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Editora Brasiliense São Paulo Este livro foi digitalizado sem fins comerciais para uso exclusivo de pessoas com deficiência que necessitem de leitores de tela para aceder ao seu conteúdo não devendo ser distribuído com outra finalidade mesmo de forma gratuita 1 1 O MOMENTO DA PSICANÁLISE Os seres humanos são pessoas muito estranhas e até absurdas Se você já o percebeu acho que andou a terça parte do caminho para se tornar psicanalista O segundo terço do caminho consiste em aprender algumas coisas o método a teoria e a técnica psicanalíticos de que lhe vou falar um pouco neste livrinho Quanto à última e mais difícil etapa que é a de você mesmo descobrir que é também uma pessoa estranha e absurda isto é que é um ser humano lamento não poder ajudálo a percorrer pelo menos escrevendo talvez fosse preciso fazer análise Todavia como estava dizendo os homens são pessoas estranhas e absurdas Enquanto outros bichos têm relativamente pouco trabalho em construir sua residência porque parecem satisfeitos com o mundo que encontram o que os cientistas chamam sistemas ecológicos os homens têm passado seu tempo tentando construir uma casa para si gastando nisso um trabalho insano sem nunca ficarem contentes com o resultado Construíram instrumentos de osso e de eletricidade domesticaram as plantas os primos animais e até seu próprio pensamento selvagem edificaram cidades sistemas filosóficos ciência e tecnologia Tudo fizeram para ter um mundo sob medida quer dizer um mundo na medida humana Mas não desprezemos os homens por causa disso Coitados eles talvez não tivessem outro jeito de sobreviver Em primeiro lugar quando os bebês humanos nascem e por longo tempo depois são muito indefesos e incapazes para a vida não conseguem comida sozinhos não sabem defenderse do frio queimamse com a própria urina etc Logo era mesmo necessário viver em grupo construir abrigos e um sistema social Por outro lado os homens divertemse demais com os próprios pensamentos São os únicos bichos ao que se sabe tão estúpidos que podem ficar imaginando e esquecerse de comer e o que é pior quando pequeninos e famintos parece que conseguem ficar sonhando que estão a comer e contentarse algum tempo com isso coisa a que os psicanalistas chamam satisfação alucinatória do desejo Alguns talvez até morram de fome sonhando sonhando Por fim enquanto os animais ferozes quase nunca matam os de sua espécie inibição da agressividade intraespecífica é como os estudiosos do comportamento animal ou etólogos chamam a essa prova elementar de sensatez os homens chegam a gostar de fazêlo Para sobreviver então ou pelo menos para se poderem dominar e matar civilizadamente foi preciso que os homens domesticassem a natureza 2 Por que entretanto esse trabalho não tem fim e nem é considerado satisfatório Bem se você pertence a uma família mais ou menos rica provavelmente já mudou de casa algumas vezes De cada vez a casa era perfeita não é verdade construída sob medida para o desejo de sua família com tantos quartos garagens e televisões quantos bastassem para fazêlos felizes porém quando lá moravam descobriam que ainda não estavam satisfeitos nem felizes Aí mudavam reformavam a casa ou compravam um videocassete e insatisfeitos ainda tornam a mudar ou instalam uma mesa completa de som Se esta é sua história habitacional não se culpe nem a seu pai culpe a casa e estará bem integrado com o resto da humanidade É que a casa que construíram como a grande casa que a humanidade vem construindo para si representa bem demais a realização de seu desejo Ora o problema é que nós não desejamos o que queremos nem tampouco ficamos satisfeitos de encontrar o que desejamos Na verdade nós humanos não sabemos bem o que desejamos Veja um exemplo Antes de mais nada nós somos aquilo que desejamos ser É fácil entender já que desejo é o nome daquilo que faz com que a gente pense faça seja Ele parece vir de dentro da alma mas é criado na vida social e biológica de sorte que se pode dizer até que somos desejados desta ou daquela maneira Somos desejados ativos ou entediados cruéis ou compassivos apavorados ou distraídos Aliás a humanidade desejase como é e dizia constróise e constrói o seu mundo de acordo com tal desejo Só que não acredita que de fato se tenha desejado como é Assim tendo transformado o mundo a fim de lhe servir de casa acha que não está ainda bem feito que sobram muitas coisas desumanas a humanizar O céu é muito alto o tempo é longo demais as guerras muito freqüentes Ora se o tempo e o espaço são infinitos demais é que os homens têm em si uma aspiração em desacordo com seu tamanho e duração de vida Quanto às guerras quem as faz Numa palavra ao domesticar o mundo os homens irritamse ao ver que construíram uma casa que os retrata maravilhosamente bem que exprime seu desejo tanto naquilo que gostam como naquilo que odeiam a esta última parte de seu desejo chamam desumana dizem que não é deles que é um resto que deve ainda ser dominado Talvez por esta última razão a construção do mundo humano se tenha ultrapassado Você já viu alguém fazer uma lição com má vontade pensando que quer realmente fazêla bem Aparecem erros a cada linha 3 manchas de tinta lapsos de português e o estudante começa a escrever adoidado obsessivamente errando e copiando errado Assim a espécie humana adquiriu uma estranha obsessão de domesticar familiarizar educar Se seus pais o educaram assim você provavelmente será exatamente como eles o desejaram e no entanto tanto eles como você mesmo terão a impressão de que tudo saiu às avessas pela simples razão que ambos ignoram boa parte do modelo que foi impresso e não o reconhecem depois de pronto Domesticar significa adaptar às normas da casa que em latim se diz domus familiarizar significa tornar algo familiar como que da família Mas como os homens negamse a admitir grande parte de seu desejo quanto mais doméstico e familiar vai ficando o mundo que constroem mais estranho e desumano lhes parece Desumano que calúnia Sucedeu então que este grande projeto de construir um mundo à medida humana que é o de todas as culturas acelerouse subitamente e estreitou se Uma das maneiras de realizálo parece dominar todas as outras e não tendo contra quem competir pôsse a tentar ser mais veloz que a própria sombra Nem é preciso dizer que a maneira dominante é a civilização tecnológica a qual se vale de uma racionalidade exacerbada de cálculo medida das Ciências Naturais tendo a Física por modelo Quanto à sombra é o que veremos mais adiante Por enquanto basta observar que o mundo onde vivemos sobretudo nas grandes cidades tornouse tão construído tão fabricado que uma crise muito curiosa se desencadeou As pessoas começaram aos poucos a duvidar de que o lugar onde vivem seja mesmo real Antes quando o contato com a natureza era mais estreito nos tempos em que qualquer criança podia ver digamos ordenhar uma vaca a sensação de realidade vinha diretamente desse tipo de experiência podiase dizer real como uma pedra ou como uma árvore De repente contudo os fatos começam a vir pelos jornais depois pela televisão e você tem de se perguntar a cada momento se o que ouve e vê é assim mesmo se é uma interpretação ou se é uma tentativa de enganálo Quer dizer a realidade começou a perder confiabilidade As máquinas funcionam hoje quase como gente as pessoas quase como máquinas A cada ação que você pretende executar fica sempre a dúvida se não está servindo a um propósito que ignora e que talvez ache abominável Se você quer ser original se quer recusar tudo o que está por aí acabará provavelmente descobrindo que faz parte duma indústria da originalidade usando um uniforme de original 4 Pois bem a ruptura com a natureza e a fabricação excessiva da nossa vida cotidiana constituem exatamente o êxito completo da construção da casa dos homens Mas o homem mesmo não se sente à vontade na casa que criou Esse retrato que vê no seu mundo parecelhe absurdo Ele se pergunta Sou assim E responde Claro que não é que falta dominar organizar e calcular uma última coisa a mente humana Veja que estranho A loucura do nosso mundo é simplesmente o resultado da maneira pela qual o construímos Porém preferimos dizer que essa espécie de sombra a irracionalidade das relações entre os homens e a irrealidade do mundo cotidiano é produto de outra coisa não da razão mas da falta de razão da loucura Assim lá pelos fins do século passado fezse um grande esforço para compreender a loucura para medila para dividila em tipos e explicála cientificamente No começo isso não deu muito resultadoÉ verdade que surgiu uma classificação das doenças mentais que até hoje é bastante útil Mas em matéria de cura pouco avanço houve Principalmente a loucura do diaa dia permanecia inexplicável e intratável E foi assim que nasceu a Psicanálise As Ciências Exatas tiveram de pedir ajuda a uma espécie de primo pobre a interpretação Só a interpretação era capaz de abarcar os sonhos as emoções a loucura etc Até aí tudo bem Entretanto ao procurar elucidar a loucura domínio que se lhe havia concedido o método interpretativo acabou tendo de ir mais longe por descobrir que aquilo que não parecia ser loucura a vida comum não era também muito diferente Posta em movimento a interpretação não se soube deter nem é bom que se detenha como veremos no próximo capítulo que trata do método interpretativo da Psicanálise Tudo se passa como numa história de fadas quando depois de chegar ao limite da pobreza a princesa recebe o príncipe e o reino ou quando depois de gozar da maior felicidade ao abusar um pouquinho mais da sorte um homem se desgraça Vamos chamar a isto princípio do absurdo quando algo chega ao limite e ultrapassao transformase em seu contrário Em nosso caso o projeto de tornar bem racionais todas as coisas quando pretendeu dominar uma franjinha que faltava a loucura criou um instrumento capaz de entender e curar a loucura é certo mas que junto com ela entende e mostra irracionalidade e loucura onde não se suspeitava que houvesse A história das idéias é assim irônica e às vezes vingativa Vingança foi fazer ver ao homem que no desconhecimento de seu próprio desejo criava o que queria e o que não queria sendo portanto absurdo para si mesmo E isto quando ele pretendia erradicar os restinhos de 5 absurdo e loucura de seu mundo Aliás a atmosfera de Conto de fada não pára aí Só nas histórias infantis é que uma pessoa isolada inventa algo que modifica o mundo e o faz quase sozinho Nossa ciência infelizmente sugere que o impossível aconteceu Com efeito Freud praticamente só inventou um método para interpretar o lado irracional ou melhor o lado da mente que obedece a regras duma racionalidade diferente daquela da consciência Digo infelizmente porque isso aumenta muito a dificuldade que temos os psicanalistas de continuar e eventualmente vir a superar sua obra Penso que os grandes psicanalistas estão quase sempre começando de novo É claro que Freud não estava interessado originalmente em denunciar toda a loucura da crise do real de que há pouco eu falava Como um médico honesto ele queria curar doenças Foi assim que se dedicou a tratar doentes histéricos pessoas que sofriam de ataques de angústia de paralisias ou dores sem causa orgânica física e outros sintomas parecidos Podese dizer que ao tentar fazêlo foi como se puxasse o gatilho do princípio do absurdo pois dos sintomas histéricos teve de passar aos sonhos dos sonhos aos atos falhos por exemplo esses escorregões de linguagem inoportunos que nos fazem dizer a verdade quando não queremos e daí à vida mental como um todo Isso porém veremos ao longo de nosso livrinho No momento apenas desejo que você guarde a idéia central O mundo edificado por nossa cultura humanizouse tanto no sentido de ser tão fabricado que sua sombra o lado desconhecido do desejo humano acabou por aparecer mais do que devia O real começou a ficar um tanto duvidoso e o homem a verse malgrado seu cada vez mais absurdo para si mesmo Ora se a Psicanálise foi inventada por uma pessoa chamada Freud no fim do século em Viena a idéia psicanalítica isto é o método interpretativo não foi inventada por ninguém Ela era a resposta certa para o problema da loucura de nosso tempo Por assim dizer quando o momento estava maduro saiu do lugar onde esta guardada no grande depósito das idéias que não são dominantes numa dada época para vir a habitar a ciência que Freud fundou Sua missão portanto é apresentar ao homem o absurdo que o constitui e se possível ajudálo a reconciliarse com ele com o absurdo e consigo mesmo 2 O MÉTODO DA PSICANÁLISE O que é que um psicanalista faz Ele aplica o método psicanalítico Talvez esteja tratando um paciente talvez um grupo de pessoas uma família uma comunidade Talvez não esteja tratando ninguém mas tentando interpretar 6 algum acontecimento Desde uma notícia de jornal até por exemplo a curiosa tendência atual a desmantelar a casa humana que se revela no acúmulo de armas atômicas ou na proliferação dos atentados Pode querer compreender o sentido de um palavrão de uma piada ou de uma grande obra de arte O que ele estuda não é tão importante desde que seja um fenômeno humano é importante sim para saber se é um psicanalista que esteja interpretando psicanaliticamente quer dizer que empregue o seu método próprio Na verdade como Freud mesmo escreveu o termo psicanálise tem três sentidos é o método interpretativo mas significa também uma forma de tratamento psicológico ou psicoterapia analítica e igualmente é o nome do conhecimento que o método produz ou teoria psicanalítica Um pouquinho confuso não Bem para evitar a confusão e como o método vem primeiro e é o essencial costumo escrever o nome do método e o da ciência inteira com letra inicial maiúscula Psicanálise e com minúscula inicial psicanálise grafo o nome da terapia disto que o analista faz em seu consultório Então a ciência e seu método chamamse Psicanálise a terapia denominase psicanálise ou simplesmente análise quanto à teoria não há problemas sempre dizemos teoria psicanalítica Para que você entenda o que é o método psicanalítico vou usar agora como exemplo a terapia analítica e tudo ficará claro Verá que entenderemos a Psicanálise através da psicanálise Suponha por conseguinte que você se converteu em analista por artes mágicas ou depois de uns 15 anos de estudo Você estará decentemente trajado sentado numa confortável poltrona em um consultório de bom gosto tendo à frente deitado no divã um cliente que o freqüenta algumas vezes por semana Isso pelo menos é o comum Todavia não é impensável que estivesse nu no meio do mato com seu paciente trepado no galho da árvore a seu lado se as condições sociais fossem outras Dou lhe essa imagem alternativa não porque tenha algo contra roupas e consultórios porém para que compreenda a diferença entre moldura e quadro O divã a freqüência das sessões o pagamento etc emolduram a análise servem só para sustentar e delimitar aquilo que se faz Aliás como com o quadro que você tem na sala é bom que a moldura não seja tão pesada e rococó a ponto de embaralhar a cena retratada Você já reparou como nos jornais e nas discussões públicas quase que somente se fala das correntes associações e brigas entre psicanalistas Pois este é um exemplo da moldura atrapalhando a visão do quadro porque afinal isso tudo não é realmente importante 7 Digamos porém que você esteja sentado na poltrona e o paciente deitado à sua frente Ele estará falando As palavras são traiçoeiras Quando falamos dizemos o que queremos dizer porém ao mesmo tempo dizemos também muitas outras coisas de que nem suspeitávamos Mesmo se alguém diz algo tão simples como está chovendo referese a um estado do tempo mas comunica simultaneamente uma porção de outras coisas Falará com agrado ou com raiva e saberemos já se tinha ou não certo projeto que a chuva atrapalhou Está chovendo pode ser um convite a que permaneçamos aconchegados num abrigo talvez contenha a idéia de uma espécie de vitalidade tal qual a da terra bem regada etc O que é garantido no entanto é que está chovendo não significa apenas que está chovendo Há sempre no mínimo o fato de que isso foi dito para uma outra pessoa e com alguma intenção conhecida com alguma intenção conhecida e com várias intenções mal conhecidas Na verdade são tantos os sentidos simultâneos das nossas palavras que seria virtualmente impossível uma conversa civilizada caso não se reduzissem tais sentidos a alguns poucos Quero dizer que é necessário um acordo tácito entre as pessoas que se comunicam a fim de limitar drasticamente a abrangência do que se diz É como se combinássemos não vamos prestar atenção a digamos 99 dos significados possíveis do que estamos dizendo para que o resto possa ser bem entendido Em particular na vida cotidiana procuramos diligentemente ignorar tudo aquilo que nos ditos referese ao interlocutor e não ao referente externo isto é no está chovendo procuramos esquecer todo o conjunto de insinuações acerca de nossa convivência do tipo chove portanto fiquemos aconchegados no quentinho e nos concentramos no estado do tempo o referente externo deste caso isto é chove portanto não faz sol A tão violenta redução costumo chamar redução consensual dos sentidos do discurso porque é fruto de um acordo ou consenso entre as pessoas que se comunicam ou chamolhe rotina Esta é uma grande tarefa importantíssima e difícil Sem ela não se poderia conversar está visto Você já observou a confusão que se cria numa discussão acalorada quando de repente parece que ninguém fala mais a mesma língua do outro A cada momento é preciso explicar Não foi isso que eu disse não foi isso que eu quis dizer eu quis dizer só que Dáse simplesmente que por causa da animosidade dos espíritos perdeuse um pouquinho do acordo consensual foi violado o acordo sobre o tema por exemplo e alargouse um bocadinho o sentido permissível das palavras 8 Ora se você está sentado detrás de seu paciente escutandoo talvez pense que deva descobrir sentidos muito complicados psicanalíticos no que ele diz É um engano Para fazer análise basta que consiga ouvilo de maneira que se vá suprimindo aos poucos a redução consensual ou rotina Isto se consegue assim seu paciente contalhe algo do que fez ontem depois comenta um detalhe novo do consultório faz uma piada tosse lembrase de um sonho etc Se você fosse uma pessoa bem educada numa situação cotidiana interessarseia polidamente por cada assunto em separado responderia riria com ele e perderia o sentido de conjunto Fazer análise é uma espécie de falta de educação sistemática Atrás do paciente você estará calado procurando juntar os pedaços da conversa sem se deter no que de hábito significaria mudança de assunto Ao contrário prestará a máxima atenção às mudanças de assuntos perguntandose Se se trata de um só assunto qual é ele e que se diz agora a respeito Em outras palavras você eliminou uma referência consensual importantíssima aquela que afirma que cada dito tem de ser entendido no assunto a que o interlocutor se pretende ater Como um chato que é você se pergunta Casa mais consultório mais piada mais sonho o que tudo junto me comunica agora O que quer dizer ainda que o paciente não o queira dizer conscientemente Quando pois você descobrir um sentido geral da forma que mencionei e comunicálo a seu paciente ele se surpreenderá muito É plausível que afirme nunca ter pensado nisso e que certa mente não foi o que quis dizer Talvez então você sorria com superioridade porém não se esqueça de que ele tem razão com certeza não pensara e menos ainda quisera dizer o que estava contido em suas palavras você é que o ouviu fora da rotina Alguns nomes mais Desculpe mas é importante saber nomear o que se passa na análise se quer vir a ser analista e poder conversar acerca de seu trabalho A esse tipo de atenção um pouco extravagante que viola todas as regras da boa educação cotidiana Freud chamava atenção flutuante Esse termo você já conhece não é mesmo A comunicação feita ao paciente que serve para romper os limites do assuntos que ele pensava poder tratar em separado chamase interpretação psicanalítica Outro nome conhecido Finalmente àquilo que dá sentido ao que se diz e que o limita está chovendo que faz referirse a um estado do tempo e não por exemplo a um estado da relação entre duas pessoas chamaremos um campo da comunicação ou simplesmente campo Portanto ao interpretar o que você fez essencialmente foi quebrar os limites que a rotina o dia a dia impusera aos significados do 9 paciente isto é você produziu uma ruptura de campo Considero o efeito de ruptura de campo o processo fundamental do método psicanalítico tanto no que diz respeito à produção de conhecimentos como no que concerne à produção da cura Costumase crer que a interpretação psicanalítica mostra ao paciente um tipo especial de sentido através de suas associações das idéias que nos comunica os remanescentes da sexualidade infantil os processos de recalcamento e outros conteúdos semelhantes que através deste livrinho iremos discutindo Isto é certo de algum modo Esses esquemas interpretativos constituem a teoria Psicanalítica a qual norteia as interpretações Semelhantemente há normas para bem interpretar condições de tempo propícias ordem precisa em que certas emoções podem ser patenteadas formas preferenciais para a formulação de interpretações etc Em conjunto constituem a técnica psicanalítica Teoria e técnica juntas ensinam pois como fazer bem a análise não explicam entretanto o que vem a ser a interpretação em si mesma isto é que ato é este a interpretação que pode eventualmente ser bem ou mal feito Uma coisa é saber que jogo estamos jogando outra é saber jogálo bem No momento estou apenas querendo ensinarlhe a essência do jogo que é penso a operação de ruptura de campo Quando você escutou seu paciente dessa maneira estranha desrespeitando os limites dos assuntos que ele pensava abordar e comunicoulhe um sentido geral que ele não sabia reconhecer nas próprias palavras o resultado terá sido é provável bastante surpreendente O cliente talvez reclame de não ter sido compreendido ao mesmo tempo em que experimentará uma sensação algo vaga de que o que você lhe disse tem tudo a ver com ele E há algo ainda pior ou melhor quem sabe É que dos sentidos outros que suas palavras contêm os quais se cancelam geralmente no cotidiano você terá selecionado expressamente aqueles que definem a relação que os dois mantêm no momentoÉ possível fazêlo porque tudo o que dizemos e pensamos sempre nos define o que nos é alheio em algum momento não é pensável sequer Assim você estará procurando o sentido geral incluído despercebidamente no discurso nas palavras do paciente que mostra quem é ele nesse momento e em particular como é ele na relação com você Por fim como este ser na relação apóiase com força sobre um estado afetivo numa emoção você terá descoberto para ele como é que se sente sem o saber em relação a você É concebível brinquemos um pouco do jogo analítico que ao constatar a chuva seu paciente esteja a 10 lhe propor que você é algo assim como uma nuvem chovendo sobre ele que na horizontal se faz de terra fertilizandoo mas fazendo brotar lembranças irritantes de humilhações infantis Estranho Estranhíssimo E no entanto se a interpretação tiver sido bem feita se a compreensão tiver sido cuidadosa tal sentido estará de fato contido nos ditos do paciente a que chamamos material Assim serlheá difícil negar pura e simplesmente que a interpretação tinha razão de ser Os muitos sentidos das palavras humanas se tomados em conjunto poderiam levarnos para quase qualquer lugar Sucede porém que durante uma sessão eles se cruzam e descruzam determinando pontos de convergência ou nós para onde se encaminham porções consideráveis dos sentidos marginais do discurso A essas malhas damos o nome de fantasias Seguimolas através dos fios interpretamolas ao reconhecêlas produzindo uma sensação de ter completado algo que faltava para uma inteligência diversa do material que inclui agora seu sentido geral inconsciente Então o paciente já não sabe momentaneamente o que está fazendo com você Pensava estar contando coisas importantes e de chofre ouve que está a ser chovido Como isso parecelhe tão estranho quanto bem encaixado perde os limites dos assuntos de que pensava tratar percebese diferente não um relator de idéias mas um nãoseiquê apto a ser fecundado Sentese estranho sem saber o que pensar Na verdade diria sem saber como fazer para pensar porque o pensamento cotidiano respeita cuidadosamente os limites dos temas dos assuntos quer dizer apóiase em campos bem definidos como os pés sobre tapetes E se lhe retirou com uma interpretação o tapete debaixo dos pés do espírito Nesse estado de confusão aparece algo que de hábito está bem coberto Aparece aquilo que faz com que alguém o paciente no caso pense sinta e faça o que faz e que ele crê ser sua vontade soberana Puro engano Esses sentidos estranhos como o de ser chovido impulsionam nossa mente sem que nos possamos dar conta manifestam aquilo que denominamos desejo É o desejo que produz nossas emoções É ele uma espécie de matriz que permite e obriga alguém a possuir certo repertório de emoções e não outras quaisquer O analista interpretando vai formando junto com seu paciente o esboço lento do desenho de seu desejo Fundamentalmente por romper o campo da rotina e assim propiciar um espaço em que o desejo se pode mostrar ainda que de forma indireta Tudo se passa como naquele jogo em que se coloca um papel de seda sobre uma moeda Riscase e devagar vai aparecendo a efígie da moeda 11 no papel superposto Tal qual a moeda o desejo não é visível diretamente adiante saberseá que ele é inconsciente e poderemos discutir o que isto quer dizer Seu desenho aparece não obstante nas sucessivas interpretações pois de tanto desenhar como é o paciente em relação a você surgirá a forma que seu desejo adquire em relação a qualquer outra figura Tal tipo de escuta que apreende o paciente em relação a seu analista responde também a um nome bastante conhecido transferência Transferência como a da moeda para a superfície do papel entendeu Caso não tenha ficado claro sugiro que experimente mas primeiro com a moeda e o papel ou na situação analítica tendo a você mesmo como paciente e alguém mais experimentado a fazer de analista Nesse jogo é preciso algum cuidado uma vez que o desejo que vai mostrando sua face é aquele absurdo a que antes eu me referia O sentimento de ser absurdo chovido por exemplo mexe com toda a constituição psíquica do sujeito É uma coisa séria realmente é o lado que determina o que somos mas desconhecemos Sentirse absurdo é muito parecido com estar louco Na verdade sentirse absurdo sem propósito e sem a expectativa de voltar a recuperar o sentido de si mesmo pode levar à loucura Na análise o sentido de absurdo é provisório o paciente recupera a si mesmo depois tendo incluído na consciência de si algumas autorepresentações de que antes não dispunha Por tal razão e porque pretende curarse de sintomas isto é para tratarse e conhecerse ele pode tolerar o absurdo provisório na expectativa de reencontrarse ampliado Mas no trânsito duma representação de si mesmo para outra na expectativa de trânsito a consciência em condição de análise experimenta uma séria angústia uma impressão de se desagregar de não saber o que é ou de não ser nada Recomendo que comece com moedas e um pedaço de papel 3 O INCONSCIENTE Não lhe quero mostrar como os conceitos foram criados ao longo da história da Psicanálise Para isso há bons textos começando pelos de Freud e seguindo com a introdução de quase qualquer livro sobre a Psicanálise Prefiro ao contrário deixarlhe clara a maneira pela qual os conceitos psicanalíticos são criados constantemente pela aplicação do método estudado no capítulo anterior Para tanto há uma forte razão É que o sentido de um conceito teórico está dado em grande parte por sua produção a teoria significa o processo que a cria e a utilização que se lhe dá Lendo este capítulo sobre o inconsciente tenha isso em mente 12 Vejamos Quando um analista produziu inúmeras situações de ruptura de campo com seu cliente foram surgindo aspectos diferentes do desejo Esquemas emocionais como o de ser chovido se comparados uns aos outros vão devagar compondo um desenho característico Em primeiro lugar tal desenho é próprio desse paciente em particular A forma especial que alguém tem de gostar por exemplo repetese tanto nos grandes amores como nas pequeninas amizades Mas por outro lado como nosso repertório não é tão vasto a forma de gostar é também um pouco mais abstratamente a forma de detestar de brincar de comer Homens meticulosos amam odeiam brincam ou comem por partes organizadamente odiando cada pormenor de quem os ofendeu saboreando cada mordia mastigando cada pormenor São pessoas que dizem E além de tudo ele ainda por cima me fez isso e tal regra emocional vale para qualidades de sentimentos diversos da partida de futebol ao banheiro Ora o repertório humano é mesmo bastante limitado Justamente quando cremos ser mais originais mais repetimos certas formas de ser que nos igualam a grupos inteiros de pessoas dáse apenas que o ignoramos cuidadosamente Por causa disso depois de interpretar vários materiais diversos de vários pacientes descobrimos que no plano do desejo há similitudes de esquemas que se repetem com notável regularidade E estes dizem respeito precisamente aos aspectos mais fundamentais dos sentimentos humanos de suas ações e pensamentos À constância de certas formas do desenho do desejo humano corresponde então uma formulação geral que os psicanalistas podem fazer referindose a tipos de emoção a tipos de pacientes ou às pessoas todas Chamamos a isso teoria psicanalítica Agora podemos entender melhor algo que talvez o preocupasse no capítulo anterior Você se perguntava se as palavras podem ter tantos sentidos diversos bastará mostrar qualquer um deles dizer qualquer coisa Na verdade não Há um guia para as interpretações psicanalíticas guia que procede do próprio produto das interpretações anteriores Quer se trate do desenho deste paciente em particular quer saibamos de antemão certas características teóricas próprias desse tipo de emoção que experimenta ou do tipo de pessoa que é sempre estaremos em busca de decifrar algo mais ou menos determinado queremos completar o desenho do desejo A esta altura você talvez se esteja perguntando Essas regras que compõem o desenho do desejo e que vão orientando o trabalho de decifração psicanalítica compreendo que estejam na cabeça do analista mas não estarão também na psique do paciente Tem razão 13 estão sim Estão no sentido de limite isto é da mesma forma que uma máquina de estampar tecidos só produz certo tipo de desenho há uma matriz para nossas emoções a que chamamos desejo que nos limita a cumprir com certas regras emocionais Há de fato uma espécie de lógica das emoções humanas bem diversa daquela que as pessoas usam para explicar os motivos de suas ações Aliás nada há de tão cuidadosamente ignorado como o lugar de onde provêm tais regras limitantes e você já deve ter desconfiado que tal lugar é o inconsciente Que significa haver o inconsciente Em primeiro lugar exatamente aquilo que eu dizia no começo uma certa forma de descobrir sentidos típica da interpretação psicanalítica Ou seja tendo descoberto uma espécie de ordem nas emoções das pessoas os psicanalistas afirmam que há um lugar hipotético donde elas provêm É como se supuséssemos que existe um lugar na mente das pessoas que funciona à semelhança da interpretação que fazemos só que ao contrário lá se cifra o que aqui deciframos Veja os sonhos por exemplo Dormindo produzimos estranhas histórias que parecem fazer sentido sem que saibamos qual Chegamos a pensar que nos anunciam o futuro simplesmente porque parecem anunciar algo querer comunicar algum sentido Freud tratando dos sonhos partia do princípio de que eles diziam algo e com bastante sentido Não Porém o futuro Decidiu interpretálos Sua técnica interpretativa era mais ou menos assim Tomava as várias partes de um sonho seu ou alheio e fazia com que o sonhador associasse idéias e lembranças a cada uma delas Foi possível descobrir assim que os sonhos diziam respeito em parte aos acontecimentos do dia anterior embora se relacionassem também com modos de ser infantis do sujeito Igualmente ele descobriu algumas regras da lógica das emoções que produz os sonhos Vejamos as mais conhecidas Com freqüência uma figura que aparece nos sonhos uma pessoa uma situação representa várias figuras fundidas significa isso e aquilo ao mesmo tempo Chamase este processo condensação e ele explica o porquê de qualquer interpretação ser sempre muito mais extensa do que o sonho interpretado Outro processo chamado deslocamento é o dar o sonho uma importância emocional maior a certos elementos que quando da interpretação se revelarão secundários negandose àqueles que se mostrarão realmente importantes Um detalhezinho do sonho aparece na interpretação como o elo fundamental Digamos que o sonho como um estudante desatento coloca erradamente o acento tônico emocional é claro criando um drama diverso do que deveria narrar como se dissesse Ésquilo por esquilo Um terceiro processo de formação do sonho consiste em que tudo é 14 representado por meio de símbolos e um quarto reside na forma final do sonho que ao contrário da interpretação não é uma história contada com palavras porém uma cena visual Essas e outras propriedades da linguagem onírica Onírico do sonho constituem os mecanismos de formação dos sonhos Mas preste atenção como conhecemos tais mecanismos Do conjunto de associações que partem do sonho o intérprete retira um sentido que lhe parece razoável Para Freud e para nós todo sonho é uma tentativa de realização do desejo A interpretação por conseguinte mostrará uma história que contém um anseio satisfeito tal como Eu queria ter isto ou fazer aquilo A culpa do que fiz não é minha Isto realmente não aconteceu Vejome assim etc A história reconstruída pela interpretação chamase conteúdo latente do sonho em oposição àquilo que o sonho efetivamente mostra que é seu conteúdo manifesto Os mecanismos oníricos portanto são a medida da transformação de um texto em outro são o que traduz o conteúdo latente em conteúdo manifesto Uma charada onde certas regras lógicas permitem transformar uma frase noutra cujo sentido é obscuro até que o charadista a mate Pois bem como na charada os mecanismos para criála não são outra coisa senão o inverso daqueles que usamos para resolvêla Se nós fizemos associações ramificadas a partir de cada elemento do sonho é natural que cada figura possa condensar várias figuras tantas pelo menos quantas tivermos associado Se descobrimos assim um outro valor afetivo para o sonho seguese que o conteúdo manifesto acentuou diferentemente em relação ao conteúdo latente tais valores realizou deslocamentos Se cremos ter encontrado o sentido verdadeiro do sonho este o exibia falso ou simbólico Se por fim ao interpretálo transformamos a linguagem visual do sonho em palavras só nos resta dizer que o sonho havia transformado as palavras do conteúdo latente nas imagens do conteúdo manifesto Simples não é O inverso do processo interpretativo o caminho de ida se a fosse o de volta atribuise ao inconsciente são os processos psicoprimários por oposição aos da consciência os processos psicossecundários Será tudo apenas um brinquedo uma charada que se inventa para resolver Não por certo e já veremos por quê Apenas você deve compreender que o inconsciente psicanalítico não é uma coisa embutida no fundo da cabeça dos homens uma fonte de motivos que explicam o que de outra forma ficaria pouco razoável como o medo de baratas ou a necessidade de autopunição Inconsciente é o nome que se dá a um sistema lógico que por necessidade teórica supomos que opere na mente das pessoas sem no entanto afirmar que em si mesmo seja assim ou 15 assado Dele só sabemos pela interpretação Todavia se não é por puro amor à charada para que servem os disfarces do sonho Os psicanalistas pensam que têm bastante utilidade Teoricamente supomos que haja uma série de forças impulsionando a vida mental Em que forma existem não se sabe ao certo Porém imaginamos que sejam forças que operam de permeio entre o físico e o psíquico Não é dizer muito sei mas é o máximo a que podemos chegar Essas forças ou pulsões representam as necessidades do organismo humano e de seu psiquismo tais como fome sexo curiosidade diga epistemofilia se quiser surpreender os seus amigos com uma palavra difícil que significa adição ao conhecimento ou curiosidade de saberetc Dessas pulsões quase nada sabemos são hipóteses teóricas Entretanto elas se fazem representar na vida mental por uma espécie de corpo diplomático os representantes psíquicos da pulsão que induz a psique a satisfazêlas Eu posso não saber exatamente o que é a fome fisiológica mas sei bem o que significa sentir fome Ora pois se eu sinto fome durante o sono é possível que acorde o que viria prejudicar outra necessidade a de repouso então sonho que como e me engano por algum tempo Pode suceder não obstante que me ocorra um desejo menos aceitável como o de redecorar a sala de visita de casa com uma pintura de fezes Não se espante as criancinhas têm vontades desse tipo e infelizmente as realizam se não houver quem lhas impeça Desejos de tal monta contrários frontalmente às aquisições duma boa educação feririam os pudores da consciência além de ferirem outros sentidos que não o estético têm de ser disfarçados há uma censura interna que lhes proíbe o acesso à consciência De forma análoga são censurados certos desejos sexuais agressivos e outros Muito daquilo que nossa vida infantil permitia na fase adulta já não pode mais nem ser pensado ou porque viole as normas de socialização ou porque contraria outros impulsos mais importantes Seria ótimo viver de brisa a preguiça o diga mas as necessidades de manutenção pessoal ficariam muito contrariadas com tal regime Para conjugar tendências tão opostas a psique lança mão de um truque De um fado ela não permite que cheguem a ser representadas cons cientemente as pulsões muito contrárias ao conjunto da vida mental duma fase qualquer da vida Não se representam porém nem por isso desaparecem em alguma parte do coração temos sempre 20 anos em outras partes 5 ou 6 meses de idade À proibição de se representar conscientemente uma pulsão denominase repressão se ela é muito 16 completa recalcamento A repressão portanto impede que a idéia ou representação dum impulso aceda à consciência contudo o prazer ou o desprazer ligado à representação não dá para sufocar Os afetos passam Só que passam e aí está o truque disfarçados ligados a outra representação ou idéia simbolizados Daí a utilidade dos processos de formação do sonho segundo Freud pois despertaríamos desgostosos caso tivéssemos contato com as idéias originais Os sonhos os atos falhos a que já me referi os sintomas neuróticos que veremos à frente funcionam pois como válvulas de escape para o reprimido Mais do que isso São verdadeiras obras de arte fundindo numa mesma idéia pulsões obstadas e a censura que as proíbe Como se os sonhos dissessem Quero isto mas isto não é isto nem sou eu que o quero Cuidado pois ao negar de muitas maneiras diferentes a mesma coisa Vamos rever esse esquema teórico Há pulsões ou impulsos Alguns deles não se podem realizar nem se representam conscientemente pois contrariam o equilíbrio da vida mental gerando desprazer Já que a mente tende ao prazer a idéia que os representa é recalcada Como o afeto não o pode ser este aparece mas disfarçado como se se manifestasse em outra idéia Esparramar as fezes pela sala é incompatível com uma pessoa bem educada pintar um quadro por mais feio que seja cheira menos mal é compatível é até meritório Modificouse o fim do impulso transformado em algo mais elevado culturalmente mais sublime denominase isto sublimação Ou então o impulso aparece menos disfarçado todavia disfarçado ainda num sonho num ato falho num sintoma Entendeu Decerto só ficamos sabendo de tudo isso através de interpretações Logo o processo de encobrimento é apenas o reverso do processo de interpretação O inconsciente por assim dizer é uma interpretação ao contrário Ora se alguma coisa parece irracional depois de interpretada ela fica bem explicável Se alguém teme um bichinho inofensivo sempre se pode dizer que este o bichinho representa impulsos autodestrutivos inconscientes E os impulsos autodestrutivos é justo temêlos Será certo pensar assim Bom não muito Senão como se costuma dizer Freud sempre explica Contudo há muitas pessoas que pensam que a Psicanálise é bem isso e há outras pessoas que a xingam por ser desse jeito exatamente como não é Pois para a Psicanálise tanto o que é incompreensível quanto o que é bem compreensível à luz da vida cotidiana merecem igualmente que se 17 interprete As pessoas comuns costumam explicar o que fazem da seguinte maneira Eu fiz isso assim porque tinha motivos Se os motivos não me ocorrem entretanto é possível que sejam motivos desconhecidos inconscientes que justifiquem minhas idéias e ações O importante você vê é manter a proporcionalidade entre motivo e ação Nem que para tanto tenhamos de inventar motivos inconscientes ou atribuir qualidades e defeitos aos outros como faz o homem preconceituoso Se você não o fez fêlo seu pai ou tio ou pelo menos você poderia têlo feito etc Nada mais diferente dessa psicologia motivacional primária do que a Psicanálise O método psicanalítico não se vale da lógica cotidiana da proporção entre motivo e ação Por que só o irracional haveria de ter motivos inconscientes e o resto O inconsciente não é um sistema de explicações para o inexplicável mas uma lógica diferente Tais explicações justificam o porquê duma idéia ou ação quando ela já se deu são racionalizações A interpretação psicanalítica visa demonstrar o processo que torna possível uma idéia ou ação a maneira pela qual nós as concebemos a lógica da concepção Não a lógica superficial do que já foi concebido Lógica da concepção lógica das emoções ou lógica inconsciente são nomes da mesma coisa mostram o como não se detém no porquê Além disso a interpretação como já vimos parte da noção de que há sempre inúmeros sentidos e não um só sentido verdadeiro Por essa última razão dáse algo curioso com a teoria psicanalítica Ela poderia explicar quase tudo é claro Por isso preferimos usála para não explicar nada a não ser o próprio processo de concepção Assim quando se usa uma teoria psicanalítica para interpretar mesmo que seja uma teoria tão respeitável como a do complexo de Édipo estamos sempre procurando refutála No mínimo estamos abertos a que a prática a refute Chamo a isso princípio de risco do processo interpretativo Aliás se uma teoria qualquer entra no começo duma interpretação concreta feita a um paciente por exemplo é de se esperar que ela saia modificada na outra ponta da interpretação Caso contrário se sai igual direi que apenas encontramos o que já tínhamos colocado que a interpretação foi teoricamente indiferente conquanto talvez até possa ter sido clinicamente útil Se a teoria se modifica se se especifica ou é corrigida aí sim penso que se tratou duma interpretação teoricamente significativa A teoria por conseguinte arriscase de cada vez que a empregamos de forma legítima na prática analítica Sempre estamos à 18 procura de outra coisa de que algo novo surja Essa possibilidade sempre presente de dissolução da teoria faz com que devamos considerar a prática psicanalítica não como conseqüência simples das nossas teorias porém como uma atividade teórica muito perigosa e radical Com efeito a prática analítica é o ponto de fusão de sua própria teoria 4 O APARELHO PSÍQUICO Se você entendeu o caminho ou método pelo qual o inconsciente se descobre e a utilização legítima da teoria psicanalítica podemos passar agora ao exame das teorias do aparelho psíquico e da libido A Psicanálise não trata de fatos materiais nem respeita os limites das convenções a respeito deles Sempre que se lhe antepõe uma divisão bem estabelecida ela deve perguntar Em que campo tal distinção se assenta E em seguida experimenta rompêlo Poucas certezas há que tão fortemente estejam calcadas em nosso espírito quanto aquela da existência dos indivíduos humanos eu ele você são referências naturais de toda sentença Pois bem ao estudar o mais individual de todos os atributos do indivíduo seu aparelho psíquico é onde precisamente a Psicanálise ameaçará romper a unidade individual Pois o termo indivíduo não evoca indivisível aquele que não pode ser dividido Mas a teoria psicanalítica do aparelho psíquico começará justamente por aí dividindoo e mostrando que ele não se centra onde pensava em sua consciência Também e talvez até mais escandalosamente a Psicanálise embora comece a investigar o aparelho psíquico em pessoas distintas confunde um pouco os limites estabelecidos de forma que o psiquismo poderia ser também coletivo social ou mesmo mais abstrato Talvez as obras humanas contenham seu próprio psiquismo talvez sejam elas a psique humana mais até que as pessoas isoladas Com efeito uma teoria geral do aparelho psíquico da máquina espiritual de pensar sentir agir deveria principiar pela distinção já estabelecida páginas atrás entre lógica do concebido e lógica da concepção Nós todos temos muitas explicações a dar sobre as razões que justificam o que fazemos e sobre a ordem que há no que pensamos porém nada sabemos dizer na vida comum a respeito das razões e ordem de concepção em si mesma da concepção que nos faz grávidos de sentimentos de idéias de ações No máximo fazemos uma atribuição indevida afirmando que chegamos a pensar sentir ou agir por causa dos efeitos que visamos obter É como dizer meu carro anda por causa do lugar aonde quero ir erro que recebe 19 dos filósofos o nome pomposo de falácia teleológica isto é engano falácia por confundir origem e eficiência com finalidade teleologismo A razão dessa falácia é muito simples Acontece que a lógica da concepção é inconsciente e mais o inconsciente psicanalítico a ela pertence Todavia não se pode limitála arbitrariamente aos indivíduos isolados há idéias e ações sociais há significados que abrangem toda a humanidade há concepção nas obras mesmas no interior delas e não só no dos seus autores Para compreender mais facilmente o aparelho psíquico entretanto comecemos com as pessoas comuns onde tudo começa Há a consciência Disso ninguém duvida pelo menos no tocante à sua que haja a dos outros é sempre um problema delicado A consciência é um desses entes difíceis de definir mas que por outro lado felizmente não requerem definição Nós a conhecemos ou melhor não a conhecemos porém tudo aquilo que conhecemos é consciência Se você disser Estou sofrendo um terrível sentimento inconsciente de culpa desconfio que me está tentando enrolar Como ficou sabendo disso A percepção que temos do mundo é consciência as lembranças inclusive a dos sonhos e devaneios são consciência A memória é consciência e só há memória de fatos mentais conscientes Por outro lado só há esquecimentos onde pode haver memória o inconsciente não se lembra nem se esquece Tudo o que se concebe numa palavra é consciência menos o próprio processo de concepção Ao investigar os processos de concepção a Psicanálise interessase por todos mas centra sua atenção na questão dos conteúdos muito carregados de afeto de prazer ou desprazer O princípio básico do funcionamento mental segundo Freud é o de evitar desprazer Nós já vimos que idéias capazes de gerar desprazer ou dor psíquica são impedidas de emergir à luz da consciência O inconsciente portanto é o lugar teórico das representações recalcadas ou daquelas que nunca puderam chegar à consciência das pulsões sem representação consciente No inconsciente segundo Freud há energia pulsional livre e representações que podem ser carregadas com essa energia provocando as maiores confusões se por exemplo o ato de escrever for excessivamente carregado com libido ou energia sexual alguém poderá sentir vergonha de escrever em público como se fora um exibicionista tímido Inconsciente é também o próprio processo de recalcamento que impede certas idéias de emergir As idéias recalcadas todavia não ficam inertes Sempre estão a jogar entre si usando como moeda a energia livre do sistema inconsciente além de 20 influírem no funcionamento da consciência À medida que nossa vida consciente se desenrola há uma espécie de entrelaçamento entre certas representações ou idéias e núcleos ou complexos inconscientes Estes podem estimulálas inibilas fazêlas penosas ou agradáveis A propósito complexo na Psicanálise significa simplesmente um conjunto complexo de idéias carregadas afetivamente como se diria um complexo industrial Nem tem sentido pejorativo nem há razão para se dizer que fulano está complexado E mais como o sistema inconsciente desconhece o tempo e o esquecimento suas representações permanecem ativas para sempre Entre o inconsciente e a consciência medeia um outro sistema psíquico que é o préconsciente Préconsciente chamase o lugar onde teoricamente estariam as representações que não sendo conscientes podem vir a sêlo bastando para isso que o sujeito se interesse por elas É o lugar do esquecido do guardado daquilo que é no máximo um tanto incômodo mas não demais O processo de relegar uma idéia ao préconsciente chamase repressão é por assim dizer menos forte que o recalcamento A verdadeira barreira da censura está por conseguinte onde há o recalcamento entre o préconsciente e o inconsciente pois os conteúdos do primeiro ainda mantêm acesso à consciência acesso fácil ou mais difícil O que lhes é essencial porém é que já se exprimem por palavras enquanto que os conteúdos inconscientes encontram vedado precisamente esse passo básico para chegarem à consciência Um dos esquemas de funcionamento da psique pois conjuga esses três sistemas consciente préconsciente e inconsciente O modelo é simples muitíssimo útil e prático sobretudo quando se quer entender os diferentes tipos de lógica operantes em nossa mente Os sistemas possuem características lógicas diversas ou como se diz também princípios diversos de funcionamento A consciência toma em conta a realidade consensual o inconsciente trabalha só de acordo com o princípio do prazerdesprazer como uma espécie de máquina de reduzir tensões mentais porque o excesso de tensão é experimentado como desprazer Porém pese sua inegável utilidade esse modelo é apenas isso um modelo Tanto é verdade que Freud mesmo criou outro modelo do aparelho psíquico também claro e útil Este segundo esquema ou segunda tópica de topos lugar não se funda na disposição dos conteúdos mentais em relação à consciência mas toma em conta as funções que a psique perfaz e as estruturas por elas responsáveis Você talvez já conheça os nomes dessas três estruturas psíquicas ego id superego 21 O id que nas palavrascruzadas tem como conceito substrato instintivo da mente é exatamente assim uma espécie de substrato de onde provêm as pulsões Seus conteúdos são os representantes psíquicos das pulsões seja os que nunca chegaram a se tornar conscientes seja os que foram recalcados Dessa forma é fácil compreender que o id é a instância original da psique Ao nascer o indivíduo psicológico seria para Freud puro id Aos poucos todavia o contato com as pressões da realidade iria provocar uma espécie de organização secundária da periferia do id fazendo que parte de tal massa indiferenciada se estruturasse mais ou menos como a crosta dum pão que está assando A essa casca organizada dáse o nome de ego O ego é a sede de quase todas as funções mentais Toda a consciência cabe ao ego que se responsabiliza portanto pelo contato com o ambiente com a realidade externa O ego nesse sentido é um simples feixe de funções percepção atividade juízo ou julgamento do que é real e dos fins a perseguir etc etc Mas o ego não é só consciência Há funções inconscientes do ego os famosos mecanismos de defesa que serão visitados por nós quando estudarmos as neuroses Por conseguinte se o id é puro inconsciente o ego ligase estreitamente ao sistema préconsciente consciência mas como todas as boas famílias também tem seu pé na cozinha A terceira instância ou estrutura psíquica o superego nada mais é do que uma parte bastante diferenciada do ego Tão diferenciada que seus interesses separamse daqueles do ego e podem se lhes contrapor O superego é uma espécie de censor das funções do ego estimula o que se deve processar proíbe o resto Para realizar essa tarefa ingrata ingrata para o ego ele se baseia nas normas morais que se fixam a partir dos primeiros anos de vida Há uma pequena discussão entre os psicanalistas para saber quando exatamente se forma o superego para nós ela não é importante basta observar que como seus critérios são fundados em normas muito precoces o juízo moral do superego é freqüentemente primitivo chocandose com as aquisições mais elevadas do ego É um juiz mas não é um bom juiz Às vezes proíbe coisas que o ego mais desenvolvido poderia fazer com perfeito sucesso só porque não o poderia ter feito nos tempos de sua origem O superego age como uma consciência moral e no entanto é fundamentalmente inconsciente e bastante imoral eis o paradoxo Essas três estruturas porém tão esquemáticas nem sempre se diferenciam No funcionamento adequado do psiquismo quando tudo vai bem formam antes um todo harmonioso O id supre energia pulsional que 22 o ego autorizado pelo superego transforma em pensamentos conscientes projetos ações a serviço dos fins das pulsões É só quando eclode um conflito que se fazem realmente notar as discrepâncias entre as estruturas Diante de uma pulsão do Id que o superego desaprova o ego vêse prensado entre exigências impossíveis de serem inteiramente satisfeitas Se a pulsão é aceita representada conscientemente e posta em ação a condenação do superego irá se expressar sob forma de dor psíquica angústia sentimento de culpa Se o acesso da pulsão é inteiramente proibido esta continuará a insistir a pedir passagem Por isso o ego acaba por barganhar aceita parcialmente a pulsão porém modificada disfarçada Tratase de um acordo de compromisso o superego fecha um pouco os olhos o id cede quanto à forma e todos ficam felizes Felizes Nem tanto Para poder impedir que uma pulsão penetre na consciência os processos defensivos egóicos o recalcamento em particular necessitam usar um tanto de energia para se opor Mas onde encontrála A solução é tão elegante quanto insatisfatória E necessário enganar o princípio do prazer que domina o inconsciente para dele mesmo retirar forças que se oporão à sua satisfação Diante de uma pulsão proibida cuja satisfação daria prazer se o superego não se opusesse há que convencer o princípio do prazer de que sucederá dor Para efetivar esse truque o ego aciona uma espécie de alarma um pequeno sinal de angústia sempre que tal tipo de pulsão se lhe apresenta à porta Como se dissesse ao id veja como isso que parece bom na verdade dói E o id enganado até certo ponto cede energias para contrariar seus próprios fins pulsionais Basta então ativar os mecanismos de defesa carregados dessa energia conseguida com um truque que envolve angústia como se vê No fim portanto todos ficam mais ou menos insatisfeitos mas o que se há de fazer a política mental pelo menos é a arte do possível Pois bem definido para você o modelo estrutural id ego superego e exercitado com este exemplo de conflito padrão ficará provavelmente a idéia de uma espécie de organograma de empresa certos departamentos responsáveis por tais ou quais funções Modelos são sempre ingratos são formas muito secas de pensar Para dissipar um pouco a impressão de esquematismo rígido vale a pena tratar de imediato da origem dessas instâncias em relação ao desenvolvimento da libido Libido você sabe é o nome usado por Freud para designar a energia sexual Como podemos conhecêla porém se energias mentais não são mensuráveis A questão está longe de admitir uma resposta simples Para 23 nós entretanto basta considerar que a sexualidade sofre transformações o objeto de interesse sexual varia bastante ao longo da vida humana mas também variam as maneiras pelas quais se satisfaz a sexualidade Disso sabemos todos E se tanto pode mudar o interesse sexual que é que se satisfaz ou não em formas tão diversas Resposta a quantidade de energia sexual seja lá o que isso signifique pois satisfeita de um modo qualquer observase uma diminuição da necessidade de satisfazêla de outro A tal constante nas mudanças Freud chamou libido que é como em latim se diz desejo A libido para a Psicanálise é a energia que pode experimentar os maiores desvios e contra tempos em sua utilização ao contrário por exemplo da energia ligada às pulsões alimentares Por isso interessanos mais Não por ser a única mas por ser a mais complicada digamos Inicialmente nos começos da vida mental a libido aparece como um algo a mais ligado às funções de nutrição O bebê que se alimenta retira do ato de sugar um prazer a mais erótico que se expressa no ato de chupar o dedo Chupando o dedo não se alimenta decerto todavia consegue algo assim como um suporte para suas fantasias de estar mamando engana a fome e a si mesmo A primeira fase da libido caracterizase por esse tipo peculiar de satisfação em que o objeto sexual é ainda o próprio corpo infantil o autoerotismo Na fase de autoerotismo não há objeto externo nem há para Freud estruturas mentais outras que o id esse reservatório indiferenciado de pulsões Logo em seguida porém o psiquismo começa a organizarse Surge o ego primeiro como um feixe embrionário de funções tais como motilidade percepção juízo de realidade depois como uma estrutura bastante coerente Acontece então que o próprio ego se torna objeto de libido de interesse amoroso o que conhecemos pelo nome tão difundido de narcisismo A libido então se voltará para objetos externos de amor primeiro para a mãe seguindose depois toda a série de escolhas sexuais que veremos no próximo capítulo Por ora quero apenas que você guarde a idéia de um equilíbrio que ademais seguirá pela vida afora entre quantidades de libido dirigidas a objetos externos de amor e quantidades voltadas para o próprio ego Isto é normal Uma decepção com os objetos externos com a pessoa amada com a profissão etc leva ao aumento do investimento libidinal do ego uma paixão ao contrário faz diminuir tal investimento exigindo que o amor que o ego perde por si mesmo seja compensado por uma retribuição provinda do objeto O ego vêse então não é apenas um feixe de funções um 24 departamento empresarial mas por igual um objeto muito estranho fonte de interesse pelo mundo e receptáculo de amor Dos amores do ego o caso mais desesperançado é sem dúvida o superego Pois o superego nasce sempre para Freud como um herdeiro da resolução do complexo de Édipo Também isso se verá melhor no capítulo seguinte No momento é suficiente reter que a criança que se resignou a não ser objeto sexual dos pais só aceita essa desilusão ao preço de identificarse com os aspectos mais proibitivos das figuras paternas que se encarnam numa parte especializada do ego Essa parte o superego seguirá doravante dizendo muito mais não do que sim dando amor a troco de obediência mesmo a exigências extremamente irracionais Será o modelo da aceitação social do conformismo às normas externas à lei do castigo Será vigilante e como todo vigilante exigirá que se lhe engane a atenção No conflito por causa de um impulso proibido vimos bem como se faz para burlálo Desde sua origem as instâncias psíquicas jogarão entre si um jogo de pequenas e grandes burlas tendo como prêmio a saúde mental quando tudo vai bem quase que não se distinguindo uma das outras lutando entre si quando fracassam as tentativas do ego de harmonizarlhes as exigências É preciso ter pena do ego Ele está dividido a serviço do id do superego e das exigências do mundo externo É um equilibrista No indivíduo normal ou passavelmente neurótico contudo sobra ao ego habilidade para jogar com as forças tão discrepantes das pulsões da censura do superego da realidade externa E ainda lhe sobra habilidade para construir a vida procriar produzir a civilização e suas obras Tenhamos pena do ego mas respeitemos suas manhas 5 A SEXUALIDADE I Se a libido desempenha o papel de motor de inúmeros processos psíquicos psicanaliticamente relevantes você pode compreender facilmente como deve ser importante definir com toda a exatidão o conceito de sexualidade Não pode ser tão estreito que não cubra todos os fenômenos correlacionados nem há de ser tão amplo e geral que se descaracterize Antes da Psicanálise consideravase em geral a sexualidade de forma algo restrita como o conjunto de atos ligados à relação sexual ou coito e em especial à reprodução A descoberta freudiana da sexualidade infantil a extensa teorização que dela os psicanalistas fizeram foi o ponto de partida para um alargamento radical do conceito 25 Por vezes este se alarga demais Pareceria que todos os sentimentos que se pudessem vincular ao amor ou ao ódio seriam sexuais pela única razão de se poder deriválos interpretativamente de diferentes destinos do amor sexual Simplismo é claro O sentido forte do alargamento da noção de sexualidade não é o de que toda a vida é um derivado da sexualidade mas o de que toda a vida é vida sexual no sentido estrito isto é todos os movimentos vitais tanto tendem à conservação do indivíduo como comportam um quantum de satisfação erótica ou de negação dessa forma de prazer Há libido investida em todos os atos psíquicos de uma ou de outra forma Por esta razão dizse que a mente e sua evolução individual é um processo psicossexual Compreendêlo fica mais fácil quando se pensa no desenvolvimento infantil Uma das descobertas fundamentais da Psicanálise freudiana foi a sexualidade infantil O que Freud descobriu de fato foi uma linha de continuidade sexual desde a infância até a maturidade onde se pensava haver um aparecimento súbito quase sem antecedentes brusco e inesperado durante a puberdade Aquela satisfação extra que vimos ligarse à amamentação vai modificar se grandemente até chegar à forma que costumamos reconhecer da sexualidade adulta Primeiro é a fase oral O prazer está então vinculado essencialmente à recepção dos alimentos A atitude dominante do sujeito nessa fase consiste numa relativa passividade como a de uma boca aberta para engolir o mundo circundante Também não há noção que distinga o si mesmo do outro o seio materno ou seu substituto é considerado como parte do sujeito infantil tudo está para ser engolido ou eventualmente rejeitado Já com o aparecimento da dentição há uma modificação profunda nessa atitude passiva pois a criança adota uma postura mais agressiva morde mastiga dilacera Daí que se distinga na fase oral um período oral receptivo e outro período oralcanibalístico ou sádicooral Durante a fase oral predominam sentimentos muito violentos em relação ao objeto de amor o seio materno Melanie Klein e sua escola estudaram profundamente essas primeiras relações de objeto Mostraram que o seio nutriente é experimentado pelas fantasias infantis como o eixo de todas as bondades possíveis é alvo de uma paixão que não encontra paralelo na vida afetiva posterior O seio bom como ela o chamava tanto representa o modelo de toda boa relação subseqüente como é também o núcleo do desenvolvimento do ego infantil Por outro lado e são dois os lados na 26 psicanálise kleiniana a experiência de sentir fome sem que o seio materno acorra para aplacála é ódio puro um inferno sem atenuantes O objeto primeiro é assim louvado ou atacado ferozmente em fantasia sem que haja possibilidade alguma de conceber unificadamente esses dois elementos polares da vida mental que só para o observador coincidem no seio materno Dominam então processos mentais bastante simples e um tanto brutais A relação entre o bebê e o mundo dáse principalmente através de um par de mecanismos chamados projeção e introjeção Entendese por projeção a tendência a atribuir certas qualidades do sujeito a seu objeto Introjeção será o contrário um engolir psíquico pelo qual partes ou qualidades do objeto são internalizados pelo sujeito O entrejogo de tais mecanismos faz com que num dado momento tudo o que haja de bom ou aprazível na vida mental seja propriedade do seio idealizado muito bom ou que ao contrário este se transforme em seio péssimo com características diabólicas O que não existe claro está é um seio mais ou menos O ego infantil por seu lado também pode oscilar entre os mesmos extremos bastando que se introjete um seio bom ou um seio mau É como se houvera dois objetos e dois egos bons e maus irreconciliáveis A isso chamamos cisão Naturalmente esse modelo do pensamento infantil da fase oral você compreende é apenas uma tentativa de compreensão Quais são exatamente os conteúdos mentais das criancinhas nós não o podemos saber com certeza os bebês não falam e se falassem nós não os entenderíamos É verossímil que as primeiras experiências mentais sejam muito fragmentárias lampejos de consciência ainda desconectadas entre si que só conhecem emoções extremas Ora uma linguagem que exprimisse tais extremos haveria de ser incompreensível para nossos hábitos adultos A evolução psicossexual infantil todavia levará a criança paulatinamente a modos mais compreensíveis de funcionamento mental Uma aquisição importantíssima segundo Melanie Klein será o reconhecimento do objeto inteiro vale dizer a dura descoberta de que o seio adorado e o seio odiado são um e de que este é parte duma totalidade pessoal chamada mãe Consciência penosa esta pois que a criança capacitase de ter atacado com ódio precisamente sua mais preciosa fonte de vida Culpa e remorso acompanham tal fusão que servirá de base a todas as vivências depressivas posteriores Por isso chamase a esse momento posição depressiva Daí para a frente muito da nossa vida mental terá por meta consertar reparar proteger aqueles bens que tememos ter destruído pelo nosso ódio E veja estamos ainda tãosomente no começo do segundo 27 semestre de vida pósnatal Pelo ângulo da evolução da libido haverá também uma modificação importante embora um tanto mais tardia A primazia da zona oral de satisfação depois do primeiro ano de vida cederá o passo lentamente para a questão do controle muscular e especialmente do controle das excreções anais A fase anal é o momento da evolução infantil onde cobra importância o dar expulsar reter Fezes são de início muito mais do que uma sujeira a ser escrupulosamente escondida São presentes ou são instrumentos agressivos projéteis perigosos A criancinha é recompensada por evacuar em hora e local devidos punida por não o fazer Junto com a posição depressiva a primazia anal introduz o drama da culpa o esforço por um bom comportamento O prazer de soltar e de reter que durante a vida toda se mantém embora não só necessariamente em relação às fezes já não é tão puro acompanhamno todos os estímulos e sanções que a sociedade utiliza para promover a educação Aliás a significação das fases do desenvolvimento libidinal não se esgota nesses passos primeiros de sucessivas superações Como a vida mental é neles formada fica sempre a marca característica das primeiras fases e de como elas foram vividas Há prazeres orais o comer o fumar o beijo e mais agressivamente a mordida o prazer de atacar destruir conquistar Também o prazer de evacuar permanece representado nos atos de expulsão tanto na doação no presente e na produção como na sensação de se livrar de coisas ruins e perigosas na expulsão violenta e aliviadora que certos jogos encarnam à maravilha A vida econômica por exemplo quanto tem de avidez de domínio de satisfação em reter Com efeito são mais que restos o que sobra das fases iniciais do desenvolvimento da libido Sobra a forma mesma de nossa vida adulta o caráter Você já ouviu falar seguramente de fixação e regressão agora poderá compreendêlas Cada estágio do crescimento infantil cada fase apenas pode ser superada se o prazer que nela se obtinha for obtido na fase ulterior conquanto em forma diversa Quando há problemas mais graves se por exemplo há muita frustração da oralidade ou exigência extrema na educação para a higiene anal o acesso à fase seguinte estará comprometido A criança então passará a repetir a última forma libidinal que lhe proporcionou adequada satisfação É como se ficasse em parte lá onde foi bom Chamase a isso um ponto de fixação Se porventura ocorre mais tarde na vida uma insatisfação maior com as circunstâncias reais o sujeito tentará a tornar aos padrões que lhe foram satisfatórios isto é regridirá aos pontos de fixação já marcados 28 O selo dos pontos de fixação fica visível no caráter do indivíduo O caráter oral receptivo alia uma certa passividade ao desejo perene de receber como se o mundo sempre lhe estivesse a dever as primeiras satisfações No caráter oral sádico há uma constante voracidade agressiva insaciável sempre atacando para conseguir mas destruindo ou desaproveitando o que consegue A primeira fase anal onde o prazer expulsivo domina leva a um caráter especialmente violento que despreza o outro que tende a expulsar de si todos os aborrecimentos intolerante a frustrações e a limites A marca da fase analretentiva a segunda é ao contrário uma espécie de cautela excessiva timidez respeitoso temor por ordens e hierarquia meticulosidade exagerada Dito assim parecerá talvez que se trate de doenças Não São feitios de caráter normais ou quase onde os desvalores apontados comportam igualmente certas boas qualidades Ser cordato ou empreendedor ser agressivo ou meticuloso quando não se está nos extremos pode apresentar utilidade para a vida pessoal e social O importante é porém que você note como as fases do desenvolvimento da libido não são realmente abandonadas Superação nesse caso significa apenas integração É como se para construir uma figura começássemos com um lado a fase oral juntandolhe outro depois sendo o ângulo formado a fase anal Se agora juntarmos um terceiro teremos um triângulo representando a fase fálica que veremos em seguida Nessa analogia a vida psicossexual dos adultos representarseia por uma pirâmide de base triangular Isto é passamos dum segmento a um ângulo deste a uma figura plana e a um sólido tridimensional Houve integração numa estrutura de ordem superior não abolição da estrutura anterior Compreendeu Esse quadro dos começos da sexualidade na criança hoje nos parece mais ou menos comum Não era assim porém quando Freud o expôs pela primeira vez no começo do século Foi um tremendo escândalo E se as fases oral e anal escandalizaram nossos avós que dizer da fase fálica Pois a fase fálica já é sexual mesmo para o mais obtuso Nela por volta dos 3 aos 5 anos o interesse erótico concentrase nos órgãos genitais no pênis no menino na vulva clitóris e vagina na menina E há masturbação assim como fantasias sexuais com pessoas reais Escândalo puro já se vê para uma sociedade que cria nascer o sexo apenas na puberdade e olhe lá Os objetos de amor agora como todos sabem são os pais Se o primeiro objeto externo é sempre a mãe na fase oral agora será o genitor de sexo oposto ao da criança geralmente O menino anseia por possuir 29 sexualmente a mãe a menina o pai e ambos consideram o genitor de mesmo sexo como um rival perigoso Odeiamno E aqui surge o problema também o amam carinhosamente pelo que dele recebem de afeição e cuidados A ambivalência ódio e amor simultâneos é o grande problema da fase fálica Essa relação triangular carregada de ciúmes conhecese como Complexo de Édipo nome daquele rei mítico de Tebas que tendo matado o pai sem o saber acabou desposando a própria mãe Acresce ao drama da criança edipiana além da ambivalência o fato óbvio de sua incapacidade efetiva para concretizar uma relação sexual Pobre pequeno com sonhos tão ambiciosos Sente que sua incapacidade provém da proibição dos pais sente cada punição como um castigo pelos desejos proibidos como castração numa palavra As fantasias edipianas dão culpa os limites e frustrações impostos pelos pais parecem castigos por tais culpas Por fim vence o desejo de paz A criança aceita renunciar ao objeto de amor sexual por medo da rivalidade poderosa do genitor de mesmo sexo e pelo repúdio que experimenta de seu amado O menino por temer a perda do precioso órgão genital que cada reprovação ou castigo parece ameaçar concorda digamos em ser provisoriamente castrado isto é em renunciar ao uso do pênis por um certo tempo Em troca não pretendendo permanecer em luta com o pai trata de imitálo identificase com as qualidades do pai castrador tornase um homenzinho Com a menina dáse algo mais complicado em teoria Primeiro seu amor inicial pela mãe a primeira a prodigalizarlhe satisfações genitais durante os cuidados de higiene corporal tem de mudar de direção Provavelmente isso se consegue por uma decepção prévia A menina que constata as diferenças sexuais com um irmão ou amiguinho estabelece uma teoria infantil segundo a qual faltalhe esse órgão tão valorizado o pênis não por não o ter mas porque o perdeu ou ainda não se ter desenvolvido Responsabiliza a mãe por tão desagradável condição rompe com ela e passa a dirigir seu amor ao pai Por isso costumamos dizer que o menino sai do complexo de Édipo através da castração enquanto a menininha pela castração nele penetra De qualquer modo em ambos os sexos há uma aceitação forçada da castração e renúncia provisória da satisfação genital que permite voltar o interesse mental para atividades outras como o brinquedo e o estudo no período conhecido como de latência Em ambos os sexos também a fase fálica de falo pênis é riquíssima em 30 fantasias ocorrendo curiosas teorias a respeito da sexualidade e reprodução As teorias infantis postulam que os bebês nascem pelo ânus como as fezes imaginam castrações fantásticas onde um simples corte no dedo uma extração de amídalas etc têm sentido muito agourento Com base nessas fantasias edipianas é que se estabelecerão os tipos de objeto de amor da vida adulta Representarão os pais porém de maneira mais ou menos disfarçada não raro recaindo a escolha em figuras francamente opostas aos primeiros objetos de amor O temor à castração pode ser tão terrível aliás que um menino talvez renuncie precipitadamente ao genitor de sexo oposto oferecendose por medo àquele de mesmo sexo como objeto de amor Não me castre não me mate mas ameme que me ofereço seria a forma do Édipo invertido fundamento de quadros posteriores de homossexualismo O mecanismo dominante na fase fálica durante a resolução do complexo de Édipo sobretudo é pois a repressão Mais forte ou menos forte será um herdeiro para toda a vida Compreendese então que a introjeção das proibições paternas causa primeira da repressão fixese nessa fase e que a identificação com o genitor de mesmo sexo deixe um ideal e uma fonte de censura Como já vimos essa fonte de ideal e censura consolidase numa estrutura permanente conhecida como superego O período de latência dura até a puberdade Renascem aí com violência os interesses eróticos já voltados entretanto para substitutos dos pais Esta é a fase genital propriamente dita onde muito do que importa já está determinado O que se disse até aqui deve ter formado em você uma idéia bastante difundida e que justa mente gostaria de desfazer Talvez lhe pareça que a sexualidade segue um caminho bastante tormen toso até chegar com sorte ao porto seguro da genitalidade ou normalidade sexual um erro Não existe tal sorte e se existisse talvez não fosse sorte A imagem do adulto normal que se satisfaz exclusivamente com o coito é por si uma espécie comum de perversão Como o adorador de objetos fetichista de sapatos ou calcinhas como o exibicionista ou como aquele que só encontra prazer em relações sádicas o supernormal que renuncia a tudo menos ao coito reduz excessivamente a riqueza da relação sexual Perversão é na verdade qualquer versão restritiva da sexualidade ou do real em sentido mais amplo A vida sexual normal se isso tem sentido é uma arte prática de fantasias vívidas de sonhos de jogos difundida pelos atos todos da vida e não só os da cama embora comportando também renúncia e sublimação As cenas que alimentam as fantasias sexuais vãose acumulando no 31 transcorrer do desenvolvimento infantil Fundamentais são por exemplo as fantasias de sedução provindas dos primeiros contatos com a mãe Os estímulos genitais que acompanham o trato da criança pequena marcamna com uma intuição talvez não de todo errônea de ser por ela amada e desejada sexualmente que no futuro será preenchida por experiências com companheiros de brinquedo e adultos E isto é normal Outra fantasia dominante é a de ter presenciado relações sexuais entre os pais O isolamento em que a criança vive quando os pais estão fechados no quarto é vivido sexualmente mesmo que nunca a visão do coito paterno haja ocorrido O simples jogo da presença e ausência da mãe na primeiríssima infância com todo o peso da frustração que carrega as fantasias sexuais o desejo de ser capaz de operar magicamente o controle desse ir e vir que foi sofrido passivamente Todas essas fantasias podem ter um efeito traumático isto é marcar dar forma especial conformar a um nó o desejo Para existir o trauma não é preciso que algo terrível tenha sucedido Ao contrário São pequenos fatos pequenas seduções frustrações minúsculas que se somam e se organizam em fantasias prevalentes diversas para cada indivíduo Não há que tanto as temer É falsa a imagem comum que opõe pulsão a trauma como se a pulsão tivesse um caminho natural que os traumas impedem ou desviam O trauma é antes a forma da pulsão da maneira em que um nó é apenas a forma do barbante em que se deu Caberá à análise desfazer alguns nós é claro mas não é sequer possível pensar o barbante pulsional sem forma alguma mesmo que esta seja embaraçosamente nodal 6 A SEXUALIDADE II Nos três últimos capítulos tratei de resumir para você algumas das teorias psicológicas mais tradicionais mais básicas e universalmente aceitas da Psicanálise São instrumentos ferramentas que todos os psicanalistas empregam para organizar teoricamente o que descobrem nas sessões Pensase geralmente que tais ou quais teorias constituem artigos de fé Não constituem Se como instrumentos deixam de ser úteis abandonamolas como facas embotadas ou alicates com ferrugem Pelo menos é o que se deveria fazer Pois o único instrumento perene tão duradouro ao menos como a própria Psicanálise é seu método tal como o estudamos no segundo capítulo o processo mesmo pelo qual as teorias são criadas Para que você entenda o que é a Psicanálise título e propósito deste opúsculo não basta por conseguinte ter uma idéia vaga das teorias melhor estabelecidas é necessário também acompanhar o processo de expansão 32 teórica o caminho que leve à produção de novos interpretantes Convidoo pois a brincar de teórico junto comigo tomando por tema a psicologia dos sentimentos e como ponto de partida a própria sexualidade Ainda que não cheguemos a grandes conclusões o que aliás não se pode garantir de antemão ou que não depositemos confiança excessiva nos resultados o simples percurso o esforço de pensar teoricamente ensinará muito melhor do que um relato de esquemas já estabelecidos como se fabricam os conceitos da Psicanálise Creio que você já percebeu na investigação da sexualidade quão preocupados estão os psicanalistas em determinar a seqüência que gera a sexualidade adulta a partir de alguns poucos princípios e pulsões vigentes na primeira infância Denominase genético esse ponto de vista de gênese origem e já deixei dito que ele é muito útil Em sua versão mais radical a de Melanie Klein basta considerar dois grandes ir afetivos inatos ódio e amor ou se preferir instinto de morte e instinto de vida Acrescentando lhes dois mecanismos básicos projeção e introjeção já temos os alicerces da vida mental rudimentar Amor projetado dá objeto bom reintrojetado dá um self ou si mesmo bom etc etc E como o bom e o mau não se misturam de início deles derivase também o mecanismo de cisão a idealização o muitíssimo bom o bom demais os temores persecutórios do muito mau do mau demais e já se anuncia o drama depressivo quando o que está ainda separado vier a se juntar etc etc etc Até aqui tudo bem Vamos supor todavia que por um motivo qualquer você não simpatiza com a idéia de instintos fundamentais e mecanismos primitivos Na verdade a questão não é bem de simpatia dáse simplesmente que a noção de instintos primários é um tanto obscura e afirmativa demais Tudo estará perdido o método não mais se poderá usar Absolutamente O que teremos de fazer será tomar como ponto de partida alguma tendência geral mais simpática ou menos obscura progredindo não tanto pelos caminhos da gênese infantil mas pesquisando ao contrário a forma pela qual os sentimentos se afinam e ganham especificidade em qualquer altura da vida Vale isso dizer que estaremos interessados em conhecer a gênese lógica da lógica das emoções É um caminho Vejamos se presta Um sentimento básico bastante conhecido de todos nós é o desejo de ser inteiro de bastarse a si mesmo A própria teoria do narcisismo afirma algo assim Ademais todos os sonhos de grandeza e imortalidade levamnos a pensar que no fundo bom mesmo seria fecharse em si mesmo num amor autocentrado cujo excedente apenas se pudesse esparramar pelos outros como o dos deuses nas religiões monoteístas 33 Ora a posse integral de si próprio é infelizmente impossível ou felizmente caso contrário posto que satisfeito cada homem seria o último homem na Terra nem haveria obras ou civilização Somos muito dependentes do meio e da sociedade e além disso não nos conseguimos conhecer diretamente só no confronto com os outros é que sabemos de nós Conformarse com isso Bem não há outro jeito Porém mesmo aceitando a indispensável abertura para o outro resta sempre um sentimento de perda básico e inevitável como que uma saudade de si embora referente a um estado de posse absoluta que nunca houve ou haverá Será irracional talvez mas os homens são assim nostálgicos precisamente do que tãosomente imaginaram ter possuído Chamemos a esse estado de perda luto primordial Como em qualquer estado de luto existe pois a tendência a procurar outros objetos ou pessoas que substituam o bem perdido Em nosso caso sendo o bem perdido essa integridade absoluta e independente os objetos substitutos serão nada menos que o mundo inteiro o mundo externo a pessoa amada o trabalho os amigos o lar etc Quer dizer que não há propriamente objetos primários todos são objetos substitutivos inter cambiáveis representantes sempre do próprio sujeito É como se para o mundo houvesse uma fuga constante do homem descontente com sua incompletude A concepção acima que semelha à primeira vista um jogo de idéias descomprometido e brincalhão depressa mostra no entanto ser mais que isso De fato é próprio das relações de objeto psicanalíticas ou seja dos vínculos emocionais com pessoas e coisas esse caráter de fuga em direção a figuras eminentemente inter cambiáveis Mesmo o sentimento de perderse nas relações externas é verdadeiramente universal demonstrá lo porém seria um pouco longo É suficiente que você reflita em como se sente um tanto vazio e ansioso por se recolher após um período de muito contato pessoal numa festa por exemplo Não é raro que pessoas terminem a alegria em choro Ou pelo menos pense na necessidade periódica de sono Se é assim se no outro vou buscar a mim mesmo perdido pareceria lógico que minhas relações tendessem à fusão total Se não me posso fundir comigo mesmo que o faça com o outro Isso existe com efeito mas decepciona A fusão total e violenta com o outro anulao destróio e não satisfaz É o princípio teórico do sadismo que pretende invadir o parceiro comêlo ou penetrálo até a alma Na prática o sadismo é uma arte mais sutil Se o sádico aniquila a sensibilidade do parceiro fica com as mãos vazias Seu intuito cumprese melhor parando na metade dominando apenas na medida certa que lhe mostre poder produzir efeitos notórios 34 inegáveis sobre a outra pessoa Ora quase todos os estímulos sensoriais podem ser negados ou disfarçados por quem os sofre menos é claro a dor Daí quem sabe a paixão toda especial que tem o sádico por infligir dor a dor física ou moral sendo inegável sustenta a ilusão de estar fundido como uma parte ativa numa outra feita só de passividade Quantas relações humanas duradouras quantas amizades e casamentos não são mais que atos sádicos prolongados fervendo sempre no seu próprio caldo Enquanto o objeto de apego sádico não se deteriora seu apelo mantémse e mantémse a relação São em geral pequenas vitórias e pequenas concessões que a alimentam a relação sádica raramente explode em violência O apelo sádico consiste numa espécie de atração dum objeto que oferece a possibilidade de ser constantemente vencido sem se considerar derrotado de vez sem parar de resistir e morrer Pois bem você já deve ter entendido que o apelo sádico constitui o mais eficiente e primário lenitivo para a perda de si mesmo ou luto primordial No entanto a fuga para os objetos ao passar pelo sadismo por sorte não precisa aí estagnarse É possível que o sujeito aceite uma troca de influências uma reciprocidade É um acordo complicado sem dúvida Percome em você e em você me recupero permitindo como contrapartida que você elabore em mim seu próprio luto Emprestolhe minha sensibilidade em troca da sua os dois saímos mais ou menos satisfeitos Se é assim a relação não precisa fundarse no irrecusável na dor porém no interesse de conservação recíproca e no prazer A partir desse ponto já se deve falar de elaboração sexual da perda de si mesmo pois a fusão bastante equilibrada apóia se num apelo provindo das fantasias aprazíveis Entretanto para que isso aconteça será preciso antes franquear a verdadeira porta de entrada da sexualidade que o apelo sádico constitui Mas reciprocidade não quer dizer necessariamente simetria Tomemos o exemplo do voyeurismo Considerase o voyeurismo uma perversão mas logo veremos o que significa tal juízo consistente em que o prazer se obtém principal ou unicamente pela contemplação do corpo alheio Não é preciso no entanto que o voyeur se arme de binóculos ou freqüente um cabaré A vida cotidiana oferece margem suficiente para tal tipo de prazer assim como oferece seu complemento no exibicionismo É um encontro de prazeres Fundamental todavia para o prazer voyeur assim como para o exibicionismo é a existência do quadro correto Podemos figurálo materialmente como a janela do prédio fronteiro onde uma jovem se prepara para dormir Porém mais geral e mais simples serve ao voyeur e 35 ao exibicionista qualquer parte limitada do real que separe sua experiência da vida rotineira Seria isso sim de imenso mau gosto se a jovem sub repticiamente admirada tocasse a campainha do apartamento e se oferecesse abertamente ao voyeur O quadro do real é o fundamento de seu atrativo convém não o esquecer A sexualidade então há de ser entendida pelas qualidades do apelo que seu objeto exerce Tratase em primeiríssimo lugar de um recorte apropriado do real duma área bem delimitada e especial comparável ao quadrado da janela alheia no caso do exibicionismovoyeurismo Em segundo lugar para que o apelo ganhe máxima eficiência para que alcance o fascínio será requerido um equilíbrio adequado dos componentes do atrativo E estes são dois O fascínio obtémse por uma adequada mistura de mesmo e de outro Explico Para que a fuga em direção ao objeto seja satisfatória você entende é essencial que este o objeto de prazer sexual seja bastante próximo do sujeito seja o mesmo Pedras nuvens espirros dificilmente fascinam sexualmente Se eu devo me encontrar ali eu que me perdi de minha inteireza há de ser num igual numa espécie de mim mesmo Contudo o sentimento de absoluta identidade e interioridade no encontro com o objeto sexual é paradoxalmente desagradável Como se algo de interno saísse para fora e lá encontrado tivesse de ser posto para dentro de novo Imagine pôr para fora a saliva e voltar a engolila é cuspo enoja Pois esta emoção o nojo representa com perfeição o sentimento que nos desperta o encontro com aquilo que é demasiadamente igual e interno Por outro lado estar diante do alheio do estranho suscita um sentimento de parecido desagrado Algo que semelha a forma humana sem ter seu estofo provoca o riso fazse ridículo É a marionete o autômato o macaco ensinado Estes não dão asco são distantes fazem rir Ora é justamente da adequada composição entre identidade e outridade entre fusão e alienação isto é entre nojo e ridículo que nasce o apelo mais forte da sexualidade o fascínio Interessanos dentro dessas especulações pôr em relevo a impropriedade de se crer numa linha reta e ascendente de transformações que desemboca na sexualidade adulta ou genitalidade Não há aperfeiçoamento não há normalidade final Desenvolvimento há decerto mas não se coroa numa integração final o estado final constróise a cada momento é feito do equilíbrio de contrários duma mistura sábia de elementos desagradáveis como na composição de um bom coquetel ou 36 perfume Isto quanto à composição do fascínio Porém há mais Até certo ponto os esquemas emocionais como este do apelo sexual independem da qualidade especial dos afetos envolvidos a regra é mais geral do que a substância Tomando como exemplo o fascínio muitos outros exemplos de regras seriam utilizáveis fiquemos neste sua composição explica tanto o apelo sexual como também o apelo exercido pelos delírios talvez a fascinação das aventuras talvez certas propriedades do apelo artístico Como podem ver nossa investigação duma regra teórica levanos de imediato às portas de várias descobertas ramificase inesperadamente Por fim um último resultado desta investigação diz respeito à própria noção de realidade Tradicionalmente cremos que exista uma realidade normal prejudicada apenas nas doenças psíquicas Ora a constatação de que há tãosomente quadros mais ou menos satisfatórios do real para cada estado de emoção põe em dúvida tal certeza do senso comum Com bastante certeza temos o direito de afirmar que diversas constituições do apelo sexual apelo sádico voyeur apelos homossexuais de vários tipos muitas formas de monogamia ou poligamia etc etc exigem para sua satisfação quadros diferentes do real correspondentes às fantasias dominantes em cada caso Se a satisfação só se pode obter num quadro muito exclusivo se o indivíduo é uma espécie de profissional altamente especializado num quadro apenas seja este feito de sapatos à meialuz ou de correntes e chicotes ou de televisão e cama com justiça chamamolo perverso Posto que a perversão é só uma versão restritiva da sexualidade o real onde se cumpre restrito será o de uma perversão do real Se há sentido em aludir à normalidade será ela simplesmente um tipo de muitos tipos multiplicidade e variedade de condições tidas como satisfatórias pelo sujeito dito normal Cada sentimento por conseguinte constrói uma espécie algo distinta de real Vejamos O real saudoso por exemplo é curiosamente fluido As coisas as pessoas não se individualizam por completo São como ondas os fatos nada é inteiramente presente ou inexistente pois há um lugar de que o presente é só um resto que guarda o sentido todo de ser real A ele chamamos relicário É uma parte pequenina do mundo centro imaginário onde está representado o bem perdido a situação ou pessoa amada e que mantém a fusão do sujeito consigo mesmo Pode ser um quarto um panorama uma música O resto está ali fora não é negado todavia só existe como uma espécie de flutuação das ondas que provêm do relicário Já o real teimoso consiste numa coagulação É duro feito exatamente de 37 coisas concretas ordenadas porém numa seqüência lógica em relações de causa e efeito O real da teimosia é pura extensão Seu centro é o teimoso claro mas cada elemento teima também teima em ser só isso que é pedra é pedra branco é branco ou é preto se o teimoso assim o quer Não há como comparar os dois não se fundem nem são miscíveis A única junção possível mas difícil é quando a saudade afeta a teimosia Nesse caso ocorre algo raro e maravilhoso o teimoso pode curarse da própria teimosia a teimosia sara na saudade Segundo o modelo que juntos desenvolvemos neste capítulo as regras emocionais criam formas específicas do real reais diversos de diversos apelos sexuais real saudoso real teimoso e inúmeros outros reais que deveriam ser descritos A realidade então só se resume a ser uma espécie de redução através da rotina de campos muito diferentes entre si cuja análise pode restituir sua diferença por evidenciálos no processo chamado ruptura de campo Como você está vendo nossa teoria além de mostrar como se produz uma concepção psicanalítica geral está perfeitamente de acordo com aquilo que verificáramos ser o método psicanalítico no segundo capítulo Sendo assim dizse que é uma teoria legítima ou seja tem propriedades que correspondem bem ao método que a criou Ainda que um pouco mais difícil que outros capítulos posto que trata de coisas menos conhecidas e popularizadas este deve ser lido e relido com cuidado já que a única maneira de compreender a teoria psicanalítica é nós mesmos experimentarmos fazer trabalho teórico Como qualquer jogo ou arte a teoria da Psicanálise só se aprende fazendo 7 PSICOPATOLOGIA O desenvolvimento da personalidade pode culminar em estados mentais diferentes Vários desenlaces possíveis predomínio maior de traços orais ou anais diversos destinos da resolução do complexo de Édipo múltiplas reações individuais a perdas cabem nos limites da psicologia normal E também existem anormalidades psíquicas objeto de estudo da psicopatologia psicanalítica Existe o anormal a doença psíquica ou como quer que se lhe chame No entanto a Psicanálise renovou o sentido do patológico Filha do princípio do absurdo nossa ciência quer encontrar nos estados patológicos um instrumento precioso para a compreensão da vida mental recusando ao mesmo tempo a estrita distinção entre normal e doentio Daí dois exageros 38 de sua popularização Alguns popularizadores da Psicanálise anunciam felizes que não existe mais doença no campo psíquico o que seria ótimo caso os pacientes tivessem a gentileza de não mais sofrer Outros mais simplistas ainda preferem esvaziar a distinção afirmando que não há normalidade que somos todos no mínimo neuróticos Tolices Para superar os preconceitos contra as doenças mentais é necessário primeiro admitir sua existência depois compreendêlas e só por fim traçar as linhas de continuidade com a vida comum As neuroses por exemplo existem e doem muito Todavia o sintoma neurótico tem equivalentes próximos nos sonhos nos atos falhos e no resultado de certos conflitos cotidianos mais fortes Diferenciam as neuroses a persistência e intensidade de suas manifestações a especificidade dos conflitos geradores Dirseia que o neurótico ou o psicótico especializouse num certo padrão enquanto a normalidade é feita de variados conflitos de inúmeras fixações parciais de pequenos sintomas dispersos Se ao ler este capítulo você se encontrar um pouquinho em cada quadro descrito não se assuste demais a normalidade psicológica aproximada a que existe é feita dum mosaico psicopatológico inespecífico Na raiz das neuroses encontrase uma disposição inata pouco conhecida As pessoas nascem diferentes tanto no corpo como no espírito Quanto à constituição cremos que seja importante mas sabemos pouco a respeito É fato que certas crianças toleram menos as frustrações que outras contudo quando podemos estudálas já viveram já enfrentaram um meio ambiente bastante especial e dificilmente comparável mesmo ao de seus irmãos Pois o meio inclui precisamente os irmãos as idéias e sentimentos que os pais têm a seu respeito e que em parte já derivam também da própria forma de ser da criança O que pois é inato Como descontar a complicada reciprocidade das relações afetivas nos primeiros meses de contato com os pais Por conseguinte desprezando distinções impossíveis vamos nos contentar em descrever algumas formas características de neuroses e psicoses assinalando os tipos de conflito os mecanismos de defesa e os sintomas mais comuns Comecemos pela histeria O ponto de fixação teórico da histeria é a fase fálica Já não se acredita que um grande trauma isoladamente responda pela origem das neuroses são pequenos incidentes traumáticos frustrações acumuladas de um mesmo tipo que dão forma de nó aos impulsos impedindo que se satisfaçam medianamente Ora o drama edipiano carregado de ambivalência de 39 experiências de incapacidade e humilhação afetiva constitui um ponto especialmente delicado da evolução psicossexual Não é difícil portanto que a criança fique emocionalmente paralisada temendo agudamente as ameaças fantasiadas de castração enquanto persiste em orientar seu amor e sua rivalidade para as figuras originais do conflito pai e mãe Talvez não dê mostras disso Pode mudar de assunto por assim dizer interessarse normalmente pelos amiguinhos ou pela escola porém quando o interesse sexual recrudescer na puberdade enfrentará um problema complicado Cada escolha amorosa ulterior haverá de manter o mesmo sabor incestuoso e proibido a mesma sensação de incapacidade e ciúmes da relação fálica com os pais Então será preciso reprimir as pulsões sexuais não haverá experiências novas e aprendizagem afetiva numa palavra a sexualidade será traduzida em desprazer e nojo Mas a repressão não funciona totalmente O aparecimento na consciência de impulsos sexuais toma então um caráter de angústia como se avisasse o sujeito de que algo doloroso está por vir E vem pela ação condenatória do superego que continua vendo em cada pessoa atraente uma nova versão dum genitor e age ele mesmo como se fora o outro Predomina na histeria o mecanismo de defesa conhecido como recalcamento Os sintomas são geralmente manifestações de angústia Há quadros em que domina uma angústia flutuante ora mais moderada ora mais intensa quase sem representações que lhe indiquem a origem Outra forma comum de sintoma de angústia são as fobias Situações como estar encerrado em espaços limitados um elevador por exemplo ou encontrar se à beira de um lugar alto ou em meio à multidão pequenos animais não muito perigosos baratas ratos aves situações sociais particulares como festas ou entrevistas em suma condições não especialmente graves provocam um medo extremo insuportável como se simbolizassem perigos internos impulsos de autopunição suicida fantasias violentas de penetração sexual etc Ou a angústia manifestase por crises intensas ataques de ansiedade em que o paciente se debate chora e ri descontrolado parecendo representar um grande drama afetivo terminando numa espécie de desmaio onde não há entretanto completa perda de consciência Mas há também formas sintomáticas onde a angústia parece estar ausente Paralisias de membros dores ou insensibilidade localizadas tosse tiques etc Sempre porém inexistem lesões orgânicas que justifiquem os sintomas e o que é mais importante os sintomas representam simbolicamente a pulsão proibida e o esforço de controlála Assim uma paralisia com contratura dum braço pode significar um impulso a se masturbar conjuntamente com a proibição de fazêlo um gesto 40 interrompido É que o afeto ligado à pulsão sexual não pode ser reprimido Reprimida a representação o ato sexual esse afeto extravasase como angústia ou alimenta movimentos convulsivos gestos paralisados etc A tais manifestações somáticas físicas da pulsão reprimida chamamos conversões Já a neurose obsessiva é fruto de um equívoco Sabe quando alguém se engana a respeito do fundamental e com a sensação de que há algo errado fica procurando atormentadamente acertar os pormenores Se na avenida Paulista ao invés de se dirigir para os lados de Perdizes você virou o carro para o Paraíso é provável que estranhe cada esquina e tente resolver o enigma da ordem invertida em que aparecem os prédios conhecidos Só que o obsessivo honesto se perguntará talvez quem trocou as penas da perdiz pelas dos anjinhos Isso porque a dúvida obsessiva é uma dúvida simbólica O ponto de fixação da neurose obsessiva localizase na segunda fase anal ou fase anal retentiva Porém aí já existe o engano básico O candidato às obsessões chegou a penetrar na fase fálica experimentou o complexo de Édipo todavia não suportando a ambivalência edipiana regrediu imediatamente para a fase anal retentiva Ou melhor é como se tivesse vivido o conflito edipiano num registro anal tentando reter tudo principalmente os sentimentos e provando a paixão libidinal como se fora agressividade O mais perigoso para ele é portanto o amor Este sim destrói A agressividade anal que cobre seus pensamentos também produz angústia é fortemente proibida porque no fundo se dirige contra os objetos mais preciosos os pais Medidas defensivas são empregadas contra a destrutividade é claro A mais comum chamase formação reativa mecanismo de defesa que inverte o sentido dos afetos exagerando muito o pólo oposto ao original isto é o ódio do obsessivo transformase num cuidado extremo num medo supercauteloso de ferir alguém Ele se examinará dez vezes antes de dizer algo pois pode chatear o interlocutor o que vai tornálo é óbvio muito cansativo e chato Sobretudo há que se acautelar contra a perigosa descoberta do amor Há uma forte impressão de que o amor mata razão que o leva a ensaiar uma manobra obscurecedora Quando uma idéia ou um acontecimento s carregados de forte valor erótico ou agressivo ocorre uma espécie de distração uma pausa no pensamento que permite desligar o afeto experimentado da representação que o motivou em seguida um gesto ritual ato ou pensamento anula o sentimento proibido Exatamente como 41 um homem supersticioso pretendendo isolar a urucubaca Aliás a própria idéia de azar é obsessiva Quando sinto que meu amor destrói o outro devo substituir amor por raiva que é menos perigosa depois raiva por cuidados para protegêlo e a mim dos efeitos dela Mas como cada novo sentimento recobre um sentimento oposto também o representa simbolicamente resulta que em cada idéia ou emoção ocultase ameaçadora a marquinha azarenta da destrutividade Por conseguinte enganado quanto ao fundamental ignorando que os cuidados representam raiva e que a raiva representa um perigoso amor o obsessivo como aquele motorista equivocado tem de olhar duas vezes cada idéia repetila examinála ao microscópio para certificarse que não entrou nela subrepticiamente um sinal do afeto proibido E é uma catação infindável porque aquilo que ele procura entre as letrinhas miúdas constitui o papel mesmo em que o texto foi escrito Daí provêm os sintomas obsessivos Um jogo de esconde esconde Sob o cuidado a agressão sob a agressão oculta a sexualidade proibida Então o paciente tem de súbito uma idéia horrível matar uma criancinha defecar na igreja etc algo que mostra o gosto pela sujeira anal sob a mania de limpeza a destrutividade sob os cuidados filantrópicos a sexualidade anal sob um puritanismo desmedido São pensamentos obsessivos ele sente como se não fossem seus vêm à força preciso contra atacálos com rituais protetores nomesdopadre bater em madeira pensar ou dizer três vezes uma fórmula mágica repetir um pequenino gesto O contraataque não pode ser sustado é compulsivo realizálo Deve tomar banhos demoradíssimos se a tendência à sujeira o domina se quer envenenar a família há de verificar cinco vezes se o gás está fechado Assim é a vida obsessiva Meticulosa filantrópica boazinha repetida cheia de superstições racionalizadas No fundo o impulso anal que deve ficar oculto sobretudo porque é um impulso amoroso sexual O equívoco fundamental levao a uma autoobservação constante que porém escrutinando os detalhes não enxerga o essencial A vida do obsessivo é o rodopiar dum cão atrás da própria cauda que ele suspeita não sem razão ser uma cobra atrás do ânus cobra símbolo da sexualidade e do veneno do toque fascinante e mortal Pois bem isso é a neurose Ou antes eis aqui uns pequenos esboços de dois quadros neuróticos característicos Já chega contudo para compreender que neuroses são produto de conflitos pulsionais em que a satisfação fica proibida pela censura do superego desconectandose então a representação prazerosa geralmente sexual do afeto correspondente o qual é desviado para a constituição de sintomas Isto é Freud É uma teoria bastante tradicional e que provou ser utilíssima E até verdadeira 42 Para as outras doenças psíquicas no entanto as teorias psicanalíticas são menos categóricas Há uma boa teoria geral das neuroses na Psicanálise mas um paciente pode escolher digamos uma perversão uma psicopatia uma psicose Perversões e psicopatias são uma forma de enlouquecer sem ficar louco louco fica quem tem de lidar com elas Nas perversões o sujeito realiza de fato o impulso proibido Tratese de um voyeur de um sádico de um comilão compulsivo ou de qualquer outra especialidade o indivíduo põe em ação justamente aquilo que lhe está vedado pelo superego Nas psicopatias dáse algo parecido O que está comprometido porém é a relação com a sociedade o respeito e as inibições impostas pela vida em comunidade É uma solução prática Em vez de reprimir o impulso executoo anulando a instância repressora e danemse os outros Superficialmente ao menos parece não haver angústia os atos estão em sintonia com o ego como se o superego estivesse ausente Na verdade este o superego é tão forte e tão exigente que toda a relação com ele se torna impossível O resultado é que os atos psicopáticos e perversos acabam procurando sua punição não na vida interna mas na externa São pessoas que se fazem desprezar que roubam mas se deixam prender etc O problema da psicopatia já se vê ligase profundamente com a vida social Nossa sociedade é um tanto psicopática e perversa Somos estimulados a enriquecer por quaisquer meios somos tentados ao consumo indiscriminado se andamos na rua ou folheamos uma revista convidamnos ao voyeurismo O sadomasoquismo está vigente no seio das instituições o operário padrão será um masoquista a polícia sádica Assim nas perversões e psicopatias aparece em nível pessoal o retrato quase puro de certas instigações sociais das que o neurótico foge por seus sintomas Esse princípio do deixar que saia tudo sem se importar muito com o meio está ligado teoricamente à fase anal expulsiva como vocês já devem ter suspeitado E há por fim as psicoses Primeiro a melancolia que é um estado de luto permanente e exageradíssimo e a mania nome que se dá àquele quadro em que a depressão extrema é substituída subitamente por uma sensação de exaltação de felicidade esfuziante Ao melancólico o superego cobre de insultos acusandoo de ser o culpado pelas perdas de objetos por mortes por todo tipo de desgraças O resultado é que o sujeito identificado com o objeto perdido passa a sentirse alvo das desgraças todas cuja responsabilidade o superego lhe atribui Ele está arruinado sua família morta a sociedade o despreza Tanta é a perseguição interna que esgotado pode dar uma volta de 180º considerandose vitorioso vencendo o superego Está cheio de amigos que importa a perda sofrida nem 43 mesmo precisa de consideração externa ele se basta é bom é ótimo Seu pensamento voa ao contrário do melancólico que se arrasta as idéias mal chegam a formarse e já são ditas o conteúdo é confuso e pueril mas por que se preocupar Ele sabe que é o melhor Psicanaliticamente falando tanto a melancolia quanto a mania ligamse de diferentes modos à fase oral e à posição depressiva kleiniana Dá para ver É sempre o problema de ter atacado objeto de amor e se se o tem inteiro perdese inteiramente o que se tem Dentre as psicoses há um último grupo que a Psicanálise tem estudado bastante mas que compreenderemos melhor no último capítulo deste livro o das psicoses em que predominam idéias e crenças muito estranhas que fogem à compreensão comum chamadas delírios Há delírios nas melancolias delírios de ruína por exemplo há delírios nas psicoses epiléticas causadas por distúrbios cerebrais mais ou menos conhecidos alguém pode delirar por ter ingerido drogas ou por sofrer de alguma doença infecciosa Contudo as esquizofrenias e paranóias são as doenças onde melhor se pode reconhecer a atividade delirante No fundo é como se o delirante vivesse num mundo diferente do das outras pessoas um mundo que está encoberto pela rotina do cotidiano E isso é que tentaremos compreender no último capítulo Por ora basta saber que essas psicoses repetem as primeiras experiências mentais da vida humana O paciente retira seu interesse libidinal do mundo externo voltao para dentro de si ou seja regride em direção ao narcisismo dos primeiros meses de vida É o narcisismo secundário Como porém não consegue permanecer encerrado numa vida mental sem objetos emocionais trata de recriálos reinventa o mundo mas um mundo diverso do dos seus semelhantes Vive grandes perseguições sentese engrandecido e famoso é um herói um rei um deus Todos o invejam e atacam Ele controla as idéias alheias mas os outros também controlam as suas impõemlhe sentimentos que não quer dominam seus pensamentos conhecem seus projetos mais escondidos Justamente por se ter separado do mundo cotidiano parece que o resultado é ter perdido a noção de distância entre o dentro e o fora exatamente como uma criancinha ao nascer Essas psicoses relacionamse por conseguinte com a primeira fase oral e com a posição esquizoparanóide de Melanie Klein São reedições paralisadas da experiência de aprender a pensar Por fim de nosso percurso pelo meio das doenças psíquicas podemos verificar duas coisas Primeiro que há doenças e que o termo doença até 44 que está aqui bem empregado Segundo que as doenças não diferem totalmente da vida mental chamada normal continuamna exageram certas características são antes de tudo como já vimos no começo especializações indevidas Logo não é preciso ter medo de usar o termo doença desde que se o faça sem preconceitos 8 A CURA PSICANALÍTICA Se alguém nos procura para fazer análise pode acontecer que sofra de uma das doenças descritas no capítulo precedente Pode ser que não que deseje conhecerse melhor que tenha o projeto de libertarse ou até que almeje se tornar um terapeuta É importante conhecer as diferenças das expectativas por motivos clínicos e diagnósticos mas o processo de cura psicanalítica será não obstante sensivelmente parecido num caso ou no outro Análise é análise e nossa idéia de cura não é assimilável à dos critérios médicos mais comuns Estar curado significa para nós curar si mesmo isto é cuidar de seu desejo atingir um estado semelhante ao de uma fruta madura ou de um queijo bem curado no ponto Os pontos variam como para os queijos de uma pessoa para outra mas ainda assim é possível saber o que é estar curado uma harmonia realizada das potencialidades características nos queijos nas pessoas Por isso e porque a análise começou como um tratamento de distúrbios neuróticos o processo de cura psicanalítico pode ser descrito como o de uma história neurótica Só que a história da neurose é a narrativa de como se formou um nó e o de cura a de como esse nó foi desfeito Seja um indivíduo mais ou menos normal um neurótico ou certos pacientes psicóticos sua vida compreende dois tempos Há uma experiência cotidiana que nos parece bastante corriqueira mas de repente um olhar cruzado na rua um encontro numa festa um trabalho ou um sonho revelam algo assustador e estranho Talvez seja uma paixão que nasce e morre no entrecruzar de olhares pode ser uma angústia intolerável ao se ver sozinho quem sabe uma dúvida incompreensível e fulminante Pode ser qualquer coisa porém será sempre uma diferença um corte como se outra vida estivesse a ser vivida no interior do cotidiano E em geral o paciente quer curarse dela pois tem medo O analista sabe ao contrário que deve conduzir seu cliente a curarse dela não a erradicála que tal estranheza é um começo de consciência e uma porta entreaberta que pede exploração Mas mesmo assim aceitao para tratamento 45 É tal qual um calendário Nossa vida é feita de dias pretos iguais de trabalho algum prazer um pouco de esperança se somos neuróticos haverá trabalho um pouco menos de prazer e um certo desespero Nada que chame a atenção Porém no meio dos dias em preto na seqüência dos atos costumeiros destacamse os dias em vermelho as festas religiosas e cívicas Correspondem a celebrações bastante convencionais A História celebrada nos feriados nacionais nada tem que ver com a verdadeira História do país ou por outra tem é sua perfeita contrafação Há um sentido convencional que se ensina às crianças na escola onde sempre o herói é o do nosso lado nossa é a causa justa a lei e a justiça vencem Os portugueses nessa História sempre enfrentam bravamente os batavos e covardemente massacram os heróis da Independência Ora assim como os dias em vermelho celebram a História convencional da pátria que oculta sua História real os acontecimentos perturbadores sintomas no meio do cotidiano celebram a história convencional da neurose E como é ela Quando Freud começou a estudar as neuroses atribuiuas a um trauma sexual baseado nas histórias que suas pacientes lhe contavam Esse trauma seria uma sedução praticada por pessoa adulta com a criança que haveria de se tornar neurótica Hoje pensamos que os traumas são pequenos repetidos mantendo entre si uma relação de homologia ou semelhança formal É parte da história convencional atribuir tudo a uma sedução ou a outra catástrofe original De qualquer modo porém o tempo da neurose celebra o trauma os dias em vermelho repetem de maneira convencional e muito reduzida o modelo das situações que deram forma aos representantes pulsionais Pois o trauma é isso Uma certa estrutura de relacionamento mais do que fatos isolados por fortes que sejam conforma o desejo cria um jeito especial de se arrumarem impulso e defesa Em todos nós é assim Só que em alguns setores da vida mental e mais intensamente em certas pessoas a forma do desejo semelha um nó Não ata este setor aos outros setores da personalidade nem se desata espontaneamente Repetese ou melhor é celebrado em episódios chamados sintomas Vindo à análise o cliente fala de sua vida comum Todavia a interpretação do analista rompe o campo onde se assentava o tema comum deixando surgir no aqui e agora da sessão a situação especial onde o desejo se mostra em seus nós traumáticos No calendário da terapia analítica todos os dias tendem a ser vermelhos Há uma concentração das celebrações 46 neuróticas vividas agora em relação ao analista Só que enquanto no dia adia os sintomas são polidamente ignorados na análise eles são tomados em consideração Análise deixar que surja e tomar em consideração Reproduzse então de início a história convencional da neurose essa em que o paciente crê concentradamente envolvendo o analista naquilo a que chamamos neurose transferencial E de que serve tudo isso Se fosse apenas uma celebração a mais de nada serviria Acontece porém que a celebração é acolhida tornase assunto e é em seguida interpretada Quando pela interpretação rompe se o campo onde se apoiava a história convencional da neurose algo de peculiar ocorre com a dupla terapêutica O que era celebração isolada e sempre igual transformase em comemoração Comemorar e recordar são as chaves da mudança Rompido o campo da convenção neurótica a respeito da própria história as situações traumáticas são convidadas a voltar do exílio convencional ao coração da mente recordadas isto é são revividas emocionalmente em seu sentido profundo e recordadas numa reedição partilhada com alguém comemoradas com memoradas Tal como se pudéssemos reproduzir as situações mesmas que compuseram uma história e não sua versão posterior é possível agora elucidála testá la pôla em questão tentando atingir seu sentido verdadeiro Ou a rigor os muitos sentidos possíveis da história do paciente que ele foi paulatinamente reduzindo a uma convenção Talvez o aspecto mais grave da convenção neurótica seja reduzir uma pessoa a ser apenas uma possibilidade dentre todas que estariam a seu alcance O trabalho de recuperação da multiplicidade é o que se chama transferência através dela no campo transferencial deixase que surjam e tomamse em consideração as muitas pessoas que vivem em cada um Pense de novo no calendário Quando lá pelos fins do século III a festa de Natal foi antecipada de janeiro para 25 de dezembro procurouse cobrir com a mudança a celebração da festa pagã do solstício de inverno no Hemisfério Norte Acontece porém que mesmo essa festa parece ter sido celebrada em data equivocada Por aí se vê como se acavalam as diferentes ordens de sentido como as muitas crenças são achatadas na História oficial Na história pessoal também Campo transferencial é o lugar onde convivem paciente e analista Materialmente eles estão numa sala Sua comunicação porém é um complicado tecido de emoções que apesar da violência não carecem de sutileza e têm de ser pacientemente reconhecidas desfiadas e 47 recosturadas Pois o paciente neurótico sofre de uma restrição ele é só isso que o nó traumático determina Em outras palavras o neurótico identificou se com algo bem definido não para ele lógico com essa história convencional que celebra nos sintomas Veja você Se uma pessoa apenas usasse uma roupa durante toda a vida poderia dar a impressão de que seu corpo tem a forma da veste Uma mulher com saia rodada pareceria ter as coxas em forma de sino Uma identificação é isso uma veste sobre o corpo do desejo No entanto diferentemente do corpo físico que pode ser despido e revelar seus contornos o corpo do desejo o inconsciente nunca é capaz de aparecer por si mesmo Como seria alguém cujo corpo fosse invisível e impalpável como se o conheceria Resposta mudando de roupa Várias roupas de corte diverso sobre seu corpo determinariam traços comuns eliminando as diferenças portanto teríamos uma idéia do que lhe é peculiar A isso chamo desenhar o desenho do desejo O campo transferencial é aquele em que com a ajuda do analista uma pessoa pode experimentar várias roupas isto é descobrir diversas identificações Quem só se enxerga vítima verá também que é carrasco espectador amigo amante etc Que é muitos Isso é possível porque o analista vive as celebrações convencionais junto com seu cliente comemora decifra o sentido dos nós que o amarravam a uma só representação de si mesmo e mostralhe a quantidade de fantasias que sob ela se ocultavam Em vez de uma fantasia dominante o paciente pode ter muitas muitas idéias que o representam E mais Aos poucos ele vai assimilando o jogo do campo transferencial vai adquirindo a capacidade de por si só experimentar vestes diferentes de ter mobilidade de fantasias Pois a regra do campo transferencial é que qualquer idéia que nele ocorra sofre ruptura de campo perde o chão e como no exemplo anterior da chuva revela vários sentidos simultâneos De tanto experimentar identificações diferentes então o paciente começa a conhecer o que não muda sob elas Seu desejo toma forma Já não é necessário parar de viver o cotidiano para celebrar um acontecimento traumático Não é propriamente que aquela identificação neurótica tenha desaparecido As pessoas que procuram análise temem que se perca sua originalidade pensam que serão reduzidas a uma espécie de ser médio medíocre ou que só viver para cuidar de sua neurose Só um terapeuta muito incompetente estimularia tal redução As identificações neuróticas são bem ao contrário integradas a muitas outras da vida comum e a outras ainda que simplesmente não estavam antes disponíveis Não é 48 preciso mais parar de viver uma vida cotidiana para entrar no tempo da neurose nos dias vermelhos Se a pessoa pode se representar de muitos modos se tem mobilidade de fantasias e se habita seu próprio desejo o corpo invisível a distinção entre dias pretos e vermelhos também cai É como o historiador que conhece bem o passado de seu país Ele não mais acredita que houve um passado heróico sabe que mesmo os grandes feitos ocorreram no meio de coisas pequenas entre o comer e o dormir que os heróis não prescindiam de banheiro O paciente que abandona sua fábula de origem encontrase no seio dum drama pode ver como o mundo comum é trágico fabuloso mágico e heróico sem deixar de ser comum Pois como há muitos homens num só também há muitos reais Vimos como é diverso o real da saudade do da teimosia veremos no próximo capítulo como é diferente o real autoritário Há inúmeras condições do real Na verdade somos iludidos para crer que os dias da semana são iguais justamente porque há os fins de semana É o destino das diferenças Toda a diferença se encontra no lazer de fim de semana esvaziando os dias de trabalho de seu prazer Talvez assim as fábricas produzam mais porém decerto as pessoas são menos felizes A cura psicanalítica equivale portanto a integrar na personalidade algo como o campo transferencial daí resultando que a pessoa não mais esteja aprisionada pela dualidade tempo da neurosetempo do cotidiano A análise do social deveria por analogia romper o campo que nos aprisiona entre trabalho e lazer mandar e obedecer produzir e consumir É como se devêssemos voltar a viver em cores o que estava em preto e branco Ou melhor reconhecer que há inúmeros campos do real onde pensávamos haver uma realidade única Para tanto há que imaginar um campo um lugar de sentido onde todos os ditos idéias sentimentos ações etc valessem apenas por terem o destino de sofrer ruptura de campo Aí nada tem sentido único tudo vale por querer dizer outra coisa também O também é importante Não se perde no processo analítico o sentido original este não é falso é exclusivista logo neurótico Nesse campo onde tudo vale como ruptura de campo o próprio sentido neurótico que antes era celebrado nos sintomas também tem seu lugar rompido seu campo o da exclusividade ou nó ele se integra a muitas outras formas que agora são vivíveis Ora o campo onde tudo o que ocorre só vale como possibilidade de ruptura é nada mais nada menos o Campo Psicanalítico ou campo transferencial Tudo o que lá se diz vale como fantasia serve para produzir outras idéias 49 até a neurose quando nele se dá neurose de transferência vale apenas para produzir outras formas de ser Mas não será um pouco egoísta ter essa experiência em caráter privado você me perguntará Talvez só que ainda não sabemos bem como generalizála por enquanto preservar o método dentro dos limites da relação bipessoal é muito melhor que nada Entretanto no último capítulo pensaremos juntos um pouquinho em como se pode aplicar o Campo Psicanalítico para o conhecimento dos campos do social 9 A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL A título de epílogo deste nosso passeiozinho pela Psicanálise voltemos à frase inicial do primeiro capítulo os homens são pessoas muito estranhas e até absurdas Tudo o que vimos até aqui talvez o tenha convencido disso Caso contrário pense em como organizam seu mundo e compare isso com as explicações que encontram para tal organização Quando os sociólogos e os economistas procuram nos fazer entender a confusão em que vivemos baseada em guerras de tiros e guerras comerciais em exploração e dominação e na produção enlouquecida de bens perfeitamente inúteis responsabilizam os interesses discordantes dos grupos sociais pelo atual estado de coisas E têm razão Os interesses dos grupos das classes das nações estão mesmo em conflito permanente Acontece porém que toda explicação sociológica inclui uma passagem pela Psicologia e esta geralmente não se menciona nem é sequer percebida Neste caso por exemplo existe a suposição de que se os grupos humanos lutam por interesses é que cada um deles tenta defender o seu Esta já é uma afirmação psicológica Se um homem um grupo uma classe ou país têm interesses é óbvio que os defendam É óbvio que sim como é óbvio para qualquer pessoa que olhe para cima o fato de que o Sol gira em torno da Terra Ou seja é óbvio mas é falso A afirmação correta seria se alguém tem interesses luta por eles ou contra eles de acordo com a orientação de seu desejo O que se aplica a pessoas grupos ou à humanidade em geral Se você se interessa pela Sociologia portanto aconselhoo a buscar descobrir quantas dessas afirmações psicológicas simplistas ocultamse nos raciocínios mais bem construídos creio que ficará atônito Na verdade há também inúmeras afirmações sociológicas pueris ocultas nas teorias 50 psicológicas mas este é outro problema Os sociólogos freqüentemente pensam que não estão a usar Psicologia porém cada vez que ligam um comportamento a uma causa qualquer usamna sem perceber e o resultado é que a usam mal Valemse do senso comum o que é um grave pecado Ora a Psicanálise não pode e não deve fazer Sociologia mas é capaz de mostrar algumas coisas que interessam aos estudiosos da sociedade O objeto do estudo psicanalítico chamase psique Como vimos a psique não é uma coisa que existe na cabeça do indivíduo nem na cabeça coletiva Ela simplesmente não tem lugar material Psique é o que produz sentido nas coisas humanas sejam individuais ou coletivas Um automóvel é fabricado numa linha de montagem seu sentido é fabricado pela psique a inflação a guerra ou o nacionalismo são produzidos inteiramente por causas concretas seu sentido é psique Sendo assim estudar a psique não é um passa tempo nem é egoísmo elitista de gente rica Acontece apenas que só aos poucos começamos a tatear essa área obscura e complicada do universo humano Claro que não só a Psicanálise o faz A Antropologia e sobretudo a Filosofia além de outras Ciências também se interessam pelas raízes do sentido das coisas humanas A Psicanálise tem seu quinhão que pode ser grande pois a psique é um ser muito estranho como os homens Aliás é a psique a estranheza dos homens O motivo principal de se saber tão pouco a respeito da psique é que ela não pode ser compreendida Nossa compreensão alcança justificar relações entre os vários comportamentos dos homens e sociedades mas aos campos que as determinam a psique só se chega pela interpretação A interpretação opera uma ruptura de campo que permite deixar surgir os sentidos psíquicos depois é tomálos em consideração Veja um exemplo Nós todos vivemos num reino a que chamamos realidade Todavia a realidade é produto duma espécie de acordo entre os homens que necessitam de algo comum para poder falar E falando acabam por criálo Isso não significa a inexistência de objetos materiais a materialidade das pedras e dos carros está aí atropelanos mas e sua realidade Penso que seja assim Há muitos campos do real Real real humano que é o único que conhecemos é o mesmo que o desejo mas visto no mundo Tratase dum conjunto de regras muito loucas como as dos sonhos das emoções da psicopatologia o real é onde se produz a experiência humana uma espécie de chão sobre o qual vivemos Vivemos 51 nele mas sem o enxergar Há felizmente uma outra série de regras de bomtom a que chamo rotina que se encarrega de organizar aquilo que pode ser visto sem ofender os olhos Nossa cegueira ao real é importante e até certo ponto benéfica Permite nos entre outras coisas pensar com lógica falar construir a civilização Pois a lógica do real não é a mesma lógica da realidade Esta é a organização dos produtos do pensamento a maneira pela qual se ordenam e ligam as idéias emoções atos humanos Já a lógica do real embora esteja embrenhada no mundo é da mesma ordem que a lógica da concepção a que produz nossas idéias e atos inconsciente e totalmente diversa Por isso não se a compreende apenas interpretase Então os homens vivem num mundo absurdo sem o saber Ótimo Quando alguém toma contato de repente com o chão absurdo sob o tapete da realidade cotidiana fica louco O delírio é exatamente isto Um mergulho indevido no absurdo que tem de ser depois retraduzido em linguagem comum Há duas condições psicológicas para alguém chegar a ser delirante ou para não o ser A primeira é a possibilidade de sentirse fortemente o mesmo através das várias mudanças de identificação que a vida traz O mesmo ator em vários papéis A segunda condição decisiva consiste na capacidade maior ou menor de distinguir entre reais e possíveis É possível que haja seres inteligentes entre as estrelas é menos possível que já tenhamos entrado em contato e menos ainda que meu vizinho seja um deles por mais que pareça Porém se a distinção entre o que é e o que é possível se desfaz posso transformar o fato de que muitas coisas não são o que parecem na certeza delirante de ser eu mesmo um extraterreno Só que para isso é necessário também que o sentido de permanecer o mesmo condição anterior esteja também prejudicado caso contrário sempre haverá a noção de ser alguém que pensa ser marciano o que invalida o bom delírio Ora se eu me perco com certa facilidade nas mudanças de condição que a vida obriga e não consigo discriminar bem a hierarquia dos possíveis pode acontecer que um súbito desvio da linha de vida faça colarse a mim uma identificação nova tomada agora por mim como se fosse uma nova identidade total Só que tal identidade há de corresponder a meu próprio desejo para ter eficiência sendo assim um mergulho profundo na ordem absurda do mundo Depois disso porém haverá um esforço para reconstituir o mundo rotineiro para explicar as coisas incríveis para me 52 acertar com os outros homens Talvez por causa disso o louco que delira seja um narrador compulsivo Ele precisa traduzir sua experiência absurda para si mesmo em primeiro lugar para a lógica e para as imagens da vida cotidiana Por duas razões incluo o delírio entre os campos do real Inicialmente porque nossa dificuldade geral de ter uma compreensão psicanalítica tão boa dele quanto das neuroses por exemplo devese quem sabe ao fato de ser o delírio um contato indevido com o solo da vida humana rotineira E os estudos psicanalíticos da constituição do real humano apenas se iniciam Depois não é só o indivíduo que pode delirar Há formas sociais bastante equivalentes à dos delírios individuais para que os possamos comparar Afinal a psique não é individual nem social em si mesma O processo autoritário é uma de tais formas Pode ocorrer num país ou numa casa numa escola ou num grupo de amigos Como reconhecêlo Fácil você dirá se alguém manda pela força a gente fica sabendo Bem você está certo pela metade O uso de algum tipo de força para constranger a obediência alheia é evidentemente parte do processo autoritário Mas há algo mais característico Um estudo psicanalítico do processo autoritário mostra que havendo ou não uso de força ele se define melhor por sua relação com a verdade No autoritarismo existe um descrédito profundo pelo conhecimento É como se todas as coisas que se diz pudessem ser ou não verdadeiras por que supõese nada é certo nem se pode conhecer Ora se tudo pode ser ou não é possível afirmar uma idéia qualquer como sendo a única correta desde que se tenha meios para sustentála O grupo dominante afirma como verdadeira e única a idéia que lhe parece e quando se defronta com alguma oposição não a atribui a outra maneira de ver os fatos mas a uma intenção maligna e pérfida de quem a sustenta Dessa maneira os fatos deixam de ser o que são não contêm uma solidez implícita enquanto que as idéias tornamse espessas pesadas como fatos não exprimem uma verdade são uma espécie de sintoma de intenções ocultas O autoritarismo pois fundase num apego apaixonado à mentira como sistema Resulta que suas histórias não necessitem apoiarse na experiência concreta constituem uma espécie de delírio portanto Um delírio coletivo que leva a todo tipo de atrocidades Quando porém o processo autoritário domina totalmente um grupo vaise tornando paulatinamente impossível pensar e argumentar Se a cada objeção que faço a uma dada idéia respondemme que a faço porque sou mau e não porque penso diferente depois de certo tempo já não 53 encontro caminho para pensar e dizer Pode suceder então que grupos inteiros de indivíduos sociedades ou partes delas passem a confiar inteiramente na força da ação Contra o regime autoritário voltase então uma espécie de regime de ação pura ou regime do atentado como prefiro chamar que já não é um sistema organizado por idéias mentirosas mas por ausência de idéias Sendo impossível pensar a comunicação dáse quase que só pela via de atos concretos e símbolos materiais convencionados Por exemplo para saber que estou alegre devo beber um uísque ou para sentirme livre devo matar alguém Novamente como você pode ver tratase do equivalente duma loucura pessoal no caso uma psicose de ação no seio dos campos do social E isso vai só como exemplo A Psicanálise dos campos do social deverá revelar muito mais ampla mente a forma da psique humana Sempre seguindo o mesmo procedimento ruptura de campo que deixa à mostra o absurdo do que parecia costumeiro Seja com uma pessoa seja com um acontecimento social o absurdo nada mais é que a presença da psique humana que sempre se esconde por trás de seus produtos O absurdo é o mais humano do homem quando tem a oportunidade de mostrarse A Psicanálise exibindoo serve então à sociedade convidandoa a enxergar se tal como é ainda que ela se assuste com isso 10 INDICAÇÕES PARA LEITURA Provavelmente a melhor introdução à Psicanálise continue sendo a obra de Freud Desta obra complexa creio que vale a pena inicialmente ler as Conferências Introdutórias curso que Freud preparou para um público leigo em 1917 continuadas em 32 com as Novas Conferências Introdutórias Além delas sugiro que se estude um dos casos clínicos de Freud o Caso Dora ou o do Homem dos Lobos por exemplo a edição Standart das obras completas de Freud foi publicada em português pela Ed Imago São claros extraordinariamente bem escritos e com um sabor quase detetivesco Aos poucos você lerá se isso lhe interessar os trabalhos teóricos principais mas sugiro que aí conte com a ajuda de alguma pessoa que o oriente Quanto à obra de Melanie Klein uma introdução pequena encontrase em Hanna Segall Introdução à obra de Melanie Klein Comp Ed Nacional 1966 Depois será procurar seus escritos traduzidos mas sempre com orientação O mesmo vale para todos os outros grandes psicanalistas 54 Abraham Lacan Bion Winnicott etc etc Comece com Freud se se fascinar procure orientação de leitura a Psicanálise é um tanto complicada desconfie de manuais e não use este livrinho como um manual que ele não o é ÍNDICE O momento da psicanálise O método da psicanálise O inconsciente O aparelho psíquico A sexualidade 1 A sexualidade 2 Psicopatologia A cura psicanalítica A psique e os campos do real Indicações para Leitura 55 FICHAMENTO DO LIVRO O QUE É PSICANÁLISE PARA INICIANTES OU NÃO FÁBIO HERRMANN 1983 1 O MOMENTO DA PSICANÁLISE No capítulo 1 o autor fala sobre como os seres humanos são estranhos e absurdos e como isso está relacionado à necessidade de construir um mundo sob medida e menciona que a insatisfação constante com o que é construído leva à busca por algo mais e isso é parte do que a psicanálise busca entender também conecta a psicanálise a uma crítica da racionalidade excessiva que acaba revelando a irracionalidade humana 11 A insatisfação humana Os seres humanos buscam incessantemente construir um mundo sob medida tecnologia cidades sistemas sociais mas nunca se sentem completos Essa insatisfação deriva do desconhecimento do próprio desejo não sabemos o que queremos mesmo quando alcançamos nossos objetivos Exemplo Trocar de casa ou adquirir objetos novos não resolve a angústia existencial 12 A origem da Psicanálise Surge no final do século XIX quando a racionalidade extrema ciência indústria revela sua sombra a irracionalidade humana Freud ao estudar a histeria descobre que a loucura não está apenas nos doentes mas na estrutura psíquica de todos 2 O MÉTODO DA PSICANÁLISE No segundo capítulo o autor explica os três sentidos do termo Psicanálise método interpretativo terapia e teoria e enfatiza a importância da atenção flutuante e da ruptura de campo como técnicas fundamentais do processo terapêutico 21 A interpretação psicanalítica A psicanálise opera a partir de dois pilares 1 Atenção flutuante O analista escuta sem focar em um tema específico permitindo que conexões inconscientes surjam exemplo associar um sonho a uma piada do paciente Ruptura de campo Quebrar a lógica cotidiana da comunicação para revelar sentidos múltiplos Exemplo Se o paciente diz está chovendo o analista busca além do clima pode simbolizar tristeza desejo de intimidade entre outros 22 Os três pilares da Psicanálise O termo Psicanálise abrange três definições distintas que são Método interpretativo Psicanálise como ciência Terapia processo de análise para autoconhecimento e Teoria conceitos como inconsciente transferência pulsão 3 O INCONSCIENTE O terceiro capítulo trata do inconsciente em que Herrmann fala sobre os mecanismos de formação dos sonhos condensação deslocamento e como o inconsciente opera com uma lógica diferente da consciência Também menciona o recalcamento como um processo de exclusão de desejos inaceitáveis Definição de inconsciente Sistema psíquico regido por uma lógica própria processos primários que podem se transformar em Condensação Várias ideias fundemse em uma exemplo uma figura num sonho representa múltiplas pessoas e Deslocamento A carga emocional é transferida para um elemento irrelevante exemplo medo de baratas simbolizando culpa Manifestações do inconsciente O inconsciente utiliza de diferentes formas de manifestação que podem acontecer por meio de Sonhos Realizações disfarçadas de desejos recalcados Atos falhos Erros como esquecimentos ou trocas de palavras revelam intenções ocultas e Recalcamento Mecanismo que exclui da consciência desejos inaceitáveis exemplos sexualidade infantil agressividade 2 4 O APARELHO PSÍQUICO No quarto capítulo Herrmann apresenta as duas tópicas de Freud a primeira consciente préconsciente inconsciente e a segunda id ego superego Ele também discute como essas estruturas interagem e conflitam e destaca a função do ego como mediador e a rigidez do superego Principais características de cada tópica Primeira tópica modelo topográfico No nível consciente as percepções são imediatas e os pensamentos racionais No nível préconsciente as memórias e ideias são acessíveis com esforço e No nível inconsciente os desejos e traumas estão reprimidos inacessíveis à consciência Segunda tópica modelo estrutural Id é o reservatório de pulsões fome sexo agressão regido pelo princípio do prazer Ego é o equilíbrio entre o Id o Superego e a realidade Usa mecanismos de defesa exemplos negação racionalização e Superego que é a internalização de normas sociais e morais a voz da consciência muitas vezes cruel e irracional 5 A SEXUALIDADE I No capítulo 5 o autor explica as fases do desenvolvimento psicossexual oral anal fálica e como fixações nessas fases podem levar a características de personalidade específicas Fases do desenvolvimento psicossexual A sexualidade não se restringe ao ato sexual ela é a energia libido que molda a personalidade através de fases Fase oral 01 ano Prazer centrado na boca sucção e fixação pode levar à dependência exemplo vícios ou pessimismo Fase anal 13 anos Controle das excreções e fixação resulta em teimosia retentivo ou desordem expulsivo Fase fálica 35 anos Descoberta dos genitais e Complexo de Édipo rivalidade com o genitor do mesmo sexo e medo da castração meninos e inveja do pênis meninas e 3 Período de latência 612 anos Sexualidade se encontra adormecida e energia é direcionada a aprendizados sociais 6 A SEXUALIDADE II No capítulo 6 Herrmann discute as perversões e a construção social da sexualidade trazendo ideia de que a sexualidade não é apenas biológica mas também culturalmente construída Perversões Não são anormalidades mas versões restritivas do desejo exemplos fetichismo voyeurismo resultam de fixações em fases anteriores ou falhas na resolução do Édipo A lógica do fascínio O desejo sexual depende do equilíbrio entre identidade semelhança e alteridade diferença Exemplo O voyeur precisa da janela limite simbólico para manter o mistério Realidades múltiplas cada emoção cria um campo do real próprio real saudoso fluido nostálgico exemplo memórias de infância e real teimoso rígido controlador exemplo rituais obsessivos 7 PSICOPATOLOGIA No sétimo capítulo o autor descreve diferentes transtornos mentais neuroses psicoses perversões e como eles se relacionam com os conflitos psíquicos Usa exemplos como a histeria e a neurose obsessiva para ilustrar como os sintomas são expressões simbólicas de desejos recalcados Os conflitos que não tiveram resolução na infância como o Complexo de Édipo podem se manifestar como sintomas nas fases subsequentes na forma de Neuroses Histeria Sintomas corporais sem causa orgânica como paralisias dores Exemplo Uma mão paralisada simboliza o desejo recalcado de masturbação e Neurose obsessiva Rituais para neutralizar pensamentos proibidos exemplo lavar as mãos compulsivamente Psicoses Esquizofrenia Delírios e alucinações exemplo ouvir vozes acreditar ser perseguido e Melancolia Autoacusação extrema exemplo culpa por eventos irreais Perversões e psicopatias Atos impulsivos sem culpa exemplo cleptomania muitas vezes reforçados por normas sociais contraditórias 4 8 A CURA PSICANALÍTICA No oitavo capítulo Herrmann fala sobre o processo terapêutico destacando a transferência e a elaboração como mecanismos centrais Ele também critica a ideia de cura como eliminação de sintomas propondo em vez disso uma integração dos conflitos A terapia não busca apagar o passado mas reescrever sua significação e o esse processo se dá através de Transferência O paciente projeta no analista emoções de figuras passadas exemplo raiva do pai amor pela mãe Permite reviver conflitos de forma segura Elaboração Na elaboração o paciente apresenta geralmente tende à recordar trazendo traumas à consciência exemplo abuso infantil esquecido repetir reencenando padrões no consultório exemplo comportamento submisso com o analista e por fim superar integrando o recalcado à personalidade Fim da análise Na fase de alta o mais importante a ser considerado não é a eliminação dos conflitos mas a capacidade do paciente de lidar com eles sem sintomas o que possibilita findar o processo terapêutico 9 A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL No nono capítulo o autor expande a psicanálise para além do indivíduo discutindo como fenômenos sociais como o autoritarismo podem ser entendidos como manifestações da psique coletiva e argumenta que a realidade é uma construção social cheia de contradições e absurdo 91 Psique coletiva A psique não é individual ela também está em fenômenos sociais como autoritarismo que funcionam como delírios compartilhados Exemplo Um governo ditatorial nega fatos e cria narrativas paranoicas como inimigos imaginários 92 O absurdo como fundamento A realidade cotidiana esconde um núcleo absurdo desejos contraditórios conflitos irracionais assim a Psicanálise expõe esse absurdo para promover autenticidade 5 10 INDICAÇÕES PARA LEITURA Por fim no décimo capítulo o autor oferece as seguintes indicações de leitura Freud A Interpretação dos Sonhos base da teoria do inconsciente e Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Explicação das fases psicossexuais Melanie Klein Inveja e Gratidão discussão sobre relações primitivas de objeto Jacques Lacan Escritos aborda a linguagem e o desejo e Donald Winnicott O Brincar e a Realidade retrata a importância do lúdico na saúde mental 11 CONCLUSÃO A psicanálise segundo Herrmann não é apenas uma terapia mas uma ferramenta filosófica para entender a condição humana e revela que a racionalidade convive com o absurdo e a cura está na aceitação dessa dualidade Ao integrar desejo conflito e realidade o sujeito não se liberta da neurose mas aprende a habitar seu próprio paradoxo A psicanálise desafia noções tradicionais de normalidade propondo que a saúde mental reside na capacidade de navegar entre múltiplos campos do real sem se aprisionar em nenhum deles Desse modo concluise que A Psicanálise não é apenas um método terapêutico mas uma revolução no entendimento humano Ao revelar que a racionalidade convive com o absurdo convida a uma reconciliação com nossa própria estranheza e A cura assim não é a eliminação do conflito mas a aceitação de que somos feitos de múltiplos desejos muitos dos quais jamais compreenderemos por completo Referências HERRMANN F O que é Psicanálise para iniciantes ou não 1 ed São Paulo Brasiliense 1983 p 155 6

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Editora Brasiliense São Paulo Este livro foi digitalizado sem fins comerciais para uso exclusivo de pessoas com deficiência que necessitem de leitores de tela para aceder ao seu conteúdo não devendo ser distribuído com outra finalidade mesmo de forma gratuita 1 1 O MOMENTO DA PSICANÁLISE Os seres humanos são pessoas muito estranhas e até absurdas Se você já o percebeu acho que andou a terça parte do caminho para se tornar psicanalista O segundo terço do caminho consiste em aprender algumas coisas o método a teoria e a técnica psicanalíticos de que lhe vou falar um pouco neste livrinho Quanto à última e mais difícil etapa que é a de você mesmo descobrir que é também uma pessoa estranha e absurda isto é que é um ser humano lamento não poder ajudálo a percorrer pelo menos escrevendo talvez fosse preciso fazer análise Todavia como estava dizendo os homens são pessoas estranhas e absurdas Enquanto outros bichos têm relativamente pouco trabalho em construir sua residência porque parecem satisfeitos com o mundo que encontram o que os cientistas chamam sistemas ecológicos os homens têm passado seu tempo tentando construir uma casa para si gastando nisso um trabalho insano sem nunca ficarem contentes com o resultado Construíram instrumentos de osso e de eletricidade domesticaram as plantas os primos animais e até seu próprio pensamento selvagem edificaram cidades sistemas filosóficos ciência e tecnologia Tudo fizeram para ter um mundo sob medida quer dizer um mundo na medida humana Mas não desprezemos os homens por causa disso Coitados eles talvez não tivessem outro jeito de sobreviver Em primeiro lugar quando os bebês humanos nascem e por longo tempo depois são muito indefesos e incapazes para a vida não conseguem comida sozinhos não sabem defenderse do frio queimamse com a própria urina etc Logo era mesmo necessário viver em grupo construir abrigos e um sistema social Por outro lado os homens divertemse demais com os próprios pensamentos São os únicos bichos ao que se sabe tão estúpidos que podem ficar imaginando e esquecerse de comer e o que é pior quando pequeninos e famintos parece que conseguem ficar sonhando que estão a comer e contentarse algum tempo com isso coisa a que os psicanalistas chamam satisfação alucinatória do desejo Alguns talvez até morram de fome sonhando sonhando Por fim enquanto os animais ferozes quase nunca matam os de sua espécie inibição da agressividade intraespecífica é como os estudiosos do comportamento animal ou etólogos chamam a essa prova elementar de sensatez os homens chegam a gostar de fazêlo Para sobreviver então ou pelo menos para se poderem dominar e matar civilizadamente foi preciso que os homens domesticassem a natureza 2 Por que entretanto esse trabalho não tem fim e nem é considerado satisfatório Bem se você pertence a uma família mais ou menos rica provavelmente já mudou de casa algumas vezes De cada vez a casa era perfeita não é verdade construída sob medida para o desejo de sua família com tantos quartos garagens e televisões quantos bastassem para fazêlos felizes porém quando lá moravam descobriam que ainda não estavam satisfeitos nem felizes Aí mudavam reformavam a casa ou compravam um videocassete e insatisfeitos ainda tornam a mudar ou instalam uma mesa completa de som Se esta é sua história habitacional não se culpe nem a seu pai culpe a casa e estará bem integrado com o resto da humanidade É que a casa que construíram como a grande casa que a humanidade vem construindo para si representa bem demais a realização de seu desejo Ora o problema é que nós não desejamos o que queremos nem tampouco ficamos satisfeitos de encontrar o que desejamos Na verdade nós humanos não sabemos bem o que desejamos Veja um exemplo Antes de mais nada nós somos aquilo que desejamos ser É fácil entender já que desejo é o nome daquilo que faz com que a gente pense faça seja Ele parece vir de dentro da alma mas é criado na vida social e biológica de sorte que se pode dizer até que somos desejados desta ou daquela maneira Somos desejados ativos ou entediados cruéis ou compassivos apavorados ou distraídos Aliás a humanidade desejase como é e dizia constróise e constrói o seu mundo de acordo com tal desejo Só que não acredita que de fato se tenha desejado como é Assim tendo transformado o mundo a fim de lhe servir de casa acha que não está ainda bem feito que sobram muitas coisas desumanas a humanizar O céu é muito alto o tempo é longo demais as guerras muito freqüentes Ora se o tempo e o espaço são infinitos demais é que os homens têm em si uma aspiração em desacordo com seu tamanho e duração de vida Quanto às guerras quem as faz Numa palavra ao domesticar o mundo os homens irritamse ao ver que construíram uma casa que os retrata maravilhosamente bem que exprime seu desejo tanto naquilo que gostam como naquilo que odeiam a esta última parte de seu desejo chamam desumana dizem que não é deles que é um resto que deve ainda ser dominado Talvez por esta última razão a construção do mundo humano se tenha ultrapassado Você já viu alguém fazer uma lição com má vontade pensando que quer realmente fazêla bem Aparecem erros a cada linha 3 manchas de tinta lapsos de português e o estudante começa a escrever adoidado obsessivamente errando e copiando errado Assim a espécie humana adquiriu uma estranha obsessão de domesticar familiarizar educar Se seus pais o educaram assim você provavelmente será exatamente como eles o desejaram e no entanto tanto eles como você mesmo terão a impressão de que tudo saiu às avessas pela simples razão que ambos ignoram boa parte do modelo que foi impresso e não o reconhecem depois de pronto Domesticar significa adaptar às normas da casa que em latim se diz domus familiarizar significa tornar algo familiar como que da família Mas como os homens negamse a admitir grande parte de seu desejo quanto mais doméstico e familiar vai ficando o mundo que constroem mais estranho e desumano lhes parece Desumano que calúnia Sucedeu então que este grande projeto de construir um mundo à medida humana que é o de todas as culturas acelerouse subitamente e estreitou se Uma das maneiras de realizálo parece dominar todas as outras e não tendo contra quem competir pôsse a tentar ser mais veloz que a própria sombra Nem é preciso dizer que a maneira dominante é a civilização tecnológica a qual se vale de uma racionalidade exacerbada de cálculo medida das Ciências Naturais tendo a Física por modelo Quanto à sombra é o que veremos mais adiante Por enquanto basta observar que o mundo onde vivemos sobretudo nas grandes cidades tornouse tão construído tão fabricado que uma crise muito curiosa se desencadeou As pessoas começaram aos poucos a duvidar de que o lugar onde vivem seja mesmo real Antes quando o contato com a natureza era mais estreito nos tempos em que qualquer criança podia ver digamos ordenhar uma vaca a sensação de realidade vinha diretamente desse tipo de experiência podiase dizer real como uma pedra ou como uma árvore De repente contudo os fatos começam a vir pelos jornais depois pela televisão e você tem de se perguntar a cada momento se o que ouve e vê é assim mesmo se é uma interpretação ou se é uma tentativa de enganálo Quer dizer a realidade começou a perder confiabilidade As máquinas funcionam hoje quase como gente as pessoas quase como máquinas A cada ação que você pretende executar fica sempre a dúvida se não está servindo a um propósito que ignora e que talvez ache abominável Se você quer ser original se quer recusar tudo o que está por aí acabará provavelmente descobrindo que faz parte duma indústria da originalidade usando um uniforme de original 4 Pois bem a ruptura com a natureza e a fabricação excessiva da nossa vida cotidiana constituem exatamente o êxito completo da construção da casa dos homens Mas o homem mesmo não se sente à vontade na casa que criou Esse retrato que vê no seu mundo parecelhe absurdo Ele se pergunta Sou assim E responde Claro que não é que falta dominar organizar e calcular uma última coisa a mente humana Veja que estranho A loucura do nosso mundo é simplesmente o resultado da maneira pela qual o construímos Porém preferimos dizer que essa espécie de sombra a irracionalidade das relações entre os homens e a irrealidade do mundo cotidiano é produto de outra coisa não da razão mas da falta de razão da loucura Assim lá pelos fins do século passado fezse um grande esforço para compreender a loucura para medila para dividila em tipos e explicála cientificamente No começo isso não deu muito resultadoÉ verdade que surgiu uma classificação das doenças mentais que até hoje é bastante útil Mas em matéria de cura pouco avanço houve Principalmente a loucura do diaa dia permanecia inexplicável e intratável E foi assim que nasceu a Psicanálise As Ciências Exatas tiveram de pedir ajuda a uma espécie de primo pobre a interpretação Só a interpretação era capaz de abarcar os sonhos as emoções a loucura etc Até aí tudo bem Entretanto ao procurar elucidar a loucura domínio que se lhe havia concedido o método interpretativo acabou tendo de ir mais longe por descobrir que aquilo que não parecia ser loucura a vida comum não era também muito diferente Posta em movimento a interpretação não se soube deter nem é bom que se detenha como veremos no próximo capítulo que trata do método interpretativo da Psicanálise Tudo se passa como numa história de fadas quando depois de chegar ao limite da pobreza a princesa recebe o príncipe e o reino ou quando depois de gozar da maior felicidade ao abusar um pouquinho mais da sorte um homem se desgraça Vamos chamar a isto princípio do absurdo quando algo chega ao limite e ultrapassao transformase em seu contrário Em nosso caso o projeto de tornar bem racionais todas as coisas quando pretendeu dominar uma franjinha que faltava a loucura criou um instrumento capaz de entender e curar a loucura é certo mas que junto com ela entende e mostra irracionalidade e loucura onde não se suspeitava que houvesse A história das idéias é assim irônica e às vezes vingativa Vingança foi fazer ver ao homem que no desconhecimento de seu próprio desejo criava o que queria e o que não queria sendo portanto absurdo para si mesmo E isto quando ele pretendia erradicar os restinhos de 5 absurdo e loucura de seu mundo Aliás a atmosfera de Conto de fada não pára aí Só nas histórias infantis é que uma pessoa isolada inventa algo que modifica o mundo e o faz quase sozinho Nossa ciência infelizmente sugere que o impossível aconteceu Com efeito Freud praticamente só inventou um método para interpretar o lado irracional ou melhor o lado da mente que obedece a regras duma racionalidade diferente daquela da consciência Digo infelizmente porque isso aumenta muito a dificuldade que temos os psicanalistas de continuar e eventualmente vir a superar sua obra Penso que os grandes psicanalistas estão quase sempre começando de novo É claro que Freud não estava interessado originalmente em denunciar toda a loucura da crise do real de que há pouco eu falava Como um médico honesto ele queria curar doenças Foi assim que se dedicou a tratar doentes histéricos pessoas que sofriam de ataques de angústia de paralisias ou dores sem causa orgânica física e outros sintomas parecidos Podese dizer que ao tentar fazêlo foi como se puxasse o gatilho do princípio do absurdo pois dos sintomas histéricos teve de passar aos sonhos dos sonhos aos atos falhos por exemplo esses escorregões de linguagem inoportunos que nos fazem dizer a verdade quando não queremos e daí à vida mental como um todo Isso porém veremos ao longo de nosso livrinho No momento apenas desejo que você guarde a idéia central O mundo edificado por nossa cultura humanizouse tanto no sentido de ser tão fabricado que sua sombra o lado desconhecido do desejo humano acabou por aparecer mais do que devia O real começou a ficar um tanto duvidoso e o homem a verse malgrado seu cada vez mais absurdo para si mesmo Ora se a Psicanálise foi inventada por uma pessoa chamada Freud no fim do século em Viena a idéia psicanalítica isto é o método interpretativo não foi inventada por ninguém Ela era a resposta certa para o problema da loucura de nosso tempo Por assim dizer quando o momento estava maduro saiu do lugar onde esta guardada no grande depósito das idéias que não são dominantes numa dada época para vir a habitar a ciência que Freud fundou Sua missão portanto é apresentar ao homem o absurdo que o constitui e se possível ajudálo a reconciliarse com ele com o absurdo e consigo mesmo 2 O MÉTODO DA PSICANÁLISE O que é que um psicanalista faz Ele aplica o método psicanalítico Talvez esteja tratando um paciente talvez um grupo de pessoas uma família uma comunidade Talvez não esteja tratando ninguém mas tentando interpretar 6 algum acontecimento Desde uma notícia de jornal até por exemplo a curiosa tendência atual a desmantelar a casa humana que se revela no acúmulo de armas atômicas ou na proliferação dos atentados Pode querer compreender o sentido de um palavrão de uma piada ou de uma grande obra de arte O que ele estuda não é tão importante desde que seja um fenômeno humano é importante sim para saber se é um psicanalista que esteja interpretando psicanaliticamente quer dizer que empregue o seu método próprio Na verdade como Freud mesmo escreveu o termo psicanálise tem três sentidos é o método interpretativo mas significa também uma forma de tratamento psicológico ou psicoterapia analítica e igualmente é o nome do conhecimento que o método produz ou teoria psicanalítica Um pouquinho confuso não Bem para evitar a confusão e como o método vem primeiro e é o essencial costumo escrever o nome do método e o da ciência inteira com letra inicial maiúscula Psicanálise e com minúscula inicial psicanálise grafo o nome da terapia disto que o analista faz em seu consultório Então a ciência e seu método chamamse Psicanálise a terapia denominase psicanálise ou simplesmente análise quanto à teoria não há problemas sempre dizemos teoria psicanalítica Para que você entenda o que é o método psicanalítico vou usar agora como exemplo a terapia analítica e tudo ficará claro Verá que entenderemos a Psicanálise através da psicanálise Suponha por conseguinte que você se converteu em analista por artes mágicas ou depois de uns 15 anos de estudo Você estará decentemente trajado sentado numa confortável poltrona em um consultório de bom gosto tendo à frente deitado no divã um cliente que o freqüenta algumas vezes por semana Isso pelo menos é o comum Todavia não é impensável que estivesse nu no meio do mato com seu paciente trepado no galho da árvore a seu lado se as condições sociais fossem outras Dou lhe essa imagem alternativa não porque tenha algo contra roupas e consultórios porém para que compreenda a diferença entre moldura e quadro O divã a freqüência das sessões o pagamento etc emolduram a análise servem só para sustentar e delimitar aquilo que se faz Aliás como com o quadro que você tem na sala é bom que a moldura não seja tão pesada e rococó a ponto de embaralhar a cena retratada Você já reparou como nos jornais e nas discussões públicas quase que somente se fala das correntes associações e brigas entre psicanalistas Pois este é um exemplo da moldura atrapalhando a visão do quadro porque afinal isso tudo não é realmente importante 7 Digamos porém que você esteja sentado na poltrona e o paciente deitado à sua frente Ele estará falando As palavras são traiçoeiras Quando falamos dizemos o que queremos dizer porém ao mesmo tempo dizemos também muitas outras coisas de que nem suspeitávamos Mesmo se alguém diz algo tão simples como está chovendo referese a um estado do tempo mas comunica simultaneamente uma porção de outras coisas Falará com agrado ou com raiva e saberemos já se tinha ou não certo projeto que a chuva atrapalhou Está chovendo pode ser um convite a que permaneçamos aconchegados num abrigo talvez contenha a idéia de uma espécie de vitalidade tal qual a da terra bem regada etc O que é garantido no entanto é que está chovendo não significa apenas que está chovendo Há sempre no mínimo o fato de que isso foi dito para uma outra pessoa e com alguma intenção conhecida com alguma intenção conhecida e com várias intenções mal conhecidas Na verdade são tantos os sentidos simultâneos das nossas palavras que seria virtualmente impossível uma conversa civilizada caso não se reduzissem tais sentidos a alguns poucos Quero dizer que é necessário um acordo tácito entre as pessoas que se comunicam a fim de limitar drasticamente a abrangência do que se diz É como se combinássemos não vamos prestar atenção a digamos 99 dos significados possíveis do que estamos dizendo para que o resto possa ser bem entendido Em particular na vida cotidiana procuramos diligentemente ignorar tudo aquilo que nos ditos referese ao interlocutor e não ao referente externo isto é no está chovendo procuramos esquecer todo o conjunto de insinuações acerca de nossa convivência do tipo chove portanto fiquemos aconchegados no quentinho e nos concentramos no estado do tempo o referente externo deste caso isto é chove portanto não faz sol A tão violenta redução costumo chamar redução consensual dos sentidos do discurso porque é fruto de um acordo ou consenso entre as pessoas que se comunicam ou chamolhe rotina Esta é uma grande tarefa importantíssima e difícil Sem ela não se poderia conversar está visto Você já observou a confusão que se cria numa discussão acalorada quando de repente parece que ninguém fala mais a mesma língua do outro A cada momento é preciso explicar Não foi isso que eu disse não foi isso que eu quis dizer eu quis dizer só que Dáse simplesmente que por causa da animosidade dos espíritos perdeuse um pouquinho do acordo consensual foi violado o acordo sobre o tema por exemplo e alargouse um bocadinho o sentido permissível das palavras 8 Ora se você está sentado detrás de seu paciente escutandoo talvez pense que deva descobrir sentidos muito complicados psicanalíticos no que ele diz É um engano Para fazer análise basta que consiga ouvilo de maneira que se vá suprimindo aos poucos a redução consensual ou rotina Isto se consegue assim seu paciente contalhe algo do que fez ontem depois comenta um detalhe novo do consultório faz uma piada tosse lembrase de um sonho etc Se você fosse uma pessoa bem educada numa situação cotidiana interessarseia polidamente por cada assunto em separado responderia riria com ele e perderia o sentido de conjunto Fazer análise é uma espécie de falta de educação sistemática Atrás do paciente você estará calado procurando juntar os pedaços da conversa sem se deter no que de hábito significaria mudança de assunto Ao contrário prestará a máxima atenção às mudanças de assuntos perguntandose Se se trata de um só assunto qual é ele e que se diz agora a respeito Em outras palavras você eliminou uma referência consensual importantíssima aquela que afirma que cada dito tem de ser entendido no assunto a que o interlocutor se pretende ater Como um chato que é você se pergunta Casa mais consultório mais piada mais sonho o que tudo junto me comunica agora O que quer dizer ainda que o paciente não o queira dizer conscientemente Quando pois você descobrir um sentido geral da forma que mencionei e comunicálo a seu paciente ele se surpreenderá muito É plausível que afirme nunca ter pensado nisso e que certa mente não foi o que quis dizer Talvez então você sorria com superioridade porém não se esqueça de que ele tem razão com certeza não pensara e menos ainda quisera dizer o que estava contido em suas palavras você é que o ouviu fora da rotina Alguns nomes mais Desculpe mas é importante saber nomear o que se passa na análise se quer vir a ser analista e poder conversar acerca de seu trabalho A esse tipo de atenção um pouco extravagante que viola todas as regras da boa educação cotidiana Freud chamava atenção flutuante Esse termo você já conhece não é mesmo A comunicação feita ao paciente que serve para romper os limites do assuntos que ele pensava poder tratar em separado chamase interpretação psicanalítica Outro nome conhecido Finalmente àquilo que dá sentido ao que se diz e que o limita está chovendo que faz referirse a um estado do tempo e não por exemplo a um estado da relação entre duas pessoas chamaremos um campo da comunicação ou simplesmente campo Portanto ao interpretar o que você fez essencialmente foi quebrar os limites que a rotina o dia a dia impusera aos significados do 9 paciente isto é você produziu uma ruptura de campo Considero o efeito de ruptura de campo o processo fundamental do método psicanalítico tanto no que diz respeito à produção de conhecimentos como no que concerne à produção da cura Costumase crer que a interpretação psicanalítica mostra ao paciente um tipo especial de sentido através de suas associações das idéias que nos comunica os remanescentes da sexualidade infantil os processos de recalcamento e outros conteúdos semelhantes que através deste livrinho iremos discutindo Isto é certo de algum modo Esses esquemas interpretativos constituem a teoria Psicanalítica a qual norteia as interpretações Semelhantemente há normas para bem interpretar condições de tempo propícias ordem precisa em que certas emoções podem ser patenteadas formas preferenciais para a formulação de interpretações etc Em conjunto constituem a técnica psicanalítica Teoria e técnica juntas ensinam pois como fazer bem a análise não explicam entretanto o que vem a ser a interpretação em si mesma isto é que ato é este a interpretação que pode eventualmente ser bem ou mal feito Uma coisa é saber que jogo estamos jogando outra é saber jogálo bem No momento estou apenas querendo ensinarlhe a essência do jogo que é penso a operação de ruptura de campo Quando você escutou seu paciente dessa maneira estranha desrespeitando os limites dos assuntos que ele pensava abordar e comunicoulhe um sentido geral que ele não sabia reconhecer nas próprias palavras o resultado terá sido é provável bastante surpreendente O cliente talvez reclame de não ter sido compreendido ao mesmo tempo em que experimentará uma sensação algo vaga de que o que você lhe disse tem tudo a ver com ele E há algo ainda pior ou melhor quem sabe É que dos sentidos outros que suas palavras contêm os quais se cancelam geralmente no cotidiano você terá selecionado expressamente aqueles que definem a relação que os dois mantêm no momentoÉ possível fazêlo porque tudo o que dizemos e pensamos sempre nos define o que nos é alheio em algum momento não é pensável sequer Assim você estará procurando o sentido geral incluído despercebidamente no discurso nas palavras do paciente que mostra quem é ele nesse momento e em particular como é ele na relação com você Por fim como este ser na relação apóiase com força sobre um estado afetivo numa emoção você terá descoberto para ele como é que se sente sem o saber em relação a você É concebível brinquemos um pouco do jogo analítico que ao constatar a chuva seu paciente esteja a 10 lhe propor que você é algo assim como uma nuvem chovendo sobre ele que na horizontal se faz de terra fertilizandoo mas fazendo brotar lembranças irritantes de humilhações infantis Estranho Estranhíssimo E no entanto se a interpretação tiver sido bem feita se a compreensão tiver sido cuidadosa tal sentido estará de fato contido nos ditos do paciente a que chamamos material Assim serlheá difícil negar pura e simplesmente que a interpretação tinha razão de ser Os muitos sentidos das palavras humanas se tomados em conjunto poderiam levarnos para quase qualquer lugar Sucede porém que durante uma sessão eles se cruzam e descruzam determinando pontos de convergência ou nós para onde se encaminham porções consideráveis dos sentidos marginais do discurso A essas malhas damos o nome de fantasias Seguimolas através dos fios interpretamolas ao reconhecêlas produzindo uma sensação de ter completado algo que faltava para uma inteligência diversa do material que inclui agora seu sentido geral inconsciente Então o paciente já não sabe momentaneamente o que está fazendo com você Pensava estar contando coisas importantes e de chofre ouve que está a ser chovido Como isso parecelhe tão estranho quanto bem encaixado perde os limites dos assuntos de que pensava tratar percebese diferente não um relator de idéias mas um nãoseiquê apto a ser fecundado Sentese estranho sem saber o que pensar Na verdade diria sem saber como fazer para pensar porque o pensamento cotidiano respeita cuidadosamente os limites dos temas dos assuntos quer dizer apóiase em campos bem definidos como os pés sobre tapetes E se lhe retirou com uma interpretação o tapete debaixo dos pés do espírito Nesse estado de confusão aparece algo que de hábito está bem coberto Aparece aquilo que faz com que alguém o paciente no caso pense sinta e faça o que faz e que ele crê ser sua vontade soberana Puro engano Esses sentidos estranhos como o de ser chovido impulsionam nossa mente sem que nos possamos dar conta manifestam aquilo que denominamos desejo É o desejo que produz nossas emoções É ele uma espécie de matriz que permite e obriga alguém a possuir certo repertório de emoções e não outras quaisquer O analista interpretando vai formando junto com seu paciente o esboço lento do desenho de seu desejo Fundamentalmente por romper o campo da rotina e assim propiciar um espaço em que o desejo se pode mostrar ainda que de forma indireta Tudo se passa como naquele jogo em que se coloca um papel de seda sobre uma moeda Riscase e devagar vai aparecendo a efígie da moeda 11 no papel superposto Tal qual a moeda o desejo não é visível diretamente adiante saberseá que ele é inconsciente e poderemos discutir o que isto quer dizer Seu desenho aparece não obstante nas sucessivas interpretações pois de tanto desenhar como é o paciente em relação a você surgirá a forma que seu desejo adquire em relação a qualquer outra figura Tal tipo de escuta que apreende o paciente em relação a seu analista responde também a um nome bastante conhecido transferência Transferência como a da moeda para a superfície do papel entendeu Caso não tenha ficado claro sugiro que experimente mas primeiro com a moeda e o papel ou na situação analítica tendo a você mesmo como paciente e alguém mais experimentado a fazer de analista Nesse jogo é preciso algum cuidado uma vez que o desejo que vai mostrando sua face é aquele absurdo a que antes eu me referia O sentimento de ser absurdo chovido por exemplo mexe com toda a constituição psíquica do sujeito É uma coisa séria realmente é o lado que determina o que somos mas desconhecemos Sentirse absurdo é muito parecido com estar louco Na verdade sentirse absurdo sem propósito e sem a expectativa de voltar a recuperar o sentido de si mesmo pode levar à loucura Na análise o sentido de absurdo é provisório o paciente recupera a si mesmo depois tendo incluído na consciência de si algumas autorepresentações de que antes não dispunha Por tal razão e porque pretende curarse de sintomas isto é para tratarse e conhecerse ele pode tolerar o absurdo provisório na expectativa de reencontrarse ampliado Mas no trânsito duma representação de si mesmo para outra na expectativa de trânsito a consciência em condição de análise experimenta uma séria angústia uma impressão de se desagregar de não saber o que é ou de não ser nada Recomendo que comece com moedas e um pedaço de papel 3 O INCONSCIENTE Não lhe quero mostrar como os conceitos foram criados ao longo da história da Psicanálise Para isso há bons textos começando pelos de Freud e seguindo com a introdução de quase qualquer livro sobre a Psicanálise Prefiro ao contrário deixarlhe clara a maneira pela qual os conceitos psicanalíticos são criados constantemente pela aplicação do método estudado no capítulo anterior Para tanto há uma forte razão É que o sentido de um conceito teórico está dado em grande parte por sua produção a teoria significa o processo que a cria e a utilização que se lhe dá Lendo este capítulo sobre o inconsciente tenha isso em mente 12 Vejamos Quando um analista produziu inúmeras situações de ruptura de campo com seu cliente foram surgindo aspectos diferentes do desejo Esquemas emocionais como o de ser chovido se comparados uns aos outros vão devagar compondo um desenho característico Em primeiro lugar tal desenho é próprio desse paciente em particular A forma especial que alguém tem de gostar por exemplo repetese tanto nos grandes amores como nas pequeninas amizades Mas por outro lado como nosso repertório não é tão vasto a forma de gostar é também um pouco mais abstratamente a forma de detestar de brincar de comer Homens meticulosos amam odeiam brincam ou comem por partes organizadamente odiando cada pormenor de quem os ofendeu saboreando cada mordia mastigando cada pormenor São pessoas que dizem E além de tudo ele ainda por cima me fez isso e tal regra emocional vale para qualidades de sentimentos diversos da partida de futebol ao banheiro Ora o repertório humano é mesmo bastante limitado Justamente quando cremos ser mais originais mais repetimos certas formas de ser que nos igualam a grupos inteiros de pessoas dáse apenas que o ignoramos cuidadosamente Por causa disso depois de interpretar vários materiais diversos de vários pacientes descobrimos que no plano do desejo há similitudes de esquemas que se repetem com notável regularidade E estes dizem respeito precisamente aos aspectos mais fundamentais dos sentimentos humanos de suas ações e pensamentos À constância de certas formas do desenho do desejo humano corresponde então uma formulação geral que os psicanalistas podem fazer referindose a tipos de emoção a tipos de pacientes ou às pessoas todas Chamamos a isso teoria psicanalítica Agora podemos entender melhor algo que talvez o preocupasse no capítulo anterior Você se perguntava se as palavras podem ter tantos sentidos diversos bastará mostrar qualquer um deles dizer qualquer coisa Na verdade não Há um guia para as interpretações psicanalíticas guia que procede do próprio produto das interpretações anteriores Quer se trate do desenho deste paciente em particular quer saibamos de antemão certas características teóricas próprias desse tipo de emoção que experimenta ou do tipo de pessoa que é sempre estaremos em busca de decifrar algo mais ou menos determinado queremos completar o desenho do desejo A esta altura você talvez se esteja perguntando Essas regras que compõem o desenho do desejo e que vão orientando o trabalho de decifração psicanalítica compreendo que estejam na cabeça do analista mas não estarão também na psique do paciente Tem razão 13 estão sim Estão no sentido de limite isto é da mesma forma que uma máquina de estampar tecidos só produz certo tipo de desenho há uma matriz para nossas emoções a que chamamos desejo que nos limita a cumprir com certas regras emocionais Há de fato uma espécie de lógica das emoções humanas bem diversa daquela que as pessoas usam para explicar os motivos de suas ações Aliás nada há de tão cuidadosamente ignorado como o lugar de onde provêm tais regras limitantes e você já deve ter desconfiado que tal lugar é o inconsciente Que significa haver o inconsciente Em primeiro lugar exatamente aquilo que eu dizia no começo uma certa forma de descobrir sentidos típica da interpretação psicanalítica Ou seja tendo descoberto uma espécie de ordem nas emoções das pessoas os psicanalistas afirmam que há um lugar hipotético donde elas provêm É como se supuséssemos que existe um lugar na mente das pessoas que funciona à semelhança da interpretação que fazemos só que ao contrário lá se cifra o que aqui deciframos Veja os sonhos por exemplo Dormindo produzimos estranhas histórias que parecem fazer sentido sem que saibamos qual Chegamos a pensar que nos anunciam o futuro simplesmente porque parecem anunciar algo querer comunicar algum sentido Freud tratando dos sonhos partia do princípio de que eles diziam algo e com bastante sentido Não Porém o futuro Decidiu interpretálos Sua técnica interpretativa era mais ou menos assim Tomava as várias partes de um sonho seu ou alheio e fazia com que o sonhador associasse idéias e lembranças a cada uma delas Foi possível descobrir assim que os sonhos diziam respeito em parte aos acontecimentos do dia anterior embora se relacionassem também com modos de ser infantis do sujeito Igualmente ele descobriu algumas regras da lógica das emoções que produz os sonhos Vejamos as mais conhecidas Com freqüência uma figura que aparece nos sonhos uma pessoa uma situação representa várias figuras fundidas significa isso e aquilo ao mesmo tempo Chamase este processo condensação e ele explica o porquê de qualquer interpretação ser sempre muito mais extensa do que o sonho interpretado Outro processo chamado deslocamento é o dar o sonho uma importância emocional maior a certos elementos que quando da interpretação se revelarão secundários negandose àqueles que se mostrarão realmente importantes Um detalhezinho do sonho aparece na interpretação como o elo fundamental Digamos que o sonho como um estudante desatento coloca erradamente o acento tônico emocional é claro criando um drama diverso do que deveria narrar como se dissesse Ésquilo por esquilo Um terceiro processo de formação do sonho consiste em que tudo é 14 representado por meio de símbolos e um quarto reside na forma final do sonho que ao contrário da interpretação não é uma história contada com palavras porém uma cena visual Essas e outras propriedades da linguagem onírica Onírico do sonho constituem os mecanismos de formação dos sonhos Mas preste atenção como conhecemos tais mecanismos Do conjunto de associações que partem do sonho o intérprete retira um sentido que lhe parece razoável Para Freud e para nós todo sonho é uma tentativa de realização do desejo A interpretação por conseguinte mostrará uma história que contém um anseio satisfeito tal como Eu queria ter isto ou fazer aquilo A culpa do que fiz não é minha Isto realmente não aconteceu Vejome assim etc A história reconstruída pela interpretação chamase conteúdo latente do sonho em oposição àquilo que o sonho efetivamente mostra que é seu conteúdo manifesto Os mecanismos oníricos portanto são a medida da transformação de um texto em outro são o que traduz o conteúdo latente em conteúdo manifesto Uma charada onde certas regras lógicas permitem transformar uma frase noutra cujo sentido é obscuro até que o charadista a mate Pois bem como na charada os mecanismos para criála não são outra coisa senão o inverso daqueles que usamos para resolvêla Se nós fizemos associações ramificadas a partir de cada elemento do sonho é natural que cada figura possa condensar várias figuras tantas pelo menos quantas tivermos associado Se descobrimos assim um outro valor afetivo para o sonho seguese que o conteúdo manifesto acentuou diferentemente em relação ao conteúdo latente tais valores realizou deslocamentos Se cremos ter encontrado o sentido verdadeiro do sonho este o exibia falso ou simbólico Se por fim ao interpretálo transformamos a linguagem visual do sonho em palavras só nos resta dizer que o sonho havia transformado as palavras do conteúdo latente nas imagens do conteúdo manifesto Simples não é O inverso do processo interpretativo o caminho de ida se a fosse o de volta atribuise ao inconsciente são os processos psicoprimários por oposição aos da consciência os processos psicossecundários Será tudo apenas um brinquedo uma charada que se inventa para resolver Não por certo e já veremos por quê Apenas você deve compreender que o inconsciente psicanalítico não é uma coisa embutida no fundo da cabeça dos homens uma fonte de motivos que explicam o que de outra forma ficaria pouco razoável como o medo de baratas ou a necessidade de autopunição Inconsciente é o nome que se dá a um sistema lógico que por necessidade teórica supomos que opere na mente das pessoas sem no entanto afirmar que em si mesmo seja assim ou 15 assado Dele só sabemos pela interpretação Todavia se não é por puro amor à charada para que servem os disfarces do sonho Os psicanalistas pensam que têm bastante utilidade Teoricamente supomos que haja uma série de forças impulsionando a vida mental Em que forma existem não se sabe ao certo Porém imaginamos que sejam forças que operam de permeio entre o físico e o psíquico Não é dizer muito sei mas é o máximo a que podemos chegar Essas forças ou pulsões representam as necessidades do organismo humano e de seu psiquismo tais como fome sexo curiosidade diga epistemofilia se quiser surpreender os seus amigos com uma palavra difícil que significa adição ao conhecimento ou curiosidade de saberetc Dessas pulsões quase nada sabemos são hipóteses teóricas Entretanto elas se fazem representar na vida mental por uma espécie de corpo diplomático os representantes psíquicos da pulsão que induz a psique a satisfazêlas Eu posso não saber exatamente o que é a fome fisiológica mas sei bem o que significa sentir fome Ora pois se eu sinto fome durante o sono é possível que acorde o que viria prejudicar outra necessidade a de repouso então sonho que como e me engano por algum tempo Pode suceder não obstante que me ocorra um desejo menos aceitável como o de redecorar a sala de visita de casa com uma pintura de fezes Não se espante as criancinhas têm vontades desse tipo e infelizmente as realizam se não houver quem lhas impeça Desejos de tal monta contrários frontalmente às aquisições duma boa educação feririam os pudores da consciência além de ferirem outros sentidos que não o estético têm de ser disfarçados há uma censura interna que lhes proíbe o acesso à consciência De forma análoga são censurados certos desejos sexuais agressivos e outros Muito daquilo que nossa vida infantil permitia na fase adulta já não pode mais nem ser pensado ou porque viole as normas de socialização ou porque contraria outros impulsos mais importantes Seria ótimo viver de brisa a preguiça o diga mas as necessidades de manutenção pessoal ficariam muito contrariadas com tal regime Para conjugar tendências tão opostas a psique lança mão de um truque De um fado ela não permite que cheguem a ser representadas cons cientemente as pulsões muito contrárias ao conjunto da vida mental duma fase qualquer da vida Não se representam porém nem por isso desaparecem em alguma parte do coração temos sempre 20 anos em outras partes 5 ou 6 meses de idade À proibição de se representar conscientemente uma pulsão denominase repressão se ela é muito 16 completa recalcamento A repressão portanto impede que a idéia ou representação dum impulso aceda à consciência contudo o prazer ou o desprazer ligado à representação não dá para sufocar Os afetos passam Só que passam e aí está o truque disfarçados ligados a outra representação ou idéia simbolizados Daí a utilidade dos processos de formação do sonho segundo Freud pois despertaríamos desgostosos caso tivéssemos contato com as idéias originais Os sonhos os atos falhos a que já me referi os sintomas neuróticos que veremos à frente funcionam pois como válvulas de escape para o reprimido Mais do que isso São verdadeiras obras de arte fundindo numa mesma idéia pulsões obstadas e a censura que as proíbe Como se os sonhos dissessem Quero isto mas isto não é isto nem sou eu que o quero Cuidado pois ao negar de muitas maneiras diferentes a mesma coisa Vamos rever esse esquema teórico Há pulsões ou impulsos Alguns deles não se podem realizar nem se representam conscientemente pois contrariam o equilíbrio da vida mental gerando desprazer Já que a mente tende ao prazer a idéia que os representa é recalcada Como o afeto não o pode ser este aparece mas disfarçado como se se manifestasse em outra idéia Esparramar as fezes pela sala é incompatível com uma pessoa bem educada pintar um quadro por mais feio que seja cheira menos mal é compatível é até meritório Modificouse o fim do impulso transformado em algo mais elevado culturalmente mais sublime denominase isto sublimação Ou então o impulso aparece menos disfarçado todavia disfarçado ainda num sonho num ato falho num sintoma Entendeu Decerto só ficamos sabendo de tudo isso através de interpretações Logo o processo de encobrimento é apenas o reverso do processo de interpretação O inconsciente por assim dizer é uma interpretação ao contrário Ora se alguma coisa parece irracional depois de interpretada ela fica bem explicável Se alguém teme um bichinho inofensivo sempre se pode dizer que este o bichinho representa impulsos autodestrutivos inconscientes E os impulsos autodestrutivos é justo temêlos Será certo pensar assim Bom não muito Senão como se costuma dizer Freud sempre explica Contudo há muitas pessoas que pensam que a Psicanálise é bem isso e há outras pessoas que a xingam por ser desse jeito exatamente como não é Pois para a Psicanálise tanto o que é incompreensível quanto o que é bem compreensível à luz da vida cotidiana merecem igualmente que se 17 interprete As pessoas comuns costumam explicar o que fazem da seguinte maneira Eu fiz isso assim porque tinha motivos Se os motivos não me ocorrem entretanto é possível que sejam motivos desconhecidos inconscientes que justifiquem minhas idéias e ações O importante você vê é manter a proporcionalidade entre motivo e ação Nem que para tanto tenhamos de inventar motivos inconscientes ou atribuir qualidades e defeitos aos outros como faz o homem preconceituoso Se você não o fez fêlo seu pai ou tio ou pelo menos você poderia têlo feito etc Nada mais diferente dessa psicologia motivacional primária do que a Psicanálise O método psicanalítico não se vale da lógica cotidiana da proporção entre motivo e ação Por que só o irracional haveria de ter motivos inconscientes e o resto O inconsciente não é um sistema de explicações para o inexplicável mas uma lógica diferente Tais explicações justificam o porquê duma idéia ou ação quando ela já se deu são racionalizações A interpretação psicanalítica visa demonstrar o processo que torna possível uma idéia ou ação a maneira pela qual nós as concebemos a lógica da concepção Não a lógica superficial do que já foi concebido Lógica da concepção lógica das emoções ou lógica inconsciente são nomes da mesma coisa mostram o como não se detém no porquê Além disso a interpretação como já vimos parte da noção de que há sempre inúmeros sentidos e não um só sentido verdadeiro Por essa última razão dáse algo curioso com a teoria psicanalítica Ela poderia explicar quase tudo é claro Por isso preferimos usála para não explicar nada a não ser o próprio processo de concepção Assim quando se usa uma teoria psicanalítica para interpretar mesmo que seja uma teoria tão respeitável como a do complexo de Édipo estamos sempre procurando refutála No mínimo estamos abertos a que a prática a refute Chamo a isso princípio de risco do processo interpretativo Aliás se uma teoria qualquer entra no começo duma interpretação concreta feita a um paciente por exemplo é de se esperar que ela saia modificada na outra ponta da interpretação Caso contrário se sai igual direi que apenas encontramos o que já tínhamos colocado que a interpretação foi teoricamente indiferente conquanto talvez até possa ter sido clinicamente útil Se a teoria se modifica se se especifica ou é corrigida aí sim penso que se tratou duma interpretação teoricamente significativa A teoria por conseguinte arriscase de cada vez que a empregamos de forma legítima na prática analítica Sempre estamos à 18 procura de outra coisa de que algo novo surja Essa possibilidade sempre presente de dissolução da teoria faz com que devamos considerar a prática psicanalítica não como conseqüência simples das nossas teorias porém como uma atividade teórica muito perigosa e radical Com efeito a prática analítica é o ponto de fusão de sua própria teoria 4 O APARELHO PSÍQUICO Se você entendeu o caminho ou método pelo qual o inconsciente se descobre e a utilização legítima da teoria psicanalítica podemos passar agora ao exame das teorias do aparelho psíquico e da libido A Psicanálise não trata de fatos materiais nem respeita os limites das convenções a respeito deles Sempre que se lhe antepõe uma divisão bem estabelecida ela deve perguntar Em que campo tal distinção se assenta E em seguida experimenta rompêlo Poucas certezas há que tão fortemente estejam calcadas em nosso espírito quanto aquela da existência dos indivíduos humanos eu ele você são referências naturais de toda sentença Pois bem ao estudar o mais individual de todos os atributos do indivíduo seu aparelho psíquico é onde precisamente a Psicanálise ameaçará romper a unidade individual Pois o termo indivíduo não evoca indivisível aquele que não pode ser dividido Mas a teoria psicanalítica do aparelho psíquico começará justamente por aí dividindoo e mostrando que ele não se centra onde pensava em sua consciência Também e talvez até mais escandalosamente a Psicanálise embora comece a investigar o aparelho psíquico em pessoas distintas confunde um pouco os limites estabelecidos de forma que o psiquismo poderia ser também coletivo social ou mesmo mais abstrato Talvez as obras humanas contenham seu próprio psiquismo talvez sejam elas a psique humana mais até que as pessoas isoladas Com efeito uma teoria geral do aparelho psíquico da máquina espiritual de pensar sentir agir deveria principiar pela distinção já estabelecida páginas atrás entre lógica do concebido e lógica da concepção Nós todos temos muitas explicações a dar sobre as razões que justificam o que fazemos e sobre a ordem que há no que pensamos porém nada sabemos dizer na vida comum a respeito das razões e ordem de concepção em si mesma da concepção que nos faz grávidos de sentimentos de idéias de ações No máximo fazemos uma atribuição indevida afirmando que chegamos a pensar sentir ou agir por causa dos efeitos que visamos obter É como dizer meu carro anda por causa do lugar aonde quero ir erro que recebe 19 dos filósofos o nome pomposo de falácia teleológica isto é engano falácia por confundir origem e eficiência com finalidade teleologismo A razão dessa falácia é muito simples Acontece que a lógica da concepção é inconsciente e mais o inconsciente psicanalítico a ela pertence Todavia não se pode limitála arbitrariamente aos indivíduos isolados há idéias e ações sociais há significados que abrangem toda a humanidade há concepção nas obras mesmas no interior delas e não só no dos seus autores Para compreender mais facilmente o aparelho psíquico entretanto comecemos com as pessoas comuns onde tudo começa Há a consciência Disso ninguém duvida pelo menos no tocante à sua que haja a dos outros é sempre um problema delicado A consciência é um desses entes difíceis de definir mas que por outro lado felizmente não requerem definição Nós a conhecemos ou melhor não a conhecemos porém tudo aquilo que conhecemos é consciência Se você disser Estou sofrendo um terrível sentimento inconsciente de culpa desconfio que me está tentando enrolar Como ficou sabendo disso A percepção que temos do mundo é consciência as lembranças inclusive a dos sonhos e devaneios são consciência A memória é consciência e só há memória de fatos mentais conscientes Por outro lado só há esquecimentos onde pode haver memória o inconsciente não se lembra nem se esquece Tudo o que se concebe numa palavra é consciência menos o próprio processo de concepção Ao investigar os processos de concepção a Psicanálise interessase por todos mas centra sua atenção na questão dos conteúdos muito carregados de afeto de prazer ou desprazer O princípio básico do funcionamento mental segundo Freud é o de evitar desprazer Nós já vimos que idéias capazes de gerar desprazer ou dor psíquica são impedidas de emergir à luz da consciência O inconsciente portanto é o lugar teórico das representações recalcadas ou daquelas que nunca puderam chegar à consciência das pulsões sem representação consciente No inconsciente segundo Freud há energia pulsional livre e representações que podem ser carregadas com essa energia provocando as maiores confusões se por exemplo o ato de escrever for excessivamente carregado com libido ou energia sexual alguém poderá sentir vergonha de escrever em público como se fora um exibicionista tímido Inconsciente é também o próprio processo de recalcamento que impede certas idéias de emergir As idéias recalcadas todavia não ficam inertes Sempre estão a jogar entre si usando como moeda a energia livre do sistema inconsciente além de 20 influírem no funcionamento da consciência À medida que nossa vida consciente se desenrola há uma espécie de entrelaçamento entre certas representações ou idéias e núcleos ou complexos inconscientes Estes podem estimulálas inibilas fazêlas penosas ou agradáveis A propósito complexo na Psicanálise significa simplesmente um conjunto complexo de idéias carregadas afetivamente como se diria um complexo industrial Nem tem sentido pejorativo nem há razão para se dizer que fulano está complexado E mais como o sistema inconsciente desconhece o tempo e o esquecimento suas representações permanecem ativas para sempre Entre o inconsciente e a consciência medeia um outro sistema psíquico que é o préconsciente Préconsciente chamase o lugar onde teoricamente estariam as representações que não sendo conscientes podem vir a sêlo bastando para isso que o sujeito se interesse por elas É o lugar do esquecido do guardado daquilo que é no máximo um tanto incômodo mas não demais O processo de relegar uma idéia ao préconsciente chamase repressão é por assim dizer menos forte que o recalcamento A verdadeira barreira da censura está por conseguinte onde há o recalcamento entre o préconsciente e o inconsciente pois os conteúdos do primeiro ainda mantêm acesso à consciência acesso fácil ou mais difícil O que lhes é essencial porém é que já se exprimem por palavras enquanto que os conteúdos inconscientes encontram vedado precisamente esse passo básico para chegarem à consciência Um dos esquemas de funcionamento da psique pois conjuga esses três sistemas consciente préconsciente e inconsciente O modelo é simples muitíssimo útil e prático sobretudo quando se quer entender os diferentes tipos de lógica operantes em nossa mente Os sistemas possuem características lógicas diversas ou como se diz também princípios diversos de funcionamento A consciência toma em conta a realidade consensual o inconsciente trabalha só de acordo com o princípio do prazerdesprazer como uma espécie de máquina de reduzir tensões mentais porque o excesso de tensão é experimentado como desprazer Porém pese sua inegável utilidade esse modelo é apenas isso um modelo Tanto é verdade que Freud mesmo criou outro modelo do aparelho psíquico também claro e útil Este segundo esquema ou segunda tópica de topos lugar não se funda na disposição dos conteúdos mentais em relação à consciência mas toma em conta as funções que a psique perfaz e as estruturas por elas responsáveis Você talvez já conheça os nomes dessas três estruturas psíquicas ego id superego 21 O id que nas palavrascruzadas tem como conceito substrato instintivo da mente é exatamente assim uma espécie de substrato de onde provêm as pulsões Seus conteúdos são os representantes psíquicos das pulsões seja os que nunca chegaram a se tornar conscientes seja os que foram recalcados Dessa forma é fácil compreender que o id é a instância original da psique Ao nascer o indivíduo psicológico seria para Freud puro id Aos poucos todavia o contato com as pressões da realidade iria provocar uma espécie de organização secundária da periferia do id fazendo que parte de tal massa indiferenciada se estruturasse mais ou menos como a crosta dum pão que está assando A essa casca organizada dáse o nome de ego O ego é a sede de quase todas as funções mentais Toda a consciência cabe ao ego que se responsabiliza portanto pelo contato com o ambiente com a realidade externa O ego nesse sentido é um simples feixe de funções percepção atividade juízo ou julgamento do que é real e dos fins a perseguir etc etc Mas o ego não é só consciência Há funções inconscientes do ego os famosos mecanismos de defesa que serão visitados por nós quando estudarmos as neuroses Por conseguinte se o id é puro inconsciente o ego ligase estreitamente ao sistema préconsciente consciência mas como todas as boas famílias também tem seu pé na cozinha A terceira instância ou estrutura psíquica o superego nada mais é do que uma parte bastante diferenciada do ego Tão diferenciada que seus interesses separamse daqueles do ego e podem se lhes contrapor O superego é uma espécie de censor das funções do ego estimula o que se deve processar proíbe o resto Para realizar essa tarefa ingrata ingrata para o ego ele se baseia nas normas morais que se fixam a partir dos primeiros anos de vida Há uma pequena discussão entre os psicanalistas para saber quando exatamente se forma o superego para nós ela não é importante basta observar que como seus critérios são fundados em normas muito precoces o juízo moral do superego é freqüentemente primitivo chocandose com as aquisições mais elevadas do ego É um juiz mas não é um bom juiz Às vezes proíbe coisas que o ego mais desenvolvido poderia fazer com perfeito sucesso só porque não o poderia ter feito nos tempos de sua origem O superego age como uma consciência moral e no entanto é fundamentalmente inconsciente e bastante imoral eis o paradoxo Essas três estruturas porém tão esquemáticas nem sempre se diferenciam No funcionamento adequado do psiquismo quando tudo vai bem formam antes um todo harmonioso O id supre energia pulsional que 22 o ego autorizado pelo superego transforma em pensamentos conscientes projetos ações a serviço dos fins das pulsões É só quando eclode um conflito que se fazem realmente notar as discrepâncias entre as estruturas Diante de uma pulsão do Id que o superego desaprova o ego vêse prensado entre exigências impossíveis de serem inteiramente satisfeitas Se a pulsão é aceita representada conscientemente e posta em ação a condenação do superego irá se expressar sob forma de dor psíquica angústia sentimento de culpa Se o acesso da pulsão é inteiramente proibido esta continuará a insistir a pedir passagem Por isso o ego acaba por barganhar aceita parcialmente a pulsão porém modificada disfarçada Tratase de um acordo de compromisso o superego fecha um pouco os olhos o id cede quanto à forma e todos ficam felizes Felizes Nem tanto Para poder impedir que uma pulsão penetre na consciência os processos defensivos egóicos o recalcamento em particular necessitam usar um tanto de energia para se opor Mas onde encontrála A solução é tão elegante quanto insatisfatória E necessário enganar o princípio do prazer que domina o inconsciente para dele mesmo retirar forças que se oporão à sua satisfação Diante de uma pulsão proibida cuja satisfação daria prazer se o superego não se opusesse há que convencer o princípio do prazer de que sucederá dor Para efetivar esse truque o ego aciona uma espécie de alarma um pequeno sinal de angústia sempre que tal tipo de pulsão se lhe apresenta à porta Como se dissesse ao id veja como isso que parece bom na verdade dói E o id enganado até certo ponto cede energias para contrariar seus próprios fins pulsionais Basta então ativar os mecanismos de defesa carregados dessa energia conseguida com um truque que envolve angústia como se vê No fim portanto todos ficam mais ou menos insatisfeitos mas o que se há de fazer a política mental pelo menos é a arte do possível Pois bem definido para você o modelo estrutural id ego superego e exercitado com este exemplo de conflito padrão ficará provavelmente a idéia de uma espécie de organograma de empresa certos departamentos responsáveis por tais ou quais funções Modelos são sempre ingratos são formas muito secas de pensar Para dissipar um pouco a impressão de esquematismo rígido vale a pena tratar de imediato da origem dessas instâncias em relação ao desenvolvimento da libido Libido você sabe é o nome usado por Freud para designar a energia sexual Como podemos conhecêla porém se energias mentais não são mensuráveis A questão está longe de admitir uma resposta simples Para 23 nós entretanto basta considerar que a sexualidade sofre transformações o objeto de interesse sexual varia bastante ao longo da vida humana mas também variam as maneiras pelas quais se satisfaz a sexualidade Disso sabemos todos E se tanto pode mudar o interesse sexual que é que se satisfaz ou não em formas tão diversas Resposta a quantidade de energia sexual seja lá o que isso signifique pois satisfeita de um modo qualquer observase uma diminuição da necessidade de satisfazêla de outro A tal constante nas mudanças Freud chamou libido que é como em latim se diz desejo A libido para a Psicanálise é a energia que pode experimentar os maiores desvios e contra tempos em sua utilização ao contrário por exemplo da energia ligada às pulsões alimentares Por isso interessanos mais Não por ser a única mas por ser a mais complicada digamos Inicialmente nos começos da vida mental a libido aparece como um algo a mais ligado às funções de nutrição O bebê que se alimenta retira do ato de sugar um prazer a mais erótico que se expressa no ato de chupar o dedo Chupando o dedo não se alimenta decerto todavia consegue algo assim como um suporte para suas fantasias de estar mamando engana a fome e a si mesmo A primeira fase da libido caracterizase por esse tipo peculiar de satisfação em que o objeto sexual é ainda o próprio corpo infantil o autoerotismo Na fase de autoerotismo não há objeto externo nem há para Freud estruturas mentais outras que o id esse reservatório indiferenciado de pulsões Logo em seguida porém o psiquismo começa a organizarse Surge o ego primeiro como um feixe embrionário de funções tais como motilidade percepção juízo de realidade depois como uma estrutura bastante coerente Acontece então que o próprio ego se torna objeto de libido de interesse amoroso o que conhecemos pelo nome tão difundido de narcisismo A libido então se voltará para objetos externos de amor primeiro para a mãe seguindose depois toda a série de escolhas sexuais que veremos no próximo capítulo Por ora quero apenas que você guarde a idéia de um equilíbrio que ademais seguirá pela vida afora entre quantidades de libido dirigidas a objetos externos de amor e quantidades voltadas para o próprio ego Isto é normal Uma decepção com os objetos externos com a pessoa amada com a profissão etc leva ao aumento do investimento libidinal do ego uma paixão ao contrário faz diminuir tal investimento exigindo que o amor que o ego perde por si mesmo seja compensado por uma retribuição provinda do objeto O ego vêse então não é apenas um feixe de funções um 24 departamento empresarial mas por igual um objeto muito estranho fonte de interesse pelo mundo e receptáculo de amor Dos amores do ego o caso mais desesperançado é sem dúvida o superego Pois o superego nasce sempre para Freud como um herdeiro da resolução do complexo de Édipo Também isso se verá melhor no capítulo seguinte No momento é suficiente reter que a criança que se resignou a não ser objeto sexual dos pais só aceita essa desilusão ao preço de identificarse com os aspectos mais proibitivos das figuras paternas que se encarnam numa parte especializada do ego Essa parte o superego seguirá doravante dizendo muito mais não do que sim dando amor a troco de obediência mesmo a exigências extremamente irracionais Será o modelo da aceitação social do conformismo às normas externas à lei do castigo Será vigilante e como todo vigilante exigirá que se lhe engane a atenção No conflito por causa de um impulso proibido vimos bem como se faz para burlálo Desde sua origem as instâncias psíquicas jogarão entre si um jogo de pequenas e grandes burlas tendo como prêmio a saúde mental quando tudo vai bem quase que não se distinguindo uma das outras lutando entre si quando fracassam as tentativas do ego de harmonizarlhes as exigências É preciso ter pena do ego Ele está dividido a serviço do id do superego e das exigências do mundo externo É um equilibrista No indivíduo normal ou passavelmente neurótico contudo sobra ao ego habilidade para jogar com as forças tão discrepantes das pulsões da censura do superego da realidade externa E ainda lhe sobra habilidade para construir a vida procriar produzir a civilização e suas obras Tenhamos pena do ego mas respeitemos suas manhas 5 A SEXUALIDADE I Se a libido desempenha o papel de motor de inúmeros processos psíquicos psicanaliticamente relevantes você pode compreender facilmente como deve ser importante definir com toda a exatidão o conceito de sexualidade Não pode ser tão estreito que não cubra todos os fenômenos correlacionados nem há de ser tão amplo e geral que se descaracterize Antes da Psicanálise consideravase em geral a sexualidade de forma algo restrita como o conjunto de atos ligados à relação sexual ou coito e em especial à reprodução A descoberta freudiana da sexualidade infantil a extensa teorização que dela os psicanalistas fizeram foi o ponto de partida para um alargamento radical do conceito 25 Por vezes este se alarga demais Pareceria que todos os sentimentos que se pudessem vincular ao amor ou ao ódio seriam sexuais pela única razão de se poder deriválos interpretativamente de diferentes destinos do amor sexual Simplismo é claro O sentido forte do alargamento da noção de sexualidade não é o de que toda a vida é um derivado da sexualidade mas o de que toda a vida é vida sexual no sentido estrito isto é todos os movimentos vitais tanto tendem à conservação do indivíduo como comportam um quantum de satisfação erótica ou de negação dessa forma de prazer Há libido investida em todos os atos psíquicos de uma ou de outra forma Por esta razão dizse que a mente e sua evolução individual é um processo psicossexual Compreendêlo fica mais fácil quando se pensa no desenvolvimento infantil Uma das descobertas fundamentais da Psicanálise freudiana foi a sexualidade infantil O que Freud descobriu de fato foi uma linha de continuidade sexual desde a infância até a maturidade onde se pensava haver um aparecimento súbito quase sem antecedentes brusco e inesperado durante a puberdade Aquela satisfação extra que vimos ligarse à amamentação vai modificar se grandemente até chegar à forma que costumamos reconhecer da sexualidade adulta Primeiro é a fase oral O prazer está então vinculado essencialmente à recepção dos alimentos A atitude dominante do sujeito nessa fase consiste numa relativa passividade como a de uma boca aberta para engolir o mundo circundante Também não há noção que distinga o si mesmo do outro o seio materno ou seu substituto é considerado como parte do sujeito infantil tudo está para ser engolido ou eventualmente rejeitado Já com o aparecimento da dentição há uma modificação profunda nessa atitude passiva pois a criança adota uma postura mais agressiva morde mastiga dilacera Daí que se distinga na fase oral um período oral receptivo e outro período oralcanibalístico ou sádicooral Durante a fase oral predominam sentimentos muito violentos em relação ao objeto de amor o seio materno Melanie Klein e sua escola estudaram profundamente essas primeiras relações de objeto Mostraram que o seio nutriente é experimentado pelas fantasias infantis como o eixo de todas as bondades possíveis é alvo de uma paixão que não encontra paralelo na vida afetiva posterior O seio bom como ela o chamava tanto representa o modelo de toda boa relação subseqüente como é também o núcleo do desenvolvimento do ego infantil Por outro lado e são dois os lados na 26 psicanálise kleiniana a experiência de sentir fome sem que o seio materno acorra para aplacála é ódio puro um inferno sem atenuantes O objeto primeiro é assim louvado ou atacado ferozmente em fantasia sem que haja possibilidade alguma de conceber unificadamente esses dois elementos polares da vida mental que só para o observador coincidem no seio materno Dominam então processos mentais bastante simples e um tanto brutais A relação entre o bebê e o mundo dáse principalmente através de um par de mecanismos chamados projeção e introjeção Entendese por projeção a tendência a atribuir certas qualidades do sujeito a seu objeto Introjeção será o contrário um engolir psíquico pelo qual partes ou qualidades do objeto são internalizados pelo sujeito O entrejogo de tais mecanismos faz com que num dado momento tudo o que haja de bom ou aprazível na vida mental seja propriedade do seio idealizado muito bom ou que ao contrário este se transforme em seio péssimo com características diabólicas O que não existe claro está é um seio mais ou menos O ego infantil por seu lado também pode oscilar entre os mesmos extremos bastando que se introjete um seio bom ou um seio mau É como se houvera dois objetos e dois egos bons e maus irreconciliáveis A isso chamamos cisão Naturalmente esse modelo do pensamento infantil da fase oral você compreende é apenas uma tentativa de compreensão Quais são exatamente os conteúdos mentais das criancinhas nós não o podemos saber com certeza os bebês não falam e se falassem nós não os entenderíamos É verossímil que as primeiras experiências mentais sejam muito fragmentárias lampejos de consciência ainda desconectadas entre si que só conhecem emoções extremas Ora uma linguagem que exprimisse tais extremos haveria de ser incompreensível para nossos hábitos adultos A evolução psicossexual infantil todavia levará a criança paulatinamente a modos mais compreensíveis de funcionamento mental Uma aquisição importantíssima segundo Melanie Klein será o reconhecimento do objeto inteiro vale dizer a dura descoberta de que o seio adorado e o seio odiado são um e de que este é parte duma totalidade pessoal chamada mãe Consciência penosa esta pois que a criança capacitase de ter atacado com ódio precisamente sua mais preciosa fonte de vida Culpa e remorso acompanham tal fusão que servirá de base a todas as vivências depressivas posteriores Por isso chamase a esse momento posição depressiva Daí para a frente muito da nossa vida mental terá por meta consertar reparar proteger aqueles bens que tememos ter destruído pelo nosso ódio E veja estamos ainda tãosomente no começo do segundo 27 semestre de vida pósnatal Pelo ângulo da evolução da libido haverá também uma modificação importante embora um tanto mais tardia A primazia da zona oral de satisfação depois do primeiro ano de vida cederá o passo lentamente para a questão do controle muscular e especialmente do controle das excreções anais A fase anal é o momento da evolução infantil onde cobra importância o dar expulsar reter Fezes são de início muito mais do que uma sujeira a ser escrupulosamente escondida São presentes ou são instrumentos agressivos projéteis perigosos A criancinha é recompensada por evacuar em hora e local devidos punida por não o fazer Junto com a posição depressiva a primazia anal introduz o drama da culpa o esforço por um bom comportamento O prazer de soltar e de reter que durante a vida toda se mantém embora não só necessariamente em relação às fezes já não é tão puro acompanhamno todos os estímulos e sanções que a sociedade utiliza para promover a educação Aliás a significação das fases do desenvolvimento libidinal não se esgota nesses passos primeiros de sucessivas superações Como a vida mental é neles formada fica sempre a marca característica das primeiras fases e de como elas foram vividas Há prazeres orais o comer o fumar o beijo e mais agressivamente a mordida o prazer de atacar destruir conquistar Também o prazer de evacuar permanece representado nos atos de expulsão tanto na doação no presente e na produção como na sensação de se livrar de coisas ruins e perigosas na expulsão violenta e aliviadora que certos jogos encarnam à maravilha A vida econômica por exemplo quanto tem de avidez de domínio de satisfação em reter Com efeito são mais que restos o que sobra das fases iniciais do desenvolvimento da libido Sobra a forma mesma de nossa vida adulta o caráter Você já ouviu falar seguramente de fixação e regressão agora poderá compreendêlas Cada estágio do crescimento infantil cada fase apenas pode ser superada se o prazer que nela se obtinha for obtido na fase ulterior conquanto em forma diversa Quando há problemas mais graves se por exemplo há muita frustração da oralidade ou exigência extrema na educação para a higiene anal o acesso à fase seguinte estará comprometido A criança então passará a repetir a última forma libidinal que lhe proporcionou adequada satisfação É como se ficasse em parte lá onde foi bom Chamase a isso um ponto de fixação Se porventura ocorre mais tarde na vida uma insatisfação maior com as circunstâncias reais o sujeito tentará a tornar aos padrões que lhe foram satisfatórios isto é regridirá aos pontos de fixação já marcados 28 O selo dos pontos de fixação fica visível no caráter do indivíduo O caráter oral receptivo alia uma certa passividade ao desejo perene de receber como se o mundo sempre lhe estivesse a dever as primeiras satisfações No caráter oral sádico há uma constante voracidade agressiva insaciável sempre atacando para conseguir mas destruindo ou desaproveitando o que consegue A primeira fase anal onde o prazer expulsivo domina leva a um caráter especialmente violento que despreza o outro que tende a expulsar de si todos os aborrecimentos intolerante a frustrações e a limites A marca da fase analretentiva a segunda é ao contrário uma espécie de cautela excessiva timidez respeitoso temor por ordens e hierarquia meticulosidade exagerada Dito assim parecerá talvez que se trate de doenças Não São feitios de caráter normais ou quase onde os desvalores apontados comportam igualmente certas boas qualidades Ser cordato ou empreendedor ser agressivo ou meticuloso quando não se está nos extremos pode apresentar utilidade para a vida pessoal e social O importante é porém que você note como as fases do desenvolvimento da libido não são realmente abandonadas Superação nesse caso significa apenas integração É como se para construir uma figura começássemos com um lado a fase oral juntandolhe outro depois sendo o ângulo formado a fase anal Se agora juntarmos um terceiro teremos um triângulo representando a fase fálica que veremos em seguida Nessa analogia a vida psicossexual dos adultos representarseia por uma pirâmide de base triangular Isto é passamos dum segmento a um ângulo deste a uma figura plana e a um sólido tridimensional Houve integração numa estrutura de ordem superior não abolição da estrutura anterior Compreendeu Esse quadro dos começos da sexualidade na criança hoje nos parece mais ou menos comum Não era assim porém quando Freud o expôs pela primeira vez no começo do século Foi um tremendo escândalo E se as fases oral e anal escandalizaram nossos avós que dizer da fase fálica Pois a fase fálica já é sexual mesmo para o mais obtuso Nela por volta dos 3 aos 5 anos o interesse erótico concentrase nos órgãos genitais no pênis no menino na vulva clitóris e vagina na menina E há masturbação assim como fantasias sexuais com pessoas reais Escândalo puro já se vê para uma sociedade que cria nascer o sexo apenas na puberdade e olhe lá Os objetos de amor agora como todos sabem são os pais Se o primeiro objeto externo é sempre a mãe na fase oral agora será o genitor de sexo oposto ao da criança geralmente O menino anseia por possuir 29 sexualmente a mãe a menina o pai e ambos consideram o genitor de mesmo sexo como um rival perigoso Odeiamno E aqui surge o problema também o amam carinhosamente pelo que dele recebem de afeição e cuidados A ambivalência ódio e amor simultâneos é o grande problema da fase fálica Essa relação triangular carregada de ciúmes conhecese como Complexo de Édipo nome daquele rei mítico de Tebas que tendo matado o pai sem o saber acabou desposando a própria mãe Acresce ao drama da criança edipiana além da ambivalência o fato óbvio de sua incapacidade efetiva para concretizar uma relação sexual Pobre pequeno com sonhos tão ambiciosos Sente que sua incapacidade provém da proibição dos pais sente cada punição como um castigo pelos desejos proibidos como castração numa palavra As fantasias edipianas dão culpa os limites e frustrações impostos pelos pais parecem castigos por tais culpas Por fim vence o desejo de paz A criança aceita renunciar ao objeto de amor sexual por medo da rivalidade poderosa do genitor de mesmo sexo e pelo repúdio que experimenta de seu amado O menino por temer a perda do precioso órgão genital que cada reprovação ou castigo parece ameaçar concorda digamos em ser provisoriamente castrado isto é em renunciar ao uso do pênis por um certo tempo Em troca não pretendendo permanecer em luta com o pai trata de imitálo identificase com as qualidades do pai castrador tornase um homenzinho Com a menina dáse algo mais complicado em teoria Primeiro seu amor inicial pela mãe a primeira a prodigalizarlhe satisfações genitais durante os cuidados de higiene corporal tem de mudar de direção Provavelmente isso se consegue por uma decepção prévia A menina que constata as diferenças sexuais com um irmão ou amiguinho estabelece uma teoria infantil segundo a qual faltalhe esse órgão tão valorizado o pênis não por não o ter mas porque o perdeu ou ainda não se ter desenvolvido Responsabiliza a mãe por tão desagradável condição rompe com ela e passa a dirigir seu amor ao pai Por isso costumamos dizer que o menino sai do complexo de Édipo através da castração enquanto a menininha pela castração nele penetra De qualquer modo em ambos os sexos há uma aceitação forçada da castração e renúncia provisória da satisfação genital que permite voltar o interesse mental para atividades outras como o brinquedo e o estudo no período conhecido como de latência Em ambos os sexos também a fase fálica de falo pênis é riquíssima em 30 fantasias ocorrendo curiosas teorias a respeito da sexualidade e reprodução As teorias infantis postulam que os bebês nascem pelo ânus como as fezes imaginam castrações fantásticas onde um simples corte no dedo uma extração de amídalas etc têm sentido muito agourento Com base nessas fantasias edipianas é que se estabelecerão os tipos de objeto de amor da vida adulta Representarão os pais porém de maneira mais ou menos disfarçada não raro recaindo a escolha em figuras francamente opostas aos primeiros objetos de amor O temor à castração pode ser tão terrível aliás que um menino talvez renuncie precipitadamente ao genitor de sexo oposto oferecendose por medo àquele de mesmo sexo como objeto de amor Não me castre não me mate mas ameme que me ofereço seria a forma do Édipo invertido fundamento de quadros posteriores de homossexualismo O mecanismo dominante na fase fálica durante a resolução do complexo de Édipo sobretudo é pois a repressão Mais forte ou menos forte será um herdeiro para toda a vida Compreendese então que a introjeção das proibições paternas causa primeira da repressão fixese nessa fase e que a identificação com o genitor de mesmo sexo deixe um ideal e uma fonte de censura Como já vimos essa fonte de ideal e censura consolidase numa estrutura permanente conhecida como superego O período de latência dura até a puberdade Renascem aí com violência os interesses eróticos já voltados entretanto para substitutos dos pais Esta é a fase genital propriamente dita onde muito do que importa já está determinado O que se disse até aqui deve ter formado em você uma idéia bastante difundida e que justa mente gostaria de desfazer Talvez lhe pareça que a sexualidade segue um caminho bastante tormen toso até chegar com sorte ao porto seguro da genitalidade ou normalidade sexual um erro Não existe tal sorte e se existisse talvez não fosse sorte A imagem do adulto normal que se satisfaz exclusivamente com o coito é por si uma espécie comum de perversão Como o adorador de objetos fetichista de sapatos ou calcinhas como o exibicionista ou como aquele que só encontra prazer em relações sádicas o supernormal que renuncia a tudo menos ao coito reduz excessivamente a riqueza da relação sexual Perversão é na verdade qualquer versão restritiva da sexualidade ou do real em sentido mais amplo A vida sexual normal se isso tem sentido é uma arte prática de fantasias vívidas de sonhos de jogos difundida pelos atos todos da vida e não só os da cama embora comportando também renúncia e sublimação As cenas que alimentam as fantasias sexuais vãose acumulando no 31 transcorrer do desenvolvimento infantil Fundamentais são por exemplo as fantasias de sedução provindas dos primeiros contatos com a mãe Os estímulos genitais que acompanham o trato da criança pequena marcamna com uma intuição talvez não de todo errônea de ser por ela amada e desejada sexualmente que no futuro será preenchida por experiências com companheiros de brinquedo e adultos E isto é normal Outra fantasia dominante é a de ter presenciado relações sexuais entre os pais O isolamento em que a criança vive quando os pais estão fechados no quarto é vivido sexualmente mesmo que nunca a visão do coito paterno haja ocorrido O simples jogo da presença e ausência da mãe na primeiríssima infância com todo o peso da frustração que carrega as fantasias sexuais o desejo de ser capaz de operar magicamente o controle desse ir e vir que foi sofrido passivamente Todas essas fantasias podem ter um efeito traumático isto é marcar dar forma especial conformar a um nó o desejo Para existir o trauma não é preciso que algo terrível tenha sucedido Ao contrário São pequenos fatos pequenas seduções frustrações minúsculas que se somam e se organizam em fantasias prevalentes diversas para cada indivíduo Não há que tanto as temer É falsa a imagem comum que opõe pulsão a trauma como se a pulsão tivesse um caminho natural que os traumas impedem ou desviam O trauma é antes a forma da pulsão da maneira em que um nó é apenas a forma do barbante em que se deu Caberá à análise desfazer alguns nós é claro mas não é sequer possível pensar o barbante pulsional sem forma alguma mesmo que esta seja embaraçosamente nodal 6 A SEXUALIDADE II Nos três últimos capítulos tratei de resumir para você algumas das teorias psicológicas mais tradicionais mais básicas e universalmente aceitas da Psicanálise São instrumentos ferramentas que todos os psicanalistas empregam para organizar teoricamente o que descobrem nas sessões Pensase geralmente que tais ou quais teorias constituem artigos de fé Não constituem Se como instrumentos deixam de ser úteis abandonamolas como facas embotadas ou alicates com ferrugem Pelo menos é o que se deveria fazer Pois o único instrumento perene tão duradouro ao menos como a própria Psicanálise é seu método tal como o estudamos no segundo capítulo o processo mesmo pelo qual as teorias são criadas Para que você entenda o que é a Psicanálise título e propósito deste opúsculo não basta por conseguinte ter uma idéia vaga das teorias melhor estabelecidas é necessário também acompanhar o processo de expansão 32 teórica o caminho que leve à produção de novos interpretantes Convidoo pois a brincar de teórico junto comigo tomando por tema a psicologia dos sentimentos e como ponto de partida a própria sexualidade Ainda que não cheguemos a grandes conclusões o que aliás não se pode garantir de antemão ou que não depositemos confiança excessiva nos resultados o simples percurso o esforço de pensar teoricamente ensinará muito melhor do que um relato de esquemas já estabelecidos como se fabricam os conceitos da Psicanálise Creio que você já percebeu na investigação da sexualidade quão preocupados estão os psicanalistas em determinar a seqüência que gera a sexualidade adulta a partir de alguns poucos princípios e pulsões vigentes na primeira infância Denominase genético esse ponto de vista de gênese origem e já deixei dito que ele é muito útil Em sua versão mais radical a de Melanie Klein basta considerar dois grandes ir afetivos inatos ódio e amor ou se preferir instinto de morte e instinto de vida Acrescentando lhes dois mecanismos básicos projeção e introjeção já temos os alicerces da vida mental rudimentar Amor projetado dá objeto bom reintrojetado dá um self ou si mesmo bom etc etc E como o bom e o mau não se misturam de início deles derivase também o mecanismo de cisão a idealização o muitíssimo bom o bom demais os temores persecutórios do muito mau do mau demais e já se anuncia o drama depressivo quando o que está ainda separado vier a se juntar etc etc etc Até aqui tudo bem Vamos supor todavia que por um motivo qualquer você não simpatiza com a idéia de instintos fundamentais e mecanismos primitivos Na verdade a questão não é bem de simpatia dáse simplesmente que a noção de instintos primários é um tanto obscura e afirmativa demais Tudo estará perdido o método não mais se poderá usar Absolutamente O que teremos de fazer será tomar como ponto de partida alguma tendência geral mais simpática ou menos obscura progredindo não tanto pelos caminhos da gênese infantil mas pesquisando ao contrário a forma pela qual os sentimentos se afinam e ganham especificidade em qualquer altura da vida Vale isso dizer que estaremos interessados em conhecer a gênese lógica da lógica das emoções É um caminho Vejamos se presta Um sentimento básico bastante conhecido de todos nós é o desejo de ser inteiro de bastarse a si mesmo A própria teoria do narcisismo afirma algo assim Ademais todos os sonhos de grandeza e imortalidade levamnos a pensar que no fundo bom mesmo seria fecharse em si mesmo num amor autocentrado cujo excedente apenas se pudesse esparramar pelos outros como o dos deuses nas religiões monoteístas 33 Ora a posse integral de si próprio é infelizmente impossível ou felizmente caso contrário posto que satisfeito cada homem seria o último homem na Terra nem haveria obras ou civilização Somos muito dependentes do meio e da sociedade e além disso não nos conseguimos conhecer diretamente só no confronto com os outros é que sabemos de nós Conformarse com isso Bem não há outro jeito Porém mesmo aceitando a indispensável abertura para o outro resta sempre um sentimento de perda básico e inevitável como que uma saudade de si embora referente a um estado de posse absoluta que nunca houve ou haverá Será irracional talvez mas os homens são assim nostálgicos precisamente do que tãosomente imaginaram ter possuído Chamemos a esse estado de perda luto primordial Como em qualquer estado de luto existe pois a tendência a procurar outros objetos ou pessoas que substituam o bem perdido Em nosso caso sendo o bem perdido essa integridade absoluta e independente os objetos substitutos serão nada menos que o mundo inteiro o mundo externo a pessoa amada o trabalho os amigos o lar etc Quer dizer que não há propriamente objetos primários todos são objetos substitutivos inter cambiáveis representantes sempre do próprio sujeito É como se para o mundo houvesse uma fuga constante do homem descontente com sua incompletude A concepção acima que semelha à primeira vista um jogo de idéias descomprometido e brincalhão depressa mostra no entanto ser mais que isso De fato é próprio das relações de objeto psicanalíticas ou seja dos vínculos emocionais com pessoas e coisas esse caráter de fuga em direção a figuras eminentemente inter cambiáveis Mesmo o sentimento de perderse nas relações externas é verdadeiramente universal demonstrá lo porém seria um pouco longo É suficiente que você reflita em como se sente um tanto vazio e ansioso por se recolher após um período de muito contato pessoal numa festa por exemplo Não é raro que pessoas terminem a alegria em choro Ou pelo menos pense na necessidade periódica de sono Se é assim se no outro vou buscar a mim mesmo perdido pareceria lógico que minhas relações tendessem à fusão total Se não me posso fundir comigo mesmo que o faça com o outro Isso existe com efeito mas decepciona A fusão total e violenta com o outro anulao destróio e não satisfaz É o princípio teórico do sadismo que pretende invadir o parceiro comêlo ou penetrálo até a alma Na prática o sadismo é uma arte mais sutil Se o sádico aniquila a sensibilidade do parceiro fica com as mãos vazias Seu intuito cumprese melhor parando na metade dominando apenas na medida certa que lhe mostre poder produzir efeitos notórios 34 inegáveis sobre a outra pessoa Ora quase todos os estímulos sensoriais podem ser negados ou disfarçados por quem os sofre menos é claro a dor Daí quem sabe a paixão toda especial que tem o sádico por infligir dor a dor física ou moral sendo inegável sustenta a ilusão de estar fundido como uma parte ativa numa outra feita só de passividade Quantas relações humanas duradouras quantas amizades e casamentos não são mais que atos sádicos prolongados fervendo sempre no seu próprio caldo Enquanto o objeto de apego sádico não se deteriora seu apelo mantémse e mantémse a relação São em geral pequenas vitórias e pequenas concessões que a alimentam a relação sádica raramente explode em violência O apelo sádico consiste numa espécie de atração dum objeto que oferece a possibilidade de ser constantemente vencido sem se considerar derrotado de vez sem parar de resistir e morrer Pois bem você já deve ter entendido que o apelo sádico constitui o mais eficiente e primário lenitivo para a perda de si mesmo ou luto primordial No entanto a fuga para os objetos ao passar pelo sadismo por sorte não precisa aí estagnarse É possível que o sujeito aceite uma troca de influências uma reciprocidade É um acordo complicado sem dúvida Percome em você e em você me recupero permitindo como contrapartida que você elabore em mim seu próprio luto Emprestolhe minha sensibilidade em troca da sua os dois saímos mais ou menos satisfeitos Se é assim a relação não precisa fundarse no irrecusável na dor porém no interesse de conservação recíproca e no prazer A partir desse ponto já se deve falar de elaboração sexual da perda de si mesmo pois a fusão bastante equilibrada apóia se num apelo provindo das fantasias aprazíveis Entretanto para que isso aconteça será preciso antes franquear a verdadeira porta de entrada da sexualidade que o apelo sádico constitui Mas reciprocidade não quer dizer necessariamente simetria Tomemos o exemplo do voyeurismo Considerase o voyeurismo uma perversão mas logo veremos o que significa tal juízo consistente em que o prazer se obtém principal ou unicamente pela contemplação do corpo alheio Não é preciso no entanto que o voyeur se arme de binóculos ou freqüente um cabaré A vida cotidiana oferece margem suficiente para tal tipo de prazer assim como oferece seu complemento no exibicionismo É um encontro de prazeres Fundamental todavia para o prazer voyeur assim como para o exibicionismo é a existência do quadro correto Podemos figurálo materialmente como a janela do prédio fronteiro onde uma jovem se prepara para dormir Porém mais geral e mais simples serve ao voyeur e 35 ao exibicionista qualquer parte limitada do real que separe sua experiência da vida rotineira Seria isso sim de imenso mau gosto se a jovem sub repticiamente admirada tocasse a campainha do apartamento e se oferecesse abertamente ao voyeur O quadro do real é o fundamento de seu atrativo convém não o esquecer A sexualidade então há de ser entendida pelas qualidades do apelo que seu objeto exerce Tratase em primeiríssimo lugar de um recorte apropriado do real duma área bem delimitada e especial comparável ao quadrado da janela alheia no caso do exibicionismovoyeurismo Em segundo lugar para que o apelo ganhe máxima eficiência para que alcance o fascínio será requerido um equilíbrio adequado dos componentes do atrativo E estes são dois O fascínio obtémse por uma adequada mistura de mesmo e de outro Explico Para que a fuga em direção ao objeto seja satisfatória você entende é essencial que este o objeto de prazer sexual seja bastante próximo do sujeito seja o mesmo Pedras nuvens espirros dificilmente fascinam sexualmente Se eu devo me encontrar ali eu que me perdi de minha inteireza há de ser num igual numa espécie de mim mesmo Contudo o sentimento de absoluta identidade e interioridade no encontro com o objeto sexual é paradoxalmente desagradável Como se algo de interno saísse para fora e lá encontrado tivesse de ser posto para dentro de novo Imagine pôr para fora a saliva e voltar a engolila é cuspo enoja Pois esta emoção o nojo representa com perfeição o sentimento que nos desperta o encontro com aquilo que é demasiadamente igual e interno Por outro lado estar diante do alheio do estranho suscita um sentimento de parecido desagrado Algo que semelha a forma humana sem ter seu estofo provoca o riso fazse ridículo É a marionete o autômato o macaco ensinado Estes não dão asco são distantes fazem rir Ora é justamente da adequada composição entre identidade e outridade entre fusão e alienação isto é entre nojo e ridículo que nasce o apelo mais forte da sexualidade o fascínio Interessanos dentro dessas especulações pôr em relevo a impropriedade de se crer numa linha reta e ascendente de transformações que desemboca na sexualidade adulta ou genitalidade Não há aperfeiçoamento não há normalidade final Desenvolvimento há decerto mas não se coroa numa integração final o estado final constróise a cada momento é feito do equilíbrio de contrários duma mistura sábia de elementos desagradáveis como na composição de um bom coquetel ou 36 perfume Isto quanto à composição do fascínio Porém há mais Até certo ponto os esquemas emocionais como este do apelo sexual independem da qualidade especial dos afetos envolvidos a regra é mais geral do que a substância Tomando como exemplo o fascínio muitos outros exemplos de regras seriam utilizáveis fiquemos neste sua composição explica tanto o apelo sexual como também o apelo exercido pelos delírios talvez a fascinação das aventuras talvez certas propriedades do apelo artístico Como podem ver nossa investigação duma regra teórica levanos de imediato às portas de várias descobertas ramificase inesperadamente Por fim um último resultado desta investigação diz respeito à própria noção de realidade Tradicionalmente cremos que exista uma realidade normal prejudicada apenas nas doenças psíquicas Ora a constatação de que há tãosomente quadros mais ou menos satisfatórios do real para cada estado de emoção põe em dúvida tal certeza do senso comum Com bastante certeza temos o direito de afirmar que diversas constituições do apelo sexual apelo sádico voyeur apelos homossexuais de vários tipos muitas formas de monogamia ou poligamia etc etc exigem para sua satisfação quadros diferentes do real correspondentes às fantasias dominantes em cada caso Se a satisfação só se pode obter num quadro muito exclusivo se o indivíduo é uma espécie de profissional altamente especializado num quadro apenas seja este feito de sapatos à meialuz ou de correntes e chicotes ou de televisão e cama com justiça chamamolo perverso Posto que a perversão é só uma versão restritiva da sexualidade o real onde se cumpre restrito será o de uma perversão do real Se há sentido em aludir à normalidade será ela simplesmente um tipo de muitos tipos multiplicidade e variedade de condições tidas como satisfatórias pelo sujeito dito normal Cada sentimento por conseguinte constrói uma espécie algo distinta de real Vejamos O real saudoso por exemplo é curiosamente fluido As coisas as pessoas não se individualizam por completo São como ondas os fatos nada é inteiramente presente ou inexistente pois há um lugar de que o presente é só um resto que guarda o sentido todo de ser real A ele chamamos relicário É uma parte pequenina do mundo centro imaginário onde está representado o bem perdido a situação ou pessoa amada e que mantém a fusão do sujeito consigo mesmo Pode ser um quarto um panorama uma música O resto está ali fora não é negado todavia só existe como uma espécie de flutuação das ondas que provêm do relicário Já o real teimoso consiste numa coagulação É duro feito exatamente de 37 coisas concretas ordenadas porém numa seqüência lógica em relações de causa e efeito O real da teimosia é pura extensão Seu centro é o teimoso claro mas cada elemento teima também teima em ser só isso que é pedra é pedra branco é branco ou é preto se o teimoso assim o quer Não há como comparar os dois não se fundem nem são miscíveis A única junção possível mas difícil é quando a saudade afeta a teimosia Nesse caso ocorre algo raro e maravilhoso o teimoso pode curarse da própria teimosia a teimosia sara na saudade Segundo o modelo que juntos desenvolvemos neste capítulo as regras emocionais criam formas específicas do real reais diversos de diversos apelos sexuais real saudoso real teimoso e inúmeros outros reais que deveriam ser descritos A realidade então só se resume a ser uma espécie de redução através da rotina de campos muito diferentes entre si cuja análise pode restituir sua diferença por evidenciálos no processo chamado ruptura de campo Como você está vendo nossa teoria além de mostrar como se produz uma concepção psicanalítica geral está perfeitamente de acordo com aquilo que verificáramos ser o método psicanalítico no segundo capítulo Sendo assim dizse que é uma teoria legítima ou seja tem propriedades que correspondem bem ao método que a criou Ainda que um pouco mais difícil que outros capítulos posto que trata de coisas menos conhecidas e popularizadas este deve ser lido e relido com cuidado já que a única maneira de compreender a teoria psicanalítica é nós mesmos experimentarmos fazer trabalho teórico Como qualquer jogo ou arte a teoria da Psicanálise só se aprende fazendo 7 PSICOPATOLOGIA O desenvolvimento da personalidade pode culminar em estados mentais diferentes Vários desenlaces possíveis predomínio maior de traços orais ou anais diversos destinos da resolução do complexo de Édipo múltiplas reações individuais a perdas cabem nos limites da psicologia normal E também existem anormalidades psíquicas objeto de estudo da psicopatologia psicanalítica Existe o anormal a doença psíquica ou como quer que se lhe chame No entanto a Psicanálise renovou o sentido do patológico Filha do princípio do absurdo nossa ciência quer encontrar nos estados patológicos um instrumento precioso para a compreensão da vida mental recusando ao mesmo tempo a estrita distinção entre normal e doentio Daí dois exageros 38 de sua popularização Alguns popularizadores da Psicanálise anunciam felizes que não existe mais doença no campo psíquico o que seria ótimo caso os pacientes tivessem a gentileza de não mais sofrer Outros mais simplistas ainda preferem esvaziar a distinção afirmando que não há normalidade que somos todos no mínimo neuróticos Tolices Para superar os preconceitos contra as doenças mentais é necessário primeiro admitir sua existência depois compreendêlas e só por fim traçar as linhas de continuidade com a vida comum As neuroses por exemplo existem e doem muito Todavia o sintoma neurótico tem equivalentes próximos nos sonhos nos atos falhos e no resultado de certos conflitos cotidianos mais fortes Diferenciam as neuroses a persistência e intensidade de suas manifestações a especificidade dos conflitos geradores Dirseia que o neurótico ou o psicótico especializouse num certo padrão enquanto a normalidade é feita de variados conflitos de inúmeras fixações parciais de pequenos sintomas dispersos Se ao ler este capítulo você se encontrar um pouquinho em cada quadro descrito não se assuste demais a normalidade psicológica aproximada a que existe é feita dum mosaico psicopatológico inespecífico Na raiz das neuroses encontrase uma disposição inata pouco conhecida As pessoas nascem diferentes tanto no corpo como no espírito Quanto à constituição cremos que seja importante mas sabemos pouco a respeito É fato que certas crianças toleram menos as frustrações que outras contudo quando podemos estudálas já viveram já enfrentaram um meio ambiente bastante especial e dificilmente comparável mesmo ao de seus irmãos Pois o meio inclui precisamente os irmãos as idéias e sentimentos que os pais têm a seu respeito e que em parte já derivam também da própria forma de ser da criança O que pois é inato Como descontar a complicada reciprocidade das relações afetivas nos primeiros meses de contato com os pais Por conseguinte desprezando distinções impossíveis vamos nos contentar em descrever algumas formas características de neuroses e psicoses assinalando os tipos de conflito os mecanismos de defesa e os sintomas mais comuns Comecemos pela histeria O ponto de fixação teórico da histeria é a fase fálica Já não se acredita que um grande trauma isoladamente responda pela origem das neuroses são pequenos incidentes traumáticos frustrações acumuladas de um mesmo tipo que dão forma de nó aos impulsos impedindo que se satisfaçam medianamente Ora o drama edipiano carregado de ambivalência de 39 experiências de incapacidade e humilhação afetiva constitui um ponto especialmente delicado da evolução psicossexual Não é difícil portanto que a criança fique emocionalmente paralisada temendo agudamente as ameaças fantasiadas de castração enquanto persiste em orientar seu amor e sua rivalidade para as figuras originais do conflito pai e mãe Talvez não dê mostras disso Pode mudar de assunto por assim dizer interessarse normalmente pelos amiguinhos ou pela escola porém quando o interesse sexual recrudescer na puberdade enfrentará um problema complicado Cada escolha amorosa ulterior haverá de manter o mesmo sabor incestuoso e proibido a mesma sensação de incapacidade e ciúmes da relação fálica com os pais Então será preciso reprimir as pulsões sexuais não haverá experiências novas e aprendizagem afetiva numa palavra a sexualidade será traduzida em desprazer e nojo Mas a repressão não funciona totalmente O aparecimento na consciência de impulsos sexuais toma então um caráter de angústia como se avisasse o sujeito de que algo doloroso está por vir E vem pela ação condenatória do superego que continua vendo em cada pessoa atraente uma nova versão dum genitor e age ele mesmo como se fora o outro Predomina na histeria o mecanismo de defesa conhecido como recalcamento Os sintomas são geralmente manifestações de angústia Há quadros em que domina uma angústia flutuante ora mais moderada ora mais intensa quase sem representações que lhe indiquem a origem Outra forma comum de sintoma de angústia são as fobias Situações como estar encerrado em espaços limitados um elevador por exemplo ou encontrar se à beira de um lugar alto ou em meio à multidão pequenos animais não muito perigosos baratas ratos aves situações sociais particulares como festas ou entrevistas em suma condições não especialmente graves provocam um medo extremo insuportável como se simbolizassem perigos internos impulsos de autopunição suicida fantasias violentas de penetração sexual etc Ou a angústia manifestase por crises intensas ataques de ansiedade em que o paciente se debate chora e ri descontrolado parecendo representar um grande drama afetivo terminando numa espécie de desmaio onde não há entretanto completa perda de consciência Mas há também formas sintomáticas onde a angústia parece estar ausente Paralisias de membros dores ou insensibilidade localizadas tosse tiques etc Sempre porém inexistem lesões orgânicas que justifiquem os sintomas e o que é mais importante os sintomas representam simbolicamente a pulsão proibida e o esforço de controlála Assim uma paralisia com contratura dum braço pode significar um impulso a se masturbar conjuntamente com a proibição de fazêlo um gesto 40 interrompido É que o afeto ligado à pulsão sexual não pode ser reprimido Reprimida a representação o ato sexual esse afeto extravasase como angústia ou alimenta movimentos convulsivos gestos paralisados etc A tais manifestações somáticas físicas da pulsão reprimida chamamos conversões Já a neurose obsessiva é fruto de um equívoco Sabe quando alguém se engana a respeito do fundamental e com a sensação de que há algo errado fica procurando atormentadamente acertar os pormenores Se na avenida Paulista ao invés de se dirigir para os lados de Perdizes você virou o carro para o Paraíso é provável que estranhe cada esquina e tente resolver o enigma da ordem invertida em que aparecem os prédios conhecidos Só que o obsessivo honesto se perguntará talvez quem trocou as penas da perdiz pelas dos anjinhos Isso porque a dúvida obsessiva é uma dúvida simbólica O ponto de fixação da neurose obsessiva localizase na segunda fase anal ou fase anal retentiva Porém aí já existe o engano básico O candidato às obsessões chegou a penetrar na fase fálica experimentou o complexo de Édipo todavia não suportando a ambivalência edipiana regrediu imediatamente para a fase anal retentiva Ou melhor é como se tivesse vivido o conflito edipiano num registro anal tentando reter tudo principalmente os sentimentos e provando a paixão libidinal como se fora agressividade O mais perigoso para ele é portanto o amor Este sim destrói A agressividade anal que cobre seus pensamentos também produz angústia é fortemente proibida porque no fundo se dirige contra os objetos mais preciosos os pais Medidas defensivas são empregadas contra a destrutividade é claro A mais comum chamase formação reativa mecanismo de defesa que inverte o sentido dos afetos exagerando muito o pólo oposto ao original isto é o ódio do obsessivo transformase num cuidado extremo num medo supercauteloso de ferir alguém Ele se examinará dez vezes antes de dizer algo pois pode chatear o interlocutor o que vai tornálo é óbvio muito cansativo e chato Sobretudo há que se acautelar contra a perigosa descoberta do amor Há uma forte impressão de que o amor mata razão que o leva a ensaiar uma manobra obscurecedora Quando uma idéia ou um acontecimento s carregados de forte valor erótico ou agressivo ocorre uma espécie de distração uma pausa no pensamento que permite desligar o afeto experimentado da representação que o motivou em seguida um gesto ritual ato ou pensamento anula o sentimento proibido Exatamente como 41 um homem supersticioso pretendendo isolar a urucubaca Aliás a própria idéia de azar é obsessiva Quando sinto que meu amor destrói o outro devo substituir amor por raiva que é menos perigosa depois raiva por cuidados para protegêlo e a mim dos efeitos dela Mas como cada novo sentimento recobre um sentimento oposto também o representa simbolicamente resulta que em cada idéia ou emoção ocultase ameaçadora a marquinha azarenta da destrutividade Por conseguinte enganado quanto ao fundamental ignorando que os cuidados representam raiva e que a raiva representa um perigoso amor o obsessivo como aquele motorista equivocado tem de olhar duas vezes cada idéia repetila examinála ao microscópio para certificarse que não entrou nela subrepticiamente um sinal do afeto proibido E é uma catação infindável porque aquilo que ele procura entre as letrinhas miúdas constitui o papel mesmo em que o texto foi escrito Daí provêm os sintomas obsessivos Um jogo de esconde esconde Sob o cuidado a agressão sob a agressão oculta a sexualidade proibida Então o paciente tem de súbito uma idéia horrível matar uma criancinha defecar na igreja etc algo que mostra o gosto pela sujeira anal sob a mania de limpeza a destrutividade sob os cuidados filantrópicos a sexualidade anal sob um puritanismo desmedido São pensamentos obsessivos ele sente como se não fossem seus vêm à força preciso contra atacálos com rituais protetores nomesdopadre bater em madeira pensar ou dizer três vezes uma fórmula mágica repetir um pequenino gesto O contraataque não pode ser sustado é compulsivo realizálo Deve tomar banhos demoradíssimos se a tendência à sujeira o domina se quer envenenar a família há de verificar cinco vezes se o gás está fechado Assim é a vida obsessiva Meticulosa filantrópica boazinha repetida cheia de superstições racionalizadas No fundo o impulso anal que deve ficar oculto sobretudo porque é um impulso amoroso sexual O equívoco fundamental levao a uma autoobservação constante que porém escrutinando os detalhes não enxerga o essencial A vida do obsessivo é o rodopiar dum cão atrás da própria cauda que ele suspeita não sem razão ser uma cobra atrás do ânus cobra símbolo da sexualidade e do veneno do toque fascinante e mortal Pois bem isso é a neurose Ou antes eis aqui uns pequenos esboços de dois quadros neuróticos característicos Já chega contudo para compreender que neuroses são produto de conflitos pulsionais em que a satisfação fica proibida pela censura do superego desconectandose então a representação prazerosa geralmente sexual do afeto correspondente o qual é desviado para a constituição de sintomas Isto é Freud É uma teoria bastante tradicional e que provou ser utilíssima E até verdadeira 42 Para as outras doenças psíquicas no entanto as teorias psicanalíticas são menos categóricas Há uma boa teoria geral das neuroses na Psicanálise mas um paciente pode escolher digamos uma perversão uma psicopatia uma psicose Perversões e psicopatias são uma forma de enlouquecer sem ficar louco louco fica quem tem de lidar com elas Nas perversões o sujeito realiza de fato o impulso proibido Tratese de um voyeur de um sádico de um comilão compulsivo ou de qualquer outra especialidade o indivíduo põe em ação justamente aquilo que lhe está vedado pelo superego Nas psicopatias dáse algo parecido O que está comprometido porém é a relação com a sociedade o respeito e as inibições impostas pela vida em comunidade É uma solução prática Em vez de reprimir o impulso executoo anulando a instância repressora e danemse os outros Superficialmente ao menos parece não haver angústia os atos estão em sintonia com o ego como se o superego estivesse ausente Na verdade este o superego é tão forte e tão exigente que toda a relação com ele se torna impossível O resultado é que os atos psicopáticos e perversos acabam procurando sua punição não na vida interna mas na externa São pessoas que se fazem desprezar que roubam mas se deixam prender etc O problema da psicopatia já se vê ligase profundamente com a vida social Nossa sociedade é um tanto psicopática e perversa Somos estimulados a enriquecer por quaisquer meios somos tentados ao consumo indiscriminado se andamos na rua ou folheamos uma revista convidamnos ao voyeurismo O sadomasoquismo está vigente no seio das instituições o operário padrão será um masoquista a polícia sádica Assim nas perversões e psicopatias aparece em nível pessoal o retrato quase puro de certas instigações sociais das que o neurótico foge por seus sintomas Esse princípio do deixar que saia tudo sem se importar muito com o meio está ligado teoricamente à fase anal expulsiva como vocês já devem ter suspeitado E há por fim as psicoses Primeiro a melancolia que é um estado de luto permanente e exageradíssimo e a mania nome que se dá àquele quadro em que a depressão extrema é substituída subitamente por uma sensação de exaltação de felicidade esfuziante Ao melancólico o superego cobre de insultos acusandoo de ser o culpado pelas perdas de objetos por mortes por todo tipo de desgraças O resultado é que o sujeito identificado com o objeto perdido passa a sentirse alvo das desgraças todas cuja responsabilidade o superego lhe atribui Ele está arruinado sua família morta a sociedade o despreza Tanta é a perseguição interna que esgotado pode dar uma volta de 180º considerandose vitorioso vencendo o superego Está cheio de amigos que importa a perda sofrida nem 43 mesmo precisa de consideração externa ele se basta é bom é ótimo Seu pensamento voa ao contrário do melancólico que se arrasta as idéias mal chegam a formarse e já são ditas o conteúdo é confuso e pueril mas por que se preocupar Ele sabe que é o melhor Psicanaliticamente falando tanto a melancolia quanto a mania ligamse de diferentes modos à fase oral e à posição depressiva kleiniana Dá para ver É sempre o problema de ter atacado objeto de amor e se se o tem inteiro perdese inteiramente o que se tem Dentre as psicoses há um último grupo que a Psicanálise tem estudado bastante mas que compreenderemos melhor no último capítulo deste livro o das psicoses em que predominam idéias e crenças muito estranhas que fogem à compreensão comum chamadas delírios Há delírios nas melancolias delírios de ruína por exemplo há delírios nas psicoses epiléticas causadas por distúrbios cerebrais mais ou menos conhecidos alguém pode delirar por ter ingerido drogas ou por sofrer de alguma doença infecciosa Contudo as esquizofrenias e paranóias são as doenças onde melhor se pode reconhecer a atividade delirante No fundo é como se o delirante vivesse num mundo diferente do das outras pessoas um mundo que está encoberto pela rotina do cotidiano E isso é que tentaremos compreender no último capítulo Por ora basta saber que essas psicoses repetem as primeiras experiências mentais da vida humana O paciente retira seu interesse libidinal do mundo externo voltao para dentro de si ou seja regride em direção ao narcisismo dos primeiros meses de vida É o narcisismo secundário Como porém não consegue permanecer encerrado numa vida mental sem objetos emocionais trata de recriálos reinventa o mundo mas um mundo diverso do dos seus semelhantes Vive grandes perseguições sentese engrandecido e famoso é um herói um rei um deus Todos o invejam e atacam Ele controla as idéias alheias mas os outros também controlam as suas impõemlhe sentimentos que não quer dominam seus pensamentos conhecem seus projetos mais escondidos Justamente por se ter separado do mundo cotidiano parece que o resultado é ter perdido a noção de distância entre o dentro e o fora exatamente como uma criancinha ao nascer Essas psicoses relacionamse por conseguinte com a primeira fase oral e com a posição esquizoparanóide de Melanie Klein São reedições paralisadas da experiência de aprender a pensar Por fim de nosso percurso pelo meio das doenças psíquicas podemos verificar duas coisas Primeiro que há doenças e que o termo doença até 44 que está aqui bem empregado Segundo que as doenças não diferem totalmente da vida mental chamada normal continuamna exageram certas características são antes de tudo como já vimos no começo especializações indevidas Logo não é preciso ter medo de usar o termo doença desde que se o faça sem preconceitos 8 A CURA PSICANALÍTICA Se alguém nos procura para fazer análise pode acontecer que sofra de uma das doenças descritas no capítulo precedente Pode ser que não que deseje conhecerse melhor que tenha o projeto de libertarse ou até que almeje se tornar um terapeuta É importante conhecer as diferenças das expectativas por motivos clínicos e diagnósticos mas o processo de cura psicanalítica será não obstante sensivelmente parecido num caso ou no outro Análise é análise e nossa idéia de cura não é assimilável à dos critérios médicos mais comuns Estar curado significa para nós curar si mesmo isto é cuidar de seu desejo atingir um estado semelhante ao de uma fruta madura ou de um queijo bem curado no ponto Os pontos variam como para os queijos de uma pessoa para outra mas ainda assim é possível saber o que é estar curado uma harmonia realizada das potencialidades características nos queijos nas pessoas Por isso e porque a análise começou como um tratamento de distúrbios neuróticos o processo de cura psicanalítico pode ser descrito como o de uma história neurótica Só que a história da neurose é a narrativa de como se formou um nó e o de cura a de como esse nó foi desfeito Seja um indivíduo mais ou menos normal um neurótico ou certos pacientes psicóticos sua vida compreende dois tempos Há uma experiência cotidiana que nos parece bastante corriqueira mas de repente um olhar cruzado na rua um encontro numa festa um trabalho ou um sonho revelam algo assustador e estranho Talvez seja uma paixão que nasce e morre no entrecruzar de olhares pode ser uma angústia intolerável ao se ver sozinho quem sabe uma dúvida incompreensível e fulminante Pode ser qualquer coisa porém será sempre uma diferença um corte como se outra vida estivesse a ser vivida no interior do cotidiano E em geral o paciente quer curarse dela pois tem medo O analista sabe ao contrário que deve conduzir seu cliente a curarse dela não a erradicála que tal estranheza é um começo de consciência e uma porta entreaberta que pede exploração Mas mesmo assim aceitao para tratamento 45 É tal qual um calendário Nossa vida é feita de dias pretos iguais de trabalho algum prazer um pouco de esperança se somos neuróticos haverá trabalho um pouco menos de prazer e um certo desespero Nada que chame a atenção Porém no meio dos dias em preto na seqüência dos atos costumeiros destacamse os dias em vermelho as festas religiosas e cívicas Correspondem a celebrações bastante convencionais A História celebrada nos feriados nacionais nada tem que ver com a verdadeira História do país ou por outra tem é sua perfeita contrafação Há um sentido convencional que se ensina às crianças na escola onde sempre o herói é o do nosso lado nossa é a causa justa a lei e a justiça vencem Os portugueses nessa História sempre enfrentam bravamente os batavos e covardemente massacram os heróis da Independência Ora assim como os dias em vermelho celebram a História convencional da pátria que oculta sua História real os acontecimentos perturbadores sintomas no meio do cotidiano celebram a história convencional da neurose E como é ela Quando Freud começou a estudar as neuroses atribuiuas a um trauma sexual baseado nas histórias que suas pacientes lhe contavam Esse trauma seria uma sedução praticada por pessoa adulta com a criança que haveria de se tornar neurótica Hoje pensamos que os traumas são pequenos repetidos mantendo entre si uma relação de homologia ou semelhança formal É parte da história convencional atribuir tudo a uma sedução ou a outra catástrofe original De qualquer modo porém o tempo da neurose celebra o trauma os dias em vermelho repetem de maneira convencional e muito reduzida o modelo das situações que deram forma aos representantes pulsionais Pois o trauma é isso Uma certa estrutura de relacionamento mais do que fatos isolados por fortes que sejam conforma o desejo cria um jeito especial de se arrumarem impulso e defesa Em todos nós é assim Só que em alguns setores da vida mental e mais intensamente em certas pessoas a forma do desejo semelha um nó Não ata este setor aos outros setores da personalidade nem se desata espontaneamente Repetese ou melhor é celebrado em episódios chamados sintomas Vindo à análise o cliente fala de sua vida comum Todavia a interpretação do analista rompe o campo onde se assentava o tema comum deixando surgir no aqui e agora da sessão a situação especial onde o desejo se mostra em seus nós traumáticos No calendário da terapia analítica todos os dias tendem a ser vermelhos Há uma concentração das celebrações 46 neuróticas vividas agora em relação ao analista Só que enquanto no dia adia os sintomas são polidamente ignorados na análise eles são tomados em consideração Análise deixar que surja e tomar em consideração Reproduzse então de início a história convencional da neurose essa em que o paciente crê concentradamente envolvendo o analista naquilo a que chamamos neurose transferencial E de que serve tudo isso Se fosse apenas uma celebração a mais de nada serviria Acontece porém que a celebração é acolhida tornase assunto e é em seguida interpretada Quando pela interpretação rompe se o campo onde se apoiava a história convencional da neurose algo de peculiar ocorre com a dupla terapêutica O que era celebração isolada e sempre igual transformase em comemoração Comemorar e recordar são as chaves da mudança Rompido o campo da convenção neurótica a respeito da própria história as situações traumáticas são convidadas a voltar do exílio convencional ao coração da mente recordadas isto é são revividas emocionalmente em seu sentido profundo e recordadas numa reedição partilhada com alguém comemoradas com memoradas Tal como se pudéssemos reproduzir as situações mesmas que compuseram uma história e não sua versão posterior é possível agora elucidála testá la pôla em questão tentando atingir seu sentido verdadeiro Ou a rigor os muitos sentidos possíveis da história do paciente que ele foi paulatinamente reduzindo a uma convenção Talvez o aspecto mais grave da convenção neurótica seja reduzir uma pessoa a ser apenas uma possibilidade dentre todas que estariam a seu alcance O trabalho de recuperação da multiplicidade é o que se chama transferência através dela no campo transferencial deixase que surjam e tomamse em consideração as muitas pessoas que vivem em cada um Pense de novo no calendário Quando lá pelos fins do século III a festa de Natal foi antecipada de janeiro para 25 de dezembro procurouse cobrir com a mudança a celebração da festa pagã do solstício de inverno no Hemisfério Norte Acontece porém que mesmo essa festa parece ter sido celebrada em data equivocada Por aí se vê como se acavalam as diferentes ordens de sentido como as muitas crenças são achatadas na História oficial Na história pessoal também Campo transferencial é o lugar onde convivem paciente e analista Materialmente eles estão numa sala Sua comunicação porém é um complicado tecido de emoções que apesar da violência não carecem de sutileza e têm de ser pacientemente reconhecidas desfiadas e 47 recosturadas Pois o paciente neurótico sofre de uma restrição ele é só isso que o nó traumático determina Em outras palavras o neurótico identificou se com algo bem definido não para ele lógico com essa história convencional que celebra nos sintomas Veja você Se uma pessoa apenas usasse uma roupa durante toda a vida poderia dar a impressão de que seu corpo tem a forma da veste Uma mulher com saia rodada pareceria ter as coxas em forma de sino Uma identificação é isso uma veste sobre o corpo do desejo No entanto diferentemente do corpo físico que pode ser despido e revelar seus contornos o corpo do desejo o inconsciente nunca é capaz de aparecer por si mesmo Como seria alguém cujo corpo fosse invisível e impalpável como se o conheceria Resposta mudando de roupa Várias roupas de corte diverso sobre seu corpo determinariam traços comuns eliminando as diferenças portanto teríamos uma idéia do que lhe é peculiar A isso chamo desenhar o desenho do desejo O campo transferencial é aquele em que com a ajuda do analista uma pessoa pode experimentar várias roupas isto é descobrir diversas identificações Quem só se enxerga vítima verá também que é carrasco espectador amigo amante etc Que é muitos Isso é possível porque o analista vive as celebrações convencionais junto com seu cliente comemora decifra o sentido dos nós que o amarravam a uma só representação de si mesmo e mostralhe a quantidade de fantasias que sob ela se ocultavam Em vez de uma fantasia dominante o paciente pode ter muitas muitas idéias que o representam E mais Aos poucos ele vai assimilando o jogo do campo transferencial vai adquirindo a capacidade de por si só experimentar vestes diferentes de ter mobilidade de fantasias Pois a regra do campo transferencial é que qualquer idéia que nele ocorra sofre ruptura de campo perde o chão e como no exemplo anterior da chuva revela vários sentidos simultâneos De tanto experimentar identificações diferentes então o paciente começa a conhecer o que não muda sob elas Seu desejo toma forma Já não é necessário parar de viver o cotidiano para celebrar um acontecimento traumático Não é propriamente que aquela identificação neurótica tenha desaparecido As pessoas que procuram análise temem que se perca sua originalidade pensam que serão reduzidas a uma espécie de ser médio medíocre ou que só viver para cuidar de sua neurose Só um terapeuta muito incompetente estimularia tal redução As identificações neuróticas são bem ao contrário integradas a muitas outras da vida comum e a outras ainda que simplesmente não estavam antes disponíveis Não é 48 preciso mais parar de viver uma vida cotidiana para entrar no tempo da neurose nos dias vermelhos Se a pessoa pode se representar de muitos modos se tem mobilidade de fantasias e se habita seu próprio desejo o corpo invisível a distinção entre dias pretos e vermelhos também cai É como o historiador que conhece bem o passado de seu país Ele não mais acredita que houve um passado heróico sabe que mesmo os grandes feitos ocorreram no meio de coisas pequenas entre o comer e o dormir que os heróis não prescindiam de banheiro O paciente que abandona sua fábula de origem encontrase no seio dum drama pode ver como o mundo comum é trágico fabuloso mágico e heróico sem deixar de ser comum Pois como há muitos homens num só também há muitos reais Vimos como é diverso o real da saudade do da teimosia veremos no próximo capítulo como é diferente o real autoritário Há inúmeras condições do real Na verdade somos iludidos para crer que os dias da semana são iguais justamente porque há os fins de semana É o destino das diferenças Toda a diferença se encontra no lazer de fim de semana esvaziando os dias de trabalho de seu prazer Talvez assim as fábricas produzam mais porém decerto as pessoas são menos felizes A cura psicanalítica equivale portanto a integrar na personalidade algo como o campo transferencial daí resultando que a pessoa não mais esteja aprisionada pela dualidade tempo da neurosetempo do cotidiano A análise do social deveria por analogia romper o campo que nos aprisiona entre trabalho e lazer mandar e obedecer produzir e consumir É como se devêssemos voltar a viver em cores o que estava em preto e branco Ou melhor reconhecer que há inúmeros campos do real onde pensávamos haver uma realidade única Para tanto há que imaginar um campo um lugar de sentido onde todos os ditos idéias sentimentos ações etc valessem apenas por terem o destino de sofrer ruptura de campo Aí nada tem sentido único tudo vale por querer dizer outra coisa também O também é importante Não se perde no processo analítico o sentido original este não é falso é exclusivista logo neurótico Nesse campo onde tudo vale como ruptura de campo o próprio sentido neurótico que antes era celebrado nos sintomas também tem seu lugar rompido seu campo o da exclusividade ou nó ele se integra a muitas outras formas que agora são vivíveis Ora o campo onde tudo o que ocorre só vale como possibilidade de ruptura é nada mais nada menos o Campo Psicanalítico ou campo transferencial Tudo o que lá se diz vale como fantasia serve para produzir outras idéias 49 até a neurose quando nele se dá neurose de transferência vale apenas para produzir outras formas de ser Mas não será um pouco egoísta ter essa experiência em caráter privado você me perguntará Talvez só que ainda não sabemos bem como generalizála por enquanto preservar o método dentro dos limites da relação bipessoal é muito melhor que nada Entretanto no último capítulo pensaremos juntos um pouquinho em como se pode aplicar o Campo Psicanalítico para o conhecimento dos campos do social 9 A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL A título de epílogo deste nosso passeiozinho pela Psicanálise voltemos à frase inicial do primeiro capítulo os homens são pessoas muito estranhas e até absurdas Tudo o que vimos até aqui talvez o tenha convencido disso Caso contrário pense em como organizam seu mundo e compare isso com as explicações que encontram para tal organização Quando os sociólogos e os economistas procuram nos fazer entender a confusão em que vivemos baseada em guerras de tiros e guerras comerciais em exploração e dominação e na produção enlouquecida de bens perfeitamente inúteis responsabilizam os interesses discordantes dos grupos sociais pelo atual estado de coisas E têm razão Os interesses dos grupos das classes das nações estão mesmo em conflito permanente Acontece porém que toda explicação sociológica inclui uma passagem pela Psicologia e esta geralmente não se menciona nem é sequer percebida Neste caso por exemplo existe a suposição de que se os grupos humanos lutam por interesses é que cada um deles tenta defender o seu Esta já é uma afirmação psicológica Se um homem um grupo uma classe ou país têm interesses é óbvio que os defendam É óbvio que sim como é óbvio para qualquer pessoa que olhe para cima o fato de que o Sol gira em torno da Terra Ou seja é óbvio mas é falso A afirmação correta seria se alguém tem interesses luta por eles ou contra eles de acordo com a orientação de seu desejo O que se aplica a pessoas grupos ou à humanidade em geral Se você se interessa pela Sociologia portanto aconselhoo a buscar descobrir quantas dessas afirmações psicológicas simplistas ocultamse nos raciocínios mais bem construídos creio que ficará atônito Na verdade há também inúmeras afirmações sociológicas pueris ocultas nas teorias 50 psicológicas mas este é outro problema Os sociólogos freqüentemente pensam que não estão a usar Psicologia porém cada vez que ligam um comportamento a uma causa qualquer usamna sem perceber e o resultado é que a usam mal Valemse do senso comum o que é um grave pecado Ora a Psicanálise não pode e não deve fazer Sociologia mas é capaz de mostrar algumas coisas que interessam aos estudiosos da sociedade O objeto do estudo psicanalítico chamase psique Como vimos a psique não é uma coisa que existe na cabeça do indivíduo nem na cabeça coletiva Ela simplesmente não tem lugar material Psique é o que produz sentido nas coisas humanas sejam individuais ou coletivas Um automóvel é fabricado numa linha de montagem seu sentido é fabricado pela psique a inflação a guerra ou o nacionalismo são produzidos inteiramente por causas concretas seu sentido é psique Sendo assim estudar a psique não é um passa tempo nem é egoísmo elitista de gente rica Acontece apenas que só aos poucos começamos a tatear essa área obscura e complicada do universo humano Claro que não só a Psicanálise o faz A Antropologia e sobretudo a Filosofia além de outras Ciências também se interessam pelas raízes do sentido das coisas humanas A Psicanálise tem seu quinhão que pode ser grande pois a psique é um ser muito estranho como os homens Aliás é a psique a estranheza dos homens O motivo principal de se saber tão pouco a respeito da psique é que ela não pode ser compreendida Nossa compreensão alcança justificar relações entre os vários comportamentos dos homens e sociedades mas aos campos que as determinam a psique só se chega pela interpretação A interpretação opera uma ruptura de campo que permite deixar surgir os sentidos psíquicos depois é tomálos em consideração Veja um exemplo Nós todos vivemos num reino a que chamamos realidade Todavia a realidade é produto duma espécie de acordo entre os homens que necessitam de algo comum para poder falar E falando acabam por criálo Isso não significa a inexistência de objetos materiais a materialidade das pedras e dos carros está aí atropelanos mas e sua realidade Penso que seja assim Há muitos campos do real Real real humano que é o único que conhecemos é o mesmo que o desejo mas visto no mundo Tratase dum conjunto de regras muito loucas como as dos sonhos das emoções da psicopatologia o real é onde se produz a experiência humana uma espécie de chão sobre o qual vivemos Vivemos 51 nele mas sem o enxergar Há felizmente uma outra série de regras de bomtom a que chamo rotina que se encarrega de organizar aquilo que pode ser visto sem ofender os olhos Nossa cegueira ao real é importante e até certo ponto benéfica Permite nos entre outras coisas pensar com lógica falar construir a civilização Pois a lógica do real não é a mesma lógica da realidade Esta é a organização dos produtos do pensamento a maneira pela qual se ordenam e ligam as idéias emoções atos humanos Já a lógica do real embora esteja embrenhada no mundo é da mesma ordem que a lógica da concepção a que produz nossas idéias e atos inconsciente e totalmente diversa Por isso não se a compreende apenas interpretase Então os homens vivem num mundo absurdo sem o saber Ótimo Quando alguém toma contato de repente com o chão absurdo sob o tapete da realidade cotidiana fica louco O delírio é exatamente isto Um mergulho indevido no absurdo que tem de ser depois retraduzido em linguagem comum Há duas condições psicológicas para alguém chegar a ser delirante ou para não o ser A primeira é a possibilidade de sentirse fortemente o mesmo através das várias mudanças de identificação que a vida traz O mesmo ator em vários papéis A segunda condição decisiva consiste na capacidade maior ou menor de distinguir entre reais e possíveis É possível que haja seres inteligentes entre as estrelas é menos possível que já tenhamos entrado em contato e menos ainda que meu vizinho seja um deles por mais que pareça Porém se a distinção entre o que é e o que é possível se desfaz posso transformar o fato de que muitas coisas não são o que parecem na certeza delirante de ser eu mesmo um extraterreno Só que para isso é necessário também que o sentido de permanecer o mesmo condição anterior esteja também prejudicado caso contrário sempre haverá a noção de ser alguém que pensa ser marciano o que invalida o bom delírio Ora se eu me perco com certa facilidade nas mudanças de condição que a vida obriga e não consigo discriminar bem a hierarquia dos possíveis pode acontecer que um súbito desvio da linha de vida faça colarse a mim uma identificação nova tomada agora por mim como se fosse uma nova identidade total Só que tal identidade há de corresponder a meu próprio desejo para ter eficiência sendo assim um mergulho profundo na ordem absurda do mundo Depois disso porém haverá um esforço para reconstituir o mundo rotineiro para explicar as coisas incríveis para me 52 acertar com os outros homens Talvez por causa disso o louco que delira seja um narrador compulsivo Ele precisa traduzir sua experiência absurda para si mesmo em primeiro lugar para a lógica e para as imagens da vida cotidiana Por duas razões incluo o delírio entre os campos do real Inicialmente porque nossa dificuldade geral de ter uma compreensão psicanalítica tão boa dele quanto das neuroses por exemplo devese quem sabe ao fato de ser o delírio um contato indevido com o solo da vida humana rotineira E os estudos psicanalíticos da constituição do real humano apenas se iniciam Depois não é só o indivíduo que pode delirar Há formas sociais bastante equivalentes à dos delírios individuais para que os possamos comparar Afinal a psique não é individual nem social em si mesma O processo autoritário é uma de tais formas Pode ocorrer num país ou numa casa numa escola ou num grupo de amigos Como reconhecêlo Fácil você dirá se alguém manda pela força a gente fica sabendo Bem você está certo pela metade O uso de algum tipo de força para constranger a obediência alheia é evidentemente parte do processo autoritário Mas há algo mais característico Um estudo psicanalítico do processo autoritário mostra que havendo ou não uso de força ele se define melhor por sua relação com a verdade No autoritarismo existe um descrédito profundo pelo conhecimento É como se todas as coisas que se diz pudessem ser ou não verdadeiras por que supõese nada é certo nem se pode conhecer Ora se tudo pode ser ou não é possível afirmar uma idéia qualquer como sendo a única correta desde que se tenha meios para sustentála O grupo dominante afirma como verdadeira e única a idéia que lhe parece e quando se defronta com alguma oposição não a atribui a outra maneira de ver os fatos mas a uma intenção maligna e pérfida de quem a sustenta Dessa maneira os fatos deixam de ser o que são não contêm uma solidez implícita enquanto que as idéias tornamse espessas pesadas como fatos não exprimem uma verdade são uma espécie de sintoma de intenções ocultas O autoritarismo pois fundase num apego apaixonado à mentira como sistema Resulta que suas histórias não necessitem apoiarse na experiência concreta constituem uma espécie de delírio portanto Um delírio coletivo que leva a todo tipo de atrocidades Quando porém o processo autoritário domina totalmente um grupo vaise tornando paulatinamente impossível pensar e argumentar Se a cada objeção que faço a uma dada idéia respondemme que a faço porque sou mau e não porque penso diferente depois de certo tempo já não 53 encontro caminho para pensar e dizer Pode suceder então que grupos inteiros de indivíduos sociedades ou partes delas passem a confiar inteiramente na força da ação Contra o regime autoritário voltase então uma espécie de regime de ação pura ou regime do atentado como prefiro chamar que já não é um sistema organizado por idéias mentirosas mas por ausência de idéias Sendo impossível pensar a comunicação dáse quase que só pela via de atos concretos e símbolos materiais convencionados Por exemplo para saber que estou alegre devo beber um uísque ou para sentirme livre devo matar alguém Novamente como você pode ver tratase do equivalente duma loucura pessoal no caso uma psicose de ação no seio dos campos do social E isso vai só como exemplo A Psicanálise dos campos do social deverá revelar muito mais ampla mente a forma da psique humana Sempre seguindo o mesmo procedimento ruptura de campo que deixa à mostra o absurdo do que parecia costumeiro Seja com uma pessoa seja com um acontecimento social o absurdo nada mais é que a presença da psique humana que sempre se esconde por trás de seus produtos O absurdo é o mais humano do homem quando tem a oportunidade de mostrarse A Psicanálise exibindoo serve então à sociedade convidandoa a enxergar se tal como é ainda que ela se assuste com isso 10 INDICAÇÕES PARA LEITURA Provavelmente a melhor introdução à Psicanálise continue sendo a obra de Freud Desta obra complexa creio que vale a pena inicialmente ler as Conferências Introdutórias curso que Freud preparou para um público leigo em 1917 continuadas em 32 com as Novas Conferências Introdutórias Além delas sugiro que se estude um dos casos clínicos de Freud o Caso Dora ou o do Homem dos Lobos por exemplo a edição Standart das obras completas de Freud foi publicada em português pela Ed Imago São claros extraordinariamente bem escritos e com um sabor quase detetivesco Aos poucos você lerá se isso lhe interessar os trabalhos teóricos principais mas sugiro que aí conte com a ajuda de alguma pessoa que o oriente Quanto à obra de Melanie Klein uma introdução pequena encontrase em Hanna Segall Introdução à obra de Melanie Klein Comp Ed Nacional 1966 Depois será procurar seus escritos traduzidos mas sempre com orientação O mesmo vale para todos os outros grandes psicanalistas 54 Abraham Lacan Bion Winnicott etc etc Comece com Freud se se fascinar procure orientação de leitura a Psicanálise é um tanto complicada desconfie de manuais e não use este livrinho como um manual que ele não o é ÍNDICE O momento da psicanálise O método da psicanálise O inconsciente O aparelho psíquico A sexualidade 1 A sexualidade 2 Psicopatologia A cura psicanalítica A psique e os campos do real Indicações para Leitura 55 FICHAMENTO DO LIVRO O QUE É PSICANÁLISE PARA INICIANTES OU NÃO FÁBIO HERRMANN 1983 1 O MOMENTO DA PSICANÁLISE No capítulo 1 o autor fala sobre como os seres humanos são estranhos e absurdos e como isso está relacionado à necessidade de construir um mundo sob medida e menciona que a insatisfação constante com o que é construído leva à busca por algo mais e isso é parte do que a psicanálise busca entender também conecta a psicanálise a uma crítica da racionalidade excessiva que acaba revelando a irracionalidade humana 11 A insatisfação humana Os seres humanos buscam incessantemente construir um mundo sob medida tecnologia cidades sistemas sociais mas nunca se sentem completos Essa insatisfação deriva do desconhecimento do próprio desejo não sabemos o que queremos mesmo quando alcançamos nossos objetivos Exemplo Trocar de casa ou adquirir objetos novos não resolve a angústia existencial 12 A origem da Psicanálise Surge no final do século XIX quando a racionalidade extrema ciência indústria revela sua sombra a irracionalidade humana Freud ao estudar a histeria descobre que a loucura não está apenas nos doentes mas na estrutura psíquica de todos 2 O MÉTODO DA PSICANÁLISE No segundo capítulo o autor explica os três sentidos do termo Psicanálise método interpretativo terapia e teoria e enfatiza a importância da atenção flutuante e da ruptura de campo como técnicas fundamentais do processo terapêutico 21 A interpretação psicanalítica A psicanálise opera a partir de dois pilares 1 Atenção flutuante O analista escuta sem focar em um tema específico permitindo que conexões inconscientes surjam exemplo associar um sonho a uma piada do paciente Ruptura de campo Quebrar a lógica cotidiana da comunicação para revelar sentidos múltiplos Exemplo Se o paciente diz está chovendo o analista busca além do clima pode simbolizar tristeza desejo de intimidade entre outros 22 Os três pilares da Psicanálise O termo Psicanálise abrange três definições distintas que são Método interpretativo Psicanálise como ciência Terapia processo de análise para autoconhecimento e Teoria conceitos como inconsciente transferência pulsão 3 O INCONSCIENTE O terceiro capítulo trata do inconsciente em que Herrmann fala sobre os mecanismos de formação dos sonhos condensação deslocamento e como o inconsciente opera com uma lógica diferente da consciência Também menciona o recalcamento como um processo de exclusão de desejos inaceitáveis Definição de inconsciente Sistema psíquico regido por uma lógica própria processos primários que podem se transformar em Condensação Várias ideias fundemse em uma exemplo uma figura num sonho representa múltiplas pessoas e Deslocamento A carga emocional é transferida para um elemento irrelevante exemplo medo de baratas simbolizando culpa Manifestações do inconsciente O inconsciente utiliza de diferentes formas de manifestação que podem acontecer por meio de Sonhos Realizações disfarçadas de desejos recalcados Atos falhos Erros como esquecimentos ou trocas de palavras revelam intenções ocultas e Recalcamento Mecanismo que exclui da consciência desejos inaceitáveis exemplos sexualidade infantil agressividade 2 4 O APARELHO PSÍQUICO No quarto capítulo Herrmann apresenta as duas tópicas de Freud a primeira consciente préconsciente inconsciente e a segunda id ego superego Ele também discute como essas estruturas interagem e conflitam e destaca a função do ego como mediador e a rigidez do superego Principais características de cada tópica Primeira tópica modelo topográfico No nível consciente as percepções são imediatas e os pensamentos racionais No nível préconsciente as memórias e ideias são acessíveis com esforço e No nível inconsciente os desejos e traumas estão reprimidos inacessíveis à consciência Segunda tópica modelo estrutural Id é o reservatório de pulsões fome sexo agressão regido pelo princípio do prazer Ego é o equilíbrio entre o Id o Superego e a realidade Usa mecanismos de defesa exemplos negação racionalização e Superego que é a internalização de normas sociais e morais a voz da consciência muitas vezes cruel e irracional 5 A SEXUALIDADE I No capítulo 5 o autor explica as fases do desenvolvimento psicossexual oral anal fálica e como fixações nessas fases podem levar a características de personalidade específicas Fases do desenvolvimento psicossexual A sexualidade não se restringe ao ato sexual ela é a energia libido que molda a personalidade através de fases Fase oral 01 ano Prazer centrado na boca sucção e fixação pode levar à dependência exemplo vícios ou pessimismo Fase anal 13 anos Controle das excreções e fixação resulta em teimosia retentivo ou desordem expulsivo Fase fálica 35 anos Descoberta dos genitais e Complexo de Édipo rivalidade com o genitor do mesmo sexo e medo da castração meninos e inveja do pênis meninas e 3 Período de latência 612 anos Sexualidade se encontra adormecida e energia é direcionada a aprendizados sociais 6 A SEXUALIDADE II No capítulo 6 Herrmann discute as perversões e a construção social da sexualidade trazendo ideia de que a sexualidade não é apenas biológica mas também culturalmente construída Perversões Não são anormalidades mas versões restritivas do desejo exemplos fetichismo voyeurismo resultam de fixações em fases anteriores ou falhas na resolução do Édipo A lógica do fascínio O desejo sexual depende do equilíbrio entre identidade semelhança e alteridade diferença Exemplo O voyeur precisa da janela limite simbólico para manter o mistério Realidades múltiplas cada emoção cria um campo do real próprio real saudoso fluido nostálgico exemplo memórias de infância e real teimoso rígido controlador exemplo rituais obsessivos 7 PSICOPATOLOGIA No sétimo capítulo o autor descreve diferentes transtornos mentais neuroses psicoses perversões e como eles se relacionam com os conflitos psíquicos Usa exemplos como a histeria e a neurose obsessiva para ilustrar como os sintomas são expressões simbólicas de desejos recalcados Os conflitos que não tiveram resolução na infância como o Complexo de Édipo podem se manifestar como sintomas nas fases subsequentes na forma de Neuroses Histeria Sintomas corporais sem causa orgânica como paralisias dores Exemplo Uma mão paralisada simboliza o desejo recalcado de masturbação e Neurose obsessiva Rituais para neutralizar pensamentos proibidos exemplo lavar as mãos compulsivamente Psicoses Esquizofrenia Delírios e alucinações exemplo ouvir vozes acreditar ser perseguido e Melancolia Autoacusação extrema exemplo culpa por eventos irreais Perversões e psicopatias Atos impulsivos sem culpa exemplo cleptomania muitas vezes reforçados por normas sociais contraditórias 4 8 A CURA PSICANALÍTICA No oitavo capítulo Herrmann fala sobre o processo terapêutico destacando a transferência e a elaboração como mecanismos centrais Ele também critica a ideia de cura como eliminação de sintomas propondo em vez disso uma integração dos conflitos A terapia não busca apagar o passado mas reescrever sua significação e o esse processo se dá através de Transferência O paciente projeta no analista emoções de figuras passadas exemplo raiva do pai amor pela mãe Permite reviver conflitos de forma segura Elaboração Na elaboração o paciente apresenta geralmente tende à recordar trazendo traumas à consciência exemplo abuso infantil esquecido repetir reencenando padrões no consultório exemplo comportamento submisso com o analista e por fim superar integrando o recalcado à personalidade Fim da análise Na fase de alta o mais importante a ser considerado não é a eliminação dos conflitos mas a capacidade do paciente de lidar com eles sem sintomas o que possibilita findar o processo terapêutico 9 A PSIQUE E OS CAMPOS DO REAL No nono capítulo o autor expande a psicanálise para além do indivíduo discutindo como fenômenos sociais como o autoritarismo podem ser entendidos como manifestações da psique coletiva e argumenta que a realidade é uma construção social cheia de contradições e absurdo 91 Psique coletiva A psique não é individual ela também está em fenômenos sociais como autoritarismo que funcionam como delírios compartilhados Exemplo Um governo ditatorial nega fatos e cria narrativas paranoicas como inimigos imaginários 92 O absurdo como fundamento A realidade cotidiana esconde um núcleo absurdo desejos contraditórios conflitos irracionais assim a Psicanálise expõe esse absurdo para promover autenticidade 5 10 INDICAÇÕES PARA LEITURA Por fim no décimo capítulo o autor oferece as seguintes indicações de leitura Freud A Interpretação dos Sonhos base da teoria do inconsciente e Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade Explicação das fases psicossexuais Melanie Klein Inveja e Gratidão discussão sobre relações primitivas de objeto Jacques Lacan Escritos aborda a linguagem e o desejo e Donald Winnicott O Brincar e a Realidade retrata a importância do lúdico na saúde mental 11 CONCLUSÃO A psicanálise segundo Herrmann não é apenas uma terapia mas uma ferramenta filosófica para entender a condição humana e revela que a racionalidade convive com o absurdo e a cura está na aceitação dessa dualidade Ao integrar desejo conflito e realidade o sujeito não se liberta da neurose mas aprende a habitar seu próprio paradoxo A psicanálise desafia noções tradicionais de normalidade propondo que a saúde mental reside na capacidade de navegar entre múltiplos campos do real sem se aprisionar em nenhum deles Desse modo concluise que A Psicanálise não é apenas um método terapêutico mas uma revolução no entendimento humano Ao revelar que a racionalidade convive com o absurdo convida a uma reconciliação com nossa própria estranheza e A cura assim não é a eliminação do conflito mas a aceitação de que somos feitos de múltiplos desejos muitos dos quais jamais compreenderemos por completo Referências HERRMANN F O que é Psicanálise para iniciantes ou não 1 ed São Paulo Brasiliense 1983 p 155 6

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