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Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO RICARDO ANTUNES1 Nesta apresentação vamos indicar três anotações que articuladas oferecem uma leitura para alguns dos dilemas do trabalho neste século XXI I UMA NOTA INICIAL SOBRE OS SENTIDOS DO TRABALHO ATIVIDADE VITAL OU FAZER COMPULSÓRIO I Na longa história da atividade humana em sua incessante luta pela sobrevivência pela conquista da dignidade humanidade e felicidade social o mundo do trabalho tem sido vital Sendo uma realização essencialmente humana foi no trabalho que os indivíduos homens e mulheres distinguiramse das formas de vida dos animais É célebre a distinção feita por Marx entre o pior arquiteto e a melhor abelha o primeiro concebe previamente o trabalho que vai realizar enquanto a abelha labora instintivamente Marx 1971 Esse fazer humano tornou a história do ser social uma realização monumental rica e cheia de caminhos e descaminhos alternativas e desafios avanços e recuos E o trabalho converteu se em um momento de mediação sóciometabólica entre o humanidade e natureza ponto 1 Professor de Sociologia do Trabalho na UNICAMP e organizador de Riqueza e Miséria do Trabalho no Brasil Boitempo É autor dentre outros livros de Adeus ao Trabalho Ed Cortez e Os Sentidos do Trabalho Ed Boitempo além de organizar a Coleção Mundo do Trabalho Boitempo e Trabalho e Emancipação Ed Expressão Popular Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 de partida para a constituição do ser social Sem ele a vida cotidiana não seria possível de se reproduzir Mas por outro lado se a vida humana se resumisse exclusivamente ao trabalho seria a efetivação de um esforço penoso aprisionando o ser social em uma única de suas múltiplas dimensões Se a vida humana necessita do trabalho humano e de seu potencial emancipador ela deve recusar o trabalho que aliena e infelicita o ser social Vamos então explorar um pouco esse traço que estampa a contradição presente no processo de trabalho Dissemos acima que o trabalho em sua realização cotidiana possibilitou que o ser social se diferenciasse de todas as formas préhumanas presentes por exemplo nos animais Os homens e mulheres que trabalham são dotados de consciência uma vez que concebem previamente o desenho e a forma que querem dar ao objeto do seu trabalho Foi por isso que Lukács afirmou que o trabalho é um ato de por consciente e portanto pressupõe um conhecimento concreto ainda que jamais perfeito de determinadas finalidades e de determinados meios Lukács 1978 8 E outro grande autor Gramsci acrescentou que em qualquer forma de trabalho mesmo no trabalho mais manual há sempre uma clara dimensão intelectual Anteriormente Marx havia demonstrado que o trabalho é fundamental na vida humana porque é condição para sua existência social Como criador de valores de uso como trabalho útil é o trabalho por isso uma condição de existência do homem independentemente de todas as formas de sociedade eterna necessidade natural de mediação do metabolismo entre homem e natureza e portanto vida humana Marx 1971 50 E ao mesmo tempo em que os indivíduos transformam a natureza externa alteram também a sua própria natureza humana num processo de transformação recíproca que Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 converte o trabalho social num elemento central do desenvolvimento da sociabilidade humana Mas se por um lado podemos considerar o trabalho como um momento fundante da vida humana ponto de partida no processo de humanização por outro lado a sociedade capitalista o transformou em trabalho assalariado alienado fetichizado O que era uma finalidade central do ser social convertese em meio de subsistência A força de trabalho tornase uma mercadoria ainda que especial cuja finalidade é criar novas mercadorias e valorizar o capital Convertese em meio e não primeira necessidade de realização humana Por isso Marx vai afirmar nos Manuscritos EconômicoFilosóficos que o trabalhador decai a uma mercadoria tornase um ser estranho um meio da sua existência individual O que deveria ser fonte de humanidade se converte desrealização do ser social alienação e estranhamento dos homens e mulheres que trabalham E esse processo de alienação do trabalho não se efetiva apenas no resultado na perda do objeto do produto do trabalho mas também o próprio ato de produção resultado da atividade produtiva já alienada O que significa dizer que sob o capitalismo o trabalhador não se satisfaz no trabalho mas se degrada não se reconhece mas muitas se desumaniza no trabalho Marx 2004 O trabalho como atividade vital se configura então como trabalho estranhado expressão de uma relação social fundada na propriedade privada no capital e no dinheiro Estranhado frente ao produto do seu trabalho e frente ao próprio ato de produção da vida material o ser social tornase um ser estranho frente a ele mesmo o homem estranhase em relação ao próprio homem tornandose estranho em relação ao gênero humano como também nos mostrou Marx idem Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 Porém com o advento do capitalismo houve uma transformação essencial que alterou e complexificou o trabalho humano Essa dupla dimensão presente no processo de trabalho que ao mesmo tempo cria e subordina emancipa e aliena humaniza e degrada oferece autonomia mas gera sujeição libera e escraviza impede que o estudo do trabalho humano seja unilateralizado ou mesmo tratado de modo binário e mesmo dual A desconsideração desta complexa e contraditória relação permitiu que muitos autores equivocadamente defendessem a desconstrução ou mesmo o fim da atividade laborativa Mas por outro lado não foram poucas as mutações que o capitalismo introduziu no mundo da produção e do trabalho nas últimas décadas Vamos então indicar a seguir algumas destas tendências II DIMENSÕES DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO Sabemos que a partir dos inícios dos anos 1970 o capital implementou um processo de reestruturação em escala global visando tanto a recuperação do seu padrão de acumulação quanto procurando repor a hegemonia que vinha perdendo no interior do espaço produtivo desde as explosões do final da década de 1960 onde particularmente na Europa ocidental se desencadeou um monumental ciclo de greves e lutas sociais Foi nesse contexto que o capital em escala global vem redesenhando novas e velhas modalidades de trabalho o trabalho precário com o objetivo de recuperar as formas econômicas políticas e ideológicas da dominação burguesa Proliferaram a partir de então as distintas formas de empresa enxuta empreendedorismo cooperativismo trabalho voluntário etc dentre as mais distintas formas alternativas de trabalho precarizado E os capitais utilizaramse de expressões que Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 de certo modo estiveram presentes nas lutas sociais dos anos 1960 como controle operário participação social para darlhes outras configurações muito distintas de modo a incorporar elementos do discurso operário porém sob clara concepção burguesa O exemplo das cooperativas talvez seja o mais eloqüente uma vez que em sua origem as cooperativas eram reais instrumentos de luta e defesa dos trabalhadores contra a precarização do trabalho e o desemprego O que vem fazendo os capitais em escala global criando cooperativas falsas como forma de precarizar ainda mais os direitos do trabalho quando não sua destruição Sabemos que as cooperativas originais criados autonomamente pelos trabalhadores têm um sentido coletivo em oposição ao despotismo fabril e ao planejamento gerencial sendo por isso um real instrumento de minimização da barbárie de luta e ação contra o desemprego estrutural consistindo também num efetivo embrião de exercício autônomo da produção coletiva dos trabalhadores Na fase capitalista das megafusões os capitais denominam como cooperativas verdadeiros empreendimentos patronais para destruir direitos sociais do trabalho Muito diferentes das experiências de cooperativas feitas pelo MST por exemplo que são esforços autênticos dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais para buscar sua sobrevivência e reprodução forma dos marcos dominantes do capitalismo Outro exemplo forte desse processo de ocultamento das novas modalidades de exploração do trabalho é o chamado empreendedorismo Luciano Vasapollo caracteriza este processo de modo claro As novas figuras do mercado de trabalho os novos fenômenos do empreendedorismo cada vez mais se configuram em formas ocultas de trabalho assalariado subordinado precarizado instável trabalho autônomo de última Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 geração que mascara a dura realidade da redução do ciclo produtivo Na verdade tratase de uma nova marginalização social e não de um novo empresariado Vasapollo 2006 O mesmo quadro de precarização se pode presenciar quando se analisam as diversas modalidades de flexibilização do trabalho que sempre acabam trazendo de modo embutido diferentes formas de precarização Ainda segundo o autor A nova condição de trabalho está sempre perdendo mais direitos e garantias sociais Tudo se converte em precariedade sem qualquer garantia de continuidade O trabalhador precarizado se encontra ademais em uma fronteira incerta entre ocupação e nãoocupação e também em um não menos incerto reconhecimento jurídico diante das garantias sociais Flexibilização desregulação da relação de trabalho ausência de direitos Aqui a flexibilização não é riqueza A flexibilização por parte do contratante mais frágil a força de trabalho é um fator de risco e a ausência de garantias aumenta essa debilidade Nessa guerra de desgaste a força de trabalho é deixada completamente descoberta seja em relação ao próprio trabalho atual para o qual não possui garantias seja em relação ao futuro seja em relação à renda já que ninguém o assegura nos momentos de nãoocupação idem Dentre as distintas formas de flexibilização em verdade precarização podemos destacar a salarial de horário funcional ou organizativa dentre outros exemplos A flexibilização pode ser entendida como liberdade da empresa para desempregar trabalhadores sem penalidades quando a produção e as vendas diminuem liberdade sempre para a empresa para reduzir o horário de trabalho ou de recorrer a mais horas de trabalho possibilidade de pagar salários reais mais baixos do que a paridade de trabalho exige possibilidade de subdividir a jornada de trabalho em dia e semana segundo as conveniências das empresas mudando os horários e as características do trabalho por Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 turno por escala em tempo parcial horário flexível etc dentre tantas outras formas de precarização da força de trabalho Uma conclusão se impõe A flexibilização definitivamente não é solução para aumentar os índices de ocupação Ao contrário é uma imposição à força de trabalho para que sejam aceitos salários reais mais baixos e em piores condições É nesse contexto que estão sendo reforçadas as novas ofertas de trabalho por meio do denominado mercado ilegal no qual está sendo difundido o trabalho irregular precário e sem garantias Com o pósfordismo e a mundialização econômicoprodutiva o trabalho ilegal vem assumindo dimensões gigantescas também porque os países industrializados deslocaram suas produções para além dos limites nacionais e sobretudo vêm investindo em países nos quais as garantias trabalhistas são mínimas e é alta a especialização do trabalho conseguindo assim custos fundamentalmente mais baixos e aumentando a competitividade A globalização neoliberal e a internacionalização dos processos produtivos estão acompanhadas da realidade de centenas e centenas de milhões de trabalhadores desempregados e precarizados no mundo inteiro O sistema fordista nos havia acostumado ao trabalho pleno e de duração indeterminada Agora ao contrário um grande número de trabalhadores tem um contrato de curta duração ou de meio expediente os novos trabalhadores podem ser alugados por algumas poucas horas ao dia por cinco dias da semana ou por poucas horas em dois ou três dias da semana Vasapollo idem III ESBOÇO PARA UMA NOVA MORFOLOGIA DO TRABALHO Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 Esse conjunto de metamorfoses alterou em alguma medida a forma de ser da classe trabalhadora Quais são então os contornos mais gerais que configuram o que estamos denominando como nova morfologia do trabalho Desde logo é preciso indicar que a classe trabalhadora compreende a totalidade dos assalariados homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho a classe quevivedotrabalho e que são despossuídos dos meios de produção Podemos então enumerar algumas das principais tendências 1 Desde o início da reestruturação produtiva do capital vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial fabril tradicional manual estável e especializado herdeiro da era da indústria verticalizada de tipo taylorista e fordista Este proletariado vinculado aos ramos mais tradicionais vem dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis que se estruturavam através de empregos formais herança da fase tayloristafordista 2 Há entretanto outra muito significativa e que se caracteriza pelo aumento do novo proletariado fabril e de serviços em escala mundial presente nas diversas modalidades de trabalho precarizado São os terceirizados subcontratados parttime entre tantas outras formas assemelhadas que se expandem em escala global Com a desestruturação crescente do Welfare State nos países do Norte e aumento da desregulamentação do trabalho nos países do Sul acrescidos da ampliação do desemprego estrutural os capitais implementam alternativas de trabalho crescentemente informais de que são exemplo as distintas formas de terceirização No Brasil quase 60 da população economicamente ativa encontrase em situação próxima da informalidade 3 Há uma outra tendência de enorme significado no mundo do trabalho contemporâneo tratase do aumento significativo do trabalho feminino em diversos países Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 avançados e também na América Latina onde também foi expressivo o processo de feminização do trabalho Esta expansão tem entretanto um movimento inverso quando se trata da temática salarial onde os níveis de remuneração das mulheres são em média inferiores àqueles recebidos pelos trabalhadores o mesmo ocorrendo em relação aos direitos sociais e do trabalho que também são desiguais No Brasil o salário médio das mulheres está em torno de 60 do salário dos trabalhadores Nogueira 2004 4 É perceptível também particularmente nas últimas décadas do Século XX uma significativa expansão dos assalariados médios no setor de serviços que inicialmente incorporou parcelas significativas de trabalhadores expulsos do mundo produtivo industrial como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização mas que também sentem as conseqüências do processo de reestruturação Se entretanto inicialmente deuse uma forte absorção pelo setor de serviços daquelesas que se desempregavam do mundo industrial é necessário acrescentar também que as mutações organizacionais tecnológicas e de gestão também afetaram fortemente o mundo do trabalho nos serviços que cada vez mais se submetem à racionalidade do capital e à lógica dos mercados Com a interrelação crescente entre mundo produtivo e setor de serviços vale enfatizar que em conseqüências dessas mutações várias atividades neste setor anteriormente consideradas improdutivas tornaramse diretamente produtivas subordinadas à lógica exclusiva da racionalidade econômica e da valorização do capital 5 Outra tendência presente no mundo do trabalho é a crescente exclusão dos jovens que atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e que sem perspectiva de emprego acabam muitas vezes engrossando as fileiras dos trabalhos precários dos Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 desempregados sem perspectivas de trabalho dada a vigência da sociedade do desemprego estrutural 6 Paralelamente à exclusão dos jovens vem ocorrendo também a exclusão dos trabalhadores considerados idosos pelo capital com idade próxima de 40 anos e que uma vez excluídos do trabalho dificilmente conseguem reingressar no mercado de trabalho Somamse desse modo aos contingentes do chamado trabalho informal aos desempregados aos trabalhos voluntários etc O mundo do trabalho atual tem recusado os trabalhadores herdeiros da cultura fordista fortemente especializados que são substituídos pelos trabalhadores polivalentes e multifuncionais da era toyotista 7 Além da exclusão dos idosos e jovens em idade pósescolar o mundo do trabalho nas mais diversas partes do mundo tem se utilizado da inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho nas mais diversas atividades produtivas 8 Como desdobramento destas tendências acima apontadas vem se desenvolvendo no mundo do trabalho uma crescente expansão do trabalho no chamado Terceiro Setor assumindo uma forma alternativa de ocupação através de empresas de perfil mais comunitários motivadas predominantemente por formas de trabalho voluntário abarcando um amplo leque de atividades onde predominam aquelas de caráter assistencial sem fins diretamente mercantis ou lucrativos e que se desenvolvem relativamente à margem do mercado A expansão desse segmento é um desdobramento direto da retração do mercado de trabalho industrial e de serviços num quadro de desemprego estrutural Esta forma de atividade social movida predominantemente por valores nãomercantis tem tido certa expansão através de trabalhos realizados no interior das ONGs e outros organismos ou associações similares Tratase entretanto de uma alternativa extremamente limitada para Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 compensar o desemprego estrutural não se constituindo em nosso entendimento numa alternativa efetiva e duradoura ao mercado de trabalho capitalista e conforme indicamos anteriormente frequentemente mascaram formas precarizadas de trabalho 9 Outra tendência que gostaríamos de apontar é a da expansão do trabalho à domicílio permitida pela desconcentração do processo produtivo pela expansão de pequenas e médias unidades produtivas Através da telemática e das tecnologias de informação além da expansão das formas de flexibilização e precarização do trabalho que estamos indicando com o avanço da horizontalização do capital produtivo o trabalho produtivo doméstico vem presenciando formas de expansão em várias partes do mundo Desse modo o trabalho produtivo a domicílio mesclase com o trabalho reprodutivo doméstico aumentando as formas de exploração do contingente feminino Quando se pensa portanto na classe trabalhadora hoje é preciso reconhecer esse desenho compósito heterogêneo e multifacetado que caracteriza a nova conformação da classe trabalhadora além das clivagens entre os trabalhadores estáveis e precários homens e mulheres jovens e idosos nacionais e imigrantes brancos e negros qualificados e desqualificados incluídos e excluídos temos também as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital O que nos obriga a elaborar uma concepção ampliada de trabalho que engloba a totalidade dos assalariados que vivem da venda da sua força de trabalho não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos mas incluindo também o enorme leque que compreende aqueles que vendem sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário No plano mais analítico podemos acrescentar que a classequevivedotrabalho incorpora tanto o núcleo central do proletariado industrial os trabalhadores produtivos que participam diretamente do processo de criação de mais valia e da valorização do capital que Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 hoje transcende em muito as atividades industriais dada a ampliação dos setores produtivos nos serviços abarcando ainda os trabalhadores improdutivos que não criam diretamente mais valia uma vez que são utilizados como serviço seja ara uso público como os serviços públicos seja para uso capitalista Isso porque os trabalhadores improdutivos criadores de antivalor no processo de trabalho vivenciam situações muito aproximadas com aquelas experimentadas pelo conjunto dos trabalhadores produtivos A classe trabalhadora hoje também incorpora o proletariado rural que vende a sua força de trabalho para o capital de que são exemplos os assalariados das regiões agro industriais e incorpora também o proletariado precarizado o proletariado moderno fabril e de serviços part time que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário pelo trabalho precarizado em expansão na totalidade do mundo produtivo Inclui também além dos trabalhadores materiais aqueles que exercem formas do trabalho imaterial E abarcam ainda a totalidade dos trabalhadores desempregados Por isso se trata de uma concepção ampliada de classe trabalhadora que atua tanto no mundo direto da produção quando da totalidade do trabalho coletivo e social Marx que participa da produção de mercadorias sejam elas materiais ou imateriais e direta ou indiretamente do processo de reprodução do capital Não fazem parte da classe trabalhadora moderna em nosso entendimento os gestores pelo papel central que exercem no controle gestão e sistema de mando do capital Estão excluídos também os pequenos empresários a pequena burguesia urbana e rural que é proprietária e detentora ainda que em pequena escala dos meios de sua produção E estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação O Século XXI apresenta portanto um cenário profundamente contraditório e agudamente crítico se o trabalho ainda é central para a criação do valor reiterando seu Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 sentido de perenidade estampa em patamares assustadores seu traço de superfluidade da qual são exemplos os precarizados flexibilizados temporários além do enorme exército de desempregados e desempregadas que se esparramam pelo mundo Uma última nota se estamos vivenciando o avanço da chamada era da mundialização do capital podemos presenciar também uma fase de mundialização das lutas sociais do trabalho nelas incluídas as massas de desempregados que se ampliam em escala global Desse modo um desafio maior da humanidade é dar sentido ao trabalho humano tornando a nossa vida também dotada de sentido Instituir uma nova sociedade dotada de sentido humano e social dentro e fora do trabalho Este é um desafio vital em nossos dias BIBLIOGRAFIA UTILIZADA ANTUNES Ricardo 1995 Adeus ao Trabalho Ensaio sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho Ed CortezEd Unicamp São Paulo 1999 Os Sentidos do Trabalho Boitempo São Paulo 2005 O Caracol e sua Concha Ensaios sobre a Nova Morfologia do Trabalho Ed Boitempo São Paulo BERNARDO João 2004 Democracia Totalitária Ed Cortez São Paulo BERNARDO João 2000 Transnacionalização do Capital e Fragmentação dos Trabalhadores Ed Boitempo São Paulo BIALAKOWSKY A et al Diluición y Mutación del Trabajo en la Dominación Social Local Revista Herramienta n 23 Buenos Aires 2003 Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 BIDET Jacques e TEXIER Jacques 1995 La Crise du Travail Actuel Marx Confrontation Press Universitaires de France Paris CHESNAIS François 1996 A Mundialização do Capital Ed Xamã São Paulo HARVEY David 1992 A Condição PósModerna Ed Loyola São Paulo HUWS Ursula 2003 The Making of a Cybertariat virtual work in a real world Monthly Review PressThe Merlin Press Nova IorqueLondres LOJKINE Jean 1995 A Revolução Informacional Ed Cortez São Paulo LUKÁCS G Lukács As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem in Temas de Ciências Humanas São Paulo Ed Ciências Humanas no 4 1978 MARX Karl 1971 O Capital Vol 11 Ed Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2004 Manuscritos EconômicoFilosóficos Boitempo Editorial São Paulo 2004 NOGUEIRA Claudia 2006 O Trabalho Duplicado Ed Expressão Popular São Paulo VASAPOLLO L 2005 O Trabalho Atípico e a Precariedade Ed Expressão Popular São Paulo Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes aborda questões profundas sobre a transformação do trabalho no século XXI enfatizando a precarização estrutural e as implicações dessa mudança para a classe trabalhadora Ele faz uma análise crítica do trabalho destacando como ele inicialmente uma forma de realização pessoal e coletiva se torna alienado no contexto do capitalismo Antunes também aponta para o impacto da flexibilização das relações de trabalho que embora seja apresentada como uma solução para o aumento do emprego serve na realidade para impor salários baixos e condições precárias de trabalho A precarização do trabalho impulsionada por novas formas de exploração e a ascensão de um mercado de trabalho mais flexível e instável é um tema central da análise Ele destaca ainda a feminização do trabalho evidenciando que apesar da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho elas continuam a enfrentar desigualdade salarial e a ter menos acesso a direitos trabalhistas Antunes também sugere que embora o trabalho continue a ser central para a criação de valor o modelo capitalista atual está criando uma classe trabalhadora cada vez mais marginalizada e precária e que a solução para esses problemas passaria por uma reconfiguração das relações de trabalho de modo a tornálas mais humanas e sociais Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes analisa a evolução do trabalho no século XXI destacando a precarização estrutural e a transformação do trabalho que passou de um meio de realização pessoal a uma forma alienada no capitalismo Ele critica a flexibilização das relações de trabalho que em vez de gerar mais empregos impõe condições precárias e baixos salários Antunes também aborda a feminização do trabalho e a desigualdade salarial das mulheres Por fim sugere que a solução para esses problemas está na reconfiguração das relações de trabalho para algo mais humano e social Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes aborda questões profundas sobre a transformação do trabalho no século XXI enfatizando a precarização estrutural e as implicações dessa mudança para a classe trabalhadora Ele faz uma análise crítica do trabalho destacando como ele inicialmente uma forma de realização pessoal e coletiva se torna alienado no contexto do capitalismo Antunes também aponta para o impacto da flexibilização das relações de trabalho que embora seja apresentada como uma solução para o aumento do emprego serve na realidade para impor salários baixos e condições precárias de trabalho A precarização do trabalho impulsionada por novas formas de exploração e a ascensão de um mercado de trabalho mais flexível e instável é um tema central da análise Ele destaca ainda a feminização do trabalho evidenciando que apesar da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho elas continuam a enfrentar desigualdade salarial e a ter menos acesso a direitos trabalhistas Antunes também sugere que embora o trabalho continue a ser central para a criação de valor o modelo capitalista atual está criando uma classe trabalhadora cada vez mais marginalizada e precária e que a solução para esses problemas passaria por uma reconfiguração das relações de trabalho de modo a tornálas mais humanas e sociais Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes analisa a evolução do trabalho no século XXI destacando a precarização estrutural e a transformação do trabalho que passou de um meio de realização pessoal a uma forma alienada no capitalismo Ele critica a flexibilização das relações de trabalho que em vez de gerar mais empregos impõe condições precárias e baixos salários Antunes também aborda a feminização do trabalho e a desigualdade salarial das mulheres Por fim sugere que a solução para esses problemas está na reconfiguração das relações de trabalho para algo mais humano e social

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humana Por isso Marx vai afirmar nos Manuscritos EconômicoFilosóficos que o trabalhador decai a uma mercadoria tornase um ser estranho um meio da sua existência individual O que deveria ser fonte de humanidade se converte desrealização do ser social alienação e estranhamento dos homens e mulheres que trabalham E esse processo de alienação do trabalho não se efetiva apenas no resultado na perda do objeto do produto do trabalho mas também o próprio ato de produção resultado da atividade produtiva já alienada O que significa dizer que sob o capitalismo o trabalhador não se satisfaz no trabalho mas se degrada não se reconhece mas muitas se desumaniza no trabalho Marx 2004 O trabalho como atividade vital se configura então como trabalho estranhado expressão de uma relação social fundada na propriedade privada no capital e no dinheiro Estranhado frente ao produto do seu trabalho e frente ao próprio ato de produção da vida material o ser social tornase um ser estranho frente a ele mesmo o homem estranhase em relação ao próprio homem tornandose estranho em relação ao gênero humano como também nos mostrou Marx idem Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 Porém com o advento do capitalismo houve uma transformação essencial que alterou e complexificou o trabalho humano Essa dupla dimensão presente no processo de trabalho que ao mesmo tempo cria e subordina emancipa e aliena humaniza e degrada oferece autonomia mas gera sujeição libera e escraviza impede que o estudo do trabalho humano seja unilateralizado ou mesmo tratado de modo binário e mesmo dual A desconsideração desta complexa e contraditória relação permitiu que muitos autores equivocadamente defendessem a desconstrução ou mesmo o fim da atividade laborativa Mas por outro lado não foram poucas as mutações que o capitalismo introduziu no mundo da produção e do trabalho nas últimas décadas Vamos então indicar a seguir algumas destas tendências II DIMENSÕES DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO Sabemos que a partir dos inícios dos anos 1970 o capital implementou um processo de reestruturação em escala global visando tanto a recuperação do seu padrão de acumulação quanto procurando repor a hegemonia que vinha perdendo no interior do espaço produtivo desde as explosões do final da década de 1960 onde particularmente na Europa ocidental se desencadeou um monumental ciclo de greves e lutas sociais Foi nesse contexto que o capital em escala global vem redesenhando novas e velhas modalidades de trabalho o trabalho precário com o objetivo de recuperar as formas econômicas políticas e ideológicas da dominação burguesa Proliferaram a partir de então as distintas formas de empresa enxuta empreendedorismo cooperativismo trabalho voluntário etc dentre as mais distintas formas alternativas de trabalho precarizado E os capitais utilizaramse de expressões que Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 de certo modo estiveram presentes nas lutas sociais dos anos 1960 como controle operário participação social para darlhes outras configurações muito distintas de modo a incorporar elementos do discurso operário porém sob clara concepção burguesa O exemplo das cooperativas talvez seja o mais eloqüente uma vez que em sua origem as cooperativas eram reais instrumentos de luta e defesa dos trabalhadores contra a precarização do trabalho e o desemprego O que vem fazendo os capitais em escala global criando cooperativas falsas como forma de precarizar ainda mais os direitos do trabalho quando não sua destruição Sabemos que as cooperativas originais criados autonomamente pelos trabalhadores têm um sentido coletivo em oposição ao despotismo fabril e ao planejamento gerencial sendo por isso um real instrumento de minimização da barbárie de luta e ação contra o desemprego estrutural consistindo também num efetivo embrião de exercício autônomo da produção coletiva dos trabalhadores Na fase capitalista das megafusões os capitais denominam como cooperativas verdadeiros empreendimentos patronais para destruir direitos sociais do trabalho Muito diferentes das experiências de cooperativas feitas pelo MST por exemplo que são esforços autênticos dos trabalhadores e das trabalhadoras rurais para buscar sua sobrevivência e reprodução forma dos marcos dominantes do capitalismo Outro exemplo forte desse processo de ocultamento das novas modalidades de exploração do trabalho é o chamado empreendedorismo Luciano Vasapollo caracteriza este processo de modo claro As novas figuras do mercado de trabalho os novos fenômenos do empreendedorismo cada vez mais se configuram em formas ocultas de trabalho assalariado subordinado precarizado instável trabalho autônomo de última Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 geração que mascara a dura realidade da redução do ciclo produtivo Na verdade tratase de uma nova marginalização social e não de um novo empresariado Vasapollo 2006 O mesmo quadro de precarização se pode presenciar quando se analisam as diversas modalidades de flexibilização do trabalho que sempre acabam trazendo de modo embutido diferentes formas de precarização Ainda segundo o autor A nova condição de trabalho está sempre perdendo mais direitos e garantias sociais Tudo se converte em precariedade sem qualquer garantia de continuidade O trabalhador precarizado se encontra ademais em uma fronteira incerta entre ocupação e nãoocupação e também em um não menos incerto reconhecimento jurídico diante das garantias sociais Flexibilização desregulação da relação de trabalho ausência de direitos Aqui a flexibilização não é riqueza A flexibilização por parte do contratante mais frágil a força de trabalho é um fator de risco e a ausência de garantias aumenta essa debilidade Nessa guerra de desgaste a força de trabalho é deixada completamente descoberta seja em relação ao próprio trabalho atual para o qual não possui garantias seja em relação ao futuro seja em relação à renda já que ninguém o assegura nos momentos de nãoocupação idem Dentre as distintas formas de flexibilização em verdade precarização podemos destacar a salarial de horário funcional ou organizativa dentre outros exemplos A flexibilização pode ser entendida como liberdade da empresa para desempregar trabalhadores sem penalidades quando a produção e as vendas diminuem liberdade sempre para a empresa para reduzir o horário de trabalho ou de recorrer a mais horas de trabalho possibilidade de pagar salários reais mais baixos do que a paridade de trabalho exige possibilidade de subdividir a jornada de trabalho em dia e semana segundo as conveniências das empresas mudando os horários e as características do trabalho por Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 turno por escala em tempo parcial horário flexível etc dentre tantas outras formas de precarização da força de trabalho Uma conclusão se impõe A flexibilização definitivamente não é solução para aumentar os índices de ocupação Ao contrário é uma imposição à força de trabalho para que sejam aceitos salários reais mais baixos e em piores condições É nesse contexto que estão sendo reforçadas as novas ofertas de trabalho por meio do denominado mercado ilegal no qual está sendo difundido o trabalho irregular precário e sem garantias Com o pósfordismo e a mundialização econômicoprodutiva o trabalho ilegal vem assumindo dimensões gigantescas também porque os países industrializados deslocaram suas produções para além dos limites nacionais e sobretudo vêm investindo em países nos quais as garantias trabalhistas são mínimas e é alta a especialização do trabalho conseguindo assim custos fundamentalmente mais baixos e aumentando a competitividade A globalização neoliberal e a internacionalização dos processos produtivos estão acompanhadas da realidade de centenas e centenas de milhões de trabalhadores desempregados e precarizados no mundo inteiro O sistema fordista nos havia acostumado ao trabalho pleno e de duração indeterminada Agora ao contrário um grande número de trabalhadores tem um contrato de curta duração ou de meio expediente os novos trabalhadores podem ser alugados por algumas poucas horas ao dia por cinco dias da semana ou por poucas horas em dois ou três dias da semana Vasapollo idem III ESBOÇO PARA UMA NOVA MORFOLOGIA DO TRABALHO Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 Esse conjunto de metamorfoses alterou em alguma medida a forma de ser da classe trabalhadora Quais são então os contornos mais gerais que configuram o que estamos denominando como nova morfologia do trabalho Desde logo é preciso indicar que a classe trabalhadora compreende a totalidade dos assalariados homens e mulheres que vivem da venda da sua força de trabalho a classe quevivedotrabalho e que são despossuídos dos meios de produção Podemos então enumerar algumas das principais tendências 1 Desde o início da reestruturação produtiva do capital vem ocorrendo uma redução do proletariado industrial fabril tradicional manual estável e especializado herdeiro da era da indústria verticalizada de tipo taylorista e fordista Este proletariado vinculado aos ramos mais tradicionais vem dando lugar a formas mais desregulamentadas de trabalho reduzindo fortemente o conjunto de trabalhadores estáveis que se estruturavam através de empregos formais herança da fase tayloristafordista 2 Há entretanto outra muito significativa e que se caracteriza pelo aumento do novo proletariado fabril e de serviços em escala mundial presente nas diversas modalidades de trabalho precarizado São os terceirizados subcontratados parttime entre tantas outras formas assemelhadas que se expandem em escala global Com a desestruturação crescente do Welfare State nos países do Norte e aumento da desregulamentação do trabalho nos países do Sul acrescidos da ampliação do desemprego estrutural os capitais implementam alternativas de trabalho crescentemente informais de que são exemplo as distintas formas de terceirização No Brasil quase 60 da população economicamente ativa encontrase em situação próxima da informalidade 3 Há uma outra tendência de enorme significado no mundo do trabalho contemporâneo tratase do aumento significativo do trabalho feminino em diversos países Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 avançados e também na América Latina onde também foi expressivo o processo de feminização do trabalho Esta expansão tem entretanto um movimento inverso quando se trata da temática salarial onde os níveis de remuneração das mulheres são em média inferiores àqueles recebidos pelos trabalhadores o mesmo ocorrendo em relação aos direitos sociais e do trabalho que também são desiguais No Brasil o salário médio das mulheres está em torno de 60 do salário dos trabalhadores Nogueira 2004 4 É perceptível também particularmente nas últimas décadas do Século XX uma significativa expansão dos assalariados médios no setor de serviços que inicialmente incorporou parcelas significativas de trabalhadores expulsos do mundo produtivo industrial como resultado do amplo processo de reestruturação produtiva das políticas neoliberais e do cenário de desindustrialização e privatização mas que também sentem as conseqüências do processo de reestruturação Se entretanto inicialmente deuse uma forte absorção pelo setor de serviços daquelesas que se desempregavam do mundo industrial é necessário acrescentar também que as mutações organizacionais tecnológicas e de gestão também afetaram fortemente o mundo do trabalho nos serviços que cada vez mais se submetem à racionalidade do capital e à lógica dos mercados Com a interrelação crescente entre mundo produtivo e setor de serviços vale enfatizar que em conseqüências dessas mutações várias atividades neste setor anteriormente consideradas improdutivas tornaramse diretamente produtivas subordinadas à lógica exclusiva da racionalidade econômica e da valorização do capital 5 Outra tendência presente no mundo do trabalho é a crescente exclusão dos jovens que atingiram a idade de ingresso no mercado de trabalho e que sem perspectiva de emprego acabam muitas vezes engrossando as fileiras dos trabalhos precários dos Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 desempregados sem perspectivas de trabalho dada a vigência da sociedade do desemprego estrutural 6 Paralelamente à exclusão dos jovens vem ocorrendo também a exclusão dos trabalhadores considerados idosos pelo capital com idade próxima de 40 anos e que uma vez excluídos do trabalho dificilmente conseguem reingressar no mercado de trabalho Somamse desse modo aos contingentes do chamado trabalho informal aos desempregados aos trabalhos voluntários etc O mundo do trabalho atual tem recusado os trabalhadores herdeiros da cultura fordista fortemente especializados que são substituídos pelos trabalhadores polivalentes e multifuncionais da era toyotista 7 Além da exclusão dos idosos e jovens em idade pósescolar o mundo do trabalho nas mais diversas partes do mundo tem se utilizado da inclusão precoce e criminosa de crianças no mercado de trabalho nas mais diversas atividades produtivas 8 Como desdobramento destas tendências acima apontadas vem se desenvolvendo no mundo do trabalho uma crescente expansão do trabalho no chamado Terceiro Setor assumindo uma forma alternativa de ocupação através de empresas de perfil mais comunitários motivadas predominantemente por formas de trabalho voluntário abarcando um amplo leque de atividades onde predominam aquelas de caráter assistencial sem fins diretamente mercantis ou lucrativos e que se desenvolvem relativamente à margem do mercado A expansão desse segmento é um desdobramento direto da retração do mercado de trabalho industrial e de serviços num quadro de desemprego estrutural Esta forma de atividade social movida predominantemente por valores nãomercantis tem tido certa expansão através de trabalhos realizados no interior das ONGs e outros organismos ou associações similares Tratase entretanto de uma alternativa extremamente limitada para Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 compensar o desemprego estrutural não se constituindo em nosso entendimento numa alternativa efetiva e duradoura ao mercado de trabalho capitalista e conforme indicamos anteriormente frequentemente mascaram formas precarizadas de trabalho 9 Outra tendência que gostaríamos de apontar é a da expansão do trabalho à domicílio permitida pela desconcentração do processo produtivo pela expansão de pequenas e médias unidades produtivas Através da telemática e das tecnologias de informação além da expansão das formas de flexibilização e precarização do trabalho que estamos indicando com o avanço da horizontalização do capital produtivo o trabalho produtivo doméstico vem presenciando formas de expansão em várias partes do mundo Desse modo o trabalho produtivo a domicílio mesclase com o trabalho reprodutivo doméstico aumentando as formas de exploração do contingente feminino Quando se pensa portanto na classe trabalhadora hoje é preciso reconhecer esse desenho compósito heterogêneo e multifacetado que caracteriza a nova conformação da classe trabalhadora além das clivagens entre os trabalhadores estáveis e precários homens e mulheres jovens e idosos nacionais e imigrantes brancos e negros qualificados e desqualificados incluídos e excluídos temos também as estratificações e fragmentações que se acentuam em função do processo crescente de internacionalização do capital O que nos obriga a elaborar uma concepção ampliada de trabalho que engloba a totalidade dos assalariados que vivem da venda da sua força de trabalho não se restringindo aos trabalhadores manuais diretos mas incluindo também o enorme leque que compreende aqueles que vendem sua força de trabalho como mercadoria em troca de salário No plano mais analítico podemos acrescentar que a classequevivedotrabalho incorpora tanto o núcleo central do proletariado industrial os trabalhadores produtivos que participam diretamente do processo de criação de mais valia e da valorização do capital que Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 hoje transcende em muito as atividades industriais dada a ampliação dos setores produtivos nos serviços abarcando ainda os trabalhadores improdutivos que não criam diretamente mais valia uma vez que são utilizados como serviço seja ara uso público como os serviços públicos seja para uso capitalista Isso porque os trabalhadores improdutivos criadores de antivalor no processo de trabalho vivenciam situações muito aproximadas com aquelas experimentadas pelo conjunto dos trabalhadores produtivos A classe trabalhadora hoje também incorpora o proletariado rural que vende a sua força de trabalho para o capital de que são exemplos os assalariados das regiões agro industriais e incorpora também o proletariado precarizado o proletariado moderno fabril e de serviços part time que se caracteriza pelo vínculo de trabalho temporário pelo trabalho precarizado em expansão na totalidade do mundo produtivo Inclui também além dos trabalhadores materiais aqueles que exercem formas do trabalho imaterial E abarcam ainda a totalidade dos trabalhadores desempregados Por isso se trata de uma concepção ampliada de classe trabalhadora que atua tanto no mundo direto da produção quando da totalidade do trabalho coletivo e social Marx que participa da produção de mercadorias sejam elas materiais ou imateriais e direta ou indiretamente do processo de reprodução do capital Não fazem parte da classe trabalhadora moderna em nosso entendimento os gestores pelo papel central que exercem no controle gestão e sistema de mando do capital Estão excluídos também os pequenos empresários a pequena burguesia urbana e rural que é proprietária e detentora ainda que em pequena escala dos meios de sua produção E estão excluídos também aqueles que vivem de juros e da especulação O Século XXI apresenta portanto um cenário profundamente contraditório e agudamente crítico se o trabalho ainda é central para a criação do valor reiterando seu Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 sentido de perenidade estampa em patamares assustadores seu traço de superfluidade da qual são exemplos os precarizados flexibilizados temporários além do enorme exército de desempregados e desempregadas que se esparramam pelo mundo Uma última nota se estamos vivenciando o avanço da chamada era da mundialização do capital podemos presenciar também uma fase de mundialização das lutas sociais do trabalho nelas incluídas as massas de desempregados que se ampliam em escala global Desse modo um desafio maior da humanidade é dar sentido ao trabalho humano tornando a nossa vida também dotada de sentido Instituir uma nova sociedade dotada de sentido humano e social dentro e fora do trabalho Este é um desafio vital em nossos dias BIBLIOGRAFIA UTILIZADA ANTUNES Ricardo 1995 Adeus ao Trabalho Ensaio sobre as Metamorfoses e a Centralidade do Mundo do Trabalho Ed CortezEd Unicamp São Paulo 1999 Os Sentidos do Trabalho Boitempo São Paulo 2005 O Caracol e sua Concha Ensaios sobre a Nova Morfologia do Trabalho Ed Boitempo São Paulo BERNARDO João 2004 Democracia Totalitária Ed Cortez São Paulo BERNARDO João 2000 Transnacionalização do Capital e Fragmentação dos Trabalhadores Ed Boitempo São Paulo BIALAKOWSKY A et al Diluición y Mutación del Trabajo en la Dominación Social Local Revista Herramienta n 23 Buenos Aires 2003 Seminário Nacional de Saúde Mental e Trabalho São Paulo 28 e 29 de novembro de 2008 BIDET Jacques e TEXIER Jacques 1995 La Crise du Travail Actuel Marx Confrontation Press Universitaires de France Paris CHESNAIS François 1996 A Mundialização do Capital Ed Xamã São Paulo HARVEY David 1992 A Condição PósModerna Ed Loyola São Paulo HUWS Ursula 2003 The Making of a Cybertariat virtual work in a real world Monthly Review PressThe Merlin Press Nova IorqueLondres LOJKINE Jean 1995 A Revolução Informacional Ed Cortez São Paulo LUKÁCS G Lukács As Bases Ontológicas do Pensamento e da Atividade do Homem in Temas de Ciências Humanas São Paulo Ed Ciências Humanas no 4 1978 MARX Karl 1971 O Capital Vol 11 Ed Civilização Brasileira Rio de Janeiro 2004 Manuscritos EconômicoFilosóficos Boitempo Editorial São Paulo 2004 NOGUEIRA Claudia 2006 O Trabalho Duplicado Ed Expressão Popular São Paulo VASAPOLLO L 2005 O Trabalho Atípico e a Precariedade Ed Expressão Popular São Paulo Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes aborda questões profundas sobre a transformação do trabalho no século XXI enfatizando a precarização estrutural e as implicações dessa mudança para a classe trabalhadora Ele faz uma análise crítica do trabalho destacando como ele inicialmente uma forma de realização pessoal e coletiva se torna alienado no contexto do capitalismo Antunes também aponta para o impacto da flexibilização das relações de trabalho que embora seja apresentada como uma solução para o aumento do emprego serve na realidade para impor salários baixos e condições precárias de trabalho A precarização do trabalho impulsionada por novas formas de exploração e a ascensão de um mercado de trabalho mais flexível e instável é um tema central da análise Ele destaca ainda a feminização do trabalho evidenciando que apesar da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho elas continuam a enfrentar desigualdade salarial e a ter menos acesso a direitos trabalhistas Antunes também sugere que embora o trabalho continue a ser central para a criação de valor o modelo capitalista atual está criando uma classe trabalhadora cada vez mais marginalizada e precária e que a solução para esses problemas passaria por uma reconfiguração das relações de trabalho de modo a tornálas mais humanas e sociais Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes analisa a evolução do trabalho no século XXI destacando a precarização estrutural e a transformação do trabalho que passou de um meio de realização pessoal a uma forma alienada no capitalismo Ele critica a flexibilização das relações de trabalho que em vez de gerar mais empregos impõe condições precárias e baixos salários Antunes também aborda a feminização do trabalho e a desigualdade salarial das mulheres Por fim sugere que a solução para esses problemas está na reconfiguração das relações de trabalho para algo mais humano e social Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes aborda questões profundas sobre a transformação do trabalho no século XXI enfatizando a precarização estrutural e as implicações dessa mudança para a classe trabalhadora Ele faz uma análise crítica do trabalho destacando como ele inicialmente uma forma de realização pessoal e coletiva se torna alienado no contexto do capitalismo Antunes também aponta para o impacto da flexibilização das relações de trabalho que embora seja apresentada como uma solução para o aumento do emprego serve na realidade para impor salários baixos e condições precárias de trabalho A precarização do trabalho impulsionada por novas formas de exploração e a ascensão de um mercado de trabalho mais flexível e instável é um tema central da análise Ele destaca ainda a feminização do trabalho evidenciando que apesar da crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho elas continuam a enfrentar desigualdade salarial e a ter menos acesso a direitos trabalhistas Antunes também sugere que embora o trabalho continue a ser central para a criação de valor o modelo capitalista atual está criando uma classe trabalhadora cada vez mais marginalizada e precária e que a solução para esses problemas passaria por uma reconfiguração das relações de trabalho de modo a tornálas mais humanas e sociais Resenha Crítica SÉCULO XXI NOVA ERA DA PRECARIZAÇÃO ESTRUTURAL DO TRABALHO O texto de Ricardo Antunes analisa a evolução do trabalho no século XXI destacando a precarização estrutural e a transformação do trabalho que passou de um meio de realização pessoal a uma forma alienada no capitalismo Ele critica a flexibilização das relações de trabalho que em vez de gerar mais empregos impõe condições precárias e baixos salários Antunes também aborda a feminização do trabalho e a desigualdade salarial das mulheres Por fim sugere que a solução para esses problemas está na reconfiguração das relações de trabalho para algo mais humano e social

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