esse projeto de escola é resultado de todas essas questões até aqui postas e de toda experiência que o grupo viveu Observamos como um projeto se bem definido enquanto objeto e métodos de desenvolvêlo pode revelarse potente e se desdobrar em variados microprojetos ou mesmo provocar ramificações como é o caso da escola O Grupo tem estabelecido essa prática quando pensa em seus projetos pensar o rio e suas margens para construir uma terceira tendo antes vivido as beiras São várias veias de um rio que não para de correr porque está sempre em transformação e vai nos possibilitando outras veias A gente entra no rio para pesquisar pega um desvio como tática para montar um espetáculo e mais outro para criar uma escola Dentro do cotidiano de grupo tudo que temos estudado problematizado a partir da pesquisa que gerou o Poeira e a Escola Carpintaria tem amadurecido muito o nosso olhar para refletir a partir de nossos espaços e nossas presenças nestes Do chão do Cariri olhamos para outros mundos sem negar quem somos ainda que sejamos sujeitos globalizadosas conectadosas o tempo inteiro podendo acessar virtualmente culturas diversas e é importante saber de outras manifestações culturais comportamentais de outros territórios inclusive do próprio Brasil que é imenso mas sem negar quem nós somos sem negar que nós estamos no Cariri E o Cariri tem sua força tem sua potência tem sua cultura tem um legado ancestral tem uma história e uma memória que está em nós pulsando o tempo inteiro São esses caminhos que nos levam a uma revisão histórica a partir de nossos modos de fazer como teatro de grupo a partir das táticas que nos possibilitam dar contragolpes nos muitos golpes que estamos recebendo no Brasil de forma aguda nos últimos cinco anos A partir da partilha de todo o caminho que faz nascer o projeto 104 de escola e por tudo que ela tem possibilitado para a sustentabilidade do grupo se faz importante ainda que tenhamos esse cenário que apostemos em construir saídas cotidianas que nesta escrita em diálogo direto com Michel de Certeau defendo como táticas O projeto de escola foi aprovado no Edital Escolas da Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará o mesmo tem subsídio por três anos e com estes conseguimos mobilizar toda uma cadeia produtiva que envolve em média cento e trinta pessoas entre núcleos de gestão financeiro pedagógico produção comunicação logística e asos pesquisadoresas participantes que em cada turmaano somam vinte e cinco Com isso vejo como saída a criação de teias colaborativas sejam essas internas ou externas A interna se constrói a partir das habilidades de cada umuma dosas integrantes do grupo na medida que este coloca saber fazer para mover o grupo Assim a teia se fortifica de repente temos umuma que escreve projetos outroa que lida bem com sistemas e organiza as finanças outroa tem facilidade para falar em público podendo representar o grupo em reuniões para busca de parcerias e podemos ainda ter umuma que faz edição de vídeosfotos o que pode criar os registros do grupo alguém com domínio jurídico que pode salvaguardar o grupo em situações contratuais Externamente essa teia pode ser construída com o que chamamos de nossos pares aquelesas que tendo uma relação com o grupo e tendo domínio técnico em algo pode colaborar e em troca ter alguém do grupo como colaboradora nos projetos de seu grupo ou espaços Tudo isso é moverse como teatro de grupo de maneira tática atentosas ao tempo para fazer o melhor voo 105 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta dissertação situou oa leitora sobre quem sou pois me fiz objeto e sujeito dessa escrita e a partir desse posicionamento escrevi sobre teatro de grupo Grupo Ninho de Teatro e seus modos de praticar gestão e produção teatral Ser narrador e costurarescrever as narrativas dosas demais integrantes do Grupo Ninho de teatro me permitiu articular conhecimentos a partir da realidade experimentada por essesas fazedoresas O olhar foi o de dentro por isso a metodologia da História Oral foi de suma importância para desenvolver essa pesquisa já que ela me possibilitou ampliar vozes e mais uma vez me permitiu articular conhecimentos a partir sobretudo de quem os produz enquanto experiência Nesse sentido compreendi que as noções de grupalidade foram sendo amadurecidas conforme a caminhada do grupo Olhar por dentro da pesquisa e do grupo me permitiu perceber as microrrelações estabelecidas e como essas potencializaram a experiência que como objeto de pesquisa vi vivi e escrevi Portanto o capítulo I me conduziu a refletir e expandiu minhas noções sobre o entendimento das práticas de teatro de grupo como experiências que vão construindo um modo de ser e fazer teatro No capítulo II revelo o cotidiano do grupo fazendo um registro do surgimento do grupo e da construção de todo o seu repertório Opto por registrar os aspectos poéticos por compreendêlos como fundamentais no entendimento das práticas do grupo não só no campo criativo mas como esse é o disparador para pensar seu fazer e pensar a produção e a gestão teatral Este detalhamento gera uma completude que passa pela gênese e pela caminhada do grupo e permite assim uma melhor leitura de sua trajetória Com a finalização dessa escrita dissertativa verifico que o teatro de grupo é uma célula em constante transformação e nunca um modelo fechado Ao contrário atento que operar no campo do teatro de grupo requer estar aberto às dinâmicas dos tempos à leitura social de onde está inserido e desta forma construir experiências que serão diversas múltiplas e sempre variáveis Creio que outros grupos espalhados pelo Brasil vivam experiências próximas a que escrevi outrossim estas devem ser registradas assim como me desafiei na escrita sobre o Grupo Ninho por acreditar que a partir desse registro se possa refletir sobre as diferenças existentes e que a partir dela se amplie práticas ou mesmo as 106 reconheça como já acionadas Nesse caso articulo a produção e a gestão como elementos que por vezes não são vistos como importantes para a construção de bases importantes para a construção de um projeto de grupo Esta dissertação me ajuda a pensar a tríade artistaprodutorpesquisador que trago da noção artistaprofessorpesquisador muito trabalhada dentro de minha graduação em teatro e que devido às minhas ações de artistaprodutor faço o trocadilho para uma vez mais revelar essa prática de artista polifônico MALETTA Dito isso essa escrita não se fecha aqui pois continuarei na busca por encontrar camadas outras que me permitam aprofundar constantemente o objeto agora estudado As respostas penso quando construídas de forma aberta geram outras tantas perguntas possibilita seu questionamento e aprofundamento assim será a continuidade de meus passos como artistaprodutorpesquisador Ao fim espero que este estudo possa contribuir eou inspirar outrosas artistas de grupos e pesquisadoresas que assim como o Ninho buscam formas de se manter em cenários adversos e compreendem suas experiências de teatro de grupo como importantes para suas comunidades pois como já observamos as ações de grupos agem micropoliticamente na sociedade quando estes através de suas sedes projetos espetáculos escolas promovem arte para a cidade Ainda não finalizando pois a pesquisa continua como eco gerando infinitas descobertas e amadurecimentos resolvi elencar aqui algumas das táticas que foram acionadas na experiência do Grupo Ninho de Teatro não como modelo a ser seguido mas como resultante da pesquisa e que por ventura possam servir como inspiração para refletir outras práticas A organização desse quadro fica como uma espécie de síntese das táticas acionadas criadas e praticadas a partir dosas integrantes da sede da administração da gestão da produção e da criação do grupo que foram surgindo ao longo da escrita sendo estas já presentes no cotidiano de trabalho do mesmo Importante compreender que esses acionamentos táticos se deram a partir do cotidiano de trabalho do grupo sendo portanto possível que muitas outras surjam ao longo da caminhada e algumas sejam abandonadas pois as táticas dialogam diretamente com o tempo e as oportunidades e necessidades deste Logo estas podem ser ou não praticadas por outros grupos na medida em que estes se percebam ou não dentro de tal prática aqui compreendida como táticas de sustentabilidade compreendo que as táticas se dão como tecnologias de resistência são como armas 107 de luta e que portanto podem ser construídas de maneira diversa e múltipla dentro de cada grupo considerando a experiência destes como é o caso do Grupo Ninho de Teatro Com isso fica evidente que cada experiência grupal gera diferentes acionamentos táticos para seus projetos de grupo sendo importante estar atentosas para a percepção de tais práticas e sistematizálas dentro de um planejamento das atividades desenvolvidas Abaixo compartilho um quadro em que organizo uma seleção de táticas encontradas dentro das práticas do Grupo Ninho e que através da escrita desta dissertação puderam ser melhor identificadas Para que fique didaticamente mais compreensível as táticas foram agrupas por áreas indo da produçãogestão aos cuidados nas relações grupais QUADRO 1 Acionamentos Táticos do Grupo Ninho de Teatro CUIDADOS COM AS RELAÇÕES ENTRE INTEGRANTES 1 Estar atentoa à importância da rede de afetos que se estabelece entre todosas integrantes do grupo 2 A busca pela consolidação de princípios éticos dentro das relações internas que se estendem para as externas denotando o projeto político do grupo 3 A construção de um ambiente desafiador quanto pedagógico e a compreensão de que a diversidade de pensamentos é a potência maior do grupo 4 O respeito pelo trabalho de cada integrante é fundamental 5 Acreditar na construção de espaços de trocas e parcerias sejam internas ou externas PRODUÇÃO E GESTÃO DE GRUPO 6 A regularidade do trabalho de produção e criação como ações indissociáveis 7 A dimensão de que oa produtora e oa gestora no Grupo Ninho de Teatro e na Casa Ninho se cruzam e desta forma expandem as complementaridades que estas funções carregam potencializando a administração dos projetos de criação de manutenção de sede e das ações pedagógicas 8 A função produçãogestão passa por todasos dando para cada umuma a importância dessas funções para a sustentabilidade do grupo 9 A autogestão torna todosas produtoresas e gestoresas da Casa Ninho isso possibilita um equilíbrio nas divisões das escalas de trabalho 10 Ser consciente da importância que cada setornúcleo tem para a condução do grupo e sede 11 Planejar formas de organização para gerir e produzir a sede do grupo em sua dinâmica como espaço cultural 12 O revezamento de funções como uma tecnologia de manutenção e sustentabilidade a partir do saberfazer dosas própriosas integrantes 13 Ter dias fixos de trabalho reservados para que o grupo faça atividades de produçãogestão ou treinamentos e trabalhos criativos 108 PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DE GRUPO 14 Estruturação dos objetivos e a busca por concretizálos por meio de Planejamento Estratégico realizados periodicamente 15 Planejamento estratégico como meio de organização do grupo 16 Planejar as atividades estando dispostoa e disponível para escuta e mudança trabalhando o desapego e o ego PARCERIAS COM OUTROS GRUPOS E INSTITUIÇÕES 17 O diálogo direto com as instituições locais que trabalham com arte e cultura no sentido de negociar sessões de seus espetáculos estabelecendo relações de ocupação dos espaços que a cidade disponha 18 A junçãoparceria com outros grupos para viabilizar a criação A SEDE DO GRUPO COMO ESPAÇO CULTURAL PARA A CIDADE 19 A importância da sede para um grupo para propiciar o processo de colaboração de equipe 20 A disponibilidade do espaço da Casa Ninho sede para outrosas artistas grupos e coletivos da cidaderegião 21 O reconhecimento de pontos frágeis e fortes e através destes traçar metas em diversas linhas infraestrutura da Casa Ninho sede temporadas do repertório circulações locais regionais e nacionais definição de funções projeções de quanto cada integrante desejava receber mensalmente do grupo 22 A Casa Ninho sede como espaço de expansão extensão e também de pedagogia 23 Compreender a sede como espaço de compartilhamento para várias linguagens artísticas 24 Organização simples de pauta da Casa Ninho o espaço é compartilhado com quem queira ocupar 25 Articulação de escala para limpeza geral da Casa Ninho sede 26 O projeto PQP Pague Quanto Puder como dispositivo de promoção acessível das atividades da Casa Ninho sede 27 Flexibilização e popularização do pagamento da pauta que pode ser feito em forma de doação de produtos de limpeza e descartáveis que são usados para a própria manutenção da casa e de taxas que cubram os custos de consumo de energia elétrica água e internet e apoio técnico 28 A Casa Ninho sede como espaço de acolhimento FUNÇÕES E DIVISÃO DE DEMANDAS ENTRE OS INTEGRANTES 29 Trânsito de funções em nosso cotidiano de trabalho o que nos torna polifônicos num exercício múltiplo de artistasprodutoresasgestoresas tal trânsito gera maturidade para asos integrantes e respeito pelas ações realizadas por cada umuma 30 Experiência cotidiana de trabalho tendo assim a dimensão da estrutura necessária para o projeto de grupo 109 FONTE O autor 2020 O quadro acima tem como objetivo estabelecer uma troca direta a partir das táticas com outros grupos e pesquisadoresas interessadosas e quiçá estimulá losas a também lançar um olhar mais cuidadoso para suas próprias praticas cotidianas e perceber as táticas presentes nas ações desenvolvidas pelo grupo Essa sistematização não deve ser entendida como receita mas como estímulo para que outrosas pesquisadoresas que tenham interesse no campo da gestão e produção em teatro de grupo possam acessar e por meio dessas táticas descobrir ou mesmo desenvolver outras em conformidade com suas necessidades 31 O revezamento de funções ou o trânsito nestas permite a expansão das ações do grupo pois não gera a dependência de umuma únicoa integrante para a função 32 Construir um organograma respeitando as afinidades de cada integrante 33 Cada integrante se dedica dentro da área de desejo e prazer técnico 34 A desalienação do trabalho praticada através da criação em rede e polifônica na qual ninguém fica aquém do que acontece ainda que exista umuma que assume diretamente x demanda todosas devem estar cientes e em alguma medida contribuir para a efetivação das demandas 35 A criação de uma escala em que cada dia umuma integrante abre a Casa Ninho sede para o atendimento ao público geral e também para as ações internas quando pautadas dispensando contratação externa para tais atividades O GRUPO COMO ESPAÇO PEDAGÓGICO 36 Ter a noção de que teatro de grupo é uma escola de formação permanente 37 Pensar numa constante formação e atualização dosas integrantes a partir da tríade artistaprodutorapesquisadora 38 A criação de uma célula pedagógica Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição A CRIAÇÃO COMO BASE CENTRAL 39 Estabelecimento de bases estéticas e poéticas para nortear os percursos do grupo amadurecendo assim uma pesquisa de linguagem que gera identidade para o grupo 40 Pensar em projetos artísticos e pedagógicos que se articulem com a sociedade SUSTENTABILIDADE E FORMAS DE FINANCIAMENTO 41 A produção pode ser custeada pelosas integrantes do grupo e em seguida a partir do caixa do espetáculo ocorre o reembolso para estes possibilitando que o grupo não crie uma dependência de fontes públicas de incentivo 42 Oficialização do grupo como pessoa jurídica sem fins lucrativos pois uma maioria de editais públicos são destinados a instituições sem fins lucrativos de caráter cultural e educativo No caso criamos a Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas 43 Reserva e investimento com recursos internos 44 Autonomia para articular possibilidade de gerar fundos para a continuidade de suas atividades 110 Sabendo que sempre é possível aprofundar e que nada está encerrado lanço para o futuro possíveis desdobramentos desta dissertação por me sabersentir desejoso de descobrir outras tantas camadas da escrita que aqui pauso mas não encerro pois muitas ideias pulsam em mim para adiar seu fim 111 REFERÊNCIAS 7LETRAS André Antoine sobre o autor 200 Disponível em httpswww7letrascombrautorid51 Acesso em 20 fev 2019 AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI Mês de Junho 2016 ANA de Hollanda deixa Ministério da Cultura e Marta Suplicy assume a vaga EBC Empresa Brasil de Comunicação 11 set 2012 Disponível em httpswwwebccombrcultura201209anadehollandadeixaministeriodacultura martasuplicyassume Acesso em 31 mai 2020 ARTE SECRETA DO ATOR BRASIL Eugenio Barba e Julia Varley entre 2010 e 2019 Disponível em httpaartesecretadoatorblogspotcombrpeugeniojuliae lucianahtml Acesso em 10 mar 2019 ARAÚJO A A Gênese da Vertigem O processo de criação do Paraíso Perdido 2002 Dissertação Mestrado em Artes Cênicas Departamento de Artes Cênicas Universidade de São Paulo 2002 ATO MARKETING CULTURAL Sobre 2018 Disponível em httpswwwatomarketingculturalcombrsobre Acesso em 22 jun 2020 AVELAR R O avesso da cena notas sobre produção e gestão cultural 3ed Belo Horizonte eddo Autor 2013 490 p BARBA E A canoa de papel tratado de antropologia teatral São Paulo Hucitec 1994 BENITES B M Constantin Stanislavki Infoescola entre 20062019 Disponível em httpwwwinfoescolacombiografiasconstantinstanislavski Acesso em 22 fev 2019 BENJAMIN W Magia e técnica arte e política ensaios sobre literatura história da cultura 7 ed São Paulo Brasiliense 1994 253 p BRASIL Constituição 1988 Art 215 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 Brasília DF Presidência da República 2017 Texto compilado até a Emenda Constitucional nº 99 de 14122017 Disponível em httpswwwsenadolegbratividadeconstcon1988con198814122017art215a sptextArta20difusC3A3o20das20manifestaC3A7C3B5es2 0culturais Acesso em 22 de jun 2020 BROOK P O ponto de mudança quarenta anos de experiências teatrais 2ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 1995 CABRALE L Políticas Culturais pesquisa e formação São Paulo Itaú Cultural Rio de Janeiro Fundação casa de Rui Barbosa 2012 332 p 112 CAMPOS H de Da transcriação poética e semiótica da operação tradutora Semiótica da literatura São Paulo EDUC 1987 p 5374 CARDOSO M Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 22 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice CARREIRA A Modelo de trabalho grupal no Brasil dos amadores ao teatro de grupo Relatório de pesquisa Florianópolis CEART 2007 CASTRO L Jacques Copeau Academia 2006 Disponível em httpwwwacademiaedu5442587JacquesCopeau Acesso em 27 fev 2019 CERTEAU M de A invenção do cotidiano Tradução Ephraim Ferreira Alves 3 ed Petrópolis Vozes 1998 CIDADE R E FILHO J D Dramaturgia e Encenação no Cariri In Semana de Iniciação Científica 13 2010 Universidade Regional do Cariri URCA Disponível em httpwwwurcabronlinesistemasSIGERgerenciadorusersIDeventossemanaIC 2paginaCandidatosecurityPDFtrabCompletotrabID3126semanaIC2010pdf Acesso em 15 jun 2020 CIDADE R Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 06 mar 2019 A entrevista encontrase transcrita no apêndice Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 01 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice COELHO T O que e ação cultural São Paulo Brasiliense 2001 COHEN S A Teatro de grupo trajetórias e relações impressões de uma visitante Joinville SC Editora Univille 2010 CORDEIRO J A Caldeirão de Santa Cruz do deserto Coisa de Cearense 2010 Disponível em httpcoisadecearensecombrcaldeiraodesantacruzdodeserto Acesso em 20 abr 2019 CORTEZ Antonia Otonite de Oliveira A Construção da Cidade da Cultura Crato 18891960 2000 Dissertação Mestrado em História Social Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro 2000 CUNHA D Entrevista concedida a Edceu Barboza Via email Maio 2015 CUNHA M H Gestão Cultural Profissão em Formação Belo Horizonte DUO Editorial 2007 Coord Fórum Pensando o Futuro In Curso à Distância Vai Passar Gestão Cultural em Tempos de Crise Inspire Gestão Cultural 2020 113 DANTAS E Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 11 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice Entrevista concedida a Edceu Barboza Juazeiro 06 de mar 2019 A entrevista encontrase transcrita no apêndice DEGAGE 2016 Disponível em httpwwwdegagecombrnoticias179festivalde teatrodeacopiarachega24edicao Acesso em 21 mar 2019 DESVENDANDO O TEATRO 200 Disponível em httpwwwdesvendandoteatrocomorigemehistoriahtm Acesso em 20 fev 2019 ESPAÇOFLUXO Sobre a História do Living Theatre 2010 Disponível em httpespacofluxoblogspotcombr201009sobrehistoriadolivingtheatrehtml Acesso em 07 mar 2019 FERNANDES F Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 20 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice FERNANDES S Grupos teatrais anos 70 Campinas Editora da Unicamp 2000 FERREIRA Cecilia Maria de Araujo Programa Do Menino Fotógrafo 2012 Currículo do sistema currículo Lattes Brasília 29 jun 2010 Disponível em httplattescnpqbr4882066452466638 Acesso em jul 2020 FERREIRA J Somos um ministério póscrise Entrevista cedida à jornalista Tatiana Dias Ministério do Turismo Secretaria Especial da Cultura Portal on line Nexo veiculada em 5 de janeiro de 2016 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IRACEMA das Artes entre 2013 e 2019 Disponível em httpwwwportoiracemadasartesorgbraescola2 Acesso em 31 mai 2020 RAMARE S Entrevista concedida a Edceu Barboza C rato 09 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice Entrevista concedida a Edceu Barboza Juazeiro 06 de mar 2019 A entrevista encontrase transcrita no apêndice ROCHA C BECKER N Desejo Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Porto Alegre 2007 Disponível em httpwwwufrgsbre psicosubjetivacaoespacodesejohtml Acesso em 14 de jun 2020 SIMÕES N De Gilberto Gil a Regina Duarte para onde vai a Cultura no Brasil Almapreta Jornalismo Preto e Livre 29 jan 2020 Disponível em httpsalmapretacomeditoriasrealidadedegilbertogilareginaduarteparaonde vaiaculturanobrasil Acesso em 31 mai 2020 SITE DRAGÃO DO MAR 200 Disponível em httpwwwdragaodomarorgbrinstitucionalquemsomos Acesso em 21 ago 2019 STANISLAVSKI C A preparação do ator 14 ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 1989 TOLENTINO C Jerzy Grotowski e o ator performer Biografia Caleidoscópio Portal Cultural Belo Horizonte entre 2001 e 2019 Disponível em httpwwwcaleidoscopioartbrculturalteatroteatrocontemporaneojerzy grotowskihtml Acesso em 22 fev 2019 Antonin Artaud Biografia Caleidoscópio Portal Cultural Belo Horizonte entre 2001 e 2019 Disponível em httpwwwcaleidoscopioartbrculturalteatroteatrocontemporaneoantonin artaudhtml Aceso em 05 mar 2019 TROTTA R Paradoxo do Teatro de Grupo 1995 Dissertação Mestrado em Artes Cênicas Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro 1995 URCA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI Projeto Político Pedagógico Curso de Licenciatura em Teatro PPPLT 2011Versão revisada e atualizada em setembro de 2013 Campus Pirajá Juazeiro do NorteCE 2013 VIEIRA J F Crato de Alto a Baixo Memória e Esquecimento Revista A Província Crato n 22 p143147 dez2005 YAMAMOTO F M Cartografia do teatro de grupo no Nordeste Natal RN Clowns de Shakespeare 2012 117 APÊNDICES Entrevistas realizadas com integrantes do Grupo Ninho de Teatro ENTREVISTA COM ELIZIELDON DANTAS integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente sobre o Grupo Ninho de teatro desde sua fundação ou de quando você entrou Bem é eu entrei no Ninho em 2009 que eles iam apresentar no Loucos em Barbalha Aí quando de repente recebi um telefonema que queriam falar comigo no festival dos Loucos em cena e me convidaram para participar do grupo que até então eu era só convidado de um dos espetáculos do grupo que é Charivari Daí então eu entrei no grupo e tô até hoje e o Grupo Ninho é uma família são irmãos parceiros E pra mim foi o que tava faltando no Cariri pra me completar né Porque até então eu não gostava do Cariri tô me realizando como pessoa no grupo e sentindo prazer de tá com as pessoas gosto que amo de coração e é isso Edceu Tá e tu entrou em 2009 no caso já são seissete anos conta os anos Então nesse período que tu permanece no grupo tu poderia falar sobre esse período que você tá no grupo É pois então eu entrei em 2009 e de lá pra cá é o primeiro trabalho que eu vi do grupo foi o Avental Todo Sujo de Ovo que eu tava num processo também de uma montagem com o grupo é Desabafo de Mano e ai ele convidou para turma ir ver o espetáculo e eu fui ver no centro cultural que eu não recordo a data E então eu me apaixonei da montagem me apaixonei pelo grupo pelas pessoas É entrei no grupo e foi assim tava fazendo um curso no Bnb e o Duílio como professor da Urca do Centro de Artes do curso de teatro é tava procurando um grupo pra montar um espetáculo que é o Charivari então aí convidou o Grupo Ninho que era só o Jânio Edceu e a Joaquina Rita e Zizi Aí ele tava precisando de mais pessoas pra completar o trabalho né O Charivari acho que são se eu não acho que são oito em cena e ele foi me convidou pra atuar e até então no momento eu não aceitei passei dois dias pensando e disse que não queria E aí depois eu voltei atrás e aceitei tô a aí daí foi como eu entrei no grupo através que o Ninho quando era só Rita Jânio Edceu Zizi e Edceu acho que tiveram uma reunião antes e me convidaram e eu tô até hoje 118 Edceu É como acontece a organização do grupo assim em termos de trabalho e estrutura como é que vocês se organizam internamente para fazer a gestão da casa para cuidar dos materiais Pois é o grupo ele é não é que seja dividido porque cada um quando vê que um tá precisando de uma força o outro chega junto mas é tipo assim a gente tem uma parceria e vamos dizer a Rita é mais no financeiro com Edceu eu e Zizi a estrutura da casa Jânio a estrutura da casa Joaquina e Sâmia fica de apoio mas não que todos não possam fazer alguma coisa para completar o outro sempre vai tá lá lhe servindo é uma equipe então é a família é uma casa que tá lá todo mundo se reuniu para se beneficiar e ter o prazer de fazer teatral lá e todos se completam é uma realização Edceu Neste caso a tua função tu falou que é cuidar da infraestrutura da casa como é isso no dia a dia o que é esse cuidado com a casa e qual a importância para você nesse cuidado da casa para o resto do grupo Bem é a minha função não é que eu não possa ajudar em outras coisas mas vamos dizer assim tá precisando de uma luz de uma extensão eu já sei mais ou menos onde é que tá porque eu fico mais com essa parte da escada colocar em um local para quando for na hora da gente ensaiar tá tudo organizado e a gente só procurar onde é que tá Fulano Elizieldon tu sabe onde tá o martelo Sei Vou lá e pego Sei onde é que tá Edceu onde é que tá um documento tal Aí ele já sabe onde é que tá na pasta tal e Rita É isso falta uma água vai lá um corre vai procurar buscar que é um se ajudando ao outro se completando Edceu A importância do teu trabalho para o coletivo assim como é que tu ver a importância do seu trabalho para somar colaborar contribuir com o trabalho do outro Eu acredito que a minha contribuição no Ninho é só uma soma né Que eu acho que é todos é que é o conjunto então é só uma soma e se eu não tivesse lá é que claro que teria outro que poderia fazer mas como a minha função é mais essa assim não que eu não possa fazer outras coisas mas a gente criou tipo assim não quem se identifica com o que tal e eu me identifico mais com essa parte então eu acho que é uma contribuição que todos contribui de uma certa forma no que eu faço também 119 porque às vezes eu posso tá um pouco meio apressado e deixo desorganizadas as coisas e vem Sâmia e organiza acho que é isso é a parceria Edceu Existe um produtor específico no grupo se não existe como é que acontece a produção dos trabalhos do grupo Bem existe assim não digo se é específico específico porque o grupo está aberto a todos é vai se ajudando mas é quem fica mais quem se identifica mais com essa parte de produção é mais Edceu Barboza e a Rita Cidade e Sâmia é o que eu acho que no grupo os que se identifica mais porque Zizi não se identifica eu não me identifico Jânio não se identifica Joaquina também às vezes ela quer fazer mas eu não sei se ela se identifica Ela tenta mas eu acho que ela não se identifica tanto como os outros que se aprofunda mesmo corre atrás e tá lá Edceu Qual a importância que tu acha da função desse produtor já que você falou que essa função é dividida às vezes com Sâmia Rita e Edceu mas que todos podem chegar e dar uma força para a produção também acontecer qual a importância do trabalho da produção teatral para os trabalhos do grupo A importância do produtor no grupo eu acho que é fundamental que todo grupo tenha porque aquele produtor ele tá pensando já no objeto finalizado num figurino Já vê o espetáculo construído feito então ele já pensa nas estratégias de venda do produto já completo Edceu No caso vocês tem a sede a Casa Ninho que é a sede do grupo quando ela foi inaugurada e como vocês pensam a gestão cultural da casa a importância da administração e manutenção da casa para o grupo Bem a casa creio que abriu em 2011 e a casa é muito importante pro grupo porque lá onde a gente tem as reuniões temos os ensaios Depois que abrimos a casa temos quatro espetáculos que um tá se enraizando e foi através disso se a gente não tivesse a sede talvez tivesse só com dois espetáculos É feito né Vamos dizer no repertório não que os outros não já tenham acontecido que Charivari Avental e Bárbaro foi antes da casa mas tem Jogos O menino fotógrafo e aí tem A lição e agora O Poeira que logo logo a gente está em cartaz É eu acho que você ter uma sede pra um grupo é muito importante porque é onde se tem o processo de colaboração de equipe 120 Edceu Vocês entendem a sede como possibilidade de amadurecimento dos trabalhos porque vocês têm um espaço para ensaio um espaço para administrar um espaço para produzir e um espaço também para apresentar Como é que vocês pensam essa sede enquanto espaço cultural em sua relação com a comunidade e outros artistas Bem a gente está de portas abertas é só chegando lá marcando pauta que o grupo abre a porta a qualquer hora da noite qualquer hora do dia marca o horário porque como cada um tem seu dia seu horário específico porque não é sempre que a gente pode tá lá todo horário do dia mas a gente cada um tem seu dia específico seu horário específico Então chega lá marca uma pauta e vamos trabalhar né A casa está aberta pra população pra os artistas que queiram que nos procure e que tá de portas abertas Edceu É como tu se vê na dinâmica do trabalho do grupo você já falou que se dedica mais aos cuidados da infraestrutura da casa mas pensando o dia a dia do grupo qual tua função jurídica qual a importância da tua função dentro dessa estrutura de organização da casa e no dia a dia como você se vê É eu sou o presidente do grupo e eu me vejo como uma peça fundamental de uma equipe ou de um tabuleiro digamos assim porque um vai completando o outro Como eu já falei do meu dia a dia na casa eu creio que poderia até aproveitar mais porque no sábado eu tô lá é o meu dia de trabalho lá No sábado então eu poderia aproveitar mais o espaço porque eu acho que também além da quinta feira que é o dia das reuniões a quinta sexta e sábado outros momentos assim que a gente nos encontramos pra o trabalho mas eu acredito que eu poderia dar mais me esforçar mais pelo grupo Porque o grupo é um grupo que tem uma responsabilidade cultural na região do Cariri mas eu acho que o meu esforço não é tanto como o dos outros então eu acho que eu poderia me esforçar mais um pouco para poder me estabelecer mais no grupo tá mais dentro Eu acho que é porque também tem o meu outro trabalho que me suga mais um pouco mas eu creio que eu poderia tá mais presente Edceu É você dessa coisa de estar mais presente mas antes você tinha falado que vocês se somam como se cada um tivesse um lugar de dedicação mas que um ou outro pode chegar junto para ajudar caso seja necessário Nesse sentido 121 você não acha que cada um da forma como pode da forma como se dedica fazendo claro um esforço para estar disponível ao trabalho do grupo e da casa nesse sentido você não já teria uma dinâmica bem bacana de trabalho para o grupo Acredito que sim mas é tem momentos assim que às vezes é obrigado você dizer não ao grupo vamos dizer assim é claro que ainda não cheguei a esse ponto mas vai ter um momento deu dizer hoje eu não posso mas às vezes eu digo não não posso hoje só para ficar em casa e então eu não tô me dedicando Ou então eu acho que quando você um grupo que lhe respeita porque assim se você marca um horário todos estão lá presente naquele devido horário então eu acredito que às vezes eu não me dedico mais já que os outros têm tanto esforço de tá lá presente Às vezes eu tô lá mas não tô entregue totalmente Eu não sei o que isso que passa na minha cabeça mas eu acho que eu poderia tá mais dentro do jogo é isso Edceu como você traz esse posicionamento consciência como você se ver nesse dia a dia buscando possiblidades de estar contribuindo mais com o grupo porque você sente essa necessidade de colaborar mais sendo que você tem a sua parcela de contribuição e ela tem sua importância Bem primeiro porque eu gosto de tá lá a casa me faz bem E segundo eu acho que eu poderia contribuir mais ou contribuo de uma forma se tem um espetáculo de fora que tá precisando de um técnico eu vou e fico lá sem nenhum problema de horário e essas coisas É como eu posso complementar o meu horário é como eu posso tá mais presente no grupo já que a gente não tem um técnico mesmo assim profissional Aí eu faço algumas coisas aí eu me sinto mais prazeroso em ajudar nessas horas assim de tá mais presente dentro do grupo quando tem algumas coisas que eu possa fazer para outras pessoas que querem ocupar a casa aí eu me completo Edceu Fale sobre o grupo numa perspectiva a médio e longo prazo como você ver o grupo daqui para frente Olha o Grupo Ninho é ele só tem oito anos de idade Então ele é uma criança mas é uma criança que já tem uma responsabilidade de um adulto Então eu creio que muitos grupos não só daqui do Cariri mas de outros interiores queriam tá em nossa posição sim porque eu creio que o grupo já se realizou e vai se realizar mais ainda porque ele já tem uma trajetória de um grupo de vinte e trinta anos Aí que não é fácil 122 você carregar esse peso né Porque o Grupo Ninho já tem uma responsabilidade muito grande no Cariri tem muitos alunos e outros grupo que se espelham no Grupo Ninho Então acredito que isso é uma coisa que de certa forma dá um peso de quem está dentro do Ninho porque você vê uma pessoa se espelhar Tem pessoas que chegam e me procuram e diz olha eu queria fazer parte do grupo eu digo é mas a gente não tem seleção nem nada a gente se identifica com as pessoas mas é complicado você vê uma pessoa assim e chegar e dizer que se espelha Não gosto muito desse fato porque não tem pra quê as pessoas se espelhar Edceu como você ver o grupo no pra frente Eu espero que o grupo se mantenha firme como vai criando seu nome com seu repertorio E logo logo a gente vai tá aí estreando Poeira que é um trabalho que a gente teve uma pesquisa de seis meses com a cultura popular orientada pelo Lume e pelo Miguel Zapata e hoje a gente antes tivemos que dar uma paralisada no processo porque tivemos que viajar com outro espetáculo e hoje a gente retoma e estamos para estrear na frente com Edceu ele que tá organizando dirigindo o espetáculo e vamos ver Espero eu as pessoas que já curtem o trabalho do Ninho vá curtir porque é um trabalho muito sério e é isso Edceu Falando uma das perspectivas do grupo num futuro como foi que você viu a saída do grupo do estado do Ceara da região Nordeste Você falou do quanto é difícil ser grupo do quanto existe uma dedicação para que a coisa aconteça você falou que o grupo é uma criança com maturidade de adulto seria essa maturidade que teria levado o grupo a romper esses limites de seu estado e região O grupo como falei tem oito anos é uma criança então ele já rompeu barreiras que outros grupos teriam maior vontade de tá num projeto como esse do palco giratório Então foi uma experiência única e espero que alguns grupos que passem por esse processo que a gente passou que foi só mais um amadurecimento de grupo de fortalecimento que é claro que todos os grupos não só o nosso tem seus problemas mas os nossos problemas são resolvidos lá na hora é nossos problemas Cada um tem sua vida particular e tem seus problemas mas os problemas que a gente tem nos grupos são resolvidos ali ninguém sai com queixa de ninguém se resolve ali E a experiência de estar no palco veio nos fortalecer como grupo como o fazer teatral 123 como artista como produtor como técnico como tudo numa equipe num conjunto veio só nos fortalecer Edceu Você acredita que o fato de vocês terem potencializado terem respeitado terem assumido um compromisso primeiro com a região de vocês do Cariri no caso revelar a produção de vocês do Cariri pro Cariri vocês acham que o fato de vocês terem valorizado o local levou vocês para a cena nacional O grupo primeiro trabalhou a região do Cariri já apresentamos em assentamento então a gente teve que conhecer a cultura local conhecer pessoas que não têm a cultura de ir ver teatro Então a gente procurou é mais apresentar na nossa região fazer a região do Cariri e de outros interiores de outras cidades periferias Veio o amadurecimento do grupo com esse fortalecimento você se concretizar na sua região de você está presente de dar a cara a tapa das pessoas verem seu trabalho que não é fácil você se apresentar para uma grupo de pessoas que na nossa região fazem teatro porque tem o julgamento essas coisas Então isso a gente procuramos fazer um teatro na nossa região para poder viajar pra fora conhecer outras porque foi o amadurecimento que fez com que a gente pudesse criar asas e voar porque a gente só na nossa região também precisava trilhar outro ar conhecer outras culturas outros grupos Edceu Se você fosse um crítico teatral o que você escreveria sobre o Grupo Ninho de teatro Se eu fosse um crítico de teatro eu escreveria sobre o grupo bem o que eu escreveria sobre o grupo que é um grupo de adolescentes que tem uma responsabilidade de trabalho sério que não deixa é como é que posso dizer é um trabalho que tem sério mesmo que vale a pena eles investirem no que eles estão pesquisando Então é um trabalho que você se identifica muito ao ver ao assistir um espetáculo porque você vê que aquilo mesmo que não é aquele fazer por fazer é um fazer sério é um fazer que faz com que quem esteja vendo pense e reflita sobre o que está acontecendo ao seu redor Então o grupo é muito sério por ser pessoas vamos dizer que não são maduras numa certa idade mas que têm uma responsabilidade muito grande na arte Edceu Quer falar mais alguma coisa Agradecer ao Ninho por me aturar e pronto 124 ENTREVISTA COM SÂMIA RAMARE integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente do Grupo Ninho ou de quando você entrou no grupo Eu conheci o Grupo Ninho no festival de Acopiara em 2008 Conheci o Grupo Ninho de Teatro em Acopiara no FETAC Festival de Teatro Amador de Acopiara em 2008 nessa época eu participava e morava em outra cidade em Aquiraz e participava de outro grupo lá E desde que a gente se conheceu né É tive uma admiração imediata pelo grupo pela forma pelo fazer teatral e sempre nos mantínhamos em contato quando eles iam para fortaleza eu ia vêlos e a gente nunca perdeu contato Quando eu aí eu venho morar no Cariri mais precisamente no Crato em 2011 e começo a me aproximar dos meninos a frequentar o espaço Casa Ninho e a sempre esbarrar com eles na rua e em 2012 com o curso de formação teatral oferecido pelo Grupo Ninho na Casa Ninho é a gente se aproxima ainda mais O curso durou seis meses e teve um experimento final no qual eu fiquei com a parte de direção então a gente ficou com um contato bem mais próximo Os meninos às vezes me chamavam eu sempre ia lá e os meninos às vezes me chamavam pra eu operar uma luz para ir lá no espaço dar algum apoio e isso pra mim era troca né Assim troca por eu ter participado de um curso tão importante na minha vida e por tá querendo retomar mesmo essa volta pro teatro que eu tinha passado um tempinho afastada é Então no em dezembro de 2013 mais precisamente no dia 11 de dezembro de 2013 é os meninos me convidaram para uma confraternização do grupo e ali me convidaram pra integrar o Grupo Ninho de Teatro Foi uma surpresa para mim uma alegria enorme porque eu me aproximo muito e me identificava muito me identifico né com a forma do fazer teatral do grupo Edceu Como é que você via o grupo antes de fazer parte e como passou a ver depois que entrou É eu via muito como um grupo muito importante né na cena teatral do Cariri até porque o grupo já sai desse seu meio aqui que é a região do Cariri e aí para outros espaços e tal é mostrar o que tá se pesquisando aqui Eu achava isso incrível assim de uma garra de uma determinação muito forte e resistência também e aí quando eu entro no grupo eu percebo o quão grande é essa responsabilidade é Acho que essa reponsabilidade vendo de fora não é tão grande quando você tá 125 dentro da coisa porque você se vê sujeito daquela responsabilidade a toda aquela responsabilidade E quando você tá de fora você admira você ai que massa num sei o quê mas quando você tá dentro você vê que é tudo depende de você também você é protagonista daquela história e eu via muito isso assim é uma das coisas que eu mais tenho em mente antes de participar era essa admiração esse brilho nos olhos E hoje é trabalho é realmente muito trabalho manter tudo isso essa responsabilidade o trabalho que a gente tem é resistência mesmo Edceu E como acontece a organização do grupo em termos de trabalho e estrutura você passou a ter essa visão externa e interna como foi que a experiência interna como integrante como você passou a ver essa estrutura o modo como o grupo se organiza Como a gente tem a sede né a Casa Ninho fica mais organizacional porque cada um tem o seu dia de trabalho e cada um vai adentrar no que mais é no que você no que também você gosta mais no que você sabe que você pode contribuir mesmo de verdade sabe naquilo poxa eu vou contribuir nisso e isso vai ser muito bacana porque eu dou conta disso Então é a gente tem seis dias na semana né De segunda a sábado a Casa Ninho tem funcionamento os horários são um pouco flexíveis pela questão de ter três integrantes quatro que mora no Crato e três integrantes que mora no juazeiro Então assim a gente tá lá praticamente a semana toda cada um vai lá e dá uma olhada e tal Só que aí a gente tem nosso horário de trabalho mesmo que é de três a seis da tarde e cada um vai se especificando no seu trabalho Eu por exemplo tô muito ligada a essa parte de ficar catando possibilidades de festivais e produção que é uma coisa que eu gosto muito mas também gosto muito da parte técnica que a parte técnica quem assume mais é Jânio Zizi e Elizieldon mas eu gosto muito da parte técnica Então eu fico sempre passeando por outros ambientes mas uma coisa que eu tô percebendo que eu gosto muito de fazer é cavar possibilidades pesquisar festivais mostras e ajudar Edceu na produção na questão da produção assim e na parte da associação eu cuido da documentação do grupo é uma parte que eu gosto de organizar que eu gosto de ver então assim tá muito nessa parte assim da documentação e de cavar possibilidades Edceu Vocês tem uma sede a partir de quando vocês tem a sede e como vocês pensam e articulam administram a sede pensando a gestão dela 126 A gente tem a Casa Ninho desde 2011 né Vai fazer cinco anos que a gente tem a sede É um espaço alugado e por dois anos a gente recebeu incentivo do governo 2011 e 2012 e de 2013 pra cá a gente não tem nenhum subsídio do governo né não entra nenhum dinheiro público ali nós que sustentamos a Casa Ninho com percentual que a gente ganha com espetáculo a gente tira um percentual pra manter a casa De antemão é muito difícil porque a gente sempre tem o receio de como será o amanhã de como será se a gente não manter esses espetáculos sendo apresentados de viabilizar a manutenção desse espaço que vai desde o aluguel a todas as despesas possíveis de uma casa mesmo pra se manter em manutenção E uma coisa que gostaria de frisar é que a Casa Ninho ela é aberta ao público nossos programas são sempre de acessibilidade ao público tanto no que se diz questão ao preço do ingresso a gente tem um projeto chamado PQP que é o pague quanto puder que o grupo sempre apresenta nesse projeto e alguns outros grupos que também às vezes vão apresentar na Casa Ninho compõem a grade querem apresentar nesse projeto Os que não querem é cobrado valores populares de dez inteira e cinco meia e já houve casos de serem cobrados um preço um pouquinho mais alto do que esse mas sempre valores acessíveis É outros grupos quando pedem o espaço da Casa Ninho seja pra ensaiar ou pra apresentar também é muito acessível a gente pede só no caso de ensaios produtos de limpeza e uma contribuição pra água e no caso de apresentação de espetáculo é uma diária que é vinte reais um preço simbólico e dez por cento da bilheteria A questão da gestão eu acho assim que a gente foi aprendendo durante o tempo porque como é uma casa e é dividido pra sete pessoas a gente foi aprendendo que cada um tinha que dar o seu máximo e que nenhum é patrão de ninguém ao contrário nós somos patrões de nós mesmos e hoje eu vejo muito organizado essa questão porque a gente sabe que tem um dia de pagar as contas a gente sabe que precisa manter os espetáculos ativos pra manter a casa já que a gente não tem nenhum subsídio do governo e a gente vai cavando essas possibilidades Então foi tudo se aprendendo e como eu entrei já é já tinha uma coisa organizada quando eu entrei eu vim pra somar essa organização Edceu Você já falou da divisão de trabalho como cada integrante tem o seu trabalho numa relação mutualista no sentido de que o trabalho de um está para o trabalho do outro ou mesmo cada um se dedique a um campo de trabalho tem sempre alguém que pode chegar junto e somar Nesse caso existe um produtor 127 específico no grupo se não como acontecem as produções dos trabalhos do grupo A gente tem uma parceria com a ATO marketing cultural uma empresa que se somou à gente a três anos a gente faz um trabalho de planejamento estratégico Aí dentro do planejamento estratégico a gente vê as possibilidades da produção O Edceu ele tá muito ligado mesmo na questão da produção do grupo e como a gente decide tudo junto não tem como uma pessoa ficar sozinha na produção é sempre um trabalho em teia sempre tanto pra mandar material pra festival como pra inscrever pra editais Então assim não tem essa produção essa figura que pam esse é o cara o produtor do grupo mas existem pessoas que assumem mais essa função que no caso é Edceu juntamente com a ato marketing cultural e as pessoas que vão somando é eu também sempre que necessário quando precisa eu ajudo nessa parte Rita também que aí somos três pessoas no grupo que gostam mais dessa parte de produção e que sempre trabalham paralelo com a Ato Tendo em vista que no Grupo Ninho não tem como resolver alguma coisa sozinho sempre em reunião a gente discute e vê o que é melhor é às vezes por exemplo seis pessoas dizem um sim e uma pessoa pelo argumento dela pelo não dela convence todo mundo a dizer não mas porque não é um pensamento individual é um pensamento coletivo é o melhor pro grupo e não o melhor pra si Edceu Pelo que você falou da forma como vocês se organizam da forma como vocês deliberam essa coisa do respeito a coletividade se constrói aí um trabalho que passa por uma relação colaborativa Pensando como se organiza o teatro colaborativo em termos de processo criativo vocês em termos de produção e gestão seriam uma gestão e produção colaborativa no sentido de que não existe alguém que manda no sentido hierárquico mas existe alguém que simplesmente lidera determinado campo de trabalho mas que também não deixa de receber a vozopinião do outro Isso não é uma coisa fechada não é pilastra e sim água que aí vai se modulando dependendo da questão a ser abordada no trabalho do grupo sim eu vejo muito essa questão colaborativa mesmo precisando ter um líder só pra questão de organização mesmo em determinados trabalhos por exemplo vamos mandar um material pra um festival todo mundo vai dar sua contribuição mas existe aquela pessoa pra organizar o material e existe aquela pessoa para enviar esse material porque se não fica 128 bagunçado Em relação aos nossos trabalhos artísticos aos espetáculos é todos tem uma direção todos têm aquela figura que vê de fora que no caso é dois de nossos espetáculos são diretores de outras companhias mas os outros espetáculos é foi alguém do grupo um integrante que quis dirigir e tal quis ter essa função e aí sim tem esse olhar de fora mas nos outros dois não Eu acredito assim a gente tá montando um trabalho novo que vai estrear agora que o é Poeira que também que é muito diferente das coisas que a gente vinha fazendo porque na verdade é um cada um tem uma contribuição nesse trabalho e Edceu é esse olhar de fora que se organiza mas é um olhar muito muito dependendo do que a gente que vai dar e ai ele dá alguns palpites sobre mas tá muito na responsabilidade do ator A gente compõe tudo compõe o cenário compõe o figurino então é muito relativo essa questão Tem essa questão da coletividade mas também precisa ter esse olhar de fora pra questão de organização Edceu Por tudo que você já falou da estrutura do trabalho de vocês enquanto gestão da sede e enquanto produção do repertório como você se vê Sâmia dentro dessa dinâmica de trabalho do grupo qual o teu cotidiano dentro dessa estrutura que vocês criaram É uma família né É a minha segunda família é o lugar aonde quase todo dia eu vou que é a Casa Ninho que é minha segunda casa Eu me vejo parte né parte total e pra mim nem é como se eu tivesse desde a formação porque não é diferente as mesmas histórias que as vezes os meninos compartilham quando eu não tava é como se eu tivesse vivido e a gente já viveu muita coisa são quase três anos mas a gente já viveu muitas coisas que que eu não sei assim se eu já vivi na minha vida pouco tempo mais com tanta intensidade Então eu me vejo parte e vejo a importância de cada um quando falta um parece assim é estranho não tá completo sabe E eu vejo a importância dos meninos na minha vida pessoal na minha vida profissional porque eu acho que eu amadureci muito depois de ter entrado no Grupo Ninho como profissional mesmo como trabalhadora da cultura e se reconhecer nesse campo que é um campo que a gente sabe o caos e as dificuldades que a gente passa mas é resistir sabe resistir o tempo todo a essa massa que quer engolir a gente que nos trata como minoria mas não somos minoria de jeito nenhum E eu vejo o Grupo Ninho de fundamental importância assim na minha e me vejo importante de somar com aquelas pessoas e continua resistindo a tudo isso 129 Edceu Fala um pouco sobre o futuro do grupo a médio longo prazo Então como nós estamos viemos ao longo desses oito anos a gente plantou muita coisa né E pela questão da organização eu vejo que a gente vai colher bons frutos pela nossa organização mesmo e garra e força de trabalho que tem de cada um Claro que nem todos os dias são maravilhas são flores A gente passa muita dificuldade internamente e individualmente cada um tem o seu individual né que as vezes precisa buscar outro meio de sobreviver mas por plantar trabalho que a gente trabalha muito e se doa muito eu vejo um futuro muito promissor Eu vejo um futuro que a gente consiga agregar pessoas mais profissionais da cultura e somar com nosso trabalho e vejo uma importância enorme assim pro povo né Eu sei que hoje a gente já faz um trabalho significativo pro povo mas eu fico pensando penso e quero contribuir mais pras pessoas mais pra esse povo mesmo que tá afastado do centro que a nossa sede é no centro e que não é acessível pra essas pessoas Eu quero muito que o nosso trabalho chegue até lá atinja o povo mesmo sabe E não só pessoas que têm acesso mas pessoas que não têm acesso nenhum que nunca foram ao teatro por exemplo que nunca tiveram contato com arte Eu quero muito que a gente consiga tocar essas pessoas e transformálas de alguma forma então eu vejo que o grupo no futuro vai chegar aí quero muito que chegue Edceu A gente fez agora uma projeção em que você comentou algumas questões que deseja Pensando a história de vocês como um grupo do Cariri que é uma região que está muito distante de centros maiores que tem uma dinâmica maior pensando mesmo a própria capital do estado fortaleza como metrópole mas vocês conseguem se manter como um grupo de pesquisa de continuidade de manutenção de repertório e sede coisas que gente vê com grupos que estão num cenário em que as possibilidades de manutenção são maiores O que tem no grupo que faz com que vocês ainda com oito anos tenham essas características de grupos que estão com tempo maior de estrada e também já romperam fronteiras que grupos com tempo maior ainda não É eu acho que é o desejo de cada um e o desejo de dizer e a gente sabe que mesmo o Cariri sendo no sul do Ceará distante da capital e tal mas a gente quer resistir e existir aqui nesse lugar e a gente não precisa ir pra uma capital pra existir A gente pode existir aqui no nosso lugar Eu acho que é além de desejo é ficar aqui é querer 130 ficar aqui e querer contribuir pra formação dessa galera que tá começando no teatro agora da gente também servir como inspiração pras pessoas não desistirem de montarem seus grupos aqui ou então porque antigamente é a gente via muito pessoas do interior indo pra capital pra buscar Não a gente pode conseguir tudo aqui então além do desejo de cada um é se afirmar no lugar que está sem precisar sair penso muito isso Edceu Você falou em afirmação Tem uma coisa que acontece com vocês que como se vocês não sei se acontece de forma natural mas é como se vocês tivessem potencializado o lugar de vocês enquanto possibilidades de trabalho possibilidade criação possibilidades de parcerias possibilidades de criar um público e quando eu falo lugar não me refiro especificamente a sede Casa Ninho mas o lugar Cariri Vocês já passaram por quase todas cidades que compõem a macro região do Cariri cearense e é como se esse respeito e essa potencialização do interno tivesse levado vocês ao externo que é romper essas fronteiras que a gente sabe que são muito difíceis de romper e chegar em outras regiões do país como você vê essa coisa de gerar uma potência primeiro interna enquanto respeito enquanto identidade cultural identidade de vocês com o que vocês são com o que vocês têm e isso naturalmente reverbera pra fora É outro dia eu tava comentando com um colega meu aqui da faculdade que eu acho incrível isso de até numa fala que é de dentro pra fora né que a gente quer mostrar quer fazer nosso teatro É uma cidade que nunca teve que fica no interior do interior aqui do Cariri que é levar esse teatro pras crianças e pros jovens e pros adultos que eles nunca tiveram acesso e talvez nunca vão ter porque na capital eles já e no interior eles num têm acesso Eu acho importante mesmo um ato político crescer de dentro pra fora de primeiro ver aqui o nosso meio cuidar do nosso meio pra depois expandir E acho que o palco giratório veio também pra afirmar ainda mais isso na gente porque o ano passado a gente circulou no interior aqui do Cariri no interior do Ceará e daí a pouco a gente tava nas grandes macro São Paulo Rio e Porto Alegre Então assim eu acho que gerou ainda mais depois do palco giratório mas esse reconhecimento é a gente precisa fazer ainda mais tá pouco a gente precisa ir mais nesses lugares que não tem tá pouco eu penso isso 131 Edceu Se você fosse uma crítica teatral Sâmia o que você escreveria para o Grupo Ninho de Teatro De crítica pro bom ou pro ruim Edceu de crítica e aí é de crítica nunca parem não parem não parem mesmo porque não pode parar não pode acabar ENTREVISTA COM RITA CIDADE integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente sobre o Grupo Ninho de Teatro sendo você da primeira formação Em 2007 a gente se reunia em um grupo de amigos alguns já haviam trabalhado juntos com teatro outros não mas a gente se reunia para fazer leitura de textos dramáticos de vários com várias características diferentes esses textos e a gente tinha a ideia de que quando nós encontrássemos um texto de que todo mundo gostasse e gostasse no sentido de encenálo a gente faria isso montaria esse texto E logo no princípio desses encontros apareceu o texto Avental Todo Sujo de Ovo e alguns de nós nos interessamos por esse texto e outros não os que se interessaram daquele grupo de amigos acabaram fazendo a montagem do espetáculo que pouco tempo depois é no decorrer do processo ia se transformar no Grupo Ninho Então o grupo acabou surgindo a partir do desejo de algumas pessoas que permanecem no grupo até hoje que nesse momento eram quatro pessoas é o grupo se formou a partir desse desejo de montar o texto avental todo sujo de ovo sem perspectiva de ser grupo ainda mas no decorrer da montagem desse espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo aconteceu da gente perceber que os trabalhos que a gente já vinha desenvolvendo em comum que eram esquetes podiam ser unidas no mesmo espetáculo Aí a gente teve vontade de ir a um festival que é o festival de Acopiara Festival de Teatro de Acopiara interior do Ceará e pra isso a gente organizou Esse espetáculo criou entremeios que transformassem esses esquetes num espetáculo e assim estreou o espetáculo Bárbaro que acabou estreando antes de Avental Todo Sujo de Ovo Então no meu ponto de vista a história do grupo começa no desejo de montar um espetáculo mas acaba estreando com outro e quando a gente estreou com bárbaro foi muito bemvindo no festival de Acopiara E aí a gente percebeu que fazia sentido a gente trabalhar juntos para inscrever no festival a gente optou por se inscrever como grupo e não só como elenco e direção e foi aí que surgiu o nome numa brincadeira numa conversa descontraída numa volta dum ensaio Surgiu o 132 nome a gente se inscreveu com esse nome e aos poucos o trabalho desse grupo que a princípio era um grupo de amigos apenas foi ganhando uma proporção de responsabilidade e de retorno e até a gente perceber que já tinhase compromisso enquanto grupo de teatro mesmo não mais só um nome Edceu Como acontece a organização do grupo em termos de trabalho e de estrutura Então é a princípio eu percebo que a gente era muito mais um grupo de atores onde alguém precisava assumir a direção dos espetáculos Às vezes uma pessoa às vezes outra isso eu tô falando do comecinho do grupo lá com esses dois espetáculos que eu citei Bárbaro e Avental Todo Sujo de Ovo Falando cronologicamente desde a estreia desses espetáculos porque a gente tinha vontade de fazer as coisas e alguém tinha que dirigir e outros tinham que atuar mas aí a medida que foi ganhando essas outras proporções que eu fui falando foram surgindo outras funções Em 2009 a gente foi convidado pelo diretor Duilio Cunha pra montar o espetáculo Charivari no meu ponto de vista esse é um momento de muitas mudanças dentro do grupo porque é se passou a trabalhar com outras pessoas a princípio ele porque convidou o grupo pra compor o elenco desse espetáculo depois vieram outros atores pra também compor esse elenco que necessitava de mais atores e os músicos que também fazem parte do espetáculo A partir daí como o grupo foi convidado para assumir o espetáculo também não só pra interpretar os personagens a partir daí eu acho a gente foi assumindo funções também de gerenciamento humano porque tinha outras pessoas participando também do trabalho não era mais só entre a gente As decisões que a gente tomava a partir dali passava a afetar outras pessoas também e o comportamento de outras pessoas externamente também afetava o grupo enquanto repercussão responsabilidades dos vários pontos de vistas financeiro de produção enfim E também o próprio gerenciamento nesse sentido também de financeiro de funções porque a partir desse espetáculo a gente começou a encenar de uma forma diferente Em se tratando do ponto de vista financeiro que eu vou ficar muito nesse âmbito porque é o âmbito que eu passei a cuidar muito a partir daí antes já existia mas era uma circulação muito pequena de finanças dentro do grupo entrando e saindo As montagens dos espetáculos do ponto de vista do financeiro era muito simples porque na maioria deles a gente emprestava o que era necessário de dinheiro ou tomava emprestado de familiares e depois com as sessões dos 133 espetáculos a gente conseguia repor Neste momento também a gente ainda não vislumbrava ser remunerado ou viver de teatro como se diz a partir do Grupo Ninho Então não tinha uma responsabilidade tão grande mas a partir de Charivari que aí a gente já tinha uma prestação de contas interna e também foi junto com o espetáculo que a gente propôs o primeiro projeto no sentido de inscrever em edital Então a partir daí as coisas começaram a ganhar uma coisa mais séria do ponto de vista jurídico é pelo menos como eu percebo e também do ponto de vista de produção porque cada vez mais o grupo foi ganhando mais visibilidade A partir daí eram três espetáculos Charivari trouxe a novidade de ser de rua e ser comédia até então a gente não tinha essas modalidades de teatro e trouxe mais visibilidade também Então a partir daí com um ano e pouco só ainda de grupo as coisas começaram a ganhar uma proporção de mais responsabilidade e foi aí também pra se inscrever nos editais que a gente percebeu a necessidade de ter CNPJ se cadastrar juridicamente e aí isso gerou outras responsabilidades de prestação de contas de contabilidade enfim Bom e aí vai nesse processo e aí em 2011 também através de uma inscrição em um outro edital a gente abre a Casa Ninho que é um espaço cultural que a gente coordena e essa é que vai trazer mais funções mesmo porque é necessário abrir a casa mantêla do ponto de estrutura da casa do ponto de vista de limpeza é preciso manter a dinâmica dela no sentido de que a gente faz os trabalhos da gente os ensaios as reuniões as apresentações e ainda recebe e muito trabalhos de outros coletivos Então tudo isso requer muita atenção e muito gerenciamento disso tudo Então aos poucos a gente foi descobrindo habilidades e desenvolvendo capacidades a partir dessas habilidades que a gente já tinha pra poder gerenciar tudo isso e hoje são sete trabalhos sete espetáculos teatrais e mais a casa pra gente gerenciar e mais todos os processos de editas e projetos aprovados e os processos anualmente da parte financeira declaração de imposto de renda por exemplo e outras coisas nesse sentido Então eu acho que hoje nós somos sete pessoas fora os parceiros que trabalham junto mas do Grupo Ninho mesmo somos sete Então eu acho que hoje depois de muitas vivências acho que hoje a gente tá vivendo um momento mais tranquilo do ponto de vista de assumir essas funções porque no meu caso por exemplo eu tenho habilidade natural de organização financeira e as vivências até hoje se a gente começar de 2008 quando começou a ter esse movimento financeiro pequeno mas já tinha são oito anos quase de experiência As vivências foi me obrigando a ir entendendo um pouco mais das coisas do financeiro 134 não é necessariamente pra mim a coisa mais prazerosa por exemplo falando de mim particularmente mas eu sei que eu tenho essa habilidade e que posso contribuir com o grupo nesse sentido e também não é tão difícil pela questão de ter a habilidade e de certa forma ter uma certa simpatia Então eu acho que isso acaba acontecendo com todos nós dentro do grupo a gente acabou hoje eu entendo que a gente assume funções que a gente tem habilidade e que a gente tem prazer ainda que não seja a coisa mais prazerosa para gente mas por conta da gente não poder ainda contratar pessoas pra desempenharem esses serviços a gente se propõe a desenvolvêlos da melhor forma Edceu Como você entende as relações do grupo a partir das funções assumidas Eu percebo que existem conflitos nesse sentido alguns que são externalizados porque pela nossa convivência de oito anos com maioria dos integrantes outros foram entrando no decorrer da caminhada mas por essa convivência e pela oportunidade de ter conhecido pessoas com experiência de grupo que puderam fazer observações que eu acho muito valiosas pra gente eu percebo que os conflitos existem que alguns a gente já tem condições de externalizar e de conseguir se compreender e outros ainda não outros a gente ainda guarda que há momentos que a gente acha que tá com uma responsabilidade alguns de nós que em determinados momentos acha que está assumindo maior que os demais mas eu percebo isso em quase todo mundo uma espécie de peso digamos assim com um peso maior Isso varia uma hora é um outra hora é outro e também é em aspectos diferentes para mim particularmente eu acho isso muito tranquilo acho natural que isso aconteça Alguns anos atrás eu não me sentia assim me sentia muitas vezes explorada por mim mesma assim porque eu achava que eu me dedicava demais enquanto que eu julgava que outras pessoas não se dedicavam tanto mas é como eu disse a gente foi tendo a oportunidade de conhecer algumas pessoas externas ao Grupo Ninho que compartilharam essas experiências de grupos de teatro também e que eu fui foi percebendo que é isso mesmo que cada um se dedica no que pode e como pode e hoje eu pessoalmente vejo isso de uma forma muito tranquila O que me inquieta em alguns momentos são posições que às vezes são compartilhadas com pessoas de fora que às vezes repercute na imagem do grupo mas que eu mesmo posso pecar nesse sentido porque é difícil são sete cabeças sete vivências diferentes gerações diferentes 135 experiências diferentes pontos de vistas diferentes sobre várias coisas Então às vezes eu percebo divergências nesse sentido mas no sentido das funções eu acho que a gente não consegue desempenhar cem por cento as funções pras quais a gente se propõe por uma questão de tempo porque a gente precisa também ainda hoje se dedicar a outros trabalhos pra geração de sobrevivência de sustento financeiro individual de cada um mesmo cada um com suas necessidades individuais Então não tem o tempo que seria não sei se ideal mas o tempo que a gente gostaria de ter pra nos dedicarmos ao grupo Então nesse sentido a gente não consegue desempenhar as nossas funções mas eu sei que dentro do limite que a gente tem por conta dessa questão mesmo de ainda não ser possível trabalhar exclusivamente pro Grupo Ninho eu acho que a gente dá o esforço do nosso limite assim é cem por cento dentro do nosso limite mas que o grupo hoje já exige um pouco mais A gente não pode pagar pessoas de fora não pode contratar pessoas externas pra fazer então a gente vai fazendo no limite que a gente pode Edceu Como você entende as relações de imagem interna e externa Talvez o que falte seja uma assessoria de comunicação talvez essa seja uma habilidade que ainda não seja desenvolvida entre nós integrantes e a gente não tem nenhum parceiro nesse sentido Então talvez seja nesse caminho mas nós também somos pessoas de personalidades muito fortes e diferentes então eu acho que nenhum assessor também daria de conta disso não continuaria tendo essas questões mas quando eu coloquei isso foi mais no sentido mesmo de que assim eu acho que hoje a mim pessoalmente a questão das funções elas até que estão encaminhadas vez ou outra eu não cumpro a minha conforme o grupo esperava vez ou outra alguém não cumpre outra pessoa que não eu mas talvez seja o momento em que elas estão mais harmonizada e daqui pra frente se torne mais harmonioso ainda mais é nessa questão de ponto de vista mesmo de como cada um percebe o grupo objetivos de vida com relação ao grupo que é uma empresa que a gente também funciona como sócios é mais nesse sentido que eu falei Eu que acho que existe objetivos diferentes alguns convergem tem alguns objetivos que eu tenho e todos os demais também tem mas tem mais um milhão de outros objetivos que não convergem Então eu acho que nesse momento é muito mais isso da questão das funções porque a questão do meu objetivo vai esbarrar na questão da função que eu desenvolvo É um universo um grupo de teatro é um universo paralelo mas pra me 136 fazer entender por exemplo eu cuido mais da parte financeira então é natural que quando a gente queira fazer algum investimento a minha opinião tenha não uma importância maior mas uma tensão maior porque eu vou colocar o que é que a gente tem o que que a gente deve o que a gente tem pra receber fazer essa explanação Então se é algo que eu não ache interessante pra investir é muito provável que eu naturalmente às vezes até sem premeditar naturalmente eu faça com que acabe convencendo os outros a não investir e assim é em todas as funções entende Percebo isso mais ou menos em todas as funções Edceu Existe um produtor no grupo Se não como acontece a produção do grupo Não existe um produtor específico existe algumas pessoas que se dedicam dentro do grupo pra essa função de produção mas de forma mais intensa da forma como eu entendo são duas pessoas dentre os sete que se dedicam mais a produção e os outros dão apoio pra essa função Não existe um produtor específico existe essas duas pessoas que se dedicam um pouco mais e as outras pessoas que dão apoio a esse trabalho e existe a parceria com uma produtora que no caso é a Ato Marketing Cultural que a três anos vem trabalhando em parceria com o Ninho e cada vez vem se intensificando mais o trabalho de produção do Ninho hoje em dia É muito caso a caso por exemplo cada espetáculo estreou e estreia de forma diferente de acordo com o momento que a gente está vivendo seja do ponto de vista de como a gente percebe o grupo hoje no sentido de produção de como é que vai se organizar financeiramente para estrear o espetáculo como é que vai se organizar do ponto de vista de ensaios se vai convidar pessoas externas para trabalhar no espetáculo como é que se dá isso e também do ponto de vista da circulação dos espetáculos A gente busca abrir portas agente se inscreve em editais de incentivo às artes agente se inscreve em festivais a gente manda propostas quando as instituições são abertas a isso propostas mais diretas pra fazer apresentações a gente recebe convites das mais variadas fontes assim de escolas de apresentar em uma festa de um santo da casa de uma pessoa como já aconteceu enfim Aí a cada caso que aparece a cada oportunidade que aparece de trabalho a gente vai pra reunião pra discutir como vai se dar o trabalho de cada vez que ele aparece de cada porta que se abre pra trabalho com relação a quanto vai custar cachê como vai ser questão transporte as questões técnicas Por exemplo no caso das questões técnicas eu percebo que a gente vem 137 cada vez mais se desvencilhando delas no sentido de ir criando possibilidades se apresentar nos mais variados lugares se desafiando nesse sentido de se apresentar nos mais diferentes lugares para mais distintos públicos também mais distintas estruturas físicas dos espaços e aí a cada caso que surge a cada vontade porque às vezes surge da vontade de um integrante do grupo se inscrever num determinado festival seja ela uma vontade porque vislumbra porque aquele festival será importante ou porque o cachê é interessante enfim A cada oportunidade dessa que a gente vai descobrindo a gente vai discutir como vai se dar e aí acaba alguém assumindo a produção daquele trabalho e os demais vão participando da forma como vai sendo solicitado pela própria demanda do trabalho Eu sinto que isso de não ter o produtor especificamente alguém que assuma literalmente a produção às vezes faz com que fiquem falhas mas não são falhas que nos impossibilita de trabalhar mas talvez se abrisse um campo maior de trabalho se a gente tivesse alguém que pudesse se dedicar exclusivamente pra produção porque nós todos somos atores alguns dirigem dentro do grupo outros assumem a parte técnica ou todo mundo acaba assumindo alguma coisa de técnica dentro do grupo e ainda questões de produção do financeiro Então é um modelo bem particular de administração mesmo até hoje eu não vi isso em nenhum outro âmbito é interessante conversar com o contador que faz esses serviços para gente e perceber que pra ele isso é totalmente inusitado nenhuma outra empresa das muitas empresas no mínimo uma duzentas empresas que ele ajuda a administrar e nenhuma tem modelo parecido com o nosso Aí a gente sabe que os outros grupos de teatro têm no caso dele é porque ele só ajuda administrar na contabilidade de um grupo de teatro Então é isso Então a gente acaba também dentro das funções se ajudando na produção é uma delas alguns assumem mais outros vai ajudando com as experiências que vão percebendo a gente também se permite vivenciar o trabalho como artista em outros lugares que não só no Grupo Ninho e aí a gente vai trazendo também as experiências de outros lugares pra dentro do grupo principalmente do ponto de vista da produção vai percebendo como é que os outros se produzem e vai compartilhando essas experiências Fora as oportunidades de compartilhar com outros grupos de teatro seja pessoalmente no contato com esses outros grupos seja grupos locais ou sejam grupos de outras cidades outros estados e até de outras regiões do país ou pela leitura de experiências de outros grupos 138 Edceu Como vocês pensam a Casa Ninho enquanto gestão Como ela interferiu na dinâmica do grupo A princípio quando a gente pensava em ter um espaço era muito mais no sentido de ter um lugar em que a gente pudesse ensaiar sem depender de outros espaços porque muitas vezes a gente marcava ensaios em outras instituições e eles acabavam sendo cancelados pela instituição e também um espaço onde a gente pudesse organizar as nossas coisas Nesse momento quando a gente conseguiu abrir o espaço Casa Ninho a gente tinha três espetáculos então já tinha muito material de cenário figurino enfim Mas aí depois que a gente conseguiu visibilizar recursos de um edital pra poder abrir a Casa Ninho a gente percebeu que não seria interessante que ela funcionasse só com essas características mas que também pudesse ser um espaço onde a gente pudesse se apresentar e também pudesse compartilhar com outros coletivos e quando a gente foi buscar o prédio pra ocupar como Casa Ninho pra alugar a gente já buscava um prédio que fosse dessa forma e a gente encontrou esse que é mesmo que a gente trabalha até hoje e só se conformou a importância de ter um espaço para gente mas que seria muito edificante poder compartilhar esse espaço com outras pessoas e não no sentido de estar prestando um serviço simplesmente pra essas pessoas mas que também gere uma dinâmica interessante no sentido de compartilhar experiências da forma mais prática possível porque a gente recebe artistas para fazer espetáculos shows reuniões na Casa Ninho e a gente percebe a forma deles de trabalho e de como eles percebem o espaço que a gente gerencia Com relação às mudanças com o grupo elas se deram no sentido de poder ter um espaço para trabalhar o que nos gera uma segurança maior de saber que a gente vai poder ter um local onde a gente possa desenvolver nossos trabalhos muitas vezes até experimentais convivência que em outros lugares isso não seria possível porque enquanto a gente puder pagar por esse aluguel o chão é nosso o teto é nosso as paredes são nossas Então a gente pode utilizálo e podemos permitir que outras pessoas utilizem ele de uma forma muito particular e modificou também a nossa dinâmica no sentido de que é necessário se gerir para sustentar a Casa Ninho porque a gente se sustenta mutuamente O Grupo Ninho sustenta a Casa Ninho a Casa Ninho sustenta o Grupo Ninho porque a casa nos sustenta no sentido de ser um espaço onde a gente possa produzir trabalhos e apresentar sem que a gente precise pagar além do aluguel por esse espaço e o Grupo Ninho sustenta a Casa Ninho 139 porque em alguns momentos a gente teve como pagar o aluguel financiado através de editais pelos quais a gente teve projetos aprovados Edceu A Casa Ninho como espaço de formação e sua expansão O Grupo Ninho tem projetos alguns até já desenvolvidos no sentido da formação iniciação teatral e também com mediação em teatro mas existem um desejo de que seja maior e também existe um desejo de que seja independente porque até agora as oficinas que a gente conseguiu fazer na Casa Ninho e até curso porque a gente já conseguiu fazer um curso com extensão de seis meses um pouco mais longo com montagem de espetáculo eles estavam atrelados a projetos que a gente conseguiu aprovar em editais e por questões financeiras e por não ter ainda um financiamento contínuo pra Casa Ninho A gente ainda não conseguiu fazer de forma mais independente mas eu percebo que a gente tem essa vontade de ter esse projeto e também tem projetos individuais Tem integrantes do Grupo Ninho que em alguns momentos apontaram o desejo de poder desenvolver aulas oficinas no espaço da Casa Ninho no sentido de que isso pudesse gerar renda para Casa Ninho e renda individual pra pessoa que tivesse ministrando e também pra que o grupo também pudesse investigar um pouco mais a questão da formação Edceu Como você se ver dentro da dinâmica do Grupo Ninho No Grupo Ninho eu desempenho principalmente as funções de atriz e tesoureira mas que acho que é muito mais uma coordenação financeira do que tesouraria mas a gente tem esse cargo de tesouraria por conta do nosso estatuto Então hoje como eu me percebo no Ninho como atriz eu me sinto satisfeita mas inquieta sempre porque a gente tem desenvolvido trabalhos a partir de pesquisas e isso gosto muito porque propõe coisas novas pra mim como artista e como pessoa que uma coisa não se desliga da outra e até como professora que acaba indo para sala de aula também as experiências vivenciadas no Ninho todas elas acabam indo para sala de aula Na questão da direção é um aprendizado todas as funções são mas essa pra mim é a mais nova de todas e é a mais difícil de todas neste momento mas até mesmo com as dificuldades que vivencio no trabalho que dirijo eu ainda quero repetir ainda penso em outros projetos pra direção mas é uma dificuldade muito grande que essa dificuldade está na nossa relação enquanto grupo Mas é uma longa história mas acho importante pontuar por que é experiência do ponto de vista da formação tenho 140 uma vontade muito grande ainda dentro da Casa Ninho de poder trabalhar pra formação de outras pessoas E do ponto de vista do financeiro é um aprendizado sempre que não é a formação mais prazerosa para mim como eu já disse mas que não deixa de ter uma simpatia por ela também de gostar dela também me sinto tranquila percebo que até hoje tudo que a gente vivenciou era o que tinha pra vivenciar mesmo mas me sinto inquieta no sentido de que a gente continue buscando coisas 141 TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS COM INTEGRANTES DO GRUPO NINHO DE TEATRO 2020 Transcrições de Áudios Tempo total de gravação 02 horas e 58 minutos 40 áudios Modalidade de Transcrição Ipsis litteris na íntegra Legenda pausa ou hesitação inint hhmmss palavra ou trecho ininteligível Início das Transcrições Sâmia Ramare Áudio 1 001233 É eu tava chegando no Cariri é fazia menos de um ano que eu havia mudado pra cá pro Cariri E em 2012 é a Casa Ninho abriu o primeiro curso de formação teatral e também era um espaço que tinha aberto as portas há pouco tempo também A Casa Ninho abre as portas no em 2011 e o curso inicia em 2012 É eu eu faço o processo seletivo né é tinha toda uma uma etapa pra cumprir de inscrição de envio de currículo e aí eu enviei o material e fui selecionada É e o curso ele era ministrado por vários artistas do Nordeste e também é de outras regiões do país Artistas e educadores e educadoras bem é bem competentes né Pessoas de teatro e aí eu conheci a Casa Ninho mais profundamente O uma coisa que me marca muito assim até hoje na minha memória foi o primeiro dia que a gente tava no curso de corpo com Tomaz de Aquino e ele pedia pra gente pra varrer aquele espaço né pra cuidar daquele espaço como se fosse o nosso corpo que a gente tinha que limpar antes de enfim se exercitar alguma coisa assim E aí é isso marca muito eu pegando uma vassoura eu e as outras pessoas que faziam parte aí cada um limpava um pouquinho e e aí a gente foi tomando essa propriedade do 142 espaço sabe É toda vez que eu entro na Casa Ninho eu lembro eu tenho essa memória muito forte em mim cuidar daquele espaço E depois é eu me aproximei mais do Grupo Ninho a gente ficou é trabalhando juntos assim eles me chamavam pra fazer alguma técnica e eu ia e essa aproximação foi se estreitando cada vez mais e em dezembro de 2013 eles eles e elas me convidam pro Grupo Ninho né E claro que a resposta seria sim porque a gente já tava num envolvimento muito forte né E eu me vejo ali em dezembro de 2013 pouco tempo chegando na cidade mas já conhecia o Grupo Ninho né de festivais e sempre foi um coletivo que eu admirei muito e eu chego naquele lugar né e meu Deus agora é um outro passo né Eu tô entrando num grupo de teatro é essas pessoas são o que minhas São minhas amigas São meus colegas de trabalho São só meus colegas de trabalho E essas perguntas elas vão se dando até hoje assim É a Casa Ninho é um espaço extremamente importante na minha formação enquanto artista porque quando eu entrei no curso é eu também tava entrando na universidade É sou formada em Licenciatura em Teatro pela Universidade Regional do Cariri então a Casa Ninho me acompanhou e me acompanha até hoje na minha formação enquanto artista Então todos os espetáculos que passaram ou passam pela Casa Ninho eu me sinto sempre nesse pleno movimento de formação né porque hoje eu sou professora é de teatro e aí como a Casa Ninho me influencia é na minha vida na minha carreira É um espaço autônomo né que são dois coletivos que se desdobram pra tanto fazer a gestão do espaço como a limpeza eu fico brincando que na Casa Ninho eu sou bombril mil e uma utilidades Eu sou desde a pessoa que faz o café que limpa o banheiro à pessoa que vende os ingressos recebe os ingressos na porta dá boasvindas ao público então é um espaço que ele ele ferve em relação à formação né A gente tá sempre se melhorando enquanto ser humano e enquanto artista vivendo naquele espaço É hoje depois de inint 000532 vinte a Casa Ninho vai fazer nove anos nesse ano de 2020 e as vezes eu sinto que é a primeira vez de muita coisa sempre que um grupo vem é nos nos pergunta sobre pauta é ou então nos indica pra outros coletivos porque a maioria dos coletivos do país é vem pro Cariri e entra em contato primeiro com a gente né pra saber como que funciona a pauta é se eles e elas podem apresentar e então é como se a Casa Ninho fosse uma grande porta de entrada pras artistas e pros artistas do Brasil assim é conhecer o Cariri né através da Casa Ninho é hoje a gente consegue depois de algumas coisas que que aconteceram né ao 143 longo do tempo a gente foi se aprimorando e hoje a gente consegue ter nossa pauta organizada por exemplo tem as taxas que as pessoas contribuem o nosso ingresso é bem popular né assim a gente tem um programa desde 2014 que chama PQP Pague Quanto Puder então alguns espetáculos dos grupos que compõem fazem a gestão da Casa Ninho você pode assistir desde não pagar nada até pagar o valor que você puder né Os espetáculos que fazem temporadas na Casa Ninho sempre são a preços populares é a gente faz de tudo pras pessoas assistirem mesmo os espetáculos até porque na cidade não tem um espaço é de formação e fruição público né assim os teatros da cidade do Crato estão fechados é a gente fica muito triste com isso e a gente vê a importância é da existência da Casa Ninho né ela ela ultrapassa esse lugar privado é de dois grupos Hoje a Casa Ninho ela tem uma uma importância pro pros artistas do Brasil mesmo né que é um espaço que se mantem pelo pelas pessoas e ele se mantem pela fora de cada pessoa que doa que contribui pra esse espaço se manter vivo por nós artistas do Grupo Ninho e do Coletivo Atuantes em Cena que destinamos é uma porcentagem do nosso cachê pra pagar as contas da Casa Ninho Então é um espaço totalmente é financiado pelas pessoas pelo pelo público mesmo né É outro outro fato bem bem importante que acontece em 2019 é que a gente consegue o Grupo Ninho através do edital Rumos Itaú Cultural reformar o espaço e fazer com que a gente consiga instalar os equipamentos de iluminação que nós contemplamos no edital da no edital da Funarte né que que eles abrem um edital a gente se inscreve passa e aí recebemos esse material só que não tínhamos como instalar e aí com outro edital do Rumos a gente consegue fazer toda uma reforma na Casa Ninho pra ter estrutura pra receber esse equipamento Então hoje a gente tá com um equipamento é é praticamente um teatro um teatro como a gente consegue imaginar um teatro é extremamente equipado com equipamento de ponta sim e a gente vê hoje outros desafios que é essa luz essa taxa de iluminação que aumenta e como é que a gente vai fazer Mas sempre pensando é na mem na na melhora desse espaço Como que a gente pode receber ainda melhor é os grupos que vêm apresentar como a gente pode receber ainda melhor o público que vem assistir É a cada ano que passa é uma nova luta e é uma nova conquista Hoje por exemplo a gente tá lutando pra conseguir fazer nossas arquibancadas pra conseguir colocar uma é uma estrutura de de de ventilação melhor na casa Então é essa essa casa é a nossa casa né é onde a gente coloca afeto 144 trabalho suor e é e junto com todas as adversidades porque são várias pessoas pensando coisas e pensando o melhor pra casa é então eu acho que a Casa Ninho é tudo isso é um um coração pulsante sabe Que tem horas que às vezes pode ser pesado mas vale a pena sabe Vale a pena quando você vê aquela casa cheia de gente e as pessoas agradecendo é porque na cidade não conseguem ter ter esse outro espaço assim de de de afeto de de fruição esse espaço que junta tanto as pessoas e que as pessoas conseguem ficar perto sabe Conseguem trocar afeto E agora nesse momento né que a gente teve que fechar nossas portas por conta de uma pandemia é aí que que eu consigo perceber o quanto esse local é importante pra mim pra minha vida sabe É Eu acho que é isso Desculpa se ficou longo Tem muita memória nas nas minhas palavras Brigada Ed Boa pesquisa Sâmia Ramare Áudio 2 000302 É Formação do Grupo Ninho né Eu sempre gosto de falar da história do Ninho pela minha perspectiva né de como eu conheci o Grupo Ninho é eu conheci o Grupo Ninho no ano da da formação em 2008 ou foi 2007 ou foi 2008 eu vou conferir essa data ainda esse ano É a gente se conheceu no Festival de Teatro de Acopiara é um festival super importante aqui pro pros grupos do interior do estado do Ceará É eu assisti o espetáculo Bárbaro né Eu tava indo com outro grupo na época eu morava em outra cidade e eu assisti o Bárbaro e fiquei muito impactada assim com o com o conteúdo com a forma de fazer é porque naquela época eu tava dando os meus primeiros passos no teatro né eu ainda era adolescente e ver o espetáculo Bárbaro me marcou muito assim é no no meu entendimento de artista mesmo de atriz me marca bastante E eu sempre acompanhei o Grupo Ninho né depois que a gente se conheceu em Acopiara nos tornamos amigos trocamos figurinhas e tal e sempre acompanhava É e quando eles iam pra pra Fortaleza nessa época eu morava pertinho de Fortaleza eu pude ir ainda assistir algumas apresentações assim é um grupo que eu sempre admirei desde a formação desde quando eu os conheci e as conheci sempre admirei é pelo trabalho Então o Grupo Ninho surge pra mim em Acopiara e é bem marcante a época que surge é como eu estava né assim iniciando na vida teatral é ter 145 ter assistido o espetáculo Bárbaro me impactou é um é um processo que marca muito é minha vida né Sâmia Ramare Áudio 3 000435 Integrantes Nós somos oito quatro mulheres e quatro homens com vidas idades é nascidos em cidades completamente diferentes somos de várias partes do estado do Ceará né e eu acredito que isso é faz toda uma diferença né É por algum tempo eu fui a integrante mais nova tanto de idade quanto de tempo de de teatro E isso pra mim é nessa época que foi logo quando eu entrei no grupo em 2013 era uma coisa muito boa pra mim porque eu tava ali com pessoas super experientes tanto de tempo de vida quanto de tempo de teatro e isso ao meu ver sempre foi muito muito bom pro Grupo Ninho tanto em relação à diversidade de de conteúdo que a gente conse conseguia e consegue trocar até hoje é diversidade de estéticas diversidades de de gênero e de orientação sexual e de pensamento de mundo e de pensamento de teatro Então hoje nós somos oito cada pessoa vai se se afinando em uma área né Eu por exemplo durante muito tempo de 2013 até 2019 eu fiquei mais nessa parte da comunicação das mídias sociais que é que é uma coisa que eu gosto muito Então a gente vai por aí mesmo pela sua afinidade como você pode contribuir com o grupo e depois é de 2019 pra agora né pros tempos atuais eu dei uma mudada né agora eu tô na parte do financeiro que é uma parte que me desafia muito mas eu tô começando a pegar gosto pela coisa assim é é são são desafios são coisas novas que você vai aprendendo e cada coisa tem sua importância sabe Cada função tem sua importância É tem o Edceu que ele tá na gestão pensa projetos desenha todo mundo pensa junto também mas ele é é a pessoa que tá que tá nessa frente é de escrita de projeto também tem Rita que ela contribui muito por conta da formação dela acadêmica né Pensar toda essa questão de de planejamento estratégico de produção tem a Monique que ela tá muito a frente e o planejamento estratégico nos ajuda muito assim é tem o Eudes também que ele tá junto com projetos Tem o Elizieldon que ele cuida de toda a parte assim da Casa Ninho ele é a pessoa que tá à frente O Fagner que cuida agora dessa parte de comunicação mídias sociais é Joaquina ela também tá muito ligada a essa parte de produção parte de escrita de projetos ela também desenvolve essas práticas Então assim tá cada um 146 movendo uma engrenagem né Se você olha assim é eu consigo visualizar uma teia E aí a gente consegue conversar confabular coisas é um sempre tá ali ajudando no trabalho do outro se algum tem uma dificuldade coloca na roda pra todo mundo se ajudar Então assim é um grupo mesmo é constituído por diver diversos pensamentos né São oito pessoas realmente trabalhando praquela engrenagem dar certo praquele carro andar né Sâmia Ramare Áudio 4 000404 Repertório Nós temos sete trabalhos né Bárbaro Avental Todo Sujo de Ovo Charivari O Menino Fotógrafo A Lição Maluquinha Jogos na Hora da Sesta e Poeira E estamos em sala de trabalho né 2020 a gente tá a gente tá em sala de trabalho com dois trabalhos É eu Joaquina e Rita estamos pensando agora tá nos movendo um trabalho que fale sobre o feminino e Edceu Fagner e Elzieldon estão o que tá inquietando eles é a coisa da das masculinidades É quando você olha assim do Bárbaro de 2007 até 2020 né assim a gente consegue ver um repertório muito plural né do Grupo Ninho A gente nunca assim nunca tipo se apegou numa coisa e foi só aquela coisa Não a gente teve toda uma diversidade né de temas de estéticas de formas de fazer os espetáculos andarem Quando eu penso no Charivari que é um espetáculo de rua que tem uma banda em cena né tem músicos em cena e é rua todo mais pra fora todo musical E aí eu penso no Avental que é uma um espetáculo pequeno simples to demarcadinho ali eu vejo a pluralidade né do Grupo Ninho Então esse repertório também nos amadureceu muito né porque dentro dos trabalhos o que me encanta também me dá essa força pra continuar é que to todas as pessoas ali são importantes desde a atriz até a operadora de luz até operadora de som até a gente que coloca o arroz que tira o arroz Então todo mundo é importante pra esse repertório ele caminhar né desde uma inscrição num festival até é o pagamento de um cachê né todo mundo é importante pra esse repertório ele se manter ativo Alguns espetáculos a gente é decidiu por bem não fazer mais por conta de toda uma logística mas os que ainda permanecem a gente consegue fazer assim consegue apresentar na Casa Ninho consegue é circular pelos festivais nesses nesses tempos de agora que os festivais estão tão minguados né a gente ainda consegue ir e é uma alegria muito grande quando a gente consegue circular com o nosso repertório tendo em vista todas as dificuldades 147 que é no nosso país se circular né A gente tem todo um um uma energia né um um enfim adversidades pra construir um espetáculo e de repente a gente não consegue circular por falta de políticas públicas no nosso país Então é mais ou menos isso assim sobre repertório Sâmia Ramare Áudio 5 000203 Poética Eu acho que a a poética tá muito ligada no que eu acabei de falar sobre repertório né que nós do Grupo Ninho e antes de eu estar é as meninas e os meninos já pensavam coisas falar sobre nós né sobre as pessoas é nordestinas cearenses pessoas pobres so sobre nós falar da gente né Então a cada passo que as coisas vão caminhando eu vejo muito mais essa poética de se aproximar de nós mesmos de nos aproximarmos da nossa histórias das histórias que não foram contadas é que são as histórias das das mestras e dos mestres da tradição popular do Cariri por exemplo como em Poeira É no Avental falar desse homem simples dessa mulher simples das nossas mães das nossas avós Então o repertório do Grupo Ninho tá muito é quer dizer a poética do Grupo Ninho tá muito atrelada a às pessoas é às pessoas cearenses ás pessoas simples é personagens da vida cotidiana mesmo como a Professora na A Lição Maluquinha uma estudante ou um estudante sobre as nossas histórias mais simples e e que consequentemente quando você coloca na cena ela se torna mais mais forte né porque a gente tá falando da gente Sâmia Ramare Áudio 6 000432 Projetos É lá em cima eu também falei de de projetos eu acho quando eu tava falando sobre os integrantes do grupo Projetos todo mundo contribui né assim desde a da escrita até a execução É olhando pra história do Grupo Ninho esses doze anos a gente já conseguiu é aprovar vários projetos e executar vários projetos importantes é o primeiro projeto assim que eu lembro de de grande importância foi o projeto de de um curso livre de iniciação teatral né que eu pude fazer e desde aí o meu o meu contato com o Grupo Ninho ele aperta os laços eles apertam né que trazer vários profissionais do Nordeste é pra ministrar aulas pros artistas da região do Cariri tendo em vista que aqui é não assim a gente 148 tem cursos é na tem curso de teatro na universidade mas quando você vai ver assim cursos mesmo de formação pros artistas da região nossa nossa região é muito carente Então o Grupo Ninho sempre é pensa em projetos que vão olhar pra pra sociedade né que que vão olhar pros artistas da região que vão olhar pras pras pessoas É então a gente consegue ver aí na nesses doze anos é projetos que sempre olharam né assim que as pessoas puderam ter contato puderam aproveitar Por exemplo o Sessão Dupla que é eu eu escuto muito falar desse projeto que eu acho encantador que é você circular com dois espetáculos olha que loucura circular com dois espetáculos por escolas por lugares inimagináveis assim com condições mínimas de se apresentar e iam lá apresentavam Lembro também de um projeto que que nós fomos aprovados da Petrobrás que a gente ia em lugares assim que não tinham nada fomos numa escolinha que não tinha nada levamos nossos refletores e apresentamos o Avental pra uma escola e pra pra pessoas que várias nunca tinham assistido um espetáculo teatral ai me emocionei desculpa É então e eu fui privilegiada por um projeto do Grupo Ninho né é então eu vejo a importância desses projetos é a forma como eles são pensados e executados Agora a gente tá com um projeto que é a Escola Carpintaria da Cena que você tem sete é módulos de artes cênicas de teatro e sete módulos com mestres e mestras da cultura popular do Cariri que as pessoas têm oportunidade de ver e ouvir é de fazer coisas de criar né você depois que passa por um um projeto tão extenso o quanto de material que você tem no seu corpo então os projetos do do Grupo Ninho eles são é muito importantes pra região do Cariri pra nós pra nós que fazemos o Grupo Ninho é sempre que a gente pensa num num num projeto é é pensando também nos desdobramentos que eles vão vão ter sabe Então acho que é mais ou menos isso Sâmia Ramare Áudio 7 000259 Sustentabilidade Sustentabilidade somos todas e todos nós assim todos os dias a gente tá pensando de como se manter em pé Tem uma uma frase que eu acho incrível que é o desafio é manterse de pé e é mesmo é mesmo porque é a gente na semana tem oito dias e a gente trabalha esses oito dias não tem feriado não tem final de semana não tem datas comemorativas até nos nossos próprios aniversários estamos trabalhando estamos pensando tanto a sustentabilidade desse 149 grupo a sustentabilidade de cada um e cada uma de nós quanto a sustentabilidade da Casa Ninho Então é todo mundo se pegando se pegando no no sentido de dar as mãos pra manter isso de pé mesmo sabe É desde limpar a Casa Ninho até vender os ingressos desde escrever um projeto até postar ele no no correio desde lidar com todas as situações é burocráticas que as instituições nos colocam E nos colocam no sentido de as vezes é as vezes como prova mesmo sabe E aí a gente tem que ser artista tem que ser burocrata tem que ser uma multiplicidade de coisas em uma só pessoa É com o planejamento estratégico o planejamento estratégico nos ajuda muito a pensar essa sustentabilidade né é e quando quando a gente consegue por exemplo aprovar um projeto sempre a gente cria várias vários leques assim é como esse dinheiro ele se multiplica por exemplo né que muitas vezes nesses projetos nã não tem rubrica pra pra nos sustentar pra nos nos pagar é nã não tem como pagar o o o espaço e mesmo assim a gente meio que tá sempre re reinventando a roda sabe Tá sempre traçando metas traçan confabulando coisas pra conseguir manter isso de pé né Acho que é isso Sâmia Ramare Áudio 8 000302 Formação que também eu acho que cai em alguma coisa que eu já já falei né é eu sou cria de um projeto de um curso de formação teatral que o Ninho inscreveu e passou e tal e e nesse curso né o ano era 2012 e a gente teve vários módulos né é de direção interpretação iluminação maquiagem enfim então eu eu eu sou eu sou cria disso que eles pensaram lá atrás É como a formação ela é importante aqui pra nossa região né que assim o a gente tem a Universidade Regional do Cariri com o curso de Teatro a gente tem os SESCs tem o Centro Cultural mas quando você vai olhar pra essa parte de formação dos artistas nossa região é uma região muito carente muito carente mesmo Tem cidades é daqui da nossa região que não têm um teatro que não têm uma oficina de artes alguma coisa não têm E aí muitas vezes é essas pessoas vêm vêm buscar aqui né Eu eu me recordo que agora na na na antiga turma da Carpintaria da Cena que é a nossa Escola Livre de Teatro tiveram pessoas que se deslocaram é tem o Chico que se deslocou de Oeiras no Piauí pra vir fazer a Escola aqui porque lá na cidade dele não tem Tem a Carleziana que é vinha de Iguatu no Sertão Central pra cá 150 pra fazer as aulas Então quando você olha pra essa parte da formação é é muito importante o trabalho que que a gente tá fazendo aqui no Crato né porque se vêm outras pessoas de outras regiões pra cá fazer aqui o nosso é porque na região deles nas cidades não tem E como como a gente tem uma responsabilidade sobre isso sabe Sobre sobre essas pessoas A gente tem um uma responsabilidade na vida delas É como esses cursos essas oficinas que a gente consegue ministrar consegue fazer através de edital como elas são importantes pro pro crescimento da região pro crescimento das pessoas Elizieldon Dantas Áudio 1 000337 O repertório do Grupo Ninho de Teatro Falar nesse contexto atual do repertório do Grupo Ninho onde onde se encontra todos os grupos e movimentos artísticos que que estão sofrendo de certa forma com o descaso né esse desgaste e o desmanche da dessas instituições que promove a arte É esse desgoverno que busca de certa forma é nos eliminar pelo cansaço da má administração E isso afeta todos os trabalhadores da arte de modo geral não só do do teatro E o Grupo Ninho es é está também passando por um momento crítico né de campanha da da casa e tudo mais Estamos a cada dia né buscando o sentido de de que nos fortaleça a cada passo né Nada é deixado de uma hora pra outra Não é doze anos de de luta de história de efervescência na na nossas veias de de horas de de luta de trabalho E e falar do repertório do Grupo Ninho de Teatro nesse momento é é dar de certa forma uma identidade uma afirmação ao nosso lugar exatamente em vinte e do é em 2008 o grupo já tinha um pensamento crítico de como colocar no palco as inquietações que nos afeta né é nos chegava de certa forma e continua chegando de maneira tão banalizada é as violências É assim falar do repertório do Grupo Ninho é lembrar de doze anos de história é de muito trabalho determinação dedicação à arte respeito com o público honestidade com as pesquisa é que nos nos fortalece de de construções que formam as narrativa que o público pode ver depois e e assistir é e e depois a compreensão com o companheiro de cena é a responsabilidade naquilo que faz E é assim que temos traçado a nossa trajetória de grupo É o repertório do Grupo Ninho posso dizer que inicia com quatro esquete é em julho de 2008 As esquete que de uma de uma forma pensada naquele momento era tratada as múltiplas faceta da da violência 151 Um panorama cinzento existencial que cada esquete traz um recorte dessa violência e o grupo viu viu a importância de comunicar e mostrar através da nossa arte que é que é pe é Elizieldon Dantas Áudio 2 000732 Continuando e e a importância de comunicar é de denunciar e mostrar através da nossa arte e é perceptível quando os atores e atrizes estão nesse jogo de de cena essa violência é vivemos em em um mundo cada vez mais acelerado isso faz com que o homem fique mais estressado no ambiente nesse ambiente né Assim contribuímos é para vários assim contribuímos para vários sentimentos inclusive o da da violência As esquete Yyycomvc de autoria de Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade ela trata da violência no mundo virtual Na segunda esquete Embalando Meninas em Tempos de de Violência é uma livre adaptação do do cordel homônimo de de Salete Maria Nessa esquete a violência prevalece sobre o universo feminino Terçafeira Gorda também é uma adaptação do conto de Caio Fernando Abreu A homofobia leva um homem a a ser assassinado pelo é em pleno carnaval Passeio Noturno é uma adaptação também dos contos Passeio Noturno Parte 1 Passeio Noturno Parte 2 do Rubens Fonseca Então essas discussões da da violência contribuiu no desenvolvimento do primeiro espetáculo do Grupo Ninho é houve um alinha alinhavamento é uma costura né entre essas esquete pelas pelas figura dos dos brincantes do Cariri que é os Careta E assim dando origem ao primeiro espetáculo do Grupo Ninho que é Bárbaro Isso em 2008 No elenco Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade Na direção é Jânio Tavares e Joaquina Carlos Em Avental Todo Su Sujo de Ovo Avental Todo Sujo de Ovo é um texto do Marcos Barbosa direção de Jânio Tavares Avental Todo Sujo de Ovo foi o espetáculo que promoveu a fundação do Grupo Ninho de Teatro e o espe e o espetáculo estreou no início do ano 2009 Uma relação familiar repleta de sentimentos limitações e cheiro de arroz doce da lembrança do filho que partiu é da presença constante da comadre e e o retorno surpreendente de alguém Esses são os tempero né da da vida dessa família Avental Todo Sujo de Ovo é no elenco o ator Edceu Barboza Joaquina Carlos Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio é protagonizam esse conflito Em Charivari Charivari é o é o primeiro espetáculo de rua do Grupo Ninho de Teatro 152 É um diabo é disfarçado de padre cai dentro de uma igreja e um morcego é faz amizade fielmente com o diabo Uma viúva chora feliz a é o cortejo fúnebre fúnebre do do defunto Uma beata apaixonada pelo padre e um sacristão gay Esses são os personagens de cunho hilariante que fazem um desfiles um desfile público é convidando quem está próximo é a participar dessa narrativa A dramaturgia é da Lurdes Ramalho e a encenação de Duílio Cunha Charivari estreou em setembro de 2009 É um espetáculo que passeia nas tradições cana carnavalescas medieval com picadas hilariantes do dos elementos do teatro contemporâneo No elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Joaquina Carlos Kelyenne M Kelyenne Maia Nilson Matos e Rita Emanuela Cidade É O Menino Fotógrafo um espetáculo simbolismo fantástico de 2011 Surgiu com o desejo do grupo de montar um espetáculo que fosse florescendo a partir de uma dramaturgia que fosse criada dentro da sala de ensaio A cada encontro os ensaios foram se enraizando e tomando forma Esse processo foi con é construído colaborativo com a Companhia de Teatro Engenharia Cênica tendo como encenadora e dramaturga Cecília Maria No elenco Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas é Joaquina Carlos é Luiz Renato Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio É é um é um momento histórico recortado por fragmentos de cenas teatrais cruzando simultaneamente em um bombardeio aéreo no Caldeirão da Santa Cruz do Deserto Jogos da na Hora da Sesta Jogos na Hora da Sesta é é um texto que foi escrito em 1976 durante a Ditadura Militar argentina O texto é da dra dramaturga romena radicada na Argentina é Roma Mauê correto Mahieu O Grupo Ninho de Teatro é monta Jogos na Hora da Sesta em 2012 Jogos pássaros cantam céu azul limpo sem nuvens brincadeiras de crianças revelam a violência e opressão as crianças observam e ro e reproduzem tudo que está ao seu redor Uma obra que nos fazem refletir e nos levantar discussões sobre autoritarismo O espetáculo é ambientado em um parquinho de uma praça No elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Kelliane Miller Kelliene Miller Kelliane Kelliane Miller e Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio Na direção Jânio Tavares É Elizieldon Dantas Áudio 3 000041 Ah voltando um pouco sobre Bárbaro né nessas nessa costura é a gente também traz em cena é a figura dos Caretas que na nossa infância eles nos 153 causava essa violência A gente tinha de certa forma um medo né Essa figura tão popular na região do Cariri que ele está presente nas festa de de reisados Na festa po nas festas populares da tradição aqui do Cariri Elizieldon Dantas Áudio 4 000253 Continuando é A Lição Maluquinha uma livre adaptação do do livro Uma Professora Muito Maluquinha do Zeraldo A história tem como pano de fundo uma escola da Professora da Menina do Menino Uma lição onde o amor vence todos os obstáculo é numa pequena cidade onde mora a Professora a Menina o Menino e outros habitantes que serão citados no decorrer da da aula como o Boêmio um admirador da professora o dono do cinema e amigo da professora onde ela leva seus alunos para assistir Casa Blanca um clássico do cinema mundial as fofoqueiras que sabem da vida de todos os habitantes da cidade o dono o dono da esquina que mora logo ali ao lado A Lição Maluquinha é o primeiro espetáculo infantojuvenil do Grupo Ninho de Teatro dessa forma foi uma maneira de contemplar toda faixa etária de público com o nosso trabalho A criatividade e os questionamento de como as aulas da Professora serão serão ensinada e e a formação dessas pessoas não só para atender às necessidade do mercado de trabalho mas dar dar uma contribuição é significativa para transformação na vida que é possível a partir do aprendizado de uma obra de arte o filme É nos estímulos para crescer a partir desse olhar mesmo assim ainda encontra resistência na nessa sociedade E ela passa por vários momentos é crítico infelizmente É o ano de 2013 foi dedicado a esse público né com esse espetáculo A Lição Maluquinha Quem vive quem vivencia essa essa lição dramática são os personagens o Boêmio interpretada por pela atriz Joaquina Carlos o Aluno Jânio Tavares a Menina Sâmia Ramare e a professora é feita por Zizi Telecio Na direção Rita Emanuela Cidade Elizieldon Dantas Áudio 5 000456 Em 2014 a pesquisa para o novo processo do Grupo Ninho né O Grupo Ninho de Teatro foi aprovado em um projeto de pesquisa da Escola Porto Iracema das Arte na qual tinha como ponto é como contrapartida um experimento da pesquisa realizada que seria compartilhar para todos os os alunospesquisadores da escola 154 e demais pessoas que estivesse afim de assistir né e aí o Grupo Ninho de Teatro é debruçamos né sobre o universo de de saberes de algum dos mestres da e mestra da cultura popular do Crato e Juazeiro Eles foram nossa nossa inspiração e fonte de pesquisa com respeito trabalho e admiração por cada né ten tendo em vista a grande contribuição que eles já fazem em nossa cidade em nossas cidades A forte é tradição da cultura popular trazem nas suas nas suas vivências nessa trajetória de vida com diversas linguagem é Reisado Dança do Coco Maneiro Pau Lapinha Jogo de Espada enfim são vários É é Pau de Fita enfim o Cariri Ceará tem tem esse berço da tradição dos Brincante Como a com a orientação da da da pesquisa Carlos Simione e o Jesser de Souza é do Lume Teatro é do Lume Teatro é de Campina Essas essa essa busca incessante pelo pelo conhecimento desses desse universo de de saberes de sabedorias de cada de cada um que cada um tem é a pesquisa foi foi dese desenvolvendo um um embrião né foi tomando forma de um embrião que no início teríamos batizado pelo nome de Tributo aos Mestres Nesse momento a gente já tinha muitos muito material suficiente para um espetáculo É tivemos também oficina de de dramaturgia da cena com Miguel Rubio Yuyachkani Peru é oficina de voz com Ernani Maletta Isso tudo em 2014 para a finalização do do projeto Em 2015 é tivemos que tivemos que por um motivo de de circulação do grupo né do do grupo é tivemos que parar a pesquisa também já tínhamos realizado o projeto é essa circulação do grupo no Palco Giratório do SESC à nível nacional não foi possível dar essa continui continuar a pesquisa é nos aprofundando mais né no no no mesmo ano Não foi possível se aprofundar tanto no mesmo ano É mas esse mas esse processo criativo não foi não foi descartado assim de certa forma O grupo quando ele retorna da circulação a gente volta para a sala de ensaio e em dois mil e e dezesseis com direção de Edceu Barboza e o Jesser de Souza criamos o sétimo espetáculo do Grupo Ninho Poeira É o espetáculo mais recente que surgiu a partir dessa dessa pesquisa com os mestre da cultura popular do Cariri Ele eles que nos deram tanta tanta contribuição e Elizieldon Dantas Áudio 6 000154 É Ninho É o Grupo Ninho ele ele surgiu em 2008 é pela através da montagem do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo do do Marcos Barbosa É 155 isso foi em uma discussão do dos meninos que tavam em nesse processo de montagem Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos Rita Emanuela Cidade e Zizi Quando retornava desse desse ensaio é começaram a falar da da atmosfe da atmosfera do do espetáculo enfim é do arroz espalhado na calçada que o arroz é amarelo Tem uma cena lá que que uma das personagens cisca o arroz com os pés e relembra a galinha que a galinha faz o ninho que o ninho é uma estrutura construída pelo pela pelas aves essas coisa toda E daí foi nesse em uma dessa dessas conversas desses retorno dos ensaio que surgiu o nome né que também era nesse momento que tava começando a surgir os festivais né e pra pra se inscrever nos festivais precisava de um nome E aí com essa cena que rola uma das atriz ciscando o arroz com os pés que relembrava galinha e aí apareceu o nome Ninho E aí foi dessa forma que surgiu o Ninho Isso em 2008 pela é através da montagem do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo Elizieldon Dantas Áudio 7 000354 É integrante do Grupo Ninho né A primeira formação do Grupo Ninho é eram cinco pessoas que era o exatamente o elenco de Avental Todo Sujo de Ovo e o diretor né E daí com eu acredito que com a necessidade de é de mais pessoas eu acho que pela forma do que o Ninho estava é se propondo né a surgimento de trabalho mais e mais então aí é eles convidam Alana Morais e eu pra fazer parte dessa equipe né E acredito que um ano depois Alana sai e aí nesse processo a gente tava com uma com uma escola de formação de um ano que a Sâmia também nesse momento estava fazendo essa escola de formação acho que era de nove meses senão lembro Enfim ela nesse momento começou a gente tava sentindo a falta de alguém para ficar no local de Alana na né E aí o que é que acontece é a Sâmia tava se destacando muito nesse no nossos olhares que a gente tinha tava observando alguém né também pra convidálo pra fazer essa essa pra preencher essa vaga E aí o que acontece é teve um momento que a gente convidou a Sâmia e ela aceitou então ela ficou é no Ninho ela tá no Ninho e depois o Jânio e a Zizi sai do grupo né e voltamos à estaca né à necessidade de convidar mais pessoas pra exatamente ocupar essas duas vagas Não digo é substituir porque ninguém substitui ninguém né mas com como a gente também tava precisando de pessoas pra somar né e aí a gente convidou o Luiz e o Fagner 156 É hum como Luiz morava em mora em outra cidade então eu acho que pela dificuldade de ele morar em outra cidade ele não não aguentou muito esse processo E aí a gente convida com como ele saiu a gente convidou Eudes né E aí e aí Eudes veio pra somar também Monique a gente já tinha uma parceria com Monique há mais de quatro anos que ela né fazia essa parte de de cursos de planejamento essas coisas e aí a gente já também precisava oficializar ela que ela não era do grupo assim dizer não era porque a gente ainda não tinha convidado mas a gente já sentia essa essa coisa que ela era já já do grupo mas a gente precisava oficializar E aí numa apresentação em São Paulo a gente quis oficializar lá em São Paulo né e aí convidamos ela pra ser mesmo oficial do grupo e aí estamos aí Nós estamos em oito oito pessoas O grupo hoje está com com oito mas quando surgiu era eram cinco pessoas Elizieldon Dantas Áudio 8 000257 É projetos os projetos da Casa Ninho é os projeto da Casa Ninho ele é muito quando o grupo o quando quando os grupos né que habitam a Casa pensam em em algum projeto já pensa também nessa na população como como é como esse projeto também poderia contemplar essas pessoas né E aí a partir desse desse pensar é temos a Escola Carpintaria da Cena que é um projeto de três anos é de formação em teatro com os mestres da cultura popular e alguns professores de teatro de de São Paulo e de Fortaleza Então desde desde o primeiro ano que a gente entra na Casa que a gente já pensa também nessa como contribuir pra essa população É tanto que quando eu falo dos integrante a Sâmia ela entrou porque ela estava dentro de um do dos projeto né da da Casa Então foi daí que ela surgiu e hoje ela é a ela habita o grupo né E e é dessa forma também que a gente pensa que a Casa contribua pra cidade não só do Crato mas pra ci pras cidades locais Então os projetos da Casa Ninho ela não não é só pensada no nos coletivos que habitam essa a Casa né Ela já aconteceu é mostra de cinema já teve mostra de dança já teve palestras enfim é já teve show musicais e além de mais é o o os grupo que fazem parte da da Casa eles todos os anos tem a Mostra de Repertório que é o PQP já pra que as pessoas que não tenha vamos dizer que não tenha um um um um costume de ir ao teatro que não tenha uma grana que não possa é pagar o um preço justo então já é 157 é uma forma também dele poder ter o acesso à cultura né e também ir educando esse público a pagar né Então a gente tem também o projeto PQP que facilita também desse público é ter acesso né É e é desse jeito que a gente tem Elizieldon Dantas Áudio 9 000159 É eu acredito também que essa poética do Grupo Ninho né vem muito da simplicidade de cada um é eu eu eu gosto de de de pensar agora nesse exato momento do Avental Avental é um texto que representa muito bem essa poética do Grupo Ninho né é um um é o grupo nunca pensou de montar uma mega estrutura essas coisa todos os espetáculo do Ninho têm essa poética da simplicidade que está tão presente nos espetáculo né é a simplicidade de do olhar um simple de uma simples conversa de uma comadre com a outra numa cadeirinha de dum banco de de de couro que isso é muito presente também na nossa região do Cariri essa conversa de duas comadre numa calçada Então eu acredito que essa simplicidade essa poética do grupo é é muito da da nossas origens Então eu eu vejo que o Avental ele representa muito bem é a cada um não só desses que tão em cena na peça mas eu acredito que todos aqueles que que é do grupo e daqueles que são da nossa região porque quer queira ou não todos vive aquilo aquela história de duas comadre do sertão não precisamente de de de fato pela história que tem no Avental mas essa simplicidade das duas comadre ire irem à missa o marido de uma beber outro ser viciado no jogo isso tudo então essa poética que envolve o Grupo Ninho vem dessa simplicidade da nossas origens Elizieldon Dantas Áudio 10 000212 É o espaço Casa Ninho né construir uma sede e pra se trabalhar eu acredito que seja o desejo de cada grupo né não só do teatro mas também da dança acredito que da artes visuais com seus ateliê enfi enfim essa linguagem da arte eu acredito que precisa muito desses espaços assim que pra poder ter o seu local o seu espaço pra se trabalhar né Então em 2011 o Grupo Ninho pensou nesse nessa possibilidade E aí é pensamos em qual das cidades que seria contemplada porque moramos aqui tem membros do grupo que é em Juazeiro outros no Crato mas 158 também tinha a possibilidade de Barbalha né Mas aí a gente pensou muito qual seria das cidade e tendo em vista que Barbalha já tinha a Universidade Regional do Cariri com o curso de Teatro e o curso de Artes Visuais né então Barbalha já estava contemplado com com a universidade né E aí partimos pra pensar sobre Juazeiro e Crato E aí também vimos que o Juazeiro tinha o Centro Cultural tem o Centro Cultural e o SESC né que que sempre tinha movimentos teatrais no no no Centro Cultural né todos os meses tinha uma peça né Hoje não porque a gente tá passando por um problema mesmo de desgoverno então não tá tendo mais como antes né E aí pensamos no Crato e foi lá no Crato que a gente fundou a Casa Ninho né que estamos lá desde 2011 e ainda estamos no no primeiro prédio e acredito que vai ser um bom tempo lá que é um galpão que hoje está dividido com com o Grupo Ninho e o Coletivo Atuante Elizieldon Dantas Áudio 11 000233 É a poética né Bem a poética é é o que nos toca né A partir do momento da leitura de um texto que todo mundo chega e diz que ele nos afetou então a gente começa a pensar nele como um uma montagem uma possível montagem e sem esquecer também a nossas origens que é é muito forte no nossos espetáculo Então a gente bebe muito da cultura popular daqui do do Cariri porque é muito rica e a gente tem que primeiro é mostrar a identidade nossa local Claro que sem esquecer as de fora que é muito importante a cultura do outro mas a gente bebe muito é dessa dessa fonte É tanto que está presente no Av no em todos os espetáculo né Quando você assiste o Bárbaro tá a presença do do Brincante dos Careta quanto você assiste Avental tá no no arroz espalhado na calçada que isso é muito tradicional aqui na nossa região quando você vem pra O Menino Fotógrafo você vê aquela o altar das velas que também é muito é presente na nossa cultura quando você chega é no Charivari tem os Brincante da cultura popular é no Poeira tem na na Lição Maluquinha tem a a Professora que foge com o Professor com o Boêmio que aqui também tem essas coisa das mulheres que enfim são várias várias várias fontes que a gente bebe que a gente coloca no nossos espetáculos Então essa poética ela é muito vem da nossas do nossos questionamento da nossas raízes e acredito que não quando a gente tá montando 159 um texto que não seja uma pesquisa da gente a gente pensa como colocar essa poética nossa nesse texto é enfim são várias questionamento que que Elizieldon Dantas Áudio 12 000701 A sustentabilidade da Casa eu acredito que a sustentabilidade da Casa eu acho que também é é contemplada quando eu falo nesses projeto né a nesses projeto porque quer queira ou não é tem alguns projeto que a gente pensa nessa sustentabilidade da Casa Hoje estamos passando por um momento um pouco meio crítico é porque estamos sem sem grana pra manter né e a gente também pensa que a Casa num é só uma responsabilidade dos dois grupos que fazem essa administração mas é uma Casa que que que acredito que a é esses órgãos prefeitura o estado é tem como contribuir porque nós como grupo estamos fazendo uma um um um trabalho que não é responsabilidade do grupo mas sim é dos município e do estado porque a gente tá fazendo arte distribuindo cultura né pras pessoas é de uma forma que seja acessível pra todos os toda a população Então a gente também recebe grupos de outras regiões que é em parceria com esses coletivo que vem de fora que não é pra se vamo dizer assim não é não é não é dos grupos que habitam a Casa pra pra fazer mas sim do do município como um a Secretaria de Cultural era quem pra fazer isso né Mas não quem tá nessa nessa nesse jogo de cintura como uma palavra bem popular é é os dois grupo que habitam a Casa Então é uma responsabilidade muito grande que também o grupo que vem de fora não tem grana eles vêm arriscando e que dessa forma é muito difícil fazer cultura pra quem está aqui no interior do Cariri né no interior do do Ceará fazer e se manter uma Casa há nove anos né Então é difícil e hoje a gente tá com essa campanha da Casa e graças à Deus as pessoas têm chegado muito é chegado junto porque elas também vê a a necessidade de contribuir com a Casa porque é um projeto de nove anos que tem feito acontecer a a arte no Cariri E vê que não é um projeto que que é de um dia pra noite pode ser ser deixado E também acredito que eles pensam que não é a responsabilidade só do Grupo Ninho e nem do Atuantes mas sim da da população em geral que se beneficiam né dessa dessa dessa arte que chega né Então eu acho que é isso E também é nessa sustentabilidade da Casa eu acredito que Monique Cardoso e o próprio Edceu eles eles vê muito essa forma de de edital Eu acredito que que 160 Monique contribuiu bastante ne na no planejamento de de estratégico né Ela chega e propõe pra o Grupo Ninho esse planejamento estratégico pra se manter até então era só o Grupo Ninho e depois começamos a fazer esses cursos que ela trazia e facilitou muito Fizemos várias parceria com com a Universidade Federal do Cariri com com o SESC com o BNB enfim com outros grupos que vêm de fora também porque não é fácil também é só receber e não ter uma contrapartida né Então dessa forma é que o grupo também essa sustentabilidade tem se dado na Casa né E eu acho que que Edceu ele também tem esse olhar muito pra os editais e vê como colocar um desdo desdobramento alguma coisa assim pra que que caia também é tipo na manutenção desse espaço ou então nessa sustentabilidade da Casa que não é fácil que tem alguns editais que não permite mas que a gente vai se mantendo assim Então eu acho que é dessa dessa forma Eu acho que também a Rita Joaquina tem essa pegada de ver como uma forma né É que não é fácil enfim é dessa forma que temos sustentado até hoje Às vezes tiramos é do nosso próprio cachê que isso é uma pegada que a Rita quando era vamos dizer era a caixa do grupo nós sentimos Quando a Rita era mais na parte da grana ela fazia com que vamos tirar uma uns dez dez por cento cinco por cento uma uma quantia pra ficar no no no caixa do grupo que depois também poderia cair como a manutenção da Casa que não era uma grana mas a gente tinha essa essa preocupação de manter essa grana pra um pra uma uma eventual possibilidade de de futuros enfim de uma necessidade futura mas que graças á Deus tem dado muito certo o o que o grupo pensa sempre nessa nessas coisa da da sustentabilidade do grupo e da Casa Elizieldon Dantas Áudio 13 000157 Bem a formação é é bem diversificada né a formação dos membros da da do Grupo Ninho E e de acordo com com a estrutura da Casa é cada um tem se identifica com a com a função que vai desenvolver dentro do projeto Ninho né É posso dizer que Eudes Edceu e e o Fagner ultimamente eles têm se se identificado muito com a escrita de projeto Eudes também com a estrutura e a técnica também da Casa Que Rita faz a correção textual eu acredito que também contribui muito Eu acho que que isso não não se pode negar A Joaquina que ela é muito boa de ideias mas eu acredito que ela assim como eu tenho essa dificuldade de 161 escrita de de projeto num é num sei ela que fala por ela Eu não tenho essa facilidade de escrever projetos Então eu fico na nessa parte da da estrutura da Casa né A Monique também que ela ela fica em orçamento Ela traz é esses planejamento estratégio estratégico do de se manter de ver como como facilitar as possibilidades enfim cada um tem sua sua função dentro do grupo né Sâmia a presidente hoje ela assume já graças à Deus já tá com do com com dois anos ou é um ano não lembro bem e e é isso Dessa forma que o grupo vai é escrevendo essa trajetória de grupo né É dessa forma que ele se mantém É Elizieldon Dantas Áudio 14 000728 O Grupo Ninho de Teatro hoje nós estamos vivenciando um outro momento um outro olhar de afeto de inint 000010 de abertura de criação uma nova renovação de sentido Pois é um campo de conteúdos tendo em vista que o Grupo Ninho é composto de quatro mulheres e quatro homens Imagino que cada um e cada uma que faz esse grupo se perguntou sobre esse momento Como um sujeito tendo sua identidade como grupo e e estável no sentido de sermos uma única veia como grupo esse todo né como iria fazer isso e como vai ficar depois logo agora nesses tempos tão sombrio que nos rodeou de tantas incertezas Talvez essas perguntas só tenha rodado a minha cabeça ou de de alguns né Estamos em fragmento suscitado por todos que que fazem o o o Grupo Ninho Esse desejo de questionar esse masculino e feminino Pois foi uma forma de nos entendermos como sujeitos cada vez mais que somos E que também somos criadores da cena São maneiras de se ver de sentir de se perceber de pensar de de morar de vestir ou seja consumimos nossas consumimos vidas Então a partir daí nos perguntamos de de que é de que maneira podíamos falar do feminino e masculino a partir das nossas próprias referências Assim o grupo foi proposto foi proposto dois núcleo que também projetamos nossas identidades culturais e pessoais Acredito que caiu como uma explosão no bom sentido das coisas é claro Acho que foi meio de um de suma importância estarmos passando por isso né Eu acho que falar desse masculino e feminino e e dessa fala das vidas que existe dentro do grupo e fora né falar dessas dessa vida que vai pra pra cena essa vida na sua fragilidade na sua impotência na sua extrema potência no fazer da cena e poder reinventar outras reinventar outras conexões dessa separação né Não estou dizendo aqui que é ruim 162 e nem que é bom foi preciso essa explosão acontecer dentro do grupo para podermos é criarmos duas montagens simultaneamente e com o olhar possivelmente com os pés na terceira montagem que daí seria o grupo todo né talvez Tudo isso vem acontecendo e estamos felizes de certa forma pois é trabalho Uma rápida reflex reflexão que para o Grupo Ninho é muito importante No final do ano 2020 se tudo se normalizar com essa situação no mundo essa pandemia até pra o início de 2021 é estamos nessa experiência que até então é muito que até então é muito novo para o grupo Uma experiência que se deu de uma forma simples que nem notamos essa separação entre masculino e feminino foi foi uma escolha que foi uma escolha que se deu naturalmente e que de repente as meninas já estavam ensaiando um outro processo criativo do grupo talvez pelo desejo o afeto que cada uma tem pelas suas memórias afetivas E se perceberam que era o momento certo de falar dessas dessas memórias desse corpo dessas dessas mulheres ou dessa mulher Saber sabe eu acho que foi mais ou menos assim Não que isso não tenha acontecido com os outros processos os outros trabalhos claro que isso aconteceu de trazer suas memórias Talvez esse processo já tenha esse processo agora já tenha surgido desses desses outros trabalhos anteriores Esse desejo de falar muito mais do eu como sujeito dono dessa narrativa Então as meninas notaram a importância né a importância que era hoje agora o momento certo Acho que também o espaço o tempo contribuiu para para elas vivenciarem esse momento de descargas Ao observarmos esse governo atual como como ele né se relaciona com as com as com as mulheres esse sujeito machista e cruel Já era hora de se permitir de compartilhar desse desses corpos que estão na busca de saírem dessas violências E assim né darem outras vidas outros significados outras transformações essas mulheres em cena essa geração de mulheres dessa vejo dessa dessa forma que essa criação passa pelo essa criação que passa pelo um caminho individual de cada uma e em sua identidade cultural desse desse sujeito dono dessa narrativa O Grupo Ninho de Teatro hoje falamos da das nossas vidas da n das nossas questões Nossa sexualidade nossa cor de pele que de certa maneira o outro se sente incomodado e que somos afetados por esse incômodo esses olhares atravessados que nos chegam de tal forma que nos deixam sem sem espaço pra respirar Elizieldon Dantas Áudio 15 000425 163 Não entendemos o porquê disso esses olhares atravessados apenas por sermos é diferente um do outro Dessa forma o grupo está falando né dos nossos cabelos enrolados dessa forma de andar do falar do se vestir da primeira menstruação da primeira punheta essas individualidades que é só minha e nem é só do outro também Acaba que é uma corrente e essa sociedade não enxerga não enxerga dessa dessa maneira E nos tornamos invisível um do outro E acredito também que nos afetamos afetamos esse sujeito também né nos afetamos e afetamos Então tem que de certa forma o outro estar sofrendo essas consequências para alimentar o ego do outro E isso não é normal né Por esses olhares que são reproduzidos E assim acredito que cada um do Grupo Ninho de Teatro está maduro para encarar esses processos criativos Essas essas duas montagens esses trabalhos é necessário hoje em 2020 É necessário em 2020 que o grupo fale desse desejo justamente fazer uma reativação do corpo né da da memória da mulher das coisas da das pessoas que estão ao nosso redor ao nosso lado Então o sujeito nós somos e assumimos esse papel de denunciar através da arte Estamos vivenciando essa experiência desses dois núcleos As meninas através do dos relatos né dos relatos que que já ouvi por essa linha de pesquisa que se colocam em xeque as questões pessoais coletiva também através dessa curva de tempo né São três mulheres três gerações num anseio de colocar para fora essa descarga essas mulheres esse universo carregado de suas questões que até então ainda está aflorando né Dessa forma essa dramaturgia vem é pontuando as suas vidas a vida delas né No fundo vivenciar essa narrativa eu acho que pra elas são três momentos distintos mas que também como são as mesmas inquietações por termos né talvez três gerações assim anos 60 anos 80 anos 90 não tenho certeza mas são três gerações E assim são três é momentos são histórias que elas trazem que eu também ainda não não cheguei a ver mas eu acredito que passa por essa por essas geração que uma está reproduzindo é e a outra também tá reproduzindo e a outra acaba que é uma é uma conexão né Em momentos diferente em anos diferente em idade diferente tempos diferentes Acho que dessa forma é a descarga que elas estão falando né desse universo Fagner Fernandes Áudio 1 000554 164 É eu tive que preparar um roteiro do que falar porque meus pensamentos são muito confusos as coisas vão se misturando e eu acabo me perdendo mas enfim sobre o surgimento do Grupo Ninho é eu sou um dos integrantes mais recentes do grupo né tem pouco mais de um ano e meio que eu faço parte e eu não estive presente obviamente no início da formação do grupo mas pra mim o Grupo Ninho surgiu em 2010 foi dois anos depois em que de fato ele nasceu E foi através de uma apresentação do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo que foi o primeiro espetáculo que eu assisti na vida o primeiro espetáculo de teatro porque na época o diretor do espetáculo Jânio Tavares era meu professor e e era integrante do grupo e juntamente com o grupo ele levou o espetáculo pra escola que eu estudava não sei se dentro de algum projeto ou não E naquele dia eu fiquei muito surpreso e muito feliz com o que eu tinha acabado de ver primeiro pela potência do espetáculo é que me atravessou de maneira muito linda e também porque essa experiência era algo muito novo pra mim era muito extraordinário não não não tinha acontecido antes de eu assistir a um espetáculo de teatro E foi a única vez ao longo dos meus anos de estudo no ensino fundamental e médio que eu tive a oportunidade de assistir a um espetáculo dentro da escola Talvez hoje isso seja um pouco mais comum não sei e por incrível que pareça é a outra experiência que eu tive assim dentro de uma instituição formal de ensino né aconteceu na Universidade Federal do Cariri durante a minha graduação e também foi com o Grupo Ninho de Teatro Na época o grupo apresentou o espetáculo Bárbaro no pátio da universidade E também é ministraram algumas oficinas de teatro e eu participei na universidade mesmo E desde aquela primeira apresentação de Avental que eu assisti em 2010 eu comecei a frequentar é outras apresentações do Grupo Ninho na verdade o máximo de apresentações que eu conseguia é e foi quando eu conheci Bárbaro Charivari outros espetáculos do grupo revi Avental Todo Sujo de Ovo e e eu sempre fui muito fã de qualquer coisa que eu via do Grupo Ninho né era uma inspiração muito grande pra mim e ainda é E ao longo desses anos eu fui acompanhando quase tudo que grupo fazia conheci a Casa Ninho comecei a frequentar os eventos que aconteciam lá e fiz oficinas com o Grupo Ninho com outros grupos também lá na Casa Ninho e a partir dessa relação que foi se estabelecendo por vários caminhos eu fui um dia convidado pelo grupo pra participar de um processo criativo com base no conto Um Moço Muito Branco de Guimarães Rosa E eu lembro que eu fiquei impressionado demais de ter essa oportunidade É no fim o espetáculo não vingou o processo não 165 vingou por algumas questões mas a experiência de dos poucos encontros que eu tive é a experiência de tá cercado por aquelas pessoas que me eram inspiração de de ver de perto o processo criativo de fazer parte é era um presente pra mim foi um presente pra mim Assim como também foram mu muito enriquecedoras as experiências de participar de algumas edições do projeto SESC Dramaturgias eu acho que esse é o nome é enfim do projeto de leitura dramática do SESC que eu participei à convite também do Grupo Ninho E embora eu tido essas experiências com o grupo eu eu eu fa fazer parte do grupo era algo que não passava pela minha cabeça sabe Porque era muito grande pra mim Eu não chegava a pensar sobre isso talvez porque no fundo eu sentisse que não era possível sei lá E aí por conta disso é muito incrível pra mim pensar que oito anos depois daquela primeira apresentação que eu assisti lá na escola eu estaria sendo convidado pra entrar no Grupo Ninho que é um dos grupos de teatro que eu mais admiro na vida E é muito muito bom muito incrível pra mim agora poder falar nós ao invés de falar elas e eles Fagner Fernandes Áudio 2 000604 Sobre repertório e poética é embora eu não tenha ainda estreado ou participado de nenhum espetáculo do Grupo Ninho a gente tá em processo hoje né em sala de ensaio na construção de dois espetáculos e eu tô em um deles tenho vivenciado mais de perto o processo criativo do grupo mas eu eu vou falar enquanto expectador que eu fui por muitos anos e que sou ainda Lá no início quando eu comecei a acompanhar o trabalho do Grupo Ninho eu ficava encantado Tinha uma uma relação de admiração mesmo Mesmo os espetáculos que eu não entendia direito como foi o caso da primeira vez que eu assisti O Menino Fotógrafo eu saí sem entender muita coisa mas eu achava incrível Talvez pela potência mesmo das pessoas que tavam em cena É se era um trabalho que à primeira vista não me pegou pela pelo pela compreensão pelo entendimento racional me pegou por diversos outros aspectos E também como eu falei porque o teatro era algo que tava surgindo na minha vida e aconteceu assim já com com essa oportunidade de poder assistir trabalhos de uma qualidade muito grande e eu falo no lugar de admirador mesmo do Grupo Ninho Acho que que o grupo tem uma sensibilidade muito muito linda muito grande tanto no conteúdo na na nas temáticas que são abordadas 166 como na forma na estética É é uma é grandioso de uma forma simples de uma forma econômica poética limpa e que toca que afeta Eu lembro que eu chorei todas as vezes que eu vi Avental né acho que pra mim que enquanto gay é que vivenciei muitas dores nesse sentido talvez seja mais impactante porque a gente assiste ao espetáculo e vai se identificando de alguma forma né mesmo eu sendo cis cisgênero É também me emocionei todas as vezes que eu vi Poeira sobretudo todas as ve todas as vezes que eu tomei a caipirinha do espetáculo E foi o espetáculo que me aproximou das manifestações da cultura popular né porque desde quando o trabalho tava ainda no início do processo de pesquisa pela minha relação com Joaquina pela minha proximidade com ela ela acabou me levando pra me levando na casa de mestra Naninha né E foi um grande presente pra mim porque foi a primeira vez que eu tive uma vivência mais próxima com uma mestra de cultura e também fiquei encantado com ela com com as histórias que ela contou ali com a forma como ela dizia as coisas com as frases que ela dizia e tudo revelava uma sabedoria muito grande É pelo que eu lembro até então eu não tinha eu não tinha a prática de ver as apresentações dos grupos de tradição popular é eu não entendia a importância da tradição popular e foi a partir do espetáculo Poeira que a minha perspectiva sobre os grupos de tradição popular sobre os mestres e mestras de cultura é foi transformada Hoje eu tenho uma relação de respeito mesmo e de de de admiração de apoiador e de frequentador dos eventos de tradição popular Bom Charivari e Avental foram os os dois primeiros espetáculos que eu vi do Ninho e eu lembro de ficar pensando no quanto eram espetáculos muito diferentes né em conteúdo em estética é os corpos as intenções o tempo era outro nos dois espetáculos e ao mesmo tempo os dois eram feitos pelas mesmas pessoas e eram feitos muito bem e com muita qualidade pelas mesmas pessoas Isso era muito grande pra mim dizia muito da potência dessas pessoas que eu não conhecia até então mas que me inspiravam muito na minha relação com o teatro E pra não me estender muito essa admiração seguiu em todos os espetáculos que eu fui assistindo e conhecendo é e eu vi todos absolutamente todos várias vezes Alguns como Avental e Poeira eu cheguei a ver mais de cinco vezes é e e essa relação de paixão com os espetáculos do Ninho e de ver repetidas vezes cada um deles talvez tenha sido de alguma forma uma maneira da vida já ir me preparando pra ser aninhado no futuro né que foi o que aconteceu em setembro de 2018 Esse 167 barulhinho de água foi o meu aplicativo me lembrando de beber água porque eu esqueço Fagner Fernandes Áudio 3 000623 Casa Ninho eu vou falar sob duas perspectivas da Casa Ninho primeiro enquanto público e segundo enquanto integrante da Casa Eu não sei dizer qual foi a primeira vez que eu fui à Casa Ninho que eu conheci a Casa Mas eu sei que eu frequentei os eventos da Casa desde de o princípio E no início foi por conta mesmo da relação de paixão pelo trabalho do Grupo Ninho mas depois foi porque a Casa se se transformou pra mim num lugar onde eu podia vivenciar a arte num lugar que me oferecia oportunidades que outros lugares não me ofereciam É pelo menos não da mesma forma né não com o mesmo aconchego receptividade é e que ao longo dos anos foi construindo em mim a sensação de fazer parte de alguma forma Esse sentimento de casa mesmo sabe Como o próprio nome do espaço já diz Se a Casa Ninho tivesse outro nome ainda assim ela não ia deixar de ser ninho de ser casa que é até meio redundante né mas é porque isso diz muito do que ela representa e eu tenho certeza que não é só pra mim Então são alguns anos enquanto sendo público sendo espectador dos eventos que acontecem na Casa E há um ano e meio né fazendo parte enquanto trabalhador mesmo do espaço É e parar pra olhar pra o que aconteceu em todo esse tempo refletir as vivências que a Casa Ninho me proporcionou me revela muita coisa Inclusive sobre quem eu sou hoje né porque porque se às vezes é a gente assiste a um espetáculo e sai provocado cheio de sensações né s ou seja aquele espetáculo ele teve um impacto na nossa vida por aí se pode calcular o que representa pra mim ter um espaço cultural próximo onde eu tenho a oportunidade de acompanhar de frequentar a programação cotidianamente ao longo de anos É o que eu vivi na Casa Ninho por exemplo tá muito mais nítido na minha memória é do que o que eu vi e ouvi enquanto conteúdo na escola por exemplo É esse é o o poder da arte né do teatro Ele ele pode ser muito mais transformador do que o ensino formal né E agora falando um pouco a partir do do ponto de vista de um trabalhador da Casa Ninho quando eu entrei no Grupo Ninho eu já eu já olhava pra Casa com um respeito muito grande né exatamente por conta dessa relação anterior que eu acabei de de falar um pouco E eu lembro que num num dos meus primeiros expedientes na Casa não lembro 168 se foi o primeiro ou o segundo expediente eu tava sozinho varrendo o salão e teve uma hora que eu parei assim no meio do salão e fiquei olhando o espaço e me vieram muitas sensações do tipo caramba não acredito que eu tô fazendo parte desse lugar né Que responsabilidade mas também que presente É saber saber que naquela tarde de terçafeira a Casa tinha sido aberta por mim tava sendo varrida e cuidada por mim ia ser fechada por mim ao final do expediente E também a partir dali isso foi cada vez mais frequente e eu pude ir contribuindo efetivamente com a Casa Ninho né através do meu trabalho E e é uma relação de troca porque eu contribuo com a Casa mas eu recebo um aprendizado muito grande a partir disso Se antes como público eu já aprendia agora eu aprendo muito mais e tenho a oportunidade de crescer muito mais na vida mesmo em diversos aspectos a partir da minha atuação na gestão da Casa Ninho E de fato é muita responsabilidade é muito desafiador mas é necessário sabe Não tem como olhar pra Casa Ninho sem dizer que é um espaço necessário É a existência da Casa Ninho ela é fundamental porque da mesma maneira que ela me trouxe outro olhar pra vida outra forma de me colocar no mundo ela também tem feito isso com com mais uma ruma de gente e e isso só é possível claro porque tem toda uma equipe de profissionais de funcionárias e funcionários trabalhando diariamente ralando muito pra fazer esse espaço existir dia a dia Fagner Fernandes Áudio 4 000456 Sobre os projetos eu queria é focar um pouco mais em um deles que é a Carpintaria da Cena que foi um projeto que eu participei enquanto um artista pesquisador enquanto alguém que foi beneficiado alcançado por esse projeto né No início da Carpintaria eu ainda não era integrante do Ninho E a Carpintaria veio num momento da minha vida em que eu tava um pouco distanciado do teatro da da prática do teatro né E a Carpintaria eu eu me inscrevi na Carpintaria no último dia de inscrição por incentivo de uma amiga minha e enfim acabei sendo contemplado e a Carpintaria ela me reaproximou da prática do teatro Foi um momento da minha vida que eu entendi que era isso que eu tinha que fazer mesmo assim que que é isso que me faz bem E eu vivi coisas muito incríveis através da Carpintaria né que a Carpintaria me proporcionou as trocas com profissionais do teatro que têm uma uma grande bagagem de conhecimento gente de de diversos 169 lugares do país e que eu dificilmente teria acesso em outro momento né pelo menos não dessa maneira em em treinamento passando por uma formação com uma troca mais efetiva e a Carpintaria da cena me colocou em diálogo direto também com a tradição popular foram sete módulos conhecendo mais de perto mestras e mestres de cultura que antes eu só via nas apresentações artísticas bem poucas vezes por ano né Então na Carpintaria eu pude eu pude tá mais perto ouvir dialogar entender um pouco da história de cada uma e de cada um desses mestres e mestras A oportunidade por exemplo de aprender um pouco da dança do Coco diretamente com a mestra Naninha de de aprender alguns movimentos da luta de espadas diretamente com mestre Antônio do Reisado dos Irmãos de visitar é o terreiro da casa de mestra Edite e ouvir os ensinamentos dela a as histórias dela e das demais senhoras do grupo Então quando é que eu ia ter essa oportunidade De que outra forma eu ia poder vivenciar ahn vivenciar tantas tantas trocas com pessoas incríveis Coisas que sem dúvida nenhuma impactam minha forma de fazer teatro claro mas é muito além disso É sobre sobre a vida mesmo É sobre como se colocar no mundo E e isso tudo me foi proporcionado pela Carpintaria da Cena que é um projeto do Grupo Ninho é e que e que é algo que eu acho muito muito precioso nos projetos do Ninho que é esse esse olhar não para não só para si mas também pra comunidade na qual tá inserida né como é que abraça mais artistas como é que que amplia mais essa ação pra chegar também às outras pessoas É e aí por isso que o grupo pensa sempre na questão das ações formativas né pensando mesmo em em promover essas trocas em compartilhar esse conhecimento em em aprender mas também em em permitir que outras pessoas também aprendam Então o Ninho se beneficia outros artistas da região também se beneficiam e e isso contribui diretamente pra pra o desenvolvimento de teatro de arte é na região do Cariri né Fagner Fernandes Áudio 5 000338 Sobre integrantes é um pouco disso que que Sâmia Rita que que já foi colocado Eu acho que hoje a gente tá numa formação muito bacana embora eu não tenha vivenciado a experiência do Grupo Ninho nas outras formações É eu eu sinto que meio que a gente se completa de alguma forma que as coisas tão redondinhas porque é isso tem pessoas na casa dos vinte dos trinta dos quarenta dos 170 cinquenta anos com bagagens muito diversas e ricas de vida Pra mim que sou um dos membros mais jovens tudo é aprendizado cada diálogo situação novo projeto por vezes até uma mensagem um áudio enviado no WhatsApp por alguma das integrantes algum dos integrantes me ensina muito Porque porque vem carregado de de toda uma experiência de vida de trabalho de conhecimentos diversos E todas e todos passamos por formações acadêmicas bem variadas também é Biblioteconomia História Letras Pedagogia Marketing Artes Visuais é Direito e Teatro e eu acho que isso permite uma mistura de ideias de conceitos amplia as possibilidades de de criação de trocas Enfim tem sido um encontro muito produtivo Cada cada pessoa tem uma expertise uma afinidade com com alguma função com algum campo e atua no grupo de acordo com essa afinidade com esse conhecimento Todo mundo é muito bom em alguma coisa e a gente também tá sempre se ajudando pensando juntas e juntos daí a gente consegue ir um pouquinho mais longe E para além disso eu gosto muito de como a gente se respeita de como a gente busca ser o mais justo e acolhedor possível nas nossas relações nas nossas demandas de trabalho nas nossas divisões de cachês mesmo buscando sempre acolher as necessidades de todas e todos Às vezes eu escuto do grupo em alguma reunião em algum diálogo falas tão honestas em relação à à essas questões todas que me emocionam e me ensinam muito E claro que tem os arranca rabos também né porque conviver também é sobre isso Somos seres humanos com defeitos também mas a gente se acolhe nesses defeitos também a gente se compreende É esses momentos de escuta de afetividade são muito mais frequentes e se sobressaem Monique Cardoso Áudio 1 000313 É sobre o surgimento do grupo né eu é eu não tenho muita propriedade pra falar sobre o surgimento do grupo mas o que eu posso falar é de quem viu de fora estando fora do Cariri né quando o grupo surgiu eu não tava no Cariri e eu percebo que talvez é se houvesse as oportunidades que houveram é no momento em que o grupo tava surgindo né que tava ch tinha acabado de chegar eu acredito que tinha acabado de ser ple implementado ou estava sendo implementado o curso de teatro né na na URCA Então talvez se eu tivesse vivido esse momento eu não tivesse ido pra Fortaleza por exemplo buscar formação lá Então eu acho que 171 também a o surgimento do grupo tá muito é ligado ao surgimento né da do curso de teatro na na URCA E pra quem tava de fora é pra mim foi muito bonito ver a forma como como o grupo foi dese foi firmando né a sua trajetória mesmo nesse início no contexto do teatro no Ceará né Então eu tava em Fortaleza mas eu ouvia falar do Ninho eu via os trabalhos sempre que possível né sempre que eu tava no Cariri eu vi o Ninho por exemplo é Guaramiranga eu acho que eu eu vi o Avental em Guaramiranga mas enfim eu via a circulação do Ninho né o movimento os projetos e e de algum modo isso me me dava alegria por eu perceber que tava havendo um movimento E como eu via a aprovação de projetos a fundação da Casa Ninho então dava pra perceber claramente que havia uma organização para além da criação né e foi esse o motivo inclusive pelo qual que me fez me aproximar do Ninho né Quando eu voltei pro Cariri em 2013 é eu queria eu coloco isso inclusive na minha dissertação eu queria é compartilhar o que eu tinha aprendido fora e queria aprender com quem tinha ficado E eu sabia que eu não podia abarcar um número grande de proje de de gru de projeto de grupo até porque eu não queria produzir esses grupos eu queria tentar implementar a questão do planejamento estratégico mas pra isso precisava que o grupo tivesse já um olhar pra gestão pra produção e o Ni e também uma maturidade no no processo de criação mesmo porque e eu ficava imaginando que daria muito trabalho também conseguir re é realizar coisas aprovar projetos viabilizar ideias com um grupo que ainda fosse muito é insipiente né no nos seus processos É que ainda houvesse uma uma fragilidade na qualidade dos seus trabalhos Monique Cardoso Áudio 2 000109 Sobre os integrantes né acho que não tem muito o que se falar né hoje nós somos formados em oito pessoas né É existe esse equilíbrio de gênero que a gente coloca mas é importante dizer que a gente não é não olha isso numa perspectiva binária e fechada né existe uma diversidade de gênero existe uma diversidade de de orientações é e eu acho que isso traz também uma diversidade do ponto de vista da criação Outra coisa que eu acho interessante é essa diferença de idades né não sei eu não diria talvez geracional é apesar de sim eu acho que tem duas gerações né Mas essa diferença de idade que de algum modo é também influencia 172 diretamente no diferencia é é inte interfere diretamente nos processos criativos e eu acho que isso é importante É Monique Cardoso Áudio 3 000225 É sobre o repertório é eu não acompanhei os processos de criação com exceção do Poeira né que é o trabalho mais recente é eu percebo que o grupo não tem um uma quantidade de de trabalhos por exemplo um a cada ano É não existe uma prática de uma de uma necessidade de montagem é em série né assim a atendendo a uma perspectiva de mercado porque apesar da gente saber que a gente precisa ter produtos culturais né no caso espetáculos projetos a gente não não se prende somente à questão das montagens dos trabalhos né então talvez por esse motivo a gente demande mais tempo nos processos criativos E aí é uma outra coisa que eu acho que é im importante pontuar é essa relação com o pedagó pedagógico que é a uma coisa que se a gente for pegar a história dos grupos na América Latina né o os que têm uma uma maior representatividade na história do teatro na América Latina eles passam por esse processo de formação muito fortemente né eles investem nesse processo de formação muito fortemente Basta a gente pensar por exemplo no Ói Nóis no Lume no Yuyachkani todos eles têm uma relação muito forte com a pedagogia com a formação então eu acho que isso também é uma coisa importante porque o grupo não atua só na criação de espetáculos né e essa atuação determina também um o tempo de trabalho né e o o espaçamento entre um projeto e outro E isso acho que também é uma coisa importante a se pensar E o o repertório tem sempre essa relação direta com a tradição popular né é eu acho que fugindo inclusive de estereótipos de clichês mas num diálogo muito direto com a contemporaneidade é apesar de é são elementos muito sofisticados é em diálogo com a tradição que é sofisticada né Monique Cardoso Áudio 4 000430 É com relação à à Casa Ninho é eu fico pensando que é um grande uma é preciso coragem pra começar um empreendimento criativo principalmente um empreendimento criativo naquele contexto né há há quase nove anos em que a escassez de de editais era grande apesar de estarmos num governo progressista 173 né A nível federal a gente tinha muito mais opções de editais mas ainda assim é necessário coragem sobretudo porque é uma sociedade né É uma sociedade de várias pessoas de pessoas que embora tenha uma série de de desejos ideias em comum também tem suas sua diversidade de pensamento sua diversidade de escolha é estética ética política mas por isso é tão desafiador né uma gestão horizontal com tan com tantas pessoas com com cabeças que pensam também em algum sentido em alguns aspectos de forma diferente E é preciso organização e essa organização ela vem surgindo mesmo que seja intuitivamente porque é preciso Se não houvesse mesmo antes do planejamento estratégico né que eu chego em 2013 pra propor é já havia uma espécie de planejamento estratégico mesmo que intuitivo né Senão ela não estaria é na época em 2013 tava o que há há quatro anos né Quatro não há três anos né Ai me ajuda aí eu tô ruim da das datas É ela não estaria se sustentando e se mantendo há esse tempo né antes do planejamento estratégico senão houvesse uma espécie de planejamento É já havia é um organograma mesmo que não oficial e que não houvesse é claramente isso definido já havia um organograma as pessoas já já assumiram funções dentro das suas expertises foram aprendendo é dentro dessa prática a a atuar dentro da sua esfera né e foram aprendendo várias outras questões para além criação administrativo é até infraestrutura técnica é tributação é impostos tudo isso né foi se aprendendo na prática durante esses anos E aí eu acho que a Casa chega também pra reforçar esse lugar pedagógico que o que o Ninho atua né Ela chega pra partilhar com a comunidade com a sociedade civil um um espaço que a princípio era um espaço de grupo de ensaios de criação de apresentação ele passa a ser um espaço aberto pra a comunidade os artistas é e isso ganha um outro patamar né dentro do contexto Cariri uma outra importância e relevância e isso exige muito mais Chega um momento em que a Casa Ninho que manter a Casa Ninho é é quase uma missão pra cada uma qua cada um de nós no sentido de entender a importância disso pro pro no pra nossa região E aí isso vai se dando a partir dos projetos né que vêm sendo sempre pensados é num fluxo interno e externo né Existe eu acho que um movimento é de de que parte desse núcleo do Ninho mas que começa a dialogar com a comunidade né Todos os nossos projetos eles têm uma vertente que passa pela nossa formação mas que dialoga com a comunidade abre à comunidade seja pro público seja os artistas é oportunidades ou de apreciação de uma obra ou de 174 participação de uma formação né Então eu acho que a Casa ganha também dá também esse esse ela tá muito relacionada aos projetos né Monique Cardoso Áudio 5 000524 E aí pensando sustentabilidade é vem essa questão da do dos no de nos reinventar né enquanto gestores A gente passa a ser gestores a partir do momento em que a gente toca esse empreendimento né gestores culturais um empreendimento criativo é que não tem um aporte financeiro de recursos contínuo É e esse e esse essa instabilidade faz com que a gente pense cada vez mais em ferramentas técnicas que nos nos amparem no sentido de nos planejar de olhar adiante de criar estratégias pra pra gerar essa sustentabilidade da Casa e dos artistas que colaboram com ela Então é eu vejo também nessa nessa questão da sustentabilidade um fluxo permanente com outras áreas é que já têm uma caminhada maior nessa é com esse olhar pra gestão né É administração a TI são exemplos disso de segmentos que já têm na sua natureza essa perspectiva de gestão né Então a gente começa a beber dessas desses segmentos pra de alguma forma a gente tá amparado tecnicamente criando novas formas de gestão dentro do nosso contexto considerando as especificidades da cultura né Como que a gente aproveita metodologias que deram certo em uma empresa de por exemplo é uma fábrica de pneus e e traz pra o nosso contexto Como é que o que é que a gente pode aproveitar dessa experiência que é de um segmento completamente distinto pra nos amparar né aí esse é esse é o é o grande exercício de criar metodologias de implementar metodologias e planos de ação que seja eficiente eficaz mas que considere todas as as especificidades do campo cultural inclusive as subjetividades é dos contextos né dos processos criativos dos tempos das relações dos afetos então acho que esse é o grande desafio e penso que só é possível a partir de um diálogo horizontal de uma participação de todas e todos nesses processos decisórios e de uma absorção também por parte de todos é dessas práticas E essas práticas pa têm que ser cotidianas pra que esses objetivos desses desse plano de ação criado a partir de um diagnóstico ele seja eficiente né E aí é a grosso modo se eu fosse dividir esse planejamento estratégico em etapas eu diria que ele começa num diagnóstico que passa inclusive pelas subjetividades pelos afetos pelos pelos desgastes pelos pelas conquistas e ele 175 se estrutura num plano de ação que envolve todas as esferas desse desse negócio desse empreendimento é a comunicação é a infraestrutura projetos gestão financeira é enfim todas as as esferas que envolvem esse negócio é também pode haver um plano de capitação de mobilização de parcerias dentro desse plano de ação né E e outras e outras coisas também outros documentos outras perspectivas podem surgir a partir desse plano de ação E por último é uma um monitoramento e avaliação desses resultados né É preciso estabelecer metas é prazos e meios de verificação pra que a gente possa ter um entendimento se aquelas se aqueles objetivos estão sendo alcançados se estão sendo alcançados dentro do prazo se estão sendo alcançados é dentro dos recursos disponíveis e planejados pra isso e isso é fundamental pra isso é fundamental durante esse processo de de criação conjunta desse plano de ação que sejam estabelecidas metas exequíveis metas realistas com um pouco de ousadia mas também considerando todos os fatores internos externos os contextos políticos econômicos para que também não se gere uma frustração diante dos planos Eudes Francisco Áudio 1 000306 Surgimento do grupo eu sou o integrante mais recente do Grupo Ninho É eu comecei a fazer parte do grupo em novembro de 2019 ano passado Tá com menos de um ano que eu faço parte do grupo então eu não vivi é o momento do surgimento do grupo ahn as as as coisas que eu sei à respeito são de de escutar de conversar com os integrantes de ouvir his as histórias mas não cheguei a viver esse período Ahn a pri o primeiro contato que eu tive com o Grupo Ninho foi em 2013 quanto eu assisti o espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo se eu não me engano no Marquise Branca que é o teatro municipal de Juazeiro do Norte é e foi um espetáculo que que me encantou bastante é até hoje é um espetáculo que que me que me encanta muito é um dos dos espetáculos que que eu mais gosto de assistir tanto é que já perdi a conta de quantas vezes assisti Avental Todo Sujo de Ovo É eu já tinha tido um uma experiência anterior com alguns integrantes do grupo mas não um espetáculo do grupo é que foi em 2006 se eu não me engano eu assisti um espetáculo no CBNB é eu não lembro exatamente o nome mas era algo mais ou menos assim A A Peleja de Zé de Matos Contra o Bicho Babau Pelas Ruas de Crato era uma coisa mais ou menos assim Nesse espetáculo se eu não me 176 engano estavam Edceu Rita e Joaquina Eu não tenho tanta lembrança de Joaquina no espetáculo mas de Rita e Edceu eu tenho É e é isso assim fo gostei também muito desse espetáculo do do Zé de Matos foi a primeira experiência que que eu tive com os os atores do grupo É a segunda foi com com Avental que foi quando de fato eu passei a conhecer o o grupo E a partir do a partir de desse espetáculo é eu passei a acompanhar o grupo os outros espetáculos e e foi e foi assim que começou mesmo é pelo menos a minha história de conhecimento de enquanto espectador de de curtir o trabalho de acompanhar o trabalho Eudes Francisco Áudio 2 000222 Integrantes Atualmente nós somos oito integrantes quatro homens e quatro mulheres Existe aí um um equilíbrio de gêneros É em compensação são faixa etárias bem distintas e também origens bem distintas é integrantes de várias cidades é aqui do Nordeste E essa diferença de de faixa etária são são integrantes com décadas bem bem distintas a maioria e eu acho que que essa essa diferença essas diferenças elas elas se somam numa potência bem interessante não só na na parte artística mas também na na parte de produção e de gestão do grupo e do espaço que a gente habita a Casa Ninho É e existe também uma uma uma diversidade na formação dos integrantes é tem integrante formado em Biblioteconomia em Letras em Teatro em Artes Visuais em Marketing em Direito então todas essas essas diferenças elas se somam assim num formam um bolo bem interessante é que que aflora aí uma potência não só no campo criativo mas também na parte de produção de gestão é a gente tá sempre discutindo conversando refletindo é até chegar em em um entendimento seja pra pra criar uma cena um produto artístico seja pra pensar um projeto seja pra articular algo de gestão voltado pro grupo ou pra Casa E é isso eu acho que que essa essa diversidade que a gente tem de integrantes ela gera uma potência é muito bom pro grupo Eudes Francisco Áudio 3 000821 Repertório Atualmente o repertório do Grupo Ninho tem dois espetáculos ativos que é que são Avental Todo Sujo de Ovo e Poeira mas também já passaram pelo 177 repertório do grupo os espetáculos Bárbaro A Lição Maluquinha O Menino Fotógrafo Jogos na Hora da Sesta e Charivari É desses espetáculos eu só não consegui ver Charivari é o que é uma pena Das das vezes que surgiam apresentações é por um motivo ou outro eu nunca conseguia estar presente Nessa época eu não não fazia parte do grupo ainda é mas já acompanhava o grupo só que nunca tive é nunca consegui concretizar uma oportunidade de ver o espetáculo é o que é uma pena porque as pessoas que viram sempre comentam muito bem sobre o espetáculo que vale vale muito muito a pena ver É inclusive muitas pessoas é se lamentam do do espetáculo não estar mais ativo não tem mais apresentações é porque é um espetáculo muito bom é um espetáculo de rua ahn que tem um um um umas reflexões muito muito potentes inclusive atuais é pra esse momento de agora ahn eu só consegui ver esse espetáculo por vídeo mesmo e fiquei imaginando como seria ele ao vivo porque enfim não é a mesma coisa mas é isso Em relação aos outros espetáculos é Avental Todo Sujo de Ovo e Poeira eu já perdi a conta de quantas vezes eu já assisti Já assisti muitas vezes mesmo É os outros espetáculos é eu acho que cada um eu vi umas duas ou três vezes É Jogos na Hora da Sesta eu vi umas duas três vezes O Menino Fotógrafo também A Lição Maluquinha e Bárbaro Mais ou menos isso umas duas umas duas três vezes desdo de quando eu conheci o Grupo Ninho em 2013 É eu acho que todos os espetáculos são muito potentes ahn todos os espetáculos do grupo É inclusive eu fico até com com uma certa ahn eu não sei se se é pena mas assim um sentimento de que alguns espetáculos não deveriam ter parado como por exemplo Jogos na Hora da Sesta que é um um espetáculo que eu sempre curti muito assistir e quando me disseram que ele não tava mais ativo eu até tomei um susto porque é um espetáculo muito potente muito potente mesmo assim um um dos espetáculos do repertório do grupo que eu mais gosto Então eu eu achei eu sempre acho uma pena ele não tá mais mais apresentando É na realidade to todos os espetáculos né quando a gente para é a a gente a gente tem esse sentimento né de certa forma mas eu acho que é bem isso mesmo assim cada espetáculo ele tem um um um tempo assim de vida é quando a gente percebe que que chegou a hora então então é saudável parar mesmo é apesar de que eu de que eu acho que o Jogos na Hora da Sesta não deveria ter parado mas enfim É e em relação à à Avental e à Poeira Avental e e e Poeira são são dois espetáculos muito atuais é que trazem reflexões que ainda são de muita 178 importância pro atualmente principalmente Avental que já é um espetáculo aí que tem é dez anos pouco mais de dez anos de de de espetáculo e ainda assim é um espetáculo muito atual e muito potente que eu acho que ainda tem uma história de uma história pra percorrer e e é um um dos espetáculos que eu assisti que mais me encantou É o o espetáculo Poeira tem uma relação muito forte com com a tradição popular é com a cultura popular da da região do Cariri Eu me arrisco a dizer que de certa forma ele mudou o olhar da região pra cultura popular É eu falo isso porque quando eu eu visualizo é a relação dos artistas e da própria região com a cultura popular antes do espetáculo e depois do espetáculo eu eu sinto eu percebo que houve uma mudança no olhar é não só da comunidade como dos artistas locais pra potência da cultura popular É eu acho que que que é um espetáculo muito marcante nesse sentido e que e que tem que viajar o Brasil inteiro pra mostrar essa potência aqui do Cariri Eu acho que faz todo todo o sentido é as pessoas conhecerem essa essa é essa efervers eferve inint 000620 efervescência ixe quase que num sai da da cultura popular é do Cariri É porque de certa forma mesmo em outras regiões com com outras manifestações culturais a partir do momento que você toma conhecimento com uma mesmo de outra região às vezes desperta em você o desejo de você conhecer o da sua própria região E e até o Grupo Ninho tem uma uma uma proposta de fazer essa esse intercâmbio de culturas populares é eu lembro que em 2018 é o Grupo Ninho executou um projeto em que havia essa troca pros mestres de daqui da região do Cariri com mestres de outras é regiões do Brasil E eu acho que é isso assim tem que tem que haver mesmo essas trocas o espetáculo tá aí pra isso né não só pra mostrar mas também pra propor essas trocas E a partir desse espetáculo tem surgido coisas muito interessantes muito bacanas como por exemplo a Escola Carpintaria da Cena que é um desdobramento do do desse espetáculo que que traz aí um um uma formação que que junta teatro é desde o teatro é mais clássico que que a gente enfim estuda aí pra pra nossa formação não só nas instituições como fora delas é misturando isso com a cultura popular né também mostrando a cultura popular enquanto mestres que enquanto mestres também podem nos ensinar é no trabalho com o corpo no no trabalho com o teatro Eudes Francisco Áudio 4 000349 179 Poética Em relação à poética do grupo eu percebo que passa primeiro pelas questões pessoais e e individuais de cada um dos integrantes E e essas questões que que estão dentro de cada integrante elas são colocadas é n no momento da criação E a partir dessas questões é vão surgindo aí os os processos É o Grupo Ninho entretanto tem um um uma ligação muito forte com a cultura popular é que vem desdo do surgimento do grupo já já era perceptível em espetáculos como como Bárbaro é O Menino Fotógrafo eu também consigo enxergar e e também Charivari É e com o Poeira isso é intensificado essa relação com a cultura popular é eu vejo que é muito forte o desejo vejo e sinto também que é muito forte o desejo de mostrar pro mundo essa cultura popular que que existe aqui na região do Cariri E e eu vejo que que ultimamente nos últimos anos é a poética do grupo ela tem se pautado muito muito nesse lugar dessas das manifestações da enfim da cultura local das nossas raízes é da nossa ancestralidade de olhar mais pro que tá aqui do nosso lado e e não olhar apenas o que vem de fora o que é clássico que vem da Europa o que vem do do Sudeste mas sim valorizar as coisas re da região e as coisas da gente as coisas é internas que tão que tão na pessoalidade de cada um dos dos indivíduos que que compõem o grupo É É mais um um um um olhar pra dentro assim é um um uma poética que começa de um olhar pra dentro de um olhar pra região de um olhar pra própria cultura de uma busca pela por uma é an ancestralidade de de uma tentativa de entendimento do do nosso passado ahn das coisas que aconteceram e que se vivia e se vive é na região Eu penso que a poética passa muito por esse lugar é mesmo que que que o tema não seja diretamente ligado à isso É é isso eu penso que a poética do grupo passa muito por esse lugar mesmo que que que o tema não seja o tema de uma criação não seja necessariamente a cultura popular de certa forma é o grupo acaba é também passando por esse lugar por conta de todas essas é por conta de todas essas questões que eu coloquei Eudes Francisco Áudio 5 000705 Casa Ninho A Casa Ninho existe desde o ano de 2011 se eu não me engano É em 2021 ela vai completar dez anos de existência aqui na região do Cariri mais 180 precisamente na cidade de Crato É eu não participei dos momentos da abertura do espaço mas pela conversa com os integrantes é eu noto que que quando da da abertura da Casa Ninho enquanto sede do Grupo Ninho de Teatro é Casa Ninho ela ela ela os integrantes não tinham é a princípio pretensões do que viria a se tornar a Casa Ninho É a princípio é é era um pensamento de um espaço pra guardar é é os materiais dos espetáculos e um espaço para ensaiar É o espaço da Casa Ninho naquela época foi viabilizado através de um edital de manutenção É foi a partir daí que o Grupo Ninho conseguiu é abrir o espaço e se manter durante um tempo E ao longo do do tempo é a Casa Ninho ela foi ganhando outras proporções de apenas um espaço pra guardar é material e ensaiar a Casa Ninho aos poucos foi se transformando em um espaço cultural aqui da região do Cariri um espaço cultural com muita força E apesar de não ter nenhum tipo de de incentivo ou ajuda auxílio governamental ou particular é a Casa Ninho se estabeleceu enquanto um dos espaços culturais mais importantes da região do Cariri É eu entendo que é um espaço de vital importância pra pra comunidade É já faz parte da história da da região do Cariri a Casa Ninho E ela se torna na minha opinião muito mais do que é um espaço de sede de grupos É atualmente o Grupo Ninho divide o a gestão do espaço da Casa Ninho com o Coletivo Atuantes em Cena é e mesmo com dois grupos gerindo o espaço as dificuldades são são muito grandes assim são são muitas despesas pra se manter um espaço um espaço cultural aberto E a dificuldade aume aumenta ainda mais quando se não quando não se tem é nenhum tipo de auxílio é seja ele privado ou governamental Então isso torna as coisas um pouco mais difíceis É apesar disso a Casa Ninho ela consegue se manter enquanto um espaço de cultura na região até porque a a a sociedade como um todo da região é empática à à Casa Ninho ahn as pessoas sempre que que que nós pedimos auxílio ajuda é alguma contribuição pra manutenção do espaço as pessoas prontamente se colocam pra pra ajudar pra auxiliar ahn seja financeiramente seja seja com com a sua força de trabalho com ideias com com projetos é então daí você percebe o quão importante é o espaço da Casa Ninho pra região do Cariri É tão importante que as pessoas elas sempre se colocam ativamente pra manter esse espaço junto com os coletivos que gerem o o espaço da Casa Ninho Atualmente a gente tá com uma campanha Amigos da Casa era uma ideia já que já vinha sendo discutida há um tempo entre os os grupos gestores da Casa mas que com essa essa crise do essa crise de 181 de saúde e econômica e até política do ocasionada pelo coronavírus a gente teve que antecipar a campanha é senão a gente não conseguiria manter é o espaço da Casa nesse período de crise E as pessoas prontamente se colocaram pra ajudar nesse período em que a gente não pode se encontrar não pode não pode ter apresentação não pode ter evento e enfim as pessoas tão tão ajudando porque elas em entendem e se sentem responsáveis por esse espaço que não pode deixar de existir não pode fechar as portas porque é um espaço que já faz parte é da história da da cultura local E e não é a primeira vez que a gente passa por um por uma situação difícil na Casa É em 2018 a gente também passou por uma situação de quase fechar as portas da Casa e os artistas locais a comunidade local também se se colocou pra pra ajudar pra pra apoiar e é isso isso mostra a importância do da Casa Ninho que deixou de ser apenas a sede de dois grupos de teatro pra ser um espaço cultural reconhecido em toda a região do Cariri é e de certa forma até no no Brasil como um todo assim é um é um ponto de referência que que inclusive artistas de outras regiões de outros estados é têm no Cariri É existe um reconhecimento também desse espaço em outros estados em outras regiões é consolidando mesmo o espaço da Casa Ninho enquanto enquanto um ponto de cultura importantíssimo não só pra região mas também pro Brasil como um todo Eudes Francisco Áudio 6 000807 Projetos e sustentabilidade É eu vou falar sobre esses dois itens num só áudio porque eu não consigo ver eles separadamente é enfim na minha opinião um passa pelo outro projetos passa passa por sustentabilidade e sustentabilidade sustentabilidade passa por projetos É eu entendo que que os projetos são assim enquanto produção e gestão de grupo e também de espaço como o espaço da Casa Ninho é algo imprescindível A gente não não conseguiria se manter é enquanto enquanto enquanto grupo se não houvesse é a possibilidade da gente propor projetos É e quanto eu coloco projetos eu não me refiro necessariamente a um projeto pra ser é submetido a um edital e ganhar um recurso financeiro é eu m me refiro mesmo ao sentido de projeto mesmo assim projeto enquanto é um caminho pra você seguir é na arte na cultura e na gestão de grupo e na gestão de espaço é que aí também é se inclui um projeto voltado pra um edital mas um 182 projeto voltado pra um edital é apenas uma parte desse todo no que se diz re no que diz respeito a a à um projeto como um todo né um projeto de grupo enfim um um projeto de sustentabilidade E hoje é muito do do do pensamento do Grupo Ninho em relação à projetos tem passado pela cultura popular pela pela cultura local pelos mestres da sabedoria da cultura popular é e por todo esse conhecimento e sabedoria que que a gente percebe aqui na região do Cariri É como eu até falei em outro áudio é é uma uma uma necessidade de se conhecer é essa essas manifestações e de mostrar essas manifestações pra o mundo pra que todo mundo saiba que elas existam que elas estão aqui e de certa forma trocar com com culturas e saberes de outras regiões de outros estados É tem sido uma pauta nos projetos do Grupo Ninho é essas relações de tá sempre dando visibilidade aos mestres da cultura e a essas manifestações e de de propor que que as pessoas não só aqui da região mas também de outras regiões tenham acesso à essas à essas manifestações é e até provocando trocas entre entre manifestações populares não só daqui como também de outras regiões À exemplo disso é a aprovação no no edital do Rumos Itaú de 2018 é que foi executado 2018 2019 é com o nome Grupo Ninho Dez Anos Levantando Poeira que como eu falei em em outro áudio foi uma proposição de levar os mestres da cultura alguns né mestres da cultura aqui da região do Cariri pra outras regiões do Brasil e promover aí um intercâmbio entre esses mestres e entre os artistas do grupo do Grupo Ninho É nesse projeto também foi levado o o o espetáculo Poeira que foi é que é um um um espetáculo do atual repertório do grupo um espetáculo belíssimo que tro que toca nessas nessas questões da da ancestralidade da cultura popular do olhar pra si do do olhar pra sua ancestralidade e e e esses projetos esse projeto é geral e esses projetos que surgem desse desse desse projeto maior é tem sido um um caminho que o Grupo Ninho tem seguido no nos últimos anos é enquanto enquanto projeto E e desse pensamento também surgiu a a Escola Carpintaria da Cena que é uma troca com com os mestres da cultura popular e com e com professores de teatro aí do teatro clássico é Stanislavski Grotowski fazendo um um um atravessamento dessas duas é desses dois conhecimentos é o conhecimento clássico e o conhecimento popular aqui da região é dando visibilidade também à essas manifestações enquanto uma potência artística de criação é e é isso O o Grupo Ninho tem se pautado muito nes nesse ne nessa prática enquanto projeto é enquanto projeto de grupo 183 também assim de de uma de uma luta mesmo de de se gerir enquanto grupo de teatro é de sobreviver e e acima de tudo de viver é em de teatro aqui na região do Cariri E e e esse projeto é como eu falei ele também passa pela sustentabilidade porque é através desses pensamentos dessas articulações é do que fazer como fazer por que fazer o que fazer é pra conseguir trilhar um caminho é não só na criação mas também conseguindo se manter com com essa criação é com os espetáculos mas não só com os espetáculos mas também com outras ações é para além dos espetáculos como por exemplo é a Escola Carpintaria da Cena É como fazer com que o espaço da Casa Ninho é consiga gerir recursos pra pra si mesmo pra si mesma e e os integrantes não precisem tirar dinheiro do bolso pra pra pagar é pra pagar as contas da Casa é não precisem tirar dinheiro do dos dos cachês E existe sempre é um pensamento de gestão nesse sentido de tá sempre buscando é práticas é possibilidades de de se manter de de criar de de de viver de de teatro É uma busca que é sempre constante Eudes Francisco Áudio 7 000911 Formação Eu acabei falando um pouco de formação quando quando eu falei sobre os integrantes do do grupo mm mas eu falei apenas um pouco sobre formação que era a formação individual e acadêmica de cada integrante Como eu falei existe uma diversidade aí nesse lugar que que são formações bem distintas alguns são formados em em Teatro é tem integrante formado em Letras em Pedagogia em Marketing em Direito em Biblioteconomia então aí existe uma diversidade muito grande de formações que tem a ver também com as origens de cada um que aí também é outra diversidade é outro mundo E eu penso que que começando a partir daí só essa essa diversidade de formação é já traz uma potência muito grande porque são mundos diferentes e quando esses mundos eles eles colidem aí surge surgem é reflexões bem interessantes eu tenho percebido isso E é através dessas reflexões que que a gente consegue caminhar não só criativamente mas também enquanto gestão de grupo gestão de espaço É enquanto formação é do grupo como um todo é eu tenho percebido acho que eu já tô até me tornando repetitivo é que é nos últimos anos é esse direcionamento da cultura popular é eu tenho percebido muito isso é de não olhar apenas a essa formação clássica do teatro é geralmente com com um conhecimento que vem da Europa 184 os clássicos é Grotowski Stanislavski é existe aí também além disso desse clássico desse conhecimento clássico que é importantíssimo e e tem que ser estudado mesmo praticado mas existe também um olhar pra o que tá aqui do lado da gente né que que são a as as manifestações é da cultura popular Inclusive foi através do contato com o Grupo Ninho eu nem era do Grupo Ninho ainda que eu mudei o meu olhar pra cultura popular aqui da região do Cariri É desde pequeno eu tive contato com manifestações é Reisado Lapinhas é Bacamarte é já tive já tive o contato desde criança enfim enquanto é cidadão aqui de de Juazeiro do Norte Então eu sempre via essas manifestações Mas por ter um um uma visão é não sei se distanciada não sei se por conta de uma de uma de uma é eu n eu n não não tô sabendo dizer é de uma de uma é meio que que existe um existe um lugar que que é apresentado pro que que as manifestações são apresentadas é inclusive pelo poder público como um um entretenimento é como se fosse um entretenimento um tanto raso eu eu fico com essa impressão hoje de que de que a maneira como inclusive o poder público coloca essas manifestações pra população como um todo é como algo um mero entretenimento E eu tinha essa visão de um mero entretenimento é até um determinado momento que foi o contato em 2018 se eu não me engano isso em 2018 é com a Escola Carpintaria da Cena do Grupo Ninho de Teatro em que o Grupo Ninho propôs através dessa escola uma imersão é com as manifestações da cultura popular e atrelada a isso também uma imersão com poéticas de artistas e grupos de teatro de várias regiões é do país do Brasil E através é desse contato com com essas manifestações culturais eu acabei mudando completamente a minha visão é a maneira como eu enxergava é as manifestações culturais inclusive é mudou a minha perspectiva e o meu interesse pra essas manifestações É até até antes da de ter ingressado na Escola Carpintaria é eu não me interessava muito assim eu via como um mero entretenimento assim nã não me despertava curiosidade É a partir do momento que eu ingressei na na na Escola Carpintaria da Cena que eu fiz parte que eu vi de perto que eu que eu pude ter uma imersão na coisa eu percebi um mundo ali que que tipo assim que eu não conhecia e que me despertou o in o interesse de tá sempre buscando e querendo conhecer mais e mais a respeito Então eu acho isso importantíssimo na formação é E uma coisa que o Grupo Ninho fez que que é muito linda que o Grupo Ninho não guardou essa essa formação apenas pra pra os integrantes do grupo é que 185 foi um um um contato que eles que que o Grupo Ninho teve é pra criação do espetáculo Poeira enfim já é algo que o Grupo Ninho vem trabalhando e pesquisando desde o início do surgimento do grupo mas que se fortaleceu e se fortificou com o espetáculo Poeira e algo belíssimo que o grupo fez foi não ter guardado isso apenas pra o grupo foi foi o querer compartilhar essa formação é não não querer a formação só pra si E através do do compartilhamento dessa formação assim como mudou a minha visão e a minha perspectiva e me despertou uma curiosidade um interesse que antes não existia eu creio que isso também aconteceu com várias outras pessoas que participaram da escolas de cultura da do da Escola Carpintaria da Cena Né nem que eu pense eu tenho certeza porque várias pessoas já falaram isso né de que assim houve uma mudança aí no olhar pra pras manifestações é as manifestações culturais populares aqui da região E eu acho que isso é muito importante porque o Grupo Ninho ele ele investiu não só na sua formação mas também na formação é de uma de toda uma região é porque pessoas de várias regiões inclusive de outros estados vieram pra fazer essa essa Escola Carpintaria da Cena então isso é muito bonito isso é muito lindo porque o Grupo Ninho não não se fechou é nas coisas que o Grupo Ninho achava importante pesquisar vivenciar é houve aí um um um um movimento de também compartilhar com outras pessoas pra que todo mundo é tenha conhecimento à respeito disso E isso passa muito por essa pelo que eu falei no nos projetos né porque é um projeto também do Grupo Ninho que que esse esse conhecimento essas manifestações não fiquem apenas aqui na região mas que elas saiam e ganhem o mundo Entrevistas com Rita Cidade áudio 12min55s Cá estou né Pra gravar sobre o ninho mais uma vez e já foram muitas e é sempre um prazer imenso porque é sempre também um processo de redescoberta é sobre o nosso surgimento de grupo a gente fala muito pelo lado dos anos dos trabalhos e como Edceu conhece muito bem essa parte eu vou pular pra parte que eu acho mais interessante que é o motivo que nos uniu que tem a ver com os nossos desejos artísticos e que os nossos artísticos tem a ver com a nossa humanidade com o nosso ser humano e que tem a ver o nosso ser humano com o sentimento de amizade que aconteceu dentre boa parte de nós né Então acho interessante pensar esse 186 surgimento por aí porque eu acho que é o nos alimenta até hoje e acho também que é o que nos alimenta cada vez mais pensando esse tempo de trajetória é quando a gente se juntou e o ninho nasceu que a gente não não foi um filho planejado né Foi uma surpresa da vida quando a gente se juntou A gente era um grupo de pessoas que faziam teatro que já tinham feito teatro juntos uns com os outros em ocasiões diferentes e que a gente se interessou por um determinado texto teatral que no caso era Avental todo sujo de ovo e que é interessante que a gente tá com esse trabalho até hoje Eu gosto de pensar né que o primeiro trabalho o trabalho que uniu a gente é a gente ainda vivencia ele até hoje é e que a gente foi se alimentando nesse começo E como eu disse eu penso que é o grande alimento até hoje dos nossos desejos artísticos que foram encontrando par que foram encontrando eco de uns nos outros E eu acho que é assim até hoje e eu acho que a gente vem se melhorando nisso a gente se afinizando nesse sentido Acho que isso fica muito claro no Poeira e e nos trabalhos novos que a gente tá em sala Sobre integrantes Hoje somos oito né E eu acho que é importante pensar o passado também porque o passado diz da construção e com certeza todo mundo foi parte importante dessa construção né Mas eu acho que eu penso mais o hoje mesmo sabe Porque eu acho que hoje é resultado do ontens né E acho que a gente tá num momento bem interessante de diversidade A gente tem um equilíbrio aí de se a gente for pensar masculino e feminino né por mais que isso se dilua mas culturalmente existe acho equilibrado acho interessante a mistura de gerações que a gente sempre teve acho bacana acho que promove diálogos bem interessantes como também as nossas formações né acadêmicas e as nossas experiências de vidas lugares onde a gente nasceu são os mais distintos Então assim a gente junta muito é meio é bem ninho mesmo eu ia dizer que é meio ninho mas não é não é total ninho né que junta essas muitas referências de onde se nasceu de onde se cresceu do que se fez da vida do que se fez depois de adulto que no caso é tô falando com relação à formação acadêmica enfim e acho que essa mistura dá um coisa muito boa pra nós Sobre o repertorio é algo parecido também né dos trabalhos que a gente foi fazendo E eu acho que assim o ponto mais interessante que eu acho pensando repertorio é esse que eu já citei sobre o grupo que é o fato da gente vir se alinhando melhor se entendendo melhor 187 Sobre a nossa poética é inclusive a parte que eu peguei pra trabalhar pra fazer o vídeo é eu acho que a gente sempre se permitiu se não cem por cento mas eu acho que a gente sempre se permitiu bastante vivenciar temáticas estéticas diferentes E acho que a nossa poética se construiu nessa diversidade de propostas né que foram chegando primeiro A gente se junta em prol de um espetáculo que trata sobre amor sobre família sobre rejeição sobre moralismo né A gente embarcou nessa a princípio em seguida a gente vai tratar sobre violências assim que os dois dialogam né Não deixa de ser uma violência também o que a gente vê em Avental mas em Bárbaro isso vai ficar mais forte E aí depois a gente vai pra rua a convite de uma pessoa externa que no caso é Duilio né que chega pra fazer Charivari e convida a gente e a gente embarca nessa outra história uma história bem arriscada Assim medo inclusive de prisão cachorra late mas que a gente embarcou também Acho a gente corajosos ousados e eu gosto muito disso E aí o Menino Fotógrafo que a gente propôs outra coisa pra Cecília e aí a Engenharia Cênica não só Cecília chega e propõe um trabalho completamente diferente do que a gente tinha proposto a princípio E a gente embarca também vai na confiança de que a gente vai conseguir construir bacana juntos Depois Jogos na Hora da Sesta proposto por Jânio voltando pra temática da violência de certa forma um outro olhar pra violência o olhar da violência através do que as crianças percebem dela e passam a vivenciar dela E aí a gente sempre se desafiando também é eu e Zizi fazendo personagem masculino Edceu fazendo personagem feminino Lá atrás a gente já fez eu fazendo Indiene personagem trans Edceu fazendo Antero bem mais velho na idade é a gente fazendo crianças em Jogos na Hora da Sesta Então acho que a gente se arrisca muito mesmo é e aí depois vem A Lição Maluquinha que eu propus que pra mim já era risco desde o início o lugar da direção mas que eu queria me arriscar nisso pra testar isso com o Ninho E aí também a coisa de fazer personagem infantil mais uma vez bem diferente dos personagens que a gente fazia em Jogos na Hora da Sesta uma construção completamente diferente e tão próxima com relação a tempo E aí né sempre esse lugar de corda bamba mesmo de risco é e ai depois vem Poeira né Acho que sim acho que a memória não falhou não E aí né também ir pesquisar e ir se encontrar e aí agora com outro lugar da vida que é o lugar dos velhos dos anciões outro polo outro extremo E agora a gente mergulhando talvez mais profundo em nós mesmos nesses novos trabalhos que a gente tá se propondo se propondo a três trabalhos de uma vez só Então eu acho que é muito isso é 188 agora penso que a gente foi se encaminhando para uma poética de cada vez mais próximo da essência do ser humano cada vez mais próximo de nossas raízes culturais e cada vez mais próximo das relações desse ser humano na cultura que ele se constrói com as relações sociais Eu acho que a nossa poética vai por aí e que os elementos estéticos também acompanham esse mesmo raciocínio pra dar conta dessa nossa necessidade de tratar sobre humanidade sobre cultura e sobre as relações sociais A casa ninho é aconteceu em 2011 Uma necessidade que a gente já sentia mesmo tendo poucos anos de existência três anos de existência pra mim A princípio eu acreditava que ia ser um lugar onde a gente ia guardar os nossos troços e onde a gente ia ensaiar não ia mais precisar ficar dependendo de outros espaços e passando por sufocos que a gente já tinha passado em muitas instituições de ter marcado pauta pra ensaiar porque tinha apresentação no dia seguinte e precisava ensaiar e chegar e essa pauta ter sido desmarcada sem ser nem avisado nem nada enfim né Essa situação que a gente já conhece bem Pra mim eu achava que ia ser isso e ao mesmo tempo também que isso pra mim era um alívio só isso pra mim era um alívio um lugar pra guardar a troçada e um lugar pra poder ensaiar tranquilos Ao mesmo tempo pra mim também era assustador ter que gerenciar esse espaço e que eu achava que ia ser uma coisa pequena né Olhando hoje assim olhando pra trás isso que eu imaginava que a casa ninho seria era muito pequeno e mesmo assim mesmo sendo algo pequeno eu tinha muito medo quando a gente aprovou Eu acho que sofri mais do que eu me alegrei quando a gente aprovou o projeto que deu a possibilidade da gente alugar um espaço E aí com o passar do tempo eu fui descobrindo um outro mundo de possibilidades Primeiro tem um parênteses aí que na mesma época em que a gente inaugurou a Casa Ninho eu tinha passado numa seleção do Sesc e eu tinha meio que optar ou viver a casa ninho cem por cento ou ir pro Sesc e viver a Casa Ninho no máximo cinquenta por cento porque eu sabia o que era o trabalho do Sesc principalmente por causa de Edceu que teve lá no início de Avental teve que sair inclusive de Avental achava que ia sair de vez por conta do trabalho do Sesc das exigências de disponibilidade pro Sesc Então eu sabia muito bem o que era E aí eu fiz a opção de viver a Casa Ninho cem por cento e não me arrependo de jeito nenhum E então tendo feito essa opção eu vivia diariamente dentro daquele espaço e aí eu fui percebendo que ele era muitas outras coisas muitas muitas mesmo do que eu 189 imaginava a princípio e aí foi se tornando um lugar onde a gente podia apresentar também não só ensaiar foi se tornando um lugar pra outras pessoas pros outros artistas pros outros coletivos Foi se tornando um lugar pras outras linguagens foi se tornando um lugar pro público foi crescendo foi ampliando o trabalho foi aumentando e as possibilidades de retorno também E aí hoje eu vejo como um espaço incrível que a gente consegue manter às duras penas mas que é muito saudável ter esse espaço pra todo mundo pra nós artistas pra nós do Ninho principalmente pra nós artistas pro Atuantes de uma forma um pouco mais especial que os demais artistas né do ninho mais especial ainda é claro pro público pra quem nunca nem pisa na casa ninho ela continua tendo importância pra quem não sabe nem que ela existe ela tem uma importância muito grande Áudio 1min33s annh cortou sem eu querer mas continuando sobre os nossos projetos eu acho que eles têm duas grandes linhas assim no meu ponto de vista né claro é um que é levar o cariri pro mundo através do nosso trabalho Eu sinto que a gente adora viajar eu sinto que a gente adora tá junto mas que tem uma questão maior do que isso tudo e isso tudo já é grande A gente tá junto a gente tá sendo feliz a gente tá sendo feliz com a arte já é grande demais né mas eu sinto que tem algo maior que é a vontade de levar esse nosso universo Cariri pro mundo e que a gente tem feito nas possibilidades que nos aparecem Eu sinto que essa é uma grande frente de projeto nosso e a outra é melhorar ainda mais esse Cariri porque a gente traz cursos que a gente quer fazer mas só isso já seria muito grande Volto a dizer porque cada pessoa é importante demais e a gente trabalha muito e agente merece muito fazer os cursos que a gente quer fazer mas eu sinto que também tem algo maior por trás aí que é um fazer não só pra nós então a gente já acha esse Cariri o máximo e a gente ainda quer tonar ele melhor nas nossas possibilidades Áudio 4min37s Sobre sustentabilidade olhando pra nós pra mim é suor é suor é poeira é pó é teia de aranha é peso é estrada é privações é saudade é tudo isso misturado porque somos nós que sustentamos né Acho que essa é uma realidade de todos os grupos do Brasil ou de quase todos talvez de todos ou quase todos da América Latina e não consigo ir além dessa fronteira não consigo pensar além dela não 190 consigo entender como são os grupo na Europa por exemplo mas enfim a nossa realidade é muito parecida com a realidade de muitos outros grupos dos que a gente conhece dos que a gente se espelha dos nossos amigos e amigas é quem sustenta somos nós né E vai ser sempre nós porque ainda que a gente tenha parcerias ainda que a gente tenha convênios vai ser sempre nós vai ser sempre o nosso trabalho que vai sustentar esse projeto Então é dessa forma que eu vejo Sobre formação eu acho que acabei já pincelando tem um lado formação que é nossa formação como seres humanos como pessoas que tem a ver com as nossas famílias que tem a ver com os nossos lugares que tem a ver com as nossas opções de cursos que a gente fez né E aí acho muito massa também volto a dizer pensar a gama de caminhos que nós oito temos na vida nas nossas formações e agora falando especificamente de formação acadêmica né a gente tem advogado a gente tem gente de teatro a gente tem gente das visualidades a gente tem bibliotecário a gente tem pedagoga a gente tem historiador a gente tem pessoa que faz letras que eu nunca sei como fez Letras que no caso sou eu e que nunca sei que nomes dar a isso marketing enfim né a gente é uma empresa fechação risos E sobre a nossa formação juntos e juntas eu ainda queria muito mais é eu queria que a gente tivesse mais oportunidades de tá juntos fazendo cursos fazendo oficinas das mais distintas coisas sabe Eu acho que quando a gente se junta pra fazer por exemplo planejamento estratégico que acho que foi a única oportunidade que a gente teve depois da entrada de Eudes de estarmos nós oito os atuais e as atuais juntos numa coisa que tem cara de formação porque pra mim planejamento estratégico também tem essa cara né Eu acho que é um crescimento imenso pro Ninho né é um crescimento pra cada um cada uma mas pensando no Ninho na célula Ninho é um crescimento imenso Então eu queria eu quero que a gente tenha muito mais oportunidades de formação juntos e eu penso também que é necessário ter momentos que seja só entre nós porque como eu disse lá falando sobre os projetos a gente tem uma vontade de melhorar muito o Cariri e a gente não quer melhorar sozinhos né A gente não quer esse peso só pra nós que é ótimo porque aí a gente chama outros artistas pra tá juntos e multiplicar isso mas eu também acho muito importante a gente poder tá sozinhos com alguém que a gente queria estar ou com um grupo ou seja lá com quem for em determinados momentos descobrindo coisas sobre nós ou construindo coisas entre nós 191 É isso minha gente acho que terminei acho que se eu fosse responder todas essas coisas amanhã talvez eu tivesse outras formas de pensar além dessas é muito doido porque é vivo né é vivo e tá em transformação o tempo todo tá com a gente tá na nossa carne tá na nossa alma Então se transforma junto com a gente a cada segundo a cada respiração mas por hoje é isso Xêro brigada Fim das Transcrições 192 ANEXOS 193 EspetáculosRepertório Bárbaro De roteiro original estreou em junho de 2008 foi vencedor do XV festival de Teatro de Acopiara Julho 2008 sendo agraciado nas categorias Espetáculo direção atriz ator e iluminação Bárbaro é um espetáculo de esquetes que de forma lúdica satírica e até divertida alerta para as muitas faces da violência presentes no nosso cotidiano No primeiro esquete yyycomvc uma jovem internauta é morta pelo seu aparente namorado virtual No segundo Embalando Meninas em Tempos de Violência uma mulher é terrivelmente agredida e ameaça denunciar seu agressor em Terçafeira Gorda a homofobia leva um homem a ser assassinado em pleno carnaval e no Passeio Noturno alguém atropela e mata as pessoas corriqueiramente por puro prazer São acrescidos aos esquetes um prólogo e um epílogo inspirados nos Caretas dos Reisados de Couros da cultura popular numa alusão à violência brincante criando um paralelo entre tradição e contemporaneidade Ficha Técnica Direção Jânio Tavares e Joaquina Carlos Elenco Edceu Barbosa Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Cidade Concepção de Iluminação Gabriel Callou Mauro César Alves e Ninho de Teatro Concepção de Sonoplastia Francisco di Freitas e Ninho de Teatro Operação de luz e som Gabriel Callou Fotos Nívea Uchoa Figurino adereços e maquiagem Ninho de Teatro Figura 16 Primeira arte de cartaz do espetáculo Bárbaro 194 Avental todo sujo de ovo Com texto de Marcos Barbosa e direção de Jânio Tavares estreou em abril de 2009 Avental todo sujo de ovo trata da relação familiar suas limitações e suas verdades Propondo uma intimidade com o público o elenco deste espetáculo convida os espectadores a visitarem a casa de Alzira e Antero o casal que há dezenove anos junto à comadre Noélia vive a angustiante espera do filho Moacir que fugiu de casa aos nove anos de idade Para assegurar esta proposta o Grupo Ninho de Teatro sob a direção de Jânio Tavares conta a história de autoria do cearense Marcos Barbosa em espaço cênico de semi arena sobre um tapete de arroz a uma distância mínima do público suscitando neste um reflexivo olhar sobre as relações familiares Ficha Técnica Texto Marcos Barbosa Direção Jânio Tavares Elenco Edceu BarbozaJoaquina CarlosRita Cidade e Zizi Telecio Concepção de figurino Jânio Tavares e Carol Landim Execução de figurino Alda Tavares e Marlen Criações Concepção de cenário Jânio Tavares e Wanderley Peckovski Concepção e execução de luz e som Jânio Tavares Concepção e execução de maquiagem Grupo Ninho de Teatro Adereços George Belisário Fotos Francisco di Freitas Alex Hermes Contra regragem Alana Morais e Elizieldon Dantas Figura 17 Primeira arte de cartaz do espetáculo Avental todo sujo de ovo 195 Charivari Da dramaturga paraibana Loudes Ramalho é o terceiro espetáculo adulto do grupo e o seu primeiro de rua com direção de Duilio Cunha As Velhas Estreou em setembro de 2009 Charivari segundo a própria dramaturga Lourdes Ramalho Charivari é uma palavra medieval utilizada para designar jogo ritual festa histórica em caráter de gozação Era a entrada num universo utópico a transgressão de todos os limites a explosão escatológica após todas as repressões do corpo e da alma Significa o pipocar do humor festivo a liberação do riso que funciona como uma arma infalível no processo de desanuviar desarmar desintoxicar relaxar aproximar integrarse ao outro numa trégua feita às agruras e durezas da vida em que ri ainda é o melhor remédio Ficha Técnica Texto Lourdes Ramalho Direção Duílio Cunha Dramaturgista Diógenes Maciel Elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Zizi Telecio Kelyenne Maia Nilson Matos e Rita Cidade Música Zabumbeiros Cariris Amélia Coelho Evânio Soares e Haarllem Rezende Concepção de Figurino e Cenário Duílio Cunha Execução de Figurino Marlen Criações Calçados Joylson John Kandahar Execução de Cenário Oliver Oliveira e Maurício flandeiro Concepção de Maquiagem Williams Muniz Execução de Maquiagem Ninho de Teatro Fotos Alex Hermes Contra regragem Sâmia Oliveira Figura 18 Primeira arte de cartaz do espetáculo Charivari 196 O Menino Fotógrafo O Menino Fotógrafo Construído colaborativamente a Companhia de Teatro Engenharia Cênica é um espetáculo simbolistafantástico entrecortado por fragmentos de cenas simultâneas contadovivido pela íris de um velho que um dia foi criança viu os DentesdeLeão no céu azul sem nuvens mas viu também nuvens de fumaça formadas por pássaros de fogo em um ataque aéreo que ceifou parte da sua família história e memória Ficha Técnica Encenação e dramaturgia Cecília Raiffer Elenco Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade e Zizi Telecio Sonoplastia Edceu Barboza Iluminação Luiz Renato Cenografia Francisco dos Santos Figurino Edceu Barboza Maquiagem Cecília Raiffer e Edceu Barboza Designer gráfico Edceu Barboza Execução do figurino Marlen Criações Operação de luz Jânio Tavares Fotos Diego Linard Dinho Lima e Max Petterson Produção Cia Engenharia Cênica e Grupo Ninho de Teatro Figura 19 Primeira arte de cartaz do espetáculo O menino fotógrafo 197 Jogos na Hora da Sesta Estreado em julho de 2012 Da obra de Roma Mahieu Jogos na Hora da Sesta é uma reflexão sobre a violência Conta a história de um grupo de crianças que brincam em uma praça num dia de céu limpo sem nuvens Onde expõem suas diversas personalidades de acordo com a formação moral de cada uma que varia da pureza à maldade Como todas as crianças as personagens vão pontuando suas ações a partir dos estímulos valores censuras preconceitos e temores que recebem do mundo adulto Através dos jogos as crianças reproduzem os rituais sociais dos adultos o fascínio pela televisão a sexualidade o casamento a morte o velório o enterro as guerras a religiosidade os tribunais num conjunto de ações repletas de violência e de poesia Ficha Técnica Da obra de Roma Mahieu Jogos na Hora da Sesta Tradução Diego San Martin Direção Jânio Tavares Colaboração Joaquina Carlos Elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Kelliane Eskthny Rita Cidade e Zizi Telecio Joaquina Carlos Colaboração preparo físico Will Guerreiro Arte Ricardo Campos Figurino Edceu BarbozaJânio Tavares Execução de figurino Atelieart Costura Maquiagem Edceu Barboza Cenário Elizieldon DantasJânio Tavares Zizi Telecio Execução de cenário Zé Cícero Iluminação Elizieldon Dantas Jânio Tavares Operação de som Sâmia Oliveira Operação de luz Jânio Tavares Figura 20 Primeira arte de cartaz do espetáculo Jogos na Hora da Sesta 198 A Lição Maluquinha Esta peça teatral conta como são os dias de aula na escola da Professora da Menina e do Menino Falando assim você acha esta história tão sem graça quanto a cara da gente quando não consegue resolver um problema de matemática Mas não é Acontece que vizinho à escola mora o Boêmio que gosta muito de cantar Acontece que a Professora gosta muito de cinema Acontece que entre o Menino e a Menina está acontecendo algo novo E tudo isto junto dá uma história com muita aventura emoções e Um final cheio de surpresas boas tanto quanto fica o nosso coração quando a gente consegue entender uma lição bem difícil Ficha Técnica Texto e encenação Rita Cidade em colaboração com o Grupo Ninho de Teatro Inspirada na novela Uma professora muito maluquinha de Ziraldo Elenco Jânio Tavares Joaquina Carlos Sâmia Oliveira e Zizi Telecio Assistência de direção figurino maquiagem e operador de som Edceu Barboza Cenografia e operação de luz Elizieldon Dantas Sonoplastia DJ Daniel Batata Iluminação e Produção Grupo Ninho de Teatro Execução de figurino Marlen Criações Execução de adereços Suzana Carneiro e Zizi Telecio Execução de cenário José Cícero Figura 21 Primeira arte de cartaz do espetáculo A Lição Maluquinha 199 Poeira Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas Manoel de Barros Do que somos feitos Ou do que precisamos para nos fazer re fazer Da alegria da tristeza do amor da dor Somos terra viemos dela e para ela voltaremos somos saudades Poeira é festa que documenta o prazer de se misturar e a alegria que se sente ao se encontrar mestres inspiradores mestres de verdade num sabePronto Classificação indicativa 16 anos Ficha Técnica DRAMATURGIA CRIAÇÃO E INTERPRETAÇÃO Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Joaquina Carlos Monique Cardoso Rita Cidade Sâmia Oliveira e Zizi Telecio DIREÇÃO DE CENA Edceu Barboza e Jesser de Souza OFICINA DE DRAMATURGIA DA CENA Miguel Rúbio Zapata Yuyachkani Peru OFICINA DE VOZ Ernani Maletta DIREÇÃO MUSICAL Zabumbeiros Cariris FIGURINO Edceu Barboza EXECUÇÃO DE FIGURINOS Ateliê Art Costuras CENOGRAFIA Grupo Ninho de Teatro ILUMINAÇÃO Jânio Tavares e Elizieldon Dantas DESIGNER GRÁFICO Breno Ximenes PESQUISA Laboratório de Pesquisa Teatral 2014 Porto Iracema das Artes Escola de Formação e Criação do Ceará Figura 22 Primeira arte de cartaz do espetáculo Poeira Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 391 AS LIGAS CAMPONESAS ÀS VÉSPERAS DO GOLPE DE 1964 Antônio Torres Montenegro Resumo Este artigo analisa a luta no campo no Nordeste às vésperas do golpe de 1964 A partir da segunda metade da década de 1950 o Nordeste assistiu a uma crescente organização dos trabalhadores rurais As Ligas Camponesas criadas pelo Partido Comunista na segunda metade da década de 1940 ganharam uma nova força ante o engajamento do deputado socialista Francisco Julião Essa organização adquiriu uma visibilidade nacional e mesmo internacional principalmente após a Revolução em Cuba Além disso a Igreja sentindo ameaçada sua hegemonia sobre os camponeses foi desafiada a assumir uma posição de apoio à luta destes Palavraschave Ligas Camponesas Igreja luta da terra e imprensa nordeste insurgente Abstract This article analyses the peasants fight in the Northeast just before 1964 coup d état From the late 1950s on rural workers increasingly structure themselves into unions in the Northeast The Peasant Unions founded by the Communist Party in the second half of the 1940s gain a new force with the support of the socialist congressman Francisco Julião Their organization gets a national and even international impact mainly after the Revolution in Cuba On the other hand the Church feeling threatened by losing its hegemony over the peasants is challenged to assume a position of support to the peasants fight Keywords Peasant Unions Church Fight for Land and Press Insurgent Northeast ARTIGOS Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 392 Escolhemos como trilha para iniciar este artigo algumas reflexões sobre a história Gramsci filósofo marxista italiano morto nas prisões do regime fascista de Mussolini em 1937 afirmou serem todos os homens filósofos em sentido espontâneo pois a filosofia estaria contida na própria linguagem no senso comum e no bom senso e na religião popular1 Podemos então afirmar que em sentido espontâneo também so mos todos historiadores afinal narramos histórias e sobretudo estamos constantemen te retornando ao passado e repensandoo ressignificandoo A partir deste movimento de análise do passado muitas vezes redefinimos nossa maneira de compreender e agir no presente e de refletir sobre os projetos futuros A partir dessa perspectiva podemos indagar qual a diferença entre pensar a história de forma espontânea e pensála como produção do conhecimento ou seja uma constru ção resultante de uma série de atividades complexas que implicam um conjunto amplo de procedimentos Em primeiro plano encontramse as experiências do presente lan çando novas interrogações novas indagações novos questionamentos ao passado ao mesmo tempo há de considerar a influência do refazer constante dos conhecimentos teóricos e as ressonâncias advindas de outras áreas do conhecimento que informam e modulam esse diálogo maiêutico com o passado Freqüentemente interligados a este com plexo movimento estão registros novos ou seja novos documentos selecionados desco bertos ou mesmo produzidos como entrevistas de histórias de vida eou temáticas possibilitando à história operar um refazer constante de sentidos e significados Assim temos a história como uma atividade intelectual que realiza uma constante crítica de seus parâmetros analíticos voltada para o presente e para o futuro Ou seja toda história é sempre história do tempo presente pois é a partir das questões e desafios colocados na cotidianidade que interpelamos o passado Dessa forma a história não é uma contempla ção descomprometida do passado mas atende a desafios interrogações da nossa contem poraneidade é para responder ao presente que reescrevemos permanentemente a história Em outros termos arrancamos a história dos perigos da memória ou na expressão de Pierre Nora O movimento da história a ambição não são a exaltação do que verdadeira mente aconteceu mas sua anulação2 Ao mesmo tempo parecenos significativo neste preâmbulo revisitar as análises que desenvolvem uma instigante reflexão acerca da memória em que esta é vista como uma grande ameaça à história Memória considerada um conjunto amplo de discursos rituais e práticas que entronizam cristalizam congelam acontecimentos personagens períodos históricos mitificando significados e dessa forma impossibilitando a história de exercer sua prática mais fecunda que é a operação cortante da crítica ao instituir um constante refazer do passado historiográfico Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 393 Nesse sentido é muito elucidativo retomar dois momentos emblemáticos da história do Brasil 1930 e 1964 em que a normalidade constitucional foi interrompida Concomi tantemente a este movimento de ruptura do pacto constitucional os grupos que se apro priaram do poder político se autoproclamaram realizadores de uma revolução A marca de 1930 como revolução transformouse em memória Mesmo hoje com toda a produção historiográfica revisitando criticamente aquele movimento e apontando sua inserção na modernização do capitalismo pela via autoritária a expressão revolução de 1930 tornouse um signo que parece atravessar o tempo incólume ao movimento da crítica e da desconstrução Felizmente em relação a 1964 a expressão revolução ado tada pelos militares e seus portavozes só conseguiu se manter publicamente enquanto a censura e o controle sobre os meios de comunicação vigoraram de forma rígida À medi da que a sociedade civil reconquistou o direito à livre expressão observouse a produção de um contradiscurso pontuando aquele acontecimento no quadro da ruptura da norma lidade democrática e portanto como mais um golpe contra os princípios constitucionais O palco da história no entanto é revelador de constantes combates Não podemos ser ingênuos e acreditar que a representação de 1964 como revolução esteja inteiramente esquecida sobretudo quando reconhecemos que a narrativa historiográfica não resulta de uma transposição mecânica das evidências documentais mas antes consideramos os diversos documentos formas e estratégias de produção do real Na extensão deste enten dimento os sujeitos os princípios ou mesmo os acontecimentos considerados fundado res são abolidos e colocase a possibilidade de pensarmos e agirmos como criadores e construtores da própria história3 Nessa perspectiva associada à dimensão da representação do passado como comba te voltemos à nossa formulação inicial de que a história é um território de disputa no presente Assim ao escolhermos estudar o período que antecede o golpe de 1964 a partir das lutas no meio rural privilegiando a temática das Ligas Camponesas inserimonos num campo de disputa que ao mesmo tempo defrontase com questões e desafios do presente ou seja a problemática da luta pela terra hoje Em outros termos somos desa fiados por questões atuais como passados 50 anos apesar de toda modernização capita lista o que impede o trabalhador rural de alcançar a condição de cidadania para si e sua família Para refletir historicamente sobre a luta pela terra no período que antecede o golpe propomonos realizar um percurso que analisará esta temática a partir de três fontes do cumentais os relatos da polícia da imprensa e de padres Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 394 Fragmentos policiais Para iniciar este estudo tomando como referência as lutas dos trabalhadores rurais sobretudo as Ligas Camponesas há de se considerar o significado que elas adquiriram entre o final da década de 1950 e o início da seguinte É importante registrar que embora a sindicalização rural estivesse prevista na Consolidação das Leis Trabalhistas fosse com patível com os termos da Constituição de 1946 e anunciada como meta de diversos gover nos era barrada pela pressão do bloco agrário4 Ou seja em todo o Brasil os trabalhado res rurais se organizavam e encaminhavam ao Ministério a carta de sindicalização mas esta não era autorizada por pressão dos proprietários por meio da Confederação Rural Brasileira Foi nesse cenário que os foreiros do Engenho Galiléia em Vitória de Santo Antão PE decidiram criar uma associação de ajuda mútua de forma que pudessem de manei ra solidária socorrer uns aos outros nos momentos de necessidade Dessa forma acredi tavam que poderiam melhor enfrentar problemas como o atraso no pagamento do foro e até o enterro dos seus mortos que então era realizado num caixão coletivo cedido pela Prefeitura este depois de utilizado tinha de ser novamente devolvido5 Bastante reveladora da relação que existia entre os trabalhadores e os senhores rurais é a cartaconvite enviada pelos foreiros de Galiléia ao Sr Oscar Beltrão dono do Enge nho para que este aceitasse o cargo de presidente honorário da Sociedade que eles acaba vam de fundar Prezado Sr A Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco registrada sobre o núme ro 92907 pede vênia para comunicar a Vossa Excelência que em Assembléia Geral com o comparecimento de 123 associados por unanimidade de votos foste eleito Presidente de Honra de nossa Sociedade bem assim viemonos em nome da mesma convidar a Vossa Exa para assistir e tomar posse do referido cargo em reunião que terá lugar no 1º domingo de julho do corrente ano e assistir a posse de nosso advogado Dr Arlindo Dourado como também inauguração da escola que receberá o nome de Paulo Belence Sem mais para o momento subscrevemonos atenciosamente e obrigado Assinados a Diretoria Engenho Galiléia 5 de junho de 19556 A leitura da carta possibilita diferentes análises por um lado esta pode ter sido mais uma tática de despiste dos trabalhadores para que o senhor de engenho não visse naquela sociedade um órgão contrário aos interesses patronais já que os próprios tra balhadores o convidavam para um cargo de honra Mas ao mesmo tempo revela o amplo domínio exercido pelos senhores pois os trabalhadores no momento em que Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 395 criaram sua organização necessitaram estabelecer uma estratégia de conciliação ou de autonomia consentida com o proprietário No entanto podese ainda ler a carta não propriamente como um convite mas como uma provocação considerando as condi ções da época já que esta informava que na reunião em que o proprietário ocuparia o cargo de presidente de honra seria realizada a posse do advogado e haveria a inaugu ração de uma escola Ora podemos imaginar a perplexidade do Sr Oscar Beltrão ao ler que os trabalhadores do seu Engenho estavam constituindo um advogado e fundando uma escola como consta na cartaconvite Em outros termos ao senhor de engenho era dado conhecimento que seus trabalha dores estavam construindo outras estratégias para enfrentar seus problemas de vida e trabalho De forma explícita sem subterfúgios estavam sendo levadas ao conhecimento do senhor práticas que sinalizavam com a ruptura do pacto paternalista e de compadrio que cimentava as relações de exploração Contratar um advogado era uma forma de dizer ao senhor que a relação de direitos e deveres entre o dono da terra e os trabalhadores não seria mais estabelecida apenas verbalmente ou por meio da política do que eram conside rados pequenos favores Estes tinham o efeito de aprofundar a dependência e dificultar a mudança das relações de exploração Os trabalhadores ao constituírem um advogado para defender seus direitos emitiam o signo de que o fórum das suas querelas seria a justiça e não mais o silêncio resultante das ameaças dos vigias e administradores a man do dos senhores Já a criação da escola lhes possibilitaria o acesso à leitura e à escrita o que no futuro dificultaria as perversas práticas de expropriação do trabalhador quer através das cadernetas de contas do barracão quer no controle das medições da terra a ser plantada eou colhida A historiografia sobre o tema afirma que Sr Oscar Beltrão teria num primeiro mo mento aceitado o convite mas alertado por outros proprietários sobre o perigo comunis ta de tal iniciativa teria renunciado ao cargo e exigido que os trabalhadores imediatamen te dissolvessem a sociedade Ao não se submeterem a tal exigência do proprietário é que teve início a luta de resistência7 Em decorrência desse conflito os trabalhadores de Galiléia partiram em busca de um advogado ou de um político que os defendesse Depois de inúmeras tentativas foi suge rido o nome de Francisco Julião que nessa época além de advogado era deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro Este aceitaria a causa e num curto espaço de tempo transformaria esta luta numa bandeira de todos os trabalhadores rurais do Nordes te e do Brasil8 A partir deste encontro fortuito dos trabalhadores com o deputado e advo gado Francisco Julião as Ligas Camponesas criadas pelo Partido Comunista desde a década de 1940 mas com atuação pouco expressiva embora bastante vigiadas pela polí Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 396 cia ganharam uma nova dinâmica Transformaramse segundo grande parte da impren sa dos políticos e mesmo da sociedade civil numa grande ameaça à ordem social e sobretudo à paz agrária dos latifundiários9 Em relação a todo esse conjunto de discursos e práticas desencadeadas pelos traba lhadores rurais vale ressaltar as observações de Foucault ao analisar as características próprias das relações entre acontecimentos e deslocamentos do sentido histórico A história efetiva faz ressurgir o acontecimento o que ele pode ter de único e agudo é preciso entender por acontecimento não uma decisão um tratado um reino ou uma bata lha mas uma relação de forças que se inverte um poder confiscado um vocabulário reto mado e voltado contra seus utilizadores uma dominação que se enfraquece se distende se envenena e uma outra que faz sua entrada mascarada As forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação nem a uma mecânica mas ao acaso da luta10 Francisco Julião e aqueles trabalhadores jamais poderiam imaginar que a luta de um grupo de camponeses nas terras de um engenho de Pernambuco se transformaria em tema da imprensa não só regional mas nacional e mesmo internacional e viria a mudar com pletamente sua vida O que provavelmente os trabalhadores não devem ter tido conhecimento à época porém é que aquele convite ao dono do Engenho para tomar posse do cargo de presidente de honra foi enviado à polícia e esta imediatamente designou os investigadores 118 e 190 para realizar diligências Em outros termos na lógica patronal qualquer movimento dos trabalhadores que pudesse revelar algum sinal de mudança no modus vivendi de con formismo e submissão se constituía numa ameaça ao que era considerado ordem e paz no campo e portanto tratado como caso de polícia Esse monitoramento da polícia não se restringiu ao Engenho Galiléia mas ocorreu de maneira intensa em quase todo o estado como aparece num documento produzido pela Secretaria de Segurança Pública no qual estão registrados os nomes dos municípios e de algumas propriedades em que ocorria mobilização e organização dos trabalhadores Os investigadores que espionavam a atuação das Ligas produziam relatórios periódicos em que nomeavam aqueles tidos como os principais líderes e suas atividades Estes do cumentos além de expressarem a visão da polícia que não se distinguia daquela da maioria dos senhores guardavam entretanto algumas surpresas É quando eventualmente o próprio policial se mostrava surpreso e indignado com a prática dos senhores11 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 397 A descrição do conflito em dois engenhos no município de Paudalho12 Engenho Pindobal e Engenho Malemba feita pelo investigador 239 em relatório dirigido ao ComissárioSupervisor em 11 de junho de 1960 constituise num documento emblemá tico da atuação da polícia mas ao mesmo tempo revelador de signos paradoxais O comissário 239 narrava em seu relatório quem são os camponeses responsáveis pela agitação em ambos os engenhos Após nomeálos descrevia as duas tentativas frus tradas de prender aquele que era considerado o lídermor de nome Felício Inácio da Silva chefe local da Liga Camponesa O insucesso deveuse segundo o comissário ao grande número de associados que observavam os nossos movimentos e informavam em tempo a Felício para ele fugir Afirmava ainda que os mentores dos camponeses eram os agitadores comunistas Sancho Magalhães e Manoel Vicente de Luna com quem aqueles costumavam reunirse em Paudalho Em seguida registrava no relatório que Estes dois elementos Sancho e Manoel de Luna são os responsáveis por todas as agitações reinantes nos engenhos do município de Paudalho Por outro lado existe outra figura que encoraja os camponeses e os incentiva Tratase do promotor público da comarca Dr Paulo Amazonas elemento reconhecidamente de tendências vermelhas Os elementos da Liga Camponesa quando voltam de Paudalho costumam ameaçar de morte todo camponês que não é sócio da Liga e ainda não permitindo que os mesmos plantem qualquer lavoura13 Essas e outras informações relatadas pelo investigador 239 constituiriam a rede de observação controle e repressão produzida pela polícia O documento revelava a preo cupação em identificar pessoas nomeálas e de forma genérica estabelecer um padrão de conduta que homogeneizava todos que eram considerados uma ameaça ou apenas suspeitos Dessa forma o relatório em foco trilhou os caminhos padronizados pelo que foi instituído pela polícia a ser observado e identificado como fator gerador de ruptura da ordem no meio rural ou mesmo aqueles discursos e práticas que eram tidos como poten cialmente perigosos Ou seja tudo que parecia significar uma atitude ou um movimento de resistência às práticas dominantes de exploração era considerado quebra da ordem Notese contudo que na parte final e portanto conclusiva deste mesmo relatório o investigador 239 descreveria uma série de observações que se apresentavam inteira mente paradoxais tomandose a ótica policial como referência Este parece ter se deslo cado do seu campo de observação e assimilado os referenciais do discurso das Ligas No entanto jamais poderia admitir esta influência antes precisava mostrar a seu superior a origem insuspeita de suas observações Assim informava que a denúncia acerca das prá ticas desonestas dos senhores que passava a descrever resultou do contato com os campo neses e apuração dos fatos O comentário acerca da fonte das informaçõesdenúncias Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 398 contra os senhores tinha o intento de produzir a idéia de que estas foram construídas de maneira neutra e objetiva e por extensão sem qualquer relação com o discurso produzi do pelas Ligas Relatava então o investigador Quanto ao engenho Malemba o encontramos totalmente em greve Neste engenho o chefe da Liga é o camponês Odom Barboza mas as reuniões eram feitas no engenho Pindobal na residência de Felício Inácio da Silva Entretanto ao meu ver não era apenas a Liga Campo nesa que estava agindo Neste engenho havia um fator mais forte Entrei em contato com os camponeses e apurei a realidade dos fatos Alegavam os moradores do engenho que não podiam trabalhar por 35 cruzeiros diários e comprar no barracão um quilo de charque por 180 cruzeiros Em vista disso procuravam o engenho Crusahy ou outros onde pudessem ganhar um salário condigno este caso fizemos ver a proprietária Dona Ester do engenho que nos prometeu estudar o caso Sucede um caso Na maioria dos engenhos que não con vém citar aqui o trabalhador costuma tirar uma conta de 10 X 10 braças quadradas por dia A braça honesta é de 2 metros e 10 centímetros perfazendo 441 metros quadrados Mais na maioria dos engenhos campeia a desonestidade Recebem o trabalho honesto do camponês e lhe pagam um salário desonesto Neste caso está o engenho Malemba e muitos outros No citado engenho a vara de medir contas tem 2 metros e 30 centímetros isto é 20 centímetros a mais Ora medindose uma conta de 10 X 10 não perfazia 441 metros e sim 529 metros quadrados isto é 88 metros a mais no serviço do camponês Neste caso alegaram os campo neses de Malemba que passam um dia e meio para ganhar 35 cruzeiros Ora com esta diária alegavam os camponeses não trabalhavam e então procuravam trabalho em outros enge nhos Deste modo ficava o engenho Malemba completamente parado não por agitação da Liga Camponesa mas sim pela falta de honestidade de seu proprietário Para provar este caso basta citar que a proprietária do engenho resolveu pagar a conta 10 X 10 a 100 cruzei ros e dos 60 moradores do engenho mais de 50 voltaram ao trabalho14 O comissário ao afirmar que havia um fator mais forte que o das Ligas concorrendo para produzir segundo suas palavras a situação de agitação no Engenho Malemba nomeou os proprietários desonestos O trabalhador era alvo de roubo por parte do pro prietário que fazia uso de uma vara que não obedecia aos padrões oficialmente definidos para medir a terra cultivada e nem pagava o salário justo Para comprovar que estava com a razão informava que a proprietária ao passar a utilizar a vara do tamanho correto e aumentar o valor do salário teve a situação de greve no Engenho praticamente normali zada Esse documento aponta de alguma forma como o discurso das Ligas desnaturali zando aquelas estratégias desonestas de exploração praticadas havia décadas pelos pro prietários acabou por influir na maneira de alguns policiais perceberem e compreende rem os conflitos nos engenhos A própria polícia agiu como negociadora resultando daí um efeito prático imediato levou a proprietária a alterar ao menos momentaneamente seus procedimentos Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 399 Relatos como o do investigador 239 apontando a desonestidade dos proprietários no entanto permaneciam confidenciais Mesmo quando algum setor da sociedade apre sentava alguma crítica às condições de trabalho no meio rural imediatamente esta era identificada como produzida pelas Ligas pelos comunistas ou por pessoas atuando em defesa do interesse destes e portanto qualificadas como não merecedoras de crédito Podemos então compreender que as lutas dos trabalhadores por condições elemen tares de cidadania ao serem associadas através do discurso patronal da imprensa e de órgãos do Estado a uma tática e uma estratégia comunista passavam na ótica oficial do campo legal e constitucional para o território da ilegalidade e assim ofereciam aos se nhores os meios para recorrer à proteção policial e também fazer uso da violência priva da sempre que se sentissem ameaçados O Nordeste é notícia O período 19551964 que compreende desde a transformação das Ligas Campone sas em um amplo instrumento de organização e luta dos trabalhadores até o golpe militar tornou o Nordeste objeto de incontáveis reportagens na imprensa nacional e mesmo inter nacional Selecionamos algumas matérias acerca do Nordeste para analisarmos como a imprensa descreveu e por extensão construiu um conjunto de significados sobre a luta dos trabalhadores rurais pela cidadania Destacaremos os textos escritos por dois jornalis tas que visitaram a região realizando contatos e entrevistas com camponeses e políticos O primeiro é Antonio Callado que fez duas séries de reportagens para um jornal do Rio de Janeiro Correio da Manhã resultantes de duas visitas a primeira publicada entre 10 e 23 de setembro de 1959 e a segunda entre 29 de novembro e 2 de dezembro do mesmo ano15 O outro é o jornalista americano Tad Szulc que realizou uma reportagem para o jornal The New York Times da cidade de Nova York publicada em 31 de outubro e 1 de novembro de 1960 Antonio Callado viajou ao Nordeste a convite do Conselho de Desenvolvimento Econômico do Nordeste Codeno e visitou os estados do Ceará Paraíba e Pernambuco À época estava em discussão na Câmara Federal uma Lei de Irrigação que entretanto encontrava resistência de parlamentares do Ceará e da Paraíba onde os problemas da seca eram dos mais graves Na série de reportagens que realizou Callado denunciava a indústria da seca ou seja os mecanismos através dos quais os latifundiários transforma vam os problemas decorrentes da seca em um grande negócio Denunciou também como os açudes construídos com verbas públicas para beneficiar toda uma população rural aca Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 400 bavam atendendo a uns poucos latifundiários Em seguida ao visitar Pernambuco rela tou a luta dos moradores de Galiléia Fez um breve histórico da Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco SAPPP16 e de como os moradores estavam mobilizados na expectativa do desfecho de um pedido de desapropriação do Engenho encaminhado ao governo do estado e que tramitava havia dois anos na Assembléia Legis lativa17 Toda essa série de reportagens de Callado decorreu de um movimento dentro do governo Juscelino Kubitschek que procurava estrategicamente obter o apoio do jornal Correio da Manhã aos projetos que apresentava para responder à grave crise que domina va o Nordeste ampliada com a enorme seca de 1958 O apoio da opinião pública era considerado de grande importância para vencer a resistência de muitos parlamentares no Congresso ao projeto Operação Nordeste proposto por Celso Furtado e que resultaria na fundação da Sudene18 As reportagens escritas por Callado descreviam e produziam um Nordeste em que muitos se reconheciam e outros não Instituíam por extensão um campo de luta pois a cada criação estavam associados conceitos imagens princípios políticos análises do pre sente e perspectivas de ação e mudanças que se confrontavam com outras matérias jorna lísticas Ao mesmo tempo acontecimentos vários em tempos simultâneos possibilitam estabelecer associações que projetam e ampliam as possibilidades de compreensão do passado As forças que se digladiam nesse momento apontam para um combate pela verdade ou ao menos em torno da verdade entendendose mais uma vez por verdade não o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar mas o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder entendendose também que não se trata de um combate em favor da verdade mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômicopolítico que ela desempenha19 A mobilização dos camponeses de Galiléia tornouse nos últimos anos da década de 1950 um símbolo de resistência para uma parcela da sociedade enquanto para outros representava o avanço do comunismo e a ruptura da pax agrária Após a criação da SAPPP em 1954 e sua regulamentação no ano seguinte o movimento de trabalhadores rurais assistiu a uma constante campanha de acusações e ameaças de subversão da ordem e desrespeito ao princípio sagrado da propriedade na quase totalidade da grande imprensa e nos meios políticos Por parte do governo do estado o canal de negociação era bastante reduzido Apesar de toda esta campanha as delegacias das Ligas se expandiam em Per nambuco e em 1959 estas já eram em número de 2520 As mobilizações públicas de cam Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 401 poneses eram uma constante No 1 de maio de 1956 Francisco Julião mobilizou 600 camponeses para participar das comemorações em Recife Em 1958 3000 participam do Primeiro Congresso de Lavradores Trabalhadores Agrícolas e Pescadores Estes últimos aliás caminharam até a Assembléia Legislativa que dedicou uma sessão à questão da Reforma Agrária21 Um incidente com a polícia no final de 1956 possibilitanos reconstruir um fragmen to da resistência a qualquer mudança no meio rural e por outro lado revela o apoio oficial a práticas que violavam o Estado de direito Realizava Julião mais uma reunião com os moradores de Galiléia num sábado à tarde quando o capitão da polícia militar estadual o prendeu e cortou a linha telefônica entre Vitória de Santo Antão e Recife impedindo que os camponeses comunicassem o fato a algum membro do Conselho Regio nal das Ligas na Capital Mesmo sendo deputado estadual e portanto dispondo de imu nidade contra processos legais Julião foi levado preso a Recife e entregue ao coronel do Exército que atendia como ajudantedeordens do então governador Cordeiro de Farias O coronel se disse indignado com a atitude do capitão e Julião foi libertado imediatamen te Na sessão da Assembléia o deputado relatou da tribuna o ocorrido e de pronto anga riou o apoio dos seus pares Na semana seguinte retornou a Galiléia na companhia de mais dois deputados mas mesmo nessas circunstâncias foram cercados por pistoleiros contratados pelo proprietário Após muita negociação o impasse foi solucionado mas revelou o clima de grande tensão na área22 Além desses embates cotidianos há de considerar as disputas políticas mais gerais que ocorriam no estado Em 1958 durante as eleições estaduais em Pernambuco for mouse uma frente das oposições que ficou conhecida como Frente do Recife Partidos legalmente constituídos PSB PTB PST e UDN formalizaram um programa e lançaram a candidatura de um usineiro Cid Sampaio após romper com as diversas resistências entre as esquerdas sobretudo do Partido Comunista que tinha muita força política mas não aparecia legalmente A eleição do udenista para o governo do estado em final de 1958 sinalizava uma ruptura da hegemonia desde 1930 do PSD além de apontar um avanço dos setores comprometidos com as lutas sociais e populares23 Nesse cenário político as reportagens de Antonio Callado publicadas no Correio da Manhã obtiveram uma grande repercussão nacional Foram transcritas nos Anais da Câmara Federal e nos Anais da Assembléia Legislativa de Pernambuco como tema de diversos discursos favoráveis e contrários Outros órgãos de imprensa também se mani festaram sobre as reportagens alternando elogios ou ataques ao Nordeste de Callado Rapidamente a indústria da seca a criação da Sudene e a luta das Ligas Camponesas de Galiléia transformaramse em temas centrais do debate nacional24 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 402 Em novembro de 1959 ao retornar a Pernambuco Callado testemunhou mais uma violência contra os moradores do Engenho Galiléia Estes decidiram fazer na data cívica de 15 de novembro uma manifestação de solidariedade ao prefeito da cidade de Vitória de Santo Antão o Sr José Ferrer que haviam ajudado a eleger Mas para surpresa de todos foram impedidos a cano de fuzil conforme relatou o jornalista em matéria para o Correio da Manhã Alguns dias após o incidente o juiz de Vitória de Santo Antão que havia quatro anos detinha em suas mãos o processo de despejo movido pelo proprietário decidiu favoravelmente à desocupação das terras de Galiléia por todos os moradores que se encontravam em débito Relatou o jornalista que a alternativa que existia para evitar um conflito de conseqüências imprevisíveis seria o projeto de desapropriação que cami nhava de forma vagarosa na Assembléia Legislativa ser colocado em pauta e aprovado25 As duas matérias registrando esses acontecimentos publicadas pelo Correio da Ma nhã nos dias 29 de novembro e 2 de dezembro produziram uma reação do proprietário Este através do seu advogado acionou o jornalista Antonio Callado e o deputado Fran cisco Julião como incursos na Lei de Segurança Nacional O argumento era o de que estariam incitando os foreiros do Engenho a não cumprirem o mandato de despejo decre tado pela Justiça de Vitória de Santo Antão26 Ao divulgar amplamente o fato a imprensa provocou indignação em parcela significativa da Câmara Federal e mais de cem parla mentares federais assinaram uma moção de apoio a Callado27 A ação contra o jornalista e o deputado deixou de ser tema estadual ou regional e tornouse nacional Em última instância estava em debate a reforma agrária e a necessidade de institucionalização de outras relações sociais no meio rural Desde a posse do governador eleito pela Frente do Recife as Ligas Camponesas ampliaram sua mobilização acreditando que um governo constituído com representantes da esquerda apressaria o processo de desapropriação das terras Em 1958 num período de três meses as Ligas organizaram 80 atos públicos no Recife28 No entanto foi a publicação do despacho do juiz de Vitória de Santo Antão que autorizava o cumprimen to do mandato de desocupação das terras do Engenho pelos moradores com o pagamento do foro em atraso em novembro de 1959 que concorreu para o acirramento do con fronto entre a SAPPP e o proprietário do Engenho Na assembléia o projeto de desapro priação de Galiléia foi reapresentado à medida que concentrações de trabalhadores na frente da Assembléia Legislativa e do Palácio do Governo aumentavam a pressão políti ca Editoriais e artigos na imprensa em sua maioria criticavam a possível desapropriação como uma ameaça sem precedentes à propriedade privada e à ordem social O desfecho era imprevisível Julião em declaração ao Diário de Pernambuco em 30 de outubro do Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 403 ano em curso prognosticava As Ligas concentrarão todos os seus efetivos para o pri meiro banho de sangue do governo do Sr Cid Sampaio caso se consume nova injustiça contra os moradores de Galiléia29 O governo cedeu à pressão dos trabalhadores e a desapropriação foi assinada A re percussão na imprensa de outros estados foi imediata e prevaleceu um tom de crítica e censura ao ato do governo Em 18 de fevereiro de 1960 o jornal O Estado de S Paulo afirmava em editorial Ao criticarmos não faz ainda muitos dias a absurda iniciativa do governador Cid Sampaio de desapropriar as terras do Engenho Galiléia para num ilícito e violento golpe no princí pio da propriedade distribuílas aos empregados daquela empresa prevíamos o que disso poderia resultar A violência seria como foi considerada uma conquista das Ligas Campo nesas e acenderia a ambição dos demais campesinos assalariados desejosos de favores idênticos O jornal apresentava o que poderia ser considerada a reação de uma parcela de seto res econômicos e políticos dominantes à desapropriação Para estes era como se estives sem perdendo a batalha para os trabalhadores rurais e as esquerdas que os apoiavam E ainda apresentavase a agravante de que esta medida era tomada por um governador da UDN embora tivesse sido eleito por uma frente em que as esquerdas tiveram um papel preponderante No bojo desta acirrada disputa após intensa negociação o governo fede ral apesar da reação de uma parcela significativa de parlamentares do Nordeste conse guiu aprovar a criação da Sudene Esta validação contou com mobilizações populares em Recife e Fortaleza pois a Sudene aparecia como um esforço no sentido de industrializar o Nordeste e concorrer para mudanças nas arcaicas relações sociais e políticas da região30 Podese avaliar que havia por parte do governo de Juscelino Kubitschek de uma parcela da imprensa da opinião pública da Igreja Católica das associações rurais e sin dicatos urbanos um movimento em direção à mudança do status quo do Nordeste Mas nesses mesmos setores manifestavamse fortes resistências que se articulavam em uma ampla rede Estava em palco de uma forma como talvez nunca se observara antes uma disputa entre a mudança e a permanência As reportagens de Callado produziram um efeito de verdade sobre uma parcela da opinião pública dos políticos da Igreja Católica Dom Hélder procurou Celso Furtado após ter conhecimento da Operação Nordeste e garantiulhe todo apoio como também abraçou o projeto de criação da Sudene31 O Nor deste precisava modernizarse combater a corrupção das oligarquias que utilizavam os recursos públicos para projetos particulares e possibilitar ao seu trabalhador rural tornar Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 404 se cidadão Em torno dessa verdade é que o governo federal projetou a Operação Nordes te e aprovou a Sudene Mas para muitos que combatiam qualquer mudança todas estas propostas eram indicativas de iniciativas comunistas O governo caminhava entre dois focos De um lado os proprietários herdeiros de uma longa tradição de completo domínio sobre os trabalhadoresmoradores de suas ter ras reproduziam práticas patriarcais em que pequenos favores e apadrinhamentos se mis turavam a relações de exploração que se manifestavam através do cambão do foro do pulo da vara do barracão e apareciam como naturais O morador submetido ao regime de condição como era conhecido tinha obrigação de prestar dois ou três dias de traba lho por semana ao engenho ou fazenda Já o foreiro que arrendava um lote de terra tinha de conceder 10 a 20 dias de trabalho gratuito por ano ao proprietário podendo entretan to enviar uma terceira pessoa para substituílo este sistema era conhecido por cambão O pulo da vara era uma expressão muito comum na zona canavieira o administrador ao medir com uma vara a extensão da terra trabalhada comumente saltava um ou dois passos em relação à marca anterior Assim um trabalhador que havia cortado plantado ou preparado uma terra de oito quadras esta era a medida era pago como havendo traba lhado seis A grande maioria dos engenhos de açúcar tinha também seu barracão em que eram vendidos produtos de primeira necessidade Muitos trabalhadores recebiam o paga mento no todo ou em parte em vales para comprar no barracão Havia ainda as cader netas do barracão em que eram anotadas suas compras durante o mês que eles entretan to por serem analfabetos tinham poucas condições de controlar Por outro lado as Ligas Camponesas se insurgiam contra os proprietários rurais criticando publicamente através de passeatas e mobilizações toda essa situação em que vivia a grande maioria dos trabalhadores rurais do Nordeste O coroamento desta mobili zação a aprovação da desapropriação de Galiléia teve um grande efeito sobre os traba lhadores rurais de Pernambuco e de outros estados Apesar da dificuldade em computar o número de associados às Ligas Fernando Azevedo afirma que em 1961 estes chegaram a dez mil distribuídos entre as 40 delegacias existentes32 As Ligas Camponesas por intermédio das redes criadas com a participação ativa do deputado socialista Francisco Julião e de aliados diversos como Antonio Callado trans formaram a luta dos trabalhadores rurais em tema nacional Com a vitória da Revolução em Cuba a partir de 1959 Julião e alguns setores em que este se apoiava começaram a construir uma forte identidade com aquele país Nessa construção o exemplo da China era também incorporado O caminho revolucionário trilhado por esses dois países pre dominantemente agrários transformouse em exemplo de futuro para o Brasil no discur Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 405 so de Julião e de alguns segmentos da esquerda Para os setores defensores do status quo tais discursos ao propugnarem a revolução passaram a justificar a ruptura da ordem constitucional Foi nesse quadro de acirrado confronto político social econômico e cultural que o jornalista do The New York Times Tad Szulc viajou ao Nordeste Embora não existam informações sobre a forma de envolvimento do Departamento de Estado dos Estados Unidos com esta viagem é possível que a reportagem tivesse objetivos que iam além de informar a opinião pública daquele país acerca das lutas sociais no campo no Nordeste do Brasil Esta reportagem nos faz pensar na história do presente e somos levados a comparar o movimento das Ligas com a luta dos trabalhadores rurais hoje através do Movimento dos SemTerra MST Embora sejam realizadas mobilizações nacionais e ocupações simultâneas em diversas fazendas nas diferentes regiões do Brasil nem mes mo assim o MST é considerado uma ameaça à governabilidade do país e à paz no conti nente como era apresentado o movimento rural em 1960 na reportagem de Szulc So mos então obrigados a perguntar o que fazia com que aquele jornalista construísse um Nordeste incendiário Dois fatores interligados a guerra fria e a Revolução em Cuba de certa maneira concorriam para produzir a percepção a compreensão e a representação que Szulc então descrevia e informava ao The New York Times Um jornalista sem militância nas lides da esquerda reproduzia o anticomunismo dominante nos Estados Unidos O mundo que se construiu após 1947 dividido entre os blocos comunista e capitalista não deixava alter nativa a uma via autônoma como também pensava Juscelino e seu projeto Operação Pan Americana em que o Brasil assumiria uma posição de liderança na América Latina e ao mesmo tempo de independência em face dos dois blocos33 Jânio Quadros e João Goulart também procuraram manter uma política de nãoalinhamento automático a nenhum dos dois lados34 Por parte do governo dos Estados Unidos havia um grande temor de que o continente latinoamericano tendesse para o comunismo e se tornasse alvo do controle soviético Nesse aspecto a posição do Brasil era objeto de críticas do governo norte americano Além disso a Revolução Cubana oferecia uma nova representação histórica ou seja na América Latina um grupo de guerrilheiros armados com o apoio de uma população pobre e revoltada com as injustiças e as desigualdades sociais havia sido ca paz de fazer uma revolução e tomar o poder Em outros termos a imprevisibilidade histó rica passava a ter uma influência significativa nas representações construídas propician do a produção de um grande medo da força e do poder do comunismo Foi de certa forma ocupando esse lugar tomado por esse espírito que o autor da reportagem acerca do Nordeste e da ação das Ligas Camponesas para o jornal The New Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 406 York Times pautou seu trabalho O título da sua reportagem publicada na primeira pági na sentenciava Pobreza no Nordeste do Brasil gera ameaça de revolta35 A construção da matéria não deve ter deixado dúvidas ao leitor americano de que uma revolução comu nista iminente estava para ser desencadeada no Brasil Para cimentar sua representação intermediava suas conclusões com declarações de líderes das Ligas Camponesas trans crevia alguns trechos de discursos pronunciados em uma assembléia das Ligas no inte rior de Pernambuco em que o orador teria afirmado Essa luta não será mais interrompida O exemplo de Cuba é aqui Nós queremos uma solu ção pacífica para seus problemas mas se não conseguirmos nós viremos aqui e convoca remos vocês a pegarem as armas e fazerem a revolução Os grandes proprietários com o apoio do imperialismo dos Estados Unidos estão sugando nosso sangue36 Ao ler esse pequeno extrato do que teria sido o discurso de um líder das Ligas o leitor possivelmente terá imaginado que a revolução armada estava a caminho e que ela teria como alvo os grandes proprietários do Brasil e os interesses dos Estados Unidos na região O efeito de verdade do enunciado era construído ao apresentálo não como inter pretação ou comentário jornalístico mas como expressão direta da fala de um líder cam ponês Para reforçar seu argumento associava declarações de políticos e intelectuais para quem se algo não fosse feito em termos de mudanças econômicas e da estrutura social uma revolução de proporções incontroláveis seria inevitável em poucos anos In formava ainda Szulc ao leitor que a força do comunismo na região deviase sobretudo ao nível de pobreza que a tornava vulnerável à pregação revolucionária O perigo de uma revolução propagarse do Nordeste para o resto do Brasil teria outras implicações para os Estados Unidos além da questão da disputa pela hegemonia no continente haja vista que esta é uma região fundamental para as estações de apoio aos mísseis intercontinentais e para o lançamento de foguetes do Cabo Canaveral logo haveria também implicações de estratégia de defesa militar37 Todo esse discurso produzido a partir da representação de um Nordeste revolucioná rio e comunista estava articulado às alocuções e às práticas de diversos setores da socie dade no Nordeste e em outras regiões do Brasil Szulc reforçava os laços entre os interes ses dos Estados Unidos e os de setores dominantes da sociedade no Brasil quando reve lava como muitos políticos e intelectuais entre outros grupos encontravamse apreensi vos e alarmados com a possibilidade de uma revolução iminente se nenhuma medida fosse tomada Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 407 A luta dos trabalhadores por direito à cidadania era transformada por grande parte da imprensa e por diversas instituições da sociedade civil em um grande medo em um grande perigo que ameaçava a todos Assim de forma gradativa eram elaboradas as condições que justificariam a ruptura do pacto constitucional Igreja e imperialismo Na escrita deste texto o leitor já deve ter percebido que trabalhamos com a idéia de história como combate ou seja como uma construção alvo de controvérsias oposições divergências Logo das fontes documentais não emana um passado com um significado evidente e objetivo de que os contemporâneos se apropriam Nesse sentido partimos de uma visão de história construída a partir da perspectiva de uma determinada historiografia e tendoa como interface das nossas pesquisas com o que elaboramos nossas questões Como já assinalamos a pesquisa sobre os movimentos sociais rurais no Nordeste do Brasil nas décadas de 1950 e 196038 oferece grandes linhas de entendimento para as lutas sociais naquele período tanto no contexto mundial em face da guerra fria como em âmbito nacional em que diversas forças políticas e sociais se digladiavam Poderseia considerar um procedimento coerente com a análise e a ope ração historiográfica de Certeau estabelecer deslocamentos analíticos construindo outros campos de significado históricos acerca dessas verdades historiográficas Ao mesmo tempo surpreende quando alteramos o nível da abordagem macro e mergulhamos no campo dos relatos orais de memória Embora as narrativas de memória adquiram os mais diversos matizes em razão tanto das perguntas formuladas ou mesmo da postura do entrevistador como também do entrevistado39 muitas vezes estes relatos descortinam um novo campo de informações históricas Experiências relações disputas estratégias cotidianas algu mas vezes ocorre não serem registradas em outros tipos de fontes Nesse sentido muitos depoimentos concorrem para um tratamento microhistórico na medida em que a escolha de uma escala particular de observação produz efeitos de conhecimento e pode ser posta a serviço de estratégias de conhecimentos Variar a objetiva não significa apenas aumentar ou diminuir o tamanho do objeto no visor significa modificar sua forma e sua trama Ou para recorrer a um outro sistema de referências mudar as escalas de repre sentação em cartografia não consiste apenas em representar uma realidade constante em tamanho maior ou menor e sim em transformar o conteúdo da representação ou seja a escolha daquilo que é representável Notemos desde já que a dimensão micro não goza nesse sentido de nenhum privilégio especial40 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 408 Assim entendemos que o relato oral de memória não contempla ou atende por si a nenhum patamar especial de conhecimento mas que ao oferecer algumas ou muitas vezes dimensões e aspectos relativos a microacontecimentos possibilita modificar a tra ma o enfoque Está contudo novamente a exigir do historiador um deslocamento analí tico pois nenhum documento mesmo inusitado advindo algumas vezes do relato oral substituirá o fazer do historiador a operação historiográfica Os padres que migraram da Europa para o Brasil no período em estudo vinham como missionários Atendiam a um apelo da Encíclica Fidei Domun e nesse sentido estavam conscientes da importância da sua missão no sentido de barrar o avanço do comunismo principalmente no Nordeste do Brasil onde as Ligas Camponesas desde 1955 transfor maramse numa grande ameaça à hegemonia católica Isto porque o discurso das Ligas não apontava a religião como ópio do povo mas apropriavase da simbologia cristã e produzia um discurso criticando proprietários e padres Uma cartilha produzida na época pelas Ligas ilustra essa crítica O latifúndio diz assim Deus castiga aquele que se rebela contra ele Se um é rico e outro é pobre se um tem terra e outro não se um deve trabalhar com a enxada para dar o cam bão e outro se mantém e se enriquece com o fruto desse cambão se um vive num palácio e o outro numa palhoça é porque Deus quer Quem se rebela contra isso se rebela contra Deus Sofre os castigos do céu peste guerra e fome E quando morre vai para o inferno O pobre deve ser pobre para que o rico seja rico O mundo sempre foi assim E há de ser sempre assim É Deus quem o quer Assim fala o latifundiário ao camponês Usa o nome de Deus para assustarte Porque tu crês em Deus Porém esse Deus do latifundiário não é teu Deus Teu Deus é manso como um cordeiro Se chama Jesus Cristo Nasceu em um estábulo Viveu entre os pobres Se rodeou de pescadores camponeses operários e mendi gos Queria a liberdade de todos eles Dizia que a terra devia ser de quem trabalha E o fruto era comum São suas as seguintes palavras É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus Porque afirmava essas coisas foi crucificado pelos latifundiários do seu tempo Hoje seria fuzilado Ou o internariam num asilo de loucos Ou seria preso como comunista Escuta bem o que te digo camponês Se um padre ou pastor te fala em nome de um Deus que ameaça o povo com peste guerra e fome raios e trovões e o fogo do inferno saiba que esse padre ou esse pastor são servos do latifúndio e não um ministro de Deus41 O texto da Cartilha possivelmente lido em voz alta nas rodas de camponeses em face da tradição oral do cordel em todo o Nordeste bem como do grande número de analfabetos deve ter causado um forte impacto entre muitos trabalhadores rurais Talvez nunca tivessem ouvido ou lido uma crítica tão direta ao discurso e às práticas dos pro prietários e dos padres e pastores Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 409 Nesse sentido podemos imaginar a ameaça que as Ligas se tornaram para as lideran ças católicas que talvez viesse a se repetir em plena metade do século XX aquilo que mutatis mutandis ocorrera na Europa na visão de Pio XI quando afirmou que o grande escândalo do século XIX fora a perda do operariado pela Igreja42 No Nordeste do Brasil poderseia pensar iniciavase o movimento de perda dos trabalhadores rurais Era nesse cenário de disputa de luta pelo poder de controlar os movimentos sociais rurais que os religiosos podiam ser considerados por setores das classes dominantes tão importantes quanto a colaboração dos Estados Unidos Mesmo em 1968 quando a rela ção entre o clero e o regime militar já havia sido alvo de diversos enfrentamentos padre Jaime le Boyer registrava em sua história de vida O governo militar havia feito um acordo com a Igreja e os padres de Fidei Domun já vinham com este tipo de visto da Holanda Naquele tempo já era difícil obter o visto perma nente mas como estratégia dos militares para manter um bom relacionamento com a Igre ja eles concediam aos religiosos Tenho esse visto até hoje43 Garantir um bom relacionamento com a Igreja era compreender entre outros aspec tos o papel formador da religião Como observa Bourdieu a religião contribui para a imposição dissimulada dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo e em particular do mundo social na medida em que impõe um sistema de práticas e de representações cuja estrutura objetivamente fundada em um princípio de divisão política apresentase como a estrutura naturalsobrenatural do cosmos44 Eram no entanto seus discursos e suas práticas nesse papel formador da religião que a Igreja Católica no Brasil estava sendo desafiada a repensar As Ligas estavam a pontuar que o discurso tradicional da Igreja era contra o povo trabalhador e sobretudo não repre sentava o pensamento e a ação de Jesus este sim um permanente aliado do povo pobre e humilde como Fidel Castro Mao Tse Tung e Francisco Julião Estavam então lança dos os elementos para construção de uma outra percepção uma outra sensibilidade e um outro pensamento acerca do universo social estabelecendose um novo pacto entre o sagrado e as relações sociais Ou seja o trabalhador rural tinha possibilidade de aprender a ler o mundo ao seu redor de uma maneira diferenciada com significados distintos do que ouvira e praticara em grande parte da sua vida Ao mesmo tempo os padres que chegavam para ajudar nessa missão contra o comu nismo contra as Ligas eram lançados no mundo rural sem nenhum processo prévio de adaptação Não dominavam ainda a língua e desconheciam inteiramente os valores e as Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 410 práticas culturais Vinham carregados da visão imperialista que a Europa construíra sobre este lado do mundo O padre holandês Lambertus Bogaard relembra o desembarque em Recife em 1958 A idéia que nós tínhamos na Holanda era que o Brasil era um país inteiramente atrasado Quando desembarquei em Recife fiquei surpreso com todos aque les prédios Pensava que ia encontrar especialmente índios e negros pobres atrasados mas foi exatamente o contrário45 A postura a visão que esse exército de religiosos trazia e praticava era idêntica à do colonizador imperialista que acreditava no caráter salvacionista do projeto civilizador Afinal para a Europa o domínio sobre as colônias principalmente na África ainda era muito presente no período em estudo Muitos governos continuavam mantendo seu Mi nistério das Colônias Logo essa visão civilizatória associada ao projeto imperialista e muito presente na cultura européia era parte da bagagem cultural desses religiosos O próprio padre Lambertus faria uma certa crítica à sua postura inicial quando da chegada ao Brasil Nossa filosofia era de ajudar no desenvolvimento do País nos sentíamos também responsá veis logo pensávamos que tínhamos que fazer as coisas por outros caminhos Não adianta va fazer as mesmas coisas Então isso criou problemas Isso aliás acontece com todos padres ou leigos que vêm de fora para ajudar o Brasil Eles pensam que só eles mesmos têm as respostas e podem impor suas idéias46 A força do discurso religioso que informava a visão de mundo os comportamentos e as práticas sociais vinha carregada de signos civilizatórios que desqualificavam a cul tura nacional Como o próprio Lambertus confessa todos chegavam com essa visão mas poucos percebiam o significado dessa postura Poderseia então operando um movi mento de deslocamento analítico sobre o relato de história de vida em foco pensar numa lógica religiosa imperialista Em outros termos podemos buscar um novo diálogo inspi rador desta vez com um teórico da cultura e do imperialismo Edward Said Suas refle xões embora estejam construídas a partir das narrativas dos romances produzidos nos países imperialistas entre o final do século XIX e início do XX possibilitam de certa forma estabelecer algumas conexões analíticas com nossa temática Afirma ele O principal objeto de disputa no imperialismo é evidentemente a terra mas quando se tratava de quem possuía a terra quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar quem a explorava quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro essas questões foram pensadas discutidas e até por um tempo decididas na narrativa O poder de narrar ou de impedir que se formem e surjam outras narrativas é muito importante para a cultura e o imperialismo e constitui uma das principais conexões entre ambos47 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 411 No caso das Ligas também encontramos narrativas curtas de caráter pedagógico que passavam a demarcar um contradiscurso em relação às representações dominantes de manutenção das estruturas latifundiárias e de suas práticas de exploração do trabalho Julião se inspiraria nos poetas populares para produzir diversos textos como Guia ABC Recado Cartilha do Camponês Em uma linguagem simples e direta como se estivesse conversando com o camponês elaborava de forma pedagógica todo um discurso de mudança e transformação Os valores da união e da solidariedade camponesa associados a uma releitura do cristianismo constituemse nos pilares deste discurso de mobilização e luta Os padres que migraram para o Brasil nesse período vieram em nome de uma cruza da em defesa dos valores ocidentais cristãos e seu discurso civilizador a sua visão de mundo estavam marcados por uma formação imperialista Mesmo que não estivessem imediatamente a serviço de empresas e projetos econômicos imperialistas os valores e as práticas com os quais estabeleciam e fundavam suas relações com os diversos segmentos da sociedade principalmente no meio rural foram estruturados a partir de uma educação de uma formação de uma história e visão de mundo imperialistas Mas por outro lado não podemos esquecer que aqueles que os recebiam também aprenderam a admirar a respeitar a submeterse aos que vinham de fora de um outro país Essa forma de recep ção não impedia práticas de trampolinagem48 como observa Certeau embora estas rara mente chegassem a questionar de maneira radical o discurso desses religiosos Como afirma Said da mesma maneira que Conrad em seu romance Heart of darkness criticava a crueldade e as injustiças resultantes do imperialismo europeu mas era incapaz de pen sar uma ruptura radical daquele mundo africano com o imperialismo49 Se esta é entretanto uma leitura possível do discurso e da prática desses religiosos um outro relato nos surpreende pelo que projeta como complexidade das relações so ciais Xavier Maupeou é um padre francês que narra uma história de vida bastante inco mum pois ao concluir seus estudos secundários na França entrou para a Escola dos Oficiais da Reserva da Cavalaria da qual saiu como aspirante Em seguida foi mandado para a fronteira da Argélia com a Tunísia sendo posteriormente transferido para a frente de batalha da guerra da Argélia até ser ferido gravemente e enviado a um hospital em Paris Ao recuperarse deixou o Exército e ingressou no seminário Após cinco anos ordenouse padre e atendendo ao espírito da Encíclica Fidei Domun decidiu aceitar o convite para trabalhar como missionário no Brasil Em razão de contatos anteriores via jou para o Nordeste mais especificamente à cidade de São Luís capital do estado do Maranhão Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 412 Uma das práticas comuns em face do reduzido número de padres nessa região era a chamada desobriga ou seja as visitas pastorais que poderiam durar alguns dias em que eram realizadas dezenas de casamentos batismos crismas e também ouvida a con fissão e rezada a missa Após o cumprimento de todas as obrigações religiosas tinha início uma festa com bastante comida e bebida Relembra então Xavier que teve problemas na viagem para uma desobriga na cida de de Santo Amaro no interior do Maranhão e acabou chegando com muito atraso O povo cansado de esperar fez a festa antes de cumprir as obrigações religiosas Ao chegar encontrou as pessoas com ressaca em razão da bebida Mas mesmo nestas condições teve início a reunião de reflexão bíblica Relata ele Chegou então uma hora em que não me controlei e disse Se ninguém falar eu nunca mais piso aqui Não devia ter dito isso Um velho disse ao filho dele Fala O rapaz pegou a Bíblia para tentar ler e a colocou de cabeça para baixo Eu não me controlei Burro tu não sabes nem pegar na Bíblia direito Ele me respondeu Burro hoje o senhor vai ver daqui a três meses Continuamos a reunião apesar da falta de ambiente de fraternidade Passados alguns meses José Martins o trabalhador que padre Xavier havia chamado de burro foi à sua casa Ele entrou almoçamos não tocamos no problema que havia ocorrido Quando acabamos ele disse O senhor se lembra Eu disse Me lembro e peço perdão Ele então retrucou Não se trata disso Vim marcar uma data para a próxima desobriga Quando voltei lá novamente para a desobriga assisti uma coisa prodigiosa Prepararam uma verdadeira fes ta Enfeitaram tudo os meninos cantando e houve então uma pregação desse homem José Martins fabulosa50 Este relato nos faz pensar o quanto a atitude de reprovação e cobrança do religioso operou como um enfrentamento para o próprio grupo se superar No entanto desafio maior ocorreu alguns meses depois Relata Xavier Poucos meses depois dessa desobriga teve início o problema da terra nessa comunidade O proprietário entre aspas pois não são proprietários mas ladrões porque nesse tempo já roubavam as terras foi falar com o delegado e pedir a este providências para expulsar dois moradores das suas terras Como era costume o delegado enviou um bilhetinho aos mora dores dizendo Venham falar comigo na delegacia Nessas situações normalmente o trabalhador vinha e o delegado comunicava que tinha duas horas para sair da terra Mas dessa vez foi diferente Eles receberam o bilhete do delegado e leram como liam a Bíblia Leram discutiram e decidiram que não iriam apenas os dois mas toda a comunidade Na hora marcada estavam em frente da casa paroquial pois a delegacia era vizinha Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 413 Eu não estava sabendo de nada Quando vi chegar esse povo todo fui saber do que se tratava Eles então me explicaram Eu pensei Nossa Senhora de Fátima vai começar a confusão Nós nunca tínhamos em nossas reuniões tratado explicitamente de assunto de terra mas de toda a vida Teve então início dentro da delegacia a reunião com o delegado Ele exigiu a presença apenas dos dois O restante esperasse na rua Houve um diálogo fantástico com o delegado Vocês vão sair da terra Eles então interrogaram Mas senhor delegado com todo respei to por quê Era a primeira vez na história do município de Urbano Santos que um lavra dor dialogava com uma autoridade e não apenas ouvia calado e respondia sim senhor Poderia dizer que essa é uma caminhada própria do processo de formação de uma Comuni dade Eclesial de Base Após esse incidente começou um zunzunzum na elite da cidade Passaram a dizer Isso é comunismo e são os padres A partir de então passamos a ser acusados de pregar Mao Tse Tung e essas coisas de subversão Quando de fato era apenas uma caminhada típica de um padre normal que queria ensinar o Catecismo e a palavra de Deus Nunca tínhamos falado de política ou de partido No entanto a partir da reflexão e da leitura sobre a palavra de Deus e o Catecismo foram desfeitas certas relações de poder Basicamente fruto do diálogo com o povo51 O relato de Dom Xavier privilegia a prática religiosa colocandoa no centro da mu dança da postura política ou mais propriamente da construção da cidadania Provavel mente outros fatores devem ter concorrido além da prática religiosa para que esse grupo rompesse com o medo e enfrentasse os desafios da polícia Entretanto mesmo conside randose que esse é o registro produzido por Dom Xavier e que o relato dos trabalhadores seria talvez inteiramente outro mudanças culturais significativas devem ter se processa do para um religioso de formação européia construir esta compreensão das práticas so ciais e políticas Recebido em agosto2004 aprovado em setembro2004 Notas Este artigo é resultado do trabalho de pesquisa desenvolvido através do projeto Memórias da Terra a Igreja Católica as Ligas Camponesas e as Esquerdas 19541970 realizado com apoio do CNPq Professor do Departamento de História da UFPE 1 GRAMSCI Antonio Obras escolhidas Trad Manuel Cruz Lisboa Estampa 1974 p 25 2 NORA Pierre Entre memória e história a problemática dos lugares Projeto História São Paulo Educ v 10 p 8 1993 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 414 3 LACLAU Ernesto A política e os limites da modernidade In Pósmodernismo e política Rio de Janeiro Rocco 1992 p 147 4 LESSA Sônia Sampaio Navarro O movimento sindical rural em Pernambuco 19581968 1985 Disserta ção de mestrado em História apresentada à Universidade Federal de Pernambuco Recife p 52 5 CALLADO Antonio Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco Rio de Janeiro Civilização Brasileira 1969 p 48 6 ARQUIVO Público Estadual de Pernambuco Documentação do Dops Fundo nº 29709 7 AZEVEDO Fernando de As Ligas Camponesas São Paulo Paz e Terra 1982 8 PAGE Joseph A revolução que nunca houve o Nordeste do Brasil 19551964 Rio de Janeiro Record 1972 p 59 9 SANTIAGO Vandeck Francisco Julião luta paixão e morte de um agitador Recife A Assembléia 2001 Série Perfil Parlamentar p 53 10 FOUCAULT Michel Microfísica do poder Trad Roberto Machado 2 ed Rio de Janeiro Graal 1979 p 28 11 Pesquisa da documentação do Dops no Arquivo Público Estadual em Pernambuco torna possível rastrear como as atividades das Ligas eram vigiadas em todos os municípios e em engenhos e fazendas onde vinham a ser fundadas A polícia chegou a desenhar um quadro localizandoas de forma bastante detalhada além de muitas vezes serem escritos relatórios resultantes deste monitoramento 12 Paudalho é um município de Pernambuco localizado numa área de engenhos voltados para a plantação de cana e a olaria Classificado pelo IBGE como situado na zona da mata norte dista 45 km de Recife Segundo a documentação da polícia desde a década de 1940 havia registros de uma intensa atividade do Partido Comu nista no município 13 RELATÓRIO do Investigador nº 239 Documentação do Dops do Arquivo Público Estadual de Pernambu co Fundo da Secretaria de Segurança Pública nº 29265 14 Id ibid 15 Esta série de reportagens foi publicada em livro com o título Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco já citado neste artigo 16 Este é o nome pelo qual a Liga foi registrada pelos camponeses do Engenho Galiléia da cidade de Vitória de Santo Antão no interior de Pernambuco na segunda metade da década de 1950 17 CALLADO op cit pp 531 18 Ver FURTADO Celso A fantasia desfeita Rio de Janeiro Paz e Terra 1989 p 46 19 FOUCAULT op cit p 13 20 Existiam delegacias das Ligas Camponesas nas seguintes cidades Goiana Igaraçu Paulista Olinda São Lourenço da Mata Pau dAlho Limoeiro Bom Jardim Orobó João Alfredo Surubim Jaboatão Moreno Vitória de Santo Antão Gravatá Bezerros Caruaru Belo Jardim Pesqueira Buíque São Bento do Una Bonito Cortês Escada e Cabo Cf CALLADO op cit pp 531 21 Id ibid p 49 22 PAGE op cit p 64 23 SOARES José Arlindo Nacionalismo e crise social o caso da Frente do Recife 19551964 Rio de Janeiro Paz e Terra 1982 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 415 24 CALLADO op cit p 125 25 Id ibid pp 1324 26 Ibid p 145 27 Ibid p 156 28 SANTIAGO op cit p 72 29 Apud AZEVEDO op cit p 69 30 FURTADO op cit p 78 31 FURTADO op cit p 47 32 AZEVEDO op cit p 70 33 ROGERS William D The twillight struggle the Alliance for Progress and the politics of development in Latin America New York Random House 1967 p 19 34 BANDEIRA Luiz Alberto Moniz O governo João Goulart as lutas sociais no Brasil 19611964 7 ed Rio de JaneiroBrasília RevanEd UnB 2001 pp 4650 35 The New York Times New York monday october 31 1960 36 Id ibid 37 Id november 1 1960 38 Certeau observa acerca da relação pesquisa e escrita Enquanto a pesquisa é interminável o texto deve ter um fim e esta estrutura de parada chega até à introdução já organizada pelo dever de terminar CERTEAU Michel de A escrita da história Trad Maria de Lourdes Menezes 2 ed Rio de Janeiro Forense Universitá ria 2003 p 4 39 Diversos historiadores que trabalham com entrevistas principalmente com pessoas públicas percebem como estas muitas vezes já têm um discurso pronto acabado freqüentemente de caráter macro que nada acrescen ta a outras fontes documentais 40 REVEL Jacques Microanálise e construção social In Jogos de escalas a experiência da microanálise Trad Dora Rocha Rio de Janeiro Ed FGV 1998 p 20 41 JULIÃO Francisco Cartilha do camponês Recife se set 1960 p 9 42 ALVES Márcio Moreira O cristo do povo Rio de Janeiro Sabiá 1968 p 68 43 Entrevista com padre Jaime Le Boyer para o Projeto Guerreiros do AlémMar 44 BOURDIEU Pierre A economia das trocas simbólicas Trad Sérgio Miceli 2 ed São Paulo Perspectiva 1982 pp 334 45 Entrevista com o expadre Lambertus Bogaard para o Projeto Guerreiros do AlémMar 46 Id ibid 47 SAID Edward W Cultura e imperialismo Trad Denise Bottman São Paulo Companhia das Letras 1995 p 13 48 O que aí se chama sabedoria definese como trampolinagem palavra que um jogo de palavras associa à acrobacia do saltimbanco e à sua arte de saltar no trampolim e como trapaçaria astúcia e esperteza no modo de utilizar ou de driblar os termos dos contratos sociais CERTEAU Michel de A invenção do cotidiano 1 artes de fazer Rio de Janeiro Vozes 1998 p 79 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 416 49 SAID op cit pp 623 50 Entrevista com o bispo Dom Xavier Gilles de Maupeou DAbleiges para o Projeto Guerreiros do AlémMar 51 Id ibid Mensagem para a cliente Olá Seus 6 resumos foram enviados pelo chat Antes de entregar leia com calma os resumos das teses mais longas para garantir de que estão dentro do que você deseja Seu atendimento será especial dada a restrição atual em que se encontra Então pode contar comigo para correções modificações ou qualquer outro 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844 844856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 ISSN 16793951 Uberização do trabalho e acumulação capitalista David Silva Franco ¹ Deise Luiza da Silva Ferraz ² ¹ Instituto Federal de Minas Gerais IFMG Departamento de Ensino Básico Técnico e Tecnológico Ribeirão das Neves MG Brasil ² Universidade Federal de Minas Gerais Faculdade de Ciências Econômicas Departamento de Ciências Administrativas Belo Horizonte MG Brasil Resumo O avanço das forças produtivas apropriadas pelo capital aliado ao contexto de transformação das relações socioculturais que abarcam as esferas da produção e do consumo tem possibilitado a ascensão do fenômeno da uberização do trabalho termo derivado da forma de organização da empresa Uber Esse fenômeno tem sido usualmente associado aos negócios da denominada economia de compartilhamento e abre o debate acerca das especificidades das categorias estruturantes da acumulação capitalista que abarcam relações de trabalho virtualizadas Neste artigo buscamos lançar as bases teóricas para a defesa do seguinte argumento a uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva Partindo do aporte teórico marxiano traçamos uma análise crítica acerca do fenômeno da uberização que está intrinsecamente relacionado às inovadoras formas de gestão enquanto por outro lado intensifica a precarização do trabalho Palavraschave Uberização Acumulação Capitalista Relações de Trabalho Precarização Uberization of labor and capitalist accumulation Abstract The development of the productive forces appropriated by capital combined with the context of changes on sociocultural relations that encompasses the spheres of production and consumption has enabled the rise of the phenomenon of uberization of labor a term derived from the way the company Uber is organized This phenomenon is usually associated with the business of socalled sharing economy and it opens the debate to the specificities of the structuring categories of capitalist accumulation that encompass online labor relations This article lays the theoretical basis to advocate for the following argument the uberization of labor represents a particular capitalist accumulation by producing a new form of mediation of the subsumption of the worker which takes on the responsibility for the main means of production in the productive activity Based on the Marxian theoretical contribution a critical analysis about the phenomenon of uberization is presented which is intrinsically related to the innovative forms of management while it also acts to intensify the work precariousness Keywords Uberization Capitalist Accumulation Labor Relations Precariousness Uberización del trabajo y acumulación capitalista Resumen El avance de las fuerzas productivas de las cuales el capital se ha apoderado aliado al contexto de transformación de las relaciones socioculturales que abarcan las esferas de la producción y del consumo ha posibilitado el ascenso del fenómeno de la uberización del trabajo término derivado de la forma de organización de la empresa Uber Este fenómeno ha sido usualmente asociado a los negocios de la denominada economía colaborativa y abre el debate en cuanto a las especificidades de las categorías estructurantes de la acumulación capitalista que abarcan relaciones de trabajo virtualizadas En este ensayo buscamos lanzar las bases teóricas para la defensa del siguiente argumento la uberización del trabajo representa un modo particular de acumulación capitalista al producir una nueva forma de mediación de la subsunción del trabajador el cual asume la responsabilidad por los principales medios de producción de la actividad productiva A partir del aporte teórico marxiano trazamos un análisis crítico acerca del fenómeno de la uberización que está intrínsecamente relacionado a las innovadoras formas de gestión mientras que por otro lado intensifica la precarización del trabajo Palabras clave Uberización Acumulación Capitalista Relaciones de trabajo Precarización Artigo submetido em 05 de setembro de 2018 e aceito para publicação em 16 de outubro de 2018 DOI httpdxdoiorg1015901679395176936 Uberização do trabalho e acumulação capitalista 845856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz INTRODUÇÃO O trabalho enquanto categoria ontológica é aquilo que difere os seres humanos dos demais animais sendo o elemento determinante e dialeticamente determinado dos diversos aspectos da vida social É por meio da atividade sensível que o indivíduo expressa sua humanidade reproduz sua existência e interage com a natureza da qual ele próprio é parte constituinte O trabalho é assim uma condição de existência do homem independente de todas as formas sociais eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e portanto da vida humana MARX 2013 p 98 Como destaca Antunes 2000 sob o sistema do capital o trabalho é esvaziado de sentido uma vez que se torna uma atividade mediada para a produção de valor ao capitalista Enquanto manifestação de fenômenos políticoeconômicos e culturais os modelos de organização do trabalho se transmutam continuamente para dar conta das mudanças que ocorrem no sistema de sociometabolismo do capital cuja tendência é sempre de expansão MÉSZÁROS 2011 Nesse sentido as estratégias de controle do trabalho para além das inovações tecnológicas invariavelmente abarcam diferentes formas para a exploração da força de trabalho O desenvolvimento de forças produtivas para proceder a valorização do valor dá origem a fenômenos de proporções globais como a relativamente recente uberização do trabalho termo de referência ao pioneirismo da empresa Uber em relação ao seu particular modelo de organização do trabalho A Uber desenvolveu uma plataforma digital disponível para smartphones que conecta os clientes aos prestadores de serviços A empresa atua na promoção de atividades de transporte urbano e difere dos demais concorrentes do segmento por meio de elementos como preço mais acessível em relação aos táxis convencionais vinculação do percurso ao trajeto indicado no GPS da telefonia móvel maior capacidade de controle sobre o prestador de serviço e pagamento do serviço de transporte diretamente lançado no cartão de crédito do passageiro Sem qualquer vínculo empregatício os motoristas da Uber trabalham como profissionais autônomos e assumem diversos riscos para oferecer o serviço detendo quase a totalidade dos meios de produção necessários à execução da atividade e por eles integralmente se responsabilizando Levando em conta que o Direito do Trabalho brasileiro recalcitra em classificar o motorista como empregado esse trabalhador está além de impelido a investir nos instrumentos de trabalho desprotegido nessa relação de trabalho Na medida em que já não necessita contratar o trabalhador como empregado e sequer necessita investir na maioria dos meios físicos que constituem o capital constante o maisvalor apropriado pelo capitalista se torna maximizado em um patamar inimaginável para as empresas tradicionais o que se revela um imperativo para que outras empresas passem a adotar modelos semelhantes de estruturação de seus negócios SRNICEK 2017 Diante da problemática defendemos neste artigo o seguinte argumento A uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva Dada a escassez de estudos sobre a temática uberização no Brasil nenhum artigo foi identificado nas bases SPELL e SciELO ao buscar o termo uberização intentamos clarear alguns aspectos desse fenômeno pujante com potencial de promover rupturas sobre as relações de trabalho no contexto nacional Sem a pretensão de aparentar neutralidade o que frequentemente se exibe como um recurso ideológico para a manutenção do status quo almejamos ampliar o debate sobre a exploração que as relações de trabalho uberizadas engendram e consequentemente tornar mais favoráveis as condições subjetivas que a mobilização coletiva por melhorias e conquistas de direitos demandam É importante ressaltar contudo que esses tipos de insatisfações e conflitos não são plenamente superáveis haja vista que a regulação das relações de trabalho proporciona apenas um melhor convívio social nos marcos do sistema capitalista mas não supera a relação contraditória capitaltrabalho Para a transformação do real concreto em real pensado considerando o modo de produção do conhecimento do materialismo histórico dialético este artigo apresenta uma aproximação de um fenômeno que faz parte de uma totalidade de mediações mais amplas do que aqui seríamos capazes de abarcar Consideramos essa primeira aproximação do fenômeno de grande relevância para posteriores apreciações críticas de uma das faces da tendência global de flexibilização das relações de trabalho Uberização do trabalho e acumulação capitalista 846856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz SOBRE A ACUMULAÇÃO CAPITALISTA Seguindo os termos marxianos expomos aqui as categorias centrais do processo de produção capitalista de modo que possamos posteriormente analisar a manifestação delas no contexto da uberização Iniciamos retomando que a sociabilidade capitalista se constitui sobre o antagonismo de duas classes a trabalhadora e a capitalista abstraindo neste momento a heterogeneidade sociocultural das diferentes estratificações dentro de cada uma dessas categorias as quais interagem e confrontam entre si na dinâmica de produção de mercadorias e na produção das diversas mediações que emergem desse processo constitutivo da sociabilidade humana sob o capital Sob o sistema do capital a força de trabalho é aquela mercadoria que o trabalhador possui e é impelido a vender para garantir assim sua subsistência Tal como qualquer outra mercadoria o valor da força de trabalho é representado pelo tempo de trabalho socialmente necessário para sua reprodução ou seja o quanto o trabalhador precisa trabalhar diariamente para arcar com as necessidades próprias da produção e reprodução da força de trabalho sejam elas do estômago ou da fantasia MARX 2013 Cabe portanto ao próprio sujeito que trabalha se reproduzir como força de trabalho e produzir a força de trabalho futura eis uma das razões de Karl Marx denominar a classe trabalhadora classe proletária Já o capitalista aquele que possui o dinheiro para o investimento produtivo é o comprador dos fatores necessários à produção de mercadorias objetivando obter um valor superior ao inicialmente dispendido como expresso na seguinte fórmula D M Mp T P M D Com o capitalmonetário D do capitalista são compradas as mercadorias que compõem os fatores de produção ou seja os meios de produção Mp e a força de trabalho T a relação entre o capital adiantado em Mp e T compõe o que Karl Marx denomina composição de valor do capital Com o emprego desses fatores no processo produtivo P temse a criação de novas mercadorias M ou seja o capitalmercadoria que é resultado da produção O capitalmercadoria incorpora o valor da matériaprima consumida o valor do desgaste de utilização dos meios de produção não consumidos em um único ciclo produtivo o valor da força de trabalho e o maisvalor Vale destacar que os meios de produção cujo valor demora mais de um ciclo para ser consumido é para Marx 2014 capital fixo a exemplo do capital constante investido em maquinaria e demais estruturas físicas utilizadas em vários ciclos produtivos enquanto aqueles fatores de produção cujo valor se incorpora integralmente à mercadoria em um único ciclo é reconhecido como capital circulante inclui as matériasprimas que também são parte do capital constante e a força de trabalho ou capital variável Com a circulação das mercadorias e a realização das trocas o capitalista efetiva o maisvalor e obtém um novo capital monetário D o qual deverá ser reinvestido em parte ou todo ele em fatores de produção meios de produção e força de trabalho para que haja o efetivo movimento de acumulação capitalista O movimento de acumulação ocorre porque o valor em posse do capitalista ao fim do processo de produção é maior do que o originalmente adiantado ainda que parte desse valor permaneça fixado em meios de produção A força de trabalho é o único elemento empregado na produção que é capaz de gerar mais valor do que o seu próprio logo o maisvalor também conhecido como maisvalia representa o tempo de trabalho que o trabalhador dispende não para si não para produzir o valor que corresponde à reprodução de sua força de trabalho mas para o acúmulo de valor do capitalista A consolidação dessa forma de produção possibilitou ao capitalista ter um papel estratégico de controle sobre o processo de trabalho e ocuparse em como aumentar o maisvalor seja ele de forma absoluta ou relativa Essa ocupação não se trata apenas de uma racionalidade instrumental voltada à ganância mas da necessidade socialmente condicionada de manutenção de seu capital que só se mantém se estiver em um movimento de expansão Enquanto o maisvalor absoluto é obtido por meio do prolongamento da jornada de trabalho o maisvalor relativo deriva da redução do tempo de trabalho socialmente necessário para a reprodução da força de trabalho por meio de melhoria dos métodos dos instrumentos eou da intensidade das atividades na indústria em Marx indústria é entendida como o conjunto de atividades produtivas do capital envolve portanto o que denominamos grosseiramente serviços o trabalhador produz o valor de sua força de trabalho em menos tempo logo mais tempo de sua jornada é destinada à produção de maisvalor ao capitalista O trabalhador operando em cooperação aparece como uma forma específica do processo de produção capitalista contraposta ao processo de produção de trabalhadores autônomos e isolados ou mesmo de pequenos mestres sendo essa a primeira Uberização do trabalho e acumulação capitalista 847856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz transformação do trabalho em sua condição de subsunção ao capital MARX 2013 p 236 O trabalho subsumido ao capital significa que a atividade produtiva é exercida em caráter subordinado de modo que os saberes o domínio e as finalidades das funções dos trabalhadores são determinados pelo capital Essa subsunção é fruto de processos históricos que envolvem a própria constituição da força de trabalho enquanto tal ABÍLIO 2011 transformando a execução da atividade sensível em uma mercadoria que deve ser vendida pelo trabalhador para sua subsistência O advento da indústria manufatureira promoveu a passagem da forma de subsunção formal para a forma de subsunção real do trabalhador ao capital o que significa um novo estágio de alienação MÉSZÁROS 2016 A instauração da cooperação enquanto meio necessário ao movimento de expansão do capital apresenta um caráter duplo ao mesmo tempo que fomenta o potencial de formação de uma nova consciência de classe e de uma nova compreensão histórica do trabalho enquanto processo social também promove o parcelamento da atividade produtiva e maior capacidade de determinação pelo capitalista sobre a forma de atuação do trabalhador Nesse sentido Marx 2013 analisa que o enriquecimento da força produtiva social do trabalhador coletivo na manufatura é condicionado pelo empobrecimento do trabalhador em suas forças produtivas individuais Como próximo estágio da acumulação capitalista temos o desenvolvimento da maquinaria aplicada ao processo produtivo A evolução tecnológica de incorporação da maquinaria para aplicação da força de trabalho traz diversas consequências ao ambiente produtivo tais como possibilidade de ampliação da jornada de trabalho para além do limite natural anteriormente necessário à reprodução da força de trabalho menor dependência do capitalista em relação aos saberes do trabalhador e barateamento do custo do produto considerando que a produção ou compra dessa maquinaria custe menos trabalho do que aquele que seu aproveitamento substitui MARX 2013 A maquinaria e a grande indústria ensejaram metamorfoses no ambiente socioprodutivo que permanecem em movimento até os dias atuais como renovação e incremento contínuo das tecnologias produtivas expansão das cadeias de valor globalmente fragmentadas maior fluxo monetário entre capitalistas e rentistas do mercado financeiro o qual está contraditoriamente imbricado e autonomizado em relação ao mercado produtivo e ascensão do setor de serviços enquanto indústria produtiva No livro II dO Capital Marx 2014 p 145 destaca que uma mercadoria não é necessariamente um objeto físico também pode ser alguma atividade prestada tal como ilustrado em seu exemplo da indústria de transportes Mas o que a indústria dos transportes vende é o próprio deslocamento de lugar O efeito útil obtido é indissoluvelmente vinculado ao processo de transporte isto é ao processo de produção da indústria dos transportes Mas o valor de troca desse efeito útil é determinado como o de toda e qualquer mercadoria pelo valor dos elementos de produção nele consumidos força de trabalho e meios de produção acrescido do maisvalor criado pelo maistrabalho dos trabalhadores ocupados na indústria dos transportes Assim há a supressão de M sendo o processo de produção concomitante ao processo de consumo podendo ser esquematizado da seguinte forma D M Mp T P D Em uma primeira abstração quando a atividade de serviços é voltada à circulação de mercadorias a exemplo de empresas atacadistas e varejistas ela contribui para a acumulação capitalista na medida em que reduz o período de rotação do capital produtivo eou reduz a quantidade de capital monetário adiantado necessário à realização de valor do capitalista produtivo essas atividades são por Marx 2017 tratadas no livro III dO Capital sob a discussão do capital comercial Não sendo nosso objeto de discussão neste artigo basta destacarmos que neste caso não há produção de valor nem maisvalor Contudo em um segundo momento temos de considerar as novas mercadorias que estão sendo produzidas como deslocamento armazenagem entretenimento etc que estão sob a insígnia do setor de serviços Nesse caso há força de trabalho produzindo valor e há capitalistas apropriando maisvalor Seguindo a própria tendência do capital esses capitalistas da indústria de serviços igualmente buscam formas de aumentar constantemente o maisvalor Como destaca Marx 2013 as inovações tecnológicas eou de organização produtiva adotadas em larga escala por agentes produtivos tendem a provocar a queda tendencial da taxa de lucro Portanto para recuperar as possibilidades de aumento do maisvalor o capitalista se vê forçado a buscar ininterruptamente novas formas de superar seus concorrentes Como Uberização do trabalho e acumulação capitalista 848856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz ressalta Oliveira 2003 a tendência recente é de que o capitalista dependa cada vez menos do adiantamento de capital para a efetivação do valor momento necessário para o surgimento do lucro Nesse sentido há o movimento para que a remuneração do trabalhador ocorra apenas quando ocorre a efetivação das vendas dos produtosmercadorias postos em circulação além do esforço para o rebaixamento do custo da força de trabalho Tal esforço abrange as diversas formas de terceirização e de desregulamentação da relação capitaltrabalho com redução de alguns direitos trabalhistas cujos custos fazem parte do capital variável e a redução da necessidade de repartição do maisvalor com o Estado a reforma trabalhista ocorrida no Brasil em 2017 é um exemplo disso Nesse ínterim temos o contexto para discutir as categorias da acumulação diante do processo de uberização do trabalho Afinal como se reconhece a subsunção do trabalhador que aparece como não subordinado já que ele define a própria jornada de trabalho e aparentemente não tem chefe O que é a propriedade dos meios de produção do capitalista nesse contexto se o trabalhador uberizado dispõe dos principais recursos físicos necessários à atividade produtiva Como o trabalho de um motorista que presta serviço ao Uber se vincula ao processo de acumulação capitalista Buscamos trazer análises argumentativas para elucidar essas questões nas seções seguintes O CONTEXTO DA UBERIZAÇÃO DO TRABALHO A DESCRIÇÃO A partir da década de 1970 o desenvolvimento das forças produtivas nas grandes indústrias foi gradativamente incorporando a utilização da microeletrônica e da conectividade em rede ao sistema produtivo Com isso houve significativa alteração da composição orgânica do capital de diversas empresas principalmente na indústria de bens com a redução da quantidade de força de trabalho empregada menor investimento em capital variável e maior investimento em aparatos tecnológicos e maquinaria maior investimento em capital constante principalmente os relacionados aos componentes computacionais Além dos ganhos proporcionados pelas inovações tecnológicas há o movimento de rebaixamento do custo do valor da força de trabalho forçando os processos de desregulamentação das proteções trabalhistas legais e o aumento das terceirizações É importante ressaltar que a disseminação dos computadores e da internet promoveu alterações não somente no ambiente produtivo mas em toda a sociabilidade humana integrada ao movimento do capital Nesse sentido um ponto fundamental para refletirmos quanto à ascensão do trabalho envolto ao processo da uberização o qual depende invariavelmente do ambiente virtual das plataformas digitais é que tal processo só pôde se iniciar a partir da tecnologia da conectividade amplamente adotada pelas organizações produtivas e massivamente disponível para um significativo contingente da população a qual engloba os prestadores de serviços e os consumidores dessas atividades O ambiente virtual amparado pela internet ensejou como movimento prévio ao da uberização o trabalho do tipo crowdwork ou seja o trabalho da multidão que se torna integrado ao sistema produtivo podendo atuar direta ou indiretamente no processo de valorização do valor Também conhecido como crowdsourcing tal modalidade se refere ao tipo de trabalho em que a função normalmente desempenhada por um único trabalhador ou pequeno grupo de trabalhadores se torna indefinidamente descentralizada de modo que possa ser realizada uma convocatória para que o serviço seja executado por uma ampla quantidade de pessoas as quais se responsabilizam por uma reduzida parte da tarefa HOWE 2006 O crowdwork conta normalmente com três elementos os solicitantes que representam as companhias ou as pessoas que demandam o serviço as plataformas virtuais as quais permitem que haja um local digital para reunir a oferta e a demanda e por isso recebem um percentual do valor que é pago aos trabalhadores que se engajam na tarefa e os trabalhadores prestadores de serviço SIGNES 2017 Um caso emblemático de crowdwork é o da empresa Amazon que lançou o segmento Mechanical Turk em 2005 A Amazon Mechanical Turk é uma plataforma de mercado que auxilia as empresas a encontrar pessoas para executar tarefas online as quais os computadores ainda executam de modo insatisfatório como a identificação de itens em uma fotografia a análise de documentos imobiliários para a identificação de informações as pequenas descrições de produtos ou a transcrição de áudios de arquivos digitais A Amazon as denomina tarefas de inteligência humana human intelligence tasks HITs o que chega a ser irônico já que não exigem grande esforço cognitivo de seus executantes Talvez por isso e também por serem concebidas para tomar pouco tempo dos prestadores de serviços a remuneração para a execução dessas tarefas seja normalmente baixa de alguns centavos a poucos dólares HOWE 2006 Uberização do trabalho e acumulação capitalista 849856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz Contudo há nesse tipo de atividade mais do que apenas tarefas que exigem pouca qualificação No site InnoCentive por exemplo diversas empresas como Procter Gamble e Exxon lançam desafios que ficam disponíveis para pessoas do mundo todo que queiram se aventurar a solucionálos Caso o objetivo seja atingido a pessoa vencedora recebe um prêmio em dinheiro e a empresa lançadora do desafio ganha os direitos sobre a solução apresentada podendo inclusive patenteála caso tal solução esteja relacionada a uma inovação passível de proteção concorrencial Assim até a área de Pesquisa e Desenvolvimento de uma empresa pode ser terceirizada para pessoas que sequer são reconhecidas como suas trabalhadoras Afinal qual é o desdobramento mais aparente da ampliação das atividades do tipo crowdwork Aparentemente as empresas solicitantes ficam satisfeitas já que têm uma considerável redução de custos quando se compara o quanto teriam de dispender caso precisassem contratar empregados para realizar as atividades Os prestadores de serviços também ficam satisfeitos pois tal tipo de trabalho é executado no momento definido por eles e com o período de duração por eles estabelecido representando apenas um dinheiro extra obtido com o dispêndio de tempo nas horas vagas Sob a ótica da classe trabalhadora contudo devemos levar em conta que a expansão de tais serviços pode acarretar ao atingir seu grau máximo o cenário em que essas atividades deixem de ser bicos esporádicos e autodeterminados passando a ser a fonte de renda principal de uma quantidade expressiva de trabalhadores sem qualquer proteção jurídica a propósito Paralelamente ao desenvolvimento das atividades produtivas do crowdwork ou até dentro do movimento de conectividade voltada ao ganho econômico emerge o sistema da economia do compartilhamento sharing economy o qual vem a tratar do compartilhamento de recursos bens físicos ou prestação serviços intermediado por uma plataforma online Há diversos nomes que abarcam conceitos semelhantes ao da economia do compartilhamento tais como economia colaborativa collaborative economy consumo colaborativo collaborative consumption economia sob demanda ondemand economy e até economia de igual para igual peertopeer economy Não aprofundamos o exame desses conceitos pois embora haja quem associe a atividade uberizada como parte da economia do compartilhamento ela é considerada aqui algo distinto A uberização não consiste em compartilhar um objeto um espaço ou uma troca de serviços mas a própria venda da força de trabalho ainda que a aparência imediata não deixe explícita tal relação econômica Acreditamos inclusive não haver um movimento generalizado de economia do compartilhamento pautado em valores cooperativos tal como usualmente defendido na mídia e até em trabalhos acadêmicos Empresas como Airbnb locação de imóveis particulares e RelayRides locação de carros de pessoas físicas se tornaram indústrias gigantes altamente capitalizadas e profissionalizadas sendo seus supostos membros compartilhadores majoritariamente constituídos por prestadores de serviços que buscam formas de ganhar dinheiro e os investidores cobram para que o modelo de negócios dessas empresas tenha um bom retorno como aponta Slee 2017 Assim no contexto de aplicativos de smartphones de amplo acesso à população e de organizações ingressantes no sistema de crowdwork a empresa Uber surge nos Estados Unidos da América EUA na cidade de São Francisco em 2008 A ideia por trás da Uber parece ser bem simples nas cidades há pessoas que têm tempo disponível para trabalhar como motorista freelance seja porque estão desempregadas seja porque querem complementar sua renda para além da ocupação principal e há passageiros em potencial Quem precisa se deslocar pela cidade analisa as opções disponíveis Escolhendo o serviço da Uber com poucos toques no smartphone o motorista surge e deixa o solicitante no destino ordenado O pagamento é abatido no cartão de crédito cadastrado pelo cliente e o motorista recebe o valor já com o desconto percentual do Uber Com esse simples modelo de negócio a Uber já alcançava em 2017 um valor de mercado de 70 bilhões de dólares SLEE 2017 Saindo da superfície da descrição apresentada aprofundamos na próxima seção os diferentes aspectos que concernem a esse tipo de trabalho defendendo o argumento de que a uberização se torna uma alternativa socialmente posta de acumulação capitalista e subsunção do trabalhador Embora a uberização não se restrinja à atividade da empresa Uber aprofundamos a particularidade dessa organização não por ser a que dá o nome ao fenômeno mas por sua abrangência global e maior disponibilidade de estudos sobre a atuação da empresa Uberização do trabalho e acumulação capitalista 850856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz O MOVIMENTO DE ACUMULAÇÃO CAPITALISTA DO TRABALHO UBERIZADO Em um cenário de redução dos postos de trabalho ou até de atividades produtivas que não garantem uma remuneração satisfatória a venda de força de trabalho via aplicativos deve ser considerada não apenas mera opção do trabalhador mas também resultado do contexto socioeconômico que condiciona essas opções Considerando o cenário de reestruturação produtiva Oliveira 2003 ressalta que os salários considerados enquanto capital variável eram um custo para o capitalista Contudo quando a remuneração do trabalhador se torna dependente da efetivação do valor dos produtosmercadorias ela deixa de ser um custo de adiantamento do capital estando sua existência condicionada à realização efetiva do valor O conjunto de trabalhadores é transformado em uma soma indeterminada de exército da ativa e da reserva que se intercambiam não nos ciclos de negócios mas diariamente Disso decorre que os postos de trabalho não podem ser fixos que os trabalhadores não podem ter contratos de trabalho e que as regras do Welfare tornaramse obstáculos à realização do valor e do lucro pois persistem em fazer dos salários e dos salários indiretos um adiantamento do capital e um custo do capital OLIVEIRA 2003 p 136 Retomemos o caso do Uber o trabalhador dispõe do automóvel do celular e de todos os principais meios físicos para a execução da atividade Ainda assim há efetivação de maisvalor pelos capitalistas da Uber Para discutir tal questão relembremos que enquanto mercadoria a força de trabalho apresenta valor de uso No contexto da grande indústria toyotista o trabalhador para manter o valor de uso de sua mercadoria força de trabalho viuse impelido a adotar uma postura de maior criatividade investimento em si para a capacitação contínua atualização tecnológica e adesão emocional para com a organização produtiva Quando consideramos agora esse novo contexto da Uber o trabalhador deve investir nos equipamentos e na maquinaria necessários à execução do trabalho de transporte de passageiros de modo a tornar sua força de trabalho vendável Esses equipamentos portanto em vez de capital constante do capitalista para a execução da atividade de transporte tornamse os instrumentos necessários para que o trabalhador possa continuar mantendose O fato de a jornada de trabalho não ser previamente fixada não retira assim do capitalista o papel de comprador de força de trabalho nem do trabalhador o papel de vendedor de força de trabalho pois o que se altera é a necessidade de capital adiantado pelo capitalista Marx 2013 declara que o salário por peça é a forma por excelência de remuneração do capitalismo Temos agora o salário por corrida No livro II dO Capital Marx 2014 discute as alterações no tempo de rotação do capital e no montante de capital a ser adiantado pelo capitalista em função das diferenças entre capital fixo meio de produção que conserva parte de seu valor durante o processo de produção e capital circulante aquele meio de produção cujo valor é incorporado integralmente na mercadoria produzida dentro de um mesmo ciclo produtivo Na indústria baseada em relações de trabalho uberizadas o valor necessário à compra dos meios de produção está dividido entre capitalista e trabalhador O capitalista adianta seu capital na aquisição dos meios de produção digitais o que envolve tanto capital fixo quanto capital circulante Por sua vez o trabalhador necessita como já dito ingressar na relação trabalhista possuindo os meios de produção vinculados à efetivação do trabalho fora do meio digital O que seria capital adiantado para por exemplo ser materializado em uma frota de carros não é mais necessário ser desembolsado pelo capitalista Nem mesmo a manutenção dos meios de produção do trabalho não digital necessita ser considerado no capital adiantado pelo capitalista isso porque cabe ao trabalhador cuidar da manutenção dos seus meios de produção Segundo Marx 2014 o tempo que leva para que o capital fixo complete seu ciclo é o tempo que corresponde à demanda de novo adiantamento de capital pelo capitalista isto é para a aquisição dos meios de produção duráveis Durante esse tempo portanto o capitalista entesoura maisvalor para recolocálo no ciclo produtivo no momento adequado aqui entra o setor financeiro discussão para outro estudo Entretanto no setor industrial baseado em relações uberizadas quando os meios de produção pertencentes ao trabalhador perderem seu valor de uso o capitalista não necessitará reinvestir em capital fixo podendo apenas desvincular o trabalhador de sua plataforma o que é assegurado pelo mecanismo de avaliação do próprio aplicativo Qual é o meio de produção necessário ao capitalista da Uber portanto para lhe garantir subsumir o trabalho do motorista Ora a própria plataforma digital de sua propriedade e que é necessária ao trabalhador para a utilização de sua força de trabalho Para a construção da plataforma e sua disponibilização em amplo ambiente geográfico a Uber teve ao menos de investir e captou investimentos do mercado financeiro com esse fim em desenvolvimentoaprimoramento de sua tecnologia Uberização do trabalho e acumulação capitalista 851856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz gestão financeira e ações de marketing pesquisa de mercado propaganda descontos de preço etc Isso demandou a compra de força de trabalho diretamente ligada aos setores de tecnologia finanças e marketing Ao mesmo tempo que a empresa se esforça para que a plataforma se torne disseminada entre consumidores e prestadores de serviço ela foca a gestão do trabalho pelo aplicativo que já conta com diversos concorrentes tendo grande poder de controle sobre o trabalhador que executa o serviço Nessa relação de trabalho os meios de produção do trabalhador não o tornam menos subsumido podendo aliás significar o contrário uma subsunção ainda maior em um cenário de subordinação estrutural CHAVES JUNIOR MENDES e OLIVEIRA 2017 Isso porque com o alto desemprego e os postos de trabalho altamente precarizados somados à ausência de perspectivas de melhores ocupações esse tipo de venda de força de trabalho se torna efetivamente uma opção viável uma escolha em um panorama de restrições condicionadas A uberização reforça o grau máximo de influência do capital industrial detido pela Uber sobre o processo de trabalho subsumido ao capital agora em uma espécie de subsunção virtual nova forma de mediação de subsunção real ao capital O capital industrial é o único modo de existência do capital em que este último tem como função não apenas a apropriação de maisvalor ou de maisproduto mas também sua criação Esse capital condiciona portanto o caráter capitalista da produção sua existência inclui a existência da oposição de classes entre capitalistas e trabalhadores assalariados À medida que o capital se apodera da produção social a técnica e a organização social do processo de trabalho são revolucionadas e com isso o tipo históricoeconômico da sociedade MARX 2014 p 146 No processo de trabalho sob os moldes da uberização os elementos físicos do custo de produção necessário para desenvolver a atividade produtiva são transferidosterceirizados para os próprios trabalhadores motoristas sendo portanto parte do valor de reprodução da sua força de trabalho Na compra dessa força de trabalho a Uber todavia não necessariamente paga o valor necessário à reprodução do trabalhador além de haver remuneração apenas quando há a afetiva prestação do serviço que se não ocorrer não isentará o trabalhador de arcar com os custos de manutenção do veículo por exemplo O produtomercadoria o transporte de passageiros pode apresentar portanto um maisvalor que se torna potencializado com a mitigação do capital constante necessário ao capitalista o que reflete na taxa de lucro do setor em Karl Marx taxa de lucro é a relação entre o maisvalor produzido e o capital total investido pelo capitalista Nessa nova mediação da subsunção real que consideramos a subsunção virtual do trabalho ao capital os trabalhadores são controlados e conduzidos tanto sutilmente quanto ostensivamente ao aumento de produtividade A atividade em si dos motoristas é altamente individualizante Contudo devemos considerálos parte de um trabalhador coletivo que é fundamental para as práticas de promoção gerenciamento e distribuição do produtomercadoria promovido pela empresa deslocamento É um tipo de cooperação que é gerido pela empresa buscando distribuir os motoristas entre as áreas de maior demanda Considerados em conjunto os motoristas atuam como engrenagens necessárias à produção do serviço de transporte urbano só que nesse caso o maquinário que coloca as engrenagens para funcionar é em sua maior parte adquirido por eles próprios restando ao capitalista o controle de apertar o botão digital que as faz girar Explicitamos tais práticas de gestão e controle na seção seguinte A SUBSUNÇÃO DO TRABALHADOR A PARTIR DO MODO DE GESTÃO DA UBER Os autores no campo da administração no Brasil em geral ainda não têm se aprofundado sobre as particularidades em relação às estratégias e práticas de gestão das empresas que gerem sua força de trabalho inteiramente a distância especialmente quando se trata de trabalhadores sem vínculos formais de trabalho como os motoristas de Uber Aqui buscamos lançar luz sobre algumas dessas práticas já identificadas na literatura acadêmica com o intuito de ampliar a apreensão sobre elas e reforçar nosso argumento de subsunção do trabalhador o qual é pressionado não apenas pela organização de trabalho mas também pelo contexto socioeconômico de competição e de escassez de postos de trabalho Segundo Slee 2017 o projeto da Uber a permitiu em dois anos de 2013 a 2015 ampliar o número de motoristas de 10 mil para 150 mil Tal expansão foi facilitada pelos grandes aportes de fundos de capitais de risco ao longo do tempo O recurso captado via mercado financeiro contribuiu fortemente com as estratégias de expansão da empresa visto que nas cidades onde ela está em estágio inicial dos negócios é comum que sejam oferecidas grandes vantagens tanto aos clientes descontos Uberização do trabalho e acumulação capitalista 852856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz e corridas gratuitas quanto aos motoristas gratificações remuneração atrativa bônus por indicação de novos condutores Conforme a Uber vai ficando conhecida e estável nas novas localidades a consistente tendência é de que a remuneração dos motoristas seja diminuída o preço pago por quilômetro rodado se torna menor eou há aumento do percentual da corrida retido pela empresa e os descontos aos clientes sejam reduzidos SLEE 2017 Os motoristas do aplicativo devem responsabilizarse pelos custos da adição de categoria na Carteira Nacional de Habilitação CNH para o exercício de atividade remunerada caso não a tenham além dos custos de prestação da atividade como carro combustível seguro manutenção do veículo e eventuais gastos com agrados aos clientes água e guloseimas Para atrair novos motoristas as propagandas da empresa trazem estratégias discursivas que reforçam valores sociais voltados às características usualmente atribuídas a empreendedores como ausência de chefe liberdade de horário ganhos progressivos e aventuras no desbravamento das cidades Com a estratégia de indicação de novos motoristas em uma espécie de esquema de pirâmide a Uber cria formas do motorista buscar concorrentes para si Seguindo os moldes do crowdwork esses motoristas praticamente não têm contato personalizado com os representantes da Uber o que de fato pode ser um diferencial para ser uma opção de ocupação para os trabalhadores com dificuldade de inserção no mercado de trabalho formal Não são currículos dinâmicas orientadas pelos Recursos Humanos aparência inteligência emocional entre outros fatores publicamente pouco mensuráveis que hoje medeiam a entrada e saída do mercado de trabalho que definem as conquistas da crowd A indistinção é o ponto de partida Sua formulação deixa explícita uma relação entre uma nova gestão de pessoas e acumulação Uma gestão que se realiza na dispersão na ausência de definições e medidas ABÍLIO 2011 p 205206 Se a admissão desse trabalhador é pouco criteriosa sua manutenção na prestação do serviço não o é como explicitaremos Na gestão de suas atividades a Uber utiliza algoritmos para buscar incentivos personalizados aos motoristas e distribuílos pelas áreas de maior ou menor demanda das cidades Os algoritmos que caracterizam o método utilizado para a realização de um cálculo utilizado principalmente para decisões automatizadas transpassam uma visão de imparcialidade contudo são facilmente manipuláveis para direcionar os motoristas às ações almejadas pela empresa PASQUALE 2015 A função declarada da tarifa dinâmica da empresa por exemplo é regular oferta e demanda de clientes e motoristas A Uber distribui o produtomercadoria pelas cidades mostrando aos motoristas as áreas onde os preços estão mais altos em uma estratégia de condução indireta Por outro lado não é possível que o cliente e o trabalhador conheçam a exata fórmula do cálculo Sobre a tarifa dinâmica esclareceu o gerentegeral que o preço dinâmico era ativado por um algoritmo o preço máximo e a vigência na cidade determinados pelos gerentes Contudo o gerente de operações informou que uma de suas funções era desligar esse sistema em casos excepcionais como por exemplo no dia das manifestações dos taxistas para evitar que o preço ficasse mais caro Tais dados apontam que o preço cobrado não é diretamente relacionado à demanda afastando mais uma vez o modelo de negócios da Uber de economia colaborativa LEME 2017 p 84 O trabalhador coletivo emoldurado pela Uber é fundamental para seu sucesso elevando sua imagem empresarial a partir da satisfação do cliente que tem um serviço rápido a preço acessível com trajetória controlada e pagamento facilitado No Brasil do valor pago pelo cliente à plataforma a empresa reduz da remuneração do motorista a tarifa de 25 na categoria UberX a mais comum e de 20 na categoria UberBlack carros de padrão mais elevado e mais novos Dada a decisão unilateral da Uber sobre como e quanto cobrar do cliente atualmente o motorista não tem mais acesso à informação do preço da corrida a partir do qual o referido percentual é calculado há casos em que a remuneração auferida pelo motorista mal cobre todos os seus custos sobretudo quando levamos em consideração que muitos financiam um carro para poder exercer a atividade caso sejam desligados da plataforma ficam com o custo de pagamento do veículo perdem essa fonte de renda e não têm assegurados direitos trabalhistas e previdenciários Se o pagamento é realmente tão baixo por que tantas pessoas dirigem para a Uber Para quem tem carro dirigir para a Uber é uma maneira de converter esse capital em dinheiro alguns subestimam os custos envolvidos em dirigir em tempo integral para alguns flexibilidade é uma vantagem para outros dirigir para a Uber oferece o que ser taxista ofereceu por muitos anos um trabalho que requer pouca habilidade e que tem um baixo custo de largada é melhor do que ficar em casa sem fazer nada Além Uberização do trabalho e acumulação capitalista 853856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz disso à medida que a Uber reduziu a demanda por táxis em muitas cidades as rendas dos taxistas caíram deixando a Uber como a melhor opção SLEE 2017 p 119 Aqui cabe apenas uma ressalva a Slee 2017 já que o motorista não dispõe de capital mas de força de trabalho e de instrumentos de trabalho pois o carro por exemplo é massa de meios de produção mas não é expressão de valor a ser valorizado para o trabalhador Para gerir essa força de trabalho e aumentar a produtividade do trabalhador as práticas da Uber são ainda mais sofisticadas Segundo reportagem do The New York Times SCHEIBER 2017 considerando que a empresa não pode cobrar diretamente por produtividade dos motoristas visto que não são seus empregados ela realiza métodos de manipulação psicológica por meio de seus algoritmos Antes de concluir uma corrida o motorista já recebe a chamada para aceitar uma próxima corrida de modo que isso se reverta em uma quase euforia por mais dinheiro Além disso com o intuito de manter os motoristas em atividade a empresa explorou a tendência de algumas pessoas de estabelecer metas pessoais assim quando o motorista aperta o botão para se desconectar do aplicativo ele recebe antes um alerta da Uber de que está próximo de atingir seu objetivo o que frequentemente o faz desistir da decisão de se desconectar Percebemos assim o uso da maquinaria da Uber com seus softwares que se integram ao celular utilizada para aumento do maisvalor absoluto expansão da jornada de trabalho e relativo à medida que rebaixa o valor da força de trabalho com o aumento do número de motoristas e redução da remuneração a despeito da redução efetiva do valor da força de trabalho Também há métodos de controle mais explícitos Caso rejeite muitas corridas o motorista pode ser suspenso ou desligado da plataforma Por meio do aplicativo são registrados os clientes as avaliações por eles dadas as críticas apontadas os trajetos percorridos os tempos de rota e até se houve manobras arriscadas no trânsito Os motoristas devem seguir uma série de padrões estabelecidos pela empresa como a não priorização de atendimentos a pessoas conhecidas o não repasse do número pessoal aos clientes para a realização de corridas particulares a não divulgação de outros aplicativos e a obrigação de seguir o preço da corrida determinado pelo aplicativo O supervisor presencial do trabalho em vez de ser contratado pela empresa tornase o próprio cliente Sendo o serviço uma mercadoria consumida concomitantemente à sua produção ninguém melhor do que o cliente para avaliar o prestador Segundo o site da Uber O IDEAL é que você sempre mantenha um ótimo padrão de atendimento aos passageiros em todas as viagens sempre ligando o arcondicionado oferecendo balas e água e principalmente mantendo o carro sempre limpo e aspirado por dentro Dessa forma VOCÊ CONSEGUIRÁ sem dúvida alguma MANTER A SUA NOTA ACIMA DE 46 UBER 2018 grifos do autor Assim com o máximo de 5 estrelas na avaliação de cada cliente o motorista deve manter no mínimo a nota média de 46 Caso não consiga manter esse padrão de desempenho o qual depende também da subjetividade do cliente que o avalia o motorista pode ser temporariamente suspenso ou até instantaneamente desligado da plataforma sem qualquer aviso prévio da Uber O sistema de avaliações reforça ainda a valorização do gerencialismo pela sociedade GAULEJAC 2007 que não mais se limita ao mercado de trabalho formal e terceiriza parte da atividade de controle ao próprio consumidor Assim o trabalhador é autônomo mas é a empresa que define a meta e o pune caso não a alcance Essa situação não sustenta portanto o discurso comum que atribui ao trabalhador uberizado o status de ser o próprio chefe A nota ou avaliação assume nítido cariz de controle quando se verifica que ela tem como destinatária a Uber e não os clientes Não há possibilidade de se escolher um motorista pela sua nota O algoritmo da Uber seleciona e encaminha sem possibilidade de escolha o motorista que mais perto estiver do cliente Aqui a Uber se afasta de outras plataformas como Mercado Livre eBay e até Airbnb nos aplicativos dessas empresas tanto o cliente quanto os vendedores escolhemse mutuamente servindo a classificação por nota de critério para suas escolhas Na Uber tanto cliente quanto motorista são automaticamente interligados CARELLI 2017 p 143 No modo de gestão da Uber percebemos portanto que o controle é habilmente praticado pela empresa Se o motorista detém a maior parte dos meios de produção para executar sua atividade fica claro que no trabalho uberizado a plataforma virtual é o meio de produção suficiente para garantir a subsunção do trabalhador nesse tipo de atividade Os motoristas precisam manter um padrão de desempenho definido unilateralmente pela empresa e são estimulados a produzir e criar tanto valor quanto possível o trabalhador produz valor ao produzir o equivalente ao valor de sua força de trabalho e cria valor ao produzir maisvalor Em um ambiente de relações de trabalho flexíveis esse cenário demonstra que pela correlação de forças assimétricas a flexibilidade e o risco são dos trabalhadores Já a empresa surge blindada de responsabilidades Uberização do trabalho e acumulação capitalista 854856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz trabalhistas e de riscos com a maior parte do que seria capital constante mesmo que possa ganhar até 25 dos rendimentos do trabalhador que lhe presta serviços CONSIDERAÇÕES INICIAIS SOBRE O FENÔMENO AINDA QUE FINAIS DESTE ARTIGO A TENDÊNCIA DA UBERIZAÇÃO DO TRABALHO Neste artigo defendemos o argumento de que a uberização do trabalho representa um modo particular de acumulação capitalista ao produzir uma nova forma de mediação da subsunção do trabalhador o qual assume a responsabilidade pelos principais meios de produção da atividade produtiva A subsunção virtual do trabalho ao capital indica que o trabalhador está subordinado na relação de trabalho sob os moldes da uberização ainda que a aparência imediata seja de autonomia e liberdade sobre a forma produtiva A determinação sobre como executar o trabalho sobre os padrões e as metas produtivas se centra na empresa detentora da plataforma de intermediação enquanto o trabalhador em vez de submetido diretamente a um contrato de trabalho formal submetese às imposições estabelecidas sob o risco de desligamento da ocupação O cenário de subordinação estrutural reforça sua necessidade de venda da força de trabalho para a autossubsistência No contexto da uberização do trabalho embora sejam os EUA o berço dessa tecnologia socioprodutiva a abrangência das atividades que seguem esse molde no mundo se torna cada vez maior especialmente nos países emergentes Na particularidade brasileira já se nota uma tendência para a migração eou criação de diversas atividades produtivas que adotam essa forma de trabalho já são cerca de 500 mil motoristas cadastrados na Uber segundo dados da própria empresa UBER 2018 Nesse mesmo ramo de atuação surgiram outras empresas que já operam no Brasil como a espanhola Cabify a indiana WillGo e as brasileiras 99Taxi e Televo Em comum todas essas empresas de transporte urbano oferecem aos trabalhadores um sistema de trabalho pautado pela informalidade e mais do que isso exigem dos motoristas que eles tenham as condições objetivas de desempenhar a atividade Nesse sentido é de responsabilidade dos motoristas que operam por meio dos aplicativos de mobilidade urbana possuírem os principais meios de produção da atividade como carro smartphone conectado à internet combustível seguro manutenção do veículo e eventuais gastos com acidentes ou agrados aos clientes reconhecemos que essa transferência não é uma novidade setores produtivos já contavam com a presença de alguns trabalhadores que para ser inseridos no processo deveriam ter seus meios de produção setor calçadista e suas costureiras em domicílio por exemplo todavia é por meio da introdução da plataforma digital que isso pode tornarse um setor produtivo por si só Ressaltamos ainda que não somente empresas de transporte urbano têm adotado relações de trabalho similares A empresa DogHero por exemplo construiu uma plataforma online para que as pessoas possam deixar seus cachorros durante uma viagem por exemplo com alguém que se proponha a cuidar do animal pelo período estabelecido de modo que essa prestação de serviço remunere o cuidador temporário e a empresa A Chefex permite a contratação por aplicativo de um chefe de cozinha previamente cadastrado pela empresa para preparar pratos para um pequeno grupo de pessoas na residência do contratante Já a Sontra Cargo empresa detentora do aplicativo que promove o encontro entre transportadoras e caminhoneiros autônomos permite que caminhoneiros encontrem fretes disponíveis em qualquer estado brasileiro Também destacamos a Fitfly que intermedeia o serviço de professores de educação física e clientes que buscam um personal trainer diferente da Uber a empresa não cobra percentuais sobre o valor recebido pelos profissionais mas mensalidades para que sejam apresentados como prestadores de serviços e também exige padrões de qualidade para que se mantenham na plataforma Nessa direção ainda podemos destacar a existência de aplicativos que permitem a contratação de serviços sexuais O capital avança em todas as direções Em um primeiro momento podemos enxergar a uberização apenas como uma solução remediadora do desemprego visto o potencial de absorção de mão de obra não inserida no mercado de trabalho formal e uma possibilidade de maior satisfação do mercado consumidor Contudo aprofundando a análise sobre tendências do mercado de trabalho concorrência capitalista e avanços tecnológicos podemos perceber que empresas uberizadas apresentam vantagem competitiva em relação às demais com redução de capital constante adiantado pelo capitalista redução do maisvalor compartilhado com o Estado e atrelamento da remuneração do trabalhador à efetiva realização do valor o que de certa maneira propensa Uberização do trabalho e acumulação capitalista 855856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz o perecimento das organizações tradicionais nos ramos onde atuam eou a migração delas para formas semelhantes de operação Assim há a tendência de ampliação progressiva desse tipo de relação de trabalho a qual facilita a acumulação capitalista ao mesmo tempo que aumenta o trabalho precário sem proteção jurídica e com aumento dos riscos da atividade ao próprio trabalhador A reflexão aqui apresentada não esgota as possibilidades de estudos que busquem se aprofundar na compreensão das nuances da uberização Como sugestão para novas investigações recomendamos pesquisas teóricoempíricas que utilizem dados de entrevistas com trabalhadores uberizados eou com empregadores que seguem essa orientação de contrato in formal analisando as possibilidades de resistência e formação de consciência de classe bem como o aprofundamento da relação entre uberização e financeirização da economia Assim esperamos que os apontamentos aqui conduzidos fomentem novas análises que aclarem as ofensivas do capital ressaltando o papel da ciência junto à busca pela emancipação humana ou não das relações de trabalho alienadas 856856 Cad EBAPEBR v 17 Edição Especial Rio de Janeiro Nov 2019 Uberização do trabalho e acumulação capitalista David Silva Franco Deise Luiza da Silva Ferraz REFERÊNCIAS ABÍLIO L C O make up do trabalho uma empresa e um milhão de revendedoras de cosméticos 2018 307 f Tese Doutorado em Sociologia Universidade Estadual de Campinas Campinas 2011 ANTUNES R Os sentidos do trabalho 3 ed São Paulo Boitempo 2000 CARELLI R L O caso Uber e o controle por programação de carona para o Século XIX In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 130146 CHAVES JUNIOR J E R MENDES M M B OLIVEIRA M C S Subordinação dependência e alienidade no trânsito para o capitalismo tecnológico In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 166179 GAULEJAC V Gestão como doença social ideologia poder gerencialista e fragmentação social Aparecida Ideias Letras 2007 HOWE J The rise of crowdsourcing Wired Magazine n 14 p 15 2006 LEME A C R P Uber e o uso do marketing da economia colaborativa In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p 7788 MARX K O capital crítica da economia política Livro I o processo de produção do capital São Paulo Boitempo 2013 MARX K O capital crítica da economia política Livro II o processo de circulação do capital São Paulo Boitempo 2014 MARX K O capital crítica da economia política Livro III o processo global da produção capitalista São Paulo Boitempo 2017 MÉSZÁROS I Para além do capital rumo a uma teoria da transição São Paulo Boitempo 2011 MÉSZÁROS I A teoria da alienação em Marx São Paulo Boitempo 2016 OLIVEIRA F Crítica à razão dualistaO ornitorrinco São Paulo Boitempo 2003 PASQUALE F The black box society the secret algorithms that control money and information Cambridge Harvard University Press 2015 SCHEIBER N How Uber uses psychological tricks to push its drivers buttons 2017 Disponível em httpswwwnytimescominteractive20170402 technologyuberdriverspsychologicaltrickshtml Acesso em 02 jan 2018 SIGNES A T O mercado de trabalho no século XXI ondemand economy crowdsourcing e outras formas de descentralização produtiva que atomizam o mercado de trabalho In LEME A C R P RODRIGUES B A CHAVES JUNIOR J E R Tecnologias disruptivas e a exploração do trabalho humano São Paulo LTr 2017 p xy SLEE T Uberização a nova onda do trabalho precarizado São Paulo Elefante 2017 SRNICEK N Platform capitalism CambridgeMalden Polity 2017 UBER Afinal qual é a nota mínima exigida pela Uber 2018 Disponível em httpsuberbracomafinalqualeanotaminimaexigidapela uber Acesso em 02 maio 2018 David Silva Franco ORCID httpsorcidorg000000020108431X Doutorando e Mestre em Administração pela Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Professor EBTT no Instituto Federal de Minas Gerais IFMG Ribeirão das Neves MG Brasil Email davidfrancoifmgedubr Deise Luiza da Silva Ferraz ORCID httpsorcidorg0000000242678261 Doutora e Mestra em Administração pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS Professora Adjunta na Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Belo Horizonte MG Brasil Email deiseluizafaceufmgbr UNIVERSIDADE FEDERAL DE PERNAMBUCO CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL SUAMY RAFAELY SOARES FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Recife 2019 SUAMY RAFAELY SOARES FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Tese apresentada ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco para obtenção de grau de doutora em Serviço Social Área de concentração Serviço Social Movimentos Sociais e Direitos Sociais Orientadora Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Recife 2019 Catalogação na Fonte Bibliotecária Ângela de Fátima Correia Simões CRB4773 S676f Soares Suamy Rafaely Feminismo no sertão as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Suamy Rafaely Soares 2019 119 folhas il 30 cm Orientadora Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Dissertação Mestrado em Serviço Social Universidade Federal de Pernambuco CCSA 2019 Inclui referências 1 Movimentos feministas 2 Sertão 3 Sujeito coletivo I Costa Mônica Rodrigues Orientadora II Título 361 CDD 22 ed UFPE CSA 2019 105 Suamy Rafaely Soares FEMINISMO NO SERTÃO as particularidades da Frente de Mulheres no Cariri cearense Tese apresentada ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social da Universidade Federal de Pernambuco PPGSSUFPE para obtenção de grau de doutora em Serviço Social Linha de pesquisa Relações Sociais de Gênero Geração RaçaEtnia e Sexualidade Área de concentração Serviço Social Movimentos Sociais e Direitos Sociais Aprovada em 26 08 2019 pela banca examinadora constituída pelos seguintes professores Profª Drª Mônica Rodrigues Costa Orientadora e Examinadora Interna Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Ana Cristina de Souza Vieira Examinadora Interna Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Vivian Matias dos Santos Examinadora Externa Universidade Federal de Pernambuco Profª Drª Telma Gurgel da Silva Examinadora Externa Universidade Estadual do Rio Grande do Norte Profª Drª Verônica Maria Ferreira Examinadora Externa SOS CORPO Instituto Feminista para a Democracia Recife 26 de agosto de 2019 Às mulheres que me inspiraram e me conduziram no projeto de tornarme mulher minhas mães Helena e Maria minhas tias Santana e Nenen minha irmã Sabatta e minha prima Wênia Às militantes da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Aprendi com vocês que uma sobe e puxa a outra A todas as mulheres do Cariri que foram assassinadas e silenciadas pelo patriarcado particularmente a Rayane e Silvany in memorian que se tornaram símbolos da luta contra o feminicídio na região Escrevo para aquelas mulheres que não falam pelas que não têm voz pois estão muito aterrorizadas porque se ensina a respeitar o medo mais que a nós mesmas Ensinaramnos que o silencio nos salvaria mas não o faremos Audre Lorde A todas as mulheres que gritam e se negam a silenciar Dedico AGRADECIMENTOS Tudo começou com um sim como bem disse Clarice Lispector 1977 p24 No dia que eu disse sim ao doutorado não imaginava como seria espinhoso esse caminho Uma história com começo meio e gran finale seguido de silêncio e de chuva caindo Não se trata apenas de narrativa é antes de tudo vida primária que respira respira respira O que escrevo é mais do que invenção é minha obrigação LIPECTOR 1977 p 25 Sim é essa minha tarefa escrever sobre mulheres que admiro profundamente e que me encorajaram dialogicamente a trilhar os caminhos em busca de minha transcendência Não foi fácil escrever essa narrativa primeiro porque eu sempre tive um profundo medo de ser lida e segundo porque a escrita desta tese aconteceu num contexto de profundas mudanças em minha vida Assim que entrei no doutorado fui aprovada em um concurso me separei mudei três vezes de estado e de trabalho fui perseguida e ameaçada em virtude da militância feminista fiquei depressiva e perdi meu pai no cenário político o impeachment o Fora Temer o assassinato de Marielle a prisão política de Lula as eleições e a vitória do atual presidente Só para constar Lula Livre Que anos difíceis Por isso me desnudo para agradecer a todas e todos que me deram apoio colo risos abraços cervejas e compartilharam seus sonhos e suas poesias comigo À minha família que me apoiou em todos os momentos de minha formação acadêmica e experiências pessoais Vocês são aconchego riso e força Uma família de petralha que adora se reunir para falar de política e tomar cachaça Levo vocês para onde for Ao meu pai Domingos in memorian um grande homem aliás o homem mais frágil doce e sensível que conheci De uma bondade tão profunda que chegava a ser ingênuo A maior tragédia da minha vida foi seu adoecimento e posterior partida mas alegrome sempre pelos dias que em silêncio caminhamos lado a lado Meu pai me ensinou a compartilhar silêncios com quem nos ama e amamos Aprendi Ao meu padrasto Assis pelas partilhas risos cervejas geladas aos domingos e companheirismo A Fidel Joel e Julia meus gatos por me ensinarem que o amor se faz na presença e na independência Ao Programa de PósGraduação em Serviço Social da UFPE por ser espaço de aprendizagem exercício de autonomia e de paciência À minha orientadora Mônica por ter contribuído profundamente com esse trabalho Grata pela acolhida escuta ativa paciência sororidade e disposição Você renova minha fé na docência Você é uma mulher que inspira outras mulheres Uma inundação lilás A professora Delâine pelas grandes contribuições que deu na banca de qualificação Às professoras Ana Vieira e Vivian que se disponibilizaram a estar presentes em minha banca À Telma Gurgel uma mulher que espalha rebeldia e feminismo por onde passa Grata pelos conselhos puxões de orelha cervejas atos e poesia Você me ensinou que a liberdade é lilás que dias mulheres virão e a saída sempre será coletiva Me espelho em você como feminista bruxa militante e professora À Veronica Ferreira pelos encontros sempre inspiradores e que me fazem ter fé na vida e a esperança de que só a luta muda o mundo Ao corpo docente da UERN pela acolhida e troca de saberes e afetos AsAos minhasmeus camaradas de turma de doutorado por terem tornado essa jornada mais leve e risonha Ao professor Roberto Marques por ter enriquecido de maneira significativa a minha vida acadêmica Agradeço pela amizade incentivo tiradas e ironias na hora certa pelas aulas em mesa de bar conversas boas jogadas ao pé da chapada do Araripe e regadas à cerveja piscina e muita comida Você e Raulino estarão sempre em meu coração Aos meus amores recifenses que estão sempre dispostos a dividir os pesos e as alegrias do mundo em especial Heloisa Junior Aquino Junior Rios Israel Natalia e Clara sempre abertos a bons papos conversas filosóficas crises existenciais dramas afetivoemocionais lutas sociais e abraços afáveis sejam eles acompanhados de café na convivência da UFPE ou de cerveja no buraco das noites Grata por vocês aguentarem meus dramas de geminiana nesses 5 anos de desassossego Aos meus amores paraibanos Alison Cleiton Patrycia Karla Darlania Pinheiro e Mauricelia Cordeira Vocês são afago e tempestade Amo vocês Sigamos juntos Aos meus amores do Cariri meu sertão mar amores que são muitos e diversos a primeira leva de amigos irmãos Daniel Batata Ythallo Rodrigues Italo Coelho Edson Xavier Elandia e Thiago Carminatti Dos Kaosdos à poesia vocês são parte do meu coração A Daniel Batata meu amigoirmão poeta preferido e abraço mais aconchegado Meu herói do sertão e vocalista de banda de rock instrumental preferido que bom que eu te encontrei na vida É com você que eu gosto de falar de política poesia música filosofia amor e treta É com você que eu me sinto eu sem medos ou subterfúgios Cem palavras ao redor de você é esquisito como eu fico sem palavras ao redor de você Te amo Aos meus amores da terra encantada do Crato também conhecida como Craterdam Distrito de Avalon Joseph Franklin Ohana e Renne Gratidão por todas as alegrias risos e interlocuções políticas teóricas afetivas e etílicas As melhores segundas são com vocês no Primavera A Fernanda e Constance por serem festa poesia e carnaval A Tiago Coutinho e Alexandre Nunes por serem porto seguro ombro amigo e riso constante Amo vocês mais do que a Marx Durval Lelis e cuscuz A Claudio Reis por ser o melhor vizinho do mundo e por ter me mostrado que o Cariri é território mágico para acertar contas comigo mesma e com o mundo Te amo e sinto saudades de você chegar no meu portão me chamando para tomar banho de cachoeira comer uma tapioca no calçadão ou tomar uma cerveja Te amo AsAos minhasmeus companheiros do Valha Jimenna Rocha Samuel Dias Eduardo Pordeus Jailton e Daniel Guedes vocês são muito especiais na minha vida e me mostraram que as flores podem nascer no asfalto Como diria Drummond uma flor nasceu na rua Passem de longe bondes ônibus rio de aço do tráfego Uma flor ainda desbotada Ilude a polícia rompe o asfalto Façam completo silêncio paralisem os negócios garanto que uma flor nasceu A Samuel Dias a pessoa mais linda do mundo Que nossos caminhos se encontrem sempre A Eduardo Pordeus por toda a acolhida e afeto proporcionado na minha experiência de cativeiro egípcio em Sousa Que a gente continue por todo sempre a tomar Heineken cortando o véu das noites A Leonardo Ferreira por todo o carinho e cuidado que construímos um pelo outro Minha casa será sempre a tua À Andrea e Gabriel por todo apoio que me deram no processo de separação e por espalharem tanta luz pelo mundo À Pamela por nossa parceria reciprocidade e amor Um amor que passou por inúmeras mudanças do réveillon de 2016 até hoje e agora é amoramigo Um poema sensível e dolorido entre os espinhos de um cacto na porta de minha casa decretou o fim mas uma conversa desnudada reconfigurou tudo e fez renascer o amor em nós Para onde quer que eu caminhe estaremos entrançadas Te amo Aos meus amigos constituídos pelo Carnaval Fernando Poser Ellen Garcia e Zé Nosso carinho ultrapassou as fronteiras do carnaval e hoje ancorase nas praias em Teresina em Caetanos em Canoa em Natal ao som de Baiana System e regado a muitas cervejas e risos Que venha o carnaval sem tese PS Vocês estão ligados que não serei mais a pomba gira doutoranda Era uma boa fantasia Ao corpo docente da UFCG pelo acolhimento na minha experiência docente na instituição em especial a Juliana Oliveira Clariça Ribeiro André Menezes e Tatiana Raulino que estiveram ao meu lado na luta no riso e no sonho de uma universidade pública gratuita laica e socialmente referenciada no sertão paraibano Nós somos feitos do tecido que são feitos os sonhos A todos os amigos que fiz em Sousa PB osas estudantes da UFCG osas camaradas dos movimentos sociais os comparsas dos bares e do Centro Cultural Banco do Nordeste em especial meus parceiros de vida e farra Wescley Dutra e Arthur Patrícia mãozinha Cibelly Clara Zé e Leivas Natarajan e Éllida Aparecida Rafael Gomes Flávio Eufrazio Bruno Cesarino Rafael Formiga e Rosi Vocês fizeram meus dias no sertão serem mais bonitos e festivos A Murilo pelas conversas amigas cervejas sem limites almoços em São Gonçalo rolês com os seus pivetes cafezinhos no CCBNB cumplicidade aprendizado e vácuos Nossa amizade é algo que nos sustentou em Sousa e fez os nossos dias mais leves Te amo Sou profundamente grata a todos vocês aos caminhos que percorri e às interlocuções que constitui na busca de minha escrita Como bem disse Bert HellingerAtrás de mim estão todos os meus ancestrais me dando força A vida passou através deles até chegar a mim E em honra a eles eu a viverei plenamente Uso a palavra para compor meus silêncios Não gosto das palavras fatigadas de informar Dou mais respeito às que vivem de barriga no chão tipo água pedra sapo Entendo bem o sotaque das águas Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes Prezo insetos mais que aviões Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis Tenho em mim um atraso de nascença Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos Tenho abundância de ser feliz por isso Meu quintal é maior do que o mundo Sou um apanhador de desperdícios Amo os restos como as boas moscas Queria que a minha voz tivesse um formato de canto Porque eu não sou da informática eu sou da invencionática Só uso a palavra para compor meus silêncios BARROS 2016 p 45 RESUMO A presente tese objetiva apreender as particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri Cearense a partir da experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri A investigação teve como pressuposto a experiência de resistência das mulheres do sertão que estão longe dos grandes centros urbanos e convivem com relações sociais de sexo raçaetnia e classe atravessadas por profundas desigualdades regionais O Cariri cearense constituído por 28 municípios entre os quais estão Juazeiro do Norte Crato e Barbalha é um território heterogêneo conformado por relações de ruralidade e urbanidade em que ainda prevalecem os traços constitutivos da propriedade senhorial do coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade convivendo com a modernização das relações de produção na região potencializada pela chegada das indústrias e pelo processo de interiorização das universidades que ampliaram o setor de serviços e tensionaram as relações sociais de sexo raça e classe na região imprimindo trações de urbanidade modernidade e metropolização Cabe dizer que o Cariri é uma região demarcada pela violência silenciamento e apagamento das mulheres com altos índices de feminicídio forte interdição à mobilidade e participação política das mulheres tutela e vigilância das corporalidades e vivências sexuais assim como precariedade das políticas públicas de proteção e atenção às mulheres mas também é um território demarcado pelas resistências destas de forma individual e coletiva O estudo foi feito a partir da observação participante pesquisa documental e entrevista com as militantes do Cariri Dentre os resultados identifiquei que o sujeito coletivo feminista Frente de Mulheres consegue constituir mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos materializandose enquanto corpo político com identidade diversa Unidade diversa expressa na ideia de se fazer singular respeitando as diversas diferenças e se fazer universal a partir de pontos comuns de opressão Palavraschave Movimentos feministas Sertão Sujeito coletivo ABSTRACT This thesis aims to apprehend particularities of the feminist collective subject constitution in Cariri Cearense from the militant experience of Cariri Movements Womens Front The research was based on the experience of womens resistance from Ceará backlands who are far from the big urban centers and live with social relations of gender race ethnicity and class marked by deep regional inequalities Cariri of Ceara state consisting of 28 municipalities among which are Juazeiro do Norte Crato and Barbalha is a heterogeneous territory formed by rurality and urbanity relations in which the prevailing constitutive traces are still manorial property coronelismo messianism cangaço tradition and religiosity which coexist with the modernization of the production relations in the region boosted by the arrival of industries and the process of internalization of universities which expanded the service sector and tensioned the social relations of sex race and class in the region creating traction of urbanity modernity and metropolization It is worth mentioning that Cariri is a region demarcated by violence silencing and erasure of women with high rates of violence and feminicide strong interdiction to womens mobility and political participation tutelage and vigilance of corporeality and sexual experiences as well as by precariousness on public policies of protection and attention to women but it is also a territory demarcated by the resistance of women individually and collectively This study was based on participant observation documentary research and interviews with Cariri activists Among the results I identified that the feminist collective subject Front of Women can constitute mediation between the unique experiences of women while aggregating a multiplicity of individual and collective subjects selfmaterializing as a political body with diverse identity Diverse unity expressed in the idea of being singular respecting the various differences and becoming universal because of common points of oppression Key words Collective subject Feminist movements Brazils Northeastern backlands LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1 Ato contra os feminicídio no Cariri Nem todas estão aqui falta as mortas 138 Imagem 2 Ilustração da Beata Maria do Araújo Encontreme onde eu estiver 142 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO 15 2 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO COLETIVO 25 21 O SUJEITO COLETIVO NA TRADIÇÃO MARXISTA 27 211 A constituição do sujeito coletivo feminista nós falamos por nós 58 3 O MOVIMENTO FEMINISTA E O SUJEITO COLETIVO FEMINISTA 72 31 A IMBRICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO RAÇA E CLASSE E O PATRIARCADO 73 32 PARTICULARIDADES DA CONSTITUIÇÃO DOS MOVIMENTOS FEMINISTAS NO BRASIL 86 4 AS PARTICULARIDADES DA FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI 120 41 O TERRITÓRIO CARIRI um sertão banhado de águas reisados romarias violências e resistências 121 42 UM CARIRI QUE ODEIA AS MULHERES quadro geral das relações patriarcais de sexo na região 137 43 A FRENTE DE MUHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI ENQUANTO SUJEITO COLETIVO FEMINISTA 150 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS 183 REFERÊNCIAS 188 15 11111INTRODUÇÃO Narrar é resistir ROSA 1986 Em 2011 me mudei para o Cariri para ensinar em uma faculdade privada Quando aportei na rodoviária de Juazeiro do Norte em período de romaria estava tocando os versos de uma canção popular do grupo musical Coco Raízes do Arcoverde que diziam A vida tava tão boa pra quê mandou me chamar Parti para o Juazeiro pensando em trabalhar a vida tava tão boa pra quê mandou me chamar A primeira impressão que tive do Cariri foi assustadora e ao mesmo tempo arrebatadora uma rodoviária lotada várias imagens de Padre Cícero vendedores com bugigangas religiosas um coco no rádio um monte de gente vestida com túnicas marrons romeiros chegando e saindo apressadamente Que narrativa Pouco a pouco fui me ambientando a esse território e apreendendo suas cartografias de violências e resistências protagonizadas em sua maioria por mulheres Elas apareciam nas romarias nas rodas de cultura popular nos saraus nos cordéis e nas manchetes dos jornais e programas de televisão As imagens das mulheres espancadas assediadas e assassinadas me perseguiam naquele sertão contradição e eu não podia esquecer uma citação de Susan Sontag 1986 p 83 que dizia Deixemos que as imagens atrozes nos persigam Mesmo que sejam símbolos e não possam de forma alguma abarcar a maior parte da realidade a que se referem as imagens dizem é isto que os seres humanos são capazes de fazer e ainda por cima voluntariamente Pois bem deixei as imagens atrozes me perseguirem e comecei a observar atentamente as mulheres que resistiam a um Cariri que lhes imputava tanto ódio A minha inserção no cotidiano dessa região apontou pistas sobre a sua constituição enquanto uma expressão do patriarcado O Cariri não odiava as mulheres pois não era sujeito de tantas violências mas ganhava uma representação de sujeito no imaginário feminino De fato o sujeito das múltiplas exploraçõesdominaçõesapropriações destinadas às mulheres é o patriarcado que toma sua expressão particular no território contraditório do Cariri Cearense Um patriarcado demarcado pelo patrimonialismo das elites locais uma religiosidade capturada pela figura do Padre Cícero e a imposição de valores tradicionais que pouco a pouco se diluem e se reforçam no caldo das transformações societárias contemporâneas Nesse Cariri que odeia as mulheres elas se insurgem e se rebelam rasgando as entranhas desse território 16 A partir da década de 1990 as mulheres do Cariri começaram a reflexionar acerca das violências as quais são acometidas e a impetrar ações de enfrentamento à questão constituindo um movimento de mulheres de base popular articulado às Comunidades Eclesiais de Base e às lutas pela terra Paulatinamente vão aglutinando energias e interesses somando forças sociais diversas produzindo conexões e trocas identificando potências possibilidades e contradições estabelecendo um elo comum na luta até se reconhecerem enquanto feministas Feministas sertanejas em movimento Em 2014 parte das feministas em movimento constituem uma Frente de Mulheres enquanto articulação feminista antipatriarcal anticapitalista antirracista laica e suprapartidária É sobre essas memórias pessoais e coletivas que pretendo versar A presente investigação científica partiu da aproximação com as mulheres em movimento no Cariri Cearense precisamente a partir da construção da Marcha das Vadias no ano de 2012 e posteriormente com seu esgotamento e conformação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Minha intenção inicial era problematizar como o corpo e a sexualidade das mulheres ganha contornos diferenciados quando acrescentamos marcadores de regionalidade cultura e tradição Emergiu nesse momento a questão do aborto como problema central Como essa pauta vem sendo conduzida pelos movimentos feministas na região e quais as particularidades na constituição das lutas feministas Me perguntava confusamente Meu ponto de partida se apresentava de forma muito abstrusa e no processo da banca de qualificação fui tensionada a pensar meu objeto a partir de outro caminho Como Delâine bem disse na pré banca é a força do que era para ser A partir daí tomei a decisão metodológica de mudar o caminho e reflexionar sobre como o território do Cariri produzia formas tão potentes de mobilização e organização feministas ao mesmo tempo em que copiosamente silenciava violentava e matava as mulheres de forma individual e enquanto classe Então me deparei com a potência da Frente de Mulheres do Cariri e comecei a recuperar as memórias de sua constituição Como essas mulheres conseguiram dentro de condições tão limitadoras constituir uma força política tão efetiva Quais as particularidades que produziram esse sujeito coletivo Por que se organizar enquanto Frente O que sustentou a passagem da Marcha das Vadias à Frente de Mulheres Por que a auto organização emerge como condição necessária para esse novo sujeito coletivo Observando a pluralidade de mulheres que constituíam a Frente uma pluralidade intensamente conflituosa eu problematizava será que a experiência em comum a força dessas mulheres em dizer nós 17 e acionar um projeto coletivo de atuação é o que conforma o sujeito feminista Frente de Mulheres Diante do exposto e inebriada com a força de irrupção da Frente defini como objetivo central apreender as particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri Cearense Como objetivos específicos pontuei a Recuperar a memória social e a história das resistências das mulheres do Cariri a partir da conformação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri b Apreender as pautas de reivindicação as tendências e divergências políticas da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri c Descrever as estratégias alianças desafios e possibilidades da atuação da Frente de Mulheres no Cariri A análise das particularidades da constituição do sujeito coletivo feminista no Cariri cearense ancorase ao materialismo histórico dialético enquanto método de análise do real bem como nas perspectivas teóricas e ideopolíticas do feminismo materialista que apreende as desigualdades entre homens e mulheres como uma relação social material concreta e histórica Mulheres e homens se definem a partir de uma relação social de classe hierárquica e antagônica CURIEL FALQUET 2014 Com efeito utilizei as categorias relações sociais de sexo e patriarcado para desvelar as condições de apropriação material das mulheres bem como para destacar a imbricação destas em relação às relações sociais de classe e raçaetnia Com efeito a investigação científica não se circunscreve à repetição do que já foi elucidado já que não existe nada eterno fixo transhistórico absoluto ou imutável pois todos os processos estão em constante movimento e transformação Assim a construção do conhecimento é um processo de desvelamento da realidade e apropriação do mundo que parte do pressuposto que o real é inesgotável e sua compreensão se dá de maneira aproximativa e não conclusiva O concreto é concreto porque é a síntese de muitas determinações isto é unidade do diverso Por isso o concreto aparece no pensamento como processo de síntese como resultado não como ponto de partida embora seja o verdadeiro ponto de partida e portanto o ponto de partida também da intuição e da representação MARX 2003 p 257 18 Nessa perspectiva a produção do conhecimento pode ser sintetizada em um processo de apreensão pelo pensamento da dinâmica que engendra o real O movimento do real por sua vez é dotado de uma dinamicidade que permeia os fenômenos e busca desvelar suas relações contradições e determinações Esse movimento tenta ultrapassar o dado o aparente o isolado e apreender o fundamento e a razão de ser dos fenômenos Segundo Kosik 1969 o pensamento dialético é aquele que procura apropriarse da coisa em si superando a forma isolada e independente dos fenômenos em nível aparente tratase pois por um lado de destacar os fenômenos da sua forma dada como imediata de encontrar as mediações pelas quais podem ser referidos ao seu núcleo e a sua essência e captados na sua própria essência e por outro lado atingir a compreensão deste caráter fenomenal desta aparência fenomenal consideradas a sua forma de manifestação necessária LUKÁCS 2003 p 23 Assim a tarefa de produção do conhecimento consiste em uma busca de superação do factual do isolado e do naturalizado articulando as múltiplas determinações das relações e captando o caráter mediato e determinado dos fenômenos Portanto o recurso à dialética configurase pois como uma consequência da pergunta sobre a realidade e de seu entendimento como totalidade concreta síntese de múltiplas determinações que não se apresenta imediatamente ao sujeito Saliento o percurso para o conhecimento da totalidade concreta é identificado com a viagem do pensamento que vai do concreto ao abstrato Já que para Marx 2003 p 260 as leis do pensamento abstrato que se eleva do mais simples ao complexo correspondem ao processo histórico real Em linhas gerais para se atingir à síntese das múltiplas determinações que balizam o real exigese um longo trabalho de explicitação progressiva das categorias partindo de suas determinações mais simples e abstratas até alcançar suas determinações mais ricas complexas e intensas e assim chegar à sua unidade onde o real reproduzido então é a síntese de múltiplas determinações TEIXEIRA 1995 p 35 Apenas depois de concluído este trabalho é que se pode explicitar de forma adequada o movimento do real enquanto concreto pensado Para Lukács 1974 a legalidade do método não reside nele próprio enquanto tal mas em sua capacidade de apreensão do movimento do real e de transformação da realidade superando pois perspectivas contemplativas do mundo 19 Analisar os fenômenos sob essa perspectiva significa compreender o ser histórico como fundamento do conhecimento e perceber os fenômenos individuais para além da aparência e imediaticidade do cotidiano relacionandoos com o campo das grandes determinações da relação capitaltrabalho através da articulação existente entre a singularidade a particularidade e a universalidade dos fenômenos Pelo exposto entendo que o método dialético então deve acompanhar a realidade como seu autêntico reflexo e portanto adotar essas mesmas características O pensamento dialético deve ser concreto variável sempre arejado e fluido como um riacho pronto para detectar e usar as contradições que se lhe apresentem Todas as fórmulas devem ser provisórias limitadas aproximadas porque todas as formas de existência são transitórias e limitadas Uma vez que a dialética é manipulada com uma realidade sempre variante complexa e contraditória suas fórmulas têm limitações intrínsecas Em suas interações com a realidade objetiva e em seu próprio processo de evolução relacionado com esta atividade o pensamento dialético cria fórmulas as mantém e logo as descarta em cada etapa de seu crescimento NOVACK 2006 p 62 Convém ressaltar que a perspectiva dialética efetiva a superação da dualidade entre objetividade e subjetividade já que entende que a realidade objetiva e a realidade subjetiva são dois momentos indissociáveis do ser social Como alude Saffioti 1992 p 208 uma epistemologia feminista não despreza a emoção enquanto via de conhecimento mesmo porque a emoção pode muito bem fecundar a razão Convém mencionar que os elementos ferramentas e instrumentos de pesquisa devem ser capazes de se adaptar à realidade pesquisada pretendendo assim alcançar uma reprodução conceitual e analítica da realidade material Para responder às questões levantadas desde o projeto de pesquisa realizei uma pesquisa de campo compreendida por Soriano 2004 para além de um lugar separado demarcado ou delineado onde ao pesquisadorapesquisador vai coletar dados ou fazer observações O termo campo referese a um tipo de pesquisa realizado nos espaços da vida cotidiana indicando a materialidade do território e das relações sociais desiguais ali vivenciadas tanto a posição dado pesquisadorapesquisador frente ao todo caótico como parte deste Defini a observação participante e a entrevista como técnicas e instrumentos de produção de dados por entender que ambos foram mais apropriados para apreender as particularidades do real A escolha da observação participante se deu por ser uma técnica que possibilita o intercâmbio de experiências e uma base comum de comunicação Particularizase na presença dado 20 pesquisadorapesquisador como partícipe das ações que acontecem com os sujeitos sociais investigados Segundo Soriano A observação participante permite adentrar nas tarefas realizadas pelos indivíduos no seu dia a dia conhecendo mais de perto as expectativas das pessoas suas atitudes e condutas diante de determinados estímulos as situações que fazem com que elas ajam de um modo ou de outro e as maneiras de resolver os problemas familiares ou da comunidade Neste caso o pesquisador age com naturalidade dentro do grupo incorporandose plenamente às atividades que desenvolvem seus integrantes SORIANO 2013 p 147 Tal observação foi produzida no diálogo constante entre os sujeitos da pesquisa e a pesquisadora que tinha uma experiência com as mulheres as quais estava investigando e uma relação com o território estudado Eu era parte ativa do grupo estudado participei de uma parcela de sua constituição Segundo Soriano 2004 a técnica de observação participante permite aao pesquisadorapesquisador uma apreensão mais ampla sobre os comportamentos padrões de conduta representações sociais símbolos artefatos escutas tradições e o cotidiano dos sujeitos pesquisados Também se pode efetuar a observação estando dentro do grupo sendo parte ativa dele Nesse caso o pesquisador submetese às regras formais e informais do grupo social isto é participa nos diversos atos e manifestações da vida do grupo e tem acesso a seus locais de reunião exclusivos Esta técnica é uma das mais importantes no campo da antropologia social entretanto por vezes apresenta sérias dificuldades SORIANO 2004 p 147 Haguete 2013 alude sobre a importância da observação participante enquanto técnica de captação de dados mesmo que ela não seja a mais estruturada no espectro das ciências sociais aplicadas apontando alguns elementos que podem dificultar a materialização de tal técnica a saber i As percepções socioculturais doda observadorobservadora ii O viés profissionalideológico que pode induzir à seletividade da observação iii A interpessoalidade doda observadorobservadora iv A possibilidade de adequar o real às hipóteses de estudo prévias e v Os juízos de valor doda observadorobservadora Tendo consciência das dificuldades limites e potências da observação participante constitui um guia de observação para coleta de dados e registrei os dados em um diário de campo como ferramenta de registro das informações para análise posterior anotando inclusive os meus atos escutas e representações durante o processo de observação 21 Aqui não centralizei minha observação a partir da acepção de epistemologia ocular que me separa das sujeitas pesquisadas mas de um diálogo com elas na tentativa de produzir em conjunto a memória social dos feminismos no Cariri uma memória em movimento Memória viva Como aponta Cordeiro 2004 É abrir mão da romântica imagem doa pesquisadora se aventurando solitariamente em terras estranhas para descobrir dados inusitados portando além do caderno de notas os equipamentos que permitem registrar o que é observado a partir de normas e dos parâmetros científicos É lançarse em caminhos tortuosos e improvisados e trocar uma série de dificuldades bem mapeadas por outra de dificuldades quase desconhecidas É admitir a complexidade deste tipo de prática que demanda na atualidade reflexões não só sobre a validade dos procedimentos adotados mas sobretudo sobre as implicações éticas políticas e epistemológicas desse fazer CORDEIRO 2004 p 62 O lócus da pesquisa foi o Movimento Feminista do Cariri Cearense especificamente a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri por esta se referenciar enquanto espaço feminista de articulação organização e formação em defesa dos direitos das mulheres aglutinando um conjunto de movimentos sociais coletivos entidades associações partidos políticos e sujeitos sem atrelamento institucional Para a realização da observação participante foram fundamentais o roteiro de observação específico e o uso do diário de campo As primeiras aproximações com as sujeitas da pesquisa processaramse concomitante a minha inserção política na Frente de Mulheres tendo como questão norteadora de pesquisa a análise das determinações e contradições dos movimentos feministas do Cariri em relação à luta pelo direito ao aborto posteriormente redefinida por meio das problematizações da banca de qualificação que pontuava a impossibilidade de apreender as determinações de uma pauta ainda emergente na região Tais questões desvelaram o meu objeto real de estudo a constituição dos movimentos feministas na região enquanto sujeito coletivo feminista Partindo de levantamento teóricometodológico e documental do objeto de estudo constitui aproximações sucessivas com as mulheres estudadas e com sua realidade objetiva A partir disso paulatinamente fui mapeando as militantes da Frente as com atuação fixa e as mais descontinuadas as lideranças as ações concretas as formas organizativas e as alianças estratégicas Para isso acompanhei de 2016 a maio de 2017 as reuniões ampliadas os encontros formativos planejamentos semestrais atos e manifestações palestras das lideranças na região reuniões de coordenação executiva festas e confraternizações assim como os 22 documentos de domínio público da Frente material de divulgação digital notas técnicas notas de protesto cartas de denúncia e moções de repúdio Esse acompanhamento sistemático das ações da Frente não se deu de forma passiva e distanciada pelo contrário eu também era parte ativa dos processos Em maio de 2017 me mudei do Cariri para outro estado mas continuei a mapear a Frente agora de forma menos sistemática e com menor facilidade de mobilidade entre as mulheres Nessa segunda parte mapeei fotos vídeos relatórios de reunião a produção teórico e artísticoperformáticas1 das feministas da Frente e finalizei o processo de observação no final do primeiro semestre de 2018 com a participação nas reuniões de formação e planejamento de atividades da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri e do Piquenique Feminista Foi preciso apreender os fragmentos da memória das vivências e ancestralidades dessas mulheres a partir da constituição de um mosaico de conversações e de determinações concretas da experiência de ser mulher individual e coletivamente dentro do território Cariri apreender a partir de conversas conversas do presente conversas do passado conversas presentes nas materialidades conversas que já viraram eventos artefatos e instituições conversas ainda em formação e mais importante ainda conversas sobre conversas SPINK 2003 p 37 Diante de todo esse acervo empírico documental bibliográfico e artísticoperformático fui elegendo categorias para análise das militantes da Frente da constituição do sujeito feminista coletivo e da identidade organizativa da ação articulação e aliança política Esses artefatos sociais foram ampliados a partir da decisão metodológica de realizar entrevistas com 9 mulheres lideranças da Frente com um pequeno roteiro sistematizado em torno de como elas se constituíram enquanto feministas e Frente de Mulheres bem como as pautas demandas e alianças estratégicas forjadas na luta coletiva Para a definição das entrevistadas considerei a heterogeneidade da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri definindo mulheres que agregam múltiplas especificidades lésbicas jovens partidarizadas negras universitárias e de organizações populares 1A Frente realizou atividades no campo artísticoperformático muito diversificadas com constantes Saraus de poesia performances constituição de um bloco para as prévias carnavalescas no Crato intitulado Craterdamas exposição de cinema ações de literatura e eventos de música 23 As sujeitas da pesquisa revelaram trajetórias pessoais e políticas bastante distintas ocupam posições de liderança e podem apontar um certo perfil da Frente de Mulheres Falo com imprecisão em virtude da dinâmica da Frente que agrega um conjunto múltiplo de mulheres que oscilam no grau de participação 9 mulheres 7 do Cariri e 2 de outros estados que migraram em busca de trabalho 2 estão na faixa etária de até 25 anos as outras variam entre 36 e 66 anos 4 mulheres negras 4 lésbicas 5 partidarizadas sendo 2 do Partido dos Trabalhadores PT e 3 do Partido Socialismo e Liberdade PSOL 4 moradoras da periferia 7 com trabalhos formalizados sendo 1 professora do ensino médio 2 professoras universitárias 2 trabalhadoras em ONGs 1 assistente social e 1 jornalista 4 têm militância política oriunda das organizações populares e 5 a partir da interlocução com a universidade Organizei este trabalho em 4 capítulos No primeiro capítulo busco situar como se processou a aproximação com o objeto de estudo as questões de pesquisa os objetivos o percurso metodológico e a estrutura final da tese No segundo apresento o debate acerca da constituição do sujeito coletivo partindo do entendimento do papel da ação dos homens e das mulheres na história enquanto sujeitos no interior de uma classe com potencial revolucionário de transformar as relações sociais de exploração no modo de produção capitalista Potencial revolucionário dado não pela vontade individual dos homens e das mulheres mas pelas formas concretas da luta de classes que determinam a consciência de classe De outra parte também problematizo o sujeito coletivo postulado pela tradição marxista e apresento a constituição do sujeito coletivo feminista sob o ponto de vista situado das mulheres em especial de Simone de Beauvoir 1949 Kergoart 2018 Camurça 2007 e Gurgel 2004 2014 Nessa égide a constituição do sujeito coletivo feminista se conforma a partir da elaboração de conceitos que especifiquem a opressão exploraçãoapropriação das mulheres enquanto grupo social No terceiro capítulo aponto as análises acerca das relações sociais de sexo e do patriarcado elencando o debate materialista francês sobre a imbricação das relações sociais de sexo classe e raça enquanto um entrecruzamento dinâmico e complexo do conjunto das relações sociais cada uma imprimindo sua marca nas outras ajustandose às outras e construindose de maneira reciproca KERGOART 2010 p 98 Essa perspectiva de análise apreende as relações sociais de sexo como relações de caráter estrutural que pressupõe antagonismos entre grupos sociais e tem como fundamento a divisão sexual racializada do trabalho FALQUET 2014 KERGOART 2018 Ainda identificamos as particularidades da 24 constituição dos movimentos feministas no Brasil enquanto sujeito político do coletivo de mulheres que baliza suas ações na construção de um projeto societário fincado na liberdade autonomia e autodeterminação das mulheres PIERROT 2007 No penúltimo capítulo exponho as cartografias das resistências feministas no Cariri e a formação do sujeito coletivo feminista encarnado na experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Descrevo a conformação do território Cariri e de suas relações sociais de classe raçaetnia e gênero bem como suas particularidades geopolíticas culturais e religiosas Ainda recupero a memória social da constituição da Frente de Mulheres enquanto sujeito coletivo feminista apresentando as pautas alianças estratégicas divergências políticas desafios e potencialidades dessas mulheres em coletivo Remato o capítulo afirmando a minha tese de que o sujeito coletivo Frente de Mulheres que se faz na autodesignação das mulheres enquanto feministas no reconhecimento de um nós comum e na conformação de uma ação coletiva a partir de uma experiência una e diversa constitui mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos se materializando enquanto corpo político com identidade plural Um sujeito coletivo total atravessado pelo contexto do sertão Por fim sistematizo as principais inflexões e sínteses possíveis sobre a direção sociopolítica dos movimentos feministas no Cariri na particularidade da Frente de Mulheres analisando alguns entraves e possibilidades políticas para as resistências feministas locais Parafraseando Beauvoir 2009 descrevi do ponto de vista situado das mulheres sertanejas o mundo que lhes foi imposto e que elas bravamente ousam a serem vozes insurgentes 25 2222 A CONSTITUIÇÃO DO SUJEITO COLETIVO Posso sair daqui pra me organizar Posso sair daqui pra desorganizar Da lama ao caos do caos à lama Um homem roubado nunca se engana SCIENCE 1994 O objetivo deste capítulo é apreender como se constitui o sujeito coletivo e o sujeito coletivo feminista Parto do pressuposto de que há grandes divergências nas elaborações teóricas acerca da noção de sujeito no interior das ciências sociais e também da teoria social crítica No pensamento liberal sob a ótica do iluminismo constituiuse uma noção de sujeito como ser universal dotado de liberdade autonomia e racionalidade corporificado na imagem do homem do cidadão grafado em masculino do homogêneo e da unidade O pensamento crítico marxista alarga a percepção de sujeito a partir do reconhecimento dos homens enquanto demiurgos de sua própria história tendo a classe social como seu fundamento entretanto a noção de sujeito universal e masculino permanece O sujeito coletivo na tradição marxista é histórico e material e se efetiva na dinâmica da luta de classes seja através das organizações classistas ou do partido revolucionário Tal assertiva acerca do sujeito coletivo em minha percepção não dá conta da experiência das mulheres Qual a grande dificuldade das mulheres em pensar sobre o mundo e sobre si mesmas Ouso dizer que as mulheres pensam o mundo a partir de categorias elaboradas por um mundo que as oprimemexploramapropriam Construir novos conceitos e categorias a partir dessa experiência em grande medida silenciada e apagada é a grande contribuição do feminismo como pensamento crítico como teoria Eis o desafio do feminismo no interior da ciência descolonizar e criar categorias de pensamento que rompam com o pensamento hegemônico branco burguês masculino e cartesiano construído para garantir a dominação exploração dos grupos subalternos De certo as pensadoras feministas vêm apontando sistematicamente que o conhecimento sobre sujeito coletivo construído pelos homens ao generalizar o sujeito como a classe não faz a distinção entre mulheres e homens não apresenta na vivência desse sujeito coletivo as desigualdades existentes na sociedade no modo de inserção na divisão sexual racializada do trabalho Pois o sujeito da tradição marxista é masculino portanto sua pretensa universalidade esconde na verdade sua especificidade 26 É preciso considerar que a experiência particular de ser mulher é atravessada pelo patriarcado enquanto pacto formalizado pelos homens para manter o controle sobre as mulheres constituindose enquanto expressão do poder político dos homens que não se limita à esfera privada mas também se faz presente na pública e transforma as mulheres em objetos de satisfação sexual dos homens produtoras de herdeiros de força de trabalho e de novas reprodutoras SAFFIOTI 2004 p 105 É deste modo um sistema de dominação expropriação e de exploração que se dilata por todas as esferas da vida social sustentado pela violência e ideologia produzindo dissabores cotidianos para as mulheres que embora sejam vivenciados individualmente se constituem enquanto questões políticas e portanto são problemas coletivos As múltiplas expressões do patriarcado entendidas pelas mulheres na vida cotidiana como problemas de cunho pessoal são digeridas negligenciadas ou enfrentadas pela maioria das mulheres seja de formas individuais ou coletivas com respostas de acomodação ou de inconformismo Por isso o sujeito coletivo universal e masculino não é capaz de explicar a experiência da pluralidade das mulheres Rebelarse contra as imposições do patriarcado a sua experiência particular elaborando estratégias de enfrentamento ou de conciliação tem sido uma questão de sobrevivência histórica para as mulheres de forma singular ou enquanto sujeitos coletivos Konder 2009 p 45 apregoa que a primeira forma de superação de contextos de exploraçãodominação é o apelo à rebeldia a rebeldia anterior a qualquer racionalização elaborada pode possibilitar que individualmente o rebelde tente concretizar sua negação do presente ou constitua junto a outros rebeldes ações políticas de enfrentamento a este mesmo que de forma pontual ou assistemática Contudo tais ações de rebeldia e contestação das experiências de dominaçãoexploração marcam apenas um momento insurrecional sendo necessário a concretização da rebeldia no plano político no plano em que se elabora a consciência revolucionária KONDER 2009 p 47 Consciência revolucionária entendida por ele como a capacidade de se indignar com os processos de exploração mas ir além disso identificando as determinações desses processos os potenciais inimigos e aliados bem como de elaborar formas racionalizadas de superação das condições degradantes de existência e é parte constituinte do sujeito histórico e particularmente do sujeito feminista coletivo 27 21 O SUJEITO COLETIVO NA TRADIÇÃO MARXISTA Para a tradição marxista os homens produzem a sua própria história mas não a fazem de forma automática ou aleatória assim como não a conduzem de acordo com a sua própria vontade mas nas circunstâncias imediatamente encontradas dadas e transmitidas pelo passado MARX ENGELS 2007 p 95 Os homens e as mulheres se constituem como demiurgos e autores de sua própria história enquanto sujeitos coletivos no interior de uma classe Os homens são os únicos produtores de suas representações de suas ideias e assim por diante mas os homens reais ativos tal qual como são condicionados por um determinado desenvolvimento de suas forças produtivas e pelo intercâmbio que a ele corresponde até chegar às suas formações mais desenvolvidas A consciência não pode jamais ser outra coisa do que o ser consciente e o ser dos homens é o seu processo de vida real MAR ENGELS 2007 p 94 Assim os indivíduos manifestam em suas experiências particulares o reflexo daquilo que são o que coincide com a sua produção no sentido que são determinados pelas condições concretas da sociedade e têm seu pensamento determinado por elas O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social política e intelectual Não é a consciência dos homens que determina seu ser é o seu ser que determina a consciência MARX ENGELS 2007 p 95 De certo a categoria classe é elucidativa para o entendimento da formação da consciência dos homens e das mulheres O próprio Marx 2011 no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte analisou a partir da experiência francesa a constituição das classes sociais enquanto resultado do conjunto das determinações sociais de uma totalidade histórica Para isso tomou por base as dificuldades do campesinato francês em se estabelecer enquanto classe na medida em que constituem uma imensa massa cujos membros vivem em condições semelhantes mas sem estabelecer relações multiformes entre si MARX 2011 p 142 nessa égide as famílias camponesas existem sob as mesmas condições econômicas que separam o seu modo de vida os seus interesses e a sua cultura ao modo de vida dos interesses e da cultura das demais classes contrapondose a elas como inimigas formam uma classe MARX 2011 p 143 Do contrário quando os camponeses instituem apenas uma relação local destituída da noção de 28 comunidade organização política e ligação nacional não se constituem uma classe pois são ainda incapazes de fazer valer seus interesses de classe em seu próprio nome e não podem representase têm que ser representados MARX 2011 p 143 Dessa forma o autor alemão defende que as classes sociais se diferenciam por seu modo de vida os seus interesses e sua cultura extrapolando a acepção de que classe se define pela posição em certas relações sociais de produção e diante da propriedade Aqui as classes sociais surgem como concreção da análise de determinado modo de produção Para Lênin 1987 as classes se constituem enquanto grandes grupos de homens que se diferenciam entre si pelo lugar que ocupam em um sistema de produção social historicamente determinado pelas relações em que se encontram com respeito aos meios de produção pelo papel que desempenham na organização social do trabalho e consequentemente pelo modo e proporção em que recebem a parte da riqueza social que dispõem As classes são grupos humanos um dos quais pode apropriarse do trabalho do outro por ocupar postos diferentes em um regime determinado de economia social LÊNIN 1987 p 79 As classes sociais são ontologicamente definidas a partir de determinadas relações sociais de produção e reprodução social entretanto sua constituição não está restrita às relações de propriedade embora esta seja um elemento fundante e determinante Nas palavras de Iasi 2006 p 321 classe não é tornase Os positivistas que insistem na pergunta o que é classe social se desorientam diante do movimento em que classe não é tornase Aquilo que aparece como duas essências diversas e confunde os analistas nada mais são que os momentos do ser da classe em movimento de modo que a classe não é somente a condição comum partilhada pela posição comum no interior de certas relações sociais de produção ou um sujeito histórico numa ação decisiva em que se apresenta como universalidade Entendendo a classe como universalidade histórica não a reconhecemos quando de sua manifestação cotidiana fragmentada subordinada ao capital pulverizada em interesses pessoais e imersa na serialidade Compreendendoa como esta manifestação imediata e fragmentada não a reconhecemos quando irrompe no cenário histórico como sujeito revolucionário em formação IASI 2006 p 321 grifo nosso Ademais é preciso considerar outros elementos para que as classes sejam capazes de representar seus interesses em seu próprio nome quer por meio do parlamento de uma convenção de um coletivo ou um partido Nas reflexões do 18 Brumário os camponeses não podem representarse porque não se constituem enquanto classe tendo por conseguinte que 29 serem representados o que possibilita o aparecimento de um representante denominado por Marx de herói crápula devasso e canalha que se apresenta como uma autoridade governamental com poder ilimitado e incontestável instituído como salvador e guardião da sociedade que os protege das demais classes a partir do resgate de valores da antiga sociedade formando a falange sagrada da ordem propriedade família religião e ordem MARX 2011 p 97 Marx e Engels 2007 reconheciam a existência de outras formas de conflito e antagonismos de classes entretanto o primordial no modo de produção capitalista se estabelece entre burguesia e proletariado Para os autores a relação direta entre proprietários não produtores e não proprietários produtores é fundamental para a constituição do proletariado em classe De todas as classes que hoje em dia se opõem à burguesia só proletariado é uma classe verdadeiramente revolucionária As outras classes degeneram e perecem com o desenvolvimento da grande indústria o proletariado pelo contrário é seu produto mais autêntico O trabalho industrial moderno a subjugação do operário ao capital tanto na Inglaterra como na França na América como na Alemanha despoja o proletário de todo caráter nacional Os proletários não podem apoderarse das forças produtivas sociais senão abolindo o modo de apropriação a elas correspondente e por conseguinte todo modo de apropriação existente até hoje Os proletários não têm nada de seu a salvaguardar sua missão é destruir todas as garantias e seguranças da propriedade privada até aqui existentes Todos os movimentos históricos têm sido até hoje movimentos de minorias ou em proveito de minorias O movimento proletário é o movimento autônomo da imensa maioria em proveito da imensa maioria O proletariado a camada mais baixa da sociedade atual não pode erguerse pôrse de pé sem fazer saltar todos os estratos superpostos que constituem a sociedade oficial A luta do proletariado contra a burguesia embora não seja na essência uma luta nacional revestese dessa forma num primeiro momento É natural que o proletariado de cada país deva antes de tudo liquidar a sua própria burguesia MARX ENGELS 2007 p 50 As análises de Marx e Engels consideravam a historicidade das classes sociais e as formas como estas se expressavam em distintas formações sociohistóricas já que as classes se fazem em condições históricas concretas e transitórias constituindose enquanto uma relação social instituída entre os sujeitos através das formas de produção e apropriação do trabalho que a partir da revolução industrial assumiu forma específica trabalho assalariado e alienado Aqui a subsunção do trabalho ao capital se efetiva mediante o desenvolvimento das forças produtivas as inovações tecnológicas e o trabalhador coletivo agora sob um controle mais 30 eficiente que busca permanentemente anular a sua subjetividade e precarizar suas condições de vida tendo em vista a constante diminuição do valor de troca da força de trabalho e a ampliação da extração da maisvalia O caráter relacional entre as classes e a relação entre indivíduo e classe no seu processo de formação é explicitado nos escritos da Ideologia Alemã 2007 Os indivíduos singulares formam uma classe somente na medida em que têm de promover uma luta contra uma outra classe de resto eles mesmos se posicionam uns contra os outros como inimigos na concorrência Por outro lado a classe se autonomiza por sua vez em face dos indivíduos de modo que estes encontram suas condições de vida predestinadas e recebem já pronta da classe a sua posição na vida e com isso seu desenvolvimento pessoal são subsumidos a ela É o mesmo fenômeno que o da subsunção dos indivíduos singulares à divisão do trabalho e ele só pode ser suprimido pela superação da propriedade privada e do próprio trabalho De que modo essa subsunção dos indivíduos à classe transformase ao mesmo tempo numa subsunção a toda forma de representações etc já o indicamos várias vezes Essa subsunção dos indivíduos a determinadas classes não pode ser superada antes que se forme uma classe que já não tenha nenhum interesse particular de classe a impor à classe dominante MARX ENGELS 2007 p 63 Também é preciso analisar as transformações constantes no modo de produção e reprodução capitalista e as suas repercussões na conformação e composição das classes sociais Aqui se coloca a questão da heterogeneidade da classe trabalhadora que não pode mais ser compreendida apenas pelo viés do proletariado fabril do século XIX mas que se amplia e complexifica unificada pela imposição da venda da força de trabalho para a sobrevivência de todos os trabalhadores e trabalhadoras Os processos de crise sociometabólica do capital e de recuperação de seu ciclo produtivo nos séculos XX e XXI modificaram a composição das classes sociais e a morfologia do trabalho ao impor processos de reestruturação produtiva e de ofensiva ao trabalho e ao Estado afetando de forma contundente a materialidade e subjetividade da classe trabalhadora ANTUNES 2007 Para Antunes 2011 as metamorfoses no mundo do trabalho na contemporaneidade efetivaram processos de desproletarização do trabalho industrial fabril expansão do assalariamento no setor de serviços subproletarização com trabalhos parciais terceirizados e subcontratados bem como a expansão do desemprego estrutural em escala internacional Esse contexto aponta a heterogeneidade da classe trabalhadora no capitalismo contemporâneo e a impossibilidade de restringir o conceito de classe ao proletariado industrial tradicional assim como possibilita análises teóricas que propõem noções ampliadas de classe trabalhadora que 31 inclui os trabalhadores produtivos no sentido atribuído por Marx no Capítulo VI do Capital e os trabalhadores improdutivos incorporando a totalidade do trabalho social a totalidade do trabalho coletivo assalariado Como bem apregoa Iasi 2006 a classe tornase de modo que não podemos apreendêla de forma estática fixa imutável sob pena de não estar operando sob a dialética marxiana Uma noção ampliada de classe trabalhadora inclui então todos aqueles e aquelas que vendem sua força de trabalho em troca de salários incorporando além do proletariado industrial dos assalariados do setor de serviços também o proletariado rural que vende sua força de trabalho para o capital Essa noção incorpora o proletariado precarizado o subproletariado moderno part time o novo proletariado dos Mc Donalds os trabalhadores hifenizados os trabalhadores terceirizados e precarizados das empresas liofilizadas os trabalhadores assalariados da chamada economia informal que muitas vezes são indiretamente subordinados ao capital além dos trabalhadores desempregados expulsos do processo produtivo e do mercado de trabalho pela reestruturação do capital e que hipertrofiam o exército industrial de reserva na fase de expansão do desemprego estrutural ANTUNES 2007 p 104 Da mesma forma que as transformações contemporâneas no mundo do trabalho repercutiram em mudanças na composição e conformação das classes sociais em especial das classes trabalhadoras também possibilitaram modificações na organização das entidades classistas e no entendimento do proletariado como portador do verdadeiro caráter revolucionário Na acepção clássica do marxismo nas práticas das lutas concretas como as ocorridas no decurso da Revolução de Fevereiro de 1848 a organização do proletariado em classe e em partido é reflexionada nos seguintes termos O proletariado ao impor a República ao Governo Provisório e através do Governo Provisório a toda a França apareceu imediatamente em primeiro plano como partido independente mas ao mesmo tempo lançou o desafio a toda a França burguesa O que o proletariado conquistava era o terreno para lutar pela sua emancipação revolucionária mas não de modo algum a própria emancipação MARX 2012 p 75 É relevante analisar que o campesinato francês se constituía enquanto classe inserido em um desenvolvimento industrial capitalista deficitário e intencionado em preservar a sua pequena propriedade portanto a relação capital versus trabalho ainda se gestava de forma embrionária muitas vezes corporificando um comportamento mais conservador que 32 propriamente revolucionário Mesmo assim o proletariado francês conseguiu se impor como partido independente da burguesia e do Estado burguês mesmo sem ter força política à altura de suas mobilizações as barricadas levantadas com o propósito de derrubar a monarquia e impor a república social sob domínio do proletariado Na compreensão de Marx e Engels somente o proletariado é portador de interesses universais que se traduzem na emancipação humana Em As lutas de classes na França Marx avalia o processo de luta dos proletários e as condições materiais de sua organização como classe O desenvolvimento do proletariado industrial tem por condição geral o desenvolvimento da burguesia industrial sob cujo domínio adquire ele existência nacional que lhe permite elevar sua revolução à categoria de revolução nacional criando os meios modernos de produção que hão de transformarse em outros tantos meios para a sua emancipação revolucionária Somente o domínio da burguesia industrial extirpa as raízes materiais da sociedade feudal e prepara o único terreno em que é possível uma revolução proletária A luta contra o capital em sua forma moderna desenvolvida a luta contra o capital em sua fase culminante isto é a luta do assalariado industrial contra o burguês industrial constitui na França um fato parcial que depois das jornadas de fevereiro não podia fornecer o conteúdo nacional da revolução tanto mais que a luta contra os métodos secundários da exploração capitalista a luta do camponês contra a usura nas hipotecas do pequeno burguês contra o grande comerciante o banqueiro e o industrial numa palavra contra a bancarrota permanecia dissimulada no levante geral contra a aristocracia financeira em geral Nada mais explicável portanto que a tentativa do proletariado de Paris para trazer à tona seus interesses ao lado dos da burguesia ao invés de apresentálos como o interesse revolucionário de toda a sociedade e que tenha arriado a bandeira vermelha diante da bandeira tricolor Os operários franceses não podiam dar um passo à frente não podiam sequer tocar num fio de cabelo da ordem burguesa enquanto a marcha da revolução não sublevasse contra esta ordem contra o domínio do capital a massa da nação camponeses e pequenos burgueses que se interpunha entre o proletariado e a burguesia enquanto não a obrigasse a unirse aos proletários com a vanguarda sua MARX 2012 pp 119120 As lutas encampadas na França de 1848 entre capital e trabalho eram secundárias e dessa maneira o proletariado não tinha condições históricas concretas de apresentar sua jornada em nome de toda a sociedade francesa Os remates da revolução de 1848 se materializaram com a derrota do proletariado que não se tornou a vanguarda de seus supostos aliados o campesinato e a pequena burguesia De outra parte o campesinato se transformou na base social e política do bonapartismo já que optou por conservar sua pequena propriedade 33 No Manifesto do Partido Comunista Marx e Engels 2011b vão reafirmar a necessidade do proletariado de se constituir enquanto classe que representa o interesse geral para a derrubada da burguesa e a conquista do poder político pelos trabalhadores o movimento proletário moderno é o movimento autônomo da imensa maioria em proveito da imensa maioria MARX ENGELS 1998 p 50 Contudo a destituição dos meios de produção da burguesia e o fracionamento de seu poder político não estabelece garantias automáticas ao proletariado de se tornar classe para si mesmo Pode ser apenas para o capital Mesmo tal possibilidade tendo sua potência política afinal é o primeiro elemento de identificação da condição de exploradodominadoexpropriado ela não é suficiente Por si só a percepção de pertencimento a uma classe não leva automaticamente a se ter consciência sobre ela nem à tomada do poder burguês podendo inclusive haver uma identificação com padrões de vida e consumo valores e interesses das outras classes Como apregoava Marx e Engels 2007 p 67 As ideias da classe dominante são em todas as épocas as ideias dominantes ou seja a classe que é o poder material dominante da sociedade é ao mesmo tempo o seu poder espiritual dominante As ideias dominantes não são mais do que a expressão ideal das relações materiais dominantes portanto das relações que precisamente tornam dominante uma classe portanto as ideias de seu domínio Essa assertiva de Marx e Engels é central para apreender que nas lutas entre as classes o proletariado pode reproduzir valores e projetos que representam os interesses das classes antagônicas ou viceversa nesse caso o proletariado enquanto verdadeiro portador do caráter revolucionário é uma possibilidade histórica objetiva e em movimento dialético Todavia as transformações no mundo do trabalho nos séculos XX e XXI foram decisivas para fragmentar heterogeneizar e complexificar a classe trabalhadora que nas palavras de Antunes 2007 p 191 criaram uma classe trabalhadora ainda mais diferenciada entre qualificadosdesqualificados mercado formalinformal homensmulheres jovensvelhos estáveisprecários imigrantesnacionais etc e que tal contexto dificultou a constituição de pertencimento de classe e contestou a ideia de um proletariado tradicional com a tarefa revolucionária de emancipar o conjunto dos trabalhadores da exploração capitalista inclusive porque operacionalizouse processos intensos de enxugamento do chão da fábrica e diminuição do proletariado fabril associados ao aprofundamento do desemprego estrutural e acirramento das desigualdades 34 Ademais a constituição do proletariado em classe é um fenômeno processual também pode ser descontínuo já que as classes podem vir a se desconstituir nos processos de enfrentamento A destituição do proletariado enquanto classe não o inviabiliza materialmente pois embora destruído política e ideologicamente ele permanece como classe para o capital isto é classe em si mas não uma classe para si de forma que tal processo se refere fundamentalmente as suas formas organizativas e de luta como a presença de sindicatos fortes e partidos políticos revolucionários As organizações de classe também sofreram os rebatimentos da reestruturação produtiva pós1970 a partir de uma ofensiva ideológica que operou no sentido de pulverizar fragmentar e descredibilizar partidos de esquerda e sindicatos ao ponto de eles não se apresentarem aos trabalhadores e trabalhadoras como seus legítimos representantes e interlocutores Nas jornadas de julho de 2016 no Brasil podese perceber de forma explícita essa ofensiva ideológica a partir da ideia de não se sentir representado o partido não me representa o sindicato não me representa o meu partido é o Brasil Para Iasi 2006 o movimento de entificação da classe distinguese em classe em si e para si A classe em si seria aquela que em sua finitude definese como ser determinado por suas relações com as outras coisas nesse caso na relação com o capital IASI 2006 p 321 Aqui o ser da classe é autorreferenciado por sua posição frente ao capital como vendedor ou comprador de força de trabalho De outra parte a classe para si é aquela que além de ser uma classe do capital pode se reconhecer como uma classe do capital IASI 2006 p 322 Para Marx e Engels 2011 ao se contrapor conscientemente à burguesia em defesa de seus interesses de classe o proletariado que já era uma classe em si se apresenta forçosamente como classe A oposição à burguesia nem sempre ocorre nestes termos ou seja como classe para si Mas quando acontece aumentam as possibilidades históricas de ele constituir uma revolução social Se tiver força política e ideológica suficiente para imprimir uma derrota à burguesia pode então tornarse classe revolucionária em direção à tomada do Estado burguês Disso deduzimos três níveis de classe que estão imbricados em um movimento dialético i Classe em si quando se opõe espontaneamente ao capital ii Classe para si quando se opõe conscientemente ao capital e iii Classe revolucionária quando além de se opor organizadamente ao capital também se opõe a sua expressão jurídicopolítica o Estado burguês e isto ocorre nos períodos em que a luta de classes se aproxima da hora decisiva MARX ENGELS 1998 p 49 35 Na perspectiva do proletariado revolucionário podese levantar outra questão a luta de classes não é uniforme estável e nem linear Ela se apresenta em condições concretas historicamente dialéticas e em diversos níveis de desenvolvimento político nos quais o seu grau máximo é quando o proletariado tem possibilidade de impor como classe dominante Em termos menos abstratos na revolução de 1848 se o proletariado tentou impor a república social a burguesia impôs a república burguesa e derrotou o proletariado O fato de terse tornado classe revolucionária em fevereiro não lhe impediu o retrocesso em junho principalmente naquelas condições históricas Os operários não tinham opção morrer de fome ou iniciar a luta Responderam a 22 de junho de 1848 com aquela formidável insurreição em que travou a primeira grande batalha entre as duas classes em que se divide a sociedade moderna Foi uma luta pela conservação ou o aniquilamento da ordem burguesa Descerrouse o véu que envolvia a República É sabido que os operários com valentia e engenho incomparáveis sem chefes sem plano comum sem meios desprovidos de armas na sua maioria mantiveram em xeque durante cinco dias o exército a Guarda Móvel a Guarda Nacional de Paris e a que veio em tropel das províncias É sabido que a burguesia vingou se com brutalidade inaudita do medo brutal por que passara exterminando mais de três mil prisioneiros MARX 2011 p 129 O movimento dialético de fusão de classe em si e para si é um processo que se materializa sob a mediação de determinadas condições econômicas políticas sociais e ideológicas submetido ao fenômeno de reificação que incide no conjunto das relações sociais o ser da classe não se define apenas por sua posição no interior desta materialidadedestino que nada mais é que a totalidade estranhada das relações do capital porém nada mais presente e cotidianamente reproduzido que tal destino O ser da classe não se resume a este momento pelo caráter contraditório que implica uma vez que a máquina capitalista simultaneamente cria e nega o operário como operário a classe como classe Por este motivo aquilo que consiste a identidade e o interesse do ser da classe trabalhadora não pode estar nos limites do presente que o cria e nega mas no futuro no projeto de negar aquilo que o nega Neste sentido a força totalizadora da fusão de classe está ao mesmo tempo no presente da negação e no futuro como projeto de negação da negação está simultaneamente na classe em si como classe do capital e na classe para si que reconhecendo o papel que ocupa nas relações do capital coloca como seu projeto a superação das relações do capital constituindose em um seremeparasi numa classe que projeta sobrepujar se a si mesma em uma sociedade sem classes IASI 2006 p 325 36 É sabido que ao produzir sua existência os homens e as mulheres tornam a existência humana em si mesma social Existência essa determinada pela realidade material A consciência assim só pode ser verdadeiramente entendida se tomada como um processo que inscreve formas de consciência que se desenvolvem dialeticamente constituídas por contradições superações e refluxos Assim os homens e mulheres fazem a sua própria história em circunstâncias dadas encontradas e transmitidas pelo passado MARX 2008 p 205 Nesse ponto de vista a consciência social é herdada das relações sociais que se fundaram a partir de valores juízos concepções de mundo e experiências em comum partilhadas num dado momento histórico Mas é mais do que isto é a expressão ideal de uma substância que corresponde à essência das próprias relações que constituem uma sociedade dada e neste sentido é uma singularidade ou seja uma singular visão do mundo própria de uma forma singular de vida IASI 2006 p 520 Nesse sentido na construção da consciência social as mulheres e os homens se apropriam e corporificam das objetivaçõessubjetivações concretas existentes em sua sociedade e as que chegaram a elaseles pelo intercâmbio com o passado Posto isso cabe dizer que as raízes das relações sociais encontramse nas condições materiais de existência que por um lado guardam as determinações das ideologias dominantes e por outro abrem espaço para a afirmação de ideais revolucionários MARX 2008 Na produção social da própria existência os homens entram em relações determinadas necessárias independentes de sua vontade essas relações de produção correspondem a um grau determinado de desenvolvimento de suas forças produtivas materiais A totalidade dessas relações de produção constitui a estrutura econômica da sociedade a base real sobre a qual se eleva uma superestrutura jurídica e política à qual correspondem formas sociais determinadas de consciência O modo de produção da vida material condiciona o processo de vida social política e intelectual Não é a consciência dos homens que determina o seu ser ao contrário é o seu ser social que determina a sua consciência MARX 2008 p 47 Ademais para Marx as relações materiais e todas as formas e produtos da consciência são transformadas pela subversão prática das relações sociais reais isto é por processos revolucionários que em certa medida têm na tomada de consciência um elemento fundamental Assim sendo a consciência não pode ser analisada apenas como algo do campo subjetivo ou como uma introjeção do mundo objetivo mas um movimento initerrupto e social de sínteses 37 das relações estabelecidas entre os indivíduos e a sociedade A consciência é pois logo desde o começo um produto social e continuará a sêlo enquanto existirem homens e mulheres MARX ENGELS 2009 p 44 De acordo com Iasi 2002 p 52 a consciência em sua forma mais simples singular seria a capacidade humana de representar a si mesma e o mundo por imagens e signos mentais e portanto em sua aparência a consciência tem sido sempre associada ao universo subjetivo Entretanto analisando mais profundamente a consciência implica na concepção marxiana e de certa forma também para Hegel uma unidade entre os aspectos subjetivos ou internos e objetivos ou externos Entretanto é sabido que no processo de autorrepresentação de si mesmo e do mundo as mulheres e os homens em suas relações serão mediados por instituições sociais que poderão ser a base sobre a qual instituem suas concepções de mundo Tais instituições como família igrejas escola movimentos sociais partidos políticos mídia e meios de comunicação agências de cultura redes sociais entre outras incidirão de formas distintas em cada indivíduo ou grupo social inclusive alargando ou diminuindo sua influência a depender dos contextos históricos ou trajetórias pessoais Portanto ainda que a consciência seja acionada de forma individual resulta de múltiplas interações entre os sujeitos e a sociedade e em certa medida tais interações são impactadas pelo modo de produção capitalista e pela reprodução das ideologias dominantes A ideologia a partir da concepção marxista e apreendida como distorção de conhecimento e inseparável do conceito de exploraçãodominação relação de dominação na qual a classe dominante expressa sua superioridade em um conjunto de ideias IASI 2010 p 81 Para Marx e Engels 2007 a ideologia está relacionada à divisão da sociedade em classes e à forma particular que a classe dominante elabora e difunde suas visões de mundo buscando tornálas universais por isso na ideologia as ideias estão sempre fora do lugar tomadas como determinantes do processo quando na verdade são determinadas por ele CHAUÍ 2006 p 15 De acordo com Konder 2002 p 10 esse processo de ocultamento e dissimulação da realidade não se reduziria a uma racionalização cínica grosseira tosca bisonha ou canhestra dos interesses de uma determinada classe ou de determinado grupo Muitas vezes ela falseia as proporções na visão do conjunto ou deforma o sentido global do movimento de uma totalidade no entanto respeita a riqueza dos fenômenos que aparecem nos pormenores KONDER 2002 p 43 38 Já na perspectiva de Lukács 2013 a ideologia é a elaboração ideal da realidade que responde às necessidades sociais dos sujeitos e nesse sentido pode servir para tornar a práxis humana consciente e capaz de agir LUKÁCS 2013 p 465 Essa acepção positiva do conceito de ideologia também é utilizada por Gramsci e Lenin que demarcam a possibilidade de constituir uma ideologia historicamente orgânica às classes revolucionárias distanciando se da alienação e confrontando as ideologias arbitrárias uma ideologia dos subalternos capaz de formular uma contrahegemonia os valores sociais as religiões as ideologias as concepções de mundo na medida em que são fenômenos de massa em que se tornam momentos ideais da ação de sujeitos coletivos são uma verdade socialmente objetiva dotados da mesma espessura ontológica de fenômenos como o estado e a maisvalia COUTINHO 2008 p 105 Ademais no processo de divisão da sociedade em classes sociais a composição da consciência por meio de ideias representações e valores de um lado representa as relações sociais a que se submetem e de outro pressupõe inversão velamento da realidade naturalização e justificação das relações de dominação Nas palavras de Iasi 2010 p 85 a consciência pode se tornar ideologia e essa ideologia para se transformar em dominação necessita da alienação como base fundamental A alienação não é o mesmo que ideologia e dela se diferencia substancialmente A alienação que se expressa na primeira forma de consciência é subjetiva profundamente enraizada como carga efetiva baseada em modelos de identificações de fundo psíquico A ideologia agirá sobre esta base e servirá de suas características fundamentais para exercer uma dominação que agindo de fora para dentro encontra nos indivíduos um suporte para estabelecerse subjetivamente IASI 2010 p 35 O mundo das ideias passa a explicar o real no sentido de elaborar um imaginário em que as ideias e concepções de mundo particulares sejam apresentadas como sendo universais De certo na ideologia as relações materiais de exploração e dominação são expostas como ideias sendo fundadas na divisão social do trabalho na sociedade de classes quando o ser social anteriormente um ser autocriativo e autoprodutivo ser da práxis e produto da criação da sua autoatividade fragmenta sua capacidade de apreensão da totalidade de seus processos de trabalho 39 A constituição de produtos obras e valores começa a aparecer de forma invertida pois a criatura passa a dominar o criador em processos complexos de estranhamento entre o trabalho material e espiritual manual e intelectual A alienação dessa maneira penetra no conjunto das relações sociais manifestandose primariamente nas relações de trabalho e produzindo a alienação dos homens e mulheres em relação à natureza a si mesmosmesmas e a sua espécie MARX 2009 MESZAROS 2014 Dessa maneira o trabalho enquanto objetivação primária e ineliminável do ser social que possibilita a constituição de novas objetivações e funda o ser social passa a ser um meio de alienação e não de autorrealização e exercício da liberdade Transformase assim em uma atividade obrigatória para a garantia da sobrevivência por intermédio da venda de sua da força de trabalho na produção de riquezas que lhes serão expropriadas Essa exteriorização do trabalhador em relação a um objeto que não lhe pertence e que parece existir independente do seu trabalho provoca nos trabalhadorestrabalhadoras a ideia de autosacrifício de mortificação a atividade do trabalhador não é sua autoatividade Ela pertence a outro é a perda de si mesmo MARX 2009 p 82 A tomada de consciência para a superação da alienação e da ideologia passa necessariamente pela ação política concreta das classes trabalhadoras na luta pelo fim da divisão social do trabalho e da propriedade privada dos meios de produção fundamentais Entretanto as objetivações humanas mediadas pela alienação e ideologia deixam de promover a humanização dos seres humanos e passam a estimular regressões do ser social a partir da constituição de uma cultura alienada Para Marx 2009 p 47 quanto mais os homens e as mulheres se enriquecem de objetivações mais complexa se torna a relação entre os homens tomados singularmente e a genericidade humana de modo que a riqueza subjetiva de cada homem resulta da riqueza de objetivações que ele pode se apropriar Do lado inverso os sujeitos individuais são socializados em processos de trabalho que empobrecem suas capacidades humanogenéricas dimensionandoos à condição de coisas De certo sem condições iguais e emancipadas para a construção da individualidade a formação da consciência terá como sustentação as distorções ideológicas acerca da apreensão da realidade Por isso a alienação será apreendida como primeira forma de consciência e caracterizada por 40 1 A vivência de relações que já estavam preestabelecidas como realidade dada 2 A percepção da parte pelo todo em que o que é vivido particularmente como uma realidade pontual tornase realidade 3 Por esse mecanismo as relações vividas perdem o seu caráter histórico e cultural para se tornarem naturais levando a percepção de que sempre foi assim e sempre será 4 A satisfação das necessidades seja da sobrevivência ou do desejo deve respeitar a forma e a ocasião que não são definidas por quem sente mas pelo outro que tem o poder de determinar o quando e como 5 Essas relações não permanecem externas mas se interiorizam como normas valores e padrões de comportamento formando com o superego um componente que o indivíduo vê como dele como autocobrança e não como uma exigência externa 6 Na luta entre a satisfação do desejo e a sobrevivência o indivíduo tende a garantir a sobrevivência reprimindo ou deslocando o desejo 7 Assim o indivíduo submetese às relações dadas e interioriza os valores como seus zelando por sua aplicação desenvolvimento e reprodução IASI 2008 p 18 Essa consciência desenvolvida em um nível imediato e individual é processual e pode ser superada de forma parcial ou total a partir das múltiplas relações que os indivíduos podem desenvolver suas experiências singulares e as distintas formas de interiorização Essa primeira forma de consciência é espaço privilegiado para a reprodução e naturalização das ideologias dominantes mas a partir de uma crise ideológica que consiste na contraposição entre as relações interiorizadas como ideologia e a forma concreta como se efetivam os indivíduos podem expressar suas revoltas e constituir passagens para novos momentos do processo de consciência A segunda forma de consciência será a consciência em si ou consciência de reivindicação que expressa as primeiras contradições entre os valores interiorizados e a realidade vivida a partir da mediação do sujeito coletivo no enfrentamento de relações imediatas Aqui se constitui um reconhecimento no outro das mesmas injustiças que até então eram vivenciadas individualmente e essa identidade na revolta pode criar condições materiais de ações concretas de enfrentamento Essas formas de consciência e de luta podem isolar os aspectos das manifestações dos demais fundamentos do modo de produção e reprodução da vida social e apesar da negação de uma parte da ideologia acabarem não alterando as relações anteriormente interiorizadas A consciência ainda reproduz o mecanismo pelo qual a satisfação do desejo cabe ao outro Agora ela manifesta o inconformismo e não a submissão reivindica a solução de um problema ou injustiça mas quem reivindica ainda 41 reivindica de alguém temos que nos submeter às formas e condições estabelecidas por outros para manifestar esse inconformismo Esses não são apenas limites de uma certa forma de consciência mas também limites dos instrumentos políticos que correspondem a essa consciência as greves e os sindicatos IASI 2007 p 31 Embora as reivindicações sejam limitadas às demandas imediatas a consciência em si permite aos indivíduos o reconhecimento de si e da ação coletiva o que em alguma medida pode possibilitar o reconhecimento para além de um grupo particular da sua existência enquanto classe e dos seus antagonistas Portanto pode acionar espaços para a tomada da consciência revolucionária da consciência para si enquanto sujeitos enquanto classe Nesse sentido uma consciência revolucionária está imbricada à capacidade dos indivíduos e das classes de apreender a causalidade da sociedade e encontrar seu movimento próprio MARX 2007 Portanto na passagem da classe em si para a classe para si é que identificamos o germe da consciência revolucionária Há o reconhecimento da exploração do trabalhador assalariado e do proletariado enquanto classe bem como da necessidade de superação das classes sociais a partir da eliminação do modo de produção capitalista e a construção de um projeto societário para a efetivação da emancipação humana compreendidas como tarefa revolucionária do sujeito coletivo e histórico caracterizado pela tradição marxista como a classe trabalhadora e centralmente o proletariado Essa consciência revolucionária não se conforma de maneira estanque ou permanente pelo contrário os homens e mulheres estão sempre passíveis a fluxos e refluxos dado o caráter processual e de constante movimento dos níveis de consciência Assim como a classe a consciência tornase Para Lukács 1979 a consciência de classe do proletariado consiste na compreensão da totalidade históricosocial já que o proletariado é ao mesmo tempo sujeito e objeto de seu próprio conhecimento A essa possibilidade objetiva de conhecimento da totalidade e autoconhecimento corresponde a consciência de classe como categoria adjudicada FREDERICO 1979 p 26 Cabe dizer que a consciência de classe não corresponde à consciência psicológica e individualizada dos trabalhadores e trabalhadoras mas à consciência das classes situadas na história determinadas pelas condições materiais e de antagonismo entre as classes e portanto uma expressão racionalizada dos interesses e lutas históricas do proletariado em constante movimento Por isso a consciência de classe também pode ser submetida à alienação seja de forma provisória ou em momentos históricos de refluxo das lutas 42 dos trabalhadores e dos direitos sociais assim como da agudização das expressões da chamada questão social Ainda dentro do espectro do marxismo mas confrontando com as perspectivas que superdimensionam as estruturas na determinação da história das sociedades a agência dos homens e mulheres reais como sujeitos da história temos a contribuição de Thompson 1980 O autor considera as determinações objetivas da realidade concreta e o papel de sujeitos ativos dos coletivos humanos as classes sociais especialmente gerando uma atualização pertinente da perspectiva marxiana da determinação da consciência pelo ser social A consciência de classe a partir do conceito de experiência é entendida enquanto a reflexão dos homens e mulheres sobre os acontecimentos de suas vidas e o seu mundo nesse sentido agencia a resposta mental e emocional seja de um indivíduo ou de um grupo social a muitos acontecimentos inter relacionados ou a muitas repetições do mesmo tipo de acontecimento THOMPSON 1981 p 15 Desta maneira os indivíduos se constituem enquanto sujeitos ativos e não autônomos que realizam ações contínuas vinculadas às relações de produção em que os homens se encontram em determinado tempo e espaço embora essas relações não determinem as ações do sujeito e a sua consciência É a partir da experiência construída na e pelas relações sociais que as identidades se formam mas não para caírem em algo essencialista mas para questionar as relações sociais que são constitutivas dessa própria experiência Com o conceito de experiência o autor indica homens e mulheres também retornam como sujeitos dentro deste termo não como sujeitos autônomos indivíduos livres mas como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas como necessidades e interesses e como antagonismos e em seguida tratam essa experiência em sua consciência e sua cultura das mais complexas maneiras e em seguida muitas vezes mas nem sempre através das estruturas de classe resultantes agem por sua vez sobre sua situação determinada THOMPSON 1980 p 182 O modo de produção capitalista se impõe de forma determinante na experiência dos sujeitos e isso é determinante no sentido de que exerce pressões sobre a consciência social existente propõe novas questões e proporciona grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais elaborados THOMPSON 1980 p 16 As transformações ocorridas no ser social resultam em uma experiência que processará uma reelaboração na consciência social seja nas esferas individuais eou coletivas vivenciada em 43 termos de classes sociais através das ideias representações sentimentos normas sociais valores arte ou convicções místicoreligiosas de modo que a experiência é conformada no movimento de mediação entre as pressões determinantes das relações de classe e os processos sociohistóricos sendo um fenômeno econômico e cultural As classes sociais são compreendidas por Thompson 1987 p 19 como formações que surgem do cruzamento da determinação e da autoatividade Portanto a constituição das classes é um processo articulado à ação humana e aos condicionamentos estruturais de um determinado modo de produção homens e mulheres em relações determinadas identificam seus interesses antagônicos e passam a lutar a pensar e valorar em termos de classes assim o processo de formação de classe é um processo de autoconfecção embora sob condições que são dadas A classe acontece quando alguns homens como resultado de suas experiências comuns herdadas ou partilhadas sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si e contra outros homens cujos interesses diferem e geralmente se opõem dos seus A experiência de classe é determinada em grande medida pelas relações de produção em que os homens nasceram ou entraram involuntariamente THOMPSON 1987 p 10 É a partir da categoria experiência que Thompson 1987 apreende as classes sociais e a consciência de classe enquanto instâncias inseparáveis e que se desenvolvem em processos inacabados no interior dos conflitos entre as classes Em sua concepção não são as relações de produção que determinam a unidade da classe mesmo que elas sejam relevantes neste processo a coesão da classe não é garantida pela contradição entre burgueses versus proletários Efetivamente não são os lugares ocupados pelos sujeitos dentro das relações de produção que garantem a constituição da classe e da consciência de classe pois é no processo dialético do fazerse da classe que os homens agenciam a consciência de que compartilham cultura e experiências comuns que os distanciam de outras classes Para Saffioti 1999 o conceito de experiência é muito relevante para a epistemologia feminista pois situa que na experiência e na agência mulheres e homens vivenciam as relações sociais de forma distinta mesmo quando são da mesma classe Ainda que reconhecendo a parcialidade de Thompson 1981 lançase mão aqui de seu conceito de experiência a experiência é um termo médio necessário entre o ser social e a consciência social é a experiência muitas vezes experiência de classe que dá cor à cultura aos valores e ao pensamento é por meio da experiência que o modo de produção exerce uma pressão determinante sobre outras atividades e é pela prática que a produção é mantida Se o olhar de Thompson tivesse sido sensibilizado pelas relações de gênero pelo menos quando analisou concretamente a formação da classe 44 operária inglesa em seu parêntese caberia a experiência de gênero já que homens e mulheres vivenciam diferencialmente inclusive quando pertencem à mesma classe social os fatos do cotidiano SAFFIOTI 1992 p 191 Retomado o leito do texto Thompson 1987 não apreende consciência no sentido de reconhecimento da condição de exploração enquanto trabalhador pelos proprietários dos meios de produção mas como reconhecimento das tradições símbolos linguagem e valores morais experienciados de forma comum que sofrem variações em cada tempo e lugar e de acordo com a posição de classe que os sujeitos ocupam Em outras palavras a consciência de classe seria a forma como as experiências de classe são tratadas em termos culturais encarnadas em tradições sistemas de valores ideias e formas institucionais THOMPSON 1987 p 10 O autor ainda alude que a consciência de classe desponta a partir das experiências semelhantes que são vivenciadas em comum e desencadeiam reações sociais em torno de interesses comuns que produzem ações coletivas quando os homens e mulheres estão adequadamente conscientes de sua posição e interesses reais Em sua concepção uma classe define a si mesma em termos históricos não porque foi feita por pessoas com relações comuns com os meios de produção e uma experiência de vida comum mas porque essas pessoas tornamse conscientes dos seus interesses comuns e desenvolvem formas apropriadas de organização e ações comuns THOMPSON 1987 p 10 Nas formulações teóricas de Thompson 1987 as classes sociais só são passíveis de análise através da observação empírica dos indivíduos e suas ações em sua existência real inserida em um processo dialético histórico e contínuo de fazerse em que a consciência de classe sofre pressões determinantes das relações de produção mas que se funda na consciência da cultura e das experiências em comum As ações constituídas pelos sujeitos singulares e coletivos enquanto sujeitos históricos se desenrolam no fazerse cotidiano das classes Na contramão da concepção de Thompson acerca da consciência de classe situamos a obra de Lênin que pontua a formação da consciência de classe dos operários como pressuposto para a materialização do projeto de revolução socialista Em sua concepção a consciência de classe pressupõe o reconhecimento da condição de trabalhador explorado dos interesses em comum entre os trabalhadores das classes antagônicas e a ação política organizada sobre o Estado Para Lenin o estado se constitui a partir de seus aparelhos coercitivos e repressivos 45 que deve ser derrubado pelos proletários por meio de uma revolução violenta Nessa égide os proletários precisam ser convencidos da necessidade de assumir todo o poder institucional estatal e se desvencilhar da influência dos democratas burgueses sobre os proletários COUTINHO 2008 p 32 e para isso a consciência de classe é um elemento fundante A consciência de classe dos operários é a compreensão de que o único meio de melhorar a sua situação e de conseguir a sua emancipação consiste na luta contra a classe dos capitalistas e industriais que foram criados pelas grandes fábricas Além disso a consciência de classe dos operários implica na compreensão de que os interesses de todos os operários de um país são idênticos solidários que todos eles formam uma classe diferente de todas as demais classes da sociedade Por último a consciência de classe dos operários significa que eles compreendam que para atingir seus objetivos necessitam conquistar influência nos assuntos políticos como a conquistaram e continuam tratando de conquistar os latifundiários e os capitalistas LENIN 1987 p 41 Segundo Lenin 2007 o processo de constituição da consciência de classe não emergia do imediatismo das lutas que os trabalhadores encampavam nas fábricas com os patrões mas das lutas mais amplas com vistas à tomada do poder do Estado pelo proletariado que daria condições para as massas serem conduzidas à consciência de amanhã uma mediação entre luta econômica e luta política de maneira que a formação da consciência de classe seria mediada por uma força externa na condução das massas corporificada pelo partido revolucionário com o papel de promover campanhas de denúncias políticas educação para a atividade revolucionária e agitação políticoideológica das massas LENIN 2010 p 135 O autor alude que essas denúncias políticas que abarcam todos os aspectos da vida são uma condição indispensável e fundamental para educar a atividade revolucionária das massas LENIN 2010 p 136 e transformar o partido na vanguarda das forças revolucionárias Isto é no sujeito político da revolução que constrói a organização política através da mediação entre luta cotidiana e política Aqui pontuo o debate entre Lenin e Clara Zetkin 1979 sobre como a participação política das mulheres no movimento feminino seria parte constitutiva e decisiva para o movimento das massas no sentido da constituição do partido enquanto sujeito político da revolução Para Lenin o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres era crucial para a formação da consciência de classe das mulheres e sua entrada nas fileiras da luta contra o capitalismo na materialização da emancipação humana De acordo com Zetkin 1979 p 124 Escusado será dizer que ele Lenin considerava a plena igualdade social da mulher como 46 princípio incontestável do comunismo sendo que tal liberdade da mulher era entendida pelos dois a partir de sua inserção na esfera do trabalho produtivo Fazer a mulher participar do trabalho produtivo social libertandoa da escravidão doméstica libertandoa do jugo bruto e humilhante eterno e exclusivo da cozinha e do quarto dos filhos eis a tarefa principal Esta luta será longa Exige uma transformação radical da técnica e dos costumes Mas levará finalmente à vitória completa do comunismo ZETKIN 1979 p 105 Nessa égide compreendese que o reconhecimento da igualdade e da liberdade das mulheres é crucial para a existência do comunismo e da melhoria das condições de vida das mulheres inclusive no interior da democracia capitalista bem como que o capitalismo é um limite à emancipação das mulheres As mulheres operárias estão totalmente convencidas de que a questão da emancipação das mulheres não é uma questão isolada Sabem claramente que esta questão na sociedade atual não pode ser resolvida sem uma transformação básica da sociedade A emancipação das mulheres assim como de toda a humanidade só ocorrerá no marco da emancipação do trabalho do capital Só em uma sociedade socialista as mulheres assim como os trabalhadores alcançarão os seus plenos direitos ZETKIN 1979 apud FORNER 1984 pp 6450 Também analisase a necessidade do movimento feminino se articular dentro do partido operário no sentido de negar questões que sejam secundárias à luta contra o capitalismo Zetkin 1979 apreende a libertação da mulher como uma das fases da conquista do poder político pelo proletariado Por essa razão homens e mulheres devem combater juntos o inimigo comum o capitalismo ALEMBERT 1986 p 48 Para Alambert 1986 a Segunda Internacional avançou quando dimensionou como objetivo a questão da igualdade entre os sexos e a necessidade de defesa da condição de vida e trabalho da operária todavia tal preocupação não foi seguida de ações concretas a exemplo da luta pelo sufrágio universal que em muitos espaços foi reivindicado apenas para os homens assim como a secundarização das pautas das mulheres recorrentemente entendidas como alcançáveis quando a luta central foi efetivada a saber o fim do capitalismo e a emergência de uma sociedade comunista Na concepção de Clara e Lenin o movimento feminino comunista é uma atividade organizada de massas sob a direção dos comunistas ZETKIN 1979 p 127 É preciso frisar as condições sociohistóricas em que as conversas entre Zetkin e Lenin foram travadas no início da revolução bolchevique emersão da II Internacional Comunista 47 disputas ideológicas acirradas no interior do Partido Comunista e consolidação do Estado operário Nesse contexto as mulheres passaram a ser reconhecidas como revolucionárias ao passo que Zetkin pautava a necessidade de pensálas para além de operárias da revolução Em sua concepção as mulheres tinham que ser pensadas e mobilizadas também a partir do debate do privado da vida doméstica do pessoal dentro do político de forma que o grande debate de Zetkin com Lenin dentro da construção e consolidação de um partido revolucionário era tensionar a forma de reprodução da vida doméstica do casamento da violência da sexualidade debate que ela fazia nas portas das fábricas e nos sovietes sendo duramente criticado por Lenin que identificava um problema para a luta de classes já que podia fazer com que as mulheres secundarizassem sua participação nos movimentos da revolução para se debruçarem em temas supostamente ligados à moral burguesa Em contraposição Zetkin sustentava que era imprescindível para o fortalecimento da revolução o reconhecimento da liderança e força política das mulheres no interior da revolução sua força econômica na construção do Estado e o tensionamento sobre a reprodução social e o privado para não reproduzir na experiência socialista as violências e interdições às mulheres Enfatizava portanto a impossibilidade de ruptura com a burguesia sem mudar a perspectiva de família sem acabar a violência contra as mulheres e a desigualdade nas condições de trabalho sendo um marco para o feminismo no interior do marxismo A grande questão era a pauta que as mulheres traziam para o movimento operário revolucionário que precisava ser observado na construção do partido para a sociedade se constituir de forma igualitária e com novos paradigmas na política de esquerda Retomando o leito do texto para Lenin o partido como sujeito político realiza movimentos dialéticos de se contrapor à espontaneidade das massas ao mesmo tempo em que considera tal elemento como parte constitutiva da consciência de classe que se efetiva no enfrentamento ao poder estatal burguês a partir de um trabalho sistemático de ação políticoeducativa É preciso demarcar que a força externa que conduz o proletário à condição de sujeito da revolução não se trata dos intelectuais de partido mas está fora da relação imediata entre operário e patrão a consciência política de classe não pode ser levada ao operário senão do exterior isto é de fora da luta econômica de fora da esfera das relações entre operários e patrões A única esfera de onde se poderá extrair esses conhecimentos é a das relações de todas as classes e camadas com o Estado e o governo na esfera das relações de todas as classes entre si LENIN 2010 p 145 48 Para Coutinho 2008 a condução do sujeito para a consciência do amanhã dáse via partido enquanto direção de massa para a quebra do poder estatal a partir da aceitação pelas massas operárias e camponesas graças à ação educadora do partido de vanguarda da necessidade de superar a dualidade de poderes por meio de uma revolução violenta COUTINHO 2008 p 33 A noção de vanguarda sintetizada por Lenin apregoa que para chegar a ser aos olhos do público uma força política fazse necessário trabalhar muito e com obstinação para elevar o nosso nível de consciência o nosso espírito de iniciativa e a nossa energia para tanto não basta colar o rótulo de vanguarda numa teoria e numa prática de retaguarda Essa ampla e abrangente agitação política será realizada por um partido que articula num todo indissolúvel a ofensiva em nome de todo o povo contra o governo a educação revolucionária do proletariado salvaguardando ao mesmo tempo a sua independência política a direção da luta econômica da classe operária e a utilização dos seus conflitos espontâneos com os seus exploradores conflitos que fazem levantar novas camadas do proletariado atraindoas incessantemente para o nosso campo LENIN 2010 p 157 Cabe dizer que a concepção de Lenin acerca do partido como vanguarda da luta revolucionária agrega a ideia de que a classe operária se constitui enquanto protagonista das lutas de classes mas que a consciência de classe só se forma a partir da ação do partido na formação de quadros políticos para a educação das massas e na participação de tais quadros nas lutas objetivas do proletariado transformandose em dirigentes revolucionários já que os trabalhadores não reúnem em si espontaneamente as condições para superar a consciência de classe determinada pelas relações capitalistas embora defenda que a emancipação dos trabalhadores só pode ser obra dos próprios trabalhadores LENIN 2010 p 98 Posto isto algumas questões se tornam importantes para o autor a questão da organização estratégia e programa do partido assim como a formulação de uma teoria de vanguarda só um partido orientado por uma teoria de vanguarda pode desempenhar o papel de combatente de vanguarda LENIN 2010 p 82 no sentido de ter condições concretas de fazer de seu projeto político o horizonte do conjunto dos trabalhadores Aqui a concepção de partido não é mas vem a ser no próprio processo revolucionário para o qual deve estar preparado para dirigir LUKÁCS 2012 p 52 e para isso deve ter em sua composição revolucionários profissionais que possam mediar as múltiplas particularidades das classes operárias 49 não pode haver movimento revolucionário sólido sem uma organização estável de dirigentes que assegure a continuidade que quanto mais extensa for a massa espontaneamente integrada à luta massa que constitui a base do movimento e nele participa mais presente será a necessidade de tal organização e mais sólida ela deverá ser LENIN 2010 p 195 A formação do sujeito está portanto articulada a uma organização estável de revolucionários profissionais capazes de unificar o partido na condução e ampliação das massas militantes Tais postulações de Lenin foram contestadas por Rosa Luxemburgo que dimensionava a vanguarda partidária como portadora de um papel secundário frente às massas Para a autora o partido é um elemento importante que se conforma no interior da luta de classes mas a luta de classes independe da existência do partido que através de sua direção política na organização esclarecimento e luta pode possibilitar a tomada do poder político estatal e a superação do modo de produção capitalista Portanto o partido é parte do processo histórico social tanto quanto as classes sociais e se transmuta com ele concretizandose enquanto partidoprocesso capaz de universalizar a luta da classe operária nas esferas econômica política e teórica LUXEMBURGO 1991 Nesse caso a social democracia precisa articular as lutas cotidianas dosdas trabalhadorestrabalhadoras com a perspectiva socialista identificando o alargamento da democracia como parte constitutiva da luta socialista Dividese a luta prática propriamente dita em três partes principais luta sindical luta pelas reformas e luta pela democratização do Estado capitalista São essas três formas de nossa luta de fato socialismo Absolutamente não O que é então que faz de nós em nossa luta cotidiana um partido socialista Só e unicamente a relação entre essas três formas de luta prática e o nosso objetivo final Somente a finalidade dá à nossa luta socialista espírito e conteúdo e faz dela uma luta de classe E não devemos compreender por finalidade como o disse Heine tal ou qual representação da sociedade futura e sim o que deve preceder a qualquer sociedade futura isto é a conquista do poder político LUXEMBURGO 1974 p 97 Nesse sentido o partido como vanguarda tem um papel relevante de organização direção e agitação em situações que colocam em questão a tomada do poder político pela ação da massa dosdas trabalhadorestrabalhadoras Para a autora quando o partido tem táticas sistemáticas e coerentes de agitação das massas produz um sentimento de segurança de confiança em si mesmos e desejo de lutar uma tática vacilante fraca baseada na subestimação do proletariado paralisa e confunde as massas LUXEMBURGO 1991 p 294 O sujeito da tomada de poder político é a socialdemocracia enquanto partido classista do proletariado 50 2003 p 36 que se compõe a partir da unidade de setores bastantes heterogêneos proletariado urbano e rural pequena burguesia e pequenos proprietários de terra Este tem na formação política operária seu portavoz na superação da barbárie capitalista Portanto a social democracia tem a missão de tornar possível não o direito dos povos à autodeterminação mas o direito da classe operária da classe explorada e perseguida o proletariado à autodeterminação LUXEMBURGO 2003 p 44 A partir da autodeterminação da experiência da luta operária Rosa analisa a relação entre o espontaneísmo e a ação das vanguardas partidárias no interior das lutas de classes em que se constituem respostas heterogêneas e não organizadas às demandas concretas dos trabalhadores e à própria luta sendo estas respostas inerentes ao desenvolvimento do ser social e da sua luta Como bem pontua a autora a consciência de classe se funda na ação direta das massas contra a ordem estabelecida na espontaneidade na ação criadora e livre do proletariado A concepção rígida e mecânica da burocracia só admite a luta como resultado da organização que atinja um certo grau de força Pelo contrário a revolução dialética viva faz nascer a organização como produto da luta Vimos já um exemplo magnífico deste fenômeno na Rússia onde um proletariado quase desorganizado começou a criar uma vasta rede de organizações depois de um ano e meio de lutas revolucionárias tumultuosas LUXEMBURGO 1974 p 76 Muitos críticos de Rosa identificam dois elementos contraditórios em sua obra a supervalorização da ação espontânea das massas operárias e a subestimação do papel das vanguardas partidárias Na concepção de Lukács 2003 Luxemburgo constituiu sua obra em uma sólida concepção de totalidade que articulou teoria política e práxis revolucionária todavia critica a compreensão da autora sobre o espontaneísmo das massas na luta de classes já que para ele o partido tem um papel determinante frente às classes e à formação da consciência de classe a partir de uma vanguarda proletária O ponto de vista da totalidade não determina todavia somente o objeto determina também o sujeito do conhecimento A ciência burguesa de maneira consciente ou inconsciente ingênua ou sublimada considera os fenômenos sociais sempre do ponto de vista do indivíduo E o ponto de vista do indivíduo não pode levar a nenhuma totalidade quando muito pode levar a aspectos de um domínio parcial mas na maioria das vezes somente a algo fragmentário a fatos desconexos ou a leis parciais abstratas A totalidade só pode ser determinada se o sujeito que a determina é ele mesmo uma totalidade 51 e se o sujeito deseja compreender a si mesmo ele tem de pensar o objeto como totalidade Somente as classes representam esse ponto de vista da totalidade como sujeito na sociedade moderna LUKÁCS 2003 p 107 Assim para Lukács o partido comunista é o grande responsável pela direção do processo revolucionário possibilitando que o proletariado acesse a verdadeira consciência de classe entendida enquanto totalidade dialética do processo histórico pois o caráter processual e dialético da consciência de classe transformase na teoria do partido em dialética conscientemente manipulada LUKÁCS 2003c pp 575576 ou ainda O Partido Comunista é uma forma autônoma da consciência de classe do proletariado que serve ao interesse da revolução LUKÁCS 2003c p 579 Aqui aponto a contribuição gramsciana para a análise da constituição do sujeito coletivo que precisa expressar uma vontade coletiva nacional popular capaz de concretizar uma reforma intelectual e moral articulada a um programa de reforma econômica em que a ação dos sujeitos materializada em uma vontade coletiva seja decisiva na gestação das estruturas e objetividades sociais Para ele a vida social não pode ocorrer independentemente da vontade e da consciência humanas a vida social é produto da ação dos sujeitos e nessa medida tanto a consciência quanto a vontade dos homens são fatores decisivos ainda que não absolutos na construção da objetividade social COUTINHO 2008 p 105 Nesse sentido a consciência social é um elemento importante na construção da vida social efetivada a partir da passagem do momento econômico ao éticopolítico compreendido pelo autor como momento catártico em que os homens e as mulheres afirmam sua liberdade frente às estruturas sociais ao mesmo tempo em que utilizam o conhecimento dessas estruturas como fundamento para uma práxis autônoma para a criação de novas estruturas ou para gerar novas iniciativas COUTINHO 2008 p 106 A concepção de homem em Gramsci 2017 é a de bloco histórico composto de elementos subjetivos e individuais e de elementos de massa e objetivos ou materiais com os quais os indivíduos estão em relação ativa Destarte o indivíduo aparece como produto do conjunto das relações com os demais e com a natureza com os quais interage de forma ativa e orgânica aqui a individualidade constitui o que poderia se chamar de singular coletivo capaz de conhecer saber e querer 52 Para ele a transformação do mundo exterior e das relações sociais de produção implicam necessariamente no fortalecimento do próprio homem a partir da mediação de um dirigente que possa contribuir para a transformação da realidade e construção de novos tipos de institucionalidades Esse dirigente é um sujeito coletivo o partido político que não se reduz ao parlamento mas que deve realizar uma mediação políticouniversal que os sindicatos e organizações sociais não conseguem alcançar Tal reflexão está contida nos Cadernos do Cárcere volume 3 nas Breves notas sobre a política de Maquiavel em que o autor aponta o alargamento da política e do protagonismo das classes e suas instituições representativas tomando como referência as formações capitalistas ocidentais que desde meados do século XIX vêm experimentando este fenômeno bastante significativo a ponto de imprimir novas exigências às práticas políticas na perspectiva de construção do socialismo a emergência das grandes massas na cena política como os partidos os sindicatos as associações e organismos de capitalistas e de trabalhadores como instrumentos de luta por seus interesses em sua maioria antagônicos Assumindo como referência O Príncipe de Maquiavel Gramsci 2017 apontava o papel fundamental de um condottiero enquanto símbolo de líder capaz de libertar a Itália dos bárbaros e conduzir seu povo para a fundação de um novo Estado dito de outra forma o príncipe seria uma expressão concreta da vontade coletiva A questão da vontade aparece como resposta ao positivismo e naturalismo em um artigo conhecido A revolução contra O capital 1917 a história diz ele diz respeito não aos fatos econômicos brutos e sim aos homens que ao desenvolver uma vontade social coletiva compreendem os fatos econômicos e os julgam e os adequam à sua vontade até que essa vontade se torne o motor da economia a plasmadora da realidade objetiva a qual vive e se move e adquire o caráter de matéria telúrica em ebulição que pode ser dirigida para onde a vontade quiser do modo como a vontade quiser GRAMSCI 2017 p 127 Para Gramsci 2017 o príncipe se constituiria enquanto uma exemplificação do mito e autorreflexão do povo na formação de uma determinada vontade coletiva para um determinado fim político A possibilidade de transformar um pensamento sobre a política em ação política decorria da capacidade de constituir uma ideologiamito 53 uma ideologia política que se apresenta não como fria utopia nem como raciocínio doutrinário mas como uma criação da fantasia concreta que atua sobre um povo disperso e pulverizado para despertar e organizar sua vontade coletiva GRAMSCI 2017 p 14 Dessa forma na compreensão de Gramsci o príncipe para Maquiavel aparece como como uma abstração doutrinária A pergunta de Gramsci a partir da leitura do manifesto político maquiavélico foi Nas sociedades capitalistas avançadas qual deveria ser o caráter do príncipe Responder a esta pergunta significa para Gramsci recuperar para seu presente as preocupações de Maquiavel e adaptálas a outra realidade O Príncipe moderno já não pode ser um indivíduo carismático uma pessoa concreta mas um organismo um elemento complexo de sociedade no qual já se tenha início a concretização de uma vontade coletiva reconhecida e afirmada parcialmente na ação GRAMSCI 2017 p 16 Este organismo é o partido político a primeira célula na qual se sintetizam germes de vontade coletiva que tendem a se tornar universais e totais GRAMSCI 2017 p 16 Posto isto o partido político será o dirigente e organizador de uma vontade coletiva Isso implica dimensionálo como um organismo coletivo marcado pela presença das massas e que materializa uma ação política no sentido de superação dos interesses econômicocorporativos e que tenda a uma perspectiva universal O partido político como portador da autorreflexão do povo e conservando seu caráter jacobino ou revolucionário tem duas tarefas fundamentais a formação de uma vontade coletiva e uma reforma intelectual e moral em que seja gestada uma nova concepção de mundo O príncipe toma o lugar nas consciências da divindade ou do imperativo categórico tornase a base de um laicismo moderno e de uma completa laicização de toda a vida e de todas as relações de costumes GRAMSCI 2017 p 19 O príncipe moderno tornase dessa maneira o anunciador e o organizador de uma reforma intelectual e moral o que significa de resto criar o terreno para um novo desenvolvimento da vontade coletiva nacionalpopular no sentido da realização de uma forma superior e total de civilização moderna GRAMSCI 2017 p 18 Também fica estabelecida indissociável relação entre estrutura e superestrutura entre reforma econômica e reforma intelectual e moral quando se questiona que pode haver reforma cultural ou seja elevação civil das camadas mais baixas da sociedade sem uma anterior reforma econômica e uma modificação na posição social e no mundo econômico É por isso que uma reforma intelectual e moral não pode deixar de estar ligada a um programa de reforma econômica mais precisamente o programa de reforma econômica é 54 exatamente o modo concreto através do qual se apresenta toda a reforma intelectual e moral GRAMSCI 2017 p 19 Na execução de suas tarefas fundamentais o príncipe moderno representado na figura do partido precisa analisar as determinações e possibilidades concretas para o desenvolvimento da vontade coletiva nacionalpopular bem como as tentativas históricas de sua construção com ênfase para a formação econômica e social determinada e na articulação entre grupos sociais urbanos e massas camponesas Por isso indagase sobre quando é possível dizer que existem as condições para que se possa criar e se desenvolver uma vontade coletiva nacionalpopular GRAMSCI 2017 p 17 O processo de constituição da vontade em vontade coletiva tem um componente jacobino no sentido de materializar uma ação do sujeito coletivo que identificando as necessidades concretas de uma classe determinada pelo tempo e formação social projeta rupturas com os espontaneísmos através de uma direção política de uma classe que pretende ser hegemônica Assim a vontade coletiva é um constructo que também pressupõe um certo ajustamento das vontades individuais A afirmação da vontade coletiva como necessidade histórica é elevada à consciência e é convertida em práxis Na construção da hegemonia das classes subalternas o partido político cumpre o papel de intelectual coletivo na medida em que promove o exercício político das massas populares em sua estrutura democratizando o poder e na forma como consegue quando isto ocorre tornarse a expressão de uma vontade coletiva e atuar sobre o conjunto da sociedade O homem coletivo corporificado no partido político tem como objetivo fundar um novo tipo de Estado e novos tipos de humanidade mesmo que se constitua enquanto expressão de um determinado grupo social dirigente pode representar interesses de diversos grupos sociais a partir da obtenção políticoideológica do consenso enquanto expressão de um novo bloco histórico pluriclassista GRAMSCI 2017 p 58 Assim embora todo partido seja a expressão de um grupo social e de um só grupo social ocorre que em determinadas condições determinados partidos representam um só grupo social na medida em que exercem uma função de equilíbrio e de arbitragem entre os interesses de seu próprio grupo e os outros grupos fazendo com que o desenvolvimento do grupo representativo ocorra com o consenso e com a ajuda dos grupos aliados se não mesmo dos grupos decididamente adversários GRAMSCI 2017 p 59 Aqui Gramsci situa a importância da grande política na reorganização radical do estado examinando as questões referentes à autoridade ditadura do proletariado e hegemonia Em sua 55 concepção a hegemonia relacionada ao conceito de bloco histórico se apresenta como espaço de disputa entre as forças sociais podendo fomentar o desenvolvimento políticopedagógico do sujeito Nesse conceito o coletivo é um sujeito permanente qualificado a autoeducar as massas que politicamente elevam esse sujeito coletivo no sentido de classe para si articulada organicamente a um projeto societário O lugar da consciência na hegemonia é determinante A tomada da consciência concreta precede as vivências de cada sujeito e essa hegemonia que é orgânica operacionaliza o encontro da consciência e da práxis que de acordo com Sader 2005 p 21 tal movimento se dá por meio de experiências sucessivas quando toma consciência pelos fatos de que nada do que é é natural Nessa égide o partido transmutase em educador político das massas no sentido de elaborar e divulgar as concepções de mundo atreladas a seu projeto societário atuando portanto como os elaboradores das novas intelectualidades integrais e totalitárias isto é o crisol da unificação de teoria e prática entendida como processo histórico real GRAMSCI 2017 p 105 Essa pedagogia que permite que as multidões saiam da passividade se efetiva por meio de uma adesão individual e não ao modo laborista já que se se trata de dirigir organicamente toda a massa economicamente ativa GRAMSCI 2017 p 105 com a sua adesão orgânica à vida mais íntima econômicoprodutiva da própria massa o processo de estandardização dos sentimentos populares que era mecânico e casual isto é produzido pela existência ambiente de condições e pressões similares tornase consciente e crítico GRAMSCI 2017 p 145 Estabelecese assim uma articulação entre massa partido e direção formando assim uma estreita ligação entre grande massa partido e grupo dirigente e todo o conjunto bem articulado pode se movimentar como um homem coletivo GRAMSCI 1999 p 145 Cabe dizer que os intelectuais2 assumem função essencial no fomento de uma nova vontade coletiva 2 Gramsci identifica que existem várias categorias de intelectuais destacandose duas formas importantes os intelectuais orgânicos e os intelectuais tradicionais Os primeiros seriam aqueles vinculados às classes fundamentais no campo da produção econômica pois para Gramsci 2000b p 15 Todo grupo social nascendo no terreno originário da produção econômica cria para si ao mesmo tempo organicamente uma ou mais camadas de intelectuais que lhe dão homogeneidade e consciência da própria função não apenas no campo econômico mas também no social e no político Podese observar que os intelectuais orgânicos que cada classe cria consigo e elabora em seu desenvolvimento progressivo são na maioria dos casos especializações de aspectos parciais da atividade primitiva do tipo social novo que a nova classe deu à luz Feita tal distinção Gramsci 2017 p 18 afirma que de algum modo todos os homens são intelectuais mas nem todos desempenham a função de intelectual Para ele seria possível dizer que todos os homens são intelectuais mas nem todos os homens têm na sociedade a função de intelectuais assim o fato de que alguém possa em determinado momento fritar dois 56 enquanto elaboradores de novas concepções de mundo e organizadores da cultura Sendo o partido considerado como um dirigente coletivo no campo da política ele deve ser também um educador coletivo que tem de pensar a sociedade em todas as suas determinações Ademais a capacidade de uma classe se constituir enquanto hegemônica é indicada por sua disposição de formar seus próprios intelectuais orgânicos tornando possível a assimilação e conquista ideológica dos intelectuais tradicionais Quando o partido político passa a ser compreendido pela sociedade inteira ele se converte no mecanismo que realiza na sociedade civil a mesma função desempenhada pelo Estado de modo mais vasto e mais sintético na sociedade política GRAMSCI 20017 p 24 Assim tal partido favorece a estreita articulação entre intelectuais orgânicos e intelectuais tradicionais Isso é possível por meio do desempenho de sua função fundamental que é a de produzir seus próprios intelectuais organicamente vinculados aos grupos economicamente determinados que são nos termos de Gramsci 2017 p 24 os próprios componentes elementos de um grupo social nascido e desenvolvido como econômico até transformálos em intelectuais políticos qualificados dirigentes organizadores de todas as atividades e funções inerentes ao desenvolvimento da sociedade integral civil e política GRAMSCI 2017 p 24 Nesse sentido é possível depreender que aqueles integrantes de um partido político em diferentes níveis podem ser considerados intelectuais na medida em que o mais importante é a função política que desempenham que é diretiva e organizativa isto é educativa isto é intelectual tornandose agentes de atividades gerais de caráter nacional e internacional GRAMSCI 2017 p 25 e ainda conseguem superar a atividade econômicocorporativa percebida como limite da prática sindical ou de outra organização de caráter corporativo A ideia de um novo intelectual concebida por Gramsci distanciase da concepção de intelectual baseada na sua capacidade de eloquência nas palavras e paixões ou de uma oratória desprovida de prática política Muito mais do que um especialista o novo intelectual deve ter ovos ou costurar um rasgão no paletó não significa que todos sejam cozinheiros ou alfaiates Formamse assim historicamente categorias especializadas para o exercício da função intelectual formamse em conexão com todos os grupos sociais mais importantes e sofrem elaborações mais amplas e complexas em ligação com o grupo social dominante 57 uma inserção ativa na vida prática como construtor organizador persuasor permanente GRAMSCI 2017 p 53 ou seja tornarse dirigente conjugando especialização e política E do processo de formação educação ainda nos cabe perguntar Por que o investimento na formação do sujeito tem pauta nas formulações de Gramsci No período de sua atuação revolucionária Gramsci vê a emergência do fascismo na Itália e sua reverberação entre as massas o qual define como uma dominação da burguesia industrial condicionada por grupos intermediários armados A hegemonia seria a tentativa de espaços de autogovernança versus o autoritarismo Esse último afastava as massas e a classe operária de qualquer possibilidade de exercício ou tomada de vanguarda nos espaços de poder Nas palavras de Gramsci temos todo o alcance da hegemonia na formação do sujeito 1 A capacidade de autogoverno das massas sua capacidade de definir para si novos dirigentes 2 Sua capacidade de manter a produção e mesmo superar o nível alcançado anteriormente 3 Enfim sua capacidade ilimitada de iniciativa e de criação em todas as frentes tanto a da autodefesa quanto a das representações teatrais organizadas pelos operários nas fábricas ocupadas GRAMSCI 2017 p 213 Na tradição marxista a noção de sujeito coletivo está articulada à classe social como seu fundamento Todavia mesmo entendendo a importância das análises em torno da classe produção e reprodução do modo de produção capitalista parte do pensamento crítico feminista elucidou que a classe enquanto categoria de análise do sujeito centrase em um essencialismo do sujeito universalizandoo no interior de cada classe Esse pensamento totalizante e universal é também masculino e não faz distinção entre mulheres e homens assim como não apresenta na vivência desse sujeito coletivo as desigualdades existentes na sociedade no modo de inserção na divisão sexual racializada do trabalho Um sujeito universal e único não é encontrado nem mesmo em laboratório BANDEIRA 2008 p 213 A posição aqui assumida é a de que as classes sociais embora fundamentais para a explicação sociológica não são suficientes para a análise das relações sociais de sexo e das relações de raça Assim como não resolvese o problema com o universalismo o essencialismo e o binarismo apenas postulando que homens e mulheres compõem as classes sociais 58 211 A constituição do sujeito coletivo feminista nós falamos por nós Como já pontuamos no subitem anterior é necessário articular o conceito de sujeito coletivo ao de classe social amplamente analisado no interior da teoria marxista assim como reflexionar sobre o papel da ação humana na história e o protagonismo da classe operária na superação da sociedade de classes mas também é preciso reconhecer que tal noção de sujeito apresenta uma percepção de mundo totalizante universal e masculina Para Marx 2011 os homens fazem sua própria história mas não fazem segundo sua livre vontade mas nas circunstâncias imediatamente encontradas dadas e transmitidas Também é sabido que os homens e as mulheres fazem sua própria história enquanto sujeitos coletivos de forma que são produtos de sua própria atividade e história coletiva O movimento dialético de passagem da classe em si à classe para si pressupõe o enfrentamento da alienação e a apreensão por parte do proletariado das determinações concretas do real momento decisivo na sua constituição como sujeito coletivo revolucionário Tal conceito está relacionado às condições do modo de produção capitalista na época de Marx bem como à concepção moderna que compreende o sujeito como sendo definido a partir de sua racionalidade A questão colocada pelos feminismos desde o século XIX perpassa pela crítica a razão objetiva moderna que articula o papel de sujeito coletivo à classe social e elabora uma ideia de sujeito universal da história de forma que tal crítica indica a necessidade de uma reflexão sobre a história das mulheres e a definição de um sujeito coletivo feminista Parto da concepção elaborada por Beauvoir 2009 de sujeito em situação que define sua identidade a partir do agir e do fazer considerando os determinantes sociais e ação do sujeito em situações específicas extrapolando a ideia de essência contida no pensamento de Sartre Nesse caso a existência humana se explicita em relação não em contraposição desta forma biologia ideologia política vida privada corpo mente Outro Um homem mulher transcendência imanência não são esferas antagônicas mas dialéticorelacionais Para a autora a situação singular dos sujeitos é determinada por forças institucionais exteriores a eles mas que operam de formas distintas considerando que as situações humanas não são equivalentes Mulheres e homens proletários e burgueses brancos e negros elaboram sua subjetividade nas relações sociais e essas relações não possibilitam condições igualitárias de ação individual e coletiva Portanto na compreensão de Beauvoir as relações sociais são 59 capazes de suprimir a liberdade que na concepção existencialista existe em potência em todo ser humano Nas mais distintas situações a nossa liberdade se revela não há liberdade a não ser em situação e não há situação a não ser pela liberdade SARTRE 2005 p602 Tal percepção pode ser explicitada na autobiografia A Força das Coisas 2010b em que Beauvoir dimensiona o conceito de situação distinto do de Sartre Nos dias seguintes discutimos certos problemas particulares e sobretudo a relação da situação com a liberdade Eu sustentava que do ponto de vista da liberdade tal qual Sartre a definia não resignação estoica e sim superação ativa do dado as situações não são equivalentes qual a superação possível para uma mulher encerrada em um harém Mesmo essa claustração há diferentes maneiras de vivêla diziame Sartre Obstineime durante muito tempo e só cedi superficialmente No fundo eu tinha razão Mas para defender minha posição fora preciso abandonar o terreno da moral individualista logo idealista em que nos colocávamos BEAUVOIR 2010b p 425 A concepção de liberdade em Beauvoir era situada no sentido em que as possibilidades concretas que se abrem às pessoas são desiguais BEAUVOIR 2005 p 37 mas seria possível atingir a transcendência Portanto pode ser absoluta e se efetiva em duas dimensões a assunção da liberdade e a demissão da condição de ser livre A existência humana se funda enquanto produto do movimento dialético entre duas escolhas que o ser pode realizar constituirse um sujeito livre ou demitirse dessa liberdade Para Beauvoir 2005 o ser é quando é livre para ser Entretanto quando escolhe não ser demitese de sua liberdade mas continua existindo sendo alguma coisa mas negandose enquanto soberano de sua existência Esses movimentos ontológicos definem o projeto do sujeito realizarse como transcendência em si superando o estado de imanência em que a passividade ontológica define o não exercício da liberdade de constituirse Ademais a imanência é compreendida pela autora tanto como um produto das múltiplas opressões vivenciadas pelo sujeito situado quanto uma escolha corporificada na ação do ser em demitirse de sua condição de sujeito O agir e o fazer do sujeito está articulado ao modo como efetiva sua liberdade existencial que por se tratar de um movimento ontológico é constituído de momentos de intencionalidade De outra parte a transcendência associase ao movimento subjetivo de superação do dado do mundo e lançamento de si ao novo enquanto que a imanência é atribuída à ausência do movimento a não realização do lançamento do ser em direção ao não constituído ainda Por isso o ser quer superarse para não se perceber coincidindo consigo mesmo no instante 60 além do instante atual O fato de ser livre dá ao sujeito a única possibilidade de superação do mesmo De acordo com Beauvoir 2005 p 35 O que constitui o meu ser é primeiramente o que faço Mas desde que já o fiz eis que o objeto se separa de mim me escapa Nesse sentido estar livre conduz o sujeito a um projeto novo por vislumbrar nele uma possibilidade de felicidade que tem o significado de realização ontológica Para Sartre somos assim um eterno projeto Não podemos compreender capturar nossas decisões senão a partir dos nossos desejos Em suma ninguém é determinado todos somos livres em nossas decisões em situação Nossos juízos e nossas ações devem ser postos em relação com nossa representação no mundo Nós vamos além nós transcendemos sempre aquilo que somos diante daquilo que queremos ser Somos sujeitos livres no presente e nos definimos pelos nossos atos ALLOUCHE 2019 p45 A ação humana é impulsionada pelo desejo do ser em desvelarse em lançarse ao mundo e revelarse na possibilidade de ser que o mundo dado oferece Este desvelamento do ser que acaba por definilo enquanto existente é portanto um movimento que propicia as escolhas ontológicas uma vez que tal movimento mostra as possibilidades de realização Entretanto ao lado do fato de esta liberdade ser uma realidade um dado existencial do humano ela também precisa ser confirmada o que significa que o sujeito só se mantém livre pelo movimento próprio em confirmarse livre A confirmação da liberdade é o movimento ontológico que o sujeito empreende e é constituído por dois momentos o de desvelarse e o de desvelar o dado do mundo que contém uma intencionalidade ontológica minha liberdade não deve buscar captar o ser mas desvelálo o desvelamento é a passagem do ser à existência a meta visada por minha liberdade é conquistar a existência através da espessura sempre faltosa do ser BEAUVOIR 2005 p 46 A compreensão sobre liberdade ambiguidade sujeito situado e a rejeição de todo tipo de determinismo seja ele biológico ou econômico levaram Beauvoir a pensar na constituição do sujeito considerando a noção de Outro Para ela ser sujeito é posicionarse em condição de reciprocidade com outro sujeito efetivando uma liberdade autoconsciente e autodeterminada De outra parte o Outro é designado por Um sujeito na posição de um objeto com possibilidades fixas Daí para a autora a noção de outro materializa uma forma de degradação existencial do próprio ser do sujeito A situação é certamente contraditória Ao ser colocado na posição de Outro o sujeito vivencia a si mesmo como um objeto em seu próprio ser 61 Para ela as mulheres partilham essa degradação existencial do próprio ser do sujeito porque são constituídas na condição de Outro na relação com os homens e o mundo todavia a mulher não é apenas o Outro é o Outro desigual impensável sem a presença masculina e entendida pelo Um como um ser sexuado A mulher determinase e diferenciase em relação ao homem e não este em relação a ela a fêmea é o inessencial perante o essencial O homem é o Sujeito o Absoluto ela é o outro BEAUVOIR 2009 p 17 Nesse sentido as mulheres não vivenciam a condição de ser humano em razão de si mesmas e em sua busca de autonomia e liberdade mas se definem em relação a experiência masculina Para ela o que define de maneira singular a situação da mulher é que sendo como todo ser humano uma liberdade autônoma descobrese e escolhese num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro BEAUVOIR 2009 p 30 Entretanto as mulheres não se colocam de forma espontânea na condição de objeto já que não é o Outro que se definindo como Outro define o Um ele é posto como o Outro pelo Um definindo se como Um Mas para que o outro não se transforme no Um é preciso que se sujeite a esse ponto de vista alheio Como bem alude a autora francesa Todo indivíduo que se preocupa em justificar sua existência a sente como uma necessidade indefinida de se transcender Ora o que define de maneira singular a situação da mulher é que sendo como todo ser humano uma liberdade autônoma descobrese e escolhese num mundo em que os homens lhe impõem a condição do Outro Pretendese tornála objeto votála à imanência porquanto sua transcendência será perpetuamente transcendida por outra consciência essencial e soberana O drama da mulher é esse conflito entre a reivindicação fundamental de todo sujeito que se põe sempre como o essencial e as exigências de uma situação que a constitui como inessencial Como pode realizarse um ser humano dentro da condição feminina BEAUVOIR 2009 p 23 Para situar a historicidade da condição feminina e da possibilidade de realização enquanto ser humano integral Beauvoir indica a necessidade de reconhecimento da condição de Outro e das instituições sociais enquanto espaços de produção de assimetrias O encontro com o Outro aparece mediado por mitos códigos morais normas jurídicas e educacionais bem como instituições sociais que acomodam as mulheres sistematicamente na categoria de objeto posição que só poderá ser superada no reconhecimento de sua opressão e reivindicação de sua autodeterminação a partir de um projeto de tornarse sujeito tornarse mulher Isso se contrapõe à concepção de Outro em Sartre que embora identifique a necessidade do Outro 62 reivindicarse enquanto sujeito operacionaliza tal processo reduzindo o Outro à condição de objeto Em outras palavras apenas um sujeito pode existir A característica principal dessa cena alterada é a ausência de reciprocidade Ou seja é um cenário em que o que está em questão não é apenas a alteridade mas a subordinação a reificação que não é recíproca O reconhecimento mútuo não é possível uma vez que para afirmarme como sujeito preciso negar essa condição ao Outro e viceversa BAUER 2001 p 109 A análise de Beauvoir sobre a condição da mulher enquanto Outro vai na contramão das postulações de Sartre identificando como já mencionei a mulher enquanto um Segundo sexo atravessado por determinações desiguais mas com a possibilidade de constituir bases para uma integralidade das mulheres como ser humano e ter direito à transcendência na afirmação de uma existência autenticamente assumida no projeto de tornarse sujeito Para Beauvoir ao lado da pretensão de todo indivíduo de se afirmar como sujeito há também a tentação de fugir de sua liberdade e transformarse em coisa É um caminho nefasto porque alienado perdido e então esse indivíduo é presa de vontades estranhas cortado de sua transcendência frustrado de todo valor Mas é um caminho fácil evitamse com ele a angustia e a tensão da existência autenticamente assumida BEAUVOIR 2009 p 21 A experiência vivida de opressão das mulheres não é apenas um produto de determinações externas mas a condição de uma subjetividade corporificada associada a uma alienação corporal Entendo experiência vivida como uma dimensão política da existência pois sugere uma posição e uma ação em relação aos demais sujeitos Aqui o sujeito se constrói na mediação do individual e do coletivo Beauvoir referese à liberdade como um projeto também de ambiguidade A mulher se faz enquanto sujeito a partir de experiências históricas diversas comportando uma ambiguidade corporal assujeitada à natureza à cultura e à história não é enquanto corpo mas enquanto corpo submetido a tabus a leis que o sujeito toma consciência de si mesmo e se realiza BEAUVOIR 2009 p 63 Esse corpo apropriado não é algo que o sujeito possui é o que o sujeito é ser o Outro implica necessariamente ser apartado de seu próprio corpo Convém enfatizar que o corpo assujeitado é uma situação é nossa tomada de posse do mundo e um esboço de nossos projetos BEAUVOIR 2009 p 49 mas tem se caracterizado dentro de uma concepção de Eterno feminino que naturaliza a feminilidade enquanto mito e encerra a anatomia como um destino para as mulheres A existência emerge 63 como uma experiência sexuada de um corpo enquanto espaço de ambiguidades como uma situação Desta maneira o corpo afinca o ser no mundo não apenas como materialidade mas como condição social histórica sexual de tal modo que consciência e corpo estão simultaneamente imbricados no pensamento A consciência em Beauvoir é corporificada encarnada e por isso a percepção da experiência humana é sexuada O sujeito situado é transpassado pelas relações sociais e as várias formas de poder instituído não se inscrevem nos corpos da mesma forma ao contrário baseiamse em especificidades produzidas socialmente para produzir tipos diferentes de privilégio e de opressão enfatizando e restringindo as possibilidades de cada existência de modos específicos Nessas especificidades é importante destacar que o corpo tem grande importância porque ele é em si mesmo uma situação uma materialização de diversos elementos que produzem a diferença e é por meio dele que a experiência se faz subjetividade No Segundo Sexo a feminilidade é colocada como uma invenção histórica que encerra a subjetividade feminina na anatomia no corpo apresentando o masculino como corpo que abriga a objetividade e o feminino materializandose na amputação Em sua crítica à natureza feminina alude que o homem encara o corpo como uma relação direta e normal com o mundo que acredita apreender em sua subjetividade ao passo que considera o corpo da mulher sobrecarregado por tudo o que o especifica um obstáculo uma prisão BEAUVOIR 2009 p 27 A ruptura com o eterno feminino é para Simone imprescindível na constituição do sujeito mulher já que nós não somos por causa de nosso sexo mas nos tornamos através de uma aprendizagem coletiva um processo de socialização patriarcal que não é necessariamente decorrência de nosso sexo Nenhum destino biológico psíquico econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam de feminino BEAUVOIR 2009 p 79 O projeto de tornarse pressupõe a compreensão do patriarcado enquanto elemento que constituiu concretamente a mulher enquanto Outro e efetivou a divisão entre as esferas pública e privada articulado ao processo de emergência da propriedade privada e do direito paterno Para essa análise recorre às postulações teóricas de Engels sobre a família a propriedade privada e o Estado mas critica a compreensão de que a origem da propriedade privada coincide mecanicamente com a submissão das mulheres por entender que tal acepção reduz homens e 64 mulheres a seres econômicos e não é capaz de apreender as determinações da reprodução das corporalidades e do erotismo De outra parte o tornarse depende também do reconhecimento da condição de Outro e da identificação enquanto grupo social subordinado nas palavras de Beauvoir depende da capacidade de dizer nós Para a autora as mulheres têm a tarefa de operar o retorno do inessencial ao essencial e isso só é possível a partir do momento em que tomam parte da elaboração do mundo e recusam o lugar de Outro É pois um processo contínuo de construção e reconstrução que se processa por meio de escolhas préreflexivas e posteriormente se transformam em ações conscientes Para ela a subjetividade não se realiza senão como presença no mundo BEAUVOIR 2005 p 15 pressupõe portanto ação constituise nas e pelas relações sociais de forma que é sempre intersubjetividade o social transpassa o indivíduo assim como e ao mesmo tempo em que o indivíduo integra a sociedade Dessa maneira a ação se faz a partir de escolhas de identidades singulares e se realiza em objetivos específicos não gerais Ao fazermos uma escolha estabelecemos nossos vínculos com sujeitos que têm os mesmos interesses que nós e procuram transcender a própria situação de opressão Nos colocamos em oposição àqueles cujos desejos são obstáculo ao nosso projeto Portanto a ação não é objetiva no sentido de universal se dá a partir de particularidades dos indivíduos e se configura na relação do indivíduo com o mundo com o social com o tempo o espaço e com as outras pessoas A escolha da ação diz ainda Beauvoir se faz no e para o tempo presente tornandose presença do sujeito no mundo superação do isolamento e possibilidade de engajar a própria liberdade na relação com os outros são eles que irão reconhecer ou negar minha ação meu projeto É isso que constitui a liberdade do sujeito escolher em situação Ação e projeto são portanto delimitadoras da identidade do sujeito que nem sempre é livre para realizar suas escolhas inclusive muitos não possuem nenhum meio de quebrar este teto sobre suas cabeças como a própria criança podem exercer sua liberdade mas somente no seio deste universo constituído antes deles sem eles BEAUVOIR 2005 p 37 Para Beauvoir as experiências situadas de opressão fundamentamse no cerceamento do sujeito de sua possibilidade de desejar e almejar a transcendência associado à ideia de objetificação dos Outros como negação de suas condições de sujeitos O projeto é trazer o outro a partir de sua identificação com minha experiência situada a apoiar a minha liberdade e juntos constituirmos uma relação de busca por esse desejo compartilhado de liberdade e transcendência Dessa forma tornarse mulher é um projeto de 65 reconhecimento da condição de Outro e autoconstrução como sujeito individual e coletivo que efetiva a passagem dialética do eu ao nós do individual ao coletivo Esses movimentos pressupõem a compreensão das mulheres como indivíduos na luta de classes e das classes como espaços não homogêneos e que portanto também se constituem a partir das dimensões de sexogênero e raçaetnia Falo portanto de uma classe engendrada e racializada A ideia de unidade no conceito de unidade da classe operária confundese com a ideia de identidade que exclui a noção de diferença É por isso que a constatação da discriminação diferença parece ameaçar a unidade de classe operária daí a necessidade de integração das lutas a força de trabalho masculina aparece como força livre a força de trabalho feminina como sexuada Ou seja as condições de negociação da força de trabalho não são as mesmas o que nos permite concluir pela sexualização das relações e das práticas de trabalho SOUZALOBO 2010 p 45 Para Kergoat 2018 a passagem do eu para o nós do individual para o coletivo é essencial para a análise do sujeito coletivo em movimento e para isso aponta a aprendizagem coletiva como subjacente à passagem de um grupo ao coletivo Aqui é importante a distinção entre grupo e coletivo já que não se passa automaticamente da condição de indivíduo a de sujeito coletivo Em sua compreensão é preciso acionar uma instância intermediária que seria o grupo Na perspectiva das relações sociais de sexo isto é importante temos indivíduos homens e mulheres grupos de sexo que retomam categorias biologizantes ou grupos profissionais e coletivos sistemas com grande capacidade de ação que são transversais às categorias mesmo que sejam distintos por gênero isto é de um lado ou de outro da hierarquia por sexo e atores históricos de seu próprio devir o que os grupos não são KERGOAT 2018 p 100 Corroboro Kergoart 2018 na acepção de coletivo enquanto a passagem de um grupo fracionado e com pouca capacidade mobilizatória para ação a um grupo com consciência de ser coletivo Em outras palavras podese dizer que o coletivo é o exercício possível da potência ou seja de um poder não hierárquico não coercitivo e condição necessária para a constituição da consciência militante assim como da produção da autonomia e emancipação 2018 p 100 Também a autonomia é um elemento importante à constituição da noção de coletivo e de sujeito coletivo e parte constitutiva da ação política feminista como exercício individual grupal e coletivo de liberdade e autodeterminação das mulheres 66 Ao incorporar a autonomia como parte constituinte de sua ação política o movimento feminista imprimiu novas referências que materializam a autonomia das mulheres como realidade que deve ser criada formulada Sendo assim a teoria política feminista parte de um princípio que situado fora da ordem dominante de pensar possui potencialidades para promover rupturas com a tradição O princípio da autodeterminação das mulheres Autonomia neste contexto pode ser sintetizada na perspectiva apresentada pelo grupo Nenhuma nem Outras é a capacidade de comprometerse com as reivindicações e necessidades como mulheres Um processo pessoal para a tomada de decisões mas também de expressão coletiva Um meio de ganhar espaço a partir do qual transformar a realidade das mulheres e elaborar proposta de mudança para a sociedade em seu conjunto GURGEL 2010 p 4 O entendimento acerca do coletivo passa também pela apreensão da consciência militante enquanto consciência política potencializadora de relações entre sujeitos que se reconhecem enquanto coletivo a fim de construir as transformações necessárias Nas palavras de Cisne 2014 p 152 a consciência militante está radicalmente articulada com o processo de formação de um sujeito coletivo Cumpre dizer que militância aqui é entendida na perspectiva da feminista negra Gomes 2010 p 508 como produção de um conhecimento que não se esgota em si mesmo mas propõe reflexões teóricas que induzem ações emancipatórias e de transformação da realidade E a realidade das mulheres é de constante expropriação dos seus corpos e suas vidas As coisas que combatemos enquanto movimento social são degradantes da condição humana tais como violações expropriações e apropriações de forma que militar vai ser colocado às mulheres de forma individual e coletiva enquanto uma tarefa de resistência e de confronto com sistemas de exploraçãoopressão porque na práxis militante nós vamos aos poucos entendendo melhor como o mundo funciona e ele funciona abominavelmente Para militar acionamos a nossa consciência revolucionária no sentido de identificar nossas dores pessoais e os sistemas que nos subordinam Somos reprimidas pelo estado ideologias dominantes corporações médicas e financeiras igrejas mídias e pelos homens inclusive os que estão do nosso lado nas fileiras dos movimentos sociais Para resistir é preciso força e compreensão do ser mulher no plural como uma experiência socialmente compartilhada e historicamente situada CAMURÇA 2007 p 16 No caso particular dos movimentos feministas a consciência militante tem o caráter de reconhecimento das múltiplas exploraçõesexpropriaçõesopressões as quais as mulheres foram historicamente submetidas de pertencimento a si e de constituição de ações políticas concretas 67 no campo teóricoorganizativo Essa tomada de consciência sobre a própria opressão e exploração é resultante e pressuposto do processo de formarse mulher feminista Sem o que não há movimento CAMURÇA 2007 p 13 Para tanto fazse necessário que o movimento feminista amplie suas bases sociais e organize politicamente o nós mulheres no sentido de cumprir a tarefa central de mobilizar as mulheres conscientes de sua força de oprimidas O feminismo como sujeito político se faz somente através das mulheres e de sua movimentação É imprescindível termos um nós mulheres a partir do qual é possível analisar o contexto identificar as contradições fixar objetivos para esta movimentação CAMURÇA 2007 p 13 Os movimentos de mulheres e particularmente os movimentos feministas se formaram a partir de reivindicações em torno da ideia de direitos e da possibilidade das mulheres ocuparem os espaços públicos e políticos Para além do reconhecimento de uma relação de injustiça as mulheres das elites ou classes intermediárias tiveram que romper com o confinamento doméstico e com a vida privada Para SousaLobo 2011 p 183 Por suas conquistas às vezes por sua simples presença as mulheres nos movimentos subvertem a ordem dos gêneros vigentes nos espaços da sociedade A autora ainda alude acerca da formação dos feminismos como sujeito político situando que passa pela construção da noção de direito pelo reconhecimento de uma coletividade de iguais São várias faces inseparáveis que juntas fazem do movimento não apenas portador de reivindicações mas um sujeito político SOUZALOBO 2011 p 223 Dessa maneira as mulheres a partir do processo de tomada de consciência agenciam a superação da alienação de si mesmas da natureza e como seres humanos Processo que só pode acontecer pela construção da identidade coletiva ao tentar superar os espontaneísmos e reivindicações isoladas e imediatas constituindo ações coletivas Toda revolução foi precedida por um intenso e continuado trabalho de crítica de penetração cultural de impregnação de ideias em agregados de homens que eram inicialmente refratários e que só pensavam em resolver por si mesmos dia a dia hora a hora seus próprios problemas econômicos e políticos sem vínculos de solidariedade com os que se encontravam na mesma situação GRAMSCI 2011 p 55 Na tentativa de ultrapassar a consciência em si as mulheres construíram uma identidade coletiva a partir da ocupação dos espaços públicos e da análise concreta da realidade social pela via da crítica contundente ao patriarcado capitalismo racismo e heteronormatividade mesmo 68 que tal crítica não tenha acontecido ao mesmo tempo e tenha sido perpassada por inúmeros tensionamentos no interior do movimento Mas tal momento incidiu na construção de uma agenda comum voltada para a elaboração de uma nova cultura ao considerar as diferentes desigualdades vivenciadas pelas mulheres Cabe dizer que os movimentos feministas estando no interior da sociedade civil no campo contrahegemônico disputam a hegemonia para dirigir moral intelectual e politicamente a sociedade Como produtor e difusor de ideologias historicamente orgânicas ou contrahegemônicas interesses e valores ele é portador material de uma visão de mundo em disputa para a criação e desenvolvimento de uma nova cultura Retomando ao leito do texto Cisne 2014 sintetiza alguns elementos indispensáveis para a formação da consciência militante 1 a apropriação de si e a ruptura com a naturalização do sexo 2 o sair de casa 3 a identificação na outra da sua condição de mulher 4 a importância do grupo e da militância política em um movimento social 5 a formação política associada às lutas concretas de reivindicação e de enfrentamento CISNE 2014 p 177 A autora coloca como primeiro passo para a formação dessa consciência o processo de ruptura com as naturalizações do sexo e com a família que ela denominou de apropriação de si Essa percepção das mulheres enquanto sujeitos capazes de exercitar a autonomia corporal a liberdade o autocuidado traduz uma importância individual dos feminismos na vida das mulheres Esse processo do apropriarse de si está radicalmente articulado com o descobrirse feministas CISNE 2014 p 177 Não ter a propriedade de si faz parte do destino biológico que Beauvoir propunha que as mulheres transgredissem no Segundo Sexo Na mulher há no início um conflito entre a sua existência autônoma e seu seroutro ensinamlhe que para agradar é preciso procurar agradar fazerse objeto ela deve portanto renunciar a sua autonomia pois quanto menos exercer sua liberdade para compreender apreender e descobrir o mundo que a cerca menos encontrará nele recursos menos ousará afirmarse como sujeito se a encorajasse a isso ela poderia manifestar a mesma exuberância viva a mesma curiosidade o mesmo espírito de iniciativa a mesma ousadia que o menino BEAUVOIR 2009 p 9 grifo nosso A autonomia individual mesmo que conflituosa para as mulheres é a primeira forma de contestação aos padrões de feminilidade e masculinidade instituídos pelo patriarcado e dos homens enquanto privilegiados A feminilidade é uma invenção histórica consolidada na 69 identidade das mulheres em um determinado corpo sexuado que aprisiona a mulher enquanto categoria social Nesse sentido o devir histórico das mulheres é a ruptura com o eterno feminino com um modelo normatizado de existência para a mulher que as submete a normas estatutos e valores de dominação exploração expropriação e despossessão Ousar questionar o lugar de Outro e o destino feminino coloca às mulheres a possibilidade de através do autoconhecimento e da desnaturalização do corpo conduzir o processo de descobrirse feminista e romper com a alienação de si A crítica à ideia de anatomia como destino e a afirmação à transcendência para além do reino da biologia são grandes legados e bases centrais do feminismo até hoje Não seremos iguais e continuaremos a ser o segundo sexo enquanto a transcendência a capacidade de reflexão sobre a vida e enquanto o mundo for uma possibilidade aceita apenas para os homens Por esta razão a obra de Simone e sua vida como filósofa em um ambiente dominado pelos homens é em si uma conquista das mulheres no enfrentamento ao patriarcado O segundo ponto está associado à ruptura das mulheres com o confinamento doméstico como condição indispensável à apropriação de si conseguir se afirmar como sujeitos de si e de suas vidas o sair de casa envolve processos de ruptura com a alienação e o enfrentamento com instituições como a família e a Igreja bem como com toda a construção ideológica que a mulher deve estar necessariamente voltada para servir ao outro ainda que passe por cima de si CISNE 2014 p 183 Tratase da desnaturalização da divisão sexual do trabalho que separa as esferas públicas das privadas e responsabiliza as mulheres pela reprodução social aqui entendida como ser força de trabalho reprodutoras de novas forças de trabalho responsáveis pelos cuidados domésticos socialização das crianças e serviços domésticos além de funcionarem como amortecedor dos problemas psicológicos e afetivos do núcleo familiar Segundo Firestone 1976 p 255 a família não é nem privada nem é um refúgio está sim diretamente relacionada sendo até a sua causa aos males da sociedade em geral males que o indivíduo não é capaz mais de enfrentar O reconhecimento na outra da sua condição de mulher e a importância do grupo e da militância política em um movimento social se articulam e retroalimentam já que fomenta processos de rebeldia no campo individual que gradativamente vão se corporificando em reivindicações coletivas e posteriormente em ações políticas coletivas com perspectivas de transformação social e emancipação humana 70 A ação do grupo portanto assume a forma via de regra de transgressão de negação do que está estabelecido de subversão IASI 2006 p 521 A construção desse processo grupal contudo não elimina a dimensão individual do ser social permeado por subordinações crises negações e rupturas no movimento de consciência CISNE 2014 p 185 Para a autora é no movimento de reconhecimento nas outras que a experiência individual de cada mulher vai se politizando e ganhando força pública para o enfrentamento das opressões CISNE 2014 p 185 De forma que é nessa identificação com a outra que a capacidade de dizer nós é fortalecida e potencializa uma consciência feminista coletiva que permite a autodesignação da mulher e sua autonomia no plano individual e coletivo Aqui a experiência das mulheres nas relações concretas da sociedade heteropatriarcal racistaclassista fundamenta uma práxis feminista comprometida com a transformação da vida das mulheres Por fim Cisne 2014 aponta a necessidade de associar as lutas concretas aos processos de formação política Acontece que a identificação por parte das mulheres de sua condição de exploradaexpropriadaoprimida e das outras como um nós comum passa pelo questionamento da mulher como sujeito universal e do reconhecimento da diversidade de experiências de opressões enquanto corpos individualizados e sujeitos sociais Assim é fundamental que as diversas objetividades que movem a resistência das mulheres sejam reconhecidas e assumam a mesma visibilidade e potencial de articulação interna do feminismo como sujeito de emancipação GURGEL 2014 p 12 Para isso é preciso considerar que durante muito tempo houve uma negligência ou omissão presumida por parte dos feminismos hegemônicos leiase branco letrado e classe média em reconhecer as experiências de mulheres em outros contextos geopolíticos étnico raciais de sexualidades dissidentes e classes periféricas que só será sanado ainda que provisoriamente pela contribuição das feministas latinoamericanas lésbicas negras e populares As mulheres feministas sabem agora o que nos diz Delphy a cartografia da opressão nunca está terminada nem mesmo agora CAMURÇA 2007 p 15 Para Camurça 2007 p 15 é preciso sem dúvida afirmar as mulheres como identidade política de uma parte recusando tendências teóricas que essencializam as mulheres a partir da constituição de um sujeito feminino universal de outra recusando a constituição de uma identidade comum entre as mulheres Como afirma Silva 2010 p 23 A dialética de ser sujeito implica em compreender as mulheres como pessoas na singularidade de suas 71 experiências e compreender o grupo social mulheres como tendo algo em comum apesar de suas diferenças e desigualdades internas Para Gurgel 2010 a construção do sujeito feminista coletivo parte da mediação entre totalidades parciais de opressãodominaçãoapropriação das mulheres com a totalidade social que demanda um sujeito político de ação Essa perspectiva confere ao feminismo um duplo processo de construção como sujeito coletivo o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade diversa identitária GURGEL 2014 p 72 que a autora tem chamado de o feminismo como sujeito coletivo total Essa mediação reconhece a heterogeneidade dos feminismos no que diz respeito à formação experiência das mulheres contextos geopolíticos socioeconômicos culturais e religiosos propondo o reconhecimento de um sujeito múltiplo e ao mesmo tempo com demandas específicas que reflita a aceitação das experiências particulares dentro da identidade coletiva Compreendemos que a categoria de coletivo total permite uma leitura das diversas singularidades no feminismo sem hierarquização pois ao dar o ultimato do total exige a descoberta das totalidades parciais Ao mesmo tempo reivindicar o total distancia dos riscos da fragmentação eou isolamento nas especificidades Tratase portanto do reconhecimento das particularidades no todo da diversidade que compõe o sujeito múltiplo GURGEL 2014 p 73 Esse sujeito múltiplo com demandas específicas congrega em si a necessidade de constituir espaços de aglutinação de diversos sujeitos feministas bem como de mediar as tensões dos mais diversos campos ideopolíticos dos feminismos corporificando uma certa unidade na diversidade no que diz respeito à ação e à produção do conhecimento É relevante reflexionar sobre a acepção de Gurgel 2014 de totalidades parciais e totalidade social no sentido de não corroborar com a percepção de que as mulheres constroem uma luta específica ou que as lutas políticas das mulheres são uma fase da conquista do poder político pelas classes trabalhadoras ou ainda que são um sujeito específico e que fazem a luta de classes entendida como a síntese de todas as lutas As mulheres ao se construírem como sujeito coletivo se constroem na imbricação das relações de classe raça sexo em um processo de confrontação das relações de sexo e das outras relações sociais ao mesmo tempo Portanto as mulheres não fazem sua luta para a partir daí se sintetizarem na luta de classes nem contribuem para a luta de classes nem tampouco realizam lutas específicas elas fazem também a luta de classes ao fazerem a luta confrontando o patriarcado e o racismo 72 33333O MOVIMENTO FEMINISTA E O SUJEITO COLETIVO FEMINISTA O feminismo é a ideia radical que as mulheres são gente DAVIS 2016 p 32 O presente capítulo objetiva apresentar o debate sobre a imbricação das relações de sexo raçaetnia e classe na esteira das contribuições teóricas das feministas francófonas que a partir da década de 1970 elaboram a categoria relações sociais de sexo como explicativa das relações materiais que estruturam a exploração dominação e apropriação material das mulheres e que tem como fundamento a divisão sexual racializada do trabalho FALQUET 2013 KERGOART 2018 As relações sociais de sexo raçaetnia e classe são conformadas enquanto um nó que se produz e reproduz mutuamente sendo portanto imbricadas consubstanciais e coextensivas nas palavras de Kergoart 2010 p 100 é o entrecruzamento dinâmico e complexo do conjunto das relações sociais cada uma imprimindo sua marca nas outras ajustandose às outras e construindose de maneira recíproca Como bem disse Roland Pfefferkorn essas relações estão envolvidas intrinsecamente umas com as outras Elas interagem e estruturam assim a totalidade do campo social Mas o fato de as relações sociais formarem um sistema não exclui a existência de contradições entre elas não há relação circular a metáfora da espiral serve para dar conta do fato de que a realidade não se fecha em si mesma Portanto não se trata de fazer um tour de todas as relações sociais envolvidas uma a uma mas de enxergar os entrecruzamentos e as interpenetrações que formam um nó no seio da individualidade ou um grupo KERGOAT 2010 P 100 Tais relações sociais se enovelam entre si conformandose na dinâmica entre os sistemas de exploraçãodominaçãoapropriação patriarcal capitalista e racista em um processo simbiótico que sofre alterações a partir dos contextos históricos específicos das formações sociais não sendo passível de hierarquizações Aqui também apresento o patriarcado como categoria explicativa da subordinação histórica das mulheres e base estruturante dos processos de exploraçãodominaçãoapropriação Para Delphy 2009 p 174 o patriarcado designa uma formação social em que os homens detêm o poder ou ainda mais simplesmente o poder é dos homens Ele é assim quase sinônimo de dominação masculina ou opressão das mulheres Por fim analiso a constituição dos feminismos na particularidade brasileira enquanto projeto de autonomia e liberdade das mulheres e um movimento social que desenvolve ações 73 de ruptura estruturalsimbólica com os mecanismos que perpetuam as desigualdades sociais e estruturam os pilares da dominação patriarcal capitalista GURGEL 2010 p 1 31 A IMBRICAÇÃO DAS RELAÇÕES SOCIAIS DE SEXO RAÇA E CLASSE E O PATRIARCADO Como bem nos apontou Simone de Beauvoir 2009 p 108 na obra o Segundo Sexo a história mostrounos que os homens sempre detiveram todos os poderes concretos dentre eles o de universalizar a sua própria história de forma que nós mulheres temos como tarefa prioritária tomar parte da elaboração do mundo já que somos cotidianamente exploradas oprimidas e apropriadas por uma lógica de mundo patriarcal racista e capitalista A afirmação de SousaLobo 2011 de que a classe operária tem dois sexos conectada às abordagens das feministas socialistas e marxistas a partir da década de 1970 representou um ganho substancial para a compreensão das relações sociais de opressão dominação e apropriação vivenciadas pelas mulheres enquanto determinações sociais para além do conceito restrito de classe já que apregoavam que a crítica ao capitalismo e o recurso à noção de classe não poderiam apagar as especificidades da posição de mulheres e homens na sociedade capitalista Mas se a classe operária tem dois sexos certamente ela também é perpassada por determinações estruturais de raçaetnia que impõem especificidades às experiências vivenciadas por brancos e negros A posição assumida aqui é que classe sexo e raçaetnia se constituem enquanto relações sociais estruturais de exploração opressão e apropriação que produzem e organizam as determinações da realidade social Relação social definida pelo antagonismo entre grupos sociais organizados em torno de uma questão sexo classe raçaetnia mas que também são os modos como os grupos sociais produzem seus contatos e trocas Na perspectiva defendida por Kergoat 2018 p 93 uma relação social é uma relação antagônica entre dois grupos sociais instaurada em torno de uma disputa É uma relação de produção material e ideal Tal relação não pode ser compreendida a partir apenas de sua dimensão intersubjetiva já que é constituída no movimento dialético entre o microssocial e o macroestrutural que nas palavras de Falquet 2008 p 142 permite pensar por meio da sociedade os indivíduos e as classes 74 As relações sociais podem efetivamente ser vistas como tensões dinâmicas sem cessar em recomposição que constroem oposições e polarizam o campo social com mais ou menos força segundo o ponto em que se encontra a relação de origem dessas tensões Nesse sentido elas permitem também compreender melhor a posição relativa de diferentes sujeitos sociais submissos simultaneamente a várias dessas relações de força que exercem sobre diferentes planos permitindo uma visão multidimensional e histórica das coisas FALQUET 2008 p 142 Essas relações sociais são constituídas a partir de três contradições fundantes classe sexo e raça Em outras palavras podese recorrer ao pensamento feminista materialista francês para analisar as relações de sexo e de raça como relações sociais estruturais associadas às de classe que são demarcadas por antagonismos entre grupos sociais em torno de uma questão contudo não podem ser apreendidas como contradições sobrepostas mas imbricadas na produção e reprodução da vida social Portanto classe raça sexo são relações sociais coextensivasconsubstanciaisimbricadas No decurso da tese assumo a categoria relações sociais de sexo para a explicação das desigualdades constituídas entre homens e mulheres mas considerando as formas como tais rapports sociais são produzidos em contextos de países colonizados e situados na periferia do capitalismo internacional farei uso também da expressão relações patriarcais de sexo3 a fim de demarcar as particularidades do patriarcado brasileiro nordestino cearense e caririense O debate acerca da consubstancialidade das relações de raça sexo e classe pressupõe segundo Kergoat 2018 a identificação das raízes e engrenagens dos sistemas de exploração opressão dominação que em certo grau determinam as relações de poder mas também podem indicar rupturas com tais sistemas tendo em vista a emancipação humana Conceito proposto na década de 1970 pelas materialistas francesas para articular as categorias relações sociais de sexo e classe não sobrepostas ou aditivas Daí surgiu consubstancialidade Certamente o termo surgiu por carência Mas significando a unidade de substância entre três entidades distintas ele convida a pensar o mesmo e o diferente em um só movimento 1 as relações sociais embora distintas possuem propriedades comuns donde o empréstimo do conceito marxista de relação social com seu conteúdo dialético e materialista para pensar o sexo e a raça 2 as relações sociais 3 A expressão relações patriarcais de sexo vem sendo reflexionada pelas componentes do Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte especialmente por Mirla Cisne e Janaike Almeida 75 embora distintas não podem ser entendidas separadamente sob pena de reificálas KERGOAT 2018 p 149 Destaco que o grupo norteamericano de mulheres negras lésbicas e proletárias Combahee River Collective foi pioneiro no debate acerca da imbricação das relações sociais de sexo raça e classe quando em 1977 lançaram um manifesto problematizando o sujeito universal do feminismo hegemônico tecendo uma crítica sobre a ausência de debate feminista no movimento negro e a invisibilidade da questão racial para os movimentos feministas Para Silva 2018 p 35 o manifesto do grupo apresenta críticas à uniformização da forma de opressão para todas as mulheres e embrionariamente aborda as experiências simultâneas com o racismo sexismo e classe na vida das mulheres negras de forma que a partir daí propõem a ideia de imbricação entre as rapports sociais estruturadoras do capitalismoracismo patriarcado Operar análises concretas da realidade a partir da consubstancialidade não significa apenas considerar as categorias raça classe e sexo mas imbricar as três a partir da perspectiva que elas se forjam em formações sociais distintas Ademais o patriarcado o capitalismo e o racismo são produzidos e reproduzidos por relações sociais em constante movimento dialético que repercutem em práticas sociais variáveis no tempo e no espaço Portanto nos parece indispensável pensar os processos que produzem categorias de sexo classe e raça em termos de relações sociais ao invés de partir do tríptico gênero classe e raça KERGOAT 2018 p 152 Para Ferreira 2017 as relações entre homens e mulheres são relações sociais de caráter estrutural constituídas por uma divisão social do trabalho que produz exploração dominaçãoapropriação e antagonismo a partir da separação entre esferas pública e privada Nessa égide a produção se coloca como espaço destinado aos homens e a reprodução às mulheres com apropriação pelos homens das funções com maior valor social adicionado políticos religiosos militares etc HIRATA KERGOAT 2007 p 596 Na perspectiva materialista as relações sociais de sexo são relações sociais estruturais de exploraçãodominação duas dimensões inextricáveis duas faces de uma mesma relação Duas grandes consequências teóricopolíticas decorrem desta concepção 1 Não se trata de questões específicas mas que estão relacionadas com a totalidade da vida social 2 Não se trata de questões ideoculturais ou de uma dominação puramente simbólica a exploração dominação das mulheres repousa sobre uma base material concreta KERGOAT 2010 a divisão sexual do trabalho embora se reproduza como 76 todas as relações sociais pela mediação da ideologia e da cultura GUILLAUMIN 2014 FERREIRA 2017 p 34 Tabet 2014 expõe as condições materiais e históricas da constituição da divisão do trabalho desigual entre os sexos a partir da constatação de que nas sociedades de caça e coleta o acesso desigual a instrumentos de trabalho armas e matériasprimas confinaram as mulheres produtoras ao espaço doméstico e dificultaram o desenvolvimento de seu trabalho nas esferas técnica e intelectual mesmo quando realizavam maior parte das tarefas que garantiam a sustentabilidade da comunidade Isso porque a divisão sexual do trabalho foi se constituindo a partir do controle masculino dos materiais indispensáveis para a fabricação de armas e instrumentos de trabalho além da impossibilidade feminina de fabricar armas e sua dependência dos homens para a quase totalidade dos instrumentos de produção TABET 2008 p 165 Nesse sentido a dominação dos homens sobre as mulheres se fundamentou na violência e no subaparelhamento delas entendido aqui como a exclusão da mulher da fabricação e utilização de armas e instrumentos de trabalho impondo a elas tarefas mais longas monótonas e contínuas ligadas à limpeza e geralmente realizadas com instrumentos rudimentares ou com as mãos A tarefa masculina tornase estratégica na medida em que os homens podem efetuar a sequência feminina e o inverso não é verdadeiro as mulheres acabam dependendo dos homens TABET 2008 p 148 Nenhuma produção é possível sem um instrumento de produção ainda que este instrumento seja somente a mão Marx Grundrisse cad 7M Vimos que nas sociedades de caça e coleta o monopólio das armas tem uma importância decisiva nas relações entre homens e mulheres de fato é na tecnologia que cria as armas e nas próprias armas que ocorrem os progressos mais importantes no campo da mecânica aqueles que marcam a distância entre instrumentos masculinos e instrumentos femininos pois nestas sociedades as armas são ao mesmo tempo instrumentos de produção privilegiados Mas o fator predominante é o controle da força daí a rigorosa interdição do uso de armas pelas mulheres a disputa é entre quem tem armas e quem não as tem O poder dos homens sobre as mulheres é garantido pelo monopólio das armasinstrumentos TABET 2014 p 156 Dessa forma o subaparelhamento das mulheres e o controle dos homens sobre as armas definiram o trabalho feminino como essencialmente de consumo doméstico e as mulheres como sujeitos apropriados enquanto corpos apropriados 77 dizer que as mulheres são limitadas aos próprios corpos seria descrever a situação em termos bastante otimistas as mulheres são usadas enquanto corpos A apropriação material das mulheres pelos homens não se limita ao uso sexual e reprodutivo mas atinge com frequência de outro modo a própria integridade desse corpo e sua expressão física Agem nesse sentido todos os fatores que limitam o movimento e o pleno uso do próprio corpo das formas de deseducação motora à indumentária saltos altos etc das formas de enclausuramento ou confinamento em espaços internos às formas quase universalmente difundidas de delimitação do espaço e da interdição das viagens por terra ou por mar às formas de degradação física irreversível da amarração dos pés à engorda forçada às mutilações sexuais etc TABET 2014 p 159 Assim a divisão sexual do trabalho se coloca como conceitochave para o entendimento da apropriação material das mulheres e a superexploração de sua força de trabalho na produção e reprodução do capital e do trabalho seja na esfera do público ou do privado A diferenciação entre tarefas femininas e masculinas sustentadas na subalternidade histórica das mulheres não é um dado natural mas uma noção política técnica e econômica que articula tarefas masculinas à esfera do público ao sentido de virilidade e razão em detrimento das femininas que estão associadas ao doméstico às emoções e à natureza Nesse sentido quanto mais masculinizada é a atividade mais estratégica ela aparenta ser e uma vez feminilizada a tarefa passa a ser classificada como menos complexa LOBO 1991 p 150 Nesse caso a divisão sexual do trabalho tem como especificidade reservar às mulheres a esfera reprodutiva e aos homens a esfera produtiva assim como oferecer aos homens trabalhos mais bem pagos e valorizados socialmente Nesse sentido a responsabilização com o lar o cuidado com asos filhasfilhos idosasidosos e doentes é funcional e integrado ao modo de produção capitalista Mesmo partindose do pressuposto de que houve anteriores ao capitalismo outras formas de divisão do trabalho entre homens e mulheres essa divisão estava marcada por outra relação entre produção e reprodução pois essa que se expressa nesse sistema está diretamente relacionada à formação social capitalista na qual a força de trabalho é vendida como uma mercadoria e o espaço doméstico passa a ser uma unidade familiar e não mais uma unidade familiar e produtiva Do ponto de vista histórico segundo Kergoat 2002 é possível observar que a estruturação atual da divisão sexual do trabalho surgiu simultaneamente ao capitalismo pg 234 e que a relação do trabalho assalariado não teria podido se estabelecer na ausência do trabalho doméstico A conformação dessa divisão sexual do trabalho evidencia que a nova ordem social estabelecida a partir dos interesses do capital reestruturou a dominação patriarcal O que nos leva também a considerar que o conceito de patriarcado deve estar situado social e historicamente ÁVILA FERREIRA 2014 p 16 78 Tal problemática é produto das relações sociais de sexo e do patriarcado que materializam a apropriação das mulheres e sua redução ao estado de objeto material Segundo Guillaumin 2014 p 35 as expressões particulares dessa relação de apropriação são a a apropriação do tempo b a apropriação dos produtos do corpo c a obrigação sexual d o encargo físico dos membros inválidos do grupo inválidos por idade bebês crianças e velhos ou doentes e deficientes bem como dos membros válidos do sexo masculino GUILLAUMIN 2014 p 35 Nessa perspectiva as mulheres são ferramentas de produção e reprodução social criadas para a exploração de sua força de trabalho e de sua própria materialidade A compreensão da desigualdade entre homens e mulheres a partir da concepção francófona de relações sociais de sexo está relacionada à concepção de relações sociais de classe e expõem o antagonismo entre dois grupos sociais É portanto uma relação ligada ao sistema de produção ao trabalho e à exploração de uma classe por outra FALQUET 2014 p 15 Saffioti 2011 aponta o traço de servidão contido no trabalho doméstico seja este gratuito ou remunerado Salientamos que o trabalho doméstico realizado pelas mulheres não é contabilizado pelo capitalista Em outras palavras os custos da reprodução da força de trabalho são contados a partir da satisfação das necessidades básicas à manutenção e reprodução da classe trabalhadora tais como alimentação vestuário habitação lazer educação entre outras Entretanto está excluído dessa conta todo o trabalho investido na gestão e execução dessas tarefas domésticas assim como o fato de que essas atividades são atribuições das mulheres Por tudo isso seria impossível a manutenção do trabalho assalariado na produção sem a sustentação do trabalho reprodutivo e não remunerado na esfera doméstica CARRASCO 2001 O conceito relações sociais de sexo foi elaborado na tentativa de se contrapor a percepções ideopolíticas que definiam a identidade feminina a partir da natureza cultura e ideologia de modo que determinavam as mulheres e os homens por uma relação social material concreta e histórica Uma relação de antagonismo entre a classe das mulheres e a dos homens É importante dizer que as feministas materialistas usam classes para todas as definições de relações sociais sejam de sexo classe social ou raça mas aqui vou adotar a acepção de grupo social em antagonismo Como alude Falquet 2014 p 15 79 as mulheres não são uma categoria biológica mas uma classe social definida por rapports sociais de sexo historicamente e geograficamente variáveis centralmente organizados em torno da apropriação individual e coletiva da classe de mulheres pela classe dos homens por meio do que Colette Guillaumin 1978 1992 denominou de sexagem Esses rapports são solidamente apoiados no que ela chamou de ideologia da Natureza na qual estão subjacentes também as rapports sociais de raça FALQUET 2014 p 15 Essa perspectiva de imbricação entre as relações sociais de sexo raça e classe tem como aporte principal a desnaturalização dessas relações e a identificação de sua centralidade na produção da sociedade levando em consideração o fato de que são constantemente recriadas e perpetuadas Portanto oferece a possibilidade de pensar de maneira não naturalizada historicizada e dialética as contradições centrais que movem a sociedade É uma superação da ideia das mulheres como sendo naturais e da sociedade como organismo fixo e dado Aqui os homens e as mulheres não são um grupo natural ou biológico não se definem pela cultura tradição ou ideologia mas social concreta e historicamente elaborados enquanto grupos sociais antagônicos Tais relações sociais de sexo só podem ser apreendidas e transformadas de forma coletiva embora possam existir fissuras das desigualdades no campo individual As relações rapports sociais surgem de um nível macroestrutural Elas se articulam entre grupos e só podem ser percebidas ou transformadas indiretamente coletivamente Assim para entendermos o conceito de rapports sociaux de sexe é necessário compreender a concepção de relação no sentido de rapport social a que está associado AnneMarie Devreux localiza a categoria rapport sociaux na perspectiva marxista e afirma que a mesma é uma oposição estrutural de duas classes com interesses antagônicos Para Devreux 2015 p 564 não se pode haver relação social como categoria única Não se pode haver relação social sem confrontação Por isso a relação social de sexo nomeia os sujeitos uma vez que designa a confrontação entre as consideradas categorias de homens e mulheres que envolvem conflitos e antagonismo de ordem estrutural ainda que também reflitam nas relações relations pessoais CISNE 2016 p 62 Desse modo asseveramos a articulação da categoria relações sociais de sexo aos estudos marxistas sobre a centralidade do trabalho bem como sua precisão teórica em identificar a natureza da opressão das mulheres que é sua apropriação enquanto grupo social e além disso a necessidade de utilização do conceito de patriarcado enquanto sistema político econômico cultural hierárquico e com base material que dispõe direitos sexuais políticos e econômicos aos homens e interdições múltiplas às mulheres por meio da violência eou da ideologia SAFFIOTI 2004 80 O patriarcado é estruturado a partir da dominação do pai sobre a mulher e asos filhasfilhos na lei do pai comportando a noção de autoridade independentemente de filiação biológica Nessa perspectiva os homens detêm o poder de vida e morte sobre as mulheres O poder é masculino e institui formas de dominação ao grupo antagônico Para Pateman 1993 o homem se institucionaliza enquanto sujeito universal da história e por conseguinte a doutrina da universalidade dos princípios de liberdade e igualdade não vai incluir as mulheres A rigor as mulheres são apenas objetos do contrato social já que não têm status de indivíduo e por isso os seus direitos estão articulados ao âmbito privado As bases de constituição do patriarcado estão ligadas ao controle e tutela sobre o corpo das mulheres e os produtos do corpo à exploração da força de trabalho feminina e ao confinamento das mulheres processos que instituíram a monogamia para as mulheres e a família patriarcal como modelo Para Saffioti Nesse regime as mulheres são objetos da satisfação dos homens reprodutoras de herdeiros de força de trabalho e de novas reprodutoras Diferentemente dos homens como categoria social a sujeição das mulheres também como grupo envolve prestação de serviços sexuais a seus dominadores SAFFIOTI 2004 p 12 É preciso pontuar que a despossessão das mulheres extrapola as interdições na esfera privada também alcançando a esfera pública materializandose na pouca participação política e científica na pauperização na mercantilização do corpo e no uso da violência Digase de passagem que a violência perpetrada contra as mulheres se constitui no ápice do disciplinamento feminino De acordo com Hartmann 1994 p 256 o patriarcado pode ser compreendido como un conjunto de relaciones sociales que tiene una base material y en el cual hay relaciones jerárquicas entre los hombres y una solidaridad entre ellos que permiten controlar a las mujeres El patriarcado es por lo tanto el sistema de opresión de las mujeres por los hombres HARTMANN 1994 p 256 Nesse sentido o patriarcado qualifica as relações sociais de sexo e expõe a apropriação das mulheres como um processo de dupla face a exploração e a dominação que se entrelaçam num único processo Para Saffioti 1987 p 50 enquanto a dominação pode para efeitos de análise ser situada essencialmente nos campos político e ideológico a exploração diz respeito diretamente ao terreno econômico Portanto dominação e exploração constituem 81 um único fenômeno apresentando duas faces Desta sorte a base econômica do patriarcado não consiste apenas na intensa discriminação salarial das trabalhadoras em sua segregação ocupacional e em sua marginalização de importantes papéis econômicos e políticodeliberativos mas também no controle de sua sexualidade e por conseguinte de sua capacidade reprodutiva Seja para induzir as mulheres a ter grande número de filhos seja para convencêlas a controlar a quantidade de nascimentos e o espaço de tempo entre filhos o controle está sempre em mãos masculinas embora elementos femininos possam intermediar e mesmo implementar estes projetos SAFFIOTI 2004 p 106 Nessa linha de análise entendese o patriarcado como um conceito que se refere especificamente à sujeição das mulheres e à forma de direito político exercida pelos homens pelo fato de serem homens PATEMAN 1993 uma espécie de pacto masculino de controle sobre as mulheres que tem sua base material na ideologia e na violência mantendo a dominaçãoexploraçãoopressão mediante a existência de uma economia doméstica ou domesticamente organizada 1 não se trata de uma relação privada mas civil 2 dá direitos sexuais aos homens sobre as mulheres praticamente sem restrições 3 configura um tipo hierárquico de relação que invade todos os espaços da sociedade 4 tem uma base material 5 corporificase 6 representa uma estrutura de poder baseada tanto na ideologia quanto na violência SAFFIOTI 2004 pp 5758 Posto isso cabe dizermos que o patriarcado pode ser compreendido como eixo explicativoanalítico da subsunção feminina e uma forma historicamente específica de relações desiguais entre os sexos sendo que a recusa em sua utilização enquanto categoria teórico explicativa é uma forma de fortalecer a engrenagem desse regime operar com a ideologia patriarcal e denotar a força desse sistema Esse sistema de dominação é tão inerente às relações sociais que nem sequer a presença do patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado A legitimidade atribui sua naturalização SAFFIOTI 2004 p 101 E pode ser acionado inclusive por mulheres4 Assim 4 Como bem mostra Zhang Yimou no filme Lanternas Vermelhas nem sequer a presença do patriarca é imprescindível para mover a máquina do patriarcado levando à forca a terceira esposa pela transgressão cometida 82 sendo o patriarcado caracterizase como uma relação estrutural e superestrutural que pode ser analisada no sentido de rapport sociaux CISNE 2014 Cabe afirmarmos que o sistema sociopolítico do patriarcado não se constrói de forma isolada ao contrário relacionase com mais dois eixos estruturantes da sociedade o modo de produção capitalista e o racismo a que Saffioti 1987 1992 2004 denominou de nó Com efeito na realidade concreta o tripé não é separável já que se articula de tal forma num processo dialético formando um único sistema de dominaçãoexploração sendo pois uma unidade profundamente contraditória e dialética Cada haste desse tripé contraditório se produz e reproduz de maneira própria e articulada Retroalimentandose Assim sendo fundiramse de tal forma que seria impossível transformar um deles deixando intacto os demais Desse modo qualquer projeto de transformação societária necessita incluir todas as contradições postas na sociabilidade sendo portanto inviável um projeto societário cego para o gênero Como assevera Saffioti 2014 p 51 burgueses brancos e homens necessitam de suas ideologias e do nó em sua totalidade para convencer os dominados explorados da legitimidade da ordem social implantada Entretanto não se trata de realizar a somatória das três contradições referidas mas de apreender a realidade contraditória e dialética que resulta dessa simbiose tendo em vista que não existem apenas discriminações quantitativas Não se pode tratar determinações que complexificam e agudizam a situação de dominaçãoexploração das mulheres como variáveis quantitativas e equações numéricas Conforme Saffioti 2008 p 21 efetivamente uma mulher não é duplamente discriminada porque além de mulher é ainda uma trabalhadora assalariada Ou triplamente discriminada Nesse sentido como já apontei desde o início do subitem as relações sociais de sexo de raçaetnia e de classe são consubstanciais e coextensivas contra a ordem patriarcal de gênero além do patriarcado fomentar a guerra entre as mulheres funciona como uma engrenagem quase automática pois pode ser acionada por qualquer um inclusive por mulheres Quando a quarta esposa em estado etílico denuncia a terceira que estava com seu amante à segunda é esta que faz o flagrante e que toma as providências para que se cumpra a tradição assassinato da traidora O patriarca nem sequer estava presente no palácio no qual se desenrolaram os fatos Durante toda a película não se vê o rosto deste homem Quer se trate de Pedro João ou Zé Ninguém a máquina funciona até mesmo acionada por mulheres Aliás imbuídas da ideologia que dá cobertura ao patriarcado mulheres desempenham com maior frequência e com mais ou menos rudeza as funções do patriarca disciplinando filhos e outras crianças ou adolescentes segundo a lei do pai Ainda que não sejam cúmplices deste regime colaboram para alimentálo SAFFIOTI 2004 p 102 83 As relações sociais são consubstanciais elas formam um nó que não pode ser sequenciado ao nível das práticas sociais apenas em uma perspectiva analítica da sociologia e elas são coextensivas implantando as relações sociais de classe de gênero e de raça se reproduzem e se coproduzem mutuamente KERGOAT 2012 p 126 Tal posição apresentada se confronta com a concepção de que estas relações seriam superpostas interconexas interseccionais CRENSHAW 1989 1993 e que uma relação poderia ser priorizada em detrimento das outras Para Cisne 2014 p 142 Ao considerar por exemplo que elas seriam relações adicionais ou seja somáveis cairíamos na segmentação positivista de entendêlas como relações separadas e não enoveladas Para Kergoat 2012 o conceito de interseccionalidade considera uma multiplicidade de articulações tais como nacionalidade religiosidade sistemas de castas fluxos migratórios deslocamentos entre outras que levam a um perigo de fragmentação das práticas sociais e à dissolução da violência das relações sociais com o risco de contribuir à sua reprodução Para Cisne 2014 é preciso destacar que muitas teóricas dessa vertente continuam a raciocinar em termos de categorias e não de relações sociais privilegiando uma ou outra categoria sem historicizálas e por vezes não levando em consideração as dimensões concretas da dominação Aqui aludo seguindo as análises postuladas por Kergoart 2018 que o conceito de interseccionalidade é extenso e agrega um conjunto de acepções acerca da imbricação das relações de poder inclusive com algumas aproximações das análises em termos de relações sociais de sexo Muitas teóricas da perspectiva descolonial agregam as suas análises à impossibilidade de apreender a opressão e a exploração desarticulada dos processos de colonização e expropriação da América Latina e África Mesmo assim as referências à abordagem interseccional mascaram oposições persistentes no campo da teoria crítica em geral e dos estudos feministas em particular categorias X relações sociais identidades X classes subversão X emancipação Eis o que diz Sirma Bilge a respeito dos debates que atravessam a pesquisa interseccional se a interação das categorias da diferença constitui um ponto de consenso na literatura interseccional conforme demonstra o uso disseminado de termos alusivos a categoriasidentidadesprocessos mutuamente constitutivos a questão ontológica o que é e a questão epistemológica como é visto estão sujeitas a controvérsias De fato uma certa imprecisão cerca este mutuamente constitutivo Elsa Dorlin argumenta por sua vez que as teorias de interseccionalidade por hesitarem entre o analítico e o fenomenológico da dominação não conseguem conciliar estas duas abordagens de um lado a dominação é interseccional De outro determinadas experiências vividas da dominação é que são interseccionais E estas hesitações têm um custo precisa 84 ela quando somente as experiências das hiperdominadas são vistas como interseccionais KERGOAT 2018 p 146 Corroboramos a perspectiva de Falquet 2012 quando aponta a análise de relações sociais de classe raça e sexo como capazes de apreender as expropriações contemporâneas e a mundialização do capital Além disso reafirmamos a necessidade de aprofundar as análises sobre o racismo enquanto relação social estruturante no sentido de rapport Na particularidade brasileira o racismo se constituiu enquanto elemento estruturante das relações sociais e da formação da sociedade brasileira O Brasil é um país formado na linguagem da escravidão e da colônia que concentrava a produção por meio da monocultura latifundiária do trabalho escravo e do patriarcalismo rural do qual a casa grande e a senzala foram símbolos e que instituiu a relação de coisificação dos negros enquanto grupo social e a apropriação das mulheres negras em particular No Brasil e na América Latina a violação colonial perpetrada pelos senhores brancos contra as mulheres negras e indígenas e a miscigenação daí resultante está na origem de todas as construções de nossa identidade nacional estruturando o decantado mito da democracia racial latinoamericana que no Brasil chegou até as últimas consequências Essa violência sexual colonial é também o cimento de todas as hierarquias de gênero e raça presentes em nossas sociedades configurando aquilo que Ângela Gilliam define como a grande teoria do esperma em nossa formação nacional através da qual segundo Gilliam O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance CARNEIRO 1995 p 549 Não é demais reafirmar que asos negrasnegros constituem os segmentos populacionais que ocupam os espaços menos prestigiados são incorporados em trabalhos precários informais terceirizados e mal remunerados apresentam os mais baixos graus de escolaridade e pouco adentram à educação superior mesmo após a efetivação do sistema de cotas para as universidades federais assim como participam pouco do poder político CARNEIRO 1995 SCHWARCZ 2012 No Brasil o racismo inclui discriminações violentas contra negros de modo a fecharlhes portas de acesso a determinadas posições sociais preservando assim privilégios das brancas e dos brancos SAFFIOTI 2004 p 53 Para a presente análise as relações sociais de sexo e o patriarcado dão sustentação para a apropriação das mulheres individual e coletivamente Nesse horizonte há uma apropriação física direta que segundo Guillaumin 2014 p 33 compreende o açambarcamento da força 85 de trabalho e é através da forma assumida por esse açambarcamento que se pode discernir que se trata de uma apropriação material do corpo A posse material do corpo das mulheres se expressa na apropriação do tempo dos produtos do corpo na obrigação sexual e no encargo físico dos membros inválidos do grupo inválidos por idade bebês crianças velhos ou doentes e deficientes bem como dos membros válidos do sexo masculino Enquanto posses materiais as mulheres estão à disposição de seus proprietários como ferramentas de trabalho e cuidado Segundo Guillaumin 2014 os meios de apropriação da classe de mulheres são i O mercado de trabalho ii O confinamento no espaço iii Demonstração de força iv Coação sexual v Arsenal jurídico e direito consuetudinário Para o entendimento do processo de apropriação material e despossessão mental das mulheres GUILLAUMIN 2014 precisamos apreender o significado sociohistórico da família enquanto uma unidade de produção A origem etimológica da palavra vem do latim famulus e de acordo com Saffioti 2004 p 89 significa escravo doméstico e família é o número total de escravos pertencentes a um homem O surgimento e consolidação da família tem relação com a derrocada das sociedades préclassistas e reconfigura o lugar da mulher na sociedade Na família patriarcal monogâmica asos filhasfilhos e as terras passaram a ser propriedades privadas do homem ficando bem definidos os papéis sociais e sexuais entre eles Ao homem era dado o poder de vida e morte sobre a mulher filhos escravos e animais ou seja sobre todos que estavam sob seu domínio no famulus De acordo com Reed na nova sociedade os homens se converteram em principais produtores enquanto as mulheres eram trancadas em casa e ficaram limitadas à servidão familiar Desalojadas de seu antigo lugar na sociedade não somente se viram privadas de sua independência econômica como inclusive de sua antiga liberdade sexual A nova instituição do matrimônio monogâmico surgiu para servir as necessidades da propriedade que a partir de então era possuída pelo homem REED 2008 p 42 A família patriarcal monogâmica pode ser entendida como uma instituição econômica DELPHY 2009 lugar obrigatório de afetos de sentimentos de amor FOUCAULT 1980 p 103 espaço de privação PATEMAN 1993 ou um microcosmo insubstituível de reprodução e consumo MESZAROS 2011 p 278 que cumpre funções procriativas reprodutivas e ideológicas que são estruturantes na nova sociabilidade de classes Funções que passam a ser consideradas como naturais Para Delphy 1998 p 34 o modo de produção 86 familiar regido pelo patriarcado organiza as relações sexuais a educação das crianças os serviços domésticos e a produção de certos bens como pequenas produções mercantis Assim a reprodução física e emocional da força de trabalho a socialização dasdos filhasfilhos e o trabalho doméstico serão atribuições entendidas como femininas e sob responsabilidade das mulheres O trabalho doméstico não pago é crucial para a reprodução da força de trabalho pois centraliza as funções de alimentar vestir procriar e domesticar essa força De outra parte a socialização das mulheres no trabalho doméstico é uma das formas de interditálas à esfera pública diminuir o valor de sua força de trabalho e responsabilizálas pela reproduçãodomesticação de novas forças de trabalho Por certo a família também cumpre a função ideológica estratégica de difusão do conservadorismo e manutenção do status quo da sociedade burguesa Nas palavras de Cisne A família patriarcal realiza o papel ideológico na difusão do conservadorismo ao ensinar as crianças que devem aceitar as estruturas e premissas básicas da sociedade de classes Waters 1979 p 88 Há assim por meio desse modelo familiar uma internalização de valores conservadores ou melhor desvalores junto às crianças desigualdade competitividade autoridade e hierarquia preconceitos e funções sexistas Waters 1979 Logo concordamos com esse autor que o sistema familiar é também um pilar indispensável ao Estado Claro que juntamente com a família foi necessário criar seja para o aspecto ideológico seja para manter a divisão de riqueza por meio da força outras instituições como a Igreja a polícia as leis as prisões CISNE 2014 p 83 Outra função da família se dá na afirmação da heterossexualidade enquanto sistema político e instrumento ideológico e na maternidade como destino das mulheres Há uma produção do amor materno que transforma a condição reprodutiva das mulheres em uma obrigação inscrito em seu corpo e em sua subjetividade VILLELLA 2011 p 23 3222PARTICULARIDADES DA CONSTITUIÇÃO DOS MOVIMENTOS FEMINISTAS NO BRASIL Quando aportei no Cariri Cearense em 2011 duas coisas me chamaram a atenção de um lado a presença indigesta de fortes relatos de violência e assassinato de mulheres e de outro o histórico de lutas sociais na região e a organicidade dos partidos de esquerda e movimentos sociais locais inclusive com forte protagonismo das mulheres Tal contexto me revelou a priori a realização pelos movimentos locais de ações pontuais de enfrentamento ao feminicídio e 87 às múltiplas violências as quais as mulheres da região são submetidas cotidianamente No entanto sem a presença de um movimento feminista articulado O protagonismo das mulheres caririenses que reinterpretavam o mundo a partir de uma postura de resistência frente aos constantes processos de expropriaçõesdominações explorações também não aparecia nas elaborações científicas dasdos pesquisadoraspesquisadores da região Havia um profundo silêncio sobre as narrativas das mulheres militantes e de suas resistências Como alude Perrot 2017 p 16 escrever a história das mulheres é sair do silêncio em que elas estavam confinadas de forma que o silêncio das fontes e dos relatos funcionava naquele momento como um obstáculo concreto para a auto organização e formação de um sujeito militante feminista Nas palavras de Beauvoir 2009 p 23 No momento em que as mulheres começam a tomar parte na elaboração do mundo esse mundo é ainda um mundo que pertence aos homens Tudo que os homens escreveram sobre as mulheres deve ser suspeito porque eles são a um tempo juiz e parte escreveu no século XVII Poulain de La Barre feminista pouco conhecida Em toda parte e em qualquer época os homens exibiram a satisfação que tiveram de se sentirem os reis da criação O rompimento do silêncio sobre as narrativas particulares das resistências das mulheres caririenses requer redimensionálas como sujeitos dos relatos e construtoras de uma memória feminina e feminista bem como o entendimento sobre a constituição das relações sociais de sexo raçaetnia e classe particulares ao Nordeste ao interior ao sertão ao mundo rural que precisam ser desvendados para a apreensão das múltiplas determinações do real a fim de melhor compreender a interiorização das resistências feministas e a atuação dos movimentos de mulheres As mulheres foram e ainda têm sido esquecidas não só em suas reivindicações em suas lutas em seus direitos mas em suas ações Suprimidas da História foram alocadas na figura da passividade do silêncio da sombra na esfera desvalorizada do privado O feminismo aponta para a crítica da grande narrativa da História mostrando as malhas de poder que sustentam as redes discursivas universalizantes O feminismo denuncia e crítica Logo deve ser pensado e lembrado RAGO 1996 p 15 Assim publicizar a história das mulheres e da constituição dos movimentos de mulheres e feministas no Cariri passou a ser parte de minha história enquanto militante e pesquisadora 88 Pesquisar as mulheres em movimento no Cariri é em última instância constituir uma apropriação de mim e da minha condição de ser mulher ou de tornarme mulher Parafraseando Beauvoir 2009 2012 2013 perguntar constantemente sobre o ser mulher e pensar sobre a condição de desigualdades a que as mulheres enquanto coletivo estão submetidas é tornarse o fio condutor de sua própria obra É refletir sobre sua própria condição inclusive subvertendo a lógica masculina do pensamento O feminismo deve reafirmarse como um movimento social que se originou da ousadia libertária contra os cânones reivindicando a materialização no imediato de utopias o investimento em desidentificações identificações CASTRO 1997 p 10 Penso ser necessário fazer uma distinção entre movimento feminista e movimento de mulheres para melhor compreender as particularidades da constituição dos movimentos feministas no sertão caririense e a experiência militante da Frente de Mulheres colocada aqui enquanto sujeito de estudo e de inquietações militantes Há um debate intenso sobre a relação entre movimentos feministas e movimento de mulheres por um lado analisados como espaços distintos e por outro enquanto partes constitutivas dos processos de lutas das mulheres que se retroalimentam Desta maneira o feminismo seria dimensionado enquanto uma parte do movimento de mulheres em geral De acordo com Silva 2016 p 20 o movimento de mulheres pode ser caracterizado como um conjunto de ações de enfrentamento mobilizações sociais formas organizativas e de protestos que são coletivamente realizados por mulheres Corroboro Federici 2017 quando afirma que as raízes de um movimento de mulheres estão assentadas nas lutas antifeudais nas quais a expropriação do poder e dos conhecimentos das mulheres via caça às bruxas estruturaram os primeiros cercamentos e o processo contraditório de acumulação primitiva A luta contra o poder feudal produziu também as primeiras tentativas organizadas de desafiar as normas sexuais dominantes e estabelecer relações mais igualitárias entre mulheres e homens Combinadas à recusa do trabalho servil e das relações comerciais estas formas conscientes de transgressão social construíram uma poderosa alternativa não só ao feudalismo mas também à ordem capitalista que estava substituindo o feudalismo FEDERICI 2017 p 46 Não tenho dúvidas de que as mulheres que resistiram de forma individual e coletiva constituíram suas lutas em diversos espaços geopolíticos e que suas narrativas ainda são 89 insuficientes porém já começam a ganhar visibilidade nas cartografias feministas contra a hegemônicas Portanto o movimento de mulheres é aqui entendido como um conjunto heterogêneo de mulheres que romperamrompem com o confinamento do espaço doméstico em torno de diferentes formas de luta e organização alimentandose por diversas perspectivas teóricas e ideopolíticas feminista popular políticopartidária e sindical Dentro do campo mais amplo dos movimentos de mulheres os movimentos feministas na literatura hegemônica formamse na instituição das mulheres enquanto um sujeito político manifestandose como tal na segunda metade do século XIX e demarcando uma concepção de luta política e de projeto de vida Constituise portanto como um movimento político cultural social e econômico que redefine o campo da política e da vida cotidiana bem como estrutura um pensamento crítico e subversivo que procura desnaturalizar as relações patriarcais de sexo bellhooks 2010 p 12 logo na introdução de seu livro O feminismo é para todo mundo define feminismo ou feminismos como um movimento que almeja o fim do sexismo e das opressões de classe de raça de etnia entre outras Aqui o feminismo pode ser apreendido como um caleidoscópio através do qual distintas experiências das mulheres podem ser analisadas criticamente no sentido de reinventar as relações sociais entre homens e mulheres fora dos padrões que estabelecem a inferioridade de um em relação ao outro As perspectivas hegemônicas no interior dos feminismos têm situado a constituição das lutas por emancipação feminina nos marcos das reivindicações por igualdade no século XVIII elaborando uma história das mulheres a partir do desenvolvimento do modo capitalista de produção no contexto da Europa e posteriormente dos Estados Unidos da América Tais perspectivas em certa medida desconsideram as particularidades de outras formações sociais e os processos de desenvolvimento combinado e desigual do capitalismo Nessa lógica os movimentos de mulheres e dentro deles os feminismos desenvolveramse a partir de três ondas organizativas a saber as lutas por inserção no mundo do trabalho da educação e da política as reivindicações pela autonomia do corpo das práticas sexuais e do enfrentamento à violência nos marcos do maio de 1968 e o aparecimento de novos feminismos PINTO 2003 Esta acepção clássica identifica no bojo das transformações políticas e econômicas da Europa setecentista as primeiras ideias feministas em torno da reivindicação por igualdade e liberdade Nesse sentido o feminismo emerge como uma ação coletiva estruturada a partir do fenômeno da modernidade acompanhando seus fluxos e refluxos desde o século XVIII 90 tomando corpo no século XIX também como um instrumento de críticas da sociedade moderna e do homem enquanto sujeito universal desta modernidade SADENBERG COSTA 1991 As mulheres não estavam incluídas na concepção de sujeito e estavam excluídas do contrato social já que seu estatuto social era semelhante ao dos escravos Nesse sentido a crítica das feministas centravase nas contradições da modernidade que se estabeleceu entre o universalismo dos direitos políticos e individuais e o universalismo da diferença sexual legitimada pela justificativa ideológica de que essa diferença era decorrência da natureza Dentre os textos fundadores destaco a obra de Mary Wollstonecraft Reivindicação dos direitos das mulheres publicada em 1792 que a partir da doutrina liberal dos direitos inalienáveis do homem apontava a necessidade de alargamento dos direitos políticos das mulheres por meio de sua inclusão no campo da cidadania No campo das feministas socialistas temos a publicação em 1843 do livro União Operária de Flora Tristan que identifica as opressões sofridas pelas mulheres no interior das classes trabalhadoras bem como a necessidade de acesso destas à educação A autora articula essa pauta com as lutas de classe indicando a criação de uma Associação Internacional de trabalhadores e trabalhadoras que posteriormente foi proposta por Marx e Engels Segundo Tristan 2017 p 98 Eu reclamo direitos para a mulher porque estou convencida de que todas as desgraças do mundo provêm desse esquecimento e desprezo que sofreram até aqui os direitos naturais e imprescritíveis do ser feminino Eu reclamo direitos para a mulher porque é a única maneira de conseguir que se ocupem de sua educação e da educação da mulher depende a do homem em geral e particularmente da do homem do povo Eu reclamo direitos para a mulher porque é o único meio de obter sua reabilitação diante da igreja da lei e da sociedade e que é necessária essa reabilitação antecipada para que os próprios operários sejam reabilitados desde a declaração dos direitos do homem ato solene que proclamava o esquecimento e o desprezo que os novos homens demonstraram em relação a elas esse protesto investiuse de um caráter de energia e de violência que prova que a exasperação do escravo atingiu o ápice Portanto essa onda feminista centravase na reivindicação das mulheres em serem reconhecidas como sujeitos aptos a participarem da vida política do mundo do trabalho e da educação Aqui também aponto a luta das mulheres pelo direito de alistamento à carreira militar e ao acesso às armas a fim de tomar parte da defesa da revolução Essas reivindicações eram direcionadas às estruturas estatais e às organizações dos trabalhadores no sentido de criar um consenso em torno da igualdade e da liberdade para todos Entretanto existia uma negação 91 dessas pautas por parte dos homens inclusive dos que encampavam a luta por projetos revolucionários de sociedade seja sob a alegação de que não eram pautas centrais e posteriormente seriam alcançadas a partir da vitória dos trabalhadores ainda bastante usual no século XXI seja com o argumento de que traziam prejuízos ao conjunto dos trabalhadores rebaixando seus salários expresso na resistência dos homens às mulheres se inserirem no mundo do trabalho fabril Ao longo do século XIX e na primeira metade do século XX a defesa dos direitos das mulheres passou a assumir formas organizativas diversificadas e heterogêneas conforme a assimilação do ideário feminista em cada contexto geopolítico O desenvolvimento do modo de produção capitalista e os processos de industrialização provocaram um conjunto de transformações societárias que impactaram a vida das mulheres europeias Destaco que a colonização das terras da América e a escravidão dos povos africanos impactaram decisivamente para as reivindicações das mulheres nãoeuropeias e norteamericanas É nesse contexto que se fortalece a luta sufragista com os objetivos de acessar ao parlamento para tensionar as leis e as instituições assim como alargar os direitos políticos e de cidadania Cabe dizer que a luta por sufrágio universal e acesso à educação condensou ao seu redor um conjunto de mulheres com posições políticas e ideológicas bastante distintas e de várias regiões do mundo Na formação social brasileira as lutas das mulheres por acesso à educação formal e ao voto se constituíram entre meados do século XIX até os anos 1940 e foram marcadas pelo fato de que até o final do século XIX bem poucas mulheres tinham aprendido a ler e a escrever O acesso à educação continua sendo uma pauta relevante para as mulheres e que até o século XXI ainda mobiliza esforços para a sua materialização Considero importante pontuar o lugar que o Brasil ocupava na organização internacional do trabalho no século XIX enquanto um estadonação que nasce à sombra do poder monárquico de raízes portuguesas com bênçãos do poder monárquico britânico garantindose assim a legitimidade metafórica do estadonação e dos governantes IANNI 2000 p 66 Ademais o país tem como traço constituinte e constitutivo de suas relações sociais o processo de escravidão que deixou profundas marcas estruturais na sociedade brasileira Por outra parte teremos a constituição de uma sociedade agrária fundada no latifúndio escravidão e na constituição da família patriarcal monogâmica e de um Estado autoritário e tutelar IANNI 2000 1966 CHAUÍ 2006 Esses traços fundadores estão articulados ao catolicismo como 92 argamassa intelectual cultural e ideológica da história brasileira no sentido de aniquilamento da ideia de laicidade e na elaboração de uma história oficial e oficiosa que ideologicamente cria a ideia de país católico Tudo isso circunscreve as mulheres dentro de uma sociedade fortemente patriarcalreligiosa que visualiza os avanços da mulher como ameaças concretas à ordem e à paz social Neste contexto as lutas por participação política se deram fundamentalmente na tentativa de mudanças jurídicolegislativas para garantir o voto das mulheres das classes abastadas e brancas e não necessariamente na elaboração de um projeto político contestatório do lugar das mulheres na sociedade um traço do movimento feminista brasileiro que perdurará durante muito tempo não sem tensionamentos O acesso à educação superior para as mulheres foi conquistado em 1879 com a lei da reforma educacional e o direito ao voto nas primeiras décadas do século XX Todavia representaram conquistas para as mulheres pertencentes à classe média e à elite brasileira destacandose também o protagonismo individual5 ou de uma vanguarda de tais ganhos políticos Esta luta esteve associada ao nome de Berta Lutz que exerceu uma inegável liderança durante a década de 1920 e se manteve ligada às causas da mulher até sua morte em avançada idade na década de 1970 Entretanto não se pode reduzir a presença de manifestações feministas na época ao sufragismo de Berta Lutz Algumas dessas manifestações são organizadas outras são vozes solitárias de mulheres que se rebelam contra as condições que viviam na época O feminismo daquele período esteve intimamente associado a personalidades Mesmo quando apresentou algum grau de organização esta deriva do esforço pessoal de alguma mulher que por sua excepcionalidade na maioria das vezes intelectual rompia com os papéis para ela estabelecidos e se coloca no mundo público na defesa de novos direitos para as mulheres PINTO 2003 p 14 Pinto 2003 identifica três vertentes no feminismo brasileiro do início do século XX a primeira é encampada por Berta Lutz tendo como centralidade a luta por direitos políticos e um forte grau de institucionalização sendo considerada uma face bem comportada do feminismo brasileiro por não questionar as relações desiguais entre homens e mulheres a 5 Destaco nesse período o protagonismo de Nísia Floresta Nascida no Rio Grande do Norte foi uma das primeiras feministas brasileiras a romper o confinamento doméstico e a publicar textos em jornais da chamada grande imprensa Em 1832 publica a obra Direito das mulheres e injustiça dos homens uma tradução livre da obra de Mary Wollstonecraft que é reconhecido como um dos textos fundadores do feminismo brasileiro Também em uma perspectiva personalista temos a professora mossoroense Celina Guimarães que recorreu à justiça do estado para garantir o direito ao voto e se tornou a primeira eleitora do Brasil em 1927 93 segunda expressase na imprensa feminista alternativa caracterizandose por tensionar a dominação masculina e pontuar as questões de educação participação política e transformações no campo da vida cotidiana inclusive tematizando o divórcio e a sexualidade sendo denominada de feminismo difuso e a terceira se articula às perceptivas dos movimentos feministas anarquistas e comunistas tratando a questão das mulheres articulada à questão da exploração capitalista do trabalho e à necessidade de um projeto de revolução dos trabalhadores e trabalhadoras Nesse sentido o século XX iniciase com uma movimentação inédita de mulheres que pressionam os aparatos jurídicoinstitucionais pelo direito ao voto à inserção nas universidades e no mundo do trabalho questionando inclusive as esferas privadas da vida social Entretanto a partir da conquista ao voto o movimento feminista sofreu uma desmobilização em vários países inclusive na maioria dos países latinoamericanos Tal desarticulação pode ser explicada pela conjuntura da crise econômica de 1930 e a eclosão da Primeira Guerra Mundial A reorganização do movimento feminista acompanhou visivelmente os processos de desenvolvimento político social cultural e econômico do mundo ocidental em distintas formações sociais Qualificada de neofeminismo a segunda onda feminista cobre metade dos anos 1960 e começo dos anos 1970 e extrapola a reivindicação por igualdade jurídica reconhecendo a impossibilidade de alcançar tal igualdade no seio de relações sociais fundamentalmente desiguais estruturadas pelo sistema patriarcal Esse contexto é demarcado por intensas contestações ao imperialismo norteamericano a divisão do mundo em dois blocos de poder socialista e capitalista pela Guerra Fria e a crise sociometabólica do capital que aglomera um conjunto de estudantes mulheres negrosnegras operários intelectuais e artistas da Europa e dos Estados Unidos em torno de grandes mobilizações populares questionadoras do autoritarismo totalitarismo colonialismo e militarismo De outra parte também há uma intensa contestação dos valores padrões comportamentos e práticas reproduzidas nessa ordem social A irrupção desse novo universo ideopolítico de contestação à ordem em suas especificidades questionava as desigualdades entre as nações impostas pelo colonialismo imperialista a Guerra do Vietnã a repressão aos movimentos de independência das colônias a centralização políticoestatal do socialismo real e as estruturas clássicas de organização partidáriasindical Ademais repercutiu em uma revolução cultural no sentido de recusa aos padrões morais instituídos que se expressou na informalidade nos estilos de vida na defesa da legalização do uso de drogas e na livre prática 94 da sexualidade e de orientação sexual corporificadas no movimento hippie feminista homossexual e negro Uma revolução cultural e sexual com grandes impactos para as lutas sociais e para a constituição de novos sujeitos políticos que fortemente afetou as lutas feministas HOBSBAWN 1999 LEFEBVRE 1968 No espectro dos movimentos de contracultura dos anos 1960 os movimentos feministas vão além da reivindicação por direitos e igualdade constituindo lutas em torno da politização das esferas privadas e da transformação das relações afetivas e sexuais Aqui a noção burguesa de intimidade que dimensiona o espaço privado como de acolhimento e expressão das afetividades em contraposição ao mundo público moderno vai ser amplamente questionada A partir da afirmação de que o pessoal é político propunham problematizações em torno do domínio do político e dos limites da dicotomia entre o público e o privado Criticando a noção de vanguarda e considerando às vezes o engajamento político como um engajamento do conjunto da vida das militantes o feminismo dos anos 70 se caracteriza por grupos não mistos negando aos homens o direito de falar em nome das mulheres Ampliando as reivindicações dos movimentos negros norteamericanos Black Power Poder Negro e depois Black Panthers Panteras Negras as feministas abrem assim o caminho aos movimentos multiculturalistas das décadas de 1980 e 1990 ao denunciarem os valores universalistas como aqueles dos grupos dominantes FOUGEYROLLASSCHWEBEL 2009 p 146 As feministas portanto dimensionaram as opressões que perpassavam o cotidiano das mulheres na vida doméstica familiar e sexual como relações políticas que eram vivenciadas de forma isolada e individualizada no confinamento do mundo doméstico mas que precisavam de ações políticas na esfera pública para serem superadas Dar visibilidade a temas que politizam as relações do mundo doméstico tais como o direito ao aborto maternidade como escolha práticas sexuais livres lesbiandade violência contra a mulher e educação sexista provocou contraposições às lutas feministas e de certa forma resistências da esquerda socialista às lutas das mulheres entendidas como específicas e capazes de fragmentar a unidade de classe Destarte cumpre ressaltar que os movimentos feministas comportam vários ciclos de movimentação inclusive por se construir a partir de uma heterogeneidade de experiências e práticas de mulheres demarcadas seja pela raçaetnia classe sexualidades regionalidades religiosidades orientações sexuais gerações entre outras questões que podem até não serem percebidas ou consideradas pelo feminismo hegemônico mas que constroem outros feminismos mesmo que marginais periféricos ou contrahegemônicos Segundo Silva 2016 95 nos países centrais também existem vivências contrahegemônicas no feminismo a exemplo das materialistas francesas das radicais e do feminismo negro norteamericano No que diz respeito ao feminismo norteamericano destaco o seu ressurgimento na década de 1960 após os recuos das mulheres no processo de desmobilização do movimento Seja no campo da produção teórica ou da prática política as liberais reorganizam suas ações a partir da Organização Nacional para as Mulheres criada em 1966 com foco no processo educativo das mulheres fundamentadas na obra de Bety Friedman A mística feminina Em um outro caminho as radicais sustentavam a luta política no questionamento à apropriação do corpo e na conquista da autonomia Friso que as bases teóricas e as ações políticas dessa perspectiva estavam ancoradas em uma ampla heterogeneidade teórica e prática a partir do diálogo com o marxismo e com a psicanálise a fim de desvelar as origens das desigualdades entre homens e mulheres e no patriarcado enquanto sistema de opressão das mulheres Como assevera Millett 1975 p 47 O patriarcado é a instituição que operacionaliza a divisão sexista fornecendo os princípios e valores que organizam a sociedade com base em diferenças hierarquizadas Talvez nenhum outro sistema tenha exercido um controle tão completo sobre os seus súditos Para as feministas radicais o sistema patriarcal encontra seu lugar de reprodução na família no Estado e na Igreja entendidos como um tripé de dominaçãoopressãoapropriação da vida social e portanto instrumentos de sustentação ideológica do capitalismo Nesse sentido propõem uma revolução das mulheres para a tomada do controle da reprodução e da propriedade do corpo à recusa de formas tradicionais de organização política e da estrutura dos partidos políticos assim como a eliminação dos privilégios dos homens a partir da constituição da autonomia das mulheres e de sua representatividade nos espaços políticos De certo nos escritos teóricos de Shulamith Firestone A dialética do Sexo Kate Millet Política Sexual e Simone de Beauvoir Segundo Sexo tidos como centrais para as radicais há uma desnaturalização da desigualdade de sexos inscrita na negação do essencialismo biológico e no dimensionamento da questão das mulheres como da ordem da política e da história Aqui a apropriação do corpo e a conquista da autonomia são centrais para a formação do ser mulher enquanto um sujeito político capaz de transformar as relações microssociais e tensionar as estruturais 96 A luta política voltada ao conhecimento valorização e emancipação do corpo feminino fomentou uma das principais realizações do feminismo radical que foi a formação de grupos de autoconsciência e autoconhecimento uma práxis política constituída a partir da troca de experiências e vivências de mulheres e sua reflexão para a realização de ações coletivas Inspiradas em técnicas chinesas especialmente o speakbitterness falar da dor para superála mulheres ativistas a maioria de inclinação socialista e autoidentificadas como radicais se reuniam para discutir questões pertinentes ao ser mulher e intercambiar suas vivências e experiências concluindo que suas relações afetivas sexuais e familiares também se caracterizavam como relações de poder e desvantagem Portanto não eram naturais casuais e isoladas mas sociais históricopolíticas ideológicas e coletivas Assim requeriam enfrentamento coletivo mesmo que o fortalecimento da autodeterminação a partir desses grupos pudesse impulsionar micro estratégias de enfrentamento ao patriarcado Por ter vivido tão intimamente com nossos opressores isoladas uma das outras ficamos impedidas de ver nosso sofrimento pessoal como uma condição política Isso cria a ilusão de que o relacionamento de uma mulher com seu homem é uma questão de interação entre duas personalidades únicas e pode ser elaborado individualmente Na realidade cada tipo de relacionamento é um relacionamento de classe e os conflitos entre homens e mulheres individuais são conflitos políticos que só podem ser resolvidos coletivamente MANIFESTO DE REDSTOCKINGS 1969 p 534 A partir daí a palavra de ordem o pessoal é político se expressa na problematização não apenas de uma suposta separação entre a esfera privada e a esfera pública mas também da noção do político que toma as relações sociais na esfera pública como sendo diferentes em conteúdo e teor das relações e interações na vida familiar na vida privada Isso abre uma ampla agenda política corporificada na resistência e contestação a valores tradicionais de família sexualidade corpo e maternidade na defesa da legalização do divórcio e reconhecimento dos filhos ilegítimos na reivindicação de creches lavanderias e restaurantes públicos na descriminalização do aborto e enfrentamento à violência contra a mulher Aqui também aponto a importância do feminismo negro norteamericano para a ampliação da práxis feminista no sentido de questionar a universalidade da categoria mulher amplamente pleiteada pelo movimento feminista e a invisibilidade das mulheres negras nos seus estudos e ações Nesse sentido foram precursoras na incorporação da raçaetnia enquanto categoria de análise da exploraçãoopressão das mulheres ocupandose em discutir a presença 97 do racismo bem como o entrecruzamento entre gênero raça e classe como elemento representativo das distintas experiências das mulheres A crítica ao feminismo branco hegemônico se deu fundamentalmente na dificuldade deste em reconhecer a heterogeneidade intrínseca ao movimento em particular à questão racial dimensões que também são evidenciadas pelas feministas negras brasileiras Assim o desenvolvimento de uma crítica feminista negra nos anos 1970 e com maior amplitude nas décadas de 1980 e 1990 foi de fundamental importância para aprofundar as análises em torno do lugar social ocupado pelas mulheres negras e dos processos de desigualdade social econômica e política que elas são constantemente inseridas Essa contestação das mulheres negras às feministas brancas nos EUA já vinha acontecendo desde o século XIX a partir do desvelamento das experiências das mulheres negras na sociedade escravocrata e pós escravidão principalmente a partir das reflexões de Sojourner Truth Maria W Stewart Anna Julia Cooper e Ida B WellsBarnett Nas percepções de Davis 2016 e hooks 2018 mulheres negras e brancas compartilham as múltiplas opressões operacionalizadas pelo patriarcado todavia tais experiências não são universais e nem agenciam as mesmas formas de resistência para todas as mulheres já que inexiste um universalismo na condição da mulher A teoria feminista branca ocidental desconsiderou que ser mulher é uma experiência socialmente compartilhada e historicamente situada CAMURÇA 2007 p 16 Também ignorou a relação entre patriarcado colonização e racismo nas Américas bem como as particularidades das mulheres asiáticas africanas latinoamericanas e indígenasaborígenes em suas formações sociais específicas E para a constituição de um nós mulheres é imprescindível que se considere o ponto de vista das mulheres em suas pluralidades sustentado na concepção de que as repercussões do colonialismo do imperialismo da escravidão do apartheid e de outros sistemas de dominação racial operacionalizaram experiências diversas de opressãoexploração dominação em várias partes da África Caribe América do Sul e América do Norte Portanto a contribuição das mulheres negras na constituição da práxis feminista é de suma importância especialmente na particularidade brasileira dado o longo período de escravidão e as formas que se organizaram a libertação dos escravos e o pósescravidão marcando o racismo como traço constitutivo e constituinte das relações sociais Esse contexto de efervescência dos movimentos feministas em nível internacional nas décadas de 1960 e 1970 materializouse na América Latina a partir da resistência das mulheres 98 às ditaduras militares articulandose lutas contra as opressões específicas com foco nos direitos sexuais e reprodutivos além do enfrentamento à violência contra a mulher No que diz respeito à particularidade brasileira a autocracia foi uma ação articulada por frações burguesas locais militares e países imperialistas dominantes no sentido de obstacularizar a participação política das classes trabalhadoras fortalecer uma política econômica que favorecesse a entrada e a consolidação das empresas multinacionais no Brasil bem como inibir a expansão dos ideais comunistas e de esquerda que poderiam ameaçar a dominação econômica imperialista sobre os países periféricos FERNANDES 2005 p 111 Nesse sentido o estado brasileiro em nome do grande capital adotou uma política autoritária que usou da violência para impor medo e terror nos setores populares e nas lutas sociais em que a principal ferramenta da ação policial foi o uso da tortura para obrigar presos políticos a repassarem informações sobre as lideranças e os planos dos movimentos e segmentos que se colocavam contra o regime civilmilitar Para Netto 2014 p 74 O golpe não foi puramente um golpe militar foi um golpe civilmilitar e o regime dele derivado com a instrumentalização das Forças Armadas pelo grande capital e pelo latifúndio configurou a solução que para a crise do capitalismo no Brasil à época interessava aos maiores empresários e banqueiros aos latifundiários e às empresas estrangeiras NETTO 2014 p 74 No primeiro momento da ditadura civilmilitar foi possível visualizar uma intensa participação popular em que variados sujeitos coletivos resistiram e se posicionaram contra o regime com diversas ações no âmbito políticocultural e com a forte presença do movimento sindical popular estudantil e de mulheres bem como de setores da Igreja Católica congregados em torno dos valores da Teologia da Libertação e do circuito universitário imbuídos pela efervescência das ciências sociais e do maio francês Todavia o recrudescimento dos instrumentos de repressão e tortura impuseram aos opositores do regime a clandestinidade a perseguição e a prisão das lideranças comprometidas com ideais democráticos de forma que as lutas pela redemocratização tiveram que assumir outras formas através da constituição da luta armada via guerrilhas urbanas e rurais o exílio ou a retomada dos projetos de educação popular nas periferias As lutas dos movimentos de mulheres e dentro destes a emersão dos feministas na década de 1960 e 1970 se inscrevem nesse contexto de reivindicação contra o regime militar e reestabelecimento da democracia em que o protagonismo das mulheres demarcou uma 99 mudança profunda na política brasileira principalmente porque transgredia os papéis que historicamente foram designados à mulher rompendo com o confinamento doméstico e acessando a esfera pública Para Pinto 2003 p 45 A grande maioria das militantes feministas dos primórdios do feminismo no Brasil esteve envolvida ou foi simpatizante da luta contra a ditadura no país tendo algumas delas sido presas perseguidas e exiladas pelo regime A maior parte destas advinham de classes médias intelectualizadas que pleiteavam nas palavras de Rago 1996 p 37 novas formas de expressão de suas individualidades Em luta contra a ditadura militar defrontavamse também com o poder masculino dentro das organizações de esquerda que obstaculizavam sua participação em condições de igualdade com os homens Todavia é importante visibilizar a presença contundente das mulheres de classes populares nas lutas contra a ditadura e pela redemocratização do país mas fundamentalmente na esfera da reprodução social seja nos movimentos contra o aumento do custo de vida nos clubes de mães ou nas reivindicações por direitos sociais serviços de saúde moradia educação e transporte Segundo Sader 1998 essas mulheres foram influenciadas por agentes pastorais que a partir da inserção no cotidiano das comunidades possibilitaram a participação ativa das mulheres muito a partir de suas vivências de mães esposas e católicas subsidiando suas reflexões sobre as injustiças com referências nos evangelhos e formalizaram meios necessários para a mobilização social Como assevera o autor nada disso nega o fato de que efetivamente tratavase de uma organização pela base e por elas mesmas SADER 1998 p 204 A autoorganização das mulheres populares muitas vezes não era compreendida pelas que se intitulavam feministas como uma movimentação feminista em virtude de não questionar as opressões patriarcais distância que foi paulatinamente diminuída nas últimas décadas do século XX Na perspectiva de Pinto 2003 p 44 São inúmeros os relatos de aproximação do movimento de mulheres com o movimento feminista Se o primeiro muitas vezes se aproximava inicialmente apenas para se utilizar dos serviços promovidos pelo segundo suas integrantes a partir desta aproximação passavam a problematizar a própria condição de mulher 100 É inconteste que os movimentos de mulheres e feministas construíram uma complexa relação com a Igreja católica enquanto foco de oposição ao regime militar O trabalho com grupos de mulheres como parte do trabalho pastoral possibilitou intensas mudanças na vida das mulheres e nas organizações de bairro o que em certa medida colocava as feministas em constante processo de enfrentamento com a Igreja na disputa pela hegemonia dentro dos movimentos populares Mas em virtude da necessidade de fortalecer as alianças estratégicas contra o regime civilmilitar desviavamse de conflitos especialmente com pautas feministas que geravam polêmicas como era o caso dos direitos sexuais e reprodutivos a autonomia sobre o corpo e as sexualidades dissidentes que acabavam sendo debates nos grupos de reflexão portanto considerados clandestinos e impertinentes pela ditadura Igreja e pela própria esquerda revolucionária Para Soares 1994 p 14 as mulheres pobres a partir da ação política para melhorar suas vidas e as de seus familiares se redefiniam a si mesmas como legítimas atrizes públicas e modificavam as normas tradicionais que limitam a mulher neste âmbito privado do lar Entretanto essas mulheres mesmo que organizadas em suas ações de sobrevivência que as fazem sair do seu encerramento doméstico identificar interlocutores aumentar seu sentimento de autoestima podem não modificar no essencial a profunda segregação sexual da sociedade nem alterar a direcionalidade dos projetos sociais Elas se constituíram e ainda se constituem nas interlocutoras privilegiadas das feministas As trabalhadoras rurais também foram protagonistas dos processos de organização das mulheres de maneira expressiva e peculiar nos anos de ditadura civilmilitar e redemocratização do país Fazem parte de uma realidade demarcadamente heterogênea proveniente da inserção do capital na agricultura em que as lutas pela reforma agrária e pelo acesso à terra por melhores condições de produção e melhores preços agrícolas direitos sociais trabalhistas e previdenciários que em tese unificam homens e mulheres do campo se aliam à luta particular das camponesas por cidadania e visibilidade como trabalhadoras Ainda no quadro das resistências à ditadura militar Soares 1994 e Pinto 2003 apontam que as feministas brasileiras inspiradas pelas europeias e norteamericanas constituíram grupos de reflexão a partir do início dos anos 1970 para compartilhamento de suas experiências em comum acerca do lugar social do feminino na sociedade das corporalidades e dos direitos sexuais Realizavam suas reuniões na clandestinidade e a partir de convites privativos em torno das relações de afinidades intelectuais políticas e pessoais As brasileiras exiladas no exterior também se organizavam em grupos de reflexão sendo que o mais 101 importante foi o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris que durou de 1975 a 1979 constituindo espaços públicos de reflexão e produzindo materiais teóricopolíticos para as que estavam no Brasil Os grupos de reflexão expressavam uma questão polêmica no interior do feminismo brasileiro que era a dicotomia entre as que articulavam a questão das mulheres necessariamente à luta de classes e as que compreendiam a necessidade de fissurar as relações de dominação das mulheres de forma a dar ênfase ao corpo à sexualidade e ao prazer De acordo com Pinto 2003 p 52 os grupos de reflexão e as pautas feministas sofriam severas críticas do regime militar e da esquerda marxista seja ela em território brasileiro ou no exílio por representarem ameaça à unidade da luta do proletariado para a revolução socialista e ao poder dos homens no interior das organizações Um dado relevante sobre os movimentos de mulheres no período da ditadura civil militar é que estes não se posicionaram apenas contra o regime e a luta pela democracia mas também notase a presença de mulheres organizadas na legitimação da ditadura Como bem assevera Biroli 2018 p 179 houve uma presença marcante de mulheres na Marcha da Família com Deus pela Liberdade antessala do golpe de 1964 capitaneadas por organizações como a Campanha da Mulher pela Democracia Camde e a União Feminina De outra parte é importante enfatizar a importância da definição em 1975 pela Organização das Nações Unidas ONU do Ano Internacional da Mulher e da Década da Mulher que proporcionou o lançamento de vários eventos referentes à questão das mulheres e uma conjuntura favorável para a emersão do movimento feminista organizado dado que quando a ONU dimensionou a questão das mulheres como um problema social criou um espaço para que os sujeitos políticos feministas que atuavam na clandestinidade pudessem existir abertamente Também é importante dizer que a iniciativa da ONU em certa medida apenas potencializou as lutas feministas que já estavam acontecendo na Europa e Estados Unidos O Ano Internacional da Mulher também representou uma possibilidade para os partidos e grupos políticos no sentido de se constituirem enquanto um espaço autorizado para reuniões e atuação sob proteção da ONU embora representasse uma dispersão para os setores da esquerda que consideravam os debates sobre a mulher secundários e apontavam a necessidade de centralizar forças em uma luta prioritária a luta de classes Para algumas feministas o evento patrocinado pelo Centro de Informação da ONU em julho de 1975 no Rio de Janeiro realizado na Associação Brasileira de Imprensa intitulado de O papel e o comportamento da mulher na 102 realidade brasileira e a constituição do Centro da Mulher Brasileira seriam fundadores do feminismo brasileiro possibilitando sua expressão em outros territórios geopolíticos PINTO 2003 SOARES 1998 Sem desconsiderar a importância do ano internacional da mulher penso ser relevante desconstruir as narrativas fundadoras do feminismo no sentido de situálo como um movimento plural que se constitui a partir de variadas resistências dos movimentos de mulheres articulando mulheres brancas dos segmentos médios intelectualizados e de classes populares em organizações de bairro O fato é que na passagem da década de 1970 para 1980 ampliaramse os grupos feministas no país alguns alinhados aos grupos de autoconsciência norteamericanos outros de reflexãoação Também aprofundaramse as problematizações da relação com os partidos políticos os setores progressistas da Igreja e o Estado principalmente na recusa da tutela dessas organizações na condução das lutas das mulheres dimensionando a questão da autonomia como central nesse momento Para Biroli 2018 p 180 entendeuse que sua autonomia e o potencial crítico dos feminismos dependiam necessariamente da distinção e da distância em relação ao Estado e aos partidos políticos Assim a ruptura das feministas com a esquerda partidarizada aconteceu na esfera organizativa Contudo os vínculos ideológicos e o compromisso com a transformação das relações sociais de produção mantiveramse concomitantes à luta contra o patriarcado Contraditoriamente os processos de redemocratização dos países da América Latina materializaram um período de alargamento da participação política e a possibilidade de intervenção mais direta na nova institucionalidade de modo que a subrepresentação das mulheres na esfera políticoinstitucional se transformou em uma questão de ordem para os movimentos feministas e de mulheres Isso demarcou uma forte atuação desses grupos nas lutas pela aprovação da nova Constituição em 1988 na elaboração de políticas públicas para as mulheres e de mecanismos de controle social que coadunam com a lógica do momento de ressignificação do conceito de sociedade civil Na esteira do processo de abertura política com a anistia dasdos presaspresos políticaspolíticos e o retorno dasdos exiladasexilados associado à reforma partidária os movimentos feministas ao passo que ampliaram seus espaços de atuação também conviveram com profundos tensionamentos internos que vão forjar o surgimento de uma nova divisão entre as feministas de um lado as institucionalizadaspartidarizadas e de outro as autônomas 103 Este é o cenário no qual se desenvolveram os acontecimentos da década de 1980 Se para muitos analistas da economia brasileira a década foi perdida para a política esse definitivamente não foi o caso O movimento feminista particularmente tomou novos rumos A volta à normalidade política foi a grande questão daquele momento político pois levou as militantes feministas até então identificadas com o MDB a se dividirem entre o PMDB Partido do Movimento Democrático sucedâneo do MDB e o PT Partido dos Trabalhadores A questão política parecia dominar o feminismo em 1982 quando das primeiras eleições gerais do país exceto para presidente da República Com o processo de redemocratização mais avançado surgia uma nova divisão entre as feministas de um lado ficaram as que lutavam pela institucionalização do movimento e por uma aproximação da esfera estatal e de outro as autonomistas que viam nessa aproximação um sinal de cooptação PINTO 2003 p 68 Essa cisão das feministas na transição da década de 1980 a de 1990 apontava dois caminhos que àquele momento apresentavamse como inconciliáveis a intervenção nos espaços institucionais do Estado como possibilidade de elaborar executar e monitorar políticas públicas para as mulheres e a noção de que a relação com o Estado poderia ser um espaço de cooptação de militantes e institucionalização do movimento e portanto amortizar a força das mulheres em movimento Na minha compreensão é salutar constituir mediações entre os dois caminhos supracitados já que as mulheres se constituem enquanto uma pluralidade de sujeitos advindos de classes sociais raçasetnias territorialidades gerações sexualidades religiosidades e orientações sexuais também diversas e que são afetadas de formas distintas tanto por esses marcadores sociais quanto pelo aprofundamento das expressões da questão social a precariedade das políticas sociais e a dificuldade de acesso aos serviços públicos Dito isto convém dizer que a ação das feministas institucionalizadas tensionou a implementação de políticas públicas que afetam a cotidianidade das mulheres das classes subalternas através da eleição de partidos de esquerda para gestões municipais e estaduais bem como a criação dos Conselhos de Direitos da Mulher É central em minha análise que esta aproximação de parte do movimento com o Estado repercute na radicalidade das pautas e não é capaz de engendrar transformações estruturais nas relações desiguais entre homens e mulheres contudo é também fundante considerar que essa relação com o Estado poderia ser uma aposta na construção de instituições políticas democráticas capazes de dar conta das demandas represadas da sociedade ao longo dos anos de regime militar PINTO 2003 p 69 Nesse sentido é possível articular a percepção que a ocupação do Estado tem rebatimentos para 104 a condição de vida das mulheres e por outro lado que tal processo tem limites visíveis pois o Estado é essencialmente patriarcal Foi nesse processo que emergiu o Conselho Nacional de Direitos da Mulher CNDM vinculado ao Ministério da Justiça com o objetivo de promover políticas para a mitigação da discriminação contra as mulheres garantindolhes igualdade de direitos e liberdade Constituía se enquanto um canal permanente de interlocução com as distintas tendências e pautas dos movimentos feministas e de mulheres operacionalizando lutas importantes em defesa da participação das mulheres nos espaços públicos inclusive na Assembleia Nacional Constituinte A partir da ação política que ficou conhecida como Lobby do Batom o CNDM expôs as demandas dos movimentos de mulheres aosàs constituintes principalmente através da Carta das Mulheres à Assembleia Constituinte da articulação com a bancada feminina e com intensas campanhas publicitárias Mesmo com toda a ebulição política provocada nesse momento a participação das mulheres nos espaços públicos sofria fortes entraves dado o caráter patriarcal do estado brasileiro em suas esferas legislativa executiva e judiciária dos partidos e dos movimentos sociais Aqui houve uma transmutação do autoritarismo do período de ditadura civilmilitar em um conservadorismo que se apresentava fortemente na esfera da política Por certo o CNDM precisou construir uma articulação substancial com os conselhos estaduais e municipais de direitos das mulheres com organizações de trabalhadoras rurais e domésticas sindicatos associações profissionais grupos feministas movimentos sociais diversos e partidos políticos em uma frente suprapartidária para a aprovação das demandas comuns do movimento PINTO 2003 Nesse contexto foi elaborada no Encontro Nacional Mulher e Constituinte em 1986 a carta das mulheres que representava a organização de distintas tendências em torno de pautas e demandas unificadoras em geral mais próximas dos movimentos populares de mulheres do que das postulações propriamente feministas e que em muitos momentos se expuseram como limites à construção de uma agenda comum como no caso das emendas que pleiteavam o direito ao aborto A carta é um documento representativo da radicalidade e da abrangência das demandas encampadas naquele momento Seu preâmbulo prometia desobediência civil ainda que indiretamente por meio da citação de palavras de Abigail Adams se não for dada a devida atenção às mulheres estamos decididas a fomentar uma rebelião e não nos sentiremos obrigadas a cumprir 105 leis para as quais não tivemos voz e nem representação Nos seis eixos específicos em que foram organizadas as reivindicações família trabalho saúde educação e cultura violência questões nacionais e internacionais os problemas de gênero apareciam entrelaçados aos de classe raça e sexualidade com atenção à propriedade de terra no campo aos direitos trabalhistas e a exigências específicas de acesso universal à saúde e à seguridade BIROLI 2018 p 183 Tal assertiva expunha a composição profundamente heterogênea dos movimentos feministas as disputas por sua direção assim como a variedade de concepções ideopolíticas e organizativas no interior do movimento Aqui situo três momentos complexos e profundamente múltiplos que encorpavam o caldo cultural do feminismo brasileiro na década de 1980 e fortaleceram as lutas pelo alargamento do campo político para as mulheres a saber i A constituição dos encontros nacionais ii A expansão das organizações feministas e iii O feminismo acadêmico processos que se gestaram com profundas contradições e confrontamentos Os encontros nacionais feministas surgem como uma dissidência dos que eram realizados no interior das reuniões anuais da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência SBPC durante o período de 1975 a 1985 por mulheres universitárias e majoritariamente brancas Nesse momento também temos a expansão de inúmeros grupos feministas que buscavam uma linguagem própria capaz de orientar seus rumos na construção da identidade da mulher como novo ator político RAGO 1996 p 26 Daí foram criadas algumas organizações feministas que articuladas aos movimentos sociais e à tradição da esquerda questionavam a forma como os encontros nacionais feministas estavam sendo organizados Desta experiência surgiram inúmeras associações feministas no país como o Centro Brasileiro da Mulher no Rio de Janeiro a Associação de Mulheres de São Paulo futuramente denominada Sexualidade e Política o Coletivo Feminista do Rio de Janeiro o Coletivo Feminista de Campinas o SOS Violência de São Paulo o SOS Campinas o SOS Corpo no Recife o Maria Mulher em João Pessoa o Brasília Mulher o Brasil Mulher o Grupo Sexo Finalmente Explícito o Centro de Informação da Mulher ou CIM de São Paulo entre outros Todos eles mesclavam exmilitantes partidárias marxistas e exmarxistas assim como feministas das novas gerações que defendiam prioritariamente as políticas do corpo e as questões da sexualidade A despeito das tendências políticas diferenciadas estes grupos buscavam total autonomia em relação aos partidos políticos de esquerda como o PT que acabava de ser fundado muito embora muitas das ativistas fossem também militantes partidárias RAGO 1996 p 35 106 Essas organizações feministas se compuseram como parte orgânica da militância feminista mas também começam a promover ações políticoprofissionais no campo da pesquisa formação política e educação popular com enfoque em sexualidade saúde e trabalho tendo como público alvo as mulheres periféricas e camponesas Como se sabe o enfrentamento à violência contra as mulheres também foi foco de inúmeras dessas organizações sendo a primeira delas o SOS Mulher6 no Rio de Janeiro Segundo Pinto 2003 p 80 a trajetória desse tipo de ação feminista é particularmente interessante na medida em que aponta para uma tendência que será predominante na década de 1980 e que será hegemônica na década de 1990 a tendência de profissionalização do feminismo via organizações não governamentais ONGs Retornando ao leito do texto os encontros nacionais feministas tiveram suas formas organizativas reestruturadas a partir do III Encontro Feminista Latinoamericano e do Caribe EFLAC realizado em 1985 em São Paulo com a presença de mulheres de variados lugares e movimentos sociais Silva 2018 p 73 acena que as organizadoras do evento alegaram que a incorporação de novos sujeitos femininos se relacionava ao entendimento das especificidades da condição feminina por parte dos setores populares da adesão das pautas feministas pelos sindicatos partidos e movimentos da popularização do feminismo através dos meios de comunicação e portanto do aumento da legitimidade deste movimento no interior da sociedade brasileira Entretanto Cardoso 2012 vai situar que tais modificações só puderam ser visibilizadas a partir do estranhamento entre o movimento feminista e o movimento de mulheres negras Tal tensão se deu a partir da necessidade das feministas negras de confrontarem as brancas para garantir sua presença no III EFLAC As dificuldades em construir pontes entre diferentes expressões do movimento de mulheres e feministas marcadas pelas imensas desigualdades estruturais e diferenças políticas vieram claramente à tona no Terceiro Encontro em Bertioga Brasil 1985 quando um grupo de mulheres de uma favela do Rio de Janeiro chegou em um ônibus pedindo para poder participar apesar de não 6Para Pinto 2003 p 80 O objetivo do SOS Mulher era constituir um espaço de atendimento de mulheres vítimas de violência e também um espaço de reflexão da condição de vida dessas mulheres No entanto logo nos primeiros anos as feministas entraram em crise pois seus esforços não resultavam em mudança de atitude das mulheres atendidas que passado o primeiro momento do acolhimento voltavam a viver com seus maridos e companheiros violentos não retornando aos grupos de reflexão promovidos pelo SOS Mulher Nesse cenário as mulheres agredidas não queriam se tornar militantes feministas queriam apenas não ser mais agredidas O encontro entre essas duas realidades tão diversas fez com que esse tipo de militância feminista tomasse uma nova forma renunciando à identificação com seu grupo alvo e passando a organizarse de forma profissional surge um feminismo de prestação de serviço 107 ter condições de pagar a taxa de inscrição Mesmo com um número significativo de mulheres negras e pobres já participando a crise persistente do feminismo com relação à inclusão e exclusão literalmente se estacionou na porta desse Encontro muitas das participantes especialmente militantes do então emergente movimento de mulheres negras insistiram que as questões de raça e classe não ocupavam um lugar central na agenda do Encontro e que as mulheres negras e pobres não haviam tido uma participação significativa na elaboração dessa agenda ALVAREZ 2003 pp 547548 As feministas latinoamericanas e caribenhas à moda do primeiro mundo estabeleceram as suas relações com as mulheres negras e populares como público alvo das ações assistenciais das organizações feministas e não como sujeitos feministas em si e para si De acordo com Cardoso 2012 p 175 a relação com ambos os movimentos foi geralmente tensa porque as mulheres negras sempre apareceram como sujeitos implícitos Dessa maneira as feministas negras enfrentavam no interior do próprio movimento feminista as desigualdades e discriminações que o racismo produz entre as mulheres e a concepção ingênua de que a identidade entre as mulheres se desdobrava natural e necessariamente em solidariedade racial Tais questões fizeram as mulheres negras se fortalecerem politicamente na década de 1980 ao elaborar uma agenda própria de luta pautar as desigualdades entre homens e mulheres no interior do movimento negro nacional e problematizar a organização dos encontros nacionais feministas Nas palavras de Cardoso 2012 p 210 discutindo e precisando conceitos para explicar as nossas opressões para registrar as nossas histórias ou seja fizemos da autodefinição o lastro para a construção da autonomia política Ainda destaca enfaticamente sobre o movimento de mulheres negras a capacidade de mobilização das mulheres pobres e negras a divergência com o movimento feminista branco e classe média na definição da agenda política e o distanciamento do feminismo hegemônico com mulheres pobres trabalhadoras e negras ou seja da discussão de raça e classe As duas últimas questões são melhores compreendidas quando inseridas no contexto desenhado por Céli Pinto anteriormente citado sobre o feminismo brasileiro nos anos 1980 ou seja à moda do Primeiro Mundo PINTO 2003 p 65 CARDOSO 2012 p 190 A partir do III EFLAC os encontros nacionais de feministas procuraram incorporar as categorias de classe raçaetnia e gênero na sua estrutura políticoorganizativa ainda que de forma bastante embrionária o que pôde ser observado no IX Encontro Nacional Feminista que ocorreu em 1987 em GaranhunsPE majoritariamente composto por mulheres dos movimentos populares incorporando também o marcador das territorialidades ao sair do eixo RioSão Paulo 108 Essa questão expõe também a presença das mulheres negras e populares na formação do feminismo brasileiro e seu apagamento da história oficial e oficiosa Cumpre afirmar que as mulheres negras foram crescentemente fortalecendo os seus espaços políticos a partir dos diálogos com as teorias dos feminismos negros e na construção de organizações próprias que pautavam a representatividade as corporalidades e a ancestralidade negra assim como dimensionavam a questão racial como central para o entendimento das desigualdades entre os sexos na sociabilidade brasileira Esses elementos culminaram na organização de Encontros nacionais e estaduais com o pioneirismo do I Encontro Nacional de Mulheres Negras em Valença e transformou o enfrentamento ao racismo como uma prioridade política para as mulheres negras como também denunciou o racismo reproduzido pelas feministas brancas e a urgência em enegrecer os movimentos sociais os partidos políticos e o espaço acadêmico Enegrecer o feminismo tornouse uma necessidade visceral e um desafio para a luta antipatriarcal Enegrecendo o feminismo é a expressão que vimos utilizando para designar a trajetória das mulheres negras no interior do movimento feminista brasileiro Buscamos assinalar com ela a identidade branca e ocidental da formulação clássica feminista de um lado e de outro revelar a insuficiência teórica e prática política para integrar as diferentes expressões do feminino construídos em sociedades multirraciais e pluriculturais Com essas iniciativas pôdese engendrar uma agenda específica que combateu simultaneamente as desigualdades de gênero e intragênero afirmamos e visibilizamos uma perspectiva feminista negra que emerge da condição específica do ser mulher negra e em geral pobre delineamos por fim o papel que essa perspectiva tem na luta antiracista no Brasil CARNEIRO 2003 p 127 Ainda nesse período temos o crescimento do feminismo nos espaços universitários prioritariamente no interior das ciências sociais e humanidades com a emersão dos grupos e núcleos de pesquisa sobre a condição da mulher Como já mencionei anteriormente os movimentos feministas se caracterizaram por sistematizar as experiências de mulheres da classe média afeitas com a cultura do mundo erudito o que explica a aproximação com a universidade A rigor a chegada das classes populares no interior do movimento feminista ocorre como uma escolha política estratégica arrodeada de fluxosrefluxos embates e contradições que de certa maneira impactaram o feminismo acadêmico alargando suas percepções O campo do feminismo acadêmico também não pode ser compreendido como um espaço homogêneo já que convivia com distintas perspectivas teóricas ideológicas e políticas uma pluralidade de mulheres e os tensionamentos internos da vida das universidades 109 constituídas a partir de uma lógica branca masculina elitista classista e sudestina Costa 1990 identifica dois grandes campos um mais aproximado com as metodologias da pedagogia popular e outro mais incorporado à lógica dominante da produção do conhecimento O fato é que esses grupos e núcleos de pesquisa se ampliaram fortemente na década de 1980 realizando uma vasta produção científica na área dos estudos sobre a mulher que na década seguinte migrariam para os estudos de gênero Pinto 2003 chama atenção para os concursos de dotação de recursos para pesquisas nessa área promovidos pela Fundação Carlos Chagas e financiados pela Fundação Ford entre os anos de 1978 e 1998 e as apresentações de trabalhos de pesquisas nas reuniões anuais das associações nacionais das diversas áreas do conhecimento com destaque para a ANPOCS Associação Nacional de Pesquisa e PósGraduação em Ciências Sociais ANPED Associação Nacional de Pesquisa em Educação e ANPOL Associação Nacional de Pesquisa em Letras A autora ainda trata da forma como os estudos sobre a mulher adentram a universidade brasileira não institucionalizados em cursos departamentos e programas de pósgraduação mas a partir de núcleos de estudos sobre a mulher como foi o caso do Núcleo de Estudos Interdisciplinares sobre a Mulher NEIM e o Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir NEM Outro elemento particular desse período foi a expansão da imprensa feminista com a publicação dos jornais Nós Mulheres 19761978 Brasil Mulher 19751980 Mulherio 19811988 Nzinga Informativo 1985 Lampião da Esquina 19781981 entre outros que em perspectivas ideopolíticas distintas vocalizavam as demandas dos movimentos feministas e de mulheres Tais proposições acima levantadas apontam a virada da década de 1970 a 1980 como de muito protagonismo dos movimentos feministas e de mulheres no sentido de recusa da política como um espaço masculino e de promoção de inúmeras ações políticoorganizativas do sujeito coletivo feminista Para Rago 1996 p 41 as mulheres se afirmam no mundo público revelando uma criatividade e uma potencialidade indiscutíveis Aqui destacase a participação das mulheres na aprovação da Constituição de 1988 Todavia em 1989 teremos a renúncia coletiva das integrantes do CDNM substituídas por quadros técnicos exteriores aos movimentos feministas e a sua desarticulação no início da década seguinte Para Alvarez 1998 Gurgel 2010 e Castro 1997 esses processos pressionaram as feministas a repensarem a questão da autonomia e reatualizarem suas críticas frente ao Estado e aos partidos políticos 110 O feminismo na América Latina tem teorizado sobre a autonomia levando em consideração três aspectos 1 o reconhecimento do sistema patriarcal como estruturante da opressão e dominação da mulher 2 a autodeterminação das mulheres como condição ontológica do feminismo como sujeito coletivo 3 a emancipação humana como princípio constitutivo do ser político feminista GURGEL 2010 p 17 Para a autora o debate sobre autonomia também incorporou o reconhecimento das múltiplas opressões vivenciadas pelas mulheres e do seu núcleo comum que possibilita a construção de uma identidade coletiva Tal reflexão alargou as demandas e pautas feministas reorganizando os questionamentos sobre a totalidade da vida social com a centralidade do confronto ao patriarcado ao racismo ao capitalismo e às formas tradicionais do fazer política radicalizando a contradição entre os interesses das mulheres o papel do Estado e os interesses de classe A partir desse acúmulo de experiências na ocupação das esferas públicopolíticas e também da produção de conhecimento os movimentos feministas na entrada dos anos 1990 foram marcados pelo avanço da profissionalização e especialização principalmente com a consolidação das organizações nãogovernamentais feministas Pinto 2003 caracteriza esse momento como feminismo difuso focado nos processos de institucionalização na reflexão sobre as diferenças entre as mulheres e da emersão de novas formas organizativas Aqui expandese um conjunto de articulações e organizações nacionais e regionais da política feminista de identidades feministas dissidentes negras lésbicas populares sindicalistas rurais entre outras a participação política na esfera eleitoral e os diálogos com o Estado e um conjunto de instituições políticas e sociais Também é relevante a ampliação dos estudos de gênero no âmbito da academia Esse feminismo plural incidirá sobre o Estado seja em nível nacional ou internacional no campo da participação controle social e pressão por elaboração monitoramento avaliação de políticas sociais efetivação de serviços públicos e equipamentos de proteção às mulheres Todavia o cenário dessa arena de disputas será de ofensiva neoliberal e de contrarreformas no Estado brasileiro que tem como tendência o enxugamento da máquina estatal reduzindo de um lado investimentos em políticas sociais de cunho redistributivo e de outro transferindo para a sociedade civil a responsabilidade com o atendimento das demandas sociais Essa lógica neoliberal objetiva transformar o cidadão portador de direitos em cidadãoconsumidor MOTA 2008 p 115 que satisfaz suas necessidades pela via do mercado a partir de uma lógica individual e privatista Acrescentase 111 a isso o apelo ideológico do Estado em torno da participação e solidariedade social como forma de enfrentar as problemáticas sociais e reestabelecer a coesão social em um processo denominado por Iamamoto 2010a p 43 de refilantropização da questão social Cumpre afirmar que a implementação do neoliberalismo no Brasil se deu por vias completamente adversas do que se configurou nos países de capitalismo central ainda que mantendo suas características essenciais devido à formação socioeconômica diferenciada do país Neste sentido Netto 1996 p 104 acrescenta que à particularidade brasileira colocada face ao projeto neoliberal apresentamse feições singulares dentre as quais vale assinalar Não há aqui um WelfareState a destruir a efetividade dos direitos sociais é residual não há gorduras nos gastos sociais de um país com indicadores sociais que temos indicadores absurdamente assimétricos à capacidade industrial instalada à produtividade do trabalho aos níveis de desenvolvimento dos sistemas de comunicação e às efetivas demandas e possibilidades naturais e humanas do Brasil NETTO 1996 p 104 Ademais a década de 1980 marcou a implementação do ideário neoliberal no Brasil ao passo que o país passava pela transição democrática consubstanciada na promulgação da Constituição Federal de 1988 que se constituiu em um processo duro de fluxos e refluxos de projetos e interesses mais específicos configurando campos definidos e distintos de forças Na década subsequente o Banco Mundial o Fundo Monetário Internacional FMI e as agências de cooperação multilaterais começaram a investir em projetos de desenvolvimento locais nos países emergentes impondo as diretrizes para a mitigação da extrema pobreza via programas sociais que enfocassem a participação popular a transparência e a cidadania ativa sendo as ONGs as executoras privilegiadas A pobreza entendida como vulnerabilidade falta de voz poder e representação seria uma ameaça ao desenvolvimento econômico e à segurança mundial de forma que a transferência de capitais e tecnologias associadas à promoção de atividades vinculadas à assistência social era pontochave da questão Aqui as mulheres são apresentadas como sujeitos vulneráveis e públicoalvo prioritário para a execução de tais projetos É sabido que as contrarreformas aprofundaram as desigualdades socioeconômicas com o aumento da pobreza esboçando o fenômeno designado de feminização da pobreza termo que expõe os impactos desiguais da crise sociometabólica do capital sobre a vida das mulheres especialmente as dos segmentos mais pobres e racializados Desse modo a noção de gênero no pósConsenso de Washington é incorporada na agenda dos organismos internacionais no interior dos núcleos de pesquisa e extensão universitários e nas 112 conferências sociais da ONU pautando também os projetos de desenvolvimento e combate à pobreza Para Biroli 2018 p 190 a agenda mais radical dos feminismos latinoamericanos pôde assim ser transfigurada em pautas como a do empoderamento de mulheres As décadas de 1980 e 1990 foram palco de grandes contradições no interior do feminismo latinoamericano com o alargamento dos espaços institucionais de participação política e da sociedade civil que ocorreu concomitante à reestruturação produtiva e à ofensiva ideológica contra a organização das classes trabalhadoras e o Estado De certa maneira tal conjuntura possibilita uma ampliação da ação dos movimentos via institucionalidades seja nos organismos de controle social na formulação e execução de políticas públicas no interior do Estado ou na consolidação das organizações não governamentais Conjuntura que demarca transformações nas identidades organizativas dos movimentos sociais Segundo Gurgel 2010 o projeto neoliberal tinha como pressuposto o controle e a fragmentação do potencial reivindicatório dos movimentos sociais a partir de um processo de sucessivas tentativas de esvaziamento e despolitização das organizações sociais No campo dos feminismos a redemocratização mediante reformas do Estado e alargamento dos espaços de participação da sociedade civil foi acompanhada da ampliação das ONGs e da reatualização da crítica frente ao Estado Por outro lado há uma nova fase de mundialização das lutas sociais e ações coletivas com a organização de novas formas de confrontação social com a lógica destrutiva do capital O feminismo em particular acompanhou essa tendência hegemônica já iniciada na década passada no processo de redemocratização E passou por vários dilemas internos ao se deparar com um grande número de ONGs em substituição aos antigos grupos feministas Além do enfrentamento desse conflito interno o feminismo buscou se contrapor à ofensiva regressiva conservadora da década de 1990 mediante à construção de amplas articulações entre si e com outras organizações do campo antiglobalização Iniciando um novo momento de internacionalização de suas demandas GURGEL 2010 p 8 O processo de transnacionalização das lutas com fortes ações mobilizatórias possibilitou a constituição de articulações nacionais e organizações por área de política pública ou demanda social muitas vezes agregadas a ONGs e com percepções divergentes sobre identidade organizativa e relação com o Estado mas com capacidade de ação conjunta quando apareciam oportunidades políticas Convém dizer que a ampliação das ONGs feministas eou voltadas para o atendimento às demandas das mulheres não eram homogêneas e constituíam relações distintas com o Estado 113 e as agências de cooperação internacional infligindo muitos dilemas no interior dos feminismos fundamentalmente centrados na sua autonomia frente ao Estado e nos processos de institucionalização das demandas Na acepção de Gurgel 2014 tal quadro é complexificado com o financiamento por parte das agências do governo e do capital internacional a projetos de pesquisa e serviços assistenciais Esse cenário teria consolidado uma ideia de ONGs como entidades para governamentais voltadas para a execução de serviços públicos no atendimento direto à população e para a participação institucional Esta nova orientação associada à crise de paradigmas e o questionamento à ideia de sujeitos políticos e de perspectiva de transformação social que se instalou com ela teria gerado uma visão teórica e política de integração ao sistema É também deste período a proeminência de um debate na área social sobre setores excluídos que remete para a necessidade de políticas de inclusão social e enfraquece a discussão sobre classes socais a qual ficou relegada a análises especializadas eou à sociologia do trabalho Esta nova forma de pensamento teria tido incidência também sobre as entidades feministas SILVA 2016 p 135 Aqui utilizo o conceito de onguização de Gurgel 2004 para definir o processo de institucionalização de setores dos movimentos sociais em particular dos feministas que passam a atuar segundo uma organização jurídica e política associada com o formato de ONGs e efetuam determinadas formas de representatividade e pressão diante do Estado embora seja importante apontar a heterogeneidade das ONGs e dos movimentos feministas bem como o caráter hibrido de algumas delas a exemplo do SOS Corpo Gurgel 2014 aponta duas críticas a esse processo que repercute na constituição das mulheres e dos movimentos feministas como sujeito coletivo A primeira diz respeito à transformação da identidade institucional que trouxe como consequência imediata uma redução política e quantitativa da base social do movimento de mulheres que constituía a anterioridade política da ONG A segunda crítica se centra na estrutura administrativa que transferiu as decisões políticoinstitucionais para as equipes de profissionais das ONGs que na maioria dos casos se apresentam como ativistas e confundem o papel de assessoria com o de representatividade O problemático desse quadro é a contradição entre o princípio da autonomia no processo de autodeterminação com o crescimento individual e coletivo das mulheres no exercício da política e a centralidade de poder nas estruturas das ONGs GURGEL 2014 p 63 As ações feministas financiadas por organizações internacionais e repasse de fundo público prestavam assessorias enquanto especialistas das questões de gênero que se 114 transformou em uma linha de financiamento das agências de cooperação multilaterais Para Pinto 2003 p 35 o trabalho das ONGs poderia ser compreendido como uma espécie de terceirização de serviços e responsabilidades que pelo caráter de institucionalização e burocratização transforma a natureza da militância e do movimento feminista despolitizando as e instituindo critérios para a inserção nos grupos Gurgel 2014 ainda chama atenção para o alinhamento discursivo das ONGs feministas às diretrizes de financiamento das organizações de cooperação internacional e do Estado produzindo uma certa concorrência entre as feministas em busca de recursos financeiros Nesse sentido a aproximação com esse tipo de financiamento além de contribuir para a quebra do princípio de sororidade que fundamenta o feminismo igualmente provocou o desenvolvimento de práticas políticas de invisibilidade da crítica GURGEL 2014 p 64 Ademais em grande parte dos projetos financiados por organismos internacionais eou pelo fundo público do Estado as mulheres definidas enquanto públicoalvo são motivadas a criar e tomar parte de ações e estratégias de desenvolvimento local em geral vinculados à reprodução sob a lógica geral da produção capitalista e que portanto não questionam os determinantes das desigualdades de sex tampouco deixam espaço para as lutas de classes diferentemente das ações promovidas na década anterior que mesmo ligadas à reprodução possibilitavam as mulheres a saírem do confinamento doméstico com potencial para o fomento de ações organizativas e de politização das mulheres populares Percebo que a forma de atuação das ONGs na década de 1990 para além de despolitizar as lutas feministas acaba tornando as mulheres responsáveis por gerir a miséria e como tal amortecem a crise ao mesmo tempo em que prolongam o mais tradicional de seus papéis Atento para o fato de que as ONGs feministas passaram a ter um papel importante na efetivação de políticas públicas no mesmo momento em que o Estado passou por um esvaziamento ideológico e orçamentário de sua função social Cabe dizer que o repasse do fundo público às organizações da sociedade civil foi tensionado no governo de Fernando Henrique Cardoso que recomendou a elaboração de um marco legal para regular as parcerias com entidades não estatais na realização de ações de interesse público não exclusivas do Estado no sentido de substituir a execução direta dessas atividades pelo Estado por meio de transferência para entidades de direito privado Essa proposição intentava transformar as ONGs em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público OSCIP Entretanto as ONGS situadas no campo político progressista e vinculadas à Associação Brasileira de Organizações 115 não Governamentais ABONG encamparam críticas contundentes ao processo e evidenciaram via pesquisa que uma pequena parcela das organizações havia se transformado em OSCIPs para acessar os fundos públicos Mas também é relevante dizer que na década de 1990 muitas organizações já nascem como OSCIPs e portanto têm um perfil distinto das ONGs efetivando serviços sociais e assessoria técnica com uma perspectiva liberal e desarticulada das lutas sociais Consta dizer que mesmo com as divergências teóricas políticas e ideológicas a plataforma de atuação das organizações seguia na década de 1990 pautada fundamentalmente na agenda das financiadoras internacionais em função dos critérios estabelecidos para a dotação de fundos da análise dos indicadores sociais e do impacto social produzido pelo trabalho das ONGs além de favorecer o processo de implantação de medidas de ajustes impostas pelo receituário neoliberal de minimização e focalização das políticas sem maiores resistências das mulheres garante o barateamento do processo de reprodução social com efetiva substituição do Estado pelas ONGs na execução das políticas GURGEL 2014 p 66 Contraditoriamente a atuação das ONGs também atravessou a constituição dos encontros feministas nos anos 1990 as conferências sociais da ONU e a inserção nos conselhos gestores das políticas públicas e nas experiências de Orçamento Participativo A participação efetiva das feministas nos fóruns políticos internacionais como a Conferência Internacional sobre População e Desenvolvimento Conferência do Cairo em 1994 e a IV Conferência Mundial sobre a Mulher Conferência de Beijing em 1995 consolidaram a tendência de participação institucional e articulação internacional presentes na década de 1990 Inclusive com vistas a unificar e fortalecer uma agenda comum para as mulheres brasileiras criouse a Articulação de Mulheres Brasileiras para Beijing95 que se manteve posteriormente para monitorar a aplicação das recomendações da conferência e na contemporaneidade transformouse na Articulação de Mulheres Brasileiras AMB Isso colocou em relevo a pluralidade dos feminismos e as tensões presentes no interior dos movimentos principalmente marcadas pela polarização entre as institucionalizadas pertencentes às organizações que estabeleciam canais formais de atuação com governos e agências financiadoras além das autônomas que eram integrantes de coletivos e grupos feministas críticos do feminismo institucional e do recebimento de recursos financeiros dos 116 estados organismos internacionais e partidos embora algumas das autônomas fossem partidarizadas A questão da autonomia dos movimentos feministas é reatualizada Se na década de 1980 o debate sobre autonomia estava centrado na relação entre feminismos movimentos de mulheres e partidos políticos no sentido de reflexionar sobre a secundarização das práticas organizativas das mulheres e a tendência de hegemonização das lutas no confronto entre as classes no interior das esquerdas na década subsequente a questão centrase na consolidação das ONGs e a relação destas com o Estado É preciso problematizar a questão do Estado na medida em que como movimento social ou ONG as ações desenvolvidas pelo feminismo têm em grande parte como ponto de interseção a interlocução direta com o Estado GURGEL 2014 p 66 Daí a necessidade de apreender as múltiplas determinações que compõem o Estado e a relação deste na reprodução ampliada do capital e da força de trabalho bem como os dispositivos de poder por ele acionados O Estado como expressão do homem socializado é sobretudo um espaço de disputa e correlação de forças Na acepção de Coutinho 2008 p 65 o Estado representa o interesse político a longo prazo do conjunto da burguesia sob hegemonia de uma de suas frações assim não precisa ser considerado como uma entidade em si mas como a condensação material de uma correlação de forças entre as classes e frações de classe tal como essa se expressa no seio do Estado de modo que se o Estado se apresenta como espaço de correlação de forças deve ser disputado no que diz respeito à efetivação de direitos sociais e melhoria das condições de vida e trabalho garantindo a autonomia dos movimentos nessa relação e entendendo que não é possível os movimentos se constituírem no modo de produção capitalista alheios à intervenção do Estado Retornando ao leito das ações feministas na década de 1990 via participação institucional e ações das ONGs destaco que o ciclo de conferências sociais da ONU e a Plataforma de Beijing produziram avanços significativos no âmbito jurídicoestatal e na confrontação de discursos conservadores nos países latinoamericanos As novas constituições democráticas nos países periféricos e em processo recente de redemocratização incorporaram a noção de igualdade de gênero as legislações políticas públicas e equipamentos estatais de atenção às mulheres foram expandidas tais como as delegacias especializadas leis de cotas para a representação política políticas de saúde e contracepção entre outras Entretanto a incorporação das pautas feministas nas plataformas de atuação dos Estados não representou a sua implementação efetiva pelo contrário a maioria dos governos latinoamericanos 117 materializaram as diretrizes macroeconômicas neoliberais de restrição dos direitos econômicos sociais culturais e políticos No processo de mobilização social para as conferências da ONU constituiuse uma das principais coalizões feministas de abrangência nacional a Articulação de Mulheres Brasileiras AMB com o objetivo de coordenar as ações dos movimentos de mulheres com vistas à sua consolidação enquanto sujeitos políticos De outra parte a década de 1990 também foi marcada por uma fase de transnacionalização das lutas sociais e ações coletivas com a organização de novas formas de confrontação social anticapitalistas O movimento feminista passou a ser cada vez mais praticado como política transnacional atravessando as fronteiras dos Estados territoriais Cypriano 2013 p 11 define o feminismo transnacional como movimento atento às interseções entre nacionalidade raça gênero sexualidade e exploração econômica numa escala mundial em decorrência principalmente da emergência do capitalismo global Nesse contexto os movimentos feministas brasileiro e latinoamericanos estabeleceram articulações políticas e laços com o feminismo internacional na luta contra o neoliberalismo e por justiça social Ademais outros movimentos feministas emergiram focados na crítica às políticas de ajuste neoliberal como a Marcha Mundial de Mulheres originada do movimento 2000 razões para marchar contra a pobreza e a violência revigorando as pautas políticas dos feminismos fundamentalmente a partir de ações de rua no contexto de emergência de movimentos antiglobalização e da construção do Fórum Social Mundial compreendido como um espaço de criação de uma agenda comum e global contrahegemônica Nessa linha de constituir uma agenda comum contrahegemônica setores importantes dos movimentos feministas organizaram a Conferência Nacional dos Movimentos de Mulheres para a formulação de uma Plataforma Política Feminista Segundo Silva 2018 a conferência articulou 10 redes de movimentos de mulheres com a participação de 1408 mulheres de forma autônoma e com encontros estaduais preparatórios Não participaram da conferencia a Marcha Mundial de Mulheres a Secretaria Nacional de Mulheres da Confederação dos Trabalhadores da Agricultura CONTAG e a Secretaria de Mulheres do PT em função de divergências políticas fundamentalmente centradas na relação destes movimentos com os governos petistas A Plataforma Política Feminista documento aprovado na Conferência Nacional dos Movimentos de Mulheres realizada de 6 a 7 de junho de 2002 em Brasília analisa a sociedade brasileira com base na crítica a nossa formação social e afirma o movimento de mulheres com seus vários 118 segmentos e expressões organizativas como sujeito da luta pela transformação social A plataforma é o resultado de um processo histórico que gerou uma confluência entre movimento feminista e outros movimentos de mulheres nitidamente demarcado por um marco interpretativo que considera o capitalismo racismo e patriarcado como sistemas que estruturam a vida social SILVA 2018 p 124 De uma forma geral essa Plataforma é significativa para o feminismo brasileiro no sentido de constituir diretrizes de atuação comuns de recusa às políticas neoliberais e de formação de um projeto nacional de desenvolvimento autônomo e democrático que vise materializar direitos econômicos sociais políticos culturais e ambientais Mesmo parte do movimento feminista não tendo participado da elaboração da Plataforma esta seguiu atuando junto em inúmeras frentes de luta e processos mobilizatórios como a luta pela previdência social legalização do aborto e na Marcha das Margaridas Os feminismos nos anos 2000 conquistaram uma grande visibilidade entre os mais diversos segmentos sociais tendo seus discursos e práticas organizativas associados a outros movimentos que se mobilizavam pela livre expressão de experiências sexuais dissidentes e também no meio de comunidades étnicoraciais e rurais assim como em variados espaços sociais acadêmicos e culturais em um momento que vem sendo intitulado de primavera feminista Destaco aqui a proliferação de coletivos de feministas jovens grandes mobilizações de rua a exemplo da Marcha das Vadias e da expansão do ciberativismo Na particularidade brasileira a chegada do Partido dos Trabalhadores PT ao governo federal provocou novas problematizações na relação entre os movimentos feministas e o Estado O PT tinha nos movimentos sociais suas bases históricas com parte dos feminismos engajandose na campanha eleitoral e posteriormente na gestão do governo federal operacionalizando profundas contradições e reatualizando o debate sobre autonomia Cabe apontar que a vitória do PT em 2002 se dá em um momento de fortalecimento da ofensiva ideológica neoliberal nos campos da política da cultura e da economia assim como de refluxo dos movimentos sociais desgastados pela criminalização imposta pelos governos de FHC e pelo pouco retorno do investimento nos mecanismos de controle social e participação política Silva 2018 chama atenção para a ambiguidade da relação entre os governos do PT e os movimentos sociais Muitos militantes serão incorporados aos quadros técnicos da gestão e paulatinamente se afastam dos movimentos A autora assevera 119 Essa configuração cria as condições para que em dadas circunstâncias os movimentos manifestemse em apoio aos governos e em outras realizem mobilizações para pressionálos pelo cumprimento das demandas negociadas e não efetivadas SILVA 2018 p 108 As gestões federais petistas foram marcadas por avanços e retrocessos no campo dos direitos sociais particularmente dos direitos das mulheres Entre os avanços situo a Lei Maria da Penha e a elaboração de um Plano Nacional de Políticas para as mulheres como determinantes para mudanças concretas na realidade destas Biroli 2018 destaca a PEC das domésticas 2015 a Lei Maria da Penha e a Lei do Feminicídio as normas e políticas públicas para a garantia de direitos sexuais e reprodutivos adoção de políticas educacionais para igualdade entre os gêneros Programa Brasil sem homofobia e Programa Mulher e Ciência como ganhos concretos mas aponta inflexões na agenda dos direitos sexuais e reprodutivos e estreitamento de políticas e campanhas que almejavam a redução da LGBTTQIAfobia e a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis A permeabilidade do Estado brasileiro à agenda feminista a partir do trabalho especializado das mulheres na Secretaria de Política para as Mulheres criada em 2003 e destituída em 2015 no auge da crise políticoinstitucional do governo de Dilma e dos espaços de participação institucionalizada foi um processo de intensas contradições e tensionamentos produzindo contraditoriamente a expansão do movimento feminista no Brasil em sua forma institucionalizada e autônoma Aqui destaco os conselhos e as quatro Conferências de Políticas Públicas para as Mulheres CNPMs ocorridas nos anos 2000 2004 2007 2011 e 2016 as Marchas das Margaridas 2000 2003 2007 e 2011 levando milhares de trabalhadoras rurais a Brasília a Marcha Nacional de Mulheres Negras 2015 e a Marcha das Vadias a partir de 2012 120 4 AS PARTICULARIDADES DA FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI Se não fosse Cariri Não existia Ceará Alemberg Quindis 1980 Neste quarto capítulo trato do processo de conformação do sujeito coletivo feminista Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri apontando as suas trajetórias continuidades descontinuidades rupturas tensionamentos e desafios Para isso começo situando ao leitoraleitor acerca das particularidades do território Cariri região localizada no interior do Ceará que assume a função de um dos principais polos comerciais do Nordeste sendo referência para cidades dos estados do Piauí Paraíba e Pernambuco O Cariri é um território marcado pela tradição religiosidade e resistência articulando elementos do patriarcado rural e da urbanidade estruturadores de ordens morais de gênero recorrentemente violentas mas também de ações coletivas provocadoras de fissuras nas relações assimétricas entre mulheres e homens Exponho também um quadro das relações patriarcais de sexo na região e de como a violência atravessa a experiência socialmente compartilhada e historicamente situada de ser mulher Aqui a violência se expressa como instrumento de interdição da potência das mulheres e de sua limitação à condição de objeto de posse constituindo um itinerário de silenciamento apagamento e regulação moral para as mulheres caririenses De outra parte essa conformação de um Cariri perigoso para as mulheres possibilitou a emergência de ações coletivas de enfrentamento à violência e ao patriarcado inicialmente articuladas às Comunidades Eclesiais de Base e aos movimentos de trabalhadoras rurais posteriormente articuladas em torno de um projeto feminista de luta pela autonomia liberdade e igualdade das mulheres Este capítulo se propõe a examinar resistências das mulheres no Cariri cearense e a particularidade da constituição do sujeito coletivo feminista na região a partir da experiência militante da Frente de Mulheres Aqui sintetizo minha experiência e as das mulheres do Cariri com todos os atravessamentos que observei na pesquisa Parafraseando Clarice Lispector 1977 p 11 Tudo no mundo começou com um sim A experiência militante das mulheres caririenses que aqui sintetizo sem pretensão de esgotála começou com um sim no momento em que essas mulheres se identificaram umas nas outras assim como identificaram as bases que assentiam suas interdições e decidiram juntas com todos os atravessamentos e pluralidades construir ações de enfrentamento ao patriarcado que se expressa de forma tão 121 contundente no sertão do Ceará Porque há o direito ao grito Então eu grito LISPECTOR 1977 p 13 Elas gritaram e suas vozes dissidentes se insurgiram 41 O TERRITÓRIO CARIRI um sertão banhado de águas reisados romarias violências e resistências O sertão já foi muito cantado decantado poetizado e discursivamente fabricado como um lugar contraposto ao litoral e ao progresso o interior do país caracterizado pela falta de água e de perspectivas pela aridez e o subdesenvolvimento Aqui o sertanejo entendido antes de tudo como um forte convive com baixos indicadores sociais a tradição a religiosidade popular e o coronelismo É pois narrado como um lugar do esquecimento e do tempo imobilizado uma espécie de deserto que conta vagarosamente a história da eternidade embaixo do sol escaldante João Guimaraes Rosa 2015 p 150 alertava o sertão é isto o senhor empurra para trás mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados Sertão é quando menos se espera É o sozinho Essa percepção também está presente em Euclides da Cunha 2017 quando identifica o sertão com a caatinga a seca e o ermo Ajustase sobre os sertões o cautério das secas empedrase o chão gretando recrestado ruge o Nordeste nos ermos e como um cilício dilacerador a caatinga estende sobre a terra as ramagens de seus espinhos CUNHA 1985 p 120 Esse sertão desértico em que o homem está condenado à civilização CUNHA 2017 é o lugar da diáspora entoada nos versos das poesias do cordel e das músicas tal qual a Asa Branca de Luiz Gonzaga que migrou em virtude da seca ou do Retirante de Jacson do Pandeiro fugido por cansaço e fome O sertão é pobre pardo espinhento pedregoso e empoeirado é por isso mesmo que o acho belo e bruto grandioso e austero SUASSUNA 1977 p 26 Criouse uma ideia de homogeneidade ahistoricismo e imutabilidade em torno dos sertões e do Nordeste que no imaginário nacional vai ser definido a partir de contraposições conhecidodesconhecido civilizadobárbaro litoralsertão migraçãoimigração modernoatrasado Como apregoa Pereira 2018 p 20 O sertão é o Brasil por enquanto e necessita ser domesticado pela civilização nos dois brasis um deve ceder e deixar espaço ao civilizado 122 Uma leitura extensa dos discursos sobre o sertão e sobre sertões particulares deixanos o registro desses lugares e comunidades como cenários onde se marca uma diferença Para se dizer sobre o sertão ou sobre sertões o narrador recorre à comparação e à diferenciação com lugares e modos de viver que se vê como não sertão A localização e a descrição do que é e do que não é sertão consiste no ato de nomear diferenças e de tentar impôlas como princípios de divisão e classificação do espaço nacional Tratase aqui de apontar os efeitos performativos da atividade de inúmeros intelectuais que escrevem sobre paisagens sociais e físicas ditas sertanejas VIDAL E SOUSA 2010 p 108 Cabe mencionar que desde o século XVII sertão e litoral foram se constituindo enquanto padrão para descrições do espaço nacional Dessa maneira a cartografia passou a utilizar o conceito de sertão como qualificativo de lugar que em geral era pouco ocupado Portanto estava implícita a ideia de ocupação daquele espaço supostamente vazio seja em busca de riquezas ou para incorporálo às regiões ditas civilizadas Indicava também uma espécie de fronteira que separava o mundo bárbaro do europeu civilizado Nesses sertões despovoados ignoravase a presença dos povos originários sentenciados pelos colonizadores a terem suas terras invadidas ao genocídio eou aldeamento Lidos como selvagens seus corpos eram passíveis de violência e abjeção mas não de luto Todavia a colonização do sertão se deu em um processo de intensas resistências dos povos indígenas e dos quilombolas que se refugiavam nesses territórios e que em certa medida tiveram suas confrontações paulatinamente apagadas da memória coletiva e da história oficial Memória é resistência portanto o apagamento dessas memórias rebeladas é muito eficiente para a conformação normatização e naturalização de relações sociais de sexo classe e raça assimétricas Para os colonos representava um empreendimento essencialmente comercial que visava através da mineração e das culturas agrícolas ao fornecimento de produtos primários de alto valor mercadológico Destacase aqui a pecuária como um elemento de integração do território que não conferia ao sertão ares de urbanidade sendo comumente compreendido como um mundo rural e portanto atrasado que recebia poucos investimentos políticos e econômicos No início do século XX o sertão volta a ser colocado como espaço geopolítico em disputa que precisa de investimentos para integrar a construção de um estadonação moderno e autônomo daí empreendese um projeto nacional para a sua modernização e revalorização processo intitulado por Pimentel 1998 p 17 como uma domesticação do sertão que aspira diminuir as distâncias entre dois brasis o sertão e o litoral o passado e o presente respectivamente Modernização que se concretizou como um reforço à condição histórica de inferioridade e desigualdade frente ao litoral 123 O estigma do atraso e do passado foi reatualizado aprofundando as desigualdades sociais políticas econômicas e a imagem estereotipada eou romantizada do sertanejo Inclusive muitos estudiosos dos fins do século XIX e início do XX inspirados por explicações biológicoraciais legitimavam a inferioridade da população sertaneja com o argumento supostamente científico de que a miscigenação racial ocorrida nos sertões havia degenerado o sertanejo de forma irreversível e que sua formação biológica os impedia de acompanhar os processos de modernização do país Cumpre dizer que a elaboração de uma identidade nacional foi instituidora de uma visão sobre o sertão que por vezes o entendia como berço dessa identidade e que precisava ser salvaguardado e por outras como um grande entrave para o desenvolvimento socioeconômico do país de forma que a tentativa de constituir essa identidade nacional fez do sertão e do sertanejo uma metáfora do que é ser brasileiro e um receptáculo dessa identidade Um sertão e um Nordeste inventado projetado pelo olhar do Outro e condenado por esse outro à imanência Nas palavras de Sena 1998 p 24 O que se busca no sertão é o Brasil e o brasileiro É por isso que menos que um lugar geográfico uma forma de organização social uma percepção da diferença como função do espaço ou do tempo o sertão é uma forma de ser é aquilo que dentro de nós nos distingue ontem e permanentemente como brasileiros SENA 1998 p 24 As tentativas de elaboração dessa identidade nacional e de um ethos para o habitante do sertão como depositário dela incidiu fortemente na elaboração de grandes arquétipos de sertanejo Aqui cito dois deles de um lado o cabra macho forte e retirante e de outro um caipira preguiçoso e acomodado à vida rural o Fabiano de Graciliano Ramos e o Jeca Tatu de Monteiro Lobato respectivamente Um fadado a desaparecer quando o moderno adentrasse ao sertão e o outro apegado ao passado rural incapaz de acompanhar a modernidade Ambos visceralmente distantes dos projetos de moderno e urbanidade Ambos fadados a serem colonizados explorados e despossuídos de sua própria imagem terra e identidade Arquétipos que tiveram vida longa e projetaram um imaginário do sertanejo como inferior e responsável pelas mazelas nacionais Interessante notar que esses arquétipos são resgatados de forma contundente vez por outra basta lembrar as marchas contra a corrupção ocorridas entre os anos de 2014 e 2016 que acionavam o Nordeste e o nordestino como responsáveis pela crise econômica em virtude de terem votado majoritariamente nos governos petistas de Luís Inácio Lula da Silva e Dilma 124 Rousseff além dos discursos xenofóbicos direcionados aos nordestinos na eleição de 2018 Conformam assim uma visão do nordestino pouco ou não alfabetizado alheio ao desenvolvimento das tecnologias e fincado ao chão rachado pela seca Uma percepção de Nordeste que resiste no ponto de vista situado do SulSudeste As produções teóricas sobre o Nordeste e os sertões entre as décadas de 1980 e 1990 constituemse fundamentalmente em torno do coronelismo messianismo indústria da seca cangaço tradições e religiosidade como também contribuíram para forjar uma identidadediscurso regional que ignora a regionalização das relações capitalistas de produção e reprodução a interiorização das instituições de ensino superior as transformações na divisão sexual racializada do trabalho os avanços no âmbito das tecnologias e a influência dos meios de comunicação na vida social De outra parte constroem uma narrativa sobre o Nordeste como espaço destituído da presença de um Estado democrático e de políticas sociais constituindo a ideia de território abandonado No que diz respeito às narrativas que reapresentam conflitos entre movimentos sociais e gestão de políticas públicas a imagem de uma população vulnerável e abandonada pelo Estado é constantemente vinculada à região Seja em material jornalístico blogs da internet ou material acadêmico Nordeste é vinculado a programas de assistência à população carente à violência doméstica contra as mulheres à precariedade nas relações políticas e de trabalho Conjugase assim a palavra Nordeste para falar da margem de um ideal de nação Outro do desenvolvimento nacional desafio para as políticas públicas obstáculo para o desenvolvimento destino de financiamentos para assistência da população brasileira carente supostamente desenganada pela geografia MARQUES 2019 p 4 A designação de Nordeste como contraposição ao moderno e de sertão como interior portanto divide os espaços geopolíticos em mundo urbano versus mundo rural que não existe mais na organização geopolítica de um mundo globalizado e de capital financeirizado As fronteiras e territórios regionais não podem se situar num plano ahistórico porque são criações eminentemente históricas e esta dimensão histórica é multiforme dependendo de que perspectiva de espaço se coloca em foco se visualizando como espaço econômico político jurídico ou cultural ou seja o espaço regional é produto de uma rede de relações entre agentes que se reproduzem e agem com dimensões espaciais diferentes ALBUQUERQUE JUNIOR 1999 p 25 125 Ademais os grandes deslocamentos de capital financeiro e indústrias para o sertão nordestino modificaram as relações sociais de produção e reprodução além da relação entre urbano e rural diluindo suas supostas fronteiras De certa maneira embora o Nordeste ainda conserve as culturas agropecuárias e as tradições rurais há rupturas com novas formas de trabalho e sociabilidade que complexificam essa região Entretanto na perspectiva hegemônica do sudestesul o processo de modernização do sertão está em curso e o transforma em um mero receptor da modernidade ideia da qual discordo profundamente Aí se coloca a necessidade dasdos pensadoraspensadores do Nordeste constituírem e aprofundarem as elaborações teóricas acerca desse território tão implicado de contradições e desigualdades Nós falando por nós de nossa experiência particular Entendo o sertão como um mosaico produzido discursivamente por diferentes forças como unidade e homogeneidade CORDEIRO 2004 p 65 que não pode ser confundido com o semiárido já que o polígono das secas não se circunscreve ao sertão e agrega áreas próximas ao mar ANDRADE 1998 com distintas formações históricosociais disputas de poder entre oligarquias intervenções estatais lutas sociais e religiosidades diversas além de novas formas de sociabilidade articuladas à produção e reprodução do capitalismo contemporâneo De acordo com Cordeiro 2004 p 75 Na atualidade praticamente desapareceu a designação do sertão como interior de qualquer região do país Um dos usos mais correntes é aquele que se refere a uma vasta região geográfica do Nordeste com um certo clima o semiárido com uma vegetação a caatinga e com a ocorrência frequente de um fenômeno ambiental as secas Comumente o termo é também utilizado para falar de um lugar situado às entranhas do país marcado pelo atraso pelo conservadorismo e pelo subdesenvolvimento Dessa região se conhecem sobretudo os baixos indicadores sociais Quem mora nessa região muitas vezes é chamado de sertanejoa e ainda ressoa a frase de Euclides da Cunha que ele é antes de tudo um bravo Há o sertão habitado pelas figuras míticas e lendárias Antônio Conselheiro Lampião Maria Bonita e Padim Ciço Aqui me interessa particularmente o sertão do Cariri Cearense território geopolítico situado no limite sul do estado envolvido pela Chapada do Araripe na fronteira com os estados de Pernambuco Paraíba e Piauí ocupando uma área de aproximadamente 147996 km² e 126 composto por 28 municípios7 IPCE 2018 Em 2009 foi criada a Região Metropolitana do Cariri a partir da Lei Estadual Complementar nº 78 de 26 de junho de 2009 DOE série 3 ano I nº 121 03 de julho de 2009 pp 12 formada pelos três municípios do polo conhecido como CRAJUBAR Crato Juazeiro do Norte e Barbalha e mais seis municípios limítrofes dessa aglomeração urbana a saber Santana do Cariri Nova Olinda Farias Brito Caririaçu Missão Velha e Jardim Ocupa uma área aproximada de 5460 km² e abriga uma população estimada em 601817 mil habitantes segundo estimativa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE Censo 2017 A Região Metropolitana do Cariri foi constituída com o objetivo de possibilitar o planejamento integrado dos municípios com ações conjuntas e permanentes dos poderes públicos e privados nas áreas de ordenação do território desenvolvimento econômico e políticas de incentivo ao turismo religioso e ambiental cultura e geração de renda Pressuponho que a região do Cariri é um conglomerado de significados culturaispolítico econômicos e religiosos que produzem saberes artefatos e subjetividades múltiplas Segundo Pinheiro 2009 p 8 o Cariri é um presente da Chapada do Araripe para a vida humana um oásis no interior do sertão nordestino uma estreita faixa de terreno sertanejo com fontes que nunca secam Há variadas formas de delimitar o Cariri seja pela formação histórica por seus limites territoriais pela relação com a Chapada do Araripe ou a partir de arranjos políticoadministrativos Na minha experiência o Cariri é um sertão mar como bem diz a poeta feminista assim ela gosta que as mulheres da poesia sejam chamadas Na Chapada intergaláctica desse plano Neturno conversava com Oxum A Mãe dágua batizou Geraldo Urano Numa pedra Cariri cor de urucum E o Mestre Patativa lá em cima Fez do vale um grande diluvi de rima Com as águas de Pessoa e de Alencar Como num caleidoscópio um videoclipe Já pensou se da chapada do Araripe Inda desse pra gente ver o mar REJANNE 2016 p 13 7 Abaiara Altaneira Antonina do Norte Araripe Assaré Barbalha Barro Brejo Santo Campos Sales Caririaçu Crato Farias Brito Granjeiro Jardim Juazeiro do Norte Jati Lavras da Mangabeira Mauriti Milagres Missão Velha Nova Olinda Penaforte Porteiras Potengi Santana do Cariri Várzea Alegre Salitre e Tarrafas 127 A historiografia tradicional do Cariri aponta a abundância de água o clima ameno e os solos férteis como elementos que possibilitaram a ocupação desse território durante seu processo de colonização em meados do século XVII A colonização contou com missões evangelizadoras da Ordem dos Capuchinhos sediada em Recife que fundaram na região um aldeamento indígena origem da cidade do Crato já nas primeiras décadas do século XVIII ARAÚJO 1971 Também aparece com certa insistência a ideia de Cariri enquanto território místicosagrado de fertilidade fartura e acerto de contas Para os índios que habitavam a região o vale do Cariri cearense já era território sagrado bem antes que os primeiros colonizadores católicos chegassem para a conquista a posse e o saque Foi em defesa dessa terra da fertilidade e da fartura onde se situava também o espaço mítico que os índios Cariri fizeram guerras contra os invasores brancos e mestiços colonizadores e bem antes contra as tribos dos Sertões que empurradas pela escassez de viveres e pelas secas periódicas tentavam se estabelecer na região Índios negros e mestiços do Nordeste já conheciam o Cariri cearense como terra da fertilidade como chão sagrado bem antes das pregações do padre Ibiapina e de Antônio Conselheiro do milagre da beata Maria de Araújo e da fama do padre Cícero ROSEMBERG CARIRY 2001 p 13 As águas que brotam da Chapada do Araripe também foram determinantes para o desenvolvimento de atividades agrícolas intensas disputas de terra e para a construção da identidade dos caririenses como não sertanejos visto que identificam o sertão com escassez de água e aridez sinônimo de interior e de ruralidade Apesar de ser bem interiorano o caririense sente que sua região é inteiramente fora do sertão propriamente dito FIGUEIREDO FILHO 2010 p 5 Por isso o caririense apesar de apegado às tradições e à religiosidade se compreende como moderno e inserido em um território metrópole um celeiro de cultura um espaço cosmopolitano Essa visão do Cariri como celeiro de cultura faz parte de um projeto de desenvolvimento econômico arquitetado pelas elites locais mas que vez ou outra é reivindicado por diversos sujeitos políticos inclusive os situados no campo das forças progressistas Tal projeto de desenvolvimento promovido pelas elites locais se sustentou na conformação de relações sociais de classe profundamente desiguais em que a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras se processou através do mando da perseguição e do cercamento dos minifúndios e posteriormente da informalidade como relação de trabalho O trabalho formal passa a ser uma relação concreta e palpável apenas com a chegada das indústrias calçadistas e de cerâmica na região De outra parte o Estado se faz presente tendo como base 128 o coronelismo e o patrimonialismo das oligarquias locais que instituem os direitos sociais como exceção e benevolência Para Marques 2016 a partir da década de 1950 os fluxos contínuos de pessoas tecnologias e capital modificaram a região e tensionaram as fronteiras entre o mundo rural e urbano Quando falamos da região do Cariri falamos portanto de uma experiência incomum de tensões contínuas entre as narrativas que dão forma às ideias de rural e urbano MARQUES 2016 p 460 Podese dizer que o Cariri se apresenta e é reapresentado ao mundo como um lugar de tradição Sua história está marcada por personagens emblemáticas como Padre Cícero liderança religiosa e política na Velha República DELLA CAVA 2014 SCHWARCZ 2012 pela poética de Patativa do Assaré e a saga da Tipografia São Francisco SLATER 1982 MELO 2010 referência na edição de folhetos de cordéis no Brasil bem como pelo canto de Luiz Gonzaga um dos principais agentes da visibilização de um Nordeste migrante MARQUES 2016 p 461 Nesse sentido entendemos o Cariri como um território heterogêneo e determinado por relações sociais de ruralidade e urbanidade tendo sido constituído com traços marcantes da grande propriedade senhorial coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade Cumpre afirmar que o campo e a cidade são realidades históricomateriais em movimento embora ainda se conserve a percepção de campocidade como realidades rigidamente separadas De outra parte também se constitui enquanto território de resistências individuais e coletivas que marcam sua história desde a colonização com os conflitos entre os índios Kariris e os invasores portugueses passando pela experiência do Caldeirão de Santa Cruz8 e a independência de Juazeiro Conforme Marques 2005 p 202 o Cariri se notabilizouse como região longe demais das capitais e perto demais da civilização constituindo signos particulares e forte 8 O Sítio Caldeirão situado a cerca de 30 km do centro do Crato foi o lugar em que formara na segunda década do século XX uma comunidade de devotos do Padre Cícero sob a liderança do beato José Lourenço Um movimento messiânico destruído pelas forças do Governo Getúlio Vargas após a morte de padre Cícero sob a alegação de se guiarem por ideais comunistas A estimativa é que o massacre tenha assassinado cerca de 400 pessoas que foram jogadas em uma vala comum sem que o Exército Brasileiro informasse a sua localização O beato José Lourenço fugiu para Pernambuco e morreu anos depois sendo levado por uma multidão a Juazeiro do Norte onde seu corpo foi sepultado como santo do povo Atualmente no território do Caldeirão encontrase o assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra 10 de abril Sobre o Caldeirão ver RAMOS F R L Caldeirão estudo histórico sobre o beato José Lourenço e suas comunidades Fortaleza NUDOCUFC 2011 O documentário Caldeirão de Santa Cruz do deserto 1985 de Rosemberg Cariry também é uma fonte interessante inclusive com depoimentos dos remanescentes do caldeirão 129 discurso regional Tal território desenvolveuse em torno da posse de terra e da cultura agrícola da canadeaçúcar e algodão O autor destaca a formação dos filhos e filhas dos latifundiários em Olinda e Recife como elemento fortalecedor das elites locais e da formação de profissionais liberais urbanos Também pontua o uso das terras do Cariri como pastagens para o gado durante as secas o que constituía elos de ligação entre as elites do interior do Nordeste e situava a região como importante centro comercial Para Reis Junior 2016 a formatação de um território como espaço privilegiado no extremo sul do Ceará que articula as expressões ideoculturais da ruralidade e aspectos do mundo urbano constituiuse historicamente como instrumento político de consolidação e reprodução das classes senhoriais latifundiárias na região O Cariri assim denominado passou a ter uma existência histórica de região vivida e representada Ou seja no decorrer da temporalidade o espaço regional ganhou sentidos diversos apropriações usos e práticas que foram e ainda são objetos de disputa em vários campos como política cultura história economia e representação simbólica No caso do Cariri a trajetória da identidade regional alterouse ganhou sentidos diferenciados conforme as percepções dos que viveram vivem estudaram ou estudam até hoje sua história Nos dias atuais compõe a estrutura administrativa do Estado do Ceará No século XIX a cidade do Crato destacavase como a mais importante localidade seja do ponto de vista econômico ou político Atualmente parte do território do Estado do Ceará é denominado descrito e identificado como Cariri seja do ponto de vista institucional administrativo seja do ponto de vista das manifestações artísticas de sua economia e práticas religiosas além das peculiaridades geográficas Administrativamente é identificado pelo governo como um território de identidade sendo uma subdivisão de uma Macrorregião de Planejamento a Macrorregião do CaririCentroSul Assim na política administrativa do Governo do Estado do Ceará o Cariri é uma microrregião como consta na documentação dos órgãos governamentais REIS JUNIOR 2016 p 245 Sob outra perspectiva as produções ideoculturais simbólicas e religiosas constituíram um discurso sobre a região que reforça a ideia de uma identidade própria e um sentimento de diferenciação quanto ao restante do Ceará e do país Os meios de comunicação os poetas os cordelistas as canções as produções de teatro cinema e acadêmicas os discursos eleitorais e religiosos difundem um forte pensamento regional sobre o Cariri9 Como apregoa Pinheiro 9 A região do Cariri tem intensa tradição no campo da poesia xilogravura e cordel aqui destacandose três grupos de cordelistas a Academia de Cordelistas do Crato os Cordelistas Mauditos e as mulheres feministas cordelistas em que destaco Jarid Arraes e Salete Maria Para Marques 2015 p 84 o verso a rima a forma como o fluxo sonoro é proferido são ainda hoje o estilo privilegiado de reflexão sobre uma imagem do Nordeste veiculado 130 2009 p 15 dos sertões do Ceará e Pernambuco avistase distante de léguas a serra do Araripe dános impressão em que ao longe se encontre o céu e o mar Essa tentativa de afirmação da singularidade do território cariri e do caririense pleiteava particularizálo como celeiro da cultura e da tradição histórica a partir de um conjunto de imagens representações e memórias que especificam o Crato como espaço de cultura e da boemia Barbalha como folclórica e o Juazeiro como capital da fé do trabalho e da religiosidade No dito popular Juazeiro é cidade para trabalhar o Crato para morar e Barbalha para passear Para Vianna 2017 p 102 Essa tradição foi inventada num meio restrito de intelectuais ligados à elite local preocupados em explicar o presente como resultado lógico do encadeamento de fatos e processos do passado Tal constatação se desdobrava em desejos políticos e necessidades culturais de aliar glórias do passado às iluminações do futuro com a tarefa de estimular e financiar projetos que teriam como preocupação salvar uma tradição cultural dita popular e autêntica por suposição ainda infensa ao cosmopolitismo mas que imaginavase estar em vias de desaparecer Para compreender melhor a ideia do território Cariri apreendo espaço como algo em constante movimento social e economicamente construído e historicamente determinado criado pelo trabalho humano como natureza segunda natureza transformadora natureza social ou socializada SANTOS 1980 p 163 no qual a intervenção é mediada pela técnica Nesse sentido o espaço não é entendido apenas como superposição de um conjunto de sistemas naturais e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem O território é o chão e mais a população isto é uma identidade o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence O território é a base do pelos próprios nordestinos No campo artístico destacase a produção da contracultura no Cariri que tinha como objetivo a ruptura com a estética e conteúdo das formas tradicionais de expressão artística local e que de forma contundente marcou o território Cariri com festivais da canção jornais e revistas mostra de expressões artísticas filmes e circuitos de poesia com destaque para Rosemberg Cariry Abidoral Jamacaru Geraldo Urano João do Crato e Luiz Carlos Salatiel Para pensar o Cariri é preciso destacar as produções no campo das artes e do artivismo sejam as locais ou as circulações nacionais incentivadas pelo Centro Cultural Banco do Nordeste CCBNB e pelo Serviço Social do Comércio SESC bem como pelos coletivos autônomos de arte cultura e artivismo Frisamos a cultura do reisado maneiropau cantadores penitentes emboladores rabequeiros pau de fita tracelim xilogravura bandas de pífano bandas cabaçais que se misturam com a forte presença do graffiti dos lambelambes do pixo do stencil da fotografia do rap da performance entre outras linguagens artísticas Convém ainda mencionar a existência de considerável produção cinematográfica que tematiza inclusive questões referentes às relações patriarcais de sexo como o documentário Também sou teu povo e a ficção Travesthiller ambos dirigidos pelo militante LGBTTQIA Orlando Pereira 131 trabalho da residência das trocas materiais e espirituais e da vida sobre os quais ele influi SANTOS 1994 p 97 As relações que se estabelecem no espaço a integração de mulheres e homens em suas múltiplas relações e a divisão do território pela experiência cotidiana em suas relações com a vida social permitem a dissolução e composição de fronteiras revelando dimensões materiais e imateriais conferindo a sensação de pertencimento gerado pela apropriação simbólica do espaço através do princípio de identificação o que torna o território um construtor de identidade ACCIOLY 2011 p 2 A ideia do território em movimento em permanente transformação encontra suporte em um espaço socialmente organizado Território significa espaço e fluxos ou seja lugares e pessoas interagindo Território significa uma identidade histórica e cultural São fluxos econômicos sociais culturais institucionais políticos humanos São atores inteligentes organizados que podem fazer pactos planos projetos coletivos ARNS 2008 p 24 No coração do semiárido nordestino o Cariri assume as feições de território Um território contradição formado por contrastes de diversidade cultural intensas contradições de classes raças e relações de gênero e que coexiste entre projetos de modernidade e tradição constituindo intersecções entre passado e presente Nesse mosaico de contradições que é o território Cariri pontuamos o amplo crescimento econômico e populacional a partir do século XX muito potencializado pelo desenvolvimento do turismo religioso em torno da figura do Padre Cícero Isso trouxe investimentos públicos e privados para toda a região e repercutiu no alargamento de outras áreas econômicas como o comércio a indústria calçadista e recentemente a interiorização das universidades De acordo com Marques 2005 p 206 Particularidade de clima e relevo relações tradicionais de poder e posse de terra a essas características juntarseiam nas primeiras décadas do século XX a formação de um grande centro de religiosidade popular na cidade do Juazeiro do Norte e a utilização contínua das vivências da população rural folclorizadas pelos intelectuais locais Constituíase portanto um discurso específico sobre cultura popular local Temos portanto signos identitários do Nordeste brasileiro personificado no que Martins chama de a Santíssima Trindade Nordestina Padre Cícero Luiz Gonzaga e Patativa do Assaré compondo um espaço profundamente marcado pela tradição ou como prefere Albuquerque Jr pelo discurso antimoderno MARQUES 2005 p 206 132 O fato é que a partir das primeiras décadas do século XX o Cariri ampliouse populacional e economicamente especialmente a partir do fenômeno do milagre do Padre Cicero que transforma profundamente a região A crença popular sugere que Jesus se manifestou por meio do milagre da hóstia consagrada pelo Padre Cícero e que se transformou em sangue na boca da beata Maria de Araújo10 em março de 1889 O milagre da hóstia ou milagre de Padre Cícero levou milhares de devotos ao vilarejo de Joaseiro e fomentou o crescimento populacional e econômico da região Ali o padre Cícero Romão concedia permissão para viver no povoado e encaminhava os romeiros para atividades laborativas seja o cultivo agrícola a produção de instrumentos de trabalho e de uso doméstico bem como o comércio de artigos religiosos A historiografia local e a tradição oral relatam como o Padre Cícero garantia o trabalho e a renda das famílias do vilarejo que para além de decisões político administrativas transformaramse em causos da tradição e do folclore local11 Segundo Marques 2005 p 208 A força da religiosidade popular faz com que a Igreja Católica institua em Crato uma Diocese na tentativa de contornar o fenômeno do milagre Entretanto Padre Cícero constitui novas relações de poder local evocando fortes disputas com as oligarquias cratenses e a cúpula da Igreja Católica A presença de Padre Cícero desestrutura as formas de poderio local Ainda que bem articulado com os coronéis ainda que vinculado à Igreja Católica Padre Cícero inaugura uma forma de fazer política Mantém com os cabras e flagelados de todo o Nordeste uma lealdade nunca vista entre patrão e moradores com os seus seguidores uma relação de lealdade e dependência pouco usual entre fiéis e representantes do clero Entre 1890 e 1909 o Juazeiro do Norte passa de 25 mil para 15 mil habitantes MARQUES 2005 p 208 A emancipação do Juazeiro em relação ao Crato em 1911 fortalece os antagonismos entre as duas cidades uma sustentada pela expansão das romarias e do comércio e a outra 10 Nas últimas décadas constituiuse no Cariri um debate em torno do milagre da hóstia relacionado ao corpo da Beata Maria do Araújo e independente do Padre Cícero Questionase o apagamento da beata da história do milagre de Juazeiro e um posterior deslocamento da crença para a figura do padre Cícero Romão Batista Consta que o corpo da beata foi retirado de seu túmulo e a Igreja nega informar sua localização 11 Um dos causos conhecidos do padim referese à procissão de Nossa Senhora das Candeias que no ano de 2018 reuniu cerca de 250 mil fiéis sendo organizada a partir de uma demanda de um romeiro recémchegado e que passava por problemas financeiros A partir de sua solicitação de ajuda o padim recomendou que produzisse o maior número de lamparinas e aos fiéis anunciou que deveriam comparecer à celebração de Nossa Senhora das Candeias com lamparinas indicando o local onde deveriam comprálas Esse caso teria sido o pontapé para a constituição de uma produção artesanal religiosa que paulatinamente foi transformada em lembranças passíveis de incrementar o comércio local 133 ancorada na tradição das oligarquias tensionamentos que persistem até hoje com novas roupagens É preciso afirmar que a expansão do Juazeiro repercutiu em toda a região fortalecendo a economia constituindo novas disputas de poder e reduzindo as fronteiras entre urbano e rural De acordo com o Instituto de Pesquisa e estratégia Econômica do Ceará IPECE atualmente o Cariri tem 11 da população do Ceará e as quatro maiores cidades da região metropolitana Juazeiro do Norte Crato Barbalha e Nova Olinda apresentam índices de crescimento populacional próximo a 18 que são superiores ao percentual do Brasil 12 do Nordeste 11 e do Ceará 14 Considerando a taxa de ruralidade da Região Metropolitana do Cariri apenas três municípios têm população acima de 50 mil habitantes Juazeiro do Norte Crato e Barbalha De acordo com o Ministério do Desenvolvimento Agrário MDA os municípios de até 50 mil habitantes com densidade demográfica de até 80 habitantes por km² são considerados municípios rurais Conforme essa classificação somente Juazeiro do Norte Crato e Barbalha não são municípios rurais Dentro desse critério os maiores polos de desenvolvimento da região são justamente esses três municípios onde estão localizadas as principais indústrias majoritariamente de calçados e cerâmica e o comércio significativo de atacado e varejo A expansão populacional o volume de recursos em circulação sendo 8 do Produto Interno Bruto PIB do Ceará e os intensos fluxos migratórios fincaram um projeto de urbanidade que não rompe com a ruralidade e que faz os caririenses se autoafirmarem como a meca nordestina As principais atividades econômicas giram em torno do turismo religioso agroexportação comércio e indústria calçadista Nos últimos 20 anos os intensos processos de industrialização do Cariri especialmente fomentados pela indústria calçadista e de cerâmica que detêm 7 do volume total das indústrias do estado reorganizaram a dinâmica campocidade urbanizando as cidades do polo Crajubar e operacionalizando fluxos migratórios contínuos de outras cidades da região Essa chegada das indústrias em cidades de médio porte faz parte da reorganização dos processos produtivos póscrise de 1970 em uma conjuntura de enxugamento do chão da fábrica mobilidade de capitais ofensiva aos direitos dos trabalhadores e ao Estado Nesse sentido há uma tentativa de constituir novos territórios produtivos nas periferias do capitalismo que tenham abundância de força de trabalho a baixo custo incentivos fiscais dos estados e pouca 134 tradição de organização sindical Para Araújo 2005 p 28 o acesso ao trabalho formal industrializado no Cariri veio acompanhado de uma intensa precarização A busca por redução de custos e mão de obra abundante barata e desorganizada tornou a região um novo greenfield atraente a novos investimentos principalmente para aqueles setores industriais mais afetados com a internacionalização econômica como o vestuário Diversas unidades industriais de empresas gaúchas e paulistas foram transferidas ou abertas em cidades do interior da região atraídas por generosos incentivos fiscais além do custo da mão de obra Enquanto no resto do País discutiase o crescimento do desemprego industrial e a precarização das relações de trabalho assistiase em estados como Ceará e Bahia o surgimento de empregos industriais formais ou pelo menos institucionalizados em cooperativas de produção em cidades antes vistas como improváveis pois no máximo eram lugares com uma tradição artesanal na qual a indústria sempre teve um papel pouco significativo ARAÚJO 2005 p 28 Ademais esses novos territórios produtivos apesar de conviverem com processos bastante heterogêneos são marcados pela mobilidade do capital e das próprias indústrias que só ficam em tais lugares enquanto os incentivos fiscais permanecem ou até que outro estado proporcione mais garantias de lucro No que diz respeito à força de trabalho as indústrias recrutam trabalhadorestrabalhadoras pouco escolarizadosescolarizadas e de regiões onde o trabalho formal era pouco usual A ampliação do trabalho formal retirou osas trabalhadorestrabalhadoras do desemprego a falta de perspectivas em relação à empregabilidade na região e proporcionou a migração em busca de melhoria das condições de vida Mas também se articulou a processos de trabalho intensivos baixos salários informalidade terceirização constituição de unidades familiares de produção e trabalhos temporários destacandose a ampla requisição da força de trabalho feminina pelas indústrias calçadistas da região assim como a proliferação de trabalho infantil De outra parte impactou a organização social da cidade já que recebeu contingentes de trabalhadorestrabalhadoras de outras regiões em geral para realizar funções de gestão nas indústrias ampliou também o comércio local e incrementou novas formas de consumo e sociabilidade Para Araújo e Silva 2011 p 706 A chegada da fábrica e do trabalho assalariado funciona quase como um processo civilizatório com a abertura de maiores possibilidades no mercado de trabalho de especialização e mesmo qualificação no trabalho A fábrica provoca a construção de novos hábitos não apenas no trabalho mas também induz à mudança de valores que impactam as relações familiares e afetivas 135 A entrada massiva de mulheres nas fábricas tensionou as relações familiares especialmente as do âmbito doméstico já que os maridos ou companheiros em geral estavam inseridos na informalidade ou desemprego que na compreensão de Araújo 2011 p 707 acabou comprometendo a permanência de papéis tradicionais de gênero papéis estes em que o homem prevalece como provedor e autoridade máxima no grupo familiar Todo esse contexto impulsionou também a necessidade de qualificação da força de trabalho local e o surgimento de várias universidades públicas e privadas que intensificou o fluxo migratório e repercutiu na cultura local Até a década de 1990 a formação em nível superior dos caririenses era realizada fundamentalmente nas capitais sobretudo em Recife mesmo após a criação da Universidade Regional do Cariri URCA em 1987 Esses fluxos migratórios constantes dosdas jovens caririenses contribuiu fortemente para a aproximação com expressões culturais e modos de vidas cosmopolitanos que gradativamente incorporou novos elementos à identidade regional Nos anos 2000 acompanhando o processo de expansão e interiorização das instituições de ensino superior há uma efetiva ampliação das universidades e escolas técnicas profissionalizantes na região do Cariri fato que impulsionou um aumento populacional significativo redesenhando as paisagens locais12 inclusive pela chegada de novos sujeitos políticos Esse fluxo de jovens estudantes e docentes modificou a dinâmica da região ampliando não apenas o mercado imobiliário e o comércio mas também a vida noturna os relacionamentos afetivossexuais as manifestações culturais e de resistência A partir da chegada desses novos sujeitos começaram a ser sistematizadas ações de resistência feminista antirracistas e LGBTTQIA em consonância com fenômenos nacionais a exemplo da Marcha das Vadias das lutas pela legalização da maconha e dos escrachos a personalidades que cometessem machismos racismos e LGBTTQIAfobia De certo já existiam resistências locais mas é inconteste que a interiorização das universidades oxigenou lutas históricas da região 12 No âmbito público temse a ampliação dos cursos e dos campi da Universidade Regional do Cariri URCA a criação da Universidade Federal do Cariri UFCA a partir do desmembramento da Universidade Federal do Ceará e a transformação das escolas técnicas em Instituto Federal do Ceará com dois campi um no Crato e outro no Juazeiro Ainda temse por iniciativa do governo estadual a criação de escolas técnicas profissionalizantes na região Já na esfera privada muito a partir dos incentivos do PROUNI e REUNI foram criados o Centro Universitário Unileão a Faculdade Juazeiro do Norte FJN a Faculdade Paraíso do Ceará FAP a Universidade Estácio de Sá e a UNOPAR 136 O boom das Instituições de Ensino Superior Privadas acompanhada pela recentíssima interiorização da Universidade pública naquele estado da federação a babel de sotaques oriundos das mais diversas regiões do país o estranhamento dos costumes em relação à capital faz de Juazeiro uma metrópole em pleno nascimento de estranhos estrangeiros que muitas vezes chegam e incorporam a performance moderna de colocar o seu tijolo na construção daquela polis Juazeiro do Norte é a típica cidade formada pelos chamados forasteiros provenientes dos mais diversos locais do Brasil Com suas identidades em trânsito IDEM 2007 fazem emergir o que a poeta Ana Cristina Cesar chamou de o atravanco na contramão suspiro no contra fluxo Ali repousa se é possível assim dizer a expressão do híbrido Forasteiros não apenas no deslocamento geográfico mas também nos costumes que predominam naquela região NUNES 2010 p 23 Com os processos de urbanizaçãoindustrialização atrelados à interiorização das universidades e ampliação de investimentos públicos e privados a região fincou uma posição estratégica entre os principais polos comerciais e turísticos do Nordeste com relevância que ultrapassa os limites estaduais sendo referência para importantes cidades dos estados do Piauí Paraíba e Pernambuco No que diz respeito ao turismo houve uma ampliação no ramo do turismo de negócios ecoturismo e turismo culturalreligioso com forte preponderância do turismo religioso realizado por multidões predominantemente das classes trabalhadoras e do Nordeste atraídos para um dos maiores centros religiosos do Brasil pela fé em Padre Cícero Nas várias romarias que acontecem durante o ano há um fluxo de cerca de 15 milhão de peregrinos que potencializam a criação de empregos diretos e indiretos aumento do lucro dos empresários aumento da remuneração do trabalhador assalariado pelos efeitos multiplicadores das romarias em virtude dos estímulos internos dos setores constituídos pelo poder público até investimentos privados no comércio na indústria nas áreas de consumo religioso e cultural importantes na conjuntura econômica da região Para além da visitação à estátua de Padre Cícero e às romarias acrescentase a construção da maior estátua dedicada à Nossa Senhora de Fátima do Brasil e a visita à Pia Batismal em que Padre Cícero foi batizado no município do Crato além dos festejos de Santo 137 Antônio a Festa do Pau em Barbalha Na esfera do turismo profano destacase o circuito das águas e a visitação ao Geopark Araripe13 a Mostra Sesc Cariri de Cultura14 e a Expocrato15 42 UM CARIRI QUE ODEIA AS MULHERES quadro geral das relações patriarcais de sexo na região O cariri é um território perigoso para as mulheres dizia enfaticamente a corretora de imóveis logo quando aportei na região a trabalho Implicitamente ela dizia protejase Nos bares nos meios de comunicação nas escolas expressões artísticoculturais e em universidades essa sentença é cotidianamente repetida aqui não é seguro para as mulheres Faz parte do cotidiano de todas as mulheres e é amplamente naturalizada a ponto de uma missa ter continuidade mesmo após um feminicídio acontecer em sua calçada Todas as mulheres entrevistadas relataram o caso da mulher assassinada em frente à Praça da Sé para expressar o que o território Cariri significa para as mulheres Uma mulher é assassinada em frente à Praça da Sé pelo seu excompanheiro Ela estava observando seu filho brincar ENTREVISTADA III A missa continuou sobre o cadáver gritaram as feministas Advertência número um este texto trata repetidamente de casos de violência e de apagamento de mulheres Silvany apagada materialmente na frente da Igreja da Sé no horário da missa não dispôs de solidariedade dos cristãos ali presentes O corpo da pedagoga ficou durante quase uma hora exposto tal imagem foi compartilhada pelo seu filho mas a missa não parou Aos 26 anos Silvany virou estatística De janeiro a setembro 315 mulheres foram assassinadas no Ceará Silvany está entre elas Tia Silvany como era chamada estava começando a se cuidar mais a sair mais e a viver mais 13 O Geopark Arapipe envolve os municípios de Barbalha Crato Juazeiro do Norte Missão Velha Nova Olinda e Santana do Cariri apresentando uma área aproximada de 3441 km2 IBGEFUNCEME 2001 Este território está inserido em uma região caracterizada pelo importante registro geológico do período Cretáceo com destaque para seu conteúdo paleontológico com registros entre 150 e 90 milhões de anos que apresenta um excepcional estado de preservação e revela uma enorme diversidade paleobiológica Mais informações em wwwgeoparkaraipeorgbr 14 Acontece no mês de novembro e movimenta em torno de 200 mil pessoas por ano com atividades artístico culturais gratuitas distribuídas em 28 cidades 15 A Expocrato é uma feira agropecuária de animais e produtos derivados que movimenta cerca de 60 milhões de reais e mais de meio milhão de pessoas por ano 138 quando os disparos da arma de Elson Siebra de Deus 47 interromperam sua vida na noite de 19 de agosto de 2018 O corpo dela caiu no banco da Praça da Sé em meio a centenas de pessoas que acompanham a festa religiosa para Nossa Senhora da Penha padroeira do Crato entre elas o filho de 4 anos a quem Silvany havia levado para passear SOARES 2019 p 54 No dia 20 de agosto de 2018 um dia após o apagamento de Silvany 5 mil pessoas ocuparam a Praça da Sé e calaram a missa com palavras de ordem nem todas estão aqui falta as mortas Nossa Senhora da Penha protegei as mulheres da violência que trema a terra está aqui o feminismo do Cariri Imagem 1 Ato contra o feminicídio no Cariri nem todas estão aqui falta as mortas Fonte Agência Miséria 2018 Uma região demarcada pelo ódio mas também pelas lutas e resistências das mulheres No mito fundador da região ou no desaparecimento do corpo da beata Maria do Araújo esse 139 ódio se expressa contemporaneamente corporificado no feminicídio Para as mulheres o Cariri corporificase em seu imaginário como uma força que é preciso enfrentar mas aí o sujeito da exploraçãodominaçãoapropriação das mulheres é o patriarcado que toma sua expressão particular no Cariri Assim o Cariri como território e sua constituição e invenção é uma elaboração patriarcal É interessante como o mito que funda a região já vem atrelado ao ódio às mulheres e ao seu apagamento enquanto grupo social Chauí 2006 utiliza a acepção de mito fundador para distinguilo do conteúdo ideológico que carrega a palavra fundação que se refere ao passado estanque imutável ahistórico atemporal e natural e por isso na sua visão é um mito o mito fundador Ele comunica esse significado pois com novas roupagens pode repetirse indefinidamente e também difere da concepção de formação social que agrega a ideia de formaçãotransformação processualidade continuidade e descontinuidade dos acontecimentos e das determinações sociais políticas e econômicas A autora vai sintetizar que o processo de colonização da América Latina se deu a partir da invasão europeia jurídicoteocêntrica mas que é contado pelo discurso competente como se tivesse sido uma descoberta que compõe uma geografia do poder em que o espaço físico unificado constitui o lastro empírico sobre o qual os outros elementos constitutivos da nação se apoiam CHAUI 2006 p 69 No mito fundador encontramos os traços da violência e do autoritarismo estrutural da sociedade brasileira A delimitação do espaço social e dos territórios é feita pelo constante espelharse na magia do competente e isso foi possível porque as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas sem distinção entre público e privado como relações familiares e pessoais de mando e obediência corporificandose enquanto relações de violência e autoritarismo as relações sociais e intersubjetivas são sempre realizadas como relação entre um superior que manda e um inferior que obedece As diferenças e assimetrias são sempre transformadas em desigualdades que reforçam a relação mandoobediência As relações entre os que se julgam iguais são de parentesco isto é de cumplicidade ou de compadrio e entre os que são vistos como desiguais o relacionamento assume a forma ao favor da clientela da tutela da cooptação ou da violência CHAUI 2006 p 89 Isso faz com que a divisão entre classes o patriarcado e o racismo sejam naturalizados por um conjunto de práticas em geral extremamente violentas que camuflam as determinações históricas ou materiais da exploração sob o signo da nação una e indivisa solidificada na 140 imagem de uma boa sociedade e de um país pacato e feliz no mito da nãoviolência brasileira Por isso na sua visão temos o hábito de supor que o autoritarismo e a violência são um fenômeno político que afeta o Estado quando na verdade não percebemos que é a sociedade brasileira que é autoritária e violenta e dela provêm as diversas manifestações do autoritarismo político CHAUI 2006 Retomando ao Cariri segundo a tradição oral e a historiografia local os índios que aqui chegaram diziam vir de um lago encantado em que morava uma única mulher representada por uma serpente sagrada a Mãe dÁgua que habitava no Rio Granjeiro e dormia nas profundezas da terra guardando os segredos da vida da morte e da fecundação Essa única mulher foi assassinada e esquartejada para que nascessem os filhos da nação cariri O mito fundador do povo Kariri apresenta o território de Badzé o deus do fumo e civilizador do mundo No princípio era a Trindade Badzé era o Grande Pai Poditã era o filho maior e Warakidzã senhor do sonho o filho menor Badzé enviou seu filho predileto Poditã para a terra Kariri e esse ensinou os índios a reconhecer os frutos e raízes caçar animais fazer farinha preparar utensílios do cotidiano dançar cantar e fazer os rituais sagrados de pajelanças A Terra Sem Males habitada pelos Kariris tinha uma única mulher e eles queriam mais mulheres Desse modo Poditã orientou que eles matassem esta única mulher com um espinho mágico Depois eles deveriam cortar o corpo da ÚnicaMulher em tantos pedaços quantos fossem os homens e cada homem deveria envolver o seu pedaço da mulher com capuchos de algodão Os índios fizeram tudo conforme orientação de Poditã e depois seguiram para a caça Quando retornaram viram admirados que havia na aldeia muitas mulheres Elas alimentavam o fogo e tinham preparado uma grande quantidade de bebidas e comidas Saciadas a fome e a sede os índios e as índias sussurucaram em suas redes e tiveram muitos curumins GONÇALVES 2008 p 234 A constituição do povo cariri a partir da evocação desse mito fundador se dá pela via da violência e do apagamento da única mulher que morava na região Após sua morte e esquartejamento as mulheres aparecem na aldeia e foram colocadas na condição de objetos de satisfação sexual responsáveis pelas atividades reprodutivas e reprodutoras de herdeiros O mito fundador naturaliza a violência perpetrada contra as mulheres e a transforma em um evento um artefato ahistórico atemporal e pretensamente imutável por isso inscrito na natureza e não nas relações sociais constituídas por homens e mulheres O apagamento e o esquartejamento aparecem a partir desse aporte ideológico como elementos constitutivos do território Cariri e da forma como as mulheres apareceram na região No mito fundador as mulheres são apropriadas como corpo que produz trabalho têm seu tempo devotado ao cuidado 141 doméstico os produtos de seu corpo estão à disposição a partir de relações sexuais entendidas socialmente como compulsórias A partir disso subentendese que a mulher é uma posse reduzida ao estado de objeto material Guillaumin 2014 p 63 marca que a apropriação material do corpo das mulheres se manifesta pela tomada de posse física material o uso físico que sanciona no caso de desavença a coação os golpes O uso físico sem limites a utilização do corpo o não pagamento do trabalho exprimem que o corpo material individual de uma mulher pertence ao marido que com a exceção do assassinato tem direito contratual de fazer uso sem limites dele De outra parte temos o apagamento da beata Maria de Araújo da narrativa oficial e oficiosa do milagre de Juazeiro Consta que em 1889 Maria de Araújo estava reunida com outras mulheres na capela e ao receber a comunhão das mãos de Padre Cícero percebeu que a hóstia se transformou em sangue na sua boca O suposto milagre da hóstia impulsiona uma multidão de romeiros a Juazeiro entendido por eles como a terra santa a Nova Jerusalém Entretanto a beata na qual a hóstia fezse sangue não recebeu um lugar de destaque no interior do catolicismo popular passando os últimos anos de sua vida enclausurada até falecer em 1914 Ademais em 1931 seu túmulo que ficava na Igreja de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro em Juazeiro foi violado e seus restos mortais foram saqueados e nunca mais encontrados Em maio de 2018 pesquisadoraspesquisadores da URCA e integrantes dos movimentos feministas do Cariri realizaram um seminário sobre a religiosa intitulado Maria Madalena do Espírito Santo de Araújo onde está a beata 142 Imagem 2 Beata Maria de Araújo encontreme onde eu estiver Fonte Farias 2018 O que chama a atenção é que o milagre foi o elemento impulsionador das romarias e se ele aconteceu por intermédio da beata o que explica o fato de Padre Cícero ter sido considerado santo pela religiosidade popular Por que a beata praticamente desapareceu do cenário religioso Por que os romeiros e romeiras nem ao menos perguntam onde estão enterrados os restos mortais de Maria de Araújo mesmo sabendo de sua participação no milagre do Juazeiro Por que não cobram da Igreja explicações para o sumiço do corpo CAVA 1976 SILVA 2010 NOBRE 2014 O apagamento da imagem da beata Maria do Araújo faz parte de uma religiosidade alinhada às oligarquias locais constituída em torno da figura patriarcal de Padre Cícero que apagou e silenciou a beata utilizando a sua experiência mística para autopromoção econômica e religiosa Apontei esses dois elementos sobre a história das mulheres do Cariri o mito fundador do Cariri e a experiência mística de Maria de Araújo para sustentar que o assassinato e o apagamento das mulheres enquanto grupo social é um traço fundante das relações sociais e das particularidades do patriarcado na região O assassinato da primeira mulher do Cariri e seu brutal esquartejamento para dar origem a outras mulheres que serviriam como força de trabalho reprodutiva e parceiras sexuais assim como o enclausuramento e desaparecimento dos restos 143 mortais da beata demonstram que a violência o confinamento e o silenciamento são marcas da experiência das mulheres na região e agem naturalizando e positivando a violência e a apropriação material do corpo e da vida das mulheres Acrescentase a isso o fato de o Cariri se conformar como uma terra fortemente marcada pela religião tradição e violência que se unifica em torno de arquétipos morais sociais culturais e estéticos do sertão e do patriarcado rural A vigilância e a tutela dos corpos femininos se sustentam fundamentalmente pelos valores tradicionais do patriarcado dentre eles a separação entre público e privado a valorização da família e da maternidade bem como a centralidade na religiosidade Tal quadro estabelece as desigualdades entre os gêneros e a submissão das mulheres a essa desigualdade como também produz uma verdadeira invisibilidade do fenômeno da violência contra a mulher acompanhado da naturalização de sua impunidade Para Marques 2013 p 3 Em grupos mais hierarquizados como é o caso do Cariri a ideia de coesão está ligada também à manutenção da propriedade familiar e à perpetuação do status dentro e fora da comunidade A vigilância sobre as mulheres tornase uma parte da administração dos conflitos comunitários tal qual descrito por Bailey 1971 através da manutenção da reputação e a tentativa de manter se no mesmo lugar Outro elemento diz respeito à forte relevância social política cultural e econômica da religiosidade para o sertão caririense Friso a necessidade de compreender as religiões e a religiosidade como espaços contraditórios e de produçãoreprodução de relações sociais De acordo com Nunes 2009 p 213 as religiões são socialmente construídas As práticas religiosas certas expressões de fé as representações simbólicas e os discursos são reveladores de relações sociais Assim pertencer a uma classe uma raça ou um sexo determina e delimita as práticas religiosas inclusive as que são percebidas como mais íntimas Além disso as crenças práticas e representações religiosas agem sobre a realidade seja reforçando as estruturas sociais seja modificandoas Na particularidade do Cariri a religiosidade é exteriorizada com a preservação do misticismo que gira em torno dos santos católicos de superstições e de crenças populares que articulam constantemente o sagrado e o profano Um elemento interessante a se enfatizar é a grande quantidade de terreiros de religiões de matriz africana na região evocados no dito 144 popular Juazeiro Juazeiro em cada sala um altar Em cada quintal um terreiro uma cultura que sincretiza a teologia católica romana o catolicismo popular a cultura sertaneja rural e os traços de urbanidade As romarias em homenagem ao Padre Cícero trazem consigo muitas esperanças de cura das mais diversas patologias apresentando corpos sofridos e rostos enrugados que transitam espoliados e maltrapilhos pelas ruas a pé ou nos carros denominados de paus de arara Todos entoando seus benditos ou outros cantos espiritualistas Ali o sagrado se mistura com profano Durante o dia os romeiros pagam suas promessas e adorações como parte dos ritos religiosos À noite muitos deles visitam os becos bares em busca de animações Nesses espaços se relacionam e partem para os mais diversos encontros eróticos é importante pontuar desde já a existência de um mercado do sexo de travestis que demonstra tanto a existência do exercício da sexualidade com estes clientespassantes como também a existência de um mercado interno desenvolvido pelos próprios moradores da região NUNES 2010 p 4 Esse caldo cultural religioso também reafirma constantemente a vocação dos caririenses para a fé e o trabalho como apregoava Padim Ciço bem como a defesa constante das relações familiares e dos tradicionais papéis de gênero Portanto é inconteste que as desigualdades entre homens e mulheres também se produzem e reproduzem na religiosidade do povo Cariri As religiões existentes são espaços de dominação das mulheres e têm legitimado concepções de mundo e práticas misóginas16 A tradição judaicocristã cria representações múltiplas e contraditórias ao redor da figura feminina de um lado está Eva carregando os símbolos de pecado maldade e desobediência de outro está Maria reservada à bondade castidade e submissão17 Considero que essas construções simbólicas fixam produzem e reproduzem consciente ou inconscientemente a subordinação da mulher mas não agem isoladamente precisando das estruturas sociais para engendrar a dominação masculina dos burgueses dos brancos e dos jovens Um exemplo disso foi a campanha eleitoral de 2012 quando um dos candidatos a se tornar prefeito da cidade de Juazeiro do Norte apontava que seu diferencial era ter uma família 16 Não há consenso entre as feministas acerca do papel das religiões algumas defendem que a religião é espaço de dominação das mulheres enquanto que para outras o problema das religiões seria a apropriação das igrejas pelos homens 17 Segundo Albuquerque 2006 p 77 a emergência do marianismo enquanto representação simbólica da mulher que merece ser exaltada legitimou um forte controle da sexualidade feminina ao passo que a Igreja Católica em 1854 definiu Maria em seus dogmas como a Imaculada Concepção virgem por toda a vida 145 bem consolidada e uma fé inabalável no Padre Cícero fatos que contribuíram para sua chegada à prefeitura da cidade supracitada Em certa medida a religiosidade dessa região produz e reproduz relações patriarcais de sexo demarcadamente desiguais com altos índices de feminicídio violência contra as mulheres estupros coletivos e corretivos assédio moral entre outras expressões de violação ao corpo e à cidadania das mulheres Essa articulação entre os traços tradicionais da cultura patriarcal e a religiosidade caririense operacionaliza uma profunda naturalização e invisibilidade das problemáticas supracitadas inclusive no que tange ao Estado e à efetivação das políticas sociais bem como com relação à atuação dos movimentos de mulheres e feministas Embora nas últimas décadas tenhamse materializado profundas transformações societárias no Cariri tais como robustecimento de valores urbanos grandes fluxos migratórios em virtude do alargamento das indústrias calçadistas expansão do comércio em torno das romarias e do turismo religioso além da interiorização das universidades ainda prevalecem fortemente os traços do patriarcado rural e as tensões entre o mundo urbano e rural que repercutem em interdições múltiplas à vida das mulheres Essa conjuntura faz do Cariri um ser tão contradição que reatualiza o patriarcado cotidianamente e cria ao mesmo tempo grandes resistências Como assevera Marques 2013 p 6 Para ser caririense é preciso também ser moderno Esses elementos contribuem diretamente para a região ser marcada pelas múltiplas violências contra as mulheres e os altos índices de feminicídio De 2001 a 2014 228 mulheres foram assassinadas pelos seus companheiros ou excompanheiros18 Advertência número dois cabe dizer que a maior parte dos assassinatos ocorrem com violência sexual e requintes de crueldade presença de indícios de tortura carbonização dos corpos decapitação de partes do corpo estrangulamentos uso de armas brancas havendo também registros de mulheres enterradas vivas ou apedrejadas até a morte Há um apagamento material das mulheres mas também um apagamento de suas imagens Caixões velados e corpos desaparecidos Em 2016 Cadê Rayane foi a pergunta que mais as feministas ecoaram Uma jovem de 24 anos negra e moradora de uma comunidade periférica ficou desaparecida durante dois meses quando as investigações policiais afirmaram que o seu ex 18 Esses números de assassinatos foram registrados nas delegacias de Juazeiro do Norte CE que é o município polo do Cariri cearense e catalogados pelas feministas que militam no Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense 146 namorado havia assassinado e jogado seu corpo no rio São Francisco Rayane não teve um sepultamento A Frente de Mulheres pressionou todas as instâncias estatais a fim de solucionar o caso assim como assessorou a família da jovem e atualmente acompanha o processo de prisão do acusado de assassinato Esse caso impactou fortemente a subjetividade das feministas da região Passamos dois meses junto com a família de Rayane acompanhando as investigações A gente ia lá na delegacia procurava pistas acolhíamos a mãe acionávamos a rede de proteção foi cansativo Teve ato para pressionar a polícia Teve caminhada da comunidade dela Conversamos com os homens da comunidade sobre violência contra a mulher Tudo que você possa imaginar nêga vea Mas ela já tava morta Quando a polícia descobriu nosso chão caiu Mas cadê o corpo de Rayane Mais uma Mais uma de nós morta Foi um baque pra Frente de Mulheres ENTREVISTADA I O movimento feminista local registrou um costume praticado entre as mulheres caririenses que expressa o impacto do patriarcado e do feminicídio na região quando uma mulher é assassinada seu corpo é enterrado junto com todos os boletins de ocorrência e solicitações de medidas protetivas Simbolicamente as mulheres enterram a impunidade e reafirmam a presença de microestratégias de enfrentamento às violências também se negando a serem apagadas enquanto classe A esses dados acresço a intensa incidência de violência sexual especialmente estupros com a ocorrência de estupros coletivos e corretivos bem como leilões de mulheres virgens em casas de prostituição da região No ano de 2016 foram notificados 4 casos de estupro em menos de 10 dias ocorridos no centro da cidade do Crato e durante o dia Segundo o Observatório da Violência e Direitos Humanos da Região do Cariri ligado à Universidade Regional do Cariri URCA entre janeiro e julho de 2016 Juazeiro do Norte apresentou taxa de 587 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres no Crato taxa de 916 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres e Barbalha taxa de 049 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres em um total de 61 notificações de vítimas de violência para cada 1000 mulheres no eixo CRAJUBAR CratoJuazeiro Barbalha Mesmo com dados de violência e feminicídio alarmantes a implantação de Delegacias Especializadas no Atendimento à Mulher teve início apenas em 2002 após uma onda de homicídios na cidade do Crato e na região ocorrida em 2001 que vitimou 13 mulheres em um 147 curto espaço de tempo Assim os movimentos sociais da região especialmente o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense CMDMC impetraram um conjunto de ações no sentido de denunciar a histórica violência contra a mulher no Cariri pressionar por punição aos culpados e efetivação de políticas públicas para as mulheres MARQUES QUIRINO ARAÚJO 2013 Essa conformação de um Cariri perigoso para as mulheres fez emergir inúmeras formas de resistência por partes destas ao longo do tempo em geral ligadas às demandas de violência contra a mulher mas ainda pouco exploradas historiograficamente e com movimentos intensos de fluxos e refluxos organizativos De acordo com a Entrevistada II O Cariri já era um território conhecido de resistência e de lutas sociais desde que eu nasci desde que eu me entendo por gente que eu já acompanhava vários atos de resistência das pessoas em vários aspectos ocupações urbanas ocupações rurais a organização dos sindicatos a luta por uma educação melhor então a gente tem a primeira Universidade no interior do Ceará Eu acho que isso é muito agregador do ponto de vista de quando a gente se reconhece como ser coletivo é muito agregador porque a gente tem uma base de uma coisa que já vinha anterior a gente que é essa força da organização ENTREVISTADA II 2018 Nesse panorama enfatizo as mulheres em luta pela anistia a Associação das Mulheres do Crato o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense bem como as lutas contra os assassinatos de mulheres como os germes para a constituição do sujeito feminista coletivo Dentre as lutas supracitadas cabe destacar o protagonismo da Associação das Mulheres do Crato e do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense no sentido de compor um movimento de mulheres com organicidade política A Associação de Mulheres de Crato AMC foi um grupo estruturado a partir de 1979 dentro do espectro das lutas pela anistia geral e articulado ao Centro Popular da Mulher de Fortaleza19 que teve sua fundação oficial no ano de 1983 atuando até final dos anos 1990 com intercâmbios estabelecidos com várias cidades do Cariri Tal entidade protagonizou lutas em torno da questão da moradia e reivindicações por direitos sociais tais como escolas saneamento básico energia elétrica urbanização das periferias e enfrentamento à violência contra a mulher e ao mesmo tempo atuou na formação de uma luta feminina na região com pautas específicas das mulheres A questão da moradia foi preponderante nesse momento com 19 Organização de mulheres filiada ao PCdoB e que atuava clandestinamente no período ditatorial 148 ênfase na ocupação do conjunto habitacional Novo Crato II em 1983 e das ocupações dos trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra Já o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher Cratense tem sua emergência em setembro de 1993 como uma entidade representativa de mulheres com o objetivo de elaborar e monitorar políticas públicas para elas Entretanto extrapola suas funções e limites territoriais consolidandose como uma entidade de extrema importância no enfrentamento à violência contra a mulher no Cariri articulando as lutas da região pressionando por políticas públicas para as mulheres e por punição dos acusados de feminicídio realizando inclusive o acompanhamento dos juris A atuação do Conselho entre os anos de 2001 e 2003 foi intensa em virtude do assassinato violento de 13 mulheres na região que ficou conhecido como escritório do crime e provocou movimentações em torno do enfrentamento à violência contra as mulheres e a necessidade de delegacias especializadas Para Marques 2019 p 6 as movimentações desse período possibilitaram a implementação de políticas públicas de proteção às mulheres com a chegada das Delegacias da Mulher em Crato e Juazeiro Posteriormente foram implantados o Centro de Referência Regional da Mulher CRRM em 2015 na cidade de Crato e em 2013 em Juazeiro do Norte Por fim o Núcleo de Enfrentamento à Violência contra a Mulher NUDEM foi implantado em 2017 A visibilidade da violência letal ou não contra a mulher tornou mais visível uma rede de mulheres antenada a questões de Direitos Humanos e equidade de gênero ao mesmo tempo que concentrou grande parte das lutas sociais à questão da violência contra a mulher e à institucionalização dessas questões a partir de reivindicações em torno de equipamentos públicos para seu combate MARQUES 2019 p 6 Das mulheres entrevistadas 5 participaram das ações promovidas pelo Conselho da Mulher do Crato para pressionar o poder público a investigar o escritório do crime e punir os assassinos bem como pela implantação das delegacias especializadas e equipamentos sociais de proteção às mulheres da região embora reconheçam que tais ações ainda eram muito embrionárias e sem uma identificação com os movimentos feministas O escritório acabou fugindo daquilo que a gente vinha fazendo porque vai ter uma série de assassinatos o que era algo muito estranho para uma região do interior do Ceará num primeiro momento se dizia são essas meninas que namoram qualquer um mas aí as mortes passam a acontecer de maneira muito parecida e deixa de ser apenas moças solteiras com a morte da Edilene nós vamos ter uma mulher casada com filhos adolescentes e que morre como 149 as outras Até a gente compreender isso saber o que era isso e ter que estudar o que era isso foi muito importante a gente teve que se juntar porque a gente sofreu ameaças também Eu lembro que quando a gente começou a fazer o movimento na Praça da Sé todas as noites a gente ia para a Praça da Sé acendia velas as mulheres faziam orações a gente tinha faixas a gente gritava palavras de ordem a gente recebia recados do tipo vamos acabar com essas mulheres com esse movimento matando a cabeça a gente mata o resto então nós já sofremos ameaça a gente teve que pedir proteção da polícia mas a gente sabia também que se a gente tinha começado esse movimento não podia mais parar a gente sabia que não podia recuar mas nós ficamos muitas vezes só a diretoria do Conselho da Mulher porque as mulheres tinham medo as mães tinham medo as estudantes ainda não participavam ENTREVISTADA III Nós vamos ter o apoio muito grande do movimento feminista de Fortaleza elas vão vir para o Cariri nos momentos mais difícil das manifestações no momento dos julgamentos elas vão vir com um ônibus de Fortaleza elas vão se instalar aqui e vão estar conosco vão trazer faixas vão nos ensinar a fazer movimento mesmo a assistir julgamentos a participar Foi essa construção que as mulheres do Cariri começaram compreender que havia outras mulheres que havia um movimento estadual e que poderíamos ter um movimento nacional e gente foi abrindo horizontes de possibilidade de crescer e as menina sic lá vendo as jovens tiveram que aprender na pancada assistindo julgamento indo para as ruas então o feminismo aqui foi na porrada mesmo ou elas iam com a gente para o movimento ou elas iam ser as próximas a morrer Então foi um período que a gente conseguiu firmar que a gente precisava ter um movimento de mulheres não sei se a gente era feminista dentro do conceito de feminismo que a gente compreende hoje mas a gente constituiu um grupo e foi esse grupo que se consolidou e está na luta até hoje ENTREVISTADA II Contudo essa resistência feminina vai ganhar contornos diferenciados a partir de 2012 com a constituição da Marcha das Vadias no Cariri e posteriormente com sua dissolução e formação da Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Com isso teremos o movimento feminista de forma orgânica e multifacetada com a proliferação de grupos de mulheres debates feministas atos públicos contramarchas e emergência de grupos de estudo nas universidades em outras palavras a construção do sujeito feminista como um coletivo total que se constitui mediante um duplo processo o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade programática que reflita a aceitação das experiências particulares dentro da identidade coletiva GURGEL 2014 p 1 150 4333A FRENTE DE MULHERES DOS MOVIMENTOS DO CARIRI ENQUANTO SUJEITO COLETIVO FEMINISTA A experiência das mulheres no Cariri Cearense e sua constituição enquanto sujeito coletivo feminista perpassa fundamentalmente pelo reconhecimento dessas mulheres enquanto sujeitas apropriadasexploradasdominadas pelo patriarcado a partir de relações sociais racializadas de sexo assimétricas e profundamente violentas Tal reconhecimento se processa em um movimento dialético de constantes aproximações e distanciamentos das mulheres e de uma conjunção de grupos sociais e trajetórias individuais heterogêneas com preponderância das mulheres universitárias e trabalhadoras rurais que paulatinamente reivindicavam a reinvenção do espaço públicopolítico caririense existia manifestação de mulheres no Cariri mas hoje compreendendo o feminismo como eu o compreendo nós não éramos feministas nós éramos um movimento de mulheres que começava a lutar por uma pauta violência contra a mulher que até hoje é a pauta mais forte aqui A gente vai demarcar o feminismo depois eu acho que o feminismo vai se definir bem quando a gente forma a Frente ENTREVISTADA III Essas mulheres se agrupavam para a resolução de demandas urgentes em geral articuladas a reivindicações por melhores condições de vida e trabalho além de principalmente enfrentar a violência contra as mulheres na região inclusive no interior dos movimentos sociais mistos partidos e sindicatos Posteriormente o combate à violência se transformaria na pauta central da plataforma reivindicatória feminista local A pauta principal das mulheres do Cariri ainda é pelo direito da vida tem a ver com a defesa da vida das mulheres é como diz a palavra de ordem é pela vida das mulheres A questão do direito de existir depois de terminar um relacionamento é uma pauta central das feministas do Cariri ainda hoje ENTREVISTADA IV A violência contra a mulher é o que colocou as mulheres do Cariri em movimento a violência em si porque na verdade a gente tem medo passa o dia todinho com medo medo de andar na rua até mesmo medo de estar dentro de casa sozinha e entrar alguém ENTREVISTADA V Enfatizo que as mulheres organizadas no interior das lutas sociais começam a incorporar a percepção de que são sujeitos sexuados e que há necessidade de coletivos sexuados mas ainda sem o reconhecimento integral de sua condição de opressãoexploraçãoapropriação assim 151 como sem se autodesignarem feministas A centralidade estava em defender a vida das mulheres combater a violência e reivindicar justiça para as mulheres assassinadas com a instituição de inúmeras experiências de proteção autocuidado e acompanhamento das mulheres em situação de violência Durante a década de 1990 as mulheres em movimento acompanhavam os juris dos acusados de assassinato a fim de realizar pressão e reivindicar a sua punição faziam vigílias pelas mulheres assassinadas e grupos de autoconsciência Todas as mulheres entrevistadas identificaram nas ações contra o feminicídio e a violência das décadas de 1980 e 1990 uma espécie de vocação das caririenses para a constituição de ações diretas e de rua que entendem como sendo a principal estratégia de luta do movimento local até hoje Para a entrevistada IV Ação direta na rua no movimento contra o feminicídio a estratégia de estar no meio da rua tem nos fortalecido Esse movimento de luta por políticas públicas especialmente de enfrentamento à violência que as mulheres caririenses engendram nos anos 1980 e 1990 acompanhou as tendências dos movimentos de mulheres e de feministas em nível nacional e internacional adotando diversas estratégias de atuação na luta pela melhoria das condições de vida enfocando questões relativas ao corpo saúde sexualidade e violência Pinto 2001 sintetiza a atuação dos movimentos feministas e de mulheres na década de 1980 a partir de três temas i A questão da violência contra a mulher com o surgimento das organizações de apoio às mulheres em situação de violência como o SOS Mulher bem como a criação das primeiras delegacias especializadas ii A questão da saúde da mulher elencando os temas relacionados à maternidade aborto prevenção do câncer planejamento familiar e sexualidade tais temáticas possibilitaram o surgimento de grupos que buscavam formas alternativas de atenção à saúde da mulher e à pressão pela implementação do Programa de Atenção Integral à Saúde da Mulher PAISM e iii A questão da sexualidade que ganhou centralidade a partir da constituição dos grupos de autorreflexão e autoconsciência Para Silva 2018 nesse momento os movimentos feministas romperam com a noção restrita de política e instituíram as mulheres enquanto sujeitos políticos A autora ainda destaca a importância das lutas pela redemocratização do país e por direitos sociais as articulações internacionais e o fortalecimento institucional das entidades e ONGs a partir de projetos apoiados por agências de cooperação multilaterais Na compreensão de Gurgel 2010 os anos 1980 apresentam grandes contradições já que os processos de redemocratização dos países latinoamericanos alargam os espaços de participação política e promovem uma 152 ressignificação do conceito de sociedade civil que lhe abstrai o caráter de arena de luta e interesses antagônicos entre as classes sociais GURGEL 2010 p 7 Para ela a década de 1980 é atravessada por tensionamentos no interior dos movimentos feministas que reivindicam a reatualização da crítica frente ao Estado partidos e ONGs bem como o debate sobre a autonomia que em seu entendimento considera 1 o reconhecimento do sistema patriarcal como estruturante da opressão e dominação da mulher 2 a autodeterminação das mulheres como condição ontológica do feminismo como sujeito coletivo3 a emancipação humana como princípio constitutivo do ser político feminista O questionamento em torno da autonomia também se desenvolveu em torno do reconhecimento das diferentes opressões vivenciadas pelas mulheres e do seu núcleo comum que possibilita a construção de uma identidade coletiva GURGEL 2010 p 7 Na particularidade caririense as lutas por melhores condições de vida e o enfrentamento à violência protagonizados pelas mulheres nas associações de bairro e nos sindicatos de trabalhadores rurais potenciadas pelas Comunidades Eclesiais de base e as professoras universitárias da região tinham as ações diretas e assistemáticas de rua como principal forma de atuação fato que só vai ser modificado com a emergência do Conselho Municipal da Mulher Cratense em 1993 Ao meu ver a participação em ações diretas é fundante na constituição de uma consciência militante que se processa no movimento duplo de reconhecimento das exploraçõesdominaçõesexpropriações e organização da luta Segundo Cisne 2014 p 192 a consciência militante feminista não resulta de uma simples reação às opressões ainda que essa reação seja fundamental para a formação da consciência Ela é um continuum que envolve um movimento dialético entre formação política organização e lutas que vai da dimensão individual da ruptura com o privado à dimensão coletiva de organização de um movimento social partido político ou outro tipo de sujeito coletivo CISNE 2014 p 192 A partir da análise das entrevistas das mulheres da observação participante da minha inserção como militante e dos documentos da Frente pude observar que o movimento de reconhecimento do nós comum e a passagem do indivíduo ao grupo e do grupo ao coletivo foi potencializada pelas ações de enfrentamento à violência e tiveram seu ápice na experiência da Marcha das Vadias como já mencionei no subitem anterior Nessa égide as mulheres 153 caririenses potencializaram a formação de sua consciência militante feminista articulando dialeticamente o tripé formaçãoorganizaçãoluta Eu acho que a Marcha das vadias foi um divisor de águas para a gente por que a gente até ficou questionando como vamos tratar as jovens vão tirar a roupa vão fazer como as mulheres fizeram no Canadá e a gente vinha de um movimento mais tradicional mas hoje eu compreendo bem porque a gente nasce dessa forma porque aqui você vai ter fortemente esse movimento liderado por mulheres da Universidade e por mulheres rurais dos sindicatos rurais temos sindicatos fortes no interior e aqui em especial ENTREVISTADA III Então para mim a questão da Marcha das Vadias teve um papel muito importante no sentido de construir o feminismo aqui eu até hoje sou apegada pra mim foi o pontapé inicial pro movimento de mulheres se reconhecer feminista Por mim não teria mudado eu continuaria sendo vadia e estava bem ótimo embora entenda que a Marcha não agregava as mulheres ENTREVISTADA VI Esse reconhecimento é constituído a partir do momento em que as mulheres apreendem as determinações de sua exploraçãoopressãoapropriação identificam umas nas outras um grupo social capaz de se contrapor a tais determinações nomeiam o adversário e através da ação coletiva irrompem no espaço público indicando uma consciência coletiva que se vê como sujeito coletivo de uma transformação necessária IASI 2006 p 39 e que está articulada à ação de classe Uma ação que não se restringe a reivindicações por direitos expansão de serviços públicos ou respostas às necessidades coletivas mas empreende fissuras nas esferas públicas e privadas da vida das mulheres constituindo novas formas de reivindicação participação e fazer político ao passo que estabelece novas formas organizativas nos grupos e coletivos SOUZALOBO 2011 Ainda na percepção de SouzaLobo 2011 a organização das mulheres em movimento está articulada ao reconhecimento enquanto coletividade e reivindicação por igualdade de direitos mas também é capaz de produzir tensões nas relações sociais de gênero na política e na vida cotidiana Por suas conquistas às vezes por sua simples presença as mulheres nos movimentos subvertem a ordem dos gêneros vigente nos espaços da sociedade SOUZALOBO 2011 p 183 Nesse sentido a formação do sujeito político feminista se estabelece na passagem das reivindicações imediatas e individuais a uma plataforma coletiva de ação que fundase a partir de uma noção de direito igualdade e liberdade assim como da identificação de uma experiência comum das mulheres em suas particularidades e ganha concretude no estabelecimento de um 154 coletivo um sujeito político que constrói experiências de luta comuns Como apregoa Camurça 2008 p 78 o movimento é a força política coletiva das mulheres para transformar as mulheres e o contexto do seu viver Assevero que as mulheres no Cariri a partir de suas experiências e agência superam as ações diretas imediatas e assistemáticas de enfrentamento à violência contra a mulher e produzem uma plataforma coletiva de ação a partir do esgotamento da experiência da Marcha das Vadias em 2014 e da elaboração da Frente de Mulheres enquanto sujeito político uno e plural Uma força política dinâmica e em constante movimento dialético Segundo Cisne 2014 a formação de um sujeito coletivo feminista pressupõe um processo de reconhecimento da condição de exploraçãodominaçãoapropriação e o rompimento das naturalizações as quais as mulheres são submergidas Desta forma é necessário um movimento dialético e dinâmico de apropriação de si que antes de tudo é uma reivindicação de cunho individual que aponta a necessidade de transgressão da mulher de seu destino biológico de seu cotidiano e do seu próprio corpo Apropriarse de si está radicalmente articulado a descobrirse feminista CISNE 2014 p 177 de forma que o entendimento das mulheres como categoria social grupo e coletivo ajunta projetos pessoais e pertencimento a projetos macrossocietários elaborando uma identidade social Para Camurça 2008 p 15 o processo de construção dos sujeitos políticos deve ser a afirmação e ao mesmo tempo a desconstrução de identidades é preciso afirmar as mulheres como identidade política O feminismo como sujeito político se faz somente através das mulheres e de sua movimentação É imprescindível termos um nós mulheres a partir do qual é possível analisar o contexto identificar as contradições fixar objetivos para esta movimentação CAMURÇA 2008 p 16 Posto isto cabe dizer que as mulheres feministas do Cariri operacionalizaram seu processo de reconhecimento enquanto feministas nas ações de enfrentamento à violência na região de forma que o sujeito coletivo feminista insurgiu no processo de identidade coletiva construída pela ação coletiva nas lutas sociais e ações de solidariedade entre indivíduos CAMURÇA 2008 p 135 Não sei se eu conseguiria definir um período histórico bem preciso em que eu me defini como feminista mas foi de 2015 para cá porque é quando o entendimento sobre sermos mulheres de várias formas ele vem se organizando mais e o entendimento de que sem o feminismo a gente não consegue desconstruir várias barreiras que impedem que a gente seguir na paz 155 Uma vez eu estava lendo e me deparei com aquela frase de Ângela Davis de que feminismo de não é nada mais do que a ideia de que mulher é gente eu gosto muito dessa frase porque o feminismo faz a gente refletir individualmente sobre nossa postura de ser mulher e agir coletivamente nessa perspectiva de se compreender como gente e de que as outras mulheres também são gente ENTREVISTADA II Eu me entendi enquanto feminista em 2014 inclusive com a Frente de Mulheres foi aí que eu consegui me enxergar como feminista Eu já lutava pelos direitos das mulheres mas ainda não tinha essa identidade foi dentro da Frente de mulheres que eu consegui perceber isso Perceber que meus problemas individuais tão ligados aos problemas de outras mulheres e que por isso precisamos da luta Por isso o feminismo pra mim é uma organização política e um projeto pessoal é um movimento de mulheres que lutam para acabar com a desigualdade que sofremos É um projeto de classe ENTREVISTADA VI Quando a entrevistada VI aponta a ideia de feminismo como uma organização política e um projeto pessoal está ai colocada a dimensão da formação da consciência militante da construção do sujeito individual e a sua passagem à condição de sujeito coletivo que redimensiona as suas relações na vida privada e passa a se colocar no espaço público enquanto sujeito em si e para si dentro de um contexto de classe raça e sexo particular a uma região tão violenta Um sujeito que funda um processo dialético de superação ou ruptura da imanência que se baseia na sua identificação como Outro e vindicação como Um inicialmente de forma individual e paulatinamente como sujeito coletivo situado e consciente de sua existência e da possibilidade de fincar um projeto de vir a ser mulher que nega o eterno feminino e desnaturaliza o ser mulher no espaço público e privado Um tornarse mulher em coletivo e no plural que é entendido pelas militantes da Frente como um fardo e um projeto de liberdade de transcendência Sublinho a impossibilidade de constituição do sujeito coletivo apartado de uma ação política coletiva capaz de contestar a configuração hegemônica da esfera pública e redesenhar as relações no âmbito privado Nesse sentido o sujeito coletivo feminista transforma as reivindicações das mulheres em lutas feministas baseadas nas contradições fundamentais de classesexoraçaetnia que são estruturantes da vida social e da condição das mulheres Feminismo entendido aqui enquanto um pensamento crítico que além de uma utopia demarca uma concepção de luta política e de projeto de vida SILVA 2018 p 20 capaz de reinterpretar o mundo e as relações sociais estruturais de exploraçãoopressãoapropriação Na particularidade do Cariri cearense convém dimensionar a importância da Marcha das Vadias para a constituição de um sujeito feminista coletivo no Cariri De um lado 156 contribuiu para o encontro de diversas mulheres que militavam na região posteriormente estabelecendo uma pluralidade de movimentos feministas e desse modo provocou inúmeros debates sobre as pautas reivindicatórias das mulheres na região De outro lado aglutinou ações de mulheres contra as opressões que as conectou à necessidade de pensar para além do movimento estabelecendo uma identidade feminista entre elas A Marcha das Vadias20 desde sua primeira expressão no ano de 2011 tem se consolidado enquanto uma movimentação massiva uma ofensiva contracultural às organizações políticas sexistas e na defesa da autonomia das mulheres sobre seus corpos e sexualidade Tais protestos chegam ao Brasil seguindo as tendências internacionais e concomitantemente incorporando pautas locais Aparecem como uma nova forma de intervenção política em que o corpo passa a ser elemento central e instrumento político de protesto é exposto nu e pintado com frases emblemáticas tais como Meu corpo minhas regras tirem seus rosários de nossos ovários nosso corpo nos pertence entre outras em que o corpo aparece se materializando em texto e território rebeldia e irreverência já que é nele que se escrevem as reivindicações e palavras de ordem contra o patriarcado A Marcha das vadias traz algumas novidades no modo de expressão da rebeldia e da contestação caracterizandose pela irreverência pelo deboche e pela ironia Se a caricatura da antiga feminista construía uma figura séria sisuda e nada erotizada essas jovens entram com outras cores outros sons e outros artefatos teatralizando e carnavalizando o mundo público Autodenominandose vadias ironizam a cultura dominante conservadora e asséptica e nesse sentido arejam os feminismos trazendo leveza na maneira de lidar com certos problemas mas estabelecendo continuidades com as experiências passadas mesmo que não explicitem esses vínculos nem reflitam sobre eles RAGO 2013 p 314 As Marchas das Vadias particularizamse em ações de rua estruturadas pelo uso de novas tecnologias de informação e comunicação com ênfase na insurgência das redes sociais como campo de militância para as mulheres no sentido de popularizar o debate acerca dos 20 As mulheres deviam evitar se vestir como vadias para não serem vítimas A afirmação de um policial acerca dos inúmeros estupros que estavam acontecendo com estudantes universitárias no Canadá foi o estopim para movimentações massivas de mulheres na luta contra as inúmeras violências a que são submetidas enfocando principalmente a sexual Os protestos no Canadá iniciaramse em abril de 2011 e se estenderam por 10 países sendo articulados fundamentalmente nas redes sociais por universitários com o objetivo de apropriarse do conceito de vadia para se opor à culpabilização das mulheres pela violência contra elas e questionar as relações patriarcais que dispõem dos seus corpos como forma de dominação e poder ISIDORIO LIMA GRANGEIRO SOARES 2015 p 263 157 feminismos e mobilizar distintos sujeitos inclusive um grande contingente de jovens Ademais as Marchas são demarcadas pela ausência de hierarquizações partidos políticos e centros organizacionais de forma que não se constituem inicialmente como ações coletivas de fluxo contínuo e de longa duração questionando as formas de organização sindical político e partidária sendo inconteste que nos últimos anos as Marchas das Vadias constituíram inúmeros coletivos autônomos e sistemáticos de atuação É relevante analisar que as Marchas das Vadias foram mais visíveis e massificadas em capitais e cidades de médio porte com forte publicização nos meios de comunicação de massa e em geral importando o conteúdo performático e as pautas das Marchas dos países centrais especialmente do Canadá No caso do Cariri a Marcha mesmo incorporando pautas locais e promovendo canais de diálogo com a população não conseguiu ganhar uma força política que agregasse as mulheres em torno dela Pelo contrário potencializou muito mais divergências tensionamentos e rupturas sobretudo com as mulheres negras e trabalhadoras rurais que apesar de se identificarem com algumas de suas pautas não desejavam se autodesignar ou serem designadas como vadias Na minha concepção as Marchas das Vadias foram e continuam sendo muito importantes no sentido de problematizar a questão dos direitos sexuais e reprodutivos e os padrões sexuais impostos às mulheres brasileiras mas as suas formas organizacionais têm limites claros ao não constituir ações sistematizadas de enfrentamento às questões que expõem mesmo quando têm adaptações às realidades regionais Está posto ao meu ver uma questão de fundo ressignificar a palavra vadia e questionar os padrões impostos ao corpo e à sexualidade é extremamente importante mas em um espaço em que as mulheres têm interdições à vida pública e privada tão contundentes essa ação assistemática e pontual apesar de mobilizar o imaginário das pessoas e produzir variados discursos artefatos e representações em torno do corpo do sexo e da sexualidade é uma ação limitada Por isso afirmo que para a particularidade sertaneja a Marcha das Vadias demonstrou ter grandes limites em virtude de os movimentos de mulheres terem se constituído fundamentalmente de trabalhadoras rurais e estarem ligados aos movimentos de Comunidades Eclesiais de Base bem como das mulheres não conseguirem se autodesignarem vadias Isso tem relação com a formação judaicocristã e dos valores tradicionais do patriarcado rural que impõe a tutela dos corpos e da sexualidade das mulheres do Cariri De outra parte as mulheres da universidade tiveram bem mais proximidade com os espaços políticos da Marcha das Vadias 158 que também pode ser caracterizado como uma expressão dos intensos fluxos migratórios na região bem como da ampliação do contingente de estudantes universitárias como produto da interiorização das universidades Para as militantes da Marcha das Vadias ressignificar o termo vadia tornouse um ato político um ato de ocupação do espaço público que historicamente foi interditado às mulheres Assim autodesignarse vadia significava irromper em uma cidade em que a mobilidade das mulheres era entendida como um pecado Também expressava a reivindicação de exercício livre da sexualidade identidades de gênero e orientação sexual a partir do uso do corpo como lugar político instrumento de contestação às regras sociais e religiosas do Cariri Entretanto embora o questionamento sobre o corpo a sexualidade e o exercício da cidade unificasse as mulheres da Marcha o termo vadia as separava e causava constrangimentos às militantes mais históricas Se o reconhecimento enquanto coletividade de iguais é imprescindível para a formação do sujeito político então não se reconhecer enquanto vadia estabeleceu entraves nesse momento que posteriormente foram superados com o esgotamento da experiência das Vadias A primeira Marcha das Vadias intitulada de Falta teus passos na Marcha foi realizada em 2012 com foco no enfrentamento à violência contra a mulher e na autonomia e controle sobre o corpo e a sexualidade De acordo com o Manifesto da Marcha as principais pautas eram Por que as mulheres do Cariri saem às ruas em um evento chamado Marcha das Vadias Igualdade salarial Fim das exigências de laqueadura de trompas Punição às empresas por tais práticas Creches nos locais de trabalho e estudo Delegacias especializadas casas abrigo centros de referência de prevenção e proteção às mulheres em situação de violência Garantia dos direitos reprodutivos Políticas públicas de prevenção à gravidez na adolescência Descriminalização do aborto Políticas de prevenção e combate à homofobia lesbofobia transfobia e racismo A politização do corpo se constituía como pauta central das mulheres na Marcha das Vadias principalmente no que diz respeito ao exercício livre da sexualidade e autonomia do próprio corpo embora a questão da legalização e descriminalização do aborto tivessem sido pouco exploradas É preciso dizer que o corpo pode e deve ser instrumento político em que se inscrevem desigualdades de sexo raçaetnia e classe Para a Entrevistada IV 159 a marcha traz a política para o corpo o corpo é o foco o corpo é político Então quando o movimento traz essa coisa para o corpo denunciando essa coisa da vadia de que as mulheres que não são as mulheres normais aquelas senhoras mães de família aquela mulher tradicional é vadia eu acho uma coisa uma coisa extremamente revolucionária essa coisa das vadias Se somos todas vadias se as mulheres que merecem ser violentadas pelo discurso machista corriqueiro comum e corrente são as que merecem estupradas as que merecem ser violentadas então somos todas vadias Eu acho essa bandeira da Marcha das vadias interessantíssima Houveram os debates internos dentro do movimento em relação a essa questão de vadias principalmente frente às feministas negras que já tinham essa pecha historicamente já havia essa coisa da negra ser a mucama na cama do patrão de ser objeto de cama e mesa de já ter essa coisa de elas serem vadias elas não se identificavam dessa forma O que é interessante é que fizemos um debate no Baixio das palmeiras a gente fez esse debate uma vez com umas senhoras trabalhadoras rurais já de idade donas de casa e elas absorveram bem A gente perguntava o que é ser vadia para a senhora Lembro que uma responder eu acho que ser vadia é ser livre enfim a gente acha que seria um choque mas não era um choque tão grande ENTREVISTADA IV Como recorte destacase a realização de duas Marchas uma na cidade de Barbalha e a outra em Juazeiro do Norte com objetivos estratégias e sujeitos políticos distintos e em certa medida antagônicos É preciso mencionar que ocorreram várias disputas na construção da marcha pois uma parte das mulheres era organizada em movimentos sociais mistos e se contrapunham à lógica das universitárias de ocupar as ruas sem sistematizações e estratégias anteriormente estruturadas Cabe dizer que a primeira ocorreu em Barbalha na Festa de Santo Antônio popularmente conhecida como Festa do Pau que reúne elementos do sagrado e do profano mas que o culto popular tem preponderância sobre o litúrgico oficial Como já mencionei anteriormente tratase de uma festa popular que recebe uma multidão de visitantes em sua maioria jovens que aproveitam a ocasião para pedir um marido ao santo casamenteiro Existe uma crença popular de que as mulheres que pegam no pau sagrado de Santo Antônio conseguem se casar até a festa do ano seguinte Há um cortejo de aproximadamente 8 km que tem como ponto de partida o alto da Chapada do Araripe e que segue até o fincamento do pau em espaço localizado em frente à Igreja Matriz durando o dia inteiro O tempo de carregamento do pau depende do peso do mastro da quantidade de bebida do cansaço dos carregadores e de quantas vezes eles têm que parar o trajeto para moças e rapazes sentarem ou tirar cascas para fazer chás e beberagens casamenteiras Nesse contexto a Marcha das Vadias de 2012 entra no cortejo popular da Festa do Pau entoando a palavra de ordem Santo Antônio livrai as mulheres da violência com o objetivo de denunciar o caráter falocêntrico de tal espaço e as repercussões da cultura patriarcal para a 160 vida das mulheres Fundamentalmente reivindicava a possibilidade de recusa aos modelos patriarcais de matrimônio e maternidade reafirmados pelos festejos populares de Santo Antônio bem como inscrevia nos corpos a possibilidade de controle e autonomia sobre o corpo e conclamava as mulheres a construir o feminismo na região Seguem as características internacionais de estruturação das marchas criação de um evento em uma rede social para a mobilização das participantes espontaneísmo nas ações presença majoritária de mulheres jovens e ausência de articulação com movimentos sociais e partidos políticos da região Situada num horizonte diverso a Marcha das Vadias de Juazeiro do Norte teve outro processo de organização sendo constituída a partir de reuniões e plenárias com representações dos movimentos sociais partidos políticos coletivos de mulheres sindicatos e grupos de estudos das universidades Estruturouse a partir de ciclos de debates anteriores à Marcha nas universidades sensibilização da população via meios de comunicação e redes sociais bem como do atrelamento à perspectiva de classe raçaetnia e orientação sexual Contou com a presença dos militantes da região e das mulheres que historicamente compunham os movimentos de mulheres enfatizando a questão da violência contra as mulheres especialmente a sexual As Marchas realizadas no Cariri produziram grandes impactos ao problematizar o patriarcado a centralidade da família o conservadorismo a interdição ao espaço urbano e a religiosidade como traços estruturadores da região Tais impactos foram medidos pela repercussão que as ações tiveram nos meios de comunicação locais na proliferação de discursos de ódio nas redes sociais e na contramarcha realizada por grupos religiosos especialmente os católicos Grupos católicos organizaram várias intervenções na Marcha das Vadias de Barbalha em 2012 realizaram uma marcha pela vida e contra o aborto no mesmo dia e horário das Vadias com camisas que estampavam os seguintes dizeres Santo Antônio aborto não panfletaram contra as abortistas e rasgaram os lambes e panfletos feministas espalhados na cidade O curioso é que nenhuma das Marchas das Vadias realizadas no Cariri cearense pautou diretamente a questão do aborto ou entoou palavras de ordem acerca da questão mesmo que em seu manifesto estivesse presente a pauta da descriminalização do aborto No ano de 2013 as Marchas do Cariri aprofundaram seus processos de organização e mobilização com a expansão de ações preparatórias na tentativa de ampliar o debate para outros segmentos além dos universitários Para isso realizaram oficinas e palestras sobre violência contra a mulher e sobre direitos sexuais e reprodutivos nos Centros de Referência da Assistência 161 Social CRAS escolas de ensino médio e comunidades rurais do Juazeiro do Norte Crato e Barbalha Na ocasião agregaramse à luta contra a desapropriação dos moradores da comunidade Baixio das Palmeiras em virtude das obras do Cinturão das Águas21 o que possibilitou a participação das mulheres trabalhadoras rurais da região em uma das Marchas Durante a organização das Marchas de 2013 e nas suas avaliações as mulheres que estavam nesse processo começaram a questionar o formato das marchas em nível nacional e local bem como fomentaram o debate de superação dessa estratégia de luta a partir da constituição dos feminismos na região com ações organizadas e sistemáticas Esse processo de reconhecimento da necessidade de composição de ações políticas articuladas a um corpo teórico mais consistente e sistemático que a Marcha das Vadias foi potencializado pela intervenção dos coletivos de mulheres negras em especial o Pretas Simoa22 e da leitura do Manifesto uma carta aberta de mulheres Negras para a Marcha das Vadias que tensionavam o não reconhecimento das experiências vivenciadas pelas mulheres negras na autodeterminação enquanto vadias já que em seu entendimento a negritude não tinha o privilégio social de desmistificar o conceito de vadia ou ridicularizar as representações destrutivas que marcaram o imaginário social a corporalidade e a subjetividade das mulheres negras embora reconhecessem a importância de dimensionar o corpo enquanto instrumento político e a luta antiestupro como uma questão central ao movimento De forma que a Marcha das Vadias foi compreendida como um chamamento para a ação direta em torno dos direitos sexuais e reprodutivos mas como uma tática de luta limitada e que poderia ser superada para melhor incorporar as diversidades de mulheres 21Obra do Governo do Ceará que visa garantir a segurança hídrica do estado Para isso a estrutura permitirá que as águas do Rio São Francisco entrem no Ceará por meio do Riacho Seco sendo direcionadas ao Açude Castanhão Essa construção tem desapropriado muitas comunidades rurais inclusive de remanescentes de quilombolas e povos da floresta e suscitado muito debate em torno de formas menos agressivas de armazenamento de água e consolidação de uma política de segurança hídrica 22 A Preta Tia Simoa foi uma negra liberta que ao lado de seu marido José Luís Napoleão liderou os acontecimentos de 27 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza CE Episódio que ficou conhecido como a Greve dos Jangadeiros na qual decretouse o fim do embarque de escravizados naquele porto definindo os rumos para a abolição da escravidão na então Província do Ceará que se efetivaria três anos mais tarde No entanto apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos esta mulher negra teve sua participação invisibilizada na história deste Estado onde ainda hoje persiste a falsa premissa da ausência de negrs ALVES 2016 162 O Grupo de Mulheres Negras do Cariri Pretas Simoa nasce no interior do GRUNEC23 como uma ação estratégica de formação das mulheres negras Todavia após divergências internas entre as militantes houve uma cisão em dois grupos A partir daí o Pretas Simoa começa a se intitular enquanto um grupo de mulheres negras empoderadas atuantes e ativistas na região do Cariri interior do estado Ceará PRETAS SIMOA 2014 e a questionar as pautas feministas hegemônicas no sentido de enegrecer os movimentos feministas ao mesmo tempo em que não se reconhecem como feministas e problematizam a experiência das Marchas das Vadias Mesmo considerando que a Marcha das Vadias operacionalizou contundentes debates entre as lideranças femininas locais e se firmou como espaço de denúncia das violências sexuais e feminicídios na região as feministas do Cariri se colocam na condição de repensar a experiência e produzir uma nova forma de organização coletiva para as mulheres Nesse sentido formularam questões em torno da palavra de ordem central da Marcha Se ser livre é ser vadia então somos todas vadias Afinal todas as mulheres podem ou querem ser vadias Estas Marchas agregam as mulheres negras idosas transexuais e camponesas na particularidade caririense O espontaneísmo de tais manifestações traz ganhos concretos para as mulheres Seria a Marcha uma nova forma de organização feminista ou uma reedição do feminismo branco universitário e liberal que não dialoga com as reais necessidades das mulheres A marcha das vadias responde às necessidades das mulheres do Cariri Em resposta a tais problematizações as feministas caririenses decidiram exaurir a experiência da Marcha das Vadias em sua forma e conteúdo a partir do entendimento coletivo de que tal intervenção política não dialogava com as heterogeneidades e especificidades das mulheres bem como não avançava na construção de um feminismo anticapitalista antipatriarcal anti lesbohomobitransfóbico antirracista e sertanejo Foi em 2014 no começo do ano eu acho que era março gente já tirou que queria repensar aquela atividade de Barbalha e a gente queria romper com aquele movimento vadias que as mulheres negras do Cariri elas pediam 23 O Grupo de Valorização Negra do Cariri GRUNEC é uma entidade sem fins lucrativos formada na cidade do CratoCE no ano de 2001 com o objetivo principal de promover a igualdade étnicoracial e propagar a consciência sobre a afrodescendência valorizando a história e a cultura do povo negro no Cariri A partir de 2011 a entidade vem realizando o Congresso Artefatos da Cultura Negra um evento de abrangência nacional sobre negritude que tem se organizado enquanto espaço de formação política pedagógica e cultural antirracista bem como de proposição de políticas públicas para a superação das desigualdades étnicoraciais 163 que a gente acabasse com isso porque já era algo marcante para elas é uma marca para elas na verdade Então a gente correspondeu a essa exigência porque é isso que a gente deve fazer escutar nossas irmãs e nossas companheiras e aí a Frente de Mulheres surge nessa conjuntura ENTREVISTADA V O ponto de vista que assumo é o de que a Marcha das Vadias no Cariri cumpriu um papel político fundamental no sentido de mobilizar importantes setores e sujeitos políticos para a construção dos feminismos em uma região demarcadamente violenta para com as mulheres Todavia suas limitações políticoorganizativas e sua pouca eficácia no plano da pressão por efetivação de políticas públicas para as mulheres não podiam ser superadas na forma como ocorriam Aqui considero que a pressão por políticas públicas e a materialização dos direitos sociais é um elemento de fundamental importância quando se trata de Cariri tendo em vista a precariedade de tais políticas na região Portanto era urgente constituir outra forma de organização feminista e sob esta égide emerge a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri com o objetivo de materializar o que para elas é a tarefa estratégica do feminismo produzir fissuras no patriarcado a partir da compreensão das particularidades das mulheres do sertão É nesse momento que as entrevistadas reconhecem a emergência de um novo sujeito coletivo na região a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Eu acho que isso é muito agregador do ponto de vista de quando a gente se reconhece como ser coletivo é muito agregador porque a gente tem uma base de uma coisa que já vinha anterior à gente que é essa força da organização Quando a frente aparece quando a gente conversava Cláudia Rejane você eu e as outras pessoas sobre um movimento que conseguisse ampliar a participação das mulheres para rediscutir um projeto político que já estava organizado em contraponto aos megaprojetos já organizados pelo capital e a gente nessa perspectiva de que a mulher seria que nós mulheres seríamos as pessoas que deveriam estar dentro desse projeto rediscutindo reconstruindo e possibilitando que as outras chegassem Então nós já tínhamos esse território fértil pelas organizações sociais aqui da região mas precisava dar esse tom mais de mulher tínhamos apenas o Conselho da Mulher que fazia esse trabalho todo do enfrentamento à violência de denunciar de fazer essa luta mesmo sobre as questões das mulheres mas era como se faltasse um liga por exemplo que nos sindicatos nós tivéssemos mulheres que representassem mulheres que elas viessem para a frente discutir então a gente teve muito isso para se constituir como Frente de Mulheres A ideia central era feminizar e enegrecer os movimentos sociais do Cariri ENTREVISTADA II Eu considero que a criação da Frente de Mulheres vai ser o divisor de águas para a gente repensar o movimento de mulheres no Cariri e pensar um movimento de mulheres feministas Nesse momento a gente se reconhece 164 como um coletivo Um coletivo não apenas de mulheres Mas de mulheres feministas ENTREVISTADA III Quando acaba a Marcha das Vadias ai aparece a Frente A Frente é um levante de mulheres no Cariri Um levante de mulheres organizadas Agora a gente tem uma missão e se nutre no coletivo É um coletivo de mulheres Mulheres em movimento Uma sobe e puxa a outra É isso ENTREVISTADA I Esse sujeito coletivo feminista que reconhece as particularidades de sua exploração opressãoapropriação a partir de um desestranhamento como mulher começa a estabelecer conexões vínculos e elos com outras mulheres identificando suas heterogeneidades e reconhecendose enquanto grupo social sexuado que tem na emancipação das mulheres um projeto de sociedade viável Segundo Cisne 2014 p 186 há um processo de fortalecimento coletivo na medida em que as mulheres se percebem como tais desnaturalizando as opressões e subordinações vividas Com isso deslocase a acomodação para a ação coletiva e a descrença que é impossível mudar para força de luta pela transformação do que incomoda É por meio do conhecimento socialização e politização dessas experiências individuais e coletivas que o movimento vai ganhando forma e as mulheres se identificando como os seus sujeitos Na medida em que as mulheres socializam suas experiências e as politizam percebem que sua experiência individual é também coletiva CISNE 2014 p 186 Ao dizer nós e estabelecer ações sistemáticas de enfrentamento às assimetrias nas relações sociais de sexoraçaetniaclasse na região as mulheres do Cariri se instituem enquanto coletivo que articula uma práxis que agrega o reconhecimento da diversidade e a construção de uma unidade diversa contraditória GURGEL 2014 p 72 Essa unidade diversa contraditória ou nas palavras de Gurgel 2014 esse coletivo total apreende as múltiplas determinações que fazem e refazem as relações sociais de sexoraçaetniaclasse na particularidade do Nordeste do sertão do mundo rural incidindo na elaboração de uma plataforma políticoreivindicatória articulada às necessidades das mulheres plurais locais a partir da apreensão da formação social do território Cariri em suas complexidades ao mesmo tempo em que instituem coalizões feministas de abrangência nacional Ademais organizam um discurso contrahegemônico sobre o território as resistências das mulheres e em torno da noção de feminismos Ao organizaremse como Frente o movimento feminista local parece disposto a manter um fluxo incessante de imagens que jamais encontra repouso ao 165 equacionar Cultura Popular feminismos jovens multicoloridos e de várias gerações e pertenças a Frente parece impulsionar novas formas de apropriação sobre o movimento e sobre o Cariri como espaço MARQUES 2019 p 13 A Frente se organiza segundo seus documentos como espaço feminista de articulação organização e formação FRENTE 2018 tendo como princípios a unidade na diversidade reconhecendo a heterogeneidade dos grupos sociais partidos coletivos associações entidades e sujeitos que a compõem assim como a democratização dos processos decisórios a partir da produção de consensos que em geral acontecem em reuniões ampliadas Assim é demarcada pela ausência de hierarquizações e centros organizacionais embora tenha uma coordenação executiva responsável por mobilizar as militantes Nós estamos com uma experiência não sei se única mas muito profícua muito profunda muito sólida que é a estratégia de ficarmos juntas porque a gente tem milhões de motivos para se separar mulheres de diferentes idades e formações de partidos diversos de orientações políticas das mais múltiplas mas a gente manteve um firme propósito por isso o nome é Frente de nos focar naquilo que nos une porque o que nos separa tem milhões de coisas ENTREVISTADA IV A ideia da Frente é possibilitar a autoorganização das mulheres na região inclusive no interior dos movimentos sociais mistos com o objetivo de lutar pela liberdade substantiva das mulheres enquanto grupo social Cabe dizermos que a Frente de Mulheres intenciona não interferir na organização política e na autonomia dos seus grupos integrantes já que o objetivo principal é contribuir com a construção da unidade nas lutas contra a exploraçãoopressão de classe gênero raça e orientação sexual na região afinal juntas potencializamos as ações que não possuem tanto peso se forem realizadas individualmente ou somente por um grupo ISIDORIO LIMA GRANGEIRO SOARES 2015 p 265 Essa tem sido uma tarefa que demanda bastante energia das militantes já que compõem a Frente vindo de espaços políticos experiências pessoais e perspectivas ideopolíticas muito distintas como por exemplo agregam as mulheres dos setoriais do PSOL PSTU e PT anarquistas sem filiação partidária jovens e idosas lésbicas transexuais de terreiro e da base da Igreja Católica urbanas e rurais da universidade dos sindicatos de trabalhadoras rurais e da educação das periferias negras entre outras diversidades que congregam um mosaico de experiências vividas articuladas em um projeto coletivo de tornase mulher no sertão 166 A frente de Mulheres ela hoje basicamente é constituída de mulheres que vêm de sindicatos com base fortemente dos sindicatos da educação sindicatos rurais estudantes Hoje a gente vê a partir dos coletivos que foram criados muitas estudantes e hoje a gente tem a presença muito marcante de mulheres de outras áreas profissionais liberais ou mulheres que não trabalham que são mães e que começam a se reconhecer por necessidade de formar suas filhas a gente hoje tem essa mistura grande é claro que acaba tendo o comando muito mais nós que militamos sindicatos e os coletivos das meninas mas a gente vê hoje a Frente muito aberta se você me perguntasse hoje quem é a maioria eu poderia dizer que pode até ser ainda as professoras ou as mulheres de sindicato pode até ser porque acaba que a gente está na diretoria a gente tendo mais disponibilidade e compreensão por conta nossas pautas sindicais Mas eu considero que hoje a Frente é um lugar que as mulheres veem é tanto que nessas eleições a Frente vai crescer porque as pessoas estão perguntando quem é a Frente nós vamos ter que fazer eventos sobre a Frente porque as mulheres estão perguntando ENTREVISTADA III Isso traz uma complexidade na organização feminista e provoca fluxos refluxos entradas e rupturas contínuas mesmo que elas apreendam a pluralidade de experiências como uma força impulsionadora da ação feminista capaz de ampliar o acesso a diversos grupos de mulheres e dar respaldo junto a outros movimentos sociais articulações de luta e ao poder público Tal diversidade também é provocadora de um limite prático para o alinhamento de objetivos discursos e aceitação das experiências específicas na materialização de uma unidade programática que nas palavras de Gurgel 2014 p 73 proporciona a inclusão horizontalizada das demandas específicas que compõem o sujeito mulheres ao assumir como princípio fundador as diversidades de mulheres Cabe mencionar que no processo de conformação da Frente houve duas grandes rupturas que repercutiram fortemente na subjetividade das mulheres a cisão com as anarquistas e com o Coletivo Pretas Simoa As primeiras contestavam as formas organizativas do primeiro ato público da Frente em julho de 2014 que denunciava a ocorrência de três feminicídios na mesma semana com uma passeata no centro da cidade do Juazeiro em que as mulheres levavam velas cruzes e se vestiam de preto Para as anarquistas o uso do carro de som microfone e articulação com as instâncias do poder público local descaracterizava completamente uma ação feminista radical Por sua vez as Pretas Simoa que era um coletivo de mulheres negras nascido no interior do GRUNEC romperam por não se reconhecerem na identidade de feministas para elas primeiro vinha o pertencimento enquanto negras e depois como mulheres 167 mas a gente teve muito enfrentamento muito conflito também com outros movimentos foi quando surgia o Preta Simoa que era um grupo de jovens negras e que de repente não dialogavam com toda pauta que a Frente colocava mas que não deveria chegar a ser uma coisa conflituosa porque havia um espaço há um espaço no Cariri para que todas as lutas aconteçam e que a gente consiga por fim convergir numa coisa só que é pela via e pela vida das mulheres em específico ENTREVISTADA II Essa ruptura das mulheres do coletivo Pretas Simoa já se desenhava no interior da organização das Marchas das Vadias quando elas denunciavam a marcação social que possibilitava às lideranças femininas locais a identificação com o termo vadia Para as Preta Simoa em um contexto de erotização do corpo negro a identificação com o termo seria um atraso MARQUES 2019 p 7 Mas se apresentou de forma mais contundente no ato do 8 de março de 2014 quando realizaram uma intervenção artística no interior do próprio ato de mulheres contestando a exclusão das mulheres negras nas pautas feministas hegemônicas A performance artística consistia em amarrar e amordaçar as integrantes do Pretas Simoa em postes monumentos e árvores enquanto o ato passava ao passo que entoavam palavras de ordem reivindicando que o lugar de fala das mulheres negras fosse respeitado empunhando um megafone declarou palavras de ordem e protesto diante do racismo dos movimentos de mulheres do Cariri e do Brasil exigindo que as feministas brancas se deslocassem de seus locais de conforto para ouvir e atender às demandas das mulheres negras A ativista usou termos como sinhá para gerar desconforto e tornar explícito o privilégio da branquitude feminina provocando a necessidade de se enegrecer as lutas de mulheres entre palavras de confronto e de combate ao machismo PRETAS SIMOA 2014 É preciso considerar que as mulheres negras foram historicamente secundarizadas e que há uma invisibilidade da raçaetnia no interior dos feminismos que se querem fazer hegemônicos Esse feminismo hegemônico tem reiterado processos de homogeneização e universalização do sujeito mulher ignorando o racismo como traço estruturante da sociedade brasileira e estruturador de relações assimétricas entre as mulheres Para Silva 2018 p 31 o feminismo brasileiro se coloca como colonizado em relação ao Norte global e colonizador interno em relação às mulheres negras indígenas trabalhadoras etc A utopia que hoje perseguimos consiste em buscar um atalho entre uma negritude redutora da dimensão humana e a universalidade ocidental hegemônica que anula a diversidade Ser negro sem ser somente negro ser 168 mulher sem ser somente mulher ser mulher negra sem ser somente mulher negra Alcançar a igualdade de direitos é convertese em um ser humano pleno e cheio de possibilidades e oportunidades para além de sua condição de raça e de gênero Esse é o sentido final dessa luta CARNEIRO 2013 p 4 Corroboro a acepção de Gonzalez 1988 p 65 de que nenhum movimento é realmente feminista se não tiver a análise do racismoclassesexo como premissa daí a necessidade de pensar as relações de raçaetniaclassesexo de forma imbricada coextensiva consubstancial enovelada Para Ávila 2011 p 65 a força de trabalho que se vende é indissociável do corpo que a porta e as suas formas de apropriação e exploração estão definidas não só pelas relações de classe como também de raça e gênero Quando as mulheres negras elencam suas pautas e reivindicam a centralidade do debate de raçaetnia no interior da Frente acabam por dimensionar a sua autoorganização como questão prioritária e geram tensionamentos no movimento feminista e na Frente enquanto espaço que se designa como plural Ademais expõem a dificuldade das mulheres brancas de perceberem as desigualdades entre as mulheres a partir da raçaetnia classe sexualidade e regionalidades Dificuldade essa fincada nos privilégios históricos que as mulheres brancas detêm em relação às negras e que nem sempre estão dispostas a problematizar O sujeito coletivo Frente de Mulheres emerge confrontando as relações patriarcais de sexo mas a sua pluralidade constitutiva acaba trazendo o enfrentamento das questões de raça e de classe como contradição que precisa ser dialeticamente pensada e incorporada como pauta central mesmo que isso aconteça com avanços e recuos Para Marques 2019 p 8 a relevância da Frente seria reforçada justamente pelo tensionamento de dizibilidades que antecedem sua conformação apontando projetos para futuras ações e a tessitura de novas gramáticas de forma que as rupturas e tensionamentos do processo de conformação da Frente e de sua autoorganização provocaram as militantes a pensar na ação feminista de uma maneira mais orgânica e ancorada num corpo teórico metodológico mais consistente Para tal começaram a pensar sobre a identidade da Frente no sentido de problematizar se era uma Frente feminista ou de mulheres organizadas as referências teóricopolíticas que podiam acionar o feminismo que queriam construir e as pautas centrais Nesse momento a formação política foi entendida como prioritária para elucidar a identidade missão e objetivos da Frente que empreendeu esforços para a realização de um Seminário de Formação intitulado Gênero Feminismo Raça e Classe que aconteceu durante quatro fins de semana consecutivos com um grande número de participantes com o objetivo de capacitar 169 as integrantes da Frente em 4 eixos 1 Gênero classe e divisão sexual do trabalho 2 Direitos sexuais e reprodutivos 3 Gênero e diversidade sexual e 4 Raça e gênero Contudo no último módulo da capacitação houve um esvaziamento na atividade que gerou um grande desgaste entre as militantes da Frente especialmente entre as negras e brancas Convém dizer que apenas sete pessoas compareceram à atividade formativa de raça e gênero as três facilitadoras das atividades duas adolescentes negras e duas militantes da Frente que suspenderam a formação levando as problematizações ali expostas para uma reunião ampliada Na ocasião questionavase o elemento determinante do esvaziamento do módulo de raça já que é uma questão estrutural da sociedade brasileira e tem contornos dramáticos na região Ademais reflexionavase como as mulheres presentes se colocavam frente à questão no sentido de autorreconhecimento de raçaetnia e de reconhecimento dos privilégios brancos As mulheres negras da Frente se questionavam com quantos esquecimentos se fazem um movimento social A partir daí a questão norteadora o que me move ao movimento de mulheres possibilitou uma autorreflexão acerca do porquê se movimentar em coletivo tinha se tornado uma escolha pessoal um projeto e uma atuação coletiva consciente e autônoma Também precipitou uma problematização acerca da necessidade de tornar central o debate de raçaetnia no interior da Frente e fora dela Esse momento foi compreendido pelas nossas entrevistadas como um espaço políticoafetivo de profunda comoção e partilha das experiências vividas pelas mulheres negras de resgatefortalecimento da ancestralidade e de indicação do enfrentamento ao racismo como pauta principal do ano de 2015 com a articulação da Marcha das Mulheres Negras do Cariri como momento preparatório para a Marcha de Brasília Eu considero que a criação da Frente também ampliou o debate de raça dentro e fora dela foi muito difícil a gente pensar tanta diversidade foi difícil a gente quebrou muito a cabeça naquelas formações Mas insistimos em fazer da formação um caminho para que a gente se entendesse entendesse o feminismo e entendesse as outras Outra coisa foi a reivindicação das mulheres negras de ter a sua pauta dentro desse movimento porque até então a gente não tinha feito muito isso como Conselho do Mulher como movimento de mulheres ligado ao Conselho mas quando a gente estabeleceu a Frente as mulheres negras reivindicaram sua existência sua pauta Eu penso que foi aí que a gente começou mesmo a compreender e a disputar esse feminismo ENTREVISTADA III Em 2014 teve aquele seminário que veio uma moça muito importante a Mirla teve esse seminário que foi para criar a Frente na verdade para capacitar as pessoas da Frente que deu em uma coisa muito massa porque eu acho que a Frente é hoje o movimento mais importante que a gente teve por aqui o mais atuante apesar de hoje estar atuando menos do que antes mas as 170 mulheres que estão na Frente atuam em todos os cantos que você possa imaginar ENTREVISTADA VII A incorporação da pauta de raça se deu gradativamente a partir da negação das mulheres brancas e de nossa problematização mas se impôs Nós nos impulsemos Ou vocês reconhecem seus privilégios e botam o racismo como pauta ou a gente corre daqui Vocês têm que nos escutar Ai dessa avaliação retiramos o combate ao racismo como pauta central da Frente para 2015 O bicho é voraz Ou a gente se junta ou a gente se ferra ENTREVISTADA II Nesse processo de formação políticoorganizativa vai emergir a necessidade de tecer elucidações teóricas e políticas acerca das particularidades das mulheres negras e do feminismo negro Para Carneiro 2011 p 34 O papel da mulher negra é negado na formação da cultura nacional a desigualdade entre homens e mulheres é erotizada e a violência sexual contra as mulheres negras foi convertida em um romance O que poderia ser considerado como história ou reminiscências Portanto cabe ao sujeito feminista afirmar no cotidiano das lutas sociais o projeto de enegrecer o feminismo e feminizar os movimentos compreendendo a simbiose contida no nó patriarcadoracismocapitalismo SAFFIOTI 2004 Assim a Frente de Mulheres reafirma em suas ações o protagonismo das mulheres negras e o enfrentamento ao racismo na região como pauta central O que não se deu de forma automática pelo contrário foi produto das pressões das mulheres negras no interior da organização como já mencionei anteriormente Embora seja preciso frisar que tal pauta seja efetivada com a presença constante de tensionamentos e conflitos internos dado que o racismo é um elemento estruturador das relações sociais e portanto perpassa a relação entre as mulheres da Frente requerendo um constante trabalho de formação antirracista e de reconhecimento dos privilégios brancos Desta maneira no ano de 2015 a pauta central foi a mulher negra e a estruturação da Marcha das Mulheres Negras no Cariri atendendo ao chamado do Grupo de Valorização Negra do Cariri GRUNEC Sob o lema uma sobe e puxa a outra as mulheres marcharam Pelo fim do feminicídio das mulheres negras Fim do racismo e sexismo produzidos nos veículos de comunicação Fim dos critérios e práticas racistas e sexistas no ambiente de trabalho Pela titulação e garantia das terras quilombolas especialmente em nome das mulheres negras Fim do desrespeito religioso e pela garantia de reprodução cultural de nossas práticas ancestrais da matriz africana MANIFESTO DA MARCHA DAS MULHERES NEGRAS DO CARIRI O Manifesto da Marcha das Mulheres Negras do Cariri foi assinado por mais de 30 entidades componentes do Comitê impulsor A Marcha aconteceu no dia 31 de março de 2015 171 e contou com a presença de mais de duas mil pessoas sendo considerado um momento vitorioso para os movimentos feministas e negro do Cariri Foi a primeira vez que o movimento enegreceu diz Veronica Carvalho SOARES 2018 p 52 e isso visibilizou a capacidade de mobilização da Frente de Mulheres junto a diversas forças do movimento social contando com uma heterogeneidade de mulheres trabalhadoras rurais mulheres da cultura de tradição mulheres de terreiro feministas dos coletivos jovens idosas dos grupos dos CRAS e SESC escolas municipais servidoras públicas e sindicatos Segundo Isidorio 2015 p 297 o maior legado da marcha foi o protagonismo das mulheres negras as mulheres negras no comando da marcha das falas do microfone na TV e no rádio Foi um acontecimento para marcar a história desta região As mulheres negras à frente na frente falando em seu próprio nome A marcha foi sucedida por formações em torno da questão racial seus impactos na formação social brasileira sua dimensão institucional e a consubstancialidade com as dimensões de gênero e classe Ademais pautouse a exploração do corpo das mulheres negras e sua objetificação assim como a ineficiência das políticas de combate à discriminação racial Desses processos formativos saiu a reafirmação da necessidade de fortalecer as ações de enfrentamento ao racismo e de evidenciar as mulheres negras como protagonistas dos processos formativosorganizativos da Frente de Mulheres Sobre a Marcha das mulheres negras Marques 2019 alude que Ao longo da concentração vêse a chegada de comunidades quilombolas de Souza em Porteiras e do Sítio Carcará em Potengi Chegam também jovens de uniforme escolar e militantes de dezenas de sítios ocupações bairros periféricos e grupos de Cultura Popular Mulheres do Coco da Batateira Irmãos Aniceto entre outros Entre 2017 e 2019 por mais de uma vez a líder quilombola Maria de Tiê esteve à frente das marchas com seu pandeiro saia florida e com uma capa azul onde estava bordada a imagem de Nossa Senhora Lideranças de casas de religiões afrobrasileiras participam da marcha com roupas de festa Luna 2018 chamou a atenção para a performance de um Cariri negro e quilombola evidenciado nessas marchas pela ação dos coletivos da região Nas manhãs de marcha periferias culturas e religiosidades populares compõem uma imagem de Cariri como diversidade étnica sexual de origem e de gênero Não fosse o trabalho contínuo ao longo do ano essa imagem seria impossível No entanto como dissemos acima essa imagem é também mediada por feminismos e ações políticas longe dali Em narrativas dispersas que ali se presentificam entrelaçadas a centralidades do corpo e do território na região MARQUES 2019 p 12 172 A Marcha também impulsiona a participação das mulheres de terreiro na Frente que agrega a defesa dos direitos dosdas praticantes das religiões de matriz africana e a luta contra a intolerância religiosa na região como pauta articulada organicamente à questão das periferias já que os terreiros se concentram nas localidades mais pobres e impactadas com a ausência de políticas públicas e o racismo institucional Nesse sentido para além da participação ativa da Frente nas tradicionais marchas contra a intolerância religiosa foi realizada em 2015 uma audiência pública sobre liberdade religiosa e um seminário de formação com os diversos terreiros no intuito de tirar uma pauta comum de reivindicações e reverberar o debate dos povos de axé ao conjunto dos movimentos sociais e poderes locais instituídos Assim como a luta antirracista24 foi forjada no tensionamento das mulheres negras no interior da Frente e acabou se transformando em pauta prioritária Foi necessária a pressão por parte das feministas jovens das LGBTQIA e de grupos de estudo das universidades da região para que houvesse a emergência do debate de diversidade sexual e da luta contra a LGBTTQIAfobia na Frente Consta que a região registra altos índices de violência contra esses segmentos especialmente com as travestis e as mulheres trans e o assassinato brutal de 3 travestis na região potencializou a conformação de um setorial LGBTTQIA no interior da Frente de Mulheres contando com a participação de homens trans e cisgênero na luta contra a opressão homolesbobitransfóbica e suas intersecções com o racismo e a classe pelo direito de usar os nomes sociais e acessar políticas de saúde eficazes assim como pela punição dos assassinos das travestis e por uma política de enfrentamento à violência O setorial organizou um ato de rua denominado Akuenda a diversidade25 que foi precedido por diversas atividades como saraus rodas de conversa formações e palestras nas escolas e produção de material para divulgação nos meios de comunicação O ato de rua contou com 24 Refirome ao feminismo negro para situar as mulheres negras que a partir de suas experiências como mulheres e negras elaboram sua militância e intervenção no mundo Um feminismo feito pelo sujeito mulher negra e que elabora um pensamento feminista negro enquanto um conjunto de experiências e ideias compartilhadas por mulheres afroamericanas que oferecem um ângulo particular de visão do eu e da comunidade e da sociedade que envolve interpretações teóricas da realidade de mulheres negras BAIRROS 1995 p 6 Já a luta antirracista é constituída por mulheres brancas a partir do reconhecimento do racismo enquanto traço estruturante da sociedade brasileira Nesse sentido o feminismo da Frente de Mulheres é antirracista porque é instituído por uma pluralidade de mulheres 25Akuenda é uma palavra do mainstream LGBTTQIA que significa se avexar se apressar se atentar Akuenda a diversidade seria um chamado ao segmento LGBTTTQIA da região para a ocupação das ruas O ato foi realizado dia 27 de junho de 2015 e contou com aproximadamente 400 pessoas tendo grande impacto social diferentemente das tradicionais paradas LGBTT da região não utilizou trio elétrico não estabeleceu parceria com o Estado e nem se autoafirmou como uma festa 173 aproximadamente 400 pessoas que empunhando as bandeiras LGBTQIA entoavam as palavras de ordem eu beijo homem beijo mulher tenho direito de beijar quem eu quiser o Cariri é travesti é travesti é travesti é travesti entre outras que publicizavam as questões relacionadas à identidade de gênero e orientação sexual Um aspecto importante a ser destacado é a diferença entre este movimento e as marchas do orgulho LGBT já tradicionais na região pelo teor politizado e pelos diversos sujeitos políticos que organizam bem como pelas bandeiras de luta registradas em seu manifesto Pelo fim de toda forma de opressão homolesbobitransfóbica racista e capitalista Pelo direito de utilizar nossos nomes sociais em todas as instâncias da sociedade Inclusão das transexuais e travestis no projeto de lei contra o feminicídio Implementação da Política Nacional de Saúde LGBT Pelo direito de doar sangue Por projetos locais de inclusão das transexuais e travestis no mercado formal de trabalho e nas diversas áreas da educação formal e informal Contra o assassinato das travestis e transexuais na região do Cariri Pelo direito de vivenciar nossos amores e identidades de gênero MANIFESTO AKUENDA A DIVERSIDADE 2015 Segundo relatório de avaliação da atividade 2015 houve uma intensa participação de militantes jovens na ação de rua e nas atividades preparatórias do Akuenda a diversidade mas registrouse pouca participação das militantes mais antigas momento que surgiu a problematização acerca da secundarização das lutas LGBTTQIA por parte das feministas da Frente que não são demarcadas por sexualidades orientações sexuais e identidades de gênero dissidentes Na minha percepção em virtude da heterogeneidade das experiências das mulheres da Frente o debate de diversidade sexual encontra algumas barreiras concretas no que diz respeito ao entendimento das distintas orientações sexuais e identidades de gênero e o dimensionamento desta pauta a uma posição secundária só voltado a ter centralidade quando irrompe casos de assassinatos de mulheres trans ou travestis ou ainda de LGBTQIAfobia eu acho que assim dentro do próprio movimento eu sinto que há uma hierarquia de temas de discussões que alguns temas são mais preponderantes que outros Por exemplo quando tem as coisas do movimento LGBT os movimentos são muito mais esvaziados pelas mulheres da frente do que quando tem as outras pautas de negritude de violência parece que a sororidade acontece mais quando as pautas são nesse nível e a gente consegue perceber o preconceito inclusive dentro tem um movimento de mulheres nessas questões ENTREVISTADA VI Então eu acho que é a questão da violência contra a mulher toma quase todo tempo e energia da gente que até as meninas falam que parece que não anda 174 a coisa porque não desenvolve para outros debates mas é esse o debate eu sei que as meninas do setorial LGBT fazem vários tipos de conversa sobre a questão LGBT inclusive bastante junto com o conselho de Juazeiro junto com a Brenda com a Ana Paula o nome da Frente está sempre vinculado Mas infelizmente ainda é uma pauta de segunda ordem aparece mais quando tem caso de morte ou de homofobia eu acho que é a questão da violência contra a mulher que toma todo nosso tempo ENTREVISTADA VII Também é relevante pontuar que as demandas em torno da violência contra a mulher acabam tomando muito tempo e energia das militantes da Frente principalmente porque têm grande incidência e impacto social assim como pela legitimidade que esse coletivo alcançou e acaba fazendo com que ele seja constantemente requisitado para essa pauta seja via sociedade civil meios de comunicação universidades e até mesmo pelo estado Um exemplo disso é que no ano de 2016 a Frente de Mulheres retorna o seu foco de atuação para o enfrentamento à violência contra a mulher e ao feminicídio em virtude do aumento dos casos na região destaca se aí o desaparecimento da Jovem Rayane Alves Machado na cidade do Crato o registro de 4 estupros em uma semana no centro da cidade do Crato e as ocupações dos estudantes secundaristas e universitários em apoio ao movimento grevista dos professoresprofessoras do estado e contra a aprovação da Proposta de Emenda Constitucional 241 que propunha a criação de um teto para gastos com despesas básicas de educação e saúde por 20 anos Nessa conjuntura o movimento acabou suspendendo as suas atividades formativas e de organização interna para responder a demandas de diversas ordens audiências públicas com o legislativo municipal e estadual para a construção de um plano de enfrentamento e prevenção à violência contra a mulher reuniões com a Ouvidoria Geral externa da Defensoria Pública do Estado do Ceará para o monitoramento das políticas públicas e implantação de um Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri acompanhamento sistemático do caso Rayane Alves e atos de rua para pressionar as autoridades policiais na resolução da questão assessoria às ocupações estudantis especialmente à ocupação da Escola Municipal José Alves Figueiredo26 que era constituída por adolescentes feministas participação das militantes da Frente nas greves dos servidores no âmbito municipal estadual e federal audiência com o 26A ocupação na Escola Municipal José Alves de Figueiredo intitulada de Ocupa JAF foi um momento de intenso ativismo das mulheres jovens da Frente já que tal ocupação foi constituída por feministas adolescentes que mobilizaram a escola e a comunidade reivindicando aquele espaço como público e a necessidade de uma educação contextualizada às necessidades da periferia Realizaram uma programação intensa de aulas públicas com professores da escola e das universidades cinedebates saraus feijoadas culturais oficinas de arte urbana e música rodas de conversas entre outros com intensa participação de diversos movimentos sociais artistas universidades e comunidade Para além de intensa participação das mulheres jovens da Frente SANTOS 2016 175 legislativo e a polícia militar do Crato para pautar a cultura do estupro na região ato público e atividades nas universidades sobre a cultura do estupro audiências públicas e seminário com os diversos terreiros De outra parte destacamse também a partir desse intenso ativismo político o protagonismo das feministas jovens e a proliferação de coletivos feministas e grupos de estudoextensão em gênero na região vistos como expressão do fortalecimento da Frente de Mulheres e elemento de oxigenação do feminismo inclusive elencando questões e demandas que não tinham tanto espaço tal como os direitos sexuais e reprodutivos corporalidades sexualidades e juventudes Entre esses grupos e coletivos destaco a relevância do Piquenique Feminista e do Coletivo Marias que realizam atividades autoorganizadas nas praças do eixo Juazeiro do Norte Crato Barbalha com adolescentes e jovens pautando novas formas de pensar a ocupação do espaço público e efetivando uma popularização das pautas feministas entre as meninas e mulheres jovens Atualmente o Coletivo Marias está desativado por questões de divergências entre as militantes e a incorporação de muitas delas ao Piquenique Feminista Segundo Soares 2018 p 53 o Piquenique Feminista começou como uma ação não sistemática para que as mulheres jovens dialogassem sobre suas subjetividades e questões que enfrentavam pelo fato de serem mulheres mas acabou se transformando em um espaço de autorreflexão feminista continuado Para as meninas o evento é um lugar onde uma pode conhecer e se reconhecer na outra e a partir disso saber que suas questões não são tão individuais quanto achavam que fossem SOARES 2018 p 52 Assim o Piquenique Feminista transformouse paulatinamente para as mulheres jovens como espaço de autodesignação enquanto feministas e de identificação com as militantes da região De voz meiga mas palavras decididas a militante universitária conta ao grupo sua jornada até ali da identificação com o feminismo até a afirmação de sua etnia negra SOARES 2018 p 53 Vejo com muita esperança e alegria que meninas tão jovens estejam nesse debate se emponderando discutindo as questões relativas ao que é ser mulher nesse mundo capitalista patriarcal e racista que temos Me reconheço nelas Entrevista de militante da Frente a Cariri Revista Todos esses elementos foram avaliados pela Frente de Mulheres em sua reunião de planejamento para 2017 como decisivo para o fortalecimento dos movimentos feministas na região e de forte ativismo político Esse ano a Frente se popularizou entre as mulheres e se colocou como referência de feminismo para o Ceará FRENTE DE MULHERES 2017 p 3 176 Tal referência se materializou em dois ganhos concretos a conquista do Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri e o Prêmio Maria Amélia Leite de Direitos Humanos do Fórum de Justiça do Ceará pela luta no enfrentamento à violência contra a mulher no Cariri Marques 2019 ao realizar uma análise sobre a participação da Frente na audiência pública da Defensoria do Estado do Ceará para a reivindicação do Núcleo de Defensoria da Mulher NUDEM no Cariri percebeu que as táticas de ação política da Frente possibilitavam que ela pautasse os espaços que ocupava A efetividade do debate sobre o NUDEM junto à defensoria pública pode ser atribuída à sequência de falas de militantes que inauguraram o microfone na audiência A partir das primeiras falas todas as inscrições posteriores ainda que de pessoas e movimentos sociais distantes da frente repercutiam a pauta estabelecida pelas primeiras militantes a falar Em uma expressão bastante conhecida nos movimentos sociais A Frente pautou a reunião da Defensoria As inscrições das três militantes articuladoras centrais da Frente de Mulheres do Cariri foram seguidas pelas falas de mulheres vinculadas aos Povos de Terreiro ao movimento das trabalhadoras rurais a mediadoras locais com a defensoria pública Apesar de não possuírem vínculo direto com a Frente ou virem de associações sediadas em localidades distantes dali a consistência dos temas tratados nas primeiras inscrições garantiram que todas as inscritas reforçassem de algum modo os pontos levantados pelas militantes da Frente Ao mesmo tempo a repercussão dessas demandas apontadas por militantes advindas de diferentes associações e órgãos estabeleciam uma ideia de unidade e multiplicidade de atores MARQUES 2019 p 10 De fato a Frente de mulheres operacionalizou de 2014 a 2018 um aumento da legitimidade do movimento frente a outros movimentos sociais sociedade civil meios de comunicação e Estado a partir da ocupação de diversos espaços políticos e com a capacidade de estender a suas pautas aos demais movimentos De outra parte a ideia de ocupar vários espaços sociais repercutiu em um processo de superexposição das lideranças da Frente bem como de pressão por parte da sociedade civil para que se posicionem em diversas questões da região Isso traz à tona as dificuldades de se fazer feminismo no interior do Brasil considerando a existência de oligarquias locais que se reproduzem a partir do mando da perseguição e do coronelismo sendo portanto elas mesmas a própria expressão da violência Também considero que a conformação das relações sociais em uma cidade de médio e pequeno porte é completamente distinta dos grandes centros urbanos sendo possível identificar as militantes seus familiares ocupação e locais que frequenta Nesse sentido há possibilidade dos processos de criminalização e exposição das militantes serem mais intensos já que pertencem a uma Frente que nasce no interior do estado do Ceará em uma região com muita violência e se 177 insurgindo contra ela O que quero dizer é que no Cariri as militantes ficam marcadas socialmente como lutadoras sociais e isso é uma mediação importante na constituição do sujeito coletivo Paulatinamente todos esses eventos foram conformando a Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri enquanto uma frente feminista anticapitalista antirracista antilesbo homobitransfóbica suprapartidária e laica que corporificase como um espaço feminista de articulação organização e formação em defesa dos direitos das mulheres aglutinando um conjunto de movimentos sociais coletivos entidades associações partidos políticos em torno da missão de articular e fortalecer os movimentos pelos direitos das mulheres e combate às opressões fomentar o surgimento de novos movimentos propor e cobrar efetivação de políticas públicas FRENTE DE MULHERES 2017 p 1 As militantes definem a Frente de mulheres como articulação e coletivo político mais contundente da região do Cariri que consegue constituir coalizões com diversas instâncias da sociedade civil e do estado o que potencializou a identificação delas enquanto feministas a Frente é antifascista que é importante hoje em dia a gente dizer isso ainda mais é antirracista anticapitalista e antilgbtfóbica nossas pautas surgem a partir dessa identidade A gente utiliza diversas estratégias de rua de ir à delegacia cobrar que efetive o trabalho cobrar do governo que traga políticas para nós mulheres a gente sabe o lugar que a gente milita que é à esquerda então existe partidos de esquerda existem movimentos existem coletivos então é esse povo todo junto lutando pelas pautas prioritárias ENTREVISTADA VII Eu acho que a Frente é importe demais é uma mobilização de uma fortaleza que você nem imagina a Frente é tão respeitada hoje em qualquer lugar que cheguemos como Frente mulheres de movimento do Cariri o olhar é o olhar de aceitação e de admiração Eu acho que nem tenho palavras para definir a Frente ENTREVISTADA VIII é tanto que hoje quando a gente fala da Frente de mulheres no Cariri e no Ceará todo a gente já consegue ter um reconhecimento da população e da sociedade no sentido de que a Frente é uma organização importante para estabelecer um espaço de debate e de construção da vida de um ser mulher na Região do Cariri Eu acho que veio muito disso de já se compreender que a coletividade é o espaço que a gente precisa fortalecer para conseguir mudar as estruturas porque sozinha a gente não consegue ENTREVISTADA II Desde a sua formação aos princípios políticos da Frente associase as pautas prioritárias de luta contra o feminicídio e à violência contra a mulher a questão do racismo da diversidade sexual e das identidades de gênero a luta pela descriminalização do aborto e por 178 direitos sexuais e reprodutivos a autoorganização das mulheres e a pressão por efetivação de políticas públicas para elas tais pautas são referências para a constituição de estratégias táticas e articulações Aqui o Conselho de Direitos da Mulher Cratense aparece como uma tática de luta importante sendo historicamente ocupado pelos movimentos de mulheres e atualmente tendo as cadeiras destinadas à sociedade civil ocupadas pela Frente de mulheres a partir do reconhecimento da necessidade desse espaço político na pressão por políticas públicas e efetivação dos serviços sociais destinados às mulheres O Conselho da Mulher é nossa tática ele uma organização da sociedade civil com aparato jurídico ligado ao poder público eu gosto muito de fazer essas comparações para a gente entender o papel da Frente então o Conselho é muito isso o Conselho é o espaço onde a gente luta por políticas públicas para as mulheres o Conselho vai defender as mulheres em seus objetivos qualquer classe social Daí vem a Frente a Frente vai fazer com que a gente compreenda nos estudos que a gente faz que a gente se compreenda como mulher trabalhadora Então a Frente é estratégica a Frente não é tática é tanto que hoje por que que a gente permanece e compreende que o lugar do movimento é na constituição da Frente porque nós vamos precisar ter táticas comuns por exemplo lutar contra a violência nós vamos lutar todas contra a violência uma mulher rica que estiver sofrendo violência nós compreendemos isso No conselho da mulher nós vamos fortalecer o Conselho para ir mas a nossa luta dentro da Frente é a luta feminista classista contra o machismo impregnado nessa nossa sociedade é antirracista e antilgbtfóbica Essa é a defesa maior por isso que eu considero que é estratégica eu acho que depois que a gente fez aqueles princípios o planejamento estratégico eu acho que não é só estratégico eles são os nossos princípios ENTREVISTADA III A nossa estratégia é algo a longo prazo é como nós vamos transformar esses princípios em ações daí é mudar as estruturas das instituições mudar o modo de ser do nosso sindicato mudar o nosso modo de ser no currículo nós enquanto professoras mudar a política a forma como o Conselho pensa disputar o Conselho então são as nossas estratégias disputar a pauta das mulheres trabalhadoras nos mais diversos organismos oficiais ou não oficiais É tático estar no Conselho é estratégico construir a Frente porque a frente vai ter os princípios que a gente compreende como mudança de estrutura da sociedade Nós estivemos mudanças de conjuntura mas não tivemos mudanças de estruturas e a frente nos fez observar isso nós tivemos políticas públicas para as mulheres no governo popular mas nós não conseguimos mexer com as estruturas da sociedade patriarcal machista feudal tudo que é al e que nos oprime a gente não conseguiu mexer com as estruturas dos sindicatos dos trabalhadores rurais de reconhecer as mulheres a gente não conseguiu mexer na estrutura do sindicato dos professores da educação superior de botar por exemplo 50 na diretoria de mulheres isso seria mudança de estrutura a gente pode ter uma conjuntura favorável a diretoria respeita as mulheres mas não mudança de estrutura mudança de estrutura é quando reconhecer que as mulheres podem sim estar dirigindo ser maioria e ser tranquilo para os homens ENTREVISTADA II 179 De outra parte a Frente por agregar distintas expressões organizativas e identidades políticas também convive com múltiplos métodos de ação que em geral têm sintonia com as metodologias de educação popular mas que ainda requer uma certa sistematização por parte de suas militantes Em 2018 a Frente realizou um planejamento semestral que dentre outras coisas apontou a necessidade de sistematizar a história e as ações realizadas a partir da elaboração de material midiático impresso e digital jornal revista site e boletim que não foi concretizado em virtude das demandas urgentes do feminicídio de Silvany que demandou a formatação de ato público da organização dos atos contra a campanha para presidente de Bolsonaro bem como no engajamento da Frente na campanha eleitoral a partir de uma candidatura dos movimentos sociais na figura de uma de suas militantes No que diz respeito às ações da Frente podemos sintetizálas em quatro dimensões que ao meu ver são inseparáveis e se retroalimentam mas que separei para fins didáticos i Organizativas centradas na formação de coletivos atos públicos manifestações passeatas ocupações articulação eletrônica via ciberativismo reuniões internas plenárias junto aos movimentos sociais ii Formativas com grupos de estudo e formações internas seminários locais e regionais articulação com grupos de pesquisa e extensão universitários performances artísticoculturais oficinas palestras e formações externas solicitadas pela sociedade civil e estado iii Articulações com movimentosagendas regionais e nacionais e iv Pontuais e emergenciais acompanhamentos de mulheres a delegacias especializadas de mulheres e equipamentos sociais em virtude da precariedade ou ausência do atendimento e de políticas públicas denúncia eou relato de casos de violência assédio ou violação de direitos demandas diversas de acolhimento Aqui é relevante elencar algumas ações pontuais e emergenciais que tiveram bastante impacto para luta das mulheres na região e na subjetividade das militantes da Frente como as atividades de constrangimento pedagógico aos professores da URCA e UFCA acusados de assédio pelas discentes o acompanhamento dos casos de estupro que aconteceram em 2016 no Crato o desaparecimento e posterior feminicídio da adolescente Rayane e o assassinato da pedagoga Silvany na Praça da Sé Essa questão das ações emergenciais e pontuais desde a formação da Frente exigiu muito tempo e reflexão das suas militantes Isso porque a publicização das ações políticas da Frente acabou dimensionandoa como espaço de acolhimento de mulheres em situações diversas de violência opressão e exploração assim como de concessão de assessoria técnica e formação política inclusive para órgãos do Estado De um lado isso demonstra que a Frente 180 se constituiu enquanto referência de luta feminista na região e em certa medida expõe a empatia e a aproximação que as mulheres construíram com as organizações feministas mas também demarca a precariedade das políticas públicas para as mulheres no Cariri fazendo emergir a questão do lugar dos movimentos sociais na relação com o Estado De certa forma com a popularização dos movimentos feministas na região as mulheres acabam trazendo as demandas da imediaticidade do cotidiano para serem solucionadas pela Frente ou na relação desta com o Estado A Frente é um lugar que as mulheres veem Nós vamos ter que fazer eventos sobre a Frente porque as mulheres estão perguntando Nesse período agora do Ele não nós comandamos esse movimento foi a gente que puxou o movimento em menos de vinte quatro horas a Frente colocou mais de cinco mil pessoas na rua numa cidade como o Crato que tem cento e vinte mil habitantes Em menos de vinte e quatro horas quando morre uma mulher a gente faz um movimento e a gente vai para as ruas e as mulheres veem para a gente isso é muito significativo 2018 foi muito significativo porque se a gente pensar que em 2001 quando a gente ia para praça e contava as mulheres isso mostra nosso crescimento e a compreensão das mulheres e homens que nós somos de confiança a gente já provou isso ENTREVISTADA III De vez em quando a gente recebe mensagens de pessoas querendo ingressar na frente Recentemente eu recebi uma mensagem de uma menina que esteve no ato que fizemos no Crato em homenagem a Silvany ela me perguntou como fazia para participar da Frente ela disse que viu a emoção da gente e disse que se sentia feminista mas que compreendeu que não seria feminista se não estivesse numa movimentação dessa Nossas redes sociais recebem esse feedback cotidianamente De mulheres querendo participar a mulheres procurando ajuda porque foi violentada foi na delegacia da mulher e não foi atendida que tá na calçada da maternidade porque não tem leito que precisa de orientação jurídica de meninas relatando casos de assédio sexual de professores ou estupro de pessoas com quem convive É uma superexposição Isso A Frente nos colocou em exposição individual e coletivamente ENTREVISTADA VIII quando teve aquele carro que sequestrava mulheres por algumas horas eu lembro de como foi a agonia em torno das mulheres da Frente para se criar uma rede de aviso de proteção e eu sei o quanto as mulheres vão em busca da casa da Verônica da Verônica Isidório que é de conselho atrás dessa proteção da Rayane principalmente do caso da Rayane que é um caso de violência um caso de feminicídio de violência doméstica que ela passava houve uma pressão pra gente muito grande Procuramos junto à polícia ENTREVISTADA VII esse último ato do feminicídio da professora Silvany em que nós conseguimos articular mais de cinco mil pessoas na praça Isso para nós também é uma ação formativa e de uma dimensão que a gente não consegue nem imaginar até onde ela pode ir porque no momento que a gente passa na rua com nossos cartazes falando com nossas faixas as pessoas estão ouvindo 181 e elas vão refletir uma outra vai refletir sobre aquilo que nós estamos falando Esse boca a boca tem criado uma referência das mulheres conosco Mas precisamos pensar em como isso está se dando ENTREVISTADA II É compreensível que a popularização dos feminismos na região e a aproximação de mulheres de localidades faixas etárias classes sociais religiões raças posições políticas e orientações sexuais e identidades de gênero distintas provocassem um conjunto de demandas complexas e específicas que demandam ser respondidas mesmo que a Frente enquanto sujeito político não tenha condições concretas de atendêlas inclusive por que muitas dessas demandas são de competência do estado e outras são expressões do nó patriarcadoracismocapitalismo Todavia a luta por cidadania igualdade e liberdade é pressuposto de um projeto feminista de transformação da sociedade no sentido de que as conquistas efetivas da Frente no que diz respeito ao acesso a políticas públicas conquista da autonomia e autodeterminação individual potencializam o fortalecimento do sujeito coletivo feminista Isso é um desafio para os feminismos porque articula a conquista cotidiana da autonomia individual ao mesmo tempo em que coletivamente se constitui a autonomia e a liberdade das mulheres enquanto coletivo total As mulheres que compõem a Frente saem de experiências singulares plurais e realizam seus processos de autodesignação enquanto feministas de formas distintas mas sustentadas no reconhecimento de um sujeito em si estranhado despossuído e apropriado Vêse como o Outro o inessencial Mas é preciso considerar que nenhum sujeito se define imediata e espontaneamente como o inessencial não é o Outro que se definindo como Outro define o Um ele é posto como Outro pelo Um definindose como Um BEAUVOIR 2009 p 18 Esse sujeito em si vai para além de se reconhecer enquanto estranhado de si reconhecer outros sujeitos estranhados de si conformando um grupo que em um primeiro momento realiza ações assistemáticas espontâneas e sem a análise concreta das relações de sexo raça e classe que determinam a condição de exploraçãodominaçãoapropriação das mulheres da região mas que paulatinamente empreende passos para efetivar um processo de identificação com os Outros e de desenvolvimento de uma percepção da história fundamentada na ideia de responsabilidade pelos outros e de engajamento em um projeto coletivo de afirmação das mulheres enquanto sujeito Um sujeito que é plural e uno assim como atravessado pela experiência particular de ser mulher no sertão do Cariri Essa adesão individual e coletiva a um projeto de liberdade e autonomia feminista inscrita na coletividade em que as mulheres descobremse e escolhemse em um mundo que os 182 homens por intermédio do patriarcado lhes imputam à condição de Outro é elementar na formação da consciência em si e para si na consciência enquanto sujeito coletivo que vai justificar sua existência individual e coletiva pela necessidade constante de transcender de dizer nós de construir coletividades e se autodesignar feministas Elas dizem que trema a terra porque aqui está presente o feminismo do Cariri Uma palavra de ordem que tem a força desse sujeito que se produz em diálogo com outras mulheres e outros sujeitos Friso que a formação dessa coletividade opera no sentido de reforçar a agência desses sujeitos e dotálos de condições de resistência às exploraçõesdominaçõesapropriações o que é a condição sine qua non para superar a própria alienação e transcender a situação A autodesignação enquanto feministas acompanhada da autotransformação das práticas cotidianas que repercutem no tensionamento da moral do confinamento nos espaços públicos e privados além do reconhecimento da formação política como elemento essencial para a compreensão dos sistemas de dominaçãoexploração das mulheres e a materialização de ações coletivas sistemáticas e organizadas instituem as mulheres do Cariri como sujeitos de sua própria luta por transcendência Remato o capítulo reafirmando a minha tese de que o sujeito coletivo Frente de Mulheres que se faz na autodesignação das mulheres enquanto feministas no reconhecimento de um nós comum e na conformação de uma ação coletiva a partir de uma experiência una e diversa constitui mediações entre as singulares experiências das mulheres ao passo que agrega uma multiplicidade de sujeitos individuais e coletivos materializandose enquanto corpo político com identidade plural e diversa Unidade diversa expressa à ideia de se fazer singular respeitando as diversas diferenças e se fazer universal a partir de pontos comuns de opressão Um sujeito coletivo total atravessado pelo contexto do sertão 183 5 fffCONSIDERAÇÕES FINAIS Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever LISPECTOR 1977 p 75 Difícil concluir esse trabalho Como diria Guimarães Rosa 2001 p 200 contar é muito muito dificultoso Não pelos anos que já se passaram Mas pela astúcia que têm certas coisas passadas de fazer balancê de se remexerem nos lugares Todavia é preciso fechar ciclos aqui está o desfecho da minha relação de amor e solidariedade feminista para com as mulheres do Cariri e de término dos percursos de pesquisa constituídos no doutoramento Também está escrito meu espanto com a conformação de relações patriarcais de sexo tão desiguais e violentas Enquanto escrevo essas considerações finais um homossexual foi assassinado a facadas dentro de sua casa em virtude de sua performance de gênero vista socialmente como feminina No solo sagrado do Cariri é um pecado mortal nascer mulher mas também é mortal ser identificado como uma Aqui retomarei os objetivos as questões formuladas e as principais sínteses constituídas a partir da metodologia feminista efetivada pelas militantes caririenses que é avaliar os aprendizados individuais e coletivos envolvidos no processo apontando propostas de encaminhamento das questões apresentadas Este trabalho é um produto coletivo que intenta autopreservar a memória social das mulheres feministas sertanejas mesmo sendo escrito por uma mulher com um ponto de vista situado branca acadêmica bissexual partidarizada e com raízes na periferia do semiárido nordestino A investigação partiu da observação das experiências cotidianas de violência e resistência das mulheres do Cariri cearense e objetivou apreender as particularidades de constituição do sujeito coletivo feminista a partir da experiência militante da Frente de Mulheres dos Movimentos Sociais Muito já se falou sobre o sertão e talvez eu não apresente aqui nenhuma questão inédita entretanto a experiência particular dessas mulheres que estão longe dos grandes centros urbanos e convivem com relações sociais de sexo raçaetnia e classe atravessadas pela regionalidade interna ao país formadoras de desigualdades entre nortenordeste e sulsudeste marcando a vida das mulheres tem sido pouco analisada pelo feminismo hegemônico centrado no ponto de vista do sulsudeste Nisto agencio imagens de um Nordeste antimoderno que convive com as transformações contemporâneas do modo de produção capitalista que realoca indústrias dos 184 grandes centros urbanos para cidades do interior do semiárido nordestino redesenhando as cartografias regionais e impactando na conformação do nó patriarcadoracismocapitalismo Não é possível falar de um único Cariri pois ele se conforma a partir de uma heterogeneidade de cidades contextos geopolíticos culturais e econômicos não sendo pois um bloco estável A identidade cultural do Cariri foi politicamente fabricada pelas elites locais fundada em um discurso de integração e regionalismo que intenciona apagar os tensionamentos contidos entre as cidades que compõem a região Quando em 2009 o governo estadual por meio de lei complementar delimita a região metropolitana do Cariri o faz com a responsabilidade de integrar a organização o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum Esse projeto de desenvolvimento regional foi alavancado pela região deter bons indicadores socioeconômicos e potencial de se transformar em nicho produtivo para o capital a partir da chegada de indústrias e de políticas de investimento no turismo religioso cultural e ecológico Região apreendida assim enquanto um espaço vivido por tratarse de uma porção territorial usufruída por um determinado grupo social cuja permanência na área é suficiente para estabelecer usos e ocupação costumes especificidades da organização social cultural e econômica RIBEIRO 1993 p 214 O espaço do Cariri cearense socialmente produzido diferenciase de outros espaços por apresentar aspectos resultantes de experiências vividas e historicamente produzidas pelos moradores da região e também pelas classes dirigentes que se beneficiam com o discurso de regionalidade e integração cultural do Cariri Embora o Cariri seja um território heterogêneo conformado por relações de ruralidade e urbanidade ainda prevalecem os traços constitutivos da propriedade senhorial do coronelismo messianismo cangaço tradição e religiosidade mesmo que estes convivam com novas relações de produção potenciadas pela chegada das indústrias e a interiorização das universidades que ampliaram o setor de serviços e modificaram as relações sociais de sexo raçaetnia e classe na região imprimindo traços de urbanidade modernidade e metropolização Para analisar essa experiência particular das mulheres caririenses acionei as categorias de relações sociais de sexo patriarcado e sujeito coletivo Cabe aqui dizer que utilizei o conceito de imbricação das relações se sexo raçaetnia e classe para analisar a realidade do Cariri cearense considerando sua formação social e a heterogeneidade da região Aqui o nó patriarcadoracismocapitalismo assume contornos diferenciados aprofundando as exploraçõesdominaçõesapropriações de raçaetnia classe e sexo Também repercute em uma 185 região demarcada pela violência silenciamento e apagamento das mulheres com altos índices de violência e feminicídio forte interdição à mobilidade e à participação política das mulheres tutela e vigilância das corporalidades e vivências sexuais assim como a precariedade das políticas públicas de proteção e atenção às mulheres Procurei pois situar na primeira parte do trabalho a constituição do sujeito coletivo e do sujeito coletivo feminista tendo como ponto de partida a noção de classe social inspirada na tradição marxista acrescida do ponto de vista situado da teoria feminista especialmente da noção de sujeito em Beauvoir 2009 que a propõe como uma tentativa de negar a existência de um sujeito universal masculino branco e essencialista Em Beauvoir o sujeito é determinado pelas relações sociais em que está inserido e congrega em si a capacidade de transcendência a partir de um projeto de liberdade e autonomia de forma que ao mobilizar a categoria do Outro para falar da situação da mulher a autora alude acerca de um tipo específico de alteridade a alteridade absoluta A condição de subordinação da mulher é equivalente a outras situações de alteridade marcadas pela opressão a dos negros a dos povos colonizados a do povo judeu e a do proletariado que também são constituídos como Outros nas relações sociais submetidos a condições de desigualdade objetificados e alienados de sua subjetividade e interditados ao exercício substantivo da transcendência Contudo há diferenças entre essas existências na alteridade Em todas essas situações a formação de coletividades opera no sentido de reforçar a agência desses sujeitos e dotálos de condições de resistência à objetificação e à opressão em todas exceto na situação das mulheres porque elas não formam uma coletividade o que para a feminista francesa é a condição indispensável para superar a própria alienação e transcender a situação Cabe ao indivíduo a sua identificação enquanto outro e o engajamento em um projeto coletivo de tornase mulher tornase sujeito por meio da ação coletiva Como ponto de chegada tentei descrever o fundo comum no qual se desenvolveram as particularidades da experiência militante das mulheres caririenses corporificadas na Frente de Mulheres dos Movimentos do Cariri Uma experiência distante dos grandes centros urbanos e demarcada pelo patriarcado rural propriedade senhorial e a tradição místicoreligiosa que impôs às mulheres de forma individual e coletiva a constante fabricação de resistências enfrentamentos e estratégias de sobrevivência A Frente se constituiu a partir do esgotamento da experiência da Marcha das Vadias quando as mulheres começaram a problematizar as 186 estruturas que produziam uma região tão violenta para elas e a pensar em ações políticas sistemáticas para alcançar a emancipação das mulheres em coletivo As mulheres em movimento começam a reconhecerse enquanto sujeitas estranhadas despossuídas e apropriadas além de construírem uma adesão individual e coletiva a um projeto de liberdade e autonomia feminista caracterizado como antipatriarcal anticapitalista antirracista laico e suprapartidário Tal projeto ao meu ver constitui um nós comum entre as mulheres caririenses e estabelece em termos individuais e coletivos a formação de uma consciência de classe uma consciência enquanto sujeito coletivo que permite a autodesignação dessas mulheres enquanto feministas Para Cisne 2014 p 37 a identificação na outra de sua condição de mulher possui uma função fundamental para a formação da consciência pois contribui diretamente para a desnaturalização da opressão feminina além de fortalecer as mulheres individual e coletivamente CISNE 2014 p 37 A composição da Frente de Mulheres é extremamente heterogênea agregando mulheres dos movimentos associações e sindicatos de luta pela terra de militância articulada às pastorais e às Comunidades Eclesiais de Base professoras e estudantes universitárias mulheres negras de terreiro de axé de partidos de esquerda jovens sem nenhuma filiação partidária lésbicas bissexuais e nãobinárias Essas mulheres foram paulatinamente estabelecendo uma resistência feminista que articula as relações sociais de sexo raçaetnia e classe em uma perspectiva socialista que apreende que a classe além de ter sexo possui raçaetnia e essas dimensões imprimem condicionalidades que estruturam de forma diferente as vivências das formas de exploração e opressão nesta sociedade CISNE SANTOS 2018 p 123 A Frente é entendida enquanto uma articulação feminista autônoma mesmo que tenha em sua composição sindicatos e partidos políticos que ocupa a esfera pública de forma coletiva horizontalizada e autogestionada com forte capacidade organizativa e legitimidade frente à sociedade e ao Estado Ao meu ver os processos organizativos da Frente de Mulheres são estruturados por intermédio da autodesignação enquanto feministas da autotransformação de suas práticas cotidianas da formação política e das ações coletivas Um projeto individual e coletivo de apropriação de si e reconhecimento das outras para a conformação de um nós comum Apesar de entenderem que o projeto de tornarse mulher e feminista tem como sujeito histórico coletivo específico as mulheres em sua multiplicidade e diversidade não dispensam a participação masculina nas ações e formações políticas da Frente pois para elas o feminismo 187 é um projeto societário que diz respeito à coletividade dos sujeitos sociais e autorrealização dos indivíduos como sujeitos da liberdade O tempo de escrita deste trabalho foi também de expansão das movimentações feministas no Brasil intituladas de Primavera Feminista com constituição de inúmeros coletivos movimentos e grupos de pesquisa e extensão universitários feministas debates no interior dos partidos de esquerda e do Estado sobre feminismo gênero e políticas públicas para as mulheres bem como o fortalecimento do ciberativismo e do artivismo feminista Isso igualmente se expressou na particularidade do Cariri com um forte protagonismo das mulheres nas ações de rua ampliação dos coletivos de feministas jovens e popularização dos debates em torno dos feminismos De outra parte também foi um momento histórico de alargamento do conservadorismo no interior da sociedade brasileira com expansão do fundamentalismo neopentecostal e de práticas sociais misóginas racistas e LGBTQIAfóbicas O Cariri também não ficou imune a esse processo que pressionou as mulheres da Frente que estavam com inúmeras ações políticas a elaborarem estratégias de autocuidado proteção e combate ao medo da violência Aqui reflexiono acerca da superexposição das mulheres da Frente e de como isso repercute nas suas vidas especialmente na esfera privada já que têm sua mobilidade afetada e precisam repensar os seus itinerários individuais e coletivos em uma região tão demarcada pela violência e o feminicídio Como diria Lispector 1977 p 86 Silêncio O silêncio é tal que nem o pensamento pensa E agora agora só me resta acender um cigarro e ir para casa Não esquecer que por enquanto é tempo de morangos Sim Tudo também termina com um sim Espero que as mulheres do Cariri continuem mapeando suas vivências narrando suas histórias e produzindo fotografias das relações patriarcais de sexo e da resistência a elas no Cariri 188 REFERÊNCIAS ABÍLIO L C Sem maquiagem o trabalho de um milhão de revendedoras de cosméticos São Paulo Boitempo 2014 ACCIOLY C B da C Territorialidades e saberes locais muros e fronteiras na construção do saber acadêmico Caderno CRH v 24 n 63 pp 679691 2011 ALAMBERT Z Feminismo o ponto de vista marxista São Paulo Nobel 1986 ALBUQUERQUE JUNIOR D M de A invenção do Nordeste e outras artes RecifeSão Paulo FJNCortez 1999 ALVAREZ S E 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a dialética marxista São Paulo Martins Fontes 2003 LUKÁCS G Lenin um estudo sobre a unidade de seu pensamento São Paulo Boitempo 2012 LUXEMBURGO R A revolução russa Petrópolis Vozes 1991 LUXEMBURGO R Greve de massas partido e sindicatos Coimbra Centelha 1974 LUXEMBURGO R Reforma ou Revolução São Paulo Expressão Popular 2003 194 MARQUES R A identidade como estratégia modernização memória e política no Cariri 1950 In LIMA M V de MARQUES R Orgs Estudos Regionais limites e possibilidades Crato NERECERES 2004 pp 3748 MARQUES R Cariri eletrônico paisagens sonoras no Nordeste São Paulo Intermeios 2015 MARQUES R Bodies and meanings in motion Feminisms and subjects of rights in Brazilian Northeast Congress of the Latin American Studies Association Boston USA May 24 May 27 2019 MARQUES R Como se faz uma região com ideias de atraso violência e vitimização gênero agência e trânsito de mulheres no Cariri contemporâneo In CORDEIRO D S Org Temas contemporâneos em sociologia Fortaleza Íris 2013 pp6872 MARQUES R Contracultura tradição e oralidade reinventando o sertão nordestino na década de 70 São Paulo Annablume 2004 MARQUES R Gênero e imaginário espacial no Cariri In CAVALCANTE M J M HOLANDA P H C QUEIROZ Z F de História de Mulheres amor violência e educação Fortaleza Edições UFC 2015 pp 549564 MARX K ENGELS F E A ideologia Alemã São Paulo Boitempo 2007 MARX K Contribuição à crítica da economia política São Paulo Martins Fontes 2003 MARX K Manuscritos econômicofilosóficos São Paulo Boitempo 2010 MARX K O 18 Brumário de Luís Bonaparte São Paulo Boitempo 2011 MARX K Para a questão judaica São Paulo Expressão Popular 2009 MARQUES R FACCHINI R A primavera feminista revisitada pelo feminismo sertanejo deslocando contextos empíricos e reflexões teóricometodológicas In ENCONTRO ANUAL DA ANPOCS 42 2018 Caxambu Anais Caxambu2018 pp 52 62 MARQUES R QUIRINO G da S ARAÚJO I M Acesso e apropriação de políticas públicas de gênero no Centrosul Cearense observações preliminares In SEMINÁRIO INTERNACIONAL FAZENDO GÊNERO 10 2013 Florianópolis Anais Florianópolis 2013 MILLETT K A política Sexual Lisboa Publicações Dom Quixote 1975 MINAYO M C O desafio do conhecimento pesquisa qualitativa em saúde São Paulo Hucitec 2010 195 MORAIS A M A mulher e a estatística Revista Bárbaras v 2 n 02 2019 MORAIS A M Pequena História da Ditadura Brasileira 19641985 São Paulo Cortez 2014 NETTO J P Ditadura e Serviço Social uma análise do Serviço Social no Brasil pós64 São Paulo Cortez 2011 NOBRE E dos S Incêndios da alma a beata Maria de Araújo e a experiência mística no Brasil do Oitocentos 2014 293 f Tese Doutorado em História Social PPGFS UFRJ Rio de Janeiro 2014 NUNES A Cariri queer um esboço da performatividade travesti nas terras de Padre Cícero ENCONTRO DE ESTUDOS MULTIDISCIPLINARES EM CULTURA 4 2010 Bahia Anais Bahia 2010 SILVA N C e A mulher sem túmulo vida romanceada da beata Maria de Araújo protagonista dos milagres de Juazeiro Ceará em 1889 Fortaleza Armazém da Cultura 2010 SOARES S ISIDORO V VIDAL D Dia 08 de março o que as feministas têm a dizer Entrevista cedida a Alan Maria Revista Cariri 8 mar 2016 Disponível em httpscaririrevistacombrdia08demarcooqueasfeministasdocariritemdizer Acesso em 9 nov 2019 PAZ R M O Santo que fica no Sol uma leitura etnográfica sobre a devoção ao Padre Cícero de Juazeiro do Norte In LIMA M V de MARQUES R Estudos Regionais limites e possibilidades Crato NERECERES 2004 pp 4962 PAZ R M O Para onde sopre o vento a Igreja Católica e as romarias de Juazeiro do Norte Fortaleza IMEPH 2011 PEREIRA P P G O sertão dilacerado outras histórias de Deus e o Diabo na terra do sol Légua e meia v 7 n 1 pp 107123 2016 PERROT M Minha história das mulheres São Paulo Contexto 2017 PINHEIRO I O CARIRI seu descobrimento povoamento costumes Fortaleza Fundação Waldemar Alcântara 2009 PINTO C R J Uma história do feminismo no Brasil São Paulo Fundação Perseu Abramo 2003 PISCITELLI A Interseccionalidades categorias de articulação e experiências de migrantes brasileiras Sociedade e Cultura v 11 n 2 pp 263274 2008 PLEKHANOV G O papel do indivíduo na história São Paulo Expressão Popular 2011 196 PORTELLA A P Novas e velhas questões sobre o corpo sexualidade e reprodução In ÁVILA M et al Orgs Textos e imagens do feminismo mulheres construindo a igualdade Recife SOS CORPO 2001 pp 80 125 RAGO M Adeus ao Feminismo Feminismo e Pós Modernidade no Brasil Cadernos AEL s v n 34 pp 1143 19951996 RAMOS F R L Caldeirão estudo histórico sobre o beato José Lourenço e suas comunidades Fortaleza NUDOCUFC 2011 RAMOS G Vidas secas São Paulo Martins 1969 REDSTOCKINGS Redstockings Manifesto New York s e 1969 Disponível em httpsapoiamutuamilharalorg20120802redstockingsmanifesto Acesso em 9 nov 2019 REED E Sexo contra sexo ou classe contra classe São Paulo Instituto José Luís e Sundermann 2008 REIS JUNIOR D de O A região como artefato o Cariri na segunda metade dos Oitocentos Cadernos de História v 17 n 27 pp 342367 2016 REIS JUNIOR D de O Natureza e trabalho no cariri cearense In SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA 26 2011 São Paulo Anais São Paulo ANPUH 2011 REVISTA BÁRBARAS Eu sou a luta Juazeiro do Norte UFCA 2018 Disponível em httpsissuucomrevistabarbarasufcadocsbarbaras2018 Acesso em 9 nov 2019 REVISTA CARIRI Quando uma mulher avança nenhum homem retrocede Edição especial Juazeiro do Norte Revista Cariri 2017 Disponível em httpsissuucomrevistabarbarasufcadocsbarbaras2018 Acesso em 9 nov 2019 ROCHA M C A P OLIVEIRA M L B Sororidade na praça educação movimentos sociais e direitos fundamentais no piquenique feminista Revista Juris UniToledo v 4 n 2 2019 pp 7082 ROSA J G Grande Sertão Veredas Rio de Janeiro Nova Fronteira 1986 SADER E Org Gramsci poder política e partido São Paulo Expressão popular 2005 SADER E Quando novos personagens entraram em cena experiências e lutas dos trabalhadores da grande São Paulo 19701980 Rio de Janeiro Paz e Terra 1988 SAFFIOTI H I B A mulher na sociedade de classes mito e realidade São Paulo Expressão Popular 2013 SAFFIOTI H I B Gênero patriarcado violência São Paulo Fundação Perseu Abramo 2004 197 Rearticulando gênero e classe social In COSTA A de O BRUSCHINI C Orgs Uma questão de gênero Rio de JaneiroSão Paulo Rosa dos TemposFCC 1992 SANTOS L A Uma ocupação feminina questões de gênero na ocupação da escola JAF em CratoCE In CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO 3 2016 Natal Anais Natal Realize 2016 pp 3545 SANTOS M A Natureza do Espaço Técnica e Tempo Razão e Emoção São Paulo Hucitec l997 SANTOS Pensando o espaço do homem São Paulo Edusp 1994 SANTOS Por uma nova geografia São Paulo Hucitec 1980 SARTRE JP O Ser e o Nada 13ª ed Petrópolis Vozes 2005 SCHWARCZ L M Nem preto nem branco muito pelo contrário cor e raça na sociabilidade brasileira São Paulo Claro Enigma 2012 SCIENCE C Da lama ao caos 1994 Disponível em httpswwwletrasmusbrnacao zumbi77655 Acesso em 9 nov 2019 SILVA C S M Feminismo popular e lutas antissistêmicas Recife SOS CORPO 2016 SOARES D O Cariri Crato Juazeiro do Norte estudo de Geografia Regional Crato Faculdade de Filosofia do Crato 1968 SOARES I de M SILVA I B M da Orgs Sentidos de devoção festa e carregamento em Barbalha Fortaleza IPHAN 2013 SOUZALOBO E A classe operária tem dois sexos trabalho dominação e resistência São Paulo Fundação Perseu Abramo 2011 SONTAG S Sob o signo de saturno São Paulo LPM 1986 SORIANO R R Manual de pesquisa social Petropólis Vozes 2004 TRISTAN F União dos Operários Florianópolis Insular 2017 VIDAL E SOUSA C O sertão amansado Sociedade e Cultura v 13 n 1 pp 101110 2010 UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE ESCOLA DE SERVIÇO SOCIAL PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO EM SERVIÇO SOCIAL E DESENVOLVIMENTO REGIONAL MESTRADO ACADÊMICO SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Niterói 2021 SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre ao Programa de Pós graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense Orientadora Profª Drª Kátia Regina de Souza Lima Niterói 2021 Ficha catalográfica automática SDCBCG Gerada com informações fornecidas pelo autor B42r Elias Sílvia Karen dos Santos Racismo estrutural imparcialismo e proibicionismo cannabis medicinal e a luta pelo direito à vida Sílvia Karen dos Santos Elias Kátia Lima orientadora Niterói 2021 158 f il Dissertação mestrado Universidade Federal Fluminense Niterói 2021 DOI httpdxdoiorg1022409PPGSSDR2021m06591164642 1 Racismo 2 Imparcialismo 3 Proibicionismo 4 Produção intelectual I Lima Kátia orientadora II Universidade Federal Fluminense Escola de Serviço Social III Título CDD Bibliotecário responsável Debora do Nascimento CRB76368 SÁLVIA KAREN DOS SANTOS ELIAS RACISMO ESTRUTURAL IMPERIALISMO E PROIBICIONISMO CANNABIS MEDICINAL E A LUTA PELO DIREITO À VIDA Dissertação apresentada como requisito parcial para obtenção do Título de Mestre ao Programa de Pós Graduação em Serviço Social e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal Fluminense Aprovada em Agosto de 2021 BANCA EXAMINADORA Profª Dra Kátia Regina de Souza Lima OrientadoraPPGSSDRUFF Profª Dra Marcela Soares Silva PPGSSDRUFF Profª Dra Cristina Maria Brites UFF Profª Dra Roseli da Fonseca Rocha FIOCRUZ AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus e aos meus guias espirituais pelas intuições e serenidade nos momentos mais desafiadores Agradeço a minha mãe e vó mulheres negras que não tiveram a oportunidade de estudar mas que me deram força para que eu concluísse os meus estudos Agradeço aos trabalhadores e trabalhadoras que contribuíram para que essa pesquisa fosse realizada através do recebimento da Bolsa Capes pois sem ela seria impossível me dedicar totalmente a esse objeto de estudo Agradeço à minha companheira Vivi que foi a maior incentivadora desse estudo e que me encorajou dia após dia principalmente nos momentos mais difíceis Você é luz na minha caminhada e serei eternamente grata por tudo e por tanto Agradeço ao João filho amado reencontro da minha alma que me inspirou a escrever sobre essa temática tão desafiadora e ao mesmo tempo tão atual e necessária Seguimos juntos João Agradeço ao apoio amoroso de Dona Regina que me alegra e me fortalece diante dos momentos tortuosos Agradeço ao Pai João e Marcos por compartilharem comigo os seus ensinamentos sobre a espiritualidade e a umbanda de forma tão genuína e simples Vocês me fizeram enxergar o outro lado gratidão Agradeço a todos os meus amigos os de longe e os de perto não vou citar nomes para não incorrer no erro de esquecer algum mas todos que de alguma forma me apoiaram e me mandaram energias positivas para a concretização desse sonho Agradeço ao apoio da amiga querida Raquel Mota Mascarenhas eterna orientadora que mesmo de longe não deixa de me encorajar Agradeço a amada orientadora Kátia Lima que seguiu comigo me ensinando que pesquisar com afeto é revolucionário Agradeço as professoras que compõem a banca Roseli Rocha Marcela Soares e Cristina Brites que de forma muito singular e afetuosa contribuíram para aprimorar esse trabalho Agradeço ao Grupo de PesquisaGEPESS onde as trocas de conhecimentos foram fundamentais para a construção dessa dissertação MARIELLE PRESENTE EPÍGRAFE VozesMulheres Conceição Evaristo A voz de minha bisavó ecoou criança nos porões do navio ecoou lamentos de uma infância perdida A voz de minha avó ecoou obediência aos brancosdonos de tudo A voz de minha mãe ecoou baixinho revolta no fundo das cozinhas alheias debaixo das trouxas roupagens sujas dos brancos pelo caminho empoeirado rumo à favela A minha voz ainda ecoa versos perplexos com rimas de sangue e fome A voz de minha filha recolhe todas as nossas vozes recolhe em si as vozes mudas caladas engasgadas nas gargantas A voz de minha filha recolhe em si a fala e o ato O ontem o hoje o agora Na voz de minha filha se fará ouvir a ressonância O eco da vidaliberdade Poemas de recordação e outros movimentos p 1011 RESUMO O objetivo dessa dissertação é analisar a relação existente entre o racismo estrutural o imperialismo e o proibicionismo no que tange ao uso da cannabis medicinal no Brasil e a sua proibição Elaboramos como hipótese de pesquisa que a proibição da maconha no Brasil se constitui como um traço do racismo estrutural sendo este um elemento constitutivo e dinâmico no desenvolvimento do capitalismo brasileiro associado à composição de interesses econômicos da indústria farmacêutica estadunidense e brasileira na comercialização de medicamentos à base de cannabis sativa Imperialismo e capitalismo dependente constituem portanto duas faces de um mesmo projeto de dominação burguesa Partimos do pressuposto que por conta do sistema de opressão capitalismo racismopatriarcado há um objetivo de apagamento da memória dos povos originários negros as e indígenas que se mostra através da criminalização dos seus costumes e das suas práticas médicoreligiosas a classe dominante elege como conhecimento legítimo os saberes dos homens brancos e deslegitima a sabedoria das parteiras benzedeiras e mãesdesanto Palavraschave maconha criminalização povos originários ABSTRACT The objective of this dissertation is to analyze the relationship between structural racism imperialism and prohibitionism regarding medicinal cannabis in Brazil We elaborated as a research hypothesis that the prohibition of marijuana in Brazil constitutes a trait of structural racism which is a constitutive and dynamic element in the development of Brazilian capitalism associated with the composition of economic interests of the US pharmaceutical industry in the marketing of medicines based on cannabis sativa Imperialism and dependent capitalism are therefore two faces of the same project of bourgeois domination We assume that due to the capitalismracismpatriarchy system of oppression there is an objective of erasing the memory of native black and indigenous peoples which is translated through the criminalization of their customs and their medical religious practices the ruling class elects as legitimate knowledge the knowledge of white men and delegitimizes the wisdom of midwives healers and saintmothers Keywords marijuana criminalization native peoples LISTA DE SIGLAS ANVISA Agência Nacional de Vigilância Sanitária BPC Benefício de Prestação Continuada CBD Canabidiol CID Código Internacional de Doenças CNDSS Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNFE Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes COFEN Conselho Nacional de Entorpecentes CONAD Conselho Nacional Antidrogas CONFEN Conselho Federal de Entorpecentes CONITEC Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias DSS Determinantes Sociais da Saúde FMI Fundo Monetário Internacional FUNAI Fundação Nacional do Índio FUNAD Fundo Nacional Antidrogas FUNCAB Fundo de Prevenção Recuperação e de Combate às Drogas de Abuso INFOPEN Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias OMS Organização Mundial da Saúde ONU Organização das Nações Unidas PAF Programa Anemia Falciforme PNAD Política Nacional Antidrogas PSF Programa Saúde da Família PT Partido dos Trabalhadores SENAD Secretaria Nacional Antidrogas SISNAD Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SNC Sistema Nervoso Central SUS Sistema Único de Saúde THC Tetrahidrocanabinol UFMG Universidade Federal de Minas Gerais LISTA DE TABELAS Tabela 1 Levantamento etnobotânico das plantas medicinais65 Tabela 2 Despesas liquidadas totais e relativas à Lei de Drogas no Estado do Rio de Janeiro118 Tabela 3 Comissão Especial da Câmara dos Deputados PL3992015 136 LISTA DE FIGURAS Figura 1 Propaganda dos cigarros Grimault ou cigarros Índios 26 Figura 2 Negros escravizados fumando maconha no cachimbo Pito de Pango27 Figura 3 Anúncio do Jornal Diário Popular 194740 Figura 4 Anúncio divulgado no site O tempo41 Figura 5 Ala da APEPI na Marcha da Maconha em 2014 Rio de Janeiro149 SUMÁRIO INTRODUÇÃO GERALp11 CAPÍTULO 1 NEGROS AS ESCRAVIZADOS AS MACONHA E RACISMO Introdução 11 Do Pito do Pango à cannabis medicinal a maconha no Brasil e no mundop18 12 Racismo na formação social brasileirap30 CAPÍTULO 2 PATRIARCADO EXPROPRIAÇÕES E SABERES Introdução 21 Negros as e indígenas os guardiões ães do saberp58 22 Expropriações e controle dos corpos femininos p87 CAPÍTULO 3 GUERRA ÀS DROGAS DIREITO À SAÚDE E O ACESSO A CANNABIS MEDICINAL NO BRASIL Introdução 31 Guerra às drogas Reflexões sobre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo brasileirop98 32 Direito à saúde e o acessodireito à cannabis medicinal em questão p121 Considerações Finaisp144 Referências Bibliográficasp150 13 INTRODUÇÃO GERAL A questão da democracia começa por ser um desafio a desobediência civil sistemática e generalizada gerando no presente a negação da ditadura de minorias poderosas e sua substituição por uma democracia organizada pela e para a maioria pois não poderá haver democracia em outras condições FERNANDES 1980 p 129 A cannabis sativa popularmente conhecida como maconha no Brasil apresenta na atualidade significativa melhora na sintomatologia de determinadas doenças como Fibromialgia Mal de Parkinson Epilepsia Refratária Dores Crônicas Ansiedade Depressão e Transtorno do Espectro Autista O termo sativo é originário do latim e significa o que se cultiva o que não é nativo ou o que não é selvagem CARNEIRO 2002 p 207 Hoje em dia no Brasil o uso da maconha é proibido de acordo com a Lei 11343 de 2006 conhecida como a Lei de Drogas que promulga em seu art 2º Ficam proibidas em todo o território nacional as drogas bem como o plantio a cultura a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar bem como o que estabelece a Convenção de Viena das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 a respeito de plantas de uso ritualísticoreligioso BRASIL 2006 Dessa forma mesmo com comprovação científica dos benefícios terapêuticos da planta a proibição representa um grande empecilho para pacientes que necessitam desse tipo de medicamento para o tratamento de determinadas doenças ou seja a luta pela cannabis medicinal se traduz em uma luta pelo direito à vida Assim começo essa dissertação com uma frase de Bertolt Brecht Que tempos são estes em que temos que defender o óbvio A presente dissertação tem como objetivo compreender como se entrecruzam o racismo estrutural o imperialismo e o proibicionismo no que diz respeito à proibição da maconha no Brasil entendendo que o Brasil se insere na economia mundial como um país de capitalismo dependente de acordo com o sociólogo Florestan Fernandes e que o racismo estrutural perpassa todas as relações sociais e de produção Ressalto que esse trabalho não é somente sobre a luta pelo acesso à cannabis medicinal no Brasil é também e principalmente sobre o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado que tem suas bases na exploração e expropriação de corpos territórios e saberes principalmente de povos originários negros as e 14 indígenas que tiveram suas práticas médicoreligiosas criminalizadas pela classe dominante estigmatizando o uso das ervas medicinais entre elas a maconha O objeto desta pesquisa circunscrevese em torno do racismo estrutural que foi a base para a proibição da maconha no Brasil encabeçada pelos Estados Unidos através do que se convencionou chamar Guerra às Drogas já destacando que a guerra nunca foi e nunca será contra as drogas e sim contra um alvo predeterminado majoritariamente jovens negros e negras periféricos as Ressaltamos que nesse trabalho não utilizaremos o termo drogas e sim psicoativos por considerarmos que o termo droga ainda está socialmente carregado de estigmas e preconceitos o que lhe confere um caráter pejorativo Esse tema atravessa aspectos sociais econômicos e ideopolíticos uma vez que a proibição da maconha no Brasil se apresenta em duas faces por um lado promove o apagamento da memória de povos originários negros as e indígenas ao mesmo tempo em que alimenta a rica indústria farmacêutica estadunidense pois para ter acesso aos medicamentos à base de cannabis sativa é necessário importálos dos Estados Unidos ou da Europa A maconha chegou ao Brasil através dos as negros as africanos as escravizados as e por isso foi introduzida em rituais das religiões de matriz africana umbanda e candomblé o que agudizou a já tão dura perseguição e criminalização que se configura em uma das expressões do racismo estrutural na formação social brasileira Apesar da utilização de ervas medicinais em rituais de cura física e espiritual estarem presentes na vida cotidiana de inúmeros povos desde a Antiguidade a sabedoria popular também foi criminalizada e o exemplo disso foi a chamada Caça às bruxas que teve início na Europa e no Brasil ganhou o nome de Inquisição O principal alvo Mulheres negras curandeiras em sua maioria pertencente às camadas mais pauperizadas da população que utilizavam seus conhecimentos ancestrais nos processos de cura As práticas de cura realizadas pelos indígenas também foram exterminadas ou seja todo o conhecimento que difere da medicina dos homens brancos dos conhecimentos ditos hegemônicos pela classe dominante não são aceitos A criminalização tem sexo raça e classe e dessa forma por trás da relação entre o uso de psicoativos e o comportamento social considerado fora dos padrões pela classe dominante há os interesses econômicos e ideopolíticos camuflados no discurso de preocupação com a saúde e o bemestar da população Assim a classe 15 dominante é que define quais substâncias são consideradas remédios e quais são consideradas drogas Dessa forma queremos com esse trabalho denunciar que negros as indígenas e mulheres sofreram e sofrem expropriações de todo tipo desde suas terras até a sua sabedoria ancestral passando por diversas formas de extermínio do corpo físico de seus hábitos e costumes com o objetivo de tornálos invisíveis Com esse trabalho queremos resgatar a história e erguer a voz dos povos originários como nos chama o imperativo que é título do livro da escritora Bell Hooks1 Como mulher negra ressalto a importância da luta para que possamos ocupar todos os espaços principalmente os que são ocupados hegemonicamente por homens brancos Assim para entender a lógica de dominação do sistema capitalista e suas múltiplas determinações nos propomos a analisar a relação capitalismoracismo patriarcado isto é a interseção sexo raça e classe pois ao observar o racismo estrutural presente na proibição da maconha no Brasil destacamos três pontos o primeiro a proibição acentua o encarceramento em massa pois o principal alvo da Guerra às drogas é a população negra segundo a proibição impede que as classes mais pauperizadas tenham acesso aos tratamentos médicos à base de cannabis sativa pois tratase de um tratamento caro terceiro as mulheres negras e indígenas foram as primeiras curandeiras perseguidas e exterminadas e na contemporaneidade representam a parcela mais vulnerável da população considerando que em uma sociedade patriarcal a responsabilidade do cuidado com a casa e com os filhos recai sobre essas mulheres Ou seja sexo raça e classe estão historicamente relacionados de forma indissociada Veremos também que ocupando a última posição na hierarquia social vindo depois até mesmo dos homens negros para as mulheres negras muitos fatores vão impactar negativamente na sua saúde como falta de saneamento básico desemprego não acesso à educação Dessa forma o racismo é um determinante social da saúde e justamente por 80 da população usuária do SUS ser composta por negros as o 1 bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville uma cidade rural do estado de Kentucky no sul dos Estados Unidos Formouse em literatura inglesa na Universidade de Stanford fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia Seus principais estudos estão dirigidos à discussão sobre raça gênero e classe e às relações sociais opressivas com ênfase em temas como arte história feminismo educação e mídia de massas Alguns livros da autora Anseios raça gênero e políticas culturais Olhares negros raça e representação E eu não sou uma mulher Mulheres negras e feminismo Ensinando a transgredir a educação como prática da liberdade 16 racismo institucional se mostra através da falta de atendimento médico de medicamentos etc Desta feita construímos como hipótese da nossa pesquisa que a proibição da maconha no Brasil se constitui como um traço do racismo estrutural conceito elaborado pelo filósofo Silvio Almeida que será aprofundado posteriormente sendo este um elemento constitutivo e dinâmico no desenvolvimento do capitalismo brasileiro associado a composição de interesses econômicos da indústria farmacêutica estadunidense na comercialização de medicamentos à base de cannabis sativa Imperialismo e capitalismo dependente constituem portanto duas faces de um mesmo projeto de dominação burguesa O racismo estrutural perpassa pelo apagamento de personagens importantes da história do Brasil que são os indígenas negros as e mulheres considerados como inferiores ou primitivos pela historiografia oficial Dessa forma partimos da premissa que a história do Brasil foi construída por uma elite branca patriarcal e cristã que destituiu a sabedoria popular dos povos originários criminalizando suas práticas médicoreligiosas e exterminandoos Dito isso apesar do capitalismo ser posterior ao racismo e ao patriarcado ele se apropria deles para se reproduzir assim a condição social das mulheres tem determinações concretas ao longo da história e por isso é necessário buscar entender essas determinações históricas e econômicas numa perspectiva de totalidade Diante da hipótese apresentada surgiram algumas perguntas que são eixos estruturantes da pesquisa a criminalização da maconha é seletiva ou seja expressa uma perspectiva de sexo raça e classe Quais são os interesses econômicos e ideopolíticos por trás da proibição Como o racismo se expressa na Política de Saúde Perante essas perguntas o fio condutor dessa pesquisa é analisar o racismo estrutural no capitalismo dependente brasileiro que fomentou a criminalização da maconha como forma de retroalimentar a indústria farmacêutica estadunidense isto é a relação de subordinação consentida do Brasil ao imperialismo estadunidense A pesquisa tem como objetivo geral investigar como o racismo estrutural atravessa a criminalização do uso da cannabis e que atualmente constitui empecilho para os pacientes que precisam de tratamento2 à base dessa substância e como objetivos específicos analisar o racismo estrutural como eixo estruturante na formação social brasileira bem como identificar o uso ritualísticoreligioso das plantas 2 A cannabis sativa tem sido usada no tratamento de epilepsia refratária diabetes mal de Parkinson fibromialgia dores crônicas ansiedade autismo e depressão 17 particularmente da cannabis sativa principalmente entre os negros indígenas e mulheres identificar a relação entre o proibicionismo e o imperialismo estadunidense destacando os interesses econômicos e ideopolíticos da guerra às drogas e como essa realidade se manifesta na realidade brasileira apresentar os projetos de disputa diferentes e antagônicos da saúde no Brasil e as concepções de saúde para negros e indígenas e como o racismo institucional afeta as mulheresmães negras Para alcançar os objetivos propostos neste trabalho será utilizado um conjunto de procedimentos metodológicos que incluem o método e as técnicas de pesquisa No que tange ao método elegemos o materialismo histórico dialético método utilizado por Marx que propõe analisar a sociedade capitalista e suas múltiplas determinações Para Marx o objeto da pesquisa no caso a sociedade burguesa tem existência objetiva não depende do sujeito do pesquisador para existir O objetivo do pesquisador indo além da aparência fenomênica imediata e empírica por onde necessariamente se inicia o conhecimento sendo essa aparência um nível da realidade e portanto algo importante e não descartável é apreender a essência ou seja a estrutura e a dinâmica NETTO 2011 p 22 Essa pesquisa tem caráter bibliográfico que de acordo com Gil 2002 p 44 é desenvolvida com base em material já elaborado constituído principalmente de livros e artigos científicos O caminho percorrido foi a leitura de material bibliográfico utilizando também algumas notícias de jornais antigos que trazem reportagens sobre o livre comércio da maconha de forma medicinal em farmácias e boticas antes da proibição O trabalho está dividido em três momentos no primeiro capítulo abordaremos sobre a história da maconha no Brasil e no mundo e o racismo estrutural como fio condutor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro Para tanto utilizaremos a bibliografia dos seguintes autores Florestan Fernandes Silvio Almeida Clóvis Moura Henrique Carneiro e Luísa Saad O segundo capítulo tem como objetivo mostrar a relação entre o uso das plantas na medicina e nos rituais religiosos de cura ações protagonizadas por mulheres que foram duramente perseguidas pelo que se convencionou chamar Caça às bruxas tendo em vista o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado e as expropriações causadas pelo mesmo Nesse capítulo dialogamos com os autores Silvia Federici Mirla Cisne e Luiz Sávio Almeida O terceiro capítulo mostra a estreita ligação entre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo no que tange a proibição ao uso dos psicoativos bem como a relação dessa proibição com a criminalização da pobreza através do encarceramento 18 em massa e da Guerra às drogas mostrando como o racismo se manifesta na realidade brasileira na atualidade Analisamos também como as variadas facetas da criminalização incidem negativamente na saúde de negros as e indígenas e por último mostraremos como está se dando a luta pelo direito à cannabis medicinal no Brasil na contemporaneidade Para tal fim dialogamos com os autores Loïc Wacquant Virgínia Fontes Ellen Wood Cristina Brites e Daniela Ferrugem Destacamos nesse trabalho a importância desse tema para o Serviço Social e para a Saúde Coletiva pois de acordo com o art 196 da Constituição Federal de 1988 A saúde é direito de todos e dever do Estado garantindo mediante políticas sociais e econômicas que visem a redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção proteção e recuperação constituindo um dos deveres do Assistente Social de acordo com o art8º do Código de Ética Profissional empenharse na viabilização dos direitos sociais dasos usuáriasos através dos programas e políticas sociais O direito à saúde é dever do Estado porém quando se trata de medicamentos à base de maconha é a população por meio de associações que tem lutado para garantir esse acesso algumas através de atos de desobediência civil Que esse trabalho possa ser nos termos de Florestan Fernandes 1975 um escrito como peça de combate contra toda e qualquer forma de discriminação e preconceito em defesa da saúde pública e de políticas públicas que garantam que todos tenham acesso igualitário ao tratamento com a cannabis medicinal Esse trabalho é um convite para questionarmos as nossas próprias verdades 19 CAPÍTULO 1 NEGROS AS ESCRAVIZADOS AS MACONHA E RACISMO Introdução Esse capítulo tem como objetivo mostrar a história da maconha no Brasil e no mundo ressaltando que desde a Antiguidade ela representou uma mercadoria de grande valor econômico através das fibras de cânhamo foi e ainda é utilizada no tratamento de uma gama de doenças e representou um importante elemento em rituais das religiões de matriz africana umbanda e candomblé Nos fins do século XIX remédios à base de cannabis sativa eram comercializados livremente em farmácias e boticas brasileiras até o momento de sua proibição Como veremos a criminalização da maconha no Brasil teve como base uma legislação racista que tinha como objetivo proibir práticas e costumes dos povos originários negros as e indígenas Dessa forma a proibição da maconha no Brasil é expressão do racismo que é um elemento estruturante e estrutural na formação social brasileira que contorna as relações sociais e de produção 11 Do Pito do Pango à cannabis medicinal a maconha no Brasil e no mundo Maconha em pito faz negro sem vergonha Ditado oitocentista brasileiro Como podemos ver no dito popular supracitado que ficou conhecido no Brasil em 1830 a maconha desde os primórdios esteve carregada de estigmas e preconceitos associavase o seu uso à insubordinação e à preguiça dos as negros as escravizados as Segundo Carneiro 2019 a história da maconha no Brasil se manifesta em três dimensões diferentes a dos usos industriais a dos usos medicinais e a dos usos como forma de lazer em contextos clandestinos e de ilicitude e vinculada aos mecanismos de coerção repressão e controle das camadas populares subalternas especialmente por um viés racial evidente no encarceramento e nas vítimas de homicídios Ao aprofundar os estudos com relação à história da maconha verificamos a sua estreita ligação com a formação social brasileira não só pelo fato dos cordames3 das embarcações no período colonial serem feitas de fibras de cânhamo mas também pela sua aplicação no tratamento da sintomatologia de diversas doenças O uso ritualístico 3 Cordames é o conjunto de todos os cabos que pertencem ao aparelho de um navio 20 religioso nos cultos de matriz africana umbanda e candomblé apesar de pouco documentado também foi um elemento importante presente nessas religiões como veremos adiante A cannabis sativa recebendo vários nomes ao longo do tempo haxixe cânhamo diamba fumo de negro fumo dAngola erva do diabo pito de pango liamba riamba cânhamodaíndia entre outros ficou popularmente conhecida como maconha no Brasil De acordo com Silva 2010 biologicamente a maconha pertence à família Cannabacea que é uma família botânica de Angiospermas ou seja plantas com flores sendo que um dos mais famosos gêneros desta família é a Cannabis que inclui a espécie Cannabis Sativa cujo uso medicinal será estudado nesse trabalho Segundo Crippa Zuardi e Hallak 2010 o interesse na Cannabis Sativa diz respeito a uma molécula específica chamada canabidiol ou CBD4 Para sua produção é feita a extração da espécie cannabis sativa fêmea que contém várias substâncias entre elas o CBD e o THC tetrahidrocanabinol5 esse último é o que contém as substâncias psicoativas Tanto o cânhamo quanto a maconha são plantas da família cannabis o que os diferencia é a forma de extração para a produção do cânhamo são cultivadas as sementes fibras e caule Além disso ele contém no máximo 03 de THC tetrahidrocanabinol Esse número é bem reduzido se comparado a maconha e sua extração se faz através do cultivo de suas flores não utilizando caule nem fibras tem maior teor de THC e menor de CDB ou seja efeitos psicoativos mais presentes A cannabis sativa possui plantas femininas e masculinas mas a utilização da cannabis na forma medicinal é a que representa a floração feminina que produz terpenos terpenóides e canabinóides6 De uma certa maneira a história do Brasil está intimamente ligada à planta Cannabis sativa L desde a chegada à nova terra das primeiras caravelas portuguesas em 1500 Não só as velas mas também o cordame daquelas frágeis embarcações eram feitas de fibra de cânhamo como também é chamada a planta Aliás a palavra maconha em português seria um anagrama da palavra cânhamo CARLINI 2006 p1 Segundo documento oficial do Ministério das Relações Exteriores do Brasil 1959 A planta teria sido introduzida em nosso país a partir de 1549 pelos negros as africanos as escravizados as como alude Pedro Correa e as sementes de 4CBD ou Canabidiol é uma das substâncias químicas encontradas na cannabis sativa 5Tetrahidrocanabinol ou dronabinol é a principal substância psicoativa encontrada nas plantas do gênero Cannabis 6 Disponível em httpsapepiorglivreto Acesso em 20042020 21 cânhamo eram trazidas em bonecas de pano amarradas nas pontas das cangas7 De acordo com Cunha 2007 era comum os viajantes levarem dentro dos seus bolsos as diversas sementes Foi assim por exemplo que a soja saiu da China e foi para os Estados Unidos O ser humano ao viajar carregava consigo suas sementes As conquistas de territórios e as relações interpessoais o auxiliavam para que as mudanças de moradia fossem acompanhadas pelas mudanças de cultivares Os agricultores migravam e levavam consigo seus principais cultivos No Brasil diversas etnias de origem indígena e africanas possuem fortes relações culturais com as sementes crioulas especialmente com o milho o feijão e as cucurbitáceas CUNHA 2007 p 85 Para os as africanos as o ato de carregar sementes está ligado à sua ancestralidade origem e sobrevivência pois para qualquer lugar que fossem poderiam plantar essas sementes para o sustento e manutenção da saúde de suas famílias No período colonial a maconha tinha um grande valor econômico Em meados do século XVIII foi instalada no Rio Grande do Sul a Real Feitoria de Linho Cânhamo empreendimento da Coroa Portuguesa com o objetivo de melhorar a economia da metrópole o que demonstra as contradições e interesses econômicos e ideopolíticos por trás da planta Esse empreendimento não foi nada modesto como abordaremos ao longo desse capítulo A maconha também foi amplamente utilizada nos cultos de matriz africana tanto no candomblé quanto na umbanda Como forma do indivíduo se conectar com as entidades divinas era utilizada nos rituais de iniciação como a lavagem de cabeça Por esse motivo os que utilizavam foram perseguidos tendo alguns artigos médicos corroborado com as autoridades para criação de uma legislação com o objetivo de reprimir seu uso ligando a maconha e a umbanda à loucura e à feitiçaria BARROS NAPOLEÃO 2015 p171 De toda a história que envolve a maconha o uso do cânhamo foi o mais bem documentado a sua aplicação representou uma fonte de fibras resistente para a confecção de tecidos e de papéis que tinham excelente qualidade tanto que em 1830 Johannes Gutenberg8 utilizou papel de cânhamo para produzir as 135 primeiras Bíblias impressas do mundo inclusive um desses exemplares está localizado no acervo da Biblioteca Nacional na Cinelândia Rio de Janeiro 7 Trecho de documento oficial do Ministério das Relações Exteriores de 1959 E Carlini A História da Maconha no Brasil in E Carlini e outros Cannabis sativa L e substâncias canabinóides em medicina São Paulo CEBRID Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas 2006 p 1 8Johannes Gutenberg foi um inventor gravador e gráfico do Sacro Império RomanoGermânico 22 Das civilizações que floresceram na Ásia aquelas resultantes da colonização da América passando pelas que prosperaram na Europa na África e na Oceania praticamente todas em determinada altura de suas existências utilizaram por vezes em grande quantidade as fibras do cânhamo para entre tantas outras coisas vestir suas populações equipar os seus navios com cordas e velas FRANÇA 2015 p 7 No século XV o cânhamo foi cultivado na França em Portugal e na África destinado à confecção de cordas cabos velas e material de vedação dos barcos que inundavam com frequência em longas navegações O produto obtido de suas fibras dotado de rigidez e elasticidade proporcionava às caravelas uma enorme velocidade BARROS PERES 2015 No Brasil desde o início da colonização a planta cannabis sativa ou maconha cânhamo esteve presente já que as velas e os cordames das embarcações também eram feitas de cânhamo De acordo com Carlini 2006 não só as velas mas também o cordame daquelas frágeis embarcações eram feitas de fibra de cânhamo como também é chamada a planta Após o Reinado de Ouro de Dom João V a sobrevivência do Império Colonial passava por dificuldades a modernização da metrópole dependia basicamente da diversificação da produção agrícola do Brasil e foi assim que se introduziu a cultura do cânhamo no Brasil para fins comerciais Como dito anteriormente a tentativa se deu através do investimento em um grande empreendimento denominado Real Feitoria de Linho Cânhamo RFC instalada no Rio Grande do Sul em 1783 no período colonial No Vicereinado do Marquês do Lavradio fizeramse as primeiras experiências com pequenas sementeiras no Rio de Janeiro Santa Catarina e Rio Grande Contudo foi somente com a sucessão de Luiz de Vasconcellos Souza que as experiências iniciais com a planta deram lugar à formação da RFC no Rio Grande Assim em 10 de outubro de 1783 no distrito de Canguçu da Freguesia de Rio Grande extremosul da América Portuguesa instalouse a Feitoria MENZ 2005 p 141 Esse empreendimento teve como organizador e primeiro administrador o Padre Francisco Xavier Prates que era professor do Mosteiro de São Bento e do Convento Santo Antônio no Rio de Janeiro Faleceu em 1784 tendo seu irmão Paulo Xavier Rodrigues Prates se tornado mais tarde proprietário da região da cidade de Canguçu e da ilha da Feitoria e de todo o Rincão do Canguçu através da concessão do regime de sesmarias na cidade de Pelotas Para a organização da Real Feitoria Linho Cânhamo Para o trabalho foram enviados 21 casais de escravos pertencentes à Fazenda Real de Santa Cruz no Rio de Janeiro Os esforços deveriam ser concentrados no plantio pois de nenhum modo se devem formar fábricas de cordoaria ou de qualquer outro tecido e apenas se poderão fazer algumas experiências numa clara alusão à divisão colonial do trabalho MENZ 2005 p 141 23 Essa divisão colonial do trabalho consistiria em além da plantação do cânhamo e do trabalho na infraestrutura do empreendimento os as negros as escravizados deveriam cultivar os produtos para sua própria subsistência dessa forma os senhores diminuiriam os custos já que parte desse cultivo poderia ser vendido para os mercados locais com objetivo de instaurar um regime de plantation9 Os soldados europeus foram designados para trabalhar como feitores já que possuíam conhecimento da cultura do cânhamo isto é cada soldado ficaria responsável por 10 escravizados as Esses soldados tinham conhecimento da cultura do cânhamo mas pouco conhecimento sobre os produtos típicos do Brasil ou seja boa parte da produção ficaria dependente somente dos esforços dos as escravizados as A principal ação para o estabelecimento do regime de plantation é o afastamento dos negros as escravizados as do seu ambiente com o intuito de fazêlos esquecer suas origens e se adaptar o mais breve possível à nova vida a dessocialização do elemento servil processada pelo tráfico como um dado fundamental na constituição do escravismo ou seja o escravo deveria ser arrancado de sua comunidade original dessocializado para então ser ressocializado em um mundo totalmente novo a plantation Se sobrevivesse a sua passagem pela forma mercadoria ultrapassando o período de adaptação poderia receber um pedaço de terra fazer novas amizades integrandose no ritmo da empresa escravista MENZ 2005 p 143 grifos nossos Com essa experiência na agricultura local os as escravizados as começaram a trabalhar mais na produção que era de sua subsistência que na plantação do cânhamo o que provocou a ira dos organizadores e administradores do empreendimento Aos poucos iase construindo em torno deles uma rede de interesses privados governadores letrados artesãos comerciantes da capital todos interessados em subtrair os escravos da plantation Os escravos estimulavam este tipo de vínculo assim escapavam do trabalho mais duro na Feitoria para vender suas plantações e exercer trabalho doméstico ou urbano que lhes permitia uma maior liberdade Com estas práticas também ganhavam o apoio de homens poderosos da Corte portoalegrense em seus conflitos com os administradores da RFC MENZ 2005 p 147 Essa ação foi encarada pela classe dominante como desobediência dos as escravizados as chamados de insolentes Rafael Pinto Bandeira que era Governador do Rio Grande do Sul na época havia proibido os castigos aos escravizados as da Real Feitoria de Linho Cânhamo Insatisfeitos com as posturas dos escravizados as assume o empreendimento em 1801 o Padre Antônio Gonçales Cruz De acordo com Menz 9 O plantation proporcionava o chamado comércio triangular em que os produtos tropicais eram vendidos na Europa em troca de tecidos armas e álcool que por sua vez eram oferecidos aos mercadores africanos em troca de escravizados Estes eram levados às colônias para trabalhar nos latifúndios monocultores que produziam produtos tropicais mantendo dessa forma este ciclo comercial 24 2005 nessa época os as escravizados as da Feitoria estavam assim distribuídos as 21 oficiais 45 economia natural 84 cultura e benefício do cânhamo 79 inválidos as 4 doentes 3 em galés10 e 4 sotafeitores O que isso significa Na categoria de oficiais estão incluídos ferreiros carpinteiros alfaiates oleiros e aprendizes Consideramos trabalhadores da retaguarda natural os campeiros os empregados nos cultivos de sustento os empregados na fazenda as costureiras e as cozinheiras Na cultura e beneficiamento do cânhamo estão contabilizados os empregados no cultivo do linho as fiadeiras e as tecedeiras Temos ainda os sotafeitores feitores subordinados os doentes os presos em galés e os inválidos na maioria crianças de até dez anos MENZ 2005 p 148 Conforme ressalta o autor além dos doentes inválidos e cumprindo penas em galés os regimes de plantation também utilizavam o trabalho escravizado de crianças de até dez anos Desta feita o novo inspetor começou a realizar reformas com o objetivo de submeter toda a escravaria ao regime de plantation fato que causou a revolta dos as escravizados as que fizeram um requerimento ao Governador contra o Inspetor De acordo com Menz 2005 os as escravizados as atuavam tanto no campo legal com a formulação de requerimentos como fora dele com pressões e intimidações mas sem chegar à violência explícita Menz 2005 ressalta que em contrapartida começaram a punir com cinquenta açoites e prender os as escravizados as que fossem considerados as desobedientes O Pe Cruz tentou implementar uma prática muito comum no Brasil colonial que era o uso dos as próprios as escravizados as na punição de seus companheiros as o que causou repugnância e uma resistência passiva levando à punição dos recalcitrantes ressalta Menz 2005 Como não há documentos que comprovem supõese que o Padre Cruz foi assassinado pelos as escravizados as em 14 de dezembro de 1814 tamanha era a revolta e a falta de conciliação dos conflitos entre ele e os escravizados as Com a manifestação dos as escravizados as através das fugas e rebeliões e a falta de habilidade em lidar com as relações entre os as escravizados as a região do Rio Grande do Sul começou a destinar seus esforços à pecuária e pôs fim a Real Feitoria de Linho Cânhamo em 1824 que foi posteriormente transformada em uma colônia de alemães MENZ 2005 p 150 A matéria do jornalista Carlos Mosmann 2020 sobre a história da Real Feitoria de Linho Cânhamo aponta elementos do racismo estrutural na formação escolar e na relação com a maconha De acordo com reportagem 10 Entre os séculos XIII e XVII ser condenado a galés significava realizar trabalhos nos barcos de mesmo nome e era considerada uma pena muito severa devido ao trabalho pesado exercido em condições precárias o que geralmente reduzia o tempo de vida dos condenados 25 segundo aprendíamos nos bancos escolares era um empreendimento escravista decadente que não teria dado certo por serem os negros muito preguiçosos Cheguei a ouvir suposições de que o cânhamo é uma planta da família canabis e que isto teria agravado o problema da indolência negra Enfim da Feitoria teria sobrado apenas um prédio onde lá em 1824 foram abrigados os primeiros imigrantes alemães estes sim operosos e forjadores de um futuro próspero para o Rio Grande segundo nossa versão escolar da História MOSMANN 2015 p1 A importância desse grande empreendimento foi apagada dos livros de História como também foi invisibilizada a participação ativa dos negros as escravizados as para colocar fim no regime de plantation A Real Feitoria do Linho Cânhamo foi estabelecida pelo Governo Imperial tinha como objetivo incentivar o plantio do linhocânhamo em subst ituição à importação do linho de riga dos países bálticos Este empreendimento econômico utilizava mão de obra escrava que trabalhava na plantação do linho cânhamo e na produção de cordas e de velas para barcos sendo que o escoamento da produção ocorria pelo rio dos Sinos até Porto Alegre constituindose dessa forma na primeira economia da região MANFREDINI 2006 p 1 Ainda de acordo com Manfredini 2006 esse empreendimento contava com o trabalho de 321 escravizados dado que foi extraído da carta escrita por Jozé Feliciano Fernandes Pinheiro a Jozé Thomas de Lima Assim esse empreendimento tinha três vezes mais escravizados as que uma das maiores charqueadas de Pelotas e Rio Grande do Sul na época ou seja não era nada modesto As fugas ensinou longe de serem episódicas e individuais costumavam ser operações cuidadosamente planejadas antecipadas por uma série de cuidados Sempre havia um lugar onde previamente se deixava escondida uma provisão de alimento e se possível alguma arma E quase sempre o negro fugido levava consigo uma importante quantidade de sementes MOSMANN 2006 p2 Essa citação corrobora com a afirmação descrita acima de que para os as negros as era essencial carregar sementes em suas fugas e rebeliões como forma de se manter conectado à sua ancestralidade e como forma de sobrevivência O autor também chama atenção na referida matéria para o fato de que quando se trata de escravizados geralmente visualizase escravizados homens no entanto na Real Feitoria de Linho Cânhamo que contava com 321 escravizados a metade era composta de mulheres que participaram ativamente das lutas e que juntos conseguiram que não fosse implementado o regime de plantation De acordo com Fraga 2015 essa cultura de se instituir as Reais Feitorias de Linho Cânhamo aconteceram na Espanha França e Rússia chegando em Portugal no século XVII Essas Feitorias não possuíam terras próprias mas ficavam responsáveis 26 pelo recolhimento e armazenamento da produção Percebese que a tentativa de introduzir a cultura do cânhamo no Brasil foi mais uma frustrada tentativa de transplantação de padrões europeus em terras brasileiras utilizandose força de trabalho escravizada Começamos o capítulo com a história desse empreendimento justamente porque nela estão contidos traços importantes da formação social brasileira a qual vamos nos debruçar ao longo desse trabalho A maconha quando vista como fonte de fibras e de grande valor econômico representando um grande investimento para a economia utilizando força de trabalho escravizada era aceita sem rumores porém quando se tratava do uso que os as escravizados as faziam dela em seus momentos de ócio era visto como atos de insubordinação Destacamos também que primeiro os as escravizados as eram obrigados a trabalhar no cultivo do cânhamo para enriquecer os proprietários e qualquer ação fora disso era visto como desobediência indolência segundo o estigma da maconha ligandoa à insubordinação dos as escravizados as terceiro o ocultamento da história e o apagamento dos personagens homens negros e principalmente mulheres negras nos mostram como foi sendo construída no imaginário social tanto a história da maconha quanto a história sobre a escravidão Fatos que abordaremos como maior profundidade no próximo item Com relação ao uso medicinal da cannabis podese afirmar que tem origem na Antiguidade e teve início na China O seu uso medicinal foi utilizado também pelos indianos no combate a uma gama de doenças dentre as quais dor de cabeça dor de dentes reumatismo problemas respiratórios e cólicas menstruais Os registros escritos começam a aparecer no século I aC nos quais a planta é recomendada para combater inúmeros males dores reumáticas constipação intestinal desarranjos no sistema reprodutivo feminino malária e tantos outros Um pouco mais tarde no primeiro século da era cristã HuaTuo conhecido como o pioneiro da cirurgia chinesa utilizou um composto da planta misturado ao vinho para anestesiar pacientes durante suas experiências cirúrgicas FRANÇA 2015 p 12 De acordo com França 2015 da Índia as receitas à base de cannabis migraram para a Europa África e Oriente Médio os cirurgiões e boticários europeus utilizaram essas receitas do século XIII ao XVIII Com o passar do tempo e o surgimento de muitas dessas receitas a medicina começou a se interessar em estudar as possibilidades curativas dessa planta principalmente a partir da quarta década do século XIX Esses acontecimentos deram origem a dois importantes estudos um do 27 professor irlandês Willian OShaughnessy que foi o responsável por introduzir a erva e suas possibilidades terapêuticas no meio científico europeu em 1839 O professor irlandês sempre amparado em relatos de casos sugeria que a planta poderia ser utilizada com sucesso no tratamento do reumatismo da hidrofobia da cólera do tétano e da convulsão a infantil inclusive FRANÇA 2015 p 15 Logo depois em 1845 surgiu o estudo do Dr JJ Moreau Do haxixe e da alienação mental estudos psicológicos abriase então uma nova porta de estudos terapêuticos da planta sobre as doenças mentais Ao término do século XIX a Cannabis constava na lista de componentes de um semnúmero de medicamentos muitos produzidos por prósperas indústrias e disponíveis sem prescrição médica diretamente nos balcões de farmácias de diferentes cidades do mundo como os populares digestivos Chlorodyne e CornCollodium manufaturados pela Squibb Campany FRANÇA 2015 p 16 Após esses estudos as notícias sobre os efeitos inebriantes da erva chegaram ao Brasil de acordo com Carlini 2006 p 2 na segunda metade do século XIX ao Brasil chegaram as notícias dos efeitos hedonísticos da maconha principalmente após a divulgação dos trabalhos do Prof Jean Jacques Moreau da Faculdade de Medicina da Tour na França e de vários escritores e poetas do mesmo país Mas foi o uso medicinal da planta que teve maior penetração em nosso meio aceito que foi pela classe médica A produção da maconha no Brasil intimamente ligada a colonização se disseminou planta que foi considerada oriunda de negros as africanos as escravizados as se espargiu para os indígenas para o homem branco alcançando desde as classes sociais subalternas até as mais abastadas Com finalidades ritualísticas e recreativas a utilização da planta se expandiu para além da senzala sendo incorporada por tribos indígenas em contato com escravos fugidos dos engenhos nordestinos no lugar do nativo tabaco em certos rituais que eram encontrados em quilombos espalhados pelo interior de difícil acesso Entre as tribos que tiveram identificadas o cultivo da maconha aparecem grupos identificados no Baixo e Médio São Francisco guajajaras tenetehara no Maranhão mura no baixo Madeira fulniô de Águas Belas em Pernambuco saterê mawê no Amazonas krahô no Tocantins entre outras FRAGA 2015 p 149 Segundo Santos 2016 p 62 com o passar do tempo alguns grupos indígenas presentes nas Américas incorporaram o uso de maconha em suas práticas medicinais e religiosas Tribos indígenas como os Cuna do Panamá e os Cora Tepehuas e Tepecanos do México usam a maconha em seus rituais religiosos Até início do século XIX a maconha foi utilizada estritamente para fins medicinais e religiosos não sendo discutido nessa época sobre o uso psicoativo da 28 planta talvez por desconhecimento No Brasil em fins do século XIX circulavam livremente os Cigarros Índios vendidos pela Grimault e Cia que eram receitados no combate da asma Figura 1 Propaganda dos cigarros Grimault ou cigarros Índios De acordo com Fraga 2015 o medo da africanização e as iniciativas de embranquecimento da população já mostravam a evidência do seu uso que parecia tão naturalmente difundido Os estudos sobre o uso medicinal e ritualísticoreligioso no Brasil ainda são incipientes isso não deixa de ser um dado importante para a nossa pesquisa pois a história da maconha no Brasil ainda hoje permanece oculta Supostamente originária da Ásia Central e trazida para o Brasil pelos as negros as africanos as escravizados as a planta adaptouse plenamente ao clima tropical do Nordeste região que por conta da cultura açucareira abrigou muitos as escravizados as africanos as Sendo assim o seu uso foi rapidamente disseminado recebendo esse hábito o nome de Canabismo A autoria da introdução da Cannabis e do canabismo na América Portuguesa é pois incerta os africanos para cá trazidos como escravos a partir da metade do século XVI conheciam a planta e apreciavam seus efeitos inebriantes Isso contudo importa pouco já que foram sem dúvida os africanos e seus descendentes que consolidaram o hábito do canabismo na sociedade local Foi a eles que os brasileiros gradativamente associaram o gosto pela diamba bangue maconha fumo de Angola pito de pango riamba liamba etc e seu consumo regular recreativo e relaxante e foram eles que os doutores psiquiatras e juristas do início do século XX ao promoverem um combate feroz ao canabismo resolveram culpar por propagar o nefando vício pela sociedade brasileira FRANÇA 2015 p 2728 29 Com relação ao uso o autor Gilberto Freyre ressalta em sua obra Nordeste que o tabaco pertencia ao hábito aristocrático dos senhores enquanto a maconha fumo de negro era usada pelos as escravizados as Era comum encontrar manchas escuras de tabaco ou maconha entre o verdeclaro dos canaviais Os senhores toleravam a cultura dessas plantas volutuosas tão próprias para encher de langor os meses de ócio deixados ao homem pela monocultura da cana Freyre 1937 Carneiro 1966 reafirma o uso da maconha pelos as escravizados as no Quilombo dos Palmares Da fauna e da flora dos Palmares portanto os negros retiravam grande parte do seu sustento azeite luz a sua vestimenta os materiais com que construíam as suas choças e as cercas de pau a pique com que se fizeram famosos na guerra E nos momentos de tristeza de banzo de saudade da África os negros tinham ali à mão a liamba de cuja inflorescência retiravam a maconha que pitavam por um cachimbo de barro montado sobre um longo canudo de taquari atravessando uma cabaça de água onde o fumo se esfriava Os holandeses diziam que esses cachimbos eram feitos com os côcos das palmeiras Era o fumo de Angola a planta que dava sonhos maravilhosos 1966 p3 Figura 2 Negros escravizados fumando maconha no cachimbo Pito de Pango No interior do Brasil o hábito de fumar maconha se disseminou de tal forma que era possível ver clubes de diambistas que eram vistos algumas vezes como agressivos e perigosos ou como idiotas Já disseminado entre as classes mais pobres e quase incultas dos nossos sertões onde fazia sua obra destruidora a diamba tendia a entrar para o rol dos vícios elegantes Havia preocupação semelhante de que outros vícios do povo como o candomblé e a capoeira subissem para a dita boa sociedade O vício da maconha parecia seguir o caminho contrário 30 dos vícios elegantes ameaçando passar da esfera popular para as casas das famílias dos homens que garantiriam o sucesso da nação sugerindo a verdadeira ameaça aos homens de bem SAAD 2015 p 61 Podese dizer que até então a maconha não era vista exatamente como uma adversidade contanto que não atrapalhasse o trabalho dos nativos e escravizados as para o desenvolvimento da nação vindoura A sua estreita ligação com a cultura de negros as e indígenas veio a se tornar um problema social a partir das décadas iniciais do século XIX quando a elite branca alegava que a Cannabis afetava o comportamento dos as escravizados as tornavao por vezes violento e comprometia o desenvolvimento de suas atividades produtivas França 2015 p 28 fato que deu início às primeiras proibições ao uso da planta como abordaremos no capítulo 2 O problema do maconhismo como era denominado o fenômeno do ponto de vista da medicina seria repetidamente considerado como exclusivo das classes subalternas sobretudo do Norte e Nordeste do país território onde a maconha teria encontrado ainda segundo aquele ponto de vista condições humanas e ecológicas favoráveis de desenvolvimento SOUZA 2015 p30 Contudo em meados do século XX a classe médica brasileira iniciou os estudos sobre as propriedades terapêuticas da planta dando continuidade à sua utilização principalmente no tratamento da insônia bronquite e asma11 Porém apesar de todas as potencialidades descobertas na planta o fato dela estar associada à população negra escravizada e posteriormente indígena fez com que no mesmo século juristas médicos e botânicos vissem o hábito de consumir cannabis como um hábito funesto da raça negra que viera para o Brasil Os doutores brasileiros parecem ter optado por outro caminho concentrar os seus esforços no combate moral ainda que travestido de rigorosa avaliação científica a um hábito derivado do uso da planta que lhes parecia extremamente danoso para o futuro da civilização brasileira o canabismo12 FRANÇA 2015 p19 Segundo Gerber 2019 p 24 A cannabis era empregada em unguentos e pomadas durante a Idade Média CARNEIRO 1994 p 31 A maior parte dos processos de bruxaria na Europa era contra mulheres curandeiras GRAF 2011 p 27 Havia associação das curas realizadas a pactos com o demônio tanto em face de médicos judeus CAMARGO 2014 p 70 quanto em face das práticas de feitiçaria na colônia SOUZA 2014 Devese questionar em que medida este processo histórico foi femigenocida13 pelo assassinato massivo de mulheres na Idade Média Propõese questionar da mesma forma as origens etnocidas da proibição da maconha desde os processos da Inquisição no Brasil para se pensar na devida reparação pelos atos de desaparecimento forçado de saberes 11 12Hábito de fumar ou comer folhas de cannabis ou haxixe 31 crenças e práticas terapêuticas de mulheres diaspóricos e originários de modo a se fazer respeitar outras formas de conhecimento componentes que são do patrimônio comum da humanidade A questão é reconhecer tais saberes como complementares à medicina que desde seu surgimento condenou toda e qualquer prática popular de cura Diante do exposto percebese que a vinculação do uso da maconha à raça negra ao uso que dela faziam as mulheres negras curandeiras indígenas e os esforços empreendidos por médicos brasileiros para combatêla são expressões do racismo estrutural14 termo utilizado pelo filósofo Silvio Almeida e que desenvolveremos a análise no próximo item e de uma sociedade com princípios cristãos brancos e patriarcais Dessa forma mostraremos no próximo item como o racismo se expressa como um elemento estrutural e estruturante para a manutenção do status quo e promove o consequente extermínio de povos originários sendo fio condutor do desenvolvimento do capitalismo brasileiro perpassando toda a formação social brasileira 12 Racismo na formação social brasileira Analisar a formação social brasileira requer esmiuçar os aspectos políticos econômicos e sociais adentrando as suas particularidades examinando o concreto como uma síntese de múltiplas determinações A colonização brasileira é marcada por uma complexa e dialética dinâmica que mescla os movimentos internos da economia e os dinamismos do mercado mundial relações que no Brasil se deram em caráter de dependência como veremos a seguir FERNANDES 2005 Na formação social brasileira o autoritarismo e o racismo sublinham a política a economia e embasaram o pensamento social brasileiro Alguns autores como Silvio Romero Nina Rodrigues Joaquim Nabuco e Oliveira Viana imbuídos das ideias que floresciam na Europa e nos Estados Unidos propuseram o branqueamento da sociedade como passagem para a modernidade pautado na concepção de que o sangue branco se sobrepunha a qualquer outro Dessa forma houve uma transplantação de projetos liberais de modernidade com base no racismo e na 14 Todo racismo é estrutural porque o racismo não é um ato o racismo é processo em que as condições de organização da sociedade reproduzem a subalternidade de determinados grupos que são identificados racialmente ALMEIDA 2015 32 eugenia15 que determinavam que somente com o autoritarismo e a intervenção estatal alcançaríamos a modernidade Mas como foi construída a tal modernidade Precisamos ressaltar que a história oficial do Brasil foi escrita por uma elite dominante branca cristã e patriarcal que demonstra através da escolha de seus heróis como o aparelho ideológico constrói uma verdadeira obstrução do passado mostrandonos que a história da humanidade é síntese de progresso quando na verdade é síntese de genocídios Destacamos que os objetivos do capitalismo estão ligados à propriedade privada acumulação de capital exploração da força de trabalho e busca pelo lucro e pela concentração de riqueza prestígio social e poder que implicam na captura da subjetividade dos de baixo16 FERNANDES 1975 Assim o processo de modernização custou a vida de muitos trabalhadores perpassando pela destruição da memória de negros as e indígenas até o seu extermínio em uma tentativa de destruir o saber popular da noção de viver em comunidade numa tentativa de afastálos da ancestralidade tudo em nome do desenvolvimento Portanto exploração econômica e dominação ideológica constituem duas faces do projeto burguês de sociabilidade A Europa o epicentro da tal modernidade no qual o colonialismo foi a condição indispensável de formação da própria modernidade a colonialidade do poder colocou a raça e o racismo como princípios organizadores da acumulação do capital Para Mignolo 2017 p 4 a modernidade não é um período histórico e sim a auto narração de atores e instituições que a partir do Renascimento conceberamse a si mesmos como o centro do mundo Walter Benjamim 1938 apud Löwy 2005 no texto Aviso de Incêndio analisado por Michael Löwy faz uma crítica ao ideal de modernidade analisando as Teses sobre o Conceito de História na qual Benjamin vê a necessidade de compreender a história não do ponto de vista dos vencedores e sim do ponto de vista dos vencidos das classes oprimidas mulheres indígenas e negros É imperativo escovar a História a contrapelo ou seja ir contra a versão oficial da História lutar contra a corrente permitindo assim que os verdadeiros heróis dos povos sejam conhecidos e homenageados BENJAMIM 1938 apud Löwy 2005 15 A palavra eugenia deriva do grego e significa bom em sua origem ou bem nascido Consiste em uma série de crenças e práticas cujo objetivo é melhorar a qualidade genética da população justificando que algumas raças são superiores às outras 16 Para Florestan Fernandes os de baixo são os pertencentes às classes sociais subordinadas 33 Conforme Benjamim apud Löwy 2005 a cultura não existiria sem o trabalho anônimo dos excluídos pois os tesouros culturais são construídos através da superexploração da força de trabalho daqueles que são marginalizados pelo sistema Assim o capitalismo promove o apagamento da memória dos de baixo bloqueando o acesso ao passado pois a rememoração serve à libertação pois conhecer sua própria história fortalece a luta dos oprimidos e a luta pode tornarse combustível para romper com a opressão Para a manutenção do status quo no capitalismo a tradição dos vencedores e a tradição dos oprimidos se opõem inevitavelmente É preciso portanto reescrever a história Escrever a história no sentido contrário expressão de Benjamin em sua própria tradução e recusar qualquer identificação afetiva com os heróis oficiais do V centenário os colonizadores ibéricos os poderosos europeus que levaram a religião a cultura e a civilização para os índios selvagens Isso significa considerar cada monumento da cultura colonial as catedrais do México ou de Lima O palácio de Cortez em Cuernavaca como também um produto da guerra da exterminação de uma opressão impiedosa BENJAMIM 1938 apud OWY 2005 p 18 Benjamim apud Lowy 2005 p20 faz uma crítica romântica à modernidade não no sentido de se conservar o passado e sim de através do seu conhecimento organizar uma revolução No que tange ao materialismo histórico dialético Benjamin não concebe a revolução como resultado natural do progresso mas como a interrupção de uma evolução histórica que leva a catástrofe a transformação dos seres humanos em máquinas de trabalho a degradação do trabalho a uma simples técnica a submissão desesperadora das pessoas ao mecanismo social a substituição dos esforços heroicorevolucionários do passado pela piedosa marcha semelhante a do caranguejo da evolução e do progresso Ainda de acordo com o autor em sua tese VIII a tradição dos oprimidos nos ensina que o estado de exceção é a regra A teoria da soberania para a qual o caso de exceção ao desenvolver instâncias de ditadura tornase exemplar quase obriga que a imagem do soberano se realize no sentido do tiranoBENJAMIM 1938 apud LOWY 2005 p 21 Para contextualizar essas teses foram escritas em 1940 quando Benjamin voltase para uma crítica marxista das formas capitalistas de alienação se distanciando das ilusões do progresso Esse debate em torno da memória e do esquecimento é urgente e necessário e diz muito sobre o futuro a ser construído pois a nossa história oficial é um aparelho ideológico de dominação da elite branca patriarcal e cristã que utiliza o falseamento da história dos as negros as apagando por exemplo a história de Zumbi dos Palmares 34 que foi um dos responsáveis por desarticular estruturas de poder em momentos da história do Brasil e elegendo como heróis os escravistas e bandeirantes O Brasil inserese na economia mundial como um país de capitalismo dependente que é uma forma periférica e dependente do capitalismo monopolista associando as formas nacionais e internacionais do capital financeiro e tem o racismo como elemento estruturante que abarca todo o sistema isto é o Estado brasileiro se forja de forma a permitir e perpetuar o racismo como garantia de manutenção da classe dominante no poder De tal modo os as negro as tiveram um lugar social estabelecido com base na hierarquização por sexo e raça o lugar do negro era ocupando os piores empregos e o lugar da negra era a da empregada doméstica ama de leite e mulata do carnaval Para a autora Lélia Gonzalez 1979 o mito da democracia racial criou o racismo por denegação no Brasil o qual a existência é negada apesar de ser uma realidade impedindo a consciência objetiva do racismo e suas práticas cruéis O racismo é perpetuado de diversas formas a história oficial do Brasil coloca negros as e indígenas em posição de submissão e quase nunca de sujeitos políticos ativos vivendo a dinâmica da sociedade As pesquisas etnográficas majoritariamente evidenciam somente a sua cultura e religião retratando negros as e indígenas como objetos da pesquisa sem descrever sobre a sua real situação No que tange a construção do pensamento social brasileiro conservador aos indígenas foram dados adjetivos como infantis submissos subservientes tendo ocupado papel de destaque na história nacional formulada pelo Instituto Histórico Geográfico Brasileiro IHGB somente a partir do século XIX Santos 2018 considera que duas frases uma de Francisco Adolfo de Varnhagen e outra de Karl Fridrich Philip von Martius elucidam bem o lugar que queriam que os indígenas ocupassem Elaborada por Francisco Adolfo de Varnhagen conhecido também por Visconde de Porto Seguro em seu livro História Geral do Brasil antes da sua Separação e Independência de Portugal De tais povos na infância não há história há só etnografia O autor referiase à ideia segundo a qual os povos indígenas estariam em um estado de barbárie e atraso por conseguinte não teriam uma história já que não eram civilizados Tal civilização apenas seria proporcionada pela colonização impulsionada por meio de contato com os europeus SANTOS 2018 p 32 Para Von Martius os indígenas ocupavam um papel inferior na formação social brasileira que precisava ser apagado para formar uma nação nova e organizada Autores brasileiros como Gilberto Freyre Caio Prado Júnior e Sérgio Buarque de Holanda 35 corroboraram para a imagem dos indígenas como raça subjugada que desapareceria não só por extermínio físico mas pela transformação do mesmo em mameluco17 Após a Segunda Guerra Mundial a Unesco Organização das Nações Unidas para Educação Ciência e Cultura investiu em pesquisas com rigor acadêmico sobre preconceito de cor e discriminação racial na cidade de São Paulo Nessa pesquisa18 trabalharam o sociólogo Florestan Fernandes e o antropólogo francês Roger Bastide que apontaram para a real situação do negro em sua trajetória social e histórica e que acabaram por desmistificar e negar que no Brasil vivíamos a tal democracia racial Essa pesquisa foi realizada em fins da década de 1940 e início dos anos de 1950 Fernandes e Bastide se preocuparam em relatar a traumatizante passagem dos as ex escravizados as para a condição de homensmulheres teoricamente livres Longe de ser um ato de piedade da Princesa Isabel como romanticamente se diz a abolição da escravidão deve ser encarada como desdobramento das lutas anti escravocratas que faziam pressão através de rebeliões e insurreições e que teve adesão de alguns setores da classe média e profissionais liberais da época Essas revoltas mostram que os as negros as não eram aqueles sujeitos submissos dos livros de história e que participaram efetivamente do processo de abolição da escravidão Fernandes 2008 evidencia o caráter revolucionário dos as escravizados as no processo abolicionista mas pondera sobre a utilização dos mesmos como estratégia dos brancos De um lado a revolução abolicionista apesar de seu sentido e conteúdo humanitários fermentou amadureceu e eclodiu como um processo histórico de condenação do antigo regime em termos de interesses econômicos valores sociais e ideais políticos da raça dominante A participação do negro no processo revolucionário chegou a ser atuante intensa e decisiva principalmente a partir da fase em que a luta contra a escravidão assumiu feição especificamente abolicionistas Mas pela própria natureza da sua condição não passava de uma espécie de ariéte19 usado como massa de percussão pelos brancos que combatiam o antigo regime FERNANDES 2008 p 30 Clóvis Moura 1983 também avalia o papel revolucionário dos as negros as e destaca que eles as eram postergados perante as vitórias Dessa forma O Negro durante a escravidão lutou como escravo por objetivos próprios Mas lutou também em movimentos organizados por outros segmentos sociais e políticos A sua condição de escravo porém levava a que mesmo nesses movimentos ele não fosse aproveitado politicamente Após a Abolição o mesmo acontece O Negro exescravo é acionado em 17 Mamelucos são os filhos oriundos das relações entre brancos e indígenas 18 Essa pesquisa deu origem à obra Brancos e Negros em São Paulo 1955 19 Aríete é uma antiga máquina de guerra que foi utilizada nas Idades Antiga e Média para romper muralhas ou portões de castelos fortalezas e povoações fortificadas 36 movimentos de mudança social e política participa desses movimentos mas é preterido alijado pelas suas lideranças após a vitória dos mesmos MOURA 1993 p 125 Os indígenas também passaram por semelhante processo durante a segunda metade do século XVIII os portugueses criaram o Diretório dos Índios20 que foi responsável por várias intervenções nos hábitos indígenas como a miscigenação através dos casamentos interétnicos trabalho regular e ensino da língua portuguesa no que eles reagiram Entretanto os povos indígenas não ficaram apáticos às pretensões metropolitanas suas ações reações e manifestações foram diversas no mundo colonial agiram conforme a necessidade surgida em seu cotidiano fugindo guerreando negociando adaptandose entre outras Fixandose nas vilas não ficaram inertes à demanda colonial Ao depararem com algum abuso cometido por colonos sobre si ou suas famílias ou quando percebiam que a condição de livres que lhes fora impetrada pela legislação vigente não estava sendo respeitada desenvolveram estratégias na tentativa de mudar aquele panorama SANTOS 2018 p 83 Verificase nessas duas passagens que mesmo negros as e indígenas tendo participado ativamente dos movimentos abolicionistas em prol de sua liberdade e em busca dos seus direitos os as mesmos as eram denegados pela classe dominante branca que agia conforme os seus interesses excluindoos de qualquer possibilidade de emancipação Por conseguinte ainda que fornecendo ingredientes políticos para o movimento apesar de que todas as formas assumidas pelas tensões sociais expressas no comportamento do escravo propiciaram o substrato social para a ação dos abolicionistas é inegável que a atuação daquele não teve nem pode adquirir imediatamente caráter político Notase contudo que não teve mas assumiu configuração política Por intermédios de homens livres que organizam ou lideram o abolicionismo o comportamento do cativo acaba adquirindo uma significação política notável MOURA 1990 p 15 Com as fugas e rebeliões dos escravizados e a assinatura da Lei Áurea em 13 de maio de 1888 juridicamente deuse o fim da escravidão no Brasil o que não significa que na prática ela tenha acabado e que a situação do povo negro tenha melhorado muito pelo contrário A inserção dos as negros as na ordem social competitiva não constituía interesse dos senhores de escravizados as que estavam preocupados apenas com a crise da lavoura Desse modo a Proclamação da República em 1889 e a instituição de uma democracia só teoricamente colocou negros as como livres e cidadãos pois nem as leis emancipacionistas prepararam negros as para a sociedade de classes nem houve 20 Diretório dos Índios foi uma lei elaborada em 1755 e tornada pública em 1757 por D José I rei de Portugal através de seu ministro o Marquês de Pombal que dispunha regras sobre os aldeamentos indígenas administradas por um diretor 37 reparação histórica para as atrocidades sofridas por eles As relações de classe se entrecruzam com as de raça pois Aqueles que conseguem varar as barreiras sociais qualificandose como técnicos ou como profissionais liberais logo se defrontam com barreiras raciais Promoção reconhecimento de valor e acesso a vários empregos são negados por causa da condição racial embora os pretextos apresentados escondam as razões verdadeiras FERNANDES 2017 p41 A proibição do tráfico negreiro através de leis que extinguiam a mão de obra escravizada acabou gerando uma crise no sistema de produção era preciso força de trabalho para a nova ordem social Ao invés da inserção da força de trabalho dos ex escravizados as as oportunidades foram dadas ao imigrante que se ajustou perfeitamente ao desejo das elites de embranquecer a sociedade brasileira A importação da mão de obra do imigrante branco acabou substituindo a mão de obra escravizada lançando os as exescravizados as a situações degradantes sem oportunidades de inserção Isto é o mito da democracia racial e o embranquecimento fazem parte de mais um discurso racialista Logo se descobriu que a imigração punha à disposição dos fazendeiros e do crescimento econômico urbano outro tipo de reserva de mão de obra a custos baixos As leis emancipacionistas golpearam ainda mais o modo de produção escravista e fortaleceram as duas preocupações a da preparação do negro para o trabalho livre e da importação de imigrantes como mão de obra barata Por fim prevaleceu a última tendência FERNANDES 2017 p 38 Na transição para o modo de produção capitalista o trabalho era uma das maiores preocupações das autoridades a grande massa que crescia de brancos pobres imigrantes e exescravizados as lutavam por sobrevivência causando uma tensão permanente na classe dominante A inexorável penetração do capitalismo subvertia as regras estamentais de uma sociedade em que numa visão ideal do ponto de vista dos escravistas funções de brancos e negros eram explícitas e sem possibilidade de intercâmbios Brancos passavam a ocupar postos de trabalho historicamente reservados aos escravizados e não podiam ser impedidos porque eram livres Escravizados e forros em contrapartida tinham ocupações que não haviam sido pensadas para eles ainda que sua mobilidade estivesse condicionada à gradação cromática estabelecida por aquela sociedade JACINO 2012 p 22 grifos do autor Assim a modernização e urbanização ocorridas no final do século XIX e início do século XX colocaram negros as em uma posição ainda mais desfavorável e desigual Com uma legislação que restringia a sua oportunidade de inserção no mercado de trabalho livre impedindoos de exercer funções que já estavam habituados nos tempos de escravizados as eles tiveram como principal concorrente o imigrante branco o que dificultou ainda mais a sua inserção na nova ordem social 38 Em vez de uma solução para a alocação da massa de libertos optouse pela imigração europeia com um êxodo de grandes proporções materializando assim a ideologia do branqueamento resultado da transposição para a sociologia e antropologia das teorias de Charles Darwin Essa formulação creditava aos europeus qualidades que julgavamse ausentes nos negros e nos nativos tais como disciplina social saúde física e mental e capacidade de administração da sociedade com uma perspectiva evolucionista JACINO 2008 p 4041 Através da legislação elaborada para desconstruir a instituição escravista associada ao êxodo de imigrantes europeus tinhase como ideal a constituição de uma sociedade moderna nos moldes dos países europeus e o mais distante possível de tudo que para a elite branca significava as Américas e a África Nos estudos feitos por Florestan Fernandes e Roger Bastide sobre a situação de negros as na cidade de São Paulo reflexões que deram origem ao livro Brancos e Negros em São Paulo 1955 os autores afirmam que no período pósabolição as oportunidades ofertadas aos exescravizados as não eram em nada vantajosas nos lugares onde ainda era próspera a agricultura do café a realidade dos as escravizados as libertos as eram as seguintes os exescravos tinham de optar na quase totalidade entre a reabsorção no sistema de produção em condições substancialmente análogas às anteriores e a degradação de sua situação econômica incorporandose a massa de desocupados e de semiocupados da economia de subsistência do lugar ou de outra região FERNANDES 2008 p 35 Até mesmo nos lugares onde a produção gerava altos lucros influenciando nos padrões econômicos e na organização do trabalho os as exescravizados as tinham que concorrer ou com um exército de reserva mantido fora das atividades produtivas ou com a mão de obra europeia que se mostrava mais adaptada ao novo regime de trabalho livre Nenhuma dessas condições proporcionava aos exescravizados as oportunidade real e digna de inserção na nova ordem social competitiva O trabalho livre não contou como uma fonte de libertação do homem e da mulher negros ele os coloca em competição com os imigrantes em condições desiguais Os empregadores consideravam os trabalhadores livres recém chegados uma opção melhor mais racional e compensadora FERNANDES 2017 p 39 Jacino 2012 p 22 afirma que em São Paulo a ideia de modernidade e suas consequências foram maximizadas pelo novo e empreendedor grupo de ricos agricultores As transformações na metrópole implicavam na expulsão de negros as fortemente identificados com o escravismo a ser superado do trabalho e de certos 39 lugares da cidade dando espaço a estrangeiros ou permitindo a ocupação por setores médios e das elites nas regiões centrais então valorizadas Dessa forma não houve nenhum movimento de preparação para os as ex escravizados as Assim os negros as estavam livres porém foram jogados para as franjas da sociedade sem trabalho e sem meios de prover a sua própria subsistência não foram sequer inseridos na sociedade de classes o que acirrou a desigualdade não só social mas principalmente racial entre negros as e brancos no Brasil O processo de industrialização resultou para os as negros as o subemprego e a pobreza A escravidão se esboroou mas o substituto e o sucessor do escravo não foi o trabalhador negro livre mas o trabalhador branco livre estrangeiro ou então o homem pobre livre mestiço ou branco porém sempre marginalizado sob o regime de produção escravista FERNANDES 2017 p 38 O que restou para os as exescravizados as livres no entanto nem sempre assalariados as foi morar em lugares precários subúrbios contando com os piores empregos e mais baixos salários A vida acontecia em volta dessa população porém eles não faziam parte da cidade do desenvolvimento da modernidade Em suma o racismo estrutura o capitalismo dependente21 a manutenção dos condenados do sistema22 se faz retirando até mesmo a possibilidade de venda da sua força de trabalho e quando há a possibilidade é de forma bem precária Assim a expropriação manifestase como forma do capitalismo existir e se reproduzir as desigualdades são funcionais para a lógica de produção e reprodução do capitalismo na medida que se tem uma força de trabalho mais desvalorizada como no caso dos homens negros e na pior situação as mulheres negras O homem negro no entanto foi peneirado ou selecionado negativamente Empurrado para a franja dos piores trabalhos e de mais baixa remuneração ele se sentiu subjetivamente como se ainda estivesse condenado à escravidão FERNANDES 2017 p 39 As relações sociais e de exploração da força de trabalho foram se metamorfoseando ajustando as estruturas do sistema de forma a continuar garantindo o prestígio a renda e o poder da classe dominante deixando fora do processo a classe trabalhadora 21 Florestan Fernandes dialogando com Marx Lenin e Trótsky elaborou o conceito de capitalismo dependente a partir da análise que o desenvolvimento do capitalismo brasileiro não se deu apenas por uma imposição imperialista e sim por uma conjunção de interesses da burguesia nacional e internacional Teve por base a lei do desenvolvimento desigual e combinado onde não houve ruptura do sistema colonial e sim um amálgama entre o arcaico e o moderno 40 Em suma a sociedade brasileira largou o negro ao seu próprio destino deitando sobre os seu ombros a responsabilidade de se reeducar e de se transformar para corresponder aos novos padrões e ideais de ser humano criados pelo advento do trabalho livre do regime republicano e do capitalismo FERNANDES 2008 p 3536 Os as exescravizados as continuavam em condições de sobrevivência de escravizados as passando para um processo de dominação e exploração da classe trabalhadora sob a égide de uma ideologia racista e patriarcal Em síntese a mercantilização do trabalho concorre apenas moderadamente para a mobilização do fator humano muito pouco para a constituição de uma massa de consumidores de efetivo poder aquisitivo e quase nada para a introdução de tendências mais equitativas de distribuição de renda FERNANDES 1968 p 49 Com a imigração europeia há uma alteração na estrutura demográfica na cidade de São Paulo os dados demográficos que Florestan Fernandes traz são de 1893 período pós abolição Só que o fator humano preponderante passou a ser o agente por excelência do trabalho livre o imigrante Em função dos números arrolados os estrangeiros entravam ainda com 62 do contingente da população descrita como branca e correspondiam quase a cinco vezes a população negra e mulata da cidade composta de 14559 indivíduos FERNANDES 2008 p 40 Negros as e indígenas no pós abolição iriam sobreviver para alimentar o subdesenvolvimento as velhas estruturas sociais se manteriam a luta de raça e classe estaria no palco da tão almejada modernidade brasileira Os velhos dilemas se reproduziam O preconceito e a discriminação se ocultavam por trás do tratamento racial assimétrico do branco da classe dominante e de outros tipos de brancos das iniquidades sociais econômicas e culturais da concentração racial da renda e da desigualdade racial extrema e o negro era empurrado a aceitar e a engolir tudo isso Não tinha como lutar e como romper socialmente com a herança da escravidão FERNANDES 2017 p 8182 De acordo com Jacino 2012 a legislação urbana da época explicitava através dos códigos de posturas o desejo de modernizar civilizar isso também significava embranquecer ou seja para a civilização da cidade os as negros as tinham que ser expulsos dos espaços vistos como privilegiados e tinham os seus hábitos criminalizados por exemplo no Código de Posturas de 1850 havia a punição com multa no valor de 6000 seis mil réis se fosse livre e 50 açoites se escravizado aqueles que jogassem água uns nos outros A saúde e a higiene também tinham relevância especial de acordo com Jacino 2012 p 24 a Postura Municipal de maio de 1875 determinava que toda pessoa que tivesse em sua família ou sob sua proteção algum louco furioso o recolhesse ao 41 Hospício de Alienados O lazer era privilégio dos homens bons e de suas famílias divertimento de pobres e negros as eram vistos com desconfiança O ócio para o pobre era crime como adverte o artigo 189 que promulgava toda a pessoa de qualquer sexo ou idade que for encontrada sem ocupação em estado de vagabundagem será mandado se apresentar a autoridade policial para assinar o termo que trata o código do Processo Criminal Percebese então que negros as foram alijados de todas as formas no processo de desenvolvimento do capitalismo não tinham acesso a empregos e quanto tinha eram subalternizados não podiam se encontrar sem ocupação nem aproveitar momentos de lazer tendo as suas práticas médicoreligiosas também criminalizadas O objetivo era de extinguirexterminar a raça negra De acordo com Jacino 2012 p 36 Outro instrumental importante para a compreensão da transição é a tese de que o mercado de trabalho livre não se opôs ao mercado de trabalho escravo ao contrário somavamse e tinham caráter complementar O escravizado despontaria como trabalhador mas sua força de trabalho não era negociada por ele no mercado A condição de trabalhadores que não vendiam a sua força de trabalho teria a partir do fim do tráfico como consequência para os exescravizados um destino incerto como trabalhadores Isto é um processo de arcaização do moderno e modernização do arcaico elementos da velha estrutura social compondo a nova ordem FERNANDES 1975 Para mostrar a situação degradante em que viviam negros e negras na cidade de São Paulo no pósabolição recuperamos um anúncio de emprego do Jornal Diário Popular de 1947 onde anunciavase a contratação de uma empregada branca isso é as mulheres negras não eram contratadas nem para os trabalhos subalternizados 42 Figura 3 Anúncio do Jornal Diário Popular 1947 O anúncio acima é do ano de 1947 porém encontramos uma reportagem de 2019 no site do Jornal O Tempo23 no qual consta um anúncio na cidade de Belo Horizonte Minas Gerais onde o perfil a ser contratado para a vaga de cuidadora de idosos seria de mulheres que não sejam negras nem gordas Figura 4 Anúncio divulgado no site O tempo Percebese então que o racismo se reinventa se mostrando em novas formas expondo que sempre houve a diferença de sexo no que diz respeito ao trabalho algumas situações particulares ainda são vivenciadas pelas mulheres negras Fernandes 2017 ressalta que para os homens foram ofertados os trabalhos sujos trabalhos arriscados a mulher negra mantinha a posição de doméstica ora trabalhando nos afazeres domésticos ora satisfazendo os desejos sexuais do patrão À mulher negra foi dado o papel de objeto sexual de mulata do carnaval amadeleite de criar os filhos dos brancos enquanto os seus estavam sendo criados sozinhos Como todo mito o da democracia racial oculta algo para além daquilo que mostra Numa primeira aproximação constatamos que exerce sua violência simbólica de maneira especial sobre a mulher negra Pois o outro lado do endeusamento carnavalesco ocorre no cotidiano dessa mulher no momento em que ela se transfigura na empregada doméstica É por aí que a culpabilidade engendrada pelo seu endeusamento se exerce com fortes cargas de agressividade É por aí também que se constata que os termos mulata e doméstica são atribuições de um mesmo sujeito A nomeação vai depender da situação em que somos vistas GONZALEZ 1984 p 228 Para Gonzalez 2020 p202 ainda hoje podemos constatar como as escolas de samba as gafieiras as festas de largo etc são transadas como modernas senzalas onde 23 Disponível em httpswwwotempocombrcidadesanunciodeempregoembhexigecandidatas quenaosejamnegrasougordas12261344 Acesso em 01022021 43 os sinhozinhos brancos vão exercitar sua dominação sexual e a indústria turística está aí mesmo para reforçar e lucrar com essa prática Não é por acaso que o sistema criou a moderna profissão de mulata para as jovens negras continuarem a ser exploradas agora como produtos de exportação Além disso a abordagem de Lélia Gonzalez 1984 traz uma reflexão relacionando sexo raça e classe denominada interseccionalidade inscrevendo para o debate o mito da democracia racial a partir da figura da mulher negra Para a autora o discurso produzido em torno dos negros colocava a mulher negra em uma tríade mulata doméstica e mãe preta Os textos só nos falavam da mulher negra numa perspectiva socioeconômica que elucidava uma série de problemas propostos pelas relações raciais Mas ficava e ficará sempre um resto que desafiava as explicações E isso começou a nos incomodar Exatamente a partir das noções de mulatas doméstica e mãe preta que estavam ali nos martelando com sua insistência GONZALEZ 1984 p225 Para Abdias do Nascimento 2016 os as africanos as escravizados as só tinham um papel na sociedade que era correspondente à sua função na economia ou seja força de trabalho isso quer dizer que eles não mereciam nenhuma consideração como seres humanos no que diz respeito à constituição de uma família A proporção entre homens e mulheres era de uma mulher para cinco homens e as poucas mulheres estavam impedidas de estabelecer qualquer estrutura familiar estável A norma consistia na exploração da africana pelo senhor escravocrata e este fato ilustra um dos aspectos mais repugnantes do lascivo indolente e ganancioso caráter da classe dirigente portuguesa O costume de manter prostitutas negroafricanas como meio de renda comum entre os escravocratas revela que além de licenciosos alguns se tornavam também proxenetas24 NASCIMENTO 2016 p 73 Além disso Jacino 2008 em seu livro O Branqueamento do trabalho apresenta elementos importantes para pensarmos as circunstâncias em que viviam as mulheres negras na transição do trabalho escravizado para o trabalho livre Uma das características do homem livre era a possibilidade de ser provedor da família mas a realidade histórica da mulher negra livre teria sido de garantir a sua própria sobrevivência Essa circunstância gerava tensões adicionais entre cônjuges pois aquela mulher não se enquadrava no padrão que a sociedade branca exigia dela que o homem negro buscava como símbolo do branqueamento que a possibilidade de ascensão social implicava JACINO 2008 p 30 Assim ponderamos que as mulheres negras além das expropriações sofridas ao longo do tempo sem emprego morando em locais insalubres e trabalhando como 24 Proxeneta vulgarmente conhecido como cafetão ou seja procura e administra clientes para uma prostituta 44 empregadas domésticas e amas de leite ainda sofriam a exploração sexual vinda dos escravocratas A mulher negra pagou e paga ainda hoje o preço da herança deixada por Portugal da estrutura patriarcal de família sendo como veremos mais adiante considerada na contemporaneidade a parcela mais vulnerável da população brasileira As mulheres negras brasileiras receberam uma herança cruel ser o objeto de prazer dos colonizadores O fruto desse covarde cruzamento de sangue é o que agora é aclamado e proclamado como o único produto nacional que merece ser exportado a mulata brasileira Mas se a qualidade do produto é dita ser alta o tratamento que ela recebe é extremamente degradante sujo e desrespeitoso NASCIMENTO 2016 p 20 A história do Brasil foi construída através do etnocídio das expropriações de povos originários promovendo o apagamento da memória e o extermínio de tudo que representa a cultura do povo negro indígenas e mulheres Nunca houve cidadania ou democracia para o povo negro os as negros as só estavam livres formalmente mas não eram considerados cidadãos e não estavam incluídos no processo de modernização das cidades o que nos leva ao seguinte questionamento desenvolvimento para quem Os negros viviam dentro dos muros da cidade e não participavam de seus dinamismos a não ser como exceção que confirma a regra Em consequência o negro engolfase em uma terrível tragédia Ele apenas estava presente sem ser participante ou sendo participante de maneira ocasional Essas condições históricosociais alimentaram a preservação de velhas estruturas sociais e mentais FERNANDES 2017 p 81 Ainda que o Brasil tenha sido o último país da América Latina a abolir a escravidão o racismo não deve ser visto como mera herança escravocrata pois ele estrutura as relações sociais no capitalismo brasileiro e revitalizase em elementos dinâmicos trazidos para a contemporaneidade Por ser um elemento estrutural e estruturante o que observamos é que nunca houve um real rompimento com a ordem social escravocrata mas a manutenção do racismo no contorno das relações sociais e de produção caracterizando a condição colonial permanente25 Podemos dizer que o racismo é uma forma sistemática de discriminação que tem a raça como fundamento e que se manifesta por meio de práticas conscientes ou inconscientes que culminam em desvantagens ou privilégios para indivíduos a depender do grupo racial ao qual pertençam ALMEIDA 2015 p 25 25 Para Florestan Fernandes 1968 p 26 essa condição se altera continuamente primeiro se prende ao antigo sistema colonial depois se associa ao tipo de colonialismo criado pelo imperialismo das primeiras grandes potências mundiais O que varia porque depende da calibração dos fatores externos envolvidos é a natureza do nexo da dependência a polarização da hegemonia e o poder de determinação do núcleo dominante 45 Com a Proclamação da República em 1889 instaurase o presidencialismo e o regime republicano e a promessa de um país democrático promulgase em 1891 a Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil que decreta em seu artigo 72 inciso 2º que todos são iguais perante a lei Juridicamente não haveria mais diferença de raça sexo nem crença religiosa mas na prática a vida não funcionava dessa forma não para os as negros as e indígenas Desta feita o que podemos perceber é que o racismo é um elemento estruturante e estrutural das relações sociais e de produção do desenvolvimento do capitalismo no Brasil Isso porque o desenvolvimento do capitalismo brasileiro não ocorreu de forma clássica pois não houve uma Revolução Burguesa Clássica26 já que não vivemos o feudalismo como na Europa por exemplo O capitalismo no Brasil se deu pela via não clássica se forjando de acordo com Fernandes 2005 pelos padrões compósito de hegemonia burguesa e padrão dual de expropriação do excedente econômico ou seja houve uma superexploração da força de trabalho que alimentava tanto a economia interna como a externa e a burguesia local conciliando os seus interesses com o imperialismo A convergência de interesses burgueses internos e externos fazia da dominação burguesa uma fonte de estabilidade econômica e política sendo esta vista como um componente essencial para o tipo de crescimento econômico que ambos pretendiam e para o estilo de vida política posta em prática pelas elites e que servia de suporte ao padrão vigente de estabilidade econômica e política Portanto a dominação burguesa se associava a procedimentos autocráticos herdados do passado ou improvisados no presente e era quase neutra para a formação e a difusão de procedimentos democráticos alternativos que deveriam ser instituídos na verdade eles tinham existência legal ou formal mas eram socialmente inoperantes FERNANDES 2005 p 243 Isto é houve uma conciliação entre a burguesia e as oligarquias agrárias voltada para atender as demandas dos países de capitalismo central o que configurou o Brasil como país de capitalismo dependente Para garantir os preços da produção cafeeira o Estado comprava o excedente dessa produção com o dinheiro conseguido através do empréstimo feito aos organismos internacionais e mais uma vez para atender as demandas da oligarquia agrária Considerando que a revolução burguesa envolve rupturas que não foram realizadas pela burguesia brasileira o que observamos é que o desenvolvimento das 26 Em suas análises Florestan Fernandes procurou distinguir a forma clássica da revolução burguesa tal qual se operou nas sociedades capitalistas centrais e hegemônicas das transformações ocorridas nos países de economia dependente Nas revoluções burguesas clássicas como a Francesa e a Inglesa os mecanismos políticos econômicos e ideológicos garantiram à burguesia o desenvolvimento das relações capitalistas de produção e o exercício da dominação social e da hegemonia política sobre os demais segmentos da sociedade contemporânea 46 relações sociais foram dissociados da democracia de participação ampliada em detrimento de uma democracia restrita Desta feita no Brasil não se trata de restaurar a democracia mas de instaurar a democracia afirma Fernandes 1980 p 30 Dessa forma a constituição da burguesia brasileira se forjou em um estado de heteronomia econômica e cultural ou seja dependente e com a menor margem de autonomia possível em relação aos países imperialistas A burguesia brasileira emergia assim com fortes traços do regime colonial e subordinada aos países de capitalismo avançado A vista disso apesar de viver em uma ordem social competitiva e arfar pela modernização e pelo desenvolvimento a mentalidade da burguesia brasileira ainda era e ainda é a do senhor rural uma burguesia plutocrática27 que exaltava a propriedade privada fazendo com que a oligarquia cafeeira se transformasse na classe burguesa operando o processo que Fernandes 1975 identificou como o aburguesamento do senhor rural O esforço necessário para alterar toda a infraestrutura da economia parecia tão difícil e cara que esses setores sociais e suas elites no poder preferiram escolher um papel econômico secundário e dependente aceitando como vantajosa a perpetuação das estruturas econômicas constituídas sob o antigo sistema colonial FERNANDES 2009 p 11 Dialogando com a obra de Trotsky Florestan Fernandes 2005 considera que o capitalismo na dinâmica mundial se desenvolve de forma desigual e combinada pois o arcaico e o moderno se mesclam realçando a desigualdade e rompendo com a ideia etapista ou linear do desenvolvimento Há uma revitalização de elementos novos e velhos e por trás desse amálgama uma política sendo conduzida essa combinação é o próprio cálculo capitalista inerente ao desenvolvimento do capitalismo pela relação estabelecida entre imperialismo e capitalismo dependente como duas faces do mesmo projeto de dominação burguesa Essa inserção subordinada e dependente do Brasil na ordem capitalista e imperialista implicou a sua adequação aos padrões de acumulação de capital o que consequentemente intensificou a exploração e extração de maisvalor e precarizou as relações de trabalho Tal processo instituiu uma forma política com determinações pelo alto um Estado forte leiase violento e repressor se impondo a uma sociedade civil fraca O Estado não tinha apenas uma forma autocrática mas também um caráter autocrático isto é 27Plutocracia sistema político no qual o poder é exercido pelo grupo mais rico 47 A burguesia brasileira estabeleceu uma associação mais íntima com o capitalismo financeiro reprimiu com violência qualquer ameaça operária e transformou o Estado no seu instrumento Assim configurou uma dominação heterogênea e compósita que não rompeu com a dependência e reorganizou o padrão de dominação externa fazendo com que o passado se repita no presente pelo caráter autocrático e opressivo da dominação burguesa FERNANDES 2005 p 255 O caráter autocrático opressivo e racista do capitalismo brasileiro pode ser verificado nos valores e ideologias das elites nativas do poder oligarquia e o pensar e agir fundamentados na mentalidade capitalista ou seja repressão aos movimentos organizados pela classe trabalhadora e de democracia para os mais iguais FERNANDES 2019 p 61 Assim a passagem para o sistema monopolista se deu fortalecendo o Estado burguês sem a participação da classe operária a burguesia oligárquica forjava uma aliança com o imperialismo e o latifúndio Essa junção teve como base a transplantação de padrões ibéricos adaptados ao trabalho dos nativos ou a escravidão ou seja havia uma expansão urbana forjada num pensamento colonial que defendia a ordem social competitiva e o sistema de castas e estamentos no qual não há mobilidade social As revoluções burguesas atrasadas caracterizamse pelo fato de que a sua direção política foi monopolizada por burguesias ultraconservadoras e dependentes que ao fechar o circuito político à participação das massas populares e selar uma associação estratégica com o imperialismo acabaram por associar capitalismo e subdesenvolvimento SAMPAIO JÚNIOR 2001 p2 Ao converter a apropriação privada dos meios de produção e a mercantilização do trabalho a organização capitalista condicionou a estratificação social que gerava a sociedade de classes dividida entre os detentores dos meios de produção e os possuidores apenas da força de trabalho sendo que as chances de ascensão social permaneciam quase inexistentes De fato a economia capitalista dependente está sujeita como um todo a uma depleção permanente de suas riquezas existentes ou potencialmente acumuláveis o que exclui a monopolização do excedente econômico por seus próprios agentes econômicos privilegiados Na realidade porém a depleção de riquezas se processa à custa dos setores assalariados e destituídos da população submetidos a mecanismos permanentes de sobreapropriação e sobreexpropriação capitalistas FERNANDES 1975 p45 Essa estratificação classifica quem entra e quem não entra no mercado de trabalho assalariado isto é quem não entra se transforma em condenado do sistema Todavia como a modernidade não rompe com o antigo sistema colonial pois os dinamismos da sociedade de classes no capitalismo dependente se relacionam com a tal modernidade em condições negativas a manutenção da ordem social competitiva só se 48 dá assegurando a renda o prestígio e o poder da classe dominante o que consequentemente aumenta ainda mais a desigualdade social e racial Doutro lado as novas fronteiras não escondem mais o que significa a liberdade inerente ao capitalismo dependente a persistência da satelitização numa era em que ela requer para manterse e alastrarse o endurecimento político e por vezes a militarização do Estado com a transformação do presidencialismo autoritário e das ditaduras tradicionais em formas dissimuladas de fascismo ou parafascismo A América Latina encontra sua modernidade o que alguns interpretam como o momento decisivo da história mas sob convulsões econômicas sociais e políticas perturbadoras FERNANDES 1975 p 66 Reforçando a estrutura colonial vivida na escravidão a modernidade custou um preço muito alto para aqueles que não foram inseridos na sociedade de classes os as negros as sempre sentiram o peso da estrutura de um Estado racista quer seja no regime escravista ou na ordem social competitiva não foram de forma alguma incluídos no desenvolvimento Por isso para Almeida 2015 o racismo é estrutural e uma relação de poder que se manifesta em circunstâncias históricas já que para que ele se perpetue é preciso o aparato do Estado que utiliza a política mas não se restringe a ela Mantendo a vigência do antigo sistema colonial para não destruir o caráter explorador da colonização acentuase o caráter autocrático racista e reacionário do Estado a favor da repressão e em nome da ordem agudizase o racismo estrutural O que quer dizer que o capitalismo selvagem da periferia contém a sua razão política intrínseca salta do tradicionalismo para uma modernização ultrarreacionária O mandonismo se converte com a modernidade em autoritarismo sem máscara o que transforma o caráter do despotismo burguês que se desprende da dominação racional com relação a fins e valores para se configurar como uma dominação abertamente autocrática FERNANDES 2006 p125 O racismo e o autoritarismo são constantes no pensamento social e político brasileiro a inferiorização social e racial dos as negros as e indígenas reproduzida pelo aparelho racista do Estado e endossado pelo racismo científico engendraram uma imagem de negros as e indígenas como raças selvagens e inferiores fazendo da miscigenação das raças uma alternativa de embranquecimento da sociedade O mito da democracia racial por muito tempo embasou a tese de que no Brasil negros as brancos indígenas e tantas outras raças conviviam harmonicamente essa teoria foi endossada por algumas obras escritas no século XX como a famigerada obra de Gilberto Freyre Casa GrandeSenzala que é uma das mais relevantes no que tange a afirmação da teoria da democracia racial 49 Gilberto Freyre antecipavase na elaboração de uma interpretação social do Brasil através das categorias casagrande e senzala colocando a nossa escravidão como composta de senhores bondosos e escravos submissos empaticamente harmônicos desfazendo com isso a possibilidade de se ver o período no qual perdurou o escravismo entre nós como cheio de contradições agudas sendo que a primeira e mais importante e que determinava todas as outras era a que existia entre senhores e escravosMOURA 2019 p 40 Esse mito foi utilizado pelas elites no intuito de esconder a realidade brasileira que mostrava desde cedo uma acentuada desigualdade não só econômica e social mas principalmente racial vivida no país A manutenção das estruturas coloniais que remetem à escravidão tinham como objetivo continuar garantindo riqueza prestígio social e poder à classe dominante Os fatos e não as hipóteses confirmam que o mito da democracia racial continua a retardar as mudanças estruturais As elites que se apegaram a ele numa fase confusa incerta e complexa de transição do escravismo para o trabalho livre continuam a usálo como expediente para tapar o sol com a peneira e de autocomplacência valorativa Pois consideremos o mito não os fatos permite ignorar a enormidade da preservação de desigualdades tão extremas e desumanas como são as desigualdades raciais no Brasil FERNANDES 2017 p3334 Clóvis Moura 2019 ressalta como a literatura e os romancistas ajudaram na construção dessa imagem estereotipada que é a reprodução desse pensamento social brasileiro o ideal de beleza e os valores dos brancos A finalidade dessa postura era de um lado descartar o negro como ser humano e heroico para colocálo como exóticobestial da nossa literatura e de outro fazerse uma idealização do índio em oposição ao negro Não se abordava o índio que se exterminava nas longínquas dimensões geográficas daquela época destruído pelo branco O índio do romantismo brasileiro era por tudo isso uma farsa ideológica literária e social MOURA 2019 p 51 A dominação tem várias facetas incluindo o campo ideológico pois há nesse processo uma captura da subjetividade do indivíduo que por ter a sua identidade e memória suprimidas o objetivo é que ele não se reconheça como negro e quando se reconhece começa um processo de negação das suas origens e de sua ancestralidade porque o padrão cultural e social não é um padrão negro e sim um padrão branco europeu Se a formação cultural é construída através da história de registros e os negros e os indígenas sofreram o apagamento dessa memória como se reconhecer A história é escrita por uma elite dominante branca Lélia Gonzalez 1984 utiliza a psicanálise para elucidar esse processo destacando a importância de conhecer as noções de memória e consciência Como consciência a gente entende o lugar do desconhecimento do encobrimento da alienação do esquecimento e até do saber É por aí que o discurso ideológico se faz presente Já a memória a gente considera como o 50 nãosaber que conhece esse lugar de inscrições que restituem uma história que não foi escrita o lugar da emergência da verdade dessa verdade que se estrutura como ficção Consciência exclui o que memória inclui Daí na medida em que é o lugar da rejeição consciência se expressa como discurso dominante ou efeitos desse discurso numa dada cultura ocultando memória mediante a imposição do que ela consciência afirma como a verdade GONZALES 1984 p 226 O discurso dominante ou os efeitos desse discurso ocultam a memória e contam uma história que não é verdade pois existe um profundo silenciamento sobre a história do povo negro a partir da perspectiva das relações raciais Os as negros as e indígenas tiveram suas memórias destruídas a destruição dos quilombos o genocídio de indígenas e o aniquilamento das aldeias indígenas tudo isso que faz parte da memória foi apagado O capitalismo precisa promover esse apagamento para se desenvolver e reproduzir a história do Brasil é a história do genocídio e precisamos urgentemente recuperar a história desse povo A classe dominante se apropria até da história que conta uma versão açucarada dos acontecimentos passados ignorando as lutas do povo elegendo heróis da elite e deixando de lado aqueles saídos do povo BENEDITO 2011 p13 Para Moura 2019 e Gonzales 1984 o escritor Oliveira Vianna através de suas obras endossou a relação entre o autoritarismo e o racismo deixando nítido quais eram os objetivos das classes dominantes os mais altos interesses nacionais impõem que se faça entrar no país o maior número possível de elementos étnicos superiores a fim de que no epílogo do caldeamento possamos atingir um tipo racial capaz de arcar com as responsabilidades de uma grande situação28 Esse texto foi escrito após a implantação do Estado Novo como justificativa para o autoritarismo e para a continuação das estruturas oligárquicas Esta política fenotípica procurou e procura fazer com que os componentes de grupos específicos negros fujam das suas origens procurando assimilar a escala de valores e padrões brancos MOURA 1983 p 126 O autoritarismo racismo e superexploração da força de trabalho marcante nas relações de dominação no capitalismo dependente aniquilam as possibilidades de uma revolução contra a ordem e apresentam o mínimo possível de ações constitutivas da revolução dentro da ordem tendo como características o uso da violência e uma democracia restrita ou seja a repressão é imposta entre outras pela militarização do Estado excluindo qualquer possibilidade de aspiração democrática A questão da democracia começa por ser um desafio a desobediência civil sistemática e generalizada gerando no presente a negação da ditadura de 28 Retirado do livro O Estado Autoritário e a Realidade Nacional Rio de Janeiro José Olympio 1960 51 minorias poderosas e sua substituição por uma democracia organizada pela e para a maioria pois não poderá haver democracia em outras condições FERNANDES1980 p 129 Conforme Fernandes 1975 acentua a revolução dentro da ordem seria realizada dentro dos marcos das relações capitalistas possibilitando uma ampliação da participação política da classe trabalhadora com objetivo de superar a ordem burguesa Já a revolução contra a ordem seria no sentido do socialismo contra a ordem burguesa e contra o capitalismo transformando de forma estrutural a sociedade capitalista A burguesia ganhava assim as condições mais vantajosas possíveis em vista da situação interna 1º para estabelecer uma associação mais íntima com o capitalismo financeiro internacional 2º para reprimir pela violência ou pela intimidação qualquer ameaça operária ou popular de subversão da ordem mesmo como uma revolução democráticoburguesa 3º para transformar o Estado em instrumento exclusivo do poder burguês tanto no plano econômico quanto nos planos social e político FERNANDES 2005 p 255 No afã de expandir a ordem social competitiva algumas frações da burguesia transformaram a abolição da escravidão em uma revolução dos brancos para atingir objetivos dos brancos com o intuito não de extinguir a escravidão propriamente dita mas de através dela impulsionar a economia e se organizar como nação Não houve colapso e sim uma transição O que muitos autores chamam com extrema impropriedade de crise do poder oligárquico não é propriamente um colapso mas o início de uma transição que inaugurava ainda sob a hegemonia da oligarquia uma recomposição das estruturas do poder pela qual se configurariam historicamente o poder burguês e a dominação burguesa Essa recomposição marca o início da modernidade no Brasil FERNANDES 2005 p 239 Além de não inserir os as negros as na sociedade de classes o capitalismo promove o apagamento da memória desses povos como forma de se reproduzir e criminalizar a resistência para dessa forma impedir qualquer ameaça de revolução contra a ordem incluindo a queima de arquivos Ruy Barbosa manda queimar os arquivos e o governo entra em entendimento com países europeus para conseguir substituir a nossa população egressa da senzala por outra branca Entra então em funcionalidade a ideologia do branqueamento que nada mais é do que uma tática para desarticular ideológica e existencialmente o segmento negro a partir da sua autoanálise MOURA 1993 p 126 Pensamentos embasados no determinismo biológico ou geográfico deram início ao racismo científico ou seja a cor da pele e o clima da região que morava serviam para justificar certos tipos de comportamentos considerados imorais essas características coincidentemente eram pele olhos e cabelos escuros e mandíbulas 52 volumosas Esses estudos embasaram a criminologia científica no final do século XX Famoso pela obra O Homem Delinquente Cesare Lombroso ficou conhecido por ter sido forte influenciador do Direito Penal Brasileiro Para Almeida 2015 o termo raça é um fenômeno da modernidade que remonta a meados do século XVI sendo assim a história da raça é a história da constituição política e econômica das sociedades contemporâneas A expansão burguesa e a consequente cultura renascentista transformaram o europeu no homem universal e consequentemente os outros homens em versões menos evoluídas do ser humano Essa busca incessante pela civilização modernidade e liberdade desembocou no colonialismo o plano era levar civilização para os considerados primitivos mesmo que para isso houvesse mortes e expropriações Ora é nesse contexto que a raça emerge como um conceito central para que a aparente contradição entre a universalidade da razão e do legado iluminista o ciclo de morte e destruição do colonialismo e na escravidão possam operar simultaneamente como os fundamentos irremovíveis da sociedade contemporânea ALMEIDA 2015 p22 A classificação pela raça surgiu como justificativa para o extermínio das raças consideradas inferiores como aconteceu com negros as e indígenas que foram comparados com animais Sobre os indígenas americanos a obra de Cornelius de Pauw é emblemática Para o escritor holandês do século XVIII os indígenas americanos não têm história são infelizes degenerados animais irracionais e cujo temperamento é tão úmido quanto o ar e a terra que vegetam Já no século XIX um juízo parecido com o de Pauw seria feito pelo filósofo Georg Wilhelm Friedrich Hegel acerca dos africanos que seriam sem história bestiais e envoltos em ferocidade e superstição ALMEIDA 2015 p 22 Dessa forma examinar a formação social brasileira pressupõe apreender que raça e classe estão imbricadas entre si e que o Estado utiliza o seu aparato ideológico para acentuar as desigualdades raciais e sociais As classes subalternadas passam pelo temor da coerção do Estado o uso do aparato repressivo não deixa para a classe trabalhadora nem os direitos fundamentais O período da Primeira República no Brasil que compreende os anos de 1889 a 1930 foi marcada pelo uso da coerção do Estado as expressões da questão social29 eram vistas como caso de polícia para garantir a hegemonia da classe que detinha o poder 29 não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado É a manifestação no cotidiano da vida social da contradição entre o proletariado e a burguesia a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão Iamamoto Carvalho 1995 p 77 53 econômico e político Para Carvalho 2000 o período pósabolição foi marcado por lançar a mão de obra escrava no mercado de trabalho livre que estava em formação o que fez aumentar o número de desempregados as e subempregados as Esses trabalhadores expropriados de suas terras a maioria expulsos as das fazendas de café foram morar nos grandes centros habitando cortiços moradias insalubres e precárias Como forma de resistência e reivindicando melhores condições de vida nesse mesmo período tiveram início as primeiras formas de organização da classe operária no final do século XIX tendo ocorrido dois importantes Congressos o primeiro Congresso Socialista Brasileiro em 1892 e em 1906 o primeiro Congresso Operário Brasileiro O Brasil passava por uma transformação rumo a industrialização e modernização dessa forma a nova ideologia do trabalho vinha acompanhada de vigilância e repressão por parte do Estado exercidos por autoridades policiais e judiciárias com o intuito de moldar a força de trabalho às exigências do capital Era necessário que o conceito de trabalho ganhasse uma valoração positiva articulandose então com conceitos vizinhos como os de ordem e progresso para impulsionar o país no sentido do novo da civilização isto é no sentido da constituição de uma ordem social burguesa O conceito de trabalho se erige então no princípio regulador da sociedade conceito este que aos poucos se reveste de roupagem dignificadora e civilizadora CHALHOUB 2001 p 48 No entanto o controle no que diz respeito ao trabalho se expandiu para os momentos e lugares de sociabilidade desses indivíduos Conforme indica Mattos 2008 esse processo atingiu também os espaços de sociabilidade e moradia da classe operária incidindo sobre os padrões de conduta familiar e social Chalhoub 2001 afirma que aqueles que não possuíam trabalho e apresentavam algum comportamento interpretado como rebeldia foram estigmatizados como sendo a classe perigosa vadios promíscuos indivíduos que precisavam ser corrigidos através do encarceramento para se transformarem em trabalhadores Qualquer ameaça de oposição da classe trabalhadora aos interesses hegemônicos da classe burguesa era enfrentada com repressão a frase questão social como caso de polícia dita pelo então Presidente da República Washington Luís sintetiza o pensar e agir do Estado No Brasil a desigualdade racial é marcante então os considerados vadios classe perigosa eram em sua esmagadora maioria negros as que desde os tempos da escravidão não tiveram oportunidades de trabalho dignas se vendo obrigados a procurar meios alternativos de sobrevivência 54 Como forma de punir os hábitos e costumes da população negra foi criada em 1937 a Seção de Entorpecentes Tóxicos e Mistificação para combater as práticas dos cultos de matriz africana umbanda e candomblé e o uso da maconha criminalizando o que eles denominaram de baixo espiritismo incluindo o samba e a capoeira como forma de apagar e reprimir a cultura afro e indígena BARROS PERES 2011 A criação da Inspetoria de Entorpecentes e Mistificações em 1937 denunciava o setor responsável por perseguir as religiões era o mesmo para reprimir o comércio e consumo de tóxicos A Inspetoria representava a repressão conjunta de tudo que pudesse levar à loucura à alienação à doença mental e ao crime A associação entre magia e loucura era absolutamente comum pois reinava a ideia de que o meio era promíscuo o local as pessoas a música a dança tudo era favorável à degeneração mental SAAD 2015 p 121 A repressão tinha caráter racial pois além da perseguição e intolerância religiosa com relação às religiões de matriz africana houve também a destruição de cortiços jogos de bicho a proibição de práticas como a capoeira e a obrigatoriedade das vacinas também faziam parte do mecanismo de controle dos pobres Com relação à economia após os anos 1930 há uma tripla pressão externa quando da expansão do capitalismo monopolista internacional interna através da pressão do proletariado e das massas populares e a terceira intervenção direta do Estado na esfera econômica que culminou no Golpe Militar de 1964 A tomada de poder por Getúlio Vargas 1930 1945 aconteceu após a Revolução de 1930 que destituiu o Presidente Washington Luís e impediu a posse de Júlio Prestes apoiado pela oligarquia e pelos tenentistas Governo marcado pelo populismo30 aprofundou a intervenção do Estado na economia a partir da legislação social e do trabalho atendendo a interesses de várias camadas da sociedade entre elas a burguesia oligárquica Do ponto de vista político a centralização do poder é a grande marca de Getúlio que implementa um governo forte e inaugura um discurso nacionalista tendo em vista transferir para si as bases de poder arraigadas nos regionalismos de que São Paulo é o exemplo mais típico A centralização já dá mostras a partir do governo provisório 19301934 e se acentua ainda mais com seu segundo golpe em 1937 conhecido como Estado Novo a pretexto da manutenção da segurança nacional que estaria ameaçada pelo levante comunista de 1935 SANTOS 2012 p 73 A ameaça do comunismo colocava em risco a ordem e o progresso dessa forma em nome da manutenção da segurança nacional o uso da militarização do 30 Populismo é um conjunto de práticas políticas que se justificam num apelo ao povo geralmente contrapondo este grupo a uma elite Não existe uma única definição do termo que surgiu no século XIX e tem obtido diferentes significados desde então 55 Estado é frequente os militares davam o tom da conversa tendo papel fundamental na sua ascensão e queda 1930 marca também a mudança de orientação quanto às respostas estatais para a questão social Muito embora situe as primeiras medidas de legislação sobre o trabalho na República Velha o período que vai até 1945 é considerado como um marco em relação ao volume e perfil diferenciado que esta legislação vai assumir como resposta à questão social Na Constituição de 1934 o Estado tanto preservaria os direitos sociais quanto regularia os contratos de trabalho com a carteira de trabalho as profissões e os sindicatos através do Ministério do Trabalho e essas características ficariam conhecidas juntamente com o controle ideológico do governo sobre os sindicatos como corporativismo sindical SANTOS 2012 p 75 As lutas populares e a constante reivindicação dos direitos da classe trabalhadora mudavam a forma como o Estado tratava as expressões da questão social O objetivo do Estado era negar e reprimir a questão social como forma de escamotear a luta de classes e os conflitos existentes mas com a pressão vinda da classe trabalhadora essa época ficou marcada pelo reconhecimento oficial dos sindicatos dos trabalhadores O Brasil passava então para o período que ficou conhecido como republicano democrático 19451964 que tem início pela posse de Dutra e é regido pela Constituição aprovada em 1946 havia interesse na privatização do Estado e é quando o Brasil passa para a industrialização pesada O processo de redemocratização que sucede a queda do Estado Novo traz novamente o traço de uma transformação pelo alto de acordo com Vianna 1978 Para Fausto 1997 p 389 essas e outras circunstâncias fizeram com que a transição para o regime democrático representasse não uma ruptura com o passado mas uma mudança de rumos mantendose muitas continuidades SANTOS 2012 p 76 Para Fernandes 2006 p 14 Nesse momento constituemse concomitantemente as bases materiais sobre as quais repousa o poder da burguesia assim como as estruturas políticas o Estado através das quais a dominação e o poder burguês se expressarão e se exercitarão como um poder unificado como interesses especificamente de classe que podem ser universalizados impostos por mediação do Estado a toda comunidade nacional e tratados como se fossem os interesses da Nação como um todo Todo esse processo se consolida com o golpe civilmilitar de 1964 que tinha suporte na doutrina da Segurança Nacional e sob argumentação de purificar a democracia de seus elementos subversivos Santos 2012 p 85 Vários elementos sociopolíticos têm estreita relação com a estrutura econômica do capitalismo dependente é uma ordem social que se mostra antinacional e anti democrática evidenciando a cada momento a sua blindagem ultraconservadora e permanentemente dependente Essas características fazem parte da condição colonial permanente no qual as estruturas econômicas e sociais ficam intactas e essa condição 56 vai se redefinindo durante a história com a heteronomia econômica social e política constante Essa blindagem ultraconservadora juntamente com o caráter racista e opressor da burguesia brasileira é expressa através do Estado cada vez mais autocrático e violento que vai incidir diretamente nos rumos da construção da política de controle aos psicoativos leiase controle aos corpos negrospobresperiféricos De acordo com Boarini e Machado 2013 as políticas públicas de combate aos psicoativos no Brasil são recentes pois até a década de 20 não havia nenhuma regulamentação oficial com relação ao uso das substâncias consideradas ilícitas que teve o seu marco no processo de industrialização Segundo Carvalho 2011 a primeira lei específica sobre psicoativos no Brasil foi sancionada pelo Presidente Epitácio Pessoa O Decreto nº 4294 de 6 de julho de 1921 estabeleceu penalidades para os contraventores na venda de cocaína ópio morfina e seus derivados criou um estabelecimento especial para internação dos intoxicados pelo álcool ou substâncias venenosas estabeleceu as formas de processo e julgamento e mandou abrir os créditos necessários Diário Oficial da União 1921 p 13407 Com a criação da Comissão Nacional de Fiscalização de Entorpecentes CNFE em abril de 1936 e a criação do decreto 780 designavase ao Estado brasileiro cuidar da higiene mental e lutar contra os venenos sociais De acordo com Carvalho 2011 a CNFE encomendou várias pesquisas sobre o problema das drogas algumas foram publicadas entre elas a Maconha Coletânea de Trabalhos Brasileiros organizada pelo Serviço Nacional da Educação Sanitária mais precisamente em 1938 foi publicada uma regulamentação sobre drogas que reconhecia a necessidade de fiscalizar o uso de entorpecentes Essa regulamentação foi estabelecida no Decreto Lei nº 891 que reafirmava a condenação do ópio e da cocaína e incluía nessa classe drogas como a maconha e a heroína Quanto ao uso o mesmo documento classificou a toxicomania como doença de notificação compulsória que não podia ser tratada em domicílio Nesses casos ou até mesmo nos de intoxicação por bebidas alcoólicas a internação em hospital psiquiátrico era tida como obrigatória quando determinada pelo juiz ou facultativa como indica o artigo 29 parágrafo 1º do Decreto Brasil 1938 BOARINI MACHADO 2013 p 583 Esse decreto que definia que a internação compulsória se daria nos casos de toxicomania por entorpecentes ou em outros casos quando fosse adequado ao enfermo ou conveniente à ordem pública ia ao encontro às aspirações do Governo Getúlio Vargas para conter comportamentos desviantes e manter o foco no trabalho Em 1940 foi editado o Código Penal que previa o crime de tráfico e de posse de substâncias entorpecentes punido com reclusão de um a cinco anos As infrações 57 entraram na categoria dos crimes contra a saúde pública Em 1964 adicionouse ao crime a ação de plantar e em 1968 incluiuse preparar ou produzir explicitandose ainda que as mesmas penas se aplicariam a quem trouxesse consigo para uso próprio substâncias entorpecentes Segundo Boarini Machado 2013 criase em 1976 a lei 6368 que estimulava ações referentes à prevenção e à repressão ao tráfico e ao uso indevido de substâncias entorpecentes causadoras de dependência física ou psíquica Essa lei retirou o caráter compulsório dos tratamentos hospitalares mas intensificou a utilização de medicamentos no tratamento de usuários de psicoativos Essas primeiras décadas do século XX evidenciam que a problemática das drogas no Brasil esteve em grande parte de sua história mais conectada às questões de segurança do que às de saúde pública tendo como enfoque a repressão em detrimento da prevenção Esse posicionamento estava de acordo com o cenário internacional principalmente dos Estados Unidos que em 1971 através do Presidente Nixon declarou os psicoativos como o inimigo número um estava instaurada a Guerra às Drogas Em 1980 foi instituído o Sistema Nacional de Prevenção Fiscalização e Repressão de Entorpecentes através do Decreto nº 85110 o qual normatizou o Conselho Nacional de Entorpecentes COFEN O Fundo de Prevenção Recuperação e de Combate às Drogas de Abuso FUNCAB veio com a Lei nº 7560 de 1986 sendo constituído entre outros pelos bens e valores apreendidos no contexto do tráfico de drogas tanto aqueles utilizados para as atividades ilícitas como delas provenientes Este Fundo originou o atual Fundo Nacional Antidrogas FUNAD A Secretaria Nacional de Entorpecentes foi criada em 1993 através da Lei nº 8764 sendo um órgão de supervisão acompanhamento e fiscalização da execução das normas estabelecidas pelo Conselho Federal de Entorpecentes bem como de promoção da integração do Sistema Nacional de Prevenção Fiscalização e Repressão de Entorpecentes aos órgãos dos Estados e Municípios que exerçam atividades nesses aspectos A Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Lei considere crime inafiançável e insuscetível de graça ou anistia o tráfico ilícito de entorpecentes art 5º XLIII O Conselho Federal de Entorpecentes CONFEN foi transformado no Conselho Nacional Antidrogas CONAD em 1998 e foi criada a Secretaria Nacional Antidrogas SENAD que em 2002 mobilizou diversos atores envolvidos com o tema para a reformulação da política de drogas brasileira Assim por meio do Decreto 58 Presidencial nº 4345 de 26 de agosto de 2002 foi instituída pela primeira vez uma Política Nacional Antidrogas PNAD Em 2004 foi formulada uma nova Política Nacional sobre Drogas que baseada na Lei nº 104092002 estabeleceu os fundamentos os objetivos as diretrizes e as estratégias indispensáveis para que os esforços voltados para a redução da demanda e da oferta de drogas pudessem ser conduzidos de forma planejada e articulada Em 2006 foi aprovada a Lei nº 11343 que institui o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas SISNAD e prescreveu medidas para prevenção do uso indevido atenção e reinserção social de usuários e dependentes de drogas Conhecida como a nova lei de drogas tem como principal destaque a diferença do tratamento penal entre usuários e traficantes Para os usuários essa lei despenalizou o consumo substituindo a pena privativa de liberdade pela perda restritiva de direitos Já para os traficantes elevou a pena mínima de três para cinco anos de reclusão De acordo com Braga 2017 a Lei 1134306 foi aprovada com a intenção dos legisladores de diferenciar a figura do traficante à figura do usuário e dependente deslocando esse para o sistema de saúde e assistência social enquanto o traficante seria firmemente penalizado Observase no texto legal o usuário de drogas através de uma perspectiva médicosocial visto como indivíduo vulnerável e que deve ser objeto de políticas de saúde e sociais porém a conduta permanece criminalizada Quanto ao traficante verificase uma perspectiva punitiva mantendo a antiga figura estigmatizada que simboliza o mal e fornece o desejo aos usuários vulneráveis O art 28 define quem é o usuáriodependente quem adquire guarda tem em depósito transporta ou traz consigo para consumo pessoal drogas sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar sendo passivo de penas como advertência sobre os efeitos das drogas prestação de serviços à comunidade e medida educativa de comparecimento à programa ou curso educativo Quanto ao traficante o art 33 o define enumerando as ações de importar exportar remeter preparar produzir fabricar adquirir vender expor à venda oferecer ter em depósito transportar trazer consigo guardar prescrever ministrar entregar a consumo ou fornecer drogas ainda que gratuitamente sem autorização ou em desacordo com determinação legal ou regulamentar No entanto a Lei prevê que para determinar se a droga se destina a consumo pessoal ou para traficar o juiz observará a natureza a quantidade da substância apreendida as condições em que se desenvolveu a ação as circunstâncias sociais e pessoais bem como a conduta e os antecedentes do agente Essa modificação na legislação teve um reflexo negativo no aumento dos índices do encarceramento em 59 massa que tem sexo raça e classe Esse abrandamento das penas com relação aos usuários e o acirramento das penas para traficantes é considerado fator chave para o aumento da população carcerária negra pois protege os as brancos as e encarcera os as negros as Dito isso no recorte de sexo de acordo com a INFOPEN 2018 de 2000 a 2017 o número de mulheres em situação de cárcere aumentou 675 nesse período Com relação à faixa etária 2522 têm entre 18 e 24 anos e 2211 entre 25 e 29 anos No que diz respeito ao recorte racial 6355 se declararam negras Dessas mulheres aproximadamente 64 foram presas por tráfico de drogas uma diferença alarmante com relação ao segundo motivo dos delitos que é o roubo que aparece com 15 Geralmente essas mulheres são presas levando psicoativos para os seus companheiros na prisão Como foi possível perceber essa violência sexista não é algo que começou agora tem raízes coloniais que se transfiguram na contemporaneidade As mulheres negras foram alijadas não só das oportunidades de conseguir um trabalho digno como também foram expropriadas das profissões que já exerciam como curandeiras benzedeiras e parteiras e atualmente representam grande parte da população carcerária brasileira Como veremos no próximo capítulo o capitalismo se estrutura a partir dos elementos de expropriação que oprimem e seccionam a divisão social do trabalho criminalizando hábitos e costumes como práticas médicoreligiosas de povos originários entre elas o uso medicinal da maconha ou seja tudo que representa ameaça a ordem social vigente CAPÍTULO 2 PATRIARCADO EXPROPRIAÇÕES E SABERES Introdução Esse capítulo objetiva demonstrar a relação existente entre o uso das plantas na medicina popular e nos rituais religiosos que tiveram as mulheres como protagonistas por terem sido as primeiras curandeiras Tendo em vista o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado analisaremos como o desenvolvimento do capitalismo brasileiro promove a expropriação de saberes e conhecimentos ancestrais como forma de exterminar elementos importantes da cultura negra e indígena 21 Negros as e indígenas os guardiões ães do saber Ó que lua tão bonita lá no céu vem clarear ele é caboclo é caboclo curador cura seus filhos com o galho de uma flor Ponto de cura de caboclo do Terreiro Vovó Maria Redonda 60 Seres humanos sempre dependeram da natureza para sua sobrevivência tanto para a satisfação das suas necessidades básicas comer beber e se vestir quanto para a cura dos seus males físicos e espirituais Para Marx 1845 a busca da satisfação das necessidades é o que leva à produção dos meios para satisfazêla para ele esse é o primeiro ato histórico Assim o uso das plantas medicinais corresponde a uma das práticas mais remotas utilizadas por mulheres e homens para a cura prevenção e tratamento de doenças O homem primitivo buscou na natureza as soluções para os diversos males que o assolava fossem esses de ordem espiritual ou física Aos feiticeiros considerados intermediários entres os homens e os deuses cabia a tarefa de curar os doentes unindose desse modo magia e religião ao saber empírico das práticas de saúde a exemplo do emprego de plantas medicinais A era Antiga inaugurou outro enfoque quando a partir do pensamento hipocrático que estabelecia relação entre ambiente e estilo de vida das pessoas os processos de cura deixaram de ser vistos apenas com enfoque espiritual e místico ALVIM et al 2006 As ervas medicinais sempre estiveram ligadas não só a saúde física mas também ao campo espiritual sendo o seu uso essencial na relação entre os homens e as divindades para a cura dos seus males De acordo com Simon 2001 o uso de remédios à base de ervas remonta às tribos primitivas em que as mulheres se encarregavam de extrair das plantas os princípios ativos para utilizálos na cura das doenças À medida que os povos dessa época se tornaram mais habilitados em suprir as suas necessidades de sobrevivência estabeleceramse papéis sociais específicos para os membros da comunidade em que viviam O primeiro desses papéis foi o de curandeira Essa personagem desenvolveu um repertório de substâncias secretas que guardava com zelo transmitindoo seletivamente a iniciados bem preparados As doenças não tinham a mesma conotação que têm atualmente na Grécia Antiga por exemplo entre 2500 a 600 aC as doenças eram consideradas ligadas as causas sobrenaturais a epilepsia era considerada uma doença sagrada acreditavam que quando uma pessoa tinha uma crise convulsiva na verdade ela estava sendo tocada pelos deuses Como a crença era na relação da doença com a espiritualidade o tratamento era feito com banhos e chás de ervas medicinais Moreira 2004 p1 Foi a chegada da Medicina Hipocrática que floresceu na Grécia em meados do século IV e século V aC que rompeu com o pensamento mágico que ligava a epilepsia e outras doenças às causas espirituais trazendo para o debate que o Sistema Nervoso Central SNC era o principal responsável por causar a epilepsia No entanto mesmo 61 com as descobertas da medicina moderna as ervas medicinais nunca deixaram de ser usadas sendo a sua utilização repassada de geração a geração Para Araújo 2007 o registro de literatura sobre medicina herbária chinesa conhecida também como medicina popular mais antigo é o Pen Tsao de 2800 aC escrito pelo herborista chinês Shen Numg que descreve o uso de centenas de plantas medicinais na cura de várias moléstias ele catalogou 365 ervas medicinais De acordo com o referido autor O conhecimento sobre as plantas medicinais sempre tem acompanhado a evolução do homem através dos tempos Remotas civilizações primitivas se aperceberam da existência ao lado das plantas comestíveis de outras dotadas de maior ou menor toxicidade que ao serem experimentadas no combate às doenças revelaram embora empiricamente o seu potencial curativo Toda essa informação foi sendo de início transmitida oralmente às gerações posteriores e depois com o aparecimento da escrita passou a ser compilada e guardada como um tesouro precioso A Shen Numg também se atribui o primeiro uso da cannabis como medicamento na forma de infusão em 2700 aC ela era recomendada no tratamento da malária dores reumáticas ciclos menstruais irregulares e dolorosos Grosso 2020 p 1 Na história mundial os egípcios são a primeira referência na utilização de plantas como remédios o estudo das plantas e sua aplicação no tratamento de doenças recebeu o nome de fitoterapia sendo o Papiro de Ebers considerado um dos mais importantes tratados médicos datado de aproximadamente 1550 aC ARAÚJO 2007 Muitas caravanas chegavam ao Egito para comercializar especiarias como incenso mirra gengibre romã sálvia e açafrão a maioria desses produtos saíam da ilha grega de Creta Para Almeida 2011 Paralelamente ao que ocorreu no Egito os sumérios próximo ao terceiro milênio aC detinham conhecimentos que foram repassados para a humanidade através de escrita cuneiforme em placas de argila Dessas placas várias receitas foram traduzidas como o uso da beladona fonte de atropina do Cânhamo da Índia chamado Quinabu a Cannabis Sativa Lindicada para dores em geral bronquite e insônia Notase que antes de ser considerada proibida a maconha ou cannabis sativa era livremente transportada fazendo parte dos tratamentos da medicina popular em todo o mundo indicada principalmente para bronquite e insônia As mulheres que realizavam procedimentos de cura física e espiritual através das ervas medicinais ficaram conhecidas como bruxas Na verdade as bruxas eram as parteiras curandeiras as que faziam o aborto que acabaram por desenvolver algumas habilidades na área da medicina e obstetrícia com o auxílio das ervas medicinais e 62 baseando seus conhecimentos em experiências empíricas Mas porque foram tão duramente perseguidas e exterminadas A Idade Média foi um período cruel para toda a humanidade marcada por crises políticas sociais e perseguições religiosas A Caça às Bruxas ocorreu na Europa entre 1450 e 1520 tendo seu apogeu entre 1600 e 1650 conforme abordaremos no próximo item A bruxaria era considerada uma prática demoníaca praticada pelas mulheres e a forma de exterminálas foi queimandoas em fogueiras Um grande exemplo foi Joana Darc que salvou a França da derrota na Guerra dos Cem Anos contra a Inglaterra e que mesmo assim foi queimada Podemos dizer que a Caça às bruxas nunca teve fim ainda hoje as mulheres sofrem variadas expropriações dos seus corpos dos seus saberes hábitos e costumes A historiadora Silvia Federici 2017 em sua aclamada obra Calibã e a Bruxa faz um paralelo entre a chamada Caça às bruxas na Europa e a acumulação primitiva Para a autora a tentativa de destruição das mulheres agudizada na contemporaneidade está atrelada ao processo de acumulação do atual estágio do capitalismo Desta forma A caça às bruxas aprofundou a divisão entre mulheres e homens inculcou nos homens o medo do poder das mulheres e destruiu um universo de práticas crenças e sujeitos sociais cuja existência era incompatível com a disciplina do trabalho capitalista redefinindo assim os principais elementos da reprodução social Neste sentido de um modo similar ao ataque contemporâneo à cultura popular e ao Grande Internamento de pobres e vagabundos em hospícios e workhouses casas de trabalho a caça às bruxas foi um elemento essencial da acumulação primitiva e da transição ao capitalismo FEDERICI 2017 294 As práticas de bruxaria também foram vistas como ferramenta de insubordinação dos as escravizados as Os juristas magistrados e demonólogos31 criaram um aparato estatal de forma que a legislação penal criminalizasse essas práticas perseguição que tinha como objetivo o controle social Na Europa a Igreja Católica e o Estado deram vazão a essa perseguição que permitia o anonimato dos informantes que denunciavam essas práticas O desenvolvimento do capitalismo e o controle social através da intervenção estatal para manter a classe dominante no poder criou estratégias que aniquilassem toda e qualquer forma de resistência que fosse contrária a nova ordem social vigente do nascimento da ciência moderna e do desenvolvimento do racionalismo científico a bruxaria tornouse um dos temas de debates favoritos das elites intelectuais europeias Juízes advogados estadistas filósofos cientistas e teólogos se preocuparam com o problema escreveram panfletos e demonologias concluíram que este era o mais vil dos crimes e exigiram sua punição FEDERICI 2017 p301 31 Os demonólogos título concedido aos membros da ordem dominicana da Igreja tinham por objetivo desvendar a origem do mal assim como compreender toda a sistemática que circundava o diabo 63 As mulheres acusadas de bruxaria foram torturadas queimadas vivas acusadas de assassinarem crianças e de terem vendido sua alma ao diabo não tiveram nem a chance de dar o seu depoimento sabese apenas a versão do dominador Federici 2017 p 305 acredita que a Caça às bruxas foi um ataque à resistência que as mulheres apresentaram contra a difusão das relações capitalistas e contra o poder que obtiveram em virtude de sua sexualidade de seu controle sobre a reprodução e de sua capacidade de cura A batalha contra a magia sempre acompanhou o desenvolvimento do capitalismo até os dias de hoje O universo da magia ia na contramão dos ensejos do capitalismo visto que o domínio do conhecimento com relação aos elementos da natureza não era privilégio de todos e portanto representava algo que não poderia ser nem explorado nem dominado Dessa forma A magia constituía também um obstáculo para a racionalização do processo de trabalho e uma ameaça para o estabelecimento do princípio da responsabilidade individual Sobretudo a magia parecia uma forma de rejeição do trabalho de insubordinação e um instrumento de resistência de base ao poder O mundo devia ser desencantado para poder ser dominado FEDERICI 2017 p 313 O trabalho virou uma preocupação na Europa no século XVII pois havia uma espécie de colapso demográfico e uma das hipóteses é que a Caça às bruxas tenha sido uma tentativa de colocar o corpo feminino a serviço do aumento da população e da consequente acumulação da força de trabalho e como forma de controle da natalidade ou seja o capitalismo se apropriando do patriarcado As bruxas em sua maioria eram parteiras que tinham total conhecimento do controle reprodutivo feminino Contudo interpretar o declínio social da parteira como um caso de desprofissionalização feminina deixa escapar sua importância fundamental Há provas convincentes de que na verdade as parteiras foram marginalizadas porque não eram vistas como confiáveis e porque sua exclusão da profissão acabou com o controle das mulheres sobre a reprodução FEDERICI 2017 p330 Na Europa no período chamado Crise Geral nas décadas de 1620 e 1630 foi que o Estado produziu estratégias políticas através do regime de biopoder categoria utilizada por Foucault 1988 para sanar o problema da relação entre trabalho população e acumulação de riquezas Para o autor Biopoder é a crescente preocupação do Estado com o controle sanitário sexual e penal dos corpos dos indivíduos principalmente dos corpos femininos assim como a preocupação com o crescimento e os movimentos populacionais e sua inserção no âmbito econômico Nas relações de poder a sexualidade não é o elemento mais rígido mas um dos dotados de maior 64 instrumentalidade utilizável no maior número de manobras e podendo servir de ponto de apoio de articulação às mais variadas estratégias FOUCAULT 1988 p 98 Isto é havendo uma queda nos índices populacionais e isso significava uma futura escassez de força de trabalho para o desenvolvimento capitalista o Estado utilizou o seu poder para controlar as mulheres com relação à reprodução delas mesmas e das outras mulheres intensificando assim a perseguição às bruxas As provas desse argumento são circunstanciais e deve se reconhecer que outros fatores também contribuíram para aumentar a determinação da estrutura de poder europeia dirigida a controlar de forma mais estrita a função reprodutiva das mulheres Entre eles devemos incluir a crescente privatização da propriedade e as relações econômicas que dentro da burguesia geraram uma nova ansiedade com relação à paternidade e à conduta das mulheres FEDERICI 2017 p 170 Percebese que desde os primórdios o controle com relação ao corpo das mulheres esteve ligado à centralidade do trabalho para o desenvolvimento do capitalismo tornandose parte de estratégia do Estado para que além de reproduzir as curandeiras não fizessem o aborto daquelas que não desejassem continuar a gestação Coibindo a prática médica das parteiras expropriaram das mulheres a possibilidade de sua profissionalização enquanto médicas e obstetras pois a medicina dita científica hegemônica tomou esse lugar um lugar que era pouco acessível para as camadas pobres da população A substituição da bruxa e da curandeira popular pelo doutor levanta a questão sobre o papel que o surgimento da ciência moderna e da visão científica do mundo tiveram na ascensão e queda da caça às bruxas FEDERICI 2017 p 364 Percebese que toda essa perseguição tem a ver com valores determinados pela classe dominante isto é valores brancos cristãos e patriarcais quem ia contra esses valores era exterminado Quem eram esses sujeitos Negras negros mulheres e indígenas Na Europa e nas Américas uma das formas utilizadas pelo Estado para exterminar as práticas de bruxaria foi denominada Inquisição através do Tribunal do Santo Ofício agia em nome da Igreja Católica Romana com objetivo de combater a heresia sodomia adultério judaísmo e religiões de matriz africana O Tribunal do Santo Ofício instalarase em LisboaPortugal e o Brasil recebeu algumas visitas de Inquisidores que nomeavam clérigos que ficavam responsáveis por fiscalizar os hábitos e costumes que fossem divergentes do catolicismo GRAZIANI 2015 A perseguição 65 maior foi com relação às curandeiras que eram extraditadas para Portugal para serem julgadas e torturadas Federici 2017 p 413 afirma que a partir do século XVIII os inquisidores começaram a considerar que as práticas mágicas eram debilidades de pessoas ignorantes e que sendo assim já não representavam nenhuma ameaça para o domínio colonial A partir daí a preocupação com a adoração ao diabo se deslocou para as plantations que se desenvolviam com o emprego do trabalho escravo no Brasil no Caribe e na América do Norte onde a partir das guerras conduzidas pelo rei Felipe os colonos ingleses justificaram os massacres dos nativos americanos qualificandoos de servos do diabo FEDERICI 2017 p 413 A perseguição era a mesma os perseguidos mudavam ora mulheres livres ora escravizados as todos que representassem qualquer ameaça à ordem social vigente e atrapalhasse o desenvolvimento capitalista seria arduamente perseguido Segundo Souza 2014 o primeiro relato sobre pessoas que foram perseguidas pela Inquisição não por acaso foi de uma mulher negra presa em Minas Gerais De acordo com Souza 2014 p 466 Luzia Pinta preta forra solteira angolana moradora de Vila Sabará Minas Gerais foi presa em 16 de março de 1742 Era publicamente tida por calunduzeira32 posto que se vestia com trajes distintos dançava ao som dos atabaques entrava em transe receitava folhas do mato a pacientes adivinhava e cheirava a cabeça das pessoas para saber se tinham feitiços Foi condenada pela Inquisição de Lisboa por presunção de pacto Ainda segundo Souza 2014 a presença de variadas tradições culturais na colônia era intolerada pela Igreja Católica e pela metrópole o que impulsionou tentativas lusitanas de homogeneizar a humanidade animalesca e demoníaca no Brasil Federici 2017 acredita que a Caça às bruxas envolve muito mais do que crimes misóginos é um genocídio mesclado com intolerância religiosa e racismo que nunca teve fim pois representa uma das formas de reconfiguração do sistema capitalista para garantir a acumulação primitiva e criminalizar a resistência às imposições do sistema e parte dessa resistência vem da sabedoria ancestral do conhecimento das ervas da medicina popular do resguardo da memória tudo isso que o capitalismo quer apagar exterminar No Brasil os primeiros curandeiros foram os as indígenas e com o passar do tempo o mundo da magia se transformou em uma mistura de cultura europeia indígena 32 A matriz primordial dos rituais hoje denominados de umbanda nos quais persistiria ao lado dos orixás e cerimônias emprestadas ao candomblé como um traço a mais do sincretismo umbandista de origem afrolusoameríndiobrasileiro Luiz Mott op cit p 74 e p 81 66 e africana Destacamos nesse trabalho uma pesquisa etnobotânica realizada em 2012 com agricultores tradicionais Conhecimento popular de plantas medicinais do extremo sul da Bahia realizado por 180 sábios guardiões do conhecimento popular Esse projeto é fruto de uma articulação entre os Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra MST e o Núcleo de Apoio à Cultura e Extensão em Educação e Conservação Ambiental da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo NACE PTECA ESALQUSP A ideia inicial desse projeto era elaborar a inserção de espécies medicinais em sistemas produtivos de assentamentos agroecológicos do Movimento dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais Sem Terra MST posteriormente a Fundação Oswaldo Cruz FIOCRUZ foi solicitada para elaborar propostas para integrar o projeto de plantas medicinais no Sistema Único de Saúde SUS em quatro municípios do extremo sul da Bahia Itamaraju Alcobaça Prado e Teixeira de Freitas Cada sábio guardião assim são chamados os possuidores do conhecimento popular foi convidado a participar do Encontro de Validação do Conhecimento Popular onde seriam discutidos as experiências e conhecimentos empíricos de cada planta medicinal a partir do levantamento etnobotânico Abaixo inserimos uma tabela com os resultados desse estudo Tabela 1 Levantamento etnobotânico das plantas medicinais Planta ou fruto Uso popular Abacaxi Contra gripe asma bronquite e tosse controle do colesterol e problemas renais Acerola Controla pressão é expectorante usada contra febre gripe e resfriado Agasalhodeanú Contra dor de coluna Água de colônia Calmante controla a pressão contra problemas no coração renais e dores no corpo Alecrim Controla a pressão contra problemas cardíacos falta de ar dores no corpo cólicas menstruais e antiinflamatório Alevante Contra diarreia febre gripe cólica má digestão gastrite sinusite tosse tuberculose e pneumonia inflamações no útero e ovário Alfazema Calmante relaxante muscular antibiótico contra gripe febre e dor de barriga Usada contra catapora e sarampo Algodão Expectorante antiinflamatório contra tuberculose gripe dor de ouvido 67 Alho Controla pressão antiinflamatório expectorante contra febre gripe dor de cabeça Alumã Contra infecção intestinal má digestão gases Anador Contra infecção intestinal dor de cabeça dores no corpo gripe febre resfriado inflamação na garganta Araçá Contra cólicas intestinais infecções gástricas e diarreia também é usada como cicatrizante Arco de barril Antiinflamatório e contra dores na coluna Arnica Antiinflamatório cicatrizante usada em contusões fraturas ósseas alergias micoses de pele Também é usada como vermífugo em caso de oxiurose Aroeira Antibiótico cicatrizante antiinflamatório contra alergias da pele infecções gástricas dores no corpo dor de cabeça doenças sexualmente transmissíveis inflamação no útero e contra catapora Arroizinho Contra problemas na bexiga nos rins e infecções vaginais e na uretra também usada contra inflamações de útero e em caso de corrimento vaginal Arruda Contra dores nos olhos conjuntivite piolho infecções gástricas pressão alta dores no corpo e problemas no útero Também é usada no pós parto para limpeza do útero e na diminuição das cólicas menstruais Babadeboi Contra problemas nos rins e na coluna Babosa Antiinflamatório contra febre tratamento de câncer contra gripe cicatrizante vermífugo tratamento de gastrite contra dores na coluna contra enxaquecas expectorante e no combate ao piolho e caspa Bálsamodomato Contra dores no corpo e inflamações Batatadepurga Antiinflamatório vermífugo depurativo do sangue laxante também usada contra má digestão e problemas intestinais Bemmequer Contra febre dor de estômago tosse e reumatismo Bicuíba Cicatrizante antibiótico antiinflamatório contra problemas na próstata dor de coluna má digestão e problemas cardíacos Boldo Contra má digestão gastrite e problemas no fígado Brilhantina Contra problemas cardíacos e no útero controla o fluxo menstrual e a pressão alta contra dor de ouvido e inflamações Buscopan Cefalexina Analgésico antibiótico expectorante contra cólicas intestinais 68 Novalgina Ampicilina diarreia dor de cabeça e febre Buta Problemas no estômago e intestino gases gastrite úlcera má digestão e diarreia febre e vermífugo Cacau Contra gripe e hemorroidas Camará Expectorante usada contra gripe bronquite tosse e febre Camomila Calmante laxante usada contra cólicas problemas no estômago e no controle da pressão arterial Canademacaco Antiinflamatório contra dores na coluna contra corrimento vaginal problemas na bexiga nos rins e no útero Usada no tratamento da diabetes Canela Calmante antiemético contra febre gripe e tosse usada no controle da pressão arterial e como repelente Cansanção Usada para tratar coceira no corpo e dor de dente Capéba Diurético depurativo do sangue usada contra problemas cardíacos no fígado rins bexiga uretra e útero Capimestrela Diurético contra infecção urinária inflamação no ovário e problemas na bexiga Usada para tratar bronquite tuberculose e coqueluche CapimSanto Expectorante calmante controle da pressão alta e contra problemas digestivos gripe e febre CardoSanto Contra bronquite pneumonia e tuberculose usada para problemas no fígado estômago intestino má digestão controle de colesterol e tratamento de diabetes Carqueja Tratar febre problemas no estomago fígado e intestino Caruru Usada no tratamento da anemia Cebola Expectorante usada contra febre gripe tosse e no tratamento da diabetes Chapéudecouro Diurético antiinflamatório usada para tratar problemas nos rins bexiga útero e fígado Usada contra reumatismo e tuberculose Chuchu Usada no controle da pressão alta e colesterol tratar problemas cardíacos e diabetes Cinco folhasIpê Roxo Antibiótico contra dores na coluna alergias na pele e pedra nos rins Cipócaboclo Tratamento de alergias na pele CocodaBahia Hidratante antiinflamatório contra problemas renais má digestão 69 infecção intestinal problemas na uretra Confrei Antibiótico antiinflamatório diurético cicatrizante usada contra gastrite úlcera infecções intestinais dores no corpo problemas no pulmão e pneumonia Couve Usada para tratar anemia gastrite e úlcera Cravodaíndia Usada contra tosse febre gripe dores no corpo tuberculose bronquite asmática Também usado como repelente de insetos Cupúba Contra inflamações na garganta infecções intestinais gastrite alergias na pele e tosse Usada no tratamento de sapinho que é uma infecção causada por um fungo que se acumula na boca Doutorembira Contra infecções intestinais dores no estomago má digestão dores no corpo dor de coluna e inflamações Doutorgraveto Cicatrizante antiinflamatório contra dores no corpo e problemas na próstata EmbaúbaBranca Contra febre diabetes problemas no ovário e bexiga Usada no controle da pressão e do colesterol EmbaúbaRoxa Usada contra problemas na próstata pressão alta urina presa tosse e coqueluche Ervacidreira Calmante controla pressão alta usada contra problemas no estomago gases intestinais e má digestão Ervadoce Expectorante calmante controla pressão alta usada contra gases intestinais prisão de ventre e para dor de barriga em crianças Ervamoura Cicatrizante e usada como desinfeccionante Escadademacaco Contra dores na coluna Eucaliptoverdadeiro Descongestionante usada contra a gripe tosse sinusite e rinite Fedegoso Antibiótico antiinflamatório expectorante usada contra a febre gripe gases intestinais má digestão prisão de ventre e também para regular o ciclo menstrual Frutapão Antiinflamatório regula a pressão arterial e o colesterol usada contra gases intestinais caxumba e hérnia Gaxeta Contra dor de coluna e problemas na próstata Gengibre Antibiótico expectorante usada contra inflamações na garganta asma gripe e febre Gervão Antibiótico expectorante usada contra inflamações na garganta asma gripe e febre 70 Gindiróba Antiinflamatório vermífugo usada contra dor muscular infecção intestinal má digestão diarreia e reumatismo Guanapú Antibiótico usada contra diarreia e no tratamento da febre infantil Hortelãgrosso Expectorante usada contra problemas respiratórios pneumonia sinusite febre gripe tosse e gastrite Hortelãmiúdo Expectorante vermífugo usada contra febre gripe tosse bronquite gases intestinais e má digestão Imburana Expectorante usada contra dores musculares gripe gases cólicas intestinais febre dor de cabeça e para tratar náusea e vomito Jaborandi Contra dor de dente reumatismo e queda de cabelo Jaboticaba Usada no tratamento de gastrite e pedra nos rins Jatobá Antiinflamatório usada contra dor na coluna problema nos rins na próstata bronquite asma e tuberculose Usada no tratamento da anemia e pneumonia Laranjalaranjada terra Expectorante calmante usada contra febre gripe dor de cabeça e tosse Losna Vermífugo usada contra cólicas menstruais dores no corpo inflamações no útero e ovários além de problemas no estomago e fígado Manjericão Expectorante calmante usada contra gases intestinais inflamações na garganta febre gripe tosse Usada no controle da pressão arterial Maracujá Calmante usada para tratar insônia diabetes e controle da pressão arterial Maroto Expectorante antibiótico antiinflamatório usada contra bronquite pneumonia asma tosse tuberculose dor de dente dor de coluna e problemas renais Mentruz Vermífugo cicatrizante antiinflamatório usada contra problemas urinários e gastrite Mertiolate rifocina Cicatrizante Mucunapreta Usada contra enxaqueca e sinusite Muricí Usada no tratamento da diabetes Murula Usada para tratar dor de cabeça Negramina Antiinflamatório usada contra febre dor de cabeça dor nos rins alergias reumatismo e dores de coluna 71 Onzehoras ou Mariquinha Usada para tratar dor de dente Orapronobis coraçãodehomem Usada para tratar anemia gastrite e impingem Paualho Expectorante usada contra febre gripe dor de cabeça anemia dor de coluna diabetes e reumatismo Pauferro Usada para tratar diabetes e ferimento na pele Perpétua flor roxa Tratar febre cólicas e infecções intestinais Peruguai Usada para tratar alergias na pele Picão Picodemina Picodeagulha carrapichodeagulha maroto Usada para tratar icterícia amarelão problemas renais hepatite pedra na vesícula e problemas no fígado Pinhãobranco Cicatrizante laxante vermífugo usada contra problemas nos rins e intestino Pitanga Expectorante antiinflamatório usada contra febre gripe tosse inflamação de garganta e tratar catapora Piteira Usada para tratar alergias e dores na coluna Poáia poalha Usada contra tuberculose e pneumonia Poejo Calmante expectorante usada contra febre gripe resfriado bronquite infecção intestinal gases e diarreia Usada na limpeza do útero pósparto e para tratar cólicas menstruais Purgadocampo Antiinflamatório antibiótico vermífugo laxante usada contra infecção intestinal infecção urinária corrimento vaginal e problemas no útero Quebrapedra Usada para tratar problemas renais Quitoco Usada contra febre dores no corpo dor de dente gripe e erisipela Remeladecachorro Usada para tratar febre infecção intestinal desinteria e problemas na próstata Rinzinho boldodo chile Usada contra dor de estomago problemas no fígado cirrose diabetes e gastrite Saião Expectorante cicatrizante usada contra febre gripe bronquite tosse pneumonia e problemas respiratórios Usada também para tratar aftas e furúnculos Sapê Usada contra infecção intestinal febre alergias bronquite reumatismo e auxiliar o nascimento de dentes em crianças 72 Sena Usada no tratamento da infecção intestinal desinteria diarreia com sangue Taióba Usada para tratar anemia e prisão de ventre Tioiô tioiôcravo tioiôcheiroso Expectorante usada contra alergias da pele problemas respiratórios gripe sinusite febre tosse inflamação na garganta e má digestão Transagem Antiinflamatório cicatrizante expectorante antibiótico usada para tratar dores musculares infecção intestinal gastrite gripe resfriado inflamação na garganta pneumonia problemas urinários corrimento vaginal e inflamações no útero e nos ovários Usada na limpeza do útero no pósparto Tabela elaborada pela autora com base no estudo Conhecimento popular de plantas medicinais do extremo sul da Bahia 2012 A agroecologia é um dos instrumentos de resistência utilizados pelo MST que propõe uma construção alternativa de desenvolvimento do campo contra as duras e violentas investidas do agronegócio O modelo de desenvolvimento capitalista tem se mostrado cada vez mais ineficiente para promover justiça ou igualdade o que põe em xeque a sua função civilizadora Para além disso esse estudo realizado em 2012 sobre as plantas medicinais e a inserção do mesmo no SUS nos mostra o rumo do desenvolvimento o capitalismo se apropria da natureza explora os seus recursos e os transforma em remédios isto é o que antes podia ser colhido no quintal das casas começa a ser vendido nas farmácias aumentando o lucro do capital e dificultando o acesso das classes subalternas Por isso o conhecimento popular de parteiras curandeiras mães e pais de santo são perseguidos porque esse conhecimento passado de geração para geração o capitalismo não pode se apropriar A canela o limão o sene e a cânfora também foram descobertas interessantes no que tange aos benefícios nos tratamentos de determinados males No final do século XV com a abertura das rotas marítimas para as Índias e Américas foram sendo descobertas outras especiarias como o chá preto e o café ALMEIDA 2011 Paracelso físico suíço ficou conhecido pelos seus esforços em conhecer as substâncias responsáveis pela atividade farmacológica e a resposta terapêutica para cada espécie vegetal Na Grécia Pedacius Dioscórides escreveu a obra que foi posteriormente traduzida para o latim por humanistas do século XV chamada de Matéria Médica que por mais de 1500 anos durante o período grecoromano e na Idade Média foi considerada a bíblia de médicos e farmacêuticos ALMEIDA 2011 p 30 73 Desde os primórdios a humanidade engendrou uma estreita relação com as plantas construindo através de experiência empírica a medicina popular saber que era transferido principalmente através da oralidade O mundo passou por um grande intercâmbio de plantas África Oriente e América fazem parte de um grande roteiro o qual as plantas de um continente foram introduzidas em outro No Brasil a medicina popular e a utilização de ervas medicinais na cura de doenças tiveram forte influência de negros as escravizados as trazidos da África e dos indígenas que aqui habitavam no entanto as noções de doença e cura são diferentes para cada um desses povos O saber popular e o uso das plantas medicinais no Brasil atravessam o debate em torno das religiões de matriz africana no Brasil umbanda e candomblé e os rituais indígenas Os conceitos de saúde e doença fazem parte de uma evolução histórica que se relaciona com os contextos históricos econômicos sociais e políticos de cada sociedade De acordo com Scliar 2007 os conceitos de saúde e doença variam e não representam a mesma coisa para todas as pessoas em todas as épocas Por exemplo houve uma época em que o desejo de fuga de escravizados as era considerado uma enfermidade mental denominada drapetomania do grego drapetes escravo A falta de motivação para o trabalho entre os as negros as escravizados as também foi diagnosticada como enfermidade e recebeu o nome de disestesia etiópica Esses diagnósticos foram propostos pelo médico Samuel A Cartwright médico da região escravagista sul dos Estados Unidos O tratamento proposto era o do açoite SCLIAR 2007 Além disso por muito tempo os as negros as escravizados as foram vistos as como indivíduos responsáveis pelo trânsito de doenças não porque eram naturalmente doentes e sim porque as suas condições de vida trabalho e moradia impactava na sua condição de saúde O discurso médico do século XIX vê no negro escravo33 a causa de muitos males sua presença no seio da família é corruptora representando perigo físico e moral Muito embora para o pensamento médico higienista do Século XIX não prevalecessem assertivas de origem racial pesam mais os fatores sociais os associados às condições de vida Maio 2004 Poucas foram as propostas oficiais de atenção à saúde dos escravos e menos ainda as que foram acompanhadas por medidas que nem sequer eram cumpridas como observou Mercês Somarriba em estudo pioneiro sobre a medicina no escravismo colonial Somarriba 1984 PÔRTO 2006 p 3 33 A autora utilizava o termo escravo não fizemos as correções na citação pois seguimos as normas da ABNT 74 Algumas considerações se fazem necessárias primeiro como analisamos no capítulo um os as negros as escravizados as eram vistos como mercadoria e não como sujeitos segundo os senhores de escravizados as tinham medo de perdêlos pela morte ou pela fuga ou seja os cuidados médicos eram dispensados apenas para garantir que eles continuassem vivos para o trabalho terceiro os sintomas que eles relatavam eram constantemente negligenciados pois os senhores consideravam como fingimento da parte dos as escravizados as Por essa razão os as negros as tinham o seu próprio tratamento médico embora a Corte os considerassem charlatães muitos brancos chegaram a usar os serviços oferecidos pelos as negros as De acordo com Pôrto 2006 As lojas de barbeiro abundam nas cidades e em geral seus proprietários são negros ou mulatos hábeis cirurgiões na arte de sangrar e aplicar sanguessugas Também a presença de sangradores e curandeiros nos quadros da Santa Casa de Misericórdia já foi atestada Pimenta 2003 e não se limitava apenas à aplicação de sanguessugas ou à sangria O sangrador de certa forma ilustra a permeabilidade entre dois pólos de medicina a acadêmica e a popular A prática médica no Brasil resulta de trocas e apropriações de experiências entre europeus índios e africanos Esse amálgama de saberes enriquece desde os tempos da Colônia o receituário de mezinhas domésticas que constitui prática bastante comum no Brasil no século XIX tanto na zona rural como nas cidades PÔRTO 2006 p 4 Segundo Pimenta 1998 em 1856 os membros da Academia Imperial de Medicina se revoltaram quando o Presidente da Província autorizou um curandeiro africano de nome Manuel a tratar os doentes de cólera no Hospital da Marinha de Recife Em 1815 aconteceu o contrário o curandeiro Adão na cidade de MacacuRJ apresentou um abaixoassinado com 44 assinaturas dentre elas de tenentes alferes capitães e sargentos que apoiavam o seu ofício de curador já que ele havia aprendido a sangrar e tinha conhecimento das ervas medicinais Pimenta 1998 chama atenção para o fato da relação entre a medicina oficial e a medicina popular ter mudado em curto espaço de tempo Não existem muitos trabalhos sobre a história da Medicina no início do século XIX a não ser os documentos da Fisicaturamor que regulamentava e fiscalizava as atividades que pudessem interferir na saúde pública e com relação as práticas médicas em Portugal e nos seus domínios Observando o regimento e a própria documentação pude identificar uma hierarquia de práticas de cura seguidas pela Fisicaturamor A posição mais conceituada era a dos médicos ocupando os curandeiros a menos valorizada a meio caminho entre estes dois grupos estavam os licenciados a curar da medicina prática Os curandeiros representavam a contrapartida do conhecimento dos boticários sobre medicamentos Analogamente os cirurgiões eram vistos como mais preparados que os sangradores e as parteiras que exerceriam apenas uma parte de um conhecimento muito mais amplo que era a arte da cirurgia Entre essas categorias a das parteiras é aquela sobre a qual dispomos de menos informações A sua principal 75 característica era a de ser constituída exclusivamente por mulheres De modo geral as que exerciam práticas de cura e oficializavam suas atividades limitavamse à condição de mulheres parteiras ou curandeiras PIMENTA 1998 p 2 Escravizados as forros34 e mulheres desenvolviam atividades menos prestigiadas como sangrador parteira ou curandeiros Essa hierarquia reafirmava a lugar de cada um na sociedade e as práticas de cura populares eram desvalorizadas pela Fisicaturamor Os médicos cirurgiões e boticários consideravam o seu saber superior ao dos terapeutas populares mas não os desqualificavam totalmente pois o conhecimento destes sobre a natureza da região era valorizado Durante o período de existência da Fisicaturamor o contexto não era de medicalização da sociedade de imposição de padrões científicos de higienização das cidades de modificação e normalização de condutas o que torna a documentação da Fisicaturamor mais importante vez que depois de seu término não se tem notícia de outro qualquer órgão público que tivesse o objetivo de fiscalizar e autorizar práticas médicas as mais variadas registrando assim práticas populares de cura A partir da década de 1830 a relação entre a medicina popular e a medicina acadêmica mudou paulatinamente já não se tratava então de enquadrar minimamente as práticas populares nas concepções da medicina acadêmica mas simplesmente de desautorizálas PIMENTA 1998 p 4 Para serem aprovados na Fisicaturamor os agentes de cura populares tinham que se adequar às linhas da medicina acadêmica o que seria quase impossível Apesar dos seus serviços serem essenciais para a medicina as suas práticas não eram oficializadas As práticas terapêuticas ditas oficiais tinham como base a matriz europeia no que tange as concepções de doença e cura porém alguns medicamentos utilizados pelos médicos acadêmicos também era utilizado pela medicina popular ocorrendo também o oposto No ofício de sangradores os africanos eram a maioria sendo que dos 64 21 foram nascidos em Portugal e 13 no Brasil algumas comunidades indígenas também utilizavam a técnica da sangria Setenta e nove por cento dos pedidos para o exercício da arte da sangria provinham do Brasil entre os quais a condição jurídica do sangrador foi explicitada como forro ou escravo em 84 o que corresponde a 101 escravos e 63 forros em 193 pedidos dos casos Os sangradores podiam ser pessoas livres que na maior parte das vezes obtinham esta habilitação antes ou junto com a de cirurgiões Mas os escravos e forros praticamente eram sempre sangradores não podendo aspirar a nível hierárquico mais alto dentro dos princípios estabelecidos pela Fisicaturamor PIMENTA1998 p5 34 A carta de alforria era um documento através do qual o proprietário de um escravizado a rescindia dos seus direitos de propriedade sobre o mesmo O a escravizado a liberto a por esse dispositivo era habitualmente chamado de negro a forro a 76 Os as negros as escravizados as não eram proibidos de serem sangradores muito pelo contrário os membros mais bem posicionados da sociedade se negavam ao exercício de algumas ocupações inclusive a de sangrador deixando para os negros escravizados tal função Os negros viam nesse ofício uma possibilidade de conseguir dinheiro para comprar a sua liberdade ofício que só podia ser realizado pelo sexo masculino A documentação da Fisicaturamor não explica o porquê da sangria do ponto de vista da medicina acadêmica e muito menos do ponto de vista de quem a praticava sendo sempre bem objetiva quanto à definição dessa prática tratavase de sangrar sarjar aplicar bichas ventosas e sanguessugas A bibliografia porém apresenta alguns dados que podem levar à hipótese de que as pessoas que exerciam tais atividades de tradição européia reinterpretavamnas segundo as suas concepções familiares de doença e cura Ewbank 1973 por exemplo relata a prática de sangria realizada pelos africanos como uma tentativa de sugar os espíritos malignos e não os humores que havia em excesso segundo a medicina oficial Por outro lado alguns podem ter trazido da África a técnica de sangrar com ventosas pois o termo é encontradiço entre as medicinas Bakongo e Obi no oeste do continente africano PIMENTA 1998 p7 Segundo Pimenta 1998 a Fisicaturamor tinha poucos registros da função de curandeiro A Fisicaturamor queria delimitar a prática de curas populares e segundo eles os curandeiros seriam apenas substitutos temporários dos médicos Era preciso passar por provas teóricas e práticas para oficializarse como curandeiro ou sangrador o curandeiro era chamado para curar com ervas as enfermidades mais comuns caso não houvesse médicos diplomados para socorrêlos José Gomes Cruz morador na localidade de Rebelo termo da Vila de Macacu encaixavase perfeitamente no perfil de curandeiro da Fisicatura mor pois pedia para ser examinado a fim de poder continuar aplicando o conhecimento de remédios indígenas aos infelizes que a ele recorressem uma vez que soube que até é proibido praticar semelhantes atos sem preceder tal qual habilitação Seu exame feito em agosto de 1819 na casa do delegado do físicomor José Maria Bomtempo também foi bastante ilustrativo fazendoselhe perguntas sobre os conhecimentos que tinha de curar as enfermidades que acometem os habitantes deste clima e sobre a maneira de preparar os medicamentos com as ervas do país a tudo respondeu com inteligência dando ao dito examinando por aprovado Fisicaturamor caixa 1194 PIMENTA 1998 p9 A maioria dos atestados da Fisicaturamor relatava o tratamento de doenças sérias pelos curandeiros as quais nenhum médico ou cirurgião conseguiu tratar dessa forma percebese a superioridade dos curandeiros frente aos médicos oficiais A busca por oficialização por parte dos terapeutas populares era reduzida já que muitos deles há tempos já exerciam essa função segundo as suas concepções de saúde e doença em lugar de apenas pensar que os curandeiros tinham bastante clientela porque existiam poucos médicos podese considerar também que a existência de curandeiros em número razoável para atender à população restringiria a atuação dos médicos PIMENTA 1998 p 11 77 Muitas das moléstias que acometiam os as negros as escravizados as não se referiam às questões genéticas e sim às péssimas condições de vida em que viviam como a má alimentação e os maustratos e o tratamento em sua maioria era feito através de rituais que fundiam a espiritualidade e as ervas medicinais como ressaltados no capítulo dois Os negros servemse em geral de remédios baseados nas crendices que trouxeram da pátria atravessando o mar e que conservam zelosamente escreve o médico Johann Emmanuel Pohl em 1818 As relações dos escravizados com a saúde estão associadas a outra lógica de explicação da doença Um estudo mais amplo do legado do negro à prática médica ainda está por fazer PÔRTO 2006 p6 A autora aponta que a falta de estudos sobre a saúde dos as escravizados as na historiografia brasileira talvez seja decorrência da desatenção que a questão da assistência médica a força de trabalho escravizada teve ao longo do período da escravidão Para os povos originários a doença e consequentemente a saúde também tiveram e ainda tem a sua concepção mágicoreligiosa a qual acreditase que a causa da doença está no pecado ou na maldição Assim na Idade Média A doença era sinal de desobediência ao mandamento divino A enfermidade proclamava o pecado quase sempre em forma visível como no caso da lepra Tratase de doença contagiosa que sugere portanto contato entre corpos humanos contato que pode ter evidentes conotações pecaminosas O Levítico detémse longamente na maneira de diagnosticar a lepra mas não faz uma abordagem similar para o tratamento Em primeiro lugar porque tal tratamento não estava disponível em segundo porque a lepra podia ser doença mas era também e sobretudo um pecado O doente era isolado até a cura um procedimento que o cristianismo manterá e ampliará o leproso era considerado morto e rezada a missa de corpo presente após o que ele era proibido de ter contato com outras pessoas ou enviado para um leprosário Esse tipo de estabelecimento era muito comum na Idade Média em parte porque o rótulo de lepra era frequente sem dúvida abrangendo numerosas outras doenças SCLIAR 2007 p 3031 Os guarani Kaiowá provenientes do estado do Mato Grosso do Sul por exemplo têm uma visão de mundo específica que é centrada no teko porâ que significa correto modo de ser e de viver Entre os Kaiowá as práticas de cura não podem ser entendidas como um processo voltado exclusivamente a recuperação das condições de saúde dos indivíduos Elas estão na verdade intimamente ligadas a equilíbrios sociais e cósmicos que devem ser garantidos ou restabelecidos em contextos históricos territoriais e ambientais específicos nos quais esses indígenas desenvolvem sua existência individual e coletiva implementando uma particular tradição do conhecimento baseada no xamanismo MURA SILVA 2012 p 129 78 Para os Kaiowá o estado de doença é interpretado como denotativo de anomias sociais e cósmicas transcendendo a dimensão individual isto é a doença é uma questão social e espiritual Para eles o corpo é são quando a mente é sã sendo que as deformidades corporais são uma condição precária da alma no corpo Dessa forma eles estabelecem uma hierarquia entre a cura espiritual e a do corpo As doenças que manifestam sintomas como dor de barriga inclusive diarreias dores musculares e das articulações são geralmente tratadas pelos índios com o uso de plantas medicinais bem como de diversos tipos de gorduras de animais de caça Para isto os Kaiowa possuem uma ampla e detalhada farmacopeia MURA SILVA 2012 p 144 Com relação às doenças relacionadas a área da cabeça região que representa o ayvualma o uso da cura espiritual é mais eficaz quando a doença ainda não alcançou o estágio crônico nesses casos de cura eles recorrem aos curandeiros indígenas ou não indígenas residentes nos territórios de ocupação Kaiowa como afirmam Mura e Silva 2012 Entre as condições que levam ao enfraquecimento da ayvu tornandoa vulnerável temse por um lado o comportamento da própria vítima com a transgressão de normas sociais especialmente as relacionadas às práticas e tabus referentes a momentos críticos considerados como estados quentes isto é teko aku como por exemplo a primeira menstruação a gravidez e o parto a mudança de voz nos meninos etc MURA SILVA 2012 p144 O enfraquecimento da alma tem relação ao cumprimento das obrigações e preceitos designados para os tratamentos de cura a falta de responsabilidade do índio com essas obrigações pode tornálo suscetível às doenças relacionadas com a área da cabeça O tratamento terapêutico privilegia a cura espiritual feita por curandeiros ou xamãs mas nem todos os casos necessitam da presença do xamã quando os sintomas ainda são leves geralmente o ritual de cura é feito pelos próprios familiares pois existe uma hierarquia familiar e esse procedimento geralmente é realizado pelo mais velho da família eles acreditam que as doenças da alma podem ser causadas também pela incorporação de espíritos malignos como técnica verbal utilizamse nemboe rezas específicas cujo objetivo é localizar esfriar e enfraquecer o poder de quem eou do que causa a doença O nemboe é coadjuvado pelo peju sopro que contribui para o esfriamento do ponto doentio e subtrair os objetos eou espíritos causadores da doença do corpo da vítima Por sua vez essa técnica é acompanhada de gestuais com as mãos denominadas jovasa em que nesse caso se captura e posteriormente se afasta a causa do mal MURA SILVA 2012 p145 Para os Kaiowá a saúde é um momento de crise em que deve haver uma profunda reflexão sobre os acontecimentos e comportamentos sociais e não individuais 79 que podem ter causado essa desordem no indivíduo Esse momento de crise envolve questões ambientais sociais e espirituais Ao contrário da medicina tradicional onde é o médico quem direciona os tratamentos os rituais de cura dos Kaiowa não estão nas mãos dos curandeiros ou xamãs e sim são norteados pelos usuários baseados em uma tradição de conhecimentos construídos diariamente através de experiências que os levem ao bom viver ou teko porã ALMEIDA 2004 p 30 Já para os KaririXocó área indígena localizada no município alagoano de Porto Real do Colégio o universo da doença envolve não só questões biológicas mas principalmente cósmicas e espirituais onde o indivíduo pode ser causador da doença produto de sua conduta Para eles as doenças se classificam em de cima para baixo e de baixo para cima e podem coexistir em uma mesma doença Existem entre os KaririXocó pelo menos duas categorias de doenças que eles distinguem quanto aos critérios etiológicos de cima para baixo e de baixo para cima As doenças de cima para baixo atingem a matéria enquanto as doenças de baixo para cima atingem o espírito Segundo eles as de baixo para cima não podem ser tratadas pela biomedicina pois os médicos não compreendem esse tipo de problema e agem somente sobre a matéria daí a ineficácia de certos tratamentos As doenças de cima para baixo podem ser tratadas simultaneamente pela biomedicina e por especialistas índios ALMEIDA 2004 p 36 As doenças de baixo para cima geralmente ocorrem quando o indivíduo está com o corpo aberto ou seja está em situação de vulnerabilidade sendo que um feiticeiro pode criar uma situação na qual o indivíduo fica com o corpo aberto Essas doenças podem ter vários agentes tanto visíveis feiticeiros e pessoas comuns como invisíveis espíritos Entre os KaririXocó as doenças de cima para baixo têm sua etiologia envolvendo forças superiores são consentidas por Deus podendo ou não estar relacionadas com a maldade dos homens Elas atingem as pessoas porque Deus quer assim eou porque somos pecadores e temos que sofrer e não por falta de cuidado As doenças de cima para baixo têm causas diversas e são tratadas concomitantemente pela biomedicina e pelos especialistas nativos ALMEIDA 2004 p 40 O tratamento xamânico35 registra as causas enquanto a biomedicina faz o registro dos efeitos O conhecimento e uso das plantas são essenciais nos tratamentos de cura dos KaririXocó essa sabedoria ancestral é passada de geração em geração Eles não excluem a biomedicina acreditam que a fitoterapia e a biomedicina em alguns casos devem caminhar juntas Para eles os remédios de farmácia têm eficácia mas causam efeitos colaterais quando a doença atinge não só o espírito mas também a 35 Xamanismo termo usado em referência a práticas etnomédicas mágicas religiosas e filosóficas que envolvem a cura através do contato entre corpos e espíritos 80 matéria eles orientam o indivíduo a procurar a biomedicina porém eles reclamam que o contrário não acontece pois os médicos não acreditam na medicina indígena Uma das ervas mais utilizadas pelos KaririXocó é a Jurema considerada por eles como a erva sagrada muito conhecida no Nordeste brasileiro utilizada tanto em beberagens como em outros rituais O chá feito de Jurema tornase uma bebida alucinógena utilizada pelos indígenas para se encontrar com os espíritos ancestrais de forma a adquirir mais sabedoria Os as negros as também têm uma forte relação com as ervas medicinais usadas na religião e na medicina popular como dissemos no item anterior era muito comum encontrar nos navios que traziam os as negros as escravizados as frutos ou suas sementes pois dessa forma poderiam continuar a consumir os alimentos que já estavam acostumados e promover a cura de suas doenças No processo histórico brasileiro os negros realizaram um duplo trabalho transplantaram um sistema de classificação botânica da África e introjetaram as plantas nativas do Brasil em sua cultura através de seu efeito médico simbólico ALMEIDA 2011 p 31 Segundo Nogueira 2016 em Minas Gerais os casos de calundu ficaram conhecidos pelas denúncias feitas ao Santo Ofício da Igreja Católica e mostram que o uso das ervas e os batuques nos rituais de cura eram frequentes Uma das denúncias sobre o calunduzeiro Barra mostra a variação de rituais presente no calundu O Barra não estava sozinho no uso de ervas e folhas em sua gamela para protagonizar batuques que tinham por objetivo curar de feitiços A presença desses recursos nos calundus mineiros repetese em diversas denúncias reportadas ao Santo Ofício eou à justiça do bispado NOGUEIRA 2016 p 23 O Nordeste brasileiro foi a região que mais recebeu negros as escravizados as do continente africano e entre esses povos a etnia JêjeNagôs provenientes da África Ocidental Essa etnia foi introduzida maciçamente no Nordeste no final do século XVIII muitas pessoas de cultura iorubá36 trazidas da África para a Bahia receberam o nome de nagôs e os que eram provenientes do Reino de Daomé foram nomeados Jêjes por isso o nome JêjeNagô Esses povos foram responsáveis por dar origem a várias comunidadesterreiro conhecidas como candomblés na cidade de Salvador Bahia BARROS 2011 p5 A utilização de ervas nos terreiros está ligada a processos de cura mas não se limitam a ele 36 Os iorubás iorubas iorubanos ou nagôs constituem um dos maiores grupos étnicolinguísticos da África Ocidental com mais de 30 milhões de pessoas em toda a região Tratase do segundo maior grupo étnico na Nigéria correspondendo a aproximadamente 21 da sua população total 81 Dentro da cosmovisão dos grupos de origem jêjenagô o conhecimento dos vegetais é fator preponderante nas relações destes com o mundo que os cerca É através desse relacionamento que o homem chega a uma forma de conhecer organizar classificar e experimentar integrando o mundo natural ao social dentro de uma lógica particular BARROS NAPOLEÃO 2015 p 12 Desses povos veio também a sabedoria iorubá que acredita na ancestralidade e nos espíritos e deuses envolvidos em processos de cura dessa forma Podese definir a medicina de origem Yorubá como uma síntese de todos os conhecimentos explicáveis ou não a luz da medicina ocidental hipocrática convencional usados em diagnóstico prevenção e eliminação de distúrbios físicos mentais ou sociais repassados a gerações verbalmente ou de qualquer outra forma ALMEIDA 2011 p 40 De acordo com Barros Napoleão 2015 com um clima semelhante ao do continente de origem os JêjeNagôs encontraram no nordeste brasileiro mais especificamente no Estado da Bahia vastas extensões de florestas nativas o que lhes facilitou uma boa adaptação ao meio em virtude da afinidade que possuíam com a natureza Nesta época também outras comunidades religiosas de origem africana e até ameríndias estavam em processo de expansão no Estado da Bahia Várias casas de nações jêje angola congo caboclo e até muçurumim hoje extinta ficaram famosas no cenário baiano BARROS NAPOLEÃO 2015 p 16 A participação dos terreiros de umbanda e candomblé foram essenciais na disseminação de muitos vegetais oriundos da cultura africana pois nessas religiões os babalorixás37 e yalorixás38 receitam folhas sementes e cascas com fins medicinais e espirituais em banhos e ebós39 Em resumo podese considerar que essa fitoterapia ainda parte integrante da vida cotidiana dos terreiros foi um dos aspectos relevantes da resistência cultural do negro no período escravocrata ervas que produziam envenenamentos abortos feitiços e é hoje uma estratégia de parcela significativa da população que se reconhece direta ou indiretamente portadora de um legado cultural negrobrasileiro BARROS NAPOLEÃO 2015 p 21 Dessa forma podemos interpretar que desde a Antiguidade o uso das plantas esteve ligado tanto à medicina popular quanto a religiosidade conectados aos processos 37 Pai de santo pai de terreiro babalorixá babaloxá ou babá é o sacerdote das religiões afrobrasileiras Seu equivalente feminino é a ialorixá ou mãe de santo 38 Uma ialorixá ou mãe de santo é a sacerdotisa de um terreiro seja ele de Candomblé Umbanda ou Quimbanda Outras grafias posíveis incluem iyalorixá iyá e ialaorixá Recebem ainda o nome de mãe de terreiro 39 Ebô é um prato de origem africana preparado com milho branco cozido sem tempero É uma comida sagrada sendo comum sua oferta e uso nos rituais das religiões de origem africana como o Candomblé Na umbanda é chamada de oferenda ofertada aos orixás 82 de cura física e espiritual conduzidos pelo saber popular e pelas experiências empíricas A conexão com a terra é uma das formas de resistência de indígenas e quilombolas pois para eles a terra não se reduz apenas a um meio de produção mas principalmente como um meio de ligação com a ancestralidade com as origens Em todas as culturas antigas ou modernas o vegetal é inquestionavelmente de suma importância na manutenção da vida humana Sem dúvida o homem desde tempos primitivos sempre dependeu da natureza para sobreviver e utilizava principalmente a flora como parte de sua alimentação para combater doenças ou em seus rituais para prover o bemestar social BARROS NAPOLEÃO 2015 p 1112 Sendo assim o uso das plantas nos processos de cura dentro dos terreiros além de representar uma forma de resistência da cultura negra é também um meio de manter viva a sua memória A comunidadeterreiro passa a ser então o lugar para onde está voltada a memória onde aqueles que vivenciaram a condição limite de escravo podiam pensarse como seres humanos exercer esta humanidade encontrar os elementos que lhes conferiam e garantiam uma identidade religiosa diferenciada com características próprias Ao longo do tempo essa religiosidade constituise como um patrimônio simbólico do negro brasileiro afirmouse aqui como território políticomíticoreligioso BARROS 2014 p 13 Por isso a memória tornase alvo de destruição do sistema capitalista que quer capturar também a subjetividade dos sujeitos porém a sabedoria popular passada de geração para geração essa não é capturável Os JêjeNagôs classificam os vegetais de acordo com compartimentos base relacionados aos quatro elementos ou seja folhas de ar folhas de fogo folhas de água e folhas da terra ou da floresta Esses elementos são utilizados de acordo com o que representa cada orixá40 por exemplo Exu e Xangô participam do compartimento fogo Ogum Oxóssi Ossaim e Obaluaiê ligados ao elemento Terra Iemanjá Oxum Obá Nanã e Yewá associadas às águas e Oxalá e Oiá ao Ar Assim como os vegetais e ervas a maconha ou cannabis sativa também foi amplamente utilizada nos rituais do candomblé e da umbanda No candomblé ela é considerada uma erva do orixá Exu ligada ao elemento fogo na linguagem iorubá ela é conhecida como Ewé Igbó Assim Nos candomblés de Angola a maconha é conhecida pelos nomes liamba ou diamba Folha que no passado foi muito utilizada atualmente devido às proibições legais seu uso é restrito aos trabalhos com Exu especialmente na sacralização dos seus objetos rituais BARROS NAPOLEÃO 2015 p 171 40 Designação das divindades cultuadas pelos iorubás do Sudoeste da atual Nigéria e de Benin e do Norte do Togo trazidas para o Brasil pelos negros escravizados dessas áreas e aqui incorporadas por outras seitas religiosas 83 Interessante apontar que um ditado Iorubá diz Exu matou um pássaro ontem com a pedra que só jogou hoje que na mitologia significa que quando Exu joga a pedra por trás do ombro e mata o pássaro no dia anterior ele reinventa o passado ensina que as coisas podem ser reinauguradas a qualquer momento Exu é considerado o orixá que abre o caminho para o acontecimento ou seja é preciso rememorar o passado para construir outro futuro Existem ainda poucas obras que apontam sobre o uso da maconha nos rituais de cultos de matriz africana MacRae e Simões 2000 em sua obra Roda de Fumo fizeram entrevistas com praticantes das religiões afrobrasileiras e apontaram que há uma tentativa de camuflar o uso da maconha como forma de preservar a cultura negra Porém partimos da premissa que por conta da intolerância religiosa e do racismo circunscritos na história da maconha será que essa tentativa de camuflar não ocorreu também por conta das várias perseguições que as religiões afrobrasileiras sofreram e sofrem ainda hoje É também objeto de polêmica a utilização da cannabis nos cultos afro brasileiros e os escritos antropológicos sobre o assunto são marcados pela ambiguidade notandose certo movimento de dissimulaçãoocultação a seu respeito muitas vezes atribuindoo aos catimbós de origem indígena Essa postura inspirada provavelmente pelo desejo de mostrar a respeitabilidade da cultura negra provocou simpatizantes das causas indígenas a enfatizar por sua vez a origem africana desse costume religioso estigmatizado Dois dos entrevistados baianos falaram sobre o uso de folhas de canabis como oferenda ao orixá Exu em certos rituais do candomblé e há também referências à sua consagração a Oxalá Mas em geral o povo de santo sempre cioso dos segredos de sua religião e da necessidade de cultivar uma imagem respeitável costuma negar qualquer informação sobre o tema MACRAE SIMÕES 2015 p 91 Mauro Leno Silvestrin 2008 em sua monografia faz uma interessante interlocução entre a maconha e a umbanda com base nas músicas interpretadas por Bezerra da Silva Em três músicas Deixa uma paia pro veio queimar Vovô tiratira e Feitiço do Tião Bezerra trabalha um pouco da concepção que a religião pode te levar para perto dos deuses mas se mal utilizada pode levar para perto do diabo Ressalta também o uso da maconha nos rituais quando diz Ao invés dos médiuns baterem a cabeça faziam a cabeça pro santo descer Talvez por que a relação umbandamaconha quase sempre tenha se dado de forma clandestina é recorrente a associação destas duas práticas com o crime o estelionato e o charlatanismo Como estratégia de repressão esta associação foi muito propagada até a metade do século passado Mas a utilização ritual de maconha cessou em 1964 nos poucos terreiros que ainda a mantinham por conta de barganhas políticas para a legitimação da umbanda O samba se legitima e ajuda a umbanda a se legitimar A umbanda em seu processo de legitimação retira a maconha de sua liturgia A 84 maconha ainda proscrita batalha por sua legitimação SILVESTRIN 2008 p90 O caráter racista e moral da proibição da maconha no Brasil vinculados à intolerância religiosa é uma das causas de haver uma lacuna com relação às pesquisas sobre a sua utilização nos rituais sagrados Quando fora possível anotar a presença de maconha em ritos sagrados de populações específicas não tínhamos no Brasil a reflexão sobre o tema e quando a antropologia nacional dedicouse ao estudo de muitas dessas comunidades o maconhismo mergulhara na clandestinidade legal e moral o que tornou a pesquisa etnográfica grandemente impedida de tratar satisfatoriamente o assunto MACRAE SIMOES 2015 p 426 Percebemos que a intolerância religiosa não é um evento novo observase que por trás dos grandes conflitos vistos e vividos pela sociedade estava a intolerância religiosa como elemento fundante Devido ao racismo há a intolerância religiosa no caso das religiões de matriz africana a classe dominante queria que prevalece a religião dela no caso o Cristianismo em detrimento das religiões afrobrasileiras Estigmatizar é uma forma de exercer o poder sobre o outro O preconceito a discriminação a intolerância e no caso das tradições culturais e religiosas de origem africana o racismo se caracterizam pelas formas perversas de julgamentos que estigmatizam um grupo e exaltam outro valorizam e conferem prestígio e hegemonia a um determinado eu em detrimento de outrem sustentados pela ignorância pelo moralismo pelo conservadorismo e atualmente pelo poder político os quais culminam em ações prejudiciais e até certo ponto criminosas contra um grupo de pessoas com uma crença considerada não hegemônica NOGUEIRA 2020 p35 Para Nogueira 2020 renegar o Outro é uma autoafirmação é afirmar a própria identidade a partir dessa negação As Inquisições são um exemplo do que acontece quando da união do Estado e da Igreja Assim toda forma de preconceito emerge de uma postura social histórica e cultural que pretende a um só tempo segregar para dominar e proporcionalmente determinar e manter um padrão marcadores de prestígio e de poder NOGUEIRA 2020 p 41 A colonialidade do poder e do saber oculta segrega silencia e extermina tudo o que for do outro tudo que oferecer risco a manutenção do status quo tudo que ameace a manutenção do tripé prestígio renda e poder E com esse fim surge a Antropologia num contexto marcado pela expansão do imperialismo pois o discurso antropológico acabou criando uma visão depreciativa de outros países dando a ideia de 85 que o homem branco europeu precisava levar conhecimento aos outros Isso constrói para o ocidente uma autoimagem positiva mas negativa aos outros Clóvis Moura 2003 p70 corrobora com essa afirmação analisando que a antropologia tinha uma função neocolonizadora já que a utilização de termos como aculturação assimilação acomodação e sincretismo tiveram o encargo de colocar a religião do colonizador no caso do Brasil o catolicismo como superior e as religiões dos colonizados de origem africana e indígena como inferiores É como se fosse preciso que aqueles considerados pela classe dominante como primitivos precisassem assimilar se acomodar o padrão eurocêntrico para se tornar civilizados As religiões africanas ao serem transplantadas compulsoriamente para o Brasil faziam parte de padrões culturais daquelas etnias que foram transformadas em populações escravas Essas religiões assim transportadas eram por inúmeros mecanismos estabelecidos pelo aparelho de dominação ideológica colonial consideradas oriundas de populações bárbaras que por isso mesmo foram escravizadas MOURA 2003 p 72 O sincretismo religioso que é a reunião de doutrinas diferentes com a manutenção de traços perceptíveis das doutrinas originais na verdade vem afirmar que uma religião é superior designando as demais como inferiores utilizando o sincretismo de forma pejorativa Clóvis Moura analisa o conceito de sincretismo dessa forma Sobre o conceito de sincretismo tão usado pelos antropólogos brasileiros que estudam as relações interétnicas no particular da religião convém destacar que até hoje ele é usado quase sempre para definir um contato religioso prolongado e permanente entre membros de culturas superiores e inferiores A partir daí de um conceito de religiões animistas em contato com o catolicismo basicamente superior MOURA 2019 p 64 Como analisado anteriormente um dos artifícios para legitimar a escravidão de negros as e indígenas foi justamente a afirmação de que os europeus eram raças superiores como forma de aniquilar a prática sociocultural oriunda da África e da sabedoria indígena através do apagamento dessas memórias O capitalismo e o ideal de modernidade destroem a memória coletiva porque se nos conectamos ao passado temos sentido de pertencimento e conseguimos resistir e lutar contra as investidas do capitalismo Por isso quando negros as e indígenas escravizados as são expropriados de suas terras é justamente para se perderem da sua origem e a partir daquele momento servirem ao capital ao ideal de desenvolvimento Podese dizer portanto que o uso popular das plantas medicinais nessas condições constitui um complexo sistema de saúde não oficial em que participam erveiros centros religiosos e comunidade Durante muitos anos esse sistema paralelo de terapêutica foi duramente criticado pela sociedade e até mesmo alvo de perseguição policial ALMEIDA 2011 p 35 86 Assim a prática de cura realizada por intermédio dos espíritos denominada curandeirismo foi duramente perseguida pelas autoridades pelo Estado e pela classe médica que a transformaram em crime O saber popular era confrontado pelo cientificismo europeu que tinham como inimigos as classes dominantes juntamente com a Igreja De acordo com Camargo 2014 p 1 No Brasil de todos os tempos a medicina popular vem mantendo seu espaço lado a lado com o sistema médico oficial Porém por influência do viés etnocêntrico da medicina hegemônica hoje ela é entendida como produto de cultura inferior por não ter valor reconhecido cientificamente e fundamentalmente pelo seu vínculo com elementos doutrinários de cunho religioso de diferentes origens nos fazendo perceber tratarse de uma medicina sacralizada Segundo Vieira 2017 o Estado por meio do seu aparato repressivo mostrou se ávido no sentido de combater práticas consideradas por eles como baixo espiritismo As Ordenações Filipinas vigoraram no Brasil de 1603 até 1830 é uma compilação jurídica que veio substituir o Código Manuelino O livro V o mais longo do Código Penal Brasil ficou famoso pela dureza e crueldade de suas penas as ordenações tinham a finalidade de manter a ordem social a escravidão e a hegemonia da fé católica Reproduziremos parte do Título III Dos Feiticeiros Qualquer pessoa que em círculo ou fora dele ou em encruzilhada invocar espíritos diabólicos ou der a alguma pessoa a comer ou a beber qualquer cousa para querer bem ou mal a outrem ou outrem a ele morra por isso morte natural E com essa mesma ideologia deram continuidade na legislação que não aceitava outras religiões que não fosse a Católica e que puniam principalmente as religiões de matriz africana A Constituição do Império de 1824 instituía em seu artigo 5º A religião Católica Apostólica Romana continuará a ser a religião do Império Todas as outras religiões serão permitidas com seu culto doméstico ou particular em casas para isso destinadas sem forma alguma exterior de templo VIEIRA 2017 p2 Isto é digamos que as religiões e suas práticas diferentes da Católica só eram toleradas e isso fez com que muitos terreiros de umbanda e candomblé fossem se instalar no interior dos Estados por medo de perseguições Nesse contexto o Código Penal de 189041 trazia o título Dos vadios e capoeiras em seu Capítulo XIII e na mesma época houve a criação da delegacia Seção de Entorpecentes Tóxicos e Mistificação ambos com o objetivo de punir e controlar os hábitos da população negra Constava em seu artigo 157 a seguinte interdição Praticar 41 Decreto nº 847 de 11 de outubro de 1890 87 o espiritismo a magia e seus sortilégios usar de talismãs e cartomancias para despertar sentimentos de ódio ou amor inculcar cura de moléstias curáveis ou incuráveis enfim para fascinar e subjugar a credulidade pública BRASIL 1890 E no art 158 Ministrar ou simplesmente prescrever como meio curativo para uso interno ou externo e sob qualquer forma preparada substancia de qualquer dos reinos da natureza fazendo ou exercendo assim o ofício do denominado curandeiro Podemos verificar que a história do Brasil é a história do genocídio do povo negro e indígena o Estado agindo coercitivamente de forma a garantir a ordem social e eliminar quaisquer resquícios da cultura negra e indígena consideradas inferiores A medicina negra dos terreiros começou a incomodar a medicina científica como expressão da medicina dos homens brancos e ricos que passou a condenar os processos de cura realizados por pessoas não diplomadas O vasto conhecimento dos pais e mães de santo sobre as plantas medicinais suas qualidades efeitos e indicação para diversas doenças comuns não seriam aceitos pela sociedade essencialmente católica e encantada com os progressos da ciência como parte de uma religiosidade legítima nem de uma medicina eficaz A essas práticas terapêuticas práticas desabusadas da perniciosa feitiçaria realizadas pelos curandeiros eram associados os pejorativos termos de falsa medicina bruxaria e magia negra SAAD 2015 p 112 O que podemos perceber é que o capitalismo tenta destruir a memória de negros as inculcando sobre os indivíduos os valores que movem o sistema como o individualismo e o afastamento da natureza Na realidade brasileira o conhecimento dos pais e mães de santo sobre as plantas medicinais suas qualidades efeitos e indicação para diversas doenças por exemplo não poderiam ser aceitos por uma sociedade majoritariamente católica branca e patriarcal que arfava pela modernização e pelo embranquecimento da população A comunidadeterreiro portanto é o lugar da memória das origens e das tradições onde além de se preservar um conhecimento naturalístico e uma língua ancestral na qual são entoados os cantos e as louvações se celebra a vida de uma maneira muito particular isto é daqueles que decidiram juntos vivenciar uma visão de mundo comum BARROS 2014 p 12 Medicina eficaz e legítima só a da elite branca a qual as camadas pobres dificilmente teriam acesso Essa sabedoria popular colocava em risco a profissão dos médicos diplomados em sua maioria homens já que às mulheres não era permitido ingressar nas Universidades essa sabedoria representava uma grande ameaça a indústria farmacêutica vindoura Todavia essas religiões eram vistas pelos leigos como coisas demoníacas o que as tornou alvo de perseguição por parte da sociedade branca que através da força policial perseguia vários grupos religiosos negros 88 apreendendo objetos sagrados e fechando vários terreiros Os centros urbanos tornaramse lugares não indicados às práticas religiosas afrobrasileiras o que motivou a transferência das casasdesanto para lugares mais distantes BARROS NAPOLEÃO 2015 p 16 Em suma negros as e mulheres sofreram e sofrem todo tipo de expropriações pois o capitalismo utiliza esse conjunto de estratégias de dominação para reproduzirse como analisaremos a seguir 22 Expropriações e controle dos corpos femininos Ressaltamos que o patriarcado é anterior ao capitalismo e pode ser entendido como o poder que os homens exercem por meio dos papéis sexuais ou seja mesmo sendo anterior ao capitalismo no modo de produção capitalista ele vai assumir formas particulares de existência O controle sobre o corpo e a sexualidade a opressão e a exploração que o patriarcado desenvolveu e desenvolve sobre a mulher sob um modelo heterossexual obrigatório de naturalização dos sexos vieram atender a dois interesses Primeiro a garantia de controle sobre as os filhas os o que significava mais força de trabalho e portanto mais possibilidade de produção de riqueza Segundo ao garantir que a prole seria sua asseguravase aos homens a perpetuação da propriedade privada por meio da herança CISNE SANTOS 2018 p 44 A categoria trabalho é central para compreendermos que a propriedade privada e a apropriação não só dos meios de produção mas também da apropriação e dominação dos homens com relação às mulheres constituem formas do capitalismo se reproduzir Isto é engravidar as mulheres era garantir mais força de trabalho para produzir riqueza e ao mesmo tempo assegurar que essa riqueza seria sua através da herança Nas sociedades préindustriais já existia a divisão sexual do trabalho as mulheres do campo trabalhavam na terra cozinhavam criavam seus filhos e conduziam o comércio dos seus maridos não havia nessa época separação entre domicílio e local de trabalho isto é a produção doméstica era combinada com a produção feita fora de casa No entanto as mudanças econômicas necessariamente acarretavam mudanças em outros domínios da vida societal de forma que essas indústrias domésticas não tardaram a contribuir para diminuir a diferença entre o trabalho considerado feminino a ser realizado por mulheres e o considerado masculino a ser realizado por homens Essas mudanças no trabalho implicaram em mudanças na estrutura familiar que afetavam desde a forma como se davam os casamentos até o número de filhosas que cada casal podia ter SOUZA 2015 p 477 Isto é o controle e apropriação sobre o corpo das mulheres se tornou central no que tange ao trabalho o controle de natalidade se transformou em questão do Estado 89 Para Federici 2017 principalmente na Europa a expropriação dos meios de subsistência dos trabalhadores europeus e a escravização dos povos originários da América e África não foram os únicos meios pelos quais se formou e se acumulou o proletariado mundial esse processo transformou o corpo em uma máquina de trabalho e exigiu a destruição do corpo das mulheres através principalmente do que se convencionou chamar Caça às bruxas Para a autora a acumulação primitiva foi também uma acumulação de diferenças e divisões dentro da classe trabalhadora em que as hierarquias construídas sobre sexo e raça foram constitutivas da dominação de classe Na Europa entre os séculos XVI e XVII a privatização da terra e a mercantilização das relações sociais causaram uma enorme pobreza e mortalidade mas também uma grande resistência que ameaçou afundar a economia capitalista Sustento que esse é o contexto histórico em que se deve situar a história das mulheres e da reprodução na transição do feudalismo para o capitalismo porque as mudanças que a chegada do capitalismo introduziu na posição social das mulheres especialmente entre as proletárias seja na Europa seja na América foram impostas basicamente com a finalidade de buscar novas formas de arregimentar e dividir a força de trabalho FEDERICI 2017 p 126 Com a industrialização mesmo com as tarefas sendo ainda realizadas no interior das casas as famílias passaram a não depender mais exclusivamente da terra como meio de subsistência Com as novas relações econômicas surgiram também novas relações pessoais representando mudanças na vida das mulheres pois a partir do momento em que as indústrias domésticas se tornaram insuficientes para alimentar o capital o papel da mulher se desdobrou Assim como as indústrias domésticas não supriam mais as necessidades do capital essas perdiam o seu caráter de manufatura familiar e assumiam cada vez mais o caráter de trabalho executado por mulheres pois permitiam que essas exercessem o trabalho pago a gerência da casa e os cuidados com osas filhosas isto é que continuassem a exercer suas obrigações de gênero enquanto os homens se deslocavam para um local de trabalho fora da casa Essa passagem da história evidencia o papel crucial que o patriarcado exerce na implantação e perpetuação do capitalismo bem como de quaisquer outras sociedades de classe sempre de um modo apropriado à dominação vigente SOUZA 2015 p 478 O capitalismo se reinventa e utiliza formas de dominação para coexistir assim ao separar o local de produção do local de moradia o mundo da produção fábrica onde se extrai maisvalia foi automaticamente valorizado o mundo da reprodução da vida moradia onde não se extrai maisvalia foi portanto desvalorizado Isso é muito 90 importante para compreendermos a lógica de apropriação do capital bem como para entender como o trabalho tido como feminino foi e é visto como não produtivo Para Souza 2015 aí está a relação simbiótica pois ao separar mulheres em casa e homens na fábrica o capitalismo prepara o campo para quando o capital necessitasse pagar salários mais baixos e extrair mais maisvalia ele pudesse fazêlo sem contestação Quando o homem sai para trabalhar na fábrica sob um regime de assalariamento a mulher sofre mais uma vez a opressão da dependência econômica as mulheres e crianças passam a depender dos homens e não mais da terra É importante ressaltar que tal dependência é exercida diferentemente conforme a classe social à qual o homem pertence o patrão detém e exerce o poder sobre a totalidade da vida como um todo pública e privada o trabalhador detém o poder sobre a vida privada que exerce contra a mulher e filhos SOUZA 2015 p 479480 Porém como um dos objetivos do capitalismo é o aumento da extração de mais valia o trabalho das mulheres nas fábricas começa a ser necessário já que o salário dos homens é tão baixo que não consegue mais sustentar a sua família Assim com a industrialização quando conseguem ser inseridas como força de trabalho são desvalorizadas e sofrem vários tipos de expropriações são expulsas do trabalho assalariado e têm retirado tanto os seus direitos políticos quanto sexuais incluindo o direito ao voto Na Revolução Francesa as mulheres principalmente as mais pobres participaram das barricadas e revoluções porém quando ousaram estender os direitos humanos para si foram empurradas e guilhotinadas ARANTES 2013 No transcorrer da história o movimento das mulheres feministas ou não buscou ampliar suas estratégias assumindo reivindicações diversas mais arrojadas ou mais conservadoras de acordo com o período histórico vivido com as classes sociais em lutas e conforme as condições políticoeconômicas de cada período SOUZA 2015 p 483 É importante analisar a relação entre capitalismo e patriarcado de forma dialética e não fragmentada as complexas relações entre exploração de classe e a dominaçãoopressão existente nas relações sociais de sexo42 Dessa forma destacamos que o capitalismo está articulado às expropriações estruturais e estruturantes que se 42 O termo relações sociais de sexo tem origem na escola feminista francesa na língua original é chamado rapports sociaux de sexe surgiu no início dos anos 1980 e tem conexão com a divisão sexual do trabalho AnneMarie Devreux localiza a rapport sociaux no seio do marxismo que diz respeito não às simples relações entre indivíduos mas às relações sociais antagônicas Para a autora o uso de relações sociais de sexo nomeia explicitamente os sujeitos enquanto gênero evita mencionálos e o eufemiza 91 reinventam e se ressignificam incluindo as expropriações dos corpos e dos saberes principalmente femininos Para entender esse processo de expropriação é preciso destacar que através do processo nomeado por Marx 2013 p 787 como a assim chamada acumulação primitiva que se deu no intenso período de mercantilização da força de trabalho foi o momento em que o trabalhador foi apartado de suas condições de trabalho de forma coercitiva e violenta Na história da acumulação primitiva o que faz época são todos os revolucionamentos que servem de alavanca à classe capitalista em formação mas acima de tudo os momentos em que grandes massas humanas são despojadas súbita e violentamente de seus meios de subsistência e lançadas no mercado de trabalho como proletários absolutamente livres A expropriação da terra que antes pertencia ao produtor rural ao camponês constitui a base de todo o processo MARX 2013 p787 Desta feita o cercamento de terras a tomada dos meios de produção e de subsistência ofertou para a indústria trabalhadores livres de acordo com Fontes 2010 uma liberdade real e ilusória real pois os seres sociais estão defrontados de maneira direta à sua própria necessidade e ilusória pois vela as condições determinadas que subordinam os seres sociais às condições infligidas pelo sistema do capital ao trabalho Para Marx 2013 a violência e a coerção foram as formas utilizadas pelo Estado para impulsionar a transformação do feudalismo para o capitalismo abreviando a transição de um para o outro ou seja a violência é constitutiva e primordial para o capital assim os trabalhadores sofrem expropriações de variadas formas É preciso ressaltar que o capitalismo não é apenas um sistema econômico as relações humanas se transformam nas relações entre coisas e dessa forma FONTES 2010 é preciso incorporar tantos os elementos objetivos do processo quanto seus aspectos subjetivos aqueles que nos conformam como se fossemos moldados pela matéria contraditória da lógica dominante e destinados a vivem em função dela quando ao contrário somos seres sociais históricos e podemos nos assenhorarnos do que produzimos Apesar de uma das formas de lucro do capital ser a exploração da força de trabalho livre essa exploração não é meramente econômica mas também social a conversão de dinheiro em capital envolve toda a vida social numa complexa relação que repousa sobre a produção generalizada e caótica de trabalhadores cada vez mais livres expropriados de todos os freios à sua subordinação mercantil É por obscurecer por velar tal base social que a produção capitalista ou o momento da atividade produtiva de valorização do capital se apresenta como meramente econômico apesar de envolver toda a existência social FONTES 2010 p 42 grifos do autor 92 Para explicar no que consiste a tal base social do capital Fontes 2010 nos dá um exemplo que é a subsunção real do trabalho no capital que ocorre em primeiro lugar pela naturalidade que reveste a necessidade dos trabalhadores de venderem a sua força de trabalho para o mercado sob variadas condições em segundo lugar pelo fato de que é a lógica capitalista socialmente dominante que determina quem é ou não trabalhador pois essa produção não é voltada para a satisfação de suas necessidades e sim para a produção de maisvalor A classe trabalhadora se torna dependente do mercado pois necessita integrarse a ele para sobreviver e dessa forma a capacidade de trabalho é transformada em mercadoria essa necessidade vai se reatualizando e as formas de expropriações se reinventando A expropriação ora sob aspecto unicamente econômico ora demográfico abrange praticamente todas as dimensões da vida como uso de terras comunais direitos consuetudinários relação familiar mais extensa e entreajuda local conhecimento sobre plantas e ervas locais dentre outros aspectos e envolve profundas transformações culturais ideológicas e políticas FONTES 2010 p 51 grifos nossos Ainda segundo Fontes 2010 existem dois tipos de expropriações a primária que é a expropriação de grandes massas campesinas ou agrárias que podem se dar de boa vontade quando são atraídas para suas cidades ou quando são expulsas de suas terras ou incapacitadas de manter sua reprodução plena através de procedimentos tradicionais As expropriações secundárias são impulsionadas pelo capitalimperialismo contemporâneo Para Fontes 2010 as expropriações primárias continuam extirpando os recursos sociais das mãos dos trabalhadores rurais incidindo principalmente sobre a terra Porém as expropriações secundárias se abatem também sobre conhecimentos como já ocorreu no século XIX na introdução das grandes indústrias e no século XX com o fordismo sobre a biodiversidade sobre técnicas diversas desde formas de cultivo até formas de tratamento de saúde utilizadas por povos tradicionais No Brasil pelas particularidades do desenvolvimento do capitalismo citados no capítulo 1 as expropriações vão ocorrer por meio da violência da militarização do Estado do encarceramento em massa e do extermínio realizado pela Guerra às drogas que estão conectados diretamente ao racismo pois são formas de controle dos corpos negros Mas as expropriações não param por aí a expropriação de saberes principalmente femininos ao coibir práticas médicoreligiosas e o uso de plantas 93 medicinais em processos de cura envolve direitos consuetudinários como os hábitos e costumes dos povos originários por exemplo Para Fontes 2010 subsistem mesmo nas sociedades capitalistas mais avançadas certas formas de relação com a natureza que asseguram meios de vida parciais aos seres sociais ainda que não sejam capazes de lhes assegurar a completa subsistência como o acesso às águas ao ar às plantas e sua reprodução etc As expropriações contemporâneas denominadas de secundárias assumem exatamente o mesmo padrão anterior retiram dos seres sociais suas condições de existência e as convertem em capital Reconduzem seres sociais à condição de trabalhadores enquanto convertem meios de existência e de vida em capital Essas expropriações vão incidir sobre as mulheres de forma muito particular Para Federici 2017 Marx ao tratar da acumulação primitiva a analisou a partir da perspectiva dos trabalhadores proletários do sexo masculino e deixou de aprofundar fenômenos importantes como 1 o desenvolvimento de uma nova divisão sexual do trabalho 2 a construção de uma nova ordem patriarcal baseada na exclusão das mulheres do trabalho assalariado e em sua subordinação aos homens 3 a mecanização do corpo proletário e sua transformação no caso das mulheres em uma máquina de produção de novos trabalhadores Como vimos anteriormente a Caça às bruxas coincide com a origem do capitalismo na Europa sendo uma forma de insular das mulheres a relativa autonomia que elas tinham e garantir as bases para o capitalismo que estava começando ou seja a expropriação do corpo das mulheres é uma mediação central entre a acumulação primitiva e a violência contra as mulheres Para Federici 2017 p330 assim como os cercamentos expropriavam as terras comunais do campesinato a Caça às bruxas expropriou o corpo das mulheres corpos que deveriam estar liberados para produzir mão de obra para o sistema capitalista As relações de sexo são parte constitutiva das relações sociais e de produção não se separam e as discriminações de sexo no trabalho são a base da dominação da classe operária dessa forma é preciso analisar que as mulheres sofrem uma exploração particular diferente da exploração sofrida pelos homens da classe trabalhadora Cisne 2014 ressalta que dessa mesma forma o racismo também é um dos elementos fundamentais para desvelarmos os mecanismos de dominação e exploração de classe Para a autora ao elaborar estratégias coletivas de enfrentamento é necessário pensar nesse viés já que as formas de submissão são sempre atravessadas pelas relações de sociais de sexo e pela divisão sexual do trabalho 94 Dessa forma para o desenvolvimento do capitalismo através da sociedade competitiva é vantajoso que as mulheres representem força de trabalho mais desvalorizada o sexo fonte de inferiorização social da mulher passa a interferir de modo positivo para a atualização da sociedade competitiva na constituição das classes sociais Saffioti 1979 p 35 Para Cisne 2014 as particularidades como sexo raçaetnia imprimem implicações diferentes para as variadas frações da classe trabalhadora por isso as mulheres brancas ganham menos que os homens brancos e mais que as mulheres e homens negros há uma hierarquia Essa hierarquia segue a seguinte ordem homens brancos mulheres brancas homens negros e pardos e mulheres negras Diante dessas implicações temos a compreensão de como a dinâmica de exploraçãodominaçãoopressão do capitalismo se reproduz sobre mulheres e negros principalmente com relação às mulheres negras o que revela desigualdades dentro de uma mesma classe A autora cita outra dimensão importante Os homens brancos e heterossexuais possuem muito mais privilégio do que o outro lado extremo da hierarquia social a mulher negra lésbica e pobre Assim a dimensão da orientação sexual nessa sociedade patriarcal engendra opressões particulares Por exemplo um homem pobre e heterossexual possui muito mais respeitabilidade do que um homem pobre gay CISNE 2014 p30 Cisne 2014 seguindo a linha de pensamento de Falquet 22082012 destaca que as relações sociais de sexo e raça são elementos essenciais para entendermos a exploração no mundo do trabalho sendo denominado por ele como trabalho desvalorizado e trabalho considerado feminino Esses dois tipos de trabalho estão entre a extração de trabalho mediante salário e extração de trabalhos gratuitos ou seja a mão de obra desfavorecida se deixa apropriar para completar o salário baixo obtido através da exploração Além disso as mulheres são as maiores vítimas da precarização do trabalho e das políticas públicas colocadas na posição de cuidadoras de toda a família são elas que se encontram nos vínculos informais que enfrentam as filas nos hospitais públicos e que exercem sozinhas a maternidade A marca do sexo não esteve presente apenas na origem do antagonismo de classe mas ainda fazse fortemente presente Compreendemos assim que a classe operária tem dois sexos SouzaLobo 2011 do contrário como podemos explicar que as mulheres estão nos postos de trabalho mais precarizados e mal remunerados Como explicar a persistente divisão sexual do trabalho que não apenas diferencia trabalho feminino do masculino mas gera desigualdades entre homens e mulheres pertencentes a uma mesma classe Como explicar a jornada intensiva e extensiva de trabalho e o não reconhecimentodesvalorização do trabalho domésticoreprodutivo Como explicar o porquê de 70 dos pobres do mundo ser mulheres Mészáros 95 2002 Negar a dimensão de sexo no trabalho é negar a realidade em que vive a classe trabalhadora em especial a das mulheres em sua relação com o capital CISNE 2014 p 25 Assim por meio das apropriações advindas das relações de raça e sexo o capitalismo amplia o contingente humano disponível para os mais baixos salários aumentando portanto sua capacidade de exploração do trabalho associada a essas apropriações CISNE 2014 p 70 Essa é uma das expressões da base capitalismoracismopatriarcado que quer manter a mulher negra no último lugar na hierarquia retirando delas toda e qualquer forma de inserção no mercado de trabalho em condições dignas e submetendoas à precariedade da vida e da violência Uma das formas de expropriação é o encarceramento em massa da população feminina que atinge números alarmantes como veremos a seguir De acordo com o Relatório Temático sobre Mulheres Privadas de Liberdade de Junho2017 do Levantamento Nacional de Informações Penitenciárias INFOPEN43 a evolução das mulheres privadas de liberdade saltou de 17200 em 2006 para 40970 em 2016 sendo que dessas 6355 se autodeclaram da coretnia pretas e pardas ou seja em 10 anos da Lei 11343 de 2006 conhecida popularmente como lei de Drogas os resultados mostram que a questão do cárcere só se agravou principalmente entre a população negra Esses dados nos remetem a pensar na relação entre Estado e racismo Silvio Almeida 2015 utiliza alguns conceitos de Foucault ressaltando que a concepção de soberania principalmente a partir do século XIX diz respeito ao poder sobre o controle da vida o capitalismo quer controlar não só as relações sociais e de produção mas também os corpos Através da falta do saneamento básico segurança pública e desemprego o Estado acaba escolhendo quem vai morrer nesse caso negros as pobres moradores de periferia são os corpos marcados para morrer Assim o poder do Estado passa pelo racismo de duas formas uma na escolha de quem vai morrer e outra na naturalização da morte do outro já que o outro o corpo negro representa a raça ruim o degenerado Almeida 2015 afirma que nos países colonizados que passaram pelo regime escravista as configurações do racismo são outras como é o caso do Brasil O Direito não coloca limites no poder estatal sobre os corpos humanos e mais uma vez acontece 43 Disponível em httpdepengovbrDEPENdepensisdepeninfopen mulherescopyofInfopenmulheresjunho2017pdf 96 a naturalização e banalização da morte de jovens e crianças negros as assassinadas nas periferias dos grandes centros urbanos Todos esses fatos conduzem ao conceito de Necropolítica criado pelo filósofo negro historiador teórico político e professor universitário camaronense Achille Mbembe Esse termo indica a política da morte adaptada pelo Estado ela é a regra não uma exceção Ele elabora esse conceito à luz do estado de exceção do estado de terror do terrorismo O que vemos nas favelas do Brasil principalmente no Rio de Janeiro não é um serviço de combate à criminalidade e sim a perseguição daquele que é considerado perigoso Os dados apresentados não revelam nenhuma novidade e sim uma continuidade de uma política que visa manter as estruturas de opressão e garantia de poder e capital nas mãos da burguesia que disputa entre si manter os seus privilégios O que vemos em termos gerais é um Estado que restringe cada vez mais a democracia e impõe o conservadorismo porém sob o verniz de um discurso democrático e através do medo desde os tempos de Brasil Colônia O mito da democracia racial no Brasil ignora de forma hipócrita as desigualdades existentes Os mitos existem para esconder a realidade FERNANDES 2017 Como dito anteriormente consideramos que o capitalismo não é apenas uma realidade econômica é um sistema que pressupõe um estilo de vida que se mostra autoritário e racista esse estilo de vida se associa a procedimentos autocráticos tendo o Estado como seu aliado São procedimentos oriundos do passado que se metamorfoseiam no presente que não se configuram somente em uma repetição mecânica se equilibrando entre novidades e continuidades ou entre elementos estruturantes e dinâmicos do próprio capitalismo O sistema escravocrata nunca teve fim Nesse sentido a condição colonial permanente FERNANDES 1968 impossibilita a mobilidade social a inserção no mercado de trabalho de forma não subalternizada a educação de qualidade socialmente referenciada e a moradia à população negra falta de estrutura que impacta negativamente nas condições de saúde da população negra e indígena como veremos no terceiro capítulo Tudo isso em um país que tem uma elite sem projeto nacional que nunca moveu as estruturas de desigualdades no país porque é isso que a mantém Assim como não houve rompimento com o passado ele se reapresenta na história e a questão racial sempre esteve presente mas emerge se reacomoda de outra forma Como não há ruptura definitiva com o passado a cada passo este se reapresenta 97 na cena histórica e cobra o seu preço embora sejam muito variáveis os artifícios da conciliação em regra uma autêntica negação ou neutralização da reforma FERNANDES 2005 p 238 Dessa forma olhar para o panorama atual da burguesia brasileira e a sua natureza racista a partir de raízes históricas compreendendo os interesses políticos econômicos e sociais por trás do mito da democracia racial e da Guerra às drogas significa entender que o racismo é constitutivo e funcional ao capitalismo dependente não representando somente uma herança escravocrata e sim uma revitalização das relações sociais e de produção do antigo regime que favorece a acumulação de capital O capitalismo o racismo e a necropolítica são inseparáveis e se sustentam entre si promovendo o extermínio ou genocídio da parcela da população marcada para morrer São formas de expropriação dos corpos negros e indígenas da cultura negra e indígena e o fantasma da escravidão e dos tempos de Brasil colônia orientam as políticas na contemporaneidade Desse ângulo o negro vem a ser a pedra de toque da revolução democrática na sociedade brasileira A democracia só será uma realidade quando houver de fato igualdade racial no Brasil e o negro não sofrer nenhuma espécie de discriminação de preconceito de estigmatização e de segregação seja em termos de classe seja em termos de raça Por isso a luta de classes para o negro deve caminhar juntamente com a luta racial propriamente dita FERNANDES 2017 p41 Examinando a forma como se constitui a formação social brasileira de acordo com as análises de Florestan Fernandes fica em evidência que a sociedade brasileira não está racista ela é racista No Brasil o que se tem é uma cidadania excludente a qual o nível de distribuição de renda e o acesso à educação são ineficientes de acordo com o IBGE44 os estudantes de 18 a 24 anos negros cursando ensino superior em 2018 foi de 55 6 e de brancos na mesma faixa etária 788 O Brasil adotou a postura de criminalização da pobreza onde a legislação tem recorte racial e de classe que sustenta a engrenagem do capitalismo dependente seguindo o tripé da manutenção da renda prestígio e poder da classe dominante A classificação racial da população que colocou a mulher negra em último lugar na pirâmide da hierarquia social também a colocou no lugar do silenciamento se as mulheres brancas pertencentes à elite tiveram que reivindicar os seus direitos à mulher negra restou o apagamento como se não existissem O saber e o conhecimento produzido pelas mulheres negras nunca foram vistos como conhecimento concreto até hoje é tão difícil encontrar obras de escritoras negras pois há uma intrínseca relação 44 Disponível em httpsbibliotecaibgegovbrvisualizacaolivrosliv101681informativopdf 98 entre o sexismo e o racimo como citado anteriormente à mulher negra foi dada a ligação ao corpo a mulata do carnaval e não ao pensar Dentro desse debate a filósofa Djamila Ribeiro analisando o pensamento de Lélia Gonzalez em seu livro Lugar de Fala traz uma importante reflexão sobre a hierarquização de saberes onde há uma equação quem possui privilégio social possui também o privilégio epistêmico A consequência dessa hierarquização legitimou como superior a explicação epistemológica eurocêntrica conferindo ao pensamento moderno ocidental a exclusividade do que seria conhecimento válido estruturandoo como dominante e assim inviabilizando outras experiencias do conhecimento RIBEIRO 2019 p24 Para as autoras o racismo se constituiu como a ciência da superioridade eurocristã branca e patriarcal e isso define quais vozes são legitimadas ou não ou seja as vozes negras e indígenas não são legitimadas pois a linguagem também é uma forma de manutenção de poder e quem detém o poder tem a sua voz legitimada Lélia Gonzalez provoca e desestabiliza a epistemologia dominante assim como Linda Alcoff Em Uma epistemologia para a próxima revolução a filósofa panamenha critica a imposição de uma epistemologia universal que desconsidera o saber de parteiras povos originários a prática médica de povos colonizados escrita de si na primeira pessoa e que se constitui como legítima e com autoridade para protocolar o domínio do regime discursivo RIBEIRO 2019 p 26 Por isso os saberes de curandeiras mães de santo Ialorixás saberes oriundos dos povos originários que possuem outra cosmogonia45 são desvalorizados e perseguidos pela elite dominante cristã branca e patriarcal Essa sabedoria ancestral que foi perseguida e literalmente apagada da história em nome do desenvolvimento Assim no próximo capítulo traçaremos um paralelo entre o racismo estrutural a Guerra às drogas a criminalização da pobreza e o rebatimento dessas expressões para o acesso a cannabis medicinal no Brasil O proibicionismo tem uma estreita ligação com o imperialismo estadunidense pois se de um lado acentua o encarceramento em massa e extermina principalmente a juventude negra através da Guerra às drogas de outro alimenta a indústria farmacêutica estadunidense 45 Cosmogonia é o conjunto de teorias princípios ou doutrinas com base científica religiosa ou meramente mítica que procura descrever e explicar a origem e a formação do Universo 99 CAPÍTULO 3 GUERRA ÀS DROGAS DIREITO À SAÚDE E O ACESSO A CANNABIS MEDICINAL NO BRASIL Mas a relação castigocorpo não é idêntica ao que ela era nos suplícios O corpo encontrase aí em posição de instrumento ou de intermediário qualquer intervenção sobre ele pelo enclausuramento pelo trabalho obrigatório visa privar o indivíduo de sua liberdade considerada ao mesmo tempo como um direito e como um bem O castigo passou de uma arte das sensações insuportáveis a uma economia dos direitos suspensos Foucault Vigiar e Punir Introdução Esse capítulo tem como objetivo traçar um paralelo entre o estatuto do proibicionismo brasileiro que foi capitaneado pelos Estados Unidos e o imperialismo estadunidense como expressão do caráter dependente do capitalismo brasileiro mostrando como o racismo estrutural se expressa na proibição da maconha no Brasil A hegemonia dos Estados Unidos é essencial para entendermos não só como se configurou a relação entre imperialismo e capitalismo dependente mas como se conformou a Guerra às Drogas na realidade brasileira Além disso destacamos que essa guerra e a proibição impossibilitam o acesso das famílias de baixa renda ao tratamento com medicamentos à base de cannabis sativa pois por ser proibida para pesquisas e produção de medicamentos no Brasil as plantas tem que ser importadas dos Estados Unidos ou da Europa 31 Guerra às drogas Reflexões sobre o imperialismo estadunidense e o proibicionismo brasileiro Lenin em seu ensaio Imperialismo estágio superior do capitalismo publicado em 1917 considera que o imperialismo constitui uma nova etapa do desenvolvimento do capitalismo quando predominam os monopólios e o capital financeiro ressaltando que há uma modificação no papel dos bancos que levou a uma privatização das relações sociais e uma socialização das relações privadas dandose o caráter contraditório dos monopólios Posteriormente surgem os cartéis que se baseiam na junção de empresas concorrentes com o objetivo de controlar a concorrência e aumentar os lucros Com o crescente avanço dos cartéis os monopólios começaram a representar uma quantia insignificante no modo de produção capitalista levando ao fortalecimento dos cartéis fortalecendo assim o imperialismo Para Lenin 2012 p 44 100 O resumo da história dos monopólios é o seguinte 1 de 1860 a 1870 o grau superior o ápice de desenvolvimento da livre concorrência Os monopólios não constituem mais do que germes quase imperceptíveis 2 depois da crise de 1873 longo período de desenvolvimento dos cartéis que ainda constituem apenas uma exceção ainda não são sólidos representando somente um fenômeno passageiro 3 auge dos fins do século XIX e crise de 1900 a 1903 os cartéis passam a ser uma das bases de toda a vida econômica O capitalismo transformouse em imperialismo Os bancos constituem facetas importantes para a fase do imperialismo pois eles eram responsáveis por converter o capitaldinheiro inativo em ativo isto é reunir os rendimentos em dinheiro e colocálos à disposição dos capitalistas Assim com o desenvolvimento dos bancos e o acúmulo de riquezas eles passaram de modestos intermediários a monopolistas onipotentes Para Lenin 2012 esse é um dos processos fundamentais da transformação do capitalismo em imperialismo pois os bancos começaram a concentrar os rendimentos não só dos grandes mas dos pequenos patrões também dos empregados O objetivo primeiro dos bancos era fazer com que o capital rendesse lucros Com o posterior aumento da acumulação de riquezas os bancos possuíam quase a totalidade de capital dos pequenos capitalistas e dos burgueses com esse crescimento no capital os pequenos bancos foram sendo incorporados pelos grandes que por sua vez se transformaram em um grupo de bancos os gigantes monopolistas Em nome da economia política burguesa dos nossos dias consiste na realidade na subordinação a um centro único de um número cada vez maior de unidades econômicas que antes eram relativamente independentes ou para sermos mais exatos que possuíam um caráter estritamente local Tratase pois com efeito de uma centralização de um reforço do papel da importância e do poder dos gigantes monopolistas LENIN 2012 p59 Para a manutenção do sistema capitalista os meios de produção se tornam cada vez mais privados enquanto a classe trabalhadora passa pela expropriação dos seus meios de sobrevivência e inevitavelmente é obrigada a vender a sua força de trabalho se submetendo à lógica capitalista A condição primeira e mais básica da expansão capitalista para além dos limites da dominação política e militar é a imposição de imperativos econômicos introduzindo as compulsões do mercado onde elas existem e sustentandoas onde existem O poder econômico do capital pode ser capaz de ir além do alcance do poder militar e político mas só o fará se e quando as leis da economia capitalista forem ampliadas e isso é algo que exige ajuda extraeconômica tanto nas relações internas de classe quanto na dominação imperial Na economia capitalista interna o Estado foi particularmente importante na criação e manutenção de uma classe de trabalhadores sem propriedade que justamente por isso é obrigada a entrar no mercado para vender a sua força de trabalho WOOD 2014 p 28 101 O imperialismo representa a fase da dominação externa por parte das grandes potências da partilha do mundo e o aumento da política colonial dos países capitalistas tendo como atores principais a Europa e os Estados Unidos Assim em seu estágio imperialista A produção passa a ser social mas a apropriação continua a ser privada Os meios sociais de produção continuam a ser propriedade privada de um reduzido número de indivíduos Mantémse o quadro geral da livre concorrência formalmente reconhecida e o jugo de uns quantos monopolistas sobre o resto da população tornase cem vezes mais pesado mais sensível mais insuportável LENIN 2012 p48 Desde o imperialismo e a partilha do mundo houve a segregação não apenas de uma classe social em detrimento da outra mas também dos países centrais em relação aos países periféricos Assim a expansão do capitalismo foi organizando a dominação externa dos países da América Latina a partir de dentro através da ação econômica dos bancos da militarização do poder da transplantação da tecnologia e da expansão da infraestrutura O capitalismo se distingue de todas as outras formas sociais precisamente por sua capacidade de estender seu domínio por meios puramente econômicos De fato o impulso do capital na busca incansável de auto expansão depende dessa capacidade única que se aplica não somente às relações de classe entre capital e trabalho mas também às relações entre Estados imperiais e subordinados O imperialismo capitalista exerce seu domínio por meios econômicos pela manipulação das forças do mercado inclusive da arma da dívida WOOD 2014 p 23 Para a autora Ellen Wood 2014 há um novo imperialismo e o seu principal impositor são os Estados Unidos que propõem entre outras coisas uma guerra sem fim contra o terrorismo e a promoção de uma política de defesa preventiva no qual o objetivo não é mais a conquista colonial e a dominação imperial direta Esse é o paradoxo do novo imperialismo É o primeiro imperialismo em que o poder militar foi criado não para conquistar território nem para derrotar rivais É um imperialismo que não busca expansão territorial nem dominação física de rotas territoriais Ainda assim ele produziu essa enorme e desproporcional capacidade militar com um alcance global sem precedentes Talvez seja precisamente por não ter nenhum objetivo claro e finito que o novo imperialismo exija força militar tão pesada A dominação ilimitada de uma economia global e dos múltiplos Estados que a administram exige ação militar sem fim em propósito ou tempo WOOD 2014 p 109 Dessa forma destacamos que o principal cliente da indústria bélica é o Estado pois compõe um elemento importante de contenção das crises inerentes ao modo de produção capitalista devido à superacumulação e destruição de forças produtivas para retomada de ciclos O Imperialismo se constitui então em uma política de expansão e dominação militar tecnológica econômica e ideopolítica 102 Como destacamos anteriormente para analisar a relação entre imperialismo e capitalismo dependente é preciso ressaltar que o desenvolvimento do capitalismo brasileiro teve suas particularidades se tornando o que o sociólogo Florestan Fernandes denominou como país de capitalismo dependente que tem como características intrínsecas a associação dependente com o capital imperialista externo e a manutenção de formas econômicas arcaicas Ou seja o desenvolvimento do capitalismo brasileiro se deu conservando o caráter colonial das relações sociais e de produção e mantendo o status quo da burguesia brasileira conforme analisado nos capítulos anteriores Cardoso 1994 explicita que o conceito de capitalismo dependente elucidado por Florestan Fernandes trata antes de mais nada de capitalismo numa das formas específicas de uma das fases do seu desenvolvimento isto é parte heterônoma ou dependente do capitalismo monopolista Florestan Fernandes em seu ensaio Revolução Burguesa no Brasil escrito em 1975 nos apresenta quatro fases da dominação externa Para o autor as nações latino americanas são produtos da expansão da civilização ocidental através de um tipo de colonialismo moderno que teve início com a conquista espanhola e portuguesa e que adquiriu uma forma mais complexa após a emancipação nacional daqueles países Uma das principais reflexões acerca da relação entre a economia brasileira e mundial diz respeito a dupla articulação e a conciliação de interesses entre a burguesia brasileira e a burguesia internacional A dupla articulação impõe a conciliação e a harmonização de interesses díspares tanto em termos de acomodação de setores econômicos internos quanto em termos de acomodação da economia capitalista dependente às economias centrais e pior que isso acarreta um estado de conciliação permanente de tais interesses entre si Formase assim um bloqueio que não pode ser superado e que do ponto de vista da transformação capitalista torna o agente econômico da economia dependente demasiado impotente para enfrentar as exigências da situação de dependência FERNANDES 1975 p 473 A dominação externa e a colonização de quase todas as nações latino americanas foram construídas com base no antigo sistema colonial apresentando um duplo fundamento legal e político Em termos jurídicos a legitimidade de dominação tinha um duplo fundamento legal e político Os colonizadores eram submetidos à vontade e ao poder das Coroas de Espanha e Portugal às quais deviam como vassalos obediência e lealdade Essa identidade de interesses das Coroas e dos colonizadores sofreu várias rupturas Não obstante permitiu tanto o endosso dos interesses dos colonizadores pelas Coroas como inversamente uma orientação de valores pela qual os colonizadores agiam em benefício dos interesses das Coroas FERNANDES 1975 p 13 103 O primeiro tipo de dominação externa tinha o objetivo de manter o status quo dos colonizadores e da Coroa o que foi conseguido através da transplantação dos padrões ibéricos de estrutura social adaptado ao trabalho dos nativos ou à escravidão Dessa forma escravizados as nativos as e mestiços as foram mantidos fora das estruturas estamentais em um sistema de castas sem mobilidade o que possibilitou à Coroa e aos colonizadores uma superexploração da força de trabalho Os interesses dos colonizadores e da Coroa sofreram rupturas ao longo do tempo porém sem abalar a conjugação de interesses entre ambos Para o referido autor 1975 alguns fatores desencadearam a crise desse tipo de dominação o próprio padrão de exploração colonial inerente ao sistema político e legal da dominação apresentava dificuldades pois as economias da Espanha e de Portugal não conseguiam sustentar o financiamento das atividades mercantis de descoberta exploração e crescimento das colônias A luta pelo controle econômico das colônias latinoamericanas na Europa e a ação dos vitimados pela rigidez da ordem social e interessados na destruição do antigo sistema colonial também representaram fatores preponderantes para a crise do antigo sistema colonial O segundo tipo de dominação externa foi identificado por Fernandes 1975 como neocolonialismo as nações europeias que conquistaram o controle dos negócios de exportação e importação na América Latina estavam mais interessadas no comércio que na produção local A produção com vistas à exportação imediata já estava organizada numa base bastante compensadora em termos de custos Por outro lado a ausência de produtos de alto valor econômico e a existência de um mercado consumidor relativamente amplo tornou mais atraente o controle de posições estratégicas nas esferas comerciais e financeiras A Inglaterra por exemplo iniciou uma política comercial que propiciou rápido impulso à emergência dos mercados capitalistas modernos nos centros urbanos das excolônias FERNANDES1975 p15 Houve uma expansão das agências comerciais e bancárias e uma monopolização dos mercados latinoamericanos já que as excolônias não possuíam recursos necessários para produzir os bens importados e a classe dominante tinha muito interesse na exportação Os efeitos estruturais e históricos dessa dominação foram agravados pelo fato de que os novos controles desempenhavam uma função reconhecida a manutenção do status quo ante da economia com o apoio e a cumplicidade das classes exportadoras os produtores rurais e os seus agentes ou os comerciantes urbanos FERNANDES 1975 p 15 Escolheram assim um papel econômico secundário e dependente com as estruturas econômicas construídas sob o antigo sistema colonial 104 O terceiro tipo de dominação externa foi uma consequência da reorganização da economia mundial vinda da Revolução Industrial na Europa O neocolonialismo foi uma fonte de acumulação de capital nos países europeus essenciais para o desenvolvimento do capitalismo industrial As influências externas atingiram todas as esferas da economia da sociedade e da cultura não apenas através de mecanismos indiretos do mercado mundial mas também através de incorporação maciça e direta de algumas fases dos processos básicos de crescimento econômico e de desenvolvimento sociocultural Assim a dominação externa tornouse imperialista e o capitalismo dependente surgiu como uma realidade histórica na América Latina FERNANDES 1975 p 16 grifos nossos Esse tipo de dominação realça o padrão dual de expropriação do excedente econômico ou seja há uma superexploração da força de trabalho para alimentar tanto a economia externa quanto a interna preservando o esquema de exportação importação baseado na produção de matériasprimas transfere o excedente econômico dos países de capitalismo dependente para os países hegemônicos Fernandes 1975 p65 considera que o que foi considerado idade de ouro do capitalismo estrangeiro só foi idade de ouro para os países europeus e para os Estados Unidos as economias dependentes foram transformadas em mercadorias tendo a sua integração nacional negligenciada O quarto tipo de dominação externa surge com a expansão das grandes empresas corporativas nos países latinoamericanos especialmente a indústria leve e pesada Essas empresas trouxeram um novo tipo de organização com novos padrões de planejamento propaganda de massa concorrência e controle interno das economias dependentes Os Estados Unidos como superpotência configurando o imperialismo total que organiza a dominação externa a partir de dentro e em todos os níveis da ordem social desde o controle da natalidade comunicação e consumo em massa até a educação FERNANDES 1975 Esse tipo de imperialismo demonstra que os países latinoamericanos mesmo os mais avançados não dispõem nem dos requisitos básicos para o rápido crescimento econômico os interesses são controlados a partir de fora e a burguesia só se preocupa em manter os seus interesses particularistas A dominação externa em todas as suas formas produz uma especialização geral das nações como fontes de excedente econômico e de acumulação de capital para as nações capitalistas avançadas FERNANDES 1975 Fernandes 1975 cita que essa dominação externa produz três realidades estruturais a concentração de renda prestígio social e poder dos estratos que possuem 105 importância estratégica para o núcleo hegemônico a existência de estruturas econômicas socioculturais e políticas em diferentes épocas históricas realçando o desenvolvimento desigual e combinado46 elucidado por Trotsky a exclusão de ampla parcela da sociedade condenados do sistema47 como requisito estrutural e dinâmico para o desenvolvimento do sistema Essa nova fase do imperialismo não se constitui apenas de fatores econômicos há mudanças nos padrões de consumo de propaganda de tecnologia que representa uma luta violenta pela sobrevivência do próprio capitalismo A erupção do moderno imperialismo iniciouse suavemente através de empresas corporativas norteamericanas ou europeias que pareciam corresponder aos padrões ou às aspirações de crescimento nacional auto sustentado conscientemente almejado pelas burguesias latinoamericanas e suas elites no poder ou pelos governos Por isso elas foram saudadas como uma contribuição efetiva para o desarrolismo ou o desenvolvimentismo recebendo um apoio econômico e político irracional FERNANDES 1975 p22 O imperialismo destruiu as possibilidades de desenvolvimento dos países capitalistas dependentes apresentando uma aparência de desenvolvimentismo com a submissão consentida da burguesia local que não passou de uma falácia uma revitalização de elementos antigos e a expropriação da riqueza de dentro para fora configurando o recolonialismo Os Estados Unidos desempenharam um papel pioneiro e dominante nesse processo devido às consequências de sua expansão econômica na América Latina principalmente pelo fato de os países latinoamericanos não possuírem recursos materiais e humanos para estabelecer limites à hegemonia estadunidense Em consequência o processo de modernização iniciado sob a influência e o controle dos Estados Unidos aparece como uma rendição total e incondicional propagandose por todos os níveis da economia da segurança e da política nacionais da educação e da cultura da comunicação em massa e da opinião pública e das aspirações ideais com relação ao futuro e ao estilo de vida desejável FERNANDES 1975 p 23 Além do mais para as elites econômicas a única alternativa para enfrentar a subversão a corrupção e evitar o comunismo foi ceder ao recolonialismo isto é essa rendição total ganha materialidade a partir do traço ou condição colonial permanente Segundo Fernandes 1975 p22 46 A lei do desenvolvimento desigual e combinado formulado por Trotsky compreende a ocorrência simultânea de aspectos avançados e atrasados no processo de desenvolvimento dos países Isso se revela especialmente nos países periféricos do sistema mundial nos quais um setor extremamente moderno da economia pode existir de forma combinada com o mais atrasado resultando numa formação social sem grandes contradições entre as classes dominantes 47 Segundo Florestan Fernandes os condenados do sistema são os agentes humanos que não se classificavam para o mercado de trabalho e assim ficavam mais vulneráveis à superexploração do trabalho O setor humano marginal de sua origem econômica 106 Está claro que essa condição se altera continuamente primeiro se prende ao antigo sistema colonial depois se associa ao tipo de colonialismo criado pelo imperialismo das primeiras grandes potências mundiais na atualidade vinculase aos efeitos do capitalismo monopolista na integração da economia internacional Ela se redefine no curso da história mas de tal modo que a posição heteronômica da economia do país em sua estrutura e funcionamento mantémse constante O que varia porque depende da calibração dos fatores externos envolvidos é a natureza do nexo da dependência a polarização da hegemonia e o poder de determinação do núcleo dominante Dessa forma o que torna a hegemonia dos Estados Unidos ainda mais forte é a concepção estadunidense de segurança fronteira econômica e ação conjunta contra mudanças radicais ou revolucionárias de países vizinhos ou seja o objetivo é incorporar os países latinoamericanos ao espaço econômico e sociocultural dos Estados Unidos e para isso coexistem Instituições oficiais semioficiais ou privadas encarregadas de conduzir a política de controle global das finanças da educação da pesquisa científica da inovação tecnológica dos meios de comunicação em massa do emprego extranacional das políticas das forças armadas e mesmo dos governos FERNANDES1975 p 24 Os valores culturais oriundos dessa hegemonia estadunidense influenciam o consumo em massa e consequentemente incentivam o desperdício a competição e o individualismo assegurando os interesses privados que vai ter influência direta no Brasil onde a renda o prestígio social e o poder continuam nas mãos da classe dominante pois não há democracia de participação ampliada garantidora da participação da classe trabalhadora só a democracia restrita que atende exclusivamente aos interesses da classe dominante ou seja nos termos de Florestan Fernandes democracia para os mais iguais FERNANDES 2019 p 61 Fernandes 1975 lembra que nesse processo os países latinoamericanos enfrentam duas duras realidades estruturas econômicas socioculturais e políticas internas que podem absorver as transformações do capitalismo mas que inibem a integração nacional e o desenvolvimento autônomo e a dominação externa que estimula a modernização e o crescimento nos estágios mais avançados do capitalismo mas que impede a revolução nacional e uma autonomia real Os dois aspectos constituem faces da mesma moeda De acordo com Lima 2009 o Brasil se insere na economia mundial subordinado econômica política e culturalmente à Europa e posteriormente aos EUA mantendo características dos ciclos econômicos anteriores combinando formas arcaicas e modernas de produção que articulam a industrialização por substituição de importações e a crescente urbanização com a ordem rural vigente Essa 107 subordinação conciliava os interesses da burguesia nacional e internacional que forjou uma democracia restrita isto é com a mínima participação da classe trabalhadora nas decisões políticas A estreita ligação do imperialismo ao proibicionismo se dá ao considerar que a Guerra às drogas48 é uma das formas de controle social pois declarando guerra aos psicoativos o Estado justifica suas intervenções na sociedade através do discurso da repressão à produção e consumo de substâncias tidas como ilícitas e assim a violência vai incidir principalmente nas classes sociais subalternas Como vimos anteriormente muitas substâncias eram naturalmente usadas e comercializadas para alívio de males físicos e espirituais e não sendo portanto proibidas Segundo Macrae 2003 p1 uma das razões pelas quais durante a maior parte da história o uso de psicoativos não apresentasse maiores ameaças à sociedade constituída é que ele geralmente se dava no bojo de rituais coletivos ou orientado por objetivos que a sociedade reconhecia como expressão de seus próprios valores No entanto a partir do século XVI esse quadro mudou com as Grandes Navegações os europeus entraram em contato com uma variedade de produtos entre eles as chamadas Substâncias Psicoativas SPA De acordo com Escohotado 1998 o uso de algumas dessas substâncias pelos povos originários tinha caráter de resistência cultural ao processo de colonização o que fez com que inicialmente seu uso fosse violentamente reprimido pelos colonizadores como foi o caso do ópio na Ásia e da folha de coca na América Latina Porém ao mesmo tempo em que havia repressão era possível perceber uma certa tolerância em relação ao uso das SPAs usadas como estratégia de dominação dos colonizadores pois por outro lado essas substâncias apresentavam um comércio bem lucrativo como é o caso do ópio Antes do início da Era Cristã o ópio era utilizado na China para fins medicinais o consumo para uso recreativo era restrito às elites e à nobreza porém a partir de meados do século XVII a situação mudou pois houve a introdução do hábito de fumar tabaco entre os marinheiros europeus Assim o comércio começou a florescer em dois sentidos mas a um alto preço para a China as quantidades maciças de tabaco desembarcadas popularizaram o hábito do fumo começando a causar um problema de saúde pública Prenunciando um padrão que se repetiria na China e no resto do mundo a partir de então um édito da época proibindo o hábito logrou agravar ainda mais a situação proibidos de fumar tabaco os chineses passaram a fumar ópio A expansão exponencial do hábito estimulou o 48 Guerra às drogas é um termo comumente aplicado a uma campanha liderada pelos Estados Unidos de proibição de drogas ajuda militar e intervenção militar com o intuito de definir e reduzir o comércio ilegal de drogas 108 aumento das importações de ópio indiano dando início a um lucrativo círculo vicioso SILVA 2013 p 65 Assim a Guerra do Ópio 1839 e 1865 foi o marco histórico do processo de mercantilização das SPA pois com a expansão global do capitalismo e em nome do livre comércio a Inglaterra declarou guerra à China garantindo assim o monopólio internacional sobre a distribuição do ópio Somente a partir do século XVII a questão do entorpecentes entrou na esfera das relações internacionais com a utilização do comércio do ópio pelas potências europeias como instrumento de sua política mercantil na Ásia China e Índia esta última já sob domínio britânico seriam as nações mais afetadas na fase inicial SILVA 2013 p 65 Percebese então que a proibição vai muito além da criminalização de substâncias representando não só o controle social das classes subalternas mas principalmente a lucratividade das grandes potências Segundo Torcato 2016 para entender o processo de criminalização dos psicoativos é necessário entender as particularidades desse consumo em um contexto de afirmação da sociedade moderna burguesa Sendo assim ele acredita que uma abordagem clássica se dá através da oposição entre liberalismo e antiliberalismo Com relação ao uso de psicoativos o liberalismo se opunha a interferência estatal ou da igreja no campo da consciência isto é o proibicionismo se ligava então ao antiliberalismo Assim com o desenvolvimento do conhecimento herbário e a identificação dos princípios ativos tentouse romper a relação das plantas com a magia Ao se consolidar o discurso médico como legítimo a partir de meados do século XIX o liberalismo começou a sofrer duras críticas Nesse sentido Torcato 2016 p 21 afirma que a patologização49 do consumo de álcool e outros psicoativos estariam ligados a emergência da medicina ao lugar anteriormente ocupado pela religião processo que levou ao que é denominado medicalização da sociedade ou seja a medicina conseguiu acomodar seus interesses corporativos nos dispositivos de controle instaurados pelo Estado que de certa forma reafirma a consolidação da medicina como ciência Como analisamos no item 21 algumas ervas até serem consideradas substâncias proibidas foram muito utilizadas na forma ritualísticareligiosa e medicinal O mundo antigo pareceu conhecer uma variedade de substâncias que eram utilizadas de forma terapêutica lúdica e enteógenas dependendo do 49 Patologização ato ou efeito de patologizar de transformar em doença ou anomalia mesmo que não seja 109 contexto o direito romano nesse aspecto tradicionalmente dividia a magia em branca que objetivava a cura e negra visando prejudicar as pessoas Os ocidentais conheciam e apreciavam muito o ópio principalmente na forma líquida as solanáceas meimendro mandrágora estramônio beladona a Cannabis incluindo o haschish além de outras substâncias visionárias o princípio ativo muito próximo ao LSD TORCATO 2016 p 31 grifos nossos Analisar a ascensão do Cristianismo é importante nesse contexto pois o paganismo considera a euforia tanto positiva quanto negativa como um fim em si mesmo já no Cristianismo é o oposto a dor e o prazer não podem ter fim em si mesmo pois são considerados pecados Então fazer uso de psicoativos que não seja o álcool o vinho era aceito que podem gerar euforia e outros sentimentos como prazer alegria era visto como pecado e por isso tão perseguido pela Inquisição Para Torcato 2016 apud Courtwright 2001 p9194 um dos motivos pelos quais os psicoativos eram restritos ao uso médico é porque eles eram desaprovados pelas religiões verdadeiras no caso o Cristianismo Islamismo e Hinduísmo As demais crenças seriam falsas religiões que utilizam ídolos químicos que distraem os fiéis e levandoos ao caminho da autodestruição Notase que além do racismo a afirmação da medicina como saber hegemônico e a intolerância religiosa estão presentes na maioria das justificativas para proibir o uso de substâncias psicoativas ou seja aplicase a moral cristã e o padrão biomédico para referenciar essas análises Com o desenvolvimento do capitalismo o comércio transoceânico foi responsável por transportar plantas animais microorganismos e claro substâncias psicoativas Ocorreu uma mundialização dos psicoativos mas não de todos Torcato 2016 destaca que essa mundialização seguiu os padrões culturais do Ocidente cristão grande inimigo das práticas tradicionais xamânicas e das substâncias de característica enteógena50 entendidas como demoníacas Além da rejeição aos fármacos com essas características outros fatores também foram relevantes para entender por que algumas substâncias se tornaram commodities globais e outras não 1 aversão inicial provocada pelo gosto ruim ou por formas de consumo desagradável 2º Efeitos estéticos indesejados como problemas para os dentes ou para as vísceras 3º Produtos que estragam muito rápido e apresentam problemas logísticos para o comércio de longa distância TORCATO 2016 p 37 apud COURTWRIGHT 2001 Assim durante a expansão do comércio transatlântico as substâncias foram separadas pelos europeus em dois grupos um grupo continha substâncias de enorme 50 Enteógenas substância alteradora da consciência que induz ao estado xamânico ou de êxtase É um neologismo que vem do grego foi proposto por Gordon Wasson em 1973 110 expansão e difícil proibição como o café açúcar tabaco e bebidas alcoólicas e o outro as substâncias de expansão limitada que possibilitaram intervenção pública como o ópio a cannabis e a coca e os derivados provenientes dessas plantas Torcato 2016 ressalta que esses psicoativos tiveram trajetórias similares iniciando pela forma medicinal e se popularizando posteriormente até serem proibidas Mas afinal quem determina se as substâncias são lícitas ou ilícitas Durante grande parte do século XX a proibição de dadas substâncias e a promoção de outras foi colocada por uma classe médica ansiosa em transformar a saúde em reserva de mercado Entretanto desde 1963 a Divisão da Farmacologia e Toxicologia da Organização Mundial da Saúde OMS é categórica em afirmar que era impossível estabelecer uma correlação entre dados biológicos e medidas administrativas Está claro desde então que essa divisão entre psicoativos lícitos e ilícitos responde a fatores outros que não técnicos Essa divisão não foi decidida por químicos médicos ou toxicologistas TORCATO 2016 apud SILVA 2013 p 375 Ou seja essas classificações não foram decididas por especialistas da área o que demonstra que os interesses econômicos e ideopolíticos por trás dessas substâncias é o que define quais serão proibidas e quais serão aceitas Para Torcato 2016 a caracterização dos psicoativos atualmente proibidos como ineficazes do ponto de vista terapêutico e prejudiciais do ponto de vista social e racial é outro pilar da percepção hegemônica que associa a restrição de acesso aos fármacos a uma atitude ética e humanitária Isto é a escolha do que é permitido ou proibido vai além das questões técnicas passando por fatores econômicos políticos e ideoculturais No Brasil o álcool também foi utilizado em sua forma terapêutica para curar doenças como tétano e intoxicação do sangue até meados da década de 1930 conforme Torcato 2016 Porém os discursos formados sobre essa questão portavam um caráter social voltados para a disciplinarização Importante destacar que o pensamento médico que condenava o uso excessivo do álcool como comportamento libertino que afetava gradativamente os órgãos se transformou no pensamento que entendia o uso do álcool como uma doença específica transferindo o uso terapêutico do álcool para a psiquiatria Durante o final do século XIX e a primeira metade do século XX as práticas psiquiátricas procuraram consolidar sua especialidade médica através da desqualificação do saber médico entendido como erudito e as práticas populares de automedicação Nessas disputas a emergência da patologização da ebriedade51 coexistiu com duas tradições médicas de uso do álcool que precisam ser destacadas a primeira delas é referente à clínica e a terapêutica e ao lado do tétano e das suas qualidades como depurador do 51 Ebriedade estado de uma pessoa ébria embriaguez 111 sangue o álcool tinha outras inúmeras outras potencialidades terapêuticas TORCATO 2016 p 173 Utilizado não só no preparo caseiro de remédios o álcool estava presente em vários tônicos energizantes e fortificantes inclusive no remédio Biotônico Fontoura entre o final do século XIX e início do século XX a partir da expansão da indústria farmacêutica do Brasil Destacamos que o termo droga tem origem na palavra droog holandês antigo que significa folha seca isto porque antigamente quase todos os medicamentos eram feitos à base de vegetais Atualmente a medicina define droga como sendo qualquer substância que é capaz de modificar a função dos organismos vivos resultando em mudanças fisiológicas ou de comportamento CEBRID Centro Brasileiro de Informações Sobre Drogas Psicotrópicas Ponderando sobre as características do que pode ser considerado como psicoativo o açúcar o café e o chocolate também estão incluídos nessa lista Segundo Carneiro 2002 os psicoativos atendem às necessidades humanas o seu uso em quase todas as culturas humanas está relacionado à medicina religião cura e prazer A maconha por exemplo nem sempre foi considerada um psicoativo tendo sido usada na forma ritualísticoreligiosa e medicinal desde a Antiguidade tendo início a proibição no Brasil somente em meados do século XIX Nesse sentido ressaltamos que o proibicionismo é uma forma de classificar o paradigma que rege a atuação dos Estados em relação a determinado conjunto de substâncias A proibição capitaneada pelos Estados Unidos se deu entre outros motivos para manter a ordem social levando em conta os interesses da nascente indústria médicofarmacêutica pela monopolização na produção de novos psicoativos e a radicalização do puritanismo estadunidense São do começo do século XX as raízes da atual conjuntura proibicionista Interessada no aproveitamento máximo da força de trabalho a coerção industrial estabeleceu como principais alvos o sexo e as drogas inclusive o álcool É daí que vêm as proibições estadunidenses contra a venda e consumo de ópio 1909 cocaína e heroína 1914 e finalmente das bebidas alcoólicas com a famosa Lei Seca de 1919 Além da questão econômica em tal onda proibicionista havia explícita conotação racista iniciada com o Decreto de Expulsão de Chineses em 188252 e a consequente estigmatização do ópio como agente agressor da cultura e da moral estadunidense O álcool era associado à população negra e a fusão dos dois álcool negros também seria um grande risco a ser combatido DELMANTO 2015 p3 52 Por meio da lei de exclusão dos chineses promulgada em 1882 a Casa Branca negou a entrada aos trabalhadores dessa procedência atraídos então pela febre do ouro na Califórnia e pelas possibilidades de emprego na ferrovia alegando que afundavam os salários da mãodeobra local 112 A Lei Seca criada em 1919 foi revogada em 1933 considerada inexequível De acordo com Marasciulo 2019 a partir dessa lei ficava proibida a produção e comercialização de bebidas alcoólicas lei que foi criada também por interesse de grupos religiosos protestantes Nessa mesma época nos Estados Unidos associavase o uso da maconha aos mexicanos uso que se disseminou entre a população dessa forma aproveitandose dos boatos de que a maconha induzia à promiscuidade e ao crime Harry Jacob Aslinger53 deu início à perseguição da erva Anslinger não estava motivado apenas por motivações pessoais e de ódio aos psicoativos as petrolíferas e fabricantes de fibras sintéticas estavam disputando espaço com a indústria do cânhamo fibra extraída da cannabis e que pode ser usada na fabricação de tecidos papel cordas resina e combustíveis de excelente qualidade e bom preço Assim um dos interesses de Anslinger na proibição da maconha era beneficiar empresas como a Dupont grande empresa de petróleo e Hearst imensa rede de jornais De acordo com Carneiro 2002 o fenômeno da Lei Seca se repete no final do século XX dessa vez em escala global que deu ênfase a comércios de altos lucros acentuando a violência Para ele o consumo de psicoativos ilícitos cresce principalmente devido ao proibicionismo pois cria uma demanda de investimentos em busca de lucros A crescente intervenção política e militar sob o pretexto da luta contra as drogas alcança com o Plano Colômbia as características de uma guerra neocolonial Tal situação que acentuouse a partir dos anos 70 quando Nixon lançou a guerra contra as drogas atingiu graus extremos nos anos 80 e 90 na entrada ao terceiro milênio parece tornarse ainda mais grave Diversos aspectos da degeneração da situação social relacionamse direta ou indiretamente ao estatuto do comércio de drogas na sociedade contemporânea aumento da violência urbana do número de encarcerados e das forças militares envolvidas com as drogas CARNEIRO 2002 p1 Outros interesses estão envolvidos na proibição dos psicoativos de acordo com Rybka Nascimento e Guzzo 2018 a medicalização e a criminalização dos psicoativos são os elementos chave que sustentam o proibicionismo A partir da legitimidade cientifica da medicina alcançada ao longo do século XIX houve uma instrumentalização desses saberes ou seja os saberes médicos se afirmavam e outros saberes foram sendo deslegitimados Essa intervenção da medicina e o controle que tinha sobre os corpos deu origem ao complexo industrial da saúde 53 Harry Jacob Aslinger foi um comissário do serviço de Narcóticos dos Estados Unidos cargo criado durante a gestão do Presidente Herbert Clarck Hoover Foi comissário de 1930 a 1962 113 Em vista disso exatamente nos anos finais do século XIX quando se constitui um mercado mundial no capitalismo monopolista é que o proibicionismo segue uma direção hegemônica com o protagonismo estadunidense sobre determinados psicoativos a começar pelo ópio Desde a segunda metade do século XIX os Estados Unidos conviviam em seu território com insatisfações advindas de movimentos puritanos de cariz abstêmio Ligas Associações Igrejas Representantes Políticos que destilavam reprovação moral e xenofobia a minorias e imigrantes que se deslocavam para os Estados Unidos em busca de oportunidade de trabalho BRITES 2017 p98 Para Carneiro 2002 o século XX foi o momento em que o consumo de psicoativos alcançou a sua maior extensão mercantil por um lado e o maior proibicionismo oficial por outro Embora sempre tenham existido em todas as sociedades mecanismos de regulamentação social do consumo das drogas até o início do século XX não existia o proibicionismo legal e institucional internacional A reprovação ao uso de substâncias psicoativas geralmente de caráter moral vinculava o uso dessas substâncias à alguns grupos sociais assim o ópio foi associado aos chineses que foram para os Estados Unidos trabalhar na construção de estradas de ferro a maconha foi ligada aos mexicanos vistos como insolentes aos negros as foi associada a cocaína e o álcool aos imigrantes irlandeses Com o fim de seu principal rival político e ideológico a União Soviética o imperialismo estadunidense requisitou novas formas de penetração e ingerência sobre os territórios ambicionados para controle direto ou indireto explícito ou não Sem um inimigo declarado para justificar as intervenções militares e econômicas a guerra ao tráfico vem bem a calhar como justificativa para a dilatação do perímetro defensivo do país que simplesmente passava a abarcar o mundo ARANTES 2004 Segundo Carneiro 2002 o estatuto do proibicionismo separou a indústria farmacêutica a indústria do tabaco a indústria do álcool entre outras da indústria clandestina das drogas proibidas num mecanismo que resultou na hipertrofia do lucro no ramo das substâncias interditas De acordo com Brites 2017 p 99 os Estados Unidos ingressaram nesse cenário motivados por pressões internas advindas daqueles movimentos puritanos e também pela perspectiva de imposição de sua liderança internacional Com o objetivo de se projetar como potência econômica e militar e ao mesmo tempo responder às pressões internas os Estados Unidos convocam duas Conferências Mundiais para tratar primeiramente do que eles consideravam o problema do ópio A primeira Conferência foi realizada em Xangai em 1909 e a segunda em Haia em 1912 A cada edição as Conferências Internacionais seguem ampliando suas pautas programáticas as medidas de controle as obrigações e sanções aos países 114 signatários que desconsiderem as resoluções aprovadas sempre sob a hegemonia estadunidense A lista de substâncias controladas cujo consumo tornase restrito a finalidades terapêuticas vai sendo alterada a cada Conferência e à medida que outros interesses entram na disputa gradativamente muitas substâncias tornamse proibidas BRITES 2017 p 101 A Conferência realizada em Haia em 1912 tinha como objetivo abordar o uso do ópio porém a inclusão da cocaína foi uma estratégia do governo inglês que queria desviar a atenção sobre sua participação no comércio do ópio e atingir os produtores alemães cuja indústria farmacêutica estava em plena expansão BRITES 2017 Em 1912 durante a Primeira Convenção Internacional do Ópio realizada em Haia a produção e a comercialização da morfina da heroína e da cocaína já haviam sido regulamentadas A reunião gerou repercussão por aqui sendo veiculada em jornais de circulação diária como uma grande campanha O Brazil adhere ao combate contra o opio a morphina e a cocaina Os signatários da Convenção se comprometiam a editar leis e regulamentos severos para as pharmacias e drogarias de modo a restringir o seu emprego aos seus usos medicos e legitimos SAAD 2015 p 61 grifos do autor O proibicionismo vai sendo assumido por diversos países quanto mais se restringe o uso da morfina ópio e cocaína para usos médicos tidos como legítimos mais avançam a produção de drogas sintéticas como as anfetaminas que por exemplo serviam para aumentar a disposição dos soldados durante as guerras À medida que se restringe de maneira cada vez mais acentuada o consumo de psicoativos a prescrições terapêuticas combatendo e transmutando os usos lúdicos hedonistas e contestatórios em hábitos ilegais e condenáveis como ocorre com os usos do ópio da cocaína da heroína e da maconha ampliam se a produção e o comércio de substâncias sintéticas como a metadona barbitúricos e anfetaminas BRITES 2017 p 102 Enquanto proibiase o uso da heroína e da cocaína por outro lado os laboratórios começaram a isolar quimicamente essas substâncias transformandoas em medicamentos de alto lucro para a indústria farmacêutica Ainda no século XIX com o avanço do conhecimento científico substâncias como a heroína e a cocaína foram isoladas quimicamente permitindo sua produção em laboratório em concentrações muito superiores às encontradas nas plantas cultivadas por milênios em seus territórios de origem Além das SPA já conhecidas e consumidas inúmeras novas substâncias passaram a ser sintetizadas em laboratório abrindo um mercado muito promissor O interesse econômico em torno das SPA evidenciase no crescimento vertiginoso dos valores movimentados em seu comércio ao longo do século XX tanto pelo tráfico internacional de drogas quanto pela produção e venda legal de medicamentos psicotrópicos através da indústria farmacêutica Se o primeiro se beneficia de taxas de lucro que somente podem ser obtidas na condição de ilegalidade a última conquistou o monopólio da produção e do comércio de grande parte das drogas legais em um processo contínuo de desenvolvimento de novos produtos legitimado pela ciência RYBKA NASCIMENTO GUZZO 2018 p 2 115 A Conferência do Ópio e outros psicoativos realizada em Genebra em 1924 contou com a participação do delegado brasileiro Dr Pernambuco Filho O Brasil tinha sido escolhido para fazer parte da composição arbitral na Conferência A ação da delegação do Brasil segundo Pernambuco Filho foi em defesa das propostas que visavam o benefício da humanidade ou combatiam de modo seguro o flagelo das drogas nocivas Assuntos referentes à heroína codeína láudano e haxixe foram cuidados pela delegação que conseguiu mesmo colocar a diamba haxixe brasileiro que tantos malefícios causa no norte do Brasil entre as drogas sujeitas à fiscalização da convenção Estava dado o primeiro passo na direção da proibição da maconha Com pés e esforço brasileiros SAAD 2015 p 7980 Com essa Conferência a cannabis entra na pauta de debate e passa juntamente como o ópio e a cocaína a integrar a lista de produtos controlados Nesse momento a maconha foi associada a atitudes subversivas que ganhava força no Egito No entanto antes mesmo de uma legislação mais rigorosa para criminalizar a maconha o Brasil já era pioneiro na proibição criando na Câmara Municipal do Rio de Janeiro a primeira lei que restringia o seu uso Foi inserido no Código de Posturas Municipais no dia 4 de outubro de 1830 na Seção Primeira Saúde Pública Título 2º Sobre a Venda de Gêneros e Remédios e sobre Boticário a seguinte interdição É proibida a venda e uso do pito de pango bem como a conservação dele em casas públicas os contraventores serão multados a saber o vendedor em 20 mil réis e os escravos e mais pessoas que dele usarem em oito dias de cadeia Pito de pango era como se denominava a maconha na época conforme analisamos anteriormente Essa primeira lei restritiva já mostrava o seu caráter racista Uma legislação proibitiva mais abrangente de caráter nacional sobre a maconha só apareceria mais de cem anos depois através da inclusão da planta na lista de substâncias proscritas em 1932 Porém mesmo antes de sua proibição a maconha era diretamente associada às classes baixas aos negros e mulatos e à bandidagem SAAD 2015 p 4 Ainda com relação à Conferência de 1924 em Genebra políticos e juristas brasileiros elaboravam projetos que regulassem o comércio e o consumo de psicoativos A Comissão de Saúde Pública da Câmara dos Deputados assinou em setembro de 1926 um projeto prevendo que portar importar e exportar substâncias de natureza analgésica ou entorpecente sem licença das unidades sanitárias ou policiais competentes acarretaria prisão e multa Já a Convenção Única de 1961 tinha uma tendência mais intolerante com relação ao aumento do consumo da heroína e a intensificação de sua política de segurança frente à ameaça comunista Ao mesmo tempo que aumentava o consumo de heroína 116 cresciam as manifestações públicas questionando a eficácia do proibicionismo e o reconhecimento de medidas de saúde que levassem em conta a dependência de psicoativos como doença BRITES 2017 p105 Para Fiore 2012 todas essas ações não foram desenvolvidas apenas por uma única motivação histórica Articulado ao racismo religioso estava o interesse da nascente indústria médicofarmacêutica pela monopolização da produção de psicoativos os novos conflitos geopolíticos do século XX e o desejo das elites de manter a ordem social transformando a Guerra às drogas em um objetivo do Estado O proibicionismo como ideologia serviu e serve a muitos usos Durante todo o século XX e neste início do XXI serviu para justificar cruzadas morais de corte étnicoracial e de classe repressões militares aos movimentos insurgentes contra a desigualdade nas sociedades de capitalismo periférico alguns de caráter anticapitalista a caça aos inimigos internos e externos as invasões militares e a associação entre narcotráfico e terrorismo BRITES 2017 p110 A declaração de uma Guerra às drogas nos Estados Unidos se adequou perfeitamente aos interesses de punir os pobres já que o uso abusivo dos psicoativos ilícitos era predominantemente associado às classes subalternas aos negros as imigrantes e desempregados as A guerra contra as drogas nascida do ventre da Lei Seca além de servir para o enriquecimento direto das máfias das polícias e dos bancos serve para o controle dos cidadãos até mesmo no íntimo de seus corpos vigiados com testes de urina e batidas policiais O interior do corpo como jurisdição química do Estado o controle aduaneiro pelo Estado das fronteiras da pele tornase uma dimensão de intervenção e vigilância extremada sobre as populações CARNEIRO 2002 p 1617 Ressaltamos que o atual sistema global de combate aos psicoativos se baseia nas recomendações de três Convenções realizadas pela Organização das Nações Unidas ONU que ocorreram respectivamente em 1961 1971 e 1988 KARAM 2017 A Guerra às drogas ficou popularmente conhecida em 1971 através de uma conferência de imprensa realizada pelo então Presidente dos Estados Unidos Richard Nixon e tomou proporção mundial O desenvolvimento global da guerra aos psicoativos é indissociável do desenvolvimento do imperialismo estadunidense e um produto direto do mesmo que tem em sua base o racismo a xenofobia e o ódio de classe já que o uso dos psicoativos foi associado aos negros as imigrantes desempregados as moradores de subúrbios transformando essa massa da população no alvo da Guerra às drogas 117 No Brasil não é diferente pois coloca em curso o genocídio da população negra jovem e periférica A Guerra às drogas na verdade não é uma guerra ao tráfico já que só no Brasil o narcotráfico movimenta 17 bilhões anualmente54 dessa forma inferese que há muitos interesses econômicos e ideopolíticos por trás da proibição articulada à indústria bélica e à indústria do encarceramento tendo como base o racismo como veremos a seguir No Brasil a Guerra às Drogas e o encarceramento em massa representam estratégias de extermínio principalmente da juventude negra pobre e periférica como forma de manutenção do status quo da classe dominante Dessa forma o estatuto do proibicionismo com relação aos psicoativos é pautado pelo racismo institucional já que com a justificativa de exterminar os psicoativos os policiais têm livrearbítrio para entrar nas favelas e exterminar corpos negros levando a cabo a hipocrisia da Guerra às drogas Em nome dessa guerra o Estado justifica uma série de violações de direitos de classes subalternas que sofrem todo tipo de expropriação Na guerra às drogas há uma sinergia entre o racismo e o ódio de classe A junção desses marcadores sociais determina as vítimas dessa guerra uma guerra que não é nem poderia ser contra as drogas é contra as pessoas mas não todas elas algumas parecem ter um alvo invisível que a maquinaria bélica do Estado sabe reconhecer Os corpos negros são controlados por políticas de Estado que os tornam descartáveis Um signo que o racismo atribuiu à corporeidade negra FERRUGEM 2020 p 46 Em pesquisa recente intitulada Um tiro no pé Impactos da proibição das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e São Paulo55 detalha pela primeira vez os custos da proibição para as instituições de justiça criminal dos dois estados ao longo de um ano o estudo também faz comparativos do que poderia ser feito com o orçamento investido na guerra se fosse investido em educação saúde e renda básica Foram estudados os gastos da Polícia Militar Polícia Civil Ministério Público Defensoria Pública Tribunal de Justiça Sistema Prisional e Sistema Socioeducativo A pesquisa foi realizada de janeiro a dezembro de 2017 Reproduzimos abaixo a tabela elaborada pela pesquisa referente às despesas liquidadas totais e relativas à lei de drogas com as instituições do sistema de justiça criminal no Estado do Rio de Janeiro 54 Disponível em httpsnoticiasuolcombrcotidianoultimasnotici as20181221traficodedroga mover17biporanodizgeneralquedefendelegalizacaohtm 55 Disponível em httpsdrogasquantocustaproibircombrsegurancaejustica Acesso em 20052021 118 Tabela 2 Despesas liquidadas totais e relativas à Lei de Drogas no Estado do Rio de Janeiro Rio de Janeiro Instituição Despesa Total Indicador Proporção do trabalho da instituição dedicada à Lei de Drogas Despesa com aplicação da Lei de Drogas em Reais R Em reais R Polícia Militar 4937492307 71 350561953 Polícia Civil 1736022323 37 64232825 Ministério Público 614303065 53 32558062 Defensoria Pública 224550866 184 41317359 Tribunal de Justiça 1323229808 81 107181614 Sistema Penitenciário 1142120245 302 344920314 Degase 264554029 416 110054476 Total 10242272643 103 1050826606 Tabela retirada da pesquisa Um tiro no pé impactos das drogas no orçamento do sistema de justiça criminal do Rio de Janeiro e São Paulo De acordo com a referida pesquisa em um único ano Rio de Janeiro e São Paulo gastaram cerca de R52 bilhões para manter a proibição dos psicoativos e travar guerra contra o varejo do tráfico nas favelas e periferias Sabemos que essa guerra não acaba com os psicoativos mas serve de justificativa racista para o extermínio da juventude negra Ferrugem 2020 cita Grada Kilomba ao dizer que no racismo existem três características a construção da diferença onde a branquitude é o ponto de referência ou seja o negro é o outro A segunda não é apenas uma diferenciação e sim uma hierarquia na qual o outro está num patamar inferior A terceira é a combinação das duas primeiras a ligação entre preconceito e poder que formaria o racismo O discurso que está no imaginário social é a imagem do negro nesse caso o homem negro agressivo perigoso a mídia associa a imagem dele ao uso de psicoativos assim todo esse discurso legitima a ação do Estado que violentamente tira a vida desses jovens e há um processo de culpabilização do jovem que é geralmente caracterizado pela polícia como traficante Assim há a naturalização da morte de jovens negros periféricos Como ressaltado anteriormente o Estado opera a necropolítica o poder de ditar quem deve viver e quem deve morrer através não só da Guerra às drogas mas do encarceramento em massa que aprisiona em sua maioria corpos negros para Ferrugem 2020 o Brasil vive a realidade de um superencarceramento 119 O fato é que é impossível mensurarmos o número de pessoas atingidas pelo cárcere O impacto atinge as famílias dos presos e presas bem como as comunidades que sistematicamente veem seus moradores perdidos para a guerra às drogas seja pelas balas das disputas seja para o cárcere Mortes físicas e sociais permeiam as relações que pautam as conversas nas calçadas passando a ser matéria sistemática nas escolas ainda que não conste nos currículos já que obriga milhares de crianças a se esconderem de tiroteios Invadem os recreios das escolas as brincadeiras de crianças alteram as rotinas das famílias e torcem as perspectivas de futuro de um país inteiro FERRUGEM 2020 p 50 Desde os primórdios a questão da proibição dos psicoativos também esteve relacionada a manter uma força de trabalho focada na produção e no Brasil não foi diferente o que pudesse supostamente desviar esse foco seria criminalizado porque ia contra a ordem e o progresso A manutenção da ordem social era forjada na repressão da classe trabalhadora para continuar garantindo prestígio social renda e poder a classe dominante o racismo delineando todo o aparato repressivo do Estado O controle penal sobre a classe trabalhadora é um fenômeno orgânico ao advento das relações de produção capitalistas ou seja foi implementado desde a chamada acumulação primitiva para conter e punir as chamadas classes perigosas Na processualidade histórica do desenvolvimento e expansão da acumulação capitalista tornouse um fenômeno ineliminável do Estado para a manutenção da exploração e da dominação da burguesia sobre os trabalhadores O uso de medidas punitivas e repressivas foi assim desde sua origem marcadamente seletivo e classista tendo sua base ideológica em determinadas teorias científicas que afirmavam e difundiam que o crime é próprio dos estratos mais precarizados da sociedade como as teorias racistas das quais o darwinismo social e o movimento eugênico foram paradigmáticas DURIGUETTO 2017 p2 Podese presumir que a racionalização do trabalho e o proibicionismo estão intimamente ligados o controle sobre variados aspectos da vida da classe trabalhadora como controle sexual controle da moral e dos bons costumes se encaixam perfeitamente nas novas lógicas de trabalho que vão sendo desenhadas ao longo da história do desenvolvimento do capitalismo Além de representar um bom negócio para o mercado legal e ilegal das substâncias psicoativas o proibicionismo cumpre um papel importante que é a manutenção do status quo da classe dominante através da repressão e violência impostas às classes subalternas principalmente a negros as Essa guerra que mata homens negros e aprisiona mulheres negras é ainda mais perversa com as mulheres negras mães que perdem seus filhos para a guerra às drogas ou para o encarceramento em massa Ferrugem 2020 ressalta que se é dentro das periferias que a bala de fuzil apontada pelo Estado extermina corpos negros é também de dentro dela que nasce a luta e resistência das mulheres negras que operam não a 120 sororidade do feminismo branco mas a dororidade que carrega em seu significado a dor provocada em todas as mulheres pelo machismo mas quando se trata das mulheres negras essa dor é agravada Se o debate ainda não está de fato racializado a letalidade da guerra está Mas não só a raça também a classe o gênero e a geracionalidade estão inscritos na realidade social apontando para uma intersecção destes que se configuram como marcadores sociais FERRUGEM 2020 p 52 Criminalizar os psicoativos é criminalizar a pobreza a preocupação com a saúde é inexistente investese muitos recursos que poderiam ser alocados para a saúde educação e renda e o resultado que se tem é um genocídio cada vez maior da juventude negra pobre e periférica Então há de se considerar que existe um nexo indispensável entre o proibicionismo e o aumento dos lucros e da violência por trás do que se convencionou chamar Guerra às Drogas No Brasil devido ao caráter autocrático racista e opressor da burguesia brasileira as ações arbitrárias no combate ao uso de psicoativos são legitimadas pelo aparelho coercitivo do Estado Dessa forma o controle dos corpos são também estratégia de dominação por parte de grupos dominantes para se manter no poder Com relação aos psicoativos quando grupos em disputa pelo poder veem seus interesses ameaçados o controle sobre certas substâncias pode sofrer alterações ou seja dependendo da correlação de forças determinada substância passa a ser proibida Foi assim com o café álcool tabaco maconha ópio e cocaína que em determinados contextos sóciohistóricos foram alvo de dominação tornandose proibidas principalmente para as classes subalternas Inúmeros exemplos ao longo de toda Idade Média e do capitalismo concorrencial confirmam que a histórica relação dos indivíduos sociais com os psicoativos é afetada pela introdução de mecanismos repressivos e punitivos cujos reais propósitos eram a disputa pelo domínio de culturas povos e mercados por parte de imperadorescolonizadoresprodutores ou exportadores de matériaprima que dada a prioridade material da vida quase sempre representavam o mesmo grupo de poder BRITES 2017 p97 Como vimos nos indicadores do INFOPEN existe uma seletividade penal que tem sexo raça e classe ou seja o corpo negro é o corpo marcado para morrer No entanto não só existe o corpo marcado para morrer mas também o lugar onde essas mortes acontecem geralmente nas periferias e favelas Esse ponto nos faz pensar na questão territorial ou seja existe um racismo ambiental termo que foi cunhado pelo 121 líder afroamericano Benjamin Franklin Chavis Jr em 1981 quando o movimento negro lutava contra as injustiças ambientais O racismo ambiental tem uma relação direta de exploração da terra e das pessoas sendo que indígenas negros as e quilombolas são o grupo mais vulnerável pois lidam com as piores formas de poluição por viverem perto de lixões e locais sem saneamento básico A tomada de territórios para a construção de grandes empreendimentos acabam gerando grande degradação ambiental que afetam diretamente as comunidades que vivem no entorno São esses povos que sofrem uma série de violações de direitos por isso a Doutora em História e pesquisadora do tema Tânia Pacheco 2019 fez um levantamento com casos de injustiça ambiental e saúde no Brasil É um mapa de conflitos56 envolvendo injustiça ambiental e saúde no Brasil Nesse mapa cada conflito é classificado segundo sua localização geográfica o processo produtivo associado o tipo de população afetada a partir de uma perspectiva de autoidentificação que leva em consideração a sociodiversidade que pode existir em uma mesma comunidade município ou região e a possibilidade de um mesmo conflito abranger territórios de um conjunto de comunidades socialmente diversas os impactos ou riscos ambientais identificados ou denunciados as consequências sobre a saúde das populações e as articulações que as comunidades constroem para enfrentamento dessas situações PACHECO 2019 O chamado racismo ambiental ocorre também em razão da explosão dos monocultivos com seus agrotóxicos da extração de recursos naturais do transporte de materiais e da produção de rejeitos que afeta principalmente parcelas mais vulneráveis da população como negros as indígenas e quilombolas Segundo Bullard o racismo ambiental se refere a políticas práticas ou diretrizes ambientais que afetam diferentemente ou de forma desvantajosa seja intencionalmente ou não indivíduos grupos ou comunidades com base na cor ou raça podendo ser reforçadas por instituições governamentais jurídicas econômicas políticas e militares Tendo em conta este caráter do racismo ambiental o autor defende se tratar de uma forma institucionalizada de discriminação a qual consiste em ações ou práticas realizadas por membros de grupos raciais ou étnicos dominantes que tem particular impacto desvantajoso em membros de grupos raciais ou étnicos subordinados ALMEIDA 2015 p8 No caso dos indígenas além de passarem por contextos socioambientais injustos processos históricos de expropriações discriminação e desestruturação dos 56 Disponível em httpmapadeconflitosenspfiocruzbr Acesso em 28012020 122 seus sistemas de subsistência e autocuidado levandoos a viver processos ininterruptos de vulnerabilização ainda são afetados pela produção de commodities Tais processos são intensificados por políticas de crescimento econômico baseadas no avanço das fronteiras da produção de commodities agrícolas e minerais bem como por programas federais para expansão da infraestrutura de transportes e geração de energia que desconsideram os impactos sobre os territórios ocupados pelos povos indígenas Esta tendência ao mesmo tempo em que permite a incorporação de novas áreas à economia de mercado global desestabiliza as organizações sociais preexistentes afetando o exercício de sua territorialidade e modos de vida ao ameaçar tanto as relações culturais e simbólicas estabelecidas com os territórios quanto as formas tradicionais de apropriação dos bens comuns ROCHA PORTO PACHECO 2019 p 4 Desta feita os riscos ambientais seguem uma lógica que se beneficia das desigualdades socioambientais para destinar as atividades perigosas ou que causam danos ao meio ambiente aos territórios de grupos discriminados As desigualdades econômicas raciais e sociais são determinantes que vão impactar negativamente na saúde dessas populações como veremos a seguir No que diz respeito ao acesso à cannabis medicinal no Brasil se por um lado transformamna em uma commoditie de alto valor por outro retiram a possibilidade de acesso das famílias pauperizadas a esse tipo de tratamento como analisaremos a seguir 32 Direito à saúde e o acessodireito à cannabis medicinal em questão Como foi possível identificar ao longo do trabalho a população negra e indígena após a abolição da escravidão não foi inserida na sociedade de classes isto é não teve acesso aos direitos fundamentais como moradia educação trabalho e principalmente saúde Percebemos também que como campo de disputa entre as classes dominantes a saúde se transformou em uma contenda no qual de um lado estava a sabedoria popular e de outro a sabedoria científica tida como hegemônica No que tange a saúde negros as e indígenas foram alijados de variadas formas primeiro pelas condições precárias de maustratos e má alimentação vividas desde a época da escravidão que influenciaram negativamente na sua saúde segundo o racismo institucional na contemporaneidade dificulta o acesso dessas populações aos serviços de saúde No sistema capitalista a saúde se transforma em mercadoria e nas sociedades capitalistas dependentes como o Brasil isso se dá de forma acentuada e se constitui em um grande campo de disputa entre classes Mesmo com a promulgação da Constituição 123 Federal de 1988 que institui em seu artigo 196 a saúde é direito de todos e dever do Estado garantido mediante políticas sociais e econômicas que visem à redução de doenças e de outros agravos e ao acesso universal e igualitário às ações e serviços para sua promoção proteção e recuperação Na prática a saúde tem se constituído cada vez menos em um direito de todos o sucateamento proveniente das políticas neoliberais tem precarizado os serviços públicos de saúde com a nítida intenção de privatizar transformando a saúde em privilégio de quem pode pagar por ela De acordo com Bravo 2006 nos países centrais a conquista de alguns direitos sociais pela classe trabalhadora foi mediada pela interferência estatal que no Brasil só ocorreu mais efetivamente na década de 1930 Nos últimos anos do século XIX a questão da saúde apareceu como reivindicação do movimento operário que estava nascendo Com a emergência do trabalho assalariado e a crescente exportação da economia cafeeira a saúde emerge como questão social no Brasil A saúde pública na década de 1920 adquire novo relevo no discurso do poder Há tentativas de extensão dos seus serviços por todo país A reforma Carlos Chagas de 1923 tenta ampliar o atendimento à saúde por parte do poder central constituindo uma das estratégias da União de ampliação do poder nacional no interior da crise política em curso sinalizada pelos tenentes a partir de 1922 BRAVO 2006 p 3 Com o rápido crescimento da massa de trabalhadores o modelo de previdência teve uma orientação contencionista ou seja preocupouse mais com a acumulação de reservas financeiras do que com a ampla prestação de serviços houve então a separação entre assistência social e previdência o que não ocorria anteriormente na legislação A Política Nacional de Saúde que se esboçava desde 1930 foi consolidada no período de 19451950 O Serviço Especial de Saúde Pública SESP foi criado durante a 2ª Guerra Mundial em convênio com órgãos do governo americano e sob o patrocínio da Fundação Rockefeller No final dos anos 40 com o Plano Salte de 1948 que envolvia as áreas de Saúde Alimentação Transporte e Energia a Saúde foi posta como uma de suas finalidades principais O plano apresentava previsões de investimentos de 1949 a 53 mas não foi implementado BRAVO 2006 p 5 grifos nossos Cabe destacar que a Fundação Rockfeller é uma fundação criada em 1913 nos Estados Unidos que define sua missão como sendo a de promover no exterior o estímulo à saúde pública o ensino a pesquisa e a filantropia Ayuso 2014 É caracterizada como associação beneficente e não governamental que utiliza recursos próprios para realizar suas ações em vários países do mundo principalmente os subdesenvolvidos A família Rockfeller é uma das famílias mais ricas do mundo construindo sua herança no ramo do petróleo 124 Assim em 1913 a Fundação Rockfeller propôs o estabelecimento de uma escola para treinar os profissionais de saúde pública e decidiu em 1916 financiar sua implantação em Johns Hopkins que é uma Universidade de ensino superior privada e sem fins lucrativos localizada em Baltimore Maryland Estados Unidos segundo Buss Filho 2007 Esta decisão representou o predomínio do conceito da saúde pública orientada ao controle de doenças específicas fundamentada no conhecimento científico baseado na bacteriologia e contribuiu para estreitar o foco da saúde pública que passa a distanciarse das questões políticas e dos esforços por reformas sociais e sanitárias de caráter mais amplo A influência desse processo e do modelo por ele gerado não se limita à escola de saúde pública de Hopkins estendendose por todo o país e internacionalmente O modelo serviu para que nos anos seguintes a Fundação Rockefeller apoiasse o estabelecimento de escolas de saúde pública no Brasil Faculdade de Higiene e Saúde Pública de São Paulo Bulgária Canadá Checoslováquia Inglaterra Hungria Índia Itália Japão Noruega Filipinas Polônia Romênia Suécia Turquia e Iugoslávia BUSS FILHO 2007 p 79 De acordo com Bravo 2006 no período entre 1945 e 1964 os gastos com saúde não conseguiram eliminar o quadro de doenças infecciosas e parasitárias o que elevou as taxas de mortalidade infantil e morbidade de forma geral e a partir dos anos 50 a corporação médica ligada aos interesses capitalistas já se organizavam para pressionar o financiamento através do Estado defendendo a privatização Enquanto isso as concepções com relação ao conceito de saúde iam sendo modificadas como consequência das reivindicações dos movimentos sociais surgidos no pósguerra a Organização Mundial da Saúde OMS divulgou na carta de princípios de 7 de abril de 1948 o reconhecimento do direito à saúde e a obrigação do Estado na promoção e proteção dessa forma a saúde passa a ser considerada como o estado do mais completo bemestar físico mental e social e não apenas a ausência de enfermidade A definição desse conceito foi útil para analisar os fatores que intervêm sobre a saúde e a partir de então poder intervir sobre eles A amplitude do conceito da OMS visível também no conceito canadense acarretou críticas algumas de natureza técnica a saúde seria algo ideal inatingível a definição não pode ser usada como objetivo pelos serviços de saúde outras de natureza política libertária o conceito permitiria abusos por parte do Estado que interviria na vida dos cidadãos sob o pretexto de promover a saúde Em decorrência da primeira objeção surge o conceito de Christopher Boorse 1977 saúde é ausência de doença SCLIAR 2007 p37 Com o período ditatorial o Estado interveio de forma a aumentar o poder de regulação sobre a sociedade suavizar as tensões legitimar o regime e acumular capital implantando um modelo de privilegiamento do produtor privado 125 A medicalização da vida social foi imposta tanto na Saúde Pública quanto na Previdência Social O setor saúde precisava assumir as características capitalistas com a incorporação das modificações tecnológicas ocorridas no exterior A saúde pública teve no período um declínio e a medicina previdenciária cresceu principalmente após a reestruturação do setor em 1966 BRAVO 2006 p 67 A partir da década de 1980 a saúde assumiu uma dimensão política como novos sujeitos políticos como os profissionais da saúde o movimento sanitário os partidos políticos da oposição e os movimentos sociais urbanos As principais propostas debatidas por esses sujeitos coletivos foram a universalização do acesso a concepção de saúde como direito social e dever do Estado a reestruturação do setor através da estratégia do Sistema Unificado de Saúde visando um profundo reordenamento setorial com um novo olhar sobre a saúde individual e coletiva a descentralização do processo decisório para as esferas estadual e municipal o financiamento efetivo e a democratização do poder local através de novos mecanismos de gestão os Conselhos de Saúde BRAVO 2006 p 9 A realização da 8º Conferência Nacional de Saúde realizada em março de 1986 em Brasília Distrito Federal foi de extrema importância nesse contexto pois deu início às preocupações em analisar a sociedade como um todo propondo não só o Sistema Único de Saúde mas a Reforma Sanitária A partir da Constituição Federal de 1988 alguns avanços foram notados porém incapaz de universalizar direitos tendo em vista a longa tradição de privatizar a coisa pública pelas classes dominantes BRAVO 2006 A Assembleia Constituinte com relação à Saúde transformouse numa arena política em que os interesses se organizaram em dois blocos polares os grupos empresariais sob a liderança da Federação Brasileira de Hospitais setor privado e da Associação de Indústrias Farmacêuticas Multinacionais e as forças propugnadoras da Reforma Sanitária representadas pela Plenária Nacional pela Saúde na Constituinte órgão que passou a congregar cerca de duas centenas de entidades representativas do setor BRAVO 2006 p 10 Ressaltamos então que o Sistema Único de Saúde SUS implementado pela Constituição Federal de 1988 é fruto de luta da classe trabalhadora para que a saúde se tornasse direito de todos e dever do Estado Um dos principais aspectos aprovados na Constituição foi a concepção da saúde como direito universal e dever do Estado que incorporou grande parte das reivindicações do movimento sanitário No entanto essas medidas tiveram pouco impacto na real melhoria das condições de saúde da população pois não ocorreu a sua operacionalização Já na década de 1990 presenciase um forte ataque por parte do grande capital o governo tinha como proposta o desmonte da proposta da Seguridade Social prevista na Constituição Federal A proposta de Política de Saúde construída na década de 1980 tem sido desconstruída A Saúde fica vinculada ao mercado enfatizandose as parcerias com a sociedade civil responsabilizando a mesma para assumir os 126 custos da crise A refilantropização é uma de suas manifestações com a utilização de agentes comunitários e cuidadores para realizarem atividades profissionais com o objetivo de reduzir os custos Com relação ao Sistema Único de Saúde SUS apesar das declarações oficiais de adesão ao mesmo verificouse o descumprimento dos dispositivos constitucionais e legais e uma omissão do governo federal na regulamentação e fiscalização das ações de saúde em geral BRAVO 2006 p 8 Dessa forma notase dois projetos em disputa o da Reforma Sanitária inscrito na Constituição Federal de 1988 e o Projeto de Saúde articulado ao mercado ou privatista Esse último tinha como objetivo garantir o mínimo a quem não pode pagar e aos que podem pagar ficam para o setor privado Percebese então como a Política de Saúde vem sendo construída de forma focalista e seletiva dando vazão às contra reformas instituídas por vários governos que tem como um dos objetivos recolocar o Brasil na área de influência prioritária dos Estados Unidos retomando a sua dominação imperialista Existiam dois projetos antagônicos um formado pela Federação Brasileira de Hospitais FBH e pela Associação das indústrias farmacêuticas internacionais que defendia a privatização dos serviços de saúde e outro denominado Plenária Nacional da Saúde que defendia os ideais da Reforma Sanitária que podem ser resumidos como a democratização do acesso a universalidade das ações e a descentralização com controle social BRAVO MATOS 2004 p7 Criase em 2006 a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNDSS impulsionada pelo movimento global da OMS que tem como principais objetivos produzir conhecimentos apoiar o desenvolvimento de políticas e programas e promover atividades de mobilização da sociedade civil em busca de maior equidade na saúde A Conferência de AlmaAta no final dos anos 70 e as atividades inspiradas no lema Saúde para todos no ano 2000 recolocam em destaque o tema dos determinantes sociais Na década de 80 o predomínio do enfoque da saúde como um bem privado desloca novamente o pêndulo para uma concepção centrada na assistência médica individual a qual na década seguinte com o debate sobre as Metas do Milênio novamente dá lugar a uma ênfase nos determinantes sociais que se afirma com a criação da Comissão sobre Determinantes Sociais da Saúde da OMS em 2005 BUSS FILHO 2007 p 80 Para a Comissão Nacional sobre os Determinantes Sociais da Saúde CNDSS os Determinantes Sociais da Saúde DSS são os fatores sociais econômicos culturais étnicosraciais psicológicos e comportamentais que influenciam a ocorrência de problemas de saúde e seus fatores de risco na população A comissão homônima da Organização Mundial da Saúde OMS adota uma definição mais curta segundo a qual os DSS são as condições sociais em que as pessoas vivem e trabalham Esse consenso 127 de determinantes sociais da saúde foi sendo construído ao longo da história BUSS FILHO 2007 p 78 O próprio termo saúde coletiva expressa a necessária intervenção na vida política e social para reconhecer e eliminar os fatores que prejudicam a saúde da população reconhecendo que a medicina é essencialmente uma ciência social Para Buss Filho 2007 o principal desafio dos determinantes sociais em saúde é estabelecer uma hierarquia de determinações entre os fatores de natureza social econômica e política e as mediações através das quais esses fatores incidem sobre a situação de saúde de grupos e pessoas já que não há uma relação de causalidade direta entre eles Estudar essas mediações é necessário para identificar como devem ser feitas as intervenções na saúde com o objetivo de reduzir as iniquidades Dessa forma Há várias abordagens para o estudo dos mecanismos através dos quais os DSS provocam as iniquidades de saúde A primeira delas privilegia os aspectos físicomateriais na produção da saúde e da doença entendendo que as diferenças de renda influenciam a saúde pela escassez de recursos dos indivíduos e pela ausência de investimentos em infraestrutura comunitária educação transporte saneamento habitação serviços de saúde etc decorrentes de processos econômicos e de decisões políticas Outro enfoque privilegia os fatores psicossociais explorando as relações entre percepções de desigualdades sociais mecanismos psicobiológicos e situação de saúde com base no conceito de que as percepções e as experiências de pessoas em sociedades desiguais provocam estresse e prejuízos à saúde Os enfoques ecossociais e os chamados enfoques multiníveis buscam integrar as abordagens individuais e grupais sociais e biológicas numa perspectiva dinâmica histórica e ecológica Há também os enfoques que analisam as relações entre a saúde das populações as desigualdades nas condições de vida e o grau de desenvolvimento de vínculos e associações entre indivíduos e grupos Esses estudos mostram que não são as sociedades mais ricas que possuem os melhores níveis de saúde e sim as que são mais igualitárias No Brasil o racismo é considerado um determinante social da saúde pois ele perpassa todas as esferas da vida cotidiana se reproduz nas instituições racismo institucional e é constantemente naturalizado O emprego do conceito de discriminação indireta ou racismo institucional para a promoção de políticas de equidade racial já é utilizado desde o final dos anos 1960 em diversos países Nos Estados Unidos por exemplo o conceito surge no contexto da luta pelos direitos civis e com a implementação de políticas de ações afirmativas Na Inglaterra o conceito passa a ser incluído como instrumento para a proposição de políticas públicas na década de 1980 como resultado do crescimento da população não branca e das dificuldades observadas pelo Poder Judiciário em responder às demandas daquela população No Brasil a partir de meados dos anos 1990 esse conceito começa a ser apropriado para a formulação de programas e políticas de promoção da equidade racial Jaccoude 2008 p 141 128 Com relação ao racismo institucional Almeida 2015 p 29 destaca que o racismo não se resume a comportamentos individuais mas é tratado como o resultado do funcionamento das instituições que passam a atuar em uma dinâmica que confere ainda que indiretamente desvantagens e privilégios a partir da raça Como analisamos ao longo desse trabalho racismo é dominação e dessa forma para que haja manutenção desse poder a classe dominante precisa institucionalizar seus interesses impondo regras condutas que naturalizem o seu domínio No caso do racismo institucional o domínio se dá com estabelecimento de parâmetros discriminatórios baseados na raça que servem para manter a hegemonia do grupo racial no poder Isso faz com que a cultura a aparência e as práticas de poder de um determinado grupo tornemse o horizonte civilizatório do conjunto da sociedade ALMEIDA 2015 p 31 grifos do autor Assim a predominante presença de homens brancos em espaços como legislativo judiciário Ministério Público e afins se torna algo natural ao passo que existem regras mesmo que indiretas que dificultem a ascensão de negros as e mulheres e há a inexistência de espaço para discutir a desigualdade sexual e racial Alguns dados são interessantes para analisarmos como o sistema de opressão capitalismoracismopatriarcado se manifesta com relação à saúde De acordo com dados do Ministério da Saúde57 enquanto 462 das mulheres brancas tiveram acompanhante no parto apenas 27 das negras utilizaram esse direito Outro levantamento revela que 777 das mulheres brancas receberam informação sobre a importância do aleitamento materno e somente 625 das mulheres negras receberam essa informação Com relação às taxas de mortalidade materna infantil 60 das mortes maternas ocorrem com as mulheres negras e 34 entre mulheres brancas A desigualdade e preconceito aumentam o número de mortes MINISTÉRIO DA SAÚDE 2019 Em vista disso em novembro de 2014 o Ministério da Saúde58 criou uma campanha publicitária buscando envolver os usuários do SUS e os profissionais de saúde no enfrentamento ao racismo institucional com o slogan Racismo faz mal à saúde Denuncie 57 Segundo página oficial da campanha SUS sem Racismo do Ministério da Saúde em 2014 Disponível em httpswwwfacebookcomSUSnasRedes 58 Disponível em httpsagenciabrasilebccombrgeralnoticia201411saudelancacampanhacontra racismonosus Acesso em 18012021 129 Porém em resposta a essa campanha o Conselho Federal de Medicina CFM59 lançou no dia 27 de novembro de 2014 uma nota de repúdio dizendo que a campanha tem tom racista e desconsidera problemas estruturais que afetam toda a população Para Sidnei Ferreira secretário do CFM o problema do SUS está longe de ser o racismo justificando mesmo diante dos dados que morrem negros brancos morenos e amarelos porque o governo não cuida da saúde pública A classe médica ainda justificou que o mau atendimento para a população do SUS é devido às condições de trabalho No entanto os indicadores revelam que a diferença entre a mortalidade materna entre mulheres negras e brancas a dificuldade de acesso aos serviços de saúde até mesmo o uso de anestesia é maior no parto das mulheres brancas que das mulheres negras se constituem em formas expressas do racismo institucional De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE entre as 173 milhões de pessoas que utilizaram o Sistema Único de Saúde SUS nos últimos seis meses de agosto do ano passado 699 eram mulheres 609 pretas ou pardas 65 tinha cônjuges e 358 40 a 59 anos de idade Os resultados são da Pesquisa Nacional de Saúde 2019 PNS60 divulgada na quartafeira 21102019 De acordo com o IBGE 2019 esses números podem estar associados ao fato de as mulheres ainda serem as principais responsáveis pelos cuidados com ela mesma e com a família e por isso mais frequentes nos serviços públicos de saúde traços de uma sociedade patriarcal Grande parte das causas das doenças derivam de fatores como condições de vida de trabalho de moradia trajetória familiar desigualdades de raça etnia sexo e idade acesso a bens e serviços disponíveis Dessa forma As questões socioeconômicas raciais e de gênero estão associadas às iniquidades em saúde Embora nas últimas décadas as taxas de mortalidade na população em geral tenham diminuído e aumentado a expectativa de vida a população negra ainda apresenta altas taxas de morbimortalidade em todas as faixas etárias quando comparadas com a população geral BRASIL 2011 p 3 A elevada taxa de mortalidade de mulheres negras demonstrada nos perfis e indicadores evidenciam que as causas estão relacionadas ao grande número de gravidez com morbidade dificuldade de acesso e uso dos serviços de saúde que demonstra 59 Disponível em httpsmemoriaebccombrnoticiasbrasil201411cfmrepudiacampanhado governoqueecontraoracismo Acesso em 18012021 60 Disponível em httpswwwibgegovbrestatisticasdownloads estatisticashtmlcaminhoPNS2019MicrodadosDados Acesso em 08012021 130 novamente a intersecção entre sexo raça e classe Além disso como aponta a matéria da Fiocruz61 a mortalidade materna é maior entre as mulheres negras De acordo com Werneck 2016 a saúde da mulher negra não é uma área de conhecimento ou um campo relevante nas Ciências da Saúde sendo inexpressiva a produção de conhecimento nessa área O Movimento de Mulheres Negras e o Movimento Negro foram expressivos na luta por um sistema de saúde universal com integralidade equidade e participação social As reivindicações da população negra e de movimentos sociais especialmente o Movimento de Mulheres Negras e do Movimento Negro por mais e melhor acesso ao sistema de saúde participaram da esfera pública ao longo dos vários períodos da história das mobilizações negras principalmente no período pós abolição e se intensificaram na segunda metade do século XX com forte expressão nos movimentos populares de saúde chegando a participar dos processos que geraram a Reforma Sanitária e a criação do Sistema Único de Saúde WERNECK 2016 p 536 No entanto todas essas reivindicações não foram suficientes para superar as barreiras enfrentadas pela população negra principalmente no que tange ao acesso à saúde Em 1996 milhares de ativistas fizeram uma marcha em Brasília que provocou a criação do Grupo Interministerial para a Valorização da População Negra GTI esse grupo realizou a Mesa Redonda sobre Saúde da População Negra que propôs algumas medidas entre elas a inserção do quesito corraça na Declaração de Nascidos Vivos e de Óbitos criação do Programa de Anemia Falciforme PAF reestruturação da atenção à hipertensão e diabetes mellitus e a extensão do Programa Saúde da Família PSF até as comunidades quilombolas Segundo Werneck 2016 em 2001 o Ministério da Saúde publicou o Manual de doenças mais importantes por razões étnicas na população brasileira afrodescendente esse manual incluía as doenças genéticas como diabetes mellitus e hipertensão arterial deixava de fora as doenças cuja origem genética não foi estabelecida como os miomas uterinos por exemplo e as doenças provenientes de condições sociais como desnutrição alcoolismo verminoses Essas doenças são mais incidentes na população negra e não por razões étnicas o acesso aos serviços de saúde é mais difícil e o uso de meios diagnósticos e terapêuticos é mais precário produzindo em geral evolução e prognóstico piores para as doenças que afetam negros no Brasil BRASIL 2001 p 910 O acesso à saúde no Brasil é privilégio de alguns e não direito de todos Diante desses indicadores o Ministério da Saúde lança em 2017 a Política Nacional de Saúde 61 Disponível em httpinformeenspfiocruzbrnoticias44418 Acesso em 14012021 131 Integral da População Negra PNSIPN com o objetivo de combater as desigualdades no SUS e promover a saúde da população negra considerando que as iniquidades em saúde são resultados de injustos processos socioeconômicos e culturais em destaque o racismo que corrobora com a morbimortalidade das populações negras brasileiras BRASIL 2017 p 7 Em vista disso atualmente vivemos a pandemia SARS COV 19 conhecida como Covid19 A Covid 19 não seleciona quem vai ser infectado mas seleciona quem vai morrer Em estudo realizado pela ONG Instituto Polis62 na cidade de São Paulo entre 01 de março e 31 de julho de 2020 os homens negros foram os que mais morreram pela Covid 19 sendo 250 óbitos a cada 100 mil habitantes entre os brancos foram 157 mortes a cada 100 mil habitantes Entre as mulheres as que tinham a pele negra foram 140 mortes por 100 mil habitantes enquanto as brancas foram 85 a cada 100 mil habitantes No dia 19 de junho de 2021 o Brasil bateu a triste marca de 500 mil mortos em decorrência do novo coronavírus provenientes não só da letalidade do vírus mas pela falta de medidas efetivas de proteção infraestrutura dos serviços de saúde descaso com a população tudo fruto do Governo negacionista do atual Presidente Jair Bolsonaro assolam o país de maneira lastimável Esse padrão é explicado pelo racismo institucional e pelas desigualdades sociais e econômicas Para o médico Unaí Tupinambás63 professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais UFMG durante a pandemia a desigualdade foi escancarada Para ele é importante considerar os determinantes sociais da doença que são importantes para a evolução de qualquer doença Assim a população negra e periférica é a mais afetada pois os fatores sociais e biológicos contribuem negativamente para a evolução da forma mais grave da doença Por viver em piores condições de moradia de trabalho e de alimentação a população negra é mais atingida com as comorbidades como hipertensão arterial diabetes mellitus tabagismo e sedentarismo a falta de acesso à saúde e a uma boa alimentação são expressões do racismo institucional que impactam negativamente na evolução da Covid 19 Além da Covid19 as chamadas doenças evitáveis como a tuberculose hanseníase morte materna e infecções sexualmente transmissíveis também têm maior 62 Disponível em httpspolisorgbrestudosracaecovidnomsp Acesso em 20082020 63 Disponível em httpswwwmedicinaufmgbrnegrosmorremmaispelacovid19 Acesso em 17012021 132 incidência na população negra Segundo informações coletadas pelo DATASUS64 mães que morrem por causas relacionadas à gravidez parto e pósparto são em sua maioria negras jovens e de baixa escolaridade Isto é a população negra é mais vulnerável à determinadas doenças pois está sob maior influência dos determinantes sociais da saúde o racismo a dificuldade no acesso ao sistema de saúde a má alimentação e a falta de dinheiro para comprar os medicamentos O racismo institucional se expressa por meio de práticas atitudes normas e formas organizativas discriminatórias e excludentes que criam barreiras ao cuidado com a saúde e são associados a baixos resultados terapêuticos Como ressaltado anteriormente desde o período escravista e no pósabolição as mulheres negras têm ocupado o último lugar na hierarquia social vindo até mesmo depois dos homens negros Como Lélia Gonzalez 1984 destacou a mulher negra foi a responsável por criar os filhos dos brancos deixando os seus sendo criados por outras pessoas No Brasil contemporâneo tornouse natural chamar as mães solteiras de chefes de família principalmente nas periferias pois são elas que sustentam na maioria das vezes sozinhas as suas famílias já que em grande parte dos casos a figura masculina abandonou o lar De acordo com pesquisa65 realizada pelo IBGE as mães negras e solteiras também são as que mais sofrem com a falta de saneamento básico e adensamento excessivo na casa isto é quando mais de três moradores da casa utilizam o mesmo cômodo como dormitório Mais de 40 das mães negras e solteiras não têm acesso a esgoto contra 27 das brancas Além disso as mulheres brancas ganham 70 mais que as negras Essas mulheres ficam sobrecarregadas pois além de trabalhar e receber remuneração mais baixa ainda tem que lidar com as demandas dos trabalhos reprodutivos como cuidar da casa e dos filhos IBGE 2019 Esse cotidiano que já tem as suas dificuldades muda quando essas mães recebem o diagnóstico de doença crônica dos seus filhos pois por se tratar de doença crônica geralmente a criança necessita de hospitalização recorrente o que aumenta a sobrecarga da família Segundo a Organização Mundial da Saúde OMS condições crônicas são aquelas que abarcam problemas de saúde que persistem com o tempo e requerem algum tipo de gerenciamento e cuidados permanentes As mesmas têm tido um crescimento 64 Disponível em httpbvsmssaudegovbrbvspopnegrapdfsaudepopnegpdf Acesso em 13072020 65 Disponível em httpsg1globocomeconomianoticia20200306maesnegrasesolteirassofrem maiscomfaltadesaneamentoecarenciasnascasasghtml Acesso em 20012021 133 vertiginoso e fazse necessário melhorar os serviços de saúde para tratálas adequadamente De acordo com Collet Silva e Moura 2010 p 360 a família pode apresentar despreparo psicológico para o enfrentamento da condição crônica na infância desfavorecendo a adaptação da criança e da própria família à nova situação As mudanças na vida da criança e da sua família ao se depararem com a doença crônica não englobam simplesmente alterações orgânicas ou físicas da criança doente mas perpassam este ângulo e promovem alterações emocionais e sociais em toda a família as quais exigem constantes cuidados e adaptações Os autores citados acima realizaram uma pesquisa exploratóriadescritiva na Clínica Pediátrica do Hospital Universitário Lauro Wanderley que é um hospitalescola vinculado à Universidade Federal da Paraíba UFPB realizada nos meses de junho e julho de 2008 Os sujeitos da pesquisa foram cinco mães e uma avó cuidadora principal no cotidiano de crianças com diagnóstico definido de doença crônica que estavam acompanhando as mesmas durante o período da coleta dos dados e que aceitaram participar da pesquisa Os diagnósticos das crianças eram Síndrome Nefrótica Anemia Falciforme Lúpus Eritematoso Sistêmico Síndrome de Edwards Trissomia do 18 Púrpura Trombocitopênica e Feocromocitoma Nos depoimentos das famílias algumas dificuldades relatadas apareceram com frequência como a dificuldade financeira e de transporte o distanciamento dos membros da família e os conflitos intrafamiliares reorganização do cotidiano da família Geralmente o tratamento da doença crônica requer constantes internações da criança e acompanhamento contínuo que além de tempo requer condições financeiras para conseguir mantêlo Uma das entrevistadas relatou que mesmo recebendo o Benefício de Prestação Continuada BPC os gastos com transporte alimentação remédios e outros cuidados o benefício não é suficiente Outro fator relevante é o abandono do vínculo empregatício já que são as mães que acompanham as crianças nas internações e tratamentos Para algumas famílias a dificuldade com o transporte é o principal fator pois morando no interior e o tratamento sendo realizado na capital o alto custo do transporte pode prejudicar o tratamento Outra dificuldade enfrentada com as frequentes hospitalizações é o fato de ter outros filhos e ter que se ausentar e não ter com quem deixálos se afastando também da vida conjugal do casal O afastamento dos membros da família pode alterar as relações familiares sobretudo a vida conjugal do casal desfavorecendo o enfrentamento da situação Porque ele marido tá com outra e ela não quer que ele veja eles eu me separei dele mas os meninos não têm nada a ver né às vezes ele liga mas ligá não é a mesma coisa né Separei porque eu vivia em hospital 134 por conta de T e também porque ele arranjou outra mulher pra ele Depois que a gente se separou eu sofri muito porque na hora que eu mais precisava ele me abandonou Ele devia entender que tem um filho doente COLLET SILVA MOURA 2010 p 362 A possibilidade de mudança do interior para a capital para o tratamento da criança mostrouse uma realidade difícil de ser enfrentada mas às vezes necessária A preocupação com o lar também é presente na vida dessas mulheres que ocasionalmente precisam delegar essa função para outra pessoa para acompanhar o filho no tratamento As mães que participaram do estudo assumem a responsabilidade pela adequação das suas atividades com as necessidades de seus filhos cabendo a elas inclusive quando necessário a desistência do emprego para melhor atender às demandas da criança doente Essa alteração na dinâmica familiar gera diminuição do orçamento podendo aumentar os níveis de estresse no relacionamento da família COLLET SILVA MOURA 2010 p 364 A realidade dessas e de outras mães poderia ser diferente se houvessem políticas públicas eficazes não com objetivo de alívio a pobreza e sim com ações que amenizassem esse abismo social e racial em que vivemos Quando se discute sobre tratamentos de doenças crônicas com medicamentos à base de cannabis sativa o que se percebe é uma desigualdade social racial e econômica muito mais acentuada Desde o ano de 1992 quando o israelense Raphael Mechoulan descobriu que o nosso corpo tem alguns receptores que são feitos para as substâncias presentes na cannabis os chamados canabinóides iniciouse uma série de estudos66 sobre o Sistema Endocanabinóide despertando o interesse em produzir medicamentos à base de cannabis sativa A partir desse momento muitas pessoas portadoras de patologias raras se viram diante de uma grande possibilidade de ter as suas dores e crises convulsivas amenizadas e portanto uma melhor qualidade de vida através do tratamento com o canabidiol Porém a legislação atual sobre psicoativos a Lei 11343 de 2006 promulga em seu artigo 2º Ficam proibidas em todo o território nacional as drogas bem como o plantio a cultura a colheita e a exploração de vegetais e substratos dos quais possam ser extraídas ou produzidas drogas ressalvada a hipótese de autorização legal ou regulamentar bem como o que estabelece a Convenção de Viena das Nações Unidas sobre Substâncias Psicotrópicas de 1971 a respeito de plantas de uso estritamente ritualísticoreligioso BRASIL 2006 66 Em 1980 houve um estudo intitulado Chronic Administration of Cannabidiol to Healthy Volunteers and Epiletc Patients Administração crônica de canabidiol a voluntários saudáveis e pacientes com epilepsia produzido pelo Dr Mechoulam e pelo Dr Elisaldo Carlini entre outros estudiosos da área Esse estudo foi realizado em parceria com a UNIFESP Faculdade de Medicina da Santa Casa e Hebrew Universidade de Jerusalém 135 Diante dessa descoberta e da proibição algumas famílias brasileiras começaram a importar ilegalmente esses medicamentos O caso mais famoso é da Katiele de Bortoli Fischer 38 anos mãe de Anny Fischer que foi diagnosticada com a síndrome rara CDKL5 que chegou a causar até 80 convulsões por semana na criança Nenhum medicamento foi capaz de controlar as crises convulsivas assim com a importação ilegal do CBD e a melhora nunca vista nos sintomas em 2014 Katiele conseguiu a autorização pioneira para importar a cannabis medicinal67 Após essa autorização e pressão principalmente das mães que lutam pela legalização da cannabis medicinal para oferecer uma melhor qualidade de vida aos seus filhos as legislações da ANVISA referentes a esse assunto passaram por várias alterações no que tange a importação desses medicamentos Em 26 de janeiro de 2015 através da Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 368 a ANVISA tornou pública a decisão de retirar o Canabidiol CBD da relação de substâncias proibidas e o incluiu no rol de medicamentos da lista C1 de remédios controlados Essa decisão abriu caminho para o registro do primeiro medicamento à base de cannabis sativa no Brasil o Mevatyl da empresa Beaufour Ipsen Farmacêutica Ltda indicado para o tratamento da espasticidade oriunda da esclerose múltipla Esse medicamento tem o custo médio de R26449069 De acordo com o site CannabisSaúde70 com esse avanço em 23 de fevereiro de 2015 foi apresentado na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei nº 3992015 pelo Deputado Federal Fábio Mitidieri do Partido Social Democrático PSD SE que propôs a alteração do art 2º da Lei nº 11343 de 23 de agosto de 2006 para viabilizar a comercialização de medicamentos que contenham extratos substratos ou partes da planta Cannabis sativa em sua formulação Já em 06 de maio de 2015 a ANVISA torna pública outra Resolução da Diretoria Colegiada a RDC nº 1771 que define os critérios e os procedimentos para a importação em caráter de excepcionalidade de produto à base de Canabidiol em 67 Disponível em httpswwwuolcombrecoaultimasnoticias20191206maequefoipioneiraem trazercanabidiolaopaisfestejadecisaodaanvisahtm Acesso em 10012021 68 Disponível em httpswwwingovbrmateria assetpublisherKujrw0TZC2Mbcontentid32132854do120150128resolucaordcn3de26de janeirode201532132677 Acesso em 10012021 69 Disponível em httpsloja4biocombrmevatyl27mgml25mgmlc3fr10mlcadaspraya Acesso em 10052021 70 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombraudienciapublicapl399cannabismedicinal Acesso em 10032021 71 Disponível em httpsbvsmssaudegovbrbvssaudelegisanvisa2015rdc001706052015pdf Acesso em 10012021 136 associação com outros canabinóides por pessoa física para uso próprio mediante prescrição de profissional legalmente habilitado para tratamento de saúde Isto é a partir dessa data a ANVISA tornou possível a importação de medicamentos à base de cannabis sativa para pessoa física sendo necessário enviar a documentação como laudo e receita médica para a ANVISA e assim conseguir a autorização Esse processo tornou a importação menos burocrática o que representou um avanço mas não alterou em nada com relação ao cultivo Segundo o Portal da Câmara dos Deputados72 em 21 de março de 2018 ficou decidido que esse Projeto de Lei seria distribuído às Comissões de Agricultura Pecuária Abastecimento e Desenvolvimento Rural Desenvolvimento Econômico Indústria Comércio e Serviços Segurança Pública e Combate ao Crime Organizado Seguridade Social e Família e Constituição e Justiça e de Cidadania Art 54 RICD Em razão da distribuição a mais de três Comissões de mérito foi determinado a criação de Comissão Especial para analisar a matéria conforme o inciso II do art 34 do RICD Em outubro de 2019 foi instalada a Comissão Especial sob a presidência do Deputado Paulo Teixeira PTSP alvo de muito preconceito dentro e fora do Congresso a proposta finalmente ganhou impulso Em agosto de 2020 o Deputado Federal Luciano Ducci do Partido Socialista Brasileiro PSBPR apresentou um substitutivo ao Projeto de Lei 3992015 esse substitutivo exclui a possibilidade de auto cultivo ou seja o cultivo fica restrito às pessoas jurídicas incluindo as associações Essa tentativa que parece mais palatável frente a bancada conservadora na verdade privilegia a indústria e o poder econômico AMORIM 2020 Abaixo destacamos na tabela a lista de deputados que votaram contra e a favor ao plantio de cannabis para fins medicinais Tabela 3 Comissão Especial da Câmara dos Deputados PL3992015 deputados que votaram contra e a favor do plantio de maconha no país para fins medicinais Titulares a favor Partido Alex Manente CIDADANIASP 72 Disponível em httpswwwcamaralegbrproposicoesWebfichadetramitacaoidProposicao947642 Acesso em 20032021 137 Alexandre Padilha PTSP Alice Portugal PCDOBBA Ângela Amin PPSC Aureo Ribeiro SOLIDARIEDADE RJ Bacelar PODEBA Carla Zambelli PSLSP Chico DAngelo PDTRJ Eduardo Barbosa PSDBMG Eduardo Braide PODEMA Eduardo Costa PTBPA Evair Vieira de Melo PPES Fábio Henrique PDTSE Fábio Mitidieri PSDSE Fernando Coelho Filho DEMPE Giovani Cherini PLRS Hugo Motta REPUBLICANOSPB Luciano Ducci PSBPR Marcelo Calero CIDADANIARJ Marcelo Freixo PSOLRJ Natália Bonavides PTRN Paulo Teixeira PTSP Pedro Cunha Lima PSDBPB 138 Rafael Motta PSBRN Tiago Mitraud NOVOMG Suplentes a favor Partido Afonso Florence PTBA Alencar Santana Braga PTSP Assis Carvalho PTPI Átila Lira PPPI David Soares DEMSP Dr Zacharias Calil DEMGO Gervário Maia PSBPB Gutemberg Reis MDBRJ Hugo Leal PSDRJ Jandira Feghali PCdoBRJ Leur Lomanto Junior DEMBA Sâmia Bonfim PSOLSP Talíria Petrone PSOLRJ Túlio Gadelha PDTPE Vinícius Poit NOVOSP Titulares contra Partido Capitão Augusto PLSP Eneias Reis PSLMG 139 Osmar Terra MDBRS Otoni de Paula PSCRJ Pastor Eurico PATRIOTAPE Sóstenes Cavalcanti DEMRJ Suplentes contra Partido Diego Garcia PODEPR Hiran Gonçalves PPRR Tabela elaborada pela autora com base nos dados disponibilizados aos associados da APEPI Em 09 de dezembro de 2019 a ANVISA tornou pública a Resolução da Diretoria ColegiadaRDC nº 32773 que dispõe sobre os procedimentos para a concessão da Autorização Sanitária para a fabricação e a importação bem como estabeleceu requisitos para a comercialização prescrição a dispensação o monitoramento e a fiscalização de produtos de Cannabis para fins medicinais Já em 24 de janeiro de 2020 a ANVISA tornou pública outra RDC de nº 335 na qual forneceu os detalhes para a importação Diante de todas essas alterações não restam dúvidas de que há muitos interesses econômicos e ideopolíticos nessa guerra De acordo com reportagem no site da Revista Época74 intitulada E a cannabis ganha um novo aliado o Agronegócio lançada em novembro de 2019 Burgierman destaca o curioso fato de conter na capa da Revista Globo Rural do mês de novembro a folha que é reconhecida como a da maconha ou cannabis sativa Para ele a maconha não demora em se tornar uma commodity que pode gerar em torno de R47 bilhões por ano em negócios Isso partindo do pressuposto que há apenas 39 milhões de pacientes canábicos em potencial no país BUGIERMAN 2019 73 Disponível em httpswwwingovbrenwebdouresolucaodadiretoriacolegiadardcn327de9 dedezembrode2019232669072 Acesso em 10012021 74 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 01022021 140 A cannabis sativa tem se tornado a galinha dos ovos de ouro ou como dizem o ouro verde do mercado financeiro mundial muitas são as apostas nesse mercado O expresidente da Bayer Van der Loo fundou recentemente uma empresa de cannabis medicinal de nome NatuScience Também o fundo Greenfield criado em 2018 já levantou R140 milhões para investir na cadeia de cannabis medicinal no mundo metade desse valor já foi investido em treze empresas que atuam no plantio extração distribuição e desenvolvimento de medicamentos BRANCO 2019 Os estudos com relação a cientificidade da aplicação terapêutica da maconha no Brasil ainda são incipientes mas tem crescido o número de pesquisadores buscando analisar essa temática e suas diferentes nuances Porém esse silenciamento no que tange as pesquisas nos faz voltar para a centralidade do tema para pensar como nasce a Universidade Brasileira enquanto lócus privilegiado da realização de pesquisas científicas Para Fernandes 1979 nos países de capitalismo dependente a universidade no Brasil nasce para servir de elo entre o fluxo de cultura das nações desenvolvidas com o objetivo de tentar assimilar o padrão cultural moderno isto é serve para a transplantação de padrões externos A consequência deste processo de aprofundamento da heteronomia cultural é o caráter ultraconservador da burguesia brasileira reduzindo o papel da universidade pública à adaptação de conhecimento o que mantém as universidades muito abaixo do padrão que poderiam alcançar realçando a articulação entre o arcaico e o moderno Isto é no caso dos estudos com relação à cannabis medicinal a modernização e a chegada de novas tecnologias não têm contribuído para avançar nos estudos sobre a sua ação terapêutica pois o racismo e o preconceito juntamente com a estreita ligação do Brasil com o imperialismo estadunidense tornamse os empecilhos para o progresso dessas pesquisas ou seja a tecnologia é moderna a proibição arcaica O sucateamento das Universidades Públicas e a não valorização da Ciência levam a precarização da pesquisa que sem investimentos públicos ficam passíveis de investimentos de órgãos externos como FMI e Banco Mundial que querem a todo custo justificar sua privatização No entanto há luta e resistência por parte dos movimentos sociais e da sociedade que lutam por uma educação gratuita laica e de qualidade e pelo tripé de ensino pesquisa e extensão das Universidades Públicas No Brasil existem nesse momento duas associações que conseguiram liminar na justiça para a fabricação do óleo artesanal e outros produtos à base de cannabis a Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança ABRACE ESPERANÇA associação sem fins lucrativos que está localizada na cidade de João Pessoa na Paraíba 141 E a Associação de Apoio à Pesquisa e à Pacientes de Cannabis Medicinal APEPI localizada na cidade do Rio de Janeiro Isto é o acesso ao tratamento com cannabis medicinal atualmente no Brasil se dá de três formas O tratamento pode ser feito através do óleo artesanal que é vendido pela associação ABRACE ESPERANÇA ou pela APEPI75 Os valores variam a concentração de 10 mg de THC custa atualmente R22500 Já o de 40 mg de THC custa R6000076 Já existe à venda nas farmácias brasileiras o canabidiol brasileiro produzido pela empresa PratiDonaduzzi que é o primeiro e único produto brasileiro à base de cannabis autorizado pela ANVISA O valor desse medicamento custa em média R265000 o vidro de 30 ml com concentração de 200 mg de CBD77 A terceira forma é a importação do canabidiol dos Estados Unidos ou da Europa para esse procedimento é necessário autorização da ANVISA De acordo com o site CannabisSaúde78 o valor da importação gira em torno de 800 dólares ou seja atualmente R425600 Esses valores podem ser maiores dependendo do tratamento e da doença Outra consequência da falta de regulação que permita o acesso terapêutico à cannabis é a situação de iniquidade entre aqueles que dispõem de recursos para comprar o medicamento em países estrangeiros e aqueles que não dispõem A situação é inadmissível sobretudo se for considerado o baixo custo da produção da cannabis e de seus extratos em comparação com outros medicamentos sintéticos Assim o Estado ao invés de proteger a saúde da população e dos indivíduos coloca em risco a saúde e a integridade das pessoas que fazem uso da substância sem controle de qualidade e que recorrem ao mercado ilegal Estas pessoas já estão em estado de vulnerabilidade por seus quadros patológicos e o Estado ao não cumprir com o seu papel coloca esses pacientes num estado ainda maior de vulnerabilidade BRITO CARVALHO GANDRA 2017 p 5 Diante desses dados entendese que estamos avançando na luta pela cannabis medicinal no Brasil mas tendo em vista o alto custo do tratamento há uma segregação racial e de classe As classes mais pauperizadas não terão acesso a esse tipo de tratamento que poderia ter seu custo reduzido se não fosse a proibição articulada ao preconceito o racismo com os interesses das indústrias farmacêuticas estadunidenses e da bancada ruralista no Brasil 75 Disponível em httpsabraceesperancaorgbrcatalogo Acesso em 20012021 77 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrcanabidiol comprartextComo20vocC3AA20agora20jC3A120sabepor20R242028332 C74 Acesso em 30032021 78 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrcanabidiolcomprar Acesso em 20012021 142 Desta feita em setembro de 2019 o Deputado Federal Fausto Pinato PPSP79 membro da bancada ruralista e Presidente da Comissão de Agricultura Pecuária Abastecimento e Desenvolvimento Rural propôs uma audiência pública para tratar do plantio da Cannabis para fins medicinais que foi aprovada por unanimidade Isso apesar de estar cheia de parlamentares conservadores e alinhados ao governo federal que se colocam contra o plantio Percebese então que além da indústria farmacêutica há um interesse do agronegócio e principalmente da bancada ruralista no mercado da cannabis tanto que em outra reportagem divulgada no site Folha de São Paulo80 dizia que a empresa brasileira Shoenmaker Humako pertencente ao grupo Terra Viva entrou na justiça contra a União e a ANVISA pelo direito de plantar cânhamo Já na correlação de forças o Conselho Federal de Medicina CFM e a Associação Brasileira de Psiquiatria ABP divulgaram um decálogo sobre a maconha81 com dez mandamentos que apontam contra o uso medicinal da cannabis e já no primeiro mandamento aponta que a cannabis sativa e a indica não podem ser consideradas medicamentos e que portanto não existe maconha medicinal Para Burgierman 822019 se a bancada ruralista abraçar o tema muda totalmente o debate no Congresso Nacional pois com 247 deputados e 38 senadores ela é a maior bancada do Congresso inclusive maior que a bancada evangélica que conta com 100 parlamentares Essa reportagem é de 2019 em agosto de 2020 o tema da cannabis entra na bancada ruralista como uma grande oportunidade de negócio no que rebate o Presidente da Frente Parlamentar do Agronegócio Alceu Moreira MDBRS A Frente Parlamentar não aprovará nenhuma legislação que não dê absoluta segurança de que a produção seja especificamente para produtos medicinais ponderou Segundo reportagem no site da Revista Veja83 o deputado Osmar Terra MDB RS é o principal opositor da causa que argumenta que liberar o cultivo para fins medicinais fatalmente abriria as portas para que parte da maconha seja desviada para consumo como droga 79 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 02022020 80 Disponível em httpswww1folhauolcombrequilibrioesaude201910empresaentranajustica contrauniaoeanvisaparapoderplantarcannabisshtml Acesso em 01022021 81 Disponível em httpsstaticwixstaticcomugde0f082a5d3fbf46aaf4c4dae96adb1a4ca1d58pdf Acesso em 01022021 82 Disponível em httpsepocaglobocomcolunaecannabisganhaumaliadoinesperadoagronegocio 124076452 Acesso em 20032020 83 Disponível em httpsvejaabrilcombrblogradaronovoalvoideologicodedamaresesuaturmaa cannabismedicinal Acesso em 20032021 143 De acordo com o site Sechat a oposição começou antes mesmo de o texto substitutivo ser entregue O deputado Eros Biondini PROSMG durante sessão deliberativa citou as resoluções da ANVISA de nº 327 e nº 335 que preveem a fabricação importação e prescrição médica da Cannabis para lembrar que o Brasil já tem uma regulação E que por isso o texto substitutivo não faria sentido Classificou o texto de cavalo de Tróia Disse que a aprovação do PL 3992015 é uma armadilha para legalizar as drogas do país Ressaltamos que a proibição da maconha está cada vez mais ligada à questão moral pois se o comércio de cannabis representa uma grande possibilidade de lucro para grandes empresas e frações da burguesia o impedimento é a questão do controle social que vem desde a legislação de 1890 Isto posto destacamos que para quem detém poder econômico a maconha e outros psicoativos já estão legalizados basta comparar o número de negros periféricos e brancos moradores de bairros nobres que estão cumprindo pena por portar psicoativos No dia 10 de maio de 2020 chegou às farmácias o primeiro canabidiol fruto da parceria da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto FMRP da Universidade de São Paulo USP e da empresa farmacêutica PratiDonaduzzi do Paraná De acordo com o site CannabisSaúde84 o produto foi liberado pela ANVISA em 22 de abril de 2020 e a venda está condicionada a apresentação do receituário azul o mesmo para remédios controlados O valor do frasco de 30 ml gira em torno de R2143 nas farmácias brasileiras De acordo com reportagem no site da Pfarma85 Os estudos tiveram um boom a partir de 2008 com a criação do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia INCT Translacional em Medicina que abriu caminho para parcerias com a indústria e com grupos de pesquisa internacionais importantes entre eles o do professor Raphael Mechoulam na Universidade Hebraica de Jerusalém descobridor do CBD e considerado a maior autoridade científica em canabinóides no mundo As plantas são importadas da Europa já que no Brasil o plantio continua proibido mesmo para fins terapêuticos PFARMA 2019 A parceria da USP com a PratiDonaduzzi começou em 2014 prevendo o desenvolvimento de produtos e o depósito conjunto de patentes com retornos financeiros para a Universidade e a construção de um Centro de Pesquisas em Canabinóides um prédio de dois andares pagos pela PratiDonaduzzi com apoio financeiro da FINEP Financiadora de Inovação e Pesquisa no campus da FMRP 84 Disponível em httpswwwcannabisesaudecombrprimeirocanabidiolbrasileiroautorizadopela anvisacustarr2143 Acesso em 21032021 85 Disponível em httpspfarmacombrnoticiasetorfarmaceuticomercado5587canabidiolprati donaduzziusphtml Acesso em 20082020 144 Ainda de acordo com a reportagem Os benefícios da parceria entre PratiDonaduzzi e USP Ribeirão Preto são imensuráveis pois a sinergia estratégica entre instituição pública e privada propiciou a união de recursos para agilizar o desenvolvimento de produtos contendo canabidiol altamente purificado e principalmente a realização de ensaios que comprovam a qualidade da formulação disse ao Jornal da USP o gerente de Pesquisa e Desenvolvimento da empresa Liberato Brum Junior Segundo reportagem no site da FINEP86 o desenvolvimento desse fármaco recebeu um aporte financeiro de R180 milhões A FINEP é uma empresa pública do MCTI Ministério da Ciência Tecnologia e Inovações do Governo Federal Ainda em parceria com a equipe da USP de Ribeirão Preto que estuda o uso terapêutico do canabidiol há mais de 30 anos a PratiDonaduzzi pesquisa com o apoio da Finep o desenvolvimento de uma fórmula utilizando canabidiol sintético que possa substituir o uso da planta na obtenção do medicamento Neste caso a ideia é produzir uma nova fórmula para ser utilizada no tratamento de outras doenças A opção sintética é uma prioridade na área da saúde já que abrangeria um número maior de consumidores FINEP 2019 A PratiDonaduzzi tem patentes depositadas no Brasil e em mais 12 países incluindo Estados Unidos China Japão e alguns países da Europa Segundo o site da FINEP a Prati Donaduzzi é a primeira empresa brasileira a participar do programa Finep Conecta destinado a apoiar projetos cooperativos envolvendo empresas e Instituições de Ciência e Tecnologia ICTs Recentemente foram assinados com o grupo dois contratos de financiamento Um deles dará sequência aos estudos para obtenção do canabidiol com alto grau de pureza possibilitando a condução dos ensaios necessários para registro do medicamento O projeto receberá recursos no total de R 20 milhões do FinepConecta nova linha de crédito que opera com taxas de juros menores e prazos e carências mais longos Esses recursos serão repassados à Faculdade de Medicina da USPRibeirão Preto parceira do projeto De acordo com reportagem do site G187 no dia 02 de dezembro de 2020 a Comissão de Drogas Narcóticas da ONU reclassificou a maconha e a resina derivada da cannabis para um patamar que inclui substâncias consideradas menos perigosas de acordo com a Organização Mundial da Saúde OMS Com a reclassificação a maconha deixa de ocupar a lista de substâncias consideradas particularmente suscetíveis a abusos e produção de efeitos danosos e sem capacidade de produzir 86 Disponível em httpfinepgovbrnoticiastodasnoticias5985pesquisasempreconceito Acesso em 30032021 87 Disponível em httpsg1globocommundonoticia20201202comissaodaonuaprovaretirara maconhadelistadedrogasconsideradasmaisperigosasghtml Acesso em 25012021 145 vantagens terapêuticas A decisão teve aprovação de 27 países outros 25 votaram contra inclusive o Brasil CONSIDERAÇÕES FINAIS Considerando o exposto e tendo em vista a grande disputa que envolve a legalização da cannabis no Brasil teço as minhas considerações sem concluílas já que o debate não se extingue nessas linhas Muitos desafios surgiram ao construir uma dissertação sobre um tema tão polêmico e novo e por isso com tão pouco material bibliográfico para embasar a pesquisa mas aqui chegamos No primeiro capítulo concluímos que a história do Brasil está intimamente ligada a história da maconha e que o fato dela ter sido trazida por negros as africanos as escravizados as e ter sido utilizada nos rituais da umbanda e do candomblé ela ainda é estigmatizada sendo criminalizada por uma base moral e racista que foi utilizada por médicos brasileiros para encabeçar a proibição no Brasil capitaneada pelos Estados Unidos Verificamos também que analisar a formação social brasileira e o desenvolvimento do capitalismo brasileiro e suas particularidades requer considerar o racismo como fio condutor já que ele é um elemento estrutural e estruturante que sustenta as relações sociais e de produção no Brasil Em relação ao segundo capítulo verificamos que o uso das plantas na cura dos males físicos e espirituais é usado por várias civilizações desde a Antiguidade e que as mulheres principalmente negras e indígenas foram pioneiras nessa prática Tanto na Europa quanto nas Américas a prática de curandeirismo foi extremamente perseguida num amálgama de racismo religioso ódio de classe e misoginia pois o capitalismo precisava retirar o controle que as mulheres tinham sobre o seu corpo principalmente o controle sobre a natalidade para que elas reproduzissem força de trabalho ou seja que tivessem filhos que se tornariam mão de obra para o sistema capitalista Além disso as práticas de curandeirismo foram recriminadas pela classe dominante pois também representavam ameaça à medicina científica Compreendemos então que o sistema capitalista não é um sistema meramente econômico mas também social que expropria não só os meios de sobrevivência dos trabalhadores e trabalhadoras mas principalmente captura a sua subjetividade tirandolhes até mesmo o conhecimento ancestral sobre plantas medicinais criminalizando suas práticas médicoreligiosas O terceiro capítulo mostrou o nexo existente entre o proibicionismo e o imperialismo estadunidense ressaltando que através da proibição justificase a 146 Guerra às drogas alimentase o narcotráfico e pune severamente a juventude negra pobre e periférica através da morte e do encarceramento em massa mostrando que essa guerra não é uma guerra às drogas e sim uma guerra com alvo determinado jovens negros as periféricos as Mostramos também que o racismo se constitui como determinante social da saúde pois a população negra é a que mais tem dificuldade de acesso aos serviços de saúde traços que perpassam pelo racismo ambiental e institucional e que vão impactar negativamente na saúde da população negra É sabido que no SUS faltam medicamentos faltam médicos faltam remédios mas falta para quem Falta para os moradores de periferia para negros as indígenas e quilombolas Concluímos que criminalizar os psicoativos significa criminalizar a pobreza e com relação ao acesso a medicamentos à base de cannabis sativa mostramos que por causa da proibição se constitui em um tratamento burocrático e financeiramente inviável isto é para as classes subalternas esse acesso é inexistente Destacamos que pela imbricação capitalismoracismopatriarcado a tarefa do cuidado recai sobre as mulheres que na maioria das vezes cumprem essa função sem os seus companheiros criando seus filhos e mantendo a casa sozinhas Essa situação se agrava quando essas mulheres têm filhos com doenças crônicas e precisam redobrar os cuidados na maioria das vezes saindo de seus empregos para cuidar dos filhos A omissão do Estado na regulamentação do uso medicinal da maconha a restrição na regulamentação da ANVISA que autoriza aquisição somente via importação e o alto custo do canabidiol brasileiro violam o direito fundamental à saúde A supressão dos direitos é reconhecida por Marx como uma forma de expropriação pois a expropriação não diz respeito somente a tirar dos trabalhadores o seu único meio de subsistência A expropriação contemporânea diz respeito também a não dar às classes empobrecidas o direito à saúde dificultando o acesso desses à atendimentos médicos exames e medicamentos Morando em lugares insalubres com alimentação não adequada com vínculos de trabalho informais essas são as parcelas da população que passam mais frequentemente pelo processo de adoecimento Fontes 2010 considera que a expropriação não pode ser entendida como fenômeno meramente econômico já que possui um sentido propriamente social Trata se da imposição mais ou menos violenta de uma lógica da vida social pautada pela supressão de meios de existência ao lado da mercantilização crescente dos elementos necessários à vida dentre os quais figura centralmente a nova necessidade sentida objetiva e subjetivamente de venda da força de trabalho FONTES 2010 p 88 147 Destacamos que na Guerra às drogas o inimigo não são os psicoativos a guerra tem sexo raça e classe os alvos são principalmente jovens negros as periféricos as que todos os dias têm sua vida ameaçada por essa guerra Sabemos que a legalização dos psicoativos não é capaz de romper com a estrutura do capitalismo racismopatriarcado pois brancos e ricos continuam consumindo em formato medicinal ou não sem ser incomodados e os as negros as continuam sendo presos as e mortos as De acordo com reportagem no site G188 no dia 27 de fevereiro de 2021 o Ministério da Saúde abriu consulta pública para inclusão do canabidiol no SUS o uso é específico para tratamento de epilepsia refratária doença em que 30 dos pacientes são resistentes à medicamentos As opiniões podem ser enviadas até o dia 15 de março de 2021 Quem fez a solicitação para a inclusão do canabidiol no SUS foi a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias CONITEC no entanto o que poderia representar um avanço quando na verdade representa uma continuidade já que com essa medida a discussão sobre a regulamentação continua não sendo a pauta principal e como o pleito é feito apenas por uma empresa há uma grande possibilidade de monopólio dos produtos com o preço elevado Segundo a reportagem a substância em avaliação pelo Ministério é chamada comercialmente de PratiDonaduzzi um produto de cannabis que não tem tetrahidrocanabinol THC principal substância psicoactiva encontrada nas plantas do gênero cannabis O produto tem relatório técnico feito pela Conitec e um pedido de incorporação ao SUS produzido pela Secretaria de Ciência Tecnologia Inovação e Insumos Estratégicos em Saúde do Ministério da Saúde SCTIEMS Além de todo o estigma que envolve a maconha ainda existe um preconceito muito grande com relação ao THC que é a substância presente na planta responsável por produzir os efeitos psicoativos Em torno dessas discussões o THC é visto pelos conservadores como coisa de maconheiro Porém um estudo89 realizado por Carolina Chaves Paulo Cesar Bittencourt e Andrea Pelegrini lançado em outubro de 2020 confirma que a ingestão do óleo rico em THC teve excelentes resultados em pacientes com fibromialgia tanto no tratamento das dores quanto na melhoria da qualidade de vida 88 Disponível em httpsg1globocomdfdistritofederalnoticia20210227canabidiolministerioda saudeabreconsultapublicasobreinclusaodesubstancianosusghtml Acesso em 07032021 89 Disponível em httpsacademicoupcompainmedicinearticle211022125942556 Acesso em 12022021 148 Isto posto analisamos que sem a regulamentação e mesmo que o canabidiol chegue no SUS os pacientes podem não conseguir ter acesso a eles pois como a Lei 11343 de 2006 ainda proíbe o uso e cultivo da planta as mesmas continuam tendo que ser importadas dos Estados Unidos ou da Europa e são direcionadas para a empresa PratiDonaduzzi ou seja o SUS que já está suficientemente sucateado ainda terá que arcar com alto custo para conseguir fornecer esse medicamento Além disso as associações que produzem artesanalmente os medicamentos à base de cannabis sativa vem sofrendo ataques que objetivam impedir o seu funcionamento Assim de acordo com reportagem no site Sechat90 no dia 27 de fevereiro de 2021 a ANVISA entrou com o pedido de suspensão da liminar que assegura a ABRACE Associação Brasileira de Apoio Cannabis Esperança o direito de cultivar cannabis para fins medicinais e produzir produtos terapêuticos como óleo pomada e spray Esse pedido de suspensão feito pela ANVISA está a cargo do Desembargador Cid Marconi do Tribunal Regional Federal da 5ª Região TRF5 A ABRACE atende hoje 14 mil famílias pelo Brasil que precisam desses produtos para sobreviver No dia 04 de março de 2021 o Desembargador Cid Marconi revogou a decisão de suspender as atividades da ABRACE a medida foi tomada após vistoria realizada pelo Desembargador nas unidades da ABRACE em João Pessoa na Paraíba dessa forma a ONG terá quatro meses para se ajustar às exigências da ANVISA Por fim no dia 08 de junho de 2021 foi aprovado pela Comissão Especial na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 399201591 que regulamenta o plantio de maconha para fins medicinais e a comercialização de medicamentos que contenham extratos substratos ou partes da planta Foram 17 votos contra e 17 a favor sendo aprovada pelo voto do relator Luciano Ducci PSBPR e seguirá para o Senado A proposta altera o artigo 2 da Lei 11343 de 2006 para autorizar o plantio de vegetais como a cannabis para fins científicos ou medicinais em local e prazos determinados mediante fiscalização O relator Luciano Ducci ressaltou que desde 2015 quando a ANVISA passou a autorizar a importação de medicamentos à base de cannabis os pedidos aumentaram de maneira expressiva Segundo ele em 2015 foram 902 solicitações em 2019 até outubro 90 Disponível em httpssechatcombranvisapedeajusticasuspensaoliminarqueasseguraproducao deoleosmedicinaisdecannabisdaabrace Acesso em 11032021 91 Disponível em httpswwwcamaralegbrproposicoesWebfichadetramitacaoidProposicao947642 Acesso em 14062021 149 mais de 53 mil e no início de 2020 tinham 78 mil pacientes cadastrados para a importação desses medicamentos No texto apresentado a proposta é que não haja exigência de que se tenha esgotado todas as alternativas terapêuticas para o paciente para somente aí o médico poder prescrever o medicamento à base de cannabis sativa Além disso o projeto prevê que o cultivo da cannabis sativa seja realizado apenas por pessoa jurídica previamente autorizada pelo poder público E claro o texto também trata do uso do cânhamo industrial como um novo segmento comercial no Brasil que pode se tornar uma nova matriz agrícola O texto apresentado não inclui o cultivo para pessoas físicas beneficiando apenas a indústria farmacêutica e as associações ou seja apenas quem pode pagar por ela Em suma quem paga a conta da Guerra às drogas são as classes pauperizadas principalmente negros as pobres periféricos as que além de sofrer como alvo dessa guerra sofrem também com o encarceramento em massa e não tem acesso aos medicamentos à base de cannabis pelo seu alto custo então seria interessante que os benefícios da cannabis medicinal fossem auferidos às classes mais pobres Abordar sobre a regulamentação dos psicoativos de forma geral e não só da maconha é falar sobre a luta de classes pois para os ricos os psicoativos já estão legalizados A Lei 113432006 ao não distinguir traficante de usuário deixando a cargo do delegado decidir ela corrobora para que negros as periféricos as sejam o principal alvo do encarceramento em massa pois brancos as moradores dos bairros nobres são majoritariamente vistos como usuários as e os as negros as como traficantes isso explica os dados do encarceramento onde a maioria é composta de negros as Diante disso a nossa defesa é pela descriminalização da cannabis sativa e pela responsabilização do Estado enquanto garantidor de direitos e promotor de políticas públicas para o acesso democrático a esses medicamentos Atualmente muitas famílias têm lutado também pelo autocultivo que se dá através do pedido de habeas corpus à Justiça para que seja permitido importar sementes de cannabis sativ para a produção do próprio medicamento No entanto esse não é o horizonte a ser seguido já que como mostramos ao longo do trabalho em uma sociedade patriarcal o cuidado recai sempre sobre as mulheres e produzir esse medicamento seria mais uma tarefa de responsabilidade das mulheres 150 Figura 5 Ala da APEPI na Marcha da Maconha em 2014 Rio de Janeiro A figura supracitada foi retirada de uma reportagem no site G192 com o título Mães pedem remédio à base de maconha em marcha no Rio quando destacam que a luta pela cannabis é uma luta das mulheresmães é porque são elas que estão à frente dos espaços de luta das associações porém elas estão na frente não só por acreditarem nessa luta mas principalmente por não terem o apoio do companheiropai nessa mesma luta Então se torna impossível dissociar a luta pela liberdade da mulher da luta contra o proibicionismo já que a Bancada BBB93 bala boi e bíblia no Congresso Nacional e a indústria farmacêutica são quem ditam regras que vão impactar diretamente e principalmente a vida das mulheres pobres negras e periféricas Ressaltamos que mesmo com o avanço do conservadorismo desde 2016 a pauta da cannabis medicinal tem avançado ou seja apesar dos ataques a classe trabalhadora tem se movimentado de forma a pressionar o Governo mostrando que a pauta da cannabis medicinal é uma pauta de saúde pública e de defesa intransigente dos direitos humanos 92 Disponível em httpg1globocomriodejaneironoticia201405marchadamaconhaseguesob chuvaemipanemanoriohtml Acesso em 20082020 93 A Bancada BBB é um termo usado para referirse conjuntamente à bancada armamentista da bala bancada ruralista do boi e à bancada evangélica da bíblia no Congresso Nacional do Brasil As agendas das bancadas estão alinhadas à direita política e ao conservadorismo brasileiros 151 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA Daniela dos Santos Racismo ambiental e a distribuição racialmente desigual dos danos ambientais no Brasil Disponível em httpwwwpuc riobrpibicrelatorioresumo2015relatoriospdfccsDIRDIRDanielaAlmeidapdf Acesso em 29012021 ALMEIDA Luiz Sávio Índios do Nordeste temas e problemas 5 Vai te para onde não canta galo nem boi urra diagnóstico tratamento e cura entre os KaririXocó Maceió EDUFAL 2004 ALMEIDA Silvio O que é racismo estrutural Belo Horizonte Letramento 2015 ALVIM NAT et Al O uso de plantas medicinais como recurso terapêutico das influências da formação profissional às implicações éticas e legais de sua aplicabilidade como extensão da prática de cuidar realizada pela enfermeira Revista Latino Americana de Enfermagem v14 n3 2006 AMORIM Ricardo Projeto de lei da cannabis ignora direito ao cultivo individual Disponível em httpsvejaabrilcombrblogcannabizprojetodeleidacannabis medicinalignoradireitoaocultivoindividual Acesso em 20032021 ARAÚJO E C Use of medicinal plants by patients with câncer of public hospitals in Joao Pessoa PB Revista Espaço para a Saúde v 8 n 2 p 4452 2007 BARROS André PERES Marta Proibição da maconha no Brasil e suas raízes históricas escravocratas Disponível em httpswwwe publicacoesuerjbrindexphpperiferiaarticleviewFile39532742 Acesso em 20022020 BARROS José Flávio Pessoa de NAPOLEÃO Eduardo Ewé Orisá Uso litúrgico e terapêutico dos vegetais nas casas de candomblé 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httpperiodicosestedubrindexphpgenero Memória Margarida Maria Alves Uma mulher muitas mulheres Sabrina Senger Margarida Maria Alves nasceu em Alagoa Grande na Paraíba no dia 05 de agosto de 1933 sendo a caçula de nove irmãos Ainda criança Margarida e sua família foram expulsas do sítio onde viviam por latifundiários fazendo com que se mudassem para a periferia paraibana Ela completou a quarta série do ensino primário em sua fase adulta e enquanto sindicalista lutou pela alfabetização de adultos a partir dos métodos de Paulo Freire Margarida Alves foi uma das primeiras mulheres a assumir a direção sindical no Brasil e lutou pelos direitos humanos e direitos trabalhistas especialmente de trabalhadoras e trabalhadores do campo1 Margarida foi assassinada por matadores de aluguel a mando de fazendeiros da região O crime aconteceu em sua casa na frente do seu único filho e do seu marido no dia 12 de agosto de 1983 Ela estava com 50 anos de idade e era presidenta do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alagoa Grande Trabalhadores e trabalhadoras rurais jovens estudantes intelectuais freiras e sacerdotes das Comissões Pastorais da Terra CPT lamentaram a morte de uma companheira A Teologia da Libertação ou Teologia da Enxada como ficou conhecida essa Teologia no Nordeste lamentava e clamava com firmeza por justiça e paz no campo Também se ouvia como um réquiem incessante o refrão da prece do hino católico Prova de amor maior não há que doar a vida pelo irmão o cântico sagrado preferido por Margarida Maria Alves2 Possui graduação e mestrado em Teologia pela Faculdades EST 2020 Atualmente atua no Programa de Gênero e Religião Contato binasengerhotmailcom 1 PAIXÃO Mayara Conheça Margarida Alves símbolo da luta das trabalhadoras do campo por direitos Brasil de Fato São Paulo 12 ago 2019 Disponível em httpswwwbrasildefatocombr20190812conhecamargaridaalvessimbolodalutapordireitospara astrabalhadorasdocampo Acesso em 21 out 2020 2 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza Margarida Margaridas memória de Margarida Maria Alves 19331983 através das práticas educativas das Margaridas João Pessoa Editora da UFPB 2017 p 11 Disponível em 13 Coisas do Gênero São Leopoldo v 6 n 1 p 1214 Jan Jun 2020 Disponível em httpperiodicosestedubrindexphpgenero O crime que ceifou a vida de Margarida Alves continua impune Muitos outros importantes líderes sindicais da época foram assassinados e assassinadas e suas lutas contribuíram para direitos trabalhistas que usufruímos atualmente como o pagamento do 130 salário férias anuais carteira assinada para pessoas trabalhadoras da área rural o direito de cultivar suas terras e oferecer estudo para seus filhos e filhas e o combate ao trabalho infantil3 Uma das grandes preocupações de Margarida foi a educação do trabalhador e da trabalhadora rural Deste modo colaborou com a fundação do Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural em que foi diretora de 1981 até 19834 Mesmo após a sua morte Margarida Alves continuou a inspirar mulheres e ativistas pelos direitos humanos de trabalhadoras e trabalhadores por sua coragem e ousadia Desde o ano 2000 milhares de mulheres urbanas e rurais se organizam em Marcha para reivindicar direitos justiça igualdade e dignidade5 A Marcha das Margaridas faz memória à luta de Margarida Aves e é a maior ação conjunta de mulheres na América Latina Uniuse à manifestação no ano de 2019 a I Marcha de Mulheres Indígenas ocupando as ruas de Brasília e a frente do Palácio do Planalto6 Esta edição da Revista Periódica Coisas do Gênero remete a arte de sua capa ao rosto de Margarida Maria Alves como forma de reconhecer sua luta como nossa contínua luta Referências CONSELHO INDIGENISTA MISSIONÁRIO CIMI Marcha das Mulheres Indígenas divulga documento final lutar pelos nossos territórios e lutar pelo nosso direito a vida 15 ago 2019 Disponível em httpscimiorgbr201908marchamulheresindigenasdocumentofinallutar pelosnossosterritorioslutarpelonossodireitovida Acesso em 09 nov 2020 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza A trajetória políticoeducativa de Margarida Maria Alves Entre o velho e o novo sindicalismo rural 2010 146 f Tese Doutorado em Educação Centro de Educação Universidade Federal da Paraíba João Pessoa 2010 Disponível em httpsrepositorioufpbbrjspuibitstreamtede49221arquivototalpdf Acesso em 09 nov 2020 FERREIRA Ana Paula Romão de Souza Margarida Margaridas memória de Margarida Maria Alves 19331983 através das práticas educativas das Margaridas João Pessoa Editora da UFPB 2017 Disponível em httpwwweditoraufpbbrsistemapress5indexphpUFPBcatalogview45173548931 Acesso em 21 out 2020 3 PAIXÃO 2019 4 SANTANA Irani FERRARI Milena COSTA Rayane Margarida Alves Uma mártir camponesa p 04 Disponível em httpneedunematbr4forumartigosiranipdf Acesso em 09 nov 2020 5 Mais informações em FERREIRA Ana Paula Romão de Souza A trajetória políticoeducativa de Margarida Maria Alves Entre o velho e o novo sindicalismo rural 2010 146 f Tese Doutorado em Educação Centro de Educação Universidade 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Bibliotecas SISBI Catalogação de Publicação na Fonte UFRN Biblioteca Setorial do Departamento de Artes DEART Elaborado por Ively Barros Almeida CRB15482 Souza Edceu Barboza de Grupo Ninho de Teatro experiências e usos táticos na produção e na gestão em teatro de grupo no Cariri cearense Edceu Barboza de Souza 2020 199 f il Dissertação mestrado Universidade Federal do Rio Grande do Norte Centro de Ciências Humanas Letras e Artes Programa de PósGraduação em Artes Cênicas Natal 2020 Orientador Prof Dr José Sávio Oliveira de Araújo 1 Grupo Ninho de Teatro 2 Teatro Produção e direção 3 Trabalho de grupo na arte I Araújo José Sávio Oliveira de II Título RNUFBSDEART CDU 792 EDCEU BARBOZA DE SOUZA GRUPO NINHO DE TEATRO EXPERIÊNCIAS E USOS TÁTICOS NA PRODUÇÃO E NA GESTÃO EM TEATRO DE GRUPO NO CARIRI CEARENSE Dissertação apresentada ao Programa de pós graduação em Artes Cênicas da Universidade Federal do Rio Grande do Norte como requisito parcial para obtenção do grau de mestre em artes cênicas Aprovada em de de 2020 Dr José Sávio Oliveira de Araújo Presidente da banca orientador Dra Melissa dos Santos Lopes Universidade Federal do Rio Grande do Norte membro interno Dr Luiz Renato Gomes Moura Universidade Regional do Cariri membro externo AGRADECIMENTOS As mulheres que me deram todas as bases para ser e estar no mundo pensando e girando outros modos de existir minha mãe Maria Ivonete Ferreira de Souza Neta minha avó Maria de Lourdes Ferreira Lima minhas tias Vera Lúcia Ferreira de Souza Maria Ivoneide Ferreira de Souza Edna Ferreira de Souza e Berenice Ferreira de Souza minha irmã Elizangela Barboza de Souza mesmo longeperto acreditam em meus desejos vibram sempre minhas conquistas respeitando sempre minhas escolhas A meu pai Lazaro Barboza e Andrade meus irmãos Alexandre Barboza de Souza e Pedro Henrique Ferreira de Souza por serem uma parte espelho de mim Ao professor e orientador José Sávio Oliveira de Araújo pela orientação e por acreditar na efetivação desta pesquisa À Professora artista e amiga Cecília Maria por me guiar nos primeiros passos da pesquisa acadêmica e por ser incentivadora dessa jornada Ao Professor artista e amigo Luiz Renato Gomes Moura pelas contribuições generosas por acreditar ser guia e incentivador da caminhada Aos amigoscompanheirospassarinhosnarradoresas do Grupo Ninho de Teatro Elizieldon Dantas Fagner Fernandes Francisco Francieudes Joaquina Carlos Monique Cardoso Rita Cidade Sâmia Ramare que compartilham há doze anos desejos artísticos poéticos e pessoais Aos amigos e colegas de turma em especial Barbara Leite Faeina Jorge Franco Fonseca Júnior Nobrega Marcio Sá Mauro César Nanda Mélo Pablo Ferreira Roberto Viana Tatiane Araújo pelas trocas na vida e no trajeto acadêmico A José Filho amigo e colega de turma pelas conversas estradas e presença em mais um desafio Ao Programa de Pósgraduação em Artes Cênicas PPGArC da Universidade Federal do Rio Grande do Norte UFRN seus professores coordenadores funcionários que colaboraram para essa formação À banca examinadora composta pelos professores Luiz Renato Gomes Moura e Melissa dos Santos Lopes pelas cuidadosas e generosas contribuições na leitura desta pesquisaescrita RESUMO Compondo um entendimento das práticas do Grupo Ninho de Teatro a partir de dada compreensão de experiência LARROSA E BENJAMIN e por meio de minha localização como sujeito e objeto desta pesquisa que tem como metodologia a História Oral PORTELLI elaboro uma construção que articula saber e fazer em produção e gestão teatral a partir do olhar para as práticas do teatro de grupo em diálogo com osas autoresas Flávia Janiaski Rosyane Trotta Samanta Cohen Danilo Castro e outrosas Com recorte na trajetória de doze anos do Grupo Ninho de Teatro e do espaço Casa Ninho no município de CratoCeará região do Cariri reflito sobre os procedimentos táticos CERTEAU que o grupo vem praticando para manter seu projeto sóciopolíticoestético de grupo Para tanto é descortinado o cotidiano do grupo evidenciando como este encontra no campo do teatro de grupo formas de gestar e produzir a manutenção de seu repertório projetos e sede artística Nesse campo de estudos me aproximo dos autores Romulo Avellar Teixeira Coelho Maria Helena Cunha Assim o objeto desta pesquisa se concentrou no teatro de grupo a partir do Grupo Ninho de Teatro e seu modo de produzir e gerir O objetivo dessa pesquisa é contribuir a partir de dado recorte para o registro de métodos e modos de fazer produção e gestão de um projeto de grupo considerando suas próprias táticas Busco ainda colaborar para os estudos contemporâneos da história do teatro no Ceará PALAVRASCHAVE Teatro de Grupo Gestão Teatral Produção Teatral Ninho de Teatro Casa Ninho ABSTRACT Composing an understanding of the practices of Grupo Ninho de Teatro based on a certain understanding of experience LARROSA AND BENJAMIN and through my location as the subject and object of this research which uses Oral History as methodology PORTELLI I elaborate a construction which articulates knowledge and doing in production and theatrical management from the perspective of group theater practices in dialogue with the authors Flávia Janiaski Rosyane Trotta Samanta Cohen Danilo Castro and others Based on the twelveyear trajectory of the Ninho de Teatro Group and the Casa Ninho space in the city of Crato Ceará Cariri region I reflect on the tactical procedures CERTEAU that the group has been practicing to maintain their groups sociopoliticalaesthetic project For that the groups daily life is revealed showing how the group finds ways to manage and produce the maintenance of its repertoire projects and artistic headquarters in the field of group theater In this field of studies I approach the authors Romulo Avelar Teixeira Coelho Maria Helena Cunha Therefore the object of this research focuses on group theater based on the Ninho de Teatro Group and its way of producing and managing The objective of this research is to contribute from a given point of view to the registration of methods and ways of producing and managing a group project considering its own tactics I also seek to collaborate for contemporary studies of the history of theater in Ceará Key Words Group Theater Theater Management Theater Production Ninho de Teatro Casa Ninho LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Imagem do espetáculo Bárbaro em cena o ator Edceu Barboza 57 Figura 2 Imagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo em cena Joaquina Carlos Rita Cidade e Edceu Barboza 59 Figura 3 Imagem do espetáculo Charivari em cena a atriz Zizi Telecio e Elizieldon Dantas 62 Figura 4 Imagem da Casa Ninho registro da primeira reforma em maio de 2011 65 Figura 5 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade Zizi Telecio 66 Figura 6 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Zizi Telecio e Elizieldon Dantas 69 Figura 7 Imagem do espetáculo Jogos na Hora da Sesta em cena Elizieldon Dantas e Rita Cidade 71 Figura 8 Espetáculo Jogos na hora da sesta em cena Edceu Barboza e Rita Cidade 72 Figura 9 Espetáculo A Lição Maluquinha em cena Sâmia Ramare 74 Figura 10 Espetáculo Poeira em cena Monique Cardoso 76 Figura 11 Espetáculo Poeira em cena Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Monique Cardoso Sâmia Ramare Rita Cidade Zizi Telecio 79 Figura 12 Casa Ninho em temporada com a Alysson Amâncio Cia de Dança 89 Figura 13 Casa Ninho após reforma 93 Figura 14 Casa Ninho evento Chá com Clarice 99 Figura 15 Nova estrutura de iluminação da Casa Ninho 100 Figura 16 Primeira arte de cartaz do espetáculo Bárbaro 193 Figura 17 Primeira arte de cartaz do espetáculo Avental todo sujo de ovo 193 Figura 18 Primeira arte de cartaz do espetáculo Charivari 193 Figura 19 Primeira arte de cartaz do espetáculo O menino fotógrafo 193 Figura 20 Primeira arte de cartaz do espetáculo Jogos na Hora da Sesta 193 Figura 21 Primeira arte de cartaz do espetáculo A Lição Maluquinha 193 Figura 22 Primeira arte de cartaz do espetáculo Poeira 193 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 9 1 TEATRO DE GRUPO E SEUS POSSÍVEIS 20 11 Cômpitos um apanhado histórico do teatro de grupo 23 12 Teatro de Grupo no Ceará Cariri 34 121 Instituições relevantes no âmbito da produção e gestão cultural na região do Cariri cearense 39 1211 CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI 39 1212 LICENCIATURA EM TEATRO DA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI URCA 41 1213 SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SESC MOSTRA SESC CARIRI DE CULTURAS 42 13 Produção Cultural Teatral 45 2 GRUPO NINHO DE TEATRO UM NINHO EM CONTÍNUA CONSTRUÇÃO 50 21 GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias 52 22 A Produção Cultural e Teatral na experiência do Grupo Ninho de Teatro 79 23 O Planejamento estratégico como meio de organização do grupo 82 24 A casa em movimento 88 25 Como nascem os projetos A Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição 101 CONSIDERAÇÕES FINAIS 105 REFERÊNCIAS 111 APÊNDICES Entrevistas realizadas com integrantes do Grupo Ninho de Teatro 117 ANEXOS 192 9 INTRODUÇÃO Esta dissertação tem como objeto de pesquisa o teatro de grupo e as táticas de produção e gestão com foco no Grupo Ninho de Teatro e as ações mobilizadas pelo mesmo para a manutenção de seu repertório e sua sede a Casa Ninho Nesta escrita construo um recorte historiográfico sobre os elementos que configuram um entendimento de práticas coletivas no solo do teatro de grupo com base no itinerário de doze anos do grupo na cidade de Crato1 na Região do Cariri Cearense O principal objetivo é comungar como nossas práticas de produzir e gerir foram se articulando nesse percurso e de que forma o grupo foi encontrando ruassaídas para driblar as adversidades locais e se manter por mais de uma década com ações contínuas desviadas da ausência de políticas públicas na área cultural sobretudo por estar deslocado de centrosmetrópoles em que os espaços de trabalho são historicamente maiores ainda que com suas complexidades Para escrever sobre a experiência do Grupo Ninho de Teatro me coloco dentro da escrita como sujeito e objeto me escrevo trazendo para o método de escrita os elementos que foram me afetando nessa travessia coletiva Por isso escolho escrever de forma poética e mesmo subjetiva de modo que oa leitora perceba os cruzamentos entre vida arte e pesquisa Falar de si é também falar de outrosas tendo essa compreensão é que resolvi escrever sobre a experiência do Grupo Ninho que é também a minha Não se trata pois de vaidades mas sim de um exercício de escrita histórica que busca inscrever as microhistórias na historiografia Essa compreensão me permite somar na construção de outros olhares para o teatro de grupo do Ceará por meio desse recorte entendendo que existem dezenas de outros grupos que também devem ter suas histórias contadas A escritora Grada Kilomba 2019 28 na introdução de Memórias de Plantação diz que escrever portanto emerge como ato político e acresce que enquanto escrevo eu me torno a narradora e a escritora da minha própria realidade Com isso a autora me provoca a compreender este estudo como uma escrita política 1 Crato cidade com 256 anos situada no Sul do Estado do Ceará na Região do Cariri Chamada por muitos como o oásis do sertão devido a sua natureza sempre verde e às muitas nascentes de água que brotam do pé da Chapada do Araripe A cidade é também rica em manifestações da Tradição Popular 10 na medida em que construo a possibilidade de inserilo dentro do painel de ideias que pensam o teatro de grupo do Ceará bem como suas práticas Situado esse posicionamento disserto nas páginas que se seguem sobre os atravessamentos que essa história foi me encruzilhando esta palavra aqui quer dizer de uma escrita que parte de entrecruzamentos uma escritaencruza tal como nos apresenta o autor Florêncio em seu texto Nativo Ausente e EscritaDespacho Aquela que faz tracejar invisíveis Aquela em que Exu2 ganha corpo e faz enxergar os desenhos que não são vistos com os olhos acostumados aos golpes de abstração aos golpes dos universais incorpóreos Aquela que brinca com as diferenças FLORÊNCIO 2018 p 8 Esses traços invisíveis como nos aponta Florêncio são as camadas que muitas vezes não são capturadas apenas na leitura em si pois é preciso ler expandido para que se encontre sentidos que o texto em si não dá conta Por isso defini como metodologia para a escrita desta dissertação trazer para construir junto comigo as vozes dosdas demais integrantes do Grupo Ninho Rita Cidade Elizieldon Dantas Sâmia Ramare Monique Cardoso Fagner Fernandes e Francisco Francieudes como narradoresaspássaros do grupo que ampliam ainda mais o que chamo de uma escritaencruza3 Com isso ficou estabelecido o lugar de escuta desse corpogrupo em suas ruasencruzasencruzilhamentos uma escrita a partir das diferenças Estabeleço também um diálogo com o método da História Oral a partir do historiador Alessandro Portelli 2016 o mesmo nos aponta que este método prescinde de uma real escuta não apenas do ouvir mas aquela que nos faz capturar o que o narrador não verbaliza ou seja expandir a presença na presença doda outroa para que assim outros sentidos e camadas apareçam Essas camadas 2 Exu é um orixá do candomblé e a figura mais controversa do panteão africano Seria o responsável pelo início de tudo a potência o movimento o contraditório o duplo o múltiplo o brincalhão que faz acontecer pelo avesso constrói ao desfazer arruma tudo gerando o caos Exu não permite certezas porque nunca pode ser alcançado Quando se pensa têlo alcançado que se chegou a algum lugar ele inverte o caminho e o fim passa a ser o começo que não é só um caminho mas uma encruzilhada de quatro caminhos multiplicados por milhares de outras possibilidades Para Exu não existe certo ou errado mas caminhos que podem levar a diversos lugares ou conduzir ao mesmo local por via diferente Chamar Exu para a rodatexto implica em mais que problematizar uma manifestação cultural afrobrasileira em pensar a produção de conhecimento a partir dos países periféricos KAWAHALA 2014 p 43 3 Essa junção de palavras escritaencruza e giro ou gira algumas vezes serão encontradas diz do meu lugar de vivência não iniciado em algumas religiões de matriz africana e afrobrasileiras como artistapesquisador preto escrevo a partir desse lugar de crença 11 podem ser as cores do entorno os cheiros o telhado os móveis do ambiente os sons internos e externos elementos que irão compor a escrita Este método também apresenta uma chave importante para a leitura desta dissertação pois ele articula os saberes locais na relação com o global fazendo uma ligação de pontos que nos permitem pensar uma epistemologia que não negue as experiências advindas do território de onde se escreve como nos acentua o autor ao dizer que A história oral em essência é uma tentativa de reconectar o ponto de vista nativo local vindo de baixo e o ponto de vista científico global visto de cima de contextuar aquilo que é local e de permitir que o global o reconheça A história oral então junta a história vinda de cima e a história vinda de baixo em um mesmo texto em uma mesa de negociação criando um diálogo igualitário entre a consciência que os historiadores têm dos padrões espaciais e temporais mais amplos e a narrativa pessoal mais pontualmente focada do narrador local PORTELLI 2016 p 150 Como nos aponta o autor a história oral nos permite estabelecer relações não hierárquicas ao pensar um objeto de pesquisa Assim reforço que ao recortar a pesquisa no Grupo Ninho de Teatro como lócus para o estudo do teatro de grupo foquei especificamente nos seus modos de produção e gestão teatral na cidade do Crato Cruzei histórias para romper camadas desiguais e construí um registro historiográfico no qual o Ninho age pelo local para cruzar com outros mundos Portanto tal método me ajudou a compreender a escrita a partir de minhas narrativas em diálogo com outras sem anulações de quem sou enquanto pesquisador pois essa metodologia me fez perceber que é a abertura do historiador para a escuta e para o diálogo e o respeito pelos narradores que estabelece uma aceitação mútua baseada na diferença e que abre o espaço narrativo para o entrevistador entrar Do outro lado é a disposição do entrevistado de falar e de se abrir em alguma medida que permite que os historiadores façam seu trabalho E a abertura dos historiadores sobre eles mesmos e sobre o propósito de seu trabalho é um fator crucial na criação desse espaço PORTELLI 2016 p15 Essa abertura teve que ser ampliada uma vez que eu faço parte do cotidiano do grupo mas ainda assim se fez importante atentar ainda mais para os narradoresas e companheirosas de grupo pois poderia deixar passar pela escuta questões 12 importantes no ato de pesquisa ademais esse ato de escuta no meu caso se deu sempre de forma aberta já que vivemos o mesmo cotidiano A seguir nesta introdução narro o que me fez e faz ser quem sou Atualmente sou ator encenador produtor e gestor do Grupo Ninho de Teatro e de sua sede a Casa Ninho Desempenho uma atuação polifônica MALETTA 2016 que vem propiciando diversas experiências que serão compartilhadas com o registro desta pesquisa Nesta dissertação discutirei as ruas veredas becos caminhos e encruzilhadas que me levaram ao ninho que hoje habito e que divido com vocês leitoresas Para nortear a narrativa utilizome do método sujeitotrajetoobjeto como instrumento para evidenciar o caminho que me trouxe a esta dissertação Inicio destacando a cidade de Acopiara4 Ceará década de 1980 O que mais marca esse período é a ausência da televisão Não acompanhei a rainha dos baixinhos nem a loira que exibia um sinal como marca e tampouco a que dizia que era indígena meus dias eram preenchidos por outros fazeres Minha infância foi brincar pelas ruas roubei bandeiras atirei bilas carimbei amigos com bola me escondia através do jogo dos trinta e um pulei em quadrados de nome amarelinha dancei em trancelins fui espectador de narrativas humanas sentado ao lado de minha avó que num movimento de sobe e desce do pé costurava madrugando histórias e me fazendo ser um sensível ouvidor de palavras A luz amarela o som da máquina de costuras o cheiro de café a fumaça do cigarro desenhando o espaço estão em mim pulsantes como se fosse o agora do ato Concomitantemente na escola gostava de imitar pessoas num ato inocente que anos depois se tornaria meu ofício Na década seguinte já percebendo o mundo com outro olhar me via sempre envolto a livros e um prazer único de estar naquele ambiente escolar era ali que eu me via sendo gente foi ali que recapitulando o tempo intuitivamente me sentia artista através do desenho e da pintura sempre às sextasfeiras era aula de Artes Poucos anos à frente conheci a linguagem artística que iria colorir ainda mais a minha vida o Teatro Aos treze anos era 1998 iniciei timidamente nesta linguagem cênica através do Projeto AABB5 Comunidade neste permaneci por três anos e a partir dessa experiência comecei a vivenciar o movimento teatral acopiarense 4 Acopiara é um município do Estado do Ceará localizado na região CentroSul com 98 anos de emancipação conhecido em todo o estado por realizar o mais antigo festival de teatro O município também tem forte presença de grupos de reisado de caretas 5 Associação Atlética Banco do Brasil AABB são clubes recreativos espalhados por diversas cidades brasileiras que tenham agências do Banco do Brasil 13 Em Acopiara cidade onde nasci existe o FETAC Festival de Teatro de Acopiara6 este foi um grande laboratório no qual durante anos pude ter acesso à formação técnica em diversas áreas da cena Já no ensino médio desejei formarme em Teatro naquela ocasião havia o Curso Superior de Tecnologia em Artes Cênicas no IFCE7 mas por ausência de recursos financeiros não tive como arcar com esta mudança para a capital Fortaleza Na busca por uma formação encontrei razões e conexões com o curso de História da Universidade Regional do Cariri Era o ato libertador Parti em 08 de março de 2004 ainda um menino me lancei no mundo A sensação era de ter nascido naquele instante eu era universitário Foram dias turbulentos mas tinha um foco o teatro Assim que pisei meus pés nas terras caririenses busquei engajamento com grupos locais alguns inclusive eu já conhecia através do FETAC Segui no curso de História cruzando este com formações teatrais livres participava de oficinas montagens cênicas festivais grupos de estudos em teatro e com isso pude me aproximar de pessoas que se tornariam futuros companheirosas de trabalho e grupo Após terminar o curso e me tornar licenciado em História passo a ser graduando em Teatro na época a mais nova licenciatura da Urca8 concluída em 2016 Em 2008 encontrome com quatro amigosasartistas e juntos fundamos o Grupo Ninho de Teatro e Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas Esta constituise como associaçãoprodutora que busca contribuir para o desenvolvimento dos profissionais de teatro da região do Cariri situada no CaririSul do Ceará além de uma integração com profissionais experientes do mercado 6 O Festival de Teatro de Acopiara é o mais antigo do Ceará sendo criado em 1989 o Festival vem cumprindo um importante papel na democratização e descentralização do teatro para o interior do estado pois sua maior característica é que sua programação seja composta por grupos que atuam em cidades do interior cearense 7 O Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia do Ceará IFCE cuja reitoria é sediada em Fortaleza instituição criada nos termos da Lei N º 11892 de 29 de dezembro de 2008 mediante a integração do Centro Federal de Educação Tecnológica do Ceará com as Escolas Agrotécnicas Federais de Crato e de Iguatu Vinculado ao Ministério da Educação é uma autarquia de natureza jurídica detentora de autonomia administrativa patrimonial financeira didáticopedagógica e disciplinar Para efeito da incidência das disposições que regem a regulação avaliação e supervisão da instituição e dos cursos de educação superior o IFCE é equiparado às universidades federais IFCE 2000 8 Criada em 2008 conforme o Projeto Político Pedagógico a Licenciatura Plena em Teatro do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau visa fortalecer a cultura artística regional com a formação superior de professores para preencher a lacuna existente no Ensino de Teatro na Região de abrangência desta IES A contemplação do curso de Teatro pela URCA proporcionará a formação específica em uma área que possui na região do Cariri importantes expoentes nas manifestações teatrais no âmbito regional e nacional URCA 2013 14 regionalnacional Sua formação se realiza através da junção de artistas residentes no Cariri cearense vindos de diferentes cidades e formações artísticas desejávamos apenas a montagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo do dramaturgo Marcos Barbosa Esse desejo nos aproximou com o objetivo inicial somente em montar e não de ser grupo mas conforme vocês verão adiante esse foi o disparador para o surgimento do grupo Ao longo de doze anos o grupo criou um repertório de sete espetáculos Bárbaro 2008 Avental todo sujo de ovo 2009 Charivari 2009 O Menino Fotógrafo 2012 Jogos na Hora da Sesta 2012 A Lição Maluquinha 2013 e Poeira 2016 Em 20192020 o grupo inicia a pesquisacriação da Trilogia Fractal GêneroS os dois primeiros episódios da trilogia estão sendo criados a partir dos universos femininos e masculinos Cada montagem irá abordar respectivamente esses temas com elencos de mulheres e homens No episódio 3 três todo o grupo estará em cena borrando as noções binárias de gênero e refletindo as muitas camadas e abordagens contidas no tema Ao vivenciar a trajetória do Grupo Ninho de Teatro que desde 2008 empreende uma experiência de gestão e produção teatral de forma autônoma é que surge meu interesse de pesquisar as minúcias das práticas e das táticas CERTEAU 1998 do grupo Como membro fundador percebo ao longo de doze anos como este vem amadurecendo seu modus de produção e de gestão de seus espetáculos e em seguida de sua sede a Casa Ninho A pesquisa registrada nesta dissertação está centrada na busca por revelar o cotidiano criativo e também de trabalho do Grupo Ninho de Teatro e assim ir compartilhando com oa leitora como se estrutura a dinâmica de produção e de gestão bem como suas formas de lidar com as poucas políticas públicas de cultura existentes A observação desses dois pilares no grupo produção e gestão me levou a formular a seguinte pergunta que norteará a construção dos capítulos Como se processa a produção e a gestão em teatro de grupo a partir da experiência do Grupo Ninho de Teatro e de sua sede a Casa Ninho A partir dessa pergunta como caminho de pesquisa investiguei o cotidiano do grupo em seus processos e procedimentos de produçãogestão num olhar mais atento enquanto pesquisador já que estou diretamente ligado à produçãogestão e ensaios do mesmo Busquei a partir da escuta e coleta das narrativas orais dosas integrantes o registro de suas práticas cotidianas com foco sobretudo nas suas táticas 15 organizativas e seus desenhos de produção e de gestão para sustentar seu repertório eou sua sede Compreendo a atuação do grupo como tático quando este consegue a partir dos sistemas burocráticos e da realidade de políticas públicas de cultura adversas9 manter seu projeto de grupo Para tanto se estabelece por meio da inventividade um verdadeiro quebra cabeça capaz de subverter certa lógica de poder que impede que as atividades de grupos de teatro não tenham estabilidade para seguir um fluxo contínuo de ações a longo prazo e é portanto nessa corda bamba que as diferentes maneiras de fazer vão ser acordadas como desvios possíveis para resistir Assim ainda que inseridos num lugar de poder quando pensamos as políticas dominantes vamos criando ou recriando espaços e assim transformando a adversidade em flechas ao inimigo Apresento a seguir o conceito de tática proposto pelo historiador francês Michel de Certeau sua compreensão é fundamental para a estruturação desta dissertação tático a ação calculada que é determinada pela ausência Então nenhuma delimitação de fora lhe fornece a condição de autonomia A tática não tem por lugar senão o do outro E por isso deve jogar com o terreno que é imposto tal como organiza a lei de uma força estranha Não tem meios para se manter em si mesma à distância numa posição recuada de previsão e de convocação própria a tática é movimento dentro do campo de visão do inimigo como dizia von Bullow e no espaço por ele controlado Ela não tem portanto a possibilidade de dar a si mesma um projeto global nem de totalizar o adversário num espaço distinto visível e objetivável Ela opera golpe por golpe lance por lance Aproveita as ocasiões e delas depende sem base para estocar benefícios aumentar a propriedade e prever saídas O que ela ganha não se conserva Este nãolugar lhe permite sem dúvida mobilidade mas numa docilidade aos azares do tempo para captar no vôo as possibilidades oferecidas por um instante Tem que utilizar vigilante as falhas que as conjunturas particulares vão abrindo na vigilância do poder proprietário Aí vai caçar Cria ali surpresas Consegue estar onde ninguém espera É astúcia CERTEAU 1998 p 100 9 Essas adversidades foram se agravando ainda mais com os desmontes ocorridos no país a partir de 2016 e que destruiu o pouco de estrutura que tinha sido erguida com os ministros Gilberto Gil 20032008 que em sua gestão criou o Sistema Nacional de Cultura SNC o Conselho Nacional de Política Cultural CNPC o Programa de Desenvolvimento Econômico da Cultura Prodec e o Programa Cultura Viva em seguida Juca Ferreira 20082010 20142016 Ana de Holanda 20112012 e Marta Suplicy 20122014 voltando Juca novamente Após o golpe políticomidiáticojurídico sofrido pela expresidente Dilma Rousseff 2016 a política cultural assim como o próprio pais sofre com um incêndio incontrolável em suas estruturas como o ocorrido no Museu Nacional que tem tornado tudo cinza 16 Ao escrever sobre o Ninho busco o registro dessas capturas no voo esse ir à caça e inventar caminhos que nunca sendo um só se encruzam e nos faz artistas produtoresas que dentro desse cotidiano de teatro de grupo labutam em um campo de invenção provocando certo tombamento no sistema pelo lado interno numa espécie de contracorrente e para tanto é preciso estar dentro dele atento ao que se passa agir nas falhas do poder Para uma compreensão das práticas de produção e gestão do grupo articulei uma bibliografia no decurso histórico do teatro identificando elementos que compreendo como experiências que foram se conformando como teatro de grupo Essa identificação funciona como uma base para que o leitora estabeleça a contextualização da pesquisa quando de sua leitura o que permite localizar o Grupo Ninho em seus acionamentos e modos de fazer Essa revisão entorno do entendimento do ser teatro de grupo passa pela noção do fazer em que tais artistas se veem como um conjunto que articula as diversas frentes que mobilizam tal projeto A gente atua carrega baú tenta decidir nem sempre consegue junto sai para a cidade vai ao correio é officeboy é datilógrafo digitador é produtor e gestor é palestrista isso cria uma identidade Acho que própria forma de desamar o espetáculo na frente do público sutilmente passa uma unidade uma unidade que traz toda essa subjetividade É como ver o Ói Nóis na chegada deles na rodoviária você vê uma identidade que é do grupo E isso se transfere para o espetáculo a forma deles trabalharem a organização a forma de pensar teatro PELÚCIO apud TROTTA 1995 p 92 Acima o ator e gestor Chico Pelúcio do Grupo Galpão em entrevista para a pesquisadora Rosyane Trotta pontua de forma sintética o que escrevo enquanto experiências e práticas de grupo que vai ao longo do tempo gerando essa identidade da qual ele se refere ao Ói Nóis ou seja nas suas práticas já nos aponta o seu lócus de pensar e fazer teatro Essa identidade é então definida como um conjunto de artistas da cena que trabalham com o desenvolvimento de pesquisas de linguagem e projetos a longo prazo buscando um núcleo de trabalho fixo que vai desenhando práticas de autogestão encontrando o que identifico como táticas a partir do filósofo e historiador Michel de Certeau para produzir e gerir o projeto de grupo Como integrante do grupo me inquieta sempre compreender como nesses doze anos conseguimos construir tal experiência de produção e gestão tendo em vista que estamos situados numa região fora de grandes centros urbanos o que 17 somado à falta de uma política cultural efetiva para as artes poderia ser a razão que impedisse essa experiência no seu tempo de existência Daí decorre o olhar para compreender como o grupo se movimenta e se reinventa para se manter em seu cotidiano de trabalho A sustentabilidade foi sendo erguida de forma que o grupo conseguiu a partir de diversas ações seguir sua trajetória à revelia de qualquer adversidade e são muitas e diferentes Tais ações serão aqui registradas para oa leitora como se vocês entrassem no ninho de nossas reuniões e ensaios e descobrissem quais são e como se dão nossas maneiras de fazer na criação produção e gestão O principal objetivo estabelecido para esta dissertação é compreender de que forma o grupo Ninho de Teatro empreende sua experiência em produção e gestão teatral na região do Cariri cearense e quais as táticas usadas por esses artistas na manutenção de uma prática cultural para a cidade do Crato Agimos enquanto os investimentos em políticas culturais a nível nacional estão zerados no estadual em relativa subtração e o local sempre como um fantasma que de tanta mesmice não nos assusta na sua profunda inoperância e falta de recursos Para o desenvolvimento desta dissertação utilizei uma revisão bibliografia que deu suporte às discussões levantadas sobre gestão e produção no teatro de grupo Foram coletadas entrevistas com osas integrantesnarradoresaspassarinhos do Grupo Ninho de Teatro e usadas para potencializar a costura da escrita que tem como registrado nas primeiras páginas desta introdução no método da História Oral sua base metodológica Ao leitora adianto que as vozes partilhadas são o adubo maior para escrever essa história sem negar os demais autores com os quais dialogo que eu como pesquisador me faço sujeitoobjeto desta escrita sendo também uma voz direta nesse gesto de narrarpesquisar esses doze anos O leitora poderá ter acesso às entrevistas completas no apêndice deste trabalho já que devido ao montante de material de entrevistas não foi possível têlas todas no texto Adianto que as entrevistas foram transcritas mantendo a construção narrativa dos entrevistados numa tentativa de manter o mais próximo do fluxo do pensamento destes Diante do objeto de estudo no caso a produção e gestão no teatro de grupo e conduzido pela pergunta definida para a estruturação desta dissertação o trabalho foi organizado em dois capítulos conformes descritos a seguir 18 No primeiro capítulo que intitulo Teatro de Grupo e Seus Possíveis opto por trazer alguns apontamentos sobre teatro de grupo a fim de estabelecer conceitos registrados em momentos e movimentos da história do teatro a partir de autores como Rosyane Trotta Fernando Yamamoto André Carreira Iná Camargo Costa Samanta Cohen Danilo Castro para construir um entendimento do teatro de grupo na contemporaneidade Antecipo ao leitora que este capítulo se trata de um apanhado histórico portanto faz um recorte a partir da História do teatro ocidental em diferentes períodos na busca por encontrar pistas que hoje nos dão elementos para pensar o espaço de criação no teatro de grupo focando no que acredito ser importante para fundamentar esta pesquisa Mas para o leitora que já leu até aqui digo que temos nomes brasileiros nordestinos cearenses que contam e muito para a composição desse mosaico do teatro de grupo que ora me afeta e se faz objeto de pesquisa Na região do Cariri em que faço o recorte desta pesquisa temos nossas Mestras e Mestres da tradição popular que são de suma importância para também nos contar sobre o que veio antes do que está agora em nosso presente Dito isso eles também são referências para a história do teatro de grupo que aqui partilho Na sequência estruturo três subcapítulos que trazem importantes instituições situadas na região do Cariri Serviço Social do Comércio SESC Unidade Crato Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri URCA Elas são relevantes para a construção e fortalecimento da rede de grupos que existem nas cidades centrais da região Crato Juazeiro do Norte e Barbalha e são em dada medida suporte também para o estabelecimento do grupo aqui estudado pois duas destas funcionam como espaços de trabalho o que nos chega como uma saída para somar na manutenção de grupo ainda que os contratos se deem de modo pontual O segundo capítulo GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias abriga a experiência do Grupo Ninho de Teatro Aqui esmiúço o cotidiano de trabalho do grupo objeto maior da pesquisa elenco diversas escolhas feitas pelosas integrantes nos aspectos da criação produção e gestão situando dessa maneira oa leitora para a compreensão da história do Ninho de Teatro em seus doze anos de existência Com isso podemos ter acesso às ações desenvolvidas pelo grupo para gerar a manutenção de seussuas integrantes repertório e espaço cultural Na sequência seguem os subcapítulos que trazem aspectos da produção cultural e 19 teatral planejamento estratégico a Casa Ninho e suas dinâmicas e fechando o capitulo escrevo sobre como nascem os projetos do grupo Posteriormente estão as considerações finais as referências bibliográficas apêndice e anexos A partir da pesquisa registrada nesta dissertação espero contribuir para que outrosas pesquisadoresas registrem as experiências de outros grupos e assim se crie um acervo de escritos para a história recente do teatro no Cariri A pesquisa também poderá servir de inspiração para outros grupos que anseiam estruturar seus modos de produção teatral sendo este aqui estudado apenas um caminho dentre muitos outros possíveis Assim contar a experiência do grupo numa plataforma acadêmica pode servir como mais um ninho de abrigo daquelesas que se aventuram na paisagem da produção e da gestão teatral na seara do teatro de grupo 20 1 TEATRO DE GRUPO E SEUS POSSÍVEIS Quais os alicerces e as principais questões que dizem respeito ao Teatro de Grupo Rosyane Trotta Esta escrita tem espaço e tempo de poesia Ela costura e perfaz uma caminhada coletiva que no andar enxerga horizontes possíveis pois sim um grupo de teatro é feito de desejos e ao desejar vai criando realidades ou mesmo recriando pois estes estão operando no campo das impossibilidades sejam externas e internas mas sem fazer disso um freio para seus giros criativos produtivos e gestativos Ou seja o girar nunca cessa ainda que alguns fatores tentem impor tal freio Quando escrevo impossibilidades externas quero dizer o quanto os grupos de teatro estão na contramão das relações capitalistas e neoliberais embora estes façam com seus projetos economias no campo das artes Estão na contramão porque articulam outras formas e modos de sustentabilidades Convido para essa reflexão Ailton Krenak quando nos apresenta sua cosmovisão e dela me alimento de como ele e seus nossosancestrais sempre estiveram em luta para adiar o fim do mundo Assim penso que seja o ser de teatro de grupo estamos sempre produzindo possibilidades de continuar de existir e resistir fazendo e para seguir talvez o que a gente tenha de fazer é descobrir um paraquedas Não eliminar a queda mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos divertidos teatrais inclusive prazerosos KRENAK 2019 p 63 No caso do Ninho de Teatro e também de tantos outros esses paraquedas provocam giros contrários ao do grande mercado e vão revelando microações que permitem às tais experiências deslocar noções hegemônicas econômicas e também sociais Veja bem não quero dizer com isso que grupos de teatro não se utilizam das leis do grande mercado porém pelo próprio modo que se organizam e compreendem o fazer teatro em grupo acabam por desviarem dessas lógicas para sustentar seus projetos dentro de suas escolhas e autonomias que além de artísticas articulam escolhas políticas Teatro de grupo me ocorre então como a criação de pequenos núcleos políticos que à revelia de certos sistemas de poder vão criar células de resistências em diferentes territórios e estabelecer ritos de convivências democráticas pois acredito que o ajuntamento de pessoas para a efetivação coletiva de qualquer projeto 21 passa pelo estabelecimento dos sentidos simbólicos e práticos do exercício democrático A pesquisadora Rosyane Trotta nos ajuda a pensar o espaço de grupo através das práticas de seussuas integrantes quando estes se dedicam ao mesmo tempo a manufatura de adereços bonecos máscaras e figurinos idealiza e executa cenários pesquisa e elabora textos escreve releases programas toca instrumentos carrega baús andaimes passa roupa e costura bate prego e faz faxina cozinha e vai ao banco azeita secretários de cultura e dá palestras vende seu produto participa de reuniões e movimentos mesmo que por vezes haja uma divisão de tarefas e nem todos façam tudo Em cada uma dessas atividades ele afirma sua autonomia sua responsabilidade e sua autoria sobre o espetáculo os destinos do grupo e o seu próprio E neste ponto é imprescindível afirmar que toda a atividade ainda que aparentemente mecânica é ou pode ser criadora 1995 p 44 Nessa profusão de acionamentos o grupo desperta sua autonomia e cria outras realidades sóciopoéticopolíticas outros possíveis dentro desse imaginário de teatro de grupo É estar o tempo inteiro disposto ao acesso de nossos sujeitos políticos e como vamos nos compondo dentro de uma visão de cidadania que nos permite traduzir nossas práticas grupais como agenciamentos de uma outra realidade histórica quando pensamos nas diferentes maneiras de se produzir teatro portanto ainda em acordo com a referida autora grupo é uma estrutura de organização produção e criação coletivas Não há nenhum integrante inerte e há pouquíssimos desníveis de engajamento Cada integrante deve estar apto a desempenhar as funções de administração quanto de atuar na concepção e na criação da cena Grupo aqui é uma entidade de participação social de estudos e difusão de elementos da cultura Não é uma microempresa mas uma sociedade não mantém financeiramente seus integrantes mas pagaos TROTTA 1995 p 42 É nesse espaço de participação social que a autora provoca que podemos pensar as práticas de teatro de grupo como um fazer teatral que evoca elementos que se estendem para seus entornos sobretudo àqueles que tenham sedes artísticas Essa expansão no modo de fazer é o que nos aponta tais práticas grupais como uma cultura teatral que se articula com camadas outras que não apenas a poética Meu mergulho nessa experiência parte do desejo de criar ou mesmo recriar constantemente a própria noção do que seja o ser ou fazer teatro de grupo Nesta 22 pesquisa em nenhum momento há a pretensão de se fechar qualquer noção ao contrário busco abrir uma gira10 e entrar numa roda que nos possibilite derivar e pegar outras ruas e encruzilhar os saberes e os fazeres que os muitos e diversos grupos nos dão como pequenos grandes mundos teatrais Isso porque teatro de grupo é uma vastíssima escola diversa e plural que a todo momento desestabiliza para então firmar novamente o passo Ser e estar e fazer teatro de grupo nos abre as veias do mundo para que nele nós tenhamos língua e possamos assim falar de nossos mais profundos brasis Aqui eu escrevo a partir da cidade de Crato no interior do estado do Ceará na região do Cariri Fazer teatro de grupo é compreenderse como sujeitoartistapolítico que vai construindo relações do seu fazer com os seus entornos é um fazer que vai tecendo redes que despertam autonomia de si e nessa microssociedade se reflete a macroestrutura em que tal grupo está inserido O contrário disso não quero ser pretencioso não se desenha como o gesto social que é ser grupo compreendendo assim que teatro de grupo dimensiona um fazer micropolítico que se relaciona a todo momento com as macroestruturas que o circunda Falo isso a partir da vivência de doze anos em que venho construindo essa travessia grupal no Ninho e também na leitura de outros grupos espalhados por todo o estado do Ceará para não ir muito longe Ao tentar materializar essa noção de grupo a partir da reflexão da experiência do Grupo Ninho de Teatro especialmente no que se refere a sua produção e sua gestão teatral acredito ser importante que o leitora dessa escrita atente para a escolha ou caminhos que fiz para a compreensão do campo de trabalhoatuação no teatro de grupo ainda que este seja como já escrevi um lugar de contínua construção um espaço aberto que se faz e refaz a todo instante e que passa por escolhas bem diferentes em cada grupo Opto por construir um caminho no tempo histórico do teatro ocidental que nos aponte dadas experiências e nos ajude a compreender essa composição que hoje entendemos por tais práticas Aqui eu disparo um alerta tudo passa por recortes de 10 Uso a palavra gira a partir da referência do ritual de preparação e abertura dos trabalhos na Umbanda religião brasileira de matriz africana A gira em formato de roda seria o contato com as entidades e também com todo o ritual preparatório para os cultos do dia na qual se cria uma corrente de energia conectando todostodas ao plano espiritual abrindo assim os canais de contato com Orixás e demais entidades Assim quando uso a palavra gira quero dizer de caminhos que se abrem para além dos que já conhecemos seria girar para encontrar outras saídas para o estado das coisas todas que estão postas 23 objeto para uma melhor compreensão deste Assim o apanhado que se apresenta adiante será como uma base para o afunilamento da pesquisa na experiência do Ninho Quem lê pode vir a inverter a compreensão e num movimento de gerar pensamento a partir de nossas narrativas ler o teatro a partir de um grupo que está no Crato Ceará Brasil Esse encadeamento não pretende negar outras experiências que se deram no resto do mundo apenas lança o olhar para o sul do Ceará para em dialogo equânime com os outros mundosgrupos lançar a experiência do Grupo Ninho de Teatro na historiografia do teatro brasileiro O que segue é a partir do eugrupo para o nósgrupos através do pensamento do filosofo e professor Peter Pál Pelbart que em diálogo com outros filósofos apresenta uma dada noção de potência e desejo que se expande a partir da coletividade O desejo que escrevo nas primeiras linhas é então uma criação de vidas pois nunca desejamos sozinhos sempre estaremos desejando a partir do ajuntamento de outras partes que nos atravessam como um grau de potência definido por nosso poder de afetar e de ser afetado e não sabemos o quanto podemos afetar e ser afetados é sempre uma questão de experimentação Não sabemos ainda o que pode o corpo diz Espinosa Vamos aprendendo a selecionar o que convém com o nosso corpo o que não convém o que com ele se compõe o que tende a decompôlo o que aumenta sua força de existir o que a diminui o que aumenta sua potência de agir o que a diminui e por conseguinte o que resulta em alegria ou tristeza Vamos aprendendo a selecionar nossos encontros e a compor é uma grande arte PELBART 2010 p 1 Pelbart nos lança uma dimensão para pensarmos potência como um misto de desejos que se multiplicam na coletividade Assim vamos aprendendo na jornada o que é o que pode e o que poderá ser Nesse aprendizado cotidiano o nósgrupo vai revisitando esse corpo teatro de grupo que ao produzir também o desconhece pois é constantemente afetado por novos desejos que o faz se experimentar em suas potencias de ser teatro de ser grupo O que segue como escrita é nessa perspectiva uma composição afetiva que junta corpos e desejos coletivos 11 Cômpitos um apanhado histórico do teatro de grupo 24 Podemos registrar a Commedia DellArte11 Italiana como uma das primeiras experiências que se relaciona com o que hoje compreendemos como uma prática de teatro de grupo Do século XVI até meados do século XVIII trupes ambulantes circulavam pela Europa levando em seu modus organizacional princípios que hoje se fazem presentes nas práticas de teatro de grupo A forma artesanal com que tais trupes desenvolviam seus espetáculos já estruturada num trabalho coletivo entre seussuas integrantes nos dá o indicativo de sua aproximação com o teatro de grupo como nos aponta Janiaski Uma característica que aproxima o modelo genérico de Commedia DellArte com as formas do teatro de grupo que representa o paradigma contemporâneo é o fato da criação dentro das trupes apresentar elementos de uma criação onde funcionava o sentido do coletivo 2008 p 19 É possível observar no modelo de organização de trabalho dos grupos de Commedia DellArte que todosas osas integrantes realizavam atividades diversas em conjunto estabelecendo assim uma relação de trabalho coletiva que se faz presente também nas práticas de teatro de grupo atuais Podemos citar aqui como exemplo de coletividade a criação dos Canovacci que eram os roteiros usados pelas trupes DellArte para estrutura de suas apresentações que tinham base maior na improvisação Com o tempo dado o apoio recebido pelos reis às companhias mambembes foram fixando seus roteiros deixando um pouco a prática da construção coletiva mas isso não retira delas a referência para modelos de trabalhos em grupo Um dos motivos que fazem da Commedia DellArte uma referência para pensar o teatro de grupo é que as companhias mantinham uma regularidade de trabalho com osas mesmos atoresatrizes e outros aspectos no processo de criação Ainda que estas tenham mantido relações com mecenas nobres reis etc elas eram diferentes do projeto estatal da polis grega ou por exemplo da igreja pois podem ser consideradas formas não institucionais 11 A Commedia dellarte era antigamente denominada commedia all improviso commedia a soggetto commedia di zanni ou na França comédia italiana comédia das máscaras Foi somente no século XVIII que essa forma teatral existente desde meados do século XVI passou a denominarse Commedia dellarte a arte significando ao mesmo tempo arte habilidade técnica e o lado profissional dosas comediantes que sempre eram pessoas do ofício PAVIS 1947 p 61 25 Um recorte mais atual sobre uma prática voltada para teatro de grupo pode ser observado a partir do legado de André Antoine12 18581943 que empreendeu através de sua experiência com o teatro naturalista13 uma perspectiva de trabalho que levava mais em conta o processo do que o resultado evidenciando uma clara oposição ao já presente teatro comercial de sua época Para tanto Antoine Exigia da companhia ensaios e reflexões coletivas para se chegar a uma cena naturalista sem a preocupação com prazos apertados característicos da urgência do mercado de entretenimento da época JANIASKI 2008 p20 Com isso Antoine colabora com um novo olhar para o trabalho do diretor em sua função de criar um espetáculo Para manter as atividades do Théâtre Livre seu espaço de trabalho na época o encenador buscou criar uma espécie de rede de sócios que acreditassem na forma que ele estava criando Garantindo dessa forma a sua liberdade de criação o que evidencia que o mesmo já tinha uma posição de resistência ao teatro com tendência comercial O naturalismo como movimento poético que rompeu com convenções na sua época revelou novos comportamentos dentro dos processos de criação retirando por exemplo a centralidade da cena de uma únicoa atoratriz Podemos dizer que com o naturalismo houve uma ruptura com as formas precedentes foi a partir dele que se potencializou o conjunto que compõe a criação tendo já no encenador a figura 12 Diretor encenador e crítico teatral francês André Antoine nasceu em 1858 em Limoges Aos 29 anos fundou o Théâtre Libre em Paris e sob sua direção foram encenadas obras representantes do realismo e do naturalismo de autores como Strindberg e o alemão Gerhart Hauptmann Mais tarde funda o Théâtre Antoine dirigindo também o Odéon A partir de 1914 abandona a atividade cênica para se voltar à crítica teatral e ao cinema Faleceu em Pouliguen em 1943 7LETRAS 200 13 O Naturalismo teve seu início na literatura com Émile Zola 18401902 na França com sua peça Teresa Raquin e seu manifesto Naturalismo no Teatro influenciando a muitos artistas da época alguns vindos do romantismo e outros já com tendências claras para a arte realista Muitos autores realistas chegaram a um extremo de objetividade a um exagero tal de descrições científicas que foram chamados de Naturalistas Foram citados pela crítica como pessoas muito dotadas para a ciência que se dedicaram à arte As características do Naturalismo são exagero do Realismo descrição minuciosa da natureza descrição minuciosa de aspectos crus e desagradáveis da vida tendência determinista representação objetiva da natureza sem interpretação subjetiva e o artista como um investigador num laboratório A quarta parede é uma criação teórica do realismo teatral devida a André Antoine criador e diretor do Teatro Livre em Paris Osas atoresatrizes deveriam mentalizar uma parede imaginária que se estenderia no mesmo plano vertical da boca de cena vedando ao público a visão do que ocorre no palco entre as quatro paredes de um cenário em gabinete ou de interior Essa parede seria removida pela convenção teatral dando ao espectador ocasião de testemunhar detalhes da ação dramática Dos autores do Teatro Naturalista merecem destaque Henry Becque França 18371899 que começou com tendências realistas mas chegou até o teatro naturalista em suas peças e Máximo Gorki Rússia 18681936 cuja primeira peça Asilo Noturno possuía grande tendência naturalista DESVENDANDO O TEATRO 2000 26 responsável pela condução deste novo modelo teatral que se preocupa com o desenvolvimento da companhia e com o processo de criação JANIASKI 2008 Podemos aqui dizer que pelo conjunto que trouxe o naturalismo e sua nova perspectiva para a cena e processo de criação foi inspirador para o conjunto de elementos que hoje configuram teatro de grupo Essa prática de criação que articula seus constituintes de forma coletiva rompimento da cena que se pauta no primeiro atoratriz cresce mais ainda no século XX com as experiências de nomes como Constantin Stanislavski14 ganhando maior espaço na proposta de Jerzy Grotowski15 É preciso registrar que só a partir da virada do século XIX para o século XX a figura do encenador começará a imprimir um trabalho autoral pensando a cena de forma mais autônoma sem a necessidade de uma fidelidade estrita ao texto que passa a ser tratado em função da concepção de uma escrita cênica criada coletivamente Não terá mais validade a centralidade dada a algunsalgumas atoresatrizes pois a cena passa a ser concebida de forma orgânica de modo que todo o conjunto tenha certa equipolência estabelecendo assim uma poética cênica do encenador Por compreender a necessidade de continuidade no processo de criação o rompimento com a noção de estrelas da cena e a estabilidade do elenco para a criação é que podemos dizer que Stanislavski foi quem deu alguns elementos para a compreensão de como hoje configurase os processos de criação em teatro de 14 Constantin Stanislavski nasceu em Moscou em 5 de janeiro de 1863 e desde muito cedo teve seu primeiro contato com o mundo das artes Em 22 de junho de 1897 ocorre um encontro histórico que influenciaria até hoje o teatro mundial Stanislavski e Dântchenco resolvem fundar o Teatro de Arte de Moscou com o objetivo de buscar uma unidade teatral inovando na forma de interpretação dosas atoresatrizes e proporcionando à plateia uma apresentação da realidade nos palcos quebrando paradigmas préimpostos baseandose em sérios e aprofundados estudos sobre expressão corporal vocal e técnicas de preparação doa atoratriz Sua vontade não se limitava a querer construir um sistema com verdades absolutas mas criar a acessibilidade aos atoresatrizes indagálos a respeito da capacidade de cada uma e de como o trabalho do atoratriz era capaz de atingir o público BENITES entre 2002019 15 Nascido em Rzeszów sudeste da Polônia inovador do teatro do século XX e cujas ideias deixaram marcas profundas nos movimentos de renovação teatral em várias partes do mundo inclusive nos Estados Unidos Graduouse na escola dramática estatal de Cracóvia 19511955 Em seguida foi estudar direção no Instituto de Artes Dramáticas Lunacharsky o GITIS em Moscou 19551956 Aprendeu técnicas de atuação e direção com grandes nomes do teatro soviético como Stanislavsky Vakhtangov Meyerhold e Tairov De volta à Polônia continuou estudando direção e debutou 1957 no Stary Teatr em Cracóvia colaborando com Aleksandra Mianowska na produção de Eugene Ionesco As cadeiras No ano seguinte 1958 dirigiu uma produção workshop de Prospero Mérimée O diabo feito uma mulher Depois de dirigir Bogowie deiszkzu de Jerzy Krzyszton no Teatr Kameralny e Uncle Vanya de Anton Chekhov no Stary Teatr ambos em Cracóvia passou a fazer parte do Teatro Laboratório fundado nesse mesmo ano 1959 em Opole Defendendo uma teoria teatral que ele mesmo definiu em seus escritos como teatro pobre o diretor polonês propôs maior participação do público ideia aplicada em suas primeiras montagens TOLENTINO entre 2001 e 2019 27 grupo Ele apostou na ideia que osas atoresatrizes deveriam dedicarse somente ao teatro ampliando assim as possibilidades de amadurecimento técnico de uma equipe de trabalho fixa Seu legado está presente até hoje nas práticas teatrais principalmente as de teatro de grupo como podemos perceber nos apontamentos deixados no livro A Construção da Personagem em que o mesmo nos lança algumas premissas para pensar a ética no fazer teatral Adriane Maciel em sua pesquisa sobre a ética nas práticas de Stanislavski nos aponta que o mestre russo exigia muita disciplina e fundamentalmente ética pois isto tudo era movido pelo seu grande amor a sua arte Amor consciente e exigente em que o talento e os desejos não bastavam era necessário acima de tudo estabelecer a fé no percurso que muitos artistas se propõem percorrer Esta fé deve ser movida pelo que há de melhor em nossas almas partindo de exigências particulares para podermos nos relacionar com o coletivo GOMES 2008 p 16 e 17 Se penso em como se dão as práticas grupais no contemporâneo verifico que a ética é um dos pilares básicos para o estabelecimento de confianças e a partir desse agenciamento se constrói cuidados nas relações internas que expandem e gerenciam os projetos de grupo Dito isso faço uma conexão com o princípio ético Stanislavskiano percebendo a presença deste nas práticas teatrais do agora como uma herança inspiradora para quem se desafia a fazer teatro com continuidade de criação e pesquisa seja na forma como pensou as relações de um coletivo de trabalho seja por sua pesquisa no trabalho do ator Stanislavski continua inspirando aquelesas que escolheram fazer um teatro com comprometimento ético Jacques Copeau16 e Antonin Artaud17 são dois nomes dentro da história moderna do teatro mundial que muito colaboraram para despertar práticas teatrais 16 Ator diretor teórico crítico e professor de Arte Dramática 18791949 Foi o mais influente diretor teatral de sua geração na França Já em 1905 ele escrevia que nada o deixava tão chocado quanto a preocupação com qualquer modo específico teatro poético teatro realista peça psicológica comédia de ideias comédia de maneiras comédia de caráter que a priori e sistematicamente exclui da arte dramática qualquer aspecto de verdade humana qualquer aspiração à beleza CASTRO 2006 17 Antonin Artaud nasceu em Marselha em de setembro de 1896 e faleceu em Paris em 4 de março de 1948 Foi um poeta ator roteirista e diretor de teatro francês Para Artaud o teatro é o lugar privilegiado de uma germinação de formas que refazem o ato criador formas capazes de dirigir ou derivar forças Em 1935 Artaud conclui o Teatro e seu Duplo Le Théâtre et son Double um dos livros mais influentes do teatro deste século Ele expõe o grito a respiração e o corpo do homem como lugar primordial do ato teatral denuncia o teatro digestivo e rejeita a supremacia da palavra Esse era o Teatro da Crueldade de Artaud no qual não haveria nenhuma distância entre atoratriz e plateia todosas seriam atoresatrizes e todosas fariam parte do processo ao mesmo tempo TOLENTINO entre 2001 e 2019 28 que precisariam de um coletivo continuado e organizado que desse sustentação a uma pesquisa Ambos enxergavam que oa atoratriz deveria dedicarse a um sistemático treinamento pois através dessa ação o teatro ganharia novos ares Para a efetivação destas transformações era necessário que existisse um coletivo de trabalho continuado Compreendese que os pensamentos de Copeau e Artaud conectamse com o que se constrói como um lugar de teatro feito em grupo Inspirado em diretores anteriores Jerzy Grotowski projeta sua pesquisa teatral acreditando desde o início que somente de forma coletiva seria possível sustentar uma experiência que transitava entre criação e pesquisa pois a noção de laboratório apontada pelo polonês radicalizou a forma de se criar e abriu um maior espaço para o grupo como lugar de exploração JANIASKI 2008 A noção de teatro de grupo como lugar de busca de estabilidade para pensar a criação ganha força a partir das experiências de Grotowski Eugênio Barba e do grupo norte americano Living Theatre18 Estes potencializaram a prática de teatro de grupo como um espaço que rompe a lógica de mercado acreditando em um projeto artístico com um grupo de atoresatrizes fixos sem pressão de tempo ou influência externa para o desenvolvimento de suas criações Essa noção fica mais compreendida quando o professor e diretor teatral André Carreira pontua O teatro de grupo é uma noção ampla que representa uma grande gama de modalidades organizativas mas que especialmente nos remete na atualidade a um imaginário cada vez mais forte entre os jovens realizadores teatrais Esse imaginário diz respeito a um modelo idealizado de organização grupal que funciona como um referente que mobiliza muitas ações criativas e de organização social no âmbito do teatro 2007 p 22 18 The living theatre é um grupo teatral offbroadway peças menores e comercialmente menos articuladas podendo ser portanto mais experimentais e aventureiras fundado em 1947 pelos alemães Judith Malina e Julian Beck O living theatre promoveu quase uma centena de peças em oito línguas distintas em 28 países e nos cinco continentes Durante os anos 1950 e início dos anos 1960 em Nova York foi pioneiro no preparo convencional do drama poético tanto de autores americanos como europeus mas a dificuldade de autossustentar um projeto cultural experimental levou ao fechamento de todas as suas repartições Em meados da década de 1960 a empresa iniciou uma nova vida como um conjunto de turismo nômade Na Europa evoluiu para uma coletiva viver e trabalhar juntos para a criação de uma nova forma de agir nãoficcional baseada no compromisso político e físico doa atoratriz com a utilização do teatro como um meio para promover mudanças sociais Na década de 1970 o Living Theatre começou a criar O Legado de Caim um ciclo de execuções para locais nãotradicionais Das prisões do Brasil para os portões das fábricas de aço em Pittsburgh e das favelas do Palermo para as escolas de Nova York Em 1980 foi o retorno do grupo ao teatro onde desenvolveu novas técnicas participativas que possibilitaram que o público se juntasse a eles no palco como intérpretes ESPAÇOFLUXO 2010 29 É importante ressaltar que Grotowski trabalhou com uma companhia estatal mas que dada a sua condição periférica no sentido geográfico tinha condições para desenvolver sua poética sem interferência do governo ainda que não pudesse sair do país Foi a partir de visitas de pesquisadores de outros países que ele consegue de fato se relacionar com a forma de trabalho de outros grupos independentes Isso se deve a Eugenio Barba que também faz o mesmo movimento de pesquisar o trabalho desenvolvido por Grotowski Em âmbito nacional veremos que importantes grupos de outros países foram inspiração para uma configuração brasileira de práticas de teatro de grupo passando pelas práticas de Grotowski como já mencionado e pelo Living Theatre Neste percurso de experiências que inspiraram práticas de teatro de grupo no Brasil temos o Living Theatre grupo norte americano que tinha como característica o teatro de protesto contrapondose a modelos fixos da época Com passagem pela Europa o grupo amadurece sua proposta ampliando o sentido de coletivo em seu trabalho Na década de 1970 o grupo vem para o Brasil mas com um ano de permanência foram expulsos pelo regime militar Discípulo de Grotowski Eugenio Barba19 e o seu grupo Odin Teatret com sua pesquisa sobre o teatro antropológico figura como uma organização grupal que sob base já vista na experiência de Grotowski estabelece na Dinamarca suas bases de pesquisa estruturada num senso de coletividade Dado esse recorte sobre práticas que se tornaram inspiradoras para o que chamamos de teatro de grupo é certo dizer que no Brasil esta prática tem seu embrião nos anos de 19301940 como afirma Janiaski Buscando exemplos de um embrião do modelo que hoje consideramos teatro de grupo no Brasil é interessante observar que temos no final da década de 1930 e começo da década de 1940 o surgimento de alguns grupos de teatro ainda que com atores amadores que compartilhavam do ideal de um novo teatro Este novo teatro deveria 19 Teórico da antropologia teatral Eugenio Barba nasceu em 1936 na Itália Em 1954 emigrou para a Noruega para trabalhar como soldador e marinheiro Formouse em Francês Literatura Norueguesa e História da Religião na Universidade de Oslo Em 1961 foi para Wroclaw Polônia estudar direção teatral na Escola Estadual de Teatro mas saiu um ano depois para unirse a Jerzy Grotowski que era líder do Teatr 13 Rzedow em Opole Barba ficou com Grotowski por três anos Em 1963 viajou para a Índia onde teve seu primeiro encontro com o Kathakali Quando retornou a Oslo em 1964 queria tornarse um diretor de teatro profissional mas como era estrangeiro não foi bemvindo na profissão Então ele começou seu próprio teatro Uniuse a um grupo de jovens que não tinham sido aprovados para a Escola Estatal de Teatro Oslos State Theatre School e criou o Odin Teatret em 1º de outubro de 1964 ARTE SECRETA DO ATOR BRASIL entre 2010 e 2019 30 primar pela construção de elencos estáveis e o desenvolvimento de projetos artísticos rompendo com uma tradição de elencos administrados pelo ator principal da companhia os atores empresários tais como Jaime Costa Dulcina de Morais Procópio Ferreira Abigail Maia e Dercy Gonçalves que faziam o chamado teatro comercial apresentavam comédias leves Estes novos grupos amadores que foram se formando se destacaram como ocupantes de um lugar de experimentação e resistência na cena teatral brasileira Ao buscar quebrar a lógica da produção vigente na época que seguia as estruturas de um mercado baseado na exposição das figuras dos primeiros atores estes grupos ansiavam por mudanças e acreditavam no funcionamento como um coletivo 2008 p 30 e 31 A partir das décadas de 1960 e 1970 podemos afirmar a presença de um teatro de grupo no Brasil Anteriormente na década de 1940 surge o Teatro Brasileiro de Comédia TBC projeto criado por Franco Zampari e que transformou o teatro moderno do Brasil O TBC recrutou diversos grupos amadores da época desenvolvendo com os artistas destes um repertório que supria o crescente público de São Paulo Do TBC saíram inúmeros artistas que formaram as primeiras companhias modernas na capital paulista Neste período concomitante ao TBC surgem dois grupos que até hoje mantêm sua importância para a história do teatro de grupo e do teatro brasileiro O primeiro é o Teatro de Arena fundado em 1953 por José Renato O grupo teve uma primeira fase na qual o desafio foi criar encenações num espaço de arena completa as primeiras montagens eram de textos modernos de autores estrangeiros A transformação do Arena se deu efetivamente com o ingresso de novos integrantes como Augusto Boal 19312009 Gianfrancesco Guarniere 19342006 e Oduvaldo Viana Filho 19361974 vindos em sua maioria do Teatro Paulista do Estudante TPE Essa nova formação ligada aos Centros Populares de Cultura CPC20 deu ao Arena a feição política com a qual se tornou conhecido nacionalmente A ação do grupo ia além da concepção de montagens realizando seminários de dramaturgia focando em autores brasileiros o que desenvolveu a emergência de um teatro político e social voltado para questões nacionais O grupo buscou com sua poética popularizar o teatro com textos que tinham conteúdo com crítica política e social empenhados assim em auxiliar na transformação concreta da sociedade O Arena como nos revela 20 O Centro Popular de Cultura CPC criado em 1961 no Rio de janeiro foi uma organização ligada à União Nacional de Estudantes UNE Reunia artistas de distintas procedências teatro música cinema literatura e artes plásticas objetivando criar uma cultura nacional popular e democrática por meio da conscientização das classes populares O objetivo central do projeto era criar uma arte engajada capaz de questionar a realidade e que fosse ao mesmo tempo popular e revolucionária 31 Lima 1994 principia um trabalho criativo em que oa atoratriz é vistoa como autora que se relaciona com outrosas pensadoresas da cena sobretudo na dramaturgia de Augusto Boal através do sistema curinga o que já aponta para mudanças formais e estruturais da cena brasileira Em função do parentesco entre a célula política e o grupo teatral o ator deixa de ser apenas o intérprete e assume a coautoria da criação cênica ombro a ombro com o dramaturgo o músico e o cenógrafo A autoria coletiva do teatro começa a exercitarse no Arena embora se radicalize apenas na década de 70 LIMA 1994 p 237 O segundo espaço alternativo à cena aburguesada do TBC é o Teatro Oficina fundado em 1958 este tem como diretor José Celso Martinez21 considerado por muitos um ícone do teatro nacional Inicialmente o Oficina é fortemente influenciado pelo existencialismo de Sartre e Camus criando nesta fase mais inicial peças em regime amador Mais tarde sob o patrocínio do Oficina o grupo norteamericano Living Theatre vem para o Brasil e trabalham juntos circulando posteriormente pelo país empreendendo novas experiências teatrais A partir da experiência com o grupo americano o Oficina é visto como agente catalizador das vanguardas teatrais do século XX sendo a encenação de Gracias Señor 1971 uma iniciativa pioneira no processo de criação coletiva no teatro brasileiro passeando pela construção de um teatro político como o Arena Integrantes dos dois grupos foram perseguidos torturados e exilados pelo regime ditatorial do país levando Augusto Boal que era do Arena e Zé Celso do Oficina respectivamente ao exílio sendo o primeiro em 1971 na Argentina Lisboa e Paris e o segundo em 1974 em Portugal Ambos continuam sendo dois mestres para o teatro brasileiro tendo significativa colaboração para a construção de uma cena nacional com engajamento sóciopolítico Arena e Oficina ainda que com diferentes processos estéticos nos dão perspectivas para compreendermos a importância do teatro para o entendimento das lutas de classe e das liberdades no Brasil estas duas experiências de teatro de grupo nos apontam as relações de poder na sociedade no 21 José Celso Martinez Corrêa Araraquara SP 1937 Diretor autor e ator Destacado encenador da década de 1960 inquieto e irreverente líder do Teatro Oficina uma das companhias mais conectadas com o seu tempo Encena espetáculos considerados antológicos tais como Pequenos Burgueses O Rei da Vela e Na Selva das Cidades Nos anos 1970 vivencia todas as experiências da contracultura transformandose em líder de uma comunidade teatral e das montagens de suas criações coletivas Ressurge nos anos 1990 numa nova organização da companhia propondo uma interação constante entre vida e teatro JOSÉ 2019 32 campo das instituições e também na percepção dos comportamentos sociais do povo brasileiro portanto sendo ambos acionadores de dramaturgias nacionais com conteúdo político rompendo com a camada tradicional burguesa que sempre imperou no país No ambiente da ditadura militar dos anos 19601970 surgiram diversos grupos motivados pelas práticas do Arena e do Oficina que com a mesma atitude de resistência se espalham por toda São Paulo e outros estados Vale mencionar que na década de 1970 as iniciativas de teatro coletivo começaram a despontar Silvia Fernandes 2000 visualiza na estrutura e na concepção estética de grupos desse período a origem de práticas comuns ao teatro contemporâneo como a gestão e produção coletiva e a concepção de um projeto estético de grupo A historiadora destaca a importância de grupos paulistas como o Pessoal do Victor 1975 a 1979 Vento Forte 1974 Pod Minoga 19721980 e Ornitorrinco 1977 como também salienta a relevância do grupo carioca Asdrúbal Trouxe o Trombone 19741984 cuja exitosa montagem do texto Trateme Leão concebido coletivamente reverberou pelo país inteiro Outro marco de processo de criação coletiva vai se dar com a transcriação22 do romance Macunaíma de Mario de Andrade para os palcos que resultará no Centro de Pesquisa Teatral CPT capitaneado pelo diretor Antunes Filho A premiada montagem de Macunaíma 1978 de forte impacto visual na qual os corpos dosas atoresatrizes ganham uma centralidade maior como elementos da cena tornouse paradigmática na história de nosso teatro A década de 1980 também foi fértil no que concerne ao teatro de grupo trata se do momento em que apareceram grupos como o Galpão 1982 de Minas Gerais o Teatro de Anônimo 1986 no Rio de Janeiro o grupo Lume em Campinas 1985 Neste período destacase outro importante grupo da cena nacional o Ói Nóis Aqui Traveiz de Porto Alegre que já atuava desde 1978 entre outros O engajamento e a própria noção de grupo que estes defendem até hoje inspira e faz brotar uma renovação da cena poética e também grupal Os trabalhos do Lume Teatro na Universidade de Campinas UNICAMP do Galpão e seu Galpão Cine Horto e do Ói Nóis Aqui Traveiz com a Terreira da Tribo são de significativa importância para contar 22 Termo usado por Haroldo de Campos para conceituar traduções e transposições de linguagens CAMPOS 1987 p 5374 33 e inspirar o surgimento de grupos fora do eixo sulsudeste nas décadas seguintes como veremos adiante Nos anos 1990 o teatro de grupo de administração coletiva e a criação colaborativa tornaramse uma realidade nos palcos brasileiros sendo que em 1991 aconteceu em Ribeirão Preto o 1º Encontro Brasileiro de Teatro de Grupo que congregou 15 grupos interessados em buscar semelhanças características comuns desta modalidade teatral Passado o período da ditadura militar a subvenção estatal para grupos passa por transformações devido a uma mudança na política cultural da época o que também vivemos nos tempos atuais Nesta transição das décadas de oitenta para a noventa surge a Lei Rouanet 1991 esta acaba por agravar o quadro pois amplia as dificuldades que os grupos têm de conseguirem apoio uma vez que estes não se rendiam midiaticamente para as empresas patrocinadoras Janiaski nos explica que Diante disto salvo algumas exceções os grupos foram se situando à margem de um teatro comercial O que os levou a buscar novas alternativas de financiamento que possibilitariam assegurar sua autonomia tanto artística quanto financeira tais como a iniciativa do Movimento de Teatro de Grupo que passou a promover encontros oficinas e a editar a Revista Máscara e a criação da Cooperativa Paulista de Teatro em 1979 que nasceu com o intuito de romper a organização burocrática e administrativa empresariais 2008 p 35 Foi neste contexto que grupos surgiram no Brasil e numa alternativa para sobreviver estabeleceram pontes entre si gerando trocas de experiências que fortaleceu a prática do teatro de grupo nesse sentido potencializam essa prática como um espaço que atenta para a pesquisa de linguagem Estas pesquisas têm um forte investimento no treinamento do atoratriz articulando relações internas e externas que passam pela ética pela política quando da feitura e manutenção de seus cotidianos de grupo Carreira revela como tais elementos configurase atualmente quando nos diz que No final dos 80 a crescente relação dos grupos com companhias estrangeiras criou uma nova tensão criativa Neste contexto pensar as formas de organização dos grupos suas variações e o impacto que isso tem na consolidação de modelos de trabalho coletivo é importante porque atualmente o grupo parece ser ainda elemento de resistência às dinâmicas hegemônicas Nos dias que correm seria necessário resistir à pulverização dos vínculos interpessoais e às 34 ferozes dinâmicas de mercantilização que fazem de tudo um produto de compravenda CARREIRA 2007 p 3 Podemos assim pensar o teatro de grupo como lugar de resistência a um teatro comercial em alguns casos se organizando em associações e cooperativas dando a estes autonomia em seus processos coletivos de criação numa busca por romper uma divisão social do trabalho rígida dentro de suas produções É também notável nas práticas de teatro de grupo a busca por pesquisas de linguagem cênica focando na maioria das vezes no trabalho doa atoratriz como potência cênica na escolha por temáticas de relevância coletiva na manutenção de um núcleo fixo de integrantes o que potencializa o amadurecimento da cena É nessa resistência a uma lógica capitalista neoliberal sem pressão de tempo para a concretização de seus projetos que se estabelecem as bases estéticas e éticas desses grupos que acabam por gerar poéticas e formas próprias de criação e sustentabilidade estabelecendo através da experiência cotidiana de trabalho uma forma particular de operar a produção e a gestão de seus projetos artísticos 12 Teatro de Grupo no Ceará Cariri Chegando na cena estadual observase que o teatro praticado no Ceará nas décadas de 1960 e 1970 predominavam as organizações amadoras Este amadorismo se dava por vezes como forma de se opor ao sistema da época já que o país estava sob o regime militar bem como uma alternativa à falta de apoio estatal para a criação A exemplo do Arena e do Oficina no estado de São Paulo alguns grupos do Ceará também se empenhavam em manterse na resistência criando estratégias de fortalecimento de suas práticas fazendo oposição ao chamado teatrão O dito teatrão era realizado por grupos aliados ao governo da época que tinham relação direta com a Secretaria de Cultura de então sobre isso afirma o teatrólogo Oswald Barroso Tinhase assim como uma coisa bem oficial as pessoas do teatro chamavam isso de teatrão Então a Secretaria de Cultura estava empolgada com essas pessoas a representação oficial do teatro era esse chamado teatrão um teatro oficial que tinha o apoio e trabalhava sob a guarda das instituições a Secretaria de Cultura no caso para os projetos da Secretaria de Cultura eram convidados sempre as mesmas pessoas no caso a Comedia Cearense 35 fundamentalmente BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 23 Como observamos acima a Comédia Cearense marcante grupo na história do teatro do Ceará conseguia a continuidade de seus trabalhos graças ao apoio direto do governo o que não quer dizer que este possa praticar teatro de grupo a partir dos elementos que venho levantando O referido grupo tinha condição privilegiada para o contexto de trabalho da época bem como o fato deste ter se mantido por anos como administrador do Theatro José de Alencar o maior e melhor teatro da época deste estado Sendo este um exemplo apenas que nos aponta alguns modos de organização da época e não propriamente que estes estejam no que compreendo como teatro de grupo A partir do livro História do Teatro no Ceará através de grupos e companhias 1967 a 1997 organizado por Erotilde Honório podemos perceber que em todo o estado existem e resistem organizações grupais de teatro Esses grupos e seus representantes foram entrevistados no final dos anos 1990 e início dos anos 2000 revelando como se davam as práticas de grupo no interior e na capital configurando assim um mosaico do teatro feito em boa parte do estado a partir da divisão geográfica vigente na época O movimento teatral amador é marcante neste recorte histórico revelando como os grupos se organizavam em diversas cidades do estado do Ceará Havia uma forte tendência à organização dentro de princípios do teatro de grupo Isso se dava muito pela falta de recursos para montagens o que obrigava tais grupos a buscarem alternativas para a montagem de seus espetáculos tendo no comércio local ou em instituições como a igreja a possibilidade de apoio nem sempre financeiro mas sobretudo de abrir espaço para ensaios e apresentações Nos anos 1970 ainda sob a poeira do impacto gerado pelo AI5 Ato Institucional nº5 1968 radicalizando a censura principalmente na arte o teatro sofreu com o ato vivendo uma fase de perseguição dando combustível para fortalecer um teatro alinhado ao pensamento do regime político Neste momento fica clara como já mencionado a hegemonia da Comédia Cearense no uso de recursos e equipamentos do governo O que se mantinha vivo e atuante além do curso de Arte Dramática da UFC era a Comédia Cearense elevada à condição por assim dizer 36 de grupo oficial da Secretaria de Cultura do Estado Sob seu controle estavam não apenas o Theatro José de Alencar como também o Teatro Móvel espécie de circo permanente instalado no Benfica sob o patrocínio do Estado BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 28 e 29 Ainda nos anos de 1970 irão surgir grupos independentes como é o caso do Grupo Independente de Teatro Amador GRITA Este grupo claramente se opõe à Comédia Cearense trabalhando em seus espetáculos conteúdos populares numa perspectiva política Nesta década surge um bom número de grupos que engajados fazem um movimento teatral de resistência que através da Federação Estadual de Teatro Amador FESTA23 se reúnem fortalecendo suas práticas dando voz e organização para o movimento Fundase neste momento grupos como o Pesquisa de Ricardo Guilherme o Grupo Raça de Fernando Piancó e Artur Guedes ambos em Fortaleza Já no interior temos o Grupo Teatral de Amadores Cratenses GRUTAC Grupo Teatral Amador de Iguatu e em Juazeiro do Norte nomes como o de Joaquina Carlos Jean Nogueira Renato Dantas e Fátima Morimitsu vão mover a cena local Como podemos observar um dado marcante desta época 1970 era o uso da nomenclatura amador que segundo Oswald Barroso se dava como uma forma de Ser independente das instituições oficiais e cerrar fileiras entre os opositores não apenas do regime autoritário mas do próprio sistema estatal Eram grupos notadamente o GRITA e o Cancela que viviam a contracultura das formas devidas comunitárias inspiradas certamente nos hippies e no movimento alternativo Neles a democracia era a mais completa e chegavase a decidir soluções cênicas por votação entre o elenco BARROSO apud HONÓRIO BARBALHO 2002 p 30 Conforme nos aponta Barroso encontramos no movimento de teatro amador do Ceará elementos que podemos identificar nas décadas seguintes do que chamaremos de teatro de grupo o gesto democrático dentro dessa opção em fazer teatro é uma premissa básica 23 A Federação Estadual de Teatro do Ceará FESTA fundada em 1976 é uma sociedade civil com personalidade jurídica privada sem fins econômicos com sede na cidade de FortalezaCE Tem por objetivo contribuir com o desenvolvimento sociocultural e artístico para melhorar a qualidade de vida da população cearense através de ações que envolvam osas artistas e as artes cênicas do nosso Estado Em seu histórico vem desenvolvendo oficinas palestras debates festivais de teatro e outros eventos com intuito de promover através da arte a conscientização políticosocial dosas artistas de teatro e da população em geral do Ceará MOSTRA DE TEATRO DO ESTUDANTE 2013 37 Para a cena cearense os anos de 1980 parecem ser de afirmações e instabilidades entre o que se firmava como teatro amador e o início da busca por profissionalização O teatro de resistência marcado nos anos anteriores continua potente até a primeira metade da década de oitenta com o período conhecido como a abertura democrática A Federação Estadual de Teatro Amador continua com suas ações realizando diversos festivais em cidades do interior A desestabilidade mencionada um pouco acima surge na segunda metade da década quando tem fim o período ditatorial no Brasil Os grupos mais voltados para uma cena de resistência perdem força e o movimento amador se fragiliza compondo um quadro que claramente revela uma transição A ideologia vivida pelos grupos ditos amadores perde fôlego para o impulso profissional emergente Como busca de se profissionalizar alguns grupos dão início à prática de teatro de bonecos surgindo aí grupos presentes até hoje na cena cearense como é o caso do Grupo Formosura de Teatro para muitos referência na criação e pesquisa no teatro de bonecos do Ceará Já no final da década de 1990 a Comédia Cearense perde o domínio do Theatro José de Alencar que a partir daí se abre para outros grupos e se insere após sua reforma e ampliação como um centro formador e de convivência cultural essa mudança se dá sob a gestão de Violeta Arraes na Secretaria de Cultura do Estado Interessante registrar que neste final de década 1990 a formação através de oficinas ganha força e nomes até internacionais aportam no estado para fortalecer o movimento local como foi o caso do Théâtre du Soleil grupo francês dirigido por Ariane Mnouchkine Acredito que a presença do referenciado grupo na época deixou boas sementes no Ceará para o que temos hoje como prática de teatro de grupo já que o Théâtre du Soleil é uma inspiração para grupos do mundo inteiro pelo seu trabalho coletivo de criação gestão e produção teatral rigor no trabalho dosas atoresatrizes e a relação com temas ligados à sociedade Os anos que seguiram seriam uma ampliação do fio formativo iniciado com a mudança do Theatro José de Alencar Diferentes nomes do teatro nacional passaram pelo Ceará numa cadeia formativa que se amplia com a criação do Colégio de Dramaturgia e Direção Teatral no Instituto Dragão do Mar24 1996 Essa 24 O Centro Dragão do Mar está situado num dos mais boêmios bairros de Fortaleza a Praia de Iracema São 30 mil metros quadrados de área para vivenciar a arte e a cultura visitando exposições no Museu da Cultura Cearense no Museu de Arte Contemporânea do Ceará e na Multigaleria se encantando com espetáculos cênicos no Teatro Dragão do Mar no Espaço Rogaciano Leite Filho e Arena Dragão do Mar assistindo a grandes filmes nas modernas salas do Cinema do Dragão 38 efervescência formativa não se limitou à Fortaleza cidades de outras regiões receberam um bom número de oficinas estas ocorrendo em geral nos períodos que antecediam os festivais espalhados pelo estado bem como durante as edições dos mesmos Essa realidade pôde ser vista e comprovada no Festival de Teatro de Acopiara FETAC25 que através da reunião de grupos de várias cidades do interior oferecia oficinas gerando estímulos para os grupos continuarem em atividade além de aperfeiçoamento técnico Ainda neste período através dos Escambos Teatrais capitaneados por Júnio Santos sobretudo no litoral leste têmse um agitado intercâmbio cultural com maior presença de grupos de teatro de rua Destacase também o Projeto Teatro de Rua Contra a AIDS que por alguns anos movimenta o teatro de rua de grupo em todo o território cearense levando espetáculos para espaços urbanos e rurais A maioria dos grupos que participaram deste projeto já tinha uma longa estrada revelando que em diferentes cidades à revelia das dificuldades grupos resistiam consolidando a herança deixada pelo movimento amador dos anos anteriores sedimentando assim práticas com bases no teatro de grupo no sentido da continuidade de trabalho numa postura alternativa ao teatro de vertente comercial Outro fato relevante é o surgimento de diversos espaços em Fortaleza como o teatro Morro do Ouro anexo do Theatro José de Alencar o Teatro do Dragão do Mar e outros mais ligados a escolas privadas da capital No Cariri destacamos a atuação no campo da cultura do Serviço Social do Comércio SESC unidades Crato e Juazeiro do Norte bem como a construção do Teatro Marquise Branca 2001 em Juazeiro do Norte É no fim dos anos noventa que começa uma maior aproximação com as leis de incentivo como possibilidade para a produção Com a crescente instalação de espaços cênicos na capital e também com o surgimento de novos grupos se deu um momento crescente de formação técnica na área cênica iniciandose um ciclo que revelou um movimento de teatro de grupo que é composto por integrantes que passaram pelos cursos oferecidos As pessoas que Fundação Joaquim Nabuco desbravando o Universo no Planetário Rubens de Azevedo e ainda curtindo shows locais nacionais e internacionais no Anfiteatro Sérgio Mota no Auditório e na Praça Verde do Dragão SITE DRAGÃO DO MAR 200 25 Criado em 1989 o FETAC é o mais antigo festival de teatro do Ceará tendo sua história entrelaçada à trajetória de inúmeros grupos culturais de todo o Estado O evento surgiu com a missão de promover e fortalecer o movimento cênico no interior do Ceará sendo reconhecido como um dos principais espaços de organização e difusão dessa arte no interior cearense Com isso vem contribuindo para o aperfeiçoamento dos grupos a constituição de redes e para que a cena teatral local seja evidenciada DEGAGE 2016 39 viveram esse expressivo momento do teatro cearense que gerou uma vasta produção de espetáculos através dos resultados formativos criaram diversos grupos sobretudo em Fortaleza como o Grupo Expressões Humanas 1990 no interior a Cia Ortaet de Teatro 1999 IguatuCE Oficart Teatro 1990 RussasCE No Cariri na primeira década dos anos 2000 surgiram principalmente no eixo central metropolitano Crato Juazeiro do Norte e Barbalha os grupos Anjos da Alegria 2003 Cia Cearense de Teatro Brincante 2005 Grupo Louco em Cena 1999 Cia Mandacaru 2001 Grupo Mateu 2000 Grupo Teatral dos Estudantes da URCA GRUTEURCA 2002 e Wancilus GAT Produções 1999 Destaque para Cia de Teatro Livremente que antecede esse período e tem mais de trinta anos de atividades Aqui é preciso ainda que sinteticamente registrar que se nos últimos anos do século XX surgem os grupos acima citados isso se deve a uma cultura teatral que já povoava essas cidades sobretudo em Crato desde o século XIX tendo registros em jornais da época como O Araripe do Theatro de Todos os Santos que data de 1857 Esse registro nos indica um marco de que o movimento teatral no Cariri já remonta séculos VIEIRA 2005 Quanto a grupos também constam registros históricos que nos asseguram que o Romeiros do Porvir já atuava em finais do século XIX adentrando ao XX vale registrar também como importante marcador histórico para os grupos da região o Grupo Teatral de Amadores Cratenses GRUTAC que surge por volta dos anos de 1950 encerrando suas atividades em 1990 MATOS 2016 121 Instituições relevantes no âmbito da produção e gestão cultural na região do Cariri cearense Haja vista nossa área de atuação e pesquisa esteja situada na região do Cariri cearense nos aprofundaremos em três ambientes de fomento teatral na última década são estes Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri e Universidade Regional do Cariri URCA através do curso de Licenciatura em Teatro Temos ainda o Sesc Mostra SESC Cariri de Culturas como um terceiro ambiente com a mesma importância para o teatro mas que se insere há mais tempo nesta região 1211 CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI 40 Com quatorze anos de atuação no Cariri Cearense 2006 o Centro Cultural Banco do Nordeste chega numa região pulsante em produção artística se tornando mais um canal de promoção da arte local bem como receptor de trabalhos artísticos advindos do país inteiro Seu prédio está estrategicamente situado na cidade de Juazeiro do Norte pois esta se configura como centro econômico da região metropolitana do Cariri portandose como cidade com grande transição de pessoas vindas de todo o interior do Nordeste seja para os ciclos de romaria em devoção à Beata Maria do Araújo e Padre Cicero eou para realizar compras no comércio local Sua instalação como mais um espaço de trabalho no Cariri acaba por incentivar o surgimento de novos grupos artísticos na região seja porque se configura como mais um equipamento de recepção e promoção para as artes ou mesmo por ser uma das instituições que contrata os grupos locais para compor sua programação Assim podemos afirmar a partir do texto institucional que circula na agenda mensal do CCBNB Cariri que O centro Cultural é uma ação estratégica do Banco do Nordeste para o desenvolvimento do nível de percepção do homem nordestino indispensável ao exercício de sua cidadania O Centro Cultural atua como centro formador de plateias e espaço de difusão da cultura nordestina e universal feito para despertar em milhares de pessoas a curiosidade a valorização e o interesse pelos bens culturais AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI MÊS DE JUNHO 2016 Como se constata a partir do texto acima o Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri o primeiro equipamento desta natureza implantado no interior do Estado do Ceará revela sua potência de valorização da produção teatral feita no Cariri fazendo surgir novos grupos bem como profissionais de outras frentes da arte como oa produtora cultural A formação de plateia é como observamos outro forte objetivo do CCBNB Cariri tendo gerado centenas de novos espectadores em seus quatorze anos de atuação na região seja para a linguagem teatral seja para outras pois Num espaço de muita arte e cultura equipado com salão de exposição auditório teatro multifuncional e biblioteca o Centro Cultural Banco do Nordeste oferece a seus visitantes uma rica e variada programação diária nas áreas de museologia cinema artes visuais música artes cênicas e literatura Nele o público descobre o prazer de conhecer e apreciar a arte e a cultura e se habitua a 41 conviver com artistas e obras de reconhecida qualidade AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI MÊS DE JUNHO 2016 A chegada do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri em 2006 instigou osas artistas das artes cênicas a repensar determinados âmbitos de suas formas de organização pois reconfigurou em alguns aspectos o modo de produção teatral vigente até então Uma das mudanças ocorridas é que osas artistas que ocupam o teatro do CCBNB Cariri devem ter registro profissional ou no caso de grupos pelo menos 80 de seussuas integrantes o que gerou uma busca por fazer DRT e consequentemente por maior organização interna dos grupos que já atuavam na região e dos que surgiram Com isso notamos que as exigências feitas pela instituição despertam grupos e artistas em geral a um maior rigor profissional na relação de trabalho Outros aspectos que transformaram o cotidiano de trabalho dosas artistas e grupos foram as demandas burocráticas pois com o trabalho sob a assinatura de contrato e uma maior valorização por parte do CCBNB Cariri aos grupos que tinham o cadastro nacional de pessoa jurídica CNJP levou muitos grupos a se aproximarem dos aspectos burocráticos e administrativos gerados no campo da produção e da gestão cultural para assim ocupar artisticamente mais um espaço de trabalho que se abriu através do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri 1212 LICENCIATURA EM TEATRO DA UNIVERSIDADE REGIONAL DO CARIRI URCA Com a abertura do curso de Licenciatura em Teatro do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau da Universidade Regional do Cariri URCA em 2008 esta universidade se torna pioneira ao lançar a primeira licenciatura em teatro do Ceará suprindo uma lacuna há muito aberta na formação superior em artes no estado A licenciatura em teatro da URCA teve sua primeira turma no semestre letivo 20081 com campus situado inicialmente na cidade de Barbalha em seguida instalandose no Campus Pirajá em Juazeiro do Norte e hoje com campus próprio na cidade do Crato o Violeta Arraes Após doze anos de implantação o curso soma vinte e três turmas entre formandos e egressos Esse dado revela que a formação acadêmica em teatro além 42 de lançar dezenas de profissionais arteeducadoresas para atuar na rede de ensino básico público e particular também gera mais um espaço em que a criação teatral é fomentada rompe os limites da universidade e tem continuidade através de graduandosas e graduadosas que a partir das pesquisas e experimentações em disciplinas teóricopráticas continuam atuando em grupos ou individualmente fazendo com que o teatro feito na região do Cariri se fortaleça e amadureça a partir de variadas perspectivas poéticas A despeito deste recorte a implantação da licenciatura em teatro na região do Cariri nos direciona para afirmar que o curso e seus desdobramentos geraram e geram na formação não só de arteeducadoresas mas também de diversos grupos teatrais por duas vias de incentivo a abertura de um novo campo de trabalho e da ampliação das reflexões no campo da criação via academia A licenciatura em teatro da Urca em seu projeto pedagógico de curso PPC privilegia uma formação que ultrapassa a questão docente e abraça a tríade artistaprofessorpesquisadora dando portanto uma formação que rompe com uma noção estanque na formação doa arte educadora Nesse contexto surgem grupos como Coletivo Atuantes em Cena 2013 Coletivo Dama Vermelha 2013 Trupe dos Pensantes 2012 Armadilhas Cênicas 2010 Grupo Dois de Teatro 2014 Comum Unidade Oitão de Teatro 2009 e o Grupo Ninho de Teatro 2008 lócus deste estudo De todos esses grupos apenas o Armadilhas Cênicas não está mais em atividade 1213 SERVIÇO SOCIAL DO COMÉRCIO SESC MOSTRA SESC CARIRI DE CULTURAS A unidade do Serviço Social do Comércio SESC Crato foi inaugurada no ano de 1972 tendo portanto mais de quatro décadas de atuação oferecendo serviços nas áreas de educação cultura saúde esportes lazer e assistência Seguindo a diretriz nacional do Sesc a referida unidade colabora para a melhoria da qualidade de vida da população principalmente para a classe de trabalhadoresas comerciáriosas pois assim como o nome já sugere o foco das ações do Sesc é oa trabalhadora do comércio e seus dependentes A unidade do Sesc Crato se destaca pelo seu forte trabalho na área da artecultura podemos aqui pontuar que a unidade contribuiu de forma significativa 43 para a artecultura da região do Cariri pois estende suas ações para todas as cidades da região Essa contribuição se deu de modo mais acentuado no ano de 1998 quando a gestora cultural Dane de Jade assume a coordenação de cultura da unidade e inicia um projeto de desenvolvimento e consolidação do teatro do Cariri o foco maior de sua gestão foi para a artes cênicas e também para a tradição popular Essa extensão ocorre também através da unidade Sesc Juazeiro do Norte que similarmente atua na região Todavia faço aqui um recorte dessa contribuição para o campo das artes cênicas a partir da unidade Sesc Crato pois acredito ter sido esta unidade que fomentou a partir de 1998 como supracitado uma série de programas e projetos que foram impulsores para a produção cênica da região Programas como temporadas teatrais banco de textos teatrais núcleo de estudos teatrais NET este sendo um projeto que inflamou de modo positivo o movimento teatral do eixo CraJuBar Crato Juazeiro do Norte e Barbalha pois trouxe a proposta da pesquisa de linguagem somada à criação teatral novidade na época atraindo desde artistas cênicos novosas a veteranosas da cidaderegião Em 1998 foi criado o projeto que muito impactou o movimento teatral da região a Mostra Sesc Cariri de Teatro hoje se chama Mostra Sesc Cariri de Culturas Através do efervescente movimento gerado pela mostra com espetáculos oficinas intercâmbios com grupos do país inteiro a cena local se ampliou se reciclou sendo oxigenada através de tais ações segundo Dane de Jade o principal objetivo era estimular a produção teatral na região proporcionando o desenvolvimento dos artistas e a participação do maior número possível de grupos espetáculos artistas estilos e visões distintas no fazer cênico fossem locais estaduais nacionais ou internacionais A proposta era incentivar a troca de informações ampliar o campo de referências e contribuir para a comunhão dos que fazem teatro no Ceará Ampliamos as linguagens e trouxemos para a Mostra ações nos diversos segmentos artísticos como literatura música tradição artes cênicas cinema e artes visuais DANE DE JADE apud MATIAS 2017 p 182 Como dito acima por Dane a Mostra Sesc Cariri de Culturas ainda que seja um evento anual tornouse por muitos anos impulsora e incentivadora do movimento de teatro do Cariri o que faz dela uma ação expressiva no âmbito da arte e da cultura local O pesquisador Mano Grangeiro NEVES 2011 que foi coordenador de cultura do SESC unidade Juazeiro do Norte e atuou de forma direta na produção deste evento no seu artigo Mostra SESC Cariri de Cultura um debate contemporâneo nos diz que 44 A Mostra SESC Cariri de Cultura em toda sua existência irrigou o Cariri com o que havia de mais contemporâneo na produção artística nacional e internacional Inseriu a região em um dos circuitos culturais mais privilegiados do Brasil Promoveu experiências diálogos intercâmbios Aproximou pessoas e culturas Talvez seja este o seu maior impacto a intervenção e a superação dialética NEVES 2011 p 68 69 Como se nota a Mostra Sesc como é chamada popularmente marca todo um período e de fato como diz Neves ela impacta tanto em seus aspectos artísticos quanto promove intercâmbios entre artistas de diversas linguagens do Brasil inteiro no território Cariri projetando a região como território de diversa e efervescente produtora de arte contemporânea e popular Outro impacto se dá em diversos setores da economia local provocados durante os dias de mostra uma vez que fomenta toda cadeia produtiva seja turística econômica em serviços oportunidades de intercâmbios vendas em estabelecimentos comerciais como hotéis bares e restaurantes diretamente ligados à dinâmica que a Mostra proporciona MATIAS 2017 p182 Pelo exposto acima percebemos o legado da Mostra Sesc Cariri de Culturas que completa em 2020 vinte e dois anos sofrendo transformações que a partir daqui descortinou um tanto dessas mudanças Para tanto tomo a palavra proporciona dita acima para evocar tal processo de desconstrução pelo qual a Mostra foi sofrendo ela inicia apenas como festival de teatro ganhando proporção gigantesca pois como vimos ampliou as linguagens e também seu alcance para um número cada vez maior de municípios carirenses Esse agigantamento começa a gerar uma certa distância da classe artista local que se antes se fazia presente dentro da programação começa a não se ver mais representada nesta causando incômodos que levaram à época diversos debates entre a gestão da Mostra e artistas A partir da edição de 2007 a Mostra perde o seu formato de programação que se estruturava por mostras existia a Mostra Cena Cariri composta por grupos locais Mostra Ceará com grupos das demais cidades do estado Mostra Nordeste e Mostra Brasil Nestes anos as artes cênicas tinham centralidade na programação o que também se perdeu com o avanço das edições 45 Os debates e embates da classe cênica com a organização da Mostra principalmente em relação a sua curadoria que em geral selecionava um número inexpressivo de espetáculos da cena local desencadeou num profundo incomodo gerando um evento chamado Guerrilha do Ato Dramático Carirense que como diz Cacá Araújo principal idealizador A Guerrilha não é exatamente um festival Tratase de um movimento de resistência e afirmação cultural que criamos em 2009 como vitrine da produção caririense e polo de discussão sobre políticas públicas para a cultura Na ocasião assim como atualmente os grandes eventos realizados na região não valorizam as produções realizadas no Cariri e o poder público não desenvolve políticas de fomento que favoreçam a formação produção difusão e intercâmbio ARAÚJO apud MATIAS 2017 p 180 Observemos que quando Cacá Araújo faz uso da palavra vitrine está reivindicando o espaço de visibilidade que a cena local tinha perdido fragilizando assim os grupos locais que para além dos intercâmbiosformação tinham na Mostra Sesc mais um espaço de fomento aos grupos da região ainda que esta ocorra anualmente A Guerrilha então se firma por alguns anos como espaço de resistência e afirmação para os grupos que não encontravam mais espaço na Mostra mas com o passar de algumas edições perde fôlego e deixa de acontecer Assim como vimos em seus vinte e dois anos a Mostra Sesc Cariri de Culturas foi perdendo um tanto dos seus objetivos iniciais mas ainda que passível de críticas figura como um dos eventos mais importantes para a artecultura da região do Cariri e para o calendário cultural do Ceará já que desde 2019 se espalha para outras regiões do estado como Sertão Central e Ibiapaba 13 Produção Cultural Teatral A produção cultural no Brasil é um campo de conhecimento recente que tem crescido muito nos últimos anos desvelando que a cultura é um vetor indispensável para o desenvolvimento humano social e econômico de uma nação pois se estabelece como um direito na constituição federal de 1988 em seu artigo 215 conforme assim descrito Título VIII Da Ordem Social 46 Capítulo III Da Educação da Cultura e do Desporto Seção II Da Cultura Art 215 O Estado garantirá a todos o pleno exercício dos direitos culturais e acesso às fontes da cultura nacional e apoiará e incentivará a valorização e a difusão das manifestações culturais 1º O Estado protegerá as manifestações das culturas populares indígenas e afrobrasileiras e das de outros grupos participantes do processo civilizatório nacional 2º A lei disporá sobre a fixação de datas comemorativas de alta significação para os diferentes segmentos étnicos nacionais 3º A lei estabelecerá o Plano Nacional de Cultura de duração plurianual visando ao desenvolvimento cultural do País e à integração das ações do poder público que conduzem à I defesa e valorização do patrimônio cultural brasileiro II produção promoção e difusão de bens culturais III formação de pessoal qualificado para a gestão da cultura em suas múltiplas dimensões IV democratização do acesso aos bens de cultura V valorização da diversidade étnica e regional BRASIL 1988 A partir do acima elucidado articulo o entendimento doa produtora de culturas como aquelea profissional que realiza a junção e faz uma mediação entre diversos segmentos que somados geram o ciclo de criações e ações culturais conforme o inciso II do artigo 215 Este artigo nos dá uma vez mais a dimensão da função produção que ligada ou ligando diversos agentes artistas poder público empresas mídia espaços culturais faz com que a cadeia da economia para o campo das artes seja efetivada Portanto a produção cultural e a função produçãogestão são responsáveis em grande medida pela democratização da cultura de um território na medida em que este faz acontecer o encontro dos produtos criativos com o público Podemos considerar a profissão doa produtora e gestora cultural um tanto quanto nova e portanto carente de espaços de formação embora já se tenha um crescimento em inciativas de formação para área Dito isto vale lembrar que tal crescimento não é suficiente se considerarmos o volume da produção de arte e cultura no Brasil penso que devido a isso ainda são profissões desconhecidas em suas funções até mesmo para quem passeia pelo campo da cultura A partir desse dado desenvolvo alguns pontos para que se possa compreender a função bem como a fusão que muitas vezes ocorre entre a figura doa produtora e doa gestora de cultura Essa mistura ocorre por vezes devido a essa carência de formação como dito o que faz com que nas práticas cotidianas se confundam Ademais alguns estudiosos da área como Rubim apontam que a defasagem na 47 formação doa produtora e gestora acarretou na pouca visibilidade da função logo ambas estariam praticamente no mesmo espaço de atuação com pequenas nuances que as diferenciam Podemos compreender uma vez mais os motivadores dessa confusãofusão de nomenclaturas quando Rubim diz que Apesar de ser possível falar em políticas culturais no Brasil desde os anos 30 com base nos experimentos de Mario de Andrade e de Gustavo Capanema não se pode afirmar o desenvolvimento de uma tradição de atenção e mesmo de formação na área da gestão cultural Esse descuido das políticas culturais inibiu a valorização da gestão seu reconhecimento e a consequente circulação entre nós da noção de gestão cultural Assim não só a predominância da noção de produção cultural pode começar a ser elucidada como simultaneamente a discussão faz emergir os graves sintomas associados a tal dominância apud CUNHA 2007 p 18 Como se percebe tal mistura se processa a partir da frágil política cultural do Brasil o que por consequência gera a desvalorização desses agentes Para desvendar um tanto mais dessas diferenças partilho também do entendimento de Rômulo Avelar importante pesquisador e gestor cultural mineiro com relevante contribuição na área Este nos aponta que é importante buscar entendimento claro sobre o perfil dos produtores e gestores culturais e sobre suas atribuições 2013 p 50 Verifico a partir do autor que os perfis têm diferenças mínimas entre um e outro quando este nos indica em seus estudos que o produtor cultural é agente que deve ocupar a posição central nesse processo desempenhando o papel de interface entre os profissionais da cultura e demais segmentos precisa atuar como tradutor das diferentes linguagens contribuindo para que o sistema funcione harmoniosamente Sua primeira função é a de cuidar para que a comunicação e a troca entre os agentes ocorram de modo eficiente AVELAR 2013 p 50 Assim definido oa produtora Avelar registra que o gestora cabe com frequência o papel de interface Isso ocorre quando ele se propõe a desenvolver projetos de cunho coletivo ou administrar grupos instituições ou empresas culturais que tenham que lidar em seu diaadia com artistas outros profissionais da cultura e patrocinadores públicos ou privados No entanto o gestor cultural pode estar presente também em outros contextos como contratado de uma empresa para o trato das questões relativas ao patrocínio à 48 cultura como agente vinculado a órgão público ou como administrador de um espaço cultural privado público ou pertencente a organização não governamental 2013 p 51 Essa mistura está bem acentuada na experiência do Grupo Ninho quando osas atoresatrizes como veremos adiante assumem polifonicamente essas funções com as artísticas Avelar nos leva ainda a pensar no quanto essa mistura não seria apenas uma questão de nomenclatura e nos alerta que diante das dificuldades de trabalho enfrentadas por produtoresas e gestoresas nos lança a pergunta seria perda de poder ou de espaço político separar profissionais cuja atuação é tão intimamente ligada Ao que respondo que dentro da experiência do Ninho seria sim uma fragilidade separar tais funções uma vez que dentro do cotidiano do grupo osas integrantes têm vivenciado uma prática que de fato fundem produção e gestão num movimento inerente tendo em vista que a Casa Ninho sede do Grupo nos leva ao exercício de criar administrar intermediar relações entre artistas poder público empresas privadas patrocinadores espaços culturais diversos e sobretudo com o público Assim essas funções apesar de serem identificadas como duas profissões diferentes elas se confundem em relação à ocupação de espaços de atuação no mercado cultural e principalmente aos saberes desenvolvidos em cada profissão coexistindo no mercado de trabalho CUNHA 2007 p 118 A partir do acima exposto compreendo que em nossas práticas esses saberes foram sendo articulados numa relação dentrofora ou seja a partir da sede Casa Ninho para outros espaços nos dando sempre a dimensão de que oa produtora e oa gestora no Grupo Ninho de Teatro e na Casa Ninho se cruzam e desta forma expandem as complementaridades que estas funções carregam potencializando a administração de nossos projetos de criação de manutenção de sede e das ações pedagógicas Dentro do entendimento construído até aqui sobre a função produçãogestão busco outras leituras nos pesquisadores Teixeira Coelho 2001 e André Carreira 2007 por compreender que ambos conceituam oa produtora cultural numa perspectiva que gera aproximações com as práticas do lócus desta pesquisa o Grupo Ninho de Teatro quando estes entendem que essas funções devem estar inseridas 49 dentro dos processos criativos ou seja oa produtora e oa gestora deve a partir desse olhar viver o cotidiano de criação produção e gestão do grupo Outrossim podemos dizer que produtoragestora cultural é aquelea que cuida da estrutura micro e macro da criação e promoção de um objetoprodutoevento artístico Entendemos como estrutura a criação de um campo de trabalho que dê as condições para oa artista desenvolver sua arteofício Tais condições passam pelo desenvolvimento de projetos com a finalidade de captar recursos que possibilitem custear as etapas da criação quais sejam pagar direitos autorais atoresatrizes diretoresas profissionais ligados às tecnologias da cena como figurinista maquiadora cenógrafoa iluminadora etc O produtoragestora deve ainda pensar na organização do marketing locação de teatros e todos os detalhes que sejam necessários para que a sede artística o espetáculo ou outra ação cultural qualquer chegue na audiência seu maior objetivo é fazer o encontro da arte com o público ou fazer com que este chegue até o espaço cultural Nesta perspectiva oa produtoragestora cultural é aquelea profissional que Está no centro de um cruzamento ligando diversas figuras normalmente afastadas umas das outras a arte o artista a coletividade o indivíduo e os recursos econômicos ou fontes financiadoras como o Estado ou a iniciativa privada que não produzem a cultura diretamente mas detêm o poder de tornála realidade Isto significa que através do agente cultural a arte se porá em contato com o indivíduo ou a comunidade tanto quanto o artista penetrará na comunidade e o inverso de modo particular assim como a comunidade alcançará os recursos necessários para uma certa prática cultural COELHO 2001 p 67 Analogamente podemos dizer que Teixeira Coelho fortalece a ideia do produtoragestora cultural chamado por ele também de agente cultural como aquelea que fará a função de articular partes para a construção de um projeto artísticocultural 50 2 GRUPO NINHO DE TEATRO UM NINHO EM CONTÍNUA CONSTRUÇÃO Será que o sol sai pra um voo melhor Eu vou esperar talvez na primavera O céu clareia e vem calor vê só O que sobrou de nós e o que já era Em colapso o planeta gira tanta mentira Aumenta a ira de quem sofre mudo A página vira o são delira então a gente pira E no meio disso tudo Tamo tipo Passarinhos soltos a voar dispostos A achar um ninho Nem que seja no peito um do outro Leandro Oliveira Emicida Um ninho se constrói a partir de muito trabalho e do uso de uma artesania que só os pássaros dominam tal técnica de muitos voos coleta de diversos materiais palhas gravetos barros assim numa trama dança ninhos são feitos para serem moradas de pássaros Uma construção onde se gesta vida e um modo de viver até que um novo voo surja em busca de apreender o mundo E a música nos lança a pergunta Será que sol sai pra um voo melhor Ao tempo em que sem reposta objetiva me leva a pensar em muitas maneiras de respondêla o sol sempre sai e de alguma maneira nos ilumina em nossas saídas e voos táticos dispostos a construir esse ninho que agora partilho Quando pulsa o desejo de partilhar essa experiência é por sentir o quanto ela tem ganhado sentidos a cada ano dessa uma dúzia que experimentamos até hoje Quando penso a história do Grupo Ninho26 a partir da partilha de experiências quero escrever a partir da compreensão de Larrosa quando diz que A experiência é o que nos passa o que nos acontece o que nos toca Não o que se passa não o que acontece ou o que toca A cada dia se passam muitas coisas porém ao mesmo tempo quase nada nos acontece 2015 p 18 Larrosa me ajuda a compreender esse espaço da experiência como um conjunto de ações que nos acontece e nos passa Aqui o nos passa tem a ver com os estados que as ações provocam interiormente e ficam latentes em nossa vida 26 Link do Portfólio do Grupo Ninho de Teatro httpswwwyoutubecomwatchvNK3uWlbwhvgt125s 51 ecoando em nossas ações Assim penso que escrever sobre uma experiência é dizer em palavras sobre aquilo que assentou em nosso corpo como algo muito forte e que portanto ganha um tempo de incubação provocando amadurecimentos nos modos de fazer Para que essa maturação se dê é preciso estar em desaceleração do tempo desse tempo cronológico que a tudo torna passageiro não nos permitindo mergulhar no que se passa em nosso entorno e que praticamente nos obriga a atualizar tudo a cada segundo sem ao menos compreender o que acabou de ser vivenciado Ainda em acordo com Larrosa os acontecimentos dentro dessa perspectiva me fazem pensar que essa velocidade com que nos são dados os acontecimentos e a obsessão pela novidade pelo novo que caracteriza o mundo moderno impedem a conexão significativa entre os acontecimentos Impedem também a memória já que cada acontecimento é imediatamente substituído por outro que igualmente nos excita por um momento mas sem deixar qualquer vestígio 2015 p 22 Essa velocidade muito nos impede de adentrar mais profundamente nos nossos processos de construção seja da arte ou do próprio viver e que portanto fragiliza nossas memórias quando não ocorre uma entrega ao que nos passa A despeito disso agora narro e escrevo desse Ninho que passa por mim e do muito que fica guardado também minha própria experiência permeada pelo coletivo Espero conseguir pois como diz Benjamin 1994 p 98 a arte de narrar está em vias de extinção são raros os que sabem não sabendo se sei esforçome no gesto por intercambiar essa experiência Walter Benjamin nos lembra que A experiência que passa de pessoa a pessoa é a fonte da que recorrem todos os narradores E entre as narrativas escritas as melhores são as que menos se distinguem das histórias orais contadas pelos inúmeros narradores 1994 p 98 O autor me faz lembrar uma vez mais do aprender que se dá por meio das trocas entre narradoresas Lembro que para esta escrita tomo como metodologia a História Oral que tem como fonte maior as oralidades como um espaço primeiro de apreender o mundo que nos margeia por meio das trocas de experiências É como diz Mestra Naninha com sua ancestral dança do coco cantos de incelença e presença 52 brincante e que tem suas memórias e histórias poetizadas no espetáculo Poeira você pode acreditar pois tudo aquilo que eu disser ou eu vi ou passouse comigo ou eu vi ou passouse comigo Por fim ao escrever sobre e a partir da experiência do Grupo Ninho de Teatro me escrevo e escrevo como narrador de uma poesia coletiva tendo como fonte o vivido que nos atravessa 21 GrupoCasa Ninho juntando memórias e contando histórias Era 2008 quando tomamos voo vindos de diferentes lugares geográficos e de poéticas variáveis neste ano já trabalhávamos juntos Rita Cidade Joaquina Carlos eu Edceu Barboza e Jânio Tavares que tinha acabado de retornar para Juazeiro do Norte após concluir sua formação em Artes Cênicas no Instituto Federal de Educação e Tecnologia IFCE Nesse período nós quatro e outrosas artistas integrávamos um grupo de leituras de textos dramáticos que realizava encontros semanalmente com estudos acerca de dramaturgias O objetivo era produzir uma montagem no momento em que todosas osas participantes do grupo se sentissem comumente afetadosas pelo mesmo texto Esses variavam de autorias pois cada uma escolhia a partir de suas afinidades indo de Bertolt Brecht a Lourdes Ramalho Foram nestes encontros que apresentei o texto Avental todo Sujo de Ovo de Marcos Barbosa inicialmente algunsalgumas integrantes não simpatizaram com o texto mas em paralelo osas quatro integrantes aqui já citados resolvem realizar a montagem de Avental27 Certamente a decisão da montagem foi por empatia ao texto de Marcos Barbosa mas também pelo desejo de trabalhar juntos naquele momento Neste ponto a atriz Zizi Telecio é convidada para fechar o elenco do espetáculo que tem quatro personagens Ainda sobre o início a integrante Rita Cidade apresenta contribuições importantes para o registro da gênese do grupo nosso surgimento de grupo a gente fala muito pelo lado dos anos dos trabalhos e como tu Edceu conhece muito bem essa parte eu vou pular pra parte que eu acho mais interessante que é o motivo que nos uniu que tem a ver com os nossos desejos artísticos e que os nossos artísticos têm a ver com a nossa humanidade com o nosso ser humano e que tem a ver o nosso ser humano com o sentimento de amizade que aconteceu dentre boa parte de nós né Então acho interessante pensar esse surgimento por aí porque eu acho que é o 27 A partir deste momento ao citar o espetáculo Avental todo sujo de ovo irei abreviar para Avental 53 que nos alimenta até hoje e acho também que é o que nos alimenta cada vez mais pensando esse tempo de trajetória équando a gente se juntou e o ninho nasceu não foi um filho planejado né Foi uma surpresa da vida quando a gente se juntou A gente era um grupo de pessoas que faziam teatro que já tinham feito teatro juntos uns com os outros em ocasiões diferentes e que a gente se interessou por um determinado texto teatral que no caso era Avental todo sujo de ovo e que é interessante que a gente tá com esse trabalho até hoje Eu gosto de pensar né que o primeiro trabalho o trabalho que uniu a gente e a gente ainda vivencia ele até hojee que a gente foi se alimentando nesse começo e como eu disse eu penso que é o grande alimento até hoje dos nossos desejos artísticos que foram encontrando par que foram encontrando eco de uns nos outros E eu acho que é assim até hoje e eu acho que a gente vem se melhorando nisso a gente vem se afinizando nesse sentido Acho que isso fica muito claro no Poeira e e nos trabalhos novos que a gente tá em sala CIDADE 2020 Neste contexto que Rita detalha éramos três atrizes um ator e um diretor estudando possibilidades de realizar uma produção independente e já nos alimentando de outras camadas além do desejo da montagem O objetivo era montar o espetáculo nos moldes da chamada montagem de elenco28 realizar o circuito de apresentações conforme fosse acontecendo a recepção da peça Fato é que tínhamos determinado que não teríamos pretensões maiores com a montagem tendo em vista também que Jânio que assina a direção não passaria muito tempo residindo em Juazeiro do Norte O processo de criação iniciou em janeiro de 2008 nos encontrávamos pelo menos duas vezes por semana para ensaios e outro dia para experimentações extra sala O local mais utilizado para os ensaios era o Espaço Cultural Marcus Jussiê em Juazeiro do Norte Foram usadas também uma sala da unidade SESC Juazeiro do Norte e uma do Centro de Artes Reitora Maria Violeta Arraes de Alencar Gervaiseau URCA que na época tinha seu campus instalado em Barbalha Na continuidade dos dias da criação de Avental as afinidades foram aumentando e o desejo de continuar caminhando juntos nos levou a inscrever a montagem no edital Mecenas do Ceará Este foi o primeiro edital que nos inscrevemos sendo selecionadosas Aqui surge um dado sobre produção neste início com a inexperiência não conseguimos realizar a captação dos recursos pois este edital 28 Por montagem de elenco leiase um espetáculomontagem feita por atoresatrizes convidadoscontratados sem vínculo de grupo cumprindo assim temporadas com período pré determinado seja por contrato de trabalho ou acordos de outras naturezas 54 funcionava por meio de renúncia fiscal o que implica uma série de procedimentos burocráticos que à época não tínhamos noção nenhuma Neste ínterim abrese ainda inscrição para a XIX edição do Festival de Teatro de Acopiara FETAC a despeito de não termos um espetáculo montado resolvemos inscrever um trabalho composto por três esquetes Destes um já estava pronto com o título yyycomvc escrito por Rita Cidade e Joaquina Carlos e dirigido pela última Este esquete tinha como tema a violência virtual em seus disfarces e consequências Pegando então o fio temático do primeiro os outros dois esquetes sustentam a mesma linha abordando a homofobia com o texto Terçafeira Gorda de Caio F Abreu e o feminicídio com o cordel Embalando Meninas em Tempos de Violência da cordelista Salete Maria Para costurar os quadros têmse a presença dos elementos do Reisado de Caretas folguedo de tradição popular com máscaras chicotes e chocalhos Embora Bárbaro29 tenha sido o primeiro espetáculo do grupo a ser montado nunca deixou de ser revisitado sendo como verificamos acima somado mais um esquete a este revelando outro recorte da violência configurando um quadro que delata quatro diferentes violências praticadas em nosso cotidiano tal como acrescenta Elizieldon Dantas o repertório do Grupo Ninho posso dizer que inicia com quatro esquetes em julho de 2008 As esquetes que de uma de uma forma pensada naquele momento era tratada as múltiplas facetas da da violência Um panorama cinzento existencial que cada esquete traz um recorte dessa violência e o grupo viu viu a importância de comunicar e mostrar através da nossa arte que é a importância de comunicar é de denunciar e mostrar através da nossa arte e é perceptível quando os atores e atrizes estão nesse jogo de de cena essa violência é vivemos em em um mundo cada vez mais acelerado isso faz com que o homem fique mais estressado no ambiente nesse ambiente né Assim contribuímos é para vários assim contribuímos para vários sentimentos inclusive o da da violência As esquete Yyycomvc de autoria de Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade ela trata da violência no mundo virtual Na segunda esquete Embalando Meninas em Tempos de de Violência é uma livre adaptação do do cordel homônimo de de Salete Maria Nessa esquete a violência prevalece sobre o universo feminino Terçafeira Gorda também é uma adaptação do conto de Caio Fernando Abreu A homofobia leva um homem a a ser assassinado pelo é em pleno carnaval Passeio Noturno é uma adaptação também dos contos Passeio Noturno Parte 1 Passeio Noturno Parte 2 do Rubens Fonseca Então essas discussões da da 29 Link do espetáculo Bárbaro gravado no Teatro SESC Patativa do Assaré em 2008 httpswwwyoutubecomwatchv4LNCVHEgz4 55 violência contribuiu no desenvolvimento do primeiro espetáculo do Grupo Ninho é houve um alinha alinhavamento é uma costura né entre essas esquete pelas pelas figura dos dos brincantes do Cariri que é os Careta E assim dando origem ao primeiro espetáculo do Grupo Ninho que é Bárbaro Isso em 2008 No elenco Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade Na direção é Jânio Tavares e Joaquina Carlos DANTAS 2020 Como dito por Elizieldon integrante que entra no grupo em 2009 o primeiro espetáculo do grupo fez um recorte de diferentes violências presentes na sociedade contemporânea Esse fato nos levou a crer mais adiante que a poética e a ética do Grupo Ninho de Teatro já se faziam presentes desde seu nascimento sendo alimentadas e maturadas nos espetáculos seguintes de seu repertório escolhendo temas urgentes que brotavam no social e ganhavam pluralidades poéticas através de suas criações Em entrevista concedida ao Fernando Yamamoto pesquisador e encenador do Grupo Clowns de Shakespeare Natal RN Rita Cidade nos aponta um pouco sobre o ponto de partida dos processos do grupo É o texto pelo tema que ele suscita pelas discussões que ele suscita E geralmente essa discussão tem relação com um comprometimento social Não é por exemplo a vontade de se estudar determinado dramaturgo ou uma época É sempre pelo contexto social as reflexões que ele levanta YAMAMOTO 2012 p 90 Já na entrevista que fez para esta pesquisa Rita Cidade complementa a gente sempre se permitiu se não cem por cento mas eu acho que a gente sempre se permitiu bastante vivenciar temáticas estéticas diferentes E acho que a nossa poética se construiu nessa diversidade de propostas né que foram chegando primeiro A gente se junta em prol de um espetáculo que trata sobre amor sobre família sobre rejeição sobre moralismo né A gente embarcou nessa a princípio em seguida a gente vai tratar sobre violências Assim que os dois dialogam né Não deixa de ser uma violência também o que a gente vê em Avental mas em Bárbaro isso vai ficar mais forte CIDADE 2020 Nesse primeiro ano em que estreamos Bárbaro e ensaiávamos Avental fomos percebendo os diálogos que existiam entre as temáticas dos espetáculos ainda que com abordagens diferentes Nas linhas que seguem voltarei por vezes às questões 56 poéticas do grupo por entender que estas refletem outros aspectos de igual importância para a compreensão do objeto Como relatado nos parágrafos anteriores as duas inscrições citadas festival e edital foram aprovadas isso nos animou ainda que até aquele momento não nos entendêssemos como grupo estes fatores se somaram como motivadores a mais para a nossa decisão em nos tornarmos um grupo Muitos perguntam Por que o nome Grupo Ninho Inicialmente pensamos em dezenas de possibilidades até chegarmos em Grupo Ninho de Teatro como afirma a fala de Rita Cidade começamos a propor ideias para esse grupo fantasia e o nome que veio foi Ninho porque partiu do Avental Todo Sujo de Ovo e por ser a ideia de um lugar que agregasse pessoas que estavam vindo de lugares diferentes YAMAMOTO 2012 p 90 Assim surge o alicerce para o que viria a ser o Grupo Ninho de Teatro nessa formação inicial éramos cinco integrantes que vinham de diferentes lugares e com distintas experiências Nestes doze anos alguns passarinhos fizeram pouso no ninho e em seguida alçaram outros voos ficando nesta formação atual aqui descrita por sequência de chegada no grupo Joaquina Carlos Rita Cidade e eu Edceu desde 2008 Elizieldon Dantas em 2009 Sâmia Ramare chega em 2013 Monique Cardoso se firma em 2018 pois já era colaboradora desde 2013 Fagner Fernandes em 2018 e Francisco Francieudes em 2019 A recepção do primeiro espetáculo do grupo Bárbaro 2008 nos fortaleceu e incentivou a continuarmos juntos agora com maiores perspectivas Após o Festival de Teatro de Acopiara 2008 em setembro do mesmo ano o grupo fez sua segunda participação em festival desta vez no XV Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga Registro as participações nestes dois festivais por considerálas importantes para a construção da base do grupo em seu primeiro ano pois a ambiência e convivência nestes festivais nos fez observar outros grupos gerando ou despertando o desejo de vivenciar a experiência de se construir grupo Bárbaro como primeiro espetáculo a estrear nos aponta princípios de produção que se repetirão com camadas diferentes em todos os espetáculos do Ninho30 Neste a produção foi custeada pelosas integrantes do grupo que investiram 30 Leiase Grupo Ninho de Teatro abrevio pois o mesmo aparecerá com frequência na escrita 57 financeiramente para em seguida a partir do caixa do espetáculo quando este estreasse e realizasse apresentações reembolsasse o investimento feito Figura 1 Imagem do espetáculo Bárbaro em cena o ator Edceu Barboza Fonte Fotógrafo Cristóvão Teixeira Aqui já observamos os nossos modos de fazer a construção do espaço tático como diz Certeau 1998 pois sem fontes de financiamento públicoprivado Bárbaro foi montado com investimento financeiro dos atores e atrizes já que o grupo ainda não tinha reserva financeira para investir Esse investimento feito pelosas integrantes se deu a partir de outras fontes de trabalho que estesas tinham à época sendo alguns arteeducadoresas Joaquina Rita e Jânio em escolas da rede básica de ensino ou em espaços de ensino não formal como associações e ONGs que ofereciam ensino de teatro eu na época era servidor técnico de artes cênicas do Sesc Crato o que me possibilitou contribuir com o investimento 58 Seguimos com a criação de Avental Todo Sujo de Ovo31 que teve sua estreia em fevereiro de 2009 no Teatro do SESC Patativa do Assaré em Juazeiro do Norte Quando ocorreu a estreia de Avental já existia um sentimento de grupo no que diz respeito à organização O espetáculo seguiu fazendo o circuito local de apresentações Sobre Avental vale registrar que este se tornou o espetáculo que mais tem participado de festivais Seja pelo número maior de apresentações o que gera um maior amadurecimento do mesmo ou pela pesquisa poética e mesmo ética que o envolve Através dele o grupo rompeu os limites locais escoando sua produção em outras regiões do país A dramaturgia do cearense Marcos Barbosa e a encenação a ela conferida por esta montagem vêm conquistando público e crítica por sua simplicidade poética somada a um potente trabalho de atuação A casa da família de interior que é cenário da peça se redimensiona simbolicamente A angustiante espera de alguém que foi embora e seu surpreendente e desconcertante retorno são amenizados pelas engraçadas tiradas cotidianas que beiram o cômico Tais fatores conferem leveza ao espetáculo conforme acrescenta Elizieldon Uma relação familiar repleta de sentimentos limitações e cheiro de arroz doce da lembrança do filho que partiu é da presença constante da comadre e e o retorno surpreendente de alguém Esses são os temperos né da vida dessa família Avental Todo Sujo de Ovo DANTAS 2020 Com onze anos compondo o repertório do grupo o espetáculo expõe os conflitos presentes nas densas relações que se instalam quando os assuntos diversidade sexual e família se cruzam A história da travesti que retorna à casa de sua família dezenove anos após têla abandonado quando tinha nove anos de idade e o seu reencontro com sua mãe pai e madrinha é neste espetáculo contado a partir de um olhar universal e atemporal No momento em que transcorre a encenação o grupo partilha com o público um fato tal que não se pode definir onde se localiza e em que tempo acontece Avental fala desse homem simples dessa mulher simples das nossas mães das nossas avós Então o repertório do Grupo Ninho tá muito é quer dizer a poética do Grupo Ninho tá muito atrelada a 31 Link do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo gravado no Teatro SESC Patativa do Assaré em 2009 httpswwwyoutubecomwatchvokYRGx2GHE 59 às pessoas é às pessoas cearenses às pessoas simples é personagens da vida cotidiana mesmo RAMARE 2020 Esta é uma das peculiaridades de Avental todo sujo de ovo além disto neste espetáculo os sujeitos também são tipos universais a mãe o pai o filhofilha e a madrinha que nesta história possuem nome e características próprios mas representam seus estados e contradições do humano em suas relações ou funções sociais provocando no público uma aproximação crítica ao tencionar dialeticamente essas relações Figura 2 Imagem do espetáculo Avental todo sujo de ovo em cena Joaquina Carlos Rita Cidade e Edceu Barboza Fonte Fotógrafo Samuel Macêdo Seja pela maturidade cênica que o espetáculo conquistou ou mesmo pelo misto de sua poética e temática este trabalho revelou ao grupo a possibilidade de chegar aos mais longínquos vilarejos e cidades da região do Cariri bem como para grandes metrópoles do país Avental Todo Sujo de Ovo foi o espetáculo que oportunizou ao Grupo Ninho participar do Projeto Palco Giratório Circuito 2015 Registro aqui esse dado por considerálo um marco na trajetória de aprendizagem e 60 amadurecimento de produção e gestão do grupo pois este projeto é a maior rede de circulação das artes cênicas do Brasil fazendo com que o teatro produzido nas mais diferentes e distantes regiões do país ultrapasse os limites regionais e se faça presente em outros territórios gerando um grande mapa da criação cênica brasileira Viver a experiência de circular o país com um recorte da produção teatral do Cariri nos impôs uma grande responsabilidade sabíamos que o olhar era não somente para o espetáculo ou grupo mas também para o estado região que representávamos Somando aí outro dado pois o Grupo Ninho foi o primeiro do interior do estado afora a região metropolitana de Fortaleza a compor a grade deste valioso projeto de circulação Pela grande teia gerada no âmbito da produção do grupo e o volume de trabalho que tivemos durante o circuito Palco Giratório as relações com as unidades e seusas técnicosas cronograma de viagens escalas de montagens e desmontagens contratos liberações de notas fiscais e recibos ensaios técnicos entrevistas ministrar oficinas intercâmbios com grupos locais das cidades que passamos por tudo isso esse projeto nos deu muito amadurecimento e ampliou nosso olhar para as relações dentro do campo da cultura Avental como segundo espetáculo do grupo a estrear já foi melhor pensado do ponto de vista da produção Seu projeto de montagem fora submetido ao edital Mecenas do Ceará 2008 e aprovado porém como dito dada a inexperiência dosas integrantes do grupo e de profissionais que trabalhassem com captação de recursos via dedução fiscal não conseguimos captar e a produção se deu mais uma vez em forma de autoinvestimento O grupo assumiu os gastos com cenário figurino para na sequência ser reembolsado Isto ia acontecendo na medida em que o espetáculo gerava renda através de vendas de sessões para instituições Aqui penso sobre os modos outros de articular financiamentos para as criações do grupo que não apenas via editais já que como temos observado o quanto essa política tem gerado precariedades haja vista suas absurdas burocracias e descumprimentos de prazos o que interfere diretamente nas dinâmicas de criação não se trata de não os acessar mas não os ter como única possibilidade de mover a produçãogestão Foi ainda nesse momento ou seja em 2009 que aconteceu a terceira montagem do grupo Charivari32 texto da dramaturga Lourdes Ramalho potiguar 32 Link do espetáculo Charivari gravado na Praça da Matriz da cidade de Mauriti em 2010 httpswwwyoutubecomwatchvelJqUYky78t651s 61 radicada na Paraíba A partir do desejo do diretor Duílio Cunha então professor do Departamento de Teatro da Universidade Regional do Cariri Urca que nos convidou a realizar a montagem e expõe a seguir os motivos para a escolha Por muitas razões o texto Charivari da dramaturga Lourdes Ramalho que mesmo premiado nacionalmente era tido como inédito nos palcos parecia o mais adequado para promover esse encontro de diferentes vivênciasexperiências no novo palco que se armava na rua para mim para os integrantes do Ninho e para outros artistas da região que logo tratei de chamar de aninhados CUNHA 2015 Aqui o grupo que tinha menos de dois anos se desafiou a experimentar a rua como espaço de atuação O processo nos aproximou ainda mais da Tradição Popular do Cariri como nos aponta o diretor Duílio Cunha 2015 Das muitas lembranças do rápido processo de montagem que poderiam ser recuperadas aqui nesse curto espaço do texto depoimento vou destacar como foi rica e produtiva a descoberta do brincante de cada atoratriz em meio aos antigos prédios da histórica cidade de BarbalhaCE como a cada vivência do ponto de vista individual e de forma coletiva aqueles corpos iam se descobrindo brincantes no diálogo com o texto de Dona Lourdes com as referências da cultura popular da região e com o espaço da rua Como revela Duílio diretor do espetáculo o grupo começou a amadurecer seu trabalho de pesquisa de atoratriz que em seu terceiro espetáculo buscou se relacionar com a interface atoratrizbrincante tendo como base a tradição popular da região do Cariri Elizieldon nos lembra um pouco sobre o campo poético de Charivari no seguinte trecho da entrevista realizada com o mesmo é o primeiro espetáculo de rua do Grupo Ninho de Teatro É um diabo disfarçado de padre cai dentro de uma igreja e um morcego faz amizade com o diabo Uma viúva chora feliz o cortejo fúnebre do defunto Uma beata apaixonada pelo padre e um sacristão gay Esses são os personagens de cunho hilariante que fazem um desfile público convidando quem está próximo a participar dessa narrativa É um espetáculo que passeia nas tradições carnavalescas medievais com pitadas dos elementos do teatro contemporâneo DANTAS2020 Para a montagem de Charivari o grupo contou em termos de produção com investimento do diretor Duílio Cunha Assim como nos espetáculos anteriores esse investimento é sempre feito em forma de empréstimo que com a circulação do 62 espetáculo e a renda gerada com esta é feito o reembolso Aqui o grupo já apontava para um olhar mais ampliado de sua produção pois já dialogava mais diretamente com as instituições locais que trabalham com arte e cultura no sentido de negociar sessões de seus espetáculos assim Charivari estreou com sessões vendidas para o SESC das unidades de Crato e Juazeiro do Norte Figura 3 Imagem do espetáculo Charivari em cena a atriz Zizi Telecio e Elizieldon Dantas Fonte Fotógrafo Cristóvão Teixeira Com Charivari o grupo aprovou o primeiro projeto de circulação através do extinto edital de patrocínio do Banco do Nordeste com projeto chamado Sessão Dupla do Grupo Ninho de Teatro Pudemos circular pelo Cariri cearense pernambucano e paraibano apresentando além de Charivari o Avental todo sujo de ovo No segundo semestre de 2009 o grupo tinha três espetáculos em repertório nos oficializamos como pessoa jurídica criamos a Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas que teve seu registro em 26 de junho do mesmo ano É uma pessoa jurídica de direito privado sem fins lucrativos com caráter artístico cultural social e educacional A associação é uma espécie de guardachuva que faz a 63 representação jurídica de todos os contratos e convênios firmados pelo grupo Ainda neste ano o grupo teve seu segundo projeto aprovado desta vez no VI Edital de Incentivo às Artes da SecultCE na categoria de manutenção de grupo Com o recurso desta aprovação o grupo alugou sua sede a Casa Ninho33 que passou a ser também representada juridicamente pela associação Devido aos atrasos nos repasses dos recursos a sede só pode ser efetivamente aberta em 2011 adiante detalho essa história Nesse biênio 20092010 observo que a partir do momento que nos transformamos em pessoa jurídica os acessos aos espaços de trabalho e editais de incentivo se tornaram mais frequentes Isto me faz compreender que esse estatuto jurídico permitiu que as possibilidades se ampliassem pois este facilitou os trâmites jurídicos que acompanharam as contratações sendo inclusive uma saída para a diminuição de impostos outro ponto que nos fez pensar em se tornar associação pois os contratos através de pessoa física acarretam uma série de impostos com soma sempre maior Alerto ainda que tornarse uma pessoa jurídica é um passo importante e que expande possibilidades mas que carrega todo um arsenal de trabalho no trato com as legislações que regem a natureza legal de uma associação É uma tática de acesso que abre possibilidades mas nos impõe correr atrás de uma alfabetização jurídica Consideramos a abertura da sede como um momento que redimensionou o trabalho do grupo sob diversos aspectos como veremos adiante seja na criação ou na forma de administrar produzir e gerir o grupo como aponta um dosas integrantes quando nos fala sobre a importância da Casa Ninho A casa abriu em 2011 ela é muito importante para o grupo porque é lá onde a gente tem as reuniões temos os ensaios Depois que abrimos a casa temos quatro espetáculos e foi através dela se a gente não tivesse a sede talvez tivesse só com três espetáculos no repertório Charivari Avental e Bárbaro que foram criados antes da casa mas temos Jogos na hora da sesta O menino fotógrafo e A lição maluquinha e agora o Poeira Eu acho que você ter uma sede pra um grupo é muito importante porque é onde se tem o processo de colaboração de equipe DANTAS 2019 33 Link do vídeo de imagens da Casa Ninho produzido para Campanha Amigos da Casa httpswwwyoutubecomwatchv2gEkLdDoc14 64 Uma sede artística se faz importante para o grupo na medida em que amplia as possibilidades de produzir seus espetáculos seja na criação ou na promoção destes bem como de ampliar as relações com a produção e gestão da sede como nos revela Sâmia Ramare 2019 quando nos aponta que A Casa Ninho ela é aberta ao público nossos programas são sempre de acessibilidade ao público tanto no que diz questão ao preço do ingresso a gente tem um projeto chamado PQP Pague Quanto Puder O grupo sempre apresenta nesse projeto e alguns outros grupos que às vezes vão apresentar na Casa Ninho compõem a grade querem apresentar nesse projeto Os que não querem é cobrado valores populares de dez inteira e cinco meia E já houve casos de serem cobrados um preço um pouquinho mais alto do que esse mas sempre valores acessíveis Outros grupos quando pedem o espaço da Casa Ninho seja pra ensaiar ou pra apresentar também é muito acessível a gente pede só no caso de ensaios produtos de limpeza e uma contribuição pra água e no caso de apresentação de espetáculo é uma diária de vinte reais um preço simbólico e dez por cento da bilheteria A questão da gestão eu acho assim que a gente foi aprendendo durante o tempo porque como é uma casa e é dividido para sete pessoas a gente foi aprendendo que cada um tinha que dar o seu máximo e que nenhum é patrão de ninguém ao contrário nós somos patrões de nós mesmos E hoje eu vejo muito organizada essa questão porque a gente sabe que tem um dia de pagar as contas a gente sabe que precisa manter os espetáculos ativos pra manter a casa já que a gente não tem nenhum subsídio do governo e a gente vai cavando essas possibilidades Então foi tudo aprendendo e como eu entrei já tinha uma coisa organizada eu vim para somar essa organização Através da fala de Sâmia podemos observar como o grupo vem se organizando em termos administrativos e de gestão com a casa e como praticamos cotidianamente as demandas de trabalho para gerar a sustentabilidade Seja no aspecto da manutenção financeira ou na distribuição de funções internas aqui percebemos a maneira coletiva e compartilhada da gestão da casa que é autogerida pelosas integrantes do grupo ou seja nós mesmos criamos as diretrizes e as executamos Assim a autogestão torna todosas produtoresas e gestoresas da Casa evidenciando um valioso aspecto na trajetória do grupo todosas osas integrantes partilham das construções e decisões coletivamente de modo que a polifonia se faz mais uma vez aplicada dentro da nossa formação de grupo Esses detalhes das relações de trabalho e como estas reverberam em práticas de produção e de gestão esmiuçarei em subcapítulo mais à frente debatendo como o grupo foi se reinventando 65 a cada novo desafio para produzir e gerir a Casa de maneira autossustentável já que o incentivo direto e de longo prazo do poder público seja municipal estadual ou federal não existem Figura 4 Imagem da Casa Ninho registro da primeira reforma em maio de 2011 Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Quando entramos numa casa de arquitetura antiga de pronto sabemos sua divisão sala corredor quartos cozinha banheiro e quintal Imaginemos que assim seja a Casa Ninho não pela sua arquitetura em si pois ela é um galpão que foi dividido em diferentes espaços que analogamente podemos pensálos como esses cômodos mais familiares A partir daqui o cotidiano do grupo passa a ser nesta Casa que como diz Celso Junior a casa é um ninho para o teatro do Cariri quando de sua passagem pelo Crato para ministrar oficina de dramaturgia pelo Sesc Em 2011 já na Casa Ninho iniciase o processo de montagem do espetáculo O Menino Fotógrafo34 com encenação de Cecília Maria35 Essa nova montagem se 34 Link com trecho do espetáculo O Menino Fotógrafo gravado no Teatro do Sesc Patativa do Assaré em 2012 httpsyoutubejpkgYl2suS4 35 Professora Adjunta do Departamento de Teatro no Curso de Licenciatura em Teatro da Universidade Regional do Cariri URCA desde 2009 Doutora em Artes pela Universidade Federal 66 deu através do mesmo edital de manutenção que possibilitou o grupo abrir sua sede dentro das ações propostas no projeto intitulado Casa Ninho além do aluguel e custos da sede a manutenção previa a montagem de um novo espetáculo ainda que o aporte financeiro do edital não fosse suficiente para as duas ações naquele momento optamos por propor prospectando uma aprovação e assim buscar possibilidades internas e externas para que as duas ações ocorressem Figura 5 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade Zizi Telecio Fonte Fotógrafa Nívia Uchoa Do diálogo e parceria com a Cia de Teatro Engenharia Cênica36 nasceu O Menino Fotógrafo com processo criativo que durou um ano entre pesquisa e montagem com estreia em janeiro de 2012 Esse encontro ocorreu através do interesse do grupo em pesquisar como se dava a metodologia da criação colaborativa Cecília Maria trouxe sua experiência em criação de dramaturgia na sala de ensaio de Minas Gerais UFMG em 2017 na linha de pesquisa Arte e experiência interartes na educação Mestra em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia UFBA em 2009 na linha de pesquisa Poéticas e processos de encenação Especialista em ArteEducação pela Pontifícia Universidade Católica de Minhas Gerais PUCMINAS em 2008 Bacharela em Artes Cênicas com habilitação em Direção Teatral pela Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia ETUFBA em 2000 Encenadora Atriz Dramaturga e Produtora Teatral da Companhia de Teatro Engenharia Cênica Líder do Grupo de Pesquisa Laboratório de Criação e Recepção Cênica LaCrirCe CNPqURCA Desenvolve pesquisas em processo de criação artística em processo de ensinoaprendizagem do teatro e formação de professores de teatro Plataforma Lattes Acesso em jul 2020 36 Companhia de teatro criada em 2005 por Cecília Maria e Luiz Renato 67 por meio de improvisos e dos princípios do processo de criação colaborativa Da Engenharia também tivemos a presença do atoriluminador Luiz Renato que além de atuar no espetáculo criou a iluminação do mesmo Era mais um desafio pois até então nunca tínhamos criado dentro dos procedimentos do processo colaborativo entrar na sala de ensaio sem texto apenas com uma ideia sintetizada nas palavras vida e morte e no título O menino fotógrafo foi pedagogicamente instigador já que até então tínhamos experimentado processos criativos que embora não se fixassem nos textos os tinha como base Outro dado relevante desta parceria se deu em vivenciar outros lugares da criação teatral se relacionar com outros corpos e vozes isso nos fez rever o nosso lugar e refletir nosso fazer através do pensamento e da presença doa outrooutra pois como nos lembra Cecília Maria 2012 O teatro é uma arte do encontro que gera encontros entre ideias artistas criações ensaios experimentações e público pois acontece apenas presencialmente dentro do tempo e do espaço estabelecidos para a cena Nesta perspectiva o primeiro encontro aconteceu a Engenharia Cênica e o Grupo Ninho de Teatro dois coletivos de artistas resolveram montar no decorrer de 2011 um espetáculo Nosso processo durou um ano inteiro de descobertas experimentações troca de experiências e em colaboração criamos O Menino Fotógrafo Começamos o processo no dia 13 de janeiro e depois de um ano no dia 13 de janeiro entregamos a nossa criação para a plateia Como numa poesia Cecília Maria nos lembra do teatro como a arte do encontro nos dando espaços para gerar possibilidades de nos retirar do plano confortável conduzindo nosso corpo para se ampliar através de novas habitações e contatos Assim podemos afirmar através dos estudiosos da dança João Fiadeiro e Fernanda Eugenio 2012 p66 que O encontro só é mesmo encontro quando a sua aparição acidental é percebida como oferta aceite e retribuída Dessa implicação recíproca emerge um meio um ambiente mínimo cuja duração se irá aos poucos desenhando marcando e inscrevendo como paisagem comum O encontro então só se efectua só termina de emergir e começa a acontecer se for reparado e consecutivamente contra efectuado isto é assistido manuseado cuidado refeito a cada vez interminável Encontramos neste processo a partir da presença de outro grupo um ambiente tão desafiador quanto pedagógico pois a troca estabelecida nos fez pensar ou 68 mesmo repensar nossas práticas ocorrendo nestas um aprendizado particular para cada uma dosas envolvidosas num processo colaborativo como nesse desenhar e inscrever uma paisagem dito por Fiadeiro e Eugenio Para efeito da compreensão do processo colaborativo Antônio Araújo nos diz que A expressão processo colaborativo começou a ser usada na segunda metade da década de 90 dentro de um contexto de retomada do movimento de teatro de grupo na cena paulistana O retorno desta perspectiva grupal que aparece quase como um contraponto à hegemonia do encenador no teatro brasileiro da década anterior vai aos poucos ganhando uma dimensão nacional Não que os grupos tenham deixado de existir após a década de 70 entre outros coletivos importantes e atuantes nesse período poderíamos destacar o Grupo Galpão o Imbuaça o Ponka ou ainda o Ói Nóis Aqui Traveiz mas o forte da produção nacional orbitava em torno dos encenadores São desse período montagens importantes de Gerald Thomas Ulysses Cruz Bia Lessa Gabriel Vilella entre outros 2002 p 57 Ao longo de um ano nos desafiamos colaborativamente em diversos procedimentos práticos em sala de ensaio desde improvisos contações de histórias como disparadores para criar dramaturgias treinamento com facões inspirado na Dança de Severino Brabo da Banda Cabaçal dos Irmãos Aniceto bem como uma vivência na Romaria das Candeias em Juazeiro do Norte Alguns atoresatrizes assumiram outras funções dentro das criações para além de atuar Eu criei o figurino e a identidade visual Luiz Renato a iluminação Cecília Maria assumiu encenação e dramaturgia nas práticas dessa montagem observamos novamente as noções doda artista polifônico MALETTA 2016 presentes nas criações do grupo O Menino Fotógrafo é um espetáculo de dramaturgia fragmentada com ecos de realismo fantástico sendo costurado a partir das memórias de dois fatos históricos ocorridos no Ceará o massacre do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto37 e os 37 O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto foi um dos movimentos messiânicos que surgiu nas terras no CratoCE A comunidade era liderada pelo paraibano de Pilões de Dentro José Lourenço Gomes da Silva conhecido por beato José Lourenço No Caldeirão osas romeirosas e imigrantes trabalhavam em favor da comunidade e recebiam uma quota da produção A comunidade era pautada no trabalho na igualdade e na Religião José Lourenço trabalhava com sua família em latifúndios no sertão da Paraíba Decidiu migrar para Juazeiro do Norte chegou em 1891 com uma cruz nas costas à procura dos pais saídos da Paraíba movidos pela fé no Padre Cícero Ao conhecer o Padre este ganhou sua simpatia e confiança Em Juazeiro conseguiu arrendar um lote de terra no sítio Baixa Dantas em Crato Com bastante esforço de José Lourenço e os demais romeiros em pouco tempo a terra prosperou e eles produziram bastante cereais e frutas Diferente das fazendas vizinhas na comunidade toda a produção era dividida igualmente CORDEIRO 2010 69 Campos de Concentração da Seca de 187738 As práticas religiosas encontradas no Cariri especialmente os ciclos de romaria em Juazeiro no Norte foram fonte de inspiração para a encenação O Menino Fotógrafo com suas imagens que povoam as ruas praças e igrejas como luzes de velas imagens de santos quebradas terços e muitas fitinhas coloridas Figura 6 Imagem do espetáculo O Menino Fotógrafo em cena Zizi Telecio e Elizieldon Dantas Fonte Fotógrafa Nívea Uchoa Neste momento tendo o grupo aprovado projeto em edital que contemplava manutenção do mesmo o espetáculo O Menino Fotógrafo se tornou o primeiro a ser montado com recursos oriundos de incentivo público da SecultCeará sua produção fora compartilhada com a Cia de Teatro Engenharia Cênica mudando a forma como até então vínhamos produzindo e fazendo a gestão dos espetáculos sempre através de investimento próprio 38 Uma das maiores secas da história do Ceará que durou por três anos seguidos matando mais de quinhentas mil pessoas Muitos cearenses na tentativa de sobreviver seguiam em retiradas para cidades como Aracati Baturité e Fortaleza Na capital muitas frentes de trabalho são criadas para amenizar as mortes pela fome e doenças causadas pelas aglomerações Muitos cearenses migraram para Amazônia e cidades do Sudeste MIRANDA 2013 70 Os custos do espetáculo foram divididos entre os dois grupos que além dos gastos com visualidade comunicação gráfica investimos na compra de refletores e uma mesa de luz simples já que a Casa Ninho recémaberta não dispunha ainda de nenhum equipamento de iluminação Esse foi mais um modo de fazer que nos colocou em uma ação tática pois os dois grupos se juntaram para viabilizar a criação que neste caso tem ainda que pouco ampliado os investimentos que foram feitos com o que previa o projeto de manutenção pois como explicado os recursos eram baixos considerando a manutenção da sede e os custos de produção do espetáculo Ainda neste ano ou seja em 2012 estreamos o espetáculo Jogos na Hora da Sesta39 texto escrito por Roma Mahieu após quatro anos desde a montagem de Bárbaro e Avental que nenhuma integrante do grupo voltava a função de encenação Em Jogos na Hora da Sesta Jânio Tavares voltou a encenar Isso é importante para pensar o cotidiano do grupo e os seus acionamentos criativos bem como de gestão e produção o revezamento de funções ou o trânsito nestas revela um dado que certamente potencializa a experiência do grupo em sua manutenção pois sabemos que a formação de uma equipe é complexa e requer recursos maiores se pensarmos no aspecto da remuneração Esse revezamento foi se dando de modo orgânico a partir das necessidades que vão surgindo na caminhada nos fazendo muitas vezes nos aventurar em funções que não são expertises mas que com o tempo passamos a dominálas e isso supre tais necessidades voltarei nesse ponto Em Jogos na Hora da Sesta crianças brincam de imitar seus pais ditadores enquanto estes fazem a sesta Neste jogo de imitações são reveladas a crueldade que se esconde atrás da busca por poder Ao brincar de imitar comportamentos e ritos sociais do mundo adulto tocando em temas como a sexualidade religiosidade morte justiça relações de gênero as personagens crianças revelam a violência que o homem criou em suas relações cotidianas para dar sustentação ao seu lugar de poder 39 Link do espetáculo Jogos na Hora da Sesta gravado na Casa Ninho em 2012 httpswwwyoutubecomwatchvt35jlPiSOIEt512s 71 Figura 7 Imagem do espetáculo Jogos na Hora da Sesta em cena Elizieldon Dantas e Rita Cidade Fonte Fotógrafa Nívia Uchoa Neste espetáculo as personagens embora sejam crianças são interpretadas numa camada que rompe com a infantilização destas Esta opção poética para o trabalho de interpretação dosas atoresatrizes ajuda a revelar para oa espectadora que no processo de educação o comportamento tem grande e significativa importância pois oa adultoa sem perceber colabora para a construção de comportamentos das crianças fazendo destas pequenosas adultosas que acabam reproduzindo as diversas faces e jogos de manipulação e poder ou ainda contribui para a repetição de seus gestos quando estas tornaremse maiores Sobre Jogos Francisco integrante do grupo nos diz eu acho que todos os espetáculos são muito potentes ahn todos os espetáculos do grupo É inclusive eu fico até com com uma certa ahn eu não sei se se é pena mas assim um sentimento de que alguns espetáculos não deveriam ter parado como por exemplo Jogos na Hora da Sesta que é um um espetáculo que eu sempre curti muito assistir e quando me disseram que ele não tava mais ativo eu até tomei um susto porque é um espetáculo muito potente muito potente mesmo assim um um dos espetáculos do repertório do grupo que eu mais gosto Então eu eu achei eu sempre acho uma pena ele não tá mais mais apresentando É na realidade to todos os espetáculos né quando a gente para é a a gente a gente 72 tem esse sentimento né de certa forma mas eu acho que é bem isso mesmo assim cada espetáculo ele tem um um um tempo assim de vida é quando a gente percebe que que chegou a hora então então é saudável parar mesmo é apesar de que eu de que eu acho que o Jogos na Hora da Sesta não deveria ter parado mas enfim FRANCIEUDES 2020 O quinto espetáculo do repertório do grupo ainda que não esteja mais ativo como dito acima fora produzido com recursos de caixa diferenciandose dos três primeiros que precisaram de empréstimos para tal e do quarto que contou em partes com recursos de um edital Em seu quarto ano o grupo já tinha estruturado uma forma de administração financeira organizando em caixas específicos os recursos de cada espetáculo e ainda para investimentos internos na produção e manutenção da sede Esta reserva acontece com a dedução de dez por cento de todo recurso que entra no caixa geral do grupo isso é feito antes do pagamento dosas atoresatrizes desta porcentagem metade é destinada para o caixa do espetáculo que foi apresentadocontratado e a outra para o fundo de manutenção da Casa Ninho Desta forma o grupo tem conseguido fazer a manutenção do repertório bem como de parte dos gastos com a sede Figura 8 Espetáculo Jogos na hora da sesta em cena Edceu Barboza e Rita Cidade Fonte Fotógrafo Cristovão Teixeira 73 Neste momento já com quatro espetáculos em repertório as oportunidades de trabalhos se expandiram mais o que permitiu essa reserva e investimento com recursos internos Observemos aqui uma mudança que é fruto da organização do grupo pois se tivemos três produções que necessitaram de empréstimos dosas integrantes em Jogos o grupo já demonstrou uma maturidade em sua gestão financeira sendo certamente o que o possibilitou de cobrir os custos de sua quinta montagem estando na ocasião com quatro anos de existência No ano seguinte 2013 o repertório do grupo que já contava com cinco espetáculos todos adultos ganhou sua primeira peça feita para o público infanto juvenil A Lição Maluquinha40 inspirada na novela A Professora Maluquinha de Ziraldo A partir do desejo da atrizeducadoraprodutoragestora Rita Cidade quando cursou a disciplina Processo de Encenação III do Curso de Licenciatura em Teatro da URCA de que o repertório do Grupo Ninho contemplasse um espetáculo voltado para crianças e adolescentes já que temos uma carência de montagens infantis na região bem como no país A Lição Maluquinha fez um desenho de aula crítica das relações instituídas no núcleo gestor de uma escola alunoa professora diretora denunciando as relações de poder que interferem e ferem o processo autônomo de formação escolar Revelou ainda como a prática de uma pedagogia progressista encontra obstáculos dentro do sistema educacional brasileiro e nos ambientes escolares ao tencionar normas fixas Seguindo a mesma tática de montagem de Jogos o primeiro espetáculo infantil do grupo também teve sua produção custeada com recursos do próprio grupo O que nos leva a crer que mesmo não tendo incentivo direto de nenhum órgão público o grupo consegue de forma autônoma gerar fundos para a continuidade de suas atividades Como veremos adiante essa continuidade se dá a partir das diversas ações que o grupo empreende e pelas parcerias que tem feito com instituições locais com grupos e artistas 40 Link do espetáculo A Lição Maluquinha gravado no Teatro do Centro Cultural Banco do Nordeste Cariri em 2013 httpswwwyoutubecomwatchvJRhmdh2LBD8t352s 74 Figura 9 Espetáculo A Lição Maluquinha em cena Sâmia Ramare Fonte Fotógrafo Júlio César Após a estreia d A Lição Maluquinha o grupo resolveu investir na pesquisa através do projeto Memória de Mestres a mímeses corpórea dos mestres da tradição popular do Cariri aprovado no edital 2014 do Porto Iracema das Artes Escola de Criação e Formação do Ceará41 No segundo semestre deste mesmo ano o grupo iniciou a pesquisa que foi dividida em dois campos o poético e o técnico O primeiro se deu pela aproximação com os mestres da arte popular do Cariri o segundo pela orientação do Grupo Lume Teatro42 de CampinasSão Paulo através de Jesser de 41 O Porto Iracema das Artes é a escola de artes do Governo do Estado do Ceará ligada à Secretaria da Cultura e gerida em parceria pelo Instituto Dragão do Mar IDM Inaugurada em 29 de agosto de 2013 nestes seis anos vem se consolidando como a Escola de formação e criação artística do Ceará Sediada em Fortaleza conta com três esferas formativas Programa de Formação Básica Cursos Técnicos e Laboratórios de Criação Nos âmbitos do Programa de Formação Básica e dos Cursos Técnicos trabalha prioritariamente com jovens de idades entre 16 e 29 anos estudantes ou ex alunos da rede pública com ensino fundamental completo Os Laboratórios de Criação trabalham com faixa etária a partir de 18 anos e têm como foco a qualidade estética dos projetos apresentados A Escola tem como objetivo funcionar como um fértil espaço de trocas e experiências estéticas ancoradouro de ideias e pensamentos Ver mais em wwwportoiracemadasartesorgbr PORTO IRACEMA entre 2013 e 2020 42 O LUME é um coletivo de sete atoresatrizes que se tornou referência internacional para artistas e pesquisadoresas no redimensionamento técnico e ético do ofício de atoratriz Um espaço de multiplicidade de visões que refletem as diferenças impulsos e sonhos de cada ator Ao longo de 75 Souza e Carlos Simioni que durante cinco meses fizeram orientação teóricoprática para a aquisição da técnica da mímeses corpórea O grupo viveu um importante momento no aspecto da pesquisa de linguagem e treinamento de atoratriz pois a pesquisa possibilitou que mergulhássemos de forma mais estruturada nos elementos que até então estávamos exercitando nos processos poéticos fosse na composição de espetáculos ou no trabalho de pesquisa corpovoz dosas atoresatrizes Com as tutorias do Lume Teatro passamos por todo uma pesquisa corporal e vocal o que expandiu nossa consciência em torno das nossas corporeidades enquanto compreender e localizar de forma técnica suas potencialidades Durante a pesquisa tivemos encontros intensos em sala de trabalho pois nossos corpos precisavam estar minimamente preparados para a composição de figuras via mímeses corpórea essa técnica foi a base de criação para um experimento cênico que fazia uma homenagem ao saber e fazer dos mestres e mestras da tradição popular do Cariri A partir dos procedimentos partilhados por Jesser e Simioni passamos a nos aproximar dosas mestres e mestras partilhando o cotidiano destesas numa escuta cuidadosa e expandida de suas memórias43 Noutra etapa da pesquisa iniciamos as experimentações no corpo e voz a partir das vivências nas casas e terreiros dosas mestres e mestras neste momento pude perceber o quanto a consciência do corpo e voz faz diferença no processo de composição tendo a mímeses como técnica pois ela nos exige um rigor detalhado da composição Esse detalhamento é fundamental para que em seguida o corpo se torne mais fluído dentro da composição fazendo assim uma espécie de transição do corpo mais técnico para um mais orgânico dentro da composição estudada Como resultado desta pesquisa nasceu em 2016 após quase um ano e meio de continuidade da mesma que iniciou no Porto o espetáculo Poeira44 que de forma poética nos apresentou o olhar e narrativas dos atores e atrizes para alguns mestres quase 30 anos tornouse conhecido em mais de 26 países tendo atravessado quatro continentes desenvolvendo parcerias especiais com mestresas da cena artística mundial Criou mais de 20 espetáculos e mantém 14 em repertório com os quais atinge públicos diversos de maneiras não convencionais Com sede em Barão Geraldo Distrito de Campinas SP o grupo difunde sua arte e metodologia por meio de oficinas demonstrações técnicas intercâmbios de trabalho trocas culturais assessorias reflexões teóricas e projetos itinerantes que celebram o teatro como a arte do encontro Ver mais em wwwlumeteatrocombr LUME TEATRO 201 43 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa sudeste httpswwwyoutubecomwatchvfG2Cwshxqwt191s 44 Link do espetáculo Poeira gravado na Casa Ninho em 2016 httpswwwyoutubecomwatchvl4 Qikjq6gY 76 da cultura popular do Cariri cearense Esse olharaproximação se deu mediado pelos métodos de pesquisa do Grupo Lume Teatro entremeado pela relação de afeto ou admiração artística que os atores e atrizes tinham ou estabeleceram com osas mestres e mestras da cultura popular do Cariri Figura 10 Espetáculo Poeira em cena Monique Cardoso Fonte Fotógrafo Samuel Macedo Outra base do espetáculo é a memória seja dosdas mestresmestras ou dosas atoresatrizes ele é narrado para o público num jogo cênicopoético fazendo um trânsito entre atoresatrizes e mestresmestras É nesse espaço da escuta oral das narrativas que o espetáculo se constrói Benjamin nos lembra que A narrativa que durante tanto tempo floresceu num meio de artesão no campo no mar e na cidade é ela própria num certo sentido uma forma artesanal de comunicação Ela não está interessada em transmitir o puro emsi da coisa narrada como uma informação ou um relatório Ela mergulha a coisa na vida do narrador para em seguida retirála dele Assim se imprime na narrativa a marca do narrador como a mão do oleiro na argila do vaso Os narradores gostam de começar sua história com uma descrição das circunstâncias em que foram informados dos fatos que vão contar a seguir a menos que prefiram atribuir essa história a uma experiência autobiográfica 1994 p 205 77 Esse cruzamento de memórias45 escutadas e compartilhadas documenta cenicamente o quanto dosdas mestresmestras estão presente em nossas vidas nos dando a oportunidade de nos encontrarmos com nossas ancestralidades46 pois que são verdadeirosas guardiões do tempo e da sabedoria que os atravessam A todo instante nos víamos mergulhadosas em suas histórias e através de suas narrativas fomos afetadosas como Benjamin nos escreve acima por suas experiências e biografias que se cruzam a todo instante com as histórias que nos contam Aliás para o Poeira são as descrições de suas vidas que tecem as dramaturgias do espetáculo O espetáculo a pesquisa e montagem foram e continuam sendo permeados pelo sentido de experiência tanto que escrevo sobre o grupo também a partir dessa noção Portanto precisávamos nos pensar e estar abertos para aprender e apreender a sabedoria dosas mestres e mestras eu lembro que cheguei em sua casa como numa espécie de gelo sólido cheio de minhas vaidades prepotências e chalaças achando que sabia de alguma coisa e aos poucos eu fui me liquefazendo Este trecho eu falo no espetáculo e diz sobre esse processo de desconstrução para mergulhar na poesia ancestral ocorre nesse encontro um acordar de minhas memórias ancestrais me fazendo lembrar que minha avó é minha primeira mestra narradora Para estar poroso e se deixar liquefazer Larrosa nos indica que O sujeito da experiência é um sujeito alcançado tombado derrubado Não um sujeito que permanece sempre em pé ereto erguido e seguro de si mesmo não um sujeito que alcança aquilo que se propõe ou que se apodera daquilo que quer não um sujeito definido por seus sucessos ou por seus poderes mas um sujeito que perde seus poderes precisamente porque aquilo de que faz experiência dele se apodera Em contrapartida o sujeito da experiência é também um sujeito sofredor padecente receptivo aceitante interpelado submetido 2015 p 28 Esse sujeito da experiência que derrubado se permite foi o estado que todosas vivenciaram nesse tombamento nos percebemos aprendizes e também aprofundamos as relações que temos com a tradição popular desde Bárbaro O espetáculo abriu muitos espaços para o grupo sobre ele Fagner nos fala o seguinte 45 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa sul httpswwwyoutubecomwatchvzADsBulmPEkt5s 46 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa centrooeste httpswwwyoutubecomwatchvMWhD2PZw8T4t78s 78 também me emocionei todas as vezes que eu vi Poeira sobretudo todas as ve todas as vezes que eu tomei a caipirinha do espetáculo E foi o espetáculo que me aproximou das manifestações da cultura popular né porque desde quando o trabalho tava ainda no início do processo de pesquisa pela minha relação com Joaquina pela minha proximidade com ela ela acabou me levando pra me levando na casa de mestra Naninha né E foi um grande presente pra mim porque foi a primeira vez que eu tive uma vivência mais próxima com uma mestra de cultura e também fiquei encantado com ela com com as histórias que ela contou ali com a forma como ela dizia as coisas com as frases que ela dizia e tudo revelava uma sabedoria muito grande É pelo que eu lembro até então eu não tinha eu não tinha a prática de ver as apresentações dos grupos de tradição popular é eu não entendia a importância da tradição popular e foi a partir do espetáculo Poeira que a minha perspectiva sobre os grupos de tradição popular sobre os mestres e mestras de cultura é foi transformada Hoje eu tenho uma relação de respeito mesmo e de de de admiração de apoiador e de frequentador dos eventos de tradição popular FERNANDES 2020 Percebemos o quanto Poeira expandiu espaços para o grupo em muitas frentes47 a fala de Fagner como integrante e espectador nos dá esse indicativo do quanto o espetáculo despertou seu olhar para a tradição e como esta nos atravessa e nos conduz para um lugar de aprendizagem que passa antes de tudo pela simplicidade e generosidade destes guerreiros Cariris De fato todo o processo de criação do espetáculo Poeira se deu como um atravessamento num chão de experiências ou melhor nos revelou o quanto a sabedoria popular tem para nos ensinar48 pois a experiência é antes a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque requer um gesto de interrupção um gesto que é quase impossível nos tempos que correm requer parar para pensar parar para olhar parar para escutar pensar mais devagar olhar mais devagar e escutar mais devagar parar para sentir sentir mais devagar demorarse nos detalhes suspender a opinião suspender o juízo suspender a vontade suspender o automatismo da ação cultivar a atenção e a delicadeza abrir os olhos e os ouvidos falar sobre o que nos acontece aprender a lentidão escutar aos outros cultivar a arte do encontro calar muito ter paciência e darse tempo e espaço LARROSA 2015 p 25 47 Link de entrevista sobre o espetáculo Poeira no Itaú Cultural São Paulo httpswwwyoutubecomwatchvxeSV97Qja6k 48 Link do Documentário POEIRA Memória em movimento Grupo Ninho de Teatro 10 anos etapa norte httpswwwyoutubecomwatchvb8lsmWUSg9ot364s 79 Com este espetáculo e todo o seu processo de pesquisa o grupo pôde experienciar aspectos de sua territorialidade e ancestralidade através do saber e fazer dosas mestres e mestras da Cultura Popular do Cariri que são verdadeirosas guardiõesguardiãs e narradoresas de nossa memória cultural e também artística Só suspendendo o tempo foi possível para o grupo parar para escutar nosso próprio chão e assim voltar nossos corpos para criar a partir de nosso lugar de pertencimento Poeira nos deu assim a possibilidade de amadurecer nossa poética cênica a partir da relação com nossa própria cultura e território Figura 11 Espetáculo Poeira em cena Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Monique Cardoso Sâmia Ramare Rita Cidade Zizi Telecio Fonte Fotógrafo Samuel Macedo A produção da última montagem do grupo se deu através de uma ajuda de custos da Escola Porto Iracema cada projeto recebeu um valor para investir nos custos do experimento 2014 que encerrava a participação na escola Já pensando na montagem futura investimos em figurinos e objetos de cenário que ficaram na montagem 2016 desta feita não tivemos que investir diretamente recursos do grupo 22 A Produção Cultural e Teatral na experiência do Grupo Ninho de Teatro 80 Em seus estudos sobre a produção teatral André Carreira 2007 num recorte para o estado de Santa Catarina define um perfil de produtora que está diretamente ligado ao cotidiano de trabalho do grupo Seu pensamento como já dito pode ser em partes observado dentro da dinâmica de produção do Grupo Ninho de Teatro pois mesmo este tendo uma parceria nos projetos maiores com uma produtora externa esta se dá de forma dialógica ou seja constróise uma metodologia de trabalho na qual o grupo está completamente inserido mantendo sempre uma relação direta com osas integrantes Esta parceria tem se dado com a Ato Marketing Cultural produtora inaugurada em 2009 a Ato nasceu da nossa inquietação e paixão por cultura arte e comunicação Com a vontade de conectar artistas produtores e empresários somamos a nossa experiência como comunicadores e produtores para realizar projetos culturais ATO MARKETING CULTURAL 2018 A relação de produção compartilhada com a Ato Marketing Cultural nasce desse desejo de conexão e soma de experiências como registrado no site da mesma Nossas parcerias iniciaram em 2013 quando a partir de diversos encontros e diálogos sobre as duas naturezas de pensar articular e praticar a produção e a gestão culturalteatral se estabeleceu tal relação Desse encontro surgiu a primeira edição do planejamento estratégico Sobre este e outros aspectos dessa junção escrevo no porvir da escrita A partir da experiência do Grupo Ninho pondero que um olhar atento para a produção e a gestão bem como o planejamento repercutem diretamente na qualidade assim como na expansão dos trabalhos do grupo pois estrutura os objetivos e busca concretizálos Logo percebo a importância da presença da função produção bem como da gestão pois elas garantem a organização do grupo sendo ainda um olhar direto para o que está por vir no que tange ao seu planejamento alimentando a continuidade dos processos de modo amplo internamente gerando ânimo e funcionalidade e consequente sustentabilidade A partir da fala da integrante Rita Cidade presente desde a formação inicial do grupo podemos compreender a importância do olhar da produção e da gestão nas ações bem como a forma como essa presença foi acontecendo na experiência do Grupo Ninho 81 Em 2011 também através de uma inscrição em um outro edital a gente abre a Casa Ninho que é um espaço cultural que a gente coordena e essa é que vai trazer mais funções mesmo porque é necessário abrir a casa mantêla do ponto de estrutura da casa do ponto de vista de limpeza é preciso manter a dinâmica dela no sentido de que a gente faz os trabalhos da gente os ensaios as reuniões as apresentações e ainda recebe e muito trabalhos de outros coletivos então tudo isso requer muita atenção e muito gerenciamento disso tudo Então aos poucos a gente foi descobrindo habilidades e desenvolvendo capacidades a partir dessas habilidades que a gente já tinha pra poder gerenciar tudo isso e hoje são sete trabalhos sete espetáculos teatrais e mais a casa pra gente gerenciar e mais todos os processos de editais e projetos aprovados e os processos anualmente da parte financeira declaração de imposto de renda por exemplo e outras coisas nesse sentido Então eu acho que hoje nós somos oito pessoas fora os parceiros que trabalham junto mas do Grupo Ninho mesmo somos oito Então eu acho que hoje depois de muitas vivências a gente está vivendo um momento mais tranquilo do ponto de vista de assumir essas funções porque no meu caso por exemplo eu tenho habilidade natural de organização financeira e as vivências até hoje se a gente começar de 2008 quando começou a ter esse movimento financeiro pequeno mas já tinha são dez anos quase de experiência as vivências foram me obrigando a ir entendendo um pouco mais das coisas do financeiro não é necessariamente pra mim a coisa mais prazerosa por exemplo falando de mim particularmente mas eu sei que eu tenho essa habilidade e que posso contribuir com o grupo nesse sentido CIDADE 2019 Ainda dentro de nossa experiência como relatado acima a função produçãogestão de certo modo passa por todos e todas como já desenvolvi no início deste capitulo já que tudo é refletido e construído coletivamente gerando uma espécie de assembleia que debate e amadurece toda e qualquer decisão a ser tomada Mas isso não torna dispensável a presença do produtora gestora pelo contrário este acaba fortalecendo seu repertório para as consequentes demandas e negociações O que é bem provocante nesse movimento é nos compreendermos como esses produtoresas e gestoresas Nesse entendimento todos nós do grupo transitamos entre práticas artísticas produção e gestão Aqui me aproximo dos estudos do artista e professor Ernani Maletta quando este nos apresenta o entendimento dosdas artistas que imprimem diferentes funções em suas práticas poéticas o que ele chama de artista polifônico Com isso quero dizer que ao me perceber sujeito desta escrita entendo que esse trânsito de funções em nosso cotidiano de trabalho nos torna polifônicos num exercício múltiplo de artistasprodutoresasgestoresas como nos diz Maletta que 82 a natureza polifônica do Teatro afirmo que cada artista teatral que é certamente uma das vozes da partitura teatral deveria apropriarse das diversas outras vozes responsáveis pelos vários discursos que acontecem simultaneamente no ato teatral as vozes dos atores do autor do diretorencenador do dramaturgo do diretor musicalsonoplasta dos preparadores vocal e corporal do cenógrafo do figurinista do iluminador do caracterizador e de todos os demais criadores do espetáculo Assim ao incorporar vários outros discursos ao seu próprio discurso apropriandose deles o artista cria para si um discurso polifônico 2016 p67 Nas páginas seguintes a percepção dessas muitas vozes que perfazem nossas práticas irá aparecer nos dando mais uma vez o entendimento que nos revezamos em muitos papeis quando da criação e também em produtoresprodutoras e gestorgestoras mesmo que o autor não tenha grafado a função produçãogestão afirmo que ela compõe com a mesma importância essa polifonia que pulsa em nossas criações e ações de grupo A partir dessa perspectiva no Grupo Ninho essas relações com a função produçãogestão se dão de modo um tanto diferente de outras experiências que observo em gruposartistas locais visto que nem todosas se envolvem nas funções da rede que se cria dentro da produçãogestão49 já que somos todosas produtoresas e gestoresas no sentido que planejamos as etapas e nos dividimos entre elas indo então para sua execução O planejamento está intimamente ligado à forma como o grupo se organiza administrativamente tendo como já dito o planejamento estratégico como um momento em que ocorre uma espécie de alinhamento de todo o processo que este viveu está vivendo e viverá sendo esta a função e importância do planejar estratégias e desenvolver táticas como veremos a seguir 23 O Planejamento estratégico como meio de organização do grupo Com sete espetáculos em repertório e uma sede para administrar gerir e produzir o Grupo Ninho de Teatro começou a refletir de forma mais ampla sobre os caminhos e táticas de produção e gestão Internamente começaram a surgir vozes que denunciavam essa necessidade pois a quantidade de trabalho administrativo a agenda de ensaios e criação demandas de produção e gestão revelavam a urgência 49 Devido já ter explicado as funções de produção e de gestão nos seus contextos práticos de trabalho e como estas têm pequenas diferenças opto por escrevêlas conjugadas por compreender que no Grupo Ninho o exercício destas se fazem misturadas denotando que de fato é complexo a sua divisão nos seus exercícios 83 do grupo pensar formas de sustentar a base trabalho até então gerado sem abrir mão da criação Neste contexto é que em 2013 o grupo é convidado pela Ato Marketing Cultural para experimentar desenvolver um Planejamento Estratégico para o grupo Este nos conduziria a refletir como até então estamos nos organizando e sustentando nossos projetos e como pretendíamos a médio e longo prazo manter as ações do grupo A parceria é então firmada tendo mais diretamente a presença de Monique Cardoso que só depois passa a integrar efetivamente o grupo à frente dos trabalhos do planejamento Sobre a importância do planejamento ela nos narra a grosso modo se eu fosse dividir esse planejamento estratégico em etapas eu diria que ele começa num diagnóstico que passa inclusive pelas subjetividades pelos afetos pelos pelos desgastes pelos pelas conquistas e ele se estrutura num plano de ação que envolve todas as esferas desse desse negócio desse empreendimento é a comunicação é a infraestrutura projetos gestão financeira é enfim todas as as esferas que envolvem esse negócio é também pode haver um plano de captação de mobilização de parcerias dentro desse plano de ação né E e outras e outras coisas também outros procedimentos outras perspectivas podem surgir a partir desse plano de ação E por último é uma um monitoramento e avaliação desses resultados né É preciso estabelecer metas é prazos e meios de verificação pra que a gente possa ter um entendimento se aquelas se aqueles objetivos estão sendo alcançados se estão sendo alcançados dentro do prazo se estão sendo alcançados é dentro dos recursos disponíveis e planejados pra isso e isso é fundamental pra isso é fundamental durante esse processo de de criação conjunta desse plano de ação que sejam estabelecidas metas exequíveis metas realistas com um pouco de ousadia mas também considerando todos os fatores internos externos os contextos políticos econômicos para que também não se gere uma frustração diante dos planos CARDOSO 2020 O planejamento estratégico é um tanto e mais que Monique diz acima ele reverberou de forma potente em nossa organização pois quando ela chegou para desenvolvêlo nós já estávamos praticando alguns elementos que ele propõe tal como o organograma que já era bem definido respeitando as afinidades de cada umuma Através da aplicação de dinâmicasprocedimentos como narrar o histórico de vida e artístico projetar desejos internos desabafar insatisfações fomos a partir daí descobrindo onde estávamos situadosas enquanto produção e gestão de que forma estávamos fazendo nossos investimentos não só financeiro mas sobretudo na maneira de mover as bases sustentáveis do grupo e da casa 84 O planejamento é uma ferramenta de trabalho que deve ser analisada como um processo que vem para estruturar instituições e grupos mas atinge seus objetivos se for construído de forma participativa e envolvendo todas as partes O desenvolvimento coletivo de processos de planejamento é possível pela própria característica do ambiente de formação social dos vários setores da cultura CUNHA 2020 p 2 Como ferramenta o planejamento provoca e propicia uma sacudida na estrutura e permite que muita roupa suja seja lavada e é nesse processo que muitos ajustes de convívio e de trabalho são feitos envolvendo todosas pois nem sempre ocorre de conseguirmos abrir todas as questões e tensões que nos passa no dia a dia do grupo Como bem pontua acima Maria Helena Cunha o ambiente cultural é favorável para esse tipo de procedimento mas não são todos os grupos que de fato estão dispostos a retirar o pó que vai se acumulando E é preciso que se retire para que se construa minimamente um ambiente social de convívio fluido ético e com respeito às individualidades bem como à coletividade pois a autora outra vez nos aponta que O planejamento é um processo de reflexão em que os participantes se colocam como indivíduos e como grupo diante de todos É um processo de abertura para falar sem receio dos seus desejos de suas ideias e de suas questões A riqueza do processo de planejamento está na sua capacidade de ser participativo de levantar os desejos individuais que só fazem sentido quando são comuns a todas e a todos garantindo a cooperação e a incorporação do coletivo Precisamos estar dispostos e ter a liberdade para lidar com mudanças e aperfeiçoamentos constantes mediante os resultados das avaliações pois cada ação ou projeto desencadeia novas demandas que exigem respostas dos gestores e provocam uma contínua adaptação e reformulação do próprio planejamento CUNHA 2020 p 23 Assim elencamos pontos frágeis e fortes e através destes traçamos metas em diversas linhas infraestrutura da casa ninho temporadas do repertório circulações locais regionais e nacionais definição de funções projeções de quanto cada integrante desejava receber mensalmente do grupo Refletimos como se deram as escolhas de produção de todos os espetáculos até então montados selecionando os pontos positivos para aplicar em próximas montagens A experiência na realização dos planejamentos estratégicos nos faz sempre rever toda a trajetória do grupo até então o que nos permite atualizála e nos lança 85 questionamentos para repensar práticas nos fazendo por vezes ampliar horizontes e romper limites pois nos aponta onde estão os pontos fracos ao passo que revela os pontos fortes A partir dessa cartografia do cotidiano do grupo nos lançamos para o porvir como num movimento de repaginação não deixando escapar as oportunidades que nos chegam e também as que podemos construir pois não podemos deixar de considerar que o planejamento vem para ampliar as possibilidades de criação ao passo que organizamos os recursos financeiros humanos e técnicos É preciso lembrar ainda que planejar é estar disposto e disponível para escuta e mudança como já se espera da dinâmica grupal Esta prática ao tempo em que nos proporciona uma organização e nos possibilita projetar a sustentabilidademanutenção também nos desafia a sempre sentar novamente e replanejar se assim for necessário É sempre preciso estar atento e forte como diz a letra de Caetano e Gil para não perdermos em nenhum segundo as oportunidades de sermos e agirmos de modo tático e o planejamento nos potencializa nesse estado de prontidão Nessa busca de nós mesmos através do planejamento estratégico foi que se iluminou onde cada integrante do grupo estava mais focado internamente em termos de trabalho burocrático seja no âmbito da produção ou na gestão do grupo e da Casa Ninho Ao passo que cada umuma revelava em que encontrava satisfação dentro das demandas do grupo me parecia que o lado burocrático se tornava mais leve pois em verdade percebo que mesmo sendo complexo pensar essas questões bem como seu ato desperta para compreensão e consciência da importância que cada setor tem para a condução do grupo e sede Com isso o respeito pelo trabalho doa outroa se amplia e o que por hora era peso se transforma em prazer isso reflete diretamente nas relações de trabalho dentro e no avesso da cena como aponta os estudos de Avelar 2013 pois ainda que o dia a dia de grupo nos conduza por vezes à incerteza nos fazendo perder o fio coletivo é nessa hora que segundo Fiadeiro e Eugenio precisamos Suspender o regime da urgência criando as condições para uma abertura desarmada e responsável à emergência Substituir a expectativa pela espera a certeza pela confiança a queixa pelo empenho a acusação pela participação a rigidez pelo rigor o escape pela comparência a competição pela cooperação a eficiência pela suficiência o necessário pelo preciso o condicionamento pela condição o poder pela força o abuso pelo uso a manipulação pelo 86 manuseamento o descartar pelo reparar Reparar no que se tem fazer com o que se tem E acolher o que emerge como acontecimento Reencontrar naquela matéria simples e quotidiana em relação à qual aprendemos a nos insensibilizar a matéria da secalharidade reencontrar aí nesse comparecer recíproco toda uma multiplicidade de vias contingentes para abrir uma brecha Uma brecha para a re existência 2012 p 67 Mais uma vez recorro a João Fiadeiro e Fernanda Eugenio para pôr lupa na natureza incerta de um projeto coletivo que no caso brasileiro tais incertezas se aprofundam a nível perigoso pois como sabemos temos uma aguda ausência de políticas públicas para a arte e cultura em todos os níveis de nossa federação O que observo ainda que tenhamos esse lamentável corredor histórico enquanto promoção do fazer cultural como dever do estado é que ainda que nessa tempestade estando no meio dela nos reinventamos seguidamente para sair de tais incertezas para construir outras possibilidades de certeza através dessa célula de cultura que é o grupo de teatro nesse caso a certeza quer dizer resistência Neste ponto mais uma vez recorro a Ailton Krenak e este nos lança a pergunta De que lugar se projetam os paraquedas ele diz que é do espaço dos sonhos Sonho como ação geradora de onde olhamos para estas com a sensibilidade e o cuidado que olhamos para nós mesmos como Um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra dura o lugar do sonho Não o sonho comumente referenciado de quando se está cochilando ou que a gente banaliza mas que é uma experiência transcendente na qual o casulo do humano implode se abrindo para outras visões da vida não limitada O sonho como experiência de pessoas iniciadas numa tradição para sonhar 2019 p 66 Compreendo esse lugar dos sonhos de que nos fala Krenak como a ação de lançar paraquedas nessa dura realidade que vivemos como grupo porém estamos exercendo e movendo sonhoação que principia no que eu faço de mim que reverbera no outro no que fazemos de nós grupo e reverbera na sociedade fazendo disparar um movimento micropolítico que sem dúvidas tenciona os nossos entornos numa mudança dos estados duros Isso nos faz atentar para um não se render ao que é ditado pelas macropolíticas O grupo é então a materialidade de sonhos de um outro humano e sociedade possíveis Essa resposta pode ser encontrada no seu cotidiano e nos seus modos de se organizar como venho escrevendo até aqui que se desloca dessa forma que 87 temos enfrentado nos diferentes lugares de poder regidos em sobremaneira pelas gestões e instituições públicas Aqui Sâmia nos lembra de alguns projetos desenvolvidos pelo grupo que dão essa medida da materialização de sonhos em modos de fazer que ganham teia social uma micropolítica que se dá justamente por meio da transformação das oportunidades mínimas em táticas de sustentabilidade olhando pra história do Grupo Ninho esses doze anos a gente já conseguiu é aprovar vários projetos e executar vários projetos importantes é o primeiro projeto assim que eu lembro de de grande importância foi o projeto de de um curso livre de iniciação teatral né que eu pude fazer e desde aí o meu o meu contato com o Grupo Ninho ele aperta os laços eles apertam né que trazer vários profissionais do Nordeste é pra ministrar aulas pros artistas da região do Cariri tendo em vista que aqui é não assim a gente tem cursos é na tem curso de teatro na universidade mas quando você vai ver assim cursos mesmo de formação pros artistas da região nossa nossa região é muito carente Então o Grupo Ninho sempre é pensa em projetos que vão olhar pra pra sociedade né que que vão olhar pros artistas da região que vão olhar pras pras pessoas É então a gente consegue ver aí na nesses doze anos é projetos que sempre olharam né assim que as pessoas puderam ter contato puderam aproveitar Por exemplo o Sessão Dupla que é eu eu escuto muito falar desse projeto que eu acho encantador que é você circular com dois espetáculos olha que loucura circular com dois espetáculos por escolas por lugares inimagináveis assim com condições mínimas de se apresentar e iam lá apresentavam Lembro também de um projeto que que nós fomos aprovados da Petrobrás que a gente ia em lugares assim que não tinham nada fomos numa escolinha que não tinha nada levamos nossos refletores e apresentamos o Avental pra uma escola e pra pra pessoas que várias nunca tinham assistido um espetáculo teatral ai me emocionei desculpa É então e eu fui privilegiada por um projeto do Grupo Ninho né é então eu vejo a importância desses projetos é a forma como eles são pensados e executados Agora a gente tá com um projeto que é a Escola Carpintaria da Cena que você tem sete é módulos de artes cênicas de teatro e sete módulos com mestres e mestras da cultura popular do Cariri que as pessoas têm oportunidade de ver e ouvir é de fazer coisas de criar né você depois que passa por um um projeto tão extenso o quanto de material que você tem no seu corpo então os projetos do do Grupo Ninho eles são é muito importantes pra região do Cariri pra nós pra nós que fazemos o Grupo Ninho é sempre que a gente pensa num num num projeto é é pensando também nos desdobramentos que eles vão vão ter sabe RAMARE 2020 Ser grupo nessa perspectiva da resistência e reinvenção é desafiador cujo desafio se faz e desfaz a todo instante numa gangorra pois ser grupo sendo grupo é entrega de poucosas já que ser grupo nos impõe desconstruções e estas pedem 88 que olhemos para dentro de nós em um constante giro de nos repensarmos individual e coletivamente Essa atitude é cara para muitosas porém geradora de possibilidades transformadoras para os que corajosamente caminham em direção a ela fazer girar em movimento oposto ao que nos mina as forças Aqui me refiro a Eugênio Barba 1994 quando nos diz que pensamos constantemente que ser um grupo de teatro pressupõe uma unidade gerada pela semelhança de seussuas integrantes quando em verdade buscase uma reciprocidade de pares através das diferenças equacionadas de maneira equilibrada entres estes E no Ninho somos muito diversos pássaros que agregam diferente olhares e posicionamento na arte e na vida nascidos numa escada temporal que vem dos anos 60 70 80 e 90 o que nos permite uma mistura em muitas frentes que nos imprime força para se mover e gerar Ninhos no Ninho A construção de um Ninho em suas pequenas particularidades se faz com a junção de pequenos ramos que em muitos voos se compõe em ninho Nesses voos em suas idas e vindas ao local escolhido os passarinhos aqui artistas foram amadurecendo a feitura do que aqui partilho como uma experiência diante de tantos outros ramos e ninhos e locais escolhidos para fazer gerar teatros espalhados pelo mundo Em seguida nos próximos subcapítulos adentro nos cômodos da Casa Ninho e escrevo sobre estes como se fosse uma das muitas visitas que recebemos na casa para falar sobre a existência dela 24 A casa em movimento Neste momento descortino para oa leitora o dia a dia de trabalho na Casa Ninho como nos organizamos para gerir e produzir a sede do grupo em sua dinâmica como espaço cultural Como venho apontando as ações táticas de pronto registro da Casa Ninho como sede são uma tática do grupo Ela é espaço de expansão extensão e também de pedagogia na medida que nos impulsiona a aprofundar as práticas de gestão e produção artística e de projetos No entendimento de Certeau 1998 o espaço está para as construções de deslocamento e agenciamentos de modos diferentes de agir no cotidiano criando espaços nos lugares de poder ou seja agindo como desordenamento do que o poder impõe estando para isso oportunamente dentro dele 89 Figura 12 Casa Ninho em temporada com a Alysson Amâncio Cia de Dança Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Ao nos lançarmos em 2011 para viver a experiência de manter uma sede não tínhamos a noção ampla do que estava por trás dessa escolha mas ao passo que fomos vivenciando um mundo foi sendo revelado e junto com ele vieram as dificuldades desafios e aprendizados como nos detalha essa fala a casa ninho é aconteceu em 2011 uma necessidade que a gente já sentia mesmo tendo poucos anos de existência três anos de existência Pra mim a princípio eu acreditava que ia ser um lugar onde a gente ia guardar os nossos troços e onde a gente ia ensaiar não ia mais precisar ficar dependendo de outros espaços e passando por sufocos que a gente já tinha passado em muitas instituições de ter marcado pauta pra ensaiar porque tinha apresentação no dia seguinte e precisava ensaiar e chegar e essa pauta ter sido desmarcada sem ser nem avisado nem nada enfim né essa 90 situação que a gente já conhece bem Pra mim eu achava que ia ser isso e ao mesmo tempo também que isso pra mim era um alivio só isso pra mim era um alivio um lugar pra guardar a troçada e um lugar pra poder ensaiar tranquilos Ao mesmo tempo pra mim também era assustador ter que gerenciar esse espaço e que eu achava que ia ser uma coisa pequena né olhando hoje assim olhando pra trás isso que eu imaginava que a casa ninho seria era muito pequeno E mesmo assim mesmo sendo algo pequeno eu tinha muito medo quando a gente aprovou eu acho que sofri mais do que eu me alegrei quando a gente aprovou o projeto que deu a possibilidade da gente alugar um espaço E aí com o passar do tempo eu fui descobrindo um outro mundo de possibilidades Primeiro tem um parênteses aí que na mesma época em que a gente inaugurou a Casa Ninho eu tinha passado numa seleção do Sesc e eu tinha meio que optar ou viver a casa ninho cem por cento ou ir pro Sesc e viver a Casa Ninho no máximo cinquenta por cento porque eu sabia o que era o trabalho do Sesc principalmente por causa de Edceu que teve lá no início de Avental teve que sair inclusive de Avental achava que ia sair de vez por conta do trabalho do Sesc das exigências de disponibilidade pro Sesc Então eu sabia muito bem o que era E aí eu fiz a opção de viver a Casa Ninho cem por cento e não me arrependo de jeito nenhum e então tendo feito essa opção eu vivia diariamente dentro daquele espaço e aí eu fui percebendo que ele era muitas outras coisas muitas muitas mesmo do que eu imaginava a princípio E aí foi se tornando um lugar onde a gente podia apresentar também não só ensaiar foi se tornando um lugar pra outras pessoas pros outros artistas pros outros coletivos Foi se tornando um lugar pras outras linguagens foi se tornando um lugar pro público foi crescendo foi ampliando o trabalho foi aumentando e as possibilidades de retorno também E aí hoje eu vejo como um espaço incrível que a gente consegue manter as duras penas mas que é muito saudável ter esse espaço pra todo mundo pra nós artistas pra nós do Ninho principalmente pra nós artistas mais especial ainda é claro pro público pra quem nunca nem pisa na casa ninho ela continua tendo importância pra quem não sabe nem que ela existe ela tem uma importância muito grande CIDADE 2020 Por tudo que Rita nos diz penso que empreender um espaço artístico no Brasil e mais especificamente no interior do Ceará é antes de tudo um gesto político cultural justamente pela falta de uma política pública que se volte para a valorização das artes no Brasil Quando esse cenário se dá em regiões à margem as dificuldades se ampliam ainda mais pois sabemos que existe uma valorização maior para determinados centros geográficos É certo dizer que esse discurso parece passado dada a abertura mínima dos últimos anos para regiões historicamente desfavorecidas mas quem vive a realidade diretamente sente essa dificuldade de que as ações ainda que pontuais cheguem até aquelesas que não estão em centros que podemos ler também como centros de poder 91 É um fato que a região nordeste do Brasil sofre por décadas uma profunda ausência de investimentos quando se trata do campo da cultura esta se aprofunda ainda mais nos revelando um quadro em que muitos grupos artísticos acabam por encerrar suas atividades dada a tamanha escassez de recursos públicos em suas três esferas para projetos artísticos culturais Entretanto a despeito dessas dificuldades mora a resistência e a reinvenção estes são uns dos combustíveis para que experiências de grupos com trabalho continuado consigam romper as barreiras impostas pela ausência de políticas públicas para cultura geografia e economia e seguir construindo significativas experiências de artecultura Assim contribuem para que cidades de médio e pequeno porte tenham acesso à arte configurando um mapa de verdadeiros agentes culturais do país fazendo das dificuldades desafios para se reinventar e seguir no ofício de fomentar arte por todos os cantos país afora pois cultura é sempre viva e brota em todos os terrenos que tenham gente cultivandoa gente cultura é o que alimenta nossa alma é o que enche os nosso bucho minha gente assim nos diz a sabedoria de Mestre Raimundo Aniceto e me leva a pensar nessas sustentabilidades que se constroem a partir de outras centralidades tão batalhadas para se manterem na gira Sustentabilidade somos todas e todos nós assim todos os dias a gente tá pensando de como se manter em pé Tem uma uma frase que eu acho incrível que é o desafio é manterse de pé e é mesmo é mesmo porque é a gente na semana tem oito dias e a gente trabalha esses oito dias não tem feriado não tem final de semana não tem datas comemorativas até nos nossos próprios aniversários estamos trabalhando estamos pensando tanto a sustentabilidade desse grupo a sustentabilidade de cada um e cada uma de nós quanto a sustentabilidade da Casa Ninho Então é todo mundo se pegando se pegando no no sentido de dar as mãos pra manter isso de pé mesmo sabe É desde limpar a Casa Ninho até vender os ingressos desde escrever um projeto até postar ele no no correio desde lidar com todas as situações é burocráticas que as instituições nos colocam E nos colocam no sentido de às vezes é as vezes como prova mesmo sabe E aí a gente tem que ser artista tem que ser burocrata tem que ser uma multiplicidade de coisas em uma só pessoa RAMARE 2020 Na cidade de Crato o Grupo Ninho de Teatro vive a realidade que cabe à cidade enfrentando dificuldades várias para conseguir manter seu projeto de grupo e de sede de pé mas como já dito é da dificuldade que brotam possibilidades de expandirse fazer brotar driblar obstáculos é no desequilíbrio que encontramos um 92 eixo que ajuda a nos equilibrar do precário surgem descobertas Digo isso mas compreendo que tudo que Sâmia partilha acima como realidade que nós recriamos poderia ser equilibrado se o estado cumprisse seu papel na promoção de políticas que gerassem cidadania cultural para artistas fazedores e as gentes todas Desde a abertura da Casa Ninho intencionávamos que ela não fosse apenas uma sede para um grupo só isso seria fugir daquilo que um espaço cultural deve ser aberto a ocupação criação fruição em fluxo com o território Assim sedimentada como espaço de trabalhos administrativos criativos e pedagógicos a casa segue sendo arrumada para acolher ao Ninho e aninhar outros tantos coletivos e artistas que queiram ocupála Tem sido assim ao longo de seus nove anos através de uma organização simples de pauta o espaço é compartilhado com quem queira ocupar seguindo pequenos acertos que se estruturam como uma administração e política de pautas e hoje a gente consegue ter nossa pauta organizada por exemplo tem as taxas que as pessoas contribuem o nosso ingresso é bem popular né assim a gente tem um programa desde 2014 que chama PQP Pague Quanto Puder então alguns espetáculos dos grupos que compõem fazem a gestão da Casa Ninho você pode assistir desde não pagar nada até pagar o valor que você puder né Os espetáculos que fazem temporadas na Casa Ninho sempre são a preços populares é a gente faz de tudo pras pessoas assistirem mesmo os espetáculos até porque na cidade não tem um espaço é de formação e fruição público né assim os teatros da cidade do Crato estão fechados é a gente fica muito triste com isso e a gente vê a importância é da existência da Casa Ninho né ela ela ultrapassa esse lugar privado RAMARE 2020 Quando a atividade não tem cobrança de ingressos o pagamento da pauta pode ser feito em forma de doação de produtos de limpeza e descartáveis que são usados para a própria manutenção da casa ou uma taxa que cubra os custos de consumo de energia elétrica água e internet Essas possibilidades de contribuição com a casa foram sendo construídas a partir de diálogos internos do grupo pois refletimos sempre o quanto as instituições geram burocracias para uma simples liberação de espaço com isso sempre buscamos simplificar ao máximo as relações com aqueles gruposartistas que procuram a Casa Ninho para realização de ensaios reuniões temporadas ou eventos artísticos diversos Nesse tempo de nove anos o Grupo Ninho e seus oito integrantes foram aprendendo como gerir um espaço que requer tantos cuidados estes são variados 93 passando pela limpeza burocracia de contabilidade pagamento de contas manutenção da estrutura física e equipamentos etc Não é uma equação fácil mas temos conseguido numa sempre reinvenção estruturar uma forma de produzir e gerir a Casa Ninho Essa equação para chegar num resultado precisa de muito trabalho em conjunto e de muito estudo como já venho pontuando até aqui o grupo soma suas expertises e aposta sempre na construção de espaços de trocas e parcerias sejam internas ou externas A Ato Marketing e Produção Cultural é um exemplo de parceria que tem ao longo desses anos contribuído para o gerenciamento de projetos maiores que o grupo desenvolve como já disse fomos construindo um método de trabalho em que o grupo é completamente inserido nos processos e decisões dos projetos isso tem se estabelecido como um fecundo espaço de aprendizagem e amadurecimento dos processos de produção e de gestão pois a Ato enquanto produtora com experiência de anos na área está sempre reciclando os métodos de gestão de projetos Figura 13 Casa Ninho após reforma Fonte Fotógrafo Samuel Macedo A Casa Ninho tornouse um espaço de alimento das artes cênicas sobretudo para as cidades centrais do Cariri o que conhecemos por CraJuBar Crato Juazeiro do Norte e Barbalha essas cidades têm limites territoriais mínimos sendo forte o fluxo entre elas Pela localização da casa o acesso do público é facilitado pois temos ao lado um terminal de ônibus o que torna mais acessível às pessoas que se 94 deslocam dessas outras cidades ou mesmo de bairros mais afastados do centro Sobre ser alimento para as artes cênicas e público em geral seja através da promoção ou da recepção Fagner complementa eu vou falar sob duas perspectivas da Casa Ninho primeiro enquanto público e segundo enquanto integrante da Casa Eu não sei dizer qual foi a primeira vez que eu fui à Casa Ninho que eu conheci a Casa Mas eu sei que eu frequentei os eventos da Casa desde de o princípio E no início foi por conta mesmo da relação de paixão pelo trabalho do Grupo Ninho mas depois foi porque a Casa se se transformou pra mim num lugar onde eu podia vivenciar a arte num lugar que me oferecia oportunidades que outros lugares não me ofereciam É pelo menos não da mesma forma né não com o mesmo aconchego receptividade é e que ao longo dos anos foi construindo em mim a sensação de fazer parte de alguma forma Esse sentimento de casa mesmo sabe Como o próprio nome do espaço já diz Se a Casa Ninho tivesse outro nome ainda assim ela não ia deixar de ser ninho de ser casa que é até meio redundante né mas é porque isso diz muito do que ela representa e eu tenho certeza que não é só pra mim Então são alguns anos enquanto sendo público sendo espectador dos eventos que acontecem na Casa E há um ano e meio né fazendo parte enquanto trabalhador mesmo do espaço É e parar pra olhar pra o que aconteceu em todo esse tempo refletir as vivências que a Casa Ninho me proporcionou me revela muita coisa Inclusive sobre quem eu sou hoje né porque porque se às vezes é a gente assiste a um espetáculo e sai provocado cheio de sensações né s ou seja aquele espetáculo ele teve um impacto na nossa vida por aí se pode calcular o que representa pra mim ter um espaço cultural próximo onde eu tenho a oportunidade de acompanhar de frequentar a programação cotidianamente ao longo de anos É o que eu vivi na Casa Ninho por exemplo tá muito mais nítido na minha memória é do que o que eu vi e ouvi enquanto conteúdo na escola por exemplo É esse é o o poder da arte né do teatro Ele ele pode ser muito mais transformador do que o ensino formal né FERNANDES 2020 Nessa fala Fagner aponta para o quanto a casa vem se estabelecendo como espaço de respiro para as artes cênicas do eixo central do Cariri sobretudo para a cidade de Crato que não tem nenhum teatro nem espaço alternativo mantidos pelo poder público A casa se torna assim um Ninho que acolhe o máximo que consegue os artistas principalmente das cênicas E para isso tem muita coisa que é mobilizada do ponto de vista de um trabalhador da Casa Ninho quando eu entrei no Grupo Ninho eu já eu já olhava pra Casa com um respeito muito grande né exatamente por conta dessa relação anterior que eu acabei de de falar um pouco E eu lembro que num num dos meus primeiros expedientes na Casa não lembro se foi o primeiro ou o segundo expediente eu tava sozinho varrendo o salão e teve uma 95 hora que eu parei assim no meio do salão e fiquei olhando o espaço e me vieram muitas sensações do tipo caramba não acredito que eu tô fazendo parte desse lugar né Que responsabilidade mas também que presente É saber saber que naquela tarde de terça feira a Casa tinha sido aberta por mim tava sendo varrida e cuidada por mim ia ser fechada por mim ao final do expediente E também a partir dali isso foi cada vez mais frequente e eu pude ir contribuindo efetivamente com a Casa Ninho né através do meu trabalho E e é uma relação de troca porque eu contribuo com a Casa mas eu recebo um aprendizado muito grande a partir disso Se antes como público eu já aprendia agora eu aprendo muito mais e tenho a oportunidade de crescer muito mais na vida mesmo em diversos aspectos a partir da minha atuação na gestão da Casa Ninho E de fato é muita responsabilidade é muito desafiador mas é necessário sabe Não tem como olhar pra Casa Ninho sem dizer que é um espaço necessário É a existência da Casa Ninho ela é fundamental porque da mesma maneira que ela me trouxe outro olhar pra vida outra forma de me colocar no mundo ela também tem feito isso com com mais uma ruma de gente e e isso só é possível claro porque tem toda uma equipe de profissionais de funcionárias e funcionários trabalhando diariamente ralando muito pra fazer esse espaço existir dia a dia FERNANDES 2020 Essa mobilização de que falo pode ser compreendida em dois momentos nas falas de Fagner num primeiro momento como espectador e em seguida como integrante do Ninho e portanto gestor da Casa Mobilizar no nosso caso passa pelas funções de cada membro do grupo dentro desse espaço estas foram sendo afinadas ao longo desses doze anos de grupo e nove de casa Hoje percebemos que cada integrante se dedica dentro da área que tem prazer e habilidade Por exercitarmos a autogestão e não termos recursos que nos assegure pagamentos fixos compreendemos a importância de cada umuma exercer as funções que lhes dê prazer e desperte o desejo por praticálas Como uma casaninho habitada por um núcleo família artistas as relações dessesas moradoresaspassarinhos passam por tensões necessárias mas estas evidenciam fatores que têm sua importância para a construção do cuidar de um espaço pois Todo mundo acaba assumindo alguma coisa de técnica dentro do grupo e ainda questões de produção do financeiro então é um modelo bem particular de administração mesmo Até hoje eu não vi isso em nenhum outro âmbito É interessante conversar com o contador que faz esses serviços para gente e perceber que pra ele isso é totalmente inusitado nenhuma outra empresa das muitas empresas no mínimo umas duzentas empresas que ele ajuda a administrar e nenhuma tem modelo parecido com o nosso aí a gente 96 sabe que os outros grupos de teatro tem No caso dele é porque ele só ajuda a administrar na contabilidade de um grupo de teatro então é isso a gente acaba também dentro das funções se ajudando Na produção é uma delas alguns assumem mais outros vão ajudando com as experiências que vão percebendo A gente também se permite vivenciar o trabalho como artista em outros lugares que não só no Grupo Ninho e aí a gente vai trazendo também as experiências de outros lugares pra dentro do grupo principalmente do ponto de vista da produção vai percebendo como é que os outros se produzem e vai compartilhando essas experiências Fora as oportunidades de compartilhar com outros grupos de teatro seja pessoalmente no contato com esses outros grupos seja grupos locais ou sejam grupos de outras cidades outros estados e até de outras regiões do país ou pela leitura de experiências de outros grupos CIDADE 2019 Acima Rita Cidade nos ilustra como acontece a dinâmica das funções de forma que percebemos que cada um se dedica a uma área mas todos se ajudam A própria Rita tem se dedicado a supervisionar as escritas de projetos seja no aspecto da escrita ou mesmo em pensar a unidade e coerência dos mesmos Sâmia Ramare se dedica à gestão financeira e produção executiva junto à Joaquina Carlos Elizieldon Dantas foca muito na função de ver como está a manutenção da estrutura física da casa desde a construção de mezanino para acomodação de cenários troca de lâmpadas queimadas fixação de placa de sinalização na entrada e também do material técnico de iluminação da casa pois está de forma direta nas montagens de luz dos espetáculos do grupo ou de outros que estejam apresentando na casa Francisco Francieudes além de compartilhar com Elizieldon todas as demandas citadas assume a gestão de projetos com foco nos sistemas e questões jurídicas Monique Cardoso se dedica às metodologias de produção e de gestão bem como em aplicar o planejamento estratégico periodicamente e monitorar o cumprimento das metas estabelecidas Fagner Fernandes tem exercitado a escrita de projeto e a gestão de comunicação do grupo criando conteúdo para as mídias digitais Eu tenho me dedicado à área da produçãogestão do grupo estabelecendo relações e contatos com instituições grupos e artistas para parcerias com o grupo e a casa pensando táticas de sustentabilidade organizando inscrições em editais de incentivo As práticas dessas funções e suas misturas são potencializadas pelas formações acadêmicas bem variadas também é Biblioteconomia História Letras Pedagogia Marketing Artes Visuais Direito e Teatro isso permite uma mistura de ideias de conceitos amplia as possibilidades de criação de trocas FERNANDES 2020 97 Acima faço uma descrição de funções por entender que soma à leitura dessa escrita ademais reitero que exercitamos todas essas misturadas e em rotatividade por isso dialogo com Ernani Maletta para dizer que somos artistas polifônicos ao exercermos as funções de atoratriz produtora gestora Como já dito as táticas que o grupo foi construindo para produzirgerir certamente devem existir em outras práticas de grupos mas que para esta pesquisa não busquei estabelecer esses comparativos Acredito que em um comparativo deste estudo certamente encontraremos outros coletivos que vivam experiências parecidas Se pensarmos a região do Cariri ou mesmo Ceará teremos grupos que definem uma integrante que assume a função de produção Nossa experiência é uma espécie de trabalho em rede e polifônico ninguém fica aquém do que acontece ainda que exista um que assuma diretamente todosas em alguma medida contribuem para a efetivação das demandas Por vezes essa forma de gerir causa morosidade mas sua grande valia está no quanto amadurecemos as decisões a serem tomadas no quanto nos encorajamos a assumir potencialidades deixando o lugar de passividade nos colocando ativamente como peças importantes para o crescimento do coletivo Isso certamente desperta o olhar crítico e cuidadoso de cada uma dosas integrantes é uma forma de gerir e produzir que rompe com a lógica mais voltada para o mercado sem que deixemos de ser também Ocorre neste processo todo um despertar para a desalienação do trabalho posto que cada umuma sabe de cada passo dado para que as ações se tornem efetivas Para que a Casa Ninho se mantenha aberta ao público ao longo da semana o grupo criou uma escala em que para cada dia uma integrante abre a casa para o atendimento ao público geral e também para as ações internas quando pautadas Esse revezamento mantém a casa aberta para receber o público durante toda a semana favorecendo desse modo um intervalo para cada umuma assumir outras atividades De segunda a sábado das quinze as dezoito horas a casa fica aberta e cada integrante deve fazer uma limpeza do espaço Além desse dia de limpeza feita por cada um no seu dia de trabalho é também pensado um dia para limpeza geral do espaço para este dia todosas integrantes pensam um dia comum em que todosas possam colaborar 98 A segundafeira é outro dia coletivo em que todosas se reúnem para pensar a produção e a gestão Aqui são deliberadas questões que passam por financeiro ocupação da casa via solicitações de pauta produção dos espetáculos dialogar sobre a contabilidade da associação verificar quais editais estão com inscrições abertas parcerias projetos em desenvolvimento e toda e qualquer questão que algum membro do grupo queira discutir Outro dia fixo de trabalho é a sextafeira reservada para que o grupo faça treinamentos e trabalhos criativos Este dia foi pensado como uma forma do grupo não ficar só focado nas demandas burocráticas gerando assim um equilíbrio importante nas relações entre criação e gestãoprodução Neste dia agendamos os encontros dos processos de montagem e pesquisas os treinamentos são voltados para a corporeidade atmosfera que está se desenhando para o espetáculo mas a base desse treinamento tem forte presença dos princípios de energia e presença que experimentamos com o Lume Teatro o corpo estado de alma trabalho com camadas para sair do eixo central despertar o abdômen para a geração e controle de energia para então gerar o estado de presença O grupo também tem como treinamento os brinquedos populares dança do coco maneiro o pau jogo de espadas dança cabaçal A Casa Ninho e o Grupo Ninho de Teatro hoje são administrados juridicamente pela Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas De natureza privada sem fins lucrativos a associação tece todas as questões burocráticas da casa e do grupo sendo ainda um suporte para as ações de formação oferecidas pelo grupo casa Ela está estruturada numa mesa diretora que tem as funções de presidente vicepresidente coordenadora financeira secretário e segundasecretária tais funções são assumidas pelos membros do grupo que mais uma vez se multiplicam em funções Essa dinâmica gera uma formação multifacetada para osas integrantes do grupo que acabam experimentando o campo artístico criativo e também o lado burocrático da produção e da gestão que uma experiência de grupo exige essas diferenças elas se somam assim num formam um bolo bem interessante é que que aflora aí uma potência não só no campo criativo mas também na parte de produção de gestão é a gente tá sempre discutindo conversando refletindo é até chegar em em um entendimento seja pra pra criar uma cena um produto artístico seja pra pensar um projeto seja pra articular algo de gestão voltado pro grupo ou pra Casa E é isso eu acho que que essa 99 essa diversidade que a gente tem de integrantes ela gera uma potência é muito bom pro grupo FRANCIEUDES 2020 Dessa diversidade dita por Francisco brotam as ideias que se transformam em programas ações e projetos para manter a casa e o grupo em dinâmica O grupo cria projetos fixos para acontecerem na casa esses às vezes se dão através de parcerias com outras instituições ou são de iniciativa do próprio grupocasa Projetos como Dia dDramaturgia PQP pague quanto puder CineNinho Mostra de Repertório do Grupo Ninho de Teatro Escola Carpintaria da Cena formação livre em teatro e tradição sobre este aprofundo adiante são projetos fixos que acontecem uns com continuidade outros com edições alternadas ou anuais Figura 14 Casa Ninho evento Chá com Clarice Fonte Fotógrafo Edceu Barboza Esses projetos somados a outros que são aprovados em editais de incentivo bem como as parcerias com algumas instituições como Sesc Universidade Federal do Cariri UFCA Centro Cultural BNB e ainda a venda dos espetáculos do repertório do grupo participação em festivais circulações regionais e nacionais são ações que geram a sustentabilidade financeira do grupo 100 Figura 15 Nova estrutura de iluminação da Casa Ninho Fonte Edceu Barboza Nestes doze anos o grupo foi conseguindo pensar formas de gerar fundos para ir conseguindo manter seu projeto de gruposede A jornada não é fácil pois cada mês é um recomeço nos mantendo atentos para estarmos sempre pensando previsivelmente táticas que gerem entrada de recursos bem como a reserva e melhor administração destes pois como nos diz Certeau a tática depende do tempo vigiando para captar no voo possibilidades de ganho O que ela ganha não o guarda Tem constantemente que jogar com os acontecimentos para transformar em ocasiões Sem cessar o fraco deve tirar partido de forças que lhe são estranhas CERTEAU 1998 p 47 Captar no voo para coletivamente se reinventar ainda que exista um cenário que nos imponha inúmeras dificuldades Sabendo disso buscamos força na noção de grupo que compreende sua função social e política operando estas através da linguagem teatral numa criação de sustentabilidade que passa antes de tudo por 101 nossas subjetividades e como nos colocamos em gerúndios na relação com tudo que nos cerca logo Sustentabilidade olhando pra nós pra mim é suor é suor é poeira é pó é teia de aranha é peso é estrada é privações é saudade é tudo isso misturado porque somos nós que sustentamos né acho que essa é uma realidade de todos os grupos do Brasil ou de quase todos talvez de todos ou quase todos da América Latina E não consigo ir além dessa fronteira não consigo pensar além dela não consigo entender como são os grupo na Europa por exemplo mas enfim a nossa realidade é muito parecida com a realidade de muitos outros grupos dos que a gente conhece dos que a gente se espelha dos nossos amigos e amigas é quem sustenta somos nós né e vai ser sempre nós porque ainda que a gente tenha parcerias ainda que a gente tenha convênios vai ser sempre nós vai ser sempre o nosso trabalho que vai sustentar esse projeto então é dessa forma que eu vejo CIDADE 2020 Contudo o grupo tem caminhado com a teimosia o suor o pó as estradas de quem acredita que o desejo de ser faz as coisas se moverem ser artista em contextos adversos ser resistente para romper as inúmeras dificuldades ser ético para crescer sem ferir o projeto coletivo E ainda seguir acreditando na grande força que arte tem na relação com a sociedade e suas possibilidades de melhorála 25 Como nascem os projetos A Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição O projeto da Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição é aqui partilhado para compreensão de como se estrutura esse projeto que também evoca a prática pedagógica do grupo e possibilita ao leitora o entendimento de como estruturamos político filosófico e pedagogicamente a escola bem como um projeto Despertadosas por toda a pesquisa que foi o Poeira e o quanto este ecoa ainda em nós a partir desse atravessamento afeto encontro com a tradição popular com as mestras e mestres e essa descoberta de que nós temos uma identidade cultural um território um pertencimento e uma memória que está aqui nós pensamos no projeto da Escola Carpintaria da Cena formação livre em teatro e tradição Como que o ator e a atriz no geral acessa à formação A formação base a formação técnica as primeiras oficinas no geral são acessadas a partir dosas pesquisadoresas teóricosas mestresas do teatro 102 europeu A partir dessa percepção começamos a refletir pedagogicamente inspirado em tudo o que foi o Poeira e problematizamos mais uma vez será se não é o momento já que a gente passou por todo esse processo do Poeira de pensar uma formação do ator e da atriz que tenha o Cariri como referência que tenha a tradição popular como uma referência de criação vocal corporal energia presença E foi com essas perguntas que pensamos que juntar a linguagem do teatro com a da tradição popular provocaria noa atoratriz pesquisadora participante o estabelecer de dois mundos A formação seria a construção coletiva de pontes gerando entremundos do teatro com a tradição sem jamais hierarquizar um ou outro O que seria o entremundos É a mistura da linguagem do teatro com a tradição que vai gerar esse entre E esse entre é uma descoberta doa pesquisador doa atoratriz a partir do despertar do olhar para a percepção do quanto essas linguagens dialogam e do quanto os fundamentos do teatro estão presentes na tradição popular e o contrário Essa percepção deve acontecer de forma autônoma e vivencial ou seja não deve existir uma imposição de nenhum dos mundos o aprendizado se faz no entre O pensamento pedagógico filosófico políticopoéticoestético da Escola Carpintaria da Cena é exatamente o que escrevo acima ele passa também pela decolonialidade pensar a formação doa atoratriz a partir do mundoterritório em que estes vivem articulando um programa que esteja relacionado às suas matrizes culturais e territoriais e com esse pertencimento ampliar o repertório na relação com outros mundos Então a escola tem no Cariri cearense e sua tradição popular a referência para repensar a formação doa atoratriz Deste pensamento nasce a Escola Carpintaria da Cena sua organização se dá a partir de quatorze módulos destes sete são de poéticas diversas de artistas professoresas e pesquisadoresas da cena e sete mestras e mestres da tradição popular de várias manifestações Lapinha Reisado ManeiroPau Jogo de Espadas Nesses módulos de 20ha cada osas pesquisadoresas vão percebendo no corpo o que na dança do Reisado gera no corpo que nos treinamentos teatrais também despertam mas por outros métodos A energia e a presença que o Jogo de Espadas gera no corpo é uma energia e presença que são buscadas quando realizamos um treinamento corporal na sala de ensaio dentro dos treinos da linguagem teatral 103 Então começa o corpo a entender o entre o que tem de teatro na tradição e tem da tradição no teatro e a relação nunca é de desmedida enquanto linguagem elas se retroalimentam o tempo inteiro sem se negar A tradição alimenta o teatro o teatro alimenta a tradição no caso pensando osas pesquisadoresas dentro desse processo Estes vão vivenciando esses 14 módulos que acontecem no espaço da Casa Ninho e também nos terreiros dosdas mestres e mestras como mais uma camada de aprendizagem da escola que passa pela vivência antropológica do território A Escola Carpintaria da Cena é fruto dessa pesquisa que começa em 2014 na Escola Porto Iracema das Artes e que gera o espetáculo Poeira Esse projeto de escola é resultado de todas essas questões até aqui postas e de toda experiência que o grupo viveu Observamos como um projeto se bem definido enquanto objeto e métodos de desenvolvêlo pode revelarse potente e se desdobrar em variados microprojetos ou mesmo provocar ramificações como é o caso da escola O Grupo tem estabelecido essa prática quando pensa em seus projetos pensar o rio e suas margens para construir uma terceira tendo antes vivido as beiras São várias veias de um rio que não para de correr porque está sempre em transformação e vai nos possibilitando outras veias A gente entra no rio para pesquisar pega um desvio como tática para montar um espetáculo e mais outro para criar uma escola Dentro do cotidiano de grupo tudo que temos estudado problematizado a partir da pesquisa que gerou o Poeira e a Escola Carpintaria tem amadurecido muito o nosso olhar para refletir a partir de nossos espaços e nossas presenças nestes Do chão do Cariri olhamos para outros mundos sem negar quem somos ainda que sejamos sujeitos globalizadosas conectadosas o tempo inteiro podendo acessar virtualmente culturas diversas e é importante saber de outras manifestações culturais comportamentais de outros territórios inclusive do próprio Brasil que é imenso mas sem negar quem nós somos sem negar que nós estamos no Cariri E o Cariri tem sua força tem sua potência tem sua cultura tem um legado ancestral tem uma história e uma memória que está em nós pulsando o tempo inteiro São esses caminhos que nos levam a uma revisão histórica a partir de nossos modos de fazer como teatro de grupo a partir das táticas que nos possibilitam dar contragolpes nos muitos golpes que estamos recebendo no Brasil de forma aguda nos últimos cinco anos A partir da partilha de todo o caminho que faz nascer o projeto 104 de escola e por tudo que ela tem possibilitado para a sustentabilidade do grupo se faz importante ainda que tenhamos esse cenário que apostemos em construir saídas cotidianas que nesta escrita em diálogo direto com Michel de Certeau defendo como táticas O projeto de escola foi aprovado no Edital Escolas da Cultura da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará o mesmo tem subsídio por três anos e com estes conseguimos mobilizar toda uma cadeia produtiva que envolve em média cento e trinta pessoas entre núcleos de gestão financeiro pedagógico produção comunicação logística e asos pesquisadoresas participantes que em cada turmaano somam vinte e cinco Com isso vejo como saída a criação de teias colaborativas sejam essas internas ou externas A interna se constrói a partir das habilidades de cada umuma dosas integrantes do grupo na medida que este coloca saber fazer para mover o grupo Assim a teia se fortifica de repente temos umuma que escreve projetos outroa que lida bem com sistemas e organiza as finanças outroa tem facilidade para falar em público podendo representar o grupo em reuniões para busca de parcerias e podemos ainda ter umuma que faz edição de vídeosfotos o que pode criar os registros do grupo alguém com domínio jurídico que pode salvaguardar o grupo em situações contratuais Externamente essa teia pode ser construída com o que chamamos de nossos pares aquelesas que tendo uma relação com o grupo e tendo domínio técnico em algo pode colaborar e em troca ter alguém do grupo como colaboradora nos projetos de seu grupo ou espaços Tudo isso é moverse como teatro de grupo de maneira tática atentosas ao tempo para fazer o melhor voo 105 CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta dissertação situou oa leitora sobre quem sou pois me fiz objeto e sujeito dessa escrita e a partir desse posicionamento escrevi sobre teatro de grupo Grupo Ninho de Teatro e seus modos de praticar gestão e produção teatral Ser narrador e costurarescrever as narrativas dosas demais integrantes do Grupo Ninho de teatro me permitiu articular conhecimentos a partir da realidade experimentada por essesas fazedoresas O olhar foi o de dentro por isso a metodologia da História Oral foi de suma importância para desenvolver essa pesquisa já que ela me possibilitou ampliar vozes e mais uma vez me permitiu articular conhecimentos a partir sobretudo de quem os produz enquanto experiência Nesse sentido compreendi que as noções de grupalidade foram sendo amadurecidas conforme a caminhada do grupo Olhar por dentro da pesquisa e do grupo me permitiu perceber as microrrelações estabelecidas e como essas potencializaram a experiência que como objeto de pesquisa vi vivi e escrevi Portanto o capítulo I me conduziu a refletir e expandiu minhas noções sobre o entendimento das práticas de teatro de grupo como experiências que vão construindo um modo de ser e fazer teatro No capítulo II revelo o cotidiano do grupo fazendo um registro do surgimento do grupo e da construção de todo o seu repertório Opto por registrar os aspectos poéticos por compreendêlos como fundamentais no entendimento das práticas do grupo não só no campo criativo mas como esse é o disparador para pensar seu fazer e pensar a produção e a gestão teatral Este detalhamento gera uma completude que passa pela gênese e pela caminhada do grupo e permite assim uma melhor leitura de sua trajetória Com a finalização dessa escrita dissertativa verifico que o teatro de grupo é uma célula em constante transformação e nunca um modelo fechado Ao contrário atento que operar no campo do teatro de grupo requer estar aberto às dinâmicas dos tempos à leitura social de onde está inserido e desta forma construir experiências que serão diversas múltiplas e sempre variáveis Creio que outros grupos espalhados pelo Brasil vivam experiências próximas a que escrevi outrossim estas devem ser registradas assim como me desafiei na escrita sobre o Grupo Ninho por acreditar que a partir desse registro se possa refletir sobre as diferenças existentes e que a partir dela se amplie práticas ou mesmo as 106 reconheça como já acionadas Nesse caso articulo a produção e a gestão como elementos que por vezes não são vistos como importantes para a construção de bases importantes para a construção de um projeto de grupo Esta dissertação me ajuda a pensar a tríade artistaprodutorpesquisador que trago da noção artistaprofessorpesquisador muito trabalhada dentro de minha graduação em teatro e que devido às minhas ações de artistaprodutor faço o trocadilho para uma vez mais revelar essa prática de artista polifônico MALETTA Dito isso essa escrita não se fecha aqui pois continuarei na busca por encontrar camadas outras que me permitam aprofundar constantemente o objeto agora estudado As respostas penso quando construídas de forma aberta geram outras tantas perguntas possibilita seu questionamento e aprofundamento assim será a continuidade de meus passos como artistaprodutorpesquisador Ao fim espero que este estudo possa contribuir eou inspirar outrosas artistas de grupos e pesquisadoresas que assim como o Ninho buscam formas de se manter em cenários adversos e compreendem suas experiências de teatro de grupo como importantes para suas comunidades pois como já observamos as ações de grupos agem micropoliticamente na sociedade quando estes através de suas sedes projetos espetáculos escolas promovem arte para a cidade Ainda não finalizando pois a pesquisa continua como eco gerando infinitas descobertas e amadurecimentos resolvi elencar aqui algumas das táticas que foram acionadas na experiência do Grupo Ninho de Teatro não como modelo a ser seguido mas como resultante da pesquisa e que por ventura possam servir como inspiração para refletir outras práticas A organização desse quadro fica como uma espécie de síntese das táticas acionadas criadas e praticadas a partir dosas integrantes da sede da administração da gestão da produção e da criação do grupo que foram surgindo ao longo da escrita sendo estas já presentes no cotidiano de trabalho do mesmo Importante compreender que esses acionamentos táticos se deram a partir do cotidiano de trabalho do grupo sendo portanto possível que muitas outras surjam ao longo da caminhada e algumas sejam abandonadas pois as táticas dialogam diretamente com o tempo e as oportunidades e necessidades deste Logo estas podem ser ou não praticadas por outros grupos na medida em que estes se percebam ou não dentro de tal prática aqui compreendida como táticas de sustentabilidade compreendo que as táticas se dão como tecnologias de resistência são como armas 107 de luta e que portanto podem ser construídas de maneira diversa e múltipla dentro de cada grupo considerando a experiência destes como é o caso do Grupo Ninho de Teatro Com isso fica evidente que cada experiência grupal gera diferentes acionamentos táticos para seus projetos de grupo sendo importante estar atentosas para a percepção de tais práticas e sistematizálas dentro de um planejamento das atividades desenvolvidas Abaixo compartilho um quadro em que organizo uma seleção de táticas encontradas dentro das práticas do Grupo Ninho e que através da escrita desta dissertação puderam ser melhor identificadas Para que fique didaticamente mais compreensível as táticas foram agrupas por áreas indo da produçãogestão aos cuidados nas relações grupais QUADRO 1 Acionamentos Táticos do Grupo Ninho de Teatro CUIDADOS COM AS RELAÇÕES ENTRE INTEGRANTES 1 Estar atentoa à importância da rede de afetos que se estabelece entre todosas integrantes do grupo 2 A busca pela consolidação de princípios éticos dentro das relações internas que se estendem para as externas denotando o projeto político do grupo 3 A construção de um ambiente desafiador quanto pedagógico e a compreensão de que a diversidade de pensamentos é a potência maior do grupo 4 O respeito pelo trabalho de cada integrante é fundamental 5 Acreditar na construção de espaços de trocas e parcerias sejam internas ou externas PRODUÇÃO E GESTÃO DE GRUPO 6 A regularidade do trabalho de produção e criação como ações indissociáveis 7 A dimensão de que oa produtora e oa gestora no Grupo Ninho de Teatro e na Casa Ninho se cruzam e desta forma expandem as complementaridades que estas funções carregam potencializando a administração dos projetos de criação de manutenção de sede e das ações pedagógicas 8 A função produçãogestão passa por todasos dando para cada umuma a importância dessas funções para a sustentabilidade do grupo 9 A autogestão torna todosas produtoresas e gestoresas da Casa Ninho isso possibilita um equilíbrio nas divisões das escalas de trabalho 10 Ser consciente da importância que cada setornúcleo tem para a condução do grupo e sede 11 Planejar formas de organização para gerir e produzir a sede do grupo em sua dinâmica como espaço cultural 12 O revezamento de funções como uma tecnologia de manutenção e sustentabilidade a partir do saberfazer dosas própriosas integrantes 13 Ter dias fixos de trabalho reservados para que o grupo faça atividades de produçãogestão ou treinamentos e trabalhos criativos 108 PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO DE GRUPO 14 Estruturação dos objetivos e a busca por concretizálos por meio de Planejamento Estratégico realizados periodicamente 15 Planejamento estratégico como meio de organização do grupo 16 Planejar as atividades estando dispostoa e disponível para escuta e mudança trabalhando o desapego e o ego PARCERIAS COM OUTROS GRUPOS E INSTITUIÇÕES 17 O diálogo direto com as instituições locais que trabalham com arte e cultura no sentido de negociar sessões de seus espetáculos estabelecendo relações de ocupação dos espaços que a cidade disponha 18 A junçãoparceria com outros grupos para viabilizar a criação A SEDE DO GRUPO COMO ESPAÇO CULTURAL PARA A CIDADE 19 A importância da sede para um grupo para propiciar o processo de colaboração de equipe 20 A disponibilidade do espaço da Casa Ninho sede para outrosas artistas grupos e coletivos da cidaderegião 21 O reconhecimento de pontos frágeis e fortes e através destes traçar metas em diversas linhas infraestrutura da Casa Ninho sede temporadas do repertório circulações locais regionais e nacionais definição de funções projeções de quanto cada integrante desejava receber mensalmente do grupo 22 A Casa Ninho sede como espaço de expansão extensão e também de pedagogia 23 Compreender a sede como espaço de compartilhamento para várias linguagens artísticas 24 Organização simples de pauta da Casa Ninho o espaço é compartilhado com quem queira ocupar 25 Articulação de escala para limpeza geral da Casa Ninho sede 26 O projeto PQP Pague Quanto Puder como dispositivo de promoção acessível das atividades da Casa Ninho sede 27 Flexibilização e popularização do pagamento da pauta que pode ser feito em forma de doação de produtos de limpeza e descartáveis que são usados para a própria manutenção da casa e de taxas que cubram os custos de consumo de energia elétrica água e internet e apoio técnico 28 A Casa Ninho sede como espaço de acolhimento FUNÇÕES E DIVISÃO DE DEMANDAS ENTRE OS INTEGRANTES 29 Trânsito de funções em nosso cotidiano de trabalho o que nos torna polifônicos num exercício múltiplo de artistasprodutoresasgestoresas tal trânsito gera maturidade para asos integrantes e respeito pelas ações realizadas por cada umuma 30 Experiência cotidiana de trabalho tendo assim a dimensão da estrutura necessária para o projeto de grupo 109 FONTE O autor 2020 O quadro acima tem como objetivo estabelecer uma troca direta a partir das táticas com outros grupos e pesquisadoresas interessadosas e quiçá estimulá losas a também lançar um olhar mais cuidadoso para suas próprias praticas cotidianas e perceber as táticas presentes nas ações desenvolvidas pelo grupo Essa sistematização não deve ser entendida como receita mas como estímulo para que outrosas pesquisadoresas que tenham interesse no campo da gestão e produção em teatro de grupo possam acessar e por meio dessas táticas descobrir ou mesmo desenvolver outras em conformidade com suas necessidades 31 O revezamento de funções ou o trânsito nestas permite a expansão das ações do grupo pois não gera a dependência de umuma únicoa integrante para a função 32 Construir um organograma respeitando as afinidades de cada integrante 33 Cada integrante se dedica dentro da área de desejo e prazer técnico 34 A desalienação do trabalho praticada através da criação em rede e polifônica na qual ninguém fica aquém do que acontece ainda que exista umuma que assume diretamente x demanda todosas devem estar cientes e em alguma medida contribuir para a efetivação das demandas 35 A criação de uma escala em que cada dia umuma integrante abre a Casa Ninho sede para o atendimento ao público geral e também para as ações internas quando pautadas dispensando contratação externa para tais atividades O GRUPO COMO ESPAÇO PEDAGÓGICO 36 Ter a noção de que teatro de grupo é uma escola de formação permanente 37 Pensar numa constante formação e atualização dosas integrantes a partir da tríade artistaprodutorapesquisadora 38 A criação de uma célula pedagógica Escola Carpintaria da Cena Formação Livre em Teatro e Tradição A CRIAÇÃO COMO BASE CENTRAL 39 Estabelecimento de bases estéticas e poéticas para nortear os percursos do grupo amadurecendo assim uma pesquisa de linguagem que gera identidade para o grupo 40 Pensar em projetos artísticos e pedagógicos que se articulem com a sociedade SUSTENTABILIDADE E FORMAS DE FINANCIAMENTO 41 A produção pode ser custeada pelosas integrantes do grupo e em seguida a partir do caixa do espetáculo ocorre o reembolso para estes possibilitando que o grupo não crie uma dependência de fontes públicas de incentivo 42 Oficialização do grupo como pessoa jurídica sem fins lucrativos pois uma maioria de editais públicos são destinados a instituições sem fins lucrativos de caráter cultural e educativo No caso criamos a Associação Grupo Ninho de Teatro e Produções Artísticas 43 Reserva e investimento com recursos internos 44 Autonomia para articular possibilidade de gerar fundos para a continuidade de suas atividades 110 Sabendo que sempre é possível aprofundar e que nada está encerrado lanço para o futuro possíveis desdobramentos desta dissertação por me sabersentir desejoso de descobrir outras tantas camadas da escrita que aqui pauso mas não encerro pois muitas ideias pulsam em mim para adiar seu fim 111 REFERÊNCIAS 7LETRAS André Antoine sobre o autor 200 Disponível em httpswww7letrascombrautorid51 Acesso em 20 fev 2019 AGENDA DO CENTRO CULTURAL BANCO DO NORDESTE CARIRI Mês de Junho 2016 ANA de Hollanda deixa Ministério da Cultura e Marta Suplicy assume a vaga EBC Empresa Brasil de Comunicação 11 set 2012 Disponível em httpswwwebccombrcultura201209anadehollandadeixaministeriodacultura martasuplicyassume Acesso em 31 mai 2020 ARTE SECRETA DO ATOR BRASIL Eugenio Barba e Julia Varley entre 2010 e 2019 Disponível em httpaartesecretadoatorblogspotcombrpeugeniojuliae lucianahtml Acesso em 10 mar 2019 ARAÚJO A A Gênese da Vertigem O processo de criação do Paraíso Perdido 2002 Dissertação Mestrado em Artes Cênicas Departamento de Artes Cênicas Universidade de São Paulo 2002 ATO MARKETING CULTURAL Sobre 2018 Disponível em httpswwwatomarketingculturalcombrsobre Acesso em 22 jun 2020 AVELAR R O avesso da cena notas sobre produção e gestão cultural 3ed Belo Horizonte eddo Autor 2013 490 p BARBA E A canoa de papel tratado de antropologia teatral São Paulo Hucitec 1994 BENITES B M Constantin Stanislavki Infoescola entre 20062019 Disponível em httpwwwinfoescolacombiografiasconstantinstanislavski Acesso em 22 fev 2019 BENJAMIN W Magia e técnica arte e política ensaios sobre literatura história da cultura 7 ed São Paulo Brasiliense 1994 253 p BRASIL Constituição 1988 Art 215 da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 Brasília DF Presidência da República 2017 Texto compilado até a Emenda Constitucional nº 99 de 14122017 Disponível em httpswwwsenadolegbratividadeconstcon1988con198814122017art215a sptextArta20difusC3A3o20das20manifestaC3A7C3B5es2 0culturais Acesso em 22 de jun 2020 BROOK P O ponto de mudança quarenta anos de experiências teatrais 2ed Rio de Janeiro Civilização Brasileira 1995 CABRALE L Políticas Culturais pesquisa e formação São Paulo Itaú Cultural Rio de Janeiro Fundação casa de Rui Barbosa 2012 332 p 112 CAMPOS H de Da transcriação poética e semiótica da operação tradutora Semiótica da literatura São Paulo EDUC 1987 p 5374 CARDOSO M Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 22 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice CARREIRA A Modelo de trabalho grupal no Brasil dos amadores ao teatro de grupo Relatório de pesquisa Florianópolis CEART 2007 CASTRO L Jacques Copeau Academia 2006 Disponível em httpwwwacademiaedu5442587JacquesCopeau Acesso em 27 fev 2019 CERTEAU M de A invenção do cotidiano Tradução Ephraim Ferreira Alves 3 ed Petrópolis Vozes 1998 CIDADE R E FILHO J D Dramaturgia e Encenação no Cariri In Semana de Iniciação Científica 13 2010 Universidade Regional do Cariri URCA Disponível em httpwwwurcabronlinesistemasSIGERgerenciadorusersIDeventossemanaIC 2paginaCandidatosecurityPDFtrabCompletotrabID3126semanaIC2010pdf Acesso em 15 jun 2020 CIDADE R Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 06 mar 2019 A entrevista encontrase transcrita no apêndice Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 01 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice COELHO T O que e ação cultural São Paulo Brasiliense 2001 COHEN S A Teatro de grupo trajetórias e relações impressões de uma visitante Joinville SC Editora Univille 2010 CORDEIRO J A Caldeirão de Santa Cruz do deserto Coisa de Cearense 2010 Disponível em httpcoisadecearensecombrcaldeiraodesantacruzdodeserto Acesso em 20 abr 2019 CORTEZ Antonia Otonite de Oliveira A Construção da Cidade da Cultura Crato 18891960 2000 Dissertação Mestrado em História Social Universidade Federal do Rio de Janeiro Rio de Janeiro 2000 CUNHA D Entrevista concedida a Edceu Barboza Via email Maio 2015 CUNHA M H Gestão Cultural Profissão em Formação Belo Horizonte DUO Editorial 2007 Coord Fórum Pensando o Futuro In Curso à Distância Vai Passar Gestão Cultural em Tempos de Crise Inspire Gestão Cultural 2020 113 DANTAS E Entrevista concedida a Edceu Barboza Crato 11 de mai 2020 A entrevista encontrase transcrita no apêndice Entrevista concedida a Edceu Barboza Juazeiro 06 de mar 2019 A 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ENTREVISTA COM ELIZIELDON DANTAS integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente sobre o Grupo Ninho de teatro desde sua fundação ou de quando você entrou Bem é eu entrei no Ninho em 2009 que eles iam apresentar no Loucos em Barbalha Aí quando de repente recebi um telefonema que queriam falar comigo no festival dos Loucos em cena e me convidaram para participar do grupo que até então eu era só convidado de um dos espetáculos do grupo que é Charivari Daí então eu entrei no grupo e tô até hoje e o Grupo Ninho é uma família são irmãos parceiros E pra mim foi o que tava faltando no Cariri pra me completar né Porque até então eu não gostava do Cariri tô me realizando como pessoa no grupo e sentindo prazer de tá com as pessoas gosto que amo de coração e é isso Edceu Tá e tu entrou em 2009 no caso já são seissete anos conta os anos Então nesse período que tu permanece no grupo tu poderia falar sobre esse período que você tá no grupo É pois então eu entrei em 2009 e de lá pra cá é o primeiro trabalho que eu vi do grupo foi o Avental Todo Sujo de Ovo que eu tava num processo também de uma montagem com o grupo é Desabafo de Mano e ai ele convidou para turma ir ver o espetáculo e eu fui ver no centro cultural que eu não recordo a data E então eu me apaixonei da montagem me apaixonei pelo grupo pelas pessoas É entrei no grupo e foi assim tava fazendo um curso no Bnb e o Duílio como professor da Urca do Centro de Artes do curso de teatro é tava procurando um grupo pra montar um espetáculo que é o Charivari então aí convidou o Grupo Ninho que era só o Jânio Edceu e a Joaquina Rita e Zizi Aí ele tava precisando de mais pessoas pra completar o trabalho né O Charivari acho que são se eu não acho que são oito em cena e ele foi me convidou pra atuar e até então no momento eu não aceitei passei dois dias pensando e disse que não queria E aí depois eu voltei atrás e aceitei tô a aí daí foi como eu entrei no grupo através que o Ninho quando era só Rita Jânio Edceu Zizi e Edceu acho que tiveram uma reunião antes e me convidaram e eu tô até hoje 118 Edceu É como acontece a organização do grupo assim em termos de trabalho e estrutura como é que vocês se organizam internamente para fazer a gestão da casa para cuidar dos materiais Pois é o grupo ele é não é que seja dividido porque cada um quando vê que um tá precisando de uma força o outro chega junto mas é tipo assim a gente tem uma parceria e vamos dizer a Rita é mais no financeiro com Edceu eu e Zizi a estrutura da casa Jânio a estrutura da casa Joaquina e Sâmia fica de apoio mas não que todos não possam fazer alguma coisa para completar o outro sempre vai tá lá lhe servindo é uma equipe então é a família é uma casa que tá lá todo mundo se reuniu para se beneficiar e ter o prazer de fazer teatral lá e todos se completam é uma realização Edceu Neste caso a tua função tu falou que é cuidar da infraestrutura da casa como é isso no dia a dia o que é esse cuidado com a casa e qual a importância para você nesse cuidado da casa para o resto do grupo Bem é a minha função não é que eu não possa ajudar em outras coisas mas vamos dizer assim tá precisando de uma luz de uma extensão eu já sei mais ou menos onde é que tá porque eu fico mais com essa parte da escada colocar em um local para quando for na hora da gente ensaiar tá tudo organizado e a gente só procurar onde é que tá Fulano Elizieldon tu sabe onde tá o martelo Sei Vou lá e pego Sei onde é que tá Edceu onde é que tá um documento tal Aí ele já sabe onde é que tá na pasta tal e Rita É isso falta uma água vai lá um corre vai procurar buscar que é um se ajudando ao outro se completando Edceu A importância do teu trabalho para o coletivo assim como é que tu ver a importância do seu trabalho para somar colaborar contribuir com o trabalho do outro Eu acredito que a minha contribuição no Ninho é só uma soma né Que eu acho que é todos é que é o conjunto então é só uma soma e se eu não tivesse lá é que claro que teria outro que poderia fazer mas como a minha função é mais essa assim não que eu não possa fazer outras coisas mas a gente criou tipo assim não quem se identifica com o que tal e eu me identifico mais com essa parte então eu acho que é uma contribuição que todos contribui de uma certa forma no que eu faço também 119 porque às vezes eu posso tá um pouco meio apressado e deixo desorganizadas as coisas e vem Sâmia e organiza acho que é isso é a parceria Edceu Existe um produtor específico no grupo se não existe como é que acontece a produção dos trabalhos do grupo Bem existe assim não digo se é específico específico porque o grupo está aberto a todos é vai se ajudando mas é quem fica mais quem se identifica mais com essa parte de produção é mais Edceu Barboza e a Rita Cidade e Sâmia é o que eu acho que no grupo os que se identifica mais porque Zizi não se identifica eu não me identifico Jânio não se identifica Joaquina também às vezes ela quer fazer mas eu não sei se ela se identifica Ela tenta mas eu acho que ela não se identifica tanto como os outros que se aprofunda mesmo corre atrás e tá lá Edceu Qual a importância que tu acha da função desse produtor já que você falou que essa função é dividida às vezes com Sâmia Rita e Edceu mas que todos podem chegar e dar uma força para a produção também acontecer qual a importância do trabalho da produção teatral para os trabalhos do grupo A importância do produtor no grupo eu acho que é fundamental que todo grupo tenha porque aquele produtor ele tá pensando já no objeto finalizado num figurino Já vê o espetáculo construído feito então ele já pensa nas estratégias de venda do produto já completo Edceu No caso vocês tem a sede a Casa Ninho que é a sede do grupo quando ela foi inaugurada e como vocês pensam a gestão cultural da casa a importância da administração e manutenção da casa para o grupo Bem a casa creio que abriu em 2011 e a casa é muito importante pro grupo porque lá onde a gente tem as reuniões temos os ensaios Depois que abrimos a casa temos quatro espetáculos que um tá se enraizando e foi através disso se a gente não tivesse a sede talvez tivesse só com dois espetáculos É feito né Vamos dizer no repertório não que os outros não já tenham acontecido que Charivari Avental e Bárbaro foi antes da casa mas tem Jogos O menino fotógrafo e aí tem A lição e agora O Poeira que logo logo a gente está em cartaz É eu acho que você ter uma sede pra um grupo é muito importante porque é onde se tem o processo de colaboração de equipe 120 Edceu Vocês entendem a sede como possibilidade de amadurecimento dos trabalhos porque vocês têm um espaço para ensaio um espaço para administrar um espaço para produzir e um espaço também para apresentar Como é que vocês pensam essa sede enquanto espaço cultural em sua relação com a comunidade e outros artistas Bem a gente está de portas abertas é só chegando lá marcando pauta que o grupo abre a porta a qualquer hora da noite qualquer hora do dia marca o horário porque como cada um tem seu dia seu horário específico porque não é sempre que a gente pode tá lá todo horário do dia mas a gente cada um tem seu dia específico seu horário específico Então chega lá marca uma pauta e vamos trabalhar né A casa está aberta pra população pra os artistas que queiram que nos procure e que tá de portas abertas Edceu É como tu se vê na dinâmica do trabalho do grupo você já falou que se dedica mais aos cuidados da infraestrutura da casa mas pensando o dia a dia do grupo qual tua função jurídica qual a importância da tua função dentro dessa estrutura de organização da casa e no dia a dia como você se vê É eu sou o presidente do grupo e eu me vejo como uma peça fundamental de uma equipe ou de um tabuleiro digamos assim porque um vai completando o outro Como eu já falei do meu dia a dia na casa eu creio que poderia até aproveitar mais porque no sábado eu tô lá é o meu dia de trabalho lá No sábado então eu poderia aproveitar mais o espaço porque eu acho que também além da quinta feira que é o dia das reuniões a quinta sexta e sábado outros momentos assim que a gente nos encontramos pra o trabalho mas eu acredito que eu poderia dar mais me esforçar mais pelo grupo Porque o grupo é um grupo que tem uma responsabilidade cultural na região do Cariri mas eu acho que o meu esforço não é tanto como o dos outros então eu acho que eu poderia me esforçar mais um pouco para poder me estabelecer mais no grupo tá mais dentro Eu acho que é porque também tem o meu outro trabalho que me suga mais um pouco mas eu creio que eu poderia tá mais presente Edceu É você dessa coisa de estar mais presente mas antes você tinha falado que vocês se somam como se cada um tivesse um lugar de dedicação mas que um ou outro pode chegar junto para ajudar caso seja necessário Nesse sentido 121 você não acha que cada um da forma como pode da forma como se dedica fazendo claro um esforço para estar disponível ao trabalho do grupo e da casa nesse sentido você não já teria uma dinâmica bem bacana de trabalho para o grupo Acredito que sim mas é tem momentos assim que às vezes é obrigado você dizer não ao grupo vamos dizer assim é claro que ainda não cheguei a esse ponto mas vai ter um momento deu dizer hoje eu não posso mas às vezes eu digo não não posso hoje só para ficar em casa e então eu não tô me dedicando Ou então eu acho que quando você um grupo que lhe respeita porque assim se você marca um horário todos estão lá presente naquele devido horário então eu acredito que às vezes eu não me dedico mais já que os outros têm tanto esforço de tá lá presente Às vezes eu tô lá mas não tô entregue totalmente Eu não sei o que isso que passa na minha cabeça mas eu acho que eu poderia tá mais dentro do jogo é isso Edceu como você traz esse posicionamento consciência como você se ver nesse dia a dia buscando possiblidades de estar contribuindo mais com o grupo porque você sente essa necessidade de colaborar mais sendo que você tem a sua parcela de contribuição e ela tem sua importância Bem primeiro porque eu gosto de tá lá a casa me faz bem E segundo eu acho que eu poderia contribuir mais ou contribuo de uma forma se tem um espetáculo de fora que tá precisando de um técnico eu vou e fico lá sem nenhum problema de horário e essas coisas É como eu posso complementar o meu horário é como eu posso tá mais presente no grupo já que a gente não tem um técnico mesmo assim profissional Aí eu faço algumas coisas aí eu me sinto mais prazeroso em ajudar nessas horas assim de tá mais presente dentro do grupo quando tem algumas coisas que eu possa fazer para outras pessoas que querem ocupar a casa aí eu me completo Edceu Fale sobre o grupo numa perspectiva a médio e longo prazo como você ver o grupo daqui para frente Olha o Grupo Ninho é ele só tem oito anos de idade Então ele é uma criança mas é uma criança que já tem uma responsabilidade de um adulto Então eu creio que muitos grupos não só daqui do Cariri mas de outros interiores queriam tá em nossa posição sim porque eu creio que o grupo já se realizou e vai se realizar mais ainda porque ele já tem uma trajetória de um grupo de vinte e trinta anos Aí que não é fácil 122 você carregar esse peso né Porque o Grupo Ninho já tem uma responsabilidade muito grande no Cariri tem muitos alunos e outros grupo que se espelham no Grupo Ninho Então acredito que isso é uma coisa que de certa forma dá um peso de quem está dentro do Ninho porque você vê uma pessoa se espelhar Tem pessoas que chegam e me procuram e diz olha eu queria fazer parte do grupo eu digo é mas a gente não tem seleção nem nada a gente se identifica com as pessoas mas é complicado você vê uma pessoa assim e chegar e dizer que se espelha Não gosto muito desse fato porque não tem pra quê as pessoas se espelhar Edceu como você ver o grupo no pra frente Eu espero que o grupo se mantenha firme como vai criando seu nome com seu repertorio E logo logo a gente vai tá aí estreando Poeira que é um trabalho que a gente teve uma pesquisa de seis meses com a cultura popular orientada pelo Lume e pelo Miguel Zapata e hoje a gente antes tivemos que dar uma paralisada no processo porque tivemos que viajar com outro espetáculo e hoje a gente retoma e estamos para estrear na frente com Edceu ele que tá organizando dirigindo o espetáculo e vamos ver Espero eu as pessoas que já curtem o trabalho do Ninho vá curtir porque é um trabalho muito sério e é isso Edceu Falando uma das perspectivas do grupo num futuro como foi que você viu a saída do grupo do estado do Ceara da região Nordeste Você falou do quanto é difícil ser grupo do quanto existe uma dedicação para que a coisa aconteça você falou que o grupo é uma criança com maturidade de adulto seria essa maturidade que teria levado o grupo a romper esses limites de seu estado e região O grupo como falei tem oito anos é uma criança então ele já rompeu barreiras que outros grupos teriam maior vontade de tá num projeto como esse do palco giratório Então foi uma experiência única e espero que alguns grupos que passem por esse processo que a gente passou que foi só mais um amadurecimento de grupo de fortalecimento que é claro que todos os grupos não só o nosso tem seus problemas mas os nossos problemas são resolvidos lá na hora é nossos problemas Cada um tem sua vida particular e tem seus problemas mas os problemas que a gente tem nos grupos são resolvidos ali ninguém sai com queixa de ninguém se resolve ali E a experiência de estar no palco veio nos fortalecer como grupo como o fazer teatral 123 como artista como produtor como técnico como tudo numa equipe num conjunto veio só nos fortalecer Edceu Você acredita que o fato de vocês terem potencializado terem respeitado terem assumido um compromisso primeiro com a região de vocês do Cariri no caso revelar a produção de vocês do Cariri pro Cariri vocês acham que o fato de vocês terem valorizado o local levou vocês para a cena nacional O grupo primeiro trabalhou a região do Cariri já apresentamos em assentamento então a gente teve que conhecer a cultura local conhecer pessoas que não têm a cultura de ir ver teatro Então a gente procurou é mais apresentar na nossa região fazer a região do Cariri e de outros interiores de outras cidades periferias Veio o amadurecimento do grupo com esse fortalecimento você se concretizar na sua região de você está presente de dar a cara a tapa das pessoas verem seu trabalho que não é fácil você se apresentar para uma grupo de pessoas que na nossa região fazem teatro porque tem o julgamento essas coisas Então isso a gente procuramos fazer um teatro na nossa região para poder viajar pra fora conhecer outras porque foi o amadurecimento que fez com que a gente pudesse criar asas e voar porque a gente só na nossa região também precisava trilhar outro ar conhecer outras culturas outros grupos Edceu Se você fosse um crítico teatral o que você escreveria sobre o Grupo Ninho de teatro Se eu fosse um crítico de teatro eu escreveria sobre o grupo bem o que eu escreveria sobre o grupo que é um grupo de adolescentes que tem uma responsabilidade de trabalho sério que não deixa é como é que posso dizer é um trabalho que tem sério mesmo que vale a pena eles investirem no que eles estão pesquisando Então é um trabalho que você se identifica muito ao ver ao assistir um espetáculo porque você vê que aquilo mesmo que não é aquele fazer por fazer é um fazer sério é um fazer que faz com que quem esteja vendo pense e reflita sobre o que está acontecendo ao seu redor Então o grupo é muito sério por ser pessoas vamos dizer que não são maduras numa certa idade mas que têm uma responsabilidade muito grande na arte Edceu Quer falar mais alguma coisa Agradecer ao Ninho por me aturar e pronto 124 ENTREVISTA COM SÂMIA RAMARE integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente do Grupo Ninho ou de quando você entrou no grupo Eu conheci o Grupo Ninho no festival de Acopiara em 2008 Conheci o Grupo Ninho de Teatro em Acopiara no FETAC Festival de Teatro Amador de Acopiara em 2008 nessa época eu participava e morava em outra cidade em Aquiraz e participava de outro grupo lá E desde que a gente se conheceu né É tive uma admiração imediata pelo grupo pela forma pelo fazer teatral e sempre nos mantínhamos em contato quando eles iam para fortaleza eu ia vêlos e a gente nunca perdeu contato Quando eu aí eu venho morar no Cariri mais precisamente no Crato em 2011 e começo a me aproximar dos meninos a frequentar o espaço Casa Ninho e a sempre esbarrar com eles na rua e em 2012 com o curso de formação teatral oferecido pelo Grupo Ninho na Casa Ninho é a gente se aproxima ainda mais O curso durou seis meses e teve um experimento final no qual eu fiquei com a parte de direção então a gente ficou com um contato bem mais próximo Os meninos às vezes me chamavam eu sempre ia lá e os meninos às vezes me chamavam pra eu operar uma luz para ir lá no espaço dar algum apoio e isso pra mim era troca né Assim troca por eu ter participado de um curso tão importante na minha vida e por tá querendo retomar mesmo essa volta pro teatro que eu tinha passado um tempinho afastada é Então no em dezembro de 2013 mais precisamente no dia 11 de dezembro de 2013 é os meninos me convidaram para uma confraternização do grupo e ali me convidaram pra integrar o Grupo Ninho de Teatro Foi uma surpresa para mim uma alegria enorme porque eu me aproximo muito e me identificava muito me identifico né com a forma do fazer teatral do grupo Edceu Como é que você via o grupo antes de fazer parte e como passou a ver depois que entrou É eu via muito como um grupo muito importante né na cena teatral do Cariri até porque o grupo já sai desse seu meio aqui que é a região do Cariri e aí para outros espaços e tal é mostrar o que tá se pesquisando aqui Eu achava isso incrível assim de uma garra de uma determinação muito forte e resistência também e aí quando eu entro no grupo eu percebo o quão grande é essa responsabilidade é Acho que essa reponsabilidade vendo de fora não é tão grande quando você tá 125 dentro da coisa porque você se vê sujeito daquela responsabilidade a toda aquela responsabilidade E quando você tá de fora você admira você ai que massa num sei o quê mas quando você tá dentro você vê que é tudo depende de você também você é protagonista daquela história e eu via muito isso assim é uma das coisas que eu mais tenho em mente antes de participar era essa admiração esse brilho nos olhos E hoje é trabalho é realmente muito trabalho manter tudo isso essa responsabilidade o trabalho que a gente tem é resistência mesmo Edceu E como acontece a organização do grupo em termos de trabalho e estrutura você passou a ter essa visão externa e interna como foi que a experiência interna como integrante como você passou a ver essa estrutura o modo como o grupo se organiza Como a gente tem a sede né a Casa Ninho fica mais organizacional porque cada um tem o seu dia de trabalho e cada um vai adentrar no que mais é no que você no que também você gosta mais no que você sabe que você pode contribuir mesmo de verdade sabe naquilo poxa eu vou contribuir nisso e isso vai ser muito bacana porque eu dou conta disso Então é a gente tem seis dias na semana né De segunda a sábado a Casa Ninho tem funcionamento os horários são um pouco flexíveis pela questão de ter três integrantes quatro que mora no Crato e três integrantes que mora no juazeiro Então assim a gente tá lá praticamente a semana toda cada um vai lá e dá uma olhada e tal Só que aí a gente tem nosso horário de trabalho mesmo que é de três a seis da tarde e cada um vai se especificando no seu trabalho Eu por exemplo tô muito ligada a essa parte de ficar catando possibilidades de festivais e produção que é uma coisa que eu gosto muito mas também gosto muito da parte técnica que a parte técnica quem assume mais é Jânio Zizi e Elizieldon mas eu gosto muito da parte técnica Então eu fico sempre passeando por outros ambientes mas uma coisa que eu tô percebendo que eu gosto muito de fazer é cavar possibilidades pesquisar festivais mostras e ajudar Edceu na produção na questão da produção assim e na parte da associação eu cuido da documentação do grupo é uma parte que eu gosto de organizar que eu gosto de ver então assim tá muito nessa parte assim da documentação e de cavar possibilidades Edceu Vocês tem uma sede a partir de quando vocês tem a sede e como vocês pensam e articulam administram a sede pensando a gestão dela 126 A gente tem a Casa Ninho desde 2011 né Vai fazer cinco anos que a gente tem a sede É um espaço alugado e por dois anos a gente recebeu incentivo do governo 2011 e 2012 e de 2013 pra cá a gente não tem nenhum subsídio do governo né não entra nenhum dinheiro público ali nós que sustentamos a Casa Ninho com percentual que a gente ganha com espetáculo a gente tira um percentual pra manter a casa De antemão é muito difícil porque a gente sempre tem o receio de como será o amanhã de como será se a gente não manter esses espetáculos sendo apresentados de viabilizar a manutenção desse espaço que vai desde o aluguel a todas as despesas possíveis de uma casa mesmo pra se manter em manutenção E uma coisa que gostaria de frisar é que a Casa Ninho ela é aberta ao público nossos programas são sempre de acessibilidade ao público tanto no que se diz questão ao preço do ingresso a gente tem um projeto chamado PQP que é o pague quanto puder que o grupo sempre apresenta nesse projeto e alguns outros grupos que também às vezes vão apresentar na Casa Ninho compõem a grade querem apresentar nesse projeto Os que não querem é cobrado valores populares de dez inteira e cinco meia e já houve casos de serem cobrados um preço um pouquinho mais alto do que esse mas sempre valores acessíveis É outros grupos quando pedem o espaço da Casa Ninho seja pra ensaiar ou pra apresentar também é muito acessível a gente pede só no caso de ensaios produtos de limpeza e uma contribuição pra água e no caso de apresentação de espetáculo é uma diária que é vinte reais um preço simbólico e dez por cento da bilheteria A questão da gestão eu acho assim que a gente foi aprendendo durante o tempo porque como é uma casa e é dividido pra sete pessoas a gente foi aprendendo que cada um tinha que dar o seu máximo e que nenhum é patrão de ninguém ao contrário nós somos patrões de nós mesmos e hoje eu vejo muito organizado essa questão porque a gente sabe que tem um dia de pagar as contas a gente sabe que precisa manter os espetáculos ativos pra manter a casa já que a gente não tem nenhum subsídio do governo e a gente vai cavando essas possibilidades Então foi tudo se aprendendo e como eu entrei já é já tinha uma coisa organizada quando eu entrei eu vim pra somar essa organização Edceu Você já falou da divisão de trabalho como cada integrante tem o seu trabalho numa relação mutualista no sentido de que o trabalho de um está para o trabalho do outro ou mesmo cada um se dedique a um campo de trabalho tem sempre alguém que pode chegar junto e somar Nesse caso existe um produtor 127 específico no grupo se não como acontecem as produções dos trabalhos do grupo A gente tem uma parceria com a ATO marketing cultural uma empresa que se somou à gente a três anos a gente faz um trabalho de planejamento estratégico Aí dentro do planejamento estratégico a gente vê as possibilidades da produção O Edceu ele tá muito ligado mesmo na questão da produção do grupo e como a gente decide tudo junto não tem como uma pessoa ficar sozinha na produção é sempre um trabalho em teia sempre tanto pra mandar material pra festival como pra inscrever pra editais Então assim não tem essa produção essa figura que pam esse é o cara o produtor do grupo mas existem pessoas que assumem mais essa função que no caso é Edceu juntamente com a ato marketing cultural e as pessoas que vão somando é eu também sempre que necessário quando precisa eu ajudo nessa parte Rita também que aí somos três pessoas no grupo que gostam mais dessa parte de produção e que sempre trabalham paralelo com a Ato Tendo em vista que no Grupo Ninho não tem como resolver alguma coisa sozinho sempre em reunião a gente discute e vê o que é melhor é às vezes por exemplo seis pessoas dizem um sim e uma pessoa pelo argumento dela pelo não dela convence todo mundo a dizer não mas porque não é um pensamento individual é um pensamento coletivo é o melhor pro grupo e não o melhor pra si Edceu Pelo que você falou da forma como vocês se organizam da forma como vocês deliberam essa coisa do respeito a coletividade se constrói aí um trabalho que passa por uma relação colaborativa Pensando como se organiza o teatro colaborativo em termos de processo criativo vocês em termos de produção e gestão seriam uma gestão e produção colaborativa no sentido de que não existe alguém que manda no sentido hierárquico mas existe alguém que simplesmente lidera determinado campo de trabalho mas que também não deixa de receber a vozopinião do outro Isso não é uma coisa fechada não é pilastra e sim água que aí vai se modulando dependendo da questão a ser abordada no trabalho do grupo sim eu vejo muito essa questão colaborativa mesmo precisando ter um líder só pra questão de organização mesmo em determinados trabalhos por exemplo vamos mandar um material pra um festival todo mundo vai dar sua contribuição mas existe aquela pessoa pra organizar o material e existe aquela pessoa para enviar esse material porque se não fica 128 bagunçado Em relação aos nossos trabalhos artísticos aos espetáculos é todos tem uma direção todos têm aquela figura que vê de fora que no caso é dois de nossos espetáculos são diretores de outras companhias mas os outros espetáculos é foi alguém do grupo um integrante que quis dirigir e tal quis ter essa função e aí sim tem esse olhar de fora mas nos outros dois não Eu acredito assim a gente tá montando um trabalho novo que vai estrear agora que o é Poeira que também que é muito diferente das coisas que a gente vinha fazendo porque na verdade é um cada um tem uma contribuição nesse trabalho e Edceu é esse olhar de fora que se organiza mas é um olhar muito muito dependendo do que a gente que vai dar e ai ele dá alguns palpites sobre mas tá muito na responsabilidade do ator A gente compõe tudo compõe o cenário compõe o figurino então é muito relativo essa questão Tem essa questão da coletividade mas também precisa ter esse olhar de fora pra questão de organização Edceu Por tudo que você já falou da estrutura do trabalho de vocês enquanto gestão da sede e enquanto produção do repertório como você se vê Sâmia dentro dessa dinâmica de trabalho do grupo qual o teu cotidiano dentro dessa estrutura que vocês criaram É uma família né É a minha segunda família é o lugar aonde quase todo dia eu vou que é a Casa Ninho que é minha segunda casa Eu me vejo parte né parte total e pra mim nem é como se eu tivesse desde a formação porque não é diferente as mesmas histórias que as vezes os meninos compartilham quando eu não tava é como se eu tivesse vivido e a gente já viveu muita coisa são quase três anos mas a gente já viveu muitas coisas que que eu não sei assim se eu já vivi na minha vida pouco tempo mais com tanta intensidade Então eu me vejo parte e vejo a importância de cada um quando falta um parece assim é estranho não tá completo sabe E eu vejo a importância dos meninos na minha vida pessoal na minha vida profissional porque eu acho que eu amadureci muito depois de ter entrado no Grupo Ninho como profissional mesmo como trabalhadora da cultura e se reconhecer nesse campo que é um campo que a gente sabe o caos e as dificuldades que a gente passa mas é resistir sabe resistir o tempo todo a essa massa que quer engolir a gente que nos trata como minoria mas não somos minoria de jeito nenhum E eu vejo o Grupo Ninho de fundamental importância assim na minha e me vejo importante de somar com aquelas pessoas e continua resistindo a tudo isso 129 Edceu Fala um pouco sobre o futuro do grupo a médio longo prazo Então como nós estamos viemos ao longo desses oito anos a gente plantou muita coisa né E pela questão da organização eu vejo que a gente vai colher bons frutos pela nossa organização mesmo e garra e força de trabalho que tem de cada um Claro que nem todos os dias são maravilhas são flores A gente passa muita dificuldade internamente e individualmente cada um tem o seu individual né que as vezes precisa buscar outro meio de sobreviver mas por plantar trabalho que a gente trabalha muito e se doa muito eu vejo um futuro muito promissor Eu vejo um futuro que a gente consiga agregar pessoas mais profissionais da cultura e somar com nosso trabalho e vejo uma importância enorme assim pro povo né Eu sei que hoje a gente já faz um trabalho significativo pro povo mas eu fico pensando penso e quero contribuir mais pras pessoas mais pra esse povo mesmo que tá afastado do centro que a nossa sede é no centro e que não é acessível pra essas pessoas Eu quero muito que o nosso trabalho chegue até lá atinja o povo mesmo sabe E não só pessoas que têm acesso mas pessoas que não têm acesso nenhum que nunca foram ao teatro por exemplo que nunca tiveram contato com arte Eu quero muito que a gente consiga tocar essas pessoas e transformálas de alguma forma então eu vejo que o grupo no futuro vai chegar aí quero muito que chegue Edceu A gente fez agora uma projeção em que você comentou algumas questões que deseja Pensando a história de vocês como um grupo do Cariri que é uma região que está muito distante de centros maiores que tem uma dinâmica maior pensando mesmo a própria capital do estado fortaleza como metrópole mas vocês conseguem se manter como um grupo de pesquisa de continuidade de manutenção de repertório e sede coisas que gente vê com grupos que estão num cenário em que as possibilidades de manutenção são maiores O que tem no grupo que faz com que vocês ainda com oito anos tenham essas características de grupos que estão com tempo maior de estrada e também já romperam fronteiras que grupos com tempo maior ainda não É eu acho que é o desejo de cada um e o desejo de dizer e a gente sabe que mesmo o Cariri sendo no sul do Ceará distante da capital e tal mas a gente quer resistir e existir aqui nesse lugar e a gente não precisa ir pra uma capital pra existir A gente pode existir aqui no nosso lugar Eu acho que é além de desejo é ficar aqui é querer 130 ficar aqui e querer contribuir pra formação dessa galera que tá começando no teatro agora da gente também servir como inspiração pras pessoas não desistirem de montarem seus grupos aqui ou então porque antigamente é a gente via muito pessoas do interior indo pra capital pra buscar Não a gente pode conseguir tudo aqui então além do desejo de cada um é se afirmar no lugar que está sem precisar sair penso muito isso Edceu Você falou em afirmação Tem uma coisa que acontece com vocês que como se vocês não sei se acontece de forma natural mas é como se vocês tivessem potencializado o lugar de vocês enquanto possibilidades de trabalho possibilidade criação possibilidades de parcerias possibilidades de criar um público e quando eu falo lugar não me refiro especificamente a sede Casa Ninho mas o lugar Cariri Vocês já passaram por quase todas cidades que compõem a macro região do Cariri cearense e é como se esse respeito e essa potencialização do interno tivesse levado vocês ao externo que é romper essas fronteiras que a gente sabe que são muito difíceis de romper e chegar em outras regiões do país como você vê essa coisa de gerar uma potência primeiro interna enquanto respeito enquanto identidade cultural identidade de vocês com o que vocês são com o que vocês têm e isso naturalmente reverbera pra fora É outro dia eu tava comentando com um colega meu aqui da faculdade que eu acho incrível isso de até numa fala que é de dentro pra fora né que a gente quer mostrar quer fazer nosso teatro É uma cidade que nunca teve que fica no interior do interior aqui do Cariri que é levar esse teatro pras crianças e pros jovens e pros adultos que eles nunca tiveram acesso e talvez nunca vão ter porque na capital eles já e no interior eles num têm acesso Eu acho importante mesmo um ato político crescer de dentro pra fora de primeiro ver aqui o nosso meio cuidar do nosso meio pra depois expandir E acho que o palco giratório veio também pra afirmar ainda mais isso na gente porque o ano passado a gente circulou no interior aqui do Cariri no interior do Ceará e daí a pouco a gente tava nas grandes macro São Paulo Rio e Porto Alegre Então assim eu acho que gerou ainda mais depois do palco giratório mas esse reconhecimento é a gente precisa fazer ainda mais tá pouco a gente precisa ir mais nesses lugares que não tem tá pouco eu penso isso 131 Edceu Se você fosse uma crítica teatral Sâmia o que você escreveria para o Grupo Ninho de Teatro De crítica pro bom ou pro ruim Edceu de crítica e aí é de crítica nunca parem não parem não parem mesmo porque não pode parar não pode acabar ENTREVISTA COM RITA CIDADE integrante do Grupo Ninho de Teatro em 2019 Edceu Fale abertamente sobre o Grupo Ninho de Teatro sendo você da primeira formação Em 2007 a gente se reunia em um grupo de amigos alguns já haviam trabalhado juntos com teatro outros não mas a gente se reunia para fazer leitura de textos dramáticos de vários com várias características diferentes esses textos e a gente tinha a ideia de que quando nós encontrássemos um texto de que todo mundo gostasse e gostasse no sentido de encenálo a gente faria isso montaria esse texto E logo no princípio desses encontros apareceu o texto Avental Todo Sujo de Ovo e alguns de nós nos interessamos por esse texto e outros não os que se interessaram daquele grupo de amigos acabaram fazendo a montagem do espetáculo que pouco tempo depois é no decorrer do processo ia se transformar no Grupo Ninho Então o grupo acabou surgindo a partir do desejo de algumas pessoas que permanecem no grupo até hoje que nesse momento eram quatro pessoas é o grupo se formou a partir desse desejo de montar o texto avental todo sujo de ovo sem perspectiva de ser grupo ainda mas no decorrer da montagem desse espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo aconteceu da gente perceber que os trabalhos que a gente já vinha desenvolvendo em comum que eram esquetes podiam ser unidas no mesmo espetáculo Aí a gente teve vontade de ir a um festival que é o festival de Acopiara Festival de Teatro de Acopiara interior do Ceará e pra isso a gente organizou Esse espetáculo criou entremeios que transformassem esses esquetes num espetáculo e assim estreou o espetáculo Bárbaro que acabou estreando antes de Avental Todo Sujo de Ovo Então no meu ponto de vista a história do grupo começa no desejo de montar um espetáculo mas acaba estreando com outro e quando a gente estreou com bárbaro foi muito bemvindo no festival de Acopiara E aí a gente percebeu que fazia sentido a gente trabalhar juntos para inscrever no festival a gente optou por se inscrever como grupo e não só como elenco e direção e foi aí que surgiu o nome numa brincadeira numa conversa descontraída numa volta dum ensaio Surgiu o 132 nome a gente se inscreveu com esse nome e aos poucos o trabalho desse grupo que a princípio era um grupo de amigos apenas foi ganhando uma proporção de responsabilidade e de retorno e até a gente perceber que já tinhase compromisso enquanto grupo de teatro mesmo não mais só um nome Edceu Como acontece a organização do grupo em termos de trabalho e de estrutura Então é a princípio eu percebo que a gente era muito mais um grupo de atores onde alguém precisava assumir a direção dos espetáculos Às vezes uma pessoa às vezes outra isso eu tô falando do comecinho do grupo lá com esses dois espetáculos que eu citei Bárbaro e Avental Todo Sujo de Ovo Falando cronologicamente desde a estreia desses espetáculos porque a gente tinha vontade de fazer as coisas e alguém tinha que dirigir e outros tinham que atuar mas aí a medida que foi ganhando essas outras proporções que eu fui falando foram surgindo outras funções Em 2009 a gente foi convidado pelo diretor Duilio Cunha pra montar o espetáculo Charivari no meu ponto de vista esse é um momento de muitas mudanças dentro do grupo porque é se passou a trabalhar com outras pessoas a princípio ele porque convidou o grupo pra compor o elenco desse espetáculo depois vieram outros atores pra também compor esse elenco que necessitava de mais atores e os músicos que também fazem parte do espetáculo A partir daí como o grupo foi convidado para assumir o espetáculo também não só pra interpretar os personagens a partir daí eu acho a gente foi assumindo funções também de gerenciamento humano porque tinha outras pessoas participando também do trabalho não era mais só entre a gente As decisões que a gente tomava a partir dali passava a afetar outras pessoas também e o comportamento de outras pessoas externamente também afetava o grupo enquanto repercussão responsabilidades dos vários pontos de vistas financeiro de produção enfim E também o próprio gerenciamento nesse sentido também de financeiro de funções porque a partir desse espetáculo a gente começou a encenar de uma forma diferente Em se tratando do ponto de vista financeiro que eu vou ficar muito nesse âmbito porque é o âmbito que eu passei a cuidar muito a partir daí antes já existia mas era uma circulação muito pequena de finanças dentro do grupo entrando e saindo As montagens dos espetáculos do ponto de vista do financeiro era muito simples porque na maioria deles a gente emprestava o que era necessário de dinheiro ou tomava emprestado de familiares e depois com as sessões dos 133 espetáculos a gente conseguia repor Neste momento também a gente ainda não vislumbrava ser remunerado ou viver de teatro como se diz a partir do Grupo Ninho Então não tinha uma responsabilidade tão grande mas a partir de Charivari que aí a gente já tinha uma prestação de contas interna e também foi junto com o espetáculo que a gente propôs o primeiro projeto no sentido de inscrever em edital Então a partir daí as coisas começaram a ganhar uma coisa mais séria do ponto de vista jurídico é pelo menos como eu percebo e também do ponto de vista de produção porque cada vez mais o grupo foi ganhando mais visibilidade A partir daí eram três espetáculos Charivari trouxe a novidade de ser de rua e ser comédia até então a gente não tinha essas modalidades de teatro e trouxe mais visibilidade também Então a partir daí com um ano e pouco só ainda de grupo as coisas começaram a ganhar uma proporção de mais responsabilidade e foi aí também pra se inscrever nos editais que a gente percebeu a necessidade de ter CNPJ se cadastrar juridicamente e aí isso gerou outras responsabilidades de prestação de contas de contabilidade enfim Bom e aí vai nesse processo e aí em 2011 também através de uma inscrição em um outro edital a gente abre a Casa Ninho que é um espaço cultural que a gente coordena e essa é que vai trazer mais funções mesmo porque é necessário abrir a casa mantêla do ponto de estrutura da casa do ponto de vista de limpeza é preciso manter a dinâmica dela no sentido de que a gente faz os trabalhos da gente os ensaios as reuniões as apresentações e ainda recebe e muito trabalhos de outros coletivos Então tudo isso requer muita atenção e muito gerenciamento disso tudo Então aos poucos a gente foi descobrindo habilidades e desenvolvendo capacidades a partir dessas habilidades que a gente já tinha pra poder gerenciar tudo isso e hoje são sete trabalhos sete espetáculos teatrais e mais a casa pra gente gerenciar e mais todos os processos de editas e projetos aprovados e os processos anualmente da parte financeira declaração de imposto de renda por exemplo e outras coisas nesse sentido Então eu acho que hoje nós somos sete pessoas fora os parceiros que trabalham junto mas do Grupo Ninho mesmo somos sete Então eu acho que hoje depois de muitas vivências acho que hoje a gente tá vivendo um momento mais tranquilo do ponto de vista de assumir essas funções porque no meu caso por exemplo eu tenho habilidade natural de organização financeira e as vivências até hoje se a gente começar de 2008 quando começou a ter esse movimento financeiro pequeno mas já tinha são oito anos quase de experiência As vivências foi me obrigando a ir entendendo um pouco mais das coisas do financeiro 134 não é necessariamente pra mim a coisa mais prazerosa por exemplo falando de mim particularmente mas eu sei que eu tenho essa habilidade e que posso contribuir com o grupo nesse sentido e também não é tão difícil pela questão de ter a habilidade e de certa forma ter uma certa simpatia Então eu acho que isso acaba acontecendo com todos nós dentro do grupo a gente acabou hoje eu entendo que a gente assume funções que a gente tem habilidade e que a gente tem prazer ainda que não seja a coisa mais prazerosa para gente mas por conta da gente não poder ainda contratar pessoas pra desempenharem esses serviços a gente se propõe a desenvolvêlos da melhor forma Edceu Como você entende as relações do grupo a partir das funções assumidas Eu percebo que existem conflitos nesse sentido alguns que são externalizados porque pela nossa convivência de oito anos com maioria dos integrantes outros foram entrando no decorrer da caminhada mas por essa convivência e pela oportunidade de ter conhecido pessoas com experiência de grupo que puderam fazer observações que eu acho muito valiosas pra gente eu percebo que os conflitos existem que alguns a gente já tem condições de externalizar e de conseguir se compreender e outros ainda não outros a gente ainda guarda que há momentos que a gente acha que tá com uma responsabilidade alguns de nós que em determinados momentos acha que está assumindo maior que os demais mas eu percebo isso em quase todo mundo uma espécie de peso digamos assim com um peso maior Isso varia uma hora é um outra hora é outro e também é em aspectos diferentes para mim particularmente eu acho isso muito tranquilo acho natural que isso aconteça Alguns anos atrás eu não me sentia assim me sentia muitas vezes explorada por mim mesma assim porque eu achava que eu me dedicava demais enquanto que eu julgava que outras pessoas não se dedicavam tanto mas é como eu disse a gente foi tendo a oportunidade de conhecer algumas pessoas externas ao Grupo Ninho que compartilharam essas experiências de grupos de teatro também e que eu fui foi percebendo que é isso mesmo que cada um se dedica no que pode e como pode e hoje eu pessoalmente vejo isso de uma forma muito tranquila O que me inquieta em alguns momentos são posições que às vezes são compartilhadas com pessoas de fora que às vezes repercute na imagem do grupo mas que eu mesmo posso pecar nesse sentido porque é difícil são sete cabeças sete vivências diferentes gerações diferentes 135 experiências diferentes pontos de vistas diferentes sobre várias coisas Então às vezes eu percebo divergências nesse sentido mas no sentido das funções eu acho que a gente não consegue desempenhar cem por cento as funções pras quais a gente se propõe por uma questão de tempo porque a gente precisa também ainda hoje se dedicar a outros trabalhos pra geração de sobrevivência de sustento financeiro individual de cada um mesmo cada um com suas necessidades individuais Então não tem o tempo que seria não sei se ideal mas o tempo que a gente gostaria de ter pra nos dedicarmos ao grupo Então nesse sentido a gente não consegue desempenhar as nossas funções mas eu sei que dentro do limite que a gente tem por conta dessa questão mesmo de ainda não ser possível trabalhar exclusivamente pro Grupo Ninho eu acho que a gente dá o esforço do nosso limite assim é cem por cento dentro do nosso limite mas que o grupo hoje já exige um pouco mais A gente não pode pagar pessoas de fora não pode contratar pessoas externas pra fazer então a gente vai fazendo no limite que a gente pode Edceu Como você entende as relações de imagem interna e externa Talvez o que falte seja uma assessoria de comunicação talvez essa seja uma habilidade que ainda não seja desenvolvida entre nós integrantes e a gente não tem nenhum parceiro nesse sentido Então talvez seja nesse caminho mas nós também somos pessoas de personalidades muito fortes e diferentes então eu acho que nenhum assessor também daria de conta disso não continuaria tendo essas questões mas quando eu coloquei isso foi mais no sentido mesmo de que assim eu acho que hoje a mim pessoalmente a questão das funções elas até que estão encaminhadas vez ou outra eu não cumpro a minha conforme o grupo esperava vez ou outra alguém não cumpre outra pessoa que não eu mas talvez seja o momento em que elas estão mais harmonizada e daqui pra frente se torne mais harmonioso ainda mais é nessa questão de ponto de vista mesmo de como cada um percebe o grupo objetivos de vida com relação ao grupo que é uma empresa que a gente também funciona como sócios é mais nesse sentido que eu falei Eu que acho que existe objetivos diferentes alguns convergem tem alguns objetivos que eu tenho e todos os demais também tem mas tem mais um milhão de outros objetivos que não convergem Então eu acho que nesse momento é muito mais isso da questão das funções porque a questão do meu objetivo vai esbarrar na questão da função que eu desenvolvo É um universo um grupo de teatro é um universo paralelo mas pra me 136 fazer entender por exemplo eu cuido mais da parte financeira então é natural que quando a gente queira fazer algum investimento a minha opinião tenha não uma importância maior mas uma tensão maior porque eu vou colocar o que é que a gente tem o que que a gente deve o que a gente tem pra receber fazer essa explanação Então se é algo que eu não ache interessante pra investir é muito provável que eu naturalmente às vezes até sem premeditar naturalmente eu faça com que acabe convencendo os outros a não investir e assim é em todas as funções entende Percebo isso mais ou menos em todas as funções Edceu Existe um produtor no grupo Se não como acontece a produção do grupo Não existe um produtor específico existe algumas pessoas que se dedicam dentro do grupo pra essa função de produção mas de forma mais intensa da forma como eu entendo são duas pessoas dentre os sete que se dedicam mais a produção e os outros dão apoio pra essa função Não existe um produtor específico existe essas duas pessoas que se dedicam um pouco mais e as outras pessoas que dão apoio a esse trabalho e existe a parceria com uma produtora que no caso é a Ato Marketing Cultural que a três anos vem trabalhando em parceria com o Ninho e cada vez vem se intensificando mais o trabalho de produção do Ninho hoje em dia É muito caso a caso por exemplo cada espetáculo estreou e estreia de forma diferente de acordo com o momento que a gente está vivendo seja do ponto de vista de como a gente percebe o grupo hoje no sentido de produção de como é que vai se organizar financeiramente para estrear o espetáculo como é que vai se organizar do ponto de vista de ensaios se vai convidar pessoas externas para trabalhar no espetáculo como é que se dá isso e também do ponto de vista da circulação dos espetáculos A gente busca abrir portas agente se inscreve em editais de incentivo às artes agente se inscreve em festivais a gente manda propostas quando as instituições são abertas a isso propostas mais diretas pra fazer apresentações a gente recebe convites das mais variadas fontes assim de escolas de apresentar em uma festa de um santo da casa de uma pessoa como já aconteceu enfim Aí a cada caso que aparece a cada oportunidade que aparece de trabalho a gente vai pra reunião pra discutir como vai se dar o trabalho de cada vez que ele aparece de cada porta que se abre pra trabalho com relação a quanto vai custar cachê como vai ser questão transporte as questões técnicas Por exemplo no caso das questões técnicas eu percebo que a gente vem 137 cada vez mais se desvencilhando delas no sentido de ir criando possibilidades se apresentar nos mais variados lugares se desafiando nesse sentido de se apresentar nos mais diferentes lugares para mais distintos públicos também mais distintas estruturas físicas dos espaços e aí a cada caso que surge a cada vontade porque às vezes surge da vontade de um integrante do grupo se inscrever num determinado festival seja ela uma vontade porque vislumbra porque aquele festival será importante ou porque o cachê é interessante enfim A cada oportunidade dessa que a gente vai descobrindo a gente vai discutir como vai se dar e aí acaba alguém assumindo a produção daquele trabalho e os demais vão participando da forma como vai sendo solicitado pela própria demanda do trabalho Eu sinto que isso de não ter o produtor especificamente alguém que assuma literalmente a produção às vezes faz com que fiquem falhas mas não são falhas que nos impossibilita de trabalhar mas talvez se abrisse um campo maior de trabalho se a gente tivesse alguém que pudesse se dedicar exclusivamente pra produção porque nós todos somos atores alguns dirigem dentro do grupo outros assumem a parte técnica ou todo mundo acaba assumindo alguma coisa de técnica dentro do grupo e ainda questões de produção do financeiro Então é um modelo bem particular de administração mesmo até hoje eu não vi isso em nenhum outro âmbito é interessante conversar com o contador que faz esses serviços para gente e perceber que pra ele isso é totalmente inusitado nenhuma outra empresa das muitas empresas no mínimo uma duzentas empresas que ele ajuda a administrar e nenhuma tem modelo parecido com o nosso Aí a gente sabe que os outros grupos de teatro têm no caso dele é porque ele só ajuda administrar na contabilidade de um grupo de teatro Então é isso Então a gente acaba também dentro das funções se ajudando na produção é uma delas alguns assumem mais outros vai ajudando com as experiências que vão percebendo a gente também se permite vivenciar o trabalho como artista em outros lugares que não só no Grupo Ninho e aí a gente vai trazendo também as experiências de outros lugares pra dentro do grupo principalmente do ponto de vista da produção vai percebendo como é que os outros se produzem e vai compartilhando essas experiências Fora as oportunidades de compartilhar com outros grupos de teatro seja pessoalmente no contato com esses outros grupos seja grupos locais ou sejam grupos de outras cidades outros estados e até de outras regiões do país ou pela leitura de experiências de outros grupos 138 Edceu Como vocês pensam a Casa Ninho enquanto gestão Como ela interferiu na dinâmica do grupo A princípio quando a gente pensava em ter um espaço era muito mais no sentido de ter um lugar em que a gente pudesse ensaiar sem depender de outros espaços porque muitas vezes a gente marcava ensaios em outras instituições e eles acabavam sendo cancelados pela instituição e também um espaço onde a gente pudesse organizar as nossas coisas Nesse momento quando a gente conseguiu abrir o espaço Casa Ninho a gente tinha três espetáculos então já tinha muito material de cenário figurino enfim Mas aí depois que a gente conseguiu visibilizar recursos de um edital pra poder abrir a Casa Ninho a gente percebeu que não seria interessante que ela funcionasse só com essas características mas que também pudesse ser um espaço onde a gente pudesse se apresentar e também pudesse compartilhar com outros coletivos e quando a gente foi buscar o prédio pra ocupar como Casa Ninho pra alugar a gente já buscava um prédio que fosse dessa forma e a gente encontrou esse que é mesmo que a gente trabalha até hoje e só se conformou a importância de ter um espaço para gente mas que seria muito edificante poder compartilhar esse espaço com outras pessoas e não no sentido de estar prestando um serviço simplesmente pra essas pessoas mas que também gere uma dinâmica interessante no sentido de compartilhar experiências da forma mais prática possível porque a gente recebe artistas para fazer espetáculos shows reuniões na Casa Ninho e a gente percebe a forma deles de trabalho e de como eles percebem o espaço que a gente gerencia Com relação às mudanças com o grupo elas se deram no sentido de poder ter um espaço para trabalhar o que nos gera uma segurança maior de saber que a gente vai poder ter um local onde a gente possa desenvolver nossos trabalhos muitas vezes até experimentais convivência que em outros lugares isso não seria possível porque enquanto a gente puder pagar por esse aluguel o chão é nosso o teto é nosso as paredes são nossas Então a gente pode utilizálo e podemos permitir que outras pessoas utilizem ele de uma forma muito particular e modificou também a nossa dinâmica no sentido de que é necessário se gerir para sustentar a Casa Ninho porque a gente se sustenta mutuamente O Grupo Ninho sustenta a Casa Ninho a Casa Ninho sustenta o Grupo Ninho porque a casa nos sustenta no sentido de ser um espaço onde a gente possa produzir trabalhos e apresentar sem que a gente precise pagar além do aluguel por esse espaço e o Grupo Ninho sustenta a Casa Ninho 139 porque em alguns momentos a gente teve como pagar o aluguel financiado através de editais pelos quais a gente teve projetos aprovados Edceu A Casa Ninho como espaço de formação e sua expansão O Grupo Ninho tem projetos alguns até já desenvolvidos no sentido da formação iniciação teatral e também com mediação em teatro mas existem um desejo de que seja maior e também existe um desejo de que seja independente porque até agora as oficinas que a gente conseguiu fazer na Casa Ninho e até curso porque a gente já conseguiu fazer um curso com extensão de seis meses um pouco mais longo com montagem de espetáculo eles estavam atrelados a projetos que a gente conseguiu aprovar em editais e por questões financeiras e por não ter ainda um financiamento contínuo pra Casa Ninho A gente ainda não conseguiu fazer de forma mais independente mas eu percebo que a gente tem essa vontade de ter esse projeto e também tem projetos individuais Tem integrantes do Grupo Ninho que em alguns momentos apontaram o desejo de poder desenvolver aulas oficinas no espaço da Casa Ninho no sentido de que isso pudesse gerar renda para Casa Ninho e renda individual pra pessoa que tivesse ministrando e também pra que o grupo também pudesse investigar um pouco mais a questão da formação Edceu Como você se ver dentro da dinâmica do Grupo Ninho No Grupo Ninho eu desempenho principalmente as funções de atriz e tesoureira mas que acho que é muito mais uma coordenação financeira do que tesouraria mas a gente tem esse cargo de tesouraria por conta do nosso estatuto Então hoje como eu me percebo no Ninho como atriz eu me sinto satisfeita mas inquieta sempre porque a gente tem desenvolvido trabalhos a partir de pesquisas e isso gosto muito porque propõe coisas novas pra mim como artista e como pessoa que uma coisa não se desliga da outra e até como professora que acaba indo para sala de aula também as experiências vivenciadas no Ninho todas elas acabam indo para sala de aula Na questão da direção é um aprendizado todas as funções são mas essa pra mim é a mais nova de todas e é a mais difícil de todas neste momento mas até mesmo com as dificuldades que vivencio no trabalho que dirijo eu ainda quero repetir ainda penso em outros projetos pra direção mas é uma dificuldade muito grande que essa dificuldade está na nossa relação enquanto grupo Mas é uma longa história mas acho importante pontuar por que é experiência do ponto de vista da formação tenho 140 uma vontade muito grande ainda dentro da Casa Ninho de poder trabalhar pra formação de outras pessoas E do ponto de vista do financeiro é um aprendizado sempre que não é a formação mais prazerosa para mim como eu já disse mas que não deixa de ter uma simpatia por ela também de gostar dela também me sinto tranquila percebo que até hoje tudo que a gente vivenciou era o que tinha pra vivenciar mesmo mas me sinto inquieta no sentido de que a gente continue buscando coisas 141 TRANSCRIÇÃO DAS ENTREVISTAS COM INTEGRANTES DO GRUPO NINHO DE TEATRO 2020 Transcrições de Áudios Tempo total de gravação 02 horas e 58 minutos 40 áudios Modalidade de Transcrição Ipsis litteris na íntegra Legenda pausa ou hesitação inint hhmmss palavra ou trecho ininteligível Início das Transcrições Sâmia Ramare Áudio 1 001233 É eu tava chegando no Cariri é fazia menos de um ano que eu havia mudado pra cá pro Cariri E em 2012 é a Casa Ninho abriu o primeiro curso de formação teatral e também era um espaço que tinha aberto as portas há pouco tempo também A Casa Ninho abre as portas no em 2011 e o curso inicia em 2012 É eu eu faço o processo seletivo né é tinha toda uma uma etapa pra cumprir de inscrição de envio de currículo e aí eu enviei o material e fui selecionada É e o curso ele era ministrado por vários artistas do Nordeste e também é de outras regiões do país Artistas e educadores e educadoras bem é bem competentes né Pessoas de teatro e aí eu conheci a Casa Ninho mais profundamente O uma coisa que me marca muito assim até hoje na minha memória foi o primeiro dia que a gente tava no curso de corpo com Tomaz de Aquino e ele pedia pra gente pra varrer aquele espaço né pra cuidar daquele espaço como se fosse o nosso corpo que a gente tinha que limpar antes de enfim se exercitar alguma coisa assim E aí é isso marca muito eu pegando uma vassoura eu e as outras pessoas que faziam parte aí cada um limpava um pouquinho e e aí a gente foi tomando essa propriedade do 142 espaço sabe É toda vez que eu entro na Casa Ninho eu lembro eu tenho essa memória muito forte em mim cuidar daquele espaço E depois é eu me aproximei mais do Grupo Ninho a gente ficou é trabalhando juntos assim eles me chamavam pra fazer alguma técnica e eu ia e essa aproximação foi se estreitando cada vez mais e em dezembro de 2013 eles eles e elas me convidam pro Grupo Ninho né E claro que a resposta seria sim porque a gente já tava num envolvimento muito forte né E eu me vejo ali em dezembro de 2013 pouco tempo chegando na cidade mas já conhecia o Grupo Ninho né de festivais e sempre foi um coletivo que eu admirei muito e eu chego naquele lugar né e meu Deus agora é um outro passo né Eu tô entrando num grupo de teatro é essas pessoas são o que minhas São minhas amigas São meus colegas de trabalho São só meus colegas de trabalho E essas perguntas elas vão se dando até hoje assim É a Casa Ninho é um espaço extremamente importante na minha formação enquanto artista porque quando eu entrei no curso é eu também tava entrando na universidade É sou formada em Licenciatura em Teatro pela Universidade Regional do Cariri então a Casa Ninho me acompanhou e me acompanha até hoje na minha formação enquanto artista Então todos os espetáculos que passaram ou passam pela Casa Ninho eu me sinto sempre nesse pleno movimento de formação né porque hoje eu sou professora é de teatro e aí como a Casa Ninho me influencia é na minha vida na minha carreira É um espaço autônomo né que são dois coletivos que se desdobram pra tanto fazer a gestão do espaço como a limpeza eu fico brincando que na Casa Ninho eu sou bombril mil e uma utilidades Eu sou desde a pessoa que faz o café que limpa o banheiro à pessoa que vende os ingressos recebe os ingressos na porta dá boasvindas ao público então é um espaço que ele ele ferve em relação à formação né A gente tá sempre se melhorando enquanto ser humano e enquanto artista vivendo naquele espaço É hoje depois de inint 000532 vinte a Casa Ninho vai fazer nove anos nesse ano de 2020 e as vezes eu sinto que é a primeira vez de muita coisa sempre que um grupo vem é nos nos pergunta sobre pauta é ou então nos indica pra outros coletivos porque a maioria dos coletivos do país é vem pro Cariri e entra em contato primeiro com a gente né pra saber como que funciona a pauta é se eles e elas podem apresentar e então é como se a Casa Ninho fosse uma grande porta de entrada pras artistas e pros artistas do Brasil assim é conhecer o Cariri né através da Casa Ninho é hoje a gente consegue depois de algumas coisas que que aconteceram né ao 143 longo do tempo a gente foi se aprimorando e hoje a gente consegue ter nossa pauta organizada por exemplo tem as taxas que as pessoas contribuem o nosso ingresso é bem popular né assim a gente tem um programa desde 2014 que chama PQP Pague Quanto Puder então alguns espetáculos dos grupos que compõem fazem a gestão da Casa Ninho você pode assistir desde não pagar nada até pagar o valor que você puder né Os espetáculos que fazem temporadas na Casa Ninho sempre são a preços populares é a gente faz de tudo pras pessoas assistirem mesmo os espetáculos até porque na cidade não tem um espaço é de formação e fruição público né assim os teatros da cidade do Crato estão fechados é a gente fica muito triste com isso e a gente vê a importância é da existência da Casa Ninho né ela ela ultrapassa esse lugar privado é de dois grupos Hoje a Casa Ninho ela tem uma uma importância pro pros artistas do Brasil mesmo né que é um espaço que se mantem pelo pelas pessoas e ele se mantem pela fora de cada pessoa que doa que contribui pra esse espaço se manter vivo por nós artistas do Grupo Ninho e do Coletivo Atuantes em Cena que destinamos é uma porcentagem do nosso cachê pra pagar as contas da Casa Ninho Então é um espaço totalmente é financiado pelas pessoas pelo pelo público mesmo né É outro outro fato bem bem importante que acontece em 2019 é que a gente consegue o Grupo Ninho através do edital Rumos Itaú Cultural reformar o espaço e fazer com que a gente consiga instalar os equipamentos de iluminação que nós contemplamos no edital da no edital da Funarte né que que eles abrem um edital a gente se inscreve passa e aí recebemos esse material só que não tínhamos como instalar e aí com outro edital do Rumos a gente consegue fazer toda uma reforma na Casa Ninho pra ter estrutura pra receber esse equipamento Então hoje a gente tá com um equipamento é é praticamente um teatro um teatro como a gente consegue imaginar um teatro é extremamente equipado com equipamento de ponta sim e a gente vê hoje outros desafios que é essa luz essa taxa de iluminação que aumenta e como é que a gente vai fazer Mas sempre pensando é na mem na na melhora desse espaço Como que a gente pode receber ainda melhor é os grupos que vêm apresentar como a gente pode receber ainda melhor o público que vem assistir É a cada ano que passa é uma nova luta e é uma nova conquista Hoje por exemplo a gente tá lutando pra conseguir fazer nossas arquibancadas pra conseguir colocar uma é uma estrutura de de de ventilação melhor na casa Então é essa essa casa é a nossa casa né é onde a gente coloca afeto 144 trabalho suor e é e junto com todas as adversidades porque são várias pessoas pensando coisas e pensando o melhor pra casa é então eu acho que a Casa Ninho é tudo isso é um um coração pulsante sabe Que tem horas que às vezes pode ser pesado mas vale a pena sabe Vale a pena quando você vê aquela casa cheia de gente e as pessoas agradecendo é porque na cidade não conseguem ter ter esse outro espaço assim de de de afeto de de fruição esse espaço que junta tanto as pessoas e que as pessoas conseguem ficar perto sabe Conseguem trocar afeto E agora nesse momento né que a gente teve que fechar nossas portas por conta de uma pandemia é aí que que eu consigo perceber o quanto esse local é importante pra mim pra minha vida sabe É Eu acho que é isso Desculpa se ficou longo Tem muita memória nas nas minhas palavras Brigada Ed Boa pesquisa Sâmia Ramare Áudio 2 000302 É Formação do Grupo Ninho né Eu sempre gosto de falar da história do Ninho pela minha perspectiva né de como eu conheci o Grupo Ninho é eu conheci o Grupo Ninho no ano da da formação em 2008 ou foi 2007 ou foi 2008 eu vou conferir essa data ainda esse ano É a gente se conheceu no Festival de Teatro de Acopiara é um festival super importante aqui pro pros grupos do interior do estado do Ceará É eu assisti o espetáculo Bárbaro né Eu tava indo com outro grupo na época eu morava em outra cidade e eu assisti o Bárbaro e fiquei muito impactada assim com o com o conteúdo com a forma de fazer é porque naquela época eu tava dando os meus primeiros passos no teatro né eu ainda era adolescente e ver o espetáculo Bárbaro me marcou muito assim é no no meu entendimento de artista mesmo de atriz me marca bastante E eu sempre acompanhei o Grupo Ninho né depois que a gente se conheceu em Acopiara nos tornamos amigos trocamos figurinhas e tal e sempre acompanhava É e quando eles iam pra pra Fortaleza nessa época eu morava pertinho de Fortaleza eu pude ir ainda assistir algumas apresentações assim é um grupo que eu sempre admirei desde a formação desde quando eu os conheci e as conheci sempre admirei é pelo trabalho Então o Grupo Ninho surge pra mim em Acopiara e é bem marcante a época que surge é como eu estava né assim iniciando na vida teatral é ter 145 ter assistido o espetáculo Bárbaro me impactou é um é um processo que marca muito é minha vida né Sâmia Ramare Áudio 3 000435 Integrantes Nós somos oito quatro mulheres e quatro homens com vidas idades é nascidos em cidades completamente diferentes somos de várias partes do estado do Ceará né e eu acredito que isso é faz toda uma diferença né É por algum tempo eu fui a integrante mais nova tanto de idade quanto de tempo de de teatro E isso pra mim é nessa época que foi logo quando eu entrei no grupo em 2013 era uma coisa muito boa pra mim porque eu tava ali com pessoas super experientes tanto de tempo de vida quanto de tempo de teatro e isso ao meu ver sempre foi muito muito bom pro Grupo Ninho tanto em relação à diversidade de de conteúdo que a gente conse conseguia e consegue trocar até hoje é diversidade de estéticas diversidades de de gênero e de orientação sexual e de pensamento de mundo e de pensamento de teatro Então hoje nós somos oito cada pessoa vai se se afinando em uma área né Eu por exemplo durante muito tempo de 2013 até 2019 eu fiquei mais nessa parte da comunicação das mídias sociais que é que é uma coisa que eu gosto muito Então a gente vai por aí mesmo pela sua afinidade como você pode contribuir com o grupo e depois é de 2019 pra agora né pros tempos atuais eu dei uma mudada né agora eu tô na parte do financeiro que é uma parte que me desafia muito mas eu tô começando a pegar gosto pela coisa assim é é são são desafios são coisas novas que você vai aprendendo e cada coisa tem sua importância sabe Cada função tem sua importância É tem o Edceu que ele tá na gestão pensa projetos desenha todo mundo pensa junto também mas ele é é a pessoa que tá que tá nessa frente é de escrita de projeto também tem Rita que ela contribui muito por conta da formação dela acadêmica né Pensar toda essa questão de de planejamento estratégico de produção tem a Monique que ela tá muito a frente e o planejamento estratégico nos ajuda muito assim é tem o Eudes também que ele tá junto com projetos Tem o Elizieldon que ele cuida de toda a parte assim da Casa Ninho ele é a pessoa que tá à frente O Fagner que cuida agora dessa parte de comunicação mídias sociais é Joaquina ela também tá muito ligada a essa parte de produção parte de escrita de projetos ela também desenvolve essas práticas Então assim tá cada um 146 movendo uma engrenagem né Se você olha assim é eu consigo visualizar uma teia E aí a gente consegue conversar confabular coisas é um sempre tá ali ajudando no trabalho do outro se algum tem uma dificuldade coloca na roda pra todo mundo se ajudar Então assim é um grupo mesmo é constituído por diver diversos pensamentos né São oito pessoas realmente trabalhando praquela engrenagem dar certo praquele carro andar né Sâmia Ramare Áudio 4 000404 Repertório Nós temos sete trabalhos né Bárbaro Avental Todo Sujo de Ovo Charivari O Menino Fotógrafo A Lição Maluquinha Jogos na Hora da Sesta e Poeira E estamos em sala de trabalho né 2020 a gente tá a gente tá em sala de trabalho com dois trabalhos É eu Joaquina e Rita estamos pensando agora tá nos movendo um trabalho que fale sobre o feminino e Edceu Fagner e Elzieldon estão o que tá inquietando eles é a coisa da das masculinidades É quando você olha assim do Bárbaro de 2007 até 2020 né assim a gente consegue ver um repertório muito plural né do Grupo Ninho A gente nunca assim nunca tipo se apegou numa coisa e foi só aquela coisa Não a gente teve toda uma diversidade né de temas de estéticas de formas de fazer os espetáculos andarem Quando eu penso no Charivari que é um espetáculo de rua que tem uma banda em cena né tem músicos em cena e é rua todo mais pra fora todo musical E aí eu penso no Avental que é uma um espetáculo pequeno simples to demarcadinho ali eu vejo a pluralidade né do Grupo Ninho Então esse repertório também nos amadureceu muito né porque dentro dos trabalhos o que me encanta também me dá essa força pra continuar é que to todas as pessoas ali são importantes desde a atriz até a operadora de luz até operadora de som até a gente que coloca o arroz que tira o arroz Então todo mundo é importante pra esse repertório ele caminhar né desde uma inscrição num festival até é o pagamento de um cachê né todo mundo é importante pra esse repertório ele se manter ativo Alguns espetáculos a gente é decidiu por bem não fazer mais por conta de toda uma logística mas os que ainda permanecem a gente consegue fazer assim consegue apresentar na Casa Ninho consegue é circular pelos festivais nesses nesses tempos de agora que os festivais estão tão minguados né a gente ainda consegue ir e é uma alegria muito grande quando a gente consegue circular com o nosso repertório tendo em vista todas as dificuldades 147 que é no nosso país se circular né A gente tem todo um um uma energia né um um enfim adversidades pra construir um espetáculo e de repente a gente não consegue circular por falta de políticas públicas no nosso país Então é mais ou menos isso assim sobre repertório Sâmia Ramare Áudio 5 000203 Poética Eu acho que a a poética tá muito ligada no que eu acabei de falar sobre repertório né que nós do Grupo Ninho e antes de eu estar é as meninas e os meninos já pensavam coisas falar sobre nós né sobre as pessoas é nordestinas cearenses pessoas pobres so sobre nós falar da gente né Então a cada passo que as coisas vão caminhando eu vejo muito mais essa poética de se aproximar de nós mesmos de nos aproximarmos da nossa histórias das histórias que não foram contadas é que são as histórias das das mestras e dos mestres da tradição popular do Cariri por exemplo como em Poeira É no Avental falar desse homem simples dessa mulher simples das nossas mães das nossas avós Então o repertório do Grupo Ninho tá muito é quer dizer a poética do Grupo Ninho tá muito atrelada a às pessoas é às pessoas cearenses ás pessoas simples é personagens da vida cotidiana mesmo como a Professora na A Lição Maluquinha uma estudante ou um estudante sobre as nossas histórias mais simples e e que consequentemente quando você coloca na cena ela se torna mais mais forte né porque a gente tá falando da gente Sâmia Ramare Áudio 6 000432 Projetos É lá em cima eu também falei de de projetos eu acho quando eu tava falando sobre os integrantes do grupo Projetos todo mundo contribui né assim desde a da escrita até a execução É olhando pra história do Grupo Ninho esses doze anos a gente já conseguiu é aprovar vários projetos e executar vários projetos importantes é o primeiro projeto assim que eu lembro de de grande importância foi o projeto de de um curso livre de iniciação teatral né que eu pude fazer e desde aí o meu o meu contato com o Grupo Ninho ele aperta os laços eles apertam né que trazer vários profissionais do Nordeste é pra ministrar aulas pros artistas da região do Cariri tendo em vista que aqui é não assim a gente 148 tem cursos é na tem curso de teatro na universidade mas quando você vai ver assim cursos mesmo de formação pros artistas da região nossa nossa região é muito carente Então o Grupo Ninho sempre é pensa em projetos que vão olhar pra pra sociedade né que que vão olhar pros artistas da região que vão olhar pras pras pessoas É então a gente consegue ver aí na nesses doze anos é projetos que sempre olharam né assim que as pessoas puderam ter contato puderam aproveitar Por exemplo o Sessão Dupla que é eu eu escuto muito falar desse projeto que eu acho encantador que é você circular com dois espetáculos olha que loucura circular com dois espetáculos por escolas por lugares inimagináveis assim com condições mínimas de se apresentar e iam lá apresentavam Lembro também de um projeto que que nós fomos aprovados da Petrobrás que a gente ia em lugares assim que não tinham nada fomos numa escolinha que não tinha nada levamos nossos refletores e apresentamos o Avental pra uma escola e pra pra pessoas que várias nunca tinham assistido um espetáculo teatral ai me emocionei desculpa É então e eu fui privilegiada por um projeto do Grupo Ninho né é então eu vejo a importância desses projetos é a forma como eles são pensados e executados Agora a gente tá com um projeto que é a Escola Carpintaria da Cena que você tem sete é módulos de artes cênicas de teatro e sete módulos com mestres e mestras da cultura popular do Cariri que as pessoas têm oportunidade de ver e ouvir é de fazer coisas de criar né você depois que passa por um um projeto tão extenso o quanto de material que você tem no seu corpo então os projetos do do Grupo Ninho eles são é muito importantes pra região do Cariri pra nós pra nós que fazemos o Grupo Ninho é sempre que a gente pensa num num num projeto é é pensando também nos desdobramentos que eles vão vão ter sabe Então acho que é mais ou menos isso Sâmia Ramare Áudio 7 000259 Sustentabilidade Sustentabilidade somos todas e todos nós assim todos os dias a gente tá pensando de como se manter em pé Tem uma uma frase que eu acho incrível que é o desafio é manterse de pé e é mesmo é mesmo porque é a gente na semana tem oito dias e a gente trabalha esses oito dias não tem feriado não tem final de semana não tem datas comemorativas até nos nossos próprios aniversários estamos trabalhando estamos pensando tanto a sustentabilidade desse 149 grupo a sustentabilidade de cada um e cada uma de nós quanto a sustentabilidade da Casa Ninho Então é todo mundo se pegando se pegando no no sentido de dar as mãos pra manter isso de pé mesmo sabe É desde limpar a Casa Ninho até vender os ingressos desde escrever um projeto até postar ele no no correio desde lidar com todas as situações é burocráticas que as instituições nos colocam E nos colocam no sentido de as vezes é as vezes como prova mesmo sabe E aí a gente tem que ser artista tem que ser burocrata tem que ser uma multiplicidade de coisas em uma só pessoa É com o planejamento estratégico o planejamento estratégico nos ajuda muito a pensar essa sustentabilidade né é e quando quando a gente consegue por exemplo aprovar um projeto sempre a gente cria várias vários leques assim é como esse dinheiro ele se multiplica por exemplo né que muitas vezes nesses projetos nã não tem rubrica pra pra nos sustentar pra nos nos pagar é nã não tem como pagar o o o espaço e mesmo assim a gente meio que tá sempre re reinventando a roda sabe Tá sempre traçando metas traçan confabulando coisas pra conseguir manter isso de pé né Acho que é isso Sâmia Ramare Áudio 8 000302 Formação que também eu acho que cai em alguma coisa que eu já já falei né é eu sou cria de um projeto de um curso de formação teatral que o Ninho inscreveu e passou e tal e e nesse curso né o ano era 2012 e a gente teve vários módulos né é de direção interpretação iluminação maquiagem enfim então eu eu eu sou eu sou cria disso que eles pensaram lá atrás É como a formação ela é importante aqui pra nossa região né que assim o a gente tem a Universidade Regional do Cariri com o curso de Teatro a gente tem os SESCs tem o Centro Cultural mas quando você vai olhar pra essa parte de formação dos artistas nossa região é uma região muito carente muito carente mesmo Tem cidades é daqui da nossa região que não têm um teatro que não têm uma oficina de artes alguma coisa não têm E aí muitas vezes é essas pessoas vêm vêm buscar aqui né Eu eu me recordo que agora na na na antiga turma da Carpintaria da Cena que é a nossa Escola Livre de Teatro tiveram pessoas que se deslocaram é tem o Chico que se deslocou de Oeiras no Piauí pra vir fazer a Escola aqui porque lá na cidade dele não tem Tem a Carleziana que é vinha de Iguatu no Sertão Central pra cá 150 pra fazer as aulas Então quando você olha pra essa parte da formação é é muito importante o trabalho que que a gente tá fazendo aqui no Crato né porque se vêm outras pessoas de outras regiões pra cá fazer aqui o nosso é porque na região deles nas cidades não tem E como como a gente tem uma responsabilidade sobre isso sabe Sobre sobre essas pessoas A gente tem um uma responsabilidade na vida delas É como esses cursos essas oficinas que a gente consegue ministrar consegue fazer através de edital como elas são importantes pro pro crescimento da região pro crescimento das pessoas Elizieldon Dantas Áudio 1 000337 O repertório do Grupo Ninho de Teatro Falar nesse contexto atual do repertório do Grupo Ninho onde onde se encontra todos os grupos e movimentos artísticos que que estão sofrendo de certa forma com o descaso né esse desgaste e o desmanche da dessas instituições que promove a arte É esse desgoverno que busca de certa forma é nos eliminar pelo cansaço da má administração E isso afeta todos os trabalhadores da arte de modo geral não só do do teatro E o Grupo Ninho es é está também passando por um momento crítico né de campanha da da casa e tudo mais Estamos a cada dia né buscando o sentido de de que nos fortaleça a cada passo né Nada é deixado de uma hora pra outra Não é doze anos de de luta de história de efervescência na na nossas veias de de horas de de luta de trabalho E e falar do repertório do Grupo Ninho de Teatro nesse momento é é dar de certa forma uma identidade uma afirmação ao nosso lugar exatamente em vinte e do é em 2008 o grupo já tinha um pensamento crítico de como colocar no palco as inquietações que nos afeta né é nos chegava de certa forma e continua chegando de maneira tão banalizada é as violências É assim falar do repertório do Grupo Ninho é lembrar de doze anos de história é de muito trabalho determinação dedicação à arte respeito com o público honestidade com as pesquisa é que nos nos fortalece de de construções que formam as narrativa que o público pode ver depois e e assistir é e e depois a compreensão com o companheiro de cena é a responsabilidade naquilo que faz E é assim que temos traçado a nossa trajetória de grupo É o repertório do Grupo Ninho posso dizer que inicia com quatro esquete é em julho de 2008 As esquete que de uma de uma forma pensada naquele momento era tratada as múltiplas faceta da da violência 151 Um panorama cinzento existencial que cada esquete traz um recorte dessa violência e o grupo viu viu a importância de comunicar e mostrar através da nossa arte que é que é pe é Elizieldon Dantas Áudio 2 000732 Continuando e e a importância de comunicar é de denunciar e mostrar através da nossa arte e é perceptível quando os atores e atrizes estão nesse jogo de de cena essa violência é vivemos em em um mundo cada vez mais acelerado isso faz com que o homem fique mais estressado no ambiente nesse ambiente né Assim contribuímos é para vários assim contribuímos para vários sentimentos inclusive o da da violência As esquete Yyycomvc de autoria de Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade ela trata da violência no mundo virtual Na segunda esquete Embalando Meninas em Tempos de de Violência é uma livre adaptação do do cordel homônimo de de Salete Maria Nessa esquete a violência prevalece sobre o universo feminino Terçafeira Gorda também é uma adaptação do conto de Caio Fernando Abreu A homofobia leva um homem a a ser assassinado pelo é em pleno carnaval Passeio Noturno é uma adaptação também dos contos Passeio Noturno Parte 1 Passeio Noturno Parte 2 do Rubens Fonseca Então essas discussões da da violência contribuiu no desenvolvimento do primeiro espetáculo do Grupo Ninho é houve um alinha alinhavamento é uma costura né entre essas esquete pelas pelas figura dos dos brincantes do Cariri que é os Careta E assim dando origem ao primeiro espetáculo do Grupo Ninho que é Bárbaro Isso em 2008 No elenco Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Emanuela Cidade Na direção é Jânio Tavares e Joaquina Carlos Em Avental Todo Su Sujo de Ovo Avental Todo Sujo de Ovo é um texto do Marcos Barbosa direção de Jânio Tavares Avental Todo Sujo de Ovo foi o espetáculo que promoveu a fundação do Grupo Ninho de Teatro e o espe e o espetáculo estreou no início do ano 2009 Uma relação familiar repleta de sentimentos limitações e cheiro de arroz doce da lembrança do filho que partiu é da presença constante da comadre e e o retorno surpreendente de alguém Esses são os tempero né da da vida dessa família Avental Todo Sujo de Ovo é no elenco o ator Edceu Barboza Joaquina Carlos Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio é protagonizam esse conflito Em Charivari Charivari é o é o primeiro espetáculo de rua do Grupo Ninho de Teatro 152 É um diabo é disfarçado de padre cai dentro de uma igreja e um morcego é faz amizade fielmente com o diabo Uma viúva chora feliz a é o cortejo fúnebre fúnebre do do defunto Uma beata apaixonada pelo padre e um sacristão gay Esses são os personagens de cunho hilariante que fazem um desfiles um desfile público é convidando quem está próximo é a participar dessa narrativa A dramaturgia é da Lurdes Ramalho e a encenação de Duílio Cunha Charivari estreou em setembro de 2009 É um espetáculo que passeia nas tradições cana carnavalescas medieval com picadas hilariantes do dos elementos do teatro contemporâneo No elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Joaquina Carlos Kelyenne M Kelyenne Maia Nilson Matos e Rita Emanuela Cidade É O Menino Fotógrafo um espetáculo simbolismo fantástico de 2011 Surgiu com o desejo do grupo de montar um espetáculo que fosse florescendo a partir de uma dramaturgia que fosse criada dentro da sala de ensaio A cada encontro os ensaios foram se enraizando e tomando forma Esse processo foi con é construído colaborativo com a Companhia de Teatro Engenharia Cênica tendo como encenadora e dramaturga Cecília Maria No elenco Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas é Joaquina Carlos é Luiz Renato Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio É é um é um momento histórico recortado por fragmentos de cenas teatrais cruzando simultaneamente em um bombardeio aéreo no Caldeirão da Santa Cruz do Deserto Jogos da na Hora da Sesta Jogos na Hora da Sesta é é um texto que foi escrito em 1976 durante a Ditadura Militar argentina O texto é da dra dramaturga romena radicada na Argentina é Roma Mauê correto Mahieu O Grupo Ninho de Teatro é monta Jogos na Hora da Sesta em 2012 Jogos pássaros cantam céu azul limpo sem nuvens brincadeiras de crianças revelam a violência e opressão as crianças observam e ro e reproduzem tudo que está ao seu redor Uma obra que nos fazem refletir e nos levantar discussões sobre autoritarismo O espetáculo é ambientado em um parquinho de uma praça No elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Kelliane Miller Kelliene Miller Kelliane Kelliane Miller e Rita Emanuela Cidade e Zizi Telecio Na direção Jânio Tavares É Elizieldon Dantas Áudio 3 000041 Ah voltando um pouco sobre Bárbaro né nessas nessa costura é a gente também traz em cena é a figura dos Caretas que na nossa infância eles nos 153 causava essa violência A gente tinha de certa forma um medo né Essa figura tão popular na região do Cariri que ele está presente nas festa de de reisados Na festa po nas festas populares da tradição aqui do Cariri Elizieldon Dantas Áudio 4 000253 Continuando é A Lição Maluquinha uma livre adaptação do do livro Uma Professora Muito Maluquinha do Zeraldo A história tem como pano de fundo uma escola da Professora da Menina do Menino Uma lição onde o amor vence todos os obstáculo é numa pequena cidade onde mora a Professora a Menina o Menino e outros habitantes que serão citados no decorrer da da aula como o Boêmio um admirador da professora o dono do cinema e amigo da professora onde ela leva seus alunos para assistir Casa Blanca um clássico do cinema mundial as fofoqueiras que sabem da vida de todos os habitantes da cidade o dono o dono da esquina que mora logo ali ao lado A Lição Maluquinha é o primeiro espetáculo infantojuvenil do Grupo Ninho de Teatro dessa forma foi uma maneira de contemplar toda faixa etária de público com o nosso trabalho A criatividade e os questionamento de como as aulas da Professora serão serão ensinada e e a formação dessas pessoas não só para atender às necessidade do mercado de trabalho mas dar dar uma contribuição é significativa para transformação na vida que é possível a partir do aprendizado de uma obra de arte o filme É nos estímulos para crescer a partir desse olhar mesmo assim ainda encontra resistência na nessa sociedade E ela passa por vários momentos é crítico infelizmente É o ano de 2013 foi dedicado a esse público né com esse espetáculo A Lição Maluquinha Quem vive quem vivencia essa essa lição dramática são os personagens o Boêmio interpretada por pela atriz Joaquina Carlos o Aluno Jânio Tavares a Menina Sâmia Ramare e a professora é feita por Zizi Telecio Na direção Rita Emanuela Cidade Elizieldon Dantas Áudio 5 000456 Em 2014 a pesquisa para o novo processo do Grupo Ninho né O Grupo Ninho de Teatro foi aprovado em um projeto de pesquisa da Escola Porto Iracema das Arte na qual tinha como ponto é como contrapartida um experimento da pesquisa realizada que seria compartilhar para todos os os alunospesquisadores da escola 154 e demais pessoas que estivesse afim de assistir né e aí o Grupo Ninho de Teatro é debruçamos né sobre o universo de de saberes de algum dos mestres da e mestra da cultura popular do Crato e Juazeiro Eles foram nossa nossa inspiração e fonte de pesquisa com respeito trabalho e admiração por cada né ten tendo em vista a grande contribuição que eles já fazem em nossa cidade em nossas cidades A forte é tradição da cultura popular trazem nas suas nas suas vivências nessa trajetória de vida com diversas linguagem é Reisado Dança do Coco Maneiro Pau Lapinha Jogo de Espada enfim são vários É é Pau de Fita enfim o Cariri Ceará tem tem esse berço da tradição dos Brincante Como a com a orientação da da da pesquisa Carlos Simione e o Jesser de Souza é do Lume Teatro é do Lume Teatro é de Campina Essas essa essa busca incessante pelo pelo conhecimento desses desse universo de de saberes de sabedorias de cada de cada um que cada um tem é a pesquisa foi foi dese desenvolvendo um um embrião né foi tomando forma de um embrião que no início teríamos batizado pelo nome de Tributo aos Mestres Nesse momento a gente já tinha muitos muito material suficiente para um espetáculo É tivemos também oficina de de dramaturgia da cena com Miguel Rubio Yuyachkani Peru é oficina de voz com Ernani Maletta Isso tudo em 2014 para a finalização do do projeto Em 2015 é tivemos que tivemos que por um motivo de de circulação do grupo né do do grupo é tivemos que parar a pesquisa também já tínhamos realizado o projeto é essa circulação do grupo no Palco Giratório do SESC à nível nacional não foi possível dar essa continui continuar a pesquisa é nos aprofundando mais né no no no mesmo ano Não foi possível se aprofundar tanto no mesmo ano É mas esse mas esse processo criativo não foi não foi descartado assim de certa forma O grupo quando ele retorna da circulação a gente volta para a sala de ensaio e em dois mil e e dezesseis com direção de Edceu Barboza e o Jesser de Souza criamos o sétimo espetáculo do Grupo Ninho Poeira É o espetáculo mais recente que surgiu a partir dessa dessa pesquisa com os mestre da cultura popular do Cariri Ele eles que nos deram tanta tanta contribuição e Elizieldon Dantas Áudio 6 000154 É Ninho É o Grupo Ninho ele ele surgiu em 2008 é pela através da montagem do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo do do Marcos Barbosa É 155 isso foi em uma discussão do dos meninos que tavam em nesse processo de montagem Edceu Barboza Jânio Tavares Joaquina Carlos Rita Emanuela Cidade e Zizi Quando retornava desse desse ensaio é começaram a falar da da atmosfe da atmosfera do do espetáculo enfim é do arroz espalhado na calçada que o arroz é amarelo Tem uma cena lá que que uma das personagens cisca o arroz com os pés e relembra a galinha que a galinha faz o ninho que o ninho é uma estrutura construída pelo pela pelas aves essas coisa toda E daí foi nesse em uma dessa dessas conversas desses retorno dos ensaio que surgiu o nome né que também era nesse momento que tava começando a surgir os festivais né e pra pra se inscrever nos festivais precisava de um nome E aí com essa cena que rola uma das atriz ciscando o arroz com os pés que relembrava galinha e aí apareceu o nome Ninho E aí foi dessa forma que surgiu o Ninho Isso em 2008 pela é através da montagem do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo Elizieldon Dantas Áudio 7 000354 É integrante do Grupo Ninho né A primeira formação do Grupo Ninho é eram cinco pessoas que era o exatamente o elenco de Avental Todo Sujo de Ovo e o diretor né E daí com eu acredito que com a necessidade de é de mais pessoas eu acho que pela forma do que o Ninho estava é se propondo né a surgimento de trabalho mais e mais então aí é eles convidam Alana Morais e eu pra fazer parte dessa equipe né E acredito que um ano depois Alana sai e aí nesse processo a gente tava com uma com uma escola de formação de um ano que a Sâmia também nesse momento estava fazendo essa escola de formação acho que era de nove meses senão lembro Enfim ela nesse momento começou a gente tava sentindo a falta de alguém para ficar no local de Alana na né E aí o que é que acontece é a Sâmia tava se destacando muito nesse no nossos olhares que a gente tinha tava observando alguém né também pra convidálo pra fazer essa essa pra preencher essa vaga E aí o que acontece é teve um momento que a gente convidou a Sâmia e ela aceitou então ela ficou é no Ninho ela tá no Ninho e depois o Jânio e a Zizi sai do grupo né e voltamos à estaca né à necessidade de convidar mais pessoas pra exatamente ocupar essas duas vagas Não digo é substituir porque ninguém substitui ninguém né mas com como a gente também tava precisando de pessoas pra somar né e aí a gente convidou o Luiz e o Fagner 156 É hum como Luiz morava em mora em outra cidade então eu acho que pela dificuldade de ele morar em outra cidade ele não não aguentou muito esse processo E aí a gente convida com como ele saiu a gente convidou Eudes né E aí e aí Eudes veio pra somar também Monique a gente já tinha uma parceria com Monique há mais de quatro anos que ela né fazia essa parte de de cursos de planejamento essas coisas e aí a gente já também precisava oficializar ela que ela não era do grupo assim dizer não era porque a gente ainda não tinha convidado mas a gente já sentia essa essa coisa que ela era já já do grupo mas a gente precisava oficializar E aí numa apresentação em São Paulo a gente quis oficializar lá em São Paulo né e aí convidamos ela pra ser mesmo oficial do grupo e aí estamos aí Nós estamos em oito oito pessoas O grupo hoje está com com oito mas quando surgiu era eram cinco pessoas Elizieldon Dantas Áudio 8 000257 É projetos os projetos da Casa Ninho é os projeto da Casa Ninho ele é muito quando o grupo o quando quando os grupos né que habitam a Casa pensam em em algum projeto já pensa também nessa na população como como é como esse projeto também poderia contemplar essas pessoas né E aí a partir desse desse pensar é temos a Escola Carpintaria da Cena que é um projeto de três anos é de formação em teatro com os mestres da cultura popular e alguns professores de teatro de de São Paulo e de Fortaleza Então desde desde o primeiro ano que a gente entra na Casa que a gente já pensa também nessa como contribuir pra essa população É tanto que quando eu falo dos integrante a Sâmia ela entrou porque ela estava dentro de um do dos projeto né da da Casa Então foi daí que ela surgiu e hoje ela é a ela habita o grupo né E e é dessa forma também que a gente pensa que a Casa contribua pra cidade não só do Crato mas pra ci pras cidades locais Então os projetos da Casa Ninho ela não não é só pensada no nos coletivos que habitam essa a Casa né Ela já aconteceu é mostra de cinema já teve mostra de dança já teve palestras enfim é já teve show musicais e além de mais é o o os grupo que fazem parte da da Casa eles todos os anos tem a Mostra de Repertório que é o PQP já pra que as pessoas que não tenha vamos dizer que não tenha um um um um costume de ir ao teatro que não tenha uma grana que não possa é pagar o um preço justo então já é 157 é uma forma também dele poder ter o acesso à cultura né e também ir educando esse público a pagar né Então a gente tem também o projeto PQP que facilita também desse público é ter acesso né É e é desse jeito que a gente tem Elizieldon Dantas Áudio 9 000159 É eu acredito também que essa poética do Grupo Ninho né vem muito da simplicidade de cada um é eu eu eu gosto de de de pensar agora nesse exato momento do Avental Avental é um texto que representa muito bem essa poética do Grupo Ninho né é um um é o grupo nunca pensou de montar uma mega estrutura essas coisa todos os espetáculo do Ninho têm essa poética da simplicidade que está tão presente nos espetáculo né é a simplicidade de do olhar um simple de uma simples conversa de uma comadre com a outra numa cadeirinha de dum banco de de de couro que isso é muito presente também na nossa região do Cariri essa conversa de duas comadre numa calçada Então eu acredito que essa simplicidade essa poética do grupo é é muito da da nossas origens Então eu eu vejo que o Avental ele representa muito bem é a cada um não só desses que tão em cena na peça mas eu acredito que todos aqueles que que é do grupo e daqueles que são da nossa região porque quer queira ou não todos vive aquilo aquela história de duas comadre do sertão não precisamente de de de fato pela história que tem no Avental mas essa simplicidade das duas comadre ire irem à missa o marido de uma beber outro ser viciado no jogo isso tudo então essa poética que envolve o Grupo Ninho vem dessa simplicidade da nossas origens Elizieldon Dantas Áudio 10 000212 É o espaço Casa Ninho né construir uma sede e pra se trabalhar eu acredito que seja o desejo de cada grupo né não só do teatro mas também da dança acredito que da artes visuais com seus ateliê enfi enfim essa linguagem da arte eu acredito que precisa muito desses espaços assim que pra poder ter o seu local o seu espaço pra se trabalhar né Então em 2011 o Grupo Ninho pensou nesse nessa possibilidade E aí é pensamos em qual das cidades que seria contemplada porque moramos aqui tem membros do grupo que é em Juazeiro outros no Crato mas 158 também tinha a possibilidade de Barbalha né Mas aí a gente pensou muito qual seria das cidade e tendo em vista que Barbalha já tinha a Universidade Regional do Cariri com o curso de Teatro e o curso de Artes Visuais né então Barbalha já estava contemplado com com a universidade né E aí partimos pra pensar sobre Juazeiro e Crato E aí também vimos que o Juazeiro tinha o Centro Cultural tem o Centro Cultural e o SESC né que que sempre tinha movimentos teatrais no no no Centro Cultural né todos os meses tinha uma peça né Hoje não porque a gente tá passando por um problema mesmo de desgoverno então não tá tendo mais como antes né E aí pensamos no Crato e foi lá no Crato que a gente fundou a Casa Ninho né que estamos lá desde 2011 e ainda estamos no no primeiro prédio e acredito que vai ser um bom tempo lá que é um galpão que hoje está dividido com com o Grupo Ninho e o Coletivo Atuante Elizieldon Dantas Áudio 11 000233 É a poética né Bem a poética é é o que nos toca né A partir do momento da leitura de um texto que todo mundo chega e diz que ele nos afetou então a gente começa a pensar nele como um uma montagem uma possível montagem e sem esquecer também a nossas origens que é é muito forte no nossos espetáculo Então a gente bebe muito da cultura popular daqui do do Cariri porque é muito rica e a gente tem que primeiro é mostrar a identidade nossa local Claro que sem esquecer as de fora que é muito importante a cultura do outro mas a gente bebe muito é dessa dessa fonte É tanto que está presente no Av no em todos os espetáculo né Quando você assiste o Bárbaro tá a presença do do Brincante dos Careta quanto você assiste Avental tá no no arroz espalhado na calçada que isso é muito tradicional aqui na nossa região quando você vem pra O Menino Fotógrafo você vê aquela o altar das velas que também é muito é presente na nossa cultura quando você chega é no Charivari tem os Brincante da cultura popular é no Poeira tem na na Lição Maluquinha tem a a Professora que foge com o Professor com o Boêmio que aqui também tem essas coisa das mulheres que enfim são várias várias várias fontes que a gente bebe que a gente coloca no nossos espetáculos Então essa poética ela é muito vem da nossas do nossos questionamento da nossas raízes e acredito que não quando a gente tá montando 159 um texto que não seja uma pesquisa da gente a gente pensa como colocar essa poética nossa nesse texto é enfim são várias questionamento que que Elizieldon Dantas Áudio 12 000701 A sustentabilidade da Casa eu acredito que a sustentabilidade da Casa eu acho que também é é contemplada quando eu falo nesses projeto né a nesses projeto porque quer queira ou não é tem alguns projeto que a gente pensa nessa sustentabilidade da Casa Hoje estamos passando por um momento um pouco meio crítico é porque estamos sem sem grana pra manter né e a gente também pensa que a Casa num é só uma responsabilidade dos dois grupos que fazem essa administração mas é uma Casa que que que acredito que a é esses órgãos prefeitura o estado é tem como contribuir porque nós como grupo estamos fazendo uma um um um trabalho que não é responsabilidade do grupo mas sim é dos município e do estado porque a gente tá fazendo arte distribuindo cultura né pras pessoas é de uma forma que seja acessível pra todos os toda a população Então a gente também recebe grupos de outras regiões que é em parceria com esses coletivo que vem de fora que não é pra se vamo dizer assim não é não é não é dos grupos que habitam a Casa pra pra fazer mas sim do do município como um a Secretaria de Cultural era quem pra fazer isso né Mas não quem tá nessa nessa nesse jogo de cintura como uma palavra bem popular é é os dois grupo que habitam a Casa Então é uma responsabilidade muito grande que também o grupo que vem de fora não tem grana eles vêm arriscando e que dessa forma é muito difícil fazer cultura pra quem está aqui no interior do Cariri né no interior do do Ceará fazer e se manter uma Casa há nove anos né Então é difícil e hoje a gente tá com essa campanha da Casa e graças à Deus as pessoas têm chegado muito é chegado junto porque elas também vê a a necessidade de contribuir com a Casa porque é um projeto de nove anos que tem feito acontecer a a arte no Cariri E vê que não é um projeto que que é de um dia pra noite pode ser ser deixado E também acredito que eles pensam que não é a responsabilidade só do Grupo Ninho e nem do Atuantes mas sim da da população em geral que se beneficiam né dessa dessa dessa arte que chega né Então eu acho que é isso E também é nessa sustentabilidade da Casa eu acredito que Monique Cardoso e o próprio Edceu eles eles vê muito essa forma de de edital Eu acredito que que 160 Monique contribuiu bastante ne na no planejamento de de estratégico né Ela chega e propõe pra o Grupo Ninho esse planejamento estratégico pra se manter até então era só o Grupo Ninho e depois começamos a fazer esses cursos que ela trazia e facilitou muito Fizemos várias parceria com com a Universidade Federal do Cariri com com o SESC com o BNB enfim com outros grupos que vêm de fora também porque não é fácil também é só receber e não ter uma contrapartida né Então dessa forma é que o grupo também essa sustentabilidade tem se dado na Casa né E eu acho que que Edceu ele também tem esse olhar muito pra os editais e vê como colocar um desdo desdobramento alguma coisa assim pra que que caia também é tipo na manutenção desse espaço ou então nessa sustentabilidade da Casa que não é fácil que tem alguns editais que não permite mas que a gente vai se mantendo assim Então eu acho que é dessa dessa forma Eu acho que também a Rita Joaquina tem essa pegada de ver como uma forma né É que não é fácil enfim é dessa forma que temos sustentado até hoje Às vezes tiramos é do nosso próprio cachê que isso é uma pegada que a Rita quando era vamos dizer era a caixa do grupo nós sentimos Quando a Rita era mais na parte da grana ela fazia com que vamos tirar uma uns dez dez por cento cinco por cento uma uma quantia pra ficar no no no caixa do grupo que depois também poderia cair como a manutenção da Casa que não era uma grana mas a gente tinha essa essa preocupação de manter essa grana pra um pra uma uma eventual possibilidade de de futuros enfim de uma necessidade futura mas que graças á Deus tem dado muito certo o o que o grupo pensa sempre nessa nessas coisa da da sustentabilidade do grupo e da Casa Elizieldon Dantas Áudio 13 000157 Bem a formação é é bem diversificada né a formação dos membros da da do Grupo Ninho E e de acordo com com a estrutura da Casa é cada um tem se identifica com a com a função que vai desenvolver dentro do projeto Ninho né É posso dizer que Eudes Edceu e e o Fagner ultimamente eles têm se se identificado muito com a escrita de projeto Eudes também com a estrutura e a técnica também da Casa Que Rita faz a correção textual eu acredito que também contribui muito Eu acho que que isso não não se pode negar A Joaquina que ela é muito boa de ideias mas eu acredito que ela assim como eu tenho essa dificuldade de 161 escrita de de projeto num é num sei ela que fala por ela Eu não tenho essa facilidade de escrever projetos Então eu fico na nessa parte da da estrutura da Casa né A Monique também que ela ela fica em orçamento Ela traz é esses planejamento estratégio estratégico do de se manter de ver como como facilitar as possibilidades enfim cada um tem sua sua função dentro do grupo né Sâmia a presidente hoje ela assume já graças à Deus já tá com do com com dois anos ou é um ano não lembro bem e e é isso Dessa forma que o grupo vai é escrevendo essa trajetória de grupo né É dessa forma que ele se mantém É Elizieldon Dantas Áudio 14 000728 O Grupo Ninho de Teatro hoje nós estamos vivenciando um outro momento um outro olhar de afeto de inint 000010 de abertura de criação uma nova renovação de sentido Pois é um campo de conteúdos tendo em vista que o Grupo Ninho é composto de quatro mulheres e quatro homens Imagino que cada um e cada uma que faz esse grupo se perguntou sobre esse momento Como um sujeito tendo sua identidade como grupo e e estável no sentido de sermos uma única veia como grupo esse todo né como iria fazer isso e como vai ficar depois logo agora nesses tempos tão sombrio que nos rodeou de tantas incertezas Talvez essas perguntas só tenha rodado a minha cabeça ou de de alguns né Estamos em fragmento suscitado por todos que que fazem o o o Grupo Ninho Esse desejo de questionar esse masculino e feminino Pois foi uma forma de nos entendermos como sujeitos cada vez mais que somos E que também somos criadores da cena São maneiras de se ver de sentir de se perceber de pensar de de morar de vestir ou seja consumimos nossas consumimos vidas Então a partir daí nos perguntamos de de que é de que maneira podíamos falar do feminino e masculino a partir das nossas próprias referências Assim o grupo foi proposto foi proposto dois núcleo que também projetamos nossas identidades culturais e pessoais Acredito que caiu como uma explosão no bom sentido das coisas é claro Acho que foi meio de um de suma importância estarmos passando por isso né Eu acho que falar desse masculino e feminino e e dessa fala das vidas que existe dentro do grupo e fora né falar dessas dessa vida que vai pra pra cena essa vida na sua fragilidade na sua impotência na sua extrema potência no fazer da cena e poder reinventar outras reinventar outras conexões dessa separação né Não estou dizendo aqui que é ruim 162 e nem que é bom foi preciso essa explosão acontecer dentro do grupo para podermos é criarmos duas montagens simultaneamente e com o olhar possivelmente com os pés na terceira montagem que daí seria o grupo todo né talvez Tudo isso vem acontecendo e estamos felizes de certa forma pois é trabalho Uma rápida reflex reflexão que para o Grupo Ninho é muito importante No final do ano 2020 se tudo se normalizar com essa situação no mundo essa pandemia até pra o início de 2021 é estamos nessa experiência que até então é muito que até então é muito novo para o grupo Uma experiência que se deu de uma forma simples que nem notamos essa separação entre masculino e feminino foi foi uma escolha que foi uma escolha que se deu naturalmente e que de repente as meninas já estavam ensaiando um outro processo criativo do grupo talvez pelo desejo o afeto que cada uma tem pelas suas memórias afetivas E se perceberam que era o momento certo de falar dessas dessas memórias desse corpo dessas dessas mulheres ou dessa mulher Saber sabe eu acho que foi mais ou menos assim Não que isso não tenha acontecido com os outros processos os outros trabalhos claro que isso aconteceu de trazer suas memórias Talvez esse processo já tenha esse processo agora já tenha surgido desses desses outros trabalhos anteriores Esse desejo de falar muito mais do eu como sujeito dono dessa narrativa Então as meninas notaram a importância né a importância que era hoje agora o momento certo Acho que também o espaço o tempo contribuiu para para elas vivenciarem esse momento de descargas Ao observarmos esse governo atual como como ele né se relaciona com as com as com as mulheres esse sujeito machista e cruel Já era hora de se permitir de compartilhar desse desses corpos que estão na busca de saírem dessas violências E assim né darem outras vidas outros significados outras transformações essas mulheres em cena essa geração de mulheres dessa vejo dessa dessa forma que essa criação passa pelo essa criação que passa pelo um caminho individual de cada uma e em sua identidade cultural desse desse sujeito dono dessa narrativa O Grupo Ninho de Teatro hoje falamos da das nossas vidas da n das nossas questões Nossa sexualidade nossa cor de pele que de certa maneira o outro se sente incomodado e que somos afetados por esse incômodo esses olhares atravessados que nos chegam de tal forma que nos deixam sem sem espaço pra respirar Elizieldon Dantas Áudio 15 000425 163 Não entendemos o porquê disso esses olhares atravessados apenas por sermos é diferente um do outro Dessa forma o grupo está falando né dos nossos cabelos enrolados dessa forma de andar do falar do se vestir da primeira menstruação da primeira punheta essas individualidades que é só minha e nem é só do outro também Acaba que é uma corrente e essa sociedade não enxerga não enxerga dessa dessa maneira E nos tornamos invisível um do outro E acredito também que nos afetamos afetamos esse sujeito também né nos afetamos e afetamos Então tem que de certa forma o outro estar sofrendo essas consequências para alimentar o ego do outro E isso não é normal né Por esses olhares que são reproduzidos E assim acredito que cada um do Grupo Ninho de Teatro está maduro para encarar esses processos criativos Essas essas duas montagens esses trabalhos é necessário hoje em 2020 É necessário em 2020 que o grupo fale desse desejo justamente fazer uma reativação do corpo né da da memória da mulher das coisas da das pessoas que estão ao nosso redor ao nosso lado Então o sujeito nós somos e assumimos esse papel de denunciar através da arte Estamos vivenciando essa experiência desses dois núcleos As meninas através do dos relatos né dos relatos que que já ouvi por essa linha de pesquisa que se colocam em xeque as questões pessoais coletiva também através dessa curva de tempo né São três mulheres três gerações num anseio de colocar para fora essa descarga essas mulheres esse universo carregado de suas questões que até então ainda está aflorando né Dessa forma essa dramaturgia vem é pontuando as suas vidas a vida delas né No fundo vivenciar essa narrativa eu acho que pra elas são três momentos distintos mas que também como são as mesmas inquietações por termos né talvez três gerações assim anos 60 anos 80 anos 90 não tenho certeza mas são três gerações E assim são três é momentos são histórias que elas trazem que eu também ainda não não cheguei a ver mas eu acredito que passa por essa por essas geração que uma está reproduzindo é e a outra também tá reproduzindo e a outra acaba que é uma é uma conexão né Em momentos diferente em anos diferente em idade diferente tempos diferentes Acho que dessa forma é a descarga que elas estão falando né desse universo Fagner Fernandes Áudio 1 000554 164 É eu tive que preparar um roteiro do que falar porque meus pensamentos são muito confusos as coisas vão se misturando e eu acabo me perdendo mas enfim sobre o surgimento do Grupo Ninho é eu sou um dos integrantes mais recentes do grupo né tem pouco mais de um ano e meio que eu faço parte e eu não estive presente obviamente no início da formação do grupo mas pra mim o Grupo Ninho surgiu em 2010 foi dois anos depois em que de fato ele nasceu E foi através de uma apresentação do espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo que foi o primeiro espetáculo que eu assisti na vida o primeiro espetáculo de teatro porque na época o diretor do espetáculo Jânio Tavares era meu professor e e era integrante do grupo e juntamente com o grupo ele levou o espetáculo pra escola que eu estudava não sei se dentro de algum projeto ou não E naquele dia eu fiquei muito surpreso e muito feliz com o que eu tinha acabado de ver primeiro pela potência do espetáculo é que me atravessou de maneira muito linda e também porque essa experiência era algo muito novo pra mim era muito extraordinário não não não tinha acontecido antes de eu assistir a um espetáculo de teatro E foi a única vez ao longo dos meus anos de estudo no ensino fundamental e médio que eu tive a oportunidade de assistir a um espetáculo dentro da escola Talvez hoje isso seja um pouco mais comum não sei e por incrível que pareça é a outra experiência que eu tive assim dentro de uma instituição formal de ensino né aconteceu na Universidade Federal do Cariri durante a minha graduação e também foi com o Grupo Ninho de Teatro Na época o grupo apresentou o espetáculo Bárbaro no pátio da universidade E também é ministraram algumas oficinas de teatro e eu participei na universidade mesmo E desde aquela primeira apresentação de Avental que eu assisti em 2010 eu comecei a frequentar é outras apresentações do Grupo Ninho na verdade o máximo de apresentações que eu conseguia é e foi quando eu conheci Bárbaro Charivari outros espetáculos do grupo revi Avental Todo Sujo de Ovo e e eu sempre fui muito fã de qualquer coisa que eu via do Grupo Ninho né era uma inspiração muito grande pra mim e ainda é E ao longo desses anos eu fui acompanhando quase tudo que grupo fazia conheci a Casa Ninho comecei a frequentar os eventos que aconteciam lá e fiz oficinas com o Grupo Ninho com outros grupos também lá na Casa Ninho e a partir dessa relação que foi se estabelecendo por vários caminhos eu fui um dia convidado pelo grupo pra participar de um processo criativo com base no conto Um Moço Muito Branco de Guimarães Rosa E eu lembro que eu fiquei impressionado demais de ter essa oportunidade É no fim o espetáculo não vingou o processo não 165 vingou por algumas questões mas a experiência de dos poucos encontros que eu tive é a experiência de tá cercado por aquelas pessoas que me eram inspiração de de ver de perto o processo criativo de fazer parte é era um presente pra mim foi um presente pra mim Assim como também foram mu muito enriquecedoras as experiências de participar de algumas edições do projeto SESC Dramaturgias eu acho que esse é o nome é enfim do projeto de leitura dramática do SESC que eu participei à convite também do Grupo Ninho E embora eu tido essas experiências com o grupo eu eu eu fa fazer parte do grupo era algo que não passava pela minha cabeça sabe Porque era muito grande pra mim Eu não chegava a pensar sobre isso talvez porque no fundo eu sentisse que não era possível sei lá E aí por conta disso é muito incrível pra mim pensar que oito anos depois daquela primeira apresentação que eu assisti lá na escola eu estaria sendo convidado pra entrar no Grupo Ninho que é um dos grupos de teatro que eu mais admiro na vida E é muito muito bom muito incrível pra mim agora poder falar nós ao invés de falar elas e eles Fagner Fernandes Áudio 2 000604 Sobre repertório e poética é embora eu não tenha ainda estreado ou participado de nenhum espetáculo do Grupo Ninho a gente tá em processo hoje né em sala de ensaio na construção de dois espetáculos e eu tô em um deles tenho vivenciado mais de perto o processo criativo do grupo mas eu eu vou falar enquanto expectador que eu fui por muitos anos e que sou ainda Lá no início quando eu comecei a acompanhar o trabalho do Grupo Ninho eu ficava encantado Tinha uma uma relação de admiração mesmo Mesmo os espetáculos que eu não entendia direito como foi o caso da primeira vez que eu assisti O Menino Fotógrafo eu saí sem entender muita coisa mas eu achava incrível Talvez pela potência mesmo das pessoas que tavam em cena É se era um trabalho que à primeira vista não me pegou pela pelo pela compreensão pelo entendimento racional me pegou por diversos outros aspectos E também como eu falei porque o teatro era algo que tava surgindo na minha vida e aconteceu assim já com com essa oportunidade de poder assistir trabalhos de uma qualidade muito grande e eu falo no lugar de admirador mesmo do Grupo Ninho Acho que que o grupo tem uma sensibilidade muito muito linda muito grande tanto no conteúdo na na nas temáticas que são abordadas 166 como na forma na estética É é uma é grandioso de uma forma simples de uma forma econômica poética limpa e que toca que afeta Eu lembro que eu chorei todas as vezes que eu vi Avental né acho que pra mim que enquanto gay é que vivenciei muitas dores nesse sentido talvez seja mais impactante porque a gente assiste ao espetáculo e vai se identificando de alguma forma né mesmo eu sendo cis cisgênero É também me emocionei todas as vezes que eu vi Poeira sobretudo todas as ve todas as vezes que eu tomei a caipirinha do espetáculo E foi o espetáculo que me aproximou das manifestações da cultura popular né porque desde quando o trabalho tava ainda no início do processo de pesquisa pela minha relação com Joaquina pela minha proximidade com ela ela acabou me levando pra me levando na casa de mestra Naninha né E foi um grande presente pra mim porque foi a primeira vez que eu tive uma vivência mais próxima com uma mestra de cultura e também fiquei encantado com ela com com as histórias que ela contou ali com a forma como ela dizia as coisas com as frases que ela dizia e tudo revelava uma sabedoria muito grande É pelo que eu lembro até então eu não tinha eu não tinha a prática de ver as apresentações dos grupos de tradição popular é eu não entendia a importância da tradição popular e foi a partir do espetáculo Poeira que a minha perspectiva sobre os grupos de tradição popular sobre os mestres e mestras de cultura é foi transformada Hoje eu tenho uma relação de respeito mesmo e de de de admiração de apoiador e de frequentador dos eventos de tradição popular Bom Charivari e Avental foram os os dois primeiros espetáculos que eu vi do Ninho e eu lembro de ficar pensando no quanto eram espetáculos muito diferentes né em conteúdo em estética é os corpos as intenções o tempo era outro nos dois espetáculos e ao mesmo tempo os dois eram feitos pelas mesmas pessoas e eram feitos muito bem e com muita qualidade pelas mesmas pessoas Isso era muito grande pra mim dizia muito da potência dessas pessoas que eu não conhecia até então mas que me inspiravam muito na minha relação com o teatro E pra não me estender muito essa admiração seguiu em todos os espetáculos que eu fui assistindo e conhecendo é e eu vi todos absolutamente todos várias vezes Alguns como Avental e Poeira eu cheguei a ver mais de cinco vezes é e e essa relação de paixão com os espetáculos do Ninho e de ver repetidas vezes cada um deles talvez tenha sido de alguma forma uma maneira da vida já ir me preparando pra ser aninhado no futuro né que foi o que aconteceu em setembro de 2018 Esse 167 barulhinho de água foi o meu aplicativo me lembrando de beber água porque eu esqueço Fagner Fernandes Áudio 3 000623 Casa Ninho eu vou falar sob duas perspectivas da Casa Ninho primeiro enquanto público e segundo enquanto integrante da Casa Eu não sei dizer qual foi a primeira vez que eu fui à Casa Ninho que eu conheci a Casa Mas eu sei que eu frequentei os eventos da Casa desde de o princípio E no início foi por conta mesmo da relação de paixão pelo trabalho do Grupo Ninho mas depois foi porque a Casa se se transformou pra mim num lugar onde eu podia vivenciar a arte num lugar que me oferecia oportunidades que outros lugares não me ofereciam É pelo menos não da mesma forma né não com o mesmo aconchego receptividade é e que ao longo dos anos foi construindo em mim a sensação de fazer parte de alguma forma Esse sentimento de casa mesmo sabe Como o próprio nome do espaço já diz Se a Casa Ninho tivesse outro nome ainda assim ela não ia deixar de ser ninho de ser casa que é até meio redundante né mas é porque isso diz muito do que ela representa e eu tenho certeza que não é só pra mim Então são alguns anos enquanto sendo público sendo espectador dos eventos que acontecem na Casa E há um ano e meio né fazendo parte enquanto trabalhador mesmo do espaço É e parar pra olhar pra o que aconteceu em todo esse tempo refletir as vivências que a Casa Ninho me proporcionou me revela muita coisa Inclusive sobre quem eu sou hoje né porque porque se às vezes é a gente assiste a um espetáculo e sai provocado cheio de sensações né s ou seja aquele espetáculo ele teve um impacto na nossa vida por aí se pode calcular o que representa pra mim ter um espaço cultural próximo onde eu tenho a oportunidade de acompanhar de frequentar a programação cotidianamente ao longo de anos É o que eu vivi na Casa Ninho por exemplo tá muito mais nítido na minha memória é do que o que eu vi e ouvi enquanto conteúdo na escola por exemplo É esse é o o poder da arte né do teatro Ele ele pode ser muito mais transformador do que o ensino formal né E agora falando um pouco a partir do do ponto de vista de um trabalhador da Casa Ninho quando eu entrei no Grupo Ninho eu já eu já olhava pra Casa com um respeito muito grande né exatamente por conta dessa relação anterior que eu acabei de de falar um pouco E eu lembro que num num dos meus primeiros expedientes na Casa não lembro 168 se foi o primeiro ou o segundo expediente eu tava sozinho varrendo o salão e teve uma hora que eu parei assim no meio do salão e fiquei olhando o espaço e me vieram muitas sensações do tipo caramba não acredito que eu tô fazendo parte desse lugar né Que responsabilidade mas também que presente É saber saber que naquela tarde de terçafeira a Casa tinha sido aberta por mim tava sendo varrida e cuidada por mim ia ser fechada por mim ao final do expediente E também a partir dali isso foi cada vez mais frequente e eu pude ir contribuindo efetivamente com a Casa Ninho né através do meu trabalho E e é uma relação de troca porque eu contribuo com a Casa mas eu recebo um aprendizado muito grande a partir disso Se antes como público eu já aprendia agora eu aprendo muito mais e tenho a oportunidade de crescer muito mais na vida mesmo em diversos aspectos a partir da minha atuação na gestão da Casa Ninho E de fato é muita responsabilidade é muito desafiador mas é necessário sabe Não tem como olhar pra Casa Ninho sem dizer que é um espaço necessário É a existência da Casa Ninho ela é fundamental porque da mesma maneira que ela me trouxe outro olhar pra vida outra forma de me colocar no mundo ela também tem feito isso com com mais uma ruma de gente e e isso só é possível claro porque tem toda uma equipe de profissionais de funcionárias e funcionários trabalhando diariamente ralando muito pra fazer esse espaço existir dia a dia Fagner Fernandes Áudio 4 000456 Sobre os projetos eu queria é focar um pouco mais em um deles que é a Carpintaria da Cena que foi um projeto que eu participei enquanto um artista pesquisador enquanto alguém que foi beneficiado alcançado por esse projeto né No início da Carpintaria eu ainda não era integrante do Ninho E a Carpintaria veio num momento da minha vida em que eu tava um pouco distanciado do teatro da da prática do teatro né E a Carpintaria eu eu me inscrevi na Carpintaria no último dia de inscrição por incentivo de uma amiga minha e enfim acabei sendo contemplado e a Carpintaria ela me reaproximou da prática do teatro Foi um momento da minha vida que eu entendi que era isso que eu tinha que fazer mesmo assim que que é isso que me faz bem E eu vivi coisas muito incríveis através da Carpintaria né que a Carpintaria me proporcionou as trocas com profissionais do teatro que têm uma uma grande bagagem de conhecimento gente de de diversos 169 lugares do país e que eu dificilmente teria acesso em outro momento né pelo menos não dessa maneira em em treinamento passando por uma formação com uma troca mais efetiva e a Carpintaria da cena me colocou em diálogo direto também com a tradição popular foram sete módulos conhecendo mais de perto mestras e mestres de cultura que antes eu só via nas apresentações artísticas bem poucas vezes por ano né Então na Carpintaria eu pude eu pude tá mais perto ouvir dialogar entender um pouco da história de cada uma e de cada um desses mestres e mestras A oportunidade por exemplo de aprender um pouco da dança do Coco diretamente com a mestra Naninha de de aprender alguns movimentos da luta de espadas diretamente com mestre Antônio do Reisado dos Irmãos de visitar é o terreiro da casa de mestra Edite e ouvir os ensinamentos dela a as histórias dela e das demais senhoras do grupo Então quando é que eu ia ter essa oportunidade De que outra forma eu ia poder vivenciar ahn vivenciar tantas tantas trocas com pessoas incríveis Coisas que sem dúvida nenhuma impactam minha forma de fazer teatro claro mas é muito além disso É sobre sobre a vida mesmo É sobre como se colocar no mundo E e isso tudo me foi proporcionado pela Carpintaria da Cena que é um projeto do Grupo Ninho é e que e que é algo que eu acho muito muito precioso nos projetos do Ninho que é esse esse olhar não para não só para si mas também pra comunidade na qual tá inserida né como é que abraça mais artistas como é que que amplia mais essa ação pra chegar também às outras pessoas É e aí por isso que o grupo pensa sempre na questão das ações formativas né pensando mesmo em em promover essas trocas em compartilhar esse conhecimento em em aprender mas também em em permitir que outras pessoas também aprendam Então o Ninho se beneficia outros artistas da região também se beneficiam e e isso contribui diretamente pra pra o desenvolvimento de teatro de arte é na região do Cariri né Fagner Fernandes Áudio 5 000338 Sobre integrantes é um pouco disso que que Sâmia Rita que que já foi colocado Eu acho que hoje a gente tá numa formação muito bacana embora eu não tenha vivenciado a experiência do Grupo Ninho nas outras formações É eu eu sinto que meio que a gente se completa de alguma forma que as coisas tão redondinhas porque é isso tem pessoas na casa dos vinte dos trinta dos quarenta dos 170 cinquenta anos com bagagens muito diversas e ricas de vida Pra mim que sou um dos membros mais jovens tudo é aprendizado cada diálogo situação novo projeto por vezes até uma mensagem um áudio enviado no WhatsApp por alguma das integrantes algum dos integrantes me ensina muito Porque porque vem carregado de de toda uma experiência de vida de trabalho de conhecimentos diversos E todas e todos passamos por formações acadêmicas bem variadas também é Biblioteconomia História Letras Pedagogia Marketing Artes Visuais é Direito e Teatro e eu acho que isso permite uma mistura de ideias de conceitos amplia as possibilidades de de criação de trocas Enfim tem sido um encontro muito produtivo Cada cada pessoa tem uma expertise uma afinidade com com alguma função com algum campo e atua no grupo de acordo com essa afinidade com esse conhecimento Todo mundo é muito bom em alguma coisa e a gente também tá sempre se ajudando pensando juntas e juntos daí a gente consegue ir um pouquinho mais longe E para além disso eu gosto muito de como a gente se respeita de como a gente busca ser o mais justo e acolhedor possível nas nossas relações nas nossas demandas de trabalho nas nossas divisões de cachês mesmo buscando sempre acolher as necessidades de todas e todos Às vezes eu escuto do grupo em alguma reunião em algum diálogo falas tão honestas em relação à à essas questões todas que me emocionam e me ensinam muito E claro que tem os arranca rabos também né porque conviver também é sobre isso Somos seres humanos com defeitos também mas a gente se acolhe nesses defeitos também a gente se compreende É esses momentos de escuta de afetividade são muito mais frequentes e se sobressaem Monique Cardoso Áudio 1 000313 É sobre o surgimento do grupo né eu é eu não tenho muita propriedade pra falar sobre o surgimento do grupo mas o que eu posso falar é de quem viu de fora estando fora do Cariri né quando o grupo surgiu eu não tava no Cariri e eu percebo que talvez é se houvesse as oportunidades que houveram é no momento em que o grupo tava surgindo né que tava ch tinha acabado de chegar eu acredito que tinha acabado de ser ple implementado ou estava sendo implementado o curso de teatro né na na URCA Então talvez se eu tivesse vivido esse momento eu não tivesse ido pra Fortaleza por exemplo buscar formação lá Então eu acho que 171 também a o surgimento do grupo tá muito é ligado ao surgimento né da do curso de teatro na na URCA E pra quem tava de fora é pra mim foi muito bonito ver a forma como como o grupo foi dese foi firmando né a sua trajetória mesmo nesse início no contexto do teatro no Ceará né Então eu tava em Fortaleza mas eu ouvia falar do Ninho eu via os trabalhos sempre que possível né sempre que eu tava no Cariri eu vi o Ninho por exemplo é Guaramiranga eu acho que eu eu vi o Avental em Guaramiranga mas enfim eu via a circulação do Ninho né o movimento os projetos e e de algum modo isso me me dava alegria por eu perceber que tava havendo um movimento E como eu via a aprovação de projetos a fundação da Casa Ninho então dava pra perceber claramente que havia uma organização para além da criação né e foi esse o motivo inclusive pelo qual que me fez me aproximar do Ninho né Quando eu voltei pro Cariri em 2013 é eu queria eu coloco isso inclusive na minha dissertação eu queria é compartilhar o que eu tinha aprendido fora e queria aprender com quem tinha ficado E eu sabia que eu não podia abarcar um número grande de proje de de gru de projeto de grupo até porque eu não queria produzir esses grupos eu queria tentar implementar a questão do planejamento estratégico mas pra isso precisava que o grupo tivesse já um olhar pra gestão pra produção e o Ni e também uma maturidade no no processo de criação mesmo porque e eu ficava imaginando que daria muito trabalho também conseguir re é realizar coisas aprovar projetos viabilizar ideias com um grupo que ainda fosse muito é insipiente né no nos seus processos É que ainda houvesse uma uma fragilidade na qualidade dos seus trabalhos Monique Cardoso Áudio 2 000109 Sobre os integrantes né acho que não tem muito o que se falar né hoje nós somos formados em oito pessoas né É existe esse equilíbrio de gênero que a gente coloca mas é importante dizer que a gente não é não olha isso numa perspectiva binária e fechada né existe uma diversidade de gênero existe uma diversidade de de orientações é e eu acho que isso traz também uma diversidade do ponto de vista da criação Outra coisa que eu acho interessante é essa diferença de idades né não sei eu não diria talvez geracional é apesar de sim eu acho que tem duas gerações né Mas essa diferença de idade que de algum modo é também influencia 172 diretamente no diferencia é é inte interfere diretamente nos processos criativos e eu acho que isso é importante É Monique Cardoso Áudio 3 000225 É sobre o repertório é eu não acompanhei os processos de criação com exceção do Poeira né que é o trabalho mais recente é eu percebo que o grupo não tem um uma quantidade de de trabalhos por exemplo um a cada ano É não existe uma prática de uma de uma necessidade de montagem é em série né assim a atendendo a uma perspectiva de mercado porque apesar da gente saber que a gente precisa ter produtos culturais né no caso espetáculos projetos a gente não não se prende somente à questão das montagens dos trabalhos né então talvez por esse motivo a gente demande mais tempo nos processos criativos E aí é uma outra coisa que eu acho que é im importante pontuar é essa relação com o pedagó pedagógico que é a uma coisa que se a gente for pegar a história dos grupos na América Latina né o os que têm uma uma maior representatividade na história do teatro na América Latina eles passam por esse processo de formação muito fortemente né eles investem nesse processo de formação muito fortemente Basta a gente pensar por exemplo no Ói Nóis no Lume no Yuyachkani todos eles têm uma relação muito forte com a pedagogia com a formação então eu acho que isso também é uma coisa importante porque o grupo não atua só na criação de espetáculos né e essa atuação determina também um o tempo de trabalho né e o o espaçamento entre um projeto e outro E isso acho que também é uma coisa importante a se pensar E o o repertório tem sempre essa relação direta com a tradição popular né é eu acho que fugindo inclusive de estereótipos de clichês mas num diálogo muito direto com a contemporaneidade é apesar de é são elementos muito sofisticados é em diálogo com a tradição que é sofisticada né Monique Cardoso Áudio 4 000430 É com relação à à Casa Ninho é eu fico pensando que é um grande uma é preciso coragem pra começar um empreendimento criativo principalmente um empreendimento criativo naquele contexto né há há quase nove anos em que a escassez de de editais era grande apesar de estarmos num governo progressista 173 né A nível federal a gente tinha muito mais opções de editais mas ainda assim é necessário coragem sobretudo porque é uma sociedade né É uma sociedade de várias pessoas de pessoas que embora tenha uma série de de desejos ideias em comum também tem suas sua diversidade de pensamento sua diversidade de escolha é estética ética política mas por isso é tão desafiador né uma gestão horizontal com tan com tantas pessoas com com cabeças que pensam também em algum sentido em alguns aspectos de forma diferente E é preciso organização e essa organização ela vem surgindo mesmo que seja intuitivamente porque é preciso Se não houvesse mesmo antes do planejamento estratégico né que eu chego em 2013 pra propor é já havia uma espécie de planejamento estratégico mesmo que intuitivo né Senão ela não estaria é na época em 2013 tava o que há há quatro anos né Quatro não há três anos né Ai me ajuda aí eu tô ruim da das datas É ela não estaria se sustentando e se mantendo há esse tempo né antes do planejamento estratégico senão houvesse uma espécie de planejamento É já havia é um organograma mesmo que não oficial e que não houvesse é claramente isso definido já havia um organograma as pessoas já já assumiram funções dentro das suas expertises foram aprendendo é dentro dessa prática a a atuar dentro da sua esfera né e foram aprendendo várias outras questões para além criação administrativo é até infraestrutura técnica é tributação é impostos tudo isso né foi se aprendendo na prática durante esses anos E aí eu acho que a Casa chega também pra reforçar esse lugar pedagógico que o que o Ninho atua né Ela chega pra partilhar com a comunidade com a sociedade civil um um espaço que a princípio era um espaço de grupo de ensaios de criação de apresentação ele passa a ser um espaço aberto pra a comunidade os artistas é e isso ganha um outro patamar né dentro do contexto Cariri uma outra importância e relevância e isso exige muito mais Chega um momento em que a Casa Ninho que manter a Casa Ninho é é quase uma missão pra cada uma qua cada um de nós no sentido de entender a importância disso pro pro no pra nossa região E aí isso vai se dando a partir dos projetos né que vêm sendo sempre pensados é num fluxo interno e externo né Existe eu acho que um movimento é de de que parte desse núcleo do Ninho mas que começa a dialogar com a comunidade né Todos os nossos projetos eles têm uma vertente que passa pela nossa formação mas que dialoga com a comunidade abre à comunidade seja pro público seja os artistas é oportunidades ou de apreciação de uma obra ou de 174 participação de uma formação né Então eu acho que a Casa ganha também dá também esse esse ela tá muito relacionada aos projetos né Monique Cardoso Áudio 5 000524 E aí pensando sustentabilidade é vem essa questão da do dos no de nos reinventar né enquanto gestores A gente passa a ser gestores a partir do momento em que a gente toca esse empreendimento né gestores culturais um empreendimento criativo é que não tem um aporte financeiro de recursos contínuo É e esse e esse essa instabilidade faz com que a gente pense cada vez mais em ferramentas técnicas que nos nos amparem no sentido de nos planejar de olhar adiante de criar estratégias pra pra gerar essa sustentabilidade da Casa e dos artistas que colaboram com ela Então é eu vejo também nessa nessa questão da sustentabilidade um fluxo permanente com outras áreas é que já têm uma caminhada maior nessa é com esse olhar pra gestão né É administração a TI são exemplos disso de segmentos que já têm na sua natureza essa perspectiva de gestão né Então a gente começa a beber dessas desses segmentos pra de alguma forma a gente tá amparado tecnicamente criando novas formas de gestão dentro do nosso contexto considerando as especificidades da cultura né Como que a gente aproveita metodologias que deram certo em uma empresa de por exemplo é uma fábrica de pneus e e traz pra o nosso contexto Como é que o que é que a gente pode aproveitar dessa experiência que é de um segmento completamente distinto pra nos amparar né aí esse é esse é o é o grande exercício de criar metodologias de implementar metodologias e planos de ação que seja eficiente eficaz mas que considere todas as as especificidades do campo cultural inclusive as subjetividades é dos contextos né dos processos criativos dos tempos das relações dos afetos então acho que esse é o grande desafio e penso que só é possível a partir de um diálogo horizontal de uma participação de todas e todos nesses processos decisórios e de uma absorção também por parte de todos é dessas práticas E essas práticas pa têm que ser cotidianas pra que esses objetivos desses desse plano de ação criado a partir de um diagnóstico ele seja eficiente né E aí é a grosso modo se eu fosse dividir esse planejamento estratégico em etapas eu diria que ele começa num diagnóstico que passa inclusive pelas subjetividades pelos afetos pelos pelos desgastes pelos pelas conquistas e ele 175 se estrutura num plano de ação que envolve todas as esferas desse desse negócio desse empreendimento é a comunicação é a infraestrutura projetos gestão financeira é enfim todas as as esferas que envolvem esse negócio é também pode haver um plano de capitação de mobilização de parcerias dentro desse plano de ação né E e outras e outras coisas também outros documentos outras perspectivas podem surgir a partir desse plano de ação E por último é uma um monitoramento e avaliação desses resultados né É preciso estabelecer metas é prazos e meios de verificação pra que a gente possa ter um entendimento se aquelas se aqueles objetivos estão sendo alcançados se estão sendo alcançados dentro do prazo se estão sendo alcançados é dentro dos recursos disponíveis e planejados pra isso e isso é fundamental pra isso é fundamental durante esse processo de de criação conjunta desse plano de ação que sejam estabelecidas metas exequíveis metas realistas com um pouco de ousadia mas também considerando todos os fatores internos externos os contextos políticos econômicos para que também não se gere uma frustração diante dos planos Eudes Francisco Áudio 1 000306 Surgimento do grupo eu sou o integrante mais recente do Grupo Ninho É eu comecei a fazer parte do grupo em novembro de 2019 ano passado Tá com menos de um ano que eu faço parte do grupo então eu não vivi é o momento do surgimento do grupo ahn as as as coisas que eu sei à respeito são de de escutar de conversar com os integrantes de ouvir his as histórias mas não cheguei a viver esse período Ahn a pri o primeiro contato que eu tive com o Grupo Ninho foi em 2013 quanto eu assisti o espetáculo Avental Todo Sujo de Ovo se eu não me engano no Marquise Branca que é o teatro municipal de Juazeiro do Norte é e foi um espetáculo que que me encantou bastante é até hoje é um espetáculo que que me que me encanta muito é um dos dos espetáculos que que eu mais gosto de assistir tanto é que já perdi a conta de quantas vezes assisti Avental Todo Sujo de Ovo É eu já tinha tido um uma experiência anterior com alguns integrantes do grupo mas não um espetáculo do grupo é que foi em 2006 se eu não me engano eu assisti um espetáculo no CBNB é eu não lembro exatamente o nome mas era algo mais ou menos assim A A Peleja de Zé de Matos Contra o Bicho Babau Pelas Ruas de Crato era uma coisa mais ou menos assim Nesse espetáculo se eu não me 176 engano estavam Edceu Rita e Joaquina Eu não tenho tanta lembrança de Joaquina no espetáculo mas de Rita e Edceu eu tenho É e é isso assim fo gostei também muito desse espetáculo do do Zé de Matos foi a primeira experiência que que eu tive com os os atores do grupo É a segunda foi com com Avental que foi quando de fato eu passei a conhecer o o grupo E a partir do a partir de desse espetáculo é eu passei a acompanhar o grupo os outros espetáculos e e foi e foi assim que começou mesmo é pelo menos a minha história de conhecimento de enquanto espectador de de curtir o trabalho de acompanhar o trabalho Eudes Francisco Áudio 2 000222 Integrantes Atualmente nós somos oito integrantes quatro homens e quatro mulheres Existe aí um um equilíbrio de gêneros É em compensação são faixa etárias bem distintas e também origens bem distintas é integrantes de várias cidades é aqui do Nordeste E essa diferença de de faixa etária são são integrantes com décadas bem bem distintas a maioria e eu acho que que essa essa diferença essas diferenças elas elas se somam numa potência bem interessante não só na na parte artística mas também na na parte de produção e de gestão do grupo e do espaço que a gente habita a Casa Ninho É e existe também uma uma uma diversidade na formação dos integrantes é tem integrante formado em Biblioteconomia em Letras em Teatro em Artes Visuais em Marketing em Direito então todas essas essas diferenças elas se somam assim num formam um bolo bem interessante é que que aflora aí uma potência não só no campo criativo mas também na parte de produção de gestão é a gente tá sempre discutindo conversando refletindo é até chegar em em um entendimento seja pra pra criar uma cena um produto artístico seja pra pensar um projeto seja pra articular algo de gestão voltado pro grupo ou pra Casa E é isso eu acho que que essa essa diversidade que a gente tem de integrantes ela gera uma potência é muito bom pro grupo Eudes Francisco Áudio 3 000821 Repertório Atualmente o repertório do Grupo Ninho tem dois espetáculos ativos que é que são Avental Todo Sujo de Ovo e Poeira mas também já passaram pelo 177 repertório do grupo os espetáculos Bárbaro A Lição Maluquinha O Menino Fotógrafo Jogos na Hora da Sesta e Charivari É desses espetáculos eu só não consegui ver Charivari é o que é uma pena Das das vezes que surgiam apresentações é por um motivo ou outro eu nunca conseguia estar presente Nessa época eu não não fazia parte do grupo ainda é mas já acompanhava o grupo só que nunca tive é nunca consegui concretizar uma oportunidade de ver o espetáculo é o que é uma pena porque as pessoas que viram sempre comentam muito bem sobre o espetáculo que vale vale muito muito a pena ver É inclusive muitas pessoas é se lamentam do do espetáculo não estar mais ativo não tem mais apresentações é porque é um espetáculo muito bom é um espetáculo de rua ahn que tem um um um umas reflexões muito muito potentes inclusive atuais é pra esse momento de agora ahn eu só consegui ver esse espetáculo por vídeo mesmo e fiquei imaginando como seria ele ao vivo porque enfim não é a mesma coisa mas é isso Em relação aos outros espetáculos é Avental Todo Sujo de Ovo e Poeira eu já perdi a conta de quantas vezes eu já assisti Já assisti muitas vezes mesmo É os outros espetáculos é eu acho que cada um eu vi umas duas ou três vezes É Jogos na Hora da Sesta eu vi umas duas três vezes O Menino Fotógrafo também A Lição Maluquinha e Bárbaro Mais ou menos isso umas duas umas duas três vezes desdo de quando eu conheci o Grupo Ninho em 2013 É eu acho que todos os espetáculos são muito potentes ahn todos os espetáculos do grupo É inclusive eu fico até com com uma certa ahn eu não sei se se é pena mas assim um sentimento de que alguns espetáculos não deveriam ter parado como por exemplo Jogos na Hora da Sesta que é um um espetáculo que eu sempre curti muito assistir e quando me disseram que ele não tava mais ativo eu até tomei um susto porque é um espetáculo muito potente muito potente mesmo assim um um dos espetáculos do repertório do grupo que eu mais gosto Então eu eu achei eu sempre acho uma pena ele não tá mais mais apresentando É na realidade to todos os espetáculos né quando a gente para é a a gente a gente tem esse sentimento né de certa forma mas eu acho que é bem isso mesmo assim cada espetáculo ele tem um um um tempo assim de vida é quando a gente percebe que que chegou a hora então então é saudável parar mesmo é apesar de que eu de que eu acho que o Jogos na Hora da Sesta não deveria ter parado mas enfim É e em relação à à Avental e à Poeira Avental e e e Poeira são são dois espetáculos muito atuais é que trazem reflexões que ainda são de muita 178 importância pro atualmente principalmente Avental que já é um espetáculo aí que tem é dez anos pouco mais de dez anos de de de espetáculo e ainda assim é um espetáculo muito atual e muito potente que eu acho que ainda tem uma história de uma história pra percorrer e e é um um dos espetáculos que eu assisti que mais me encantou É o o espetáculo Poeira tem uma relação muito forte com com a tradição popular é com a cultura popular da da região do Cariri Eu me arrisco a dizer que de certa forma ele mudou o olhar da região pra cultura popular É eu falo isso porque quando eu eu visualizo é a relação dos artistas e da própria região com a cultura popular antes do espetáculo e depois do espetáculo eu eu sinto eu percebo que houve uma mudança no olhar é não só da comunidade como dos artistas locais pra potência da cultura popular É eu acho que que que é um espetáculo muito marcante nesse sentido e que e que tem que viajar o Brasil inteiro pra mostrar essa potência aqui do Cariri Eu acho que faz todo todo o sentido é as pessoas conhecerem essa essa é essa efervers eferve inint 000620 efervescência ixe quase que num sai da da cultura popular é do Cariri É porque de certa forma mesmo em outras regiões com com outras manifestações culturais a partir do momento que você toma conhecimento com uma mesmo de outra região às vezes desperta em você o desejo de você conhecer o da sua própria região E e até o Grupo Ninho tem uma uma uma proposta de fazer essa esse intercâmbio de culturas populares é eu lembro que em 2018 é o Grupo Ninho executou um projeto em que havia essa troca pros mestres de daqui da região do Cariri com mestres de outras é regiões do Brasil E eu acho que é isso assim tem que tem que haver mesmo essas trocas o espetáculo tá aí pra isso né não só pra mostrar mas também pra propor essas trocas E a partir desse espetáculo tem surgido coisas muito interessantes muito bacanas como por exemplo a Escola Carpintaria da Cena que é um desdobramento do do desse espetáculo que que traz aí um um uma formação que que junta teatro é desde o teatro é mais clássico que que a gente enfim estuda aí pra pra nossa formação não só nas instituições como fora delas é misturando isso com a cultura popular né também mostrando a cultura popular enquanto mestres que enquanto mestres também podem nos ensinar é no trabalho com o corpo no no trabalho com o teatro Eudes Francisco Áudio 4 000349 179 Poética Em relação à poética do grupo eu percebo que passa primeiro pelas questões pessoais e e individuais de cada um dos integrantes E e essas questões que que estão dentro de cada integrante elas são colocadas é n no momento da criação E a partir dessas questões é vão surgindo aí os os processos É o Grupo Ninho entretanto tem um um uma ligação muito forte com a cultura popular é que vem desdo do surgimento do grupo já já era perceptível em espetáculos como como Bárbaro é O Menino Fotógrafo eu também consigo enxergar e e também Charivari É e com o Poeira isso é intensificado essa relação com a cultura popular é eu vejo que é muito forte o desejo vejo e sinto também que é muito forte o desejo de mostrar pro mundo essa cultura popular que que existe aqui na região do Cariri E e eu vejo que que ultimamente nos últimos anos é a poética do grupo ela tem se pautado muito muito nesse lugar dessas das manifestações da enfim da cultura local das nossas raízes é da nossa ancestralidade de olhar mais pro que tá aqui do nosso lado e e não olhar apenas o que vem de fora o que é clássico que vem da Europa o que vem do do Sudeste mas sim valorizar as coisas re da região e as coisas da gente as coisas é internas que tão que tão na pessoalidade de cada um dos dos indivíduos que que compõem o grupo É É mais um um um um olhar pra dentro assim é um um uma poética que começa de um olhar pra dentro de um olhar pra região de um olhar pra própria cultura de uma busca pela por uma é an ancestralidade de de uma tentativa de entendimento do do nosso passado ahn das coisas que aconteceram e que se vivia e se vive é na região Eu penso que a poética passa muito por esse lugar é mesmo que que que o tema não seja diretamente ligado à isso É é isso eu penso que a poética do grupo passa muito por esse lugar mesmo que que que o tema não seja o tema de uma criação não seja necessariamente a cultura popular de certa forma é o grupo acaba é também passando por esse lugar por conta de todas essas é por conta de todas essas questões que eu coloquei Eudes Francisco Áudio 5 000705 Casa Ninho A Casa Ninho existe desde o ano de 2011 se eu não me engano É em 2021 ela vai completar dez anos de existência aqui na região do Cariri mais 180 precisamente na cidade de Crato É eu não participei dos momentos da abertura do espaço mas pela conversa com os integrantes é eu noto que que quando da da abertura da Casa Ninho enquanto sede do Grupo Ninho de Teatro é Casa Ninho ela ela ela os integrantes não tinham é a princípio pretensões do que viria a se tornar a Casa Ninho É a princípio é é era um pensamento de um espaço pra guardar é é os materiais dos espetáculos e um espaço para ensaiar É o espaço da Casa Ninho naquela época foi viabilizado através de um edital de manutenção É foi a partir daí que o Grupo Ninho conseguiu é abrir o espaço e se manter durante um tempo E ao longo do do tempo é a Casa Ninho ela foi ganhando outras proporções de apenas um espaço pra guardar é material e ensaiar a Casa Ninho aos poucos foi se transformando em um espaço cultural aqui da região do Cariri um espaço cultural com muita força E apesar de não ter nenhum tipo de de incentivo ou ajuda auxílio governamental ou particular é a Casa Ninho se estabeleceu enquanto um dos espaços culturais mais importantes da região do Cariri É eu entendo que é um espaço de vital importância pra pra comunidade É já faz parte da história da da região do Cariri a Casa Ninho E ela se torna na minha opinião muito mais do que é um espaço de sede de grupos É atualmente o Grupo Ninho divide o a gestão do espaço da Casa Ninho com o Coletivo Atuantes em Cena é e mesmo com dois grupos gerindo o espaço as dificuldades são são muito grandes assim são são muitas despesas pra se manter um espaço um espaço cultural aberto E a dificuldade aume aumenta ainda mais quando se não quando não se tem é nenhum tipo de auxílio é seja ele privado ou governamental Então isso torna as coisas um pouco mais difíceis É apesar disso a Casa Ninho ela consegue se manter enquanto um espaço de cultura na região até porque a a a sociedade como um todo da região é empática à à Casa Ninho ahn as pessoas sempre que que que nós pedimos auxílio ajuda é alguma contribuição pra manutenção do espaço as pessoas prontamente se colocam pra pra ajudar pra auxiliar ahn seja financeiramente seja seja com com a sua força de trabalho com ideias com com projetos é então daí você percebe o quão importante é o espaço da Casa Ninho pra região do Cariri É tão importante que as pessoas elas sempre se colocam ativamente pra manter esse espaço junto com os coletivos que gerem o o espaço da Casa Ninho Atualmente a gente tá com uma campanha Amigos da Casa era uma ideia já que já vinha sendo discutida há um tempo entre os os grupos gestores da Casa mas que com essa essa crise do essa crise de 181 de saúde e econômica e até política do ocasionada pelo coronavírus a gente teve que antecipar a campanha é senão a gente não conseguiria manter é o espaço da Casa nesse período de crise E as pessoas prontamente se colocaram pra ajudar nesse período em que a gente não pode se encontrar não pode não pode ter apresentação não pode ter evento e enfim as pessoas tão tão ajudando porque elas em entendem e se sentem responsáveis por esse espaço que não pode deixar de existir não pode fechar as portas porque é um espaço que já faz parte é da história da da cultura local E e não é a primeira vez que a gente passa por um por uma situação difícil na Casa É em 2018 a gente também passou por uma situação de quase fechar as portas da Casa e os artistas locais a comunidade local também se se colocou pra pra ajudar pra pra apoiar e é isso isso mostra a importância do da Casa Ninho que deixou de ser apenas a sede de dois grupos de teatro pra ser um espaço cultural reconhecido em toda a região do Cariri é e de certa forma até no no Brasil como um todo assim é um é um ponto de referência que que inclusive artistas de outras regiões de outros estados é têm no Cariri É existe um reconhecimento também desse espaço em outros estados em outras regiões é consolidando mesmo o espaço da Casa Ninho enquanto enquanto um ponto de cultura importantíssimo não só pra região mas também pro Brasil como um todo Eudes Francisco Áudio 6 000807 Projetos e sustentabilidade É eu vou falar sobre esses dois itens num só áudio porque eu não consigo ver eles separadamente é enfim na minha opinião um passa pelo outro projetos passa passa por sustentabilidade e sustentabilidade sustentabilidade passa por projetos É eu entendo que que os projetos são assim enquanto produção e gestão de grupo e também de espaço como o espaço da Casa Ninho é algo imprescindível A gente não não conseguiria se manter é enquanto enquanto enquanto grupo se não houvesse é a possibilidade da gente propor projetos É e quanto eu coloco projetos eu não me refiro necessariamente a um projeto pra ser é submetido a um edital e ganhar um recurso financeiro é eu m me refiro mesmo ao sentido de projeto mesmo assim projeto enquanto é um caminho pra você seguir é na arte na cultura e na gestão de grupo e na gestão de espaço é que aí também é se inclui um projeto voltado pra um edital mas um 182 projeto voltado pra um edital é apenas uma parte desse todo no que se diz re no que diz respeito a a à um projeto como um todo né um projeto de grupo enfim um um projeto de sustentabilidade E hoje é muito do do do pensamento do Grupo Ninho em relação à projetos tem passado pela cultura popular pela pela cultura local pelos mestres da sabedoria da cultura popular é e por todo esse conhecimento e sabedoria que que a gente percebe aqui na região do Cariri É como eu até falei em outro áudio é é uma uma uma necessidade de se conhecer é essa essas manifestações e de mostrar essas manifestações pra o mundo pra que todo mundo saiba que elas existam que elas estão aqui e de certa forma trocar com com culturas e saberes de outras regiões de outros estados É tem sido uma pauta nos projetos do Grupo Ninho é essas relações de tá sempre dando visibilidade aos mestres da cultura e a essas manifestações e de de propor que que as pessoas não só aqui da região mas também de outras regiões tenham acesso à essas à essas manifestações é e até provocando trocas entre entre manifestações populares não só daqui como também de outras regiões À exemplo disso é a aprovação no no edital do Rumos Itaú de 2018 é que foi executado 2018 2019 é com o nome Grupo Ninho Dez Anos Levantando Poeira que como eu falei em em outro áudio foi uma proposição de levar os mestres da cultura alguns né mestres da cultura aqui da região do Cariri pra outras regiões do Brasil e promover aí um intercâmbio entre esses mestres e entre os artistas do grupo do Grupo Ninho É nesse projeto também foi levado o o o espetáculo Poeira que foi é que é um um um espetáculo do atual repertório do grupo um espetáculo belíssimo que tro que toca nessas nessas questões da da ancestralidade da cultura popular do olhar pra si do do olhar pra sua ancestralidade e e e esses projetos esse projeto é geral e esses projetos que surgem desse desse desse projeto maior é tem sido um um caminho que o Grupo Ninho tem seguido no nos últimos anos é enquanto enquanto projeto E e desse pensamento também surgiu a a Escola Carpintaria da Cena que é uma troca com com os mestres da cultura popular e com e com professores de teatro aí do teatro clássico é Stanislavski Grotowski fazendo um um um atravessamento dessas duas é desses dois conhecimentos é o conhecimento clássico e o conhecimento popular aqui da região é dando visibilidade também à essas manifestações enquanto uma potência artística de criação é e é isso O o Grupo Ninho tem se pautado muito nes nesse ne nessa prática enquanto projeto é enquanto projeto de grupo 183 também assim de de uma de uma luta mesmo de de se gerir enquanto grupo de teatro é de sobreviver e e acima de tudo de viver é em de teatro aqui na região do Cariri E e e esse projeto é como eu falei ele também passa pela sustentabilidade porque é através desses pensamentos dessas articulações é do que fazer como fazer por que fazer o que fazer é pra conseguir trilhar um caminho é não só na criação mas também conseguindo se manter com com essa criação é com os espetáculos mas não só com os espetáculos mas também com outras ações é para além dos espetáculos como por exemplo é a Escola Carpintaria da Cena É como fazer com que o espaço da Casa Ninho é consiga gerir recursos pra pra si mesmo pra si mesma e e os integrantes não precisem tirar dinheiro do bolso pra pra pagar é pra pagar as contas da Casa é não precisem tirar dinheiro do dos dos cachês E existe sempre é um pensamento de gestão nesse sentido de tá sempre buscando é práticas é possibilidades de de se manter de de criar de de de viver de de teatro É uma busca que é sempre constante Eudes Francisco Áudio 7 000911 Formação Eu acabei falando um pouco de formação quando quando eu falei sobre os integrantes do do grupo mm mas eu falei apenas um pouco sobre formação que era a formação individual e acadêmica de cada integrante Como eu falei existe uma diversidade aí nesse lugar que que são formações bem distintas alguns são formados em em Teatro é tem integrante formado em Letras em Pedagogia em Marketing em Direito em Biblioteconomia então aí existe uma diversidade muito grande de formações que tem a ver também com as origens de cada um que aí também é outra diversidade é outro mundo E eu penso que que começando a partir daí só essa essa diversidade de formação é já traz uma potência muito grande porque são mundos diferentes e quando esses mundos eles eles colidem aí surge surgem é reflexões bem interessantes eu tenho percebido isso E é através dessas reflexões que que a gente consegue caminhar não só criativamente mas também enquanto gestão de grupo gestão de espaço É enquanto formação é do grupo como um todo é eu tenho percebido acho que eu já tô até me tornando repetitivo é que é nos últimos anos é esse direcionamento da cultura popular é eu tenho percebido muito isso é de não olhar apenas a essa formação clássica do teatro é geralmente com com um conhecimento que vem da Europa 184 os clássicos é Grotowski Stanislavski é existe aí também além disso desse clássico desse conhecimento clássico que é importantíssimo e e tem que ser estudado mesmo praticado mas existe também um olhar pra o que tá aqui do lado da gente né que que são a as as manifestações é da cultura popular Inclusive foi através do contato com o Grupo Ninho eu nem era do Grupo Ninho ainda que eu mudei o meu olhar pra cultura popular aqui da região do Cariri É desde pequeno eu tive contato com manifestações é Reisado Lapinhas é Bacamarte é já tive já tive o contato desde criança enfim enquanto é cidadão aqui de de Juazeiro do Norte Então eu sempre via essas manifestações Mas por ter um um uma visão é não sei se distanciada não sei se por conta de uma de uma de uma é eu n eu n não não tô sabendo dizer é de uma de uma é meio que que existe um existe um lugar que que é apresentado pro que que as manifestações são apresentadas é inclusive pelo poder público como um um entretenimento é como se fosse um entretenimento um tanto raso eu eu fico com essa impressão hoje de que de que a maneira como inclusive o poder público coloca essas manifestações pra população como um todo é como algo um mero entretenimento E eu tinha essa visão de um mero entretenimento é até um determinado momento que foi o contato em 2018 se eu não me engano isso em 2018 é com a Escola Carpintaria da Cena do Grupo Ninho de Teatro em que o Grupo Ninho propôs através dessa escola uma imersão é com as manifestações da cultura popular e atrelada a isso também uma imersão com poéticas de artistas e grupos de teatro de várias regiões é do país do Brasil E através é desse contato com com essas manifestações culturais eu acabei mudando completamente a minha visão é a maneira como eu enxergava é as manifestações culturais inclusive é mudou a minha perspectiva e o meu interesse pra essas manifestações É até até antes da de ter ingressado na Escola Carpintaria é eu não me interessava muito assim eu via como um mero entretenimento assim nã não me despertava curiosidade É a partir do momento que eu ingressei na na na Escola Carpintaria da Cena que eu fiz parte que eu vi de perto que eu que eu pude ter uma imersão na coisa eu percebi um mundo ali que que tipo assim que eu não conhecia e que me despertou o in o interesse de tá sempre buscando e querendo conhecer mais e mais a respeito Então eu acho isso importantíssimo na formação é E uma coisa que o Grupo Ninho fez que que é muito linda que o Grupo Ninho não guardou essa essa formação apenas pra pra os integrantes do grupo é que 185 foi um um um contato que eles que que o Grupo Ninho teve é pra criação do espetáculo Poeira enfim já é algo que o Grupo Ninho vem trabalhando e pesquisando desde o início do surgimento do grupo mas que se fortaleceu e se fortificou com o espetáculo Poeira e algo belíssimo que o grupo fez foi não ter guardado isso apenas pra o grupo foi foi o querer compartilhar essa formação é não não querer a formação só pra si E através do do compartilhamento dessa formação assim como mudou a minha visão e a minha perspectiva e me despertou uma curiosidade um interesse que antes não existia eu creio que isso também aconteceu com várias outras pessoas que participaram da escolas de cultura da do da Escola Carpintaria da Cena Né nem que eu pense eu tenho certeza porque várias pessoas já falaram isso né de que assim houve uma mudança aí no olhar pra pras manifestações é as manifestações culturais populares aqui da região E eu acho que isso é muito importante porque o Grupo Ninho ele ele investiu não só na sua formação mas também na formação é de uma de toda uma região é porque pessoas de várias regiões inclusive de outros estados vieram pra fazer essa essa Escola Carpintaria da Cena então isso é muito bonito isso é muito lindo porque o Grupo Ninho não não se fechou é nas coisas que o Grupo Ninho achava importante pesquisar vivenciar é houve aí um um um um movimento de também compartilhar com outras pessoas pra que todo mundo é tenha conhecimento à respeito disso E isso passa muito por essa pelo que eu falei no nos projetos né porque é um projeto também do Grupo Ninho que que esse esse conhecimento essas manifestações não fiquem apenas aqui na região mas que elas saiam e ganhem o mundo Entrevistas com Rita Cidade áudio 12min55s Cá estou né Pra gravar sobre o ninho mais uma vez e já foram muitas e é sempre um prazer imenso porque é sempre também um processo de redescoberta é sobre o nosso surgimento de grupo a gente fala muito pelo lado dos anos dos trabalhos e como Edceu conhece muito bem essa parte eu vou pular pra parte que eu acho mais interessante que é o motivo que nos uniu que tem a ver com os nossos desejos artísticos e que os nossos artísticos tem a ver com a nossa humanidade com o nosso ser humano e que tem a ver o nosso ser humano com o sentimento de amizade que aconteceu dentre boa parte de nós né Então acho interessante pensar esse 186 surgimento por aí porque eu acho que é o nos alimenta até hoje e acho também que é o que nos alimenta cada vez mais pensando esse tempo de trajetória é quando a gente se juntou e o ninho nasceu que a gente não não foi um filho planejado né Foi uma surpresa da vida quando a gente se juntou A gente era um grupo de pessoas que faziam teatro que já tinham feito teatro juntos uns com os outros em ocasiões diferentes e que a gente se interessou por um determinado texto teatral que no caso era Avental todo sujo de ovo e que é interessante que a gente tá com esse trabalho até hoje Eu gosto de pensar né que o primeiro trabalho o trabalho que uniu a gente é a gente ainda vivencia ele até hoje é e que a gente foi se alimentando nesse começo E como eu disse eu penso que é o grande alimento até hoje dos nossos desejos artísticos que foram encontrando par que foram encontrando eco de uns nos outros E eu acho que é assim até hoje e eu acho que a gente vem se melhorando nisso a gente se afinizando nesse sentido Acho que isso fica muito claro no Poeira e e nos trabalhos novos que a gente tá em sala Sobre integrantes Hoje somos oito né E eu acho que é importante pensar o passado também porque o passado diz da construção e com certeza todo mundo foi parte importante dessa construção né Mas eu acho que eu penso mais o hoje mesmo sabe Porque eu acho que hoje é resultado do ontens né E acho que a gente tá num momento bem interessante de diversidade A gente tem um equilíbrio aí de se a gente for pensar masculino e feminino né por mais que isso se dilua mas culturalmente existe acho equilibrado acho interessante a mistura de gerações que a gente sempre teve acho bacana acho que promove diálogos bem interessantes como também as nossas formações né acadêmicas e as nossas experiências de vidas lugares onde a gente nasceu são os mais distintos Então assim a gente junta muito é meio é bem ninho mesmo eu ia dizer que é meio ninho mas não é não é total ninho né que junta essas muitas referências de onde se nasceu de onde se cresceu do que se fez da vida do que se fez depois de adulto que no caso é tô falando com relação à formação acadêmica enfim e acho que essa mistura dá um coisa muito boa pra nós Sobre o repertorio é algo parecido também né dos trabalhos que a gente foi fazendo E eu acho que assim o ponto mais interessante que eu acho pensando repertorio é esse que eu já citei sobre o grupo que é o fato da gente vir se alinhando melhor se entendendo melhor 187 Sobre a nossa poética é inclusive a parte que eu peguei pra trabalhar pra fazer o vídeo é eu acho que a gente sempre se permitiu se não cem por cento mas eu acho que a gente sempre se permitiu bastante vivenciar temáticas estéticas diferentes E acho que a nossa poética se construiu nessa diversidade de propostas né que foram chegando primeiro A gente se junta em prol de um espetáculo que trata sobre amor sobre família sobre rejeição sobre moralismo né A gente embarcou nessa a princípio em seguida a gente vai tratar sobre violências assim que os dois dialogam né Não deixa de ser uma violência também o que a gente vê em Avental mas em Bárbaro isso vai ficar mais forte E aí depois a gente vai pra rua a convite de uma pessoa externa que no caso é Duilio né que chega pra fazer Charivari e convida a gente e a gente embarca nessa outra história uma história bem arriscada Assim medo inclusive de prisão cachorra late mas que a gente embarcou também Acho a gente corajosos ousados e eu gosto muito disso E aí o Menino Fotógrafo que a gente propôs outra coisa pra Cecília e aí a Engenharia Cênica não só Cecília chega e propõe um trabalho completamente diferente do que a gente tinha proposto a princípio E a gente embarca também vai na confiança de que a gente vai conseguir construir bacana juntos Depois Jogos na Hora da Sesta proposto por Jânio voltando pra temática da violência de certa forma um outro olhar pra violência o olhar da violência através do que as crianças percebem dela e passam a vivenciar dela E aí a gente sempre se desafiando também é eu e Zizi fazendo personagem masculino Edceu fazendo personagem feminino Lá atrás a gente já fez eu fazendo Indiene personagem trans Edceu fazendo Antero bem mais velho na idade é a gente fazendo crianças em Jogos na Hora da Sesta Então acho que a gente se arrisca muito mesmo é e aí depois vem A Lição Maluquinha que eu propus que pra mim já era risco desde o início o lugar da direção mas que eu queria me arriscar nisso pra testar isso com o Ninho E aí também a coisa de fazer personagem infantil mais uma vez bem diferente dos personagens que a gente fazia em Jogos na Hora da Sesta uma construção completamente diferente e tão próxima com relação a tempo E aí né sempre esse lugar de corda bamba mesmo de risco é e ai depois vem Poeira né Acho que sim acho que a memória não falhou não E aí né também ir pesquisar e ir se encontrar e aí agora com outro lugar da vida que é o lugar dos velhos dos anciões outro polo outro extremo E agora a gente mergulhando talvez mais profundo em nós mesmos nesses novos trabalhos que a gente tá se propondo se propondo a três trabalhos de uma vez só Então eu acho que é muito isso é 188 agora penso que a gente foi se encaminhando para uma poética de cada vez mais próximo da essência do ser humano cada vez mais próximo de nossas raízes culturais e cada vez mais próximo das relações desse ser humano na cultura que ele se constrói com as relações sociais Eu acho que a nossa poética vai por aí e que os elementos estéticos também acompanham esse mesmo raciocínio pra dar conta dessa nossa necessidade de tratar sobre humanidade sobre cultura e sobre as relações sociais A casa ninho é aconteceu em 2011 Uma necessidade que a gente já sentia mesmo tendo poucos anos de existência três anos de existência pra mim A princípio eu acreditava que ia ser um lugar onde a gente ia guardar os nossos troços e onde a gente ia ensaiar não ia mais precisar ficar dependendo de outros espaços e passando por sufocos que a gente já tinha passado em muitas instituições de ter marcado pauta pra ensaiar porque tinha apresentação no dia seguinte e precisava ensaiar e chegar e essa pauta ter sido desmarcada sem ser nem avisado nem nada enfim né Essa situação que a gente já conhece bem Pra mim eu achava que ia ser isso e ao mesmo tempo também que isso pra mim era um alívio só isso pra mim era um alívio um lugar pra guardar a troçada e um lugar pra poder ensaiar tranquilos Ao mesmo tempo pra mim também era assustador ter que gerenciar esse espaço e que eu achava que ia ser uma coisa pequena né Olhando hoje assim olhando pra trás isso que eu imaginava que a casa ninho seria era muito pequeno e mesmo assim mesmo sendo algo pequeno eu tinha muito medo quando a gente aprovou Eu acho que sofri mais do que eu me alegrei quando a gente aprovou o projeto que deu a possibilidade da gente alugar um espaço E aí com o passar do tempo eu fui descobrindo um outro mundo de possibilidades Primeiro tem um parênteses aí que na mesma época em que a gente inaugurou a Casa Ninho eu tinha passado numa seleção do Sesc e eu tinha meio que optar ou viver a casa ninho cem por cento ou ir pro Sesc e viver a Casa Ninho no máximo cinquenta por cento porque eu sabia o que era o trabalho do Sesc principalmente por causa de Edceu que teve lá no início de Avental teve que sair inclusive de Avental achava que ia sair de vez por conta do trabalho do Sesc das exigências de disponibilidade pro Sesc Então eu sabia muito bem o que era E aí eu fiz a opção de viver a Casa Ninho cem por cento e não me arrependo de jeito nenhum E então tendo feito essa opção eu vivia diariamente dentro daquele espaço e aí eu fui percebendo que ele era muitas outras coisas muitas muitas mesmo do que eu 189 imaginava a princípio e aí foi se tornando um lugar onde a gente podia apresentar também não só ensaiar foi se tornando um lugar pra outras pessoas pros outros artistas pros outros coletivos Foi se tornando um lugar pras outras linguagens foi se tornando um lugar pro público foi crescendo foi ampliando o trabalho foi aumentando e as possibilidades de retorno também E aí hoje eu vejo como um espaço incrível que a gente consegue manter às duras penas mas que é muito saudável ter esse espaço pra todo mundo pra nós artistas pra nós do Ninho principalmente pra nós artistas pro Atuantes de uma forma um pouco mais especial que os demais artistas né do ninho mais especial ainda é claro pro público pra quem nunca nem pisa na casa ninho ela continua tendo importância pra quem não sabe nem que ela existe ela tem uma importância muito grande Áudio 1min33s annh cortou sem eu querer mas continuando sobre os nossos projetos eu acho que eles têm duas grandes linhas assim no meu ponto de vista né claro é um que é levar o cariri pro mundo através do nosso trabalho Eu sinto que a gente adora viajar eu sinto que a gente adora tá junto mas que tem uma questão maior do que isso tudo e isso tudo já é grande A gente tá junto a gente tá sendo feliz a gente tá sendo feliz com a arte já é grande demais né mas eu sinto que tem algo maior que é a vontade de levar esse nosso universo Cariri pro mundo e que a gente tem feito nas possibilidades que nos aparecem Eu sinto que essa é uma grande frente de projeto nosso e a outra é melhorar ainda mais esse Cariri porque a gente traz cursos que a gente quer fazer mas só isso já seria muito grande Volto a dizer porque cada pessoa é importante demais e a gente trabalha muito e agente merece muito fazer os cursos que a gente quer fazer mas eu sinto que também tem algo maior por trás aí que é um fazer não só pra nós então a gente já acha esse Cariri o máximo e a gente ainda quer tonar ele melhor nas nossas possibilidades Áudio 4min37s Sobre sustentabilidade olhando pra nós pra mim é suor é suor é poeira é pó é teia de aranha é peso é estrada é privações é saudade é tudo isso misturado porque somos nós que sustentamos né Acho que essa é uma realidade de todos os grupos do Brasil ou de quase todos talvez de todos ou quase todos da América Latina e não consigo ir além dessa fronteira não consigo pensar além dela não 190 consigo entender como são os grupo na Europa por exemplo mas enfim a nossa realidade é muito parecida com a realidade de muitos outros grupos dos que a gente conhece dos que a gente se espelha dos nossos amigos e amigas é quem sustenta somos nós né E vai ser sempre nós porque ainda que a gente tenha parcerias ainda que a gente tenha convênios vai ser sempre nós vai ser sempre o nosso trabalho que vai sustentar esse projeto Então é dessa forma que eu vejo Sobre formação eu acho que acabei já pincelando tem um lado formação que é nossa formação como seres humanos como pessoas que tem a ver com as nossas famílias que tem a ver com os nossos lugares que tem a ver com as nossas opções de cursos que a gente fez né E aí acho muito massa também volto a dizer pensar a gama de caminhos que nós oito temos na vida nas nossas formações e agora falando especificamente de formação acadêmica né a gente tem advogado a gente tem gente de teatro a gente tem gente das visualidades a gente tem bibliotecário a gente tem pedagoga a gente tem historiador a gente tem pessoa que faz letras que eu nunca sei como fez Letras que no caso sou eu e que nunca sei que nomes dar a isso marketing enfim né a gente é uma empresa fechação risos E sobre a nossa formação juntos e juntas eu ainda queria muito mais é eu queria que a gente tivesse mais oportunidades de tá juntos fazendo cursos fazendo oficinas das mais distintas coisas sabe Eu acho que quando a gente se junta pra fazer por exemplo planejamento estratégico que acho que foi a única oportunidade que a gente teve depois da entrada de Eudes de estarmos nós oito os atuais e as atuais juntos numa coisa que tem cara de formação porque pra mim planejamento estratégico também tem essa cara né Eu acho que é um crescimento imenso pro Ninho né é um crescimento pra cada um cada uma mas pensando no Ninho na célula Ninho é um crescimento imenso Então eu queria eu quero que a gente tenha muito mais oportunidades de formação juntos e eu penso também que é necessário ter momentos que seja só entre nós porque como eu disse lá falando sobre os projetos a gente tem uma vontade de melhorar muito o Cariri e a gente não quer melhorar sozinhos né A gente não quer esse peso só pra nós que é ótimo porque aí a gente chama outros artistas pra tá juntos e multiplicar isso mas eu também acho muito importante a gente poder tá sozinhos com alguém que a gente queria estar ou com um grupo ou seja lá com quem for em determinados momentos descobrindo coisas sobre nós ou construindo coisas entre nós 191 É isso minha gente acho que terminei acho que se eu fosse responder todas essas coisas amanhã talvez eu tivesse outras formas de pensar além dessas é muito doido porque é vivo né é vivo e tá em transformação o tempo todo tá com a gente tá na nossa carne tá na nossa alma Então se transforma junto com a gente a cada segundo a cada respiração mas por hoje é isso Xêro brigada Fim das Transcrições 192 ANEXOS 193 EspetáculosRepertório Bárbaro De roteiro original estreou em junho de 2008 foi vencedor do XV festival de Teatro de Acopiara Julho 2008 sendo agraciado nas categorias Espetáculo direção atriz ator e iluminação Bárbaro é um espetáculo de esquetes que de forma lúdica satírica e até divertida alerta para as muitas faces da violência presentes no nosso cotidiano No primeiro esquete yyycomvc uma jovem internauta é morta pelo seu aparente namorado virtual No segundo Embalando Meninas em Tempos de Violência uma mulher é terrivelmente agredida e ameaça denunciar seu agressor em Terçafeira Gorda a homofobia leva um homem a ser assassinado em pleno carnaval e no Passeio Noturno alguém atropela e mata as pessoas corriqueiramente por puro prazer São acrescidos aos esquetes um prólogo e um epílogo inspirados nos Caretas dos Reisados de Couros da cultura popular numa alusão à violência brincante criando um paralelo entre tradição e contemporaneidade Ficha Técnica Direção Jânio Tavares e Joaquina Carlos Elenco Edceu Barbosa Jânio Tavares Joaquina Carlos e Rita Cidade Concepção de Iluminação Gabriel Callou Mauro César Alves e Ninho de Teatro Concepção de Sonoplastia Francisco di Freitas e Ninho de Teatro Operação de luz e som Gabriel Callou Fotos Nívea Uchoa Figurino adereços e maquiagem Ninho de Teatro Figura 16 Primeira arte de cartaz do espetáculo Bárbaro 194 Avental todo sujo de ovo Com texto de Marcos Barbosa e direção de Jânio Tavares estreou em abril de 2009 Avental todo sujo de ovo trata da relação familiar suas limitações e suas verdades Propondo uma intimidade com o público o elenco deste espetáculo convida os espectadores a visitarem a casa de Alzira e Antero o casal que há dezenove anos junto à comadre Noélia vive a angustiante espera do filho Moacir que fugiu de casa aos nove anos de idade Para assegurar esta proposta o Grupo Ninho de Teatro sob a direção de Jânio Tavares conta a história de autoria do cearense Marcos Barbosa em espaço cênico de semi arena sobre um tapete de arroz a uma distância mínima do público suscitando neste um reflexivo olhar sobre as relações familiares Ficha Técnica Texto Marcos Barbosa Direção Jânio Tavares Elenco Edceu BarbozaJoaquina CarlosRita Cidade e Zizi Telecio Concepção de figurino Jânio Tavares e Carol Landim Execução de figurino Alda Tavares e Marlen Criações Concepção de cenário Jânio Tavares e Wanderley Peckovski Concepção e execução de luz e som Jânio Tavares Concepção e execução de maquiagem Grupo Ninho de Teatro Adereços George Belisário Fotos Francisco di Freitas Alex Hermes Contra regragem Alana Morais e Elizieldon Dantas Figura 17 Primeira arte de cartaz do espetáculo Avental todo sujo de ovo 195 Charivari Da dramaturga paraibana Loudes Ramalho é o terceiro espetáculo adulto do grupo e o seu primeiro de rua com direção de Duilio Cunha As Velhas Estreou em setembro de 2009 Charivari segundo a própria dramaturga Lourdes Ramalho Charivari é uma palavra medieval utilizada para designar jogo ritual festa histórica em caráter de gozação Era a entrada num universo utópico a transgressão de todos os limites a explosão escatológica após todas as repressões do corpo e da alma Significa o pipocar do humor festivo a liberação do riso que funciona como uma arma infalível no processo de desanuviar desarmar desintoxicar relaxar aproximar integrarse ao outro numa trégua feita às agruras e durezas da vida em que ri ainda é o melhor remédio Ficha Técnica Texto Lourdes Ramalho Direção Duílio Cunha Dramaturgista Diógenes Maciel Elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Zizi Telecio Kelyenne Maia Nilson Matos e Rita Cidade Música Zabumbeiros Cariris Amélia Coelho Evânio Soares e Haarllem Rezende Concepção de Figurino e Cenário Duílio Cunha Execução de Figurino Marlen Criações Calçados Joylson John Kandahar Execução de Cenário Oliver Oliveira e Maurício flandeiro Concepção de Maquiagem Williams Muniz Execução de Maquiagem Ninho de Teatro Fotos Alex Hermes Contra regragem Sâmia Oliveira Figura 18 Primeira arte de cartaz do espetáculo Charivari 196 O Menino Fotógrafo O Menino Fotógrafo Construído colaborativamente a Companhia de Teatro Engenharia Cênica é um espetáculo simbolistafantástico entrecortado por fragmentos de cenas simultâneas contadovivido pela íris de um velho que um dia foi criança viu os DentesdeLeão no céu azul sem nuvens mas viu também nuvens de fumaça formadas por pássaros de fogo em um ataque aéreo que ceifou parte da sua família história e memória Ficha Técnica Encenação e dramaturgia Cecília Raiffer Elenco Alana Morais Edceu Barboza Elizieldon Dantas Joaquina Carlos Luiz Renato Rita Cidade e Zizi Telecio Sonoplastia Edceu Barboza Iluminação Luiz Renato Cenografia Francisco dos Santos Figurino Edceu Barboza Maquiagem Cecília Raiffer e Edceu Barboza Designer gráfico Edceu Barboza Execução do figurino Marlen Criações Operação de luz Jânio Tavares Fotos Diego Linard Dinho Lima e Max Petterson Produção Cia Engenharia Cênica e Grupo Ninho de Teatro Figura 19 Primeira arte de cartaz do espetáculo O menino fotógrafo 197 Jogos na Hora da Sesta Estreado em julho de 2012 Da obra de Roma Mahieu Jogos na Hora da Sesta é uma reflexão sobre a violência Conta a história de um grupo de crianças que brincam em uma praça num dia de céu limpo sem nuvens Onde expõem suas diversas personalidades de acordo com a formação moral de cada uma que varia da pureza à maldade Como todas as crianças as personagens vão pontuando suas ações a partir dos estímulos valores censuras preconceitos e temores que recebem do mundo adulto Através dos jogos as crianças reproduzem os rituais sociais dos adultos o fascínio pela televisão a sexualidade o casamento a morte o velório o enterro as guerras a religiosidade os tribunais num conjunto de ações repletas de violência e de poesia Ficha Técnica Da obra de Roma Mahieu Jogos na Hora da Sesta Tradução Diego San Martin Direção Jânio Tavares Colaboração Joaquina Carlos Elenco Edceu Barboza Elizieldon Dantas Kelliane Eskthny Rita Cidade e Zizi Telecio Joaquina Carlos Colaboração preparo físico Will Guerreiro Arte Ricardo Campos Figurino Edceu BarbozaJânio Tavares Execução de figurino Atelieart Costura Maquiagem Edceu Barboza Cenário Elizieldon DantasJânio Tavares Zizi Telecio Execução de cenário Zé Cícero Iluminação Elizieldon Dantas Jânio Tavares Operação de som Sâmia Oliveira Operação de luz Jânio Tavares Figura 20 Primeira arte de cartaz do espetáculo Jogos na Hora da Sesta 198 A Lição Maluquinha Esta peça teatral conta como são os dias de aula na escola da Professora da Menina e do Menino Falando assim você acha esta história tão sem graça quanto a cara da gente quando não consegue resolver um problema de matemática Mas não é Acontece que vizinho à escola mora o Boêmio que gosta muito de cantar Acontece que a Professora gosta muito de cinema Acontece que entre o Menino e a Menina está acontecendo algo novo E tudo isto junto dá uma história com muita aventura emoções e Um final cheio de surpresas boas tanto quanto fica o nosso coração quando a gente consegue entender uma lição bem difícil Ficha Técnica Texto e encenação Rita Cidade em colaboração com o Grupo Ninho de Teatro Inspirada na novela Uma professora muito maluquinha de Ziraldo Elenco Jânio Tavares Joaquina Carlos Sâmia Oliveira e Zizi Telecio Assistência de direção figurino maquiagem e operador de som Edceu Barboza Cenografia e operação de luz Elizieldon Dantas Sonoplastia DJ Daniel Batata Iluminação e Produção Grupo Ninho de Teatro Execução de figurino Marlen Criações Execução de adereços Suzana Carneiro e Zizi Telecio Execução de cenário José Cícero Figura 21 Primeira arte de cartaz do espetáculo A Lição Maluquinha 199 Poeira Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas Manoel de Barros Do que somos feitos Ou do que precisamos para nos fazer re fazer Da alegria da tristeza do amor da dor Somos terra viemos dela e para ela voltaremos somos saudades Poeira é festa que documenta o prazer de se misturar e a alegria que se sente ao se encontrar mestres inspiradores mestres de verdade num sabePronto Classificação indicativa 16 anos Ficha Técnica DRAMATURGIA CRIAÇÃO E INTERPRETAÇÃO Edceu Barboza Elizieldon Dantas Jânio Tavares Joaquina Carlos Monique Cardoso Rita Cidade Sâmia Oliveira e Zizi Telecio DIREÇÃO DE CENA Edceu Barboza e Jesser de Souza OFICINA DE DRAMATURGIA DA CENA Miguel Rúbio Zapata Yuyachkani Peru OFICINA DE VOZ Ernani Maletta DIREÇÃO MUSICAL Zabumbeiros Cariris FIGURINO Edceu Barboza EXECUÇÃO DE FIGURINOS Ateliê Art Costuras CENOGRAFIA Grupo Ninho de Teatro ILUMINAÇÃO Jânio Tavares e Elizieldon Dantas DESIGNER GRÁFICO Breno Ximenes PESQUISA Laboratório de Pesquisa Teatral 2014 Porto Iracema das Artes Escola de Formação e Criação do Ceará Figura 22 Primeira arte de cartaz do espetáculo Poeira Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 391 AS LIGAS CAMPONESAS ÀS VÉSPERAS DO GOLPE DE 1964 Antônio Torres Montenegro Resumo Este artigo analisa a luta no campo no Nordeste às vésperas do golpe de 1964 A partir da segunda metade da década de 1950 o Nordeste assistiu a uma crescente organização dos trabalhadores rurais As Ligas Camponesas criadas pelo Partido Comunista na segunda metade da década de 1940 ganharam uma nova força ante o engajamento do deputado socialista Francisco Julião Essa organização adquiriu uma visibilidade nacional e mesmo internacional principalmente após a Revolução em Cuba Além disso a Igreja sentindo ameaçada sua hegemonia sobre os camponeses foi desafiada a assumir uma posição de apoio à luta destes Palavraschave Ligas Camponesas Igreja luta da terra e imprensa nordeste insurgente Abstract This article analyses the peasants fight in the Northeast just before 1964 coup d état From the late 1950s on rural workers increasingly structure themselves into unions in the Northeast The Peasant Unions founded by the Communist Party in the second half of the 1940s gain a new force with the support of the socialist congressman Francisco Julião Their organization gets a national and even international impact mainly after the Revolution in Cuba On the other hand the Church feeling threatened by losing its hegemony over the peasants is challenged to assume a position of support to the peasants fight Keywords Peasant Unions Church Fight for Land and Press Insurgent Northeast ARTIGOS Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 392 Escolhemos como trilha para iniciar este artigo algumas reflexões sobre a história Gramsci filósofo marxista italiano morto nas prisões do regime fascista de Mussolini em 1937 afirmou serem todos os homens filósofos em sentido espontâneo pois a filosofia estaria contida na própria linguagem no senso comum e no bom senso e na religião popular1 Podemos então afirmar que em sentido espontâneo também so mos todos historiadores afinal narramos histórias e sobretudo estamos constantemen te retornando ao passado e repensandoo ressignificandoo A partir deste movimento de análise do passado muitas vezes redefinimos nossa maneira de compreender e agir no presente e de refletir sobre os projetos futuros A partir dessa perspectiva podemos indagar qual a diferença entre pensar a história de forma espontânea e pensála como produção do conhecimento ou seja uma constru ção resultante de uma série de atividades complexas que implicam um conjunto amplo de procedimentos Em primeiro plano encontramse as experiências do presente lan çando novas interrogações novas indagações novos questionamentos ao passado ao mesmo tempo há de considerar a influência do refazer constante dos conhecimentos teóricos e as ressonâncias advindas de outras áreas do conhecimento que informam e modulam esse diálogo maiêutico com o passado Freqüentemente interligados a este com plexo movimento estão registros novos ou seja novos documentos selecionados desco bertos ou mesmo produzidos como entrevistas de histórias de vida eou temáticas possibilitando à história operar um refazer constante de sentidos e significados Assim temos a história como uma atividade intelectual que realiza uma constante crítica de seus parâmetros analíticos voltada para o presente e para o futuro Ou seja toda história é sempre história do tempo presente pois é a partir das questões e desafios colocados na cotidianidade que interpelamos o passado Dessa forma a história não é uma contempla ção descomprometida do passado mas atende a desafios interrogações da nossa contem poraneidade é para responder ao presente que reescrevemos permanentemente a história Em outros termos arrancamos a história dos perigos da memória ou na expressão de Pierre Nora O movimento da história a ambição não são a exaltação do que verdadeira mente aconteceu mas sua anulação2 Ao mesmo tempo parecenos significativo neste preâmbulo revisitar as análises que desenvolvem uma instigante reflexão acerca da memória em que esta é vista como uma grande ameaça à história Memória considerada um conjunto amplo de discursos rituais e práticas que entronizam cristalizam congelam acontecimentos personagens períodos históricos mitificando significados e dessa forma impossibilitando a história de exercer sua prática mais fecunda que é a operação cortante da crítica ao instituir um constante refazer do passado historiográfico Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 393 Nesse sentido é muito elucidativo retomar dois momentos emblemáticos da história do Brasil 1930 e 1964 em que a normalidade constitucional foi interrompida Concomi tantemente a este movimento de ruptura do pacto constitucional os grupos que se apro priaram do poder político se autoproclamaram realizadores de uma revolução A marca de 1930 como revolução transformouse em memória Mesmo hoje com toda a produção historiográfica revisitando criticamente aquele movimento e apontando sua inserção na modernização do capitalismo pela via autoritária a expressão revolução de 1930 tornouse um signo que parece atravessar o tempo incólume ao movimento da crítica e da desconstrução Felizmente em relação a 1964 a expressão revolução ado tada pelos militares e seus portavozes só conseguiu se manter publicamente enquanto a censura e o controle sobre os meios de comunicação vigoraram de forma rígida À medi da que a sociedade civil reconquistou o direito à livre expressão observouse a produção de um contradiscurso pontuando aquele acontecimento no quadro da ruptura da norma lidade democrática e portanto como mais um golpe contra os princípios constitucionais O palco da história no entanto é revelador de constantes combates Não podemos ser ingênuos e acreditar que a representação de 1964 como revolução esteja inteiramente esquecida sobretudo quando reconhecemos que a narrativa historiográfica não resulta de uma transposição mecânica das evidências documentais mas antes consideramos os diversos documentos formas e estratégias de produção do real Na extensão deste enten dimento os sujeitos os princípios ou mesmo os acontecimentos considerados fundado res são abolidos e colocase a possibilidade de pensarmos e agirmos como criadores e construtores da própria história3 Nessa perspectiva associada à dimensão da representação do passado como comba te voltemos à nossa formulação inicial de que a história é um território de disputa no presente Assim ao escolhermos estudar o período que antecede o golpe de 1964 a partir das lutas no meio rural privilegiando a temática das Ligas Camponesas inserimonos num campo de disputa que ao mesmo tempo defrontase com questões e desafios do presente ou seja a problemática da luta pela terra hoje Em outros termos somos desa fiados por questões atuais como passados 50 anos apesar de toda modernização capita lista o que impede o trabalhador rural de alcançar a condição de cidadania para si e sua família Para refletir historicamente sobre a luta pela terra no período que antecede o golpe propomonos realizar um percurso que analisará esta temática a partir de três fontes do cumentais os relatos da polícia da imprensa e de padres Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 394 Fragmentos policiais Para iniciar este estudo tomando como referência as lutas dos trabalhadores rurais sobretudo as Ligas Camponesas há de se considerar o significado que elas adquiriram entre o final da década de 1950 e o início da seguinte É importante registrar que embora a sindicalização rural estivesse prevista na Consolidação das Leis Trabalhistas fosse com patível com os termos da Constituição de 1946 e anunciada como meta de diversos gover nos era barrada pela pressão do bloco agrário4 Ou seja em todo o Brasil os trabalhado res rurais se organizavam e encaminhavam ao Ministério a carta de sindicalização mas esta não era autorizada por pressão dos proprietários por meio da Confederação Rural Brasileira Foi nesse cenário que os foreiros do Engenho Galiléia em Vitória de Santo Antão PE decidiram criar uma associação de ajuda mútua de forma que pudessem de manei ra solidária socorrer uns aos outros nos momentos de necessidade Dessa forma acredi tavam que poderiam melhor enfrentar problemas como o atraso no pagamento do foro e até o enterro dos seus mortos que então era realizado num caixão coletivo cedido pela Prefeitura este depois de utilizado tinha de ser novamente devolvido5 Bastante reveladora da relação que existia entre os trabalhadores e os senhores rurais é a cartaconvite enviada pelos foreiros de Galiléia ao Sr Oscar Beltrão dono do Enge nho para que este aceitasse o cargo de presidente honorário da Sociedade que eles acaba vam de fundar Prezado Sr A Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco registrada sobre o núme ro 92907 pede vênia para comunicar a Vossa Excelência que em Assembléia Geral com o comparecimento de 123 associados por unanimidade de votos foste eleito Presidente de Honra de nossa Sociedade bem assim viemonos em nome da mesma convidar a Vossa Exa para assistir e tomar posse do referido cargo em reunião que terá lugar no 1º domingo de julho do corrente ano e assistir a posse de nosso advogado Dr Arlindo Dourado como também inauguração da escola que receberá o nome de Paulo Belence Sem mais para o momento subscrevemonos atenciosamente e obrigado Assinados a Diretoria Engenho Galiléia 5 de junho de 19556 A leitura da carta possibilita diferentes análises por um lado esta pode ter sido mais uma tática de despiste dos trabalhadores para que o senhor de engenho não visse naquela sociedade um órgão contrário aos interesses patronais já que os próprios tra balhadores o convidavam para um cargo de honra Mas ao mesmo tempo revela o amplo domínio exercido pelos senhores pois os trabalhadores no momento em que Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 395 criaram sua organização necessitaram estabelecer uma estratégia de conciliação ou de autonomia consentida com o proprietário No entanto podese ainda ler a carta não propriamente como um convite mas como uma provocação considerando as condi ções da época já que esta informava que na reunião em que o proprietário ocuparia o cargo de presidente de honra seria realizada a posse do advogado e haveria a inaugu ração de uma escola Ora podemos imaginar a perplexidade do Sr Oscar Beltrão ao ler que os trabalhadores do seu Engenho estavam constituindo um advogado e fundando uma escola como consta na cartaconvite Em outros termos ao senhor de engenho era dado conhecimento que seus trabalha dores estavam construindo outras estratégias para enfrentar seus problemas de vida e trabalho De forma explícita sem subterfúgios estavam sendo levadas ao conhecimento do senhor práticas que sinalizavam com a ruptura do pacto paternalista e de compadrio que cimentava as relações de exploração Contratar um advogado era uma forma de dizer ao senhor que a relação de direitos e deveres entre o dono da terra e os trabalhadores não seria mais estabelecida apenas verbalmente ou por meio da política do que eram conside rados pequenos favores Estes tinham o efeito de aprofundar a dependência e dificultar a mudança das relações de exploração Os trabalhadores ao constituírem um advogado para defender seus direitos emitiam o signo de que o fórum das suas querelas seria a justiça e não mais o silêncio resultante das ameaças dos vigias e administradores a man do dos senhores Já a criação da escola lhes possibilitaria o acesso à leitura e à escrita o que no futuro dificultaria as perversas práticas de expropriação do trabalhador quer através das cadernetas de contas do barracão quer no controle das medições da terra a ser plantada eou colhida A historiografia sobre o tema afirma que Sr Oscar Beltrão teria num primeiro mo mento aceitado o convite mas alertado por outros proprietários sobre o perigo comunis ta de tal iniciativa teria renunciado ao cargo e exigido que os trabalhadores imediatamen te dissolvessem a sociedade Ao não se submeterem a tal exigência do proprietário é que teve início a luta de resistência7 Em decorrência desse conflito os trabalhadores de Galiléia partiram em busca de um advogado ou de um político que os defendesse Depois de inúmeras tentativas foi suge rido o nome de Francisco Julião que nessa época além de advogado era deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro Este aceitaria a causa e num curto espaço de tempo transformaria esta luta numa bandeira de todos os trabalhadores rurais do Nordes te e do Brasil8 A partir deste encontro fortuito dos trabalhadores com o deputado e advo gado Francisco Julião as Ligas Camponesas criadas pelo Partido Comunista desde a década de 1940 mas com atuação pouco expressiva embora bastante vigiadas pela polí Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 396 cia ganharam uma nova dinâmica Transformaramse segundo grande parte da impren sa dos políticos e mesmo da sociedade civil numa grande ameaça à ordem social e sobretudo à paz agrária dos latifundiários9 Em relação a todo esse conjunto de discursos e práticas desencadeadas pelos traba lhadores rurais vale ressaltar as observações de Foucault ao analisar as características próprias das relações entre acontecimentos e deslocamentos do sentido histórico A história efetiva faz ressurgir o acontecimento o que ele pode ter de único e agudo é preciso entender por acontecimento não uma decisão um tratado um reino ou uma bata lha mas uma relação de forças que se inverte um poder confiscado um vocabulário reto mado e voltado contra seus utilizadores uma dominação que se enfraquece se distende se envenena e uma outra que faz sua entrada mascarada As forças que se encontram em jogo na história não obedecem nem a uma destinação nem a uma mecânica mas ao acaso da luta10 Francisco Julião e aqueles trabalhadores jamais poderiam imaginar que a luta de um grupo de camponeses nas terras de um engenho de Pernambuco se transformaria em tema da imprensa não só regional mas nacional e mesmo internacional e viria a mudar com pletamente sua vida O que provavelmente os trabalhadores não devem ter tido conhecimento à época porém é que aquele convite ao dono do Engenho para tomar posse do cargo de presidente de honra foi enviado à polícia e esta imediatamente designou os investigadores 118 e 190 para realizar diligências Em outros termos na lógica patronal qualquer movimento dos trabalhadores que pudesse revelar algum sinal de mudança no modus vivendi de con formismo e submissão se constituía numa ameaça ao que era considerado ordem e paz no campo e portanto tratado como caso de polícia Esse monitoramento da polícia não se restringiu ao Engenho Galiléia mas ocorreu de maneira intensa em quase todo o estado como aparece num documento produzido pela Secretaria de Segurança Pública no qual estão registrados os nomes dos municípios e de algumas propriedades em que ocorria mobilização e organização dos trabalhadores Os investigadores que espionavam a atuação das Ligas produziam relatórios periódicos em que nomeavam aqueles tidos como os principais líderes e suas atividades Estes do cumentos além de expressarem a visão da polícia que não se distinguia daquela da maioria dos senhores guardavam entretanto algumas surpresas É quando eventualmente o próprio policial se mostrava surpreso e indignado com a prática dos senhores11 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 397 A descrição do conflito em dois engenhos no município de Paudalho12 Engenho Pindobal e Engenho Malemba feita pelo investigador 239 em relatório dirigido ao ComissárioSupervisor em 11 de junho de 1960 constituise num documento emblemá tico da atuação da polícia mas ao mesmo tempo revelador de signos paradoxais O comissário 239 narrava em seu relatório quem são os camponeses responsáveis pela agitação em ambos os engenhos Após nomeálos descrevia as duas tentativas frus tradas de prender aquele que era considerado o lídermor de nome Felício Inácio da Silva chefe local da Liga Camponesa O insucesso deveuse segundo o comissário ao grande número de associados que observavam os nossos movimentos e informavam em tempo a Felício para ele fugir Afirmava ainda que os mentores dos camponeses eram os agitadores comunistas Sancho Magalhães e Manoel Vicente de Luna com quem aqueles costumavam reunirse em Paudalho Em seguida registrava no relatório que Estes dois elementos Sancho e Manoel de Luna são os responsáveis por todas as agitações reinantes nos engenhos do município de Paudalho Por outro lado existe outra figura que encoraja os camponeses e os incentiva Tratase do promotor público da comarca Dr Paulo Amazonas elemento reconhecidamente de tendências vermelhas Os elementos da Liga Camponesa quando voltam de Paudalho costumam ameaçar de morte todo camponês que não é sócio da Liga e ainda não permitindo que os mesmos plantem qualquer lavoura13 Essas e outras informações relatadas pelo investigador 239 constituiriam a rede de observação controle e repressão produzida pela polícia O documento revelava a preo cupação em identificar pessoas nomeálas e de forma genérica estabelecer um padrão de conduta que homogeneizava todos que eram considerados uma ameaça ou apenas suspeitos Dessa forma o relatório em foco trilhou os caminhos padronizados pelo que foi instituído pela polícia a ser observado e identificado como fator gerador de ruptura da ordem no meio rural ou mesmo aqueles discursos e práticas que eram tidos como poten cialmente perigosos Ou seja tudo que parecia significar uma atitude ou um movimento de resistência às práticas dominantes de exploração era considerado quebra da ordem Notese contudo que na parte final e portanto conclusiva deste mesmo relatório o investigador 239 descreveria uma série de observações que se apresentavam inteira mente paradoxais tomandose a ótica policial como referência Este parece ter se deslo cado do seu campo de observação e assimilado os referenciais do discurso das Ligas No entanto jamais poderia admitir esta influência antes precisava mostrar a seu superior a origem insuspeita de suas observações Assim informava que a denúncia acerca das prá ticas desonestas dos senhores que passava a descrever resultou do contato com os campo neses e apuração dos fatos O comentário acerca da fonte das informaçõesdenúncias Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 398 contra os senhores tinha o intento de produzir a idéia de que estas foram construídas de maneira neutra e objetiva e por extensão sem qualquer relação com o discurso produzi do pelas Ligas Relatava então o investigador Quanto ao engenho Malemba o encontramos totalmente em greve Neste engenho o chefe da Liga é o camponês Odom Barboza mas as reuniões eram feitas no engenho Pindobal na residência de Felício Inácio da Silva Entretanto ao meu ver não era apenas a Liga Campo nesa que estava agindo Neste engenho havia um fator mais forte Entrei em contato com os camponeses e apurei a realidade dos fatos Alegavam os moradores do engenho que não podiam trabalhar por 35 cruzeiros diários e comprar no barracão um quilo de charque por 180 cruzeiros Em vista disso procuravam o engenho Crusahy ou outros onde pudessem ganhar um salário condigno este caso fizemos ver a proprietária Dona Ester do engenho que nos prometeu estudar o caso Sucede um caso Na maioria dos engenhos que não con vém citar aqui o trabalhador costuma tirar uma conta de 10 X 10 braças quadradas por dia A braça honesta é de 2 metros e 10 centímetros perfazendo 441 metros quadrados Mais na maioria dos engenhos campeia a desonestidade Recebem o trabalho honesto do camponês e lhe pagam um salário desonesto Neste caso está o engenho Malemba e muitos outros No citado engenho a vara de medir contas tem 2 metros e 30 centímetros isto é 20 centímetros a mais Ora medindose uma conta de 10 X 10 não perfazia 441 metros e sim 529 metros quadrados isto é 88 metros a mais no serviço do camponês Neste caso alegaram os campo neses de Malemba que passam um dia e meio para ganhar 35 cruzeiros Ora com esta diária alegavam os camponeses não trabalhavam e então procuravam trabalho em outros enge nhos Deste modo ficava o engenho Malemba completamente parado não por agitação da Liga Camponesa mas sim pela falta de honestidade de seu proprietário Para provar este caso basta citar que a proprietária do engenho resolveu pagar a conta 10 X 10 a 100 cruzei ros e dos 60 moradores do engenho mais de 50 voltaram ao trabalho14 O comissário ao afirmar que havia um fator mais forte que o das Ligas concorrendo para produzir segundo suas palavras a situação de agitação no Engenho Malemba nomeou os proprietários desonestos O trabalhador era alvo de roubo por parte do pro prietário que fazia uso de uma vara que não obedecia aos padrões oficialmente definidos para medir a terra cultivada e nem pagava o salário justo Para comprovar que estava com a razão informava que a proprietária ao passar a utilizar a vara do tamanho correto e aumentar o valor do salário teve a situação de greve no Engenho praticamente normali zada Esse documento aponta de alguma forma como o discurso das Ligas desnaturali zando aquelas estratégias desonestas de exploração praticadas havia décadas pelos pro prietários acabou por influir na maneira de alguns policiais perceberem e compreende rem os conflitos nos engenhos A própria polícia agiu como negociadora resultando daí um efeito prático imediato levou a proprietária a alterar ao menos momentaneamente seus procedimentos Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 399 Relatos como o do investigador 239 apontando a desonestidade dos proprietários no entanto permaneciam confidenciais Mesmo quando algum setor da sociedade apre sentava alguma crítica às condições de trabalho no meio rural imediatamente esta era identificada como produzida pelas Ligas pelos comunistas ou por pessoas atuando em defesa do interesse destes e portanto qualificadas como não merecedoras de crédito Podemos então compreender que as lutas dos trabalhadores por condições elemen tares de cidadania ao serem associadas através do discurso patronal da imprensa e de órgãos do Estado a uma tática e uma estratégia comunista passavam na ótica oficial do campo legal e constitucional para o território da ilegalidade e assim ofereciam aos se nhores os meios para recorrer à proteção policial e também fazer uso da violência priva da sempre que se sentissem ameaçados O Nordeste é notícia O período 19551964 que compreende desde a transformação das Ligas Campone sas em um amplo instrumento de organização e luta dos trabalhadores até o golpe militar tornou o Nordeste objeto de incontáveis reportagens na imprensa nacional e mesmo inter nacional Selecionamos algumas matérias acerca do Nordeste para analisarmos como a imprensa descreveu e por extensão construiu um conjunto de significados sobre a luta dos trabalhadores rurais pela cidadania Destacaremos os textos escritos por dois jornalis tas que visitaram a região realizando contatos e entrevistas com camponeses e políticos O primeiro é Antonio Callado que fez duas séries de reportagens para um jornal do Rio de Janeiro Correio da Manhã resultantes de duas visitas a primeira publicada entre 10 e 23 de setembro de 1959 e a segunda entre 29 de novembro e 2 de dezembro do mesmo ano15 O outro é o jornalista americano Tad Szulc que realizou uma reportagem para o jornal The New York Times da cidade de Nova York publicada em 31 de outubro e 1 de novembro de 1960 Antonio Callado viajou ao Nordeste a convite do Conselho de Desenvolvimento Econômico do Nordeste Codeno e visitou os estados do Ceará Paraíba e Pernambuco À época estava em discussão na Câmara Federal uma Lei de Irrigação que entretanto encontrava resistência de parlamentares do Ceará e da Paraíba onde os problemas da seca eram dos mais graves Na série de reportagens que realizou Callado denunciava a indústria da seca ou seja os mecanismos através dos quais os latifundiários transforma vam os problemas decorrentes da seca em um grande negócio Denunciou também como os açudes construídos com verbas públicas para beneficiar toda uma população rural aca Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 400 bavam atendendo a uns poucos latifundiários Em seguida ao visitar Pernambuco rela tou a luta dos moradores de Galiléia Fez um breve histórico da Sociedade Agrícola e Pecuária dos Plantadores de Pernambuco SAPPP16 e de como os moradores estavam mobilizados na expectativa do desfecho de um pedido de desapropriação do Engenho encaminhado ao governo do estado e que tramitava havia dois anos na Assembléia Legis lativa17 Toda essa série de reportagens de Callado decorreu de um movimento dentro do governo Juscelino Kubitschek que procurava estrategicamente obter o apoio do jornal Correio da Manhã aos projetos que apresentava para responder à grave crise que domina va o Nordeste ampliada com a enorme seca de 1958 O apoio da opinião pública era considerado de grande importância para vencer a resistência de muitos parlamentares no Congresso ao projeto Operação Nordeste proposto por Celso Furtado e que resultaria na fundação da Sudene18 As reportagens escritas por Callado descreviam e produziam um Nordeste em que muitos se reconheciam e outros não Instituíam por extensão um campo de luta pois a cada criação estavam associados conceitos imagens princípios políticos análises do pre sente e perspectivas de ação e mudanças que se confrontavam com outras matérias jorna lísticas Ao mesmo tempo acontecimentos vários em tempos simultâneos possibilitam estabelecer associações que projetam e ampliam as possibilidades de compreensão do passado As forças que se digladiam nesse momento apontam para um combate pela verdade ou ao menos em torno da verdade entendendose mais uma vez por verdade não o conjunto das coisas verdadeiras a descobrir ou a fazer aceitar mas o conjunto das regras segundo as quais se distingue o verdadeiro do falso e se atribui ao verdadeiro efeitos específicos de poder entendendose também que não se trata de um combate em favor da verdade mas em torno do estatuto da verdade e do papel econômicopolítico que ela desempenha19 A mobilização dos camponeses de Galiléia tornouse nos últimos anos da década de 1950 um símbolo de resistência para uma parcela da sociedade enquanto para outros representava o avanço do comunismo e a ruptura da pax agrária Após a criação da SAPPP em 1954 e sua regulamentação no ano seguinte o movimento de trabalhadores rurais assistiu a uma constante campanha de acusações e ameaças de subversão da ordem e desrespeito ao princípio sagrado da propriedade na quase totalidade da grande imprensa e nos meios políticos Por parte do governo do estado o canal de negociação era bastante reduzido Apesar de toda esta campanha as delegacias das Ligas se expandiam em Per nambuco e em 1959 estas já eram em número de 2520 As mobilizações públicas de cam Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 401 poneses eram uma constante No 1 de maio de 1956 Francisco Julião mobilizou 600 camponeses para participar das comemorações em Recife Em 1958 3000 participam do Primeiro Congresso de Lavradores Trabalhadores Agrícolas e Pescadores Estes últimos aliás caminharam até a Assembléia Legislativa que dedicou uma sessão à questão da Reforma Agrária21 Um incidente com a polícia no final de 1956 possibilitanos reconstruir um fragmen to da resistência a qualquer mudança no meio rural e por outro lado revela o apoio oficial a práticas que violavam o Estado de direito Realizava Julião mais uma reunião com os moradores de Galiléia num sábado à tarde quando o capitão da polícia militar estadual o prendeu e cortou a linha telefônica entre Vitória de Santo Antão e Recife impedindo que os camponeses comunicassem o fato a algum membro do Conselho Regio nal das Ligas na Capital Mesmo sendo deputado estadual e portanto dispondo de imu nidade contra processos legais Julião foi levado preso a Recife e entregue ao coronel do Exército que atendia como ajudantedeordens do então governador Cordeiro de Farias O coronel se disse indignado com a atitude do capitão e Julião foi libertado imediatamen te Na sessão da Assembléia o deputado relatou da tribuna o ocorrido e de pronto anga riou o apoio dos seus pares Na semana seguinte retornou a Galiléia na companhia de mais dois deputados mas mesmo nessas circunstâncias foram cercados por pistoleiros contratados pelo proprietário Após muita negociação o impasse foi solucionado mas revelou o clima de grande tensão na área22 Além desses embates cotidianos há de considerar as disputas políticas mais gerais que ocorriam no estado Em 1958 durante as eleições estaduais em Pernambuco for mouse uma frente das oposições que ficou conhecida como Frente do Recife Partidos legalmente constituídos PSB PTB PST e UDN formalizaram um programa e lançaram a candidatura de um usineiro Cid Sampaio após romper com as diversas resistências entre as esquerdas sobretudo do Partido Comunista que tinha muita força política mas não aparecia legalmente A eleição do udenista para o governo do estado em final de 1958 sinalizava uma ruptura da hegemonia desde 1930 do PSD além de apontar um avanço dos setores comprometidos com as lutas sociais e populares23 Nesse cenário político as reportagens de Antonio Callado publicadas no Correio da Manhã obtiveram uma grande repercussão nacional Foram transcritas nos Anais da Câmara Federal e nos Anais da Assembléia Legislativa de Pernambuco como tema de diversos discursos favoráveis e contrários Outros órgãos de imprensa também se mani festaram sobre as reportagens alternando elogios ou ataques ao Nordeste de Callado Rapidamente a indústria da seca a criação da Sudene e a luta das Ligas Camponesas de Galiléia transformaramse em temas centrais do debate nacional24 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 402 Em novembro de 1959 ao retornar a Pernambuco Callado testemunhou mais uma violência contra os moradores do Engenho Galiléia Estes decidiram fazer na data cívica de 15 de novembro uma manifestação de solidariedade ao prefeito da cidade de Vitória de Santo Antão o Sr José Ferrer que haviam ajudado a eleger Mas para surpresa de todos foram impedidos a cano de fuzil conforme relatou o jornalista em matéria para o Correio da Manhã Alguns dias após o incidente o juiz de Vitória de Santo Antão que havia quatro anos detinha em suas mãos o processo de despejo movido pelo proprietário decidiu favoravelmente à desocupação das terras de Galiléia por todos os moradores que se encontravam em débito Relatou o jornalista que a alternativa que existia para evitar um conflito de conseqüências imprevisíveis seria o projeto de desapropriação que cami nhava de forma vagarosa na Assembléia Legislativa ser colocado em pauta e aprovado25 As duas matérias registrando esses acontecimentos publicadas pelo Correio da Ma nhã nos dias 29 de novembro e 2 de dezembro produziram uma reação do proprietário Este através do seu advogado acionou o jornalista Antonio Callado e o deputado Fran cisco Julião como incursos na Lei de Segurança Nacional O argumento era o de que estariam incitando os foreiros do Engenho a não cumprirem o mandato de despejo decre tado pela Justiça de Vitória de Santo Antão26 Ao divulgar amplamente o fato a imprensa provocou indignação em parcela significativa da Câmara Federal e mais de cem parla mentares federais assinaram uma moção de apoio a Callado27 A ação contra o jornalista e o deputado deixou de ser tema estadual ou regional e tornouse nacional Em última instância estava em debate a reforma agrária e a necessidade de institucionalização de outras relações sociais no meio rural Desde a posse do governador eleito pela Frente do Recife as Ligas Camponesas ampliaram sua mobilização acreditando que um governo constituído com representantes da esquerda apressaria o processo de desapropriação das terras Em 1958 num período de três meses as Ligas organizaram 80 atos públicos no Recife28 No entanto foi a publicação do despacho do juiz de Vitória de Santo Antão que autorizava o cumprimen to do mandato de desocupação das terras do Engenho pelos moradores com o pagamento do foro em atraso em novembro de 1959 que concorreu para o acirramento do con fronto entre a SAPPP e o proprietário do Engenho Na assembléia o projeto de desapro priação de Galiléia foi reapresentado à medida que concentrações de trabalhadores na frente da Assembléia Legislativa e do Palácio do Governo aumentavam a pressão políti ca Editoriais e artigos na imprensa em sua maioria criticavam a possível desapropriação como uma ameaça sem precedentes à propriedade privada e à ordem social O desfecho era imprevisível Julião em declaração ao Diário de Pernambuco em 30 de outubro do Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 403 ano em curso prognosticava As Ligas concentrarão todos os seus efetivos para o pri meiro banho de sangue do governo do Sr Cid Sampaio caso se consume nova injustiça contra os moradores de Galiléia29 O governo cedeu à pressão dos trabalhadores e a desapropriação foi assinada A re percussão na imprensa de outros estados foi imediata e prevaleceu um tom de crítica e censura ao ato do governo Em 18 de fevereiro de 1960 o jornal O Estado de S Paulo afirmava em editorial Ao criticarmos não faz ainda muitos dias a absurda iniciativa do governador Cid Sampaio de desapropriar as terras do Engenho Galiléia para num ilícito e violento golpe no princí pio da propriedade distribuílas aos empregados daquela empresa prevíamos o que disso poderia resultar A violência seria como foi considerada uma conquista das Ligas Campo nesas e acenderia a ambição dos demais campesinos assalariados desejosos de favores idênticos O jornal apresentava o que poderia ser considerada a reação de uma parcela de seto res econômicos e políticos dominantes à desapropriação Para estes era como se estives sem perdendo a batalha para os trabalhadores rurais e as esquerdas que os apoiavam E ainda apresentavase a agravante de que esta medida era tomada por um governador da UDN embora tivesse sido eleito por uma frente em que as esquerdas tiveram um papel preponderante No bojo desta acirrada disputa após intensa negociação o governo fede ral apesar da reação de uma parcela significativa de parlamentares do Nordeste conse guiu aprovar a criação da Sudene Esta validação contou com mobilizações populares em Recife e Fortaleza pois a Sudene aparecia como um esforço no sentido de industrializar o Nordeste e concorrer para mudanças nas arcaicas relações sociais e políticas da região30 Podese avaliar que havia por parte do governo de Juscelino Kubitschek de uma parcela da imprensa da opinião pública da Igreja Católica das associações rurais e sin dicatos urbanos um movimento em direção à mudança do status quo do Nordeste Mas nesses mesmos setores manifestavamse fortes resistências que se articulavam em uma ampla rede Estava em palco de uma forma como talvez nunca se observara antes uma disputa entre a mudança e a permanência As reportagens de Callado produziram um efeito de verdade sobre uma parcela da opinião pública dos políticos da Igreja Católica Dom Hélder procurou Celso Furtado após ter conhecimento da Operação Nordeste e garantiulhe todo apoio como também abraçou o projeto de criação da Sudene31 O Nor deste precisava modernizarse combater a corrupção das oligarquias que utilizavam os recursos públicos para projetos particulares e possibilitar ao seu trabalhador rural tornar Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 404 se cidadão Em torno dessa verdade é que o governo federal projetou a Operação Nordes te e aprovou a Sudene Mas para muitos que combatiam qualquer mudança todas estas propostas eram indicativas de iniciativas comunistas O governo caminhava entre dois focos De um lado os proprietários herdeiros de uma longa tradição de completo domínio sobre os trabalhadoresmoradores de suas ter ras reproduziam práticas patriarcais em que pequenos favores e apadrinhamentos se mis turavam a relações de exploração que se manifestavam através do cambão do foro do pulo da vara do barracão e apareciam como naturais O morador submetido ao regime de condição como era conhecido tinha obrigação de prestar dois ou três dias de traba lho por semana ao engenho ou fazenda Já o foreiro que arrendava um lote de terra tinha de conceder 10 a 20 dias de trabalho gratuito por ano ao proprietário podendo entretan to enviar uma terceira pessoa para substituílo este sistema era conhecido por cambão O pulo da vara era uma expressão muito comum na zona canavieira o administrador ao medir com uma vara a extensão da terra trabalhada comumente saltava um ou dois passos em relação à marca anterior Assim um trabalhador que havia cortado plantado ou preparado uma terra de oito quadras esta era a medida era pago como havendo traba lhado seis A grande maioria dos engenhos de açúcar tinha também seu barracão em que eram vendidos produtos de primeira necessidade Muitos trabalhadores recebiam o paga mento no todo ou em parte em vales para comprar no barracão Havia ainda as cader netas do barracão em que eram anotadas suas compras durante o mês que eles entretan to por serem analfabetos tinham poucas condições de controlar Por outro lado as Ligas Camponesas se insurgiam contra os proprietários rurais criticando publicamente através de passeatas e mobilizações toda essa situação em que vivia a grande maioria dos trabalhadores rurais do Nordeste O coroamento desta mobili zação a aprovação da desapropriação de Galiléia teve um grande efeito sobre os traba lhadores rurais de Pernambuco e de outros estados Apesar da dificuldade em computar o número de associados às Ligas Fernando Azevedo afirma que em 1961 estes chegaram a dez mil distribuídos entre as 40 delegacias existentes32 As Ligas Camponesas por intermédio das redes criadas com a participação ativa do deputado socialista Francisco Julião e de aliados diversos como Antonio Callado trans formaram a luta dos trabalhadores rurais em tema nacional Com a vitória da Revolução em Cuba a partir de 1959 Julião e alguns setores em que este se apoiava começaram a construir uma forte identidade com aquele país Nessa construção o exemplo da China era também incorporado O caminho revolucionário trilhado por esses dois países pre dominantemente agrários transformouse em exemplo de futuro para o Brasil no discur Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 405 so de Julião e de alguns segmentos da esquerda Para os setores defensores do status quo tais discursos ao propugnarem a revolução passaram a justificar a ruptura da ordem constitucional Foi nesse quadro de acirrado confronto político social econômico e cultural que o jornalista do The New York Times Tad Szulc viajou ao Nordeste Embora não existam informações sobre a forma de envolvimento do Departamento de Estado dos Estados Unidos com esta viagem é possível que a reportagem tivesse objetivos que iam além de informar a opinião pública daquele país acerca das lutas sociais no campo no Nordeste do Brasil Esta reportagem nos faz pensar na história do presente e somos levados a comparar o movimento das Ligas com a luta dos trabalhadores rurais hoje através do Movimento dos SemTerra MST Embora sejam realizadas mobilizações nacionais e ocupações simultâneas em diversas fazendas nas diferentes regiões do Brasil nem mes mo assim o MST é considerado uma ameaça à governabilidade do país e à paz no conti nente como era apresentado o movimento rural em 1960 na reportagem de Szulc So mos então obrigados a perguntar o que fazia com que aquele jornalista construísse um Nordeste incendiário Dois fatores interligados a guerra fria e a Revolução em Cuba de certa maneira concorriam para produzir a percepção a compreensão e a representação que Szulc então descrevia e informava ao The New York Times Um jornalista sem militância nas lides da esquerda reproduzia o anticomunismo dominante nos Estados Unidos O mundo que se construiu após 1947 dividido entre os blocos comunista e capitalista não deixava alter nativa a uma via autônoma como também pensava Juscelino e seu projeto Operação Pan Americana em que o Brasil assumiria uma posição de liderança na América Latina e ao mesmo tempo de independência em face dos dois blocos33 Jânio Quadros e João Goulart também procuraram manter uma política de nãoalinhamento automático a nenhum dos dois lados34 Por parte do governo dos Estados Unidos havia um grande temor de que o continente latinoamericano tendesse para o comunismo e se tornasse alvo do controle soviético Nesse aspecto a posição do Brasil era objeto de críticas do governo norte americano Além disso a Revolução Cubana oferecia uma nova representação histórica ou seja na América Latina um grupo de guerrilheiros armados com o apoio de uma população pobre e revoltada com as injustiças e as desigualdades sociais havia sido ca paz de fazer uma revolução e tomar o poder Em outros termos a imprevisibilidade histó rica passava a ter uma influência significativa nas representações construídas propician do a produção de um grande medo da força e do poder do comunismo Foi de certa forma ocupando esse lugar tomado por esse espírito que o autor da reportagem acerca do Nordeste e da ação das Ligas Camponesas para o jornal The New Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 406 York Times pautou seu trabalho O título da sua reportagem publicada na primeira pági na sentenciava Pobreza no Nordeste do Brasil gera ameaça de revolta35 A construção da matéria não deve ter deixado dúvidas ao leitor americano de que uma revolução comu nista iminente estava para ser desencadeada no Brasil Para cimentar sua representação intermediava suas conclusões com declarações de líderes das Ligas Camponesas trans crevia alguns trechos de discursos pronunciados em uma assembléia das Ligas no inte rior de Pernambuco em que o orador teria afirmado Essa luta não será mais interrompida O exemplo de Cuba é aqui Nós queremos uma solu ção pacífica para seus problemas mas se não conseguirmos nós viremos aqui e convoca remos vocês a pegarem as armas e fazerem a revolução Os grandes proprietários com o apoio do imperialismo dos Estados Unidos estão sugando nosso sangue36 Ao ler esse pequeno extrato do que teria sido o discurso de um líder das Ligas o leitor possivelmente terá imaginado que a revolução armada estava a caminho e que ela teria como alvo os grandes proprietários do Brasil e os interesses dos Estados Unidos na região O efeito de verdade do enunciado era construído ao apresentálo não como inter pretação ou comentário jornalístico mas como expressão direta da fala de um líder cam ponês Para reforçar seu argumento associava declarações de políticos e intelectuais para quem se algo não fosse feito em termos de mudanças econômicas e da estrutura social uma revolução de proporções incontroláveis seria inevitável em poucos anos In formava ainda Szulc ao leitor que a força do comunismo na região deviase sobretudo ao nível de pobreza que a tornava vulnerável à pregação revolucionária O perigo de uma revolução propagarse do Nordeste para o resto do Brasil teria outras implicações para os Estados Unidos além da questão da disputa pela hegemonia no continente haja vista que esta é uma região fundamental para as estações de apoio aos mísseis intercontinentais e para o lançamento de foguetes do Cabo Canaveral logo haveria também implicações de estratégia de defesa militar37 Todo esse discurso produzido a partir da representação de um Nordeste revolucioná rio e comunista estava articulado às alocuções e às práticas de diversos setores da socie dade no Nordeste e em outras regiões do Brasil Szulc reforçava os laços entre os interes ses dos Estados Unidos e os de setores dominantes da sociedade no Brasil quando reve lava como muitos políticos e intelectuais entre outros grupos encontravamse apreensi vos e alarmados com a possibilidade de uma revolução iminente se nenhuma medida fosse tomada Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 407 A luta dos trabalhadores por direito à cidadania era transformada por grande parte da imprensa e por diversas instituições da sociedade civil em um grande medo em um grande perigo que ameaçava a todos Assim de forma gradativa eram elaboradas as condições que justificariam a ruptura do pacto constitucional Igreja e imperialismo Na escrita deste texto o leitor já deve ter percebido que trabalhamos com a idéia de história como combate ou seja como uma construção alvo de controvérsias oposições divergências Logo das fontes documentais não emana um passado com um significado evidente e objetivo de que os contemporâneos se apropriam Nesse sentido partimos de uma visão de história construída a partir da perspectiva de uma determinada historiografia e tendoa como interface das nossas pesquisas com o que elaboramos nossas questões Como já assinalamos a pesquisa sobre os movimentos sociais rurais no Nordeste do Brasil nas décadas de 1950 e 196038 oferece grandes linhas de entendimento para as lutas sociais naquele período tanto no contexto mundial em face da guerra fria como em âmbito nacional em que diversas forças políticas e sociais se digladiavam Poderseia considerar um procedimento coerente com a análise e a ope ração historiográfica de Certeau estabelecer deslocamentos analíticos construindo outros campos de significado históricos acerca dessas verdades historiográficas Ao mesmo tempo surpreende quando alteramos o nível da abordagem macro e mergulhamos no campo dos relatos orais de memória Embora as narrativas de memória adquiram os mais diversos matizes em razão tanto das perguntas formuladas ou mesmo da postura do entrevistador como também do entrevistado39 muitas vezes estes relatos descortinam um novo campo de informações históricas Experiências relações disputas estratégias cotidianas algu mas vezes ocorre não serem registradas em outros tipos de fontes Nesse sentido muitos depoimentos concorrem para um tratamento microhistórico na medida em que a escolha de uma escala particular de observação produz efeitos de conhecimento e pode ser posta a serviço de estratégias de conhecimentos Variar a objetiva não significa apenas aumentar ou diminuir o tamanho do objeto no visor significa modificar sua forma e sua trama Ou para recorrer a um outro sistema de referências mudar as escalas de repre sentação em cartografia não consiste apenas em representar uma realidade constante em tamanho maior ou menor e sim em transformar o conteúdo da representação ou seja a escolha daquilo que é representável Notemos desde já que a dimensão micro não goza nesse sentido de nenhum privilégio especial40 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 408 Assim entendemos que o relato oral de memória não contempla ou atende por si a nenhum patamar especial de conhecimento mas que ao oferecer algumas ou muitas vezes dimensões e aspectos relativos a microacontecimentos possibilita modificar a tra ma o enfoque Está contudo novamente a exigir do historiador um deslocamento analí tico pois nenhum documento mesmo inusitado advindo algumas vezes do relato oral substituirá o fazer do historiador a operação historiográfica Os padres que migraram da Europa para o Brasil no período em estudo vinham como missionários Atendiam a um apelo da Encíclica Fidei Domun e nesse sentido estavam conscientes da importância da sua missão no sentido de barrar o avanço do comunismo principalmente no Nordeste do Brasil onde as Ligas Camponesas desde 1955 transfor maramse numa grande ameaça à hegemonia católica Isto porque o discurso das Ligas não apontava a religião como ópio do povo mas apropriavase da simbologia cristã e produzia um discurso criticando proprietários e padres Uma cartilha produzida na época pelas Ligas ilustra essa crítica O latifúndio diz assim Deus castiga aquele que se rebela contra ele Se um é rico e outro é pobre se um tem terra e outro não se um deve trabalhar com a enxada para dar o cam bão e outro se mantém e se enriquece com o fruto desse cambão se um vive num palácio e o outro numa palhoça é porque Deus quer Quem se rebela contra isso se rebela contra Deus Sofre os castigos do céu peste guerra e fome E quando morre vai para o inferno O pobre deve ser pobre para que o rico seja rico O mundo sempre foi assim E há de ser sempre assim É Deus quem o quer Assim fala o latifundiário ao camponês Usa o nome de Deus para assustarte Porque tu crês em Deus Porém esse Deus do latifundiário não é teu Deus Teu Deus é manso como um cordeiro Se chama Jesus Cristo Nasceu em um estábulo Viveu entre os pobres Se rodeou de pescadores camponeses operários e mendi gos Queria a liberdade de todos eles Dizia que a terra devia ser de quem trabalha E o fruto era comum São suas as seguintes palavras É mais fácil um camelo passar por um buraco de uma agulha que um rico entrar no reino dos céus Porque afirmava essas coisas foi crucificado pelos latifundiários do seu tempo Hoje seria fuzilado Ou o internariam num asilo de loucos Ou seria preso como comunista Escuta bem o que te digo camponês Se um padre ou pastor te fala em nome de um Deus que ameaça o povo com peste guerra e fome raios e trovões e o fogo do inferno saiba que esse padre ou esse pastor são servos do latifúndio e não um ministro de Deus41 O texto da Cartilha possivelmente lido em voz alta nas rodas de camponeses em face da tradição oral do cordel em todo o Nordeste bem como do grande número de analfabetos deve ter causado um forte impacto entre muitos trabalhadores rurais Talvez nunca tivessem ouvido ou lido uma crítica tão direta ao discurso e às práticas dos pro prietários e dos padres e pastores Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 409 Nesse sentido podemos imaginar a ameaça que as Ligas se tornaram para as lideran ças católicas que talvez viesse a se repetir em plena metade do século XX aquilo que mutatis mutandis ocorrera na Europa na visão de Pio XI quando afirmou que o grande escândalo do século XIX fora a perda do operariado pela Igreja42 No Nordeste do Brasil poderseia pensar iniciavase o movimento de perda dos trabalhadores rurais Era nesse cenário de disputa de luta pelo poder de controlar os movimentos sociais rurais que os religiosos podiam ser considerados por setores das classes dominantes tão importantes quanto a colaboração dos Estados Unidos Mesmo em 1968 quando a rela ção entre o clero e o regime militar já havia sido alvo de diversos enfrentamentos padre Jaime le Boyer registrava em sua história de vida O governo militar havia feito um acordo com a Igreja e os padres de Fidei Domun já vinham com este tipo de visto da Holanda Naquele tempo já era difícil obter o visto perma nente mas como estratégia dos militares para manter um bom relacionamento com a Igre ja eles concediam aos religiosos Tenho esse visto até hoje43 Garantir um bom relacionamento com a Igreja era compreender entre outros aspec tos o papel formador da religião Como observa Bourdieu a religião contribui para a imposição dissimulada dos princípios de estruturação da percepção e do pensamento do mundo e em particular do mundo social na medida em que impõe um sistema de práticas e de representações cuja estrutura objetivamente fundada em um princípio de divisão política apresentase como a estrutura naturalsobrenatural do cosmos44 Eram no entanto seus discursos e suas práticas nesse papel formador da religião que a Igreja Católica no Brasil estava sendo desafiada a repensar As Ligas estavam a pontuar que o discurso tradicional da Igreja era contra o povo trabalhador e sobretudo não repre sentava o pensamento e a ação de Jesus este sim um permanente aliado do povo pobre e humilde como Fidel Castro Mao Tse Tung e Francisco Julião Estavam então lança dos os elementos para construção de uma outra percepção uma outra sensibilidade e um outro pensamento acerca do universo social estabelecendose um novo pacto entre o sagrado e as relações sociais Ou seja o trabalhador rural tinha possibilidade de aprender a ler o mundo ao seu redor de uma maneira diferenciada com significados distintos do que ouvira e praticara em grande parte da sua vida Ao mesmo tempo os padres que chegavam para ajudar nessa missão contra o comu nismo contra as Ligas eram lançados no mundo rural sem nenhum processo prévio de adaptação Não dominavam ainda a língua e desconheciam inteiramente os valores e as Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 410 práticas culturais Vinham carregados da visão imperialista que a Europa construíra sobre este lado do mundo O padre holandês Lambertus Bogaard relembra o desembarque em Recife em 1958 A idéia que nós tínhamos na Holanda era que o Brasil era um país inteiramente atrasado Quando desembarquei em Recife fiquei surpreso com todos aque les prédios Pensava que ia encontrar especialmente índios e negros pobres atrasados mas foi exatamente o contrário45 A postura a visão que esse exército de religiosos trazia e praticava era idêntica à do colonizador imperialista que acreditava no caráter salvacionista do projeto civilizador Afinal para a Europa o domínio sobre as colônias principalmente na África ainda era muito presente no período em estudo Muitos governos continuavam mantendo seu Mi nistério das Colônias Logo essa visão civilizatória associada ao projeto imperialista e muito presente na cultura européia era parte da bagagem cultural desses religiosos O próprio padre Lambertus faria uma certa crítica à sua postura inicial quando da chegada ao Brasil Nossa filosofia era de ajudar no desenvolvimento do País nos sentíamos também responsá veis logo pensávamos que tínhamos que fazer as coisas por outros caminhos Não adianta va fazer as mesmas coisas Então isso criou problemas Isso aliás acontece com todos padres ou leigos que vêm de fora para ajudar o Brasil Eles pensam que só eles mesmos têm as respostas e podem impor suas idéias46 A força do discurso religioso que informava a visão de mundo os comportamentos e as práticas sociais vinha carregada de signos civilizatórios que desqualificavam a cul tura nacional Como o próprio Lambertus confessa todos chegavam com essa visão mas poucos percebiam o significado dessa postura Poderseia então operando um movi mento de deslocamento analítico sobre o relato de história de vida em foco pensar numa lógica religiosa imperialista Em outros termos podemos buscar um novo diálogo inspi rador desta vez com um teórico da cultura e do imperialismo Edward Said Suas refle xões embora estejam construídas a partir das narrativas dos romances produzidos nos países imperialistas entre o final do século XIX e início do XX possibilitam de certa forma estabelecer algumas conexões analíticas com nossa temática Afirma ele O principal objeto de disputa no imperialismo é evidentemente a terra mas quando se tratava de quem possuía a terra quem tinha o direito de nela se estabelecer e trabalhar quem a explorava quem a reconquistou e quem agora planeja seu futuro essas questões foram pensadas discutidas e até por um tempo decididas na narrativa O poder de narrar ou de impedir que se formem e surjam outras narrativas é muito importante para a cultura e o imperialismo e constitui uma das principais conexões entre ambos47 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 411 No caso das Ligas também encontramos narrativas curtas de caráter pedagógico que passavam a demarcar um contradiscurso em relação às representações dominantes de manutenção das estruturas latifundiárias e de suas práticas de exploração do trabalho Julião se inspiraria nos poetas populares para produzir diversos textos como Guia ABC Recado Cartilha do Camponês Em uma linguagem simples e direta como se estivesse conversando com o camponês elaborava de forma pedagógica todo um discurso de mudança e transformação Os valores da união e da solidariedade camponesa associados a uma releitura do cristianismo constituemse nos pilares deste discurso de mobilização e luta Os padres que migraram para o Brasil nesse período vieram em nome de uma cruza da em defesa dos valores ocidentais cristãos e seu discurso civilizador a sua visão de mundo estavam marcados por uma formação imperialista Mesmo que não estivessem imediatamente a serviço de empresas e projetos econômicos imperialistas os valores e as práticas com os quais estabeleciam e fundavam suas relações com os diversos segmentos da sociedade principalmente no meio rural foram estruturados a partir de uma educação de uma formação de uma história e visão de mundo imperialistas Mas por outro lado não podemos esquecer que aqueles que os recebiam também aprenderam a admirar a respeitar a submeterse aos que vinham de fora de um outro país Essa forma de recep ção não impedia práticas de trampolinagem48 como observa Certeau embora estas rara mente chegassem a questionar de maneira radical o discurso desses religiosos Como afirma Said da mesma maneira que Conrad em seu romance Heart of darkness criticava a crueldade e as injustiças resultantes do imperialismo europeu mas era incapaz de pen sar uma ruptura radical daquele mundo africano com o imperialismo49 Se esta é entretanto uma leitura possível do discurso e da prática desses religiosos um outro relato nos surpreende pelo que projeta como complexidade das relações so ciais Xavier Maupeou é um padre francês que narra uma história de vida bastante inco mum pois ao concluir seus estudos secundários na França entrou para a Escola dos Oficiais da Reserva da Cavalaria da qual saiu como aspirante Em seguida foi mandado para a fronteira da Argélia com a Tunísia sendo posteriormente transferido para a frente de batalha da guerra da Argélia até ser ferido gravemente e enviado a um hospital em Paris Ao recuperarse deixou o Exército e ingressou no seminário Após cinco anos ordenouse padre e atendendo ao espírito da Encíclica Fidei Domun decidiu aceitar o convite para trabalhar como missionário no Brasil Em razão de contatos anteriores via jou para o Nordeste mais especificamente à cidade de São Luís capital do estado do Maranhão Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 412 Uma das práticas comuns em face do reduzido número de padres nessa região era a chamada desobriga ou seja as visitas pastorais que poderiam durar alguns dias em que eram realizadas dezenas de casamentos batismos crismas e também ouvida a con fissão e rezada a missa Após o cumprimento de todas as obrigações religiosas tinha início uma festa com bastante comida e bebida Relembra então Xavier que teve problemas na viagem para uma desobriga na cida de de Santo Amaro no interior do Maranhão e acabou chegando com muito atraso O povo cansado de esperar fez a festa antes de cumprir as obrigações religiosas Ao chegar encontrou as pessoas com ressaca em razão da bebida Mas mesmo nestas condições teve início a reunião de reflexão bíblica Relata ele Chegou então uma hora em que não me controlei e disse Se ninguém falar eu nunca mais piso aqui Não devia ter dito isso Um velho disse ao filho dele Fala O rapaz pegou a Bíblia para tentar ler e a colocou de cabeça para baixo Eu não me controlei Burro tu não sabes nem pegar na Bíblia direito Ele me respondeu Burro hoje o senhor vai ver daqui a três meses Continuamos a reunião apesar da falta de ambiente de fraternidade Passados alguns meses José Martins o trabalhador que padre Xavier havia chamado de burro foi à sua casa Ele entrou almoçamos não tocamos no problema que havia ocorrido Quando acabamos ele disse O senhor se lembra Eu disse Me lembro e peço perdão Ele então retrucou Não se trata disso Vim marcar uma data para a próxima desobriga Quando voltei lá novamente para a desobriga assisti uma coisa prodigiosa Prepararam uma verdadeira fes ta Enfeitaram tudo os meninos cantando e houve então uma pregação desse homem José Martins fabulosa50 Este relato nos faz pensar o quanto a atitude de reprovação e cobrança do religioso operou como um enfrentamento para o próprio grupo se superar No entanto desafio maior ocorreu alguns meses depois Relata Xavier Poucos meses depois dessa desobriga teve início o problema da terra nessa comunidade O proprietário entre aspas pois não são proprietários mas ladrões porque nesse tempo já roubavam as terras foi falar com o delegado e pedir a este providências para expulsar dois moradores das suas terras Como era costume o delegado enviou um bilhetinho aos mora dores dizendo Venham falar comigo na delegacia Nessas situações normalmente o trabalhador vinha e o delegado comunicava que tinha duas horas para sair da terra Mas dessa vez foi diferente Eles receberam o bilhete do delegado e leram como liam a Bíblia Leram discutiram e decidiram que não iriam apenas os dois mas toda a comunidade Na hora marcada estavam em frente da casa paroquial pois a delegacia era vizinha Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 413 Eu não estava sabendo de nada Quando vi chegar esse povo todo fui saber do que se tratava Eles então me explicaram Eu pensei Nossa Senhora de Fátima vai começar a confusão Nós nunca tínhamos em nossas reuniões tratado explicitamente de assunto de terra mas de toda a vida Teve então início dentro da delegacia a reunião com o delegado Ele exigiu a presença apenas dos dois O restante esperasse na rua Houve um diálogo fantástico com o delegado Vocês vão sair da terra Eles então interrogaram Mas senhor delegado com todo respei to por quê Era a primeira vez na história do município de Urbano Santos que um lavra dor dialogava com uma autoridade e não apenas ouvia calado e respondia sim senhor Poderia dizer que essa é uma caminhada própria do processo de formação de uma Comuni dade Eclesial de Base Após esse incidente começou um zunzunzum na elite da cidade Passaram a dizer Isso é comunismo e são os padres A partir de então passamos a ser acusados de pregar Mao Tse Tung e essas coisas de subversão Quando de fato era apenas uma caminhada típica de um padre normal que queria ensinar o Catecismo e a palavra de Deus Nunca tínhamos falado de política ou de partido No entanto a partir da reflexão e da leitura sobre a palavra de Deus e o Catecismo foram desfeitas certas relações de poder Basicamente fruto do diálogo com o povo51 O relato de Dom Xavier privilegia a prática religiosa colocandoa no centro da mu dança da postura política ou mais propriamente da construção da cidadania Provavel mente outros fatores devem ter concorrido além da prática religiosa para que esse grupo rompesse com o medo e enfrentasse os desafios da polícia Entretanto mesmo conside randose que esse é o registro produzido por Dom Xavier e que o relato dos trabalhadores seria talvez inteiramente outro mudanças culturais significativas devem ter se processa do para um religioso de formação européia construir esta compreensão das práticas so ciais e políticas Recebido em agosto2004 aprovado em setembro2004 Notas Este artigo é resultado do trabalho de pesquisa desenvolvido através do projeto Memórias da Terra a Igreja Católica as Ligas Camponesas e as Esquerdas 19541970 realizado com apoio do CNPq Professor do Departamento de História da UFPE 1 GRAMSCI Antonio Obras escolhidas Trad Manuel Cruz Lisboa Estampa 1974 p 25 2 NORA Pierre Entre memória e história a problemática dos lugares Projeto História São Paulo Educ v 10 p 8 1993 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 414 3 LACLAU Ernesto A política e os limites da modernidade In Pósmodernismo e política Rio de Janeiro Rocco 1992 p 147 4 LESSA Sônia Sampaio Navarro O movimento sindical rural em Pernambuco 19581968 1985 Disserta ção de mestrado em História apresentada à Universidade Federal de Pernambuco Recife p 52 5 CALLADO Antonio Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco Rio de Janeiro Civilização Brasileira 1969 p 48 6 ARQUIVO Público Estadual de Pernambuco Documentação do Dops Fundo nº 29709 7 AZEVEDO Fernando de As Ligas Camponesas São Paulo Paz e Terra 1982 8 PAGE Joseph A revolução que nunca houve o Nordeste do Brasil 19551964 Rio de Janeiro Record 1972 p 59 9 SANTIAGO Vandeck Francisco Julião luta paixão e morte de um agitador Recife A Assembléia 2001 Série Perfil Parlamentar p 53 10 FOUCAULT Michel Microfísica do poder Trad Roberto Machado 2 ed Rio de Janeiro Graal 1979 p 28 11 Pesquisa da documentação do Dops no Arquivo Público Estadual em Pernambuco torna possível rastrear como as atividades das Ligas eram vigiadas em todos os municípios e em engenhos e fazendas onde vinham a ser fundadas A polícia chegou a desenhar um quadro localizandoas de forma bastante detalhada além de muitas vezes serem escritos relatórios resultantes deste monitoramento 12 Paudalho é um município de Pernambuco localizado numa área de engenhos voltados para a plantação de cana e a olaria Classificado pelo IBGE como situado na zona da mata norte dista 45 km de Recife Segundo a documentação da polícia desde a década de 1940 havia registros de uma intensa atividade do Partido Comu nista no município 13 RELATÓRIO do Investigador nº 239 Documentação do Dops do Arquivo Público Estadual de Pernambu co Fundo da Secretaria de Segurança Pública nº 29265 14 Id ibid 15 Esta série de reportagens foi publicada em livro com o título Os industriais da seca e os galileus de Pernambuco já citado neste artigo 16 Este é o nome pelo qual a Liga foi registrada pelos camponeses do Engenho Galiléia da cidade de Vitória de Santo Antão no interior de Pernambuco na segunda metade da década de 1950 17 CALLADO op cit pp 531 18 Ver FURTADO Celso A fantasia desfeita Rio de Janeiro Paz e Terra 1989 p 46 19 FOUCAULT op cit p 13 20 Existiam delegacias das Ligas Camponesas nas seguintes cidades Goiana Igaraçu Paulista Olinda São Lourenço da Mata Pau dAlho Limoeiro Bom Jardim Orobó João Alfredo Surubim Jaboatão Moreno Vitória de Santo Antão Gravatá Bezerros Caruaru Belo Jardim Pesqueira Buíque São Bento do Una Bonito Cortês Escada e Cabo Cf CALLADO op cit pp 531 21 Id ibid p 49 22 PAGE op cit p 64 23 SOARES José Arlindo Nacionalismo e crise social o caso da Frente do Recife 19551964 Rio de Janeiro Paz e Terra 1982 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 415 24 CALLADO op cit p 125 25 Id ibid pp 1324 26 Ibid p 145 27 Ibid p 156 28 SANTIAGO op cit p 72 29 Apud AZEVEDO op cit p 69 30 FURTADO op cit p 78 31 FURTADO op cit p 47 32 AZEVEDO op cit p 70 33 ROGERS William D The twillight struggle the Alliance for Progress and the politics of development in Latin America New York Random House 1967 p 19 34 BANDEIRA Luiz Alberto Moniz O governo João Goulart as lutas sociais no Brasil 19611964 7 ed Rio de JaneiroBrasília RevanEd UnB 2001 pp 4650 35 The New York Times New York monday october 31 1960 36 Id ibid 37 Id november 1 1960 38 Certeau observa acerca da relação pesquisa e escrita Enquanto a pesquisa é interminável o texto deve ter um fim e esta estrutura de parada chega até à introdução já organizada pelo dever de terminar CERTEAU Michel de A escrita da história Trad Maria de Lourdes Menezes 2 ed Rio de Janeiro Forense Universitá ria 2003 p 4 39 Diversos historiadores que trabalham com entrevistas principalmente com pessoas públicas percebem como estas muitas vezes já têm um discurso pronto acabado freqüentemente de caráter macro que nada acrescen ta a outras fontes documentais 40 REVEL Jacques Microanálise e construção social In Jogos de escalas a experiência da microanálise Trad Dora Rocha Rio de Janeiro Ed FGV 1998 p 20 41 JULIÃO Francisco Cartilha do camponês Recife se set 1960 p 9 42 ALVES Márcio Moreira O cristo do povo Rio de Janeiro Sabiá 1968 p 68 43 Entrevista com padre Jaime Le Boyer para o Projeto Guerreiros do AlémMar 44 BOURDIEU Pierre A economia das trocas simbólicas Trad Sérgio Miceli 2 ed São Paulo Perspectiva 1982 pp 334 45 Entrevista com o expadre Lambertus Bogaard para o Projeto Guerreiros do AlémMar 46 Id ibid 47 SAID Edward W Cultura e imperialismo Trad Denise Bottman São Paulo Companhia das Letras 1995 p 13 48 O que aí se chama sabedoria definese como trampolinagem palavra que um jogo de palavras associa à acrobacia do saltimbanco e à sua arte de saltar no trampolim e como trapaçaria astúcia e esperteza no modo de utilizar ou de driblar os termos dos contratos sociais CERTEAU Michel de A invenção do cotidiano 1 artes de fazer Rio de Janeiro Vozes 1998 p 79 Proj História São Paulo 29 tomo 2 p 391416 dez 2004 416 49 SAID op cit pp 623 50 Entrevista com o bispo Dom Xavier Gilles de Maupeou DAbleiges para o Projeto Guerreiros do AlémMar 51 Id ibid Mensagem para a cliente Olá Seus 6 resumos foram enviados pelo chat Antes de entregar leia com calma os resumos das teses mais longas para garantir de que estão dentro do que você deseja Seu atendimento será especial dada a restrição atual em que se encontra Então pode contar comigo para correções modificações ou qualquer outro 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